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Material Didatico -Ana (Aguas)

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SUMÁRIO

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9.
Os recursos hídricos no ordenamento jurídico Bacias hidrográficas e problemas – instrumentos
Célia Cristina Moura Pimenta – Agência Nacional de Águas (ANA)

Introdução em gestão de recursos hídricos – bacias hidrográficas e problemas – instrumentos
Júlio Thadeu Kettelhut – Secretaria de Recursos Hídricos (SRH/MMA)

Ecossistemas do Pantanal
Carolina J. da Silva – Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)

Introdução às técnicas de sensoriamento remoto
William Tse Horng Liu – Universidade Católica Dom Bosco (UCDB/MS)

Ciclo hidrológico e sinótica atmosférica
Armando Garcia Arnal Barbedo – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS/MS)

Conhecimentos básicos de hidrologia aplicada

Luiz Airton Gomes – Universidade Fedetal do Mato Grosso (UFMT/MT)

Oficina – A participação como processo educativo nos comitês de bacia
Mônica Branco – Universidade Católica de Brasília (UCB)

Setores usuários de água
Henrique Marinho Leite Chaves – Agência Nacional de Águas (ANA)

Integrated river management in the Pantanal
Rob H.G. Jongman – Instituto Alterra, Universidade de Wageningen - Holanda

10. Conhecimentos básicos de qualidade de água
Carlos Nobuyoshi Ide – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS/MS)

11. Saneamento, tratamento e saúde
Mauro Roberto Felizatto – Universidade Católica de Brasília (UCB)

12. Introdução a hidrogeologia
Pierre Girard – Centro de Pesquisas do Pantanal (CPP/MT), Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT/MT)

13. Metas e ações da diretoria de recursos hídricos/Fema
Alessandra Panizi Souza – Fundação Estadual de Meio Ambiente (Fema/MT)

14. Gerenciamento das Políticas Estaduais de Recursos Hídricos
Márcia Correio de Oliveira – Secretaria de Meio Ambiente e de Recursos Hídricos (SEMA/MS)

15. Enquadramento de corpos de água
Jörgen Michel Leeuwestein – Consultor UNESCO

16. Tópicos de economia de recursos hídricos
Raymundo José Santos Garrido – Universidade Federal da Bahia (UFBA)

17. Organismos colegiados no sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos (Singreh)
Maria Manuela Martins Alves Moreira – Secretaria de Recursos Hídricos (SRH/MMA)

18. Outorga de direito de uso de recursos hídricos
André Pante – Agência Nacional de Águas (ANA)

19. Sistema de informações sobre recursos hídricos
Naziano Pantoja Filizola Junior – Agência Nacional de Águas (ANA)

20. Planos de recursos hídricos
Naziano Pantoja Filizola Junior – Agência Nacional de Águas (ANA)

21. Hidrologia – Aula prática de campo
Medição de vazão líquida com molinete fluviométrico
José Pedro Garcia da Rocha – Universidade Federal de Mato Grosso

OS RECURSOS HÍDRICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO BACIAS HIDROGRÁFICAS E PROBLEMAS – INSTRUMENTOS
Célia Cristina Moura Pimenta
Agência Nacional de Águas (ANA)

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OS RECURSOS HÍDRICOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO
A Constituição de 1988 dividiu as águas em públicas, de domínio da União e dos Estados (arts. 20, IV e 26, I) e disciplinou que a União deveria instituir um sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios de outorga de direitos de seu uso (art. 21, XIX da CF). A Carta Magna em vigor estabeleceu também a competência privativa da União para legislar sobre águas (CF art. 22, IV), e estatuiu competência à União para instituir o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Singreh) (art. 21, XIX) para a defesa de secas e inundações (art. 21, XVIII). A Lei Maior, em seu artigo 20, cita que os bens da União: “III – os lagos, rios e quaisquer correntes de água em terreno de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado, sirvam de limites com outros países, ou se estendam a território estrangeiro ou dele provenham, bem como os terrenos marginais e as praias fluviais”. O art. 26 da Carta Magna estabelece os recursos hídricos que são bens dos Estados: “I – as águas superficiais ou subterrâneas, fluentes, emergentes ou em depósito, ressalvadas, nesse caso, na forma da lei, as decorrentes de obras da União”.1 A competência legislativa privativa da União é estabelecida pelo art. 22 e o parágrafo único do mesmo artigo estabelece que: “Lei complementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas das matérias relacionadas neste artigo”.2 Conforme Celso Ribeiro Bastos (1993, p. 309), Lei Complementar trata das matérias que expressamente a Constituição estabelece ser própria dessa espécie normativa, desfruta de matéria própria, subtraída da competência das demais normas, caracterizando-se também por um processo de elaboração especial, pois sua aprovação exige maioria absoluta dos votos dos membros das duas Casas do Congresso Nacional como assim dispõe o art. 69 da CF. Aduz a essa definição com o seguinte comentário:
Cuida-se, sem dúvida, de autorização constitucional que prevê uma delegação possível de competências a favor dos Estados-Membros. No entanto, esta aparente abertura a favor destes últimos fica muito enfraquecida diante de dois fatos. Em primeiro lugar, a necessidade de uma lei complementar; em segundo lugar, o fato de que esta lei complementar não poderá delegar todo um inciso, ou se preferirmos, a regulação integral de determinada matéria. Deverá, na verdade, dita delegação limitar-se a questões específicas constantes das aludidas matérias... Observe-se que a lei complementar demanda uma maioria absoluta dos membros de cada uma das Casas do Congresso Nacional e essa lei não pode transferir uma competência da mesma natureza daquela auferida pela União. Isso porque a própria lei complementar está limitada ao seu alcance, só podendo autorizar legislação sobre questões específicas das

1 Constituição Federal, art. 20, III. 2 Constituição Federal, art. 22, parágrafo único.

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matérias relacionadas no aludido artigo. Destarte, é quase uma delegação legislativa, onde a lei complementar seria uma autêntica lei delegante a indicar os pontos sobre os quais pode versar a legislação estadual.

O insigne jurista Paulo Affonso Leme Machado, in Direito Ambiental Brasileiro, 12ª edição, p. 432, assim define a gestão descentralizada instituída pela Lei nº 9.433, de 1997:
A descentralização recomendada e instaurada pela Lei 9.433 foi no domínio da gestão, pois a competência para legislar sobre as águas é matéria concernente à Constituição Federal e continua centralizada nas mãos da União, conforme o art. 22, IV. Lei Complementar poderá autorizar os Estado a legislar sobre águas (art.22, parágrafo único, da CF), sendo que até agora não existe tal lei.

DEMAIS DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS SOBRE RECURSOS HÍDRICOS COMPENSAÇÃO FINANCEIRA Art. 20. São bens da União:
§ 1º É assegurada, nos termos da lei, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, bem como a órgãos da administração direta da União, participação no resultado da exploração de petróleo ou gás natural, de recursos hídricos para fins de geração de energia elétrica e de outros recursos minerais no respectivo território, plataforma continental, mar territorial ou zona econômica exclusiva, ou compensação financeira por essa exploração. § 2º A faixa de até cento e cinqüenta quilômetros de largura, ao longo das fronteiras terrestres, designada como faixa de fronteira, é considerada fundamental para defesa do território nacional, e sua ocupação e utilização serão reguladas em lei.
COMPETÊNCIA COMUM

Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: XI – registrar, acompanhar e fiscalizar as concessões de direitos de pesquisa e exploração de recursos hídricos e minerais em seus territórios;
APROVEITAMENTO EM TERRAS INDÍGENAS

Compete ao Congresso Nacional exclusivamente o aproveitamento de recursos hídricos em terras indígenas, in verbis: “Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional: XVI – autorizar, em terras indígenas, a exploração e o aproveitamento de recursos hídricos e a pesquisa e lavra de riquezas minerais”. Colaciona-se, abaixo, os bens e direitos reconhecidos aos índios na CF:
Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

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§ 1º São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições. § 2º As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. § 3º O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei. § 6º São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção de direito à indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa-fé. § 7º Não se aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, § 3º e § 4º.

A LEI Nº 9.433, DE 1997
A Lei nº 9.433, de 1997,3 talvez tenha sido uma das que teve maior tempo de discussão no Congresso Nacional – dez anos – e o resultado foi a edição de uma lei que, por sua natureza de norma nacional, vem revolucionando o setor de recursos hídricos. Trata-se de uma lei atual e avançada cujas inovações exigem, para sua aplicação, por parte do Poder Público, uma total revisão de suas estruturas institucionais com vistas a adaptar-se aos seus conceitos e fundamentos filosóficos, principalmente em relação ao domínio dos corpos d’água, tendo em vista que as decisões são tomadas no âmbito da bacia hidrográfica e a Constituição Federal define os domínios dos corpos d’água em estaduais e da União (arts. 20 e 26 da CF). Assim, há um escalonamento normativo em cujo topo localiza-se a Constituição Federal, infere-se que todas as demais normas componentes desse seriado hierárquico de regras encontrarão nela a forma de elaboração legislativa e o seu conteúdo. A fórmula a adotar-se para a explicitação dos conceitos opera sempre “de cima para baixo”, o que serve para dar segurança ao ordenamento jurídico (compatibilidade vertical).

3 Institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, regulamenta o inciso XIX do art. 21 da Constituição Federal e altera o art. 1º da Lei nº 8.001, de 13 de março de 1990, que modificou a Lei nº 7.990, de 28 de dezembro de 1989.

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A importância da Lei nº 9.433, de 1997, é sentida logo em seus fundamentos: 1) a água é um bem de domínio público; 2) a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico; 3) em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o consumo humano e a dessedentação de animais; 4) a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas; 5) a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; 6) a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades. O princípio que adota a bacia hidrográfica como unidade de planejamento altera o ordenamento jurídico vigente sobre a definição de domínio. Significa estabelecer que o tratamento normativo dado aos recursos hídricos deve levar em consideração a jurisdição da bacia hidrográfica como objeto de direitos e deveres e não a competência dos entes governamentais sobre bens e domínio. Aliado a isso, constata-se que não há como se pensar em gestão de recursos hídricos sem levar em consideração os princípios da retrocitada Lei, pois sem eles não há como estruturar o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Singreh).
DOS INSTRUMENTOS DA POLÍTICA NACIONAL DE RECURSOS HÍDRICOS

A Lei nº 9.433, de 1997, elegeu cinco instrumentos que estão inter-relacionados, são eles: 1) os Planos de Recursos Hídricos; 2) o enquadramento dos corpos de água em classes, segundo os usos preponderantes da água; 3) a outorga de direito de uso de recursos hídricos; 4) a cobrança pelo uso de recursos hídricos; e 5) o Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos. Apesar de o art. 5º da lei prever a compensação a municípios, o texto do art. 24 da lei foi vetado, desconsiderando-o como instrumento da Política Nacional de Recursos Hídricos.
Outorga de direito de uso de recursos hídricos

As Leis nº 9.433, de 1997 e nº 9.984, de 2000, trouxeram nova visão ao gerenciamento de recursos hídricos no País. Destaque-se aqui a competência conferida ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos para a edição de critérios gerais de outorga e da Agência Nacional de Águas para a emissão de outorga preventiva, de direito de uso e a declaração de disponibilidade hídrica. A outorga de uso de recursos hídricos é definida como “o ato administrativo mediante o qual a autoridade outorgante faculta ao outorgado previamente ou mediante o direito de uso de recurso hídrico, por prazo determinado, nos termos e nas condições expressas no respectivo ato, consideradas as legislações específicas vigentes”.4 A outorga tem como objetivos assegurar o controle quantitativo e qualitativo da água e o efetivo exercício dos direitos de acesso à mesma, disciplinando a sua utilização e compatibilizando demanda e disponibilidade hídrica.
4 Art. 1º da Resolução do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) nº 16, de 8 de maio de 2001.

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Os diversos usos da água podem ser concorrentes, gerando conflitos entre setores usuários e impactos ambientais. Nesse sentido, gerir recursos hídricos é uma necessidade premente e que tem o objetivo de buscar ajustar as demandas econômicas, sociais e ambientais por água em níveis sustentáveis, de modo a permitir, sem conflitos, a convivência dos usos atuais e futuros da água. É nesse ponto que o instrumento da outorga se mostra necessário, pois é possível, com ele, assegurar, legalmente, um esquema de alocação de água entre os diferentes usuários, contribuindo para um uso sustentável da água. A Resolução ANA nº 317 instituiu o Cadastro Nacional de Usuários de Recursos Hídricos (CNARH) e a Resolução nº 161, de 9/4/2003 o Certificado de Cadastro de Usos Insignificantes. O Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) aprovou, em maio de 2001, a Resolução nº 16, estabelecendo critérios gerais para a outorga de recursos hídricos que deve ser observada quando da edição das respectivas normas específicas nos Estados/DF e pela União. A Resolução nº 29, de 11 de dezembro de 2002, define diretrizes para a outorga de uso dos recursos hídricos para o aproveitamento dos recursos minerais. A Resolução nº 37, de 26 de março de 2004, estabelece diretrizes para a outorga de recursos hídricos para a implantação de barragens em corpos de água de domínio dos Estados, do Distrito Federal e da União. A Declaração de Reserva de Disponibilidade Hídrica foi instituída pela Lei nº 9.984, de 2000, que, no caput do art. 7º estabelece que compete à ANA licitar a concessão ou autorizar o uso de potencial de energia hidráulica em corpo de água de domínio da União e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) deverá promover, com a ANA, a prévia obtenção de declaração de reserva de disponibilidade hídrica. A Constituição de 1988 traz importantes disposições acerca da utilização do aproveitamento para a geração de energia elétrica, in verbis:
Art. 21. Compete à União: XII – explorar, diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão: a) .............................................................................................. b) os serviços e instalações de energia elétrica e o aproveitamento energético dos cursos de água, em articulação com os Estados onde se situam os potenciais hidroenergéticos. (grifos próprios) Art. 176. As jazidas, em lavra ou não, e demais recursos minerais e os potenciais de energia hidráulica constituem propriedade distinta da do solo, para efeito de exploração ou aproveitamento, e pertencem à União, garantida ao concessionário a propriedade do produto da lavra. § 1º A pesquisa e a lavra de recursos minerais e o aproveitamento dos potenciais a que se refere o “caput” deste artigo somente poderão ser efetuados mediante autorização ou concessão da União, no interesse nacional, por brasileiros ou empresa constituída sob as leis brasileiras e que tenha sua sede e administração no País, na forma da lei, que estabelecerá as condições específicas quando essas atividades se desenvolverem em faixa de fronteira ou terras indígenas.

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§ 2º É assegurada participação ao proprietário do solo nos resultados da lavra, na forma e no valor que dispuser a lei. § 3º A autorização de pesquisa será sempre por prazo determinado, e as autorizações e concessões previstas neste artigo não poderão ser cedidas ou transferidas, total ou parcialmente, sem prévia anuência do poder concedente. § 4º Não dependerá de autorização ou concessão o aproveitamento do potencial de energia renovável de capacidade reduzida.” (grifos próprios)

A Lei nº 9.984, de 2000 dispõe:
Art. 7º Para licitar a concessão ou autorizar o uso de potencial de energia hidráulica em corpo de água de domínio da União, a Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL deverá promover, junto à ANA, a prévia obtenção de declaração de reserva de disponibilidade hídrica. § 1º Quando o potencial hidráulico localizar-se em corpo de água de domínio dos Estados ou do Distrito Federal, a declaração de reserva de disponibilidade hídrica será obtida em articulação com a respectiva entidade gestora de recursos hídricos. § 2º A declaração de reserva de disponibilidade hídrica será transformada automaticamente, pelo respectivo poder outorgante, em outorga de direito de uso de recursos hídricos à instituição ou empresa que receber da ANEEL a concessão ou a autorização de uso do potencial de energia hidráulica. § 3º A declaração de reserva de disponibilidade hídrica obedecerá ao disposto no art. 13 da Lei nº 9.433, de 1997, e será fornecida em prazos a serem regulamentados por decreto do Presidente da República.

Assim, surgem agora questões ainda não juridicamente respondidas, as quais comportam diferentes respostas e implicações institucionais e legais. Sugiro a formação de grupos de trabalho para efetuar sugestões, com os seguintes temas: a) a articulação proposta pela Constituição e pela Lei nº 9.984 deverá ser realizada entre a ANA e os Estados e comunicada pela ANA à Aneel e depois os Estados fariam a conversão em outorga de direito de uso de recursos hídricos. b)a articulação proposta pela Constituição e pela Lei nº 9.984, de 2000, deverá ser realizada pela Aneel com os Estados e transformada em outorga de direito de uso de recursos hídricos. c) a ANA faria a emissão da declaração de reserva de disponibilidade hídrica em corpos de água de domínio da União e os Estados/DF o fariam em corpos hídricos de seus domínios, articulando-se com a Aneel e depois transformando-os em outorgas de direito de uso de recursos hídricos. d)As articulações seriam feitas em separado pelos Estados e pela União com a Aneel e a ANA converteria em outorga de direito de uso de recursos hídricos todas as declarações emitidas.

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A Resolução ANA nº 131, de 11/3/2003 estabelece normas para a emissão da declaração de reserva de disponibilidade hídrica e respectiva conversão para a outorga de direito de uso de recursos hídricos. A controvérsia reside no fato de que ficou omisso na lei quem fará a articulação ou se a Aneel dirige-se diretamente aos Estados/DF para a obtenção da declaração de reserva de disponibilidade hídrica.
A cobrança pelo uso da água

No âmbito da União, a cobrança pelo uso da água está dirigida àqueles dependentes de outorga. Na fixação dos valores, devem ser observados, entre outros: (a) nas derivações, captações e extrações de água, o volume retirado e seu regime de variação; e (b) nos lançamentos de esgotos e demais resíduos líquidos ou gasosos, o volume lançado e seu regime de variação e as características físico, químicas, biológicas e de toxidade do afluente.5 Os valores arrecadados devem ser aplicados prioritariamente na bacia hidrográfica em que foram gerados e serão utilizados: (a) no financiamento de estudos, programas, projetos e obras incluídos nos Planos de Recursos Hídricos; e (b) no pagamento de despesas de implantação e custeio administrativo dos órgãos e entidades integrantes do sistema de Gerenciamento de Recursos Hídricos, limitadas a 7,5% (sete e meio por cento) do total arrecadado. Pode haver aplicação a fundo perdido, em projetos e obras que alterem, de modo considerado benéfico à coletividade, a qualidade, a quantidade e o regime de um corpo de água.6 A Resolução ANA nº 318, de 26/8/2003 estabelece procedimentos para a cobrança pelo uso de recursos hídricos. As prioridades de aplicação devem ser definidas pelo CNRH, em articulação com os respectivos comitês de bacias hidrográficas.7 A Resolução nº 27, de 29 de novembro de 2002, define os valores e os critérios de cobrança pelo uso de recursos hídricos na Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul. A Resolução nº 35, de 1º de dezembro de 2003, estabeleceu as prioridades para aplicação dos recursos oriundos da cobrança pelo uso de recursos hídricos, para o exercício de 2004. A Resolução nº 41, de 2 de julho de 2004, estabelece as prioridades para aplicação dos recursos provenientes da cobrança pelo uso de recursos hídricos, para o exercício de 2005. A Resolução nº 44, de 2 de julho de 2004, define os valores e os critérios de cobrança pelo uso de recursos hídricos na Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, aplicáveis ao usuários do setor mineração de areia no leito dos rios.
Planos de Recursos Hídricos

Os Planos de Recursos Hídricos são planos diretores que visam a fundamentar e orientar a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e o gerenciamento dos recursos hídricos, os planos de recursos hídricos são planos de longo prazo, com horizonte de planeja-

5 Art. 21, I e II, da Lei nº 9.433, de 1997. 6 Art. 22, I e II e §§ 1º e 2º, da Lei nº 9.433, de 1997. 7 Art. 21, § 4º, da Lei nº 9.984, de 2000.

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mento compatível com o período de implantação de seus programas e projetos e terão o seguinte conteúdo mínimo: 1) diagnóstico da situação atual dos recursos hídricos; 2) análise de alternativas de crescimento demográfico, de evolução de atividades produtivas e de modificações dos padrões de ocupação do solo; 3) balanço entre disponibilidades e demandas futuras dos recursos hídricos, em quantidade e qualidade, com identificação de conflitos potenciais; 4) metas de racionalização de uso, aumento da quantidade e melhoria da qualidade dos recursos hídricos disponíveis; 5) medidas a serem tomadas, programas a serem desenvolvidos e projetos a serem implantados, para o atendimento das metas previstas; 6) prioridades para outorga de direitos de uso de recursos hídricos; 7) diretrizes e critérios para a cobrança pelo uso dos recursos hídricos; e 3) propostas para a criação de áreas sujeitas à restrição de uso, com vistas à proteção dos recursos hídricos. Dispõe ainda a Lei nº 9.433/97, em seu art. 8º que os planos de recursos hídricos serão elaborados por bacia hidrográfica, por Estado e para o País. A Lei nº 9.984/2000 modificou o art. 35 da Lei nº 9.433, de 1997, dispondo a competência para o Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH): “IX – acompanhar a execução e aprovar o Plano Nacional de Recursos Hídricos e determinar as providências necessárias ao cumprimento de suas metas”. A Medida Provisória nº 2.216-37, de 31 de agosto de 2001, posteriormente convertida na Lei nº 10.683, de 2003, estabeleceu à ANA a competência de participar da elaboração do Plano Nacional de Recursos Hídricos e supervisionar a sua implementação. A Portaria nº 274, de 4 de novembro de 2004, instituiu as Comissões Executivas Regionais (CERs), uma para cada região hidrográfica nacional, com a finalidade de auxiliar na elaboração do Plano Nacional de Recursos Hídricos. O CNRH já editou a Resolução nº 17, de 29 de maio de 2001, que estabeleceu diretrizes para a elaboração dos planos de recursos hídricos das bacias hidrográficas. A Resolução nº 22, de 24 de maio de 2002, estabelece diretrizes para inserção das águas subterrâneas no instrumento Planos de Recursos Hídricos. A Resolução nº 30, de 11 de dezembro de 2002, definiu a metodologia para a codificação de bacias hidrográficas, no âmbito nacional e a Resolução nº 32, de 15 de outubro de 2003 instituiu a Divisão Hidrográfica Nacional.
Enquadramento dos corpos de água

O enquadramento dos corpos de água em classes, segundo os usos preponderantes é o instrumento que estabelece metas para garantir à água nível de qualidade que possa assegurar seus usos preponderantes. É um instrumento de planejamento que objetiva assegurar a qualidade de água correspondente a uma classe definida para um segmento de corpo hídrico. O Conselho Nacional de Recursos Hídricos editou a Resolução nº 12, de 19 de julho de 2000, que estabelece procedimentos para o enquadramento de corpos de água em classes segundo os usos preponderantes. O Conselho Nacional de Meio Ambiente previu nove classes de águas no Brasil, nos termos estabelecidos pela Resolução nº 20/86 e definiu cinco classes em relação às águas doces.

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O célebre professor Paulo Affonso Leme Machado (2004, p. 444-5) leciona: “A referida resolução conceitua “enquadramento como o estabelecimento do nível de qualidade (classe) a ser alcançado e/ou mantido em um segmento de corpo de água ao longo do tempo” (art. 2º, b). O órgão público ambiental irá verificar a situação da água em cada setor. Para cada classe de água há a previsão de parâmetros de materiais flutuantes, óleos e graxas, substâncias que comuniquem gosto ou odor, corantes artificiais, substâncias de oxigênio), OD (oxigênio dissolvido), turbidez, pH (análise da acidez ou alcalinidade), substâncias potencialmente prejudiciais. Ensina ainda o conceituado professor (Idem): “Entre as competências da Agência de Água está a de propor “o enquadramento dos corpos de água nas classes de uso, para encaminhamento ao respectivo Conselho Nacional ou Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos, de acordo com o domínio destes” (art. 44, XI, a, da Lei nº 9.433/97). O Conselho Nacional de Recursos Hídricos poderá concordar com a atual classificação das águas ou concordar com as proposições do estabelecimento de novos níveis de qualidade a serem alcançados. A lei comentada, em seu art. 35, não concedeu, contudo, competência a esse Conselho para efetuar uma nova classificação. Da mesma forma, os Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos decidirão sobre o enquadramento proposto e não sobre a classificação dos corpos hídricos, que será feita pelos órgãos estaduais de meio ambiente”.
Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos

O Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos é “um sistema de coleta, tratamento, armazenamento e recuperação de informações sobre recursos hídricos e fatores intervenientes em sua gestão”, conforme previsão do art. 25 da Lei nº 9.433, de 1997. Paulo Affonso Leme Machado (2002, p. 89) ensina que:
ao criar um Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos, a lei está procurando articular as informações, para que não fiquem dispersas e isoladas. Os organismos integrantes do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos terão obrigação de fornecer todos os dados ao Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos (art. 25, parágrafo único, da Lei nº 9.433/1997). Não haverá, portanto, informações privilegiadas e secretas nos órgãos de recursos hídricos, nem que os mesmos estejam submetidos a regime de direito privado.

O Conselho Nacional de Recursos Hídricos editou a Resolução nº 13, de 25 de setembro de 2000, que estabelece diretrizes para a implementação do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos.

DA COMPOSIÇÃO DO SINGREH
O Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Singreh) tem sua composição concentrada nos seguintes moldes: 1) Conselho Nacional de Recursos Hídricos; 2) os Conselhos de Recursos Hídricos dos Estados e do Distrito Federal; 3) os Comitês de Bacia Hidrográfica; 4) os órgãos dos poderes públicos federal, estaduais e municipais, cujas

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competências se relacionem com a gestão de recursos hídricos; 5) as Agências de Água. Essa composição foi estatuída no art. 33 da Lei nº 9.433, de 1997.8 É importante ressaltar que se os Estados e o Distrito Federal não se ativerem a essa estrutura básica estabelecida na Lei não se ajustarão à estrutura do Singreh. O Conselho Nacional de Recursos Hídricos, instituído pela Lei nº 9.433, de 1997, é o órgão máximo da hierarquia do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, com suas funções sistematizadas no Decreto nº 4.613, de 11 de março de 2003, a saber:
Art. 1º O Conselho Nacional de Recursos Hídricos, órgão consultivo e deliberativo, integrante da estrutura regimental do Ministério do Meio Ambiente, tem por competência: I – promover a articulação do planejamento de recursos hídricos com os planejamentos nacional, regionais, estaduais e dos setores usuários; II – arbitrar, em última instância administrativa, os conflitos existentes entre Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos; III – deliberar sobre os projetos de aproveitamento de recursos hídricos, cujas repercussões extrapolem o âmbito dos Estados em que serão implantados; IV – deliberar sobre as questões que lhe tenham sido encaminhadas pelos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos ou pelos Comitês de Bacia Hidrográfica; V – analisar propostas de alteração da legislação pertinente a recursos hídricos e à Política Nacional de Recursos Hídricos; VI – estabelecer diretrizes complementares para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, aplicação de seus instrumentos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; VII – aprovar propostas de instituição dos Comitês de Bacias Hidrográficas e estabelecer critérios gerais para a elaboração de seus regimentos; VIII – deliberar sobre os recursos administrativos que lhe forem interpostos; IX – acompanhar a execução e aprovar o Plano Nacional de Recursos Hídricos e determinar as providências necessárias ao cumprimento de suas metas; X – estabelecer critérios gerais para outorga de direito de uso de recursos hídricos e para a cobrança por seu uso;

8 Lei nº 9.433, de 1997, art. 33: “Integram o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos: I – o Conselho Nacional de Recursos Hídricos; II – os Conselhos de Recursos Hídricos dos Estados e do Distrito Federal; III – os Comitês de Bacia Hidrográfica; IV – os órgãos dos poderes públicos federal, estaduais e municipais, cujas competências se relacionam com a gestão de recursos hídricos; V – as Agências de Água”.

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XI – aprovar o enquadramento dos corpos de água em classes, em consonância com as diretrizes do Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA e de acordo com a classificação estabelecida na legislação ambiental; XII – formular a Política Nacional de Recursos Hídricos nos termos da Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, e do art. 2º da Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000; XIII – manifestar-se sobre propostas encaminhadas pela Agência Nacional de Águas – ANA, relativas ao estabelecimento de incentivos, inclusive financeiros, para a conservação qualitativa e quantitativa de recursos hídricos, nos termos do inciso XVII do art. 4º da Lei nº 9.984, de 2000; XIV – definir os valores a serem cobrados pelo uso de recursos hídricos de domínio da União, nos termos do inciso VI do art. 4º da Lei nº 9.984, de 2000; XV – definir, em articulação com os Comitês de Bacia Hidrográfica, as prioridades de aplicação dos recursos a que se refere o caput do art. 22 da Lei nº 9.433, de 1997, nos termos do § 4º do art. 21 da Lei nº 9.984, de 2000; XVI – autorizar a criação das Agências de Água, nos termos do parágrafo único do art. 42 e do art. 43 da Lei nº 9.433, de 1997; XVII – deliberar sobre as acumulações, derivações, captações e lançamentos de pouca expressão, para efeito de isenção da obrigatoriedade de outorga de direitos de uso de recursos hídricos de domínio da União, nos termos do inciso V do art. 38 da Lei nº 9.433, de 1997; XVIII – manifestar-se sobre os pedidos de ampliação dos prazos para as outorgas de direito de uso de recursos hídricos de domínio da União, estabelecidos nos incisos I e II do art. 5º e seu § 2º da Lei nº 9.984, de 2000; XIX – delegar, quando couber, por prazo determinado, nos termos do art. 51 da Lei nº 9.433, de 1997, aos consórcios e associações intermunicipais de bacias hidrográficas, com autonomia administrativa e financeira, o exercício de funções de competência das Agências de Água, enquanto estas não estiverem constituídas.

LEGISLAÇÃO ESTADUAL
A Legislação Estadual de Recursos Hídricos está em plena regulamentação, tendo sido pioneiro o Estado de São Paulo, em 1991, antes mesmo da Política Nacional de Recursos Hídricos. Atualmente, à exceção do Estado de Roraima, os demais Estados/Distrito Federal já editaram suas respectivas leis sobre recursos hídricos e, vários deles a respectiva regulamentação. Os Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul dispõem da seguinte legislação sobre recursos hídricos:

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Estados Mato Grosso

Lei sobre política e sistema de gerenciamento Lei n… 6.945 de 5 de novembro de 1997. Disp e sobre a Lei de Pol tica Estadual de Recursos H dricos, institui o Sistema Estadual de Recursos H dricos e d outras provid ncias. Lei n… 2.406, de 29 de janeiro de 2002. Institui a Pol tica Estadual de Recursos H dricos, cria o Sistema Estadual de Gerenciamento dos Recursos H dricos e d outras provid ncias.

Regulamentação Decreto Estadual n… 3.952, de 6/3/2002. Regulamenta o Conselho Estadual de Recursos H dricos (Cehidro).

Mato Grosso do Sul

Decreto n… 11.621, de 1o de junho de 2004. Publicado no DOE n… 6.258, de 2/6/04. Regulamenta o Conselho Estadual dos Recursos H dricos institu do pela Lei n¡ 2.406, de 20 de janeiro de 2002. Resolu o Sema/MS n¡ 028, de 1¡ de junho de 2004.Publicado no DOE n… 6.259, de 3/6/04, p. 41. Institui o cadastramento das organiza es civis de recursos h dricos e de representantes de usu rios dos recursos h dricos para composi o do Conselho Estadual dos Recursos H dricos, e d outras provid ncias.

AGÊNCIAS DE ÁGUAS – NOVAS DISPOSIÇÕES
Em razão da edição da Medida Provisória nº 165, de 11 de fevereiro de 2004, depois convertida na Lei nº 10.881, de 9 de junho de 2004, que permite que a Agência Nacional de Águas (ANA) celebre contratos de gestão com as entidades sem fins lucrativos previstas no art. 47 da Lei nº 9.433, de 1997, após a devida aprovação do Conselho Nacional de Recursos Hídricos, enquanto não constituídas as Agências de Água. O § 3º do art. 4º da citada lei trouxe mecanismo que permite a destinação de recursos orçamentários e o uso de bens públicos necessários ao contrato de gestão, bem como as transferências da ANA provenientes das receitas da cobrança pelo uso de recursos hídricos em rios de domínio da União, de que tratam os incisos I, III e V do art. 12 da Lei nº 9.433, de 1997.9

9 Lei nº 9.433, de 1997: “Art. 12. Estão sujeitos a outorga pelo Poder Público os direitos dos seguintes usos de recursos hídricos: I – derivação ou captação de parcela da água existente em um corpo de água para consumo final, inclusive abastecimento público, ou insumo de processo produtivo; III – lançamento em corpo de água de esgotos e demais resíduos líquidos ou gasosos, tratados ou não, com o fim de sua diluição, transporte ou disposição final; V – outros usos que alterem o regime, a quantidade ou a qualidade da água existente em um corpo de água”.

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Saliente-se ainda a importante modificação trazida pela Lei nº 10.881, de 2004, que deu nova redação ao art. 51 da Lei nº 9.433, de 1997, in verbis:
Art. 51. O Conselho Nacional de Recursos Hídricos e os Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos poderão delegar a organizações sem fins lucrativos relacionadas no art. 47 desta Lei, por prazo determinado, o exercício de funções de competência das Agências de Água, enquanto esses organismos não estiverem constituídos. (NR)

Destarte, doravante, os Estados e o Distrito Federal poderão, mediante aprovação de seus respectivos Conselhos de Recursos Hídricos, delegar às seguintes entidades o exercício de funções de agências de águas:
Art. 47. São consideradas, para os efeitos desta Lei, organizações civis de recursos hídricos: I – consórcios e associações intermunicipais de bacias hidrográficas; II – associações regionais, locais ou setoriais de usuários de recursos hídricos; III – organizações técnicas e de ensino e pesquisa com interesse na área de recursos hídricos; IV – organizações não-governamentais com objetivos de defesa de interesses difusos e coletivos da sociedade; V – outras organizações reconhecidas pelo Conselho Nacional ou pelos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos.

RECURSOS HÍDRICOS NO DIREITO INTERNACIONAL
O insigne professor Paulo Affonso Leme Machado, in Recursos Hídricos – Direito Brasileiro e Internacional, fls. 127 e segs. conceitua a expressão “curso de água internacional” como curso de água cujas partes encontrem-se em países diferentes. Ensina ainda o citado professor:
O curso de água internacional também pode ser entendido como “águas transfronteiriças”, entre elas estando os “rios transfronteiriços”. Curso de água é conceituado como um sistema de águas de superfície e de águas subterrâneas, constituindo, pelo fato de suas relações físicas, um conjunto unitário, terminando normalmente em um ponto de chegada comum (art. 2º, b da Convenção sobre os Direitos dos Usos dos Cursos de Águas Internacionais Não Destinados à Navegação).

A citada Convenção foi aprovada em 1994 pela Comissão de Direito Internacional (CDI) da Organização das Nações Unidas (ONU) e encaminhada à Assembléia Geral. Em 21 de maio de 1997, foi adotada e aberta à adesão, por meio da Resolução 51/229 pela ONU. Segundo Paulo Affonso, “há uma relação indivisível das partes do curso de água que se encontram nos diferentes Estados ou países. Nesse sentido, a Convenção conceitua “curso de água” como “conjunto unitário.” Essa unidade não se dá somente em cada País, mas permanece a idéia de conjunto, desde a nascente do curso de água até seu término, seja em que País for.

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ÁGUAS PLUVIAIS
A Lei nº 9.433, de 1997, não trouxe previsão explícita sobre águas pluviais, assim, ainda temos como vigentes alguns dispositivos insertos no Código de Águas (Decreto nº 24.643, de 10 de julho de 1934) e no novo Código Civil (Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002). Colaciona-se abaixo os dispositivos sobre águas pluviais que encontram amparo no Código de Águas:
TÍTULO V ÁGUAS PLUVIAIS Art. 102. Consideram-se águas pluviais, as que procedem imediatamente das chuvas. Art. 103. As águas pluviais pertencem ao dono do prédio onde caírem diretamente, podendo o mesmo dispor delas a vontade, salvo existindo direito em sentido contrário. Parágrafo único. Ao dono do prédio, porém, não é permitido: I – desperdiçar essas águas em prejuízo dos outros prédios que delas se possam aproveitar, sob pena de indenização aos proprietários dos mesmos; II – desviar essas águas de seu curso natural para lhes dar outro, sem consentimento expresso dos donos dos prédios que irão recebê-las. Art. 104. Transpondo o limite do prédio em que caírem, abandonadas pelo proprietário do mesmo, as águas pluviais, no que lhes for aplicável, ficam sujeitas as regras ditadas para as águas comuns e para as águas públicas. Art. 105. O proprietário edificará de maneira que o beiral de seu telhado não despeje sobre o prédio vizinho, deixando entre este e o beiral, quando por outro modo não o possa evitar, um intervalo de 10 centímetros, quando menos, de modo que as águas se escoem. Art. 106. É imprescritível o direito de uso das águas pluviais. Art. 107. São de domínio público de uso comum as águas pluviais que caírem em lugares ou terrenos públicos de uso comum. Art. 108. A todos é lícito apanhar estas águas. Parágrafo único. Não se poderão, porém, construir nestes lugares ou terrenos, reservatórios para o aproveitamento das mesmas águas sem licença da administração. Transcreve-se, por oportuno, o disposto sobre águas no Novo Código Civil (Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002), in litteris: Seção V Das Águas Art. 1.288. O dono ou o possuidor do prédio inferior é obrigado a receber as águas que correm naturalmente do superior, não podendo realizar obras que embaracem o seu fluxo;

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porém a condição natural e anterior do prédio inferior não pode ser agravada por obras feitas pelo dono ou possuidor do prédio superior. Art. 1.289. Quando as águas, artificialmente levadas ao prédio superior, ou aí colhidas, correrem dele para o inferior, poderá o dono deste reclamar que se desviem, ou se lhe indenize o prejuízo que sofrer. Parágrafo único. Da indenização será deduzido o valor do benefício obtido. Art. 1.290. O proprietário de nascente, ou do solo onde caem águas pluviais, satisfeitas as necessidades de seu consumo, não pode impedir, ou desviar o curso natural das águas remanescentes pelos prédios inferiores. Art. 1.291. O possuidor do imóvel superior não poderá poluir as águas indispensáveis às primeiras necessidades da vida dos possuidores dos imóveis inferiores; as demais, que poluir, deverá recuperar, ressarcindo os danos que estes sofrerem, se não for possível a recuperação ou o desvio do curso artificial das águas. Art. 1.292. O proprietário tem direito de construir barragens, açudes, ou outras obras para represamento de água em seu prédio; se as águas represadas invadirem prédio alheio, será o seu proprietário indenizado pelo dano sofrido, deduzido o valor do benefício obtido. Art. 1.293. É permitido a quem quer que seja, mediante prévia indenização aos proprietários prejudicados, construir canais, através de prédios alheios, para receber as águas a que tenha direito, indispensáveis às primeiras necessidades da vida, e, desde que não cause prejuízo considerável à agricultura e à indústria, bem como para o escoamento de águas supérfluas ou acumuladas, ou a drenagem de terrenos. § 1º Ao proprietário prejudicado, em tal caso, também assiste direito a ressarcimento pelos danos que de futuro lhe advenham da infiltração ou irrupção das águas, bem como da deterioração das obras destinadas a canalizá-las. § 2º O proprietário prejudicado poderá exigir que seja subterrânea a canalização que atravessa áreas edificadas, pátios, hortas, jardins ou quintais. § 3º O aqueduto será construído de maneira que cause o menor prejuízo aos proprietários dos imóveis vizinhos, e a expensas do seu dono, a quem incumbem também as despesas de conservação. Art. 1.294. Aplica-se ao direito de aqueduto o disposto nos arts. 1.286 e 1.287.10

10 “Art. 1.286. Mediante recebimento de indenização que atenda, também, à desvalorização da área remanescente, o proprietário é obrigado a tolerar a passagem, através de seu imóvel, de cabos, tubulações e outros condutos subterrâneos de serviços de utilidade pública, em proveito de proprietários vizinhos, quando de outro modo for impossível ou excessivamente onerosa. Parágrafo único. O proprietário prejudicado pode exigir que a instalação seja feita de modo menos gravoso ao prédio onerado, bem como, depois, seja removida, à sua custa, para outro local do imóvel. Art. 1.287. Se as instalações oferecerem grave risco, será facultado ao proprietário do prédio onerado exigir a realização de obras de segurança.”

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Art. 1.295. O aqueduto não impedirá que os proprietários cerquem os imóveis e construam sobre ele, sem prejuízo para a sua segurança e conservação; os proprietários dos imóveis poderão usar das águas do aqueduto para as primeiras necessidades da vida. Art. 1.296. Havendo no aqueduto águas supérfluas, outros poderão canalizá-las, para os fins previstos no art. 1.293, mediante pagamento de indenização aos proprietários prejudicados e ao dono do aqueduto, de importância equivalente às despesas que então seriam necessárias para a condução das águas até o ponto de derivação. Parágrafo único. Têm preferência os proprietários dos imóveis atravessados pelo aqueduto.

JURISPRUDÊNCIA/SÚMULAS
O Supremo Tribunal Federal já editou o enunciado da Súmula 479, em 3 de outubro de 1969 que: “As margens dos rios navegáveis são de domínio público, insuscetíveis de expropriação e, por isso mesmo, excluídas de indenização”.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF) Ação Direta de Inconstitucionalidade (Med. Liminar) 3.336 – 1 Origem: Rio de Janeiro Relator: Ministro Sepúlveda Pertence Requerente: Confederação Nacional da Indústria – CNI (CF 103, IX) Requerido: Governadora do Estado do Rio de Janeiro, Assembléia Legislativa do Estado do

Rio de Janeiro
Mérito: Lei nº 4.247, de 16 de dezembro de 2003, do Estado do Rio de Janeiro que dispõe

sobre a cobrança pela utilização dos recursos hídricos de domínio do Estado do Rio de Janeiro e dá outras providências.
Informativo 243 (RE-228.800) Título: CFEM: Constitucionalidade

Artigo: A Turma manteve acórdão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região que, dando pela constitucionalidade da cobrança da compensação financeira pela exploração de recursos minerais – CFEM (art. 20, § 1º, da CF, regulamentado pelas Leis nº 7.990/89 e nº 8.001/90), cuja natureza seria de receita patrimonial do Estado, negara o direito de empresa mineradora eximir-se do pagamento da referida exação. Alegava-se, na espécie, que a mencionada compensação não fora criada na forma prevista na Constituição e, ainda, que teria natureza tributária, ofendendo, assim, os arts. 154, I, e 155, § 3º, da CF [CF, art. 20, § 1º: “É assegurada, nos termos da lei, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, bem como a órgãos da administração direta da União, participação no resultado da exploração de petróleo ou gás natural, de recursos hídricos para fins de geração de energia elétrica e de outros recursos

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minerais no respectivo território (...), ou compensação financeira por essa exploração.”]. A Turma, embora entendendo que a mencionada compensação, de natureza patrimonial, não atendera ao comando do art. 20, § 1º, da CF – tendo em vista que a compensação deve ser proporcional à perda resultante dos danos ambientais, sociais e econômicos causados pela exploração, e a lei fixou-a em função do faturamento da empresa exploradora –, rejeitou a argüição de inconstitucionalidade do § 6º da Lei nº 7.790/89, bem como da Lei nº 8.001/90, por considerar que o legislador, dentro da faculdade concedida pela CF, estabeleceu, na verdade, forma de participação no resultado da exploração (CF, art. 176, § 2º: “É assegurada participação ao proprietário do solo nos resultados da lavra, na forma e no valor que dispuser a lei”). Salientou-se, ainda, que deve haver identidade entre o município beneficiário da compensação e aquele onde ocorre a extração mineral. RE 228.800-DF, rel. Min. Sepúlveda Pertence, 25/9/2001. (RE-228.800)
Ação Direta de Inconstitucionalidade 2.707 – 7 Origem: Santa Catarina Relator: Ministro Joaquim Barbosa Requerente: Governador do Estado de Santa Catarina (Cf 103, V). Requerido: Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina Dispositivos Legais Questionados: Arts. 3º, 4º e 5º, da Lei nº 11.222, de 17 de novembro de 1999/Lei nº 11.222, de 17 de novembro de 1999./ Dispõe sobre a política de preservação, recuperação e utilização sustentável dos ecossistemas do Complexo Lagunar Sul e adota outras providências./Art. 3º – O Poder Executivo deverá criar Comissão Executiva da política de preservação, recuperação e utilização sustentável dos ecossistemas do Complexo Lagunar Sul, composta por representantes das Secretarias de Estado do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente e do Desenvolvimento Rural e da Agricultura, Fundação do Meio Ambiente (Fatma), Polícia de Proteção Ambiental, Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural do Estado de Santa Catarina (Epagri), Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) e Associação dos Municípios da Região de Laguna (Amurel), Prefeituras Municipais, Colônias de Pescadores e Associações Comerciais e Industriais. § 1º Poderão integrar a Comissão Executiva, como convidados os representantes da Secretaria Nacional dos Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), do Departamento de Edificações e Obras Hidráulicas e das Organizações Não-Governamentais ligadas ao meio ambiente. § 2º Cabe à Comissão Executiva, sob a presidência do representante da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, planejar, coordenar e controlar as atividades da política de preservação, recuperação e utilização sustentável dos ecossistemas do Complexo Lagunar Sul./Art. 4º Para os efeitos do art. 2º desta Lei, serão instituídos grupos de trabalho, a fim de estudar e propor ações, aos órgãos públicos e à sociedade, de forma a garantir o desenvolvimento sustentável. §1º A Comissão Executiva da política de preservação, recuperação e utilização sustentável dos ecossistemas do Complexo Lagunar Sul, indicará as metas e

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diretrizes necessárias aos grupos de trabalho. § 2º A Comissão Executiva, mediante propostas dos grupos de trabalho, poderá convidar, para participar dos respectivos trabalhos, representantes da comunidade técnico-científica./Art. 5º A Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente proverá o apoio administrativo à execução desta Lei.
Fundamentação Constitucional: Art. 2º, Art. 61/Art. 169 Resultado da Liminar: Sem Liminar Decisão Plenária da Liminar:

SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA (STJ)

Processo: RESP 518744 / RN; RECURSO ESPECIAL 2003/0048439-9. Relator (a): Ministro LUIZ FUX Órgão Julgador: Primeira Turma Data do Julgamento: 3/2/2004. Data da Publicação/Fonte: DJ 25.02.2004 p.00108 RT VOL. 00825 p.00200

EMENTA
Administrativo. Desapropriação. Indenização. Obra realizada por terceira pessoa em área desapropriada. Benfeitoria. Não caracterização. Propriedade. Solo e subsolo. Distinção. Águas subterrâneas. Titularidade. Evolução legislativa. Bem público de uso comum de titularidade dos Estados-Membros. Código de Águas. Lei nº 9.433/97. Constituição Federal, arts. 176, 176 e 26, I. 1. Benfeitorias são as obras ou despesas realizadas no bem, para o fim de conservá-lo, melhorá-lo ou embelezá-lo, engendradas, necessariamente, pelo proprietário ou legítimo possuidor, não se caracterizando como tal a interferência alheia. 2. A propriedade do solo não se confunde com a do subsolo (art. 526, do Código Civil de 1916), motivo pelo qual o fato de serem encontradas jazidas ou recursos hídricos em propriedade particular não torna o proprietário titular do domínio de referidos recursos (arts. 176, da Constituição Federal). 3. Somente os bens públicos dominiais são passíveis de alienação e, portanto, de desapropriação. 4. A água é bem público de uso comum (art. 1º da Lei nº 9.433/97), motivo pelo qual é insuscetível de apropriação pelo particular. 5. O particular tem, apenas, o direito à exploração das águas subterrâneas mediante autorização do Poder Público cobrada a devida contraprestação (arts. 12, II e 20, da Lei nº 9.433/97).

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6. Ausente a autorização para exploração a que o alude o art.12, da Lei nº 9.443/97, atentando-se para o princípio da justa indenização, revela-se ausente o direito à indenização pelo desapossamento de aqüífero. 7. A ratio deste entendimento deve-se ao fato de a indenização por desapropriação estar condicionada à inutilidade ou aos prejuízos causados ao bem expropriado, por isso que, em não tendo o proprietário o direito de exploração de lavra ou dos recursos hídricos, afasta-se o direito à indenização respectiva. 8. Recurso especial provido para afastar da condenação imposta ao Incra o quantum indenizatório fixado a título de benfeitoria.
Acórdão: Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma

do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, dar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Teori Albino Zavascki, Denise Arruda, José Delgado e Francisco Falcão votaram com o Sr. Ministro Relator.

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BIBLIOGRÁFIA
BASTOS C. R. Curso de direito constitucional, v. 1. 4. ed. Rio de Janeiro: Ed. Forense, 1993. p. 309. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em: <www.planalto.gov.br>. _____. Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Brasília: 8 jan. 1997. Disponível em: <www.planalto.gov.br>. _____. Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Brasília: 17 jul. 2000. Disponível em: <www.planalto.gov.br>. _____. Supremo Tribunal Federal. Jurisprudência STF. Brasília: STF. Disponível em: <www.stf.gov.br>. CONSELHO NACIONAL DE RECURSOS HÍDRICOS. Resoluções do Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Brasília: CNRH, s.d. Disponível em: <www.cnrh-srh.gov.br>. K E L M A N , J . S o b r e t o r n e i ra s e t r i b u n a i s . B r a s í l i a : A N A . D i s p o n í v e l e m : <www.ana.gov.br/jersonkelman/imprensa_A.asp>. MACHADO, P. A. L. Direito ambiental brasileiro. S.l.: Editora Malheiros, 2004. _____. Recursos hídricos: direito brasileiro e internacional. S.l.: Editora Malheiros, 2002. PIMENTA, C. C. M. A regulamentação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos no Brasil. Brasília: s.n., 2004.

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ANEXO
PROJETO DE DECRETO LEGISLATIVO Nº 232 DE 2004
Para visualizar o texto, siga o link abaixo: Projeto de Decreto Legislativo nº 232 de 2004

APRESENTAÇÃO

Curso de Capacitação em Recursos Hídricos

Célia Cristina Moura Pimenta Advogada
Cuiabá-MT

ANA - Agência Nacional de Águas

Célia Cristina Moura Pimenta celiacristina@ana.gov.br (61) 445.5236

ANA - Agência Nacional de Águas

Política Estadual e do Distrito Federal de Recursos Hídricos
Atualmente 25 Estados e o Distrito Federal já adotaram legislação sobre recursos hídricos. Alguns têm leis específicas ou decretos sobre águas subterrâneas. A seguir serão separados por região e em destaque aparecerão as publicadas após a Lei Nacional nº 9.433, de 1997, que dispõe sobre a Política Nacional de Recursos Hídricos.
ANA - Agência Nacional de Águas

Política Estadual de Recursos Hídricos Região Norte

Amazonas (Lei nº 2.712, de 28 de dezembro de 2001). Pará (Lei nº 6.381, de 25 de julho de 2001). Rondônia (Lei Complementar nº 255, de 25 de janeiro de 2002.) Tocantins (Lei nº 1.307, de 22 de março de 2002).

ANA - Agência Nacional de Águas

Política Estadual de Recursos Hídricos Região Nordeste
Alagoas (Lei nº 5.965, de 10 de novembro de 1997) Bahia (Lei nº 6.855, de 12 de maio de 1995) Ceará (Lei nº 11.996, de 24 de julho de 1992) Maranhão (Lei nº 8.149, de 15 de junho de 2004) Paraíba (Lei nº 6.308, de 2 de julho de 1996) Pernambuco (Lei nº 11.426, de 17 de janeiro de 1997) Piauí (Lei nº 5.165, de 17 de agosto de 2000) Rio Grande do Norte (Lei nº 6.908, de 1º de julho de 1996) Sergipe (Lei nº 3.870, de 25 de setembro de 1997)

ANA - Agência Nacional de Águas

Política Estadual de Recursos Hídricos Região Sudeste
Espírito Santo (Lei nº 5.818, de 30 de dezembro de 1998) Minas Gerais ( Lei nº 13.199, de 29 de janeiro de 1999) Rio de Janeiro (Lei nº 3.239, de 2 de agosto de 1999) São Paulo (Lei nº 7.663, de 30 de dezembro de 1991)

ANA - Agência Nacional de Águas

Política Estadual de Recursos Hídricos Região Sul

Paraná (Lei nº 12.726, de 26 de novembro de 1999) Rio Grande do Sul (Lei nº 10.350, de 30 de dezembro de 1994) Santa Catarina (Lei nº 9.748, de 30 de novembro de 1994)

ANA - Agência Nacional de Águas

Política Estadual e do Distrito Federal de Recursos Hídricos Região Centro-Oeste
Distrito Federal (Lei nº 2.725, de 13 de junho de 2001). Goiás (Lei nº 13.123, de 16 de julho de 1997). Mato Grosso (Lei nº 6.945, de 5 de novembro de 1997). Mato Grosso do Sul (Lei nº 2406, de 29 de janeiro de 2002).

ANA - Agência Nacional de Águas

Comitês de Bacias Hidrográficas
Fórum de decisão no âmbito de cada bacia; Arbitram, em primeira instância, os conflitos relacionados aos recursos hídricos; Aprovam o Plano de Recursos Hídricos da bacia; Estabelecem os mecanismos de cobrança pelo uso dos recursos hídricos e sugerem os valores a serem cobrados; Propõem ao CNRH e aos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos as acumulações, derivações, captações e lançamentos de pouca expressão para efeito de isenção da obrigatoriedade de outorga de direito de uso de recursos hídricos, de acordo com os domínios destes.
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Águas Superficiais, Subterrâneas e Minerais
Águas Superficiais: A ANA emite a outorga preventiva, a declaração de reserva de disponibilidade hídrica e a outorga de direito de uso de recursos hídricos em rios de domínio da União, ou em reservatórios decorrentes de obras da União. Aos Estados e ao Distrito Federal, compete outorgar o direito de uso em rios situados em seus domínios; Águas Subterrâneas: Consideradas bens de domínio dos Estados e do Distrito Federal, cujas autoridades outorgantes emitem ANA - uso; o direito de seu Agência Nacional de Águas

Águas Superficiais, Subterrâneas e Minerais

Águas Minerais, Termais e Potáveis de Mesa : A outorga é emitida pelo DNPM, com a competência definida pelo Código de Mineração e de Águas Minerais.

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Outorga Preventiva
• Art. 6º – A ANA poderá emitir outorgas preventivas de uso de recursos hídricos, com a finalidade de declarar a disponibilidade de água para os usos requeridos, observado o disposto no art. 13 da Lei nº 9.433, de 1997. • § 1º – A outorga preventiva não confere direito de uso de recursos hídricos e se destina a reservar a vazão passível de outorga, possibilitando, aos investidores, o planejamento de empreendimentos que necessitem desses recursos. • § 2º – O prazo de validade da outorga preventiva será fixado levando-se em conta a complexidade do planejamento do empreendimento, limitandose ao máximo de três anos, findo o qual será considerado o dispostoNacional incisos I e II do art. 5º. ANA - Agência nos de Águas

Outorga de Direito de Uso de Recursos Hídricos
Estará condicionada às prioridades de uso estabelecidas nos Planos de Recursos Hídricos; Compete aos Comitês de Bacia: aprovar o Plano de Recursos Hídricos da bacia; Deverá respeitar a classe em que o corpo de água estiver enquadrado; Manutenção de condições adequadas ao transporte aquaviário, quando for o caso; Deverá preservar o uso múltiplo desses.

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Declaração de Reserva de Disponibilidade Hídrica
Para licitar a concessão ou autorizar o uso de potencial de energia hidráulica em corpo de água de domínio da União, a Aneel deverá promover, em conjunto com a ANA, a prévia obtenção de declaração de reserva de disponibilidade hídrica. A declaração será transformada pela ANA, automaticamente, em outorga de direito de uso de recursos hídricos à instituição ou empresa que receber da Aneel a concessão ou a autorização de uso do potencial de energia hidráulica. A Resolução Conjunta ANA/Aneel deve ser publicada em breve regulando a emissão da declaração.
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Usos que independem de outorga
Lei nº 9.433, de 1997 (inciso V, art. 38) Compete aos Comitês propor ao Conselho Nacional e aos Conselhos Estaduais as acumulações, derivações, captações de pouca expressão, para efeito de isenção de obrigatoriedade de outorga de direitos de uso de recursos hídricos, de acordo com o domínio desses.

Resolução CNRH N° 15, de 11/1/2001
“Art. 4° No caso de aqüíferos subjacentes a duas ou mais bacias hidrográficas , o SINGREH e os Sistemas de Gerenciamento de Recursos Hídricos dos Estados ou do Distrito Federal deverão promover a uniformização de diretrizes e critérios para coleta dos dados e elaboração dos estudos hidrogeológicos necessários à identificação e caracterização da bacia hidrogeológica. Parágrafo único. Os Comitês de Bacia Hidrográfica envolvidos deverão buscar o intercâmbio e a sistematização dos dados gerados para a perfeita caracterização da bacia hidrogeológica. Art. 5° No caso dos aqüíferos transfronteiriços ou subjacentes a duas ou mais Unidades da Federação, o SINGREH promoverá a integração dos diversos órgãos dos governos federal, estaduais e do Distrito Federal, que têm competências no gerenciamento de águas subterrâneas. § 1° Os conflitos existentes serão resolvidos em primeira instância entre os Conselhos de Recursos Hídricos dos Estados e do Distrito Federal e, em última instância, pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos. § 2° Nos aqüíferos transfronteiriços a aplicação dos instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos dar-se-á em conformidade com as disposições constantes nos acordos celebrados entre a União e os países ANA - Agência Nacional de Águas vizinhos.”

Resolução/CNRH/N° 8/5/01

16,

de

“Art. 1º A outorga de direito de uso de recursos hídricos é o ato administrativo mediante o qual a autoridade outorgante faculta ao outorgado previamente ou mediante o direito de uso de recurso hídrico, por prazo determinado, nos termos e nas condições expressas no respectivo ato, consideradas as legislações específicas vigentes. § 1º A outorga não implica alienação total ou parcial das águas, que são inalienáveis, mas o simples direito de uso. § 2º. A outorga confere o direito de uso de recursos hídricos condicionado à disponibilidade hídrica e ao regime de racionamento, sujeitando o outorgado à suspensão da outorga. § 3º O outorgado é obrigado a respeitar direitos de terceiros. § 4º A análise dos pleitos de outorga deverá considerar a interdependência das águas superficiais e subterrâneas e as interações observadas no ciclo hidrológico visando à gestão integrada dos recursos hídricos.” “Art 9º As outorgas preventiva e de direito de uso dos recursos hídricos relativas a atividades setoriais, poderão ser objeto de resolução, em consonância com o disposto nesta Resolução.”
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Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos
Sistema de coleta, tratamento, armazenamento e recuperações de informações sobre recursos hídricos e fatores intervenientes em sua gestão; Cerca de 200.000 poços em funcionamento (empresas de abastecimento público, indústria, irrigantes e condomínios residenciais); Mais da metade da água de abastecimento público provém de reservas subterrâneas; Recursos Hídricos Superficiais: monitorados por uma rede hidrológica nacional; Recursos Hídricos Subterrâneos: inexistência de redes de observação e monitoramento das condições de explotação dos recursos hídricos subterrâneos.

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Competências para a implementação da PNRH
Lei n° 9.433, de 1997. “Art. 29. Na implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, compete ao Poder Executivo Federal: I tomar as providências necessárias à implementação e ao funcionamento do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; II - outorgar os direitos de uso de recursos hídricos, e regulamentar e fiscalizar os usos, na sua esfera de competência; III - implantar e gerir o Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos, em âmbito nacional; IV - promover a integração da gestão de recursos hídricos com a gestão ambiental.”
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Competências para a implementação da PNRH
Lei n° 9.433, de 1997. “Art. 30. Na implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, cabe aos Poderes Executivos Estaduais e do Distrito Federal na sua esfera de competência: I - outorgar os direitos de uso de recursos hídricos e regulamentar e fiscalizar os seus usos; II - realizar o controle técnico das obras de oferta hídrica; III - implantar e gerir o Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos, em âmbito estadual e do Distrito Federal; IV - promover a integração da gestão de recursos ANA hídricos com a gestão Agência Nacional de Águas ambiental.”

Competências para a implementação da PNRH
Lei n° 9.433, de 1997. “Art. 31. Na implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, os Poderes Executivos do Distrito Federal e dos municípios promoverão a integração das políticas locais de saneamento básico, de uso, ocupação e conservação do solo e de meio ambiente com as políticas federal e estaduais de recursos hídricos.”
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Ações voltadas para o Gerenciamento dos Recursos Hídricos
Atuação desenvolvida em articulação com órgãos e entidades públicas e privadas integrantes do Singreh; Desenvolvimento de parcerias, por intermédio de convênios e acordos de cooperação técnica com a finalidade de capacitar os órgãos executores a promover ações sistemáticas e de caráter permanente em aqüíferos regionais, garantindo uma explotação sustentável;
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Projeto de Lei n° 1.616, de 1999.
atualmente foi formada Comissão Especial Dispõe sobre a gestão administrativa e a organização institucional do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, previsto no inciso XIX do art. 21 da Constituição, e criado pela Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, e dá outras providências.

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celiacristina@ana.gov.br (61) 445.5236

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INTRODUÇÃO EM GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS – BACIAS HIDROGRÁFICAS E PROBLEMAS – INSTRUMENTOS
Júlio Thadeu Kettelhut Secretaria de Recursos Hídricos (SRH/MMA)

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ECOSSISTEMAS DO PANTANAL
Carolina J. da Silva
Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)

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O “CONCEITO DO PULSO DE INUNDAÇÃO” E SUAS IMPLICAÇÕES PARA O PANTANAL DE MATO GROSSO
Wolfang J. Junk 1 e Carolina J. da Silva 2

INTRODUÇÃO
A América Latina tropical é caracterizada por um grande número de áreas periodicamente alagadas. As alagações são provocadas por períodos de alta precipitação em combinação com uma paisagem relativamente plana, que dificulta a drenagem periódica do excesso da água. Todos os pequenos rios, igarapés e córregos são acompanhados por trechos que são inundados durante e depois de chuvas fortes. Na época chuvosa, mesmo em áreas semi-áridas, depressões ficam inundadas durante várias semanas ou até meses. Entre as paisagens características da América Latina tropical destacam-se grandes áreas periodicamente alagáveis. Estas são encontradas ao longo dos cursos dos grandes rios e nos seus deltas, e.g. no rio Amazonas, no rio Orinoco, no rio Magdalena, e no rio Paraná-Paraguai. Ao longo da costa, principalmente do oceano Atlântico existem grandes áreas periodicamente inundadas pelas marés, mas também pelas chuvas. As grandes planícies mal drenadas, tais como os llanos bajos de Venezuela, os llanos dos Mojos da Bolívia, as savanas de Roraima e do Rupununi, a ilha do Bananal e o Pantanal de Mato Grosso são inundadas durante a época chuvosa. Junk (1993) estima que cerca de 20% da paisagem da América Latina tropical são periodicamente alagadas ou encharcadas. Estudos etnológicos mostram que o homem aproveitou-se preferencialmente das grandes planícies inundadas, devido à disponibilidade de água, dos estoques pesqueiros, da caça, e do difícil acesso, que facilitou a defesa contra inimigos (Denevan). Os índios desenvolveram métodos específicos de manejo da flora e fauna silvestre e de agricultura, adaptados aos ciclos de enchentes e vazantes. Infelizmente, a maior parte do conhecimento sobre essas práticas foi perdida logo após a chegada dos europeus, que desestabilizaram as culturas indígenas sem usufruir do conhecimento acumulado durante muitos milênios. Por isso, o conhecimento dos sistemas de uso da terra na época pré-columbiana é bastante limitada. Nas últimas décadas, universidades e instituições de pesquisa começaram a dedicar-se aos estudos sobre a ecologia, o aproveitamento e a proteção dessas áreas, por causa da sua grande extensão e o potencial econômico dos seus recursos naturais, mas também por causa de crescentes preocupações sobre os impactos antrópicos negativos. O número de estudos começou a aumentar, porém ainda é insuficiente para nos oferecer uma visão completa da estrutura e funcionamento dos diferentes sistemas e de suas comunidades biológicas. A aplicação dos conhecimentos ecológicos, que estão sendo elaborados nas diferentes áreas alagáveis, necessita

1 Max-Planck-Institut für Limnologie, Plön, Germany 2 Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Cuiabá, Brasil.

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uma visão integrada desses ecossistemas. Esta abordagem baseia-se em um conceito geral que é capaz de interpretar as informações isoladas de uma forma abrangente e integral. Além disso, esse conceito tem que ser adequado para estimular a formulação de novas hipóteses que podem ser testadas no futuro por meio de estudos direcionados. Isso facilitará no futuro o entendimento da estrutura e do funcionamento desses sistemas de uma forma supraregional e permitirá a elaboração de planos para o seu aproveitamento sustentável. O Pantanal de Mato Grosso é uma das áreas alagáveis, que chama a atenção por causa da sua beleza paisagística e da sua riqueza exuberante de animais silvestres. Com uma área de cerca de 140.00 km2, constitui-se em uma das maiores e mais diversificadas áreas alagáveis do mundo. Em 1988, o Pantanal de Mato Grosso recebeu a categoria de Patrimônio Nacional pela Constituição brasileira. Apesar disso, o conhecimento sobre o Pantanal ainda é muito limitado. Até agora, os resultados não foram integrados em um conceito amplo, dificultando a apresentação de hipóteses a serem testadas. O presente trabalho apresenta o “Conceito de Pulso de Inundação” (JUNK et al. 1989) e fornece exemplos para aplicação desse conceito às condições do Pantanal de Mato Grosso.

O CONCEITO DO PULSO DE INUNDAÇÃO
A ciência da limnologia trata da ecologia das águas interiores. Para facilitar a classificação da área de estudo, os corpos d’água foram divididos em diferentes tipos. Os principais tipos são os de águas lênticas (e.g., lagos) e águas lóticas ou de correnteza (rios, córregos e igarapés, etc.). As áreas intermediárias, tais como os diferentes tipos de pântanos e brejos, foram denominados “áreas úmidas” (wetlands). As teorias limnológicas concentraram-se principalmente nas águas paradas e correntes. As “áreas úmidas” representam um conglomerado de diferentes tipos, que não se enquadrou em uma teoria abrangente. Em 1989, Vannote et al. lançaram um novo conceito, o River Continuum Concept, que abriu uma nova etapa de discussões conceituais sobre águas correntes. Esse conceito indica que em águas correntes, (igarapés, córregos e rios) os organismos e processos nas cabeceiras influenciam os organismos e processos nos cursos inferiores de uma maneira previsível. Por exemplo, nas cabeceiras de igarapés de áreas temperadas, a relação entre produção e respiração (P/R ratio) é menor do que 1. A produção primária é baixa em conseqüência da falta de luz, devido ao sombreamento das árvores, e por causa do aumento da respiração pelos organismos decompositores das folhas que caem na água. Nos cursos médios, a relação P/R é maior do que 1 porque o sombreamento pelas árvores diminui em conseqüência da largura dos rios e permite uma maior produção primária pelas macrófitas aquáticas e algas. Nos cursos inferiores dos rios, a relação P/R é de novo menor do que 1, em função da alta profundidade dos diferentes trechos dos rios e de suas redes alimentares. Por falta de uma elevada produção primária autóctone, os organismos dos cursos inferiores dos rios, em termos gerais, dependem da ineficiência dos consumidores nos cursos superiores, em utilizar completamente a matéria orgânica a disposição nas cabeceiras e cursos médios.

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Enquanto o “Conceito Rio Contínuo” conseguiu explicar de uma maneira satisfatória muitas estruturas e processos em córregos, principalmente nas zonas temperadas, o seu valor para os grandes rios tem sido questionado. De acordo com a definição de hidrólogos, um rio não se restringe ao seu canal senso estrito, mas é representado pelo vale, que ocupa durante as enchentes máximas prováveis em 100 anos (BHOWMIK e STALL, 1979). Considerando o fato de que os grandes rios sofrem grandes oscilações de nível de água, a maioria desses é acompanhada em condições naturais por amplas áreas alagáveis, que ocupam um espaço que pode ser até 20 vezes maior, do que a própria calha do rio. Essas áreas representam uma grande diversidade de hábitats periodicamente secos e inundados, em uma zona chamada Zona de Transição Aquática Terrestre (Aquatic Terrestrial Transition Zone – ATTZ), ocupada por diferentes tipos de vegetação terrestre e aquática, interrompida por hábitats permanentemente aquáticos, tais como canais, lagoas, áreas pantanosas (JUNK et al., 1989). Durante as enchentes essas vastas áreas são acopladas ao canal principal recebendo água, nutrientes dissolvidos, sedimentos da área de captação, atuando por seu lado como uma área de alta produção biológica. Animais aquáticos fazem migrações longitudinais e laterais, a fim de beneficiar durante as enchentes da produtividade das áreas alagáveis, enquanto animais terrestres migram durante as épocas secas para as áreas alagáveis. Para a maioria dos organismos o canal principal serve mais como refúgio temporal e “corredor de migração e transporte”, do que como hábitat principal. O intercâmbio lateral é mais importante do que o fluxo longitudinal da matéria orgânica, sendo o pulso de inundação a força principal, que regula esse processo. O transporte longitudinal é importante no que se refere à quantidade e qualidade de água, nutrientes dissolvidos, e material em suspensão. Os processos biológicos principais realizam-se dentro da planície inundável acoplam-se ou desacoplam-se com o rio e a terra firme circundante, de acordo com o pulso de inundação. Áreas alagáveis não somente acompanham os grandes rios. De acordo com as características geomorfológicas da paisagem e as peculiaridades climáticas, o pulso de inundação pode ser provocado também pela distribuição das chuvas locais e regionais, pelas oscilações do lençol freático, ou ainda em grandes altitudes ou em áreas temperadas, pelo derretimento da neve ou pelo degelo do solo. O relevo plano em grandes áreas dos neotrópicos, em combinação com épocas pronunciadas de chuvas e secas, resulta da má drenagem e na inundação periódica de grandes áreas até em regiões consideradas semi-áridas (JUNK, 1993). Por isso, as grandes áreas alagáveis têm diferentes fontes de alagação. As áreas do Pantanal de Mato Grosso próximas aos canais principais são fortemente influenciadas pelas águas e pelos sedimentos transportados pelo rio, enquanto as áreas mais distantes dos canais principais são influenciadas, principalmente pela água de chuva. A fonte de inundação tem grande importância para uma série de aspectos nas áreas alagáveis, tais como a biodiversidade aquática, o estado dos nutrientes dos solos e da água, a dinâmica das mudanças dos hábitats, etc. Porém, as conseqüências ecofisiológicas das inundações e secas periódicas para os organismos são as mesmas, independentemente das fontes da inundação.

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AS CONSEQÜÊNCIAS DO CONCEITO DE PULSO DE INUNDAÇÃO PARA O PANTANAL DE MATO GROSSO
DIVERSIDADE DE HÁBITATS, DE PROCESSOS E DE ESPÉCIES

As inundações periódicas resultam em mudanças drásticas das condições ambientais dos hábitats. Durante um ciclo hidrológico, o mesmo local pode passar de uma área seca sujeita a um estresse por falta de água para uma área úmida, com solo encharcado, para um lago raso e até mesmo para um lago de alguns metros de profundidade, e vice-versa. Essa dinâmica é uma das características primordiais, que definem a composição das comunidades de organismos, que colonizam as áreas alagáveis e os processos no solo. O potencial de Redox fica fortemente negativo, nutrientes, como o fosfato, são mobilizados, passando de forma insolúvel (fosfato de ferro) para forma solúvel e durante a decomposição da matéria orgânica, o sulfato é reduzido para H2S, e metano é produzido, etc. No Pantanal de Mato Grosso, o pulso de inundação é relativamente “previsível” e corresponde a um ciclo hidrológico anual. Organismos que se adaptam a esta sazonalidade hídrica podem tirar benefícios para o desenvolvimento de suas populações. A época de reprodução de um grande número de espécies é acoplada ao ciclo das enchentes e secas (DA SILVA, 1990). Várias espécies de árvores frutificam durante a enchente (CUNHA e JUNK, neste volume), sendo as suas sementes distribuídas pela água e até por peixes. As macrófitas aquáticas na baía Acurizal e Porto de Fora, por exemplo, floresceram, frutificaram e apresentaram valores mais elevados de biomassa no período da cheia (DA SILVA, 1990, DA SILVA e ESTEVES, 1993). No período da enchente, sementes e frutos constituíram os itens mais importantes na dieta alimentar do pacu, Piractus mesopotanicus (SILVA, 1985). Segundo essa autora, as proteínas obtidas nesses alimentos são armazenados como reservas de gorduras, para serem utilizadas em processos reprodutivos e migratórios que se realizam na estiagem, quando a disponibilidade de alimento é menor. Esse acoplamento pode ser fenotípico ou genotípico como demonstrado pela ictiofauna. A grande maioria das espécies reproduz no começo e durante as enchentes, porque a chance de sobrevivência para a prole é melhor. Em cativeiro, em condições boas os ciclídeos reproduzem também durante a seca, enquanto as espécies de piracema dependem do pulso da inundação para a realização das migrações de desova e da maturação das gônadas. De acordo com WestEberhard (1989), a seleção de fenótipos específicos é um passo importante para o aumento da diversidade genética e a formação de novas espécies. Além do pulso de inundação alguns outros fatores contribuem para o aumento da diversidade de hábitats no Pantanal de Mato Grosso. Devido à ocorrência de diferentes feições morfológicas, associadas a uma complexa rede de drenagem é possível identificar subunidades morfológicas no Pantanal de Mato Grosso, resultando nos diversos tipos de pantanais (ADAMOLI, 1981, ALVARENGA et al., 1984, HAMILTON et al., 1996). Além disso, o Pantanal, mais do que, por exemplo, a várzea do rio Amazonas, reflete o histórico geológico e paleoclimático da região. Enquanto a maior parte dos solos da várzea do médio rio Solimões/

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Amazonas é composta por sedimentos recentes, os solos do Pantanal de Mato Grosso representam sedimentos de diferentes idades e de diferentes estágios de transformação mineralógica (AMARAL FILHO, 1986, SHORT e BLAIR, 1986, ZEILHOFER, 1996). No Pantanal de Mato Grosso, a época seca é bastante pronunciada. Durante vários meses a pluviosidade é abaixo de 10 mm por mês, submetendo durante a fase terrestre do ciclo, não somente a flora e a fauna aquáticas, mas também a flora e fauna terrestre, a um estresse grande por falta de água (TARIFA, 1986). Durante as épocas plurianuais de secas grandes (ANTUNES, 1986, ADAMOLI, 1986a, HAMILTON e MELACK, 1996), esse estresse aumenta ainda mais os efeitos grandes para as populações de plantas e animais. As inundações favorecem os organismos aquáticos, porém, eles exercem para a vegetação e os animais terrestres um estresse por excesso de água, que aumenta durante as épocas plurianuais das enchentes. De acordo com estudos geológicos, o estresse de seca foi ainda maior em épocas passadas. O padrão de sedimentação de alguns afluentes do Pantanal indica períodos muito mais secos do que hoje em dia (AB’SÁBER, 1988). Durante esses períodos de grande estresse, provavelmente, a taxa de extinção de espécies era bem maior de que a taxa de especiação e flora e fauna do Pantanal de Mato Grosso teriam sofrido grandes perdas em espécies. Em épocas com condições mais favoráveis, o Pantanal recebeu a imigração de espécies de outras áreas, e.g., do Amazonas, do cerrado e do chaco, o que explica a composição faunística e florística atual, com muitas espécies oriundas dessas regiões e com poucas espécies endêmicas (ADAMOLI, 1981; 1986b; BROWN JÚNIOR, 1986; CUNHA, 1990; DUBS, 1994). A análise das relações florísticas de 84 espécies de árvores estudadas por Dubs (1994) no sul do Pantanal, mostrou que 89% destas também ocorrem nas áreas de cerrado do Brasil central, 55% no Nordeste do Paraguai, 6 espécies listadas são encontradas no chaco, 14 na caatinga e 8 na floresta Amazônica.
PRODUTIVIDADE

A produtividade de áreas alagáveis é a soma das produtividades aquática e terrestre. Isso não somente dificulta a avaliação da produtividade total. De acordo com o conceito de pulso, plantas crescendo durante a fase terrestre absorvem nutrientes do solo e estocam esses nutrientes na matéria orgânica. Durante a fase aquática o material orgânico junto com os nutrientes inorgânicos são transferidos para a fase aquática, onde o material orgânico serve como base alimentar para os organismos aquáticos, enquanto os nutrientes reciclados são absorvidos pelas algas e macrófitas aquáticas. Durante a vazante, as macrófitas aquáticas são depositadas na planície inundável e servem como alimento de organismos terrestres. Durante a decomposição os nutrientes voltam ao solo, fertilizando-o para o crescimento das plantas, na fase terrestre. Essa transferência de nutrientes garante uma maior produção do sistema, do que esperado pelo total dos nutrientes introduzido pela água dos afluentes e a chuva. A ciclagem dos nutrientes absorvidos aos sedimentos depositados na planície inundável são reciclados ao sistema pelas plantas crescendo na fase seca. Por outro lado o sistema de transferência não é perfeito. Existe o perigo de perda de nutrientes, principalmente em áreas lixiviadas por água de chuva. Essas áreas, apesar de mostrarem à primeira vista uma razoável produção primária de plantas herbáceas,

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têm uma fertilidade muito baixa. Qualquer distúrbio do eficiente sistema natural de reciclagem de nutrientes, resultará em uma perda abrupta de fertilidade. As informações sobre o fluxo de nutrientes e a produção primária e secundária no Pantanal são escassos. No entanto, já se sabe que a química das águas das baías variam em função da sua localização nas diferentes sub-bacias de drenagem, no tempo e duração da conexão com os rios que as alimentam, na falta de inundação superficial e na presença de forte entrada de matéria orgânica, tipo ninhal. Da Silva & Esteves (1995) verificaram para baías alimentadas pelo rio Cuiabá, e que perdem sua conexão com esse no período da seca, uma elevada concentração das formas fosfatadas, e nitrogenadas e silicatos no período da estiagem e valores mais altos dos íons cálcio, magnésio e potássio no período da cheia. Enquanto Heckman obteve valores mais altos no período da cheia, em uma baía que constitui o leito alargado do rio Bento Gomes. As “salinas” representam o exemplo extremo da concentração de íons, em face da ausência da inundação superficial (MOURÃO, 1989). Segundo Da Silva (1990) ocorre a concentração e retenção de nutrientes na biomassa das macrófitas aquáticas no período de seca e uma liberação para o crescimento e produção de novos rametes no período da cheia. O comportamento de concentração/diluição, em relação aos períodos de estiagem e cheia, respectivamente também é registrado para a densidade de fitoplancton (PINTO-SILVA, 1980; ESPÍNDOLA et al., no prelo). Para as comunidades de zooplancton foi observado densidades mais elevadas no período de águas baixas. O efeito da concentração no período da estiagem reflete no grande número de pássaros, jacarés e peixes, que se concentram nas lagoas durante a época seca sugerindo uma alta produção secundária. O aparente alto número de consumidores é a conseqüência da concentração dos animais em poucos pequenos poços d’água. A densidade geral é bem menor, como é demonstrado na cheia, quando a densidade dos animais espalhados pela planície inundável é bem baixa. Além disso, o alto número de animais somente reflete a eficiência do sistema de aproveitar a energia da matéria orgânica por meio das redes alimentares. A capacidade das comunidades de animais de suportar a perda adicional de indivíduos e.g. pela caça e pesca depende das espécies a serem utilizadas e pode ser muito limitada. Organismos de grande porte, de maturidade sexual tardia e de taxa de reprodução baixa (estrategistas k) são muito mais vulneráveis do que espécies de tamanho médio ou pequeno, de maturidade sexual rápida e de taxa de reprodução alta. Nas várzeas do Solimões/Amazonas, que são bem mais férteis do que o Pantanal de Mato Grosso, os estoques de tartarugas, peixes-bois, jacarés e capivaras foram reduzidas pela caça e pesca indiscriminada praticada pelos imigrantes europeus, a um nível tal que colocou em poucas décadas o peixe-boi e as tartarugas à beira da extinção. A pesca artesanal e profissional reduziu os estoques de algumas espécies de porte grande e maturidade retardada e.g. do pirarucu (Arapaiama gigas) e do tambaqui (Colossoma macropomum), porém não danificou os estoques da maioria das espécies, que são de tamanho médio e de maturidade rápida com grande número de ovos (JUNK et al., 1977). Na Amazônia, a pesca nas áreas alagáveis é um fator econômico muito importante e seu potencial ainda não é utilizado completamente (BAYLEY e PETRERE JR. 1989). No

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Pantanal de Mato Grosso, estudos etnoecológicos no rio Cuiabá e suas áreas alagáveis mostram a importância da atividade pesqueira na sobrevivência de diversas comunidades tradicionais e a diversidade de estratégias desenvolvidas pelos pescadores, adaptadas às fases de águas altas e baixas (DA SILVA e FERNANDES, 1995).
ESTABILIDADE DO SISTEMA

Conforme o Conceito de Pulso de Inundação a força que regula o funcionamento de áreas alagáveis é o ciclo das inundações e secas. No Pantanal de Mato Grosso, plantas e animais são adaptados às enchentes e secas anuais. Irregularidades como as cheias e secas plurianuais extremas representam um estresse adicional para os organismos. A falta de dados sobre o impacto desses períodos às comunidades de plantas e animais nativas não permite uma avaliação detalhada, porém, as perdas da pecuária, tanto nas épocas das enchentes grandes, quanto nas épocas das secas pronunciadas, demonstram o aumento do estresse. Mesmo assim podemos constar que, enquanto o pulso de inundação não é modificado, a estrutura e o funcionamento do sistema são mantidos. Planos de manejo e desenvolvimento, que interferem com o pulso de inundação, como a construção de diques e canais de drenagem, canais de navegação (hidrovia), represas hidrelétricas grandes nos afluentes, modificarão de maneira fundamental o funcionamento do sistema. O mesmo acontecerá com modificações da carga sedimentar. O Pantanal de Mato Grosso possui um relevo relativamente plano com um complexo sistema de drenagem. Um aumento da carga sedimentar resultará em modificações da geometria hidráulica do sistema, bloqueando canais de drenagem Ponce. Bancos de sedimento de poucos metros de altura aumentarão consideravelmente as áreas permanentemente inundadas ou com solos encharcados, com mudanças drásticas da flora e fauna. A estabilidade do sistema também está ligada à quantidade dos nutrientes à disposição. A quantidade total de nutrientes dissolvidos e em suspensão, ligados às partículas de sedimentos introduzidos dentro do sistema do Pantanal de Mato Grosso por meio dos afluentes, é relativamente pequena e concentra-se nas áreas perto dos canais principais (FURCH e JUNK, 1980; Galdino et al., 1995; FIGUEREDO, 1996). Grandes áreas do Pantanal recebem pouco material em suspensão porque eles são lixiviados pela água de chuva. Essas áreas são altamente vulneráveis em respeito à retirada de nutrientes por meio de atividades agrícolas. A atividade agrícola somente seria possível com adubação adicional, porém o adubo seria lixiviado pela água durante as enchentes. A construção de diques para evitar a inundação evitaria a lixiviação, porém isso não somente acabaria com o pulso de inundação e com as características típicas da área cercada pelos diques, mas também afetaria as áreas adjacentes, que passariam a sofrer enchentes mais altas. As periódicas enchentes e secas forçam os animais a concentrar-se anualmente em pequenos refúgios, de altura mais elevadas do que a planície. Esses refúgios para animais terrestres durante as cheias são os capões (ilhas de matas circulares, mais elevadas que o nível da planície alagável) e as cordilheiras (cordões arenosos, com altura de 1 a 3 metros acima da planície alagável, coberta por vegetação de cerrado, cerradão e mata). Para os animais aquáticos, as lagoas permanentemente cheias de água e os canais dos rios servem como refúgio durante as

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secas. Mesmo assim, a mortalidade natural das populações durante esses períodos é muito elevada. Bonetto (1975) estima para a área alagável do baixo rio Paraná/Paraguai perdas de pescado em torno de 40.000l durante as secas anuais. Além disso, os estoques ficam extremamente vulneráveis para a atuação direta ou indireta do homem. Atualmente, devido à substituição natural de campos alagáveis por plantas invasoras arbustivas e arbóreas, está ocorrendo uma pressão sobre as cordilheiras, para aumentar a pastagem de gado, durante as cheias. Essa estratégia de manejo reduzirá os hábitats de populações de animais silvestres, dependendo das cordilheiras como refúgios durante as enchentes. Além disso, os animais tornam-se mais vulneráveis para coureiros e caçadores. As secas pronunciadas não somente provocam mortalidade elevada para os estoques dos animais aquáticos. A falta de água pressiona também os animais silvestres a concentrar-se nos poços d’água e canais restantes. Perdas elevadas por falta de água, predação elevada natural e caça indiscriminada impõem impactos pesados aos estoques e diminuem a resistência das populações.
A IMPORTÂNCIA DO PARAGUAI PARA O SISTEMA FLUVIAL PARANÁ-PARAGUAI

A maioria das grandes áreas alagáveis encontra-se ao longo dos cursos inferiores dos grandes rios. O Pantanal de Mato Grosso é um exemplo de grande área alagável nas cabeceiras de um sistema fluvial. As conseqüências hidrológicas e sedimentológicas dessa área para o sistema rio abaixo são óbvias. O Pantanal é uma grande bacia sedimentar onde os sedimentos dos afluentes são retidos e depositados. Além disso, o Pantanal também serve como filtro mecânico e biológico para resíduos antropogênicos, tais como agrotóxicos, poluentes domésticos e industriais, mercúrio dos garimpos, etc. Em respeito à descarga de água, o Pantanal atua como um grande sistema de tampão, que retarda a drenagem e diminui a amplitude do rio Paraná/Paraguai. A importância da estocagem de água durante vários meses em uma vasta planície inundável cercada por áreas de cerrado, ainda não é bem analisada. Sem dúvida alguma, o Pantanal causa grande impacto sobre o clima regional, tanto pela elevada taxa de evapotranspiração, que libera grandes quantidades de água para a atmosfera, quanto pelo efeito tampão de temperatura. Cem mil quilômetros quadrados cobertos com água a cerca de 30ºC produz um efeito tampão expresso grande para uma região onde a temperatura varia entre 0 e 45ºC. Os efeitos bioecológicos são ainda pouco entendidos. O conceito de pulso indica ciclos internos que mantêm nutrientes inorgânicos e material orgânico dentro do sistema. Esses ciclos não são completamente fechados e postulamos que o Pantanal serve como uma fonte de matéria orgânica para o curso inferior do rio Paraná-Paraguai. Faltam ainda estudos sobre a quantidade e qualidade do material exportado. A calha do rio Paraná/Paraguai é usada por animais aquáticos como caminho de migração. Não se conhece a magnitude do intercâmbio das populações de organismos entre o Pantanal e o baixo rio Paraná/Paraguai. Para o rio Amazonas grandes migrações de peixes de piracema ao longo da calha principal do rio e seus afluentes são comprovados (GOULDING 1980, RIBEIRO, 1983, JUNK et al., 1997).

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POSSIBILIDADES DE APROVEITAMENTO

Qualquer discussão sobre o desenvolvimento ou aproveitamento de uma região, de um ecossistema ou de recursos específicos dentro da região ou do ecossistema tem que considerar a relação custo-benefício de uma maneira ampla. As funções dessas unidades paisagísticas são múltiplas e complexas e o aproveitamento unilateral pode criar tantos efeitos laterais negativos, que o mesmo se torna antieconômico. Por exemplo, a relação custo-benefício do desmatamento de galeria ao longo de um rio dentro do Pantanal pode ser positiva do ponto de vista da companhia madeireira; considerando a diminuição dos estoques de peixes frutíferos de valor para o consumo humano, que perdem a sua fonte alimentícia, a relação custo-benefício já piora. Levamos em consideração ainda a maior instabilidade do leito do rio desprotegido pela vegetação, a diminuição da qualidade da água por causa da perda da função filtradora da vegetação, a diminuição de hábitats dentro da paisagem, a redução da biodiversidade e a diminuição da beleza paisagística, que tem grande influência para o turismo, a relação custo-benefício é reduzida de tal forma que o desmatamento da floresta de galeria deveria ser fora de qualquer discussão. O manejo sustentável de sistemas complexos como áreas alagáveis é extremamente complicado. O conceito de pulso de inundação demonstra as complexas interligações entre a fase aquática e a fase terrestre e a relação das áreas alagáveis e o sistema de drenagem da bacia hidrográfica e os ecossistemas terrestres nos arredores com quais eles interagem de múltiplas maneiras. No caso do Pantanal de Mato Grosso, nós temos uma longa tradição do aproveitamento desse sistema pelo homem, que pode ser considerado um dos poucos exemplos de um aproveitamento sustentável. Antes da ocupação da área pelos europeus, a população indígena já tinha colonizado a área e aproveitou-se dos recursos naturais sem destruí-los. Os europeus que chegaram ao Pantanal encontraram ricas e diversificadas flora e fauna. Pouco se sabe sobre os métodos de cultivo aplicados pelos índios, porém os “aterros de bugre” mostram a ocupação do espaço físico pela população indígena. Oliveira (1996) cita a ocorrência de 87 aterros no Pantanal de Abrobral e 48 entre os Pantanais do Nabileque e Miranda. Segundo esse autor, a grande parte dos aterros investigados apresentam ocupações cerâmicas, sugerindo que essas devem estar relacionadas a populações canoeiras, as quais poderiam permanecer, com mais freqüências nos aterros, durante o período das cheias. No caso dos guató, a alimentação estava baseada na pesca e na caça, utilizando-se de várias estratégias, descritas na documentação escrita de vários viajantes e pesquisadores citados em Oliveira (1996). A coleta de plantas, como o arroz nativo (Oriza latifolia) a palmeira acuri (Scheela phalerata) forno – d’água (Victoria amazonica), tarumã (Vitex cymosa), tucum (Bactris glaucescens), caraguatá (Bromelia interior), etc. Também foi observada entre os guató. A criação de animais domésticos não era conhecida, provavelmente com exceção do pato selvagem (Cairina moschata). Por isso, o desmatamento em grande escala dos hábitats florestados não era necessário. Os colonizadores europeus mudaram o sistema de manejo com a introdução da pecuária no Pantanal. Isso, porém, foi feito de uma maneira cautelosa, aproveitando-se principalmente dos pastos naturais que, no decorrer do tempo, foram gradativamente ampliados sem destruir

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a diversidade dos hábitats. A disponibilidade de carne de animais domésticos diminuiu a necessidade de aproveitar-se da caça, mantendo a alta densidade e diversidade de animais silvestres. O pulso de inundação contribuiu para manter o número das cabeças de gado por unidade de área baixo evitando a superutilização dos pastos. As condições peculiares do Pantanal resultaram em somente cerca de 200 anos no desenvolvimento de raças locais de gado bovino (gado baguá) e de eqüino (cavalo pantaneiro) adaptados às condições específicas de hábitats periodicamente inundados. Isso demonstra a importância de áreas alagáveis como centros de diversificação e seleção genética e a rapidez, com que organismos podem reagir aos fatores ambientais. Nos últimos anos cresceram as pressões econômicas de aumentar a produção de carne de gado. A possibilidade de aumento de número de cabeças por unidade de área é bastante limitada por causa da baixa produção dos pastos e a redução da área total durante as enchentes. A utilização de capões e cordilheiras para pastagem é prejudicial para o ecossistema, porque o desmatamento destrói hábitats com flora e fauna específicas, que têm função de refúgio para os animais silvestres durante as enchentes. O aumento da área de pasto poderia ser conseguido por meio da liberação da limpeza controlada dos campos ocupados por plantas invasoras (carvoeiro, algodoeiro). Considerando a falta de dados, essas atividades deveriam ser acompanhadas por estudos ecológicos para avaliar as suas conseqüências. A principal fonte dos problemas que o Pantanal está sofrendo atualmente, está relacionada ao mau aproveitamento das áreas de captação dos afluentes. O aumento da carga sedimentar dos afluentes por causa da mineração (ouro, diamante), e dos projetos agroindustriais sem proteção adequada contra a erosão modificará grandes áreas do Pantanal ao longo dos rios afetados. O assoreamento e as constantes mudanças nos leitos dos rios Taquari e São Lourenço representam as conseqüências do uso inadequado da área de captação da bacia desses rios. Impactos mais acentuados e irreversíveis podem ser esperados com a Hidrovia ParanáParaguai, cujas obras irão refletir na aceleração do fluxo d’água, modificando o regime hidrológico do sistema, mudando com isso o fator principal, que regula as estruturas e funções do ecossistema. Recentemente, a poluição do Pantanal com mercúrio proveniente dos garimpos de ouro foi amplamente discutida. Estudos realizados na área de Poconé, no rio Bento Gomes, mostram a poluição pontual ao longo dos riachos que passam pelos garimpos e ao redor dos depósitos de resíduos poluídos com mercúrio. Segundo Nogueira et al. (no prelo) os maiores valores de concentração de mercúrio total na água alcançaram 37,4ng.L -1 (valores próximos ou mais baixos do que o valor de background), no material em suspensão, 177 ng .g -1 e nos sedimentos , 103 ng .g -1. Os sedimentos superficiais da baía Piuval, formada pelo alargamento do rio Bento Gomes, concentram até 151 ng.g-1, funcionando como uma área de deposição do mercúrio. A base de dados ainda não é suficientemente clara sobre as espécies químicas de mercúrio que predominam na entrada e na saída dessas áreas de inundação. A planície inundável atua como um filtro, no qual o mercúrio fica depositado. Porém esse filtro, somente atua temporariamente. Segundo Nogueira et al. (no prelo), as áreas alagáveis

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do rio Bento Gomes representam um local importante de retenção de mercúrio, retendo 26% do que é transportado pela água e 41% pelo material em suspensão. Sedimentos contaminados com mercúrio durante as cheias ficam expostos ao ar livre durante a fase seca (VON TÜMPLING, 1995). Uma parte evapora por causa do aquecimento da superfície do solo pelo sol, outra parte entra por meio das raízes dentro das plantas, crescendo na planície durante a seca e pode ser incorporada pelos consumidores. Callil (1996) mostrou a incorporação do mercúrio nos organismos de Gastropodas e Bivalves; e que a espécie Pomacea escalaris apresentou maiores níveis de mercúrio total em seus tecidos, quando comparada às outras espécies, apresentando os valores mais altos na época de cheia, quando quantidades mais altas de mercúrio são transportadas. Por outro lado o material que não é consumido libera o mercúrio para a atmosfera, durante as freqüentes queimas ou dentro da água durante a decomposição na fase aquática. Por isso, a planície inundável não pode ser considerada um depósito permanente de mercúrio. Os mecanismos de diluir o nível de poluição podem ser considerados uma maneira de eliminar o problema de intoxicação local ao longo do tempo por meio da distribuição em áreas maiores. Porém esse mecanismo de autolimpeza somente funciona enquanto a quantidade total de mercúrio é relativamente pequena. Se ela for grande, a distribuição pode resultar em uma intoxicação crônica de baixo nível de grandes áreas, longe dos locais da poluição. Uma limpeza por meio de métodos de saneamento seria impossível por causa do baixo nível de poluição e do tamanho da área afetada. Segundo Nogueira et al. (no prelo), uma avaliação rápida da contaminação humana com mercúrio já indica que as pessoas que trabalham na queima do mercúrio estão sujeitas a acumular valores mais altos desse metal pesado do que outros trabalhadores que não estão expostos à atividade de queima do mercúrio.

CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
O pantanal mato-grossense é uma área alagável, caracterizada por uma grande diversidade de hábitats, espécies e processos. Por isso ele é de alto valor ecológico e merece prioridade na política nacional em respeito ao regulamento para o seu uso e à proteção ambiental. Dentro do conjunto de hábitats existem vários tipos que, apesar do tamanho pequeno, têm fator chave para a manutenção da diversidade biológica do sistema, tais como capões e cordilheiras, lagos permanentes, riachos, ninhais de pássaros, etc. A sua função é pouco conhecida e necessita estudos adicionais para a elaboração de um regulamento específico para o seu uso apropriado e a sua proteção. A ecologia da região é determinada pelo pulso de inundação, que por sua vez é determinado pela geometria hidráulica do sistema. A geometria hidráulica inclui a quantidade total e a periodicidade das descargas dos rios e o seu fluxo pela planície inundável, a forma dos leitos dos rios e a carga sedimentar. Qualquer modificação da geometria hidráulica do sistema resultará em alterações do ecossistema. Considerando o baixo relevo da planície inundável, modificações do pulso de poucos metros afetarão grandes áreas do Pantanal de maneira profunda, modificando a sua estrutura e as suas funções.

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A entrada de nutrientes por meio dos afluentes é relativamente baixa e restringe-se às áreas perto das margens dos rios principais. A lixiviação dos nutrientes pela inundação com água de chuva é fator limitante para a produtividade em grandes áreas do Pantanal. Isso é fator de estresse para o sistema e fator limitante o seu aproveitamento. O alto nível de adaptações das plantas e animais ao pulso de inundação resulta em uma alta eficiência do sistema de reciclar nutrientes. Isso sugere uma alta produtividade do sistema. Essa produtividade, porém, somente pode ser aproveitada pelo homem quando ele não exporta nutrientes em grande escala e quando ele não interrompe a complexa reciclagem de nutrientes dentro do sistema. Nesse sentido, o aproveitamento do pantanal mato-grossense é sujeito a restrições similares às da floresta Amazônica. O Pantanal é sujeito a situações extremas de estresse hídrico, tanto durante a fase aquática por excesso de água, quanto durante a fase seca por falta de água. O estresse é aumentado pelas fases plurianuais de secas e enchentes grandes, que causam impactos severos às populações de plantas e animais. Durante a fase seca, queimadas aumentam o estresse ainda mais. Isso requer uma grande capacidade de resistência dos organismos às perturbações. A atuação antrópica tem que considerar essa situação e evitar qualquer estresse adicional, que poderia ultrapassar a capacidade de suporte de estresse do sistema, tais como exportação de nutrientes em grande escala, modificações do sistema hidrológico, destruição de hábitats-chaves, intoxicação por resíduos agroindustriais, mineração, etc. O Pantanal atua como um sistema gigantesco de tampão para a região. Ele regula não somente a hidrologia do rio Paraguai abaixo, mas influência também tanto a umidade quanto a temperatura do clima regional, pela evapotranspiração de grandes quantidades de água. Além disso ele funciona como um sistema gigantesco de retenção de sedimentos e como um filtro biológico para resíduos orgânicos e nutrientes oriundos dos afluentes. O uso tradicional do Pantanal é um bom exemplo para a possibilidade do aproveitamento sustentável de um ecossistema tropical complexo e frágil. Ele mudou as comunidades florísticas de uma maneira cuidadosa para otimizar a produção de carne bovina sem interferir com o regime hidrológico em maior escala nos ciclos de nutrientes, mantendo a diversidade de hábitats, espécies e processos. A pressão econômica atual para o aumento da produtividade das fazendas tende a mudar essa estratégia. No entanto, é preciso procurar outras alternativas para otimizar o manejo tradicional e combiná-lo com outros meios para conseguir uma renda adicional, tais como ecoturismo, aproveitamento de plantas e animais ornamentais e medicinais, aproveitamento dos animais silvestres por meio de caça e pesca controlada, cultivo de peixes e outros animais silvestres, etc. Caso contrário, o sistema Pantanal sofrerá modificações drásticas perdendo o seu valor para os seus moradores, os Estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o Brasil e a humanidade.

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INTRODUÇÃO ÀS TÉCNICAS DE SENSORIAMENTO REMOTO
William Tse Horng Liu
Universidade Católica Dom Bosco (UCDB/MS)

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FUNDAMENTO TEÓRICO
INTRODUÇÃO

Sensoriamento Remoto (SR) é definido como uma técnica de aquisição e de aplicações das informações sobre um objeto sem nenhum contato físico com ele. Os sensores do satélite captam as energias eletromagnéticas da superfície do Planeta sem contato com o mesmo, e são considerados como sensores que adquirem as informações pelas técnicas de sensoriamento remoto. A informação é adquirida pela detecção e medição das mudanças que o objeto impõe a um campo na sua redondeza, que podem ser uns campos eletromagnéticos, acústicos ou potenciais. Esse sinal pode incluir um campo eletromagnético emitido e/ou refletido, ondas acústicas refletidas e/ou perturbadas pelo objeto ou as perturbações do campo de gravidade ou potencial da magnética com a presença do objeto. A origem do sensoriamento remoto está ligada às experiências de Newton (1672) que constatou que um raio luminoso (luz branca), ao atravessar um prisma, desdobrava-se num feixe colorido – um espectro de cores. Posteriormente, descobriram que cada cor decomposta no espectro correspondia a uma temperatura diferente e que a luz vermelha incidindo sobre um corpo aquecia-o mais do que a violeta. Além do vermelho visível, existem radiações invisíveis para os olhos, que passaram a ser ondas, raios ou ainda radiações infravermelhas. Sempre avançando em seus experimentos os cientistas conseguiram provar que a onda de luz era uma onda eletromagnética, mostrando que a luz visível é apenas uma das muitas diferentes espécies de ondas eletromagnéticas.

ENERGIA ELETROMAGNÉTICA
Uma onda de energia eletromagnética consiste de um campo acoplado pelas forças elétricas e magnéticas. No espaço livre, o campo elétrico é perpendicular ao magnético e ambos são perpendiculares à direção da propagação da onda eletromagnética. A Figura 1.1 mostra os campos elétricos e magnéticos da onda eletromagnética e a sua direção de propagação. A polarização de uma onda eletromagnética, em geral, é definida pela figura geométrica que o vetor do campo elétrico descreve no espaço. As configurações das polarizações consistem de polarização linear, polarização circular e polarização elíptica. A polarização linear pode ser horizontal ou vertical.

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Figura 1.1. Campos elétricos (E) e magnéticos (M) da onda de energia eletromagnética e a sua direção da propagação

A velocidade de propagação da onda eletromagnética no vácuo é a velocidade da luz (3 x 108 m/s). O número de ondas que passa por um ponto do espaço em um determinado tempo define a freqüência (f ) da radiação. A freqüência de onda é inversamente relacionada ao comprimento da onda, quanto maior a freqüência, menor o comprimento da onda. A velocidade de propagação (v) em um dado meio é constante. A onda eletromagnética pode também ser caracterizada pelo comprimento de onda (_) que pode ser expresso pela equação:

Geralmente a aquisição de informações é baseada na captação dos sinais eletromagnéticos que cobrem o espectro inteiro das ondas eletromagnéticas desde a onda longa de rádio, por meio das microondas, submilímetro, infravermelho, infravermelho próximo, visível, ultravioleta, raios X até raios-gama (Figura 1.2). Na prática, os quatro processos: emissão, absorção, reflexão e transmissão ocorrem simultaneamente e suas intensidades relativas caracterizam a substância em investigação. Dependendo das características físicas e químicas da mesma, aqueles quatro processos ocorrem com intensidades diferentes em diferentes regiões do espectro. Esse comportamento espectral das diversas substâncias é denominado assinatura espectral e é utilizado em Sensoriamento Remoto para distinguir diversos materiais entre si. Todos objetos acima de zero grau absoluto têm suas assinaturas espectrais singulares. Exatamente, os cientistas usam essas propriedades para distinguir os objetos na superfície terrestre.

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Figura 1.2. Espectro de energia eletromagnética

EFEITOS ATMOSFÉRICOS NA PROPAGAÇÃO DA RADIAÇÃO ELETROMAGNÉTICA

Quando se coleta um dado por meio de um sensor remoto, seja no nível de satélite ou aeronave, o sinal coletado é a radiação solar que penetra a atmosfera até atingir o alvo e retorna ao sensor interagindo novamente com a atmosfera. Mesmo que o sinal medido seja a radiação emitida pelo alvo, ela interage com a atmosfera até atingir o sensor. Existem faixas do espectro eletromagnético para as quais a atmosfera é opaca, ou seja, não permite a passagem da radiação eletromagnética. Essas faixas definem as “bandas de absorção da atmosfera”. As faixas do espectro eletromagnético em que a atmosfera é transparente à radiação eletromagnética proveniente do Sol são conhecidas como “janelas atmosféricas”. Os sensores são desenhados para captar os sinais nas janelas atmosféricas para minimizar as interferências atmosféricas. Assim, devemos sempre considerar os seguintes fatores associados à atmosfera, os quais interferem no Sensoriamento Remoto: absorção, efeitos de massa de ar, espalhamentos devido a moléculas gasosas ou partículas em suspensão, refração, turbulências, emissão de radiação pelos constituintes atmosféricos.
SISTEMAS SENSORES

Todos os materiais e fenômenos naturais absorvem, transmitem, refletem e emitem seletivamente radiação eletromagnética. Com o desenvolvimento atual é possível medir, com razoável precisão, e a distância, as propriedades espectrais daqueles materiais e fenômenos. Qualquer sistema sensor apresenta os seguintes componentes necessários para captar a radiação eletromagnética (Figura 1.3).

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Figura 1.3. Componentes de um sistema sensor

Os sensores podem ser classificados em função da fonte de energia ou em função do tipo de produto que ele produz, em função da fonte de energia: sensores passivos e ativos; e em função do tipo de produto: não-imageadores e imageadores. Os imageadores não-fotográficos (sistema por varredura) vieram a cobrir a lacuna deixada pelos problemas inerentes ao uso até então mais difundido do dispositivo óptico sensor – a câmara fotográfica. Esta, apesar de apresentar condições mais fáceis de operação e custos, apresenta uma limitação em captar a resposta espectral, devido aos filmes que cobrem somente o espectro do ultravioleta próximo ao infravermelho distante. Também esse tipo de sensor limita-se às horas de sobrevôo e devido a fenômenos atmosféricos não permitem freqüentemente observar o solo a grandes altitudes. Como os dados desses sensores não-fotográficos são coletados sob forma de sinal elétrico, eles poderão ser facilmente transmitidos para estações distantes, onde um processamento eletrônico fará sua análise discriminatória. A Tabela 1 apresenta uma análise comparativa dos sensores fotográficos e imageadores por varredura.
Tabela 1. Análise comparativa dos sensores fotográficos e imageadores por varredura

* maior vantagem sobre a outra

SISTEMAS DE SATÉLITES

Existem dois tipos de satélites: satélites geoestacionários (geosincronizados) e satélites de órbita polar (solar-sincronizados). Para suas aplicações, são classificados três tipos de satélites: satélite de comunicações, satélites meteorológicos e satélites de recursos ambientais. Os satélites de comunicações e satélites meteorológicos, tais como Goes, Meteosat e GPS são satélites geoestacionários. Os satélites geoestacionarios são posicionados de um ponto fixo no

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espaço que se sincroniza com a rotação da Terra e sempre se estaciona em um ponto geográfico da superfície da Terra. Os satélites de órbita polar, tais como Landsat, Spot e Noaa, estão circulando do pólo ao pólo do globo com um ângulo de 92º cruzando o plano da linha do equador. Os satélites de monitoramento de recursos ambientais, tais como da série Landsat, que foram lançados pelos Estados Unidos, são destinados para explorar os recursos do planeta Terra. Desde o ano 1972, foram lançados uma série de Landsat: 1, 2, 3, 4, 5 e 7. O programa Spot foi planejado e projetado desde o início como um sistema operacional e comercial de observação da Terra ( Spot – Satellite Pour l'Observation de la Terre). O Spot foi lançado no dia 22 de fevereiro de 1986. Estabelecido por iniciativa do governo francês em 1978, com a participação da Suécia e Bélgica, o programa é gerenciado pelo Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES), que é o responsável pelo desenvolvimento do programa e operação dos satélites. Desde de 1986, já foram lançados com sucesso os Spot 1, 2, 3, 4 e 5. Conseqüentemente, foram lançados vários satélites de alta resolução espectral dos sensores pancromáticos (pan) que varia de 0,61 a 6,6 m, tais como: IRS-1A com resolução de 5, 8 m, lançado em 1988, IRS-1B, lançado em 1991, e IRS-1C, lançado em 1995, Ikonos II pan com resolução espacial de 1 m, lançado no dia em 24 de setembro de 1999, Kompsat I pan com resolução de 6,6 m, no dia 21 de dezembro de 1999, Eros A1 pan de 1,8 m, no dia 5 de dezembro de 2000, Quickbird I pan com resolução de 1 m, lançado em novembro de 2000, e Quickbird II pan de 0,61 m, em dezembro de 2001. Brasil, pela cooperação com a China, lançou o CBERS 1, no dia 10 de outubro de 1999, e o Cbers 2, no dia 21 de outubro de 2003. Os demais satélites e as características de sistema e sensores dos satélites podem ser encontradas nas várias websites: www.inpe.br www.geodecision.com.br www.intersat.com.br www.engesat.com.br www.nesdis.noaa.gov O Sistema Brasileiro de Recepção de Dados de Satélite compõe-se de uma Estação de Recepção, implantada em Cuiabá e operando desde 1973. Essa estação de recepção está localizada no centro geográfico da América do Sul, o que permite a aquisição de dados, sobretudo, do território brasileiro e parte do território dos países limítrofes. Outro componente do sistema brasileiro de recepção de dados de satélite é o laboratório de processamento eletrônico e fotográfico dos dados coletados pelos sensores a bordo dos satélites, localizado em Cachoeira Paulista-SP. Em Cuiabá, os dados são recebidos por uma antena parabólica e gravados em fitas magnéticas de alta densidade (High Density Digital Magnetic Tape- HDDT). Estas fitas são então enviadas para Cachoeira Paulista – São Paulo. O laboratório de processamento de imagens em Cachoeira Paulista tem a função de transformar os dados recebidos pelas estações de recepção em imagens fotográficas, fitas magnéticas compatíveis com o computador (CCTComputer Compatible Tapes, Streamer, Dat) ou discos ópticos (CD-ROM).

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BIBLIOGRAFIA
CAMPBELL J. B. Introduction to Remote Sensing. New York: The Guilford Press, 1987. 551 p. CIHLAR J.; D. MANAK; N. VOISIN. AVHRR Bidirectional Reflectance Effects. Rem. Sens. Environ., n. 48, p. 77-88, 1994. COLWELL R. N. Basic Matter and Energy Relationships Involved in Remote Reconnaissance. Potogrametric Engineering, n. 29, p. 61-799, 1963. ELACHI, C. Introduction to the Physics and Techniques of Remote Sensing. New York: John Wiley & Son, 1987. 512 p. EVLIYN M. L. de M. N. Sensoriamento Remoto: princípios e aplicações. São Jose dos Campos, SP: Inpe/MCT, 1988. 363 p. GERSTL, S. A. W. Physics Concepts of Optical and Radar Reflectance Signatures. Int. J. Rem. Sens. n. 11, p. 1109-1117, 1990.

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ANÁLISE DE ASSINATURA ESPECTRAL NA IDENTIFICAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DE IMAGEM
INTRODUÇÃO

Devido ao alto custo das imagens de alta resolução, a maioria dos usuários usa as imagens de Landsat e Spot. Recentemente, as imagens do CBERS são disponíveis gratuitamente. Esses satélites têm resolução variam de 10 a 30 m que significam a refletância da superfície de um pixel, cobrindo uma área de 100 a 900 m2, é o valor da soma das refletâncias de inúmeros objetos em diferentes formas de uma determinada imagem de Spot ou Landsat dentro desse pixel. A mistura de vários objetos em uma superfície heterogênea dificulta sua identificação e classificação. Nas bibliografias, os softwares atualmente disponíveis, tais como Spring, ArcView, Erdas, Idrisis, Envi e PCI, oferecem inúmeros métodos de identificação, delineamento e classificação das imagens. Todos esses métodos encontram a dificuldade de estimar a composição dos objetos dentro de um pixel de mistura. Portanto, a maioria dos métodos ainda não alcança uma acurácia satisfatória. Além disso, as informações dos recursos geológicos e hídricos subterrâneos interpretadas pelas imagens de satélites são inferidas pelas suas características da superfície que requerem uma validação rigorosa em campo. Portanto, as imagens de satélites ainda são impossíveis substituir totalmente as informações obtidas pelos levantamentos convencionais em campo. As vantagens de utilização das imagens de satélites incluem baixo custo, monitoramento contínuo da evolução dinâmica, e identificação e delineamento rápido das áreas de usos do solo no gerenciamento de recursos ambientais e monitoramento dos eventos desastrosos para tomar ações adequadas para minimizar os danos. Este capítulo apresenta uma análise profunda da composição de um pixel, que possui a mistura de dois tipos de superfície, tais como vegetação e solo, de acordo com a teoria de que qualquer objeto com a temperatura acima de zero grau absoluto tem sua assinatura singular no espectro de energia eletromagnética. A Figura 2.1 mostra as assinaturas de vários tipos de superfície, tais como água, solos, gramas, asfalto e concreto. A superfície das gramas tem maior refletância na faixa de 0,75 a 0,9 mm e a água tem quase zero refletância na mesma faixa. Caso o sensor de um satélite capta refletância na faixa de 0,75 a 0.9 mm, isto facilita a identificação da superfície de água e gramas. Essa banda é chamada banda-chave para descriminar a superfície de gramas e água. Portanto, as bandas espectrais dos sensores de satélites são desenhadas nas faixas espectrais-chave que facilitam a discriminação dos diferentes objetos na superfície terrestre. Os exercícios em seguida demonstram a utilização da teoria de assinatura espectral singular para resolver os pixels transitórios entre dois tipos de superfície.

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Figura 2.1. Assinaturas espectrais de vários tipos de vegetação

Devido à disponibilidade e o custo alto de imagens de satélites, as imagens de Landsat são mais adquiridas pelos usuários. Neste capítulo, as imagens de Landsat 7 ETM+ serão usadas para demonstrar a aplicação da assinatura espectral na identificação e classificação dos diferentes objetos e na análise dos pixels confusos que incluem vários objetos na superfície terrestre. O conhecimento da técnica apresentada neste capítulo é fundamental para selecionar um software mais adequado para a classificação de usos de solo das imagens. Antes de comparar as assinaturas espectrais dos diferentes objetos, é necessário de conhecer as principais características e aplicações das bandas TM do satélite Landsat que são listadas a seguir. • TM-1 (Thematic Mapper Channel 1 – 0,45 a 0,52 mm) – Nas clorofilas das folhas verdes, as faixas azul (0,45 mm) e vermelha (0,68 mm) absorvem até 90% e a faixa verde (0,55 mm) absorve pouco menos. A faixa de 0,45 mm é mais sensível à concentração de clorofila que a faixa de 0,55 mm no monitoramento da plantação de pastagem. A refletância dessa faixa TM-1 também pode ser integrada na identificação do solo. • TM-2 ( 0,52 a 0,62 mm ) – A refletância dessa faixa aumenta quanto à concentração dos pigmentos, tais como clorofila, carotenóides e antocianinas, diminuem. Em geral, qualquer perturbação fisiológica que retarda o crescimento e desenvolvimento da cultura resulta o aumento da refletância. • TM-3 ( 0,63 a 0,69 mm ) – Nessa faixa vermelha, a clorofila absorve em cerca de 70% a 90%. O maior contraste da refletância espectral nos diferentes tipos do solo ocorre nessa faixa. Isso é um critério importante para a identificação e classificação do solo. • TM-4 ( 0,76 a 0,90 mm ) – A alta refletância nessa faixa de infravermelho próximo infere a planta saudável em pleno vigor do crescimento e o baixo valor indica que a planta não é sadia.

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• TM-5 ( 1,55 a 1,75 mm ) – A diminuição do conteúdo da água aumenta a refletância nessa faixa. As plantas com o armazenamento da água abundante têm alta absorção nessa faixa. A identificação do tipo da vegetação pode ser feita com essa faixa junto com a faixa TM-7. • TM-7 ( 2,08 a 2,35 mm ) – O aumento do conteúdo da água nos tecidos da folha diminui a refletância nessa faixa. As plantas de madeira podem ser separadas com as plantas suculentas usando as faixas de 1, 3, 1,6 e 2,2 mm. • TM-6 ( 10,4 a 12,5 mm) – A amplitude da temperatura diurna e noturna correlaciona bem com a umidade do solo em uma região específica.
COMPARAÇÃO DAS ASSINATURAS DE REFLETÂNCIAS ESPECTRAIS EM CINCO TIPOS DE SUPERFÍCIE TERRESTRE

Inicialmente foram coletados dados de imagem Landsat 7 ETM+, com combinação de bandas 5, 4, 3, das seguintes classes: áreas de solo descoberto, queimadas, urbana, água e vegetação. Para cada classe foram coletados 10 pixels por banda. Para cada banda foram calculados a média dos níveis de cinza, que varia entre 0 e 255, e o desvio-padrão e o erro-padrão da média. Para cada banda, e em cada classe, foram calculadas as médias ± o desvio-padrão. As Figuras 2.2 a 2.6 mostram as imagens tiradas do Landsat 7 ETM+, em novembro de 1999, para a comparação das refletâncias espectrais das superfícies de queimadas, urbana, solo, água e vegetação, respectivamente. A Figura 2.7 mostra as assinaturas espectrais distintas obtidas pelos valores de refletâncias espectrais das 7 bandas do Landsat para as superfícies de queimadas, urbana, solo, água e vegetação. Nas bandas 1, 2 e 3, a vegetação e a área de queimadas apresentam comportamento semelhante: alta absorção e baixa refletância. Nessa mesma banda, solo e água também respondem de forma semelhante, porém com maior refletância do que vegetação e queimadas. Porém, a área urbana é a que melhor responde nessa faixa espectral.

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Figura 2.2. Área de queimadas obtida pelo Landsat 7 ETM+, composta de RGB 5/4/3

Figura 2.3. Área urbana obtida pelo Landsat 7 ETM+, composta de RGB 5/4/3

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Figura 2.4. Área de solo descoberto obtida pelo Landsat 7 ETM+, composta de RGB 5/4/3

Figura 2.5.Área de superfície de água obtida pelo Landsat 7 ETM+,composta de RGB 5/4/3

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Figura 2.6. Área de vegetação obtida pelo Landsat 7 ETM+, composta de RGB 5/4/3

Figura 2.7. Comparação das assinaturas de refletância espectral dos 5 tipos de superfície: queimadas, urbana, solo, água e vegetação obtidas pelo Landsat 7 ETM+, 1999

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Na banda 4 as classes comportaram-se distintamente, com diferentes porcentagens de refletância, sendo que a água é a que mais absorve a energia eletromagnética, e a vegetação é a que mais reflete, portanto, a melhor banda para analisar a tipologia vegetação. Na banda 5, a água é a que mais absorve, ou seja, menos responde na curva. A área urbana e o solo são as classes que mais respondem, e as áreas queimadas e vegetação confundem-se, porém com baixa refletância. Na banda termal (banda 6), a refletância é alta para todas as classes, porém é a melhor banda para observar focos de queimadas.
ANÁLISE DE PESOS DOS PIXELS MISTOS TRANSITÓRIOS ENTRE SOLO,ÁGUA E VEGETAÇÃO

Inicialmente foram coletados dados de imagem Landsat 7 ETM+, com combinação das bandas 5, 4, 3, onde foram coletados 6 pontos em locais escolhidos aleatoriamente e distribuídos na área de pesquisa por meio de zoom nessa imagem, sendo esses dados representados em uma área de transição entre dois tipos de superfície seqüencialmente. Para cada classe foram coletados, portanto a mesma quantidade de amostras, isso é, valores de 6 pixels, por banda. O objetivo deste trabalho é identificar a porcentagem de cada classe nos pixels mistos transitórios entre: água/solo, solo/vegetação e água/vegetação. Para os pixels transitórios foi calculada a porcentagem de reflectância de cada classe que está compondo o pixel analisado, isso é, a mistura entre as classes. Por exemplo, em um pixel transitório entre solo e água, foi calculada a porcentagem de solo e a porcentagem de água presentes naquele pixel. A Figura 2.8 mostra a imagem transitória de solo e água.
Figura 2.8. Área transitória de solo e água: a imagem Landsat 5/4/3

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Nas análises feitas dos 6 pontos coletados na imagem (Figura 2.9) podemos concluir que houve um ponto de encontro entre as seqüências 1, 2 e 4 onde se identificaram na banda 4 podendo assim ser chamado de pixel confuso entre os valores. Outra confusão encontra-se na banda 5, onde as seqüências 5, 6 e 1 confrontam-se com baixa refletância causando uma confusão entre os pontos e as bandas e, por final, na banda 7 ocorre o pico de refletância entre todas as seqüências, podendo assim considerar um baixo índice de absorção pela superfície existente.
Figura 2.9.Análise de pesos dos pixels mistos transitórios entre solo e água

A Figura 2.10 mostra a imagem transitória de vegetação e solo. Ocorre que na banda 4 existe a concentração de várias seqüências podendo se confundir de forma a alterar a refletância e assim não ocorrer a identificação do pixel existente. Na banda 5 existe a divisão das seqüências em duas partes – o pico de refletância nas seqüências 5 e 6 e queda da mesma nas seqüências 1, 2 e 4. Outro fator importante que podemos destacar na banda 7, onde todas as seqüências alcançam seus limites extremos ou seja seu pico em relação à refletância e o decréscimo das mesmas na banda 8 chamada de pancromática (Figura 2.11).

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Figura 2.10. Área transitória de vegetação e solo: a imagem Landsat 5/4/3

Figura 2.11.Análise de pesos dos pixels mistos transitórios entre vegetação e solo

A Figura 2.12 mostra a imagem transitória de água e vegetação. Ocorre na banda 4 a primeira confusão entre as seqüências 3, 4, 5 e 6 onde ocorre o pico de refletância dessas curvas. Na banda 5 ocorre a absorção em grande quantidade das seqüências 1 e 2 e bruscamente na banda 7 todas as bandas alcançam o segundo maior nível de refletância para depois decaírem de forma unificada na banda 8, também chamada de pancromática, seguindo o linear de absorção existente na imagem (Figura 2.13).

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Figura 2.12. Área transitória de água e vegetação: a imagem Landsat 5/4/3

Figura 2.13. Análise de pesos dos pixels mistos transitórios entre vegetação e água

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MONITORAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS
INTRODUÇÃO

Os processos hidrológicos variam rapidamente em espaço e tempo. Esses processos envolvem os ciclos hidrológicos ocorrendo na atmosfera, na superfície, no subterrâneo e os fluxos entrando e saindo nesses meios. As medições destas tinham sido alcançadas principalmente pelas medições pontuais ínsito no campo e por meio da simulação numérica. As estações limitadas de observação em campo freqüentemente não representam as mudanças espaciais dos processos hidrológicos e resultam as incertezas nas medições. As informações de sensoriamento remoto via satélite fornecem os dados de observação com altas freqüências espacial e temporal cobrindo uma imensa área. Geralmente, os dados coletados na superfície não coincidem com os dados via satélite. Uma alternativa é feita, extrapolação espacial dos dados da observação ínsito à região inteira pela correlação entre ínsito e via satélite. Apesar de os dados via satélite serem menos precisos, fornecem melhor estimativa em grande área com maior eficiência e menor custo. Sensoriamento remoto hidrológico estuda os recursos hídricos da terra utilizando a radiação Eletro Magnética – EM emitida ou refletida na faixa do comprimento da onda entre 0,3 mm a 3 mm, dentro dessa faixa do comprimento da onda, onde, a maioria dos instrumentos grava as variações espaciais da radiação EM nas diferentes bandas vindas da superfície da terra. Os hidrólogos devem entender as características da superfície e seus efeitos dos elementos na passagem enérgica da energia EM para poder avaliar corretamente os dados obtidos via satélite. A interpretação da imagem envolve o delineamento e a identificação dos padrões radiométricos da imagem, que correspondem à geomorfologia da terra, linhas de drenagem, e tipos da cobertura. A análise geoidrológica da imagem é uma das mais difíceis técnicas da interpretação dos dados de sensoriamento remoto. Geralmente, as propriedades subterrâneas são interpretadas pela observação das características da radiação EM obtida na superfície.
INTERAÇÃO ENTRE LUZ E ÁGUA

A interação entre luz e água pode ser resumida pela equação 3.1:
Iinc = Isup+ Iabs+ Iref (3.1)

Onde:

Iinc = Intensidade de luz incidente à superfície da água; Isup = Intensidade de luz refletida diretamente pela superfície da água quando chega à superfície da água; Iabs = Intensidade de luz absorvida pela água; Iref = Intensidade de luz penetra a água é refletida fora da superfície da água que é registrada pelo sensor do satélite.

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A refletância pela superfície da água é igual em todos comprimentos da onda EM que muda somente o nível absoluto da intensidade da energia EM recebida pelos sensores dos satélites. A parte da energia solar incidente, que não foi refletida pela superfície, penetra a água que muda sua direção causada pela refração. Essa parte de radiação sofre o espalhamento e absorção causada pela impureza da água, chega ao fundo, reflete pelo fundo, penetra a água de novo e sai a superfície da água. Essa porção da radiação solar entra e sai da água é a que os sensores medem para monitorar as propriedades dos recursos hídricos. As características espectrais da absorção e espalhamento das matérias orgânica e inorgânica na água são distintas e utilizadas para prognosticar a profundidade e mesmo a qualidade da água. No caso da água limpa e rasa, a luz espalhada pela água é refletida pelo fundo que é relativamente fácil de ser detectada. A detecção do fundo para a estimativa da profundidade da água depende das condições de cor, turbidez, características da superfície do fundo, e a intensidade da luz que se mantém uniforme na água.
ESTIMATIVA DE ÁREA SUPERFICIAL DA ÁGUA

O delineamento da localização e extensão espacial da superfície da água pode ser feito com boa precisão, utilizando os dados obtidos nas faixas de infravermelho próximo e microondas. A precisão de estimativa da área ocupada pela água depende do ângulo de visada do sensor e do tamanho de um pixel, por exemplo: a resolução dos sensores dos satélites. A superfície da água limpa com alguns metros de profundidade absorve quase totalmente a faixa de infravermelho próximo. A faixa visível pode fornecer algumas informações sobre as condições físicas nas lagoas, rios e terra úmida. O método de estimativa da área de água mais usado é o método de pixel misto que utiliza as características espectrais dos sensores multicanais.
MONITORAMENTO DA ÁGUA SUBTERRÂNEA

O monitoramento da água subterrâneo via satélite é complicado porque água subterrânea não pode ser retratada pelos sensores do satélite. Suas aplicações somente podem ser feitas por meio das interpretações dos dados que retratam os fenômenos da superfície. Os hidrólogos geralmente inferem as condições da água subterrânea baseadas nos indicadores da superfície, tais como: fisionomias e estruturas geológicas aéreas, distribuição e tipos de vegetação, características das correntezas dos rios, anomalias dos tipos e da umidade do solo, cobertura descontínua de neves nos rios, fontes, nascentes, etc. As informações da área de interesse são indispensáveis para validação dos métodos empregados para suas interpretações. A resolução espacial é um fator crucial para a exploração dos recursos hídricos subterrâneos via satélite. O monitoramento dos recursos hídricos locais requerer uma resolução de alguns metros e o monitoramento regional requerer uma resolução mais grosseira. As imagens cinzas das bandas 5 (0,6 a 0,7 mm) e 7 (0,8 a 1,1 mm) dos sensores MSS do Landsat são utilizadas para localizar os aqüíferos. A banda 6 (0,7 a 0,8 mm) é útil para detectar o padrão da umidade do solo e a banda 4 (0,5 a 0,6 mm) é útil para identificar a vegetação. Uma imagem colorida produzida pela composição dessas bandas é mais utilizada para a interpretação da água

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subterrânea. Várias características podem ser identificadas baseadas nessa imagem colorida para localizar a presença dos aqüíferos. É importante adquirir uma imagem que facilita as identificações dessas características. Isso depende muito da época do ano e das condições climáticas que fornecem melhores informações, considerando os fatores como: baixo ângulo da elevação solar, área máxima do solo nu, padrões de drenagem, derretimento de neves e umidade do solo, tipo e densidade de vegetação nativa, lagoas, estação seca, e litologias em terreno glaciado. Naturalmente, as rochas consolidadas contêm água subterrânea na profundidade rasa, mas a abundância da água subterrânea depende do tipo da rocha e da quantidade e intensidade da fratura que se aparecem na superfície. Algumas características que são importantes para detectar o aqüífero utilizando as imagens do Landsat: • Tipo da rocha exposta que varia com relevo, forma da drenagem, distribuição de lagoas, textura e tonalidade da rocha e coberturas vegetais. • Alinhamento de fraturas que varia com formas lineares de rio e vale, alongamento de lagoas, vulcões e buracos depressivos, padrões lineares de vegetação e tonalidade do solo.
MONITORAMENTO DE AQÜÍFEROS RASOS DE AREIAS E CASCALHOS

Em geral, as maiorias das areias e cascalhos apresentados em forma repetitiva e uniforme são os depósitos fluviais que depositem em forma da correnteza ou leque aluvial do rio ou depósitos de vale. As características, tais como formas, padrões, tonalidades e texturas, da superfície que indicam os materiais grossos, tais como areias e cascalhos, e os lençóis freáticos perto da superfície são os bons indicadores de aqüíferos rasos. As diferentes formas, originadas nos vales largos com correntezas lentas, as praias, dunas, leques e deltas de sedimentação aluviais formadas nos lados dos rios e as mudanças de areias finas e grossas e os tipos de vegetação, são bons indicadores de aqüíferos rasos. Os padrões de drenagem inferem bem a litologia e sua estrutura e as texturas e densidades dela inferem bem as características físicas do solo tais como tamanho dos cascalhos, compatibilidade e permeabilidade. Os padrões de distribuição dos tipos de vegetação natural mostram a extensão dos padrões de drenagem e áreas com alta umidade do solo. As várias formas de lagoas e as áreas planas e alongadas das areias e cascalhos nos lados do rio inferem os vales do rio passado. A cor mais escura da superfície do solo indica o solo mais fino e mais úmido que o mais grosso e seco. Em geral, a onda diária de temperatura do solo atinge um a dois metros. Se tiver a presença dos lençóis freáticos rasos (0 a 3 metros), a onda diária de temperatura do solo será atrasada devido ao aumento da umidade do solo no mesmo solo que resulta o aumento da capacidade do calor latente. Esse atraso da onda de calor é chamado atraso aparente da onda termal (apparent thermal inertia). Portanto, a detecção da variação do atraso aparente da onda termal pelos sensores das bandas termais (8 a 12 mm) pode ser utilizada para estimar a profundidade da presença de lençóis freáticos e umidade do solo (Moore and Myers 1972, Watson 1979) e mesmo para identificar a variação do tipo do solo (Pratt and Ellyett 1978). Price (1981) sugeriu que o atraso aparente da onda termal pode ser detectado também pelos

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dados de albedo obtidos pela banda visível e os dados de amplitude diária de temperatura da superfície obtidos pelas bandas termais durante as temperaturas diárias mínima (4 horas) e a máxima (14 horas). A missão do Mapeamento da Capacidade de Calor (Heat Capacity Mapping Mission HCMM) foi lançada em 1977 para desenvolver as técnicas de estimativa de profundidade dos lençóis freáticos, umidade do solo e os problemas relacionados à drenagem (Price 1981). Bial e Ademar (2002) utilizaram várias imagens de Landsat TM para mapear linhas de falhas, drenagens, densidade e água relacionadas ao fator topográfico e mapas de alinhamento relacionado ao fator litográfico. Isso permitiu a construção de um mapa para recarregar a água subterrânea que facilita o gerenciamento dos recursos hídricos, tais como capacidade de água das barragens, lagoas e subterrâneas.
MONITORAMENTO DE QUALIDADE DA ÁGUA

A energia das radiações solares diretas e difusas entre a superfície da água sofre a depressão por um conjunto de efeito, incluindo absorção e espalhamento da água pura e absorção, difração e espalhamento dos particulares suspensos. Para a interpretação dos dados obtidos via satélite no monitoramento da qualidade da água, serão considerados os fatores variáveis listados (Moore, 1978) a seguir: • Radiação solar incidida e refletida que se varia de latitude, dia Juliano, ângulo solar zenital e ângulo de visada do sensor do satélite; • Interferências atmosféricas, incluindo aerossóis, vapor da água e espalhamento molecular; • Refletâncias peculiares de radiação solar da superfície da água, tais como hot spots e sun glint; • A superfície rugosa da água pode produzir mais refletâncias peculiares que a superfície suave. Na alta elevação do sol, a área do sun glint pode ficar dentro do ângulo de visada do sensor do satélite; • As bóias, os filmes, as espumas, os detritos, as plantas e os animais flutuando na superfície da água podem alterar suas refletâncias registradas pelos sensores dos satélites; • A cor da água alterada pelas matérias dissolvidas pode absorver mais a energia solar na água; • A turbidez da água pode aumentar a energia do retroespalhamento (backscattering) devido à concentração, tamanho, forma e índice da refração das partículas suspensos. As partículas suspensas incluem sedimentação inorgânicos, fitoplânctons, zooplânctons, etc. • Espalhamento e reflectância múltiplas que são difíceis de interpretar; • Profundidade e as sedimentações no fundo do lago; • As vegetações submergida e emergida podem alterar suas características espectrais, etc.

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ESTUDO DE CASO: SIG APLICADO NA IMPLANTAÇÃO DO PARQUE DAS NASCENTES DO RIO TAQUARI/MS
INTRODUÇÃO

O subprojeto 2.2 – “Implantação de Unidade de Conservação para a Proteção do Meio Ambiente em Mato Grosso do Sul-Parque Estadual das Nascentes do Rio Taquari” é um dos 44 subprojetos do Projeto – “Implementação de Práticas de Gerenciamento Integrado de Bacia Hidrográfica para o Pantanal e Bacia do Alto Paraguai”, coordenada pela ANA/GEF/ Pnuma/OEA. Fazendo parte da estratégia do governo estadual para a definição de um Sistema Estadual de Unidades de Conservação, o Estado de Mato Grosso do Sul, por intermédio da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e sua vinculada Instituto de Meio Ambiente Pantanal, desenvolveu, durante o ano de 1999, estudos e ações que garantissem a manutenção da biodiversidade dos seus principais ecossistemas, principalmente pela criação e implantação de unidades de conservação modelo que pudessem subsidiar e/ou incentivar a criação de novas áreas para esse fim. Dessa forma, considerando a necessidade de preservar amostras representativas da diversidade ambiental (geológica, edáfica, climática e biológica) e socioeconômica, do espaço geográfico estadual, foram priorizados estudos na região que abriga as nascentes do rio Taquari, nos municípios de Costa Rica e Alcinópolis. A principal via de acesso para o Parque Taquari, a partir do município de Costa-Rica, apresenta uma distância de 338 km da capital, sendo que 50 desses são de estrada não-pavimentada. De Costa Rica até a área do Parque percorre-se uma distância aproximada de 66 km de estrada não-pavimentada, cruzando vias de acesso às lavouras do Chapadão dos Baús. O acesso ao Parque por Alcinópolis apresenta-se com uma distância de 400 km (Figura 4.1), com o Parque no contexto da região e principais vias de acesso.

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Figura 4.1. Mapa da região do Parque Estadual do Taquari sobre a imagem Landsat

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SIG PARA O ZONEAMENTO DO PARQUE E ZONA DE AMORTECIMENTO Coleta de dados

Os trabalhos de detalhamento das informações iniciaram-se com atividades de campo para reconhecimento detalhado da paisagem e aspectos físicos e biológicos do Parque, bem como o uso e ocupação do seu entorno. Nessa viagem de campo, que durou cinco, dias foram desenvolvidas as seguintes tarefas: • Registrar em campo das classes de vegetação e usos do solo do parque e seu entorno para preparação final do mapa de cobertura do solo; • Coleta dos dados para geração do mapa de estradas de acesso ao Parque, bem como das trilhas turísticas no interior da unidade para implementação de atividades recreativas, sendo que esses dados foram coletados com o DGPS Topográfico Trimble Pro XRS; • Definição da área da Zona de Amortecimento no entorno do Parque e estabelecimento de medidas de ordenamento do uso do solo da mesma; e • Coleta de fotos com registro simultâneo das coordenadas geográficas para gerar um hotlink dos pontos importantes de elementos naturais e cênicos para serem visualizados no SIG.
Georreferenciamento

Para o georreferenciamento da carta topográfica utilizou-se as mesmas coordenadas geográficas da carta topográfica original, gerada no datum Córrego Alegre, tendo em vista que a preservação da escala original possibilita a utilização da mesma. Foi aplicado para o georreferenciamento o método teclado no polinômio do 2º gerando uma acurácia com erro menor que zero possibilitando uma boa precisão mesmo com grande concentração de pequenos erros. A imagem Landsat7 ETM+ Cena 224-73 bandas 1 a 7 resolução de 30 m e banda 8 (pancromática) resolução de 15 metros, de 20 de setembro de 2002, teve como base a carta topográfica para a execução do georreferenciamento, aplicando o método tela no polinômio do 2º com um erro menor que zero. Seqüencialmente foi feita a conversão da carta e da imagem para o Datum SAD/69, para atender a acurácia com os dados do limite do Parque realizados pelo Idaterra com GPS de navegação.
Processamento

Todos os dados foram digitalizados, processados analisados e gerados nos softwares Spring 3.1.03 e ArcView 3.2a com as extensões Image Analysis e Spatial Analysis. As informações em formato raster foram processadas utilizando métodos de contraste para melhorar a visualização e delineamento dos vetores. As classificações supervisionadas e não-supervisionadas foram aplicadas para identificar cobertura do solo e transformação dos dados imagem (raster) em informações temáticas (vetoriais) para possibilitar a sobreposição de camadas na estrutura do SIG e auxiliar na composição do zoneamento.

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Geração de mapas temáticos

Todos os mapas foram gerados a partir das imagens orbitais, cartas topográficas e levantamentos em campo. O cruzamento dessas informações possibilitou a interpretação integrada dos temas e a aplicabilidade do SIG em atividades futuras de avaliação e monitoramento dos recursos ambientais do Parque. Os temas definidos até o momento são os seguintes: • meio físico: hipsometria, declividade e hidrologia; e • meio biótico: vegetação e uso do solo.
Modelo de SIG

O modelo de SIG do Parque Taquari foi estruturado a partir da geração de dados e estudos voltados ao zoneamento e manejo da unidade, sendo que partimos de informações gerais do Plano de Conservação da Bacia do Alto Paraguai, até detalhamentos fundamentais à melhor compreensão dos recursos ambientais e potencialidades de manejo da unidade de conservação. Tendo em vista que os parques são unidades de conservação consideradas de proteção integral, portanto voltadas à preservação da biodiversidade e sistemas ecológicos presentes na unidade, os estudos foram voltados principalmente no sentido de assegurar melhor a proteção da biodiversidade e recuperação das áreas degradadas do Parque. Os parques são unidades que têm também como objetivo primário de manejo o desenvolvimento de atividades recreativas, turísticas e de lazer. Portanto, foram avaliadas também áreas potenciais para o desenvolvimento de atividades desse porte. Assim, o princípio conceitual do zoneamento é voltado ao estudo das características físicas e biológicas do Parque, associado à destinação de uso da mesma, de acordo com os objetivos primários de manejo, nesse caso, operacionalização administrativa, proteção, desenvolvimento de turismo, recreação e pesquisa científica. Portanto, os dados gerados no SIG nos permitem por meio das temáticas do meio físico (declividade, hidrologia) e do meio biótico (vegetação e uso do solo) inter-relacionar os aspectos de potencialidade de uso (nesse caso de utilização indireta dos recursos naturais) com preservação (áreas ricas de biodiversidade e frágeis do ponto de vista físico), além de valorização dos atrativos cênicos e históricos culturais. Esse modelo de SIG permite-nos também manter uma análise sistemática e crescente de avaliação da biodiversidade da unidade, com o sentido de identificar parâmetros constantes de monitoramento da qualidade dos recursos ambientais da mesma.
Fotos aéreas

O registro das fotos aéreas geradas no ano de 1966, no contexto do Estado de MS estão em formato analógico com somente uma cópia desse valioso material arquivada no Idaterra. Para a geração do mapa com as fotos aéreas do Parque Taquari e zona de amortecimento foram selecionadas todas as fotos a partir da articulação do index das mesmas baseadas nas cartas

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topográficas internacionais. Essas, por sua vez, foram transformadas para o formato digital utilizando o scanner HP Scanjet 4400 C com a resolução de 254 dpi, para preservação da escala original da foto. Essas fotos foram seqüencialmente georreferenciadas no software Spring 3.1.03, gerando o mosaico da área (Figura 4.2).
Figura 4.2. Mosaico das fotos aéreas do Parque Taquari e zona de amortecimento

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Com base nesse mosaico foi possível identificar classes de cobertura do solo natural, auxiliando na classificação da vegetação e usos pela imagem Landsat 2. Esse material pode futuramente ser utilizado para gerar uma análise multitemporal do uso e cobertura do solo nessa região.
Cartas topográficas

Os registros das cartas topográficas no contexto do Estado estão em formato analógico, sendo que essas foram elaboradas pelo IBGE, no ano de 1978, com base nas fotos aéreas do ano de 1961. Para o detalhamento dos aspectos físicos da unidade, foram selecionadas as Folha SE – 22 –Y- A-I, e Folha SE-22-V-C-V, região onde se insere o Parque e a sua zona de amortecimento. Essas articulações da carta foram transformadas para o formato digital utilizando o scanner A0 com a resolução de 300 dpi, e resolução espacial 8.47m. Seqüencialmente essas cartas foram georreferenciadas no software Spring 3.1.03 (Figura 4.3).
Vegetação do Parque

O mapa de vegetação da área do Parque foi gerada a partir da interpretação da imagem orbital do satélite Landsat 7 do ano de 2002. O método utilizado foi o de classificação supervisionada com coleta de amostras utilizando como referência os dados de três levantados de campo. Utilizamos também, para verificação da classificação da vegetação, levantamentos de caracterização estrutural da vegetação do Parque e área de entorno realizadas por pesquisas de caracterização dos componentes arbustivo-arbóreo e de estrutura da comunidade presente em formações específicas de Campo Sujo de Cerrado, Cerrado Sensu Strictu, e Cerradão realizadas pelo projeto do Corredor Cerrado-Pantanal, em alguns sítios no interior e zona de amortecimento do Parque (Figura 4.4). A vegetação da área do Parque está representada pelas seguintes formações fitofisionômicas, características do domínio do Cerrado: Floresta Estacional Semidecidual Submontana e Cerradão ao longo das Cuestas e Encostas de Morros Testemunhos, que vão sendo recobertos também por Cerrado Sensu Stricto e Campo Sujo de Cerrado ao longo das escarpas da Serra e nas áreas mais baixas de planície, (Savana Arbórea Aberta e Savana Gramíneo Lenhosa). Nas escarpas mais íngremes da serra aparecem campos rupícolas, em que predominam espécies de veloziáceas, orquidáceas e bromeliáceas.

141

Figura 4.3. Mapa topográfico do Parque Taquari e zona de amortecimento

142

Figura 4.4. Mapa de vegetação da área do Parque

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Mapa de declividade

O Spring possibilita a transformação de dados raster (imagem) em dados vetoriais (temático). A partir do mapa de hipsometria (Figura 4.5) gerou-se a grade triangular utilizando o método Delauney, grade essa que possibilita, a partir do seu fatiamento, a geração de dados de declividade, que foram divididos nas seguintes classes em porcentagem: 0 – 5%; 5 – 15%; 15 a 30%; 30 – 45% e >45%. Esse mapa foi convertido em vetores para atribuição de classes e aplicado um filtro no software ArcView usando a extensão Spacial Analysis pelos filtros Majority Filter, Region Group, Extract By Count e Nibble. Dessa forma foi gerando finalmente um mapa de declividade (Figura 4.6). Assim, além do Parque apresentar um conjunto de morros, esses são bastante heterogêneos, com diversos níveis de erosão, altimetria e formatos diversos. Esse mapa é fundamental, pois orienta tanto na definição das zonas do Parque, como no manejo que deve ser aplicado em cada uma delas.

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Figura 4.5. Mapa de Hipsometria do Parque Estadual do Taquari

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Figura 4.6. Mapa de classes de declividade do Parque Estadual do Taquari

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Hidrografia

Foi produzida a partir das Cartas Topográficas 1:100.000 do IBGE de 1978 e ajustadas com base na imagem Landsat 7 utilizando a fusão das bandas 5, 4, 3 com a banda pancromática, atingindo uma resolução de 15 metros. A áreas de entorno do Parque, na borda do Chapadão, caracterizam-se como uma região de recarga de aqüíferos, sendo que as fraturas geológicas presentes na área onde se inicia o Parque levam ao refluxo e afloramento de um complexo de nascentes entre as cotas de altitude de 770 a 820, que se constituem nos córregos Furnas, Mutum e Engano, formadores do rio Taquari (Fotos 12 e 13). No interior do Parque concentram-se as nascentes e vertentes dos respectivos córregos, formando uma rede de drenagem de extrema fragilidade quanto ao manejo, e ao mesmo tempo de grande valor à manutenção da sub-bacia do Taquari (Foto 1).
Foto 1. Complexo de nascentes do córrego Furnas, do rio Taquari no interior do Parque

Portanto, o Parque caracteriza-se por ser uma área de grande importância na proteção da referida bacia hidrográfica, e conseqüentemente para a proteção da planície do Pantanal. Esses dados auxiliam também no critério de definição da zona de amortecimento, pois a mesma vem sendo submetida a intenso uso por lavoura e aplicação de agrotóxicos, que estão contaminando sistematicamente essas nascentes. Dessa forma, conforme comentário a seguir, foi definida uma faixa mínima no entorno do Parque para proteger essas nascentes. Segue o mapa gerado da rede hidrográfica com a hipsometria (Figura 4.7).

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ZONEAMENTO AMBIENTAL DO PARQUE

O zoneamento ambiental, de acordo com o Snuc e a definição de setores ou zonas em uma Unidade de Conservação tem como objetivo de manejo e normas específicas, com o propósito de proporcionar os meios e condições para que todos os objetivos da unidade, nesse caso acima relacionadas possam ser alcançados de forma harmônica e eficaz. Portanto, o zoneamento ambiental é efetuado, ordenando-se porções homogêneas da Unidade de Conservação sob uma mesma denominação segundo suas características naturais ou físicas e com base nos interesses culturais, recreativos e científicos, em forma de narrativa, sua definição, descrição geográfica, objetivos e normas.
Figura 4.7. Rede hidrográfica e hipsometria do Parque Taquari e zona de amortecimento

148

Zona intangível

Zona onde a primitividade da natureza permanece a mais preservada possível, isto é, não é permitido qualquer intervenção humana, expressando o maior grau de preservação. Essa zona funciona como matriz de repovoamento de outras zonas adjacentes. Estas são dedicadas a proteção integral de ecossistemas, espécies, recursos genéticos e ao monitoramento ambiental do Parque (Figura 4.8).
Figura 4.8. Zona intangível com as respectivas fotos

Zona primitiva

São áreas onde ocorreram pequena ou mínima intervenção humana, contendo espécies da flora e fauna de grande valor científico. Essa área se apresenta com a maior mancha de Floresta Estacional no interior do Parque, representando um importante corredor natural de interligação do Chapadão com a Serra no interior do Parque, pelo córrego Engano (Figura 4.9).
Zona de recuperação

São zonas que necessitam ser recuperadas, são provisórias, sendo que uma vez restauradas serão incorporadas em uma das zonas permanentes. Essas áreas no interior do Parque foram ocupadas basicamente por pecuária extensiva, sendo que o gado ainda presente, recobre as encostas e fundos de vales, nas áreas mais baixas; estão ocupadas por brachiária, e encontram-se em diferentes estágios de degradação ambiental, principalmente por processos erosivos (Figura 4.10).

149

Figura 4.9. Zona primitiva com fotos ilustrativas

Figura 4.10. Zona de recuperação com fotos ilustrativas das áreas com pastagem artificial e processos erosivos

150

Zona de uso extensivo

Contém áreas naturais com poucas alterações humanas. Caracteriza-se conceitualmente como uma transição entre a zona primitiva e de uso intensivo. Essa zona abriga uma estrada que dá acesso ao interior do Parque, onde no seu percurso é possível visualizar as riquezas de paisagem que caracterizam essa unidade, de grande valor cênico (Figura 4.11).
Zona de uso especial

Essa zona contém áreas necessárias à administração, manutenção e serviços do Parque, abrangendo habitações, oficinas e outras estruturas necessárias a esse fim. Está localizada na periferia da unidade, facilitando o acesso externo e interno do Parque (Figura 4.12).
Zona histórico e cultural

Zona onde são encontradas amostras do patrimônio histórico-cultural e arqueológico que serão preservadas, estudadas, restauradas e interpretadas para o público. Servindo a pesquisa para a educação e o uso científico (Figura 4.13). As áreas de desenvolvimento foram criadas para facilitar a identificação de pontos específicos onde serão desenvolvidas as atividades dentro da UC, minimizando os possíveis impactos causados pela implantação das instalações e equipamentos (Figura 4.14).
Figura 4.11. Zona de uso extensivo e fotos ilustrativas da trilha das antas

151

Figura 4.12. Zona de uso especial com área proposta para a sede administrativa na sede da Fazenda Continental

Figura 4.13. Zona histórica cultural com fotos representando a riqueza da região

152

Figura 4.14.Ações de manejo para áreas estratégicas internas, de acordo com as zonas

153

Anexo: As Figuras 4.15, 4.16 e 4.17 mostram exemplos de mapa hipsométrico e a sobrepoição do mapa digital de elevação com a imagem do Landsat.
Figura 4.15. Mapa hipsométrico gerado a partir das cartas topográficas, com a escala 1:100.000, articulação Mir- 2550 – Palmeiras

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Figura 4.16. Mapa das cotas digitalizadas

Figura 4.17. Mapa das cotas digitalizadas sobrepondo a imagem do Landsat

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APRESENTAÇÃO

INTRODUÇÃO ÀS TÉCNICAS DE SENSORIAMENTO REMOTO

William Tse Horng Liu Coordenador Laboratório de Geoprocessamento UCDB Email: will@ucdb.br

Capítulo 1: Fundamento teórico 1.1. Introdução Sensoriamento Remoto (SR) é definido como uma técnica de aquisição e de aplicações das informações sobre um objeto sem nenhum contato físico com ele.

Os sensores do satélite captam as energias eletromagnéticas da superfície do Planeta sem contato com o mesmo.

Figura 1.1 – Campos elétricos (E) e magnéticos (M) da onda energia eletromagnética e a sua direção da propagação

A onda eletromagnética pode também ser caracterizada pelo comprimento de onda (_) que pode ser expresso pela equação:

1.3 – Efeitos atmosféricos na propagação da radiação eletromagnética

“Bandas de absorção da atmosfera". “Janelas atmosféricas". Os sensores são desenhados para captar os sinais nas janelas atmosféricas para minimizar as interferências atmosféricas.

Figura 1.3 – Componentes de um sistema sensor

Os satélites e as características de sistema e sensores dos satélites podem ser encontradas nas várias websites: www.inpe.br www.geodecision.com.br www.intersat.com.br www.engesat.com.br www.nesdis.noaa.gov

Capítulo 2: Análise de assinatura espectral na identificação e classificação de imagem

Figura 2.1 – Assinaturas espectrais de vários tipos de vegetação

Figura 2.2 – Área de queimadas obtida pelo Landsat 7 ETM+, composta de RGB 5/4/3

Figura 2.3 – Área urbana obtida pelo Landsat 7 ETM+,composta de RGB 5/4/3

Figura 2.4 – Área de solo descoberto obtida pelo Landsat 7 ETM+, composta de RGB 5/4/3

Figura 2.5 – Área de superfície de água obtida pelo Landsat 7 ETM+, composta de RGB 5/4/3

Figura 2.6 – Área de vegetação obtida pelo Landsat 7 ETM+, composta de RGB 5/4/3

Compara?‹ o de curvas espectrais

100 90 80 ‡gua 70
reflect‰ncia (%)

queimada urbana

vegeta?‹ o solo

60 50 40 30 20 10 0 045-052 b1

0,53-0,61 b2

0,63-0,69 b3

0,78-0,90 b4

1,55-1,75 b5

10,4 b6H

12,5 b6L

fa ix a s de e spe ctros na s dife re nte s ba nda s (µm)

Figura 2.7 – Comparação das assinaturas de refletância espectral dos cinco tipos de superfície: queimadas, urbana, solo, água e vegetação obtidas pelo Landsat 7 ETM+, 1999

Transição SOLO/ÁGUA
90,00% 80,00% 70,00% Seqüência1 Seqüência2 Seqüência3 Seqüência4 Seqüência5 Seqüência6

Porcentagem

60,00% 50,00% 40,00% 30,00% 20,00% 10,00% 0,00% 0,45 a 0,52 0,53 a 0,61 0,63 a 0,69 0,78 a 0,90 1,55 a 1,75 10,4 a 12,5 2,09 a 2,35 0,52 a 0,90

banda 1 banda2 banda3 banda4 banda5 banda6 banda7 banda8 Bandas

Figura 2.9 – Análise de pesos dos pixels mistos transitórios entre solo e água

Figura 2.10 – Área transitória de vegetação e solo: a imagem Landsat 5/4/3.

Transição VEGETAÇÃO/SOLO

90,00% 80,00% 70,00% Seqüência1 Seqüência2 Seqüência3 Seqüência4 Seqüência5 Seqüência6

Porcentagem

60,00% 50,00% 40,00% 30,00% 20,00% 10,00% 0,00% 0,45 a 0,52 banda 1 0,53 a 0,61 banda2 0,63 a 0,69 banda3 0,78 a 0,90 banda4 1,55 a 1,75 banda5 10,4 a 12,5 banda6 2,09 a 2,35 banda7 0,52 a 0,90 banda8

Bandas

Figura 2.11 – Análise de pesos dos pixels mistos transitórios entre vegetação e solo

Figura 2.12 – Área transitória de água e vegetação: a imagem Landsat 5/4/3

Tran sição VEG ETAÇÃO/ÁGUA

90,00% 80,00% 70,00%

Porcentagem

60,00% 50,00% 40,00% 30,00% 20,00% 10,00% 0,00% 0,45 a 0,52 0,53 a 0,61 0,63 a 0,69 0,78 a 0,90 1,55 a 1,75 10,4 a 12,5 2,09 a 2,35 0,52 a 0,90

Seqüência1 Seqüência2 Seqüência3 Seqüência4 Seqüência5 Seqüência6

banda banda2 banda3 banda4 banda5 banda6 banda7 banda8 1 Bandas

Figura 2.13 – Análise de pesos dos pixels mistos transitórios entre vegetação e água

Capítulo 3: Monitoramento de recursos hídricos

3.1 Introdução

Os processos hidrológicos variam rapidamente em espaço e tempo. Esses processos envolvem os ciclos hidrológicos ocorrendo na atmosfera, na superfície, no subterrâneo e os fluxos entrando e saindo nesses meios. As medições dessas tinham sido alcançadas principalmente pelas medições pontuais ínsito no campo e por meio da simulação numérica. Geralmente, os dados coletados na superfície não coincidem com os dados via satélite. Uma alternativa é feita, extrapolação espacial dos dados da observação ínsito à região inteira pela correlação entre ínsito e via satélite. Apesar os dados via satélite serem menos precisos, fornecem melhor estimativa em grande área com maior eficiência e menor custo.

A interpretação da imagem envolve o delineamento e a identificação dos padrões radiométricos da imagem que correspondem à geomorfologia da terra, linhas de drenagem, e tipos da cobertura. A análise geoidrológica da imagem é uma das mais difíceis técnicas da interpretação dos dados de sensoriamento remoto. Geralmente, as propriedades subterrâneas são interpretadas pela observação das características da radiação EM obtida na superfície.

A interação entre luz e água pode ser resumida pela equação 3.1:

Iinc = Isup+ Iabs+ Iref

(3.1)

Onde: Iinc = intensidade de luz incidente à superfície da água; Isup = Intensidade de luz refletida diretamente pela superfície da água quando chega à superfície da água; Iabs = Intensidade de luz absorvida pela água; Iref = Intensidade de luz que penetra a água, é refletida fora da superfície da água que é registrada pelo sensor do satélite.

A refletância pela superfície da água é igual em todos comprimentos da onda EM que muda somente o nível absoluto da intensidade da energia EM recebida pelos sensores dos satélites. A porção da radiação solar que entra e sai da água é a que os sensores medem para monitorar as propriedades dos recursos hídricos. As características espectrais da absorção e o espalhamento das matérias orgânica e inorgânica na água são distintas e utilizadas para prognosticar a profundidade e mesmo a qualidade da água.

No caso da água limpa e rasa, a luz espalhada pela água é refletida pelo fundo que é relativamente fácil de ser detectada. A detecção do fundo para a estimativa da profundidade da água depende das condições de cor, turbidez, características da superfície do fundo, e a intensidade da luz mantendo-se uniforme na água.

3.3 – Estimativa de área superficial da água

Delineamento da localização e extensão espacial da superfície da água pode ser feito com boa precisão utilizando os dados obtidos nas faixas de infravermelho próximo e microondas.

A precisão de estimativa da área ocupada pela água depende do ângulo de visada do sensor e do tamanho de um pixel, por exemplo: a resolução dos sensores dos satélites.

3.4 – Monitoramento da água subterrânea

Monitoramento da água subterrânea via satélite é complicado porque água subterrânea não pode ser retratada pelos sensores do satélite. Suas aplicações somente podem ser feitas pelas interpretações dos dados que retratam os fenômenos da superfície. Os hidrólogos geralmente inferem as condições da água subterrânea baseadas nos indicadores da superfície, tais como: fisionomias e estruturas geológicas aéreas, distribuição e tipos da vegetação, características das correntezas dos rios, anomalias dos tipos e da umidade do solo, cobertura descontínua de neves nos rios, fontes, nascentes, etc. As informações da área de interesse são indispensáveis para a validação dos métodos empregados para suas interpretações.

Naturalmente, as rochas consolidadas contêm água subterrânea na profundidade rasa, mas abundância da água subterrânea depende do tipo da rocha e da quantidade e intensidade da fratura que aparecem na superfície. Algumas características são importantes para detectar aqüífero utilizando as imagens do Landsat: • Tipo da rocha exposta que varie com relevo, forma da drenagem, distribuição de lagoas, textura e tonalidade da rocha e coberturas vegetais. • Alinhamento de fraturas que varie com formas lineares de rio e vale, alongamento de lagoas, vulcões e buracos depressivos, padrões lineares de vegetação e tonalidade do solo.

3.5 – Monitoramento de aqüíferos rasos de areias e cascalhos

Em geral, as maiorias das areias e cascalhos apresentados em forma repetitiva e uniforme são os depósitos fluviais que depositam em forma da correnteza ou leque aluvial do rio ou depósitos de vale. As características, tais como formas, padrões, tonalidades e texturas, da superfície que indicam os materiais grossos, tais como areias e cascalhos, e os lençóis freáticos perto da superfície são os bons indicadores de aqüíferos rasos.

As diferentes formas, originadas nos vales largos com correntezas lentas, as praias, dunas, leques e deltas de sedimentação aluviais formadas nos lados dos rios e as mudanças de areias finas e grossas e os tipos de vegetação, são bons indicadores de aqüíferos rasos. Os padrões de distribuição dos tipos de vegetação natural mostram a extensão dos padrões de drenagem e áreas com alta umidade do solo. As várias formas de lagoas e as áreas planas e alongadas das areias e cascalhos nos lados do rio inferem os vales do rio passado. A cor mais escura da superfície do solo indica o solo mais fino e mais úmido que o mais grosso e seco.

Em geral, a onda diária de temperatura do solo atinge de um a dois metros. Se tiver a presença dos lençóis freáticos rasos (0 a 3 metros), a onda diária de temperatura do solo será atrasada devido o aumento da umidade do solo no mesmo solo que resulta o aumento da capacidade do calor latente. Esse atraso da onda de calor é chamado atraso aparente da onda termal (apparent thermal inertia). Portanto, a detecção da variação do atraso aparente da onda termal pelos sensores das bandas termais (8 a 12 µm) pode ser utilizada para estimar a profundidade da presença de lençóis freáticos e umidade do solo

3.6 – Monitoramento de qualidade da água

A energia das radiações solares diretas e difusas entre a superfície da água sofre a depressão pelo um conjunto de efeito, incluindo absorção e espalhamento da água pura e absorção, difração e espalhamento dos particulares suspensos. Para a interpretação dos dados obtidos via satélite no monitoramento da qualidade da água, serão consideradas os fatores variáveis listados (Moore, 1978) a seguir:

• Radiação solar incidida e refletida que varia de latitude, dia Juliano, ângulo solar zenital e ângulo de visada do sensor do satélite; • Interferências atmosféricas, incluindo aerossóis, vapor da água e espalhamento molecular; • Refletâncias peculiares de radiação solar da superfície da água, tais como hot spots e sun glint; • A superfície rugosa da água pode produzir mais refletâncias peculiares que a superfície suave. Na alta elevação do sol, a área do “sun glint” pode ficar dentro do ângulo visada do sensor do satélite;

• As bóias, os filmes, as espumas, os detritos, as plantas e os animais flutuando na superfície da água podem alterar suas refletâncias registradas pelos sensores dos satélites; • A cor da água alterada pelas matérias dissolvidas pode absorver mais a energia solar na água; • A turbidez da água pode aumentar a energia do retroespalhamento (backscattering) devido à concentração, tamanho, forma e índice da refração das partículas suspensas. As partículas suspensas incluem sedimentação inorgânicos, fitoplânctons, zooplânctons, etc.

Espalhamento e reflectância múltiplas que são difíceis de interpretar;

• •

Profundidade e as sedimentações no fundo do lago;

As vegetações submergida e emergida podem alterar suas características espectrais, etc.

Capítulo 4: Estudo de caso: SIG aplicado na implantação do Parque das Nascentes do Rio Taquari/MS

4.1 – Introdução

O subprojeto 2.2 – “Implantação de Unidade de Conservação para a Proteção do Meio Ambiente em Mato Grosso do Sul – Parque Estadual das Nascentes do Rio Taquari” é um dos 44 subprojetos do projeto “Implementação de Práticas de Gerenciamento Integrado de Bacia Hidrográfica para o Pantanal e Bacia do Alto Paraguai”, coordenada pela ANA/GEF/Pnuma/OEA.

A imagem Landsat7 ETM+ Cena 224-73 bandas 1 a 7 resolução de 30 m e banda 8 (pancromática) resolução de 15 metros, de 20 de setembro de 2002, que teve como base a carta topográfica para a execução do georreferenciamento, aplicando o método tela no polinômio do 2º com um erro menor que zero. Seqüencialmente foi feita a conversão da carta e da imagem para o Datum SAD/69, para atender à acurácia com os dados do limite do parque realizados pelo Idaterra com GPS de navegação.

Processamento

Todos os dados foram digitalizados, processados analisados e gerados nos softwares Spring 3.1.03 e ArcView 3.2a com as extensões Image Analysis e Spatial Analysis. As informações em formato raster foram processadas utilizando métodos de contraste para melhorar a visualização e delineamento dos vetores. As classificações supervisionadas e não-supervisionadas foram aplicadas para identificar cobertura do solo e transformação dos dados imagem (raster) em informações temáticas (vetoriais) para possibilitar a sobreposição de camadas na estrutura do SIG e auxiliar na composição do zoneamento.

Modelo de SIG

O modelo de SIG do Parque Taquari foi estruturado a partir da geração de dados e estudos voltados ao zoneamento e manejo da unidade, sendo que partimos de informações gerais criadas pelo Plano de Conservação da Bacia do Alto Paraguai, até detalhamentos fundamentais, a compreensão melhor dos recursos ambientais e potencialidades de manejo da unidade de conservação.

Figura 4.2 – Mosaico das fotos aéreas do parque Taquari e zona de amortecimento

Figura 4.3 – Mapa topográfico do Parque Taquari e zona de amortecimento

Figura 4.4 – Mapa de vegetação da área do parque

Figura 4.5 – Mapa de Hipsometria do Parque Estadual do Taquari

Figura 4.6 – Mapa de classes de declividade do Parque Estadual do Taquari

Foto 1- Complexo de nascentes do córrego Furnas, do rio Taquari no interior do parque

Figura 4.7 – Hidrografia e hipsometria do Parque Taquari e zona de amortecimento

Zoneamento ambiental do parque O zoneamento ambiental, de acordo com o SNUC e a definição de setores ou zonas em uma unidade de conservação tem como objetivos de manejo e normas específicos, com o propósito de proporcionar os meios e condições para que todos os objetivos da unidade, nesse caso acima relacionadas, possam ser alcançados de forma harmônica e eficaz.

Portanto, o zoneamento ambiental é efetuado, ordenando-se porções homogêneas da unidade de conservação sob uma mesma denominação segundo suas características naturais ou físicas e com base nos interesses culturais, recreativos e científicos, em forma de narrativa, sua definição, descrição geográfica, objetivos e normas.

Figura 4.8 – Zona intangível com as respectivas fotos

Figura 4.9 – Zona primitiva com fotos ilustrativas

Figura 4.10 – Zona de recuperação com fotos ilustrativas das áreas com pastagem artificial e processos erosivos

Figura 4.11 – Zona de uso extensivo e fotos ilustrativas da trilha das antas

Figura 4.12 – Zona de uso especial com área proposta para a sede administrativa na sede da Fazenda Continental

Figura 4.13 –Zona HistóricoCultural com fotos representando a riqueza da região

Figura 4.14 – Ações de manejo para áreas estratégicas internas, de acordo com as zonas

Anexo: Figuras 4.15, 4.16 e 4.17 mostram exemplos de mapa hipsométrico e a sobreposição do mapa digital de elevação com a imagem do Landsat.

Figura 4.15 – Mapa Hipsométrico gerado a partir das cartas topográficas, com a escala 1:100.000, articulação Mir- 2550 – Palmeiras

Figura 4.15 – Mapa das cotas digitalizadas

Figura 4.16 – Mapa de cotas digitalizadas, sobrepor a imagem do Landsat

CICLO HIDROLÓGICO E SINÓTICA ATMOSFÉRICA
Armando Garcia Arnal Barbedo
Universidade Federal de Mato Grosso do Su (UFMS/MS)

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CICLO HIDROLÓGICO
A circulação incessante da água entre seus reservatórios oceânico, terrestre e atmosférico é chamada ciclo hidrológico. É um sistema gigantesco, alimentado com a energia do Sol, no qual a atmosfera funciona como um elo vital que une os reservatórios oceânico e terrestre. Nesse ciclo, com o calor obtido da energia solar absorvida, a água evapora dos oceanos e, em menor quantidade, dos continentes para a atmosfera, onde as nuvens se formam. Freqüentemente ventos transportam o ar carregado de umidade por grandes distâncias antes que haja a formação de nuvens e precipitação. A precipitação que cai no oceano terminou seu ciclo e está pronta para recomeçá-lo. A água que cai sobre os continentes, contudo, ainda pode seguir várias etapas. Uma porção infiltra-se no solo como água subterrânea, parte da qual deságua em lagos e rios ou diretamente no oceano. Quando a taxa de precipitação é maior que a capacidade de absorção da terra, outra porção escorre sobre a superfície, para rios e lagos. Grande parte da água que se infiltra ou que escorre acaba evaporando. Em adição a essa evaporação do solo, rios e lagos, uma parte da água que se infiltra é absorvida por plantas que então a liberam na atmosfera pela transpiração. Medidas da evaporação direta e da transpiração são usualmente combinadas como evapotranspiração. O diagrama da Figura 1 mostra um balanço de água, isto é, um balanço das entradas e saídas de água dos vários reservatórios globais. Em cada ano, sobre os continentes a precipitação total excede a evapotranspiração. Nos oceanos, a evaporação anual excede a precipitação. Os oceanos, contudo, não estão secando, porque o excesso de precipitação flui dos continentes de volta para os oceanos. Em suma, o ciclo hidrológico representa o contínuo movimento da água dos oceanos para a atmosfera, da atmosfera para a terra e da terra de volta para os oceanos.
Figura 1. O balanço de água na Terra

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ÁGUAS NO PANTANAL

A área da Bacia do Alto Paraguai (BAP), onde está inserido o Pantanal, é de 496.000km2, incluindo áreas da Bolívia e dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Os principais rios formadores do rio Paraguai são o Cuiabá, São Lourenço, Piquiri, Taquari, Miranda e Negro, todos na margem esquerda. Essa bacia possui duas áreas geográficas predominantes, o Planalto e o Pantanal. Segundo o Plano de Conservação da Bacia do Alto Paraguai (PCBAP), para analisar a BAP é necessário antes caracterizar a sua divisão física fundamental, diretamente ligada à altitude, conforme se observa nas Figuras 2 e 3, que é a seguinte: • Na parte superior (acima da cota 200m) encontra-se a região denominada de Planalto, onde o comportamento dos processos naturais se assemelha às bacias hidrográficas tradicionais, com fluxo predominantemente no sentido longitudinal e com tempo de resposta de horas ou de poucos dias na relação entre precipitação-vazão; • Na parte inferior (abaixo da cota 200m) encontra-se a Planície que é uma grande área inundável, com um comportamento hidrológico diferenciado pelos grandes tempos de deslocamento do escoamento e pelas grandes áreas de inundação. A BAP, no lado brasileiro, encontra-se dentro dos Estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Na região, como um todo, existe crescimento de atividade agropastoril que pressiona o uso do solo rural e, em conseqüência, pode produzir impactos ambientais que comprometem o meio ambiente. O Pantanal tem sido utilizado principalmente para a criação de gado, enquanto que no Planalto, uma das principais atividades é o cultivo anual, com predominância da soja. Esse processo de desmatamento para cultivo anual, iniciado na década de 70, gerou áreas ambientais frágeis, devido ao aumento do escoamento superficial e à produção de sedimentos. Além disso, houve aumento da precipitação média após esse período, criando um impacto importante na estrutura morfológica dos rios do Pantanal e aumento importante do ravinamento nas sub-bacias do Planalto. O solo apresenta grande fragilidade em parte importante da região, o que tem gerado grande produção de sedimentos devido ao crescimento da atividade antrópica. O escoamento proveniente do Planalto escoa diretamente para o Pantanal, dessa forma, todas as ações produzidas no Planalto podem produzir impactos diretos sobre o Pantanal e para jusante em águas internacionais de Paraguai, Bolívia e Argentina. A precipitação anual é inferior à evapotranspiração potencial, a capacidade de escoamento dos rios é pequena, inundando toda a planície, formando uma das mais importantes áreas inundáveis do mundo. O Pantanal funciona como um grande reservatório de regularização de vazão, que retém grande parte do volume proveniente do Planalto e regulariza a vazão. O sistema perde por evaporação parte importante do volume proveniente de montante e precipitado na área devido à baixa capacidade de escoamento dos rios e das lagoas que se formam. No Pantanal, pequenas diferenças de cotas altimétricas refletem em grandes áreas de inundação devido tratar-se de uma grande planície sedimentar, conforme se observa na Figura 4.

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Figura 2. Bacia do Alto Paraguai

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Figura 3. Mapa de fatiamento da altimetria do Pantanal para curvas de nível interpoladas para eqüidistância de 10 metros

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Figura 4. Inundação das margens no Pantanal

Os rios, ao entrarem no Pantanal, sofrem drástica redução de velocidade, decorrente da brusca mudança de declividade. Associado a esse fenômeno, ocorre o assoreamento no leito e uma perda de poder erosivo que se traduzem por uma seção transversal menor que a do estirão à montante no Planalto, conforme apresenta a Figura 5. Durante as enchentes, como as seções a jusante, no Pantanal, têm capacidade de escoamento menor que a do Planalto, ocorrem extravasamentos para o leito maior. De acordo com a magnitude das enchentes, são atingidas áreas com maior ou menor extensão. Por outro lado, a planície pantaneira é ocupada por um grande número de depressões que, quando cheias, formam uma paisagem de pequenos lagos que se interligam nas águas altas e represam as águas de parte da rede de drenagem depois que os níveis do rio principal baixam. Grande parte do volume de água correspondente ao hidrograma de montante, que extravasa para o leito maior, fica retido pelas depressões que não têm ligação superficial com o leito menor de drenagem principal do Pantanal.
Figura 5. Características das seções entre o Planalto e o Pantanal

Levantamentos realizados por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais demonstram que, na região do Cerrado restam apenas 25% de Cerrado não-antropizado, ou seja, coberto por vegetação natural de Cerrado e Pantanal. Outros 25% seriam de cerrado antropizado, ou campos naturais utilizados para pastagens, áreas de vegetação queimada

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recentemente e em regeneração e áreas próximas às estradas, 22% corresponderiam a áreas ocupadas por atividades agrícolas, pecuárias, cidades, entre outros, e 28% estariam relacionados com cursos d’água e outras vegetações não-características de Cerrado. Quer dizer, restaria em torno de 25% de áreas de Cerrado e Pantanal intocados, remanescentes de um processo de ocupação de apenas 50 anos, considerando o início da construção de Brasília. Dessa forma, a imensa quantidade de sedimentos que chega ao Pantanal fica retida na planície. A altura de degradação média na alta bacia pode estar entre 0,092 e 0,36mm.ano-1, valor que pode ser considerado elevado considerando as condições do País. Foi verificado que o volume de sedimentos gerado nos últimos anos ficou depositado no Pantanal com um total aproximado de 58%, representando uma camada uniforme entre 0,062 e 0,33mm.ano-1, podendo ter chegado a 8,26mm, totalizado nos 25 anos de estudos considerados. Essa camada não tem distribuição uniforme, sendo a maior parte contida nos leitos dos rios como assoreamento e parte distribuída na várzea pelas enchentes e ressuspensão da carga sólida.

SINÓTICA ATMOSFÉRICA
Sinótica origina-se do grego synoptikos, que significa elaborar uma visão geral de um todo. Para a meteorologia, esse termo é utilizado em termos do contexto de dimensões horizontais e tempos de duração de fenômenos atmosféricos.
METEOROLOGIA BÁSICA

A meteorologia é definida como a ciência que estuda os fenômenos que ocorrem na atmosfera, e está relacionada ao estado físico, dinâmico e químico da atmosfera, às interações entre eles e a superfície terrestre subjacente. A meteorologia básica, como o próprio nome sugere, nos fornece uma visão mais simples dos fenômenos atmosféricos que ocorrem em nosso dia-a-dia. Baseados em observações, os elementos meteorológicos mais importantes do ar, a velocidade e direção do vento, tipo e quantidade de nuvens, podemos ter uma boa noção de como o tempo está se comportando em um determinado instante e lugar. As leis físicas aplicadas à atmosfera podem explicar o “estado” dela. Mas o estado ou o tempo é o resultado, desses elementos e outros mais com a influência dos fatores astronômicos e fatores geográficos, podem estar distribuídos em um número infinito de padrões no espaço e no tempo e em constante modificação. A meteorologia engloba tanto tempo como clima, enquanto os elementos da meteorologia devem necessariamente estar incorporados na climatologia para torná-la significativa e científica. O tempo e o clima podem, juntos, ser considerados como conseqüência e demonstração da ação dos processos complexos na atmosfera, nos oceanos e na Terra.

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A meteorologia no seu sentido mais amplo é uma ciência extremamente vasta e complexa, pois a atmosfera é muito extensa, variável e sede de um grande número de fenômenos. A seguir, são descritos os principais fenômenos meteorológicos.
NEBULOSIDADE

Definida com sendo a aglomeração de um grande número de gotículas de água e/ou cristais de gelo, com diâmetro das gotículas variando de 5 a 15 mícrons. A uma grande importância do conhecimento e observação de nuvens, pois as características da atmosfera estão refletidas na forma, quantidade e estrutura das nuvens, uma vez que a formação da nuvem ocorre quando parte do vapor d’água contido na atmosfera transforma-se no estado líquido ou sólido. O resfriamento pode ocorrer por levantamento ou por acréscimo de umidade, ocorrendo mais comumente o resfriamento quando o ar sobe e, por diminuição da pressão atmosférica, se expande. O movimento horizontal contra a topografia promove o aquecimento do ar por contato com a superfície, tornando-o mais leve, fazendo com que ele suba.
CLASSIFICAÇÃO INTERNACIONAL QUANTO À FORMA E À ALTURA

a. cumulus e cumulonimbus: normalmente com as bases no estágio baixo e quando bem desenvolvidos, seus topos atingem os estágios médio e alto. b. stratocumulus e stratus: inteiramente no estágio baixo; c. nimbustratus: no estágio médio, comumente estendendo-se aos demais estágios; d. altostratus: no estágio médio, comumente estendendo-se ao alto; e. altocumulus: localiza-se no estágio médio; f. cirrus, cirrocumulus e cirrostratus: no estágio alto.
NUVENS BAIXAS Cumulus (Cu)

• nuvens isoladas, geralmente densas e de contornos bem definidos, desevolvendo-se verticalmente em forma de domos ou torres. • quando iluminado pelo Sol apresenta um branco bem brilhante e sua base é sensivelmente horizontal. • constituídos principalmente por gotículas de água, podem apresentar cristais de gelo nos topos. • pode apresentar diferentes estágios de desenvolvimento vertical; em regiões tropicais, os maiores exemplares provocam abundante chuva na forma de pancadas. • originam-se sob o efeito de correntes convectivas, associadas a consideráveis decréscimos de temperatura nas camadas baixas da atmosfera.

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• podem provir de altocumulus ou de evolução de stratocumulus e stratus (verificado freqüentemente de manhã sobre os continentes). • algumas espécies:
Humilis:

• massas destacadas com algum desenvolvimento vertical, mas aparentemente lisa no topo (quando possuem topos arredondados, chamam-se mediocris); quando desfeitas pela turbulência, designam-se fractocumulus. • têm marcado crescimento diurno sobre o continente, desenvolvendo-se até o meio da tarde e decaindo depois; sobre a costa ou sobre o oceano ocorrem freqüentemente pela noite. • cada célula representa a camada condensada de uma corrente ascendente úmida imersa em meio claro, seco e subsidente. • em geral está associado com bom tempo, e sendo assim são também chamados “cumulus de bom tempo”.
Congestus:

• nuvens com considerável desenvolvimento vertical, cujos topos têm bordas protuberantes, indicando fortes ascensões (mas ainda sem exibir franjas e fibras). • indica uma camada úmida mais espessa do que no caso do humilis. • podem ter altura de topos limitados por camadas com menor lapse rate ou mesmo inversões; ou então por camadas sobrejacentes muito secas. • sua existência indica camadas profundas de instabilidade e favorecimento por escoamento ciclônico em altitude, geralmente acima de 500 hPa; pode ter importantes implicações no desenvolvimento de pancadas e tempestades.
Figura 6 – Exemplos de cumulus

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Cumulonimbus (Cb) • nuvem densa e possante de grande dimensão vertical, em forma de montanha ou de enormes torres; as dimensões horizontais e verticais são tão grandes que a forma característica da nuvem só pode ser vista a longa distância. • uma parte da região superior é geralmente lisa, fibrosa ou estriada e quase sempre achatada; essa parte pode se desenvolver em forma de bigorna ou vasto penacho. • constituídos por gotículas de água em suas partes inferiores e por cristais de gelo nas superiores; pode conter grandes gotas de chuva e granizo. • seu aspecto é sombrio e ameaçador, habitualmente sendo acompanhado por trovões, relâmpagos e fortes pancadas de chuva. • sua formação está associada a cumulus bastante volumosos e desenvolvidos, sendo portanto análoga à de cumulus. • após a fase de cumulus congestus, ocorre o cumulonimbus calvus, quando existe um limite claro da nuvem (sem fibras ou franjas ou formações do tipo bigorna); daí para a fase madura (cumulonimbus capillatus) o desenvolvimento é bastante rápido. • a fase calvus implica no início de fortes pancadas, culminando no estágio capillatus. • pode se desenvolver de um altocumulus ou de um altostratus cujas partes superiores apresentam protuberâncias (nesse caso, sua base está bem elevada). • a existência de cumulonimbus implica, praticamente sempre, em intensa precipitação, forte turbulência, presença de rajadas e avanço de linhas de instabilidade. • podem conter granizo, que é um dos hidrometeoros mais destrutivos e também ocasionar tornados.
Figura 7 – Exemplos de cumulonimbus

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Stratocumulus (Sc)

• camada de nuvens cinzentas e/ou esbranquiçadas, tendo quase sempre partes escuras em formas de lajes, seixos ou rolos em geral agrupados. • constituídos de gotículas de água, por vezes acompanhada por gotas de chuva. • freqüentemente são observados lençóis de stratocumulus em dois ou mais níveis, simultaneamente. • raramente se apresentam na forma de amêndoas com contornos bem delineados ou na forma de torres com base comum. • pode ser espesso o bastante para ocultar totalmente o Sol (opacus), bem como pode permitir a identificação da posição do Sol (translucidus). • alguns tipos: cumulogenitus, formam-se freqüentemente em conseqüência da expansão das partes superiores e medianas de cumulus ou cumulonimbus, perdurando enquanto houver o aquecimento e a inversão em pequena altitude; vesperalis, pode resultar do enfraquecimento dos cumulus, no final da tarde ou à noite. Ambos são em geral seguidos de céu claro (durante a noite). • pode ser também do aumento dos elementos de um altocumulus, sendo que um stratocumulus alto é facilmente confundível com um altocumulus baixo, com a diferença básica de que o stratocumulus não produz o fenômeno de coroa. • estão associados à precipitação de intensidade sempre fraca, relacionado com o pequeno deslocamento vertical dentro da nuvem; freqüentemente produzem diminuição da visibilidade.
Stratus (St)

• camada de nuvens geralmente cinzenta, com base bastante uniforme, podendo dar lugar a chuvisco; o contorno do Sol e da Lua são visíveis por meio dessa camada, porém é mais comum estarem completamente encobertos. • constituído por pequeninas gotículas d’água; em temperaturas muito baixas, pequenas partículas de gelo. • apresenta-se sob a forma de uma camada cinzenta, de aspecto turvo e muito uniforme, cuja base é suficientemente baixa para encobrir obstáculos relativamente altos; em geral sua superfície inferior apresenta algumas ondulações. • stratus em camada resulta da queda da temperatura nos níveis mais baixos da atmosfera; stratus em fragmentos representam um estado transitório de curta duração da formação ou desagregação de camadas contínuas (fractostratus). • seu processo de formação é semelhante ao stratocumulus, entretanto com menos turbulência (associado a um campo de vento menos intenso) e conseqüentemente com camada limite mais rasa; assim, o topo de stratus é mais baixo do que de stratocumulus.

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• um dos mecanismos de resfriamento também deve existir: ascensão orográfica, produzindo nevoeiro de encosta que é erguido por mistura; resfriamento radiativo ou advectivo, ocasionando nevoeiro de radiação-advecção que é erguido por mistura; evaporação por chuva, produzindo nevoeiro pré-frontal (conhecido como stratus de mau tempo). • pouco significado sinótico, em comparação com demais nuvens; pode servir como indicativo do limite de ar frio próximo à frente quente.
NUVENS MÉDIAS Nimbostratus (Ns)

• camada de nuvens cinzentas baixas de grande extensão com base difusa, muitas vezes sombria, com espessura suficiente para ocultar completamente o Sol; é também denominado altostratus opacus. • constituído de gotículas de água, gotas de chuva, cristais ou flocos de gelo ou de uma mistura de todas; apresenta coloração cinza bem escuro e não apresenta fibras. • nas regiões tropicais, durante intervalos de chuva, é possível observar os nimbostratus dividirem-se em nuvens distintas e tornarem a se juntar rapidamente. • resulta da lenta ascensão de camadas de ar de grande extensão horizontal, a alturas suficientemente elevadas; pode provir do espessamento de um altostratus precipitante ou da expansão de um cumulonimbus. • produz chuva mais acentuada do que stratus. • freqüentemente denota a existência de uma frente na qual ocorre o levantamento forçado (ou dinamicamente induzido). • sua evolução é de grande valia para a previsão local; pode também facilitar a detecção de novos sistemas em desenvolvimento.
Altostratus (As)

• lençol de nuvens cinzentas ou azuladas, de aspecto estriado e fibroso, cobrindo inteira ou parcialmente o céu, com partes suficientemente finas para avistar-se o Sol. • formado por gotículas de água, gotas de chuva e cristais de gelo; não apresenta halo. • quase sempre, com grande extensão horizontal (várias centenas de quilômetros) e dimensão vertical considerável (milhares de metros). • pode ser composto por duas ou mais camadas superpostas em níveis próximos, muitas vezes soldadas. • não ocorre precipitação intensa.

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• pode resultar do espessamento do véu de cirrostratus ou de altocumulus precipitantes. • principalmente nas regiões tropicais, é proveniente da expansão da parte mediana ou superior de um cumulonimbus.
Figura 8. Exemplo de altostratus

Altocumulus (Ac)

• camada de nuvens brancas e/ou cinzentas, tendo geralmente sombras próprias (pouco acentuadas) e apresentando formas de lâminas e rolos. • aspecto pode ser fibroso ou difuso, agrupados ou não. • em sua maioria são constituídos por gotículas d’água, porém podem haver cristais de gelo. • apresentam-se como lençol de grande extensão, com elementos isolados ou não, dispostos com bastante regularidade. • por vezes, elementos consecutivos em forma de seixos seguem uma ou duas direções, com suas bordas quase se tocando; essa configuração apresenta canais de céu claro. • freqüentemente são observados simultaneamente em dois ou mais níveis (altocumulus duplicatus), significando que essa nuvem ocorre em uma grande faixa de altitudes. • nos níveis altos, pode se dar a partir do aumento de cirrocumulus ou pode ser derivado de cumulonimbus. • quase sempre se dá em conseqüência de turbulência ou convecção em níveis médios, a partir da transformação de altostratus e nimbostratus. • do desenvolvimento de um cumulus ou stratocumulus nos níveis baixos. • ocorre o fenômeno de coroa quando sua borda passa pelo Sol e/ou Lua. • variedades.

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Translucidus:

• relativamente fina (semitransparente) com coloração variando de branca a cinza escuro. • os elementos são estáveis em aparência, isto é, não variam muito. • formado pela transformação de altostratus com pequenas células de convecção própria. • sua presença indica pequeno movimento ascendente e é mais comum não ser seguido de precipitação.
Figura 9. Exemplo de altocumulus translucidus

Lenticularis:

• em forma de amêndoas ou peixes continuamente em transformação e/ou ocorrendo em diferentes níveis. • formadas por levantamento indireto em camadas estáveis (não-turbulentas), na qual a camada é levemente erguida por movimentos das camadas inferiores; em geral, essas nuvens aparecem sobre montanhas onde o ar é forçado a subir. • sua formação requere, portanto, uma camada relativamente úmida pois em camadas estáveis não há grande deslocamento vertical para grandes variações de temperatura.
Figura 10. Exemplo de altocumulus lenticularis

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Radiatus:

• camadas que parecem radiar de um ponto no horizonte, em bandas paralelas, espalhandose pelo céu, aumentando de espessura. • basicamente sua formação é baseada no espalhamento pelo levantamento em conjunto com instabilidade desenvolvida na própria camada de nuvem, como anteriormente, porém na presença de forte cisalhamento vertical. • tal cisalhamento é responsável pelo alinhamento das células em bandas paralelas; quanto maior o cisalhamento maior o paralelismo. • noção da posição do jato a partir de observações desse tipo de nuvem e respectivos deslocamentos.
Cumulogenitus:

• formado a partir do crescimento vertical de cumulus, que ao atingir um nível estável não consegue subir e portanto se espalha, formando folhas de nuvens; nesses casos, em geral, houve evaporação da base da nuvem. • geralmente associado e produzido em situações de bom tempo, na qual o céu sobre o continente, passa por significativa evolução diurna. • se foi formado pelo aquecimento diurno, é de se esperar que a nuvem se dissipe durante a noite. • se persistir, indica que existe aquecimento por baixo e que existe inversão em altitude.
Opacus:

• envolve os seguintes casos: altocumulus em duas camadas (duplicatus) usualmente opacos e não aumentando, uma camada espessa de altocumulus não aumentando e altocumulus e altostratus presentes no mesmo nível ou em níveis diferentes. • ocorre muito freqüentemente bem próximo a altostratus ou em combinação com ele. • geralmente indica a aproximação de um fraco distúrbio associado a pouca chuva; por si só raramente produz mais do que leves garoas.
Floccus (ou castellatus):

• similar ao translucidus, com exceção de elementos com certo desenvolvimento vertical (embora limitado) em forma de tufos ou torres (crescem mais). • quando isolado de outras nuvens é comumente observado no começo do dia, antes de iniciar o ciclo diurno (isso indica que a perda radiativa no topo da nuvem durante a noite contribuiu para sua formação) e indica condições pré-tormentosas. • sua precipitação individual é quase negligível.

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NUVENS ALTAS Cirrus (Ci)

• nuvens isoladas, com textura fibrosa, em geral sem sombra própria, geralmente de cor branca e freqüentemente com brilho sedoso. • constituídos por cristais de gelo de forma delgada em faixas largas e paralelas, parecendo convergir para o horizonte. • quase todas as formas são translúcidas, não necessariamente por sua espessura, mas principalmente por sua densidade limitada devido: – à pequena quantidade de vapor d’água disponível no nível de observação; e – ao pequeno número de núcleos de condensação. • raramente apresentam halos circulares. • formam-se da evolução da bigorna de cumulonimbus, da evolução de cirrocumulus e também da transformação de cirrostratus. • algumas espécies:
Filosus (ou fibratus):

• emaranhados de cirrus espalhando-se por todo o céu, sem aumentar em quantidade, sem formar camada contínua e não apresentando concentração em dada direção. • representam um estágio degenerado de cirrus e, portanto, é observado bem distante da região de condensação do distúrbio sinótico.
Uncinus:

• cirrus em forma de ganchos ou anzóis com a característica de aumento gradual por todo o céu. • estão relacionados com o jato de altos níveis, e o gancho indica o cisalhamento vertical do vento na altitude do jato. • podem indicar a aproximação de frente quente; isto é geralmente certo se for seguido de cirrostratus.
Spissatus (ou nothus ou densus):

• é originado da parte superior de um cumulonimbus ou pode ainda estar fazendo parte dele. • geralmente indicam a aproximação de pancadas ou tempo tormentoso.

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Figura 11. Exemplos de cirrus

Cirrocumulus (Cc)

• camada fina de nuvens brancas, sem sombra própria, composta de elementos em forma de grânulos, rugas, agrupados ou não e dispostos aproximadamente de maneira regular. • constituído por cristais de gelo quase que exclusivamente; as poucas gotículas existentes rapidamente se transformam em cristais. • são sempre suficientemente transparentes para deixarem aparecer a posição do Sol ou da Lua, e podem ser observadas coroas. • não deve ser confundido com pequenos altocumulus. • existem todos os estágios de transição entre cirrocumulus e altocumulus, o que era esperado, uma vez que seu processo de formação é o mesmo. • o termo cirrocumulus é usado quando a nuvem satisfaz um ou mais dos critérios. • há conexão evidente com cirrus e cirrostratus. • resulta de uma transformação de cirrus e cirrostratus. • apresenta características de nuvens de cristais de gelo. • algumas espécies: stratiformis, lenticularis e castellatus. • na região adiante de um distúrbio sinótico, em geral os cirrus estão acompanhados por cirrocumulus. • seu significado sinótico depende da transformação que o originou, e portanto, não possui regra geral.
Figura 12. Exemplo de cirrocumulus

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Cirrostratus (Cs)

• véu de nuvens transparente e esbranquiçado, de aspecto fibroso ou liso, cobrindo inteiramente ou parcialmente o céu e dando lugar a fenômenos de halo. • algumas vezes a camada é tão tênue que o halo é o único indício de sua presença, e o céu fica “leitoso”. • constituído basicamente por cristais de gelo, com bordas em geral franjadas de cirrus. • espécies: fibratus e nebulosus. • sua formação pode ser: ascensão lenta, em níveis bastante elevados, de camadas de ar de grande extensão horizontal; fusão de cirrus ou de elementos do cirrocumulus; pela expansão da bigorna de um cumulunimbus. • geralmente indica a aproximação de uma frente quente e que o distúrbio está apenas entrando na área. • a seqüência de nuvens cirrus a cirrostratus e altostratus, dá a expectativa de nimbustratus e chuva. • existem as subdivisões: cirrostratus com azimute acima e abaixo de 45° para efeitos de coloração segundo a posição do Sol e cobrindo todo o céu, significando aproximação do distúrbio; não aumentando e não cobrindo todo o céu, ocorrem nas bordas laterais do distúrbio, nas altitudes onde o espalhamento lateral por levantamento é bem fraco, geralmente indicando que o distúrbio está passando pelo setor mais quente.
Figura 13. Exemplo de cirrostratus

FRENTES QUENTES E FRENTES FRIAS

Uma frente é uma zona de transição entre duas massas de ar de densidades diferentes. Porque diferenças em densidades freqüentemente são causadas por diferenças em temperaturas, frentes normalmente separam massas de ar com temperaturas de contraste. Geralmente uma massa de ar é mais quente e úmida do que a outra. Massas de ar estendem-se horizontalmente e verticalmente; conseqüentemente, a extensão ascendente de uma frente é chamada de superfície frontal ou zona frontal. A maioria dos fenômenos interessantes de tempo ocorre ao longo de frentes.

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Acima do solo, a superfície frontal inclina-se em um ângulo baixo permitindo o ar mais fresco cobrir o ar mais frio. Idealmente, as massas de ar em ambos os lados da frente mover-se-iam na mesma direção e velocidade. Nessa condição, a frente agiria simplesmente como uma barreira que segue juntamente com as massas de ar e nenhuma massa poderia penetrar. Mas, geralmente, a distribuição de pressão por meio de uma frente permite uma massa de ar mover-se mais rápido do que a outra. Assim, uma massa de ar avança ativamente contra a outra e elas colidem. Quando uma massa de ar move-se de encontro a outra resulta daí uma mistura ao longo de superfície frontal. Na maioria das vezes, as massas não perdem as suas identidades quando uma é superimposta acima da outra. Qualquer massa que avança é sempre um ar mais quente e menos denso que é forçado para o alto, ao passo que o ar mais fresco e mais denso atua como uma cunha ocorrendo assim o levantamento. Para identificar uma frente em uma mapa do tempo de superfície, meteorologistas usam: • mudanças de temperaturas rápidas sobre uma distância relativamente pequena; • mudanças em umidade de ar (mudanças no ponto de orvalho); • troca de direção de ventos; • pressão e mudanças em pressão; • nuvens e padrões de precipitação.
FRENTES FRIAS

Uma frente fria é uma zona onde o ar frio substitui o ar quente. Em um mapa do tempo, a posição na superfície é representada por uma linha com triângulos ou “dentes” estendidos para o ar mais quente. A Figura 14 é um mapa simplificado das condições na superfície associadas com uma frente fria tipicamente do Hemisfério Sul. Existem grandes diferenças de temperatura em qualquer lado da frente. Também existe uma troca de vento do sudeste adiante da frente fria para o nordeste àtras dela. A troca de vento é causada por um cavado de pressão baixa.
Figura 14. O tempo na superfície associada com uma frente fria (Precipitação representada em áreas verdes)

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Porque a frente fria é um cavado de pressão baixa, mudanças rápidas em pressão podem ser significantes em localizar a posição da frente. A pressão mais baixa geralmente ocorre assim que a frente passa sobre uma estação meteorológica. Se você vai de encontro à frente de qualquer lado, a pressão atmosférica desce, e se você vem para fora da frente, a pressão atmosférica sobe. A Figura 15 representa os padrões de nuvens e precipitação típicas em uma vista lateral da frente fria. O ar frio e denso na frente força o levantamento do ar quente. Se o ar quente levantado é úmido e instável, ele condensa em uma série de nuvens cumulus e cumulonimbus (Cb). Ventos fortes nos níveis altos assopram os cristais de gelo formados perto dos topos das nuvens cumulonimbus em nuvens cirrostratus (Cs) e cirrus (Ci). Essas nuvens, geralmente aparecem bem adiante de uma frente aproximando-se. As nuvens cumulonimbus formam um bando estreito de trovoadas que produzem pancadas de chuvas fortes com rajadas de vento. O ar resfria rapidamente atrás da frente. Os ventos trocam de direção do sudeste para nordeste, a pressão sobe e a precipitação cessa. Assim que o ar resseca, o céu clareia, com exceção de algumas nuvens cumulus de tempo bom (cumulus humilis).
Figura 15. O tempo na superfície associado com uma frente fria

A borda principal da frente é íngreme por causa da fricção na superfície que retarda o fluxo de ar perto da terra. A inclinação média de uma frente fria é somente 1:100. Isso quer dizer que, se você viajar à cem quilômetros atrás da posição na superfície de uma frente fria, a superfície frontal (a curva azul que separa o ar frio da frente fria do ar quente) estará a um quilômetro acima. A velocidade média de movimento de uma frente fria é de 35 km/h. O íngreme de inclinação e velocidade avançanda são responsáveis pelos eventos mais violentos do tempo de frentes frias. Nuvens e precipitação geralmente cobrem uma área vasta atrás da frente com frentes frias de movimentos vagarosos. Quando o ar levantado é quente e estável, as nuvens predominantes são stratus e nimbostratus, e nevoeiro pode formar-se na área de chuva. Com uma frente fria de movimento rápido, uma linha de pancadas de chuvas e trovoadas, chamada de linha de instabilidade, pode ser formada paralelo e adiante da frente em aproximação.

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Os padrões de tempo associados com frentes frias descritas acima são mais ou menos “típicas”, mas existem exceções. Por exemplo, se o ar levantado é seco e estável, somente nuvens esparsas formam-se com ausência de precipitação. Em tempo extremamente seco, podem ser observados somente um aumento de umidade com uma troca de ventos.
FRENTES QUENTES

Uma frente quente é uma zona onde o ar quente substitui ar frio. Em um mapa do tempo, a posição na superfície é representada por uma linha com semicírculos estendidos para o ar mais frio. Assim que o ar frio retrocede, a fricção com a terra reduz extremamente o avanço da posição na superfície da frente comparando com a sua posição no alto. Conseqüentemente, o limite separando essas massas de ar requer uma inclinação muito gradual. A inclinação média de uma frente quente é somente 1:200. Isso, quer dizer que, se você viajar à 200 quilômetros adiante da posição na superfície de uma frente quente, a superfície frontal estará a um quilômetro acima. A Figura 16 é um mapa simplificado das condições na superfície associadas com uma frente quente.
Figura 16. O tempo na superfície associado com uma frente quente (Precipitação representada em áreas verdes)

A velocidade média de movimento de uma frente quente é de 25 km/h, ou metade do que a frente fria. Durante o dia, quando a mistura ocorre nos dois lados da frente, o movimento dessa frente pode ser mais rápida. Frentes quentes freqüentemente se movem em uma série de saltos rápidos, mas durante a noite, a radiação resfriada cria ar mais frio e denso na superfície atrás da frente. Isso inibe o levantamento de ar e o movimento adiantado da frente. Assim que o ar quente ascende sobre a cunha recuada de ar frio, ele expande-se, resfria-se e condensa-se em nuvens freqüentemente com precipitação. O primeiro sinal de uma típica frente quente em aproximação é nuvens cirrus (Ci). Essas nuvens podem ser formadas a mil quilômetros ou mais adiante de uma frente quente. As nuvens cirrus então se graduam em nuvens cirrostratus (Cs) e altostratus (As). Perto de 300 quilômetros adiante da frente, nuvens stratus (St) e nimbostratus (Ns) aparecem e começa a precipitação (neve, chuva ou garoa). A

212

Figura 17 representa os padrões de nuvens e precipitação típicas em uma vista lateral da frente quente.
Figura 17. O tempo na superfície associado com uma frente quente

A precipitação associada com uma frente quente antecede a posição na superfície da frente. Algumas das chuvas que caem no ar mais frio abaixo das nuvens podem evaporar. O ar abaixo da base das nuvens freqüentemente se torna saturado formando nuvens stratus. Ocasionalmente, essas nuvens crescem rapidamente para baixo e podem causar problemas para pilotos de aviões pequenos que requerem boa visibilidade. Os pilotos podem experimentar boa visibilidade em um minuto e nevoeiro frontal no próximo. Sendo assim, voar na proximidade de uma frente quente é muito perigoso. Por causa dos movimentos vagarosos e inclinações baixas, frentes quentes geralmente produzem precipitações leves e moderadas sobre uma área vasta por um período longo. Ocasionalmente, frentes quentes são associadas com nuvens cumulunimbus e trovoadas quando o ar quente levantado é instável e as temperaturas nos dois lados da frente contrasta repentinamente. Existindo essas condições, nuvens cirrus são geralmente seguidas de nuvens cirrucumulus (Cc). Uma frente quente associada com uma massa de ar seco pode passar despercebida na superfície. Quando uma frente quente passa, as temperaturas e umidade aumentam, a pressão atmosférica sobe e os ventos trocam de direção gradualmente no lado quente. As mudanças de tempo com a passagem de uma frente quente não são tão pronunciadas quanto à passagem de uma frente fria. As precipitações cessam e, geralmente, o ar fica claro depois da passagem da frente. A umidade e estabilidade da massa de ar quente avançado basicamente determinam o período de tempo requerido para retorno de céu claro. A massa de ar quente pode produzir algumas condições para nevoeiro.

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FRENTES OCLUSAS

Uma frente oclusa é uma frente complexa onde uma frente fria se encontra com uma frente quente. Em um mapa do tempo, a posição na superfície é representada por uma linha alternada com triângulos e semicírculos estendidos em direção de movimento. A condição de tempo associada com esse tipo de frente é geralmente complexa. A maioria das precipitações é produzida pelo ar quente levantado no alto. Quando as condições são suficientes, a nova frente sozinha tem a capacidade de iniciar a precipitação. A Figura 18 representa os padrões de nuvens e precipitação típicas em uma vista lateral da frente oclusa.
Figura 18. O tempo na superfície associado com uma frente oclusa

Uma frente oclusa de tipo fria existe quando o ar atrás da frente avançada é mais frio do que o ar deslocado. A figura acima representa essa situação. Ali, uma frente fria desloca uma frente quente. Freqüentemente com um tipo frio, o ar quente no alto e a precipitação associada seguem a frente na superfície. O outro tipo de frente oclusa é uma frente oclusa de tipo quente, quando o ar atrás da frente avançada é mais quente do que o ar substituído. A situação desse tipo é o reverso da outra. O ar quente no alto e a precipitação freqüentemente precedem a frente na superfície com um tipo quente.
FRENTES ESTACIONÁRIAS

Uma frente estacionária é uma frente quase estacionária onde o fluxo de ar em ambos os lados da frente não se dirigem para a massa de ar fria ou para a massa de ar quente, mas é paralelo à linha da frente. Frentes estacionárias formam-se quando uma frente avançanda retarda ou pára sobre uma região. Em um mapa do tempo, a posição na superfície é representada por uma linha com triângulos estendidos para o ar mais quente em um lado e semicírculos estendidos para o ar mais frio no outro. Uma mudança em temperatura e/ou uma troca de direção de ventos são geralmente observados quando atravessamos de um lado da frente para o outro. A Figura 19 é um mapa simplificado das condições na superfície associadas com uma frente estacionária.

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Figura 19. O tempo na superfície associado com uma frente estacionária

Se ambas as massas de ar ao longo de uma frente estacionária são secas, pode existir céu claro, sem precipitação. Quando ar úmido e quente é empurrado para cima sobre o ar frio, nebulosidade com precipitações leves podem cobrir uma vasta área. Ciclones que tramitam ao longo de uma frente estacionária podem despejar grandes quantidades de precipitações fortes, resultando em enchentes significantes ao longo da frente. Freqüentemente as frentes estacionárias se dissipam sobre a região onde elas param. A frente pode resumir seu movimento se os ventos nos níveis altos mudam de direção e tornam-se mais perpendiculares à frente. Uma frente estacionária pode tornar-se uma frente fria ou uma frente quente dependendo que massa de ar avança.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBEDO, A. G. A. Estudo hidrossedimentológico na Bacia do Alto Paraguai – Pantanal. 2003. Dissertação (Mestrado em Saneamento Ambiental e Recursos Hídricos) - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/ Programa de Pós-Graduação em Tecnologias Ambientais, Campo Grande. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. PNMA. Plano de Conservação da Bacia do Alto Paraguai – Pantanal – PCBAP. v. 2, Tomo 2: hidrossedimentologia, Projeto Pantanal. Brasília: MMA/PNMA, 1997. CAMARGO, R.; PALMEIRA, A. C. P. A. Meteorologia sinótica. São Paulo: Universidade de São Paulo, s.d. Disponível em: <http://www.master.iag.usp.br>. Acesso em: 15 out. 2004. INTERNATIONAL PROGRAMME ON HYDROLOGY. Regionalização do Alto Paraguai, v. 2. Porto Alegre: Eletrobrás, 1994. MANTOVANI, J. E.; PEREIRA JÚNIOR, A. Estimativa da integridade da cobertura vegetal de cerrado através de dados TM\Landsat. In: UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA et alii. Ações prioritárias para a conservação do Cerrado e Pantanal. Brasília: UnB, G, F, MMA, CNPq, 1998. PADOVANI, C. R. Monitoramento hidrossedimentológico: relatório 2000 – CNPq/PELD. Corumbá: Embrapa-Pantanal, 2000. Disponível em: <http://www.icb.ufmg.br/~peld/home.html>. Acesso em: 3 abr. 2003. TUCCI, C. E. M. Potencial Impacts and Development of the Pantanal. In: INTERNATIONAL SYMPOSIUM HIDROLOGICAL AND GEOCHEMICAL PROCESS IN LARGE SCALE RIVER BASIN. Proceedings. Manaus: s.n., 1999. _________. Bacias brasileiras do Rio da Prata: avaliações e propostas. Brasília: ANA, 2001. _________. Impacto da variabilidade climática e uso do solo nos recursos hídricos. In: FÓRUM BRASILEIRO DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS, Brasília, 2002. Anais. Brasília: Brasília: ANA, Câmara Climática de Recursos Hídricos, 2002.

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APRESENTAÇÃO

Água essência da vida
A vida surgiu no planeta por meio da água. Ela se encontra em grande proporção em animais e vegetais e principalmente no homem. Exemplos: Galinha = 74% Milho = 70% Homem = 95%

Água essência da vida Homem: Cérebro - 75% Ossos - 22% Rins - 83% Sangue - 83% Músculos – 75%

Água e o planeta Terra
70% da superfície da Terra é ocupada por água. Desta água:

97% – mares e oceanos – água salgada

Água e o Planeta Terra
2,7 é de água doce que se encontra:

2% nas geleiras

0,59% nos lençóis subterrâneos

Água e o Planeta Terra

0,03% nos lagos e rios

0,001 na atmosfera

Ciclo hidrológico A água está sempre mudando de lugar na terra, nos mares, na atmosfera. Ela muda também de estado: sólido, líquido, gasoso Este movimento constante da água é provocado por: Radiação do sol Inclinação do relevo Permeabilidade das rochas Cobertura do solo pela vegetação

Ciclo hidrológico

Ciclo hidrológico

A água é transferida dos oceanos, mares, lagos, rios e florestas pela evaporação. Na atmosfera o vapor junta-se a outros compostos moleculares e formam as nuvens. A água volta à superfície da terra e, dependendo do clima da região cai, sob forma de chuva, granizo e neve (processo de precipitação).

Ciclo hidrológico
Parte da água precipitada, infiltra-se nos solos e alimenta os depósitos do subsolo como os aqüíferos. Outra parte vai escoando pelo terreno e juntamente com os olhos d’água vai alimentar riachos, rios e lagos. Dos rios a água volta aos oceanos e lagos, reiniciando o ciclo hidrológico.

Ciclo hidrológico
Só existe água líquida na Terra por causa do planeta, que é mantido graças ao efeito estufa e ao movimento de rotação da Terra. Tal temperatura está diretamente relacionada com as correntes marítimas e com os regimes de ventos. O ciclo hidrológico é possível graças à ação da gravidade que mantém a água líquida nos reservatórios e permite a precipitação.

A água no Brasil
O movimento das águas é o mesmo em todo o planeta. Porém, o estado e a quantidade varia de uma região para a outra dependendo da posição geográfica e do tipo de clima do lugar. No Brasil temos regiões que possuem abundância de água, como a Amazônia, onde o clima é seco, e regiões com excassez de água como o Nordeste, onde o clima é semiárido.

A água no Brasil

Levando-se em conta todo o território brasileiro, nosso País é considerado rico em recursos hídricos. Cerca de 11,6% de toda a água doce do Planeta encontra-se no Brasil.

A água no Brasil
Distribuição dos recursos hídricos Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Sul 65,5% 3,8 % 16,7% 6,7% 7,3%

A água no Brasil

Além das bacias hidrográficas, hoje o uso de águas subterrâneas tem crescido bastante. Alguns núcleos urbanos abastecem-se de águas subterrâneas: Indústrias Hospitais Propriedades rurais Escolas Prédios Casas

A água no Brasil
61% da população brasileira abastece-se de mananciais de superfície: 6% de poços rasos 12% nascentes/fontes 43% poços profundos

Água:
Contaminação e Escassez
18% da população terrestre (1,1 bilhão), não têm acesso à água potável para beber. 24% não têm acesso a um saneamento adequado. 2,2 milhões de pessoas, maioria crianças, morrem todos os anos de doenças associadas aos problemas com água e saneamento.

Água:

Embora 70% da superfície terrestre seja coberta por água, só 2,5% da água é doce, o restante é água salgada. Quase 70% da água doce está congelada e a maior parte do restante está misturada com o solo ou escondida em aqüíferos subterrâneos. Menos de 1% dessa água está acessível para uso humano.

Água:
Áreas de escassez aumentam especialmente no norte da África e oeste da Ásia. Nas próximas duas décadas o mundo vai precisar de 17% a mais de água para agricultura e 40% a mais no total. Em 2025 dois terços da população do mundo vai estar vivendo em países com carência moderada ou severa de água.

Água:
Com a presente taxa de investimento, 1% do PIB mundial, o acesso universal à água potável não vai estar razoavelmente preparado antes de 2050 na África, 2025 na Ásia e 2040 na América Latina e Caribe. Nos países em desenvolvimento, entre 90 e 95% do esgoto e 70% dos resíduos industriais são despejados sem tratamento em águas que poderiam ser usadas em abastecimento.

Água:

Cerca de 94% dos habitantes das cidades tinham acesso à água potável até o fim de 2000, enquanto nas áreas rurais são somente 71%. No saneamento a situação é pior: 85% da população urbana tem acesso à esse recurso, mas nas áreas rurais esse número cai para 36%.

Água:

Dados da OMS revelam que mais de 50% das doenças que atacam os países do terceiro mundo poderiam ser evitadas caso as populações não tomassem água contaminada. Se os serviços de água tratada e saneamento tivessem 1% de aumento 6% das mortes de crianças poderiam ser evitadas.

Água:
Durante os anos 90, nos países em desenvolvimento 835 milhões de pessoas ganharam melhorias no acesso à água potável e 784 milhões ganharam acesso ao saneamento básico. É necessário um investimento global de 180 bilhões de dólares em todas as formas de infraestrutura relacionadas à água.

Água, Brasil:
Poluição dos mananciais, provocada pelos problemas demográficos e questões sociais. Carência de investimentos na captação, tratamento e distribuição. 25% dos domicílios brasileiros não são atendidos por rede de água. Apenas 45% das residências brasileiras possuem coleta de esgoto.

Água:
O que precisa ser feito? Mobilizar recursos internacionais e locais para água e saneamento e serviços. Transferir tecnologias, conhecimentos e capacitação que assegurem que a população tenha acesso à infra-estrutura.

Água:
Aprimorar o uso eficiente desse recurso com a adoção de mecanismos que equilibrem o uso e a preservação. A Cúpula vai servir como preparação para o Ano Internacional da Água em 2003.

CICLO HIDROLÓGICO
Prof. Me. Armando Garcia Arnal Barbedo

Águas no Pantanal

Inundação das margens do Pantanal

Características das seções entre o Planalto e o Pantanal

SINÓTICA ATMOSFÉRICA
Prof. Me. Armando Garcia Arnal Barbedo

Meteorologia básica
Ciência que estuda os fenômenos que ocorrem na atmosfera; Meteorologia básica baseia-se em observações, os elementos meteorológicos mais importantes do ar, a velocidade e direção do vento, tipo e quantidade de nuvens.

Nebulosidade

aglomeração de um grande número de gotículas de água e/ou cristais de gelo, com diâmetro das gotículas variando de 5 a 15 mícrons.

Nuvens baixas
Cumulus (Cu)

Cumulonimbus (Cb)

Stratocumulus (Sc) Stratus (St)

Nuvens médias
Nimbostratus (Ns) Altostratus (As)

Altocumulus (Ac)

Nuvens altas
Cirrus (Ci)

Cirrocumulus (Cc)

Cirrostratus (Cs)

Frentes
zona de transição entre duas massas de ar de densidades diferentes; massas de ar estendem-se horizontalmente e verticalmente; conseqüentemente, a extensão ascendente de uma frente é chamada de superfície frontal ou zona frontal.

Identificação de frentes
mudanças de temperaturas rápidas sobre uma distância relativamente pequena; mudanças em umidade de ar (mudanças em o ponto de orvalho); troca de direção de ventos; pressão e mudanças em pressão; nuvens e padrões de precipitação.

Frentes frias

Frentes quentes

Frentes oclusas

Frentes estacionárias

CONHECIMENTOS BÁSICOS DE HIDROLOGIA APLICADA
Luiz Airton Gomes
Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT/MT)

6

INTRODUÇÃO E CICLO HIDROLÓGICO
HIDROLOGIA Conceito e evolução

Hidrologia é a ciência que trata do estudo da água na natureza, sua ocorrência, circulação e distribuição, suas propriedades físicas e químicas, e sua reação com o meio ambiente, incluindo sua relação com as formas vivas. A hidrologia é uma ciência que se consolidou apenas na segunda parte do século 20, por meio do desenvolvimento de programas de observação e quantificação sistemática dos diferentes processos que ocorrem no ciclo hidrológico. A hidrologia é uma ciência interdisciplinar que tem tido evolução significativa diante dos problemas crescentes, resultados da ocupação das bacias, do incremento significativo da utilização da água e do resultante impacto sobre o meio ambiente do globo. Profissionais de diferentes áreas como engenheiros, agrônomos, geólogos, matemáticos, estatísticos, geógrafos, biólogos, entre outros, atuam nas diferentes subáreas dessa ciência. A hidrologia evoluiu de uma ciência preponderantemente descritiva e quantitativa, para uma área de conhecimento onde os métodos quantitativos têm sido explorados por meio de metodologias matemáticas e estatísticas, melhorando de um lado os resultados e de outro explorando melhor as informações existentes.
Importância

A sua importância é facilmente compreensível quando se considera o papel da água na vida humana, isto é, sem ela não teria vida. Basta lembrar também os efeitos catastróficos das grandes enchentes e estiagens que ocorrem na natureza. Daí a importância de termos um conhecimento aprofundado do comportamento da água na natureza.
Influência da fisiografia regional

A hidrologia de um lugar é geralmente influenciada pela fisiografia regional: posição relativamente aos oceanos; presença de montanhas que possam influenciar a precipitação; fortes declividades de terrenos, possibilitando rápidos escoamentos superficiais; depressões, lagos ou baixadas, capazes de retardar ou armazenar o deflúvio; tipo de coberturas do solo, que propicia interceptar parte da chuva; tipo de solo e subsolo, relacionados à capacidade de infiltração; etc.
Subáreas

“Algumas subáreas que tratam da análise dos processos físicos que ocorrem na bacia.” Hidrometeorologia. É a parte da ciência que trata da água na atmosfera. Limnologia. Refere-se ao estudo dos lagos e reservatórios.

247

Hidrogeologia. É o campo científico que trata das águas subterrâneas. Geomorfologia. Trata da análise quantitativa das características do relevo de bacias hidrográficas e sua associação com o escoamento. Hidrossedimentologia. Trata do estudo dos processos de erosão, transporte e de sedimentos do solo, na superfície da bacia e nos rios, devido às condições naturais e do uso do solo. Qualidade da água e meio ambiente. Trata da quantificação de parâmetros físicos, químicos e biológicos da água e sua interseção com os seus usos na avaliação do meio ambiente aquático.
Áreas afins

Meteorologia – A meteorologia estuda a atmosfera, agente por meio do qual se desenvolve grande parte do chamado “Ciclo Hidrológico”. Climatologia – A climatologia estuda o clima, que é baseada na síntese estatística das condições individuais do tempo.
VOLUMES DE ÁGUA NO PLANETA TERRA

A água pode ser encontrada em estado sólido, líquido ou gasoso; na atmosfera, na superfície da Terra, no subsolo ou nas grandes massas constituídas pelos oceanos, mares ou lagos. A Tabela 1.1 mostra, em termos de volumes e percentuais, a água no nosso planeta.
Tabela 1.1.A água no planeta Terra
Fonte Oceanos Gelo polar, geleiras, icebergs Água subterrânea, umidade do solo Lagos e rios Atmosfera Soma Volume (km3 ) 1.348.000.000,00 27.800.000,00 8.030.000,00 277.000,00 13.000,00 1.384.120.000,00 Porcentagem (%) 97,390 2,008 0,580 0,020 0,001 100,000

A água potável no nosso planeta corresponde a 2,6 % do total ou um volume de aproximadamente 36.000.000 km3. A Tabela 1.2 mostra onde podemos encontrá-la.

248

Tabela 1.2.A água potável na Terra
Fonte Capa de gelo polar, geleiras, icebergs Água subterrânea (até 800m de profundidade) Água subterrânea (de 800 a 4.000m) Umidade do solo Lagos (água potável) Rios Minerais hidratados Plantas, animais, seres humanos Atmosfera Soma Volume (km3 ) 27.802.440,00 3.549.078,00 4.446.000,00 60.840,00 125.280,00 1.000,80 320,40 1.000,80 14.040,00 36.000.000,00 Porcentagem (%) 77,23 9,86 12,35 0,17 0,35 0,003 0,001 0,003 0,04 100,000

HIDROLOGIA APLICADA

A hidrologia aplicada está voltada para os diferentes problemas que envolvem a utilização dos recursos hídricos, preservação do meio ambiente e ocupação da bacia. A Tabela 1.3 apresenta um resumo dos problemas que podem ser encontrados no campo da engenharia dos recursos hídricos.
QUANTIDADE DE ÁGUA

Embora com um risco de excessiva simplificação, o trabalho dos engenheiros com os recursos hídricos pode ser condensado em um certo número de perguntas essenciais. Como as obras de aproveitamento dos recursos hídricos visam ao controle do uso da água, as primeiras perguntas referem-se naturalmente à quantidade de água. Quando se pensa na utilização da água, a primeira pergunta geralmente é: Que quantidade de água será necessária? Provavelmente é a resposta mais difícil de se obter com precisão, entre as que se pode propor em um projeto, porque envolve aspectos sociais e econômicos, além dos técnicos. Com base em uma análise econômica, deve ser também tomada uma decisão a respeito da vida útil das obras a serem realizadas.
Tabela 1.3. Campos de atuação da Hidrologia
Planejamento Projeto controle de cheias poluição erosão recreação piscicultura Operação reservatórios controle de cheias irrigação abastecimento previsão hidrológica geração de energia

gerenciamento de bacias navegação inventário energético irrigação energia drenagem abastecimento

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Quase todos os projetos de aproveitamento dependem da resposta à pergunta: Com quanta água pode-se contar? Os projetos de controle de cheias baseiam-se nos valores de pico do escoamento, ao passo que, em planos que visem à utilização da água, o que importa é o volume escoado durante longos períodos de tempo. As respostas a essas perguntas são encontradas pela aplicação da Hidrologia, ou seja, o estudo da ocorrência e distribuição das águas naturais no globo terrestre ou mais especificamente em bacias hidrográficas.
QUALIDADE DA ÁGUA

Além de ser suficiente em quantidade, a água deve satisfazer certas condições quanto à qualidade. Essa é uma preocupação fundamental no aproveitamento dos recursos hídricos. No entanto os problemas relativos à qualidade da água não serão abordados com profundeza nesta disciplina.

BACIAS HIDROGRÁFICAS
O ciclo hidrológico é normalmente estudado com maior interesse na fase terrestre, onde o elemento fundamental de análise é a bacia hidrográfica.
Conceito

A bacia hidrográfica é uma área de captação natural da água da precipitação que faz convergir os escoamentos para um único ponto da bacia, seu exutório ou foz. A bacia hidrográfica compõe-se basicamente de um conjunto de áreas com declividade no sentido de determinada seção transversal de um curso d’água, medidas as áreas em projeção horizontal. São sinônimos: bacia de captação, bacia coletora, bacia de drenagem superficial, bacia de contribuição, bacia imbrífera, bacia hidrológica.
Individualização

Sobre uma planta da região, com altimetria adequada, procura-se traçar a linha de divisores de água que separa a bacia considerada das contíguas.

250

Figura 2.1. Divisor d´água de uma bacia hidrográfica

Área da bacia

Delimitadas a bacia e as principais sub-bacias, as áreas são obtidas na planta topográfica por planímetro ou por qualquer outro método de medição. Ela é representada normalmente por “A”, e é um dado fundamental para definir a potencialidade hídrica da bacia hidrográfica, porque seu valor multiplicado pela lâmina de chuva precipitada define o volume de água recebido pela bacia. Por isso, considera-se como área da bacia hidrográfica a sua área projetada no plano horizontal. Também é possível determinar a área de uma bacia por cálculos matemáticos de mapas arquivados eletronicamente pelo SIG (Sistema de Informações Geográficas).
Bacia como sistema

A bacia hidrográfica pode ser considerada um sistema físico, onde a entrada é o volume de água precipitado e a saída é o volume de água escoado pelo exutório, considerando-se como perdas intermediárias os volumes evaporados e transpirados e também infiltrados profundamente.

RIO
Definição

Em termo hidrológico rio é um sistema aberto com fluxo contínuo da nascente à foz, sendo que a manutenção do sistema de escoamento depende do balanço hidrológico.

251

Classificação dos rios

A classificação dos rios pode ser feita de diversas formas, como explanado a seguir. Baseada na permanência ou não de água durante o ano. a) Efêmeros: quando drenam apenas durante ou após precipitações. b) Intermitentes: quando escoam durante as estações de chuva e secam nas de estiagem. c) Perenes: quando drenam água o ano todo.
CARACTERÍSTICAS FLUVIOMORFOLÓGICAS Índice de conformação

É a relação entre a área de uma bacia hidrográfica e o quadrado de seu comprimento axial, medido ao longo do curso d’água, da desembocadura ou seção de referência à cabeceira mais distante, no divisor de águas. Uma bacia com índice de conformação baixo é menos sujeita a enchentes que outra do mesmo tamanho, porém com maior índice de conformação. Isso se deve ao fato de que em uma bacia estreita e longa, com índice de conformação baixo, há menos possibilidade de ocorrência de chuvas intensas cobrindo simultaneamente toda a sua extensão; e também, em uma tal bacia, a contribuição dos tributários atinge o curso d´água principal em vários pontos ao longo do mesmo. Caso não existam outros fatores que interfiram, quando o valor desse índice se aproxima da unidade (um), a forma da bacia aproxima-se de um quadrado e esse tipo de bacia tem maior potencialidade de ocorrência de picos de enchentes elevados.
Tabela 2.1 – Classificação dos rios baseada nas características de descargas, área de drenagem e largura do canal do rio
Tamanho do rio Rios muito grandes Rios grandes Rios (Rivers) Pequenos rios Ribeirões (Streams) Pequenos ribeirões (Small streams) Córregos
*Depende das condições locais. Fonte: Meybeck et al. 1992.

Descarga média (m3/s) > 10.000 1.000 a 10.000 100 a 1.000 10 a 100 1 a 10 0,1 a 1 < 0,1

Área de drenagem (km2 ) > 1.000.000 100.000 a 1.000.000 10.000 a 100.000 1.000 a 10.000 100 a 1.000 10 a 100 < 10

Largura do rio (m) >1.500 800 a 1.500 200 a 800 200 a 800 40 a 200 8 a 40 <1

Ordem do rio* >10 7 a 11 6a9 4a7 3a6 2a5 1a3

252

Figura 2.2. Rios da bacia hidrográfica

(adimensional)

(2.1)

onde:
A = área da bacia, km2 L = comprimento do rio, km Índice de compacidade

É a relação do perímetro de uma bacia hidrográfica e a circunferência de círculo de área igual à da bacia.
Figura 2.3. Perímetro da bacia hidrográfica

Kc
onde:

P C

P= perímetro, km, C= circunferência, km e A= área da bacia, km2

253

Kc

0,28

P A

(adimensional)

(2.2)

Esse coeficiente é um número adimensional que varia conforme a bacia, independentemente do seu tamanho. Quanto mais irregular for a bacia, tanto maior será o coeficiente de compacidade. Um coeficiente igual à unidade corresponderia a uma bacia circular. O valor do índice de compacidade indica maior potencialidade da bacia de produção de picos de enchentes elevados. Caso não existam outros fatores que interfiram, menor valor do índice de compacidade (próximo a 1) indica maior potencialidade de ocorrência de picos de enchentes elevados.
Densidade de drenagem e densidade de confluência Densidade de drenagem

A relação entre o comprimento total dos cursos d’água efêmeros, intermitentes e perenes de uma bacia hidrográfica e a área total da mesma bacia é denominada densidade de drenagem. Esse índice varia de 0,5 km/km2 , para bacias de drenagem pobre, a 3,5 km/km2 ou mais, para bacias excepcionalmente bem drenadas.

Dd
onde:

l A

(2.3)

Dd= densidade de drenagem, km/km2 l = soma dos comprimentos dos rios, km A = área da bacia, km2 Densidade de confluência

Uma forma mais simples de representar a densidade de drenagem é calcular a densidade de confluência. A interpretação do resultado é semelhante ao da densidade de drenagem.

Dc

Nc A

(2.4)

254

onde:
Dc= densidade de confluência (Nc/km2) Nc= número de confluência A = área da bacia, km2

Se existir um número bastante grande de cursos de água em uma bacia (relativa a sua área), o deflúvio atinge rapidamente os rios e haverá provavelmente picos de enchentes altos e deflúvios de estiagem baixos.
Sinuosidade do curso d’água

A relação entre o comprimento do rio L e o comprimento de um tavegue Lt, é denominada sinuosidade do curso d’água, que é um fator controlador da velocidade de escoamento.
Figura 2.4. Rios da bacia hidrográfica

Sin

L Lt

(2.5)

onde:
L = comprimento do rio considerando a sinuosidade do mesmo, km Lt = comprimento do rio em linha reta, km

Esse índice, ou seja, a sinuosidade, pode distinguir entre os canais que são meandros e os que não são, para um valor acima de 1,5 seria considerado canal com meandros.
Sistema de ordenamento dos canais

Como critérios de ordenamento dos canais da rede de drenagem de uma bacia hidrográfica, destacam-se os de Horton (1945) e Strahler (1957).

255

Figura 2.5. Modelos de sistemas de ordenamento de canais

Declividade e perfil longitudinal de um curso d’água

O perfil de um curso d’água é representado marcando-se os comprimentos desenvolvidos do leito em abcissas e a altitude do fundo (ou cota de água) em ordenadas.
Declividade média de um curso d’água

Pode ser calculado por dois métodos: a) Linha d1 – que representa a declividade média entre dois pontos, obtida dividindo-se a diferença total de elevação do leito pela extensão horizontal do curso d’água entre os dois pontos.

d1
onde:

∆H L

(m/m)

(2.6)

L = comprimento do rio, m DH = diferença de nível existente no comprimento L, desnível máximo, m

b) Linha d2 – que determina uma área entre essa e o eixo das abscissas igual à área compreendida entre a curva do perfil e o mesmo eixo. É o valor mais representativo e racional da declividade do curso d’água.

d1

2ABP L2

(m/m)

ou

d1

∆H L

(2.7)

256

onde:
L = comprimento do rio, m ABP = área compreendida entre a curva do perfil e o mesmo eixo das abscissas, m. Figura 2.6. Perfil longitudinal do rio Macao

Altitude (m)
1300

H ABP d1 d2
895 m

∆h

0

20

40

60

80

257

Figura 2.7. Bacia do rio Itajaí

258

Figura 2.8. Principais bacias hidrográficas brasileiras

259

PRECIPITAÇÃO
CONCEITO

Precipitação é a água proveniente do vapor d’água da atmosfera, que chega à superfície terrestre, sob a forma de: chuva, granizo, neve, orvalho, etc. Para as condições climáticas do Brasil, a chuva é a mais significativa em termos de volume.
FORMAÇÃO DAS CHUVAS

A umidade atmosférica é o elemento básico para a formação das precipitações. A formação da precipitação segue o seguinte processo: o ar úmido das camadas baixas da atmosfera é aquecido por condução, torna-se mais leve que o ar das vizinhanças e sofre uma ascensão adiabática. Essa ascensão do ar provoca um resfriamento que pode fazê-lo atingir o seu ponto de saturação. A partir desse nível, há condensação do vapor d’água em forma de minúsculas gotas que são mantidas em suspensão, como nuvens ou nevoeiros. Essas gotas não possuem ainda massa suficiente para vencer a resistência do ar, sendo, portanto, mantidas em suspensão, até que, por um processo de crescimento, ela atinja tamanho suficiente para precipitar.
CLASSIFICAÇÃO DAS PRECIPITAÇÕES

Conforme o mecanismo fundamental pelo qual se produz a ascensão do ar úmido, as precipitações podem ser classificadas em: convectivas, orográficas ou frontais.
Chuvas convectivas (“chuvas de verão”)

Resultantes de convecções térmicas, que é um fenômeno provocado pelo forte aquecimento de camadas próximas à superfície terrestre, resultando em uma rápida subida do ar aquecido. A brusca ascensão promove um forte resfriamento das massas de ar que se condensam quase que instantaneamente. Ocorrem em dias quentes, geralmente no fim da tarde ou começo da noite; – Podem iniciar com granizo; – Podem ser acompanhadas de descargas elétricas e de rajadas de vento; – Interessam às obras em pequenas bacias, como para cálculo de bueiros, galerias de águas pluviais, etc.

260

Figura 3.1. Chuva convectiva

Chuvas orográficas

Quando vem vento quente e úmido, soprando geralmente do oceano para o continente, e encontram uma barreira montanhosa, elevam-se e resfriam-se adiabaticamente havendo condensação do vapor, formação de nuvens e ocorrência de chuvas. – São provocadas por grandes barreiras de montanhas (ex.: serra do Mar); – As chuvas são localizadas e intermitentes; – Possuem intensidade bastante elevada; – Geralmente são acompanhadas de neblina.
Figura 3.2. Chuva orográfica

Chuvas frontais

Aquelas que ocorrem ao longo da linha de descontinuidade, separando duas massas de ar de características diferentes. São chuvas de grande duração, atingindo grandes áreas com intensidade média. Essas precipitações podem vir acompanhadas por ventos fortes com circulação ciclônica. Podem produzir cheias em grandes bacias.

261

Figura 3.3. Chuva frontal

MEDIDAS DE PRECIPITAÇÃO

• Quantifica-se a chuva pela altura de água caída e acumulada sobre uma superfície plana. • A quantidade da chuva é avaliada por meio de aparelhos chamados de pluviômetros e pluviógrafos. • Grandezas características das medidas pluviométricas: – Altura pluviométrica: medidas realizadas nos pluviômetros e expressas em mm. Significado: lâmina d’água que se formaria sobre o solo como resultado de uma certa chuva, caso não houvesse escoamento, infiltração ou evaporação da água precipitada. A leitura dos pluviômetros é feita normalmente uma vez por dia às 7 horas da manhã. – Duração: período de tempo contado desde o início até o fim da precipitação, expresso geralmente em horas ou minutos. – Intensidade da precipitação: é a relação entre a altura pluviométrica e a duração da chuva expressa em mm/h ou mm/min. Uma chuva de 1mm/min corresponde a uma vazão de 1 litro/min afluindo a uma área de 1m2.
Pluviômetros

O pluviômetro consiste em um cilindro receptor de água com medidas padronizadas, com um receptor adaptado ao topo. A base do receptor é formada por um funil com uma tela obturando sua abertura menor. No fim do período considerado, a água coletada no corpo do pluviômetro é despejada, por meio de uma torneira, para uma proveta graduada, na qual se faz leitura. Essa leitura representa, em mm, a chuva ocorrida nas últimas 24 horas.

262

Figura 3.4. Pluviômetro: detalhes de projeto de instalação

Há vários tipos de pluviômetros operando no Brasil, sendo que os mais utilizados compreendem: 1) um reservatório cilíndrico de 256,5 mm de diâmetro e 40 cm de comprimento, terminando por parte cônica munida de uma torneira para retirar a água; 2) um receptador cilíndrico cônico, em forma de funil, com bordas perfeitamente circulares, em aresta viva com 252,4 mm de diâmetro, sobrepondo-se ao reservatório e que determina a área de exposição do aparelho; é a parte mais delicada do aparelho e deve ser construído e conservado cuidadosamente; ele impede também a evaporação da água acumulada no reservatório; e 3) uma proveta de vidro, devidamente graduada, para medir diretamente a chuva recolhida. Obs.: Os pluviômetros são normalmente observados uma ou duas vezes por dia, todos os dias, nos mesmos horários, eles indicam a altura pluviométrica diária (ou a intensidade média em 12 horas). A princípio, o resultado não depende da área, mas é preciso não se enganar no momento de calcular a lâmina precipitada:

263

P 10 *
onde:

V A

(3.1)

P é a precipitação acumulada, em mm V é o volume recolhido, em cm3 A é a área de interceptação do anel, em cm2 Instalação do aparelho

Existem várias normas de instalação dos pluviômetros e pluviógrafos apesar das tentativas de homogeneização internacional. Em geral, deve ser feita a uma altura média acima da superfície do solo, entre 1 m a 1,5 m. O aparelho deve ficar longe de qualquer obstáculo que pode prejudicar a medição (prédios, árvores, relevo, etc.).
Pluviógrafos

São aparelhos automáticos que registram continuamente a quantidade de chuva que recolhem. Esses equipamentos permitem medir as intensidades das chuvas durante intervalos de tempo inferiores àqueles obtidos com as observações manuais feitas nos pluviômetros.
Aparelhos

Existe uma grande variedade de aparelhos, usando princípios diferentes para medir e gravar continuamente as precipitações. Pode-se examiná-los segundo as quatro etapas da aquisição: medição, transmissão do sinal, gravação, transmissão do registro. Os pluviógrafos possuem uma superfície receptora padrão de 200 cm2. O modelo mais utilizado no Brasil é o de sifão. Existe um sifão conectado ao recipiente que verte toda a água armazenada quando o volume retido equivale a 10 cm de chuva. Os registros dos pluviógrafos são indispensáveis para o estudo de chuvas de curta duração, que é necessário para os projetos de galerias pluviais.
Tipos de Pluviógrafos

Existem vários tipos de pluviógrafos, porém somente três têm sido mais utilizados. Pluviógrafo de caçambas basculantes: consiste em uma caçamba dividida em dois compartimentos, arranjados de tal maneira que, quando um deles se enche, a caçamba bascula, esvaziando-o e deixando o outro em posição de enchimento. A caçamba é conectada eletrica-

264

mente a um registrador, sendo que uma basculada equivale a 0,25 mm de chuva Pluviógrafo de peso: Nesse instrumento, o receptor repousa sobre uma escala de pesagem que aciona a pena e esta traça um gráfico de precipitação sob a forma de um diagrama (altura de precipitação acumulada x tempo).
Pluviogramas

Os gráficos produzidos pelos pluviógrafos são chamados de pluviogramas. Os pluviogramas são gráficos nos quais a abscissa corresponde às horas do dia e a ordenada corresponde à altura de precipitação acumulada até aquele instante.
Ietogramas

Os ietogramas são gráficos de barras, nos quais a abscissa representa a escala de tempo e a ordenada a altura de precipitação. A leitura de um ietograma é feita da seguinte forma: a altura de precipitação correspondente a cada barra é a precipitação total que ocorreu durante aquele intervalo tempo.
Figura 3.5 (a). Pluviógrafo de caçamba basculante

265

Figura 3.5 (b). Pluviógrafo de peso: instalação e detalhe construtivo

Figura 3.6. Exemplo de pluviograma obtido a partir de um pluviógrafo

266

Figura 3.7 (a). Ietograma

PRECIPITAÇÕES MÉDIAS SOBRE UMA BACIA HIDROGRÁFICA

Para calcular a precipitação média de uma superfície qualquer, é necessário utilizar as observações dos postos dentro dessa superfície e nas suas vizinhanças. Há três métodos para o cálculo da precipitação média: o da Média Aritmética, o de Thiessen e o das Isoietas.
Método da Média Aritmética

Admite-se que todos pluviômetros têm o mesmo peso. A precipitação média é então calculada como a média aritmética dos valores medidos. Esse método ignora as variações geográficas da precipitação.

Pm 1 n*
onde:

n

Pi
i=1

(3.4)

Pm = a precipitação média na área, em mm Pi = a precipitação medida no i-ésimo pluviômetro, em mm n = o número total de pluviômetro

267

Figura 3.7 (b). Exemplo de um evento de chuva (ietograma) com o respectivo hidrograma de cheia

Método de Thiessen

Este método considera a não-uniformidade da distribuição espacial dos postos, mas não leva em conta o relevo da bacia. Por isso este método dá bons resultados quando o terreno não é muito acidentado. A média será dada por:

n

Pm

i=1

Pi Ai
A

(3.5)

onde: Pm = a precipitação média na área, em mm
Ai = a área de influência de cada posto i Pi = a precipitação registrada no posto i, mm A = a área da bacia

268

A metodologia consiste no seguinte: a) ligue os postos por trechos retilíneos; b) trace linhas perpendiculares aos trechos retilíneos passando pelo meio da linha que liga os dois postos; e c) prolongue as linhas perpendiculares até encontrar outra. O polígono é formado pela interseção das linhas, correspondendo à área de influência de cada posto.
Figura 3.8. Método de Thiessen

Método das Isoietas

Isoietas são linhas indicativas de mesma altura pluviométrica. Podem ser consideradas como “curvas de nível de chuva”. O espaçamento entre eles depende do tipo de estudo, podendo ser de 5 em 5 mm, 10 em 10 mm, 20 em 20 mm, etc. O traçado das isoietas é feito da mesma maneira que se procede em topografia para desenhar as curvas de nível, a partir das cotas de alguns pontos levantados. Descreve-se a seguir o procedimento de traçado das isoietas: 1º Definir qual o espaçamento desejado entre as isoietas; 2º Liga-se por uma semi-reta, dois postos adjacentes, colocando suas respectivas alturas pluviométricas; 3º Interpola-se linearmente determinando os pontos onde vão passar as curvas de nível, dentro do intervalo das duas alturas pluviométricas;

269

4º Procede-se dessa forma com todos os postos pluviométricos adjacentes; 5º Ligam-se os pontos de mesma altura pluviométrica, determinando cada isoieta; e 6º A precipitação média é obtida por:

n

Pm
onde:

i=1

Pi Ai
A

(3.6)

Pm = a precipitação média na área, em mm Ai,i+1 = a área compreendida entre as isoietas i e i+1, Pi = a precipitação correspondente da isoieta i, mm Pi+1 = a precipitação correspondente da isoieta i+1, mm A = a área da bacia Figura 3.9. Método de Isoietas

270

INTERCEPTAÇÃO
CONCEITO

Interceptação é a retenção de parte da precipitação acima da superfície do solo. A interceptação pode ocorrer devido à vegetação ou outra forma de obstrução ao escoamento. O volume retido é perdido por evaporação, retornando à atmosfera. Esse processo interfere no balanço hídrico da bacia hidrográfica, funcionando como um reservatório que armazena uma parcela da precipitação para consumo. A tendência é que a inteceptação reduza a variação da vazão ao longo do ano, retarde e reduza o pico das cheias. As perdas por interceptação vegetal podem chegar a até 25% da precipitação anual (TUCCI,1993).
INTERCEPTAÇÃO VEGETAL

A interceptação vegetal depende de vários fatores: características da precipitação e condições climáticas, tipo e densidade da vegetação e período do ano. As características principais da precipitação são a intensidade, o volume precipitado e a chuva antecedente. A intensidade do vento é o fator climático mais significativo na interceptação, aumentando a mesma para uma cheia longa e diminuindo para cheias menores. O tipo de vegetação caracteriza a quantidade de gotas que cada folha pode reter e a densidade da mesma indica o volume retido em uma determinada superfície da bacia. As folhas geralmente interceptam a maior parte da precipitação, mas a disposição dos troncos contribui significativamente. Em regiões em que ocorre uma maior variação climática, ou seja, em latitudes mais elevadas, a vegetação apresenta uma significativa variação da folhagem ao longo do ano, que interfere diretamente com a interceptação. A equação da continuidade do sistema de interceptação pode ser descrita por:
Si = P – T – C

(4.1)

onde:
Si: é a precipitação interceptada P : é a precipitação observada T : é a precipitação que atravessa a vegetação C : é a parcela que escoa pelo tronco das árvores

271

MEDIÇÃO DAS VARIÁVEIS

a) Precipitação – A quantificação da precipitação é realizada com postos pluviométricos localizados em clareiras próximas às áreas de interesse. b) Precipitação que atravessa a vegetação – Essa precipitação é medida por drenagem especial colocada abaixo das árvores e distribuída de tal forma a obter uma representatividade espacial dessa variável. Em florestas altas é possível utilizar pluviômetros que possuem o mesmo padrão das medições de precipitação. Experiências mostram que é necessário utilizar cerca de dez vezes mais equipamentos para a medição da precipitação que atravessa a vegetação do que para a precipitação total. Dependendo do tipo de cobertura, a quantificação dessa variável é ainda mais difícil como em gramados e vegetação rasteira. c) Escoamento pelos troncos – Essa variável apresenta uma parcela pequena do total precipitado, de 1 a 15 % do total precipitado. A medição dessa variável somente é viável para vegetação com troncos de magnitude razoável.

EVAPORAÇÃO E TRANSPIRAÇÃO
INTRODUÇÃO

A evaporação refere-se à mudança da água do seu estado líquido para o estado vapor, por ação da energia solar. A evaporação pode ocorrer em corpos d´água, solos saturados ou de superfície não-saturada. A evaporação potencial é a taxa de evaporação de uma dada superfície, controlada climaticamente, quando a quantidade disponível e a taxa de alimentação de água à superfície são ilimitadas. A transpiração é a evaporação que ocorre das folhas das plantas, pelas aberturas dos estômatos. Novamente, dada uma taxa limitada de alimentação de água na zona das raízes, a transpiração potencial é uma função do clima e da fisiologia da planta. A transpiração real, sob condições limitadas de água, depende da habilidade da planta em extrair a umidade do solo parcialmente saturado com capacidade limitada de transferir água. Em ciência e engenharia utiliza-se freqüentemente o termo evapotranspiração. Ele é a soma total da evaporação e da transpiração. O termo procura responder à dificuldade em separar os dois fenômenos, na situação usual onde a cobertura vegetal não é completa. Antes de entrar nos detalhes do processo de evapotranspiração, deve-se enfatizar sua importância no ciclo hidrológico. De toda a precipitação que ocorre sobre os continentes, 57% evapora, enquanto que nos oceanos a evaporação corresponde a 112% do total precipitado. Em uma região semi-árida, cerca de 96% da precipitação total anual pode evaporar. A evapotranspiração diária pode variar em uma faixa de 0 a 12 mm por dia. Durante uma chuva intensa, a evaporação é reduzida a um mínimo, por causa das condições de saturação

272

do ar; entretanto, a evapotranspiração entre as tormentas é normalmente suficiente para deplecionar completamente a umidade do solo em regiões áridas e tem influência significativa na umidade do solo e nas respostas hidrológicas futuras em todos os lugares. Assim, a evaporação potencial é correspondente à máxima evaporação possível de uma determinada área. Seu estudo é importante, por exemplo, quando se quer analisar a perda de água de um reservatório por evaporação. A evapotranspiração é a perda de água que ocorre em uma determinada bacia, considerandose a evaporação e a transpiração dos vegetais. A evapotranspiração potencial é um valor de referência, pois caracteriza a perda de água da bacia como se toda a vegetação fosse um gramado de uma espécie vegetal padronizada. Portanto, é um índice que independe das características particulares de transpiração da cultura plantada na região estudada, levando em conta apenas o clima, o tipo de solo, e as superfícies livres de água na bacia. Uma das maneiras de se determinar a evapotranspiração potencial é a partir da evaporação Potencial, utilizando um coeficiente Kp que particulariza o tipo de solo, ventos, entre outros. Como se verá adiante, essa última é mais fácil de ser determinada, utilizando-se por exemplo, tanques apenas com água. A evapotranspiração real constitui a perda de água que realmente ocorre na bacia, considerando a vegetação existente. Pode-se determinar a evapotranspiração real indiretamente a partir da evapotranspiração potencial por um coeficiente Kc particular para cada tipo de cultura.

Em condições normais de cultivo de plantas de ciclos anuais, logo após o plantio, a ET real é bem menor do que a ET potencial. Essa diferença vai diminuindo à medida que a cultura se desenvolve (em razão do aumento foliar), tendendo para uma diferença mínima antes da maturação. Tal diferença volta a aumentar quando a planta atinge a maturidade de colheita. Figura 5.1.

273

Figura 5.1. Relação entre E.T. real e E.T. potencial para cultura de ciclo curto

EVAPORAÇÃO

A evaporação é um fenômeno de natureza física no qual as moléculas de água passam do estado líquido para o estado gasoso. Ocorre nas superfícies líquidas de reservatórios, lagos e rios, na superfície dos solos úmidos, etc. O processo físico da evaporação é função principalmente da temperatura e umidade sendo influenciado ainda pela pressão atmosférica, velocidade média do vento na região, sólidos solúveis, umidade e natureza do solo. Regiões de clima seco e quente favorecem a evaporação ao passo que em regiões de clima frio e úmido ocorre o contrário.
DETERMINAÇÃO DA EVAPORAÇÃO POTENCIAL Quadro 5.1. Métodos de obtenção da evaporação

274

DETERMINAÇÃO DIRETA DA EVAPORAÇÃO POTENCIAL Evaporímetros

Por muitos anos, medidas tomadas em tanques de evaporação têm sido utilizadas para estimativas em reservatórios. A popularidade dos tanques prende-se ao fato de serem baratos, de simples operação e porque o coeficiente de conversão lago x tanque permanece razoavelmente constante de ano para ano, e para dada região. Entre os vários tipos de tanque, os mais utilizados são os seguintes: a) Tanque classe A – USWB: De grande utilização no Canadá e nos EUA, o tanque classe A (Figura 5.2) é cilíndrico com 1,20m de diâmetro, 25cm de profundidade, sendo instalado sobre estrados de madeira a 15cm da superfície do solo, sendo construído de chapa galvanizada número 14, sendo o nível de água mantido durante a operação entre 50 e 75 mm, a partir do bordo superior. As medidas de altura da lâmina evaporada são realizadas com uma ponta de medida acoplada a um poço tranqüilizador. Quando no período ocorrer chuva, correções devem ser feitas pelo pluviômetro (isso pode ser, no caso de chuva intensa, fonte de grande erro). Medidas simultâneas de vento a 2m e de temperatura da água devem ser realizadas, embora elas estejam sempre próximas. b) Tanque GGI – 3000: Trata-se de um tanque cilíndrico, com diâmetro interno 61,8cm e altura 60 cm, sendo enterrado no solo, com borda 7,5cm acima da superfície. A medida da alteração de nível de água (altura de lâmina evaporada) é feita com um copo volumétrico.
Figura 5.2.Tanque classe A – USWB

c) Tanque de 20 m2: Trata-se de um tanque cilíndrico de fundo plano construído em chapa de ferro de 1/4 de polegada de espessura. Parede lateral de chapa 3/16 polegadas, diâmetro 5m e altura 2m. O tanque é enterrado e as medidas de evaporação são feitas com copo volumétrico.

275

d) Tanque flutuante: Este tanque é quadrado, com 3 pés de lado e 18 polegadas de profundidade, suportado por tambores flutuantes no centro de uma balsa de 14 por 16 pés. O nível da água no tanque é o mesmo da água ao seu redor. Embora dessa maneira se possa obter excelentes resultados, o modelo é pouco utilizado por causa das dificuldades de manuseio e da ação de ondas.
Aplicações:

É grande a utilização dos tanques de evaporação na prática. Destacando-se entre eles o tanque Classe-A e o GGI-3000. A evaporação de espelhos de água (lagos) é obtida multiplicando-se a lâmina medida no tanque, por um coeficiente de ajuste, denominado coeficiente de tanque, ou seja:
E = k.Et

(5.1)

onde:
E: evaporação do lago (espelho de água) k: coeficiente do tanque Et: evaporação do tanque

Esse coeficiente de ajuste se faz necessário porque o tanque não simula exatamente um reservatório de grandes dimensões, sofrendo, por exemplo, insolação nas paredes laterais. De acordo com Livingston, atmômetro é qualquer instrumento de qualquer forma usado para medição ou estimativa de diferentes intensidades de evaporação. Os principais tipos de atmômetros são descritos a seguir: a) Atmômetro de Livingstone: É essencialmente constituído por uma esfera oca de porcelana porosa de cerca de 5cm de diâmetro e 1cm de espessura. A esfera é cheia de água destilada e comunica-se com uma garrafa contendo água destilada que assegura o permanente enchimento da esfera e permite a medida do volume evaporado. b) Atmômetro de Bellani: É semelhante ao atmômetro de Livingston, com exceção de que a esfera é substituída por um prato liso (Figura 5.3).

276

Figura 5.3.Atmômetro de Bellani

c) Atmômetro de Piché: É constituído por um tubo cilíndrico de vidro de 25cm de comprimento e 1,5cm de diâmetro. O tubo é graduado e fechado em sua parte superior; a abertura inferior é obturada por uma folha circular de papel-filtro padronizado, de 30mm de diâmetro e de 0,5mm de espessura, fixado por capilaridade e mantido por uma mola. O aparelho é previamente cheio de água destilada, a qual se evapora progressivamente pela folha de papel-filtro. A diminuição do nível de água no tubo permite calcular a taxa de evaporação. Os atmômetros não se constituem em um bom método de avaliação da evaporação. O atmômetro de Livingstone apresenta diferentes valores de evaporação de acordo com a cor da esfera de porcelana (pode ser branca ou preta), que afeta a absorção da radiação solar. No caso do atmômetro de Piché, ele é instalado debaixo de um abrigo para proteger o papel filtro da ação da chuva e em conseqüência disso o aparelho não leva em conta a influência da insolação.
Evaporógrafo de balança

Trata-se de um aparelho composto por uma balança de precisão com prato próprio para colocação de água, e uma agulha sensível que registra as modificações na massa do prato. Inicialmente, o prato é cheio com uma determinada massa de água. À medida que essa água evapora, a agulha registra a variação de sua massa, construindo um gráfico de evaporação (em mm) por tempo. Como se trata de um aparelho sensível, deve ser instalado sob um abrigo. Dessa forma, simulam-se as condições de evaporação de um solo à sombra de uma cultura (café, por exemplo). Por esse motivo o evaporógrafo de balança é bastante utilizado na agricultura.

277

INFILTRAÇÃO, ARMAZENAMENTO E ÁGUA SUBTERRÂNEA
CONCEITO

Infiltração é a passagem de água da superfície para o interior do solo. Portanto, é um processo que depende fundamentalmente da água disponível para infiltrar, da natureza do solo, do estado da sua superfície e da quantidade de água e ar, inicialmente presentes no seu interior. À medida que a água infiltra pela superfície, as camadas superiores do solo vão se umedecendo de cima para baixo, alterando gradativamente o perfil de umidade. Enquanto há aporte de água, o perfil de umidade tende à saturação em toda a profundidade, sendo a superfície, naturalmente, o primeiro nível a saturar. Normalmente, a infiltração decorrente de precipitações naturais não é capaz de saturar todo o solo, restringindo-se a saturar, quando consegue, apenas camadas próximas à superfície, conformando um perfil típico onde o teor de umidade decresce com a profundidade. Quando o aporte de água à superfície cessa, isso é, deixa de haver infiltração, a umidade no interior do solo redistribui-se, evoluindo para um perfil de umidade inversa, com menores teores de umidade próximos à superfície e maiores nas camadas mais profundas. Em um solo em que cessou a infiltração, parte da água no seu interior propaga-se para camadas mais profundas e parte é transferida para a atmosfera por evaporação direta ou por transpiração dos vegetais, ou seja pela evapotranspiração. Esse processo faz com que o solo vá recuperando a sua capacidade de infiltração, tendendo a um limite superior e à medida que as camadas superiores do solo vão se tornando mais secas. Se uma precipitação atinge o solo com uma intensidade menor que a capacidade de infiltração toda a água penetra no solo, provocando uma progressiva diminuição da própria capacidade de infiltração, já que o solo está se umedecendo. Se a precipitação continuar, pode ocorrer, dependendo da sua intensidade, um momento em que a capacidade de infiltração diminui tanto que sua intensidade se iguala à da precipitação. A partir desse momento, mantendo-se a precipitação, a infiltração real processa-se nas mesmas taxas da curva da capacidade de infiltração, que passa a decrescer exponencialmente no tempo tendendo a um valor mínimo de infiltração. A parcela não infiltrada da precipitação forma filetes que escoam superficialmente para áreas mais baixas, podendo infiltrar novamente, se houver condições. Quando termina a precipitação e não há mais aporte de água à superfície do solo a taxa de infiltração real anula-se rapidamente e a capacidade de infiltração volta a crescer, porque o solo continua a perder umidade para as camadas mais profundas além das perdas por evapotranspiração.

278

EQUAÇÃO DE HORTON

A partir de experimentos de campo Horton (1939) estabeleceu a seguinte equação para o cálculo da infiltração pontual.

It
onde:

Ib + (Ii – Ib)e

- kt

(6.1)

t: tempo decorrido desde a saturação superficial do solo It: taxa de infiltração no tempo Ii: taxa de infiltração inicial (t=0) Ib: taxa mínima de infiltração (assintótica) K: a condutividade hidráulica MOVIMENTO DA ÁGUA INFILTRADA – EQUAÇÃO DE DARCY

O movimento da água em um solo não saturado pode ser descrito pela equação de Darcy.
q = k grad h

(6.2)

onde:
q: velocidade de Darcy k: condutividade hidráulica do solo h: carga piezométrica

Zona de saturação: todos os espaços vazios encontram-se completamente ocupados pela água. Zona de aeração (não saturação): os poros contêm água e ar (ou vapor de água).

279

Figura 6.1. Aqüíferos confinados e livres

VAZÕES DE ENCHENTES
ENCHENTE

Por enchente de um curso d’água entende-se pelo fenômeno de rápida elevação da superfície livre do rio devido ao aumento da vazão que, por sua vez é causado por precipitações de forte intensidade por uma prolongada duração. A inundação caracteriza-se pelo extravasamento do canal.
Hidrograma de uma cheia Figura 7.1. Hidrograma de cheia

280

Precipitação inicial

Iniciada a precipitação, parte das águas será interceptada pela vegetação e pelos obstáculos e retida nas depressões do terreno até preenchê-las completamente. Denomina-se precipitação inicial a ocorrida no intervalo correspondente.
Escoamento superficial

Preenchidas as depressões e ultrapassando a capacidade de infiltração do solo, tem início o intervalo do suprimento líquido, que se caracteriza pelo escoamento superficial propriamente dito.
Tempo de concentração (tc)

Tempo de concentração relativo a uma seção de um curso d’água é o intervalo de tempo contando a partir do início da precipitação para que toda a bacia hidrográfica correspondente passe a contribuir na seção em estudo. Corresponde à duração da trajetória da partícula de água que demore mais tempo para atingir a seção.
Tempo de retardamento da bacia ou tempo de retardo

É definido como o tempo entre centro de massa da chuva efetiva até o pico do hidrograma.
PERÍODO DE RETORNO (T)

O período de retorno ou período de recorrência de uma enchente (ou qualquer evento) é o tempo médio em anos que essa enchente (ou evento) é igualada ou superada pelo menos uma vez.
Período de retorno (T)

A escolha e a justificativa de um determinado período de retorno (T), para uma determinada obra é feita por meio dos seguintes critérios: a) vida útil da obra; b) tipo de estrutura; c) segurança da obra; e d) facilidade de reparação e ampliação.

281

Tabela 7.1.Tipos de obras com seus respectivos períodos de retorno

VAZÃO MÁXIMA

A vazão máxima de um rio é entendida como sendo o valor associado a um risco de ser igualado ou ultrapassado. A vazão máxima é utilizada na previsão de enchentes e em projetos de obras hidráulicas tais como: canais, bueiros, condutos, diques, extravasores de barragens, entre outros. A estimativa desses valores tem importância decisiva nos custos e na segurança dos projetos de engenharia. A vazão máxima pode ser estimada com base aos seguintes critérios: a) no ajuste de uma distribuição estatística; b) na regionalização de vazões; e c) na precipitação. Quando existem dados históricos de vazão no local de interesse e as condições da bacia hidrográfica não se modificam, pode ser ajustada uma distribuição estatística. Quando não existem dados ou existem, mas a série é pequena, pode-se utilizar a regionalização de vazões ou as precipitações (TUCCI, 1993).
Método racional

O método racional serve para estimar o pico de uma cheia, resume-se fundamentalmente no emprego da chamada “fórmula racional”. A experiência mostra que o emprego desse método deve ser limitado a áreas com menos de 5 km2. O uso desse método para áreas maiores não é recomendado, não obstante, é satisfatório para projetos de galerias pelo processo chamado detalhado, no qual se consideram sub-bacias pequenas de alguns hectares. O método racional presume como conceito básico que a máxima vazão para uma pequena bacia contribuinte ocorre quando toda a bacia está contribuindo, e que essa vazão é igual a uma fração da precipitação média. Em forma analítica, a fórmula racional é dada pela seguinte expressão:

Q

C.im .A

(7.1)

282

onde:
Q : pico da cheia, vazão, em m3/s ou l/s A : área drenada em km2, ha C : coeficiente de escoamento superficial ou coeficiente de deflúvio (RUNOFF) im : intensidade média da precipitação sobre toda a bacia, em mm/min ou mm/hora, para

uma duração de chuva igual ao tempo de concentração (tc) da bacia Obs.: O tempo de duração da chuva média (im) deve ser igual ao tempo de concentração da bacia, ou seja, o tempo necessário para que toda a área de drenagem passe a contribuir para a vazão na seção estudada. Além da duração, a chuva vem relacionada também a um certo período de retorno fixado, dependendo do tipo de obra a ser executada. Dependendo dos dados de ingresso que você usa uma das duas seguintes fórmulas:

Q
onde:
Q = l/s

166,67 C.im .A

(7.2)

A = hectares, ha im = mm/min

Q

C.im .A 3,6

(7.3)

Área da bacia (A)

A área da bacia é relativa à área de drenagem até o ponto de interesse. A mesma pode ser determinada pelo planímetro.
Coeficiente de escoamento superficial (C)

O coeficiente de escoamento superficial ou coeficiente de deflúvio, ou ainda coeficiente de run-off é definido como a razão entre o volume de água escoado superficialmente, que é registrado em uma certa seção, e o volume de água precipitado na bacia contribuinte.

283

C = Vol. escoado superficial/ Volume precipitado Tabela 7.2.Valores de “C” adotados pela prefeitura de São Paulo (WILKEN, 1978)

Para áreas com características e ocupações diferentes, a estimativa de C é feita pela seguinte equação: onde:

Q

C.im .A

C: é o coeficiente de escoamento superficial ponderado Ci : é o coeficiente de escoamento superficial correspondente à área i (Ai) A: é a área total da bacia

Obs.: Para períodos de retornos iguais a 50 e 100 anos deve ser feita uma correção no coeficiente de escoamento superficial conforme tabela abaixo.
Tabela 7.3. Correções dos valores de C
T (anos) 50 100 Cf 1,10 1,25 CCorrigido Cf *C Cf *C

Intensidade da precipitação na bacia (i) A intensidade da precipitação (i) geralmente é encontrada, para vários postos ou cidades no Brasil, em forma de tabelas, gráficos ou fórmulas.

284

MEDIÇÕES DE VAZÕES E CURVA-CHAVE
INTRODUÇÃO

O escoamento superficial das águas normalmente é medido ao longo dos cursos d’água, criando-se séries históricas que são extremamente úteis para diversos estudos e projetos de Engenharia, basicamente para responder a perguntas típicas como: onde há água, quanto há de água ao longo do tempo e quais são os riscos de falhas de abastecimento de uma determinada vazão em um ponto de um curso d’água. No planejamento e gerenciamento do uso dos recursos hídricos, o conhecimento das vazões é necessário para se fazer um balanço de disponibilidades e demandas ao longo do tempo. Em projetos de obras hidráulicas, as vazões mínimas são importantes para se avaliar, por exemplo, calado para navegação, capacidade de recebimento de efluentes urbanos e industriais e estimativas de necessidades de irrigação; as vazões médias são aplicáveis a dimensionamentos de sistemas de abastecimento de águas e de usinas hidrelétricas; as vazões máximas, como base para dimensionamento de sistemas de drenagem e órgãos de segurança de barragens, entre outras tantas aplicações. Em operação de sistemas hidráulicos, onde poderiam se destacar sistemas de navegação fluvial, operação de reservatórios para abastecimento ou geração de energia e sistemas de controle ou alerta contra inundações. Sem as informações básicas de vazões, os projetos de aproveitamento de recursos hídricos tendem a ser menos precisos, conduzindo a resultados duvidosos, que ora tendem a ser extremamente conservadores e custosos, ora a serem de risco superior ao admitido. O levantamento dos dados de vazões pode ser feito pelo Estado, para estabelecer uma rede hidrométrica básica, ou por empresas que tenham interesse particular em determinadas informações, como as empresas de geração de energia, de saneamento e as do setor agroindustrial. A descrição dos processos de medição de vazões em cursos d’água visa também demonstrar as incertezas envolvidas nas medições e nos cálculos, alertando o usuário do dado sobre as incertezas que ele deve incorporar a seus estudos. As medições de vazão são feitas periodicamente em determinadas seções dos cursos d’água (as estações ou postos fluviométricos). Diariamente ou de forma contínua medem-se os níveis d’água nos rios e esses valores são transformados em vazão por meio de uma equação chamada de curva-chave. Curva-chave é uma relação nível-vazão em uma determinada seção do rio. Dado o nível do rio na seção para a qual a expressão foi desenvolvida, obtém-se a vazão. Não é apenas o nível da água que influencia a vazão: a declividade do rio, a forma da seção (mais estreita ou mais larga) também altera a vazão, ainda que o nível seja o mesmo. Entretanto, tais variáveis são razoavelmente constantes ao longo do tempo para uma determinada seção. A única variável temporal é o nível. Dessa forma, uma vez calibrada tal expressão, a monitoração da vazão do rio no tempo fica muito mais simples e com um custo muito menor.

285

MEDIÇÃO DE VAZÃO

Para se determinar a expressão da curva-chave, precisamos medir a vazão para diversos níveis. Tais pares de pontos podem ser interpolados, definindo a expressão matemática da curva-chave.
Tipos de medição de vazões

As medições de vazão podem ser feitas de diversas formas, que utilizam princípios distintos: volumétrico, calorimétrico, estruturas hidráulicas (calhas e vertedores), velocimétrico, acústico e eletromagnético. A escolha do método dependerá das condições disponíveis em cada caso. Cada um desses métodos será descrito a seguir, para se poder analisar a oportunidade de aplicação de cada um deles.
Volumétrico

Este método é baseado no conceito volumétrico de vazão, isto é, vazão é o volume que passa por uma determinada seção de controle por unidade de tempo. Utiliza-se um dispositivo para concentrar todo o fluxo em um recipiente de volume conhecido. Mede-se o tempo de preenchimento total do recipiente. Esse processo é limitado a pequenas vazões, em geral pequenas fontes d’água, minas e canais de irrigação.
Calhas Parshall

As calhas Parshall são, assim como os vertedores, são estruturas construídas no curso d’água e possuem sua própria “curva-chave”. Assim, a determinação de vazão a partir do nível é direta para a seção onde a mesma está instalada. Entretanto, se não há ondas de cheia propagando pelo canal, a vazão que passa pela calha é a mesma que passa por qualquer outra seção do rio. Pode-se então determinar a curva-chave para outras seções de interesse medindo o nível da água em tais seções e relacionando-os com a vazão medida pela calha ou vertedor. O método (calha ou vertedor) aplica-se a escoamentos sob regime fluvial. O princípio consiste em forçar a mudança desse comportamento para o regime torrencial, medindo-se a profundidade crítica. No caso da calha, tal mudança é condicionada por um estreitamento da seção. Portanto, com o conhecimento do nível da água na região da profundidade crítica determina-se a vazão do canal, uma vez que a forma da seção da calha e a cota de fundo são conhecidas. Se a saída de jusante dá-se de forma livre (sem afogamento), a vazão pode ser assim determinada: • QL: vazão do canal • H: profundidade crítica • K e n: constantes que dependem das características da calha

QL

k.H

n

286

Caso a saída da água do canal dê-se sob afogamento, forma-se um ressalto hidráulico e a vazão calculada pela expressão acima precisa ser corrigida:

QA QL . C
• QA: vazão do canal • C: coeficiente de redução
Figura 8.1. Representação esquemática da calha Parshal ilustrando as condições de afogamento e saída livre

287

Figura 8.2. Calha Parshall

As calhas Parshall não interferem no escoamento (como ocorre com os vertedores, ao provocarem o remanso), mas apresentam um forte limitante: sua viabilidade está restrita a pequenos canais.
Vertedores

Este dispositivo também se baseia na determinação da vazão a partir da medição do nível d’água. Existem diversos modelos de vertedores, com diferentes curvas que relacionam o nível d’água com a respectiva vazão, vistos com detalhes em Hidráulica. Os mais utilizados são:
a) Vertedores triangulares:

A relação e a figura abaixo exemplificam o vertedor tipo Thompson, um vertedor triangular com ângulo reto.

Q 1,42 . H
• Q: vazão do canal em m/s; • H: nível d’água com relação ao vértice de ângulo reto em m.

288

Figura 8.3. Vertedor triangular

b) Vertedores retangulares:

Como exemplo, citamos o tipo Francis:

3

Q 1,84 LH
Válida para vertedores sem contração lateral.
3

Q 1,84 (L - 0,2H)H
Válida para vertedores com duas contrações laterais.

Válida para vertedores com uma contração lateral. • Q: vazão do rio em m/s • L: largura da base do vertedor em m • H: carga do vertedor, isto é, o nível d’água que passa sobre o vertedor em m

289

Figura 8.4.Vertedor retangular com duas contrações laterais

A aplicação dos tipos de vertedor depende da vazão que se mede. O vertedor triangular é mais preciso, com erro relativo à vazão da ordem de 1%, sendo, entretanto menos sensível ao vertedor triangular, que apresenta erros relativos à vazão de 1 a 2%. Para vazões baixas o acréscimo de precisão atenua-se e o decréscimo de sensibilidade acentua-se, sendo, portanto, aconselhável o uso do vertedor triangular para vazões abaixo de 0,030 m3/s. Um inconveniente dos vertedores é a necessidade de sua construção, com custo apreciável. Além disso, o assoreamento e o remanso (elevação do nível) provocado a montante constituem outras desvantagens dos vertedores.
Molinete

São aparelhos dotados basicamente de uma hélice e um “conta-giros”, medindo a velocidade do fluxo d’água que passa por ele (Figura 8.7). Assim, quando posicionado em diversos pontos da seção do rio, determinam o perfil de velocidades dessa seção. Com tal perfil e a geometria da seção, determina-se a vazão como se verá adiante. O princípio de funcionamento é o seguinte: mede-se o tempo necessário para que a hélice do aparelho dê um certo número de rotações. O “conta-giros” envia um sinal ao operador a cada 5, 10 ou qualquer outro número de voltas realizadas. Marca-se o tempo entre alguns sinais e determina-se o número de rotações por segundo (n). O equipamento possui uma curva calibrada do tipo V=a . n + b (onde a e b são características do aparelho), que fornece a velocidade V a partir da freqüência n da hélice. O molinete pode ser utilizado de diversas formas, conforme descrito no texto. Caso o molinete não seja fixo em uma haste, deve-se prendê-lo a um lastro (peso entre 10 e 100 kg) para que fique aproximadamente na vertical. Esse lastro tem a forma parecida com a de um peixe, como mostra a Figura 8.5. As velocidades limites que podem ser medidas com molinete são de cerca de 2,5 m/s com haste e de 5 m/s com lastro. Acima desses valores os riscos para o operador e o equipamento passam a ser altos. Em boas condições, a precisão relativa para uma razão assim medida é de cerca de 5%.

290

Figura 8.5. Molinete preso à haste, preso à cabo com lastro (embaixo) e lastro (peixes)

Tipos de medição de vazão com molinete

A vau Este método é aplicado a medições com nível d’água não superior a 1,20 m e velocidade compatível com a segurança do operador. Consiste em prender o molinete em uma haste, sempre tomando o cuidado de mantê-lo a uma distância mínima do leito (aproximadamente 20 cm).
Figura 8.6. Medição a vau

Sobre ponte Apesar de apresentar certa facilidade para uma medição de vazão com molinete, a seção de uma ponte pode interferir na velocidade do escoamento. Se a ponte possui pilares apoiados no leito do rio, o escoamento é alterado e pode provocar erosão no leito. A determinação da geometria da seção é mais complicada. Uma alternativa seria afastar ao máximo o molinete da ponte por meio de suportes, fazendo-se assim as medições em uma seção menos influenciada.

291

Figura 8.7. Utilização de ponte como suporte

Com teleférico No caso de não se dispor de pontes e o rio ser profundo, mas não muito largo, pode-se utilizar o recurso do teleférico para levantar o perfil de velocidades. Há casos também em que há material transportado pelo rio (toras), sendo aplicado esse método para a segurança do operador.
Figura 8.8. Medição com teleférico

Com barco fixo Em um rio como o do item anterior (desde que não haja material de grande porte transportado) pode-se também utilizar o recurso do barco fixo. O barco é preso nas margens do rio por meio de cabos, sendo esse o método mais comum de medição com molinete Com barco móvel Se o rio for de largura suficiente para inviabilizar o uso de cabos, pode-se ainda fazer a medição com o barco em movimento. O barco se desloca com uma velocidade constante de uma margem a outra, com o molinete fixado em um leme especial a uma profundidade constante. A decomposição da velocidade do barco e das velocidades indicadas pelo molinete possibilita estabelecer a velocidade média da água na profundidade escolhida. A medição repete-se a várias profundidades. Cálculo de uma vazão Alguns dos métodos descritos anteriormente fornecem diretamente a vazão em uma determinada seção do rio. Outros, como molinete e o ultrassônico, fornecem o perfil de velocidades da seção. Nesses casos, precisamos ainda da geometria da seção para calcular a vazão que passa por ela.

292

Figura 8.9. Perfil de velocidades fornecido pelo método ultrassônico ou por molinete

A descarga líquida ou vazão de um rio é definida como sendo o volume de água que atravessa uma determinada seção em um certo intervalo de tempo. Ou ainda, pode ser expressa como: onde:

Q

V .A

• Q: vazão em m3/s • V: velocidade do escoamento em m/s • A: área da seção em m2 Como a seção do rio é irregular e as medições de velocidades são feitas em alguns pontos representativos, a vazão total é calculada como sendo a soma de parcelas de vazão de faixas verticais. Para calcular-se a vazão de tais parcelas utiliza-se a velocidade média no perfil e sua área de influência.
Figura 8.10. Perfil de velocidades, pontos de medição e área de influência

293

Determinação da velocidade média no perfil Normalmente, utiliza-se quatro processos principais: • Pontos múltiplos; • Dois pontos; • Um ponto; e • Integração. a) O primeiro consiste em realizar uma medida no fundo (0,15 m a 0,20 m do leito), uma na superfície (0,10 m de profundidade) e, entre esses dois extremos, vários pontos que permitam um bom traçado da curva de velocidades em função da profundidade. Calculando-se a área desse diagrama e dividindo-a pela profundidade, tem-se a velocidade média na vertical considerada. Toma-se a velocidade superficial igual àquela medida a 0,10m e a de fundo como sendo a metade da mais próxima ao leito. b) O segundo processo baseia-se na constatação experimental de que a velocidade média em uma vertical aproxima-se com boa precisão da média aritmética entre a velocidade medida a 0,2 e 0,8 da profundidade.

Vm

V0,2 + V0,8 2

c) Quando a profundidade é pequena (menos de um metro), o método anterior não se aplica, pois a medição a 0,8 da profundidade fica muito próxima ao leito, havendo contato do contrapeso com o fundo do rio. Nesses casos utiliza-se o processo do ponto único, onde se aproxima a velocidade média pela medida a 0,6 da profundidade (contada a partir da superfície). d) O processo de integração consiste em deslocar o aparelho na vertical com velocidade constante e anotar-se, além da profundidade total, o número de rotações e o tempo para chegar à superfície. Tem-se assim diretamente a velocidade média.
Alguns perfis de velocidades

Nos cursos d’água naturais, além da rugosidade, outros fatores podem influir na distribuição da velocidade, como mostra a Figura 8.11.

294

Figura 8.11. Perfis de velocidades

a) grandes velocidades, com escoamento muito turbulento; b) fracas velocidades, com fundo liso; c) fundo rugoso (rocha); d) fundo muito rugoso, com vegetação aquática muito importante; e) saliência f ) cavado (poço) – jusante de uma saliência de fundo; g) diminuição de velocidade em superfície (galhadas, etc.). Obs. De uma maneira geral, pode-se indicar que as velocidades da água em uma seção transversal de um canal (escoamento gradualmente variado) decrescem da superfície para o fundo e do eixo para as margens. A distribuição das velocidades ao longo de uma seção costuma ser representada pelo traçado das curvas isotáqueas (curvas de igual velocidade).
Média da área da seção e determinação da área de influência

A profundidade em uma vertical é medida pelo próprio elemento sustentador do molinete, seja ele uma haste graduada (a partir do fundo) ou cabo (a partir da superfície da água). Isso é feito ao se levantar o perfil de velocidades naquela vertical, tocando o leito com o “peixe” ou com a haste. Em rios muito profundos e/ou com altas velocidades de escoamento, onde a medição com cabos e lastros torna-se inaplicável, pode-se utilizar recursos como a batimetria e os sonares. A distância horizontal entre as margens pode ser determinada pelo cabo graduado ou teodolitos. As verticais onde se levantam os perfis de velocidades não devem ser muito próximas (custo adicional sem ganho considerável de informações), assim como também não devem ser muito distantes (perda da representatividade do modelo). A tabela abaixo sugere espaçamentos entre tais verticais:

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Tabela 8.1. Cuidados no espaçamento das medições para uma boa representatividade do perfil Largura do rio (m) 3 3a6 6 a 15 15 a 30 30 a 50 50 a 80 80 a 150 150 a 250 250 a 400 + de 400 Espaçamento máximo entre verticais (m) 0,30 0,50 1,00 2,00 3,00 4,00 6,00 8,00 12,00 at 30

Fonte: Anuário Fluviométrico nº 2, Ministério da Agricultura – DNPM – 1941.

Como já foi citada, a área de influência multiplicada pela velocidade média do escoamento na mesma resulta a vazão neste elemento.
Figura 8.12. Área de influência de um perfil de velocidades

A área de influência Ai de um determinado perfil de velocidades Vi é formada pela soma de duas áreas trapezoidais, como indica a Figura 8.12.

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MEDIÇÃO DO NÍVEL D`ÁGUA

O nível d’água deve ser medido em conjunto com a medição da vazão na operação de determinação da curva-chave, a fim de se obter os pares de pontos cota-descarga a serem interpolados. Uma vez determinada a curva-chave precisamos monitorar apenas o nível d’água para obtermos a vazão do rio.
Régua limnímetro

A maneira mais simples para medir o nível de um curso d’água é colocar uma régua vertical na água e observar sua marcação. As réguas são geralmente constituídas de elementos verticais de um metro, graduados em centímetro. São placas de metal inoxidável ou de madeira colocadas de maneira que o elemento inferior fique na água mesmo em caso de estiagem excepcional.
Figura 8.13. Esquema de instalação e réguas na margem do rio

O observador faz leitura de cotas com uma freqüência definida pelo órgão operador da estação, pelo menos uma vez por dia. Em geral a precisão dessas observações é da ordem de centímetros.
Limnígrafo

Este equipamento grava as variações de nível continuamente no tempo. Isso permite registrar eventos significativos de curta duração ocorrendo essencialmente em pequenas bacias. É possível classificar os tipos de limnígrafos segundo as quatro etapas da aquisição: medição, transmissão de sinal, gravação e transmissão do registro.

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Quanto à medição

• Bóia flutuante
Figura 8.14. Limnígrafo de bóia

• Sensor de pressão
Figura 8.15. Sensor de pressão

Sensor de pressão a gás, que possui uma membrana que separa o gás do interior da célula da água do leito do rio. Tal membrana deforma-se em função da coluna d’água existente sobre ela, induzindo uma determinada pressão no gás, que é constantemente monitorada. • Borbulhador – utiliza um princípio parecido com o do sensor de pressão a gás. A coluna d’água sobre o bico injetor é obtida a partir da pressão necessária para que as bolhas de ar comecem a sair.

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Figura 8.16. Borbulhador

• Sensor eletrônico (ou transdutor de pressão), que também se baseia na deformação de uma membrana, percebida eletronicamente. • Ultrassônico, aparelho posicionado fora da água em um suporte, emitindo constantemente pulsos de ultra-som contra a superfície do rio.
Quanto à transmissão do sinal

• Mecânica, (pena ou codificador colocado na ponta de uma alavanca tipo “rosca sem fim” movimentada com cabo e roldana) com sistema de redução da amplitude do sinal em uma escala definida (1:1, 1:2, etc., sendo 1:10 a mais comum). O mecanismo de rosca sem fim permite que se registrem níveis d’água quaisquer sem a necessidade de se alterar a dimensão do limnígrafo. Quando o cursor (“pena”) atinge o final do curso, seu trajeto é revertido. No gráfico do limnigrama (NA x tempo) essa reversão aparecerá como um ponto anguloso.
Figura 8.17. Pontos de reversão do cursor num limnigrama

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Figura 8.18.Alavanca tipo “rosca sem fim” e sistema de transmissão mecânica da posição do nível

• Eletrônica (cálculo e digitalização do sinal transmitido pelo sensor).
Quanto à gravação

• Em suporte de papel, que podem ser: fita colocada em volta de um tambor com rotação de uma hora a 1 mês.
Figura 8.19. Gravação contínua em papel

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• Memorizada em suporte eletrônico (data-logger);
Figura 8.20. Dados armazenados magneticamente sendo transferidos para serem analisados

• Transmitida em tempo real para uma central de operação.
CURVA-CHAVE

Como já foi dito, a curva-chave relaciona o nível de um rio com sua vazão. Para obtê-la, fazemos medições de vazão pelos métodos apresentados anteriormente para diversos níveis e obtemos pares cota-descarga. A relação é obtida a partir da interpolação desses pontos e, como essa operação não contempla todos os níveis possíveis, utiliza-se ainda a extrapolação. A relação biunívoca cota-vazão de um rio mantém-se ao longo do tempo desde que as características geométricas do mesmo sofram variação. Assim, ao se escolher uma seção para controle, essa deve seguir alguns princípios: • Lugar de fácil acesso; • Seção com forma regular. A regularidade da seção facilita a operação de levantamento dos pares cota-vazão, diminuindo assim a possibilidade de erros na determinação da curva-chave. • Trecho retilíneo e com declividade constante. A localização da seção em um trecho retilíneo e com declividade constante significa que o escoamento possui um comportamento relativamente uniforme nas suas imediações. Isso facilita as medições a serem realizadas, não havendo perturbações no escoamento devido a meandros ou ressaltos decorrentes da variação de declividade. • Margem e leito não-erodíveis. Garante a integridade da geometria levantada para a seção por longo tempo. • Velocidades entre 0,2 e 2 m/s.

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Essa faixa de velocidades é importante para a medição da vazão, minimizando os erros das medições. • Controle por regime uniforme. O regime uniforme garante a constância das características hidráulicas do escoamento (nível, velocidade, declividade, área da seção) ao longo do trecho onde se localiza a seção. • Controle por regime crítico ou fluvial. O regime fluvial classifica o escoamento como lento. O regime crítico abrange a faixa e velocidades que fazem a transição entre o regime fluvial ou lento e o regime torrencial ou rápido. O escoamento na seção deve ser fluvial ou no máximo crítico. Cada classificação possui uma expressão que relaciona a vazão com as outras variáveis envolvidas, mostradas adiante. • Regime permanente. Todas as medições devem ser feitas na situação de regime permanente (as características hidráulicas não variam durante a medição). Seguindo tais recomendações, a curva-chave mantém-se válida por muito tempo e a vazão pode ser obtida medindo-se apenas o nível do rio. O acúmulo das pequenas variações das características da seção ao longo dos anos faz com que a relação determinada seja associada a um período de validade. A seguir temos um exemplo de curva-chave, representada no mesmo eixo de cotas da seção.
Figura 8.21. Curva-chave representada sobre eixo de cotas do perfil geométrico da seção

302

Validade da curva-chave

Variação da curva-chave com o tempo O fato de a curva-chave estar intimamente ligada às características hidráulicas da seção de controle implica variação da expressão matemática quando há uma variação nessas constantes. Alterações na geometria da seção ou na declividade do rio geradas por erosões ou assoreamento ao longo do tempo causam mudanças na velocidade do escoamento e nas relações entre área, raio hidráulico e profundidade, afetando a relação cota-descarga.
Figura 8.22. Alteração da seção ao longo do tempo e conseqüente reflexo na curva cota-descarga

Extrapolação da curva-chave Em geral as medições não contemplam valores extremos de vazões. Assim, para se estimar vazões mais altas ou mais baixas recorremos à extrapolação. No entanto, deve-se tomar cuidado com a forma da seção em função da altura, como mostra a Figura 8.23. As curvas que relacionam raio hidráulico e área com o nível d’água podem sofrer variações bruscas no comportamento, gerando grandes erros na estimativa.
Figura 8.23. Extrapolação equivocada da curva-chave (.....) e comportamento real (___)

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Figura 8.24. Mudança brusca nas relações entre área, raio hidráulico e nível, acompanhando a variação no perfil da seção

REGULARIZAÇÃO DE VAZÕES EM RESERVATÓRIOS
INTRODUÇÃO

A variabilidade temporal das vazões fluviais tem como resultado visível a ocorrência de excessos hídricos nos períodos úmidos e carência nos períodos secos. Nada mais natural que seja preconizada a formação de reservas durante o período úmido para serem utilizadas na complementação das demandas na estação seca. A dimensão ótima para um reservatório deverá ser considerada em função de um compromisso entre o custo de investimento na sua implantação e o custo da escassez de água durante os períodos secos. O primeiro o custo é diretamente proporcional e o segundo é inversamente proporcional à dimensão do reservatório. Quanto menor for a capacidade útil de acumulação de água, ou seja, aquela que pode ser efetivamente utilizada, mais provável é a ocorrência de racionamento. Portanto, apenas na situação extrema de aversão ao racionamento seria ótima a decisão de construir-se um reservatório que sempre pudesse acumular água para atender à demanda. Como a ocorrência das vazões é aleatória, ou seja, não há possibilidade de previsão de ocorrência em longo prazo, não é também possível prever-se com precisão o tamanho da reserva de água necessária para o suprimento das demandas de períodos de seca no futuro. Isso leva o planejador de recursos hídricos a duas situações ineficientes: superdimensionar as reservas, às custas de investimento demasiados no reservatório de acumulação, ou subdimensionar as reservas, às custas de racionamento durante o período seco. Entre essas duas situações estaria aquela ótima. Na execução é adotada a equação de balanço hídrico do reservatório:
S(t+1) = S(t) + I(t) - D - E(t) + P(t) (10.1)

304

onde: S(t): armazenamento no início do intervalo de tempo t I(t): deflúvio afluente durante o intervalo t D : descarga operada visando ao suprimento da demanda E(t): evaporação do reservatório durante o intervalo de tempo t P(t): chuva sobre o reservatório durante o intervalo de tempo t

A evaporação E é computada pelo produto de uma taxa de evaporação E(t), em altura de lâmina de água evaporada por unidade de tempo, que pode variar com as estações do ano, pela área do espelho líquido do reservatório, A. A chuva sobre o reservatório é calculada pelo produto de uma altura de precipitação por intervalo de tempo p(t), que varia temporalmente, pela mesma área do espelho líquido. É praxe, diante dessa analogia, computar-se o efeito dessas duas variáveis de forma conjunta. Se a área for dada em Km2, e a chuva e taxa de evaporação em mm, aplica-se a equação:
E’(t) = E(t) -P(t) = [(e(t) - p(t)] .A/1.000 (10.2)

na qual E’(t) seria a evaporação descontada pela chuva. A divisão por 1.000 serve para compatibilizar unidades, resultando em valores de E’(t) em Hm3.
Figura 9.1. Esquema de um reservatório

305

CONTROLE DE CHEIAS
INTRODUÇÃO

A integração dos homens com os rios é tão antiga quanto a existência do próprio homem. Enchentes e secas têm ocorrido como eventos históricos significativos para a população por milhares de anos. Quando a precipitação é intensa a quantidade de água que chega simultaneamente ao rio pode ser superior à sua capacidade de drenagem, ou seja a da sua calha normal, resultando na inundação das áreas ribeirinhas. Os problemas resultantes da inundação dependem do grau de ocupação da várzea pela população e da freqüência com a qual ocorrem as inundações. A ocupação da várzea pode ser para habitação, recreação, uso agrícola, comercial ou industrial. Os problemas das enchentes e das erosões são de ordem mundial. Para poder limitar os danos causados pelas enchentes e as erosões é necessário realizar um plano para o seu controle e, após, executá-lo. Seria ingenuidade do homem imaginar que poderia eliminar completamente as enchentes e as erosões de uma bacia hidrográfica, assim, tais medidas sempre visam minimizar as suas conseqüências. A forma moderna atual de buscar a minimização das cheias e das erosões é aquela que leva em consideração um conjunto de medidas, tanto para as cheias como para as erosões, pois as mesmas na maioria das vezes estão interrelacionadas. Um critério de classificação das medidas de controle das cheias é aquele que se subdivide em duas categorias: as soluções estruturais e as não-estruturais. As primeiras medidas influenciam na estrutura da bacia, seja na sua extensão (medidas extensivas), mediante intervenções diretas na sua sistematização hidráulico-florestal e hidráulico-agrário, seja localmente (medidas intensivas) mediante obras com objetivo de controlar as águas, como por exemplo; reservatórios, caixas de expansões, diques, polders, melhoramento do álveo, retificações, canais de desvio, canais paralelos e canais extravasores. Por outro lado, as medidas não-estruturais consistem na busca da melhor convivência do homem com o fenômeno das enchentes.
MEDIDAS PARA CONTROLE DAS CHEIAS

As medidas para o controle da inundação podem ser do tipo estrutural e não-estrutural. As medidas estruturais são aquelas que modificam o sistema fluvial evitando os prejuízos decorrentes das enchentes, enquanto que as medidas não-estruturais são aquelas em que os prejuízos são reduzidos pela melhor convivência da população com as enchentes. Na Figura 10.1 são apresentadas diversas medidas para controle das cheias de forma sistemática.

306

Figura 10.1. Medidas para controle das cheias

Medidas estruturais intensivas

As medidas estruturais de controle de cheias do tipo intensiva são aquelas que agem no rio e objetivam diversas formas de controle dependendo do tipo da obra. A seguir descrevemos diversas medidas desse tipo de intervenção.

a) Reservatórios: um reservatório construído para laminar cheias, como o próprio nome diz, lamina a onda de cheia, retendo parte do volume hídrico durante a fase de crescimento da onda, restituindo tal volume ao rio durante a fase da recessão da cheia ou logo após a onda da cheia ter

307

passado. O reservatório deve permanecer sempre vazio esperando a próxima onda de cheia. Esse tipo de obra mostra, em geral, boa laminação nas pequenas e médias cheias, mas nem sempre nas grandes cheias, principalmente naquelas caracterizadas por vários picos.
Figura 10.2. Efeito do reservatório

b) Caixa de expansão: uma caixa de expansão é corretamente indicada para aquela área alagável destinada a exercitar um efeito de decapitação da onda de cheia que se propaga ao longo de um curso d’água. A função de uma caixa de expansão é similar à de um reservatório de laminação de cheia. As caixas de expansão geralmente são executadas no pé da montanha ou na zona de planície, em série, em paralelo ou de modo misto a respeito ao curso d’água. Muitas planícies funcionam como caixas de expansão naturais, pois, no momento das enchentes, elas são inundadas, armazenando grande volume d’água, que retorna ao rio principal quando as águas começam a baixar.
Figura 10.3. Efeito da caixa de expansão

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c) Diques: são barramentos ou muros laterais de terra ou de concreto, inclinados ou retos, construídos ao longo das margens do rio, de altura tal que contenham as vazões no canal principal a um valor limite estabelecido em projeto. Esse tipo de obra assegura o controle completo das cheias que tenham o seu pico inferior ao limite estabelecido, mas não há nenhuma proteção para as vazões que ultrapassam tal limite, que passarão sobre tais muros. Esse tipo de obra é uma das mais antigas medidas estruturais de controle de cheias. Como exemplo podemos citar os diques que foram construídos no rio do Pó, na Itália. Tais obras foram iniciadas pelos finícios, continuadas pelos romanos e finalizadas pelos italianos. Segundo Tucci (1993), citando (HOYT e LANGBEIN, 1955), tais obras eram um exemplo de projeto de recursos hídricos bem-sucedidos, mas a enchente de 1951 destruiu parte desses diques, causando 100 mortes e perda de 30 mil cabeças de gado, além de perdas agrícolas.
Figura 10.4 – Diques

d) Polders: os polders são utilizados para proteger áreas restritas. A distinção entre diques e polderes é que esses últimos utilizam uma estação de bombeamento para retirar as águas que chegam na área protegida durante uma enchente. Nesse tipo de obra geralmente há necessidade de construir uma galeria com comportas reguláveis para evitar a entrada da água do rio principal na área protegida e propiciar a saída da água do ribeirão quando a situação é normal.

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Figura 10.5. Polder visto em planta e em seção transversal

e) Melhoramentos do álveo: os melhoramentos do álveo têm o escopo de diminuir o tirante hídrico do rio para uma mesma vazão. Isso pode ser obtido aumentando a área da seção transversal do rio pelo alargamento da calha (Fig. 10.6.a) ou do aprofundamento do canal (Fig. 10.6.b) ou ainda por meio do aumento da velocidade. O aumento da velocidade pode ser obtido pela diminuição da rugosidade, aumento da declividade do rio, eliminação de obstruções, etc. Tais medidas devem der adotadas com muita cautela, porque são freqüentes causas de profundas alterações na dinâmica da modelação do álveo e do equilíbrio das águas superficiais-subterrâneas. Também podem produzir sérios inconvenientes do ponto de vista ambiental.
Figura 10.6. Melhoramentos do álveo

a – Ampliação lateral da seção

b – Aprofundamento do canal

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f ) Retificações: uma retificação de um rio consiste na construção de um novo leito para o rio, retilíneo ou quase, em uma zona na qual em geral o rio percorre numerosos meandros. O primeiro efeito de uma retificação é a redução do percurso d’água com conseqüente aumento da declividade. Nesse caso haverá uma maior velocidade na corrente, as cheias se propagarão mais rapidamente para a jusante, seja em conseqüência do menor percurso, seja devido à maior velocidade. Em função do aumento da velocidade produzir-se-á uma erosão da seção no trajeto retificado o qual se estenderá também à montante. Com o tempo o efeito benéfico da retificação tende a ser reduzido pelas danificações naturais que sofrerão a calha do rio devido às erosões. À jusante da retificação nas menores velocidades produzirá, um depósito, e de conseqüência, reduzir-se-á a declividade do trajeto retilíneo. A diminuição da velocidade estender-se-á para a montante até o momento que não esteja novamente restabelecido o equilíbrio.
Figura 10.7. Retificação

g) Canais de desvios: um canal de desvio serve para desviar parte da vazão da cheia do curso d’água principal, diminuindo assim a vazão do rio na zona que se deseja proteger. Nesse tipo particular de obra em geral a água desviada não retorna mais ao canal principal, mas sim para um lago, um outro curso d’água ou diretamente ao mar. O inconveniente desse tipo de obra está no fato de que, subdividindo a vazão entre mais de um ramo, a velocidade d’água diminui, e, portanto, reduz-se também a força de transporte dos materiais. Como conseqüência, haverá uma elevação do leito do rio, que pode provocar o desaparecimento de todas as vantagens obtidas com a construção da obra. Por isso, essas obras devem ser projetadas com muita prudência. Como exemplo de um canal de desvio executado citamos o do rio Arno, na Itália.

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Figura 10.8. Canal de desvio

h) Canais paralelos: um canal paralelo é utilizado quando, por diversas razões, não se pode incrementar a capacidade do canal principal. Nesse tipo de obra a vazão é repartida em dois ou mais ramos, por certo trecho, após o desvio, a água retorna a escoar por um único canal. Assim, o nível da cheia do canal principal no trecho interessado diminui. Os inconvenientes desse tipo de obra são os mesmos descritos para o canal de desvio. Obra desse tipo pode ser vista no rio Danúbio em Viena.
Figura 10.9. Canal paralelo

i) Canais extravasores: um canal extravasor não é outro que um canal de desvio ou paralelo. A diferença é que o canal extravasor é alimentado pelo rio somente durante as maiores cheias, quando a vazão na seção do álveo em correspondência com o vertedor supera um valor préfixado e extravasa do canal principal. Um canal extravasor é normalmente privo de água e permite o crescimento de vegetação, mas está sempre em condições de receber parte da vazão do

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rio, quando esse supera o valor pré-fixado. Os mesmos inconvenientes dos canais de desvios e paralelos ocorrem também nos canais extravasores, mas com muito menor grau porque funcionam de um modo não contínuo. Por permanecer seco durante o período que não há cheias e permitir o crescimento de vegetações, o canal extravasor é chamado também, canal verde.
Medidas estruturais extensivas

O controle extensivo das cheias é realizado mediante intervenções de conservação do solo, com práticas agrícolas corretas e por meio do reflorestamento da bacia. Esse tipo de medida produz benefícios diversos que influenciam no fenômeno de formação da cheia segundo os seguintes mecanismos: (a) aumento da capacidade de infiltração do terreno e, conseqüentemente, redução dos defluxos superficiais (que constituem a componente mais importante da cheia); (b) redução da velocidade média de escoamento d’água e incremento dos volumes hídricos contidos temporariamente no solo, com conseqüente aumento dos tempos de concentração e da capacidade de laminação da bacia. A onda de cheia resulta, portanto, mais achatada e com a vazão de pico inferior com respeito ao caso da bacia não-sistematizada.
Medidas não-estruturais

As medidas estruturais, geralmente, não são projetadas para fornecer uma proteção completa. Isso requer uma proteção contra a maior enchente possível. Esta, além da dificuldade em prevêla, tem sua proteção física e economicamente muitas vezes inviável. Além disso, as medidas estruturais podem criar uma falsa sensação de segurança, permitindo o aumento da ocupação das áreas inundáveis, que no futuro podem gerar danos significativos. As medidas não-estruturais, juntas com as estruturais ou sozinhas, podem minimizar significativamente os danos com um menor custo. As medidas não-estruturais consistem basicamente nos sistemas de alertas, nos sistemas resposta, nos mapas de alagamento, nos seguros contra danos produzidos pelas enchentes e na educação da população. Essas medidas são descritas a seguir.

a) Sistemas de alerta: um sistema de alerta serve para informar e alertar as pessoas que habitam em zonas sujeitas a inundações sobre os riscos e a eminência de uma enchente. Os alertas são baseados nas previsões dos eventos de cheia, que são simulados por meio de modelos matemáticos hidrológicos em tempo real. Tais modelos consistem em prever a evolução do fenômeno de cheia, nível do rio, com uma certa antecipação. Os alertas, por sua vez, servem para acionar os dispositivos de controle das cheias pré-dispostos no sistema resposta. No Brasil, um exemplo de sistema de alerta que pode ser citado, é o da bacia do rio Itajaí, o qual é composto de uma rede de coleta de dados e uma central. Os dados são coletados e transmitidos em tempo real pelos tele-observadores e pelas estações telemétricas para a central que fica localizada na Universidade Regional de Blumenau (Ceops), onde em épocas de cheias são realizadas as previsões e repassadas para as Defesas Civil de cada município que tem problemas de enchentes. b) Sistema resposta: esse sistema compreende os procedimentos de decisões e os respectivos planos de ações de proteção, que possam ser implementados em curto prazo, como por exemplo: a retirada dos bens materiais móveis, a evacuação da população e dos animais das zonas inundáveis, elevação de diques com sacos de areia, a abertura e o fechamento das comportas

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dos reservatórios ou polders construídos para o controle de enchente, etc. Como exemplo desse sistema podemos citar o plano de enchente da cidade de Blumenau, estruturado pela Defesa Civil da Prefeitura Municipal de Blumenau.

c) Educação: o sucesso de um plano de controle das cheias baseado nas medidas não-estruturais depende muito do conhecimento do risco das enchentes por parte das pessoas que habitam as áreas inundáveis. Por isto, um trabalho de conscientização para a população dos riscos que ela está sujeita com as enchentes é fundamental e deve ser incrementado imediatamente após a ocorrência de cada evento de cheia. Em municípios brasileiros como Blumenau, Porto União e União da Vitória, tem-se realizado várias campanhas educativas sobre a problemática das cheias. d) Seguros contra enchentes: os seguros contra enchentes são apólices estipuladas por companhias especializadas para aquelas habitações, indústrias ou casas comerciais localizadas nas zonas sujeitas a serem inundadas com as enchentes. Ainda não há no Brasil uma empresa que realize seguro contra perdas totais causadas pelas enchentes. e) Mapas de inundação: os mapas de inundação podem ser de dois tipos: “mapa de planejamento ou carta enchente” e “mapa de alerta ou mapa cota enchente”. O mapa de planejamento define as áreas atingidas por cheias de tempo de retorno escolhidos. O mapa de alerta informa em cada esquina ou ponto de controle, o nível da régua no qual inicia a inundação. Este mapa permite o acompanhamento da evolução da enchente, com base nas observações da régua, pelos moradores nos diferentes locais da cidade.
A seção de escoamento do rio pode ser dividida em três faixas principais conforme mostra a Figura 9.10.
Figura 10.10. Regulamentação da zona inundável

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Zona de passagem da enchente (faixa 1) – Essa parte da seção funciona hidraulicamente e permite o escoamento da enchente. Qualquer construção nessa área reduzirá a área de escoamento, elevando os níveis à montante dessa seção. Portanto, em qualquer planjamento urbano, deve-se procurar manter essa zona desobstruída. Zona com restrições (faixa 2) – Essa é a área restante da superfície inundável que deve ser regulamentada. Essa zona fica inundada mas, devido às pequenas profundidades e baixas velocidades, não contribuem muito para a drenagem da enchente. Zona de baixo risco (faixa 3) – Essa zona possui pequena probabilidade de ocorrência de inundações, sendo atingida em anos excepcionais por pequenas lâminas de água e baixas velocidades. A definição dessa área é útil para informar a população sobre a grandeza do risco a que esta sujeita. Essa área não necessita regulamentação, quanto às cheias.
A primeira faixa depende das condições hidráulicas do escoamento da enchente, as demais são escolhidas com base no risco que se deseja assumir na convivência com as enchentes.
Regulamentação das zonas de inundação

Usualmente, nas cidades brasileiras, a população de menor poder aquisitivo e marginalizada ocupa as áreas ribeirinhas de maior risco. Na bacia do rio Cuiabá, isso nem sempre é verdade (por ex. Av. Beira Rio), uma vez que durante uma seqüência longa de anos sem enchentes significativas, houve uma ocupação importante de áreas planas em patamares intermediários devido, também, aos preços menores dos lotes e à falta de consciência de muitos. A regulamentação da ocupação de áreas urbanas é um processo iterativo, que passa por uma proposta técnica que é discutida pela comunidade antes de ser incorporada ao Plano Diretor da cidade. Portanto, não existem critérios rígidos aplicáveis a todas as cidades, mas sim recomendações básicas que podem ser seguidas em cada caso. O zoneamento é complementado com a subdivisão das regulamentações, onde são orientadas as divisões de grandes parcelas de terra em pequenos lotes, com o objetivo de desenvolvimento e venda de prédios. Portanto, essa é a fase de controle sobre os loteamentos. O Código de Construções orienta a construção de prédios quanto a aspectos estruturais, hidráulicos, de material e vedação. A regulamentação das construções permite evitar futuros danos. A seguir, relacionamos alguns indicadores gerais que podem ser usados no zoneamento. Zona para passagem das enchentes: essa faixa do rio deve ficar desobstruída para evitar danos de monta e represamentos. Nessa faixa não deve ser permitida nenhuma nova construção e a prefeitura poderá, paulatinamente, relocar as habitações existentes. Na construção de obras como rodovias e pontes deve ser verificado se as mesmas produzem obstruções ao escoamento. Naquelas já existentes deve-se calcular o efeito da obstrução e verificar as medidas que podem ser tomadas para a correção. Não deve ser permitida a construção de aterro que obstrua o escoamento. Essa área poderia ter seu uso destinado à agricultura ou outro similar às condições da natureza. Adicionalmente, seria permitida a instalação de linhas de transmissão e condutos hidráulicos.

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Em algumas cidades poderão ser necessárias construções próximas ao rio. Nessa circunstância, deve ser avaliado o efeito da obstrução e as obras devem estar estruturalmente protegidas contra inundações.

Zona com restrições: Essa zona pode ser subdividida em subáreas, mas essencialmente os seus usos podem ser: a) parques e atividades recreativas ou esportivas cuja manutenção, após cada cheia, seja simples e de baixo custo. Normalmente uma simples limpeza a reporá em condições de utilização, em curto espaço de tempo; b) uso agrícola; c) habitação com mais de um piso, onde o piso superior ficará situado, no mínimo, no nível do limite da enchente e estruturalmente protegido contra enchentes; d) industrial-comercial, com áreas de carregamento, estacionamento, áreas de armazenamento de equipamentos ou maquinaria facilmente removível ou não-sujeito a danos de cheia. Nesse caso, não deve ser permitido o armazenamento de artigos perecíveis e principalmente tóxicos; e) serviços básicos: linhas de transmissão, estradas e pontes, desde que corretamente projetados. Zonas de baixo risco: Nessa área, delimitada por cheia de baixa freqüência, pode-se dispensar medidas individuais de proteção para as habitações, mas orientar a população para a eventual possibilidade de enchente e dos meios de proteger-se das perdas decorrentes, recomendando o uso de obras com, pelo menos, dois pisos, onde o segundo pode ser usado nos períodos críticos.
Um exemplo de regulamentação do uso do solo é o da cidade de Cuiabá, que incorporou, ao Plano Diretor da cidade, o mapa de planejamento (realizado pela UFMT e PMC), no qual por exemplo não é permitido construções abaixo da cota enchente de 158,00 m (referenciada na estação fluviométrica da Hidráulica do Porto em Cuiabá), devido às cheias de 1974.

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A PARTICIPAÇÃO COMO PROCESSO EDUCATIVO NOS COMITÊS DE BACIA
Mônica Branco1
Universidade Católica de Brasília (UCB)

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1 Arquiteta e urbanista, especialista em gestão ambiental, MSc em Desenvolvimento e Meio Ambiente pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (2001), analista da Superintendência de Saneamento e InfraEstrutura da Caixa. monica.branco@caixa.gov.br

“O ambiente é a falta de conhecimento que nos impele ao saber” Enrique Leff

INTRODUÇÃO
Na construção da Política Nacional de Recursos Hídricos, os comitês de bacia, como colegiados de gestão mais próximos das comunidades das bacias, enfrentam inúmeros desafios para a sua consolidação. Para a efetivação do princípio participativo da gestão, os atores do sistema lidam com uma complexidade e diversidade de fatores, que são aqui considerados. O ordenamento do uso das águas tem início no Brasil em 1934, com o Código das Águas, que estabeleceu a classificação de suas categorias jurídicas, a discriminação de seus usos e, embora considerando a água como um bem público, historicamente a utilização da água para finalidades econômicas por meio da apropriação privada tem sempre ocasionado crescentes desigualdades e conflitos, além da poluição dos corpos d'água e do solo. A Constituição de 1988 definiu o papel do Estado como responsável pela instituição de um Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos e pela definição de critérios de outorga de direitos de uso. A Política Nacional de Recursos Hídricos, instituída pela Lei nº 9.433/97, reserva à sociedade civil uma responsabilidade central na condução da política e da gestão dos recursos hídricos. Aos usuários da água cabe, primeiramente, organizarem-se para participar ativamente dos comitês de bacia hidrográfica, defendendo seus interesses quanto ao uso da água e quanto aos preços a serem cobrados por esse uso. Obviamente, acertos e soluções serão conseguidos a partir de complexos processos de negociações e resolução de conflitos diversos. O novo sistema reconhece a água como bem econômico, preconiza uma gestão integrada e descentralizada dos usos múltiplos da água e requer negociações entre órgãos de diferentes níveis de governo (federal, estadual e municipal), usuários e sociedade civil organizada. O processo de negociação ocorre no nível da bacia hidrográfica, por meio das organizações de bacia.

A FRAGMENTAÇÃO E A CRISE DO SABER
O saber contemporâneo tem-se caracterizado por uma fragmentação em áreas de conhecimento, por uma excessiva compartimentação e insulamento disciplinar e pela falta de interação entre as ciências, além do alijamento dos saberes tradicionais socioculturais. A crise planetária em que vivemos é agravada em conseqüência dessa fragmentação, que, sabidamente, não envolve apenas a produção do conhecimento humano. Por outro lado, em consonância com a emergência do conceito de desenvolvimento sustentável, ainda em elaboração, um movimento interdisciplinar emergente vem resgatando a produção do conhecimento voltada para o desenvolvimento humano no seu contexto social, territorial, histórico, cultural, político, econômico e ambiental. Nesse novo olhar, o ser humano passa a ser sujeito e produto de sua ação sobre o mundo. A interatividade e o desenvolvimento de capacidades críticas e criativas passam a moldar as dimensões interdisciplinares e intersetoriais da globalidade.

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O imperativo de conviver com tantas informações, diferenças, incertezas, contradições e pluralismo de pontos de vista traz o conceito de complexidade ambiental, por meio do qual compreendemos que o ambiente não é apenas ecologia, mas a complexidade do mundo, implicando também em entrelaçamento e multirreferencialidade. Nesse contexto, os processos de planejamento e gestão ambiental configuram-se como experiências de ensino e aprendizagem. Essa constatação faz-se especialmente nítida na questão da água, não apenas em função da sua crescente escassez, fator restritivo para o desenvolvimento e ameaça para a própria vida, mas, como corolário, em função dos desafios de implantação de uma nova forma de gestão, para a qual necessitamos nos educar. Conforme o documento de Dellors, proposto pela UNESCO em 1997, são quatro os pilares de uma nova educação integral: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Esses quatro pilares constituem aprendizagens indispensáveis que devem ser buscadas de forma permanente por todos os países, no âmbito de suas políticas educacionais, conforme recomenda o documento. Entretanto, como enfatiza o físico e filósofo Basarab Nicolescu, esses quatro pilares têm sua origem na nossa própria constituição como seres humanos. Assim, uma educação só pode ser viável se for uma educação integral do ser humano. A necessidade de construção de valores éticos fundamentais torna-se cada vez mais evidente. A crise planetária da água é, reconhecidamente, uma crise de gestão da água, na qual interesses setoriais e privados têm subjugado o interesse coletivo.

A FRAGMENTAÇÃO E A CRISE DO ESTADO
A fragmentação também se manifesta no campo da atuação estatal. A burocracia estatal, por desconsiderar o alto grau de complexidade das relações sociais contemporâneas, por sua estrutura fragmentada e especializada, dificulta ações articuladas, as quais, em uma nova concepção política, podem viabilizar-se com a participação da comunidade envolvida, a partir de diagnósticos realizados por meio da ação de equipes interdisciplinares. Afirma Keinert (2000) que a esfera pública, não obstante historicamente localizada no espaço estatal, ancora suas raízes na própria sociedade, ainda que com múltiplas contradições, pois que o público se produz sobretudo na sociedade, pelo fortalecimento da noção de cidadania. Assim, o processo de construção do espaço público é incumbência da sociedade. E se é inerente ao Estado, é porque se refere sobretudo às relações entre ambos, implicando tanto a superação das dicotomias quanto o respeito ao que é específico de uma e de outra esfera. Sendo o público esse espaço dinâmico resultante do entrelaçamento Estado-sociedade, a gestão pública amplia-se, deixando de ser meramente estatal. A partir do final da década de 1970, as crises fiscal, do modo de intervenção, do modelo de gestão burocrático e de legitimidade passaram a sinalizar o esgotamento do modelo “estado-cêntrico” (Idem). O Estado do bem-estar social ruiu, entre outros fatores, ao condicionar a participação social como mera clientela de políticas públicas, enfraquecendo os mecanismos de legitimação das instituições públicas. Esse contexto abriu a busca de um novo paradigma de gestão pública.

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Como resposta, especialmente, às crise de legitimidade e de confiança, o espaço público passa a identificar-se mais com a sociedade e menos com o Estado. O modelo público “sociocêntrico” surge em um contexto marcado por aceleradas mudanças desencadeadas pelo processo de globalização e pelos avanços na tecnologia da informação ocorridos a partir dos anos 1980. Ainda, pelo intenso processo de organização social e democratização concomitante. O pensamento político-administrativo vai rumando concretamente em direção à sociedade, que se organiza com novas formas de representação e manifestação, ampliando a esfera pública e demandando uma reforma do Estado, no sentido de torná-lo mais permeável à participação da população e aos novos atores sociais. Portanto, o público vem ensejando a construção de uma “nova institucionalidade”, que não apenas crie a possibilidade de tornar a gestão mais permeável às demandas emergentes da sociedade, mas que também retire do Estado e dos agentes sociais privilegiados o monopólio da definição da agenda social. Assim, políticas públicas voltadas para a constante criação de conhecimento e direcionada para as comunidades, vêm se constituindo como formas diferenciadas de gestão pública, cuja principal característica é a atenção integral ao homem integral. Ou seja: políticas que dialogam com a percepção que o cidadão tem acerca de seus problemas, com suas identidades e sua prática social. O espaço público pode se integrar, assim, por meio de ações complementares e solidárias, desenvolvidas conjuntamente por atores estatais e não-estatais. Essa concepção supõe que os recursos sociais sejam distribuídos por uma variada gama de atores, cujo potencial é melhor aproveitado por uma articulação entre seus pares. Esses recursos sociais constituem um novo poder político. Encontra-se assim, em construção, uma nova institucionalidade pública. Uma das vertentes dessa nova institucionalidade pública é a gestão pública territorial, representada pelos colegiados de bacias hidrográficas. A produção de bens públicos a partir de organizações públicas de controle social, como é o caso dos comitês de bacia, tem o potencial para induzir o fortalecimento do Estado em termos de representatividade, capacidade institucional e responsabilidade pública. Considerando-se as divergências de poder e de interesses na questão da alocação de recursos hídricos e suas conseqüências, essa flexibilização da gestão, de forma a ampliar a gama de atores envolvidos, traz a ampliação de oportunidades e possibilita a produção de justiça social.

COMITÊS DE BACIA: NOVA INSTITUCIONALIDADE PÚBLICA, NOVOS ESPAÇOS DE APRENDIZAGEM?
A legislação de recursos hídricos propõe uma política participativa fundada na mudança do processo decisório, que fica acessível aos diferentes atores sociais vinculados ao uso da água, dentro de um contexto mais abrangente de revisão das atribuições do Estado, do papel dos usuários e do próprio uso da água. A adoção da gestão descentralizada, participativa e integrada torna o modelo de gestão de recursos hídricos um dos mais modernos na gestão pública.

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Nos comitês de bacia, a interveniência de fatores não apenas técnicos, mas também de caráter político, econômico e cultural, tornam o processo muito mais complexo, e o estilo de gestão que tende a prevalecer obedece a uma lógica sociotécnica. As relações de poder não desaparecem, mas passam a ser trabalhadas e negociadas conjuntamente entre leigos e peritos. Assim, a substituição da concepção tecnocrática pela articulação dos saberes socioculturais da água ampliam as possibilidades de soluções, tendo sempre como fio condutor os objetivos comuns. Dessa forma, o desenvolvimento de um conhecimento interdisciplinar e intersetorial – considerando-se aqui os setores econômicos, governamentais e da sociedade civil organizada –, torna-se particularmente adequado na gestão dos Comitês de Bacia. O princípio participativo da gestão dos recursos hídricos necessita ser experimentado, especialmente em um primeiro momento, mas também ao longo do tempo, como educação participativa permanente nos colegiados de gestão. A nossa cultura política, tradicionalmente governamental, centralizadora, burocrática e setorializada ainda não contempla a participação política na gestão pública como valor. Portanto, precisamos nos educar para essa gestão participativa, descentralizada e integrada dos recursos hídricos. De fato, o desenvolvimento das atividades nos colegiados de bacia no Brasil tem ampliado a conscientização acerca dos problemas e conflitos socioeconômicos, ambientais e hídricos no âmbito regional, isto é, das bacias hidrográficas.
Tabela 1. Padrões históricos de gerenciamento de recursos hídricos

Fonte: Vargas (1999).

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O entendimento da gestão de recursos hídricos associada a obras hidráulicas e hidrologia, na lógica pretérita de gestão restrita à oferta hídrica, tem-se ampliado para os campos da sociologia, antropologia, ecologia, geografia, direito e economia, entre outras ciências, integrando o conceito de gestão da demanda hídrica. A gestão de comitês proporciona o entendimento de que a água “molda”, configura o território das bacias, funcionando como elemento de ligação, não apenas para explicitar os conflitos em torno de seu uso, mas também para a visualização das soluções e consensos possíveis. Assim, alguns comitês vêm se dedicando, a partir de certo tempo de existência, ao planejamento de ações de preservação e educação ambiental. Vargas (1999) propõe uma matriz que resume os padrões históricos de gerenciamento de recursos hídricos, pela qual pode-se observar que a passagem para o novo paradigma de gestão, essencialmente participativo, necessita dessa nova institucionalidade, com uma nova abordagem. Trata-se, afinal, de um trabalho reorganizador e formativo a ser feito. Abordando a gestão ambiental, Vieira afirma que esse trabalho orienta-se “no sentido da difusão da informação científica sobre a complexidade embutida na dinâmica dos sistemas socioambientais, no registro e processamento de diferentes modalidades de conhecimento ecológico tradicional, e finalmente no exercício da mediação de conflitos resultantes do pluralismo de crenças e sistemas de valores sobre o patrimônio natural e da escolha daquilo que seria desejável construir coletivamente no espaço local ou comunitário, tendo em vista o reforço máximo de resiliência dos sistemas de suporte à vida. Dessa forma, trata-se de viabilizar, ao mesmo tempo, a busca de soluções inventivas, contratuais e negociadas entre pessoas que eventualmente não compartilham os mesmos valores e, por implicação, os mesmos projetos de vida, mas que passam a reconhecer nesse processo de aprendizagem social a dimensão crucial da transmissão intergeracional de um patrimônio comum. Essa é uma nova concepção de racionalidade, originada na esfera do planejamento e da gestão ambiental, e que vem sendo denominada, por Henrique Leff, como racionalidade ambiental.2 O exercício da mediação de conflitos é essencial para o modelo de gestão sustentável de recursos hídricos, o que justifica a instituição dos colegiados de bacia, especialmente no nível local. A integração da noção de gestão da demanda da água à gestão da oferta, baseada na exploração “extensiva” desse recurso, fundamenta-se no desenvolvimento da co-responsabilização dos usuários da água, e passa necessariamente pela informação, educação e mobilização. Esses temas passam a fazer parte da agenda dos comitês de bacia. De acordo com o Movimento da Cidadania pelas Águas (1997), mobilizar é “convocar vontades para atuar na busca de um propósito comum, sob uma interpretação e um sentido também compartilhados”, o que envolve reflexão, decisão e ação cotidiana e conduz a uma construção coletiva de novas formas de convivência. A partir de sete aprendizagens para a convivência social, o Movimento propõe uma nova práxis: aprender a não agredir o seu

2 A discussão internacional sobre essa temática da multidimensionalidade ambiental, nos últimos 25 anos, encontra na pessoa de Enrique Leff um de seus mais ativos protagonistas.

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semelhante, aprender a comunicar-se; aprender a interagir; aprender a decidir em grupo; aprender a cuidar de si; aprender a cuidar do entorno; aprender a valorizar o saber social. Essa aprendizagem social torna-se um caminho facilitador na lida dos comitês com o desafio da gestão integrada dos recursos hídricos, que envolve: (a) uma gestão sistemática, sem dissociação dos aspectos de quantidade e qualidade; (b) a adequação da gestão às diversidades físicas, bióticas, demográficas, econômicas, sociais e culturais das diversas regiões do País; (c) a integração da gestão de recursos hídricos com a gestão ambiental; (d) a articulação do planejamento de recursos hídricos com o dos setores usuários e com os planejamentos regional, estadual e nacional; (e) a articulação da gestão de recursos hídricos com a do uso do solo; e (f ) a integração da gestão das bacias hidrográficas com a dos sistemas estuarinos e zonas costeiras. Essas são diretrizes gerais de ação definidas na Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei nº 9.433/97, art. 3°).

A LÓGICA DA BACIA HIDROGRÁFICA
A bacia hidrográfica pode ser compreendida como uma totalidade ambiental, por constituir um conjunto territorial no qual recursos distintos como solo, subsolo, atmosfera, reservas hídricas e diversidade biológica interagem. Nesse espaço geográfico a multidimensionalidade ambiental, conduzida principalmente pelo ciclo hidrológico, se expressa. Podemos produzir uma alta eficiência em termos de gestão hídrica e ambiental se buscarmos inserir essa consideração no planejamento. A bacia hidrográfica é toda a área territorial que contribui para um rio. A descarga de líquido tóxico da indústria escoa pelo solo e pelo esgoto até chegar ao leito do rio. O esgoto domiciliar nessa área escoa pela rede coletora e poderá (ou não) passar por uma estação de tratamento até chegar ao leito do rio. Todo o escoamento superficial de líquidos provoca alterações nos rios, principal ou afluentes, com conseqüências para todos que deles se utilizam. Portanto, a bacia hidrográfica, por meio da rede de drenagem fluvial, integra grande parte das relações de causa e efeito no uso dos recursos hídricos. Daí a importância de uma visão holística da bacia (isto é, da bacia como uma totalidade) e da gestão integrada de seus recursos. Conseqüentemente, as diferentes unidades político-administrativas que compõem uma bacia, ou sub-bacia, lidam com questões similares relativamente às características de seus recursos hídricos, e podem, em conjunto com suas comunidades, proporcionar: a) efeitos sinérgicos na gestão da bacia e b) maior racionalidade para a resolução de conflitos dos usos existentes na bacia. É pertinente, para tal, a caracterização de todas as atividades desenvolvidas e previstas na área ocupada pela bacia hidrográfica, tais como urbanização, recreação e lazer, indústrias, mineração, agricultura, além da caracterização dos resíduos sólidos, resíduos agrícolas e de pecuária, águas pluviais e processos erosivos, entre outros, independentemente das unidades federativas a que pertençam. Tal caracterização deve integrar os planos de bacia. Observa-se uma complexidade de fatores atuantes na bacia: desde o político, que pressupõe o envolvimento coordenado dos diversos atores territoriais, tais como governos em seus diferentes

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níveis federativos (e dos diferentes setores governamentais envolvidos na gestão de recursos hídricos), ONG e representantes dos segmentos socioeconômicos; até a integração da gestão dos recursos hídricos, superficiais e subterrâneos, com a gestão ambiental, contemplando esse conjunto de recursos naturais da bacia que interagem entre si. Uma abordagem comprometida com a sustentabilidade dos recursos naturais também deve ser politicamente sustentável, isto é, levar em conta as condições socioeconômicas e políticas envolvidas. A gestão integrada encontra-se, assim, indissociada do princípio participativo. É no nível de base, ou seja, da bacia ou sub-bacia hidrográfica, que o envolvimento do conjunto da sociedade em ações diretas para garantir a proteção da água, por meio de mecanismos que limitem a ação humana sobre o meio ambiente, poderá definir, ou estabelecer parâmetros, para a hierarquização dos interesses com relação ao uso da água, e mesmo a mitigação dos efeitos perversos dos conflitos entre seus múltiplos usos. Daí o papel dos comitês de bacia, também conhecido como “parlamento das águas”.

PLANOS DE BACIA
A educação participativa faz-se particularmente importante no instrumento emancipatório dos comitês de bacias: os Planos de Bacia. Para nortear um desenvolvimento equilibrado, cada comitê deverá construir o seu Plano, a partir do qual poderá não apenas orientar e viabilizar outros instrumentos da gestão, como também lograr recursos financeiros para a bacia. A elaboração do Plano envolve também as expectativas dos atores com relação aos recursos hídricos e a mobilização da comunidade. Devem ter o seguinte conteúdo mínimo (Lei nº 9.433/97, art. 7º): (I) diagnóstico da situação atual dos recursos hídricos; (II) análise de alternativas de crescimento demográfico, de evolução de atividades produtivas e de modificações dos padrões de ocupação do solo; (III) balanço entre disponibilidades e demandas futuras dos recursos hídricos, em quantidade e qualidade, com identificação de conflitos potenciais; (IV) metas de racionalização de uso, aumento da quantidade e melhoria da qualidade dos recursos hídricos disponíveis; (V) medidas a serem tomadas, programas a serem desenvolvidos e projetos a serem implantados para o atendimento das metas previstas; (VI) prioridades para outorga de direitos de uso de recursos hídricos; (VII) diretrizes e critérios para a cobrança pelo uso dos recursos hídricos; e (VIII)propostas para a criação de áreas sujeitas à restrição de uso, com vistas à proteção dos recursos hídricos.

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Os Planos de Bacia constituem o instrumento de referência para todas as decisões a respeito dos recursos hídricos no âmbito da bacia. São planos de longo prazo, como os Planos Estaduais e o Plano Nacional de Recursos Hídricos, e neles devem estar programados todos os investimentos necessários à recuperação, proteção, conservação e utilização dos recursos hídricos. Como são orientativos quanto à outorga do direito de uso dos recursos hídricos e quanto à cobrança pelo seu uso, tornam-se estratégicos para a autonomia e legitimação do poder de decisão dos comitês. Além de proporcionar o uso múltiplo dos recursos hídricos da bacia e de recuperar a qualidade dos cursos d’água, protegendo os mananciais de abastecimento para as gerações atuais e futuras, objetivam também manter a comunidade informada sobre as alternativas de desenvolvimento econômico e social, em consonância com a disponibilidade e a qualidade das águas. Dessa forma, o desenvolvimento de um Plano que contemple a ampla e real participação dos setores interessados (governo, usuários e sociedade) espelhará a legitimidade do processo, garantindo a sua sustentação política pela comunidade da bacia. O êxito do processo de planejamento da bacia hidrográfica, ao longo do tempo, somente se fará possível com o apoio das comunidades, as quais poderão vir a sobrepujar as alternâncias das políticas de mandatos governamentais, garantindo o direito intergeracional à água em quantidade e qualidade suficientes. A Resolução n° 17, de 20/5/2001, do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH), que estabelece diretrizes para os planos de bacia, determina a incorporação de ações de educação ambiental, consonantes com a Política Nacional de Educação Ambiental (Lei nº 9.795/99), no programa para a implementação dos instrumentos de gestão, visando minimizar os problemas relacionados aos recursos hídricos superficiais e subterrâneos, otimizando o seu uso múltiplo e integrado.

ESTRUTURA, COMPOSIÇÃO E ATRIBUIÇÕES DOS COMITÊS DE BACIA
Os comitês de bacia no Brasil são órgãos colegiados normativos, deliberativos e consultivos e atuam na área da bacia, sub-bacia ou conjunto de bacias ou sub-bacias contíguas. Integram o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Singreh) e são dirigidos por um presidente e um secretário, eleitos entre seus membros. Possuem, em geral, câmaras técnicas, de caráter consultivo, destinadas ao estudo e tratamento de questões ou matérias específicas de interesse para a gestão dos recursos hídricos, de forma a subsidiar o processo decisório que se desenvolve na plenária. Os integrantes de um comitê têm plenos poderes de representação dos órgãos ou entidades de origem e têm direito, nas assembléias, que são públicas, a voz e a voto. Cabe ao Conselho Nacional (ou Estadual) de Recursos Hídricos estabelecer as normas e orientar a constituição dos comitês. Decreto do Chefe do Poder Executivo Federal (ou Estadual) institui os comitês de bacias e aprova seus regimentos internos.

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Compõem os comitês de rios de domínio da União representantes públicos da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos municípios e representantes dos usuários de suas águas, bem como entidades civis de recursos hídricos com atuação comprovada na bacia. Essas entidades civis de recursos hídricos, conforme a Lei nº 9.433/97 (art. 47) são: a) usuários, que estarão, em geral, agrupados em associações regionais, locais ou setoriais. Os setores usuários da água compreendem: irrigação, abastecimento de água e esgotamento sanitário, geração de energia hidrelétrica, indústria, navegação, pesca e lazer. Entende-se como usuários da água indivíduos, grupos, entidades públicas e privadas e coletividades que, em nome próprio ou no de terceiros, utilizam os recursos hídricos para: insumo em processo produtivo ou para consumo final; receptor de resíduos; meio de suporte de atividades de produção ou consumo; b) consórcios e associações intermunicipais de bacias hidrográficas. Esses congregam municípios de uma mesma bacia, visando uma ação coordenada de gestão; c) organizações técnicas e de ensino e pesquisa com interesse na área de recursos hídricos; e d) organizações não-governamentais com objetivos de defesa de interesses difusos e coletivos da sociedade. A proporcionalidade entre os segmentos representados nos comitês foi definida pelo CNRH, pela Resolução nº 5, de 10/4/2000. Essa norma estabelece diretrizes para a formação e funcionamento desses colegiados e representa um avanço quanto à participação da sociedade civil. A Resolução prevê que os representantes dos usuários sejam 40% do número total de representantes do comitê. A somatória dos representantes dos governos municipais, estaduais e federal não pode ultrapassar 40% e dos da sociedade civil organizada deve ser, no mínimo, de 20%. Nos comitês de bacias de rios fronteiriços e transfronteiriços, a representação da União deverá incluir o Ministério das Relações Exteriores e, naqueles em cujos territórios de atuação se situem terras indígenas, representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai) e das respectivas comunidades indígenas. Embora legalmente assegurados os princípios de gestão descentralizada e participativa desses colegiados pela Lei nº 9.433/97 (art. 1º), o nível de organização e de interação entre os atores públicos e privados são fundamentais e conduzem a gestão de recursos hídricos em um comitê de bacia. Quanto mais fraca for a atuação política da sociedade civil, menos expressivo será o comitê, que ficará à mercê dos interesses burocráticos do Estado. Segundo Jacobi (2002), “a importância da participação dos diversos atores envolvidos é de neutralizar práticas predatórias orientadas pelo interesse econômico ou político. A dinâmica do colegiado facilita uma interação mais transparente e permeável no relacionamento entre os diferentes atores envolvidos, governamentais, empresariais e usuários. Isso limita as chances de abuso do poder, ainda que não necessariamente as de manipulação de interesses do Executivo. Isso dependerá, principalmente da capacidade de organização dos segmentos da sociedade civil.”

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Uma das principais atribuições dos comitês é aprovar e acompanhar a execução do plano da bacia. No processo de aprovação, o comitê deve submetê-lo à audiência pública. Outras atribuições, definidas pela Lei nº 9.433/97 (art. 38), são: (I) promover o debate das questões relacionadas a recursos hídricos e articular a atuação das entidades intervenientes; (II) arbitrar, em primeira instância administrativa, os conflitos relacionados aos recursos hídricos; (III) propor ao Conselho Nacional e aos Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos as acumulações, derivações, captações e lançamentos de pouca expressão, para efeito de isenção da obrigatoriedade de outorga de direitos de uso de recursos hídricos, de acordo com os domínios desses; (IV) estabelecer os mecanismos de cobrança pelo uso de recursos hídricos e sugerir os valores a serem cobrados; (V) estabelecer critérios e promover o rateio de custo das obras de uso múltiplo, de interesse comum ou coletivo. Importante fator para a participação social nos comitês de bacia é o acesso ao sistema de informações de recursos hídricos (Lei nº 9.433/97, art. 26, III), o qual deve conter dados e informações sobre a disponibilidade, demanda e a situação qualitativa e quantitativa dos recursos hídricos em todo o território nacional. O sistema de informação constitui instrumento insubstituível para o processo decisório dos colegiados de recursos hídricos, e deve estar ao alcance da sociedade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A complexidade dos fatores em jogo nos comitês torna a abordagem sistêmica apropriada para a gestão da água. O dramaturgo e estadista Václav Havei, em um discurso, disse: “a educação, hoje, é a capacidade de perceber as conexões ocultas entre os fenômenos”. A partir dessa frase, o físico e filósofo Fitjof Capra (2002) desenvolveu o conceito de conexões ocultas, observando que, na ciência, essa capacidade de percepção recebe o nome de pensamento sistêmico. Podemos afirmar que o pensamento sistêmico aplica-se em especial à água, elemento multidimensional em formas e funções. O filósofo Pierre Girard reflete: “qual é a natureza da água? O físico responde: é um líquido à temperatura normal. O economista retruca: é um recurso e precisa manejá-lo. Para o biólogo é um fator essencial para o crescimento das espécies. Para o psicólogo ela é um símbolo. O poeta diz que é a própria vida” (GIRARD, 2001). Por se desenvolver em funções de relações, interesses, padrões, conflitos, saberes e contextos, o pensamento sistêmico é adequado para nortear os processos decisórios nos comitês de bacia. Nesses, as variadas percepções da água manifestam-se, inclusive, quanto ao seu valor econômico, social e cultural, que são os mais abordados, mas há outros: ecológico, med-

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icinal, depurativo, curativo, só para citar alguns, o que nos sugere uma visão cada vez mais inclusiva e abrangente da água. Daí a necessidade de criar espaços de diálogo e interação baseados no respeito e legitimação de diversas formas de conhecimento, configurando uma produção participativa de conhecimento.
Os cursos d’água fazem parte da história do indivíduo, da família e da comunidade que integram a população da bacia, ganhando sentidos simbólicos que ocupam uma parte importante de seu patrimônio cultural. Toda essa experiência, evidentemente, leva à construção de um acervo de conhecimentos empíricos sobre as águas de sua região que possui um valor socioambiental inigualável. No entanto, essa população não participa do processo de construção de conhecimento da bacia hidrográfica (MACHADO, 2000).

Leff considera que “não foi a falta de conhecimentos, mas de discernimento que trouxe a crise ambiental que vivenciamos” (LEFF, 2002). Podemos acrescentar que a fragmentação do conhecimento está na origem dessa falta de discernimento. A participação social nos comitês de bacia deve ser meta e meio, deve ser uma ação educativa para o resgate do discernimento e da visão holística da bacia e de suas complexidades socioambientais. A efetivação do espaço público constituído pelos colegiados de águas no Brasil, como espaços de compartilhamento de poder e responsabilidade simultaneamente estatais e sociais, pressupõe um processo de educação voltado para a construção de uma cidadania política. Essas considerações se fazem especialmente pertinentes para a Bacia do Alto Paraguai, que abrange uma área de 496 mil km2, dos quais 393 mil km2 são no Brasil, compreendendo parte dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Nessa região, a degradação ambiental causada principalmente por lançamento de efluentes urbanos sem tratamento, produção agrícola sem práticas conservacionistas e atividades de mineração e garimpo constituem um enorme desafio socioambiental. Para enfrentá-lo, o fortalecimento dos organismos da bacia, sob uma perspectiva integradora de valores e diferenças, é crucial. No Pantanal Mato-Grossense, parte do território da bacia, possui uma grande variedade florística e faunística, originada das regiões Amazônica, do Chaco, dos Cerrados e da Mata Atlântica, o que contribui para maximizar a sua diversidade biológica, sustentada por seu regime hidrológico. Para a conservação dessa região fisiográfica, uma das maiores extensões de áreas alagadas do planeta, declarada Patrimônio Nacional pela Constituição Brasileira de 1988, sítio designado pela Convenção de Áreas Úmidas Ramsar no ano de 1993 e Reserva da Biosfera pela UNESCO no ano de 2000, o desenvolvimento de capacidade de organização dos atores da bacia é um processo estratégico. A educação participativa, baseada na continuidade do processo de aprendizagem social e envolvendo os diversos atores locais, será integradora e determinante para o futuro da bacia.

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BIBLIOGRAFIA
BRANCO, M. O financiamento da gestão participativa da água: o caso do FEHIDRO. 2001. Dissertação (Mestrado em Política e Gestão Ambiental) - Centro de Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Brasília, Brasília. 147 p. GIRARD, P. A natureza da água. Revista ECO 21, jul. 2001. JACOBI, P. et alii. Capital social e desempenho institucional: reflexões teórico-metodológicas sobre estudos no comitê de bacia hidrográfica do Alto Tietê, S.P. In: II ENCONTRO ANPPAS, Indaiatuba/SP, mai. 2004. Anais. Indaiatuba, SP: ANPPAS, 2004. Disponível em: <www.anppas.org.br>. Acesso em: 01 nov. 2004. KEINERT, T. Administração pública no Brasil: crises e mudanças de paradigmas. São Paulo: Annablume, Fapesp, 2000. LEFF, E. Epistemologia ambiental. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2002. MACHADO, J. S.; MACEDO, M. L. O paradoxo da democracia das águas. ABRH Notícias: Revista Informativa da Associação Brasileira de Recursos Hídricos, n. 2. jul. 2000. MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Brasília: Cortez, UNESCO, 2003. SOTERO, F. Gestão participativa em rede – GPR: descentralização e participação na gestão municipal. Brasília: IGPR, 2002. Disponível em: <www.igpr.net>. Acesso em: 02 abr. 2004. VARGAS, M. C. O gerenciamento integrado dos recursos hídricos como problema sócioambiental. Ambiente & Sociedade, a. 2, n. 5, p. 109-134, 1999. _____; PAULA, G. O. Introdução à percepção social da água: estudos de caso no interior paulista. In: _____; _____. Uso e gestão de recursos hídricos no Brasil: desafios teóricos e político-institucionais. São Carlos: RiMa, 2003. p. 127-147. VIEIRA, P. Apresentação. In: LEFF, E. Epistemologia ambiental. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2002.

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ANEXO
CURSO DE EXTENSÃO EM GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS NO PANTANAL
Cooperação Embaixada dos Países Baixos no Brasil e UNESCO
Disciplina: Oficina de Dinâmica de Comitê de Bacia Facilitadora: Mônica Branco, MSc Carga horária: 4 h/a • Data: 26/11/2004

OBJETIVO
O objetivo da oficina foi aprofundar conceitos, princípios e diretrizes necessários à prática integrada e participativa dos comitês de bacia, focalizando específicamente as atribuições do comitê de bacia e os papéis dos diferentes atores. Após apresentação dos conceitos pertinentes, e da animação “corpo hídrico, corpo humano” do professor Demetrios Christofidis, foi dado início à oficina.

METODOLOGIA E DESENVOLVIMENTO
Respondendo à pergunta “que ações e processos se relacionam à gestão de recursos hídricos no nível local, isto é, da bacia hidrográfica?”, os alunos anotaram em tarjetas suas contribuições. Cada tarjeta foi discutida pela turma, de forma a identificar, por consenso, o ator ou instituição responsável. A pergunta era: “que atores estão envolvidos?” As tarjetas ficaram divididas em quatro grupos: (1) comitê de bacia, (2) governo, (3) sociedade civil organizada, (4) usuários. Conduzidos pela facilitadora, os próprios alunos foram decidindo pela pertinência de cada tarjeta. A maior parte foi para o grupo governo; em segundo lugar, sociedade civil organizada. Cinco foram para comitê de bacia e uma para usuários. Para aprofundar a reflexão sobre atribuições e papéis, a turma foi então dividida em três grupos: (1) sociedade civil; (2) governo e (3) usuários. Apesar de apenas uma atribuição ter surgido para o segmento usuários, os próprios alunos decidiram que deveriam aprofundar esse segmento. Cada grupo rediscutiu os conteúdos, de forma a manter, aperfeiçoar ou descartar cada tarjeta. O relator de cada grupo apresentou os resultados para a turma e, mais uma vez, cada tarjeta foi discutida coletivamente, agregando contribuições da turma.

RESULTADOS
O resultado final é a seguir apresentado. A partir dessa dinâmica, e por meio de debates e formulação de questionamentos e respostas, com a consulta ao livro de leis e normas, os alunos ficaram mais familiarizados com papéis e responsabilidades na gestão de bacias hidrográficas. Papéis e atribuições elaborados pelos alunos:
COMITÊ DE BACIA HIDROGRÁFICA

• política para a utilização da água • definição de áreas prioritárias para a aplicação de recursos oriundos da cobrança • acesso das comunidades envolvidas à informação

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• definição da metodologia para a outorga pelo uso da água • sistematizar ações • definir usos múltiplos
SOCIEDADE CIVIL ORGANIZADA

• fundamentação científica, teórica e metodológica • educação ambiental • controle social • proposição para a construção de políticas públicas • ...
GOVERNO

• criar e efetivar o CBH • monitorar e fiscalizar as ações na bacia • promover políticas públicas de gestão das águas subterrâneas na bacia • mobilizar os diversos atores sociais para a criação e efetivação dos CBH Agência de Bacia (essa foi uma subdivisão feita pelo grupo, que observou que, até a implantação desse organismo, o governo assume as atribuições) • realizar diagnóstico amplo nas diversas áreas de conhecimento: técnica, cultural, econômica, ambiental • cobrança dos diversos usos dos recursos hídricos • implementação das ações decididas pelo CBH • gerenciamento das ações • gerenciar a implantação de empreendimentos comerciais na bacia, no estrito cumprimento da legislação
USUÁRIOS

• garantir a representatividade dos vários segmentos de usuários no CBH • observar as leis que normatizam o uso (exploração) da água • providenciar o EIA/Rima de seu empreendimento e apresentá-lo para análise no CBH

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• buscar interesses econômicos sem comprometer os fatores ambientais e sociais (por meio de estudos e planos) • avaliar sua postura como usuário e ver como pode contribuir para reverter danos • planificar, definir y lineamentos técnicos sobre el uso del recurso em consenso con los usuarios Obs.: o quinto item do segmento sociedade civil organizada foi uma tarjeta colocada em branco, para enfatizar que este segmento possui potencialidades para serem desenvolvidas e espaço de poder a ser ocupado. Durante a relatoria, um aluno levantou-se e colocou as reticências (...) para enfatizar esse aspecto. Esse fato demonstrou o humor e a criatividade dos alunos.

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APRESENTAÇÃO

“ COMITÊS DE BACIA E A EDUCAÇÃO PARA A GESTÃO INTEGRADA DESCENTRALIZADA E PARTICIPATIVA DA ÁGUA”

Mônica Branco

Cuiabá, 26 de novembro de 2004.

A crise da água não é uma crise de recurso, é uma crise de gestão

Princípios Dublin
a água doce é um recurso finito e vulnerável, essencial para a conservação da vida, a manutenção do desenvolvimento e do meio ambiente; o desenvolvimento e a gestão da água devem ser baseados na participação dos usuários, dos planejadores e dos decisores políticos, em todos os níveis; as mulheres desempenham um papel essencial na conservação e gestão da água; a água tem valor econômico em todos seus usos competitivos e deve ser reconhecida como um bem econômico.

Gestão Princípios: domínio público/valor social e econômico/prioridade em situações de escassez/ usos múltiplos/BH como unidade para a PNRH/ descentralização e participação. Objetivos: uso sustentável/utilização racional e integrada/eventos hidrológicos críticos. Diretrizes: quantidade-qualidade/adequação da gestão às diversidades.../integração águaambiente/ articulação dos planejamentos/ integração com a gestão costeira .

Gestão integrada a água é um recurso estratégico: múltiplo usos e funções; cooperação: usos da água são interdependentes; precisamos nos educar para uma nova consciência da água; processo decisório deve ser participativo e no nível da bacia hidrográfica (descentralizado); locus principal da gestão da água é o Comitê de Bacia – diálogo, negociação, prática da

Gestão dos Recursos Hídricos – Dá-se no âmbito da gestão ambiental Gestão Ambiental – processo de articulação das ações dos diferentes agentes sociais com vistas a garantir a adequação dos meios de exploração dos recursos ambientais às especificidades do meio ambiente, com base em princípios/diretrizes definidos. A Gestão Integrada enfatiza que o foco não é apenas o desenvolvimento dos recursos hídricos, mas também a conscientização do papel da água como suporte para a vida (ambiente). Envolve também outras

Gestão Integrada Urgência para ação – a água é vital para a sobrevivência, saúde e dignidade, além de recurso fundamental para o desenvolvimento.

-

crise de governança da água competição crescente pelo seu uso falta de segurança hídrica disparidade de gênero

Gestão Integrada Governança Capacidade (de um sistema político democrático) de autogoverno e de lidar com desafios e objetivos nacionais, regionais e globais.

Fundamento: acordo social expresso por meio de leis, instituições e políticas públicas, conduzido por lideranças.

Gestão Integrada Governança Atores da governança: Estado (poderes); setor privado, ONG (grupos sociais e cidadãos); comunidade internacional Elementos-chave: • liderança (visão, legitimidade e capacidade); • arranjos legais e institucionais (recursos culturais); • políticas públicas (capacidade de formular, aplicar e avaliar)

Gestão Integrada

Governança da água

• • • • • • • •

Refere-se ao alcance dos sistemas político, social, econômico e administrativo atuantes no desenvolvimento e gestão dos recursos hídricos e serviços de água (GWP, 2002) Liderança Arranjos legais e institucionais Políticas públicas Acordo social Força legal Usos múltiplos Interesse público Medidas de conservação e proteção

Gestão Integrada disparidade de gênero O papel da mulher como provedora e gestora da água, guardiã e protetora do recurso não está refletido nos arranjos institucionais

Gestão Integrada Abordagem de gênero na gestão da água Existem vínculos claros entre gênero, acesso à água e pobreza. A pobreza está proporcionalmente muito mais presente em famílias chefiadas por mulheres do que por homens.

É importante que qualquer enfoque sensível a gênero seja ainda associado à análise da pobreza e do privilégio.

Gestão Integrada Abordagem de gênero na gestão da água • A água é um fator-chave para o desenvolvimento; Muito provavelmente há água suficiente para todos no mundo, incluindo o pobre, porém somente se nós mudarmos o modo de gerenciar a sua utilização haverá justiça social (Conferência Internacional sobr e Água Doce, Bonn, 6 de Dezembro de 2001). • a abordagem de gênero é importante para realizarmos mudanças necessárias na gestão da água;

Gestão Integrada Abordagem de gênero na gestão da água • eqüidade de gênero diz respeito à justiça para homens e para mulheres. Possibilitar a participação igualitária no processo decisório, tanto de homens como de mulheres, e igual acesso aos benefícios de água.

Gestão Integrada descentralização/codescentralização responsabilização/princípio da subsidiariedade

efeitos positivos: Ìreduz custos de transação; Ìfacilita o fluxo de informação, Ìfacilita a coordenação de políticas setoriais; Ìviabiliza a construção de identidade e autonomia

Gestão Integrada descentralização identificar: poderes concedidos/atores que possuem poder de decisão/mecanismos (nos diferentes níveis) de responsabilização prática: coordenação entre múltiplas organizações como problema de ação coletiva (mobilização; oportunidade política; recursos organizacionais –redes; liderança; identidade; percepções; representatividade...)

Gestão Integrada Como entendemos a participação? gestão processo decisório acordo monitoramento iniciativa consulta informação

Gestão Integrada Entraves para a participação falta de conhecimento sobre a legislação (direitos e responsabilidades de usuários); predominância da prática setorial; proliferação de planos em diferentes níveis e setores; participação como processo que demanda tempo; custo financeiro da participação; acesso desigual à informação; capacitação para a prática participativa.

Gestão Integrada Elementos para a participação reconhecimento legal de todos os atores; reconhecimento da estrutura legal e institucional por todos os atores; capacitação; coordenação institucional; eqüidade no acesso e controle da água para todos os atores; Planos de Recursos Hídricos são instrumentos estratégicos para a efetivação do processo participativo.

enquadramento

p outorga

cobrança Plano de Bacia Sist info

Planos de Bacia Os PB constituem-se instrumentos de referência para todas as decisões a respeito dos recursos hídricos no âmbito da bacia. Neles devem estar programados todos os investimentos necessários à recuperação, proteção, conservação e utilização dos recursos hídricos. Além de constituírem a base para a gestão, os PB são orientativos quanto à outorga do direito de uso dos recursos hídricos e quanto à cobrança pelo seu uso. São estratégicos para a autonomia e legitimação do poder de decisão dos comitês

a legislação de recursos hídricos apresenta instrumentos e dispositivos necessários para uma gestão democrática e participativa. O grande desafio é concretizá-la. educação para a mediação, educação para a representatividade, educação para a sustentabilidade – aprender com a água (integrar).

A MENSAGEM DA ÁGUA

Masaru Emoto
www.hado.net

Amostras de água do Lago Biwa (Japão), antes da oração

Amostras de água do Lago Biwa após a oração

500 pessoas enviaram sentimento de amor para essa água

À esquerda, água com a palavra “anjo”; à direita, “demônio”

Amostra de água com a frase: “you make me sick”

Sinfonia de Mozart tocada para a água

Água para a qual foi mostrada a palavra “esperança” e m japonês

“ Curar a Terra ou curar a Água é, antes de tudo, mudar o olhar sobr e si mesmo, sobre os outros e sobr e as coisas ligadas, pois tudo se liga.”

Jean Pierre Garel

“A humanidade e o mundo novo serão construídos quando o ser humano se engajar num projeto político que gere alianças, supere divergências e respeite a diversidade, criando uma esplêndida solidariedade cósmica”
Leonardo

SETORES USUÁRIOS DE ÁGUA
Henrique Marinho Leite Chaves
Agência Nacional de Águas (ANA)

8

Quantificação dos Benefícios Ambientais e Compensações Financeiras do “Programa do Produtor de Água” (ANA): I. Teoria
Henrique Marinho Leite Chaves
Agência Nacional de Águas-ANA e Faculdade de Tecnologia, UnB Brasília, DF hchaves@ana.gov.br

Agência Nacional de Águas-ANA, Brasília, DF e Instituto Politécnico-USP benbraga@ana.gov.br

Benedito Braga

Antônio Félix Domingues
Agência Nacional de Águas-ANA Brasília, DF felix@ana.gov.br Agência Nacional de Águas-ANA Brasília, DF devanir@ana.gov.br

Devanir Garcia dos Santos

_______________________________________________________________________________
“É inútil fazer com mais o que pode ser feito com menos.”
Guilherme de Ockham (1300-1349)

INTRODUÇÃO
A poluição de origem difusa, como é caso da sedimentação, ocorre em níveis inaceitáveis em bacias rurais quando os produtores, ao tomarem suas decisões sobre o tipo de uso e manejo do solo, desconsideram os impactos que esses processos impõem aos outros usuários e ao meio ambiente (Baumol & Oates, 1979). Além disso, a poluição difusa é um problema mais complexo e elusivo do que a poluição pontual, e os instrumentos desenvolvidos para o controle de uma não necessariamente se aplicam à outra (Ribaudo et al., 1999). Entretanto, a experiência recente tem demonstrado que o controle da poluição difusa é mais eficaz quando políticas de incentivo, como aquela do “provedor-recebedor”, são usadas no lugar de instrumentos coercitivos, tais como o “poluidor-pagador” (Claassen et al., 2001). Além disso, a proteção de mananciais tem ultimamente sido preferida ao tratamento intensivo de água, principalmente em resposta à legislações mais restritivas. Exemplo disso foi a cidade Nova York. Esta, tendo que atender aos padrões do Safe Drinking Water Act de 1986, optou por adquirir e recuperar áreas da bacia de Castkill, um manancial ao norte da cidade, ao invés de construir uma imensa estação de filtração. A economia no processo foi de mais de US$ 3 bilhões (The Catskill Center, 2004). No caso do Brasil, apesar de programas exitosos de conservação do solo terem sido implementados nos últimos anos (Roloff & Bragagnolo, 1997), eles foram concebidos sem

Apesar do relativo sucesso de alguns programas de conservação de água e solo no Brasil nos últimos 20 anos, eles não consideraram explicitamente, em seu dimensionamento, os benefícios “off-site” relativos ao controle da poluição difusa, nem sua compensação, por parte dos beneficiários. Partindo deste fato, bem como das novas tendências mundiais em programas agro-ambientais, a Agência Nacional de ÁguasANA desenvolveu um projeto de conservação de mananciais estratégicos, onde incentivos financeiros, proporcionais aos benefícios relativos ao abatimento da sedimentação, são propostos. Uma vez que a estimativa do abatimento da sedimentação não é um processo trivial, ele foi emulado através de uma simplificação da Equação Universal de Perda de Solo-USLE, em nível de propriedade. De forma a não caracterizar os incentivos como uma forma de subsídio, esses consideraram os custos de implantação das práticas conservacionistas. A simplicidade e robustez da metodologia proposta, bem como a facilidade de sua certificação em nível de campo, permitem que ela seja aplicada de forma descentralizada, por comitês de bacia ou associações de usuários de água e produtores rurais. Assim, uma vez atingidos os critérios técnicos e operacionais do Programa, os produtores participantes seriam certificados com um selo ambiental, o qual poderia ser usado para o recebimento do bônus correspondente. Os aspectos teóricos e metodológicos deste programa, intitulado “Produtor de Água”, são apresentados neste trabalho. Em um outro artigo, companheiro deste (Chaves et al., 2004), um exemplo da aplicação do método proposto a uma bacia rural é apresentado.

RESUMO

considerar, de forma explícita, os benefícios fora da propriedade, tais como a redução da sedimentação (Boerma, 2000). Apesar da atual legislação sobre recursos hídricos incentivar a gestão descentralizada da água, bem como a articulação da gestão de recursos hídricos com a do uso do solo, não há, nessa Lei, um tratamento específico para a poluição difusa de origem rural (Martini & Lanna, 2003). Entretanto, considerando que os prejuízos anuais da sedimentação no Brasil, referentes à perda de vida útil de reservatórios e à custos adicionais de tratamento de água, somam mais de US$ 1 bilhão (Hernani et al., 2.002), bem como a alta relação benefício/custo de projetos baseados em performance (Claassen et al., 2001), programas incentivados de controle da poluição difusa teriam um grande potencial de aplicação no país. Por outro lado, se indicadores tradicionais de performance ambiental usados nesses programas, tais como a quantificação da erosão e da sedimentação, apresentam impecilhos operacionais, o mesmo não ocorre com instrumentos baseados em projeto, os quais são mais facilmente mensuráveis. Dentre estes estão a classificação do tipo de uso e manejo do solo, tecnologia e insumos usados (Ribaudo et al., 1.999). Considerando os aspectos acima, o presente trabalho teve como objetivo o desenvolvimento de uma metodologia de estimativa dos benefícios ambientais e compensações financeiras relativos a programas conservacionistas, que incorporasse, ao mesmo tempo, as vantagens dos intrumentos baseados em performance e a facilidade e praticidade daqueles baseados em projeto, no que diz respeito ao seu monitoramento. No presente trabalho, é apresentado o desenvolvimento desta metodologia, que é parte integrante do Programa do Produtor de Água (ANA, 2003).

Sedimentação
A avaliação parte de um estágio inicial, onde o nível de erosão Ao (ton/ha.ano) é estimado na gleba ou propriedade, antes da implantação do Programa. A mesma estimativa é feita para a condição após a implantação do projeto conservacionista (A1). Assim, o percentual de abatimento de erosão e de sedimentação (P.A.E.), obtido com a implantação do projeto proposto, por um produtor participante, é dado pela seguinte equação: P.A.E. (%) = 100 (1− A1/A0) [1]

A quantificação dos valores de erosão média nas condições atuais e propostas (A0 e A1) requer, por sua vez, a aplicação de modelos de predição de erosão. Considerando-se os critérios necessários para a seleção adequada do modelo, tais como a disponibilidade de dados e parâmetros locais, a precisão das predições, a robustez do modelo e a sua facilidade de uso (Heathcote, 1998; James & Burges, 1982; Risse et al., 1993), a Equação Universal de Perda de Solo-USLE apareceu como a candidata natural para a tarefa. A USLE, por sua vez, é dada pela seguinte equação (Wischmeier & Smith, 1978): A=RKLSCP [2]

DESENVOLVIMENTO DO MÉTODO PROPOSTO
Seguindo as tendências agro-ambientais mais recentes, o “Produtor de Água” foi concebido como um programa voluntário, flexível, de implantação descentralizada, que visa o controle da poluição difusa em mananciais estratégicos (ANA, 2003). Ele parte da premissa que a melhoria ambiental auferida fora da propriedade pelo produtor participante é proporcional ao abatimento da erosão e, conseqüentemente da sedimentação, em função das modificações no uso e manejo do solo e dos custos de sua implantação por parte do participante. Os fundamentos do Programa, no que diz respeito aos seus indicadores ambientais e econômicos, são descritos a seguir.

Onde A (ton/ha.ano) é a perda de solo média anual na gleba de interesse, R (MJ mm/ha h) é a erosividade da chuva e da enxurrada, K (t.ha.h/ha.MJ.mm) é a erodibilidade do solo, L (adimensional) é o fator de comprimento de rampa, S (adimensional) é o fator de declividade da rampa, C (adimensional) é o fator de uso e manejo do solo, e P (adimensional) é o fator de práticas conservacionistas. Entretanto, mesmo sendo a USLE um modelo relativamente simples, usado na previsão da erosão laminar e em sulcos de vertentes, sua aplicação é dificultada nas condições brasileiras, quer pela inexperiência dos agentes extensionistas com o modelo, quer pela dificuldade de obtenção de parâmetros locais (Chaves, 1996a). Por outro lado, considerando que se trata da mesma área (gleba de interesse), vários dos parâmetros da USLE são constantes antes e depois da implantação do projeto. Chamando de Z o produto C*P da equação [2], teríamos, após dividirmos a perda de solo sob a condição proposta (A1) pela perda na condição inicial (A0,), e cancelarmos os termos comuns na equação [2]: A1/A0 = Z1/Z0 [3]

1. Estimativa do Abatimento da Erosão e

Substituindo-se a equação [3] na equação [1], temos finalmente:

P.A.E. (%) = 100 (1− Z1/Z0)

[4]

Tabela 1. Valores de Z* para usos e manejos convencional (Zo) e conservacionista (Z1)
Manejo Convencional Grãos Algodão Mandioca Cana-de-açúcar Batata Café Hortaliças Pastagem degradada Capoeira degradada Cascalheira/ solo nú Manejo Conservacionista Grãos, rotação Grãos, em nível Grãos, rotação, em nível Grãos, faixas vegetadas Grãos, cordões vegetação Grãos, plantio direto Algodão/Mandioca, rotação Algodão/Mandioca, nível Algodão/Mandioca, plantio direto Cana, em nível Cana, em faixas Batata, em nível Batata, em faixas Café, em nível Café, em faixas Hortaliças, em nível Pastagem recuperada Pastagem, rotação c/ grãos Reflorestamento denso Reflorestamento ralo Z0 0,25 0,62 0,62 0,10 0,75 0,37 0,50 0,25 0,15 1,00 Z1 0,20 0,13 0,10 0,08 0,05 0,03 0,40 0,31 0,04 0,05 0,03 0,38 0,22 0,19 0,11 0,25 0,12 0,10 0,01 0,03

A vantagem desta simplificação é que, conhecendo-se apenas dois dos seis fatores originais (C e P) da USLE, é possível calcular a redução da perda de solo, relativamente à situação inicial, sem perda de generalidade ou de robustez do modelo. Uma possível complicação dessa simplificação da USLE seria a introdução do terraceamento em nível. Esta prática conservacionista reduz o comprimento de rampa da vertente e, conseqüentemente, o fator L da USLE. Entretanto, pode-se demonstrar que a redução na erosão é uma função linear do comprimento de rampa. Assim, esta redução poderá ser contabilizada pela introdução de um outro fator ao valor de Z (vide demonstração no Apêndice A). Valores são disponíveis para os parâmetros C e P (e, portanto, de Z) para agricultura (Derpsch, 2002; De Maria & Lombardi Neto, 1997, Margolis et al., 1985; Bertoni & Lombardi Neto, 1990; Leprun, 1983) e para florestas (Paula Lima, 2003, comunicação pessoal). Uma lista de valores de Z para diferentes usos e manejos, convencionais e conservacionistas, é apresentada na Tabela 1. Assim, para a estimativa do abatimento da erosão no campo, seria necessário conhecer-se apenas os valores tabelados de Z para os usos, manejos e práticas das situações inicial e proposta, num processo bem mais simples e barato que o monitoramento direto, a campo. Dessa forma, agentes certificadores poderiam facilmente atestar o cumprimento da meta ambiental proposta, simplesmente através da verificação, a campo, da implementação do projeto, e obter os respectivos valores de Z da Tabela 1. Para tanto, fichas-padrão, descrevendo as condições para cada uma das condições de uso, manejo e práticas conservacionistas da Tabela 1, foram confeccionadas especialmente para o acompanhamento do Programa (ANA, 2003). Apesar de os usos, manejos e práticas da Tabela 1 não cobrirem todas as possíveis situações de uso e manejo do solo do país, elas englobam aquelas mais comuns, as quais serão usadas na ausência de dados mais definitivos, resultados de pesquisa local. Uma vez atendidos os critérios técnicos e operacionais do Programa, os produtores participantes receberiam um certificado de conformidade (Selo Azul de Produtor de Água-ANA), o qual poderá ser usado para recebimento do respectivo bônus financeiro. Considerando que grande parte dos poluentes responsáveis pela poluição difusa rural são transportados adsorvidos no sedimento (Novotny & Chesters, 1981), e uma vez que seu monitoramento e modelagem não é trivial (Knisel, 1978), a presente metodologia permite também que o abatimento deste tipo de poluição seja estimado. Este, por sua vez, foi suposto como sendo proporcional ao abatimento da sedimentação na bacia.

(*) Derpsch, 2002; De Maria & Lombardi Neto, 1997, Margolis et al., 1985; Bertoni & Lombardi Neto, 1990, Leprun, 1983; Paula Lima, 2003.

2. Estimativa dos Valores dos Incentivos Financeiros aos Produtores Participantes
Em programas de compensação por serviços ambientais, como o “Produtor de Água”, haveria vários custos envolvidos, tais como os de mobilização e cadastramento dos produtores, os relativos à assistência técnica, os de compensação das modificações de uso e manejo do solo, e os de monitoramento e auditoria (Martini & Lanna, 2003). Entretanto, o presente trabalho se ateve apenas àqueles custos referentes à compensação financeira aos agricultores, em função dos benefícios ambientais auferidos fora da propriedade. Partindo-se da premissa que uma solução viável é aquela em que uma meta ambiental é atingida a um custo mínimo (Ribaudo et al., 1999),

buscaram-se valores financeiros que atendessem, ao mesmo tempo, aos seguintes critérios: A. Fossem suficientes para atingir a meta de abatimento de erosão e sedimentação pretendida; B. Fossem suficientes para produtores para o Programa; e atrair

incluindo os processos de auditoria e certificação, são apresentadas na Figura 1. De forma a validar a metodologia proposta, incluindo o cumprimento das metas ambientais previstas pelo Programa e os valores do fator Z, seu órgão executor (Estado, Comitê de Bacia etc.) deverá implantar um sistema adequado de monitoramento hidro-sedimentológico, em pontos estratégicos da bacia (p. ex., Walling, 1988).

C. Fossem iguais ou inferiores ao custo de implantação e operação do manejo e/ou prática conservacionista proposta, de forma a não caracterizar subsídio agrícola. Como cada manejo e prática conservacionista implica em custos e eficácias distintos, e tendo como pressuposto que os pagamentos devem ser proporcionais ao seu desempenho ambiental, tomou-se, como ponto de partida, uma prática conservacionista que é, ao mesmo tempo, econômica e ambientalmente eficiente e amplamente utilizada nas diferentes regiões agrícolas brasileiras: o plantio direto. Esta prática reduz cerca de 90% da erosão (e da sedimentação), relativamente ao sistema convencional (Derpsch, 2002), com um custo de implantação médio de R$ 100/ha (Melo Filho & Mendes, 1999). À partir desse critério, valores de pagamento incentivado (V.P.I.) foram definidos para outros manejos e práticas, de acordo com as faixas da Tabela 2. Tabela 2. Valores sugeridos para pagamentos incentivados (VPI), em função do abatimento de erosão (PAE) proporcionado P.A.E. (%) V.P.I. ( R$/ha) 25-50% 50 51-75% 75 75100% 100

DISCUSSÃO
Apesar de simples e robusta, a metodologia proposta requereu algumas suposições e simplificações, de forma a facilitar sua aplicação às condições brasileiras. Portanto, uma discussão sobre as mesmas se faz necessária, e é apresentada a seguir. A primeira delas diz respeito à suposição que o percentual de abatimento da sedimentação (benefício fora da propriedade), proporcionado por um certo manejo ou prática conservacionista, equivale ao abatimento de erosão dentro da propriedade, conforme dado pela equação [4]. A segunda suposição é relativa à “universalização” dos valores de Z para diferentes regiões agrícolas brasileiras, independentemente de suas diferenças climáticas. A terceira, por sua vez, é a justificativa econômica de que o valor do pagamento incentivado (VPI) deve considerar o custo de implantação do uso, prática ou manejo conservacionista, por parte do produtor participante. A quarta e última delas foi a de que o abatimento da poluição difusa na bacia é proporcional ao abatimento da sedimentação e, conseqüentemente, do abatimento da erosão.

Suposição Relativa ao Abatimento da Sedimentação na Bacia
Uma das vantagens de se usar o abatimento da erosão dentro da propriedade como indicador do abatimento da sedimentação na bacia é que apenas parâmetros relativos aos usos e manejos inicial e proposto são necessários, facilitando significativamente a estimativa do benefício ambiental gerado, por agentes certificadores. Para tanto, deve-se demonstrar que, para cada tonelada de erosão abatida dentro da propriedade, uma tonelada correspondente será abatida no processo de sedimentação, a jusante. Partindo-se da relação de aporte de sedimento, R.A.S. (adimensional), considerada constante para uma dada bacia (Walling, 1988; Renfro, 1975), temos: R.A.S. = (Y/ Ab) [5]

Assim, na passagem de uma pastagem degradada (Z0=0,25), para pastagem recuperada (Z1=0,12) teríamos, pela equação [4], um percentual de abatimento de sedimentação de 52%. Da Tabela 2, obteríamos um valor correspondente de V.P.I. de R$ 75/ha. Os valores de VPI da Tabela 2 são apenas sugestivos, e podem variar de uma bacia hidrográfica para outra, dependendo do nível de poluição difusa existente, bem como das condições sócioeconômicas regionais. De forma que o Programa tenha uma eficiência ambiental mínima, estipulou-se, para fins de compensação financeira, um abatimento de erosão mínimo de 25%. Além disso, visando permitir o acesso do maior número possível de participantes no Programa, sugere-se um limite máximo de 250 ha para cada produtor participante. As etapas do Programa do Produtor de Água,

Onde Y (t/ano) é o aporte de sedimento anual no exutório da bacia, cuja erosão total anual é Ab (t/ano). A relação de aporte de sedimento varia de 0 a 1, sendo inversamente proporcional à área da bacia (Roehl, 1962; USDA-NRCS, 1983;). Assim, se o abatimento da erosão gerado

em uma certa propriedade, de área α, participante do Programa, representar 1% do valor total da erosão na bacia, ou seja, (A1−A0).α = 0,01Ab, temos que, para que a R.A.S. permaneça constante na equação [5], um valor correspondente a 1% também deve ser reduzido na produção de sedimento, Y, no exutório de interesse da bacia. Isto demonstra a possibilidade de se utilizar a erosão média na propriedade como indicador do aporte de sedimento médio no exutório da bacia, conforme proposto anteriormente.

Suposição relativa aos valores do parâmetro Z
Uma vez que os valores de Zo e Z1, dados pela Tabela 1, foram considerados constantes para diferentes regiões agrícolas e considerando que este parâmetro depende da distribuição da erosividade da chuva (R) e das épocas de cultivo e manejo do solo (Wischmeier, 1976), a utilização generalizada dos valores da Tabela 1, bem como a simplificação do fator R na equação [2], só poderiam ser feitas nas seguintes condições: i. As características agronômicas dos cultivos, tratos culturais e manejos do solo de regiões de interesse do projeto, mesmo climaticamente distintas, são semelhantes para uma certa cultura e ocorrem em datas mais ou menos coincidentes ao longo do ano; A distribuição das erosividades médias mensais das chuvas ao longo do ano é semelhante nas regiões agrícolas de interesse do Projeto, independentemente de seu clima.

dos cultivos e manejos do solo são praticamente os mesmos nas regiões de interesse. Eventuais variabilidades espaciais são insuficientes para influenciar ζ de forma significativa, mesmo porque essas poderão ser excedidas pelas variações temporais (Risse et al., 1993). No caso da segunda suposição, relativa às distribuições das erosividades, testou-se a hipótese de que elas são espacialmente correlacionadas entre si. Para tanto, foram comparadas as erosividades de localidades representativas de áreas agrícolas das três regiões: Londrina (Região Sul), Campinas (Região Sudeste) e Distrito Federal (Região Centro-Oeste). A Figura 2 apresenta as distribuições das erosividades mensais médias destas localidades, ao longo do ano. Graficamente, por esta Figura, observa-se que as distribuições das erosividades são semelhantes. Além disso, uma análise de correlação entre elas foi realizada, e os resultados são apresentados na Tabela 3. Tabela 3. Coeficientes de correlação (Pearson) entre as distribuições das erosividades das 3 localidades analisadas. rLond/Camp 0,81 rCamp/DF 0,85 rLond/DF 0,91

ii.

Estas duas condições decorrem da definição física do fator Z (Foster & Lane, 1987), ou seja: Z=

Σ (ρi ζi)
i=1

12

[6]

Todos os valores de r da Tabela 3 são superiores a 0,80, indicando alta correlação entre as erosividades mensais das três localidades, ou seja, de que há uma dependência estocástica entre elas (Haan, 1977). Além disso, um teste de independência (Student), realizado entre distribuições das erosividades mensais das 3 localidades, foi rejeitado, a um nível de 99%. Esses resultados reforçam a hipótese inicial de similaridade entre as erosividades, o que permite sua simplificação na Equação [2]. Mesmo que persistam eventuais variações regionais nos dois parâmetros da equação [6], elas tenderiam a ser auto-compensadas, em função da sua estrutura fatorial (Chaves, 1996a; Troutman, 1985).

Onde ρi (adimensional) é o percentual da erosividade da chuva do mês i em relação à erosividade média anual e ζi (adimensional) é a razão de perda de solo do mês i em relação à perda média anual, entre uma parcela descoberta (padrão) e a parcela com um certo uso e manejo do solo. Portanto, para que os valores de Z sejam considerados constantes nas principais regiões agrícolas brasileiras, para as quais o Programa foi desenhado (Sul, Sudeste e Centro-Oeste), é necessário que os parâmetros ρ e ζ da Equação [6] sejam semelhantes entre si. Com relação à primeira hipótese, e considerando-se o período de verão, onde se concentram as perdas de solo, os tipos e as épocas

Justificativa para os valores de Programa

VPI do

Conceitualmente, as faixas de valores de pagamento incentivado (VPI) do Programa do Produtor de Água foram definidas em função do custo-base de adoção das práticas e manejos elegíveis, ou seja, aquele suficiente para “cobrir” os custos adicionais de produção do produtor participante, relativos à implantação da tecnologia. Graficamente, esta compensação seria aquela que permitisse que o participante passasse de uma situação atual a (sem abatimento de erosão), para uma situação b, com abatimento de erosão (Figura 3). Neste caso, haveria uma redução da sua renda líquida, relativa ao custo de implantação da

prática (dada pelo segmento ax, na Figura 3). Este valor, por sua vez, seria exatamente o valor de pagamento incentivado (VPI) para a prática tomada como padrão (plantio direto). De forma a atender aos critérios A, B e C, citados anteriormente, e considerando que os custos relativos à implantação do plantio direto correspondem aos custos fixos de aquisição do implemento necessário, ou seja, a depreciação mais os juros sobre o capital fixo, este valor seria de R$ 100/ha (Melo Filho & Mendes, 1999; SEPLAN-PR, 2003). É possível que os valores da Tabela 2 sejam insuficientes para cobrir os custos de implantação de algumas práticas elegíveis do Programa. Por exemplo, um produtor que proponha reflorestar uma pastagem degradada, obterá, através da equação [4] e da Tabela 2, um VPI de R$ 100/ha, o que representaria cerca de 1/3 dos custos totais de implantação do projeto (SEPLAN-PR, 1999). Entretanto, considerando que o plantio direto e o reflorestamento apresentariam desempenhos semelhantes no que diz respeito ao abatimento da sedimentação (Tabela 1), os valores de VPI de ambos deveriam ser equivalentes. Isto garante, ao mesmo tempo, a eficácia econômico-ambiental do Programa, sem, entretanto, reduzir a flexibilidade no que diz respeito à escolha da prática, por parte do participante. Por outro lado, há a possibilidade que a prática ou o manejo proposto apresente um custo inferior ao valor de pagamento incentivado estimado, em função da alta eficiência técnica e econômica do participante. Neste caso, não haverá problema, pois esta é exatamente a filosofia do Programa, ou seja, premiar os melhores desempenhos, sejam eles ambientais ou econômicos.

exutório da bacia, Cis (kg/kg solo) é a concentração do poluente i no solo, Ei (adimensional) é a relação de enriquecimento do poluente i entre a fonte e o exutório da bacia, e Y (kg/ha) é a carga de sedimento no exutório. Considerando que, para um certo poluente i, em uma certa bacia, os fatores Cis e Ei são constantes, uma redução de, digamos, 50% na carga de sedimento Y resultaria, pela equação [7], em uma mesma redução na carga do poluente i. Isto demonstra que a suposição inicial é válida.

CONCLUSÕES
Uma metodologia foi desenvolvida para a estimativa dos benefícios ambientais gerados à partir da adoção de práticas e manejos conservacionistas, no âmbito do Programa do Produtor de Água, da ANA. Na metodologia proposta, o abatimento de sedimentação na bacia, de complexa obtenção, foi emulado pelo abatimento de erosão na propriedade. Este, por sua vez, foi obtido através de uma simplificação da Equação Universal de Perda de Solo-USLE (Wischmeier & Smith, 1978). As vantagens deste enfoque são múltiplas. A primeira diz respeito à necessidade mínima de dados de campo, o que favorece sua aplicação para as condições brasileiras. A segunda é relativa à possibilidade de estimar, através do método proposto, o abatimento da poluição difusa na bacia. A terceira, por sua vez, diz respeito à facilidade de monitoramento da implementação dos projetos propostos, por parte de certificadores independentes, através de fichas padronizadas, especialmente desenvolvidas para o Programa. Por último, o Programa estimula a eficiência econômicoambiental dos participantes, uma vez que a compensação financeira é proporcional ao benefício ambiental auferido e ao custo de implantação da prática. Além disso, o aspecto descentralizado e flexível do Programa permite que o mesmo seja implantado em bacias estratégicas (mananciais), como resultado de acordos entre usuários de água, gestores e agricultores (Martini & Lanna, 2003). Mesmo que não haja no País legislação específica relativa à este tipo de compensação financeira, principalmente quando os setores público (usuários de água) e privado (produtor rural) são envolvidos, um dos princípios basilares do Direito Administrativo, o da repartição das cargas públicas, respalda sua aplicação. Este princípio estipula que todo sacrifício individual instituído em prol do bem comum deve ser compensado (Chaves, 1996b). Finalmente, visando justificar as suposições e simplificações usadas na metodologia proposta, tanto nos aspectos ambientais como econômicos, foram apresentadas considerações usando dados, conceitos e relações disponíveis na literatura.

Suposição relativa ao poluição difusa na bacia

abatimento

da

Uma vez que o processo de modelagem do transporte poluentes não é trivial (Knisel, 1978), e como sua quantificação seria inviável para um programa como o proposto, em função do grande número de variáveis envolvidas no processo, supôsse que o abatimento da poluição difusa seria proporcional ao abatimento da sedimentação na bacia. Apesar de alguns tipos de poluentes serem transportados em solução, pela enxurrada, a maior parte deles chega aos corpos d’água adsorvidos no sedimento (Novotny & Chesters, 1981). Dessa forma, e uma vez que o transporte de poluentes adsorvidos é função do movimento do sedimento na bacia, aquele pode ser expresso por (Donigian & Crawford, 1976; McElroy et al., 1976): Yi = Cis Ei Y [7]

Onde Yi (kg/ha) é a carga do poluente i no

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APÊNDICE A A simplificação proposta para a USLE, dada pela equação [3] requer, no caso de introdução da prática de terraceamento em nível, uma demonstração de que a redução da erosão A, na equação [2], é uma função linear da redução do fator de comprimento de rampa, L. Na USLE, o fator L é definido como sendo (Wischmeier & Smith, 1978): L = ( l / 22,1)M [A1]

Onde: l (m) = comprimento de rampa da gleba, e M = coeficiente proporcional à declividade da rampa (M varia entre 0,1 a 0,5). Como o terraceamento em nível reduz o comprimento de rampa ( l ) mas não a declividade da vertente, o valor de M na equação [A1] não é afetado. Assim, supondo que uma vertente agrícola de área igual a 100 ha, com comprimento igual a l0=200m seja reduzida, com a introdução do terraceamento, a 4 vertentes iguais de l1=50 m (ou seja, l1= l0/4). Teremos assim a seguinte redução relativa na perda de solo, A (t/ha ano): A1/A0 = L1/L0 = [( l1/22,1)M/( l0/22,1)M] = [(50/22,1)M (200/22,1)M] [A2]

Estimating the environmental benefits and financial compensations of ANA’s “Water Provider Program”: I. Theory
ABSTRACT
In spite of the relative success of soil & water conservation programs in Brazil in the last 20 years, they have not explicitly considered their off-site benefits, or utilized compensation instruments. Considering these shortcomings, as well as the new trends in agri-environmental programs, the Brazilian National Water Agency-ANA developed a conservation and reclamation project aimed at strategic water supply sources, where the financial incentives for the participants are proportional to the off-site benefits provided, relative to the sedimentation abatement. Since the latter is not a trivial process, it was emulated by a simplified version of the Universal Soil Loss Equation-USLE, at the farm level. Thus, the financial incentives for the participant farmers were estimated as a function of the erosion and sedimentation abatement provided, as well as the cost of the adoption of the practice. The simplicity and robustness of the proposed method, as well as the ease of the certification process in the field, allow its decentralized implementation by watershed committees or cooperatives. The theoretical and methodological aspects of this project, entitled “Water Provider Program”, are presented in this paper. An example of the application of the method to a rural watershed in Brazil is presented in a companion paper, in this same issue (Chaves et al., 2004).

= ¼ ou 25%, como queríamos demonstrar. Assim, no caso de terraceamento em nível, um fator adicional (L) deverá ser introduzido no fator consolidado Z, na estimativa de Z0 e Z1 para as equações [3] e [4]: Onde anteriormente. Z = C*P*L C e P foram [A3] definidos

Apresentação do Projeto (Produtor)

Figura 1. Fluxograma do Programa do “Produtor de Água” / ANA

Análise do Projeto (Órgão Executor / Financiador)

N
Projeto Aprovado?

S
Estimar fator atual de erosão (Z0) por ficha-padrão e Tabela 1 (Exec/Certific.)

Estimar fator de erosão proposto (Z1) por ficha padrão e Tabela 1 (Exec/Certificador)

Estimar P.A.E. (%), através da Eq. [4] (Agente Certificador)

Implantação da prática ou manejo (Produtor)

Meta de abatimento de erosão atingida?

N

Estimar valor corrigido de P.A.E. (Agente Certificador)

S
Estimar V.P.I. (R$/ha), através da Tabela 2 (Agente Certificador) P.A.E. > 25%?

N

Indeferir projeto (Órgão Executor)

S
Emitir Certificado de Produtor de Água (Agente Certificador) Estimar V.P.I. (R$/ha), através da Tabela 2 (Agente Certificador)

Pagamento do Bônus (Órgão Executor)

Emitir Certificado de Produtor de Água (Agente Certificador)

Pagamento do Bônus (Órgão Executor)

Figura 2. Erosividade da Chuva de 3 localidades brasileiras
(Fontes: SEPLAN-PR, 2003, Bertoni & Lom bardi Neto, 1990; Silva, 2001)

2.000

Erosividade (MJ/ha.mm)

1.600

1.200

Londrina (PR) Campinas (SP) Brasília (DF)

800

400

Jan Mar Mai Jul Meses Set Nov

Renda Líquida (R$/ha)

a b
x

0

50

100

P.A.E.(%)

Figura 3. Trade-off entre a receita líquida e os benefícios ambientais, dados pelo abatimento de erosão (PAE), gerado pela adoção de uma certa prática conservacionista (adaptado de Ribaudo et al., 1999).

Quantificação dos Benefícios Ambientais e Compensações Financeiras do “Programa do Produtor de Água” (ANA): II. Aplicação
Henrique Marinho Leite Chaves
Agência Nacional de Águas-ANA e Faculdade de Tecnologia, UnB Brasília, DF hchaves@ana.gov.br

Agência Nacional de Águas-ANA, Brasília, DF e Instituto Politécnico-USP benbraga@ana.gov.br

Benedito Braga

Antônio Félix Domingues
Agência Nacional de Águas-ANA Brasília, DF felix@ana.gov.br
Agência Nacional de Águas-ANA Brasília, DF devanir@ana.gov.br

Devanir Garcia dos Santos

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“Todo sacrifício individual instituído em prol do bem comum deve ser compensado.”
Princípio do Direito Alemão

RESUMO

O presente trabalho trata da aplicação da metodologia desenvolvida para a quantificação dos benefícios externos e compensações financeiras do Programa do “Produtor de Água”, da ANA. Este Programa, voltado à conservação de mananciais estratégicos, tem como estratégia a certificação e o pagamento de uma compensação financeira a produtores rurais participantes, em bacias prioritárias, cujo valor é proporcional ao percentual de abatimento de sedimentação na bacia, e ao custo de implantação da prática ou manejo. Para exemplificar a utilização do método proposto, o mesmo foi simulado em uma bacia rural do Distrito Federal, onde há um manancial de abastecimento público. A bacia do ribeirão Pipiripau, com área total de 18.884 ha tem, como usos predominantes, a agricultura convencional (grãos), pastagens degradadas, agricultura irrigada, horticultura e fruticultura (pomares), bem como áreas de vegetação nativa (cerrado, campo e matas ciliares). A área média das propriedades na bacia é de 130 ha. Considerandose a situação inicial de uso e manejo do solo, bem como a projetada, com a implantação do Programa e, supondo que todos os produtores participassem do mesmo, o abatimento médio da sedimentação na bacia seria de 73%. Em termos de benefícios externos à propriedade, a implantação do Programa triplicaria a vida útil do reservatório de captação existente, permitiria uma economia de 74% dos custos de tratamento de água, resultando em uma redução de 73% na carga de poluentes, tais como mercúrio e pesticidas. Em termos de investimentos, o Programa demandaria R$ 1,2 milhão, com um valor médio de R$ 89,00/ha. A simplicidade e robustez

da metodologia proposta, bem como a facilidade da certificação da implementação das práticas e manejos em nível de campo, permitem que o Programa seja aplicado de forma descentralizada, por comitês de bacia, usuários de água ou associações de produtores rurais. Os aspectos teóricos e metodológicos do Programa foram apresentados em um outro trabalho, neste mesmo fascículo (Chaves et al., 2004).

INTRODUÇÃO
Apesar de programas de conservação de água e solo terem sido implementados com relativo sucesso no Brasil nos últimos anos, (Roloff & Bragagnolo, 1997), os mesmos foram concebidos sem considerar, de forma explícita, os benefícios ambientais e econômicos fora da propriedade (Boerma, 2000). Entretanto, os impactos off-site de fontes difusas, tais como a sedimentação, ameaçam muitos mananciais brasileiros, com prejuízos superiores a US$ 1,0 bilhão/ano (Hernani et al., 2002). Alguns desses mananciais são supridores de demandas prioritárias, tais como o abastecimento humano. Apesar de não haver na legislação brasileira de recursos hídricos um tratamento específico para a poluição difusa rural (Martini & Lanna, 2003), os aspectos de descentralização da gestão e de articulação da gestão dos recursos de solo e água, contidos na Lei No. 9.433/97, permitem que acordos sejam realizados entre usuários de água e produtores, visando sua mitigação. Por outro lado, os programas agroambientais mais eficazes são exatamente aqueles que consideram, a priori, os efeitos ambientais fora da propriedade, bem como os que utilizam incentivos

financeiros proporcionais aos benefícios ambientais gerados (Claassen et al., 2001). Considerando esses aspectos, a Agência Nacional de Águas-ANA desenvolveu um programa voltado à conservação de mananciais estratéticos, onde os benefícios ambientais proprocionados por produtores participantes são, depois de devidamente certificados, compensados financeiramente, de forma proporcional ao abatimento da sedimentação na bacia. Este programa, intitulado “Produtor de Água”, foi desenvolvido seguindo as tendências atuais de programas agro-ambientais, ou seja, de aplicação voluntária, flexível e descentralizada. Em um outro trabalho, companheiro deste (Chaves et al., 2004), foram apresentados e discutidos os aspectos teóricos e metodológicos do Programa. O presente trabalho teve, por sua vez, o objetivo de exemplificar, através de uma simulação, a aplicação do Programa à uma bacia hidrográfica rural do Distrito Federal, onde há um importante manancial de abastecimento. Neste manancial, o processo de sedimentação, além de aumentar consideravelmente os custos operacionais da estação de tratamento de água ali existente, chega a causar interrupções de abastecimento às cidades atendidas. Para facilitar a apresentação, o presente trabalho foi dividido nas seguintes etapas: i) Caracterização da bacia do ribeirão Pipiripau; ii) Simulação da aplicação da metodologia do Programa do Produtor de Água, e iii) Benefícios externos da implementação do Programa.

CARACTERIZAÇÃO DA BACIA
A bacia do Ribeirão Pipiripau, localizada na porção nordeste do Distrito Federal (Figura 1), possui, em seu exutório, um manancial de abastecimento, onde há uma estação de adução e tratamento de água (ETA-Pipiripau). Esta estação, da Companhia de Água e Esgotos de BrasíliaCAESB, abastece as cidades de Planaltina e Sobradinho, cuja população é de 250.000 habitantes. A Figura 2 mostra o reservatório e a barragem de captação, operado a fio d’água, com uma vazão derivada de 0,4 m3/s (CAESB, 2.000). A área de drenagem da bacia a montante da barragem de captação, cuja localização é 15°39'22" Lat. S e 47°35'54" Long. W, é de 18.884 ha. A bacia possui um relevo dominantemente plano a suave ondulado, com ligeiras rupturas de revelo causadas por falhas e outros lineamentos geológicos. A declividade média das vertentes da bacia é de 3,6%. Os solos predominantes são o Latossolo vermelho-escuro argiloso, o Cambissolo distrófico, Areias quartzosas álicas, o Latossolo vermelho-amarelo, e Solos Hidromórficos (CAESB, 2000). Os usos dominantes nas cerca de 100 propriedades da bacia são a agricultura convencional (grãos), pastagens, horticultura e fruticultura, com uma área total de 13.337 ha (71% da bacia). O manejo do solo é o convencional, sem

preocupação com a manutenção da cobertura do solo nas áreas agrícolas, ou práticas mecânicas. A maioria das pastagens se encontra degradada, evidenciada por falhas na cobertura do solo, presença de plantas invasoras e indícios de erosão laminar. As áreas de reservas legais, formadas por vegetação nativa, somam 5.507 ha (29% da bacia). Esta última é composta por Cerrado e suas derivações, tais como: campo-cerrado, cerradão, mata ciliar, campo, e campo de murunduns (CAESB, 2000). A Figura 3 apresenta a distribuição dos principais usos do solo na bacia. A precipitação média anual na bacia é de 1.380 mm, e vazão média de longo prazo do ribeirão Pipiripau em seu exutório é de 1,65 m3/s. Como a maior parte dos produtores rurais da bacia não utiliza práticas e manejos conservacionistas, e como os solos são relativamente erodíveis, os mesmos sofrem um processo de erosão acelerada durante o período chuvoso (outubro a maio). O sedimento gerado nas glebas e fazendas é levado pelas enxurradas, chegando ao ribeirão Pipiripau. Na Figura 4 são apresentados dados de precipitação e turbidez da bacia, os quais evidenciam um severo processo de sedimentação na mesma. Os impactos da sedimentação fora das propriedades são múltiplos. Além dos custos adicionais de operação e manutenção da ETAPipiripau, tais como a diminuição da vida útil do reservatório e o maior custo de tratamento de água, durante alguns eventos chuvosos há interrupções no fornecimento de água, em função da elevada turbidez da água, e de concentrações de poluentes tóxicos e cumulativos, encontrados no rio acima dos valores toleráveis. Dentre estes estão o mercúrio e inseticidas organo-clorados e organo-fosforados, com concentrações de 0,0005 µg/l, 0,023 µg/l e 10 µg/l, respectivamente (CAESB, 2000).

SIMULAÇÃO DA APLICAÇÃO PROGRAMA DO “PRODUTOR ÁGUA” NA BACIA

DO DE

Considerando-se apenas as áreas antropizadas da bacia do Ribeirão Pipiripau como passíveis de implantação do Programa, bem como suas etapas e critérios metodológicos, a simulação seguiu cinco etapas básicas, conforme definidas por Chaves et al. (2003): 1. Obtenção, para cada um dos tipos de uso e manejo atuais da bacia, dos valores do parâmetro Z, conforme sugeridos por Chaves et al. (2004); 2. Estimativa dos valores de Z para os manejos e práticas conservacionistas mais indicados para cada tipo de uso do solo;

3. Cálculo do percentual de abatimento de sedimentação, para cada classe de uso, de acordo com a equação [1]; 4. Estimativa dos valores de pagamento incentivado para cada um dos tipos de uso da bacia, de acordo com as faixas propostas por Chaves et al. (2004); 5. Análise dos benefícios ambientais e dos custos de implantação do Programa. Assim, supondo que todos os cem produtores da bacia viessem a participar do Programa, e que os mesmos permanecessem com o mesmo tipo de uso do solo, apenas adotando os manejos e práticas conservacionistas apropriados, teríamos as seguintes modificações: • As áreas de agricultura convencional (sequeiro e irrigada) passando para a agricultura sob plantio direto, através do uso de herbicidas sistêmicos e plantio feito diretamente sobre as ervas e resteva, com maquinário apropriado (Derpsh, 2002); As áreas de pastagem degradada dando lugar à pastagem recuperada, através de preparo do solo, adubação verde e replantio de gramínea, em sistema de plantio direto (Bonamigo, 1999); As áreas de fruticultura, sob cultivo convencional, passando para o manejo conservacionista, com a manutenção da cobertura do solo (mulch) e terraços em nível (Bertoni & Lombardi Neto, 1990); As áreas de hortaliças convencionais dando lugar a canteiros em nível, com terraços.

(Chaves et al., 2004). Tabela 1. Tipos de uso e manejo da bacia do Ribeirão Pipiripau, e respectivos valores do parâmetro Z, antes (Z0) e depois (Z1) da implantação do Programa. Tipo de Uso e Manejo Agricultura (grãos) Pastagem Hortaliças Pomares (fruticultura) Agric. Irrigada (grãos) Total Área (ha) 8.004 4.565 547 133 128 13.377 % 60 34 4 1 1 100 Z0 0,25 0,25 0,50 0,37 0,25 Z1 0,03 0,12 0,25 0,11 0,03

A Tabela 2 apresenta os percentuais de abatimento de erosão e de sedimentação (PAE) esperados pela adoção das práticas e manejos conservacionistas, bem como os respectivos valores de pagamento incentivado aos produtores participantes (VPI). Tabela 2. Percentuais de abatimento de erosão esperados em cada um dos usos da bacia do R. Pipiripau
Tipo de Uso Agricultu ra (grãos) Pastagem Hortaliças Pomares (fruticult.) Agric. Irrig. Área (ha) 8.004 4.565 547 133 128 Z0 0,25 0,25 0,50 0,37 0,25 Z1 0,03 0,12 0,25 0,11 0,03 PAE (%) 88 52 50 70 88 73 VPI R$/ha 100 75 50 75 100 89

Média Ponderada=

A Tabela 1 lista os diferentes tipos de uso do solo da bacia, e os respectivos valores de Zo (antes) e Z1 (depois de implantado o Programa). O horizonte de implantação do Programa é de 4 anos. Por questões de facilidade e espaço, ao invés de realizar a estimativa do abatimento de erosão e de sedimentação por propriedade individual, como seria o caso do Programa na prática, este cálculo foi feito por tipo de uso do solo. Para tanto, supôs-se que propriedades com mesmo tipo de uso teriam performances ambientais semelhantes. Assim, o percentual de abatimento de erosão e sedimentação (P.A.E.) para cada tipo de uso foi calculado pela seguinte equação: P.A.E. (%) = 100 (1− Z1/Z0) [1]

Conforme indica a Tabela 2, o percentual esperado de abatimento de erosão e sedimentação variou de 50 a 88% em função do tipo de uso, com uma média ponderada de 73% na bacia. Conforme sugerido por Chaves et al. (2004), os valores dos incentivos financeiros, proporcionais aos abatimentos de erosão, variaram de R$ 50 a R$ 100/ha, com um valor médio ponderado de R$ 89/ha. Considerando que o tamanho médio das propriedades é de 130 hectares, o valor médio a ser pago a cada produtor participante seria de R$ 11,6 mil. Em termos globais, o pagamento incentivado somaria R$ 1,19 milhão, a serem pagos durante o horizonte de implantação do projeto.

A derivação da equação [1], bem como as suposições relativas ao abatimento da sedimentação, encontram-se no artigo teórico, companheiro deste

BEFEFÍCIOS EXTERNOS DA IMPLANTAÇÃO DO PROGRAMA
Os resultados da simulação indicam que, se

a maioria dos produtores rurais de uma bacia como a do Ribeirão Pipiripau participasse de um programa agro-ambiental como o “Produtor de Água”, os ganhos ambientais fora da propriedade seriam consideráveis. Conforme indica a Tabela 2, um valor médio de 73% de abatimento de erosão, e conseqüentemente, de sedimentação, poderia ser obtido, relativo à condição inicial. Considerando que a vida útil remanescente (T, em anos) de um reservatório é dada por (Carvalho et al., 2000): T = Vu / Vs [2]

onde Vu (m3) é o volume útil remanescente do reservatório, e Vs (m3/ano) é o volume de sedimento anual retido no reservatório. Supondo que não houvesse modificação na eficiência da retenção do reservatório nem na composição do sedimento afluente, e dividindo a vida útil antes (T0) pela vida útil depois da implantação do Programa (T1), teríamos: T0 / T1 = (Vu/Vs0) / (Vu/ 0,27 Vs0) [3]

Pipiripau, uma redução de 74% dos custos de tratamento de água. Uma vez que a carga de poluentes transportados pelo sedimento é diretamente proporcional à taxa de erosão e sedimentação (McElroy et al., 1976; Helling et al., 1971), um abatimento de 73% da erosão do solo, em função da implantação do Programa, deveria resultar em um abatimento na poluição de origem difusa. Assim, considerando que a sedimentação média na bacia, com a implantação do Programa (Y1) seria 27% da sedimentação na condição anterior (Y0), teríamos, depois de dividirmos a carga de poluentes após a implementação do Programa (Yi1) pela carga na situação anterior (Yi 0): Yi 1 /Yi 0 = Y1 /Y0 = 0,27 [6]

O coeficiente 0,27 (ou 27%) resulta do abatimento de 73% da sedimentação, sob a nova condição. Simplificando a equação [3], teríamos: T1 = 3,7 T0 [4]

ou seja, a vida útil remanescente do reservatório depois de implantado o Programa seria 3,7 vezes superior à vida útil na condição anterior. Benefícios relativos à qualidade da água também seriam significativos, com a implantação do Programa. Considerando que a quantidade de sólidos em suspensão no rio durante eventos erosivos é uma função linear da erosão média na bacia a montante, ou seja (USDA-NRCS, 1983): S.S. = Ks . A [5]

Ou seja, a carga de poluentes, transportados pelo sedimento após a implantação do Programa, seria 27% daquela na situação anterior. Considerando que em algumas épocas do ano as concentrações observadas de mercúrio, de organoclorados e de organo-fosforados na água do Ribeirão Pipiripau atingem valores superiores aos toleráveis para abastecimento urbano (CAESB, 2000), a redução da carga poluidora, em função do abatimento de sedimentação, diminuiria consideravelmente os riscos de contaminação da água e, conseqüentemente, da população atendida. A redução dessa carga poluente também proporcionaria benefícios para a ictiofauna do Ribeirão Pipiripau. Além disso, reduções significativas na turbidez da água, que são bastante elevadas na bacia (Figura 4) aumentariam significativamente as chances de sobrevivência e reprodução dos peixes daquele rio (Lloyd, 1987).

CONCLUSÕES
Se aplicado a uma bacia rural supridora de água, como a do Ribeirão Pipiripau (DF), o “Programa do Produtor de Água” aportaria benefícios significativos, destacando-se: • • Um abatimento médio da erosão e da sedimentação de 73%; Um aumento de 3,7 vezes na vida útil remanescente do reservatório de captação da ETA-Pipiripau; Uma redução de 74% dos custos de tratamento de água; Redução da ordem de 70% da poluição da água por mercúrio e inceticidas organo-clorados e organofosforados; Redução significativa dos riscos de interrupção de abastecimento de água; Redução dos riscos de contaminação

onde S.S. (t/ha) é a quantidade média de sólidos em suspensão, A (t/ha) é a perda de solo média na bacia, e Ks uma constante menor que 1. Considerando que o abatimento de erosão após a implantação do Programa foi de 73%, teríamos SS1= 0,27 SS0, ou seja, o valor médio dos sólidos em suspensão após a implantação do Programa seria 27% do valor de SS da condição anterior. Reduções semelhantes foram obtidas em pequenas bacias hidrográficas rurais após a implementação de um programa de conservação do solo no Estado do Paraná (SEPLAN-PR, 2003). Partindo-se de uma avaliação dos benefícios ambientais deste programa, onde os custos operacionais de tratamento de água em micro-bacias de abastecimento passaram de US$ 7,5 para US$ 1,7 por 10.000 m3 de água tratada, em função da redução de 66% da erosão original (SEPLAN-PR, 2.003), teríamos, para a ETA-

• •

• •

da população das cidades de Planaltina e Sobradinho por poluentes altamente tóxicos e cumulativos; • Redução da sedimentação e da poluição do Rio São Bartolomeu, do qual o ribeirão Pipiripau é afluente; Melhoria das condições de sobrevivência da ictio-fauna local.

BOERMA, P. Watershed management: A review of the World Bank Portfolio (1990-1999). World Bank, Rural Development Department, Washington, 40 p., 2000. BONAMIGO, L.A. Recuperação de pastagens com guandu em sistema de plantio direto. Potafós, Informações Agronômicas, No. 88, 8 p., 1999. CAESB. Plano de Proteção Ambiental da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Pipiripau- Diagnóstico Ambiental. Brasília, 89 p., 2000. CARVALHO, N.O., FILIZOLA JR, N.P., SANTOS, PMC & LIMA, J.E.F.W. Guia de avaliação de assoreamento de reservatórios. ANEEL/PNUD/OMM, Brasília, 140 p., 2000. CHAVES, HML, BRAGA JR., B. DOMINGUES, A.F., e SANTOS, D.G. Quantificação dos custos e benefícios do “Programa do Produtor de Água”/ANA: I. Teoria. Revista da ABRH, vol. , 2004. CLAASSEN, R., HANSEN, L., PETERS, M., BRENEMAN, V., WEINBERG, M., CATTANEO, A., FEATHER, P. GASBY, D., HELLERSTEIN, D., HOPKINS, J., JOHNSTON, P., MOREHART, M., & SMITH, M. Agri-environmental policy at the crossroads: Guideposts on a changing landscape. USDA-ERS Report No. 794, Washington, 67 p., 2001. DERPSCH, R. Sustainable agriculture, in Saturnino & Landers (eds.): The environment and zero tillage. APDC-FAO, Brasilia, P. 31-53, 2002. HELLING, C.S., KEARNEY, P.C. & ALEXANDER, M. Behavior of pesticides in soils. Adv. Agron., 23:147-240, 1971. HERNANI, L.C., FREITAS, P.L., PRUSKI, F.F., DE MARIA, I. C., CASTRO FILHO, C. & LANDERS, J.N. A erosão e seu impacto, in Manzatto et al. (ed.): Uso agrícola dos solos brasileiros. Embrapa, RJ, p. 47-60, 2002. LLOYD, D.S. Turbidity as a water quality standard for salmonid habitats. North American Journal of Fisheries Management 7:34-35, 1987. MARTINI, L.C & LANNA, A.E. Medidas compensatórias aplicáveis á questão da poluição hídrica de origem agrícola. Revista da ABRH, Vol. 8 No. 1, 2003. MCELROY, A.D. CHIU, S.Y., NEBGEN, J.E., ALETI, A. & BENNETT, F.W. Loading functions for assessment of water pollution from nonpoint sources. US EPA/600/2-76/151. Washington, 1976. SEPLAN-PARANÁ. Projeto Paraná 12 meses- Impactos do Projeto (http://www.pr.gov.br/pr12meses/ pr_rural.html).

Por sua vez, as compensações financeiras aos produtores, geralmente tomadas como custos de projeto, também gerariam benefícios importantes, tais como: • Aumento das produtividades agrícola e pecuária, através do melhor manejo do solo e da água; Aumento da renda da atividade rural; Diminuição das perdas de solo nas glebas, aumentando assim a sustentabilidade da produção; e Melhoria da auto-estima dos produtores rurais participantes, pelo reconhecimento de seu papel na gestão dos recursos hídricos regionais.

• •

Considerando que o investimento na bacia em tela seria da ordem de R$ 1,2 milhão, os benefícios ambientais e econômicos acima expostos certamente cobririam os custos, uma vez que os benefícios, ao contrário dos custos, seriam continuados. A simplicidade e robustez da metodologia, dada pela estimativa relativa, e não absoluta, dos níveis de abatimento de sedimentação, bem como a facilidade da certificação da implementação das práticas e manejos em nível de campo, através de fichas-padrão (ANA, 2003), permitem que o Programa seja aplicado de forma descentralizada, como resultado de acordos entre produtores, comitês de bacia, e setores usuários (Martini & Lanna, 2003). A metodologia permite também que metas ambientais locais (abatimento de erosão na propriedade) sejam calculadas em função de metas globais (abatimento de sedimentação na bacia), estabelecidas a priori, através de cálculo retroativo e ponderado.

REFERÊNCIAS
ANA. Manual Operativo do Programa “Produtor de Água”. Brasília, 65 p., 2003. BERTONI, J. & LOMBARDI NETO, F. Conservação do solo. Ícone, SP, 355 p., 1990.

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Estimating the environmental benefits and financial compensations of ANA’s “Water Provider Program”: II. Application
ABSTRACT This paper refers to the application of the methodology of ANA’s Water Provider Program. This Program, aimed at the conservation of strategic water supply sources, is based on the certification and incentive payments to participant farmers, proportional to the sediment abatement generated. In order to illustrate the application of the proposed method, a simulation was carried in a rural watershed of Distrito Federal (Brazil), where there is a water treatment facility. The watershed of the Pipiripau river, with a total area of 18,884 hectares has, as dominant land-uses, conventional dry-land agriculture (grain crops), degraded pasture, irrigated agriculture, horticulture, orchards, as well as natural vegetation (Cerrado). The average farm size is 130 hectares. Considering the land use and management characteristics before and after the implementation of the Program, the relative sedimentation abatement was 73%. In terms of the off-site benefits, there would be a three-fold increase in the lifespan of the existing water supply reservoir, a reduction of 74% of the operation costs of the water treatment plant, and an equivalent reduction in the load of pollutants such as mercury and pesticides. As with respect to the financial compensation to the participant farmers, the Program would require a total of R$ 1.2 million, with an average rate of R$ 89/hectare. The simplicity and robustness of the proposed method, as well as the ease of the certification process in the field, allow for its decentralized implementation by watershed committees or farmer associations. The theoretical aspects of the Program are presented in a companion paper, in this same issue (Chaves et al., 2004).

Figura 1. Localização da Bacia do Ribeirão Pipiripau no Distrito Federal.

Figura 2. Barragem e reservatório de derivação da ETA-Pipiripau (CAESB).

240 220 200 180 160 140 120 100 80 60 40 20 0 out-94 out-95 out-96 out-97 out-98 jan-94 jan-95 jan-96 jan-97 jan-98 abr-94 abr-95 abr-96 abr-97 abr-98 jan-99 jul-94 jul-95 jul-96 jul-97 jul-98

Data Dados Pluviometricos (mm) Turbidez (uT)

Figura 4. Precipitação e turbidez da água na bacia do Ribeirão Pipiripau, no período entre Jan. 94 e Jan. 99 (Fonte: CAESB, 2000).

APRESENTAÇÃO

Setores Usuários de Água e Conseqüências do Uso
Henrique ML Chaves
Agência Nacional de Águas

Setores usuários de água e conseqüências do uso: tópicos
Consumo per capita de água nos diferentes setores; Uso setorial da água (Mundo); Uso consuntivo setorial (Brasil); Problemática da água no Brasil; Custos relativos à problemática da água no Brasil; Círculo vicioso da má gestão de recursos hídricos; Quebrando o círculo vicioso; 8. Exemplo: “Programa do Produtor de Água” no controle da sedimentação e poluição.

Consumo per capita de água nos diferentes setores usuários
(l/hab./dia)

2. Uso setorial da água (Mundo)

3. Uso consuntivo setorial (Brasil)

4. Problemática da água no Brasil

Norte: Alta Norte: disponibilidade de água

Nordeste: baixa
disponibilidade e conflitos de uso de água

Sul e Sudeste: poluição e conflitos Sudeste: relativos à qualidade da água Centro-Oeste: a nova Centro-Oeste: fronteira agrícola

Disponibilidade hídrica no Brasil
(per capita)
Unidade / Região NORDESTE Maranhão Piauí Ceará Rio G. do Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia BRASIL Volume 3 (km /an o) 186,2 84,7 24,8 15,5 4,3 4,6 9,4 4,4 2,6 35,9 5.732,8 População 2000 47.741.711 5.651.475 2.843.278 7.430.661 2.776.782 3.443.825 7.918.344 2.822.621 1.784.475 13.070.250 169.799.170 Disponibilida de per capita 3 m /hab/ano 3.900 14.987 8.722 2.086 1.549 1.336 1.187 1.559 1.457 2.747 33.762

Níveis críticos

5. Custos relativos à problemática da água no Brasil (Lobato, 2003)
Setor Problema Abrangência Custo anual
(R$ Milhões)

Desenvolv.u Doenças urbano hídricas Energia Desenvolv. Rural Secas Etc.

Nacional Nacional

150 14.500 6.000 7.500 28.150

Não atend. da demanda

Erosão, Nacional baixa efic. irrigação Desabast., Regional perdas safras Total

6.

Círculo vicioso da má gestão de recursos hídricos
Uso não racional da água

Custos econômicos , sociais e ambientais

Conflitos de uso de água

7. Quebrando o círculo vicioso
Etapas: Etapas: Inventário da bacia e definição dos problemas; Inventário da bacia e definição dos problemas; Questões institucionais, legais e Questões institucionais, legais e administrativas; administrativas; Processo de consulta e envolvimento de Processo de consulta e envolvimento de atores; atores; Desenvolvimento de alternativas de gestão e Desenvolvimento de alternativas de gestão e seleção; seleção; Análise de custos e financiamento; Análise de custos e financiamento; Implementação do plano; Implementação do plano; Revisão do plano. Revisão do plano.

7. Quebrando o círculo vicioso
Inventário da bacia e definição do problema Inventário da bacia e definição do problema - Levantamento dos aspectos físicos, - Levantamento dos aspectos físicos, econômicos, sociais e ambientais da bacia, bem econômicos, sociais e ambientais da bacia, bem como suas inter-relações; como suas inter-relações; - Definição do problema, identificação das - Definição do problema, identificação das causas e avaliação da importância relativa de causas e avaliação da importância relativa de cada uma; cada uma; - Identificação dos usuários de água e outros - Identificação dos usuários de água e outros atores; atores; - Estabelecimento de metas para o futuro. - Estabelecimento de metas para o futuro.

7. Quebrando o círculo vicioso
Questões institucionais, legais e administrativas Questões institucionais, legais e administrativas - Levantamento dos organismos de gestão de - Levantamento dos organismos de gestão de recursos hídricos na região, e suas recursos hídricos na região, e suas competências (Secretarias, Agências, etc.); competências (Secretarias, Agências, etc.); - Verificação da dominialidade dos corpos - Verificação da dominialidade dos corpos hídricos e Leis aplicáveis (CF, Lei nº 9.433/97, hídricos e Leis aplicáveis (CF, Lei nº 9.433/97, Código Florestal, Conama 20, Leis Estaduais, Código Florestal, Conama 20, Leis Estaduais, etc.); etc.); - Instrumentos de Gestão: Plano de Bacia, - Instrumentos de Gestão: Plano de Bacia, Outorga, Cobrança, etc.; Outorga, Cobrança, etc.; - Comitê de Bacia e seu papel na Gestão de RHs. - Comitê de Bacia e seu papel na Gestão de RHs.

7. Quebrando o Círculo Vicioso
Processo de consulta e envolvimento de atores Processo de consulta e envolvimento de atores - Identificação dos interessados ((stakeholders) - Identificação dos interessados stakeholders)

- Identificação de líderes - Identificação de líderes - Disseminação da informação - Disseminação da informação - Discussão em grupo Comitê de - Discussão em grupo - Resolução de conflitos bacia - Resolução de conflitos

7. Quebrando o Círculo Vicioso
Desenvolvimento de alternativas de gestão e Desenvolvimento de alternativas de gestão e seleção seleção - Estabelecimento de uma lista de alternativas - Estabelecimento de uma lista de alternativas de gestão: de gestão: a) Não fazer nada; a) Não fazer nada; b) Medidas estruturais; b) Medidas estruturais; c) Medidas não estruturais. c) Medidas não estruturais. - Desenvolvimento de Alternativas - Desenvolvimento de Alternativas Mutualmente Exclusivas; Mutualmente Exclusivas; - Definição de Critérios e Restrições; - Definição de Critérios e Restrições;

- Seleção da Melhor (es) Alternativa(s). - Seleção da Melhor (es) Alternativa(s).

7. Quebrando o Círculo Vicioso
Análise de custos e financiamento Análise de custos e financiamento - Levantamento dos custos da alternativa - Levantamento dos custos da alternativa selecionada; selecionada; - Relação benefício/custo; - Relação benefício/custo;

- Estimativa dos custos e benefícios intangíveis; - Estimativa dos custos e benefícios intangíveis; - Alternativas de financiamento. - Alternativas de financiamento.

7. Quebrando o Círculo Vicioso
Implementação do plano Implementação do plano - Plano de ação deve ser consensual entre os - Plano de ação deve ser consensual entre os participantes; participantes; - Indicadores de progresso devem ser - Indicadores de progresso devem ser definidos visando ao objetivo final; definidos visando ao objetivo final; - Tarefas devem ser divididas entre os vários - Tarefas devem ser divididas entre os vários atores. atores.

7. Quebrando o Círculo Vicioso
Revisão do plano Revisão do plano - Revisão e avaliação periódica, para - Revisão e avaliação periódica, para atualização/ correção de problemas; atualização/ correção de problemas; - Participação de atores e usuários de água; - Participação de atores e usuários de água;

- Relatório e divulgação. - Relatório e divulgação.

... e criando um círculo virtuoso de gestão
Inventário Inventário Revisão do plano Questões instit./Leg. Revisão do plano Questões instit./Leg. Implement. do plano Implement. do plano Consulta Consulta

Custos & financ. Des./Sel. alternativas Custos & financ. Des./Sel. alternativas

“Caminhante, não há caminho. O caminho é feito ao andar.”
A. Machado

8. Exemplo: “Programa do Produtor de Água”
no poluição controle da sedimentação e

Programa de Melhoria da Qualidade e da Quantidade de Água em Mananciais, através do Incentivo Financeiro aos Produtores:

O Programa do Produtor de Água

Henrique Marinho L. Chaves
Agência Nacional de Águas

Produtor de Água

Tópicos
Problemática Benefícios de programas conservacionistas O papel da ANA Objetivos do Programa Estratégia do Programa Base Conceitual do Programa Exemplo Fontes de Financiamento Conclusões

Produtor de Água

• Problemática
O uso inadequado do solo contribui para a degradação dos recursos hídricos Em termos de qualidade, a degradação se dá através dos processos de erosão/ sedimentação, eutrofização e poluição Produtor rural: ambientalmente consciente, porém, “estando no vermelho, não pode cuidar do azul”

Produtor de Água - Problemática

Impactos da Sedimentação
Estudo recente mostra que a vida útil média de grandes reservatórios do mundo é de apenas 22 anos (ICOLD, 1999) Este custo é de US$ 4 bilhões/ ano nos EUA e de cerca de US$ 1 bilhão no Brasil, e é pago por toda a sociedade Grandes prejuízos também ocorrem em sistemas de abastecimento / tratamento de água, em função na necessidade de maiores instalações e maior quantidades de reagentes

Produtor de Água - Problemática

Sedimentação e Sedimentação e eutrofização no PR eutrofização no PR antes do Paraná Rural antes do Paraná Rural
(Sorrenson & Montoya, 1984) , (Sorrenson &Montoya 1984) Montoya,

Preparo do solo
0,75

0,5 mg/l e g/l 0,25

N Sedim

0 Jan Mar Mai Jul Out Dez

Depois do Paraná Rural: Redução de 40% da turbidez da água (Roloff & Bragagnolo, 2.000) Bragagnolo,

Produtor de Água

2. Benefícios de Programas Conservacionistas
Aumento da vida útil de reservatórios Diminuição dos custos de manutenção de equipamentos Melhoria das condições de sobrevivência da ictiofauna Melhoria da qualidade da água de abastecimento

Produtor de Água

3. O Papel da ANA
Promover, estimular e implementar programas e ações que objetivem a revitalização e normalização de bacias hidrográficas, inclusive para regularização de vazão de corpos hídricos supridores de demandas prioritárias (Res.ANA No. 9/01)

Produtor de Água

4. Objetivos do Programa do Produtor de Água
Melhoria da qualidade da água, através do incentivo à adoção de práticas que promovam o abatimento da sedimentação Aumento da oferta de água (e sua garantia) para usuários situados a jusante de áreas rurais Conscientização dos produtores e consumidores de água da importância da gestão integrada de bacias hidrográficas

Produtor de Água

5. Estratégia do Programa
O Programa visa a “compra” dos benefícios (produtos) gerados pelo participante (conceito “provedorrecebedor”) Pagamentos são proporcionais ao abatimento de erosão proporcionado Produtores com áreas até 200 ha beneficiados O Programa poderá ser auto-sustentado com o apoio financeiro de setores usuários

Produtor de Água-Estratégia

Programa dirigido a:
Agricultores (ou associação) Comitês de bacias Prefeituras (estradas vicinais) Associação de municípios Usuários de água

Produtor de Água

6. Base Conceitual do Programa
Programa voluntário, baseado na performance do abatimento da erosão Aplicação preferencial em bacias onde há mananciais de abastecimento (targeting) Flexibilidade no que diz respeito a práticas e manejos propostos Programa não é considerado subsídio (iniciativa green-box na OMC)

Produtor de Água – Base Conceitual

Base Conceitual (Cont.)
Pagamentos baseados em custos de referência pré-estabelecidos Pagamentos serão feitos após ou durante a implantação do projeto proposto (produto) Metas de cumprimento verificadas por certificador independente Custos do Programa poderão ser compartilhados com Estados, empresas de saneamento, setor elétrico etc.

Produtor de Água – Base Conceitual

Estimativa do Abatimento da Erosão
Parâmetro de performance para o abatimento da erosão: Z (tabelado) Z é a razão de perda de solo entre a condição atual e aquela sob solo descoberto Fazendo-se a razão entre os valores de _ nos cenários atual (Z0 ) e proposto (Z1 ), obtém-se a eficiência de abatimento de erosão (E.E.):

E.E. = 100 (1− Z1 /Zo)

Produtor de Água – Base Conceitual

Valores de Referência para o Abatimento de Erosão Faixa E.E. (%) VRE*(R$/ha ano)
*Valores sugeridos

25-50 30

51-75 45

>75 60

E.E. = 100 (1 − Z1 /Zo)) − E.E. = 100 (1− Z1 /Zo

Produtor de Água – Base Conceitual

Programa do Produtor de Água – Exemplos de φ − Agro-pecuária-florestal Agro-pecuá Uso / Manejo
1 2 3 4 11 12 13 14 17 19 Grãos Grã Algodão Algodã Mandioca Pastagem degradada Grãos, terraços Grã terraç Grãos, rot., terraços Grã rot., terraç Grãos, pl. direto Grã Alg./Mand., rotação Alg./Mand., rotação Pastagem recuperada Reflorestamento

C
0,25 0,62 0,62 0,25 0,25 0,20 0,12 0,40 0,10 0,05

P
1,0 1,0 1,0 1,0 0,1 0,1 0,1 1,0 1,0 1,0

Ζ
0,25 0,62 0,62 0,25 0,03 0,02 0,01 0,40 0,10 0,05

Custo Rel.
1,0 1,0 1,0 1,0 1,2 1,3 1,3 1,1 1,3 2,0

Obs.
Milho, soja, arroz, feijão feijã

Em nível, com manut. ní manut.

Média de 4 anos Rotação com grãos Rotação grã C/ Cordões Cordõ

Produtor de Água

7. Exemplo de Aplicação a uma Propriedade
a) Condições atuais do proponente: Área da gleba: 200 ha Uso atual: pastagem degradada b) Uso e Manejo Proposto: Pastagem recuperada (preparo do solo, adubação e replantio)

Produtor de Água – Exemplo

Estimativa do valor de Ζ para os usos/manejos atual e proposto
Situação Atual Proposta Ζ 0,25 0,10
Valores de Z Valores de Z são são preliminares, preliminares, e devem ser e devem ser objeto de objeto de validação, validação, através de através de pesquisa pesquisa

Cálculo do índice de eficiência de abatimento de erosão (E.E.): E.E.=100 (1− 0,1/0,25) = 60%

Produtor de Água - Exemplo

Valor de Pagamento ao Produtor (VRE): Eficiência do Abatimento de Erosão
Faixa E.E. (%) VRE (R$/ha) 25-50 30 51-75 45 >75 60

Produtor de Água

Benefício em nível de Bacia:
Redução do Aporte de Sedimento (Y) na Bacia é proporcional ao Abatimento de Erosão na Propriedade (E)

Y=K*E

(Renfro, 1975)

onde K é o fator de redução (constante para cada bacia) Assim, 60% de redução em E resultará em 60% de redução em Y

Produtor de Água

8. Fontes de Financiamento
As seguintes fontes podem ser exploradas: - Parcerias de produtores com setores usuários
de água (energia, saneamento) - Recursos da Cobrança de Uso de Água

Entretanto, é necessário que os benefícios ambientais e financeiros das boas práticas agrícolas sejam comprovados e certificados por entidades independentes. Para tanto, a ANA desenvolveu uma metodologia simples e prática, inclusive um Selo de Produtor de Água, certificável.

Produtor de Água

9. Conclusões
A sedimentação oriunda das áreas rurais causa graves impactos à qualidade e quantidade de água nas bacias, com custos elevados para toda a sociedade. O “Produtor de Água” é um programa voltado à conservação de mananciais, propiciando a incentivos financeiros aos produtores participantes Os incentivos propostos são proporcionais aos benefícios auferidos em termos de abatimento de erosão Para se tornar sustentado, o Programa requer parcerias entre produtores e setores usuários. Para tanto, a validação das eficiências ambientais das práticas é necessária.

“Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”
Winston Churchill

hchaves@ana.gov.br

INTEGRATED RIVER MANAGEMENT IN THE PANTANAL
Rob H.G. Jongman
Instituto Alterra, Universidade de Wageningen - Holanda

9

ABSTRACT
The Pantanal is part of the Upper Paraguay River Basin (UPRB). The major driving force of the wetland system is the annual oscillation between dry and wet seasons. The water flow reaches very low speeds, due to a very gentle slope in the East-West and North–South direction. One of the rivers is the Taquari, about 800 km long. Coxim is the border between ‘Bacia do médio e baixo Taquari’ (Pantanal) and ‘Bacia do alto Taquari’ (BAT) in the highlands. The upper reaches of the Rio Taquari represent one of the major erosive areas of the highlands around the Pantanal, consisting of sandy soils. This erosive character has resulted in an inundated area of 11.000km2 in the lower reach of the Taquari. In the lower Taquari the major developments have an impact on biodiversity: economic sustainability of farming and the increased pressure on biodiversity resulting in a decline of important plant species. Communication in the river basin is difficult due to the scarce population, long distances and the lack of roads. Knowledge about the consequences of land use upstream for biodiversity and land use downstream and about the functioning of the river is lacking. To solve these problems a well-organised water management system at the level of the river basin is needed. The plan is to build a river management Decision Support System (DSS) as has been developed for the Rhine Catchment in Europe. Keywords: integrated river management, decision support system, Pantanal.

SUMÁRIO
O Pantanal é parte da Bacia do Alto Paraguai (BAP). A força principal do sistema do pântano são as oscilações anuais entre estações secas e molhadas. O fluxo da água alcança velocidades muito baixas, devido a uma inclinação muito delicada na direção do este a oeste e do norte a sul. Um dos rios é o Taquari, aproximadamente 800 quilômetros de comprimento. Coxim é a beira entre a Bacia do Médio e Baixo Taquari (Pantanal) e a Bacia do Alto Taquari (BAT) em planalto. Os alcances superiores do rio Taquari representam uma das áreas erosivas principais do planalto em torno do Pantanal, consistindo de solos arenosos. Esse caráter erosivo resultou na área inundada de 11.000 km2 no alcance mais baixo do Taquari. No Taquari mais baixo os desenvolvimentos principais têm um impacto na biodiversidade: sustentabilidade econômica de cultivar e pressão aumentada na biodiversidade, tendo por resultado um declínio das espécies importantes de plantas. Uma comunicação na bacia do rio é difícil devido à população escassa, às distâncias longas e à falta das estradas. O conhecimento sobre as conseqüências do uso de terra rio acima para a biodiversidade e o uso de terra rio abaixo e sobre funcionar do rio está faltando neste momento. Para resolver esses problemas, um sistema de gerência bem organizado da água no nível da bacia do rio é necessário. A planta é construir um sistema de sustentação da decisão da gerência do rio (Decision Support System, DSS) como foi feito para a bacia do Reno, na Europa. Palavras-chaves: integração da gerência do rio, DSS, Pantanal.

405

INTRODUCTION
The Pantanal is the world’s largest continuous freshwater wetland. Its sustainability is of utmost importance for local and regional economy, water supply and environment; however it is not guaranteed. Its boundaries extend across the borders of Bolivia, Brazil and Paraguay. The Pantanal is situated in the Upper Paraguay River Basin (UPRB). The processes that take place are dominated by the water dynamics in the UPRB. Development and management of the Pantanal is impossible without understanding and evaluation of the whole river basin. This means that international scientific co-operation and development of mutually coordinated policy is important for maintaining the system as a whole.

WATER MANAGEMENT IN BRAZIL AND THE UPPER PARAGUAY RIVER BASIN (UPRB)
In the last five years within the Brazilian Parliament the issue of water management has received strong attention, especially because of the large strategic freshwater supplies that are available in the region. In Brazil new water resource legislation is in power since 1997 (Ministry de Meio Ambiente, Secretariat of Water Resources, 2002).The objectives are: • To ensure that present and future generations have necessary access to water of adequate quality for various uses; • To ensure the rational and integrated use of water resources,…, in order to achieve sustainable development;

• To prevent and protect against water critical events of either natural origin or caused by inappropriate use of natural resources. The water resources legislation provides guidelines for systematic water management with adjustment to physical, biotic, demographic, economic and cultural differences among the various regions, coordination of water resources management with that of land use. In Brazil the water management system is in an early stage of development. This system contains the National and State Councils of Water Resources, River Basin Committees, Water Agencies and civil water resources organizations. The Secretariat of National Water Resources is responsible for the formulation of the National Water Resources Policy and the National Water Agency is the federal body that implements this policy. The technical knowledge on the behaviour of river systems is in an early stage of development. The legislation mentions the need for developing long-term water resource plans and River Basin Committees representing all interests. This is comparable with, but less far elaborated as the provisions in the EU-water directive (2000/60/EC). The water resource plans are master plans for river basins containing a diagnosis of the water resources, an analysis of users and population growth, identification of potential conflicts, priorities for the granting water-use rights and guidelines for water-use fees. The plans have to be approved and monitored by river

406

basin committees consisting of representatives of federal, state and municipal authorities, water users and civil water resource entities. In several areas these plans are under development. All these plans need baseline data and a related monitoring system. Support to develop these plans requires knowledge that is largely lacking. This Taquari project can support the organisation of a river basin committee by developing a baseline.

WATER MANAGEMENT IN THE TAQUARI RIVER BASIN
The objectives of the Brazilian government aim at sustainable and socially accepted policies as shows its water legislation (Ministerio de Meio Ambiente 2002). Development of sustainable water management requires insight in the functioning of the system of the Pantanal and coherent data which can be used for policy development and scenario development. The Taquari project aims to contribute to the development of sustainable use of the Pantanal by: • Develop insight in the hydrological and land use system of the UPRB to enhance sustainable water management for the Pantanal and the UPRB as a whole including socio-economic developments, national policies and policy options for the Taquari basin. • Provide insight for policymakers and stakeholders in priorities and consequences of management options and strategies for the Pantanal. To develop an integrated river basin policy it is needed to build joint scientific knowledge and make science and policymakers work together. Understanding the ecosystem dynamics of the Pantanal is basic for developing a more sustainable use of its renewable natural resources (water fish, biodiversity). The Brazilian-Dutch research project in the Taquari aims to identify policy options and management strategies for the sustainable use of these resources, ensuring a strong link between technical management and policy research. The project tries to identify opportunities for sustainable use of the river basin as well as its limits based on the existing and newly required data (Ministerio de Meio Ambiente 1997). The research project addresses an integrated approach and analysis of natural, agro-resource use and fishery systems at the river basin level. The aspects of integrated management include control of sediment load, erosion pollution and water logging; water resource management at basin level in order to meet the sustainability of the system and repairing and preventing down-stream effects of up-stream land use. Development of land use in and especially around the Pantanal is getting out of balance. Erosion in the uplands, mining, pollution, economic problems for cattle farming and a decline of biodiversity in several parts of the wetland system threaten its future. Sustainable development is possible if joint river management is developed. The knowledge gained in this project can be exploited outside the Taquari as well, because the structure of the Pantanal in rather well comparable and methods and insight developed in one basin might be transferable to other basins. Still the upscaling will show new problems because of increasing complexity an interference between systems, because the development

407

of the Pantanal as a whole is also based on hydrology, hydraulics, biodiversity priorities, sustainable cattle breeding, fishing and ecotourism;

PRESENT SITUATION AND PROJECT OBJECTIVES
Over 70% of the area of the Pantanal is located in Brazil. It is the largest complex of wetlands in the world – it is part of the UPRB and it comprises an area of 595.230 Km2, being 363.460 km2 within Brazilian borders and the remaining section in Bolivia (121.360 km2) and Paraguay (110.410 km2). It is made up of ten large rivers, alluvial fans, lagoons, fossil dunes and salt pans The Brazilian section of UPBR can be divided into 2 main areas: floodplains or Pantanal and high plateaux or Planalto. In Brazil the Pantanal is a declared UNESCO world natural heritage site. It consists of a part that is influenced by the river Paraguay, large areas that are dominated by the river regime of the tributaries of the Paraguay and several ancient parts characterised by a precipitation dependent system of baias and salinas (Dantas et al 1999, Assine and Soares, 2003). Most of the region is in private possession and unprotected. In Bolivia large areas (about 2 million hectares are protected and declared Ramsar site (San Matias and Otuquis). Many organisations develop actions for protection, development and management of parts of the Pantanal. Co-ordination in land use, biodiversity conservation and water management is in an early stage of development or lacking. An important technical issue is the lack of data management also across borders (Kuhlman and Padovani 2003). The major natural driving force of the wetland system of the Pantanal is the annual oscillation between dry and wet seasons that takes place in the UPRB (Junk et al 1989, Junk & Da Silva 1995, Da Silva et al 2001). The Pantanal collects precipitation water as well as water from the uplands (Planalto) around it. The water flow reaches very low speeds, due to a very gentle slope. This brings nutrients and species in the different parts of the Pantanal and is essential for the system. The different subbasins and the Paraguay River are in permanent interaction. Ground water movements and the role of groundwater in the Pantanal system are largely unknown. In general erosion and sedimentation processes are important in river systems. A factor influencing the erosion process in the Taquari is the change in the precipitation pattern in the last 30 years. Analysis of precipitation based on available data over the period of 1969-89 for Brazil shows a dry period in the years 1969-73 and a wet period of 1974-89, with an average precipitation of 1.254 mm and 1.581 mm, respectively (Soriano et al., 2001). There has been more discharge and also an increase in precipitation during the last decades that may be related to natural oscillations or to man induced climatic changes (Figure 1).

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Figure 1 – Oscillations in water level in the Rio Paraguay in the last century (Soriano et al 2001). Upper line: mean highest annual water level, middle line: mean annual water level, lower line: mean lowest annual water level

However, this is only part of the causes of change in discharge; human intervention and impact of climate change must also be considered. Since the 1970s a programme has been developed in Brazil to combat poverty in the densely populated southern regions. Many people moved north in the internal colonisation. They changed the vegetation of the cerrado east of the Pantanal into grassland and cultivated land (mostly soy). The cultivation of the Planalto since the 1970s has strongly changed the vegetation cover of the Planalto (Table 1). The removal of the native vegetation in the highlands (350 m asl), in the Serra de Pantanal, Serra de Maracaju, 450-600 m asl) has severe consequences for the rivers going into and through the Pantanal. In several catchments such as the high Taquari river basin the soil is highly erosive. Therefore the internal colonisation might have led to an unexpected environmental impact on long distance (Figure 2) Moreover there are indications that also the hydrological regime is changing in the catchment as a whole; this could be related with global climate change (Collischon et al 2001).
Table 1. Vegetation change in the Bacia do Alto Taquari (BAT -Planalto), Oliveira et al., 2000 Vegetation change Annual crops (%) Cultivated grassland (%) Native vegetation (%)
1974 1984 1991

2,0 1,4 96,6

6,9 35,5 57,6

11,4 41,6 47,0

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Figure 2. Possible spatial impact of the internal colonisation on the Taquari river basin due to increased erosion.

Erosion and discharge change are also occurring in several other catchments in the UPRB in Brazil, Bolivia and Paraguay. Erosion and sanding-up make the major rivers into unstable anastomosing systems. In the Taquari system (80.000 km2) this causes a more or less permanent inundation of an area of 11.000 km2. This leads to economic and ecological problems due to increasing flooding with potentially serious threats for fauna, flora and fisheries and cattle breeding and in this way for the whole economy of the UPRB. Knowledge of the hydrological system, including erosion and sedimentation is a key issue in understanding and managing the Pantanal. Extensive cattle breeding especially on natural grassland systems such as the Pantanal, is under pressure at the moment due to world market prices. This causes that farmers are looking for alternative sources of income by trying to intensify their farming practice. Also in the Pantanal farms have to grow in order to maintain economic profitability. Farms below 10.000 ha do not seem to be economically viable any more (Cadavid Garcia, 1986). This means that farms are increasing in size and trying to find ways for intensification of their production. The cattle density is currently about 0.25 units per hectare. Intensification increases the pressure on biodiversity. Intensification leads to a decline of important plant species and intoxication of fish by agrochemicals, birds and alligators (water is everywhere). The alternative income comes mostly from ecotourism and fisheries. Sport fishing is one of the major sources of income in the Pantanal (60.000 persons/year). Fish biodiversity, healthy fish populations and sport fishing is depending on a healthy fish environment. Persistence of flood pulses is likely essential (Junk et al 1989, Neiff, 1999). Maintaining the Pantanal as a seasonal savannah is therefore a major objective to maintain its

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biodiversity, its function for cattle breeding and its attraction for fishing and ecotourism. Changing the river system into a permanent flooded area as occurs at the moment in the Taquari has a strong impact on the biodiversity and the size of the fish populations. At the moment its fish population collapsed. Changes in the river regime and especially flooding will also influence cattle ranging and probably also on fluxes of N2O and N2 (Augustin et al 2002). In this way changes in water behaviour due to human and/or natural causes can have significant long-term impacts on the whole region, because economy, biodiversity and social life are depending on the river and wetland system. This project allows comparisons between the disturbed and undisturbed (permanently flooded) rivers. In the tri-national pilot project on conservation of the Pantanal research institutes and nongovernmental organisations from Brazil, Bolivia, and Paraguay have developed a common GIS database in co-operation with Canadian and US NGO’s (Brown et al, 2003). The pilot area covers the region of Otuquis (Bolivia), Nabileque (Brazil) and Rio Negro (Paraguay). This is only a pilot information system at the moment and the big step forward will be its expansion to the whole of the UPRB and linking it with models and scenarios. The modelling in the Taquari basin and the set-up of a spatial database will make it possible for decision makers and river managers to use knowledge on the system as a tool in the management and policy decision making process. Where legislation and management systems and plans are lacking, a coherent system of data, models and scenarios can help to provide insight to support the set-up of plans and commissions.

THE APPROACH
The project approach is to carry out joint Brazilian-Dutch research and organisation on river management focussed at understanding the Taquari system. The project aims at strategic integration of river management land use and biodiversity conservation in the Pantanal. The project consists of five Work Packages each based on a strategic objective as follows: 1. Modelling of the river system and its land cover and land use. This means that a DEM has been constructed as well as a river discharge model and an analysis of its geomorphology by C14 dating. 2. Eco-hydrological and socio-economic research after the consequences of change. To provide river managers and stakeholders with insight in consequences of planning and management options for river systems it is necessary to analyse both the socio-economic and the eco-hydrological consequences of the changes in the river systems. Therefore it is needed to analyse which are the principle components of the system and how they function. 3. Scenario development. For the Taquari socio-economic and ecological scenarios have been developed for different hydrological and climatic models to show what happens if the river changes its bed and areas are flooded. 4. Participation and conflict management. Organisationally river basins are mostly not considered as one system. Several authorities and water users decide on policy and

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management in the same river basin, because of the many borders that are crossed and the different strategic interests that are involved. Also the ecology of rivers is a difficult and little known aspect. In most cases, rivers are started to be studied after large accidents have occurred are studied when large accidents occur such as the Sandoz (Rhine) accident in the 1980s, the Guadiamar and Tisza accidents in the 1990’s in Europe and the Taquari problem here in Brazil. This emphasize the role of rivers as ecological corridors. The double function for both nature and society results often in conflicts in and along rivers. River management should integrate both aspects of socio-economic planning and ecological planning and its organisation should be adapted to that. In this project the water input from the Planalto is considered as a given parameter ("black box"). The river in Coxim is the only point of entrance into the plains. It is supposed that Data and knowledge present in the institutions, with farmers and civil society are sufficient to make a first start with the modelling of the Decision Support System. In a special workshop the principles of decision making and the need for a decision unit were discussed as well as the principles of multicriteria evaluation. Also, an example spatial multicriteria evaluation was performed in ILWIS using the habitat capacity data generated by the Panatanal Ledess model. Three scenarios as developed (a dry, average, and wet scenario) were evaluated to demonstrate the principles of spatial multicriteria evaluation. The underlying decision concept was that in the absence at this point of alternative solutions, an evaluation of scenarios could obtain insight whether eventual alternative solutions should aim to make certain areas in the Pantanal drier or wetter. In the absence of a formalized evaluation structure and priorities, hypothetical structure and priorities were used.

RESULTS
The results of the project are various. A Digital Elevation Model for the catchment, with a Z-accuracy of 0,10 m (Figure 3). The Taquari river is traversing three distinct main landscape units and the avulsion areas are occurring in the gradual transition zones between these main landscape units: the Caronal avulsion is found in between the upper and the middle zone and the Ze Da Costa marks the transition between the middle and lower zone. A ground water map and flooding map of the river basin has been produced. Longitudinal and transverse measurements and a discharge model has been calculated. There is now an upto-date ecotope map for the catchment. These basic data have been used has been used for scenario development on the recognition of changes with impact analysis for biodiversity using the OSIRIS-LEDESS model and LARCH species models. Decision support scenarios have been worked out in a special workshop in October 2004 including stakeholders and researchers. It can be concluded, that it will be very difficult to make research have any impact on society, without a coherent vision on the future of the river basin, without a structure for decision making and without a management organization that coordinates the management. There is a great need to define, what the solutions are to what kind of problems.

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Figure 3. The final DEM of the Taquari basin in the Pantanal

DISCUSSION
Rational water use means its sustainable use adapted to the objectives concerning water use and biodiversity set at the international, national and regional level. Both the international and national level focuses the objectives at the Pantanal as a prime biodiversity area. The Taquari project delivers the coherent knowledge for this policy and can provide the knowledge to develop a coherent policy for integrating biodiversity conservation with water policy and rural land use. The objective of the project is to develop better understanding the impact of human influences on the Pantanal basin and to be able to understand the functioning of the UPRB as a whole. This can be used for the development of more sustainable use of the water systems in the UPRB and the sustainable land use of the Pantanal. The identification of policy options and management strategies are a key issue can be concluded from this research. The need is for a strong link between research of ecological, land use aspects, technology, management and policy. It can help: • To identify opportunities for economic feasible productivity and limits to sustainable production; therefore research will address an analysis of natural and agro-resource use systems at local and/or regional levels. • To develop sustainable water management at river-basin scale and address an increasing efficiency in water use, innovative multi-purpose utilisation, control of sediment load, erosion, control of private use, pollution and water logging and supply/resource management at basin level in order to meet competing demands including up-stream and down-stream effects of land use, erosion and sedimentation. Socio-economic issues are important to be addressed. For large wetland areas economic viability is pivotal for the feasibility of biodiversity conservation, cattle breeding and water management. As the development of river basin based water management is in an early stage of development in Brazil, the project is of utmost importance to build a knowledge system for integrated water management. It will facilitate international co-operation in order to resolve

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the major issues in water management and biodiversity conservation. It also will support, in the scientific and technological aspect water and river basin research and strengthen the research systems in Brazil. The lessons that we learned from this project are: 1. Brazil has substantial but disciplinary knowledge in the fields of water sciences, erosion, sedimentation and climate. This project has contributed to the integration of these science fields for better understanding the functioning of the river ecosystem – a prerequisite for sustainable river management, 2. Our experience shows that stakeholders may rigidly adhere to their own interests, ideas and perceptions, which may not lead to shared and balanced solutions. Supporting multi-stakeholder discussions with scientific arguments on economic and hydrological aspects of the systems has moved the search for solutions to comply with issues superior to individual interests considering issues at the basin level. Reactions after discussions with the Sindicato rural were that some still prefer a technical solution (dredging and damming) and some look for a way of "living with the river" and adapt to its behaviour. Our conclusion is that the sedimentation process is so intense that any technical solution without river management organisation and attacking erosion and sedimentation processes is useless. This is an important idea that we will have to present in the final workshop and that will have to change the ideas about Pantanal management. 3. Making water management work and sustainable depends on both proper regional coordination and political commitment at supra-regional level. We have therefore frequently communicated with policymakers and authorities at national and international level. This has lead to interest of the river authorities in the Plata basin for further cooperation with Europe. This contributed to more cooperation at the basin level and training of several wetland specialists of state governments (Mato Grosso do Sul and Mato Grosso) in the Netherlands. 4. Cooperation between sectors and stakeholders appears to be difficult as each group is engraved into their own issues, priorities and views. This is not only true for policy makers and research groups, but also for civil society organisations. While this was true for the stakeholder groups in the Pantanal region, cooperation between European partners is poor as well. To address these issues, the project team has submitted a proposal to the EU, in order to support a process of cooperation. 5. Flood pulses are essential ecological processes in rivers for productivity and biodiversity. This principle can be recognized and is studied, also by Brazilian and European groups. The project brought their concepts and the results and expertise from the Taquari river together also for Europe to learn from Latin American knowledge and systems that still exist here. The comparison between disturbed and undisturbed rivers delivers important knowledge for river management in Europe.

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REFERENCES
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APRESENTAÇÃO

Os processos do rio Taquari: reconhecimentos e medidas
Rob Jongman, Carlos Padovani e muitos outros rob.jongman@wur.nl guara@cpap.embrapa.br

Estrutura da apresentação
Contexto do projeto Aspectos hidrológicos Aspectos ecológicos e uso de solo Desenvolvimento dos processos econômicos e sociais Organização da bacia Soluções técnicas

Contexto do projeto
O projeto é financiado por “Partners for Water, Water for Food and Ecosystems”; Parceiros brasileiros e holandeses:
Embrapa (BR): hidrologia, ecologia dos pântanos e rios, uso do solo; Alterra (NL): geomorfologia, modelagem dos ecótopos e ecologia; ITC (NL): DEM; Delft Hydraulics (NL): modelagem da hidromorfologia , modelagem dos ecossistemas aquáticas; Arcadis (NL/BR): Conselho na engenharia.

Objetivo do Projeto Pantanal-Taquari
Apoiar o uso sustentável e racional da planície pantaneira na bacia do rio Taquari, enfocando no desenvolvimento e no uso de ferramentas para a tomada de decisão pública e política

Aproximação integrada:
Manejo integrado de água implica: Planejamento e manejo sustentável de recursos de terra e água; Integração de aspectos sociais, econômicos e ecológicos; Acesso integral à água superficial e subterrânea; Os ecossistemas importantes; Política coerente ao nível nacional e internacional.

O rio Taquari no Pantanal
Caronal

Coxim Zé da Costa

Corumbá

Processos ecológicos

Fase terrestre Fase aquática

Rio e braços

Floresta de galeria

Vazante

Cerradão, baía e salina

Savana com cerrado

Tuiuiu

Jacaré

Curimbatá

Pacu

Pintado

Piranha

Fatores responsáveis pela produção pesqueira no Pantanal
De acordo com Junk, Bayley & Sparks (1989) e Neiff (1996), as comunidades dos grandes rios com planícies de inundação, são regulados pela hidrodinâmica dos pulsos. Hidrodinâmica dos pulsos são os pulsos de inundação ou “nada mais que o encher e secar dos rios a cada ano”.

Conceito de espiral
A transporte de nutrimentos, sedimentos e espécies é um processo de passo a passo

Problemas maiores do Taquari
Incremento de descarga de água depois de 1970s; Incremento da erosão e sedimentação depois 1970s; Mudanças de rio e nos arrombados; Permanência de inundação de uma área de 6.000 até 12.000 km2; Não há um grande número de peritos em manejo de bacias hidrográficas.

PH, condutividade elétrica, NT, PT e turbidez nos tributários do rio Paraguai (2000)
Local Rio Jauru Rio Sepotuba Rio Caba?al Rio Cuiab‡ Rio S‹ o Louren?o Rio Vermelho Rio Itiquira Rio Correntes Rio Piquiri Rio Taquari Rio Negro Rio Aquidauana Rio Miranda Rio Apa pH 7,2 6,8 7,4 8,9 7,2 7,0 6,6 6,3 6,4 7,1 7,3 7,8 8,2 8,1 Condt uS/cm 77,4 20,1 84,5 105,4 24,6 37,5 19,0 7,0 18,5 25,8 23,2 76,3 296,8 178,0 NT ug/l 382,7 248,1 336,8 467,6 2965 353 162,5 186,5 241,9 432,4 274,8 394 397,3 348 PT ug/l 147,8 93,5 132,6 132,1 191,3 76,1 41,3 80,4 106,5 375,5 71,7 351 187 260,9 Turbidez NTU 21,1 19,7 34,3 98,3 177,8 252,0 51,2 10,6 111,0 548,4 49,6 162,9 128,7 68,3

Arrombados e inundações

Situação insustentável: inundação permanente

Foco do projeto:
Análise e modelagem dos processos da bacia do Taquari; Conseqüências da inundação para biodiversidade e uso do solo (e água) do pantanal do Taquari; Capacitação e ajuda no processo de construção e organização do manejo coerente do rio ao nível da bacia, incluindo todos os parceiros.

A primeira reunião com partes interessadas

Causas possíveis das mudanças e inundações
Processos naturais do rio Mudança climática _ aumento da precipitação: Mudança de vegetação: aumento de descarga de água subterrânea e superficial; Aumento da erosão: aumento de transporte de sedimentos. Colonização nacional _mudança de uso de solo e da vegetação: Mudança da vegetação: aumento de descarga de água superficial e subterrânea. Aumento de erosão: aumento do transporte de sedimentos. Manejo incoerente

Evolução do leque aluvial do rio Taquari

Pantanal

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Evolução do leque aluvial do rio Taquari

Evolução do leque aluvial do rio Taquari

Evolução do leque aluvial do rio Taquari

Evolução do leque aluvial do rio Taquari

Aproximação
Análise preliminar do problema DEM Modelo hidráulico Geo morfo logia Aspetos sociais e econômicos Opiniões dos interessados

Conseqüências ecológicas

Cenários das mudanças, impactos e recomendações

Geomorfologia e sedimentação
A inclinação do leito do rio é aproximadamente duas vezes maior no arrombado que no leito do velho Taquari; A velocidade de fluxo no Arrombado do Caronal é >5 Km/hr; Em geral a sedimentação no trajeto do Caronal é mais de 1,7 metros nos últimos 20 anos; Sedimentação nesta zona é causada por material do Pantanal e material do Planalto; A parte abaixo do Caronal é mais baixa que abaixo do canal do rio Taquari e por isso é a direção natural do Rio.

Modelo de elevação do leque do rio Taquari

Perfil do rio no arrombado Caronal
B:
Z = 139.1613 Profundidade = 3.8

A: C:
Z = 138.326 Profundidade = 1.6
Gradiente do perfil de água superficial Secção A-B A-C Distância 11748.7 14754.5 Delta_Z 3.2497 4.085 Inclinação 0.02766 0.02768

Z = 142.441 Profundidade = 2

Gradiente do perfil do leito do rio Secção A-B A-C Distância 11748.7 14754.5 Delta_Z 5.0497 3.685 Inclinação 0.043 0.025

Velocidade do fluxo no arrombado Caronal >5 Km/hr

Mapa de acumulação de fluxo (Run4)
Active Caronal avulsion drainage used (white)

Visualização em 3D do baixo curso do rio Taquari

As conseqüências
A zona do arrombado do Caronal até o Zé da Costa e muito suscetível a mudanças em altitude; O arrombado do Caronal é direção natural para descarga de água, mas provavelmente causado por alta sedimentação; Existem mais arrombados menores nesta zona; Mudanças nesta zona podem causar outros arrombados.

Barramento das águas do rio Taquari pelo rio Paraguai (100 km)
Rio Paraguai Lower Rio Taquari

Interação de água superficial e subterrânea

Sistema de drenagem superficial

Sub-bacias para água superficial

Impacto de mudanças de uso de solo à descarga do rio a Coxim de 1974 (azul) a 1994 (alaranjado): 30-40%

Conclusões de hidrologia
Inundações são causadas por:
• • Incremento de chuvas Mudanças de uso de solo 75 - 100% mais descarga 30 - 40% mais descarga

Ações possíveis: viável tecnicamente • 10 % aflorestação a Planalto sim • Construcão de uma barragem a Coxim sim • Dragagem do baixo rio Taquari sim

Impactos Ecológicos

aproximação de modelagem

Planejamento em sistemas fluviais: Manejo dos rios e prevenção de inundações da paisagem geralmente têm um foco as ações. Exemplos da engenharia clássica: • Dragagem, escavar • Regular o leito do rio • Construir diques Custo é alto, por isso: Para evitar impactos indesejáveis e custo desnecessário estudos de cenários podem ser usados para analisar diferentes soluções e impactos prováveis.

O modelo usado compara impactos dos cenários alternativos
Vegetação: •Estrutura & tipos Impactos abióticos: •Regime de inundações •Tipo de água/qualidade

Ecótopos

Qualidade de meio ambiente para animais

O modelo usado compara impactos dos cenários alternativos

• O modelo confronta mapas na SIG da paisagem com medidas propostas e cenários e conhecimentos ecológicos. • Resultados são mapas na SIG, tábulas de vegetação espetada, distribuição potencial de fauna e qualidade de populações.

Modelo

Mudanças maiores em cenários

Seco

Médio

Inundado permanente • Mais inundação em sul e norte-oeste • Florestas úmidas em leque

• Em Caronal mais vegetação pioneira • Floresta mais seca (novo tipo savana)

Área potencial para o Jaguar

Seco

Médio

Inundado permanente

Área potencial para o gado

Seco

Médio

Inundado permanente

Conseqüências ecológicas das mudanças
Os três cenários (seco, normal e inundado) oferecem perspectivas diferentes; O cenário inundado é desfavorável para todas as espécies exceto a anaconda e jacaré; Os conhecimentos para fazer mapas de ecótopos para peixes não foram suficientes embora sejam muito importante para manejar o Pantanal.

Desenvolvimento sustentável o rio deve ser:
Viável no aspecto econômico por prover recursos para os fazendeiros (também os pequenos), para pescadores e gente da cidade, no comércio, turismo, indústria, transporte e outras atividades. Saudável no aspecto ecológico por meio de um desenvolvimento baseado nos recursos locais e usado de maneira sábia em prol do futuro de nossas crianças. Desejável socialmente por responder as necessidades do povo em fornecer educação, água pura e serviços médicos etc.

Área total e área inundada de fazendas do cone Área total e de fazendas aluvial do rio Taquari coneárea inundadaTaquari do aluvial do rio
70000 60000

50000

Area (ha) Area inundada

çrea (ha)

40000

30000

20000

10000

0
Fa z2 2 Fa z2 5 Fa z4 Fa z2 3 Fa z1 8 Fa z1 3 Fa z1 0 Fa z7 Fa z1 9 Fa z2 Fa z3 Fa z1 2 Fa z1 1 Fa z5 Fa z1 4 Fa z2 1 Fa z6 Fa z2 6 Fa z1 7 Fa z9 Fa z8 Fa z1 5 Fa z1 6 Fa z2 0 Fa z1 Fa z2 4

Fazendas

Peixes em Taquari, Miranda e Cuiabá
Espécies alimentares Piscívoros Onívoros Herbívoros Detritívoros Taquari Miranda Cuiabá 16 9 8 8 17 29 12 18 28 26 15 16

Figura 2 . Representa?‹ o gr‡fica da produ?‹ o pesqueira total e da pesca esportiva na bacia do rio Taquari, entre os anos de 1989 a 2000. 250
toneladas

200 150 100 50 0 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000
total esportiva

anos

Custos indiretos das inundações: conseqüências da perda de biodiversidade
Menos recursos para pesca e caça; Menos ecoturismo e turismo de pesca no Pantanal; Menos transporte aéreo e mais isolamento devido à diminuição do fluxo de turistas e capital para a região.

Aspetos de manejo do rio
Os rios e pântanos são um aspeto implícito das condições de vida no Pantanal; Soluções técnicas são procuradas para os problemas; existentes, mas não são possíveis sem o manejo coerente da bacia; É preciso entendimento e visão coerentes da bacia a longo prazo baseado nos processos do rio; É preciso uma organização para o manejo do rio por parte do poder público; É preciso uma unidade (grupo de apoio) que possa ajudar a tomar decisões para o manejo do Pantanal.

Maneiras para restaurar o rio
Dragagem do Taquari; Fechamento do arrombado Caronal; Prevenir novos arrombados; Ajudar o rio a criar novo canal do Caronal para oeste; Construção dos diques; Construção de uma barragem; Prevenção de erosão por reflorestamento das margens do rios no planalto; Prevenção de erosão e organização da bacia por capacitação; Fazer ‘nada’, mais comprar terras em zona inundada.

Dragagem do Taquari
Distância: 350 km, profundidade 3 metros Quantidade de material dragado: 60.000.000 m3 Tempo necessário: 10-30 anos dependendo do equipamento utilizado Custos estimados: R$ 180.000.000 Conseqüências:
Dragagem é um processo permanente; Precisa de organização e supervisão; Finalmente o pulso de inundação retornará.

Fechamento do arrombado Caronal

Somente viável depois da drenagem do rio Materiais: material rígido Custo estimado: R$ 3.500.000 Conseqüências:
Menos água no Paiaguás; Não há garantia de retorno à situação original.

Área potencial para o gado

Prevenir novos arrombados
Trecho instável a partir de Figueiral É um trabalho contínuo Supervisão para prevenir arrombados naturais e ilegais Custo estimado: ??? Conseqüências:
Situação estável nos primeiros anos Depois aumento de possibilidade de grandes arrombados

Ajudar o rio a criar novo canal do caronal para oeste
Distância: 230 km, profundidade 3 metros Quantidade de material dragado: 80.000.000 m3 Tempo necessário: 10-30 anos dependo do equipamento utilizado Custo estimado: R$ 240.000.000 Conseqüências:
Menos inundações nesta parte do Paiaguás; Leito antigo secará .

Construção de diques
O subsolo não é estável para suportar diques Os sedimentos no Pantanal não são apropriados para fazer diques: é necessário trazer de fora Por isso: não é uma solução realística

Construção de barragens
Para construir uma barragem para reter sedimentos é preciso um ou vários locais no Planalto Custo estimado de uma barragem para água e sedimento: R$ 1.400.000.000 Custo estimado de uma barragem somente para sedimento: R$ 20.000.000 Custo estimado de três pequenas barragens para sedimentos: R$ 30.000.000 Conseqüências:
Todas podem reter sedimentos; Promover erosão do canal do rio à jusante; Uma barragem afetará o pulso de inundação e impedirá a migração dos peixes; Três pequenas barragens causam impactos menores para migração dos peixes.

Barragem para sedimentação: 10 m, barragem para redução inundação: 40 m

Barragem em rio Mendoza (Argentina)

Prevenção de erosão por reflorestamento das margens dos rios no planalto
Para reflorestar 10% da bacia em planalto: 2.700 km2 A prevenção da erosão requer aplicação do código florestal e supervisão É preciso bombear água dos rios e riachos para o consumo das fazendas Custo estimado: R$ 8.000.000 Conseqüências:
Diminuição da erosão; Diminuição da descarga de água (15%) e sedimento.

Prevenção da erosão e organização da bacia por meio de capacitação
Organização da bacia é uma solução de longo prazo Capacitação é um investimento no futuro A extensão significa a instrução dos professores e os serviços de informação para fazendeiros Custos estimados: 100.000 a 10.000.000 para toda a bacia. Conseqüências:
Decisões compartilhadas; Dividir custos entre todos.

Fazer um Parque Nacional e comprar terras em zona inundada
Área inundada: máximo 11.000 km2 Uma solução de curto prazo para os fazendeiros Solução de longo prazo para a natureza Custos estimados: R$ 100.000.000 até 440.000.000 Conseqüências:
Problemas são confinados; A natureza recupera a longo prazo; Processos naturais continuaram; Não solução para a erosão do Planalto.

Recomendações
Criar uma organização de supervisão de manejo do rio Taquari. Prevenir erosão em planalto por aplicação do código florestal em zonas dos riachos. Compensar fazendeiros por comprar terras para um Parque Nacional criado para longo prazo. Construção de umas pequenas barragens para intercepção do sedimento em planalto.

Muito obrigado www.pantanal-taquari.alterra.nl
© Wageningen UR

CONHECIMENTOS BÁSICOS DE QUALIDADE DE ÁGUA
Carlos Nobuyoshi Ide
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS/MS)

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INTRODUÇÃO
O propósito desse tópico é prover informações básicas que auxiliem na interpretação e no significado dos resultados dos exames em campo e em laboratório, de variáveis indicadoras de qualidade da água, pela natureza de seus constituintes físicos, químicos e biológicos. Cada uma das variáveis será discutida com respeito às suas origens, fontes, comportamentos e transformações no sistema aquático. Os principais índices de avaliação dos dados de qualidade da água são apresentados. Este tópico não é nem pretende ser um tratado, nem uma obra completa. É esperado que seja útil a quem se interessar pela qualidade da água, sem a pretensão de sanar todas as dúvidas e resolver todos os problemas. A água doce é um recurso finito, essencial para agricultura, indústria, vida selvagem e existência humana. Sem a água doce em quantidade e qualidade adequadas, o desenvolvimento sustentável é impossível. A poluição e o desperdício de água doce ameaça projetos de desenvolvimento, e torna o tratamento de água essencial para a produção de água potável segura – quanto mais poluída, mais caro será o tratamento. A descarga de produtos tóxicos, a explotação excessiva de aqüíferos, o transporte de poluentes atmosféricos de longa distância, as cargas difusas e a contaminação de corpos d’água, com substâncias que promovem crescimento de algas (possibilidades de eutrofização), são algumas das principais causas da degradação da qualidade da água. A água de boa qualidade é crucial para o desenvolvimento socioeconômico sustentável. A água limpa é um importante componente da saúde de um ecossistema aquático: permite suportar um hábitat aquático diversificado e áreas recreacionais vibrantes; permite produzir água potável de boa qualidade; e permite apreciar a beleza cênica do meio ambiente natural. Ecossistemas aquáticos, estão ameaçados em escala mundial, por grande variedade de poluentes. Alguns problemas têm estado presentes há muito tempo, mas apenas recentemente alcançado um nível crítico, enquanto outros novos estão emergindo. Seus múltiplos usos, são indispensáveis a um largo espectro das atividades humanas, onde se destacam, entre outros, o abastecimento público e industrial, a irrigação agrícola, a produção de energia elétrica e as atividades de lazer e recreação, bem como a preservação da vida aquática. A poluição orgânica causa perturbação do balanço de oxigênio e é freqüentemente acompanhado por severa contaminação patogênica. A acelerada eutrofização resulta de enriquecimento de nutrientes de várias origens, particularmente de despejo doméstico, escoamento pluvial de áreas agrícolas, e de efluentes agroindustriais. Lagos e reservatórios são especialmente afetados. A prática agrícola sem proteção ambiental, a aplicação excessiva de agroquímicos está causando extensa deteriorização do ecossistema solo/água e de aqüíferos subterrâneos. Os principais problemas associados com a agricultura, são a salinização, erosão, nitrato e contaminação com praguicidas. A erosão aumenta as concentrações de sólidos suspensos em corpos d’água, causando o assoreamento de rios, lagos e reservatórios. A irrigação tem ampliado áreas disponíveis para cultivo de lavouras, mas a salinização tem ocorrido em algumas áreas, resultando na deteriorização de solos anteriormente férteis.

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A contaminação de águas superficiais com metais (águas de drenagem de minas, indústria de manufaturados, fundição, drenagem pluvial), é um problema de longa duração. Entretanto, a emissão de poluentes atmosféricos metálicos tem, agora, alcançado grandes proporções. O transporte atmosférico causa contaminação não apenas nas imediações de regiões industrializadas, mas também nas mais remotas regiões. Similarmente, a umidade na atmosfera combina com alguns gases produzidos, quando combustíveis fósseis são queimados e precipitam como chuva ácida, causando acidificação de águas superficiais, especialmente lagos. A contaminação de água por micropoluentes orgânicos sintéticos pode ser resultante da descarga de esgoto em águas superficiais, ou de transporte pela atmosfera. Hoje, existem traços de contaminação, não apenas em águas superficiais, mas também de aqüíferos subterrâneos, que são susceptíveis à lixiviação de depósitos de lixo, e áreas de rejeito de minas e de indústrias. As atividades humanas que influenciam o meio ambiente têm aumentado nas últimas décadas; ecossistemas terrestres, águas doces, ambientes marinhos e a atmosfera são todos afetados. Têm-se observado interferência nos ciclos hidrogeoquímicos, resultando em uma nova geração de problemas ambientais. A escala das atividades socioeconômicas, urbanização, operações industriais e produção agrícola, têm alcançado o ponto onde, acrescentado a interferência com processos naturais dentro de uma mesma bacia hidrográfica, causam grande impacto sobre os recursos hídricos. Como resultado, tem sido desenvolvida relação muito complexa entre fatores socioeconômicos, hidrológicos e ecológicos. Para compreender e avaliar a qualidade da água de ameaças presentes e futuras de contaminação e para suprir uma base de ação em todos os níveis, informações confiáveis de monitoramentos, são indispensáveis. Monitoramento é definido pela International Organization for Standardization (ISO) como: “um bem programado processo de amostragem, medição e subseqüente registro ou indicação, ou ambas, das variadas características da água, freqüentemente, com o propósito de avaliar, conforme objetivos especificados”. Essa definição geral pode ser diferenciada em três tipos de atividades de monitoramento que distinguem em longo prazo, curto prazo e programa contínuo de monitoramento como segue: • Monitoramentos – são programas de longa duração, para verificar condições e tendências da qualidade da água. • Levantamentos – são programas de durações finitas, intensivas, para medir e observar a qualidade do ambiente aquático para propósitos específicos. • Vigilâncias – são programas contínuos, específicos, para propósitos de gerenciamento da qualidade da água e atividades operacionais. A qualidade da água pode ser caracterizada pela natureza e quantidade de seus constituintes físicos, químicos e biológicos. É um termo usado para expressar a capacidade da água de sustentar vários usos ou processos. A qualidade da água pode ser definida por uma gama de variáveis que limitem o uso da água. Os aspectos físicos, químicos e biológicos de qualidade da água são inter-relacionados, e devem ser considerados juntos. Por exemplo, a temperatura da água mais alta reduz a solubili-

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dade do oxigênio dissolvido, e pode causar uma depleção de oxigênio dissolvido, que mata espécies de peixes mais sensíveis. A qualidade da água é altamente variável no tempo, devido a fatores naturais e humanos. A temperatura da água, atividade fotossintética, carga de nutrientes, vazão a cada estação e então os sedimentos suspensos podem variar com a chuva. A água não é encontrada pura na natureza. Ao cair em forma de chuva, já carreia impurezas do próprio ar. Ao atingir o solo, seu grande poder de dissolver e carrear substâncias, alteram ainda mais suas qualidades. Entre o material dissolvido encontram-se as mais variadas substâncias como, por exemplo, substâncias calcárias e magnesianas que tornam a água dura; substâncias ferruginosas que dão cor e sabor diferentes à mesma; e substâncias resultantes das atividades humanas, tais como produtos industriais, que a tornam imprópria ao consumo. Por sua vez, por onde passa, a água de drenagem pluvial pode carrear substâncias em suspensão, tais como partículas finas dos terrenos, que dão turbidez à mesma; pode também carrear substâncias animadas, como algas, que modificam seu sabor, ou ainda, quando passa sobre terrenos sujeitos à atividade humana, podem levar em suspensão microrganismos patogênicos. As principais doenças relacionadas com a água são: • Por ingestão de água contaminada: – cólera – disenteria amebiana – disenteria bacilar – febre tifóide e paratifóide – gastroenterite – giardíase e criptosporidíase – hepatite infecciosa – leptospirose – paralisia infantil – salmonelose • Por contato com água contaminada: – escabiose (doença parasitária cutânea conhecida como sarna) – tracoma (mais freqüente nas zonas rurais) – verminoses, tendo a água como um estágio do ciclo – esquistossomose

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• Por meio de insetos que se desenvolvem na água: – dengue – febre amarela – filariose – malária A poluição das águas está associada ao tipo de uso e ocupação do solo, e tem como origem fontes pontuais e não-pontuais: • Fontes pontuais: “ponta de rede” > Descargas industriais – Efluentes de resíduos de processos – Efluentes de esgoto tratado – Transbordamento, respingos ou by-pass – Lançamento deliberado > Estações de tratamento de esgoto municipal > Poços de petróleo e petroleiros • Fontes não-pontuais: fontes de poluição que não são caracteristicamente isoladas e descarregadas em um único ponto > Escoamento (Runoff) de todos os tipos de áreas – Estacionamentos (a menos que seja coletado e descarregado na rede de drenagem pluvial) – Telhados, quintais – Fazendas – Construções > Escoamento urbano – Ruas, calçadas e estacionamentos • Metais de pneus e lonas de freio • Orgânicos de respingos de petróleo (manchas de óleo em estradas e ruas) • Poeira depositada durante períodos secos – Telhados, quintais – Atividades de construção

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• erosão do solo • sedimentação de efluentes > Escoamento de área agrícola – Erosão do solo/sedimentação de areia, argila – Escoamento de pesticidas e fertilizantes – Perda de alimento de animais, solo, fezes, nutrientes A qualidade da água é avaliada por indicadores (parâmetros) físicos, químicos, microbiológicos e ecotoxicológicos, considerando-se aqueles mais representativos, para tornar a análise sistemática da caracterização da água exeqüível. Para o Estado de São Paulo, a Cetesb faz uso dos seguintes indicadores: • Parâmetros físicos - absorbância no ultravioleta, coloração da água, série de resíduos (filtrável, não-filtrável, fixo e volátil), temperatura da água e do ar, e turbidez; • Parâmetros químicos - alumínio, bário, cádmio, carbono orgânico dissolvido, chumbo, cloreto, cobre, condutividade específica, cromo total, demanda bioquímica de oxigênio (DBO5,20), demanda química de oxigênio (DQO), fenóis, ferro total, fluoreto, fósforo total, manganês, mercúrio, níquel, óleos e graxas, ortofosfato solúvel, oxigênio dissolvido, pH, potássio, potencial de formação de trihalometanos, série de nitrogênio (Kjeldahl, amoniacal, nitrato e nitrito), sódio, surfactantes e zinco; • Parâmetros microbiológicos - Clostridium perfringens, coliforme fecal (coliforme termotolerante), Cryptosporidium sp., estreptococos fecais e Giardia sp.; • Parâmetros hidrobiológicos - clorofila-a e feofitina; • Parâmetros ecotoxicológicos - sistema Microtox, teste de Ames para a avaliação de mutagenicidade e teste detoxicidade crônica a Ceriodaphnia dubia. Quando da necessidade de estudos específicos de qualidade de água em determinados trechos de rios ou reservatórios, com vistas a diagnósticos mais detalhados, outros parâmetros podem vir a ser determinados, tanto em função do uso e ocupação do solo na bacia contribuinte, atuais ou pretendidos, quanto pela ocorrência de algum evento excepcional na área em questão.

ÁGUA
No Brasil, o antigo Ministério do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, por meio da Resolução nº 20, de 18/6/86, do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), estabeleceu uma classificação para as águas do território nacional em doces (salinidade inferior a 0,5%), salobras (salinidade igual ou inferior a 0,5% e 30%) e salinas (salinidade superior a 30%), e para cada uma delas, classes conforme seu uso preponderante. Para as águas doces,

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existem cinco classes, duas para as salinas e duas para as salobras. Para cada classe, estabelecem-se níveis de qualidade a serem mantidos e/ou alcançados em um corpo d’água. As águas doces são divididas em cinco classes (Tabela 1).
Tabela 1. Classificação das águas doces brasileiras, segundo a Resolução Conama nº 20/86

Fonte: Resolução Conama nº 20/86.

Para cada uma das cinco classes foram estabelecidos limites de concentração de substâncias, que podem ser encontrados nos corpos d'água. Sendo estabelecido os padrões de qualidade para corpos d'água, o enquadramento passa a ser um importante instrumento para o controle da poluição e para o monitoramento da qualidade da água. O fato de um trecho de rio estar enquadrado em determinada classe, não significa necessariamente que esse seja o nível de qualidade que ele apresenta, mas sim, aquele que se busca alcançar ou manter ao longo do tempo. Com base na avaliação realizada, planos regionais poderão ser embasados, segundo as necessidades de recuperação, proteção e conservação dos recursos hídricos da BAP. A água em seu ambiente natural sofre várias alterações de estado e está em constante movimentação no planeta. O seu ciclo, chamado ciclo hidrológico (Figura 1), alimentado pela energia do Sol, faz com que a água evapore, seja transportada pelo vento e em determinadas condições, precipite em uma região diferente da do início desse transporte. No solo, a água precipitada move-se, pela ação da gravidade, para regiões mais baixas, até chegar nos rios e oceanos. Parte da água que chega ao solo, infiltra-se, atingindo os lençóis subterrâneos.

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Figura 1. O ciclo hidrológico

Fonte: Porto et al., 1991.

Por intermédio das várias etapas de seu ciclo, a água tem suas características físicas e químicas alteradas naturalmente. O contato das águas naturais com solos, atmosfera, matéria orgânica, organismos vivos, etc., faz com que algumas impurezas sejam agregadas e transportadas juntamente com ela, conforme mostrado na Tabela 2. A expressão qualidade da água não se refere a um grau de pureza absoluto, ou mesmo próximo do absoluto, e sim, a um padrão tão próximo quanto possível do natural, isto é, da água tal como se encontra na natureza, antes do contato com o homem. Além disso, há um grau de pureza desejável, o qual depende do uso que dela será feito. Mesmo tomando o uso potável como o mais nobre, há variações extremas de tolerância às impurezas, pelo sistema de tratamento a que será submetida, dependendo do processo e da instalação empregados. Embora existam possibilidades técnicas quase infinitas de depuração, haverá sempre uma limitação econômica, que faz com que, mesmo para águas a serem submetidas ao tratamento, seja exigida uma qualidade mínima a ser preservada no manancial.
Tabela 2. Impurezas mais freqüentes encontradas nas águas naturais (continua)

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(conclusão)

Fonte: Resolução Conama nº 20/86.

O gerenciamento da qualidade da água exige que sejam estabelecidas formas de acompanhamento da variação de indicadores da qualidade da água, permitindo avaliar as condições de poluição e alteração de um corpo hídrico. Esse controle será exeqüível, se for definido um conjunto de parâmetros significativos, que atendam a um objetivo estipulado. Por exemplo, se o corpo hídrico estiver destinado ao abastecimento urbano, o conjunto de parâmetros deverá incluir todos aqueles que indiquem alterações na água, prejudiciais ao organismo humano. Dessa forma, com a evolução das técnicas de detecção e medidas de poluentes, foram estabelecidos padrões de qualidade de água, isto é, a máxima concentração de elementos e compostos que poderiam estar presentes na água, de modo a ser compatível com a sua utilização, para determinadas finalidades. Assim, foram estabelecidos padrões de qualidade de água para usos como: abastecimento público e industrial, preservação da vida aquática, irrigação, recreação, agricultura, navegação e paisagismo. Esses padrões foram determinados a partir de experimentos realizados em países desenvolvidos.
SIGNIFICADO DE PARÂMETROS FÍSICO-QUÍMICOS E MICROBIOLÓGICOS

A seguir, é apresentada uma descrição sucinta de vários parâmetros relativos à qualidade das águas, considerando os indicadores físicos, químicos e biológicos medidos em campo e em laboratório, suas características e sua importância no meio ambiente.
• Acidez total

Acidez é a capacidade da água de consumir uma quantidade de base a um determinado pH. Trata-se de uma propriedade agregada da água, que pode ser interpretada em termos de substância específica, quando a composição química da amostra é conhecida. É devida, principalmente, à presença de gás carbônico livre (pH entre 4,5 e 8,2).

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A acidez pode originar-se naturalmente, por meio do CO2 absorvido da atmosfera, ou resultante da decomposição da matéria orgânica, e do gás sulfídrico e, antropogenicamente, pelos despejos industriais (ácidos minerais ou orgânicos) e passagem da água, por minas abandonadas, vazadouros de mineração e das borras de minérios. Têm pouco significado sanitário, no entanto, águas com acidez mineral são desagradáveis ao paladar, sendo recusadas. A determinação de acidez é de utilidade, uma vez que, uma brusca variação do seu valor normal, poderá indicar o lançamento de algum resíduo industrial nos esgotos domésticos. Além disso, a acidez ajuda no processo corrosivo e influencia na velocidade das reações químicas e nos processos biológicos. A utilização da acidez mais freqüente como parâmetro, dá-se com a caracterização de águas de abastecimento (inclusive industriais), brutas e tratadas.
• Alcalinidade

A alcalinidade representa a capacidade que um sistema aquoso tem de neutralizar ácidos. Essa capacidade depende de alguns compostos, principalmente bicarbonatos, carbonatos e hidróxidos, sendo que este último ânion é raro na maioria das águas naturais, ocorrendo geralmente em águas cujo pH é superior a 10. A alcalinidade reflete, em última instância, a capacidade que um ecossistema aquático representa em neutralizar (tamponar) ácidos a ele adicionados. Essa capacidade deve-se à presença de bases fortes, bases fracas, sais de ácidos fracos, tais como bicarbonatos, boratos, silicatos e fosfatos; sais de ácido orgânicos, tais como, o ácido húmico e, no caso de águas poluídas, de sais de ácido acético, propiônico e sulfúrico. Em águas superficiais, a alcalinidade pode ser devida à presença de grande quantidade de algas; elas removem o CO2 da água, elevando o pH da mesma para 9 – 10. Embora sejam várias as substâncias que conferem alcalinidade à água, as predominantes são os hidróxidos, os carbonatos e os bicarbonatos de sódio e cálcio. Em conseqüência, devemos considerar cinco hipóteses possíveis: • alcalinidade devida a hidróxidos, somente; • alcalinidade devida a hidróxidos e carbonatos; • alcalinidade devida a carbonatos, somente; • alcalinidade devida a carbonatos e a bicarbonatos; • alcalinidade devida a bicarbonatos, somente. A alcalinidade não tem significado sanitário para a água potável, mas em elevadas concentrações confere um gosto amargo à água. É uma determinação importante no controle do tratamento de água, estando relacionada com a coagulação, redução de dureza e prevenção de corrosão em tubulações. Também, é uma determinação importante no tratamento de esgotos,

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quando há evidências de que a redução do pH pode afetar os microrganismos responsáveis pela depuração. Os componentes da alcalinidade podem modificar a toxicidade de metais pesados.
• Cloreto

O cloreto é um dos principais ânions inorgânicos, altamente solúvel, presente em praticamente todas as águas, podendo ser de origem natural, por meio da dissolução de minerais e intrusão de águas salinas, ou de origem antropogênica, pelos despejos domésticos, industriais e de águas utilizadas em irrigação. Os cloretos ocorrem normalmente nas águas naturais, em quantidades muito variáveis. Sua presença torna-se objetável, quando acima de 250mg.L-1, devido ao gosto salino, quando o cátion presente é o íon sódio. Entretanto, quando os cátions predominantes forem cálcio e magnésio, teores até 1.000 mg.L-1 não dão gosto característico à água. Aumento brusco do teor do íon cloreto é uma indicação de contaminação da água, ou com águas residuárias ou com água do mar. Geralmente, não é prejudicial aos seres humanos e as restrições quanto à água potável baseiam-se, principalmente, na palatabilidade. Em determinadas concentrações, imprime um sabor salgado à água. Altos teores de cloreto causam corrosão nas canalizações metálicas. Em relação à vida aquática, o teor de cloretos, intimamente relacionado com a salinidade, pode afetar as propriedades funcionais e estruturais dos organismos, por meio de mudanças na osmorregulação, densidade e viscosidade. Além desses, a salinidade também exerce um efeito indireto no ecossistema, passando a funcionar, inclusive, como fator limitante no desenvolvimento da biota. Entre as principais funções do cloreto, está a troca e o transporte de outros íons para os meios intra e extracelulares. No meio aquático, esses íons dificilmente atuam como fatores limitantes.
• Clorofila

A concentração da clorofila-a é uma medida indireta da quantidade das algas verdes presentes em um ambiente hídrico, podendo determinar o estado trófico de um determinado corpo hídrico. Algas são plantas unicelulares e multicelulares encontradas em água doce, marinha e ambientes terrestres úmidos. Todas as algas possuem clorofila, o pigmento verde essencial para fotossíntese. Algas podem conter pigmentos adicionais como fucoxantina (marrom), ou ficoeritrina (vermelho), que podem mascarar a cor verde da clorofila. O ciclo de vida de algas pode ser simples, envolvendo divisão celular, ou complexo, envolvendo alternação genética. Algas são os produtores primários de material orgânico do qual, diretamente ou indiretamente, dependem os animais, por meio da cadeia alimentar. Testes em algas são valiosos, para determinar a produtividade primária da água e para testar o toxicidade de substâncias químicas presente. A bioestimulação (produtividade de alga), mede a resposta de uma espécie cultivada de algas para a condição nutricional da água. Os

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fitoplânctons medem a resposta de uma espécie de alga, para materiais que interfiram em seu metabolismo normal. Juntos, os testes permitem avaliar os efeitos causados por fontes pontuais ou não-pontuais (difusas), que descarreguem em águas doces ou marinhas.
• Condutividade

Pela condutividade elétrica, pode-se calcular a salinidade da água. A condutividade da água depende, também, do pH e pode variar ligeiramente em função da atividade de fotossíntese e respiração. As águas interiores, geralmente, contêm sais minerais em solução em quantidades relativamente pequenas. Entretanto, o lançamento de despejos industriais pode elevar as concentrações de sais em níveis superiores aos naturais, prejudiciais aos organismos, devido a modificações ocorrentes na pressão osmótica. Um valor de condutividade superior ao padrão ambiental pode causar efeitos nocivos, tais como: • perda das guelras e de outros órgãos externos delicados dos peixes, podendo causar a morte; • modificações de atividades comportamentais e fisiológicas dos organismos habitantes da região; • prejuízos à fauna aquática em longo prazo, podendo causar a eliminação da espécie. Em regiões tropicais, os valores de condutividade nos ambientes aquáticos estão mais relacionados com as características geoquímicas da região onde se localizam, e com as condições climáticas (estação de seca e de chuva), do que com o estado trófico. Do ponto de vista da Limnologia regional, a condutividade elétrica dos corpos d’água de uma região pode fornecer importantes informações, que possibilitam identificar as várias províncias geológicas, evidenciando, dessa maneira, a interação entre o sistema aquático e o terrestre.
• Cor

A cor resulta da existência, na água, de substâncias em solução, pode ser causada pelo ferro ou manganês, pela decomposição da matéria orgânica da água (principalmente vegetais), pelas algas ou pela introdução de esgotos industriais e domésticos. A cor é removida da água para trazer uma aparência satisfatória aos usos gerais e industriais. O colorido industrial das águas residuárias pode requerer remoção de cor antes de descarga no corpo d'água receptor. O termo “cor” pode ser usado para significar verdadeira cor, ou seja, a cor da água a qual toda turbidez tenha sido retirada ou “cor aparente”, que não só inclui a cor, devido a substâncias em solução, mas, também, inclui os materiais em suspensão. A cor aparente é determinada da amostra original, sem filtração ou centrifugação.

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A cor originada naturalmente não representa risco direto à saúde, mas consumidores podem questionar a sua confiabilidade, e buscar águas de maior risco. Além disso, a cloração da água contendo matéria orgânica dissolvida responsável pela cor pode gerar produtos potencialmente cancerígenos (trihalometanos – ex: clorofórmio). As águas também podem ser coloridas por despejos solúveis orgânicos e inorgânicos, provenientes de indústrias, tais como, refinarias, extrações em geral, explosivos, polpa de papel, produtos químicos e outros. O retorno de águas de irrigação também contribui para a coloração. As águas superficiais podem apresentar coloração, devido à matéria suspensa que causa turbidez. Tal cor é denominada cor aparente. A cor verdadeira da água é considerada como aquela atribuída às substâncias em solução, após a matéria suspensa ter sido removida por centrifugação. A cor diminui a penetração da luz na água e conseqüentemente, reduz a fotossíntese do fitoplâncton e limita a zona de crescimento de plantas aquáticas. A cor é utilizada mais freqüentemente como parâmetro na caracterização de águas de abastecimento brutas e tratadas.
• Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO5,20)

O tradicional teste de Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), foi inventado no início do século passado (1912), pela Royal Commission Sewage Disposal, para determinar a intensidade dos esgotos lançados nos rios. O período de incubação de cinco dias, foi baseado no tempo de escoamento do rio Tâmisa entre Londres e o mar. Devido ao fato de a temperatura média da água do Tâmisa não exceder 18,3ºC, a temperatura, então, foi arredondada para 20ºC, mas o período de incubação de cinco dias tornou-se uma referência científica universal e legal. O principal efeito ecológico da poluição orgânica em um curso d’água é o decréscimo dos teores de oxigênio dissolvido. Esse decréscimo está associado à Demanda Bioquímica de Oxigênio. Os maiores aumentos em termos de DBO, em um corpo d’água, são provocados por despejos de origem predominantemente orgânica. A presença de um alto teor de matéria orgânica pode induzir à completa extinção do oxigênio na água, provocando o desaparecimento de peixes e outras formas de vida aquática. Um elevado valor da DBO pode indicar um incremento da microflora presente e interferir no equilíbrio da vida aquática, além de produzir sabores e odores desagradáveis e ainda, pode obstruir os filtros de areia utilizadas nas estações de tratamento de água. Pelo fato da DBO somente medir a quantidade de oxigênio consumido em um teste padronizado, não indica a presença de matéria não-biodegradável, nem leva em consideração o efeito tóxico ou inibidor de materiais sobre a atividade microbiana. Demanda Bioquímica de Oxigênio é a quantidade de oxigênio molecular requerida pelas bactérias, para estabilizar a matéria orgânica decomponível em condições aeróbias. O teste

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consiste em medir o oxigênio dissolvido no momento da coleta da amostra e após um período de incubação de 5 dias a 20 ± 2ºC. Por isso, a Demanda Bioquímica de Oxigênio é representado por DBO5,20. A demanda de oxigênio na água é exercida por três classes de matérias: • matéria orgânica carbonácea usada como fonte de alimentos para organismos aeróbios, resultando CO2, H2 e NH3; • matéria orgânica nitrogenada oxidável derivada de amônia, nitrito e compostos de nitrogênio orgânico, os quais servem de alimento para bactérias específicas (nitrossomonas e nitrobacter) resultando: NO3, CO2, H2O,SO42-; • compostos químicos redutores como íon ferroso (Fe-2 ), sulfito (SO3-2 ) e sulfeto (S-2) os quais são oxidados pelo oxigênio dissolvido. A determinação da DBO não revela a concentração de uma substância específica, e sim o efeito da combinação de substâncias e condições. A DBO, por si, não é um poluente, exercendo um efeito indireto, ou seja, causando a depleção de oxigênio dissolvido (OD), até níveis que inibem a vida aquática e outros usos benéficos.
• Demanda Química de Oxigênio (DQO)

A Demanda Química de Oxigênio expressa a medida de oxigênio equivalente àquela porção da matéria orgânica e inorgânica, capaz de ser oxidada por um agente oxidante forte. Esse valor depende da composição da água, da concentração dos reagentes, da temperatura e do período de contato entre a amostra e o oxidante. É uma medida muito importante no controle de qualidade de rios e plantas de tratamento de esgoto. Neste ensaio, tem-se a oxidação completa de uma grande parte de materiais orgânicos existente na água. Entretanto, uma pequena quantidade de componentes mais estáveis de alta massa molecular não é medida nesse teste. Os elementos e compostos que nas suas mais variadas formas produzem efeitos sobre a flora e a fauna (incluindo o homem), classificados como carcinogênicos, mutagênicos e teratogênicos que não são degradados nos tratamentos, estão incluídos na DQO remanescente. A diferença entre DBO e DQO, constitui uma indicação das matérias orgânicas pouco ou não-biodegradáveis.
• Dureza total

A dureza pode ser definida como a capacidade de uma água em precipitar sabão. O sabão é precipitado, sobretudo pelos íons cálcio e magnésio presentes. Outros cátions polivalentes, também podem precipitar o sabão, mas eles, muitas vezes, estão em formas complexas, freqüentemente com constituintes orgânicos, e podem aparecer em águas duras em baixas concentrações, mas são muito difíceis de determinar. Em conformidade com a prática usual, Dureza Total é definida como a soma das concentrações de cálcio e magnésio, ambos expressos como mg.l-1 de CaCO3.

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A dureza classifica-se em dureza de carbonatos e de não-carbonatos, de cálcio e magnésio. A dureza de não-carbonatos, chamada de dureza permanente, é devida aos sulfatos, cloretos e nitratos de cálcio e magnésio. Sempre que a dureza for maior do que a alcalinidade total, devida aos carbonatos e bicarbonatos, aquela porção da dureza equivalente aos carbonatos e bicarbonatos de cálcio e magnésio é a dureza de carbonatos, e a porção excedente é a dureza de não-carbonatos. Quando a dureza é numericamente igual ou menor do que a soma da alcalinidade dos carbonatos e bicarbonatos (alcalinidade total), toda a dureza é de carbonatos e a dureza dos não-carbonatos está ausente. Em geral, esses íons metálicos nos mananciais de abastecimento de água, não causam prejuízo à saúde, embora possam influenciar no efeito de outros íons metálicos. Existem dados de que a dureza da água provoca cálculo biliar e que existe uma maior freqüência de calcificação das artérias em indivíduos que ingerem água dura. Outros estudos indicam menor incidência de doenças cardíacas em áreas com maior dureza. Em relação à vida aquática, o crescimento dos peixes pode ser limitado pela dureza da água. Águas moles podem aumentar a sensibilidade dos peixes a metais tóxicos; em águas duras os metais tóxicos podem ser menos prejudiciais. A água com pouca, ou nenhuma dureza, pode ser corrosiva para a rede de distribuição, dependendo do pH, alcalinidade e OD. A Tabela 3 apresenta a classificação das águas, quanto à dureza.
Tabela 3. Classificação das águas, quanto à dureza

Fonte: Sawyer e McCarty, 1987.

Não há evidências de que a dureza cause problemas sanitários. Em determinadas concentrações, causa um sabor desagradável e pode ter efeitos laxativos. Reduz a formação de espuma, implicando em um maior consumo de sabão. Causa incrustação nas tubulações de água quente, caldeiras e aquecedores (devido à maior precipitação nas temperaturas elevadas).
• Fósforo

O fósforo tem grande importância nos sistemas biológicos. Isso se deve à participação deste elemento em processos fundamentais do metabolismo dos seres vivos, tais como: armazenamento de energia (forma uma fração essencial da molécula de ATP) e estruturação da membrana celular (por meio dos fosfolipídios).

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Na maioria das águas continentais, o fósforo é o principal fator limitante de sua produtividade. Além disso, tem sido apontado como o principal responsável pela eutrofização artificial desses ecossistemas. Toda forma de fósforo presente em águas naturais, quer na forma iônica, quer na forma complexada, encontra-se sob a forma de fosfato. Assim, em Limnologia, deve-se utilizar essa denominação para se referir às diferentes formas de fósforo no ambiente aquático. O fósforo é um elemento não-metálico, que pode ocorrer em diferentes formas: orgânica; inorgânica; e como espécies dissolvidas ou particuladas. Em águas naturais e efluentes ele, basicamente, aparece na forma de fosfato. Os fosfatos podem ser classificados como: ortofosfatos; fosfato condensado (piro -, meta -, e outros polifosfatos); e fosfatos orgânicos. Do ponto de vista limnológico, todas as formas (também chamadas de frações) de fosfato, são importantes. No entanto, o Porto assume maior relevância por ser a principal forma de fosfato assimilada pelos vegetais aquáticos. Dessa maneira, a sua quantificação em pesquisas limnológicas, torna-se indispensável. O fósforo é um nutriente essencial às plantas, uma vez que ele auxilia no desenvolvimento dos organismos, sendo provável que atue também como um fator limitante do seu crescimento. Os fosfatos, juntamente com os nitratos, são elementos indispensáveis à síntese da matéria viva e, por isso, são limitantes da fotossíntese, quando se encontram em quantidades insuficientes. O fosfato presente em ecossistemas aquáticos continentais, tem origem em fontes naturais e artificiais. Entre as fontes naturais, as rochas da bacia de drenagem constituem a fonte básica de fosfato, para os ecossistemas aquáticos continentais. Outros fatores naturais que permitem o aporte de fosfato podem ser apontados, como: material particulado presente na atmosfera e o fosfato resultante da decomposição de organismos de origem alóctone. As fontes artificiais de fosfato mais importantes são: esgotos domésticos e industriais e materiais particulados de origem industrial, contidos na atmosfera. Também, são de origem antropogênica, os detergentes, excremento de animais e fertilizantes. Grande parte do fosfato que chega aos ecossistemas aquáticos continentais pode ser precipitada no sedimento, sendo que, em muitos casos, esse fosfato não mais retorna ao metabolismo límnico. Desse modo, a quantidade de fosfato reciclado no ambiente depende das condições físicas e químicas do meio e da taxa de decomposição da matéria orgânica. Ortofosfatos são usados na agricultura. Fosfatos orgânicos são formados no tratamento biológico primário e contribuem para a poluição de corpos d'água e resíduos. Fosfatos podem ocorrer em sedimentos e lodo biológico, ambos como formas inorgânicas precipitada e incorporada nos compostos orgânicos. A presença de fosfato acima dos padrões ambientais pode causar efeitos nocivos, tais como: • eutrofização acelerada, com concomitante aumento de odores e gosto na água; • toxicidade sobre todos os organismos aquáticos, especialmente peixes.

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Concentrações de fosfato total, como fósforo, maiores que 0,1mg.l-1, interferem na coagulação em estações de tratamento de água. O fósforo analisado pode incorporar-se em dois procedimentos gerais: • a conversão do fósforo na forma de interesse para ortofosfato dissolvido; • determinação colorimétrica do ortofosfato dissolvido. A filtração com filtro de 0,45mm separa o fósforo dissolvido do fósforo suspenso. O fósforo total bem como o fósforo dissolvido e suspenso, pode ser dividido em três tipos químicos descrito: reativo; ácido hidrolisável; e orgânico. A fração de fosfato que responde ao teste colorimétrico, após preliminar hidrólise ou digestão oxidativa é chamado “fósforo reativo”, e geralmente é medido como ortofosfato. O fósforo reativo ocorre em ambas as formas: dissolvido e suspenso. A hidrólise ácida em água quente converte o fosfato condensado (dissolvido ou particulado) em ortofosfato dissolvido. A hidrólise com ácido abrange, inevitavelmente, alguns fosfatos de compostos orgânicos, mas isso pode ser reduzido, tendo uma escolha sensata da força ácida, tempo de digestão e temperatura. A fração de fosfato que é convertida a ortofosfato, apenas pela destruição oxidativa da matéria orgânica presente, é o chamado fósforo orgânico. A severidade da oxidação requerida para essa conversão, depende da forma e da quantidade do fósforo orgânico presente. Semelhante ao fósforo reativo e ao fósforo ácido hidrolisável, o fósforo orgânico aparece em ambas as formas: dissolvido e suspenso.
• Nitrato

Nitrato é o produto final da estabilização aeróbia do nitrogênio orgânico, e, como tal, ele ocorre em águas poluídas, que sofreram um processo de autodepuração ou de tratamentos aeróbios. Apesar de suas várias fontes, nitratos são raramente abundantes em águas superficiais (exceção aos efluentes de tratamento biológico), pois eles servem como fertilizante para todos os tipos de plantas e fitoplânctons. A ação fotossintética está constantemente utilizando nitratos e os convertendo para nitrogênio orgânico nas células das plantas. Nas águas profundas, contudo, essa ação não é possível e, conseqüentemente, são nessas águas que concentrações excessivas e prejudiciais são encontradas. Freqüentemente, ocorrem concentrações de nitrato em poços de pouca profundidade; isso se deve, em grande parte, à deficiência na proteção de poços e à proximidade de obstáculos, tanques sépticos/sumidouros ou fossas absorventes. Outro fator que contribui para o aumento de nitrato na água é a drenagem no produto da fertilização do solo e os despejos de indústrias de fertilizantes.

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O conhecimento da concentração de nitrato, bem como das outras formas de nitrogênio, é empregado na verificação do grau de oxidação em rios e estuários e na avaliação dos níveis de purificação, obtidos em processos biológicos de tratamento. A presença de nitratos em concentrações elevadas pode causar efeitos nocivos, tais como: • sob certas condições, no trato gastrointestinal, os nitratos podem ser reduzidos a nitritos, os quais são absorvidos pela corrente sanguínea, convertendo a hemoglobina em metahemoglobina, com conseqüente diminuição do transporte de oxigênio, provocando asfixia. Embora nem todas as crianças sejam suscetíveis, envenenamentos sérios e fatais ocorreram em crianças que ingeriram água com concentração de nitrato superior a 10mg.l-1. Por isso, a Portaria nº 518/04, do Ministério da Saúde, limita em 10mg.l-1, para consumo humano; • antes que ocorra a conversão de nitratos em nitritos no aparelho digestivo, pode aparecer enterite e diarréia; • em geral, nitratos em águas de irrigação são desejáveis por seu valor fertilizante. Todavia, seu excesso tende a reduzir a permeabilidade do solo e pode acumular-se em concentrações tóxicas nas soluções do solo; • em águas utilizadas para dessedentação de animais, sua presença em altas concentrações é indesejável pela possibilidade de envenenamento do gado (metahemoglobinemia). Entre as diferentes formas de nitrogênio, o nitrato, juntamente com o íon amônio, assumegrande importância nos ecossistemas aquáticos, uma vez que representa as principais fontes de nitrogênio para os produtores primários. Altas concentrações de nitrato estimulam o crescimento das plantas, especialmente algas, podendo causar eutrofização. A subseqüente morte e decaimento das plantas produzem uma poluição secundária.
• Nitrito

O Nitrito é encontrado em baixas concentrações, notadamente em ambientes oxigenados. Em ambientes anaeróbios, como o hipolímnio de lagos eutróficos em período de estratificação, podem-se encontrar altas concentrações desse íon. O nitrito representa uma fase intermediária entre a amônia (forma mais reduzida) e nitrato (forma mais oxidada). Em altas concentrações, o nitrito é extremamente tóxico à maioria dos organismos aquáticos. Nitrito é uma forma intermediária do nitrogênio, que pode resultar, tanto na oxidação da amônia pelas nitrossomonas (bactéria) em condições aeróbias, como na redução de nitratos em condições anaeróbias, Como são rapidamente oxidados, os nitritos estão raramente presentes em águas superficiais ou residuárias em concentrações superiores a 1,0mg.l-1, sendo que em águas naturais têm menos de 0,1mg.l-1. Os nitritos são mais tóxicos para os homens e animais que os nitratos. No aparelho digestivo dos seres humanos e animais, os nitratos são convertidos em nitritos por algumas bactérias comuns do intestino. Os nitritos são responsáveis por duas importantes alterações no corpo humano:

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• a formação da metahemoglobina, interferindo na liberação do oxigênio para as células do corpo. Essa inibição da respiração celular produz cianose; • a dilatação dos vasos sanguíneos, principalmente a microcirculação, induzindo à estase (estancamento) do sangue, e ao aumento do consumo de oxigênio do organismo. Águas com concentração de nitrito acima de 1,0mg.l-1, geralmente são muito poluídas e inaceitáveis para consumo.
• Nitrogênio amoniacal

O nitrogênio é um elemento indispensável à formação da matéria protéica e de outras substâncias, que desempenham um papel primordial na constituição e no metabolismo dos seres vivos. Constitui, 79% da atmosfera, em volume. A amônia encontra-se, freqüentemente, nas águas. Sua presença nas águas de superfície pode indicar poluição recente. Nas águas subterrâneas, o seu aparecimento é comum e, geralmente, devido a processos naturais de redução. É produzido, em grande concentração, pela decomposição dos compostos orgânicos de nitrogênio, pela hidrólise da uréia e pela redução de nitritos em condições anaeróbias. É a forma inorgânica mais reduzida do nitrogênio na água e compõe-se da amônia dissolvida (NH3) e do íon amônio (NH+4 ). Considera-se nitrogênio amoniacal, aquela fração de nitrogênio como íon amônio no equilíbrio: NH+4 NH3 + H+. Em Limnologia, quando se encontram referências sobre a concentração de “amônia”, na maioria dos casos, estão englobadas as concentrações das duas formas de nitrogênio amoniacal (NH3 e NH+4). Podem ocorrer outras formas de nitrogênio amoniacal, como a hidroxilamina (NH2OH). Altas concentrações de íon amônio podem ter grandes implicações ecológicas como, por exemplo: influenciar fortemente a dinâmica do oxigênio dissolvido do meio, uma vez que, para oxidar 1,0 miligrama do íon amônio (devido a nitrificação), são necessários 4,3 miligramas de oxigênio e podem influenciar a comunidade de peixes, pois em pH básico o íon amônio se transforma em amônia (NH3 livre, gasoso), que dependendo de sua concentração pode ser tóxica para esses organismos. Concentrações de 0,25mg.l-1 ou superiores a essa, afetam o crescimento de peixes, embora a concentração letal (que mata 50% dos indivíduos), seja consideravelmente superior (0,5mg.l-1). Em condições naturais, a concentração de amônia atinge muito raramente, os níveis letais. Para atingir esses níveis devem ocorrer, simultaneamente, elevados valores de pH (>9), temperaturas maiores que 26ºC, e baixos valores de potencial de oxirredução.
• Nitrogênio total

O nitrogênio é um dos elementos mais importantes no metabolismo de ecossistemas aquáticos. Essa importância deve-se, principalmente, à sua participação na formação de

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proteínas, um dos componentes básicos da biomassa. Quando presente em baixas concentrações, pode atuar como fator limitante na produção primária de ecossistemas aquáticos. As principais fontes naturais de nitrogênio podem ser: a chuva, material orgânico e inorgânico de origem alóctone e a fixação de nitrogênio molecular dentro do manancial. O nitrogênio está presente nos ambientes aquáticos sob várias formas: nitrato (NO-3), nitrito ( NO-2), amônia (NH3), íon amônio (NH+4 ), óxido nitroso (N2O), nitrogênio molecular (N2), nitrogênio orgânico dissolvido (peptídeos, purinas, aminas, aminoácidos, etc.), nitrogênio orgânico particulado (bactérias, fitoplâncton, zooplâncton e detritos). Nitrogênio orgânico é definido como aquele nitrogênio organicamente ligado e no estado de oxidação (–3). Inclui materiais naturais, tais como proteínas e peptídeos, ácidos nucléicos, uréias e substâncias orgânicas sintéticas. Ocorrem em águas naturais em concentrações de 10mg.l-1ou menos, e em águas residuárias em concentrações de 10mg.l-1. Antes do desenvolvimento das análises bacteriológicas, a evidência de contaminação das águas, bem como a idade da mesma eram demonstradas pela presença de nitrogênio. Quando a poluição é recente (quando normalmente o perigo para a saúde é maior), o nitrogênio, em geral, está presente na forma de nitrogênio orgânico e amoniacal; se houver condições aeróbias, com o passar do tempo o nitrogênio orgânico e amoniacal passa a formas de nitrito e nitrato. Nos processos de tratamento biológico de águas residuárias, as determinações de nitrogênio são feitas para verificar se a quantidade de nitrogênio presente é suficiente, para o bom desenvolvimento dos microrganismos e para controlar o processo de aeração.
• Óleos e graxas

São considerados óleos e graxas, todas as substâncias capazes de serem extraídas por meio de solvente orgânico em uma amostra acidificada, e que não se volatilizam durante a evaporação do solvente. Óleos e graxas aparecem nas águas sob a forma de emulsão, derivados de resíduos industriais e também de resíduos orgânicos. Certas formas de óleos e graxas derivam da decomposição de plâncton ou de certas formas aquáticas maiores. Os óleos e graxas são insolúveis na água, mas podem ser saponificados ou emulsificados, pela ação de detergentes, álcalis ou outros agentes químicos. Essa análise chama a atenção para certas dificuldades nos tratamentos biológicos anaeróbios e aeróbios. Os óleos e as graxas têm efeitos prejudiciais nas águas, porque eles formam películas que levam à degradação e dificultam a aeração, interferindo nos processos de tratamento de esgotos e águas residuárias. A presença de óleos e graxas em águas de abastecimento pode causar sabor, odor, além de representar perigos para a saúde dos consumidores. Mesmo pequenas quantidades de óleos e

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graxas produzem odor objetável e causam a rejeição do abastecimento de água, antes de aparecerem propriamente problemas de origem sanitária. No tratamento de esgotos, ocasionam dificuldades, pois costumam ser resistentes à digestão anaeróbia, causam acúmulo de espuma nos digestores e, quando em quantidades elevadas, tornam o lodo impróprio para ser usado como fertilizante. Os óleos podem tornar-se nocivos à vida aquática, pela formação de uma película na superfície da água que interfere na reaeração e fotossíntese, quando depositados nas margens do corpo d’água aceleram o processo de degradação ambiental. Também, causam interferência nos processos fisiológicos e celulares, tais como a alimentação e reprodução dos organismos, podendo ocorrer a destruição do plâncton. Além disso, poderá haver modificação das propriedades organolépticas dos peixes e moluscos. A determinação de óleos e graxas é absolutamente quantitativa e a especificidade das substâncias não é medida. • Oxigênio dissolvido Entre os gases dissolvidos na água, o oxigênio (O2), é um dos mais importantes na dinâmica e na caracterização de ecossistemas aquáticos. As principais fontes de oxigênio para a água são a atmosfera e a fotossíntese. Por outro lado, as perdas são devido ao consumo pela decomposição de matéria orgânica (oxidação), perdas para a atmosfera, respiração de organismos aquáticos e oxidação de íons metálicos, como, por exemplo, o ferro e o manganês. A solubilidade do oxigênio na água varia com a temperatura, a pressão atmosférica, a presença de sais minerais, turbulência da água e pressão atmosférica. As flutuações diurnas e sazonais, ocasionadas pela variação de temperatura, atividade fotossintética e descarga do rio, também influenciam na concentração de oxigênio dissolvido na água. A Tabela 4 apresenta a solubilidade do oxigênio na água, em função da temperatura. A fotossíntese consiste no desdobramento de CO2 em carbonato e oxigênio pelas plantas clorofiladas, em presença de luz solar, difusa ou direta. O carbonato é absorvido e o oxigênio é liberado como subproduto da reação de formação de glicose pelas plantas. Pela aeração, o ar atmosférico difunde-se na água aumentando, conseqüentemente, seu teor de oxigênio. O oxigênio dissolvido é necessário para a vida dos peixes e outros animais aquáticos. Águas bem oxigenadas apresentam-se muito agradáveis ao paladar. A desoxigenação ocorre em águas altamente poluídas e em seções estagnadas das redes. A diminuição ou ausência de oxigênio, prova os fenômenos de oxidação e indica uma água de qualidade ruim.

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Tabela 4. Solubilidade do oxigênio dissolvido na água, em equilíbrio com o ar seco à 760mm de Hg e contendo 20,9% de oxigênio

Fonte: Apha, Awwa, WPCF, 1998.

De acordo com a teoria eletroquímica, o oxigênio presente nas águas é o principal agente de corrosão das canalizações de ferro e de outros metais, corrosão que pode ocorrer em pH variando de 5,0 a 9,2, sendo que o pH baixo acelera a ação corrosiva e o pH alto a retarda, mas não inibe.
• pH

O pH ou potencial hidrogeniônico, representa a concentração de íons hidrogênio H+ (em escala antilogarítmica), dando uma indicação sobre a condição de acidez, neutralidade ou alcalinidade da água. A faixa de pH é de 0 a 14.

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Os sólidos e os gases dissolvidos são as formas dos principais constituintes responsáveis pelo pH, que podem ser originados naturalmente, pela dissolução de rochas, absorção de gases da atmosfera, oxidação da matéria orgânica e fotossíntese. Os despejos domésticos (oxidação da matéria orgânica) e os despejos industriais são formas antropogênicas de variação do pH. Os valores de pH afastados da neutralidade podem afetar a vida aquática (ex: peixes). O pH é freqüentemente utilizado como parâmetro para a caracterização de águas de abastecimento brutas e tratadas, de águas residuárias brutas, controle e operação de estações de tratamento de águas e esgotos, e caracterização de corpos d’água. O pH depende da temperatura, a 25ºC, pH 7 é neutro, ou seja, a atividade do íon H+ é equivalente ao íon OH-. O pH neutro a 0ºC é 7,5 e a 60ºC é 6,5. Águas naturais, usualmente, apresentam pH na faixa 4 - 9, e é ligeiramente básico, devido à presença de carbonatos e bicarbonatos. O pH é um fator primordial nos processos de coagulação, desinfecção e abrandamento das águas, bem como, no controle da corrosão e no tratamento biológico dos esgotos e despejos industriais. A determinação do pH, pode ser feita por métodos colorimétricos ou potenciométricos.
• Potencial Oxirredução (Eh)

As reações de oxidação e redução (redox) mediam o comportamento de muitos constituintes químicos em potabilidade, processos e efluentes, assim como, a maioria do comportamento aquático no ambiente. A reatividade e mobilidade de importantes elementos em sistemas biológicos (e.g., Fe, S, N e C), assim como, um número de outros elementos metálicos, dependem das condições da força de redox. Reações envolvendo prótons e elétrons são dependentes do pH e do Eh; então, as reações químicas em meio aquoso, freqüentemente, podem ser caracterizadas pelo pH e Eh, com a atividade de elementos químicos dissolvidos. Assim como o pH, o Eh é um fator de intensidade. Ele não caracteriza a capacidade do sistema para a oxidação ou redução. A diferença de potencial medida em uma solução entre um eletrodo de indicador inerte e um eletrodo de hidrogênio padrão, não deve ser comparado ao Eh, uma propriedade termodinâmica da solução. A suposição de um equilíbrio químico reversível, rápida cinética do eletrodo, e a falta de reações interferentes na superfície do eletrodo são essenciais para a interpretação. Essas condições raramente, ou nunca, são encontradas em águas naturais. Assim, embora a medida do Eh na água seja relativamente direta, muitos fatores limitam a interpretação desses valores. Esses fatores incluem reações irreversíveis, eletrodos contaminados, a presença de pares múltiplos de redox, pequenas correntes de troca, e duplas redox inerte. Os valores de Eh medidos em campo, correspondem pobremente com os valores de Eh calculados da dupla redox presente. Não obstante, medidas de potencial redox, quando correta-

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mente executado e interpretado, são úteis no desenvolvimento de entendimento mais completo da química aquática.
• Sólidos sedimentáveis

A quantidade de sólidos que sedimentam na água é variável e particular para cada curso de água. São constituídos por substâncias cujos pesos específicos são maiores que os da água e, conseqüentemente, tendem a sedimentar causando assoreamento dos corpos d´água. Esses sólidos são provenientes da natureza do terreno, do regime de chuvas, e dos resíduos que a água recebe. Sólidos sedimentáveis constituem o volume de matéria orgânica e inorgânica que sedimenta em 1 hora no Cone Imhoff, causando prejuízos na população presente nos sedimentos, quando inorgânica, e removendo o oxigênio dissolvido na água, quando orgânica. A deposição de material orgânico nos sedimentos pode provocar um desequilíbrio da biota, por meio do aumento de densidade, reduzindo a diversidade. Em monitoramentos, os sólidos sedimentáveis são importantes, à medida que permitem a previsão do comportamento de despejos ao atingirem o corpo d’água. Os resultados de análise são expressos em mL.L-1. Águas superficiais de boa qualidade, em geral, não contêm sólidos sedimentáveis.
• Sólidos totais, dissolvidos e suspensos

Considera-se como sólido total, aquela matéria sólida deixada em um recipiente, após a evaporação de uma amostra de água e sua subseqüente secagem a temperatura determinada. A importância do sólido total em uma água, situa-se no fato de ele afetar o gosto e transmitir propriedades laxativas à água. O limite recomendado para sólido total, situa-se por volta de 500mg.L-1; entretanto, na falta de outro suprimento, pode-se usar água com este teor, ou maior, pois, após algum tempo de uso, o organismo humano acostuma-se e não sofre mais seus efeitos. Os sólidos totais afetam a dureza da água e aumentam o grau de poluição. Águas altamente mineralizadas são inconvenientes, para uso industrial. Quanto à natureza, de maneira geral os sólidos totais, são divididos em sólidos suspensos e sólidos dissolvidos. O sólido total inclui o sólido não filtrável, devido à porção que passa por meio do filtro, e o sólido filtrável correspondente à porção que passa pelo filtro. Os termos sólidos suspensos e sólidos dissolvidos correspondem, respectivamente, à nova terminologia de resíduo não filtrável e resíduo filtrável. A temperatura na qual se seca o resíduo e o tempo gasto na operação tem grandes influências nos resultados, pois poderá haver perda de peso devido: • volatilização da matéria orgânica; • perda de água ocluída mecanicamente;

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• perda de água de cristalização; e • a perda de gases devido à decomposição química pelo calor. Poderá haver acréscimo de peso devido à “oxidação do resíduo”. Resíduos com alto teor de óleos e graxas possuem resultados questionáveis, devido à dificuldade da secagem a peso constante. Em águas naturais, os sólidos suspensos estão constituídos dos detritos orgânicos, plânctons e sedimentos de erosão. Os efeitos na vida aquática são indiretos, à medida que impedem a penetração da luz, reduzem o OD e induzem o aquecimento da água. No controle da poluição de cursos d’água, o conhecimento da concentração de sólidos suspensos é tão significativo quanto o conhecimento da DBO. A condutividade da amostra é, aproximadamente, proporcional ao resíduo filtrável e pode ser usada na seleção de volume de amostra, para análise de resíduos. Entretanto, nem sempre se obtém essa correlação. Os sólidos dissolvidos, em águas naturais, consistem, principalmente, de carbonatos, bicarbonatos, cloretos, sulfetos, fosfatos, nitratos de cálcio, magnésio, sódio e potássio. Os efeitos nocivos que podem causar são: • efeitos adversos em pessoas cardíacas; • toxemia em gestantes; • sobre o gado e aves em geral: diarréia, fraqueza, degeneração dos ossos, produção reduzida de ovos, leite e morte; • efeitos nocivos em geral sobre a vida aquática, relacionados com pressão osmótica; • problemas no solo, modificando as taxas de permeabilidade; • em abastecimento público, está associado à tendência de corrosão em sistemas de distribuição, além de conferir gosto às águas; e • a presença de sais venosos e efeitos sinérgicos entre eles, pode tornar perigosa uma concentração aceitável de sólidos dissolvidos.
• Sulfato

O enxofre em ecossistemas aquáticos pode apresentar-se sob várias formas: íon sulfato -2 -2 (SO 4), íon sulfito (SO 3), íon sulfeto (S2-), gás sulfídrico (H2S), dióxido de enxofre (SO2), ácido sulfúrico (H2SO4), enxofre molecular (S0), associado a metais, etc. Entre as várias formas de enxofre presentes na água, o íon sulfato e o gás sulfídrico, são os mais presentes, sendo que o íon sulfato assume maior importância na produtividade do ecossistema. As fontes de enxofre para os ambientes aquáticos são, principalmente, três: decomposição de rochas, chuvas (lavagem da atmosfera) e agricultura (por meio da aplicação de adubos contendo enxofre).

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O papel principal dos microrganismos no ciclo do enxofre reside na sua participação em dois processos fundamentais: • processos de redução, nos quais ocorre formação de gás sulfídrico e de outras formas reduzidas de enxofre; e • processos de oxidação que resultam na formação de sulfato, a partir, principalmente, da oxidação de gás sulfídrico. O sulfato (SO 4) é amplamente distribuído na natureza e pode estar presente em águas naturais, em concentrações que vão de poucas a várias centenas de miligramas por litro. A -2 drenagem residuária de minas de carvão pode contribuir amplamente com volumes de SO 4, por oxidação. O sódio e o sulfato de magnésio exercem uma ação catalítica. A distribuição do íon sulfato é fortemente influenciada pela formação geológica da bacia de drenagem do sistema. Dessa maneira, a concentração de sulfato pode variar desde valores não detectáveis até valores de saturação. Outro fato importante na determinação da concentração de sulfato é o estágio de evolução do sistema. Naqueles sistemas formados por bacias isoladas e em estágio de evolução senescente, caracterizados pela pouca profundidade e alta evaporação, as concentrações de íons são geralmente altas.
• Sulfeto
-2

O sulfeto aparece nas águas naturais devido à contaminação dessas com resíduos industriais ou com esgoto sanitário. São constituintes de muitos despejos industriais, como os de curtume, celulose, química e de gás. O sulfeto de hidrogênio pode ser gerado pela decomposição anaeróbia do esgoto e de outras matérias orgânicas na água e no lodo. Pode ocorrer, também, em águas de poço e em sistemas de distribuição. Quando adicionados à água, sais de sulfeto dissociam-se em íons sulfetos, que reagem com íons hidrogênio da água formando o HS- ou H2S, sendo a proporção de cada um dependente dos valores de pH. Ao pH 9, cerca de 99% do sulfeto encontram-se na forma de HS-; no pH 7, está igualmente dividido entre HS- e H2S; e ao pH 5, cerca de 99% estão presentes como H2S. É muito solúvel na água. Em águas límpidas, aparece como uma mistura de H2S e HS-, em águas com matéria em suspensão, podem aparecer como compostos metálicos insolúveis. A determinação de pequenas quantidades de sulfeto é difícil, devido à propriedade do H2S e outros sulfetos de serem oxidados a enxofre na presença do ar ou oxigênio. A sua presença é evidenciada pelo odor característico, o qual não se percebe com sulfetos insolúveis ou em solução fortemente alcalina de sulfetos solúveis. O gás sulfídrico é formado, principalmente, a partir da decomposição de compostos orgânicos sulfurosos, como alguns aminoácidos e também da redução do sulfato. A formação de gás sulfídrico a partir de compostos orgânicos é um processo no qual as bactérias saprófitas têm um importante papel. As bactérias podem ocorrer em todo o ecossistema, porém a superfície do sedimento é o local onde se apresentam em maior concentração.

483

Após sua formação, o gás sulfídrico mantém-se ou não, no meio, em função, principalmente, da concentração de oxigênio, Em presença de oxigênio, ele é instável e é oxidado, tanto química, quanto biologicamente. Na ausência de oxigênio, o gás sulfídrico acumula-se no hipolímnio, tornando-se essa porção da coluna de água nociva à maioria dos organismos aquáticos. Assim, o acúmulo de gás sulfídrico pode proporcionar condições ambientais muito desfavoráveis à vida aquática e pode provocar, inclusive, grandes mortandades de peixes, mesmo em ecossistemas desprovidos de qualquer forma de poluição. A toxicidade dos sulfetos é devida principalmente ao H2S. Conseqüentemente, ela aumenta com o decréscimo do pH, uma vez que uma porção maior de H2S é encontrada. Aparece nas águas sob três formas: • sulfeto total: Inclui o gás sulfídrico (H2S) dissolvido e na forma de HS-1, bem como os sulfetos metálicos presentes na matéria em suspensão; • sulfeto dissolvido: Constitui-se do sulfeto remanescente quando a matéria suspensa for removida por floculação; • sulfeto de hidrogênio não-ionizado: Calculado a partir da concentração de sulfeto dissolvido, do pH da amostra e da constante de ionização de H2S.
• Surfactantes

Os detergentes constituem um grupo de produtos de amplo espectro, denominados tensoativos ou surfactantes, que caracterizam-se por serem compostos orgânicos sintéticos com alta afinidade residual em uma extremidade da sua molécula e baixa afinidade residual na outra. Entre os detergentes mais comuns, destaca-se o alquil benzeno sulfonato (ABS) e o alquil linear sulfonato (LAS). O ABS é um detergente surfactante aniônico, de cadeias ramificadas, resistente ao metabolismo biológico. O LAS apesar de ser de 2 a 4 vezes mais tóxico que o ABS, tem sido utilizado como substituinte por ser biodegradável. A presença de detergentes acima dos padrões ambientais pode causar efeitos nocivos tais como: • formação de espumas e turbidez nas águas de abastecimento; • alterações nas propriedades organolépticas da água; • redução da capacidade de oxigenação dos corpos receptores; • afetam a respiração dos peixes, podendo ter efeitos letais; e • interferem no crescimento de algas.

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• Tanino & Lignina

A palavra tanino é um termo técnico que não constitui uma expressão química específica, pertencendo ao grupo de compostos poliidroxidofenólicos diferentes, que se encontram misturados, constituídos por polifenóis simples, carboidratos, aminoácidos e gomas hidroxidolodais e que têm a propriedade de transformar a pele de animais em couro, produção de plásticos, anticorrosivos, cola, floculante, etc. São encontrados em árvores de grande e pequeno porte. Os polifenóis dividem-se em taninos, ligninas e polifenóis simples (polifenóis menores, flavonóides e outros). O tanino forma sais complexos com todos os metais; tendo assim a propriedade de um polímero, posteriormente um floculante. A obtenção de polímeros adequados para uso em tratamento de água e esgoto necessita de características como: solubilidade em água, propriedades eletrolíticas e peso molecular adequado. O tanino pode ser encontrado abundantemente em várias partes das árvores como: raízes, galhos, folhas, flores, frutos e sementes. Ele constitui-se de carboidrato simples, goma hidroxicoloidais, fenóis e aminoácidos. A lignina é um constituinte de planta que freqüentemente é descarregado como resíduo durante a manufatura de papel. O tanino, pode entrar na água por meio de processo da degradação de material vegetal ou pela indústria de curtimento de couros. O tanino também é utilizado na água de caldeiras, como agente dispersante de borras.
• Temperatura

A temperatura é a medição da intensidade de calor. A transferência de calor para a água pode se dar naturalmente por radiação, condução e convecção (atmosfera e solo). As águas podem sofrer alterações de origem antropogênica (águas de torres de resfriamento, despejos industriais, outras atividades). Variações de temperatura são parte do regime climático normal, e corpos d’água naturais apresentam variações sazonais e diurnas, bem como estratificação vertical. A temperatura superficial é influenciada por fatores tais como latitude, altitude, estação do ano, período do dia, taxa de fluxo e profundidade. A temperatura da água varia pouco, e de forma lenta, durante o dia, garantindo a sobrevivência dos organismos aquáticos. Mudanças na temperatura podem resultar em modificações, em outras propriedades da água: • a viscosidade da água reduz-se com a elevação da temperatura, podendo ocorrer o afundamento de muitos microorganismos aquáticos, principalmente do fitoplâncton; • reduções na temperatura da água causam o aumento da sua densidade. Esse fenômeno ocorre até a temperatura de 4ºC, abaixo da qual a densidade diminui. A água possui densidade máxima a 4ºC; • quanto maior a temperatura, menor o teor de oxigênio dissolvido na água; e

485

• as elevações da temperatura aumentam a taxa das reações químicas e biológicas (na faixa usual de temperatura), diminuem a solubilidade dos gases, aumentam a taxa de transferência de gases (o que pode gerar mau cheiro, no caso da liberação de gases com odores desagradáveis). Leituras de temperatura são usadas no cálculo de várias formas de alcalinidade, em estudos de saturação e estabilidade com respeito a carbonato de cálcio, no cálculo de salinidade, e em procedimentos gerais de laboratório. Em estudos de limnologia, a temperatura de água como uma função de profundidade é freqüentemente requerida. Temperaturas elevadas em rios podem ser o resultado de descargas de água aquecida, causando impactos ecológicos significantes.
• Transparência

A transparência da água tem grande importância ecológica, pois, em função da mesma, os raios solares podem penetrar a maior ou menor profundidade, e, em função disso, pode ocorrer maior ou menor atividade fotossintética. A elevação da cor ou da turbidez da água causa a diminuição da transparência, reduzindo a fotossíntese e, em conseqüência, o teor de oxigênio dissolvido, causando impactos sobre os organismos aquáticos aeróbios. A transparência da coluna d’água pode variar, desde alguns centímetros até dezenas de metros. Essa região da coluna d’água é denominada zona eufótica e sua extensão depende, principalmente, da capacidade do meio em atenuar a radiação subaquática. O limite inferior da zona eufótica é, geralmente, assumido como sendo aquela profundidade onde a intensidade da radiação corresponde a 1% da que atinge a superfície. A produtividade aquática será mais elevada, em especial do fitoplâncton, onde a zona eufótica tiver maior profundidade, ou seja, na faixa que vai até o ponto de máxima profundidade atingida pela luz e onde ainda seja possível ocorrer a fotossíntese. Do ponto de vista ótico, a transparência da água pode ser considerada o oposto da turbidez. Sua avaliação de maneira mais simples é feita por meio de um disco, denominado disco de Secchi. O disco de Secchi consiste de um prato chato de 20 a 30cm de diâmetro, de certo peso, suficiente para afundar, pintado de branco ou em 4 partes intercaladas de branco e preto, preso ao centro por um cordão ou bastão, com escala. A medida é obtida mergulhando-se o disco branco no lado da sombra do barco. A profundidade de desaparecimento do disco de Secchi corresponde àquela profundidade na qual a radiação refletida do disco não é mais sensível ao olho humano. A profundidade obtida, em metros, é denominada transparência de disco de Secchi. Certas ocorrências naturais influenciam na transparência da água e na sua própria qualidade, como é o caso da presença de substâncias “colorizantes” (ácidos húmicos, fúlvicos, toxinas de algas, etc.), que atuam como “quelantes”, estando associadas, principalmente, à manutenção de metais dissolvidos no meio líquido.

486

Os metais reduzem a capacidade autodepuradora das águas, além de poder apresentar ações tóxicas sobre os microorganismos responsáveis pela regeneração, ou seja, pelo processo de decomposições orgânicas e inorgânicas, ocorridas nos sistemas hídricos. Também, a concentração de partículas em suspensão (argila, areia, silte, plânctons, etc.), dispostas no meio líquido, influem na capacidade de penetração da luz.
• Turbidez

É definida como a medida da interferência à passagem da luz, provocada pelas matérias em suspensão, ocasionando a reflexão e a absorção da luz. Diz-se que uma água é turva quando ela contém substâncias visíveis em suspensão, que perturbam a sua transparência. Depende da granulometria e da concentração das partículas. Partículas grandes, mesmo em concentração elevada, acusam pequena turbidez, enquanto partículas menores acusam maior turbidez. Exemplos de matérias em suspensão são: sílica, argila, matéria orgânica e inorgânica finamente dividida, plânctons e outros microorganismos. Esses materiais ocorrem em tamanhos diversos, variando desde as partículas maiores que se depositam (tamanho superior a 1µm), até as que permanecem em suspensão por muito tempo (como é o caso das partículas coloidais). A turbidez, também pode ser devida à presença de pequenas bolhas de ar. A turbidez é esteticamente desagradável na água potável, e os sólidos em suspensão podem servir de abrigo para microorganismos patogênicos. Quando a origem for antropogênica pode ser por despejos domésticos, despejos industriais, microorganismos, e processos erosivos, e pode estar associada a compostos tóxicos e organismos patogênicos. Em corpos d’água, pode reduzir a penetração da luz, prejudicando a fotossíntese. A turbidez excessiva diminui a penetração da luz na água e, com isso, reduz a fotossíntese dos organismos aquáticos (fitoplâncton, alga e vegetação submersa). Os materiais que se sedimentam preenchem os espaços entre pedras e pedregulhos do fundo, eliminando os locais de desovas de peixes e o hábitat de muitos insetos aquáticos e outros invertebrados, afetando a produtividade dos peixes. A água destinada direta ou indiretamente ao consumo humano ou a processos industriais deve estar isenta de turbidez. O uso recreacional da água também é afetado pela turbidez. A turbidez interfere na desinfecção da água, pois a matéria em suspensão, pode envolver os organismos e dificultar a ação desinfetante. A turbidez ocasiona também, a formação de lodo extra nas estações de tratamento.
• Coliformes totais e fecais (Coliformes termotolerantes)

A água é normalmente habitada por vários tipos de microorganismos de vida livre e não parasitária, que dela extraem os elementos indispensáveis a sua subsistência. Ocasionalmente, são aí introduzidos organismos parasitários e/ou patogênicos que, utilizando a água como veículo, podem causar doenças, constituindo, portanto, um perigo sanitário potencial. A quase totalidade dos seres patogênicos é incapaz de viver em sua forma adulta ou reproduzirse fora do organismo que lhe serve de hospedeiro e, portanto, tem vida limitada quando se encontram na água, isto é, fora do seu hábitat natural.

487

Entre os principais tipos de organismos patogênicos que podem encontrar-se na água, estão as bactérias, vírus, protozoários e helmintos. Devido à grande dificuldade e o elevado custo para identificação dos vários organismos patogênicos encontrados na água, dá-se preferência, para isso, a métodos que permitam a identificação de bactérias do “grupo coliforme” que, por serem habitantes normais do intestino humano, existem, obrigatoriamente, em águas poluídas por matéria fecal. As bactérias coliformes são normalmente eliminadas com a matéria fecal, à razão de 50 a 400 bilhões de organismos por pessoa/dia. Dado o grande número de coliformes existentes na matéria fecal (até 300 milhões por grama de fezes), os testes de avaliação qualitativa desses organismos na água têm uma precisão ou sensibilidade muito maior do que a de qualquer outro teste. A determinação da concentração dos coliformes assume importância como parâmetro indicador da possibilidade da existência de microorganismos patogênicos, responsáveis pela transmissão de doenças de veiculação hídrica, tais como, febre tifóide, febre paratifóide, desinteria bacilar e cólera. Os coliformes totais (bactérias do grupo coliforme), são bacilos gram-negativos, aeróbios ou anaeróbios facultativos, não formadores de esporos, oxidase-negativos, capazes de desenvolver-se na presença de sais biliares ou agentes tensoativos que fermentam a lactose com produção de ácido, gás e aldeído a 35,0 ± 0,5ºC em 24-48 horas, e que podem apresentar atividade da enzima ß -galactosidase. A maioria das bactérias do grupo coliforme pertence aos gêneros Escherichia, Citrobacter, Klebsiella e Enterobacter, embora vários outros gêneros e espécies pertençam ao grupo. As bactérias do grupo coliforme são consideradas as principais indicadoras de contaminação fecal. Estão associadas com as fezes de animais de sangue quente e com o solo. Coliformes termotolerantes pertencem ao subgrupo das bactérias do grupo coliforme que fermentam a lactose a 44,5 ± 0,2ºC em 24 horas; tendo como principal representante a Escherichia coli, de origem exclusivamente fecal. O uso das bactérias coliformes termotolerantes, para indicar poluição sanitária, mostra-se mais significativa que o uso da bactéria coliforme “total”, porque as bactérias fecais estão restritas ao trato intestinal de animais de sangue quente. Escherichia coli é uma bactéria do grupo coliforme, que fermenta a lactose e manitol, com produção de ácido e gás a 44,5 ± 0,2ºC em 24 horas, produz indol a partir do triptofano, oxidase negativa, não hidroliza a uréia e apresenta atividade das enzimas ß galactosidase e ß glucoronidase, sendo considerada a mais específica indicadora de contaminação fecal recente, e de eventual presença de organismos patogênicos. As bactérias do grupo coliforme não são patogênicas, mas dão uma satisfatória indicação de quando uma água apresenta contaminação por fezes humanas ou de animais e, por conseguinte, a sua potencialidade para transmitir doenças. A experiência estabelece o significado da densidade do grupo coliforme, como um critério de degradação da poluição e assim, da qualidade sanitária. É o principal indicador de água para

488

uso doméstico, industrial, balneabilidade e outros. O significado dos testes e a interpretação dos resultados são bem autenticados, e têm sido utilizados como uma base para a qualidade bacteriológica padrão da água.
• Estreptococos fecais

O reconhecimento do grupo dos estreptococos fecais como indicador de poluição fecal data de 1910, porém sua utilização só se fez efetiva em 1955, com a introdução de meios de cultura contendo azida sódica. Os estreptococos fecais fornecem dados adicionais a respeito da qualidade bacteriológica da água. Geralmente, sua ocorrência sugere poluição fecal e sua ausência indica pequena ou nenhuma poluição por animais de sangue quente. Normalmente, os estreptococos fecais não ocorrem em águas e solos de áreas não poluídas e a pouca incidência está relacionada diretamente a animais de vida selvagem ou à drenagem dos solos por enxurradas, Embora possam persistir por longos períodos em águas de irrigação com alto teor eletrolítico, geralmente não se multiplicam em águas poluídas. O grupo dos estreptococos fecais engloba um largo espectro de espécies com alto grau de resistência às variações ambientais, conseguindo sobreviver em temperatura de 60ºC durante 30 minutos e crescer em temperaturas de 10 a 45ºC, pH de até 9,6 e, em meios com altas concentrações de cloreto de sódio. Os S. bovis e S. equinus são mais sensíveis do que qualquer outro grupo de bactérias indicadoras de poluição, resistindo somente 24 horas na água. Pesquisas realizadas demonstram que, quando a relação C.F. / E.F. for superior a 4, a poluição fecal é provavelmente de origem humana e, se for inferior a 0,7, provavelmente é de origem animal. Essa relação só pode ser aplicada para números superiores a 100 estreptococos fecais por 100 mL da amostra.
ÍNDICES DE QUALIDADE

Para realizar a interpretação da qualidade das águas de rios, poderão ser utilizados índices, tais como o IQACetesb e o IQA Smith:
Índice de Qualidade da Água modificado pela Cetesb (IQACetesb)

Com o intuito de facilitar a interpretação das informações de qualidade de água de forma abrangente e útil, para especialistas ou não, é fundamental a utilização de índices de qualidade. Dessa forma, a Cetesb, a partir de um estudo realizado em 1970 pela National Sanitation Foundation (NSF) dos EUA, adaptou e desenvolveu o Índice de Qualidade das Águas (IQA). Esse índice vem sendo utilizado para avaliar a qualidade das águas do Estado de São Paulo. No entanto, o IQA apresenta algumas limitações como a possibilidade de superestimar a qualidade da condição real do recurso hídrico. O IQA incorpora nove parâmetros, que são

489

considerados relevantes para a avaliação da qualidade das águas, tendo como determinante principal, a utilização das mesmas para abastecimento público. A curvas de variação, sintetizadas em um conjunto de curvas médias para cada parâmetro, bem como seu peso relativo correspondente, são apresentados na Figura 2. O IQA é calculado pelo produtório, que pondera as qualidades de água correspondentes aos parâmetros: temperatura da amostra, pH, oxigênio dissolvido, DBO5,20, coliforme fecal, nitrogênio total, fósforo total, resíduo total e turbidez. A seguinte fórmula é utilizada para o produtório:

onde: IQA: Índice de Qualidade das Águas, um número entre 0 e 100; qi: qualidade do i-ésimo parâmetro, um número entre 0 e 100, obtido da respectiva “curva média de variação de qualidade”, em função de sua concentração ou medida; wi: peso correspondente ao i-ésimo parâmetro, um número entre 0 e 1, atribuído em função da sua importância para a conformação global de qualidade, sendo que:

em que: n: número de parâmetros que entram no cálculo do IQA.

490

Figura 2. Curvas Médias de Variação de Qualidade das Águas

Fonte: Cetesb, 2002.

No caso de não se dispor do valor de algum dos 9 parâmetros, o cálculo do IQA pode ser realizado redistribuindo-se o peso de tal parâmetro entre os demais. A partir do cálculo efetuado, pode-se determinar a qualidade das águas brutas que, indicada pelo IQA, em uma escala de 0 a 100, é classificada para abastecimento público, segundo a graduação a seguir: • Qualidade ótima • Qualidade boa • Qualidade regular 79 < IQA ≤ 100 51 < IQA ≤ 79 36 < IQA ≤ 51

491

• Qualidade ruim • Qualidade péssima
Índice de Qualidade da Água de Smith (IS)

19 < IQA ≤ 36 IQA ≤ 19

Trata-se de um índice composto de dois ou mais subíndices, em escala decrescente, onde IS = min (I1, I2....In), diferentemente do produto ponderado do IQA modificado pela Cetesb, as funções do operador mínimo nunca tocam os dois eixos das ordenadas e abscissas. Portanto, não ocorre o eclipsamento e não existe região ambígua. O eclipsamento reflete uma subestimação, ao invés de exagero do nível de poluição. O eclipsamento ocorre quando existe uma qualidade ambiental extremamente ruim de pelo menos uma das variáveis poluentes, mas o índice geral não reflete esse fato. Por outro lado, a ambigüidade tende a exagerar a poluição. Região ambígua: área cujo índice excede um padrão sem que os subíndices excedam o padrão. Nessa área, a soma linear exagera a severidade de um problema de poluição. A fórmula utilizada na aplicação do IQA Smith é a seguinte: IS = min {I1,I2....In} Onde: IS = Valor do Índice de Smith; min = menor valor entre; Ii = Valores dos Subíndices do IQA modificado pela Cetesb, valores entre 0 e 100. O IQA Smith é utilizado para explicitar o parâmetro que apresentar pior qualidade. Na aplicação do IQA Smith, é utilizado o menor Subíndice encontrado no IQA modificado pela Cetesb. A partir do cálculo do IQA Smith, pode-se determinar a qualidade das águas brutas que, assim como para o IQA modificado pela Cetesb, é indicada em uma escala de 0 a 100.
CARACTERÍSTICAS DA ÁGUAS DE ALGUNS RIOS DA BAP

A seguir, são apresentados alguns resultados (Tabela 5), da avaliação da qualidade da água realizada para o Projeto Implementação de Práticas de Gerenciamento Integrado de Bacia Hidrográfica para o Pantanal e Bacia do Alto Paraguai, para a ANA/GEF/Pnuma/OEA. Outros resultados poderão ser vistos em: <http://www.ana.gov.br/gefap/arquivos/Resumo%20Executivo%20Subprojeto%201.5.pdf>

492

Tabela 5. Resultados das análises físico-químicas e bacteriológicas, de algumas amostras coletadas no rio Paraguai (continua)
RIO LOCAL COORDENADAS PARÂMETROS Data da coleta Hora da coleta Temperatura do ar Temperatura da água Acidez total Alcalinidade total Clorofila-a Cloreto total Condutividade Cor DBO5,20 DQO Dureza total Fósforo total Fósforo dissolvido total Fósforo suspenso total Fósforo reativo Nitrogênio total Kjeldahl Amônia Nitrogênio orgânico Nitrito Nitrato Óleos e graxas Oxigênio dissolvido pH Potencial oxirredução Sólidos totais Sólidos fixos totais Sólidos voláteis totais Sólidos dissolvidos totais Sólidos dissolvidos fixos totais Sólidos dissolvidos vol. totais Sólidos suspensos totais Sólidos suspensos fixos totais UNIDADES dia h … C … C mg.L-1 CaCO3 mg.L CaCO3 mg.m-3 Clor-a mg.L-1 Cl_S.cm-1 mg.L-1 Pt mg.L O2 mg.L-1 O2 mg.L-1 CaCO3 mg.L-1 PO4-3 mg.L-1 PO4-3 mg.L-1 PO4-3 mg.L PO4 mg.L N mg.L-1 NH3 mg.L-1 N mg.L-1 NO2mg.L-1 NO3mg.L-1 mV mg.L-1 ST mg.L-1 SFT mg.L-1 SVT mg.L SDT mg.L-1 SDFT mg.L-1 SDVT mg.L-1 SST mg.L SSFT
-1 -1 -1 -1 -3 -1 -1

Rio Paraguai Bela Vista do Norte 17º38’31,8" S 57º41’15,8" W Amostra Pontual 2/12/02 18:15 31 31 33 21 2,7 2,7 36 5 1,0 20,7 16 0,42 0,36 0,06 0,12 0,90 0,60 0,41 0,013 0,80 3,30 6,3 7,5 204 72 62 10 12 8 4 60 54

Rio Paraguai Porto José Dias 17º51'21,0" S 57º31'52,8" W Amostra Pontual 3/12/02 7:45 33 32 37 20 3,1 6,8 41 8 0,9 33,7 18 0,43 0,37 0,06 0,12 1,40 1,00 0,58 0,005 1,10 3,66 6,0 7,6 225 110 78 32 72 50 22 38 28

Rio Paraguai Amolar 18º24'43,5" S 57º21'40,8" W Amostra Pontual 3/12/02 10:00 29 31 32 20 0,7 4,2 36 10 1,2 20,7 16 0,52 0,33 0,19 0,11 2,70 0,80 2,04 0,003 1,00 3,11 5,7 7,3 208 158 100 58 70 30 40 88 70

OG

mg.L-1 O2

493

(conclusão)
RIO LOCAL COORDENADAS PARÂMETROS Sólidos suspensos vol. totais Sólidos sedimentáveis Sulfato total Sulfeto total Tanino & Lignina Transparência Turbidez Coliformes totais Coliformes fecais Fonte: Ide, 2004. UNIDADES mg.L-1 SSVT mL.L-1 SS mg.L-1 SO4-2 mg.L
-1

Rio Paraguai Bela Vista do Norte 17º38’31,8" S 57º41’15,8" W Amostra Pontual 6 <0,1 1,0 0,066 0,9 30 55 6,1E+02 2,0E+01

Rio Paraguai Porto José Dias 17º51'21,0" S 57º31'52,8" W Amostra Pontual 10 <0,1 3,0 0,110 1,7 25 117 1,4E+03 4,2E+01

Rio Paraguai Amolar 18º24'43,5" S 57º21'40,8" W Amostra Pontual 18 <0,1 1,0 0,076 1,3 30 89 8,2E+02 4,2E+01

S-2

mg.L-1 Ac. T n. cm UNT NMP/100mL NMP/100mL

No rio Paraguai, os valores do subíndice q7, referente à turbidez, foram os mais baixos dos nove parâmetros que compõem o IQA (Tabela 6).
Tabela 6. Resultados do IQA modificado pela Cetesb e IQA Smith para o rio Paraguai (continua)
Subíndices Pesos (Wi) Bela Vista do Norte Porto José Dias Amolar Porto Sucuri Barranqueira Ladário Montante da foz do rio Abobral Porto Esperança Forte Coimbra Montante do rio Negro (Paraguai) q1 0,17 89,1 87,2 83,2 84,3 85,9 85,3 79,5 q2 0,15 57,7 49,1 49,1 51,2 52,5 59,7 65,2 q3 0,12 92,2 92,0 92,5 91,8 92,4 92,4 92,5 q4 0,1 88,4 89,5 86,2 91,7 85,2 90,6 73,4 q5 0,1 92,9 89,2 80,2 86,3 83,5 89,2 87,0 q6 0,1 88,1 87,8 85,5 86,8 87,8 84,5 84,5 q7 0,08 35,1 5,0 20,1 25,9 26,4 25,4 28,0 q8 0,08 86,1 84,8 79,7 85,6 82,5 85,7 86,0 q9 0,1 92,5 92,5 92,5 92,5 92,5 92,5 92,5 78,0 64,7 70,2 73,6 73,4 75,4 74,4
BOA

IQA

IQA 35,1 5,0 20,1 25,9 26,4 25,4 28,0

RUIM

BOA BOA BOA

PÉSSIMA RUIM RUIM

BOA BOA

RUIM RUIM

BOA

RUIM

79,5 81,9

57,1 65,2

92,0 92,5

87,3 81,1

89,2 87,0

84,8 85,3

27,5 25,9

78,0 77,2

92,5 92,5

73,7 74,5

BOA

27,5 25,9

RUIM

BOA

RUIM

80,8

67,2

91,2

91,7

85,6

86,3

29,9

82,5

92,5

76,7

BOA

29,9

RUIM

494

(conclusão)
Subíndices Pesos (Wi) Barranco Branco Fecho dos Morros Montante de Porto Murtinho Porto Murtinho Montante do rio Apa q1 0,17 88,3 82,0 78,0 82,0 79,5 q2 0,15 55,0 69,0 61,2 59,0 67,2 q3 0,12 91,8 89,3 91,8 90,3 91,8 q4 0,1 82,1 94,0 92,8 87,3 92,8 q5 0,1 86,3 86,3 88,4 86,3 86,3 q6 0,1 85,5 87,3 85,5 84,8 86,0 q7 0,08 26,0 25,3 24,7 26,6 26,9 q8 0,08 86,1 85,2 86,0 85,6 70,2 q9 0,1 92,5 92,5 92,5 92,5 92,5 74,2 76,5 74,6 74,4 75,0
BOA

IQA

IQA 26,0 25,3 24,7 26,6 26,9

RUIM

BOA

RUIM

BOA

RUIM

BOA

RUIM

BOA

RUIM

Legenda: Qualidade Ótima Qualidade Boa Qualidade Regular Qualidade Ruim Qualidade Péssima Valor responsável pelo IQASmith

Os subíndices representam: q1 = Oxigênio dissolvido, em % de saturação q2 = Coliformes fecais q3 = pH q4 = DBO5,20 q5 = Nitrogênio Total q6 = Fosfato total q7 = Turbidez q8 = Resíduo total q9 = Temperatura
Fonte: Ide, 2004.

A Tabela 7 mostra a classe das águas do rio Paraguai, em dezembro de 2002, de cada ponto de coleta, por parâmetro, e o enquadramento geral, segundo a Resolução Conama nº 20/86.

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Tabela 7 – Classificação conforme a Resolução Conama nº 20/86,dos pontos de coleta do rio Paraguai
Pontos Bela Vista do Norte Porto José Dias Amolar Porto Sucuri Barranqueira Ladário Mont. da foz do rio Abobral Porto Esperança Forte Coimbra Mont. do rio Negro (Paraguai) Barranco Branco Fecho dos Morros Mont. de Porto Murtinho Porto Murtinho Mont. do rio Apa CF CT DBO5,20 OD Tb pH Cor SDT SO4-2 H2 S Cl NH3 NO2NO3P OG Classe

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

1 2 1 2 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

1 1 2 2 1 2 2 2 2 2 1 2 2 2 2

2 4 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

3 3 3 3 3 3 3 3 3 1 1 1 3 1 3

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4

Fonte: Ide, 2004.

METAIS PESADOS

A crescente expansão demográfica e industrial observada nas últimas décadas trouxe como conseqüência o comprometimento das águas dos rios, lagos e reservatórios. A falta de recursos financeiros nos países em desenvolvimento tem agravado esse problema, pela impossibilidade da aplicação de medidas corretivas para reverter a situação. Como as várias formas de metais pesados geralmente exibem diferentes propriedades químicas, a medida das concentrações individuais é uma prova inestimável para o entendimento de suas importâncias geoquímicas e interações biogeoquímicas.
Metais em águas

A presença de metais no ambiente aquático em concentrações elevadas causa a mortalidade de peixes e comunidades bentônica, perifítica, planctônica, nectônica e seres fotossintetizantes. As quantidades elevadas de matéria orgânica não-degradada (de origem autóctone) geradas na bacia de drenagem, juntamente com os metais pesados, entre muitos outros agentes de

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caráter perturbativo ao equilíbrio natural, causam uma intensa alteração na vida aquática. A ação química dos metais pesados tem despertado grande interesse ambiental. Isso se deve, em parte, ao fato de não possuírem caráter de biodegradabilidade, o que determina que permaneçam em ciclos biogeoquímicos globais nos quais as águas naturais são seus principais meios de condução, podendo-se acumular na biota aquática em níveis significativamente elevados. Os sedimentos depositados nos corpos d’água não são somente os maiores poluentes da água por peso e volume, mas também os grandes transportadores de pesticidas, resíduos orgânicos, nutrientes e organismos patogênicos que, quando em excesso, provocam alterações nos ecossistemas aquáticos, reduzindo a qualidade da água. Em ambientes onde a coluna d'água possui pouca profundidade, a taxa de intercâmbio de espécies solúveis pode até dobrar pela ação dos ventos, que provocam a ressuspensão de sedimentos. Os metais, em depósitos de sedimentos recentes, geralmente são divididos em duas categorias de acordo com a sua origem predominante: litogênico e antropológico, ou seja, referida simplesmente como geoquímica e os oriundos de atividades humanas, respectivamente. Para realizar o controle da poluição das águas dos rios, utilizam-se os padrões de qualidade, que definem os limites de concentração a que cada substância presente na água deve obedecer. Na Tabela 8, estão apresentados os padrões de qualidade para os metais monitorados na BAP, segundo a Resolução Conama nº 20/86.
Tabela 8. Padrões de qualidade de metais – teores máximos (valores em mg.l-1)
Parâmetro Alumínio Cádmio Chumbo Cobalto Cobre Cromo III Manganês Mercúrio Níquel Prata Zinco Fonte: Conama, 1986. — — — CLASSES Especial — — — — — 1 0,1 0,001 0,03 0,2 0,02 0,5 0,1 0,0002 0,025 0,01 0,18 2 0,1 0,001 0,03 0,2 0,02 0,5 0,1 0,0002 0,025 0,01 0,18 3 0,1 0,01 0,05 0,2 0,5 0,5 0,5 0,002 0,025 0,05 5,0 — — — 4 — — — — —

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Metais em sedimentos

O sedimento é a partícula derivada da rocha, ou materiais biológicos, que pode ser transportada por fluido; é a partícula derivada da fragmentação das rochas, por processos físicos e/ou químicos, e que é transportada pela água ou pelo vento do lugar de origem aos rios e aos locais de deposição; é o material sólido em suspensão na água ou depositado no leito. O sedimento é o compartimento do sistema aquático onde se depositam todos os compostos minerais, estruturas de animais e vegetais que não foram totalmente decompostas. Dessa maneira, ao longo da evolução de um sistema aquático, formam-se camadas no sedimento, contendo compostos químicos e estruturas biológicas que representam as diferentes fases desse processo. Além desses, os agrotóxicos e os metais pesados também se depositam nos sedimentos, podendo ser utilizados como indicadores da contaminação ambiental. A sua distribuição na vertical é um importante indicador da evolução da poluição em ambientes aquáticos. A maioria dos ecossistemas sedimentares distingue-se por duas camadas: a recente ou biológica e a permanente. A camada recente de sedimento, geralmente com maior concentração de matéria orgânica, é a que está em contato direto com a coluna d’água e corresponde à parte do sedimento biologicamente mais ativa. Possui, pelo alto teor de matéria orgânica, maior densidade de organismos bentônicos e grande atividade microbiana. O sedimento atua como portador de outros poluentes. Os sedimentos de fundo desempenham o papel mais importante no esquema de poluição de sistemas de rios por metais pesados. Eles refletem a quantidade corrente do sistema aquático e podem ser usados para detectar a presença de contaminantes que não permanecem solúveis, após o seu lançamento em águas superficiais. Mais do que isso, os sedimentos agem como carregadores e possíveis fontes de poluição, pois os metais pesados não são permanentemente fixados por eles e podem ser redispostos na água, em decorrência de mudança nas condições ambientais, tais como: pH; potencial redox ou presença de quelantes orgânicos. As propriedades de acúmulo e de redisposição de espécies nos sedimentos, os qualificam como de extrema importância em estudos de impacto ambiental, pois registram, em caráter mais permanente, os efeitos de contaminação. A capacidade do sedimento em acumularem compostos faz desse compartimento, um dos mais importantes na avaliação do nível de contaminação de ecossistemas aquáticos continentais. Os compostos indicadores de contaminação ambiental encontrados no sedimento podem ser orgânicos, como inseticidas e herbicidas ou inorgânicos como os metais pesados. Além da concentração de elementos-traço (metais pesados) no sedimento, sua distribuição vertical é um importante indicador da evolução da poluição em ambientes aquáticos. Para esse tipo de análise a retirada de amostras de sedimento em perfis verticais (“core”) é de fundamental importância. Esse procedimento permite obter amostras não-perturbadas, possibilitando assim identificar as diferentes camadas do material sedimentado. A análise dos sedimentos tem sido usada há muito tempo como indicador da poluição por metais pesados, devido a sua habilidade de integrar as descargas liberadas no sistema. A deposição

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dos metais pesados nos sedimentos dos rios deveria ser observada cuidadosamente em um programa de monitoramento, de forma a avaliar sua dispersão, disponibilidade e absorção pela biota. Como as várias formas de elementos-traços (metais pesados) geralmente exibem diferentes propriedades químicas, as concentrações individuais são uma prova inestimável para o entendimento de suas importâncias geoquímicas e interações biogeoquímicas. No Brasil, a utilização de mercúrio na amalgamação do ouro tem causado sérios problemas de natureza ambiental. O mercúrio liberado para a água do rio deposita-se no sedimento, onde permanece praticamente inalterado. O sedimento funciona como um sumidouro de metais pesados e princípios ativos dos agrotóxicos, que poderão ser disponibilizados, caso haja alterações das condições de contorno. Organismos bentônicos e macrófitos, podem sofrer a ação dos materiais retidos nos sedimentos. Os organismos bentônicos podem, por meio de sua atividade no sedimento, disponibilizar, para a coluna de água, os poluentes retidos. Esses organismos podem ser consumidos por outros organismos aquáticos e entrar na cadeia alimentar. Um dos aspectos mais graves da contaminação com metais pesados é a sua amplificação biológica, nas cadeias tróficas. No ecossistema aquático, os metais estão distribuídos em quatro reservatórios abióticos: o material suspenso, o sedimento, as águas superficiais e as águas intersticiais. Os metais podem ser acumulados em lagos e rios por meio dos sedimentos, entretanto, mudanças nas condições ambientais, tais como temperatura e regime hídrico, podem alterar a biodisponibilidade, o carreamento de partículas de solo e sua deposição nos corpos d’água, aumentando a turbidez da água e o assoreamento da calha, alterando a concentração de íons e a condutividade elétrica, repercutindo de forma significativa no teor de oxigênio dissolvido, e no pH da água, afetando os organismos autótrofos. A Tabela 9, apresenta uma diretriz para classificação dos sedimentos da enseada dos Grandes Lagos (EUA) e da Resolução Conama nº 344/2004.
Tabela 9. Diretriz para classificação de poluição para sedimentos da enseada dos Grandes Lagos – EUA e Resolução Conama nº 344/04
Elemento Arsênio Bário Cádmio Cromo Cobre Ferro Chumbo Manganês Mercúrio Níquel Zinco 25 25 17000 40 300 1 20 90 20-50 90-200 25-75 25-50 17000-25000 40-60 300-500 Não poluídos* Moderadamente* Muito poluído* (menor que) poluído (maior que) (mg.kg-1) (mg.kg-1) (mg.kg-1) 3 20 3-8 20-60 8 60 6 75 50 25000 60 500 1 50 200 0,17 18 123 0,486 35,9 315 35 91,3 0,6 37,3 35,7 Resolução Conama nº 344/04 Nível 1 (mg.kg-1) 5,9 Nível 2 (mg.kg-1) 17 — 3,5 90 197

*Classificação de poluição para sedimentos das enseadas dos Grandes Lagos (concentração em mg.kg-1). Fonte: Mudroch e Azcue, 1995.

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CARACTERÍSTICAS DE ALGUNS METAIS Alumínio

O alumínio, pertencente ao Grupo III-A, é nitidamente metálico, sendo o terceiro metal em abundância na crosta terrestre. A maior parte do alumínio ocorre nos aluminossilicatos, tais como: argilas, micas e feldspatos. O mineral de alumínio mais abundante é a bauxita, que é óxido de alumínio hidratado impuro (Al2O3.H2O). Este é separado de suas impurezas, essencialmente óxido de ferro (III) e dióxido de silício, pelo processo Bayer, no qual o óxido de alumínio é inicialmente dissolvido em hidróxido de sódio concentrado a quente. O óxido férrico (um óxido básico) é insolúvel, mas o dióxido de silício (ácido) e o óxido de alumínio (anfótero) dissolvem-se. O óxido de alumínio dissolve-se formando o íon aluminato, pela seguinte reação:
Al2O3(s) + 2 OH-(aq) + 3 H2O — 2Al(OH)3(aq)

O alumínio é muito utilizado em indústrias automobilísticas e também nas estruturas das ligas que incorporam pequenas quantidades de cobre, silício e manganês, entre outros metais.
Cálcio

Os elementos do grupo II-A, do qual faz parte o cálcio, têm, todos, dois elétrons nos orbitais mais externos. Exibem muitas semelhanças entre si e uma variação gradual nas propriedades à medida que o tamanho do átomo aumenta. Os metais alcalino-terrosos têm brilho branco acinzentado, quando são cortados recentemente, com exceção do berílio. O cálcio ocorre nos minerais gipsita (CaSO4), apatita (CaF2, 3Ca3(PO4)2), e em enormes quantidades na dolamita (MgCO3), no giz, calcários e mármores, que são as diversas formas do carbonato de cálcio (CaCO3). Os sais de cálcio ocorrem na maioria das águas naturais e são componentes essenciais, tanto dos tecidos das plantas, como dos animais, e das conchas e ossos. Em seu uso, o cálcio é aproveitado, principalmente, na forma livre, por sua grande reatividade com oxigênio.
Cádmio

É um metal branco, brilhante, bastante maleável, ocorrendo amplamente na natureza como sulfeto, ou cádmio combinado, geralmente com uma impureza em minério de zinco-chumbo. O cádmio é usado na natureza para ligar-se com cobre, chumbo, prata, alumínio e níquel. É, também, usado em galvanização, cerâmica, pigmentação, baterias, fotografia e reatores nucleares. Sais de cádmio são, muitas vezes, empregados como inseticidas e antielmínticos. Ainda que cloreto, nitrato e sulfato de cádmio sejam altamente solúveis em água, o carbonato e o hidróxido são insolúveis, assim, para altos valores de pH haverá precipitação do cádmio. Os sais de cádmio podem ser encontrados em resíduos de plantas de galvanização, trabalhos com pigmentos, estampagem têxtil, minas de chumbo e indústrias químicas. O consumo de sais de cádmio em casos de intoxicação inicial causa câimbras, náuseas, vômitos e diarréia. O cádmio tende a se concentrar no fígado, rins, pâncreas e tireóide de

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pessoas e animais. Uma vez que entra no organismo, é provável que permaneça. Normalmente, muitas plantas e tecidos animais contêm, aproximadamente, 1mg de cádmio por quilo de tecido, mas não há evidências de que o cádmio seja essencial ou benéfico. O consumo diário de cádmio pelo homem pode variar de 4 a 60mg, dependendo dos alimentos ingeridos. As maiores fontes parecem ser alimentos do mar e grãos. O cádmio pode atuar como um fator etiológico para vários processos patológicos no ser humano, incluindo tumores nos testículos, disfunção renal, hipertensão, arteriosclerose, aumento da inibição, doenças crônicas de envelhecimento e câncer. Os fetos humanos demonstram que a placenta não é uma barreira completa contra a penetração do cádmio. Podem ocorrer outros efeitos nocivos por sua presença acima dos padrões ambientais, tais como: • paralisia respiratória e colapso cardíaco em casos de intoxicação aguda; • osteomalecia (afinamento dos ossos); • doença Itai-Itai (ocorrida no Japão, caracterizando-se por alteração no sistema renalurinário com grande perda de cálcio); • alterações fisiológicas nos organismos aquáticos semelhantes às observadas para o homem. Nas águas não poluídas, a concentração de cádmio encontrada é normalmente menor que 0,001mg.l-1. O cádmio age sinergeticamente com outras substâncias aumentando sua toxicidade. Concentrações de cádmio de 0,03mg.l-1 em combinação com 0,15mg.l-1 de zinco causa a morte de salmão.
Chumbo

É um metal cinzento, dúctil e maleável, sendo encontrado na água sob a forma solúvel, suspenso e em baixas concentrações, devido à solubilidade; é um metal tóxico, que tende a se acumular nos tecidos do homem e de outros animais. O chumbo aparece na natureza, principalmente, como sulfeto de chumbo, carbonato de chumbo, sulfato de chumbo e clorofosfato de chumbo. Sua toxicidade é afetada pelo pH, matéria orgânica, pela presença de outros metais, dureza e oxigênio dissolvido. A toxicidade do chumbo diminui com o aumento da dureza e aumenta com a diminuição do oxigênio dissolvido. O chumbo tem baixa solubilidade, 0,5mg.l-1 em águas moles e apenas 0,003mg.l-1 em águas duras, embora permaneçam na água altas concentrações de chumbo em suspensão e coloidal. A presença acima dos padrões ambientais pode causar efeitos nocivos, tais como:

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• anemia, disfunção neurológica, enfraquecimento renal, irritabilidade; • paralisia dos nervos; • pressão sanguínea elevada, edema de papila, convulsão e coma; • nefrite saturnina; • cancerígeno, mutagênico e teratogênico; • intoxicações consideradas como não-graves; e • problemas na descendência, desde a provocação de abortos, partos prematuros e crianças com problemas que incluem, desde alterações no sistema nervoso, até morte prematura. A EPA recomenda que, devido à pouca informação disponível sobre a sua remoção nos processos convencionais de tratamento da água, o chumbo não deve exceder a 0,05mg.l-1 nos mananciais de água para abastecimento público, e menor que 0,15mg.l-1 na água de consumo humano. A concentração de 0,03mg.l-1 é o nível seguro para a Daphnia, e é recomendado como critério para proteção da vida aquática. É também um valor seguro para peixes, segundo estudos já desenvolvidos.
Cobalto

Os sais desse metal podem ser encontrados na forma bivalente ou trivalente. As soluções contendo íons cobaltosos (Co2+), são relativamente estáveis, mas cobálticos (Co3+) são poderosos agentes oxidantes e conseqüentemente, são instáveis em águas naturais. Tem se verificado que o cobalto possui, relativamente, baixa toxicidade ao ser humano, e que traços de cobalto são essenciais para a nutrição. A máxima concentração segura de cobalto na água potável, não pode ser estabelecida ou estimada com base nos conhecimentos atuais. A ingestão de 0,1 e 0,25mg ao dia, parece não exercer efeito algum adverso, ao passo que simples doses diárias de 25mg, durante uma semana ou mais, afeta o conteúdo de hemoglobina do sangue. A presença de cobalto acima dos padrões ambientais pode causar efeitos nocivos, tais como: • insuficiência cardíaca congênita; • hiperplasia da medula; • deficiência da tireóide (mixidema); e • mutagênico.
Cobre

Os sais de cobre ocorrem em águas superficiais naturais apenas em quantidades traços, aproximadamente 0,05mg.l-1. Concentrações de 0,015 a 3,0mg.l-1, têm sido indicadas como tóxicas em água doce, para muitas espécies de peixes, crustáceos, moluscos e plânctons em geral.

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A toxicidade é afetada por condições ambientais, tais como temperatura, dureza, turbidez e presença de CO2. Elevadas concentrações de cobre podem produzir vômitos, perturbações no fígado, sabor desagradável na água e efeitos tóxicos para uma extensa variedade de formas aquáticas.
Cromo

O cromo é um elemento traço essencial à nutrição humana, mas raramente encontrado em águas naturais. A toxicidade do cromo, em relação à vida aquática, varia largamente com a espécie, temperatura, pH, valência, OD e efeitos sinérgicos e antagônicos. De maneira geral, o estado de oxidação depende da forma, como o cromo é lançado e das condições ambientais do corpo receptor, mas, em condições normais de pH e OD, há predomínio da forma hexavalente, mais tóxica para os peixes. Os efeitos que uma intoxicação por cromo pode causar são: corrosão das mucosas, problemas respiratórios e modificações hematológicas. Os organismos aquáticos apresentam grande variação em relação à sensibilidade ao cromo de 0,03 a 118mg.l-1. Considerando o cromo hexavalente, uma concentração de 0,05mg.l-1 causa a morte de Daphnia magna em 6 dias.
Ferro

É um elemento metálico que ocorre em águas naturais, oriundo da dissolução de compostos ferrosos de solos arenosos, terrenos de aluvião ou pântanos. Nestes tipos de solos, a matéria orgânica decompõe-se consumindo oxigênio e produzindo gás carbônico, o qual solubiliza compostos de ferro. Embora muitos dos sais férricos e ferrosos sejam altamente solúveis em água, os íons ferrosos em águas superficiais são oxidados a condições férricas e formam hidróxidos insolúveis. Esses precipitados apresentam-se na forma de gel ou flocos, podendo, quando suspensos na água, exercer efeitos nocivos sobre peixes e outras vidas aquáticas. Podem, também, sedimentar, cobrindo o fundo dos rios e destruindo os invertebrados de fundo, plantas e ovos de peixes em incubação. Com o tempo, esse material pode ligar-se, adquirindo características semelhantes ao cimento e tornando o local não apropriado para a desova de peixes. O ferro é um elemento-traço essencial às plantas e animais. Em algumas águas, é um fator limitante do crescimento de algas e outras plantas. É um mecanismo vital de transporte de oxigênio no sangue, para todos os animais vertebrados e alguns invertebrados. O ferro é um constituinte indesejável em suprimentos de água potável, pois afeta as propriedades organolépticas e causa mancha nas roupas, sendo os limites permissíveis baseados não em considerações fisiológicas, mas de estética e sabor. As águas ferruginosas permitem o desenvolvimento das chamadas ferro-bactérias, as quais, desde o início do seu desenvolvimento, até a morte, transmitem à água, odores fétidos e cores avermelhadas, verde-escuro ou negra. Os processos convencionais de tratamento de água não removem ferro solúvel.

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Manganês

O manganês, como cátion metálico, é semelhante ao ferro em seu comportamento químico e é freqüentemente encontrado em associação com o ferro. Esse elemento existe sob a forma Mn+2 e é oxidado passando a forma Mn+4. O manganês está normalmente presente em superfícies de águas naturais, em quantidades bastante pequenas: 0,2mg.l-1 ou menos. Níveis mais altos devem ocorrer em águas subterrâneas, lagos profundos e reservatórios. É um elemento essencial para a nutrição, tanto de animais, como de seres humanos, tanto sua falta quanto seu excesso, produzem efeitos colaterais. O envenenamento por manganês produz efeitos semelhantes ao da doença de Parkinson, distúrbios psicológicos e falta de coordenação motora. Concentrações de manganês acima de 0,2mg.l-1, tornam a água desagradável para beber. As águas de irrigação para uso em solos ácidos, não devem exceder a 0,2mg.l-1 de manganês, enquanto que águas contendo 10mg.l-1, devem ser usadas em solos neutros ou alcalinos. As concentrações de 40mg.l-1, são letais para certos peixes. As concentrações acima de 0,005mg.l-1, causam efeitos tóxicos em algumas algas. Para a proteção da vida aquática, é recomendado o valor de 0,05mg.l-1.
Mercúrio

As concentrações naturais de mercúrio na água variam de menos de 0,1 a 17,0mg.l-1, sendo que a maioria dos valores é igual ou menor que 0,1mg.l-1. A alta toxicidade dos compostos mercuriais relaciona-se com sua maior afinidade pelos solventes orgânicos, grupos sulfidril e amina, presentes em aminoácidos. A estabilidade dos compostos orgânicos e inorgânicos, determinada pelo estado de oxidação, juntamente com pH, é o principal fator que influi na toxicidade de mercúrio. Além desses fatores, o efeito tóxico também é acentuado pela presença de traços de cobre na água. Altas concentrações mercuriais podem causar efeitos nocivos, tais como: • intoxicação aguda: náuseas, vômitos, cólicas abdominais, diarréia sanguínea, danos aos rins e morte; • intoxicação crônica: inflamação da boca e gengivas, dilatação das glândulas salivares, salivação excessiva, perda de dentes, problemas renais, alterações psicológicas e psicomotoras; e • efeitos genéticos: rompimento dos cromossomas, inibição do mecanismo mitótico, destruição dos tecidos neurais. Uma concentração de 0,1 mg.l-1 de fungicidas organomercuriais diminui a fotossíntese de Nitzchia delicatissum, reduzindo, conseqüentemente, o seu crescimento. A dose letal para Daphnia magna, a 25∞C, é 6mg.l-1 em 64h. Concentrações de 20mg.l-1 podem ser letais para

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larvas de bivalves. Em relação aos peixes de água doce, as doses letais variam de 390 a 26.000mg.l-1, quando expostos a um período de 24 a 72h.
Níquel

O níquel, na forma elementar, raramente ocorre na natureza, porém são encontrados compostos de níquel em muitos minerais. Embora, como metal puro, o níquel seja insolúvel na água, seus sais são altamente solúveis, podendo estar presentes na água, devido a despejos industriais. Os sais de níquel são tóxicos para as plantas em geral. Para a vida aquática, os níveis de toxicidade são variáveis e determinados pelo pH e efeitos sinérgicos de outros metais.
Prata

Prata é um dos elementos raros com uma baixa solubilidade de 0,1 a 10mg.l-1, dependendo do pH e da concentração de cloreto. O principal efeito da prata no corpo é cosmético. Causa uma permanente descoloração cinzenta na pele, olhos e membranas mucosas. A quantidade de prata coloidal requerida para produzir essa condição (argyria, argyrosis) é qualquer quantidade maior que um grama, em adulto. É reportado que a prata, uma vez absorvida, é presa imediatamente ao tecido. Em um estudo comparativo baseado nos estudos sobre ovos de Echinoderm, a prata foi considerada 80 vezes mais tóxica do que o zinco, 20 vezes mais tóxica que o cobre, e 10 vezes mais tóxica que o mercúrio. Segundo a Resolução Conama nº 20/86, a concentração de prata para águas doces nas classes 1 e 2 é de 0,01mg.l-1, e para a classe 3 é de 0,05mg.l-1. Uma grande parte desse metal é obtida de subprodutos de metalurgia de outros metais, particularmente chumbo e cobre. Além disso, é um metal precioso, sendo freqüentemente recuperado dos processos industriais.
Zinco

O zinco é um microelemento necessário ao desenvolvimento e crescimento de plantas e animais, ocorrendo em todas as águas naturais que suportem vida aquática. É, porém, em relação aos peixes e organismos aquáticos que esse metal exibe sua maior toxicidade, provocando mudanças adversas em sua morfologia e fisiologia, obstrução das guelras, crescimento e maturação retardados e morte. A toxicidade do zinco está relacionada com as reações de troca iônica existentes no meio hídrico. É inversamente proporcional à dureza e OD e diretamente proporcional à temperatura. Um exemplo, é a variação da LC50 (96 h) para de 0,87 a 33,0mg.l-1, dependendo da dureza da água.

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Metais pesados na BAP

A Tabela 10, apresenta os resultados da análise de metais em amostras de água coletas nos principais rios da BAP. A Tabela 11, apresenta alguns resultados analíticos dos teores de metais em amostras de sedimentos, coletados em rios da BAP.
Tabela 10. Concentração (mg.L-1) de metais, em águas dos rios da BAP

Fonte: Sampaio, 2003.

A Tabela 12 apresenta os teores médios de mercúrio em amostras de sedimentos do rio Bento Gomes - MT e, a Tabela 13, em peixes da BAP.

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Tabela 11. Concentração (mg.kg-1 PS) de alguns metais, em sedimentos em rios da BAP
Pontos de coleta Rio Negro (Fazenda Rio Negro) Rio Aquidauana (Fazendo Porto Ciríaco) Rio Miranda (Fazenda Guaicurus) Rio Cuiabá (Fazenda São João) Camada (cm) 0-4 4-8 8 - 12 0-4 4-8 8 - 12 0-3 3-6 6 -9 0-5 5 - 10 10 - 15 Rio São Lourenço (Fazenda São José do Borieu) Rio Piqueri (Fazenda São José do Piquiri) Rio Paraguai (Bela Vista do Norte) Canal Tamengo (Polícia Florestal) 0-4 4-8 8 - 12 0-4 4-8 8 - 12 0-5 5 - 10 10 - 15 0-4 4-8 8 - 12 Fonte: Sampaio, 2003. Ca 125 98 127 154 166 203 156 167 211 220 208 207 211 211 207 157 149 145 210 205 209 216 213 208 Al 2978 2725 3295 7439 6085 6030 4081 5790 6696 6059 5534 5006 4455 4298 3701 5560 5418 4632 5073 5856 4035 1861 2306 3334 Mg 372 361 281 Fe 1030 1008 998 Cr 5,4 5,2 5,4 12,4 11,3 10,5 7,5 12,1 10,9 25,9 25,1 20,5 24,4 22,7 19,3 20,2 22,4 19,3 21,5 23,9 17,3 9,9 10,9 15,1 Ni 6,7 6,0 6,1 20,0 16,7 16,0 9,3 14,7 16,4 18,8 17,1 14,0 13,7 13,3 10,9 16,1 15,8 13,2 14,1 15,2 10,4 5,7 6,5 9,0 Cu 5,8 5,3 5,1 45,2 36,6 35,1 12,0 19,2 23,1 14,9 14,0 11,1 12,2 11,9 9,9 14,3 12,0 10,2 13,2 14,2 10,1 5,2 6,0 7,2 Pb 9,0 8,4 8,5 14,9 12,1 12,5 6,8 14,8 18,4 21,6 20,1 18,3 15,9 16,4 12,9 18,2 19,1 16,6 16,6 18,4 13,8 8,5 9,7 12,8 Mn 351 305 359 323 289 277 151 216 345 250 243 243 239 234 218 196 234 225 209 240 203 236 242 251 Co 13,9 11,9 11,6 25,0 21,7 21,9 9,8 17,4 21,8 17,5 17,2 16,0 17,1 16,4 13,9 18,1 20,4 18,0 13,4 15,9 11,3 10,3 11,0 15,4 Cd 1,2 1,4 1,2 1,9 1,6 1,8 0,9 1,6 1,3 1,2 1,3 1,4 1,3 1,1 1,1 1,0 1,0 1,0 0,9 1,1 0,8 0,6 0,7 1,1 Zn 23,9 23,1 23,1 48,4 43,1 43,5 27,0 40,9 40,0 45,9 45,3 44,5 39,6 39,3 34,5 36,8 34,3 31,3 36,0 44,4 30,9 31,9 34,9 39,6

1303 1201 1069 1095 1082 1072 894 1640 921 959 1388 1004 1272 4769 1095 4688 1074 4599 1015 4562 936 815 587 542 447 865 999 689 513 582 652 4479 4408 4289 5063 5003 4916 4891 4779 4753 4724 4717

Tabela 12. Teores de mercúrio (ng/g), em perfis de sedimento coletados nas duas campanhas de amostragem (2000 e 2002) - Área de influência do rio Bento Gomes

* CP: Campanha Fonte: Castro e Silva, 2004.

507

Tabela 13. Médias dos teores de mercúrio em peixes da BAP, por região-alvo, em 2002

508

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APRESENTAÇÃO

CONHECIMENTOS BÁSICOS DE QUALIDADE DE ÁGUA
Prof. Dr. Carlos Nobuyoshi Ide

Rio Paraguai

Sumário
• • • • Objetivo Introdução Legislação brasileira Variáveis indicadoras de qualidade da água
• • • • Parâmetros físicos Parâmetros químicos Parâmetros biológicos Metais pesados

• Índices de qualidade
• IQACETESB • IQASMITH

Introdução
Prover informações básicas que auxiliem na interpretação e no significado dos resultados de variáveis indicadoras de qualidade da água, pela natureza de seus constituintes físicos, químicos e biológicos.
Cada uma das variáveis será discutida com respeito às suas origens, fontes, comportamentos e transformações no sistema aquático. Este tópico não é nem pretende ser um tratado, nem uma obra completa! É esperado que seja útil a quem se interessar pela qualidade da água, sem a pretensão de sanar todas as dúvidas e resolver todos os problemas.

• Objetivo

• Água doce

Introdução

É um recurso finito, essencial para agricultura, indústria, vida selvagem e existência humana. Sem a água doce em quantidade e qualidade adequadas, o desenvolvimento sustentável é impossível. A água de boa qualidade é crucial para desenvolvimento sócio-econômico sustentável e é um importante componente da saúde de um ecossistema aquático. Para compreender e avaliar a qualidade da água de ameaças presentes e futuras de contaminação e para suprir uma base de ação em todos os níveis, informações confiáveis de monitoramentos, são indispensáveis.

• Qualidade da água

Introdução

Pode ser caracterizada pela natureza e quantidade de seus constituintes físicos, químicos e biológicos.

É altamente variável no tempo, devido a fatores naturais e humanos. É um termo usado para expressar a capacidade da água de sustentar vários usos ou processos. A qualidade da água pode ser definida por uma gama de variáveis que limitem o uso da água. Os aspectos físicos, químicos e biológicos de qualidade da água são inter-relacionados, e devem ser considerados juntos.

Introdução
• Avaliação da qualidade da água
A qualidade da água é avaliada por indicadores (parâmetros) físicos, químicos, microbiológicos e ecotoxicológicos. Considera-se aqueles mais representativos, para tornar a análise sistemática da caracterização da água exeqüível.

Introdução
• Avaliação da qualidade da água
A CETESB faz uso dos seguintes indicadores: Parâmetros físicos - absorbância no ultravioleta, coloração da

água, série de resíduos (filtrável, não filtrável, fixo e volátil), temperatura da água e do ar, e turbidez.

orgânico dissolvido, chumbo, cloreto, cobre, condutividade específica, cromo total, demanda bioquímica de oxigênio (DBO5,20), demanda química de oxigênio (DQO), fenóis, ferro total, fluoreto, fósforo total, manganês, mercúrio, níquel, óleos e graxas, ortofosfato solúvel, oxigênio dissolvido, pH, potássio, potencial de formação de trihalometanos, série de nitrogênio (Kjeldahl, amoniacal, nitrato e nitrito), sódio, surfactantes e zinco.

Parâmetros químicos - alumínio, bário, cádmio, carbono

• Avaliação da qualidade da água

Introdução
Cryptosporidium sp.,

coliforme fecal (coliforme termotolerante), estreptococos fecais e Giardia sp.

Parâmetros microbiológicos - Clostridium perfringens,

Parâmetros hidrobiológicos - clorofila-a e feofitina
Ames para a avaliação de mutagenicidade e teste de toxicidade crônica a Ceriodaphnia dubia Quando da necessidade de estudos específicos de qualidade de água em determinados trechos de rios ou reservatórios, com vistas a diagnósticos mais detalhados, outros parâmetros podem vir a ser determinados, tanto em função do uso e ocupação do solo na bacia contribuinte, atuais ou pretendidos, quanto pela ocorrência de algum evento excepcional na área em questão.

Parâmetros ecotoxicológicos - sistema Microtox, teste de

Poluente: Substância no lugar errado

Estratosfera: entre 15 km e 50 km de altitude. O ozônio não é poluente. Os CFC’s são poluentes.

TERRA

Troposfera: do nível do mar até 15 km de altitude O ozônio é poluente. Os CFC’s não são poluentes.

http://educar.sc.usp.br/licenciatura/2003/poluentes/agua.ppt.

Contaminação vs. Poluição

está presente no ambiente, mas não causa algum dano evidente.

CONTAMINAÇÃO: é usado para situações onde uma substância POLUIÇÃO: é reservado para o caso onde os efeitos nocivos são

aparentes. O problema com esta definição é que com métodos impróprios de análise e diagnósticos, situações inicialmente descritas como contaminação possam realmente ser poluição, de maneira que os efeitos danosos possam tornar-se aparentes depois de decorrido algum tempo.

Contaminação vs. Poluição Definição de HOLGATE
Poluentes são basicamente de dois tipos:
POLUENTES PRIMÁRIOS: exercem efeitos danosos na forma em que eles entram no meio ambiente. POLUENTES SECUNDÁRIOS: são sintetizados como um resultado de processos químicos, freqüentemente derivados de precursores menos danosos, no ambiente. Normalmente, uma substância causa poluição se eles estiverem presentes em quantidade excessiva ou em lugar errado na hora errada. Ex.: açúcar, leite → rio → DBO ↑ → OD ↓ → peixes †

Água no corpo humano
A água representa 70% da massa do corpo humano. Sintomas de desidratação: Perda de 1% a 5% de água
Sede, pulso acelerado, fraqueza

Perda de 6% a 10% de água
Dor de cabeça, fala confusa, visão turva

Perda de 11% a 12% de água
Delírio, língua inchada, morte

Uma pessoa pode suportar até 50 dias sem comer, mas apenas 4 dias sem beber água.

Propriedades da água
Na natureza a água pode ser encontrada em todas as fases de agregação: sólida, líquida e gasosa.
Substância Ponto de fusão/°C Ponto de ebulição/°C CH4 -182 -164 NH3 -78 -33 H2O 0 100 HF -83 +19 H2S -86 -61

Sua capacidade de conduzir calor (condutividade térmica) e de estocar calor (capacidade calorífica) também é única.
É necessário 1 caloria para elevar de 1°C a temperatura de 1g de água líquida. São necessários 540 calorias para evaporar 1g de água.

Propriedades da água
A densidade da água na fase líquida é maior que na fase sólida.
gelo

gelo

A mistura de águas e recirculação de nutrientes só ocorre porque a água tem densidade máxima em 4°C, ou seja, na fase líquida.
4 °C

A água é um solvente universal. É o destino final de todo poluente que tenha sido lançado, não apenas diretamente na água, mas também no ar e no solo.

Quantidade de água disponível
A quantidade de água doce disponível para consumo é extremamente escassa.
Distribuição da água no planeta 97,5% nos oceanos 1,8% em geleiras 0,6% nas camadas subterrâneas 0,015% nos lagos e rios 0,005% de umidade no solo 0,0009% em forma de vapor na atmosfera 0,00004% na matéria viva A cada 1000 L 975 L 18 L 6L 150 mL 50 mL 9 mL 0,4 mL

Quantidade de água disponível

1000 L de água

6,15L (para consumo humano)

69 % = 4,24 L

23 % = 1,42 L

8 % = 0,49 L

Quantidade de água disponível

Nos últimos 15 anos a oferta de água limpa disponível/hab. diminuiu ≅ 40% O uso da água na agricultura deverá aumentar nos próximos anos. Em 20 anos deverá ocorrer uma crise relacionada a disponibilidade de água

O Brasil possui 12% da água doce disponível no mundo
9,6% na região amazônica Atende 5% da população 2,4% no resto do país Atende 95% da população

Estima-se que 50% da população brasileira não tenha acesso a água tratada.

Quantidade de água disponível

Estados Unidos:

600 L por habitante dia

Sertão:

10 L por habitante dia

Quantidade de água disponível
Os oceanos contêm a maior parte da água do planeta (975 litros a cada 1.000).

Uma molécula de água passa 98 anos a cada 100 em meio ao oceano. A água do mar apresenta ≅ 3,3% de sais dissolvidos (principalmente NaCl(aq)). Uma pessoa pode beber água com até 5g de sal/kg de água. Os oceanos contêm 35 g de sal/kg de água (7 vezes mais).

osmose

Uma pessoa que bebe apenas água do mar acabará morrendo. A água do mar também não pode ser usada na agricultura ou na indústria. O excesso de sal mataria as plantações (também por osmose); deterioraria maquinários, entupiria válvulas e explodiria caldeiras.

Água Impacto Ambiental
Conceito de poluição A importância de água para a manutenção da vida Quantidade de água disponível Qualidade da água disponível Controle da poluição

Qualidade da água disponível
A poluição das águas devido as atividades humanas aumentou vertiginosamente nos últimos 50 anos. De acordo com a legislação, a poluição da água pode ser:

Pontual Descarga de efluentes a partir de indústrias e de estações de tratamento de esgoto São bem localizadas, fáceis de identificar e de monitorar

ou

Difusa

Escoamento superficial urbano, escoamento superficial de áreas agrícolas e deposição atmosférica Espalham-se por toda a cidade, são difíceis de identificar e tratar

Qualidade da água disponível

As principais formas de poluição que afetam as nossas reservas de água são:
Reservas de água Poluição

Sedimentar

Biológica

Térmica

Despejo de substâncias

Ciclo Hidrológico e Poluentes

Fontes de poluição

Poluição sedimentar
Acúmulo de partículas em suspensão (solo, produtos químicos insolúveis)
Qual a origem Partículas do solo Produtos químicos insolúveis Extração mineral Desmatamentos Erosões O que causam Interferem na fotossíntese e na capacidade dos animais encontrarem alimentos

Extração mineral Adsorvem e concentram os Esgotos e efluentes poluentes biológicos e os poluentes químicos

Poluição biológica
Presença de microrganismos patogênicos, especialmente na água potável.
4 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso à água potável tratada 2,9 bilhões de pessoas vivem em áreas sem coleta ou tratamento de esgoto Controle simples Fervura da água Apesar disso 250 milhões de casos de doenças (cólera, febre tifóide, diarréia, hepatite A) são transmitidas pela água por ano 10 milhões desses casos resultam em mortes (50% são crianças) Adição de cloro ou outro desinfetante

Principais doenças relacionadas com a água
• Por ingestão de água contaminada
– – – – – – – – – – cólera disenteria amebiana disenteria bacilar febre tifóide e paratifóide gastroenterite giardíase e criptosporidíase hepatite infecciosa leptospirose paralisia infantil salmonelose

Principais doenças relacionadas com a água
• Por contato com a água contaminada
– escabiose (doença parasitária cutânea conhecida como sarna) – tracoma (mais freqüente nas zonas rurais) – verminoses, tendo a água como um estágio do ciclo – esquistossomose

Principais doenças relacionadas com a água
• Por meio de insetos que se desenvolvem na água
– – – – dengue febre amarela (flavivírus) filariose (elefantíase) malária

Haemagogus janthinomys Febre amarela

Aedes aegypti Dengue

Anopheles Stephensi (Liston) Malária
Fotos de:

Culex quinquefasciatus (Say) Filariose

Poluição térmica
Descarte de grandes volumes de água aquecida em rios e oceanos
Diminui a quantidade de oxigênio dissolvido (43,39 mg de O2/kg de H20 a 20°C) Diminui do tempo de vida de algumas espécies aquáticas Altera os ciclos de reprodução Aumenta a quantidade de gás carbônico na atmosfera (0,86 L de CO 2/L de H2O a 20°C) Aumenta a velocidade das reações entre os poluentes presentes na água Potencializa a ação nociva dos poluentes

Poluição por despejo de substâncias
Substâncias tóxicas cuja presença na água não é fácil de identificar nem de remover Em geral os efeitos são cumulativos e podem levar anos para serem sentidos Os poluentes mais comuns das águas são:
Fertilizantes agrícolas Esgotos doméstico e efluente industrial Compostos orgânicos sintéticos Plásticos Petróleo Metais pesados

Água pura

Molécula de hidrogênio Molécula de oxigênio

Molécula de hidrogênio

H 2O

Água pura, só o H2O!

Toda água da natureza contêm “impurezas”!
Classificando essas “impurezas”:

Água mineral

Origem geológica das águas minerais

http://www.drm.rj.gov.br

Legislação brasileira
• Resolução CONAMA no 20 de 18/06/86
O CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE - CONAMA, no uso das atribuições que lhe confere o art. 7º, inciso IX, do Decreto 88.351, de 1º de junho de 1983, e o que estabelece a RESOLUÇÃO CONAMA nº 003, de 5 de junho de 1984, ESTABELECEU A CLASSIFICAÇÃO DAS ÁGUAS doces, salobras e salinas essencial à defesa de seus níveis de qualidade, avaliados por parâmetros e indicadores específicos, de modo a assegurar seus usos preponderantes; e dá outras providências. – Doces: salinidade inferior a 0,5‰ – Salobras: salinidade igual ou inferior a 0,5 ‰ e 30,0‰ – Salinas: salinidade superior a 30,0‰

Legislação brasileira
• Resolução CONAMA no 20 de 18/06/86
Para cada uma das cinco classes foram estabelecidos limites de concentração de substâncias, que podem ser encontrados nos corpos d'água. Sendo estabelecido os padrões de qualidade para corpos d'água, o ENQUADRAMENTO passa a ser um importante instrumento para o controle da poluição e para o monitoramento da qualidade da água.

Legislação brasileira
• Resolução CONAMA no 20 de 18/06/86
Classificação das águas doces brasileiras
Classes Classe especial Águas destinadas: ao abastecimento doméstico sem prévia ou simples desinfecção; à preservação do equilíbrio natural das comunidades aquáticas. ao abastecimento doméstico após tratamento simplificado; à proteção das comunidades aquáticas; à recreação de contato primário (natação, esqui aquático e mergulho); à irrigação de hortaliças que são consumidas cruas e de frutas que se desenvolvam rentes ao solo e que sejam ingeridas cruas, sem remoção de película; à criação natural e/ou intensiva (aqüicultura) de espécies destinadas à alimentação humana. ao abastecimento doméstico, após tratamento convencional; à proteção das comunidades aquáticas; à recreação de contato primário (esqui aquático, natação e mergulho); à irrigação de hortaliças e plantas frutíferas; à criação natural e/ou intensiva (aqüicultura) de espécies destinadas à alimentação humana. ao abastecimento doméstico, após tratamento convencional; à irrigação de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras; à dessedentação de animais. à navegação; à harmonia paisagística; aos usos menos exigentes.

Classe 1

-

Classe 2

Classe 3 Classe 4

Legislação brasileira
• Resolução CONAMA no 20 de 18/06/86
O fato de um trecho de rio estar enquadrado em determinada classe, não significa necessariamente que esse seja o nível de qualidade que ele apresenta, mas sim, aquele que se busca alcançar ou manter ao longo do tempo. Com base na avaliação realizada, planos regionais poderão ser embasados, segundo as necessidades de recuperação, proteção e conservação dos recursos hídricos da BAP.

Legislação brasileira
• Resolução CONAMA no 20 de 18/06/86
– O CONAMA aprovou, em 11.11.2004, em reunião plenária, o texto base que revisa a Resolução 020/1986, que dispõe sobre a classificação das águas doces, salobras e salinas, e estabelece as condições e padrões de lançamento de efluentes. – Dentre as inovações destaca-se a inclusão de novos parâmetros para classificação da qualidade dos corpos de água, assim como uma harmonização das competências do CONAMA com o CNRH - Conselho Nacional de Recursos Hídricos. – Os destaques apresentados serão apreciados na próxima plenária do CONAMA, que será realizada nos dias 14 e 15 de dezembro de 2004.

Legislação brasileira
• Outras legislações federais pertinentes
– Resolução CONAMA no 274 de 29 de novembro de 2000. Dispõe sobre a adoção de sistemáticas de avaliação da qualidade ambiental das águas. – Resolução CONAMA no 344, de 25 de março de 2004. Estabelece as diretrizes gerais e os procedimentos mínimos para a avaliação do material a ser dragado em águas jurisdicionais brasileiras, e dá outras providências. – Portaria GM no 518, de 25 de março de 2004, do Ministério da Saúde. Estabelece os procedimentos e responsabilidades relativos ao controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade, e dá outras providências. Fica revogada a Portaria no 1469, de dezembro de 2000.

Legislação brasileira
• Outras legislações estaduais pertinentes
– MT? – Deliberação CECA/MS no 003, de 20 de junho de 1997. Dispõe sobre a preservação e utilização das águas das bacias hidrográficas do Estado de Mato Grosso do Sul, e dá outras previdências.

Conceito: ENQUADRAMENTO
• Enquadramento é Planejamento
– É a visão MACRO da bacia. – São metas a serem cumpridas a médio e longo prazo. – Representa os fundamentos para instrumentos associados, como a outorga. – Deve indicar OBJETIVOS DE QUALIDADE DA ÁGUA para a bacia. – Flexibilidade: com relação à escolha dos parâmetros e com valores a serem alcançados. – Ser mais indicativo do que normativo, para dar liberdade aos decisores. – Estabelecer claramente a relação com o sistema de gerenciamento de recursos hídricos, dando ao Comitê e à Agência de Bacia poderes para decisão.
Mônica Porto

Conceito: CONTROLE
• Controle é Acompanhamento e Fiscalização
– É a visão MICRO da bacia. – Referem-se às condições de qualidade da água da bacia, que precisam ser acompanhadas e medidas. – Representa os fundamentos para instrumentos associados, como a fiscalização. – O licenciamento é o instrumento “ponte”, entre o enquadramento e o controle. – Deve indicar PADRÕES DE QUALIDADE DA ÁGUA, para os cursos d’água.

Monica Porto

Impurezas mais freqüentes encontradas nas águas naturais
Origem Contato da água com minerais, solos, rochas Impurezas Dissolvidas Cálcio, Bicarbonatos, Ferro, Carbonatos, Magnésio, Cloretos, Manganês, Nitratos, Potássio, Fosfatos, Sódio, Silicatos, Zinco, Sulfatos. Hidrogênio (H+ ), Bicarbonatos, Cloretos, Sulfatos. Amônia, Cloretos, Hidrogênio (H+ ), Nitritos, Sódio, Nitratos, Sulfitos, Radicais orgânicos. Coloidais Argila, Sílica, Óxido de ferro, Óxido de alumínio, Dióxido de magnésio. Em Suspensão Gases Argila, Silte, Areia. Gás carbônico.

Atmosfera, chuva Decomposição de matéria orgânica no meio ambiente

Poeira, Pólen. Cor de origem vegetal, Resíduos. Bactérias, Algas, Vírus. Solo orgânico, Resíduos orgânicos.

Gás carbônico, Nitrogênio, Oxigênio, Dióxido de enxofre. Amônia, Gás carbônico, Gás sulfídrico, Hidrogênio, Metano, Nitrogênio, Oxigênio. Amônia, Gás carbônico, Metano.

Organismos vivos Íons inorgânicos, Metais pesados, Moléculas orgânicas, Cor.

Fontes antropogênicas

Algas, Zooplâncton, Peixes. Sólidos Organoclorados inorgânicos, , Corantes, Compostos Bactérias, Vírus. orgânicos, Óleos e graxas.

Cloro, Dióxido de enxofre.

Gerenciamento da qualidade da água
• Exige que sejam estabelecidas formas de acompanhamento da variação de indicadores da qualidade da água, permitindo avaliar as condições de poluição e alteração de um corpo hídrico. • O controle será exeqüível, se for definido um conjunto de parâmetros significativos, que atendam a um objetivo estipulado. • Com a evolução das técnicas de detecção e medidas de poluentes, foram estabelecidos padrões de qualidade de água (máxima

concentração de elementos e compostos que poderiam estar presentes na água, de modo a ser compatível com a sua utilização, para determinadas finalidades).

• A partir de experimentos, foram determinados / estabelecidos padrões de qualidade de água para os diversos usos.

Usos conforme seus “requisitos de qualidade”
• ABASTECIMENTO PÚBLICO
Requisitos de Qualidade: – é fator de vital importância para a saúde pública; – Qualidade de água potável é avaliada comparando valores de parâmetros característicos com valores estabelecidos nas normas; – Portaria GM no 518, de 25 de março de 2004, MS.

Usos conforme seus “requisitos de qualidade”
• USO INDUSTRIAL
Requisitos de Qualidade:
– indústria alimentares e bebidas, fibras naturais e artificiais: especificações de água potável; – caldeiras à vapor, curtumes e explosivos: não necessita do requisito anterior, mas com normas específicas; – metalúrgicas e águas para arrefecimento: não precisam de padrões potáveis ou normas específicas, mas que garantam a saúde dos operários, higiene e conservação dos equipamentos.

Usos conforme seus “requisitos de qualidade”
• GERAÇÃO DE ENERGIA
Requisitos de Qualidade:
– Não há requisitos de qualidade, pois esta somente interfere no processo em casos extremos.

Usos conforme seus “requisitos de qualidade”
• AGRICULTURA
Requisitos de Qualidade:
Devem ser garantidas, pelo uso na irrigação, a saúde do trabalhador e do consumidor dos produtos, e esses requisitos variam de acordo com: Tipo de cultura: hortaliças e cana para álcool; Solo: permeabilidade e drenagem; Clima; Sistema de irrigação utilizado.

– – – –

Usos conforme seus “requisitos de qualidade”
• NAVEGAÇÃO
Requisitos de Qualidade:
– Não há requisitos de qualidade, pois esta interfere no processo apenas em casos extremos, como por exemplo, com a formação aguapés para pequenas embarcações.

Usos conforme seus “requisitos de qualidade”
• RECREAÇÃO
Requisitos de Qualidade:
– é avaliada comparando valores de parâmetros característicos com valores estabelecidos nas normas; – a água deve ser isenta de patogênicos e metais pesados.

Usos conforme seus “requisitos de qualidade”
• SUSTENTO DA VIDA AQUÁTICA
Requisitos de Qualidade:
– – – – não deve haver metais pesados oxigênio dissolvido obrigatório Sólidos suspensos < 25 controle de amônia, nitritos e fosfatos

Usos conforme seus “requisitos de qualidade”
• PESCA
Requisitos de Qualidade:
– Requisitos de qualidade semelhantes ao de sustento da vida aquática.

Principais parâmetros
• TEMPERATURA
A temperatura tem forte influência em quase todos os processos

– Não há variações bruscas (alto calor específico). – Depende da latitude, altitude, estação do ano, hora do dia, vento, nuvens, vazão, profundidade da água. – Afeta características físicas, químicas e biológicas ↑ cinética de reações química ↑ evaporação, volatilização ↓ solubilidade dos gases ↑ taxas de respiração ↑ taxas de reprodução

Principais parâmetros
• TRANPARÊNCIA:
– tem grande importância ecológica. – os raios solares podem penetrar a maior ou menor profundidade. – a elevação da Cor ou da Turbidez da água causa a diminuição da transparência, reduzindo a fotossíntese. – Zona eufótica pode variar, desde alguns centímetros até dezenas de metros – (33m - Lake Tahoe; 30cm – Rio Paraguai). – medida com o DISCO SECCHI. – quando não se enxerga mais o disco, 95% da luz já se extinguiu – Profundidade SECCHI (ZD). – há fotossíntese até 3 ZD.

Principais parâmetros
• CONDUTIVIDADE
– é a capacidade de conduzir corrente elétrica. – é determinada pela presença de substâncias dissolvidas. – água pura tem condutividade baixa; aumenta com o teor de sólidos dissolvidos. – estimativa de SDT (mg.L-1) = Condutividade (µS.cm-1) x (0,55 a 0,9) – Um valor de condutividade superior ao padrão ambiental pode causar efeitos nocivos, tais como: • perda das guelras e de outros órgãos externos delicados dos peixes, podendo causar a morte; • modificações de atividades comportamentais e fisiológicas dos organismos habitantes da região; • prejuízos à fauna aquática em longo prazo, podendo causar a eliminação da espécie.

Principais parâmetros
• SÓLIDOS
– todos os “contaminantes” da água, com exceção dos gases, contribuem para o teor de sólidos presentes. – sólido total, aquela matéria sólida deixada num recipiente, após a evaporação de uma amostra de água e sua subseqüente secagem a temperatura determinada. – podem ser classificados pelo seu tamanho ou características químicas. VOLÁTEIS (temperatura do ensaio 550oC) • equivalem à fração orgânica NÃO-VOLÁTEIS • são também chamados resíduo fixo (minerais)

Principais parâmetros
• SÓLIDOS SEDIMENTÁVEIS
– são constituídos por substâncias cujos pesos específicos são maiores que os da água e, conseqüentemente, tendem a sedimentar causando assoreamento dos corpos d’água. – constituem o volume de matéria orgânica e inorgânica que sedimenta em 1 hora no Cone Imhoff. – a deposição de material orgânico nos sedimentos pode provocar um desequilíbrio da biota, através do aumento de densidade, reduzindo a diversidade. – os resultados de análise são expressos em mL.L-1. – águas superficiais de boa qualidade, em geral, não contêm sólidos sedimentáveis.

Sólidos
SÓLIDOS SEDIMENTÁVEIS

CONE IMHOFF

AMOSTRA

EVAPORAÇÃO

ST

FILTRO

EVAPORAÇÃO

EVAPORAÇÃO

SST

SDT

MUFLA

MUFLA

SSV

SSF

SDV

SDF

SVT

SFT

ST

Principais parâmetros
• ODOR
– usualmente resultado do decaimento da matéria orgânica ou resíduos industriais. – medição é subjetiva. – aparece principalmente devido aos processos de decomposição – pode haver cor proveniente de argilas, ferro e manganês. – a água pode parecer ter cor devido ao material em suspensão, resultado da reflexão e da dispersão (cor aparente). – a cor é dada por material dissolvido (cor verdadeira). – a cor verdadeira é medida em unidades de cor. – na natureza, a cor varia entre 0-200 unidades de cor, na água tratada < 5.

Principais características de compostos formadores de odores
Classe Composto Ácido Sulfúrico Metilmercaptana Etilmercaptana Dimetilsulfeto Dietilsulfeto Dimetildisulfeto Amônia Metilamina Etilamina Dimetilamina Indol Escatol Cadaverina Acético Butírico Valérico Formaldeído Acetaldeído Butiraldeído Isobutiraldeído Isovaleraldeído Acetona Butanona Fórmula Química H2 S CH3SH C2H5SH (CH3)2-S (C2H5)2-S2 (C2H5)2-S NH3 CH3NH2 C2H5-NH2 (CH3)2-NH C8H6-NH C9H8-NH NH2-(CH2)5-NH2 CH3-COOH C3H7-COOH C4H9-COOH H-CH CH-CHO C3H7-CHO (CH3)2-CHCHO (CH3)2-CH-CH2 CHO CH3-CO-CH3 C2H5-CO-CH3 Odor Ovo podre Repolho, alho Repolho podre Vegetal podre Éter Putrefação Muito penetrante, irritante Peixe podre Amoníaco Peixe morto Fezes, nauseabundo Fezes, nauseabundo Carne em decomposição Vinagre Rançoso Suor, transpiração Acre, sufocante Fruta, maçã Rançoso Fruta Fruta, maçã Fruta, doce Maçã verde Sulfetos Limiar Olfativo (mg/Nm3ar) 0,0001-0,03 0,0005-0,08 0,001-0,03 0,0025-0,65 0,0045-0,31 0,003-0,014 0,3537 0,021 0,05-0,83 0,047-0,16 0,0006 0,0008-0,1 Limite Tolerável (mg/Nm 3ar) 14 1 1,25

18

Nitrosos

18

Ácido

Aldeído se Cetonas

0,025-6,5 0,0004-3 0,0008-1,3 0,033-12 0,04-1,8 0,013-15 0,3 0,072 1,1-240 0,03

25

3

Fonte: IDE (1984)

Principais parâmetros
• TURBIDEZ
– resulta da dispersão da luz nas partículas em suspensão na água: plâncton, bactérias, argilas. – medida com instrumentos que avaliam a dispersão da luz, dada em unidades de Turbidez. – definida como a medida da interferência à passagem da luz, provocada pelas matérias em suspensão, ocasionando a reflexão e a absorção da luz. Em corpos d’água, pode reduzir a penetração da luz, prejudicando a fotossíntese. – água é turva quando ela contém substâncias visíveis em suspensão, que perturbam a sua transparência. – partículas grandes, mesmo em concentração elevada, acusam pequena Turbidez, enquanto partículas menores acusam maior Turbidez.

Principais parâmetros
• pH
– indica a concentração do íon H+ – mede a acidez da solução – pH neutro = 7 • equilíbrio ácido x base • pH > 7 básico maior concentração de OH• pH < 7 ácido maior concentração de H+ – nas águas naturais o pH é controlado pela presença de carbonatos e bicarbonatos e pela presença de ácidos húmicos – reações químicas são afetadas pelo pH; muitos organismos sobrevivem apenas numa faixa muito estreita de pH, tipicamente entre 6,5 e 8,5 – água naturais têm usualmente pH nessa faixa

Escala pH

Principais parâmetros
• ACIDEZ
– é a capacidade da água de consumir uma quantidade de base a um determinado pH. – é devida, principalmente, à presença de gás carbônico livre (pH entre 4,5 e 8,2). – origem natural: através do CO 2 absorvido da atmosfera, ou resultante da decomposição da matéria orgânica, e do gás sulfídrico. – origem antropogência: através de despejos industriais (ácidos minerais ou orgânicos) e passagem da água, por minas abandonadas, drenagem de minas e das borras de minérios. – uma brusca variação do seu valor normal, poderá indicar o lançamento de algum resíduo industrial ou esgotos domésticos.

Principais parâmetros
• ALCALINIDADE
– representa a capacidade que um ecossistema aquático representa em neutralizar (tamponar) ácidos. – esta capacidade depende de alguns compostos, principalmente bicarbonatos, carbonatos e hidróxidos. – importante no controle do tratamento de água (coagulação, redução de dureza e prevenção de corrosão em tubulações). – importante no tratamento de esgotos. – componentes da alcalinidade podem modificar a toxicidade de metais pesados. – cinco hipóteses possíveis:•alcalinidade devida a hidróxidos, somente;
•alcalinidade devida a hidróxidos e carbonatos; •alcalinidade devida a carbonatos, somente; •alcalinidade devida a bicarbonatos, somente.

•alcalinidade devida a carbonatos e a bicarbonato

Principais parâmetros
• CLORETO
– é um dos principais ânions inorgânicos, altamente solúvel, presente em praticamente todas as águas. – origem natural: através da dissolução de minerais e intrusão de águas salinas. – origem antropogênica, através de despejos domésticos, industriais e de águas utilizadas em irrigação. – aumento brusco do teor do íon cloreto é uma indicação de contaminação da água, ou com águas residuárias ou com água do mar. – vida aquática: pode afetar as propriedades funcionais e estruturais dos organismos, através de mudanças na osmoregulação, densidade e viscosidade.

Principais parâmetros
• CLOROFILA
– é uma medida indireta da quantidade das algas verdes presentes num ambiente hídrico, podendo determinar o estado trófico de um determinado corpo hídrico. – todas as algas possuem clorofila, o pigmento verde essencial para fotossíntese. – testes em algas são valiosos, para determinar a produtividade primária da água e para testar o toxicidade de substâncias químicas presente. – a feofitina-a é um produto da degradação da clorofila-a, que pode interferir grandemente nas medidas deste pigmento, por absorver luz na mesma região do espectro que a clorofila-a. – a relação entre clorofila-a e feofitina-a serve como um bom indicador do estado fisiológico do fitoplâncton.

Principais parâmetros
• DEMANDA BIOQUÍMICA DE OXIGÊNIO (DBO5,20)
– é a quantidade de oxigênio molecular requerida pelas bactérias, para estabilizar a matéria orgânica decomponível em condições aeróbias. – foi inventado no início do século passado (1912), pela Royal Commission Sewage Disposal, para determinar a intensidade dos esgotos lançados nos rios. – o período de incubação de cinco dias, foi baseado no tempo de escoamento do Rio Tâmisa entre Londres e o mar. – a temperatura, foi devido ao fato de que a temperatura médio da água do Tâmisa não excedia 18,3oC. – o decréscimo dos teores de oxigênio dissolvido está associado à DBO devido a poluição orgânica em um curso d’água. – DBO não é matéria orgânica, é oxigênio consumido na decomposição.

Desenvolvimento da DBO

Demanda Bioquímica de Oxigênio
Exemplo: As águas naturais têm DBO5,20 da ordem de 5,0 mg.L-1

O que significa isso?
Significa que para decompor a matéria orgânica existente em litro de água, os decompositores retiraram da água (i.e., respiraram) 5mg de oxigênio.
Pelo fato da DBO somente medir a quantidade de oxigênio consumido num teste padronizado, não indica a presença de matéria não-biodegradável, nem leva em consideração o efeito tóxico ou inibidor de materiais sobre a atividade microbiana.

Concentrações e contribuições unitárias típicas de DBO5,20 de esgoto sanitário e de efluentes industriais
Tipo de Efluente Esgoto sanitário Celulose branqueada (proc. Kraft) Têxtil Laticínio Abatedouro bovino Curtume (ao cromo) Cervejaria Refrigerante Suco cítrico concentrado Açúcar e álcool Concentração DBO5,20 (mg.L-1) Faixa 110-400 250-600 1000-1500 Valor 220 300 1125 2500 1718 1188 25000 Contribuição Unitária de DBO5,20 Faixa 29,2 a 42,7 kg/t 1,5-1,8 kg/m3 leite Valor 54 g/hab.dia

6,3 kg/1000 kg Peso vivo 88 kg/t pele salgada 10,4 kg/m3 cerveja 4,8 kg/m3 refrigerante 2,0 kg/1000 kg laranja

Fonte: CETESB (2004)

Principais parâmetros
• DEMANDA QUÍMICA DE OXIGÊNIO (DQO)
– medida de oxigênio equivalente àquela porção da matéria orgânica e inorgânica, capaz de ser oxidada (REAÇÃO QUÍMICA), por um agente oxidante forte (meio ácido). – mede-se o consumo total de oxigênio para oxidar a matéria orgânica. – PROBLEMA: é um teste não-específico, não distingue consumo orgânico ou inorgânico. – VANTAGEM: rapidez (3 horas) – o aumento da concentração de DQO num corpo d'água se deve principalmente a despejos de origem industrial. – a diferença entre DBO e DQO, constitui uma indicação das matérias orgânicas pouco ou não biodegradáveis.

Principais parâmetros
• DUREZA
– pode ser definida como a capacidade de uma água em precipitar sabão. – Dureza Total é definida como a soma das concentrações de cálcio e magnésio, ambos expressos em mg.L-1 de CaCO 3. – PROBLEMA: Ca e Mg reagem com sabão e não faz espuma; causa um sabor desagradável e pode ter efeitos laxativos; causa incrustação nas tubulações de água quente, caldeiras e aquecedores.
Concentração ( m g .L -1 C a C O 3 ) 0 – 75 75 – 100 150 – 300 > 300 Descrição M o le Moderadamente dura Dura M u ito dura

Principais parâmetros
• FENÓIS
– compostos orgânicos que geralmente não ocorrem naturalmente nos corpos de água. – a presença dos mesmos, nos corpos de água, se deve principalmente aos despejos de origem industrial. – são compostos tóxicos aos organismos aquáticos, em concentrações bastante baixas, e afetam o sabor dos peixes e a aceitabilidade das águas, por conferir sabor e odor extremamente pronunciados, especialmente os derivados do cloro. – para o homem o fenol é considerado um grande veneno trófico, causando efeito de cauterização no local em que ele entra em contato através da ingestão. – resultados de intoxicação: náuseas, vômito, dores na cavidade bucal, na garganta e estômago, entre outros. Inicialmente, há uma excitação seguida de depressão e queda na pressão arterial, seguida de desenvolvimento de coma, convulsão e endemia dos pulmões.

Principais parâmetros
• FÓSFORO
– o fósforo desempenha um forte papel no desenvolvimento de algas ou outras plantas aquáticas desagradáveis em Reservatórios ou águas paradas. Sua presença limita, em grande parte das vezes, o crescimento desses seres. – altas concentrações de fosfatos na água estão associadas com a eutrofização. – provocam o desenvolvimento de algas ou outras plantas aquáticas desagradáveis em reservatórios ou águas paradas. – participação em processos fundamentais do metabolismo dos seres vivos, tais como: armazenamento de energia (forma uma fração essencial da molécula de ATP) e estruturação da membrana celular (através dos fosfolipídios).

Formas de fósforo na água

Principais parâmetros
• NITROGÊNIO
– é um dos elementos mais importantes no metabolismo de ecossistemas aquáticos. – participação na formação de proteínas, um dos componentes básicos da biomassa. – em baixas concentrações, pode atuar como fator limitante na produção primária de ecossistemas aquáticos. – principais fontes naturais de nitrogênio: a chuva, material orgânico e inorgânico de origem alóctone e a fixação de nitrogênio molecular dentro do manancial. – formas de nitrogênio nos ambientes aquáticos: nitrato (NO3¯), nitrito (NO2¯), amônia (NH3), íon amônio (NH4¯), óxido nitroso (N2O), nitrogênio molecular (N2), nitrogênio orgânico dissolvido (peptídeos, purinas, aminas, aminoácidos, etc.), nitrogênio orgânico particulado (bactérias, fitoplâncton, zooplâncton e detritos).

Nitrogênio em água
bactéria

AMÔNIA
nitrossomas

NITRITO

NH 4 + 1,5O 2 → 2 H + + H2O + NO 2
NITRITO NITRATO

NO + 0,5O2 → NO

2

3

Nitrogênio em água

NITROGÊNIO NA ÁGUA ESTÁ EM:

PROTEÍNAS

URÉIA

AMÔNIA

NITRITO NITRATO

AMINOÁCIDOS

AMÔNIA

AMÔNIA

Principais parâmetros
• NITROGÊNIO TOTAL KJELDAHL
– é a soma das formas de nitrogênio orgânico e amoniacal. – ambas as formas estão presentes em detritos de nitrogênio orgânico oriundos de atividades biológicas naturais. – o NTK pode contribuir para a completa abundância de nutrientes na água e sua eutrofização. – a concentração de NTK em rios que não são influenciados pelo excesso de insumos orgânicos varia de 1 a 0,5mg.L-1. NTK = amônia + nitrogênio orgânico
(forma predominante no esgoto doméstico)

NT = NTK + NO2¯ + NO3¯ (nitrogênio total)

Principais parâmetros
• NITROGÊNIO AMONIACAL (amônia)
– é a forma inorgânica mais reduzida do nitrogênio na água e compõe-se da amônia dissolvida (NH3) e do íon amônio (NH4+). – considera-se nitrogênio amoniacal, aquela fração de nitrogênio como íon amônio no equilíbrio: NH4+ ⇔ NH3 + H+. – grandes quantidades de amônia podem causar sufocamento de peixes. – concentrações de 0,25mg.L-1 ou superiores, afetam o crescimento de peixes, embora a concentração letal (que mata 50% dos indivíduos), seja consideravelmente superior (0,5mg.L-1).

Principais parâmetros
• NITRITO
– é uma forma química do nitrogênio normalmente encontrada em quantidades diminutas nas águas superficiais. – o nitrito é instável na presença do oxigênio, ocorrendo como uma forma intermediária. – o íon nitrito pode ser utilizado pelas plantas como uma fonte de nitrogênio. – a presença de nitritos em água indica processos biológicos ativos influenciados por poluição orgânica. – no aparelho digestivo dos seres humanos e animais, os nitratos são convertidos em nitritos por bactérias do intestino. – águas com concentração de nitrito acima de 1,0mg.L-1, geralmente são muito poluídas e inaceitáveis para consumo.

Principais parâmetros
• NITRATO
– é o produto final da estabilização aeróbia do nitrogênio orgânico. – ocorre em águas poluídas que sofreram um processo de autodepuração ou de tratamentos aeróbios. – freqüentemente, ocorrem concentrações de nitrato em poços freáticos. – estimulam o desenvolvimento de plantas, sendo que organismos aquáticos, como algas, florescem na sua presença.

Principais parâmetros
• NITRATO
Em concentrações elevadas pode causar efeitos nocivos: – no trato gastrointestinal, os nitratos podem ser reduzidos a nitritos, os quais são absorvidos pela corrente sanguínea, convertendo a hemoglobina em metahemoglobina, com conseqüente diminuição do transporte de oxigênio, provocando asfixia. – a Portaria 518/04 do Ministério da Saúde limita em 10mg.L-1, para consumo humano. – antes que ocorra a conversão de nitratos em nitritos no aparelho digestivo, pode aparecer enterite e diarréia. – apesar de desejável em águas de irrigação por seu valor fertilizante, seu excesso tende a reduzir a permeabilidade do solo e pode acumular-se em concentrações tóxicas nas soluções do solo. – altas concentrações de nitrato estimulam o crescimento das plantas, especialmente algas, podendo causar eutrofização.

Principais parâmetros
• ÓLEOS E GRAXAS
– todas as substâncias capazes de serem extraídas através de solvente orgânico em uma amostra acidificada, e que não se volatilizam durante a evaporação do solvente. – aparecem nas águas sob a forma de emulsão, derivados de resíduos industriais e também de resíduos orgânicos. – certas formas de óleos e graxas derivam da decomposição de plâncton ou de certas formas aquáticas maiores. – são prejudiciais nas águas, porque formam películas, que na superfície da água interferem na reaeração e fotossíntese.

Principais parâmetros
• OXIGÊNIO DISSOLVIDO
– é um dos mais importantes na dinâmica e na caracterização de ecossistemas aquáticos. – as principais fontes de oxigênio para as águas superficiais são a atmosfera e a fotossíntese. – o oxigênio dissolvido é necessário para a vida dos peixes e outros animais aquáticos. – águas bem oxigenadas se apresentam muito agradáveis ao paladar. – a diminuição ou ausência de oxigênio, prova os fenômenos de oxidação e indica uma água de qualidade ruim. – a solubilidade do oxigênio na água varia com a temperatura, a pressão atmosférica, a presença de sais minerais, turbulência da água e pressão atmosférica.

15 14
-1 Oxigênio Dissolvido (mg.L )

13 12 11 10 9 8 7 0 5 10 15 20 25 30 Temperatura (oC)

Solubilidade do oxigênio dissolvido na água, em equilíbrio com o ar seco à 760mm de Hg e contendo 20,9% de oxigênio

Depleção de oxigênio e zonas de degradação e depuração
OD (mg/L) 10 9 8 7 6 5 4 zona de 3 degradação 2 1 0

zona de decomposição ativa zona de recuperação zona de águas limpas

dias ou km

ponto de lançamento de esgoto

Mudanças na qualidade da água a jusante de lançamento de esgoto

Efeito dos diferentes tipos de poluição na vida aquática

Principais parâmetros
• SULFATO
– o enxofre em ecossistemas aquáticos pode apresentar-se sob várias formas: íon sulfato (SO4–2), íon sulfito (SO3–2), íon sulfeto (S2 – ), gás sulfídrico (H2S), dióxido de enxofre (SO2), ácido sulfúrico (H2SO4), enxofre molecular (So), – as fontes de enxofre para os ambiente aquáticos são, principalmente: decomposição de rochas, chuvas, esgotos e agricultura (adubos contendo enxofre). – dentre as várias formas de enxofre presentes na água, o íon sulfato e o gás sulfídrico, são os mais presentes, sendo que o íon sulfato assume maior importância na produtividade do ecossistema.

Principais parâmetros
• SULFETO
– o sulfeto aparece nas águas naturais devido à contaminação destas com resíduos industriais (curtume, celulose) ou com esgoto sanitário. – o sulfeto de hidrogênio pode ser gerado pela decomposição anaeróbia do esgoto e de outras matérias orgânicas na água e no lodo. – na água, sais de sulfeto dissociam-se em íons sulfetos, que reagem com íons hidrogênio da água formando o HS– ou H2S, dependendo dos valores de pH. – o acúmulo de gás sulfídrico pode proporcionar condições ambientais muito desfavoráveis à vida aquática e pode provocar, inclusive, grandes mortandades de peixes, mesmo em ecossistemas desprovidos de qualquer forma de poluição. – A toxicidade dos sulfetos é devida principalmente ao H2S. Conseqüentemente, ela aumenta com o decréscimo do pH, uma vez que uma porção maior de H2S é encontrada.

Principais parâmetros
• SURFACTANTES
– os detergentes constituem um grupo de produtos de amplo espectro, denominados tensoativos ou surfactantes. – são compostos orgânicos sintéticos com alta afinidade residual numa extremidade da sua molécula e baixa afinidade residual na outra. – detergentes mais comuns: alquil benzeno sulfonato (ABS) e o alquil linear sulfonato (LAS). – o ABS é um detergente surfactante aniônico, de cadeias ramificadas, resistente ao metabolismo biológico. – o LAS apesar de ser de 2 a 4 vezes mais tóxico que o ABS, tem sido utilizado como substituinte por ser biodegradável.

Principais parâmetros
• SURFACTANTES
– A presença de detergentes acima ambientais pode causar efeitos nocivos:
• • • •

dos

padrões

formação de espumas e turbidez nas águas de abastecimento; alterações nas propriedades organolépticas da água; redução da capacidade de oxigenação dos corpos receptores; afetam a respiração dos peixes, podendo ter efeitos letais; • interferem no crescimento de algas.

Principais parâmetros
• TANINO & LIGNINA
– são encontrados em árvores de grande e pequeno porte. – são constituídos por polifenóis simples, carbohidratos, aminoácidos e gomas hidroxicolodais. – têm a propriedade de transformar a pele de animais em couro, produção de plásticos, anticorrosivos, cola, floculante, etc. – o Tanino, pode entrar na água através de processo da degradação de material vegetal ou através da indústria de curtimento de couros. – o Tanino também é utilizado na de água de caldeiras, como agente dispersante de borras. – a Lignina é um constituinte de planta que, freqüentemente, é descarregado como resíduo durante a manufatura de papel.

Principais parâmetros
• COLIFORMES TOTAIS E FECAIS (Coliformes termotolerantes)
– quando há contaminação por esgotos domésticos há aparecimento de organismos patogênicos, i.e., causadores de doenças de veiculação hídrica: amebíase, gastroenterite, cólera, hepatite A, leptospirose, salmonelose e febre tifóide. – as bactérias coliformes são normalmente eliminadas com a matéria fecal, à razão de 50 a 400 bilhões de organismos por pessoa por dia. – número de coliformes existentes na matéria fecal: até 300 milhões por grama de fezes. Isso, possibilta precisão ou sensibilidade muito maior do que a de qualquer outro teste. – 80% das doenças que se alastram pelos países do terceiro mundo são transmitidas pela água.

Principais parâmetros
• COLIFORMES TOTAIS E FECAIS
– A maioria das bactérias do grupo coliforme pertence aos gêneros Escherichia, Citrobacter, Klebsiella e Enterobacter, embora vários outros gêneros e espécies pertençam ao grupo. – as bactérias do grupo coliforme são consideradas as principais indicadoras de contaminação fecal. – estão associadas com as fezes de animais de sangue quente e com o solo. – as bactérias do grupo coliforme não são patogênicas – dão uma satisfatória indicação de quando uma água apresenta contaminação por fezes humanas ou de animais e, por conseguinte, a sua potencialidade para transmitir doenças.

Principais parâmetros
• COLIFORMES TOTAIS E FECAIS
COMO DETECTAR?
– testar todos os patogênicos? caro, demorado.

SOLUÇÃO:
– organismo indicador – COLIFORMES TERMOTOLERANTES
– Coliformes termotolerantes (antigos coliformes fecais) pertencem ao subgrupo das bactérias do grupo coliforme que fermentam a lactose a 44,5 ± 0,2oC em 24 horas; tendo como principal representante a Escherichia coli, de origem exclusivamente fecal. SEMPRE QUE HOUVER COLIFORMES TERMOTOLERANTES NA ÁGUA SIGNIFICA QUE HOUVE CONTAMINAÇÃO POR MATÉRIA FECAL, DAÍ: GRANDE PROBABILIDADE DE PRESENÇA DE PATOGÊNICOS.

Principais parâmetros
• COLIFORMES TERMOTOLERANTES
VANTAGEM: – fácil detecção, fermentam a lactose, tempo de vida fora do organismo humano equivalente aos patogênicos. DESVANTAGEM: – não específico. Outros organismos patogênicos que podem ser investigados: – Doenças parasitárias: Cryptosporidium sp. e Giardia sp.

Principais parâmetros
• ESTREPTOCOCOS FECAIS
– os estreptococos fecais fornecem dados adicionais, a respeito da qualidade bacteriológica da água. – geralmente, sua ocorrência sugere poluição fecal e sua ausência indica pequena ou nenhuma poluição por animais de sangue quente. – Normalmente, os estreptococos fecais não ocorrem em águas e solos de áreas não poluídas e a pouca incidência está relacionada diretamente a animais de vida selvagem ou à drenagem dos solos por enxurradas. – quando a relação CF / EF for superior a 4, a poluição fecal é provavelmente de origem humana e, se for inferior a 0,7, provavelmente é de origem animal. Esta relação só pode ser aplicada para números superiores a 100 EF por 100mL da amostra (SPERLING).

Principais parâmetros
• METAIS EM ÁGUAS
– metais no ambiente aquático em concentrações elevadas causa a mortalidade de peixes e comunidades bentônica, perifítica, planctônica, nectônica e seres fotossintetizantes. – por não possuírem caráter de biodegradabilidade faz com que permaneçam em ciclos biogeoquímicos globais, nos quais as águas naturais são seus principais meios de condução, podendo-se acumular na biota aquática em níveis significativamente elevados.
PARÂMETRO Alumínio Cádmio Chumbo Cobalto Cobre Cromo III Manganês Mercúrio Níquel Prata Zinco Especial 1 0,1 0,001 0,03 0,2 0,02 0,5 0,1 0,0002 0,025 0,01 0,18 CLASSES 2 0,1 0,001 0,03 0,2 0,02 0,5 0,1 0,0002 0,025 0,01 0,18 3 0,1 0,01 0,05 0,2 0,5 0,5 0,5 0,002 0,025 0,05 5,0 4 -

Padrões de qualidade de metais - teores máximos (valores em mg.L-1), segundo CONAMA 20/86.

Principais parâmetros
• METAIS EM SEDIMENTOS
– o sedimento é a partícula derivada da rocha, ou materiais biológicos, que pode ser transportada por fluído. – é a partícula derivada da fragmentação das rochas, por processos físicos e/ou químicos, e que é transportada pela água ou pelo vento do lugar de origem aos rios e aos locais de deposição. – é o material sólido em suspensão na água ou depositado no leito. – o sedimento é o compartimento (sumidouro) do sistema aquático onde se depositam todos os compostos minerais, estruturas de animais e vegetais que não foram totalmente decompostos. – agrotóxicos e os metais pesados também se depositam nos sedimentos. – a distribuição na vertical é um importante indicador da evolução da poluição em ambientes aquáticos.

Principais parâmetros
• METAIS EM SEDIMENTOS

Diretriz para classificação de poluição para sedimentos
Muito poluído* (maior que) (mg.kg-1) Arsênio 8 Bário 60 Cádmio 6 Cromo 25 25-75 75 Cobre 25 25-50 50 Ferro 17000 17000-25000 25000 Chumbo 40 40-60 60 Manganês 300 300-500 500 Mercúrio 1 1 Níquel 20 20-50 50 Zinco 90 90-200 200 *classificação de poluição para sedimentos das enseadas dos Grandes Lagos. Elemento Não poluídos* (menor que) (mg.kg-1) 3 20 Moderadamente* poluído (mg.kg-1) 3-8 20-60 CONAMA 344/04 Nível 1 Nível 2 -1 (mg.kg ) (mg.kg-1) 5,9 17 0,6 37,3 35,7 35 0,17 18 123 3,5 90 197 91,3 0,486 35,9 315

Principais parâmetros
• ALUMÍNIO
– terceiro metal em abundância na crosta terrestre. – muito utilizado em indústrias automobilísticas e nas estruturas das ligas que incorporam pequenas quantidades de cobre, silício e manganês, entre outros metais. Brasil produz 762.000 t/ano. – na água, o alumínio é complexado e influenciado pelo pH, temperatura e a presença de fluoretos, sulfatos, matéria orgânica e outros ligantes. A solubilidade é baixa em pH entre 5,5 e 6,0. Al2O3(s) + 2 OH-(aq) + 3 H2O → 2Al(OH)3(aq) – o aumento da concentração de alumínio está associado com o período de chuvas e, portanto, com a alta turbidez. – a principal via de exposição humana não ocupacional é pela ingestão de alimentos e água. – Há considerável evidência que o alumínio é neurotóxico. – aumento do risco relativo da ocorrência do Mal de Alzheimer com o nível de alumínio na água de abastecimento.

Principais parâmetros
• CÁDMIO
– o cádmio é usado na natureza para ligar-se com cobre, chumbo, prata, alumínio e níquel. – pode ser liberado para o ambiente através da queima de combustíveis fósseis. – é utilizado na produção de pigmentos, bactérias, soldas, equipamentos eletrônicos, lubrificantes, acessórios fotográficos, reatores nucleares praguicidas, etc. – sais de cádmio são empregados como inseticidas e antihelmínticos. – em casos de intoxicação inicial causa câimbras, náuseas, vômitos e diarréia. – tende a se concentrar no fígado, rins, pâncreas e tireóide de pessoas e animais. – uma vez no organismo, é provável que permaneça.

Principais parâmetros
• CÁDMIO
– está presente em águas doces não poluídas em concentrações traços, geralmente inferiores a 1 µg.L-1. – é um metal de elevado potencial tóxico, que se acumula em organismos aquáticos, possibilitando sua entrada na cadeia alimentar. – pode atuar como um fator etiológico para vários processos patológicos no ser humano: tumores nos testículos, disfunção renal, hipertensão, arteriosclerose, aumento da inibição, doenças crônicas de envelhecimento e câncer. – doença Itai-Itai (ocorrida no Japão, caracterizando-se por alteração no sistema renal-urinário com grande perda de cálcio).

Principais parâmetros
• CHUMBO
– encontrado na água sob a forma solúvel, suspenso e em baixas concentrações, devido à solubilidade. – é um metal tóxico, que tende a se acumular nos tecidos do homem e de outros animais. – a queima de combustíveis fósseis é uma das principais fontes – era utilizado como aditivo anti-detonante na gasolina. – o chumbo e seus compostos também são utilizados em eletrodeposição, metalurgia, materiais de construção, plásticos, tintas, etc. – uma intoxicação crônica por este metal pode levar a uma doença denominada SATURNISMO, que ocorre na maioria das vezes, em trabalhadores expostos ocupacionalmente.

Principais parâmetros
• CHUMBO
Acima dos padrões ambientais pode causar efeitos nocivos, tais como: • anemia, disfunção neurológica, enfraquecimento renal, irritabilidade, tontura, dor de cabeça, perda de memória, entre outros. • paralisia dos nervos; pressão sanguínea elevada, edema de papila, convulsão e coma; nefrite saturnina; • cancerígeno, mutagênico e teratogênico; • problemas na descendência, desde a provocação de abortos, partos prematuros e crianças com problemas que incluem, desde alterações no sistema nervoso, até morte prematura. • quando o efeito ocorre no sistema periférico o sintoma é a deficiência dos músculos extensores. • A toxicidade do chumbo, quando aguda, é caracterizada pela sede intensa, sabor metálico, inflamação gastro-intestinal, vômitos e diarréias.

Principais parâmetros
• COBALTO
– são poderosos agentes oxidantes e conseqüentemente, são instáveis em águas naturais. – a presença de cobalto acima dos padrões ambientais pode causar efeitos nocivos, tais como: • insuficiência cardíaca congênita; • hiperplasia da medula; • deficiência da tireóide (mixidema); • mutagênico.

Principais parâmetros
• COBRE
– os sais de cobre ocorrem em águas superficiais naturais apenas em quantidades traços, aproximadamente 0,05mg.L-1. – concentrações de 0,015 a 3,0mg.L-1, tem sido indicadas como tóxicas em água doce, para muitas espécies de peixes, crustáceos, moluscos e plânctons em geral. – a toxicidade é afetada por condições ambientais, tais como: temperatura, dureza, turbidez e presença de CO 2. – elevadas concentrações de cobre podem produzir vômitos, perturbações no fígado, sabor desagradável na água e efeitos tóxicos para uma extensa variedade de formas aquáticas.

Principais parâmetros
• CROMO
– o cromo é um elemento traço essencial à nutrição humana, mas raramente encontrado em águas naturais. – as concentrações de cromo em água doce são muito baixas, normalmente inferiores a 1µg.L-1. – é comumente utilizado em aplicações industriais e domésticas, como na produção de alumínio anodizado, aço inoxidável, tintas, pigmentos, explosivos, papel, fotografia e curtimento de couro. – na forma trivalente o cromo é essencial ao metabolismo humano e, sua carência, causa doenças. Na forma hexavalente é tóxico e cancerígeno. – os limites máximos são estabelecidos basicamente em função do cromo hexavalente. – uma concentração de 0,05mg.L-1 de Cr(VI) causa a morte de Daphnia magna em 6 dias.

Principais parâmetros
• FERRO
– é um elemento metálico que ocorre em águas naturais, oriundo da dissolução de compostos ferrosos de solos arenosos, terrenos de aluvião ou pântanos. – os íons ferrosos em águas superficiais são oxidados a condições férricas e formam hidróxidos insolúveis. Os precipitados apresentam-se na forma de gel ou flocos. – quando suspensos na água, exercer efeitos nocivos sobre peixes e outras vidas aquáticas. – ao sedimentar, cobrem o fundo dos rios e destroem os invertebrados de fundo, plantas e ovos de peixes em incubação. – com o tempo, pode ligar-se, adquirindo características semelhantes ao cimento, tornando o local não apropriado para a desova de peixes.

Principais parâmetros
• FERRO
– o ferro, em quantidade adequada, é essencial ao sistema bioquímico das águas. – podem, em grandes quantidades, se tornar nocivo, dando sabor e cor desagradáveis e dureza às águas, tornando-as inadequadas ao uso doméstico e industrial. – o ferro é um constituinte indesejável em suprimentos de água potável, pois afeta as propriedades organolépticas e causa mancha nas roupas e louças. – o ferro aparece, normalmente, associado com manganês.

Principais parâmetros
• MANGANÊS
– é um elemento essencial para nutrição, de animais e humanos, tanto sua falta quanto seu excesso, produzem efeitos colaterais. – o envenenamento por manganês produz efeitos semelhantes ao da doença de Parkinson, distúrbios psicológicos e falta de coordenação motora. – Raramente atinge concentrações de 1,0mg.L-1 em águas superficiais naturais e, normalmente, está presente em quantidades de 0,2mg.L-1 ou menos. – é muito usado na indústria do aço, na fabricação de ligas metálicas e baterias e na indústria química em tintas, vernizes, fogos de artifícios e fertilizantes, entre outros. – sua presença, em quantidades excessivas, é indesejável em mananciais de abastecimento público devido ao seu efeito no sabor, manhas nas louças sanitárias, aparecimento de manchas nas roupas lavadas e acúmulo de depósitos em sistemas de distribuição.

Principais parâmetros
• MERCÚRIO
– As concentrações naturais de mercúrio na água variam de menos de 0,1 a 17,0µg.L-1, sendo que a maioria dos valores é igual ou menor que 0,1µg.L-1. – Altas concentrações mercuriais podem causar efeitos nocivos, tais como: • intoxicação aguda: náuseas, vômitos, cólicas abdominais, diarréia sanguínea, danos aos rins e morte. Pode ser fatal em 10 dias. • intoxicação crônica: inflamação da boca e gengivas, dilatação das glândulas salivares, salivação excessiva, perda de dentes, problemas renais, alterações psicológicas e psicomotoras; • efeitos genéticos: rompimento dos cromossomas, inibição do mecanismo mitótico, destruição dos tecidos neurais.

Principais parâmetros
• MERCÚRIO
– entre as fontes antropogênicas de mercúrio no meio aquático destacam-se: garimpo (amalgama), indústrias cloro-álcali de células de mercúrio, vários processos de mineração e fundição, efluentes de estações de tratamento de esgotos, fabricação de certos produtos odontológicos e farmacêuticos, indústrias de tintas, etc. – o peixe é um dos maiores contribuintes para a carga de mercúrio no corpo humano, sendo que o mercúrio mostra-se mais tóxico na forma de compostos organo-metálicos. Bibliografia para aprofundamento:
CASTRO E SILVA, E. (Coordenador). Subprojeto 1.4 – Distribuição e Transporte de Mercúrio na Bacia do Alto Paraguai. In: Projeto implementação de práticas de gerenciamento integrado de bacia hidrográfica para o Pantanal e Bacia do Alto Paraguai. Brasília: ANA/GEF/PNUMA/OEA, 2004. (www.ana.gov.br)

Principais parâmetros
• NÍQUEL
– concentrações de níquel em águas superficiais naturais podem chegar a aproximadamente 0,1mg.L-1, embora concentrações de mais de 11,0mg.L-1 possam ser encontradas, principalmente em áreas de mineração. – a maior contribuição para o meio ambiente, pela atividade humana, é a queima de combustíveis fósseis. – doses elevadas de níquel podem causar dermatites nos indivíduos mais sensíveis e afetar nervos cardíacos e respiratórios. – para a vida aquática, os níveis de toxicidade são variáveis e determinados pelo pH e efeitos sinérgicos de outros metais.

Principais parâmetros
• PRATA
– é um dos elementos raros com uma baixa solubilidade de 0,1 a 10mg.L-1, dependendo do pH e da concentração de cloreto. – causa uma permanente descoloração cinzenta na pele, olhos e membranas mucosas. – Em estudos sobre embrião de Echinoderm (ouriço-do-mar): prata foi 80 vezes mais tóxico do que o zinco, 20 vezes mais tóxico que o cobre, e 10 vezes mais tóxico que o mercúrio. – é um metal precioso, sendo freqüentemente recuperado dos processos industriais .

Principais parâmetros
• ZINCO
– o zinco é um microelemento necessário ao desenvolvimento e crescimento de plantas e animais, ocorrendo em todas as águas naturais que suportem vida aquática. – é em relação aos peixes e organismos aquáticos que este metal exibe sua maior toxicidade (mudanças na morfologia e fisiologia, obstrução das guelras, crescimento e maturação retardados e morte). – em águas superficiais, normalmente as concentrações estão na faixa de < 0,001 a 0,10mg.L-1. – é largamente utilizado na indústria e pode entrar no meio ambiente através de processos naturais e antropogênicos. – a água com alta concentração de zinco tem uma aparência leitosa e produz um sabor metálico ou adstringente, quando aquecida.

Testes de Toxicidade Crônica e Aguda
– os testes de toxicidade consistem na determinação do potencial tóxico de um agente químico ou de uma mistura complexa, sendo os efeitos desses poluentes detectados através da resposta de organismos vivos. TESTE DE TOXICIDADE AGUDA (Sistema Microtox): a bactéria luminescente utilizada é o Vibrio fischeri, que permite avaliar a toxicidade de uma amostra de água através da redução na quantidade de luz emitida pelo microrganismo-teste. TESTE DE TOXICIDADE CRÔNICA: o organismo aquático utilizado é a Ceriodaphnia dubia.

Testes de Toxicidade Crônica e Aguda
– utilizam-se as denominações Agudo, Crônico ou Não Tóxico, para a eventual descrição dos efeitos deletérios sobre os organismos aquáticos: • AGUDO: o efeito observado é a letalidade ou alguma outra manifestação que a antecede, tal como o estado de imobilidade em alguns crustáceos. • CRÔNICO: é quando concentrações de agentes tóxicos afetam uma ou várias funções biológicas dos organismos, como a reprodução, o crescimento, o comportamento, etc. – os corpos de água que estão sendo avaliados não apresentam condições adequadas para a manutenção da vida aquática quando os testes realizados nas amostras de água coletadas acusarem efeito agudo ou crônico.

Índice de Qualidade da Água IQACETESB

Índice de Qualidade da Água IQACETESB
• IQA NSF MODIFICADO - IQACETESB
– O IQA incorpora nove parâmetros, tendo como determinante principal a utilização das águas para abastecimento público: “Temperatura da amostra, pH, OD, DBO5,20, Coliforme Fecal, Nitrogênio Total, Fósforo Total, Resíduo Total e Turbidez.”
n Wi i

IQA = ∏ q
i =1

IQA: Índice de Qualidade das Águas; qi: qualidade do i-ésimo parâmetro, obtido da respectiva "curva média de variação de qualidade"; wi: peso correspondente ao i-ésimo parâmetro; n: número de parâmetros que entram no cálculo do IQA.

∑W
i =1

n

i

=1

Índice de Qualidade da Água IQASMITH
• IQASMITH
– O IQASMITH utiliza nove parâmetros, tendo como determinante principal a qualidade das águas brutas: “Temperatura da amostra, pH, OD, DBO5,20, Coliforme Fecal, Nitrogênio Total, Fósforo Total, Resíduo Total e Turbidez.” Ex.: DESCRITOR IS = min {I1,I2....In} Qualidade Ótima 79 < IQA ≤ 100

IS = Valor do Índice de Smith Qualidade Boa 51 < IQA ≤ 79 min = menor valor entre Ii = Valores dos Sub-Índices do IQACETESB Qualidade Regular 36 < IQA ≤ 51

Qualidade Ruim Qualidade Péssima

19 < IQA ≤ 36 IQA ≤ 19

Parâmetros IQACETESB
• (1) TEMPERATURA
– Elevação pode ser atribuída a despejos industriais, existindo limites de tolerância para a flora e fauna aquáticas.

• (2) pH
– Define o caráter ácido, básico ou neutro de uma solução. Os organismos vivos estão adaptados à condição de neutralidade. Mudanças drásticas do pH podem eliminá-los do meio.

• (3) OXIGÊNIO DISSOLVIDO
– Indica a capacidade do corpo d’água em manter a vida, e o meio aquático tem a tendência de permanecer saturado.

Parâmetros IQACETESB
• (4) DBO5,20

– Indica a presença de poluição de origem orgânica, pela demanda de oxigênio exigida para sua redução bioquímica – Indica o potencial de contaminação do meio e a probabilidade da presença de microrganismos patogênicos

• (5) COLIFORMES FECAIS • (6) NITROGÊNIO TOTAL
– Constituinte das proteínas, que sofre transformações até sua redução a nitrato.

Parâmetros IQACETESB
• (7) FOSFATO TOTAL
– Responsável pela aceleração dos processos de eutrofização, desenvolvimento de algas em reservatórios de águas de baixa movimentação.

• (8) RESÍDUO TOTAL
– Podem causar danos aos peixes e à vida aquática, sua sedimentação altera o leito natural do rio e a vida existente, favorecendo processos de corrosão, e a fermentação anaeróbia.

• (9) TURBIDEZ
– Alteração da fotossíntese natural da vegetação submersa, que reduz a produtividade de peixes, afetando os diversos usos.

RIO LOCAL COORDENADAS PARÂMETROS Data da coleta Hora da coleta Temperatura do ar Temperatura da água Acidez total Alcalinidade total Clorofila-a Cloreto total Condutividade Cor DBO5,20 DQO Dureza total Fósforo total Fósforo dissolvido total Fósforo suspenso total Fósforo reativo Nitrogênio total Kjeldahl Amônia Nitrogênio orgânico Nitrito Nitrato Óleos e graxas Oxigênio dissolvido pH Potencial oxi-redução Sólidos totais Sólidos dissolvidos totais Sólidos suspensos totais Sólidos sedimentáveis Sulfato total Sulfeto total Tanino & Lignina Transparência Turbidez Coliformes totais Coliformes fecais UNIDADES dia h ºC ºC mg.L-1 CaCO3 mg.L-1 CaCO3 mg.m-3 Clor-a mg.L-1 Clì S.cm -1 mg.L-1 Pt mg.L-1 O2 mg.L-1 O2 mg.L-1 CaCO3 mg.L-1 PO4-3 mg.L-1 PO4-3 mg.L-1 PO4-3 mg.L-1 PO4-3 mg.L-1 N mg.L-1 NH3 mg.L-1 N mg.L-1 NO2mg.L-1 NO3mg.L-1 OG mg.L-1 O2 mV mg.L-1 ST mg.L-1 SDT mg.L-1 SST mL.L-1 SS mg.L-1 SO4-2 mg.L-1 S-2 mg.L-1 Ac. Tân. cm UNT NMP/100mL NMP/100mL

Rio Paraguai Bela Vista do Norte 17o38’31,8” S 57o41’15,8” W Amostra Pontual 2/12/02 18:15 31 31 33 21 2,7 2,7 36 5 1,0 20,7 16 0,42 0,36 0,06 0,12 0,90 0,60 0,41 0,013 0,80 3,30 6,3 7,5 204 72 12 60 <0,1 1,0 0,066 0,9 30 55 6,1x102 2,0x101

Rio Paraguai Porto José Dias 17o51'21,0" S 57o31'52,8" W Amostra Pontual 3/12/02 7:45 33 32 37 20 3,1 6,8 41 8 0,9 33,7 18 0,43 0,37 0,06 0,12 1,40 1,00 0,58 0,005 1,10 3,66 6,0 7,6 225 110 72 38 <0,1 3,0 0,110 1,7 25 117 1,4x103 4,2x101

Rio Paraguai Amolar 18o24'43,5" S 57o21'40,8" W Amostra Pontual 3/12/02 10:00 29 31 32 20 0,7 4,2 36 10 1,2 20,7 16 0,52 0,33 0,19 0,11 2,70 0,80 2,04 0,003 1,00 3,11 5,7 7,3 208 158 70 88 <0,1 1,0 0,076 1,3 30 89 8,2x102 4,2x101

Qualidade da água de rios da BAP

Rio Paraguai - Bela Vista do Norte

Rio Paraguai - Porto José Dias

Rio Paraguai – Amolar

Curvas Médias de Variação de Qualidade das Águas
Fonte: CETESB (2002)

Lagoa Gaiba
RIO LOCAL COORDENADAS PARÂMETROS UNIDADES Data da coleta dia Temperatura da água ºC DBO5,20 mg.L-1 O2 Fosfato total mg.L-1 PO4-3 Nitrogênio total mg.L-1 N Oxigênio dissolvido mg.L-1 O2 pH Sólidos totais mg.L-1 ST Turbidez UNT Coliformes fecais NMP/100mL Rio Paraguai Bela Vista do Norte 17o38’31,8” S 57o41’15,8” W Amostra Pontual 2/12/02 31 1,0 0,42 0,90 6,3 7,5 72 55 2,0x101 Rio Paraguai Porto José Dias 17o51'21,0" S 57o31'52,8" W Amostra Pontual 3/12/02 32 0,9 0,43 1,40 6,0 7,6 110 117 4,2x101

Sub-Índices Pesos (Wi) Bela Vista do Norte Porto José Dias Amolar Porto Sucuri Barranqueira Ladário

q1 q2 q3 q4 0,17 0,15 0,12 0,1

q5 0,1

q6 q7 q8 q9 0,1 0,08 0,08 0,1

IQA (CETESB) BOA BOA BOA BOA BOA BOA BOA BOA BOA BOA BOA BOA BOA BOA BOA

IQA (SMITH) 35,1 5,0 20,1 25,9 26,4 25,4 28,0 27,5 25,9 29,9 26,0 25,3 24,7 26,6 26,9 RUIM PÉSSIMA RUIM RUIM RUIM RUIM RUIM RUIM RUIM RUIM RUIM RUIM RUIM RUIM RUIM

89,1 57,7 92,2 88,4 92,9 88,1 35,1 86,1 92,5 78,0 87,2 49,1 92,0 89,5 89,2 87,8 5,0 84,8 92,5 64,7 83,2 49,1 92,5 86,2 80,2 85,5 20,1 79,7 92,5 70,2 84,3 51,2 91,8 91,7 86,3 86,8 25,9 85,6 92,5 73,6 85,9 52,5 92,4 85,2 83,5 87,8 26,4 82,5 92,5 73,4 85,3 59,7 92,4 90,6 89,2 84,5 25,4 85,7 92,5 75,4

Qualidade da água - BAP

IQACETESB e IQASMITH para o Rio Paraguai

Montante da Foz do 79,5 65,2 92,5 73,4 87,0 84,5 28,0 86,0 92,5 74,4 Rio Abobral Porto Esperança Forte Coimbra 79,5 57,1 92,0 87,3 89,2 84,8 27,5 78,0 92,5 73,7 81,9 65,2 92,5 81,1 87,0 85,3 25,9 77,2 92,5 74,5

Montante do Rio 80,8 67,2 91,2 91,7 85,6 86,3 29,9 82,5 92,5 76,7 Negro (Paraguai) Barranco Branco Fecho dos Morros Montante Murtinho de Porto 88,3 55,0 91,8 82,1 86,3 85,5 26,0 86,1 92,5 74,2 82,0 69,0 89,3 94,0 86,3 87,3 25,3 85,2 92,5 76,5 78,0 61,2 91,8 92,8 88,4 85,5 24,7 86,0 92,5 74,6 82,0 59,0 90,3 87,3 86,3 84,8 26,6 85,6 92,5 74,4

Porto Murtinho

Montante do Rio Apa 79,5 67,2 91,8 92,8 86,3 86,0 26,9 70,2 92,5 75,0

Legenda:

Qualidade Ótima Qualidade Regular Qualidade Péssima Qualidade Boa Qualidade Ruim Valor responsável pelo IQASMITH Os Sub-Índices representam: q1 = Oxigênio Dissolvido, em % de saturação q2 = Coliformes Fecais q3 = pH q4 = DBO 5,20 q5 = Nitrogênio Total q6 = Fosfato Total q7 = Turbidez q8 = Resíduo Total q9 = Temperatura

Qualidade da água - BAP
Classificação conforme CONAMA 20/86, do Rio Paraguai.
Pontos CF CT DBO5,20 Bela Vista do 1 1 1 Norte Porto José Dias 1 2 1 Amolar 1 1 1 Porto Sucuri 1 2 1 Barranqueira 1 1 1 Ladário 1 1 1 Mont. da Foz do 1 1 1 Rio Abobral Porto Esperança 1 1 1 Forte Coimbra 1 1 1 Mont. do Rio 1 1 1 Negro (Paraguai) Barranco Branco 1 1 1 Fecho dos Morros 1 1 1 Mont. de Porto 1 1 1 Murtinho Porto Murtinho 1 1 1 Mont. do Rio Apa 1 1 1 OD Tb pH Cor SDT SO4-2 H2S Cl NH3 NO2- NO3- P OG Classe 1 1 2 2 1 2 2 2 2 2 1 2 2 2 2 2 4 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 3 3 3 3 3 3 3 3 3 1 1 1 3 1 3 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4

Concentração (mg.L-1) de metais, em águas dos rios da BAP
Rio Rio Negro Rio Aquidauana Rio Miranda Rio Cuiabá Rio São Lourenço Rio Cuiabá Local Fazenda Rio Negro Fazendo Porto Ciríaco Fazenda Guaicurus Fazenda São João Faz. São José do Borieu Mont. da foz do Rio Piqueri Rio Piqueri Faz. São José do Piquiri Rio Cuiabá Fazenda Porto Alegre Rio Cuiabá PNPM - Posto do IBAMA Rio Paraguai Bela Vista do Norte Rio Paraguai Porto José Dias Rio Paraguai Amolar Rio Paraguai Porto Sucuri Rio Paraguai Barranqueira Canal Tamengo Polícia Florestal Rio Paraguai Ladário Rio Paraguai-Mirim Fazenda Caieira Rio Abobral Foz Rio Paraguai Mont. da Foz do Abobral Rio Miranda Foz Rio Piriquitos Foz Rio Paraguai Porto Esperança Rio Paraguai Forte Coimbra Cr ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND Ag Cu Mn Fe Co Ni Cd Pb Zn 0,003 0,013 0,178 1,692 0,013 0,024 0,008 0,342 0,093 0,004 0,023 0,090 3,120 0,010 0,021 0,008 0,376 0,130 0,004 0,009 0,084 2,487 0,012 0,022 0,009 0,299 0,040 ND ND 0,066 3,892 ND ND 0,002 0,085 0,079 ND ND 0,082 5,884 ND ND 0,002 0,148 0,123 ND ND 0,045 3,202 ND ND 0,001 0,089 0,099 ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND 0,024 0,042 0,003 0,008 0,024 ND 0,001 0,576 0,009 0,018 0,245 0,021 0,133 0,017 0,002 ND 0,951 2,719 2,892 1,992 3,093 2,708 2,562 2,656 3,328 2,564 1,600 0,923 2,494 3,998 1,049 2,205 2,135 ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND 0,001 0,001 ND 0,001 ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND ND 0,107 0,150 0,114 0,178 0,164 0,167 0,145 0,144 0,097 0,185 0,152 0,083 0,107 0,108 0,076 0,046 0,077 0,094 0,083 0,301 0,117 0,090 0,212 0,071 0,075 0,119 0,125 0,107 0,170 0,121 0,171 0,167 0,310 0,107

Metais na água - BAP

Concentração (mg.kg-1 PS) de alguns metais, em sedimentos de rios da BAP.
Camada (cm) 0-3 3-6 6 -9 0-5 5 - 10 10 - 15 0-4 4-8 8 - 12 0-4 4-8 8 - 12 0-5 5 - 10 10 - 15 0-4 4-8 8 - 12 Ca 156 167 211 220 208 207 211 211 207 157 149 145 210 205 209 216 213 208 Al 4081 5790 6696 6059 5534 5006 4455 4298 3701 5560 5418 4632 5073 5856 4035 1861 2306 3334 Mg 894 1388 1640 1272 1095 1074 1015 936 815 587 542 447 865 999 689 513 582 652 Fe 921 1004 959 4769 4688 4599 4562 4479 4408 4289 5063 5003 4916 4891 4779 4753 4724 4717 Cr 7,5 12,1 10,9 25,9 25,1 20,5 24,4 22,7 19,3 20,2 22,4 19,3 21,5 23,9 17,3 9,9 10,9 15,1 Ni 9,3 14,7 16,4 18,8 17,1 14,0 13,7 13,3 10,9 16,1 15,8 13,2 14,1 15,2 10,4 5,7 6,5 9,0 Cu 12,0 19,2 23,1 14,9 14,0 11,1 12,2 11,9 9,9 14,3 12,0 10,2 13,2 14,2 10,1 5,2 6,0 7,2 Pb 6,8 14,8 18,4 21,6 20,1 18,3 15,9 16,4 12,9 18,2 19,1 16,6 16,6 18,4 13,8 8,5 9,7 12,8 Mn 151 216 345 250 243 243 239 234 218 196 234 225 209 240 203 236 242 251 Co 9,8 17,4 21,8 17,5 17,2 16,0 17,1 16,4 13,9 18,1 20,4 18,0 13,4 15,9 11,3 10,3 11,0 15,4 Cd 0,9 1,6 1,3 1,2 1,3 1,4 1,3 1,1 1,1 1,0 1,0 1,0 0,9 1,1 0,8 0,6 0,7 1,1 Zn 27,0 40,9 40,0 45,9 45,3 44,5 39,6 39,3 34,5 36,8 34,3 31,3 36,0 44,4 30,9 31,9 34,9 39,6

Qualidade dos sedimentos - BAP

Pontos de coleta

Rio Miranda (Fazenda Guaicurus)

Rio Cuiabá (Fazenda São João)

Rio São Lourenço (Fazenda São José do Borieu)

Rio Piqueri (Fazenda São José do Piquiri)

Rio Paraguai (Bela Vista do Norte)

Canal Tamengo (Polícia Florestal)

PS: peso seco

Qualidade dos sedimentos - BAP
Teores de mercúrio (ng/g), em perfis de sedimento coletados nas duas campanhas de amostragem (2000 e 2002) - Área de influência do Rio Bento Gomes.
Local Fazenda Conceição Capão do Angico Fazenda Ipiranga Fazenda São Vicente Fazenda São Vicente 2 Lagoa do Beto Rondon Tanque dos Padres
CP 1 2 1 2 1 2 1 1 2 2 1 2 0,0 a 2,0 a 2,0 4,0 104,4 96,1 15,1 40,3 18,4 20,6 18,2 16,6 80,8 90,4 176,8 134,7 29,9 24,5 22 19,5 46,3 24,5 114,9 67,7 60,1 53,2 104,9 97,2 4,0 a 6,0 a 6,0 8,0 72,6 40,2 22,2 7,9 16,9 8,5 14,7 70,4 99,8 202,7 150,7 32,2 34,1 19,2 17,5 20,87 66,9 30,0 68,1 78,8 50,2 131,4 267,0 8,0 a 10,0 10,0 a 12,0 a 14,0 a 16,0 a 18,0 a 20,0 a 12,0 14,0 16,0 18,0 20,0 22,0

29,6 9,8 66,2 138,6 26,2 16,4 22,2 46,2 96,8

17,9 20,2 73,7 130,3 11,9 13,3

24,4 15,5 61,4 80,5 21,3 15,9

20 15,3 54,8 72,0 18,1

19,4 62,6 72,4 19,8

85,5

172,8

CP: Campanha Fonte: CASTRO E SILVA (2004)

Mercúrio em peixes - BAP
Médias dos teores de mercúrio em peixes da BAP, em 2002.
ÁREA Localidade
Baia de Siá Mariana, Baia de Siá Mariana 2, Rio Mutum, Baia do Chacororé, Baia do Porto de Fora

Espécie

Rio Cuiabá

Pintado P. coruscans Piranha Serrasalmus sp. Cachara P. fasciatum Baia Fazenda do Coqueiro, Baia Piranha Serrasalmus sp. Fazenda Coqueiral, Baia a montante Dourado S. maxillosus do Pirigara, Rio Pirigara, Rio Três

Teor de Hg (ng/g) Média DP Min. 255,3 174,1 72,8 57,5 371,3 159,2 190,8 246,6 134,3 108,0 65,6 392,2 167,5 220,7 316,7 245,8 249,7 235,4 339,7 198,0 196,2 193,2 98,5 267,6 193,0 267,7

Máx. 400,4 491,7 470,3

Irmãos, Rio Piquiri, Baia do Porto Jofre, Baia Perdida, Baia do Burro Baia Assoreada, Rio Jauru Pintado P. coruscans (Montante), Rio Jauru (Confluência), Piranha Serrasalmus sp. Baia do Galdino, Baia das Éguas, Barbado Piniranpus pirinanpu Baia do Morrinhos

Rio Paraguai

Pintado P. coruscans Piranha Serrasalmus sp. Cachara P. fasciatum Barbado Piniranpus pirinanpu Cabeçudo Pimelodus ornatus Pintado P. coruscans Piranha Serrasalmus sp. Rio Fazenda Conceição, Campo do Cachara P. fasciatum Cara Cara, Baia Uberaba, Baia Bela Jurupoca H. plathyrhynchos Vista, Baia da Gaiva, Baia do Barbado Piniranpus pirinanpu Acorizal, Baia do Ingazal Dourado S. maxillosus Palmito Ageneiosus brevifilis
Baia do Tocá, Baia do Pescador, Baia do Jatobá, Baia do Cai Cai, Reserva do Taimã, Baia do Braçinho do Meio

105,3 58,7 177,1 148,7 135,0 78,9 68,4 96,0 186,0 150,1 28,9 173,4 67,1

0,0 151,4 110,1 0,0 110,6 158,5 291,3 79,8 0,4 44,1 65,2 54,4 220,3

384,7 294,0 531,8 766,6 429,3 316,1 388,1 307,0 815,2 344,4 116,2 525,7 315,2

Praguicidas em águas - BAP
Praguicidas detectados nas águas dos rios da Bacia do Alto Paraguai.
Rio Local Agrotóxico detectado Diazinon Prometrina o,p’ DDE p,p’ DDE Prometrina p,p’ DDE Heptacloro epóxido Heptacloro epóxido Prometrina Heptacloro epóxido Heptacloro epóxido Concentração (ì g.L-1) 1,77 38,64 6,29 14,65 2,98 0,78 0,39 0,21 0,15 0,62 0,39

Rio Cuiabá

Faz. São João

Rio São Lourenço Rio Coxim Rio Piquiri Rio Correntes Rio Correntes

Faz. São José do Borireu Foz do Rio Coxim Montante do Rio Correntes UHE Ponte de Pedra Mont. da foz do Rio Piquiri

Fonte: IDE (2004)

Praguicidas em sedimentos - BAP
Praguicidas detectados em sedimentos dos rios da BAP.

Rio

Local Faz. São José do Borireu Faz. São José do Borireu Faz. São José do Borireu Foz Rio Negro (Paraguai) Foz do Rio Vermelho Foz do Rio Vermelho Foz do Rio Vermelho

Praguicida Lindano Lindano Lindano Lindano Lindano Lindano Lindano

Rio São Lourenço Rio São Lourenço Rio São Lourenço Rio Negro (Paraguai) Rio Vermelho Rio Vermelho Rio Vermelho PS = peso seco

Concentração (ì g.kg-1PS) 34,63 37,89 71,11 20,44 35,56 20,00 28,44

Fonte: TROLI (2004)

Parâmetros Temperatura da água pH Condutividade Cor Turbidez Sólidos totais Sólidos totais voláteis Sólidos dissolvidos totais Sólidos suspensos totais Sólidos sedimentáveis Chumbo total Zinco total Cádmio total Cromo total Cobre total Ferro total Acidez Alcalinidade Cloretos Oxigênio dissolvido Amônia Nitritos Nitratos Fósforo total Sulfatos totais DBO 5,20 DQO Óleos e graxas Coliformes totais Coliformes fecais
o

C

µS.c -1m mg.L-1 Pt UNT mg.L-1 ST mg.L-1 STV mg.L-1 SDT mg.L-1 SST mg.L-1 SS mg.L-1 mg.L-1 mg.L-1 mg.L-1 mg.L-1 mg.L-1 mg.L-1 CaCO3 mg.L-1 CaCO3 mg.L-1 Clmg.L-1 O2 mg.L-1 NH3 mg.L-1 NO2mg.L-1 NO3mg.L-1 PO4-3 mg.L-1 SO4-2 mg.L-1 O2 mg.L-1 O2 mg.L-1 OG NMP/100mL NMP/100mL

Variabilidade / Concentrações 17,5 - 30,0 6,5 - 8,3 72 - 445 50 - 20000 30 - 270 160 - 10225 10 - 1240 75 - 555 10 - 9880 0 - 260 0,10 - 0,31 0,03 - 3,31 < 0,03 0,06 - 0,23 0,06 - 1,12 0,19 - 81,29 1,0 - 55,6 21,0 - 326,2 5,5 - 52,5 0 - 6,6 0,31 - 4,88 0,01 - 0,85 0,20 - 16,61 0,008 - 2,580 2,24 - 51,91 1,3 - 97,9 2,20 - 597,51 1,10 - 56,5 4,0x102 - 2,4x10 8 4,0x102 - 2,4x10 8

Qualidade da drenagem pluvial urbana – Porto Alegre

Fonte: IDE (1984)

Dados hidrossedimentométricos de rios da BAP
RIO LOCAL PARÂMETROS Data da medição Profundidade média Velocidade média Vazão Desc. sólida suspensão Desc. sólida leito Descarga sólida total UNIDADES dia m m/s m³/s ton/dia ton/dia ton/dia SÃO LOURENÇO RIO TAQUARI São Lourenço de Montante da Fátima Foz do Coxim R3P1C 21/01/03 2,07 0,91 153,42 4817,081 3189,964 8007,045 R3P3C 25/01/03 2,36 1,20 317,84 15289,133 6835,215 22124,348 RIO COXIM Foz do Coxim R3P4C 26/01/03 1,98 1,28 288,82 21046,471 7830,101 28876,572

Fonte: BARBEDO (2003)

Principais equipamentos de laboratório

TOC

HPLC

CG/MS

Inductively Coupled Plasma-Mass Spectrometers

Principais equipamentos de laboratório

Atomic Absorption Spectrometer

UV-Vis-NIR Spectrophotometers

Nuclear Magnetic Resonance (NMR)

FT-IR spectrometers

Referências bibliográficas
• [1]BARTRAM, J.; HELMER, R. Introduction. In: Water Quality Monitoring - A Practical Guide to the Design and Implementation of Freshwater Quality Studies and Monitoring Programmes. UNEP/WHO, 1996. Disponível em:
<http://www.who.int/docstore/water_sanitation_health/wqmonitor/begin.htm#Contents>.

Acesso em: 24/6/2004. [2]MEYBECK, M.; KUUSISTO, E.; MÄKELÄ, A.; MÄLKKI, E. WATER QUALITY. In: Water Quality Monitoring - A Practical Guide to the Design and Implementation of Freshwater Quality Studies and Monitoring Programmes. UNEP/WHO, 1996. Disponível em:
<http://www.who.int/docstore/water_sanitation_health/wqmonitor/begin.htm#Contents>.

• •

Acesso em: 24/6/2004. [3]BRASIL. Fundação Nacional de Saúde. Manual de Saneamento. 3ª ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2004a. [6]PORTO, R. L.L.; BRANCO, S. M.; CLEARY, R. W.; COIMBRA, R. M.; EIGER, S.; DE LUCA, S. J.; NOGUEIRA, V. P. Q.; AMARAL PORTO, M. F. Hidrologia Ambiental. v.3. São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo: Associação Brasileira de Recursos Hídricos – ABRH, 1991. [7]BRANCO, S.M. Hidrologia aplicada à engenharia ambiental. São Paulo: CETESB. 1986.

Referências bibliográficas
• • • • • • [8]VON SPERLING, M. Introdução a Qualidade das Águas e ao Tratamento de Esgotos. 2ª ed., Belo Horizonte: Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental; Universidade Federal de Minas Gerais, 1996. [9]ESTEVES, F.A. Fundamentos de Limnologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Interciência, 1998. [10]MOTA, S. Introdução a Engenharia Ambiental. 2ª ed. Rio de Janeiro: ABES, 2000. [11]EPA. Water Quality Criteria. Washington: EPA, 1972. [12]CETESB. Variáveis de qualidade das águas. Disponível em: <www.cetesb.sp.gov.br/Agua/rios/padroes.asp> Acesso em: 14/10/2004. [17]IDE, C. N. (Coordenador). Subprojeto 1.5 – Distribuição e Transporte de Agroquímicos e Metais Pesados na Bacia do Alto Paraguai. In: Projeto implementação de práticas de gerenciamento integrado de bacia hidrográfica para o Pantanal e Bacia do Alto Paraguai. Brasília: ANA/GEF/PNUMA/OEA, 2004. [31]CASTRO E SILVA, E. (Coordenador). Subprojeto 1.4 – Distribuição e Transporte de Mercúrio na Bacia do Alto Paraguai. In: Projeto implementação de práticas de gerenciamento integrado de bacia hidrográfica para o Pantanal e Bacia do Alto Paraguai. Brasília: ANA/GEF/PNUMA/OEA, 2004.

DÚVIDAS?

Muito obrigado !!!

23o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental Campo Grande - MS 18 a 23 de setembro de 2005

SANEAMENTO,TRATAMENTO E SAÚDE
Mauro Roberto Felizatto
Universidade Católica de Brasília (UCB)

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SANEAMENTO AMBIENTAL
CONCEITOS Saneamento ambiental

É o conjunto de ações socioeconômicas que têm por objetivo alcançar níveis de salubridade ambiental, por meio de abastecimento de água potável, coleta e disposição sanitária de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, promoção da disciplina sanitária de uso do solo, drenagem urbana, controle de doenças transmissíveis e demais serviços e obras especializadas, com a finalidade de proteger e melhorar as condições de vida urbana e rural.
Meio ambiente

A Lei nº 6.938, de 31/8/81, que dispõe sobre a Política Nacional de Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação no Brasil, define: “Meio ambiente é o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”.
Salubridade ambiental

É o estado de higidez em que vive a população urbana e rural, tanto no que se refere a sua capacidade de inibir, prevenir ou impedir a ocorrência de endemias ou epidemias veiculadas pelo meio ambiente, como no tocante ao seu potencial de promover o aperfeiçoamento de condições mesológicas favoráveis ao pleno gozo de saúde e bem-estar.
OS SISTEMAS AMBIENTAIS

A poluição do meio ambiente é assunto de interesse público em todas as partes do mundo. Não apenas os países desenvolvidos vêm sendo afetados pelos problemas ambientais, como também os países em desenvolvimento. Isso decorre de um rápido crescimento econômico associado à exploração de recursos naturais. Questões como: aquecimento da temperatura da terra; perda da biodiversidade; destruição da camada de ozônio; contaminação ou exploração excessiva dos recursos dos oceanos; a escassez e poluição das águas; a superpopulação mundial; a baixa qualidade da moradia e ausência de saneamento básico; a degradação dos solos agricultáveis e a destinação dos resíduos (lixo) são de suma importância para a humanidade. Ao lado de todos esses problemas estão, ainda, os processos de produção utilizados para extrair matérias-primas e para transformá-las em uma multiplicidade de produtos para fins de consumo em escala internacional. Embora se registrem progressos no setor das técnicas de controle da poluição, para diversos campos da indústria de extração e de transformação, é preciso reconhecer que não há métodos que propiciem um controle absoluto da poluição industrial. As considerações econômicas exercem um grande papel quando se trata de definir a melhor tecnologia disponível, que até certo ponto é influenciada por fatores relativamente independentes das necessidades de controle da poluição. Existem indícios, por exemplo, de que muitas

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empresas de grande porte tendem a se transferir para áreas sem padrões rígidos de controle, instalando-se em países em desenvolvimento que, na busca de investimentos econômicos, aceitam a poluição como um mal necessário. Os grandes problemas ambientais ultrapassam as fronteiras territoriais e devem ser tratados de forma global, pois afetam a vida de todos no planeta. Daí se explica por que países mais desenvolvidos colocam barreiras à importação de produtos resultantes de processos prejudiciais ao meio ambiente. A ONU vem fazendo um esforço no sentido de reverter o processo acelerado de degradação dos recursos naturais no mundo, que também tem como causas a explosão demográfica e as precárias condições de vida de grande parte da população. Mais de um bilhão dos habitantes da Terra não têm acesso à habitação segura e serviços básicos de saneamento como: abastecimento de água, rede de esgotamento sanitário e coleta de lixo. A falta de todos esses serviços, além de altos riscos para a saúde, são fatores que contribuem para a degradação do meio ambiente. A situação exposta se verifica especialmente nos cinturões de miséria das grandes cidades, onde se aglomeram multidões em espaços mínimos de precária higiene. Estudos do Banco Mundial (1993) estimam que o ambiente doméstico inadequado é responsável por quase 30% da ocorrência de doenças nos países em desenvolvimento. Outro problema relacionado à poluição do mar causada pelos despejos de rejeitos tóxicos materiais assemelhados e o escoamento de águas poluídas dos continentes, aumenta de forma progressiva no mundo inteiro. Tudo isso, aliado ao excesso de pesca, está levando ao declínio diversas zonas pesqueiras regionais. A extinção de espécies vivas e de ecossistemas, conhecida como biodiversidade, também é um grave e irreversível problema global. Segundo estimativas conservadoras, existem entre cinco a dez milhões de espécies de organismos no mundo; mas há quem calcule até 30 milhões. Dessas, somente 1,7 milhão foram identificadas pelo homem. De 74% a 86% das espécies vivem em florestas tropicais úmidas como a Amazônia. Acredita-se que entre 20% a 50% das espécies estarão extintas até o final do século em razão da destruição das florestas e dos santuários ecológicos situados nas ilhas. Como podemos verificar, a atividade humana gera impactos ambientais que repercutem nos meios físicos, biológicos e socioeconômicos afetando os recursos naturais e a saúde humana. Esses impactos se fazem sentir nas águas, ar e solo e na própria atividade humana. O controle das substâncias químicas perigosas, o manejo adequado dos recursos hídricos e dos resíduos sólidos, o controle de ruídos, das vibrações e das radiações são essenciais à proteção do meio ambiente natural e do ambiente modificado onde vive e trabalha o homem. A seguir passaremos a tratar desses assuntos segundo sua subdivisão no ambiente (água, ar e solo), embora devamos admitir que essa é uma divisão puramente didática, pois, na natureza, não existe a separação absoluta entre esses elementos. Eles formam um todo inseparável em que qualquer alteração de um reflete no outro. Além disso, problemas ambientais não se

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restringem a um espaço definido, pois podem atingir grandes áreas do planeta, como o caso da contaminação nuclear, a contaminação dos oceanos e a destruição da camada de ozônio. Chamamos também a atenção para o fato de que a maior parte dos problemas ambientais acontecem em nível local.

ÁGUA
CONSIDERAÇÕES GERAIS

Todas as reações nos seres vivos necessitam de um veículo que as facilite e que sirva para regular a temperatura devido ao grande desprendimento de calorias resultante da oxidação da matéria orgânica. A água, que é fundamental à vida, satisfaz completamente a essas exigências e encontra-se presente em proporções elevadas na constituição de todos os seres vivos, inclusive no homem, onde atinge cerca de 75% de seu peso. Sua influência foi primordial na formação das aglomerações humanas. O homem sempre se preocupou com o problema da obtenção da qualidade da água e em quantidade suficiente ao seu consumo e desde muito cedo, embora sem grandes conhecimentos, soube distinguir uma água limpa, sem cor e odor, de outra que não possuísse essas propriedades atrativas.
CICLO HIDROLÓGICO

A água presente em nosso ambiente encontra-se em constante movimento. Os processos de transporte de massa têm lugar na atmosfera, em terra e nos oceanos. O conjunto desses processos é chamado de ciclo hidrológico e a energia necessária para seu funcionamento é de origem solar – mais precisamente, a diferença entre a radiação emitida pelo Sol e a refletida pela atmosfera terrestre. O insumo básico, em termos hídricos, é constituído pela precipitação. O homem sempre procurou entender os fenômenos do ciclo hidrológico e mensurar as suas fases, na medida em que se capacitava tecnologicamente. Entretanto, em que pese o atual conhecimento sobre o ciclo, há o caráter aleatório inerente ao mesmo, que nos obriga a trabalhar sempre com estatística.
DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DA ÁGUA

A quantidade de água livre sobre a terra atinge 1.370 milhões km3, correspondente a uma camada imaginária de 2.700m de espessura sobre toda a superfície terrestre (510 milhões de km2) ou a profundidade de 3.700m, se considerarmos as superfícies dos mares e oceanos somados (274 milhões de km2). A primeira vista, o abastecimento de água parece realmente inesgotável, mas se considerarmos que 97% são água salgada, não utilizável para a agricultura, uso industrial ou consumo

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humano, a impressão já muda. Agrava-se ainda que, da quantidade de água doce existente 3%, apenas 0,3% aproximadamente, é aproveitável, pois a maior parte encontra-se presente na neve, gelo, em lençóis subterrâneos situados abaixo de uma profundidade de 800m, tornandose inviável ao consumo humano. Em resumo, a água utilizável é um total de 98.400km3 sob a forma de rios e lagos e 4.050.800km3 sob a forma de águas subterrâneas, equivalentes a uma camada de 70,3cm, distribuída ao longo da face terrestre (136 milhões de km2).
A UTILIZAÇÃO DA ÁGUA E AS EXIGÊNCIAS DE QUALIDADE

Com o aumento das aglomerações humanas e com a respectiva elevação do consumo da água o homem passou a executar grandes obras destinadas à captação, transporte e armazenamento desse líquido e também a desenvolver técnicas de tratamento, interferindo assim no ciclo hidrológico e gerando um ciclo artificial da água. Algumas comunidades captam água subterrânea para abastecimento público, mas a maioria delas aproveita-se de águas superficiais, que após o tratamento é distribuída para as residências e indústrias. Os esgotos gerados são coletados e transportados para uma estação para tratamento anterior à sua disposição final. Os métodos convencionais promovem, apenas, uma recuperação parcial da qualidade da água original. A diluição em um corpo receptor e a purificação pela natureza promovem melhora adicional na qualidade da água. Entretanto, outra cidade à jusante da primeira, provavelmente, captará água para abastecimento municipal antes que ocorra a recuperação completa. Essa cidade, por sua vez, a trata e dispõe os esgotos gerados novamente por diluição. Esse processo de captação e devolução por sucessivas cidades em uma bacia resulta numa reutilização indireta da água. Durante as estiagens, a manutenção da vazão mínima em muitos rios pequenos dependem, fundamentalmente, do retorno dessas descargas de esgotos efetuadas à montante. Assim, o ciclo artificial da água integrado ao ciclo hidrológico natural é: • captação de água superficial, tratamento e distribuição; • coleta, tratamento e disposição em corpos receptores dos esgotos gerados; • purificação natural do corpo receptor; e • repetição desse esquema por cidades à jusante. A descarga de esgotos tratados de modo convencional em lagos, reservatórios e estuários, os quais agem como lagos, acelera o processo de eutrofização. A deterioração da qualidade da água, assim resultante, interfere no reúso indireto para abastecimento público e atividades recreativas. Na reutilização da água surgem problemas gerados pelos sólidos dissolvidos que poderiam ser solucionados com métodos avançados, porém de custo muito elevado, de tratamento de despejos e de água do abastecimento. Tais águas conterão traços de compostos orgânicos,

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que poderão acarretar problemas de gosto e odor ou outros ainda piores à saúde, tornando-a imprópria para os usuários da jusante. Os compostos químicos mais sofisticados (como, por exemplo, os organofosforados, policlorados e bifenóis, usados na indústria e agricultura) causam preocupações, uma vez que não podem ser detectados rapidamente nas baixíssimas concentrações em que geralmente ocorrem. Como podemos notar, o rápido crescimento da população e os acelerados avanços no processo de industrialização e urbanização das sociedades têm repercussões sem precedentes sobre o ambiente humano. Nas Américas, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde, os principais problemas encontrados no setor de abastecimento de água são: • instalações de abastecimento público ou abastecimento individual em mau estado, com deficiências nos projetos ou sem a adequada manutenção; • deficiência nos sistemas de desinfecção de água destinada ao consumo humano com especial incidência em pequenos povoados; • contaminação crescente das águas superficiais e subterrâneas por causa de deficiente infraestrutura de sistema de esgotamento sanitário, ausência de sistema de depuração de águas residuárias, urbanas e industriais e inadequado tratamento dos resíduos sólidos com possível repercussão no abastecimento de água, em área para banhos e recreativas, na irrigação e outros usos da água que interfiram na saúde da população. Os riscos expostos anteriormente se traduzem em um meio degradado com águas poluídas e uma alta incidência de mortalidade por transmissão hídrica. Em vários países da América Latina e Caribe, as gastrenterites e as doenças diarréicas figuram entre as dez principais causas de mortalidade, sendo responsáveis por cerca de 200 mil mortes ao ano sem incluir as causadas pela febre tifóide, hepatite e outras similares. Para abordar esses problemas a Organização Panamericana de Saúde (Opas) , por meio do Programa Marco de Atenção ao Meio Ambiente, propõe medidas de controle e vigilância a serem empreendidas por Sistemas Locais de Saúde que permitam uma gestão correta da água, cujos objetivos específicos são: • estabelecer um controle das instalações e uma vigilância contínua da qualidade das águas de abastecimento, principalmente as não procedentes da rede; • identificar o déficit e as prioridades no fornecimento dos serviços de água e de esgoto; • estabelecer um controle periódico dos lançamentos nos corpos d’água e fossas; • estabelecer uma vigilância e controle das piscinas e áreas para banho e recreativas; • estabelecer um sistema de previsão de danos causados por catástrofes;

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• estabelecer um controle periódico da qualidade da água para irrigação de hortaliças; e • estabelecer, quando necessário, um sistema de desinfecção de água nos domicílios.
PROCESSOS DE POLUIÇÃO DA ÁGUA

As formas de poluição da água são várias, de origem natural ou como resultado das atividades humanas. Existem essencialmente três situações de poluição, cada uma delas característica do estágio de desenvolvimento social e industrial: • Primeiro estágio: poluição patogênica. Nesse estágio, as exigências quanto à qualidade da água são relativamente pequenas, tornando-se comuns às enfermidades veiculadas pela água. O uso de estações de tratamento de água e sistemas de adução podem prevenir os problemas sanitários nesse estágio; • Segundo estágio: poluição total. Esse estágio se define como aquele em que os corpos receptores tornam-se realmente afetados pela carga poluidora que recebem (expressa como sólidos em suspensão e consumo de oxigênio). Normalmente ocorre durante o desenvolvimento industrial e o crescimento das áreas urbanas. Os prejuízos causados ao corpo receptor e, em conseqüência, à população podem ser reduzidos com a implantação de sistemas eficientes de tratamento de água e de esgotos; • Terceiro estágio: poluição química. Esse estágio é o da poluição insidiosa, causada pelo contínuo uso da água. O consumo de água aumenta em função do aumento da população e da produção industrial. Cada dia é maior a quantidade de água retirada dos rios e maior e mais diversa a poluição neles descarregada.
CONTROLE DA POLUIÇÃO DA ÁGUA

No planejamento das atividades, visando estratégias de controle da poluição da água, é fundamental que se considere a bacia hidrográfica como um todo a fim de se obter uma maior eficiência na realização dessas atividades. Entre as principais técnicas encontradas, podemos citar: a implantação de sistemas de coleta e tratamento de esgotos sanitários e indústrias; o controle de focos de erosão e recuperação de rios objetivando o retorno ao seu equilíbrio dinâmico, por meio da restauração de suas condições naturais. Quanto à recuperação dos rios, existem dois tipos de técnicas: não-estruturais, que não requerem alterações físicas no curso d’água e incluem as políticas administrativas e legais e os procedimentos que limitam ou regulamentam alguma atividade; e técnicas estruturais, que requerem algum tipo de alteração física no corpo d’água e incluem reformas nas estruturas já existentes acelerando os processos naturais de sua recuperação. Com relação a agentes poluidores de origem industrial, o problema mais importante parece estar centralizado nos seguintes aspectos: • providenciar um controle ambiental seguro, sem prejuízos dos investimentos econômicos; • obtenção de informação técnica referente aos melhores meios de que se dispõe para controlar a poluição;

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• obtenção e emprego de técnicas de combate à poluição ambiental e de pessoal especializado na aplicação das mesmas; e • selecionar e adaptar as soluções de controle importadas ao conjunto de técnicas desenvolvidas no país. Para o Brasil encarar os problemas da poluição ambiental já existentes e os do futuro, resultantes das atividades industriais, é necessário um senso de perspectiva de tal modo que as medidas de controle possam fazer parte do contexto de uma economia planejada e de um desenvolvimento social. Aceitar tecnologia definida por outros países pode trazer sérios entraves aos investimentos nacionais e estrangeiros em vários setores industriais. É preciso estar sempre desenvolvendo uma tecnologia nacional de controle da poluição industrial fundamentada na pesquisa e desenvolvendo métodos adequados à nossa realidade, aliados à seleção e adaptação da tecnologia importada, paralelamente à formação e capacitação de pessoal técnico especializado.

ABASTECIMENTO DE ÁGUA
INTRODUÇÃO

Um Sistema de Abastecimento de Água pode ser concebido e projetado para atender a pequenos povoados ou a grandes cidades, variando nas características e no porte de suas instalações. Caracteriza-se pela retirada da água da natureza, adequação de sua qualidade, transporte até os aglomerados humanos e fornecimento à população em quantidade compatível com suas necessidades. Como definição o Sistema de Abastecimento Público de Água constitui-se no conjunto de obras, instalações e serviços, destinados a produzir e distribuir água a uma comunidade, em quantidade e qualidade compatíveis com as necessidades da população, para fins de consumo doméstico, serviços públicos, consumo industrial e outros usos. A água constitui elemento essencial à vida vegetal e animal. O homem necessita de água de qualidade adequada e em quantidade suficiente para atender as suas necessidades, para proteção de sua saúde e para propiciar o desenvolvimento econômico. Sob o ponto de vista sanitário, a solução coletiva é a mais interessante por diversos aspectos como: • mais fácil proteger o manancial; • mais fácil supervisionar o sistema do que fazer supervisão de grande número de mananciais e sistemas; • mais fácil controlar a qualidade da água consumida; e • redução de recursos humanos e financeiros (economia de escala).

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Os sistemas individuais são soluções precárias para os centros urbanos, embora indicados para as áreas rurais onde a população é dispersa e, também, para as áreas periféricas de centros urbanos, para comunidades urbanas com características rurais ou, ainda, para as áreas urbanas, como solução provisória, enquanto se aguardam soluções mais adequadas. Mesmo para pequenas comunidades e para áreas periféricas, a solução coletiva é, atualmente, possível e economicamente interessante, desde que se adotem projetos adequados.
GENERALIDADES Importância sanitária e social

Sob o aspecto sanitário e social, o abastecimento de água visa, fundamentalmente: • controlar e prevenir doenças; • implantar hábitos higiênicos na população como, por exemplo, a lavagem das mãos, o banho e a limpeza de utensílios e higiene do ambiente; • facilitar a limpeza pública; • facilitar as práticas desportivas; • propiciar conforto, bem-estar e segurança; e • aumentar a esperança de vida da população. Em 1958, o extinto Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp), realizou pesquisas na cidade de Palmares, situada no Estado de Pernambuco, onde se demonstrou a possibilidade de redução de mais de 50% na mortalidade infantil por diarréia com a implantação do sistema de abastecimento de água.
Importância econômica

Sob o aspecto econômico, o abastecimento de água visa, em primeiro lugar: • aumentar a vida média pela redução da mortalidade; • aumentar a vida produtiva do indivíduo, quer pelo aumento da vida média quer pela redução do tempo perdido com doença; • facilitar a instalação de indústrias, inclusive a de turismo, e conseqüentemente ao maior progresso das comunidades; e • facilitar o combate a incêndios.

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DOENÇAS RELACIONADAS COM A ÁGUA

De várias maneiras a água pode afetar a saúde do homem: pela ingestão direta, na preparação de alimentos; na higiene pessoal, na agricultura, na higiene do ambiente, nos processos industriais ou nas atividades de lazer. Os riscos para a saúde relacionados com a água podem ser distribuídos em duas categorias: • riscos relacionados com a ingestão de água contaminada por agentes biológicos (bactérias, vírus e parasitos), pelo contato direto, ou por meio de insetos vetores que necessitam da água em seu ciclo biológico; e • riscos derivados de poluentes químicos e radioativos, geralmente efluentes de esgotos industriais, ou causados por acidentes ambientais. Os principais agentes biológicos encontrados nas águas contaminadas são as bactérias patogênicas, os vírus e os parasitos. As bactérias patogênicas encontradas na água e/ou alimentos constituem uma das principais fontes de morbidade e mortalidade em nosso meio. São responsáveis por numerosos casos de enterites, diarréias infantis e doenças epidêmicas (como o cólera e a febre tifóide), que podem resultar em casos letais.
A ÁGUA NA NATUREZA

A água abrange quase quatro quintos da superfície terrestre; desse total, 97% referem-se aos mares e os 3% restantes às águas doces. Entre as águas doces, 2,7% são formadas por geleiras, vapor de água e lençóis existentes em grandes profundidades (mais de 800m), não sendo economicamente viável seu aproveitamento para o consumo humano. Em conseqüência, constata-se que somente 0,3% do volume total de água do planeta pode ser aproveitado para nosso consumo, sendo 0,01% encontrada em fontes de superfície (rios, lagos) e o restante, ou seja 0,29%, em fontes subterrâneas (poços e nascentes). A água subterrânea vem sendo acumulada no subsolo há séculos e somente uma fração desprezível é acrescentada anualmente por meio das chuvas ou retirada pelo homem. Em compensação, a água dos rios é renovada cerca de 31 vezes, anualmente. A precipitação média anual, na Terra, é de cerca de 860mm. Entre 70 e 75% dessa precipitação voltam à atmosfera como evapotranspiração.
Ciclo hidrológico

O ciclo hidrológico é o contínuo movimento da água em nosso planeta. É a representação do comportamento da água no globo terrestre, incluindo ocorrência, transformação, movimentação e relações com a vida humana. É um verdadeiro retrato dos vários caminhos da água em interação com os demais recursos naturais. A água existe em forma de vapor, na atmosfera, e é proveniente da evaporação de todas as superfícies líquidas (oceanos, mares, rios, lagos, lagoas) ou das superfícies umedecidas com

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água, como a superfície dos solos. Parte da água que se encontra na atmosfera, resulta de fenômenos hidrológicos e também de fenômenos vitais, como a respiração e transpiração.
Precipitação

A precipitação compreende toda a água que cai da atmosfera na superfície da terra. A umidade atmosférica provém da evaporação da água das camadas líquidas superficiais, por efeito da ação térmica das radiações solares. O resfriamento desses vapores condensados, em forma de nuvens, leva à precipitação pluvial, sobre a superfície do solo e dos oceanos. A parcela da água precipitada sobre a superfície sólida pode seguir duas vias distintas que são: escoamento superficial e infiltração. As principais formas de precipitação são: chuva, granizo, orvalho ou neve.
Escoamento superficial

É a água de chuva que, atingindo o solo, corre sobre as superfícies do terreno, preenche as depressões, fica retida em obstáculos e, finalmente, atinge os córregos, rios, lagos e oceanos. Na grande superfície exposta dos oceanos ela entra em processo de evaporação e condensação, formando as nuvens que voltam a precipitar sobre o solo.
Infiltração

É por meio da infiltração que a água de chuva penetra por gravidade nos interstícios do solo, chegando até as camadas de saturação, constituindo assim os aqüíferos subterrâneos, ou lençol freático. Esses depósitos são provedores de água para consumo humano e também para a vegetação terrestre. Dependendo do modo como esteja confinada, essa água pode afluir em certos pontos em forma de nascentes. A água acumulada pela infiltração é devolvida à atmosfera, por meio da evaporação direta do próprio solo e pela transpiração dos vegetais por meio das folhas. A esse conjunto de evaporação e transpiração, chamamos evapotranspiração. Convém ressaltar, que a maior ou menor proporção do escoamento superficial, em relação à infiltração, é influenciada fortemente pela ausência ou presença de cobertura vegetal, uma vez que essa constitui barreira ao rolamento livre, além de tornar o solo mais poroso. Esse papel da vegetação, associado à função amortecedora do impacto das gotas de chuva sobre o solo, é, pois, de grande importância na prevenção dos fenômenos de erosão, provocados pela ação mecânica da água sobre o solo.
QUALIDADE DA ÁGUA

A água não é encontrada pura na natureza. Ao cair em forma de chuva, já carreia impurezas do próprio ar. Ao atingir o solo seu grande poder de dissolver e carrear substâncias altera ainda mais suas qualidades. Entre o material dissolvido encontram-se as mais variadas substâncias como, por exemplo, substâncias calcárias e magnesianas que tornam a água dura; substâncias ferruginosas que dão cor e sabor diferentes à mesma e substâncias resultantes das atividades humanas, tais como

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produtos industriais, que a tornam imprópria ao consumo. Por sua vez, a água pode carrear substâncias em suspensão, tais como partículas finas dos terrenos por onde passa, que provocam turbidez; pode também carrear substâncias animadas, como algas, que modificam seu sabor, ou ainda, quando passa sobre terrenos sujeitos à atividade humana, pode levar em suspensão microorganismos patogênicos.
Padrões de potabilidade

A água própria para o consumo humano, ou água potável, deve obedecer a certos requisitos de ordem: • organoléptica: não possuir sabor e odor objetáveis; • física: ser de aspecto agradável; não ter cor e turbidez acima dos limites estabelecidos nos padrões de potabilidade; • química: não conter substâncias nocivas ou tóxicas acima dos limites de tolerância para o homem; • biológica: não conter microorganismos patogênicos; • radioativa: não ultrapassar o valor de referência previsto na Portaria nº 36 do Ministério da Saúde, de 19/1/90; • segundo recomendações da Portaria nº 1.469/00 do M.S, o pH deverá ficar situado no intervalo de 6,5 a 8,5 e a concentração mínima de cloro residual livre em qualquer ponto da rede de distribuição deverá ser de 0,2mg/l. As exigências humanas quanto à qualidade da água crescem com o progresso humano e o da técnica. Justamente para evitar os perigos decorrentes da má qualidade da água, são estabelecidos padrões de potabilidade. Esses apresentam os valores máximos permissíveis (VMP) com que elementos nocivos ou características desagradáveis podem estar presentes na água, sem que ela se torne inconveniente para o consumo humano.
Características físicas e organolépticas

• a água deve ter aspecto agradável. A medida é pessoal; • deve ter sabor agradável ou ausência de sabor objetável. A medida do sabor é pessoal; • não deve ter odores desagradáveis ou não ter odor objetável. A medida do odor é também pessoal; • a cor é determinada pela presença de substâncias em dissolução na água e não afeta sua transparência; e • a turbidez é devida à matéria em suspensão na água (argila, silte, matéria orgânica, etc.) e altera sua transparência.

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Características químicas

São fixados limites de concentração por motivos de ordens sanitária e econômica. • Substâncias relacionadas com aspectos econômicos: a) substâncias causadoras de dureza, como os cloretos, sulfatos e bicarbonatos de cálcio e magnésio. As águas mais duras consomem mais sabão e, além disso, são inconvenientes para a indústria, pois incrustam-se nas caldeiras e podem causar danos e explosões. • Substâncias relacionadas com o pH da água: a) a água de baixo pH, isto é, ácida, é corrosiva. Águas de pH elevado, isto é, alcalinas, são incrustativas. Alcalinidade e dureza são expressas em mg/L de CaCO3. • Substâncias indicadoras de poluição por matéria orgânica: a) compostos nitrogenados: nitrogênio amoniacal, nitritos e nitratos. Os compostos de nitrogênio provêm de matéria orgânica e sua presença indica poluição recente ou remota. Quanto mais oxidados são os compostos de nitrogênio, tanto mais remota é a poluição. Assim, o nitrogênio amoniacal indica poluição recente e os nitratos indicam que a poluição ocorreu há mais tempo; b) oxigênio consumido: a água possui normalmente oxigênio dissolvido em quantidade variável conforme a temperatura e a pressão. A matéria orgânica em decomposição exige oxigênio para sua estabilização; conseqüentemente, uma vez lançada na água, consome o oxigênio nela dissolvido. Assim, quanto maior for o consumo de oxigênio, mais próxima e maior terá sido a poluição; e c) cloretos: os cloretos existem normalmente nos dejetos animais. Esses, sob certas circunstâncias, podem causar poluição orgânica dos mananciais.
Características bacteriológicas

A água é normalmente habitada por vários tipos de microorganismos de vida livre e nãoparasitária, que dela extraem os elementos indispensáveis à sua subsistência. Ocasionalmente, são aí introduzidos organismos parasitários e/ou patogênicos que, utilizando a água como veículo, podem causar doenças, constituindo, portanto, um perigo sanitário potencial. É interessante notar que a quase totalidade dos seres patogênicos é incapaz de viver em sua forma adulta ou reproduzir-se fora do organismo que lhe serve de hospedeiro e, portanto, tem vida limitada quando se encontra na água, isto é, fora do seu hábitat natural. Alexander Houston demonstrou, em 1908, que, quando uma água contaminada com bacilos de febre tifóide era armazenada por uma semana, mais de 90% dessas bactérias eram destruídas. São vários os agentes de destruição normal de organismos patogênicos nas águas armazenadas. Além da temperatura, destacam-se os efeitos da luz, a sedimentação, a presença ou não de oxigênio dissolvido, parasitas ou predadores de bactérias, substâncias tóxicas ou antibióticas produzidas por outros microorganismos como algas e fungos, etc.

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Entre os principais tipos de organismos patogênicos que podem encontrar-se na água, estão as bactérias, vírus, protozoários e helmintos. Devido à grande dificuldade para a identificação dos vários organismos patogênicos encontrados na água, dá-se preferência a métodos que permitam a identificação de bactérias do “grupo coliforme” que, por serem habitantes normais do intestino humano, existem, obrigatoriamente, em águas poluídas por matéria fecal. As bactérias coliformes são normalmente eliminadas com a matéria fecal, à razão de 50 a 400 bilhões de organismos por pessoa/dia. Dado o grande número de coliformes existentes na matéria fecal (até 300 milhões por grama de fezes), os testes de avaliação qualitativa desses organismos na água têm uma precisão ou sensibilidade muito maior do que a de qualquer outro teste. Observação: “No Brasil os padrões de potabilidade da água para o consumo humano são estabelecidos pelo Ministério da Saúde”, atualmente encontra-se em vigor a portaria do Ministério da Saúde.
PLANEJAMENTO E COLETA DE AMOSTRAS DE ÁGUA PARA ANÁLISE

A qualidade da água é avaliada por meio de análises. Analisar toda a massa de água destinada ao consumo é impraticável; por isso, colhem-se amostras e, pela sua análise, conclui-se qual a qualidade da água. Os métodos de análise fixam o número de amostras e o volume de água necessário, a fim de que o resultado seja o mais correto possível ou, em outras palavras, represente melhor o que realmente se passa em uma massa líquida cuja qualidade se deseja saber. O resultado da análise de uma amostra de água de um manancial, rede pública, etc., dada a variação constante das águas dos mesmos, na realidade revela, unicamente, as características apresentadas pela água no momento em que foi coletada. A amostra de água para análises físico-químicas comuns deve ser coletada em frasco apropriado e convenientemente tampada. As amostras devem ser enviadas com a máxima brevidade ao laboratório.
Planejamento

Planejamento é a elaboração de um roteiro para a realização de determinada tarefa. Ao coletar, deve-se realizar um planejamento para obter uma amostra representativa e resultados satisfatórios dentro da realidade da amostragem. Um bom planejamento de amostragem inclui: • metodologia de coleta; • tipos de amostras (simples ou composta); • pontos de amostragem; • tempo de coleta; • preservação;

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• transporte; • equipamentos necessários; • coletor bem treinado; e • parâmetros a serem analisados.
Cuidado na obtenção de amostras

Em caso de água de torneira, ou proveniente de bomba, deixar escorrer por certo tempo, desprezando as primeiras águas. Em água de poço raso, não se deve coletar da superfície, mas mergulhar o frasco com a boca para baixo. Em água de rio, coletar a amostra abaixo da superfície, colocando o gargalo em sentido contrário ao da corrente.
Amostras para exames bacteriológicos

O frasco de coleta deve ser fornecido pelo laboratório. Para amostras de água clorada, este frasco deverá conter antes da esterilização Tiossulfato de Sódio em concentração suficiente para neutralizar o cloro residual. Para amostras de água que recebem resíduos domésticos ou industriais ou que contenham altas concentrações de íons de metais pesados como cobre e zinco etc., adiciona-se um quelante (Ácido Etilenodiaminotetracético-EDTA), que complexa os íons dos metais pesados e o Tiossulfato de Sódio antes da esterilização.
Cuidados na amostragem para análise bacteriológica

• verificar se o ponto de amostragem recebe água diretamente da rede de distribuição; • em caso de água de torneira ou bombas, deixar correr as primeiras águas (torneira de dois a três minutos e bombas cinco minutos); e • não tocar com os dedos na parte da tampa que fica no interior do vidro. A análise bacteriológica deve ser feita o mais cedo possível. As amostras devem ser conservadas a temperatura de 4º a 10ºC, para evitar a proliferação dos microorganismos. O tempo máximo permitido entre a coleta da amostra e a análise é de seis a oito horas para águas pouco poluídas, e de até 24 horas para água clorada.
Ficha de coleta

Registrar todas as informações possíveis de serem obtidas no campo, preenchendo uma ficha por amostra contendo os dados referentes ao parâmetro de interesse. Dados mínimos necessários: • identificar a localidade, município e Estado; • número do registro da amostra; • identificar o tipo de amostra;

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• registrar a ocorrência de chuvas nas últimas 24 horas; • registrar análises de campo (temperatura da amostra, temperatura do ar, pH, cloro residual, etc.); • data e hora da coleta; e • nome e assinatura do responsável pela coleta.
QUANTIDADE DE ÁGUA PARA FINS DIVERSOS

O homem precisa de água com qualidade satisfatória e quantidade suficiente, para satisfazer suas necessidades de alimentação, higiene e outras, sendo um princípio considerar a quantidade de água, do ponto de vista sanitário, de grande importância no controle e na prevenção de doenças, como nos casos de gastroenterites. O volume de água necessário para abastecer uma população é obtido levando em consideração os seguintes aspectos:
Parcelas componentes dos diferentes usos da água Demanda de água

Doméstica: a) bebida; b) cozinha; c) banho; d) lavagem de roupas e utensílios; e) limpeza da casa; f ) descarga dos aparelhos sanitários; g) rega de jardins; e h) lavagem dos veículos. Comercial: a) hotéis; b) pensões; c) restaurantes; d) estabelecimentos de ensino particular; e) postos de abastecimento de combustível;

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f ) padarias; e g) açougues. Industrial: a) transformação de matéria-prima; b) entra na composição do produto; c) fins agropecuários; e d) clubes recreativos. Pública: a) fontes; b) irrigação de jardins públicos; c) limpeza pública; e d) edifícios públicos. Segurança: a) combate de incêndio. É necessário o desenvolvimento de estratégias para a redução de perdas físicas de água nas unidades de adução, tratamento, reservação, rede de distribuição e ramais prediais. O desperdício nas unidades de consumo deve ser evitado.
Consumo médio de água por pessoa/dia (consumo per capita)

O per capita de uma comunidade é obtido, dividindo-se o total de seu consumo de água por dia pelo número total da população servida. A quantidade de água consumida por uma população varia conforme a existência ou não de abastecimento público, a proximidade de água do domicílio, o clima, os hábitos da população. Havendo abastecimento público, varia, ainda, segundo a existência de indústria e de comércio, a qualidade da água e o seu custo. Nos projetos de abastecimento público de água, o per capita adotado varia de acordo com a natureza da cidade e o tamanho da população. Normalmente adota-se as seguintes estimativas de consumo:
População abastecida sem ligações domiciliares:

Adota-se os seguintes consumos per capita: • abastecida somente com torneiras públicas ou chafarizes, de 30 a 50 l/hab/dia; • além de torneiras públicas e chafarizes, possuem lavanderias públicas, de 40 a 80 l/hab./dia; e

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• abastecidas com torneiras públicas e chafarizes, lavanderias públicas e sanitário ou banheiro público, de 60 a 100 l/hab./dia.
Fatores que afetam o consumo de água em uma cidade

De caráter geral: • tamanho da cidade; • crescimento da população; • características da cidade (turística, comercial, industrial); • tipos e quantidades de indústrias; • clima mais quente e seco, maior o consumo de água verificado; e • hábitos e nível socioeconômico da população. Fatores específicos: • qualidade de água (sabor, odor, cor); • custo da água: valor da tarifa; • disponibilidade de água; • pressão na rede de distribuição; • porcentual de medição da água distribuída; e • ocorrência de chuvas.
As variações de consumo

No sistema de abastecimento de água ocorrem variações de consumo significativas, que podem ser anuais, mensais, diárias, horárias e instantâneas. No projeto do sistema de abastecimento de água, algumas dessas variações de consumo são levadas em consideração no cálculo do volume a ser consumido. São elas: Anuais: o consumo per capita tende a aumentar com o passar do tempo e com o crescimento populacional. Em geral aceita-se um incremento de 1% ao ano no valor dessa taxa; Mensais: as variações climáticas (temperatura e precipitação) promovem uma variação mensal do consumo. Quanto mais quente e seco for o clima maior é o consumo verificado; Diária: ao longo do ano, haverá um dia em que se verifica o maior consumo. É utilizado o coeficiente do dia de maior consumo (K1), que é obtido da relação entre o máximo consumo diário verificado no período de um ano e o consumo médio diário. O valor usualmente adotado no Brasil para K1 é 1,20;

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Horária: ao longo do dia tem-se valores distintos de pique de vazões horárias. Entretanto, haverá “uma determinada hora” do dia em que a vazão de consumo será máxima. É utilizado o coeficiente da hora de maior consumo (K2), que é a relação entre o máximo consumo horário verificado no dia de maior consumo e o consumo médio horário do dia de maior consumo. O consumo é maior nos horários de refeições e menores no início da madrugada. O coeficiente K1 é utilizado no cálculo de todas as unidades do sistema, enquanto K2 é usado apenas no cálculo da rede de distribuição.
Solução para abastecimento de água

Basicamente, existem dois tipos de solução para o abastecimento de água: • solução coletiva; e • solução individual. A solução coletiva aplica-se em áreas urbanas e áreas rurais com população mais concentrada. Os custos de implantação são divididos entre os usuários. A solução individual aplica-se, normalmente, em áreas rurais de população dispersa. Nesse caso, as soluções referem-se exclusivamente ao domicílio, assim os respectivos custos. Em áreas suburbanas e periféricas, com características rurais ou mesmo em áreas de população mais concentrada, pode-se utilizar uma combinação dessas duas soluções, onde algumas partes, como o manancial ou a reservação, são de caráter coletivo, sendo a distribuição de água de caráter individual. Normalmente, uma grande cidade contém uma parte central de características urbanas; uma outra zona, suburbana, de população mais esparsa, e uma terceira zona periférica de características nitidamente rurais. Nesses casos, deve-se estudar a solução ou soluções mais adequadas para cada uma dessas zonas.
MANANCIAIS PARA ABASTECIMENTO DE ÁGUA

É toda fonte de água utilizada para abastecimento doméstico, comercial, industrial e outros fins. De maneira geral, quanto à origem, os mananciais são classificados em:
Manancial superficial

É toda parte de um manancial que escoa na superfície terrestre, compreendendo os córregos, ribeirões, rios, lagos e reservatórios artificiais. As precipitações atmosféricas, logo que atingem o solo, podem se armazenar nas depressões do terreno, nos lagos e represas, ou alimentar os cursos d’água de uma bacia hidrográfica, transformando-se em escoamento superficial. Outra parcela infiltra-se no solo. A bacia hidrográfica é uma área da superfície terrestre, drenada por um determinado curso d’água e limitada perifericamente pelo divisor de águas.

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O termo bacia hidrográfica não está limitado pela extensão da área. Tanto pode ser a bacia hidrográfica do rio Amazonas, como a bacia hidrográfica do córrego do Zé Mané, com poucos hectares de área total. Pode-se estabelecer, entretanto, algumas hierarquias. Uma é chamar a área drenada pelo rio principal de bacia e as áreas drenadas pelos afluentes de sub-bacias.
Manancial subterrâneo

É a parte do manancial que se encontra totalmente abaixo da superfície terrestre, compreendendo os lençóis freático e profundo, tendo sua captação feita por meio de poços rasos ou profundos, galerias de infiltração ou pelo aproveitamento das nascentes.
Águas meteóricas

Compreende a água existente na natureza na forma de chuva, neve ou granizo.
ESCOLHA DO MANANCIAL

A escolha do manancial constitui-se na decisão mais importante na implantação de um sistema de abastecimento de água, seja ele de caráter individual ou coletivo. Havendo mais de uma opção, sua definição deverá levar em conta, além da pré-disposição da comunidade em aceitar as águas do manancial a ser adotado, os seguintes critérios: 1º critério: previamente é indispensável a realização de análises de componentes orgânicos, inorgânicos e bacteriológicos das águas do manancial, para verificação dos teores de substâncias prejudiciais, limitados pela Resolução nº 20 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama); 2º critério: vazão mínima do manancial, necessária para atender à demanda por um determinado período de anos; 3º critério: mananciais que dispensam tratamento: inclui águas subterrâneas não-sujeitas a qualquer possibilidade de contaminação; 4º critério: mananciais que exigem apenas desinfecção: inclui as águas subterrâneas e certas águas de superfície bem protegidas, sujeitas a baixo grau de contaminação; 5º critério: mananciais que exigem tratamento simplificado: compreendem as águas de mananciais protegidos, com baixos teores de cor e turbidez, sujeitas apenas à filtração lenta e desinfeção; e 6º critério: mananciais que exigem tratamento convencional: compreendem basicamente as águas de superfície, com turbidez elevada, que requerem tratamento com coagulação, floculação, decantação, filtração e desinfeção.

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FORMAS DE CAPTAÇÃO DA ÁGUA

De acordo com o manancial a ser aproveitado, podem ser utilizadas as seguintes formas de captação: • superfície de coleta (água de chuva); • caixa de tomada (nascente de encosta); • galeria filtrante (fundo de vales); • poço escavado (lençol freático); • poço tubular profundo (lençol subterrâneo); e • tomada direta de rios, lagos e açudes (mananciais de superfície).
Água de chuva

A água de chuva pode ser armazenada em cisternas, que são pequenos reservatórios individuais. A cisterna tem sua aplicação em áreas de grande pluviosidade, ou em casos extremos, em áreas de seca onde se procura acumular a água da época chuvosa para a época de estiagem com o propósito de garantir, pelo menos, a água para beber. A cisterna consiste em um reservatório protegido, que acumula a água da chuva captada da superfície dos telhados das edificações. A água que cai no telhado vem ter às calhas, e destas, aos condutores verticais e, finalmente, ao reservatório. Os reservatórios mais simples são os de tambor, de cimento amianto e os de plástico. Para os locais onde há pouca mão-de-obra especializada, aconselham-se cisternas não enterradas. Deve-se abandonar as águas das primeiras chuvas, pois lavam os telhados onde se depositam a sujeira proveniente de pássaros, de animais e a poeira. Para evitar que essas águas caiam nas cisternas, pode-se desconectar os condutores de descida, que normalmente devem permanecer desligados para serem religados manualmente, pouco depois de iniciada a chuva. Existem dispositivos automáticos que permitem o desvio, para fora das cisternas, das águas das primeiras chuvas e as das chuvas fracas, aproveitando-se, unicamente, as das chuvas fortes. A cisterna deve sofrer desinfecção antes do uso (vide desinfecção de poço escavado). A água armazenada, quando for usada para fins domésticos, deve ser previamente fervida ou clorada.
Galeria de infiltração – fonte de fundo de vale

O aproveitamento da fonte de fundo de vale é conseguido por meio de um sistema de drenagem subsuperficial sendo, em certos casos, possível usar a técnica de poço raso para a captação da água. Normalmente, a captação é feita por um sistema de drenos que termina em um coletor central e deste vai a um poço. A construção e a proteção do poço coletor são feitas obedecendo-se aos mesmos requisitos usados para o poço raso ou fonte de encosta.

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Os drenos podem ser feitos de pedra, bambu, manilhas de concreto ou cerâmica e de tubos de PVC perfurados. A duração dos drenos de concreto depende da composição do terreno; terrenos ácidos corroem os tubos de concreto não protegidos. Os mais duráveis são os de manilha vidrada e os de PVC. Os diâmetros mais empregados são os de 10 a 20cm; excepcionalmente, empregam-se os de 30cm. Para captar mais água, é preferível estender a rede em vez de aumentar os diâmetros. Os drenos devem ser colocados nos fundos de valas abertas no terreno. As valas devem ter fundo liso, protegido por camada de cascalho, e a inclinação deve ser uniforme. A profundidade mínima das valas deve ser de 1,20m; declividade mínima de 0,25m por 100m, declividade máxima 3,0m por 100m. Os drenos principais devem ter sempre declividade superior aos drenos laterais ou secundários: declividade mínima 0,5m por 100m (0,5%).
Cuidados na construção

É boa técnica: • nivelar uniformemente as valas antes de assentar os tubos; lançar uma camada de cascalho ou brita, dando a cada vala a declividade apropriada; • começar o assentamento de jusante para montante; • as manilhas coletoras não devem ser rejuntadas; • envolver os drenos superior e lateralmente com cascalho ou brita, a fim de evitar a entrada de terra; • uma vez construído o sistema, reaterrar as valas, sem deixar depressões na superfície do solo; o aterro das valas deve ultrapassar o nível do terreno, dando se um abaulamento como acabamento, a fim de evitar as depressões quando se der o completo assentamento do terreno; • retirar as árvores das proximidades dos drenos; e • proteger a área com uma cerca, a fim de impedir o trânsito de pessoas e animais. Os sistemas usados variam de acordo com as características dos terrenos e podem ser: • sistema singelo de linha única; • sistema em grelha, com drenos paralelos caindo em um dreno interceptor principal; • sistema em espinha de peixe com um dreno principal e recebendo os drenos laterais; e • sistema interceptor usado para receber água das encostas, com um dreno principal no qual os drenos que margeiam a encosta chegam.
Poços escavados

Também conhecidos como poços rasos ou freáticos, com diâmetro mínimo de 90 centímetros, são destinados tanto ao abastecimento individual como coletivo. Essa solução permite o aproveitamento da água do lençol freático, atuando geralmente, entre 10 a 20 metros de profundidade, podendo obter de dois a três mil litros de água por dia.

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Locação

Em primeiro lugar, a construção do poço só será viável se houver indícios de água subterrânea na área pretendida e possibilidade de ser atingido o lençol. As referidas condições poderão ser determinadas por meio de métodos científicos e emprego de tecnologia apropriada. Na área rural, entretanto, e para o tipo de poço em questão, bons resultados serão obtidos por meio de algumas indicações de ordem prática aliadas à experiência dos moradores da área. Por exemplo: • verificar se há poços escavados na área, sua profundidade, quantidade e características da água fornecida; • ouvir a opinião dos moradores vizinhos e do poceiro local sobre o tipo de solo, profundidade do lençol, variação da quantidade de água nas épocas de seca e de chuva; • em terrenos fáceis de perfurar, como os argilosos e os arenosos, pode-se recorrer à sondagem; • para isso, utiliza-se trados de pequeno diâmetro (50 a 150mm); • convém observar que as águas subterrâneas normalmente correm em direção aos rios e lagos e perpendicularmente a eles. Geralmente seguem a mesma disposição da topografia do terreno. Contudo, há exceções, razão pela qual é conveniente conhecer os níveis da água nos diversos poços da área; • certos vegetais seguem o rastro da água e são, assim, indicadores de mananciais subterrâneos. Tal é o caso da carnaúba e de outras plantas; • a escolha do local para construção do poço deverá levar em conta os riscos de contaminação do lençol por possíveis focos localizados na área; • deve-se respeitar por medidas de segurança, a distância mínima de 15 metros entre o poço e a fossa do tipo seca, desde que seja construída dentro dos padrões técnicos, e, de 45 metros, para os demais focos de contaminação, como, chiqueiros, estábulos, valões de esgoto, galerias de infiltração e outros, que possam comprometer o lençol d’água que alimenta o poço; • deve-se, ainda, construir o poço em nível mais alto que os focos de contaminação; • evitar os locais sujeitos a inundações e dar preferência àqueles de fácil acesso aos usuários; e • em certos tipos de terrenos que possuem fendas no solo, o risco de contaminação do lençol é maior.
Construção

A época adequada para escavação do poço é no período de estiagem, pois no tempo chuvoso os trabalhos tornam-se muito difíceis e até mesmo inviáveis.

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Durante a construção, todo cuidado de segurança deve ser tomado por aquele que estiver trabalhando no poço; não se deve penetrar no seu interior, sem ter meios de escape e sem a estabilidade das paredes. A escavação poderá ser manual usando-se ferramentas comuns: picareta, cavadeira, enxadão, etc. ou, também, por meio de trados, se o tipo de terreno for favorável. O poço deverá ter o formato cilíndrico, com diâmetro mínimo de 90 centímetros. A profundidade será a necessária para atingir o lençol freático, porém, não inferior a três metros, que é a altura mínima do revestimento de proteção. Nos terrenos frágeis, é necessário revestir toda a parede do poço, a fim de evitar o seu desmoronamento. Uma boa técnica consiste em fazer o revestimento com manilhões de concreto. Os manilhões são assentados na boca do poço, um de cada vez. À medida que se for escavando por dentro deles, irão descendo por conta do próprio peso. Uma vez atingido o lençol, recomenda-se aprofundar a escavação dentro dele, a fim de obter seu melhor aproveitamento. Para facilitar essa tarefa, pode-se fazer o esgotamento da água com bombas a motor ou manuais. Há terrenos firmes, não sujeitos a desmoronamentos, que dispensam o revestimento do poço. Mesmo assim, deverá ser feito, pelo menos, até três metros de altura, a fim de possibilitar a proteção sanitária.
Proteção

A proteção do poço escavado tem a finalidade de dar segurança à sua estrutura e, principalmente, evitar a contaminação da água. A seguir, são apontados os possíveis meios de contaminação do poço e as respectivas medidas de proteção:
Infiltração de águas da superfície, pelo terreno, atingindo a parede e o interior do poço.

• proteção: impermeabilizar a parede até a altura mínima de três metros e construir plataforma (calçada) de concreto com um metro de largura, em volta da boca do poço; • sabe-se que, durante a infiltração das águas de superfície no terreno, suas impurezas ficam retidas em uma faixa do solo, a qual, para segurança dos poços, é indicada com três metros. Por essa razão, o revestimento impermeabilizado deve atingir essa cota. A construção da calçada em volta do poço visa evitar lamaçal e impedir, também , a infiltração das águas de superfície na área.

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Escoamento de águas da superfície e enxurradas pela boca do poço, para seu interior.

• proteção: construir uma caixa sobre a boca do poço, feita de concreto ou alvenaria de tijolos. A referida caixa poderá ser construída, fazendo-se o prolongamento externo da parede de revestimento do poço. Deverá ter altura entre 50 e 80 centímetros, a partir da superfície do solo.
Entrada de objetos contaminados, animais, papéis, etc., pela boca do poço.

• proteção: fechar a caixa da boca do poço com cobertura de concreto ou de madeira, deixando abertura de inspeção com tampa de encaixe.

RETIRADA DA ÁGUA
BOMBA HIDRÁULICA

A retirada de água será feita por meio de bomba hidráulica centrífuga (de operação a motor elétrico) ou de êmbolo (de operação manual), pois permite manter o poço sempre fechado. Além disso, é de fácil operação e maior rendimento.
Desinfecção

Após a construção das obras, o poço deverá ser desinfetado. Só assim a água a ser fornecida estará em condições de uso. Os agentes desinfetantes mais comumente usados são os compostos de cloro: • hipoclorito de cálcio (superior a 65% de Cl2); • cloreto de cal (cerca de 30% de Cl2); • hipoclorito de sódio (cerca de 10% a 15% de Cl2); • água sanitária (cerca de 2% a 2,5% de Cl2). Quantidade de desinfetante a usar: • solução a 50mg/l de Cl2 – tempo de contato 12 horas; • solução a 100mg/l de Cl2 – tempo de contato 4 horas; • solução a 200mg/l de Cl2 – tempo de contato 2 horas. Técnica de desinfecção: • cubar o reservatório ou poço a ser desinfectado; • calcular o desinfetante a ser usado; • preparar a solução desinfetante a 5%, pesando o produto e despejando-o em água limpa. Agitar bem e depois deixar em repouso; • desprezar a borra e derramar a solução no poço.

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O cálculo do desinfetante é feito de acordo com o produto, o tempo de contato e a cubagem do poço: • Calcular a quantidade de cloro necessário por meio de regra de três. Exemplo: 2.000 litros de água = 12 horas de contato 1 litro de água = 50mg de Cl 2.000l de água = x mg de cloro • A quantidade x de cloro encontra-se em diferentes proporções nos produtos. Exemplo: em cloreto de cal a 30%, logo: 100mg de cloreto 30mg de Cl. Agitar o mais possível e deixar a solução permanecer em contato com o poço o tempo necessário, de acordo com a dosagem, 2 - 4 - 12 horas. Findo o prazo, esgotar o poço até que nenhum cheiro ou gosto de cloro seja percebido na água. Se possível, confirmar o resultado da desinfecção pela análise bacteriológica, antes de utilizar a água para bebida. Observação: • A desinfecção com solução forte de 100mg/l de Cl2 deve ser precedida de limpeza, com escovas, de todas as superfícies do poço, paredes, face interna da tampa, tubo de sucção; • As amostras para análise bacteriológica devem ser colhidas depois que as águas não apresentem mais nenhum odor ou sabor de cloro; • A desinfecção de um poço elimina a contaminação presente no momento, mas não tem ação sobre o lençol de água propriamente dito, cuja contaminação pode ocorrer antes, durante e depois da desinfecção do poço.
Captação de águas superficiais

A captação de águas superficiais depende de cuidados que devem ser levados em conta quando da elaboração do projeto. Qualquer tipo de captação deverá atender em qualidade e quantidade a demanda prevista da população futura no horizonte (alcance) do projeto. A escolha das obras de captação deve ser antecedida da avaliação dos seguintes fatores: • dados hidrológicos da bacia em estudo ou de bacias na mesma região; • nível de água nos períodos de estiagem e enchente; • qualidade da água; • monitoramento da bacia, para localização de fontes poluidoras em potencial; • distância do ponto de captação ao ponto de tratamento e distribuição;

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• desapropriações; • necessidade de elevatória; • fonte de energia; e • facilidade de acesso. Composição de uma captação: • barragens ou vertedores para a manutenção do nível ou para a regularização da vazão; • órgãos de tomada d’água com dispositivos para impedir a entrada de materiais flutuantes; • dispositivos para controlar a entrada de água; • canais ou tubulações de interligação e órgãos acessórios; e • poços de sucção e casa de bombas para alojar os conjuntos elevatórios, quando necessário. Dispositivos encontrados na captação das águas superficiais: • Barragem de nível: são obras executadas em um rio ou córrego, ocupando toda a sua largura, com a finalidade de elevar o nível de água do manancial, acima de um mínimo conveniente e pré-determinado; • Grades: são dispositivos destinados a impedir a passagem de materiais flutuantes e em suspensão, bem como sólidos grosseiros, às partes subseqüentes do sistema; • Caixas de areia: são dispositivos instalados nas captações destinados a remover da água as partículas por ela carregadas com diâmetro acima de um determinado valor. Algumas soluções para tomada de água em manancial de superfície:
Tomada de água com barragem de nível

É um tipo de captação de uso generalizado no aproveitamento de pequenos cursos d’água, que visa somente elevar o nível de água, sendo que a vazão do rio deve ser superior à vazão máxima de adução, pois a barragem não tem função de acumular água.
Tomada direta com proteção

• Poço de tomada Esses dois tipos de captação acima são utilizados normalmente em cursos d’água perenes sujeitos a pequenas oscilações de nível, e que não haja transporte de sedimentos (areia). • Canal de derivação Consiste no desvio parcial das águas de um rio a fim de facilitar a tomada de água. • Torre de tomada

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Utilizado para captação em represas e lagos. A torre de tomada fica sempre envolvida pela água sendo provida de várias comportas situadas em níveis diferentes. O ingresso da água ao interior da torre é feito por uma das comportas, permanecendo as demais fechadas. Esse tipo de solução permite obter uma água de melhor qualidade. Não tão próxima à superfície onde há algas, nem do fundo onde existe lodo, ambos indesejáveis à captação, pois dificultam o tratamento da água.
Tomada de água flutuante

Essa é a solução ideal para a captação quando a estação de tratamento de água está próxima ao manancial de modo a permitir um único recalque.
ABASTECIMENTO PÚBLICO DE ÁGUA

Quando a densidade demográfica em uma comunidade aumenta, a solução mais econômica e definitiva é a implantação de um sistema público de abastecimento de água. Sob o ponto de vista sanitário, a solução coletiva é a mais indicada, por ser mais eficiente no controle dos mananciais, e da qualidade da água distribuída à população. Não obstante, as soluções individuais para as áreas periféricas não devem ser desprezadas, pois serão úteis, salvarão muitas vidas e farão minorar muitos sofrimentos, enquanto se aguardam soluções gerais. Estas últimas envolvem grandes gastos e muitas vezes são morosas.
Partes constituintes do sistema público de abastecimento de água

Um sistema de abastecimento de água é composto das seguintes unidades: • manancial; • captação; • adução; • tratamento; • reservação; • rede de distribuição; • estações elevatórias; e • ramal predial.
Manancial abastecedor

É a fonte de onde se retira a água com condições sanitárias adequadas e vazão suficiente para atender à demanda. No caso da existência de mais de um manancial, a escolha é feita considerando-se não só a quantidade e a qualidade mas, também, o aspecto econômico.

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ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Nem sempre o que custa inicialmente menos é o que convém, já que o custo maior pode implicar em custos de operação e manutenção menores. Na escolha de manancial, deve-se levar em consideração a qualidade da água, o consumo atual provável, bem como a previsão de crescimento da comunidade e a capacidade ou não de o manancial satisfazer a esse consumo. Todo e qualquer sistema é projetado para servir, por certo espaço de tempo, denominado período de projeto. Para que se possa fazer o cálculo do consumo provável, é necessário conhecer a população a ser abastecida. Nos projetos, costuma-se fazer uma estimativa de população. Essa estimativa baseia-se em: a) população atual; b) número de anos durante os quais vai servir o projeto (período de projeto); e c) taxa de crescimento da população: • consumo per capita; • variação diária de consumo; e • número de horas de funcionamento do sistema.
Captação

É o conjunto de equipamentos e instalações utilizados para a tomada de água do manancial, com a finalidade de lançá-la no sistema de abastecimento. O tipo de captação varia de acordo com o manancial e com o equipamento empregado.
Adução

Adutora é o conjunto de tubulações, peças especiais e obras de arte, dispostas entre: • captação e a estação de tratamento de água (ETA); • captação e o reservatório de distribuição; • captação e a rede de distribuição; • ETA e o reservatório de distribuição; e • ETA e a rede de distribuição. A tubulação que deriva de uma adutora indo alimentar um setor qualquer da área a ser abastecida, é chamada subadutora.

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Classificação das adutoras:

De acordo com a natureza da água transportada: a) adutora de água bruta: transporta a água da captação até a estação de tratamento de água; b) adutora de água tratada: transporta a água da estação de tratamento de água até os reservatórios de distribuição. De acordo com a energia utilizada para o escoamento da água: a) adutora por gravidade: quando aproveita o desnível existente entre o ponto inicial e o final da adução; b) adutora por recalque: quando utiliza um meio elevatório qualquer (conjunto motobomba e acessórios); c) mista: quando utiliza parte por recalque, e parte por gravidade. De acordo com o modo de escoamento: a) adutora em conduto livre: mantém a superfície sob o efeito da pressão atmosférica. Os condutos podem ser abertos (canal) ou fechados. A água ocupa apenas parte da seção de escoamento, não funcionam a seção plena (totalmente cheios); b) adutora em conduto forçado: A água ocupa a seção de escoamento por inteiro, mantendo a pressão interna superior à pressão atmosférica. Permite à água movimentar-se, quer em sentido descendente por gravidade quer em sentido ascendente por recalque, graças à existência de uma carga hidráulica. De acordo com a vazão de dimensionamento: a) sistema com reservatório de distribuição. • Adução contínua • Adução intermitente Materiais das tubulações mais utilizados na construção de adutoras: • PVC de alta pressão; • ferro fundido, cimentado internamente; • aço soldado; • aço com junta, ponta e bolsa, junta travada, etc.; • concreto armado; • fibra de vidro impregnado em resinas de poliester; e • polietileno de alta densidade.

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Tratamento

A qualidade físico-química e bacteriológica da água obtida no manancial, definirá o método de tratamento necessário para atender aos padrões de portabilidade estabelecidos pela Portaria nº 1.469, do Ministério da Saúde.
TRATAMENTO DA ÁGUA

O tratamento da água consiste em melhorar suas características organolépticas, físicas, químicas e bacteriológicas, a fim de que se torne adequada ao consumo humano. As águas de superfície são as que mais necessitam de tratamento, porque se apresentam com qualidades físicas e bacteriológicas impróprias, com exceção das águas de nascentes que, com uma simples proteção das cabeceiras e cloração, podem ser, muitas vezes, consumidas sem perigo. As águas de grandes rios, embora não satisfazendo pelo seu aspecto físico, podem ser relativamente satisfatórias, sob os pontos de vista químico e bacteriológico, quando captadas ou colhidas em locais onde o rio é menos sujeitos à contaminação. O Conselho Nacional do Meio Ambiente, por meio da Resolução nº 20, de 16 de junho de 1986, classificou as águas doces, salobras e salinas do Território Nacional, segundo seus usos preponderantes. Portanto, a definição da necessidade ou do método de tratamento a ser implantado, deve obedecer a classificação das águas estabelecidas pela Resolução Conama nº 20, de 16/6/1986. De modo geral, a qualidade das águas de superfície varia ao longo do tempo, de acordo com a época do ano e o regime das chuvas. A variação da qualidade da água dos grandes rios é mais lenta que a dos pequenos rios, cuja turbidez, por exemplo, pode variar entre largos limites e em curto espaço de tempo. Mesmo a qualidade da água de lagos artificiais ou de lagos naturais varia com o decorrer do tempo. Nem toda água pode ser utilizada, por que cada método de tratamento tem eficiência limitada. Sendo a poluição muito alta, a água tratada poderá não ser ainda satisfatória. Assim, por exemplo, não é possível, nem prático, tratar água de esgotos por métodos convencionais, a ponto de torná-la potável. Métodos de tratamentos: • fervura; • sedimentação simples; • filtração lenta; • tratamento convencional com coagulação, floculação, decantação e filtração rápida;

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• aeração; • correção da dureza; • remoção de ferro; • correção da acidez excessiva; • remoção de odor e sabor desagradáveis; • desinfecção; e • fluoretação.
Fervura

O método mais seguro de tratamento para a água de beber, em áreas desprovidas de outros recursos, é a fervura. Ferver a água para beber é um hábito que se deve infundir na população para ser adotado quando sua qualidade não mereça confiança e em épocas de surtos epidêmicos ou de emergência. A água fervida perde o ar nela dissolvido e, em conseqüência, torna-se de sabor desagradável. Para fazer desaparecer esse sabor, é necessário arejar a água.
Sedimentação simples

A água tem grande poder de dissolver e de carrear substâncias. O poder de carrear substâncias aumenta ou diminui com a velocidade da água em movimento. Diminuindo-se a velocidade da água, diminui-se seu poder de carrear substâncias, pois essas se depositam no fundo. Primeiro, decantam-se as partículas mais pesadas e, à medida que diminui a velocidade, as mais leves também se decantam. As partículas sólidas que se depositam arrastam consigo microorganismos presentes na água, melhorando sua qualidade. Obtém-se a sedimentação, fazendo passar ou retendo a água em reservatórios, onde sua velocidade diminui. A sedimentação pode ser conseguida em canais, se lhe aumentar a seção sem aumentar o volume da água. Isso se dá em conseqüência de que: mantendo Q e aumentando S, diminui V. Quando a água é captada em pequenas fontes superficiais, deve-se ter uma caixa de areia antes da tomada. A função dessa caixa é decantar a areia, protegendo a tubulação, as bombas, etc., contra a obstrução e o desgaste excessivo. Mesmo os filtros lentos devem ser protegidos por caixas de areia.
Filtração lenta

É um método de tratamento da água, adotado principalmente para comunidades de pequeno porte, cujas águas dos mananciais apresentam baixos teores de turbidez e cor (menor que 50UT). O processo consiste em fazer a água passar por um meio granular com a finalidade de remover impurezas físicas, químicas e biológicas.

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Mecanismos que atuam na filtração: • Ação mecânica de coar: retenção das partículas maiores nos interstícios existentes entre os grãos de areia; • Sedimentação: reposição de partículas sobre a superfície dos grãos de areia; e • Ação biológica: feita por meio de uma camada gelatinosa (Schumtzdecke) formada pelo desenvolvimento de certas variedades de bactérias, que envolvem os grãos de areia na superfície do leito que, por adsorção, retém microorganismos e partículas finamente divididas. Aspectos construtivos: Taxa de filtração: • FNS : 3 a 5m3/m2/ dia; • Arboleda : 6 a 9m3/m2/dia; • ABNT: não sendo possível determinar experimentalmente, a taxa de filtração a ser adaptada não deve ser superior a 6m3/m2/dia. Sistema de drenagem: Situado no fundo do filtro tem por objetivo coletar e conduzir para fora do filtro a água filtrada. Constitui-se de um dreno principal, passando pelo centro do filtro, o qual recebe os drenos laterais.
Aspectos operacionais

A entrada e saída da água nos filtros é controlada por meio de registros, devendo-se ter o cuidado de manter uma camada de água sobre a areia. No início da filtração, com a areia ainda limpa, a formação da camada gelatinosa só se processará após alguns dias de operação. Portanto, durante esse período, maiores cuidados deverão ser tomados quanto à desinfecção da água filtrada. Com o prosseguimento da filtração, a camada superior da areia vai se sujando cada vez mais, diminuindo, em conseqüência, a vazão da água filtrada. Quando essa vazão cai consideravelmente, deve-se proceder a limpeza do filtro. Faz- se a limpeza do filtro, removendo-se uma camada de dois a três centímetros da areia. Quando a camada de areia nos filtros atingir 0,70m de altura, recoloca-se a areia retirada, depois de totalmente lavada. Vantagens dos filtros lentos: • operação simples; • custos operacionais baixos;

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• boa eficiência na remoção de microorganismos patogênicos; e • boa eficiência na remoção de turbidez. Desvantagens dos filtros lentos: • ocupam grandes áreas; • necessidade periódica de remoção e lavagem da areia; e • possibilidade de degradação do manancial com o tempo, alterando as características físicoquímicas iniciais da água (aumento excessivo da turbidez). Em alguns sistemas utiliza-se como pré-tratamento para a filtração lenta o pré-filtro que elimina algumas impurezas, especialmente sólidas, e remove parte da carga bacteriológica da água bruta, onde parte dos organismos são removidos conjuntamente com os sólidos. São localizados normalmente junto às captações, podem ser classificados segundo a direção e o sentido do fluxo, em: • pré-filtro de fluxo horizontal; • pré-filtro de fluxo vertical descendente; e • pré-filtro de fluxo vertical ascendente.
Tratamento convencional com coagulação, floculação, decantação e filtração rápida

As águas que possuem partículas finamente divididas em suspensão e partículas coloidais, necessitam de um tratamento químico capaz de propiciar sua deposição, com um baixo período de detenção. Esse tratamento é realizado provocando-se a coagulação, sendo geralmente empregado o sulfato de alumínio ou o sulfato ferroso. O sulfato de alumínio normalmente é o produto mais utilizado, tanto pelas suas propriedades, como pelo seu menor custo.
Tratamento utilizando coagulante

Mistura rápida Geralmente é feita no medidor “Parshall”, ou também por um vertedor. Esse ponto é muito bom para adição dos compostos químicos, em função da turbulência da água nesse local. Mistura lenta ou floculação Os compostos químicos já completamente misturados anteriormente, vão reagir com a alcalinidade da água, ou se esta não é suficiente, com a cal adicionada, formando compostos que tenham propriedades de adsorção, isto é, aqueles cujas partículas sejam carregadas eletricamente na sua superfície, e que possam, assim, atrair cargas elétricas contrárias. Essas partículas são chamadas flocos e têm cargas elétricas superficiais positivas, enquanto que as impurezas presentes na água, como as matérias suspensas, as coloidais, alguns sais dissolvidos e bactérias, têm carga elétrica negativa, sendo assim retidas por aqueles flocos.

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Isto significa que a fase de limpeza em um tratamento d’água processa-se no floculador, e essa parte deve ser bem conduzida, pois é da boa formação dos flocos, que devem ser do tamanho de uma cabeça de alfinete, que dependerá o consumo dos agentes floculadores chamados coagulantes e, também, a eficiência e melhores condições de funcionamento das outras partes. A água deve ter ao longo dos canais uma velocidade bem dimensionada, pois, se for abaixo de um mínimo (10cm/s), o floco depositará, e se for muito alta, poderá “quebrar” o floco, o que irá prejudicar bastante as condições nas fases subseqüentes (geralmente acima de 30cm/s).
Decantação ou sedimentação

Os flocos do coagulante, que já clarificaram a água pelos processos ocorridos no floculador, irão, nessa nova fase, ser removidos da água por sedimentação. Podem ser decantadores convencionais (baixa taxa) e decantadores com escoamento laminar de elementos tubulares ou de placas, denominados decantadores de alta taxa. O decantador convencional é um tanque de forma geralmente retangular ou circular, cujo fundo é muitas vezes inclinado para um ou mais pontos de descarga. A saída da água é feita na superfície, e comumente por calhas dispostas, formando desenhos diversos e sobre cujos bordos superiores a água flui, constituindo esses bordos autênticos vertedouros. As dimensões do decantador são determinadas de maneira que o tempo de decantação seja geralmente em torno de duas a três horas. Nos decantadores retangulares, o comprimento seja mais ou menos três vezes a largura. A profundidade seja de um mínimo de 2,5 metros e de um máximo de 5,50m. Depósitos de lodo são geralmente previstos no fundo dos decantadores, sendo o volume deles adicionado àquele necessário para obter o período de detenção. O dispositivo comumente usado para dispersar melhor a água na entrada do decantador, é chamado cortina de distribuição, na qual são abertos orifícios acima do primeiro terço, a partir do fundo, geralmente em três fileiras, favorecendo, assim, a melhor distribuição do líquido. A função do decantador, em um tratamento de água, ou de águas residuais é, como dissemos, o de permitir que os flocos que já clarificaram a água sedimentem-se. Comuns na operação de decantadores são os termos: vazão por unidade de superfície e velocidade transversal de escoamento. Vazão por unidade de superfície: é o volume de água tratada por dia, dividido pela área de superfície do decantador. Vazão de escoamento: é a vazão, em m3/seg, dividida pela área de escoamento, isto é, pelo produto da largura pela altura útil.

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Limpeza dos decantadores

Deve ser feita periodicamente, dependendo da regularidade da natureza da água, da quantidade de coagulante gasto, e da estação do ano, pois na época das chuvas ela deve ser bem mais freqüente. Nos sistemas em que a limpeza não é mecanizada ou automática, ela é feita esvaziando-se o decantador e removendo-se a sujeira com jato de água, de preferência tendo bastante pressão. A falta de uma limpeza periódica faz com que o período de detenção torne-se menor, prejudicando as condições de operação, e faz com que o lodo do fundo se decomponha, conferindo sabor desagradável à água.
Filtração

A grande maioria das partículas ficam retidas no decantador, porém, uma parte ainda persiste em suspensão, no seio da água; dessa forma, o líquido é feito passar por uma camada filtrante, constituída por um leito arenoso, de granulometria especificada, suportada por uma camada de cascalho. A água filtrada, em uma operação bem conduzida, é límpida. A remoção de bactérias nesse estágio já é, no mínimo, igual a 90%. Fator influente na velocidade de filtração, é a granulometria da areia, isto é, o tamanho de seus grãos. De acordo com essa granulometria, a filtração pode ser lenta ou rápida. Com relação a filtração rápida, os filtros podem ser de camada simples ou dupla, de fluxo ascendente ou descendente sendo os de fluxo ascendente sempre de camada simples. A norma da ABNT nº NB-592, referente a “Projeto de Estação de Tratamento de Água para Abastecimento Público de Água”, estabelece: 1. Que a taxa de filtração e as características granulométricas dos materiais filtrantes sejam determinados com base em ensaios em filtro-piloto; 2. Quando os ensaios não puderem ser realizados, a norma estabelece:
Taxas máximas de filtração

• Para filtro de camada simples: 180m3/m2 x dia; • Para filtro de camada dupla : 360m3/m2 x dia. Observação: Em caso de filtros de fluxo ascendente, a taxa de filtração deve ser de 120 m /m2 x dia.
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Camadas filtrantes A camada filtrante simples deve ser constituída de areia, com espessura mínima de 45cm, tamanho efetivo de 0,45mm a 0,55mm e coeficiente de uniformidade de 1,4 a 1,6.

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Nota: Em caso de filtro de fluxo ascendente, pode-se utilizar camada filtrante com espessura mínima de 2m tamanho efetivo de 0,7mm a 0,8mm e coeficiente de uniformidade inferior ou igual a 2. A camada filtrante dupla deve ser constituída de camadas sobrepostas de areia e antracito, utilizando a especificação básica seguinte: Areia: • espessura mínima de camada, 25cm; • tamanho efetivo, de 0,40mm a 0,45mm; e • coeficientes de uniformidade, de 1,4 a 1,6. Antracito: • espessura mínima de camada, 45cm; • tamanho efetivo, de 0,8mm a 1,0mm; e • coeficiente de uniformidade, inferior ou igual a 1,4. A camada suporte deve ser constituída de seixos rolados, com as seguintes características: • espessura mínima igual ou superior a duas vezes a distância entre os bocais do fundo do filtro, porém não inferior a 25cm; • material distribuído em estratos com granulometria decrescente no sentido ascendente, espessura de cada estrato igual ou superior a duas vezes e meia a dimensão característica dos seixos maiores que o constituem, não inferior, porém, a 5cm; • cada estrato deve ser formado por seixos de tamanho máximo superior ou igual ao dobro do tamanho dos menores; • os seixos maiores de um estrato devem ser iguais ou inferiores aos menores do estrato situado imediatamente abaixo; • estrato situado diretamente sobre os bocais deve ser constituído de material cujos seixos menores tenham o tamanho pelo menos igual ao dobro dos orifícios dos bocais e dimensão mínima de 1cm; • estrato em contato direto com a camada filtrante deve ter material de tamanho mínimo igual ou inferior ao tamanho máximo do material da camada filtrante adjacente. O fundo do filtro deve ter características geométricas e hidráulicas que garantam a distribuição uniforme da água de lavagem. • nos filtros rápidos clássicos, a água filtrada é recolhida por um sistema de drenos ou bocais e levada à câmara de contato, onde é desinfetada; parte da água vai para o consumo e parte é recalcada para um reservatório de água de lavagem; e

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• para fazer a limpeza dos filtros, fecha-se a admissão da água dos decantadores e da água filtrante; e abre-se a admissão do reservatório de água de lavagem; é a operação chamada de inversão de corrente. A água de lavagem penetra sob pressão por meio dos drenos, revolve a areia e carrega a sujeira acumulada para os canais de descarga de água de lavagem. Ao término da lavagem dos filtros, fecha-se a admissão da água do reservatório de lavagem, abre-se a da água dos decantadores e inicia-se novamente a filtração com a abertura do registro da água filtrada.
Aeração

A água retirada de poços, fontes ou regiões profundas de grandes represas, pode ter ferro e outros elementos dissolvidos, ou ainda ter perdido o oxigênio em contato com as camadas que atravessou e, em conseqüência, seu gosto é desagradável. Torna-se necessário, portanto, arejála para que melhore sua qualidade. A aeração é também usada para a melhoria da qualidade biológica da água e como parte de tratamentos mais completos. Para as pequenas instalações, a aeração pode ser feita no próprio reservatório de água; basta que esse seja bem ventilado e que, ao passar para o reservatório, a água seja forçada a uma queda livre.
Métodos de aeração

A aeração pode ser obtida, provocando a queda da água sobre bandejas ou tabuleiros, nas quais exista cascalho ou pedra britada. A água sai de uma fonte no topo do conjunto de bandejas e as atravessa sucessivamente até ser recolhida na mais baixa. Pode dar-se ainda pelo sistema de cascatas, fazendo a água tombar sucessivamente sobre diversos degraus. Pode ser obtida, levando-a a sair de bocais sob a forma de jato, recebendo oxigênio quando em contato com o ar. E finalmente, a aeração também pode ser feita por meio de aeradores por borbulhamento que consistem, geralmente, de tanques retangulares, nos quais se instalam tubos perfurados, placas ou tubos porosos difusores que servem para distribuir ar em forma de pequenas bolhas. Essas bolhas tendem a flutuar e escapar pela superfície da água. A relação largura-profundidade deve manter-se inferior a dois. A profundidade varia entre 2,75 e 4,50m. O comprimento do tanque é calculado em função do tempo de permanência que varia entre 10 a 30 minutos. A quantidade de ar varia entre 75 e 1.125 litros por metro cúbico de água aerada.
Correção da dureza

A dureza da água é devida à presença de sais de cálcio e magnésio sob forma de carbonatos, bicarbonatos e sulfatos.

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A dureza é dita temporária, quando desaparece com o calor, e permanente, quando não desaparece com o calor. Normalmente, reconhece-se que uma água é mais dura ou menos dura, pela maior ou menor facilidade que se tem de obter, com ela, espuma de sabão. A água dura tem uma série de inconvenientes: • é desagradável ao paladar; • gasta muito sabão para formar espuma; • dá lugar a depósitos perigosos nas caldeiras e aquecedores; • deposita sais em equipamentos; e • mancha louças. Para a remoção de dureza da água, usam-se os processos da cal-soldada, zeólitos e mais recentemente a osmose inversa. Os zeolitos têm a propriedade de trocar o sódio, que entra na sua composição, pelo cálcio ou magnésio dos sais presentes na água, acabando, assim com a dureza da mesma. Com a continuação do tratamento, os zeólitos esgotam sua capacidade de remoção de dureza. Quando os zeólitos estiverem saturados, sua recuperação é feita com sal de cozinha (cloreto de sódio). A instalação da remoção de dureza é similar à de um filtro rápido de pressão (filtro rápido encerrado em um recipiente de aço, onde a água entra e sai sob pressão). A osmose é um fenômeno natural físico-químico. Quando duas soluções, com diferentes concentrações, são colocadas em um mesmo recipiente separado por uma membrana semipermeável, onde ocorre naturalmente a passagem do solvente da solução mais diluída para a solução mais concentrada, até que se encontre o equilíbrio. Nesse ponto, a coluna de solução mais concentrada estará acima da coluna da solução mais diluída. A essa diferença entre colunas de solução denomina-se pressão osmótica. A osmose inversa é obtida por meio da aplicação mecânica de uma pressão superior à pressão osmótica do lado da solução mais concentrada. A tecnologia de osmose inversa, já utilizada desde a década de 60, teve seu mecanismo integrado para a produção de água ultrapura, utilizada na indústria a partir de 1976. Essa primeira geração de membranas demonstrou sua utilidade, reduzindo a necessidade de regeneração dos leitos de troca iônica e de consumo de resina, além de significativas reduções de despesas na operação e manutenção desses leitos. Uma segunda geração de membranas, as membranas de película fina compostas, enroladas em espiral, foram descobertas em 1978 e introduzidas na produção de água ultrapura no início da década de 80. Essas membranas operam com baixa pressão e conseqüentemente com reduzido consumo de energia.

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Remoção de ferro

A água que passa por camadas ferruginosas, na falta de oxigênio suficiente, dissolve sais de ferro sob forma de sais ferrosos. Quando, por exemplo, retirada de um poço, essa água apresenta o inconveniente de manchar a roupa, as pias e de corroer as tubulações. O processo utilizado para a remoção do ferro depende da forma como as impurezas de ferro apresentam-se. Para águas limpas que prescindem de tratamento químico, como as águas de (poços, fontes, galerias de infiltração), contendo bicarbonato ferroso dissolvido (na ausência de oxigênio), utiliza-se a simples aeração. Se o ferro estiver presente, junto com a matéria orgânica, as águas, em geral, não dispensarão o tratamento completo com aeração inicial (aeração, coagulação, floculação, decantação e filtração).
Correção de acidez excessiva

É obtida pelo aumento do pH, com a adição de cal ou carbonatos. Na prática rural, consegue-se a remoção fazendo-se a água passar por um leito de pedra calcária.
Remoção de odor e sabor desagradáveis

Depende da natureza das substâncias que os provocam. Como métodos gerais, usam-se: a) carvão ativado; b) filtração lenta; e c) tratamento completo. Em algumas águas subterrâneas, o odor de gás sulfídrico desaparece com a aeração.
Desinfecção

Desinfectar uma água significa eliminar os microorganismos patogênicos presentes na mesma. Tecnicamente, aplica-se a simples desinfecção como meio de tratamento para águas que apresentam boas características físicas e químicas, a fim de garantir seu aspecto bacteriológico. É o caso das águas de vertentes ou nascentes, águas de fontes ou de poços protegidos, que se encontrem enquadradas na classe Especial da Resolução Conama nº 20 de 18/6/1986. Na prática, a simples desinfecção, sem outro tratamento, é aplicada muito freqüentemente. Em épocas de surtos epidêmicos a água de abastecimento público deve ter a dosagem de desinfectante aumentada. Em casos de emergências deve-se garantir, por todos os meios, a água de bebida, sendo que a desinfecção, em alguns casos, é mais prática que a fervura. A desinfecção é também aplicada à água após seu tratamento, para eliminar microorganismos patogênicos porventura presentes.

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Métodos químicos de desinfecção

Ozona: é um desinfetante poderoso. Não deixa cheiro na água, mas, origina um sabor especial, ainda que não desagradável. Apresenta o inconveniente de uma operação difícil, e, o que é mais importante, não tem ação residual; Iodo: desinfeta bem a água após um tempo de contato de meia hora. É, entretanto, muito mais caro para ser empregado em sistemas públicos de abastecimento de água; Prata: é bastante eficiente; sob forma coloidal ou iônica não deixa sabor nem cheiro na água e tem uma ação residual satisfatória. Porém, para águas que contenham certos tipos de substâncias, tais como cloretos, sua eficiência diminui consideravelmente; e Cloro: constitui o mais importante entre todos os elementos utilizados na desinfecção da água. Além dessa aplicação, é ele também usado no tratamento de águas para: • eliminar odores e sabores; • diminuir a intensidade da cor; • auxiliar no combate à proliferação de algas; • colaborar na eliminação de matérias orgânicas; e • auxiliar a coagulação de matérias orgânicas. O cloro é o desinfetante mais empregado e é considerado bom, porque: • realmente age sobre os microorganismos patogênicos presentes na água; • não é nocivo ao homem na dosagem requerida para desinfecção; • é econômico; • não altera outras qualidades da água, depois de aplicado; • é de aplicação relativamente fácil; • deixa um residual ativo na água, isto é, sua ação continua depois de aplicado; e • é tolerado pela grande maioria da população. O cloro é aplicado na água por meio de dosadores, que são aparelhos que regulam a quantidade do produto a ser ministrado, dando-lhe vazão constante. Pode ser aplicado sob a forma gasosa. Nesse caso, usam-se dosadores de diversos tipos. O acondicionamento do cloro gasoso é feito em cilindros de aço, com várias capacidades de armazenamento. Pode ainda ser aplicado sob a forma líquida, proveniente de diversos produtos que libertam cloro quando dissolvidos na água. Os aparelhos usados nesse caso são os hipocloradores e as bombas dosadoras.

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Fluoretação das águas

Com a descoberta da importância dos sais de flúor na prevenção da cárie dental, quando aplicados aos indivíduos na idade suscetível, isto é, até os 14 anos de idade, e em ordem decrescente de efetividade à medida que aumenta a idade da criança, generalizou-se a técnica de fluoretação de abastecimento público como meio mais eficaz e econômico de controle da cárie dental. As aplicações no abastecimento de água fazem-se por meio de aparelhos dosadores, sendo usados o fluoreto de sódio, o fluorssilicato de sódio e o ácido fluorsilicico. Os sistemas públicos de abastecimento de água fluoretada deverão obedecer aos seguintes requisitos mínimos: • abastecimento contínuo da água distribuída à população, em caráter regular e sem interrupção; • a água distribuída deve atender aos padrões de potabilidade; • sistemas de operação e manutenção adequados; e • controle regular da água distribuída. A concentração de íon fluoreto varia, em função da média das temperaturas máximas diárias, observadas durante um período mínimo de um ano (recomenda-se cinco anos). A concentração ótima situa-se em torno de 1,0mg/l. Após dez a 15 anos de aplicação do flúor na água, para cada criança é efetuado um levantamento dos dentes cariados, perdidos e obturados, denominado índice CPO, para avaliação da redução de incidência de cáries. A extinta Fundação Sesp foi a primeira entidade a aplicar a fluoretação de água no Brasil e também foi a pioneira na aplicação da fluorita, sal encontrado no nosso País e de uso fácil onde já existe tratamento de água com sulfato de alumínio.
Estações compactas

São unidades pré-fabricadas, que reúnem todas as etapas necessárias ao processo de limpeza da água. Normalmente são transportadas e montadas na localidade de implantação do sistema. É necessário a construção de uma Casa de Química. Vantagens da instalação de estações compactas: • redução nos prazos de implantação do sistema; e • possibilidade de deslocamento da estação para atender a outros sistemas. Materiais utilizados na fabricação: • normalmente são confeccionadas em chapas de aço com proteção e fibra de vidro.

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Dessalinizadores de água

A água salobra ou do mar transforma-se em água potável por meio da tecnologia de osmose inversa para dessalinização da água. A osmose é um fenômeno natural físico-químico, é o nível final de processos de filtração disponíveis com a utilização de membranas. Pequenas localidades do Nordeste têm resolvido seus problemas de abastecimento de água com os dessalinizadores.
RESERVAÇÃO

A reservação é empregada com os seguintes propósitos: • atender às variações de consumo ao longo do dia; • promover a continuidade do abastecimento no caso de paralisação da produção de água; • manter pressões adequadas na rede de distribuição; e • garantir uma reserva estratégica em casos de incêndio. De acordo com sua localização e forma construtiva os reservatórios podem ser: • reservatório de montante: situado no início da rede de distribuição, sendo sempre o fornecedor de água para a rede; • reservatório de jusante: situado no extremo ou em pontos estratégicos do sistema, podendo fornecer ou receber água da rede de distribuição; • elevados: construídos sobre colunas, quando há necessidade de aumentar a pressão em conseqüência de condições topográficas; • apoiados, enterrados e semi-enterrados: aqueles cujo fundo está em contato com o terreno; • alvenaria; e • argamassa armada. Os reservatórios são sempre um ponto fraco no sistema de distribuição de água. Para evitar sua contaminação, é necessário que sejam protegidos com estrutura adequada, tubo de ventilação, impermeabilização, cobertura, sistema de drenagem, abertura para limpeza, registro de descarga, ladrão e indicador de nível. Sua limpeza e desinfecção devem ser realizadas rotineiramente. Quanto à capacidade de reservação, recomenda-se que o volume armazenado seja igual ou maior que um terço do volume de água consumido referente ao dia de maior consumo.

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ESTAÇÕES ELEVATÓRIAS

São instalações destinadas a transportar e elevar a água. Podem apresentar em sua forma, dependendo de seu objetivo e importância, variações as mais diversas. Principais usos: • captar a água de mananciais de superfície ou poços rasos e profundos; • aumentar a pressão nas redes, levando a água a pontos mais distantes ou mais elevados; e • aumentar a vazão de adução.
INSTALAÇÕES DOMICILIARES

É objetivo primordial da saúde pública que a população tenha água em quantidade e qualidade em seu domicílio. Quanto mais próxima da casa estiver a água, menor será a probabilidade de incidência de doenças de transmissão hídrica. Nem todos têm possibilidade financeira de ter, de início, água encanada em seu domicílio, começando, por instalar uma torneira no quintal, que é um grande passo e, progressivamente, leva a água para dentro de casa. A instituição de hábitos higiênicos é indispensável. É necessário orientar a população que nunca teve acesso a água encanada dentro do domicílio, para sua utilização de forma adequada. Em áreas onde a esquistossomose é endêmica, deve-se ter cuidado especial com a água de banho e, sempre que essa não for tratada, será necessário fervê-la antes de seu uso, como medida eficiente para evitar a doença. A lavagem apropriada dos utensílios de cozinha para evitar contaminação de alimentos é mais um passo a favor da saúde. Esses hábitos serão facilitados pela instalação, no domicílio, de melhorias sanitárias convenientes. Os inspetores, auxiliares e agentes de saneamento estão aptos a orientar a população sobre a construção e manutenção das melhorias sanitárias.
RESERVATÓRIOS DOMICILIARES PARA ÁGUA

Os reservatórios domiciliares são pontos fracos do sistema, onde a água está mais sujeita à contaminação. Só se deveria admitir as caixas d’água nos domicílios, em sistemas de abastecimento intermitentes. O reservatório deve ter capacidade para abastecer o domicílio, pelo menos pelo período de um dia, e ser devidamente tampado.

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BOMBAS HIDRÁULICAS

Podem ser grupadas em: a) bombas de deslocamento, que são as de êmbolo e as de engrenagem; b) bombas a velocidade, que são as centrífugas, sem e com ejetores; c) bombas a compressor ou air-lift.
Escolha da bomba

Basicamente a escolha do tipo de bomba depende de: • profundidade da água no poço; • altura de recalque; • locação (situação, distância) da bomba com relação ao poço e ao reservatório; • facilidades de reparo e obtenção de peças; • possibilidades locais de manutenção e operação; • qualidade da água – limpa ou suja; • durabilidade; • custo da bomba e custo de operação e manutenção; • energia disponível e seu custo (manual, catavento, motor a gasolina, a óleo diesel, motor elétrico); e • eficiência da bomba.

ESGOTAMENTO SANITÁRIO
CONSIDERAÇÕES GERAIS

Os dejetos humanos podem ser veículos de germes patogênicos de várias doenças, dentre as quais febre tifóide e paratifóide, diarréias infecciosas, amebíase, ancilostomíase, esquistossomose, teníase, ascaridíase, etc. Por isso, torna-se indispensável afastar as possibilidades de seu contato com: • homem; • águas de abastecimento; • vetores (moscas, baratas); e • alimentos.

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Observa-se que, devido à falta de medidas práticas de saneamento e de educação sanitária, grande parte da população tende a lançar os dejetos diretamente sobre o solo, criando, desse modo, situações favoráveis à transmissão de doenças. A solução recomendada é a construção de privadas com veiculação hídrica, ligadas a um sistema público de esgotos, com adequado destino final. Essa solução é, contudo, impraticável no meio rural e às vezes difícil, por razões principalmente econômicas, em muitas comunidades urbanas e suburbanas. Nesses casos são indicadas soluções individuais para cada domicílio.
Importância sanitária

Sob o aspecto sanitário, o destino adequado dos dejetos humanos visa, fundamentalmente, ao controle e à prevenção de doenças a eles relacionadas. As soluções a serem adotadas terão os seguintes objetivos: • evitar a poluição do solo e dos mananciais de abastecimento de água; • evitar o contato de vetores com as fezes; • propiciar a promoção de novos hábitos higiênicos na população; • promover o conforto e atender ao senso estético.
Importância econômica

A ocorrência de doenças, principalmente as doenças infecciosas e parasitárias ocasionadas pela falta de condições adequadas de destino dos dejetos, pode levar o homem à inatividade ou reduzir sua potencialidade para o trabalho. Assim sendo, são considerados os seguintes aspectos: • aumento da vida média do homem, pela redução da mortalidade em conseqüência da redução dos casos de doenças; • diminuição das despesas com o tratamento de doenças evitáveis; • redução do custo do tratamento da água de abastecimento, por meio da prevenção da poluição dos mananciais; • controle da poluição das praias e dos locais de recreação com o objetivo de promover o turismo; e • preservação da fauna aquática, especialmente os criadouros de peixes.

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ESGOTOS DOMÉSTICOS Conceito

O esgoto doméstico é aquele que provem principalmente de residências, estabelecimentos comerciais, instituições ou quaisquer edificações que dispõem de instalações de banheiros, lavanderias e cozinhas. Compõem-se essencialmente da água de banho, excretas, papel higiênico, restos de comida, sabão, detergentes e águas de lavagem.
Características dos excretas

As fezes humanas compõem-se de restos alimentares ou dos próprios alimentos não-transformados pela digestão, integrando-se às albuminas, às gorduras, aos hidratos de carbono e às proteínas. Os sais e uma infinidade de microorganismos também estão presentes. Na urina são eliminadas algumas substâncias, como a uréia, resultantes das transformações químicas (metabolismo) de compostos nitrogenados (proteínas). As fezes e principalmente a urina contêm grande porcentagem de água, além de matéria orgânica e inorgânica. Nas fezes estão cerca de 20% de matéria orgânica, enquanto na urina 2,5%. Os microorganismos eliminados nas fezes humanas são de diversos tipos, sendo que os coliformes (Escherichia coli, Aerobacter aerogenes e o Aerobacter cloacae) estão presentes em grande quantidade, podendo atingir um bilhão por grama de fezes.
Características dos esgotos Características físicas

As principais características físicas ligadas aos esgotos domésticos são: matéria sólida, temperatura, odor, cor e turbidez e variação de vazão. Matéria sólida: os esgotos domésticos contêm aproximadamente 99,9% de água, e apenas 0,1% de sólidos. É devido a esse porcentual de 0,1% de sólidos que ocorrem os problemas de poluição das águas, trazendo a necessidade de se tratar os esgotos; Temperatura: a temperatura do esgoto é, em geral, pouco superior à das águas de abastecimento. A velocidade de decomposição do esgoto é proporcional ao aumento da temperatura; Odor: os odores característicos do esgoto são causados pelos gases formados no processo de decomposição, assim o odor de mofo, típico do esgoto fresco é razoavelmente suportável e o odor de ovo podre, insuportável, é típico do esgoto velho ou séptico, devido à presença de gás sulfídrico; Cor e turbidez: a cor e turbidez indicam de imediato o estado de decomposição do esgoto. A tonalidade acinzentada acompanhada de alguma turbidez é típica do esgoto fresco e a cor preta é típica do esgoto velho; Variação de vazão: a variação de vazão do efluente de um sistema de esgoto doméstico é em função dos costumes dos habitantes. A vazão doméstica do esgoto é calculada em função do consumo médio diário de água de um indivíduo.

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Estima-se que para cada 100 litros de água consumida, são lançados aproximadamente 80 litros de esgoto na rede coletora, ou seja 80%.
Características químicas

As principais características químicas dos esgotos domésticos são: matéria orgânica e matéria inorgânica. Matéria orgânica: cerca de 70% dos sólidos no esgoto são de origem orgânica, geralmente esses compostos orgânicos são uma combinação de carbono, hidrogênio e oxigênio, algumas vezes com nitrogênio. Os grupos de substâncias orgânicas nos esgotos são compostos de: proteínas (40 a 60%), carboidratos (25 a 50%), gorduras e óleos (10% ), uréia, sulfatans, fenóis, etc. As proteínas: são produtoras de nitrogênio e contêm carbono, hidrogênio, oxigênio, algumas vezes fósforos, enxofre e ferro. As proteínas são o principal constituinte de organismo animal, mas ocorrem também em plantas. O gás sulfídrico presente nos esgotos é proveniente do enxofre fornecido pelas proteínas; Os carboidratos: contêm carbono, hidrogênio e oxigênio. São as principais substâncias a serem destruídas pelas bactérias, com a produção de ácidos orgânicos (por esta razão os esgotos velhos apresentam maior acidez); Gordura: é o mesmo que matéria graxa e óleos, provem geralmente do esgoto doméstico devido o uso de manteiga, óleos vegetais, da carne, etc.; Os surfactantes: são constituídos por moléculas orgânicas com a propriedade de formar espuma no corpo receptor ou na estação de tratamento de esgoto; e Os fenóis: são compostos orgânicos originados em despejos industriais. Matéria Inorgânica: nos esgotos é formada principalmente pela presença de areia e de substâncias minerais dissolvidas.
Características biológicas

As principais características biológicas do esgoto doméstico são: microorganismos de águas residuais e indicadores de poluição. Microorganismos de águas residuais Os principais organismos encontrados nos esgotos são: as bactérias, os fungos, os protozoários, os vírus e as algas. Desse grupo, as bactérias são as mais importantes, pois são responsáveis pela decomposição e estabilização da matéria orgânica, tanto na natureza como nas estações de tratamento.

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Indicadores de poluição Há vários organismos cuja presença em um corpo d’água indica uma forma qualquer de poluição. Para indicar a poluição de origem humana usa-se adotar os organismos do grupo coliforme como indicadores. As bactérias coliformes são típicas do intestino do homem e de outros animais de sangue quente (mamíferos) e por estarem presentes nas fezes humanas (100 a 400 bilhões de coliformes/hab.dia) e de simples determinação, são adotadas como referência para indicar e medir a grandeza da poluição. Seria por demais trabalhoso e antieconômico se realizar análises para determinar a presença de patogênicos no esgoto; ao invés disso se determina a presença de coliformes e, por segurança, se age como se os patogênicos também estivessem presentes.
Produção de esgoto em função da oferta de água Pouca oferta de água

Nessas condições a água utilizada para consumo, geralmente é obtida em torneiras públicas ou fontes distantes, acarretando um grande esforço físico para o transporte até os domicílios. O esgoto produzido nessa condição é praticamente formado por excretas que normalmente podem ser lançadas em fossas secas, estanque ou de fermentação.
Muita oferta de água

A presença de água em abundância aumenta a produção de esgoto. Nessa condição os esgotos produzidos necessitam de uma destinação mais adequada onde deve ser levado em conta: a vazão, tipo de solo, nível do lençol, tipo de tratamento (primário, secundário ou terciário), etc.
Bactéria aeróbica e anaeróbica

O oxigênio é essencial a todo ser vivo para a sua sobrevivência. Na atmosfera encontramos o oxigênio necessário aos organismos terrestres e o oxigênio para os organismos aquáticos encontram-se dissolvidos na água. Por maior que seja a poluição atmosférica, o teor de oxigênio no ar (1% ) não será tão afetado, já havendo poluição orgânica (esgoto) na água o oxigênio dissolvido pode até desaparecer, trazendo grandes prejuízos à vida aquática. Como qualquer ser vivo, as bactérias também precisam de oxigênio. As bactérias aeróbias utilizam-se do oxigênio livre na atmosfera ou dissolvidos na água, porém as bactérias anaeróbias para obtê-lo terão que desdobrar (abrir) substâncias compostas. Também existe as bactérias facultativas, que podem viver do oxigênio livre ou combinado. Esses três tipos de bactérias encontram-se normalmente no solo e podem ser patogênicas ou saprófitas que vivem exclusivamente às custas de matéria orgânica morta.

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Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO)

É a forma mais utilizada para medir-se a quantidade de matéria orgânica presente no esgoto ou, em outras palavras, medir a quantidade de oxigênio necessário para estabilizar a matéria orgânica com a cooperação de bactérias aeróbias. Quanto maior o grau de poluição orgânica maior será a DBO. A DBO vai reduzindo-se gradativamente durante o processo aeróbio até anular-se, quando então a matéria orgânica estará totalmente estabilizada. Normalmente à uma temperatura de 20ºC, e após 20 dias, é possível estabilizar 99,0% da matéria orgânica dissolvida ou em estado coloidal. Em geral a DBO dos esgotos domésticos varia entre 100 e 300mg/l, em outras palavras o número em mg indica a quantidade de oxigênio necessária para estabilizar bioquímicamente a matéria orgânica presente no esgoto.
CONCEITO DE CONTAMINAÇÃO

Introdução, no meio, de elementos em concentrações nocivas à saúde dos seres humanos, tais como: organismos patogênicos, substâncias tóxicas ou radioativas.
Sobrevivência das bactérias

A sobrevivência das bactérias, no solo, varia bastante; assim, o bacilo tifoídico resiste sete dias no esterco, 22 dias em cadáveres enterrados, 15 a 30 dias em fezes, 70 dias em solo úmido e 15 dias em solo seco; o bacilo disentérico, oito dias em fezes sólidas, 70 dias em solo úmido e 15 dias em solo seco.
Disseminação de bactérias no solo

A disseminação horizontal é quase nula chegando a 1m de raio; a vertical atinge, no máximo, a 3m em terreno sem fenda.
Disseminação de bactérias em águas subterrâneas

Como regra geral, é imprevisível. Poderá, entretanto, ser determinada no local, por meio do teste de fluoresceína. A água subterrânea com um fluxo de 1 a 3m por dia pode resultar no arrastamento de bactérias a uma distância de 11m no sentido do fluxo. A própria natureza encarrega-se de um processo dito de autodepuração. Contudo, o aumento da densidade humana dificulta a autodepuração e obriga o homem a sanear o ambiente onde vive, para acelerar a destruição dos germes patogênicos e precaver-se contra doenças.
Estabilização das excretas

As excretas humanas possuem matéria orgânica, instável, constituída de poucas substâncias simples como hidrogênio (H), oxigênio (O), azoto (Az), Carbono (C), enxofre (S) e fósforo (P), que, combinadas de diversas maneiras e proporções, formam a imensa variedade de compostos orgânicos em estado sólido, líquido e gasoso.

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Os excretas lançados no solo, sofrem ação de natureza bioquímica, pela presença de bactérias saprófitas, até sua mineralização. A decomposição aeróbia (oxidação) acontece quando a matéria orgânica está em íntimo contato com o oxigênio livre. Quando a massa orgânica colocada em contato com o ar for muito espessa, a oxidação só acontecerá na superfície livre e conseqüentemente o seu interior sofrerá decomposição anaeróbia (redução) devido à falta de oxigênio. Entretanto, se a mesma massa for diluída em grande volume de água contendo oxigênio dissolvido, a decomposição pode ser totalmente aeróbia, porque essas condições propiciam um íntimo contato das substâncias orgânicas tanto com o oxigênio como com as bactérias aeróbias. Além da decomposição aeróbia não produzir maus odores, processa-se em período de tempo menor que a anaeróbia. A decomposição anaeróbia, para total estabilização da matéria orgânica, requer várias semanas e até meses, enquanto a aeróbia pode efetivar-se em termos de horas. Como a decomposição anaeróbia produz gases fétidos (gás sulfídrico, mercaptano, etc.), costuma-se dizer que a matéria está em putrefação ou estado séptico. A matéria orgânica depois de estabilizada pode ser assimilada pelas plantas e estas ingeridas como alimentos pelo homem e pelos animais, cujas excreções são novamente desdobradas e finalmente estabilizadas, fechando-se o ciclo que se repete indefinidamente. O ciclo da decomposição (ciclo da vida e da morte) pode ser representado pelos principais componentes da matéria orgânica (carbono, nitrogênio e enxofre).
DOENÇAS RELACIONADAS COM OS ESGOTOS

É grande o número de doenças cujo controle está relacionado com o destino adequado dos dejetos humanos. Citaremos entre as principais: ancilostomíase, ascaridíase, amebíase, cólera, diarréia infecciosa, disenteria bacilar, esquistossomose, estrongiloidíase, febre tifóide, febre paratifóide, salmonelose, teníase e cisticercose.
Modos de transmissão

Pelo contato direto da pele com o solo contaminado por larvas de helmintos, provenientes de fezes de portadores de parasitoses: as fezes do homem doente, portador de ancilostomose e estrongiloidose contém ovos dos parasitas que, uma vez no solo, eclodem, libertando as larvas; essas aguardam a oportunidade de penetrar na pele de outra pessoa, vindo localizar-se no seu intestino depois de longo trajeto por vários órgãos. Exemplo de medidas de controle: • uso de privadas evitando a contaminação da superfície do solo. Pelo contato direto da pele com coleções de água contaminada por cercarias.

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Exemplo de medidas de controle: • uso de privada evitando a contaminação das águas de superfície (lagoas, córregos, etc.). Evitar o banho em córregos e lagos, nas regiões onde houver incidência de esquistossomose. Pela ingestão de alimentos contaminados diretamente pelos dejetos ou pela água contaminada: é o modo de transmissão da ascaridíase, da amebíase, das febres tifóide e paratifóides e de outras doenças. Exemplo de medidas de controle: • lavar frutas e verduras em água potável; evitar a poluição fecal das águas de irrigação ou o uso próprio de águas fecais para a irrigação. Pela ingestão de alimentos contaminados por vetores, especialmente a mosca: a mosca pousa em locais poluídos por dejetos e depois nos alimentos, contaminando-os. Entre as doenças veiculadas pelas moscas, citam-se: diarréias infecciosas, febres tifóide e paratifóide. Exemplo de medidas de controle: • proteger os alimentos e eliminar os focos de proliferação de moscas. Pela ingestão de alimentos diretamente contaminados pela mão de homem, por falta de higiene pessoal: é o principal modo de transmissão das diarréias infecciosas, que são as grandes responsáveis pela alta mortalidade infantil. Exemplo de medida de controle: • lavar as mãos, após o uso da privada, antes de lidar com alimentos e ou cuidar de crianças pequenas. Pela ingestão de carnes suínas e bovinas contaminadas com cisticercos viáveis: A Taenia solium (do porco) e a Taenia saginata (do boi) enquista-se nos tecidos dos animais, sob a forma de larvas (cisticercos). Uma vez ingerida pelo homem, a carne crua ou mal cozida contaminada com cistecercos, ele adquire a teníase. A Taenia solium ou saginata fixa-se pelo escólex à mucosa do terço médio do intestino delgado, dispondo o restante do corpo ao longo da luz intestinal. Aí desenvolve-se para verme adulto, expulsando diariamente de quatro a oito proglótides (anéis) contendo em média 50 a 80 mil ovos, em cada proglótide. O homem adquire a cistecercose pelas mãos, água e alimentos contaminados com ovos de Taenia solium. A cistecercose humana é contraída da mesma forma que a suína, havendo uma predileção pelo sistema nervoso central. Exemplo de medidas de controle: • uso de privadas, evitando a contaminação das pastagens e impedindo a ingestão de fezes pelos porcos; cozinhar bem as carnes fornecidas em localidades onde o abate de animais é feito sem inspeção sanitária.

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CAPACIDADE DE ABSORÇÃO DO SOLO Características do solo

Os componentes do solo são areia, silte e argila. O tamanho das partículas governa o tamanho dos poros do solo, os quais, por sua vez, determinam o movimento da água pelo mesmo. Quanto maiores as partículas constituintes do solo, maiores os poros e mais rápida será a absorção.
SOLUÇÕES INDIVIDUAIS PARA TRATAMENTO E DESTINAÇÃO FINAL DOS ESGOTOS DOMÉSTICOS Onde não existe água encanada: privada com fossa seca Definição

A privada de fossa seca compreende a casinha e a fossa seca escavada no solo, destinada a receber somente as excretas, ou seja, não dispõe de veiculação hídrica. As fezes retidas no interior decompõe-se ao longo do tempo pelo processo de digestão anaeróbia.
Localização

Lugares livres de enchentes e acessíveis aos usuários. Distante de poços e fontes e em cota inferior a esses mananciais, a fim de evitar a contaminação dos mesmos. A distância varia com o tipo de solo e deve ser determinada localmente. Adotar uma distância mínima de segurança, estimada em 15 metros.
Dimensionamento

Para dimensionamento da fossa seca deverá ser levado em consideração o tempo de vida útil da mesma e as técnicas de construção. As dimensões indicadas para a maioria das áreas rurais são as seguintes: • abertura circular com 90cm de diâmetro, ou quadrada com 80cm de lado; • a profundidade varia com as características do solo, o nível de água do lençol • freático etc., recomendando-se valores em torno de 2,50m.
Detalhes construtivos Revestimento da fossa

Em terreno pouco consistente, a fossa será revestida com manilhões de concreto armado, tijolos, madeiras, etc.
Assentamento da base

O material para a base poderá ser: tijolos, madeira, concreto armado, blocos de concreto, etc.

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A finalidade da base é fazer a distribuição uniforme do peso da casinha sobre o terreno, servir de apoio ao piso e proteger a fossa, impedindo a entrada de pequenos animais (barata, roedores, etc.). A base deve elevar-se cerca de 20cm da superfície do solo.
Piso (laje da privada)

Deve ser assentado horizontalmente sobre a base, fazendo a cobertura da fossa. A fim de suportar o peso do usuário, deve ser construído de material resistente, como concreto armado ou madeira de boa qualidade. O piso dispõe de uma abertura destinada à passagem dos dejetos para dentro da fossa; por motivos de higiene, é preferível não instalar assento sobre a mesma. Entretanto, deve-se atender, nesse particular, aos hábitos e costumes da população.
Aterro de proteção (montículo)

Aproveitando a própria terra retirada na escavação da fossa, fazer um aterro compactado até a altura da base, formando uma plataforma, em torno da privada. Sua finalidade é proteger a base, desviar as águas de chuva e dificultar a penetração de roedores. Para maior durabilidade, é aconselhável gramar o montículo.
Casinha

A finalidade da casinha é abrigar o usuário e completar a proteção da fossa. É conveniente que o recinto seja mantido em penumbra para evitar a presença de moscas. Por isso, a porta deverá permanecer fechada e a ventilação ser feita por meio de pequenas aberturas no topo das paredes. Se, por um lado, as dimensões estão condicionadas ao custo mínimo, por outro devem oferecer conforto ao usuário. A área recomendada para o piso é de 1m2 e a altura das paredes, 2m na frente e 1,75m atrás. Quanto à cobertura, deverá ter um beiral de 30cm, a fim de proteger as paredes. Existe uma grande variedade de materiais empregados na confecção da casinha. Entretanto, a preferência será dada àqueles de maior disponibilidade, menor custo e maior resistência: • para as paredes: tijolos, madeira, adobe, taipa, blocos de concreto, placas de cimento armado, etc.; e • para o telhado: telhas francesa e colonial, chapas onduladas de cimento amianto, zinco e alumínio, placas de cimento armado, etc. A porta é geralmente construída de madeira. Por uma questão de comodidade, deve ser instalada abrindo para fora: contudo, para ficar mais bem protegida e ter maior durabilidade, poderá abrir para dentro.

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Casinha pré-fabricada de placas de cimento

Possui paredes e cobertura confeccionadas com placas de cimento armado de 2,5cm de espessura. Em algumas regiões do Brasil, é de custo menor que as casinhas comuns de alvenaria de tijolos; apresentam ainda como vantagens a construção em série, a montagem rápida, a boa resistência à intempérie e o melhor aspecto. A armação é feita com arame nº 8 ou 10, arame farpado, vergalhão 3/16” ou ainda tela de arame. A frente é constituída de três placas, sendo uma superior e duas laterais; em uma dessas placas laterais é adaptado um sarrafo ou uma ripa de madeira destinado à montagem da porta. A cobertura compõe-se de duas placas, e as paredes laterais e traseiras, duas ou três placas cada uma. Durante a montagem, as placas serão unidas com arame ou argola e gancho (fundidos na própria placa). O rejuntamento das placas deve ser feito com argamassa de cimento, tomando internamente a forma de bisel.
Tampa da privada

A abertura do piso deve ser mantida fechada quando a privada não estiver em uso, a fim de evitar a proliferação de moscas e mosquitos.
Ventilação

O acúmulo de gases do interior da fossa resulta no seu desprendimento abrupto, no momento em que o usuário retirar a tampa do buraco do piso. A fim de evitar essa condição desconfortável, recomenda-se instalar tubo de ventilação da fossa, localizando-o na parte interna da casinha, na parede, com a extremidade superior acima do telhado. Se eventualmente surgir água na fossa, propiciando a proliferação de mosquitos, aconselhase utilizar derivados de petróleo, sendo mais comum o uso de querosene e de óleo queimado. A porta deve estar sempre fechada e o buraco tampado quando a fossa estiver fora de uso.
Manutenção

Sendo fossa seca é contra-indicado o lançamento de água no seu interior; serão lançados apenas os dejetos e o papel higiênico (papel de limpeza). Entretanto, se ocorrer mau cheiro, recomenda-se empregar pequenas porções de sais alcalinizantes, como sais de sódio, cálcio e potássio, sendo comum o uso de cal ou cinza. Justifica-se essa medida pelo mau cheiro que as excretas desprendem em fase da digestão ácida (séptica). No início da digestão, há tendência para o desenvolvimento de bactérias próprias do meio ácido, responsáveis pela produção de compostos voláteis mal cheirosos como ácido sulfídrico, mercaptanas, escatol, ácido caprílico, butírico e outros. Entretanto, com pH elevado, haverá o desenvolvimento de bactérias responsáveis pela produção de gases inodoros, como metana e gás carbônico.

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Vantagens e desvantagens Vantagens

• baixo custo; • simples operação e manutenção; • não consome água; • risco mínimo à saúde; • recomendada para áreas de baixa e média densidades; • aplicável a tipos variados de terrenos; e • permite o uso de diversos materiais de construção.
Desvantagens

• imprópria para áreas de alta densidade; • podem poluir o subsolo; e • requer solução para outras águas servidas.
Privada com fossa estanque Definição

Consta de um tanque destinado a receber os dejetos, diretamente, sem descarga de água, em condições idênticas à privada de fossa seca. Essa solução é adotada geralmente em: • zonas de lençol muito superficial; • zonas rochosas ou terrenos muito duros; • terrenos facilmente desmoronáveis; e • lotes de pequenas proporções, onde há perigo de poluição de poços de suprimento de água.
Dimensionamento

O tanque da fossa estanque deverá ter capacidade para armazenar até mil litros de excretas.

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Detalhes construtivos

O tanque deve ser construído de concreto ou alvenaria, e totalmente impermeabilizado.
Manutenção

Para uma família de cinco pessoas, um tanque de mil litros ficará cheio após o período de um ano. Nessa ocasião o tanque será esvaziado por uma tampa atrás da casinha; o material retirado será imediatamente enterrado, não se prestando para adubo.
Vantagens e desvantagens: Vantagens

• baixo custo; • fácil construção; • simples operação e manutenção; • não consome água; • mínimo risco à saúde; • não polui o solo; e • a solução poderá ser definitiva.
Desvantagens

• imprópria para áreas de alta densidade; e • requer soluções para as outras águas servidas.
Privada com fossa de fermentação Definição

Consta essencialmente de duas câmaras (tanques) contíguas e independentes destinadas a receber os dejetos, tal qual nas privadas de fossa seca.
Indicação

Apropriada para outros tipos de terreno desfavoráveis à construção de privada de fossa seca.
Funcionamento

Para facilitar a compreensão do seu funcionamento, chama-se de I e II as duas câmaras: • isolar a câmara II, vedando a respectiva tampa no interior da casinha; • usar a câmara I, até esgotar a sua capacidade. Para uma família de seis pessoas, a câmara ficará cheia em um ano, aproximadamente;

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• isolar a câmara I, vedando a respectiva tampa. O material acumulado sofrerá fermentação natural; • usar a câmara II, até esgotar a sua capacidade. Durante o período de uso, o material da câmara I terá sido mineralizado; • retirar o material da câmara I, removendo as respectivas tampas externas recolocando-as após. Por ocasião da limpeza, é necessário deixar pequena porção de material já fermentado, a fim de auxiliar o reinício da fermentação; e • isolar a câmara II e usar a câmara I, como anteriormente.
Detalhes construtivos

De acordo com o tipo de solo, as privadas de fermentação poderão ter tanques enterrados, semi-enterrados, ou totalmente construídos na superfície do terreno. O revestimento das câmaras é em função das características do solo e da área de locação da privada. Entretanto, considerando que esse tipo de privada constitui uma solução muito durável (praticamente definitiva), será conveniente fazer o revestimento em quaisquer circunstâncias, inclusive em terrenos firmes, onde seria dispensável. Em terrenos encharcados e em lugares onde haja riscos de contaminação de poços, as paredes e o fundo serão necessariamente construídos de concreto ou de tijolos e impermeabilizados com argamassa de cimento. As câmaras compõem-se de um corpo principal e de um apêndice, que se comunica com o interior da casinha para receber os dejetos. A escavação das fossas deve começar pelo corpo principal, seguindo-se a escavação dos apêndices. A casinha é construída sobre esse apêndice de tal forma que o corpo principal das câmaras fique atrás da parede dos fundos. As câmaras são providas, cada uma, de tampas removíveis, subdivididas para facilitar a remoção. A fim de evitar a entrada de águas de chuva, as tampas deverão ficar bem unidas e rejuntadas com argamassa pobre de cal e cimento. Para evitar o alagamento nas épocas de chuva, a privada será circundada com aterro bem compactado. No caso de ser construída em encosta de morro, deve ter valetas para desvio de enxurradas. A estrutura da casinha é semelhante à da privada de fossa seca, podendo-se empregar os mais diversos tipos de materiais.

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Vantagens e desvantagens: Vantagens

• pode ser adotada em todas as situações idênticas àquelas em que se aplica a fossa seca; • pode ser aplicada em locais de lençol de água mais próximo da superfície, porque a profundidade das câmaras é de apenas 1m. Em casos mais difíceis, a privada poderá ser elevada do solo; • também pode ser aplicada em terrenos rochosos em que a escavação poderá ser mais rasa, ficando as câmaras semi-enterradas; • tem duração maior que a fossa seca. A solução é praticamente definitiva; • encarecimento é relativamente pequeno em relação à fossa executada em terrenos de idênticas condições; apenas o custo da casinha será um pouco maior; • o volume de terra a ser escavado é o mesmo; • a escavação é mais fácil, já que as câmaras são mais rasas; e • em igualdade de condições de terreno, a quantidade de material usado no revestimento e o trabalho requerido é o mesmo.
Desvantagens

• imprópria para áreas de alta densidade populacional; e • requer solução para outras águas servidas.
Privada química Definição

É constituída de um tanque cilíndrico, de aço inoxidável, contendo solução de soda cáustica (NaOH), destinado a receber os dejetos procedentes de uma bacia sanitária comum. Esse tanque é removível.
Indicação

Devido ao seu custo elevado, só é aplicável em circunstâncias especiais: acampamentos, colônias de férias, ônibus, aviões, etc.
Funcionamento

A soda cáustica no interior do cilindro, liquefaz o material sólido e destrói as bactérias, os ovos de helmintos e outros microrganismos. A dosagem recomendada é de 10kg de soda cáustica para 50 litros de água. Periodicamente, o tanque é esvaziado e reabastecido com nova porção de solução química.

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A OMS recomenda cuidados especiais nos pontos de recepção e esvaziamento, objetivando a saúde coletiva e a dos manipuladores. Devem os locais ter água quente e fria e o esvaziamento ser auxiliado por dispositivos mecânicos evitando o manuseio direto.
Onde existe água encanada: privada com vaso sanitário Definição

Consta de uma bacia especialmente construída para recolher os dejetos e permitir seu afastamento por um sistema de transporte hídrico. A bacia é dotada de sifão, o qual estabelece um fecho hidráulico que impede o refluxo de gases provenientes da rede de esgotos ou de outras instalações de destino final. A maioria das bacias tem forma especial com assento. O tipo denominado bacia turca possui pisadores onde o usuário apóia os pés ficando de cócoras. O vaso sanitário é geralmente construído de louça ou cerâmica esmaltada. Esse material é o mais recomendado por ser de fácil limpeza e conservação. Desde que sejam asseguradas boas condições de resistência e facilidade de limpeza, pode-se instalar vasos sanitários rústicos, feitos de cimento e tijolos, barro vidrado ou cimento polido. O uso da privada de vaso sanitário exige a instalação de dispositivos para a descarga de água. A solução recomendada é a caixa de descarga, a qual implica na existência de água encanada, é tolerável, nesse caso, dispor de depósito de água dentro da casinha da privada. Haverá sempre à mão uma vasilha, para que, com ela, a água seja jogada dentro do vaso. Em alguns casos, esse dispositivo poderá ser utilizado para que a casinha possa também servir como local de banho.
Destino do efluente do vaso sanitário

O efluente do vaso sanitário deve ser conduzido à rede de esgoto, não havendo rede de esgoto, o efluente poderá ser levado a um tanque séptico ou tanque Imhoff . Em condições especiais, o vaso sanitário poderá ser ligado diretamente a um sumidouro.
LIGAÇÃO À REDE PÚBLICA DE ESGOTO

O efluente do vaso sanitário, preferencialmente, deve ser ligado diretamente à rede púbica de esgoto, quando houver os dispositivos de tratamento no final da rede. Não havendo esse tratamento é recomendável que o efluente, antes de ser ligado à rede pública, passe por um tanque séptico.
Tanque séptico

Dispositivo de tratamento primário do efluente proveniente do vaso sanitário. Destino do efluente do tanque séptico:

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a) sumidouro; b) vala de infiltração; e c) vala de filtração.
SOLUÇÕES COLETIVAS PARA TRATAMENTO E DESTINAÇÃO FINAL DOS ESGOTOS

À medida que as comunidades e a concentração humana tornam-se maiores, as soluções individuais para remoção e destino do esgoto doméstico devem dar lugar às soluções de caráter coletivo denominadas sistema de esgotos.
Tipos de esgotos

• Esgotos domésticos: incluem as águas contendo matéria fecal e as águas servidas, resultantes de banho e de lavagem de utensílios e roupas; • Esgotos industriais: compreendem os resíduos orgânicos, de indústria de alimentos, matadouros, etc.; as águas residuárias agressivas, procedentes de indústrias de metais etc.; as águas residuárias procedentes de indústrias de cerâmica, água de refrigeração, etc.; • Águas pluviais: são as águas procedentes das chuvas; e • Água de infiltração: são as águas do subsolo que se introduzem na rede.
Tipos de sistemas Sistema unitário

Consiste na coleta de águas pluviais, dos esgotos domésticos e dos despejos industriais em um único coletor. Além da vantagem de permitir a implantação de um único sistema, é vantajoso quando for previsto o lançamento do esgoto bruto, sem inconveniente, em um corpo receptor próximo. No dimensionamento do sistema devem ser previstas as precipitações máximas com período de recorrência geralmente entre cinco e dez anos. Como desvantagem, apresenta custo de implantação elevado e problemas de deposições de material nos coletores por ocasião da estiagem. Quanto ao tratamento, o custo de implantação é também elevado tendo em vista que a estação deve ser projetada com capacidade máxima que , no sistema unitário, ocorre durante as chuvas. Outrossim, a operação é prejudicada pela brusca variação da vazão na época das chuvas, afetando do mesmo modo a qualidade do efluente.
Sistema separador absoluto

Nesse sistema, o esgoto doméstico e o industrial ficam completamente separados do esgoto pluvial. É o sistema adotado no Brasil.

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O custo de implantação é menor que o do sistema anterior, em virtude das seguintes razões: • as águas pluviais não oferecem o mesmo perigo que o esgoto doméstico, podendo ser encaminhadas aos corpos receptores (rios, lagos, etc.) sem tratamento; esse será projetado apenas para o esgoto doméstico; • nem todas as ruas de uma cidade necessitam de rede de esgotamento pluvial. De acordo com a declividade das ruas, a própria sarjeta encarregar-se-á do escoamento, reduzindo assim, a extensão da rede pluvial; • esgoto doméstico deve ter prioridade, por representar um problema de saúde pública. O diâmetro dos coletores é mais reduzido; e • nem todo esgoto industrial pode ser encaminhado diretamente ao esgoto sanitário. Dependendo de sua natureza e das exigências regulamentares, terá que passar por tratamento prévio ou ser encaminhado à rede própria.
Sistema misto

A rede é projetada para receber o esgoto sanitário e mais uma parcela das águas pluviais. A coleta dessa parcela varia de um país para outro. Em alguns países colhe-se apenas as águas dos telhados; em outros, um dispositivo colocado nas bocas de lobo recolhe as águas das chuvas mínimas e limita a contribuição das chuvas de grande intensidade.
Sistema público convencional

Partes Constitutivas do Sistema • ramal predial: são os ramais que transportam os esgotos das casas até a rede pública de coleta; • coletor de esgoto: recebem os esgotos das casas e outras edificações, transportando-os aos coletores tronco; • coletor tronco: tubulação da rede coletora que recebe apenas contribuição de esgoto de outros coletores; • interceptor: os interceptores correm nos fundos de vale margeando cursos d’água ou canais. São responsáveis pelo transporte dos esgotos gerados na sub-bacia, evitando que os mesmos sejam lançados nos corpos d’água. Geralmente possuem diâmetro maior que o coletor tronco em função de maior vazão; • emissário: são similares aos interceptores, diferenciando apenas por não receber contribuição ao longo do percurso; e • poços de visita (PV): são câmaras cuja finalidade é permitir a inspeção e limpeza da rede. Os locais mais indicados para sua instalação são: • início da rede;

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• nas mudanças de: direção, declividade, diâmetro ou material, nas junções e em trechos longos. Nos trechos longos a distância entre PVs deve ser limitada pelo alcance dos equipamentos de desobstrução. • elevatória: quando as profundidades das tubulações tornam-se demasiadamente elevadas, quer devido à baixa declividade do terreno, quer devido à necessidade de se transpor uma elevação, torna-se necessário bombear os esgotos para um nível mais elevado. A partir desse ponto, os esgotos podem voltar a fluir por gravidade; • estação de tratamento de esgotos (ETE): a finalidade da ETE é remover os poluentes dos esgotos, os quais viriam causar uma deterioração da qualidade dos cursos d’água. Um sistema de esgotamento sanitário só pode ser considerado completo se incluir a etapa de tratamento. A estação de tratamento de esgoto (ETE), pode dispor de alguns dos seguintes itens, ou todos eles: – grade; – desarenador; – sedimentação primária; – estabilização aeróbia; – filtro biológico ou de percolação; – lodos ativados; – sedimentação secundária; – digestor de lodo; – secagem de lodo; e – desinfecção do efluente. • disposição final: após o tratamento, os esgotos podem ser lançados ao corpo d’água receptor ou, eventualmente, aplicados no solo. Em ambos os casos, há que se levar em conta os poluentes eventualmente ainda presentes nos esgotos tratados, especialmente organismos patogênicos e metais pesados. As tubulações que transportam esses esgotos são também denominadas emissário.
Sistema condominial

O sistema condominial de esgotos é uma solução eficiente e econômica para esgotamento sanitário desenvolvida no Brasil na década de 1980. Esse modelo apóia-se, fundamentalmente, na combinação da participação comunitária com a tecnologia apropriada. Esse sistema proporciona uma economia de até 65% em relação ao sistema convencional de esgotamento, graças às menores extensão e profundidade da rede coletora e à concepção de microssistemas descentralizados de tratamento.

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O nome sistema condominial dá-se em função de agregar-se o quarteirão urbano com a participação comunitária, formando o condomínio, semelhante ao que ocorre em um edifício de apartamentos (vertical); dele distingue-se, todavia, por ser informal quanto à sua organização e por ser horizontal do ponto de vista físico. Desse modo, a rede coletora básica ou pública apenas tangencia o quarteirão-condomínio ao invés de circundá-lo como no sistema convencional. As edificações são conectadas a essa rede pública por meio de ligação coletiva no nível do condomínio (ramal condominial), cuja localização, manutenção e, às vezes, a execução são acordadas coletivamente, no âmbito de cada condomínio e com o prestador do serviço, a partir de um esquema de divisão de responsabilidades entre a comunidade interessada e o poder público. Partes constitutivas do sistema Ramal condominial: rede coletora que reúne os efluentes das casas que compõem um condomínio e pode ser: • de passeio: quando o ramal condominial passa fora do lote, no passeio em frente a esse a aproximadamente 0,70m de distância do muro; • de fundo de lote: quando o ramal condominial passa por dentro do lote, no fundo desse. Essa é a alternativa de menor custo pois dessa maneira é possível esgotar todas as faces de um conjunto com o mesmo ramal; • de jardim: quando o ramal condominial passar dentro do lote, porém na frente do mesmo. • rede básica: rede coletora que reúne os efluentes da última caixa de inspeção de cada condomínio, passando pelo passeio ou pela rua; • unidade de tratamento: a cada microssistema corresponde uma estação para tratamento dos esgotos, que pode ser o tanque séptico com filtro anaeróbio.
Fases de elaboração do projeto do ramal condominial Croqui

A primeira fase do processo de execução do ramal condominial é a elaboração do croqui do conjunto, assinalando a posição das casas e fossas de cada lote. De posse do croqui, definir a melhor opção que atende ao conjunto, considerando os seguintes aspectos: • face mais baixa dos lotes (topografia); • localização do maior número de fossas; e • disponibilidade de área livre para passagem do ramal nos lotes.
Reunião com a comunidade

De posse do pré-lançamento dos ramais nos croquis, são realizadas reuniões com os moradores de cada conjunto, onde são apresentadas as possíveis opções para o atendimento do mesmo,
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sendo, dos moradores a decisão final sobre o tipo de ramal a ser implantado. Topografia Com a opção definida, inicia-se o levantamento topográfico, o que é feito por conjunto e por tipo de ramal, onde a unidade considerada é o lote. Esse levantamento é executado com mangueira de nível e deve definir: • profundidade da ligação predial de cada lote; • um RN (referencial) para cada inspeção (geralmente marcado em um poste); • uma caixa de inspeção (CI) para cada lote; • cota do terreno de todas as CI’s e Tes; • CI no início do ramal de passeio; • CI externa, na saída dos ramais para ligação com PV (poço de visita), quando necessário; • lançamento das CI’s externas o mais próximo possível dos muros, garantindo que fiquem protegidas, ao máximo, do tráfego de veículos; • demarcação dos ramais a aproximadamente 0,70m do muro dos lotes; • localização de CI na direção da ligação predial do morador; e • desviar as CI’s das entradas de garagens ou, no mínimo, da faixa de passagem dos pneus do carro para evitar quebra das mesmas.
Projeto do ramal condominial

Na elaboração do projeto executivo, deve-se garantir que o morador seja atendido pelo ramal e que esse tenha lançamento favorável em pelo menos um ponto da rede básica ou pública. Para tanto deve ser previsto: • profundidade mínima da CI abaixo da cota da ligação predial do morador; • profundidade e declividade mínima do ramal em função do item anterior e nunca menor que 0,5%; • evitar desvio do ramal; • ligação da CI ao ramal de passeio por meio de um Te; • CI’s intermediárias para o ramal de passeio a cada 50m; • lançamento da ramal condominial na almofada do PV, formando uma canaleta de seção mínima de 50% da tubulação; • sempre que possível, será eliminada a última CI dos ramais, sendo esses, ligados direto à rede básica ou pública.

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Nos casos em que não estão previstos CI’s para ligação do ramal o mesmo será ligado à última CI do outro ramal, evitando uma entrada a mais na CI da rede pública, já que essa terá número limitado de entradas. • a última CI do ramal será de diâmetro de 0,60m somente quando a profundidade for maior que 0,90m e quando houver interligação de mais de um ramal; • todas as ligações dos ramais à rede pública serão em CI’s ou PV’s e em sentido do fluxo; • a profundidade da última CI quando houver interligação entre ramais, com corte de pista, será de 1 metro; e • as redes no passeio, inclusive a ligação a rede pública, será de PVC.
CONSIDERAÇÕES PARA PROJETO

Na realidade a rede pública é uma rede convencional do ponto de vista hidráulico, portanto deveria ser dimensionada em conformidade com as recomendações técnicas usuais.
Diâmetros mínimos

As redes coletoras do sistema convencional adotavam o diâmetro mínimo de 150mm apesar das normas vigentes não colocarem nenhuma restrição quanto à utilização do diâmetro de 100mm, desde que atenda ao dimensionamento hidráulico.
Recobrimentos mínimos

No sistema convencional, usualmente as redes coletoras localizam-se no terço médio mais baixo das ruas. Já no sistema condominial esse procedimento é evitado e procura-se, sempre que possível, lançar as redes no passeio, fora das ruas pavimentadas onde há tráfego de veículos. Com isso é permitido reduzirmos o recobrimento das tubulações sem contudo oferecer riscos de rompimento das mesmas e também sem ferir as recomendações das normas vigentes que são:
Profundidade mínima

A profundidade mínima da tubulação deve ser tal que permita receber os efluentes por gravidade e proteger a tubulação contra tráfego de veículos e outros impactos. No caso do ramal condominial, a profundidade mínima será aquela que esteja abaixo da cota de ligação predial do morador, garantindo que esse seja atendido. De forma a se obter o menor volume de escavação, deve-se adotar, sempre que possível, a declividade da tubulação igual as do terreno e a profundidade da rede será mantida igual à mínima sempre que a declividade do terreno for superior à declividade mínima.
Elementos de inspeção

Tem como objetivo permitir o acesso de homens ou equipamentos às redes, para proceder a limpeza e a desobstrução. No sistema condominial os elementos utilizados são:

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• Caixa de inspeção com diâmetro ou largura de 0,40m: a) uma dentro de cada lote, para efetuar a ligação predial quando a profundidade do coletor for até 0,90m; b) no ramal condominial, para mudança de direção; e c) no ramal de passeio poderá substituir o diâmetro da caixa de 0,60m quando a profundidade da mesma for até 0,90m. • Caixa de inspeção com diâmetro ou largura de 0,60m: a) na rede básica ou pública, em substituição aos PV’s sempre que a profundidade do coletor for até 1,20m e estiver no passeio; b) nos ramais condominiais de passeio, a cada 50m ou fração, quando a profundidade do coletor for de 0,90m até 1,20m; d) no final de cada conjunto residencial, antes de interligar o ramal condominial interno à rede básica, sempre que houver interseção de ramais; e) dentro de cada lote, substituindo as CI’s de 0,40m, quando a profundidade for de 0,90m até 1,20m; f ) nos ramais condominiais de passeio, para mudança de direção, quando a profundidade do coletor for de 0,90m até 1,20m; e g) uma no meio de cada conjunto, nos ramais condominiais de passeio, quando a profundidade do coletor for de 0,90m até 1,20m. • Poços de visita com diâmetro ou largura de 1m: a) na reunião de dois ou mais trechos de coletores públicos; b) em locais de mudança de direção e de declividade do coletor; c) ao longo da rede pública a cada 80m ou fração; e d) no início da rede.
Caixa de inspeção

As medidas da caixa de inspeção podem ser de diâmetro ou largura de 40 ou 60cm.
TANQUE SÉPTICO Histórico

Os registros de caráter históricos apontam como inventor do tanque séptico Jean Louis Mouras que, em 1860, construiu, na França, um tanque de alvenaria, onde passava os esgotos, restos de comida e águas pluviais, antes de ir para o sumidouro. Esse tanque, fora aberto 12

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anos mais tarde e não apresentava acumulada a quantidade de sólidos que foi previamente estimada em função da redução apresentada no efluente líquido do tanque.
Definição

Os tanque sépticos são câmaras fechadas com a finalidade de deter os despejos domésticos, por um período de tempo estabelecido, de modo a permitir a decantação dos sólidos e retenção do material graxo contido nos esgotos transformando-os bioquimicamente, em substâncias e compostos mais simples e estáveis. Supondo-se uma vazão do esgoto de 150 l/dia o tanque séptico poderá ser empregado para tratamento em nível primário de até um máximo de 500 habitantes. Economicamente o tanque séptico é recomendado para até 100 habitantes. Esse sistema requer que as residências disponham de suprimento de água.
Funcionamento

Retenção: o esgoto é detido na fossa por um período racionalmente estabelecido, que pode variar de 12 a 24 horas, dependendo das contribuições afluentes. Decantação: simultaneamente à fase de retenção, processa-se uma sedimentação de 60 a 70% dos sólidos em suspensão contidos nos esgotos, formando-se o lodo. Parte dos sólidos não-decantados, formados por óleos, graxas, gorduras e outros materiais misturados com gases é retida na superfície livre do líquido, no interior do tanque séptico, denominados de escuma. Digestão: tanto o lodo como a escuma são atacados por bactérias anaeróbias, provocando uma destruição total ou parcial de organismos patogênicos. Redução de volume: da digestão, resultam gases, líquidos e acentuada redução de volume dos sólidos retidos e digeridos, que adquirem características estáveis capazes de permitir que o efluente líquido do tanque séptico possa ser lançado em melhores condições de segurança do que as do esgoto bruto.
Afluentes do tanque séptico

O tanque séptico é projetado para receber todos os despejos domésticos (de cozinhas, lavanderias domiciliares, lavatórios, vasos sanitários, bidês, banheiros, chuveiros, mictórios, ralos de piso de compartimento interior, etc.). É recomendada a instalação de caixa de gordura na canalização que conduz despejos das cozinhas para o tanque séptico. São vetados os lançamentos de qualquer despejo que possa causar condições adversas ao bom funcionamento dos tanques sépticos ou que apresenta um elevado índice de contaminação.
Caixa de gordura

As águas servidas, destinadas aos tanques sépticos e ramais condominiais, devem passar por uma caixa especialmente construída com a finalidade de reter as gorduras. Essa medida tem por objetivo prevenir a colmatação dos sumidouros e obstrução dos ramais condominiais.

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Disposição do efluente líquido dos tanques sépticos O efluente líquido é potencialmente contaminado, com odores e aspectos desagradáveis, exigindo, por essas razões, uma solução eficiente de sua disposição. Entre os processos eficientes e econômicos de disposição do efluente líquido das fossas têm sido adotados os seguintes tipos: • diluição (corpos d’água receptores): para o tanque séptico a proporção é de 1:300; • sumidouro; • vala de infiltração e filtração; • filtro de areia; e • filtro anaeróbio. A escolha do processo a ser adotado deve considerar os seguintes fatores: • natureza e utilização do solo; • profundidade do lençol freático; • grau de permeabilidade do solo; • utilização e localização da fonte de água de subsolo utilizada para consumo humano; e • volume e taxa de renovação das águas de superfície. Disposição do efluente sólido A parte sólida retida nas fossas sépticas (lodo) deverá ser renovada periodicamente, de acordo com o período de armazenamento estabelecido no cálculo dessas unidades. A falta de limpeza no período fixado acarretará diminuição acentuada da sua eficiência. Pequeno número de tanques sépticos instalados e de pouca capacidade não apresenta problemas para a disposição do lodo. Nesses casos, o lançamento no solo, a uma profundidade mínima de 0,60m, e mesmo em rios, poderá ser uma solução, desde que o local escolhido não crie um problema sanitário. Quando o número de tanque séptico for bastante grande ou a unidade utilizada é de grande capacidade, o lodo não poderá ser lançado no solo e nem nos rios, mas sim encaminhado para um leito de secagem.
Eficiência

A eficiência do tanque séptico é normalmente expressa em função dos parâmetros comumente adotados nos diversos processos de tratamento. Os mais usados são: sólidos em suspensão e demanda bioquímica de oxigênio (DBO). As quantidades de cloretos, nitrogênio amoniacal, material graxo e outras substâncias podem interessar em casos particulares.

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Sólidos em suspensão

O tanque séptico, projetado e operado racionalmente, poderá obter redução de sólidos em suspensão em torno de 60%. Demanda bioquímica de oxigênio (DBO) A remoção de DBO poderá ser da ordem de: • vazão em torno de 2.000 l/dia - 35 a 61%; e • vazão em torno de 1.000 l/dia - 49 a 60%.
Influência de outras substâncias

Os esgotos contendo sabões nas proporções normalmente utilizadas, de 20 a 25mg/l, não prejudicam o sistema. No entanto, sob nenhum propósito deverá ser lançado, nos tanques, soluções de soda cáustica, que além da interferência em sua eficiência, provocará a colmatação dos solos argilosos. Estudos realizados demonstraram não haver qualquer evidência de que os detergentes, usualmente utilizados nas residências, nas proporções em que normalmente encontradas nos esgotos, possam ser nocivos para o funcionamento dos tanque sépticos.
Operação e manutenção

• para que ocorra um bom funcionamento, o tanque séptico, antes de entrar em operação, deve ser cheio com água a fim de detectar possíveis vazamentos; • a remoção do lodo deve ocorrer de forma rápida e sem contato do mesmo com o operador. Para isso recomenda-se a introdução de um mangote, pela tampa de inspeção, para sucção por bombas; • as valas de filtração ou de infiltração e os sumidouros devem ser inspecionados semestralmente; • havendo a redução da capacidade de absorção das valas de filtração, infiltração e sumidouros, novas unidades deverão ser construídas; e • tanto o tanque séptico como o sumidouro, quando abandonados, deverão ser cheios com terra ou pedra.
Procedimentos práticos para a manutenção

• para a limpeza do tanque séptico, escolher dias e horas em que o mesmo não recebe despejos; • abrir a tampa de inspeção e deixar ventilar bem. Não acender fósforo ou cigarro, pois o gás acumulado no interior do tanque séptico é explosivo;

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• levar para o local, onde o tanque séptico está instalado, um carrinho sobre o qual está montada uma bomba diafragma, para fluídos, de diâmetro de 75 a 100mm na sucção, manual ou elétrica; • mangote será introduzido diretamente na caixa de inspeção ou tubo de limpeza quando existir; • lodo retirado progressivamente do tanque séptico será encaminhado para um leito de secagem ou para um carro-tanque especial que dará o destino sanitariamente adequado; • se o lodo do tanque séptico ficar endurecido, adicionar água e agitar com agitador apropriado; e • no fim dessa operação, fazer a higienização do local e equipamentos utilizados.
FILTRO ANAERÓBIO Histórico

Aparentemente nova, a solução é considerada uma das mais antigas e surgiu simultaneamente à evolução dos filtros biológicos convencionais. É importante no entanto informar que a aplicação racional dos filtros anaeróbios teve maior divulgação a partir das experiências realizadas nos Estados Unidos da América, por Perry L. Mc Carty em 1963, 1966 e 1969. No Brasil, a Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo, confirmou, em 1977, a eficiência do filtro, já obtida por Mc Carty, realizando experiências em unidades-piloto.
Definição

O filtro anaeróbio (formado por um leito de brita nº 4) está contido em um tanque de forma cilíndrica ou prismática de seção quadrada, com fundo falso, para permitir o escoamento de efluente do tanque séptico.
Processo

O filtro anaeróbio é um processo de tratamento apropriado para o efluente do tanque séptico, por apresentar resíduos de carga orgânica relativamente baixos e concentração pequena de sólidos em suspensão. As britas nº 4 (50 a 76mm), reterão em sua superfície as bactérias anaeróbias (criando um campo de microorganismo), responsáveis pelo processo biológico, reduzindo a demanda bioquímica de oxigênio (DBO).
Eficiência

A ABNT considera que os filtros anaeróbios de fluxo ascendente são capazes de remover do efluente do tanque séptico de 70 a 90% da DBO. A eficiência dos filtros só poderá ser constatada três meses após o início da operação que é o tempo necessário para o bom funcionamento do mesmo.
Operação e manutenção

Para a limpeza do filtro, recomenda-se retirar o lodo esvaziando o filtro pela base e escoando a água pelo topo (calha).

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A retirada do lodo da base é feita por sucção e a lavagem do filtro é feita por injeção de água, pelo Tê instalado no tubo que leva o efluente do tanque séptico para o filtro.
Destino do efluente do tanque séptico e do filtro anaeróbio Sumidouro Histórico

O lançamento dos esgotos domésticos no subsolo é uma prática tão natural e lógica, tendo pesquisas arqueológicas registrado que há cerca de seis mil anos os habitantes de Sumere (região Sul do antigo império Caldeu) descarregavam seus esgotos em covas, cujas profundidades variavam de 12 a 15 metros. Em um dos primeiros livros da Bíblia, Deuteronômio, Moisés ordenava que os despejos humanos fossem enterrados fora da área do acampamento. Essa prática, extremamente antiga, demonstrou a sua aplicabilidade, no exemplo clássico do Estado de West Virgínia (EUA), quando se adotou como solução para o combate às febres tifóide e paratifóide a implantação de um programa de construção de 282.148 unidades de privadas.
Definição

Os sumidouros também conhecidos como poços absorventes ou fossas absorventes, são escavações feitas no terreno para receber os efluentes do tanque séptico, que se infiltram no solo pelas aberturas na parede.
Detalhes construtivos

Os sumidouros devem ser construídos com paredes de alvenaria de tijolos, assentes com juntas livres, ou de anéis (ou placas) pré-moldados de concreto, convenientemente furados. Devem ter no fundo, enchimento de cascalho, coque ou brita nº 3 ou 4, com altura igual ou maior que 0,50m. As lajes de cobertura dos sumidouros devem ficar ao nível do terreno, construídas em concreto armado e dotadas de abertura de inspeção de fechamento hermético, cuja menor dimensão será de 0,60m. Quando construídos dois ou mais sumidouros cilíndricos, os mesmos devem ficar afastados entre si de um valor que supere três vezes o seu diâmetro e nunca inferior a 6m.

VALA DE INFILTRAÇÃO Definição

O sistema de vala de infiltração consiste em um conjunto de canalizações assentado a uma profundidade determinada, em um solo cujas características permitam a absorção do esgoto efluente do tanque séptico. A percolação do líquido pelo solo permitirá a mineralização dos

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esgotos, antes que os mesmos se transformem em fonte de contaminação das águas subterrâneas e de superfície. A área por onde são assentadas as canalizações de infiltração também são chamadas de “campo de nitrificação”. Os sistemas de valas de infiltrações são constituídos de duas canalizações superpostas, com a camada entre as mesmas ocupada com areia. O sistema deve ser empregado quando o tempo de infiltração do solo não permite adotar outro sistema mais econômico (vala de infiltração) e/ou quando a poluição do lençol freático deve ser evitada.
ESTAÇÃO DE TRATAMENTO DE ESGOTO (ETE) PARA PEQUENAS LOCALIDADES Processo de tratamento

O esgoto chega à ETE, passando pelo gradeamento e caixa de areia, onde se dá o tratamento preliminar, retendo os sólidos grosseiros e a remoção do lodo. Em seguida terá início o tratamento primário no tanque de sedimentação ocorrendo a decantação e a digestão do lodo. Finalmente o efluente passa pelo filtro biológico onde ocorre o tratamento secundário, após o que o efluente é lançado em um corpo receptor. Freqüentemente, deverá ser feita limpeza na caixa de areia, com a remoção dos sólidos grosseiros da grade, bem como a retirada da areia depositada. Ao final de cada ano de operação deverá ser feita descarga de fundo dos elementos anteriormente citados para o poço de lodo. Esse lodo, após a descarga, deverá ser retirado mecanicamente ou não dependendo das condições topográficas e encaminhado a um leito de secagem.
Método construtivo

As unidades serão construídas com tijolos maciços, argamassa 1:4 de cimento e areia ou concreto armado ambos os métodos com revestimento traço 1:3 de cimento e areia e impermeabilização traço 1:10. A pintura interna deverá ser feita com tinta anticorrosiva na cor preta. A tubulação utilizada no tanque de sedimentação e filtro biológico, para o poço de lodo deverá ser de ferro fundido com diâmetro 150mm. Nas demais tubulações poderá ser utilizada manilha de barro vitrificada ou tubos de PVC para esgoto no diâmetro 150mm.
Leito de secagem

Os leitos de secagem são unidades de tratamento, geralmente em forma de tanques retangulares, projetados e construídos de modo a receber o lodo dos digestores, ou unidades de oxidação total, onde se processa a redução da unidade com a drenagem e evaporação da água liberada durante o período de secagem. Podem ser caracterizados pelas seguintes partes: • tanques de armazenamento; • camada drenante; e • cobertura.

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Os leitos de secagem podem ser construídos ao ar livre ou cobertos. Nos países tropicais não se justifica o uso de cobertura nos mesmos. Essa concepção torna o processo bastante oneroso. Quando os leitos de secagem são cobertos geralmente nos países com grande precipitação de neve adota-se telhas transparentes, idênticas às utilizadas em estufas de plantas.
Funcionamento dos leitos de secagem

O funcionamento dos leitos de secagem é um processo natural de perda de umidade que se desenvolve devido aos seguintes fenômenos: • liberação dos gases dissolvidos ao serem transferidos do digestor (pressão elevada) e submetidos à pressão atmosférica nos leitos de secagem; • liquefação devido à diferença de peso específico aparente do lodo digerido e da água; • evaporação natural da água devido ao contato íntimo com a atmosfera; e • evaporação devido ao poder calorífico do lodo. O lodo em condições normais de secagem poderá ser removido do leito de secagem depois de um período, que varia de 20 a 40 dias, cuja umidade atinge valores de 60% a 70%. Em experiências realizadas na estação e tratamento de esgoto da Penha, RJ, o lodo lançado no leito de secagem com umidade média de 95% atinge valores de 50% depois de 20 dias de secagem em condições ótimas.
TANQUE IMHOFF

Compreende os tanques sépticos de câmaras superpostas. Os tanques Imhoff e OMS destinam-se ao tratamento primário do esgoto, à semelhança dos tanques sépticos comuns. Compõem-se de uma câmara superior de sedimentação e outra inferior de digestão. A comunicação entre os dois compartimentos é feita unicamente por uma fenda que dá passagem aos lodos. A única diferença entre a fossa OMS e o tanque Imhoff está no detalhe da construção da câmara de decantação. Na OMS, essa câmara é vedada por cima, impedindo qualquer comunicação de gases entre os dois compartimentos.
Funcionamento

Os dispositivos de entrada e saída do esgoto no tanque são semelhantes aos dos tanques comuns. O esgoto penetra na câmara de decantação onde essa se processa; a parte sedimentável precipita-se na câmara de digestão por uma abertura (fenda) com 15cm de largura e comprimento igual à câmara de decantação. Apresenta as seguintes vantagens sobre o tanque séptico: • menor tempo de retenção, que poderá ser reduzido até duas horas, tornando-o mais econômico;

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• melhor digestão, pois, com a ausência de correntes ascendentes e descendentes, o processo de digestão não é perturbado, obtendo-se maior eficiência; • melhor efluente, uma vez que devido à eficiência dos processos, de decantação e digestão, o líquido efluente é praticamente livre de partículas sólidas e tem a qualidade bacteriológica bastante melhorada; e • atendimento a populações maiores, pois se aplicam economicamente para atender até cerca de cinco mil pessoas.
LAGOAS DE ESTABILIZAÇÃO Generalidades

As lagoas de estabilização são o mais simples método de tratamento de esgotos existente. São construídas por escavação no terreno natural, cercado de taludes de terra ou revestido com placas de concreto. Geralmente têm a forma retangular ou quadrada. Podem ser classificadas em quatro diferentes tipos: • lagoas anaeróbias; • lagoas facultativas; • lagoas de maturação; e • lagoas aeróbias (de alta taxa). a) Lagoas anaeróbias Têm a finalidade de oxidar compostos orgânicos complexos antes do tratamento com lagoas facultativas ou aeradas. As lagoas anaeróbias não dependem da ação fotossintética das algas, podendo assim ser construídas com profundidades maiores do que as outras, variando de 2 a 5m. São projetadas sempre que possível associadas a lagoas facultativas ou aeradas. b) Lagoas facultativas O seu funcionamento pela ação de algas e bactérias sob a influência da luz solar (fotossíntese). A matéria orgânica contida nos despejos é estabilizada, parte transformando-se em matéria mais estável na forma de células de algas e parte em produtos inorgânicos finais que saem com efluente. Essas lagoas são chamadas de facultativas devido às condições aeróbias mantidas na superfície liberando oxigênio e às anaeróbias mantidas na parte inferior onde a matéria orgânica é sedimentada. Têm profundidade variando de 1 a 2,5m e áreas relativamente grandes. c) Lagoas de maturação A sua principal finalidade é a redução de coliformes fecais, contido nos despejos de esgotos. São construídas sempre, depois do tratamento completo de uma lagoa facultativa ou outro

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tipo de tratamento convencional. Com adequado dimensionamento, pode-se conseguir índices elevados de remoção de coliformes, garantindo assim uma eficiência muito boa. As profundidades normalmente adotadas, são iguais às das lagoas facultativas. d) Lagoas aeróbias ou de alta taxa Têm como principal aplicação a cultura de colheita de algas. São projetadas para o tratamento de águas residuárias decantadas. Constituem um poderoso método para produção de proteínas, sendo de cem a mil vezes mais produtivas que a agricultura convencional. É aconselhável o seu uso, para tratamento de esgoto, quando houver a viabilidade do reaproveitamento da produção das algas. A sua operação exige pessoal capaz e o seu uso é restrito. A profundidade média é de 0,3 a 0,5m.
LAGOAS AERADAS MECANICAMENTE Generalidades

As lagoas aeradas mecanicamente são idênticas às lagoas de estabilização, com uma única diferença, são providas de aeradores mecânicos de superfície instalados em colunas de concreto ou do tipo flutuantes e também de difusores. A profundidade varia de 3 a 5m. O esgoto bruto é lançado diretamente na lagoa depois de passar por um tratamento preliminar (caixa de areia). Funcionam como um tanque de aeração no qual os aeradores artificiais substituem a oxidação por meio das algas nas lagoas de estabilização. A área para construção é inferior às das lagoas de estabilização devido à profundidade e ao tempo de detenção para a estabilização da matéria orgânica, que também é menor. Há necessidade de energia elétrica para funcionamento desses aeradores. Podem ser classificadas em três diferentes tipos: • aerada com mistura completa; • aerada facultativa; e • aerada com aeração prolongada. As mais usadas são as duas primeiras em função de terem menor custo e menor sofisticação em sua operação. Caixa de areia As caixas de areia ou desarenadores são unidades destinadas a reter areia e outros minerais inertes e pesados que se encontram nas águas de esgoto (entulhos, seixo, partículas de metal, carvão, etc.). Esses materiais provêm de lavagem, enxurradas, infiltrações, águas residuárias das indústrias, etc.

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Têm como seu principal emprego a proteção dos conjuntos elevatórios evitando abrasões, sedimentos incrustáveis nas canalizações e em partes componentes das ETEs, como, decantadores, digestores, filtros, tanques de aeração, etc.
LODOS ATIVADOS

Ainda que apresentem variações em certos detalhes, os processos de lodos ativados consistem essencialmente da agitação de uma mistura de águas residuárias com um certo volume de lodo biologicamente ativo, mantido em suspensão por uma aeração adequada e durante um tempo necessário para converter uma porção biodegradável daqueles resíduos ao estado inorgânico, enquanto que o remanescente é convertido em lodo adicional. Tal lodo é separado por uma decantação secundária e em grande parte, é retornado ao processo sendo que a quantidade em excesso é disposta pelos meios usuais (digestão). Os lodos ativados consistem de agregados floculentos de microorganismos, materiais orgânicas e inorgânicas. Os microorganismos considerados incluem bactérias, fungos, protozoários e metazoários como rotíferos, larvas de insetos e certos vermes. Todos eles relacionam-se por meio de uma cadeia de alimentação: bactérias e fungos decompõem o material orgânico complexo e por essa atividade multiplicam-se servindo de alimento aos protozoários, os quais, por sua vez, são consumidos pelos metazoários que também podem se alimentar diretamente de bactérias, fungos e mesmo de fragmentos maiores dos flocos de lodos ativados. O processo envolve então um estágio de aeração seguido por uma separação de sólidos da qual o lodo obtido é recirculado para se misturar com o esgoto. Na etapa de aeração ocorre uma rápida adsorção e floculação dos materiais orgânicos dissolvidos e em suspensão coloidal. Ocorre ainda uma oxidação progressiva e uma síntese dos compostos orgânicos adsorvidos e daqueles que são continuamente removidos da solução. Finalmente, oxidação e dispersão das partículas de lodo com o prosseguimento da aeração. O processo dos lodos ativados é o mais versátil dos processos biológicos de tratamento. Pode produzir um efluente com concentração de matéria orgânica variando de muito alta a muito baixa. Historicamente, foi desenvolvido a partir de 1913 na Inglaterra e permaneceu sem sofrer grandes alterações por quase 30 anos. Quando começaram as mudanças elas foram provocadas mais pelos operadores das estações, ao tentarem solucionar problemas especiais, do que propriamente por engenheiros envolvidos em projetos ou pesquisas. Com o avanço da tecnologia, entretanto, começaram os grupos de pesquisa a trazer sua contribuição em termos de modificações básicas no processo. Muitas modificações do processo de lodos ativados têm sido desenvolvidas nos últimos anos, mas apenas duas variações básicas devem ser consideradas: • sistema convencional, no qual absorção, floculação e síntese são alcançadas em um estágio; e • sistema de estabilização por contato, no qual a oxidação e a síntese do material orgânico removido ocorrem em um tanque de aeração separado.

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SISTEMA UASB/BIOFILTRO AERADO Fluxograma de tratamento

As seguintes unidades compõem o fluxograma de tratamento da ETE: 1. pré-tratamento: grade média (limpeza manual, situada na estação elevatória); 2. tratamento primário: reator anaeróbio de fluxo ascendente (UASB); 3. tratamento secundário: biofiltros aerados submersos; 4. desidratação do lodo: leitos de secagem; e 5. bombeamento.
Estação elevatória de esgoto e de lodo do BF (biofiltro)

O esgoto gradeado é encaminhado para a estação de recalque, onde será bombeado para o reator UASB. A estação elevatória também receberá o lodo de lavagem dos biofiltros aerados submersos, na ocasião em que esses reatores forem submetidos à lavagem do meio granular. O lodo será bombeado para o reator UASB, juntamente com o esgoto pré-tratado.
Desarenador

O desarenador objetiva evitar o acúmulo de material inerte nos reatores biológicos. Será instalado um desarenador do tipo canal com limpeza manual, situado no alto do reator 200 UASB. Vertedores triangulares serão instalados na saída do desarenador, objetivando o controle de nível d’água e a distribuição de vazões para alimentação do reator UASB. A areia será removida periodicamente do desarenador, sendo acondicionada em caçambas e encaminhadas para aterro sanitário.
Reator anaeróbio com manta de lodo e fluxo ascendente (UASB)

O reator UASB consiste de um fluxo ascendente de esgotos por um leito de lodo biológico denso e de elevada atividade metabólica anaeróbia. O perfil de sólidos no reator varia de muito denso e com partículas granulares de elevada capacidade de sedimentação próximas ao fundo (leito de lodo), até um lodo mais disperso e leve, próximo ao topo do reator (manta de lodo). Um dos princípios fundamentais do processo é a sua capacidade em desenvolver uma biomassa de grande atividade no reator. Essa biomassa pode se apresentar em flocos ou em grânulos (1 a 5mm de tamanho). O cultivo de um lodo anaeróbio de boa qualidade é conseguido por um processo cuidadoso de partida, durante o qual a seleção da biomassa é imposta, permitindo que o lodo mais leve, de má qualidade, seja arrastado para fora do sistema, ao mesmo tempo em que o lodo de boa qualidade é retido. O lodo mais denso, normalmente, desenvolve-se no fundo do reator e apresenta uma concentração de sólidos totais da ordem de 40 a 100g SST/l. Usualmente, não se utiliza qualquer dispositivo mecânico de mistura, uma vez que esses parecem ter um efeito adverso na agregação do lodo, e, conseqüentemente, na formação de grânulos.

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As eficiências de remoção da matéria orgânica costumam situar-se na faixa de 70 a 80% (DBO5), o que, em alguns casos, pode inviabilizar o lançamento direto dos efluentes tratados no corpo receptor. Por esse motivo, embora o UASB seja um reator que inclui amplas vantagens, principalmente no que diz respeito a requisitos de área, simplicidade de operação, projeto e manutenção e redução média de matéria orgânica, é bastante importante que seja incluída uma etapa de pós-tratamento para esse processo. Portanto, na ETE o reator UASB realizará o tratamento primário, sendo inserido no circuito de tratamento logo após o pré-tratamento. O UASB será construído em aço carbono protegido contra a corrosão. A digestão do lodo de lavagem dos biofiltros será realizada nesta unidade.
Descrição dos biofiltros aerados submersos

Os BFs são reatores biológicos a base de culturas de microrganismos fixos sobre a camada de suporte imóvel. Na prática, um BF é constituído por um tanque preenchido com um material poroso, por meio do qual águas residuárias e ar fluem permanentemente. Na quase totalidade dos processos existentes, o meio poroso é mantido sob total imersão pelo fluxo hidráulico, caracterizando os BFs como reatores trifásicos compostos por: • Fase sólida: constituída pelo meio suporte e pelas colônias de microorganismos que nele se desenvolvem sob a forma de um filme biológico (biofilme); • Fase líquida: composta pelo líquido em permanente escoamento pelo meio poroso; • Fase gasosa: formada pela aeração artificial e, em reduzida escala, pelos gases subprodutos da atividade biológica no reator. A característica principal do processo é a sua capacidade de realizar, no mesmo reator, a remoção de compostos orgânicos solúveis e de partículas em suspensão presentes no esgoto. A fase sólida, além de servir de meio suporte para as colônias bacterianas depuradoras, constituise em um eficaz meio filtrante. Lavagens periódicas são necessárias para eliminar o excesso de biomassa acumulada, mantendo as perdas de carga hidráulica no meio poroso em níveis aceitáveis . A lavagem do BF é uma operação compreendendo a interrupção total da alimentação com esgoto e diversas descargas hidráulicas seqüenciais de ar e água de lavagem (retrolavagem). A função dos BFs será a de garantir o polimento do efluente anaeróbio dos UASB. Esse processo de tratamento é capaz de produzir um efluente de excelente qualidade, sem a necessidade de uma etapa complementar de clarificação. A DBO5 e uma fração do nitrogênio amoniacal remanescentes dos UASB serão oxidadas pela grande atividade do biofilme aeróbio. Devido à grande concentração de biomassa ativa, os reatores serão extremamente compactos. Os BFs também serão construídos em aço carbono.

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BIBLIOGRAFIA
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de saneamento. Brasília: MS/Coede/Asplan/FNS/ Departamento de Saneamento, 1999. 374 p.

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APRESENTAÇÃO
Para visualizar a 2ª apresentação desse capítulo siga o link abaixo: Saneamento na América Latina (Situação Atual)

O Saneamento no mundo: avanços e recuos da visão sanitária*
Engo Mauro R. Felizatto
Cuiába, MT, Brasil, novembro de 2004 UNESCO
*Cápitulo 1 – O Saneamento no Brasil Políticas e Interfaces (Rezende e Heller, 2002)

Saneamento na Antiguidade (1)
4000 a C. – Cidades com infra-estrutura sanitária; Sistemas de irrigação na Mesopotâmia. 3750 a C. – Construção da galeria de esgotos de Nipur (Índia). 3200 a C. – sistemas de água e drenagem no Vale do Hindus. 2750 a C. – Uso de tubulação de cobre no palácio do faraó Cheops. 2600 a C. – Condutos subterrâneos para a disposição das águas servidas em Tell-Asmar (próximo a Bagdá). Reservatórios de terra; Captação de águas subterrâneas pelos orientais.

Saneamento na Antiguidade (2)
2000 a C. – Utilização de sulfato de alumínio na clarificação da água pelos egípcios: Escritos sobre cuidados com a água de beber (sânscristo) – armazenamento em vasos de cobre – filtração por meio de carvão – purificação pela fervura – aquecimento ao sol ou introdução de barra de ferro quente na massa líquida seguida por filtração por meio de areia e cascalho grosso. 2100-1700 a C. – Sistemas de drenagem em mármore (Kahum-Índia). 1500 a C. – Uso da decantação para purificação da água (Egito). 1000 a C. – Identificação da existência de doenças (esquistossomose, poliomielite e tuberculose) em ruínas egípcias – da maneira que manifestam-se hoje em dia.

Saneamento na Antiguidade (3)
Séc. V a IV a C. – Hipócrates Descrição clínica de doenças (caxumba, bócio, resfriados, pneumonia e febres maláricas); Dos ares, águas e lugares – primeira obra a abordar o meio físico e a ocorrência de doenças, descreve a importância das técnicas de filtração e fervura d’água, termos como endemia e epidemia já eram de uso pelo autor. Séc. VII ao IV a C. – Império Romano Roma era abastecida por 11 aquedutos (422 km.); CPC= 1.000 l/hab.dia.

Saneamento na Antiguidade (4)
Séc. VI a C. – Drenos subterrâneos para águas pluviais e coleta de esgotos (Montes Palatino e Aventino) – o coletor tronco desse canal é a Cloaca Máxima (ativa até hoje). Séc. IV a C. – Drenagem de pântanos – Paludes Pontinas (1.200 km2 e 17 km ao longo da Via Ápia). 27 a 14 d.C. – Sistema de administração pública de saúde que conduzia os assuntos referentes ao suprimento e abastecimento de água (Roma).

Sistema Feudal
Retrocesso sanitário na Idade Média (1)
Séc. V – Queda do Império Romano no Ocidente causada pelos Bárbaros – desorganização da saúde pública: Técnicas desenvolvidas foram mantidas nos mosteiros e bases eclesiásticas. Séc. V ao XIII – Idade Média CPC= 1 l/hab.dia; Código Sanitário Oficial Municipal – preocupação com a pureza da água; Quarentena – isolamento do doente e de pessoas que haviam tido contato com ele – medidas de proteção ambiental visando à preservação dos recursos hídricos – problema da geração e disposição do lixo urbano; Estado fiscalizador sobre as ações realizadas pela população, ausência nas ações de saneamento.

Sistema Feudal
Retrocesso sanitário na Idade Média (2)
Ano 543 – Peste de Justiano (epidemia) + horrores das invasões bárbaras = elevadas mortes. Ano 1348 – Peste Negra epidemia que provocou a morte de cerca de um terço da população européia. Séc. XVII – Descoberta da variolização: Execução de corte no braço de pessoa sadia para a introdução de secreção extraída das feridas de doente em convalescença.

Estados Nacionais/Expansão Marítima
Formação dos Estados e mudanças no plano das ações sanitárias (1) Séc. XV – Fim da Idade Média: Derrubada do antigo sistema e formação dos Estados Nacionais; Formação de classe intelectual que impulsionou a criação de escolas e o desenvolvimento das ciências naturais; Fortalecimento do conhecimento sobre a relação saúde-saneamento x Desenvolvimento científico de saúde pública. Séc. XVI – Invenção do microscópio, levando à verdade sobre a origem das doenças infecciosas. 1546 – Francastoro (1478-1553) teoria racional sobre a infecção (doença passagem de corpos diminutos do agente infeccioso ao indivíduo).

Estados Nacionais/Expansão Marítima
Formação dos Estados e mudanças no plano das ações sanitárias (2)

1596-1598 – Lei dos Pobres (Inglaterra) – assistencialismo mantido até depois da II Grande Guerra (crescimento da pobreza e desemprego): Estado assume o papel assistir os pobres (doentes, velhos e incapacitados) e punir indolentes. Séc. XVI e XVII – Município local (freguesia – idade média) x Estado moderno (central e nacional) – por meio de doutrinas políticas e econômicas.

Estados Nacionais/Expansão Marítima
Formação dos Estados e mudanças no plano das ações sanitárias (3)

1623-1687 – William Petty e John Graunt – “arte de raciocinar com cálculos sobre coisas relacionadas com o governo” – métodos experimentais e utilização de cálculos matemáticos voltados para a saúde pública. 1500-1750 – Mercantilismo Autoridades locais – podendo impedir a entrada de pessoas infectadas, não podendo agir externamente (atracamento de navios e entrada de mercadorias); Começo das relações comerciais – determinantes para esse período.

Estados Nacionais/Expansão Marítima
Formação dos Estados e mudanças no plano das ações sanitárias (4) Séc. XV e XVIII – Preocupação com a água abastecida:

New River (Londres) – primeira companhia a ser instituída; Companhias – inovações técnicas (bombeamento, ampliação de sistemas hidráulicos); Administração da saúde pública – na cidade renascentista semelhante à da cidade medieval; Limpeza das ruas – responsabilidade dos habitantes; Poluidores nas ruas e em cursos d’águas de abastecimento eram punidos.

Revolução Industrial
Impulso tardio às políticas de saúde pública (1) Séc. XVIII – Revolução Industrial: Trabalho assalariado – elemento essencial para geração da riqueza nacional; Mercado – procura de mecanismos que minimizassem os problemas de saúde dos trabalhadores; Avaliações quantitativas dos problemas ligados à saúde – estudos estatísticos e métodos probabilísticos para determinação da expectativa de vida; Industrialização e evolução tecnológica (Inglaterra, França, Alemanha e EUA) – sistemas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário graças à produção de ferro fundido em larga escala.

Revolução Industrial
Impulso tardio às políticas de saúde pública (2)

1767 – Sulfato de alumínio usado no tratamento d’água no RU: Final do século passa a ser utilizado em larga escala. 1774 – Descoberta do cloro na Suécia: A partir de 1830 – passa a ser usado na oxidação de matéria orgânica. 1827 – Técnica de filtração lenta (Londres) – início. 1750-1830 – Iluminismo – temas da saúde pública (duração da vida, exclusão social, aritmética política e demografia).

Revolução Industrial
Impulso tardio às políticas de saúde pública (3)

1830 – Políticas de prevenção e controle de doenças e de proteção à saúde em Manchester (RU). Febres epidêmicas associadas ao aglomerado de fábricas e moradias congestionadas. 1834 – Lei dos Pobres pensões aos trabalhadores que recebiam salários abaixo do nível de subsistência (aumento dos gastos públicos e tornando a aplicação da lei insustentável). Alternativa – empregabilidade _ pobre para assalariado, componente ativo da engrenagem capitalista (elevação de impostos e estímulo ao crescimento industrial e comercial).

Revolução Industrial
Impulso tardio às políticas de saúde pública (4)

1840 – Reforma social na França Louis de Villermé – reivindicou melhorias nas condições sanitárias do trabalho adulto e infantil. 1842 – Relatório de Chadwick (Edwin Chadwick) sobre as condições sanitárias da população trabalhadora no RU: Denúncia da relação pobreza e insalubridade; Necessidade de criação de um órgão administrativo.

Revolução Industrial
Impulso tardio às políticas de saúde pública (5)
1844 – As condições da classe trabalhadora (Engels): Primeiro tratado analítico sobre Epidemiologia: Política como medicina da sociedade e Medicina como prática política. Década de 1840 – Relatório da Comissão de Saúde de Massachusetts: Articulação de uma comissão para avaliar as condições sanitárias do Estado de Massachussets. Década de 1850 – Comissão real inglesa para avaliar situação descrita por Chadwick em seu relatório: Criação do Conselho Geral de Saúde – encarregado das questões sanitárias, confronto com proprietários de terras e imóveis às desapropriações demandadas para execução de obras de drenagem e abastecimento d’água; O Conselho tornou-se impopular desencadeando o seu fechamento.

Revolução Industrial
Impulso tardio às políticas de saúde pública (6) 1865 –Relatório Condições Insalubres das cidades (Conselho de Higiene e Saúde Pública de Nova York): Conselho formado iniciativa de cidadãos e o relato despertou interesse público para as questões das políticas locais americanas. Década de 1860 e 1870 – Movimento de reforma sanitária na Alemanha, idealizado por Virchow, ocorrido na cidade Berlim que tinha alto nível de insalubridade: Participação popular e notável melhora nos sistemas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário. 1889 – Relatórios Charles Booth (Londres) e Rowntree (Nova York) – situação dos trabalhadores: Salários insuficientes para garantir a subsistência e Condições sanitárias submetidas insatisfatória.

Revolução Industrial
Impulso tardio às políticas de saúde pública (7)

Segunda Metade do século XIX – Problemas de saúde foram tomados com prioritários nos países capitalistas; Iniciativa privada em parceria com cooperativas para realização de programas sociais; Esses programas promoveram o aumento da expectativa de vida, taxa de natalidade e o declínio das taxas de mortalidade; Aumento populacional – fez com que os males provocados pela explosão demográfica superassem os esforços de modernização do saneamento.

Teoria dos Miasmas x Teoria do Contágio
(1)

Século XIX – implantação de sistemas de esgotamento sanitário nas grandes cidades do mundo, após o aparecimento de epidemias de cólera: Paris (1833) – epidemia ocorrida em 1832; Londres (1855) – epidemia ocorrida em 1854: Criado o Metropolitian Board of Works – órgão responsável pela construção do sistema de esgotos. Buenos Aires (1874) – epidemia ocorrida em 1869; Memphis (1873), Hamburgo (1892) e São Paulo (1893) – Repartição de Águas e Esgotos da cidade de São Paulo.

Teoria dos Miasmas x Teoria do Contágio
(2)

1849 – John Snow e William Budd destacam-se pela atuação diante da cólera:

Snow mostrou a correspondência entre o número de mortos e sistema de abastecimento de água; Snow (1854) demonstrou o ciclo da doença e sua transmissão em águas poluídas – estudo clássico de epidemiologia, combate a Teoria Miamática e antecipa em dez anos a teoria dos germes formulada por Pasteur em trinta anos a identificação do Vibrio cholerae por Köch;

Teoria dos Miasmas x Teoria do Contágio
(3)

1851 – I Conferência Sanitária Internacional em Paris: Primeiros passos para criação da OMS; 1892 – Koch autor da teoria do Contágio – estudos que provavam que a filtração de água em uma cidade à jusante de Hamburgo ( 8.000 mortes) no rio Elba – Altona – evitava a transmissão do vibrião da cólera. Koch isolou o microrganismo.

Teoria dos Miasmas x Teoria do Contágio
(3)

Última década do séc. XIX: Rota: agente etiológico ⇒ via transmissão ⇒ intervenção no espaço urbano – Ferramenta para controle de doenças; Objetivo – modernização das cidades ⇒ viabilização da produção; Ataque às doenças de veiculação hídricas ⇒ implantação nos EUA e depois em outros países de ETA’s. ETA’s configuradas com filtros e seguidos de cloração.

Teoria dos Miasmas x Teoria do Contágio
(3)

1902 – criação da Opas – aliança dos países sulamericanos atentados para o controle das doenças transmissíveis; Primeira década do séc. XX – Decaimento das taxas de mortalidade; Evolução da saúde pública e das reformas sanitárias.

Cepis/Caesb

Saneamento na América Latina Expectativas e soluções
Eng. Mauro Roberto Felizatto Eng. Sérgio Rolim Mendonça

Cuiába, MT, Brasil, novembro de 2004
Health and Environment Issues in the Americas, PAHO Regional Simposium, Carl Bartone and Fernando Tudela Cancun, Mexico, 24-25 October 2002

Tendências demográficas
• ALC são 75% urbana hoje
– Mais de 85% no Cone Sul – Somente 54% na AC, Caribe Hispânico e Haiti

• En 2015, ALC serão 80% urbana
– 16% em 9 áreas metropolitanas com mais de 5 milhões (praticamente estabilizada) – 28% em 22 cidades entre 0,5 – 5 milhões (ainda crescendo) – 36% em pequenas e médias cidades até 0,5 milhão (ainda crescendo) – 20% em áreas rurais (com tendência a descenso)

• Países en diferentes fases de transição demográfica:
– Primeira fase – redução das taxas de mortalidade por melhoramento na saúde pública – Segunda fase – descenso da taxa total de fertilidade

• ALC são ainda uma região jovem
– 27% com menos de 15 anos de idade – Além disso, enfrentando um progressivo envelhecimento da população

• ALC são caracterizados pela pobreza
– Pobreza rural enraizada, demandando atenção dos setores de saúde e ambiente – 35% dos domicílios urbanos domésticos vive na pobreza • Concentrada em favelas urbanas e áreas peri-urbanas • Marginalizada de educação, atenção médica e serviços essenciais de saúde ambiental • A grande maioria encontra emprego no setor informal

Tendências ambientais
• A deterioração da água, ar e recursos do solo continuam ainda em processo acelerado
– ALC têm a maior biodiversidade do Planeta, porém sendo reduzida a uma taxa alarmante pelas alterações do uso do solo e outros processos – Contínuo e crescente problema da qualidade da água
• Sistemas de águas superficiais e subterrâneos fortemente poluídos • Escassez de água de boa qualidade embora exista um abundante recurso (46% dos recursos hídricos renováveis do mundo encontramse nas Américas)

– Intensificação de processos produtivos ocasionando impactos globais

Tendências em saúde ambiental
• Melhorias na saúde em geral nas décadas recentes
– Diminuição da taxa de mortalidade infantil – Aumento da expectativa de vida ao nascer entre 5-7 anos na América do Sul

• Melhorias ameaçadas pela contínua deterioração ambiental • Carga de saúde ambiental de enfermidades afetando às populações mais vulneráveis: pobres, crianças, mulheres, grupos indígenas, anciãos • Riscos contemporâneos associados com consumo insustentável e padrões de produção

• Transições em andamento desde os tradicionais riscos ambientais até os riscos modernos
– Riscos tradicionais relacionados com a pobreza e subdesenvolvimento – tais como: falta de água segura, saneamento ambiental e disposição inadecuada de águas residuárias, contaminação do ar nos domicílios, enfermidades de origem hídrica – ainda afetam às populações atuais – Riscos modernos causados pela falta de desenvolvimento de salvaguardas ambientais – inclui poluição do ar urbano e exposições aos químicos agroindustriais e resíduos perigosos, alguns dos quais são de longa duração ou cumulativos na natureza

Carga Ambiental de Enfermidades (CAE)
Environmental Burden of Diseases (EBD)

• Impacto dos riscos tradicionais da saúde ambiental ainda excede os riscos modernos por um fator 2,5 na ALC • 11% de todos los Avads* perdidos na ALC são devidos a fatores de riscos ambientais diretos
– Comparados com só 4,5% nos países industrializados

• Grande variabilidade na ALC – os países deveriam estudar sua CAE específica para apoiar a suas decisões e para definir suas metas políticas
*Avad = Anos de vida ajustados em função de discapacidade – É uma medida composta de anos de vida perdidos devido à mortalidade prematura e a anos de vida perdidos em conseqüência de enfermidades ou discapacidade *Daly = Disability Adjusted Life Year (in English)

• Diarréias correspondem à metade das CAEs (Carga Ambiental de Enfermedades) na ALC
– 153.000 óbitos y 5,4 milhões de Avads perdidos anualmente – 85% correspondente a crianças menores de 5 anos –a maioria vivendo em áreas pobres periurbanas e em domicílios rurais

• Dois terços dos Avads perdidos são referentes às crianças
*Avad = Anos de vida ajustados em função de discapacidade – É uma medida composta de anos de vida perdidos devido à mortalidade prematura e a anos de vida perdidos em conseqüência de enfermidades ou discapacidade

Saúde e ambiente: entendendo as ligações
• Saúde ambiental refere-se às implicações para a saúde originadas da interação entre indivíduos e seus entornos naturais e zonas edificadas • O modelo básico das interações entre o ambiente e a saúde humana é o modelo Pressão-Estado-Resposta representado pelo marco essencial de causa e efeito – Pode ser combinado com modelos ecossistêmicos, econômicos e institucionais

Impulso

Pressão

Estado

Exposição

Efeitos sobre a saúde humana

Ação

Retroalimentação

Água limpa e saneamento básico ambiental
• Permanece a prioridade número um para ALC baseada nas altas taxas de diarréias e outras enfermidades de origem hídrica • Progresso real foi obtido durante a última década: – 21.900 novas pessoas por dia servidas com água; – 20.000 novas pessoas por dia conectadas a esgotos; – 9.900 novas pessoas por dia con saneamento in situ. • Déficit ainda alarmante, especialmente para os pobres: – 77 milhões sem acesso a água segura; – 105 milhões sem nenhum tipo de saneamento. • Preocupações sobre a qualidade dos serviços e sua confiabilidade (água de má qualidade, intermitência, por exemplo) • Somente 14% das águas residuárias tratadas, a maioria operadas pobremente por ETEs

Saneamento ambiental (definido pelo Water Supply and
Sanitation Collaborative Council – WSSCC)

“Intervenções para a redução da exposição da população às enfermidades fornecendo um ambiente limpo para viver, com medidas para romper o ciclo de doenças incluindo:
– Manejo higiênico de:
• • • • Excreta humana e de animais; Despejos; Águas residuárias; Águas de drenagem.

– Controle de enfermidades transmitidas por vetores; – Provisão de facilidades de lavagem para higiene pessoal e doméstica; – Ambos comportamentos e facilidades trabalhando em conjunto para formar un ambiente higiênico”.

Metas da Visão 21 para água segura, saneamento e higiene (WSSCC)
• Ao redor de 2015 • Consciência pública universal de higiene
– % de pessoas sem acesso à saneamento reduzida à metade; – % de pessoas sem acesso à água segura reduzida à metade; – 80% de todas as crianças das escolas primárias educadas com noções de higiene; – Todas as escolas equipadas com instalações hidro-sanitárias adequadas; – Redução de 50% na incidência de enfermidades diarréicas.

Metas da Visão 21 …
• Ao redor de 2025
– – – – Práticas de boa higiene universalmente aplicadas Saneamento adequado para todos Água segura para todos Todas as crianças das escolas primárias educadas com práticas de boa higiene – Redução de 80% na incidência de enfermidades diarréicas

Visão 21 para ALC
• O Comitê Técnico Consultivo Sul-americano (South American Technical Advisory Committee – Samtac) da Sociedade de Água Global endossou a meta de abastecimento de água e saneamento universal
– Se requer expansão dos serviços na ALC para 32.000 novas pessoas por dia – meta alcançável

• Samtac também enfatizou a importância da degradação e da contaminação das águas, e da necessidade para un manejo integrado da qualidade da água

Estratégias-chave para se alcançar as metas da VISÃO 21
Desenvolvimento e manejo participativo da água, envolvendo usuários, planejadores e responsáveis por políticas em todos os níveis, com decisões tomadas desde o nível apropriado mais baixo (e.g. enfoque centrado desde o domicílio) Reconhecimento dos valores econômicos, sociais e ambientais da água, e implementação do preço total dos serviços de água, com metas subsidiadas para proteger os pobres Holístico, enfoques sistemáticos baseados no manejo integrado da água com atenção a ambas quantidade e qualidade Inovação institucional, tecnológica e financeira Governos como autoridade, para fornecer estruturas regulatórias efetivas e transparentes para ações privadas

Metas comuns sugeridas
Adotar as metas da Visão 21 para o alcance universal de água limpa, saneamento básico ambiental e higiene para o ano 2025, com metas interinas claramente definidas para 2015 Prevenir e reduzir a poluição das águas originadas das fontes urbanas, industriais e de agricultura por meio do desenvolvimento e gradual implementação de programas de ação de manejo integrado da qualidade da água (dentro das bacias hidrográficas, aqüíferos e zonas costeiras), com a metade dos países da região, executando tais programas de ação nos seus corpos de água prioritários até 2015

Alianças requeridas
• Setores de saúde e ambiente têm que trabalhar juntos
– Papel essencial de apoio público (advocacy) nas discussões de política nacional

• Setores de saúde e ambiente têm que trabalhar em conjunto com outros setores
– Especialmente energia, indústria, agricultura e infra-estrutura

• Alianças com a sociedade civil e o setor privado são essenciais
– Magnitude de energias e recursos necessários para ação com eles

• Programas de cooperação internacional para saúde e ambiente
– e.g., Shared Agenda for Health in the Americas

Guias e princípios para êxito
A natureza não respeita fronteiras políticas – assim tem que haver integração ao nível dos ecossistemas Ações intersetoriais necessitam novos enfoques para legislação, orçamento e finanças, e desenvolvimento de recursos humanos Melhor conhecimento de ligações entre saúde e ambiente necessário em todos os níveis Decisões devem basear-se na avaliação de riscos ambientais para a saúde humana Ações para a melhoria da saúde ambiental necessitam começar desde o nível da comunidade e ser construído de baixo para cima Enfatizar prevenção e redução de risco

Os problemas de saúde e meio ambiente que enfrentam muitas pessoas de todo o mundo apresentam um desafio de dimensões quase titânicas. É evidente que são necessários novos enfoques para abordar tais problemas no futuro.
Pan American Health Organization, “Health and Environment in Sustainable Development”, Publication No. 572, Washington, D.C., 2000.
SRM

INTRODUÇÃO A HIDROGEOLOGIA
Pierre Girard
Centro de Pesquisas do Pantanal (CPP/MT) Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT/MT)

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MATERIAL BÁSICO

http://www.cetesb.sp.gov.br/ http://www.remas.ufsc.br/programas/ENS%205115/20042/programaens511520042noar.htm
LEGISLAÇÕES BÁSICAS

Federal : http://www.abas.org/legislacoes/leg_fed.htm Estadual : http://www2.fema.mt.gov.br/materia.asp?id=628
SUMÁRIO DA DISCIPLINA

Hidrogeologia: o que é? Hidrogeologia e ciclo global da água Noção da bacia de drenagem Água subterrânea e ciclo da água na bacia de drenagem: Amazônia Água subterrânea e ciclo da água na bacia de drenagem: Cerrado Desmatamento e água subterrânea Zonas verticais da subsuperfície Aqüíferos Secção transversal de aqüífero confinados e não-confinados Sistema de aqüíferos não-confinados Sistemas de aqüíferos confinados Aqüífero Guarani Recarga Qualidade da água: fonte de contaminação Aspectos quantitativos: Lei de Darcy Exemplos de aplicação: efeito do bombeamento sobre o lençol freático Efeitos do bombeamento sobre a vazão dos rios Bombeamento e contaminação

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APRESENTAÇÃO

Hidrogeologia: uma introdução
Pierre Girard
pgirard@terra.com.br

Hidrogeologia: o que é?
• Hidrogeologia examina as relações entre o material geológico e o fluxo da água • O fluxo da água e a qualidade são importantes • A compreensão das relações entre águas superficiais e subterrâneas são fundamentais para uma gestão racional dos recursos hídricos

Água subterrânea no ciclo global da água
Atmosfera 13.000 Transporte líquido para os continentes

Geleiras

Rios

Águas subterrâneas 8.200.000 Oceanos 1.350.000.000

Schlesinger, 1991

Noção da bacia de drenagem

Rio Vermelho

Rondonópolis

Rio Areia

Rio São Lourenço

Rio Jorigue

chuva
Quantia total de água reciclada pela floresta : 74 % Água evaporada da superfície das folhas: ~26% Água que volta a atmosfera pela transpiração: 48%

Água subterrânea e ciclo da água na bacia de drenagem: Amazônia

Evaporação do solo da floresta: 0 %

Escoamento subterrâneo: 26%

Fonte: Bayard Webster

Água subterrânea e ciclo da água na bacia de drenagem: cerrado

Nível freático

Desmatamento e água subterrânea
• • Intercepção da chuva: compara com áreas de cerrado ou lavouras – escoamento de tronco, gotejamento de copa são reguladores da intensidade da chuva; Infiltração da água: solo da mata ciliar vs solo do cerrado ou lavoura. Como a água chega devagar (intercepção) em um solo mais poroso, infiltra mais em mata ciliar. Este solo poroso é devido à grande quantia de matéria orgânica gerada pela mata: folhas galhos, raízes mortas etc. Quando corta a mata o solo compacta e esta função é perdida; A mata ciliar e evapotranspiração. Geralmente quando corta a mata ciliar a primeira coisa que se nota é um aumento imediato da vazão, depois de alguns anos declina. Esse aumento mostra o quanto a floresta transpira água para atmosfera. Quando chove a vazão do rio aumenta. Isto é devido ao aumento das áreas encharcadas que começam a vazar em superfície. Não precisa todo o solo da bacia ficar saturado para isso acontecer. Estas áreas encharcadas se encontram em geral na mata ciliar onde o lençol é muito perto do solo. Também nas veredas onde tem argilas em superfície que mantém o solo encharcado. Quando retira a mata e as veredas o escoamento diminui.

Zonas verticais da subsuperfície

ENS 5115 - Hidrogeologia 2004.2 Professor: Henry X. Corseuil -UFSCAR

Aqüíferos
• Definição:
• Aqüífero é uma formação geológica, formada por rochas permeáveis seja pela porosidade granular ou pela porosidade fissural, capaz de armazenar e transmitir quantidades significativas de água. O aqüífero pode ser de variados tamanhos. Eles podem ter extensão de poucos km2 a milhares de km2, ou também, podem apresentar espessuras de poucos metros a centenas de metros Principais aqüíferos por tipo de rocha:
Não consolidado Calcário Calcário e carbonato Semiconsolidado Rocha calcária Vulcânica Outras rochas
ENS 5115 - Hidrogeologia 2004.2 Professor: Henry X. Corseuil -UFSCAR

Secção transversal de aqüíferos confinados e não-confinados

Poço freático? Poço artesiano? Poço jorrante?

ENS 5115 - Hidrogeologia 2004.2 Professor: Henry X. Corseuil -UFSCAR

Sistema de aqüíferos não-confinados
• Aqüífero não-confinado: um aqüífero onde o nível da água está sob pressão atmosférica • Nível da água: o nível até onde a água irá subir em um poço perfurado na zona saturada

ENS 5115 - Hidrogeologia 2004.2 Professor: Henry X. Corseuil -UFSCAR

Sistemas de aquíferos confinados
• Aqüífero confinado: um aqüífero que é sobreposto por uma unidade impermeável fazendo com que o aqüífero fique sob pressão e o nível da água suba acima da unidade confinada. • Superfície potenciométrica: em um aqüífero confinado, o nível da pressão hidrostática da água no aqüífero confinado, definido pelo nível da água que ocorre em um poço confinado
ENS 5115 - Hidrogeologia 2004.2 Professor: Henry X. Corseuil -UFSCAR

Aqüífero Guarani
• • • • • • • • • Área: 1,2 milhões de km2 Brasil: 840 mil, Paraguai: 58,5 mil Uruguai: 58 mil; Argentina: 255 mil Profundidade. Explorada: 7,8 mil m Volume de água: 45 mil km3 Água suficiente para abastecer o planeta até 2.300

ENS 5115 - Hidrogeologia 2004.2 Professor: Henry X. Corseuil -UFSCAR

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• • • • •

1 Além do Guarani, sob a superfície de São Paulo, há outro reservatório, chamado Aqüífero Bauru, que se formou mais tarde. Ele é muito menor, mas tem capacidade suficiente para suprir as necessidades de fazendas e pequenas cidades. 2 O líquido escorre muito devagar pelos poros da pedra e leva décadas para caminhar algumas centenas de metros. Enquanto desce, ele é filtrado. 3 Nas margens do aqüífero, a erosão expõe pedaços do arenito. São os chamados afloramentos. É por aqui que a chuva entra e também por onde a contaminação pode acontecer. 4 A cada 100 metros de profundidade, a temperatura do solo sobe 3 graus Celsius. Assim, a água lá do fundo fica aquecida. Neste ponto ela está a 50 graus.
ENS 5115 - Hidrogeologia 2004.2 Professor: Henry X. Corseuil -UFSCAR

Recarga
Natural: • Infiltração por precipitação • Infiltração a partir de rios e lagos
ENS 5115 - Hidrogeologia 2004.2 Professor: Henry X. Corseuil -UFSCAR

Artificial: • Recarga de poços • Irrigação • Barragens

Qualidade da água: fonte de contaminação
• • • • • • Derramamentos e vazamentos industriais Tanques de armazenamentos e dutos Aterros sanitários Áreas enterradas e lixões Poços de injeção Exemplos no Pantanal

ENS 5115 - Hidrogeologia 2004.2 Professor: Henry X. Corseuil -UFSCAR

Aspectos quantitativos: Lei de Darcy
• Henri Darcy estabeleceu empiricamente que o fluxo da água por meio de uma formação permeável é proporcional à distância entre o topo e o fundo da coluna de solo. A constante de proporcionalidade é chamada de condutividade hidráulica (K). • K representa uma medida da habilidade do fluxo pelo meio poroso: • K é maior para cascalhos -0.1 to 1 cm/sec • K para areias -10-2 to 10-3 cm/sec • K para siltes -10-4 to 10-5 cm/sec • K é menor para argilas -10-7to 10-9 cm/sec

Lei de Darcy
• V = -K (∆h/∆L) • Q = VA = -KA (∆h/∆L) • Exemplos de aplicação: • efeito do bombeamento sobre o lençol freático; • Efeitos do bombeamento sobre a vazão dos rios; • Bombeamento e contaminação

METAS E AÇÕES DA DIRETORIA DE RECURSOS HÍDRICOS/FEMA
Alessandra Panizi Souza1
Fundação Estadual de Meio Ambiente (Fema/MT)

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Colaboradores:
Cecílio Vilabarde Pinheiro Msc. Eucilene Alves Santana Porto Luiz Henrique Magalhães Noquelli

1 Diretora de Recursos Hídricos da Fema. E-mail: panizi@bol.com.br

INTRODUÇÃO
A gestão de recursos hídricos é uma estratégia nova, em processo de estruturação e em constante transformação e adequação. É dinâmica e exige mudanças de posturas e mudanças culturais profundas, da sociedade e do setor público, que reconheçam que cada subproduto de qualquer atividade humana tem um inegável reflexo sobre as águas. Preocupado com os reflexos já existentes, como diminuição da qualidade ou em algumas regiões do Brasil a escassez da quantidade da água, o governo do Estado de Mato Grosso publicou a Lei de Política Estadual de Recursos Hídricos, a qual instituiu o sistema de gerenciamento dos recursos hídricos e estabeleceu diretrizes de como gerenciar as águas do Estado. Nesse sentido, a Fundação Estadual de Meio Ambiente criou na sua estrutura administrativa a Diretoria de Recursos Hídricos, que tem o desafio de realizar a gestão dos recursos hídricos compatibilizando os diferentes usos, juntamente com vistas à gestão participativa – poder público, usuários e entidades civis.
AÇÕES, ATIVIDADES E METAS DA DIRETORIA DE RECURSOS HÍDRICOS – DIREH

A água representa insumo fundamental à vida, configurando elemento insubstituível em diversas atividades humanas, sendo, ainda, componente da paisagem e do meio ambiente. Trata-se de bem precioso, de valor inestimável, que deve ser, a qualquer custo, conservado e protegido. Presta-se para múltiplos usos: geração de energia elétrica, abastecimento doméstico e industrial, irrigação de culturas agrícolas, navegação, recreação, aqüicultura, piscicultura, pesca e também para assimilação e afastamento de esgoto. Quando há abundância de água, seja em quantidade ou qualidade, ela pode ser tratada como bem livre, sem valor econômico. Contudo, ocorrendo aumento da demanda, começam a surgir conflitos entre usos e usuários da água, a qual passa a ser escassa e, via de conseqüência, precisa ser gerida como bem econômico, devendo ser atribuído o justo valor (SETTI).2 Diante dessa perspectiva torna-se importante para a humanidade o adequado equilíbrio entre a oferta e a demanda dos recursos hídricos, econômicos ou socioculturais, visando diminuir seus reflexos na vida dos seres humanos e permitindo a minimização de seus conflitos de uso. Com efeito, uma gestão de águas eficaz deve ser constituída por uma política, que estabeleça as diretrizes gerais, um modelo de gerenciamento, que reúna os instrumentos para o preparo e execução do planejamento do monitoramento, controle, uso e proteção das águas. Nesse viés, o Estado do Mato Grosso, tendo em vista o fato de ser detentor de domínio sobre as águas publicou a Lei de Política Estadual de Recursos Hídricos (Lei nº 6.945/97) de forma a instituir o Sistema Estadual de Recursos Hídricos. Trata-se de uma lei atual, avançada e importante para a ordenação territorial do Estado, proclamando os princípios básicos praticados atualmente em todos os países que avançaram na
2 Arnaldo Augusto Setti:…[et al.]. Introdução ao Gerenciamento de Recursos Hídricos. 2. ed. Brasília: Agência Nacional de Energia Elétrica: Agência Nacional de Águas, 2001.

799

gestão de recursos hídricos e que se encontram esculpidos na Política Nacional de Recursos Hídricos, 3 quais sejam: • Reconhecimento da água como um bem finito e vulnerável, portanto, de valor econômico; • Adoção da bacia hidrográfica como unidade de planejamento; • Usos múltiplos da água; e • Gestão descentralizada e participativa. Assim, como instrumentos para alcançar um gerenciamento eficaz e os princípios básicos acima apresentados, faz-se mister apresentar os cinco instrumentos que a lei estadual utiliza: a) Plano Estadual de Recursos Hídricos; b) Enquadramento dos corpos de água em classes, segundo seu uso preponderante; c) A outorga dos direitos de uso dos recursos hídricos; d) A cobrança pelo uso dos recursos hídricos; e e) O Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos. Para que esses princípios e instrumentos sejam implementados a Fundação Estadual de Meio Ambiente criou a Diretoria de Recursos Hídricos (Direh), que é dividida em Coordenadoria de Planejamento e Pesquisa de Recursos Hídricos (CPPRH), Coordenadoria de Outorga e Licenciamento de Recursos Hídricos (COLRH), Coordenadoria de Desenvolvimento de Recursos Pesqueiros (CDRP) e Assessoria Técnica de Recursos Hídricos.

3 Lei Federal nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997 – institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos.

800

PRESIDÊNCIA

Assessorias (de):
Planejamento Projetos Especiais Jurídica Técnica Ouvidoria

Assessoria Especial do Meio Ambiente Gabinete
Assessoria de Educação Ambiental Assessoria de Imprensa

Diretoria de InfraEstrutura, Indústria e Mineração

Diretoria de InfraEstrutura, Indústria e Mineração

Diretoria de InfraEstrutura, Indústria e Mineração

Diretoria de InfraEstrutura, Indústria e Mineração

DIRETORIA DE RECURSOS HÍDRICOS Cehidro Fehidro Comitês de Bacias Coordenadoria de Planejamento e Pesquisa de Recursos Hídricos
• Projetos (planejamento e execução • Monitoramentos de qualidade e quantidade de água superficial subterrânea • Laboratório • Sistema de informação do usuário da água

Assessoria Técnica

Coordenadoria de Licenciamento e Outorga de Recursos Hídricos
• Outorgas de água superficial e subterrânea • Cobranças de água superficial e subterrânea • Licenciamento de poços tubulares • Novos licenciamentos de irrigação

Coordenadoria de Desenvolvimento de Recursos Pesqueiros

• Pesca (Pesquisa e Fiscalização) • Psicultura

Assim, a Direh, no cumprimento de sua missão institucional, com o comprometimento de toda a sua capacidade técnica, financeira e administrativa, apresenta por coordenadoria os resultados alcançados no ano de 2004: a) Coordenadoria de Outorga e Licenciamento de Recursos Hídricos (COLRH) 1. Licenciamento de Poço Tubular (Lei Estadual nº 8.097/2004)

801

• 20 – Licenças Prévias (LP) • 24 – Licenças de Instalação (LI) • 308 – Licenças de Operação (LO) • 90 – Cadastros 2 - Licenciamento de Irrigação (Res. Cehidro nº 3/2003) • 26 – Licença Prévia (LP) • 4 – Cadastros b) Coordenadoria de Desenvolvimento de Recursos Pesqueiros (CDRP) 1. Criação do Grupo de Trabalho Técnico, entre: Fema, Ibama, Unemat, Univag, UFMT e governos dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Objetivo – monitorar e fiscalizar a piracema da Bacia do Alto Paraguai; 2. Definição do período de piracema pelas bacias Amazônica, Araguaia e Alto Paraguai. Pela primeira vez houve um estudo em conjunto com os estados envolvidos; 3. Proposição de alteração na Lei de Pesca (Lei nº 7.881/02), juntamente com representantes da sociedade; 4. Implantação efetiva de monitoramento do estoque pesqueiro; 5. Reestruturação do sistema de fiscalização, efetivando parcerias com ONGs e setor privado – setor de turismo; e 6. Licenciamento de pisciculturas e realização de 10 termos de ajustamento de conduta. c) Coordenadoria de Planejamento e Pesquisa de Recursos Hídricos (CPPRH) 1. Avaliação da Balneabilidade das Praias de Mato Grosso – 32 praias monitoradas em 2004; 2. Monitoramento da qualidade da água da Bacia do Rio Cuiabá – 14 pontos de coleta de águas superficiais com freqüência mensal; 3. Monitoramento da qualidade e quantidade da água na Bacia do Rio das Garças – 19 pontos de coleta de águas superficiais e 8 pontos de água subterrânea com freqüência mensal; 4. Monitoramento da qualidade da água da Bacia de Rio Paraguai – 7; pontos de coleta de águas superficiais e 3 pontos de água subterrânea com freqüência bimestral; 5. Monitoramento da qualidade da água da Bacia do Rio das Mortes – 6 pontos de coleta de águas superficiais e 3 pontos de água subterrânea com freqüência bimestral; 6. Monitoramento da qualidade da água da Bacia do Rio São Lourenço e Rio Vermelho – 6 pontos de coleta de águas superficiais e 3 pontos de água subterrânea com freqüência bimestral;

802

7. Fomento e acompanhamento do Comitê dos Ribeirões Sapé e Várzea Grande, afluentes do Rio das Mortes, com representação; 8. Fomento à organização da sociedade para criação dos comitês do rio Cuiabá e rio das Garças 9. Organização do Fórum do Rio Cuiabá para articulação de ações na bacia; 10. Organização da Oficina para Articulação de Ações de Controle do Mexilhão Dourado em Mato Grosso; 11. Treinamento para alimentação do sistema Hidroweb da ANA – Sistema de Informações Hidrológicas (Parceria com a ANA); 12. Assessoria e apoio para a manutenção e realização das reuniões do Conselho Estadual de Recursos Hídricos (Cehidro); 13. Preparação de proposta de resolução ao Cehidro com critérios e procedimentos para a criação de Comitês de Bacia Hidrográfica; 14. Preparação da proposta de "Divisão Hidrográfica de Mato Grosso"; e 15. Proposição de Ações para o Projeto de Gestão Ambiental Integrada do Estado de Mato Grosso - PGAI/PPG7. Portanto, de acordo com os argumentos expostos acima não é forçoso concluir que a principal meta da Direh é implementar todos os instrumentos determinados na Lei Estadual, contudo, tendo em vista um Estado com tamanha magnitude de rede hídrica e considerando que o gerenciamento de recurso ambiental, exige horizontes de planejamento que podem ser de curto, médio e longo prazos. Somente por intermédio da adoção de prioridades, alcançaremos bons resultados. Desse modo, apresentamos abaixo o rol de metas necessárias para o ano de 2005.

803

Tabela 1. Ações 2005 da Coordenadoria de Licenciamento e Outorga de Recursos Hídricos (continua)

804

(conclusão)

805

Tabela 2. Ações 2005 da Coordenadoria de Desenvolvimento de Recursos Pesqueiros
Objetivos Metas 2005 1. Licenciar as pisciculturas (reprodu o, recria e engorda) no Estado j cadastrada Padrões ou indicadores Desenvolvimento Econômico Fortalecer e estruturar as pisciculturas produtivas no Estado Maior n mero de pisciculturas licenciadas e com produ o ¥ Capacita o t cnica ¥ Legisla o de aq icultura/ piscicultura ¥ Coopera o t cnica com a SEAP para fomento de pisciculturas no Estado Aumento no rendimento do pescado por esp cie (beneficiamento) Numero de ind strias de beneficiamento. ¥ Planos de investimento em beneficiadoras ¥ Coopera o t cnica com as demais secretarias do Estado para fomento do levantamento e monitoramento Eqüidade social Sustentabilidade Ambiental

Gera o de Emprego e Utiliza o sustent vel dos Aumento de oferta alimentar recursos naturais ( gua, flora e fauna) Numero de empregados reas protegidas e ou monitoradas

Política/planos

Capacita o de m o de obra De conserva o dos recursos especializada h dricos. Programa de capacita o t cnica Aumento de emprego e renda familiar elevando a qualidade de vida dos pescadores e seus familiares Numero de empregados Programa de bacias para piscicultura Conserva o de estoques de peixes no Estado de Mato Grosso Uso moderado dos recursos pesqueiros

Programas

2. Estimar e monitorar o estoque pesqueiro

Padrões ou indicadores

Política/planos Programas

Plano de capacita o t cnica Plano de zoneamento de pesca Programa de educa o Ambiental Programa de capacita o Cria o de ref gio de prote o vida silvestre.

Fonte: CDRP – Coordenadora Msc. Eucilene Alves Santana Porto.

806

Tabela 3.Ações 2005 da Coordenadoria de Planejamento e Pesquisa de Recursos Hídricos (continua)
META MEDIDAS (O QUE) DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Ordenamento de atividades econ micas e defini o de crit rios de utiliza o dos Rec. Naturais; Gera o de emprego no setor de servi os especializados EQUIDADE SOCIAL SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL

Manuten o do Conselho Estadual Apoio e Assessoria ao Cehidro de Recursos H dricos Apoio e organiza o da Comiss o Executiva Regional do PNRH Participa o Comit s de Bacia Participa o das reuni es do Comit Covape

Garantia da participa o social nas Controle das atividades decis es sobre o uso da gua e dos econ micas visando utiliza o recursos naturais racional dos recursos naturais especialmente da gua.

Instrumentos da Pol tica Estadual Relat rio de Qualidade da gua do de Recursos H dricos (Bacia do Rio Rio Cuiab (2003/2004) Cuiab ) Monitoramento da gua da Bacia do Rio Cuiab

Identifica o das condi es do Rio Informa o sociedade das condi es do Rio Cuiab , para Cuiab visando constru o de cen rio futuro para a sua utiliza o subsidiar decis o de uso futuro econ mica

Controle ambiental das atividades poluidoras e identifica o das atividades degradadoras da qualidade da gua Implementa o do Manejo do Rio Cuiab visando o uso racional

Manejo Ecologicamente Sustent vel Diminui o de perdas econ micas Benef cio social devido da gua (Subrojeto MESA / TNC) devido degrada o dos recursos conserva o da cabeceira do Rio Cuiab naturais (mata ciliar, gua, solo, fauna) Plano Diretor da Bacia Hidrogr fica do Rio Cuiab Garantia da participa o social nas Defini o das condi es decis es e constru o das ambientais, econ micas e socioambientais para constru o de perspectivas de uso futuro da bacia cen rios futuros de uso racional de recurso naturais da bacia Aumento de investimentos na Bacia devido concilia o de conflitos de uso e de preserva o com a participa o do todos Setor econ micos utilizadores do Rio Cuiab participando da sua preserva o, conserva o e recupera o Decis es de uso dos recursos naturais ter o a participa o da sociedade.

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Elabora o de instrumentos da Pol. Estad. de Rec. H dricos (Plano de Bacia) para o Gerenciamento da Bacia Uso racional dos recursos naturais da bacia; controle social das atividades degradadoras

Fomento cria o do Comit de Bacia Hidrogr fica do Rio Cuiab

F rum da Bacia Hidrogr fica do Rio Cuiab

Sociedade participando de a es As condi es ambientais favor veis em prol do Rio Cuiab e informada ser o exigidas pela sociedade dos sobre as sua condi es ambientais. setores p blicos e privados respons veis.

(conclusão)
META Instrumentos da Pol tica Estadual de Recursos H dricos (Mato Grosso) MEDIDAS (O QUE) Divis o Hidrogr fica do Estado de Mato Grosso Enquadramento dos Rios de Mato Grosso Sistema de Informa es sobre Recursos H dricos (Alimenta o do HIDROWEB da ANA) Relat rio da Balneabilidade das praias Instrumentos da Pol tica Estadual de Recursos H dricos (Bacia do Rio das Gar as) Execu o de a es do PNMA II Banco de Dados Capacita o da equipe Equipamentos p/ Laborat. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO (a) Implementa o dos instrumentos da Pol tica Estadual de Recursos H dricos definindo aos diversos setores econ micos as condi es atuais e de uso futura dos recursos h dricos; (b) atualiza o de banco de dados nacional; (c) defini o da bacia hidrogr fica como unidade de planejamento e gerenciamento. Ordenamento de atividades econ micas; Gera o de emprego no setor de servi os especializados; Identifica o das condi es ambientais da bacia EQÜIDADE SOCIAL (a) Participa o social nas defini es do enquadramento (uso preponderante) dos rios e condi es desej veis para o futuro; (b) informa es hidrol gicas e de condi es ambientais da praia publicada garantindo a sa de da popula o; SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL

Dissemina o das informa es ambientais sociedade fomento sus organiza o para a gest o dos recursos h dricos

Fortalecimento institucional para implementa o dos instrumentos da Pol tica Estadual de R. H drico e implementa o do Sistema Estadual de Rec. H dricos.

808
A es de coopera o, dissemina o de informa es e atendimento ao p blico e capacita o

MQA Bacia do Gar as Semin rio do Dia da gua Projeto de Fortalecimento Institucional de Gest o de Rec. H dricos de MT e MS Elabora o do Projeto PPG7 para 2005/2006 Participa o das reuni es do Comit Covap Atendimento de solicita es de Qualidade da gua do Minist rio P blico e outros setores Conv nio com a UFMT Coopera o com a CPRM (em discuss o) Reuni es T cnicas da CPPRH Controle ambiental das atividades econ mica com a participa o social; Atendimento a solicita es da sociedade e fortalecimento institucional para a execu o das atribui es legais Fortalecimento institucional para implementa o dos instrumentos da Pol tica Estadual de R. H drico e implementa o do Sistema Estadual de Rec. H dricos atrav s da: (a) capacita o da equipe; (b) aquisi o de materiais e equipamentos; (c) amplia o da rea de monitoramento para as demais bacias de MT; (d) coopera o t cnica para execu o de estudos, planos e monitoramento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Portanto, como a inclusão social visa garantir igualdade de oportunidades para todos os cidadãos, o uso sustentável dos recursos hídricos possui a finalidade de garantir igualdade de oportunidades para a atual e para as futuras gerações, sendo esse o grande desafio da gestão de recursos hídricos. Com efeito, para que esse uso sustentável ocorra é indispensável que os princípios e instrumentos determinados na Política Estadual de Recursos Hídricos sejam seguidos pelo Poder Público, porém torna-se imprescindível que haja a participação da sociedade como um todo – poder público, usuários e entidades civis.

BIBLIOGRAFIA
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Recursos hídricos: conjunto de normas legais/Meio Ambiente. 3. ed. Brasília: MMA/Secretaria de Recursos Hídricos, 2004. SETTI, A. A. et alii. Introdução ao gerenciamento de recursos hídricos. 2. ed. Brasília: Agência Nacional de Energia Elétrica, Agência Nacional de Águas, 2001.

809

APRESENTAÇÃO

Fundação Estadual de Meio Ambiete (Fema) Presidente: Moacir Pires de Miranda Filho

Diretoria de Recursos Hídricos Diretora: Ms. Alessandra Panizi Souza

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Política Estadual de Recursos Hídricos – 6.945/97
Princípios:
I - domínio público; II - recurso natural limitado, dotado de valor econômico; III - em situações de escassez; IV - uso múltiplo das águas; V - a bacia hidrográfica VI - a gestão descentralizada e participativa

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Política Estadual de Recursos Hídricos – 6.945/97
Instrumentos:
Plano Estadual de Recursos Hídricos; Enquadramento dos corpos de água em classes, segundo seu uso preponderante; A outorga dos direitos de uso dos recursos hídricos; A cobrança pelo uso dos recursos hídricos; e O Sistema de Informações sobre Recursos Hídricos.

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Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fema/MT)
Presidência
Assessorias (de): Planejamento Projetos Especiais Jurídica Técnica Ouvidoria Assessoria Especial do Meio Ambiente
Gabinete Assessoria de Educação Ambiental Assessoria de Imprensa

Diretoria de Infra-Estrutura, Indústria e Mineração

Diretoria de Recursos Florestais

Diretoria de Recursos Hídricos

Diretoria Administrativa Financeira

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Fonte: Leonice Lotufo

Diretoria de Recursos Hídricos
Cehidro Fehidro Comitês de Bacias

Assessoria Técnica

Coordenadoria de Planejamento e Pesquisa de Recursos Hídricos
•Projetos (planejamento e execução) •Monitoramentos de Qualidade e Quantidade de Água Superficial e Subterrânea •Laboratório •Sistema de informação do usuário da água

Coordenadoria de Licenciamento e Outorga de Recursos Hídricos
•Outorgas de Água Superficial e Subterrânea •Cobranças de Água Superficial e Subterrânea •Licenciamento de Poços Tubulares
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Coordenadoria de Desenvolvimento de Recursos Pesqueiros
Pesca (Pesquisa e Fiscalização) •Piscicultura (Licenciamento)

Fonte: Leonice Lotufo

Direh – Resultados de 2004 por Coordenadoria
A) COLRH B) CDRP C) CPPRH
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A ) Coordenadoria de Outorga e Licenciamento de Recursos Hídricos (COLRH)

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a.1 - Licenciamento de Poços Tubulares
Lei Estadual nº 8.097/2004

No ano de 2003, houve uma reformulação no Decreto nº 1.291 resultando na Lei nº 8.097 que dispõe sobre a Administração e a Conservação das Águas Subterrâneas de domínio do Estado, publicada no DOE em 25/3/2004.

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Mudanças importantes aconteceram:
I - instalação do hidrômetro não obrigatória; II - cadastramento para poços tubulares com até 50 metros de profundidade; III - renovação da licença de operação a cada 5 anos; IV - Cadastramento sem ônus até março/2005 V - Valor máximo: de 9 à 25 UPF’s/MT.
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Relação das licenças emitidas nos anos de 2000, 2001, 2002 , 2003 e 2004:
Tipo Licença Prévia (LP) Licença de Operação (LO) Cadastro (CD)
Fonte: Slap – COLRH – Nov/04
Lice nciame nto - Po?o Tubular
350 300 310 199 180 120 65 22 21 2000 2001 95 70 35 39 38 38 20 24 2004

2000 22

2001 95 70 199 -

2002 35 39 120 -

2003 38 38 180 -

2004 20 24 310 94

Total 210 192 874 94

Licença de Instalação (LI) 21 65 -

Quantidade

250 200 150 100 50 0

2002 A no

2 003

Li cen?a Pr?v a - LP i

Li cen?a de Inst ala?‹o - LI

Lic en?a de Oper a?‹ o - LO

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a.2 - Licenciamento Ambiental da Atividade de Irrigação
Res. Cehidro nº 3/2003

Publicada no dia 21/1/2004 no DOE a Portaria 3/2004 da Fema e a Resolução nº 3/2003 de 11/12/2003 do Cehidro, padronizando os procedimentos referentes ao Licenciamento Ambiental dos Projetos de Irrigação no Estado de Mato Grosso.
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Licenciamento de Irrigação (Res. Cehidro nº 3/2003) - 026 – Licença Prévia (LP) - 004 – Cadastros - 140 – processos pendentes

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Informações:
Licenciamento obrigatório tem que ser requerido até janeiro/2005 Valores: conforme o tamanho do empreendimento Válida por 2 anos

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- Condicionantes: Fixar em 20% (vinte por cento), da Q 7,10 o limite máximo de derivações consultivas a ser requerida na porção da bacia hidrográfica limitada por cada seção considerada, em condições naturais, ficando garantido a jusante de cada derivação, fluxos residuais mínimos equivalentes a 80% (oitenta por cento);
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a.3 - Banco de Dados
Quantidade dos processos contidos no Banco de Dados Processos Água Superficial Água Subterrânea Abastecimento Público Total
1600 1400 1444

2003 75 921 222 1218

2004 140 1444 489 2073

Quantidade

1200 1000 800 600 400 200 0

921

489 75 ç gua Subte r‰n r ea 140 222

ç gua Superficia l 2003 2004

A bastecime o Pœbco nt li

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a.4 - Outorga A Política Estadual de Recursos Hídricos (Lei nº 6.945 – 5/11/97) define a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fema), como órgão coordenador gestor dos Recursos Hídricos no Estado de Mato Grosso, sendo a Outorga um dos Instrumentos dessa Política, de acordo com a Seção III “Outorga de Direito de Uso da Água”.
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O processo de regulamentação da outorga, previsto na Lei Estadual nº 6.945/97, foi apresentado ao Conselho Estadual de Recursos Hídricos (Cehidro) no dia 11/12/2003, por meio de Proposta de Resolução, sendo aprovada por seus conselheiros na data de 29/4/2004 em Reunião Ordinária. A Fema esta aguardando posicionamento nos trâmites administrativos dentro do próprio órgão, para então publicar a Resolução no DOE.

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B) Coordenadoria de desenvolvimento de Recurso Pesqueiro (CDRP)

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GTT - Criação do Grupo de Trabalho Técnico, entre: Fema, Ibama, Unemat, Univag, UFMT e Governos dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Objetivo – monitorar e fiscalizar a piracema da Bacia do Alto Paraguai; Definição do período de Piracema por Bacia: Amazônica, Araguaia e Alto Paraguai. Pela primeira vez houve um estudo em conjunto com os estados envolvidos;
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Proposição de alteração na Lei de Pesca (Lei nº 7.881/02), juntamente com representantes da sociedade; Implantação efetiva de monitoramento do estoque pesqueiro; Reestruturação do sistema de fiscalização, efetivando parcerias com ONGs e setor privado – setor de turismo;
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Tabela X - Quantidade de Pescado Apreendido pela CDRP
Ano 2002 2003 2004 Quantidade de Pescado Apreendido 3.273,0 kg 9.305,0 kg 16.440,0 kg

Tabela XI - Quantidade de Apetrechos Apreendidos pela CDRP
Ano 2002 2003 2004 Quantidade de Apetrechos Apreendidos 57 711 1707

Tabela VII - Dados Referentes à Declaração de Estoque de Pescado a Serem Utilizados no Período de Piracema pelos Empreendimentos em Mato Grosso
Ano 2002 2003 2004 Quantidade de Autorizações 41 88 166

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Tabela IX - Levantamento dos Documentos Administrativos Emitidos pelos Agentes e T Ano 2002 2003 2004
* Não

Auto de Infração * 13 87

Termo de Apreensão * 16 93

Auto de Inspeçã o * 32 41

Recibo de Doação * 28 138

foram encontrados em nossos arquivos dados referentes à Quantidade de Documentos Administrativos no Se

Tabela XII - Número de Festivais de Pesca Monitorados pela CDRP
Ano 2002 2003 2004 Festivais de Pesca monitorados * * 05(**)

* Não foram encontrados em nossos arquivos dados referentes a Monitoramento de Festivais de Pesca no respectivo ano. **Os municípios monitorados foram: Santa Rita do Trivelato, Luciara, Barra do Garças, Juína e Cáceres.

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C) Coordenadoria de Planejamento e

Pesquisa de Recursos Hídricos (CPPRH)

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c.1 - Balneabilidade
Balneabilidade de praias - 2002
Localidade Rio Cuiabá (Sto Antonio, Cuiabá, Várzea Grande, Barão de Melgaço, Passagem da Conceição, ....) Rio Paraguai (Cáceres) Manso Salgadeira Rio Claro Cachoeirinha Rio Coxipó Total Própria para banho 1 Imprópria para banho 4

4 1 1 1 0 8 15

0 0 0 0 3 7

Balneabilidade avaliada de acordo com Resolução do CONAMA nº 20/86

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Balneabilidade de praias - 2003
Localidade Rio Cuiabá (Sto Antonio, Cuiabá, Várzea Grande, Barão de Melgaço, Passagem da Conceição, ....) Rio Paraguai (Cáceres e Barrra do Bugres) Manso Salgadeira Rio Claro Cachoeirinha Rio Coxipó Rio Bugres Rio Mutuca Total Própria para banho 7 Imprópria para banho 1

4 1 1 2 3 1 1 20 22

1 0 0 0 0 0 0 2

Balneabilidade avaliada de acordo com Resolução do CONAMA nº 274/00

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Balneabilidade de praias - 2004
Localidade Rio Cuiabá (Sto Antonio, Cuiabá, Várzea Grande, Barão de Melgaço, Passagem da Conceição, ....) Rio Paraguai (Cáceres e Barrra do Bugres) Manso Salgadeira Rio Claro Cachoeirinha Rio Coxipó Rio Cassununga (Tesouro) Rio Mutuca Rio Garças (Tesouro) Balneário Moreninha (Guiratinga) Rio Tenente Amaral (Juscimeira) Balneário de Águas Termais (Juscimeira) Rio Bugres (Barra do Bugres) Total Própria para banho Imprópria para banho

6 4 2 1 1 1 4 1 1 1 1 2 1 1 27 32

3 1 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 5

Balneabilidade avaliada de acordo com Resolução do CONAMA nº 274/00

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Ano 2004

Localidade Rio Cuiabá Rio Garças Rio São Lourenço e Rio Vermelho Rio Paraguai Rio das Mortes

Periodicidade Mensal – 14 pontos de água superficial no Rio Cuiabá e 4 pontos no Rio Jangada Mensal – 19 pontos de água superficial e 8 de água subterrânea Mensal – 6 pontos de água superficial e 3 subterrânea

Bimestral – 7 pontos de água superficial e 3 pontos de água subterrânea Bimestral – 6 pontos de água superficial e 3 pontos de água subterrânea

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c.3 - Apoio ao Sistema Estadual de Recursos Hídricos

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Sistema Estadual de Recursos HÌdricos
Conselho Estadual de Recursos Hídricos: Órgão Colegiado com Representante do Poder Público e Sociedade Civil Deliberativo Fehidro

Comitês Estaduais de Bacias Hidrográficas: Órgão Colegiado com Representantes do Poder Público e Usuários da Águas da Bacia Não deliberativo Panizi - panizi@bol.com.br Alessandra

Órgão Coordenador Gestor da Política Estadual de Recursos Hídricos: Fema

c.3.1 - Conselho Estadual de Recursos Hídricos (Cehidro) 3.1 - Composição:
11 Representantes governamentais 11 Não-governamentais (entidades civis e usuários de água)

3.2 – Funções
Consultivo, deliberativo e recursal; Aprovar os critérios de prioridades dos investimentos Apreciar o Plano Diretor Avaliar e opinar sobre programas
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-

Composição Coordenadoria Planejamento e Pesquisa de Recursos Hídricos...: Presidência: Presidente da Fema

11 representantes de instituições governamentais: Fema, Seet, Splan, Seder, Sedtur, SES, SICM, PGE, Ibama, gerência executiva/MT, Universidade Pública, Instituição Pública de água e esgoto; 11 representantes de Instituições não-governamentais: 6 represent. de usuários de RH; 3 repres. de organizações civis de RH; 1 repres. da AMM; 1 repres. e instituição de pesquisa na área RH.

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Atividades realizadas
Resolução nº 1/2004 – Comitê de Sub-Bacia Rio Sapé e Várzea Grande Resolução nº 3/2003 Licenciamento Ambiental para Irrigação; Resolução nº 4/2004 Valores de Taxas para Irrigação; Análise e liberação de Licenças para Projetos de Irrigação; Proposta de Outorga de Água em fase de análise; Aconselhar ou operar sobre as questões públicas relacionadas aos Recursos Hídricos por meio dos Comitês de Bacias Hidrográficas.
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c.3.2 - Comitês Estaduais de Bacias Hidrográficas
Composição:
-

comunidade, dos usuários de água da região prefeituras governo do Estado

Missão: gerenciamento dos recursos hídricos na área da bacia hidrográfica (qualidade e quantidade/uso racional de água).
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Mato Grosso – Estado das Águas

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Fomento para a criação de Comitês de Bacias: 1ºComitê: Covape Interessados Bacia do Queima-pé -Tangará da Serra Bacia do Rio Cuiabá Pólo de Integração MT e RO – 19 cidades
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C.3.3 - Outras atividades: Preparação de proposta de resolução ao Cehidro com critérios e procedimentos para criação de Comitês de Bacia Hidrográfica; Preparação da proposta de “Divisão Hidrográfica de Mato Grosso”;

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Organização do Fórum do Rio Cuiabá para articulação de ações na bacia; Organização da Oficina para Articulação de ações de controle do Mexilhão Dourado em Mato Grosso; Treinamento para alimentação do sistema Hidro Web da ANA – Sistema de Informações Hidrológicas (Parceria com a ANA); Assessoria e apoio para a manutenção e realização das reuniões do Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CEHIDRO); Proposição de Ações para o Projeto de Gestão Ambiental Integrada do Estado de Mato Grosso PGAI/PPG7.
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C.3.4 - Fehidro

É criado o Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro) para suporte financeiro da política de recursos hídricos e das ações correspondentes, regendo-se pelas normas desta lei e seu regulamento.

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Constituem recursos do Fehidro:
• recursos do Estado e dos municípios a ele destinados por dispositivos legais; • transferências da União, de Estados ou de países vizinhos, destinados à execução de planos e programas de recursos hídricos de interesse comum; • compensação financeira que os Estados e municípios receberem em decorrência dos aproveitamentos hidroenergéticos em conformidade com lei específica; • parte da compensação financeira que o Estado receber pela exploração de petróleo, gás natural e recursos minerais; • resultados da cobrança pelo uso da água;
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Constituem recursos do Fehidro:
• retorno das operações de crédito com os órgãos e entidades estaduais, municipais e privadas; • produto das operações de crédito e das rendas procedentes das aplicações de seus recursos; • resultado da cobrança de multas, decorrentes da aplicação de legislação de águas e de controle de poluição das mesmas; • contribuições de melhorias de beneficiados por serviços e obras de aproveitamento e controle dos recursos hídricos; • doações de pessoas físicas ou jurídicas, de direito público e privado nacionais, estrangeiras ou multinacionais; • outras receitas a ele destinadas.
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Ações e metas para 2005

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Coordenadoria de Desenvolvimento dos Recursos Pesqueiros
Objetivos Metas 2005 1.Licenciar as pisciculturas (reprodução, recria e engorda) no Estado já cadastrada Padrões ou indicadores Fortalecer e estruturar as pisciculturas produtivas no Estado Geração de emprego e aumento de oferta alimentar Utilização sustentável dos recursos naturais (água, flora e fauna) Desenvolvimento econômico Eqüidade social Sustentabilidade ambiental

Maior número de pisciculturas licenciadas e com produção • • Capacitação técnica legislação de aqüicultura/ piscicultura

Numero de empregados

Áreas protegidas e ou monitoradas

Política/planos

Capacitação de mãode-obra especializada

De conservação dos recursos hídricos

Programas

Cooperação técnica com a Seap para fomento de pisciculturas no Estado

Programa de capacitação técnica

Programa de bacias para piscicultura

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2.Estimar e monitorar o estoque pesqueiro

Aumento no rendimento do pescado por espécie (beneficiamento)

Aumento de emprego e renda familiar elevando a qualidade de vida dos pescadores e seus familiares Número de empregados

Conservação de estoques de peixes no Estado de Mato Grosso

Padrões ou indicadores

Número de indústrias de beneficiamento

Uso moderado dos recursos pesqueiros Plano de zoneamento de pesca

Política/planos

• Planos de investimento em beneficiadoras • Cooperação técnica com as demais secretarias do Estado para fomento do levantamento e monitoramento

Plano de capacitação técnica

Programas

Programa de Educação Ambiental Programa de Capacitação

Criação de refúgio de proteção a vida silvestres.

Fonte: CDRP – Coordenadora Msc.Eucilene Alves Santana Porto

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Coordenadoria de Outorga e Licenciamento de Recursos Hídricos
Objetivos/Metas 2005 Licenciamento/ cadastramento ambiental – poço tubular Desenvolvimento econômico Diminuição de prejuízos com a perfuração de poços tubulares em locais inadequados Maior número de poços tubulares licenciados ou cadastrados (300) - Capacitação técnica - Legislação específica Cooperação técnica com os municípios do Estado Eqüidade social Aumento de emprego Sustentabilidade ambiental Proteção à água

Padrões ou Indicadores

Número de empregados

Áreas protegidas e monitoradas

Política/Planos

Capacitação de mãode-obra especializada - Capacitação técnica - Implantação de área de lazer em locais adequados

Conservação dos recursos hídricos Programas para subbacias selecionadas

Programas

Ações

- Notificação para providenciar licenciamentos dos poços tubulares existentes no Estado - Definição das áreas prioritárias ao monitoramento das águas subterrâneas - Iniciar estudos sobre outorga de água subterrânea - Controlar a implantação, ampliação e alteração de projetos de qualquer empreendimento que demande a utilização de recursos hídricos - Adotar procedimentos e parâmetros fiscalizadores preventivos e punitivos aos modificadores dos recursos naturais (obedecendo a legislação vigente) - Executar a fiscalização, preventiva e corretiva, em conjunto ou isoladamente com os demais órgãos, no controle a degradação ambiental - Procedimentos para a definição de área de restrição a captação de água Alessandra Panizi - panizi@bol.com.br subterrânea

Aumento da agricultura (produção de grãos) Licenciamento Cadastramento ambiental –

- Aumento de emprego - Aumento da produtividade

Irrigação

- Proteção à água (distribuição conforme a legislação vigente); - Proteção do solo (práticas agrícolas adequadas); - Proteção da flora (por meio da obrigatoriedade da LAU). Áreas protegidas e ou monitoradas

Padrões ou Indicadores

- Maior número de irrigantes licenciados ou cadastrados (100) - Valorização dos investimentos - Capacitação técnica - Legislação específica - Controle na implantação de novas áreas irrigadas - Cooperação técnica com os municípios do Estado - Investimento na implantação de área irrigadas

Número de empregados

Política/Planos

Capacitação de mão-de-obra especializada

Conservação dos recursos hídricos

Programas

Capacitação técnica

Programas para sub-bacias selecionadas

Ações

- Medição de vazão nos mananciais de interesse para conhecimento do potencial hídrico e contraprova junto ao licenciamento - Definição nos procedimentos de licenciamento de barramento quando associados à irrigação - Notificação para providenciar licenciamentos dos empreendimentos existentes no Estado - Controlar a implantação, ampliação e alteração de projetos de qualquer empreendimento que demande a utilização de recursos hídricos - Adotar procedimentos e parâmetros fiscalizadores preventivos e punitivos aos modificadores dos recursos naturais (obedecendo a legislação vigente) - Executar a fiscalização, preventiva e corretiva, em conjunto ou isoladamente com os demais órgãos, no controle a degradação ambiental

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Outorga Padrões ou Indicadores

Será iniciada em 2005 Número de outorga emitidas - Capacitação técnica - Legislação específica - Controle na implantação de indústria no Estado

Aumento de emprego Número de empregados

Proteção à água Áreas protegidas e monitoradas Conservação dos recursos hídricos

Capacitação de mão de obra especializada

Política/Planos

Programas

Cooperação técnica com os municípios do Estado

Capacitação técnica

- Programas para Subbacias selecionadas

Ações

- Definição da(s) bacia(s) prioritária(s) - Definição dos empreendimentos prioritários a outorga - Publicação da legislação aprovada pelo Conselho Estadual de Recursos Hídricos (Cehidro) - definição dos trâmites administrativos - Controlar os usuários de água superficial que não necessitam de outorga (usos insignificantes) - Conhecimento do lançamento de efluentes dos empreendimentos outogados - Integração dos procedimentos de outorga e Licenciamento Ambiental

Fonte: COLRH/FEMA - Coordenador: Luiz Henrique Magalhães Noquelli

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Coordenadoria de Outorga e Licenciamento de Recursos Hídricos
Meta Medidas (o quê)
Desenvolvimento econômico Eqüidade social Sustentabilidade ambiental

Apoio e Assessoria ao Cehidro Manutenção do Conselho Estadual de Recursos Hídricos Apoio e organização da Comissão Executiva Regional do PNRH
Ordenamento de atividades econômicas e definição de critérios de utilização dos recursos naturais; geração de emprego no setor de serviços especializados Controle das atividades econômicas visando à utilização racional dos recursos raturais especialmente da água.

Garantia da participação social nas decisões sobre o uso da água e dos recursos naturais

Participação Comitês de Bacia

Participação das reuniões do Comitê Covape

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Coordenadoria de Planejamento e Pesquisa de Recursos Hídricos Hí Materialização das ações Materialização ações
Meta Medidas (o quê) quê Apoio e assessoria ao Cehidro Apoio e organização da organização Comissão Executiva Comissã Regional do PNRH Participação das Participação reuniões do Comitê reuniõ Comitê Covape Divisão Hidrográfica do Divisã Hidrográ Estado de Mato Grosso Enquadramento dos rios de Mato Grosso Instrumentos da Política Estadual de Polí Recursos Hídricos Hí (Mato Grosso)
Sistema de Informações Informações sobre Recursos Hídricos Hí (Alimentação do (Alimentação Hidroweb da ANA)

Desenvolvimento econômico econô

Eqüidade social Eqü

Sustentabilidade ambiental Controle das atividades econômicas visando econô à utilização racional utilização dos recursos naturais especialmente da água.

Manutenção do Manutenção Conselho Estadual de Recursos Hídricos Hí

Participação em Participação comitês de bacia comitê

Ordenamento de atividades econômicos e econô definição de critérios de definição crité utilização dos Recursos utilização Naturais; geração de geração emprego no setor de serviços especializados serviç

Garantia da participação social nas participação decisões sobre o uso decisõ da água e dos recursos naturais

Relatório da Relató Balneabilidade das praias

(a) Implementação dos Implementação instrumentos da Política Polí Estadual de Recursos Hídricos definindo aos diversos setores econômicos as condições econô condições atuais e de uso futuro dos recursos hídricos; hí (b)atualização de banco (b)atualização de dados nacional; (c) definição da bacia definição hidrográfica como hidrográ unidade de planejamento e gerenciamento.

(a) Participação social Participação nas definições do definições enquadramento (uso preponderante) dos rios e condições condições desejáveis para o desejá futuro; (b) informações informações hidrológicas e de hidroló condições ambientais condições das praias públicas pú garantindo a saúde da saú população. população.

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Meta

Medidas (o quê) quê
Relatório de Relató Qualidade da Água do Rio Cuiabá Cuiabá (2003/2004) Monitoramento da água da bacia do rio Cuiabá Cuiabá Manejo Ecologicamente Sustentável da Água Sustentá (Subrojeto MESA/TNC) Plano Diretor da Bacia Hidrográfica do Rio Hidrográ Cuiabá Cuiabá Fomento à criação do criação Comitê de Bacia Comitê Hidrográfica do Rio Hidrográ Cuiabá Cuiabá Fomento à criação do criação Comitê de Bacia Comitê Hidrográfica do Rio Hidrográ Cuiabá Cuiabá Fomento à criação do criação Comitê de Bacia Comitê Hidrográfica do Rio Hidrográ Cuiabá Cuiabá Fórum da Bacia Hidrográfica do Rio Hidrográ Cuiabá Cuiabá

Desenvolvimento econômico econô

Eqüidade social Eqü

Sustentabilidade ambiental
Controle ambiental das atividades poluidoras e identificação das atividades identificação degradadoras da qualidade da água

Identificação das condições do Rio Identificação condições Cuiabá visando à construção de Cuiabá construção cenário futuro para a sua utilização cená utilização econômica econô

Informação à sociedade das Informação condições do rio Cuiabá, Cuiabá condições para subsidiar decisão de decisã uso futuro

Diminuição da perdas econômicas Diminuição econô devido à degradação dos recursos degradação naturais (mata ciliar, água, solo, fauna) Definição das condições ambientais, Definição condições econômicas e socioambientais para econô construção de cenário futuros de construção cená uso racional de recurso naturais da bacia Aumento de investimentos na bacia devido à conciliação de conflitos de conciliação uso e de preservação com a preservação participação de todos participação Aumento de investimentos na bacia devido à conciliação de conflitos de conciliação uso e de preservação com a preservação participação de todos participação Aumento de investimentos na bacia devido a conciliação de conflitos de conciliação uso e de preservação com a preservação participação de todos participação

Benefício social devido a Benefí conservação da cabeceira conservação do rio Cuiabá Cuiabá Garantia da participação participação social nas decisões e decisõ construção das construção perspectivas de uso futuro da bacia Decisões de uso dos Decisõ recursos naturais terão a terã participação da sociedade. participação Decisões de uso dos Decisõ recursos naturais terão a terã participação da sociedade. participação Decisões de uso dos Decisõ recursos naturais terão a terã participação da sociedade. participação

Implementação do Manejo do Implementação Rio Cuiabá visando ao uso Cuiabá racional Elaboração de instrumentos Elaboração da Pol. Estad. de Rec. Estad. Rec. Hidricos (Plano de Bacia) para o gerenciamento da bacia Uso racional dos recursos naturais da bacia; controle social das atividades degradadoras Uso racional dos recursos naturais da bacia; controle social das atividades degradadoras Uso racional dos recursos naturais da bacia; controle social das atividades degradadoras As condições ambientais condições favoráveis serão exigidas favorá serã pela sociedade dos setores públicos e privados responsáveis. responsá

Instrumentos da Política Polí Estadual de Recursos Hídricos (Bacia do Rio Cuiabá) Cuiabá

Sociedade participando de Setor econômicos utilizadores do econô ações em prol do Rio ções Rio Cuiabá participando da sua Cuiabá Cuiabá e informada sobre Cuiabá preservação, conservação e preservação, conservação Alessandra Panizi - panizi@bol.com.brcondições as suas condições recuperação recuperação ambientais.

Meta

Medidas (o quê) quê Execução de ações do Execução ações PNMA II Banco de Dados

Desenvolvimento econômico econô

Eqüidade social Eqü

Sustentabilidade ambiental

Instrumentos da Política Polí Estadual de Recursos Hídricos (Bacia do Rio das Garças) Garç

Capacitação da equipe Capacitação Equipamentos p/ Laborat. Laborat. MQA Bacia do Garças Garç

Ordenamento de atividades econômicas; econô geração de emprego no geração setor de serviços serviç especializados; Identificação da condições Identificação condições ambientais da bacia

Disseminação das Disseminação informações informações ambientais à sociedade; fomento à sua organização para organização a gestão dos recursos gestã hídricos

Fortalecimento institucional para a implentação dos implentação instrumentos da Política Polí Estadual de Recursos Hidricos e implementação implementação do Sistema Estadual de Recursos Hídricos. Hí

Seminário do Dia da Água Seminá

Projeto de Fortalecimento Institucional de Gestão de Gestã Rec. Hídricos de MT e MS Rec. Hí Elaboração do Projeto Elaboração PPG7 para 2005/2006 Ações de cooperação, ções cooperação, disseminação de disseminação informações e informações atendimento ao público pú e capacitação capacitação Participação das reuniões Participação reuniõ do Comitê Covape Comitê Atendimento de solicitações de Qualidade solicitações da água do Ministério Ministé Público e outros setores Convênio com a UFMT Convê Cooperação com a CPRM Cooperação (em discussão) discussã Reuniões Técnicas da Reuniõ Té Alessandra Panizi - panizi@bol.com.br CPPRH
Controle ambiental das atividades econômicas econô com a participação social; participação Atendimento às solicitações da solicitações sociedade e fortalecimento institucional para a execução da execução atribuições legais atribuições

Fortalecimento institucional para a implentação dos implentação instrumentos da Política Polí Estadual de Recursos Hidricos e implementação implementação do Sistema Estadual de Recursos Hídricos por Hí meio da: (a)capacitação (a)capacitação da equipe; (b)aquisição de (b)aquisição materiais e equipamentos; (c)ampliação da área de (c)ampliação monitoramento para as demais bacias de MT; (d) cooperação técnica para cooperação té execução de estudos, execução planos e monitoramento.

MUITO OBRIGADA!
Contatos: Alessandra Panizi Colaboradores :
Cecílio Vilabarde Pinheiro Msc. Eucilene Alves Santana Porto Luiz Henrique Magalhães Noquelli Leonice Lotufo

E-mail: panizi@bol.com.br direchi@yahoo.com.br Tel: (65) 613-7226
Alessandra Panizi - panizi@bol.com.br

GERENCIAMENTO DAS POLÍTICAS ESTADUAIS DE RECURSOS HÍDRICOS
Márcia Correio de Oliveira
Secretaria de Meio Ambiente e de Recursos Hídricos (Sema/MS)

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APRESENTAÇÃO

CURSO DE GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS
Gerenciamento das Políticas Estaduais de Recursos Hídricos Márcia Correio de Oliveira SEMA/MS

Constituição Federal
• Art. 21, XIX - compete à União instituir o sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios de outorga de direitos de seu uso • Obs. Nos termos dos arts. 25, § 1º (competência remanescente) e 26, incs. I e II, os Estados podem dispor sobre o aproveitamento de seus bens e a utilização dos recursos hídricos sob seu domínio. • Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997 – Institui a Política Nacional de Recursos Hídricos e cria o Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos.

Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997 – Institui a Política Nacional de Recursos Hídricos e cria o Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos.

O princípio fundamental estabelecido pela lei impõe gestão democrática, participativa e descentralizada dos recursos hídricos e adota a bacia hidrográfica como unidade de planejamento. O tratamento normativo dado aos recursos hídricos deve levar em consideração a jurisdição da bacia hidrográfica como objeto de direitos e deveres e não a competência dos entes governamentais sobre bens e domínio.

Constituição Estadual
• CAPÍTULO X – DOS RECURSOS HÍDRICOS • Art. 234 a 245 • Obs. Art. 236. O Estado celebrará convênios com os municípios para a gestão, por estes, das águas de interesses exclusivamente local, condicionada à política e às diretrizes estabelecidas em planos estaduais de bacias hidrográficas, de cuja elaboração participarão os municípios.

Art. 239 Constarão nas leis orgânicas municipais disposições relativas ao uso, à conservação, à proteção e ao controle dos recursos hídricos, superficiais e subterrâneos, no sentido de: I -............; V – serem condicionados à aprovação prévia por órgãos estaduais de controle ambiental e de gestão de recursos hídricos os atos de outorga, pelos Municípios, a terceiros, de direitos que possam influir na qualidade ou quantidade de águas, superficiais e subterrâneas. (DESTAQUE NOSSO)

• Art. 241. Na exploração dos serviços e na instalação de energia elétrica e no aproveitamento energético dos cursos de água em seu território, o Estado levará em conta o uso múltiplo, o controle de águas, a drenagem e o aproveitamento de várzeas, sem prejuízo de participação de que trata o § 1º do art. 20 da Constituição Federal.

• Art. 242. O produto da participação do Estado no resultado da exploração de potenciais hidroenergéticos em seu território, ou da respectiva compensação financeira, será aplicado em serviços e obras hidráulicas, na capitalização do Fundo de Previdência Social do Estado, e no abatimento de dívidas decorrentes da Conta Gráfica do Estado para a União, na forma fixada no Ato das Disposições Constitucionais Gerais e Transitórias. (alterado pelo art. 1º da Emenda Constitucional nº 18, de 26-3-2002 - DOMS, de 1-4-2002.). DESTAQUE NOSSO

• Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos
• Conselho Nacional de Recursos Hídricos(CNRH ) Agência Nacional de Águas (ANA ) Conselhos Estaduais Comitês de Bacia Órgãos Públicos Agências de Água Organizações Civis de Recursos Hídricos

>Estados e o Distrito Federal que não se ativerem a essa
estrutura básica não se encaixarão na estrutura do Sistema Nacional.

• Principais Atribuições • Conselhos - subsidiar a formulação da Política de Recursos Hídricos e dirimir conflitos. • MMA/SRH - formular a Política Nacional de Recursos Hídricos e subsidiar a formulação do Orçamento da União. • ANA - implementar o Sistema Nacional de Recursos Hídricos, outorgar e fiscalizar o uso de recursos hídricos de domínio da União. • Órgão Estadual - outorgar e fiscalizar o uso de recursos hídricos de domínio do Estado. • Comitê de Bacia - decidir sobre o Plano de Recursos Hídricos (quando, quanto e para que cobrar pelo uso de recursos hídricos). • Agência de Água - escritório técnico do comitê de Bacia

• ESTUDO COMPARADO ENTRE A POLÍTICA NACIONAL DE RECURSOS HÍDRICOS E AS POLÍTICAS ESTADUAIS DE MATO GROSSO DO SUL E MATO GROSSO • No Estado de Mato Grosso, a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fema-MT) é o órgão gestor de recursos hídricos, cujo organograma foi estruturado por meio do Decreto nº 393, de 12 de agosto de 1999, e no Estado de Mato Grosso do Sul, a Secretaria de Meio Ambiente, Cultura e Turismo (atual Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos) é o órgão gestor de recursos hídricos – Lei nº 2.406, de 29 de janeiro de 2002.

Lei nº 2.406, de 29 de janeiro de 2002. – Estado de Mato Grosso do Sul. •Do Enquadramento dos Corpos de Água em Classes •Art. 9º O enquadramento dos corpos de água em classes, segundo os usos preponderantes, tem por objetivo: III - fornecer elementos para a fixação do valor da outorga e cobrança pelo uso das águas.[S1] • [S1]Não contemplado na Lei da Política Nacional

Lei n° 6.945, de 5 de novembro de 1997 – Estado de Mato Grosso

Com relação ao enquadramento dos corpos d’água traz as mesmas disposições da Política Nacional de Recursos Hídricos

Outorga de direito de uso de recursos hídricos A outorga garante ao usuário o direito de uso da água. Cabe ao poder outorgante (União, Estados ou do Distrito Federal) examinar cada pedido de outorga para verificar se existe água suficiente, considerando-se os aspectos quantitativos e qualitativos, e uma vez concedida protege o usuário contra o uso predador de outros usuários que não possuam outorga. Não deve ser confundida com a concessão de serviço público, como é o caso de abastecimento de água, tratamento de esgoto urbano ou produção de energia elétrica.

Mato Grosso do Sul Da Outorga de Direito de Uso dos Recursos Hídricos • Art. 11. Estão sujeitos a outorga pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Cultura e Turismo, dentre outros estabelecidos pelo Conselho Estadual dos Recursos Hídricos, os seguintes usos do recurso: • III - lançamento em corpo de água de esgotos e demais resíduos líquidos ou gasosos, com o fim de sua diluição, transporte ou disposição final; • Obs. A Lei da Política Nacional admite o lançamento não tratado.

No § 1º do art. 11 da citada Lei prevê que nos casos de usos insignificantes e indica que a outorga deverá ser substituída por Comunicação de Obra ao Órgão Concedente, sempre que tiver formulário próprio assinado por responsável técnico, excetuados os casos de usos dos recursos hídricos com potencial de grande interferência no meio ambiente.
Obs. Na legislação federal quando o uso é dispensado de outorga é previsto o cadastramento dos usos/usuários, para que, posteriormente, possa ser feito o controle por meio de banco de dados de quantos usuários captam ou lançam volumes considerados insignificantes, até que o somatório do valor captado ou lançado seja considerado em uma determinada bacia como significante.

• Art. 15. As Secretarias de Estado, por delegação de competência e anuência do Conselho Estadual dos Recursos Hídrico