O que é a mídia cívica? Quinta-feira, 20.09.

07, 17:00-19:00 horas The relationship between emerging media and civic engagement as part of the launch of MIT's Center for Future Civic Media. abstract | speakers | summary | audiocast | podcast | video Bartos Theater

Resumo Em seu livro Bowling Alone (2000) [Jogando Boliche Sozinho], Robert Putnam fala sobre uma geração de americanos afastados das tradicionais formas de vida comunitária e engajamento cívico, consumidores passivos de mídia de massa. Mas outros observaram a expansão de culturas participativas e comunidades virtuais na internet, o crescimento dos blogs, podcasts e outras formas de jornalismo cidadão, o crescimento de novas formas de afiliação social dentro de mundos virtuais. Quais lições podemos aprender desses mundos online que trarão impacto nas comunidades que trabalhamos, dormimos e votamos? Quais novas tecnologias e práticas nos oferecem as melhores possibilidades de revitalizar o engajamento cívico? Este fórum marca o lançamento do novo Centro de Mídia Cívica Futura do MIT, uma colaboração entre o Media Lab do MIT e o programa de Estudos Comparativos de Mídia (CMS). É o primeiro de uma série de eventos criados para voltar as atenções ao relacionamento entre mídia emergente e engajamento cívico. O centro foi custeado por uma doação de US$ 5 milhões da Knight Foundation. Seus diretores serão Chris Csikszentmihalyi e Mitchel Resnick do Media Lab e Henry Jenkins do CMS. Oradores Chris Csikszentmihalyi é titular da cadeira Muriel R. Cooper de Desenvolvimento de Carreira de Artes e Ciências da Mídia do Media Lab do MIT, onde dirige o grupo Cultura do Computador. Henry Jenkins é co-diretor de Estudos Comparativos de Mídia, e titular da Cadeira Peter de Florez de Ciências Humanas do MIT. É autor de uma série de livros sobre vários aspectos da mídia e da cultura popular, incluindo Convergence Culture: Where Old and New Media Collide [Cultura de Convergência: Onde a Mídia Antiga e Nova Colidem]. Beth Noveck é professora de direito da New York Law School, onde dirige o Instituto do Direito e Política Jurídicos. É fundadora e organizadora das conferências State of Play, um evento anual sobre a pesquisa sobre mundos virtuais. Ethan Zuckerman é fellow no Centro Berkman de Internet e Sociedade, da Harvard Law School, e cofundador da Global Voices, uma organização sem fins lucrativos. É fundador da Geekcorps, outra organização sem fins lucrativos que promove a internet em países em desenvolvimento, e atualmente trabalha no Global Attention Profiles, que oferece retratos gráficos sobre onde as diferentes mídias estão atentas. Co-patrocinadores: MIT Comparative Media Studies e o MIT Media Lab. Resumo Greg Peverill-Conti [este é um resumo editado, não uma transcrição textual]

Este é o primeiro de uma série de fóruns que destacarão as atividades do novo Centro do Futuro da Mídia Cívica (C4FCM), uma colaboração entre o Programa de Estudos de Mídia Comparativa do MIT e o Media Lab do MIT. Henry Jenkins, co-diretor do novo centro, apresentou uma ampla definição para o termo “mídia cívica”. Ele ilustrou seu argumento com uma série de imagens da cultura popular americana e mundial. A primeira imagem foi uma foto preto-e-branca de um grupo de homens reunidos, lendo jornal e aparentemente conversando. A segunda foi de um grupo de japonesas tirando fotos com seus telefones celulares. Jenkins perguntou qual dos dois grupos aparentava estar em uma interação cívica. Jornais e homens representam política, no sentido tradicional, disse Jenkins. Mas as mulheres na segunda imagem também podem estar usando a mídia para ligar-se a outras pessoas com finalidades sociais, cívicas e comunitárias. O conteúdo e o contexto da imagem influenciam o que pensamos. Por exemplo, o que as mulheres estão fotografando? Elas estão ligando o conteúdo de volta a alguma comunidade compartilhada? Para Jenkins, “mídia cívica” pode descrever qualquer uso de mídia que estimula engajamento cívico. É importante entender que “mídia” significa práticas e protocolos sociais que definem seus usos culturais, assim como as tecnologias que permitem essas atividades. Jenkins então discutiu a definição de democracia. Ele o fez com imagens – ilustrações da revolução americana, pinturas de Norman Rockwell, cenas de filmes de Frank Capra, etc. Ele destacou que, em muitos casos, nossas definições contemporâneas de democracia incluem elementos retrôs. Perguntou ele: Como podemos definir democracia ao pensar sobre o futuro? Uma das metas do C4FCM é fazer com que as pessoas pensem na democracia de formas criativas. Voltando sua atenção à idéia de engajamento cívico, Jenkins usou duas imagens para ilustrar possíveis definições. Usando uma imagem de um boliche, ele citou o livro de Robert Putnam, Bowling Alone, para ilustrar uma época em que as comunidades se reuniam para interagir. Televisão, argumentou Putnam, é o oposto, porque torna as pessoas menos engajadas. Esse ponto de vista assume que assistir televisão é uma atividade solitária e que entretenimento não pode ser a base de engajamento cívico. Jenkins discordou dessas premissas, destacando que a televisão tem sido uma atividade compartilhada e que o boliche, como mídia de comunicação, pode representar uma oportunidade de engajamento cívico. Considerando esses exemplos, Jenkins perguntou o que pensávamos sobre comunidades tradicionais. Por exemplo, em mundos virtuais como World of Warcraft, os vários grupos demonstram um nascente engajamento cívico – embora construídos em torno de comunidades de interesse, não local. Esta assumida dicotomia entre comunidades reais e imaginárias precisa ser analisada criticamente. Por exemplo, Benedict Anderson escreveu sobre comunidades imaginárias que têm um conjunto entendido de obrigações sociais e um sentido de valores compartilhados. Da mesma forma, ao mesmo tempo em que jornais são vistos como sendo comunitários, eles também representam uma comunidade imaginária, porque o leitor se encontrará com todos os outros leitores. Outro motivo para repensar o relacionamento entre comunidades reais e imaginárias vem da ascensão da experiência diáspora. As pessoas desabrigadas pelo furacão Katrina, por exemplo, podem usar a tecnologia para compartilhar preocupações e conexões locais que vão além da sua atual localização. As tecnologias estão permitindo a criação de novos tipos de comunidades de interesse – mas a comunidade imaginada não é nem um pouco nova. Por exemplo, Jenkins falou das casas de café de Londres do século 18, freqüentadas não por moradores da vizinhança, mas sim por pessoas que compartilhavam interesses – literatura, política, etc. Jenkins continuou e deu exemplos da combinação de comunidades de interesse e comunidades locais. O site Meetup é um, assim como é o Flickr, que usa o interesse comum em fotografia e estimula as pessoas a se encontrarem por locais. Em alguns casos, essa combinação pode levar a novas formas de localização e ativismo. A mídias mais amplas, capacitadas por tecnologia, estão permitindo que conteúdo local ganhe exposição nacional, que por sua vez pode levar à criação de novas comunidades e canais de comunicação.

Quem está envolvido em mídia cívica, perguntou Jenkins? Os bloggers, os jornalistas colegiais, fontes de notícias étnicas, pessoas que participam de atividades transgeracionais (compartilhamento de experiências digitais) – podem formar as bases do engajamento cívico. Segundo Jenkins, o desafio é a necessidade de a democracia ser mais do que um evento especial que acontece uma vez ao ano. Precisa se tornar um desafio e atividade diária; e todos devem perguntar-se quais tecnologias ajudam a criar esse sentido de engajamento? Chris Csikszentmihalyi iniciou dando mais detalhes sobre o Centro e sua missão. Ele espera que isto sirva como um ponto de encontro para comunidade, jornalismo e tecnologia. A grande meta do Centro é desenvolver novas tecnologias e sistemas sociais. Ele referiu-se à descrição que Jenkins fez da televisão, como uma atividade comunitária. Destacou que se ele tirasse a televisão de casa e a colocasse na sua rua, duas coisas aconteceriam: seria pequena demais para causar qualquer impacto e provocaria a desvalorização da vizinhança. Ele explicou que não podemos nos ater a aspectos específicos da tecnologia, porque muitas vezes as coisas são usadas de forma estranha, usual ou inesperada. Citou o ponto de vista de Bruno Latour, que disse que a tecnologia é a sociedade tornada durável; seu próprio ponto de vista é que toda a tecnologia tem nuances políticos – vencedores e perdedores. Csikszentmihalyi destacou que ninguém jamais vai perder dinheiro vendendo um produto que dá poderes ao indivíduo, mas que a tecnologia criada para o indivíduo muitas vezes não beneficia a sociedade cívica. Também explicou que as pessoas que afirmam que a tecnologia é neutra normalmente se afastaram tanto que o relacionamento entre o indivíduo, a sociedade e a tecnologia se perde. Argumentou que embora seja correto afirmar que tanto uma arma quanto uma escova de dente podem ser usadas para matar, essa precisão teórica é tão abstrata que perde credibilidade. Em seguida, ele explorou dois temas: a popularidade da tecnologia individual e os usos ou efeitos secundários ou não intencionados da tecnologia. É muito mais fácil, disse ele, vender algo (digamos, um iPod) para o indivíduo que vender algo (transporte público) para grupos. Um cortador de grama, explicou, pode ser usado para aparar a grama do jardim, aumentar a poluição do ar ou acordar a vizinhança. Os criadores e desenvolvedores de produtos também tendem a projetar as coisas pensando neles mesmos (ou em mercados específicos); portanto, acabam ignorando aplicações secundárias ou não intencionais de seus produtos. O utilitário Hummer, por exemplo, tem a imagem de um veículo seguro; porém, é prejudicial ao meio ambiente, aos outros motoristas, etc. Ele lamentou o fato de sempre desenvolvermos tecnologias não alinhadas com engajamento cívico. Mas não se trata apenas de apoiar o engajamento cívico em geral. Ele acredita que precisamos estimular tipos específicos de engajamento, dando vários exemplos: FUH2 – Um site para postagem de imagens anti-Hummer; The Melrose Mirror – Um jornal intergeracional que atende uma necessidade comunitária; Computer Clubhouse – Uma ONG que oferece acesso à tecnologia a comunidades carentes; e Selectricity – Que permite a criação e realização de eleições online. Beth Noveck apresentou sua própria definição de mídia cívica. Ela acredita que atualmente assume-se que a mídia desempenha um papel central na promoção de uma discussão pública independente, fiscalizando o governo e promovendo responsabilidade. Ela sugeriu que talvez tenha chegado a hora de reinventar nosso conceito de mídia. De acordo com Noveck, fracassou o papel deliberativo da mídia – e o de melhorar e promover a democracia em si. O discurso raciocinado não levou a uma participação cívica significativa. Tomando o

exemplo de Putnam, a respeito da liga de boliche, ela destacou que a participação não muda, necessariamente, o equilíbrio do poder. Engajamento cívico e conversação não significam participação; além disso, a conversa entre vizinhos não provoca impacto na forma que funcionam os governos. O problema é que atividades comunitárias não são escaláveis – em parte porque a tecnologia ainda não chegou lá. Outro aspecto do problema é que as questões que enfrentamos muitas vezes exigem um conjunto de conhecimentos mais profundo que aquele possuído pela maioria das pessoas. Essa falta de poder foi reforçada pelo pensamento deliberativo e a visão do indivíduo como consumidor, invés de criador de mídia. Isso a levou a questionar se o público seria mais bem atendido por uma imprensa profissional ou distribuída. Ela citou os sites OhMyNews e Newsassignment como exemplos de reportagem distribuída, fora dos limites tradicionais da imprensa. À medida que continue essa tendência – alimentada principalmente pela tecnologia – ela a vê materializando a teoria proposta por de Tocqueville, que para que aconteça o engajamento ativo, as pessoas precisam ter acesso às informações e às ferramentas para tomadas de decisão. Com isso, Noveck perguntou: como é a média cívica, em comparação com a deliberativa? Em última análise, significa mudar nossa conceitualização da Primeira Emenda Constitucional Americana [liberdade de expressão] de “falar sobre o falar” para “falar sobre ação”. A democracia exige mais que apenas lançar o voto a cada quatro anos; precisa tornar-se um hábito do dia-a-dia. Para alcançar essa meta, será necessário construir pontes entre a tecnologia da Web 2.0 e as instituições de poder, para que as pessoas possam ligar-se e tomar ação. Esse tipo de conexão exigirá novos modelos que nos permitam trabalhar com novas fontes de informações. Esses modelos ainda não foram definidos ou entendidos. Também precisamos imaginar novas formas de essas informações serem postas a funcionar. Para exemplificar, ela descreveu tecnologias que identificam possíveis áreas problemáticas antes que explodam, ou o desenvolvimento de novos modelos de responsabilidade. A maior característica dessa nova mídia cívica não é todos falando ao mesmo tempo, mas a obtenção do conhecimento da comunidade. Finalmente, Noveck destacou que precisamos determinar o que funciona e o que não funciona. A produção em grupo tem muitos benefícios, mas não funciona sempre. Ela ainda mostrou outros exemplos de mídia cívica em ação: Peer to patent – Um site que usa a diversidade do conhecimento da comunidade para estimular conversações em torno de conveniência de patentes e se exclusividade deve, de fato, ser concedida em todos os casos; Sense.us – Um site que oferece ferramentas para analisar dados do censo e oferece uma forma de conectar informações, conhecimento e poder; Democracy Island (no Second Life) – Que ilustra a importância do papel do entusiasmo para fazer funcionar a mídia cívica; e Smartvote.ch – Um site suíço que permite a eleitores descobrir suas próprias assunções e pontos de vista e conferir se combinam com os de seus candidatos. Todos estes exemplos, e centenas de outros, visam quebrar os entraves governamentais, expondo problemas e questões; também oferecem às pessoas as ferramentas necessárias para compartilhar informações e também usá-las efetivamente. O potencial da mídia cívica é estimular um novo diálogo em torno da Primeira Emenda, um voltado ao “fazer”, não apenas ao “falar”; voltado a fazer o governo prestar contas através de tecnologias que conectam pessoas, informações, idéias e poder. Ethan Zuckerman começou pedindo desculpas por não ter uma referência a Robert Putnam ou boliche à mão. Além disso, em seu mundo, o de Global Voices, boliche quer dizer cricket, o que é bem diferente. Isso ilustra o que Zuckerman vê como um ponto essencial – quando uma tecnologia ou um conceito são vistos fora de contexto, os resultados podem ser muito diferentes. De acordo com Zuckerman, quando se pensa em mídia cidadã

nos EUA, a narrativa começa com o exemplo de Howard Dean; além disso, mídia cívica normalmente é um bando de caras brancos berrando. Um momento crucial para o blogging no mundo em desenvolvimento aconteceu um pouco antes, em 2001, com o site Salam Pax. Escrito por um arquiteto iraquiano, o Salam Pax mostrava detalhes práticos sobre a vida no Iraque e informações pessoais sobre o autor. Zuckerman ressaltou que esse blog era um exemplo das pontes criadas por blogging que desafiam assunções tradicionais sobre várias partes do mundo. Outro exemplo de um blog ponte é Mahmood’s Den. Escrito por um empreendedor em Bahrain, o blog oferece uma perspectiva que desafia nossos pontos de vista sobre a região do Golfo Pérsico. Em seu blog, Mahmood explica que seu objetivo é “apagar a imagem – provocada principalmente por eles mesmos, é preciso admitir – que persegue muçulmanos e árabes ao redor do mundo. Não sou e não desejo ser um missionário. Administro vários sites na internet que visam exatamente isso, criar um entendimento melhor que não somos um bando de malucos determinados a destruir o mundo.” A explicação de Mahmood descreve porque muitas pessoas acabam envolvidas em blogs ponte – querem ter certeza que seus países e suas culturas estão representados online. Com o tempo, Zuckerman constatou que os blogs ponte eram apenas uma pequena parte do que estava acontecendo. Seu guia para o resto que estava acontecendo – para uma grande parte – foi o site Manal e Alaa, de dois bloggers egípcios. Segundo Zuckerman, Alaa se vale de uma plataforma de blogging utilizada por muitos no Egito, incluindo muitos integrantes do movimento Kefaya (Basta) – um amplo movimento de oposição ao Presidente Mubarak do Egito. Alaa e seus amigos depararam-se criando uma alternativa à imprensa principal egípcia. Isso aconteceu porque não importa quão grande tivesse sido o protesto realizado, nunca era divulgado nas notícias. Assim, Alaa tinha de organizar os protestos e também sua cobertura. Durante uma manifestação, Alaa foi preso e passou três meses na prisão. Ele passou muito mais tempo na prisão do que aqueles presos com ele provavelmente porque (graças à sua esposa Manal) Alaa continuou a publicar seu blog da prisão. Embora o incidente tenha resultado em uma estadia mais prolongada na cadeia, também atraiu muito mais atenção ao o que estava acontecendo com ele e no Egito do que normalmente seria o caso. Alaa e seus associados também ilustram o aspecto de “ação, não palavras” da mídia cívica, mencionada pelos oradores anteriores. Em um dos casos narrados por Zuckerman, um homem foi preso, e graças ao Twitter, Alaa e outros puderam notificar outras pessoas da detenção e a percurso que a polícia estava fazendo para a delegacia. Multidões rapidamente se aglomeraram ao longo do percurso, por fim parando a polícia e liberando o detido. Zuckerman destacou que a mídia cidadã ou jornalismo cidadão tendem a funcionar melhor em países moderadamente repressores que em países altamente repressores, funcionando muito pouco em países pouco ou nada repressores. O Centro Berkman está acompanhando quais países controlam o que as pessoas estão vendo, dizendo e fazendo online; de forma nada surpreendente, as limitações existem em países que também controlam a mídia tradicional. Ele destacou que as empresas também participam da censura, citando Microsoft Spaces como um exemplo. Na China, esse site não permitiu o registro de um blog denominado “Ilovefreedomofspeechhumanrightsanddemocracy” [amoliberdadedeexpressãodireitoshumanosedemocracia], sugerindo um outro nome que não tivesse linguagem proibida. Zuckerman explicou que o nível de censura online em um país é equivalente ao nível de censura offline multiplicado pelo nível de adoção de internet. Ele destacou que isso demonstra a necessidade de Mídia Cívica – especialmente no mundo em desenvolvimento – muito além da internet. Mensagens de texto, ou SMS, também desempenham um importante papel no monitoramento de governos e de outros sistemas de poder e na divulgação de informações. Por exemplo, em Gana telefones celulares foram utilizados com muito sucesso para expor fraude eleitoral. Mesmo não contando todos esses aspectos, se olharmos para as mídias sendo consumidas, vemos que têm origem nas regiões esperadas – América do Norte, Europa Ocidental, China, etc. Convencer pessoas a prestar atenção a outros países e culturas é mais que apenas traduzir textos. Para que pessoas desenvolvam um entendimento, precisam de linguagem, contexto e atenção; mesmo se tiverem, quando colocamos as ferramentas de criação de conteúdo em novas mãos, os resultados serão imprevisíveis.

Para Zuckerman esta história em si não é otimista, embora ele seja otimista quanto ao potencial da Mídia Cívica no mundo em desenvolvimento. Debate PERGUNTA: Como é que o C4FCM irá equilibrar mídia social (o falar) com mídia construtiva (o fazer)? Vocês vão considerar anonimato e reputação? NOVECK: Ambas são boas questões para reflexão; também acho que existe uma necessidade para mídia construtiva. Como advogada, acho que o objetivo de resolução de problemas e justiça social é melhor atendido por uma combinação de tecnologia, direito e política. O objetivo deste projeto deve ser a criação para comunidades, não a criação para indivíduos. As tecnologias por trás da mídia – sociais ou construtivas – não podem ser simplesmente vistas como tecnologias, mas devem também ser colocadas dentro de um contexto social.

JENKINS: Em termos de C4FCM, ambos os lados, construtivo e social, são parte daquilo que acreditamos ser a mídia cívica; a definição apresentada no início do debate foi propositalmente ampla, de forma a incluir tanto aquilo considerado no CMS quanto no Media Lab. PERGUNTA: Estou começando a ficar cansado de blogs – as matérias são simplesmente passadas de site para site e informações incorretas são disseminadas; à medida que aumenta a velocidade de deliberação, o que podemos fazer para tornar a mídia civil mais civilizada? ZUCKERMAN: Eu criei inúmeros guias para bloggers anônimos; espero que alguém da área de teoria da informação possa provar que informações incorretas sejam disseminadas com mais velocidade que informações corretas. Infelizmente, essa é a realidade, de forma que temos de conviver com ela. O grau de conectividade significa que temos de aceitar que informações ruins acontecem. JENKINS: A mesma distorção também acontece através da mídia tradicional – mas reduzida a som e sem a possibilidade de resposta. CSIKSZENTMIHALYI: Não perca a fé. PERGUNTA: Vocês já ouviram falar de ePetitions, e como acham que esse site se enquadra naquilo que vocês acabaram de falar? Governos dão atenção a isso? [O participante esclareceu a sua pergunta, explicando que estava se referindo a um site do governo britânico que permitia à população apresentar questões, as quais eram atendidas pelo governo se houvesse um número suficiente de pessoas envolvidas] NOVECK: Conheço o ePetitions, mas ainda não acho que seja uma ferramenta adequada para promover mudança. Na verdade, de certa maneira, desvia a atenção das pessoas e desestimula a elaboração de

soluções, porque acabam apenas expressando sua opinião, invés de compartilhar informações ou tomar ação. PERGUNTA: Porque devemos achar que não é uma boa coisa o fato de a maior parte da mídia vir do mundo desenvolvido? Precisamos saber das políticas de Madagascar? ZUCKERMAN: A resposta de Rudolph Giuliani são os ataques terroristas de 11 de setembro; eles mudaram nossa visão da globalização e provaram que tudo está interligado; com eles, constatou-se que regiões e questões até então ignoradas têm sim impacto no mundo como um todo. CSIKSZENTMIHALY: O objetivo é dotá-los de novas tecnologias, de forma que elas possam ajudar o engajamento cívico, e não prejudicá-lo. Fazer isso exige observar a tecnologia em vários ambientes, para entender seus potenciais e limitações. PERGUNTA: Existe um problema com a forma em que o diálogo está sendo enquadrado – consumidores contra cidadãos; empresas contra governos – embora seja fato que as empresas têm mais poder sobre as pessoas que os governos, além de existirem menos formas de realizar mudanças. Não podemos simplesmente focar no governo. CSIKSZENTMIHALYI: Os produtores de tecnologia estão produzindo coisas de seu próprio interesse. Apache é um exemplo de uma tecnologia com objetivos cívicos. NOVECK: Bem lembrado. Uma pergunta complicada: “Quem é governo?” O problema é que não existem verdadeiras ferramentas para promover mudanças institucionais – nem no governo ou no setor privado. PERGUNTA: Existem muitas pessoas não amarradas à tecnologia. Existem pessoas que não estão conectadas. Como espera que participem da mídia cívica? ZUCKERMAN: Devem existir abordagens para resolver disparidades ou desconexões de comunicação. JENKINS: A maior parte das lacunas estão relacionadas a habilidades sociais e conforto. Existem muitas formas de combinar habilidades técnicas com idéias e informações. O site transgeracional Melrose Mirror é um exemplo, e o Centro está voltado a ajudar a fechar a lacuna na participação. PERGUNTA: Me parece que uma medida do sucesso da mídia cívica é a capacidade de uma comunidade acessar o poder; mas também envolve a criação de uma identidade grupal e entusiasmo e disposição em agir com base nas informações e na identidade grupal.

NOVECK: Existem ferramentas que facilitam nos reunirmos para tomar ação. As finalidades não precisam ser sempre “políticas”. Podemos trabalhar juntos para fazer qualquer coisa, fazendo-o como uma comunidade. Assim que realizarmos algo no mundo, ficamos poderosos. CSIKSZENTMIHALYI: Os EUA são únicos pela existência de jornais locais – temos essa idéia do jornalismo e da neutralidade – mas isso é algo que muitas pessoas têm dificuldade em encarar,

especialmente quando as pessoas passam a contribuir com conteúdo. É possível ver isso na lentidão em que o conteúdo é contribuído para o Wikinews.

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