Universidade Federal de Goiás - UFG Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB ISSN: 1518-6784

Revista Brasileira do Caribe
Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil

CECAB, Goiânia, vol. VIII, nº 15 - jul./dez., 2007

Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB
Diretora: Olga Cabrera Secretária: Leonardo de M. Rodrigues

Revista Brasileira do Caribe Editora Responsavel/Organizadora do Volume: Olga Cabrera
Indexada pela Library of Congress. Control number: 2004204431. www.catalog.loc.gov e pelo Directorio Latindex /UNAM/ México. www.latindex.unam.mx Conselho Editorial Olga Cabrera - Brígida M. Pastor - Danilo Rabelo Conselho Consultivo Juan J. Baldrich, Pedro L. San Miguel (Universidad de Río Piedras, Puerto Rico); Consuelo Naranjo (Consejo Superior de Investigaciones Científicas - CSIC-Madrid, Espanha); Ernest Pépin (Escritor, Guadaloupe); Olga Portuondo (Universidad de Santiago de Cuba, Cuba); Ileana Sanz (Universidad Habana, Cuba); Laura Muñoz (Instituto Mora, México); Maria Teresa Cortés Zavala, Universidad Michoacana de San Hidalgo, México); Miguel Suarez Bosa (Universidad de Las Palmas de Gran Canária, Espanha); Maria Therezinha F. Negrão de Melo, Eleonora Zicari, Jaime de Almeida (Universidade de Brasília, Brasil); Eugênio Rezende de Carvalho, Isabel Ibarra, Luis Sergio Duarte da Silva (Universidade Federal de Goiás, Brasil); Euridice Figuereido, Maria Bernadette Velloso Porto (Universidade Fluminense, R. de Janeiro, Brasil); Rohda Reddock, Susan Mains, Patsy Lewis (University of the West Indies,Jamaica); Rose Mary Allen (University of the Netherlands Antilles, Curaçao); Rawle Gibbons (Universisity of the West Indies, Trinidad), Diana Soto(Un. Bogotá Col.), Diana Lago e Alfonso Múnera (Un. Cartagena de Indias, Col.) Comissão Técnica (Projeto Gráfico/Editoração): Leonardo de Melo Rodrigues Capa: Adriana Mendonça Revista Brasileira do Caribe: Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil/Universidade Federal de Goiás, vol. VIII, nº 15, (jul./dez), Goiânia, Ed. CECAB, 2007. Semestral. Descrição baseada em: vol. VIII, nº 15 (jun./dez. 2007). ISSN:1518-6784 295 p. 1. Caribe - História - Periódicos.
CDU: 94 (1-928.9)

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* Os dados e conceitos emitidos nos artigos, bem como a exatidão das referências bibliográficas são de responsabilidade dos autores. ** Os artigos recebidos para publicação são apreciados por no mínimo 2 (dois) revisores, escolhidos preferencialmente entre os membros dos Conselhos Editorial e consultores externos especializados. Data de Circulação: Dezembro/2007 Copyright
©

Tiragem Bruta: 600 exemplares

2007, Centro de Estudos do Caribe no Brasil

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Sumário
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Carolyn Cooper ........................................................11 Os sons do Atlântico negro Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 O reggae na “Jamaica Brasileira” Cidadania e Política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa..........................................41 Enredando Brasil/Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrações de idéias, influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo..................85 Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto.................................109 A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à Antillanite Césaire e Glissant. Katia Frazão Costa Rodrigues...................................137

3

Plantation Legal: Trinidad século XIX Alexandre Martins.....................................................165 O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes............................197 A morte branca do escravo negro: Considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola.................................................245 Estudios del Caribe en Colombia: Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives.................................................267 Gaztambide-Geigel, Antonio. Tan lejos de Dios... Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos Leonardo de Melo Rodrigues...................................284 Os autores........................................................................289

4

Summary
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica Carolyn Cooper..........................................................11 The sounds of the black Athlantic Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 Reggae in the Brazilian Jamaica: Citizenship and politics in the lirics of Songs Maristani de Sousa Rosa...........................................41 Interlacing Brazil and Jamaica: An international connection through filmography and popular music Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrations of ideas, influences or reactivations? Cinematographic production in Brazil and Cuba as desterritorialized experiences Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo................85 A voice from the haitian diaspora in the migrant‘s literature of Quebec Maria Bernadette Velloso Porto...............................109

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...........289 6 ....284 About the authors....197 The black slave´s with death: Some considerations on slavery in Brazil..267 Gaztambide Antonio.............245 Studies of the Caribbean in Colombia: Between diversity and adversity Alberto Abello Vives........The construction of identity in francophone caribbean from negritude to antilleanness: Césaire e Glissant..................................................................... Leonardo de Melo Rodrigues......................165 The slave trade in Brazil in the eighteenth century Cristina de Cassia Pereira Moraes.... Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola........................................ Far of God................................................ Katia Frazão Costa Rodrigues.....137 Legal plantation: Trinidad nineteenth century Alexandre Martins Araújo...................................... Essays about relation between Caribbean and United States..............................

zed/. O presente número da Revista Brasileira do Caribe apresenta vários temas que podem ser agrupados no eixo das Conexões Afro-Atlânticas: Jamaica/Brasil/Caribe. O primeiro deles. o número 17 ao Haiti e o 18 à literatura francófona. autorizando a submissão dos mesmos a uma avaliação mais rigorosa. O primeiro grupo de artigos da revista relaciona Brasil e Jamaica mediante a samba no solo jamaicano e o reggae no brasileiro. A reformulação do Conselho Editorial e de seu compromisso com a terminação bem sucedida da revista mediante uma revisão cuidadosa das línguas (português. Adriana Mendonça.luj . será dedicado à Cuba. é outro dos objetivos alcançados. A presença de um número muito mais expressivo de colaboradores no Conselho Consultivo e o acréscimo de artigos para ser avaliados. ou em torno a um tema. espanhol. possibilita pensar na conversão dos próximos números em dossiês dedicados especialmente a um país do Caribe. Quatro artigos com diferentes abordagens estudam essas relaciones. O aumento do Conselho Consultivo da Revista tem dado um fluxo mais rápido à avaliação dos artigos para sua publicação. Do ponto de vista formal a Revista tem uma artista responsável pelo seu projeto gráfico. Brígida Pastor) e da aplicação das normas de publicação aos artigos. 16. O próximo número. Danilo Rabelo e desde o próximo número Orlinda Carrijo Melo. da destacada historiadora jamaicana Carolyn Cooper.Editorial Olga Cabrera Diretora da Revista Brasileira do Caribe. e a arte utilizada nas capas das revistas são todas originais. a transcendência da Revista tem permitido o aumento de artigos de todo o mundo que chegam até a redação. Olga Cabrera e inglês. A Revista Brasileira do Caribe alcança seu número 15 após algumas transformações que começaram no número 9. No que respeita ao conteúdo. Estas abrangem desde àquelas relacionadas ao conteúdo quanto às formais. “Lick Samba: 7 7002 .

“Os Sons do Atlântico Negro” alerta das abordagens identitárias embasadas apenas nas análises sociais. Além do viés sexual utilizado nas interpretações sobre este tema. econômicas. por sua vez apresenta em uma perspectiva relacional 8 Revista Brasileira do Caribe. reclamados por Norbert Elias para compreender as mudanças na História.Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica” num jogo de palavras que transcendem as distorções sobre Kingston como a capital do crime para capital como “primeiro valor” que exemplifica com o estudo sobre a samba que se recria na Jamaica. e que deixam fora os sentimentos. Cidadania e política a partir de letras musicais” procura explicar mediante a música o processo identitário que transcende as fronteiras regionais e nacionais para conclamar objetivos sociais comuns dos negros da diáspora. VIII. as emoções. Negrão de Melo. vol. Carlos Benedito Rodrigues da Silva. no artigo “A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant”. O artigo de Maria Terezinha Negrão de Melo “Migrações de idéias. uma expressão das conexões AfroAtlânticas que enlaçam Brasil a Jamaica. n° 15 . O autor aborda o reggae e os vínculos inter-culturais entre Brasil e Jamaica mediante a utilização do cinema como fonte de análise. certamente. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas” revela a transcendência e as conexões que decorrem do cinema de Glauber Rocha para a compreensão do espaço latino-americano. a samba jamaicana é. A interpretação da desterritorialização no Caribe reaparece no excelente artigo de Maria Bernadette Velloso Porto “Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec”. Katia Frazão de Costa Rodrigues. Ainda o terceiro artigo de Maristane de Sousa Rosa “O Reggae na “Jamaica brasileira. O artigo de Leonardo Vidigal “Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular” se enlaça de maneira simultânea aos três artigos anteriores e ao seguinte de Maria Therezinha F. na visão de um poeta da diáspora caribenha (haitiana) no Canadá. O segundo artigo do reconhecido estudioso do reggae em Brasil.

aborda o tema específico dos documentos de óbitos de negros tanto escravos como livres na região de Meya Ponte (Pirenópolis) Encerra a revista o artigo de Alberto Abello Vives.os aportes teóricos na construção da idéia de antilhanité em Césaire e Glissant. O primeiro é um estudo sobre a escravidão em Goiás a partir da documentação dos arquivos e o segundo. Os sete artigos se enlaçam a uma globalizada visão do Caribe nas suas múltiplas conexões e possibilidades de abordagens. GAZTAMBIDE-GEIGEL. no século XIX. Por último. Por último.. 9 jul. 2007 . os dois destacados literatos de Martinica. a indefinida e nebulosa situação do Caribe colombiano não é diferente à de outros países do Caribe e o reclamo do autor para atentar contra as desigualdades sociais procedentes da racialização pode ser ampliado a toda Afro-América ou Caribe. Entre la diversidad y la adversidad”. A revista contém outros dois artigos que relatam a experiência da escravidão no Goiás. por Leonardo de Melo Rodrigues. também documental. destaca a relevância deste último livro do reconhecido historiador porto-riquenho e coloca a importância para o Brasil do estudo dos especialistas da região./dez. A presença de várias culturas africanas na formação social aparece refletida na pesquisa documentada de Cristina de Cássia Pereira de Moraes “O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII” e no artigo de Maria Lemke Loiolo “A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776)”. Tan lejos de Dios. oferecendo um outro lado desse complexo mundo do Caribe.. o artigo de Alexandre Martins de Araújo “Plantation legal. Brasil. sobretudo. “Estudios del Caribe en Colombia. Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos A seção final da Revista Brasileira do Caribe oferece também os dados mais importantes sobre os autores que participaram neste número. Trinidad século XIX” aborda as experiências dos imigrantes indianos e dos negros em Trinidad. quer seja nas ilhas ou no continente. A problemática e. Antonio. a resenha à obra de Antonio Gaztambide-Geigel.

10 .

Este é um artigo que tem como base. realizado na capital. conversações sobre a samba. Jamaica Resumo Este artigo embrionário teve sua origem em maio de 2000 no Simpósio “Sinergias Culturais e oportunidades de negócios entre Brasil e Jamaica. significando não somente o local geopolítico da cidade senão também algo coloquial do moderno sentido de “capital” significando “primeiro valor”. Jamaica. Goiânia. Brazil. beyond investigation. Jamaica. *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 11 Revista Brasileira do Caribe. mais que uma investigação. Keywords: Samba. iniciadas na Jamaica e que agora se estendem ao solo brasileiro. 2007 . vol.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital. cidade de Kingston. VIII. I intend a pun on ‘capital.Lick Samba Cultural Synergies between Brazil and Jamaica (Dedicated to the memory of Lino de Almeida. held in the capital city of Kingston. O caso da música e das publicações”. Há um jogo de palavras sobre o conceito “capital”. in conversations about samba from Jamaica to Brazil. n° 15. Spirit of the Crossroads) Carolyn Cooper Abstract This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing”. 11-20.’ meaning ‘first rate.’ This is an article that is based.

yet another meaning of ‘capital’ resonates: ‘mortal. Jamaica. deadly’ as in capital punishment. initiated in Jamaica. conversaciones iniciadas en Jamaica y que ahora se extienden al suelo brasileño. it is an intervention in a conversation. 12 Revista Brasileira do Caribe. El caso de la música y de las publicaciones”. Jamaica. I was invited to contribute to the deliberations.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital. realizado en la ciudad de Kinsgton. Instead. often excluded from the itinerary of most visitors to Jamaica who fear its vile reputation as a ‘murder capital.chave: Samba. This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing.” held in the capital city of Kingston. VIII. But I wish to make it absolutely clear that what I offer here is not a scholarly article – the product of prolonged research and analysis. más allá de la investigación. now re-branded as Jamaica Trade and Invest. Jamaica.’ Kingston is a much under-rated city. significando no sólo el local geopolítico de la ciudad sino también algo coloquial del moderno sentido de “capital” significando “primer valor”.’ meaning ‘first rate. Este es un artículo que tiene como base.Carolyn Cooper Palavras. Jamaica Resumen Este embrionario artículo tuvo su génesis en mayo de 2000 en el Simposio “Sinergías Culturales y oportunidades de negocios entre Brasil y Jamaica. n° 15 . En este intento un juego de palabras sobre el concepto “capital”. vol. Palabras Claves: Samba. I intend a pun on ‘capital. Brasil.’ Here. As a cultural critic specialising in Jamaican popular culture and literature. My intuitive reflections on that occasion have now been somewhat refined for presentation on this panel. Brasil. The 2000 “Cultural Synergies” symposium was hosted by the Jamaica Promotions Corporation (JAMPRO).

but I am calling Ooh. baby You can write it down in my name Morning time. lick samba An mi seh. lick samba Ah say. lick samba Ah bring it up. lick samba Oh yeah I could not resist. de 2007 .” The primary meaning of ‘lick’ in English is to ‘tongue. which are heightened by the seductive refrain. is the pulsating refrain of a song which appears to emblematize samba in primarily sexual terms: Lick samba. ah lick i one time. it means 13 jul. lick samba. apparent: “And it’s not that I am meek/ But it’s that I’m on a peak. ooh. morning. oh darling. right here I’ll settle the little I claim.” which I use to frame my remarks here. nevertheless. lick samba. however “little. noon and night.” Unable to resist the woman’s power.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica that now continues on Brazilian soil. lick Samba1 Though somewhat enigmatically expressed. the sexual allusions are. oh nah Another like this. oh nah And though I know you hurt me again I’ll go on. lick samba If it’s morning time.’ In slang usage in English. lick samba Oh oh./dez. lick samba. oh darling Ah just a lick samba. I’m ready And if it’s late at night I’m steady Give it to you anytime. lick samba. noon or night Ah just a lick samba. But there are claims to be settled. Bob Marley’s invocation to “lick samba. the man surrenders to the painful pleasures of love. Oh darling I’m not a preacher.” The singer is ready for action. “lick samba. I’ll feel the pain And it’s not that I am meek But it’s that I’m on a peak.

” [I bring it up.” This is the primary sense in which the word is used in Jamaican. This ameliorative meaning of “lick” that I attempt to recuperate here encodes the complexity of male/female relationships that are not always open to transparent. “I could not resist. Not just the conventional chart ‘hit’ but also the physical impact of megawattage sound systems licking the body: One good thing about music. Gilberto takes the lead.” sung as a duet. But the double English/Jamaican meanings appear to converge in this song. singular interpretation. that here this ‘it.2 The song opens with titillating exclamations.Carolyn Cooper as well “to beat. explicitly evokes playful sexual seduction. the refrain ‘lick samba’ evokes. as well.” to which Rita replies.’ conjoined to ‘lick. The generic ‘it’ that is licked/hit may be read as the objectified female body. In the song “Trench Town Rock. The line “Ah bring it up. the percussive beats of global African music. The entire song becomes an amusing mating ritual. instead. VIII. the version of “Lick Samba” that is recorded by Gilbert Gil and Rita Marley (and the other I-Three. “Lick Samba.’ is essentially a euphoric expression of a natural high. oh. When it hits you feel no pain Wo wo I say One good thing about music. vol. heightened by percussive guitar beats: “ooh! hah! aiya! woyio!” After the opening refrain. sound and power. ah lick i one time. Indeed. right here. n° 15 . When it hits you feel no pain 14 Revista Brasileira do Caribe. “Another like this”. Widened beyond the immediate sexual context. Marcia Griffiths and Judy Mowatt) on the Kaya N’Gan Daya CD.” Bob Marley deploys the trope of music as a ‘hit’ in precisely this way. especially by those disposed to see misogyny at every turn in Jamaican popular music. The explosive hit/lick becomes a celebration of the potency of music as word. I hit/lick it once. connoting the call and response structure of African oral discourse. thrash. But I would argue. right here] ambiguously suggests the pleasurable hit of vigorous – not violent – oral/sexual contact.

Hermano Vianna’s book The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. But in both instances. Vianna declares that he valorises “the intellectual trajectory of anthropologist Gilberto 15 jul. The book was simultaneously published in 1998 by the Press University of the West Indies and the University of North Carolina Press in the series “Latin America in Translation/ en Traduccion/ em Traducao.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Hit me with music Hit me with music now This is Trench Town rock Don’t watch that Trench Town Rock Big fish or sprat You reap what you sow Trench Town Rock And only Jah Jah know Trench Town I’ll never turn my back Groovin it’s Kingston 12 Groovin It’s Kingston 12 No waan yu come galang so No waan yu fi galang so Ska ba dip. incorporating cultural meanings far beyond the intentions of its progenitors. At that JAMPRO seminar. African diasporic music is not only globalised but it becomes an iconic manifestation of national identity. de 2007 ./dez. ska ba dip You waan come cold I up I’m a groover an the world know it by now3 Like reggae. exemplifying the cultural synergies between Brazil and Jamaica in the field of book publishing. Similarly. samba is the music of Rio de Janeiro. was a featured text. In his author’s preface to the US edition. Reggae is “Trench Town rock”. a Kingston 12 groove.” sponsored by the Duke-University of North Carolina joint program in Latin American Studies. this localised. working-class. samba is a popular music whose origins are decidedly urban and down market.

Various kinds of cultural mediation. gives an amusing rendering of the Jamaican psychology of ‘largeness’ in her poem “Independance. not Rio de Janeiro.Carolyn Cooper Freyre” as a “narrative and interpretive thread” for the book. spanning geographical and social distances. the United States. VIII. Jamaica’s international reach greatly exceeds our geographical size. as for samba. Freyre was one the mediators. become crucial to the ‘nationalization’ of samba. In private conversation with me. a self-aggrandizing character she creates. Jamaican cultural icon Louise Bennett-Coverley. vol. Given the scale of geographical difference between Jamaica and Brazil. Marley’s long-time friend and producer of the song “Lick Samba. Nevertheless. the ventriloquist. This book is about movement. n° 15 . about back-and-forth flows of influence that connected Rio not only to Pernambuco. He elaborates the rationale: Freyre’s home was the Brazilian northeast. That football connection is a whole other story of cultural synergies. as with athletics and football. but to France. but that does not matter. speaks through the mouth of Miss Mattie.” disclosed that it was his own involvement with football in Brazil that sparked Bob Marley’s experimentation with samba. who loudly proclaims the benefits of the nation’s newly acquired state of independence. affectionately known as Miss Lou. and the rest of the Atlantic world as well. the globalisation of reggae suggests that. Flag independence confirms an enlargened conception of both her own person and the landmass of the former colony: Jamaican She hope dem caution worl-map 16 Revista Brasileira do Caribe. Would Jamaica have made it to the World Cup without the technical input of the celebrated Professor Rene Simoes? Hardly likely. trans/national cultural flows are an essential element of the formation and reproduction of the music. legendary Jamaican footballer Allan ‘Skill’ Cole. it might appear hubristic to even attempt to delineate cultural synergies between the two.4 For reggae.” Miss Lou.

Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica

Fi stop draw Jamaica small, For de lickle speck cyaan show We independantness at all! Moresomever we must tell map dat We don’t like we position Please kindly teck we out a sea An draw we in de ocean.5 English She hopes they’ve warned the mapmakers To stop representing Jamaica as tiny, For the little speck can’t show Our independence at all! Moreover we must tell the mapmakers That we don’t like our position – They must please take us out of the sea And put us in the ocean.6

Jamaicans do, indeed, have an oceanic consciousness. The landmass of the island (and ‘mass’ is a gross exaggeration in comparison to the expansive landscape of Brazil) does not contain us. Though seemingly bound on all sides by the sea, we are not insular. Psychologically free, many Jamaicans claim a much wider sphere of influence than the circumference of a small island, especially when the diaspora is taken into account – all those Jamaicans, with so many passports (legal and illegal), scattered across the globe. We constitute a formidable, transnational, constantly mobile nation-state. There is, obviously, another quite literal sense in which the Jamaican people are continental, like the Brazilians. The majority of Jamaicans are of African origin and we retain ancestral memories of a vast continent of mythic proportions. It is Rastafari who have most articulately propagated the philosophy of repatriation of the mind. Many Africans in the diaspora – in Brazil as in Jamaica – choose to keep genetic memory alive. In our language, music,

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Carolyn Cooper

food culture, religion we memorialize the past. And we keep our ancestors alive and available to dream us into waking consciousness; in the present. Africa is not the distant past; it is contemporary culture. But, like Jamaica, with our optimistic national motto, “out of many, one people”, Brazil privileges a model of multi-racial harmony that to outsiders often appears to repress the powerful African presence in this complex society. Brazil is home to the largest number of people of African origin outside the continent of Africa. John Chasteen, translator of Hermano Vianna’s The Mystery of Samba, defines the issue of racial identity in Brazil in this diplomatic way:
Scorn for the official platitudes about Brazilian ‘racial democracy’ has animated a number of recent U.S. multiculturalist views. They emphasize that, when racial and cultural mixing becomes a nationalist ideology, other racial identities (especially indigenous and African ones) remain marginalized and may be snuffed out altogether. In Brazil, the multiculturalist critique has circulated only in narrow intellectual circles and seems unlikely, for now, to diminish the popular appeal of mixed-race (mestico) nationalism. After all, it was not so long ago – in the 1930s – that mestico nationalism overthrew and replaced the official doctrines of white supremacy. Nor is white supremacy gone from Brazil, except officially. Therefore, the basic nationalist message – ‘It’s okay not to be white and European’ – retains its value in many people’s lives. The mestico category is so loose as to exclude almost nobody who seeks an ‘authentic Brazilian’ identity.7

A much less diplomatic reading of ‘authentic Brazilian identity’ recognizes that it is not only in ‘narrow intellectual circles’ that the critique of ‘mestico’ identity circulates. There is a popular Black nationalist movement alive and growing in Brazil. And this present African political struggle can be related to the long history of resistance to enslavement, both literal and mental – to cite Bob Marley and before him Marcus Garvey who truly exemplifies the

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Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica

continental consciousness of African Jamaicans: “Emancipate yourselves from mental slavery/ None but ourselves can free our mind.”8 Like Jamaica, Brazil has a long history of maroonage: an intractable refusal to be enslaved on the plantation. And we must remember that Brazil is directly responsible for the development of the sugar plantation economy in the Caribbean. It was the expulsion of the Sephardic Jews from Brazil in the seventeenth century that forced them to seek refuge first in Suriname, then Barbados where they developed the sugar industry, which then spread to other islands and precipitated the enforced migration of Africans to work on the plantations in the Caribbean. Movement of Jah people. In The Mystery of Samba, Hermano Vianna asks a provocative question: “How and why did Brazilian ‘authenticity’ become essentially ‘Afro-Brazilian’?”9 The answer he provides is equally provocative, especially for us in Jamaica where the elite continue to disparage forms of popular culture (like dancehall) that have their origins in the consciousness of the masses – or, as we prefer the ‘massive’ with its connotations of power, not just faceless anonymity. It is these very despised cultural forms, like contemporary dancehall culture, that have come to be identified globally as the quintessential markers of Jamaican identity. Vianna argues that “[t]he invention of Brazil’s national essence, at least in the version symbolized by samba, turns on the importance of popular culture.”10 He foregrounds the distinction between ‘pop’ culture and ‘popular’ culture: ‘Samba, despite its long and intense association with the Brazilian mass media, is never thought to have originated (or even to belong) there. Pop culture has been viewed, to the contrary, as a corrupting, alienating influence: the worst enemy of “authentic” popular culture.”11 Just as Jamaicans have been hit by samba and feel no pain, Brazilians have been hit by reggae. I must honour Jimmy Cliff for the role he has played in the globalisation of reggae music, particularly in Brazil. I must also celebrate the work of Lino de Almeida, now numbered among our ancestors, who was so instrumental in

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establishing the musical connection between Jamaica and Brazil. It is my vision that we, at the University of the West Indies, can initiate with our colleagues in Brazil a multi-disciplinary, multi-sectoral research project focusing on intellectual property and related cultural productions – with practical industry applications – that will indeed strengthen strategic partnerships between Jamaica and Brazil.

Notas
1

Bob Marley, “Lick Samba,” Track 2, Disc 2, Songs of Freedom, Compilation, Tuff Gong/Island Records, LC0407, 1992.

2

Bob Marley and the Wailers, “Trench Town Rock,” Track 4, African Herbsman, Disc 1,Trojan Records, ASIN:B0000011DQ, 1973.

Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xvii.
3

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
4

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
5 6

John Charles Chasteen, “Translator’s Preface,” in Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xiv-xv.

Bob Marley, “Redemption Song,” Track 10, Uprising, Island Records, ILPS 9596, 1980 8 Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil, xvii.
7 9

Ibid.

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Os Sons do Atlântico Negro
Carlos Benedito Rodrigues da Silva Abstract
Reggae was born in Jamaica in the mid sixties as a result of a musical and rhythmic evolution from the Black-African traditions to the rock-steady rhythm and blues, in addition to the notable influences of Rastafarianism. In São Luis de Maranhão, considered the “Portal of Amazônia”, including the States of Pará and Maranhão, there was always a musical predominance of Caribbean Rhythms, such as merengue, carimbó, bolero, among others, in the popular festivities. This study attempts to formulate some of the hypothesis that explains the phenomenon of the incorporation of reggae into São Luis´s culture. Keywords: Popular culture, Reggae, São Luis de Maranhão (Brazil)

Resumo
O artigo analisa a apropriação e a ressignificação do reggae jamaicano entre as camadas populares da cidade de São Luís, Maranhão, como forma identitária e de resistência à marginalização social a que estão submetidas desde o passado de escravidão. Busca-se também traçar as origens do reggae na Jamaica, bem como explicar as condições para a popularização do reggae no Maranhão, bem como os embates ideológicos com as elites locais que estigmatizam o reggae em nome da ‘tradição’ e da preservação de seus privilégios sociais, econômicos e políticos. Palavras-Chave: Cultura Popular – Reggae – São Luis de Maranhão (Brasil)

Resumen
El reggae nació en Jamaica, a mediados de los años 60 del siglo XX, como consecuencia de una evolución rítmica y musical, desde las tradiciones negroafricanas, pasando por el rock-steady, rhythm and blues, además de las influencias

*Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 21-39, 2007

sempre hubo un predominio musical de ritmos caribeños. rhythm and blues. em meados dos anos sessenta. culturais e políticas da Jamaica. 22 Revista Brasileira do Caribe. VIII. n° 15 . atribuindo-lhe uma característica de movimento messiânico. de Marcus Garvey. um dos elementos fundamentais das mensagens político-filosóficas do reggae. Inspirado em interpretações bíblicas. bolero. nos idos de 1950. portanto. como conseqüência de uma evolução rítmica e musical. Palabras Claves: Cultura Popular.Carlos Benedito Rodrigues da Silva marcantes del rastafarianismo. além das influências marcantes do rastafarianismo. vol. adeptos do rastafarianismo. entre otros. como merengue. o reggae concentrou todas as expressões sociais. em las fiestas populares. críticos sociais ou líderes espirituais. entre outros. El presente artículo intenta formular algunas hipótesis explicativas sobre el fenómeno de la incorporación del reggae a la cultura de San Luis. e ao longo dos anos setenta do século XX. carimbó. especialmente a partir da industrialização da Jamaica. por isso tornou-se um amplo movimento popular na Jamaica. que se tornaram profetas. San Luis de Marañón (Brasil) O reggae surgiu na Jamaica. impulsionado pelas pregações. desde as tradições negro-africanas. Reggae. um dos principais articuladores do PanAfricanismo. os rastas acreditam que Ras Tafari é o “Deus Vivo” e que a salvação do homem negro passa pelo retorno à África. O rastafarianismo se tornou. En São Luis de Maranhão. por meio de compositores e cantores. Desde o seu início. refletindo uma identidade cultural de oprimidos que adotavam o reggae como o símbolo da expressão de suas angústias. considerada el “Portal de la Amazônia”. pelo rock-steady. o rastafarianismo constituiu-se numa alternativa de construção da nacionalidade para milhares de jovens jamaicanos. passando pelo mento. Embora não professem um credo monolítico. que envuelve los Estados del Pará y Maranhão. que viviam no desemprego e na marginalidade.

o reggae está em permanente evolução. marcando uma revolução na música negra em todo o mundo. Juntamente com a banda The Wailers. serviu para abrir as portas para vários cantores e compositores jamaicanos. originando novas tendências e conquistando novos espaços. A expressão máxima do reggae jamaicano no mundo está em Robert Nesta Marley. Secundado por nomes não menos famosos hoje. 23 jul. Talvez por isso. como Jimmy Cliff e Peter Tosh. saindo em busca de novos ritmos. em meados dos anos setenta. significando “raiva”. porém. os guetos do Terceiro Mundo. a expressão teria se derivado de “streggae”. como algo que identifica o povo sofrido dos guetos. resguardando as devidas proporções. em 1967. sofridas e que não tem o que querem. Sem deixar. Toots tenha definido o reggae. donominado “Do The Reggay”. de beber sua essência na fonte básica que o originou. definiu-a como “uma coisa que vem do povo dos guetos”. de 2007 . Com um acentuado caráter de contestação política. as mesmas bases culturais que impulsionaram o surgimento do reggae na Jamaica tenham contribuído para a explosão do ritmo jamaicano entre as populações negras e pobres das favelas e palafitas de São Luís do Maranhão. O próprio Toots Hibbert. vocalista do grupo./dez. ou “desigualdade”. o sucesso internacional dos Wailers. Os ecos do grito jamaicano ressoam no Maranhão É possível que. isto é. palavra caribenha usada para designar prostituta. coisa que se usa como comida. que começaram a excursionar e editar seus discos fora do país. Alguns a consideram originária das misturas de línguas afrocaribenha e inglesa. presentes na Jamaica. porém não se tem nenhuma conclusão definitiva sobre essa ligação.Os sons do Atlântico negro Não existe um significado específico para a palavra reggae. uma expressão para designar pessoas simples. Essa palavra apareceu pela primeira vez em um disco do grupo Toots and Maytals. Bob Marley foi o responsável pela explosão do reggae para além das fronteiras jamaicanas.

carimbó. como merengue. VIII.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Embora seja difícil precisar exatamente quais os caminhos percorridos pelo reggae até cair no gosto da população maranhense. que envolve os Estados do Pará e Maranhão. entre outros. como o comunicador Ademar Danilo2. n° 15 . Moradores de áreas rurais do Maranhão. especialmente da chamada Baixada Maranhense. essa identificação. Isto revela que raízes culturais africanas teriam sido transplantadas para as duas regiões pelo processo de escravização e permanecido ali com algumas ressignifições3. transportados para regiões diversificadas das Américas e do Caribe. atribuem ainda o gosto pelo reggae a uma possível identificação étnico-racial entre jamaicanos e maranhenses. de caráter geográfico. têm uma familiaridade com os ritmos. acabam florescendo em situações específicas na diáspora. algumas inclusive. Nessa região. O reconhecimento de uma batida semelhante entre o reggae e o bumba é o que permite a circulação dos regueiros entre os salões de reggae 24 Revista Brasileira do Caribe. bolero. chamadas de “sotaque”. ainda que aparentemente inconsciente e imprecisa de se definir. acionadas pela memória coletiva a partir de estímulos diversos. é resultante das raízes culturais africanas. nas festas populares1. sempre houve uma predominância musical de ritmos caribenhos. vol. que por isso. ou seja. várias explicações são apresentadas para justificar essa forte identificação. herdadas dos africanos escravizados. sendo que a maioria delas apresentam certo grau de veracidade. tanto na Jamaica como em São Luís existe uma população predominantemente negra com algumas características culturais semelhantes. Embora permaneçam “invisíveis” por muito tempo. nas variações rítmicas do bumba–meu-boi. Uma aproximação cultural pode ser encontrada ainda. Na verdade. considerada o “Portal da Amazônia”. que são também tocados nas festas dos povoados negros do interior do Estado. afirmam que sintonizam emissoras do Caribe em algumas horas da madrugada e. Algumas pessoas. através do Atlântico Negro.

) os marinheiros infestavam a zona. Insistindo no relato de alguns depoimentos. isso superou a barreira do preconceito pra depois entrar no mercado. incitando o imaginário popular a respeito da inserção do reggae no espaço maranhense. que veio de baixo. mas isso é a maneira como o reggae está sendo manipulado e 25 jul.Os sons do Atlântico negro e os terreiros de apresentação das “brincadeiras” da cultura regional no período junino. podemos salientar as declarações de Joãozinho Ribeiro. o primeiro disco de reggae que escutei foi na zona. Agora vemos o reggae conseguindo uma grande identificação na cidade. foi isso que chamou a atenção do pessoal. Não sei a origem. como afirma Humberto. entre as décadas de 60 e 70 e depois fomos vendo o reggae se expandindo nas festas da periferia e a periferia sendo muito mal tratada. mas a origem foi de participação. Foi isso que chamou a atenção. não é outra coisa não. geralmente eles pagavam as prostitutas com discos.4 A gente sente o peso da trupiada do boi. ele se assemelha ao peso da pancada do reggae. Inclusive. Segundo ele. Morei mais da metade da minha vida na zona do baixo meretrício e ali era comum esses navios que vinham das Guianas (. Várias vozes e narrativas tecem os discursos. Hoje. A partir que se torna mercadoria. o reggae se tornou um instrumento de exploração do próprio negro./dez. foi essa pancada semelhante.. de 2007 . Era comum eles aportarem todo mês. cantador do bumbameu boi do Maracanã. A caminhada do reggae foi popular. agora a gente pode até ver com outros olhos. o reggae teve que superar muitos preconceitos para ser aceito como uma das maiores manifestações dentro da cultura maranhense. músico e atual secretário estadual de cultura do Maranhão. infelizmente. foi suburbana.. aí quebra os preconceitos. mas escutei lá.

que se faça alguns cruzamentos com a definição atribuída ao cantor Toot Hiberts. O ritmo do reggae em São Luís. ainda.Carlos Benedito Rodrigues da Silva assimilado por poucas pessoas que estão ganhando muito dinheiro. o que nos remete a situações semelhantes atribuídas ao reggae desde as suas origens na Jamaica. para quem a expressão reggae. em certo sentido. A zona do baixo meretrício é uma região localizada no Centro Histórico de São Luis. branca e cristã. pela sensualidade que enseja. qual seja. visto que no reggae o corpo é concebido. pessoas simples. manifestando-se no lazer e no trabalho. que sofrem e que não tem o que querem” Entre outras coisas. assentada em uma semântica pejorativa. denunciando a exclusão que a escravidão impõe e os processos da modernidade sustentam. n° 15 . fundamentalmente. vol. está relacionada “ao povo sofrido dos guetos. nem o que precisam para assegurar respeito e dignidade numa sociedade de opressão. é possível identificar neste ponto uma das vias fortes de discriminação contra o reggae em São Luís. Joãozinho Ribeiro revela que um dos caminhos de divulgação do reggae em São Luís foi pela zona do baixo meretrício possibilitando. Curiosamente. despossuídos. como uma atitude de rebeldia. que povoam os guetos e palafitas da Jamaica ao Maranhão e. de vigilância e punição às exibições do corpo como instrumento do prazer. com sua forma de dançar agarradinho reflete determinada sensualidade inscrita culturalmente em corpos. VIII. com prostitutas. Podemos ainda salientar que a construção do reggae. em cujos bares e cabarés ouve-se diariamente o ritmo jamaicano entremeado de boleros e merengues. a sua identificação como uma música de negros marginalizados. pode ser relacionada com a moral burguesa. Conforme MartinBarbero (1997:240) 26 Revista Brasileira do Caribe. entre outras coisas. “mulheres vulgares” que sofrem a violência diária de comercializarem o corpo por não ter o que querem.

ao mesmo tempo. criando uma nova linguagem como canal de comunicação e identificação.. E não se trata de reduzir o sentido da dança ao do trabalho. O consumo da cultura do negro como espetáculo midiático. e sim de descobrir que a indecência do gesto negro não vem somente de sua atrevida relação com o sexo. todos os caminhos. como para nos dar pistas sobre as possibilidades de existência de raízes culturais semelhantes envolvendo povos das duas regiões. principalmente nos locais habitados pela população negra de baixa renda da periferia. mas também. como é o caso do reggae jamaicano em São Luís. de 2007 . Se por um lado. Essas afirmações. embora também ‘carregada’ oniricamente. o negro enfrenta o trabalho extenuante e.). são contribuições importantes. precipitadas. 27 jul. inclusive a zona do baixo meretrício.Os sons do Atlântico negro Através de uma cadência quase hipnótica. Por sua vez. concentrando-se com algumas características marcantes. Logo. a princípio. onde o reggae é um dos atrativos para os boêmios freqüentadores das casas e bares da região. Produzido originalmente em um idioma diferente.. É uma embriaguez sem álcool. não é suficiente para atribuir-lhe qualificação social. E é a dialética dessa dupla indecência o que vai de fato escandalizar a ‘sociedade’ (. tanto para mostrar que um dos fatores de aceitação do reggae pela população da ilha de São Luís foi a sua relação com os ritmos caribenhos./dez. envolvidos num ritmo frenético. a existência de várias versões explicativas indica que é muito difícil precisar qual o caminho de introdução de determinados elementos culturais em um novo contexto. duvidosas ou legítimas. o cansaço e o esforço doem menos. possibilita visibilidade. de sua evocação do processo de trabalho no próprio coração da dança: no ritmo. são legítimos. reforça os elementos de manutenção das desigualdades. que o adotou como uma das mais importantes opções de lazer. o reggae se instalou na ilha e se espalhou por alguns outros municípios do estado.

Carlos Benedito Rodrigues da Silva Nessas áreas. No universo regueiro de São Luís não se toca reggae nacional e na falta de entendimento das letras. VIII. ostentado com tanto orgulho pelos intelectuais maranhenses desde o século XIX. Um fator a ser ressaltado é que a exploração do reggae a que se refere o compositor Joãozinho Ribeiro se dá não tanto pelas elites. como pelos grupos de segurança. de sangue ou de orientação 28 Revista Brasileira do Caribe. Os próprios Dj’s. é possível encontrar diariamente crianças dançando reggae nas ruas ao som dos programas de rádio. pois isso remeteria São Luís a uma Jamaica negra e pobre. paradoxalmente. distanciando-se cada vez mais do título de Atenas Brasileira. mesmo que o ritmo esteja inserido em jingles e propagandas comerciais veiculados nas emissoras de TV.5 Contrariando os movimentos midiáticos. Mesmo que tenha se expandido atualmente para outros setores considerados “mais higienizados” da cidade. já apresentam as músicas com o nome da melô conhecida. constata-se a exigência. mas principalmente pelos proprietários de clubes e radiolas. vol. o reggae que não trilha por esse mesmo caminho. De elemento identificador de negros marginalizados. No próprio espaço das festas. possibilitando ganhos econômicos e prestígio para quem o manipula. pelos organizadores. dinamizadora dos eventos. permanece no plano social a relação direta reggae/marginalidade. ele passa a ter uma aceitação como mercadoria de consumo. que concebem os eventos apenas como fonte de lucro. contratados especialmente para os eventos. o reggae ainda não é aceito por esses grupos como um símbolo da cultura maranhense. habitantes da periferia e prostitutas do “baixo meretrício”. que “aquecem” ou “esfriam” determinados ritmos de acordo com os interesses das gravadoras. cujos descendentes. as músicas são apelidadas de melô. n° 15 . sem revelar nenhuma outra preocupação de caráter sócio-coletivo que possa beneficiar a chamada “massa regueira”. tanto por parte da polícia. Ainda que alguns preconceitos sejam quebrados. adquiriu uma posição destacada no contexto das programações culturais de São Luís. de uma vigilância acirrada sobre os regueiros.

Se nos períodos imediatamente após a abolição da escravatura. apesar de ainda não serem suficientes para transformar a cidade em uma nova Jamaica. que teima em permanecer com fortes raízes no cotidiano religioso. “mais nobre”./dez. a presença do negro era vista como sinônimo de atraso. remetê-la a um passado de inferioridade e distanciamento em relação à europeização pretendida e nega. de Atenas Brasileira. constroem seus próprios caminhos a partir das pluralizações culturais que vivenciam. ou menos jamaicano. São essas raízes que desafiam as imposições das “elites atenienses” de São Luís e trazem o reggae como uma força dinamizadora de identidades que. do trabalho e do lazer de amplos segmentos da população maranhense. quando o trabalho escravo foi substituído pelo assalariado. principalmente. desconhecendo uma ou outra realidade. significa para alguns. de animalidade. construída na sociedade brasileira após a abolição da escravatura. e o ex-escravo era definido como incapacitado para o desenvolvimento econômico e cultural da nação. à denominação Jamaica Brasileira atribuída a São Luís pelos DJ’s. A presença do reggae estaria provocando uma atrocidade na cultura maranhense. contribuem para o estabelecimento de novos referenciais de identificação para segmentos populacionais que. em grande parte responsável pela construção da sociedade brasileira. Portanto. deixam transparecer uma atitude de repúdio à assimilação do reggae por amplos segmentos da população maranhense e. especialmente para aqueles que assimilaram a ideologia de europeização.Os sons do Atlântico negro ideológica branca. Deste modo. O reggae é um dos elementos desse processo e ganha força na concepção popular. reivindica-se o título. menos africano. assim. a identificação de São Luís com a Jamaica hoje. como uma maneira de reforçar o desejo de ser menos negro em sua cultura. de 2007 . “o belo e edificante epíteto” de 29 jul. a importância da presença da população negra. pois o sonho de europeização precisa ser construído sob a concepção dominante de desqualificação da herança cultural africana.

este sim atroz. pois violentador da dignidade humana. Além do comércio de fitas. como nos municípios e povoados rurais do interior do estado. o que era música lenta. VIII. Embora a predominância seja dançar aos pares. pois desde meados dos anos oitenta. algumas pessoas preferem dançar sozinhas próximas às caixas de som. discotecário: julho/98). a propagação do reggae em São Luís esteve ligada muito mais a um comércio alternativo de gravação de fitas e ao aluguel de radiolas do que à industria cultural. tanto entre os diversos segmentos da população da capital. A dança adquiriu essa característica misturando passos do forró e do merengue. n° 15 .Carlos Benedito Rodrigues da Silva Atenas Brasileira já não faz sentido. a programação de rádio teve um papel muito importante nesse processo. (Riba Macedo. As pessoas gostavam porque era música lenta. eram feitos com material exclusivo dos DJs. porque as próprias emissoras não tinham os discos de reggae. Os programas. As fitas eram gravadas de discos importados da Jamaica que somente alguns discotecários tinham acesso. Uma das diferenças marcantes em relação à Jamaica é que o reggae em São Luís é dançado aos pares. chegando a São Luís como raridades. pois possibilitou que o ritmo alcançasse espaços cada vez mais distantes. A gente dançava sem fazer definição. predominantes na região. a não ser para a satisfação de determinados segmentos sociais que se outorgam guardiões das tradições como retrato de um passado escravista. Há também as coreografias coletivas. Na época. vol. com grupos de três ou cinco pessoas exibindo passos coordenados. 30 Revista Brasileira do Caribe. quando se deu a grande projeção do reggae na ilha. embora mantidos pelas emissoras. A divulgação se fez com a promoção de festas e programas de rádio. Durante muitos anos. muitos desses discos já estavam fora de catálogo na própria Jamaica. a gente não sabia separar o que era reggae.

bolero etc. “balanço”. Era aquele estilo que a gente dançava. A música internacional que se dançava aqui era o merengue. mas o merengue também estava no auge. ritmos que se dançam aos pares. ‘ô que balanço bonito é o do Jimmy Clyff’. Muitas pessoas afirmam que antes de se conhecer a palavra reggae no Maranhão. então chamava Jimi Clife e tal (... as pessoas chamavam balanço. (. porque na época tinham os cantores brasileiros. ou “Jimi Clife”. Seus discos estavam chegando ao Brasil no embalo desse novo som e já podiam ser comprados nas lojas locais. de 2007 ./dez.. nas regiões Norte e Nordeste os ritmos predominantes eram: forró. esse ritmo era identificado como “discoteca lenta”. A gente gostava muito de Lindomar Castilho. que agradava ao público. Depois chegou às lojas um LP de Johnny Nash.Os sons do Atlântico negro A dinamização do ritmo jamaicano no Maranhão coincide com a explosão dos hits da “Discoteque” na região Sudeste do País. baião. que preferencialmente se dança solto. Altemar Dutra. ou “agarradinho” que é uma expressão nordestina para as danças de salão.. A música estrangeira não tinha muita penetração.. Carlos Alexandre. Evaldo Braga. ‘I Can See 31 jul. Enquanto nas regiões Sul e Sudeste a preferência musical para as festas da juventude recaía sobre os ritmos mais acelerados. As músicas de Jimmy Cliff eram muito solicitadas nas festas porque tinham um balanço diferente.) (Chico Pinheiro. merengue. maestro: 1998). Tanto que os primeiros sons de reggae em São Luís foram pela música de Jimmy Clyff. O rei do merengue aqui era considerado Luiz Calaf. a discoteca ou o funk. com exceção do merengue que vinha da Guiana e era aceito porque se assemelhava aos passos do forró nordestino.) antes de se conhecer a palavra reggae aqui. como o rock.

oferecendo lazer para uma grande faixa da população de baixa renda que não tinha condições de adquirir os discos. vol. possuindo semelhanças com os “sound systems” jamaicanos que popularizaram o Ska e depois o Rock Steady como alternativa ao controle excessivo exercido pelo governo à rádio jamaicana.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Clearly Now’. contendo várias caixas de som formando paredões nos clubes. Essa música. promovendo festas com forró. (Riba Macedo: julho/98). eles contribuíram para que o ritmo se espalhasse praticamente por todos os bairros de São Luís. Operadas por discotecários que nem sempre são os seus proprietários. A disputa pela exclusividade de um disco sempre foi muito acirrada. n° 15 . regravado no Brasil em l971. Elas são sistemas montados com uma aparelhagem sofisticada. ‘You Can Get It If You Really Want’ e ‘I Love I Need’. VIII. como havia uma competição intensa entre os discotecários ambulantes na Jamaica que chegavam a raspar a etiqueta ou o selo dos discos novos para dificultar a aquisição pelos concorrentes. em São Luís essa prática também foi adotada pelos produtores das festas de reggae. faziam muito sucesso nas festas no início dos anos setenta. entre outros ritmos. criando rivalidades entre eles. lambada. as radiolas são contratadas para animar festas em vários pontos da cidade. elas já existiam anteriormente. Alguns proprietários de radiolas chegavam a comprar todos os exemplares de um mesmo disco e raspar os selos para que outros não pudessem identificá-lo. Curiosamente. Voltados quase exclusivamente para a festa de reggae. As radiolas tiveram também uma grande importância no processo de divulgação do reggae em São Luís. em festejos de santo na capital ou no interior do estado6. 32 Revista Brasileira do Caribe. merengue. da mesma forma que os sound systems jamaicanos. junto com outras de Jimmy Cliff. A partir do início dos anos oitenta houve uma proliferação desses equipamentos. As radiolas maranhenses não nasceram com o reggae.

nos locais de grande concentração de população negra. Para alguns regueiros maranhenses a herança negro-africana é responsável pela concepção pejorativa que se atribui ao reggae e também pelos atos de discriminação que vivenciam por serem relacionados a ela. especialmente. a evolução musical na Jamaica é muito rápida. é imenso mesmo e tá sempre na periferia. redefinindo seu território de atuação. por isso a gente se identifica com ele (Ronaldinho. onde tem sempre um 33 jul. O reggae é música do negro. determinando a criação de novas linguagens e estéticas comunicativas em várias regiões. de 2007 . é uma música marginalizada. este fenômeno pode ser observado em regiões como Maranhão. não é música dos brancos. O reggae vem do negro. é possível compreender a importância do reggae como conseqüência da dinâmica expansão midiática que ultrapassa as fronteiras nacionais com uma velocidade inusitada neste final de século./dez. No Brasil. Por tudo isso. dançarino). Baixada Fluminense etc. Ainda que não estejam ligados a nenhum movimento político organizado. Segundo eles. Por isso. Bahia. Coisa de nego que mora ali Pelas ondas de rádio e pelos clips televisivos o ritmo se espalhou pelo planeta. muitos demonstram ter consciência de que a discriminação se dá pela sua condição social e racial. O contingente de negros aqui no Maranhão é muito grande. criou também uma animosidade entre os radioleiros e discotecários que mantinham em segredo suas fontes de aquisição.Os sons do Atlântico negro Essa atitude. e as músicas preferidas dos regueiros maranhenses não são encontradas facilmente. se de alguma forma serviu para conquistar o público. quem conseguir mais raridades vai ter mais condições de assegurar o seu público e se manter em evidência junto à “comunidade regueira”.

Existe um caráter integrativo do ponto de vista sociológico nessas festas. Para os que compõem o minoritário quadro das elites são ofertados espaços luxuosos. dançarino). Daí a presença do branco ser vista. no tempo que a polícia vivia baixando o pau na negrada. n° 15 . para alguns. De fato. uma vez que o objetivo é estar entre seus iguais. a princípio. já que este é a 34 Revista Brasileira do Caribe. Nesse sentido. como nos espaços escolhidos ou oferecidos para o lazer. já que todos os participantes.Carlos Benedito Rodrigues da Silva salão de reggae. Analisando o desenvolvimento das escolas de samba cariocas. como uma invasão. como alternativa de auto-afirmação. nas cordas dos trios elétricos baianos. bem como para a maioria das festas populares. VIII. vol. por alguns. o reggae é. um ritmo que mexe com a gente. mais uma opção de lazer entre outras. estão ali com o mesmo objetivo da busca do lazer. O mesmo argumento vale para as festas de reggae. as alternativas de lazer são consideravelmente mais restritas. Entretanto. os brancos começam a invadir o salão e a gente não tem mais espaço pra dançar (Guiu Jamaica. ou até mesmo. Agora que o reggae virou moda. serve também. podemos dizer que ela se expressa tanto na exibição das fantasias. o espaço para estes últimos. resta o anonimato nas alas e baterias das escolas de samba. enquanto para os segmentos definidos como regueiros que sofrem as consequências da exclusão. essa participação não se dá em condições de igualdade para todos. Clóvis Moura7 aponta para o papel integrativo do carnaval. no carnaval essa relação pode ser constatada em várias instâncias. Dessa forma. enquanto para a grande maioria. pois mesmo que determinados grupos estejam participando de uma atividade comum. geralmente incômoda. sabe? É um ritmo negro. Os brancos nem sabiam que o reggae existia. não se pode perder de vista que esse caráter integrativo é momentâneo e não elimina as diferenças e nem as desigualdades. a exclusão dos espaços de lazer.

o reggae. (1988:45). a presença cada vez maior de grupos não negros (jovens estudantes da classe média e até turistas nacionais e estrangeiros) em alguns “clubes de reggae” possibilita ao regueiro um auto-reconhecimento. a discriminação contra o negro não se dá por conta do reggae. de tal forma que causavam espanto nos fazendeiros. mesmo em meio às agruras da escravidão. pela polícia e pela imprensa local refletem a concepção das elites maranhenses sobre o reggae e seus freqüentadores. dançar afasta as angústias do cotidiano. levando-o a assumir essa condição como uma identificação positiva. ia garantir a esses encontros uma riqueza de expressões de que os colonizadores jamais poderiam imaginar a extensão. é atingido também. pela desqualificação atribuída às atividades lúdicas construídas pelos grupos negros na cultura brasileira. um dos raros momentos de livre exercício de seus costumes originais. Ao contrário. Ele considera que O fato de os batuques constituírem para os escravos africanos. passível de vigilância e controle. Na verdade. onde se concentram majoritariamente os grupos negros. as festas do reggae atribuíram visibilidade a uma grande parcela da população de baixa renda em São Luís. 35 jul. desde o século XVI. Por outro lado. ele (o regueiro) se sente prestigiado frente à “comunidade” Sem dúvida. ameaçadora./dez. Além do que. a exemplo de várias outras manifestações que recebem o mesmo tratamento. de 2007 . é discriminado por sua identificação como “coisa de negro” e. contribuindo para a construção de uma imagem estereotipada do regueiro. por exemplo. quando é reconhecido como um bom dançarino ou um bom DJ. neste sentido. As reações de vigilância e controle exercidas.Os sons do Atlântico negro representação do grupo que caracteriza o reggae como uma atividade marginal. Para estes. Tinhorão mostra que desde o século XVI os batuques de escravos representavam momentos de expressão de alegria e felicidade.

presas às orientações cristãs européias.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Essa diversidade de práticas rituais. Ainda segundo Maria Lúcia Montes (2000: 65) Mesmo para o senhor. tem de ser coberto e aprisionado para inibir seus anseios e transformá-lo em simples instrumento de trabalho. Maria Lúcia Montes mostra que esse mesmo corpo neutralizado pelos horrores da escravidão. VIII. para satisfação dos apelos da carne. o primitivo a ser domado — também o assinalam como objeto de repulsão. vol. Assim. dilacerado e morto. torturado. um caráter de lascivosidade e desordem. n° 15 .. traz consigo a inscrição simbólica dos confrontos entre a civilização ocidental e as culturas profanadas pela diáspora. sempre atribuíram às manifestações dos afrodescendentes. controlando não apenas suas vidas. ele se projeta como um elemento de desafio ao poder das elites. as marcas que designam esse corpo enquanto outro-mercadoria. portanto. inventando gingas e artimanhas que constantemente apontam para a ambigüidade da moral escravista. religiosas ou de lazer manifestadas pelos segmentos negros. utiliza-se deste corpo para satisfação de desejos. o corpo-coisa do escravo propõe a experiência assustadora da ausência de limites: pode ser surrado. mas também seus corpos e almas. a dança sempre foi uma das mais fortes expressões dos grupos humanos em toda a história da 36 Revista Brasileira do Caribe. a escravidão impôs aos negros escravizados a imagem do pecado. Legitimada entre outras coisas. Assim. escravos ou libertos. mas também apropriado a bel-prazer. instrumento de trabalho. desejo e sedução. Sem dúvida. por uma moralidade cristã. em que pesem as várias e diversificadas tentativas de controle exercidas em nome da religião. ultrapassa a compreensão das elites que. da ordem social ou da moral burguesa. O próprio corpo é depositário do pecado. a qual ao mesmo tempo em que proíbe sua exposição pública.

tanto individual como coletivamente. ou da América Latina. num percurso de ida e volta tanto nas ondas midiáticas da indústria cultural como nas marés do Atlântico Negro. com a qual se produziu a ligação com o presente. mesmo considerando as especificidades. estão relacionadas com as lembranças armazenadas.Os sons do Atlântico negro humanidade: em busca da liberdade. as angústias e as alegrias que não podem ser pronunciadas livremente. capoeira ou reggae. entre tantos outros. Essas performances desenvolvidas pelos grupos negros que viveram a diáspora. desde um passado no qual a sujeição à condição de escravo ao mesmo tempo em que bloqueava as condições de emancipação do indivíduo. 2 Ademar Danilo foi um dos primeiros comunicadores a apresentar programa específico sobre reggae nas emissoras de rádio em São Luís e foi eleito vereador pelo PT. também. Assim. instigava-lhe a sociabilidade./dez. em algumas festas de grupos negros em Salvador na Bahia. a malícia. simplesmente pelo prazer de se sentir bem. merengue. em agradecimento aos deuses pelas alegrias da vida. representam a explicitação da rebeldia e expressam. da Amazônia. que mobilizam segmentos das várias regiões estendendose até a África. mas são representadas por uma memória corporal que burla a vigilância das elites com uma linguagem simulada. bumba-meu boi. que esse ritmo é tocado também. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de religião afro-brasileira de São Luís é a Casa 37 jul. Isto nos leva a afirmar que samba de roda. A ginga. são vertentes rítmicas produzidas na diáspora africana. maracatu. 3 Uma curiosidade é que segundo historiadores. com votos da “comunidade regueira”. de 2007 . pelos ciclos de colheita nas sociedades agrárias e da fertilidade em sociedades tradicionais ou. a sensualidade. Notas 1 Pude constatar através de alguns relatos. existem fortes aproximações culturais seja entre os povos do Caribe.

& SIMON P. Melô do Gerente. DAVIS S. “O Conceito de Tradição”. tais como: o Melô do Morcego. 1998 BORNHEIM. e assim por diante. Belo Horizonte: Ed. Massimo. São Paulo: Martin Claret Editores. Lisboa: DIFEL1989. 1997. Melô do Sapato. São Paulo: Studio. Rio de Janeiro: Zahar/Funar. VIII. O “melô” seria uma espécie de alcunha da música. Lisboa: Centelha. Melô da Guerreira. onde acontece algumas festas importantes da cultura popular. Nestor Garcia. CANEVACCI. Bibliografia ALBUQUERQUE. 1983. London: Fonthill Road. A radiola Diamante Negro lançou um CD com 20 músicas preferidas dos regueiros em São Luís e no encarte vinha impresso o nome das músicas. que até o final da década de 80.143. 38 Revista Brasileira do Caribe. que já trazem junto ao título da música. São Paulo: Editora 34. 3. Melô da formiga. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. n° 15 . A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa. 1985. São Paulo: Ática. 5 Existem atualmente gravações de coletâneas em CD’s piratas. Homi K. 7 Sociologia do Negro Brasileiro. Pierre. In: Cultura Brasileira: Tradição e contradição. 1997. UFMG. Marco Antonio (org. Gerd A. 1988. O eterno verão do reggae. CARDOSO. Rasta and resistance: from Marcus Garvey to Walter Rodney. CAMPBELL. O Poder Simbólico. Sincretismos: uma exploração das hibridações culturais. A magia do reggae. vol. Horace. 1996. Reggae: Música e cultura da Jamaica. 4 O Maracanã é um bairro rural do interior da Ilha de São Luis. 1995.). o nome “melô” que é criado pelos regueiros. os cds foram adotados posteriormente. as festas eram feitas com discos de vinil ou fitas cassete. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. O Local da Cultura. com seus respectivos melôs. p. Carlos. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. CANCLINI. . 1997. BOURDIEU. BHABHA. 6 É importante ressaltar.Carlos Benedito Rodrigues da Silva de Fanti-Ashanti.

Eric e RANGER. Queimando tudo: a biografia definitiva de Bob Marley. 1997. Rio de Janeiro. Ritmos em trânsito: socio-antropologia da música baiana. São Paulo: Hedra. pp. Livio e SANTOS. SANSONE. 1997. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo. 47-64. TINHORÃO. “Olhar o Corpo”. Dos meios às mediações: comunicação. 1997. Timothi. 1997. 1999. 2000. Jocélio Teles dos (org. Revista da Mostra o Redescobrimento. São Paulo: ERT Editora. Carlos Benedito Rodrigues da. Octávio. Civilização Brasileira. Stuart. de 2007 . 1995. Identidades culturais na pós-modernidade. 1997. Paula. In: Novos Estudos CEBRAP Nº 49. Rio de Janeiro: Zahar Editores. Rio de Janeiro: DP&A./dez. 2000. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Da Terra das Primaveras ‘a Ilha do Amor. SILVA. ORTIZ. Dominic. Rio de Janeiro: Record. MONTES. A Era do Globalismo. Maria Lúcia. 1984. Renato. São Paulo: Ática. lazer e identidade cultural. HOBSBAWN.). Jesús. Clifford. GUERREIRO. Os sons dos negros no Brasil. STRINATI. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Clóvis. São Paulo: Editora 34. Goli. Sociologia do negro brasileiro. A trama dos tambores: a música afro-pop de Salvador. In: Negro de corpo e alma. 1996. 1988. cultura e hegemonia. MONTEIRO. 1988. Mundialização e cultura. São Paulo: Dynamics Editorial. “Globalização. MARTIN-BARBERO. Identidade e Diferença”.Os sons do Atlântico negro GEERTZ. Terence (organizadores) A invenção das tradições. São Paulo: Brasiliense. MOURA. 39 jul. HALL. WHITE. São Luis: EDUFMA. novembro. 1999. Cultura popular: uma introdução. A interpretação das culturas. IANNI. reggae. José Ramos. 1978.

40 .

Culturas Afro-americanas. where there exists one of the most important multi-ethnic societies of the world. The Afrodescendent music was not just coincidence. In a social scenario. Trata-se também da ressignificação das letras e melodias das canções produzidas por músicos jamaicanos na formação identitária dessa população. Diáspora Africana.O Reggae na “Jamaica brasileira”:Cidadania e política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa Abstract The African Diaspora has contributed to the formation of artistic expressions in Brazil. social e política contra a marginalização que elas sofrem em seu cotidiano. 41-60. 2007 . Goiânia. but also to the battle against social inequality. VIII. Esse artigo analisa letras musicais e depoimentos orais entre outros elementos como exemplos dessas relações de apropriação e resignificação. especially in Maranhão. Within this context. Afro-American cultures. characterized by economic inequality with the hallmark of oligarchic politics. Keywords: Reggae. seja nas festas. African diaspora Resumo Na cidade de São Luís do Maranhão. n° 15. nas equipes de som. the population of São Luis incorporated Jamaican rhythm in its dance-rituals and drums. nos simbolismos. a apropriação do ritmo jamaicano do reggae pelas camadas populares constitui um movimento de resistência cultural. *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 41 Revista Brasileira do Caribe. Palavras-Chave: Reggae. the phenomenon of reggae is not only linked to the cultural traditions. vol.

Nesse contexto de significados o gosto artístico da população ludovicense. Diáspora Africana Em todas as regiões nacionais podem ser observadas a ‘olho nu’ elementos de africanidade reterritorializados. vol. n° 15 . O mesmo aconteceu com o ritmo surgido na Jamaica que chegou a São Luis indo até a África. A diáspora africana em muito contribuiu para a formação das manifestações artísticas no Brasil. En ese contexto de significados la población de São Luis en sus danzas y tambores. incorporaron el ritmo jamaicano. donde existe una de las más importantes sociedades pluriétnicas del mundo. adotou o ritmo jamaicano para dançar. ‘coronelista’. constituindo uma das mais importantes sociedades pluriétnicas do mundo e um dos maiores berços culturais transatlânticos. A música afro-descendente não se fixou por um simples passe de mágica. Goiânia. ainda. el fenômeno del reggae está vinculado no apenas a las tradiciones culturales sino también a la lucha contra las desigualdades sociales. La música afro-descendente no fue asumida por un simple pase de magia. VIII.Maristane de Sousa Rosa Resumen La diáspora africana ha contribuído para la formación de las manifestaciones artísticas en Brasil. o fenômeno estudado forneceu visibilidade ao bluff1 de tradições conferidas a um restrito grupo social dominante no Maranhão e aos processos de ‘higienização’ cultural. Ao contrário. Culturas Afro-americanas. especialmente en Maranhão. ouvir e festejar. permitindo considerar o ciclo do reggae neste tripé. Embrionariamente veio da África durante a travessia do Atlântico. En un escenario social pleno de desigualdades económicas y en el cual reina la política oligárquica y ‘coronelista’. vivenciados historicamente pelos africanos e descendentes. especialmente no Maranhão. nem tampouco fora de propósito num cenário social infestado de desigualdades econômicas em que reina uma política oligárquica e. ressignificados e relidos. revelado tradicionalmente nas danças e nos tambores. 42 Revista Brasileira do Caribe. Palabras Claves: Reggae.

Trata-se de uma abordagem inaugurada por Aby Warburg. cacuriá.25). da sociologia e de certos estilos de filosofia. p. W. Warburg havia morrido quando Hitler chegou ao poder em 1933 e estudiosos alemães associados ao seu Instituto refugiaramse no exterior. transferindo-o para Londres nas figuras de Saxl e Wind. M. o de E. assim como para a história da arte. lili. adicionando ou integrando a si lembranças e sentimentos. por abordar o reencontro de populações em um contexto de mudança social. tambor-de-mina. The Seventeenth-Century Background (1934). outra contribuição da Faculdade de Inglês de Cambridge. e o livro de G. Do mesmo modo outras festas dos negros brasileiros tornaram-se equivalentes às de origem africana. demonstrando a transição da ‘usança africana’ como instituição tão presente entre nós. tambor-decrioula. na Grã-Bretanha. “estudos sobre o pensamento da época”. Em virtude das interpretações propostas se confirma o viés histórico-antropológico. Tillyard. 43 jul... 2005. Assim. Os efeitos desses escritos literários contribuíram para a ascensão da história cultural. Victorian England (1936). (BURKE. 2007 . na Grã-Bretanha da década de 1930 estava se escrevendo uma história culturalista. M.O reggae na “Jamica brasileira”. De forma que a etnografia do ritmo jamaicano é uma importante ferramenta historiográfica para desconstruir estereótipos e preconceitos sociais. que contribuiu para a construção da ciência cultural. evitando tradições acadêmicas fronteiriças e delimitadas temporalmente. uma das figuras mais originais e influentes da história cultural no estilo alemão. A cultura africana e de seus descendentes constitui importante legado para o Brasil pelas festas de bumba-meu-boi. culturais e educacionais estabelecidos por séculos./dez. Young. Entre as contribuições mais importantes dadas a essa tradição está o livro de Basil Willey. escrito por um professor de inglês e apresentado como ‘panorama’ para a literatura. The Elizabethan World Picture (1943).

como fez Raymond Williams em The Long Revolution (1961). Concordando com as características atribuídas ao jazz por Hobsbawm. Leavis. F. Sua ênfase na idéia de que a literatura dependia de “uma cultura social e de uma arte do viver” deve-se menos a Marx e mais à nostalgia pelas ‘comunidades orgânicas’ tradicionais. foi cunhada a famosa expressão ‘estruturas do sentimento’ (BURKE. 44 Revista Brasileira do Caribe. livro que discutia a história social do teatro e em que. 2005. As emoções são realmente gritos tenazes contra a opressão e a favor de resistência. 1990:272). também estudiosos marxistas foram incluídos na preocupação relacional entre cultura e sociedade. No entanto não é difícil combinar uma abordagem ‘leavisita’ com a marxista. também na música reggae adotada na Jamaica podemos sugerir. um dos pseudônimos de Eric Hobsbawm. mas também seu público. Um outro exemplo e o alvo dessa contextualização. p. funcionando como elemento de fortalecimento da auto-estima de grupos dominados economicamente. mais ainda. Goiânia. também estava profundamente interessado na relação entre a cultura e seu ambiente. n° 15 . é a História social do jazz escrita por ‘Francis Newton’. vol. além disso. autor de The Great Tradition (1948). o autor discute não apenas a música. vieses de contestação por direitos e justiça social. especialista em Shakespere que encontrou no circuito da Escola de Warburg intelectuais instigantes e uma biblioteca inspiradora trazida por eles. abordando o jazz como negócio e. Como seria de se esperar de um famoso historiador econômico e social. Assim como Yates diz que foi “iniciada na técnica warburguiana de usar aspectos visuais como evidências históricas”. R. VIII.29). como forma de protesto político e social.Maristane de Sousa Rosa Nesse episódio cabe estudar o exemplo da inglesa Frances Yates. pelos textos e performances. justamente pelo “aflorar de emoções incrivelmente poderosas e tenazes tanto entre os seus seguidores quanto entre os seus oponentes” (HOBSBAWM. publicado em 1959.

ilustra a relação de pertença socioétnica entre Jamaica. cupid. quando diz: “Por que nos tornamos como cordeiros. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão. Essa canção Are We a Warrior (Nós Somos Guerreiros?) interpretada e composta por IJahman em álbum gravado no ano de 1978. oh love 45 jul. ora prevendo que esse e outros enredos literários construídos pela cultura da diáspora sejam acessíveis como conteúdos educacionais que privilegiam a diversidade do conhecimento. no visível e no imaginário. São Luis e África.. exemplifica um dos caminhos a ser percorrido pela pedagogia inclusiva.. A performance musical do jamaicano IJahman é uma ritualização do culto sagrado rasta. pois estamos numa guerra. de luta. Oh.” O sucesso musical We Are a Warrior (Are We a Warrior) eleito na cidade de São Luis como o hino do reggae no Maranhão. Vejamos: The perfection is love And I give thanks For the fullness Within the full me nice Its cool mild these peace me nights Its gentleness Made I a man son of him Life was divided In sweet harmony Come it A woman until dream Are we a warrior? Are we a warrior. simultaneamente proporcionando reações no audível. 2007 ./dez. com sonoridade simbólica de persistência e contestação.O reggae na “Jamica brasileira”. stupid Let not your arrow From your bow. não confunda.

Maristane de Sousa Rosa Faith is a mountain. stupid Let not you arrow From your bow So out low And never let it go What caused You have a pistol In your endless love Is it far? To shut the man down there Do we give in? After we have star lit Why can’t We become like a lamb Not look end It’s not humble when These is a small confusion It is a war They rather way as be and Sometimes being confused Within your own head Because at times How us get have down led Are we a warrior? Are we a warrior. VIII. Goiânia. vol. n° 15 . So silent and filled Fountains of waters For also all his lovely creatures He gave us wisdom And knowledge to understand its love Do us after a war Are we a warrior? Are we a warrior. Oh cupid. Are we a warrior. 46 Revista Brasileira do Caribe.

. stupid Let not your arrow 47 jul. Oh cupid. stupid Let now your arrow From your bow So out low And never let it go Take a look at certain dream And there are often true stories It would be On all our own glory How often I ask Still like it see no love its why For full close and shelter The cry of mamas and papas Are we a warrior? Are we a warrior. 2007 . Are we a warrior. Oh cupid./dez. stupid Let not your arrow From your bow Prophecy is now revealed The son of man won’t take it The heart is giving up Why life is taking in the sudden shock The crying of the people Multiply in all over Jah will give an answer To have are stop cry our Are we a warrior? Are we a warrior.O reggae na “Jamica brasileira”. Are we a warrior.. Are we a warrior. Oh cupid.

o ritmo da diáspora fez emergir sentimentos de orgulho negro quando elegeu fatos históricos e da Bíblia para serem recontados sob a luz de ideais pan-africanistas fortemente difundidos nos Estados Unidos e no Caribe. os reizados. o carnaval. realizado por autores como J. os cultos jeje4 e nagô ilustram este processo de resistência do negro africano que atravessou o Atlântico e. as músicas são apelidadas pelo nome ressonante. Peter Burke e Eric Hobsbawm como exemplos que inseriram narrativas dinâmicas às festas carnavalescas.Maristane de Sousa Rosa From your bow And never let it go. mesclando-lhes vocábulos ou sotaques. as cantorias. Goiânia. o vestuário.2 Tomando a canção como referência. vol. 48 Revista Brasileira do Caribe. vindo com seu idioma. say”. Jah. Soam mais estranhas ainda expressões como Jah. Lorand Motory. ressignificou a alimentação. ou seja. Os regueiros maranhenses apreciam a melodia e desconhecem as letras das canções em língua inglesa que falam sobre os fundamentos filosóficos do movimento Rastafari e de elementos de simbologia afro (o cabelo. a figura do leão. Ao cenário associativista bem se aplica o diálogo reflexivo da antropologia com a história. “Melô de Poliana” é Think twice da intérprete Donna Marie (apelido adotado segundo a preferência dos regueiros ou regueiras) e “Melô de Pinto” é uma homenagem a radiola6 Itamaraty. Nesse sentido. as cores pan-africanas). estruturou sua língua ao português. Com referência aos fatores lingüísticos não por acaso o reggae cantado em ‘inglês jamaicano’ é ouvido em São Luís na forma de melôs5. 1997:29). cita-se o Rastafarismo3 que. associado ao contexto musical jamaicano do século XX. seus costumes e valores. VIII. ao francês ou ao inglês. pelo sotaque que o ouvido capta e torna mais evidente: “Melô do Cachaceiro” representa a sonoridade do refrão “Jah. n° 15 . serviu como instrumento para dar visibilidade às tradições milenares africanas do “Egito e Etiópia” (ALBUQUERQUE. Desse modo. as danças e mais ainda.

cinturão preto. Ou seja. Sou viúvo. pois os melôs romperam barreiras impostas pelo idioma dantes colonial. na Praia do Gaspar. disse: Começamos a dançar reggae no quintal. num cercado de palha. tenho 9 netos. ninguém sabia as cores. camisa branca. foram direcionadas como subsídio histórico para reescrever a História e Cultura Africana por meio do reggae. Peixeiro. não têm essa pegada. passei dois anos na igreja. Eu gosto do reggae roots. Meu lazer é reggae. Um assíduo freqüentador das festas de reggae roots.. Embora a população ludovicense possua baixas taxas de escolaridade e tenha dificuldades para utilizar o português da gramática normativa não se descartam sinais de “parentesco” afrocultural entre jamaicanos e maranhenses. esse fenômeno foi estudado para compreender como a melodia produziu emoções no corpo e na ‘alma’ dos afro-ludovicenses em que sentimentos de êxtase são almejados pela audição do ritmo jamaicano e não outro. Antonio Domingos Almeida Santos. o reggae é uma maravilha. amplamente tocadas na cidade São Luis. Hailé Salassié I ou Ras Tafari. Já fui evangélico. mesmo desconhecendo a língua inglesa. 1980 e 1990. radiolas grandes e pequenas. No tempo que nós aprendemos a dançar era calça preta. De outro lado. As letras musicais jamaicanas das décadas de 1970. às vezes eu tava na igreja aí escutava uma batida de reggae não agüentava. peixeiro aposentado. 6 filhos. no Sá Viana. 2007 . boina branca./dez. aí eu sou aposentado como peixeiro. com 77 anos de idade conhecido pelo apelido de Sapo. o reggae roots7 mesclado com patois8 se mostrou incompreensível também também confrontado ao padrão lingüístico fonográfico de sotaque anglo. As melodias que envolvem fortes denúncias das desigualdades socioétnicas contra a população negra não tem como ponto de partida a versão jamaicana. não agüentei. criando até descobrir 49 jul.O reggae na “Jamica brasileira”. Na capital do Maranhão foram re-significadas pela emoção. Marcus Garvey. aí fomos criando. pensado como elemento sócioeducacional para consolidar a cidadania na sociedade do Maranhão.. eletrônico não.

uma cultura. Nesse sentido. americano também. eles cantam pra Babilônia. VIII. vol. batemos tambor-de-mina. O reggae levanta a gente assim. Goiânia. que fez até a cidade de São Luís receber o codinome de “Jamaica Brasileira”9. 2006). O reggae pra mim é uma cultura autônoma nossa. alemão. n° 15 . dançamos bumba-boi. desde 1970. se imbricaram nos dois territórios pelo reggae roots. você podes crê. fibra e cultura. pela política colonial escravista de São Luis e o decorrente preconceito racial estendido aos negros descendentes. desde o vodu do Haiti à santería de Cuba e ao candomblé do Brasil (que tem ligações particularmente estreitas com as tradições iorubas). todo mundo coleciona reggae. muita coreografia. ou seu equivalente no Maranhão. Sou regueiro antigo. (Sapo. mar. pra Jah. Os cultos de possessão desse tipo continuam entre os negros nas Américas. dançamos tambor-de-mina. abraça-me. Ele saiu lá da Jamaica. é um bom lamento. integridade. é uma beleza de lamento. dançamos tambor-de-crioula. Nós maranhenses já trazemos esse ritmo no corpo. o reggae pra mim sempre foi uma cultura. até que apareceu a original. “Os tambores eram considerados as vozes das divindades. cada uma associada a um ritmo característico. Os jamaicanos eles faz muita mímica. pra uma árvore. tudo isso é cultura. Eles cantam pra uma criança. nome que enfatiza a batida do tambor”.Maristane de Sousa Rosa uma origem. guardando as devidas proporções. trazendo muita paz. o reggae é um lamento. É nossa música. 50 Revista Brasileira do Caribe. o reggae toca no corpo todo. Por isso narrativas histórico-culturais são pertinentes à chegada do ritmo de matriz africana com sotaque inglês. japonês coleciona muito reggae. já nascemos com esse ritmo no corpo. quando ele faz assim (abre os braços) pedindo a Deus. respeito. toca no corpo todo. As simbologias musicais na década de 1970 entre Jamaica e Maranhão implicaram no fortalecimento cultural da diáspora que pela música percussiva dos tambores nyahbinghi e tambor-demina. o tambor-de-mina. é muita gente. as cores originais. trazemos no coração. Conforme Peter Burke (2000: 224). São Luis. eles cantam pra uma pedra. o reggae nasceu para o povo.

se aproximam por mecanismos de cognação nos quais os lugares da memória não são espontâneos mas. p. sociais.] Examine e olhe determinados sonhos. como questiona o refrão: “Nós somos guerreiros? – É nós somos guerreiros”.O reggae na “Jamica brasileira”. conteúdos vocabulares em língua inglesa são posicionados como narrativas etnográficas do movimento panafricanista da Jamaica que rememorou os milenares costumes da África por meio de danças. os espaços. A partir da divulgação dos conteúdos musicais do reggae jamaicano das décadas de 1970. composição de arquivos do passado sob os quais ela se escora. Compomos nossas reminiscências para dar sentido à nossa vida passada e presente. políticas e históricas.. carregados de mensagens religiosas. Assim. De acordo com Alistair Thompson (1981. gestos. 56) é por isso que. a música e as letras do reggae jamaicano foram utilizadas como meio de efetivação da historiografia africana e de seus descendentes à sociedade maranhense. pelo trecho que diz: “Para possuir nossa cabeça como em outras épocas. Os territórios. 2007 ./dez. aqui considerados como instrumento de resistência para validar a historiografia africana frente aos conteúdos eurocêntricos.. onde há freqüentemente histórias verdadeiras”. de certa forma. compreendeu-se como autênticos os sentimentos desenvolvidos pelos regueiros em relação à melodia jamaicana. nós as compomos ou construímos utilizando as linguagens e os significados de nossa cultura. mas ‘legitimados’ pela leitura social. esta pensada como ferramenta pedagógica para construção de consciência política e reivindicação de cidadania. quando nos conduziram sob seus pés [.. 1980 e 1990. composição é um termo adequadamente ambíguo papa descrever o processo de ‘construção de reminiscências’. 51 jul. aparentemente dissociados pela geografia ou por fatores lingüísticos.. gostos e atitudes musicais.

Pelo que toca aos negros que Henrique Dias chama ardas. VIII. calipso e rumba.Maristane de Sousa Rosa Concordando que história é memória e vice-versa. p. O franco diálogo entre a cultura musical da América do Norte e Caribe foi responsável pelo surgimento do reggae na Jamaica que se formou de elementos do rhythm and blues. p.119): Os escravos Akan (no Brasil conhecidos como fante-achanti) são comerciados na Costa do Ouro nas proximidades do Castelo da Mina e em Cape Coast. jazz. onde têm boa aceitação.15) destaca os seguintes grupos étnicos vindos para a Jamaica: “escravos da África Ocidental. por ardras claramente se deve corrigir o nome. próximo de Abomey. Goiânia. Aos grupos referenciados acima Nina Rodrigues (1982. quando o intangível se apóia nos traços exteriores e nas referências tangíveis de uma existência que se supõe existir por detrás deste estoque material. em que agora as identidades revitalizam a própria historiografia de si. em sua maioria. vol. Não é difícil supor que algumas vezes essa divisão de mercado tenha sido rompida. O antigo reino de Ardra. e neles se descobrem negros jejes ou daomeanos. p. a denominação genérica de angolas designa todos os bantos.” Para Mariza de Carvalho Soares (2000. Carlos Albuquerque (1999. Já Cuba e Brasil recebem dessa costa escravos de vários grupos étnicos de língua ioruba (na Bahia chamados de nagôs). para as colônias inglesas. a maior parte formada por integrantes dos povos ashanti. e vão. todos da tribo dos coromanti. n° 15 . minas seriam os nagôs. fantis e outros. numa simbiose de etnicidade encontrada entre nações de procedência na travessia do Atlântico. ioruba e akan. Os escravos do Daomé (de língua fon) vão principalmente para as colônias francesas (Haiti e Louisiana).36) diz que. por ingleses e holandeses. 52 Revista Brasileira do Caribe.

gen. De modo que para o Maranhão e Jamaica vieram grupos étnicos comuns (Minas). 2007 . onde os europeus haviam estabelecido importantes casas de comissão. Lorand Matory. um afamado empório do tráfico negreiro. regional e transatlanticamente. As descrições utilizadas situam os Akan ou Fante-Achanti. (MATORY. capital dos daomeanos. em destaque para o primeiro caso os Fanti e para o segundo os Ashanti.. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de 53 jul. Segundo Silva “uma curiosidade é que segundo historiadores. Caribe e Brasil (Casa Fanti-Ashanti e Casadas-Minas no Maranhão). p. para todos os falantes de ewe. pela tese de doutorado de Carlos Benedito Rodrigues da Silva. evidências encontradas em São Luis pela formação vocabular do terreiro Fanti-Ashanti fundado por Pai Euclides no ano de 195410. ou melhor. Fantis ou Minas.O reggae na “Jamica brasileira”. Ashanti.63). foram retomados após a travessia transatlântica em meados da década de 1970. entendendo que as imagens e a discografia jamaicana interagiram com culturas que o passado escravista separou. constitui há séculos. Akan ou Minas. Ashanti. Assim interpreta-se que os diálogos interrompidos por séculos entre maranhenses e jamaicanos. entre os grupos étnicos vindos da África Fanti. 1999. como grupos étnicos de travessia. aja e fon. mas seu registro na África depois de 1864 revela muito sobre a história da etnicidade e da nação. Também Nina Rodrigues em Os africanos no Brasil./dez. concorda com a procedência ocidental dos africanos escravizados que vieram para as Américas e Caribe. Essa associação deu-se também pelo cruzamento de informações coletadas nas abordagens de Carlos Albuquerque em O eterno verão do reggae. tratando-se da mesma língua de adoração dos deuses vodun. designando o ‘parentesco’ jeje pela religiosidade de tronco comum na América do Norte. o termo jeje foi designado no Brasil em meados do século XVIII. referência encontrada pelos depoimentos colhidos no documentário “Atlântico Negro – na rota dos orixás”.. Conforme J.

no espaço social em que se situa o historiador. não descarta a dialogicidade entre cá e lá a qual este estudo se ocupou em estabelecer partindo de fatores que ultrapassam barreiras fronteiriças. isto é. p. No entanto o fato do referido pesquisador não ter encontrado evidências dessa associação. Com efeito. interpretada como responsável pela memória histórica e identitária que reveste de simbolismos a comunidade afrodescendente ouvinte de “música negra de raiz”.113). condenar ou reabilitar imputando a vontades benéficas ou malignas as propriedades aprovadas ou reprovadas do passado. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. ora com possibilidades de percepção do passado. Assim. de idioma. prontos para serem utilizados no momento em que são solicitados. ele próprio mais ou menos autônomo em relação a essas lutas. p. mais uma vez concorda-se com os conceitos de memória latente e em potencial avaliando que os lugares da memória não devem ser julgados somente como espontâneos. VIII. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa” (2001. desenvolve-se uma reflexão sobre a existência mista de oralidade que ora se apresenta na forma de variabilidades textuais discursivas. vol. de espaço. Essa reflexão depara-se então com a representação normativa do passado. 54 Revista Brasileira do Caribe. depende do grau em que o passado das instituições em causa é considerado como algo que está em jogo e como instrumento de luta. através dessas próprias instituições. desenhada nos ritos religiosos de origem africana.Maristane de Sousa Rosa religião afro-brasileira de São Luís é a Casa de Fanti-Ashanti. a propensão para a visão teológico-política que permite censurar ou louvar. Goiânia. no campo das lutas sociais e no campo de produção cultural. n° 15 . mas ficam latentes. De acordo com Pierre Bourdieu (2001.79): De facto. são arquivos criados no presente.

p. Os costumes Masai caracterizaram não somente o visual dreadlocks11 mas também o totemismo entre homem e leão que o reggae jamaicano utiliza expressivamente em camisetas. Se me for rapada a cabeça. p. o qual. rugindo. Dalila. arremeteu contra ele. Quando chegaram às vinhas da cidade.164-165). pois. principalmente as menções aos primeiros israelitas. Então. nunca passou a navalha. o uso de tranças e a força física para lutar com o leão. Mas o espírito do Senhor entrou em Sansão. p. (Jz.. 2003. reivindicações de orgulho negro da década de 1930 foram aproveitadas como viés teórico a partir da inspiração bíblica utilizada pelo movimento Rastafari. o mito da força dos cabelos. disse ele. apareceu de repente um leão novo e feroz. (Jz. p. 16. Sansão. fazendo-o adormecer sobre os seus joelhos.5-6). aos profetas e até mesmo ao Cristo como usuários de ‘tranças’. que cortou a Sansão as sete tranças do seu cabelo. o uso de ‘terríveis tranças’ estava associado às “fotos de guerreiros somalis e suas 55 jul. Segundo Carlos Albuquerque (1997. estampas. daí advindo o não uso da navalha nos cabelos de forma que as tranças rastas pudessem crescer livremente. vídeos e na bandeira da Etiópia. As escrituras lidas nos moldes da colonização ocidental e nas pinturas da Europa renascentistas apresentaram de forma “branqueada” a lenda de Sansão..17). 16:19)./dez. A releitura da Bíblia proposta pelo movimento Rastafari consistiu numa revisão. introduziram importantes referências aos negros subtraídas ou adulteradas pelo mundo Ocidental. perderei a minha força e então serei como qualquer outro homem.O reggae na “Jamica brasileira”.34). (GILBERT. 2007 . descrita no livro de Juízes: Sobre a minha cabeça. 14. desceu com seu pai e sua mãe a Tamna. chamou um homem. porque sou nazareno de Deus desde o ventre de minha mãe. sem ter na mão qualquer arma. (Jz. que despedaçou o leão como se fosse um cabrito.

Maristane de Sousa Rosa carapinhas em estilo medusa. porque já haviam matado pelo menos um leão na vida e se tornaram autênticos guerreiros da tribo. Goiânia. eram carecas. teriam dado aos rastas a certeza de que com as dreadlocks eles estavam seguindo. organizações militantes negras e a musica jamaicana reivindicaram oportunamente da cultura Ocidental. cabelos compridos e trançados. vol.61) na reportagem da revista “Os caminhos da Terra”. p. O filho do homem não fará exame do coração que está desistindo. De modo que partindo do título do hino do reggae no Maranhão (Nós somos guerreiros). tinham cerca de 20 anos. repetiram as apresentações aos masais. Oxalá. chamados de ilkelianis. de suposições sobre os guerreiros somalis e o lendário Sansão. Prevendo ainda pela música. tais narrativas apontaram na direção do grupo étnico Masai por adotarem o uso de dread e principalmente pelo ‘costume’12 de combater com leões nos rituais de passagem13. n° 15 . e os adultos. Conforme IJahman: “A profecia agora é revelada. aspectos pioneiros do legado patrimonial negro da África à humanidade. mas Jah dará uma resposta para nosso choro”. como o exemplo encontrado na referência de Diego Lezama (1999. pois a vida o levará num súbito choque. Os mais jovens. VIII. O choro do povo se multiplica em toda parte. uma tradição milenar africana”. todos ornamentados. o som onipresente do reggae que se tornou práxis política desalienadora e operante para romper a segregação visível 56 Revista Brasileira do Caribe. os moranis. ao descrever um trekking com os Masais: As 25 pessoas de nosso grupo. desconstruir ‘tradições inventadas’ e abordagens etnocêntricas. Estavam ali sete deles. membros de ‘uma das tribos mais selvagens da África’ [grifo nosso]. estudantes europeus em sua maioria. Contrariando a referência. e respeitando. vistas na Jamaica pela primeira vez nos anos 30.

lá na Jamaica. estúpido./Oh cupido./São suaves e cheias de paz minhas noites.. A profecia é revelada agora./ Oh cupido. É nós somos guerreiros. sirva para consolidar ações afirmativas entre a comunidade afrodescendente do Maranhão. 2 Título: Nós somos guerreiros (We Are a Warrior – tradução da autora) O amor é a perfeição e eu dou graças pela agradável plenitude presente dentro de mim./dez. Eles certamente querem o caminho às vezes mais confuso. não atire a flecha de seu arco e nunca a lance. O choro do povo se multiplica em toda parte. cupido. O filho do homem não examinará o coração que está desistindo./Oh cupido. Notas 1 Palavra inglesa que deriva a forma aportuguesada blefe significando iludir. 57 jul./O que te fez ter uma pistola? Seu amor infinito acabou para você atirar no homem ali? Nós desistimos depois que a estrela nos iluminou? Por que nos tornamos como cordeiros. estúpido./ Nós somos guerreiros?/É nós somos guerreiros. para possuir nossa cabeça. deixe-a baixa e nunca a lance. deixe-a baixa e nunca a lance. amor. lograr./Oh. mas Jah dará uma resposta para o nosso grito. estúpido. pela mansidão que me fez filho do homem./Examine e olhe determinados sonhos onde há freqüentemente histórias verdadeiras. não atire a flecha de seu arco. Ainda que não vejamos nenhum amor.. 2007 . É nós somos guerreiros./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros.O reggae na “Jamica brasileira”. como em outras épocas quando nos conduziram sob seus pés./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. Oh. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão. não lance sua flecha de seu arco. enganar. por que a vida o levará num súbito choque. não atire a flecha de seu arco. não atire a flecha de seu arco./Fé é uma montanha tão silenciosa e cheia de fontes d’água para todas as adoráveis criaturas. É nós somos guerreiros. estúpido. Ele deu sabedoria e conhecimento para entender o amor após uma guerra. pois estamos numa guerra. como freqüentemente eu peço. não confunda./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. mas para o fim haverá abrigos cheios com clamor de mães e pais. É nós somos guerreiros. estúpido. Seria toda a nossa própria glória./Oh cupido. A vida foi dividida em doce harmonia fazendo uma mulher até sonhar.

php?id=28. composto por Minas. Goiânia. Informação disponível em: http://www. então reggae roots ou somente roots representa o ritmo de raiz. de tronco lingüístico comum. Ashanti. Língua religiosa adotada pelos rastas compondo a maneira ritualística de falar para definir o mundo político. incluindo ainda o jamaicano Marcus Garvey como profeta afro-centrista que inspirou a visão do orgulho negro. n° 15 .br/ artigos2. sendo também usada para definir aspirações espirituais. chegando o novo nome aos outros redutos regueiros fora de São Luis. aquele originado no início dos anos de 1960. imperador da Etiópia. VIII. época do disco de vinil. os Dj’s atribuíram esse ‘codinome’ à capital do Maranhão como forma de relacionar São Luis e Jamaica com o reggae. ainda compostas por mesa de mixagem do som e pela presença de DJ’s. 3 4 Grupo étnico heterogêneo vindo da África durante a travessia transatlântica em meados do século XVII. Fanti. econômico. Nagôs. em que grandes shows reúnem até cinco estruturas desse porte. Título dado às músicas reggae pela sonoridade produzida em inglês ou patois jamaicano. Ioruba e Akan.gov. por vezes também homenageiam a preferência do regueiro mais considerado. ou seja.ma. Ardras.Maristane de Sousa Rosa Filosofia religiosa afro-caribenha surgida em meados dos anos 1930 que proclama Jah como Deus Supremo e Hailé Salassié I. 7 As mudanças melódicas a partir de meados da década de 1990 adjetivaram o ritmo jamaicano atual de Dancehall ou batida eletrônica. 8 9 Conforme Silva (2001:44). vol. Feitos de madeira compensada que medem por vezes 3 m de altura por 5 m de largura. como reencarnação divina na terra. com amplificações de som de alta freqüência. particularmente no Maranhão são assim chamados os grandes paredões de som que animam os eventos de reggae. 10 58 Revista Brasileira do Caribe.culturapopular. devido a grande projeção do ritmo jamaicano entre a população maranhense. 5 6 Ressignificação dada aos sound-systems jamaicanos. Formou-se da mistura do inglês com termos creoles. Acessado em: 05/01/2006.

O poder simbólico. Eric. Sua função é dar a qualquer mudança desejada (ou resistência à inovação) a sanção precedente. São Paulo: Ed.. Manuela Carneiro. Negros estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. 2005. Tradução Missionários Capuchinhos de Lisboa. BURKE. ciudadanía y patrimônio em América Latina”. São Paulo: Stampley Publicações. RANGER. SP: Papirus. Peter. Eric. 1989. 1994. embora por vezes seja tolhido pela exigência de que dever parecer compatível ou idêntico ao precendente. 1986. 1997.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Ecléa. In: Revista Os Caminhos da Terra. 8. In: La (indi)gestión cultural: uma cartografia de los processos culturales contemporâneos. n. Campinas. Das Letras. Rio de Janeiro: DIFEL. 2000. São Paulo: Paz e Terra. 12 Disponível em: < www. FREIRE. podendo mudar até certo ponto. (Trad. São Paulo: Cia. Argentina: CICCUS/LaCrujía. Rio de Janeiro: Zahar. 34. Mônica Lacarrieu./dez. Carlos. Michel de. BÍBLIA SAGRADA. continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história. Terence. São Paulo: Brasiliense. 11 De acordo com Eric Hobsbawm (2006:10) que toma costume no sentido de possibilitar inovações. CERTEAU. 3ª ed.br/4x4/ed08/masai. CUNHA. 32ª ed. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 1999. 2002. A invenção das tradições. BOURDIEU.com.asp>. (Trad. HOBSBAWM. Marcelo Álverez (Comp.O reggae na “Jamica brasileira”. HOBSBAWM. v. Paulo. A cultura no plural. “Cultura. 1990. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 59 jul. 13 Bibliografia ALBUQUERQUE. Enid Abreu Dobránszky). set. O eterno verão do reggae. Diego. [1971?]. ARANTES.. Pedagogia do oprimido. Pierre. Acessado em: 07/09/2006. História social do jazz. BURKE. 9. O que é história cultural. Celina LEZAMA. Antonio Augusto. (Coleção Ouvido Musical). Peter Variedades de história cultural. “Um trekking com os masais”. 1995. BOSI. por vezes com cera de abelha.tribooffroad. 2002. 2007 . formando grossas tranças. Visual do cabelo enrolado em forma de pavio.

abr. DF: CAPES. In: Revista de Antropologia. “Jeje: repensando nações e transnacionalismo”. São Paulo. Tiago de Oliveira. SILVA. Carlos Benedito Rodrigues da. 1982. p. 2001. O que ler na Ciência Social Brasileira (1979-1995).Maristane de Sousa Rosa MATORY. 1998. 2000. 1985. v. 2001. “Som e música: questões de uma Antropologia Sonora”. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 9. mar. Cardim Cavalcante). Brasília: Universidade de Brasília. ano 4. Carlos Benedito Rodrigues da “Ritmos da identidade: mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão”. PINTO. Sumaré/ ANPOCS. In: Horizontes antropológicos. RODRIGUES. Moritz. São Paulo: Ed. Lorand. “Recompondo a memória: questões sobre a relação entre história oral e as memórias”. 44. Sociologia do negro brasileiro. SILVA. lazer e identidade cultural. n. 1999. Lília K. 1. Porto Alegre. 1997. 1. São Paulo: Ática. Devotos da cor. Mariza de Carvalho. Os africanos no Brasil. Goiânia. PPGASUFGRS. 1988. In: Projeto História. São Luís: EDUFMA. “Questão racial e etnicidade”. In: Sérgio Miceli. J. Clovis. Alistair. 221-286. 1997. VIII . 2ª ed. Porto Alegre. v. THOMPSON. vol. São Paulo. n. Brasília. 60 Revista Brasileira do Caribe. Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae. SCHWARCZ. MOURA. São Paulo. Nina. Tese de Doutorado em Ciências Sociais Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. SOARES. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

n° 15. VIII. são analisados em seu contexto. Reggae Resumo Este artigo analisa as relações interculturais entre Brasil e Jamaica por meio dos conceitos de contaminação e apropriação. 2007 . Resumen Brasil y Jamaica. em que o reggae jamaicano é apropriado e ressignificado em algumas regiões brasileiras. which emerge from the Jamaican filmography and other iconographic sources. vol. but open systems. filmes jamaicanos e documentários brasileiros como representações e veículos dessa comunicação intercultural. Nessas relações a música popular e a produção audiovisual constituem veículos de reinterpretação e ressignificação das culturas de ambos os países que revelam semelhanças e especificidades. recreated in Brazil. Audiovisual. considerados tanto en sus sujetos y practicas sociales. both from its subjects and its social practices. Reggae. Reggae. Palavras-Chave: Jamaica/Brasil. Para tanto. conforms the vision of the spectator departing from a series of symbolic audiovisual references. Comunicação Audiovisual. Keywords: Jamaica-Brazil.Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal Abstract This study attempts to look at Brazil and Jamaica not as closed. 61-84. The exploration of the audiovisual and musical performances in both countries contributes to deepen into its culture. Goiânia. son estudiados em este artículo no como sistemas cerrados sino abiertos. Investigar los grados de intensidad y sobre todo las performances en la relación entre ambos *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 61 Revista Brasileira do Caribe.

Para tentar incorporar esta visão relacional ao estudo dos contatos entre os sistemas culturais. pode-se ter em conta que. “onde a 62 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. Nesse sentido. vol. regionais ou nacionais. entendidos não como unidades fechadas de características facilmente delimitáveis. Como os contatos entre esses dois contextos poderiam ser abordados de forma a trazer novas luzes para o debate sobre a comunicação intercultural1? Em primeiro lugar. Comunicación audiovisual. como o de rede. o que vem sendo desenvolvido por uma grande variedade de pensadores de diversos lugares e tradições de saber diferentes. como todos os diferentes contextos culturais. sempre estiveram em contato. longe de serem momentos excepcionais e fugazes.Leonardo Vidigal países mediante la producción audiovisual y musical permite profundizar en la cultura. Reggae Brasil e Jamaica. que estariam sujeitas a toda sorte de variações. El reggae recreado colectivamente en Brasil. conforma la visión del espectador a partir de un conjunto de referenciales simbólicos audiovisuales procedentes de la filmografía jamaicana y otras fuentes iconográficas. mas como sistemas abertos de sujeitos. em sua concepção de comunicação. estabelecendo as condições para o auto-reconhecimento dos habitantes de tais contextos como “distintos” de seus congêneres. Michel Serres apresenta as redes como espaços irregulares. práticas sociais. meios e produtos que se encontram envelopados em subdivisões jurídicas e econômicas cada vez mais frágeis. que poderiam contar com uma “pluralidade de subtotalidades” (o que corresponderia aos contextos locais). n° 15 . sejam eles locais. Palabras Clave: Brasil/Jamaica. seria preciso usar uma abordagem que procurasse ultrapassar os limites da rígida organização do conhecimento especializado. VIII. como algumas especulações e pesquisas no âmbito antropológico e filosófico parecem afirmar. tais contatos foram a base da constituição recíproca dos contextos socioculturais planetários ao longo do tempo. em complexas gradações de intensidade e performatividade. envolvendo uma reinvenção de conceitos bastante utilizados.

com grande e perceptível vitalidade. determinação é construída. veiculada na TV por assinatura)./dez. Tais audiovisuais foram realizados por equipes independentes que posteriormente tiveram seus programas veiculados na TV Cultura de São Paulo (pública. posto que os processos de tessitura continuam em plena atuação. de leitura complexa. mas que pode revelar muito sobre as transformações culturais em curso na contemporaneidade. é preciso recortar um aspecto ou elemento deste processo.. ensaiada” e não deveria ser considerada como fixa (MORAES.Enredando Brasil/Jamaica. que fizeram pelo menos três incursões deste tipo naquela ilha do Caribe anglófono. ela amplia o seu potencial de aglutinação e torna-se também um indicador. o que acontece hoje entre as subtotalidades que compõem as subdivisões maiores denominadas Brasil e Jamaica pode ser chamado de enredamento. que circulam de forma cada vez mais rápida e acessível pelo mundo. aberta) e no canal GNT (privada. Dessa forma. para melhor focar e direcionar tal compreensão. na TV Bandeirantes (privada. pertencente à mesma empresa mantenedora da Rede Globo. negociada. Dessa forma. tornando-se parte da constituição de um tecido cultural aberto. foram produzidos ao longo do tempo na Jamaica.. quanto por equipes mistas e ainda por outras totalmente estrangeiras. filmes de ficção semi-documentais. Em segundo lugar. recorte que nesse caso destacou o audiovisual. apropriações e combinações possíveis entre os diferentes produtos e interpretantes. Isso porque ela atualiza continuamente e torna explícitas as contaminações. pode-se concluir que o interesse de documentaristas e jornalistas televisivos do Brasil pela situação jamaicana é significativo. Quando a articulação de imagem e som incorpora uma expressão igualmente mobilizadora como a música popular. aberta). Entre estas equipes de gravação estrangeiras estavam os brasileiros. 2000). Se for assim. 2007 . Tal disposição somente 63 jul. um dos principais meios a organizar a expressão humana. documentários e outros produtos audiovisuais (como videoclipes) realizados tanto por equipes locais. estabelecendo assim uma necessidade de maior compreensão dos fenômenos envolvidos. por diferentes processos.

Leonardo Vidigal encontra paralelo entre os realizadores provenientes de países como Inglaterra e Estados Unidos. tornando-os sócios ou seguidores dos modelos hegemônicos. não podem ser ignoradas na tentativa de operar com essa percepção. vol. A comparação e a análise de tais esforços não podem deixar de levar em conta a atual situação. mais estreitamente ligados à Jamaica por abrigarem colônias numerosas de oriundos da ilha caribenha. mas hesita em investigar culturas consideradas exóticas pelo olhar condicionado por este mesmo cânone. Sem entrar nos méritos dessa produção e partindo de um olhar que. ao mesmo tempo em que os submetem a todos às decisões macroeconômicas tomadas pelos organismos internacionais como o FMI. até porque é neles que se concentra a maior parte da produção audiovisual hoje em dia. reduz muito fácil e acriticamente as manifestações culturais menos conhecidas ao estereótipo exoticizado. Goiânia. talvez inconscientemente. n° 15 . procura incorporar a extrema heterogeneidade de tais contextos culturais na sua análise. naturalmente complexo e plural. Este tipo de mentalidade que partilhamos. é preciso pesquisar caminhos para a abertura ou o melhor aproveitamento de circuitos alternativos de cultura entre os países à margem. em que os processos de integração do capitalismo contemporâneo estão generalizando uma lógica de mercado e de consumo que coopta determinados agentes dos países à margem. elegendo assim aspectos específicos de um contexto cultural como representantes de toda a produção desse contexto. No entanto isso não acontece sem problemas para quem deseja estudar as relações culturais entre os países à margem. mais do que considera. mas incorporadas nas perspectivas de análise. 2002). VIII. As persistentes assimetrias de poder entre os estados-nações e no interior destes. Neste sentido. o Banco Mundial e a OMC (ANTELO. podemos afirmar que um estudo 64 Revista Brasileira do Caribe. com nossos colegas de universidades situadas nos grandes centros. Isso porque o pesquisador pertencente ao contexto brasileiro sente-se inteiramente à vontade para tratar de objetos referentes ao chamado cânone ocidental.

Culturas do audiovisual Mas antes é necessário compreender melhor o recorte usado para esse estudo. Esta é certamente uma definição que faz jus aos estudos mais atuais e rigorosos sobre o assunto. tanto para o público em geral como para a esfera acadêmica em particular. com ou sem a mediação de meios tecnológicos (BETHÔNICO. O termo “audiovisual” é bastante abrangente e corresponde. mas sob certas premissas teóricas que este texto procura discutir. mais atento e menos eurocêntrico seria altamente proveitoso. familiar e estranha.Enredando Brasil/Jamaica. É um esforço de reinterpretação e ressignificação (DHARESHWAR e NIRANJANA. Para uma compreensão dos produtos audiovisuais de acordo com as premissas desse estudo. novas identificações e também novos mercados. podem ser analisadas como trazendo uma motivação diferenciada. derivados das ambigüidades socioeconômicas e outras características que compartilhamos. No entanto. talvez até mais receptivos do que os mais cobiçados. o computador.. podem ser descobertas também algumas soluções comuns que são ou podem ser adotadas para tais impasses. menos hegemonizante e homogeneizante? O caso que se pretende analisar parece indicar que sim. nesse caso sob o formato de produtos audiovisuais. 2001). 2007 . as relações entre os contextos à margem. o que poderia abrir espaço para novos reconhecimentos. em sua acepção contemporânea. Pesquisar outros circuitos por onde circula o audiovisual pode revelar impasses e questionamentos semelhantes aos nossos. a qualquer articulação possível entre signos visuais e sonoros./dez. mas neste texto iremos restringir o uso de tal conceito aos suportes técnicos. estes não devem ser 65 jul. a televisão. 1996) que oferece novas perspectivas sobre nossa própria condição. pois é ao mesmo tempo próxima e distanciada.. ao norte. o celular e outros meios. Nesse contexto. como o cinema. pelo fato do termo audiovisual estar consagrado como um coletivo para tais dispositivos.

embora não seja o objetivo desse texto estabelecer uma conceituação “correta” para um termo tão complexo. a produção audiovisual que emerge como resultado dessa dinâmica não é analisada como algo acrescentado por um sujeito totalmente separado de seu entorno. dessa vez vista como um conjunto de 66 Revista Brasileira do Caribe. por sua vez. Não é um significado fixo porque depende das relações e arranjos nos quais está inserido em um dado momento da observação. Seria preciso então recorrer a uma visão mais ampla. também o modifica. Goiânia. vol. produzindo diversos sentidos potenciais. reinventando um novo arranjo de componentes que. nem como uma emanação do objeto. Isso porque muitas vezes a cultura é citada apenas em seu sentido restrito. VIII. ao serem atualizados a cada exibição para os indivíduos. n° 15 . Neste. mas como resultado de um certo encontro. que seriam apropriados a partir de um processo recursivo e reflexivo. molda e é moldado pela forma material. que também passou por diversos processos de produção e manipulação. o olhar construído pela experiência e pelos meios usados para se observar. Nesse ponto é necessário esclarecer com um pouco mais de precisão como este trabalho irá lidar com o conceito de “cultura”. colaboram de modo significativo para formar comunidades imaginadas e sistemas culturais reconhecíveis. mas a necessidade de estabelecer limites faz com que uma visão totalizante da cultura. que é muitas vezes tomado como dado. ligado à produção material ou imaterial que expresse de alguma forma a ação criativa humana (considerando-se as camadas descritivas e normativas acumuladas sobre termos como “arte”) e que seja socialmente aceita como tal. Assim.Leonardo Vidigal encarados apenas como reflexos ou sintomas de fatores socioeconômicos e culturais externos aos fluxos de enredamento imaginário e concreto. Esta. para a modalidade de pesquisa empreendida aqui. mas como elementos que participariam tanto do estabelecimento das condições básicas de tessitura como do seu direcionamento. Trata-se de um processo de contaminação por parte de certos elementos.

movimento ativo de recepção colaborativa.. serão mais detidamente examinadas. A partir dos anos 1950. já citadas. que gera produtos variados a partir de referenciais simbólicos oriundos de contextos diferentes do local onde são reinventados. São estratégias que poderiam se alternar em gradações ainda não estabelecidas precisamente. 1994). Apropriação./dez. Ao longo do último século. no qual referenciais simbólicos concebidos em um dado contexto se interpõem ativamente pelos meandros de outro. conjugada a uma capilaridade social ao mesmo tempo verticalizada e horizontalizada. o cinema tornou-se uma das principais portas de entrada para a tessitura da rede imaginária que participa do processo de construção e difusão dos produtos audiovisuais. comportamentos e pontos de vista compartilhados tenda a enxergar cada contexto localizado de forma essencialista e fechada. processo que também pode passar pela atuação mediadora. 2007 .. tomando parte desse jogo com todas as suas características próprias. é preciso reiterar aqui que os sistemas culturais são encarados como relativamente autônomos em relação aos limites e condicionantes socioeconômicos e jurídicos que compõem os atuais estados-nação (CARVALHO. por sua extensão em cadeia de dezenas de emissoras estrategicamente localizadas. Essas características são a sua extremamente prolífica e efêmera produção de conteúdo. Assim. reinventados e colocados em contato por intermediários culturais e/ou agentes individuais. bem como ideologicamente direcionada para a construção de uma unidade identitária nacional homogeneizante. 67 jul. duas das quais. a saber: Contaminação. processo infindável. Esta última característica é especialmente importante porque toca no problema crucial da capacidade de tais combinações sígnicas favorecerem ou não processos de identificação através de diversas estratégias relacionais.Enredando Brasil/Jamaica. a televisão também começou a participar desse processo de produção e reinterpretação de elementos de identificação. em contraste com a visão expressa desde o início deste trabalho.

1995.Leonardo Vidigal É importante apresentar uma definição mais precisa para estes conceitos por causa da conotação pejorativa que pode ser conferida aos termos “contaminação” e “apropriação”. VIII. A leitura de tais estudos e a observação vivenciada nestes vinte anos de envolvimento deste pesquisador com o gênero. 2003)3. o reggae teve pouco tempo de maturação antes de se consolidar em um estilo hoje chamado de roots. Aqui se procura construir um ponto de vista teórico mais permeável do que a constituída por noções como a de hibridismo2. sempre por meio de ações. tal interpretação acontece segundo concepções que tomam coisas. sugerindo não haver diferenças absolutas entre um e outro sistema cultural. Música popular e audiovisual Os produtos audiovisuais que possuem como tema a Jamaica geralmente dão grande ênfase ao gênero musical conhecido como reggae. no começo 68 Revista Brasileira do Caribe. de contaminação e apropriação. consumidos e praticados nos cinco continentes. determinando a ilha caribenha como seu local de origem. Para ambos. mas que eles estariam parcialmente contidos uns nos outros. KATZ. permitiu constatar que o reggae encontra-se atualmente fragmentado em diversos subgêneros construídos coletivamente ao longo de seus quarenta anos de história. o que não foi contestado por estudos anteriores (COOPER. principalmente pelas camadas mais jovens da população. reconhecido como a primeira forma do reggae. 2001. Goiânia. Nascido quando a sociedade de consumo começava a consolidar sua hegemonia pela difusão planetária de seus produtos (a primeira banda de ska. vol. captadas e compreendidas sempre parcialmente. n° 15 . STOLZOFF. era conhecida como Skatalites. “questão de relações e alianças em estado de fluxo” (FISHER. 1995). em homenagem aos primeiros satélites). que são ouvidos. que poderiam ser chamadas de moleculares (para usar terminologia de Deleuze). sujeitos ou culturas como entidades que teriam um estado inegavelmente original ou “autêntico” de existência e não como percepções contingentes.

espanholas.. combinados com a tradição oral do canto falado (mais tarde apropriado pelos rappers americanos e jamericanos. religioso e moral que combina a política de valorização da herança africana com crenças milenaristas e. porque ditas em um dialeto patois (ou na língua jamaicana. motivadas certamente pela revolução negra no vizinho Haiti. depois como um elemento relativamente assimilado pela cultura praticada na Jamaica. que foi gradativamente sendo ressignificado. que têm na adoração de um deus negro. 2007 . tanto formalmente./dez. oriundos das comunidades quilombolas (chamadas de maroons). que existem até os dias de hoje no norte da ilha. até se tornar praticamente uma norma para a maioria dos músicos e cantores de reggae. às vezes. Além disso. envolvendo-o com o rastafarianismo. todo um denso arranjo ético. um dos pontos em comum entre os diversos grupos de fiéis. encarnado na figura do antigo imperador etíope Haile Selassie I. a instrumentação musical era muitas vezes baseada nos tambores nyabinghi. As origens desse sistema de crenças e valores datam das lutas políticas anti-coloniais que explodiram no Caribe no século XIX. isto é.Enredando Brasil/Jamaica. descendentes de jamaicanos nascidos nos Estados Unidos). As convicções dos rastas são professadas em variados graus. Todo esse ethos era claramente ou obscuramente exposto nas letras das canções. ou inglês jamaicano. mas que ganharam a forma atual a partir da década de 1930 e só se tornaram relativamente populares nos anos 1970. dos anos 1970 e ser internacionalizado por filmes produzidos na mesma época e pelo carisma de Bob Marley. O entrelaçamento entre a mensagem espiritual e 69 jul. em um contexto de anarquia litúrgica e antidogmática. fundamentalistas. como nas temáticas. Este é um complexo sistema filosófico. sendo considerado inicialmente como algo marginal.. Como parte do processo de edificação do roots reggae. indianas e africanas. discursivo e simbólico foi sendo composto. como vem sendo reivindicado por acadêmicos da ilha) que combina palavras inglesas. Esse formato é o mais conhecido mundialmente e suas características formais são as mais facilmente reconhecidas e associadas ao reggae.

juntamente com algumas cuícas compradas em sua única e breve passagem pelo Brasil. como entre 70 Revista Brasileira do Caribe. depois do falecimento de Bob Marley. VIII. em 1987. No entanto. vol. em 1981. Nesse último. que constituiria um dos “quatro elementos” do hip-hop. ao inspirar a concepção do hip-hop (graças ao canto falado – o toasting– que os imigrantes jamaicanos levaram dos bailes de rua da ilha para os bailes de clube em Nova York. no caso o mestre de cerimônias. em março de 1980 (VIDIGAL. contratos foram cancelados e os artistas foram forçados a se adaptar ou a emigrar.Leonardo Vidigal política se tornou uma marca do reggae. Canadá e Estados Unidos. 2006). o MC – os outros três elementos seriam os dançarinos. Por seu lado. os grafiteiros e os DJs). Goiânia. este contato proporcionado pelas correntes migratórias e pelo maior fluxo de bens simbólicos entre os países modificou decisivamente a música popular mundial no início dos anos 1980. e de Peter Tosh. os grandes intermediários culturais passariam a ter pouca influência sobre o desenvolvimento do reggae. hoje dominante nas paradas jamaicanas4. A partir de então. n° 15 . que Marley foi um dos primeiros a utilizar em seu mega-sucesso “Could you be loved”. no então emergente subgênero chamado de dancehall (chamado assim por ter sido consagrado nos bailes). Os contatos entre Brasil e Jamaica não aconteceram por meio de correntes migratórias diretas. Os instrumentos eletrônicos foram tornados populares pelos rappers americanos. houve uma queda no interesse das gravadoras em continuar promovendo o reggae. mas outras modalidades de discurso ainda aconteciam. a música popular na Jamaica foi simultaneamente modificada pela adoção progressiva das baterias eletrônicas. Este é um caso de comunicação intercultural que também teria suas conseqüências no Brasil. cujos agentes passaram a priorizar o mercado interno e aquele composto pelas colônias jamaicanas em países de fala inglesa como Inglaterra. onde o hip-hop é hoje uma das principais expressões da juventude (embora o dancehall jamaicano somente agora esteja começando a ser apreciado por aqui).

f) possuem uma cinematografia razoavelmente consolidada (a Jamaica tem hoje a cinematografia mais desenvolvida do Caribe depois de Cuba). mas por mecanismos de identificação.. mas também de ordem histórica. i) suas economias atuais estão amarradas por um alto grau de endividamento externo e pesados juros internos.Enredando Brasil/Jamaica. com todas as suas implicações socioculturais. h) na maioria das vezes são imaginados pelo resto do mundo como lugares que combinam a natureza paradisíaca com um cotidiano violento e. g) têm na música popular a expressão mundialmente mais conhecida de sua cultura. 71 jul. além das relativas à composição social e cultural. Relações entre Brasil e Jamaica Brasil e Jamaica são duas nações que apresentam profundas diferenças. d) os contatos interculturais que forjaram os atuais sistemas foram muitas vezes violentos. possuem muitas similaridades. principalmente no período colonial. que podem ser resumidas nos seguintes elementos: a) carregam uma pesada herança do passado colonial e escravista. relativas às diferentes formas de colonização empreendidas ao longo dos últimos séculos. b) foram povoados à força. e) apresentam uma expressividade corporal elaborada. No entanto. como os Yorubá e os Nagô. compondo assim uma população atual de maioria negra ou mestiça. contaminação e apropriação mediadas também pelo audiovisual. c) a cultura negra é representada por quase todas as correntes ideológicas do espectro político como um emblema da identidade cultural imaginada. por uma variedade significativa de grupos étnicos africanos. nos últimos séculos. sem imposição forçada). alguns deles compartilhados./dez. 2007 .. não apenas em termos de extensão territorial e pujança econômica. Jamaica e Estados Unidos. inspirando táticas de apropriação e de posterior retomada de matrizes culturais (já em um ambiente onde o contato se processava de modo predominante como contaminação. tornada explícita em eventos públicos onde a dança é elemento central. finalmente.

na novela “Água Viva”. como a Ariola (que. mas ainda assim repercutem de forma significativa. de uma maneira pouco estudada. Outro artista de reggae que veio ao Brasil no mesmo ano foi Peter Tosh. A partir de então. 1997). englobados pelos intermediários culturais multinacionais. que se materializaram primeiramente sob a forma musical. depois de se fundir com a BMG. expressada por certa atitude carnavalizante5 de ambas ante a expressão artística e pelas raízes comuns. na época contratado da Columbia (hoje Sony). n° 15 . a apropriação do reggae começou a gerar uma grande variedade de apropriações. gerando apropriações como o “reggae-capoeira”. 2002). gravadora responsável pela breve visita de Bob Marley (cujo catálogo hoje pertence à Universal) ao Brasil em 1980. entre muitas outras. Cidade Negra. ou o “forreggae” (VIDIGAL. é difícil perceber. Ele também apareceu cantando na sala da personagem de Tônia Carrero.Leonardo Vidigal A partir de tais aproximações foi construída uma relação negociada de compartilhamento cultural entre estas duas subtotalidades. No Brasil os modelos de representação do reggae chegaram primeiramente de forma mercantilizada. Em 1981. Tribo de Jah. o “reggae-toada”. VIII. O reggae desencadeou um movimento cultural significativo no Brasil. jogando futebol no campo de Chico Buarque e fazendo cooper em Copacabana (VIDIGAL. que foi registrada pela TV. que teve sua apresentação no Festival de Jazz de São Paulo transmitida pela TV Cultura daquele estado. em trabalhos de bandas como Paralamas do Sucesso. Gilberto Gil percorreu o país em uma turnê com o cantor Jimmy Cliff (o mesmo de “The harder they come”) que apresentaria o reggae para um grande público. do ponto de vista do senso comum. foram 72 Revista Brasileira do Caribe. foi comprada recentemente pela Sony). Goiânia. da Rede Globo. Mystical Roots. exemplos concretos de influência direta dos representantes da cultura produzida no Brasil sobre os jamaicanos. havendo a necessidade de uma pesquisa mais detalhada sobre esse aspecto6. Em um segundo momento. vol. Na maioria das vezes estas proximidades se encontram escamoteadas pela distância geográfica e pela falta de conhecimento histórico dos atores sociais. Assim. Titãs.

e foi o local onde surgiram bandas hoje consagradas como Cidade Negra e O Rappa e que gerou expressões locais como o reggae-capoeira. sincronizando as pistas de dança de lá com as jamaicanas e inglesas. dessa vez sob o formato audiovisual. 2007 . de Cynthia Sims./dez. O reggae vem marcando presença em quase todo o Brasil nos últimos trinta anos. Outro local onde o reggae tem uma forte capilaridade é a região metropolitana da grande São Paulo. e que agora também começa a produzir suas apropriações. estabeleceu uma relação intercultural continuada e estável com a ilha caribenha. apresentados em filmes. documentada no documentário de média-metragem Bonde do Rastafari. como blocos de carnaval. documentários para TV e folhetins televisivos que abordaram o universo cultural do reggae no Brasil. Contudo. Chamado popularmente de “Jamaica brasileira”. Em terras paulistanas também existe um ativo circuito de DJs de dub (versão instrumental e experimental do reggae) e dancehall. formando. principalmente nas capitais e cidades médias. o corpus a ser analisado e que será descrito adiante.. A cidade também conta com seus coletivos sonoros de dub. é o contexto regional que mais aparece nos produtos audiovisuais que tratam do reggae no Brasil. para onde convergiu boa parte das bandas formadas em diversos contextos regionais. com destaque para a cena baiana. o estado do Maranhão. O interesse pelo reggae foi crescendo gradualmente até atingir um patamar de auto-sustentação entre a população de 73 jul. sem obedecer aos ciclos de alta e baixa intensidade observados em outros estados (VIDIGAL. onde apreciadores do gênero podem ser encontrados em articulações com o movimento sindical e até com igrejas evangélicas. Uma nova apropriação. além das atividades normais de consumo e fruição. juntamente com os produtos de matriz jamaicana. em que se pode verificar outra apropriação sob a forma do forreggae.Enredando Brasil/Jamaica. tratada como um gênero separado também emergiu na Bahia sob a forma do samba-reggae. 2002). também elaborados outros produtos.. O Rio de Janeiro foi cenário de uma forte concentração em torno do reggae em meados dos anos 1990. o local onde foi concebido o reggae-toada.

já tendo praticamente acabado com o estoque de compactos da década de 1970 de estilo roots. como Tribo de Jah.Leonardo Vidigal menor poder aquisitivo. 74 Revista Brasileira do Caribe. que é tematizada em todos os documentários e programas que tratam daquele ambiente. Gerações de músicos e instrumentistas do Maranhão se formaram ouvindo reggae desde crianças. em apresentações que contam com um público composto por pessoas de todas as idades e não apenas por jovens. Outras bandas. além de acompanharem os artistas jamaicanos. Os atores sociais maranhenses também modificaram o contexto jamaicano. vol. se especializaram em tocar versões de melôs. que tem as chamadas radiolas (equipes de som que tocam as músicas mais apreciadas. como principal fonte de lazer (SILVA. mas que não ficou imune à sua capacidade contaminante (como será visto adiante no exemplo dado pela série Música do Brasil). produzidas na Jamaica ou localmente). VIII. única no mundo. Ultimamente. como no sudeste ou mesmo na Bahia (como foi observado in loco por este pesquisador). 1995). ignorados pela maioria do público no resto do país. fazendo surgir algumas das principais bandas do gênero no Brasil. Goiânia. como Eric Donaldson e Owen Gray. Os donos de radiola costumam ir para a ilha adquirir novos discos. embora isso não tenha sido ainda pesquisado adequadamente. o mais apreciado pelos maranhenses. Formas de “apropriação corporal”. como Legenda e cantores como Dub Brown. O Maranhão também apresenta uma rica cultura popular (como mostra o curta “São Luís Caleidoscópio”. é um exemplo da reinvenção praticada nos bailes maranhenses. que não foi destruída pelo reggae. como a prática de se dançar o reggae aos pares (como no forró). n° 15 . os melôs7. como alguns temiam. Festivais de música trazem artistas da Jamaica. de Hermano Figueiredo). os radioleiros estão alugando os serviços de instrumentistas da Jamaica para produzir faixas “exclusivas” e assim poder ofuscar a concorrência. Mystical Roots e Manu Bantu.

apenas a consomem. Alguns dos produtos audiovisuais analisados As convenções que foram se cristalizando ao redor das mais diversas metáforas inventivas. o que foi tornado visível e legível a todos pelo amálgama audiovisual. facilitando a ascensão de uma nova geração do reggae. para inventar uma dada concepção do que se passava musicalmente na Jamaica naquela época. intuito que foi parcialmente atingido. Por exemplo. diretamente ou indiretamente. nos produtos audiovisuais subseqüentes realizados naquele contexto. “The harder they come” apresenta temas e personagens que foram desenvolvidos. Alguns desses filmes serão mais bem analisados a seguir. e também o aparato estatal. além de fazer parte do comércio de ganja (maconha). Conceitos bíblicos como o da “Terra Prometida” e a história do cativeiro dos hebreus na Babilônia foram metaforizados pelo sistema de crenças rastafari. são apresentadas e congeladas nos filmes “The harder they come” e “Rockers”. 75 jul. único rastafari de “The harder they come”. Pedro./dez. 2007 .. como as gravadoras locais e multinacionais. Esse amálgama entre o discurso ético. questionados e. Por ter sido o primeiro longa-metragem produzido na Jamaica.. reinventados. apresentado como financiador e beneficiário do crime organizado) e explicitado em “Rockers” (com seus personagens defendendo claramente os preceitos rastafari). religioso e político do rastafarianismo é preparado em “The harder they come” (que critica violentamente a hipocrisia da religião tradicional. Já em “Rockers”. Tais filmes também foram financiados por intermediários culturais. se limita a apoiar Ivan sem tomar a iniciativa de nenhum movimento mais conseqüente. atualizando a percepção do que era vivido pela população de origem africana no Novo Mundo. concebidas primeiramente no contexto jamaicano.Enredando Brasil/Jamaica. no caso jamaicano o de correntes protestantes como a batista. os rastas apresentam um papel muito mais ativo na condução da trama e não comercializam a erva. assim. Eles viriam a servir como referência para a formação de novos produtos audiovisuais por realizadores em todo o mundo acerca do reggae e o rastafarianismo.

Goiânia. tido como o primeiro a tocar o gênero regularmente. que jamais voltaria a fazer outro filme) e sua solução pela via da ação coletiva e solidária. “Rockers” também aparece como uma citação freqüente em outras unidades audiovisuais. Ela trata do contexto maranhense em dois episódios.Leonardo Vidigal A movimentação de figuras. particularmente no Maranhão e 2) os que pretendem documentar alguns dos elementos contaminantes encontrados na Jamaica. que trabalhou em conjunto com o antropólogo Hermano Vianna na realização da série “Música do Brasil” (2001). associando-o aos tambores afros logo na primeira cena. Em outro episódio. A apresentação dos problemas enfrentados pelo rastafari que protagoniza “Rockers” (na realidade um baterista reconhecido no meio reggae. fazendo inclusive que Macedo explique as origens de tal movimento (ele teria primeiramente substituído o bolero como “música lenta” na sua radiola e ao longo do tempo ele foi sendo adotado pelos bailantes como gênero principal). em conjunto com outros rastas. vol. pode ser vista como uma resposta ao individualismo e ao caminho do crime escolhido por Ivan em “The harder they come” (mesmo que este tenha sido quase justificado por um impulso revolucionário). sons. VIII. privilegiando situações de apropriação. Os programas realizados no Brasil dividem-se basicamente em dois grupos: 1) os que foram realizados tendo como tema os agentes e elementos apropriadores do universo do reggae no Brasil. Ao grupo 1 pertencem as obras do documentarista Belisário França. Leroy “Horsemouth” Wallace. e enfatiza a forma como os casais dançam aos pares. em seqüências como as que mostram as gravações em um estúdio e a posterior volta de bicicleta do protagonista para distribuir seus discos. dedicado inteiramente 76 Revista Brasileira do Caribe. entrevista Riba Macedo. na qual os créditos iniciais são projetados sobre um grupo de percussionistas nyabinghi8. principalmente pela forma como apresenta o discurso rastafari. elementos e abordagens desse filme pode ser sentida primeiramente em “Rockers”. Quando tematiza o reggae (em um episódio que ainda trata do rap paulista e do funk carioca). que ecoam claramente no filme “The harder they come”. n° 15 .

. O programa apresenta seus personagens por meio de diálogos que apresentam frases como “o reggae fez a cabeça do mundo todo” ou pela fala de estudiosos como o jornalista Otávio Rodrigues. Seguindo esta rota. além de enfeitar o boi com um bordado que representa. “Netos do Amaral”. Tais manifestações são muitas vezes sublinhadas com legendas de grande proporção e com esse e outros elaborados recursos gráficos. e. O principal objetivo nesse caso é parodiar e explicitar as táticas empregadas pelos programas de reportagem da TV convencional. programa de Éder Santos e Marcelo Tas. até então praticamente inéditos na TV brasileira. podem ser confrontadas com outras datadas do início dos anos 1990. na primeira intervenção do personagem/apresentador. expoente da propaganda do “milagre brasileiro”./dez. este afirma que. que também traz uma edição sobre o Maranhão. Tas e Santos vão montando com “Netos do Amaral” um painel que não parece ter a intenção de explicar ou de compreender aquele fenômeno e sim de apresentar uma reinvenção que enfatiza o lado caótico e exótico do que encontram. do outro. entre muitas outras manifestações pelo país afora. Possui a singularidade de ser apresentado por um personagem fictício. que se apropria do reggae tanto na batida da toada quanto nas letras. Mais uma vez a dança ganha 77 jul. é uma série dos primórdios da MTV brasileira.. ao bumba-meu-boi. o Repórter”. Tais atualizações. Jesus Cristo. recortando. Luís. dá destaque a um grupo da cidade de Rosário. emblema do vídeo independente no Brasil vivido pelo diretor Marcelo Tas. durante o ciclo militar. o que já fica claro na denominação do programa. que acreditava ser o Maranhão “uma Jamaica congelada nos anos 60”. situada a duas horas de S. apenas alguns aspectos do reggae como foi apropriado no Maranhão.Enredando Brasil/Jamaica. menção ao antigo “Amaral Neto. Bob Marley. 2007 . disfarçada de jornalismo. invadida por holandeses e colonizada por portugueses”. São Luís estaria agora sendo “ocupada por jamaicanos”. A série adota uma abordagem panorâmica. apesar de não mostrar nenhum ao longo do programa. mais recentes. o repórter Ernesto Varela. depois de ter sido “fundada por franceses. de um lado.

VIII. o radialista e cantor Fauzi Beydoun (que em “Netos do Amaral” aparece apenas como locutor de rádio) e o dono de radiola Serralheiro (falecido recentemente). apresenta o assunto de forma mais crua. Serralheiro foi entrevistado de forma algo jocosa por Marcelo Tas em “Netos do Amaral”. Também é possível identificar um percurso intertextual entre este programa e o mais recente “Música do Brasil”. n° 15 .Leonardo Vidigal destaque. vol. com Varela confrontando a “maneira jamaicana” (expressão ressaltada com as legendas características) de se movimentar ao som da música (individualmente) e a “maneira brasileira” (aos pares). A edição procura mostrar algumas situações de risco em que o público maranhense se envolve. Goiânia. lá todos os cantores moram numas casas pobrezinhas assim”. esclarecendo que nele são usados 78 Revista Brasileira do Caribe. pois este último retoma alguns personagens apresentados antes no “Documento Especial”. O fato de ter sido produzido apenas um ano antes de “Netos do Amaral” permite realizar algumas comparações específicas. que foi veiculada na TV Manchete (e. A premiada série “Documento Especial: Televisão Verdade”. sendo acompanhado até sua casa miserável pela equipe de “Documento Especial”. devido à posição marginalizada ocupada pelo reggae. conta ele de modo ligeiramente diferente nos dois programas. expressão repetida por Tas quando conversou com o mesmo personagem. que precedeu o dedicado ao Maranhão no mesmo programa. quando o narrador Gilberto Gil anuncia o boi da cidade de Rosário como sendo “sotaque de orquestra”. o radioleiro declara humildemente que não se mudou de sua antiga moradia porque queria “acompanhar o ritmo da Jamaica. mostrada como uma mera emulação do universo country americano em outro bloco. leva jovens jogadores maranhenses para a Europa e traz discos). apresentando um retrato visivelmente mais simpático do que o da cidade de Barretos. Lá. O programa também destaca as radiolas. no SBT) com a direção-geral de Nelson Hoineff. enquanto mostra o seu baú com mais de dois mil discos “trancado a sete chaves”. como o intermediário Enéas Motoca (que. mais tarde.

veiculada no final de 1992 na Rede Bandeirantes./dez.. 2007 . originando o chamado rocksteady (uma espécie de proto-reggae). 79 jul. É uma reportagem televisiva tradicional. “Documento Especial “é o programa que permite o afloramento das opiniões mais diversificadas sobre o assunto. o que é finalmente logrado na favela de Trenchtown. banjo.. instrumentos de sopro.Enredando Brasil/Jamaica. É visível o esforço de encontrar músicos que ainda pratiquem o chamado reggae roots. A dança também ganha destaque quando o programa aborda o ska. Tal passagem evoca a do Documento Especial em que o percussionista e baterista Paulinho Akomabu faz uma demonstração dos diversos “sotaques” (batidas. entre outros. Os cantores também atestam a falta de condições de trabalho em seus depoimentos: “temos que ter um estúdio em Trenchtown”. oferece uma ótima amostra sobre o que seria considerado relevante na cultura praticada na Jamaica por aquela equipe de realização. ou riddims. o paraíso do reggae”. De um modo geral. o programa é pautado pelo imaginário sobre o reggae construído também pelos filmes dos anos 1970 analisados na pesquisa. onde Bob Marley viveu por alguns anos. em um interessante efeito sinestésico. Ao grupo 2 pertence “Jamaica. apresentando cenas raras de quarenta anos atrás. que reveza depoimentos de artistas e jornalistas da Jamaica com cenas de rua e videoclips de reggae. mas precisam gravar fora do país”. A narradora explica a dificuldade em encontrar músicos “de raiz”: “muitos dos melhores artistas ainda vêm do gueto. que. para usar a terminologia jamaicana) do bumbameu-boi. uma produção de Ronaldo German e Ricardo Porto. Quando a narradora explica que houve uma desaceleração no andamento musical. fora os comerciais) e pela variedade de temas abordados. pela longa duração (60 minutos. a imagem dos dançarinos também desacelera. não se limitando a apenas uma linha de interpretação”. comparando-as com as batidas do reggae (assim como seu colega da banda Guetos Tadeu de Obatalá fez com a boca para “Netos do Amaral”).

Goiânia.Leonardo Vidigal “Jamaica. ecoando o formalismo dinâmico do pioneiro “Netos do Amaral”. O depoimento de um bobo dread que fala em “varrer o colonialismo e imperialismo” é contraposto ao da Ministra da Cultura da Jamaica. com a narração vaticinando que “a erva faz parte da cultura e da economia”. com uma temática social e sexual”. outro que enverga as longas tranças emaranhadas. O excesso de efeitos de edição produz um efeito de “consciência do dispositivo” que ao mesmo tempo dificulta o entendimento do texto e promove certo nível de reflexividade. O discurso por ele proferido. “os brancos são considerados inferiores”. quando o dancehall é apresentado como a “tradição dos sistemas de som dos anos 50 remodelado por recursos eletrônicos. garantindo que o “o que os rastas fazem é político. Outro representante desse grupo é “Baila Caribe: Jamaica”. voltado para a louvação 80 Revista Brasileira do Caribe. VIII. o paraíso do reggae” é o único dos programas produzidos no Brasil a mostrar a comunidade quilombola dos maroons. mas é facilmente identificada pelos característicos turbantes cilíndricos). como os bobo dreads (que não foi chamada por este nome. traz nessa mediação por um artista reconhecidamente ligado ao reggae roots (pois havia gravado nos anos 1980 a canção “Vamos Fugir” com a banda de Bob Marley) um viés de estranhamento. associando-a com Marcus Garvey e também as “imagens proibidas” das comunidades rastafaris mais radicais. Narrado pelo onipresente Gilberto Gil. vol. mas espiritual”. mas o rastafarianismo não é um movimento político. nas quais. o que é confrontado com o produtor Stafford Ashanti. afirmando brevemente que seu governo “nunca discriminou os rastafaris”. Um transeunte com longos “dreads” menciona querer trabalhar por um “governo rasta”. segundo a narração. O tema da dança volta a aparecer no final do programa. O uso da maconha é contextualizado. n° 15 . o qual é parte de uma série realizada por Belisário França que aborda o universo da música caribenha por intermédio de depoimentos literalmente recortados e colados no fundo paradisíaco.

. A análise dos produtos audiovisuais produzidos no Brasil permite concluir que alguns deles procuram organizar o olhar no sentido de conformar a visão do espectador a certo conjunto de referenciais simbólicos audiovisuais. Outros procuram se desvencilhar de tais modelos e tentam eles mesmos estabeleceremse como referência. Em um dado momento mostra um pouco do processo de prensagem de um compacto. com apresentação e direção de Carolina Sá. da ascensão do dancehall e para o desvinculamento do reggae da filosofia rastafari. o que talvez seja mais condizente com a atmosfera local. recorrentes em todos os programas abordados./dez. chamada “Música Libre”. evocando cena semelhante em “Rockers”. 2007 . O conceito da série “Baila Caribe” foi emulado nove anos depois em outra série. Já os travellings pelas ruas de Kingston. que se refere na maioria das vezes a uma dimensão mais prática. e algumas de suas aplicações possam lançar uma luz diferente sobre os processos de comunicação intercultural. tem seu sentido deslocado e reinventado. que mostrou. Com uma duração maior do que o antecessor e com uma abordagem que enfatiza mais o conteúdo do que a forma consegue reinventar o cenário jamaicano de maneira mais relaxada. Desse modo espera-se que os pressupostos teóricos examinados neste trabalho. outra visão do universo jamaicano. no sentido de estudar os possíveis problemas interpessoais ou institucionais derivados da incompreensão ou falta de informação relativa a características culturais de cunho comportamental.. Notas 1 O conceito de comunicação intercultural trabalhado neste texto difere do que é normalmente utilizado na literatura disponível. como restrições de 81 jul. construídos a partir dos filmes jamaicanos e outras fontes iconográficas. Contribuir para a constituição de uma abordagem relacional sobre tais processos de contaminação e apropriação cultural é talvez o principal objetivo dessa investigação. desta vez exibida no GNT (canal a cabo da Rede Globo).Enredando Brasil/Jamaica. evocam recurso semelhante usado em “The harder they come”.

gênero e outras. tratamento dado a homens e mulheres. Música Libre. como Jamaica: Paraíso do Reggae. como a homofobia. mas invariavelmente ocorre no conteúdo. o país não se classificou para as Copas de 2002 e 2006. vêm sendo questionadas por erigir um novo estatuto da diferença. e a indignação pelas injustiças sociais. como um questionamento da representação de um produto ou manifestação cultural pela visão hegemônica. de cunho relacional. ainda mantém as culturas à margem “em seu devido lugar”. como contou Bob Marley em sua breve visita ao Brasil (em 1980). como a ascensão de uma nova geração que voltou a assumir o discurso e o visual de tranças da época de Bob Marley. por um lado. mas também possibilitou uma exposição exagerada de algumas características “fundamentalistas” e altamente questionáveis de alguns seguidores. movimento também conhecido como modern roots. parte do corpus de análise. Um exemplo claro está na área esportiva. 5 6 7 82 Revista Brasileira do Caribe. mas altamente valorizada participação da Jamaica. que classifica a cultura em “erudita” e “popular”. 2003). pois. para usar a expressão de fundo escravista e colonialista que tal conceito visava combater. denominadas por títulos que evocam apropriações locais das letras em inglês. n° 15 . O programa Netos do Amaral. Músicas de sucesso. apesar de valorizada e celebrada. No sentido dado por Bakhtin (1987). culminando na discreta. Goiânia. 2 Tal direcionamento é quase sempre expresso no título dos audiovisuais estudados que foram produzidas no Brasil. Nas produções jamaicanas tal associação não é explicitada no título. particularmente a operada por Homi Bhabha. 3 4 Houve recentemente a chamada retomada dos “valores rastafari”. será construída ao longo do texto.Leonardo Vidigal contato. VIII. treinada pelo brasileiro Renê Simões na Copa de 1998. Baila Caribe. de outro (2001). vol. o que teve consequências diversas. que. Bonde do Rastafari. entre outras (Nair-Venugopal. a vitoriosa campanha brasileira na Copa do Mundo de 1970 popularizou enormemente o futebol no país. No entanto. Para Ahmad seria mais um meio de ignorar as diferenças de classe. Algumas das noções de hibridismo. oferecendo em troca uma miscelânea de ofertas de consumo cultural para aplacar a sede de exotismo. A noção de comunicação entre culturas usada neste trabalho.

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vol. Trata-se de um enfoque produtivo da obra do cineasta brasileiro e de seus diálogos com artistas cubanos Palavras-Chave: Cinema Novo. Brasil/Cuba. Keywords: New cinema. de modo a destacar. nas representações que afloram do seu discurso. n° 15. VIII. Inspirando-se em conceitos deleuzianos. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 85 Revista Brasileira do Caribe. nuances do seu nomadismo. pois. Brazil/Cuba Resumo O artigo analisa as relações entre o Brasil e o Caribe. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. tendo como objetivo principal. em torno deste atributo. 2007 . 85-107. It particularly focuses on the representations that emerge in his discourse revealing the idea of nomadism. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo “Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. a análise inclui o cineasta Glauber Rocha na categoria de pensadoresnômades. Glauber Rocha. gravita o argumento norteador desta reflexão.” Glauber Rocha Abstract This study addresses Glauber Rocha´s performance with the objective of offering insights on some of the aspects of his actions in the 1969s and 1970s.Migrações de idéias. Glauber Rocha. Goiânia.

uma nomeação possível para as formações do terceiro mundo. a despeito das diferenças que existem entre eles. concepto en torno al cual se va a nortear la reflexión de este artículo. igualmente nômades. em torno deste atributo. Brasil/Cuba Sintonias. ao selecionar Cuba como referência. 172) sublinha: É bom frisar que estamos tomando os termos pensador e artista quase como sinônimos. dentre outras formações que redesenham o cenário pós-colonial. Palabras Claves: Cine nuevo. em configuração metonímica. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. Tais sintonias não escaparam ao horizonte nômade de Glauber Rocha e ensejaram diálogos entre “pensadores – artistas”. nomadismos e pontes imaginárias Neste ensaio enfoco a performance do cineasta Glauber Rocha tendo como objetivo principal. nas representações que afloram do seu discurso. faço-o não apenas estimulada pela profícua interdiscursividade que. gravita o argumento norteador desta reflexão. Éstas son reveladoras de la idea del nomadismo. Goiânia. não podemos negar que Deleuze tende a identificá-los pelo fato de ambos devotarem a vida à criação 86 Revista Brasileira do Caribe. Shöpke (2004 p.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Resumen El estudio enfoca la performance del cineasta Glauber Rocha con el objetivo de profundizar en algunos aspectos de sus acciones em los años 60 y 70 del siglo XX . nas “Terras do Sol”. desde as lidas preliminares as fontes indiciavam. de modo a destacar. VIII. Cuba se inscreve como um especial “lugar de sintonias”. movida pela convicção de que. Na esteira do pensamento deleuziano. n° 15 . nuances do seu nomadismo. El interés está centrado en el destaque de las representaciones que afloran en su discurso. Afinal. Com este propósito. vol. pois. mas ademais. Glauber Rocha.

E somente a arte pode nos oferecer tal poder. especialmente os cubanos. Todo pensador e artista nômade é necessariamente um criador./dez. na verdade. é preciso escolher dentre estas ilusões aquelas que nos fazem mais fortes. 1997 p.Migrações de idéias. Diferentemente do sedentário. p. a voz de Glauber Rocha parece interagir com o enunciado filosófico acima transcrito. se também é uma mentira (tal como a religião. Para o filósofo: Se ela também é uma ilusão que nos faz viver. 411). (no sentido mais estrito do termo). em maio de 1971. Exemplifica este encontro com a vida. como que ungida pelo sopro da arte. O fio condutor para tal performance convida a pensar na arte como a “feiticeira salvadora” (NIETZSCHE Apud SHÖPKE. o cinema novo e. “feiticeira salvadora”. Muito embora em outro momento e em outro contexto. neste. 123). ocasião em que metaforiza: “os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES.. portanto. A carta. a moral e metafísica). a seu colega e amigo cubano Alfredo Guevara. a carta que escreve do exílio. 2007 . o cinema. em Santiago do Chile. é um sítio discursivo no qual o “pensador-artista” reflete sobre o Brasil.. pois é justamente em seu nomadismo que encontra o vetor que o impulsiona a agir e ousar. 2004. o “pensador-artista” nômade recusa a mera recognição e reivindica outro estatuto para as representações que constrói. em constante movimento de ruptura com modelos préestabelecidos. o pedido de divulgação do que nomeia como “carta-documento”. influências ou reativações?. o papel dos cineastas do terceiro mundo. Glauber Rocha escreveu: Meu querido Alfredo. que nos fazem crer na vida a ponto de afirmá-la e amá-la sob todas as circunstâncias. Ao encarecer por mais de uma vez. como ocorre em tantas outras. espero que este documento possa ser lido com tranqüilidade pelos companheiros latino-americanos. 87 jul.

Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo porque pouco me importa os europeus. as “pontes” construídas se incumbem de situá-lo no conjunto de expressões culturais que fervilham na cena brasileira nos anos sessenta e setenta. Quando Marx denunciou a escravidão econômica do homem. produtores ou mulheres” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. para falar sobre seu celebrado documentário “Rocha que voa”. suas muitas ausências do Brasil constituem “um périplo romanesco. concluindo: Brasil e Cuba em 88 Revista Brasileira do Caribe. apartamentos provisórios dos amigos.P 15/07/04). selecionadas sob a forma de alguns fragmentos discursivos. n° 15 . Por isto os artistas são tão necessários quanto os engenheiros. Ao final.’( grifos meus). Como se verá. tomando como contraponto o mesmo atributo de seus colegas cubanos. Espero que seja divulgado em Cine Cubano e em muitas outras publicações. Goiânia. “Glauber Rocha. que a escolheu. estava pregando uma sociedade onde o homem não existisse em função da economia. no item “Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças”. também no presente ensaio valho-me de “pontes imaginárias” para construir articulações cujo conjunto logre evidenciar o nomadismo de Glauber Rocha. p. cujas performances.S. ‘Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. 1997. seu tempo e sua obra”. vol. VIII. 41). lanço um olhar sobre as “pontes” estabelecidas entre Glauber Rocha e outros “pensadores-artistas” igualmente nômades. Inclusive literalmente. a biografia de Glauber Rocha mostra que não apenas o nomadismo das “pontes abstratas” ensejou suas errâncias. Em seguida. fornecem o suporte empírico para as incursões pretendidas. um nomadismo radical e vital e centenas de cartas escritas de quartos de hotel. no item que se segue. É interessante observar que a força simbólica da imagem da ponte interpelou também o jovem cineasta Eryk Rocha. Assim. em contexto recente. entre as contigências do exílio ou não mais que ditadas por um peculiar e irriquieto temperamento. Aliás. sua proposta foi a de “criar uma ponte entre o imaginário da época e a atualidade” (F. Segundo o filho de Glauber Rocha.

movimento que mobilizou artistas e receptores. Naqueles já longínquos meados dos sessenta e primórdios dos setenta. ajustadas às condições de resistência política que encontravam na arte.. apesar de tudo. No amplo leque das manifestações artísticas que povoam os anos sessenta e setenta. um modo de exorcizar os fantasmas que nos rondavam./dez. jovens universitários ou recém-formados. teimosas réstias de luz. 89 jul. como que incansavelmente ali encontrando o referendo para nossas utopias de um mundo melhor. a brecha possível para conscientizar. em sua abrangência. retomo alguns aspectos trabalhados no texto como um todo. a própria história do país sinalizou etapas. estratégias e táticas. atendo ao “chamado da lembrança” e aos meus objetivos. mas. Era “a hora e a vez” da chamada arte engajada brasileira.Migrações de idéias. Assim. Caprichos da memória atualizam no presente “o chamado ao qual a lembrança responde” (BERGSON Apud BOSI. ou bem por isso. ver e rever a obra glauberiana significava para muitos de nós. 2007 . de modo a destacar a argumentação que o presidiu. o relato da efetiva estada do nosso cineasta entre os cubanos constitui uma variável secundária. 38). denunciar e sonhar. influências ou reativações?. seu tempo e sua obra Pertenço a uma geração que elegeu Glauber Rocha como uma espécie de porta-voz das nossas inquietações políticas. um foro privilegiado. rompeu fronteiras espaciais e fez da cultura. Glauber Rocha. contando com a interlocução de autores que se ocuparam com o recorte temporal aqui considerado e aí se detiveram no viés das artes. cujas etapas são reconhecidas pela efervescência cultural. p.. Conforme anunciado anteriormente. em meio a um cenário sombrio. sintonia rizomática. cabendo enfatizar ao final destas anotações introdutórias. é a força motriz do nomadismo glauberiano. Era a possibilidade de entrever. Neste entendimento. enfocando um momento da vida brasileira. mesmo em meio às discordâncias. ainda assim. Cuba é tomada como referência metonímica do universo pós-colonial e este.

2001. p. Nessa época os riscos de vida não serão literatura” (NAVAS. E identificadas com o movimento estavam também variantes desta expressão musical engajada. pautar-se pela tônica da denúncia. o talento de artistas e cantores brasileiros. As primeiras músicas consideradas de protesto. aos herdeiros da nossa “democracia racial”.1 90 Revista Brasileira do Caribe. ou na entronização do universo sertanejo. ao pescador. com suas especificidades permitiram ao estudioso resumir: “O caráter catequizador antes de 1964 e. traziam alguns elementos de ruptura com o estilo consagrado por João Gilberto. Em suma. que. “a catequese” e a conscientização davam o tom ao teatro engajado para. p. aos beatos. a partir dali. 341) considera que até o ano de 1964. VIII. celebrou e deu visibilidade. complexidade harmônica e sutileza vocal. vai ser de violência. 33). ao guri favelado e tantos outros atores anônimos cujo árduo cotidiano. cuja característica principal advém da elaboração harmônica. aos homens e mulheres do campo. o caráter ritualístico. Estas etapas. Goiânia. enfim. prisão e exílio. isto já nos primeiros anos da década de sessenta. p. mas mantinham a essência da sofisticação instrumental.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Referindo-se ao mundo do teatro. composta e cantada por Sérgio Ricardo e “Quem quiser encontrar o amor” de Geraldo Vandré e Carlos Lyra. transfigura em resistência. responderão pela atração à história. depois da resistência. n° 15 . pois. 2004. eram suportes de representações engajadas. elementos identificados com o movimento (NAPOLITANO. “discursos musicados”. eram canções que escancaravam injustiças históricas em relação ao operário. 341). Entendo que neste mesmo percurso é possível inscrever também a música brasileira do período. “Zelão”. que o emblemático ano de 1968. A realidade do teatro. mesmo o movimento da chamada Bossa Nova. passa a fazer coro com a arte engajada. vol. fosse nas férteis articulações entre as vozes do morro e as das cidades. Navas (2001. depois dessa data.

estreou em São Paulo. cujo repertório se assentava. Castro (1990. com faturamento assegurado. Lembrando o festival de música da TV “Excelsior” no ano de 1965. o teatro e o cinema. vitrine privilegiada. de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. em janeiro de 1968.. não logravam alcançar o mesmo sucesso comercial.. sigla mágica que rotulou um filão da música popular brasileira. apresentado no Rio de Janeiro. de Chico Buarque.. não estimulavam maiores incursões da indústria cultural. comoventes como “Arrastão”. Aos festivais seguiam-se os lançamentos dos discos. Já no caso do cinema. arranjos. no conjunto das manifestações culturais da época. Líricas como “A Banda”. por exemplo. com harmonias européias e ainda vencer festivais?” Não seria o 91 jul. cuja peça teatral de mesmo nome. pinçada do espetáculo “Opinião”. com a “Marcha da Quarta feira de Cinzas”. quase sempre longas. 2007 . p. sobretudo letras. no binômio “qualidade-discurso engajado”. estas peças musicais guardavam em comum o engajamento com o povo brasileiro2. cabia divulgar tais eventos que mobilizavam torcidas e traziam para o palco diversos modos de comunicação musical. À televisão.P. Foi o que ocorreu. assim como ocorrera no filme “Deus e o diabo na Terra do Sol”: “Quem queria ouvir aquilo? E. além do mais para quê. não escapou à voracidade da indústria cultural. a apropriação de “discursos cantados” no teatro. ou nas trilhas dos filmes obteve alguns sucessos no rádio e no mercado discográfico./dez. que um público ávido decorava. tais migrações foram menos efetivas. no ano de 1964 e “Roda Viva”. cuja qualidade foi reconhecida por muitos. se era possível produzir industrialmente este mesmo folclore. É preciso lembrar que. 402) reproduz o discurso irônico sobre a perfomance do artista Sérgio Ricardo e sua apropriação dos cantores nordestinos. instrumentos e.B. arregimentadoras como “Pra não dizer que não falei das flores”. ritmos.Migrações de idéias. Tal cenário traz à lembrança os chamados festivais da M. muito embora dialogassem com a música. influências ou reativações?. Somente em algumas ocasiões. Enquanto isso. a chamada arte engajada. pois as trilhas sonoras dos filmes. pelo menos no caso da música.

n° 15 . e reterritorialização. Eco contrasta as vertentes do enredo e da ação. 54). Bem por isso. Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças Idéias não faltaram a Glauber Rocha. projetos. aliás. a narrativa “pode ser contada até por um ginasiano” na segunda. entrevistas e um repertório de frases e slogans. elas se consubstanciaram em filmes. pretensão que. cantadas nas muitas reuniões. mas não é unívoca” (ECO. seja na leitura e releitura dos seus filmes. seja na pluraridade 92 Revista Brasileira do Caribe. Trazendo a imagem para o universo glauberiano. A importância desse legado “radical” e alguns dos sentidos possíveis da sua movente tônica de desterritorialização. Mas na verdade. assistiam aos filmes. a plurivocidade das ações abre-se para um sem número de possibilidades interpretativas. o público privilegiado do cinema novo” (NAPOLITANO. integravam um público consumidor de classe média e expressavam seu agrado conhecendo o repertório das trilhas sonoras. VIII. Goiânia. transbordantes.1986 p. “a ação de Hamlet fez e fará correr rios de tinta. 2004. pois a intenção deste item é não mais que desenhar um breve painel3. manifestos. p. são aspectos que pontuam a trajetória de Glauber Rocha e dão suporte ao seu nomadismo5. Se no primeiro. um tipo de sucesso alcançado pelas mãos da indústria cultural. escapando ao consensual. tomando Hamlet como exemplo. ela mantém a pertinência. Uma resposta breve convidaria a pensar nos mesmos estudantes que compareciam aos festivais.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo caso de retomar a polêmica. não estava na preocupação do cinema novo4. pois. correspondências. Referindo-se ao universo do teatro. vol. reveladores do seu talento e do seu modo de representação da realidade. aliás. pois é uma. festinhas e nos sempre povoados centros acadêmicos. 192). até porque “a autocrítica desenvolvida pelo cinema tinha um sentido muito mais radical e procurava repensar a difícil situação existencial do jovem intelectual de esquerda. escapa a estas anotações.

p. materializadas em acalorados debates sobre teatro. sobre tudo aos estudiosos da Sétima Arte. U. ao alastrar-se. Áfryca./dez. para a “celebração da celebração”. com a ortografia que se permitira cunhar: “o movimento do Kynema novo. Não mais que “louca por cinema” e conforme anteriormente mencionado. tomou o poder cinematográfico no Brazyl em 1962 (independente dos fluxos paralelos) fundando novas fronteyras criativas e comerciais em terras de Oropa. 2007 . cuja obra logra transcender até mesmo. literatura e.. Deixo o inventário compromissado com os rigores cronológicos.. cinema. aos cuidados dos especialistas. para meus objetivos. a suspensão máxima imposta pela morte. Deleuze.A. capitaneadas por Glauber Rocha. influências ou reativações?. começando a atuar desde 1959. para entendermos. partilhando “uma deriva. claro. e América Latyna” (GLAUBER ROCHA Apud GOMES.Migrações de idéias. impressionaram-me os “rios de tinta” que me chegaram. O “barco” dos precursores do chamado cinema novo. quase sempre. Uma trajetória marcada por turbulências e inquietações é apanágio do “artista-nômade”. 170). suas ações e seu legado ainda hoje interpelam a muitos. tinha como tripulantes um grupo de jovens cineastas que escolheu a cidade do Rio de Janeiro. desdobra-se da retomada das críticas coevas aos filmes. na esteira do pensamento nietzschiano. como espaços de suas “derivas”. pondera sobre a audácia de um pensamento que. música. 175). Ázya. 2004. interessada desde os tempos de estudante pelos filmes e pela trajetória de Glauber Rocha. é preciso que estejamos no mesmo barco. política. 93 jul. desde as primeiras incursões dedicadas à elaboração deste ensaio. será suficiente reter alguns pontos do movimento liderado pelo cineasta brasileiro que. para uma espécie de “crítica da crítica” ou. 1997. de publicações centradas na obra de Glauber Rocha. já ao final dos anos cinqüenta.S. p. Percebo que a chama viva da polêmica. tertúlias. um momento de deriva ou de desterritorialização” (DELEUZE Apud SHÖPKE. no ano 1980 afirmou. pois. mas especificamente alguns bares do Rio de Janeiro.

conforme ironizou o jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. Se. Da mesma carta-documento enviada ao cineasta cubano Alfredo Guevara e já citada em páginas anteriores. construíram discursos parafrásticos em relação à crítica de direita. quanto são reconhecidos seu talento e seu conservadorismo. Nossa historicamente construída condição de receptores de idéias. VIII. se pode falar em unanimidade. seria impossível. Setores de esquerda criticaram o filme por sua liberdade narrativa. bastante persuasivo quanto à troca de sinais acima referida.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo De fato. em blague hoje tão conhecida no Brasil. ao ensejo do cinema novo. n° 15 . entre avanços e recuos e em meio a uma conjuntura política adversa. o rotularam de “confuso” e nisto. Sobre “Terra em Transe”. a unanimidade para além de “burra”. no caso de Glauber Rocha. Prima della Rivoluzione e ‘Terra em Transe tinham sido os filmes que mais influenciaram o movimento de maio de 1968’. vol. conheceu episódicas trocas de sinais. jamais por ele próprio negado. não contou com a mesma receptividade. de resto. sequer nos momentos em que Glauber se consagrou como gênio em algumas hostes. no que possa parecer um exagero. Afinal. a repercussão de “Terra em Transe”. esta nova performance cinematográfica do terceiro mundo. não apenas comercialmente transpunha fronteira. Na verdade. destaco outro fragmento discursivo. a revista direitista Fatos e Fotos publicou a notícia em tom de denúncia política” (GLAUBER Apud BENTES. 407) (grifos meus). não obstante as tantas resistências que pontuam o cenário pós-colonial. No Brasil. p. que encontrou em Nelson Rodrigues. 1997. 94 Revista Brasileira do Caribe. pelo menos por ocasião do seu lançamento em 1967. Se não vejamos: “Quando os estudantes da Sorbonne apresentavam uma tese demonstrando que Weekend. um irônico e conciso sujeito-suporte. trata-se de “um ideograma chinês de cabeça para baixo”. Goiânia. o cinema novo entra em declínio na segunda metade dos anos setenta. se “Deus e o diabo na terra do sol” foi aplaudido quase unanimemente no ano de 1964. o dramaturgo resumiu. “toda unanimidade é burra”.

Ocorre que os equipamentos retóricos que não ficaram claros a muitos críticos. 445). Limito-me. Prosseguir rastreando a exuberante filmografia de Glauber Rocha seria extrapolar os limites disponibilizados para estas reflexões. Sobretudo desde o barroco. que provocou perplexidade. portanto. uma forma inclusive de fraturar o real com intenções artísticas” (BAZIN./dez. a reiterar que a obra como um todo. evidenciada no “discurso confuso”. não contente com a abundância informacional com que brinda seus leitores. Glauber também precisara dissimular a denúncia com os ardis formais de uma linguagem extremamente elaborada. promovendo “uma reordenação e não uma submissão visual. ANDRÉ Apud GOMES. influências ou reativações?. para escapar ao assédio da ditadura.. pois. problematiza a realidade. posto que pautadas na busca de sentidos e representações de “Terra em Transe”: Era uma interpretação brilhante e de grande beleza literária. Gomes (1997. E não poderia ser de outra forma.P. 95 jul. p. seria necessário pensar nas condições do momento em que o filme foi produzido. mas que se ocultava nos jogos do pensamento. guarda em comum a característica de uma linguagem cinematográfica inovadora que. os poetas e os artistas aprenderam a dizer verdades duras sob o manto da forma requintada. O filme “Terra em Transe” durante abril de 1967 foi proibido em todo o território nacional. sob a alegação de subversão e cunho ofensivo à igreja católica. para confundir a violência do poder. Pensar na análise desses discursos nas vertentes do discurso do emissor (Glauber Rocha) e nos dos receptores (a crítica). a quem venho recorrendo para a construção deste item. ao lado de certa intencionalidade.. que conseguiu captar seus sentidos. 2007 . Cabe lembrar que a exibição em São Paulo organizada pelo T. 1997. (teatro universitário) recebeu aplausos ao longo da sessão. apesar dos ardis de linguagem. ao se descolar da confortável reprodução mimética.S. Eldorado simplesmente era o Brasil injusto. p. dominado pelo latifúndio e pelos interesses das classes privilegiadas. 184).Migrações de idéias. sendo liberado no início de maio. não escaparam aos olhos e ouvidos atentos da ditatura. desenvolve análise e crítica dignas de transcrição.U.

É neste afã de conhecer e de re-conhecer que Glauber Rocha reconhece a porosidade das fronteiras territoriais que. n° 15 . que floresceu nos anos sessenta e estruturou-se como movimento. muito embora as articulações tenham sido muitas.A.C. cineastas e intelectuais cubanos. o I. algumas das respostas. ocupados com primazia das datas de veiculações de projetos. considero importante ressaltar que a sintonia observada entre as práticas e representações de Glauber Rocha e as dos cineastas cubanos. VIII. pautadas no viés dos rigores cronológicos.I. como exemplo empírico. atos de criação e não de recognição (SHÖPKE.C. onde o diverso e uno se imbricam. diferentemente sedentário. Sequer seria o caso de estabelecer comparações entre iniciativas e posturas. o que este suporte enseja é a reflexão sobre as sintonias de uma experiência nômade e desterritorializada. não conseguem apagar sintonias na diversidade do cenário pós-colonial. Glauber Rocha reconhecia o cinema latinoamericano. Neste reconhecimento. 184). 256). Não por acaso. 2004. nas trilhas do cinema cubano e do cinema novo brasileiro (GOMES. uma correspondência intensa atesta as afinidades entre Glauber Rocha. tanto conhecer como re-conhecer. vol. independentemente da precedência das ações. p.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo nômades. para o nômade. Ademais de sua estada. centro em torno do qual se mobilizavam artistas. publicações ou filmes. Se. intelectuais e cineastas. sem dúvida um importante ponto de inflexão na trajetória de Glauber Rocha. são. desterritorializando-se e reterritorializando-se. não poderiam ser buscadas na perspectiva da mera “influência”. 1997. este conjunto deve ser destacado. e tripulantes do mesmo “barco”. p. sintonizados com a arte e com a “Ilha”. sempre se inscrevem no gesto criador. Para os objetivos deste artigo e em consonância com os referenciais adotados. já que. Cuba significou. Goiânia. também estes ungidos pela arte“feiticeira salvadora”. as “intenções artísticas” do pensador e cineasta. Lá estava o Instituto Cubano de Artes Cinematográficas. 96 Revista Brasileira do Caribe. recorte que desdobra das perguntas que faço ao tema.

articulá-lo às pontes estabelecidas com os cubanos. em modos de ver de sujeitos. A opção por tematizar as repercussões de perfis nômades no cenário pós-colonial sugeriu a construção de um texto centrado em Glauber Rocha. Em dado momento. posto que falo em sintonias. sem que por isto. 48-66) ao conceito de “diferença” em Platão. enleada pela noção de diferença e que faz do reconhecimento. porém ele lhe infunde o seu tom. Antes cabe falar em reativação de representações e ações. Refiro-me aqui. ora questionada. conforme venho enfatizando. de uma “constelação de agenciamentos”. Saltando no tempo.Migrações de idéias. assim como o faz Shöpke (2004. Parmênides. então. p. 205) reflete: “O que se estabelece no novo não precisamente o novo. pela inovação. Glauber Rocha e os cineastas cubanos. tais sejam. cujo nomadismo terá por certo lhe ensejado a reativação do conceito de diferença. influências ou reativações?. se constituam como decalques. Deleuze por exemplo.. justamente. sobre a força do pensamento. p. elementos que remontam ao mundo grego. Trata-se. é provocar no pensamento forças que não são as das recognição”. isto é a diferença. matiza o pensamento deleuziano. matrizes de sentido que integram pensamentos. Heráclito. Inspiradora. em grandes enunciações. agrega ou entrelaça às suas reflexões. para.. inspirando-se em Nietzsche. uma postura que se aparta da mera recognição. vale insistir tomar para tanto o rumo das “influências”. presentes. Seria um esforço improfícuo. esta complexa grade de idéias. a partir daí./dez. ora desdobrada em complexas ramificações. Ora o arquivo constituído pelas obras e ações dos “pensadores-artistas” aqui referidos. para ficarmos apenas com alguns dos interlocutores. ora reelaborada. pela provocação. intencionalmente invocado. pois o próprio do novo. Aristóteles. 2007 . o mesmo ocorre com os praticamente intermináveis diálogos nos quais Nietzsche comparece cumprindo a função do “discurso de outrem”. portanto. Deleuze (1988. destaca-se. expressão adotada por Deleuze ao lado das noções de “maquinação” e “reativação” que não incluem a idéia de 97 jul.

Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo

“influência”, para o filósofo, um termo fraco e inapropriado para designar a circulação de idéias que anima os pensadores nômades (SHÖPKE, 2004, p.201). No caso da comunidade cubana e, na impossibilidade de todos mencionar e, mais que isto, comentar as respectivas ações, limitome a destacar algumas evidências empíricas, articulando-as a alguns nomes e propostas. Por exemplo, o “Tercer Cine” de Fernando Solanas assim como Júlio Garcia Espinosa, com seu “Cine Imperfecto”, desenvolveram ações que estão, para a renovação do cinema latino-americano, em sublinhada sintonia com a performance de Glauber Rocha, com o seu cinema novo. Seleciono em Espinosa (1996, p. 125) importantes reflexões sobre as motivações primeiras do “Nuevo Cine Latinoamericano” e as reativações promovidas pelo neo-realismo italiano, no caso, “ponte abstrata” das suas incursões preliminares:
Un primer puente fue el neorealismo italiano. El Nuevo Cine Latinoamericano daba sus primeros pasos cargados de una indiscutible autenticidad. No fueron actitudes miméticas las que nos motivaron. El neorealismo no era un estilo a copiar, era una actitud ante el cine que había de cambiar y ante la vida que había que transformar. Nada podía atizar mejor nuestras esperanzas y nuestras ilusiones. La relación resultó tan fecunda y consecuente que sus huellas vivirán siempre en cualquier obra del cine latinoamericano. No obstante, ya avanzados los años sesenta, la realidad de nuestros países poco tenía que ver con la de la postguerra italiana. En nuestras vidas el espíritu cambio crecía, se aceleraba y se materializaba en acciones de lucha concreta. ‘La identidad se buscaba rompiendo con la máscara de identidad que se nos ofrecía. Y nosotros, cineastas nos identificábamos buscando una identidad que sabíamos única y, a la vez, múltiple y diversa’. (grifos meus). 6

Encontro justificativa para tão longa transcrição por entender que, refraseada ou recortada em pequenos fragmentos, a seqüência

98 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

Migrações de idéias, influências ou reativações?...

assim obtida privaria o leitor de acompanhar o informacional e as argumentações do cineasta Espinosa, cuja clareza me libera de retomar os propósitos de um grupo, e as reativações face ao neorealismo italiano observo ademais, que a metáfora da “ponte” parece resultar de uma acordo tácito entre estes nômades. A Alfredo Guevara coube o estabelecimento da “ponte” inicial entre a arte cinematográfica brasileira e a cubana. Em cartaresposta a Glauber Rocha escrita em 4 de fevereiro de 1961, o cineasta cubano agradece pelo envio de fotografias do filme “Barravento” e também pelos interessantes artigos recebidos. Por sua parte, comunica o envio de fotografias e revistas, informando a disposição da Revista del Cine Cubano e da cinemateca de Cuba de enviar todas as publicações e notícias sobre o cinema cubano. No aguardo da exibição de “Barravento” em Cuba, Alfredo Guevara argumenta, na mesma carta: “Sabemos hasta qué punto tienen contacto nuestras realidades y culturas, cuán cercano, mucho más de lo que uno y otro saben – están nuestros pueblos, y como en la psicología, las costumbres, los problemas, los sueños, la música y el arte se encuentra una común raíz” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES, 1997, p. 36)7. Estas sintonias, estas “raízes comuns”, desde sempre percebidas por Glauber Rocha, se explicitam por ocasião do exílio, ao ensejo da experiência cotidiana. Nas representações de Glauber Rocha, África e Cuba significavam “duas Bahias”. É preciso reter, entretanto, que esta identificação que se patenteia na socialidade do dia-a-dia, ao longo do processo, passou por impasses. Em Cuba, Glauber Rocha viveu entre os anos de 1971 e 1972 e, na feliz expressão de Bentes (1997, p. 49), a Ilha foi para ele “uma espécie de laboratório político”. Neste aspecto, seu entusiasmo inicial experimentou frustrações e desencantamento. O ideal era o mesmo, assim como eram as mesmas, as sintonias promovidas pelas sempre lembradas “raízes”, os amigos eram muitos, mas, a cotidianidade da ambiência política, acabou por assustá-lo. “Admitia que permanecendo em

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Cuba oficializava seu rompimento com o Brasil e, isto é o que ele menos desejava. (GOMES, 1997, p. 163). Por outro lado, houve ruídos ao final de sua estada, provocados pelos questionamentos quanto à retirada dos créditos cubanos ao filme “História do Brasil”. Tais ruídos, porém, não foram maiores que o apreço cultivado entre os “hermanos” cubanos. Por ocasião da morte de Glauber, o amigo primeiro, Alfredo Guevara, homenageou-o com uma edição da revista Cine Cubano, com foto de capa e inclusão de algumas cartas (GOMES, 1997, p. 263 e 264). Nelas, como venho destacando, evidenciam-se os atributos nômades destes “pensadores-artistas”. Sintonias quanto às práticas e representações como as que venho, aqui e acolá, garimpando neste item, pela impossibilidade de detalhá-las neste espaço, foram também percebidas por Villaça (2004) em estudo igualmente centrado em Glauber Rocha8. A autora observa a repercussão da obra glauberiana em Cuba, na segunda metade da década de 60. De fato, “Terra em Transe” (1967) e “Memórias del subdesarrollo” (1968), do cineasta cubano Tomás Gutierréz Alea, guardam em comum vários elementos. Por exemplo, a construção das tramas em torno de personagens interpelados por crises existenciais e identitárias, os monólogos, as trilhas sonoras inovadoras e uma linguagem aberta que dista dos convencionalismos lineares. “Pensador-artista”, assim como foi Glauber Rocha, Alea discorre sobre seu fazer, em um conjunto de entrevistas publicadas no ano de 1989. Chamou minha atenção à imagem por ele adotada para refletir sobre a responsabilidade do cineasta que, ao mesmo tempo, deve preocupar-se com o plano ideológico e o estético.
Jamás he pensado que estoy libre de esa responsabilidad, vivo en una sociedad con la que quiero tener una relación productiva. Al mismo tiempo no puedo olvidar que lo que estoy haciendo es un producto muy particular. ‘No soy un ingeniero, un constructor de puentes, un economista. Soy un cineasta. Lo que hago es fundamentalmente un producto

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estético que cumple una función social’ (ALEA Apud OROZ 1989 p. 19)9 (grifos meus).

A julgar, pelo que veio, insistindo desde o ínicio, Glauber Rocha, sintonizado lhe devolveria a reflexão completando-a, pois o ‘pensador-artista’ é “engenheiro de uma ponte abstrata”. Ao construí-la, estes nômades guiadas pelas mãos da ‘feiticeira- salvadora’, se re-conhecem na mesma missão para a qual dedicam suas vidas. Bem por isso, o já lembrado Espinosa, mais uma vez participa do diálogo lembrando que: “... el arte, como la vida, está siempre en una búsqueda permanente de su identidad. De ahí su importancia y su grandeza. El arte, en este caso el cine, que dé por concluida la búsqueda de su identidad, es un cine” (ESPINOSA: 1996, 123) 10 . Esta busca de identidade e este compromisso com a vida, com a arte e com a estética, não poderiam ser procurados em linguagens cinematográficas alhures, pois, ainda que tecnicamente perfeitas, a estas faltaria a sintonia com a arte compromissada. Assim, no mesmo barco desterritorializado, os ‘pensadoresnômades’ reuniram os seus esforços em torno do melhor do seu fazer, já que: “não é um filme, mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim ao público, a consciência da sua própria existência”, conforme lembra Glauber Rocha nas palavras finais da sua Estética da Fome (GLAUBER ROCHA Apud GOMES, 1997, p.599). Prosseguir garimpando sintonias, entre os cineastas das ‘terras do sol’, seria lembrar muitos outros nomes de tripulantes do mesmo barco, já para não falar da curiosidade com que me peguei, ao saber que não apenas homens, o integravam. Nele estava, por exemplo, a documentarista Sara Gomes, cuja trajetória chamou a atenção do jovem cineasta Eryck Rocha (F.S.P. 15/07/04). Em Eryk encontro também, subsídios que corroboram o argumento norteador deste ensaio. Entrevistado pelo suplemento Domingo, do jornal peruano La Republica, em 4 de agosto de 2002, ele avalia: “Meu pai foi um nômade pós-moderno em plena

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década de 60. Imaginas? Adiantou-se à sua época, tinha um pensamento vanguardista e lutou por uma ideologia, autenticamente latino–americana. Muitas das coisas que defendia à época são vigentes agora. Creio que sua obra é um baú muito grande, que dia-a-dia, deveria ser redescoberta, reinterpretada”11. Neste nomadismo, a passagem de Glauber Rocha pela ‘ Ilha’ constitui, ao mesmo tempo, um porto seguro e uma ‘revolução dentro da revolução’, pois, “no auge das suas inquietações estéticas e políticas, o cineasta baiano filmou, agitou e polemizou como nunca em Cuba” (F.S.P. 15/07/04). Afinal, é atributo dos desterritorializados, este ‘sentir-se em casa’. De Havana, Glauber escreve para o cineasta Cacá Diegues: “estou em Recife muito feliz, estou na Bahia muito feliz, e todo caminho dá no mar [...] Soy feliz y tengo saudades” (GLAUBER
ROCHA Apud GOMES , 1997, p.432).

Bem sem vê, pelo fragmento discursivo acima, o que significou o cotidiano em Cuba, nas representações de Glauber Rocha. Especular sobre as condições de significação de tal sintonia, convida ao diálogo com pensadores cuja concepção do identitário se assenta no lugar de confluência do múltiplo aberto ao diverso e ao movente, onde o ‘reinado do ser é substituído pelo sendo’ (GLISSANT Apud BERND, 2004, p . 104 ). Algumas reflexões que desdobram deste modo de ver, aparecem a seguir, no próximo e último item.

Concluindo: Brasil e Cuba, em sintonia rizomática
Conforme lembra a acima citada Bernd (2004, p.101), os enfoques de Glissant e Chamoiseau quanto às questões identitárias, dialogam com as idéias de Deleuze e Guattari, pensadores que, como se viu, foram lembrados ao longo do presente texto. Glissant e Chamoiseau 12 se opõem aos integrismos e fundamentalismos dos discursos convencionais, quando a questão

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construir e destruir mitologias é viagem incessante. centrá-los ou cercálos. se reterritorializam. influências ou reativações?. bem como o fazem os ‘pensadores-nômades’. podem derivar infinitamente. Elas ressoam rizomaticamente dos ‘caules subterrâneos de plantas flexíveis’ cujas raízes multi-seculares se plantaram no solo fecundo dos territórios pós.coloniais. Os sistemas em rizoma ou ‘ em treliça’. 246). Em outro contexto e com outra conotação.. O termo ‘rizoma’ foi tomado por empréstimo à Botânica. ao contrário. p. presente e futuro 103 jul. Guattari explica a adoção dos termos ‘rizoma’ e ‘rizomático’. mas sugerindo entrelaçamentos. estabelecer conexões transversais. que só na viagem e através dela. Dir-se-ia.Migrações de idéias. é possível se encontrar as raízes mais secretas do mistério dos homens e das sociedades que constroem e destroem: as suas mitologias. é a identidade. 322 ). e dos cineastas cubanos sintonizados quanto às representações que construíram sobre o papel da arte cinematográfica para os povos do Terceiro Mundo. é noção que remete à idéia de raízes múltiplas e abrangentes. onde ele define os sistemas de caules subterrâneos de plantas flexíveis que dão brotos e raízes adventícias em sua parte inferior (GUATTARI. Desta percepção partilha o historiador e poeta: Suprimir diferenças entre o passado. sugeridos por ele e por Deleuze: Os diagramas arborescentes procedem por hierarquias sucessivas. secundarizando as construções das fronteiras espaciais e sua importância. sem que se possa. Nestas ‘conexões transversais’ encontro os suportes do nomadismo de Glauber Rocha..]. Ora. 1996.. transe histórico. a partir de um ponto central em relação ao qual remonta cada elemento local. para ambos. Glauber é este cineasta [. ROLNIK. no qual as temporalidades. se entrecruzam e os territórios se desterritorializam.. 2007 . que. 1983./dez. p. João Lopes reflete: “se há cineasta a que convenha a designação de nômade.” (LOPES Apud GLAUBER ROCHA.

mas sempre sintonizada com os que com ele partilharam e partilham ainda o mesmo barco. por exemplo. vol. seu nomadismo. Gilberto Gil. Edu Lobo. Elis Regina e Maria Betânia. Caetano Veloso. tanto em justaposição de som e imagem. ao repertório. lembrando que no filme. Vinícius de Morais. naturalmente à frente – mas também da popular e da folclórica. Paulo Perdigão dedicou todo um item de seu ensaio ‘Ficha Filmográgica’. o fragmento acima sugere conexões e pontes com a trajetória de Glauber Rocha. Chico Buarque. Notas Refiro-me. dentre outros. são portadoras de uma infra-estrutura despertada pela música. suas viagens. Chico Buarque. ‘rios de tinta’. Em seu afã de registrar a mensagem dos cantadores ou dos violeiros cegos. Edu Lobo e Geraldo Vandré. incluído no livro ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ de 1965 à importância da música para Glauber. a ‘palavra’ de Glauber Rocha e as representações que a ela subjazem motivou e motivará. 2003. 1 2 Os autores das músicas são respectivamente.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo È uma forma de viajar: Saio de meu próprio nicho e participo da vida de outros. O valor de um homem é a sua palavra (LEONARDI. quanto na subseqüência da ação dramática e seu eco musical” 3 104 Revista Brasileira do Caribe. Geraldo Vandré. No espaço discursivo da poesia e na riqueza das imagens. na polissemia de que se reveste tal expressão e sua palavra. p 12 ). tendo sido um pesquisador das fontes nordestinas da música interiorana. nem sempre entendida. todas as seqüências enfáticas. por certo. Goiânia. Nara Leão. João do Vale. pp 432 – 433 ) “ele gostava não apenas de música clássica – Villa-Lobos. este breve ensaio se junta como gota atraída pelas sintonias de alguém que pertence a uma geração que desde logo aprendeu a admirar Glauber Rocha. VIII. Carlos Lyra. Polêmica. Nestas águas. A qualidade das trilhas sonoras dos filmes de Glauber Rocha foi reconhecida por setores do Brasil e do exterior segundo Gomes (op cit. n° 15 .

a realidade de nossos países pouco tinha a ver com a da pósguerra italiana. engajar-se em linha de fuga [.. culturais estéticos. de autoria da historiadora Mariana Martins Villaça.] o território poder ser relativo tanto a um espaço vivido. de investimentos. 5 Territorialidade/desterritorialização/reterritorialização são noções caras ao referencial proposto por Guattari e Deleuze em seus estudos voltados para a problemática das identidades. nos identificávamos buscando uma identidade que sabíamos única e ao mesmo tempo..Migrações de idéias. quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente “em casa”.. Rolunik op cit p. era uma atitude perante o cinema que havia de mudar e perante a vida. que ultrapassa o uso que dela fazem a etologia e a etnologia [. e como na psicologia. estão nossos povos.] Ele é um conjunto dos projetos e de representações nos quais vai desembocar. pragmaticamente. isto é.. cineastas. nos tempos e nos espaços sociais..] A reterritorialização consistirá numa tentativa de recomposição de um território engajado num processo desterritorializante (Guattari. mútipla e diversa” (tradução livre). Segundo Guattari. do ponto de 8 105 jul. Uma primeira ponte foi o neo-realismo italiano.. O neo-realismo não era um estilo a copiar.. Não obstante já avançados nos anos sessenta. dialoga com o presente ensaio. a música e na arte. Buscava-se a identidade rompendo com a máscara de identidade que nos era oferecida. O território pode se desterritorializar.. 4 O repertório dos filmes será enfocado mais adiante. O excelente artigo “América Nuestra e o cinema cubano”. 323). A relação resultou tão fecunda e conseqüente que suas marcas viveram sempre em qualquer obra do cinema latino americano. 6 7 Sabemos até que ponto têm contacto nossas realidades e culturas. Em nossas vidas. os problemas. quão perto. toda uma série de comportamentos. cognitivos. Não fora atitudes miméticas que nos motivaram. [. se encontra uma raiz comum. abrir-se. 2007 . que havia de se transformar. os costumes. O novo cinema latino americano dava seus primeiros passos carregados de uma indiscutível autenticidade. influências ou reativações?. os sonhos. o espírito de mudança crescia. E nós./dez. muito mais que alguns sabem. (tradução livre). Nada podia atiçar melhor nossas esperanças e nossas ilusões. a noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo. se acelerava e se materializava em ações de luta concreta.

vol. o cinema. vivo em uma sociedade com a qual quero manter uma relação produtiva. como a vida. Não sou um engenheiro. SP: Boitempo. Benjamim.J: Ed. S. entretanto. Paris.” Neste aspecto. n° 15 . Ruy.) Margens da Cultura: mestiçagem. 7 Letras. está sempre numa busca permanente da sua identidade. neste caso.) Cartas ao Mundo/Glauber Rocha. Goiânia. 2000. Muchas de las cosas que defendía en ese entonces ahora siguen vigentes. 12 Bibliografia BENTES. 1990 COSTA. Cinema brasileiro (anos 60-70): Dissimetria. um construtor de pontes. 1997 e ao de Glissant. 1997 . têm modos distintos quanto à construção do objeto e os referenciais teóricos adotados. Oscilação e Simulacro. Chega de saudades. Galimard. 11 Tradução livre do texto publicado. O que faço é fundamentalmente um produto estético que cumpre uma função social. CASTRO. Sou um cineasta. Bernd menciona pontualmente os estudos de Chamoiseau. pelo jornal peruano La Republica (suplemento Domingo. Ivana (Org.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo vista temático. Ecléa. Paris.: Ateliê Editorial. que dá por concluída a busca da identidade. In. Écrire en pays dominé. Traité du tout.P. (tradução livre). 4/08/2002): “Mi padre fue un nómada posmoderno en plena década del 60. R. VIII. SP: Companhia da Letras.monde. Zila: “O Elogio da Crioulidade: o conceito de Hibridação a partir dos autores francófonos do Caribe”. 1997. Te imaginas se adelantó a su época. Hibridismo & outras misturas. Creo que su obra es un baúl muy grande que día a día debería ser redescubierta. A arte. A história e as histórias da bossa nova. 2003. um economista. reinterpretada. “Jamais pensei que estou livre dessa responsabilidade. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. As abordagens. Édouard. Luis Cláudio da. Patrick. 106 Revista Brasileira do Caribe. SP: Companhia das Letras. é um cinema morto” (tradução livre). tenía un pensamiento vanguardista y luchó por una ideologia auténticamente latinoamericana. Ao mesmo tempo não posso esquecer que o que estou fazendo é um produto muito particular. BERND. BOSI. 9 10 “A arte. Daí sua importância e sua grandeza. Abdala Jr (org. Galimard. 2004.

1997. influências ou reativações?. Félix e ROLNIK. Revista Domingo del diário de La República. VILLAÇA. 1998. Lynn Mário T. 2003 MALDONATO. 1996. Regina: por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze. 2004. MESQUISTA. 107 jul. Alhanbra/Embrafilme. ESPINOSA. Menezes de. OROZ. 4 de agosto del 2002. vol. SOUZA. 1983. S. RJ: Contraponto S. Mariana Martins. Território e Lugar: estas palavras ciganas.. 2004. Abdala Jr (org. 2001. no. http/ :www. 2004. R. 4ª Ed. Carlos Teixeira: Glauber Rocha.P/EDUSP. 5.: Nova Fronteira. Silvia: Tomás Gutiérres Alea: Los filmes que no filme. “América Nuestra – Glauber Rocha e o cinema cubano”.In Revista Educação.P: Boitempo. “Hibridismo e tradução cultural em BHABHA”. NAVAS. DELEUZE. Gilles.. SCHÖPKE. S. GOMES. S. 1989. Rio de Janeiro: Instituto Diversidade Brasil. In Revista do patrimônio histórico. Adolfo Montejo: “Cinco notas sobre o teatro engajado no Brasil”. LEONARDI. Victor Paes de Barros: A Arte de Viajar à Deriva e Ressurgir com Paixão. Raízes e Errantes. IPHAN.com. 22. 2007 . Zila. Mauro... O século do cinema. Subjetividade e Poder. 2003../dez. NAPOLITANO. SP: Contexto. Petrópolis: Vozes. Conversações: 1972-1990.scielo. La Habana: Ediciones Unión.In: Revista Brasileira de História.. Hibridismo & outras misturas. J. 2004. “El legado Glauber Rocha”. ROCHA. “Espaço.2002.) Margens da Cultura: mestiçagem. o pensador nômade.: Ed 34. GUATARI. Porto Alegre. Marcos: Cultura Brasileira: Utopia e Massificação (19501980).: Ed 34.P.Migrações de idéias. La doble moral Del cine.J. In: Benjamim. Glauber.P. Suely: Micropolítica: Cartografias do Desejo. 5. nº 29.R.”. Júlio Garcia.J.J. 2ª Ed.larepublica. Vol.br/scielo. Bsb. Esse vulcão. R. 44. Madrid: Ollero & Ramos Editores. no. http://www3.pe.

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Identidade *Artigo recedido em Janeiro e aprovado para publicação em Março de 2007 109 Revista Brasileira do Caribe. Migrações Caribenhas. Goiânia. 109-135 . pretende-se refletir sobre a inscrição de um “entre-dois” produtivo no corpus escolhido. 2001) que conferem à sua escrita um caráter particular e significativo no âmbito da chamada literatura migrante do Quebec. onde. the representative figure of identities in transit of contemporaneity.Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto Abstract This article focuses on the analysis of the books Passages (1994) and Reperages (2001) by the Haitian writer Émile Ollivier. Identity Resumo Apoiando-se na análise dos livros Passages (1994) e Repérages (2001). até recentemente. nome representativo das identidades em trânsito da contemporaneidade. vol. a identidade era vista pelas elites como homogeneidade (BOUCHARD. 2000). It offers a reflection on the inscription of on the inbetween productive place in the selected location. Palavras-Chave: Literatura. Keywords: Literature. VIII. where until recently identity was seen by the elites as homogeneus. 2004) e a situação paratópica do autor (MAINGUENEAU. Caribbean Migrations. n° 15. do escritor haitiano Émile Ollivier. It is important to take into consideration the plurality of imaginaries of belonging and the paratopic situation of the author which award their writing a particular and significative character in the context of the migrant´s literature of Quebec. Trata-se de levar em conta a pluralidade de imaginários do pertencimento (SIMON.

Migraciones caribeñas. 2000) a partir de situações 110 Revista Brasileira do Caribe. Graças ao reconhecimento da perspectiva diaspórica da cultura. que constitui uma ilustração das elaborações das identidades em trânsito de nossa época. que passou a ser vista na qualidade de comunidade imaginária. Identidad Encarada. o local de origem não podendo ser associado a uma única fonte de identificação. deslocamento e devir inacabado. n° 15 . como algo que se expressa como deslize. Goiânia. a noção de diáspora. mas. construíram-se coletividades novas (BOUCHARD. VIII. ao longo de histórias plurais de deslocamentos e desterritorializações. del escritor haitiano Émile Ollivier. revisitada por teóricos como Stuart Hall (2003). considera-se a identidade não como um dado fixo e estável. Palabras Claves: Literatura. as identidades são múltiplas. o escritor e teórico Amin Maalouf salienta a interferência de múltiplos pertencimentos em sua história de vida. que sugere mais os movimentos do “tornar-se” do que as certezas do “ser”. reflexionando sobre la inscripción de un entre lugar productivo en el locus seleccionado. Em se tratando das Américas. nombre representativo de las identidades en tránsito de la contemporaneidad.Maria Bernadette Velloso Porto Resumen El artículo se apoya en el análisis de los libros Passages (1994) y Reperages (2001). sobretudo como questão conceitual e epistemológica e não como experiência empírica. donde hasta recientemente la identidad era vista por las élites como homogénea. permitenos repensar os processos de construções identitárias de nosso tempo e as idéias atribuídas até recentemente à nação. Se trata de llevar en cuenta la pluralidad de imaginarios de pertenencia y la situación paratópica del autor que otorgan a su escrita un carácter particular y significativo en el ámbito de la llamada literatura migrante de Quebec. Em contextos marcados pela diáspora. Definindo-se no livro Les identités meurtrières (1998) como alguém situado em um entre-lugar que o leva a se ver como libanês e francês. vol. à luz da “différance” derridiana.

o espaço caribenho é marcado por uma estética diaspórica. um asiático.1995.30). deu-se a revisão da identidade quebequense. processo inacabado. depreende-se. Como pensa Maximilien Laroche. Pois todos aqueles que moram hoje na América vieram de outro lugar. o crítico da cultura Stuart Hall (Jamaica) também reconhece o que é dito na citação anterior. 1993.. p. 2003. diaspóricas. Como se sabe. verdadeiro habitante de um Novo Mundo. com o aporte de vozes de imigrantes oriundos de diversos países não-europeus e. que é pela mistura que a novidade entra no mundo (RUSHDIE. p. neste homem novo.394). Inserindo o Caribe no cenário da diáspora pós-colonial. do chamado Terceiro Mundo francófono (Antilhas. Nos últimos anos. Considerando-se.75). imprevisível e produtivo do contato entre culturas. no Quebec. professor e crítico haitiano naturalizado canadense: Ser americano é ter conhecido a metamorfose que transforma um europeu. Resultante das relações enriquecedoras entre elementos culturais variados. violentas e abruptas” (HALL. percebe-se o caráter inovador do Caribe. e em particular. com Salman Rushdie. todos os que estão no espaço caribenho “pertenciam originalmente a um outro lugar” e sua relação com essa história “está marcada pelas rupturas mais aterradoras. Salman. híbrido. Segundo ele. a inegável contribuição caribenha na configuração das novas cartografias identitárias decorrentes das migrações pós-coloniais nas Américas. Ásia e África). p. p.92). há mais ou menos tempo e sofreram a metamorfose que esta terra e sua história impunham. em especial. 1993. “movimento perpétuo de interpenetrabilidade cultural e lingüístico” (GLISSANT. 2007 . encarada 111 jul.Uma voz da diáspora haitiana. Nascido dentro da violência colonial e por meio dela. exemplo maior da ruptura de modelos fechados e homogêneos de pertencimento cultural. e mesmo o primeiro habitante desta terra. segundo as modalidades particulares de sua entrada neste Novo Mundo e segundo as peripécias de sua existência aqui (LAROCHE./dez. o Caribe é fruto da crioulização. o que explica seu caráter impuro.. no campo literário.

ressalta-se a presença de autores haitianos que emigraram para o Quebec em decorrência da abertura do Canadá à política de imigração. tal identidade passou a ser considerada sob o prisma da multiplicidade de centros de referência. opta por criar um texto crioulizado. diante da presença de alofonias diversas. n° 15 . mas que deixa traços do primeiro texto no novo. VIII. o que lhes permitia fugir dos horrores da ditadura de Duvalier. Pode-se dizer que. interferências lingüísticas ou culturais. um texto em que a confrontação dos elementos díspares produz o novo. vêem ameaçados seus valores identitários tradicionais – 112 Revista Brasileira do Caribe. 1991). Da fricção criativa de dois pertencimentos nasceram obras marcadas pelo híbrido. Goiânia. o reconhecimento das vozes migrantes.Maria Bernadette Velloso Porto como homogênea pelas elites do século XIX e parte do século XX. estes efeitos de dissonância são o resultado de um processo de tradução inacabada. Cabe lembrar aqui a definição do texto híbrido proposta por Sherry Simon: O que se pode entender por um texto híbrido? Trata-se de um texto que interroga os imaginários do pertencimento. segundo a expressão de Édouard Glissant. Nesse cenário de profundas transformações e questionamentos identitários. por um vocabulário díspar. consciente da multiplicidade. uma sintaxe não habitual. pois seus textos misturam imagens e signos do Haiti e do Quebec. uma relação de transferência ou de passagem que não acaba em um produto naturalizado. Graças à inclusão do olhar de estrangeiros. muitas vezes problemático para os “Québécois de souche” que. ou seja. um despojamento desterritorializante.13-14) Cabe lembrar que. no panorama identitário do Quebec. levando em conta um estado de dissonâncias e de interferências de várias formas. uma certa abertura ou fragilidade no plano do domínio lingüístico ou do tecido de referências. Estes efeitos estéticos são o resultado da situação de fronteira vivida pelo escritor que. Tais escritores e poetas apresentam em suas obras o que Maximilien Laroche chama de o “duplo palco da representação” (LAROCHE. vol. em certos casos. o imprevisível (SIMON. p. aculturado. O texto híbrido é portanto um texto que manifesta “efeitos de tradução”. 2004.

os romances haitianos de 1970 a 1980 foram escritos e/ou publicados na América do Norte. material importante para os estudos do romance haitiano contemporâneo. mas que está aí para ficar./dez. Um dos representantes da presença do Haiti no Quebec contemplados na obra citada é Émile Ollivier. 2001. esse outro que não é um observador de passagem. na condição de migrante. Segundo Jonassaint. ilustra. ao trazer para a cena coletiva a pluralidade de pontos de referência e de memórias culturais. o imaginário migrante dialoga com a representação simbólica do exílio que afetou anteriormente muitos autores do Quebec. Nessa revisão contínua das identidades. de modo exemplar. os quais viam seu país como incerto. uma cultura que carrega as origens se enriquece com a contribuição múltipla e aceita modificar-se sem se trair.. torna-se um fator de revisão do implícito. Encarnação expressiva da situação paratópica (MAINGUENEAU. Tratar da diáspora haitiana no Quebec nos remete ao livro de Jean Jonassaint intitulado Le pouvoir des mots. p. as ambigüidades 113 jul. o escritor iraquiano Naïm Kattan.Uma voz da diáspora haitiana. Como pensa outro representante diaspórico da chamada literatura migrante do Quebec. Buscando mostrar que o exílio pode ser fecundo. inscrevendo no seio da cultura quebequense as marcas de sua diferença e os apelos do exílio. 2007 . em especial. 2001) de todo escritor que. em sua maioria.. ausente ou inacabado. ele reúne trechos e depoimentos valiosos de seres diaspóricos. já que. autores migrantes colaboram de perto na reinvenção identitária do país que lhes deu abrigo.43). Em outras palavras. que todo desenraizamento é ou pode ser fator de grande criatividade e que toda migração é útil ao país de origem e ao país de adoção. não ocorreu por acaso. les maux du pouvoir. já presente na memória coletiva dos quebequenses. um dos privilégios do autor migrante é o olhar novo que ele lança sobre o país em que se instala: O imigrante. desabrochar ao se reinventar (KATTAN.

Como todo escritor. negociando incessantemente entre o lugar e o não-lugar. Como muitos imigrantes (autores e personagens romanescos). Émile Ollivier privilegia em textos teóricos e ficcionais reflexões sobre o trajeto identitário de seres deslocados de nosso tempo. ele não chegou a empreender o retorno ao país natal. p. em 1965. na sua obra teórica Repérages (2001). “alimenta sua obra com o caráter radicalmente problemático de sua própria pertinência ao campo literário e à sociedade” (MAINGUENEAU. vol. Optando por um desvio provisório. tira partido da deslocalização que caracteriza toda produção literária “sem ‘deslocalização’. no passado. exerceu várias ocupações e obteve um certificado de estudos literários na Sorbonne. Ollivier salienta sua identidade móvel que o levou a adotar compromissos e a efetuar negociações a cada dia. Buscou. Após ter vivido seus primeiros vinte e cinco anos em PortoPríncipe. estar de passagem no Canadá. como tantos outros indivíduos. um dia. Goiânia.Maria Bernadette Velloso Porto e contradições de quem não coincide necessariamente com um lugar no mundo. esperava retornar à sua terra natal logo que essa situação política tivesse mudado. 2001. Ollivier acabou por aí criar um espaço de vida e de criação. uma experiência inédita que 114 Revista Brasileira do Caribe. que teria permanecido o mesmo jovem que rompera. a princípio. Como tantos outros haitianos que pensaram. p. durante um ano.27). Consciente de que se encontra diante de uma sensibilidade inusitada e de que vive. 2001. 2001. abrigo na França onde. p. Em 1968.28). n° 15 . A mesma pergunta que aflige seres migrantes em geral se coloca para o autor em questão: “Como é possível viver não sendo totalmente daqui nem mais totalmente de lá?”(OLLIVIER. Ao declarar. não existe verdadeira literatura” (MAINGUENEAU. se instalou no Quebec onde se tornou professor de sociologia na Universidade de Montreal. com a exigüidade de sua ilha para partir em busca da conquista de vastos territórios. Ao exercer sua atividade profissional no campo das letras. VIII. E é na impossibilidade de se estabilizar em um lugar preciso que sua obra se constrói. 37). Ollivier decidiu se afastar do Haiti para escapar da violência da ditadura de François Duvalier. morrendo no estrangeiro.

que. ao chegar ao Quebec. os homens não. Origem ilusória. desejamos o céu. Desse modo.38) . assim como a intimidade. nossos pés só servem para andar.Uma voz da diáspora haitiana.. por sua vez. o autor do livro citado diz que é preciso desenvolver competências de “bricoleur” e aprender a viver nos interstícios. p. ao invés de valorizar a noção de raiz –associada às árvores . Para evocarmos o sociólogo Zygmunt Bauman.. as estradas não emergem do solo ao acaso das sementes. faz de todos nós seres mutantes por excelência (OLLIVIER. Exposto a outros modos de socialização como todos os migrantes. 2001. 20). Por isso mesmo. lá atrás. 2004. empreendendo uma operação de descentramento (OLLIVIER. da servidão à liberdade ou à morte violenta. é para apodrecer. ele parece dialogar com a visão de Amin Maalouf em seu livro Origines: As árvores devem se resignar.prefere as idéias de estrada.. Sob esse prisma. 2001. Origem inatingível. 2001. Como nós. 2007 . após ter sonhado durante muito tempo com o retorno ao país natal. p. antes da primeira curva. 2005. elas têm uma origem. Vendo-se como um escritor das fronteiras (OLLIVIER. podemos lembrar que./dez. p.910).. São elas que nos levam – da pobreza à riqueza ou a uma outra pobreza. de caminho. para se considerar como alguém deslocado que. Para nós. A seiva do solo natal não se eleva por nossos pés em direção à cabeça. Respiramos a luz. 2001. p. p.22). e quando nos enfiamos na terra. a distância cria uma situação privilegiada (BAUMAN. já havia uma curva e mais uma. pois a cada cruzamento se uniram outras estradas que vinham de outras origens (MAALOUF. só importam as estradas. cita o escritor Juan Goytsolo.) Ao contrário das árvores.24). já que uma estrada não tem nunca verdadeiro começo. Émile Ollivier passou da posição de exilado à de migrante. ao longo de trinta anos de vida no Quebec. elas precisam de suas raízes. reconhece-se como um “ser feito da interferência de todos os lugares que atravessou” (OLLIVIER.69).(. percebe que sua vida era pontuada por várias mortes 115 jul. p. Ollivier se colocou à escuta da realidade cultural a sua volta.

Goiânia. a língua francesa. sua outra língua. o Quebec mudou de estatuto a seus olhos. Ciente de que a língua francesa se tornara cada vez mais indispensável em sua profissão.23). seu espaço de enunciação. 2001.37). Por isso mesmo. Aos olhos de Émile Ollivier. Para o autor de Repérages. tornado. VIII. pois logo percebeu. Ollivier participou das profundas modificações ocorridas no Quebec a partir da Revolução Tranqüila. sabe que seus livros não são de fato consumidos pela comunidade haitiana. dado o forte índice de analfabetismo de seu país. deixando de ser simplesmente a terra que lhe ofereceu asilo. conquistada a cada dia de sua própria reconstrução identitária no novo país. 28).64). p. p. Situando-se numa encruzilhada entre dois idiomas – o crioulo e o francês – o autor leva em conta a questão de seu público. Embora trate de assuntos referentes à sua terra de origem. Ao se fixar em Montreal. Com outros representantes de diferentes modos de ser e de ler o mundo. que trouxeram para o cenário das discussões identitárias o questionamento das certezas estabelecidas. a experiência lingüística constitui um domínio privilegiado para se refletir sobre a condição migrante por parte de seres cindidos sob o ponto de vista identitário. o autor de Repérages afirma ter feito o luto de sua origem. p. vol. pelo gesto de migrar. Ao ter perdido. a seu lado. a presença de “estrangeiros do interior”: os quebequenses que acabavam de deixar o espaço rural para se instalarem no tecido urbano de uma cidade em expansão que recebia alteridades plurais. vista como seu lugar de asilo (OLLIVIER. p. para se tornar seu país de adoção (OLLIVIER. 2001. o jovem haitiano compartilhou com outros a sensação de estranhamento. A maneira de continuar fiel à sua origem não seria falar continuamente dela na língua estrangeira que poderia lhe conferir maior visibilidade? E é no corpo a corpo com a diferença e com o francês.Maria Bernadette Velloso Porto e renascimentos sucessivos (OLLIVIER. como propôs Salman Rushdie (1993. aos poucos. 2001. o que remete à existência de “homens traduzidos” de nosso tempo. precisou conquistar um outro. que ele reforça seus vínculos com a realidade caribenha. 116 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . falar uma outra língua equivale a assumir a posição do tradutor.

p. um reservatório de sons. no ato da escrita.. ritmos e imagens (OLLIVIER. mas como busca inacabada e rentável que supõe a fricção produtiva entre dois idiomas e memórias culturais.Uma voz da diáspora haitiana. Marcada. vivenciada sob a forma de diglossia.64) .382). de uma memória impossível que aflora. E é no ir e vir entre duas culturas. para evocarmos o capítulo “La tragédie des hommes traduits”.. presente nele como uma cripta. p. optando pela procura de um equilíbrio na instabilidade: 117 jul. nascida do roçar entre as diferenças. Apesar dessas duas realidades trabalharem meus desejos. de Pascale Casanova (1999. apesar de tudo. Estou desvinculado da realidade haitiana. 2001. exercitando a prática tradutória não como um exercício de simples transposição de uma língua a outra. Além de sugerir travessia. na superfície do texto. minhas alegrias. E penso de fato que é uma situação de esquizofrenia. de alguém que está desvinculado da realidade./dez. Como no próprio Haiti ele já conhecera de perto a dualidade lingüística.88) Como “esquizofrênico feliz”. dois universos e dois apelos lingüísticos que a obra desse autor se inscreve sob o signo da dualidade ou da digrafia. o próprio Ollivier se refere a esse dilaceramento de forma lúdica e criativa: Essa esquizofrenia vai ser encontrada provavelmente ao longo de toda a minha produção.. a literatura migrante de Émile Ollivier coloca a questão lingüística como componente maior do capital literário. e a criação de uma terceira língua. assim. p. Em entrevista a Jean Jonassaint. meus trabalhos e meus dias (JONASSAINT. 2007 . isto é. por uma dupla inscrição. 1986. mas também da realidade quebequense. Ollivier vale-se de um duplo pertencimento. transformação e um trabalho de recriação permanente... Ollivier tenta evitar qualquer perspectiva reducionista que poderia tornar exótica sua escrita.. Tenho o hábito de dizer que sou haitiano à noite e quebequense de dia. aqui a realização do luto da origem supõe também a interferência constante.

a gente se exprime. e a encontrar. evitar a tradução literal do crioulo em francês. captar a substância da língua crioula e restituí-la diretamente em francês (JONASSAINT. seu lugar por excelência no mundo. Considerado pela autora do ensaio La mémoire sans frontières como uma “deriva polifônica” (GAUTHIER. fugir da relação de equivalência e. duas histórias principais estão vinculadas ao Haiti: de um lado. trabalhar sobre as imagens. o escritor identifica na desterritorialização um espaço de liberdade que o leva a fazer escolhas. 1986. a refazer seu imaginário. Um romance em particular ilustra a complexidade do universo do autor: trata-se de Passages. um grupo de haitianos se organiza para fugir das misérias de sua terra natal. trata-se de andar sobre essas duas pernas. publicado em 1991. como 118 Revista Brasileira do Caribe. embarcando em um barco frágil que os levaria. a interiorizar cores. a negociar entre danos e perdas.Maria Bernadette Velloso Porto Tenho consciência de não trazer nenhuma resposta explícita à questão da diglossia. os provérbios. isto é. e a caracterização do escritor migrante como um tradutor adquirem. 1997. de preferência. cheiros e sabores de seu país. ressemantizados no contexto estrangeiro. Logo.89) No conjunto da obra de Émile Ollivier. n° 15 . reinventada graças ao crioulo. em francês e em crioulo como ser haitiano. VIII. não se trata de decidir entre o crioulo e o francês. as metáforas. ao invés de se deixar paralisar pela dor da ruptura e do dilaceramento. Goiânia. p. na formação social haitiana. Trata-se de levar em conta esse fenômeno. liderados por Amédée Hosange. a desterritorialização da língua francesa. Minha principal preocupação é de expulsar toda folclorização. p. pois. destaque.62). vol. na própria escrita. na maioria haitianos. o romance Passages apresenta vários personagens migrantes. revestindo-se de um caráter eminentemente dinâmico. as duas línguas foram vizinhas. Como resolver esse problema no plano da criação? No que me diz respeito. em resumo. coabitaram. Historicamente. ao mesmo tempo. mesmo em relações de dominação. Numa narrativa de caráter polifônico. cujos trajetos de vida se entrecruzam. a experiência do exílio.

Cabe a outro personagem haitiano (Régis). p. o livro em questão coloca em cena múltiplas passagens. sem realizar o desejo de retorno ao país natal. à dire notre exubérance. uma das poucas pessoas que sobreviveram ao naufrágio da embarcação e os sonhos dos que ousaram optar pelo exílio (ainda que visto como provisório). donc à jeter le trouble. Priorizando a idéia de passagem.181)./dez. Vistas como trânsito.1994. em Miami. clandestinos. sua compatriota. viúva de Amédée. A narrativa referente à preparação da viagem dos boat people haitianos em direção a Miami se reveste de um sentido 119 jul. Como se atualizasse a mesma frase. o jornalista Normand Malavy. Como afirma Lise Gauvin. Destaca-se aí a figura perturbadora do estrangeiro aos olhos de quem se definia pelas certezas identitárias. mas não chega a divulgá-lo. enviado pela esposa do morto para buscar seu corpo. je peins le passage”(OLLIVIER. Outra referência importante à noção de passagem se destaca de versos de René Char: “Nous sommes des passants appliqués à passer.194).” (GAUVIN. que há anos deixara o Haiti para viver em Montreal.. p. à infliger notre chaleur. acaba conhecendo. “história de migrações e de errâncias.. de outro. p. 2000. no plano da intriga e na própria construção do romance. a vida e a morte se conjugam na dinâmica do transitório.7). o romance se abre com uma epígrafe significativa de Montaigne: “Je ne peins pas l’être. pois morre de um ataque cardíaco. Brigitte Kadmon Hosange. 1994. Voilà pourquoi nous intervenons ! Voilà pourquoi nous sommes intempestifs et insolites“ (OLLIVIER. esse romance deixa provisoriamente o espaço geográfico haitiano para melhor encontrá-lo nas lembranças e no imaginário de indivíduos à procura de seu destino. Normand grava o depoimento de Brigitte em cassetes. 2007 .Uma voz da diáspora haitiana. abaladas pela inclusão da diferença no âmbito de uma familiaridade construída a partir da ilusão e da pretensão da homogeneidade. servir de intermediário entre as diversas vozes narrativas desse romance formado da reconstituição de diversas memórias. a Miami. Histórias do viver e do morrer se intercalam no tecido narrativo marcado pela poética dos encontros e (des)encontros ligados às movências identitárias.

Port-à-L’Écu n’existe nulle part. de modo misterioso. de la main même de l’Empereur.25). les loup-garous y ont élu domicile et parfois volent en plein jour. VIII. que os levaria a Miami. da desolação e da miséria absoluta: Port-à-L’Écu. condenada ao abandono e ao silenciamento. ce n’est plus le pays de la canne à sucre .14). Em um mundo pleno de sinais. ele parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos) acarreta um efetivo desequilíbrio ecológico que compromete a própria existência da coletividade. é revestido de tragédia. Et pourtant. 120 Revista Brasileira do Caribe. O retorno desse habitante a Portà-L’Écu. os habitantes da referida cidade escolhem uma forma particular de resistência: a fuga numa embarcação precária. mas também de desafio e de orgulho (OLLIVIER. Nul besoin de chercher son nom sur une carte . Goiânia. p. lequel l’avait obtenue. 1994. A abertura do romance aponta para a decadência que afeta a cidadezinha de Port-à-L’Écu. n° 15 . passou a ser o espaço da improdutividade. au lendemain des grandes tueries de l’indépendance (OLLIVIER.Maria Bernadette Velloso Porto mítico. colocando em confronto dois tempos de um mesmo lugar. des deuxmoitiés. que corre o risco de se tornar “lata de lixo dos Brancos”: afastando-se da representação do lugar habitável que fora um dia. il n’y a guère de temps. augúrios e presságios. Là vivait Amédée Hosange. disait-il. mesmo no estado em que se encontram. 1994. conscientes de que. c’était un village qui comptait tout près de trois mille chrétiens vivants. a intervenção do sobrenatural se dá nas pequenas histórias do cotidiano marcadas pelo realismo mágico. cinq maîtresses. Il y avait à Port-à-L’Écu dix carreaux de terre. p. feita por eles mesmos. Prisioneiros de um mutismo feito de medo. com a crise da pequena cidade.27). p. essas terras representam todo seu sopro vital (OLLIVIER. pois. Il tenait la terre de son grand-père. de onde fora expulso um dia. Port-à-L’Écu n’existe plus. un bien grand et riche domaine. como ocorre com a chegada de um ser inquietante que coincide. belles cases. a morte repentina desse cadáver em vida (extremamente magro. vaste grange. 1994. il ne figure sur aucune. vol.

2007 . il pouvait faire le décompte des milles marins parcourus. Segundo Édouard Glissant. connaissait la navigation en haute mer.48). deslocando-se como um pombo correio. p. como o “passeur” que os levaria à salvação. 1994.. Em estreita sintonia com a natureza. p. La nuit.19) e dotado do sentido da orientação por ter uma bússola em suas narinas e por ser capaz de se valer do sol como seu compasso e seu cronômetro (OLLIVIER. 1994. dominando as artes do enraizamento e da errância: Amédée.63). il associait les odeurs à la direction du vent. p. novo Hermes responsável pela transmissão da nova boa nova: a possibilidade do recomeço em outro lugar e da reconstrução da identidade nas searas da diáspora. p. Mestre da ciência dos ventos baseada no vivido./dez.. Il m’avait souvent parlé de ses voyages en haute mer.Uma voz da diáspora haitiana. “il avait foulé cette terre en nômade” (OLLIVIER. inteligência prática de seres oprimidos que a ela recorrem para contornar um problema de difícil solução. dire combien le ciel avait marché au-dessus de la terre. Concebido como um recurso temporário. je vous l’ai déjà dit. Amédée é escolhido por seus compatriotas como líder.65) equivale a um “détour” no sentido glissantiano. a prática do desvio constitui uma estratégia de sobrevivência eficaz para se enfrentar uma impossibilidade (GLISSANT. Tendo em sua bagagem existencial a experiência do nomadismo (cf. Il n’avait pas besoin de montre pour déterminer quelle partie de la nuit ou du jour était passée (OLLIVIER.Il m’avait souvent parlé de ses voyages au long cours. Convencido de que lhe cabe a responsabilidade de assumir para si a resistência contra os riscos de desaparecimento de seu 121 jul. 1997. 1994. o desvio é sinônimo de astúcia. p. en reniflant. Il connaissait la position des étoiles fixes et des étoiles errantes. monsieur. 1994. Véritable pigeon voyageur. Tal viagem clandestina em direção a um “Eldorado de lenda” (OLLIVIER. sabe ler os sinais inscritos na paisagem. en fixant le ciel. abre-se para a expansão dos limites identitários. 64).

não constituindo uma simples referência física que marcaria seres insulares. effacement d’un peuplement : le génocide des Indiens caraïbes. VIII. Ausentes dos estudos 122 Revista Brasileira do Caribe.Maria Bernadette Velloso Porto povo. la grande transhumance. nous traversons le temps même si le sol semble se dérober sous nos pas. cette éternité dans le purgatoire. 2001). Goiânia. que remete não só à fuga de escravos. ce temps de tourments. 1994. Apoiando-nos em pistas oferecidas por Simon Harel e Jacques Mathieu-Alexandre (2003) em sua análise do romance Passages. no cerne dessa obra. Na base da resistência coletiva à decadência de sua cidadezinha e de sua própria dignidade como povo. Notre substance est tissée de défaites et de décompositions. effacement d’un paysage. as danças. o candomblé. opiniâtres et inaltérables galériens. vol. Amédée atualiza o exercício do “marronnage” (termo criado a partir de “nègre marron”= “quilombola”). entre outras manifestações criativas). mas a todo gesto do resistir que se manifesta como prática cultural (como o vodu. nous continuons à survivre en nous livrant à d’impossibles gymnastiques (OLLIVIER. une interminable histoire de brigandage. a capoeira. aponta para a consciência da fragilidade e dos riscos de invisibilidade e de desaparecimento de uma comunidade. podemos dizer que.184-185). Et pourtant. l’esclavage et. malgré ce présent en feu. persévéré sur les flots du temps. dégradable et pérenne. Malgré vents et marées. os habitantes de Port-à-L’Écu se mostram atingidos pela sensação incômoda de exigüidade (PARÉ. dans cette barque putride et imputrescible à la fois. de se défaire. n° 15 . Notre histoire est celle d’une perpétuelle menace d’effacement. Coureurs de fond. Uma passagem em especial ilustra a consciência da fragilidade do ser exíguo. Nous avons subsisté. p. nous franchissons la durée. depuis la mort de l’Empereur. nous avons franchi cinq siècles d’histoire. de se refaire. está a consciência da exigüidade que. dilacerado entre o sentimento de impotência e o desejo de sobrevivência: Nous venons d’un pays qui n’en finit pas de se faire .

Apontada como a “América latina na América do Norte” (OLLIVIER.97). Espaço de convergência de inúmeras experiências diaspóricas. pois. Amédée 123 jul. 1994. Miami aparece na narrativa como um lugar de passagem. além de ser “um lugar de esperança e de miséria para os que conseguiram deixar sua terra de miséria” (GAUTHIER. sob a máscara do sol que esconde cóleras e violências. a situação diaspórica favorece a atividade da escrita. no espaço das letras. Escrita do trânsito e das transferências culturais que se abrem para os diálogos sempre inacabados da crioulização. um sítio importante para se rever sob o ponto de vista identitário e para reler o próprio existir. uma terra de errância. essa cidade se reveste também de um sentido negativo. 1997. 2007 . 2003. Escrita muitas vezes epistolar.. oferecendo aos seres desterritorializados a oportunidade de inscrever seu lugar no mundo nas páginas da escrita. uma solução definitiva para seres desterritorializados. p. a função da escritura é a “de aumentar desmesuradamente nossa relação com o mundo de modo a nos proteger da pequenez da condição humana e da insegurança que a acompanha” (HAREL & JACQUES./dez. mesmo sabendo disso.66). “a escrita e a prática da arte acarretam uma liberação do espaço” (PARÉ. acadêmicos voltados para as chamadas grandes literaturas. 2001. Como experiência enriquecedora que leva indivíduos a ultrapassar limites. na busca de um outro lugar no mundo. p. Obra-refúgio ou obra-insular. Como foi salientado. 2001. p.. as produções da exigüidade correspondem à “fabricação original e autônoma de bens simbólicos inéditos” (PARÉ. ao exercício criativo de práticas de sobrevivência adotadas pelos excluídos da História oficial. 87). p. p.206). Mas. p. Miami não seria. uma possibilidade é vislumbrada pelo grupo liderado por Amédée como viável: Miami. É o que faz Ollivier no romance em pauta. fragmentada em várias cidades onde há diversas solidões (OLLIVIER.65). Lutando contra o confinamento. o abafamento e o silêncio. capaz de preencher e de superar o hiato geográfico instalado entre seres distanciados fisicamente. 1994. mas que encontram.Uma voz da diáspora haitiana. pelo paralelismo estabelecido entre a casa e a escritura. pois.66). após certa hesitação e influenciado por uma visão mágica.

(.Maria Bernadette Velloso Porto responde afirmativamente à demanda dos que o procuraram como guia. le monde est constitué de deux grandes races d’hommes : ceux qui prennent racine. Leyda oferece ao leitor pistas valiosas para a compreensão da diáspora: Voyez-vous. não corresponde ao ideal de vida valorizado pelo próprio Émile Ollivier. ele nos acompanha. Amédée. Goiânia. Identificando. Pourtant. ne l’emporte-t-on pas partout avec soi ? (OLLIVIER. 1994.) Mais déjà. Sa part de territoire. interiorizado nas memórias e paisagens afetivas: Amédée ne comprit pas tout de suíte pourquoi ils devaient partir. sans trajet préalablement déterminés. VIII.86-87). n° 15 . seu próprio marido Normand. quelles que soient ses fins secrètes n’a jamais le temps de revenir. empruntent d’aléatoires chemins. vol. sans but. Na base de sua decisão está a certeza de que mesmo quando deixamos o país natal. influencé par sa vision. ce jour-là. nessa segunda categoria. Normand était de cette race. p. avec le vent. Ils sautent dans des voiliers de hasard . alguns homens se deixariam levar pelos movimentos do devir. Adeptes de vastes chevauchées. ils traversent. quitter le pays où ils étaient nés. como já foi visto. p. Il aimait ces déplacements à tâtons qui se jouent sur des surfaces illimitées où départs et retours finissent par se confondre (OLLIVIER. avait changé d’avis. 124 Revista Brasileira do Caribe. haveria os seres sedentários. a partir dos apelos da polinização. 1994.. devenir une race sans terre. que acabara de morrer..31). de outro. il savait que souvent le crabe qui s’éloigne à une trop grande distance de la mer. les grands espaces. qui se tissent un destin minéral dans un rêve de pierre et ceux qui se prennent pour le pollen. Um dos trechos mais poéticos do romance Passages referese a uma reflexão da personagem Leyda a respeito de duas formas de se estar no mundo: de um lado. inspirando-se na fixidez do mineral ou no modelo da raiz que.

portanto. p. a diáspora é. segundo o autor citado.. mas também desprendimento.22). permite. Apenas permanecerão vivas as plantas que jorrarão longe da árvore semeadora.142). p. 2007 . pois. já que a imobilização.. a cultura não é somente enraizamento.39). da família. Para eles. 1997. Apenas as sementes que vão longe têm oportunidades de frutificar. convite para a novidade e para a aventura no campo dos sentidos – transitórios como a própria existência–. tem um efeito mortífero (MAFFESOLI. 1997. p.Uma voz da diáspora haitiana. palavra que recobre diversas situações. p./dez. “só havia partida na perspectiva de um retorno 125 jul. opondo-o a Barrès que pedia aos homens para se enraizarem na terra e nos mortos. mais temos acesso a riquezas imateriais (MAFFESOLI. Por isso. diferentes personagens conhecem de perto tal experiência. p. um caráter não definitivo. abrir-se para o outro” (MAFFESOLI. hedonista e místico das « nourritures terrestres » gozando do vento espalhando sementes. 1997. um enriquecimento cultural. Gide. da terra dos mortos (MAFFESOLI. No romance Passages. 1997. como sinônimo de confinamento. além de se morrer de fome.19). 1997. Sinônimo de fecundação e de renovação. para quem existir significa “sair de si mesmo. o que corrobora o pensamento de Michel Maffesoli. Referindo-se à metáfora da raiz. Para Maffesoli. Amédée e Brigitte encaram a ida para Miami como recurso temporário. Daí se explica a razão que leva Maffesoli a acreditar na necessidade de se empurrar para longe as fronteiras (MAFFESOLI. do ninho. quanto mais longe nos encontramos da “terra dos mortos”.28). A vivência do exílio. segundo a lógica diaspórica. atribuindo-lhe. p. a passagem abaixo se aproxima da citação de Ollivier: Fazer uma leitura contemporânea de Gide. em geral. 1997. Segundo a perspectiva do exílio visto como “détour”. 141-142). já que. As que caem bem perto do tronco não têm nenhuma chance de crescer e de desabrochar. conforme foi apontado. Não se poderia falar melhor da força do desprendimento que cresce longe das raízes. pode-se morrer de tédio ou de desespero (MAFFESOLI.

Brigitte manifesta o desejo de voltar a Port-à-L’Écu para ser enterrada na sua língua (OLLIVIER. 1994. de mil odores do alhures” (OLLIVIER. préservé de la ville longtemps imaginée. 1994. Cela avait suffi pour constater que la magie avait quitté sa ville. Assim. derrière ce nouveau masque. não realiza seu sonho de voltar ao país de origem. peut-être auraitelle découvert. Son séjour à la Havane. Dividido entre duas forças – o quimérico ressurgimento de seu passado e o esquecimento de suas raízes (OLLIVIER. p. ela vive no Canadá há cerca de dez anos.113).112). tentando se enraizar em projetos de melhoria do mundo. une grande déchirure. descobre a impossibilidade do retorno. n° 15 . Ora. alimentou o desejo de rever Cuba. mas ao empreender uma viagem ao seu país natal. Elle n’avait eu qu’une semaine. preenchendo o vazio de sua vida de modo a parecer muito ocupada. p. 1994. Mas. 45). “anda em círculos” (OLLIVIER. situa-se paradoxalmente entre a busca de um impossível acordo consigo mesmo e um movimento de felicidade. por mais que ela se esforce. como se buscasse compensar a desorientação de seus dias. Trata-se de Amparo. Si elle était restée plus longtemps. Tendo contínuo contato com imigrantes latinoamericanos. 126 Revista Brasileira do Caribe. ser dos trânsitos por excelência. o enorme hiato criado entre ela e sua terra de origem. Também Normand. 1994.176).229). diante do fracasso da empreitada chefiada pelo marido. Goiânia. une douleur intense. viveu um tempo com um chileno e se dedica a manifestações contra o racismo e a utilização de armas nucleares. vol. Filha de sírios que emigraram para Cuba e depois se instalaram nos Estados Unidos.Maria Bernadette Velloso Porto enriquecido de mil perfumes. p. Na verdade. um desejo de viver (OLLIVIER. Amparo fixa sur Leyda un regard mouillé : “ Jamais plus je ne pourrai vivre à La Havane” (OLLIVIER. ou à elaboração de petições pela Nicarágua. p. 1994. seus atos se revelam incapazes de garantir uma mudança na ordem das coisas e de lhe assegurar uma nova meta de vida. intime.42). como já foi dito. P. p. Para reforçar a inviabilidade do retorno à origem. 1994. VIII. outro personagem migrante conhece a frustração ao fazer uma viagem a seu país. le visage secret. Durante muito tempo.

1991. Lido a partir dessa concepção de origem. No exemplo acima. viajar para senti-la. “Ora. experimentada. a origem nada tem de paralisante.57) 127 jul. em nosso tempo. que não precisamos. Mas onde é o início de tudo? Não somos todos migrantes em trânsito permanente que nos leva a recomeçar sempre? No caso da personagem Amparo.. 1991. antes. 2003. um convite para se ultrapassarem fronteiras e para se descobrir que é possível desejar (em) outros lugares. p.34). por todos nós. já que. Amar é desejar encontrar o ser que possa abalar sua memória inerte para lhe dar vida nova. até então inerte ou cansada de ser igual a ela mesma. a noção de pátria confundindo-se com uma construção provisória e inacabada. segundo Daniel Sibony. destaca-se a sensação familiar e moderna de “des-locamento”. pois há sempre algo no meio. p. o próprio presente nada lhe oferece de estável. Amparo parece ilustrar o pensamento do autor do livro Entre-deux: l’origine en partage: “Ora. necessariamente../dez. Tratase ainda da dificuldade de nos situarmos de fato em um lugar preciso e da consciência de que não nos é facultada a possibilidade de voltar para casa. E a imagem de seu país natal não passa de uma das versões possíveis de sua terra. 2007 . reconstruída sem cessar por sua memória. Como “impulso em direção a outros lugares” (SIBONY. embora procure se fixar em projetos coletivos. aí está a própria procura do amor”.Uma voz da diáspora haitiana. entre o presente e lá onde tudo começou (HALL. a reencontrar sua carência vital e sua distância em relação a ela mesma (SIBONY. 1991. Assim como Amédée e Normand. sendo. o amor equivale a uma procura de renovação identitária e de revitalização da memória graças ao contato com a diferença e o alargamento de fronteiras. o exílio é freqüentemente uma viagem que não sabe encontrar seu retorno” (SIBONY. encontra-se o valor da viagem como busca e requisição da memória. 27). abalar seu suporte de ser idêntico a si mesmo. No nível cultural como na experiência subjetiva.55). que forçará sua identidade a efetuar a viagem que ela escamoteia. p. p.

Conhecendo um duplo transplante (identitário e cirúrgico). a representação do amor no contexto diaspórico remete. ainda que de modo fugaz. A coincidência de trajetos existenciais parece reger o encontro dos dois amantes: vindo “de longe. vol. Quanto a Amparo. cidade de outros seres transplantados. Associado às idéias de hiato. já que suas relações são superficiais. p. Normand tinha “uma vida em suspenso” ao longo dos últimos dez anos durante os quais sofria de grave doença renal. ao efêmero e ao não-estabelecimento de relações efetivas. Seres 128 Revista Brasileira do Caribe. à história entre a cubana Amparo e o polonês Janush. para personagens desterritorializados. 1994. que é histórico e supõe a idéia de um vínculo. mesmo efêmeras. 2004. seu cotidiano nada lhe reserva de concreto e de promissor.86). nos territórios da paixão e/ou da afetividade. não-lugar próprio da supermodernidade aos olhos de Marc Augé (1994). conseguem se comunicar pela criação de uma terceira língua. um modo especial de suprir o vazio. 1994. “O importante é descobrir no corpo-texto do(a) amante. No romance Passages. Assim. p. a oportunidade do encontro – encontro do outro e de um outro lugar de referência identitária. o espaço para escreverem outras marcas de parcerias.69). corpo tatuado pelo já vivido. como se o amor fosse o ato inaugural de uma outra origem. e de identificarem. Cabe-nos aqui aprofundar a leitura do amor em tempos de exílio. Amparo e Normand se encontram em um aeroporto. o que contribuía para uma vida de recluso em uma cidade (Montreal) que se tornara uma prisão para ele (OLLIVIER. Ao contrário do lugar. Goiânia. o encontro desse casal equivale a uma possibilidade de neutralizar sua situação diaspórica. a disponibilidade para acolher outras histórias e outras memórias culturais” (PORTO. os amantes exercitam o gesto de se enraizarem. n° 15 .68).Maria Bernadette Velloso Porto Não é por um simples acaso que. Normand se identifica a Montreal. VIII. na experiência amorosa. Identificando. na pele de outrem. do outro lado da vida” (OLLIVIER. p. em particular. no romance Passages. Embora não dominem um idioma em comum. o exílio como ruptura é compensado pela vivência amorosa que constitui. os não-lugares de nossa época se associam ao trânsito. perda e fragmentação.

os amantes transformam o quarto do hotel em Paris em uma espécie de templo. Qu’importait ce manque! Une langue commune n’est pas absolument indispensable à la prise des langues et l’emmêlement de deux vies. o amor se mostra capaz de abalar as certezas identitárias.. Il parlait polonais. por meio do jogo amoroso.Uma voz da diáspora haitiana. o exercício do diálogo. Como se exprimissem. os dois amantes vencem qualquer impedimento. Feita de silêncios. da fronteira. Colocando em prática uma espécie de sacralização do amor. como se exercitassem. constituindo “a busca desvairada 129 jul. Aucun des deux ne parlait la langue de l’autre: typique dialogue Est-Ouest.. como na vivência da diáspora. 2007 .. dans l’affrontement désespéré de deux impuissantes paroles en quête de vérités (OLLIVIER. de não-dito. Elle ne comprenait que l’espagnol et l’anglais. inúmeros deslocamentos e trajetos inéditos. onde assumem diferentes papéis. p. a possibilidade de entendimento entre dois mundos.128). para além de suas opacidades culturais. Il était polonais. atualizando. Por isso. Assim. il pouvait se livrer sans restriction à ses activités de peintre. sob o modo metafórico. Leurs échanges se situaient en deçà ou par-delà les langues. revisitado pela perspectiva de Pentecostes que assegura a comunicabilidade a despeito das diferenças. experimentam. a experiência maior da alteridade. Le silence fondait leur relation. sua linguagem parece ilustrar a recuperação do episódio bíblico de Babel. bénéficiaire d’une bourse du gouvernement français. eles tiram partido da capacidade tradutória. baragouinait le français. seguindo diversos roteiros em que adotam várias identidades. Janush était de ces êtres sensibles qui captaient intuitivement toutes les manifestations de la vie. ou do outro lado do espelho. Ils avaient fini par créer une langue médiane mâtinée de gestes et surtout de silences. elle avait rencontré Janush. apesar de todos os desafios e riscos.. Mergulho vertiginoso no fundo de si mesmo. de impossibilidades. 1994./dez. os dois personagens apontam para o exercício maior dos diálogos interculturais: Un jour à la cité des Arts.

Maria Bernadette Velloso Porto de uma parte de si mesmo. da pluralidade e da hibridação. define-se como reinvenção permanente e experiência do heterogêneo. nous traversions plusieurs fois le globe. reinventando seu cotidiano.1991. isto é. vol. já que os parceiros investem na contínua renovação de papéis e de lugares 130 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. 1994. Nous revenions sur les ailes de midi. o pacto amoroso aposta na estranheza. no deslocamento. conforme foi visto na citação de Sibony o suporte identitário dos dois personagens. n° 15 . Exprimindo-se criativamente em situação de fronteiras culturais. Por isso mesmo. nous prenions le petit-déjeuner à Sidney. o amor os leva a se despirem de qualquer sugestão de fixação. Le ciel de notre lit figurait une carte du monde et chaque jour. Vivido. Janush et moi nous nous réveillions sur un point différent de la planète. descobrem-se em um lugar diferente da cama.p. Oiseaux migrateurs. Kilimandjaro aux neiges fumantes. lovés dans l’été de notre édredon (OLLIVIER. após uma noite de amor. como se o movimento de seus corpos os levasse a um outro continente. l’aventure commençait dès le petit matin. ‘viagens’(. 1994.129). le lendemain à Singapour. visitions des pays de légendes et de merveilles : cratères éteints de la cordillière des Andes.131). com a unidade narcísica. p.. Orient imaginaire. p. Trata-se ainda da vivência do imprevisível e da renovação cotidiana da disponibilidade para o gesto de partir: Avec Janush. Certains matins. pois. há muito esquecida” (OLLIVIER. à luz da experiência diaspórica. No teto do quarto de hotel parisiense. à New Delhi ou à Buenos Aires. o amor não poderia se manifestar em contexto marcado pela idéia de unidade: como falta e busca.. faisions escale dans des contrées prodigieuses. passagens. Ele convoca o entredois. eles imaginam que viajam a cada noite. convidando-os para exercitarem o próprio simbólico que.)”(SIBONY. Abalando. “não combina com o um-só. há um grande mapa-mundi e a cada novo dia. de acordo com Daniel Sibony. mourir sous les toits de cette mansarde de l’avenue de Wagram à Paris. VIII.57).

o livro em questão coloca na paisagem transcultural montrealense a explosão do orgiasmo carnavalesco caribenho. para empreender uma viagem em um universo marcado pela riqueza de imagens e de metáforas inesperadas. identitários. surpresos diante da manifestação dionisíaca da diferença em seu território.71). o que reforça a paratopia de seres desterritorializados. Como salienta Louise Gauthier (1997. Isso explica a cenografia do ritual amoroso inventado por esses personagens que elegem a vivência amorosa (e aqui pouco importa se se trata de amor ou de paixão) como espaço significativo da condição diaspórica./dez. Espaço da polifonia e da pluralidade. de paisagens e de manifestações culturais que remetem a um “dépaysement” criativo que nada tem de exótico. p. um grande lirismo se destaca nessa obra. Atenta aos excessos característicos do carnaval. Émile Ollivier imprimiu em seu romance as marcas da Poética da Relação proposta por Édouard Glissant (1990). precisam levar adiante seu desejo – sempre movente.. em que diversos níveis lingüísticos coabitam sem hierarquias. graças à inclusão da multiplicidade de cores. 2007 . Na reconstituição de suas memórias elaboradas em Montreal. pertence a um domínio mais culto do francês. Assim. gostos e ritmos e à liberação do corpo grotesco próprio da carnavalização rabelaisiana. ela registra o 131 jul. como todo desejo – de “escreverem” suas histórias graças à travessia de línguas e de memórias corporais e culturais.. odores. identificam-se a sabedoria ligada à experiência presente em provérbios haitianos e o ritmo próprio do conto e da oralidade. a do personagem Régis – que tece as ligações entre diversas histórias. Valendo-se das promessas da diáspora. engajando-se em uma escrita fundamentada na hibridação. na riqueza da não-coincidência. Hibridação de registros de língua.Uma voz da diáspora haitiana. associada às expectativas de um ir além. Se na narrativa da viúva de Amédée. o personagem Leyda evoca esse momento expressivo do encontro de culturas e seus efeitos sobre os quebequenses. Cabe agora ressaltar que o prazer da leitura do romance Passages está diretamente ligado à representação das movências: o leitor é chamado para se deslocar dos limites de seu mundo.

de vanille. renovada pela irrupção dos signos da alteridade: Leyda gardait en mémoire l’image de toutes les couleurs de peaux se côtoyant dans une débauche de costumes bigarrés. serpentins qui deviennent cerceaux emmêlés. de basilic. femmes-tortues. femmes-lézards.Maria Bernadette Velloso Porto transbordamento de limites. Goiânia. royaume de testicules. de trous. femmes-libellules. vol. après avoir fait le tour du monde. plantes plantureuses aux yeux rouges de plusieurs veilles de laborieuses préparations. vieux bidons d’essences. une horde de corps que des coulées de sueur font luire au soleil . bouquets de canelle . reggae. un coup pour moi. pâtés relevés de poivre. de fruits de la passion: irruption de la Caraïbe des origines . dá-se uma série de transformações: a revelação do mundo às avessas. calypso. une cacophonie. pulsions sauvages de la violence lascive des tropiques. distribuent victuailles et rafraîchissements . a manifestação do corpo grotesco 132 Revista Brasileira do Caribe. démêlés. du bruit qui soudain devient rythmes. rabordaille. a dessacralização da cultura oficial. de fourreaux. n’était la présence massive et rassurante de la flicaille prête à toute éventualité (OLLIVIER. des assauts de fantaisie. échouaient là. de phallus aux proportions gigantesques. 1994. une foule criant haut et fort. sandwichs à l’avocat. VIII. de piment. a transgressão ou a travessia das fronteiras da ordem cotidiana. de clou de girofle.) Et l’on tape sur tout ce qui peut résonner : bouteiilles vides. dans ce parc de Notre-Dame-de-Grâce. casseroles ébréchées. tout cela vibrait sous le regard médusé des archéo-Québécois qui auraient pris panique. un coup pour toi. méringue. assoiffés de fentes. Et les odeurs! Des matrones. Et l’on voit passer des bipèdes obscènes sur des plates-formes mobiles. incitant à des déhanchements. des punchs exotiques. défilés de couples mimant des scénes d’accouplement.38-39) Na lógica da carnavalização. rythmes célébres qui.. cette partie de la ville devenue soudain folle (. de muscade.. masques. p. steelbands d’un jour. plantes parvenues à maturité sans que l’on puisse en préciser l’âge. d’ail. rubans de dentelles. n° 15 . cercles de femmes.

2007 . elas parecem brincar de outras possibilidades de ser e de estar no mundo. o carnaval caribenho reinventado em uma metrópole da América do Norte acena com as promessas de renovação e de metamorfose. os corpos individuais encontrando seu prolongamento no corpo social “contaminado” pelos apelos caribenhos. mostra-se disponível para incluir em seus referenciais identitários valores e 133 jul. todos nós nos originamos e falamos a partir de “algum lugar” (HALL. as referências a manifestações culturais do Haiti desempenham sempre um papel relevante na obra de Émile Ollivier. abalada com a desmedida da festa carnavalesca. aprofundou sua experiência do entre-dois.. 1994. Desse modo. Seja como for. Por uma espécie de crescendo./dez. as mulheres conhecem.) o ser humano não pára de se inventar” (OLLIVIER. a euforia contagiante da festa. 240). e a presença dos excessos associados à enumeração. insinuando que toda essa algazarra é apenas provisória.. atinge a todos. a cerimônia vodu realizada a bordo do barco. No caso de Ollivier. no Quebec. Todavia. Assim. a vivência da religiosidade por parte de personagens é marcada pelo sincretismo. mantenedora da ordem. por mais que a identidade esteja ligada aos movimentos do devir. na vela do barco que levaria alguns haitianos a Miami. ao longo da qual o improviso é permitido. lagarto e tartaruga. em formas diferenciadas de identidade. foram bordadas imagens do panteão católico e de divindades do vento e do mar. com seus excessos e transgressões de limites habituais. No âmbito de jogos identitários característicos do carnaval. nossa relação com o passado e com a origem é sempre passível de releitura e nos permite atestar a veracidade de uma afirmação do romance: “(.83). mesmo que por momentos.. mesmo localizados. o devir animal: revestindo-se de atributos de libélula. Sugerindo a dupla inscrição identitária do autor. Longe de se fundamentarem numa visão folclorizante da diferença.Uma voz da diáspora haitiana. investindo. 2003. cultuados em seu país natal. a polícia permanece de sobreaviso. ainda que debaixo de fantasias e disfarces. p. Entretanto. p. Isso indica o caráter de duplicidade identitária do autor que. recusando-se a reconhecer uma concepção simplista de pertencimento. comprova que. e da sexualidade desenfreada..

M. 1994. passagens. 1995. Belo Horizonte: Editora da UFMG. Paris : Gallimard. distinção e ruptura. numa via de mão dupla enriquecedora. “L’écrivain témoin : déplacement. 1986. les maux du pouvoir : des romanciers haïtiens de l’exil. Niterói: EDUFF/ABECAN. n° 15 .In : PORTO. Campinas. exclusão. & JACQUES... HALL. ela também pode ser concebida como falta. M. 1997. Identidade. GLISSANT. 2003. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. GLISSANT. Les pouvoirs des mots. P. Langagement : l’écrivain et la langue au Québec. É. VIII. L. GAUTHIER. CASANOVA. BAUMAN. esse se viu transformado com as vozes caribenhas. Montréal : Les Presses de l’Université de Montréal. GLISSANT. La République Mondiale des Lettres. a despeito de alguma resistência. É. 2000. E se a idéia de identidade supõe limites. Brasília: Representação da UNESCO no Brasil. Z. 1997. Poétique de la Relation. JONASSAINT. G. J. transferts culturels et l’expérience de l’habitabilité dans les romans d’exil d’Émile Ollivier”. Por sua vez. Naïm Kattan et les écrivains migrants au Québec. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. insuficiência e ausência que levam o ser humano a largar as amarras de um porto seguro das certezas para se deixar envolver pelos movimentos do devir e pela expansão diaspórica. 2000. GAUVIN. É . 2003. BOUCHARD. La mémoire sans frontières : Émile Ollivier. « Littérature et culture nationale du Québec : le clivage culture savante/culture populaire ». S. Introduction à une poétique du divers. Montréal : Presses de l’Université de Montréal. Paris: Éditions de l’Arcantère . 1999. 2005. Ottawa : Conseil International d’Études Canadiennes. vol. 1990. Paris : Seuil. Goiânia. Le discours antillais.(org. HAREL. 134 Revista Brasileira do Caribe. S. M.Maria Bernadette Velloso Porto produtos culturais do país que o recebeu. São Paulo: Papirus. Montréal : Boréal. Sainte-Foy (Québec) : Les Presses de l’Université Laval. Bibliografia AUGÉ. Fronteiras. Da diáspora : identidades e mediações culturais. paisagens na literatura canadense. In : Revue Internationale d’Études Canadiennes n° 27. Paris : Seuil. L.).

LAROCHE. La double scène de la représentation : oraliture et littérature dans la Caraïbe. PARÉ. Montréal : Hurtubise HMH. MAALOUF. Les identités meurtrières. 2001. M. “Hibridações culturais. . (org.. PORTO. Du nomadisme: vagabondages initiatiques.. MAINGUENEAU. (org. 1993. Dialectique de l’américanisation. Paris : Christian Bourgois. M. D. M. O contexto da obra literária: enunciação. 2001. Identidades em trânsito. In: PORTO. Niterói: EDUFF/ABECAN. M. SIMON. PORTO. 1998. 2004 MAFFESOLI.). paisagens na literatura canadense. A. M. (org.. Paris : Le Serpent à Plumes.Ottawa : Leméac. Paris: Grasset & Fasquelle. F. PORTO. Origines. Ottawa : Le Nordir. PORTO. 1991. A. LAROCHE./dez. OLLIVIER. S.. L’écrivain migrant. (org. SIBONY.). 1991. 1993. Repérages. Identidades em trânsito. N. : essais sur des cités et des hommes. KATTAN. 2000. escritor e sociedade.Uma voz da diáspora haitiana. M. Niterói: EDUFF/ABECAN..Paris: Seuil. M. “Pátrias imaginárias na poética das migrações”. 2001.Paris: Bernard Grasset. Les littératures de l’exigüité. É. Québec : Presses de l’Université Laval. 2001. hibridações textuais”. É. M. S. 1997. 1994. 135 jul. 2004. D. 2004. 2007 .) Fronteiras. MAALOUF.). passagens. Niterói: EDUFF/ABECAN. São Paulo: Martins Fontes.Paris:Librairie Générale Française. 2004. Entre-deux: l’origine en partage. Passages. Patries imaginaires: essais et critiques 1981/1991.. OLLIVIER. Identidades em trânsito. RUSHDIE. Niterói: EDUFF/ABECAN. Québec : GRELCA.

136 .

137-164. convite para se repensar conceitos como Negritude. The acknowledgement of this subjectivity leads to a reformulation of the way of thinking and acting. Crioulidade e Crioulização. vol. a new perspective towards the future encourages to re-evaluate concepts such as Negritude. Identities. interview with Brazilian poet Paula Glenadel. Na perspectiva de uma voz que inicialmente surge como expressão inconsciente do coletivo e ainda sobredeterminada pelo significante do colonizador. Glissant. Creoleness and creolization. allowing thus the dialogue between differences. da Filosofia de Jean-Luc Nancy e da concepção mais contemporânea de *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 137 Revista Brasileira do Caribe. a way of political and social compromise with the progress of humanity. mas que. n° 15. Goiânia. This analysis will draw on the theories of Jacques Lacan on Jean-Luc Nancy´s philosophy and the most contemporary conceptions of identity. Keywords: Césaire. Antilhanidade. VIII. 2007 . se reedita e deixa mostrar a outra face da resistência. Literature.A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant Kátia Frazão Costa Rodrigues Abstract This study focuses on the exploration of the Antillean subjectivity as it is conveyed in the poetry by Aimé Césaire and Edouard Glissant. sob um olhar mais paciente e também voltado para o futuro. Antilleanness. O diálogo se dá pela via da Psicanálise de Jacques Lacan. num movimento outro. but on a different turn. Negritude Resumo Este trabalho representa à subjetividade antilhana a partir das poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. From the perspective of a voice which initially emerges as an expression of the unconscious of the collective and still over influenced by the legacy of the colonizer.

Glissant. particular ou que pertence unicamente ao pensamento humano e é suscetível de variar em função da personalidade de cada um1. sem dúvida. forma de engajamento social e político com o efetivo progresso da humanidade. Literatura. pessoal. assim. em duplo gesto. Identidades. Goiânia. individual. de la filosofia de Jean-Luc Nancy y de la concepción más contemporánea de la identidad. onde traços se repetem e. Glissant. Negritude Resumen Este trabajo es una investigación sobre subjetividad antillana a partir de las poesías de Aimé Césaire y de Edouard Glissant. invitando para repensar los conceptos Negritud. Já a palavra sujeito. entrevista em Paula Glenadel. Literatura. vol. produzem movimentos de fechamento e de abertura próprios de uma existência híbrida e resultante do processo de ser singularmente plural. Negritude Pretendo suscitar interrogações acerca de uma possível subjetividade antilhana a partir do diálogo entre as poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. criollidad y criollización. designa o substantivo feminino que concerne à qualidade ou caráter de subjetivo. poetisa brasileira. A subjetividade. n° 15 . El diálogo se da por la vía del psicoanálisis de Jacques Lacan. permitiendo así el diálogo entre las diferencias. o diálogo entre as diferenças. pois embora esses autores martinicanos se inscrevam na Literatura de forma particularizada. O reconhecimento dessa subjetividade leva. antillanidad. Palabras Claves Césaire. adjetivo do latim subjectivu que significa: relativo ou existente no sujeito. Es la perspectiva de una voz que inicialmente nace como expresión del insconsciente colectivo y ainda sobredeterminada por el significante del colonizador pero que en un movimiento “otro” se reedita y deja mostrar la otra cara de la resistencia sobre una mirada más paciente y dirigida para el futuro. aqui entrevista. entrevista en la poetisa brasileña Paula Glenadel. Palavras-Chave: Cesáire. à reformulação do pensar e do agir humano. El reconocimiento de esa subjetividad lleva sin duda a la reformulación del pensar y del actuar humanos. possibilitando. seus poemas parecem remeter a um espaço comum. VIII. forma de compromiso social y político con el efectivo progreso de la humanidad.Kátia Frazão Costa Rodrigues identidade. conforme 138 Revista Brasileira do Caribe.

a escritura martinicana está diretamente ligada à questão identitária e esta ainda parece ser a grande problemática do antilhano em geral. O autor deixa entrever. A subjetividade é. que 139 jul. assim. ainda que instantaneamente. que a Literatura Antilhana possui uma dimensão muito maior do que o universo restrito da Martinica. que toda essa literatura mestiça está presa não somente ao ocidente. que. como o padre Labat e o padre do Tertre. Les composantes sont diverses. antes de tudo. refere-se ao súdito.A construção da identidade no Caribe. Cabe ressalvar. vem do latim subjectu (posto debaixo) e. o termo sujeito designa o indivíduo indeterminado ou cujo nome se quer omitir. convocar à cena a voz que se apresenta poeticamente como “eu”. entrevista a partir do encontro dessas potências em diferença ou. cativo. no ponto intersecional das poéticas de Césaire e de Glissant. ainda. 2007 . Como substantivo. Investigar a subjetividade antilhana é. assim. escravizado. apostando na existência de um alguém. mas à palavra exterminada dos indígenas e amordaçada dos escravos africanos. àquele que se sujeita à vontade dos outros. Não foi senão a partir dos primeiros cronistas. Cito Pépin. reconhecendo-se. pela oralidade do conto e pelas práticas culturais. Ademais. muitas vezes interrompida e consignada na memória crioula. No entanto./dez. Pépin também nos dá pistas de que é pela palavra. muitas vezes ficaram sem registro. tamanha é a sua importância no processo de reconstrução sócio-cultural e histórica das Antilhas. primeiramente. este pode se legitimar como seu fiel representante. como adjetivo. Nous portons tous en nous ces parcelles d’identité qui nous constituent en tant qu’Antillais et Caribéens créoles2”. pesquisa de mesma fonte.. ao redesenhar a trajetória de um devir sempre descontínuo. um alguém. assim. As investidas em favor desse resgate identitário. escritor nascido em Guadalupe: “Nous ne sommes pas que des descendants de l’Afrique. materialização na escrita de uma potência que não cessa de se recarregar. iniciado pelo marronage3. esbarra. que deve ser redescoberta a qualidade desse eu enunciador. obrigado e constrangido ou.. em outras vozes do plano da composição. nesse caso.

quem primeiro explorou mais profundamente a unidade. em seus anseios linguageiros pela cultura dominante. Mas. Surge. contudo. acusa Césaire de essencialista. Jean Bernabé e Patrick Chamoiseau. na busca de uma poética própria. de fato. n° 15 . vol. ainda nos anos 60. como afirmou Pépin. Era a escrita dos primeiros mulatos antilhanos assimilados. tão distante e estrangeira. como é chamada por Pépin. Entretanto. muitos deles seus futuros e acirrados críticos. a então chamada “literatura assimilacionista” também não chegou a apresentar uma dimensão histórica e social. conquistou rapidamente um grande número de adeptos. que liderou essa empreitada identitária. esses “brancos da terra”. dentre outras razões por fazer uso da língua francesa. Desse cenário evolutivo nasce. ora os negros.Kátia Frazão Costa Rodrigues se inaugurou timidamente uma sondagem. Ao denunciar o falso monolingüismo e a pureza das raças sem evidenciar. dentre elas. a escrita regionalista. retratar a realidade antilhana. escreviam em francês e. assinado pelos martinicanos Raphaël Confiant. a crioulidade acentua ainda mais as diferenças culturais e antropológicas. sobretudo. nos anos 80 do mesmo século. é formulado em favor dessa contraposição. Desde sempre atraído pela questão identitária e querendo ultrapassar as barreiras essencialistas criadas 140 Revista Brasileira do Caribe. assim. a da própria língua. igualmente dicotômica e marcada pelo exotismo. A eles se segue a escrita duduísta. A “cria da Negritude”. movimento que se inicia nos anos 30 do século passado e marca uma consciência mais desenvolvida em favor da dignidade negra. porque designa ora os brancos nascidos nas colônias. então. a existência de uma matriz cultural fundamentada na plantação da cana e na escravidão faz persistir a idéia do “um” em relação ao sujeito antilhano. O conceito de “Crioulidade”. a crioulidade apela para a consciência de uma etnia plural. a mestiçagem. Goiânia. que também se revela como problemática. por isso. No projeto de uma concepção unificada do povo antilhano. vista como eurocêntrica e dominadora. deparando-se com algumas barreiras. a “Negritude”. igualmente presa aos padrões ocidentais. foi Edouard Glissant. Césaire. VIII. Cheia de clichês. não conseguiram. Segundo Confiant.

aí. acerca da oposição raiz-rizoma. 2007 . o conceito de “Antilhanidade”. Entretanto. fazendo ampliar as fronteiras não somente da Martinica. possuiria uma identidade própria. a obra de Césaire. por vezes. provocados pela globalização. apesar de diversa e sem consciência de si mesma. Chamoiseau chega mesmo a afirmar que não é possível falar em Literatura Antilhana antes de Glissant e que tudo que o antecede não passa de uma pré-literatura. que se fundamenta no diverso.A construção da identidade no Caribe. confirmando a existência de uma cultura crioula que. Em 1995. o resgate da identidade antilhana só é possível pela ruptura com a tradição baseada na filiação. o pensamento de Glissant se estende às problemáticas humanas. assim. com o monolingüismo e com a identidade-raiz. mas como múltipla e decorrente da relação com o outro. Dessa forma. com o discurso hegemônico do ocidente. incluindo-se. Elabora. até contraditórios. onde interagem o cultural e o lingüístico. Glissant define as diferentes culturas como formas mestiças que se entrecruzam de maneira dinâmica num processo de “Crioulização”. o autor desenvolve o conceito de “Identidade-rizoma”. que busca. mas também das Antilhas e da América em geral. no mesmo. Segundo o autor. Afetado pelas idéias de Deleuze e Guattari. desrespeitando. as diferenças./dez. talvez seja mais interessante pensar que. e também pela migração e maior contato entre os povos.. na aceitação do outro e de suas diferenças. longe de serem consideradas como movimentos isolados e. A identidade não mais se concentraria no ser. mas no “ser com”. o devir crioulo passaria por essa conscientização. Glissant desenvolve a idéia de uma “identidade regional”. por 141 jul. pela Negritude. as tentativas de ressignificação do sujeito antilhano representam as muitas etapas da construção de uma subjetividade híbrida que se desenha no entre-lugar de algumas falas. conceito articulador da “Poética da Relação”.. é o próprio Glissant quem atualiza a noção de antilhanidade. a partir da observação dos traços comuns das várias culturas caribenhas. a universalização do devir. assim. A identidade passa a ser concebida não mais como regional. Para ele. Por volta dos anos 1980-1990.

Cito Glissant: “Et parmi les chants de midi / Ravinés de sueurs triomphales / Sur un cheval vient à passer / La mort demain la Pitié” (GLISSANT. por exemplo. le cordon ombilical restitué à sa splendeur fragile. gestes imbéciles et fous pour faire revivre l’ éclaboussement d’ or des instants favorisés. também. buscando. Goiânia. p. le vin. Daí a abundância de interrogações. très lointaine. A descrição do sofrimento causado pela escravidão. l’ 142 Revista Brasileira do Caribe. de Aimé Césaire. um cunho pedagógico. caminho possível para uma atitude menos passiva diante dos acontecimentos que envolvem a própria vida. silencieusement. A interpelação em Glissant tenta atingir a cristalização causada por um real que ainda resiste à palavra. VIII. un vieux silence crevant de pustules tièdes. não somente em favor de uma maior consciência acerca do negro colonizado. le sang des épousailles véridiques” (CESAIRE. sacudindo a consciência. como também. A escritura antilhana tem a marca de um apelo que se funda.10). do drama de todo negro da história da humanidade. invocando atenção para questões morais que colocam em jogo valores como dignidade. feita por Glissant na sua obra Poèmes 4. e por extensão.. vol. 1994. 14). / l’affreuse inanité de notre raison d’être” (CESAIRE. numa verdade exterior. 1965. dá pistas de uma incontestável proximidade com aquela que se desenhou no Cahier d’ un retour au pays natal5.Kátia Frazão Costa Rodrigues aproximação e distanciamento. honra e respeito.une vieille misère pourrissant sous le soleil.. incitando à reflexão. Cito: Cette argile à nouveau remue! Serait-ce que l’oiseau guide le ciel vers une source ? Serait-ce. como diz o poeta da negritude. le pain. le pain.24). inicialmente. n° 15 . Mas foi Césaire quem primeiro denunciou essa marca indelével da violência: “... et le vin de la complicité. p. 1994. p. Essa escrita marcada pela emoção apresenta. “.

quando diz: Si nous voulons réappareiller l’ abeille dans les campêchiers du sang Si nous voulons désentraver les mares et les jacinthes d’ eau Si nous voulons réfuter les crabes escaladeurs d’ arbres et dévoreurs de feuilles Si nous voulons transformer la rouille et la poussière des rêves en avalanche d’ aube Qu’ es-tu. ao traçar a estratégia para a resistência. qui fume sur la ville sa suée de terres. le souvenir encourt les tournoiements de l’ arbre. Glissant responde. ensaiar a instrução de um possível caminho para o resgate identitário. agité comme une gare de populations végétales. Toi qui comprend ce qui disent les îles Et qu’ elles se communiquent dans la marge des mers et dans le dos des terres dans leur jargon secret d’ algues 143 jul. Césaire parece. ausente de todo trabalho.. 1965. p.. (GLISSANT./dez.. Lui ne craint plus le sentiment (de dire « je » dans cette terre).. son ressac tumultueux ? Nul n’ avoue..1965. permanece “como uma baía!” (GLISSANT. embarquement des rives de la neige vers une foule incendiée ? Ou le coeur. Faitesle feuille de vos mains. 1965. est-ce le coeur. da mesma forma. faites mystère ainsi que lui de ce silence où bruit la ville. à peine devinant tout ce remous d’ étoiles et de lierres. para saudar Edouard Maunick”.faites-le flamboyance de l’indécis. 15-16). nul ne peut.. p. Et vous. Cito: “Durant que vous dormez dans cette plaine. ocupando também o lugar do outro. profuse en ce langage. et l’ébloui de vos brisures.A construção da identidade no Caribe. faites-le prose de l’obscur.15).” (GLISSANT. indifférente et soudain calme dans le fruit. mais l’ emblave et l’ ensemence. Toute prose devient feuille et accumule dans l’obscur ses éblouies. O uso dos verbos no modo imperativo já atesta o desejo de guiar impulsionando essa multidão que.. ao mesmo tempo em que interroga. que cette enfance soit la vieille d’ un bivouac. no poema “Palavras de ilhas. 2007 . et plus haut son sang. 13-14) Mas..

“de uma multidão que não sabe fazer multidão”6. Goiânia. deixando-se representar por cores sombrias que escrevem simbolicamente o desencanto: 144 Revista Brasileira do Caribe. 1994. n° 15 . náufraga. A mesma ambigüidade se dá em relação à descrição da Martinica. completamente muda. quando.Kátia Frazão Costa Rodrigues Et d’ oiseaux Qu’ es-tu comparse du feu et du flux et du soufle (CÉSAIRE. VIII. deriva. a cada pincelada. 24) Essa expressão cheia de predicações compõe. ao tentar desmistificar o exotismo das Antilhas. Nos versos abaixo. pelo menos como tal. o cenário do drama. Glissant parece assumir a mesma fala que um dia proferiu o poeta “portavoz das bocas das desgraças que não têm boca nenhuma”7 ao dizer: L’ île entière est une pitié Qui sur soi-même se suicide Dans cet amas d’argiles tuées O la terre avance ses vierges Apitoyée cette île et pitoyable Elle vit de mots dérivés Comme un halo de naufragés A la rencontre des rochers (GLISSANT. expressa na passagem perversa do outro por essa ilha lastimável de uma gente passiva ou. pois esse tempo distante é constituído de matéria fictícia e remete a algo que não existe mais ou que nunca existiu. um novo traço dessa dura realidade se revela. p. que se deixa abater e. p. de fato. Glissant o faz pela pintura da sua inversa miséria. A escrita hesita entre o desejo de ser o seu próprio modelo e a missão de um testemunho coletivo acerca do passado traumático que seria esquecido sem ela. E. 508). como diz Césaire. revelando uma escritura marcada pela antítese branconegro. pouco a pouco. 1965. vol. Seu referencial de verdade está no passado e aponta para a consciência de que algo precisa ser empreendido.

Essa dimensão psicológica encontrada. p.A construção da identidade no Caribe. Sur leurs rives ne sont pas étendus des pagnes de femmes. Que de sang dans ma mémoire! dans ma mémoire sont des lagunes. 2007 . diante do sofrimento moral e material a que foi submetido. assim. Ma mémoire est entourée de sang. acheminant des rêveries. a escrita antilhana também é marcada pelo desastre.32). a permanência. É interessante destacar também que tanto Glissant quanto Césaire demonstram a especificidade do negro colonizado como alguém que. Ce vent n’ est plus l’arène où s’ ébattent les pluviers ! Jamais plus. como um traço identitário que não se apaga. Nessa perspectiva./dez.. fazendo realçar. os dois poetas dão indícios de que. no imaginário antilhano. na obra dos dois autores. Elles sont couvertes de têtes de morts. ao ser mantida. não por acaso. a sua própria condição humana. além da memória. mostra que a poesia construída a partir da autofragmentação patológica do negro e da sua vitimização vai alimentar o plano das composições antilhanas em geral. de roses sales. pelo pessimismo. 1994. plus que l’ aurore dans les chambres. perde a noção de si e da realidade. de um sentimento de incapacidade do negro diante da supremacia branca. a posição privilegiada do ocidente. loin du vent. coisificado. Dans ma mémoire sont des lagunes. ô jamais n’ ira l’ aurore disant l’aurore. pâmoisons d’ yeux doux d’ avoir lampé la liberté féroce (CÉSAIRE. assim. Jamais plus n’ ira le vent par la parole. “na eterna fixação dos dias e dos gemidos”8: O tout ce lieu est mort.. entregando-se. confirmando. Elles ne sont pas couvertes de nénuphars. se desajusta. Sua recorrência atesta não só a não resolução como a fixação do drama. Ma mémoire a sa ceinture de cadavres! et mitraille de barils de rhum génialement arrosant nos révoltes ignobles. também no plano ficcional e como algo ainda passível de ser questionado. antigas antinomias. 145 jul. ao mundo maniqueísta instaurado pela escravidão. Le soir est écuelle de broussailles. perde o contato com o mundo e.

pleuré les rêveries. p. paradoxalmente. s’ouvre bientôt un champ de misère et d’ incendies.Disaitil seulement. et de sang noir précipité. Peut-être êtes-vous là. cette naissance hivernale ? (GLISSANT. comme l’ aurore. Un homme chaque matin ouvre les yeux sur la solitude où il se garde. 1994. O verbo se faz presente entre o 146 Revista Brasileira do Caribe.. p. Na sua teoria sobre a constituição do sujeito. escravizada.13). p. vol. Il est de la race des choses mûres de mûrir dans l’ été lourd et l’ encombre tumultueux.146). / et il n’y a rien.Après la traversée.Kátia Frazão Costa Rodrigues « je suis l’éveil des yeux et la clarté des profondeurs”. E. rien à tirer vraiment de ce petit vaurien... et la colère des requins. Goiânia. na impossibilidade da troca com o outro. na falta de comunicação. se submete ao código do outro. / une faim ensevelie au plus profond de la Faim de ce morne famélique” (CESAIRE.car sa voix s’ oublie dans les marais de la faim. o poeta do “Cahier”: “. dans cet effroi des promenades ? – nul ne sait. na impossibilidade de amar e de ser amado. (GLISSANT. como estrutura a dimensão inconsciente e. fazendo com que o homem perca a sua aurora e os seus devaneios. / qu’ une “faim qui ne sait plus grimper aux agrès de sa voix / une faim lourde et veule.. dans la voix fissurée. la solitude.. a partir de um comprometimento involuntário com o sistema simbólico pré-existente. pois o eu se descobre no outro. a resistência rumo à individuação.1965. VIII. A linguagem determina o sujeito porque a palavra não só precede a sua existência. 1965.. Il a quitté les flamboyances. na mesma encruzilhada do pensamento. 31).. o psicanalista Jacques Lacan9 demonstra que o exterior tem importância decisiva.. abandonné la rare bleuité de ceux qui aiment et sont aimés. et de cette couleur d’ amour. O Soleil ! ô travail séculaire sourdement mêlé de mer. A morte é também da palavra que. n° 15 . “je”.

sem enxergar a si mesmo: Qu’ était la mer et son écume ? Savait-on si sa parole ne se mourait En quelque gouffre. pois não se trata apenas do assujeitamento primordial à língua do grupo. Neste sentido.. Césaire já apontava para esse homem que. p. nesse caso. há sempre algo no meio. 85) Em Cahier d’un retour au pays natal. 27) Na situação diaspórica. mas da subordinação à língua do estrangeiro colonizador. numa imaginada cumplicidade com o colonizador: Je me cachais derrière une vanité stupide le destin m’ appelait j’ étais caché derrière et voici l’ homme par 147 jul. Entre sujeito e discurso. tropeçando na língua do outro e.. Cito Césaire: “Mais pourquoi brousse impénétrable encore cacher le vif / zéro de ma mendicité et par un souci de noblesse apprise/ Ne pas entonner l’ horrible bond de ma laideur pahouine ? / Voum rooh oh / Voum rooh oh “ (CESAIRE. da mesma forma que é impossível conceber a subjetividade sem essa presença fantasmática. au loin des routes révélées ? Longtemps ainsi la voix de l’ homme se perdit aux temples Pour obscure qu’ était la route jusqu’ au temple ! et cette mer. ao mesmo tempo. 1965. 1994. como efeito da própria socialização. que fez com que o homem se perdesse durante tanto tempo na obscuridade. sem ritmo e sem medida./dez. o processo subjetivo só pode ser pensado na relação com o outro. implica também resistir a essa palavra escravizadora de consciências. aprisionado pela brancura de uma vã assimilação à cultura ariana. (GLISSANT. sujeito e a sua fala.A construção da identidade no Caribe. 2007 . verdadeiro instrumento de dominação. a dependência do outro se torna ainda mais traumática. esboçando sorrisos pálidos. estranho e ameaçador. desengonçado. se escondia em si mesmo. P. Tornar-se sujeito. diferente do eu.

decorrente do funcionamento da própria linguagem. vol. 1965. pensar que o sujeito é sempre definido em função do outro. ah oui. 39) A consciência de que a língua do outro é feita de “Brancuras! viscosidades da palavra que não interpela! Febre nevada. A concepção lacaniana do homem como ser sobredeterminado pela linguagem permite. dessa forma. 1994. A alienação seria. a cessão do eu. ses déclamations pédantesques rendant du vent par chaque blessure.. em outras palavras. p. confirma o pensamento freudiano de que é pela linguagem que o homem se revela. por conseguinte. mas também o exercício de um fazer-se sujeito ou a “cura”. Pode-se supor. et des flambées de ville. 36). VIII. n° 15 . a extensão da estrutura que cessa para algo se opor a ela. fala o poeta da negritude: Des mots? quand nous manions des quartiers de monde Quand nous épousons des continents en délire. e. ou ainda. a “doença”. Essas fixações atestam não somente o conflito do eu. desejado ser como o outro. A alteridade implicaria. p. 1994. Lacan. (CESAIRE. des mots! mais des mots de sang frais. des mots. um dia. que seja capaz de exprimir toda a angústia e o arrependimento por ter. que a sua relação com o 148 Revista Brasileira do Caribe. Voici l’ homme par terre Et son âme est comme nue. mostrando que as repetições na fala seriam a representação sintomática do inconsciente. quand nous forçons de fumantes portes... traz a certeza de que é preciso buscar uma outra expressão. (CÉSAIRE. des mots qui sont des raz-de-maré et des érésipèles et de paludismes et des laves et des feux de brousse.Kátia Frazão Costa Rodrigues terre. então. Goiânia. citado por Bruce Fink10.. a partir daquilo que um significante representa para outro significante.30). adornos!” (GLISSANT. E. ses maximes sacrées foulées aux pieds. et des flambées de chair. p. do desejo do outro. e a alteridade. sa très fragile défense dispersée. assim. assim. resultante da sua relação com o mundo.

A construção da identidade no Caribe. porque o outro se interpõe provocando ora admiração. Declara Glissant: “Le soir à son tour germera / Dans le pays de la douleur/ Une main qui fuse le Soir/ A son tour doucement tombera” (GLISSANT. aquele que apenas a ordem simbólica é capaz de captar. 2007 ./dez. os laços que geram a dependência primordial ao significante do outro também fazem armazenar a energia que principia toda resistência e. Entretanto. é Césaire quem poetiza: les nuits de par ici sont des nuits sans façon elles sont toujours en papellotes elles ne sont pas sans force même si elles sont sans mains pour brandir le coutelas mais force reste à la loi – à l’ angoisse la nuit ici descend de grillons en grenouilles doucement les pieds nus en bas un gosier de coq patiente 149 jul. ora repulsa. dirige o seu olhar para um devir. 1965.. Nesse processo de aproximação e de distanciamento. como linguagem. revela-se agora. 22). p. O homem nasce. o fruto dessa ilha lamentável. assim. O discurso apresenta. mundo é sempre ambígua. mais de uma dimensão. na adoção da causa que perturba o funcionamento da estrutura. de onde talvez sejam possíveis a consciência de si mesmo e uma relação menos traumática com o mundo. porque inclui o outro que. fonte de toda comunicação. tornando seu algo que antes era estranho e ameaçador. E. senão. preenche vazios e transforma o desejo. investido de mais de um sentido. pois ao mesmo tempo em que permanece ligado de forma irremediável à língua do colonizador. O desejo não é. que padece das palavras derivadas. portanto. o outro que habita em nós. A letra mata o sujeito para lhe oferecer vida própria. em paralelo. fantasias se produzem e oferecem a sensação de um falso ser que tenta superar o conflito.. de uma ficção quando toma para si a alteridade. assim.

deixando entrever. p. permitindo. agora. As imagens enunciam uma subjetividade que assume o comando e a responsabilidade por toda a expressão. 1994. se mexer e “gravitar em torno do seu próprio corpo” (GLISSANT. a existência de um alguém que. do marronage à crioulização. como uma paciência que “cresceu na ausência”. desta vez. Goiânia. mas. n° 15 . entrevistas as duas poéticas. ainda. em contrapartida. reanima a existência. a história antilhana se retraça. Uma anulação que é. É também dentro dessa perspectiva ética de sujeito que são. A noite que cai “docemente e. investidas de interesse e de valor libidinal. causado pela sua constituição como ser social e. o primeiro passo para a constituição do sujeito. em decorrência da própria anulação. embora “sem mãos para erguer o facão”. mas que faz uma argila resmungar novamente. VIII. mais ainda. 1965. A ordem simbólica internaliza as imagens especulares que.11-12). irrompem no discurso. da alienação que dirige o homem para a assunção de um papel vazio a ser preenchido pelo outro. assim mesmo ou por isso. como um furo de significantes que nos chegam numa linguagem truncada e aparentemente sem sentido. através de duplos gestos. vol. igualmente.Kátia Frazão Costa Rodrigues pour cueillir la giclée ce n’ est pas toujours de la cellule de gestion de la catastofre que la journée téméraire fait part de sa propre naissance (CESAIRE. a exegese do eu e do desejo. como ser negro e escravizado. incita ao exercício de um olhar mais amadurecido e próprio de um eu que se confessa “laminar”11 em Césaire ou. de responsabilidade frente 150 Revista Brasileira do Caribe. O segundo movimento revelaria um percurso outro. pois. Assim. na visão lacaniana. na busca da realização do eu reprimido e na assunção também de um papel. Tratar-se-ia. 418). nascido no país da dor. p. duas trajetórias para se pensar a subjetividade. A primeira refere-se a um duplo assujeitamento do homem antilhano. Desenham-se. próprio daquele que Glissant anuncia como nascido da poesia que ultrapassa o drama e faz reacender a chama da vida. se reinventa. de grilos em rãs”.

Tal processo corresponderia ao conceito de separação e daria origem ao ser marcado pela hibridez. em fluxo constante. Segundo Glenadel.. talvez seja possível pensar que existe. A partir dessa concepção mais contemporânea acerca do sujeito e da identidade. um fantasma que reinventa o drama e se apropria do sentido. tenta fazer essas duas faltas coincidirem. A subjetividade adviria. único caminho para a fantasia que. 2007 . mas também como possibilidade de encontro com o desejo do outro. a partir do reconhecimento da espectralidade que assombra a fala do sujeito12. mas o gozo de uma vida. pelo qual o sujeito se permitiria construir e “des-construir” fantasias. penso. na conformidade de uma contradição que. completamente nu. “a ‘identidade’ está e não está onde se procura por ela”13. A separação implica a dupla falta e marca a possibilidade do sujeito vir a ser. É preciso pensar o trauma antilhano como bloqueio. em toda a sua diferença. ao próprio futuro. A identidade seria. Nesse sentido. Essa unidade. provocando proximidade e distância. de 151 jul. como uma herança inquietante que atravessa o discurso produzido pelo imaginário e pelo desejo das margens. provocando a ruptura da hipotética unidade anterior. que não é nem eu nem outro. que o sujeito se atesta. no firme propósito de ser como tal. mas alguma coisa ou alguém entre os dois. faria com que o sujeito se expusesse com toda a sua complexidade. vivendo a sensação fantasmática da completude causada pela utopia de um preenchimento. ao ser atravessada. Em “Entre mangue e manguetown. desarmado. fruto de dor e de prazer.A construção da identidade no Caribe. a subjetividade pode ser pensada como resultante do processo de carga e “des-carga” emocionada. sustentado apenas pela ilusão de uma totalidade. alavanca o processo de subjetivação do drama. imprevisível. assim. fazendo com que ele assuma não só as responsabilidades. Chico Science”. É dessa forma./dez. de um grande paradoxo que incluiria alienação e separação ou fechamento e abertura. uma vez rompida. assim. chamando para si o sujeito.. Paula Glenadel propõe pensar a identidade como identificação.

os “mecanismos espectrais de permanência” e faz reavivar os de “transformação. por ser traço descontínuo sempre em movimento. como poetiza o fundador da Negritude. um alguém que se expressa fantasmagoricamente nas duas poéticas. pela “reabilitação de delírios muito antigos”16. mas que. Sob essa perspectiva. de um por-vir”17. deixa lacunas. confirmando a dependência em relação ao significante do outro. mas as mudanças de pele: quand les flèches de la mort atteignirent Miguel Angel on ne le vit point couché mais bien plutôt déplier sa grande taille au fond du lac qui s’ illumina Miguel Angel immergea sa peau d’ homme et revêtit sa peau de dauphin Miguel Angel dévêtit sa peau de dauphin et se changea en arc-en-ciel Miguel Angel rejetant sa peau d’ eau bleue revêtit sa peau de volcan Et s’ installa montagne toujours verte a l’ horizon de tous les hommes (CESAIRE. p. como presença em ausência que traz sempre à tona o passado como sintoma. 1994. provoca aporias. de uma promessa. o devir se anuncia no espaço de um não-tempo. lançando-se para um devir que prevê não mais a fixidez do pensamento.É quando. como nomeia Glenadel. Essa palavra. e abre-se ao desconhecido. assim. produto arbitrário de uma consciência. VIII. estabelecendo. então. no “furor de dar vida a um desmoronamento de paisagens”15. a palavra. se libera “para reavivar o verso solar dos sonhos”18. 457). espaço que só se habita provisoriamente.Kátia Frazão Costa Rodrigues fato. não se funda 152 Revista Brasileira do Caribe. há tempo reprimida. Goiânia. Contraria. n° 15 . para que uma “nova bondade não deixe de crescer no horizonte”14. vol. a possibilidade de reformulação de um futuro.

mais na intenção de transmitir uma verdade exterior. segundo o poeta. são as produzidas pela mão que faz igualmente “a riqueza 153 jul. São elas. em contínuo devir. mas o resultado da íntima relação entre o ser e a realidade./dez. ) (CESAIRE. mas à produção do seu efeito. 2007 . por extensão. as escritas pela “mão que floresce a dor. Glissant também apela para as palavras que “fazem o céu e o horizonte”.. O imaginário desempenha o papel de imagem do eu.. assim. um je que não representa mais o coletivo. mas na reivindicação de uma verdade nova que marca a passagem da ficção à efetiva presença de um eu. A poesia seria. por intermédio de um código interno e variado que coloca em questão a própria linguagem. a continuação da vida.. ultrapassar também o presente. 397) A autoridade fincada no presente pela expressão de uma vontade deliberada delimita o passado porque não se reconhece mais como histórica. mas fruto de uma escolha carregada de sentido que propõe. O subjetivo volta-se do passado para o presente e. que faz o pássaro. O dito coloca em cena.A construção da identidade no Caribe. mostrando que a escrita do desastre se constrói a partir das abstrações de uma consciência em enunciação: il y a aussi les capteurs solaires du désir de nuit je les braque: ce sont des mots que j’entasse dans mes réserves et dont l’ énergie est à dispenser aux temps froids des peuples (ni drèches ni bagasses. um reflexo instantâneo da verdade do eu.. para um futuro que guardará a sua qualidade na memória. então. apesar de tudo. A existência agora se expõe não mais submetida ao tempo. hoje. 1994. a espuma e a casa de lavas por vezes”. como algo que lhe é pertinente e o identifica como tal. expressa por uma sensibilidade que se coloca à margem de toda lei. Continuar a vida significaria viver o efeito de cada instante e. assim. a partir de um referencial interno e subversivo. na expressão do sujeito por ele mesmo. p.

Diz o poetarizoma: Celui qui parmi les neiges enfante Un paysage une ville des soifs Celui qui range ses tambours ses étoffes Dans la sablure des paroles Attendant l’ ouverture des Eaux Le grand éclat des vagues Midi Plus ardent que la morsure des givres Plus retenu que votre impatience d’ épine Celui qui prolonge l’ attente Et toutes les mains dans sa tête Toutes splendeurs dans sa nuit Pour que la terre s’ émerveille Il accepte le bruit des mots Plus égal que l’ effroi des sources Plus uni que la chair des plaines Dechirée ensemencée .26). “Toute parole est une terre/ Il est de fouiller son sous-sol/ Où un espace meuble est gardé/ Brûlant. p. delineando uma subjetividade que irrompe para renovar a existência e florir a dura realidade. Assim. buscando uma completa harmonia com o Cosmos. estão as duas poéticas. Como poetiza Glissant. p. Ecoutant ruisseler mes tambours Attendant l’ éclat brusque des lames 154 Revista Brasileira do Caribe. Os verbos no presente do indicativo reforçam a idéia de que tudo é modelado a partir de uma presencialidade e que todo esse passado “móvel” depende da atualidade de um ponto da vista. n° 15 .. 1965. VIII.. entre permanência e transformação. vol.Kátia Frazão Costa Rodrigues dos fossos e a colheita do passado” (GLISSANT. pour ce que l’ arbre dit ” (GLISSANT. 1965.24-25). Goiânia. onde o céu dança porque “da dor se fez uma palavra / uma nova palavra que multiplica”19.

se presentificam por uma voz que ultrapassa o 155 jul. por exemplo. L’ éveil sur l’ eau des danseurs Et des chiens qui entre les jambes regardent Dans ce bruit de fraternité La pierre et son lichen ma parole Juste mais vive demain pour vous Telle fureur dans la douceur marine. O real. reivindicadora. 1965. que resistiu a toda simbolização. aos impasses que concernem à existência.. Dessa forma./dez. 1965. libertária e própria das duas poéticas. como diz Glissant (GLISSANT.A construção da identidade no Caribe. é preciso “contornar os lugares escolhidos da gravidade histórica”20 e invadir a opacidade. não é a simples expressão do real pelo simbólico. 28-30) A palavra. pois como o poeta mesmo diz. p. muito menos a efusão espontânea e verdadeira da personalidade. Em outras palavras. criando espaços. p. Aparece no discurso como a qualidade de algo que se desenha dentro dos contornos de um eu também nada preocupado com o tempo ou com a necessidade de fugir dele. como aponta Michel Zink22. A subjetividade literária. (GLISSANT. mas a marca de um ponto de vista frente. 2007 . de onde a resistência ressuscita em torno de alguns fantasmas. pela presença em ausência de um conflito identificatório que se renova e ruma em direção ao espaço onde “Toda palavra se confunde / Com o silêncio das águas”. é aquela capaz de preservar a oralidade. é o produto de uma consciência particular que se autoriza a falar em nome de uma causa. “nada liberta mais do que a obscuridade de um dizer”21. Je me fais mer où l’enfant va rêver. num discurso truncado que funciona como ponte também para o acesso ao totalmente outro. particularizadas. tornar frágil a aparência e captar o segredo das raízes.. a escrita traz à tona materiais inconscientes que emergem da subjetividade inquieta. sem qualquer preocupação com a erudição ou com a legitimidade do proferível. Para tanto. 21). agora se faz representar por imagens. também para Césaire. É a expressão das contingências que. das opiniões e dos sentimentos do autor.

/ . apenas se 156 Revista Brasileira do Caribe. porque vai de encontro às aporias do outro. de Césaire. para o outro. de sua cultura e de sua memória. só se encontre no silêncio e na comunicação interrompida. a identidade “constitui uma promessa fundamentalmente incerta. n° 15 . Derrida24 afirma que. se diz habitando vários endereços ou o lugar mesmo da indefinição. enfim. mostrando que a palavra ferida. à cultura e à memória do colonizador. na diáspora. p. que cita Derrida25: “uma identidade não é jamais dada. parece revelar a existência dessa subjetividade que. como numa espécie de amnésia. liberto das cronologias e de toda sinopse. pois como diz Glenadel. Habitar vários lugares sem deles se apropriar também é se permitir outras impressões. sugerir uma promessa de vida na diversidade. dos homens. de expressão inevitavelmente estrangeira. vol. O poema “Calendrier lagunaire”23..chaque minute je change d’ appartement“ (CESAIRE. recebida ou atingida. A palavra rejeita toda mediação de uma lógica que desautorizaria o habitar em vários lugares e a expressão de um tempo que remete tão somente à interioridade. não. aparentemente sem consistência. ao dizer: “j’ habite une blessure sacrée/ j’ habite des ancêtres imaginaires/ j’ habite un vouloir obscur/ j’ habite un long silence. despojando-se da fixidez de um pensamento e voltando-se para o desconhecido.Kátia Frazão Costa Rodrigues real e a materialidade da escrita. está sempre em movimento. na incerteza de um devir.385). talvez. por assim dizer.Cito ainda Glenadel. na busca incessante de um espaço próprio que. o eu se dissocia de sua língua. VIII.. Talvez seja exatamente isso que exprime Césaire. ainda que assim seja.. promovendo a comunhão momentânea do poeta e do leitor. apostando. em aporia. assim como não se associa jamais à língua. ao se repetir em heterogeneidade pela via do sonho. A palavra se multiplica no poema. Goiânia. estruturalmente aberta que pode a todo instante converter-se em ameaça de fechamento numa identidade ou em ameaça de perda de uma identidade”. de um discurso truncado. muitas vezes inesperada. sob a forma. 1994. mas que anima tanto quanto uma paixão. investindo no novo. É.

a ser metáfora contínua. p. 2007 . montre celui-ci aux prises avec les contingences du réel. une caresse dévolue Le soleil ici revenu Beauté de l’ espace ou otage De l’ avenir tentaculaire Toute parole s’ y confond Avec le silence des Eaux Beauté des temps pour um mirage Le temps qui demeure est d’ attente Le temps qui vole est un cyclone Ou c’ est la route éparpillée (GLISSANT. Diz Zink: “On a vu que la poésie du dit.. p. 21). pelo sonho. passa pelo processo interminável. a representação do inconsciente. carrega consigo a 157 jul. 2003. somados.142). Na interseção dessa perspectiva: Savoir ce qui dans vos yeux berce Une baie de ciel un oiseau La mer. ao caminhar. indefinidamente fantasmático da identificação” (GLENADEL. pela palavra que. ao mesmo tempo. Despojar-se é tarefa inquietante. que força hesitante a passagem do mundo interior para o exterior. 1985.. se desenvolve na voz do poeta. elementos que.48). recupera-se cada herança ou “apartamento”. por sua vez. 1965./dez. o convida para a cena. também constroem a singularidade de todo dito ou do que se encontra em seu lugar.A construção da identidade no Caribe. Assim. E. na sua obra já citada. p. A poesia personifica forças fazendo emergir o presente de uma subjetividade que vive unicamente cada instante. qui le déterminent et qui le façonnent” (ZINK. efeito da constante relação do sujeito com o mundo. retórica que opera os movimentos de uma vida interior. o sentido do real e. au lieu de construire une image idéale d’un moi. a poesia liberta. Como deixa entrever Michel Zink. A poesia passa. então. na medida em que se tem a consciência de que marcas não se apagam totalmente.

ponto de vista do eu sobre o eu.Kátia Frazão Costa Rodrigues força dessa subjetividade. para além do discurso que separa significante de significado. provavelmente. 1994. a força que resiste a todo fechamento e impulsiona a existência para frente ao mesmo tempo em que a autoriza a olhar para trás. a força que faz embalar nos olhos uma “baía de céu. Neste sentido. mas como agente modelador de uma exterioridade. Seria. a força maior. mas caminham atraindo e colhendo o seu efeito. que tenta recuperar as suas sensibilidades estética. assim. que irrompe surpreendendo e desarmando discursos prontos sobre o bem e o mal. perfazendo. p. VIII. Goiânia. recarregada pela energia dos versos solares que não retornam ao lugar do drama. a mesma que nos ensina. na confecção do seu produto arbitrário: a poesia. sem dúvida. também é possível pensar a subjetividade antilhana como potência de uma existência marcada pelo conflito identificatório. em Césaire. É. Atravessar 158 Revista Brasileira do Caribe. ética e moral. 415). tornando o ser inevitavelmente refém e senhor de todo “futuro tentacular”. vol. o pássaro e o mar”. como realça Glissant26. É. uma trajetória descompassada e diferente de toda linearidade. É. A construção dessa subjetividade implica uma travessia. por isso. n° 15 . produzindo abertura e fazendo com que o sujeito não opere mais como testemunha. que o essencial é: nu l’ essentiel est de se sentir nu de penser nu la poussière d’ alizé la vertu de l’ écume et la force de la terre la relance ici se fait par l’ influx plus encore que par l’ afflux la relance ici se fait algue laminaire (CESAIRE. quem sabe. A palavra também irrompe no discurso sob a forma de fantasia. inscrita no entretempo “da espera e do ciclone”.

A construção da identidade no Caribe. como mémoire reconquise (memória reconquistada) de um instante (GLENADEL. 2000. Nesse caso. Segundo o filósofo Jean-Luc Nancy. disposição nem sempre confortável. etnias ou nações. em hospitalidade. ao se expor.. como justiça por vir. manifestando a abertura ética para o outro. a tradição ocidental acabou produzindo a cisão do sujeito. principalmente quando se trata de um povo nascido da diáspora. pois cada vez que algo ou alguém é suposto. que implica a afirmação de uma subjetividade e prevê a busca do ser em si segundo Lacan. 2007 . é também uma tarefa angustiante. nem a sua suposição podem ser concebidos num único sentido. subgrupos. Nancy deixa entrever que nem o ser. deslizando pelos significados construídos. deslocamentos. múltiplo e historicamente mutante. de toda possibilidade também nova de ser. de agitação e de paciência. A busca por uma subjetividade – qualidade ou caráter do subjetivo – só é valiosa quando se espera como resposta. misto de individual e de coletivo. ser irredutível. a tradução–transporte de significados relativos à subjetividade que se expressa no universo da escrita–pressupõe a necessidade de uma desconstrução do pensamento eurocêntrico. a passividade e a resistência. o discurso é se manifestar pela resistência. No seu texto Un sujet?28. mas quando nos leva a descobrir os traços que estruturaram a alienação e a individuação. Na perspectiva derridiana de pensamento. tal como pensou Lacan ao descrever a entrada na fase do espelho. não um conceito formal que classifica indivíduos. marcado desde sempre pelo outro. Ademais. o mesmo já seria necessariamente outro. confrontando o real e o simbólico que. pois requer a manutenção. uma realidade se expressa.64). unidos por um duplo gesto. compõem o esboço primeiro do subjetivo.. Glenadel27 também ressalta que essa promessa alimenta-se daquilo que fica como seu pano de fundo./dez. então 159 jul. e pressupõe negociações. na sua busca insistente por definições estáticas do Homem. p. momento arriscado de busca em que o ser assume papéis imaginados. se a identificação. Supor e aceitar a existência dessa subjetividade. de toda promessa que se apresenta. de passado e de presente.

na ressonância de uma mesma voz. et l’orient et l’ occident. Césaire também parece revelar o segredo de toda a existência. por conseguinte. entre soleil et ombre. na escrita 160 Revista Brasileira do Caribe. Au plus extrême. l’ inégale lutte de la vie et de la mort. 1994. “ (CESAIRE. VIII. soit dans la terre. esboço também primeiro de uma subjetividade. connue des martins-pêcheurs aux songes funèbres. 1994. au carrefour. Césaire anuncia: “frère n’ insistez pas/ vrac de varech/ m’ accrochant en cuscute/ ou me déployant en porana/ c’ est tout un .. parfois la main s’apaise – et la lumière monte des choses comme une parole d’ architecte (GLISSANT. Assim. p. Et puis. tronc noir et nu. se relacionar consigo mesmo. il faut venir! soit par la mer..383) Essa nova perspectiva de ser também abre a possibilidade do Tis. entre montagne et mangrove.. fût-ce celle du désespoir et de la retombée. 35). polifônica. Goiânia. p. la saviez-vous. l’ air est hostile . E é Glissant quem diz que Maintenant les sables sont d’ autre clarté. ao atentar para a similaridade percebida na descrição do drama. vol. Le temps aussi de régler leur compte à quelques fantasmes et à quelques fantômes (CÉSAIRE. cette entreprise de bâtir le paysage ? – parfois le coeur est écrasé. Ainsi va ce livre. ou. 386). la force aussi toujours de regarder demain. c’est un fil des saisons survolées. 1965. pour le moins.Kátia Frazão Costa Rodrigues essa procura só pode ser em favor de uma referência implícita heterogênea e. p. de la ferveur et de la lucidité.. quando diz: Le non-temps impose au temps la tyrannie de sa spacialité : dans toute vie il y a un nord et un sud . no exercício de reconhecimento e aceitação das próprias diferenças. E. claudicant et binaire. numa espécie de experiência de si como outro e do outro como si. alguém de Platão29. na tentativa de desmistificação do exotismo. dialogando com a sua própria negatividade. Ainsi va toute vie. Il faut choisir. n° 15 . entre chien et loup.

As poéticas de Césaire e de Glissant traçam trajetórias que se entrelaçam em alguns pontos para mostrar que existe uma unidade na diversidade antilhana. marcada pela presença do eu e do outro sempre em processo. o que ela tem de mais próprio: o seu caráter de “re-nova-(a)ção”. tornando frágil a aparência.. que não se apaga por completo e reincide para atestar a exterioridade que a constituiu. sem dúvida. a afirmação do eu antilhano inclui também a sua negatividade. mas a qualidade do seu último traço./dez. em toda a sua 161 jul. porém nem mesmo assim garantiria a sua essência. ao comprometer exterioridade e interioridade. entender a Crioulidade ou a Antilhanidade como um contraponto da Negritude e essa como essencialista e eurocêntrica é seccionar o movimento da história e não reconhecer o outro. o sujeito pode ser aquilo que um significante representa para outro significante. mas também o que emerge deles no espaço de um instante. faz irromper uma subjetividade como fantasma. a marca de um apelo que. renovando a existência pela libertação contida no ato de contornar a gravidade histórica e invadir a opacidade. marcada pela auto-fragmentação e vitimização do negro antilhano e. além disso. seja entrevista pelo seu fechamento. Qualquer tentativa estática da sua definição descaracterizaria. o sujeito só acontece quando e enquanto se expõe. no movimento de resistência voltado para um devir. Voltando sempre como atualidade. seja reconhecida pela sua abertura em direção ao outro. O sujeito só é como possibilidade. como constante novidade do Cosmos. Segundo Nancy. 2007 . concluo acreditando que a escritura antilhana é. ao buscar o seu espaço próprio. ao mesmo tempo.A construção da identidade no Caribe. A correspondência que se vislumbrou entre os fragmentos poéticos de Césaire e de Glissant vem marcar esses últimos tantos traços que apontam para um ser que caminha rumo à presença em si como mesmo e.. o antilhano. no qual a palavra ferida se libera e traz à tona o inconsciente. Tanto Césaire quanto Glissant são sujeitos dessa nova ordem simbólica. portanto. da mesma forma que deve ser entendida a qualidade do que lhe é próprio. Nesta perspectiva. Sendo as várias vozes de uma suposição.

Goiânia. tender o olhar numa só direção e permanecer. por um fogo e por um desmame”. In: Afrik. E. porque “toda carne se ramifica. p. publicada em 1939 pela Revue Volontés. Séminaire. Paris: Seuil. Bruce. Notas 1 Le Petit Larousse. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. segundo o poeta-rizoma (GLISSANT. p. 8 GLISSANT. p. 85). n° 15 . 4 GLISSANT. entre montanha e pântano. 1965. É de lá que se ouve a voz de alguém dizendo eu. 1994. ainda sobredeterminado por uma lógica narcísica que nega parte do amplo processo que vem constituindo essa grande Crioulização.1991.171. onde o autor utiliza pela 1ª vez o termo négritude.. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. entre cachorro e lobo.afrik. 2 Il ne faut pas opposer négritude et créolité.11. p. claudicante e binária” (CESAIRE. talvez. Poèmes. 7 ibid. 1965.. 5 Cahier d’ un retour au pays natal . 162 Revista Brasileira do Caribe. O sujeito lacaniano.com. como diz Césaire.Kátia Frazão Costa Rodrigues diferença. sobretudo. 1994. porque a história tem mostrado que é na complexidade que o humano se afirma e pode ser afirmado. em 03 de agosto de 2004. toda vida: “entre sol e sombra.com/article7507. 6 La Poésie. edição escolhida aqui para essa e as demais referências sobre o autor. É preciso fugir das armadilhas da síntese. le portail de l’Afrique. 1965. VIII. 21. de presença e de ausência. É na diversidade que caminha. 1994.” (GLISSANT. É preciso repetir que “durante muito tempo a voz do homem se perdeu nos templos por obscuro que era o caminho até o templo! e esse mar. p. 1965. 19-20). 1975. p. 3 Termo que designa a resistência dos mulatos fujões. 1ª obra de Césaire . vol. Nova Fronteira. J.html. edição 2001 e no Novo Dicionário Aurélio. 1998. entre a linguagem e o gozo. na aurora e na noite.. 10 FINK. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse. A obra consta da coletânea intitulada La Poésie. Paris: Seuil. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. É. Paris: Seuil. constante no site: http://www.383). Ernest Pépin em entrevista concedida a David Cadasse. ed. 9 LACAN.

./dez. J. 1994. 1994. Tradução. 12 GLENADEL. R. p. 163 jul. Pour une littérature mineure. 43 (1). CHAMOISEAU. Paris: puf écriture. 1994. 29 Ibid. 29 Ibid.396. DELEUZE. desconstrução. 8. 521. 391. 25 Ibid. entre a linguagem e o gozo. v. Chico science”. p. Bibliografia. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia”. 22 ZINK. E. GLENADEL. DERRIDA. 23 ibid.In: La Poésie. 2 78 Cf 14. P. Eloge de la créolité... Un sujet ? In: Homme et sujet. 1994. 1975. CONFIANT. Poèmes. 472. 1996c. traduzível por Eu. 1985. Paris: Seuil. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia. Kafka. La subjectivité littéraire. 1965. O sujeito lacaniano. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. Paris: Galilée. p.8. “Tradução.. p. Paris: Minuit. M. p. “Entre mangue e manguetown. 26 GLISSANT. desconstrução. J. A. A. P.. p... A.L. In: Revista Gragoatá. In: Revista de Letras. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Paris: Seuil. p. 20 CESAIRE. BERNABÉ.53. n. 27 GLENADEL. 23 ibidem 24 DERRIDA. São Paulo: Universidade Estadual Paulista. 53. 2000.. 28 NANCY. 28. J.1996. p. J. CÉSAIRE.53. P. 2003. La Poésie. Niterói: Eduff. GUATTARI. La poésie.21. P. 48. 1989. 45 ibid . FINK. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. 1965. p. laminar. p. 1998. 11 Título da sua obra Moi. In Revista Gragoatá n8. p. p. 397. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales.. 89 GLISSANT. Paris: Gallimard.. F. 2000. laminaire. Paris: Galilée.. 2007 . Niterói: Eduff. La Poésie. p. Le Monolinguisme de l’ autre. 56 Cf. 2 34 CESAIRE. 1994. p.15 67 ibid. G.A construção da identidade no Caribe. Le monolingüisme de l’ autre. M.

In: Écrits. Paris: Puf écriture. Site: http://www. GLISSANT.html 164 . Paris: Seuil. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales. M.___________. NANCY. In: Revista de Letras. J.afrik.1991.-L. “Un sujet ?” In: Homme et sujet. LACAN. Paris: Seuil. 1966. 43 (1) 47-56. ZINK.“Entre mangue e manguetown. J. 1985. ________. 1994. São Paulo: Universidade Estadual Paulista. 1965. Séminaire. 2003. Paris: Seuil. E. La subjectivité littéraire. “Subversion du sujet et dialectique du désir dans l’ inconscient freudien”. Chico Science”. Poemes. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse.com/article7507.

165-195. n° 15. we’ll try to observe the historical conditions by which some vital social institutions of the Indian community amalgamated in that colonial social environment. Assim. Contudo. porém. Thus. Trinidad século XIX Alexandre Martins de Araujo “O que você faria se não pudesse fazer nada? Até onde você iria se não pudesse sair? Quem você seria se não fosse ninguém?” 1 Abstract This essay looks at the historical process of settlement of the immigrants Indians community in Trinidad during the nineteen century. o convívio e o volume de trabalho dentro das fazendas. foi instituído um rigoroso conjunto de regras e normas destinado a controlar a qualidade. a substituição de trabalhadores negros livres por indianos causou grande atordoamento. Goiânia. diferente daquele previsto no conjunto de leis. The main question that emerges from this process is exactly the phenom of cultural recreation and establishment of the Indians social institutions in face of so powerful policy of the westernization imposed upon all work population of that island by the British colonial government. destinado a controlar o dia-a-dia dos trabalhadores nas fazendas. Tratava-se de um sistema aberto de relações. Keywords: Indians Immigrants. VIII. tanto para os fazendeiros como para as populações afro-descendentes recém emancipadas. Trinidad. nas Plantations de Trinidad. as circunstâncias históricas ali vividas possibilitaram a gestação de um sistema de convívio. vol. de difícil *Artigo recebido em fevereiro de 2007 e aprovado para a publicação em março de 2007 Revista Brasileira do Caribe.Plantation legal. 2007 165 . adequado a natureza plural de sua paisagem humana. Indians Inmigrants Resumo Durante o século XIX.

Palavras-Chave: Plantations. son los aspectos de más relieve en esta investigación. nesse caso.Alexandre Martins visualização. somente eram apropriadas nos espaços intersticiais das relações. Resumen Este ensayo analiza el proceso histórico del establecimiento de los inmigrantes de la India en Trinidad durante el siglo XIX. A outra se identifica na etno-história. pois para entrar e sair dessa outra Plantation – a que tomei a liberdade de chamar de Plantation Plural em oposição a uma Plantation Legal. n° 15 . VIII. e essas. Trinidad. das experiências humanas vividas no interior das Plantations. Essa primeira tendência se baseia em fontes oficiais do governo da colônia e registros particulares locais. Haraksingh (1981). vol. Uma conduz as investigações tomando os indianos essencialmente como trabalhadores nas fazendas. a mão-de-obra indiana. de suas condições de trabalho. Palabras Claves: Plantación. a pesar de la poderosa política de colonización impuesta por el gobierno británico. nenhuma dessas duas tendências se encontra consistente ou rigidamente definida. era necessário possuir as chaves simbólicas. as ênfases vão à direção da experiência indiana no interior das Plantations. sobretudo. Los fenómenos de la recreación cultural y la permanencia de las instituciones del país de procedencia. No nosso caso. duas diferentes correntes discutem a presença indiana nas Plantations. nos dedicamos ao sistema Plantations de Trinidad pós-escravidão. o mais perto possível. Inmigrantes indianos Muitos foram e são aqueles que se dedicam à tarefa de aproximar. Trinidad. em particular. imigrantes indianos. durante o século XIX. Goiânia. Para o historiador indo-descendente de Trinidad. onde se utilizou. largamente. Em termos historiográficos. 166 Revista Brasileira do Caribe. concentrando suas observações na perspectiva dos grupos sociais e das práticas culturais cujos esforços tentam identificar fenômenos de mudanças e adaptações.

assim como outros historiadores fizeram antes. 1872. por igual. 2007 . London. Em linhas gerais. afetados pelo sistema Plantation de Trinidad. esforçar-nos-emos para trazer a lume a maior porção possível da realidade histórica vivida por aqueles que um dia se sentiram. direta e indiretamente. os fatores evidenciados tanto numa quanto noutra das tendências acima mencionadas.Plantation Legal: Trinidad século XIX Neste estudo tentaremos. 167 jul. ai g u r F “Waiting for the Races”./dez. Fonte: KINGSLEY. nos aproximar da experiência indiana nas Plantations do século dezenove. Charles. porém procurando valorizar. At least a christmas in the West Indies.

balanços anuais. relatos de viajantes europeus e diários de missionários religiosos. jornais de época. as políticas de controle dos trabalhadores. tratam-se de documentos cujos teores e formas foram moldados por mãos de pessoas ligadas às elites locais. VIII. inibidores das vozes subalternas. portanto. vol. Em face disso. Começaremos. todos os sistemas coloniais de controle de trabalhadores. da enorme dificuldade encontrada pela maior parte dos historiadores em apreender as “vozes subalternas”.Alexandre Martins Sabemos. em suas análises sobre o discurso colonial britânico na Índia no século XIX. principalmente no interior de sistemas autoritários e fechados como era o caso das Plantations nas colônias inglesas. Acreditamos que. Para empreendermos essa tarefa. entre outras coisas. sensos. ou seja. ganharemos acesso aos significados e sentidos atribuídos aos imigrantes indianos por aquelas pessoas interessadas em vê-los. tanto das estratégias metodológicas utilizadas por Ranajit Guha2 em seus estudos sobre a Índia colonial. enfrentaremos o dilema da supressão dessas vozes lançando mão. estão sempre acompanhadas de práticas discursivas. portanto. a nossa visita ao interior das Plantations de Trinidad pela seguinte pergunta: O que exatamente significava. todavia. local onde são produzidas. No entanto. tê-los. para a elite local. reunimos um conjunto variado de fontes: relatórios oficiais. então. Dito de outro modo. esteja sob a forma de contratos particulares ou de leis juramentadas. Goiânia. inquéritos. comissões reais. como também da estratégia “desconstrutivista” valorizada por Bhabha3. impregnadas com as crenças de quem as 168 Revista Brasileira do Caribe. o centro de inteligência das Plantations. leis de imigração. dentro das Plantations. a população indiana e sua presença naquele espaço e tempo? Tal questionamento nos lança diretamente para o ambiente histórico ao qual desejamos entrar. n° 15 . ao desconstruirmos tais políticas de controle. ou melhor. instituídas pela administração colonial em conluio com os proprietários de terras.

Plantation Legal: Trinidad século XIX

produziu. Todo discurso, para Bhabha, é uma prática significatória, ou seja, “processo que postula a significação como uma produção sistêmica situada dentro de determinados sistemas e instituições de representação – ideológicos, históricos, estéticos, políticos” (JUNIOR, 2004, p.113-133). Mas antes de adentrarmos o espaço ao qual denominamos de o centro de inteligência das Plantations, faz-se necessário uma breve mirada para o contexto histórico, em torno do qual aportou em Trinidad, o famoso “Fatel Rozack”, o primeiro navio a transportar imigrantes indianos para Trinidad: “Em março de 1845 Thomas Caird anunciou em um despacho ao ministério do interior, ‘eu tenho a honra em informar... que enviei o Futtle Rozack para Trinidad” 4 (Tradução nossa). Inicialmente, podemos dizer que a Inglaterra chegou a Trinidad relativamente tarde, em relação à exploração do açúcar nas Antilhas, pois foi já no apagar das luzes do século dezoito (1797), que ela tomou de assalto aquela ilha das mãos da coroa espanhola e, nesse caso, é bom lembrar que a exploração do açúcar vivia aquela época o seu momento de maior esplendor entre as demais colônias americanas. Para o historiador sul africano Sookdeo (2000, p. 253), o propósito da ocupação de Trinidad foi de natureza menos econômica e mais militar. Seja como for, assim que a administração colonial britânica se instalou em Trinidad, não teve dúvidas quanto à necessidade de tomar parte nos negócios do açúcar. Já em 1799, o primeiro governador inglês de Trinidad, General Picton, escreveu à coroa britânica informando-a de seu posicionamento quanto às condições favoráveis de transformar Trinidad em uma colônia de produção de açúcar:
Trinidad será considerada como uma colônia açucareira, as terras sendo, em quase toda parte, mais favoráveis à produção de cana do que café ou algodão. A quantidade de terras a serem concedidas dependerá certamente dos meios de cultivo, mas tudo considerado à pequena classe de plantadores de

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cana não pode compreender menos do que 200 acres de boa terra, das quais 100 acres para cana, 50 para pasto e 50 para terrenos de negros, estabelecimento e eventualidades. Uma plantação dessa categoria, conduzida a um máximo de economia requererá um capital de aproximadamente £ 8,000 libras esterlinas 5 (tradução nossa).

A cana então substituiu o algodão devido a uma praga, porém, ele e outros gêneros continuaram sendo produzidos na ilha. Nessa época, Trinidad ainda estava longe de se tornar um modelo de monocultura e o negócio do açúcar se mantinha sob o domínio de mercadores e de intermediários ingleses donos de navios. Estes controlavam o fluxo de mercadorias e escravos na ilha negociando com o continente devido às vantagens oferecidas pela política fiscal de importação. Todo esse alvoroço atraiu para Trinidad um grande número de estrangeiros à procura de enriquecimento rápido. Conforme os registros da época, no ano de 1826, exatamente oito anos antes da emancipação dos escravos, Trinidad conheceu a sua maior safra de cana. Por esse motivo, quando os indianos chegaram à ilha, no ano de 1845, os ingleses ansiavam por uma produção ainda maior do que aquela obtida sob o regime de escravidão. Uma vez que a superação daquela safra significaria, entre outras coisas, a certeza do sucesso da utilização da mão-deobra indiana e, por conseguinte, o arrefecimento das oposições a tal sistema. Entretanto, assim que os indianos chegaram, foram vistos pelos proprietários de terras, tanto como um benefício, quanto como um dilema. Quer dizer, se por um lado eles representavam a esperança de superação da aludida escassez de braços adaptados às condições oferecidas nas Plantations, por outro, eram vistos como uma nova e incômoda realidade a qual esses proprietários teriam que se adaptar, pois se tratava de uma mão-de-obra remunerada e de permanência limitada, apenas cinco anos, conforme contratos firmados antes do embarque. Assim, a imagem que se forma, a partir desse quadro, é a de

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uma classe de plantadores completamente insegura quanto ao rumo de suas empresas, já que todas aquelas novas situações eram, de certa maneira, diametralmente opostas ao modelo escravista até então praticado. Em outros termos, o que lhes asseguraria o pleno sucesso da utilização da mão-de-obra indiana em face de, por um lado, os riscos sobre o capital investido no processo de contratação (transporte, alimentação, hospitais, roupas e pagamento de salários) e, por outro, a concorrência externa, sobretudo, devido os novos rumos que tomara o comercio internacional do açúcar por aquela época? Em razão disso, é natural aceitarmos a idéia de que todas as atenções dos plantadores estivessem voltadas para a relação custobenefício, atinente ao processo de contratação da mão-de-obra indiana. Portanto, não seria exagero de nossa parte pensar que os indianos contratados (Indentured Indians) 6, de início, não significassem para os plantadores nada além de músculos e ossos a serem aplicados nas lavouras de cana-de-açúcar. Nesse sentido, não nos restam dúvidas quanto ao fato das circunstâncias históricas terem apontado para os plantadores a necessidade de impor, aos imigrantes indianos, um regime autoritário de trabalho. E para garantir o controle dos trabalhadores indianos dentro das Plantations, foi elaborado um extenso conjunto de leis, difundido por meio de documentos ultramarinos denominados pela administração colonial britânica de Regulamentos de Imigração para Trinidad e Guiana Inglesa (Immigration Ordinances of Trinidad and British Guiana). Neles, os imigrantes indianos eram denominados simplesmente de Indianos Contratados (Indentured Immigrants). Dirigir-nos-emos, então, a partir daqui, para o ambiente ao qual denominamos de centro de inteligência das Plantations, olhando, primeiramente, na direção do conjunto de leis, constituídas para assegurar o cumprimento dos contratos e, por conseguinte, controlar a vida diária dos indianos no interior das Plantations. Em meio a tal conjunto de leis, somente algumas buscavam

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assegurar a efetivação de alguns direitos adquiridos pelos trabalhadores indianos, quando da assinatura dos contratos. Tratavase de normas que versavam sobre a condução das jornadas diárias de trabalho em termos, por exemplo, da quantidade de horas a serem cumpridas, do salário condizente às tarefas realizadas, do direito a assistência médica e do direito de denúncia por abusos sofridos no interior das Plantations. Neste caso, as denúncias deveriam ser feitas a oficiais designados pelo governo à proteção dos indianos contratados, os chamados Protetores de Imigrantes (Protector of Immigrants). Numa visão de conjunto, quase a totalidade das leis visavam assegurar uma política de contenção de imigrantes dentro das fazendas. Obviamente que, se o controle total sobre os trabalhadores indianos era o que mais importava a todos aqueles que dependiam, direta e indiretamente do sucesso da utilização da mão-de-obra indiana, é de se supor que as leis de regulamentação do Indenture System, tendessem para a satisfação das necessidades desses beneficiados. No entanto, do ponto de vista jurídico, o formato das leis não parece, à primeira vista, tendencioso, ou seja, na mesma medida que há punição destinada ao contratado, há, também, para o contratante, caso venham descumprir qualquer uma das cláusulas nele previstas. Todavia, nenhum sistema legal é auto-explicativo, por isso torna-se mister analisá-lo à luz de outras fontes do mesmo período. Começaremos, então, a sua análise por aquilo que nos pareceu mais recorrente em toda a sua extensão, ou seja, o aparentemente inocente termo, “Indentured Immigrants”, usado em todas as suas cláusulas para se referir ao trabalhador imigrante indiano. Se olharmos mais profundamente para a sua utilização, no âmbito das leis de regulamentação do Indenture System, ou, Sistema de Contratação, veremos que a naturalização do termo indenture, não somente nos documentos oficiais, como também nos discursos da elite, carregava uma intenção velada de eclipsar qualquer traço que pudesse ligar os indianos a alguma imagem de autonomia social. Pois quando se pronuncia o termo imigrante contratado, nota-se
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que na palavra que dá qualidade ao sujeito (contratado), não há nada que permite ligar o sujeito (indiano) à sua trajetória de vida ou mesmo ao lugar de onde veio, mas antes, a um acordo (um contrato). Isso faz com que o usuário da língua desvie o pensamento do substantivo (indiano) para as possibilidades de apreensão do significado da palavra contratado. E as imagens primeiras que afloram do signo Contrato são aquelas ligadas a alguma forma de prestação de contas; assim, a imagem do sujeito (o indiano), se funde aos referentes do signo Contratado, possibilitando ao usuário da língua um raciocínio lógico do tipo: se um contrato pressupõe algum benefício para o contratado, este deve prestar conta daquilo que contratou, logo, ele deve ressarcir o contratante (no caso o plantador), as despesas consoantes aos benefícios consumidos; no caso dos indianos contratados, a viagem, a alimentação, os cuidados médicos, as roupas etc., sob a forma de trabalho. Desse modo, podemos afirmar que o apelo mais forte atribuído ao uso do termo Imigrante Contratado era minar as possibilidades de o trabalhador indiano impor qualquer tipo de autonomia, uma vez que os sentidos construídos pelo uso constante de tal termo, funcionavam como uma espécie de “luz vermelha” sinalizando para o imigrante sua condição primeira de devedor perante o proprietário da fazenda. Em linhas muito gerais, nota-se uma tendência, entre as diversas leis desse conjunto, de precaver o lado do contratante, no que se refere a duas situações: por um lado, o risco de o trabalhador se ausentar da fazenda, durante a execução de uma dada tarefa e, por outro, é atribuído um excessivo peso a tudo aquilo que é considerado ofensa ou negligência por parte do contratado. No entanto, parece contraditório o fato de, se por um lado as leis tentavam, de toda forma, dificultar a saída do contratado, inclusive, descontando de seu salário o dia de trabalho em que ele se ausentava para se queixar ao protetor de imigrantes abusos sofridos ou descumprimento de seus direitos assegurados no contrato; por outro, vê-se um total relaxamento nas permissões para o trabalhador se ausentar, caso ele tivesse ganhado certa
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qualquer tarefa exigida pelo patrão. duas intenções subliminares: primeiro. Contudo. uma dívida simbólica. vol. no lugar de uma dívida material. Numa palavra. foram. inspetor. em termos das injustiças que sofreram durante a permanência nas fazendas. Tal contradição nos leva a supor a existência de. objetivava funcionar tal qual o famoso “sistema de barracão”. tampouco sobre tal fazenda ou ao alcance de cinco milhas dela” 7 (tradução nossa). ou seja.Alexandre Martins quantia em dinheiro. e. pois voltaria para a fazenda se sentindo constrangido a aceitar. Segundo. pois estar preso a um contrato é o mesmo que estar sob juízo de sentença. moral. era conveniente para o patrão que o trabalhador esgotasse as suas reservas financeiras na cidade. capataz. próximo àquilo que no sistema judicial atual. independente do seu grau de dificuldade. sem nenhuma resistência.. tanto o uso do termo Imigrante Contratado. ou outra pessoa empregada na plantação. Goiânia. uma vez que “Nenhum comércio deve ser mantido por qualquer patrão. o que consideramos ter sido “a pedra no sapato“ dos trabalhadores indianos. no primeiro caso. arriscamo-nos em dizer que. chamamos de “liberdade condicional”.) É perfeitamente possível que eles possam ser acusados diante de um juiz sob a denuncia de agressão. (. um possível acordo entre proprietários de fazendas e proprietários de comércio. cocheiro. soldado. porém. 174 Revista Brasileira do Caribe. VIII. n° 15 . incapazes de falarem a linguagem das classes inferiores aqui correntes. principalmente porque uma das leis previa que o trabalhador executasse qualquer trabalho desde que compatível com sua qualificação física.. as inúmeras condenações judiciais devido às acusações de descumprimento das leis que versavam sobre ofensas atribuídas ao patrão e negligências durante a execução de tarefas. após o trabalhador ter juntado certa soma em dinheiro. sem dúvida. estão sujeitos a serem encontrados em desvantagem o que pode terminar em multas ou prisões 8 (tradução nossa). pelo menos. quanto as permissões de afastamento da fazenda.

ou qualquer outro funcionário superior da fazenda. imediatamente. o tradicional chicote. foi substituído por uma outra arma igualmente eficaz em termos de alertar o trabalhador quanto a sua pequenez diante da força do patrão. Sob a veemência dessa informação dois policiais a cavalo foram mandados com a intenção de apaziguar a desafeição.. 2007 . porem eles foram recebidos por uma irada recepção dos coolies que os repulsaram e os injuriaram (. o imigrante contratado deveria refazêlo. Tratava-se da prática de descontar do salário do imigrante contratado certa quantia. Na ultima quinta feira a polícia recebeu informações de que um sério distúrbio havia ocorrido na fazenda Cedar Hill. ou. sob pena de sofrer condenações consoantes a tal alegação.) os outros escaparam ilesos somente por causa do instinto de seus cavalos que coicearam os agressores a distância. previstas no sistema de leis. alegasse ter ouvido da boca de um indiano. usado contra os escravos. também a que causava maiores distúrbios era a acusação por má execução de uma dada tarefa. entre os coolies da fazenda e o corpo administrativo.Plantation Legal: Trinidad século XIX Entre as condenações por ofensas. surgido de um desentendimento causado por coolies terem executado impropriamente certas tarefas as quais eles foram requeridos para completar. e as quais eles não somente recusaram fazer como também mostraram fortes sinais de hostilidade. um dos proprietários da companhia Colonial. designada ao indiano por um superior da fazenda. Isso por que. 9 (tradução nossa)./dez. uma palavra ameaçadora. Num certo sentido.. a mais freqüente e. de forma extrajudicial. declarasse o mal uso de algum equipamento da fazenda para se consumar 175 jul. uma vez notificado sobre a execução imprópria de seu trabalho. sob a alegação de práticas indevidas. Bastava apenas que o capataz.

( .sotnemicerroba 176 Revista Brasileira do Caribe.adived ale a socilbúp serfoc sod airgnas a meraicnuned soriednezaf so euq osu uam o mébmat raicnuned arap mavatievorpa .odagerpme olep sadazilaer so etnemadanimircsidni reted ed etnanimoderp emutsoc O ).seõrtap so artnoc áj saferat ed otnemagap reuqlauq repmorretni ed rodagerpme .etnemetnedive otiuM .anaidni oãçargimi à soirártnoc . vol.sianroj sortuO /oãrtap seõçaler sad laretalinu retárac o etnematreba mavaicnuned é oxiaba aton a .setnargimi lageli oãçneter ed acitárp a raicnuned ed méla siop .Alexandre Martins . Goiânia.sadalortnoc oãs salum sa omoc oãçudart( 01 .seilooC ralortnoc é .( edaditnauq amu ...saus sad mif oa oçemoc od .sele rop .( ed sadnezaf san sodagerpme .ºN ed iel a etnemlapicnirp .sotisóporp so sodot arap sovres ed etneicifus lat .serosivrepus e sezatapac sod odigixe é euq o odut .911 .sodasuo siam .rezid reuQ .raicnedivorp omoc rebaS ).ossi a otnauQ .serodahlabart soa otnuj soirálas saditemoc etnematsopus sasnefo ed asuac rop .siacol sianroj snuglA .sairáid saferat saus ed mif oa oçemoc od .arodeceralcse sadasu mare oãn siel sa euq ed otaf o aicnedive mébmat .otnop oa oterid mai .setnargimi sessed maizaf me odidecus meb oãt odis met onrevog osson o sam ).olpmexe osoicinrep o meriuges etsixe .açitsuj/sodatartnoc ...ahli atsen eicépse reuqlauq ed lagel aicnêrefretni uo odomôcni setneicsnoc etnemanelp saossep euq rarimda es ed é oãn euq o a sadavel .sodagerpme e seõrtap ertne ed etnaid ri euq meret ed seõçaloma e sotsag .ossid rasepa .)asson ..racúça-ed-anac mes adacitarp etnemetnetsisrep e otium a odis met . VIII..saicnêgilgen uo/e sasnefo ed seõçasuca oa . n° 15 .soirálas ed o aibiorp euq .ocilbúp oriehnid od atsuc à ..majes otnemidecorp lat ed açitsujni ad san .acitárp an setnega oãs euq seleuqa sodot ed setnem o res ed amrof amu otsin agrexne euq oãçagela ariejnosil amu sadnetnoc recelebatse ed selpmis siam e otruc siam ohnimac so rative ed oiem mu e ..

dava sinais de desconfiança em relação ao comportamento dos encarregados da justiça de Trinidad. ou por qualquer outra suposta quebra das regras da fazenda. É infinitamente mais fácil. o honorável Sr.. 2007 ./dez. A terceira sugestão era uma questão de rotina hospitalar.. New Era. de modo que a segunda clausula oferece recursos para o imigrante procurar residência industrial antes que a total conclusão de seu contrato fosse apresentada. Segundo o historiador indo-descendente.. ou semelhante soma em nome de maltratar uma mula. que provavelmente seria uma supervisão da parte de autoridades médicas.. e a descrição das tarefas diárias executadas...13 177 jul. qualquer sentença da corte fora alguma vez feita contra um patrão ou membro da equipe administrativa da fazenda”. o jornal local. a uma exclusão de questões igualmente importantes que afetavam outras raças. Tão difundidos eram os sentimentos filantrópicos derramados sobre a imigração de Coolies.. Na última reunião do conselho legislativo. que nos não podemos a não ser anotar as investigações que correm de tempo em tempo sobre os Coolies e os chineses pagãos 12 (tradução nossa). e inquestionavelmente mais conveniente para um capataz ou supervisor reter Cinco dólares do pagamento do trabalhador por motivo de roubar uma cana. Possivelmente foi para convencer o governo que eles estavam de fato empenhados na doutrina de proteção do imigrante. Smyth. propôs três novas cláusulas. No ano de 1876. “existe pouca evidência para sugerir que antes dos inícios dos anos de 1880.Plantation Legal: Trinidad século XIX um juiz por causa de todas insignificantes ofensas cometidas por um trabalhador na fazenda.. Kelvin Singh. a primeira da qual impôs ao plantador a manutenção de um livro de atividades para conter todos os dados para identificação de todos os imigrantes. durante a reorientação dos regulamentos de imigração. do que é correr o risco e aborrecimentos de ter que dar prova de tal acusação perante um magistrado 11 (tradução nossa).

Mitchell é Protetor de Imigrantes. o Protetor de Imigrantes. n° 15 . nesta parte da ilha. que. . É a respeito de nada mais nada menos que um importante personagem. essas evidências nos levam a refletir acerca do grau de autonomia que os fazendeiros teriam alcançado junto ao sistema judiciário implantado naquela colônia. 110-122). feito pelo juiz anteriormente aludido. não eram incomuns as denúncias sobre protetores de imigrantes envolvidos nos negócios da cana-de-açúcar. vol. ao término de seus contratos. Para ampliarmos a nossa visão sobre o grau de aplicação das leis sobre os trabalhadores nas fazendas. Goiânia. De fato. É. e ainda. Temos ouvido ultimamente uma considerável quantidade de notas ditatoriais de autoria do juiz de St.Alexandre Martins (tradução nossa). como um homem particularmente perigoso. no qual foram levantadas as estatísticas sobre o volume de 178 Revista Brasileira do Caribe.. e ainda alguém que aparentemente não percebeu a direção e tendência desses endossos. em oposição à discriminação dos coolies) fosse condenando coolies contratados a trabalhar na fazenda Paradise. naturalmente supomos apoiado pelo chefe do departamento de imigração. embora não distante da linha seguida por outros semelhantes juizes. Esse Dr. Mitchel. Também. nos faz julgar o oficial distribuindo justiça. VIII. p. que nos refletiremos a dúvida sobre alguns endossos de dias perdidos de Coolies nas fazendas. É alguma coisa estranhamente sugestiva que a maior parte dos endossos (que são relatados como sendo inadequados. de propriedade do Dr. de qualquer modo. recorreremos a um aprofundado estudo levado a cabo por Sookdeo (2000. executar meses extras de trabalho como dias perdidos. caso nos podemos julgar pela passividade de seus atos em relação a eles. motivo de desapontamento que circunstâncias assim coincidissem de tal modo que aquele ato inadequado do juiz nesse respeito teria (num senso mundano) uma inclinação rumo ao benefício do oficial protetor e legal dos coolies 14 (tradução nossa). e também como sendo uma vantagem desonesta em favor dos proprietários de fazenda.. Joseph.

/dez. O restante dos prisioneiros estava dividido entre indianos mulçumanos. Somente no ano de 1870 foram registradas 2. diante da Corte de Trinidad. 2007 . 39. nos anos de 1872 e 1873. em 1835. antes do advento dos imigrantes indianos. Segundo Sookdeo. entre os anos de 1828 a 1835. também uma nova carga de criminosos em potencial. 1. 154 condutas indecentes no uso da língua e 116 ofensas. 257 endividamentos. um inspetor dá a sua receita de como os prisioneiros devem ser disciplinados: 179 jul. tanto na época da escravidão. respectivamente. Nesse ponto. para quem.9%. a que mais figurou foi a de imigrantes indianos capturados sem passes livres. 354 e 476. 213 agressões. pois.15 (tradução nossa). a extração da força de trabalho era conseguida menos pelas condenações e mais pelo chicote. de 60 aprisionamentos anuais. entre as categorias de ofensas que culminavam em prisões. eles foram freqüentemente culpados de quebras de leis de trabalho”. Uma significativa elevação dessa média. extraída pelo autor. os magistrados de Trinidad passariam a conviver com a idéia de que a cada nova carga de indianos contratados. quanto na época em que se passou a utilizar da mãode-obra indiana. a média alcançada foi de 54 prisões anuais. Segundo os dados por ele reunidos. ou seja.649 prisioneiros dentro das cadeias reais.059 eram hindus. Para o ano de 1873. a média de condenações flutuou em torno de 53 prisões de homens por ano.Plantation Legal: Trinidad século XIX condenações. Desse total. afro-descendentes. “após 1854.012 prisões. Numa nota. a exemplo de Eric Williams. os documentos do conselho revelaram 2. 48 e 45 do sexo masculino. durante a execução de tarefas. 154 jovens abaixo de quinze anos e 282 mulheres de idades variadas16. Sookdeo reitera a opinião de conceituados historiadores. Mas com a chegada dos imigrantes indianos. sendo que os anos de 1832 e 1833. é constatada ao final da escravidão. respectivamente. cujas principais acusações podem ser assim distribuídas: 727 furtos. quando as leis de imigração apertaram o nó em torno dos trabalhadores indianos. creoles.

vol. sendo que a maior parte dessas condenações foram alegadamente por motivo de descumprimento das leis de contrato de trabalho por parte dos imigrantes indianos (Ibid. As posições de Sookdeu corroboram as evidências. os crimes categorizados como agressões dobraram. incluindo conflitos inter-raciais. Sookdeo revela. quanto às relações de poder que os fazendeiros mantinham 180 Revista Brasileira do Caribe. os números de aprisionamentos foram de 4. Para os anos de 1885 e 1886. o lado positivo de se estar preso. Quanto a isso. do ponto de vista dos indianos. p. Sentenças duras”. sobretudo nas estações em que as fazendas necessitavam de poucos trabalhadores.. 2000. acerca do recrudescimento das sanções penais em Trinidad. dado ao fato de os imigrantes indianos se constituírem de uma classe de trabalhadores. “os contratados prosseguiram em receber com alegria o repouso oferecido pelas prisões comparado à vida em algumas das severas fazendas” 18 (tradução nossa). ele aponta algumas possíveis causas: frustração entre as classes trabalhadoras. predominantemente masculina. No balanço geral que fez Sookdeo. e para as classes mais baixas de prisioneiros. Por último. “os elementos intimidadores de punição são trabalhos forçados. tais sanções penais se perfilaram numa excelente forma de se exercer o controle sobre os imigrantes contratados. “uma reconhecida autoridade em matéria de castigo disciplinar em prisões”. Segundo. o fato de que as duras sentenças aplicadas sobre os imigrantes contratados tornaram-se convenientes para a classe de plantadores. respectivamente. acima discutidas. Sookdeo destaca ainda que. destacam-se três interessantes posições: primeiro. Goiânia. as quais corresponderiam a “trabalhos nos moinhos ou abrir covas ou quebrar pedras ou alguma atividade semelhante” 17 (tradução nossa). comida ruim e cama ruim. que se encontravam presos. quem recomenda.411 e 4. em certo período do ano.363. competições nas esferas do trabalho e frustrações sexuais..Alexandre Martins Sir Joshua Jebb. uma vez que os custos de subsistência dos imigrantes. entre os anos de 1872 e 1873. pois.120). corriam por conta do governo. n° 15 . VIII.

Depois que o caso é terminado. trabalhar tão firme quanto é requerido pelo regulamento. o coolie é provável. “dias perdidos” como eles são chamados. Muitos capatazes tem uma forte e muito justa discriminação contra levar um homem diante da corte por causa de alguma insignificante negligência. No total desses casos diante do juiz existe sempre uma grande perda de precioso tempo. também não decidirão processar por deserção. Então o capataz ou qualquer um em posição de gerência deve comparecer à corte com o livro da fazenda de modo que um dia é perdido. 2007 . o coolie leva algum tempo antes de se estabelecer dentro de seu regular costume de trabalho pacífico e constante. caso o coolie seja punido ou não. 181 jul. Nele./dez. Pois. e. especialmente se ele for absolvido ou meramente advertido. e ainda. ambos para o empregador como para o trabalhador. magistrados e imigrantes contratados. Nem muitos patrões reivindicarão e adicionarão ao tempo de contrato os dias em que o imigrante não tem trabalhado. e geralmente decidem tal questão. Casos diante da Corte. as boas relações entre mestre e servo são prejudicadas. e ainda se mandado para prisão ele perde o respeito por si mesmo e torna-se um membro das classes criminosas. a qual ele não foi capaz de fazer enquanto estava na corte19 (tradução nossa). O dia posterior ao caso ele declara que não vai ao trabalho. nos permitem afirmar a existência de uma ampla rede de relações entre fazendeiros. o coolie se torna mal humorado e não trabalha devidamente. além disso. Todas as evidências.Plantation Legal: Trinidad século XIX junto ao sistema judiciário de Trinidad. capatazes. fora da corte pela ação de multar o transgressor. porque ele deve cozinhar a sua comida. supervisores. Num documento ultramarino para assuntos da imigração indiana. quando se tratava de oficializar uma denuncia ao juiz local: 26. extraímos um trecho que versa sobre o cumprimento das leis nas fazendas de Trinidad. protetores de imigrantes. perder respeito à autoridade de seu mestre. até aqui analisadas. alguns dias antes que ele seja levado à corte. podem ser percebidos os “espaços de negociação” entre imigrantes indianos e seus capatazes.

a máquina judiciária. paradoxalmente. particularmente. não somente as perdas financeiras estavam em jogo. desmoralizar o imigrante. Observa-se que. tanto do imigrante acusado como de todo o restante do grupo a ele subordinado. quer dizer. ou. Morton21 e o reverendo Mr. Por essa razão. um tipo de escravidão a vida dos imigrantes indianos nas Plantations. vol. as horas de trabalho que ambos os lados poderiam perder se ocupados com os inquéritos.22 cuja permanência em Trinidad. Goiânia. ou minar à autoridade do capataz diante. se condenado fosse. n° 15 . o documento acima mostra os trabalhadores indianos desenvolvendo certo grau de autonomia diante de seus opressores no momento em que. Grant. Queremos salientar que. ou seja. como. Também estavam em jogo certas perdas subjetivas que poderiam. a partir do ano de 1860. embora tenhamos dado um considerável relevo ao penoso processo de opressão por que passaram os indianos. na mesma medida. por exemplo. tendem a vitimizar as populações subalternizadas no Caribe colonial20. Se alguns estudiosos insistiram. não faz parte das nossas intenções. 182 Revista Brasileira do Caribe. o processo de vitimização da população indiana de Trinidad colonial também fez parte dos jogos de cena. fazem uso da própria arma criada por seus patrões para oprimi-los. embora carregados de boas intenções. a fim de não se afastarem das fazendas e não colocarem em risco o capital moral que construíam a partir de suas relações dentro das Plantations. VIII. ou não. o reverendo Mr. capatazes e imigrantes buscavam acordos diante das contendas. pois favorecia outras categorias de pessoas residentes na ilha. no sentido de educá-los e evangelizá-los.Alexandre Martins De fato. dependia dos trabalhos que desenvolviam junto aos indianos nas Plantations. ainda não superados entre aqueles que. De qualquer modo. ou ainda insistem. a um estado de marginalização. alguns missionários presbiterianos canadenses. em tal questionamento. sobretudo por meio do uso indiscriminado das leis de imigração. reascendermos o velho questionamento a respeito do fato de ter sido. é devido a alguns problemas teóricos.

Sem resistência os homens trabalharam o dia todo. dizendo a ele: “Eu estou completamente consciente que o tratamento dado a esses homens não tem causado sofrimento físicos. pelo desencontro e. Esses não são os dias de escravidão 23 (tradução nossa). violentamente tentou. o juiz virou-se para a defesa. os missionários procuravam justificar as suas ações por meio de alvissareiros objetivos que prometiam subtrair os indianos das condições degradantes que encontravam suas vidas espirituais. Já para os olhares do governo e da população local. era incorporada em seus diários./dez. com quem eles apresentaram a informação ou acusação formal. o capataz de uma fazenda de açúcar. poderia fundamentar a suas posições diante das injustiças cometidas contra os imigrantes indianos. na ótica dos missionários. tal ato sugere circunstâncias as quais as leis britânicas desaprovam”. Desse modo. e ao cair da noite eles foram liberados com algumas boas recomendações. um discurso protecionista. e os colocou pra trabalhar. pois. na Plantation. amarrar uma corda em torno da cintura de um pequeno número de líderes. morais e intelectuais. uma vez que os contratos assinados na Índia.Plantation Legal: Trinidad século XIX Os missionários deveriam assumir. principalmente. marcada pelo despotismo. o melhor instrumento de atração seria. nas vizinhanças de San Fernando. em uma mais ou menos jocosa forma. indubitavelmente. Certa ocasião. 183 jul. residente no distrito. segundo alguns trabalhadores foragidos. conforme mostramos. conforme mostra o documento abaixo. porém. para ganhar a sua confiança. Sob o manto da noite eles deixaram a fazenda e foram até a casa do subprotetor. pela imprevisibilidade. 2007 . Ele imediatamente iniciou uma ação contra o capataz. se converteram em instrumentos de opressão nas mãos dos proprietários. alguma forma de proteção contra as injustiças. perante os indianos. uma série de passagens que. Na conclusão do inquérito.

sendo mandados. testemunhos de sua baixa estima. ou intitulado por alguns de nossos trabalhadores 184 Revista Brasileira do Caribe. não somente numa larga medida. cuja denúncia se dirige tanto aos trabalhadores Creoles. que cresce rapidamente a cada ano pela imigração. usado para designar os indianos contratados nas Plantations. o fato de ter sido originalmente a designação da mais baixa classe de trabalhadores. recorremos a uma nota extraída de um jornal local. cumprido os propósitos para os quais eles foram. o reconhecimento e o apoio do governo e dos cidadãos em quase toda parte 24 (tradução nossa). assim como para os nativos da Índia. mas tem garantido por meio de seus trabalhos. e na tentativa de satisfazer necessidades espirituais. por imputarem aos trabalhadores indianos uma condição de inferioridade. Para dar materialidade a essa questão. morais e intelectuais de um povo. e estão. (. que tem sido aplicado a outras raças asiáticas. VIII. os missionários passaram a protestar contra o uso do termo Coolie.Alexandre Martins Assim era nossa missão em Trinidad. nossos missionários têm. inclusive. como também pelo aumento natural. tem feito dele extremamente ofensivo para uma grande proporção de pessoas.. e o termo “Indianos Orientais” está agora em uso geral 25 (tradução nossa). The Palladium. dando. O termo “Kuli”. Os missionários têm evitado usar esse termo. Goiânia. vol. ou referido.. pois viram nessa forma de clivagem um poderoso instrumento para causar ao indiano um sentimento de inferioridade diante da outras populações presentes na ilha. Embora “Coolie” seja o termo oficial e é usado durante o prazo do contrato. quanto aos próprios indianos por aceitarem tal condição de inferioridade. Como parte das táticas de atração e negociação. n° 15 . tem na língua “Hindi” o significado de um faxineiro ou carregador.) E até o momento nada é mais comum do que observar as desdenhosas maneiras pela qual o trabalhador indiano oriental é.

ambos imputados aos imigrantes indianos. grande parte da resistência indiana deve ser vista em termos de quem teria o último riso. Pergunte a um coolie de classe baixa (visto que o ideal de sua casta inerente permanece na mais alta norma para eles) se ele for um trabalhador contratado. mostra-nos que certas imagens geradas durante o período colonial. 2007 . Haraksingh contesta essa primeira noção./dez. devem ser vistas por um outro prisma. e ele revelará a você à baixa estima na qual ele encerra a si mesmo. as noções de docilidade e o próprio sentimento de inferioridade. no tempo em que chegaram aqui eles entraram em suas obrigações agrícolas como trabalhadores contratados. Eles seriam submissos e trabalhariam duro. p.) Mas esses orientais freqüentemente reconhecem a si próprios como ocupando o mais baixo status. talvez. Desta maneira eles têm a consciência de que eles ocupam a mais baixa condição nesta ilha 26 (tradução nossa). o que permitia aos seus patrões reunirem as condições necessárias para exercer um amplo controle sobre eles. Haraksingh interpreta como sendo uma espécie de comportamento estratégico para manter os patrões felizes até poderem escapar das Plantations: “pois. Quanto à aparente submissão dos indianos. Segundo ele. e principalmente.155). em especial o professor indodescendente Haraksingh (1981. Mas alguns historiadores. não combina com a quantidade de distúrbios e violências cometidas por indianos em seus locais de trabalho.. quem parece reconhecê-los como a raça mais inferior de todas as outras por causa da degradação. a de docilidade.Plantation Legal: Trinidad século XIX Creoles. consubstanciava a noção de docilidade era o fato de uma grande maioria de imigrantes viverem dentro das Plantations sob regime de contratos.. pelo fato de eles terem chegado aqui numa condição de quase escravos (. 185 jul. dizendo que esse estereótipo. o que indubitavelmente manteria os plantadores felizes” 27 (tradução nossa). em última análise. como por exemplo. normalmente usado para acentuar a preferência dos fazendeiros por trabalhadores indianos. o que.

formavam um complexo jogo de cena. London: Duke University Press. VIII. quanto o estereótipo de injustiçados. as relações construídas entre as diversas categorias de pessoas.Alexandre Martins Analisando. Dito de outro modo. n° 15 . desenvolvido pelos missionários. foram. 2 GUHA. ver-se-á que mais uma vez os imigrantes estão tentando se beneficiar com as próprias imagens que deles eram construídas. extrajudiciais. estrategicamente. R. como sendo um tipo de estratégia de preparação para uma vida melhor fora das Plantations. 2) obter benefícios financeiros a partir dos recursos do tesouro real. Goiânia. Goiânia. vol. Direção e texto: Danilo Alencar. forjado pelos proprietários para fortalecer os mecanismos de contratação dos indianos. 186 Revista Brasileira do Caribe. Elementary Aspects of Peasant Insurgency in Colonial India. Outubro de 2006. destinados à asseguração do sucesso da companhia colonial de imigração. submetidas ao conjunto de leis de imigração. cujas principais intenções eram: 1) criar um teatro capaz de deixar as autoridades inglesas em Londres satisfeitas quanto ao perfeito cumprimento das leis de imigração em suas colônias. a fim de convertê-los ao cristianismo. com mais profundidade. aceitos pelos próprios indianos. teatro da Universidade Católica de Goiás (Campos-V). por aqueles setores da sociedade interessados em explorá-los. de relacionamentos capazes de assegurar a continuidade dos acordos estabelecidos entre todos os grupos envolvidos e 4) assegurar aos imigrantes indianos a construção de espaços de negociação para que aquela difícil existência nas Plantations pudesse ser transfigurada em algo mais próximo de seus horizontes de expectativa. Notas 1 “A CLARA do Ovo”. 1999. tanto o estereótipo de docilidade. Numa visão de conjunto. uma vez que tais imagens ajudavam a confundir seus opressores quanto aos seus verdadeiros projetos. 3) constituir códigos. essa idéia de os indianos desenvolverem uma atitude de submissão.

59. 4 In March of 1845 Thomas Caird announced in a despatch to the Home Office. and which they not only refused to do but showed strong signs of hostility./dez. p. 062117110523. May 15.M. and. 1904. but they were met by a warm reception from the coolies who 187 jul. manage. one of the properties of the Colonial Company. 5 “Trinidad should be regarded as a sugar Colony. K. The quantity of land to be granted should certainly depend upon the means of cultivation. 74). sendo estes responsáveis por todos os custos de transporte e alimentação dos trabalhadores até aos seus locais de trabalho. unable to speak the language of the lower orders here fluently. are liable to be found at a disadvantage. 2007 . UFMG. Caird to Hope. apud PERRY. vol. but everything considered to the smallest class of sugar plantation cannot consist of less than 200 acres of good land. and 50 for Negro grounds. p. which may end in fine_or_imprisonment (…) (The Palladium. p. WILLIAMS. (Colonial Office 318. 7 “No shop shall be kept by any employer. 50 for pasture.000 sterling”.) 9 “On Thursday last the police received information that a serious disturbance had taken place at Cedar Hill estate. “I have the honor to report… that I have despatched the Futtle Rozack to Trinidad”. 1969.)It is just possible that they may be arraigned before the magistrate on the charge of assault. establishments and Casualties. ranger. H. Stationery Off. 6 O termo Indenture se refere aos acordos sob a forma de contrato realizado entre trabalhadores e empregadores. 165. On the strength of this information two policemen on horseback were sent out with a view to appease the disaffection. driver. overseer. 8 (. the lands being generally more favorable to the Production of Cane. immigration ordinances of Trinidad and British Guiana. O local da cultura. 29). 1962.. 7 March 1845. A plantation of this class carried on with the greatest economy will require a capital of about £ 8.. or other person employed on the plantation. Belo Horizonte: Ed. than Coffee or Cotton. 1880. between the coolies of the estate and the managing body. (cf.. arising out of misunderstanding caused by the coolies having imperfectly performed certain work which they were requested to complete. of which 100 acres for cane. either upon such plantation or within five miles thereof” (Coolie immigration. 2001. London : H.Plantation Legal: Trinidad século XIX 3 BHABHA.

and unquestionably more convenient for a manager or overseer to check five dollars from a labourer’s pay for stealing a cane. there is an unctuous excuse which views it in the shape of being a shorter and more summary way of settling disputes between master and servant. and a means of avoiding the trouble. is all that is required of managers and overseers (…) (San Fernando Gazette.. that we cannot but note the disquisitions which take place from time to 188 Revista Brasileira do Caribe.. 1878.. injuring one (. So diffuse are the philanthropic sentiments wasted on coolie immigration. (San Fernando Gazette. and the description of the daily work performed. . Mr.) the other escaping unhurt only by the instinct of his horse which kicked the assailants away”. n° 15 . or a similar sum for maltreating a mule. Possibly it was to convince the government that they were really in earnest in the immigrant protection doctrine that the second clause offering facilities to the immigrant to procure industrial residence before the full completion of his indenture was introduced. (San Fernando Gazette. the Hon. . proposed three new clauses the first of which imposed on the plantcr the keeping of a ‘Labour Book’ to contain all materials for identification of every Immigrant. August 31. VIII. September 30. on the recommital of the Immigration Ordinance. Smyth. Editorial). Very evidently. The third suggestion was a matter of hospital routine. or for any other suppositious breach of estates’ discipline than it is to take the risk and trouble of proving such a charge before the Police magistrate”. which probably was an oversight on the part of the medical authorities.. . vol. Editorial. in the minds of all those who are agents in the practice. 10 (…) But our Government has been so successful in providing at the public expense a sufficiency of serfs for all purposes (…) To know how to drive coolies through their daily tasks... as the mules are driven through theirs.Alexandre Martins repulsed them. 12 At the last meeting of the Legislative Council..) 11 “The prevailing custom of indiscriminately checking the wages at labourers employed on sugar estates for offences alleged to be committed by them has been so long and persistently practiced without molestation or legal interference of any kind in this island that it is not to be wondered at that persons fully conscious of the iniquity of such proceedings should nevertheless he led to follow the pernicious example. It is infinitely easier. 1871. expense and annoyance of going before a magistrate for every trifling offence committed by a labourer on the estate. February 4. Goiânia. to the exclusion of equally important questions which affect other races. 1882).

Plantation Legal: Trinidad século XIX time on the coolie and heathen Chinee. and a hard bed.. Editorial). In: Bloodstained tombs: the Muharram massacre 1884. “an admitted authority in matter of Prison discipline. SOOKDEO.111). 16 Dentre as principais fontes utilizadas por Sookdeo destacam-se os despachos do governador Longden. which. and to be an unfair advantage in favour of the proprietor of the estate. Joshua Jebb.. to the prejudice of the coolie) should he endorsations condemning coolies indentured to labour on the Paradise Estate. and for the lowest class of prisoners. Joseph Magistrate. makes us regard the officer dispensing justice in this quarter of the island as a peculiarly hazardous man. This Dr. 14 We have heard a good deal lately of magisterial not by the St. (cf. although not out ct the hue pursued by other like magistrates. Kelvin.” who advised.” Which amounted to “labour at the treadwheel or shot drill or stone breaking or some such work”./dez. 1988. when indenture laws tightened the lasso around Indian worker.. SINGH. Editorial). they were frequently “guilty of breaches” of labor laws”.. we naturally suppose. subject for regret that circumstances should so coincide that the improper act of the magistrate in this respect should have (in a worldly sense) a leaning towards the profit of the coolies’ legal and official Protector… (New Era. p. 17 Sir.. 114). Mitchell. made by the magistrate first alluded to. It is somewhat strangely suggestive that most of the endorsations (which are reported to be improper. 1876. to work out extra months of labour as lost days. London: Macmillan. Mitchell is Protector of Immigrants and one who apparently did not see the leaning and tendency of these endorsations. 2007 . March 22. (COUNCIL Paper (Trinidad) nº 39 of 1874 apud SOOKDEO. at the expiration of the term of their indenture. (New Era. Hard sentences. 15 “After 1854. “The deterring elements of punishment are hard labour. and. Cf. hard fare. June 12. 2000. approved of by the Chief of the Immigration Department. 189 jul. p. It is.. the property of Dr. o anuário Blue Books e relatos de inspetores de prisões. however. 13 (…) “There is little evidenced to suggest that before the early 1880s any court decision was ever made against a planter or member of the estate’s managerial staff”. if we may judge by the passiveness of his acts with respect to them. It is with no less an important personage than the Protector of Immigrants that we would consider the question of some endorsations of coolies’ lost days on estates. p. 1880. 2000. 10.

(ibid. Goiânia. or at all estates the overseer. 22 Grant. especially if he is acquitted or merely warned. tied a rope around the waist 190 Revista Brasileira do Caribe. Then the manager. Kenneth James. —Many managers have a strong and very reasonable prejudice against haling a man before the Courts for some trifling negligence to work as hard as required by the ordinance. and if sent to jail he loses respect for himself and becomes the associate of the criminal classes.Cases before Magistrate. 2000. and the cooly is likely. as he must cook his food. Halifax. 1839-1923 My missionary memories. vol. VIII. After the case is over. 19 26. the cooly is sulky and does not work properly. N. whether the cooly is punished or not.S. Charlottesville. the cooly takes some little time before he settles down into his normal ‘habit of quiet and steady work. to lose respect for. n° 15 . has to attend the Court with the estate books and a day is lost. nor will they prosecute for desertion. Toronto: Westminster Co. the good relations between master and servant are disturbed. sobretudo das populações afro-descendentes do Caribe. 23 “On one occasion the manager of a sugar estate in the neighborhood of San Fernando. p. — “lost days” as they are called. Caribbean Discourse.Alexandre Martins 18 “The indenteds continued to welcome the respite offered by prisons compared to life on some of the harsher plantations. 1989. John Morton of Trinidad: pioneer missionary of the Presbyterian Church in Canada to the East Indians in the British West Indies: journals. John. veja: GLISSANT É. sorely tried by some absconding laborers.: Imperial Pub.. Co. 1839-1912. For some days before he is taken to Court. which he was not able to do when he was at Court.. letters and papers / edited by Sarah E. The day after the case he says he is not going to work. 42). p. Nor will many employers claim and add to the period of indenture the days the immigrant has not worked. and generally settle such cases out of Court by fining the offender. 20 Para uma melhor compreensão das críticas feitas a perspectiva de vitimização de populações coloniais. 1916. The authority of his master. (COMINS. In all these cases before the Magistrate there is always a great loss of valuable time both to the employer and to the labourer. 21 Morton. 114). [c1923] 062117110523. University Press of Virginia. Morton. 1893. and then.

” (ibid. and put them to work. But these Orientals do often regard themselves as occupying the lowest status. the fact that it was originally the designation of the very lowest class of laborers has made it extremely offensive to a large proportion of the people”. when.60). (The Palladium. and towards evening they were dismissed with some good advice. 1880). in a more or less jocular way. as well as by natural increase. and the term “East Indians” is now in general use. 63). 191 jul. p. april 24. and he will tell you the low esteem in which he holds himself. with whom they laid an information or charge. Thus they have the consciousness that they occupy the lowest condition in this island. He immediately entered an action against the manager. our missionaries have not only in a large measure fulfilled the purpose for which they were and are sent out. because they come here in a kind of quasislavery. 1923. Ask a coolie of a low class (for the ideal of their inherent caste remains with the higher order of them) whether he is an indentured labourer. The missionaries have avoided using it./dez. 2007 . but it does suggest conditions on which British law frown. turning to the defendant. on arriving here they enter on their agricultural duties as indentured labourers..p. residing in the district. Without resistance the men worked in the fields all day. At the conclusion of the trial the magistrate. 26 And yet nothing is more common than to observe the contemptuous manner in which the East Indian labourer is either referred to or addressed by some of our creole labourers. and chiefly. moral e intellectual needs of a people growing rapidly each year by immigration. and in attempting to meet spiritual. which has been applied to other Asiatic peoples as well as to the natives of India. (ibid. (GRANT.. Under cover of the darkness they left the estate and went to the house of the Sub-Protector.. said to him: “I am fully aware that the treatment given these men has not caused physical suffering. perhaps.Plantation Legal: Trinidad século XIX of a few of the leaders. 24 “Such was our mission in Trinidad. These are not the days of slavery”. has in the “Hindi” language the meaning of a porter or laborer.60). but have secured for their work the recognition and support of the Government and the citizens generally. 25 “The term “Kuli”.p. who seem to regard them as a race far beneath every other for degradation. While “Coolie” is the official word an is used during the term of indenture.

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196 .

with the purpose to locate its origins. some hypothesis can be established based on the different ethnic groups that in that period lived in those areas where they were captured. Isto porque essa palavra em um primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 197 Revista Brasileira do Caribe. Por isso. n° 15. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. Goiânia. Não nos parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que no século XVIII. vieram para o sertão dos Guayazes. 197-243. Therefore. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina por onde os portugueses estrearam no comércio de escravos. in Angola and Benguela and Costa de Mina—regions in which the Portuguese started the slavery trade.O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes Abstract This article focuses on the slave trade in Goiás. mas também pode significar a variada presença deles numa mesma embarcação que aportou no Brasil. Goias/Brazil. ethnic groups Resumo Nossa análise se pauta em discutir o tráfico de escravos para a Capitania de Goiás com o objetivo de “rastrear” o lugar de procedência dos escravos. na época. VIII. Firstly. It does not seem appropriate to adopt the criteria of African nations as a unifying concept for cultural and religious affinities and identities of Blacks that in the eighteenth century came to the rural areas of the Guayazes. vol. Keywords: Slave trade. facing the difficulty to locate the nation of the slaves brought to Goiás. a saber. 2007 . viviam nas áreas aonde eram apresados. because such concept alludes to large African regions where slaves where shipped and secondly because there were various places where these shipments happened.

regiones en las cuales los portugueses estrenaron el comercio de esclavos. Goiânia. movimento que tem sido levado a cabo de forma a construir explicações para diferenças pessoais. grupos étnicos Resumen El análisis del artículo se pauta en la discusión del tráfico de esclavos para la Capitanía de Goiás con el objetivo de localizar el lugar de procedencia de éstos. VIII. Parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que vieram para Brasil no século XVIII. que o conceito de nação envolve um grupo social que partilha um ideário. en el reino de Angola y de Benguela y en la Costa de Mina. Outrossim. Goiás/Brasil. as discussões recentes sobre o tema alertam para o movimento – historicamente construído – de uso do conceito de raça como forma de naturalização de opções e interesses engendrados na vida social. um forte sentido de pertencimento relativamente ao grupo associado a um território concreto considerado como sendo especificamente o seu. No parece oportuno adoptar el criterio de naciones africanas como concepto aglutinador de afinidades o identidades culturales y religiosas de los negros que en el siglo XVIII vinieron para el sertão de los Guayazes. frente a la dificultad de determinar la nación de los esclavos traidos a Goiás podemos establecer algunas hipótesis basadas en las etnias que en la época vivían en las áreas donde eran capturados. O conceito num primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos.Cristina Cássia Pereira Moraes Palavras chave: Comércio de escravos. porque era variada la procedencia de los que eran violentamente arrojados en el barco negrero. Por eso. grupos étnicos Os livros de registros de batismos e de óbitos no Brasil indicam em muitos casos o lugar de procedência dos escravos africanos. Goiás/Brasil. hábitos comuns e um sentido de homogeneidade. En primer lugar porque ese concepto alude a grandes regiones africanas de embarque de esclavos y en segundo. sociais 198 Revista Brasileira do Caribe. Palabras Claves: Comercio de esclavos. É oportuno lembrar também. pensado como unidades de linhagens biológicas ou culturais. n° 15 . vol.

Benin e Togo. a saber: ambós. baseada numa atitude negativa frente a certos grupos sociais e informada por uma noção especifica de natureza. As diferenças raciais. portanto. representação historicamente construída entre diferenças pessoais e grupais. Ademais. relações raciais. benguelas. p. cabindas. 81-96). hereros. foram respaldadas e alimentadas pela ciência no Brasil no final do século XIX (SCHWARCZ. eram denominados por angolas. A realidade das raças limita-se. 2002. no centro do país. 9). modificado. da mina e moçambique. bem como. bakongos. entender a sua complexa tessitura informada pela escravidão indígena e africana. ovimbundos. o construto “raça” está vinculado a interesses e a circunstancias produzidas em determinado tempo e lugar.1 Para além. nhanecas-humbes. luandatchokues. acreditamos que não há raças. p. ngangualas. caçanjes. Os primeiros podem ser reunidos em nove grupos. é certo que sua ocupação foi efetuada por inúmeros grupos etno-linguísticos de origem bantos e sudaneses. 2002. de um conceito que denota tão somente uma forma de classificação social. mas sim.3 Os sudaneses aglutinavam os povos da África ocidental e que habitavam as regiões hoje denominadas Gana. entendidas dentro do marco da hierarquia.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII e culturais como diferenças naturalmente dadas.2 Nas matrículas de escravos encontradas no século XVIII em Goiás. Angola e Moçambique. ressaltar suas permanências e descontinuidades é entender que ele foi socialmente negociado. No caso dos sertões goianos. quimbundos e xindongas que viviam nos atuais Congo. Trata-se. Portanto. reinventado e re-significado. Segundo Rodrigues é impossível calcular de que 199 jul. Nigéria. ao mundo social (GUIMARAES. silenciado. Entender o seu percurso. Raça é um conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural. 2007 . Gâmbia. ao contrario. 1993). é preciso ainda. como algo indeterminado. pela imigração européia (PEREIRA. gentio da guiné. apropriado./dez.

o número deles. na época. Na Capitania de Goiás os iorubás ou nagôs e jejês como eram5 denominados nas matriculas oficiais de escravos são introduzidos pelo tráfico na região desde meados do século XVIII. um prelado do Rio de Janeiro. se levarmos em conta centenas de milhares de escravos que trabalharam nas minas de Minas Gerais ou em plantações de açúcar no Nordeste. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina onde se encontrava o forte de “ElMina” ou da “Mina” por onde os portugueses estrearam no comercio de escravos. 98-120)4. passando pela do Ouro. Sob o aspecto da quantidade de escravos africanos que vieram para Goiás no século XVIII. dado que a região era muito extensa. Desde 1633. pois se estendiam desde a Costa do Marfim. viviam nas áreas aonde eram apresados. Lourenço de Mendonça. havia determinado que todos os navios ou embarcações que chegassem ao porto de Santos fossem visitados. já que significava adesão aos valores religiosos e morais do mundo branco e propiciava grandemente a resignação à sua condição servil. para saber sobre os escravos traficados. não atingia a cifra de 40. até a Costa dos escravos.000. Por isso. n° 15 . face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. p. ainda que os registros possam camuflar a verdade. vol. pois essa conversão era vista como benéfica aos seus senhores. no auge da exploração aurífera documentada em 1792. 200 Revista Brasileira do Caribe. Um dado chama a atenção do estudioso: comparativamente. Essas regiões também apresentam um caráter vago.6 Quando aqui chegavam. não foi registrada. Comissário do Santo Ofício. vinham convertidos ao catolicismo. Goiânia. a maioria deles. se traziam livros proibidos ou se e vinham desobrigados7. VIII.Cristina Cássia Pereira Moraes data é a introdução dos nagôs no Brasil porque só no fim do século XVII se tornou conhecido dos europeus o poderoso reino de Ioruba (1977. a saber. de qual nação chegavam. era muito fácil fugir ou se locomover dum lugar para outro. certamente.

o julgado de Vila Boa teve 9. chegaram à Capitania de Goiás desembarcaram em diferentes portos. A maioria dos arraiais que desenvolvia a exploração do ouro de aluvião listou 60 a 80% da população composta por pretos. 276) aponta um montante de 10. Seis anos depois.328. o censo de 1789 registrou um aumento na população de escravos para 37.000. Salvador. Traíras com 3. faz parte de Minas Gerais e. São Luis do Maranhão. Alguns julgados. Em 1792. de Traíras para 5. sofreram aumentos leves. o censo aponta os seguintes números de escravos para a Vila Boa e os arraiais mais ricos: Vila Boa com 4. excetuandose os julgados de Cavalcante.713 cativos trabalhavam na Capitania. na época em apreço.599. pela primeira vez. 2007 .207. os dados oficiais registram a presença de aproximadamente 35. como o de Meia Ponte e Natividade.245 e Meia Ponte. Em 1779. pois demonstrou apenas que 17.000 a 17. Rio de Janeiro e.567 e Crixás com 1. a população de cativos de Vila Boa tinha reduzido para 8.309. O censo de 1804 confirma essa tendência descendente. Pilar com 1.000 cativos. Salles (1992. a saber: Belém do Pará. Karasch9 observou que o censo de 1783 estava incompleto. contudo.777. por registrar aumento da atividade de mineração em Pilar.000 escravos. p./dez. com 4. outro censo registrou a presença de 38. indicando a existência de 20. de 1733 a 1750. Os demais arraiais possuíam menos de 1000 cativos.027 escravos na região.533 escravos. e de São Félix para 2.790.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Com efeito. Os africanos que. Como demonstra o gráfico abaixo. o maior número de escravos já documentado na capitania de Goiás.568.200 escravos. Este censo é particularmente valioso porque revela um novo descoberto aurífero na região do Rio das Velhas. atualmente. no entanto. também. o que mostra uma ligeira tendência à diminuição da população escrava na Capitania.682. devido aos motivos acima apontados. seguido por Traíras com 6. Desemboque e Carmo que.8 Em 1783.689 escravos. Os outros tiveram menos que 3. 201 jul. Meia Ponte com 1. Neste censo de 1792. foram incluídos no citado censo. futuro Julgado do Desemboque que.

264 2. Maranhão e Bahia.567 997 1.000 8.967 1.432 8.575 3.839 1. Goiânia. 1783-1804. VIII.568 9.855 4.045 2.491 2.200 4. vol. de Parnaíba no Piauí e de Recife. Karasch suspeita que muitos africanos recém-chegados ao Brasil ficaram algum tempo em outras capitanias.000 1783 1789 1792 1804 Gráfico 1 – Número de Escravos na Capitania de Goiás 1783-1804 (A cópia manuscrita do censo de 1783 dá o número como 364 em lugar de 363.960 899 2.Cristina Cássia Pereira Moraes provavelmente. SalIes.207 1.777 1.444 1.689 Crixás Pilar Santa Cruz Santa Luzia Meia Ponte Vila Boa 0 2.000 4. antes de serem trazidos para as minas de ouro de Goiás.000 10.223 723 1.282 4.000 6.682 4. Economia e na de Escravidão da 202 Revista Brasileira do Caribe. O certo é que as principais rotas de entradas de africanos na capitania de Goiás eram pelo Pará. n° 15 . de de F. Os Escravos na Capitania de Goiás. Fontes: Gilka V.153 1. 660 Desemboque Das de Rio Velhas 2. como Minas Gerais e Bahia.261 277 299 634 2.

além de cativos. 277. Documento 2109 Reflexões Econômicas ficam sóbrio como Tabelas da de estatísticas da Capitania de Goyaz Pertencentes ao anuo de 1804 feitas de e nenhum de 1806. e Capitão da Geral da Capitania Goyaz Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério 29 julho 1792. KARASCH. . tecidos finos.2. Mapa em que o Governador. 11. inventários e termos de assentos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos localizados em Vila Boa. 170 escravos para Vila Boa. 19 de outubro 1790. Goiânia: CEGRAF/UFG. Mapa em que Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério. AHU. Rio de janeiro. Optamos em utilizar alguns registros de batismos. perfumes. ibid. 170) Um outro exemplo. vestidos. em 1765. traziam artigos e produtos importantes que por cá não havia. bacalhau. entre outros. p. Goiás. p. (MOTT. AHU. Seção Manuscrito.4. 1790-1798. podemos citar o comerciante.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Capitania Goiás. até o prezente anno d’ 1789./dez. e artigos de luxo. localizar e determinar especificamente a “nação” a que pertencia os cativos em Goiás é uma tarefa hercúlea. 1993. trouxe de Salvador. 1992. Esses comboios. 2002. Eram conduzidos por tropeiros que. pagando por cada um aproximadamente 80$000”. como utensílios e objetos de ferro.) Inúmeros comerciantes de Vila Boa organizavam grandes comboios para importarem cativos de São Luis do Maranhão e de Salvador. levavam em média três meses de viagem para chegarem a Goiás. em geral. 119. p. óbitos. começava no Rio de Janeiro e passava por Vila Rica e Paracatu em Minas Gerais. 2007 . Conforme os registros da Igreja Matriz de Santa Ana. Como exemplo. encontramo-lo num recibo de compra. caixa 35.10 Outra rota por onde os escravos chegavam à Capitania. Biblioteca Nacional. entre 1794-1827 entre adultos e crianças foram batizados: 203 jul.11 Como foi abordado anteriormente por nós. de 1793:“ Michaela Xavier de Aguirre deu 230 oitavas de ouro para Capitão Gaspar José Lisboa para ir a Cidade de Salvador para comprar três “moleques Minas”. sal. vinhos. João de Botelho Cunha que.

Diocese Goiás. 132). p. vol. Goiânia. livro 3.12 204 Revista Brasileira do Caribe. Arquivo Geral.Cristina Cássia Pereira Moraes Batismos de crianças escrav em Vila Boa de Goiás 1794-1810. as 6 angola mina crioulo(a) 5 moçambique 4 nagô buçá 3 desconhecido 2 1 0 17 94 17 95 17 96 17 97 17 98 17 99 18 00 18 01 18 02 18 03 18 04 18 05 18 06 18 07 18 08 18 09 18 10 Gráfico 2– Batismo de crianças escravas em Vila Boa 1794-1810 (Orfanato São José. Batizados. 1794 -1810 e KARASCH. n° 15 . 2002. VIII.

Na coluna “desconhecido” pressupomos que seria o batismo do “gentio”.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII : Gráfico 3– Batismos de escravos por gênero em Vila Boa de Goiás 1794-1827 (Orfanato São José. 132. p.. embora a legislação proibisse a escravidão dos índios13. pois./dez. Arquivo Geral. 2007 . Como exemplo temos: “Maria. elas ocorriam e estes eram incluídos nos registros. Cit. criança legítima de João 205 jul. Batizados. livro 3. 2002. Diocese Goiás. 1794 -18270 e KARASCH Op.) A maior parte dos registros de batismo e de óbito indicava o grupo étnico a que o escravo pertencia como podemos observar nos gráficos acima.

o Livro de Registro de Óbitos de Meya Ponte. a fim de evitar sua escravização no futuro” (2002. cigano. vol. quando podiam. AFSD: Livro Óbitos. mas. da terra. n° 15 m pr in a et na os gô da co s at nã na g ge o ola nt c io ons da ta gu de i ca gné en st ad tio at daer s Ira l da has te r cig ra an o . os párocos evitavam registrar uma criança indígena como escrava. gentio da guiné.14. Natividade e Porto Nacional. 135). foi batizada no dia 22 de fevereiro de 1818 em Santa Anna. relativo a 1803-1810. A título de exemplo. 1800-1827. o maior numero de registros. segundo Karasch. VIII. anota 834 escravos falecidos. apontam a origem étnica dos cativos falecidos na Capitania. conquanto se restrinjam a Natividade. Goiânia. Meia Ponte. 206 Revista Brasileira do Caribe. gentio. muito superficialmente. Infelizmente. das ilhas. (IPHBC: Livro de Registro de Óbitos de Meia Pontes. nada consta:15 Ó bitos1794-1834 800 700 600 500 400 300 200 100 0 total Gráfico 4– Óbitos 1794-1834. KARASCH. No entanto. Jaraguá e Corumbá e datem do início do século XIX. pretos da costa. os registros de óbitos. 1803-1810. nagô. p.Cristina Cássia Pereira Moraes Angola e Eugênia Índia Chavante. denominando-os como mina.

livro 3. (AFSD: Testamento de Marcelino Baptista Silva – Herdeiro: Manoel Teixeira dos Santos. página 48 v. 133. Diocese de Goiás. 43-43v.cit. Batizados.). op.. Livro Letra K – 1789 – nº012.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Mary. 2007 . Orfanato São José: Arquivo Geral./dez.) Um testamento de 1789 de Marcelino Baptista Silva cuja herdeira era N. p. m ina na g an ô go l re a b be olo ng u ca ela bi n m da un m oç j am olo bi q ile ue gi ve l 207 jul. p. 1794 -1834. Sra. da Boa Morte representada pelo procurador da Irmandade Manoel Teixeira dos Santos nos indica que aos fins do século XVIII a maioria de seus cativos eram mina como podemos observar no gráfico abaixo: T estam Vila Boa 1789 ento 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 H omens Gráfico 5 – Predominância de escravos mina. Goiás.

que durante o século XVIII. através dos censos efetuados na Vila e nos arraiais. nos termos de assento e anuidades dos membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Vila Boa. n° 15 . Sra. pardos e pretos livres. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1810). Do Rosário dos Pretos de Vila Boa. o número de escravos pretos era bem maior que o dos brancos. vol. do Rosário dos Pretos 1736-1810 60 50 40 Homens 30 Mulheres 20 10 0 17 17 35 36 17 39 40 17 44 45 17 49 50 17 54 55 -5 17 9 60 17 64 65 -6 17 9 70 17 74 75 17 79 80 17 84 85 -8 17 9 90 17 94 95 -9 18 9 00 18 04 05 18 09 10 -1 4 Gráfico 6 – Número de Irmãos e Irmãs na Irmandade de N. o número de escravos que fazia parte da associação era relativamente pequeno: Irmãos e Irmãs da Irmandade de N. com certeza. Ora. VIII.Cristina Cássia Pereira Moraes Sabe-se. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. No entanto. Goiânia. Sra. posto que essa Irmandade apenas aceitava cativos como 208 Revista Brasileira do Caribe. entre 1755 e 1784.S.

em Vila Boa. podemos observar que o numero de irmãos aumentou significativamente.16 Dois casos ilustram bem o que reza esse documento. Outrossim. nem a oportunidade de ingressar na Irmandade e se beneficiar da ajuda da mesma. para além de trabalhar para seus donos. rogava aos oficiais que obtivessem sua liberdade.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII associados. quando tinham família. devido às leis portuguesas de proibição à escravidão onde a maioria dos senhores de escravos os venderam para o Brasil. e não de compromisso. escravo do Capitão Dantas. do ano de 1764. o irmão Francisco. declarando que possuía um pecúlio de trezentas oitavas. dando primeiro hum fiador a irmandade que se obrigues pelo tempo que sejustarem satisfazer à dita Irmandade o que desembolçar e será este fiador eleito pela Meza e passará obrigação à mesma./dez. não aceitasse libertos como membros. escrava do Coronel Pacifico. o que geralmente acontecia com as mulheres . conforme o gráfico acima. podemos inferir de tal registro que bem poucos puderam nela ingressar como irmãos. ela não media esforços com vista a alforriar escravos: Havendo algum Irmão captivo que sequeira libertar a Irmandade lhe assistirá com oprecizo para se libertar. Em outro termo. Em termo de mesa. a irmã Zeferina. de 1775. curiosamente. não tendo nenhuma chance de ajuntar algum dinheiro. embora a Irmandade. de modo que. só produziam o suficiente para si e para os seus. Para mais. Estes. devido às quantias que eram cobradas pela entrada e por anuidade. Aqueles ainda tinham a ocasião de fazer serviços extras para outrem e 209 jul. os escravos urbanos da Capitania viviam melhor que os do campo. os demais negros podiam ser apenas irmãos de devoção.17 Apesar da terrível condição em que se encontravam. 2007 . da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. declarava ter quatrocentas oitavas de ouro e pedia que o tesoureiro da Irmandade indicasse um fiador para avalizar o restante da quantia a ser paga ao seu senhor por sua carta alforria. apenas na década de 1770.

. Mattoso20 observa que “se tornou hábito que o documento seja registrado em cartório em presença de testemunhas” (1992. Isso os 210 Revista Brasileira do Caribe. à situação de homem livre. para garantir seu direito.Cristina Cássia Pereira Moraes acumular um certo pecúlio para comprar a sua alforria18 e tal era o caso dos que exerciam ofícios específicos como os alfaiates. redigido por um tabelião. mas não registrado. sua moradia na cidade ou no campo. ou um documento particular. sua origem. gratuita ou onerosa. p. cujo anseio principal fora alcançar a liberdade. quando registrados em cartório. após sua morte. O documento ficava em posse do liberto. os pedreiros e até mesmo os simples jornaleiros. em caso de eventuais dúvidas. A fim de evitar contestações. de outro. tal ou tais escravos deviam ser libertados. por sua generosidade e. ou. Raramente encontramse dados sobre a profissão do senhor. para assegurarem suas vantagens. o senhor estipulava em testamento que. os motivos pelos quais era alforriado. motivada. as modalidades e as condições dessa libertação. a concessão da carta de liberdade ou de alforria. VIII. Mas “os. No primeiro caso. ou eram públicos. os nomes das testemunhas e a data do registro em cartório. o escravo passava ou simplesmente sub conditionibus.. cor. 659-695) No segundo caso. filiação.. No período em apreço. p. Todos esses dados reproduzem a vida dos alforriados. 177). pelos bons serviços prestados a si e à sua família. Eram as tais Cartas. aos escravos pelos senhores era sempre tida na conta duma dádiva de sua parte. As cartas de alforria eram instrumento legal. entre o senhor e ele. 1973. comerciavam-nos em outros lugares”. vir a obter a manumissão de seus senhores ou a coortação. As cartas de alforria nos fornecem vários dados interessantes: o nome do escravo que estava sendo libertado. porque estavam a buscar uma “graça divina”. isto é. caracterizavam-se por ser um acordo firmado “inter vivos”.. vendiam-nos a terceiros e de preferência.burlavam a lei. mediante o qual. apossando-se dos escravos e. podiam ser a “expressão da última vontade do dono”. a idade e o ofício do liberto. herdeiros não respeitavam as decisões. isto é. Goiânia. ou “a conquista de um favor no céu”. de um lado. bafejados pela sorte.19 (MORAES. vol. n° 15 .

as cartas de liberdade trazem prazos que vão de dois a cinco anos e o escravo vivia uma fase de transição entre a liberdade e a escravidão. no sexo.Mas a alforria. raramente. ao que tudo indica. o senhor do escravo registrava esta observação na própria carta de alforria. na maioria das vezes. O pagamento das parcelas e a definição do tempo de vigência dos contratos variavam e eram acertados entre as partes. nas suas qualificações. Em Goiás. Parece provável que parte das alforrias gratuitas tivesse relação com ligações afetivas” (1999./dez. Muitos senhores estipulavam o valor a ser pago. determinar as condições para o pagamento. proibiam-lhes reger sua própria pessoa e gerir seus bens. A coartação era um tipo de alforria onerosa. quando se tratava de cartas de alforria onerosas. porquanto. a situação do coartado se tornava particularmente delicada e. na idade. referido no contrato. os prazos constantes dos documentos desse tipo. certa segurança quanto à percepção da quantia acordada. consistia em o escravo obter uma semi-liberdade. Concernia a escravos adultos e. eram subjetivos. era baseado na saúde do escravo. Observa Aguiar que “as relações familiares representavam importante elemento neste processo.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII levou a denominar esse ato de “boa ação pela fé”. Na Capitania. 2007 . as condições do contrato eram cumpridas tal como foram originalmente acordadas. a maior parte deles estipulava o valor fixo das parcelas e sua regularidade. sem. No entanto. o pagamento pela liberdade era feito a prazo. No caso de retaliação posterior. 16) . porquanto. porém. 211 jul. e os motivos dos proprietários. herdeiros ou um procurador do falecido proprietário. isto é. no entanto. poderia ser revogada. assegurando desse modo. Um outro tipo de alforria. No entanto. o pagamento da alforria era efetuado por outrem. se o senhor morresse. Entretanto. em idade produtiva. em alguns casos. particularmente para as crianças. Essa revogação poderia ser feita por terceiros. oscilavam entre dois e cinco anos. o escravo devia pagar por sua liberdade. ou de uma só vez ou em várias prestações. gratuita ou onerosa. O valor pecuniário do escravo e sua alforria. aquela sob condições. ou seja. Poderia consistir na autocompra da liberdade. p.

de acordo com o que consta do seguinte documento: “Concedo a liberdade do escravo Terthulianno Crioulo de 70 anos gratuitamente 212 Revista Brasileira do Caribe. 1999. diretamente os corpos do senhor e do escravo. como amas-deleite. Goiânia. tiveram um com o outro. como a preparação da comida dos proprietários pelas escravas. 21-22). os escravos utilizaram diversas formas de resistência. ou por causa dos serviços regulares que prestavam. 75). p. entretanto. o senhor não efetivava a sua libertação.. portanto. decorreram. estes protagonistas. vol. igualmente. Mas. especialmente as gratuitas. de afeto e de intimidade entre senhores e escravos que não apenas contemplaram “os bons serviços prestados pelos escravos”. o cuidado e a amamentação das crianças brancas pelas amas. esmerando-se no cumprimento de suas tarefas. n° 15 . eles souberam aproveitar das oportunidades. Como sabemos. Aguiar ressalta que a flexibilidade era a regra no pagamento das parcelas da coartação e na definição do tempo de vigência dos contratos. recorrendo às sabotagens. (BELLINI. p. ou prestando-lhes e aos seus filhos. tendo investigado a situação dos escravos na Capitania de Minas Gerais. por exemplo. em geral. 1988. cozinheiras. a convivência estreita na mesma casa e até no mesmo quarto. favorecidos por situações que envolvem. p. ainda surgiam outros problemas entre o escravo e os sucessores daquele. VIII. às fugas. “serviços especiais” em seus leitos: Na realidade de jogos singulares de poder e sedução. decorrentes dum relacionamento mais próximo com os seus senhores. com vista ou a obter a alforria ou a tornar sua vida mais suportável. Muitas cartas de alforria. dessas relações de cumplicidade. as relações sexuais e filhos.Cristina Cássia Pereira Moraes ainda que as parcelas fossem pagas pelo coartado. 22-25) . a entrar na justiça para reivindicar o seu direito (AGUIAR. a revogação unilateral do contrato (1999. De fato. às rebeliões. que ocupavam lugares institucionais tão diferentes. então. obrigando-o. muitas vezes. se o senhor falecia antes que o mesmo se completasse. lavadeiras e etc.

ficando o restante a ser pago pelo dito escravo. as mesmas aludem a pagamentos e às obrigações da parte dos escravos. Todavia. consta a sua condição de coartado: Aos dez de Dezembro de mil oito centos e quatro falesceu com os Sacramentos da penitencia. embora possa parecer paradoxal conceder liberdade a um escravo em plena idade produtiva. tudo leva a crer que. havendo a Encommendação do costume. Em alguns registros de óbitos./dez. do 213 jul. e sepultado no Adro da Capella de Nossa Senhora da Penha de Jaragua. que concedo a liberdade pelos bons serviços prestados. embora a maioria dos senhores de cativos usasse a palavra “gratuitamente” nas cartas de alforria. devido a essas circunstâncias. ainda convém observar que. 2000. pelo valor da primeira parcela de cento e noventa e oitava de ouro. nascera em casa dele e. 2007 .69) mas. ele era estimado pelo seu dono. pelo amor que lhe tenho e por ele ser cria da casa.22 O documento abaixo comprova o que afirmamos: Eu. após sua liberdade. que entre os bens que possuo. em troca de alguma remuneração. p. o liberto.)23. ainda iria continuar a trabalhar para seu antigo dono. recebendo sua liberdade após o pagamento de sua dívida (.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII pelo valor de uma oytava e meya. devia prestar algum tipo de serviço ao seu ex-dono quem não era tão magnânimo quanto aparentava ser. importa ressaltar que.. no tocante a ex-escravos.. Por outro lado. neste caso como em muitos outros semelhantes. sendo o pagamento à vista pela minha livre e espontânea vontade. um escravo de nome Ignácio Crioulo. pelos bons serviços que me tem prestado”21. ou os nascidos nas casas senhorias (LEITE. Capitão Felipe Rodrigues Lisboa. se estenderam para além do mero ato de obtenção da liberdade. e extremaunção João Mina esravo coartado da heransa do falescido Jeronimo Gomes: seu corpo foi amortalhado em pano branco. durante certo período de tempo. abaixo assignado. Na verdade.

17551798) Uma outra situação. diz respeito a eles poderem ter escravos para os ajudar nos serviços que faziam ou vir a substituí-lo. ao escravo era proibido ser testemunha26. enfim. possuir quaisquer bens etc. relativa ao escravo ou ao liberto. fazer testamento27. herdar28. ser tutor29. o que se passava era o seguinte: face à predita segunda hipótese. bem como para burlar o imposto de capitação. muito comum no Brasil do século XVIII. Goiânia. no mínimo contraditória. Na verdade. com a qual nos deparamos ao fazer esta pesquisa. caso conseguissem recursos para obter a alforria. os senhores consentiam naquela situação de facto 214 Revista Brasileira do Caribe. sujeita de direitos. n° 15 Co Re m un Co ar ta .O Coadj or Joaquim Glz´ Dias Goulão. vol.Cristina Cássia Pereira Moraes que fiz este assento”. de acordo com a legislação em vigor. VIII. Ora.25 Alforrias 1794-1810 70 60 50 40 30 20 10 0 as da as as s total ui t at ad ul us Gr er c la m Gráfico 7– Tipos de Alforrias (AFSD: Documentos avulsos: Cartório do 1º Oficio: Testamentos. não sendo reconhecido como pessoa.

Por mais que a Igreja Católica tenha se preocupado em registrar os acontecimentos. ao se associarem às irmandades. de 1792. 1993. se comprometia. camufladamente. do Rosário e cumprir com suas obrigações pecuniárias é o sinal concreto de solidariedade e caridade cristã entre todos os membros. As condições sócio-econômicas e religiosas do escravo na Capitania de Goiás e a perspectiva de libertação que se lhe abria. meia libra de ouro: Aos 25 do mez de 7bro de 1792 – neste consistório de N.S. em que os irmãos decidiram assumir e pagar a coartação da irmã Maria Benguela. pelo prazo de cinco anos. Trata-se dum Termo de Mesa da predita Irmandade. p. arrematamo-las apresentando um documento bastante ilustrativo sobre isso. indicando o irmão Antonio de Melo e Vasconcellos como seu fiador. os escravos negros encontraram nelas um importante espaço de reorganização e reconstrução duma solidariedade étnica que se perdera.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII mas. p. tendo condições de associar-se à Irmandade de N. pouco foi preservado. Raríssimas vezes conseguimos encontrar os documentos em séries completas. a qual. conservavam a propriedade sobre tal escravo de escravo. de jure.Sra.30 Por conseguinte. fazendo valer seus direitos em pendências judiciais (ARAUJO. 28) a propósito. a pagar ao seu senhor./dez. do Rozario estando prezente o nosso Juiz e Escrivam e mais irmãos da meza concordaram q a irmã Maria Banguella posuia o direicto a quartação acertada em cinco annos com o fiador Antonio M Vasconcellos por meia libra de oiro o erão taobem a sua moleca de 5 annos mais ou menos. José da Silva Porto. ao serem trazidos do continente africano. Não perdendo de vista as observações de Aguiar (1999. inclusive os nascituros. 95). 2007 . em troca de sua liberdade e da de seus filhos. Infelizmente. 215 jul. em nossos arquivos a documentação sobre os cativos – quando a encontramos – aparece mutilada. desfigurada por causa de muito tempo de descuido e por incursões de traças.

p. por um lado. faz-se pertinente analisarmos a força da religiosidade dos pretos cativos. Não pudemos perceber obrigação. concomitantemente. do ponto de vista deles. cultuada tanto pelos índios como pelos africanos. mas de forma alguma sua religiosidade podia ser considerada como superficial e de aparência. recusando sua situação de inferioridade. 115-116). a identificação se dava inclusive pela divinização de elementos da natureza como a mata. para os de fora de sua cultura. pois conforme observou Quintão (1997. No segundo. Com efeito. tendo presente o contato que estabeleceram com as tradições dos índios e a dos luso-brasileiros. no tocante à religiosidade original dos negros. mas. por outro. VIII. reconhecido como o orixá Ogum. os pretos eram capazes de conciliar coisas que. de se tornarem pseudo-católicos31 fervorosos e convictos dos dogmas da fé cristã. conveniência ou compartimentação entre o catolicismo e a sua africanidade. tendo em vista a total impossibilidade de regressar às suas origens e. 1994. os quais. No primeiro caso. É importante destacar que a maneira do preto manifestar a sua devoção causava temor e incomodava aos brancos pelo apego às “exterioridades das celebrações”. p. que os brancos é que não sabiam exteriorizar a sua fé. os africanos depois de trazidos à força de sua terra natal e inseridos na sociedade luso-brasileira. 3-4). (JULIA. por exemplo.Cristina Cássia Pereira Moraes Ademais. Goiânia. possibilitaram-lhes tomar consciência de sua unidade étnica e proporcionaram-lhes expectativas transcendentes que minimizavam seu sofrimento interior e exterior. formularam e atribuíram novos significados à sua religião e ao catolicismo. de praticarem suas crenças e. o politeísmo africano se identificou com o politeísmo indígena e com o culto aos santos católicos. parecem contraditórias e inconciliáveis. é provável. pois mesmos os recém-chegados da África não eram impedidos. algumas semelhanças entre elas possibilitou um estreito diálogo32 e a circularidade cultural33. 216 Revista Brasileira do Caribe. o culto aos santos se relacionava de modo coerente com muitos mitos religiosos africanos. n° 15 . ao mesmo tempo. O certo é que. vol. tais como o de São Jorge.

o trabalho dos investigadores (MUNANGA. só muito dificilmente se distingue do Deus do catolicismo à medida que este sempre foi representado na pregação. fornecem dados preciosos. Em seu orgulho eles se rebelam contra Deus que. comentando: “as maravilhas de Deos. como os católicos. Mais tarde. p. sortilégios e magias. com muita perspicácia. no catecismo. os registros que alcançaram nosso tempo. em 1722. com exceção de um que. alem disso. Apesar disso.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Outrossim./dez. e como. grupos como os iorubás ou gegês acreditavam. os favores e mercês da Maria Santíssima. pois faz com a sua devoção se alegrem tanto os pretinhos. o mundo religioso dos escravos africanos era avesso ao profano e sua crença apoiava-se na simbologia do sagrado. 1987. em geral. De fato. Deus envia doze apóstolos que se comportam melhor. nos cânticos e nas orações como o criador do universo. dos anjos e dos santos dados aos homens como seus guardiões e protetores. como castigo. 2007 . pregam o evangelho e se tornam santos (HURBON. 47). efetivada nos vaticínios. porém. eles também preferiram guardar silêncio e continuar praticando seus rituais misturados ao Catolicismo. 1996. Infelizmente. se recusando a partir. o agostiniano. p. quanto à maneira como veneravam Nossa Senhora do Rosário. Deus envia a terra doze apóstolos. que parece huns doudos de contentes”: 217 jul. 102-107) Para mais. os manda para a Guiné. deixados pelos religiosos. frei Agostinho de Santa Maria ressaltava a generosidade dos mesmos nas celebrações das festas. que Deus é a chave da abóbada que sustém todo o sistema dos espíritos e de todas as práticas desse culto. Ele é o criador dos espíritos e dos santos católicos correspondentes e. admirado com a fervorosa religiosidade dos cativos. os senhores não tinham interesse em saber nada a respeito de tais crenças. hoje. se entrega a feitiçaria e se transforma em Lúcifer. Eles se multiplicam e se transformam nos loas. essa lacuna documental prejudica.

por excelência junto de Seu Filho Divino. Outros julgam que elas foram concebidas e organizadas visando a inserção dos cativos naquela sociedade. & não tendo nada. meramente. os estudos sobre esse assunto apontam para os fatos de que tais irmandades surgiram face às necessidades de se aliviar as pressões advindas duma sociedade competitiva. & captivos. faz-se pertinente buscar a origem da maior devoção dos cativos dedicada a Nossa Senhora do Rosário primeiramente. com que aquelles pretinhos servem à sua Senhora. 1947.. “a integração do homem de cor” – o que podemos chamar de estratégia de convivência harmoniosa ou de “auxílio mútuo”. no âmbito da sociedade escravocrata que acentuava a divisão social. em Portugal e depois para o sertão dos Guayazes. A partir de 1520. em Lisboa. & festejarem à Senhora. o fazem com tanta grandeza. perante a maioria branca. Segundo o referido frade. os escravos negros provenientes da África erigiram na igreja de São Domingos. as concepções de acordo com as quais Maria era a mãe de todos os desvalidos bem como de Jesus Cristo e a intercessora. Goiânia. não sendo vistas como que estimuladas. e propiciar aos seus membros um lenitivo religioso. pois sendo pobres. 86). uma outra constituída 218 Revista Brasileira do Caribe. Estudiosos do tema em apreço não estão em acordo quanto à explicação das possíveis origens das irmandades religiosas das pessoas de cor. Mais recentemente. que em tudo excedem aos brancos. VIII. p.34 Outrossim. e como um meio de enraizamento da comunidade negra nos domínios ultramarinos. esmerando-se muyto em levar a vantagem a todos os mais (. por motivos profanos ou seculares.. vol.Cristina Cássia Pereira Moraes He muyto para admirar a fervorosa generosidade. dominada pelos brancos. Alguns deles asseveram que elas surgiram com os fitos de difundir uma “falsa igualdade”. que possuam. isto é. para servirem. faziam com que as festividades em louvor à Virgem fossem quase uma epifania do transcendente que lhes causava imensa alegria. n° 15 . ao lado da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de brancos.) (SANTA MARIA.

a nova devoção mariana. de cento e cinqüenta ave-marias. Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e as quinze dezenas que se he 219 jul.37 Não obstante a sua origem medieval. 1961. aonde a milagrosa Virgem do Rosário era cultuada pelos marinheiros. como ocorreu no Porto. Sacramento. 261) Ela quase se igualou em importância à prestada ao Ssmo. p. 39-40) 35 Seus associados portugueses tinham como obrigação “remirem cativos. “lhe deram o titulo do Rosario. essa devoção encontrou guarida em igrejas e conventos de cidades e vilas e. que pode ser classificada como sincrética.Sra. Os negros. A devoção a N. 1976. dizendo que tal devoção surgiu quando os escravos foram “fazendo hum ajuntamento e pondo hua mezinha a porta da igreja e depois outra maior e mais dentro a maneira de confraria por onde se vieram alevantar”36. entre grupos sociais populares./dez. ao contrário. surgindo assim. os frades Pregadores ou Dominicanos. em Portugal. e consistia na recitação do terço ou do rosário. Tridentina e institucional. na Península Ibérica. 2007 .Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII somente por eles. isto é. quando os negros cativos adotaram a devoção a Nossa Senhora do Rosário. que he com que hoje ao presente he buscada e servida dos seus devotos pretinhos”. do Rosário. os brancos a abandonaram completamente e passaram a menosprezá-la. se revestiu com uma roupagem nova. “Sua recitação está intimamente ligada aos mistérios da Vida. (SCARANO. mesclada com o popular e afetivo. nessa época. (ENES. Alem disso. as irmandades. cada uma precedida do Pai-Nosso. dada a impossibilidade de os mesmos participarem da Irmandade de seus senhores. também passaram a criticar os frades Dominicanos por lhes terem permitido organizar uma confraria inteira exclusivamente com sua gente. divididos em quinze dezenas. à época da batalha de Lepanto. face à ameaça islâmico-turca perante uma Cristandade dividida por causa da Reforma Protestante Rapidamente. presos e casarem orfaons”. então. Entretanto. se intensificou sobremaneira graças ação religiosa dos Dominicanos. p. nela incluída a recitação do Terço. ligada a São Domingos e aos seus filhos.

de leurs associations. a Igreja não poupou esforços para integrar o africano. n° 15 . do Rosário dos Pretos de Lisboa observa que eles foram os primeiros a elaborarem – em 1565 . jamais ce dernier objectif n’atteindra au Brésil les mêmes proportions qu’au Portugal (2001. p. numa sociedade católica e branca. S. 448). No seu esforço de enquadramento religioso.Cristina Cássia Pereira Moraes devotam constituem rosas que. Sra. cette attitude provoque le dédoublement de l’association et la création officielle d’une confrérie noire sanctionnée par des statuts ratifiés en 1565(…) Ces statuts sont le prélude à la création d’autres associations organisées sur le même modèle. 18). do Rosário de homens “brancos”: Comme nous l’avons observé. Esses observam a vantagem de se congregarem em irmandades por “ser notoriamente o grande proveyto q resultara a conversão das almas q até os Reis Gentios mandavam esmolas para a confraria e pedião retabolos de nossa Sra. se consagram e se dedicam a Nossa Senhora” (AMARAL. assisteront et défendront légalement les intérêts des captifs contre les maîtres. Do Rosário”. Segundo o autor acima a ereção dessa irmandade é a primeira do gênero e seu Compromisso data de 1565. Goiânia. affirmeront leur identité.38 O pesquisador francês Lahon ao estudar a origem das irmandades de N. p. recém-chegado. Sra.um estatuto próprio que diferia do Compromisso da irmandade de N. Or. où les noirs auront le contrôle . conforme o primeiro levantamento populacional de Lisboa realizado por Cristóvão Rodrigues de Oliveira em seu Sumario em que brevemente se contam algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa em 1551: Há neste mosteiro de São Domingos sete confrarias. atraindo-o para as irmandades mais capazes de interessá-lo. em coroa se oferecem. mas. 1953. VIII.au moins théorique . a 220 Revista Brasileira do Caribe. vol. un peu partout sur le territoire.

são haussás. as contas dos rosários não eram constituídas por esferas polidas e iguais. sobre o próprio destino ou sobre a sorte no amor. do Rosário entre os cativos surgiu à volta de 1662 a 1668. Assim. Sra do Rosário no Brasil. são minas. hua de pessoas honrradas. período do reinado de Afonso VI (1643-1683) de Portugal. são tapas. durante a Idade Média. podemos analisá-la a partir do estudo de seus “Termos de Compromissos”./dez. O mesmo não podemos afirmar para a Capitania de Goiás.41 Geralmente. como se fosse um colar. p. mas por pequenas rosas esculpidas em madeira (1988. São nagôs. cujos sacerdotes desse orixá usavam o “rosário de Ifá” à volta do pescoço. era composta por africanos e crioulos e certamente tomaram como modelo a já centenária irmandade congênere de Lisboa.39 No Brasil. E a confraria de nossa Senhora do Rosário repartida em duas. De acordo com esse estudioso. são jejes. são bantus. no Recife do período do reinado de Afonso VI. Quanto à devoção à Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos que nos Guayazes. são mandingas.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII confraria de Jesus regida por pessoas nobres E principais cidadões. ao seu ingresso na mesma. recitado pelos irmãos. do Rosário. são bornus. eles a associaram ao culto anteriormente prestado ao orixá40 Ifá. 2007 . Angola. cuja devoção visava. começavam com uma exortação. a devoção a N. o mais provável é que a primeira irmandade de N. ou seja. reforçando o compromisso de adesão. atirando ao chão. Sra. pois o critério de união não é a nação e sim a procedência dos cativos que faziam parte da irmandade de N. Sra. a saber. soltas ou unidas em forma de rosário as nozes duma palmeira africana chamada OKpê-lifá. especificamente. Cabinda e Moçambique. são fulas. somente aceitavam negros cativos. dentre outros. Benquela. Segundo Tinhorão. em Pernambuco. O de Vila Boa é diferente dos “Termos” 221 jul. E outra de pretos forros e escravos de Lixboa. Para essa irmandade de Recife em Pernambuco o critério de nação entre os irmãos fica muito claro na documentação. 126-127) .

o que denota uma condição sócio-cultural melhor dos pretos escravos da Vila43. (. Goiânia.. todos os irmãos e irmãs colherão o fruto da Bem-aventurança”. está escrito que confraria e irmandade é a congregação de muitas pessoas que se sujeitam voluntariamente ao serviço de Deus e de Sua Mãe Santíssima. Entretanto. embora admitisse que brancos pudessem ser devotos de N. n° 15 .. ao especificar que as irmandades. São Jose do Tocantins e Trairas.. do Rosário.) o modo mais concernente para conduzir novos devotos a esta pia congregação e que pela intercessão da Virgem Mãe e Senhora do Rosário na vida eterna. reformulou o seu “Termo”. se comparada com a dos que viviam no interior da Capitania: Ao primeiro de Mayo de mil e sete centos e setenta e cuatro na Igreja de Nossa Snra do Rozario dos pretos da Vila Boa dos Guayazes estando congregado o escrivam que prezidia pelo 222 Revista Brasileira do Caribe. a de Vila Boa. vol. 1803. mercês e favores que cada instante esta. passando a aceitar brancos como irmãos. ficão sugeitos atoda a Ley deste compromisso”.como May de mizericordia a todos os seus filhos e dovotos. ao contrário das confrarias. e só se lembra deque todos forão remidos com o infinito preço de sangue de seu unigênito Filho. são as mais eficazes para a conservação dos Louvores dos Santos aos quais se consagram “e(..Cristina Cássia Pereira Moraes dos arraiais de Pilar. após. os quais “desde o primeiro dia em que nella se assentarem por serviço da mesma Senhora. Crixás. Conforme os dados registrados nos “Termos de Mesa” que pesquisamos. e ainda a aquelles que pela sua desgraçada conducta.Sra. só aceitava pessoas de cor e escravos como membros. VIII.) e depois de terem também nesta irmandade participado os copiozos prantos e incomprehensiveis benefícios. della senão lembrão e a mesma Senhora para os favoresser e amparar de tudo se esquece.42 Nos outros. 11 irmãos escrivãos e 8 tesoureiros letrados se revezaram no exercício dessas incumbências. entre 1748-92.. Essa Irmandade em geral..

um zelador.46 Essas irmandades construíram suas próprias capelas com as esmolas arrecadas com os irmãos. em caso de empate na votação sobre alguma determinação. acentuadamente../dez. p. doze irmãos e doze irmãs de mesa. 48 Todos os irmãos escolhidos para desempenhar os mencionados cargos. um escrivão.47 Compunham a mesa da Irmandade do Rosário de Vila Boa. De fato. porque rejeitando o que a mesma Senhora não hade permitir. 2007 . grassava entre os escravos que aí viviam (GAETA. um juiz e uma juíza. um tesoureiro. o seu voto decidiria a celeuma. de Trairas e de Pilar um rei e uma rainha.44. tanto por motivos administrativos e financeiros.se propoz que o dito escrivam permanessese no cargo posto ser o mior para a função q exerce juntoa Seu Senhor de caixeiro de fazendas secas dominando as letras e contas. quanto por causa do analfabetismo que. um andador. O Reverendo Capelão podia assistir às reuniões e. as Irmandades dos mencionados arraiais.. encontrando-se todas com “a devida dessencia e ornato que se precisa” sem ajuda da fábrica da matriz. mas assim mesmo se a Irmandade não quisesse aceitá-los serão “nomeados homens pretos para exercerem os ditos cargos” 45. se procederá 223 jul. tinham de obter “o seu beneplácito e consentimento da Eleição e cargo que os seus servos forao nomeados. sirvão dous homens brancos debom nome e inteligência para o governo e direcção da Irmandade em quanto não houverem homens pretos com sufficiencia para os referidos cargos. No caso da Irmandade de Crixás está explicitamente escrito: Como nosso estado e condição dificulta haverem pessoas capazes e inteligentes para servirem as occupaçoens de escrivão e thezoureiro.. aceitavam brancos apenas como oficiais escrivão e tesoureiro “por não dominarem as letras”. 102). um procurador. 1995. Os irmãos pagavam duas oitavas de entrada e uma de anual.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Irmão juiz. no ano em que estivessem ocupando cargos não pagavam anuais.. dos seus senhores.

o rei decidia com o seu voto. Se. um escrivão. era o eleito. apurados os votos. geralmente. bem como pela dedicação da pessoa ao exercê-lo. Irmãos e irmãs votavam secretamente e. o juiz e a juíza pagavam dezesseis oitavas. continuassem devedores. aquele que tivesse obtido mais indicações para cada posto. O procedimento em todas as Irmandades era bem simples. o tesoureiro. vol. seriam convocados perante a mesa para acertarem a quantia devida no próximo ano. se não quitassem seu débito em três anos. o escrivão. prevendo-se até um interstício de 3 anos. seriam expulsos. o procurador e o andador nada pagavam. que muitos dos demais irmãos de compromisso não pagavam “religiosamente”. expirado o prazo. um tesoureiro. n° 15 . As eleições para os citados cargos eram realizadas na véspera da festa de Nossa Senhora do Rosário. era justo que “selhe facão todos os suffragios por sua morte”. o tesoureiro e o procurador nada pagavam “pelo grande trabalho que tem nas referidas occupações”. A anuidade cobrada para se exercer os 4 principais cargos era de 24 oitavas de ouro. Embora a reeleição para tais cargos fosse proibida. O escrivão.50 Compunham a mesa da Irmandade de Crixás e de São José do Tocantins um rei e uma rainha. Constatou-se na documentação examinada. Aos escravos que obtivessem a alforria e fossem devedores “deva cobrar executivamente”. ocorria na oitava de Pentecostes.Cristina Cássia Pereira Moraes a nova eleição”49. por exemplo. abriam-se exceções.51 Aos fiéis pagadores. designados por irmãos rasos pagavam uma oitava de ouro. Os 24 irmãos e irmãs de Mesa pagavam três oitavas cada um e os demais irmãos. o que obrigava as Irmandades a tomarem algumas providências. Em caso de empate. a qual.52 224 Revista Brasileira do Caribe. exceto se o procurador justificasse que o devedor vinha passando por algum infortúnio e a mesa deliberasse postergar a quitação da dívida por mais um ano. VIII. dois procuradores e doze irmãos de mesa entre homens e mulheres. O rei apresentava à mesa três pretos capazes de exercerem o ofício de rei e demais cargos. face ao motivo supra-citado. sua anuidade. um juiz e uma juíza. O rei e a rainha pagavam a anuidade de vinte oitavas cada um. Goiânia.

arregimentar um número maior de associados e convocar as 225 jul. dançavam suas próprias danças próprias e cantam suas músicas ancestrais misturadas com as letras de cantos católicos (SCARANO. posto que é o dia consagrado em seu louvor.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII O capelão guardava os resultados consigo e. com o pagamento de uma multa pecuniária. eleito pela mesa. cujo valor era de “hua oitava do que tudo se ajustar”54. os reis e rainhas. no tocante à sua remuneração pelos serviços religiosos que tinha de prestar. no dia seguinte. vestiam-se com as opas brancas. o rei e a rainha. entregava-os ao sacerdote pregador da festa que os proclamaria após o sermão em louvor a Sra. Constam de todos os “Termos de Compromisso”. o juiz também tinha os encargos relevantes de cuidar da boa paz e sossego entre os irmãos. Quanto aos deveres dos dirigentes dessa Irmandade. rezar o terço aos domingos. todos os sábados. seria penalizado. Aliás. p. No outro dia. os juízes e juízas tinham de “tirar esmola com a Bacia”. nas celebrações religiosas. por auto-iniciativa. 1976. Sra. que o capelão da Irmandade. por isso mesmo. Era-lhe proibido modificar o “Termo” da Irmandade. Somente na de Vila Boa. os quais. se tributavam homenagem e respeito. à de Crixás. 44-46) . rezar pelos benfeitores da Irmandade e acompanhar à sepultura os irmãos falecidos. em 1 de janeiro. na continuação das festividades. o juiz e a juíza vestiam-se com opa e portavam a vara e. na Vila e arredores e nos arraiais e adjacências. como o ritual da coroação de seus reis e rainhas. no interior de suas comunidades ocupavam posição eminente e. 2007 . no que concerne à de Vila Boa. à de São José do Tocantins. tinha as seguintes obrigações: rezar missas pelos irmãos falecidos. do Rosário. sem a autorização da mesma e. os demais oficiais. começo do ano novo. à de Trairas e à de Pilar. se viesse a fazer isso. foi nas festas dessa Irmandade que os escravos mantiveram um bom número de seus antigos costumes e tradições. apesar de se vestirem à maneira do branco. delas já participavam revestidos com todas as insígnias de Majestade53. a ponto de. rezar a Ladainha de N. sempre estarem junto ao altar-mor./dez. Ademais.

apresenta algumas peculiaridades em relação ao da Vila e as outras. firmavam o “Compromisso”. cuidar.55 Noutro. Num desses livros. em caso de falecimento ou ausência de algum irmão. VIII. o irmão escrivão era o responsável pela guarda e conservação dos livros de registros da irmandade. inclusive. o cargo de irmão procurador dessa Irmandade. consta a proibição de o tesoureiro não poder emprestar a ninguém nem ouro nem os bens pertencentes às mesmas. radicadas nos arraiais. os ornamentos e as alfaias pertencentes à mesma. fazer procurações e segullas até mayor 226 Revista Brasileira do Caribe. vol. com a ajuda do escrivão. uma espécie de ata do que havia sido discutido e decidido em reunião. Goiânia. primeiro ao tesoureiro e. ao procurador. prática essa comum entre demais irmandades. os rendimentos da irmandade. inclusive.Cristina Cássia Pereira Moraes reuniões necessárias ao bem da irmandade. vistas nos capítulos anteriores. Livro da Fábrica . o escrivão anotava o nome dos irmãos que. Ele ocupava o segundo cargo mais importante da mesma e. n° 15 . conforme orientação do tesoureiro. cujas incumbências eram guardar e anotar nos livros apropriados. ao seu ingresso. Em todas as Irmandades. o escrivão registrava as eleições e “accordaons” ou termos de mesa. administrar as obras de construção ou de restauração sob encargo da mesma. depois. Num terceiro livro. radicada nos arraiais analisados. Estavam obrigados a cuidar do asseio da capela e.“ E concede ao thezoureiro e Procurador os poderes em direito necessarios para todas as dependencias da irmandade em Juizo e fora delle e para intentar cauzas. defendellas. bem como. da lavagem das alfaias utilizadas na celebração da missa e das opas dos demais irmãos. O terceiro cargo em importância nas Irmandades do Rosário era o de tesoureiro. Apenas a de Crixás delegava poderes de “fato e direito”. o tesoureiro exercia suas atribuições. anotava as receitas e despesas da irmandade. por exemplo. os bens. Do “Termo de Compromisso” da irmandade. aqueles provenientes das “esmolas de bacia” e outras mais. Entretanto. limpar e inventariar em livro apropriado. “declarava por cota ao pé do mesmo assento todos os annuais” devidamente registrados. no seu impedimento.

Os irmãos deliberaram e decidiram em reunião. por razão análoga. no “Juízo de Órfãos e Auzentes”. o procurador da Irmandade de Vila Boa a representava junto ao Tribunal da Real Fazenda. no mínimo curioso. conforme tivemos a ocasião de ver. estando o escrivão 227 jul. que ressalta a importância do cargo de procurador da Irmandade do Rosário da Vila. 2007 . como nos arraiais homens brancos “ornados e de bons costumes” ocupavam os cargos de escrivão e de tesoureiro. no tocante às demais. para que no Livro dos Assentos para não só anotar o falecimento de algum irmão.58Outrossim. registrado no Livro de Termos de 1791. com idêntica devoção. tendo os direitos de “appellar./dez.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII alçada”. dansão com diversos movimentos do corpo”.59 Um outro fato. embargar e seguir a sua justiça ate mayor alçada”. as responsabilidades do procurador. a partir dum acontecimento estreitamente vinculado às práticas religiosas sincréticas dos pretos.57 Pode-se notar a ligação e a ascendência da Irmandade do Rosário da Vila sobre as demais congêneres.56 Ora. bem como “passará recibo do dinheiro q receber dos alugadores das cazas e apresentar em Meza o q se fizer preciso”. Também devia cobrar a anuidade dos irmãos devedores. tratando de outras Irmandades. No entanto. determinou que o procurador não consentisse que tal fato continuasse a ocorrer na “irmandade irmã porque os envolvidos seriam remetidos aos seus Prelados para que este os corrigissem como mereciam”. que o procurador Manuel Gomes Alvarez admoestasse os irmãos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Crixás a respeito de um ofício emitido pelo Padre José Maria Santana Fernandes sobre as “dansas supersticiosas que os ditos pretos divididos em Nasçoens e com instrumentos proprios de cada hum. diz respeito à condição dum pretinho escravo oferecido à Nossa Senhora do Rosário: Aos trinta dias do mes de setembro de 1759. face ao motivo que aludimos antes. aggravar. bem como ajudar o irmão escrivão. equivalia às incumbências dos zeladores.

a saber. existentes nos arraiais.Cristina Cássia Pereira Moraes e mais irmaons da meza do anno nesta Igreja de Nossa Sra do Rdo de Villa Boa dos Guayazes. de acordo com a qual. ainda constatamos algumas particularidades que convém destacar.64 Finalmente. por ventura se fizessem necessárias. Jozé. para além desse 228 Revista Brasileira do Caribe. ainda. em caso de eventuais modificações que. se prometia ao prezente. Quanto aos demais irmãos de “mesa” das irmandades em apreço. se não vendesse e só o deixassem tomar carne para depois o vender por mayor quantia q. 62 Só na Irmandade da Vila havia o cargo de zelador. de onde partiam as normas e resoluções pertinentes aos interesses comuns de todas elas. antes. igualmente. tratando de outras Irmandades. de bons costumes e bastante devoto. ser um homem probo. Goiânia. Era um assalariado da irmandade e escolhido em mesa. de usarem a opa branca em todas as cerimônias que a mesma tivesse de estar presente. n° 15 . concernentes à legislação e ao compromisso. VIII. as Irmandades devotas dum mesmo orago. como tivemos a ocasião de verificar. E tomados os votos assentarão q. se propoz o que faser com hum cabrinha dado a Nossa Sra do arraial de S. não há um capítulo sobre como proceder.63 Devia. No concernente à Irmandade da vila. estavam ligadas à da Vila. somente o procurador podia ser incumbido desse ônus. tinham as obrigações de zelar por tudo o que condissesse ao bem e ao aumento da irmandade. vol.60 De fato. tentar fugir. por maioria dos votos dos irmãos. Ambos os documentos reforçam nossa tese. da leitura e análise de todos os “Termos de Compromisso” das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. nos relativos às dos arraiais. pois. ou pertencer a algum espólio de herança ou. porquanto apenas ele tinha competência para fazer “o mais em que se precisa especial e geral mandado de representação”61 e o moleque ou podia ser reivindicado por algum suposto dono. cujas incumbências principais consistiam em guardar as chaves da capela e cuidar do seu asseio bem como de seus ornamentos e guisamentos. eleitos para a mesma.

Há ainda um outro capítulo sobre os sufrágios pelos irmãos que. certamente. o que. por esse motivo. conforme vimos no capítulo anterior. por “estado de pobreza”. os quais. em determinadas ocasiões. embora não deixassem de invocar para tanto razões piedosas.65 Posteriormente. o que pode ser aceito como hipótese.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII capítulo. se sujeitavam. igualmente. tendo em vista a devassa aberta contra os mulatos da Irmandade de São Benedito. Entretanto. esse fato contribuiu para que. terá contribuído para aumentar o número de devotos de Nossa Senhora do Rosário. já no início do século XIX. tendo sido apenas irmãos de devoção que. 2007 . aquela Irmandade passasse a usar a capela do Rosário dos Pretos. sexo ou condição. terão à celebração de duas missas por suas almas. às leis da Irmandade. Quais os motivos que levaram os brancos a ingressarem nessa Irmandade após 1805? Como observa Scarano.66 229 jul. como os outros./dez. No entanto. como a igreja Matriz continuava a ruir aos poucos e era necessário encontrar um outro lugar para a celebração do culto. os irmãos observam: “que as vaidades do tempo são impessptiveis (sic) ao entendimento humano e pode acontesser a estas minas cresserem ou deminuirem as riquezas em que seja necessario deminuir ou agmentar as Leys do compromisso”. a presença de brancos passa a ser preponderante. conquanto isso não tenha implicado em que eles tivessem passado a ocupar os cargos de direção da mesma. a Irmandade da Vila passou a aceitar irmãos de qualquer idade. parece inegável que a sua presença representava uma forma de controle sobre os escravos. ao menos teoricamente. quando vierem a falecer. o 21º. o texto frisa que os negligentes com seus deveres pecuniários não gozarão desse favor. sobre a Irmandade do Senhor dos Passos de Vila Boa. Em seu Livro de Receitas e Despesas. pensamos que. deixaram de pagar suas mesadas.

vol.(SCARANO. n° 15 . 129-142) 230 Revista Brasileira do Caribe. doRosáriodosPretos deVilaBoanoiniciodoséculoXIX 30 25 20 Pretos liv res 15 10 5 0 1800-04 1805-09 1810-14 Pardos liv res Brancos Gráfico 8 – Devotos de N. 1975. Sra. gradualmente. Goiânia.S. Do Rosário no início do século XIX. O fato é que. no século XIX. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. VIII. Sra. a Irmandade já não conservava a antiga rigidez e.Cristina Cássia Pereira Moraes DevotosdaIrm andadedeN. “Das diferenças raciais passa-se pouco a pouco a uma acentuação maior das distâncias sociais independentes da cor da pele e ao aumento de pretos e pardos livres”. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1816). foi adquirindo novas características.

pp. VALE E SILVA. pp. Antiracismo: coletâneas de leis brasileiras (federais. Por isso. 2. Relativizando: uma introdução à antropologia social. competiam em igualdade de condições com pessoas mais bem aquinhoadas pela sorte. quanto de um relativo otium cum dignitate Notas 1 Para entender as relações raciais historicamente construídas no Brasil consultar os descritores que analisam: 1. estaduais e municipais). São Paulo: Companhia das Letras. Ricardo Ventura. (Org) Estratégias e políticas de combate à discriminação social. In: NOVAIS. 1999. 5. Helio. bem como os seus Livros. Yvonne. sempre foram elogiados pelos Visitadores eclesiásticos que reconheciam que. 1987. 1996. demonstrando um desejo de se igualarem aos forros. apesar de desfavorecidos. Aqueles a quem foi negada a cor do dia: as categorias cor e raça na cultura brasileira. 2007 .4.) Raça. São Paulo: Editora Oliveira Mendes. 1996. (Org.a questão da invisibilidade do negro em espaços sócioculturais e políticos: MUNANGA. 1998. São Paulo: EDUSP.) História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. L O espetáculo das raças: cientistas. instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. Guerra e paz: Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. Ricardo Benzaquén de. muito pelo contrario: cor e raça na intimidade. Nelson 231 jul. Lilia. mantinham suas capelas em grande ordem e limpeza. a de São Benedito. por exemplo. 225-234. 1998. 1994. Kabengele.a questão da democracia racial: ARAUJO. SANTOS. ciência e sociedade. Racismo e anti-racismo no Brasil. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo/ Editora 34. quanto aos ex-escravos alforriados pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. 173-244. tanto do ponto de vista dos recursos econômicos. 1993. Marcos Chor. Nem preto nem branco.as questões historicamente construídas entre mestiçagem e branqueamento: SCHWARCZ. Os irmãos cativos que não conseguiam obter a liberdade. passaram a pertencer às Irmandades que aceitavam os forros.A questão da cor: SCHWARCZ. MAGGIE./dez. São Paulo: Companhia das Letras. Fernando (Coord. SILVA JR.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Enfim. Roberto. Rio de janeiro: Rocco.a questão do mito fundador das três raças: DA MATTA. Antonio Sergio Alfredo. 6.a questão de anti-racismo: GUIMARAES. v. a de Nossa Senhora das Mercês e a de Santa Efigênia. 4. Rio de Janeiro: Editora 34. 3. Rio de janeiro: FIOCRUZ/CCBB. In: MAIO.

nos termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. vol. 1982.H. Goiânia.437 escravos e apenas 10% são nagôs. Em 1750 a Capitania possuía 14. o maior era formado pelos ovimbundos. rolos 10. 2005. Nancy.567. pp. 1803-1810. epidemias e grande número de mortos. da USP. 232 Revista Brasileira do Caribe. 6 A respeito do tráfico.Cristina Cássia Pereira Moraes do. 1994. devido a uma desestruturação interna na região tais como observa HERNANDES. 2005. Livro 329. Arquivo do Museu das Bandeiras doravante AMB: Impostos e Dízimos. Arquivo Frei Simão Dorvi doravante AFSD: Doc.e. 1977. London: MacMillan University Press. The Idea of race in science: Great Britain 1800-1960.. Visita à História Contemporânea.D. 5 Nas matrículas oficiais de escravos pesquisadas por nós. Rio de Janeiro: s. STEPAN. São Paulo: Companhia Editora Nacional. VIII.1-13. v. v. avulsos: Termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos 17381792.5. pp. p. Florentino (1997) observa que entre 1701 e 1800 foram exportados mais de dois milhões de cativos para as Américas. In: Microfilmes do C. Arquivo Histórico de Goiás doravante AHG: Documentos avulsos: códice 1129. Os africanos no Brasil. 4 RODRIGUES. 2 Dos grupos acima citados. Raimundo Nina. Na maior parte dos registros há um acentuado número de escravos de Moçambique nas primeiras décadas do oitocentos para Goiás. Uma nota sobre raça social no Brasil. novas invasões de povos do interior do continente e o aumento do tráfico internacional de escravos para o Brasil. p. Estudos Afro-asiáticos. registros de batismos e inventários encontramos entre os anos de 1750 e 1783 um aumento substancial no tráfico de escravos nagôs para Goiás. O segundo maior grupo era formado pelos quimbundos e o terceiro era formado pelos bancongos que ocupavam os territórios de Cabinda e as províncias do norte do país. 98-120. 3 Instituto de Pesquisas Históricas do Brasil Central doravante lPEHBC: Livro do Registro de Óbitos. falavam a lingua umbundo e ocupavam principalmente a província de Benguela no planalto central de Angola. 67-80. São Paulo: Selo negro. 5º ed. bem como. HERNANDES. nº 26. n° 15 . Leila L. A África na sala de aula. Cuba e os Estados Unidos. Em 1783 registrou-se 17613 escravos e 40% são nagôs.11 e 12. 588: grave seca que ocasionou além de fome.

1792-1799. p. posteriormente. p. nota 13. 10 (KARASCH. 233 jul.123 e entre 1791 e 1799 foram de 1. 8 Censos de 1779: “Tabela 1: População da Capitania Goiás em 1779. op. prosseguia até o registro do Duro. e p. finalmente. 100-101. Transformations in the American Diáspora. In: REIS. Karasch.208: Mary C./dez. 1987. England. 22 de Ju1ho 1793. São Paulo: Companhia das Letras. 53. 336. 162. p.117151. p. chegava a Vila Boa. de seu livro intitulado Central Africans and Cultural. 11 O número de cativos advindos para a Capitania de Goiás por essa rota em 1767 foram 1. Uma segunda rota para os comerciantes da Bahia passava pelos registros de São Domingos ou Lagôa Feia a Meia Ponte e. Mary C. Gilka SALLES. 1992. Outrossim.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 7 Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do tombo doravante IANTT: Mesa de Consciência e Ordens: Secretaria do Mestrado da Ordem de Cristo: Papeis do Brasil: Jurisdição Eclesiástica no Brasil. 127). Cambridge University Press. “Os quilombos do ouro na Capitania de Goiás”. 24 junho 1768. documento 1518. 1808 -1850. Códice 15: Capítulo 16. AFSD: Documentos avulsos: Cartório do Primeiro Ofício. Slave Life in Rio de Janeiro. a Vila Boa ou a Natividade. GOMES. aonde eram contados e registrados. p. p. na Cidade de Goiás e foram compilados por nós e pela Dra. Cruzava o Rio São Francisco em Barreiras. 2002. (Org) Liberdade por um fio. NJ. História dos quilombos no Brasil. Mappa de Contagens de Escravos. 2007 . Karasch. e AHU: caixa 24. 1996. Mary Karasch.. A rota percorrida pelos cativos de Salvador para Vila Boa passava Cachoeira. Capítulos da Visita: “Por ser obrigação nossa e do Officio Ecclesiastico Ordinário mandamos ao Vigário Ouvidor da Vara q hé e ao diante for nesta Vila q chegando aqui algum Navio ou barco de qualquer parte q venha o vá visitar como se faz em todos os portos de mar do reyno e saiba a gente q traz e de q religião e Nação são e q livros trasem e sendo depois da quaresma se se hão desobrigar no lugar donde vem”. Depois. 1767. Princeton. foi de primordial importância para nossa pesquisa o capítulo “Central Africans Central Brasil. nº 13. Cit. 242. 1780-1835”. Princeton University Press. João José. 9 Agradecemos à professora Mary Karasch que gentilmente nos propiciou todos os dados sobre os escravos na Capitania de Goiás. no interior de sertão da Bahia. 2002. 12 Os registros de batismos e óbitos se encontram no Orfanato São José. Flávio dos Santos. eram conduzidos a São Félix e.

livro 3.. p.(. despojallos de seus bens.) e depois das constituições em que ordenarão que se devião socorrer os infieis no melhor modo. vol. 1764. Batizados.Cristina Cássia Pereira Moraes 13 Biblioteca Nacional de Lisboa doravante BNL: Reservados 1972 5v: Breve do Papa Benedito XIV sobre escravidão dos índios do Brasil. levallos para outras terras. 1748. 17 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. 20 de dez 1741.. 234 Revista Brasileira do Caribe.169v.. Goiás.. VIII.) se atreva. n° 15 . e fazendas. que os sujeitassem a escravidões e que lhes maquinasse ou fosse dada a morte. vendellos.134 e 134v. nem attente daqui em diante fazer escravo os referidos indios... Parágrafo 6º. (. ou dallos separallos de suas mulheres e filhos. prohibindo debaixo de severissimas penas e censuras ecclesiásticas que se lhes fizessem injurias que se lhes dessem açoites. 1777: códice 1814: Capítulo 3. (.) mandeis afixar Edictos publicos pelos quaes apertadamente se prohiba debaixo de Excomunhão late sentente (. transportallos ou por qualquer modo privallos da sua liberdade e retellos em escravidão.) 14 Arquivo Geral Diocese de Goiás. tudo o referido não obstante. 15 Todos os dados referentes ao Livro de Óbitos de Meya Ponte foram transcritos pela estudante do curso de Historia da Universidade Federal de Goiás Maria Lemke Loiola. PIBIC-UFG – 2001-2003.. 1794 -1834. comprallos. Goiânia. folha 17v e 1775. mas até os mesmos que já se acham batizados e habitão nos Sertoens do mesmo Brasil. se achão agora principalente nessas regiões do Brasil homens que fazendo profissão da Fé Católica vivem tão inteiramente esquecidos da Caridade insufa pelo Espirito Santo nos nossos coraçoens e sentidos que reduzem a cativeiro vendem como escravos e privão de todos os seus bens não só aos miseraveis indios que ainda não allumiou a luz do Evangelho.1792: Termo de concentimento da Irmandade sobre a quartação do irmão Francisco. p. Orfanato São José. trocallos. que fossem metidos em cárcere. 16 Arquivo Histórico Ultramarino doravante AHU::Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás..

64.. que têm posses. (LEITE. 23 Livro de notas. acorram em auxílio do parente incapaz de juntar o dinheiro necessário à sua libertação. 18 O termo alforria é uma palavra oriunda do árabe ah-horria que significa liberdade do cativeiro. Cartório do 1º ofício de Vila Boa de Goiás. eram crianças ou obtiveram a liberdade. Maria Augusta de S. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. Os escravos alforriados por terem sido criados pelos donos. A alforria era um ato jurídico pelo qual o senhor por sua vontade concedia liberdade ao escravo. já adultos. São Paulo: Marco Zero/ANPUH. 1988: 80). 113. 24 A historiadora MATTOSO. marido. liberta a criança “achada” pois presumidamente é livre. já adultos. libertando também o cônjuge legal de um casamento. 19 MORAES .observa que pai.113b: 22 O fato de um escravo ser criança deve ter favorecido a conquista de afeto e atenção especial dos senhores. 1988: 80). Além disso.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII folha 32. madrinha. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. muitas foram beneficiadas pela fidelidade da mãe aos proprietários. isto é. mas cujo senhor parece disposto a alforriálo./dez.659-695. pp. O ex-cativo passava a ter capacidade jurídica e passava a exercer diversos direitos anteriormente inexistentes. os escravos que pertenciam a toda nação por haverem chegado ilegalmente após a abolição do trafico em 1850. p. (BELLINI. avós. ou ainda eram crianças ou obtiveram a liberdade. autorizando a liberdade dos “escravos de nação”. 2000: 15). 2007 .” In: Anais do VI Simpósio Nacional da ANPUH. 20 Somente no século XIX. “ O Abolicionismo em Goiás. irmãs. irmãos. se um dos membros do casal é livre. mãe. Exemplo: José Antonio da Silva abaixo assignado declara possuir entre os seus 235 jul. 1973. (BELLINI. a legislação definiu algumas normas que influenciavam na aquisição das alforrias. páginas 112b. liberta o escravo que encontra um diamante de grande valor e a mesma graça é concedida ao escravo que denuncia seu senhor contrabandista ou fraudador 21 AFSD: Documentos avulsos: Inventário do Capitão Francizco Pr ª Mendez . para ele.

livro 4. 31 QUINTÃO Apud. lhe concedo a liberdade pelo amor que lhe tenho. 236 Revista Brasileira do Caribe. 81. que aceitavam convictamente os dogmas e ensinamentos impostos pela hierarquia eclesiástica. 102. tít. parag. 81. “católicos praticantes autênticos”. tít. 27 Ibidem. 146. fl. livro 4. VIII. mas por indiferença e descaso espiritual. 1803-1810. referindo-se ao “panorama” religioso do Brasil.Cristina Cássia Pereira Moraes bens uma escrava de nome Felicidade de 20 annos. “católicos displicentes”. 4.S. muitas vezes incluindo em seu cotidiano “sincretismos” heterodoxos. freqüentavam os rituais impostos e controlados pela hierarquia eclesiástica mas que mantinham secretamente crenças heterodoxas ou sincréticas. animistas. concedendo sua liberdade de hoje para sempre. livro 4. (1995: 191). de S. os católicos praticantes superficiais”. 26 Ordenações. fl. Ensaios sobre a Cultura e Escravidão no Brasil. Letícia V. 1748-1792. 92. 4. 1996. p. classificou os colonos da seguinte maneira. que evitavam os sacramentos e demais cerimônias sacras não por convicção ideológica. 102 e 102 v. p. 29. n° 15 . 56. vol. libertinos e ateus que apenas por conveniência e camuflagem. 85. 28 Ibidem. tít. do Rosário de Villa Boa. Vagner G. faz referência a esse documento. mais como encenação social do que com convicção interior. liv. 2002. introdução do tít.195-210. introdução do tít. da e AMARAL. 25 IPHBC: Livro do Registro de Óbitos. 1. Lilia Moritz e REIS. Goiânia. 29 Ibidem. p. Por que o candomblé ?” In: SCHWARCZ. parag. “Símbolos da herança africana. KARASCH. Luis MOTT.) Negras Imagens. (1997: 175). filha de sua escrava Delfina. 30 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de N. e por desejar manifestar o reconhecimento pela dedicação prestada e reconhece a escrava como legitima filha. boa parte dos cristãos-novos. 18 de março de 1793. (Org. 3 e livro 4. Rita de Cássia. Maria Banguela. parag. “pseudocatólicos”. 32 Sobre o tema. que cumpriam apenas os rituais e deveres religiosos obrigatórios. para evitar a repressão inquisitorial. São Paulo: EDUSP. Cf: SILVA.

Carlos. In: Luso-Brazilian Review. 36 Ibid. nº 2.145. 17. Cambridge: Cambridge U. Devoção e Escravidão. Carta dos Mordomos e irmãos da antigua confraria da madre de Deos.147. “A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Pelourinho”. 160. P. As Religiões Africanas no Brasil. MS. p. BOSCHI. de Lisboa. 1980. 1986. RUSSELL-WOOD. São Paulo: Pioneira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2007 . KARACH. Esclavage et Confréries Noires au Portugal durant l’Ancien Régime (1441-1830). 38 IANTT: Livro de São Domingos. MS. O contexto de François Rabelais. p.30: Petição dos confrades e irmãos da antiga irmandade de confraria da madre de deos. 1707 a 1721. BASTIDE. A. R. Sumario em que brevemente se contem algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa. 35 IANTT: Livro de São Domingos. A paz nas senzalas. 1987.. O Sumário foi publicado também em 1755. Christovão Ruiz Rodrigues de. J. 37 Frei AGOSTINHO DE SANTA MARIA. Slave in Rio de Janeiro 1807-1850.30. v. FLORENTINO. Caio C. Mary. v. 54. Patrícia A. In: Clenardo e a sociedade portuguesa do seu tempo. L. 1976. MS. L. 34 Sobre essas análises ver: LAHON. s/d (Feito Creca de 1551 segundo cardeal Cerejeira. 1997. Brasília: EDUNB. OTT. José Roberto. Santuário Mariano. 39 OLIVEIRA. 1974. Manolo e GOES. SCARANO. In: Revista Afro-Asia. Roger. nº 4. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: Companhia Editora Nacional. 1968. Julia. E. também em 1939 pela editora Casa do Livro e em 1987 pela editora Livros Horizonte.” In: Hispanic America Historical Review. p. 2001. Didier. 1971./dez. Os leigos e o Poder. p.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 33 Entendemos a circularidade como uma interpenetração de diferentes elementos culturais a partir dos estudos de Mikail Backitin. São Paulo: Huicitec. nº 6-7. winter. 237 jul. (Tese de Doutoramento). Germão Galhardo. 1987. Lisboa: Pedrozo Galvão. 143. “Black brothers and sisters: Membership in the black lay brotherhoods of Colonial Brasil”. São Paulo: Ática. “Black and mulatto brotherhoods in Colonial Brasil: A study in collective behavior. MULVEY. Paris: Ecole Des Hautes Etudes En Sciences Sociales.

1796. n° 15 . escravo do Alferes Jose Manoel.Cristina Cássia Pereira Moraes 40 Orixá entre os iorubas e nos ritos religiosos afro-brasileiros significa a personificação ou deificação das forças da natureza ou ancestral divinizado que. escravo de Anna Paes. seu Senhor Vicentinho. sem especificar o nome dele.1792: como exemplo. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. Coronel Joze Boiz. Goiânia. por ocasião da entrada de algum membro. que serviu por seis vezes. obteve controle sobre essas forças. Termo sem titulo legível: página 16. 238 Revista Brasileira do Caribe. Luiz. 1748. em vida. 1777: Parágrafo 2º. serviu três vezes. Era um pedreiro empreendedor. 41 Documento lido pela irmandade em reunião fechada com os irmãos. temos como escrivãos. Leonardo. que serviu por nove vezes de escrivão e tesoureiro. ou seja. (a data de ereção é de 1734) 43 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. o qual serviu por quatro vezes. o qual também era Alferes. escravo do Capitão Dantas. era um compromisso moral e ético assumido por todos os que eram aceitos para participarem da irmandade. escravo do Vicentinho. é reconhecido como um guia. 1748: Capítulo 1: Composição da Irmandade. 1762: Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. 1762:Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. como tesoureiro: Francisco. era o caixeiro da loja de fazendas secas. 42 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. vol. Theodosio. João. AFSD: Documentos avulsos Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. 44 Ibid. Gregorio da Costa serviu por quatro vezes e não aparece sua profissão e somente em um termo de mesa há referência ao seu senhor. escravo do Tenente. de São José do Tocantins. 45 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. 46 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. pois arrematava obras e possuía dois escravos e serviu por sete vezes. VIII.

Trairas e São José do Tocantins para sabermos o número de irmãos que participavam das associações de pretos. 52 Ibid. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. Capítulo 4º: Das mezadas e sua aplicação. 1762. à volta de 1674 a 1675. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. Documentos avulsos. 55 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 2007 . thesoureiro. 2000:88) 54 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Capítulo 15. AFSD. as mais antigas referências documentadas sobre as solenidades de coroação de Rei do Congo.: Parágrafo 4º e 5º. Capítulo 3º: Da nova eleição dos officiaes. 1777: Capítulo 4º. não temos todos os dados dos termos de assento das irmandades dos arraiais de Pilar. sob responsabilidade da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário aparecem nos livros de despesa e receita.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 47 Infelizmente. Crixás. 1777. Documentos avulsos Termo de 239 jul. 1796. referindo-se ao Rei dos Angolas: os portugueses. 1796. 49 Ibid. 1777: Capítulo 4º. no Recife. parágrafo 5º. Capítulo 5. 53 No Brasil. Capítulo 2º: Da mesa e suas atribuições. passaram a englobar sob o nome de Angola tudo o que antes se sujeitara ao poder africano vencido no Manicongo. após duas guerras contra os reis do Congo em 1656 e 1666. 50 Ibid. 48 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 51 AHU: códice 1814:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás./dez. Capítulo 4: Das obrigações dos officiaes escrivão. (TINHORÃO. procurador. AFSD.

62 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 1748-1792. 1748. 57 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. Goiânia. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. Documentos avulsos. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. 71v. fl. Capítulo 10. parágrafo 1. parágrafo 2º. 61 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 1777. 1777: Capítulo 4º. Capítulo 4: funçoens dos officiaes. ao serviço divino 64 AFSD. 1796. 60 Ibidem. 1762. Capítulo 10. 1762. Capítulo 5: atribuiçoens do escrivão. 240 Revista Brasileira do Caribe. Capítulo 14. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. 1796.1762. 42.Cristina Cássia Pereira Moraes Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. 63 Guisamentos são utensílios e alfaias necessários ao culto. 1796. 1748. Villa Boa. 59 Ibidem. parágrafo 3º. AFSD. Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. AFSD: Documentos avulsos. vol. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. Capítulo 5: Das obrigações dos irmãos. VIII. fl. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos de Pilar. 58 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos. Capítulo 2º. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. n° 15 . 56 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás.

(Tese de Doutorado) AMARAL. 1993. Port-au-Prince. Vol. São Paulo: HUCITEC/FAPESP: Imprensa Oficial. abril. Capítulo 20. p.95. p. op. István. 2001. Emanuel. 1999. BACKITIN. (Org) Festa. nem mesmo uma capela pequena. São Paulo: Paulinas. Íris.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 65 Ibidem.I e II.. 361-396.18. p. p. 2007 . ou seja.” In: REIS. Brasília: EDUNB. ARAUJO. sempre cercada por outras associações religiosas de branços e localizadas no espaço interior das igrejas geralmente no primeiro altar da esquerda ou direita da entrada. C. T. L. ENES. Subsídios Históricos. Maria Fernanda D. 66 Um dado interessante sobre as nossas congêneres portuguesas: Em Portugal. Idéias Religiosas em História das Idéias. 2001.” In: KANTOR. Cf. “Le Vandou est-il une réligion polythéiste u monothéiste?” In: Bulletin du Bureau d’Etnologie. 1988. Marcos Magalhães de. de uma paróquia. Bibliografia AGUIAR. O deus da Resistência Negra. 1953. “Por amor e por interesse a relação senhor-escravo em cartas de alforria. “Festas e rituais de inversão hierárquica nas irmandades negras de Minas colonial. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. JANCSÓ. BELLINI. São Paulo: Huicitec. LAHON. Mikail. São Paulo: Edições Alarico. Paul E.” Actas del II 241 jul. de um eremitério. 1961 e HURBON. Laennec. T. ENES./dez. O contexto de François Rabelais. Todas as irmandades de pretos foram instaladas nas Igrejas de um monastério. Cit.75. perto do coro e muito longe do altar principal. p. Brasília: EDUNB. São Paulo: Brasiliense. Transgressão e transigência na sociedade urbana colonial. 1987. O Teatro dos Vícios. Marcos Magalhães de Negras Minas Gerais: Uma História da Diáspora Africana no Brasil Colonial. nenhuma irmandade composta por homens pretos construiu um lugar de culto. Cf. Maria Fernanda D. Aproximação à matriz civilizacional do ocidente cristão. (Org) Escravidão e Liberdade: estudos sobre o negro no Brasil. 447-512. Raul Joviano do. João J. AGUIAR. São Paulo: USP. Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa. Lisboa: Centro de História da Cultura. 2002. Os pretos do Rosário de São Paulo. 102-104. 1987. nº 5. “O Culto da cruz e do sangue na afirmação da Humanidade de Cristo no Portugal de seiscentos e setecentos.

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244

A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (17601776)
Maria Lemke Loiola Abstract
The orbital books in churches are sources little explored in the study of slavery. However, these sources contain relevant informations about the life of slaves: origin, cause of death, place of burial, links to religious groups and interpersonal relations. The analysis of these sources can help to understand some of the gaps that historiography of Colonial Goias regarding slavery. The access to eclesiastical sources, orbital books and ecclesiastical visits allow my study to address some issues about the slaves in Meya Ponte (under the name of Pirenolopolis today , Goias , Brazil) between 1760 and 1776. Keywords: Slavery, Social relations, XVIII Century, Dead

Resumo
Os livros de registro de óbitos são fontes pouco pesquisadas para os estudos da escravidão. Entretanto, eles trazem informações importantes sobre as vivências escravas: seu grupo de procedência (SOARES, 2002), causa mortis, lugar de enterramento, associação, ou não, às irmandades, bem como suas relações interpessoais. A análise dessas informações pode contribuir para minimizar as lacunas na historiografia de Goiás colonial referente à escravidão. Dialogando com fontes eclesiásticas, registros de óbitos e visitações eclesiásticas, o presente estudo aborda algumas questões acerca das vivências escravas em Meya Ponte (atual Pirenópolis) entre 1760 e 1776. Palavras-Chave: Escravidão, Relações Sociais, Século XVIII, Morte.

*Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 245-265, 2007

Maria Lemke Loiola

Resumen
Los libros de óbitos de las iglesias son fuentes poco investigadas en los estúdios de la esclavitud. Sin embargo, ellos traen informaciones relevantes sobre la vida de los esclavos: procedencia, causa de muerte, lugar de enterramiento, si estaban o no asociados a hermandades así como sobre relaciones interpersonales. El análisis de esas informaciones puede minimizar las lagunas en la historiografía de Goiás colonial referentes a la esclavitud. El diálogo con fuentes eclesiástticas, libros de óbitos y visitas eclesiásticas, utilizadas en el presente estudio, permite abordar algunas cuestiones sobre la vida de los esclavos en Meya Ponte, actual Pirinópolis, Goiás Brasil, entre 1760 y 1776. Palabras clave: Esclavitud, relaciones sociales, Siglo XVIII, Muerte

Há algum tempo assistimos o revigorar dos estudos sobre a escravidão colonial em suas múltiplas faces, em perspectivas regionais e menos totalizantes como sugeriu Britto (2002). Contudo, nos deparamos com alguns aspectos que podem dificultar nossa “aproximação” a um passado mais dinâmico, mais rico em sua cotidianidade. É o caso das fontes que, para análise de Goiás colonial, estão espalhadas em vários arquivos, além de muitas terem desaparecido nas brumas do tempo pela ação dos homens e dos “papirófagos” vorazes. Entretanto, nem tudo está perdido. A documentação eclesiástica tem sido bastante profícua aos historiadores interessados na vida dos atores sociais de um período mais recuado no tempo. Várias pesquisas têm renovado os olhares sobre a escravidão e nessa temática tem se destacado a religiosidade escrava. Termos de compromissos de irmandades têm trazido contribuições importantes sobre a organização dessas redes de solidariedade.1 Mas, se por um lado os compromissos podem nos ajudar a apreender os fundamentos e preceitos das irmandades, a ênfase na morte e a ajuda mútua ou empréstimo a juros; por outro, não nos dizem muito sobre a quantidade de homens e mulheres que nelas congregavam. Para a região de Meya Ponte2 até o presente não
246 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

A morte branca do escravo negro...

nos deparamos com registros que atestem o número de seus confrades. A preparação para a morte foi algo bastante enfatizado nos compromissos. Boa parte dos trinta e seis capítulos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte dispõe sobre o assunto. Por isso, neste ensaio, proponho os livros de assento de obituários como fonte a ser utilizada para verificar a abrangência e inserção das irmandades de pretos no contexto da escravidão. Assim, pode-se supor que houvesse muitos homens e mulheres preocupados com o bem morrer, buscando essas associações. Entretanto, o livro de assentos de óbitos de 1760 a 1776 nos mostra que do total de quase oitocentos óbitos, apenas 39 foram acompanhados ou enterrados por essas confrarias.3 É certo que os párocos freqüentemente omitiram informações e é possível que o número de acompanhamentos por irmandades aumente, mas seria um aumento pouco expressivo, da ordem de 2% do total.4 Quando compararmos estes assentos com o período de 1803 a 1810, percebemos que seu número dobra. De 1760 e 1776 temos uma proporção bastante próxima entre enterros feitos pela Irmandade do Rosário dos Pretos (17), destes, a metade era de escravos, e irmandades de brancos, como Almas e Santíssimo Sacramento (22); no período de 1803-1810, tivemos um total de cinqüenta e oito acompanhamentos/enterros feitos por irmandades. Nestes sete anos, o número de forros enterrados na capela do Rosário é significativamente superior ao de escravos, somente 10% do total de trinta e quatro enterros feitos na capela do Rosário foi de escravos.
Desse modo, não se pode dizer que para os escravos de Meya Ponte e adjacências fazer parte de uma irmandade fosse questão de vida ou morte. Mas, isto poderia evitar que abusos cometidos por “[...] alguas pessoas esquecidas de toda a humanidade christãa, [que] não escrupulizão em mandar enterrar no campo, e mato, os escravos, q’ lhes morrem, como se fossem animaes brutos, contra o antigo, pio, e Louvavel costume da Igreja

247 jul./dez. 2007

Maria Lemke Loiola

Catholica [...].”.5

Talvez, por isso, as irmandades enfatizassem tanto nos preparativos para a morte. Mas, enquanto uns enterravam escravos no mato, seja por incúria, seja pela situação de pobreza, havia ainda os que recorriam a mentiras para conseguir enterrar um escravo. Henríquez Ferreira Pinto manifestou ao padre Jozé Pires que gostaria de ter seu escravo João Angola enterrado na capela dos pretos por ser este irmão da mesma “[...] o que constou-me depois de ser ter dado a sepultura tal não ser, de que para constar fiz este assento.”6 Teria enganado o padre apenas por ser pobre ou por, mesmo na situação precária, manter relações de afeto com seu escravo? Se existiram brancos pobres, sem recursos que usavam de insólitas estratégias para enterrar seus escravos, também temos notícias de pretos “mina” que superaram a condição escrava e chegaram a fazer testamento e ser enterrado com toda a pompa fúnebre. Tal é o caso de Gaspar,
[...] homem preto forro de nação minna,[...], e Fez seu Testamento, em que declarou que o acompanhasse o seu Reverendo Parocho, e lhe disse no dia do seu falescimento, se podesse ser, missa de corpo prezente, e deixou mais ao alvidrio de seu testamenteiro, lhe mandasse dizer aonde lhe parecer, vinte missas, pela sua alma; e era cazado com Domingas Machado, crioula forra [...]7

Gaspar certamente teve vínculos com a irmandade do Rosário dos pretos. A proximidade de sua cova do altar-mor sinaliza um cargo importante na Mesa administrativa, o que lhe conferia certas prerrogativas. O preço pago para ser enterrado em lugar tão importante na capela do Rosário dos Pretos de Meya Ponte era alto. Gaspar deveria desembolsar vinte oitavas de ouro, caso não tivesse sido irmão “comum”, ou seja, nunca ter tido cargo administrativo.

248 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

Chamava-se Nicolao do Rozário e foi enterrado dentro da capela. a oito missas./dez. Não podemos afirmar seguramente. Como irmão comum teria direito a cinco missas. Casos de mortes violentas por armas de fogo. Provavelmente Gaspar viveu no núcleo urbano de Meya Ponte. o visitador Alexandre Marques do Valle determinava que no segundo dia após haver notícia de doença ou se a enfermidade se mostrasse grave. os párocos deveriam imediatamente administrar os sacramentos: “Porquanto pellas grandes enfermidades q’ cotidiannamente estão dando nos 249 jul. supomos que eventualmente ocorriam epidemias. Não seria o único a tê-los. Mesmo a Irmandade do Rosário dos Pretos. mas também às posses. o que lhe deu mais mobilidade e liberdade para conseguir juntar pecúlio e transcender a condição escrava. que aceitava “todos os fieis aque sua noção incita (. Pretoz. Houve senhores que perderam dois ou três escravos num pequeno período de tempo. raios e “acidentes de trabalho” são sempre descritos.A morte branca do escravo negro.] assim serão admitidos aella Brancoz.. pois muitos deixavam de receber sacramentos pela demora dos padres em percorrer a distância até o moribundo. 2007 .r qualide [. escravoz...) se exceptua Pessoa algua’ dequalq. Mas as moléstias que ceifavam muitas vidas em poucos dias continuam na obscuridade pretérita.... Na primeira visitação eclesiástica (1734). A maioria desses escravos morreu sem sacramentos. De igual modo não podemos chamar estes homens e mulheres libertos de coniventes com a escravidão por conservarem cativos seus semelhantes. teria direito.. no máximo. Seu testamenteiro teria que providenciar vinte. e Forroz (. Embora não saibamos o que levou boa parte dos homens e mulheres da região de Meya Ponte ao óbito. Como ocorria com a maioria dos escravos.. O fato de ter morrido com todos os sacramentos reforça a hipótese. picada de animais peçonhentos. dois a cinco dias. recebera o sobrenome do dono. É mais provável que o reconhecimento na sociedade estava relacionado não somente à cor. mas pela aparente condição alcançada por Gaspar é quase certo que também possuísse seus próprios escravos.)”8 tinha seu próprio escravo. se tivesse sido “juiz de mesa”.

digo.. deve acodir com promptidão. [.. estando distante. [. como porque se por sua culpa morrer o infermo sem confissão. quando cheguei o achei já morto. O visitador recriminava ainda as práticas comuns de enterrar no campo. se por um lado 250 Revista Brasileira do Caribe. VIII.. “pela grande distância”. n° 15 . A situação dos escravos não parece ter mudado ao longo do tempo.]”12 O dito vigário foi mais longe e não hesitou denunciar Luis Antonio Basto.] nação Mina escravo de Manoel Moreira de Carvalho. Jozé. vol. ou Capellão de capella filial.. que for chamado para confessar algum infermo. será castigado. ou em qualquer outro lugar onde serviam de comida aos cães9. que fica distante desta freguezia seis legoaz.. no mato ou jogar os corpos dos escravos no rio. destinado na tal paragem. segundo informação do padre que andou dezobrigando aquelle destricto [. Goiânia. não só por preceito de charidade. o vigário Joze Pires dos Santos Souza explicou no assento de Viscencia que “faleceu sem sacramentos por incúria de seu senhor. e caminhando toda noite para chegar ao citio aonde se achava o infermo. escravo adulto do referido Basto. e ainda naquelles q’ o não São [.. 48 no 204”.10 Talvez pela possibilidade de pagar multas por omissão encontramos frequentemente assentos como o de Gregório [. “morreu sem sacramento algum. poiz do assento não consta [ilegível] o senhor tinha dado só para lhe não pedir o Estipendio dos sufragios por ser acostumado a isto [. Segundo o padre..]11 Justificações como estas são ainda presentes em vários registros: “por morrer de repente”. como se de justiça fosse a isso obrigado.13 Mas.. Decorridos quase cinqüenta anos das palavras do reverendo Valle.]”.. Para se eximir de multas e reprimendas.Maria Lemke Loiola escravos. ou impedido o parocho.. e foi sepultado em hum lugar distado na tal paragem. o visitador João de Almeyda Cardozo volta a ameaçar: “Qualquer Sacerdote.] o qual morreu sem sacramentos. na forma das Comstituiçoens tit...]”. por que sendo chamado pelas seis horas da tarde.

Vários deles possuíam escravos empregados na extração aurífera e. Os senhores deixavam livres apenas os domingos 251 jul... em época de epidemias. os padres chegavam a enriquecer tal era o abuso com que cobravam os emolumentos.. p. decorrente de acidente de trabalho.”19 Se os óbitos ocorreram no domingo.. de uma só vez o reverendo José Pinto Braga16 perdeu três escravos enquanto mineravam numa cata. também perdiam seus investimentos.]”18 Jozé mina “estava andando a minerar em huma mina.... O mesmo tipo de morte. não foi muito incomum “[. conforme lembra Hoornaert (1992.. por assim dizer.r Religião [.es da Irmand. esses escravos morreram quando trabalhavam por conta própria. 2007 ./dez.e tudo pago pella porção em q’ Se ajustar com a Meza [. Miguel e Thomé eram escravos africanos.) que andando a minerar.. Essa subordinação também pode ser vista no capítulo do compromisso da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte que compreendia as obrigações do eclesiástico “[. em hum corrego lhe cahio na cabeça hum pao. e não houve Lugar para Se lhe acodir com os Sacramentos [.] acompanhara os Irmãos deffuntos com Sobrepelliz asistira as feztas e solenid. as irmandades manifestavam o desejo de manter os párocos como seus subordinados para celebrar festejos e missas. que o cobriu [. Em 1762.] qualquer Religioso de qualq.14 Talvez por isso.17 Apesar de não sabermos se Antonio..] quando lhe cahio em cima uma pouca de terra.. 282).]. buscando o próprio sustento ou mesmo tentando encontrar a pepita que lhes daria a liberdade..] e faltando a sua obrigação Sem cauza Se lhe dezcontara hua 8a por cada vez.. por vezes. por outro.] Jeronymo nação minna escravo (.. podemos imaginar que os padres estiveram entre os que não estavam muito preocupados com as condições de trabalho dos seus escravos.. A taxa tanatológica. leva ao alto preço cobrado pelos párocos por serviços funerários.. que para logo o matou. levou até mesmo os oficiais da Câmara de Vila Boa a denunciarem que..”15 Mas nem só de emolumentos e benesses cobradas exageradamente viviam os padres das minas de Meya Ponte..A morte branca do escravo negro. esta informação remete às recorrentes recriminações feitas aos senhores negligentes. [.

n° 15 . ainda assim nos informam sobre a diversidade das nações d’África que constituíam a escravaria da região de Meya Ponte e adjacências 252 Revista Brasileira do Caribe. esta afirmação já carregue a resposta para o motivo de haver tão poucos escravos presentes nas irmandades. acabaria por alagar a mina” (1976. aberto por cima. por respeito aos irmãos cativos. Acidentes de trabalho aconteceram e acontecem em todas as épocas e lugares. “Donde provem q’ os mizeraveis escravos não ouvem missa. 176). o que forçosamente. Talvez. que prohibe trabalharse naquelles dias [. apesar de.21 Se o tempo “livre” deveria ser empregado para o sustento próprio.. restaria pouco tempo para atividades relacionadas à religião. Naturalistas como Pohl. mas também desmoronamentos. vol. VIII. casamentos e óbitos. de modo que penetravam desimpedidas não só as águas do solo como as águas pluviais.Maria Lemke Loiola e dias santos. No compromisso confirmado em 1782. Goiânia. quem eram esses homens que extraíam o ouro? De onde foram trazidos? Tal pergunta pode. como sugere o trecho acima. sem querer.. O tempo livre para pensar nas coisas de Deus também poderia ser usado para criar laços de solidariedade e. redes de conchavos e conspirações. Acrescentar-se-ia que não haveria somente alagamentos. no rastro dos visitadores eclesiásticos. mais perigosamente ainda. o capítulo 7º da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte determinava que.]”20. Mas os soterramentos nos sugerem que o sistema de prospecção empregado não fosse o mais indicado para o tipo de solo local. Por isso. enfatizavam que a falta de princípios mineralógicos e interesse dos mineiros em melhorar as técnicas de extração levava ao abandono prematuro das lavras. São eles ainda que nos relatam algumas formas de extração do ouro: “o poço era inteiramente desprotegido. em parte. podermos chamá-los de relapsos e pouco cuidadosos. as reuniões de mesa ocorressem aos domingos. p. Quiçá. nem guardão o preceito da ley de Deos. ser respondida com as informações deixadas pelos párocos que registravam os batismos. Mas. Pohl tenha nos dado um indício de como trabalhavam e morreram os escravos do padre Jozé Pinto Braga.

ainda é aceita atualmente. não temos nenhum registro. os “benguela”. mas 253 jul. será difícil aproximarmo-nos de suas histórias. no trato com a questão racial e a miscigenação. está no casamento entre o castelhano Francisco Gonçalves e uma preta mina anônima. de gentio da Guiné”. Muito mais não sabemos deste casal. Na esteira desta afirmação podemos refletir como seria o cotidiano de uma família construída pelos laços entre dois continentes distintos? Uma pista para esta resposta ou. os escravos “mina” eram maioria.. Os “angola” predominavam na região de economia agropastoril. nos contar algo mais. Nina Rodrigues e Silvio Romero.22 Para Soares os estudiosos sobre o Brasil colônia se preocupam mais com a expansão dos povos europeus do que com a diversidade racial e cultural africana (2000. os “cobu. foram também os responsáveis por disseminar a idéia do que se poderia chamar de “homogeneidade da e na diversidade” que... Da mulher de Francisco Gonçalves sabemos apenas que era mina. p./dez. No período analisado (1760-1776). Quem sabe os registros de seus filhos possam. 2007 . dificultam sobremaneira a compreensão de aspectos da “estratificação social e suas representações nos primeiros séculos de nossa história” (1999. 22). p. mais próxima ao litoral. 23 Sabemos que “perpetuaram sua espécie”. seguidos de “angolas”.. algum dia. por incrível que pareça. É de se considerar que o número maior de trabalhadores “mina” esteja relacionado aos conhecimentos técnicos de mineração que possuíam. Será que este padrão também pode ser empregado em Goiás? A questão sobre as identidades étnicas africanas é bem recente na historiografia brasileira. ainda pouco investigada. entre os africanos encontramos os “mina” em maior número. Paiva (2002) constatou que nas regiões de Minas Gerais onde prevalecia a mineração. apesar de serem os precursores desses estudos. 26). Ronaldo Vainfas também alerta para os “equívocos e tabus da historiografia brasileira”. no século XVIII. os “caboverde”. Designação genérica que encobre não somente o lugar de onde veio. Por ter morrido sem testamento. a complexidade da pergunta. mais provavelmente.A morte branca do escravo negro.

inclusive a alma e o nome na infeliz travessia [. Em sua análise sobre a escravidão no Brasil Central. VIII. destribalizado. Entretanto. os costumes.. e crenças religiosas” (1992. “[o escravo] já chegava da África desestruturado de sua tribo. 77). Alguns receberem o sacramento do batismo na hora da morte por 254 Revista Brasileira do Caribe. dando tonalidade própria ao comportamento. daí a discrepância entre os censos e números dispostos ao longo do período colonial. vol. Goiânia. Moraes alerta que a grande maioria dos escravos africanos não foi registrada ao entrar na capitania de Goiás dada sua grande extensão. o autor recrimina o suposto “racismo ideológico” existente na academia responsável pela falta de estudos sobre a procedência escrava. Martiniano deixa entrever claramente sua postura em relação à escravidão e sua vinculação a uma historiografia tradicional que privilegia mais a violência da escravidão per se do que propriamente os saberes escravos e as múltiplas formas de sobrevivência empregadas no cotidiano. Salles nos lembra que: “Conhecidos apenas pela desdenhosa designação de negros. se espraiou nas relações sociais. modo de vida. assevera a predominância dos bantus no Brasil central. A bem dizer. Para Moraes.]” (SILVA. o que era interpretado pelos senhores como mostra de sua “resignação à condição servil” (2005). a seu ver. a religião. p. Por sua vez. assim. 2002. 230). em grupo. Neste trecho a historiadora goiana nos alerta sobre a importância de se desvendar as especificidades étnicas dos vários grupos que constituíam a população negra da capitania de Goiás. pautando-se em estudiosos como Arthur Ramos. suas características psico-somáticas se destacam. a língua. perdendo. Martiniano José Silva. Mais recentemente.. as artes. A afirmação parece demasiado generalizante. nos mostram os óbitos que sempre havia exceção. isso dificulta a identificação dos grupos africanos. Salientando sempre a violência que.Maria Lemke Loiola principalmente sua carga cultural e religiosa. no entanto. Lembra que os escravos já chegavam aos Guayazes convertidos ao catolicismo. n° 15 . p. se considerarmos que provavelmente Goiás recebeu vários grupos em diferentes épocas com objetivos específicos.

também mina. a recriação de suas identidades a partir dos novos laços tecidos no cativeiro. Mas. morreu “sem o sacramento da eucaristia pois era ainda boçal. Acreditamos que uma pesquisa pautada em diferentes tipologias documentais possa. Frota possuía escravos mina e angola. não significava que os mina desconhecessem a língua dos angola e vice versa. mas clarear as especificidades e identidades étnicas e como foram reconstituídas no longo processo de reinvenção dos saberes e. não recebiam sacramentos por “rude. por outro. se pensarmos que realmente houve uma diversidade de línguas.. o reverendo José de Frias e Vasconcellos durante uma visita eclesiástica. Pedro. mas certamente não foi o único. mais importante./dez. Provavelmente o sargento mor Antonio Rodrigues Frota usou o estratagema de misturar várias etnias.”25 Outros ainda. 2007 . Água Limpa ficava no termo da freguesia de Meya Ponte e Antonio Dias Ribeiro pode ter se beneficiado disso para manter Joze irregularmente. seja pela “rudeza. Em 1742. “ser ainda boçal e novato nesta freguezia Joze mina”24 É possível que Jozé tenha permanecido ignorante dos preceitos cristãos devido à distância que o separava de alguma igreja. Nesse processo de recriação de identidades a língua era de fato um elemento fundamental.”27 Designá-los apenas por seu lugar de origem/porto de embarque esconde a diversidade cultural que os caracterizou. também mina. ou pela diversidade de línguas. porém não se furtou de incluir entre eles alguns 255 jul. como Domingos. Da mesma forma. A diversidade das falas africanas pode ter sido empregada como estratégia para evitar conchavos e conluios entre os cativos. não devemos esquecer que essa diversidade nem sempre significava incomunicabilidade.”28 solicitando aos párocos fornecer instrumentos para catequização dos escravos. tanto em sua terra natal quanto na recriação sociocultural na terra brasilis. senão responder. e ignorante do que havia de receber”26 ou “alienado do entendimento. se queixou do pouco entendimento que os escravos tinham dos ensinamentos cristãos que recebiam.A morte branca do escravo negro.. Gestos e olhares certamente diziam tanto quanto palavras.

seja precipitado identificar a prevalência de africanos “Mina”. Não houve mudança no padrão de enterramento dos escravos: continuaram a ser enterrados no mesmo lugar: na capela de Nossa Senhora do Carmo. VIII. Não sabemos como eram as relações com seus escravos. Após sua morte. sua mulher. Contudo. cobus e crioulos. temos apenas três escravos “inocentes”. faleceu com seu solene testamento. crioulos e caiapós” reforça a idéia de que a diversidade de grupos foi uma estratégia utilizada para tentar evitar o surgimento de afetos e laços de solidariedade. mas houve épocas em que o sargento Frota perdeu até três escravos por mês. encontramos minas. vol. n° 15 . dona Antonia Ignacia Maria de Jesus passou a administrar os bens do falecido. mas nunca acompanhados por irmandade. os de Gregório Baylão foram enterrados no adro da igreja e também não tiveram vínculo com irmandades. crianças. p. contando também os que faleceram após a morte do sargento. ou seja. ser corroborada cruzando estas informações com os assentos de matrimônio ou batismo. do qual já falamos. é significativo que estes dados estejam em 256 Revista Brasileira do Caribe.Maria Lemke Loiola índios cayapó como “administrados”. ou não. É do mesmo autor a informação de que Gregório Bailão foi um eminente escravocrata de Meya Ponte. conforme informa Pinheiro (2002. Mas a “mistura de minas. recebendo sacramentos na medida do possível. Entre seus escravos. Goiânia. Foi acompanhado por todas as irmandades do arraial de Meia Ponte. Do total de vinte e nove escravos. O lusitano. Essa hipótese poderá. natural do Arcebispado de Braga. O sargento. De modo semelhante ao ocorrido com os escravos do sargento Frota. Um deles foi Jeronymo mina. angolas. foi alferes da Companhia e Guarda-mor das Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. Outro oficial que também tinha escravos de procedência diversa foi Gregório da Silva Bailão. É certo que com informações fragmentárias como as que temos. natural da freguesia de São Miguel de Alfama. angolas. 311). Esse pequeno número de óbitos infantis em relação ao de adultos sugere que os Frota talvez não tivessem o hábito de manter famílias escravas.

Talvez a distância de Goiás dos centros de poder favorecesse os hábitos relapsos dos párocos no momento de registrar óbitos. Desta forma. e a transplantarmos para Meya Ponte. são sempre mais completos que os de Goiás. 2007 . Ao compararmos as informações deste período com o posterior (1803-1810). 75). na documentação pesquisada.. a julgar pelos dados apresentados. De modo geral. é possível que os “angola” daqui também tenham sido empregados em atividades agropastoris. batismos e casamentos como podemos perceber nos documentos coloniais da capitania 257 jul. o direcionamento de uma economia anteriormente voltada à extração aurífera. pode ter contribuído para mudar a configuração étnica da população da região de Meya Ponte. 1998. 91). Poder-se-ia dizer que a ponte estabelecida por Soares entre a África e o Rio de Janeiro enriquece significativamente a interpretação sobre as identidades étnicas africanas estabelecidas no interior da sociedade colonial. E isso tanto para os casos de grupos africanos quanto dos nascidos na sociedade colonial. são qualificados como nações../dez. Os dados ora apresentados são ainda parciais e necessitam de estudos mais aprofundados. ao passo que “nação” é consoante às mudanças nas relações que os portugueses estabeleceram com os africanos. correspondentes a diferentes sistemas de classificação” (SOARES. o número de escravos “angola” supera aquele dos “mina”. consonância com o período no qual a atividade aurífera foi a mais representativa para a economia.A morte branca do escravo negro. veremos que neste último. se aceitarmos a constatação de Paiva. p. 2000. Contudo. Soares tem como fonte principal os assentos de batizados que. para a valorização da pecuária e agricultura. p. Ou seja. Os termos gentio e nação se referem a “universos semânticos distintos. O aumento do número de pardos e crioulos no início do século XIX nos dá uma pista de que a mestiçagem aumentou com o decorrer do tempo. O primeiro caracteriza os povos a serem convertidos. os africanos. à medida que o aumento do tráfico reconfigura as rotas e portos de embarque há uma resemantização e re-significação da África (SOARES.

eram conhecidos pelo nome de seu antigo senhor. No início do XIX. n° 15 .. e tenha sido mais lenta na escrita da documentação eclesiástica em relação à administrativa. “nação xicriabá” e. como “Thereza. “[. nas notícias que deu nos idos de 1774 ao secretário da Marinha e Ultramar. só muito raramente. prejuízos e distúrbios. Goiânia.. Jozé foi lembrado como escravo do defunto Francisco João Ribeiro!31 Mas a qualificação grupal não marcou somente os africanos. Pedro Angolla foi um dos que teve a vida abreviada “[..Maria Lemke Loiola dos Guayazes.. receberam denominações que variaram ao longo do tempo.32 Não só os autóctones causavam mortes. Apesar disso. preta forra de nação mina29 Acrescentese que. De modo mais emblemático. os livros de assentos de óbitos apresentam informações cada vez mais completas à medida que recuamos no tempo. dado o grande número de ataques que promoviam a arraiais deixando a população aflita pelos grandes prejuízos e mortes que causavam. comumente tratados com o eufemismo de “administrado”. 33 Segundo o capitão geral Jozé de Almeida e Vasconcelos. vol.]”. não mais como “nação”. selvagens e desumanos”. são sempre referenciados como “gentios da terra”. Talvez essa mudança esteja relacionada com os conflitos entre os “naturais da terra” e os portugueses. eles quase sempre são descritos como “gentios brabos. quartada escrava do Sargento Mor Carlos de Assupçam Ferraz [. Os escravos autóctones.. No século XVIII eram conhecidos como “nação cayapó”.] por ser morto pellos calhambollas com hum tiro que logo o matou [.. eles conservavam agregado ao nome o grupo ao qual pertenciam: Maria Dias. nação mina. Martinho de Mello e Castro. A assertiva de Soares de que a nação/procedência acompanhava o escravo/liberto até o fim da vida.. também pode ser empregada para aqueles que viviam em Meya Ponte.]”30.] com 258 Revista Brasileira do Caribe.. Nesta última. como lembra Salles (1992) . mesmo os libertos. em alguns casos. Os autóctones aparecem nos assentos eclesiásticos com maior freqüência no século XVIII do que em período posterior. gentio da terra. VIII. Mesmo depois de livres. na hora da morte.

não previo com a cautella ao menos sequer para ser confessado por amanhecer morto na cama. Paiva (2002). são agressores os negros fugidos e calhambolas. que a sua morte fora originada. encontramos um indício de que a mandioca mortífera comida por Jozé não foi um acidente: a diferença entre a mandioca mortífera e o aipim é reconhecida imediatamente “por qualquer selvagem” (POHL.. que mantinham relação estreita com a natureza.. mães escravas. porem da maior parte dos insultos.. Foi esse ouro lavado nas bateias e extraído de poços que garantia a riqueza dos homens vindos de longínquas paragens. 1976. Muitos perderam a vida dentro dos poços.A morte branca do escravo negro. de descaso de senhores negligentes. e que sem saber a cauza da sua morte. forras que possuíam seus próprios escravos. a autóctone e a africana... de tiros por vingança. encontramos vários registros de mortes violentas. também existiram mulheres: mães livres.] de nação Mina escravo do Furriel João de Campos Cardozo o qual morreo de repente sem sacramentos porque o mesmo seu senhor me disse. às vezes ela poderia ser preparada. outros. como os escravos. apoiado em relatos de viajantes. o que tudo pode afirmar o mesmo seu senhor [. como parece ter sido a morte de José: [. nos lembra que em Minas Gerais os escravos africanos utilizavam ervas para separar ouro e diamantes do cascalho nas bateias./dez. 259 jul... 2007 . quiçá premeditada. não trocassem informações e know-how acerca do poder das plantas do cerrado. indicando que nem tudo estava na maior tranqüilidade. 110). É difícil imaginar que duas culturas. mulheres de oficiais. solteiras que viviam sozinhas. p.35 Nas palavras preconceituosas do naturalista Pohl. que sem a menor duvida.]. Para além de mortes consideradas apressadas. Mas nesse universo. ou lhe sobreviera de ter no dia antecedente comido húa pouca de mandioca mortífera como ao depois da sua morte soube. tiveram a vida ceifada por morte súbita e repentina. em satisfazer com hum tiro á paixão alheia.. exceção de alguns vadios.”34 Neste livro de assentos. estão promptos pello mais pequenno premio. que registra os óbitos de 1760 a 1776.

em algum momento do passado que não nos foi dado saber. as relações entre os dois não cessaram depois da libertação. Maria morreu na casa do referido vigário. morreu na casa de seu antigo senhor. duas missas de corpo presente e mais quatro pela sua alma que o dito Francisco “se obrigou” a pagar. Felipa e tantas outras puderam contar com as amizades e afetos construídos ao longo de suas vidas. Do registro da paulista sabemos que teve relações com pessoas influentes. parda. Mostranos seu assento. depois de liberta. VIII. vol. Dizem ter sido muito pobre. Goiânia. não era prerrogativa masculina. Mas. que o mundo das bateias e das lavras. Provavelmente. como enfatizou o coadjutor Carlos Francisco Torre quando o registrou. de incertezas e de possíveis dissabores. possibilitaram a esta “pobre mulher” um enterro dentro da capela. Francisco Alves Mota. possivelmente se estreitaram com a liberdade. Provavelmente os vínculos que a ligavam ao padre. A viandante Maria veio das partes de São Paulo. Cada uma. 36 Felipa. n° 15 . Outras não tiveram a mesma sorte. Maria. como registrou o pároco Joze Pires dos Santos Souza. Embora não saibamos o que a uniu ao vigário de Santa Cruz. onde recebeu todos os sacramentos. moradora no sertão.. o leitor questione o título desta apresentação..Maria Lemke Loiola Maria Cordeiro de Jezus teve uma história diferente se comparada à maioria das mulheres. Maria parece ter vivido a aventura insólita da peregrinação para as bandas do sertão. depois dessas breves notícias sobre os mortos e os vivos de Meya Ponte. Se houve manifestações de pesar e rituais africanos. Bem ou mal e na medida do possível.. reescrevia sua história. elas foram muito bem 260 Revista Brasileira do Caribe. imagina-se que foi um laço mais estreito. os africanos sempre foram enterrados de acordo com os preceitos católicos. A jovem de pouco mais de vinte anos recebeu todos os sacramentos. e não somente a esmola por amor a Deus.37 Uma história das mulheres do sertão dos Guayazes no período setecentista poderia nos mostrar que nem sempre foram submissas. morreu na idade que “parecia se de perto de cetenta annos”. à sua maneira. Aparentemente teve uma vida longa.

1997. 1975. não pretendemos exaurir as discussões sobre a escravidão em Goiás. 2007 . Mas a história dos padres do sertão dos Guayazes merece ser contada em outro momento. Estes últimos muitas vezes estavam mais preocupados com a forma de angariar pecúlio em proveito próprio que necessariamente com o cumprimento das leis às quais estavam sujeitos... 1998. Boschi. fazer uma escala na África e outra em Portugal para novamente nos embrenharmos no caminho que leva ao passado do sertão dos Guayazes. pardos e negros. 2000. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 17361808. Notas 1 É considerável a produção bibliográfica sobre o tema. Lisboa: UNL. Sobre as irmandades de pretos ver especificamente o capítulo 5º: As irmandades de homens pretos. Para a compreensão da complexa relação e interação de diferentes culturas será preciso olhar para cada um desses lugares de onde vieram nossos atores sociais. Corumbá e Lavrinhas. 2002./dez. Cristina C. Em Goiás.. sem hierarquias. os trabalhos de Soares. MORAES. Neste ensaio. (Edição em CdRom). Experiências que não podem apenas ser apreendidas se permanecermos no pequeno arraial de Meya Ponte. 2002. Mott. este título quis lembrar um pouco da mistura cultural ocorrida nas Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte.A morte branca do escravo negro. Quintão. 1986. Será necessário atravessar o mar oceano. 2005. 2 Neste livro constam os registros dos arraiais de Santana do Rio do Peixe. P. destacam-se entre outros. o objetivo é levantar mais questionamentos e reflexões com vistas a fomentar os debates sobre as identidades étnicas e experiências escravas. destaca-se a tese de doutoramento da professora Cristina de Cássia Pereira Moraes na qual analisa as especificidades das 34 irmandades encontradas: brancos. Scarano.. Jaraguá. a partir de diferentes escalas. Da mesma forma. 261 jul. pelo contrário. resguardadas dos olhares dos visitadores eclesiásticos e padres.

72. vol. p.. 16 Idem. 13 Idem. p. 12 Idem. 1995. 56. 86. cf. Livro de registro de óbitos 1760-1776. 7 de Outubro de 1778. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte 1758. perdeu a faculdade de rezar missas e quaisquer outras 262 Revista Brasileira do Caribe. idem. 8 Idem. p. 1999. VIII. p. Gaeta. 86 verso. Cd-rom Projeto Resgate Barão do Rio Branco). Teria se retirado ou permanecido recluso? Se ele optou por ficar. p. 1758. O padre Braga foi um dos vários padres “convidados” a se retirar da capitania de Goiás em 1764. 5 Idem: Cópia da Primeira e última visita do Doutor Alexandre Marques do Valle. 38. também: Hoornaert. Reis. Subordinar o capelão parece ter sido um elemento comum de diversas irmandades e implicava sempre em relações de poder. Goiânia. visitador que foi das Minas de Goyaz. cópia. 23. 11 Idem. 4 Esses 2% aos quais me refiro são portugueses e paulistas acompanhados por “todos os padres do arraial”. mas não há alusão a irmandades. p. 7 verso. 9 Idem. Capítulo 2º. à Rainha Maria I. 1992.. idem. p. 5 verso. idem. Scarano. 15 Idem. 14 Idem. Consulta do Conselho Ultramarino. sobre a representação dos oficiais da Câmara de Vila Boa de Goiás.Maria Lemke Loiola 3 Aqui uso confraria e irmandade como sinônimos. p. n° 15 . Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte. (1734-1824) p. Estes portugueses e paulistas quase sempre morreram com seu solene testamento. 1975. idem. (A representação está entre os anexos existentes do documento nº 1939 e data de 16 de dezembro de 1773. livro. p. 7 Idem. 29. p. 54 verso. 4 verso 10 Idem. 6 Idem.. cópia..

em Minas Gerais e Mariza de Carvalho Soares. 4 verso. p. cópia. livro de óbitos 1760-1776. 13 verso. 25 verso.. 17 Idem. 19 Idem. 27 verso. 40 verso.. 18 Idem. 85 verso 21 AHEGO: Cópia do compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos das Minas de Meya Ponte 1782.. p. 32 A partir de meados de 1750 as chamadas guerras justas fizeram muitas mortes 263 jul. idem. 26 Idem. 8. p. Mas esta já é uma outra história. 24 Idem. 85. 20 Idem. p. atividades religiosas. 29 IPEHBC.. idem../dez.. idem. idem. cópia. 22 verso. p.A morte branca do escravo negro. chama a atenção para a necessidade de se repensar os conceitos e categorias subjacentes à questão.. p. Livro de registro de óbitos 1760-1776. 46 verso. 30 Idem. 28 Idem. idem. p. 8 verso. p. com olhares diferentes. idem.. 2007 . 36. idem. p. Cada qual. têm trazido reflexões importantes sobre a diversidade étnica dos africanos no Brasil e como cada etnia estampou suas especificidades na sociedade colonial. p. no Rio de Janeiro. 23 Idem. 27 Idem. p. 20. idem. Livro de registro de óbitos 1760-1776.. p. 2 22 Autores como Eduardo França Paiva. p. p.39 verso. 25 Idem. 31 Idem.

Documento n. 33 Idem. MOTT. M. C. 187-207. 67 verso. 37 Idem. Laura de Mello e (org). Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 1736-1808. temas e desafios 1990-2001. Goiás 1722-1822. 72. Ensaio de interpretação a partir do povo. vol. MORAES.. J. nº 2. 2005 (Tese). Petrópolis: Vozes. 35 Idem. Bibliografia BRITO. A historiografia da escravidão: tendências. José de Almeida e Vasconcelos [. J.. BOSCHI. 2002 (mimeo). Os leigos e o poder. VIII. 2.] sobre a administração civil e eclesiástica da capitania de Goiás [. Luis. p. E. idem. idem. J. “Bateias. Estrutura e conjuntura numa capitania de 264 Revista Brasileira do Caribe. ofício do governador e capitão general de Goiás.. GAETA. 2002. E. E. História da Igreja no Brasil. C. 1754. 66 34 Idem. 1997.. 1992. 4ª Ed. Lisboa: UNL. C. São Paulo: 1995. Franca. 23 36 Idem. pp. São Paulo: Companhia das Letras. idem. carumbés. In: PAIVA. “Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu”. HOORNAERT. p. L. São Paulo: Ática. PALACIN. 22 verso.Maria Lemke Loiola de ambos os lados. p. idem.F. & ANASTÁCIA. da C. Goiânia. PAIVA. p. V. C. A. 1986. P. 155-220. São Paulo/ Belo Horizonte: AnnaBlume/PPGH-UFMG. F.M. (orgs). barão de Mossâmedes. O “Livro para servir do caminho de Paraty” está repleto de informações sobre o assunto. n° 15 . Ê.] In: Catálogo de verbetes dos documentos manuscritos avulsos da capitania de Goiás existentes no Arquivo Histórico Ultramarino (1731-1822). 11-36. O trabalho mestiço: maneiras de pensar e formas de viver – séculos XVI a XIX. tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo”. p. da V. In: Revista de Estudos de História. et al. In: SOUZA. “Redes de sociabilidade e de solidariedade no Brasil Colonial: as irmandades e confrarias religiosas”. História da vida privada na América portuguesa. pp. São Paulo. C.

& PINHEIRO. F. miscigenação e questão racial: notas sobre equívocos e tabus da historiografia brasleira”. QUINTÃO. “Colonização. Devotos da cor. 3./dez. Tronco e vergônteas. 3ª Reimpressão. v. Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava. .. São Paulo: Cia das Letras. dezembro 1998. Trad. nº 6. A. de. 265 jul. M. 2002. Goiânia: Bandeirante. Anna Blume. A morte é uma festa. João J.C. Minas. Identidade étnica. 73-93. São Paulo: FAPESP. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura. VAINFAS. G V. Ronaldo. Goiânia: Kelps. SILVA. Milton Amado e Eugenio Amado. In: Tempo. SALLES. 1976. Goiânia: CEGRAF/UFG. M. In: RIHGB. Viagem ao interior do Brasil. Angola e Guiné: nomes d’África no Rio de Janeiro setecentista. de C. 7-22. p. PINHEIRO. 2007 . de C. São Paulo: Itatiaia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1999.. Goiânia: Oriente. de C. abr/jun 2000. SCARANO. v. SOARES. Z. religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro. século XVIII.A morte branca do escravo negro. de G. J. Lá vem meu parente: as irmandades de pretos e pardos no Rio de Janeiro e em Pernambuco no século XVIII.C. REIS. POHL. Rio de Janeiro. E. A. SOARES. 2002. 2003. 1999. Devoção e escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século XVIII. 1972. p. 2000. M. nº 8. Tempo. 4. 1975. 71-94. Mina. A. SOARES. Economia e escravidão na Capitania de Goiás. J. 161 (407). M. “Descobrindo a África no Brasil colonial”. J. 1992.

266 .

Keywords: Caribbean. adversity Resumo Desde a publicação da Biografia del Caribe escrita por Germán Arciniegas até a recente publicação de Respirando el Caribe. n° 15. this study emerges like one of the most challenging explorations of the Caribbean and its contribution to the study of the politics that support the regional development. but it offers an expression of the regional inequalities that exist in the country. Hoje a região do Caribe é. diversidade. diversity. there has elapsed more that sixty years in order to have an exhaustive compilation on the state of art of the studies on the Colombian Caribbean. um atraso das condições de vida de sua população. an underdevelopment of the life conditions of its population. vol. a região mais estudada da Colômbia. no meio desta situação surge como um dos desafios dos estudos do Caribe sua contribuição ao estudo de políticas para o desenvolvimento regional. uma exaustiva compilação do estado da arte dos estudos sobre o Caribe colombiano. adversidade *Artigo recebido em janeiro e aprovado para a publicação em abril de 2007 267 Revista Brasileira do Caribe. mas apresenta. como manifestação das desigualdades regionais que existem neste país. 2007 . Palavras chave: Caribe. Within this context. A inserção em um mundo globalizado e as políticas públicas orientadas para uma maior descentralização não logram mostrar os resultados esperados. Colômbia. Its insertion in a globalized world and the public politics towards a greater decentralization do not succeeds in showing the expected results. sem dúvida. 267-281. Colombia. Today the Caribbean region is undoubtedly the more studied region of Colombia. VIII.Estudios del Caribe en Colombia Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives Abstract Since the publication of the Biografía del Caribe written by Germán Arciniegas until the recent publication Respirando el Caribe. se passaram mais de sessenta anos.

VIII. en medio de esta situación surge como uno de los retos de los estudios del Caribe su contribución al estudio de políticas que contribuyan al desarrollo regional. diversidad. el cual es un páis de regiones geográficas y culturales con profundas disparidades en lo económico y el desarrollo social entre ellas. Hoy la región Caribe es sin lugar a dudas la región más estudiada de Colombia. tres veces. Es compartativamente más grande. Colombia. vol. un territorio marítimo en el Caribe de más 570. han transcurrido más de 60 años. pasó del 10% al 22% entre el comienzo y el fin del siglo XX. Palabras clave: Caribe.444 km² de territorio continental = 12% del territorio nacional). 268 Revista Brasileira do Caribe. buena parte de las prioridades investigativas son producto de las particularidades de este caso particular: el Caribe colombiano es una región subnacional de Colombia. una exhaustiva compilación sobre el estado del arte de los estudios sobre el Caribe colombiano. al tamaño de un país como República Dominicana. El Caribe colombiano lo conforma un territorio (70 km² de territorio insular y 132.000 km² y una población cercana a 9 millones de habitantes. pero presenta.Alberto Abello Vives Resumen Desde la publicación de la Biografía del Caribe escrita por Germán Arciniegas hasta la reciente publicación de Respirando el Caribe. Porcentaje de la población creciente. 22% de la población colombiana. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. adversidad Preámbulo Es muy importante en este escenario recordar algunas características del Caribe colombiano que sirven de marco para entender la evolución de los estudios del Caribe en Colombia. En efecto. un rezago en las condiciones de vida de su población. n° 15 . con una población similar.

una población indígena importante (ver caso wayuus en la Guajira. El Caribe de Colombia posee una población mestiza en la que se conjugan la herencia africana. Tradicionalmente./jul. de los distintos resguardos). valles. se enseñan en la escuela los límites terrestres Panamá. Jamaica. Perú. 2007 .. ambas comunidades binacionales. podría decirse que es un Caribe “atípico” (donde no hubo plantaciones). El Caribe en Colombia tiene una economía que con las reformas neoliberales de los noventa perdieron participación nacional el agro y la industria manufacturera. República Dominicana. gas). Es el mar Caribe el que le da la vecindad a Colombia con Venezuela. Cuba) pero que se pierden en gran medida con la independencia de Panamá. Una región que aun se nombra como Costa Atlántica (Colombia es un país de dos costas. se hace referencia a la Caribe). Entre los aspectos históricos. Brasil y Venezuela. una gran depresión. y de manera particular. áreas inundables. Jamaica. con vínculos históricos con las islas del Caribe (Santo Domingo. sabanas. Nicaragua. el macizo montañoso nevado a orillas del mar. es la región donde muere el Libertador. pero cuando se habla de la Costa. tres puertos) y la minería (carbón. Costa Rica y Panamá. la región por donde entra la modernidad 269 jan. Tiene hoy en día una economía dinamizada por el sector servicios (principal región turística de Colombia. el archipiélago en el Caribe occidental.Estudios del Caribe en Colômbia. Ecuador. que tuvo el primer puerto esclavista durante el período colonial habiendo dejado profundas huellas en el patrimonio cultural (tangible e intangible). al verse como país andino. los indígenas de la Sierra Nevada.. Haití. los Cuna en el golfo de Urabá. a diferencia del resto del Caribe. es la región donde se inicia el poblamiento de la hoy Colombia (conectada con Santo Domingo). Con una alta población afrodescendiente. Es una región diferenciada y diferenciable del conjunto nacional por sus atributos naturales y culturales. Honduras. Entre los naturales se encuentran un desierto. hispana e indígena. Curazao. 6 % de la población se reconoció como indígena en el Censo de 2005 y 14% como afrodescendiente.

más avanzada. con una caída de los empleos calificados. n° 15 . dos lenguas criollas y 8 lenguas indígenas de familias lingüisticas caribe. precisamente. así como los procesos identitarios y el reencuentro con el Caribe al que pertenece por sus rasgos geográficos. Con ingreso per cápita por debajo del promedio nacional. el rezago relativo. mayor concentración económica) y esta región. porro).Alberto Abello Vives al interior del país con el auge de Barranquilla (finales del XIX y principios del XX). literatura y plástica que han sido aceptadas como expresiones nacionales y hacen parte del panorama artístico reconocido de Colombia en el exterior. chibcha. Mantiene una viva cultura popular. con un profundo atraso relativo. El Caribe es en Colombia una región rezagada del conjunto nacional. En una brecha creciente a pesar de las reformas que anunciaba que sería la región más favorecida con los cambios. arawak y chocó). vallenato. vol. históricos y culturales. En una ciudad como Cartagena de Indias el 10% más rico de la población percibe el 50% del ingreso generado en la ciudad y el 10% más pobre solo recibe el 1% del ingreso (año 2000). VIII. una región que a la vez reclama su pertenencia al Caribe y promueve su redenominación: Caribe colombiano y no Costa Atlántica. con manifestaciones musicales (cumbia. Sus rasgos culturales derivados de procesos de poblamiento intervenido por las ocupaciones hispanas y puritanos ingleses arroja hoy en día la existencia de 11 lenguas vivas (español. Tiene indicadores sociales de educación y salud deficientes. Es una región con una profunda desigualdad social. andina. Los estudios del Caribe en Colombia tienen como marco. 270 Revista Brasileira do Caribe. Es un región con grandes retos: el reto de la superación de pobreza. por debajo de los promedios nacionales y una inmensa porción de la población por debajo de la línea de pobreza (cerca del 60% de sus habitantes). el atraso. con una creciente informalidad. Una tasa de desempleo del 15% en las ciudades como Cartagena. las tensiones entre la Nación (centralista.

..Estudios del Caribe en Colômbia. Voces como las de Manuel Zapata Olivella. El conocimiento del Caribe colombiano La Biografía del Caribe de Germán Arciniegas no sólo fue el libro colombiano más leído en el exterior antes de Cien años de Soledad. de espaldas a la realidad atroz. De Cristobal Colón a Fidel Castro. quien retrata un ambiente aldeano y decimonónico. con la globalización esta región no ha sido favorecida. seguía jugando a enmascararse en el ámbito europeo. 2007 . Álvaro Cepeda Samudio. situación que marca no sólo ciertas líneas y tendencias en el campo de la investigación sino que compromete el desarrollo de la educación superior. Héctor Rojas Herazo. cuya elite. ese extraño. La modernidad de la indagación provino con la obra poética de Luis Carlos López. Allí está tal vez la génesis del pensamiento sobre la región. Pero no fueron las ciencias sociales en el Caribe colombiano las encargadas de indagar por la tierra que habitamos. austero y formidable bizco de las letras cartageneras. sino todo un esfuerzo integral 271 jan. Los primeros intentos los encontramos en ensayos y artículos de prensa de líderes de la independencia que se preguntaban por las características del hombre y la vida de la región. Gabriel García Márquez no fueron nunca aficionados superciales henchidos de tropicalismo. Esta Biografía (1945) antecedió a los libros casi homónimos de Juan Bosch y Eric Williams. Son la literatura y el arte de mediados del siglo XX los que salen al encuentro de la realidad de esta región. como llamara el mismo Arciniégas a nuestro mar Caribe. esta gran obra incorpora a la academia colombiana el estudio del Caribe y se convierte en el referente obligado de la comunidad científica de la segunda mitad del siglo XX que ha salido al reencuentro de ese “charco violento por donde se han paseado todos los huracanes”. no hace parte de las regiones ganadoras en el proceso de inserción nacional en esta economía contemporánea. Por otro lado./jul. De Colón a Castro (1969 y 1970 respectivamente).

en distintas etapas y con mucha fragilidad. Ocurre una dinámica que convierte a la región en la más estudiada de Colombia: desde la historia. la sensibilidad y la información por desentrañar los rumbos. contribuyeron en la búsqueda por ilustrar las culturas populares y la naturaleza caribe los artistas plásticos Alejandro Obregón y Enrique Grau. las demás ciencias sociales. el Centro de Estudios Económicos Regionales del Banco de la República en Cartagena de Indias. bajo el empuje brindado por un organismo regional de planificación cuando comienza con entusiasmo la siguiente etapa de estudios sobre la región. los rasgos. Es durante la década de los ochenta. Es la Universidad Nacional de Colombia la que buscando construir una nación con miradas desde los territorios de frontera la que crea la sede Caribe en la isla de 272 Revista Brasileira do Caribe. entre otros. Estaban vigentes aun las políticas keynesianas que daban importancia a la planeación regional (aparecen los organismos de planeación regional. El nuevo conocimiento. la reedición de textos históricos. de manera dispar. Hoy la región cuenta con seis centros regionales de investigación especializados en el estudio de la región: el Instituto de Estudios Caribeños de la Universidad Nacional en la isla de San Andrés que cuenta con el programa de maestría en estudios del Caribe. Entre los pioneros en el campo de las ciencias sociales encontramos a Luis Eduardo Nieto Arteta. Son sin lugar a dudas. las universidades las que han brindado. la aparición de centros y grupos de investigación son las características de esta nueva etapa.Alberto Abello Vives de la inteligencia. apoyo financiero a los estudios del Caribe. A todo ello. el Instituto Internacional de Estudios del Caribe de la Universidad de Cartagena que realiza cada dos años el Seminario Internacional de Estudios del Caribe. VIII. Gerardo ReichelDolmatoff y Orlando Fals Borda. el Caribe colombiano contó con un esquema que sirvió de base para el resto del país) y de la intervención estatal. vol. n° 15 . los desencantos y las esperanzas de una región. el Instituto de Estudios Económicos de la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. Fundesarrollo en Barranquilla. la economía.

así como a la obligatoriedad de vender servicios para complementar sus ingresos. San Andrés.Estudios del Caribe en Colômbia. nacido después de una década de planteamientos provenientes de distintas instancias sobre la necesidad de dotar a la región de un centro de estudios regionales independiente y vinculado a los procesos de desarrollo regional. la economía y la sociología. trabajan por proyecto y sin estabilidad 273 jan. Los investigadores universitarios vienen siendo empujados a un mayor número de horas de clase y de actividad burocrática. la música. salvo contadas excepciones. a una iniciativa regional como fue la creación del Observatorio del Caribe Colombiano. las lenguas. las convocatorias para la financiación de proyectos privilegian otras regiones (el mismo sistema lesiona a regiones con baja capacidad como el Caribe beneficiando a las de mayor desarrollo).. los fondos públicos son insuficientes. Son las siete universidades públicas asociadas al Sistema Universitario Estatal del Caribe las que asumen a partir de 2003 el soporte financiero al Observatorio del Caribe. la literatura. Me refiero a grupos que indagan por la historia. el organismo rector de la ciencia y la tecnológia en Colombia. Los investigadores de los centros de investigación independientes. la antropología. Muchos de estos grupos surgen como tal ante la política nacional de ciencia y tecnología. En las principales universidades hay. en los que lo “nacional” se coloca por encima de los interéses regionales. la plástica. la dota del instituto y abre la maestría arriba señalada. Quiero resaltar el apoyo nacional a través de recursos financieros de Colciencias. 2007 . una entidad autónoma. A su vez son muy pocos los investigadores que pueden dedicar 100% de su trabajo a esta labor. privilegian también otras áreas de estudio y otro tipo de proyectos (aquellos considerados como estratégicos y el Caribe no es un sector estratégico). igualmente grupos de investigación e investigadores con amplia trayectoria y reconocimiento en diversas disciplinas cuya región objeto de estudio es el Caribe colombiano.. el medio ambiente./jul. El Observatorio fue creado como una entidad que articula el desarrollo y la cultura regionales. sin embargo. respaldada igualmente por dos cámaras de comercio.

en los que de manera particular he estado involucrado. La mayor parte de las instituciones que arriba se mencionan. Hoy el Caribe colombiano cuenta con varias redes (investigadores. en esta última se realiza anualmente un diplomado durante la Escuela de Verano sobre Cartagena y el conocimiento vital del Caribe. Inglaterra. VIII. La región cuenta con una Cátedra del Caribe itinerante por las principales ciudades que divulga el conocimiento nuevo.Alberto Abello Vives laboral y participan en la gestión de los recursos para financiar sus líneas de investigación. también investigadores extranjeros (Suiza. hay que resaltar para el análisis de este panel la Red Ocaribe a la que pertenecen decenas de investigadores y que en los últimos años ha permitido el desarrollo de proyectos interdisciplinarios. los estudios del Caribe interactuan con sectores sociales. Igualmente. Se nombran aquí como parte de la reseña: se trata de El Caribe en la Nación Colombiana. España. principalmente). promotores del desarrollo regional). así como la Universidad del Norte en Baranquilla que lideró la nueva generación de publicaciones y estudios. tienen líneas de publicaciones y revistas (de las de nueva generación hay que destacar a Huellas de la Universidad del Norte). cultuales. empresariales y políticos. n° 15 . en dos universidades existen cátedras del Caribe dirigidas a estudiantes de pregrado (Universidad del Magdalena y Universidad Tecnológica de Bolívar). De esta red forman parte investigadores colombianos no oriundos ni residentes en la región pero que se han dedicado al estudio del Caribe colombiano (investigadores de la Universidad Nacional de Colombia. Quiero resaltar 274 Revista Brasileira do Caribe. vol. Francia. una reflexión nacional que sirvió de base para una exposición en el Museo Nacional de Colombia en Bogotá. periodistas. Estados Unidos) con los que hay rico intercambio. valora la producción intelectual de la región y facilita la discusión. además de programas de divulgación científica. que fue llamada Caribe Espléndido y el desarrollo de la primera cátedra virtual sobre el Caribe que dio pie a la publicación Un Caribe sin plantación. la Universidad de los Andes y la Universidad de Antioquia. En este ejercicio.

así como la articulación entre el sector empresarial de Barranquilla con Fundesarrollo. publicado en 2006./jul. Hoy la Cinemateca del Caribe. ciudades. la conceptualización. literatura y música. Historia. en este momento. diez ensayos sobre el estado del arte de la investigación. antropología. Hay que resaltar igualmente la labor. Santa Marta y Sincelejo. que recoge las memorias del II Encuentro de la Red Ocaribe realizado en 2005. por lo menos una decena de grandes compilaciones que bien podrían entenderse 275 jan. cuenta con un archivo que conserva la memoria audiovisual de la región. en Barranquilla. lingüística. la asociación que existe entre el Observatorio del Caribe y la Cámara de Comercio de Cartagena alrededor de una línea de estudios sobre la competitividad de Cartagena. ha sido publicada con las memorias de estos eventos académicos internacionales. En Respirando el Caribe (volumen II) editado por Aarón Espinosa. construcción y montaje del Museo del Caribe en Barranquilla que ha convocado igualmente a investigadores de distintas disciplinas a lo largo de los últimos seis años. 2007 . educación. Así como la interacción con programas radiales (Concierto caribe en Uninorte FM Estéreo) y de la televisión regional. diseño. Una “nueva” historia de Cartagena. economía. que realiza de manera bienal el Simposio sobre la Historiografía de Cartagena. también existen archivos fotográficos y fototecas históricas en las ciudades de Cartagena. se encuentran los avances en 10 áreas centrales del conocimiento. Santa Marta y Cartagena existen arhivos históricos y eclesiásticos (caso de Santa Marta). si así pudiera llamarse. ambiente..Estudios del Caribe en Colômbia. Hoy existe una extensa y rica bibliografía nacional derivada de los estudios del Caribe colombiano codiciada por investigadores extranjeros. que lleva una década. Con el la ciudad y parte de la región Caribe se han nutrido de los adelantos en el conocimiento derivados de la producción de destacados investigadores mundiales. del Área Cultural del Banco de la República de Cartagena de Indias. Hay que destacar en esta interacción. Hay. En Barranquilla. geografía..

de una historia monumental del Caribe. y vuelven a florecer en el mismo sitio”. sino que avanza. autor. La Ciencia Política es una de las disicplinas de análisis con mayores debilidades. vol. Cada vez más el desciframiento del Caribe supera las individualidades y avanza por el camino de la cooperación y las redes. Si se examinan los sitios de Internet de entidades como el Banco de la República. hasta que lo cuartean y lo desbaratan. no se detiene. Así es también en Colombia la búsqueda del conocimiento del Caribe. Quiero recordar una frase de Gabriel García Márquez que podría utilizarse para entender los estudios del Caribe colombiano: “Mi profesor Juan Bosch. museos y foros. de Estudios del Caribe colombiano. Mayores fortalezas en este campo permitirían en las actuales circunstancias de auge de un conflicto armado. No pueden estar ausentes de este análisis la aparición. la formación y la divulgación en el campo de los estudios del Caribe colombiano. 276 Revista Brasileira do Caribe. Después de este corto recorrido sobre la investigación. agendas. se encontrarán datos. ya hay una primera fase de los estudios del Caribe en la era digital. Mirada en perspectiva. económico) por el narcoparamilitarismo de derecha. Y la utilización de ellos es alta. estudios. paralelo a todo esto. entre otras. entre otras muchas cosas.Alberto Abello Vives como un Manual General. La producción audiovisual se ha enriquecido con los estudios y la virtualidad vive su primera generación. VIII. aun fragmentado. en el que la región ha sido una de las regiones colombianas capturadas (en lo político. Fundesarrollo. n° 15 . a pesar de las dificultades. se puede anotar que éstos se encuentran vivos y su ejercicio es un continuo que no se detiene. la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. militar. La existencia de centros especializados y grupos de investigación. cátedras. mayores herramientas de análisis por parte de la ciudadanía1. dijo alguna vez en privado que nuestro mundo mágico es como esas plantas invencibles que renacen debajo del cemento. de publicaciones virtuales en sitios de buena parte de las instituciones arriba mencionadas. así como el accionar de redes lo demuestran.

así como diversos estamentos. En el momento de escribir este ensayo.. de promover una mayor integración regional y de reivindicar el desarrollo social y económico. promovido por tres de los centros de investigación arriba señalados adelantan una disusión. mantiene la discusión sobre el desarrollo regional. y en los que la academia hace cada vez mayores aportes. Los estudios del Caribe han contribuido al igual que la cultura regional. el país se ha “caribeñizado”. Asímismo. por supuesto. ya ha sido superada. Se destacan igualmente la pluralidad no sólo en el campo de las disciplinas. viva. a deconstruir estereotipos y falsas concepciones sobre la “costeñidad” existentes en el imaginario nacional. 2007 . precisamente por la diversidad. el Taller del Caribe Colombiano. aunque con altibajos. la era de las primeras obras que durante cierto tiempo generaron una mirada unánime. en el manejo de información y estadísticas sobre su situación.. Durante casi veinte años (desde finales de los setenta hasta la desaparición del organismo regional de planificación –Corpes) la región ha adelantado grandes foros y simposios regionales. un mayor conocimiento nacional sobre el Caribe se debe a la labor de investigadores. sino en cuanto a visiones y enfoques sobre la historia y el desarrollo regional. la falta de sistematicidad. económicos y culturales que. un nuevo ejercicio. y como parte de ella. la espontaneidad y le emotividad que habían caracterizado al Caribe colombiano en sus esfuerzos por pensarse. Es más. en la que 277 jan. enriquece y enaltece el ejercicio académico. artistas. Una serie de publicaciones y eventos en los que se encuentran la nación y la región. hoy ya existe controversia académica sobre fenómenos históricos. La academia ha dado continuidad a una tradición regional de pensarse. en la discusión de las políticas públicas nacionales que la afectan.Estudios del Caribe en Colômbia. escritores. como no ha ocurrido en otra región de Colombia. La región ha avanzado en el conocimiento de las causas de su atraso. en la producción de diagnósticos y análisis sobre su economía y el grado de desarrollo social. Todo esto ha contribuído a reducir la dispersión./jul. músicos. Gracias a todo ello.

igualmente. mientras la economía nacional se consolida en el centro andino. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. Las brechas entre los niveles de ingreso per cápita son. Hoy la región Caribe. especialmente. La propuesta de los centros de investigación del Caribe colocando en la agenda pública la búsqueda de políticas regionales diferenciadas que contribuyan efectivamente a disminuir las 278 Revista Brasileira do Caribe. no han generado una recomposición económica. Muy a pesar de que el Caribe estaba llamado a convertirse en la región más favorecida con la inserción al nuevo modelo económico los resultados sobre los que hoy debaten sus centros de investigación no son favorables. fundamentalmente de enclave. es sin lugar a dudas la región más estudiadas de Colombia.Alberto Abello Vives participan distintos estamentos. Los nuevos sectores. y muy a pesar de tener tres puertos de primer orden. VIII. en las principales ciudades. Las disparidades regionales en Colombia son reales y persistentes. La Costa Caribe no se convirtió. debemos recalcar. n° 15 . La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. En el Caribe la pobreza por ingreso de sus habitantes es aun sumamente alta. tampoco hubo aquí una expansión industrial. pero presenta. indagando por los obstáculos al desarrollo y por las políticas públicas que Colombia requiere para superar las disparidades económicas regionales. en un modelo supuestamente pensado para la inserción a la economía internacional. en regiones como el Caribe colombiano la divergencia ha crecido. vol. un rezago en las condiciones de vida de su población. Entre 1998 y 2003. la región a la que no le ha ido bien con uno u otro modelo de desarrollo vio aparecer casi dos millones de nuevos pobres. Por el contrario hemos visto un acentuado proceso de desindustrialización que ha acompañado a la disminución del producto bruto agropecuario. los sectores mineros. persistentes y se han acentuado. Mientras el centro del país se ha consolidado aun más. en la región exportadora de Colombia.

por ejemplo). modelo caracterizado por la disminución del tamaño del estado y la consecuente fragilidad financiera de las universidades públicas..Estudios del Caribe en Colômbia. como parte del Gran Caribe. La reducción de fuentes de financiación. Aproximarse a una mayor escala y a los estudios comparativos ayudará a enriquecer esa búsqueda de identidades y a llenar de argumentos las 279 jan. Profundizar una visión internacional. no contribuyen al fortalecimiento de los estudios del Caribe. las dificultades financieras de amplios sectores del empresariado local y la centralización a escala global de las decisiones financieras de apoyo a la cultura y la investigación por parte de empresas multinacionales con inversiones en la región. en vista de que se han estudiado en espacios geográficos separados (Caribe continental y caribe insular. hay zonas menos estudiadas –Caribe chocoano y antioqueño). Realizar estudios que dialoguen con las otras regiones de Colombia. disparidades regionales le da a los estudios del Caribe en Colombia una singular particularidad. los estudios del Caribe avanzan en medio de la diversidad (institucional. visiones) y la adversidad (financiera). b. d. Los estudios del Caribe en Colombia se caracterizan por sus miradas locales. áreas de estudio. Pero es innegable el impacto del modelo económico vigente en los estudios del Caribe./jul.. Completar la visión regional de conjunto (hay disciplinas con mayores aportes y predominios (historia y economía). En Colombia. Buscar entender procesos sincrónicos. Retos de los estudios del Caribe Los siguientes son los principales retos de los estudios del Caribe en Colombia2: a. c. Un mayor entendimiento de Colombia saldría de esa urdimbre resultado del cruce de esos hilos que conectan el país a lo largo de su historia. 2007 .

Alberto Abello Vives propuestas de integración política y relaciones comerciales. los dos últimos retos de los estudios del Caribe en Colombia son sin lugar a dudas de aquellos que caracterizan en general a los estudios del Caribe: la falta de visiones regionales de Gran Caribe y la debilidad aún de la interdisciplinariedad. está llamado a facilitar la organización de grupos de investigación internacionales. del Centro de Estudios del Caribe en Brasil. el ejercicio virtual. de la Asociación Mexicana de Estudios del Caribe (AMEC). Hoy más allá de la asistencia a congresos de la Asociación de Estudios del Caribe (CSA en su sigla en inglés). Se ha dado un paso en aumentar las relaciones de los investigadores y universidades con el Gran Caribe. el intercambio de métodos y el trabajo colectivo. vol. generación e intercambio contínuo de 280 Revista Brasileira do Caribe. igualmente. un historiador se preguntaba porqué se estaba haciendo ese encuentro por fuera del Caribe. En ello. Creo que la experiencia colombiana arroja elementos.3 e. VIII. Colombia desarrolló una iniciativa gubernamental de acercarse a este mundo. actividades permanentemente. como una múltiple institucionalidad. sino hacer parte de redes y la organización de proyectos científicos de la gran área del Caribe. y multilingüe. durante el cuatrienio 19982002. de la vinculación a la conceptualización de la maestría virtual en estudios del Caribe coordinada por West Indies University y apoyada por la Unesco. los estudios colombianos del Caribe requieren no sólo una mayor visibilidad internacional. Si bien las particularidades colombianas dan a los estudios del Caribe. El entendimiento de la realidad y la construcción de conocimiento complejo está exigiendo el rompimiento de las visiones disciplinarias. de los vínculos con el Centro de Estudios del Caribe de la Universidad Metropolitana de Londres. particularidades propias. Promover aun más el encuentro de las disciplinas. contando con sectores de la academia para ello. n° 15 . Recordemos que en mayo de 2005 cuando se realizó en Cartagena de Indias la 37ª Conferencia Anual de Historiadores del Caribe. aunque más dispendioso y costoso. construcción de redes.

Una verdadera red de estudios del Caribe. Repensar los estudios del Caribe significa repensar la forma como hasta ahora se actúa para su desarrollo.. por la gestión de recursos para programas de impacto regional. interacción con el resto de la sociedad. investigativa o de posgrados. Bogotá: Museo Nacional de la Colombia. que se convierten en factores positivos para la supervivencia de los estudios del Caribe en medio de las dificultades. 2007 . por una mayor dinámica virtual. 3 Ibidem. 2006. que promueven la interdisciplinariedad.Estudios del Caribe en Colômbia. debería de ir más allá de convocar a un evento internacional periódico y preocuparse por un mayor flujo de información y de contenidos. La relación entre los estudios del Caribe como especialidad. por ejemplo./jul. con amplia convocatoria. la organización de grupos de trabajo. se les valora y reconoce. comunicación. 21 1 281 jan. por la promoción del trabajo en grupo entre investigadores de distintos países. NOTAS Se destacan Los señores de la Guerra de Gustavo Duncan. se organizan. desde la economía política. y las disciplinas de los pregrados se encuentra aún por conocerse mejor. Un esfuerzo adicional es necesario hacer para alcanzar una mayor comprensión de los profesionales de distintas disciplinas que acceden a maestrías en estudios del Caribe. p. Las mejores experiencias son aquellas incluyentes. 16 de mayo de 20072 Estos comentarios fueron planteados por el autor anteriormente y publicados.. publicado por Planeta en 2006 y el ensayo. del profesor Jario Parada en el sexto taller del Caribe.93. Barranquilla. p. Ver El Caribe en la Nación colombiana (2006).

282 .

e tão perto dos Estados Unidos”.Resenha GAZTAMBIDE-GEIGEL. San Ruan: Edicines Callejón. Tan lejos de Dios. Além levar este paradoxo acerca da política americana com 283 Revista Brasileira do Caribe. n° 15. ainda mais estando este incompleto. particularmente os antilhanos. dela decorre um sentido que expressa a novidade deste trabalho. Mesmo o dito sendo de origem mexicana. 2007 . este dito expressa uma condição de existência comum a países do continente meso e sul americano: a proximidade física em relação aos Estados Unidos. 242 p.. Porto Rico.. 283-287. 2006.. A atualidade do dito faz-se clara. como Gaztambide-Geigel faz questão de ressaltar. Antonio. na qual se elevara ao avatar de maior poderio atual. Leonardo de Melo Rodrigues Ao nomear ensaios aparentemente dispersos sob o título de um dito popular.. Seu sentido coloca em xeque o paradoxo implicado na bandeira política norte americana: um imperialismo salvífico quase natural que na prática é muito distante disso—a recente investida democrática em terras iraquianas é exemplo atual de peso. vol. VIII. Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos. A invocação de um dito popular não se dá de forma gratuita. uma idéia de unidade se entrelaça com o omitido e suspenso pelas reticências: “. E a novidade deste trabalho é justamente se adentrar no conjunto de relações que presidiram o processo de emergência da potência norte americana em relação aos vizinhos do sul. potência esta que teve uma sobressalente mudança hierárquica no cenário econômico mundial.

Hoje oferece tal diversidade. busca-se ver justamente as circunstâncias em jogo no momento de sua criação. n° 15 . No primeiro ensaio. vol. “La invención del Caribe a partir de 1898”. as contingências e encontros que marcaram sua emergência. Desse modo. e se servir de um avantajado corpo material. se formam as identidades postas em jogo ao evocar os Caribes. ou melhor. em geral. submete o termo Caribe à sua análise historiográfica. radicados no Brasil ou não. Entretanto. É certo que as discussões identitárias provêem de pesquisas inscritas metodicamente no campo dos estudos culturais. apoiado em uma massa documentária de fôlego e decorrente de vários anos de pesquisa. como também para interessados no tema da “identidade” na contemporaneidade. Gaztambide-Geigel abordou tal temática numa dimensão bem delimitada. E. 284 Revista Brasileira do Caribe. sociologia. história. a filosofia. De modo que tal temática fora incorporada nas ciências humanas. São muitas as perspectivas de utilização. O que atesta seu estatuto de relevante acontecimento no pensamento das ditas “ciências humanas”. este sem dúvida é o jogo implícito em vista das circunstâncias pelas quais se forma o conceito Caribe. Seu problema foi como se construiu o termo Caribe em relação à política internacional norteamericana para os vizinhos antilhanos. que consuma ainda mais o seu valor analítico.Leonardo de Melo Rodrigues meticulosidade. oriundos de outros campos de saber. E ao inquirir quanto às relações políticas embutidas no momento de sua construção. Todavia. Situa seu caráter enquanto invenção. VIII. o conceito de identidade não deixou de se atravessar por objetos os mais distintos. se se pode falar de um tema central coordenador dos setes ensaios constituintes da presente coletânea. seria uma ingenuidade supor que seus métodos permaneceriam os mesmos submetidos a objetos tão singulares. que bastaria ao historiador expor suas formas e conteúdos. geografia e mesmo. o Caribe não é um objeto fixo e estático. antropologia. e sim um objeto inventado. tomado como invenção. a apresentação do presente trabalho se releva não só entre os pesquisadores caribenhos. Desse modo. que não cessa de se recriar e reiterar-se.

“La geopolítica del antillanismo de fines del siglo XIX”. Mesmo que uma primeira onda de independência arrebatara o continente décadas antes. por volta da metade do século XIX. encabeçariam o sonho da “nuestra América”. e sim como houve. O papel deles expressam um movimento./jul. Por conseguinte. vários Caribes de maneira que. Em vista disso. começa-se a convergir às idéias de hispanoamericanismo e de latinoamericanismo. o caribe geopolítico. foram decorridas enunciações bem diversas para o conceito “caribe”. pronto e acabado. do final do século XIX aos dias atuais: o caribe insular. Cuba. e pôde ver suas diversas usagens mediante as situações próprias e específicas à história antilhana: de um arquipélago atlântico fragmentado submisso à metrópoles coloniais ao “Gran Caribe” em vias de emancipação cultural. 2007 . persistia uma colonialidade já dita como “cultural” e combatida pelos libertários antilhanos. dado sua localização estratégica em relação ao mercado mundial internacional. Situação que muda. Mostra como.Resenha O que o jogo em torno da criação do termo Caribe revela é que não há um Caribe. Personagens que dedicaram à luta emancipatória dos territórios coloniais da metrópole espanhola. E a emancipação devia ser alçada nem tanto em 285 jan. cujo sentido atravessaria a história latinoamericana. as Antilhas espanholas. o autor propôs uma historicização do termo. já na década de 90 deste mesmo século. Gaztambide avalia as idéias antilhanas a partir de figuras históricas inseridas no redemoinho hispanoamericano e antilhano: Marti. não falam dos mesmos objetos. Porto Rico e República Dominicana. o Gran Caribe ou Cuenca del Caribe e o caribe cultural. numa engrenagem à qual as Antilhas estariam em função otimizada. em cada situação histórica em que é invocado. procura-se destacar as forças motrizes do latinoamericanismo. Gaztambide cunhou quatro momentos que são decisivos para a significação do termo caribe. sob as luzes antilhanas. e há. Assim. diante da ameaça imperial norteamericana. o termo não se refere às mesmas coisas. Hostos e Betonces. No segundo ensaio.

São ambigüidades deste tipo que se alocam no cerne da campanha norte americana rumo à ascensão econômica e que foi aplicada aos vizinhos do Sul. Ressaltando a particularidade do populismo caribenho. passada a Segunda Guerra Mundial e com a efetivação do poderio norte americano. Pois ao mesmo tempo em que o final do século XIX foi marcado por projetos políticos de cunho expansionista. Essa transição é o tema dos ensaios “Hacia uma historia social de las relaciones interamericanas: 286 Revista Brasileira do Caribe. já que é das ambigüidades geradas no interior da política imperial americana a razão das variações acerca deste processo de invenção. Entretanto. encontrava-se também mostras de uma ação não imperialista. a política da boa vizinhança cede lugar à política do bom sócio. VIII. marca de maneira decisiva a postura específica de seu imperialismo. Em “La Buena vencidad y populismo”. como o título mesmo diz. vol. este ensaio propõe a hipótese de como os efeitos da política de boa vizinhança fizeram valer no modo de organização interno dos países atingidos por tal postura ambígua. estava constituída às voltas de ambigüidades visíveis. foi fator de grande determinação no caso de invenção do Caribe. como atributo qualitativo da política externa norte americana. seguindo assim o exemplo do populismo de Porto Rico. A política imperial desta potência emergente aos fins do século XIX. bem como devia ser buscada em vista da potência emergente: a República norte americana.Leonardo de Melo Rodrigues relação aos velhos impérios europeus. O conceito de ambigüidade. que a partir da compra da Lousiana começou a deferir ações com finalidade de expandir sua soberania. E a emergência dos Estados Unidos. como defende Gaztambide. E explorar as ambigüidades por detrás das políticas internacionais norte americana é o tema central do terceiro ensaio: “El imperio ‘bueno’ del 98”. n° 15 . posta em prática no terço inicial do século XX e alterada com o término da Segunda Guerra Mundial. trata das relações da política internacional norte americana. continentais e antilhanos. defendida como verdadeira representante do ideal republicano. com a práxis política do populismo.

E também que não é simplesmente a modulação dos estratos interiores de uma sociedade por um fora./jul. e sim o que se dá é um complexo jogo no qual relações de forças heterogêneas se interagem incessantemente. 287 jan. O projeto desenvolvimentista que esta política visa suplantar nos sócios do sul adapta-os aos moldes do capitalismo mundial integrado sob a égide do desenvolvimento econômico. e sim são efeitos da historicidade que perpassam as formações históricas. la idea del desarrolismo y el Caribe: Los orígenes”. A política do bom sócio nada mais é que a adaptação da política externa norte americana no momento em que esta nação acede ao topo econômico da economia mundial. “Identidades internacionales y cooperación regional en el Caribe”. é o modo como a política do bom sócio criou um imaginário internacional que abaixo suas variações locais possibilitou a criação de identidades multiculturais. 2007 . O tema do ultimo ensaio. Desse modo o que o trajeto destes ensaios evidenciam é como as políticas internacionais não são exercidas de forma aleatória. o Gran Caribe e o latinoamericano.Resenha El camino del desarrollismo: 1946-1960” e “Estados Unidos. ajustando de forma a assegurar ainda mais a supremacia americana.

VIII. vol.288 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 .

com. Ciências Sociais.com. Correo electrônico: aabello@unitecnologica. Universidade Federal do Maranhão. dentre elas: “Memórias que curam” In Olga Cabrera. Goiânia: GEV. Co-fundador e primeiro diretor do Observatório do Caribe Colombiano.alexandre@uol. Dentre suas obras destacamos: Ritmos da identidade. 2004. Núcleo de Estudos AfroBrasileiros.br Doutor Carlos Benedito Rodrigues da Silva Programa de PósGraduação de.co Doutor Alexandre Martins de Araújo Doutor pela UFG possui várias obras publicadas. 2002. Expeirências e Memórias. Atualmente é decano da Faculdade de Ciencias Econômicas e Administrativas da Universidade Tecnológica de Bolívar en Cartagena de IndiasColombia.edu./jul. Recientemente duas compilações suas foram publicadas na Colombia: El Caribe en la nación colombiana e Un Caribe sin plantación. 2007. Corréio eletrônico:araujo. 2007 . Correio eletrônico: carlosbene@terra. Caribe.Os autores Doctor Alberto Abello Vives é economista.Mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão.br 289 jan.São Luis:SEIR/FAPEMA/EDUFMA. Relações Culturais Século XIX: Negros e Coolies em Trinidad (1845-1870). a revista Aguaita e a Cátedra do Caribe colombiano. Tem publicado vários livros sobre o Caribe colombiano. Goiânia.

Um balanço historiográfico. 2007. Gender and the vulgar body of Jamaican Popular Culture”. rpt 1994. MBA em Gestão de Recursos Humanos pela FGV-RJ. Correio eletrônico: cristinadecassiapmoraes@hotmail. Cristianismo em Goiás. dentre suas principais publicações destacam: Livros: Sound clash. desde abril de 2007. rpt 2000. Gender and the ‘Vulgar’ Body of Jamaican Popular Culture. 1993. Professora de Literary and Cultural Studies e Diretora do Institute of Caribbean Studies University of the West Indies.jm Doutora Cristina de Cassia Pereira Moraes. intitulado A escrita de uma subjetividade sem sujeito em Aimé Césaire e Edouard Glissant. rpt 2005. Reconhecida pela sua trajetória. Durham: Duke University Press. Qualificou o seu projeto. mestre em Letras pela Universidade Federal Fluminense e doutoranda. pela mesma instituição. Correio eletrónico: Carolyn. “Enslaved in Stereotipes Race and representationin Post Independence Jamaica”. além de colaborar com a União dos Escritores Angolanos. Dentre alguns artigos: “Noises in the blood:Orality. Goiânia. 1995. onde colabora como professora convidada da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. Realiza.UCG.Noises in the Blood: Orality. na revisão de textos de jovens autores. 2004. New York: Palgrave MacMillan. 2003. Reside em Luanda.com Kátia Frazão Costa Rodrigues é psicóloga clínica. na área de Literatura Comparada. Ed. trabalhos na área social com 154 crianças 290 Revista Brasileira do Caribe. Jamaica.cooper@uwimona. 2006 e Religiosidade e Sociabilidade entre os confrades do Patriarca São Jose In Quadros Eduardo. Jamaican Dancehal Culture at large. In sociedade e Cultura.Os autores Doutora Carolyn Cooper. VIII.edu. Entre suas publicações mais recentes destacam-se “Deus e o diabo no sertão dos Guayazes Abusos e desmandos do vigário da Vara de Vilan. em março de 2007. London: Macmillan Caribbean. vol. Mona. na cadeira de Metodologia Científica. n° 15 . também. com pósgraduação em Psicoterapia e Psicologia Centrada na Pessoa.

2004) e Figurações da alteridade (em colaboração com a Profa Eurídice Figueiredo./jul. Fronteiras. Sandra Regina Goulart de. Los angeles. dentre elas destacam-se: “Bob Marley in Brazil”.Correio eletrônico: leovid.com. “Habitabilidade e cartografias do virtual no universo de Régine Robin” (In: HANCIAU. 2007). perspectivas do Ártico ao Antártico”. ABECAN/FURG.com 291 jan. In: The Beat Magaziine. EdUFF/ ABECAN. 2007 . Perspectivas transnacionais. Organizou as seguintes obras coletivas: Mulher e Literatura.com Leonardo Vidigal doutorando da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). passagens. Algumas publicações: “Lieux de la mémoire et de l’oubli dans des textes migrants” (In: ALMEIDA.bhz@terra. Faz parte de dois grupos de pesquisa do CNPq: Identidades em trânsito:estéticas transnacionais (coordenadora ao lado da Profa Vera Lúcia Soares da UFF) e Estudos do Caribe no Brasil (coordenado pela Profa Olga Cabrera). capítulos de livros. devires e lugares da alteridade” (In: FIGUEIREDO. Organizou o número 12. Maria Bernadette.2006). EdUFF/ABECAN. volume VI da Revista Brasileira do Caribe. Brasil/Canadá: visões. vagabundos e mendigos: desvios. 2007). Textos apresentados no VIII Simpósio Nacional (em colaboração com Lucia Helena Vianna e Lívia Reis(1999). Eurídice e PORTO. 2000).Os autores órfãs da guerra. “Andarilhos. Identidades em trânsito (EdUFF/ABECAN. estimulando o contato com a Literatura. ensaios em revistas especializadas . É coordenadora do Núcleo de Estudos Canadenses da UFF. Nubia. 2005). Correio eletrônico: mbvporto@hotmail. no atendimento psicoterápico e em oficinas de leitura. paisagens na literatura canadense (EdUFF/ABECAN. Correio eletrônico: mbvporto@hotmail. Publicou artigos. UFMG. pesquisa sobre a temática do reggae há vários anos. possui várias publicações. 1997.br Doutora Maria Bernadette Velloso Porto.

CECAB.2. E “Ritmos de Identidade: música. 2003. Boletim Goiano de Geografia. Centro de Estudos Superiores de Imperatriz. In: III Simpósio Internacional Cultura e Identidades. p.165 .383. autora de “Santa Maria. Brasil e cuba nas representações de Glauber rocha” In: Caribe sintonias e dissonancias. “O reggae na Jamaica Brasileira: interlocução jurídica com cidadania e política a partir de letras musicais” In: 25a Reunião Brasileira de Antropologia. Estudante da Pós Graduação da Universidade Federal de Maranhão. In: História Revista. Dentre suas publicações: “Cultura jeje na diáspora: Maranhão e Jamaica”. 2007. Pinta e Nina: a redescoberta dos Caribes em espaços discursivos brasileiros” In: Cenários Caribenhos. territorialidade e corporalidade”. Goiânia: Ed. 2007. Goiânia: UCG. .com Maristani de Sousa Rosa Universidade Estadual do Maranhão. Brasília:Paralelo 15 e “Nas terras do sol.141 .b 292 . Departamento de História e Geografia.com. Goiânia. 2002. “História e Cultura Africana e Afro-americana”. p. Goiânia. v. Correio eletrônico: maristanerosa@terra. v. é mestranda da pós-graduação em História pela UFG.Maria Lemke Loiola .com.143. Boletim Goiano de Geografia. Correio eletrônico: marialemke@pop. Correio eletrônico: tnegrão@gmail. 2004. 2007.br Doutora Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo possui uma rica trajetória como professora da Universidade de Brasília.166. 2005. Dentre suas publicações destacam-se: “Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava”. Goiânia: Universidade Católica de Goiás.23. v.22. “Quatro Tempos de Ideologia em Goiás”. p. “Coração das trevas”. .377 .

também no idioma original e em inglês e espanhol. via e-mail ou via correio convencional. TIPOS DE TRABALHOS PUBLICADOS: Artigos. sendo que diferentes títulos de um mesmo autor no mesmo ano.5 cm. 2. IDIOMAS: A Revista Brasileira do Caribe publica colaborações em português. sobretudo e-mail para contato.para apresentação de trabalhos científicos. versão 2000 ou 2003. No caso do idioma original ser o inglês. Exemplo: (CASTILLO. sem deslocamento da primeira linha. o segundo idioma do resumo e das palavras-chave deverá ser o português e o espanhol. Os artigos deverão ainda ser acompanhados de dois resumos. que deverão ser colocadas logo abaixo dos resumos. a partir da letra a. Com mais de cinco linhas devem ser transcritas em parágrafo distinto. repertórios. ou que informem comentadamente sobre arquivos. que tratem de estudos relacionados com o Caribe. Uma citação dentro de 293 . e Instrumentos de Trabalho. inéditos. todas no formato acima especificado. Já os dois resumos dos artigos deverão conter em torno de 10 (dez) linhas. deverão ser diferenciados com uma letra após a data. que possam interessar aos pesquisadores caribenhos. espaçamento entre linhas simples. 6. com menos de cinco linhas. que reproduzam documentos históricos importantes relacionados com o Caribe. bem como de três palavras-chave. francês ou inglês. EXTENSÃO DOS TEXTOS: a extensão dos artigos deverá ter entre 15 e 20 páginas. em corpo 10 normal. devem vir transcritas entre aspas duplas. com o mesmo tipo e tamanho da letra do texto. 1940. 3. NORMATIZAÇÃO: todos os textos deverão obedecer ao padrão normativo da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas . parágrafo justificado. incluindo endereço. 5. acompanhadas da indicação entre parêntesis do sobrenome do(s) autor(es). Entrevistas com personalidades de grande expressão na historiografia caribenha.Normas Editoriais para Publicação de Artigos 1. margens de 2. 18-19). e a das resenhas entre 3 e 7 páginas. referências e notas. Deverão ser acompanhados de um breve currículo do autor. sendo neste caso uma cópia em disquete e outra impressa. FORMA DE APRESENTAÇÃO: os trabalhos deverão ser encaminhados no formato Microsoft Word for Windows. bibliotecas. p. cujo conteúdo se relacione com a história do Caribe. sobretudo no que se refere às citações. com recuo à esquerda e sem aspas. inventários etc. sobre obra bibliográfica publicada nos últimos dois anos. fonte Times New Roman em corpo nº 11. CITAÇÕES: No corpo do texto. data da publicação e página(s) citada(s). telefone/fax e. sendo um no idioma original e outro em inglês (abstract) ou espanhol. Resenhas Críticas. espanhol. 4.

BIBLIOGRAFIA: deve vir ao final do trabalho e contemplar as obras efetivamente citadas e referenciadas ao longo do texto e nas notas de rodapé. número do fascículo. conforme os modelos abaixo: Livro: SOBRENOME. N. V. Título do artigo ou capítulo. CRITÉRIOS DE REVISÃO: os artigos enviados à Revista Brasileira do Caribe serão remetidos a pelo menos dois pareceristas escolhidos entre os membros dos Conselhos Editorial e Consultivo que poderão recomendar ou não a publicação. que não os artigos. Enfoques filosóficos literarios. ano de publicação. ARTIGO DE REVISTAS OU PERIÓDICOS: SOBRENOME. Modernidad razón e identidad en América Latina. Letra inicial do nome do Autor. 7. data. : SOBRENOME. O Conselho Editorial se reserva o direito de sugerir ao autor modificações de forma com o objetivo de adequar o texto às dimensões da revista e a seu padrão editorial e gráfico. (org.) Identidad cultural latinoamericana. explanações ou traduções que não caberiam no texto. serão apreciados pelo Conselho Editorial. número do volume. 6-34. p. Estas citações abreviadas enviam à bibliografia no final do artigo. Exemplo: GIRVAN. a quem cabe a decisão referente à oportunidade da publicação das contribuições recebidas. Letra incial do nome do Autor. Local: Editora. E. 8. NOTAS DE RODAPÉ: breves. 4. Chile: Editorial Andrés Bello. bem como apresentar indicações completas. Título do livro: sub-título. sucintas e claras. ano e página como a anterior. Devem vir em corpo 8. p. (org. Título do artigo. 1999. usadas para a apresentação de comentários. Exemplo: LARRAÍN IBÁÑEZ. 10. La Habana: Editorial Academia. 1996. Local: Editora. Local de publicação. ENDEREÇO PARA ENVIO DAS CONTRIBUIÇÕES: 294 . a mesma deve vir com citação de autor. jul. Reflejos y antinomias de la problematica de la identidad en el discurso narrativo latinoamericano. Letra inicial do nome do Autor. J. Revista Mexicana del Caribe. ano. 7. podem ser de esclarecimento ou explicativas. F. N. página inicial-final do artigo.outra é indicado por aspas simples. UBIETA GOMEZ./dec. Reinterpretar el Caribe. página inicial-página final do artigo ou capítulo. 53-72. Exemplo: AINSA.) Título da Coletânea. ou ainda recomendá-la com modificações. 1994. ARTIGO OU CAPÍTULO DE COLETÂNEA: SOBRENOME. Os demais tipos de textos. 9. Letra inicial do nome do organizador. Santiago. Título do periódico. em ordem crescente de numeração.

3521-1457 Fax: 55-62-3292-1118 E-mail: ocabrera@fchf.sala 42 Goiânia .Goiás CEP: 74.Revista Brasileira do Caribe Universidade Federal de Goiás Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia Campus II .br 295 .001-970 Fone: 55-62.ufg.

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