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Resenha Noll

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Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Linguagem, usos e ensino no 43, p.

187-194, 2011

187

reSenhA
NOLL, Volker. O português brasileiro: formação e contrastes. São Paulo: Globo, 2008. Por: Luiz Claudio Valente Walker Medeiros

F

oi recentemente traduzido para a língua portuguesa, pelo professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, Mário E. Viaro, o livro do filólogo alemão Volker Noll, O português brasileiro: formação e contrastes. Professor catedrático de linguística românica da Universidade de Göttingen, Noll se doutorou com tese sobre o português brasileiro (PB), inserindo-se em uma longa tradição alemã, ao enfatizar os estudos filológicos românicos. Nessa obra, além de esmiuçar o PB em várias de suas características estruturais, textuais e históricas, o autor compara o português falado no Brasil (PB) e o europeu (PE), a fim de deixar clara a natureza das diferenças entre essas duas variantes continentais da língua portuguesa. Em decorrência, encontra-se na obra uma apresentação, ainda que sucinta, do próprio PE. Para alcançar seus objetivos descritivos, Noll compila o resultado de inúmeras pesquisas sobre o PB e a língua portuguesa em geral, fornecendo, assim, retrato muito preciso do PB. Tal precisão descritiva diz respeito não só à estrutura do português americano, mas também à sua história, sempre embasado em testemunhos de relevante credibilidade. Fora isso, levanta questões fundamentais para seu entendimento, como periodização (característica mais ou menos conservadora em relação ao PE) e sua origem (ou não) a partir de um crioulo, entre outros itens. A partir desses dados, o filólogo traça relevante análise a respeito do tema, alicerçado na referida (e desejável) precisão descritiva. A profundidade com que trata o assunto fica explícita em sua bibliografia: ao longo de nada menos do que setenta e cinco (75) páginas, o autor lista mais de 1.540 referências bibliográficas, das quais dezesseis (16) são de autoria do próprio Noll. Tais números, surpreendentes, vêm a comprovar o conhecimento de causa a respeito do assunto sobre o qual o estudioso se dispõe a discorrer. Porém, não é só a quantidade que salta aos olhos na bibliografia:

Assim. Romero Silvio (entre sociólogos e historiadores). Sílvio Elia (entre filólogos e/ou gramáticos). muitas vezes. O PB nos estudos da língua portuguesa. o autor respeita o mais estrito paralelismo entre os tópicos tratados. Orlandi. por seu turno. a bibliografia consultada – na qual constam desde autores clássicos a outros. mas em perspectiva diacrônico-formativa. seja na sua formação. Gladstone Chaves de Mello.e. Dinah Callou. de Antony Naro. José Paranhos da Silva. Antônio Geraldo da Cunha. Meyer-Lübke (entre os linguistas) e de Gilberto Freyre. se em 3. A questão da crioulização. A obra se divide em nove capítulos: 1.1 o mesmo assunto é retomado (em seu viés diacrônico). O português brasileiro: formação e contrastes. Essa relação de interdependência é mais notória entre os capítulos 3 e 7. E para facilitar o entendimento do assunto. Brasil – brasileiro – língua brasileira.1. Noll indica a localização do conteúdo anterior tido como imprescindível para o entendimento do tópico de que está tratando. seguindo. tanto no nível estrutural (fonético.188 Resenha: NOLL. Celso Cunha. Sherre.1. Nessa última perspectiva.1 se discutem as vogais orais pretônicas (em sua sincronia). Esses capítulos são estruturados de forma que os conteúdos neles tratados também se encadeiam. Maria Martha P. A formação das peculiaridades do PB em comparação com o PE. Eni P. As peculiaridades do PB em contraste com o PE. mas tam- . trabalha com as mesmas características. O capítulo 7. 6. tópicos discutidos em um capítulo. seja nas peculiaridades do PB. 4. inovação e regionalismo europeu no PB. 5. pois. 3.1.. Evanildo Bechara. O PB no mundo lusófono. a qualidade do material listado é excelente. no sétimo capítulo. mais atuais – é de indiscutível qualidade. sempre que necessário. tornando a leitura simples. Volker. i. 2008. Antônio Houaiss. são tomados como pressupostos para a leitura de outro. Arcaicidade. fonológico e morfossintático) quanto no lexical e no ortográfico. Testemunhos antigos da diferenciação do PB. 8. pode-se notar outro mérito da obra: o texto não se contenta apenas em apresentar um retrato preciso do PB. e 9.1. Como se verifica. com a citação de autores do calibre de Antenor Nascentes. A periodização do PB. São Paulo: Globo. contatos aloglotas e o lugar histórico do português. 2. a sistemática numérica escolhida no terceiro. Além disso. 7. O primeiro deles (3) descreve sincronicamente as características do PB. Medeiros. a referenciação entre eles encadeia-se de forma alinhada. em 7. sob qualquer dos dois ângulos (qualidade e/ ou quantidade). Dieter Messner. Luiz Claudio Valente Walker.

mesmo que elas não sejam as mais aceitas no meio acadêmico. há firmeza nas opiniões exaradas. nascer) é pronunciado no dialeto carioca como [s]. o autor (p. fenômeno que ocorreu na Europa no começo do século XIX) que se tenha transferido para o PB carioca. 234) que A constelação geolinguística no Brasil deixa claro ser impossível que uma irradiação do chiamento possa ter ocorrido a partir do Rio de Janeiro para o resto do país. como consequência da transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 –. sustentadas em sólida argumentação. linguística e etimilogicamente significativos. e. 2011 189 bém defende suas opiniões eficientemente. (2) não há testemunhos de que nessa época o PB no Rio de Janeiro já começava a ser chiado (o chiamento só começa a ser testemunhado no início do século XX. então. (6) a distribuição desse chiamento não se restringe ao Rio de Janeiro e áreas adjacentes. (3) não há nenhuma outra característica do PE (em especial a redução das vogais átonas. em áreas não contíguas ao Rio de Janeiro. na Baixada Cuiabana e em Belém. em classes altas). normalmente. finalmente. mas é encontrado também no litoral de Santa Catarina. sem dúvida. apoiando-se nos seguintes argumentos: (1) há testemunhos de que o PE. Por exemplo: ao descrever diacronicamente. 187-194. nas cidades de Santos. Noll nega a hipótese de adstrato. da página 229 à 235. muito dificultaria a assimilação de traços linguísticos europeus pelos brasileiros). sem estar diretamente associado à presença da Corte portuguesa. (5) o encontro consonantal -sc. Recife. Conclui. Como se verifica. o chiamento do /s/ implosivo no dialeto carioca – considerado. tal como é no PE e o que seria de se esperar se o chiamento carioca fosse uma consequência desse contato. .Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Linguagem. então. demonstra. e não como [ c]. usos e ensino no 43. ou seja. a partir de testemunhos e dados. O desenvolvimento do chiamento em Belém. (4) o curto período de permanência da Corte no Rio de Janeiro não favorece a referida hipótese. no Norte do país. por fim. p. que também o chiamento no Rio de Janeiro pode ter sido iniciado de maneira independente.(descer. era estigmatizado no território brasileiro (o que.

o autor lista e analisa uma série de testemunhos. u’su. há uma seção inteira dedicada ao testemunho de Hans 1 Como O Tratado Descritivo do Brasil em 1587. arcaísmos do PB. documentadas em português. Noll considera. o primeiro documentado é o adjetivo sufixoide -(gu)açu. “gato-do-mato grande”. tida como a “certidão de nascimento do Brasil”. Por exemplo. filólogo que ele é) que o quinto capítulo inteiro é dedicado ao tratamento dos “Testemunhos antigos da diferenciação do PB”. uma vez que já são observadas na língua portuguesa antes de sua implantação no território brasileiro. são. a Carta de Caminha. Além do mais. que as diferenças entre o PB e o PE são causadas pela própria deriva (drift) do PB. no diário de bordo da Nau Bretoa: nele. O português brasileiro: formação e contrastes. Em vários pontos de seu texto.138). o próprio fato de um mesmo fenômeno linguístico do PB ser interpretado pelos estudiosos ora como de influência indígena. então. Quanto aos empréstimos gramaticais. entre esses testemunhos. a negação repetida (“não quero não”) e a nasalização heterossilábica (cama [‘ ]) – que já foram consideradas influência tanto de línguas africanas como das indígenas-. que provêm do tupi” (p. que são “as primeiras palavras do Brasil. para Noll. Luiz Claudio Valente Walker. na qual se atestam – direta ou indiretamente – particularidades do PB. por exemplo. Termos oriundos dessa língua indígena americana são encontrados. por vezes. há o registro de tuim (“periquito”) e sagüi. de Gabriel Soares de Sousa. no termo maracajá-açu. Volker.1 mas também outros não usualmente tidos como fontes de pesquisa para o PB. que tende a ser mais conservador. com o significado de “grande”.190 Resenha: NOLL. Medeiros. Assim. . Outra consideração interessante é a que diz respeito às influências das línguas indígenas (americanas) e das africanas no PB. em texto de 1511. 2008. São Paulo: Globo. ora como de influência africana. que. pois nela não há nenhum vocabulário tupi. e a gramática de Sorares Barbosa. Continuando sua análise. pela primeira vez. peças do teatro português na segunda metade do século XVIII. proveniente do tupi a’su. já constitui indício de que existem sérias inconsistências nas teses indianistas e africanistas. Noll não inclui. fundamentar todas essas teses a partir de textos é tão importante (como não poderia deixar de ser. Isto posto. caracteriza linguisticamente o “brasileiro”. a africativização de /t/ em [t ]. entretanto. o autor rebate a tese de que as diferenças entre o PB e o PE sejam devidas a essas influências. como salienta o autor. não só os mais tradicionalmente aceitos como fontes de pesquisa para o PB. de 1822. registrado em texto do século XVI.

a autora transmitiu oscilações na realização da pretônica de /e/ [e i] (“ordinando”) à escrita e. são notáveis a epêntese (“adeministrar”) e a metátese (“Porcurador”). 151). todas as discussões são fundamentadas a partir de clara definição . pois a autora escrava relata a violenta (e sofrida) vida na fazenda de um capitão. 2011 191 Staden. 187-194. Trata-se de um registro extremamente emocional. Como se pode notar. as palavras brasileiras de origem indígena. no contexto da obra de Staden (e de outras a ela contemporâneas). a qual é típica da língua popular brasileira. elencadas em seu texto. usos e ensino no 43. pertenciam “preponderantemente também ao léxico dos europeus que viviam no Brasil” (p. com certa atenção. p. 186).Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Linguagem. “vevia”). registram-se ineditamente trinta e dois (32) termos ainda hoje correntes. na comunhão com a natureza do dia-a-dia. defendida por alguns autores como fundamental para a instituição do PB. que descreveu detalhadamente. Segundo essa hipótese. (p. “o aprendizado do português por meio de falantes indígenas e africanos teria ativado um processo de transmissão irregular da língua que se poderia caracterizar como ‘tipo mais leve do que o que se dá na pidgnização/crioulização típica’” (p. Aqui está mais um ponto em que o filólogo apresenta uma severa discussão a respeito do tema. era permeada de numerosos tupinismos” (p. entre os quais. posicionando-se claramente contra a hipótese de o PB ser fruto de um crioulo (ou semicrioulo) de base portuguesa com influência indígena e/ou africana. os hábitos e os habitantes brasileiros a partir de sua segunda estada no Brasil. favorecendo a opção de Noll por incluir essa obra estrangeira entre os testemunhos que se devem pesquisar para a descrição do PB. 141). óbvio. utiliza <e> por [i] (“mezericordia”. entre 1550 e 1555. Apesar de Staden ser alemão. portanto. encampando a ideia de transmissão linguística irregular. “capivara”. sob a variante cativare. Além do mais. O autor também analisa. por exemplo. Nessa obra. percebe-se que “a comunicação oral da antiga sociedade colonial. em 1557. os portugueses. 169) Tal registro é utilizado por Noll para relativizar (ou mesmo negar) a teoria da crioulização. Além disso. como. a carta que uma escrava escreveu de próprio punho em 1770. O filólogo analisa: Entre as características que contém.

Porém. em português brasileiro. Com isso. há utilização de conceitos próprios aos que já são. para assimilar satisfatoriamente o texto. no português brasileiro. levando em conta não apenas aquilo que sustenta as hipóteses de Noll. são necessários pressupostos que o graduando pode não ter ainda bem sedimentados.. esperando de seu leitor o domínio do referido conteúdo. fome. no português brasileiro.). oposição fonológica. pelo menos. Ao lado disso. uma característica da obra . em um pequeno excerto. a submeter-se a uma nasalização heterossilábica (PB [k ’t mus] . Luiz Claudio Valente Walker. São Paulo: Globo. tonicidade. O autor não parte de uma discussão a respeito dessas disciplinas e de seus conceitos.. cite-se a passagem em que se trata das particularidades fonéticas e fonológicas do PB. iniciados na linguística: alofonia.192 Resenha: NOLL.. talvez não seja adequado trabalhar essa obra em nível de graduação: muitas vezes. consoante nasal e fechamento da vogal. deve-se observar que vogais tônicas em sílaba aberta diante de nasal tendem. Medeiros. sílaba aberta. PB [o]). [. o status de alofones. Consequentemente. PE [ ] vs. parece mais adequada a leitura da obra em pauta no nível de pós-graduação. 2008. caso se opte por trabalhá-la ainda no nível da graduação. Percebe-se claramente que. acerca dos conceitos nelas envolvidos. No entanto. mas também o que alicerça a hipótese contrária à sua. Como exemplo. diante de nasal. Volker. mesmo assim. Ilustra o fato o seguinte trecho: As vogais [a] e [ ] possuem. nasalização (heterossilábica). neutralização. o ideal seria que se fizesse uma leitura dirigida. o autor fornece um livro denso em seu conteúdo..] As oposições fonológicas entre /e/ : / / e /o/ : / / são neutralizadas. mas os têm como necessário conhecimento prévio para o entendimento do que se discute. Todavia. mas com uma leitura muito mais acessível do que levariam a supor a complexidade do tema e a profundidade com que esse é tratado. por meio do fechamento da vogal (PE prémio [ ] vs. apresenta vários conceitos complexos e rapidamente transita de transcrições fonológicas (entre barras) para fonéticas (entre colchetes). PB prêmio [e]. Logo. O português brasileiro: formação e contrastes.

sem o crivo do grande público. é a circunstância do próprio autor participar da revisão – e. deve se tornar leitura imprescindível aos estudantes e estudiosos das áreas de história. entre os quais se destaca Por trás das palavras: manual de etimologia do português (São Paulo: Globo. com data posterior. Além disso. nota 57) que o site www. autor de artigos e livros sobre a história do Latim ao Português (e de outras línguas românicas). 2011 193 que atenua a dificuldade conceitual seria o fato de ela vir sempre muito bem exemplificada. Como falam os brasileiros.. também. sobretudo no Brasil.corpusdoportugues. mesmo em se tratando de uma primeira edição. não só se encontra nas Referências como é citado na página 319. o original alemão é de 1999. percebe-se uma atualização entre o original alemão e essa tradução. no entanto. Desde então. usos e ensino no 43. se erros no campo da revisão houver. Viaro. A publicação brasileira leva ainda vantagem em relação ao original europeu: segundo a ficha catalográfica. É o próprio Noll.] Com isso. de Yonne Leite e Dinah Callou. conheceu um enorme desenvolvimento. Por exemplo.320. apontadas ao longo do texto. passam imperceptíveis. o que se reflete no grande número de publicações disponíveis. Assim. 187-194. atualizada em todos os capítulos e significativamente ampliada. [. nota 23. 2004). lançado em 2002.. no prefácio da edição brasileira. sempre atento a esses problemas.Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Linguagem. a partir da edição alemã. que é especialista em tradução do alemão. não são poucas as obras listadas nas referências bibliográficas. Em resumo. em alguns pontos. Toda essa formação soma créditos à tradução do texto. há razões práticas para a elaboração de uma versão revista. Digna de nota. a descrição científica do português brasileiro. Nota à parte deve ser dada à tradução feita por Mário E. a edição brasileira (mais atual até do que a edição alemã). formação e características atuais do português no Brasil. que explica tal discrepância. indica-se ao leitor (p. e publicada em 1999. . Segundo o autor.org foi acessado em 6/6/2007. p. A edição alemã em que se pauta a versão brasileira foi preparada nos anos entre 1994 e 1996. doutor em Filologia Românica (ambos pela USP). com o devido cuidado por parte do autor.

Rio de Janeiro: Jorge Zahar. de Mário Eduardo Viaro]. LEITE.194 Resenha: NOLL. Yonne & CALLOU. Recebido em: 13/03/2011 Aceito em: 16/06/2011 . São Paulo: Globo. Medeiros. O português brasileiro: formação e contrastes. 2008. 2004. Luiz Claudio Valente Walker. Referências NOLL. Mário E. São Paulo: Globo. 2008. [ed. São Paulo: Globo. O português brasileiro: formação e contrastes. Volker. Por trás das palavras: manual de etimologia do português. trad. alemã: 1999. VIARO. 2002. Como falam os brasileiros. Dinah. Volker. or.

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