Inteligência coletiva Quinta-feira, 04.10.07, 17:00-19:00 horas The wisdom and limitations of aggregated brains.

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Bartos Theater Resumo Uma conversa sobre a teoria e a prática da inteligência coletiva, com ênfase na Wikipedia, em outros momentos de trabalho intelectual agregado e em recentes aplicações inovadoras nos negócios. Oradores Karim R. Lakhani é professor assistente na Unidade de Gestão de Tecnologia e Operações da Harvard Business School, onde estuda sistemas de inovação distribuída e o movimento de atividade inovadora para os extremos das organizações e para dentro das comunidades. Lakhani obteve seu doutorado em administração pelo MIT em 2006. Thomas W. Malone é titular da cadeira Patrick J. McGovern de Administração na MIT Sloan School of Management. É fundador e diretor do Centro de Inteligência Coletiva do MIT e autor do livro The Future of Work [O Futuro do Trabalho]. Malone já publicou mais de 75 artigos, pesquisas e capítulos de livros, além de ser inventor com 11 patentes. Professor de Ciência e Artes da Mídia, na cadeira da Toshiba do MIT, Alex “Sandy” Pentland dirige o programa de pesquisa Dinâmica Humana do Media Lab. É fundador de mais de 12 empresas, organizações de pesquisa e comunidades acadêmicas, sendo atualmente o fundador e diretor docente do Centro Legatum de Desenvolvimento e Empreendimento do MIT.

Resumo Greg Peverill-Conti [este é um resumo editado, não uma transcrição textual] David Thorburn apresentou o painel dessa noite, explicando que a idéia de inteligência coletiva foi um assunto que o Fórum de Comunicações já havia abordado anteriormente. Como exemplo, ele citou a sessão de Multidões Inteligentes [Smart Mobs], dirigida por Howard Rheingold in 2002. Ele pediu ao debatedor Thomas Malone que oferecesse uma definição e um resumo de inteligência coletiva. Malone disse que o Fórum de Comunicações é um exemplo da inteligência coletiva, no sentido que busca tirar proveito da inteligência desse público. Inteligência coletiva acontece através de conversas entre cidadãos letrados.

A inteligência coletiva já existe há muito tempo. Famílias, exércitos e países são exemplos de inteligência coletiva. Malone destacou que todos esses grupos (além de outros) também já deram mostras de estupidez coletiva. Nos últimos anos, disse ele, surgiram alguns exemplos interessantes de um novo tipo de inteligência coletiva. Google – não apenas a empresa, mas também o sistema – ilustra isso. São milhões de pessoas produzindo páginas na internet em diversos pontos do mundo, é a ligação de todas essas páginas de internet e o desenvolvimento de tecnologia com capacidade de colher todas essas informações. Representa um exemplo extraordinário, porque combina pessoas e computadores de uma forma jamais vista neste planeta. Wikipedia também é um exemplo de inteligência coletiva. E, mais uma vez, não é uma questão de tecnologia – uma poderosa ferramenta de software wiki – mas sim do projeto organizacional surpreendente que surgiu em torno da Wikipedia. Essa comunidade desenvolveu um projeto organizacional que permite que milhares de pessoas de todas as partes do mundo coletivamente criem um produto intelectual sem controle centralizado, com praticamente todas essas pessoas trabalhando como voluntários. Tudo isso é apenas o começo de uma nova classe de entidades inteligentes, as quais surgirão nas próximas décadas. De forma a tirar pleno proveito delas, precisaremos entender suas possibilidades de forma muito mais profunda do que feito hoje. Esse é o objetivo do Centro de Inteligência Coletiva do MIT, onde a principal questão de pesquisa é “Como podem computadores e pessoas serem conectados de forma que coletivamente ajam com mais inteligência que qualquer pessoa, grupo ou computador jamais conseguiu?” Sandy Pentland disse que o motivo de as pessoas reunirem-se em grupos é para serem mais inteligentes. Também existem os problemas que surgem quando grupos se reúnem: conflito, pensamento de grupo [groupthink], etc. Quanto maior a organização, maiores serão os problemas. De algumas formas, a inteligência coletiva pode ser vista como uma tentativa de compensar a idiotice coletiva e ter um resultado neutro. Esse ponto neutro pode ser alcançado com o desenvolvimento de organizações mais sensatas, baseadas em dados, ciência e modelagem matemática. Em organizações modernas, existem muitos dados organizacionais a serem analisados: e-mails, memorandos, etc. Mas a comunicação mais importante é a que acontece face-a-face. Essa comunicação consiste de discussões delicadas e plenas de conteúdo, que realmente fazem a diferença. Contudo, até a pouco, a maior parte disso tudo era invisível e não podia ser organizada e administrada. Hoje, já podemos medir a comunicação face-a-face em tempo real. Citou pesquisa realizada em um banco alemão, que analisou padrões de comunicação, tanto via e-mail como face-a-face. Os mapas resultantes foram muito diferentes, e ofereceram uma forma de visualizar fluxos de informações dentro da organização. Pentland enfatizou que, individualmente, nem e-mail nem comunicação face-a-face eram essenciais, mas a combinação dos dois permitiu um entendimento das formas mais eficazes de comunicação. Esse trabalho permitiu uma análise do processo de tomada de decisão, de quem trabalha demais, da qualidade da interação do grupo, etc. Admitindo que isto pode ser algo como o Big Brother do livro de George Orwell, Pentland afirmou que já valor na criação dessas ferramentas de acompanhamento de comunicação, tais como crachás de aproximação, que permitem estabelecer padrões de comunicação. Malone comparou a pesquisa de Pentland com Antony van Leeuwenhoek e o microscópio: o microscópio permitiu que van Leeuwenhoek observasse coisas como bactérias e outros organismos, que sempre existiram mas jamais tinham sido vistos com tantos detalhes. Pentland está criando um microscópio organizacional, para observar o comportamento da comunicação existente de formas não possíveis anteriormente, sugere Malone.

Em seguida, Karim Lakhani descreveu como se envolveu com inteligência coletiva, ao tentar vender um software a uma empresa cujos funcionários alegavam que eles mesmos haviam criado um sistema semelhante. Considerando a complexidade dos problemas que eles estavam tentando superar, Lakhani duvidou da explicação. Porém, ao examinar o que a empresa havia feito, ele constatou que eles estavam anos à frente dos outros. Eles haviam feito isso buscando recursos na comunidade de software livre. Lakhani definiu o modelo de software livre, que também viu em ação durante o seu programa de doutorado no MIT, como um exemplo prototípico de inteligência coletiva. Algumas pessoas simplesmente acreditam no modelo de software livre e querem apoiá-lo; outros são profissionais pragmáticos que estão querendo resolver um problema específico. O fato é que a comunidade não dá a mínima para motivação, contanto que o trabalho seja realizado. Para Lakhani, a comunidade do software livre é um exemplo inspirado de inteligência coletiva; mas ele também vê outros. Innocentive, por exemplo leva problemas científicos para além dos limites da organização, buscando recursos da inteligência coletiva. Muitas vezes, as pessoas conseguem oferecer soluções que estão fora do seu domínio. Uma das esperanças da inteligência coletiva é de que consegue agregar bolsões de inteligência aglomerada ao redor do mundo. Outro exemplo dado por Lakhani foi o da Threadless, uma empresa que cria camisetas. Seus desenhos são sugeridos e julgados pelos usuários. A demanda dos usuários por camisetas específicas também é acompanhada, para determinar quantas unidades de cada desenho são produzidas. Esse modelo – embora pequeno e especializado – mostra como uma organização pode ser redefinida e quanto trabalho pode ser feito pela comunidade. Com relação à mensuração da inteligência coletiva, Malone destacou que a inteligência humana já é medida há mais de um século, e portanto temos uma definição precisa da inteligência. De acordo com a definição psicométrica, a facilidade com que alguém realizada uma tarefa intelectual é uma boa forma de prever como essa pessoa irá realizar outros tipos de tarefas; além disso, existe uma série de outras relações e correlações estatisticamente significativas. A dúvida é se a mesma coisa se aplica a grupos de humanos ou humanos e computadores? Um grupo que realiza determinadas tarefas com facilidade também fará outras com facilidade? Malone está especialmente interessado naquilo que provoca diferenças de inteligência entre grupos e em formas de melhorar a capacidade de inteligência coletiva de grupos em geral. David Thorburn levantou a questão do monitoramento. Alguns dos usos da assim-chamada inteligência coletiva descrita pelos debatedores também podem ser descritos como ferramentas de vigilância. Ele pediu aos debatedores que falassem sobre as limitações ou perigos da inteligência coletiva. Com relação à privacidade, Pentland destacou que, queiramos ou não, somos constantemente monitorados e até monitoramos nós mesmos (ele exemplificou mostrando o seu telefone celular). A verdadeira questão é encontrar o ponto de equilíbrio entre privacidade e vantagem: de quantas informações precisamos abrir mão para alcançar qual nível de benefício. Lakhani afirmou que uma das maiores questões enfrentadas pelo maior uso de inteligência coletiva é que gerentes não querem usá-la, porque os resultados podem ser contrários à função do gerente. Muitas vezes, isso é uma limitação organizacional, não técnica, e a esta altura não existem cursos sobre gestão comunitária, de forma que poucos mecanismos estão disponíveis para resolver essa questão. Lakhani também falou das questões técnicas e jurídicas que podem limitar a inteligência coletiva. De um ponto de vista jurídico, a questão da propriedade intelectual é uma grande dúvida. Como serão divididos os lucros criados por uma comunidade? Além disso, na área tecnológica, nem tudo pode ser colocado em módulos e distribuído. Funciona bem em software, mas funcionaria em pesquisa de medicamentos? Thorburn pediu que considerássemos as limitações do modelo de marketing nessa discussão. Existem usos para a inteligência coletiva que não são baseados em lucros ou prejuízos?

Malone falou do uso de inteligência coletiva para monitorar e lidar com a mudança climática. Ele mencionou um projeto tecnológico que permite às pessoas propor e analisar planos para resolver o problema da mudança climática. Esse projeto dará às pessoas a capacidade de acessar, visualizar e analisar simulações climáticas massivas computadorizadas. Lakhani aludiu ao site Open Congress, que permite aos cidadãos observar e comentar o que o Congresso Nacional está fazendo. Ele também discutiu o aumento dos Creative Commons (ou criação comum) e a disposição das pessoas de permitir que o seu conteúdo seja remixado para criar conteúdo novo. Pentland sugeriu que a inteligência coletiva é uma ferramenta para detectar discordância na sociedade, mencionando padrões de uso de telefones celulares no Reino Unido e a correlação desses dados com integração social. Debate PERGUNTA: Até que ponto a medição da interação muda a natureza da interação? MALONE: Excelente observação – a tecnologia de fato muda o que acontece. Precisamos usar a tecnologia de maneira que funcione e não atrapalhe o fluxo de informações entre pessoas, que é exatamente o que estamos medindo. PENTLAND: O fato é que esse tipo de coisa [medição e observação] está acontecendo e precisamos ter uma nova forma de separar o joio do trigo, para colocar isso em funcionamento. PERGUNTA: Como podemos treinar ou ensinar pessoas a se tornarem cidadãos que funcionam conjuntamente com mais eficácia? PENTLAND: Nos últimos séculos, adotamos a idéia de mentes individuais e controle individual – embora os grupos e a comunidade nos afetem bem mais do que gostamos de admitir. Isto ainda não foi estudado. MALONE: Caos muitas vezes lida com comportamento emergente, que acaba formando comportamento coerente. Inteligência coletiva é um exemplo desse processo. PERGUNTA: E o que dizer sobre a função da responsabilidade na estrutura social? Não responsabilizando as pessoas pelo o que fazem, como evitar a estupidez em massa? LAKHANI: Embora existam preocupações sobre a falta de responsabilidade pelos atos, também existem exemplos de pessoas sendo responsabilizadas pelo o que fazem. O furto do código do jogo Half Life é um exemplo no qual a comunidade ajudou a resolver o crime. MALONE: Normalmente, quando surge um problema, a melhor forma de resolvê-lo é colocar alguém no comando. Isso pode funcionar, mas existem limites para essa abordagem à responsabilidade. É possível termos boas coisas sem ter alguém responsável ou no controle. Esse é o caso da Wikipedia e dos mercados livres ao redor do mundo.

PENTLAND: Reconhecimento coletivo é uma alternativa à centralização – não há uma centralização de tudo, e a consciência é localizada, não centralizada. LAKHANI: A tendência de centralizar tudo é tão enraizada que é difícil pensar-se em descentralização. Não faz parte do nosso bom senso descentralizar. Vai demorar um pouco para as pessoas entenderem que descentralizar funciona. PERGUNTA: Qual é o impacto da inteligência coletiva na inteligência individual? Estamos ficando mais burros ou precisamos reter menos? MALONE: A maioria das pessoas não definiria inteligência pelo número de fatos que possuímos – mas a combinação de você mais o Google resulta em algo mais inteligente que cada um individualmente. Temos várias próteses mecânicas ou digitais que funcionam bem. PENTLAND: A pergunta demonstra a lavagem cerebral que tivemos sobre a inteligência. Não precisamos dessa coisa toda em nossas mentes – o que precisamos é a capacidade de conhecer e encontrar as pessoas com as informações que necessitamos. MALONE: A maior parte do que sei está na mente dos meus amigos. PERGUNTA: Existem pessoas com visões criativas que sentem-se alienadas da sociedade como um todo: artistas, inovadores, etc. Como fica a situação deles dentro da estrutura de inteligência coletiva? MALONE: Algumas pessoas se perguntam se algum dia um grupo poderá escrever um ótimo livro. A literatura é baseada em integração e reflexão. Mitos e lendas são exemplos de colaboração – assim como a Bíblia. Podem existir formas baseadas em nossas contribuições coletivas que ainda não imaginamos? PENTLAND: De algumas maneiras, arte é um ato coletivo baseado em trabalhos anteriores e comentários da comunidade; ciência também é um trabalho coletivo – com muitos contribuintes. LAKHANI: Se você analisar arte, verá pessoas freqüentemente trabalhando dentro de um grupo, compartilhando idéias e estilo, colaborando entre si. Isso sempre aconteceu em grupos pequenos – mas será que pode ser ampliado? É difícil artistas saírem do nada; eles nascem de grupos e colaborações. MALONE: Caos muitas vezes lida com comportamento emergente, que acaba formando comportamento coerente. Inteligência coletiva é um exemplo desse processo. PERGUNTA: E o que dizer sobre a função da responsabilidade na estrutura social? Não responsabilizando as pessoas pelo o que fazem, como evitar a estupidez em massa? LAKHANI: Embora existam preocupações sobre a falta de responsabilidade pelos atos, também existem exemplos de pessoas sendo responsabilizadas pelo o que fazem. O furto do código do jogo Half Life é um exemplo no qual a comunidade ajudou a resolver o crime. MALONE: Normalmente, quando surge um problema, a melhor forma de resolvê-lo é colocar alguém no comando. Isso pode funcionar, mas existem limites para essa abordagem à responsabilidade. É possível termos boas coisas sem ter alguém no controle ou responsável. Esse é o caso da Wikipedia e dos mercados livres ao redor do mundo. PENTLAND: Reconhecimento coletivo é uma alternativa à centralização – não há uma centralização de tudo, e a consciência é localizada, não centralizada. LAKHANI: A tendência de centralizar tudo é tão enraizada que é difícil pensar-se em descentralização. Não faz parte do nosso bom senso descentralizar. Vai demorar um pouco para as pessoas entenderem que descentralizar funciona.

PERGUNTA: Qual é o impacto da inteligência coletiva na inteligência individual? Estamos ficando mais burros ou precisamos reter menos? MALONE: A maioria das pessoas não definiria inteligência pelo número de fatos que possuímos – mas a combinação de você mais o Google resulta em algo mais inteligente que cada um individualmente. Temos várias próteses mecânicas ou digitais que funcionam bem. PENTLAND: A pergunta demonstra a lavagem cerebral que tivemos a cerca da inteligência. Não precisamos dessa coisa toda em nossas mentes – o que precisamos é a capacidade de conhecer e encontrar as pessoas com as informações que necessitamos. MALONE: A maior parte do que sei está na mente dos meus amigos. PERGUNTA: Existem pessoas com visões criativas que sentem-se alienadas da sociedade como um todo: artistas, inovadores, etc. Como fica a situação deles dentro da estrutura de inteligência coletiva? MALONE: Algumas pessoas se perguntam se algum dia um grupo poderá escrever um ótimo livro? A literatura é baseada em integração e reflexão. Mitos e lendas são exemplos de colaboração – assim como a Bíblia. Podem existir formas baseadas em nossas contribuições coletivas que ainda não imaginamos? PENTLAND: De algumas formas, arte é um ato coletivo baseado em trabalhos anteriores e comentários da comunidade; ciência também é um trabalho coletivo – com muitos contribuintes. LAKHANI: Se você analisar arte, verá pessoas freqüentemente trabalhando dentro de um grupo, compartilhando idéias e estilo, colaborando entre si. Isso sempre aconteceu em grupos pequenos – mas será que pode ser ampliado? É difícil artistas saírem do nada; eles nascem de grupos e colaborações.

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