dá pra salvar o bom jornalismo?

Tags:adas, crise, falência, fofs, jornais, statusphere, web - srlm às 16:47

o boston globe, um dos maiores jornais dos estados unidos, deve ter um prejuízo de US$85M este ano, depois de perder US$50M ano passado. o globe não é um jornal independente, mas parte do new york times. e o NYT está ameaçando fechar o globe caso os sindicatos não concordem com medidas radicais de corte de custos. e não consiga aumentar receitas: o preço do jornal nas bancas subiu US$1.50, só pra “continuar viável”. mesmo assim, pode fechar no mês que vem. o globe foi comprado pelo NYT em 1993 por US$1.1B; desde então, a circulação só faz cair. a receita demorou mais um pouco a seguir a circulação, mas está em queda continuada desde 1999.

no dono do globe, o NYT, o período de férias foi estendido, cem pessoas foram demitidas semana passada e quem sobrou vai ter uma redução de 5% no salário pelo menos durante o resto deste ano. e tem que apelar pra santo muito forte pro jornal continuar existindo – em papel- ano que vem. a pergunta a se responder, no particular e no geral, está na capa do boston globe deste domingo: o que saiu errado?… a resposta, da própria casa, é que… o globe não viu –e não soube aproveitar- a web. os outros jornais tampouco. e ponto final.

mas a pergunta da hora, feita por brian solis a walt mossberg, talvez fosse… vale a pena salvar os jornais?… sabe-se lá, se obama vai salvar a indústria automobilística americana, talvez… mas mossberg pensa rápido e diz que esta é a pergunta errada; a pergunta apropriada seria… será que dá pra salvar o bom jornalismo?… segundo mossberg, só há uns poucos jornais de verdade nos EUA; o resto são alguns jornalistas de qualidade e noticiário nacional e internacional reciclado, pra encher linguiça e imprimir as páginas necessárias para os anúncios. isso quando havia anúncios. quando estes se mudam pra web, porque tais páginas deveriam ser impressas?… o mesmo raciocínio vale para o brasil e qualquer outro país. abra seu jornal local ou regional e constate com seus próprios olhos. desde janeiro de 2008, mais de 120 jornais americanos fecharam as portas e mais de 21.000 jornalistas e pessoal auxiliar foram demitidos destes e de outros 67 que continuam no negócio. só em 2009, mais de 8.000 pessoas já perderam o emprego. e a tendência não dá sinais de ser revertida; muito ao contrário. a internet já é a fonte primária de notícias nos EUA e vai ser, no brasil, assim que houver banda larga [de verdade] por aqui.

mas brian solis acha que um novo desenvolvimento pode salvar o “bom” jornalismo: a statusphere, ou statusfera, a rede de reputação capaz de fazer com que agentes individuais, em rede, tenham tanta reputação, reconhecimento e importância –e remuneração- como tinham os grandes jornalistas dos antigos jornais. será? e como e quando?

segundo solis… The Statusphere is the new ecosystem for sharing, discovering, and publishing updates and micro-sized content that reverberates throughout social networks and syndicated profiles, resulting in a formidable network effect of activity. It is the digital curation of relevant content that binds us contextually to the statusphere, where we can connect directly to existing contacts, reach new people, and also forge new acquaintances through the friends of friends effect (FoFs) in the process. em português? a statusfera é o novo ecosistema para compartilhar, descobrir e publicar atualizações e microconteúdo, reverberando sobre redes sociais e perfis compartilhados, tendo como resultado um espetacular efeito rede de conexões e atividade. a statusfera fará o papel de curadoria digital [e em rede] de conteúdo e conexões relevantes, onde poderemos nos conectar, em contexto e diretamente, a contatos existentes… e onde iremos descobrir e construir novas relações através do efeito FoFs [friends of friends, ou AdAs, amigos de amigos]. parece uma tese interessante. talvez a gente –e quem toca os jornais, no brasil, aindadevesse ler com muito cuidado e ver como –e se- dá pra fazer aqui, e por quanto e quando, no nosso contexto. a mesma leitura atenciosa, e não por acaso, vale para quem toca serviços online como o TERRA, terraMagazine e tantos outros…

a atenção e as redes sociais srlm às 14:32 lá no começo da internet se dizia que o negócio de todo e qualquer site estava era relacionado a eyeballs, ou olhos. dos olhos com que se via e se vê a rede é de onde vem a atenção que, por sua vez, é de onde vem a renda que transforma sites em negócios. antigamente [há uma meia década…] certamente poder-se-ia dizer que “no eyeballs, no business”. mas o tempo da internet é acelerado; a rede é uma economia exponencial. basta ver as curvas de performance e penetração das tecnologias da rede. escolha a sua e procure um gráfico. abaixo, o crescimento do número de visitantes de twitter nos últimos doze meses…

só entre fevereiro e março deste ano, twitter cresceu 131%, pulando de perto de quatro para mais de nove milhões de visitantes por mês. é deste tipo de pegada, e suas prováveis consequências, que negócios estabelecidos como google e microsoft tem medo. no último ano [e não no último mês] google cresceu 8%. e eyballs, hoje, é um tipo bem diferente de atenção; é a atenção associada à contribuição, à participação pessoal em comunidades, e não à realização de transações simples como uma busca. no passado, claro, google teve uma curva de crescimento muito similar ao twitter de hoje. só que, nas economias exponenciais das quais estamos falando, cada sistema ou site não é uma curva exponencial para sempre, mas uma sigmóide, uma função que começa como uma exponencial mas que, depois de um tempo, diminui sua velocidade de crescimento até, literalmente, “bater no teto”. twitter tá no começo de sua sigmóide e google está muito mais perto do “teto” do S. só que google tem, hoje, cerca de 3/4 dos old eyballs da rede, quando o negócio é busca. para todos os efeitos, google é imbatível no “seu” negócio. mas… e se a atenção, se os new eyeballs e todo o resto começarem a se mudar para outras plagas, tipo blogs e, principalmente, redes sociais como facebook e twitter?… leia este texto de joshua porter, que termina dizendo que… in conclusion I see Google’s dominance being eroded by the social networks. It won’t be a direct assault on search, just as Google didn’t directly assault Microsoft by trying to build a better OS or a better Office suite. It will be a direct assault on attention. You don’t kill the incumbent at their own game. You change the game, and then beat them at that one. em português?… você não derrota monopólios no jogo deles. primeiro, você muda o jogo, pra um que eles não sabem ou não conseguem jogar e, aí, você os derrota no seu jogo. o ataque a google não vai ser à busca, mas à atenção que google tem hoje. porter, e muito mais gente, acha que google está começando a perder atenção para os sistemas sociais da rede. façam suas apostas, pois em pouco tempo –menos de meia décadasaberemos a resposta.