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Para Entender Fundamentalismo - Martin N. Dreher - Completo

Para Entender Fundamentalismo - Martin N. Dreher - Completo

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P A R A

E N T E N D E R

ÍNDICE

Fundamentalismo
Martin N. Dreher

Introdução........................................................... 5 Pietistas e ilustrados ........................................... 9 Pietismo ........................................................ 9 Ilustração ..................................................... 28 Século XIX ....................................................... 45 Século longo ............................................... 45 Revolução Francesa .................................... 47 Da Revolução ao Congresso de Viena ........ 52 Estado e igreja na Prússia ........................... 53 Questão social ............................................. 54 Catolicismo romano .................................... 58 Pio IX e o Concílio Vaticano I (1869-70)... 60 Kulturkämpfe juramento antimodernista......... 61 Teologia no século XIX .................................... 65 Schleiermacher............................................ 65 Reavivamento ............................................. 68 Teologia protestante .................................... 70 Teologia liberal ........................................... 74 Fundamentalismo ............................................. 81 Leituras complementares .................................. 95

São Leopoldo

Sinodal
2006

Pgs 5 a 8 INTRODUÇÃO "Você é fundamentalista?" Se a pergunta fosse dirigida a nós, certamente responderíamos com um sonoro "não". 0 conceito fundamentalismo tem sua origem na palavra fundamento. Não há casa que possa ser construída sem fundamento, não há argumento que possa ser formulado sem fundamentos, não há existência humana sem fundamento. Por esse último aspecto, somos todos fundamentalistas, pois todos necessitamos de fundamentos, de alicerces para a nossa existência, e quem desistir deles estará desistindo de si mesmo. Porém o trágico das formulações de nossos dias é que "fundamentalistas" são sempre os outros, jamais nós próprios. É bom lembrar que a palavra "fundamentalismo" tem sua origem no Ocidente cristão e é fruto e decorrência do que se convencionou chamar de Modernidade. Os maiores fundamentalismos encontram-se no Ocidente. Foram gestados aqui em oposição à Ilustração1 e ao liberalismo2 e são filhos diletos do Romantismo1. Na época do Romantismo, contemporâneo do colonialismo do século XIX e da primeira metade do século XX, o fundamentalismo foi exportado para os continentes colonizados pelas potências do Atlântico Norte. A temática do fundamentalismo voltou a ser atual após os acontecimentos de 11 de setembro de 2001, quando aviões foram lançados intencionalmente contra o coração financeiro norte-americano em Nova Iorque e contra o coração militar norte-americano, o Pentágono, em Washington. Fundamentalistas islâmicos foram acusados de ser os autores do atentado. As pessoas que planejaram os ataques suicidas de Nova Iorque e Washington certamente estavam convencidas de que faziam isso em nome da luta do bem contra o mal. Essa sua convicção é chamada de maniqueísmo2, típico das pessoas que não vislumbram mais o arco-íris, mas só vêem preto e branco, luz e trevas... Seus argumentos não precisam ter sido religiosos. Os argumentos do presidente Bush ao jurar vingança foram semelhantes: "Vamos eliminar o mal deste mundo". Bush não fez suas colocações forçosamente a partir de convicções religiosas. Nossos fundamentais não são necessariamente religiosos. Não são apenas fanáticos religiosos que precisam de argumentos
Movimento que substituiu a Ilustração e os antigos modelos clássicos, procurando situar a existência humana num todo que envolvesse céus e terra. Daí que privilegiou os mitos da Antigüidade, da Idade Média e, não raro, da Reforma, culminando, muitas vezes, num movimento de Restauração de valores poéticos, religiosos e políticos. 2 Doutrina desenvolvida pelo persa Mani (século III), segundo o qual o universo foi criado e está dominado por dois princípios antagônicos: Deus e diabo. Por isso só há dois princípios opostos: bem e mal.
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para justificar seus atos, que a maioria chama de loucura. Muitas vezes (na maioria das vezes?), quando procuramos argumentos para definir nossos fundamentos, procuramos por inimigos. Os proprietários e os acionistas da indústria de armamentos precisam de argumentos para dizer que são fundamentais. Então o bom passa a ser mau, e o mau passa a ser bom. Quando Saddam Hussein usou armas químicas contra curdos e iranianos era bom, e boas eram as armas químicas. Quando passou a criticar os fornecedores dessas mesmas armas, passou a ser mau, e más eram as armas químicas. Bom era Osama Bin Laden no tempo em que, em Hollywood, se filmava Rambo 3. Então os afegãos muçulmanos eram bons. Nas palavras de Ronald Reagan, eram heróis semelhantes aos pais fundadores dos Estados Unidos da América do Norte. Treze anos depois, são maus. Em 11 de setembro de 1973, 28 anos antes de 11 de setembro de 2001, o palácio presidencial de Santiago de Chile ardeu em chamas e o presidente Salvador Allende foi assassinado. 0 ato foi considerado bom, pois, segundo Henry Kissinger, o país "se havia tornado marxista em decorrência da irresponsabilidade de seu povo". Todos os fundamentalistas se parecem: os religiosos e os do mercado. Os religiosos porque vivem dos dogmas da fé; os do mercado porque, para eles, o mais importante são as leis que regem a compra e a venda de seus produtos. Desprezam vidas humanas. 0 trágico é que, enquanto desprezam vidas humanas, fazem-no em nome da Verdade Única. As crueldades do movimento guerrilheiro Sendero Luminoso, no Peru, prepararam as crueldades do presidente Fujimori. As atrocidades do Oriente Médio prepararam as atrocidades do terrorismo feito em nome de Alá. Não é Alá quem comete os crimes feitos em seu nome. Não foi Deus quem encomendou aos nazistas o holocausto judeu; não foi Deus quem encomendou a expulsão dos palestinos de suas terras. 0 maniqueísmo do olho por olho e dente por dente deixa o mundo cego, sem olhos e desdentado. Depois que as vacas ficaram loucas, os seres humanos enlouqueceram. Os seres humanos criaram um sistema que provoca loucuras em nome da Verdade Única. É nesse contexto que procuramos acompanhar a gênese do fundamentalismo. Fazemo-lo no contexto da Modernidade, dos anos que começam no século XVII e dos quais alguns afirmam que estariam chegando a seu final. Será? Para o leitor poderá parecer que privilegiamos pensadores protestantes. No entanto, é bom lembrar que desde o século XVI houve progressiva hegemonia do pensamento protestante no Ocidente, mesmo que o fato tenha tido poucos reflexos no Brasil.

buscando-se impô-las aos demais.12 vocou mudanças na teologia e na igreja. pois. No processo de reconstrução. e o ano de 1806. Acentuou a teologia da experiência da fé contra a teologia do mero conhecimento. Ele acentuou e acelerou a individualização e a interiorização da vida religiosa. calvinistas e católicoromanos tridentinos. aspectos ético-religiosos. políticos. em vida santificada. A política de então era pragmática. situamos um teólogo.Pgs 9 – 10 PIETISTAS E ILUSTRADOS Duas formas de pensamento moldaram-nos no Ocidente mais do que possamos imaginar e fizeram com que alguns se considerassem piedosos enquanto julgavam os outros ilustrados. desenvolvendo novas formas de piedade pessoal e de vida em sociedade. renascimento é fato". Se perguntarmos por anos. Politicamente. confessionário e altar. nas quais se dizia que "vida é melhor do que doutrina". No século XVI. outras eram protestantes. pelo destaque que davam à liberdade de consciência. que surgiu no século XVII e explodiu no século XIX. tiveram suas idéias sufocadas. Verdades haviam sido colocadas contra verdades. Houve períodos em que o destaque dado à vida santificada era um chamado à perfeição. nome usado para descrever movimentos que perpassam as denominações. ChristianHoburg{\607'-1675). cunhada para um o período da história do Ocidente marcado pelo cristianismo. 3 Conceito que designa a acentuação unilateral de determinado credo. Nem o pietismo tampouco a Ilustração podem ser compreendidos sem se conhecer o contexto de seu nascedouro no século XVII. devemos situar-nos entre a Paz da Westfália. encontramos um filósofo: Immanuel Kant. Famílias inteiras haviam sido destruídas. representante de uma religião fossilizada. Talvez o pietismo seja o primeiro movimento transconfessional. conhecidos por sua negação ao batismo de crianças. Por isso os pietistas foram incansáveis em afirmar o pecado pessoal. sendo o mais velho deles o pietismo. chegou a seu auge na França de Luís XIV (1643-1715) o absolutismo. do acento das hierarquias. funcionários públicos e exércitos permanentes. os reformadores radicais. restando apenas indivíduos. iniciado em tempos medievais. algumas eram católicas. Ao acentuar o individualismo e a espiritualização da fé. Em 1675. sem tirar dessa tese conseqüências práticas para o cotidiano do cristão. sociais e intelectuais apontando para um novo espírito. em 1648. Além disso. Kant publicou A Religião nos Limites da Razão Pura. "tornar-se não ser" etc. . "religião é questão de coração e não de cabeça". os ilustrados. os outros. pro Pgs 11 . O governo era feito a partir de critérios de política que dispensavam. no início do período. tido como regra para a teologia e para a vida religiosa ou cultural. O pietismo e a Ilustração são irmãos. consideravam os demais pietistas. Não ficou restrito a um país ou a uma denominação. acentuava-se a internalização da fé contra a exteriorização representada por pia batismal. púlpito. os pietistas entendiam-se como uma continuação da Reforma religiosa do século XVI. Estas retornavam no movimento pietista. Era necessário reconstruir. O desespero de um dos precursores do pietismo. As peculiaridades são consideradas básicas. No início do período. Pietismo Pietismo e Ilustração são as duas faces de uma mesma moeda. sem nada fazer contra a frouxidão ética. Nele há numerosos indicadores religiosos. Felipe Jacó Spener. com a situação do confessionalismo expressa-se nas palavras: "Justificação é ficção. Então surgiu nos meios pietistas uma série de frases de efeito. Criticava com essa afirmação os teólogos da época. da "pura e reta doutrina". Trata-se do período que se convencionou chamar de Modernidade. O novo espírito político estava caracterizado por homens como Thomas Hobbes (1588-1679). centrada em cortes. que viviam reproduzindo a tese de Lutero (1483-1546) de que o ser humano é "justificado pela fé". Ao acentuarem aspectos da Reforma radical do século XVI. NiccolòMachiavelliX 1469-1527) e Jean Armand duPlessisdeRichelieu{\585-1642). ao qual julgava estéril em conseqüência das discussões teológicas dogmáticas. racional. a fé seria mera aparência. se a relação íntima com Deus não culminasse em santificação. quando chegou a seu final o Sacro Império Romano Germânico. Guerras religiosas haviam devastado a sociedade. Além disso. Lutou pela regeneração pessoal contra a preocupação com o dogma correto. que levava a controvérsias nada edificantes. igrejas e grupos religiosos. Spener publicou um livreto: Pia Desidéria (Desejos Piedosos). à separação de igreja e Estado e à necessidade de reforma social. que fora combatida a ferro e fogo por católicos e por protestantes. a conversão provocada pelo Espírito Santo e a manifestação desse acontecimento em vida santificada. a igreja teve um papel importante e com ele surgiram o pietismo e a Ilustração. o pietismo procurou superar o confessionalismo3. em seu final. conscientemente. movimento que dera origem a luteranos. em 1793.

Quando de seus estudos teológicos em Estrasburgo. a comunidade. no século XVI somente a doutrina fora reformada. Ali destacou-se no aconselhamento pastoral. as propostas de reforma social jamais foram além de obras de caridade. anuncia um futuro melhor para a igreja a partir da conversão dos judeus e da queda de Roma. à vida santificada. Goethe. posteriormente. Além disso. na razão. 0 ilustrado ou ilustre. que desafia a tradição e reivindica liberdade de pensamento. Spener tornou-se doutor em Teologia pela Universidade de Estrasburgo e. Seus escritos foram muito populares. Com isso. calvinista e iniciador de um movimento de piedade separatista nos Países Baixos. leu Lutero e. já mencionado. poderemos constatar facilmente que o pietismo é a outra face da Ilustração e do racionalismo. designados de ecclesiola in ecclesiae (a igrejinha na igreja). Pia Desidéria apresenta um diagnóstico das condições corrompidas da igreja em sua acepção protestante. houve alteração no conceito de igreja: os reformadores protestantes haviam acentuado o lado "objetivo" da igreja . agora.Pgs 12 . então. muitas vezes surgiu entre pietistas o acento radical na concepção da separação entre igreja e Estado. uma associação de pessoas regeneradas ou renovadas. Lutando contra o que designava de deturpação do verdadeiro cristianismo. Finalmente. Em razão desse acento. por sua vez. questões que retornam em nossos dias em movimentos pentecostais ou carismáticos. o destaque Pgs 14 . Desde 1670. Deus. centrada no morrer para o mundo e para si mesmo e no viveria. Assim encontramos no pietismo as raízes do incipiente racionalismo. Se observarmos o conteúdo desses e de outros escritos de Arndt. Basta citar os nomes de pensadores e poetas alemães como Lessing. Com isso foi estimulada a tendência ao separatismo e à formação de conventículos. da qual se pudesse apresentar dia e hora. denominado de "Pai do Protestantismo Liberal". individuais ou na forma de associações livres.estudo ediscussão de . à unidade com Cristo. literatura edificante e a renovação da igreja. porém. oferece um programa de seis pontos para uma reforma da igreja: 1 . verificaremos que esse autor dá destaque à conversão. A igreja é. Em 1664. aquela pessoa que confia no progresso. Com o tempo. pastor em Frankfurt sobre o Meno. Vejamos alguns líderes pietistas: Felipe Jacó Spener (1635-1705) Spener recebeu profundas influências de JohannArndt (1555-1621). reunia pessoas nos collegia pietatis (colégios de piedade). Em 1675. Ora. criticou a prática do Batismo de infantes e exigiu uma experiência de conversão.a palavra e os sacramentos. Voz do atalaia de Sião. o pietismo foi o maior dos preparadores da Modernidade. Ambas estão centradas no indivíduo. nem um pietista precisa renunciar à Ilustração. reformar a vida. Schiller. a tônica sempre foi que a renovação da sociedade dependia da renovação do indivíduo. Esta obra servia de prefácio a uma reedição do sermonário de Arndt sobre os evangelhos. Foi isso que o pietismo acabou fazendo. o pietismo acentuou a recepção do Espírito Santo e a experiência religiosa. Já em Tübingen.15 dado ao "sentimento" vem do pietismo. Neles se tem a verdadeira igreja. nos quais se discutiam o sermão dominical. não foi por acaso que importantes figuras da Modernidade se originaram no pietismo. Além de Arndt. Como.13 Segundo os pietistas. desde 1666. no entanto. viu-se confrontado com a pergunta: Como separar o Espírito de outros "espíritos"? Felipe Jacó Spener já propusera o uso da razão para tal. recebera influências da mística medieval. na catequese e na pregação. Kant. 0 ideal de perfeição. Se observarmos essa última questão e a juntarmos aos demais aspectos que já enumeramos. os Quatro Livros sobre o Verdadeiro Cristianismo já haviam tido mais de cinqüenta edições e haviam sido traduzidos para quase todas as línguas européias. o pietismo acentuava a necessidade de renovação do indivíduo. Por isso o pietismo acentuou a educação. Além disso. na qual o autor lamentava a falta de acento no novo nascimento na teologia ortodoxa contemporânea. Vejamos algumas das características do pietismo. em conseqüência. Já o pietismo acentuou o lado "subjetivo": a congregação. um luterano ortodoxo que. Friedrich Daniel Schleiermacher (1768-1834). baseou sua teologia no "sentimento de dependência absoluta". Jean de Labadie{\ 610-167'4). obra também conhecida pela formulação latina Pia Desidéria. Em 1675. Como a igreja centrada em palavra e sacramento estava ligada ao Estado. Fichte e Schleiermacher. ao criticar o que chamava de formalismo da ortodoxia. Spener teve influências do puritano inglês Lewis Bayly. De sua lavra são as obras Quatro Livros sobre o verdadeiro Cristianismo (1605) e O Pequeno Jardim do Paraíso (1610). 0 acento na renovação ética gerou uma série de iniciativas para a renovação da sociedade. dever-se-ia manifestar em renovação espiritual e ética. Importava. leu e discutiu a obra de TheophilGrossgebauer{ 16271661). Spener redigiu Desejos Piedosos ou Sinceros Desejos de uma Reforma da Verdadeira Igreja Evangélica. não precisa deixar de ser pietista.

Por trás dessa idéia estava uma visão social do mundo que tem suas raízes na convicção de que o reino de Deus tem uma ação eficaz entre os seres 5 O conceito. negando-se a reconhecer como válidas as atividades ministeriais de sacerdotes e bispos de mau-caráter. ênfase na história e na natureza como lugar de revelação. Após o mestrado em Filosofia. Nela criou a primeira escola de formação de professores dos tempos modernos. Havia interesse por História e Biografia. Natural de Lübeck. Mas apareceu também uma forte tendência ecumênica quando foi acentuada a primazia da vida renascida sobre a doutrina. crendo. pastor em Glaucha.Pgs 16 . encontramos os ecos do pietismo: ênfase na ética. designa aqueles cristãos que não aceitavam nem a autoridade papal tampouco a autoridade da Bíblia. no qual era feita exegese bíblica com critérios científicofilológicos. de modo que. A unidade da igreja não estaria mais dada na doutrina. Spener produziu seus textos após a Guerra dos Trinta Anos.reforma do estudo teológico como forma de renovação da igreja. O que isso tem a ver com a Ilustração? Na Ilustração. o pietismo poderia servir-lhe de aliado. o pietismo recebeu um impulso decisivo com a criação da Universidade de Halle. por um evento que deveria ser provocado por Deus. consolo e vida santificada. 5 . 0 novo nascimento foi um aspecto que influenciou toda a teologia do pietismo e foi ponto de partida para o perfeccionismo. Chamou Spener para ser pastor em Berlim e convocou Francke para ser professor na Universidade de Halle e. Complementou sua formação com estudos no campo da Filologia. 4 . a tristeza e o desassossego do coração foram tomados. que só poderia vir a ser superada por um novo nascimento. A conversão. perto de Halle. ou o novo nascimento. Pude chamar a Deus não só de Deus. Essas palavras de Francke foram citadas muitas vezes e são tidas como um modelo de "conversões pietistas". no Norte da África.19 e às línguas orientais. A oposição entre mundo e salvação era tão grande. A Prússia estava em luta com a ortodoxia luterana. 3 . em regime de internato. mas de meu pai. ênfase na Antropologia sobre a Teologia. ênfase no indivíduo sobre o comunitário. Tinha conhecimento teológico. com coragem. uma pregação a respeito de João 20. 2 concretização do sacerdócio de todos os crentes por meio do estudo da Bíblia. porém. De uma vez. Sua atividade provocou escândalo na Universidade. em 1667. Por isso os pietistas passaram a ler a Bíblia como uma ata da vida da igreja antiga e não mais como um compêndio de doutrina. 6 . Ecos donatistas4 fizeram-se presentes quando foi afirmado que somente aquele que é um cristão verdadeiro pode levar outros à fé. A partir dessa escola surgiu uma série de instituições dedicadas à pobreza. Pgs 18 . originário do século XVI. porém. que lhe proibiu a docência. louvei e dei glória a Deus.17 toda a Bíblia. e para que. fui cumulado com uma torrente de alegria. recebida diretamente do Espírito Santo. descobriu que não possuía fé. Francke começou a criar círculos de piedade. fundou em Leipzig um Collegium philobiblicum. foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo. que me demonstrara tal piedade. Em Leipzig. . tenhais vida em seu nome" -. especialmente dedicando-se às línguas antigas 4 Designação de tendência existente no cristianismo que tem sua origem no século IV em Cartago. Entre os principais representantes dos entusiastas está Tomás Müntzer. ao mesmo tempo.31 -"Estes. repreensão. assim haviam desaparecido minhas dúvidas. em associações paralelas ao culto da comunidade.centrar a pregação na edificação.exortação a clérigos e a leigos para que passem de um mero conhecimento da doutrina para uma prática da fé. A base de todas as instituições que Francke viria a criar foi a idéia de que era necessária uma reforma de todas as condições de vida do ser humano. Ajoelhou-se. Durante o curso teológico. Ali o bispo Donato exigia rigorismo na vida cristã. passando a haver santidade de vida.redução das controvérsias e debates teológicos e confessionais. orou e foi ouvido. Francke logo criou uma escola para pobres. Em Halle. nessa luta. Quando preparava. mas apenas a iluminação. mas seu coração estava vazio. passou a ser o centro do aconselhamento pastoral pietista. Escreveu a esse respeito: Pois assim como se vira uma mão. ensino. Francke estudou Teologia e foi influenciado pelos escritos de Arndt. Essa crise veio acompanhada do desejo de ser libertado das dúvidas. eu. o Filho de Deus. August Hermann Francke (1663-1727) Em 1694. Em Glaucha. Em meu coração eu tinha a certeza da graça de Deus em Cristo. Nela desenvolveu-se toda uma teologia pietista. dedicou-se a um estudo intensivo da Bíblia. Foi o que a Prússia fez. mas no estilo de vida. A ortodoxia luterana voltou-se com todo o vigor contra o grupo de "entusiastas"5 que começava a surgir na Alemanha. Talvez o pietismo teria se transformado em uma seita se o Estado prussiano não se tivesse adonado dele. atuou o homem que podemos denominar de "Pai do Pietismo Prussiano": August Hermann Francke.

de quem já falamos. Tanto a escola como a farmácia e a livraria foram apenas algumas dentre as inúmeras atividades de Francke. Nietzsche (1844-1900). com o calvinismo e o jansenismo. para a qual forneceu os primeiros missionários. e foi permanentemente influenciado pelo fervor missionário do pietismo dessa cidade. filósofo e pregador ético que ataca os valores da sociedade burguesa. mas na relação pessoal'com o salvador: Sem Jesus eu seria ateu. A partir 6 Pgs 21 . Desde 1721 a serviço do governo da Saxônia. A farmácia veio a ter renome internacional.22 daí. Teologicamente. Reduzindo os custos de impressão. O pietismo de Herrnhut ficou conhecido por sua atividade missionária. De 1710 a 1716. em Halle. Para manter suas instituições. . Em 13 de agosto de 1727. Além disso. no Caribe.Pg 20 humanos: o ser humano é um indivíduo chamado por Deus para o serviço ao próximo. como nos revela sua interferência na possessão dinamarquesa de Saint Thomas. Em 1760. No ano seguinte. missionários viveram em quilombos e deixaram-se reduzir à escravidão. nas quais também havia o lava-pés. A maior contribuição de Francke para o protestantismo moderno está no fato de haver substituído a dogmática confessional pela prática cristã. Nicolau Luís. já havia mais de duzentos missionários de Herrnhut atuando mundo afora. Religião e pensamento racional pertencem a níveis distintos. em Augsburgo. permitiu que refugiados morávios se estabelecessem em sua propriedade -Herrnhut. pietistas. atividade desenvolvida pelo Estado dinamarquês. 0 grupo logo foi acrescido de outros grupos religiosos. Foram estabelecidas novas formas de celebração e de devoção. na Alemanha. em 1722. Zinzendorf recebeu a incumbência de zelar pelo bem-estar dos refugiados protestantes expulsos dos territórios dos Habsburgos. Não é difícil afirmar que entre os herdeiros de Zinzendorf vamos encontrar Schleiermacher. passando por sérias di 7 Os morávios são um grupo cristão dissidente que tem suas origens em João Huss. Em seu todo. professor da Universidade de Praga. e a conversão datável recebeu nele maior importância do que a autoridade tradicional. mas também tradições dos irmãos boêmios. ainda largamente em uso. Colocou a Bíblia no centro da experiência religiosa. e a Comunidade Morávia Herdeiros do cristianismo dissidente do período medieval. e Bultmann (1884-1976). continuou a acentuar a doutrina luterana da oferta da graça a todos os seres humanos. ágapes. porém. Temos aqui o acento no ponto de vista antropológico-psicológico tão importante para a Ilustração. essa comunidade de diferentes experimentou o que chamou de "novo pentecostes". todos subscreveram a Confissão de Augs-burgo7. Em Wittenberg. a Bíblia veio a se tornar realmente popular. Credo apresentado por príncipes e cidades luteranas. Ainda quando jovem. Ali. teve a certeza de que colocaria sua vida a serviço de Jesus. os morávios6 tiveram seu movimento revitalizado e reorientado pelo Conde Nicolau Luís de Zinzendorf (1700-1760). perdeu seus direitos civis. viajou pela Europa e deparou-se com os primórdios da Ilustração. Entre essas pessoas atéias situava tanto os racionalistas como os luteranos ortodoxos. Conde de Zinzendorf. teólogo que defendeu uma leitura existencial da Bíblia ao mesmo tempo em que exigia a demitologização de seu texto. como no caso de Friedrich Martin. segundo tradição do grupo. freqüentou a escola de Francke. passou a afirmar que todas as tentativas de comprovar religião a partir de "provas" da existência de Deus ou a partir de uma "teologia natural" são falhas. a meditação diária sobre uma palavra bíblica ou sobre alguma estrofe do livro de cânticos. A comprovação dessa conversão era feita mediante um compromisso de dedicação em favor do próximo. como seguidores de Caspar Schwenckfeld (1489-1561). em Tranquebar. Por meio dessa atividade. porém. Por isso chegou à formulação: Quem tem Deus na cabeça é um ateu. novo nascimento. conseguiu-se distribuir mais de dois milhões de Bíblias somente no século XVIII. Do encontro com o racionalismo chegou à conclusão de que a inclinação natural do ser humano é pelo ateísmo. Devemos acrescentar aqui os primórdios da missão no sul da índia. Impressionante é sua intervenção em favor dos mais humildes. Dessa tradição originaram-se as Senhas Diárias. Ali criou um sócialismo peculiar. com a exigência de uma conversão pessoal. condenado à morte na fogueira pelo Concílio de Constança em 1415. luteranos e calvinistas. o pietismo de Francke ficou restrito à Prússia. Este. cursou Direito. Zinzendorf elaborou uma constituição para o grupo. Depois. separatistas. ao imperador Carlos V. No ano de 1727. em 1530. não se baseia na razão. Francke fundou em Halle a primeira sociedade bíblica alemã (1710) juntamente com Carl Hildebrand von Canstein (1667-1719). Zinzendorf cresceu sob a influência de Arndt e Spener. Francke criou uma farmácia e uma livraria. aprofundando-a. Além disso. ao casar com uma negra chamada Cristina Rebekka. Foi tomado como exemplo o modelo da comunidade primitiva. pastor que o batizou. A religião cristã é religião do coração.

Não foi pedido o final da escravidão. 0 Estado e a cultura haviam se emancipado da religião. da cristandade. nos quais cristãos deveriam viver. na presença de oficiais dinamarqueses. No século XVII. filosofia. através dos tempos. não diminuiu o valor da obra. Por isso falamos em movimentos transconfessionais. que vai desde a mera referência até as devocionais e a veneração litúrgica. o regente Diogo Antônio Feijó solicitou aos morávios. onde. direito.24 ficuldades juntamente com a comunidade de escravos negros. comércio. com razão.8). de concepção de vida.32 e Fp 2. 0 pedido não foi atendido. pois pessoas que vivem numa mesma época recebem influências mútuas.26 e arte deixaram. mais tarde trazido para as Américas por europeus piedosos: o culto ao Sagrado Coração de Jesus. Mas tudo isso não impediu que Herrnhut viesse a assumir o papel de fermento no seio do protestantismo alemão. Mesmo que a interpretação dessas passagens tenha variado ao longo dos tempos. encontramos referências ocasionais ao coração de Jesus em Justino. o pietismo facilitou a vida de muitos cristãos. A teologia de Zinzendorf e de Herrnhut era o Salvador. reconheceu sua dignidade. Jo 19. Sua constituição estava totalmente determinada pelo espírito do reavivamento. É verdade que em cada uma delas vamos encontrar características peculiares. de modos de vida. Daí que ele pôde afirmar em certa oportunidade: Os filhos de Deus muitas vezes não têm uma moral tão perfeita como as pessoas do mundo. mas também foi uma resposta à situação cultural mais ampla. A partir do século XII desenvolveuse. Zinzendorf interveio no caso. Eles não querem ser mais do que são: pecadores agraciados.29. adquirido uma importância significativa entre os cristãos. Zinzendorf desenvolveu. tomando como ponto de partida as passagens neotestamentárias de Mateus. Determinadas esferas da vida passaram a ser vistas como particularmente religiosas. como podemos notar na barroca. Nesse contexto. 0 resto da vida seria secular. vale dizer que a comunidade de Herrnhut foi uma comunidade cantante. ciência. A cultura poderse-ia desenvolver ou fragmentar. surgiram aqui algumas aberrações. ao beijar a mão da escrava Cristina Rebekka. foram obras de leigos. Depois foi à Dinamarca. no século XIX. no entanto. eles não têm ambições heróicas de virtude e não buscam nenhuma forma superior de humanidade. Mas isso não era mais possível depois da Reforma e da Guerra dos Trinta Anos. Muito do que ele afirmou recebe hoje novos leitores. provocada pela lança do soldado romano. um culto místico à chaga do Salvador. mas a vida cristã seria possível por meio da apropriação pessoal de verdade religiosa. Sagrado Coração de Jesus 0 que descrevemos como pietismo não é propriedade do protestantismo. Aqueles dentre os seus hinos que entraram nos hinários protestantes fazem hoje parte de um tesouro inestimável da igreja. Zinzendorf sabia que ele e seus colaboradores tinham suas fraquezas. Ele rompeu com a aridez da ortodoxia e do confessio-nalismo. Assim vamos encontrar características do pietismo presentes no catolicismo romano. Herrnhut e as povoações semelhantes a ela. Trata-se de um sentimento que perpassa as diferentes confissões religiosas. Havia muitos aspectos e âmbitos não-cristãos. literatura Pgs 24 . surgidas em anos posteriores. onde entregou uma petição de escravos ao rei. no contexto da mística alemã. Estado. apenas a melhoria das condições. por exemplo. buscou-se reinstalar o antigo conceito do corpo cristão. de devoção e de disciplina pessoal. Esse culto tem profunda semelhança com o culto contemporâneo. um culto de caráter votivo e devocional. o coração de Jesus. Por vezes. Herrnhut não teve vida fácil. progressivamente. Agostinho e Paulino de Nola. É importante lembrar esse aspecto. Nesses conventos. Houve denúncias. emigrou do templo para a sala de concertos. Perseguições. Com Herrnhut atingimos um estágio do pietismo que corrobora o que até aqui dissemos a respeito desse movimento. sendo o próprio Zinzendorf expulso por duas vezes do território. de ser parte da civilização eclesial e buscaram novos parâmetros na vida das pessoas e da sociedade. No Brasil. que deve ser vista no contexto do mundo barroco. Com a internalização da fé e sua individualização.Pgs 23 . Começou a estabelecer-se um pluralismo de religião. elas oferecem-nos uma bela oportunidade de estudar o surgimento e o desenvolvimento histórico da prática devocional. Até a música. Na patrística10. . o que. Neles se evidencia aquilo que está no coração. João e Paulo (Mt 11. Quem mais se alegrou com essa possibilidade foram os ilustrados. Outros aspectos foram esquecidos. por isso não podemos encontrar em sua obra nada daquele pietismo vulgar com suas estreitezas burguesas. A expressão coração de Jesus t a devoção do sagrado coração de Jesus tem. que iniciassem uma missão entre populações indígenas. dirigindo-se a Saint Thomas. especialmente em conventos femininos.

em Emile ou Tratado sobre Educação. Por meio de seu confessor. Deus criou o mundo e os seres humanos. expressou isso para os alemães em seu livro A Educação da Raça Humana. A mística proveniente de Bernardo de Claraval foi assumida pelos luteranos Paul Gerhardt e Nicolau de Zinzendorf e pelo calvinista Gerhard Tersteegen. Ela só foi concedida por Clemente XIII em 1765. Confessa Deus como criador do universo. Devocionais de carmelitas do século XV apresentam-nos o menino Jesus ora sentado no coração traspassado. ergosum (Penso. As cidades mercantis. Na Inglaterra. Leão XIII elevou a festa à categoria de officium duptexóe primeira classe e aprovou a ladainha do coração de Jesus. filósofo e poeta alemão. originalmente. Foi na Holanda que aportaram os intelectuais refugiados de toda a Europa. A reflexão pragmática e racional também se fez presente na análise de sociedade. passaram a ter consciência de sua importância e passaram a valer-se de critérios racionais e não-religiosos em sua economia. no entanto. sem. a devoção do coração de Jesus encontrou seus principais difusores entre os sacerdotes da Companhia de Jesus. Também não procura relação pessoal com ele. o filósofo francês René Descartes (1596-1650). No Brasil. Bastaria investir na educação. porém. cujas raízes estão na França. A veneração do coração de Jesus. por três vezes. 0 que Francke iniciara em Halle teve continuidade nos centros de formação de professores. desde a encíclica Miserentissimus redemptor. leitura histórica da Bíblia. A veneração do coração de Jesus também encontrou aceitação entre as denominações cristãs oriundas da Reforma do século XVI. obteve autorização diocesana para celebrar a festa do coração de Jesus. sendo entendida como amor ao Deus encarnado. Enquanto. Ali. chamar esse Deus criador de Pai. Pgs 28. Em 1794. discípulo de jesuítas. filósofo e pedagogo. 0 acento na experiência prática possibilitou o avanço da ciência e da tecnologia e do uso racional dos recursos da natureza.29 Ilustração A Ilustração funcionou como eco e deu destaque a muitas ênfases pietistas: orientação para o futuro. João Eudes. Diversos hinos cantados por luteranos e calvinistas dão testemunho disso. e o também suíço JohannHeinrichPestalozzi'(17'46-1827). a conceder autorização à festa do coração de Jesus. Mas houve também outros fatores históricos fundamentais para o surgimento da Ilustração. política. La Colombière. Ocorreu então o surgimento de orações ao coração de Jesus. um discípulo da Companhia de Jesus. produzindo também vasta literatura a seu respeito. fê-lo na sua obra Como Gertrudes Ensina seus Filhos. As experiências feitas na guerra de emancipação contra a Espanha fizeram da Holanda um chão propício para a gestação do primeiro sistema filosófico moderno. logo sou). de Pio XI (1928). teve início com as visões de Maria Margarida Alacoque (1675-85). Não se olhava mais para o passado com seus modelos clássicos. os jesuítas tornaram-se promotores da moderna veneração do coração de Jesus. Passou-se a pintar e a imprimir miniaturas do coração de Jesus. colocou a dúvida radical como princípio do conhecimento e do autoconhecimento: Cogito. na condição de primeira causa de tudo o que existe. e o lamento de Jesus acerca da falta de gratidão e de desprezo de seu amor. Esta salesiana afirmava ter visto o coração de Jesus envolto em espinhos. A Filosofia deixava de ser "serva da Teologia" para tornarse uma ciência autônoma. passou a ocupar o centro da mística da paixão. mas deixa . direito e nas constituições dos países. pai da pedagogia moderna. é ressaltada a temática do amor. mas para o futuro da humanidade. por amor. mas também entre os frades capuchinhos franceses.Pgs 26 . centralidade da experiência humana. Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781). ora carregando o coração de Jesus para a cruz. cristianismo não-dogmático. geralmente traspassado e apresentado ao lado dos outros três estigmas de Cristo. a devoção estava mais determinada por elementos expiatórios. as discussões teológicas e confessionais levaram a pensar que a razão era mais importante do que disputas religiosas.o suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).27 envolto pela coroa de espinhos. Daí resultou o 11 O deísmo opõe-se ao ateísmo e expressa crença no divino. fazendo dela a primeira pátria da Ilustração. Em 1670. fundamentada em observações empíricas e em princípios racionais. Em 1899. enriquecidas. 0 ser humano seria capaz de tudo. o Sínodo de Pistóia manifestava-se contra ela. Roma negou-se. 0 jansenismo e o racionalismo opuseram-se a ela.

existem falsos testemunhos acerca de milagres. Não há nada que as sustente. feita por Hume. por isso. A experiência humana é que.liberdade moral. Para Voltaire.Deus. Hume ousou afirmar que a religião não tem qualquer base ou fundamento. apresentou o ideal de uma educação elementar racional de acordo com a natureza. a eliminação das desigualdades entre as nações. sempre de novo. a cultura. Durante quase três anos. 2 . Se há harmonia. Na tentativa de harmonizar razão e revelação.deve-se deixar o erro de lado e fazer o bem. foi fatal: a religião só desvia a atenção do ser humano daquilo que realmente acontece na vida. estes passaram a ser meros discursos morais: "A pessoa virtuosa se levanta cedo. um ideal: o Estado baseado na ordem natural de uma democracia. no futuro. julgavam necessário em razão da crescente diversidade e pluralidade do cristão. obra maior do racionalismo francês. da harmonia da natureza e do senso comum da humanidade. filósofo inglês.Deus deve ser servido. em decorrência. o Estado e a religião a pervertem. 3 . por que seriam necessários milagres? Além do mais. Denis Diderot ( 1713-1784) e Jean d'Alembert{ 1717-1783) editaram. seria necessário inventá-lo".deve-se esperar recompensa divina aqui e no além. No Contrato Social. não há evidência histórica para o "senso comum" da humanidade. Joana D'Arc. assim que qualquer pessoa pudesse aceitá-la e viver a partir dela. Em poesia blasfemou contra a santa nacional. Com isso. os deístas reduziram o cristianismo ao que consideravam ser essencial nele. A proposta era simples: 1 . milagres. contudo.Pg 30 deísmo" com proposições que buscavam um fundamento sólido para a religião. por isso as mulheres foram cedo ao sepulcro de Jesus na manhã da Páscoa. A crítica derradeira à religião. Para Hume. considerados inautênticos. 2 . Segundo ele. As verdades metafísicas e teológicas não são lógicas nem derivadas. e fé não é nada. Ou se podia afirmar com John Locke (1632-1704). a pessoa é boa ao nascer. Esse otimismo se expressa em duas obras de Jean-JacquesRousseau-(1712-1778). as verdades da fé jamais podem se opor à razão. Para eles. dos bons costumes e ajuda a prevenir a anarquia. por tolerância e por direitos humanos. A crítica mais contundente à religião. Também o argumento do senso comum Pg 31 . no século XVIII. foi um dos pioneiros na luta pela liberdade de opinião. tampouco passíveis de teste na experiência empírica. apenas leva a debates e provoca rancores e perseguições. Submetidos à razão. Ilustração alemã 8 A expressão "antigo regime" refere-se à forma de governo monárquica existente na França antes da Revolução Francesa. Em seus escritos. A Bíblia deixava de ser vista como testemunho a respeito da revelação na história. a igualdade dos povos e a perfeição da humanidade. Quer dizer: verdade metafísica e verdade teológica são lero-lero. virtude e moralidade. em escritos rejeitou a teodicéia'3. outro filósofo inglês. Ela baseia-se na fé. Em Émi/e. como John Locke. Milagres nada mais são do que auto-sugestão enganosa. Hume fez uma crítica radical a essa argumentação. foi profunda a inimizade entre religião e ilustrados. 3 . mas também à glorificação da razão. Sua preocupação com salvação é estreita e egoísta. Por isso ele escreveu: "Se Deus não existisse. onde a igreja esteve profundamente ligada ao antigo regime8. sua atuação cheia de falsidades e truques e sua falsa moral nada refletem de senso comum. Levantemo-nos cedo. sejamos virtuosos!". apresentou. foi feita por David Hume{ 1711-1776). para atacar a Igreja Católica Romana.imortalidade.existe um Deus. François-Marie Voltaire (1694-1778). Ela também podia se resumir a algumas palavras: 1 . Foi por isso que leram criticamente a Bíblia. Na Encyclopaedia está presente todo o fascínio relativo ao progresso das ciências naturais: o progresso das ciências naturais e o crescente controle sobre a natureza trarão. 5 . a cujo serviço está a religião civil. típico representante da Ilustração francesa em sua primeira frase. Dizia ele que milagre e harmonia da natureza se excluem. mas a sociedade. Na França.32 não é aceitável: os deuses primitivos nada mais são do que uma crassa revelação antropomórfica. Houve um reducionismo que. Com esta frase voltava-se contra a nova geração de pensadores franceses que negava a existência de Deus. Milagres são contrários à experiência humana. Valeu-se de conceitos dos deístas ingleses. Se para os deístas a fé cristã era racional em função dos milagres. . que o cristianismo se baseia em tolerância. Quando os teólogos aplicaram os princípios deístas a seus sermões. Deus é um pressuposto importante para a preservação da moral. da Prússia. ressurreição e Trindade foram inacessíveis para ela e. atacou os argumentos deístas que buscavam comprovar que o cristianismo era racional. 4 . o conhecimento vem da experiência empírica.tal serviço acontece por meio de virtude e piedade e não do rito. viveu na corte de Frederico II o Grande. 35 volumes da Encyclopaedia. vendo nela uma fonte para o estudo da história e da moralidade da Antigüidade.

Para que haja essa harmonia. em conseqüência. em suas universidades e nas cortes. Leibniz também se aventurou no campo da teodicéia. Reimarus faz observações críticas a respeito da autoria dos escritos bíblicos. Estes pares devem ser vistos em harmoniosa conexão. Aqueles que atuavam no ministério da pregação buscavam apresentar uma interpretação socioética do Pgs 35 . 0 filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) é um exemplo para o que vínhamos dizendo. Na Ilustração alemã. Quando publicou os Fragmentos. Os ataques do pietismo à ortodoxia prepararam o caminho para as sugestões práticas de reforma que seriam feitas pela Ilustração. Jesus passou a ser o grande mestre da sabedoria e da virtude. Antes se pode falar aqui de uma relação de complementaridade. Quase todos os principais representantes da Ilustração alemã são. A partir das experiências feitas na escola pietista devem ser entendidos sua aversão à emoção religiosa e seu . depois eficazmente aplicado a todos os textos históricos. A verdade da religião verdadeira manifesta-se em sua experiência e em sua prática. mais e mais o cristianismo foi reduzido à moralidade. a bondade e o poder de Deus. Na base das razões históricas está a Guerra dos Trinta Anos. Nesta escola. Em contrapartida.Pgs 33 . Quando falira o messianismo político de Jesus. Kant ingressou aos oito anos em uma escola pietista. um precursor da Ilustração que quebrou as cadeias do erro. de 1780. a ortodoxia foi ridicularizada. os testemunhos históricos acerca da revelação não produzem certeza e garantias. cultural e religiosa da região fez com que a Ilustração alemã se desenvolvesse. que publicou os Fragmentos Anônimos. descobriu e viu-se confrontado com o aspecto mais negativo do pietismo: legalismo e hipocrisia. Esta guerra impediu o desenvolvimento dos territórios alemães. cada um dos três filhos . As religiões históricas são estágios do divino processo de educação. entre corpo e alma. tanto a católica como a protestante. é necessário que se distinga entre verdades eternas e verdades atuais. Trata-se de A Educação da Raça Humana. que trata de justificar Deus face ao mal que há no mundo. Além disso. dessa maneira. Tal redução atingiu seu auge em ImmanuelKant{ 1724-1804). professores universitários e grupos dirigentes do absolutismo esclarecido. se comparado ao do restante da Europa. partidário do deísmo inglês e leitor crítico da Bíblia. Nelas não há contradição entre revelação e razão.36 cristianismo. de Natã. aponta para contradições existentes nos evangelhos e levanta a tese de uma origem fraudulenta do cristianismo. entre razão e revelação. a Teologia teve que desenvolver o método histórico-crítico de leitura dos textos bíblicos. Dois são imitações perfeitas do autêntico. Pode-se também dizer que a Ilustração alemã não teve aquela postura crítico-destrutiva em relação à igreja. e Nata. A principal delas veio de outro pensador alemão. 0 que aconteceu foram ataques sem fim contra ele. a relação entre revelação e razão não está repleta de tensões e de oposições assim como no restante da Europa. Teólogos que acompanharam a reflexão de Leibniz buscaram apresentar um cristianismo não-dogmático. Como não conseguimos mais dizer qual é o anel autêntico. Mesmo que. de 1779. Na parábola do anel. Este teria sua origem em uma grande fraude dos discípulos. Cuidado: do erro. Com o apoio de seu pastor em Konigsberg (hoje: Kaliningra-do). Na Alemanha. não do pecado! Mas a Ilustração alemã não ficou só nisso. o Sábio. basicamente. pois para a razão essas verdades são conceitualmente necessárias.34 A Ilustração alemã tem que ser tratada à parte da Ilustração no restante da Europa. a revelação seja subordinada à razão e a Teologia à Filosofia. cujo objetivo é a verdadeira religião do amor e da razão. também conhecidos como Fragmentos de Wolfenbüttel. os discípulos fabricaram a ressurreição para sobreviver a seu desapontamento e para ser aceitos pelo mundo. A divisão política. Das primeiras verdades fazem parte a geometria. buscando tornar a questão da teodicéia plausível por meio da tese de que este nosso mundo é "o melhor de todos os mundos possíveis". entre Filosofia e Teologia. Esses Fragmentos são da autoria do alemão SamuelReimarus (1694-1768). Houve também considerações críticas em relação à igreja. o judeu e o islamita -deve viver como se o anel do pai tivesse sido dado a ele. que podemos encontrar na Inglaterra e na França. o Sábio. há três anéis. pietismo e Ilustração surgiram quase que simultaneamente nos territórios alemães. há uma ordem maior que pode irromper por intermédio das leis da natureza. 0 mal está baseado no fato de que o ser finito é restrito. Vemos nessas formulações que Leibniz tem uma visão otimista do mundo: pecado é apenas o bem imperfeito. Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781). Ele buscou comprovar a compatibilidade entre fé e razão.o cristão. Contudo a razão reconhece o bem e o divino como estruturas essenciais do mundo. em territórios protestantes. a sabedoria. mas ético. Em seu decurso. Há razões históricas e teológicas para a peculiaridade alemã. o próprio Lessing nos dá conta de sua própria posição. Segundo Lessing. Em dois escritos. Suas origens estão no pietismo. Em seus textos. Lessing pensou que estava desencadeando uma discussão construtiva acerca da essência do cristianismo.

o papado tornouse politicamente tão desinteressante. valeu-se de seu velho catecismo. a Erasmo e a Armínio. para se poder crer. Desde os dias de Luís XIV (1638-1715). por isso posso". Para escrevê-la. ele disse por isso que. que deve ser imitado pelas pessoas. uma autonomia que é obediência à lei interna da razão. que somente após 255 escrutínios e quatro meses de conclave foi possível eleger Bento XIV (1740-1758). a razão pura? 0 próprio Kant complica sua visão otimista do ser humano ao não resolver o problema do "mal radical". ter fé. Inclusive a razão deve ser submetida à crítica. e em decorrência da intervenção de Voltaire em prol da tolerância. somente a graça. a religião é um sistema moral. professor de Filosofia em Heidelberg e em Berlim. a Igreja Católica Romana experimentou retrocessos em sua influência política.Pg 37 distanciamento de oração. Para fazer o bem. submetida à crítica. Sua principal obra teológica foi escrita aos setenta anos: A Religião Dentro dos Limites da Simples Razão. Todos os temas teológicos são lidos a partir delas: Jesus Cristo não é um redentor. A fé racional de Kant baseia-se na "razão prática". abordou a estética. tomou o conhecimento como critério da religião. para poder obter a coroa polonesa. somente a fé. 0 que fazer nesse caso com a sola ratio. falou da natureza do bem. Para Kant. Mas Kant não conseguiu resolver um problema: o que fazer com o "mal radical"? Em sua radicalidade. na moralidade. Deus não desce ao ser humano. Kant não tinha grande interesse na leitura de teólogos contemporâneos. Na primeira. a situação começou a se alterar. Isso fez dele o campeão da crítica. Qualquer pessoa sensível pode verificar a verdade do imperativo categórico ("Eu devo. Conversões ao catolicismo. . e essa autonomia é destruída por aquilo que na fé cristã se denomina de graça. para exercer moralidade. discorreu sobre a validade e os limites do conhecimento. Tudo deve ser submetido à crítica: "Ousa ser sábio!". Em Kant. Fatos semelhantes aconteceram nos territórios dos Habsburgos.39 divina. A fé eclesiástica não acompanha a razão pura. todos os protestantes foram afastados de cargos públicos. Seus conselhos não eram aceitos. é necessário colocar o conhecimento de lado. o tema da religião é a moralidade. sendo acolhidos pela Prússia. Schleiermacher. o mal é irracional. Toda forma de heteronomia e teonomia imposta por pais. 22 mil protestantes tiveram que deixar o bispado de Salzburgo. Tudo é dever. foram pequenos. Kant pôs seu pensamento filosófico em três obras: Crítica da Razão Pura (1781). e nas casas de Württemberg (1713) e de Hessen-Kassel (1749). Viu-a mais como uma destruição do cristianismo e da religião. na terceira. Comparados com os sucessos da Contra-Reforma14. Se para os reformadores as boas obras brotam da graça. cântico sacro e cultos religiosos. para que possa ter certeza de si mesma. Este forneceu-lhe as lembranças do cristianismo. em Toulouse. 0 ser humano não pode ser responsabilizado enquanto não for considerado capaz de fazer algo na situação em que se encontra. Na Polônia. o ser humano deve subir em direção a Deus. Kant pôs fim aos princípios básicos da Reforma do século XVI: somente Cristo. Se essa era a situação no tocante à política mundial. como a de Augusto. não provocaram alteração na situação confessional da Alemanha. Nas décadas que precederam a crise provocada pela Ilustração. Também a fé e o dever fazem o bem. a humanidade não é livre. igreja ou Deus tem que ser criticada. esses. a influência política dos papas foi nula. mas afirmou que não há argumentos teóricos que possam provar sua existência. voltaram a ocorrer perseguições a huguenotes nos anos de 1724 e 1743-52. Na realidade. Ao limitar o cristianismo à moralidade. com as quais então discutiu. atingindo populações protestantes na Silésia e na Hungria. Hegel (1770-1831). sociedade. Na França. Se Deus perdoa. Kant lutou por autonomia. somente a Escritura. Na Crítica da Razão Pura. na segunda. príncipe-eleitor da Saxônia (1697). mas um arquétipo moral de vida Pgs 38 . 0 ser humano é autônomo. Seus estudos teológicos foram mínimos. "vontade" e "sentimento" determinaram o pensamento teológico da geração que o seguiu. o catolicismo tinha pouquíssima influência política. mas também no tocante à sua teologia. Kant alia-se a Pelágio. Kant começa com as boas obras. não se necessita de igreja. Em conseqüência. 0 filósofo de Konigsberg não negou a existência de Deus. utilizando-a para a repressão ou conversão de minorias protestantes. Crítica da Razão Prática (1788) e Crítica do Juízo (1790). A Ilustração e a Igreja Católica Romana A teologia católico-romana pouco se abriu à Ilustração. baseado na máxima: "Eu devo. Em 1731. no entanto. a experiência. Deus não pode ser conhecido pela razão. Por ocasião da execução de Jean Calas (1762). por isso posso") e praticá-lo. é importante que se diga que a igreja de Roma continuou a ter certa influência na política interna de alguns países. As distinções feitas por ele entre "conhecimento".

Anton B/au. o racionalista protestante Paulus para ser professor de Exegese Bíblica em sua universidade. Apesar de todos esses fatos. afirmou a independência do concílio geral em relação ao papa e destacou que o curialismo seria o grande impedimento para a união com os protestantes. Teólogos católicos alemães do período mostram um interesse especial pela divulgação de Bíblias. que durante os dias da Contra-Reforma fora um filho dileto de Roma e um campo de grande atuação dos jesuítas. Também no seio do catolicismo alemão a Pg 42 . bispo auxiliar de Tréveris. em algumas ordens religiosas. que foram necessários 265 escrutínios até que Pio VI fosse eleito. o advento da Ilustração transformou-se em ódio contra a Igreja Católica e contra os jesuítas. das tendências da época. No seio do povo. As ordens. Quando a Ilustração aliou-se ao despotismo nesses países. O século XVIII conheceu a fundação de apenas uma nova ordem religiosa: a dos redentoristas [Congregatio Sanctissimi Redemptoris). José II [ \ 780-1790) promoveu reformas profundas no catolicismo. a maior parte do clero seguia a tradição eclesial. Por volta de 1800.1832). seguindo a Ilustração. Na teologia católica da época. o professor de Dogmática da Universidade de Mainz. pressionado pelos governos Bourbons. Em 1768. mas também esses desaparecem com o advento da Ilustração. 0 professor de Direito Canónico Adam Weishaupt. Chamavam-nos de defensores de "crendices". Bispos alemães passaram a desenvolver uma política eclesial contrária a Roma. ainda podem ser encontrados alguns nomes de expressão. Representante do "absolutismo humano". 0 autor da obra. nota-se um abrandamento de afirmações dogmáticas. retratou-se em 1778. Ponto de partida para a intervenção de Pombal foi o levante dos índios Guarani dos sete povos das missões no atual Estado do Rio Grande do Sul. Se nos países de fala românica o catolicismo perdia com a proibição da Companhia de Jesus. Sua moral era considerada perigosa para o Estado.43 Ilustração se manifestou. publicava sua História crítica da infalibilidade papal. 0 celibato e a vida conventual mereceram descrédito. Febronius contestou a tese de que o primado na Igreja Católica teria que estar ligado ao bispado de Roma. Houve círculos em cujo meio a piedade passou a ser interiorizada. na Alemanha. mas o impacto da obra permaneceu. na qual também atuariam professores protestantes. Em 1763. Outro importante centro de piedade católica estabeleceu-se em Münster. foram expulsos de Parma. Em 21 de julho de 1773. Na Alemanha. Na Áustria. Em 1786. Especialmente nos países de fala românica. da Universidade de Ingolstadt. a Ilustração fez surgir o episcopalismo e aparecer uma tendência de enfraquecimento do especificamente católico nas concepções dogmáticas e na vida eclesial. pastores evangélicos e padres católicos substituíam uns aos outros nos serviços eclesiais. teve início a expulsão dos jesuítas de Portugal e de todas as colônias portuguesas (1759). na Westfália. os jesuítas foram expulsos da Espanha e de Nápoles. deu ênfase à mística. Também houve catástrofes em meio a essa situação difícil. passou-se a afirmar o comum a todas as denominações cristãs e a abertura para a crítica histórica. passou a divulgar o deísmo. Frederico II da Prússia e Catarina II da Rússia deram asilo à ordem. Em 1767. declarou a extinção da Companhia de Jesus pelo breve Dominusacredemptornoster. fundando para tanto a Ordem dos Iluminados. Em 1791. . decaíram. Após a morte de Clemente XVI. inimigos do progresso. A bancarrota de um jesuíta na ilha da Martinica levou o parlamento francês a condenar a Companhia de Jesus ao pagamento das dívidas daquele empreendimento e declarou a regra da Companhia de Jesus incompatível com as leis do país.Pg 40 . As diferenças confessionais foram minimizadas.41 Os retrocessos na influência política de Roma foram acompanhados por uma diminuição no vigor da vida eclesial. transferidos do controle espanhol para o português. Mainz e Würzburg formaram-se centros da Ilustração católica. Todos os demais países se negaram a recebê-la. a situação não foi muito diferente. A luta contra a Companhia de Jesus teve início em Portugal sob os auspícios do Marquês de Pombal. a Ilustração esteve muito mais presente no protestantismo do que no catolicismo alemão. a Companhia de Jesus sucumbiu indefesa ante as exigências desses déspotas. Johann Michael Sailer (1751 . em 1803. mantendo-se fiel ao dogma católico e sendo. Nikolaus von Hontheim. fundava-se em Bonn uma universidade livre-pensa-dora católica. a piedade tradicional continuava presente. enquanto o arcebispo de Würzburg convocava. Os ilustrados viam nos jesuítas os mais ferrenhos defensores das pretensões papais. a situação da Igreja Católica era tão deprimente. bispo de Regensburg. foi publicada sob o pseudônimo de Justinus Febronius a obra De statu ecclesiae et legitima potestate Romanipontificis. e foi ela que preparou futuros progressos no catolicismo. Em Colônia. É verdade que. aberto aos protestantes. ao mesmo tempo. Em 1764. o papa Clemente XIV (1769-1774). e principalmente sua atividade missionária. a ordem foi proibida na França. Com o massacre das populações indígenas.

proi-bindo-se o estudo no Collegium Germanicum em Roma. Pg 45 . Em 1799. Seu édito de tolerância seria aplicado no Brasil imperial. eliminaram paulatinamente as reformas josefinas. constataremos que ele absorveu muito de seu parente José II. As coisas complicaram-se ainda mais quando um discípulo radical de Hegel. O ultramontanismo é um movimento eclesial católico do século XIX na França. Essas duas datas são acompanhadas na História da Igreja e da Teologia pela publicação de duas obras de dois teólogos protestantes. rejeitando o liberalismo. descreveu o Deus-homem como um mito. KarlBarth publicou seu Comentário aos Romanos. sem roupas. Se observarmos a História da Teologia. convencionou-se denominar o século XIX de "o século longo". Bélgica. Leopoldo II' (1790-92) manteve a política do irmão. temos que afirmar que o século XIX é formado por uma série de movimentos teológicos defensivos. proibiram-se relíquias. Foi proibida a apelação a Roma. Seus sucessores. dividida. Mas então já nos encontramos no longo século XIX. A Ilustração e o incremento das ciências naturais formularam uma série de questões que tiveram que ser respondidas pelos que se ocupavam com a revelação bíblica. No direito matrimonial. Karl Marx disse que esse mito nada tinha de bom. Em 1919. porém.46 SÉCULO XIX Século longo Tanto na História como na Teologia. procissões. calvinistas e gregos. Se observarmos a política eclesial de D. exigido o placet do senhor territorial e a separação das ordens religiosas de seus superiores no exterior. 15 . apologéticos e reacionários. estabeleceu um édito de tolerância em relação a luteranos. pois era ópio que anestesiava a mente do povo. Pedro II no Brasil. Schleiermacher cristalizou-as nas perguntas: Será que o cristianismo será doravante associado ao obscurantismo? Será que o estudo das ciências naturais será identificado com descrença? Ser cristão significará sacrificar o intelecto? Ludwig Feuerbach mostrou a problemática na qual a Teologia se encontrava quando afirmou que a "rainha das ciências" estava despida. mas nada conseguiu. segundo os parâmetros da "razão". pois promovia uma estreita ligação do povo católico e de sua hierarquia como o episcopado universal do papa ultra montes ("além das montanhas"). pois Teologia nada mais é do que Antropologia. em 1914. em católico-romanos e protestantes e que ressurgira na Idade Média após os ataques dos bárbaros. David Friedrich Strauss.Pg 44 considerou-se no direito de regulamentar não somente as relações de Estado e igreja. 0 número de conventos foi diminuído em um terço. passou a ser permitido um novo casamento para divorciados. romarias. então pertencente à Áustria. Pio VI viajou a Viena (1782) para demover José II de suas intenções. grosso modo. No culto. não podiam ter torres ou sinos. aos quais foi dada equiparação civil aos católicos. figurando no parágrado 5 da Constituição do Império. e concluir com o início da Primeira Guerra Mundial. temos a afirmação romântica do liberalismo. houve levantes populares (1790). 0 clero passou a ser formado em seminários do Estado. Alemanha e Suíça. Em 13 de outubro de 1781. a imagem histórica que a fé fazia de Jesus parecia ruir ante a análise histórico-crítica. Friedrich Daniel Schleiermacher publicou Sobre a Religião: discursos dirigidos a seus cultos depredadores. completamente independente de Roma. Tanto a Revolução Francesa como a Revolução Industrial formularam relevantes questoes quanto à importância da igreja para a sociedade e para a cultura. A igreja ocidental. Nesses discursos. criticado pelos estados nacionais. mas também questões internas da igreja. José II procurou transformar a própria Igreja Católica em uma igreja nacional. porém. No seio do clero houve uma forte oposição. Seus templos. na Bélgica. em 1789. Com isso. Nessas duas datas encontram-se assinalados dois acontecimentos que marcaram decididamente a cultura do Ocidente e as igrejas cristãs. deixando-o iniciar com a Revolução Francesa.

Amém. mas livra-nos da revolução. mas contribuiu com o melhor que tinha para formá-lo. buscou poder político e participação nas decisões do mundo urbano. a administração. Hegel caracterizou o século XIX de "o século das massas". Surgiram problemas antes não existentes. Surgiu a República. venham os teus coletores de impostos. formou-se uma coletividade de massas que. Exemplo de sua força de expressão podemos encontrar no Pai-Nosso Proletário de 1835: Nosso soberano que estás na corte. ou ficar a pátria livre. Nos meios intelectuais. já que não podia destruí-lo. Povos dedicaram-se e devotaram-se a uma luta de vida e morte por suas pátrias: . defensiva. mas também despertou as massas. Além disso. . rei e pátria". mesmo que sob enormes sacrifícios para as populações. aconteceram a queda e o fim do Estado absolutista. Os conceitos liberdade. desfraldou a bandeira da liberdade. o protestantismo. os anos ao redor de 1800 são essenciais na história da humanidade. mesmo que não de todo imune a essa tentação. igualdade e fraternidade espalharam-se por toda a Europa e também se transferiram para as Américas. No mundo protestante. Em meados do século XIX. tentando diminuir o crescente fosso entre igreja e massas. Todo ele está amarrado ao que foi desencadeado pela Revolução Francesa. preocupada com a essência do cristianismo e que procurava demonstrar que o cristianismo. no Renascimento e na Ilustração puderam ser concretizadas. não é contrário ao mundo moderno. Neles. não nos deixes cair sob investigação. com fervor religioso.. que transferiu o poder da aristocracia para a burguesia. As lutas de libertação na Europa foram transferidas para as Américas e aqui transformadas em lutas de libertação das antigas metrópoles. Em decorrência.. encontrava em seu meio pessoas dispostas a partirem para a ofensiva e a dialogarem com os bárbaros. 0 desenvolvimento da técnica e a industrialização modificaram profundamente a vida dos povos nas cidades e nos campos. ou morrer pelo Brasil. Técnica e industrialização foram acompanhadas pelo crescimento do proletariado e da explosão urbana. Pg 49 Como conseqüência desse nacionalismo. Enquanto o catolicismo romano trancava todas as portas e janelas aos ataques da Modernidade. católicos e protestantes deram o melhor de si por meio de associações que se ocupavam com os que ficavam à margem do processo modernizador. No campo social. As respostas à "barbárie" foram distintas. causando muita dor e sofrimento. esquece nossos pedidos assim como nós também esquecemos tuas promessas. o brado de guerra contra Napoleão era: "Deus. Revolução Francesa A Revolução Francesa provocou mudanças muito profundas. desenvolveu-se uma teologia apologética. A reestruturação da Europa revolucionária foi acompanhada por uma profunda transformação econômica e social. Pôs fim ao regime monárquico. todo o século XIX está entre revolução e restauração. a coerção sem restrição e sem distribuição. Na Rússia. em sua essência. Da Revolução Francesa brotou o fenômeno do nacionalismo. altamente honrado seja o teu nome. usados para promover os objetivos daquele movimento. procurando expulsar de seu meio o mundo moderno. pois tua é a legislação. Nas guerras promovidas pelos países europeus contra o jugo napoleónico explodira. mas o avanço da Revolução com a ditadura sanguinária e a subjugação violenta das populações européias à França levaram a reações contrárias a ela e levantaram o clamor por uma restauração das condições anteriores à Revolução. lutou pela liberdade de consciência. criaram-se exércitos permanentes. por intermédio do movimento socialista. mas também produziu um regime de terror e exportou seus ideais pela força das armas para toda a Europa.Pgs 47 . o nacionalismo revolucionário. A Revolução Francesa não permitiu mais que se erradicassem o conceito e o sentimento da soberania das massas da democracia. Em razão dessas profundas mudanças.48 voltava a confrontar-se com a mesma barbárie. O papado apostou no antimodernismo e no ultramontanismo'5. seja feita a tua vontade assim na câmara baixa como na alta. Assim. Os exércitos da Revolução e de Napoleão espalharam esse sentimento por toda a Europa. dá-nos hoje nosso pão seco. da igualdade e da fraternidade. o movimento operário recebeu orientação de Karl Marx e Friedrich Engels com literatura e panfletos próprios. a Revolução Francesa foi recebida com uma gratidão entusiasmada ou rejeitada por causa do sofrimento que causava: idéias que tinham suas raízes na Idade Média.

Se no Pg 52 . 0 culto à razão foi introduzido nas antigas igrejas. Estado e igreja na Prússia 9 É a doutrina que afirma não existirem valores absolutos. mas deixar a política de lado. Da Revolução ao Congresso de Viena Profundamente ligada ao antigo regime na França. relações. a industrialização e a conseqüente degradação das condições de vida trouxeram desafios para as igrejas. mas adequá-la à razão do Estado e estabelecer a razão sobre a revelação em prol do bem comum da sociedade. bom ou verdadeiro. Nada é belo. Napoleão restaurou a Igreja Católica por meio de concordata. os vencimentos do clero passaram a ser estabelecidos pelo Estado.53 século XVII se discutia a relação entre fé e razão. na presença do papa Pio VII. propiciando o surgimento dos fenômenos modernos do relativismo9 e do niilismo10. As antigas concepções mecanicistas foram deixadas de lado na leitura da humanidade e da sociedade. A Assembléia Nacional Francesa (1789-1792) secularizou os bens da igreja. Durante o regime de Maximilien Robespierre. Revolução foi identificada com evolução. manteve-a. foi abolido o calendário cristão. Os líderes da restauração enfatizaram a autoridade da igreja como garantia da tradição e da legitimidade. e ordenou o voto de obediência e lealdade à nação e à constituição por parte de todo o clero. que viera a França para coroá-lo imperador. porém. proibidas as festas cristãs. Reconheceu-a como a religião da maioria dos franceses. Acelerou-se o processo de dissolução do poder das igrejas. Em decorrência. Com a Revolução Francesa surgiu uma nova percepção de História. criando a saturação específica. mas encarcerou o papa. 0 papa voltou a nomear os bispos. contribuiu para o crescimento do prestígio papal após a queda de Napoleão (1815). Muitos bispos opuseram-se e abandonaram o país. o político é o anarquismo. Essa convicção recebeu o nome de historicismo. mas teve que silenciar em relação aos bens eclesiásticos que haviam sido secularizados. subordinada ao Estado. muitos integrantes do clero também deixaram a França. na qual a igreja se encontra nos tempos contemporâneos. individual ou social.51 A Revolução Francesa e tudo o que decorreu dela afetaram profundamente a existência das igrejas. . às quais elas só souberam responder de forma inadequada. que providenciava os recursos para a sua manutenção. Napoleão tomou a coroa do papa e coroou-se a si mesmo. Essa situação refletiu-se na vida das igrejas e foi tema de suas preocupações. nacionalismo e ciência. A administração eclesial foi subordinada ao Estado. 1793-1794. Guilherme II da Prússia não foi o único a expressar que os pastores devem atender as almas dos crentes e praticar a caridade. Formulou-se a convicção de que a vida humana. o ético representa a negação de todos os valores. igreja e Estado ficaram discutindo sobre escolas. no dia 15 de julho de 1801. na realidade.e não mais uma mediadora da revelação. Após a queda do rei em 1792. Em 1804.Pg 50 . Elas não souberam responder à alienação urbana. bispos e sacerdotes passaram a ser eleitos pelos cidadãos. A novidade do século XIX é que o secularismo adonou-se da classe média alta. Isso não contraria aquilo que afirmamos sobre a participação do pietismo e da Ilustração nesse processo. O historicismo é a mais original das contribuições do século XIX para a secu-larização e é marca registrada de nosso conceito atual de cultura. dissolveu os monastérios e estabeleceu a "Constituição civil para o clero". destruídas igrejas e confiscados seus tesouros. introduzido o casamento civil. pois ela não lhes diz respeito. matrimônio. o fim do regime de Robespierre proporcionou liberdade a protestantes e católicos e. a igreja passou a ser considerada um fenômeno da História da Cultura . a França anexou os estados pontifícios. mas fizeram-no por razão de Estado e não permitiram à igreja que expressasse opiniões políticas. 10 É a negação de todo o ser. O metafísico é considerado idealismo conseqüente. Cinco anos mais tarde. Em 1795. pois todas as qualidades são. moral pública. porém. só pode ser compreendida no contexto do desenvolvimento histórico. Dissolveu-se a profunda ligação entre igreja e Estado. A nova leitura da História com o advento do historicismo levou a uma cosmovisão que via os fatos a partir de seu desenvolvimento. O niilismo teórico designa-se de ceticismo ou agnosticismo. no caso o papado. A firmeza de Pio VII. Por outro lado. somente para nós (ou para outros) algo pode ser belo. É importante considerar que o nacionalismo e o secularismo não pretenderam exterminar a igreja. Durante o longo século XIX. a igreja também experimentou o fim do absolutismo. que também liberou o clero da obediência à autoridade eclesial estrangeira. bom ou verdadeiro. no século XIX passou-se a discutir a relação entre fé e história. Napoleão foi excomungado por Pio VII.

Serviços missionários surgiram em Basiléia. também publicava um jornal. Rauhes Haus (Casa Rude). buscou reunir luteranos e calvinistas em uma só igreja. Questão social Foi no pietismo. o casal Fliedner iniciou o treinamento de mulheres para o auxílio ao próximo. Wichern publicou um Manifesto Protestante. em 31 de outubro de 1817.56 igreja estatal. com os imigrantes e os marinheiros. Outra grande fonte de reavivamento foi o movimento das diaconisas. Em 1884. valendo-se de duas instituições: a missão interna e o movimento das diaconisas. calvinistas e luteranos. 0 modelo de Kaiserswerth logo se espalhou por todos os continentes. os metodistas envolveram-se na educação de adultos. A primeira casa. Na Prússia. Wichern enfatizou a educação e a profissionalização a partir da graça de Deus.653 diaconisas. a Prússia em expansão acabava formando três grupos no protestantismo alemão: unidos. não podia comungar com ela na Eucaristia. doentes e pobres. Florence Nightingale (1820-1910). Para obter colaboradores. que não se preocupava com a questão social. Desde 1844. conceito que incluía unidos. Aquilo que se apresentou em Wichern não era algo isolado. abolição da escravatura e alcoolismo. Usando os 300 anos das 95 teses de Lutero. que também provocou o Manifestou Karl Marx. Fliedner também formou enfermeiras assalariadas. passou a formar diáconos e diaconisas em centros de formação próprios. A missão interna ocupou-se inicialmente com aqueles que haviam abandonado a igreja e com a assistência a necessitados.Pg 54 As guerras napoleónicas e o caos gerado por elas levaram a crescentes transformações também nas igrejas. Do auxílio inicial a mulheres presidiárias o trabalho se expandiu para o auxílio a doentes. Porém os emigrantes alemães que se dirigiram para o cone sul das Américas denominaram-se de "evangélicos". reforma carcerária. Fontes inspiradoras de Fliedner foram a quaker Elizabeth Fry (1780-1845) e o movimento de diaconisas menonitas na Holanda. a pioneira da enfermagem inglesa. Os principais nomes no seio do protestantismo foram Johann Hinrich Wichern (1808-1881) e Theodor Fliedner (1800-1864). Pouco depois de Marx. Logo passou também a se ocupar com a reforma carcerária. Frederico Guilherme III (1770-1840). Em 1833. luteranos e calvinistas. iniciado pelo pastor alemão Theodor Fliedner. Além das diaconisas. Londres e Paris. No século XVII. foi treinada em Kaiserswerth. Wichern foi sensibilizado pelo empobrecimento das massas e fundou casas em que foram recolhidas crianças abandonadas. Como conseqüência de seu apelo. fundou-se o Comitê Central da Missão Interna da Igreja Evangélica Alemã. com os sem-teto. Com a acolhida de outra ex-presidiária e de mulheres carentes. Theodor Fliedner e sua esposa Friedrike receberam em sua casa uma ex-presidiária. A iniciativa logo se espalhou para outros continentes. Em 1836 era criada a primeira Casa Matriz (Mutterhaus) de Diaconisas em Kaiserswerth. órfãos e marginais. . que algumas congregações na Saxônia e na Silésia optaram pela emigração para a Austrália e para os Estados Unidos da América do Norte. Por ocasião do Dia da Igreja (Kirchentag) realizado em Wittenberg. Em toda a Europa desenvolveram-se movimentos voltados para a questão social. com os deficientes físicos e mentais. por meio do qual buscava criar uma consciência social. mormente ao Estado de Missouri. Ao lado do desenvolvimento diaconal. ao lado da maioria luterana também havia calvinistas. A união pretendida não vingara. com forma de vida religiosa consagrada.56 comunidades diaconais abrigavam 5. foi aberta em 1833. Protestantes continuaram seus esforços para mudar o mundo pela transformação dos indivíduos. o protestantismo pôde experimentar a importância do envolvimento político. casado com uma luterana. A oposição tornou-se tão violenta. segundo o modelo de Francke. Em 1834. Mas o rei viu-se confrontado por uma forte oposição quando quis implantar a uniformidade litúrgica e impôs uma ordem litúrgica formulada por ele próprio. escolas. a casa reinante tornara-se calvinista. anunciou que "o amor é marca indispensável da igreja. em 1848. 0 Exército da Salvação (1865) é uma entre incontáveis organizações criadas para dar resposta e ajuda a uma sociedade doente. As duas instituições foram motivadas pela miséria social. que o século XIX encontrou os parâmetros para responder aos desafios sociais. Wichern estava ciente de que o futuro de igreja e sociedade seria caracterizado por uma crescente alienação das massas urbanas em relação à Pgs 55 . A igreja só terá futuro se encarnar o amor de Deus na cidade industrial. Na Inglaterra. que lutava pela renovação do ministério diaconal feminino na igreja. em nada menor do que a fé". A maior parte do clero concordou em abandonar os designativos "luterano" ou "reformado/calvinista" e substituí-los por "evangélico".

Fato semelhante aconteceu na França em relação ao catolicismo. promoveram a autoconfiança católica. Bodelschwingh opôs-se decididamente à liquidação de "vidas menos dignas". Não há papa sem sua incondicional supremacia. a preocupação social protestante ao longo do século XIX foi de natureza burguesa. Mas este buscou minar o movimento socialista com suas medidas. Em 1903. por muitos anos. tornou-se membro do parlamento da Prússia e conseguiu. Formava-se novamente uma cultura cristã uniforme. comunismo e democracia. 0 papado passou a ter liberdade política novamente. Com o crescimento. Catolicismo romano Pg 58 . 0 Romantismo via na Idade Média tal cultura cristã uniforme. Não há catolicismo sem o papa. O Papa. ele fora diretor da casa para epiléticos e da casa de diaconisas da Renânia-Westfália chamada Bethel. seria capaz de manter a integridade da sociedade. Desde 1872. Essa renovação da consciência católica estava convicta de que somente um papado fortalecido poderia renovar a Igreja Católica e. Não há cristianismo sem catolicismo. apelido de Friedrich von Hardenberg (1772-1801). o congresso foi pódio de discussões para intelectuais protestantes que buscavam o moderno estado de bem-estar social. A partir dos seis volumes de Restauração da Ciência Política (1816-1826). porém. Como associação cristã para o estudo e a ação social. (. KarlLudwig von Ha/ler ( ] 768-1854).. a civilização ocidental. foi expressa a infalibilidade papal: O cristianismo depende totalmente da soberania do papa. uma escola teológica. a instituição passou a abrigar um centro de formação de diáconos.. Na obra fundamental de Joseph de Maistre (1753-1821). formulou a ideologia restauracionista para os regimes contra-revolucionários. Roma reestruturou a hierarquia eclesiástica estado após estado. Ao iniciar o século XX. Autores ingleses descreveram a mesma utopia em relação ao anglicanismo medieval. a maior expressão das questões sociais no seio do protestantismo era o Congresso Social Evangélico. os conservadores partiam do pressuposto de que apenas a igreja. Na Europa. uma casa para desempregados. o catolicismo experimentou uma renovação análoga à do reavivamento protestante. a criação de lares para trabalhadores itinerantes e um maior envolvimento do Estado alemão nas questões sociais. conseqüentemente. No início do governo nazista. Promovendo uma série de concordatas. Sua influência mostrou-se forma crescente ao longo do século XIX. o teólogo Adolf vonHarnack{\851 -1920). em 1808. convertido ao catolicismo. Essa nova importância centralizadora do papado é conhecida como ultramontanismo. 0 filho de mesmo nome (18771946) continuou e ampliou a obra do pai. ele foi eleito bispo da Igreja Evangélica Alemã. mas os nazistas anularam a eleição. Uma imprensa muito agressiva. com o apoio da autoridade política. No período da Restauração. Conversões como a de Friedrich Schiegei. não há religião sem cristianismo. aliada à Companhia de Jesus. Pio VII (1800-1823) voltou a Roma em 1814. Pio VII restabeleceu a Companhia de Jesus. descreveu a utopia dos anos de ouro do mundo medieval na obra Cristianismo ou Europa. de 1819. No ano de seu retorno a Roma. No todo. Quase não penetrou nas camadas populares e manteve-se avessa a socialismo. o papa Pio VII recebeu de volta os Estados pontifícios.) Não há moral pública nem caráter nacional sem a religião. liderada pelo papa. em 1907. os Bourbons foram reinstalados no trono francês.59 Com a queda de Napoleão. A missão interna e a diaconia só conseguiram sucessos maiores porque se desenvolveram paralelamente às igrejas territoriais alemãs.Pg 57 Outro pastor que participou da política para conquistar reformas sociais foi Friedrich von Bodelschwingh (1821-1910). expressou o espírito antimodernista por meio da renovação da piedade . profundamente comprometidas com o trono. exigida pelo regime nazista. Novalis. e a cúria romana passou a promover a igreja universal contra todas as tendências de igrejas nacionais. Seu presidente foi. A luta de Bodelschwingh pelos doentes e marginalizados levou-o a participar da política.

com as horas excessivas de trabalho e a justiça para os operários. determinava a expulsão de jesuítas e de ordens ligadas a eles e determinava a supervisão do Estado sobre a educação. comunismo. que se perdia para a igreja. o Kulturkampf apresenta a luta de Otto von Bismarck (1815-1898). primeiro-ministro da Prússia e primeiro chanceler do novo Reino Alemão. a liberdade religiosa.61 medieval e da organização sistemática da piedade das massas: devoção eucarística. quando fala excathedra. Leão XIII publicou a encíclica Rerum novarum. O papa é infalível em questões doutrinais. com a cúria romana. Nenhuma classe pode ser explorada em benefício de outra. instituíram a Suprema Corte Eclesiástica. Pio IX e o Concílio Vaticano I (1869-70) No pontificado de Pio IX. o catolicismo romano transformou-se em monarquia absoluta. No Syllabus. pois fez coro com as exigências da classe operária contra os empregadores. Mesmo antes de ser proclamado o dogma da infalibilidade papal. Em 1870. as tensões diminuíram durante o pontificado de LeãoXIII(1878-1903).condenou racionalismo. proibia o uso do púlpito para fins de agitação política. Este concílio definiu o episcopado universal do papado e a infalibilidade do papa. um Syllabus de Erros . independência do Estado em questões culturais e educacionais. expressa em visões e milagres como os de Lourdes. identificado e comprometido com a Restauração. Em 1854. rejeitou a sociedade moderna. Após a morte de Pio IX. o catolicismo ultramontano. a Rerum novarum\iem com cinqüenta anos de atraso em relação ao Manifesto de Karl Marx. Na seqüência. 0 Estado deve posicionar-se apropriadamente. A igreja deveria ater-se estritamente ao religioso. Essa justiça inclui salário compatível para o sustento da família. socialismo. sem restrição constitucional. Pio IX começou a canonizar os juízes da Inquisição. Todo esse desenvolvimento teve seu desfecho no Concílio Vaticano I (1869-1870). A encíclica faz a defesa da propriedade privada. Para não deixar qualquer dúvida. documento até o presente básico para pronunciamentos católico-romanos em questões sociais. Assim. ocupando-se com o trabalho infantil. Num sentido mais restrito. O dogma afirma que Maria estava livre de qualquer mácula do pecado original desde o instante de sua concepção. Bismarck temia que seu ultramontanismo viesse a pôr em perigo a recente unidade alemã. Ele temia um catolicismo político e pretendia manter tanto as igrejas protestantes como o catolicismo fora da política. ele modificou gradualmente as leis. o inusitado é que Pio IX o tenha proclamado sem consultar um concílio. Pio IX condenou essas leis em 1875. As Leisde Maio'(1873) limitaram o poder disciplinar da igreja. A intervenção papal em prol de . O contexto no qual esse dogma deve ser visto é um ultramontanismo apoiado por uma piedade mariana. Uma legislação específica. Essa sua parte inicial mostra o contexto no qual foi redigida: os movimentos socialista e anarquista dominavam o operariado. elaborada de 1871 a 1875. condena o socialismo e o anarquismo. estabeleceram o controle do Estado sobre todos os seminários e exigiram de todos os clérigos um exame a ser prestado perante o Estado. não no consentimento da igreja. Os reclamos contra as iniquidades intoleráveis do capitalismo e da era industrial foram depositados ante as portas dos ricos e dos poderosos. no exercício de sua função magisterial referente à fé e à moral. sociedades bíblicas. devoção ao sagrado coração e devoção mariana. Estava inaugurado o fundamentalismo romano católico. A decisão infalível do papa é válida para todo o mundo e tem sua base legal no poder decisório do papa. mercê de ato miraculoso do Espírito Santo. Com essas palavras está expresso o poder jurisdicional do papa sobre toda a igreja. o papa já fazia uso dele. Em 1891. inclusive pela promoção do bem-estar e dos interesses da classe trabalhadora. foi fundado na Alemanha o Partido do Centro. Toda a legislação concernente a matrimônio civil e divórcio não seria aceita até que estivesse de acordo com o Direito Canónico. a educação pública sem controle eclesial e proclamou a autoridade da hierarquia católica para regulamentar a coisa pública. a encíclica teve grandes conseqüências. Mesmo assim. em 1864. Nesse sentido. Bismarck subestimou a extensão da oposição católica e protestante a essas leis. Pio IX proclamou o primeiro dogma mariológico dos tempos modernos: a imaculada concepção de Maria.Pgs 60 . A igreja tinha assegurado o direito a seus próprios tribunais e o poder de polícia. indiferentismo. deparamo-nos com uma profunda luta contra o liberalismo e o nacionalismo. Mesmo que os argumentos do dogma já sejam encontrados na Idade Média. a separação de igreja e Estado. 0 Estado foi declarado responsável pelo bem comum. na França. Pg 62 Kulturkampf e juramento antimodernista Kulturkampf indica a divergência da Igreja Católica com o espírito do liberalismo e do nacionalismo no século XIX. Como necessitava de apoio católico e protestante contra a socialdemocracia.

Fundou com Wilhelm von Humboldt (17671835) a Universidade de Berlim. Schleiermacher levou a sério as críticas que a Ilustração dirigia à religião de um modo geral e ao cristianismo em particular. em 1802. especialmente na Teologia. a oposição de seu antecessor em relação ao mundo moderno. com sua irmã Charlotte e seu irmão Karl. contra uma cúria reacionária. exceto o Antigo Testamento. escreveu após longos conflitos de fé: Posso afirmar que após muitas coisas volteia ser um morávio. Em carta dirigida a Charlotte. quando de sua morte. Do pietismo. A figura teológica dominante foi Schleiermacher. que só foi revogado em 1967. como a teoria da evolução e os avanços nos estudos relativos à Bíblia e apoiados na crítica textual. Em 1783. Estética. que condenou os esforços feitos desde o final do século XIX por maior liberdade. Nela se fizeram presentes variantes da ortodoxia. assim como o encontramos no pietismo de Zinzendorf. A novidade foi que essas correntes tiveram que competir com aquilo que se convencionou chamar de liberalismo e de protestantismo cultural [Kulturprotestantismus). só que de ordem superior. Mais conciliador do que Pio IX. "Modernismo" eram as mais variadas idéias e teorias científicas. Sua fama era muito grande. dezenas de milhares de pessoas vieram prestar-lhe sua última homenagem . Schleiermacher tornou-se pastor e professor universitário. Schleiermacher Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (1768-1834) descendia de teólogos reformados. a Teologia foi particularmente rica ao longo do século XIX. Leão XIII manteve. Ao lado de sua carreira como professor de Teologia e de sua função de diretor da Faculdade de Teologia da Universidade de Berlim. Ética. e todos os teólogos católicos tiveram que prestar o juramento antimodernista de 1910. do pietismo e da Ilustração. Política. mesmo assim. Schleiermacher recebeu a percepção para a riqueza da individualidade religiosa e para a comunitariedade da fé.Pg 63 justiça e caridade em questões socioeconómicas foi considerada revolucionária e uma subversão da ordem estabelecida. Pio X condenou tais esforços como "modernismo". Dialética. Era a forma católico-romana de fundamentalismo. A aplicação de princípios cristãos na relação capital-trabalho fez com que Leão XIII recebesse o codinome de "papa dos operários". Para ele. Patriota. ele pregou quase que dominicalmente na Igreja da Trindade. o jovem Friedrich passou a freqüentar. Suas obras teológicas vão da obra-prima apologética Sobre a Religião: aos cultos dentre seus desdenhadores (1799) à dogmática/4fec?/s/s(1821-1822). Lecionou todas as disciplinas teológicas. Seu pai fora capelão no exército da Prússia.66 TEOLOGIA NO SÉCULO XIX Na Alemanha. mas também ofereceu preleções sobre Filosofia. Nesse aspecto foi seguido por PioX ( 1903-1914). as instituições dos morávios. Psicologia. mas fora fortemente influenciado pelo pensamento morávio. a fé deixa de viver quando busca proteger-se na defensiva e no isolamento. calvinistas. Hermenêutica e Educação. Pg 65 . pregou instigando a Prússia em sua guerra contra a França de Napoleão.

de estar em relação com Deus. A experiência de Deus não depende de qualquer abstração intelectual ou de alguma compulsão ou piedade. conseqüência de conversão. é um movimento religioso transconfessional. atingindo a Inglaterra. também partiu da experiência empírica. Mas essa pluriformidade teve alguns aspectos comuns: a oposição à Ilustração e à religião da razão. Assim. Esta foi conseqüência da pregação morávia e da leitura do prefácio ao comentário de Lutero sobre a Carta aos Romanos. mas intrínseca à vida humana.69 Nos primórdios do século XIX. como o momento de sua conversão. desvendar. Falar de Deus e da revelação era descrever as capacidades humanas. Desses pregadores vieram impulsos para a política social inglesa. a pecaminosidade do ser humano diante de Deus. é Réveil. Assim como seus contemporâneos. é Erweckung. temos naquilo que se chama de Reavivamento um movimento de grande significado. irradiando-se para muitos outros países. Na Inglaterra. a formação de associações livres para atividades comuns. 0 pai do metodismo é o reverendo anglicano John Wesley (17031791). Em 1729. A proclamação do evangelho está acima da especulação a seu respeito. Pgs 68 . a fé cristã não somente critica a cultura. o metodismo foi um movimento no seio da Igreja Anglicana. mas a seu lado ainda devem ser mencionados George Whitefield (17141770) e Charles Wesley (1707-1788). No entanto. ao invés de acentuar a liberdade. que não é objeto da fé. que por muito tempo se afirmou que o movimento metodista teria sido a última grande forma de igreja a emergir na história do cristianismo. Seu impacto foi tão grande. mas antes em viver em relação com Deus. Os principais impulsos do Reavivamento aparentemente provêm do antigo movimento pietista. o que é a mesma coisa. em viver de determinada maneira ou ter experiências que aqueçam o coração. A fé cristã não consiste na crença em determinadas doutrinas. Na realidade. . de crença em coisas incríveis. mas o sujeito do auto-exame. a Ilustração e seu idealismo acentuavam a liberdade e a autonomia do ser humano. o Reavivamento alcançou seu auge no metodismo. Schleiermacher enfrentou essas formulações e tendências. Schleiermacher era um teólogo apologeta e procurou apresentar a verdade do evangelho de modo que se tornasse compreensível ou crível para seus contemporâneos. Há. o redentor.Pg 67 Nos dias de Schleiermacher. Muitas vezes parece encobrir. Seus escritos nem sempre são de fácil compreensão. No entanto. teologia é o serviço com o qual a igreja responde a perguntas . A experiência de conversão de Wesley tornou-se modelar para a pregação do Reavivamento e encontrou em seu irmão Charles e em Whitefield seus principais pregadores. em conseqüência disso. Característico para o metodismo é o ministério do pregador leigo. mas mediador da fé. velar. Por isso fez-se um jogo de palavras com seu sobrenome: fazedor (Macher) de véus (Sch/eier). o Reavivamento também rompeu os muros das denominações.não é uma coleção de verdades eternas. que se concretiza no discipulado dos crentes: a igreja. Nessa pregação havia o chamado a um discipulado pessoal de Jesus Cristo. Reavivamento Se em Schleiermacher temos uma figura isolada que dá novos impulsos à reflexão teológica. os irmãos Wesley fundaram uma associação de estudantes em Oxford. John Wesley pôde fixar a data de 27 de maio de 1738. a crescente atividade social e esforços missionários para a expansão da fé cristã. É Awakening. porém. falou acerca da dependência humana. que teve início na Inglaterra e nos Estados Unidos. mas a si própria. Ela orienta-se na experiência de dependência do próprio ser humano. foi um movimento pluriforme e multifacetado. Essa relação está centrada em Jesus de Nazaré. e a ênfase que davam à santificação renderam-lhes o gracejo de ser "metodistas". o Reavivamento atingiu também a Alemanha. separou-se dela após a morte de Wesley. especialmente do movimento de Zinzendorf e dos morávios. religião não é objeto de investigação. de dependência e de experiência da graça. Por muito tempo. o despertar para uma nova vida pela graça de Cristo somente. Produto concomitante do movimento foi a apropriação da Bíblia pelo povo cristão e. Aliados aos cientistas naturais. a Escócia e a Irlanda. Daí também a definição de fé de Schleiermacher: Fééa consciência de ser absolutamente dependente ou. uma série de expressões suas que nos ajudam a entender sua intenção: Religião não é extrínseca. Pessoas assim atingidas e com tal experiência formavam comunidades. às 20h45min. a experiência pessoal de um novo nascimento com o objetivo de uma reestruturação da sociedade (da soma dos convertidos surge uma nova sociedade). que se orientava em regras claras. ao invés de descobrir. os filósofos devotaram-se à experiência empírica e reduziram o discurso sobre o supranatural a um discurso sobre o natural. Sua vida piedosa.

Este movimento defendeu a igreja da Inglaterra como instituição divina. dos impulsos de Schleiermacher e do Reavivamento. não podemos dizer que não restou nada do movimento do Reavivamento na Igreja Anglicana. A realidade é um processo histórico. não significava a negação dos predicados (sabedoria. batalhou pela sucessão apostólica e pelo Livro de Oração Comum como regra de fé. infinita e qualitativamente diferente. Sõren Kierkegaard (1813-1855) rejeitou todo o sistema de Hegel por amor ao indivíduo solitário que se confronta com o Outro. acusou a Teologia de haver matado Deus e de haver divinizado a humanidade. segundo a qual "A" não é "não-A". Sendo assim. afirmando que nosso objetivo não é entender a história. 0 ardil da razão provoca sofrimentos e inversões em seu nome. Feuerbach e Strauss provocaram furor entre os teólogos de seus dias. 0 grito de Kierkegaard só foi ouvido no século XX. Ao escrever  Essência do Cristianismo. mas a de Hegel). Um dos principais líderes do Movimento de Oxford. Deus. David Friedrich Strauss (1808-187'4) aplicou a lógica de Hegel ao estudo histórico de Jesus de Nazaré e chegou à conclusão de que esse é um mito. Mas a história é inteligível. sociedade sem classes etc. Teologia protestante Para entender as correntes da teologia protestante do século XIX. como reação ao liberalismo teológico e como decorrência do Romantismo e de sua redescoberta do mundo medieval. As influências de Hegel foram múltiplas. A história é vista como um processo dialético. 0 desafio posto aos teólogos foi a aplicação desse sistema ao problema da teodicéia e da superação do abismo existente entre razão e revelação. em conseqüência daquele movimento. é necessário perceber que a mesma é filha da Ilustração. e tudo o que é racional é real. Por isso interpretou o cristianismo como uma projeção dos temores e dos desejos humanos. Da Low Church vieram importantes impulsos para a abolição da escravatura. amor. A verdade não está em particularidades. mas transformá-la. Em oposição ao Reavivamento. KarlMarx(1818-1883). Podemos dissecar um animal. antítese e síntese.73 assim por diante. vamos entender suas partes. e atestou a natureza dialética da realidade. meio e o fim da religião é o ser humano. mas. que é transcendida em nova síntese. asseverava que a negação do sujeito. segundo Hegel. Hegel montou um sistema filosófico. a Low Church ("Igreja Baixa"). temos a culminância de uma era que tinha suprema confiança no pensamento racional do ser humano. 0 ateu real reconhece Deus teoricamente e depois vive como se ele . Nietzsche. Ocultase e revela-se em suas formas empíricas imanentes. mas no todo. A síntese transforma-se em nova tese. mas também como resposta ao declínio na vida da igreja. a divisão da realidade em partes possibilita um conhecimento válido. Os alunos de Hegel deram-lhe diversos nomes: Estado prussiano. Por isso Ludwig Feuerbach (1804-1872) pôde afirmar: O ser humano é o que come. para que o Espírito possa chegar à auto-realização por meio do processo de alienação e reconciliação. Nesta existe. Friedrich Engels (18201895) e Wladimirlljitsch UljanowLenin (1870-1924) desdobraram as concepções de Hegel no materialismo dialético e aplicaram-no à sociedade e à política. Em Hegel destacam-se sua compreensibilidade esua profundidade. Por isso Hegel escreveu no prefácio à Filosofia do Direito: Tudo o que éreal é racional. Ao mesmo tempo. Sem ele não podemos entender a evolução do pensamento teológico. afirmando que o lugar de seu falar de realidade não é o idealismo. que se diferencia da High Church ("Igreja Alta"). na qual tudo é visto em seu oposto: tese. procurou transcender não somente os interesses analíticos da Ilustração. a vida tem que "sofrer feridas" para ser reconciliada com sua unidade. Feuerbach afirmou que Deus nada mais é do que a projeção da personalidade do ser humano e que o começo. Hegel rejeitou a lógica aristotélica. Esta sentença não é muito confortável para quem sofre as antíteses da história.71 Entretanto. mas não atinge o todo. mas não vemos mais o animal. mas o materialismo. à qual se apresenta uma antítese. justiça). e Pgs 72 . uma evolução até seu cumprimento. em 1841. surgiu o Movimento de (Gr/W (1833-1845). mas a própria realidade. ele pensava que com esse se poderia compreender toda a realidade. Segundo ele. porém. Quem entra no trem da história participa de seu alvo. Deus. Em seu pensamento. John Henry Newman (1801 -1890). tampouco seus descaminhos: Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1 770-1831). Ele faz parte do idealismo. Seus escritos exerceram influência no anglicanismo e no catolicismo e formaram uma ponte significativa para o diálogo ecumênico. converteu-se ao catolicismo romano e foi feito cardeal em 1879 por Leão XIII. Feuerbach influenciou Marx. Porém um filósofo jamais deve ser esquecido. Daí a lapidar sentença de Hegel: Die Wahrheitist das Ganze (A verdade é o todo). no qual o Absoluto (os teólogos diriam "Deus") chega à sua auto-realiza-ção em nossa razão (que não precisa ser necessariamente a nossa. racional.Pgs 70 . Um de seus alunos virou-o de cabeça para baixo. Freud e Buber.

0 dogma cristão é obra do espírito grego sobre a base do evangelho. 0 cerne do cristianismo está envolto em lixo metafísico.76 Jesus. o Cristo pregado é o Jesus terreno. juízo. os liberais concentraram-se então em estudos históricos. Em sua obra O assim chamado Jesus histórico e o Cristo histórico-bíblico (1892). Sua intenção de resgatar a fé das abstrações dos filósofos e dos teólogos não foi aceita. em 1900. ela centrou-se na temática de fé e história. 0 Deus-homem é a síntese da dialética de Deus (tese) e ser humano (antítese): a dialética do sobrenatural e do natural leva ao mitológico. que tiveram que responder ao colapso do liberalismo após a Primeira Guerra Mundial. formulada por Strauss. que seu pensamento não equivalia ao pensar e ao agir de um gentleman.Pgs 73 . ele procurou tornar o cristianismo plausível para o mundo moderno. um ser preexistente que expia vicariamente os pecados. Kãhler afirmou que a base da fé cristã não é o Jesus histórico. A questão da relação entre fé e história. Os liberais distinguiram entre a religião de Jesus e a religião sobre Pgs 75 . Em termos teológicos. antes que despontassem as pesquisas de Weiss e de Schweitzer. a partir de uma perspectiva moderna. a comunidade cristã não se centraliza no querido Jesus que partiu. Para ele. A certeza da fé. Strauss provocou uma tormenta com seu livro Vida de Jesus (1835). Para Kãhler. Por isso os teólogos liberais lançaram-se ao estudo histórico-crítico do Novo Testamento para encontrar o Jesus "real". No século XIX. Os temas clássicos da dogmática (pecado. à fraternidade do gênero . devemos considerar magistral seu esforço em torno da recuperação do pensamento da igreja antiga. Afirmou que o Cristo dos evangelhos não é histórico. Jesus não era um gentleman. Obviamente a transformação da cristologia em mitologia levou a muitas reações. foi objeto de estudo por parte de Martin Kàhler (1835-1912). que pode ser considerado o mais notável teólogo de seus dias. Harnack advogou um cristianismo não-dogmá-tico. Harnack separa o cerne do evangelho de sua casca helenista e procura recuperar o cristianismo para seus contemporâneos. Adolf von Harnack (18511930) e Ernst Troeltsch (1865-1923). mas mitológico. Essa tese é desenvolvida nos sete volumes da História do Dogma (1886-1890). é acessível à pesquisa como qualquer outro personagem histórico. Jesus foi um mestre humano que ensinava o amor a Deus e ao próximo. surgiram nomes como os de AlbrechtRitschl (1822-1889). Como Jesus foi uma figura histórica. cristologia) e as expressões dos credos e das confissões são cascas que encobrem o cerne do evangelho. entendida como o reino do amor de Deus. Quando Harnack escreveu. Das Wesen des Christentums (que podemos traduzir por "A essência do cristianismo" ou "0 que é cristianismo?"). É um equívoco metodológico porque os evangelhos. Mesmo sem expressar concordância com sua interpretação. Kãhler ofereceu elementos para a resposta dos teólogos. Ao retirar a fé do emaranhado da pesquisa histórica empírica. reduzindo a fé à paternidade de Deus. como sendo o alvo ético de todo o gênero humano. Teologia liberal A teologia liberal tem suas raízes na Ilustração. As idéias de Ritschl foram acompanhadas pelo historiador Adolf von Harnack. Ritschl esteve sob a influência de Kant e de Schleiermacher. são recursos históricos para uma biografia de Jesus. A fé cristã foi reduzida à mensagem de Jesus sobre o reino de um Deus do amor. 0 Novo Testamento dá testemunho a respeito da revelação que Jesus fez do reino de Deus. trindade. Como é possível continuar a existir cristianismo se microscópio e telescópio não nos dão uma evidência de Deus? Para responder a perguntas como essa. Foi a igreja que acrescentou a idéia do Deus-homem a Jesus.74 não existisse. mas no Cristo vivo do presente. porém. ira de Deus. o cristianismo é um fato histórico mediado pela experiência pessoal do crer. porém. não pode repousar sobre os resultados da pesquisa histórica. Jesus é o arquétipo da humanidade reconciliada e unida no reino de Deus. "verdadeiro" e sua mensagem por trás dos acréscimos da dogmática. mas o Cristo pregado e testemunhado pela comunidade. em religião acerca de Jesus. mas um fanático religioso que esperava pelo fim iminente do mundo. A tentativa de descrever o Jesus histórico é um equívoco metodológico e teológico. Johannes Weiss (1863-1914) e Albert Schweitzer{\Zl^-\965) mostraram em seus estudos que Jesus não era inglês nem alemão. antes de serem fontes para a pregação da igreja. A redenção pessoal e a formação de comunidade no reino de Deus são a conseqüência da transformação e do retorno da vontade humana à vontade de Deus. Queria um cristianismo liberado dos acréscimos doutrinais feitos pelas gerações que se seguiram à primeira geração de cristãos e que transformaram a religião de Jesus. Mas. O próprio estudo histórico-crítico da Bíblia levou à destruição da teologia liberal. Para Weiss e Schweitzer. Strauss fez uso da lógica hegeliana.

não comprova revelação nem fé. Ela manifestou-se na reação católica romana.78 humano e ao valor infinito da alma humana. o livro de Harnack tivera 14 edições alemãs e fora traduzido para 14 idiomas. conhecida como fundamentalismo. a comunhão dos espíritos . Troeltsch descobriu que o método histórico. de 1912. No prefácio à reedição de 1964. o amor a Deus e ao próximo. quando aplicado à Bíblia. Permitam-me dizer de minha própria experiência. entre liberdade pessoal e condicionamentos sociais. perseguirmos seu desenvolvimento que se move em direção ao alto e nele procurarmos. É verdade que ela nos dá conta de realidades. A Teologia tinha que reiniciar sua reflexão: o liberalismo não era a solução. Ao escrever DieAbsolutheit des Christentums (0 absolutismo do cristianismo). Sua obra sobre as relações entre cristianismo e cultura. A Doutrina Social das Igrejas Cristãs. isto é. Não há nada que escape ao condicionamento histórico. mas teremos certeza de Deus.e para onde essa curva conduz.não incidiremos em tédio e desalento. sobre isso a ciência nada nos ensina. 0 final do livro é significativo: Meus senhores! A religião. do Deus que Jesus Cristo designou de seu pai e que também é nosso pai. e se então observarmos o processo da história da humanidade. já descrita. porém. desvenda contradições. é que dá sentido à vida. Troeltsch historiciza todo e qualquer pensamento. .aquela curva da qual só nos mostra uma parte . sim. A melhor solução só veio após a Primeira Guerra Mundial. A contrapartida. Troeltsch continua atual. 0 livro transpira otimismo e confiança no progresso. se tivermos a seriedade e a coragem de deixá-los valer como o real e de orientarmos a vida neles.Pgs 77 . Quem mais refletiu a relação entre fé e história foi Ernst Troeltsch. não-histórico. Pgs 79 Senhores. até 1927. pois concentrou suas pesquisas na relação entre cristianismo e cultura moderna. A ciência pura é algo maravilhoso e ai daquele que a menosprezar ou que deixa embotar em si o senso para o conhecimento! Mas ela não consegue dar hoje resposta às perguntas pela origem. que buscavam tirar a casca para chegar ao cerne do evangelho: Por baixo da casca não há cerne eterno. E chocou até mesmo seus companheiros. é mencionada seguidamente. dizia ele aos conservadores. Esse otimismo de Harnack e sua confiança no progresso tornaram-se sempre mais problemáticos à medida que se foi descobrindo o caráter estranho da mensagem bíblica em seu confronto com o mundo moderno. citado. como nosso verdadeiro ser. esforçados e servis. e na reação protestante conservadora. afirmarmos com firme vontade as forças e os valores que resplandecem nos ápices de nossa vida interior como nosso supremo bem. mencionado e discutido até o presente. Sou alguém que se ocupou por trinta anos seriamente com essas questões. Troeltsch comprovou que o labor histórico não pode reivindicar a superioridade de uma religião sobre outra. em 1902. Não hesitava em chocar. assim como não o conseguiu há dois ou três mil anos. porém. também não foi a solução. entre revelação e história. tudo oscila. Tudo o que existe persiste em condições históricas. relaciona fenômenos e corrige os enganos de nossos sentidos e concepções. fíudo/f Bultmann informa que. à História da Igreja e à Teologia. mas então parte dos cristãos ocidentais já havia optado pelo fundamentalismo. Nesse otimismo e confiança procurou trazer a proclamação bíblica para o início do século XX. Mas sobre onde começa a curva do mundo e a curva de nossa própria vida . destino e finalidade. a ciência não consegue. Se.

literal. contra a leitura histórica e crítica dos textos bíblicos. pecado. Temos aqui o nascimento do fundamentalismo protestante. formado no último terço do século XIX por grupos de cristãos conservadores evangelicais. a partir de uma perspectiva histórico-crítica. o cristianismo tem afirmado que a concepção de Jesus seria atividade do Espírito Santo em Maria. Nesse caso. a segunda vinda de Cristo à Terra. com sinais apocalípticos ou com o retorno para um reino milenar. Alguns temas passaram a ser considerados fundamentais: a inspiração verbal11. No cristianismo. Esse foi crescendo. 13 Aconcepção do sacrifício expiatório e vicário vem originalmente do judaísmo. para o perdão. Penso nas posturas dos partidos verdes. em primeiro lugar. a criação ocorreu em sete dias. que deveriam ficar imunes à ciência e à relativização por meio do método histórico. Além disso.84 contra-ofensiva a uma Teologia orientada em um método que interpretava os conteúdos da fé. muito menos a evolução das espécies. Eles não provam períodos maiores para a criação. No fundamentalismo temos. Quanto mais cresce o caudal da literatura acerca do fundamentalismo. Por isso muitos também afirmam a "inerrância" do texto bíblico: a Bíblia não ensina nada que seja cientificamente inexato. determinadas pela Modernidade. sob o título The Fundamentals . A esse modernismo os fundamentalistas opuseram seus fundamentais (fundamentais). exclusão do statusàe verdadeiro cristão de todos aqueles que não aceitavam esse fundamentalismo. Há um uso realmente inflacionário do conceito. não-aceitação dos resultados da ciência moderna. relativismo. o hímen de Maria teria permanecido intacto. designados de pluralismo. tenham elas sido políticas ou religiosas. 0 fundamentalista quer defender sua verdade religiosa.um Testemunho em favor da Verdade). 0 protestantismo estava se aliando à ciência moderna . Os fundamentalistas entendiam-se como uma contra-ofensiva a um modernismo que. nos Estados Unidos da América do Norte. expiação. foi publicada nos Estados Unidos uma série de textos. quando não correspondiam ao que designavam de "fé bíblica". que determinará os Estados Unidos da América do Norte e que. especialmente os textos bíblicos. tanto mais facilmente se pode caracterizar algo ou alguém de fundamentalismo ou de fundamentalista. que tira o pecado do mundo em virtude de sua morte na cruz. sem o concurso de pai humano. intermediário. Particularmente. historicismo e destruição de autoridades. que ele vê ameaçada pelos "poderes" da Modernidade. começou a ser designado de fundamentalismo. estes sete dias são realmente sete dias de 24 horas. de sua culpa. os fósseis que encontramos foram criados por Deus e por ele colocados na terra. cada letra do texto bíblico foi "inspirada". Foi por isso que julgamos importante caminhar com o leitor por todo o desenvolvimento do cristianismo desde o século XVII. Pode-se suspeitar que a conjuntura na qual o tema fundamentalismo aparece está ligada aos contornos nada precisos do conceito e da questão fundamentalismo. mais recentemente. tendo a mãe de Deus sido e permanecido virgem. assim diziam. Em decorrência. havia se apossado do mundo protestante. com edição superior a três milhões de exemplares. da Bíblia.Pgs 81 . oposição e reação contra transformações da religião. A isso ainda devemos acrescentar o fato mencionado antes de que o conceito sempre é usado em relação ao outro: sempre são os outros que são fundamentalistas. entre muitos protestantes. Se em Gênesis. a afirmação da verdadeira divindade e do nascimento virginal12 de Jesus. em pouco tempo. esse fundamentalismo entendia-se primeiro como uma Pgs 83 . tanto mais difusos se tornam os contornos do conceito e da própria questão. em que um cordeiro era imolado a Deus em lugar do pecador e em seu favor. Quando estudamos os conteúdos dos discursos e da autocaracterização dos movimentos fundamentalistas. Do título dessa série saiu o nome de um movimento. Os fundamentais descritos acima destacam dois aspectos distintos do movimento fundamentalista. a situação era outra. verdades absolutas e intocáveis.e esse era o seu pecado. questões da política secular também passaram a ser caracterizadas de fundamentalismo. partindo da leitura dos evangelhos de Mateus e Lucas. principalmente graças ao suporte financeiro de leigos bem estabelecidos. deparamo-nos com um diagnóstico básico acerca da relação entre religião e Modernidade: 0 fundamentalista não pretende a modernização da 11 Desenvolve-se. a pessoa que defende sua posição com entusiasmo e veemência é caracterizada de "fundamentalista". '9 Desde os primórdios do cristianismo. Quanto mais imprecisos são os contornos. Quando do nascimento de Jesus. . por exemplo.a Testimonium to the Truth (Os Fundamentais . Entre 1909 e 1915. Grupos de cristãos protestantes conservadores atribuíram a si mesmos essa designação no princípio do século XX. Fundamentals eram os conteúdos de fé. na época vista como iminente. Os fundamentalistas valeram-se de terminologia muito semelhante à do catolicismo romano do final do século XIX. seu sacrifício expiatório vicário13 por meio de seu sangue derramado e de sua ressurreição corporal. para que ele entendesse o que. começará a ser exportado para outros continentes e países. Jesus passa a ser visto como o cordeiro de Deus. todas as formas de conservadorismo passaram a ser caracterizadas de fundamentalismo. ditada pelo Espírito Santo a seus autores. Nos meios universitários. e esse vai sendo usado de forma mais ampla.82 FUNDAMENTALISMO Quem se ocupa com a temática do fundamentalismo avança por um território escorregadio. a convicção de que cada palavra. No início do uso do conceito.

para o fundamentalismo. Essa investida sobre a política em nome da religião é aspecto central nos movimentos de renovação religiosa que começaram a se formar em todo o mundo a partir da década de 1970. outra característica dos movimentos fundamentalistas. com o qual buscava recrutar e organizar politicamente os mais de 60 milhões de norte-americanos que se denominam de "cristãos renascidos". na realidade. A esse aspecto devemos acrescentar. muçulmanos armados ocuparam a mesquita de Meca em protesto contra a família real que governa a Arábia Saudita. sua concepção bí-blico-fundamentalista do ser humano. Não se busca uma concepção secular do Estado de Israel. Bem ao estilo fundamentalista. por exemplo. pregador da igreja eletrônica26. mas sua fundamentação teocrático-religiosa. 0 interessante é que também fora do Estado de Israel. na dispersão judaica. desde o início. É uma reação à Modernidade ocidental. em segundo lugar. passou-se a usar o conceito fundamentalismo. mas a recristianização do mundo ocidental. na França. integralistas. a Terra de Israel. Sem esse aspecto religioso. no Teshuwa. Os dois fatos não surgiram do acaso. um movimento Pgs 86 . Trata-se da relação entre religião e política. No mesmo ano. Dois anos após as mudanças ocorridas em Israel. nas escolas públicas. Ela representa o fim de uma concepção secular de Estado e sua substituição por uma identidade baseada na EretzIsrael. Nesse aspecto. A vitória eleitoral de Ronald Reagan em 1980 foi conquistada com o apoio da "Moral Majority" e de movimentos similares. No campo católico-romano. de que a política deveria ser cristã: o mundo ocidental tem que voltar a ser cristão. o movimentos dos "arrependidos que retornam". Família e Propriedade no Brasil. Ambos são filhos da mesma época. colina sobre a qual Jerusalém foi construída parcialmente. da promessa bíblica. Entre os précandidatos republicanos estava Pat Robertson. Concepção que se opõe a qualquer tipo de ativismo. cujos representantes mais extremados foram o bispo Lefebvre. Não se busca uma secularização do cristianismo. formam-se grupos tradicionalistas. a verdade religiosa é pressuposto para a ação política. seja ele ético ou religioso.Pg 85 religião. 15 Cf. como nem a integração e a assimilação dos judeus conseguiram acabar com a perseguição a eles. Não se busca. o aiatolá Khomeini1* retornava a Teerã. com o objetivo da expansão universal do islã. mas a reislami-zação do mundo islâmico. monarquia iraniana e introdutor da república islâmica naquele país. Para caracterizá-los. por exemplo. nos Estados Unidos o televangelista Jerry Fa/lawetfunàou o movimento "Moral Majority". incapazes de erro. começa a se fortalecer um judaísmo religioso. uma modernização do islã. é uma ampliação do conceito original de fundamentalismo. do texto bíblico. No 16 Em sua obra O Estado Judaico. Scopes acabou sendo advertido pelo tribunal. no qual contava com o apoio de bispos como Dom Sigaud e Dom Eugênio de Castro Meyer. Em conseqüência. A sociedade perfeita só se estabelece quando todos se submetem à verdade religiosa. explícita. e Plínio Correia de Oliveira. devemos submeter-nos ao destino e desistir de qualquer intervenção no desenrolar normal das coisas. a única solução seria dar-lhes um Estado próprio. em que Khomeini proclamava a república islâmica. exigiam que o Estado defendesse. o Partido Trabalhista. levada ao mundo islâmico pelo colonialismo europeu. 14 . 0 caso de Scopes mostra que. fundador do movimento Tradição. mas a fundamentação religiosa. Os exemplos são muitos. o fundamentalismo teve no Syllabus15 papal um grande companheiro. o escritor e jornalista Theodor Herzl (1860-1904) argumentava que. ou num tipo de literatura na qual os autores confessam seu retorno ao judaísmo religioso. Em contrapartida. entrementes. No Estado norte-americano do Tennessee. por ocasião das eleições para o parlamento de Israel. localiza-se nas periferias das metrópoles européias e latino-americanas. Seu alvo é a sociedade perfeita. acima p. com o qual nos deparamos no final do século XIX e no início do século XX. um professor de Biologia chamado Scopesteve que se defender em juízo da acusação por parte de fundamentalistas de que transmitira a seus alunos a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin. proclamando uma república islâmica em 1979. Essa concepção foi chamada de sionismo. Isso vale para os fundamentalismos em qualquer parte do mundo. 60. Ele estava determinado pela religião. mas fazem parte de um movimento que vem de longa data e que busca a reislamização17 do mundo islâmico. palavra vinda do monte Sião. que representava um socialismo leigo e democrático. nesse aspecto. do deserto africano às antigas repúblicas soviéticas e. Esse movimento vai da Malásia ao Senegal. No mesmo ano de 1979. Ora. Em 1977. que. Como Deus é todopoderoso. perdeu a maioria. da Modernidade. Os adeptos do movimento fundamentalista cristão estavam convictos.87 sionista16 passou a ter crescente influência. não se pode entender a colonização dos territórios ocupados por Israel nos últimos anos. pela aceitação de um parâmetro religioso que falava da relação especial de Deus para com seu povo eleito. os fundamentalistas distanciavam-se de seus pais quietistas14. assim como foi ditada pelo Espírito Santo a determinadas pessoas e fixada nas páginas inerrantes. que encontramos.

. à fé no progresso. Não conseguimos mais entender a situação do mundo atual se não estivermos dispostos a reconhecer que a religião também é um fator do processo histórico. Eles são a comprovação de que verdades religiosas podem voltar a dominar o ser humano. no progresso da história. Fala-se em "tentação fundamentalista". que pode mergulhar novamente nas trevas. e assegurava que a religião atrapalhava o ser humano na realização de seu verdadeiro destino. se não viesse a desaparecer totalmente. essa constatação é sinistra. que seria necessário "construir diques" contra o "dilúvio fundamentalista". ao cientificismo. Desde o final da década de 1990. Pgs 90 . Basta lembrar a transformação da teoria da evolução das espécies de Darwin em dogma. o retorno da religião não é apenas fundamentalismo. por exemplo. A razão ilustrada tinha certeza do progresso. os movimentos fundamentalistas são estranhos e perigosos. é importante lembrar que a Modernidade foi determinada em seu surgimento e em sua história por esperanças seculares de salvação e por promessas seculares de redenção.Pgs 88 . A Modernidade está insegura quanto à sua fé. Quando se verificam ou listam esses fatos. Para quem foi formado na tradição iluminista ocidental. Alguns chegaram a afirmar que. sempre mais a religião iria desaparecer. que o ser humano pode voltar a viver sem as luzes da razão. 0 fundamentalismo é expressão da própria Modernidade. o "Bloco Parlamentar Evangélico". A emancipação de Deus levou à maior exploração do humano. isto é. Na teoria iluminista sobre a religião. A emancipação da mulher levou a que ela pudesse ser mais facilmente explorada no mercado de trabalho e no consumismo sexista. sua secularidade religiosa. no qual. fazia-se oposição às crenças seculares. sem ter qualquer influência na conformação da sociedade. à sua certeza secular. com larga difusão no Brasil até 1945. Para evitar generalizações. fé na política como messianismo político. que pretendeu introduzir na Constituição parágrafos que proibiam. No início do século XX. o homossexualismo. É necessário que se pergunte pela importância cultural desses movimentos religiosos. da evolução. No entanto. passando a fazer parte de um estágio ultrapassado da história da humanidade. O adepto dos movimentos fundamentalistas reporta-se à tradição religiosa pré-iluminista e sabe-se carregado por um fundamento que precede e que crê ser "mais forte" do que a questionável orientação no "humanismo secular".91 Seja permitido um trocadilho: ele é um antimodernismo moderno. Sinistra porque o surgimento de movimentos fundamentalistas evidencia que a história da Modernidade segue um curso diferente daquele propalado pelo culto à razão. No decorrer do processo emancipatório da história. Basta lembrar a idéia do paraíso socialista de Karl Marx e a quase-transformação dos pressupostos marxistas em religião.. Ele surge em meio a condições culturais de uma sociedade secular ou que está começando a se secularizar. os fundamentalistas norte-americanos vêem . Hoje buscam-se respostas fundamentalistas a questões surgidas com a perda da certeza secular. Eles são expressão autêntica da cultura de nossos dias. com caráter religioso-secular. Algo semelhante está a acontecer com a dogmatização de teorias econômicas mais recentes. quanto mais o ser humano se emancipasse de Deus. Para esse tipo de pensamento. A Modernidade criou fundamentalismos como a crença no fim da religião. fim das luzes da razão. pois é fragmentária. Basta lembrar a transformação das proposições do pai do positivismo. Na sociedade ocidental atual. Augusto Comte. também preparada por movimentos como o pietismo. A Modernidade secular tem a sua história religiosa. Há uma crise na história religiosa secular. Aqui temos a base para entender a diferença do fundamentalismo atual em relação àquele do início do século XX. Decorre daí o fato de que. Seu grande discurso é a rejeição dos valores da cultura ocidental. parece que a marcha vitoriosa do fundamentalismo religioso secular está despida de sentido ou vai perdendo sentido. pois no próprio Ocidente ficou claro que a história da Modernidade ocidental é questionável. renovação das "trevas" da Idade Média. essa volta não estava prevista. fé na ciência como crença popular. O progresso das ciências leva realmente ao fim da miséria? O progresso da história leva realmente ao fim de guerras e matanças? Esse é o pano de fundo para podermos entender o surgimento de movimentos fundamentalistas. 0 fundamentalismo não é mero tradicionalismo ou antimodernismo.89 protestantismo brasileiro surgiu. por exemplo. só se pode chegar à conclusão de que a religião retornou à história. seria privatizada. O islamismo observou isso muito bem em relação ao Ocidente. tanto em folhetins como em publicações da área das ciências sociais. há tentativas de tornar o Partido Liberal (PL) um partido evangélico. Ela própria está baseada em fundamentalismos que podem ser expressos na trindade: fé na história como história do progresso do mundo. pode-se ler a afirmação de que o fundamentalismo representa perigo por ser fanatismo religioso ou político. em Religião da Humanidade. por ocasião da Constituinte brasileira da década de 1980. em "fantasma" que estaria perpassando o mundo moderno.

A experiência da conversão é norma de vida em muitos movimentos fundamentalistas. sem lei e sem normas. . Nosso mundo busca desesperadamente uma nova ordem de valores. porto seguro em meio a pluralidades. Ela está relacionada à garantia de uma postura fundamentalista frente às experiências de crise do mundo moderno. mira o futuro escatológico e apocalíptico. Por isso a comunidade fundamentalista concede-lhe descanso e segurança em razão de suas regras severas e normativas. 0 fundamentalismo torna-se instrumento de verificação para uma Modernidade que laborou em equívoco e que produziu monstros em nome de uma outra divindade. mas o mercado. e apresenta uma possibilidade de interpretação e de absorção coerente do presente. nem Alá. A visão de história do fundamentalismo olha para o tempo em que se vivia de acordo com a vontade de Deus. prenúncio e garantia da salvação que vem. o fundamentalista sabe-se abrigado por uma autoridade que escapa à dúvida. nem o Pai de Jesus. pode-se nominar a conversão como outra característica do fundamentalismo. o fundamentalismo torna-se convidativo e atraente para uma parcela significativa da humanidade. o presente é. justamente por causa dos sinais de sua decadência. saber a qual lugar pertencemos em conseqüência de nossa biografia. à problematização e à dissolução modernas. Em sua crise. que não é Javé. relativizações e dissoluções das certezas antigas. Ela pode ser estruturada a partir da conversão. Num mundo em que a autoridade desmorona. Por causa de sua importância para o comportamento ético individual.93 seu principal adversário. pois oferece segurança em meio a verdades que se desvanecem. Por causa da conversão. o futuro preparado por Deus para o fim dos tempos. "Conversão" significa. numa perspectiva sociopsi-cológica. O fundamentalista experimenta a sociedade que o cerca em decadência moral e anômica. a biografia do convertido adquire contorno e segurança. Assim. Ela tem significado como orientação e sentido para a vida.Pgs 92 .

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