A campanha e a mídia 1

Quinta-feira, 25.09.08 17:00-19:00 horas abstract | speakers | summary | audiocast | podcast | video Bartos Theater Resumo Como a imprensa americana respondeu a esta histórica campanha presidencial? É verdade, como muitos sugeriram, que a influência dos jornais e da televisão declinou na era digital? A imprensa tornou-se mais partidária e polarizada? A cobertura oferecida pela mídia tradicional tem sido qualitativamente diferente daquela apresentada pelas novas fontes de notícias online? Neste primeiro de dois debates sobre a campanha e a mídia, nossos palestrantes farão uma avaliação do presente estado do jornalismo político americano. Oradores John Carrol é professor de comunicação em massa na Boston University e analista sênior de mídia da WBUR-FM, uma estação de rádio daquela cidade. Anteriormente, foi comentarista de rádio da WGBHFM, uma estação de rádio pública em Boston, e correspondente do programa Beat the Press, um programa semanal de análise da mídia da WGBH-TV, também pública. Antes de integrar o corpo docente da Boston University, Carroll foi produtor executivo do Greater Boston, um programa noturno diário de notícias e assuntos públicos da WGBH-TV. Ellen Goodman escreve uma coluna distribuída nacionalmente para o Washington Post Writers Group. Seu trabalho pode ser lido freqüentemente no jornal Boston Globe. Em 2007, ela foi uma Shorenstein Fellow na Kennedy School of Government de Harvard, onde estudou sexo e notícias. Tom Rosenstiel é diretor do Projeto pela Excelência no Jornalismo, sediado em Washington, onde também é editor e principal autor do Relatório Anual do Estado da Imprensa. Jornalista há mais de 20 anos, já foi crítico de mídia do jornal Los Angeles Times e principal correspondente no Congresso para a revista Newsweek. Juntamente com Bill Kovach, é autor do livro The Elements of Journalism: What Newspeople Should Know and the Public Should Expect [Os Elementos do Jornalismo: O Que os Jornalistas Devem Saber e o Público Esperar]. Moderador: Ellen Hume é diretora de pesquisa do Center for Future Civic Media do MIT. Ela foi correspondente política e na Casa Branca para o jornal Wall Street Journal, repórter nacional do jornal Los Angeles Times e comentarista freqüente do programa Washington Week in Review, da rede pública de televisão PBS, e do programa Reliable Sources, da rede CNN. Co-patrocinadores: Center for Future Civic Media e Technology and Culture Forum. Resumo Helene Moorman Fotos de Greg Peverill-Conti [este é um resumo editado, não uma transcrição textual] Tom Rosenstiel disse que campanhas presidenciais revelam muito sobre o atual estado do jornalismo político, porque a imprensa fica extremamente concentrada em uma única história, durante um prolongado período. Esta eleição destacou o fato de

que o tradicional modelo de reportagem baseada em verificação não é mais universal. As fontes de mídia impressa ainda seguem esse modelo, e é esta mídia que revelou a maior parte dos fatos reais sobre os candidatos. Já a mídia da TV a cabo, que dedicou 62% do seu tempo no ar à eleição, deflagrou poucas histórias novas. Todo esse tempo foi dedicado a discussões por analistas e profissionais de campanha, que obtiveram boa parte do seu material da internet e deles mesmos. Alguns padrões não mudaram. Pesquisa realizada pelo Projeto pela Excelência no Jornalismo revelou que as notícias sobre a campanha presidencial foram divididas da seguinte forma: 65% eram voltadas a estratégia e táticas de campanha; 20% eram relacionadas à políticas; 8% descreviam o passado dos candidatos; e 3% investigavam dados públicos sobre os candidatos. Essas proporções são semelhantes a aquelas de 25 anos atrás. John Carroll afirmou que, em comparação com o passado, este ano a imprensa representa ao mesmo tempo uma presença maior e um fator menor na eleição. As redes de TV a cabo, acrescentou, investem muito tempo na campanha, mas não mudam a opinião de ninguém. São voltadas a públicos específicos e têm o efeito de principalmente reforçar aquilo que esses públicos já acreditam. A mídia impressa, por outro lado, apresenta matérias que têm o potencial de influenciar a discussão, mas já não tem o impacto que tinha anteriormente. Um motivo para isto é o ciclo de notícias de 16 horas, que destaca os eventos mais recentes, não os mais importantes. Hoje as pessoas já não baseiam suas decisões tanto nas notícias, como faziam no passado, o que permite que um candidato como John McCain possa circundar ou tirar a legitimidade da mídia sem prejudicar sua campanha. Ellen Goodman comparou a atual tendência da mídia americana, de tornar-se cada vez mais segmentada junto a linhas ideológicas, com o tradicional modelo europeu de jornalismo impresso, no qual cada partido tem seu próprio jornal. De volta à questão sobre o declínio da influência da mídia, Rosenstiel culpou a proliferação do comentário. Apesar de o jornalismo ter a finalidade de promover a discussão, o volume de opiniões tornou-se tão elevado e contínuo que os fatos ficaram obscurecidos. Além do mais, muito desse material não está sendo fornecido por jornalistas, mas sim de “analistas”, que estão associados às campanhas e são extremamente hábeis em desacreditar quaisquer fatos que prejudiquem o seu lado. Acaba sendo factóides de campanha querendo passar por notícias, o que enfraquece a influência factual da mída. De acordo com Carroll, não existe mais um determinado segmento de mídia que lidere o debate político, decidindo quais histórias devem ter cobertura. Esse papel era cumprido principalmente pelos maiores jornais, que orientavam as outras fontes. Atualmente, esse direcionamento pode vir do site YouTube, do site de notícias Politico ou do programa de televisão The Daily Show, apresentado por Jon Steward. O resultado é que algumas fontes podem ser muito influentes dentro do seu pequeno universo de cobertura, mas o impacto mais amplo é muito difícil de ser obtido. Rosenstiel concordou, acrescentando que o tipo de mídia que está à frente em um determinado momento depende da natureza do assunto a ser coberto. Blogs, por exemplo, são ótimos para divulgar material que foi publicado em outros lugares, mas não para reportagem de rua. É por este motivo que quando foi anunciada a indicação de Sarah Palin, a primeira onda de informações sobre ela veio da blogosfera, que descobriu histórias sobre seu passado de prefeita e governadora a partir dos arquivos online de jornais no estado do Alasca. Assim que os repórteres de jornais, rádio e televisão chegaram ao Alasca, e passaram a produzir matérias, a principal fonte de notícias sobre Palin ficou sendo a mídia tradicional. Após algumas semanas, vídeos domésticos apareceram em sites como YouTube. O mais preocupante, afirmou Rosenstiel, não é o tipo de mídia em controle em um determinado momento, mas o fato que um campo cada vez maior acaba oferecendo mais espaço a aqueles que desejam manipular o público. O papel do jornalismo como um filtro de mentiras está sendo enfraquecido.

Perguntado sobre o impacto representado pelas grandes empresas que controlam órgãos da imprensa, Goodman afirmou que isso não tem tido um grande impacto sobre a qualidade da cobertura dos jornais. O que aconteceu foi que o reconhecimento do colapso do modelo econômico que sustentava os jornais causou uma ansiedade generalizada entre os editores e, especialmente, repórteres, que muitas vezes trabalham demais porque se espera que também produzam blogs e outros materiais para a versão online de seus jornais. A moderadora Ellen Hume pediu que os debatedores discutissem quais fontes oferecem notícias confiáveis e imparciais. Carroll respondeu destacando que a unidade de valor em notícias recentemente mudou do formato pacote (por exemplo, um jornal) para o formato de matéria individual. As pessoas não mais procuram fontes que tenham um conjunto equilibrado de perspectivas, porque conseguem utilizar as novas tecnologias para montar seu próprio conjunto de notícias que reflete (e reforça) as opiniões e interesses que já possuem. Rosenstiel citou o site de notícias Politico como um interessante novo modelo de jornalismo. Seu quadro de funcionários é composto de editores profissionais de jornais, mas o site em si não é controlado por um jornal e sua cobertura é voltada apenas à política. Esse site deixa para a imprensa mais tradicional a cobertura das matérias do dia-a-dia em Washington, voltando suas atenções a assuntos mais inéditos. Esse foco mais específico permite custos fixos menores e atrai um público relativamente pequeno, porém fiel. Hume perguntou aos debatedores o que acontece quando é divulgada uma matéria falsa durante uma eleição. Goodman lembrou da história “Obama é muçulmano”, destacando que 20% das pessoas ainda acreditam nessa afirmação, apesar da imprensa ter divulgado repetidas vezes que não passa de uma mentira. Carroll chegou a dizer que a resposta da imprensa às mentiras dos candidatos praticamente não tem efeito sobre a opinião pública. Os políticos acreditam que o poder lhes dá a capacidade de construir a realidade, e eles se tornaram tão hábeis nesse aspecto que a mídia é rendida impotente. Rosenstiel discordou, afirmando que o desejo dos políticos de controlar os fatos não é novidade, e que a mídia não é impotente em defender a verdade. McCain pode estar em guerra com a imprensa, que reagiu sendo mais agressiva com ele, o que não resultará em uma estratégia muito feliz para o candidato. Hume surpreendeu-se com a opinião de Rosenstiel, lembrando-o que muitos candidatos Republicanos anteriores combateram a mídia com muito sucesso. Pode até funcionar melhor este ano [2008], porque a influência das grandes empresas enfraqueceu a fé que muitos liberais tinham na imprensa. Mudando o assunto para a influência da raça e do sexo na cobertura da campanha, Goodman falou sobre a importância de narrativas atraentes. Boas histórias atraem a atenção da imprensa, mas o sexo e a raça dos candidatos nesta eleição ofereceram narrativas intrigantes que não haviam sido vistas em campanhas presidenciais anteriores. É também interessante analisar a relação que existe entre mulheres políticas, mulheres jornalistas e mulheres consumidoras de notícias. Tradicionalmente, as mulheres não davam tanta importância à política quanto os homens, exceto quando havia uma candidata mulher. Portanto, elas estão mais engajadas nesta eleição que em eleições anteriores, mas não da mesma forma que os homens. As mulheres vêem a história de Palin como algo pessoal, e estão discutindo isso de várias formas, não necessariamente no âmbito político. Mulheres jornalistas também têm feito uma cobertura melhor de Palin que homens jornalistas.

De volta à idéia de narrativas concorrentes, Rosenstiel observou que muitas vezes nesta eleição uma ampla cobertura da imprensa de um determinado candidato pode ser associada a uma queda na popularidade. Histórias interessantes destacam os candidatos, mas esse destaque pode ter um efeito negativo. Debate com o público PERGUNTA: As matérias disponíveis em sites de notícias sempre produzem muitos comentários e anteriormente você também comentou que o noticiário nas TVs a cabo consiste principalmente de discussões. Tornamo-nos consumidores de conversas, invés de fatos? ROSENSTIEL: Jornalismo sempre envolveu discussões, mas a maior parte das discussões não tem origem em um conjunto de fatos. Postagens de blogs, por exemplo, normalmente começam com um link para a notícia no veículo original, e isso fundamenta a discussão. O que importa para o consumidor não é o evento específico ou apenas a conversa, mas o assunto em geral. CARROLL: O modelo do site The Huffington Post é interessante nesse respeito, porque alcança um equilíbrio entre uma aparência extremamente profissional e liberdade total nas páginas de comentários. Veículos desse tipo, que combinam jornalismo tradicional com a vontade de participação do público, serão cada vez mais comuns. HUME: Olhando para trás, o interesse na política vem caindo, conforme o jornalismo ficou mais objetivo e progressivo. Talvez essa mudança rumo à conversação seja uma forma saudável de manter as pessoas engajadas. PERGUNTA: Esses novos veículos da imprensa oferecem a vozes e partidos políticos alternativos uma oportunidade para participarem da conversação? GOODMAN: É possível que isso aconteça no futuro, mas ainda não o vi na campanha presidencial. O sucesso do Obama se deve principalmente à internet, mas não dá para dizer se um candidato de um partido menor teria tanto sucesso. ROSENSTIEL: Havia um grande temor que as tecnologias que permitem às pessoas filtrar o tipo de notícia que chega até elas limitariam a exposição a coisas novas, mas pesquisas indicam que este não é o caso. As pessoas estão compartilhando todos os tipos de materiais dentro de suas redes sociais, o que pode tornar a cultura mais dinâmica. Contudo, é bem mais limitado o potencial disso tudo mudar a forma que elegemos nossos presidentes. Não vi nenhuma prova que o diálogo nesta campanha elevou-se graças às novas mídias. PERGUNTA: A imprensa tradicional não tem feito um bom trabalho de cobertura dos presentes mecanismos de votação. E esse é um assunto extremamente importante, porque tudo mais fica em segundo plano se os votos não são computados corretamente. Por que não estamos vendo essas matérias? CARROLL: Essa é uma questão ideológica. Esses assuntos estão sendo cobertos, mas não nos locais e na quantidade que você acredita ser ideal. Invés de culpar a mídia pela falta de cobertura, os cidadãos devem assumir a responsabilidade de supervisionar o processo de votação, se acham que existe um problema. GOODMAN: O problema das grandes empresas volta ao palco nesta questão. As fontes de notícias tradicionais não têm os recursos para cobrir tudo, de forma que as matérias que atraem menos atenção são deixadas de lado. HUME: Esse tipo de assunto seria apropriado para o jornalismo cidadão, o que já foi chamada de fonte multidão, ou crowd sourcing. Haveria um grande impacto se os jornalistas reunissem e interpretassem dados apresentados por um grande grupo de cidadãos.

PERGUNTA: Se o papel do jornalista está evoluindo, o que define esse novo papel? ROSENSTIEL: As normas originais do jornalismo vieram do mercado, daquilo que chamou a atenção dos leitores. Futuros jornalistas serão definidos pela sua capacidade de atrair um público, e também pela sua capacidade de subsidiarem-se. Hoje, a maior pressão sobre o grande jornalismo não vem da falta de público, mas da falta de recursos. Se essa questão puder ser resolvida, o papel dos jornalistas pode não mudar tanto assim, porque existe um público cada vez maior que busca os valores tradicionais do jornalismo.

PERGUNTA: Quais são as diferenças regionais na forma em que as pessoas estão se sintonizando neste eleição? GOODMAN: Existem algumas diferenças regionais, mas existe muito mais segmentação por escolaridade, classe social, raça e sexo. ROSENSTIEL: A tecnologia está ajudando a redefinir a noção de comunidade, transformando comunidades geo-políticas em comunidades intelectuais. As informações políticas às quais as pessoas estão expostas e a forma que interpretam essas informações estão muito relacionadas com as comunidades intelectuais às quais pertencem. PERGUNTA: Qual parcela da população realmente tem acesso e utiliza todas as tecnologias discutidas, e quanto tempo levará para que se tornem de fato ubíquas? ROSENSTIEL: Uma grande parcela da população está razoavelmente distante disso tudo, obtendo suas notícias principalmente de fontes tradicionais, especialmente noticiário das TVs locais. Cerca de 25% da população estão mais interessados, e são bem ecléticos no seu uso da mídia. Existem ainda outros 12%, geralmente mais jovens, que se valem principalmente de novas fontes de mídia. Aqueles que já consomem notícias podem voltar-se a tecnologias mais novas no futuro, mas não acredito que a tecnologia em si fará com que mais que um terço da população fique menos alienada. PERGUNTA: O maior partidarismo e especialização das fontes individuais de mídia estão fazendo com que as pessoas fiquem menos sujeitas a perspectivas que lhes sejam estranhas ou surpreendentes. Isto torna os debates presidenciais um fator mais importante este ano? CARROLL: Durante os debates, as pessoas prestam mais atenção aos erros cometidos que às políticas sendo discutidas. Não penso que argumentos bem fundamentados têm muito efeito, porque os dois lados já não concordam sequer com fatos básicos. Ninguém mais cogita a possibilidade de que alguém com quem discorda possa ter um ponto de vista legítimo, o que torna muito difícil a mudança de opinião. HUME: Não acho que os debates se resumem às gafes. O público procura momentos em que as verdadeiras personalidades dos candidatos possam ser vistas por trás dos personagens. Pode ser uma gafe ou um momento de ligação com os eleitores.

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