Universidade Federal de Goiás - UFG Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB ISSN: 1518-6784

Revista Brasileira do Caribe
Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil

CECAB, Goiânia, vol. VIII, nº 15 - jul./dez., 2007

Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB
Diretora: Olga Cabrera Secretária: Leonardo de M. Rodrigues

Revista Brasileira do Caribe Editora Responsavel/Organizadora do Volume: Olga Cabrera
Indexada pela Library of Congress. Control number: 2004204431. www.catalog.loc.gov e pelo Directorio Latindex /UNAM/ México. www.latindex.unam.mx Conselho Editorial Olga Cabrera - Brígida M. Pastor - Danilo Rabelo Conselho Consultivo Juan J. Baldrich, Pedro L. San Miguel (Universidad de Río Piedras, Puerto Rico); Consuelo Naranjo (Consejo Superior de Investigaciones Científicas - CSIC-Madrid, Espanha); Ernest Pépin (Escritor, Guadaloupe); Olga Portuondo (Universidad de Santiago de Cuba, Cuba); Ileana Sanz (Universidad Habana, Cuba); Laura Muñoz (Instituto Mora, México); Maria Teresa Cortés Zavala, Universidad Michoacana de San Hidalgo, México); Miguel Suarez Bosa (Universidad de Las Palmas de Gran Canária, Espanha); Maria Therezinha F. Negrão de Melo, Eleonora Zicari, Jaime de Almeida (Universidade de Brasília, Brasil); Eugênio Rezende de Carvalho, Isabel Ibarra, Luis Sergio Duarte da Silva (Universidade Federal de Goiás, Brasil); Euridice Figuereido, Maria Bernadette Velloso Porto (Universidade Fluminense, R. de Janeiro, Brasil); Rohda Reddock, Susan Mains, Patsy Lewis (University of the West Indies,Jamaica); Rose Mary Allen (University of the Netherlands Antilles, Curaçao); Rawle Gibbons (Universisity of the West Indies, Trinidad), Diana Soto(Un. Bogotá Col.), Diana Lago e Alfonso Múnera (Un. Cartagena de Indias, Col.) Comissão Técnica (Projeto Gráfico/Editoração): Leonardo de Melo Rodrigues Capa: Adriana Mendonça Revista Brasileira do Caribe: Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil/Universidade Federal de Goiás, vol. VIII, nº 15, (jul./dez), Goiânia, Ed. CECAB, 2007. Semestral. Descrição baseada em: vol. VIII, nº 15 (jun./dez. 2007). ISSN:1518-6784 295 p. 1. Caribe - História - Periódicos.
CDU: 94 (1-928.9)

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* Os dados e conceitos emitidos nos artigos, bem como a exatidão das referências bibliográficas são de responsabilidade dos autores. ** Os artigos recebidos para publicação são apreciados por no mínimo 2 (dois) revisores, escolhidos preferencialmente entre os membros dos Conselhos Editorial e consultores externos especializados. Data de Circulação: Dezembro/2007 Copyright
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Tiragem Bruta: 600 exemplares

2007, Centro de Estudos do Caribe no Brasil

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Sumário
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Carolyn Cooper ........................................................11 Os sons do Atlântico negro Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 O reggae na “Jamaica Brasileira” Cidadania e Política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa..........................................41 Enredando Brasil/Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrações de idéias, influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo..................85 Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto.................................109 A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à Antillanite Césaire e Glissant. Katia Frazão Costa Rodrigues...................................137

3

Plantation Legal: Trinidad século XIX Alexandre Martins.....................................................165 O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes............................197 A morte branca do escravo negro: Considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola.................................................245 Estudios del Caribe en Colombia: Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives.................................................267 Gaztambide-Geigel, Antonio. Tan lejos de Dios... Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos Leonardo de Melo Rodrigues...................................284 Os autores........................................................................289

4

Summary
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica Carolyn Cooper..........................................................11 The sounds of the black Athlantic Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 Reggae in the Brazilian Jamaica: Citizenship and politics in the lirics of Songs Maristani de Sousa Rosa...........................................41 Interlacing Brazil and Jamaica: An international connection through filmography and popular music Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrations of ideas, influences or reactivations? Cinematographic production in Brazil and Cuba as desterritorialized experiences Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo................85 A voice from the haitian diaspora in the migrant‘s literature of Quebec Maria Bernadette Velloso Porto...............................109

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........................................... Far of God....289 6 ....................245 Studies of the Caribbean in Colombia: Between diversity and adversity Alberto Abello Vives.................................................137 Legal plantation: Trinidad nineteenth century Alexandre Martins Araújo.............165 The slave trade in Brazil in the eighteenth century Cristina de Cassia Pereira Moraes.......... Katia Frazão Costa Rodrigues............................... Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola.................267 Gaztambide Antonio.................. Leonardo de Melo Rodrigues.................................... Essays about relation between Caribbean and United States......................The construction of identity in francophone caribbean from negritude to antilleanness: Césaire e Glissant....197 The black slave´s with death: Some considerations on slavery in Brazil................284 About the authors...............

Do ponto de vista formal a Revista tem uma artista responsável pelo seu projeto gráfico. espanhol. a transcendência da Revista tem permitido o aumento de artigos de todo o mundo que chegam até a redação. A presença de um número muito mais expressivo de colaboradores no Conselho Consultivo e o acréscimo de artigos para ser avaliados. ou em torno a um tema. O primeiro deles. Danilo Rabelo e desde o próximo número Orlinda Carrijo Melo. O aumento do Conselho Consultivo da Revista tem dado um fluxo mais rápido à avaliação dos artigos para sua publicação. “Lick Samba: 7 7002 . No que respeita ao conteúdo. autorizando a submissão dos mesmos a uma avaliação mais rigorosa. 16. Adriana Mendonça. da destacada historiadora jamaicana Carolyn Cooper. O próximo número. O primeiro grupo de artigos da revista relaciona Brasil e Jamaica mediante a samba no solo jamaicano e o reggae no brasileiro. o número 17 ao Haiti e o 18 à literatura francófona. é outro dos objetivos alcançados.luj . Estas abrangem desde àquelas relacionadas ao conteúdo quanto às formais.Editorial Olga Cabrera Diretora da Revista Brasileira do Caribe. e a arte utilizada nas capas das revistas são todas originais. O presente número da Revista Brasileira do Caribe apresenta vários temas que podem ser agrupados no eixo das Conexões Afro-Atlânticas: Jamaica/Brasil/Caribe. Brígida Pastor) e da aplicação das normas de publicação aos artigos. A reformulação do Conselho Editorial e de seu compromisso com a terminação bem sucedida da revista mediante uma revisão cuidadosa das línguas (português. Olga Cabrera e inglês.zed/. A Revista Brasileira do Caribe alcança seu número 15 após algumas transformações que começaram no número 9. possibilita pensar na conversão dos próximos números em dossiês dedicados especialmente a um país do Caribe. Quatro artigos com diferentes abordagens estudam essas relaciones. será dedicado à Cuba.

econômicas. Carlos Benedito Rodrigues da Silva. Negrão de Melo. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas” revela a transcendência e as conexões que decorrem do cinema de Glauber Rocha para a compreensão do espaço latino-americano.Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica” num jogo de palavras que transcendem as distorções sobre Kingston como a capital do crime para capital como “primeiro valor” que exemplifica com o estudo sobre a samba que se recria na Jamaica. O autor aborda o reggae e os vínculos inter-culturais entre Brasil e Jamaica mediante a utilização do cinema como fonte de análise. Cidadania e política a partir de letras musicais” procura explicar mediante a música o processo identitário que transcende as fronteiras regionais e nacionais para conclamar objetivos sociais comuns dos negros da diáspora. O artigo de Leonardo Vidigal “Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular” se enlaça de maneira simultânea aos três artigos anteriores e ao seguinte de Maria Therezinha F. a samba jamaicana é. por sua vez apresenta em uma perspectiva relacional 8 Revista Brasileira do Caribe. O segundo artigo do reconhecido estudioso do reggae em Brasil. as emoções. Além do viés sexual utilizado nas interpretações sobre este tema. no artigo “A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant”. certamente. Ainda o terceiro artigo de Maristane de Sousa Rosa “O Reggae na “Jamaica brasileira. uma expressão das conexões AfroAtlânticas que enlaçam Brasil a Jamaica. O artigo de Maria Terezinha Negrão de Melo “Migrações de idéias. VIII. vol. Katia Frazão de Costa Rodrigues. e que deixam fora os sentimentos. n° 15 . na visão de um poeta da diáspora caribenha (haitiana) no Canadá. A interpretação da desterritorialização no Caribe reaparece no excelente artigo de Maria Bernadette Velloso Porto “Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec”. “Os Sons do Atlântico Negro” alerta das abordagens identitárias embasadas apenas nas análises sociais. reclamados por Norbert Elias para compreender as mudanças na História.

Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos A seção final da Revista Brasileira do Caribe oferece também os dados mais importantes sobre os autores que participaram neste número. A revista contém outros dois artigos que relatam a experiência da escravidão no Goiás./dez. no século XIX. quer seja nas ilhas ou no continente. Os sete artigos se enlaçam a uma globalizada visão do Caribe nas suas múltiplas conexões e possibilidades de abordagens. aborda o tema específico dos documentos de óbitos de negros tanto escravos como livres na região de Meya Ponte (Pirenópolis) Encerra a revista o artigo de Alberto Abello Vives. os dois destacados literatos de Martinica. 9 jul. Trinidad século XIX” aborda as experiências dos imigrantes indianos e dos negros em Trinidad. Por último. GAZTAMBIDE-GEIGEL.. a resenha à obra de Antonio Gaztambide-Geigel. Tan lejos de Dios. o artigo de Alexandre Martins de Araújo “Plantation legal. também documental. Brasil. oferecendo um outro lado desse complexo mundo do Caribe. a indefinida e nebulosa situação do Caribe colombiano não é diferente à de outros países do Caribe e o reclamo do autor para atentar contra as desigualdades sociais procedentes da racialização pode ser ampliado a toda Afro-América ou Caribe. por Leonardo de Melo Rodrigues.. sobretudo. 2007 . Entre la diversidad y la adversidad”. Por último. Antonio.os aportes teóricos na construção da idéia de antilhanité em Césaire e Glissant. A presença de várias culturas africanas na formação social aparece refletida na pesquisa documentada de Cristina de Cássia Pereira de Moraes “O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII” e no artigo de Maria Lemke Loiolo “A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776)”. A problemática e. O primeiro é um estudo sobre a escravidão em Goiás a partir da documentação dos arquivos e o segundo. destaca a relevância deste último livro do reconhecido historiador porto-riquenho e coloca a importância para o Brasil do estudo dos especialistas da região. “Estudios del Caribe en Colombia.

10 .

2007 . Jamaica. Keywords: Samba. 11-20.’ meaning ‘first rate. Há um jogo de palavras sobre o conceito “capital”.Lick Samba Cultural Synergies between Brazil and Jamaica (Dedicated to the memory of Lino de Almeida. O caso da música e das publicações”. *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 11 Revista Brasileira do Caribe. cidade de Kingston. n° 15.’ This is an article that is based. Spirit of the Crossroads) Carolyn Cooper Abstract This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing”. mais que uma investigação. Goiânia. iniciadas na Jamaica e que agora se estendem ao solo brasileiro. realizado na capital. Jamaica. Jamaica Resumo Este artigo embrionário teve sua origem em maio de 2000 no Simpósio “Sinergias Culturais e oportunidades de negócios entre Brasil e Jamaica. I intend a pun on ‘capital. VIII. held in the capital city of Kingston. significando não somente o local geopolítico da cidade senão também algo coloquial do moderno sentido de “capital” significando “primeiro valor”. in conversations about samba from Jamaica to Brazil. beyond investigation. Brazil. vol. Este é um artigo que tem como base. conversações sobre a samba.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital.

significando no sólo el local geopolítico de la ciudad sino también algo coloquial del moderno sentido de “capital” significando “primer valor”. As a cultural critic specialising in Jamaican popular culture and literature. This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing.” held in the capital city of Kingston. My intuitive reflections on that occasion have now been somewhat refined for presentation on this panel. n° 15 . I was invited to contribute to the deliberations. Brasil. deadly’ as in capital punishment. vol. Instead. initiated in Jamaica.’ meaning ‘first rate. often excluded from the itinerary of most visitors to Jamaica who fear its vile reputation as a ‘murder capital. 12 Revista Brasileira do Caribe. VIII.chave: Samba. realizado en la ciudad de Kinsgton. But I wish to make it absolutely clear that what I offer here is not a scholarly article – the product of prolonged research and analysis. yet another meaning of ‘capital’ resonates: ‘mortal. Jamaica. Este es un artículo que tiene como base.’ Kingston is a much under-rated city. Jamaica. Jamaica Resumen Este embrionario artículo tuvo su génesis en mayo de 2000 en el Simposio “Sinergías Culturales y oportunidades de negocios entre Brasil y Jamaica. it is an intervention in a conversation. Palabras Claves: Samba. now re-branded as Jamaica Trade and Invest. The 2000 “Cultural Synergies” symposium was hosted by the Jamaica Promotions Corporation (JAMPRO).’ Here. El caso de la música y de las publicaciones”. En este intento un juego de palabras sobre el concepto “capital”. conversaciones iniciadas en Jamaica y que ahora se extienden al suelo brasileño. Jamaica.Carolyn Cooper Palavras. más allá de la investigación. I intend a pun on ‘capital.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital. Brasil.

” The singer is ready for action. ooh. noon or night Ah just a lick samba. oh nah And though I know you hurt me again I’ll go on. it means 13 jul. I’ll feel the pain And it’s not that I am meek But it’s that I’m on a peak. the man surrenders to the painful pleasures of love. lick samba. lick samba Ah say.” which I use to frame my remarks here. oh nah Another like this. the sexual allusions are. But there are claims to be settled. however “little. is the pulsating refrain of a song which appears to emblematize samba in primarily sexual terms: Lick samba. “lick samba. de 2007 . I’m ready And if it’s late at night I’m steady Give it to you anytime. lick samba. Oh darling I’m not a preacher. morning. lick samba Oh yeah I could not resist. lick samba An mi seh. lick samba Oh oh. noon and night. which are heightened by the seductive refrain. lick samba. nevertheless. apparent: “And it’s not that I am meek/ But it’s that I’m on a peak. baby You can write it down in my name Morning time. lick samba. right here I’ll settle the little I claim.” Unable to resist the woman’s power. Bob Marley’s invocation to “lick samba. lick samba Ah bring it up. lick samba If it’s morning time.” The primary meaning of ‘lick’ in English is to ‘tongue./dez.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica that now continues on Brazilian soil. oh darling.’ In slang usage in English. but I am calling Ooh. lick Samba1 Though somewhat enigmatically expressed. oh darling Ah just a lick samba. ah lick i one time.

But I would argue.2 The song opens with titillating exclamations.” This is the primary sense in which the word is used in Jamaican. as well. instead. the percussive beats of global African music. right here] ambiguously suggests the pleasurable hit of vigorous – not violent – oral/sexual contact. Widened beyond the immediate sexual context. right here. When it hits you feel no pain 14 Revista Brasileira do Caribe.’ conjoined to ‘lick. “I could not resist. vol. VIII.” sung as a duet. oh. Indeed. “Another like this”. singular interpretation. The generic ‘it’ that is licked/hit may be read as the objectified female body.” Bob Marley deploys the trope of music as a ‘hit’ in precisely this way. the refrain ‘lick samba’ evokes. This ameliorative meaning of “lick” that I attempt to recuperate here encodes the complexity of male/female relationships that are not always open to transparent. The explosive hit/lick becomes a celebration of the potency of music as word. When it hits you feel no pain Wo wo I say One good thing about music. “Lick Samba. The entire song becomes an amusing mating ritual. explicitly evokes playful sexual seduction. Not just the conventional chart ‘hit’ but also the physical impact of megawattage sound systems licking the body: One good thing about music.’ is essentially a euphoric expression of a natural high. sound and power. thrash. especially by those disposed to see misogyny at every turn in Jamaican popular music. connoting the call and response structure of African oral discourse. that here this ‘it.” to which Rita replies. heightened by percussive guitar beats: “ooh! hah! aiya! woyio!” After the opening refrain.Carolyn Cooper as well “to beat. ah lick i one time. But the double English/Jamaican meanings appear to converge in this song. n° 15 . In the song “Trench Town Rock. Gilberto takes the lead. The line “Ah bring it up. I hit/lick it once.” [I bring it up. Marcia Griffiths and Judy Mowatt) on the Kaya N’Gan Daya CD. the version of “Lick Samba” that is recorded by Gilbert Gil and Rita Marley (and the other I-Three.

ska ba dip You waan come cold I up I’m a groover an the world know it by now3 Like reggae. Hermano Vianna’s book The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. exemplifying the cultural synergies between Brazil and Jamaica in the field of book publishing. African diasporic music is not only globalised but it becomes an iconic manifestation of national identity. was a featured text. a Kingston 12 groove. The book was simultaneously published in 1998 by the Press University of the West Indies and the University of North Carolina Press in the series “Latin America in Translation/ en Traduccion/ em Traducao. incorporating cultural meanings far beyond the intentions of its progenitors. But in both instances. Similarly./dez. samba is the music of Rio de Janeiro. de 2007 . At that JAMPRO seminar. this localised. Reggae is “Trench Town rock”. Vianna declares that he valorises “the intellectual trajectory of anthropologist Gilberto 15 jul.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Hit me with music Hit me with music now This is Trench Town rock Don’t watch that Trench Town Rock Big fish or sprat You reap what you sow Trench Town Rock And only Jah Jah know Trench Town I’ll never turn my back Groovin it’s Kingston 12 Groovin It’s Kingston 12 No waan yu come galang so No waan yu fi galang so Ska ba dip. working-class. samba is a popular music whose origins are decidedly urban and down market.” sponsored by the Duke-University of North Carolina joint program in Latin American Studies. In his author’s preface to the US edition.

speaks through the mouth of Miss Mattie. it might appear hubristic to even attempt to delineate cultural synergies between the two. VIII. In private conversation with me. become crucial to the ‘nationalization’ of samba. as with athletics and football. who loudly proclaims the benefits of the nation’s newly acquired state of independence.” disclosed that it was his own involvement with football in Brazil that sparked Bob Marley’s experimentation with samba. about back-and-forth flows of influence that connected Rio not only to Pernambuco. a self-aggrandizing character she creates.Carolyn Cooper Freyre” as a “narrative and interpretive thread” for the book. as for samba. but to France. vol.” Miss Lou. Given the scale of geographical difference between Jamaica and Brazil. Jamaican cultural icon Louise Bennett-Coverley.4 For reggae. This book is about movement. That football connection is a whole other story of cultural synergies. trans/national cultural flows are an essential element of the formation and reproduction of the music. Freyre was one the mediators. affectionately known as Miss Lou. spanning geographical and social distances. Would Jamaica have made it to the World Cup without the technical input of the celebrated Professor Rene Simoes? Hardly likely. He elaborates the rationale: Freyre’s home was the Brazilian northeast. and the rest of the Atlantic world as well. n° 15 . the United States. the ventriloquist. the globalisation of reggae suggests that. Flag independence confirms an enlargened conception of both her own person and the landmass of the former colony: Jamaican She hope dem caution worl-map 16 Revista Brasileira do Caribe. Various kinds of cultural mediation. gives an amusing rendering of the Jamaican psychology of ‘largeness’ in her poem “Independance. but that does not matter. not Rio de Janeiro. Nevertheless. legendary Jamaican footballer Allan ‘Skill’ Cole. Marley’s long-time friend and producer of the song “Lick Samba. Jamaica’s international reach greatly exceeds our geographical size.

Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica

Fi stop draw Jamaica small, For de lickle speck cyaan show We independantness at all! Moresomever we must tell map dat We don’t like we position Please kindly teck we out a sea An draw we in de ocean.5 English She hopes they’ve warned the mapmakers To stop representing Jamaica as tiny, For the little speck can’t show Our independence at all! Moreover we must tell the mapmakers That we don’t like our position – They must please take us out of the sea And put us in the ocean.6

Jamaicans do, indeed, have an oceanic consciousness. The landmass of the island (and ‘mass’ is a gross exaggeration in comparison to the expansive landscape of Brazil) does not contain us. Though seemingly bound on all sides by the sea, we are not insular. Psychologically free, many Jamaicans claim a much wider sphere of influence than the circumference of a small island, especially when the diaspora is taken into account – all those Jamaicans, with so many passports (legal and illegal), scattered across the globe. We constitute a formidable, transnational, constantly mobile nation-state. There is, obviously, another quite literal sense in which the Jamaican people are continental, like the Brazilians. The majority of Jamaicans are of African origin and we retain ancestral memories of a vast continent of mythic proportions. It is Rastafari who have most articulately propagated the philosophy of repatriation of the mind. Many Africans in the diaspora – in Brazil as in Jamaica – choose to keep genetic memory alive. In our language, music,

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Carolyn Cooper

food culture, religion we memorialize the past. And we keep our ancestors alive and available to dream us into waking consciousness; in the present. Africa is not the distant past; it is contemporary culture. But, like Jamaica, with our optimistic national motto, “out of many, one people”, Brazil privileges a model of multi-racial harmony that to outsiders often appears to repress the powerful African presence in this complex society. Brazil is home to the largest number of people of African origin outside the continent of Africa. John Chasteen, translator of Hermano Vianna’s The Mystery of Samba, defines the issue of racial identity in Brazil in this diplomatic way:
Scorn for the official platitudes about Brazilian ‘racial democracy’ has animated a number of recent U.S. multiculturalist views. They emphasize that, when racial and cultural mixing becomes a nationalist ideology, other racial identities (especially indigenous and African ones) remain marginalized and may be snuffed out altogether. In Brazil, the multiculturalist critique has circulated only in narrow intellectual circles and seems unlikely, for now, to diminish the popular appeal of mixed-race (mestico) nationalism. After all, it was not so long ago – in the 1930s – that mestico nationalism overthrew and replaced the official doctrines of white supremacy. Nor is white supremacy gone from Brazil, except officially. Therefore, the basic nationalist message – ‘It’s okay not to be white and European’ – retains its value in many people’s lives. The mestico category is so loose as to exclude almost nobody who seeks an ‘authentic Brazilian’ identity.7

A much less diplomatic reading of ‘authentic Brazilian identity’ recognizes that it is not only in ‘narrow intellectual circles’ that the critique of ‘mestico’ identity circulates. There is a popular Black nationalist movement alive and growing in Brazil. And this present African political struggle can be related to the long history of resistance to enslavement, both literal and mental – to cite Bob Marley and before him Marcus Garvey who truly exemplifies the

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Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica

continental consciousness of African Jamaicans: “Emancipate yourselves from mental slavery/ None but ourselves can free our mind.”8 Like Jamaica, Brazil has a long history of maroonage: an intractable refusal to be enslaved on the plantation. And we must remember that Brazil is directly responsible for the development of the sugar plantation economy in the Caribbean. It was the expulsion of the Sephardic Jews from Brazil in the seventeenth century that forced them to seek refuge first in Suriname, then Barbados where they developed the sugar industry, which then spread to other islands and precipitated the enforced migration of Africans to work on the plantations in the Caribbean. Movement of Jah people. In The Mystery of Samba, Hermano Vianna asks a provocative question: “How and why did Brazilian ‘authenticity’ become essentially ‘Afro-Brazilian’?”9 The answer he provides is equally provocative, especially for us in Jamaica where the elite continue to disparage forms of popular culture (like dancehall) that have their origins in the consciousness of the masses – or, as we prefer the ‘massive’ with its connotations of power, not just faceless anonymity. It is these very despised cultural forms, like contemporary dancehall culture, that have come to be identified globally as the quintessential markers of Jamaican identity. Vianna argues that “[t]he invention of Brazil’s national essence, at least in the version symbolized by samba, turns on the importance of popular culture.”10 He foregrounds the distinction between ‘pop’ culture and ‘popular’ culture: ‘Samba, despite its long and intense association with the Brazilian mass media, is never thought to have originated (or even to belong) there. Pop culture has been viewed, to the contrary, as a corrupting, alienating influence: the worst enemy of “authentic” popular culture.”11 Just as Jamaicans have been hit by samba and feel no pain, Brazilians have been hit by reggae. I must honour Jimmy Cliff for the role he has played in the globalisation of reggae music, particularly in Brazil. I must also celebrate the work of Lino de Almeida, now numbered among our ancestors, who was so instrumental in

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establishing the musical connection between Jamaica and Brazil. It is my vision that we, at the University of the West Indies, can initiate with our colleagues in Brazil a multi-disciplinary, multi-sectoral research project focusing on intellectual property and related cultural productions – with practical industry applications – that will indeed strengthen strategic partnerships between Jamaica and Brazil.

Notas
1

Bob Marley, “Lick Samba,” Track 2, Disc 2, Songs of Freedom, Compilation, Tuff Gong/Island Records, LC0407, 1992.

2

Bob Marley and the Wailers, “Trench Town Rock,” Track 4, African Herbsman, Disc 1,Trojan Records, ASIN:B0000011DQ, 1973.

Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xvii.
3

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
4

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
5 6

John Charles Chasteen, “Translator’s Preface,” in Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xiv-xv.

Bob Marley, “Redemption Song,” Track 10, Uprising, Island Records, ILPS 9596, 1980 8 Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil, xvii.
7 9

Ibid.

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Os Sons do Atlântico Negro
Carlos Benedito Rodrigues da Silva Abstract
Reggae was born in Jamaica in the mid sixties as a result of a musical and rhythmic evolution from the Black-African traditions to the rock-steady rhythm and blues, in addition to the notable influences of Rastafarianism. In São Luis de Maranhão, considered the “Portal of Amazônia”, including the States of Pará and Maranhão, there was always a musical predominance of Caribbean Rhythms, such as merengue, carimbó, bolero, among others, in the popular festivities. This study attempts to formulate some of the hypothesis that explains the phenomenon of the incorporation of reggae into São Luis´s culture. Keywords: Popular culture, Reggae, São Luis de Maranhão (Brazil)

Resumo
O artigo analisa a apropriação e a ressignificação do reggae jamaicano entre as camadas populares da cidade de São Luís, Maranhão, como forma identitária e de resistência à marginalização social a que estão submetidas desde o passado de escravidão. Busca-se também traçar as origens do reggae na Jamaica, bem como explicar as condições para a popularização do reggae no Maranhão, bem como os embates ideológicos com as elites locais que estigmatizam o reggae em nome da ‘tradição’ e da preservação de seus privilégios sociais, econômicos e políticos. Palavras-Chave: Cultura Popular – Reggae – São Luis de Maranhão (Brasil)

Resumen
El reggae nació en Jamaica, a mediados de los años 60 del siglo XX, como consecuencia de una evolución rítmica y musical, desde las tradiciones negroafricanas, pasando por el rock-steady, rhythm and blues, además de las influencias

*Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 21-39, 2007

O rastafarianismo se tornou. por meio de compositores e cantores. adeptos do rastafarianismo. desde as tradições negro-africanas. de Marcus Garvey. Palabras Claves: Cultura Popular. e ao longo dos anos setenta do século XX. entre otros. 22 Revista Brasileira do Caribe. entre outros. por isso tornou-se um amplo movimento popular na Jamaica. Embora não professem um credo monolítico. passando pelo mento. pelo rock-steady. sempre hubo un predominio musical de ritmos caribeños. críticos sociais ou líderes espirituais. nos idos de 1950. um dos elementos fundamentais das mensagens político-filosóficas do reggae. El presente artículo intenta formular algunas hipótesis explicativas sobre el fenómeno de la incorporación del reggae a la cultura de San Luis. vol. culturais e políticas da Jamaica.Carlos Benedito Rodrigues da Silva marcantes del rastafarianismo. refletindo uma identidade cultural de oprimidos que adotavam o reggae como o símbolo da expressão de suas angústias. em meados dos anos sessenta. que viviam no desemprego e na marginalidade. rhythm and blues. o reggae concentrou todas as expressões sociais. como conseqüência de uma evolução rítmica e musical. carimbó. especialmente a partir da industrialização da Jamaica. além das influências marcantes do rastafarianismo. impulsionado pelas pregações. os rastas acreditam que Ras Tafari é o “Deus Vivo” e que a salvação do homem negro passa pelo retorno à África. em las fiestas populares. o rastafarianismo constituiu-se numa alternativa de construção da nacionalidade para milhares de jovens jamaicanos. Reggae. En São Luis de Maranhão. que se tornaram profetas. atribuindo-lhe uma característica de movimento messiânico. Desde o seu início. VIII. n° 15 . San Luis de Marañón (Brasil) O reggae surgiu na Jamaica. um dos principais articuladores do PanAfricanismo. considerada el “Portal de la Amazônia”. que envuelve los Estados del Pará y Maranhão. como merengue. bolero. portanto. Inspirado em interpretações bíblicas.

o sucesso internacional dos Wailers. Talvez por isso. donominado “Do The Reggay”. Com um acentuado caráter de contestação política. de 2007 . palavra caribenha usada para designar prostituta./dez. marcando uma revolução na música negra em todo o mundo. em meados dos anos setenta. definiu-a como “uma coisa que vem do povo dos guetos”. ou “desigualdade”. saindo em busca de novos ritmos. Secundado por nomes não menos famosos hoje. o reggae está em permanente evolução. Juntamente com a banda The Wailers. Toots tenha definido o reggae. porém. A expressão máxima do reggae jamaicano no mundo está em Robert Nesta Marley. Bob Marley foi o responsável pela explosão do reggae para além das fronteiras jamaicanas.Os sons do Atlântico negro Não existe um significado específico para a palavra reggae. Sem deixar. a expressão teria se derivado de “streggae”. Os ecos do grito jamaicano ressoam no Maranhão É possível que. Alguns a consideram originária das misturas de línguas afrocaribenha e inglesa. significando “raiva”. as mesmas bases culturais que impulsionaram o surgimento do reggae na Jamaica tenham contribuído para a explosão do ritmo jamaicano entre as populações negras e pobres das favelas e palafitas de São Luís do Maranhão. como algo que identifica o povo sofrido dos guetos. vocalista do grupo. como Jimmy Cliff e Peter Tosh. coisa que se usa como comida. serviu para abrir as portas para vários cantores e compositores jamaicanos. que começaram a excursionar e editar seus discos fora do país. os guetos do Terceiro Mundo. de beber sua essência na fonte básica que o originou. sofridas e que não tem o que querem. 23 jul. O próprio Toots Hibbert. resguardando as devidas proporções. em 1967. Essa palavra apareceu pela primeira vez em um disco do grupo Toots and Maytals. originando novas tendências e conquistando novos espaços. porém não se tem nenhuma conclusão definitiva sobre essa ligação. presentes na Jamaica. isto é. uma expressão para designar pessoas simples.

Isto revela que raízes culturais africanas teriam sido transplantadas para as duas regiões pelo processo de escravização e permanecido ali com algumas ressignifições3. Algumas pessoas.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Embora seja difícil precisar exatamente quais os caminhos percorridos pelo reggae até cair no gosto da população maranhense. nas variações rítmicas do bumba–meu-boi. vol. que envolve os Estados do Pará e Maranhão. algumas inclusive. têm uma familiaridade com os ritmos. entre outros. tanto na Jamaica como em São Luís existe uma população predominantemente negra com algumas características culturais semelhantes. especialmente da chamada Baixada Maranhense. herdadas dos africanos escravizados. várias explicações são apresentadas para justificar essa forte identificação. nas festas populares1. Na verdade. ainda que aparentemente inconsciente e imprecisa de se definir. que são também tocados nas festas dos povoados negros do interior do Estado. é resultante das raízes culturais africanas. de caráter geográfico. transportados para regiões diversificadas das Américas e do Caribe. como merengue. essa identificação. que por isso. considerada o “Portal da Amazônia”. Nessa região. sempre houve uma predominância musical de ritmos caribenhos. n° 15 . acabam florescendo em situações específicas na diáspora. sendo que a maioria delas apresentam certo grau de veracidade. O reconhecimento de uma batida semelhante entre o reggae e o bumba é o que permite a circulação dos regueiros entre os salões de reggae 24 Revista Brasileira do Caribe. atribuem ainda o gosto pelo reggae a uma possível identificação étnico-racial entre jamaicanos e maranhenses. afirmam que sintonizam emissoras do Caribe em algumas horas da madrugada e. Moradores de áreas rurais do Maranhão. Embora permaneçam “invisíveis” por muito tempo. acionadas pela memória coletiva a partir de estímulos diversos. Uma aproximação cultural pode ser encontrada ainda. chamadas de “sotaque”. como o comunicador Ademar Danilo2. VIII. ou seja. bolero. através do Atlântico Negro. carimbó.

) os marinheiros infestavam a zona. Foi isso que chamou a atenção. mas a origem foi de participação. aí quebra os preconceitos. Agora vemos o reggae conseguindo uma grande identificação na cidade. Segundo ele. músico e atual secretário estadual de cultura do Maranhão. podemos salientar as declarações de Joãozinho Ribeiro. não é outra coisa não. isso superou a barreira do preconceito pra depois entrar no mercado. foi essa pancada semelhante. A partir que se torna mercadoria. entre as décadas de 60 e 70 e depois fomos vendo o reggae se expandindo nas festas da periferia e a periferia sendo muito mal tratada. foi suburbana. A caminhada do reggae foi popular. Morei mais da metade da minha vida na zona do baixo meretrício e ali era comum esses navios que vinham das Guianas (. mas isso é a maneira como o reggae está sendo manipulado e 25 jul. infelizmente. Várias vozes e narrativas tecem os discursos. como afirma Humberto. incitando o imaginário popular a respeito da inserção do reggae no espaço maranhense. o reggae se tornou um instrumento de exploração do próprio negro. que veio de baixo. Inclusive.. Insistindo no relato de alguns depoimentos. Hoje. de 2007 . Não sei a origem.. mas escutei lá. o primeiro disco de reggae que escutei foi na zona. o reggae teve que superar muitos preconceitos para ser aceito como uma das maiores manifestações dentro da cultura maranhense. foi isso que chamou a atenção do pessoal. agora a gente pode até ver com outros olhos. ele se assemelha ao peso da pancada do reggae. geralmente eles pagavam as prostitutas com discos.Os sons do Atlântico negro e os terreiros de apresentação das “brincadeiras” da cultura regional no período junino. cantador do bumbameu boi do Maracanã.4 A gente sente o peso da trupiada do boi. Era comum eles aportarem todo mês./dez.

fundamentalmente. Podemos ainda salientar que a construção do reggae. assentada em uma semântica pejorativa. com sua forma de dançar agarradinho reflete determinada sensualidade inscrita culturalmente em corpos. pessoas simples. n° 15 . vol.Carlos Benedito Rodrigues da Silva assimilado por poucas pessoas que estão ganhando muito dinheiro. que se faça alguns cruzamentos com a definição atribuída ao cantor Toot Hiberts. a sua identificação como uma música de negros marginalizados. que sofrem e que não tem o que querem” Entre outras coisas. Curiosamente. como uma atitude de rebeldia. com prostitutas. nem o que precisam para assegurar respeito e dignidade numa sociedade de opressão. entre outras coisas. denunciando a exclusão que a escravidão impõe e os processos da modernidade sustentam. qual seja. visto que no reggae o corpo é concebido. ainda. O ritmo do reggae em São Luís. VIII. para quem a expressão reggae. “mulheres vulgares” que sofrem a violência diária de comercializarem o corpo por não ter o que querem. o que nos remete a situações semelhantes atribuídas ao reggae desde as suas origens na Jamaica. Conforme MartinBarbero (1997:240) 26 Revista Brasileira do Caribe. Joãozinho Ribeiro revela que um dos caminhos de divulgação do reggae em São Luís foi pela zona do baixo meretrício possibilitando. é possível identificar neste ponto uma das vias fortes de discriminação contra o reggae em São Luís. em certo sentido. manifestando-se no lazer e no trabalho. branca e cristã. pela sensualidade que enseja. de vigilância e punição às exibições do corpo como instrumento do prazer. pode ser relacionada com a moral burguesa. A zona do baixo meretrício é uma região localizada no Centro Histórico de São Luis. despossuídos. que povoam os guetos e palafitas da Jamaica ao Maranhão e. em cujos bares e cabarés ouve-se diariamente o ritmo jamaicano entremeado de boleros e merengues. está relacionada “ao povo sofrido dos guetos.

o cansaço e o esforço doem menos. Essas afirmações. possibilita visibilidade. precipitadas. são legítimos. como é o caso do reggae jamaicano em São Luís. ao mesmo tempo.). são contribuições importantes. E não se trata de reduzir o sentido da dança ao do trabalho. todos os caminhos. E é a dialética dessa dupla indecência o que vai de fato escandalizar a ‘sociedade’ (. e sim de descobrir que a indecência do gesto negro não vem somente de sua atrevida relação com o sexo. onde o reggae é um dos atrativos para os boêmios freqüentadores das casas e bares da região. criando uma nova linguagem como canal de comunicação e identificação. principalmente nos locais habitados pela população negra de baixa renda da periferia. de 2007 . Por sua vez. de sua evocação do processo de trabalho no próprio coração da dança: no ritmo. a existência de várias versões explicativas indica que é muito difícil precisar qual o caminho de introdução de determinados elementos culturais em um novo contexto. como para nos dar pistas sobre as possibilidades de existência de raízes culturais semelhantes envolvendo povos das duas regiões. 27 jul./dez. o negro enfrenta o trabalho extenuante e. que o adotou como uma das mais importantes opções de lazer. duvidosas ou legítimas. tanto para mostrar que um dos fatores de aceitação do reggae pela população da ilha de São Luís foi a sua relação com os ritmos caribenhos. Se por um lado. concentrando-se com algumas características marcantes. a princípio.Os sons do Atlântico negro Através de uma cadência quase hipnótica. Produzido originalmente em um idioma diferente. Logo. reforça os elementos de manutenção das desigualdades. inclusive a zona do baixo meretrício.. não é suficiente para atribuir-lhe qualificação social. o reggae se instalou na ilha e se espalhou por alguns outros municípios do estado.. O consumo da cultura do negro como espetáculo midiático. mas também. embora também ‘carregada’ oniricamente. envolvidos num ritmo frenético. É uma embriaguez sem álcool.

Carlos Benedito Rodrigues da Silva Nessas áreas. de uma vigilância acirrada sobre os regueiros. constata-se a exigência. que concebem os eventos apenas como fonte de lucro. No universo regueiro de São Luís não se toca reggae nacional e na falta de entendimento das letras. de sangue ou de orientação 28 Revista Brasileira do Caribe. as músicas são apelidadas de melô. o reggae ainda não é aceito por esses grupos como um símbolo da cultura maranhense. possibilitando ganhos econômicos e prestígio para quem o manipula. o reggae que não trilha por esse mesmo caminho. De elemento identificador de negros marginalizados. Ainda que alguns preconceitos sejam quebrados. dinamizadora dos eventos. contratados especialmente para os eventos. cujos descendentes. distanciando-se cada vez mais do título de Atenas Brasileira. sem revelar nenhuma outra preocupação de caráter sócio-coletivo que possa beneficiar a chamada “massa regueira”. já apresentam as músicas com o nome da melô conhecida. permanece no plano social a relação direta reggae/marginalidade. adquiriu uma posição destacada no contexto das programações culturais de São Luís. VIII. vol. n° 15 . que “aquecem” ou “esfriam” determinados ritmos de acordo com os interesses das gravadoras. No próprio espaço das festas. como pelos grupos de segurança. mesmo que o ritmo esteja inserido em jingles e propagandas comerciais veiculados nas emissoras de TV. Um fator a ser ressaltado é que a exploração do reggae a que se refere o compositor Joãozinho Ribeiro se dá não tanto pelas elites. tanto por parte da polícia. mas principalmente pelos proprietários de clubes e radiolas. ele passa a ter uma aceitação como mercadoria de consumo. é possível encontrar diariamente crianças dançando reggae nas ruas ao som dos programas de rádio. habitantes da periferia e prostitutas do “baixo meretrício”. Mesmo que tenha se expandido atualmente para outros setores considerados “mais higienizados” da cidade. Os próprios Dj’s.5 Contrariando os movimentos midiáticos. pelos organizadores. pois isso remeteria São Luís a uma Jamaica negra e pobre. ostentado com tanto orgulho pelos intelectuais maranhenses desde o século XIX. paradoxalmente.

e o ex-escravo era definido como incapacitado para o desenvolvimento econômico e cultural da nação. São essas raízes que desafiam as imposições das “elites atenienses” de São Luís e trazem o reggae como uma força dinamizadora de identidades que. de 2007 . ou menos jamaicano. construída na sociedade brasileira após a abolição da escravatura. remetê-la a um passado de inferioridade e distanciamento em relação à europeização pretendida e nega./dez. à denominação Jamaica Brasileira atribuída a São Luís pelos DJ’s. do trabalho e do lazer de amplos segmentos da população maranhense. A presença do reggae estaria provocando uma atrocidade na cultura maranhense. significa para alguns. O reggae é um dos elementos desse processo e ganha força na concepção popular. reivindica-se o título. assim. deixam transparecer uma atitude de repúdio à assimilação do reggae por amplos segmentos da população maranhense e. “mais nobre”. que teima em permanecer com fortes raízes no cotidiano religioso. de animalidade.Os sons do Atlântico negro ideológica branca. constroem seus próprios caminhos a partir das pluralizações culturais que vivenciam. a presença do negro era vista como sinônimo de atraso. Deste modo. principalmente. como uma maneira de reforçar o desejo de ser menos negro em sua cultura. a identificação de São Luís com a Jamaica hoje. Portanto. quando o trabalho escravo foi substituído pelo assalariado. “o belo e edificante epíteto” de 29 jul. pois o sonho de europeização precisa ser construído sob a concepção dominante de desqualificação da herança cultural africana. Se nos períodos imediatamente após a abolição da escravatura. desconhecendo uma ou outra realidade. contribuem para o estabelecimento de novos referenciais de identificação para segmentos populacionais que. em grande parte responsável pela construção da sociedade brasileira. de Atenas Brasileira. menos africano. apesar de ainda não serem suficientes para transformar a cidade em uma nova Jamaica. a importância da presença da população negra. especialmente para aqueles que assimilaram a ideologia de europeização.

discotecário: julho/98). eram feitos com material exclusivo dos DJs. algumas pessoas preferem dançar sozinhas próximas às caixas de som. 30 Revista Brasileira do Caribe. vol. este sim atroz. pois desde meados dos anos oitenta. As pessoas gostavam porque era música lenta. pois violentador da dignidade humana. Embora a predominância seja dançar aos pares. Além do comércio de fitas. Durante muitos anos. predominantes na região. Os programas. a propagação do reggae em São Luís esteve ligada muito mais a um comércio alternativo de gravação de fitas e ao aluguel de radiolas do que à industria cultural. A gente dançava sem fazer definição. VIII. pois possibilitou que o ritmo alcançasse espaços cada vez mais distantes. A divulgação se fez com a promoção de festas e programas de rádio. Há também as coreografias coletivas. com grupos de três ou cinco pessoas exibindo passos coordenados. como nos municípios e povoados rurais do interior do estado. n° 15 . quando se deu a grande projeção do reggae na ilha. a gente não sabia separar o que era reggae. (Riba Macedo. a não ser para a satisfação de determinados segmentos sociais que se outorgam guardiões das tradições como retrato de um passado escravista. As fitas eram gravadas de discos importados da Jamaica que somente alguns discotecários tinham acesso. Na época. embora mantidos pelas emissoras. a programação de rádio teve um papel muito importante nesse processo. muitos desses discos já estavam fora de catálogo na própria Jamaica. o que era música lenta. tanto entre os diversos segmentos da população da capital.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Atenas Brasileira já não faz sentido. chegando a São Luís como raridades. A dança adquiriu essa característica misturando passos do forró e do merengue. Uma das diferenças marcantes em relação à Jamaica é que o reggae em São Luís é dançado aos pares. porque as próprias emissoras não tinham os discos de reggae.

) antes de se conhecer a palavra reggae aqui. maestro: 1998). merengue. O rei do merengue aqui era considerado Luiz Calaf. nas regiões Norte e Nordeste os ritmos predominantes eram: forró. baião. A gente gostava muito de Lindomar Castilho. A música estrangeira não tinha muita penetração. Muitas pessoas afirmam que antes de se conhecer a palavra reggae no Maranhão. Depois chegou às lojas um LP de Johnny Nash. A música internacional que se dançava aqui era o merengue.. Evaldo Braga. ou “Jimi Clife”. que agradava ao público. ou “agarradinho” que é uma expressão nordestina para as danças de salão. como o rock. bolero etc. de 2007 .) (Chico Pinheiro. ‘I Can See 31 jul.Os sons do Atlântico negro A dinamização do ritmo jamaicano no Maranhão coincide com a explosão dos hits da “Discoteque” na região Sudeste do País. as pessoas chamavam balanço. que preferencialmente se dança solto. (./dez. Carlos Alexandre. esse ritmo era identificado como “discoteca lenta”. “balanço”. com exceção do merengue que vinha da Guiana e era aceito porque se assemelhava aos passos do forró nordestino. a discoteca ou o funk... Altemar Dutra.. ‘ô que balanço bonito é o do Jimmy Clyff’. ritmos que se dançam aos pares. então chamava Jimi Clife e tal (. Enquanto nas regiões Sul e Sudeste a preferência musical para as festas da juventude recaía sobre os ritmos mais acelerados. Tanto que os primeiros sons de reggae em São Luís foram pela música de Jimmy Clyff. porque na época tinham os cantores brasileiros.. Era aquele estilo que a gente dançava. mas o merengue também estava no auge. Seus discos estavam chegando ao Brasil no embalo desse novo som e já podiam ser comprados nas lojas locais. As músicas de Jimmy Cliff eram muito solicitadas nas festas porque tinham um balanço diferente.

vol. regravado no Brasil em l971.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Clearly Now’. A disputa pela exclusividade de um disco sempre foi muito acirrada. Curiosamente. lambada. n° 15 . em festejos de santo na capital ou no interior do estado6. 32 Revista Brasileira do Caribe. faziam muito sucesso nas festas no início dos anos setenta. Alguns proprietários de radiolas chegavam a comprar todos os exemplares de um mesmo disco e raspar os selos para que outros não pudessem identificá-lo. junto com outras de Jimmy Cliff. Operadas por discotecários que nem sempre são os seus proprietários. merengue. contendo várias caixas de som formando paredões nos clubes. elas já existiam anteriormente. Voltados quase exclusivamente para a festa de reggae. possuindo semelhanças com os “sound systems” jamaicanos que popularizaram o Ska e depois o Rock Steady como alternativa ao controle excessivo exercido pelo governo à rádio jamaicana. as radiolas são contratadas para animar festas em vários pontos da cidade. como havia uma competição intensa entre os discotecários ambulantes na Jamaica que chegavam a raspar a etiqueta ou o selo dos discos novos para dificultar a aquisição pelos concorrentes. oferecendo lazer para uma grande faixa da população de baixa renda que não tinha condições de adquirir os discos. As radiolas maranhenses não nasceram com o reggae. Elas são sistemas montados com uma aparelhagem sofisticada. criando rivalidades entre eles. da mesma forma que os sound systems jamaicanos. Essa música. entre outros ritmos. (Riba Macedo: julho/98). eles contribuíram para que o ritmo se espalhasse praticamente por todos os bairros de São Luís. VIII. ‘You Can Get It If You Really Want’ e ‘I Love I Need’. A partir do início dos anos oitenta houve uma proliferação desses equipamentos. As radiolas tiveram também uma grande importância no processo de divulgação do reggae em São Luís. promovendo festas com forró. em São Luís essa prática também foi adotada pelos produtores das festas de reggae.

muitos demonstram ter consciência de que a discriminação se dá pela sua condição social e racial. O reggae é música do negro. é imenso mesmo e tá sempre na periferia. é uma música marginalizada. é possível compreender a importância do reggae como conseqüência da dinâmica expansão midiática que ultrapassa as fronteiras nacionais com uma velocidade inusitada neste final de século. determinando a criação de novas linguagens e estéticas comunicativas em várias regiões. Ainda que não estejam ligados a nenhum movimento político organizado. O reggae vem do negro. dançarino). No Brasil. especialmente. Baixada Fluminense etc. Por isso. Coisa de nego que mora ali Pelas ondas de rádio e pelos clips televisivos o ritmo se espalhou pelo planeta. Para alguns regueiros maranhenses a herança negro-africana é responsável pela concepção pejorativa que se atribui ao reggae e também pelos atos de discriminação que vivenciam por serem relacionados a ela. onde tem sempre um 33 jul. por isso a gente se identifica com ele (Ronaldinho. não é música dos brancos./dez. O contingente de negros aqui no Maranhão é muito grande. e as músicas preferidas dos regueiros maranhenses não são encontradas facilmente. este fenômeno pode ser observado em regiões como Maranhão. de 2007 . a evolução musical na Jamaica é muito rápida. redefinindo seu território de atuação. Segundo eles. Bahia. quem conseguir mais raridades vai ter mais condições de assegurar o seu público e se manter em evidência junto à “comunidade regueira”. criou também uma animosidade entre os radioleiros e discotecários que mantinham em segredo suas fontes de aquisição. Por tudo isso. nos locais de grande concentração de população negra. se de alguma forma serviu para conquistar o público.Os sons do Atlântico negro Essa atitude.

para alguns. não se pode perder de vista que esse caráter integrativo é momentâneo e não elimina as diferenças e nem as desigualdades. vol.Carlos Benedito Rodrigues da Silva salão de reggae. os brancos começam a invadir o salão e a gente não tem mais espaço pra dançar (Guiu Jamaica. Dessa forma. Daí a presença do branco ser vista. pois mesmo que determinados grupos estejam participando de uma atividade comum. Existe um caráter integrativo do ponto de vista sociológico nessas festas. a exclusão dos espaços de lazer. por alguns. O mesmo argumento vale para as festas de reggae. o espaço para estes últimos. n° 15 . Analisando o desenvolvimento das escolas de samba cariocas. De fato. Entretanto. enquanto para os segmentos definidos como regueiros que sofrem as consequências da exclusão. ou até mesmo. como alternativa de auto-afirmação. Agora que o reggae virou moda. sabe? É um ritmo negro. já que este é a 34 Revista Brasileira do Caribe. podemos dizer que ela se expressa tanto na exibição das fantasias. nas cordas dos trios elétricos baianos. Os brancos nem sabiam que o reggae existia. resta o anonimato nas alas e baterias das escolas de samba. no tempo que a polícia vivia baixando o pau na negrada. estão ali com o mesmo objetivo da busca do lazer. serve também. Nesse sentido. o reggae é. mais uma opção de lazer entre outras. como uma invasão. no carnaval essa relação pode ser constatada em várias instâncias. Para os que compõem o minoritário quadro das elites são ofertados espaços luxuosos. a princípio. como nos espaços escolhidos ou oferecidos para o lazer. enquanto para a grande maioria. dançarino). bem como para a maioria das festas populares. uma vez que o objetivo é estar entre seus iguais. um ritmo que mexe com a gente. Clóvis Moura7 aponta para o papel integrativo do carnaval. já que todos os participantes. as alternativas de lazer são consideravelmente mais restritas. essa participação não se dá em condições de igualdade para todos. VIII. geralmente incômoda.

dançar afasta as angústias do cotidiano. mesmo em meio às agruras da escravidão. quando é reconhecido como um bom dançarino ou um bom DJ./dez. a discriminação contra o negro não se dá por conta do reggae. contribuindo para a construção de uma imagem estereotipada do regueiro. é discriminado por sua identificação como “coisa de negro” e. Tinhorão mostra que desde o século XVI os batuques de escravos representavam momentos de expressão de alegria e felicidade. onde se concentram majoritariamente os grupos negros. Ele considera que O fato de os batuques constituírem para os escravos africanos. as festas do reggae atribuíram visibilidade a uma grande parcela da população de baixa renda em São Luís. o reggae.Os sons do Atlântico negro representação do grupo que caracteriza o reggae como uma atividade marginal. Ao contrário. Por outro lado. pela desqualificação atribuída às atividades lúdicas construídas pelos grupos negros na cultura brasileira. por exemplo. Na verdade. desde o século XVI. a presença cada vez maior de grupos não negros (jovens estudantes da classe média e até turistas nacionais e estrangeiros) em alguns “clubes de reggae” possibilita ao regueiro um auto-reconhecimento. um dos raros momentos de livre exercício de seus costumes originais. pela polícia e pela imprensa local refletem a concepção das elites maranhenses sobre o reggae e seus freqüentadores. levando-o a assumir essa condição como uma identificação positiva. neste sentido. Além do que. As reações de vigilância e controle exercidas. 35 jul. Para estes. (1988:45). passível de vigilância e controle. a exemplo de várias outras manifestações que recebem o mesmo tratamento. ele (o regueiro) se sente prestigiado frente à “comunidade” Sem dúvida. ameaçadora. de 2007 . é atingido também. ia garantir a esses encontros uma riqueza de expressões de que os colonizadores jamais poderiam imaginar a extensão. de tal forma que causavam espanto nos fazendeiros.

controlando não apenas suas vidas. escravos ou libertos. torturado. O próprio corpo é depositário do pecado. o corpo-coisa do escravo propõe a experiência assustadora da ausência de limites: pode ser surrado. em que pesem as várias e diversificadas tentativas de controle exercidas em nome da religião. para satisfação dos apelos da carne. Ainda segundo Maria Lúcia Montes (2000: 65) Mesmo para o senhor. n° 15 . ultrapassa a compreensão das elites que. religiosas ou de lazer manifestadas pelos segmentos negros. dilacerado e morto. mas também seus corpos e almas. sempre atribuíram às manifestações dos afrodescendentes. Legitimada entre outras coisas. VIII. desejo e sedução. Maria Lúcia Montes mostra que esse mesmo corpo neutralizado pelos horrores da escravidão. a escravidão impôs aos negros escravizados a imagem do pecado. as marcas que designam esse corpo enquanto outro-mercadoria. Assim. instrumento de trabalho. da ordem social ou da moral burguesa. tem de ser coberto e aprisionado para inibir seus anseios e transformá-lo em simples instrumento de trabalho. presas às orientações cristãs européias. portanto. inventando gingas e artimanhas que constantemente apontam para a ambigüidade da moral escravista. Assim. um caráter de lascivosidade e desordem. por uma moralidade cristã.. Sem dúvida.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Essa diversidade de práticas rituais. a dança sempre foi uma das mais fortes expressões dos grupos humanos em toda a história da 36 Revista Brasileira do Caribe. utiliza-se deste corpo para satisfação de desejos. mas também apropriado a bel-prazer. ele se projeta como um elemento de desafio ao poder das elites. a qual ao mesmo tempo em que proíbe sua exposição pública. o primitivo a ser domado — também o assinalam como objeto de repulsão. traz consigo a inscrição simbólica dos confrontos entre a civilização ocidental e as culturas profanadas pela diáspora. vol.

capoeira ou reggae. entre tantos outros. com a qual se produziu a ligação com o presente. Notas 1 Pude constatar através de alguns relatos. com votos da “comunidade regueira”. são vertentes rítmicas produzidas na diáspora africana. mesmo considerando as especificidades. que mobilizam segmentos das várias regiões estendendose até a África. num percurso de ida e volta tanto nas ondas midiáticas da indústria cultural como nas marés do Atlântico Negro. a malícia. em algumas festas de grupos negros em Salvador na Bahia. instigava-lhe a sociabilidade. A ginga. Essas performances desenvolvidas pelos grupos negros que viveram a diáspora. simplesmente pelo prazer de se sentir bem. 2 Ademar Danilo foi um dos primeiros comunicadores a apresentar programa específico sobre reggae nas emissoras de rádio em São Luís e foi eleito vereador pelo PT.Os sons do Atlântico negro humanidade: em busca da liberdade. representam a explicitação da rebeldia e expressam. em agradecimento aos deuses pelas alegrias da vida./dez. ou da América Latina. maracatu. estão relacionadas com as lembranças armazenadas. da Amazônia. também. pelos ciclos de colheita nas sociedades agrárias e da fertilidade em sociedades tradicionais ou. as angústias e as alegrias que não podem ser pronunciadas livremente. que esse ritmo é tocado também. mas são representadas por uma memória corporal que burla a vigilância das elites com uma linguagem simulada. merengue. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de religião afro-brasileira de São Luís é a Casa 37 jul. desde um passado no qual a sujeição à condição de escravo ao mesmo tempo em que bloqueava as condições de emancipação do indivíduo. Assim. a sensualidade. Isto nos leva a afirmar que samba de roda. bumba-meu boi. existem fortes aproximações culturais seja entre os povos do Caribe. tanto individual como coletivamente. 3 Uma curiosidade é que segundo historiadores. de 2007 .

Nestor Garcia. BHABHA. 1997. Gerd A. CAMPBELL. Bibliografia ALBUQUERQUE. com seus respectivos melôs. que até o final da década de 80. 1988. A magia do reggae. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa. São Paulo: Studio. Lisboa: DIFEL1989. Sincretismos: uma exploração das hibridações culturais. 1997. Belo Horizonte: Ed. 38 Revista Brasileira do Caribe. São Paulo: Editora 34. as festas eram feitas com discos de vinil ou fitas cassete. VIII. o nome “melô” que é criado pelos regueiros. 4 O Maracanã é um bairro rural do interior da Ilha de São Luis. Rio de Janeiro: Zahar/Funar. 1996. 1997. São Paulo: Ática. que já trazem junto ao título da música. O Local da Cultura. CANEVACCI. “O Conceito de Tradição”. 3. CARDOSO. n° 15 . & SIMON P. O eterno verão do reggae. O “melô” seria uma espécie de alcunha da música. 7 Sociologia do Negro Brasileiro. Massimo. Carlos. Melô do Gerente. vol. 1985. O Poder Simbólico. e assim por diante. Melô do Sapato.Carlos Benedito Rodrigues da Silva de Fanti-Ashanti. DAVIS S. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Melô da formiga. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. A radiola Diamante Negro lançou um CD com 20 músicas preferidas dos regueiros em São Luís e no encarte vinha impresso o nome das músicas. . p. tais como: o Melô do Morcego.).143. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. 5 Existem atualmente gravações de coletâneas em CD’s piratas. Horace. BOURDIEU. Rasta and resistance: from Marcus Garvey to Walter Rodney. 1995. Homi K. Reggae: Música e cultura da Jamaica. 6 É importante ressaltar. In: Cultura Brasileira: Tradição e contradição. 1998 BORNHEIM. onde acontece algumas festas importantes da cultura popular. São Paulo: Martin Claret Editores. Melô da Guerreira. Lisboa: Centelha. os cds foram adotados posteriormente. 1983. CANCLINI. Pierre. UFMG. London: Fonthill Road. Marco Antonio (org.

Rio de Janeiro: Zahar Editores. 1984. In: Negro de corpo e alma. São Luis: EDUFMA. 1999. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. novembro. Goli. Ritmos em trânsito: socio-antropologia da música baiana. ORTIZ. WHITE. lazer e identidade cultural. José Ramos. cultura e hegemonia. Livio e SANTOS. de 2007 . 1978. MONTES. 1996. “Globalização. Rio de Janeiro. Identidades culturais na pós-modernidade. Maria Lúcia. MARTIN-BARBERO. Identidade e Diferença”. Sociologia do negro brasileiro. A Era do Globalismo. MOURA. reggae. Da Terra das Primaveras ‘a Ilha do Amor. HOBSBAWN. A interpretação das culturas. 2000. Cultura popular: uma introdução.). Queimando tudo: a biografia definitiva de Bob Marley. Eric e RANGER. Paula. Renato. MONTEIRO. HALL. São Paulo: Hedra.Os sons do Atlântico negro GEERTZ. 1988. 1997. São Paulo: Dynamics Editorial. STRINATI. Rio de Janeiro: Record. 2000. Mundialização e cultura. Clóvis. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo. SANSONE. Rio de Janeiro: DP&A. 47-64. Terence (organizadores) A invenção das tradições. IANNI. 1999. Jesús. Jocélio Teles dos (org. 1997. Stuart. Revista da Mostra o Redescobrimento. “Olhar o Corpo”. Civilização Brasileira. 1995. TINHORÃO. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Carlos Benedito Rodrigues da. 1988. SILVA. Os sons dos negros no Brasil. São Paulo: ERT Editora. In: Novos Estudos CEBRAP Nº 49. A trama dos tambores: a música afro-pop de Salvador. 39 jul. São Paulo: Editora 34. Dominic. Timothi. pp./dez. São Paulo: Brasiliense. Dos meios às mediações: comunicação. 1997. São Paulo: Ática. Octávio. Clifford. 1997. GUERREIRO. 1997.

40 .

the population of São Luis incorporated Jamaican rhythm in its dance-rituals and drums. vol. African diaspora Resumo Na cidade de São Luís do Maranhão. VIII. *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 41 Revista Brasileira do Caribe. Diáspora Africana. characterized by economic inequality with the hallmark of oligarchic politics. 2007 . but also to the battle against social inequality. especially in Maranhão. Culturas Afro-americanas. Trata-se também da ressignificação das letras e melodias das canções produzidas por músicos jamaicanos na formação identitária dessa população. 41-60. the phenomenon of reggae is not only linked to the cultural traditions. nas equipes de som.O Reggae na “Jamaica brasileira”:Cidadania e política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa Abstract The African Diaspora has contributed to the formation of artistic expressions in Brazil. nos simbolismos. Esse artigo analisa letras musicais e depoimentos orais entre outros elementos como exemplos dessas relações de apropriação e resignificação. n° 15. Within this context. Keywords: Reggae. Palavras-Chave: Reggae. In a social scenario. where there exists one of the most important multi-ethnic societies of the world. The Afrodescendent music was not just coincidence. Afro-American cultures. a apropriação do ritmo jamaicano do reggae pelas camadas populares constitui um movimento de resistência cultural. seja nas festas. Goiânia. social e política contra a marginalização que elas sofrem em seu cotidiano.

el fenômeno del reggae está vinculado no apenas a las tradiciones culturales sino también a la lucha contra las desigualdades sociales. constituindo uma das mais importantes sociedades pluriétnicas do mundo e um dos maiores berços culturais transatlânticos. Nesse contexto de significados o gosto artístico da população ludovicense. revelado tradicionalmente nas danças e nos tambores. Embrionariamente veio da África durante a travessia do Atlântico. permitindo considerar o ciclo do reggae neste tripé. Palabras Claves: Reggae. vivenciados historicamente pelos africanos e descendentes. especialmente no Maranhão. Culturas Afro-americanas. Diáspora Africana Em todas as regiões nacionais podem ser observadas a ‘olho nu’ elementos de africanidade reterritorializados. vol. ainda. especialmente en Maranhão. En un escenario social pleno de desigualdades económicas y en el cual reina la política oligárquica y ‘coronelista’. ouvir e festejar. La música afro-descendente no fue asumida por un simple pase de magia. A diáspora africana em muito contribuiu para a formação das manifestações artísticas no Brasil. Ao contrário. Goiânia. incorporaron el ritmo jamaicano. 42 Revista Brasileira do Caribe. ressignificados e relidos. n° 15 . o fenômeno estudado forneceu visibilidade ao bluff1 de tradições conferidas a um restrito grupo social dominante no Maranhão e aos processos de ‘higienização’ cultural. VIII. En ese contexto de significados la población de São Luis en sus danzas y tambores. donde existe una de las más importantes sociedades pluriétnicas del mundo. adotou o ritmo jamaicano para dançar. nem tampouco fora de propósito num cenário social infestado de desigualdades econômicas em que reina uma política oligárquica e. O mesmo aconteceu com o ritmo surgido na Jamaica que chegou a São Luis indo até a África. A música afro-descendente não se fixou por um simples passe de mágica.Maristane de Sousa Rosa Resumen La diáspora africana ha contribuído para la formación de las manifestaciones artísticas en Brasil. ‘coronelista’.

W. e o livro de G. Young. M. Warburg havia morrido quando Hitler chegou ao poder em 1933 e estudiosos alemães associados ao seu Instituto refugiaramse no exterior. outra contribuição da Faculdade de Inglês de Cambridge. De forma que a etnografia do ritmo jamaicano é uma importante ferramenta historiográfica para desconstruir estereótipos e preconceitos sociais. The Elizabethan World Picture (1943). “estudos sobre o pensamento da época”. Em virtude das interpretações propostas se confirma o viés histórico-antropológico. tambor-decrioula. transferindo-o para Londres nas figuras de Saxl e Wind. evitando tradições acadêmicas fronteiriças e delimitadas temporalmente. assim como para a história da arte.. The Seventeenth-Century Background (1934). Tillyard. lili. Os efeitos desses escritos literários contribuíram para a ascensão da história cultural. 43 jul. por abordar o reencontro de populações em um contexto de mudança social. 2007 . tambor-de-mina. adicionando ou integrando a si lembranças e sentimentos./dez. culturais e educacionais estabelecidos por séculos. o de E. demonstrando a transição da ‘usança africana’ como instituição tão presente entre nós. na Grã-Bretanha da década de 1930 estava se escrevendo uma história culturalista. p. Assim. cacuriá..25). A cultura africana e de seus descendentes constitui importante legado para o Brasil pelas festas de bumba-meu-boi. (BURKE. que contribuiu para a construção da ciência cultural. escrito por um professor de inglês e apresentado como ‘panorama’ para a literatura. na Grã-Bretanha. Victorian England (1936). Do mesmo modo outras festas dos negros brasileiros tornaram-se equivalentes às de origem africana.O reggae na “Jamica brasileira”. M. 2005. Entre as contribuições mais importantes dadas a essa tradição está o livro de Basil Willey. uma das figuras mais originais e influentes da história cultural no estilo alemão. da sociologia e de certos estilos de filosofia. Trata-se de uma abordagem inaugurada por Aby Warburg.

Sua ênfase na idéia de que a literatura dependia de “uma cultura social e de uma arte do viver” deve-se menos a Marx e mais à nostalgia pelas ‘comunidades orgânicas’ tradicionais. como forma de protesto político e social. como fez Raymond Williams em The Long Revolution (1961). funcionando como elemento de fortalecimento da auto-estima de grupos dominados economicamente. Assim como Yates diz que foi “iniciada na técnica warburguiana de usar aspectos visuais como evidências históricas”. especialista em Shakespere que encontrou no circuito da Escola de Warburg intelectuais instigantes e uma biblioteca inspiradora trazida por eles. também estava profundamente interessado na relação entre a cultura e seu ambiente. As emoções são realmente gritos tenazes contra a opressão e a favor de resistência. 1990:272). vol. Um outro exemplo e o alvo dessa contextualização. livro que discutia a história social do teatro e em que. autor de The Great Tradition (1948). um dos pseudônimos de Eric Hobsbawm. publicado em 1959. justamente pelo “aflorar de emoções incrivelmente poderosas e tenazes tanto entre os seus seguidores quanto entre os seus oponentes” (HOBSBAWM. mas também seu público.29). mais ainda. R. 2005. também na música reggae adotada na Jamaica podemos sugerir. Como seria de se esperar de um famoso historiador econômico e social. p. Leavis. Goiânia. abordando o jazz como negócio e. além disso. também estudiosos marxistas foram incluídos na preocupação relacional entre cultura e sociedade. Concordando com as características atribuídas ao jazz por Hobsbawm. VIII. n° 15 . o autor discute não apenas a música. No entanto não é difícil combinar uma abordagem ‘leavisita’ com a marxista. foi cunhada a famosa expressão ‘estruturas do sentimento’ (BURKE. vieses de contestação por direitos e justiça social. 44 Revista Brasileira do Caribe.Maristane de Sousa Rosa Nesse episódio cabe estudar o exemplo da inglesa Frances Yates. é a História social do jazz escrita por ‘Francis Newton’. pelos textos e performances. F.

/dez.O reggae na “Jamica brasileira”. 2007 . stupid Let not your arrow From your bow. oh love 45 jul. quando diz: “Por que nos tornamos como cordeiros. cupid. São Luis e África. pois estamos numa guerra.. A performance musical do jamaicano IJahman é uma ritualização do culto sagrado rasta. Essa canção Are We a Warrior (Nós Somos Guerreiros?) interpretada e composta por IJahman em álbum gravado no ano de 1978.” O sucesso musical We Are a Warrior (Are We a Warrior) eleito na cidade de São Luis como o hino do reggae no Maranhão. ilustra a relação de pertença socioétnica entre Jamaica. exemplifica um dos caminhos a ser percorrido pela pedagogia inclusiva. Vejamos: The perfection is love And I give thanks For the fullness Within the full me nice Its cool mild these peace me nights Its gentleness Made I a man son of him Life was divided In sweet harmony Come it A woman until dream Are we a warrior? Are we a warrior. no visível e no imaginário. Oh.. ora prevendo que esse e outros enredos literários construídos pela cultura da diáspora sejam acessíveis como conteúdos educacionais que privilegiam a diversidade do conhecimento. de luta. com sonoridade simbólica de persistência e contestação. simultaneamente proporcionando reações no audível. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão. não confunda.

VIII. 46 Revista Brasileira do Caribe.Maristane de Sousa Rosa Faith is a mountain. Are we a warrior. So silent and filled Fountains of waters For also all his lovely creatures He gave us wisdom And knowledge to understand its love Do us after a war Are we a warrior? Are we a warrior. Oh cupid. Goiânia. stupid Let not you arrow From your bow So out low And never let it go What caused You have a pistol In your endless love Is it far? To shut the man down there Do we give in? After we have star lit Why can’t We become like a lamb Not look end It’s not humble when These is a small confusion It is a war They rather way as be and Sometimes being confused Within your own head Because at times How us get have down led Are we a warrior? Are we a warrior. vol. n° 15 .

Are we a warrior. Oh cupid. Are we a warrior.O reggae na “Jamica brasileira”. Are we a warrior.../dez. stupid Let now your arrow From your bow So out low And never let it go Take a look at certain dream And there are often true stories It would be On all our own glory How often I ask Still like it see no love its why For full close and shelter The cry of mamas and papas Are we a warrior? Are we a warrior. Oh cupid. 2007 . Oh cupid. stupid Let not your arrow 47 jul. stupid Let not your arrow From your bow Prophecy is now revealed The son of man won’t take it The heart is giving up Why life is taking in the sudden shock The crying of the people Multiply in all over Jah will give an answer To have are stop cry our Are we a warrior? Are we a warrior.

Nesse sentido. say”. ou seja.Maristane de Sousa Rosa From your bow And never let it go. 48 Revista Brasileira do Caribe. serviu como instrumento para dar visibilidade às tradições milenares africanas do “Egito e Etiópia” (ALBUQUERQUE. associado ao contexto musical jamaicano do século XX. as danças e mais ainda. Ao cenário associativista bem se aplica o diálogo reflexivo da antropologia com a história. Os regueiros maranhenses apreciam a melodia e desconhecem as letras das canções em língua inglesa que falam sobre os fundamentos filosóficos do movimento Rastafari e de elementos de simbologia afro (o cabelo. o ritmo da diáspora fez emergir sentimentos de orgulho negro quando elegeu fatos históricos e da Bíblia para serem recontados sob a luz de ideais pan-africanistas fortemente difundidos nos Estados Unidos e no Caribe. Lorand Motory. cita-se o Rastafarismo3 que. vindo com seu idioma. os reizados. as cores pan-africanas). mesclando-lhes vocábulos ou sotaques. ao francês ou ao inglês. os cultos jeje4 e nagô ilustram este processo de resistência do negro africano que atravessou o Atlântico e. “Melô de Poliana” é Think twice da intérprete Donna Marie (apelido adotado segundo a preferência dos regueiros ou regueiras) e “Melô de Pinto” é uma homenagem a radiola6 Itamaraty. Soam mais estranhas ainda expressões como Jah. a figura do leão. as músicas são apelidadas pelo nome ressonante. Jah. Com referência aos fatores lingüísticos não por acaso o reggae cantado em ‘inglês jamaicano’ é ouvido em São Luís na forma de melôs5. as cantorias. n° 15 . estruturou sua língua ao português. Desse modo. VIII. o carnaval. ressignificou a alimentação.2 Tomando a canção como referência. Peter Burke e Eric Hobsbawm como exemplos que inseriram narrativas dinâmicas às festas carnavalescas. Goiânia. seus costumes e valores. pelo sotaque que o ouvido capta e torna mais evidente: “Melô do Cachaceiro” representa a sonoridade do refrão “Jah. 1997:29). realizado por autores como J. vol. o vestuário.

não têm essa pegada. De outro lado. boina branca. Marcus Garvey. Meu lazer é reggae. Hailé Salassié I ou Ras Tafari. Na capital do Maranhão foram re-significadas pela emoção. No tempo que nós aprendemos a dançar era calça preta. Embora a população ludovicense possua baixas taxas de escolaridade e tenha dificuldades para utilizar o português da gramática normativa não se descartam sinais de “parentesco” afrocultural entre jamaicanos e maranhenses. Ou seja. 1980 e 1990. no Sá Viana. criando até descobrir 49 jul. pois os melôs romperam barreiras impostas pelo idioma dantes colonial. camisa branca. peixeiro aposentado. aí eu sou aposentado como peixeiro. não agüentei. mesmo desconhecendo a língua inglesa. passei dois anos na igreja. disse: Começamos a dançar reggae no quintal. As melodias que envolvem fortes denúncias das desigualdades socioétnicas contra a população negra não tem como ponto de partida a versão jamaicana. cinturão preto. num cercado de palha. o reggae roots7 mesclado com patois8 se mostrou incompreensível também também confrontado ao padrão lingüístico fonográfico de sotaque anglo. ninguém sabia as cores.O reggae na “Jamica brasileira”. esse fenômeno foi estudado para compreender como a melodia produziu emoções no corpo e na ‘alma’ dos afro-ludovicenses em que sentimentos de êxtase são almejados pela audição do ritmo jamaicano e não outro. 2007 . Já fui evangélico. Um assíduo freqüentador das festas de reggae roots. com 77 anos de idade conhecido pelo apelido de Sapo. Eu gosto do reggae roots. radiolas grandes e pequenas. Peixeiro. às vezes eu tava na igreja aí escutava uma batida de reggae não agüentava.. Sou viúvo./dez. eletrônico não. tenho 9 netos. foram direcionadas como subsídio histórico para reescrever a História e Cultura Africana por meio do reggae. o reggae é uma maravilha. 6 filhos.. Antonio Domingos Almeida Santos. As letras musicais jamaicanas das décadas de 1970. amplamente tocadas na cidade São Luis. pensado como elemento sócioeducacional para consolidar a cidadania na sociedade do Maranhão. aí fomos criando. na Praia do Gaspar.

Goiânia. uma cultura. guardando as devidas proporções. trazendo muita paz. se imbricaram nos dois territórios pelo reggae roots. Conforme Peter Burke (2000: 224). Os jamaicanos eles faz muita mímica. nome que enfatiza a batida do tambor”. pra uma árvore. toca no corpo todo. muita coreografia. n° 15 . Nós maranhenses já trazemos esse ritmo no corpo. o reggae pra mim sempre foi uma cultura. já nascemos com esse ritmo no corpo. pra Jah. 50 Revista Brasileira do Caribe. batemos tambor-de-mina. desde 1970. 2006). é uma beleza de lamento. respeito. o reggae é um lamento. as cores originais. integridade. o tambor-de-mina.Maristane de Sousa Rosa uma origem. é muita gente. abraça-me. pela política colonial escravista de São Luis e o decorrente preconceito racial estendido aos negros descendentes. dançamos tambor-de-crioula. que fez até a cidade de São Luís receber o codinome de “Jamaica Brasileira”9. fibra e cultura. cada uma associada a um ritmo característico. O reggae pra mim é uma cultura autônoma nossa. é um bom lamento. As simbologias musicais na década de 1970 entre Jamaica e Maranhão implicaram no fortalecimento cultural da diáspora que pela música percussiva dos tambores nyahbinghi e tambor-demina. São Luis. ou seu equivalente no Maranhão. trazemos no coração. Sou regueiro antigo. eles cantam pra Babilônia. vol. Os cultos de possessão desse tipo continuam entre os negros nas Américas. Eles cantam pra uma criança. Por isso narrativas histórico-culturais são pertinentes à chegada do ritmo de matriz africana com sotaque inglês. quando ele faz assim (abre os braços) pedindo a Deus. japonês coleciona muito reggae. dançamos bumba-boi. americano também. (Sapo. O reggae levanta a gente assim. VIII. desde o vodu do Haiti à santería de Cuba e ao candomblé do Brasil (que tem ligações particularmente estreitas com as tradições iorubas). mar. É nossa música. Ele saiu lá da Jamaica. até que apareceu a original. dançamos tambor-de-mina. eles cantam pra uma pedra. o reggae nasceu para o povo. “Os tambores eram considerados as vozes das divindades. você podes crê. todo mundo coleciona reggae. Nesse sentido. tudo isso é cultura. o reggae toca no corpo todo. alemão.

compreendeu-se como autênticos os sentimentos desenvolvidos pelos regueiros em relação à melodia jamaicana. gostos e atitudes musicais. composição é um termo adequadamente ambíguo papa descrever o processo de ‘construção de reminiscências’. carregados de mensagens religiosas. de certa forma. políticas e históricas. pelo trecho que diz: “Para possuir nossa cabeça como em outras épocas. conteúdos vocabulares em língua inglesa são posicionados como narrativas etnográficas do movimento panafricanista da Jamaica que rememorou os milenares costumes da África por meio de danças. A partir da divulgação dos conteúdos musicais do reggae jamaicano das décadas de 1970. Compomos nossas reminiscências para dar sentido à nossa vida passada e presente.. p..] Examine e olhe determinados sonhos. aparentemente dissociados pela geografia ou por fatores lingüísticos. mas ‘legitimados’ pela leitura social. De acordo com Alistair Thompson (1981. esta pensada como ferramenta pedagógica para construção de consciência política e reivindicação de cidadania. Os territórios.. 56) é por isso que.O reggae na “Jamica brasileira”. 51 jul. como questiona o refrão: “Nós somos guerreiros? – É nós somos guerreiros”. composição de arquivos do passado sob os quais ela se escora. se aproximam por mecanismos de cognação nos quais os lugares da memória não são espontâneos mas. os espaços. nós as compomos ou construímos utilizando as linguagens e os significados de nossa cultura./dez. a música e as letras do reggae jamaicano foram utilizadas como meio de efetivação da historiografia africana e de seus descendentes à sociedade maranhense.. onde há freqüentemente histórias verdadeiras”. 1980 e 1990. aqui considerados como instrumento de resistência para validar a historiografia africana frente aos conteúdos eurocêntricos. Assim. gestos. sociais. 2007 . quando nos conduziram sob seus pés [.

e vão. próximo de Abomey. ioruba e akan.36) diz que. e neles se descobrem negros jejes ou daomeanos. para as colônias inglesas.119): Os escravos Akan (no Brasil conhecidos como fante-achanti) são comerciados na Costa do Ouro nas proximidades do Castelo da Mina e em Cape Coast. quando o intangível se apóia nos traços exteriores e nas referências tangíveis de uma existência que se supõe existir por detrás deste estoque material. VIII. p. O antigo reino de Ardra. a maior parte formada por integrantes dos povos ashanti. calipso e rumba.” Para Mariza de Carvalho Soares (2000. em que agora as identidades revitalizam a própria historiografia de si. fantis e outros. p. por ardras claramente se deve corrigir o nome. Não é difícil supor que algumas vezes essa divisão de mercado tenha sido rompida. jazz. todos da tribo dos coromanti.Maristane de Sousa Rosa Concordando que história é memória e vice-versa. Já Cuba e Brasil recebem dessa costa escravos de vários grupos étnicos de língua ioruba (na Bahia chamados de nagôs). vol.15) destaca os seguintes grupos étnicos vindos para a Jamaica: “escravos da África Ocidental. em sua maioria. Pelo que toca aos negros que Henrique Dias chama ardas. p. a denominação genérica de angolas designa todos os bantos. numa simbiose de etnicidade encontrada entre nações de procedência na travessia do Atlântico. minas seriam os nagôs. Carlos Albuquerque (1999. Aos grupos referenciados acima Nina Rodrigues (1982. Os escravos do Daomé (de língua fon) vão principalmente para as colônias francesas (Haiti e Louisiana). n° 15 . O franco diálogo entre a cultura musical da América do Norte e Caribe foi responsável pelo surgimento do reggae na Jamaica que se formou de elementos do rhythm and blues. por ingleses e holandeses. onde têm boa aceitação. 52 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia.

De modo que para o Maranhão e Jamaica vieram grupos étnicos comuns (Minas). mas seu registro na África depois de 1864 revela muito sobre a história da etnicidade e da nação. Ashanti.63). povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de 53 jul. Fantis ou Minas. como grupos étnicos de travessia. (MATORY. ou melhor.. 1999. referência encontrada pelos depoimentos colhidos no documentário “Atlântico Negro – na rota dos orixás”. evidências encontradas em São Luis pela formação vocabular do terreiro Fanti-Ashanti fundado por Pai Euclides no ano de 195410. Akan ou Minas. 2007 . um afamado empório do tráfico negreiro. entre os grupos étnicos vindos da África Fanti. em destaque para o primeiro caso os Fanti e para o segundo os Ashanti. tratando-se da mesma língua de adoração dos deuses vodun. regional e transatlanticamente. designando o ‘parentesco’ jeje pela religiosidade de tronco comum na América do Norte. aja e fon. As descrições utilizadas situam os Akan ou Fante-Achanti./dez. Caribe e Brasil (Casa Fanti-Ashanti e Casadas-Minas no Maranhão). para todos os falantes de ewe. Lorand Matory. concorda com a procedência ocidental dos africanos escravizados que vieram para as Américas e Caribe.. onde os europeus haviam estabelecido importantes casas de comissão. o termo jeje foi designado no Brasil em meados do século XVIII. p. foram retomados após a travessia transatlântica em meados da década de 1970. Também Nina Rodrigues em Os africanos no Brasil. Essa associação deu-se também pelo cruzamento de informações coletadas nas abordagens de Carlos Albuquerque em O eterno verão do reggae. Conforme J. constitui há séculos. gen.O reggae na “Jamica brasileira”. entendendo que as imagens e a discografia jamaicana interagiram com culturas que o passado escravista separou. Assim interpreta-se que os diálogos interrompidos por séculos entre maranhenses e jamaicanos. Ashanti. capital dos daomeanos. pela tese de doutorado de Carlos Benedito Rodrigues da Silva. Segundo Silva “uma curiosidade é que segundo historiadores.

Assim. desenvolve-se uma reflexão sobre a existência mista de oralidade que ora se apresenta na forma de variabilidades textuais discursivas. Essa reflexão depara-se então com a representação normativa do passado. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa” (2001. através dessas próprias instituições. mais uma vez concorda-se com os conceitos de memória latente e em potencial avaliando que os lugares da memória não devem ser julgados somente como espontâneos. depende do grau em que o passado das instituições em causa é considerado como algo que está em jogo e como instrumento de luta. prontos para serem utilizados no momento em que são solicitados. p. No entanto o fato do referido pesquisador não ter encontrado evidências dessa associação. isto é. desenhada nos ritos religiosos de origem africana. no espaço social em que se situa o historiador. Goiânia. a propensão para a visão teológico-política que permite censurar ou louvar.79): De facto. ora com possibilidades de percepção do passado. VIII.Maristane de Sousa Rosa religião afro-brasileira de São Luís é a Casa de Fanti-Ashanti. no campo das lutas sociais e no campo de produção cultural. condenar ou reabilitar imputando a vontades benéficas ou malignas as propriedades aprovadas ou reprovadas do passado. p. vol. ele próprio mais ou menos autônomo em relação a essas lutas. de espaço. de idioma.113). interpretada como responsável pela memória histórica e identitária que reveste de simbolismos a comunidade afrodescendente ouvinte de “música negra de raiz”. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. Com efeito. não descarta a dialogicidade entre cá e lá a qual este estudo se ocupou em estabelecer partindo de fatores que ultrapassam barreiras fronteiriças. n° 15 . De acordo com Pierre Bourdieu (2001. 54 Revista Brasileira do Caribe. mas ficam latentes. são arquivos criados no presente.

p. Quando chegaram às vinhas da cidade.164-165). desceu com seu pai e sua mãe a Tamna. A releitura da Bíblia proposta pelo movimento Rastafari consistiu numa revisão. Sansão. 14. Segundo Carlos Albuquerque (1997. porque sou nazareno de Deus desde o ventre de minha mãe. reivindicações de orgulho negro da década de 1930 foram aproveitadas como viés teórico a partir da inspiração bíblica utilizada pelo movimento Rastafari. Mas o espírito do Senhor entrou em Sansão. rugindo. 2003. disse ele. chamou um homem.5-6).34).O reggae na “Jamica brasileira”.17). o qual. (Jz. descrita no livro de Juízes: Sobre a minha cabeça. pois. p. 16:19). apareceu de repente um leão novo e feroz. introduziram importantes referências aos negros subtraídas ou adulteradas pelo mundo Ocidental. arremeteu contra ele. o uso de ‘terríveis tranças’ estava associado às “fotos de guerreiros somalis e suas 55 jul. aos profetas e até mesmo ao Cristo como usuários de ‘tranças’. sem ter na mão qualquer arma.. (Jz. daí advindo o não uso da navalha nos cabelos de forma que as tranças rastas pudessem crescer livremente. Se me for rapada a cabeça. As escrituras lidas nos moldes da colonização ocidental e nas pinturas da Europa renascentistas apresentaram de forma “branqueada” a lenda de Sansão. (GILBERT./dez. (Jz. que despedaçou o leão como se fosse um cabrito. 2007 . 16. que cortou a Sansão as sete tranças do seu cabelo. o uso de tranças e a força física para lutar com o leão. fazendo-o adormecer sobre os seus joelhos. estampas.. principalmente as menções aos primeiros israelitas. p. p. vídeos e na bandeira da Etiópia. perderei a minha força e então serei como qualquer outro homem. Dalila. Os costumes Masai caracterizaram não somente o visual dreadlocks11 mas também o totemismo entre homem e leão que o reggae jamaicano utiliza expressivamente em camisetas. o mito da força dos cabelos. nunca passou a navalha. Então.

eram carecas. organizações militantes negras e a musica jamaicana reivindicaram oportunamente da cultura Ocidental. membros de ‘uma das tribos mais selvagens da África’ [grifo nosso]. e os adultos. Oxalá. o som onipresente do reggae que se tornou práxis política desalienadora e operante para romper a segregação visível 56 Revista Brasileira do Caribe. O choro do povo se multiplica em toda parte. Os mais jovens. Prevendo ainda pela música. n° 15 . vol. todos ornamentados. aspectos pioneiros do legado patrimonial negro da África à humanidade.Maristane de Sousa Rosa carapinhas em estilo medusa. Conforme IJahman: “A profecia agora é revelada. teriam dado aos rastas a certeza de que com as dreadlocks eles estavam seguindo. repetiram as apresentações aos masais. tais narrativas apontaram na direção do grupo étnico Masai por adotarem o uso de dread e principalmente pelo ‘costume’12 de combater com leões nos rituais de passagem13. uma tradição milenar africana”. Estavam ali sete deles. desconstruir ‘tradições inventadas’ e abordagens etnocêntricas. VIII. pois a vida o levará num súbito choque. porque já haviam matado pelo menos um leão na vida e se tornaram autênticos guerreiros da tribo. cabelos compridos e trançados. como o exemplo encontrado na referência de Diego Lezama (1999. os moranis. mas Jah dará uma resposta para nosso choro”. ao descrever um trekking com os Masais: As 25 pessoas de nosso grupo. p. e respeitando. Contrariando a referência. estudantes europeus em sua maioria. De modo que partindo do título do hino do reggae no Maranhão (Nós somos guerreiros). O filho do homem não fará exame do coração que está desistindo. tinham cerca de 20 anos.61) na reportagem da revista “Os caminhos da Terra”. de suposições sobre os guerreiros somalis e o lendário Sansão. vistas na Jamaica pela primeira vez nos anos 30. Goiânia. chamados de ilkelianis.

57 jul. A profecia é revelada agora. É nós somos guerreiros. É nós somos guerreiros. A vida foi dividida em doce harmonia fazendo uma mulher até sonhar. Eles certamente querem o caminho às vezes mais confuso. estúpido. estúpido. não confunda. não lance sua flecha de seu arco. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão. pela mansidão que me fez filho do homem./Oh. não atire a flecha de seu arco. 2 Título: Nós somos guerreiros (We Are a Warrior – tradução da autora) O amor é a perfeição e eu dou graças pela agradável plenitude presente dentro de mim.. Oh. deixe-a baixa e nunca a lance./Fé é uma montanha tão silenciosa e cheia de fontes d’água para todas as adoráveis criaturas. sirva para consolidar ações afirmativas entre a comunidade afrodescendente do Maranhão. pois estamos numa guerra. cupido. Notas 1 Palavra inglesa que deriva a forma aportuguesada blefe significando iludir. lá na Jamaica. enganar. O choro do povo se multiplica em toda parte./O que te fez ter uma pistola? Seu amor infinito acabou para você atirar no homem ali? Nós desistimos depois que a estrela nos iluminou? Por que nos tornamos como cordeiros. não atire a flecha de seu arco./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. É nós somos guerreiros./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros./Oh cupido./ Oh cupido./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. como freqüentemente eu peço./Examine e olhe determinados sonhos onde há freqüentemente histórias verdadeiras. O filho do homem não examinará o coração que está desistindo./Oh cupido. por que a vida o levará num súbito choque. estúpido. 2007 ./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. deixe-a baixa e nunca a lance./dez. Seria toda a nossa própria glória./ Nós somos guerreiros?/É nós somos guerreiros.O reggae na “Jamica brasileira”. mas para o fim haverá abrigos cheios com clamor de mães e pais. Ainda que não vejamos nenhum amor. amor./Oh cupido. como em outras épocas quando nos conduziram sob seus pés. não atire a flecha de seu arco. lograr. estúpido. mas Jah dará uma resposta para o nosso grito./São suaves e cheias de paz minhas noites.. estúpido. não atire a flecha de seu arco e nunca a lance. É nós somos guerreiros. para possuir nossa cabeça. Ele deu sabedoria e conhecimento para entender o amor após uma guerra.

10 58 Revista Brasileira do Caribe. imperador da Etiópia.ma. Formou-se da mistura do inglês com termos creoles. sendo também usada para definir aspirações espirituais. Língua religiosa adotada pelos rastas compondo a maneira ritualística de falar para definir o mundo político. Ioruba e Akan. incluindo ainda o jamaicano Marcus Garvey como profeta afro-centrista que inspirou a visão do orgulho negro. VIII. ou seja. Ashanti.br/ artigos2. ainda compostas por mesa de mixagem do som e pela presença de DJ’s. Goiânia. devido a grande projeção do ritmo jamaicano entre a população maranhense. 5 6 Ressignificação dada aos sound-systems jamaicanos.culturapopular. Feitos de madeira compensada que medem por vezes 3 m de altura por 5 m de largura. em que grandes shows reúnem até cinco estruturas desse porte. então reggae roots ou somente roots representa o ritmo de raiz. 3 4 Grupo étnico heterogêneo vindo da África durante a travessia transatlântica em meados do século XVII.Maristane de Sousa Rosa Filosofia religiosa afro-caribenha surgida em meados dos anos 1930 que proclama Jah como Deus Supremo e Hailé Salassié I. Fanti. os Dj’s atribuíram esse ‘codinome’ à capital do Maranhão como forma de relacionar São Luis e Jamaica com o reggae. n° 15 . Nagôs.php?id=28. Informação disponível em: http://www. composto por Minas. por vezes também homenageiam a preferência do regueiro mais considerado. de tronco lingüístico comum. 7 As mudanças melódicas a partir de meados da década de 1990 adjetivaram o ritmo jamaicano atual de Dancehall ou batida eletrônica. com amplificações de som de alta freqüência. Ardras. época do disco de vinil. vol.gov. Acessado em: 05/01/2006. chegando o novo nome aos outros redutos regueiros fora de São Luis. Título dado às músicas reggae pela sonoridade produzida em inglês ou patois jamaicano. econômico. aquele originado no início dos anos de 1960. 8 9 Conforme Silva (2001:44). como reencarnação divina na terra. particularmente no Maranhão são assim chamados os grandes paredões de som que animam os eventos de reggae.

1986. HOBSBAWM. BURKE. v. CERTEAU. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 11 De acordo com Eric Hobsbawm (2006:10) que toma costume no sentido de possibilitar inovações. 2007 . Acessado em: 07/09/2006. Mônica Lacarrieu. 2005. Ecléa. podendo mudar até certo ponto. 1997.com. 1999. “Um trekking com os masais”. embora por vezes seja tolhido pela exigência de que dever parecer compatível ou idêntico ao precendente. n. 12 Disponível em: < www. Peter Variedades de história cultural. Visual do cabelo enrolado em forma de pavio.br/4x4/ed08/masai. (Trad. São Paulo: Paz e Terra. 8. 1990. Rio de Janeiro: Zahar. BURKE. A cultura no plural. Marcelo Álverez (Comp. Negros estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. 9. (Coleção Ouvido Musical).tribooffroad. RANGER. 1994./dez. 34. BOSI. 1995. 2000..asp>. Diego. HOBSBAWM. Antonio Augusto. 59 jul. Tradução Missionários Capuchinhos de Lisboa. Carlos. Das Letras. Eric. O eterno verão do reggae. O poder simbólico. São Paulo: Brasiliense. Manuela Carneiro. Pedagogia do oprimido. Paulo. 3ª ed. BÍBLIA SAGRADA. Terence. Memória e sociedade: lembranças de velhos. Rio de Janeiro: DIFEL. Eric. Argentina: CICCUS/LaCrujía. Pierre. A invenção das tradições. Celina LEZAMA. FREIRE. O que é história cultural. set.).. continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história.O reggae na “Jamica brasileira”. (Trad. BOURDIEU. In: Revista Os Caminhos da Terra. 13 Bibliografia ALBUQUERQUE. Campinas. ciudadanía y patrimônio em América Latina”. São Paulo: Stampley Publicações. Michel de. ARANTES. [1971?]. SP: Papirus. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Sua função é dar a qualquer mudança desejada (ou resistência à inovação) a sanção precedente. 2002. 2002. CUNHA. São Paulo: Cia. Peter. História social do jazz. por vezes com cera de abelha. Enid Abreu Dobránszky). 1989. formando grossas tranças. 32ª ed. São Paulo: Ed. “Cultura. In: La (indi)gestión cultural: uma cartografia de los processos culturales contemporâneos.

Lília K. Clovis. Carlos Benedito Rodrigues da. In: Horizontes antropológicos. “Som e música: questões de uma Antropologia Sonora”. v. ano 4. Carlos Benedito Rodrigues da “Ritmos da identidade: mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão”. 221-286. Tiago de Oliveira.Maristane de Sousa Rosa MATORY. SILVA. In: Revista de Antropologia. Brasília: Universidade de Brasília. São Paulo: Ed. São Paulo. O que ler na Ciência Social Brasileira (1979-1995). 1998. 44. Porto Alegre. Goiânia. Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae. 1982. DF: CAPES. VIII . “Questão racial e etnicidade”. Nina. Brasília. THOMPSON. São Luís: EDUFMA. São Paulo: Ática. São Paulo. p. SCHWARCZ. 2001. 2000. Porto Alegre. Rio de Janeiro: Paz e Terra. MOURA. 2ª ed. SOARES. Devotos da cor. Sumaré/ ANPOCS. 2001. RODRIGUES. abr. n. n. 1997. PPGASUFGRS. 1997. vol. Moritz. In: Sérgio Miceli. mar. 1999. J. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. In: Projeto História. São Paulo. Tese de Doutorado em Ciências Sociais Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. SILVA. Alistair. Lorand. 9. v. 60 Revista Brasileira do Caribe. Sociologia do negro brasileiro. Os africanos no Brasil. 1. PINTO. lazer e identidade cultural. “Jeje: repensando nações e transnacionalismo”. 1985. “Recompondo a memória: questões sobre a relação entre história oral e as memórias”. 1988. Mariza de Carvalho. Cardim Cavalcante).

61-84. Nessas relações a música popular e a produção audiovisual constituem veículos de reinterpretação e ressignificação das culturas de ambos os países que revelam semelhanças e especificidades. Reggae. The exploration of the audiovisual and musical performances in both countries contributes to deepen into its culture. but open systems. filmes jamaicanos e documentários brasileiros como representações e veículos dessa comunicação intercultural. VIII. Audiovisual. son estudiados em este artículo no como sistemas cerrados sino abiertos. Palavras-Chave: Jamaica/Brasil. 2007 . vol.Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal Abstract This study attempts to look at Brazil and Jamaica not as closed. which emerge from the Jamaican filmography and other iconographic sources. Investigar los grados de intensidad y sobre todo las performances en la relación entre ambos *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 61 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. considerados tanto en sus sujetos y practicas sociales. Keywords: Jamaica-Brazil. em que o reggae jamaicano é apropriado e ressignificado em algumas regiões brasileiras. Reggae. Comunicação Audiovisual. Resumen Brasil y Jamaica. Para tanto. recreated in Brazil. n° 15. Reggae Resumo Este artigo analisa as relações interculturais entre Brasil e Jamaica por meio dos conceitos de contaminação e apropriação. conforms the vision of the spectator departing from a series of symbolic audiovisual references. both from its subjects and its social practices. são analisados em seu contexto.

em sua concepção de comunicação. em complexas gradações de intensidade e performatividade. VIII. Reggae Brasil e Jamaica. Goiânia. vol. como o de rede. Michel Serres apresenta as redes como espaços irregulares. meios e produtos que se encontram envelopados em subdivisões jurídicas e econômicas cada vez mais frágeis. Para tentar incorporar esta visão relacional ao estudo dos contatos entre os sistemas culturais. tais contatos foram a base da constituição recíproca dos contextos socioculturais planetários ao longo do tempo. sejam eles locais. o que vem sendo desenvolvido por uma grande variedade de pensadores de diversos lugares e tradições de saber diferentes.Leonardo Vidigal países mediante la producción audiovisual y musical permite profundizar en la cultura. Palabras Clave: Brasil/Jamaica. Como os contatos entre esses dois contextos poderiam ser abordados de forma a trazer novas luzes para o debate sobre a comunicação intercultural1? Em primeiro lugar. seria preciso usar uma abordagem que procurasse ultrapassar os limites da rígida organização do conhecimento especializado. como todos os diferentes contextos culturais. longe de serem momentos excepcionais e fugazes. que estariam sujeitas a toda sorte de variações. entendidos não como unidades fechadas de características facilmente delimitáveis. Nesse sentido. mas como sistemas abertos de sujeitos. pode-se ter em conta que. n° 15 . que poderiam contar com uma “pluralidade de subtotalidades” (o que corresponderia aos contextos locais). práticas sociais. como algumas especulações e pesquisas no âmbito antropológico e filosófico parecem afirmar. Comunicación audiovisual. sempre estiveram em contato. “onde a 62 Revista Brasileira do Caribe. El reggae recreado colectivamente en Brasil. envolvendo uma reinvenção de conceitos bastante utilizados. conforma la visión del espectador a partir de un conjunto de referenciales simbólicos audiovisuales procedentes de la filmografía jamaicana y otras fuentes iconográficas. regionais ou nacionais. estabelecendo as condições para o auto-reconhecimento dos habitantes de tais contextos como “distintos” de seus congêneres.

aberta). tornando-se parte da constituição de um tecido cultural aberto. de leitura complexa. que fizeram pelo menos três incursões deste tipo naquela ilha do Caribe anglófono. Em segundo lugar. ensaiada” e não deveria ser considerada como fixa (MORAES. mas que pode revelar muito sobre as transformações culturais em curso na contemporaneidade.Enredando Brasil/Jamaica. veiculada na TV por assinatura). pode-se concluir que o interesse de documentaristas e jornalistas televisivos do Brasil pela situação jamaicana é significativo. posto que os processos de tessitura continuam em plena atuação.. com grande e perceptível vitalidade. Tais audiovisuais foram realizados por equipes independentes que posteriormente tiveram seus programas veiculados na TV Cultura de São Paulo (pública. aberta) e no canal GNT (privada. Tal disposição somente 63 jul. Entre estas equipes de gravação estrangeiras estavam os brasileiros. Se for assim. pertencente à mesma empresa mantenedora da Rede Globo. filmes de ficção semi-documentais. para melhor focar e direcionar tal compreensão. foram produzidos ao longo do tempo na Jamaica. Quando a articulação de imagem e som incorpora uma expressão igualmente mobilizadora como a música popular. na TV Bandeirantes (privada. recorte que nesse caso destacou o audiovisual. por diferentes processos. quanto por equipes mistas e ainda por outras totalmente estrangeiras. Dessa forma. determinação é construída. negociada. apropriações e combinações possíveis entre os diferentes produtos e interpretantes. Dessa forma.. 2007 . é preciso recortar um aspecto ou elemento deste processo. Isso porque ela atualiza continuamente e torna explícitas as contaminações. 2000). ela amplia o seu potencial de aglutinação e torna-se também um indicador. o que acontece hoje entre as subtotalidades que compõem as subdivisões maiores denominadas Brasil e Jamaica pode ser chamado de enredamento. que circulam de forma cada vez mais rápida e acessível pelo mundo. documentários e outros produtos audiovisuais (como videoclipes) realizados tanto por equipes locais. estabelecendo assim uma necessidade de maior compreensão dos fenômenos envolvidos./dez. um dos principais meios a organizar a expressão humana.

Sem entrar nos méritos dessa produção e partindo de um olhar que. até porque é neles que se concentra a maior parte da produção audiovisual hoje em dia. mas incorporadas nas perspectivas de análise. mais estreitamente ligados à Jamaica por abrigarem colônias numerosas de oriundos da ilha caribenha. procura incorporar a extrema heterogeneidade de tais contextos culturais na sua análise.Leonardo Vidigal encontra paralelo entre os realizadores provenientes de países como Inglaterra e Estados Unidos. com nossos colegas de universidades situadas nos grandes centros. 2002). ao mesmo tempo em que os submetem a todos às decisões macroeconômicas tomadas pelos organismos internacionais como o FMI. vol. Este tipo de mentalidade que partilhamos. mais do que considera. As persistentes assimetrias de poder entre os estados-nações e no interior destes. Isso porque o pesquisador pertencente ao contexto brasileiro sente-se inteiramente à vontade para tratar de objetos referentes ao chamado cânone ocidental. Neste sentido. podemos afirmar que um estudo 64 Revista Brasileira do Caribe. o Banco Mundial e a OMC (ANTELO. elegendo assim aspectos específicos de um contexto cultural como representantes de toda a produção desse contexto. Goiânia. em que os processos de integração do capitalismo contemporâneo estão generalizando uma lógica de mercado e de consumo que coopta determinados agentes dos países à margem. mas hesita em investigar culturas consideradas exóticas pelo olhar condicionado por este mesmo cânone. tornando-os sócios ou seguidores dos modelos hegemônicos. reduz muito fácil e acriticamente as manifestações culturais menos conhecidas ao estereótipo exoticizado. não podem ser ignoradas na tentativa de operar com essa percepção. n° 15 . A comparação e a análise de tais esforços não podem deixar de levar em conta a atual situação. talvez inconscientemente. naturalmente complexo e plural. No entanto isso não acontece sem problemas para quem deseja estudar as relações culturais entre os países à margem. é preciso pesquisar caminhos para a abertura ou o melhor aproveitamento de circuitos alternativos de cultura entre os países à margem. VIII.

com ou sem a mediação de meios tecnológicos (BETHÔNICO. Para uma compreensão dos produtos audiovisuais de acordo com as premissas desse estudo.. familiar e estranha. mas sob certas premissas teóricas que este texto procura discutir. Pesquisar outros circuitos por onde circula o audiovisual pode revelar impasses e questionamentos semelhantes aos nossos. podem ser descobertas também algumas soluções comuns que são ou podem ser adotadas para tais impasses. O termo “audiovisual” é bastante abrangente e corresponde. É um esforço de reinterpretação e ressignificação (DHARESHWAR e NIRANJANA./dez. mas neste texto iremos restringir o uso de tal conceito aos suportes técnicos. o computador. a televisão. pelo fato do termo audiovisual estar consagrado como um coletivo para tais dispositivos. nesse caso sob o formato de produtos audiovisuais. o que poderia abrir espaço para novos reconhecimentos. menos hegemonizante e homogeneizante? O caso que se pretende analisar parece indicar que sim. 1996) que oferece novas perspectivas sobre nossa própria condição. em sua acepção contemporânea. Nesse contexto. a qualquer articulação possível entre signos visuais e sonoros. podem ser analisadas como trazendo uma motivação diferenciada. como o cinema. mais atento e menos eurocêntrico seria altamente proveitoso. pois é ao mesmo tempo próxima e distanciada. Esta é certamente uma definição que faz jus aos estudos mais atuais e rigorosos sobre o assunto. talvez até mais receptivos do que os mais cobiçados. as relações entre os contextos à margem. estes não devem ser 65 jul. ao norte. 2007 .Enredando Brasil/Jamaica.. derivados das ambigüidades socioeconômicas e outras características que compartilhamos. tanto para o público em geral como para a esfera acadêmica em particular. novas identificações e também novos mercados. Culturas do audiovisual Mas antes é necessário compreender melhor o recorte usado para esse estudo. No entanto. o celular e outros meios. 2001).

n° 15 . dessa vez vista como um conjunto de 66 Revista Brasileira do Caribe. a produção audiovisual que emerge como resultado dessa dinâmica não é analisada como algo acrescentado por um sujeito totalmente separado de seu entorno.Leonardo Vidigal encarados apenas como reflexos ou sintomas de fatores socioeconômicos e culturais externos aos fluxos de enredamento imaginário e concreto. Assim. para a modalidade de pesquisa empreendida aqui. que seriam apropriados a partir de um processo recursivo e reflexivo. mas como elementos que participariam tanto do estabelecimento das condições básicas de tessitura como do seu direcionamento. Trata-se de um processo de contaminação por parte de certos elementos. ligado à produção material ou imaterial que expresse de alguma forma a ação criativa humana (considerando-se as camadas descritivas e normativas acumuladas sobre termos como “arte”) e que seja socialmente aceita como tal. mas a necessidade de estabelecer limites faz com que uma visão totalizante da cultura. produzindo diversos sentidos potenciais. ao serem atualizados a cada exibição para os indivíduos. Não é um significado fixo porque depende das relações e arranjos nos quais está inserido em um dado momento da observação. reinventando um novo arranjo de componentes que. embora não seja o objetivo desse texto estabelecer uma conceituação “correta” para um termo tão complexo. Isso porque muitas vezes a cultura é citada apenas em seu sentido restrito. Goiânia. também o modifica. que também passou por diversos processos de produção e manipulação. nem como uma emanação do objeto. VIII. Esta. por sua vez. colaboram de modo significativo para formar comunidades imaginadas e sistemas culturais reconhecíveis. Seria preciso então recorrer a uma visão mais ampla. mas como resultado de um certo encontro. Neste. o olhar construído pela experiência e pelos meios usados para se observar. vol. molda e é moldado pela forma material. Nesse ponto é necessário esclarecer com um pouco mais de precisão como este trabalho irá lidar com o conceito de “cultura”. que é muitas vezes tomado como dado.

processo infindável. em contraste com a visão expressa desde o início deste trabalho. Ao longo do último século.. serão mais detidamente examinadas. reinventados e colocados em contato por intermediários culturais e/ou agentes individuais. tomando parte desse jogo com todas as suas características próprias. A partir dos anos 1950. movimento ativo de recepção colaborativa. Assim. por sua extensão em cadeia de dezenas de emissoras estrategicamente localizadas. a televisão também começou a participar desse processo de produção e reinterpretação de elementos de identificação. a saber: Contaminação.. bem como ideologicamente direcionada para a construção de uma unidade identitária nacional homogeneizante. São estratégias que poderiam se alternar em gradações ainda não estabelecidas precisamente. o cinema tornou-se uma das principais portas de entrada para a tessitura da rede imaginária que participa do processo de construção e difusão dos produtos audiovisuais. que gera produtos variados a partir de referenciais simbólicos oriundos de contextos diferentes do local onde são reinventados. processo que também pode passar pela atuação mediadora. 67 jul. Esta última característica é especialmente importante porque toca no problema crucial da capacidade de tais combinações sígnicas favorecerem ou não processos de identificação através de diversas estratégias relacionais./dez. 1994). já citadas. Apropriação. comportamentos e pontos de vista compartilhados tenda a enxergar cada contexto localizado de forma essencialista e fechada. duas das quais. é preciso reiterar aqui que os sistemas culturais são encarados como relativamente autônomos em relação aos limites e condicionantes socioeconômicos e jurídicos que compõem os atuais estados-nação (CARVALHO. Essas características são a sua extremamente prolífica e efêmera produção de conteúdo. conjugada a uma capilaridade social ao mesmo tempo verticalizada e horizontalizada. no qual referenciais simbólicos concebidos em um dado contexto se interpõem ativamente pelos meandros de outro. 2007 .Enredando Brasil/Jamaica.

Para ambos. era conhecida como Skatalites.Leonardo Vidigal É importante apresentar uma definição mais precisa para estes conceitos por causa da conotação pejorativa que pode ser conferida aos termos “contaminação” e “apropriação”. o reggae teve pouco tempo de maturação antes de se consolidar em um estilo hoje chamado de roots. “questão de relações e alianças em estado de fluxo” (FISHER. 2001. permitiu constatar que o reggae encontra-se atualmente fragmentado em diversos subgêneros construídos coletivamente ao longo de seus quarenta anos de história. o que não foi contestado por estudos anteriores (COOPER. Nascido quando a sociedade de consumo começava a consolidar sua hegemonia pela difusão planetária de seus produtos (a primeira banda de ska. reconhecido como a primeira forma do reggae. Aqui se procura construir um ponto de vista teórico mais permeável do que a constituída por noções como a de hibridismo2. mas que eles estariam parcialmente contidos uns nos outros. VIII. captadas e compreendidas sempre parcialmente. sempre por meio de ações. sujeitos ou culturas como entidades que teriam um estado inegavelmente original ou “autêntico” de existência e não como percepções contingentes. Goiânia. 1995. n° 15 . que poderiam ser chamadas de moleculares (para usar terminologia de Deleuze). vol. KATZ. 1995). sugerindo não haver diferenças absolutas entre um e outro sistema cultural. tal interpretação acontece segundo concepções que tomam coisas. de contaminação e apropriação. determinando a ilha caribenha como seu local de origem. no começo 68 Revista Brasileira do Caribe. 2003)3. Música popular e audiovisual Os produtos audiovisuais que possuem como tema a Jamaica geralmente dão grande ênfase ao gênero musical conhecido como reggae. consumidos e praticados nos cinco continentes. A leitura de tais estudos e a observação vivenciada nestes vinte anos de envolvimento deste pesquisador com o gênero. principalmente pelas camadas mais jovens da população. STOLZOFF. que são ouvidos. em homenagem aos primeiros satélites).

religioso e moral que combina a política de valorização da herança africana com crenças milenaristas e. que existem até os dias de hoje no norte da ilha. como vem sendo reivindicado por acadêmicos da ilha) que combina palavras inglesas. As convicções dos rastas são professadas em variados graus. isto é. que têm na adoração de um deus negro. fundamentalistas. mas que ganharam a forma atual a partir da década de 1930 e só se tornaram relativamente populares nos anos 1970. Como parte do processo de edificação do roots reggae. encarnado na figura do antigo imperador etíope Haile Selassie I.. que foi gradativamente sendo ressignificado. às vezes. discursivo e simbólico foi sendo composto. oriundos das comunidades quilombolas (chamadas de maroons).. dos anos 1970 e ser internacionalizado por filmes produzidos na mesma época e pelo carisma de Bob Marley. um dos pontos em comum entre os diversos grupos de fiéis. sendo considerado inicialmente como algo marginal. ou inglês jamaicano. motivadas certamente pela revolução negra no vizinho Haiti. Este é um complexo sistema filosófico. descendentes de jamaicanos nascidos nos Estados Unidos). As origens desse sistema de crenças e valores datam das lutas políticas anti-coloniais que explodiram no Caribe no século XIX. a instrumentação musical era muitas vezes baseada nos tambores nyabinghi. envolvendo-o com o rastafarianismo. Além disso. Todo esse ethos era claramente ou obscuramente exposto nas letras das canções. combinados com a tradição oral do canto falado (mais tarde apropriado pelos rappers americanos e jamericanos. espanholas. tanto formalmente.Enredando Brasil/Jamaica. até se tornar praticamente uma norma para a maioria dos músicos e cantores de reggae. porque ditas em um dialeto patois (ou na língua jamaicana. depois como um elemento relativamente assimilado pela cultura praticada na Jamaica. Esse formato é o mais conhecido mundialmente e suas características formais são as mais facilmente reconhecidas e associadas ao reggae. indianas e africanas. 2007 . como nas temáticas. todo um denso arranjo ético./dez. em um contexto de anarquia litúrgica e antidogmática. O entrelaçamento entre a mensagem espiritual e 69 jul.

este contato proporcionado pelas correntes migratórias e pelo maior fluxo de bens simbólicos entre os países modificou decisivamente a música popular mundial no início dos anos 1980. no então emergente subgênero chamado de dancehall (chamado assim por ter sido consagrado nos bailes). Este é um caso de comunicação intercultural que também teria suas conseqüências no Brasil. A partir de então. Canadá e Estados Unidos. n° 15 . Nesse último. que Marley foi um dos primeiros a utilizar em seu mega-sucesso “Could you be loved”. em 1987. que constituiria um dos “quatro elementos” do hip-hop. Goiânia. os grandes intermediários culturais passariam a ter pouca influência sobre o desenvolvimento do reggae. como entre 70 Revista Brasileira do Caribe. juntamente com algumas cuícas compradas em sua única e breve passagem pelo Brasil. mas outras modalidades de discurso ainda aconteciam. contratos foram cancelados e os artistas foram forçados a se adaptar ou a emigrar. onde o hip-hop é hoje uma das principais expressões da juventude (embora o dancehall jamaicano somente agora esteja começando a ser apreciado por aqui).Leonardo Vidigal política se tornou uma marca do reggae. No entanto. Os contatos entre Brasil e Jamaica não aconteceram por meio de correntes migratórias diretas. e de Peter Tosh. Por seu lado. cujos agentes passaram a priorizar o mercado interno e aquele composto pelas colônias jamaicanas em países de fala inglesa como Inglaterra. a música popular na Jamaica foi simultaneamente modificada pela adoção progressiva das baterias eletrônicas. ao inspirar a concepção do hip-hop (graças ao canto falado – o toasting– que os imigrantes jamaicanos levaram dos bailes de rua da ilha para os bailes de clube em Nova York. houve uma queda no interesse das gravadoras em continuar promovendo o reggae. hoje dominante nas paradas jamaicanas4. os grafiteiros e os DJs). no caso o mestre de cerimônias. VIII. o MC – os outros três elementos seriam os dançarinos. depois do falecimento de Bob Marley. Os instrumentos eletrônicos foram tornados populares pelos rappers americanos. em março de 1980 (VIDIGAL. vol. em 1981. 2006).

inspirando táticas de apropriação e de posterior retomada de matrizes culturais (já em um ambiente onde o contato se processava de modo predominante como contaminação. contaminação e apropriação mediadas também pelo audiovisual. d) os contatos interculturais que forjaram os atuais sistemas foram muitas vezes violentos./dez. alguns deles compartilhados. não apenas em termos de extensão territorial e pujança econômica. com todas as suas implicações socioculturais. Relações entre Brasil e Jamaica Brasil e Jamaica são duas nações que apresentam profundas diferenças. que podem ser resumidas nos seguintes elementos: a) carregam uma pesada herança do passado colonial e escravista. nos últimos séculos. principalmente no período colonial. possuem muitas similaridades. relativas às diferentes formas de colonização empreendidas ao longo dos últimos séculos. h) na maioria das vezes são imaginados pelo resto do mundo como lugares que combinam a natureza paradisíaca com um cotidiano violento e. c) a cultura negra é representada por quase todas as correntes ideológicas do espectro político como um emblema da identidade cultural imaginada. 71 jul. i) suas economias atuais estão amarradas por um alto grau de endividamento externo e pesados juros internos. como os Yorubá e os Nagô. No entanto. finalmente. f) possuem uma cinematografia razoavelmente consolidada (a Jamaica tem hoje a cinematografia mais desenvolvida do Caribe depois de Cuba). Jamaica e Estados Unidos. além das relativas à composição social e cultural. por uma variedade significativa de grupos étnicos africanos. mas por mecanismos de identificação.. sem imposição forçada). e) apresentam uma expressividade corporal elaborada.. mas também de ordem histórica. compondo assim uma população atual de maioria negra ou mestiça. g) têm na música popular a expressão mundialmente mais conhecida de sua cultura. b) foram povoados à força.Enredando Brasil/Jamaica. tornada explícita em eventos públicos onde a dança é elemento central. 2007 .

Goiânia. No Brasil os modelos de representação do reggae chegaram primeiramente de forma mercantilizada. Em um segundo momento. que foi registrada pela TV. foram 72 Revista Brasileira do Caribe. Cidade Negra. de uma maneira pouco estudada. que se materializaram primeiramente sob a forma musical. na época contratado da Columbia (hoje Sony). o “reggae-toada”. Outro artista de reggae que veio ao Brasil no mesmo ano foi Peter Tosh. A partir de então. a apropriação do reggae começou a gerar uma grande variedade de apropriações. vol. Mystical Roots. havendo a necessidade de uma pesquisa mais detalhada sobre esse aspecto6. Gilberto Gil percorreu o país em uma turnê com o cantor Jimmy Cliff (o mesmo de “The harder they come”) que apresentaria o reggae para um grande público. englobados pelos intermediários culturais multinacionais. 1997). depois de se fundir com a BMG. gravadora responsável pela breve visita de Bob Marley (cujo catálogo hoje pertence à Universal) ao Brasil em 1980. Tribo de Jah. como a Ariola (que. da Rede Globo. expressada por certa atitude carnavalizante5 de ambas ante a expressão artística e pelas raízes comuns. O reggae desencadeou um movimento cultural significativo no Brasil. do ponto de vista do senso comum. mas ainda assim repercutem de forma significativa. entre muitas outras. gerando apropriações como o “reggae-capoeira”. ou o “forreggae” (VIDIGAL. Na maioria das vezes estas proximidades se encontram escamoteadas pela distância geográfica e pela falta de conhecimento histórico dos atores sociais. Assim. n° 15 . que teve sua apresentação no Festival de Jazz de São Paulo transmitida pela TV Cultura daquele estado. é difícil perceber. exemplos concretos de influência direta dos representantes da cultura produzida no Brasil sobre os jamaicanos. VIII. em trabalhos de bandas como Paralamas do Sucesso. 2002). foi comprada recentemente pela Sony).Leonardo Vidigal A partir de tais aproximações foi construída uma relação negociada de compartilhamento cultural entre estas duas subtotalidades. Em 1981. Titãs. Ele também apareceu cantando na sala da personagem de Tônia Carrero. jogando futebol no campo de Chico Buarque e fazendo cooper em Copacabana (VIDIGAL. na novela “Água Viva”.

juntamente com os produtos de matriz jamaicana. O interesse pelo reggae foi crescendo gradualmente até atingir um patamar de auto-sustentação entre a população de 73 jul.Enredando Brasil/Jamaica. apresentados em filmes.. A cidade também conta com seus coletivos sonoros de dub. é o contexto regional que mais aparece nos produtos audiovisuais que tratam do reggae no Brasil.. o estado do Maranhão. O Rio de Janeiro foi cenário de uma forte concentração em torno do reggae em meados dos anos 1990. 2007 . para onde convergiu boa parte das bandas formadas em diversos contextos regionais. onde apreciadores do gênero podem ser encontrados em articulações com o movimento sindical e até com igrejas evangélicas./dez. como blocos de carnaval. Outro local onde o reggae tem uma forte capilaridade é a região metropolitana da grande São Paulo. Uma nova apropriação. em que se pode verificar outra apropriação sob a forma do forreggae. 2002). tratada como um gênero separado também emergiu na Bahia sob a forma do samba-reggae. Em terras paulistanas também existe um ativo circuito de DJs de dub (versão instrumental e experimental do reggae) e dancehall. sem obedecer aos ciclos de alta e baixa intensidade observados em outros estados (VIDIGAL. também elaborados outros produtos. documentada no documentário de média-metragem Bonde do Rastafari. formando. o corpus a ser analisado e que será descrito adiante. estabeleceu uma relação intercultural continuada e estável com a ilha caribenha. de Cynthia Sims. com destaque para a cena baiana. principalmente nas capitais e cidades médias. o local onde foi concebido o reggae-toada. documentários para TV e folhetins televisivos que abordaram o universo cultural do reggae no Brasil. Chamado popularmente de “Jamaica brasileira”. sincronizando as pistas de dança de lá com as jamaicanas e inglesas. Contudo. além das atividades normais de consumo e fruição. O reggae vem marcando presença em quase todo o Brasil nos últimos trinta anos. e foi o local onde surgiram bandas hoje consagradas como Cidade Negra e O Rappa e que gerou expressões locais como o reggae-capoeira. e que agora também começa a produzir suas apropriações. dessa vez sob o formato audiovisual.

única no mundo. vol. Festivais de música trazem artistas da Jamaica. n° 15 . fazendo surgir algumas das principais bandas do gênero no Brasil. Formas de “apropriação corporal”. mas que não ficou imune à sua capacidade contaminante (como será visto adiante no exemplo dado pela série Música do Brasil). Ultimamente. Outras bandas. ignorados pela maioria do público no resto do país. é um exemplo da reinvenção praticada nos bailes maranhenses. que não foi destruída pelo reggae. como a prática de se dançar o reggae aos pares (como no forró). VIII. os radioleiros estão alugando os serviços de instrumentistas da Jamaica para produzir faixas “exclusivas” e assim poder ofuscar a concorrência. Gerações de músicos e instrumentistas do Maranhão se formaram ouvindo reggae desde crianças. que é tematizada em todos os documentários e programas que tratam daquele ambiente. como Legenda e cantores como Dub Brown. se especializaram em tocar versões de melôs. O Maranhão também apresenta uma rica cultura popular (como mostra o curta “São Luís Caleidoscópio”. os melôs7. como no sudeste ou mesmo na Bahia (como foi observado in loco por este pesquisador). 1995). produzidas na Jamaica ou localmente). que tem as chamadas radiolas (equipes de som que tocam as músicas mais apreciadas. como principal fonte de lazer (SILVA. embora isso não tenha sido ainda pesquisado adequadamente. como Eric Donaldson e Owen Gray. Os donos de radiola costumam ir para a ilha adquirir novos discos. além de acompanharem os artistas jamaicanos. como alguns temiam. Mystical Roots e Manu Bantu. já tendo praticamente acabado com o estoque de compactos da década de 1970 de estilo roots. de Hermano Figueiredo). como Tribo de Jah.Leonardo Vidigal menor poder aquisitivo. o mais apreciado pelos maranhenses. 74 Revista Brasileira do Caribe. em apresentações que contam com um público composto por pessoas de todas as idades e não apenas por jovens. Goiânia. Os atores sociais maranhenses também modificaram o contexto jamaicano.

apenas a consomem. Por exemplo. Esse amálgama entre o discurso ético.. Conceitos bíblicos como o da “Terra Prometida” e a história do cativeiro dos hebreus na Babilônia foram metaforizados pelo sistema de crenças rastafari.Enredando Brasil/Jamaica. Já em “Rockers”.. se limita a apoiar Ivan sem tomar a iniciativa de nenhum movimento mais conseqüente. para inventar uma dada concepção do que se passava musicalmente na Jamaica naquela época. 75 jul./dez. e também o aparato estatal. facilitando a ascensão de uma nova geração do reggae. como as gravadoras locais e multinacionais. além de fazer parte do comércio de ganja (maconha). apresentado como financiador e beneficiário do crime organizado) e explicitado em “Rockers” (com seus personagens defendendo claramente os preceitos rastafari). Eles viriam a servir como referência para a formação de novos produtos audiovisuais por realizadores em todo o mundo acerca do reggae e o rastafarianismo. questionados e. único rastafari de “The harder they come”. diretamente ou indiretamente. Tais filmes também foram financiados por intermediários culturais. no caso jamaicano o de correntes protestantes como a batista. concebidas primeiramente no contexto jamaicano. assim. os rastas apresentam um papel muito mais ativo na condução da trama e não comercializam a erva. Por ter sido o primeiro longa-metragem produzido na Jamaica. intuito que foi parcialmente atingido. 2007 . religioso e político do rastafarianismo é preparado em “The harder they come” (que critica violentamente a hipocrisia da religião tradicional. nos produtos audiovisuais subseqüentes realizados naquele contexto. são apresentadas e congeladas nos filmes “The harder they come” e “Rockers”. “The harder they come” apresenta temas e personagens que foram desenvolvidos. Alguns desses filmes serão mais bem analisados a seguir. Pedro. reinventados. atualizando a percepção do que era vivido pela população de origem africana no Novo Mundo. o que foi tornado visível e legível a todos pelo amálgama audiovisual. Alguns dos produtos audiovisuais analisados As convenções que foram se cristalizando ao redor das mais diversas metáforas inventivas.

fazendo inclusive que Macedo explique as origens de tal movimento (ele teria primeiramente substituído o bolero como “música lenta” na sua radiola e ao longo do tempo ele foi sendo adotado pelos bailantes como gênero principal).Leonardo Vidigal A movimentação de figuras. pode ser vista como uma resposta ao individualismo e ao caminho do crime escolhido por Ivan em “The harder they come” (mesmo que este tenha sido quase justificado por um impulso revolucionário). privilegiando situações de apropriação. dedicado inteiramente 76 Revista Brasileira do Caribe. Em outro episódio. VIII. em conjunto com outros rastas. vol. que jamais voltaria a fazer outro filme) e sua solução pela via da ação coletiva e solidária. Ela trata do contexto maranhense em dois episódios. elementos e abordagens desse filme pode ser sentida primeiramente em “Rockers”. e enfatiza a forma como os casais dançam aos pares. entrevista Riba Macedo. A apresentação dos problemas enfrentados pelo rastafari que protagoniza “Rockers” (na realidade um baterista reconhecido no meio reggae. associando-o aos tambores afros logo na primeira cena. “Rockers” também aparece como uma citação freqüente em outras unidades audiovisuais. que trabalhou em conjunto com o antropólogo Hermano Vianna na realização da série “Música do Brasil” (2001). Leroy “Horsemouth” Wallace. que ecoam claramente no filme “The harder they come”. principalmente pela forma como apresenta o discurso rastafari. Os programas realizados no Brasil dividem-se basicamente em dois grupos: 1) os que foram realizados tendo como tema os agentes e elementos apropriadores do universo do reggae no Brasil. na qual os créditos iniciais são projetados sobre um grupo de percussionistas nyabinghi8. particularmente no Maranhão e 2) os que pretendem documentar alguns dos elementos contaminantes encontrados na Jamaica. Ao grupo 1 pertencem as obras do documentarista Belisário França. tido como o primeiro a tocar o gênero regularmente. em seqüências como as que mostram as gravações em um estúdio e a posterior volta de bicicleta do protagonista para distribuir seus discos. n° 15 . Goiânia. sons. Quando tematiza o reggae (em um episódio que ainda trata do rap paulista e do funk carioca).

além de enfeitar o boi com um bordado que representa. entre muitas outras manifestações pelo país afora. A série adota uma abordagem panorâmica. recortando. ao bumba-meu-boi. e.. Possui a singularidade de ser apresentado por um personagem fictício. apesar de não mostrar nenhum ao longo do programa. menção ao antigo “Amaral Neto. O programa apresenta seus personagens por meio de diálogos que apresentam frases como “o reggae fez a cabeça do mundo todo” ou pela fala de estudiosos como o jornalista Otávio Rodrigues. que também traz uma edição sobre o Maranhão. este afirma que. O principal objetivo nesse caso é parodiar e explicitar as táticas empregadas pelos programas de reportagem da TV convencional. o que já fica claro na denominação do programa. podem ser confrontadas com outras datadas do início dos anos 1990. depois de ter sido “fundada por franceses. programa de Éder Santos e Marcelo Tas.. Seguindo esta rota. o repórter Ernesto Varela. Tais manifestações são muitas vezes sublinhadas com legendas de grande proporção e com esse e outros elaborados recursos gráficos. é uma série dos primórdios da MTV brasileira. o Repórter”./dez. Luís. na primeira intervenção do personagem/apresentador. Jesus Cristo. 2007 . Bob Marley. “Netos do Amaral”. invadida por holandeses e colonizada por portugueses”. expoente da propaganda do “milagre brasileiro”. mais recentes. emblema do vídeo independente no Brasil vivido pelo diretor Marcelo Tas. dá destaque a um grupo da cidade de Rosário.Enredando Brasil/Jamaica. que se apropria do reggae tanto na batida da toada quanto nas letras. apenas alguns aspectos do reggae como foi apropriado no Maranhão. situada a duas horas de S. Tas e Santos vão montando com “Netos do Amaral” um painel que não parece ter a intenção de explicar ou de compreender aquele fenômeno e sim de apresentar uma reinvenção que enfatiza o lado caótico e exótico do que encontram. do outro. disfarçada de jornalismo. Tais atualizações. São Luís estaria agora sendo “ocupada por jamaicanos”. que acreditava ser o Maranhão “uma Jamaica congelada nos anos 60”. até então praticamente inéditos na TV brasileira. Mais uma vez a dança ganha 77 jul. de um lado. durante o ciclo militar.

lá todos os cantores moram numas casas pobrezinhas assim”. A edição procura mostrar algumas situações de risco em que o público maranhense se envolve. n° 15 . pois este último retoma alguns personagens apresentados antes no “Documento Especial”. que foi veiculada na TV Manchete (e. que precedeu o dedicado ao Maranhão no mesmo programa. O programa também destaca as radiolas. enquanto mostra o seu baú com mais de dois mil discos “trancado a sete chaves”. A premiada série “Documento Especial: Televisão Verdade”. conta ele de modo ligeiramente diferente nos dois programas. com Varela confrontando a “maneira jamaicana” (expressão ressaltada com as legendas características) de se movimentar ao som da música (individualmente) e a “maneira brasileira” (aos pares). vol. no SBT) com a direção-geral de Nelson Hoineff. devido à posição marginalizada ocupada pelo reggae. Lá. apresenta o assunto de forma mais crua. quando o narrador Gilberto Gil anuncia o boi da cidade de Rosário como sendo “sotaque de orquestra”. mais tarde. sendo acompanhado até sua casa miserável pela equipe de “Documento Especial”. esclarecendo que nele são usados 78 Revista Brasileira do Caribe. o radialista e cantor Fauzi Beydoun (que em “Netos do Amaral” aparece apenas como locutor de rádio) e o dono de radiola Serralheiro (falecido recentemente). Goiânia. expressão repetida por Tas quando conversou com o mesmo personagem. o radioleiro declara humildemente que não se mudou de sua antiga moradia porque queria “acompanhar o ritmo da Jamaica. mostrada como uma mera emulação do universo country americano em outro bloco. como o intermediário Enéas Motoca (que. O fato de ter sido produzido apenas um ano antes de “Netos do Amaral” permite realizar algumas comparações específicas. Também é possível identificar um percurso intertextual entre este programa e o mais recente “Música do Brasil”. Serralheiro foi entrevistado de forma algo jocosa por Marcelo Tas em “Netos do Amaral”. VIII. apresentando um retrato visivelmente mais simpático do que o da cidade de Barretos.Leonardo Vidigal destaque. leva jovens jogadores maranhenses para a Europa e traz discos).

comparando-as com as batidas do reggae (assim como seu colega da banda Guetos Tadeu de Obatalá fez com a boca para “Netos do Amaral”). fora os comerciais) e pela variedade de temas abordados. De um modo geral. oferece uma ótima amostra sobre o que seria considerado relevante na cultura praticada na Jamaica por aquela equipe de realização. apresentando cenas raras de quarenta anos atrás. que reveza depoimentos de artistas e jornalistas da Jamaica com cenas de rua e videoclips de reggae. banjo. onde Bob Marley viveu por alguns anos. entre outros. que. ou riddims. o que é finalmente logrado na favela de Trenchtown.Enredando Brasil/Jamaica. A dança também ganha destaque quando o programa aborda o ska. o programa é pautado pelo imaginário sobre o reggae construído também pelos filmes dos anos 1970 analisados na pesquisa. em um interessante efeito sinestésico. instrumentos de sopro. para usar a terminologia jamaicana) do bumbameu-boi. É uma reportagem televisiva tradicional. veiculada no final de 1992 na Rede Bandeirantes.. pela longa duração (60 minutos./dez. 2007 . mas precisam gravar fora do país”. É visível o esforço de encontrar músicos que ainda pratiquem o chamado reggae roots.. Tal passagem evoca a do Documento Especial em que o percussionista e baterista Paulinho Akomabu faz uma demonstração dos diversos “sotaques” (batidas. Ao grupo 2 pertence “Jamaica. 79 jul. Os cantores também atestam a falta de condições de trabalho em seus depoimentos: “temos que ter um estúdio em Trenchtown”. uma produção de Ronaldo German e Ricardo Porto. não se limitando a apenas uma linha de interpretação”. “Documento Especial “é o programa que permite o afloramento das opiniões mais diversificadas sobre o assunto. A narradora explica a dificuldade em encontrar músicos “de raiz”: “muitos dos melhores artistas ainda vêm do gueto. Quando a narradora explica que houve uma desaceleração no andamento musical. originando o chamado rocksteady (uma espécie de proto-reggae). a imagem dos dançarinos também desacelera. o paraíso do reggae”.

O depoimento de um bobo dread que fala em “varrer o colonialismo e imperialismo” é contraposto ao da Ministra da Cultura da Jamaica. nas quais. como os bobo dreads (que não foi chamada por este nome. o qual é parte de uma série realizada por Belisário França que aborda o universo da música caribenha por intermédio de depoimentos literalmente recortados e colados no fundo paradisíaco. com a narração vaticinando que “a erva faz parte da cultura e da economia”. com uma temática social e sexual”. segundo a narração. mas espiritual”. mas é facilmente identificada pelos característicos turbantes cilíndricos). traz nessa mediação por um artista reconhecidamente ligado ao reggae roots (pois havia gravado nos anos 1980 a canção “Vamos Fugir” com a banda de Bob Marley) um viés de estranhamento. outro que enverga as longas tranças emaranhadas. VIII. mas o rastafarianismo não é um movimento político. O tema da dança volta a aparecer no final do programa. O excesso de efeitos de edição produz um efeito de “consciência do dispositivo” que ao mesmo tempo dificulta o entendimento do texto e promove certo nível de reflexividade. vol. Narrado pelo onipresente Gilberto Gil.Leonardo Vidigal “Jamaica. associando-a com Marcus Garvey e também as “imagens proibidas” das comunidades rastafaris mais radicais. o paraíso do reggae” é o único dos programas produzidos no Brasil a mostrar a comunidade quilombola dos maroons. “os brancos são considerados inferiores”. n° 15 . ecoando o formalismo dinâmico do pioneiro “Netos do Amaral”. quando o dancehall é apresentado como a “tradição dos sistemas de som dos anos 50 remodelado por recursos eletrônicos. Outro representante desse grupo é “Baila Caribe: Jamaica”. O uso da maconha é contextualizado. o que é confrontado com o produtor Stafford Ashanti. Goiânia. O discurso por ele proferido. voltado para a louvação 80 Revista Brasileira do Caribe. afirmando brevemente que seu governo “nunca discriminou os rastafaris”. Um transeunte com longos “dreads” menciona querer trabalhar por um “governo rasta”. garantindo que o “o que os rastas fazem é político.

evocando cena semelhante em “Rockers”. que se refere na maioria das vezes a uma dimensão mais prática.. com apresentação e direção de Carolina Sá.. que mostrou. Outros procuram se desvencilhar de tais modelos e tentam eles mesmos estabeleceremse como referência. e algumas de suas aplicações possam lançar uma luz diferente sobre os processos de comunicação intercultural. Com uma duração maior do que o antecessor e com uma abordagem que enfatiza mais o conteúdo do que a forma consegue reinventar o cenário jamaicano de maneira mais relaxada. no sentido de estudar os possíveis problemas interpessoais ou institucionais derivados da incompreensão ou falta de informação relativa a características culturais de cunho comportamental. como restrições de 81 jul. A análise dos produtos audiovisuais produzidos no Brasil permite concluir que alguns deles procuram organizar o olhar no sentido de conformar a visão do espectador a certo conjunto de referenciais simbólicos audiovisuais. construídos a partir dos filmes jamaicanos e outras fontes iconográficas. desta vez exibida no GNT (canal a cabo da Rede Globo). Em um dado momento mostra um pouco do processo de prensagem de um compacto. O conceito da série “Baila Caribe” foi emulado nove anos depois em outra série. Desse modo espera-se que os pressupostos teóricos examinados neste trabalho. outra visão do universo jamaicano. Contribuir para a constituição de uma abordagem relacional sobre tais processos de contaminação e apropriação cultural é talvez o principal objetivo dessa investigação. Já os travellings pelas ruas de Kingston. chamada “Música Libre”./dez. tem seu sentido deslocado e reinventado. 2007 . da ascensão do dancehall e para o desvinculamento do reggae da filosofia rastafari.Enredando Brasil/Jamaica. Notas 1 O conceito de comunicação intercultural trabalhado neste texto difere do que é normalmente utilizado na literatura disponível. recorrentes em todos os programas abordados. evocam recurso semelhante usado em “The harder they come”. o que talvez seja mais condizente com a atmosfera local.

entre outras (Nair-Venugopal. ainda mantém as culturas à margem “em seu devido lugar”. que classifica a cultura em “erudita” e “popular”. será construída ao longo do texto. como a homofobia. de cunho relacional. por um lado. 2003). culminando na discreta. tratamento dado a homens e mulheres. denominadas por títulos que evocam apropriações locais das letras em inglês. Nas produções jamaicanas tal associação não é explicitada no título. No sentido dado por Bakhtin (1987). movimento também conhecido como modern roots. vêm sendo questionadas por erigir um novo estatuto da diferença. treinada pelo brasileiro Renê Simões na Copa de 1998. e a indignação pelas injustiças sociais. como a ascensão de uma nova geração que voltou a assumir o discurso e o visual de tranças da época de Bob Marley. apesar de valorizada e celebrada. oferecendo em troca uma miscelânea de ofertas de consumo cultural para aplacar a sede de exotismo. pois. Músicas de sucesso. Algumas das noções de hibridismo. que. Baila Caribe. n° 15 . 3 4 Houve recentemente a chamada retomada dos “valores rastafari”. mas invariavelmente ocorre no conteúdo. o que teve consequências diversas. A noção de comunicação entre culturas usada neste trabalho. Um exemplo claro está na área esportiva. para usar a expressão de fundo escravista e colonialista que tal conceito visava combater.Leonardo Vidigal contato. particularmente a operada por Homi Bhabha. 2 Tal direcionamento é quase sempre expresso no título dos audiovisuais estudados que foram produzidas no Brasil. vol. como contou Bob Marley em sua breve visita ao Brasil (em 1980). 5 6 7 82 Revista Brasileira do Caribe. Bonde do Rastafari. VIII. como um questionamento da representação de um produto ou manifestação cultural pela visão hegemônica. o país não se classificou para as Copas de 2002 e 2006. a vitoriosa campanha brasileira na Copa do Mundo de 1970 popularizou enormemente o futebol no país. mas altamente valorizada participação da Jamaica. Goiânia. gênero e outras. Para Ahmad seria mais um meio de ignorar as diferenças de classe. No entanto. de outro (2001). O programa Netos do Amaral. Música Libre. como Jamaica: Paraíso do Reggae. parte do corpus de análise. mas também possibilitou uma exposição exagerada de algumas características “fundamentalistas” e altamente questionáveis de alguns seguidores.

“Kaadalan and the politics of Resignification”. 53-91. “Whose Underground? Asian cool and the poverty of hybridity”. apresenta uma seqüência de casais dançando. legendados por letras garrafais que passam na metade inferior da tela anunciando: “Essa música é uma das 10 mais escutadas de S. 1999..Enredando Brasil/Jamaica.. 2002 BAKHTIN. São Paulo: Editora 34. lembrando um pouco o sambareggae. In: Third Text. Estética da Criação Verbal. O Atlântico Negro. 8 Forma musical praticada na Jamaica baseada no som dos tambores. 2003 MARSHALL. Autumn 1995. Surrey: Kala Press. In: Journal of Art and Ideas. “Filmmaking in Jamaica: Likkle but Tallawah”. Mbye (org. World music. NIRANJANA. 1991 FISHER. Franco. 83 jul. regravada em 1993 pelo hoje mega-estrela Shaggy. n. In: CHAM. Victoria. p. Porto Alegre. Simon (org. Surrey: Kala Press. Ex-iles: Essays on Caribbean Cinema. In: Third Text. New York: Manchester University. Ali Nobil. COOPER. 1992. 1995 DHARESHWAR. Raul. Luís: ‘Better Days are Coming’. 2001 KATZ. “Quantas margens têm uma margem?”. Uma das primeiras canções a se utilizar dessa instrumentação foi Oh Carolina. Solid Foundation – An oral history of reggae. In: FRITH./dez. Carolyn. p. In: Horizontes Antropológicos. Jean. dos Folkes Brothers. 5-26 FABBRI. politics. 1996. Paul. Durham: Duke University Press. 29. ano 5. 11. gender and the “vulgar” body of Jamaican popular culture. and social change: papers from the International Association for the Study of Popular Music. “The System of Canzone in Italy today”. 3-7 GILROY. 1997. p. Belo Horizonte/Buenos Aires/Mar del Plata/Salvador: Projeto Margens/Márgenes. “Editorial– Some Thoughts on ‘Contaminations’”. São Paulo: Martins Fontes. Vol. David. “Transformações da Sensibilidade Musical Contemporânea”. de Eric Donaldson. Nova York: Bloomsbury. que realizam a marcação feita pela guitarra no reggae roots. ANTELO. Tejaswini. CARVALHO. Vivek. José Jorge de Carvalho. Trenton: África World Press. conhecida como “Melô do Ladrão 3”. 2007 . Noises in the blood: orality. In: Margens/Márgenes. Mikhail.).). Spring 2001. Bibliografia AHMAD.

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vol. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. It particularly focuses on the representations that emerge in his discourse revealing the idea of nomadism.Migrações de idéias. Goiânia. a análise inclui o cineasta Glauber Rocha na categoria de pensadoresnômades. Trata-se de um enfoque produtivo da obra do cineasta brasileiro e de seus diálogos com artistas cubanos Palavras-Chave: Cinema Novo. Brasil/Cuba. 85-107. Brazil/Cuba Resumo O artigo analisa as relações entre o Brasil e o Caribe. n° 15. em torno deste atributo. nuances do seu nomadismo. pois. Glauber Rocha. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 85 Revista Brasileira do Caribe. VIII. 2007 . nas representações que afloram do seu discurso. gravita o argumento norteador desta reflexão. Glauber Rocha. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo “Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. Inspirando-se em conceitos deleuzianos. tendo como objetivo principal. de modo a destacar. Keywords: New cinema.” Glauber Rocha Abstract This study addresses Glauber Rocha´s performance with the objective of offering insights on some of the aspects of his actions in the 1969s and 1970s.

mas ademais.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Resumen El estudio enfoca la performance del cineasta Glauber Rocha con el objetivo de profundizar en algunos aspectos de sus acciones em los años 60 y 70 del siglo XX . Afinal. gravita o argumento norteador desta reflexão. em configuração metonímica. Com este propósito. Na esteira do pensamento deleuziano. Shöpke (2004 p. não podemos negar que Deleuze tende a identificá-los pelo fato de ambos devotarem a vida à criação 86 Revista Brasileira do Caribe. nas representações que afloram do seu discurso. Éstas son reveladoras de la idea del nomadismo. Glauber Rocha. n° 15 . dentre outras formações que redesenham o cenário pós-colonial. nomadismos e pontes imaginárias Neste ensaio enfoco a performance do cineasta Glauber Rocha tendo como objetivo principal. movida pela convicção de que. nas “Terras do Sol”. pois. a despeito das diferenças que existem entre eles. de modo a destacar. Goiânia. igualmente nômades. Tais sintonias não escaparam ao horizonte nômade de Glauber Rocha e ensejaram diálogos entre “pensadores – artistas”. nuances do seu nomadismo. 172) sublinha: É bom frisar que estamos tomando os termos pensador e artista quase como sinônimos. El interés está centrado en el destaque de las representaciones que afloran en su discurso. VIII. desde as lidas preliminares as fontes indiciavam. Cuba se inscreve como um especial “lugar de sintonias”. em torno deste atributo. faço-o não apenas estimulada pela profícua interdiscursividade que. Brasil/Cuba Sintonias. concepto en torno al cual se va a nortear la reflexión de este artículo. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. uma nomeação possível para as formações do terceiro mundo. ao selecionar Cuba como referência. Palabras Claves: Cine nuevo. vol.

E somente a arte pode nos oferecer tal poder. o “pensador-artista” nômade recusa a mera recognição e reivindica outro estatuto para as representações que constrói. na verdade. “feiticeira salvadora”. 411). Muito embora em outro momento e em outro contexto. se também é uma mentira (tal como a religião.. em maio de 1971. o cinema novo e. Todo pensador e artista nômade é necessariamente um criador. como ocorre em tantas outras. Para o filósofo: Se ela também é uma ilusão que nos faz viver. como que ungida pelo sopro da arte. especialmente os cubanos.. O fio condutor para tal performance convida a pensar na arte como a “feiticeira salvadora” (NIETZSCHE Apud SHÖPKE. Glauber Rocha escreveu: Meu querido Alfredo. é preciso escolher dentre estas ilusões aquelas que nos fazem mais fortes. espero que este documento possa ser lido com tranqüilidade pelos companheiros latino-americanos. 123). que nos fazem crer na vida a ponto de afirmá-la e amá-la sob todas as circunstâncias./dez. pois é justamente em seu nomadismo que encontra o vetor que o impulsiona a agir e ousar. neste. em constante movimento de ruptura com modelos préestabelecidos. 2004. influências ou reativações?. portanto. em Santiago do Chile.Migrações de idéias. Exemplifica este encontro com a vida. (no sentido mais estrito do termo). a seu colega e amigo cubano Alfredo Guevara. p. a moral e metafísica). Diferentemente do sedentário. 1997 p. o cinema. o pedido de divulgação do que nomeia como “carta-documento”. 2007 . ocasião em que metaforiza: “os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. 87 jul. A carta. a voz de Glauber Rocha parece interagir com o enunciado filosófico acima transcrito. é um sítio discursivo no qual o “pensador-artista” reflete sobre o Brasil. o papel dos cineastas do terceiro mundo. Ao encarecer por mais de uma vez. a carta que escreve do exílio.

41). Aliás. no item “Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças”. Inclusive literalmente. estava pregando uma sociedade onde o homem não existisse em função da economia. no item que se segue. produtores ou mulheres” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES.S. 1997. lanço um olhar sobre as “pontes” estabelecidas entre Glauber Rocha e outros “pensadores-artistas” igualmente nômades. a biografia de Glauber Rocha mostra que não apenas o nomadismo das “pontes abstratas” ensejou suas errâncias. seu tempo e sua obra”. Quando Marx denunciou a escravidão econômica do homem. em contexto recente. selecionadas sob a forma de alguns fragmentos discursivos.P 15/07/04). vol. Goiânia. sua proposta foi a de “criar uma ponte entre o imaginário da época e a atualidade” (F.’( grifos meus). É interessante observar que a força simbólica da imagem da ponte interpelou também o jovem cineasta Eryk Rocha. que a escolheu. Espero que seja divulgado em Cine Cubano e em muitas outras publicações. concluindo: Brasil e Cuba em 88 Revista Brasileira do Caribe. ‘Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. para falar sobre seu celebrado documentário “Rocha que voa”. apartamentos provisórios dos amigos. Por isto os artistas são tão necessários quanto os engenheiros. VIII. suas muitas ausências do Brasil constituem “um périplo romanesco. um nomadismo radical e vital e centenas de cartas escritas de quartos de hotel. Assim. Segundo o filho de Glauber Rocha. fornecem o suporte empírico para as incursões pretendidas. n° 15 . entre as contigências do exílio ou não mais que ditadas por um peculiar e irriquieto temperamento.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo porque pouco me importa os europeus. cujas performances. Em seguida. “Glauber Rocha. tomando como contraponto o mesmo atributo de seus colegas cubanos. as “pontes” construídas se incumbem de situá-lo no conjunto de expressões culturais que fervilham na cena brasileira nos anos sessenta e setenta. Como se verá. p. Ao final. também no presente ensaio valho-me de “pontes imaginárias” para construir articulações cujo conjunto logre evidenciar o nomadismo de Glauber Rocha.

2007 . Era “a hora e a vez” da chamada arte engajada brasileira. mas. 38). de modo a destacar a argumentação que o presidiu. em meio a um cenário sombrio. a brecha possível para conscientizar. denunciar e sonhar. estratégias e táticas. enfocando um momento da vida brasileira. Naqueles já longínquos meados dos sessenta e primórdios dos setenta.Migrações de idéias. Neste entendimento. mesmo em meio às discordâncias. p. Era a possibilidade de entrever. ajustadas às condições de resistência política que encontravam na arte. um foro privilegiado. a própria história do país sinalizou etapas. apesar de tudo. No amplo leque das manifestações artísticas que povoam os anos sessenta e setenta. retomo alguns aspectos trabalhados no texto como um todo. Assim. como que incansavelmente ali encontrando o referendo para nossas utopias de um mundo melhor. um modo de exorcizar os fantasmas que nos rondavam. seu tempo e sua obra Pertenço a uma geração que elegeu Glauber Rocha como uma espécie de porta-voz das nossas inquietações políticas. sintonia rizomática... ou bem por isso. jovens universitários ou recém-formados. Conforme anunciado anteriormente. é a força motriz do nomadismo glauberiano./dez. 89 jul. Cuba é tomada como referência metonímica do universo pós-colonial e este. Caprichos da memória atualizam no presente “o chamado ao qual a lembrança responde” (BERGSON Apud BOSI. influências ou reativações?. o relato da efetiva estada do nosso cineasta entre os cubanos constitui uma variável secundária. movimento que mobilizou artistas e receptores. cujas etapas são reconhecidas pela efervescência cultural. atendo ao “chamado da lembrança” e aos meus objetivos. ainda assim. teimosas réstias de luz. Glauber Rocha. cabendo enfatizar ao final destas anotações introdutórias. em sua abrangência. contando com a interlocução de autores que se ocuparam com o recorte temporal aqui considerado e aí se detiveram no viés das artes. ver e rever a obra glauberiana significava para muitos de nós. rompeu fronteiras espaciais e fez da cultura.

2001. “a catequese” e a conscientização davam o tom ao teatro engajado para. Estas etapas. traziam alguns elementos de ruptura com o estilo consagrado por João Gilberto. p.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Referindo-se ao mundo do teatro. o caráter ritualístico. A realidade do teatro. aos homens e mulheres do campo. enfim. Entendo que neste mesmo percurso é possível inscrever também a música brasileira do período. 33). vol. ao guri favelado e tantos outros atores anônimos cujo árduo cotidiano. celebrou e deu visibilidade. que o emblemático ano de 1968. pautar-se pela tônica da denúncia. aos beatos. 341) considera que até o ano de 1964. vai ser de violência. responderão pela atração à história. eram suportes de representações engajadas. prisão e exílio. 2004. a partir dali. complexidade harmônica e sutileza vocal. eram canções que escancaravam injustiças históricas em relação ao operário. Em suma. passa a fazer coro com a arte engajada. fosse nas férteis articulações entre as vozes do morro e as das cidades. n° 15 . VIII. com suas especificidades permitiram ao estudioso resumir: “O caráter catequizador antes de 1964 e. o talento de artistas e cantores brasileiros. mesmo o movimento da chamada Bossa Nova. cuja característica principal advém da elaboração harmônica. ou na entronização do universo sertanejo. Nessa época os riscos de vida não serão literatura” (NAVAS. p. Navas (2001. As primeiras músicas consideradas de protesto. p. elementos identificados com o movimento (NAPOLITANO. depois da resistência. transfigura em resistência. “Zelão”. depois dessa data. mas mantinham a essência da sofisticação instrumental. pois. ao pescador. composta e cantada por Sérgio Ricardo e “Quem quiser encontrar o amor” de Geraldo Vandré e Carlos Lyra. isto já nos primeiros anos da década de sessenta. 341). E identificadas com o movimento estavam também variantes desta expressão musical engajada. que. “discursos musicados”. Goiânia. aos herdeiros da nossa “democracia racial”.1 90 Revista Brasileira do Caribe.

/dez. Castro (1990..Migrações de idéias. de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. com a “Marcha da Quarta feira de Cinzas”.P. Lembrando o festival de música da TV “Excelsior” no ano de 1965. 402) reproduz o discurso irônico sobre a perfomance do artista Sérgio Ricardo e sua apropriação dos cantores nordestinos. cuja peça teatral de mesmo nome. arranjos. pois as trilhas sonoras dos filmes. instrumentos e. É preciso lembrar que. a apropriação de “discursos cantados” no teatro. Líricas como “A Banda”. não estimulavam maiores incursões da indústria cultural. além do mais para quê. no ano de 1964 e “Roda Viva”. no conjunto das manifestações culturais da época. pinçada do espetáculo “Opinião”. no binômio “qualidade-discurso engajado”. não escapou à voracidade da indústria cultural. a chamada arte engajada. se era possível produzir industrialmente este mesmo folclore. não logravam alcançar o mesmo sucesso comercial. influências ou reativações?. estas peças musicais guardavam em comum o engajamento com o povo brasileiro2. o teatro e o cinema. cabia divulgar tais eventos que mobilizavam torcidas e traziam para o palco diversos modos de comunicação musical. apresentado no Rio de Janeiro. Já no caso do cinema. em janeiro de 1968. estreou em São Paulo. de Chico Buarque. tais migrações foram menos efetivas. muito embora dialogassem com a música. pelo menos no caso da música. sobretudo letras. 2007 . assim como ocorrera no filme “Deus e o diabo na Terra do Sol”: “Quem queria ouvir aquilo? E.B. Enquanto isso. cujo repertório se assentava. Tal cenário traz à lembrança os chamados festivais da M. Foi o que ocorreu. À televisão. ou nas trilhas dos filmes obteve alguns sucessos no rádio e no mercado discográfico. Somente em algumas ocasiões.. vitrine privilegiada. que um público ávido decorava. cuja qualidade foi reconhecida por muitos. quase sempre longas. por exemplo. arregimentadoras como “Pra não dizer que não falei das flores”. sigla mágica que rotulou um filão da música popular brasileira. ritmos. com faturamento assegurado. com harmonias européias e ainda vencer festivais?” Não seria o 91 jul.. p. Aos festivais seguiam-se os lançamentos dos discos. comoventes como “Arrastão”.

um tipo de sucesso alcançado pelas mãos da indústria cultural. seja na pluraridade 92 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . o público privilegiado do cinema novo” (NAPOLITANO. são aspectos que pontuam a trajetória de Glauber Rocha e dão suporte ao seu nomadismo5. Mas na verdade. ela mantém a pertinência. festinhas e nos sempre povoados centros acadêmicos. mas não é unívoca” (ECO. não estava na preocupação do cinema novo4. escapando ao consensual. manifestos. 54). até porque “a autocrítica desenvolvida pelo cinema tinha um sentido muito mais radical e procurava repensar a difícil situação existencial do jovem intelectual de esquerda. aliás. 2004. a narrativa “pode ser contada até por um ginasiano” na segunda. VIII. pretensão que. elas se consubstanciaram em filmes. seja na leitura e releitura dos seus filmes. tomando Hamlet como exemplo. Trazendo a imagem para o universo glauberiano. Se no primeiro. pois. integravam um público consumidor de classe média e expressavam seu agrado conhecendo o repertório das trilhas sonoras. entrevistas e um repertório de frases e slogans. p. projetos. cantadas nas muitas reuniões. pois é uma. Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças Idéias não faltaram a Glauber Rocha. vol. e reterritorialização. Bem por isso. transbordantes.1986 p. assistiam aos filmes. a plurivocidade das ações abre-se para um sem número de possibilidades interpretativas. “a ação de Hamlet fez e fará correr rios de tinta.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo caso de retomar a polêmica. aliás. A importância desse legado “radical” e alguns dos sentidos possíveis da sua movente tônica de desterritorialização. Uma resposta breve convidaria a pensar nos mesmos estudantes que compareciam aos festivais. 192). escapa a estas anotações. pois a intenção deste item é não mais que desenhar um breve painel3. reveladores do seu talento e do seu modo de representação da realidade. Goiânia. Eco contrasta as vertentes do enredo e da ação. Referindo-se ao universo do teatro. correspondências.

Não mais que “louca por cinema” e conforme anteriormente mencionado. de publicações centradas na obra de Glauber Rocha. pois. mas especificamente alguns bares do Rio de Janeiro. p. literatura e. p.Migrações de idéias. 1997. já ao final dos anos cinqüenta. como espaços de suas “derivas”. 93 jul. é preciso que estejamos no mesmo barco.A. no ano 1980 afirmou. interessada desde os tempos de estudante pelos filmes e pela trajetória de Glauber Rocha.S. Deleuze. Ázya. materializadas em acalorados debates sobre teatro. política. cuja obra logra transcender até mesmo. Percebo que a chama viva da polêmica. aos cuidados dos especialistas. Áfryca. U. para a “celebração da celebração”. suas ações e seu legado ainda hoje interpelam a muitos. a suspensão máxima imposta pela morte. tomou o poder cinematográfico no Brazyl em 1962 (independente dos fluxos paralelos) fundando novas fronteyras criativas e comerciais em terras de Oropa. para meus objetivos. com a ortografia que se permitira cunhar: “o movimento do Kynema novo. 2004. tertúlias. impressionaram-me os “rios de tinta” que me chegaram. na esteira do pensamento nietzschiano. partilhando “uma deriva. desdobra-se da retomada das críticas coevas aos filmes. 175). desde as primeiras incursões dedicadas à elaboração deste ensaio. para uma espécie de “crítica da crítica” ou. música. 170). Uma trajetória marcada por turbulências e inquietações é apanágio do “artista-nômade”. quase sempre. sobre tudo aos estudiosos da Sétima Arte./dez. começando a atuar desde 1959. 2007 .. claro. influências ou reativações?. e América Latyna” (GLAUBER ROCHA Apud GOMES.. O “barco” dos precursores do chamado cinema novo. capitaneadas por Glauber Rocha. um momento de deriva ou de desterritorialização” (DELEUZE Apud SHÖPKE. pondera sobre a audácia de um pensamento que. Deixo o inventário compromissado com os rigores cronológicos. ao alastrar-se. tinha como tripulantes um grupo de jovens cineastas que escolheu a cidade do Rio de Janeiro. será suficiente reter alguns pontos do movimento liderado pelo cineasta brasileiro que. para entendermos. cinema.

quanto são reconhecidos seu talento e seu conservadorismo. o cinema novo entra em declínio na segunda metade dos anos setenta. ao ensejo do cinema novo. 94 Revista Brasileira do Caribe. não apenas comercialmente transpunha fronteira. “toda unanimidade é burra”. conheceu episódicas trocas de sinais. se pode falar em unanimidade. Setores de esquerda criticaram o filme por sua liberdade narrativa. No Brasil. construíram discursos parafrásticos em relação à crítica de direita. Sobre “Terra em Transe”. Se não vejamos: “Quando os estudantes da Sorbonne apresentavam uma tese demonstrando que Weekend. um irônico e conciso sujeito-suporte. esta nova performance cinematográfica do terceiro mundo. no caso de Glauber Rocha. não contou com a mesma receptividade. o rotularam de “confuso” e nisto.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo De fato. de resto. Na verdade. não obstante as tantas resistências que pontuam o cenário pós-colonial. Prima della Rivoluzione e ‘Terra em Transe tinham sido os filmes que mais influenciaram o movimento de maio de 1968’. Goiânia. a unanimidade para além de “burra”. entre avanços e recuos e em meio a uma conjuntura política adversa. em blague hoje tão conhecida no Brasil. 1997. 407) (grifos meus). a revista direitista Fatos e Fotos publicou a notícia em tom de denúncia política” (GLAUBER Apud BENTES. pelo menos por ocasião do seu lançamento em 1967. sequer nos momentos em que Glauber se consagrou como gênio em algumas hostes. conforme ironizou o jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. a repercussão de “Terra em Transe”. Se. destaco outro fragmento discursivo. seria impossível. Afinal. vol. trata-se de “um ideograma chinês de cabeça para baixo”. que encontrou em Nelson Rodrigues. Nossa historicamente construída condição de receptores de idéias. Da mesma carta-documento enviada ao cineasta cubano Alfredo Guevara e já citada em páginas anteriores. jamais por ele próprio negado. p. bastante persuasivo quanto à troca de sinais acima referida. no que possa parecer um exagero. VIII. o dramaturgo resumiu. n° 15 . se “Deus e o diabo na terra do sol” foi aplaudido quase unanimemente no ano de 1964.

sendo liberado no início de maio./dez. pois. Sobretudo desde o barroco. não escaparam aos olhos e ouvidos atentos da ditatura..P. evidenciada no “discurso confuso”. Prosseguir rastreando a exuberante filmografia de Glauber Rocha seria extrapolar os limites disponibilizados para estas reflexões. Eldorado simplesmente era o Brasil injusto. p.U. portanto. que provocou perplexidade. O filme “Terra em Transe” durante abril de 1967 foi proibido em todo o território nacional. (teatro universitário) recebeu aplausos ao longo da sessão. seria necessário pensar nas condições do momento em que o filme foi produzido. Pensar na análise desses discursos nas vertentes do discurso do emissor (Glauber Rocha) e nos dos receptores (a crítica). desenvolve análise e crítica dignas de transcrição. uma forma inclusive de fraturar o real com intenções artísticas” (BAZIN.Migrações de idéias. não contente com a abundância informacional com que brinda seus leitores. sob a alegação de subversão e cunho ofensivo à igreja católica. 2007 . Cabe lembrar que a exibição em São Paulo organizada pelo T. promovendo “uma reordenação e não uma submissão visual. para confundir a violência do poder. a quem venho recorrendo para a construção deste item. E não poderia ser de outra forma. 1997. p. apesar dos ardis de linguagem. Glauber também precisara dissimular a denúncia com os ardis formais de uma linguagem extremamente elaborada. 184). para escapar ao assédio da ditadura. ANDRÉ Apud GOMES. os poetas e os artistas aprenderam a dizer verdades duras sob o manto da forma requintada.S. Ocorre que os equipamentos retóricos que não ficaram claros a muitos críticos.. problematiza a realidade. guarda em comum a característica de uma linguagem cinematográfica inovadora que. a reiterar que a obra como um todo. mas que se ocultava nos jogos do pensamento. posto que pautadas na busca de sentidos e representações de “Terra em Transe”: Era uma interpretação brilhante e de grande beleza literária. influências ou reativações?. 95 jul. Gomes (1997. ao se descolar da confortável reprodução mimética. dominado pelo latifúndio e pelos interesses das classes privilegiadas. 445). ao lado de certa intencionalidade. que conseguiu captar seus sentidos. Limito-me.

este conjunto deve ser destacado. e tripulantes do mesmo “barco”. 256).I. Cuba significou.C. Goiânia. intelectuais e cineastas. Neste reconhecimento. centro em torno do qual se mobilizavam artistas. Ademais de sua estada. o I. Não por acaso.A. sintonizados com a arte e com a “Ilha”. Glauber Rocha reconhecia o cinema latinoamericano. vol. cineastas e intelectuais cubanos. são. o que este suporte enseja é a reflexão sobre as sintonias de uma experiência nômade e desterritorializada. publicações ou filmes. Sequer seria o caso de estabelecer comparações entre iniciativas e posturas. 2004. não poderiam ser buscadas na perspectiva da mera “influência”. 184). p. algumas das respostas. Se. desterritorializando-se e reterritorializando-se. 96 Revista Brasileira do Caribe. VIII. muito embora as articulações tenham sido muitas. não conseguem apagar sintonias na diversidade do cenário pós-colonial. É neste afã de conhecer e de re-conhecer que Glauber Rocha reconhece a porosidade das fronteiras territoriais que. sempre se inscrevem no gesto criador. diferentemente sedentário. que floresceu nos anos sessenta e estruturou-se como movimento. ocupados com primazia das datas de veiculações de projetos. atos de criação e não de recognição (SHÖPKE. n° 15 . independentemente da precedência das ações. tanto conhecer como re-conhecer. já que. p. uma correspondência intensa atesta as afinidades entre Glauber Rocha. nas trilhas do cinema cubano e do cinema novo brasileiro (GOMES. como exemplo empírico. considero importante ressaltar que a sintonia observada entre as práticas e representações de Glauber Rocha e as dos cineastas cubanos. Lá estava o Instituto Cubano de Artes Cinematográficas. Para os objetivos deste artigo e em consonância com os referenciais adotados. 1997. as “intenções artísticas” do pensador e cineasta. recorte que desdobra das perguntas que faço ao tema. também estes ungidos pela arte“feiticeira salvadora”.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo nômades. pautadas no viés dos rigores cronológicos.C. sem dúvida um importante ponto de inflexão na trajetória de Glauber Rocha. onde o diverso e uno se imbricam. para o nômade.

conforme venho enfatizando. ora questionada. uma postura que se aparta da mera recognição. Aristóteles. Refiro-me aqui. A opção por tematizar as repercussões de perfis nômades no cenário pós-colonial sugeriu a construção de um texto centrado em Glauber Rocha. ora reelaborada. cujo nomadismo terá por certo lhe ensejado a reativação do conceito de diferença. matiza o pensamento deleuziano. 2007 . Glauber Rocha e os cineastas cubanos. Deleuze (1988. expressão adotada por Deleuze ao lado das noções de “maquinação” e “reativação” que não incluem a idéia de 97 jul. p. sem que por isto. Deleuze por exemplo. tais sejam. Antes cabe falar em reativação de representações e ações. de uma “constelação de agenciamentos”. Em dado momento. pela inovação. para ficarmos apenas com alguns dos interlocutores.. se constituam como decalques. agrega ou entrelaça às suas reflexões. sobre a força do pensamento. então. em grandes enunciações. destaca-se. justamente. enleada pela noção de diferença e que faz do reconhecimento. influências ou reativações?. portanto. 48-66) ao conceito de “diferença” em Platão. isto é a diferença. vale insistir tomar para tanto o rumo das “influências”. intencionalmente invocado. articulá-lo às pontes estabelecidas com os cubanos. inspirando-se em Nietzsche. pela provocação. Parmênides. em modos de ver de sujeitos. Heráclito. a partir daí.. Ora o arquivo constituído pelas obras e ações dos “pensadores-artistas” aqui referidos. Seria um esforço improfícuo. elementos que remontam ao mundo grego. ora desdobrada em complexas ramificações. o mesmo ocorre com os praticamente intermináveis diálogos nos quais Nietzsche comparece cumprindo a função do “discurso de outrem”. pois o próprio do novo. Trata-se./dez. posto que falo em sintonias. p.Migrações de idéias. para. Inspiradora. esta complexa grade de idéias. 205) reflete: “O que se estabelece no novo não precisamente o novo. porém ele lhe infunde o seu tom. matrizes de sentido que integram pensamentos. Saltando no tempo. é provocar no pensamento forças que não são as das recognição”. assim como o faz Shöpke (2004. presentes.

Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo

“influência”, para o filósofo, um termo fraco e inapropriado para designar a circulação de idéias que anima os pensadores nômades (SHÖPKE, 2004, p.201). No caso da comunidade cubana e, na impossibilidade de todos mencionar e, mais que isto, comentar as respectivas ações, limitome a destacar algumas evidências empíricas, articulando-as a alguns nomes e propostas. Por exemplo, o “Tercer Cine” de Fernando Solanas assim como Júlio Garcia Espinosa, com seu “Cine Imperfecto”, desenvolveram ações que estão, para a renovação do cinema latino-americano, em sublinhada sintonia com a performance de Glauber Rocha, com o seu cinema novo. Seleciono em Espinosa (1996, p. 125) importantes reflexões sobre as motivações primeiras do “Nuevo Cine Latinoamericano” e as reativações promovidas pelo neo-realismo italiano, no caso, “ponte abstrata” das suas incursões preliminares:
Un primer puente fue el neorealismo italiano. El Nuevo Cine Latinoamericano daba sus primeros pasos cargados de una indiscutible autenticidad. No fueron actitudes miméticas las que nos motivaron. El neorealismo no era un estilo a copiar, era una actitud ante el cine que había de cambiar y ante la vida que había que transformar. Nada podía atizar mejor nuestras esperanzas y nuestras ilusiones. La relación resultó tan fecunda y consecuente que sus huellas vivirán siempre en cualquier obra del cine latinoamericano. No obstante, ya avanzados los años sesenta, la realidad de nuestros países poco tenía que ver con la de la postguerra italiana. En nuestras vidas el espíritu cambio crecía, se aceleraba y se materializaba en acciones de lucha concreta. ‘La identidad se buscaba rompiendo con la máscara de identidad que se nos ofrecía. Y nosotros, cineastas nos identificábamos buscando una identidad que sabíamos única y, a la vez, múltiple y diversa’. (grifos meus). 6

Encontro justificativa para tão longa transcrição por entender que, refraseada ou recortada em pequenos fragmentos, a seqüência

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Migrações de idéias, influências ou reativações?...

assim obtida privaria o leitor de acompanhar o informacional e as argumentações do cineasta Espinosa, cuja clareza me libera de retomar os propósitos de um grupo, e as reativações face ao neorealismo italiano observo ademais, que a metáfora da “ponte” parece resultar de uma acordo tácito entre estes nômades. A Alfredo Guevara coube o estabelecimento da “ponte” inicial entre a arte cinematográfica brasileira e a cubana. Em cartaresposta a Glauber Rocha escrita em 4 de fevereiro de 1961, o cineasta cubano agradece pelo envio de fotografias do filme “Barravento” e também pelos interessantes artigos recebidos. Por sua parte, comunica o envio de fotografias e revistas, informando a disposição da Revista del Cine Cubano e da cinemateca de Cuba de enviar todas as publicações e notícias sobre o cinema cubano. No aguardo da exibição de “Barravento” em Cuba, Alfredo Guevara argumenta, na mesma carta: “Sabemos hasta qué punto tienen contacto nuestras realidades y culturas, cuán cercano, mucho más de lo que uno y otro saben – están nuestros pueblos, y como en la psicología, las costumbres, los problemas, los sueños, la música y el arte se encuentra una común raíz” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES, 1997, p. 36)7. Estas sintonias, estas “raízes comuns”, desde sempre percebidas por Glauber Rocha, se explicitam por ocasião do exílio, ao ensejo da experiência cotidiana. Nas representações de Glauber Rocha, África e Cuba significavam “duas Bahias”. É preciso reter, entretanto, que esta identificação que se patenteia na socialidade do dia-a-dia, ao longo do processo, passou por impasses. Em Cuba, Glauber Rocha viveu entre os anos de 1971 e 1972 e, na feliz expressão de Bentes (1997, p. 49), a Ilha foi para ele “uma espécie de laboratório político”. Neste aspecto, seu entusiasmo inicial experimentou frustrações e desencantamento. O ideal era o mesmo, assim como eram as mesmas, as sintonias promovidas pelas sempre lembradas “raízes”, os amigos eram muitos, mas, a cotidianidade da ambiência política, acabou por assustá-lo. “Admitia que permanecendo em

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Cuba oficializava seu rompimento com o Brasil e, isto é o que ele menos desejava. (GOMES, 1997, p. 163). Por outro lado, houve ruídos ao final de sua estada, provocados pelos questionamentos quanto à retirada dos créditos cubanos ao filme “História do Brasil”. Tais ruídos, porém, não foram maiores que o apreço cultivado entre os “hermanos” cubanos. Por ocasião da morte de Glauber, o amigo primeiro, Alfredo Guevara, homenageou-o com uma edição da revista Cine Cubano, com foto de capa e inclusão de algumas cartas (GOMES, 1997, p. 263 e 264). Nelas, como venho destacando, evidenciam-se os atributos nômades destes “pensadores-artistas”. Sintonias quanto às práticas e representações como as que venho, aqui e acolá, garimpando neste item, pela impossibilidade de detalhá-las neste espaço, foram também percebidas por Villaça (2004) em estudo igualmente centrado em Glauber Rocha8. A autora observa a repercussão da obra glauberiana em Cuba, na segunda metade da década de 60. De fato, “Terra em Transe” (1967) e “Memórias del subdesarrollo” (1968), do cineasta cubano Tomás Gutierréz Alea, guardam em comum vários elementos. Por exemplo, a construção das tramas em torno de personagens interpelados por crises existenciais e identitárias, os monólogos, as trilhas sonoras inovadoras e uma linguagem aberta que dista dos convencionalismos lineares. “Pensador-artista”, assim como foi Glauber Rocha, Alea discorre sobre seu fazer, em um conjunto de entrevistas publicadas no ano de 1989. Chamou minha atenção à imagem por ele adotada para refletir sobre a responsabilidade do cineasta que, ao mesmo tempo, deve preocupar-se com o plano ideológico e o estético.
Jamás he pensado que estoy libre de esa responsabilidad, vivo en una sociedad con la que quiero tener una relación productiva. Al mismo tiempo no puedo olvidar que lo que estoy haciendo es un producto muy particular. ‘No soy un ingeniero, un constructor de puentes, un economista. Soy un cineasta. Lo que hago es fundamentalmente un producto

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estético que cumple una función social’ (ALEA Apud OROZ 1989 p. 19)9 (grifos meus).

A julgar, pelo que veio, insistindo desde o ínicio, Glauber Rocha, sintonizado lhe devolveria a reflexão completando-a, pois o ‘pensador-artista’ é “engenheiro de uma ponte abstrata”. Ao construí-la, estes nômades guiadas pelas mãos da ‘feiticeira- salvadora’, se re-conhecem na mesma missão para a qual dedicam suas vidas. Bem por isso, o já lembrado Espinosa, mais uma vez participa do diálogo lembrando que: “... el arte, como la vida, está siempre en una búsqueda permanente de su identidad. De ahí su importancia y su grandeza. El arte, en este caso el cine, que dé por concluida la búsqueda de su identidad, es un cine” (ESPINOSA: 1996, 123) 10 . Esta busca de identidade e este compromisso com a vida, com a arte e com a estética, não poderiam ser procurados em linguagens cinematográficas alhures, pois, ainda que tecnicamente perfeitas, a estas faltaria a sintonia com a arte compromissada. Assim, no mesmo barco desterritorializado, os ‘pensadoresnômades’ reuniram os seus esforços em torno do melhor do seu fazer, já que: “não é um filme, mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim ao público, a consciência da sua própria existência”, conforme lembra Glauber Rocha nas palavras finais da sua Estética da Fome (GLAUBER ROCHA Apud GOMES, 1997, p.599). Prosseguir garimpando sintonias, entre os cineastas das ‘terras do sol’, seria lembrar muitos outros nomes de tripulantes do mesmo barco, já para não falar da curiosidade com que me peguei, ao saber que não apenas homens, o integravam. Nele estava, por exemplo, a documentarista Sara Gomes, cuja trajetória chamou a atenção do jovem cineasta Eryck Rocha (F.S.P. 15/07/04). Em Eryk encontro também, subsídios que corroboram o argumento norteador deste ensaio. Entrevistado pelo suplemento Domingo, do jornal peruano La Republica, em 4 de agosto de 2002, ele avalia: “Meu pai foi um nômade pós-moderno em plena

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década de 60. Imaginas? Adiantou-se à sua época, tinha um pensamento vanguardista e lutou por uma ideologia, autenticamente latino–americana. Muitas das coisas que defendia à época são vigentes agora. Creio que sua obra é um baú muito grande, que dia-a-dia, deveria ser redescoberta, reinterpretada”11. Neste nomadismo, a passagem de Glauber Rocha pela ‘ Ilha’ constitui, ao mesmo tempo, um porto seguro e uma ‘revolução dentro da revolução’, pois, “no auge das suas inquietações estéticas e políticas, o cineasta baiano filmou, agitou e polemizou como nunca em Cuba” (F.S.P. 15/07/04). Afinal, é atributo dos desterritorializados, este ‘sentir-se em casa’. De Havana, Glauber escreve para o cineasta Cacá Diegues: “estou em Recife muito feliz, estou na Bahia muito feliz, e todo caminho dá no mar [...] Soy feliz y tengo saudades” (GLAUBER
ROCHA Apud GOMES , 1997, p.432).

Bem sem vê, pelo fragmento discursivo acima, o que significou o cotidiano em Cuba, nas representações de Glauber Rocha. Especular sobre as condições de significação de tal sintonia, convida ao diálogo com pensadores cuja concepção do identitário se assenta no lugar de confluência do múltiplo aberto ao diverso e ao movente, onde o ‘reinado do ser é substituído pelo sendo’ (GLISSANT Apud BERND, 2004, p . 104 ). Algumas reflexões que desdobram deste modo de ver, aparecem a seguir, no próximo e último item.

Concluindo: Brasil e Cuba, em sintonia rizomática
Conforme lembra a acima citada Bernd (2004, p.101), os enfoques de Glissant e Chamoiseau quanto às questões identitárias, dialogam com as idéias de Deleuze e Guattari, pensadores que, como se viu, foram lembrados ao longo do presente texto. Glissant e Chamoiseau 12 se opõem aos integrismos e fundamentalismos dos discursos convencionais, quando a questão

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para ambos. 322 ). Desta percepção partilha o historiador e poeta: Suprimir diferenças entre o passado.. se entrecruzam e os territórios se desterritorializam. que só na viagem e através dela. Dir-se-ia. p. Os sistemas em rizoma ou ‘ em treliça’. que. ao contrário. no qual as temporalidades. centrá-los ou cercálos. construir e destruir mitologias é viagem incessante. presente e futuro 103 jul. se reterritorializam. bem como o fazem os ‘pensadores-nômades’. transe histórico. Nestas ‘conexões transversais’ encontro os suportes do nomadismo de Glauber Rocha. sugeridos por ele e por Deleuze: Os diagramas arborescentes procedem por hierarquias sucessivas. Glauber é este cineasta [.. e dos cineastas cubanos sintonizados quanto às representações que construíram sobre o papel da arte cinematográfica para os povos do Terceiro Mundo. p.” (LOPES Apud GLAUBER ROCHA. mas sugerindo entrelaçamentos..Migrações de idéias. 1996. estabelecer conexões transversais. João Lopes reflete: “se há cineasta a que convenha a designação de nômade. Ora. Elas ressoam rizomaticamente dos ‘caules subterrâneos de plantas flexíveis’ cujas raízes multi-seculares se plantaram no solo fecundo dos territórios pós. é a identidade. 246). secundarizando as construções das fronteiras espaciais e sua importância./dez. é possível se encontrar as raízes mais secretas do mistério dos homens e das sociedades que constroem e destroem: as suas mitologias.coloniais. O termo ‘rizoma’ foi tomado por empréstimo à Botânica. Em outro contexto e com outra conotação. é noção que remete à idéia de raízes múltiplas e abrangentes. 1983. podem derivar infinitamente. sem que se possa.. Guattari explica a adoção dos termos ‘rizoma’ e ‘rizomático’. a partir de um ponto central em relação ao qual remonta cada elemento local. influências ou reativações?. ROLNIK. onde ele define os sistemas de caules subterrâneos de plantas flexíveis que dão brotos e raízes adventícias em sua parte inferior (GUATTARI.]. 2007 .

Carlos Lyra.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo È uma forma de viajar: Saio de meu próprio nicho e participo da vida de outros. tanto em justaposição de som e imagem. quanto na subseqüência da ação dramática e seu eco musical” 3 104 Revista Brasileira do Caribe. A qualidade das trilhas sonoras dos filmes de Glauber Rocha foi reconhecida por setores do Brasil e do exterior segundo Gomes (op cit. nem sempre entendida. naturalmente à frente – mas também da popular e da folclórica. a ‘palavra’ de Glauber Rocha e as representações que a ela subjazem motivou e motivará. Notas Refiro-me. O valor de um homem é a sua palavra (LEONARDI. este breve ensaio se junta como gota atraída pelas sintonias de alguém que pertence a uma geração que desde logo aprendeu a admirar Glauber Rocha. por exemplo. Chico Buarque. são portadoras de uma infra-estrutura despertada pela música. Geraldo Vandré. pp 432 – 433 ) “ele gostava não apenas de música clássica – Villa-Lobos. incluído no livro ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ de 1965 à importância da música para Glauber. tendo sido um pesquisador das fontes nordestinas da música interiorana. Goiânia. ‘rios de tinta’. No espaço discursivo da poesia e na riqueza das imagens. ao repertório. Edu Lobo. na polissemia de que se reveste tal expressão e sua palavra. Nestas águas. Vinícius de Morais. Chico Buarque. 1 2 Os autores das músicas são respectivamente. dentre outros. 2003. p 12 ). vol. seu nomadismo. Gilberto Gil. Elis Regina e Maria Betânia. Paulo Perdigão dedicou todo um item de seu ensaio ‘Ficha Filmográgica’. Nara Leão. n° 15 . todas as seqüências enfáticas. por certo. lembrando que no filme. João do Vale. Edu Lobo e Geraldo Vandré. o fragmento acima sugere conexões e pontes com a trajetória de Glauber Rocha. Caetano Veloso. suas viagens. Polêmica. VIII. mas sempre sintonizada com os que com ele partilharam e partilham ainda o mesmo barco. Em seu afã de registrar a mensagem dos cantadores ou dos violeiros cegos.

] A reterritorialização consistirá numa tentativa de recomposição de um território engajado num processo desterritorializante (Guattari. Em nossas vidas. Nada podia atiçar melhor nossas esperanças e nossas ilusões. a música e na arte./dez. muito mais que alguns sabem. abrir-se. O novo cinema latino americano dava seus primeiros passos carregados de uma indiscutível autenticidade. dialoga com o presente ensaio. isto é. mútipla e diversa” (tradução livre). O neo-realismo não era um estilo a copiar. os sonhos. que havia de se transformar. Segundo Guattari.. era uma atitude perante o cinema que havia de mudar e perante a vida. se acelerava e se materializava em ações de luta concreta. a noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo. A relação resultou tão fecunda e conseqüente que suas marcas viveram sempre em qualquer obra do cinema latino americano. os problemas.. 2007 .] o território poder ser relativo tanto a um espaço vivido. 4 O repertório dos filmes será enfocado mais adiante. Buscava-se a identidade rompendo com a máscara de identidade que nos era oferecida. 323).. engajar-se em linha de fuga [. nos tempos e nos espaços sociais. influências ou reativações?. quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente “em casa”.] Ele é um conjunto dos projetos e de representações nos quais vai desembocar.. os costumes. se encontra uma raiz comum. de autoria da historiadora Mariana Martins Villaça. [. e como na psicologia. Uma primeira ponte foi o neo-realismo italiano. cognitivos. (tradução livre). nos identificávamos buscando uma identidade que sabíamos única e ao mesmo tempo. E nós. 6 7 Sabemos até que ponto têm contacto nossas realidades e culturas.Migrações de idéias. que ultrapassa o uso que dela fazem a etologia e a etnologia [. quão perto. o espírito de mudança crescia. O território pode se desterritorializar... do ponto de 8 105 jul.. O excelente artigo “América Nuestra e o cinema cubano”. toda uma série de comportamentos. a realidade de nossos países pouco tinha a ver com a da pósguerra italiana. pragmaticamente. de investimentos. Rolunik op cit p.. Não fora atitudes miméticas que nos motivaram. 5 Territorialidade/desterritorialização/reterritorialização são noções caras ao referencial proposto por Guattari e Deleuze em seus estudos voltados para a problemática das identidades. estão nossos povos. Não obstante já avançados nos anos sessenta. cineastas. culturais estéticos.

Sou um cineasta. Ao mesmo tempo não posso esquecer que o que estou fazendo é um produto muito particular. 106 Revista Brasileira do Caribe. 7 Letras. CASTRO. que dá por concluída a busca da identidade. Goiânia.: Ateliê Editorial. Cinema brasileiro (anos 60-70): Dissimetria. como a vida. Zila: “O Elogio da Crioulidade: o conceito de Hibridação a partir dos autores francófonos do Caribe”. é um cinema morto” (tradução livre). O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. 1990 COSTA. Chega de saudades. vol. Bernd menciona pontualmente os estudos de Chamoiseau. Não sou um engenheiro. Traité du tout. 11 Tradução livre do texto publicado. neste caso. “Jamais pensei que estou livre dessa responsabilidade. tenía un pensamiento vanguardista y luchó por una ideologia auténticamente latinoamericana.) Cartas ao Mundo/Glauber Rocha. 4/08/2002): “Mi padre fue un nómada posmoderno en plena década del 60. Creo que su obra es un baúl muy grande que día a día debería ser redescubierta. O que faço é fundamentalmente um produto estético que cumpre uma função social.J: Ed. 12 Bibliografia BENTES.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo vista temático. As abordagens. Paris. Ivana (Org. 2000.” Neste aspecto. Benjamim. Abdala Jr (org. SP: Boitempo. R. têm modos distintos quanto à construção do objeto e os referenciais teóricos adotados. está sempre numa busca permanente da sua identidade. SP: Companhia das Letras. Muchas de las cosas que defendía en ese entonces ahora siguen vigentes. Hibridismo & outras misturas. um construtor de pontes. 2003. Ecléa. 1997 . Galimard. In. 1997. Luis Cláudio da. BOSI. reinterpretada. A arte.P. (tradução livre). Ruy. 9 10 “A arte. Paris. o cinema. um economista. 1997 e ao de Glissant. 2004. n° 15 . VIII. S.monde. pelo jornal peruano La Republica (suplemento Domingo. SP: Companhia da Letras. Patrick.) Margens da Cultura: mestiçagem. Écrire en pays dominé. BERND. vivo em uma sociedade com a qual quero manter uma relação produtiva. Édouard. Galimard. Te imaginas se adelantó a su época. Daí sua importância e sua grandeza. entretanto. Oscilação e Simulacro. A história e as histórias da bossa nova.

NAPOLITANO. LEONARDI.J. Território e Lugar: estas palavras ciganas. Bsb.: Ed 34. 2004. Petrópolis: Vozes. Subjetividade e Poder. no.In Revista Educação. Abdala Jr (org. “Hibridismo e tradução cultural em BHABHA”. La doble moral Del cine.) Margens da Cultura: mestiçagem.pe. “Espaço. J. In: Benjamim. Gilles.scielo. http/ :www. 4 de agosto del 2002. vol. 2007 . 1989. Hibridismo & outras misturas. 2003. Madrid: Ollero & Ramos Editores. MESQUISTA. Conversações: 1972-1990. 5. Mauro.Migrações de idéias. NAVAS. La Habana: Ediciones Unión.2002. “El legado Glauber Rocha”.P/EDUSP. R.J. SCHÖPKE. 2004. Marcos: Cultura Brasileira: Utopia e Massificação (19501980). 1998. Félix e ROLNIK. ROCHA. S. 44. Revista Domingo del diário de La República. IPHAN. Rio de Janeiro: Instituto Diversidade Brasil. Porto Alegre. Carlos Teixeira: Glauber Rocha. 4ª Ed. ESPINOSA. Suely: Micropolítica: Cartografias do Desejo. Alhanbra/Embrafilme. Lynn Mário T.J. 2003 MALDONATO. Victor Paes de Barros: A Arte de Viajar à Deriva e Ressurgir com Paixão. no. GOMES. S. Júlio Garcia. 107 jul. SP: Contexto. RJ: Contraponto S.P: Boitempo..R. O século do cinema. 1983. 5. o pensador nômade. Vol.: Nova Fronteira.br/scielo. Adolfo Montejo: “Cinco notas sobre o teatro engajado no Brasil”. Menezes de. GUATARI. influências ou reativações?. SOUZA. “América Nuestra – Glauber Rocha e o cinema cubano”. R. Regina: por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze. Mariana Martins..larepublica.: Ed 34. Raízes e Errantes.P. VILLAÇA. OROZ. Glauber. Silvia: Tomás Gutiérres Alea: Los filmes que no filme. Esse vulcão. S. In Revista do patrimônio histórico.com.In: Revista Brasileira de História... 2ª Ed./dez. 22. 1996. Zila.”... 2001. http://www3. DELEUZE. nº 29. 1997. 2004. 2004.P.

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Caribbean Migrations. a identidade era vista pelas elites como homogeneidade (BOUCHARD. 2004) e a situação paratópica do autor (MAINGUENEAU. Migrações Caribenhas. 2000). nome representativo das identidades em trânsito da contemporaneidade. 109-135 . até recentemente. Identidade *Artigo recedido em Janeiro e aprovado para publicação em Março de 2007 109 Revista Brasileira do Caribe. n° 15. Palavras-Chave: Literatura. where until recently identity was seen by the elites as homogeneus. Trata-se de levar em conta a pluralidade de imaginários do pertencimento (SIMON. vol. the representative figure of identities in transit of contemporaneity. onde. pretende-se refletir sobre a inscrição de um “entre-dois” produtivo no corpus escolhido.Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto Abstract This article focuses on the analysis of the books Passages (1994) and Reperages (2001) by the Haitian writer Émile Ollivier. VIII. do escritor haitiano Émile Ollivier. It is important to take into consideration the plurality of imaginaries of belonging and the paratopic situation of the author which award their writing a particular and significative character in the context of the migrant´s literature of Quebec. Identity Resumo Apoiando-se na análise dos livros Passages (1994) e Repérages (2001). 2001) que conferem à sua escrita um caráter particular e significativo no âmbito da chamada literatura migrante do Quebec. Goiânia. It offers a reflection on the inscription of on the inbetween productive place in the selected location. Keywords: Literature.

que passou a ser vista na qualidade de comunidade imaginária. del escritor haitiano Émile Ollivier. reflexionando sobre la inscripción de un entre lugar productivo en el locus seleccionado. revisitada por teóricos como Stuart Hall (2003). o escritor e teórico Amin Maalouf salienta a interferência de múltiplos pertencimentos em sua história de vida. Definindo-se no livro Les identités meurtrières (1998) como alguém situado em um entre-lugar que o leva a se ver como libanês e francês. Em se tratando das Américas. VIII. a noção de diáspora. permitenos repensar os processos de construções identitárias de nosso tempo e as idéias atribuídas até recentemente à nação. n° 15 . Se trata de llevar en cuenta la pluralidad de imaginarios de pertenencia y la situación paratópica del autor que otorgan a su escrita un carácter particular y significativo en el ámbito de la llamada literatura migrante de Quebec. as identidades são múltiplas. como algo que se expressa como deslize. construíram-se coletividades novas (BOUCHARD. ao longo de histórias plurais de deslocamentos e desterritorializações. Identidad Encarada. que constitui uma ilustração das elaborações das identidades em trânsito de nossa época. sobretudo como questão conceitual e epistemológica e não como experiência empírica. nombre representativo de las identidades en tránsito de la contemporaneidad. 2000) a partir de situações 110 Revista Brasileira do Caribe. considera-se a identidade não como um dado fixo e estável. Goiânia. donde hasta recientemente la identidad era vista por las élites como homogénea. deslocamento e devir inacabado. Palabras Claves: Literatura. Graças ao reconhecimento da perspectiva diaspórica da cultura. o local de origem não podendo ser associado a uma única fonte de identificação. vol.Maria Bernadette Velloso Porto Resumen El artículo se apoya en el análisis de los libros Passages (1994) y Reperages (2001). mas. Em contextos marcados pela diáspora. à luz da “différance” derridiana. que sugere mais os movimentos do “tornar-se” do que as certezas do “ser”. Migraciones caribeñas.

o Caribe é fruto da crioulização. 1993. Segundo ele. depreende-se. percebe-se o caráter inovador do Caribe. encarada 111 jul. verdadeiro habitante de um Novo Mundo.Uma voz da diáspora haitiana. professor e crítico haitiano naturalizado canadense: Ser americano é ter conhecido a metamorfose que transforma um europeu. “movimento perpétuo de interpenetrabilidade cultural e lingüístico” (GLISSANT. p. neste homem novo.394). com Salman Rushdie. 1993.30). segundo as modalidades particulares de sua entrada neste Novo Mundo e segundo as peripécias de sua existência aqui (LAROCHE. p. exemplo maior da ruptura de modelos fechados e homogêneos de pertencimento cultural. Pois todos aqueles que moram hoje na América vieram de outro lugar. no campo literário. Inserindo o Caribe no cenário da diáspora pós-colonial. processo inacabado.. híbrido. o que explica seu caráter impuro. imprevisível e produtivo do contato entre culturas. um asiático. Resultante das relações enriquecedoras entre elementos culturais variados. violentas e abruptas” (HALL. há mais ou menos tempo e sofreram a metamorfose que esta terra e sua história impunham./dez. Ásia e África).92). Como se sabe. deu-se a revisão da identidade quebequense. com o aporte de vozes de imigrantes oriundos de diversos países não-europeus e. Considerando-se. do chamado Terceiro Mundo francófono (Antilhas. 2007 . o espaço caribenho é marcado por uma estética diaspórica. p. Nos últimos anos. 2003. em especial.75). todos os que estão no espaço caribenho “pertenciam originalmente a um outro lugar” e sua relação com essa história “está marcada pelas rupturas mais aterradoras. que é pela mistura que a novidade entra no mundo (RUSHDIE. e mesmo o primeiro habitante desta terra. Nascido dentro da violência colonial e por meio dela. p. diaspóricas. Como pensa Maximilien Laroche. a inegável contribuição caribenha na configuração das novas cartografias identitárias decorrentes das migrações pós-coloniais nas Américas.1995.. no Quebec. o crítico da cultura Stuart Hall (Jamaica) também reconhece o que é dito na citação anterior. Salman. e em particular.

uma relação de transferência ou de passagem que não acaba em um produto naturalizado. n° 15 . Tais escritores e poetas apresentam em suas obras o que Maximilien Laroche chama de o “duplo palco da representação” (LAROCHE. muitas vezes problemático para os “Québécois de souche” que. segundo a expressão de Édouard Glissant. aculturado. o que lhes permitia fugir dos horrores da ditadura de Duvalier. uma certa abertura ou fragilidade no plano do domínio lingüístico ou do tecido de referências. por um vocabulário díspar. Goiânia. pois seus textos misturam imagens e signos do Haiti e do Quebec. 2004. Estes efeitos estéticos são o resultado da situação de fronteira vivida pelo escritor que. diante da presença de alofonias diversas. ou seja. interferências lingüísticas ou culturais. Graças à inclusão do olhar de estrangeiros. estes efeitos de dissonância são o resultado de um processo de tradução inacabada. consciente da multiplicidade. opta por criar um texto crioulizado. um despojamento desterritorializante. no panorama identitário do Quebec. levando em conta um estado de dissonâncias e de interferências de várias formas. ressalta-se a presença de autores haitianos que emigraram para o Quebec em decorrência da abertura do Canadá à política de imigração. p. VIII. em certos casos. Pode-se dizer que. tal identidade passou a ser considerada sob o prisma da multiplicidade de centros de referência. mas que deixa traços do primeiro texto no novo. vêem ameaçados seus valores identitários tradicionais – 112 Revista Brasileira do Caribe. Nesse cenário de profundas transformações e questionamentos identitários. vol. o reconhecimento das vozes migrantes. 1991). Cabe lembrar aqui a definição do texto híbrido proposta por Sherry Simon: O que se pode entender por um texto híbrido? Trata-se de um texto que interroga os imaginários do pertencimento.Maria Bernadette Velloso Porto como homogênea pelas elites do século XIX e parte do século XX.13-14) Cabe lembrar que. O texto híbrido é portanto um texto que manifesta “efeitos de tradução”. o imprevisível (SIMON. um texto em que a confrontação dos elementos díspares produz o novo. uma sintaxe não habitual. Da fricção criativa de dois pertencimentos nasceram obras marcadas pelo híbrido.

o escritor iraquiano Naïm Kattan. na condição de migrante. já que. em especial. ele reúne trechos e depoimentos valiosos de seres diaspóricos. inscrevendo no seio da cultura quebequense as marcas de sua diferença e os apelos do exílio. um dos privilégios do autor migrante é o olhar novo que ele lança sobre o país em que se instala: O imigrante. o imaginário migrante dialoga com a representação simbólica do exílio que afetou anteriormente muitos autores do Quebec.. material importante para os estudos do romance haitiano contemporâneo. Como pensa outro representante diaspórico da chamada literatura migrante do Quebec. Nessa revisão contínua das identidades. torna-se um fator de revisão do implícito. mas que está aí para ficar. autores migrantes colaboram de perto na reinvenção identitária do país que lhes deu abrigo. os romances haitianos de 1970 a 1980 foram escritos e/ou publicados na América do Norte. as ambigüidades 113 jul. de modo exemplar. 2001) de todo escritor que. Um dos representantes da presença do Haiti no Quebec contemplados na obra citada é Émile Ollivier. Segundo Jonassaint. que todo desenraizamento é ou pode ser fator de grande criatividade e que toda migração é útil ao país de origem e ao país de adoção. Buscando mostrar que o exílio pode ser fecundo. Encarnação expressiva da situação paratópica (MAINGUENEAU. esse outro que não é um observador de passagem. p./dez. uma cultura que carrega as origens se enriquece com a contribuição múltipla e aceita modificar-se sem se trair. 2007 .Uma voz da diáspora haitiana. já presente na memória coletiva dos quebequenses.. Em outras palavras. em sua maioria. não ocorreu por acaso. os quais viam seu país como incerto. 2001. ausente ou inacabado. Tratar da diáspora haitiana no Quebec nos remete ao livro de Jean Jonassaint intitulado Le pouvoir des mots. les maux du pouvoir. desabrochar ao se reinventar (KATTAN.43). ilustra. ao trazer para a cena coletiva a pluralidade de pontos de referência e de memórias culturais.

Após ter vivido seus primeiros vinte e cinco anos em PortoPríncipe. Ao declarar. esperava retornar à sua terra natal logo que essa situação política tivesse mudado. que teria permanecido o mesmo jovem que rompera. ele não chegou a empreender o retorno ao país natal. Ollivier salienta sua identidade móvel que o levou a adotar compromissos e a efetuar negociações a cada dia. Consciente de que se encontra diante de uma sensibilidade inusitada e de que vive. um dia. Em 1968. 2001. p. Ollivier decidiu se afastar do Haiti para escapar da violência da ditadura de François Duvalier. morrendo no estrangeiro. 2001. se instalou no Quebec onde se tornou professor de sociologia na Universidade de Montreal. no passado. n° 15 . p. como tantos outros indivíduos. VIII. Émile Ollivier privilegia em textos teóricos e ficcionais reflexões sobre o trajeto identitário de seres deslocados de nosso tempo. com a exigüidade de sua ilha para partir em busca da conquista de vastos territórios. Goiânia. Como todo escritor. “alimenta sua obra com o caráter radicalmente problemático de sua própria pertinência ao campo literário e à sociedade” (MAINGUENEAU. p. Ao exercer sua atividade profissional no campo das letras. uma experiência inédita que 114 Revista Brasileira do Caribe. exerceu várias ocupações e obteve um certificado de estudos literários na Sorbonne.Maria Bernadette Velloso Porto e contradições de quem não coincide necessariamente com um lugar no mundo. vol. em 1965. 37). abrigo na França onde. tira partido da deslocalização que caracteriza toda produção literária “sem ‘deslocalização’. 2001. a princípio. negociando incessantemente entre o lugar e o não-lugar. Ollivier acabou por aí criar um espaço de vida e de criação. na sua obra teórica Repérages (2001). Optando por um desvio provisório. Como tantos outros haitianos que pensaram. durante um ano. Como muitos imigrantes (autores e personagens romanescos).27). E é na impossibilidade de se estabilizar em um lugar preciso que sua obra se constrói.28). não existe verdadeira literatura” (MAINGUENEAU. A mesma pergunta que aflige seres migrantes em geral se coloca para o autor em questão: “Como é possível viver não sendo totalmente daqui nem mais totalmente de lá?”(OLLIVIER. Buscou. estar de passagem no Canadá.

já que uma estrada não tem nunca verdadeiro começo. já havia uma curva e mais uma.. A seiva do solo natal não se eleva por nossos pés em direção à cabeça. 2001. Ollivier se colocou à escuta da realidade cultural a sua volta. desejamos o céu. ele parece dialogar com a visão de Amin Maalouf em seu livro Origines: As árvores devem se resignar. ao longo de trinta anos de vida no Quebec. Origem inatingível. da servidão à liberdade ou à morte violenta. de caminho. assim como a intimidade.) Ao contrário das árvores. Como nós. ao chegar ao Quebec. lá atrás. São elas que nos levam – da pobreza à riqueza ou a uma outra pobreza. Para nós. elas precisam de suas raízes. 2007 .24). p. só importam as estradas. Para evocarmos o sociólogo Zygmunt Bauman. 2001. p. 2001.. p. percebe que sua vida era pontuada por várias mortes 115 jul. elas têm uma origem. reconhece-se como um “ser feito da interferência de todos os lugares que atravessou” (OLLIVIER. Vendo-se como um escritor das fronteiras (OLLIVIER. que. as estradas não emergem do solo ao acaso das sementes. 2001. ao invés de valorizar a noção de raiz –associada às árvores .. Respiramos a luz. Por isso mesmo. a distância cria uma situação privilegiada (BAUMAN. por sua vez.910).Uma voz da diáspora haitiana. 20). os homens não. e quando nos enfiamos na terra.22). faz de todos nós seres mutantes por excelência (OLLIVIER. pois a cada cruzamento se uniram outras estradas que vinham de outras origens (MAALOUF. Sob esse prisma.(.38) .. Émile Ollivier passou da posição de exilado à de migrante. cita o escritor Juan Goytsolo. p. após ter sonhado durante muito tempo com o retorno ao país natal. Desse modo. p. 2004. é para apodrecer.69). o autor do livro citado diz que é preciso desenvolver competências de “bricoleur” e aprender a viver nos interstícios. p. Origem ilusória.prefere as idéias de estrada. para se considerar como alguém deslocado que. Exposto a outros modos de socialização como todos os migrantes. 2005. podemos lembrar que./dez. antes da primeira curva. nossos pés só servem para andar. empreendendo uma operação de descentramento (OLLIVIER.

116 Revista Brasileira do Caribe. que trouxeram para o cenário das discussões identitárias o questionamento das certezas estabelecidas.23). Embora trate de assuntos referentes à sua terra de origem. Por isso mesmo. sua outra língua. Com outros representantes de diferentes modos de ser e de ler o mundo. o Quebec mudou de estatuto a seus olhos. para se tornar seu país de adoção (OLLIVIER. Para o autor de Repérages. vista como seu lugar de asilo (OLLIVIER.64). tornado. vol. p. falar uma outra língua equivale a assumir a posição do tradutor. Ciente de que a língua francesa se tornara cada vez mais indispensável em sua profissão.37). Ollivier participou das profundas modificações ocorridas no Quebec a partir da Revolução Tranqüila. 2001. n° 15 . Ao ter perdido. como propôs Salman Rushdie (1993. a presença de “estrangeiros do interior”: os quebequenses que acabavam de deixar o espaço rural para se instalarem no tecido urbano de uma cidade em expansão que recebia alteridades plurais. o jovem haitiano compartilhou com outros a sensação de estranhamento. seu espaço de enunciação. a experiência lingüística constitui um domínio privilegiado para se refletir sobre a condição migrante por parte de seres cindidos sob o ponto de vista identitário. Aos olhos de Émile Ollivier. Goiânia. que ele reforça seus vínculos com a realidade caribenha. 2001. p.Maria Bernadette Velloso Porto e renascimentos sucessivos (OLLIVIER. Ao se fixar em Montreal. a língua francesa. conquistada a cada dia de sua própria reconstrução identitária no novo país. sabe que seus livros não são de fato consumidos pela comunidade haitiana. A maneira de continuar fiel à sua origem não seria falar continuamente dela na língua estrangeira que poderia lhe conferir maior visibilidade? E é no corpo a corpo com a diferença e com o francês. 28). o que remete à existência de “homens traduzidos” de nosso tempo. p. o autor de Repérages afirma ter feito o luto de sua origem. aos poucos. pelo gesto de migrar. VIII. deixando de ser simplesmente a terra que lhe ofereceu asilo. 2001. Situando-se numa encruzilhada entre dois idiomas – o crioulo e o francês – o autor leva em conta a questão de seu público. pois logo percebeu. p. dado o forte índice de analfabetismo de seu país. a seu lado. precisou conquistar um outro.

. ritmos e imagens (OLLIVIER. optando pela procura de um equilíbrio na instabilidade: 117 jul.Uma voz da diáspora haitiana. mas como busca inacabada e rentável que supõe a fricção produtiva entre dois idiomas e memórias culturais. Tenho o hábito de dizer que sou haitiano à noite e quebequense de dia. a literatura migrante de Émile Ollivier coloca a questão lingüística como componente maior do capital literário.. e a criação de uma terceira língua. de uma memória impossível que aflora. p.. isto é. de alguém que está desvinculado da realidade. dois universos e dois apelos lingüísticos que a obra desse autor se inscreve sob o signo da dualidade ou da digrafia. por uma dupla inscrição. na superfície do texto.382). E penso de fato que é uma situação de esquizofrenia.. minhas alegrias. aqui a realização do luto da origem supõe também a interferência constante. transformação e um trabalho de recriação permanente.. Marcada. meus trabalhos e meus dias (JONASSAINT..64) . Estou desvinculado da realidade haitiana. o próprio Ollivier se refere a esse dilaceramento de forma lúdica e criativa: Essa esquizofrenia vai ser encontrada provavelmente ao longo de toda a minha produção. assim. 2001. de Pascale Casanova (1999. nascida do roçar entre as diferenças. Apesar dessas duas realidades trabalharem meus desejos. 1986. para evocarmos o capítulo “La tragédie des hommes traduits”. exercitando a prática tradutória não como um exercício de simples transposição de uma língua a outra./dez. p. Em entrevista a Jean Jonassaint. E é no ir e vir entre duas culturas. apesar de tudo. Ollivier tenta evitar qualquer perspectiva reducionista que poderia tornar exótica sua escrita. Além de sugerir travessia. um reservatório de sons. p. presente nele como uma cripta. Ollivier vale-se de um duplo pertencimento. no ato da escrita.88) Como “esquizofrênico feliz”. 2007 . vivenciada sob a forma de diglossia. Como no próprio Haiti ele já conhecera de perto a dualidade lingüística. mas também da realidade quebequense.

em francês e em crioulo como ser haitiano. isto é. e a encontrar. a desterritorialização da língua francesa. os provérbios. 1986. cujos trajetos de vida se entrecruzam. captar a substância da língua crioula e restituí-la diretamente em francês (JONASSAINT. não se trata de decidir entre o crioulo e o francês. ao mesmo tempo. a negociar entre danos e perdas. a experiência do exílio. vol. revestindo-se de um caráter eminentemente dinâmico.89) No conjunto da obra de Émile Ollivier. Goiânia. duas histórias principais estão vinculadas ao Haiti: de um lado. publicado em 1991. trata-se de andar sobre essas duas pernas. Minha principal preocupação é de expulsar toda folclorização. Numa narrativa de caráter polifônico. na formação social haitiana. o escritor identifica na desterritorialização um espaço de liberdade que o leva a fazer escolhas. Trata-se de levar em conta esse fenômeno. 1997. e a caracterização do escritor migrante como um tradutor adquirem. de preferência. as metáforas.Maria Bernadette Velloso Porto Tenho consciência de não trazer nenhuma resposta explícita à questão da diglossia. Historicamente. a refazer seu imaginário. seu lugar por excelência no mundo. VIII. ressemantizados no contexto estrangeiro. liderados por Amédée Hosange. p. em resumo. n° 15 . evitar a tradução literal do crioulo em francês. Um romance em particular ilustra a complexidade do universo do autor: trata-se de Passages. a gente se exprime. a interiorizar cores. na própria escrita.62). as duas línguas foram vizinhas. Considerado pela autora do ensaio La mémoire sans frontières como uma “deriva polifônica” (GAUTHIER. reinventada graças ao crioulo. o romance Passages apresenta vários personagens migrantes. pois. coabitaram. na maioria haitianos. trabalhar sobre as imagens. Logo. ao invés de se deixar paralisar pela dor da ruptura e do dilaceramento. como 118 Revista Brasileira do Caribe. cheiros e sabores de seu país. p. destaque. mesmo em relações de dominação. Como resolver esse problema no plano da criação? No que me diz respeito. fugir da relação de equivalência e. embarcando em um barco frágil que os levaria. um grupo de haitianos se organiza para fugir das misérias de sua terra natal.

181).1994.. o jornalista Normand Malavy. Outra referência importante à noção de passagem se destaca de versos de René Char: “Nous sommes des passants appliqués à passer. de outro. a vida e a morte se conjugam na dinâmica do transitório. o romance se abre com uma epígrafe significativa de Montaigne: “Je ne peins pas l’être. pois morre de um ataque cardíaco. p. servir de intermediário entre as diversas vozes narrativas desse romance formado da reconstituição de diversas memórias. acaba conhecendo. “história de migrações e de errâncias.. je peins le passage”(OLLIVIER.7). uma das poucas pessoas que sobreviveram ao naufrágio da embarcação e os sonhos dos que ousaram optar pelo exílio (ainda que visto como provisório). enviado pela esposa do morto para buscar seu corpo. donc à jeter le trouble. Destaca-se aí a figura perturbadora do estrangeiro aos olhos de quem se definia pelas certezas identitárias./dez. viúva de Amédée. sua compatriota. no plano da intriga e na própria construção do romance. à infliger notre chaleur. sem realizar o desejo de retorno ao país natal. esse romance deixa provisoriamente o espaço geográfico haitiano para melhor encontrá-lo nas lembranças e no imaginário de indivíduos à procura de seu destino. A narrativa referente à preparação da viagem dos boat people haitianos em direção a Miami se reveste de um sentido 119 jul. abaladas pela inclusão da diferença no âmbito de uma familiaridade construída a partir da ilusão e da pretensão da homogeneidade. 1994.194). em Miami. Brigitte Kadmon Hosange. Priorizando a idéia de passagem. à dire notre exubérance. Voilà pourquoi nous intervenons ! Voilà pourquoi nous sommes intempestifs et insolites“ (OLLIVIER. Como se atualizasse a mesma frase. Histórias do viver e do morrer se intercalam no tecido narrativo marcado pela poética dos encontros e (des)encontros ligados às movências identitárias. o livro em questão coloca em cena múltiplas passagens. Vistas como trânsito. p. que há anos deixara o Haiti para viver em Montreal. 2007 . 2000. Cabe a outro personagem haitiano (Régis). mas não chega a divulgá-lo.” (GAUVIN. p. a Miami. Normand grava o depoimento de Brigitte em cassetes. Como afirma Lise Gauvin. clandestinos.Uma voz da diáspora haitiana.

120 Revista Brasileira do Caribe. que os levaria a Miami. a intervenção do sobrenatural se dá nas pequenas histórias do cotidiano marcadas pelo realismo mágico. belles cases. Là vivait Amédée Hosange. colocando em confronto dois tempos de um mesmo lugar. condenada ao abandono e ao silenciamento. disait-il. p. augúrios e presságios.Maria Bernadette Velloso Porto mítico.25). un bien grand et riche domaine. 1994. cinq maîtresses. de onde fora expulso um dia. de modo misterioso. é revestido de tragédia. que corre o risco de se tornar “lata de lixo dos Brancos”: afastando-se da representação do lugar habitável que fora um dia. essas terras representam todo seu sopro vital (OLLIVIER. Et pourtant. ce n’est plus le pays de la canne à sucre . de la main même de l’Empereur. a morte repentina desse cadáver em vida (extremamente magro. conscientes de que. ele parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos) acarreta um efetivo desequilíbrio ecológico que compromete a própria existência da coletividade. Port-à-L’Écu n’existe nulle part. feita por eles mesmos. Goiânia. A abertura do romance aponta para a decadência que afeta a cidadezinha de Port-à-L’Écu. Prisioneiros de um mutismo feito de medo. p. pois. il n’y a guère de temps. Il tenait la terre de son grand-père. vol. da desolação e da miséria absoluta: Port-à-L’Écu. como ocorre com a chegada de um ser inquietante que coincide. Em um mundo pleno de sinais. mas também de desafio e de orgulho (OLLIVIER. 1994. des deuxmoitiés. Port-à-L’Écu n’existe plus. Nul besoin de chercher son nom sur une carte .14). c’était un village qui comptait tout près de trois mille chrétiens vivants. passou a ser o espaço da improdutividade. au lendemain des grandes tueries de l’indépendance (OLLIVIER. os habitantes da referida cidade escolhem uma forma particular de resistência: a fuga numa embarcação precária. lequel l’avait obtenue. il ne figure sur aucune. com a crise da pequena cidade. p. mesmo no estado em que se encontram. n° 15 .27). O retorno desse habitante a Portà-L’Écu. 1994. vaste grange. les loup-garous y ont élu domicile et parfois volent en plein jour. VIII. Il y avait à Port-à-L’Écu dix carreaux de terre.

1994. dire combien le ciel avait marché au-dessus de la terre.. como o “passeur” que os levaria à salvação. je vous l’ai déjà dit.65) equivale a um “détour” no sentido glissantiano. en reniflant. Il m’avait souvent parlé de ses voyages en haute mer. Il connaissait la position des étoiles fixes et des étoiles errantes. 1994. p. monsieur. sabe ler os sinais inscritos na paisagem. il pouvait faire le décompte des milles marins parcourus. p. o desvio é sinônimo de astúcia.63).Il m’avait souvent parlé de ses voyages au long cours. 1997.19) e dotado do sentido da orientação por ter uma bússola em suas narinas e por ser capaz de se valer do sol como seu compasso e seu cronômetro (OLLIVIER. Em estreita sintonia com a natureza. p. en fixant le ciel. deslocando-se como um pombo correio. novo Hermes responsável pela transmissão da nova boa nova: a possibilidade do recomeço em outro lugar e da reconstrução da identidade nas searas da diáspora. Tendo em sua bagagem existencial a experiência do nomadismo (cf. Amédée é escolhido por seus compatriotas como líder. La nuit. il associait les odeurs à la direction du vent. Il n’avait pas besoin de montre pour déterminer quelle partie de la nuit ou du jour était passée (OLLIVIER. Mestre da ciência dos ventos baseada no vivido. connaissait la navigation en haute mer. p. 1994. 1994. p. inteligência prática de seres oprimidos que a ela recorrem para contornar um problema de difícil solução.Uma voz da diáspora haitiana. 2007 ./dez. Convencido de que lhe cabe a responsabilidade de assumir para si a resistência contra os riscos de desaparecimento de seu 121 jul. abre-se para a expansão dos limites identitários.. Tal viagem clandestina em direção a um “Eldorado de lenda” (OLLIVIER. Véritable pigeon voyageur. 64). a prática do desvio constitui uma estratégia de sobrevivência eficaz para se enfrentar uma impossibilidade (GLISSANT. Concebido como um recurso temporário. “il avait foulé cette terre en nômade” (OLLIVIER.48). Segundo Édouard Glissant. dominando as artes do enraizamento e da errância: Amédée.

Maria Bernadette Velloso Porto povo. o candomblé. Apoiando-nos em pistas oferecidas por Simon Harel e Jacques Mathieu-Alexandre (2003) em sua análise do romance Passages. a capoeira. Malgré vents et marées. nous avons franchi cinq siècles d’histoire. depuis la mort de l’Empereur. Goiânia. no cerne dessa obra. nous continuons à survivre en nous livrant à d’impossibles gymnastiques (OLLIVIER. de se refaire. nous traversons le temps même si le sol semble se dérober sous nos pas. nous franchissons la durée. Ausentes dos estudos 122 Revista Brasileira do Caribe. que remete não só à fuga de escravos. p. Notre substance est tissée de défaites et de décompositions. malgré ce présent en feu. Notre histoire est celle d’une perpétuelle menace d’effacement. l’esclavage et. Na base da resistência coletiva à decadência de sua cidadezinha e de sua própria dignidade como povo. os habitantes de Port-à-L’Écu se mostram atingidos pela sensação incômoda de exigüidade (PARÉ. vol. Coureurs de fond. VIII. 1994. dans cette barque putride et imputrescible à la fois. cette éternité dans le purgatoire. persévéré sur les flots du temps. de se défaire. Amédée atualiza o exercício do “marronnage” (termo criado a partir de “nègre marron”= “quilombola”). une interminable histoire de brigandage. effacement d’un paysage. la grande transhumance. mas a todo gesto do resistir que se manifesta como prática cultural (como o vodu. 2001). Et pourtant.184-185). dilacerado entre o sentimento de impotência e o desejo de sobrevivência: Nous venons d’un pays qui n’en finit pas de se faire . ce temps de tourments. effacement d’un peuplement : le génocide des Indiens caraïbes. as danças. aponta para a consciência da fragilidade e dos riscos de invisibilidade e de desaparecimento de uma comunidade. Uma passagem em especial ilustra a consciência da fragilidade do ser exíguo. podemos dizer que. opiniâtres et inaltérables galériens. não constituindo uma simples referência física que marcaria seres insulares. entre outras manifestações criativas). Nous avons subsisté. n° 15 . dégradable et pérenne. está a consciência da exigüidade que.

capaz de preencher e de superar o hiato geográfico instalado entre seres distanciados fisicamente. Miami não seria.Uma voz da diáspora haitiana. uma solução definitiva para seres desterritorializados.206). oferecendo aos seres desterritorializados a oportunidade de inscrever seu lugar no mundo nas páginas da escrita. Como foi salientado.65)./dez. 87). p. 1994. Espaço de convergência de inúmeras experiências diaspóricas. Miami aparece na narrativa como um lugar de passagem. Amédée 123 jul. Mas.97).. Escrita muitas vezes epistolar. fragmentada em várias cidades onde há diversas solidões (OLLIVIER. 1994. p. Escrita do trânsito e das transferências culturais que se abrem para os diálogos sempre inacabados da crioulização. as produções da exigüidade correspondem à “fabricação original e autônoma de bens simbólicos inéditos” (PARÉ. mesmo sabendo disso. pois. pois. pelo paralelismo estabelecido entre a casa e a escritura. essa cidade se reveste também de um sentido negativo. mas que encontram. “a escrita e a prática da arte acarretam uma liberação do espaço” (PARÉ.66). um sítio importante para se rever sob o ponto de vista identitário e para reler o próprio existir. no espaço das letras. 2003. É o que faz Ollivier no romance em pauta. 2007 . a situação diaspórica favorece a atividade da escrita. após certa hesitação e influenciado por uma visão mágica. p. ao exercício criativo de práticas de sobrevivência adotadas pelos excluídos da História oficial. p. além de ser “um lugar de esperança e de miséria para os que conseguiram deixar sua terra de miséria” (GAUTHIER. acadêmicos voltados para as chamadas grandes literaturas. uma terra de errância. p. a função da escritura é a “de aumentar desmesuradamente nossa relação com o mundo de modo a nos proteger da pequenez da condição humana e da insegurança que a acompanha” (HAREL & JACQUES. 2001. Lutando contra o confinamento.. Como experiência enriquecedora que leva indivíduos a ultrapassar limites.66). Obra-refúgio ou obra-insular. 2001. Apontada como a “América latina na América do Norte” (OLLIVIER. 1997. o abafamento e o silêncio. p. na busca de um outro lugar no mundo. uma possibilidade é vislumbrada pelo grupo liderado por Amédée como viável: Miami. sob a máscara do sol que esconde cóleras e violências.

p. não corresponde ao ideal de vida valorizado pelo próprio Émile Ollivier. Leyda oferece ao leitor pistas valiosas para a compreensão da diáspora: Voyez-vous. le monde est constitué de deux grandes races d’hommes : ceux qui prennent racine. VIII. de outro.. empruntent d’aléatoires chemins. qui se tissent un destin minéral dans un rêve de pierre et ceux qui se prennent pour le pollen. avait changé d’avis. influencé par sa vision. ce jour-là.. n° 15 .31). les grands espaces. nessa segunda categoria. ils traversent.Maria Bernadette Velloso Porto responde afirmativamente à demanda dos que o procuraram como guia. haveria os seres sedentários. que acabara de morrer. avec le vent. Pourtant.86-87). vol. Goiânia. Um dos trechos mais poéticos do romance Passages referese a uma reflexão da personagem Leyda a respeito de duas formas de se estar no mundo: de um lado. 1994. Identificando. alguns homens se deixariam levar pelos movimentos do devir. Sa part de territoire. Adeptes de vastes chevauchées. Normand était de cette race. Na base de sua decisão está a certeza de que mesmo quando deixamos o país natal. p. Amédée. 124 Revista Brasileira do Caribe. (. ele nos acompanha. Ils sautent dans des voiliers de hasard . Il aimait ces déplacements à tâtons qui se jouent sur des surfaces illimitées où départs et retours finissent par se confondre (OLLIVIER. 1994. quitter le pays où ils étaient nés. interiorizado nas memórias e paisagens afetivas: Amédée ne comprit pas tout de suíte pourquoi ils devaient partir. ne l’emporte-t-on pas partout avec soi ? (OLLIVIER. il savait que souvent le crabe qui s’éloigne à une trop grande distance de la mer. quelles que soient ses fins secrètes n’a jamais le temps de revenir.) Mais déjà. devenir une race sans terre. a partir dos apelos da polinização. inspirando-se na fixidez do mineral ou no modelo da raiz que. como já foi visto. seu próprio marido Normand. sans trajet préalablement déterminés. sans but.

1997. “só havia partida na perspectiva de um retorno 125 jul. em geral.Uma voz da diáspora haitiana. 141-142). mais temos acesso a riquezas imateriais (MAFFESOLI. pode-se morrer de tédio ou de desespero (MAFFESOLI. a passagem abaixo se aproxima da citação de Ollivier: Fazer uma leitura contemporânea de Gide. No romance Passages. Para eles. permite. Para Maffesoli. p. atribuindo-lhe./dez. abrir-se para o outro” (MAFFESOLI.22). para quem existir significa “sair de si mesmo. 1997. hedonista e místico das « nourritures terrestres » gozando do vento espalhando sementes.19). o que corrobora o pensamento de Michel Maffesoli. 2007 . pois. já que a imobilização.142). um caráter não definitivo. 1997. Segundo a perspectiva do exílio visto como “détour”. a cultura não é somente enraizamento. diferentes personagens conhecem de perto tal experiência. 1997. Por isso. palavra que recobre diversas situações. da família. mas também desprendimento. segundo a lógica diaspórica. do ninho. portanto. um enriquecimento cultural. A vivência do exílio. Referindo-se à metáfora da raiz. Sinônimo de fecundação e de renovação. p. convite para a novidade e para a aventura no campo dos sentidos – transitórios como a própria existência–. Amédée e Brigitte encaram a ida para Miami como recurso temporário..39). p. quanto mais longe nos encontramos da “terra dos mortos”. p. p. a diáspora é. 1997. Apenas as sementes que vão longe têm oportunidades de frutificar. p. como sinônimo de confinamento. além de se morrer de fome. 1997. conforme foi apontado. Não se poderia falar melhor da força do desprendimento que cresce longe das raízes. Daí se explica a razão que leva Maffesoli a acreditar na necessidade de se empurrar para longe as fronteiras (MAFFESOLI. As que caem bem perto do tronco não têm nenhuma chance de crescer e de desabrochar..28). Apenas permanecerão vivas as plantas que jorrarão longe da árvore semeadora. Gide. opondo-o a Barrès que pedia aos homens para se enraizarem na terra e nos mortos. tem um efeito mortífero (MAFFESOLI. já que. da terra dos mortos (MAFFESOLI. segundo o autor citado.

um desejo de viver (OLLIVIER. 1994. Si elle était restée plus longtemps. como já foi dito. Elle n’avait eu qu’une semaine.229). viveu um tempo com um chileno e se dedica a manifestações contra o racismo e a utilização de armas nucleares. 1994. p. outro personagem migrante conhece a frustração ao fazer uma viagem a seu país. peut-être auraitelle découvert. ser dos trânsitos por excelência. une douleur intense. derrière ce nouveau masque. situa-se paradoxalmente entre a busca de um impossível acordo consigo mesmo e um movimento de felicidade. Dividido entre duas forças – o quimérico ressurgimento de seu passado e o esquecimento de suas raízes (OLLIVIER. de mil odores do alhures” (OLLIVIER. p. alimentou o desejo de rever Cuba.176). préservé de la ville longtemps imaginée. Também Normand. o enorme hiato criado entre ela e sua terra de origem. Trata-se de Amparo. 126 Revista Brasileira do Caribe. preenchendo o vazio de sua vida de modo a parecer muito ocupada. descobre a impossibilidade do retorno. Mas. p. Tendo contínuo contato com imigrantes latinoamericanos. ou à elaboração de petições pela Nicarágua.112).Maria Bernadette Velloso Porto enriquecido de mil perfumes. Ora. ela vive no Canadá há cerca de dez anos. p. Amparo fixa sur Leyda un regard mouillé : “ Jamais plus je ne pourrai vivre à La Havane” (OLLIVIER. como se buscasse compensar a desorientação de seus dias. une grande déchirure. intime. Son séjour à la Havane. n° 15 . 1994. não realiza seu sonho de voltar ao país de origem. 45).42).113). Cela avait suffi pour constater que la magie avait quitté sa ville. VIII. “anda em círculos” (OLLIVIER. vol. p. 1994. seus atos se revelam incapazes de garantir uma mudança na ordem das coisas e de lhe assegurar uma nova meta de vida. Filha de sírios que emigraram para Cuba e depois se instalaram nos Estados Unidos. le visage secret. P. 1994. por mais que ela se esforce. Durante muito tempo. tentando se enraizar em projetos de melhoria do mundo. Assim. Para reforçar a inviabilidade do retorno à origem. mas ao empreender uma viagem ao seu país natal. 1994. Goiânia. Brigitte manifesta o desejo de voltar a Port-à-L’Écu para ser enterrada na sua língua (OLLIVIER. diante do fracasso da empreitada chefiada pelo marido. Na verdade.

pois há sempre algo no meio. reconstruída sem cessar por sua memória.Uma voz da diáspora haitiana. 1991./dez. até então inerte ou cansada de ser igual a ela mesma. aí está a própria procura do amor”. p. No exemplo acima..57) 127 jul. Amparo parece ilustrar o pensamento do autor do livro Entre-deux: l’origine en partage: “Ora.34). destaca-se a sensação familiar e moderna de “des-locamento”. o exílio é freqüentemente uma viagem que não sabe encontrar seu retorno” (SIBONY. embora procure se fixar em projetos coletivos. Mas onde é o início de tudo? Não somos todos migrantes em trânsito permanente que nos leva a recomeçar sempre? No caso da personagem Amparo.55). encontra-se o valor da viagem como busca e requisição da memória. Assim como Amédée e Normand.. 2003. p. Tratase ainda da dificuldade de nos situarmos de fato em um lugar preciso e da consciência de que não nos é facultada a possibilidade de voltar para casa. viajar para senti-la. Amar é desejar encontrar o ser que possa abalar sua memória inerte para lhe dar vida nova. experimentada. abalar seu suporte de ser idêntico a si mesmo. 1991. a reencontrar sua carência vital e sua distância em relação a ela mesma (SIBONY. já que. 1991. que não precisamos. antes. 2007 . segundo Daniel Sibony. em nosso tempo. “Ora. Lido a partir dessa concepção de origem. por todos nós. a noção de pátria confundindo-se com uma construção provisória e inacabada. E a imagem de seu país natal não passa de uma das versões possíveis de sua terra. No nível cultural como na experiência subjetiva. necessariamente. entre o presente e lá onde tudo começou (HALL. p. um convite para se ultrapassarem fronteiras e para se descobrir que é possível desejar (em) outros lugares. p. Como “impulso em direção a outros lugares” (SIBONY. 27). a origem nada tem de paralisante. que forçará sua identidade a efetuar a viagem que ela escamoteia. o próprio presente nada lhe oferece de estável. o amor equivale a uma procura de renovação identitária e de revitalização da memória graças ao contato com a diferença e o alargamento de fronteiras. sendo.

1994. VIII. conseguem se comunicar pela criação de uma terceira língua. o exílio como ruptura é compensado pela vivência amorosa que constitui. Goiânia. “O importante é descobrir no corpo-texto do(a) amante. Seres 128 Revista Brasileira do Caribe. Ao contrário do lugar. mesmo efêmeras.Maria Bernadette Velloso Porto Não é por um simples acaso que. Quanto a Amparo. No romance Passages. Conhecendo um duplo transplante (identitário e cirúrgico).68). Normand se identifica a Montreal. a representação do amor no contexto diaspórico remete. 2004. 1994. e de identificarem. ainda que de modo fugaz. que é histórico e supõe a idéia de um vínculo. como se o amor fosse o ato inaugural de uma outra origem. perda e fragmentação.86). para personagens desterritorializados. n° 15 . A coincidência de trajetos existenciais parece reger o encontro dos dois amantes: vindo “de longe. do outro lado da vida” (OLLIVIER. Normand tinha “uma vida em suspenso” ao longo dos últimos dez anos durante os quais sofria de grave doença renal. não-lugar próprio da supermodernidade aos olhos de Marc Augé (1994). o encontro desse casal equivale a uma possibilidade de neutralizar sua situação diaspórica. a disponibilidade para acolher outras histórias e outras memórias culturais” (PORTO. o que contribuía para uma vida de recluso em uma cidade (Montreal) que se tornara uma prisão para ele (OLLIVIER. p.69). os amantes exercitam o gesto de se enraizarem. em particular. nos territórios da paixão e/ou da afetividade. os não-lugares de nossa época se associam ao trânsito. à história entre a cubana Amparo e o polonês Janush. Amparo e Normand se encontram em um aeroporto. já que suas relações são superficiais. Embora não dominem um idioma em comum. vol. Assim. a oportunidade do encontro – encontro do outro e de um outro lugar de referência identitária. na pele de outrem. na experiência amorosa. seu cotidiano nada lhe reserva de concreto e de promissor. no romance Passages. Identificando. ao efêmero e ao não-estabelecimento de relações efetivas. p. o espaço para escreverem outras marcas de parcerias. corpo tatuado pelo já vivido. p. cidade de outros seres transplantados. um modo especial de suprir o vazio. Associado às idéias de hiato. Cabe-nos aqui aprofundar a leitura do amor em tempos de exílio.

eles tiram partido da capacidade tradutória. revisitado pela perspectiva de Pentecostes que assegura a comunicabilidade a despeito das diferenças. Colocando em prática uma espécie de sacralização do amor. Janush était de ces êtres sensibles qui captaient intuitivement toutes les manifestations de la vie. seguindo diversos roteiros em que adotam várias identidades.. onde assumem diferentes papéis. Feita de silêncios.. os dois personagens apontam para o exercício maior dos diálogos interculturais: Un jour à la cité des Arts. Qu’importait ce manque! Une langue commune n’est pas absolument indispensable à la prise des langues et l’emmêlement de deux vies. constituindo “a busca desvairada 129 jul. dans l’affrontement désespéré de deux impuissantes paroles en quête de vérités (OLLIVIER. os dois amantes vencem qualquer impedimento. Il parlait polonais. Leurs échanges se situaient en deçà ou par-delà les langues. Assim. bénéficiaire d’une bourse du gouvernement français. o amor se mostra capaz de abalar as certezas identitárias. Aucun des deux ne parlait la langue de l’autre: typique dialogue Est-Ouest. como se exercitassem. para além de suas opacidades culturais.Uma voz da diáspora haitiana. 1994. Como se exprimissem. Ils avaient fini par créer une langue médiane mâtinée de gestes et surtout de silences. Por isso. da fronteira./dez. de impossibilidades. o exercício do diálogo. inúmeros deslocamentos e trajetos inéditos. baragouinait le français. a experiência maior da alteridade. sob o modo metafórico. como na vivência da diáspora. atualizando. experimentam. apesar de todos os desafios e riscos. por meio do jogo amoroso. sua linguagem parece ilustrar a recuperação do episódio bíblico de Babel. p.. Il était polonais. 2007 . ou do outro lado do espelho. a possibilidade de entendimento entre dois mundos. Elle ne comprenait que l’espagnol et l’anglais. elle avait rencontré Janush. os amantes transformam o quarto do hotel em Paris em uma espécie de templo. Le silence fondait leur relation. Mergulho vertiginoso no fundo de si mesmo.128). il pouvait se livrer sans restriction à ses activités de peintre.. de não-dito.

passagens. lovés dans l’été de notre édredon (OLLIVIER. nous traversions plusieurs fois le globe. o amor não poderia se manifestar em contexto marcado pela idéia de unidade: como falta e busca. p. “não combina com o um-só. l’aventure commençait dès le petit matin. o pacto amoroso aposta na estranheza. Oiseaux migrateurs.129). após uma noite de amor. conforme foi visto na citação de Sibony o suporte identitário dos dois personagens.57). no deslocamento. de acordo com Daniel Sibony. descobrem-se em um lugar diferente da cama. No teto do quarto de hotel parisiense. visitions des pays de légendes et de merveilles : cratères éteints de la cordillière des Andes. Kilimandjaro aux neiges fumantes. Exprimindo-se criativamente em situação de fronteiras culturais. com a unidade narcísica. à New Delhi ou à Buenos Aires. Vivido.)”(SIBONY.p.. Orient imaginaire. 1994. define-se como reinvenção permanente e experiência do heterogêneo. mourir sous les toits de cette mansarde de l’avenue de Wagram à Paris. ‘viagens’(. isto é. Abalando. Certains matins.. Le ciel de notre lit figurait une carte du monde et chaque jour. Por isso mesmo. há muito esquecida” (OLLIVIER. Goiânia. 1994. à luz da experiência diaspórica. vol. convidando-os para exercitarem o próprio simbólico que.131). reinventando seu cotidiano. há um grande mapa-mundi e a cada novo dia. p. eles imaginam que viajam a cada noite. pois.1991. Trata-se ainda da vivência do imprevisível e da renovação cotidiana da disponibilidade para o gesto de partir: Avec Janush.Maria Bernadette Velloso Porto de uma parte de si mesmo. já que os parceiros investem na contínua renovação de papéis e de lugares 130 Revista Brasileira do Caribe. Janush et moi nous nous réveillions sur un point différent de la planète. VIII. faisions escale dans des contrées prodigieuses. como se o movimento de seus corpos os levasse a um outro continente. Nous revenions sur les ailes de midi. Ele convoca o entredois. o amor os leva a se despirem de qualquer sugestão de fixação. n° 15 . le lendemain à Singapour. nous prenions le petit-déjeuner à Sidney. da pluralidade e da hibridação.

Atenta aos excessos característicos do carnaval. de paisagens e de manifestações culturais que remetem a um “dépaysement” criativo que nada tem de exótico.. o personagem Leyda evoca esse momento expressivo do encontro de culturas e seus efeitos sobre os quebequenses. na riqueza da não-coincidência. p. associada às expectativas de um ir além. o livro em questão coloca na paisagem transcultural montrealense a explosão do orgiasmo carnavalesco caribenho. surpresos diante da manifestação dionisíaca da diferença em seu território. o que reforça a paratopia de seres desterritorializados. Isso explica a cenografia do ritual amoroso inventado por esses personagens que elegem a vivência amorosa (e aqui pouco importa se se trata de amor ou de paixão) como espaço significativo da condição diaspórica. em que diversos níveis lingüísticos coabitam sem hierarquias. gostos e ritmos e à liberação do corpo grotesco próprio da carnavalização rabelaisiana. ela registra o 131 jul. 2007 . a do personagem Régis – que tece as ligações entre diversas histórias. Se na narrativa da viúva de Amédée. para empreender uma viagem em um universo marcado pela riqueza de imagens e de metáforas inesperadas. Na reconstituição de suas memórias elaboradas em Montreal. Émile Ollivier imprimiu em seu romance as marcas da Poética da Relação proposta por Édouard Glissant (1990).Uma voz da diáspora haitiana. Valendo-se das promessas da diáspora. engajando-se em uma escrita fundamentada na hibridação.71). Hibridação de registros de língua. Como salienta Louise Gauthier (1997. Assim. um grande lirismo se destaca nessa obra. Espaço da polifonia e da pluralidade. pertence a um domínio mais culto do francês. graças à inclusão da multiplicidade de cores. identitários. odores./dez.. como todo desejo – de “escreverem” suas histórias graças à travessia de línguas e de memórias corporais e culturais. precisam levar adiante seu desejo – sempre movente. identificam-se a sabedoria ligada à experiência presente em provérbios haitianos e o ritmo próprio do conto e da oralidade. Cabe agora ressaltar que o prazer da leitura do romance Passages está diretamente ligado à representação das movências: o leitor é chamado para se deslocar dos limites de seu mundo.

tout cela vibrait sous le regard médusé des archéo-Québécois qui auraient pris panique. masques. pulsions sauvages de la violence lascive des tropiques. de muscade. de clou de girofle. 1994.) Et l’on tape sur tout ce qui peut résonner : bouteiilles vides. n’était la présence massive et rassurante de la flicaille prête à toute éventualité (OLLIVIER. a dessacralização da cultura oficial.38-39) Na lógica da carnavalização.. un coup pour toi. après avoir fait le tour du monde.Maria Bernadette Velloso Porto transbordamento de limites. VIII. incitant à des déhanchements. des assauts de fantaisie. des punchs exotiques. serpentins qui deviennent cerceaux emmêlés. a manifestação do corpo grotesco 132 Revista Brasileira do Caribe. dá-se uma série de transformações: a revelação do mundo às avessas. casseroles ébréchées. de vanille. p. méringue. vol. de piment. de basilic. Et les odeurs! Des matrones. une horde de corps que des coulées de sueur font luire au soleil . femmes-tortues. plantes parvenues à maturité sans que l’on puisse en préciser l’âge. pâtés relevés de poivre. rythmes célébres qui. femmes-lézards. distribuent victuailles et rafraîchissements . dans ce parc de Notre-Dame-de-Grâce. plantes plantureuses aux yeux rouges de plusieurs veilles de laborieuses préparations. royaume de testicules. Et l’on voit passer des bipèdes obscènes sur des plates-formes mobiles. de trous. du bruit qui soudain devient rythmes. bouquets de canelle . vieux bidons d’essences. n° 15 . échouaient là. a transgressão ou a travessia das fronteiras da ordem cotidiana. reggae. Goiânia. femmes-libellules. une cacophonie. un coup pour moi. de fruits de la passion: irruption de la Caraïbe des origines . de phallus aux proportions gigantesques. sandwichs à l’avocat. renovada pela irrupção dos signos da alteridade: Leyda gardait en mémoire l’image de toutes les couleurs de peaux se côtoyant dans une débauche de costumes bigarrés. cette partie de la ville devenue soudain folle (. de fourreaux. défilés de couples mimant des scénes d’accouplement. démêlés. cercles de femmes. calypso. d’ail. rabordaille. assoiffés de fentes. rubans de dentelles. steelbands d’un jour. une foule criant haut et fort..

No caso de Ollivier. as referências a manifestações culturais do Haiti desempenham sempre um papel relevante na obra de Émile Ollivier. mostra-se disponível para incluir em seus referenciais identitários valores e 133 jul. mantenedora da ordem. Entretanto. Todavia. 1994. investindo. na vela do barco que levaria alguns haitianos a Miami. e da sexualidade desenfreada. 240). o devir animal: revestindo-se de atributos de libélula. 2007 . comprova que. recusando-se a reconhecer uma concepção simplista de pertencimento. com seus excessos e transgressões de limites habituais. abalada com a desmedida da festa carnavalesca. insinuando que toda essa algazarra é apenas provisória. Longe de se fundamentarem numa visão folclorizante da diferença. em formas diferenciadas de identidade. lagarto e tartaruga.) o ser humano não pára de se inventar” (OLLIVIER. a euforia contagiante da festa. No âmbito de jogos identitários característicos do carnaval. mesmo que por momentos. todos nós nos originamos e falamos a partir de “algum lugar” (HALL. no Quebec. e a presença dos excessos associados à enumeração. Isso indica o caráter de duplicidade identitária do autor que. ao longo da qual o improviso é permitido. foram bordadas imagens do panteão católico e de divindades do vento e do mar. atinge a todos.. cultuados em seu país natal. mesmo localizados./dez. por mais que a identidade esteja ligada aos movimentos do devir. Assim. nossa relação com o passado e com a origem é sempre passível de releitura e nos permite atestar a veracidade de uma afirmação do romance: “(..83).Uma voz da diáspora haitiana.. a cerimônia vodu realizada a bordo do barco. Sugerindo a dupla inscrição identitária do autor. Seja como for. a polícia permanece de sobreaviso.. o carnaval caribenho reinventado em uma metrópole da América do Norte acena com as promessas de renovação e de metamorfose. elas parecem brincar de outras possibilidades de ser e de estar no mundo. 2003. aprofundou sua experiência do entre-dois. as mulheres conhecem. os corpos individuais encontrando seu prolongamento no corpo social “contaminado” pelos apelos caribenhos. Por uma espécie de crescendo. Desse modo. p. ainda que debaixo de fantasias e disfarces. p. a vivência da religiosidade por parte de personagens é marcada pelo sincretismo.

Fronteiras. 2000. M. Da diáspora : identidades e mediações culturais. São Paulo: Papirus. Le discours antillais. ela também pode ser concebida como falta. insuficiência e ausência que levam o ser humano a largar as amarras de um porto seguro das certezas para se deixar envolver pelos movimentos do devir e pela expansão diaspórica. BAUMAN. G. M. Niterói: EDUFF/ABECAN.). GLISSANT. 2000. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. É.. Introduction à une poétique du divers. 1999. J. “L’écrivain témoin : déplacement. Montréal : Boréal. 1995. paisagens na literatura canadense. Z. transferts culturels et l’expérience de l’habitabilité dans les romans d’exil d’Émile Ollivier”. 1986. E se a idéia de identidade supõe limites. exclusão. vol. GLISSANT. Ottawa : Conseil International d’Études Canadiennes. 1997. Montréal : Presses de l’Université de Montréal. « Littérature et culture nationale du Québec : le clivage culture savante/culture populaire ». Naïm Kattan et les écrivains migrants au Québec. Paris : Seuil. GAUTHIER. Paris : Seuil.(org. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Paris : Gallimard. L. Paris: Éditions de l’Arcantère . La République Mondiale des Lettres. É. GAUVIN. BOUCHARD.. É . 134 Revista Brasileira do Caribe. a despeito de alguma resistência. distinção e ruptura. L. GLISSANT. Poétique de la Relation. Identidade. 1997. esse se viu transformado com as vozes caribenhas. Campinas. 2005. JONASSAINT. Langagement : l’écrivain et la langue au Québec. numa via de mão dupla enriquecedora. passagens. HALL. 2003. HAREL. Por sua vez. Goiânia. 2003. Montréal : Les Presses de l’Université de Montréal. Les pouvoirs des mots. P. M. Bibliografia AUGÉ. In : Revue Internationale d’Études Canadiennes n° 27.In : PORTO. S.Maria Bernadette Velloso Porto produtos culturais do país que o recebeu. & JACQUES. S. VIII. Sainte-Foy (Québec) : Les Presses de l’Université Laval. CASANOVA. 1994. 1990. n° 15 . La mémoire sans frontières : Émile Ollivier. Brasília: Representação da UNESCO no Brasil. les maux du pouvoir : des romanciers haïtiens de l’exil. Belo Horizonte: Editora da UFMG.

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136 .

vol. n° 15.A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant Kátia Frazão Costa Rodrigues Abstract This study focuses on the exploration of the Antillean subjectivity as it is conveyed in the poetry by Aimé Césaire and Edouard Glissant. From the perspective of a voice which initially emerges as an expression of the unconscious of the collective and still over influenced by the legacy of the colonizer. Antilhanidade. da Filosofia de Jean-Luc Nancy e da concepção mais contemporânea de *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 137 Revista Brasileira do Caribe. a new perspective towards the future encourages to re-evaluate concepts such as Negritude. Na perspectiva de uma voz que inicialmente surge como expressão inconsciente do coletivo e ainda sobredeterminada pelo significante do colonizador. Antilleanness. Goiânia. Crioulidade e Crioulização. VIII. interview with Brazilian poet Paula Glenadel. a way of political and social compromise with the progress of humanity. Creoleness and creolization. num movimento outro. but on a different turn. The acknowledgement of this subjectivity leads to a reformulation of the way of thinking and acting. 2007 . se reedita e deixa mostrar a outra face da resistência. Glissant. 137-164. convite para se repensar conceitos como Negritude. Identities. Negritude Resumo Este trabalho representa à subjetividade antilhana a partir das poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. Literature. O diálogo se dá pela via da Psicanálise de Jacques Lacan. Keywords: Césaire. This analysis will draw on the theories of Jacques Lacan on Jean-Luc Nancy´s philosophy and the most contemporary conceptions of identity. mas que. sob um olhar mais paciente e também voltado para o futuro. allowing thus the dialogue between differences.

seus poemas parecem remeter a um espaço comum. Goiânia. produzem movimentos de fechamento e de abertura próprios de uma existência híbrida e resultante do processo de ser singularmente plural. pois embora esses autores martinicanos se inscrevam na Literatura de forma particularizada. particular ou que pertence unicamente ao pensamento humano e é suscetível de variar em função da personalidade de cada um1. designa o substantivo feminino que concerne à qualidade ou caráter de subjetivo. Negritude Resumen Este trabajo es una investigación sobre subjetividad antillana a partir de las poesías de Aimé Césaire y de Edouard Glissant. Glissant. VIII. Glissant. forma de compromiso social y político con el efectivo progreso de la humanidad. sem dúvida. à reformulação do pensar e do agir humano. A subjetividade. permitiendo así el diálogo entre las diferencias. aqui entrevista. Literatura. criollidad y criollización. em duplo gesto. o diálogo entre as diferenças. possibilitando. Palavras-Chave: Cesáire. Palabras Claves Césaire. vol. O reconhecimento dessa subjetividade leva. adjetivo do latim subjectivu que significa: relativo ou existente no sujeito. entrevista en la poetisa brasileña Paula Glenadel. assim. pessoal. de la filosofia de Jean-Luc Nancy y de la concepción más contemporánea de la identidad. El reconocimiento de esa subjetividad lleva sin duda a la reformulación del pensar y del actuar humanos. entrevista em Paula Glenadel. invitando para repensar los conceptos Negritud. Negritude Pretendo suscitar interrogações acerca de uma possível subjetividade antilhana a partir do diálogo entre as poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. Es la perspectiva de una voz que inicialmente nace como expresión del insconsciente colectivo y ainda sobredeterminada por el significante del colonizador pero que en un movimiento “otro” se reedita y deja mostrar la otra cara de la resistencia sobre una mirada más paciente y dirigida para el futuro. Já a palavra sujeito. individual.Kátia Frazão Costa Rodrigues identidade. forma de engajamento social e político com o efetivo progresso da humanidade. Identidades. poetisa brasileira. Literatura. El diálogo se da por la vía del psicoanálisis de Jacques Lacan. onde traços se repetem e. n° 15 . antillanidad. conforme 138 Revista Brasileira do Caribe.

esbarra. que. o termo sujeito designa o indivíduo indeterminado ou cujo nome se quer omitir. materialização na escrita de uma potência que não cessa de se recarregar. mas à palavra exterminada dos indígenas e amordaçada dos escravos africanos. Cito Pépin. Não foi senão a partir dos primeiros cronistas. Como substantivo. cativo. Pépin também nos dá pistas de que é pela palavra. iniciado pelo marronage3. assim. Investigar a subjetividade antilhana é. tamanha é a sua importância no processo de reconstrução sócio-cultural e histórica das Antilhas. Cabe ressalvar. muitas vezes ficaram sem registro. pela oralidade do conto e pelas práticas culturais. um alguém. ainda que instantaneamente. muitas vezes interrompida e consignada na memória crioula. O autor deixa entrever. convocar à cena a voz que se apresenta poeticamente como “eu”. obrigado e constrangido ou. ao redesenhar a trajetória de um devir sempre descontínuo. apostando na existência de um alguém. entrevista a partir do encontro dessas potências em diferença ou. que a Literatura Antilhana possui uma dimensão muito maior do que o universo restrito da Martinica. ainda. que deve ser redescoberta a qualidade desse eu enunciador. primeiramente. nesse caso. vem do latim subjectu (posto debaixo) e. Les composantes sont diverses. assim. este pode se legitimar como seu fiel representante. escravizado./dez. pesquisa de mesma fonte. 2007 . A subjetividade é.A construção da identidade no Caribe.. antes de tudo. No entanto. a escritura martinicana está diretamente ligada à questão identitária e esta ainda parece ser a grande problemática do antilhano em geral. que toda essa literatura mestiça está presa não somente ao ocidente. escritor nascido em Guadalupe: “Nous ne sommes pas que des descendants de l’Afrique. como adjetivo. As investidas em favor desse resgate identitário. àquele que se sujeita à vontade dos outros. assim. refere-se ao súdito. Ademais. Nous portons tous en nous ces parcelles d’identité qui nous constituent en tant qu’Antillais et Caribéens créoles2”. como o padre Labat e o padre do Tertre. no ponto intersecional das poéticas de Césaire e de Glissant. que 139 jul. reconhecendo-se. em outras vozes do plano da composição..

Césaire. igualmente presa aos padrões ocidentais. No projeto de uma concepção unificada do povo antilhano. então. VIII. vista como eurocêntrica e dominadora. A eles se segue a escrita duduísta. a “Negritude”. de fato. igualmente dicotômica e marcada pelo exotismo. por isso. ora os negros. n° 15 . na busca de uma poética própria. foi Edouard Glissant. a escrita regionalista. em seus anseios linguageiros pela cultura dominante. retratar a realidade antilhana. Ao denunciar o falso monolingüismo e a pureza das raças sem evidenciar. deparando-se com algumas barreiras. movimento que se inicia nos anos 30 do século passado e marca uma consciência mais desenvolvida em favor da dignidade negra.Kátia Frazão Costa Rodrigues se inaugurou timidamente uma sondagem. Cheia de clichês. que também se revela como problemática. dentre outras razões por fazer uso da língua francesa. Jean Bernabé e Patrick Chamoiseau. é formulado em favor dessa contraposição. Segundo Confiant. assinado pelos martinicanos Raphaël Confiant. assim. porque designa ora os brancos nascidos nas colônias. ainda nos anos 60. O conceito de “Crioulidade”. escreviam em francês e. A “cria da Negritude”. Entretanto. como é chamada por Pépin. dentre elas. a mestiçagem. sobretudo. muitos deles seus futuros e acirrados críticos. esses “brancos da terra”. conquistou rapidamente um grande número de adeptos. quem primeiro explorou mais profundamente a unidade. contudo. Desde sempre atraído pela questão identitária e querendo ultrapassar as barreiras essencialistas criadas 140 Revista Brasileira do Caribe. Mas. vol. não conseguiram. acusa Césaire de essencialista. como afirmou Pépin. Goiânia. a crioulidade apela para a consciência de uma etnia plural. Surge. a existência de uma matriz cultural fundamentada na plantação da cana e na escravidão faz persistir a idéia do “um” em relação ao sujeito antilhano. nos anos 80 do mesmo século. a crioulidade acentua ainda mais as diferenças culturais e antropológicas. tão distante e estrangeira. a da própria língua. a então chamada “literatura assimilacionista” também não chegou a apresentar uma dimensão histórica e social. que liderou essa empreitada identitária. Desse cenário evolutivo nasce. Era a escrita dos primeiros mulatos antilhanos assimilados.

por 141 jul. assim. onde interagem o cultural e o lingüístico. por vezes. Segundo o autor. o devir crioulo passaria por essa conscientização. a universalização do devir. na aceitação do outro e de suas diferenças. o resgate da identidade antilhana só é possível pela ruptura com a tradição baseada na filiação. acerca da oposição raiz-rizoma. com o discurso hegemônico do ocidente. longe de serem consideradas como movimentos isolados e. confirmando a existência de uma cultura crioula que. mas também das Antilhas e da América em geral.A construção da identidade no Caribe. que busca. que se fundamenta no diverso. 2007 . Dessa forma. assim. Por volta dos anos 1980-1990. as diferenças. desrespeitando. a obra de Césaire. Chamoiseau chega mesmo a afirmar que não é possível falar em Literatura Antilhana antes de Glissant e que tudo que o antecede não passa de uma pré-literatura. provocados pela globalização. Entretanto. pela Negritude./dez. aí. mas como múltipla e decorrente da relação com o outro. no mesmo. A identidade passa a ser concebida não mais como regional. Para ele.. Elabora. fazendo ampliar as fronteiras não somente da Martinica. as tentativas de ressignificação do sujeito antilhano representam as muitas etapas da construção de uma subjetividade híbrida que se desenha no entre-lugar de algumas falas. até contraditórios. a partir da observação dos traços comuns das várias culturas caribenhas. talvez seja mais interessante pensar que. o autor desenvolve o conceito de “Identidade-rizoma”. A identidade não mais se concentraria no ser. o conceito de “Antilhanidade”. conceito articulador da “Poética da Relação”. possuiria uma identidade própria. mas no “ser com”. o pensamento de Glissant se estende às problemáticas humanas. incluindo-se. Afetado pelas idéias de Deleuze e Guattari. Glissant desenvolve a idéia de uma “identidade regional”. é o próprio Glissant quem atualiza a noção de antilhanidade. e também pela migração e maior contato entre os povos. apesar de diversa e sem consciência de si mesma. com o monolingüismo e com a identidade-raiz.. Glissant define as diferentes culturas como formas mestiças que se entrecruzam de maneira dinâmica num processo de “Crioulização”. Em 1995.

le pain. inicialmente. como diz o poeta da negritude. Cito Glissant: “Et parmi les chants de midi / Ravinés de sueurs triomphales / Sur un cheval vient à passer / La mort demain la Pitié” (GLISSANT. Essa escrita marcada pela emoção apresenta. numa verdade exterior.. et le vin de la complicité. “. dá pistas de uma incontestável proximidade com aquela que se desenhou no Cahier d’ un retour au pays natal5. 1994.. le cordon ombilical restitué à sa splendeur fragile. sacudindo a consciência. por exemplo. n° 15 . / l’affreuse inanité de notre raison d’être” (CESAIRE. gestes imbéciles et fous pour faire revivre l’ éclaboussement d’ or des instants favorisés.24). silencieusement. le sang des épousailles véridiques” (CESAIRE. Daí a abundância de interrogações. de Aimé Césaire.Kátia Frazão Costa Rodrigues aproximação e distanciamento. também. Cito: Cette argile à nouveau remue! Serait-ce que l’oiseau guide le ciel vers une source ? Serait-ce.. l’ 142 Revista Brasileira do Caribe. très lointaine. invocando atenção para questões morais que colocam em jogo valores como dignidade. Mas foi Césaire quem primeiro denunciou essa marca indelével da violência: “. un vieux silence crevant de pustules tièdes. vol. Goiânia. 14). le vin. p. 1965. p. e por extensão. honra e respeito. VIII.10). A escritura antilhana tem a marca de um apelo que se funda. le pain. A interpelação em Glissant tenta atingir a cristalização causada por um real que ainda resiste à palavra. um cunho pedagógico. incitando à reflexão. como também. não somente em favor de uma maior consciência acerca do negro colonizado. feita por Glissant na sua obra Poèmes 4. A descrição do sofrimento causado pela escravidão.. 1994. buscando. do drama de todo negro da história da humanidade. p.une vieille misère pourrissant sous le soleil. caminho possível para uma atitude menos passiva diante dos acontecimentos que envolvem a própria vida.

1965./dez.1965. ao traçar a estratégia para a resistência. mais l’ emblave et l’ ensemence.faites-le flamboyance de l’indécis. faites-le prose de l’obscur. 15-16). nul ne peut. (GLISSANT. O uso dos verbos no modo imperativo já atesta o desejo de guiar impulsionando essa multidão que. permanece “como uma baía!” (GLISSANT. ensaiar a instrução de um possível caminho para o resgate identitário. 13-14) Mas. Lui ne craint plus le sentiment (de dire « je » dans cette terre). indifférente et soudain calme dans le fruit... Faitesle feuille de vos mains.. faites mystère ainsi que lui de ce silence où bruit la ville..” (GLISSANT. 1965. embarquement des rives de la neige vers une foule incendiée ? Ou le coeur. ausente de todo trabalho. le souvenir encourt les tournoiements de l’ arbre. p. profuse en ce langage. agité comme une gare de populations végétales.. p.. ocupando também o lugar do outro. son ressac tumultueux ? Nul n’ avoue. Et vous. et plus haut son sang. para saudar Edouard Maunick”.A construção da identidade no Caribe. da mesma forma. no poema “Palavras de ilhas. Césaire parece.. ao mesmo tempo em que interroga. Glissant responde. 2007 .. Toute prose devient feuille et accumule dans l’obscur ses éblouies. et l’ébloui de vos brisures. à peine devinant tout ce remous d’ étoiles et de lierres. qui fume sur la ville sa suée de terres. est-ce le coeur. Cito: “Durant que vous dormez dans cette plaine.15). que cette enfance soit la vieille d’ un bivouac. Toi qui comprend ce qui disent les îles Et qu’ elles se communiquent dans la marge des mers et dans le dos des terres dans leur jargon secret d’ algues 143 jul. quando diz: Si nous voulons réappareiller l’ abeille dans les campêchiers du sang Si nous voulons désentraver les mares et les jacinthes d’ eau Si nous voulons réfuter les crabes escaladeurs d’ arbres et dévoreurs de feuilles Si nous voulons transformer la rouille et la poussière des rêves en avalanche d’ aube Qu’ es-tu.

1965. um novo traço dessa dura realidade se revela. “de uma multidão que não sabe fazer multidão”6. Glissant o faz pela pintura da sua inversa miséria. revelando uma escritura marcada pela antítese branconegro. A mesma ambigüidade se dá em relação à descrição da Martinica. que se deixa abater e. 508). VIII. vol. A escrita hesita entre o desejo de ser o seu próprio modelo e a missão de um testemunho coletivo acerca do passado traumático que seria esquecido sem ela. E. de fato. Goiânia. náufraga. o cenário do drama. deixando-se representar por cores sombrias que escrevem simbolicamente o desencanto: 144 Revista Brasileira do Caribe. pois esse tempo distante é constituído de matéria fictícia e remete a algo que não existe mais ou que nunca existiu. Glissant parece assumir a mesma fala que um dia proferiu o poeta “portavoz das bocas das desgraças que não têm boca nenhuma”7 ao dizer: L’ île entière est une pitié Qui sur soi-même se suicide Dans cet amas d’argiles tuées O la terre avance ses vierges Apitoyée cette île et pitoyable Elle vit de mots dérivés Comme un halo de naufragés A la rencontre des rochers (GLISSANT. a cada pincelada. 1994. Seu referencial de verdade está no passado e aponta para a consciência de que algo precisa ser empreendido. pouco a pouco. quando. 24) Essa expressão cheia de predicações compõe.Kátia Frazão Costa Rodrigues Et d’ oiseaux Qu’ es-tu comparse du feu et du flux et du soufle (CÉSAIRE. Nos versos abaixo. pelo menos como tal. p. como diz Césaire. p. deriva. n° 15 . expressa na passagem perversa do outro por essa ilha lastimável de uma gente passiva ou. ao tentar desmistificar o exotismo das Antilhas. completamente muda.

1994. Nessa perspectiva. coisificado./dez. fazendo realçar. 2007 . loin du vent. não por acaso. Essa dimensão psicológica encontrada. Ce vent n’ est plus l’arène où s’ ébattent les pluviers ! Jamais plus. Que de sang dans ma mémoire! dans ma mémoire sont des lagunes. 145 jul. de roses sales. Ma mémoire est entourée de sang. Elles sont couvertes de têtes de morts. de um sentimento de incapacidade do negro diante da supremacia branca. Elles ne sont pas couvertes de nénuphars. ao ser mantida. também no plano ficcional e como algo ainda passível de ser questionado. ao mundo maniqueísta instaurado pela escravidão. entregando-se. na obra dos dois autores.. além da memória. os dois poetas dão indícios de que. p. Le soir est écuelle de broussailles. assim. Ma mémoire a sa ceinture de cadavres! et mitraille de barils de rhum génialement arrosant nos révoltes ignobles. a sua própria condição humana. diante do sofrimento moral e material a que foi submetido. a permanência. ô jamais n’ ira l’ aurore disant l’aurore.A construção da identidade no Caribe. pelo pessimismo. no imaginário antilhano. Sua recorrência atesta não só a não resolução como a fixação do drama. assim. mostra que a poesia construída a partir da autofragmentação patológica do negro e da sua vitimização vai alimentar o plano das composições antilhanas em geral..32). perde o contato com o mundo e. se desajusta. É interessante destacar também que tanto Glissant quanto Césaire demonstram a especificidade do negro colonizado como alguém que. a posição privilegiada do ocidente. Dans ma mémoire sont des lagunes. pâmoisons d’ yeux doux d’ avoir lampé la liberté féroce (CÉSAIRE. a escrita antilhana também é marcada pelo desastre. perde a noção de si e da realidade. Jamais plus n’ ira le vent par la parole. Sur leurs rives ne sont pas étendus des pagnes de femmes. como um traço identitário que não se apaga. antigas antinomias. confirmando. “na eterna fixação dos dias e dos gemidos”8: O tout ce lieu est mort. plus que l’ aurore dans les chambres. acheminant des rêveries.

1965. como estrutura a dimensão inconsciente e. o psicanalista Jacques Lacan9 demonstra que o exterior tem importância decisiva. na impossibilidade da troca com o outro. / une faim ensevelie au plus profond de la Faim de ce morne famélique” (CESAIRE. A morte é também da palavra que. s’ouvre bientôt un champ de misère et d’ incendies. a resistência rumo à individuação.Disaitil seulement.1965. a partir de um comprometimento involuntário com o sistema simbólico pré-existente. / et il n’y a rien.. p. O verbo se faz presente entre o 146 Revista Brasileira do Caribe. dans la voix fissurée. E. “je”..car sa voix s’ oublie dans les marais de la faim. Goiânia. 31). A linguagem determina o sujeito porque a palavra não só precede a sua existência. dans cet effroi des promenades ? – nul ne sait. Un homme chaque matin ouvre les yeux sur la solitude où il se garde. Peut-être êtes-vous là. 1994. / qu’ une “faim qui ne sait plus grimper aux agrès de sa voix / une faim lourde et veule.. (GLISSANT.Après la traversée. Na sua teoria sobre a constituição do sujeito. et de cette couleur d’ amour. O Soleil ! ô travail séculaire sourdement mêlé de mer.Kátia Frazão Costa Rodrigues « je suis l’éveil des yeux et la clarté des profondeurs”. fazendo com que o homem perca a sua aurora e os seus devaneios. cette naissance hivernale ? (GLISSANT. na falta de comunicação. n° 15 . la solitude. VIII. comme l’ aurore... Il est de la race des choses mûres de mûrir dans l’ été lourd et l’ encombre tumultueux.13). se submete ao código do outro.. Il a quitté les flamboyances. paradoxalmente... vol. pois o eu se descobre no outro. escravizada. abandonné la rare bleuité de ceux qui aiment et sont aimés. et de sang noir précipité.146). o poeta do “Cahier”: “. pleuré les rêveries. na mesma encruzilhada do pensamento. et la colère des requins. p. na impossibilidade de amar e de ser amado. p. rien à tirer vraiment de ce petit vaurien.

que fez com que o homem se perdesse durante tanto tempo na obscuridade. mas da subordinação à língua do estrangeiro colonizador. diferente do eu. Neste sentido. ao mesmo tempo. numa imaginada cumplicidade com o colonizador: Je me cachais derrière une vanité stupide le destin m’ appelait j’ étais caché derrière et voici l’ homme par 147 jul. 85) Em Cahier d’un retour au pays natal.. 1994. verdadeiro instrumento de dominação. da mesma forma que é impossível conceber a subjetividade sem essa presença fantasmática. pois não se trata apenas do assujeitamento primordial à língua do grupo./dez. há sempre algo no meio. (GLISSANT.. a dependência do outro se torna ainda mais traumática. Cito Césaire: “Mais pourquoi brousse impénétrable encore cacher le vif / zéro de ma mendicité et par un souci de noblesse apprise/ Ne pas entonner l’ horrible bond de ma laideur pahouine ? / Voum rooh oh / Voum rooh oh “ (CESAIRE.A construção da identidade no Caribe. 1965. sujeito e a sua fala. esboçando sorrisos pálidos. sem enxergar a si mesmo: Qu’ était la mer et son écume ? Savait-on si sa parole ne se mourait En quelque gouffre. o processo subjetivo só pode ser pensado na relação com o outro. P. au loin des routes révélées ? Longtemps ainsi la voix de l’ homme se perdit aux temples Pour obscure qu’ était la route jusqu’ au temple ! et cette mer. tropeçando na língua do outro e. Tornar-se sujeito. sem ritmo e sem medida. desengonçado. estranho e ameaçador. nesse caso. p. Entre sujeito e discurso. se escondia em si mesmo. 2007 . como efeito da própria socialização. 27) Na situação diaspórica. implica também resistir a essa palavra escravizadora de consciências. aprisionado pela brancura de uma vã assimilação à cultura ariana. Césaire já apontava para esse homem que.

E. (CÉSAIRE. A concepção lacaniana do homem como ser sobredeterminado pela linguagem permite. des mots. resultante da sua relação com o mundo. 1994. Voici l’ homme par terre Et son âme est comme nue. p.Kátia Frazão Costa Rodrigues terre. ses déclamations pédantesques rendant du vent par chaque blessure. fala o poeta da negritude: Des mots? quand nous manions des quartiers de monde Quand nous épousons des continents en délire. em outras palavras. vol.. 1994. (CESAIRE.. um dia.30). pensar que o sujeito é sempre definido em função do outro. assim. a cessão do eu. sa très fragile défense dispersée. confirma o pensamento freudiano de que é pela linguagem que o homem se revela.. então. et des flambées de chair. a extensão da estrutura que cessa para algo se opor a ela. 36). a partir daquilo que um significante representa para outro significante. que a sua relação com o 148 Revista Brasileira do Caribe. quand nous forçons de fumantes portes. ses maximes sacrées foulées aux pieds. adornos!” (GLISSANT. a “doença”. p. 1965. por conseguinte. dessa forma. Essas fixações atestam não somente o conflito do eu. Lacan. decorrente do funcionamento da própria linguagem. mas também o exercício de um fazer-se sujeito ou a “cura”. desejado ser como o outro. 39) A consciência de que a língua do outro é feita de “Brancuras! viscosidades da palavra que não interpela! Febre nevada. traz a certeza de que é preciso buscar uma outra expressão. A alienação seria. n° 15 . p.. que seja capaz de exprimir toda a angústia e o arrependimento por ter. des mots! mais des mots de sang frais. des mots qui sont des raz-de-maré et des érésipèles et de paludismes et des laves et des feux de brousse. mostrando que as repetições na fala seriam a representação sintomática do inconsciente. assim. VIII. A alteridade implicaria. citado por Bruce Fink10. e. e a alteridade. ou ainda. Goiânia. ah oui. do desejo do outro. Pode-se supor. et des flambées de ville.

O desejo não é. Declara Glissant: “Le soir à son tour germera / Dans le pays de la douleur/ Une main qui fuse le Soir/ A son tour doucement tombera” (GLISSANT. tornando seu algo que antes era estranho e ameaçador. A letra mata o sujeito para lhe oferecer vida própria./dez.. assim. mais de uma dimensão. revela-se agora. portanto. senão. o fruto dessa ilha lamentável. assim. Entretanto. O homem nasce. aquele que apenas a ordem simbólica é capaz de captar. pois ao mesmo tempo em que permanece ligado de forma irremediável à língua do colonizador. O discurso apresenta. de uma ficção quando toma para si a alteridade. na adoção da causa que perturba o funcionamento da estrutura. fonte de toda comunicação. porque inclui o outro que. Nesse processo de aproximação e de distanciamento. fantasias se produzem e oferecem a sensação de um falso ser que tenta superar o conflito. porque o outro se interpõe provocando ora admiração. dirige o seu olhar para um devir. E. como linguagem. é Césaire quem poetiza: les nuits de par ici sont des nuits sans façon elles sont toujours en papellotes elles ne sont pas sans force même si elles sont sans mains pour brandir le coutelas mais force reste à la loi – à l’ angoisse la nuit ici descend de grillons en grenouilles doucement les pieds nus en bas un gosier de coq patiente 149 jul. o outro que habita em nós. preenche vazios e transforma o desejo. p.A construção da identidade no Caribe. os laços que geram a dependência primordial ao significante do outro também fazem armazenar a energia que principia toda resistência e. 2007 . que padece das palavras derivadas. 1965. em paralelo. investido de mais de um sentido. 22). mundo é sempre ambígua.. de onde talvez sejam possíveis a consciência de si mesmo e uma relação menos traumática com o mundo. ora repulsa.

Goiânia. entrevistas as duas poéticas. reanima a existência. o primeiro passo para a constituição do sujeito. de grilos em rãs”. incita ao exercício de um olhar mais amadurecido e próprio de um eu que se confessa “laminar”11 em Césaire ou. irrompem no discurso. se mexer e “gravitar em torno do seu próprio corpo” (GLISSANT. causado pela sua constituição como ser social e. 418). Assim. agora. A ordem simbólica internaliza as imagens especulares que. p. O segundo movimento revelaria um percurso outro. da alienação que dirige o homem para a assunção de um papel vazio a ser preenchido pelo outro. em decorrência da própria anulação. A primeira refere-se a um duplo assujeitamento do homem antilhano. assim mesmo ou por isso. p. na busca da realização do eu reprimido e na assunção também de um papel. mais ainda. através de duplos gestos. A noite que cai “docemente e. ainda. É também dentro dessa perspectiva ética de sujeito que são. se reinventa.11-12). como um furo de significantes que nos chegam numa linguagem truncada e aparentemente sem sentido. 1994.Kátia Frazão Costa Rodrigues pour cueillir la giclée ce n’ est pas toujours de la cellule de gestion de la catastofre que la journée téméraire fait part de sa propre naissance (CESAIRE. nascido no país da dor. desta vez. igualmente. Uma anulação que é. As imagens enunciam uma subjetividade que assume o comando e a responsabilidade por toda a expressão. próprio daquele que Glissant anuncia como nascido da poesia que ultrapassa o drama e faz reacender a chama da vida. a história antilhana se retraça. duas trajetórias para se pensar a subjetividade. embora “sem mãos para erguer o facão”. do marronage à crioulização. deixando entrever. em contrapartida. n° 15 . como uma paciência que “cresceu na ausência”. a exegese do eu e do desejo. pois. permitindo. VIII. Desenham-se. na visão lacaniana. mas que faz uma argila resmungar novamente. Tratar-se-ia. como ser negro e escravizado. investidas de interesse e de valor libidinal. vol. a existência de um alguém que. 1965. mas. de responsabilidade frente 150 Revista Brasileira do Caribe.

Nesse sentido. fruto de dor e de prazer. A subjetividade adviria. completamente nu. sustentado apenas pela ilusão de uma totalidade. vivendo a sensação fantasmática da completude causada pela utopia de um preenchimento. chamando para si o sujeito.A construção da identidade no Caribe. desarmado. tenta fazer essas duas faltas coincidirem. provocando a ruptura da hipotética unidade anterior. faria com que o sujeito se expusesse com toda a sua complexidade. 2007 . Tal processo corresponderia ao conceito de separação e daria origem ao ser marcado pela hibridez. Segundo Glenadel. de 151 jul. como uma herança inquietante que atravessa o discurso produzido pelo imaginário e pelo desejo das margens.. de um grande paradoxo que incluiria alienação e separação ou fechamento e abertura./dez. a subjetividade pode ser pensada como resultante do processo de carga e “des-carga” emocionada. pelo qual o sujeito se permitiria construir e “des-construir” fantasias. mas o gozo de uma vida. em toda a sua diferença. Chico Science”. assim. uma vez rompida. É dessa forma. Essa unidade. talvez seja possível pensar que existe. É preciso pensar o trauma antilhano como bloqueio. em fluxo constante. A partir dessa concepção mais contemporânea acerca do sujeito e da identidade. Em “Entre mangue e manguetown. ao próprio futuro. assim. penso. mas também como possibilidade de encontro com o desejo do outro. ao ser atravessada. que o sujeito se atesta. fazendo com que ele assuma não só as responsabilidades. no firme propósito de ser como tal. um fantasma que reinventa o drama e se apropria do sentido. “a ‘identidade’ está e não está onde se procura por ela”13. que não é nem eu nem outro. provocando proximidade e distância. Paula Glenadel propõe pensar a identidade como identificação. A separação implica a dupla falta e marca a possibilidade do sujeito vir a ser.. mas alguma coisa ou alguém entre os dois. alavanca o processo de subjetivação do drama. a partir do reconhecimento da espectralidade que assombra a fala do sujeito12. na conformidade de uma contradição que. único caminho para a fantasia que. A identidade seria. imprevisível.

não se funda 152 Revista Brasileira do Caribe. pela “reabilitação de delírios muito antigos”16. de um por-vir”17. a palavra. os “mecanismos espectrais de permanência” e faz reavivar os de “transformação. a possibilidade de reformulação de um futuro. 1994. vol. p. o devir se anuncia no espaço de um não-tempo. Goiânia. Contraria. espaço que só se habita provisoriamente. para que uma “nova bondade não deixe de crescer no horizonte”14. deixa lacunas. mas que. confirmando a dependência em relação ao significante do outro. n° 15 . de uma promessa. lançando-se para um devir que prevê não mais a fixidez do pensamento. mas as mudanças de pele: quand les flèches de la mort atteignirent Miguel Angel on ne le vit point couché mais bien plutôt déplier sa grande taille au fond du lac qui s’ illumina Miguel Angel immergea sa peau d’ homme et revêtit sa peau de dauphin Miguel Angel dévêtit sa peau de dauphin et se changea en arc-en-ciel Miguel Angel rejetant sa peau d’ eau bleue revêtit sa peau de volcan Et s’ installa montagne toujours verte a l’ horizon de tous les hommes (CESAIRE. 457). por ser traço descontínuo sempre em movimento. estabelecendo. produto arbitrário de uma consciência. no “furor de dar vida a um desmoronamento de paisagens”15. como poetiza o fundador da Negritude. então. VIII. provoca aporias. há tempo reprimida.Kátia Frazão Costa Rodrigues fato. como nomeia Glenadel. e abre-se ao desconhecido. um alguém que se expressa fantasmagoricamente nas duas poéticas. Essa palavra. se libera “para reavivar o verso solar dos sonhos”18. Sob essa perspectiva. assim.É quando. como presença em ausência que traz sempre à tona o passado como sintoma.

São elas. a partir de um referencial interno e subversivo. assim.A construção da identidade no Caribe. como algo que lhe é pertinente e o identifica como tal. para um futuro que guardará a sua qualidade na memória. mas o resultado da íntima relação entre o ser e a realidade. apesar de tudo. O subjetivo volta-se do passado para o presente e. a espuma e a casa de lavas por vezes”. mas fruto de uma escolha carregada de sentido que propõe. assim. que faz o pássaro. ) (CESAIRE.. 2007 . são as produzidas pela mão que faz igualmente “a riqueza 153 jul. hoje.. O dito coloca em cena. mostrando que a escrita do desastre se constrói a partir das abstrações de uma consciência em enunciação: il y a aussi les capteurs solaires du désir de nuit je les braque: ce sont des mots que j’entasse dans mes réserves et dont l’ énergie est à dispenser aux temps froids des peuples (ni drèches ni bagasses. A poesia seria. as escritas pela “mão que floresce a dor. p. a continuação da vida. mas na reivindicação de uma verdade nova que marca a passagem da ficção à efetiva presença de um eu. então. Glissant também apela para as palavras que “fazem o céu e o horizonte”. 1994. segundo o poeta. em contínuo devir. ultrapassar também o presente. 397) A autoridade fincada no presente pela expressão de uma vontade deliberada delimita o passado porque não se reconhece mais como histórica. A existência agora se expõe não mais submetida ao tempo.. expressa por uma sensibilidade que se coloca à margem de toda lei.. na expressão do sujeito por ele mesmo. mais na intenção de transmitir uma verdade exterior. O imaginário desempenha o papel de imagem do eu. Continuar a vida significaria viver o efeito de cada instante e./dez. mas à produção do seu efeito. por extensão. um reflexo instantâneo da verdade do eu. um je que não representa mais o coletivo. por intermédio de um código interno e variado que coloca em questão a própria linguagem.

Kátia Frazão Costa Rodrigues dos fossos e a colheita do passado” (GLISSANT.. VIII. n° 15 . entre permanência e transformação. p. estão as duas poéticas. Assim.. Goiânia.26). Os verbos no presente do indicativo reforçam a idéia de que tudo é modelado a partir de uma presencialidade e que todo esse passado “móvel” depende da atualidade de um ponto da vista. buscando uma completa harmonia com o Cosmos. 1965. “Toute parole est une terre/ Il est de fouiller son sous-sol/ Où un espace meuble est gardé/ Brûlant. Como poetiza Glissant. Ecoutant ruisseler mes tambours Attendant l’ éclat brusque des lames 154 Revista Brasileira do Caribe. onde o céu dança porque “da dor se fez uma palavra / uma nova palavra que multiplica”19. pour ce que l’ arbre dit ” (GLISSANT. Diz o poetarizoma: Celui qui parmi les neiges enfante Un paysage une ville des soifs Celui qui range ses tambours ses étoffes Dans la sablure des paroles Attendant l’ ouverture des Eaux Le grand éclat des vagues Midi Plus ardent que la morsure des givres Plus retenu que votre impatience d’ épine Celui qui prolonge l’ attente Et toutes les mains dans sa tête Toutes splendeurs dans sa nuit Pour que la terre s’ émerveille Il accepte le bruit des mots Plus égal que l’ effroi des sources Plus uni que la chair des plaines Dechirée ensemencée . delineando uma subjetividade que irrompe para renovar a existência e florir a dura realidade. 1965. p.24-25). vol.

“nada liberta mais do que a obscuridade de um dizer”21. 2007 . O real. tornar frágil a aparência e captar o segredo das raízes. 21). de onde a resistência ressuscita em torno de alguns fantasmas. é aquela capaz de preservar a oralidade. pois como o poeta mesmo diz. Para tanto. é o produto de uma consciência particular que se autoriza a falar em nome de uma causa. como diz Glissant (GLISSANT. é preciso “contornar os lugares escolhidos da gravidade histórica”20 e invadir a opacidade. p. (GLISSANT. A subjetividade literária. reivindicadora. agora se faz representar por imagens. Je me fais mer où l’enfant va rêver. aos impasses que concernem à existência. pela presença em ausência de um conflito identificatório que se renova e ruma em direção ao espaço onde “Toda palavra se confunde / Com o silêncio das águas”. mas a marca de um ponto de vista frente. É a expressão das contingências que. por exemplo. Em outras palavras. 1965. L’ éveil sur l’ eau des danseurs Et des chiens qui entre les jambes regardent Dans ce bruit de fraternité La pierre et son lichen ma parole Juste mais vive demain pour vous Telle fureur dans la douceur marine. 1965. Dessa forma. p. se presentificam por uma voz que ultrapassa o 155 jul. 28-30) A palavra. num discurso truncado que funciona como ponte também para o acesso ao totalmente outro. também para Césaire./dez.. não é a simples expressão do real pelo simbólico. libertária e própria das duas poéticas. muito menos a efusão espontânea e verdadeira da personalidade.A construção da identidade no Caribe. criando espaços.. particularizadas. que resistiu a toda simbolização. das opiniões e dos sentimentos do autor. sem qualquer preocupação com a erudição ou com a legitimidade do proferível. a escrita traz à tona materiais inconscientes que emergem da subjetividade inquieta. Aparece no discurso como a qualidade de algo que se desenha dentro dos contornos de um eu também nada preocupado com o tempo ou com a necessidade de fugir dele. como aponta Michel Zink22.

de sua cultura e de sua memória. está sempre em movimento. de Césaire. apostando.. vol. Habitar vários lugares sem deles se apropriar também é se permitir outras impressões.. É. em aporia. na incerteza de um devir. como numa espécie de amnésia. talvez. 1994. só se encontre no silêncio e na comunicação interrompida. ao se repetir em heterogeneidade pela via do sonho. A palavra se multiplica no poema. Goiânia.385). se diz habitando vários endereços ou o lugar mesmo da indefinição. apenas se 156 Revista Brasileira do Caribe. parece revelar a existência dessa subjetividade que. enfim. assim como não se associa jamais à língua. por assim dizer. mostrando que a palavra ferida. na busca incessante de um espaço próprio que. investindo no novo. aparentemente sem consistência.chaque minute je change d’ appartement“ (CESAIRE. sugerir uma promessa de vida na diversidade. estruturalmente aberta que pode a todo instante converter-se em ameaça de fechamento numa identidade ou em ameaça de perda de uma identidade”. sob a forma. ainda que assim seja. dos homens. liberto das cronologias e de toda sinopse. n° 15 . O poema “Calendrier lagunaire”23. que cita Derrida25: “uma identidade não é jamais dada. recebida ou atingida. à cultura e à memória do colonizador. não. a identidade “constitui uma promessa fundamentalmente incerta. Derrida24 afirma que. de um discurso truncado. de expressão inevitavelmente estrangeira. A palavra rejeita toda mediação de uma lógica que desautorizaria o habitar em vários lugares e a expressão de um tempo que remete tão somente à interioridade. despojando-se da fixidez de um pensamento e voltando-se para o desconhecido. pois como diz Glenadel. ao dizer: “j’ habite une blessure sacrée/ j’ habite des ancêtres imaginaires/ j’ habite un vouloir obscur/ j’ habite un long silence. para o outro.Cito ainda Glenadel. mas que anima tanto quanto uma paixão.Kátia Frazão Costa Rodrigues real e a materialidade da escrita./ .. p. Talvez seja exatamente isso que exprime Césaire. VIII. na diáspora. muitas vezes inesperada. promovendo a comunhão momentânea do poeta e do leitor. porque vai de encontro às aporias do outro. o eu se dissocia de sua língua.

E.142).A construção da identidade no Caribe. na medida em que se tem a consciência de que marcas não se apagam totalmente. p. Como deixa entrever Michel Zink. qui le déterminent et qui le façonnent” (ZINK. que força hesitante a passagem do mundo interior para o exterior. une caresse dévolue Le soleil ici revenu Beauté de l’ espace ou otage De l’ avenir tentaculaire Toute parole s’ y confond Avec le silence des Eaux Beauté des temps pour um mirage Le temps qui demeure est d’ attente Le temps qui vole est un cyclone Ou c’ est la route éparpillée (GLISSANT. p. também constroem a singularidade de todo dito ou do que se encontra em seu lugar. somados. elementos que. A poesia personifica forças fazendo emergir o presente de uma subjetividade que vive unicamente cada instante. pelo sonho. A poesia passa. au lieu de construire une image idéale d’un moi. 1985. o sentido do real e. passa pelo processo interminável. 2007 .. Despojar-se é tarefa inquietante. indefinidamente fantasmático da identificação” (GLENADEL. se desenvolve na voz do poeta. Na interseção dessa perspectiva: Savoir ce qui dans vos yeux berce Une baie de ciel un oiseau La mer. retórica que opera os movimentos de uma vida interior.48). por sua vez. então../dez. 1965. p. a ser metáfora contínua. ao caminhar. ao mesmo tempo. Diz Zink: “On a vu que la poésie du dit. 2003. 21). montre celui-ci aux prises avec les contingences du réel. a representação do inconsciente. carrega consigo a 157 jul. a poesia liberta. efeito da constante relação do sujeito com o mundo. recupera-se cada herança ou “apartamento”. na sua obra já citada. o convida para a cena. Assim. pela palavra que.

por isso. VIII. na confecção do seu produto arbitrário: a poesia. para além do discurso que separa significante de significado. como realça Glissant26. a força que resiste a todo fechamento e impulsiona a existência para frente ao mesmo tempo em que a autoriza a olhar para trás. mas como agente modelador de uma exterioridade. provavelmente.Kátia Frazão Costa Rodrigues força dessa subjetividade. sem dúvida. uma trajetória descompassada e diferente de toda linearidade. Atravessar 158 Revista Brasileira do Caribe. tornando o ser inevitavelmente refém e senhor de todo “futuro tentacular”. inscrita no entretempo “da espera e do ciclone”. também é possível pensar a subjetividade antilhana como potência de uma existência marcada pelo conflito identificatório. n° 15 . a força maior. em Césaire. recarregada pela energia dos versos solares que não retornam ao lugar do drama. que o essencial é: nu l’ essentiel est de se sentir nu de penser nu la poussière d’ alizé la vertu de l’ écume et la force de la terre la relance ici se fait par l’ influx plus encore que par l’ afflux la relance ici se fait algue laminaire (CESAIRE. A palavra também irrompe no discurso sob a forma de fantasia. perfazendo. ética e moral. que tenta recuperar as suas sensibilidades estética. Neste sentido. 415). a mesma que nos ensina. Goiânia. ponto de vista do eu sobre o eu. Seria. É. É. assim. A construção dessa subjetividade implica uma travessia. 1994. mas caminham atraindo e colhendo o seu efeito. vol. É. a força que faz embalar nos olhos uma “baía de céu. quem sabe. p. que irrompe surpreendendo e desarmando discursos prontos sobre o bem e o mal. o pássaro e o mar”. produzindo abertura e fazendo com que o sujeito não opere mais como testemunha.

etnias ou nações. Ademais. nem a sua suposição podem ser concebidos num único sentido./dez. na sua busca insistente por definições estáticas do Homem. ao se expor. deslizando pelos significados construídos.64). Glenadel27 também ressalta que essa promessa alimenta-se daquilo que fica como seu pano de fundo. 2000. a tradição ocidental acabou produzindo a cisão do sujeito. Nesse caso. de passado e de presente. disposição nem sempre confortável. 2007 . e pressupõe negociações. p. pois requer a manutenção. não um conceito formal que classifica indivíduos. principalmente quando se trata de um povo nascido da diáspora. o discurso é se manifestar pela resistência. confrontando o real e o simbólico que. manifestando a abertura ética para o outro. uma realidade se expressa. Nancy deixa entrever que nem o ser. mas quando nos leva a descobrir os traços que estruturaram a alienação e a individuação. se a identificação. misto de individual e de coletivo. pois cada vez que algo ou alguém é suposto. a tradução–transporte de significados relativos à subjetividade que se expressa no universo da escrita–pressupõe a necessidade de uma desconstrução do pensamento eurocêntrico. como justiça por vir. a passividade e a resistência. que implica a afirmação de uma subjetividade e prevê a busca do ser em si segundo Lacan. de toda possibilidade também nova de ser. marcado desde sempre pelo outro. No seu texto Un sujet?28. deslocamentos. Segundo o filósofo Jean-Luc Nancy. subgrupos. de agitação e de paciência. o mesmo já seria necessariamente outro. A busca por uma subjetividade – qualidade ou caráter do subjetivo – só é valiosa quando se espera como resposta. Na perspectiva derridiana de pensamento. como mémoire reconquise (memória reconquistada) de um instante (GLENADEL. então 159 jul. Supor e aceitar a existência dessa subjetividade. momento arriscado de busca em que o ser assume papéis imaginados.A construção da identidade no Caribe. unidos por um duplo gesto. é também uma tarefa angustiante. ser irredutível. de toda promessa que se apresenta... múltiplo e historicamente mutante. tal como pensou Lacan ao descrever a entrada na fase do espelho. compõem o esboço primeiro do subjetivo. em hospitalidade.

1965. 1994. pour le moins. Le temps aussi de régler leur compte à quelques fantasmes et à quelques fantômes (CÉSAIRE. Assim. tronc noir et nu.. VIII. 1994. alguém de Platão29. Il faut choisir. p. no exercício de reconhecimento e aceitação das próprias diferenças. Césaire anuncia: “frère n’ insistez pas/ vrac de varech/ m’ accrochant en cuscute/ ou me déployant en porana/ c’ est tout un . au carrefour. 386). polifônica. entre montagne et mangrove. l’ air est hostile . p. de la ferveur et de la lucidité. numa espécie de experiência de si como outro e do outro como si. na tentativa de desmistificação do exotismo. p. Ainsi va ce livre. ou... et l’orient et l’ occident. Ainsi va toute vie. na ressonância de uma mesma voz. Et puis. E é Glissant quem diz que Maintenant les sables sont d’ autre clarté. Goiânia. c’est un fil des saisons survolées. 35)..383) Essa nova perspectiva de ser também abre a possibilidade do Tis. “ (CESAIRE. se relacionar consigo mesmo. esboço também primeiro de uma subjetividade. cette entreprise de bâtir le paysage ? – parfois le coeur est écrasé. Au plus extrême. la saviez-vous. claudicant et binaire. fût-ce celle du désespoir et de la retombée. l’ inégale lutte de la vie et de la mort. soit dans la terre. connue des martins-pêcheurs aux songes funèbres. quando diz: Le non-temps impose au temps la tyrannie de sa spacialité : dans toute vie il y a un nord et un sud . entre soleil et ombre. ao atentar para a similaridade percebida na descrição do drama. vol. por conseguinte. E. n° 15 .Kátia Frazão Costa Rodrigues essa procura só pode ser em favor de uma referência implícita heterogênea e. na escrita 160 Revista Brasileira do Caribe. entre chien et loup. il faut venir! soit par la mer. Césaire também parece revelar o segredo de toda a existência. parfois la main s’apaise – et la lumière monte des choses comme une parole d’ architecte (GLISSANT. dialogando com a sua própria negatividade. la force aussi toujours de regarder demain.

.A construção da identidade no Caribe. no movimento de resistência voltado para um devir. como constante novidade do Cosmos. além disso. seja reconhecida pela sua abertura em direção ao outro. no qual a palavra ferida se libera e traz à tona o inconsciente. Qualquer tentativa estática da sua definição descaracterizaria. porém nem mesmo assim garantiria a sua essência. o antilhano. ao comprometer exterioridade e interioridade. ao mesmo tempo. Nesta perspectiva. tornando frágil a aparência. a marca de um apelo que. 2007 . concluo acreditando que a escritura antilhana é. mas a qualidade do seu último traço. o sujeito só acontece quando e enquanto se expõe. ao buscar o seu espaço próprio. Voltando sempre como atualidade.. faz irromper uma subjetividade como fantasma. mas também o que emerge deles no espaço de um instante. o sujeito pode ser aquilo que um significante representa para outro significante. portanto. em toda a sua 161 jul./dez. A correspondência que se vislumbrou entre os fragmentos poéticos de Césaire e de Glissant vem marcar esses últimos tantos traços que apontam para um ser que caminha rumo à presença em si como mesmo e. Sendo as várias vozes de uma suposição. a afirmação do eu antilhano inclui também a sua negatividade. o que ela tem de mais próprio: o seu caráter de “re-nova-(a)ção”. Segundo Nancy. que não se apaga por completo e reincide para atestar a exterioridade que a constituiu. da mesma forma que deve ser entendida a qualidade do que lhe é próprio. marcada pela auto-fragmentação e vitimização do negro antilhano e. As poéticas de Césaire e de Glissant traçam trajetórias que se entrelaçam em alguns pontos para mostrar que existe uma unidade na diversidade antilhana. marcada pela presença do eu e do outro sempre em processo. O sujeito só é como possibilidade. renovando a existência pela libertação contida no ato de contornar a gravidade histórica e invadir a opacidade. Tanto Césaire quanto Glissant são sujeitos dessa nova ordem simbólica. seja entrevista pelo seu fechamento. sem dúvida. entender a Crioulidade ou a Antilhanidade como um contraponto da Negritude e essa como essencialista e eurocêntrica é seccionar o movimento da história e não reconhecer o outro.

8 GLISSANT..11. 1965.383). p.com/article7507. 1994. O sujeito lacaniano. 1ª obra de Césaire . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. por um fogo e por um desmame”. em 03 de agosto de 2004. É. porque a história tem mostrado que é na complexidade que o humano se afirma e pode ser afirmado. 10 FINK. 5 Cahier d’ un retour au pays natal . Paris: Seuil. Ernest Pépin em entrevista concedida a David Cadasse. vol. porque “toda carne se ramifica. 4 GLISSANT. 21. 7 ibid.” (GLISSANT.html. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. Paris: Seuil. Nova Fronteira.Kátia Frazão Costa Rodrigues diferença. Notas 1 Le Petit Larousse. 1994. constante no site: http://www. Paris: Seuil. Bruce.afrik. E.. É preciso repetir que “durante muito tempo a voz do homem se perdeu nos templos por obscuro que era o caminho até o templo! e esse mar. onde o autor utiliza pela 1ª vez o termo négritude. entre montanha e pântano. ed. tender o olhar numa só direção e permanecer. p. É de lá que se ouve a voz de alguém dizendo eu. entre a linguagem e o gozo. 6 La Poésie. 9 LACAN. le portail de l’Afrique. p. 1965. In: Afrik. Poèmes. na aurora e na noite. 1975. Goiânia. edição escolhida aqui para essa e as demais referências sobre o autor. como diz Césaire. 1994. 3 Termo que designa a resistência dos mulatos fujões. 85). É preciso fugir das armadilhas da síntese. p. VIII. 1965. toda vida: “entre sol e sombra. publicada em 1939 pela Revue Volontés. segundo o poeta-rizoma (GLISSANT. J. 19-20). de presença e de ausência.com. ainda sobredeterminado por uma lógica narcísica que nega parte do amplo processo que vem constituindo essa grande Crioulização.171. sobretudo. 1965. 162 Revista Brasileira do Caribe. talvez. 1998.. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse. A obra consta da coletânea intitulada La Poésie. n° 15 . claudicante e binária” (CESAIRE. entre cachorro e lobo. edição 2001 e no Novo Dicionário Aurélio. 2 Il ne faut pas opposer négritude et créolité. É na diversidade que caminha.1991. p. p. Séminaire. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima.

Paris: Galilée. FINK. J. Tradução. Eloge de la créolité. 89 GLISSANT. 1985. 11 Título da sua obra Moi. A.. CÉSAIRE. 45 ibid .L. 25 Ibid. 22 ZINK. 391. G. O sujeito lacaniano. GUATTARI. 43 (1). p. In: Revista Gragoatá. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 23 ibidem 24 DERRIDA. Paris: puf écriture. v. Le Monolinguisme de l’ autre. 28. Niterói: Eduff. p. 1994.A construção da identidade no Caribe. laminar. 28 NANCY.8. 1965. desconstrução. CONFIANT. 472.In: La Poésie. 2000. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia”. M. P. p. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. p. La subjectivité littéraire. 1996c. 1994. 1994. J. 2 34 CESAIRE. Paris: Seuil.53. p. traduzível por Eu. Chico science”. 2007 . 29 Ibid.. p. 1994. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales. p. R. Paris: Seuil. p. 8. 1965. laminaire. A.. 53. In: Revista de Letras. Pour une littérature mineure. 23 ibid. 27 GLENADEL. 1975. La Poésie. 163 jul. Niterói: Eduff. E. São Paulo: Universidade Estadual Paulista. p. DELEUZE. J.. 20 CESAIRE. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia../dez. “Tradução. BERNABÉ. Bibliografia. 2 78 Cf 14.. Un sujet ? In: Homme et sujet.. Paris: Gallimard. Poèmes. F.396. 48. P. 56 Cf. DERRIDA. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara.. 2003. In Revista Gragoatá n8. “Entre mangue e manguetown.21.. Kafka.1996.. A. entre a linguagem e o gozo. p. P. p. P. 29 Ibid.53. 1998. 1994. 397. La poésie. n. p. 12 GLENADEL. Le monolingüisme de l’ autre. 1989. M. GLENADEL. CHAMOISEAU. p. Paris: Minuit. 521. desconstrução. La Poésie. 2000. J.15 67 ibid.. Paris: Galilée. p. 26 GLISSANT.

Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales. Paris: Seuil. 1985. In: Écrits. São Paulo: Universidade Estadual Paulista. Séminaire. Poemes. Paris: Seuil. J. Chico Science”. E. Paris: Puf écriture. GLISSANT.“Entre mangue e manguetown. 1994. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse. Paris: Seuil. J. ________.com/article7507.1991. “Un sujet ?” In: Homme et sujet. La subjectivité littéraire. In: Revista de Letras. NANCY. M.-L.___________.afrik. ZINK. 43 (1) 47-56. “Subversion du sujet et dialectique du désir dans l’ inconscient freudien”. Site: http://www. 2003. LACAN. 1966.html 164 . 1965.

2007 165 . Keywords: Indians Immigrants. Indians Inmigrants Resumo Durante o século XIX. adequado a natureza plural de sua paisagem humana. tanto para os fazendeiros como para as populações afro-descendentes recém emancipadas. foi instituído um rigoroso conjunto de regras e normas destinado a controlar a qualidade. vol. de difícil *Artigo recebido em fevereiro de 2007 e aprovado para a publicação em março de 2007 Revista Brasileira do Caribe. as circunstâncias históricas ali vividas possibilitaram a gestação de um sistema de convívio. diferente daquele previsto no conjunto de leis. destinado a controlar o dia-a-dia dos trabalhadores nas fazendas. Tratava-se de um sistema aberto de relações. n° 15. The main question that emerges from this process is exactly the phenom of cultural recreation and establishment of the Indians social institutions in face of so powerful policy of the westernization imposed upon all work population of that island by the British colonial government. we’ll try to observe the historical conditions by which some vital social institutions of the Indian community amalgamated in that colonial social environment. Trinidad século XIX Alexandre Martins de Araujo “O que você faria se não pudesse fazer nada? Até onde você iria se não pudesse sair? Quem você seria se não fosse ninguém?” 1 Abstract This essay looks at the historical process of settlement of the immigrants Indians community in Trinidad during the nineteen century.Plantation legal. porém. a substituição de trabalhadores negros livres por indianos causou grande atordoamento. VIII. Assim. Thus. o convívio e o volume de trabalho dentro das fazendas. 165-195. Trinidad. nas Plantations de Trinidad. Contudo. Goiânia.

de suas condições de trabalho. imigrantes indianos. No nosso caso. Trinidad. Haraksingh (1981). son los aspectos de más relieve en esta investigación. as ênfases vão à direção da experiência indiana no interior das Plantations. largamente. 166 Revista Brasileira do Caribe. nesse caso. Palavras-Chave: Plantations. Trinidad. em particular. onde se utilizou. Goiânia. duas diferentes correntes discutem a presença indiana nas Plantations. n° 15 . sobretudo. VIII. a pesar de la poderosa política de colonización impuesta por el gobierno británico. era necessário possuir as chaves simbólicas. Inmigrantes indianos Muitos foram e são aqueles que se dedicam à tarefa de aproximar. nenhuma dessas duas tendências se encontra consistente ou rigidamente definida. Los fenómenos de la recreación cultural y la permanencia de las instituciones del país de procedencia. vol. A outra se identifica na etno-história. Para o historiador indo-descendente de Trinidad. e essas. a mão-de-obra indiana. concentrando suas observações na perspectiva dos grupos sociais e das práticas culturais cujos esforços tentam identificar fenômenos de mudanças e adaptações. Em termos historiográficos. somente eram apropriadas nos espaços intersticiais das relações. das experiências humanas vividas no interior das Plantations. pois para entrar e sair dessa outra Plantation – a que tomei a liberdade de chamar de Plantation Plural em oposição a uma Plantation Legal. Palabras Claves: Plantación. o mais perto possível. Resumen Este ensayo analiza el proceso histórico del establecimiento de los inmigrantes de la India en Trinidad durante el siglo XIX. durante o século XIX. nos dedicamos ao sistema Plantations de Trinidad pós-escravidão. Essa primeira tendência se baseia em fontes oficiais do governo da colônia e registros particulares locais. Uma conduz as investigações tomando os indianos essencialmente como trabalhadores nas fazendas.Alexandre Martins visualização.

Fonte: KINGSLEY. 1872. por igual. afetados pelo sistema Plantation de Trinidad. esforçar-nos-emos para trazer a lume a maior porção possível da realidade histórica vivida por aqueles que um dia se sentiram. Charles. os fatores evidenciados tanto numa quanto noutra das tendências acima mencionadas.Plantation Legal: Trinidad século XIX Neste estudo tentaremos. porém procurando valorizar. Em linhas gerais. assim como outros historiadores fizeram antes. nos aproximar da experiência indiana nas Plantations do século dezenove./dez. 167 jul. 2007 . London. ai g u r F “Waiting for the Races”. direta e indiretamente. At least a christmas in the West Indies.

ao desconstruirmos tais políticas de controle. balanços anuais. No entanto. reunimos um conjunto variado de fontes: relatórios oficiais. impregnadas com as crenças de quem as 168 Revista Brasileira do Caribe. portanto. tê-los. todos os sistemas coloniais de controle de trabalhadores. tanto das estratégias metodológicas utilizadas por Ranajit Guha2 em seus estudos sobre a Índia colonial. inibidores das vozes subalternas. n° 15 . enfrentaremos o dilema da supressão dessas vozes lançando mão. Começaremos. a nossa visita ao interior das Plantations de Trinidad pela seguinte pergunta: O que exatamente significava. tratam-se de documentos cujos teores e formas foram moldados por mãos de pessoas ligadas às elites locais. então. Goiânia. Acreditamos que. vol. as políticas de controle dos trabalhadores. ganharemos acesso aos significados e sentidos atribuídos aos imigrantes indianos por aquelas pessoas interessadas em vê-los. entre outras coisas. ou melhor.Alexandre Martins Sabemos. relatos de viajantes europeus e diários de missionários religiosos. da enorme dificuldade encontrada pela maior parte dos historiadores em apreender as “vozes subalternas”. comissões reais. estão sempre acompanhadas de práticas discursivas. ou seja. como também da estratégia “desconstrutivista” valorizada por Bhabha3. inquéritos. dentro das Plantations. em suas análises sobre o discurso colonial britânico na Índia no século XIX. a população indiana e sua presença naquele espaço e tempo? Tal questionamento nos lança diretamente para o ambiente histórico ao qual desejamos entrar. local onde são produzidas. VIII. Dito de outro modo. esteja sob a forma de contratos particulares ou de leis juramentadas. o centro de inteligência das Plantations. Em face disso. sensos. jornais de época. leis de imigração. para a elite local. portanto. instituídas pela administração colonial em conluio com os proprietários de terras. todavia. principalmente no interior de sistemas autoritários e fechados como era o caso das Plantations nas colônias inglesas. Para empreendermos essa tarefa.

Plantation Legal: Trinidad século XIX

produziu. Todo discurso, para Bhabha, é uma prática significatória, ou seja, “processo que postula a significação como uma produção sistêmica situada dentro de determinados sistemas e instituições de representação – ideológicos, históricos, estéticos, políticos” (JUNIOR, 2004, p.113-133). Mas antes de adentrarmos o espaço ao qual denominamos de o centro de inteligência das Plantations, faz-se necessário uma breve mirada para o contexto histórico, em torno do qual aportou em Trinidad, o famoso “Fatel Rozack”, o primeiro navio a transportar imigrantes indianos para Trinidad: “Em março de 1845 Thomas Caird anunciou em um despacho ao ministério do interior, ‘eu tenho a honra em informar... que enviei o Futtle Rozack para Trinidad” 4 (Tradução nossa). Inicialmente, podemos dizer que a Inglaterra chegou a Trinidad relativamente tarde, em relação à exploração do açúcar nas Antilhas, pois foi já no apagar das luzes do século dezoito (1797), que ela tomou de assalto aquela ilha das mãos da coroa espanhola e, nesse caso, é bom lembrar que a exploração do açúcar vivia aquela época o seu momento de maior esplendor entre as demais colônias americanas. Para o historiador sul africano Sookdeo (2000, p. 253), o propósito da ocupação de Trinidad foi de natureza menos econômica e mais militar. Seja como for, assim que a administração colonial britânica se instalou em Trinidad, não teve dúvidas quanto à necessidade de tomar parte nos negócios do açúcar. Já em 1799, o primeiro governador inglês de Trinidad, General Picton, escreveu à coroa britânica informando-a de seu posicionamento quanto às condições favoráveis de transformar Trinidad em uma colônia de produção de açúcar:
Trinidad será considerada como uma colônia açucareira, as terras sendo, em quase toda parte, mais favoráveis à produção de cana do que café ou algodão. A quantidade de terras a serem concedidas dependerá certamente dos meios de cultivo, mas tudo considerado à pequena classe de plantadores de

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cana não pode compreender menos do que 200 acres de boa terra, das quais 100 acres para cana, 50 para pasto e 50 para terrenos de negros, estabelecimento e eventualidades. Uma plantação dessa categoria, conduzida a um máximo de economia requererá um capital de aproximadamente £ 8,000 libras esterlinas 5 (tradução nossa).

A cana então substituiu o algodão devido a uma praga, porém, ele e outros gêneros continuaram sendo produzidos na ilha. Nessa época, Trinidad ainda estava longe de se tornar um modelo de monocultura e o negócio do açúcar se mantinha sob o domínio de mercadores e de intermediários ingleses donos de navios. Estes controlavam o fluxo de mercadorias e escravos na ilha negociando com o continente devido às vantagens oferecidas pela política fiscal de importação. Todo esse alvoroço atraiu para Trinidad um grande número de estrangeiros à procura de enriquecimento rápido. Conforme os registros da época, no ano de 1826, exatamente oito anos antes da emancipação dos escravos, Trinidad conheceu a sua maior safra de cana. Por esse motivo, quando os indianos chegaram à ilha, no ano de 1845, os ingleses ansiavam por uma produção ainda maior do que aquela obtida sob o regime de escravidão. Uma vez que a superação daquela safra significaria, entre outras coisas, a certeza do sucesso da utilização da mão-deobra indiana e, por conseguinte, o arrefecimento das oposições a tal sistema. Entretanto, assim que os indianos chegaram, foram vistos pelos proprietários de terras, tanto como um benefício, quanto como um dilema. Quer dizer, se por um lado eles representavam a esperança de superação da aludida escassez de braços adaptados às condições oferecidas nas Plantations, por outro, eram vistos como uma nova e incômoda realidade a qual esses proprietários teriam que se adaptar, pois se tratava de uma mão-de-obra remunerada e de permanência limitada, apenas cinco anos, conforme contratos firmados antes do embarque. Assim, a imagem que se forma, a partir desse quadro, é a de

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uma classe de plantadores completamente insegura quanto ao rumo de suas empresas, já que todas aquelas novas situações eram, de certa maneira, diametralmente opostas ao modelo escravista até então praticado. Em outros termos, o que lhes asseguraria o pleno sucesso da utilização da mão-de-obra indiana em face de, por um lado, os riscos sobre o capital investido no processo de contratação (transporte, alimentação, hospitais, roupas e pagamento de salários) e, por outro, a concorrência externa, sobretudo, devido os novos rumos que tomara o comercio internacional do açúcar por aquela época? Em razão disso, é natural aceitarmos a idéia de que todas as atenções dos plantadores estivessem voltadas para a relação custobenefício, atinente ao processo de contratação da mão-de-obra indiana. Portanto, não seria exagero de nossa parte pensar que os indianos contratados (Indentured Indians) 6, de início, não significassem para os plantadores nada além de músculos e ossos a serem aplicados nas lavouras de cana-de-açúcar. Nesse sentido, não nos restam dúvidas quanto ao fato das circunstâncias históricas terem apontado para os plantadores a necessidade de impor, aos imigrantes indianos, um regime autoritário de trabalho. E para garantir o controle dos trabalhadores indianos dentro das Plantations, foi elaborado um extenso conjunto de leis, difundido por meio de documentos ultramarinos denominados pela administração colonial britânica de Regulamentos de Imigração para Trinidad e Guiana Inglesa (Immigration Ordinances of Trinidad and British Guiana). Neles, os imigrantes indianos eram denominados simplesmente de Indianos Contratados (Indentured Immigrants). Dirigir-nos-emos, então, a partir daqui, para o ambiente ao qual denominamos de centro de inteligência das Plantations, olhando, primeiramente, na direção do conjunto de leis, constituídas para assegurar o cumprimento dos contratos e, por conseguinte, controlar a vida diária dos indianos no interior das Plantations. Em meio a tal conjunto de leis, somente algumas buscavam

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assegurar a efetivação de alguns direitos adquiridos pelos trabalhadores indianos, quando da assinatura dos contratos. Tratavase de normas que versavam sobre a condução das jornadas diárias de trabalho em termos, por exemplo, da quantidade de horas a serem cumpridas, do salário condizente às tarefas realizadas, do direito a assistência médica e do direito de denúncia por abusos sofridos no interior das Plantations. Neste caso, as denúncias deveriam ser feitas a oficiais designados pelo governo à proteção dos indianos contratados, os chamados Protetores de Imigrantes (Protector of Immigrants). Numa visão de conjunto, quase a totalidade das leis visavam assegurar uma política de contenção de imigrantes dentro das fazendas. Obviamente que, se o controle total sobre os trabalhadores indianos era o que mais importava a todos aqueles que dependiam, direta e indiretamente do sucesso da utilização da mão-de-obra indiana, é de se supor que as leis de regulamentação do Indenture System, tendessem para a satisfação das necessidades desses beneficiados. No entanto, do ponto de vista jurídico, o formato das leis não parece, à primeira vista, tendencioso, ou seja, na mesma medida que há punição destinada ao contratado, há, também, para o contratante, caso venham descumprir qualquer uma das cláusulas nele previstas. Todavia, nenhum sistema legal é auto-explicativo, por isso torna-se mister analisá-lo à luz de outras fontes do mesmo período. Começaremos, então, a sua análise por aquilo que nos pareceu mais recorrente em toda a sua extensão, ou seja, o aparentemente inocente termo, “Indentured Immigrants”, usado em todas as suas cláusulas para se referir ao trabalhador imigrante indiano. Se olharmos mais profundamente para a sua utilização, no âmbito das leis de regulamentação do Indenture System, ou, Sistema de Contratação, veremos que a naturalização do termo indenture, não somente nos documentos oficiais, como também nos discursos da elite, carregava uma intenção velada de eclipsar qualquer traço que pudesse ligar os indianos a alguma imagem de autonomia social. Pois quando se pronuncia o termo imigrante contratado, nota-se
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que na palavra que dá qualidade ao sujeito (contratado), não há nada que permite ligar o sujeito (indiano) à sua trajetória de vida ou mesmo ao lugar de onde veio, mas antes, a um acordo (um contrato). Isso faz com que o usuário da língua desvie o pensamento do substantivo (indiano) para as possibilidades de apreensão do significado da palavra contratado. E as imagens primeiras que afloram do signo Contrato são aquelas ligadas a alguma forma de prestação de contas; assim, a imagem do sujeito (o indiano), se funde aos referentes do signo Contratado, possibilitando ao usuário da língua um raciocínio lógico do tipo: se um contrato pressupõe algum benefício para o contratado, este deve prestar conta daquilo que contratou, logo, ele deve ressarcir o contratante (no caso o plantador), as despesas consoantes aos benefícios consumidos; no caso dos indianos contratados, a viagem, a alimentação, os cuidados médicos, as roupas etc., sob a forma de trabalho. Desse modo, podemos afirmar que o apelo mais forte atribuído ao uso do termo Imigrante Contratado era minar as possibilidades de o trabalhador indiano impor qualquer tipo de autonomia, uma vez que os sentidos construídos pelo uso constante de tal termo, funcionavam como uma espécie de “luz vermelha” sinalizando para o imigrante sua condição primeira de devedor perante o proprietário da fazenda. Em linhas muito gerais, nota-se uma tendência, entre as diversas leis desse conjunto, de precaver o lado do contratante, no que se refere a duas situações: por um lado, o risco de o trabalhador se ausentar da fazenda, durante a execução de uma dada tarefa e, por outro, é atribuído um excessivo peso a tudo aquilo que é considerado ofensa ou negligência por parte do contratado. No entanto, parece contraditório o fato de, se por um lado as leis tentavam, de toda forma, dificultar a saída do contratado, inclusive, descontando de seu salário o dia de trabalho em que ele se ausentava para se queixar ao protetor de imigrantes abusos sofridos ou descumprimento de seus direitos assegurados no contrato; por outro, vê-se um total relaxamento nas permissões para o trabalhador se ausentar, caso ele tivesse ganhado certa
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ou seja. no primeiro caso. pois voltaria para a fazenda se sentindo constrangido a aceitar. (. era conveniente para o patrão que o trabalhador esgotasse as suas reservas financeiras na cidade. o que consideramos ter sido “a pedra no sapato“ dos trabalhadores indianos. próximo àquilo que no sistema judicial atual.) É perfeitamente possível que eles possam ser acusados diante de um juiz sob a denuncia de agressão. Segundo. Tal contradição nos leva a supor a existência de. arriscamo-nos em dizer que. independente do seu grau de dificuldade.. sem dúvida.Alexandre Martins quantia em dinheiro. 174 Revista Brasileira do Caribe. duas intenções subliminares: primeiro. inspetor. chamamos de “liberdade condicional”. sem nenhuma resistência. no lugar de uma dívida material. cocheiro. estão sujeitos a serem encontrados em desvantagem o que pode terminar em multas ou prisões 8 (tradução nossa). VIII. pelo menos. vol. ou outra pessoa empregada na plantação. foram. tampouco sobre tal fazenda ou ao alcance de cinco milhas dela” 7 (tradução nossa). soldado. principalmente porque uma das leis previa que o trabalhador executasse qualquer trabalho desde que compatível com sua qualificação física. após o trabalhador ter juntado certa soma em dinheiro. Contudo. pois estar preso a um contrato é o mesmo que estar sob juízo de sentença. uma dívida simbólica. qualquer tarefa exigida pelo patrão. Goiânia. capataz. tanto o uso do termo Imigrante Contratado. um possível acordo entre proprietários de fazendas e proprietários de comércio. as inúmeras condenações judiciais devido às acusações de descumprimento das leis que versavam sobre ofensas atribuídas ao patrão e negligências durante a execução de tarefas. uma vez que “Nenhum comércio deve ser mantido por qualquer patrão. em termos das injustiças que sofreram durante a permanência nas fazendas. n° 15 . objetivava funcionar tal qual o famoso “sistema de barracão”. moral. quanto as permissões de afastamento da fazenda. incapazes de falarem a linguagem das classes inferiores aqui correntes. Numa palavra. e. porém..

Num certo sentido. Isso por que. alegasse ter ouvido da boca de um indiano. uma vez notificado sobre a execução imprópria de seu trabalho.. e as quais eles não somente recusaram fazer como também mostraram fortes sinais de hostilidade. Tratava-se da prática de descontar do salário do imigrante contratado certa quantia.) os outros escaparam ilesos somente por causa do instinto de seus cavalos que coicearam os agressores a distância. uma palavra ameaçadora. a mais freqüente e. o imigrante contratado deveria refazêlo. surgido de um desentendimento causado por coolies terem executado impropriamente certas tarefas as quais eles foram requeridos para completar./dez. também a que causava maiores distúrbios era a acusação por má execução de uma dada tarefa. de forma extrajudicial. sob pena de sofrer condenações consoantes a tal alegação. previstas no sistema de leis. um dos proprietários da companhia Colonial. ou. designada ao indiano por um superior da fazenda. sob a alegação de práticas indevidas. declarasse o mal uso de algum equipamento da fazenda para se consumar 175 jul. Na ultima quinta feira a polícia recebeu informações de que um sério distúrbio havia ocorrido na fazenda Cedar Hill. Bastava apenas que o capataz. foi substituído por uma outra arma igualmente eficaz em termos de alertar o trabalhador quanto a sua pequenez diante da força do patrão. 2007 . porem eles foram recebidos por uma irada recepção dos coolies que os repulsaram e os injuriaram (. o tradicional chicote. entre os coolies da fazenda e o corpo administrativo. imediatamente. Sob a veemência dessa informação dois policiais a cavalo foram mandados com a intenção de apaziguar a desafeição.Plantation Legal: Trinidad século XIX Entre as condenações por ofensas. usado contra os escravos. ou qualquer outro funcionário superior da fazenda. 9 (tradução nossa)..

majes otnemidecorp lat ed açitsujni ad san .siacol sianroj snuglA .serosivrepus e sezatapac sod odigixe é euq o odut ..Alexandre Martins .açitsuj/sodatartnoc .)asson .olpmexe osoicinrep o meriuges etsixe ..( edaditnauq amu .anaidni oãçargimi à soirártnoc .saus sad mif oa oçemoc od . n° 15 .( .sodasuo siam .rezid reuQ .otnop oa oterid mai .etnemetnedive otiuM .sele rop .ahli atsen eicépse reuqlauq ed lagel aicnêrefretni uo odomôcni setneicsnoc etnemanelp saossep euq rarimda es ed é oãn euq o a sadavel ..soirálas ed o aibiorp euq .sodagerpme e seõrtap ertne ed etnaid ri euq meret ed seõçaloma e sotsag ..setnargimi lageli oãçneter ed acitárp a raicnuned ed méla siop .raicnedivorp omoc rebaS ).racúça-ed-anac mes adacitarp etnemetnetsisrep e otium a odis met .911 ..sotnemicerroba 176 Revista Brasileira do Caribe..setnargimi sessed maizaf me odidecus meb oãt odis met onrevog osson o sam ).acitárp an setnega oãs euq seleuqa sodot ed setnem o res ed amrof amu otsin agrexne euq oãçagela ariejnosil amu sadnetnoc recelebatse ed selpmis siam e otruc siam ohnimac so rative ed oiem mu e .serodahlabart soa otnuj soirálas saditemoc etnematsopus sasnefo ed asuac rop .arodeceralcse sadasu mare oãn siel sa euq ed otaf o aicnedive mébmat .( ed sadnezaf san sodagerpme .sairáid saferat saus ed mif oa oçemoc od . vol..sianroj sortuO /oãrtap seõçaler sad laretalinu retárac o etnematreba mavaicnuned é oxiaba aton a .adived ale a socilbúp serfoc sod airgnas a meraicnuned soriednezaf so euq osu uam o mébmat raicnuned arap mavatievorpa .odagerpme olep sadazilaer so etnemadanimircsidni reted ed etnanimoderp emutsoc O ).saicnêgilgen uo/e sasnefo ed seõçasuca oa .seilooC ralortnoc é .ossi a otnauQ .seõrtap so artnoc áj saferat ed otnemagap reuqlauq repmorretni ed rodagerpme .sadalortnoc oãs salum sa omoc oãçudart( 01 ..sotisóporp so sodot arap sovres ed etneicifus lat .ossid rasepa . Goiânia.ºN ed iel a etnemlapicnirp .ocilbúp oriehnid od atsuc à . VIII.

dava sinais de desconfiança em relação ao comportamento dos encarregados da justiça de Trinidad.13 177 jul.. que nos não podemos a não ser anotar as investigações que correm de tempo em tempo sobre os Coolies e os chineses pagãos 12 (tradução nossa). a primeira da qual impôs ao plantador a manutenção de um livro de atividades para conter todos os dados para identificação de todos os imigrantes. do que é correr o risco e aborrecimentos de ter que dar prova de tal acusação perante um magistrado 11 (tradução nossa).. propôs três novas cláusulas. New Era. 2007 . que provavelmente seria uma supervisão da parte de autoridades médicas. ou por qualquer outra suposta quebra das regras da fazenda. No ano de 1876. Possivelmente foi para convencer o governo que eles estavam de fato empenhados na doutrina de proteção do imigrante.. É infinitamente mais fácil. e inquestionavelmente mais conveniente para um capataz ou supervisor reter Cinco dólares do pagamento do trabalhador por motivo de roubar uma cana. qualquer sentença da corte fora alguma vez feita contra um patrão ou membro da equipe administrativa da fazenda”. o jornal local. Kelvin Singh. Na última reunião do conselho legislativo. A terceira sugestão era uma questão de rotina hospitalar.. ou semelhante soma em nome de maltratar uma mula. e a descrição das tarefas diárias executadas. Smyth. a uma exclusão de questões igualmente importantes que afetavam outras raças. o honorável Sr. Segundo o historiador indo-descendente../dez.. durante a reorientação dos regulamentos de imigração. de modo que a segunda clausula oferece recursos para o imigrante procurar residência industrial antes que a total conclusão de seu contrato fosse apresentada. Tão difundidos eram os sentimentos filantrópicos derramados sobre a imigração de Coolies. “existe pouca evidência para sugerir que antes dos inícios dos anos de 1880...Plantation Legal: Trinidad século XIX um juiz por causa de todas insignificantes ofensas cometidas por um trabalhador na fazenda.

e também como sendo uma vantagem desonesta em favor dos proprietários de fazenda. não eram incomuns as denúncias sobre protetores de imigrantes envolvidos nos negócios da cana-de-açúcar. Para ampliarmos a nossa visão sobre o grau de aplicação das leis sobre os trabalhadores nas fazendas. De fato. Temos ouvido ultimamente uma considerável quantidade de notas ditatoriais de autoria do juiz de St.Alexandre Martins (tradução nossa). no qual foram levantadas as estatísticas sobre o volume de 178 Revista Brasileira do Caribe. essas evidências nos levam a refletir acerca do grau de autonomia que os fazendeiros teriam alcançado junto ao sistema judiciário implantado naquela colônia. recorreremos a um aprofundado estudo levado a cabo por Sookdeo (2000. Esse Dr. vol. n° 15 . que. Mitchell é Protetor de Imigrantes. feito pelo juiz anteriormente aludido. embora não distante da linha seguida por outros semelhantes juizes.. como um homem particularmente perigoso. Joseph. de propriedade do Dr. nos faz julgar o oficial distribuindo justiça. naturalmente supomos apoiado pelo chefe do departamento de imigração. Também.. e ainda alguém que aparentemente não percebeu a direção e tendência desses endossos. caso nos podemos julgar pela passividade de seus atos em relação a eles. p. É a respeito de nada mais nada menos que um importante personagem. executar meses extras de trabalho como dias perdidos. que nos refletiremos a dúvida sobre alguns endossos de dias perdidos de Coolies nas fazendas. Mitchel. 110-122). de qualquer modo. e ainda. motivo de desapontamento que circunstâncias assim coincidissem de tal modo que aquele ato inadequado do juiz nesse respeito teria (num senso mundano) uma inclinação rumo ao benefício do oficial protetor e legal dos coolies 14 (tradução nossa). o Protetor de Imigrantes. É alguma coisa estranhamente sugestiva que a maior parte dos endossos (que são relatados como sendo inadequados. VIII. . nesta parte da ilha. Goiânia. ao término de seus contratos. em oposição à discriminação dos coolies) fosse condenando coolies contratados a trabalhar na fazenda Paradise. É.

entre os anos de 1828 a 1835. Numa nota. em 1835. 2007 . nos anos de 1872 e 1873. O restante dos prisioneiros estava dividido entre indianos mulçumanos. respectivamente. Uma significativa elevação dessa média. a média alcançada foi de 54 prisões anuais. a que mais figurou foi a de imigrantes indianos capturados sem passes livres. 257 endividamentos. para quem. de 60 aprisionamentos anuais. Somente no ano de 1870 foram registradas 2.9%. 354 e 476. Para o ano de 1873. 39. um inspetor dá a sua receita de como os prisioneiros devem ser disciplinados: 179 jul. eles foram freqüentemente culpados de quebras de leis de trabalho”. pois. tanto na época da escravidão. ou seja. também uma nova carga de criminosos em potencial./dez. afro-descendentes. antes do advento dos imigrantes indianos. 48 e 45 do sexo masculino. 154 jovens abaixo de quinze anos e 282 mulheres de idades variadas16. quanto na época em que se passou a utilizar da mãode-obra indiana. entre as categorias de ofensas que culminavam em prisões. Segundo Sookdeo. Segundo os dados por ele reunidos. Mas com a chegada dos imigrantes indianos.Plantation Legal: Trinidad século XIX condenações.012 prisões. 1. extraída pelo autor. a média de condenações flutuou em torno de 53 prisões de homens por ano. os magistrados de Trinidad passariam a conviver com a idéia de que a cada nova carga de indianos contratados. a extração da força de trabalho era conseguida menos pelas condenações e mais pelo chicote. 213 agressões. é constatada ao final da escravidão. os documentos do conselho revelaram 2.15 (tradução nossa). a exemplo de Eric Williams.649 prisioneiros dentro das cadeias reais. 154 condutas indecentes no uso da língua e 116 ofensas. cujas principais acusações podem ser assim distribuídas: 727 furtos. creoles.059 eram hindus. Sookdeo reitera a opinião de conceituados historiadores. respectivamente. Nesse ponto. sendo que os anos de 1832 e 1833. Desse total. durante a execução de tarefas. quando as leis de imigração apertaram o nó em torno dos trabalhadores indianos. diante da Corte de Trinidad. “após 1854.

Para os anos de 1885 e 1886. predominantemente masculina. do ponto de vista dos indianos. o fato de que as duras sentenças aplicadas sobre os imigrantes contratados tornaram-se convenientes para a classe de plantadores.Alexandre Martins Sir Joshua Jebb. que se encontravam presos. pois. incluindo conflitos inter-raciais. e para as classes mais baixas de prisioneiros. Sentenças duras”. “os contratados prosseguiram em receber com alegria o repouso oferecido pelas prisões comparado à vida em algumas das severas fazendas” 18 (tradução nossa). “uma reconhecida autoridade em matéria de castigo disciplinar em prisões”. tais sanções penais se perfilaram numa excelente forma de se exercer o controle sobre os imigrantes contratados. ele aponta algumas possíveis causas: frustração entre as classes trabalhadoras. Sookdeo destaca ainda que. n° 15 . sobretudo nas estações em que as fazendas necessitavam de poucos trabalhadores. quem recomenda. respectivamente. sendo que a maior parte dessas condenações foram alegadamente por motivo de descumprimento das leis de contrato de trabalho por parte dos imigrantes indianos (Ibid. “os elementos intimidadores de punição são trabalhos forçados. Goiânia. comida ruim e cama ruim. Sookdeo revela. competições nas esferas do trabalho e frustrações sexuais. corriam por conta do governo. 2000. as quais corresponderiam a “trabalhos nos moinhos ou abrir covas ou quebrar pedras ou alguma atividade semelhante” 17 (tradução nossa). o lado positivo de se estar preso. vol. entre os anos de 1872 e 1873. os crimes categorizados como agressões dobraram. Por último.363. Segundo. uma vez que os custos de subsistência dos imigrantes.411 e 4.. acima discutidas. p. As posições de Sookdeu corroboram as evidências. VIII. dado ao fato de os imigrantes indianos se constituírem de uma classe de trabalhadores. destacam-se três interessantes posições: primeiro. No balanço geral que fez Sookdeo. os números de aprisionamentos foram de 4. acerca do recrudescimento das sanções penais em Trinidad.. quanto às relações de poder que os fazendeiros mantinham 180 Revista Brasileira do Caribe.120). Quanto a isso. em certo período do ano.

quando se tratava de oficializar uma denuncia ao juiz local: 26. porque ele deve cozinhar a sua comida. Então o capataz ou qualquer um em posição de gerência deve comparecer à corte com o livro da fazenda de modo que um dia é perdido.Plantation Legal: Trinidad século XIX junto ao sistema judiciário de Trinidad. fora da corte pela ação de multar o transgressor. ambos para o empregador como para o trabalhador. além disso. capatazes. alguns dias antes que ele seja levado à corte. Muitos capatazes tem uma forte e muito justa discriminação contra levar um homem diante da corte por causa de alguma insignificante negligência. nos permitem afirmar a existência de uma ampla rede de relações entre fazendeiros. O dia posterior ao caso ele declara que não vai ao trabalho. Nele. as boas relações entre mestre e servo são prejudicadas. o coolie leva algum tempo antes de se estabelecer dentro de seu regular costume de trabalho pacífico e constante. o coolie se torna mal humorado e não trabalha devidamente. Todas as evidências. protetores de imigrantes. e ainda se mandado para prisão ele perde o respeito por si mesmo e torna-se um membro das classes criminosas. extraímos um trecho que versa sobre o cumprimento das leis nas fazendas de Trinidad. Depois que o caso é terminado. podem ser percebidos os “espaços de negociação” entre imigrantes indianos e seus capatazes. também não decidirão processar por deserção. o coolie é provável. Pois. e. a qual ele não foi capaz de fazer enquanto estava na corte19 (tradução nossa). No total desses casos diante do juiz existe sempre uma grande perda de precioso tempo. até aqui analisadas. caso o coolie seja punido ou não. 2007 . Nem muitos patrões reivindicarão e adicionarão ao tempo de contrato os dias em que o imigrante não tem trabalhado. e geralmente decidem tal questão. magistrados e imigrantes contratados. perder respeito à autoridade de seu mestre. 181 jul. supervisores. Num documento ultramarino para assuntos da imigração indiana. trabalhar tão firme quanto é requerido pelo regulamento. especialmente se ele for absolvido ou meramente advertido. e ainda. “dias perdidos” como eles são chamados. Casos diante da Corte./dez.

se condenado fosse. embora tenhamos dado um considerável relevo ao penoso processo de opressão por que passaram os indianos. sobretudo por meio do uso indiscriminado das leis de imigração.Alexandre Martins De fato. Queremos salientar que. ou seja. como. pois favorecia outras categorias de pessoas residentes na ilha. tanto do imigrante acusado como de todo o restante do grupo a ele subordinado. VIII. vol. Também estavam em jogo certas perdas subjetivas que poderiam.22 cuja permanência em Trinidad. a um estado de marginalização. um tipo de escravidão a vida dos imigrantes indianos nas Plantations. ou. Goiânia. embora carregados de boas intenções. em tal questionamento. na mesma medida. Se alguns estudiosos insistiram. dependia dos trabalhos que desenvolviam junto aos indianos nas Plantations. é devido a alguns problemas teóricos. não somente as perdas financeiras estavam em jogo. Grant. n° 15 . Morton21 e o reverendo Mr. a partir do ano de 1860. Observa-se que. capatazes e imigrantes buscavam acordos diante das contendas. fazem uso da própria arma criada por seus patrões para oprimi-los. reascendermos o velho questionamento a respeito do fato de ter sido. as horas de trabalho que ambos os lados poderiam perder se ocupados com os inquéritos. no sentido de educá-los e evangelizá-los. desmoralizar o imigrante. o reverendo Mr. ou minar à autoridade do capataz diante. particularmente. ainda não superados entre aqueles que. o processo de vitimização da população indiana de Trinidad colonial também fez parte dos jogos de cena. a máquina judiciária. De qualquer modo. não faz parte das nossas intenções. paradoxalmente. a fim de não se afastarem das fazendas e não colocarem em risco o capital moral que construíam a partir de suas relações dentro das Plantations. ou ainda insistem. 182 Revista Brasileira do Caribe. alguns missionários presbiterianos canadenses. quer dizer. ou não. por exemplo. tendem a vitimizar as populações subalternizadas no Caribe colonial20. Por essa razão. o documento acima mostra os trabalhadores indianos desenvolvendo certo grau de autonomia diante de seus opressores no momento em que.

Esses não são os dias de escravidão 23 (tradução nossa). na Plantation. o melhor instrumento de atração seria. uma vez que os contratos assinados na Índia. para ganhar a sua confiança. nas vizinhanças de San Fernando. alguma forma de proteção contra as injustiças. 183 jul. conforme mostramos. o capataz de uma fazenda de açúcar. Na conclusão do inquérito. em uma mais ou menos jocosa forma. residente no distrito. Certa ocasião. segundo alguns trabalhadores foragidos. Sem resistência os homens trabalharam o dia todo./dez. era incorporada em seus diários. Desse modo. os missionários procuravam justificar as suas ações por meio de alvissareiros objetivos que prometiam subtrair os indianos das condições degradantes que encontravam suas vidas espirituais. na ótica dos missionários. se converteram em instrumentos de opressão nas mãos dos proprietários. violentamente tentou. conforme mostra o documento abaixo. poderia fundamentar a suas posições diante das injustiças cometidas contra os imigrantes indianos. principalmente. 2007 . morais e intelectuais. e os colocou pra trabalhar. marcada pelo despotismo. pois. uma série de passagens que. pelo desencontro e. porém. e ao cair da noite eles foram liberados com algumas boas recomendações. perante os indianos. indubitavelmente. com quem eles apresentaram a informação ou acusação formal. amarrar uma corda em torno da cintura de um pequeno número de líderes. o juiz virou-se para a defesa. Sob o manto da noite eles deixaram a fazenda e foram até a casa do subprotetor.Plantation Legal: Trinidad século XIX Os missionários deveriam assumir. dizendo a ele: “Eu estou completamente consciente que o tratamento dado a esses homens não tem causado sofrimento físicos. pela imprevisibilidade. Ele imediatamente iniciou uma ação contra o capataz. Já para os olhares do governo e da população local. um discurso protecionista. tal ato sugere circunstâncias as quais as leis britânicas desaprovam”.

(. usado para designar os indianos contratados nas Plantations. dando.. morais e intelectuais de um povo. Goiânia.. que cresce rapidamente a cada ano pela imigração. ou intitulado por alguns de nossos trabalhadores 184 Revista Brasileira do Caribe. Os missionários têm evitado usar esse termo. sendo mandados. tem na língua “Hindi” o significado de um faxineiro ou carregador. cumprido os propósitos para os quais eles foram. The Palladium. Embora “Coolie” seja o termo oficial e é usado durante o prazo do contrato. pois viram nessa forma de clivagem um poderoso instrumento para causar ao indiano um sentimento de inferioridade diante da outras populações presentes na ilha. mas tem garantido por meio de seus trabalhos. inclusive. Para dar materialidade a essa questão. ou referido. assim como para os nativos da Índia. VIII. o fato de ter sido originalmente a designação da mais baixa classe de trabalhadores. e o termo “Indianos Orientais” está agora em uso geral 25 (tradução nossa). O termo “Kuli”. Como parte das táticas de atração e negociação. que tem sido aplicado a outras raças asiáticas. por imputarem aos trabalhadores indianos uma condição de inferioridade. recorremos a uma nota extraída de um jornal local. tem feito dele extremamente ofensivo para uma grande proporção de pessoas. o reconhecimento e o apoio do governo e dos cidadãos em quase toda parte 24 (tradução nossa).Alexandre Martins Assim era nossa missão em Trinidad. quanto aos próprios indianos por aceitarem tal condição de inferioridade.) E até o momento nada é mais comum do que observar as desdenhosas maneiras pela qual o trabalhador indiano oriental é. não somente numa larga medida. como também pelo aumento natural. e na tentativa de satisfazer necessidades espirituais. e estão. nossos missionários têm. os missionários passaram a protestar contra o uso do termo Coolie. n° 15 . cuja denúncia se dirige tanto aos trabalhadores Creoles. vol. testemunhos de sua baixa estima.

185 jul. Eles seriam submissos e trabalhariam duro. mostra-nos que certas imagens geradas durante o período colonial. a de docilidade. em última análise. Haraksingh contesta essa primeira noção. Segundo ele.Plantation Legal: Trinidad século XIX Creoles. o que indubitavelmente manteria os plantadores felizes” 27 (tradução nossa).) Mas esses orientais freqüentemente reconhecem a si próprios como ocupando o mais baixo status. Quanto à aparente submissão dos indianos. talvez. como por exemplo./dez.155). em especial o professor indodescendente Haraksingh (1981. não combina com a quantidade de distúrbios e violências cometidas por indianos em seus locais de trabalho.. dizendo que esse estereótipo. Mas alguns historiadores. e ele revelará a você à baixa estima na qual ele encerra a si mesmo. Haraksingh interpreta como sendo uma espécie de comportamento estratégico para manter os patrões felizes até poderem escapar das Plantations: “pois. pelo fato de eles terem chegado aqui numa condição de quase escravos (. devem ser vistas por um outro prisma. p. consubstanciava a noção de docilidade era o fato de uma grande maioria de imigrantes viverem dentro das Plantations sob regime de contratos. ambos imputados aos imigrantes indianos. quem parece reconhecê-los como a raça mais inferior de todas as outras por causa da degradação. 2007 .. no tempo em que chegaram aqui eles entraram em suas obrigações agrícolas como trabalhadores contratados. o que permitia aos seus patrões reunirem as condições necessárias para exercer um amplo controle sobre eles. e principalmente. Pergunte a um coolie de classe baixa (visto que o ideal de sua casta inerente permanece na mais alta norma para eles) se ele for um trabalhador contratado. Desta maneira eles têm a consciência de que eles ocupam a mais baixa condição nesta ilha 26 (tradução nossa). as noções de docilidade e o próprio sentimento de inferioridade. o que. grande parte da resistência indiana deve ser vista em termos de quem teria o último riso. normalmente usado para acentuar a preferência dos fazendeiros por trabalhadores indianos.

Goiânia. Direção e texto: Danilo Alencar. 186 Revista Brasileira do Caribe. extrajudiciais. Numa visão de conjunto. de relacionamentos capazes de assegurar a continuidade dos acordos estabelecidos entre todos os grupos envolvidos e 4) assegurar aos imigrantes indianos a construção de espaços de negociação para que aquela difícil existência nas Plantations pudesse ser transfigurada em algo mais próximo de seus horizontes de expectativa. forjado pelos proprietários para fortalecer os mecanismos de contratação dos indianos. estrategicamente. com mais profundidade. destinados à asseguração do sucesso da companhia colonial de imigração. Outubro de 2006. tanto o estereótipo de docilidade. essa idéia de os indianos desenvolverem uma atitude de submissão. uma vez que tais imagens ajudavam a confundir seus opressores quanto aos seus verdadeiros projetos. Goiânia. 2 GUHA. aceitos pelos próprios indianos. 3) constituir códigos. vol. R. 2) obter benefícios financeiros a partir dos recursos do tesouro real. Elementary Aspects of Peasant Insurgency in Colonial India. as relações construídas entre as diversas categorias de pessoas.Alexandre Martins Analisando. Dito de outro modo. por aqueles setores da sociedade interessados em explorá-los. London: Duke University Press. cujas principais intenções eram: 1) criar um teatro capaz de deixar as autoridades inglesas em Londres satisfeitas quanto ao perfeito cumprimento das leis de imigração em suas colônias. Notas 1 “A CLARA do Ovo”. 1999. quanto o estereótipo de injustiçados. submetidas ao conjunto de leis de imigração. a fim de convertê-los ao cristianismo. VIII. como sendo um tipo de estratégia de preparação para uma vida melhor fora das Plantations. foram. teatro da Universidade Católica de Goiás (Campos-V). desenvolvido pelos missionários. ver-se-á que mais uma vez os imigrantes estão tentando se beneficiar com as próprias imagens que deles eram construídas. n° 15 . formavam um complexo jogo de cena.

59. Belo Horizonte: Ed. overseer. establishments and Casualties. UFMG. either upon such plantation or within five miles thereof” (Coolie immigration. London : H. 2007 . 6 O termo Indenture se refere aos acordos sob a forma de contrato realizado entre trabalhadores e empregadores.M. H. vol. and 50 for Negro grounds. On the strength of this information two policemen on horseback were sent out with a view to appease the disaffection.000 sterling”. arising out of misunderstanding caused by the coolies having imperfectly performed certain work which they were requested to complete. manage. than Coffee or Cotton. are liable to be found at a disadvantage. of which 100 acres for cane. 4 In March of 1845 Thomas Caird announced in a despatch to the Home Office. p. but everything considered to the smallest class of sugar plantation cannot consist of less than 200 acres of good land. 1880. “I have the honor to report… that I have despatched the Futtle Rozack to Trinidad”.Plantation Legal: Trinidad século XIX 3 BHABHA. unable to speak the language of the lower orders here fluently. Caird to Hope. the lands being generally more favorable to the Production of Cane. Stationery Off. 062117110523. 1962. 165. which may end in fine_or_imprisonment (…) (The Palladium. (cf. A plantation of this class carried on with the greatest economy will require a capital of about £ 8. 1904. apud PERRY. p.. 7 March 1845. 29). ranger. 74). 7 “No shop shall be kept by any employer. WILLIAMS. driver. 50 for pasture. p. May 15.. immigration ordinances of Trinidad and British Guiana. sendo estes responsáveis por todos os custos de transporte e alimentação dos trabalhadores até aos seus locais de trabalho. or other person employed on the plantation. 1969./dez. 8 (.) 9 “On Thursday last the police received information that a serious disturbance had taken place at Cedar Hill estate.)It is just possible that they may be arraigned before the magistrate on the charge of assault. The quantity of land to be granted should certainly depend upon the means of cultivation. but they were met by a warm reception from the coolies who 187 jul. K. 2001. between the coolies of the estate and the managing body.. and which they not only refused to do but showed strong signs of hostility. and. one of the properties of the Colonial Company. 5 “Trinidad should be regarded as a sugar Colony. O local da cultura. (Colonial Office 318.

(San Fernando Gazette.. to the exclusion of equally important questions which affect other races. VIII. and unquestionably more convenient for a manager or overseer to check five dollars from a labourer’s pay for stealing a cane.) 11 “The prevailing custom of indiscriminately checking the wages at labourers employed on sugar estates for offences alleged to be committed by them has been so long and persistently practiced without molestation or legal interference of any kind in this island that it is not to be wondered at that persons fully conscious of the iniquity of such proceedings should nevertheless he led to follow the pernicious example. It is infinitely easier. proposed three new clauses the first of which imposed on the plantcr the keeping of a ‘Labour Book’ to contain all materials for identification of every Immigrant. expense and annoyance of going before a magistrate for every trifling offence committed by a labourer on the estate.. in the minds of all those who are agents in the practice. vol. Goiânia. or a similar sum for maltreating a mule. The third suggestion was a matter of hospital routine. or for any other suppositious breach of estates’ discipline than it is to take the risk and trouble of proving such a charge before the Police magistrate”. as the mules are driven through theirs. August 31. Editorial. is all that is required of managers and overseers (…) (San Fernando Gazette. and a means of avoiding the trouble. Editorial).. (San Fernando Gazette. 12 At the last meeting of the Legislative Council. n° 15 . that we cannot but note the disquisitions which take place from time to 188 Revista Brasileira do Caribe. February 4. September 30. there is an unctuous excuse which views it in the shape of being a shorter and more summary way of settling disputes between master and servant. 1878. Mr.. Smyth. . . 1882). and the description of the daily work performed. 10 (…) But our Government has been so successful in providing at the public expense a sufficiency of serfs for all purposes (…) To know how to drive coolies through their daily tasks.) the other escaping unhurt only by the instinct of his horse which kicked the assailants away”.. Very evidently. . the Hon.. Possibly it was to convince the government that they were really in earnest in the immigrant protection doctrine that the second clause offering facilities to the immigrant to procure industrial residence before the full completion of his indenture was introduced. 1871. So diffuse are the philanthropic sentiments wasted on coolie immigration.. on the recommital of the Immigration Ordinance. injuring one (. which probably was an oversight on the part of the medical authorities.Alexandre Martins repulsed them.

Plantation Legal: Trinidad século XIX time on the coolie and heathen Chinee.. they were frequently “guilty of breaches” of labor laws”. 2007 . approved of by the Chief of the Immigration Department. p. March 22. to work out extra months of labour as lost days. Mitchell. (New Era. we naturally suppose.” who advised. 14 We have heard a good deal lately of magisterial not by the St. o anuário Blue Books e relatos de inspetores de prisões. Joseph Magistrate. if we may judge by the passiveness of his acts with respect to them. SOOKDEO. p. This Dr. hard fare. 1880.” Which amounted to “labour at the treadwheel or shot drill or stone breaking or some such work”. Joshua Jebb. Kelvin. “The deterring elements of punishment are hard labour.111). Hard sentences. and for the lowest class of prisoners. at the expiration of the term of their indenture. Cf. subject for regret that circumstances should so coincide that the improper act of the magistrate in this respect should have (in a worldly sense) a leaning towards the profit of the coolies’ legal and official Protector… (New Era. however./dez. London: Macmillan. SINGH. It is with no less an important personage than the Protector of Immigrants that we would consider the question of some endorsations of coolies’ lost days on estates. “an admitted authority in matter of Prison discipline. (cf.. and. when indenture laws tightened the lasso around Indian worker. which. (COUNCIL Paper (Trinidad) nº 39 of 1874 apud SOOKDEO. It is somewhat strangely suggestive that most of the endorsations (which are reported to be improper. although not out ct the hue pursued by other like magistrates. Editorial). 17 Sir. made by the magistrate first alluded to. the property of Dr. In: Bloodstained tombs: the Muharram massacre 1884.. June 12. 10. and to be an unfair advantage in favour of the proprietor of the estate. 2000.. Editorial). It is. Mitchell is Protector of Immigrants and one who apparently did not see the leaning and tendency of these endorsations. 16 Dentre as principais fontes utilizadas por Sookdeo destacam-se os despachos do governador Longden. 2000.. 15 “After 1854.. 114). makes us regard the officer dispensing justice in this quarter of the island as a peculiarly hazardous man. to the prejudice of the coolie) should he endorsations condemning coolies indentured to labour on the Paradise Estate. 1876. 13 (…) “There is little evidenced to suggest that before the early 1880s any court decision was ever made against a planter or member of the estate’s managerial staff”. and a hard bed. p. 1988. 189 jul.

Alexandre Martins 18 “The indenteds continued to welcome the respite offered by prisons compared to life on some of the harsher plantations. n° 15 . VIII. — “lost days” as they are called. vol. Nor will many employers claim and add to the period of indenture the days the immigrant has not worked. has to attend the Court with the estate books and a day is lost. 42). p. and generally settle such cases out of Court by fining the offender. University Press of Virginia. 21 Morton. The authority of his master. John Morton of Trinidad: pioneer missionary of the Presbyterian Church in Canada to the East Indians in the British West Indies: journals. 20 Para uma melhor compreensão das críticas feitas a perspectiva de vitimização de populações coloniais. the cooly takes some little time before he settles down into his normal ‘habit of quiet and steady work. to lose respect for. Co. the cooly is sulky and does not work properly. Charlottesville. Toronto: Westminster Co. John. 114). the good relations between master and servant are disturbed. [c1923] 062117110523.. 22 Grant. especially if he is acquitted or merely warned. (COMINS. 1893. 1916. Then the manager.: Imperial Pub. N. For some days before he is taken to Court. and if sent to jail he loses respect for himself and becomes the associate of the criminal classes. 1839-1923 My missionary memories. tied a rope around the waist 190 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. or at all estates the overseer. letters and papers / edited by Sarah E. Caribbean Discourse.S.Cases before Magistrate. The day after the case he says he is not going to work. 1839-1912. p.. —Many managers have a strong and very reasonable prejudice against haling a man before the Courts for some trifling negligence to work as hard as required by the ordinance. 1989. veja: GLISSANT É. Halifax. Morton. In all these cases before the Magistrate there is always a great loss of valuable time both to the employer and to the labourer. as he must cook his food. (ibid. 2000. and then. sobretudo das populações afro-descendentes do Caribe. After the case is over. Kenneth James. 23 “On one occasion the manager of a sugar estate in the neighborhood of San Fernando. which he was not able to do when he was at Court. sorely tried by some absconding laborers. and the cooly is likely. whether the cooly is punished or not. nor will they prosecute for desertion. 19 26.

He immediately entered an action against the manager. as well as by natural increase. april 24. 2007 . At the conclusion of the trial the magistrate. with whom they laid an information or charge. perhaps. 191 jul. and towards evening they were dismissed with some good advice.p. 1880). which has been applied to other Asiatic peoples as well as to the natives of India. p. in a more or less jocular way. because they come here in a kind of quasislavery. The missionaries have avoided using it. These are not the days of slavery”. said to him: “I am fully aware that the treatment given these men has not caused physical suffering./dez.60). who seem to regard them as a race far beneath every other for degradation. and put them to work. residing in the district. Ask a coolie of a low class (for the ideal of their inherent caste remains with the higher order of them) whether he is an indentured labourer. on arriving here they enter on their agricultural duties as indentured labourers. 1923.” (ibid. turning to the defendant. 25 “The term “Kuli”. Under cover of the darkness they left the estate and went to the house of the Sub-Protector.p. the fact that it was originally the designation of the very lowest class of laborers has made it extremely offensive to a large proportion of the people”. has in the “Hindi” language the meaning of a porter or laborer. when. 63). 24 “Such was our mission in Trinidad.Plantation Legal: Trinidad século XIX of a few of the leaders. Without resistance the men worked in the fields all day. our missionaries have not only in a large measure fulfilled the purpose for which they were and are sent out.. and chiefly. moral e intellectual needs of a people growing rapidly each year by immigration.. and the term “East Indians” is now in general use. 26 And yet nothing is more common than to observe the contemptuous manner in which the East Indian labourer is either referred to or addressed by some of our creole labourers. (The Palladium. But these Orientals do often regard themselves as occupying the lowest status. (ibid. While “Coolie” is the official word an is used during the term of indenture. and he will tell you the low esteem in which he holds himself. but have secured for their work the recognition and support of the Government and the citizens generally..60). (GRANT. but it does suggest conditions on which British law frown. and in attempting to meet spiritual. Thus they have the consciousness that they occupy the lowest condition in this island.

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196 .

some hypothesis can be established based on the different ethnic groups that in that period lived in those areas where they were captured. a saber. vieram para o sertão dos Guayazes. viviam nas áreas aonde eram apresados. mas também pode significar a variada presença deles numa mesma embarcação que aportou no Brasil. facing the difficulty to locate the nation of the slaves brought to Goiás. in Angola and Benguela and Costa de Mina—regions in which the Portuguese started the slavery trade. VIII. na época. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. vol. 197-243. Therefore. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. It does not seem appropriate to adopt the criteria of African nations as a unifying concept for cultural and religious affinities and identities of Blacks that in the eighteenth century came to the rural areas of the Guayazes. n° 15. Goiânia. Por isso.O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes Abstract This article focuses on the slave trade in Goiás. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina por onde os portugueses estrearam no comércio de escravos. because such concept alludes to large African regions where slaves where shipped and secondly because there were various places where these shipments happened. Isto porque essa palavra em um primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos. ethnic groups Resumo Nossa análise se pauta em discutir o tráfico de escravos para a Capitania de Goiás com o objetivo de “rastrear” o lugar de procedência dos escravos. Keywords: Slave trade. Firstly. 2007 . Não nos parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que no século XVIII. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 197 Revista Brasileira do Caribe. with the purpose to locate its origins. Goias/Brazil.

Por eso. as discussões recentes sobre o tema alertam para o movimento – historicamente construído – de uso do conceito de raça como forma de naturalização de opções e interesses engendrados na vida social. sociais 198 Revista Brasileira do Caribe. regiones en las cuales los portugueses estrenaron el comercio de esclavos. hábitos comuns e um sentido de homogeneidade. Goiânia. n° 15 . No parece oportuno adoptar el criterio de naciones africanas como concepto aglutinador de afinidades o identidades culturales y religiosas de los negros que en el siglo XVIII vinieron para el sertão de los Guayazes. porque era variada la procedencia de los que eran violentamente arrojados en el barco negrero. en el reino de Angola y de Benguela y en la Costa de Mina. grupos étnicos Os livros de registros de batismos e de óbitos no Brasil indicam em muitos casos o lugar de procedência dos escravos africanos. Goiás/Brasil. O conceito num primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos. pensado como unidades de linhagens biológicas ou culturais. grupos étnicos Resumen El análisis del artículo se pauta en la discusión del tráfico de esclavos para la Capitanía de Goiás con el objetivo de localizar el lugar de procedencia de éstos.Cristina Cássia Pereira Moraes Palavras chave: Comércio de escravos. É oportuno lembrar também. um forte sentido de pertencimento relativamente ao grupo associado a um território concreto considerado como sendo especificamente o seu. Goiás/Brasil. VIII. Parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que vieram para Brasil no século XVIII. frente a la dificultad de determinar la nación de los esclavos traidos a Goiás podemos establecer algunas hipótesis basadas en las etnias que en la época vivían en las áreas donde eran capturados. Palabras Claves: Comercio de esclavos. Outrossim. vol. que o conceito de nação envolve um grupo social que partilha um ideário. movimento que tem sido levado a cabo de forma a construir explicações para diferenças pessoais. En primer lugar porque ese concepto alude a grandes regiones africanas de embarque de esclavos y en segundo.

da mina e moçambique. caçanjes. entendidas dentro do marco da hierarquia. A realidade das raças limita-se. hereros. 81-96). 2007 . No caso dos sertões goianos. Portanto. apropriado. a saber: ambós. pela imigração européia (PEREIRA. foram respaldadas e alimentadas pela ciência no Brasil no final do século XIX (SCHWARCZ. ao contrario. Entender o seu percurso. Angola e Moçambique. Os primeiros podem ser reunidos em nove grupos./dez. 2002. bakongos. As diferenças raciais. baseada numa atitude negativa frente a certos grupos sociais e informada por uma noção especifica de natureza.2 Nas matrículas de escravos encontradas no século XVIII em Goiás. benguelas. ao mundo social (GUIMARAES. o construto “raça” está vinculado a interesses e a circunstancias produzidas em determinado tempo e lugar. de um conceito que denota tão somente uma forma de classificação social. Gâmbia. quimbundos e xindongas que viviam nos atuais Congo. portanto. é certo que sua ocupação foi efetuada por inúmeros grupos etno-linguísticos de origem bantos e sudaneses. nhanecas-humbes. modificado. cabindas. gentio da guiné. p. ressaltar suas permanências e descontinuidades é entender que ele foi socialmente negociado. Nigéria. Benin e Togo. entender a sua complexa tessitura informada pela escravidão indígena e africana. 1993). ovimbundos. no centro do país. luandatchokues. mas sim. Ademais. Raça é um conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural. 9). reinventado e re-significado. 2002. é preciso ainda. silenciado. acreditamos que não há raças. p. Segundo Rodrigues é impossível calcular de que 199 jul.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII e culturais como diferenças naturalmente dadas.3 Os sudaneses aglutinavam os povos da África ocidental e que habitavam as regiões hoje denominadas Gana. representação historicamente construída entre diferenças pessoais e grupais. como algo indeterminado. Trata-se. eram denominados por angolas.1 Para além. ngangualas. relações raciais. bem como.

não foi registrada. p. Por isso. vol. viviam nas áreas aonde eram apresados. Goiânia. Desde 1633. a saber. VIII.000. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina onde se encontrava o forte de “ElMina” ou da “Mina” por onde os portugueses estrearam no comercio de escravos. pois se estendiam desde a Costa do Marfim.Cristina Cássia Pereira Moraes data é a introdução dos nagôs no Brasil porque só no fim do século XVII se tornou conhecido dos europeus o poderoso reino de Ioruba (1977. dado que a região era muito extensa. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. Essas regiões também apresentam um caráter vago. para saber sobre os escravos traficados. era muito fácil fugir ou se locomover dum lugar para outro. se traziam livros proibidos ou se e vinham desobrigados7. havia determinado que todos os navios ou embarcações que chegassem ao porto de Santos fossem visitados. já que significava adesão aos valores religiosos e morais do mundo branco e propiciava grandemente a resignação à sua condição servil. Lourenço de Mendonça. certamente. o número deles. não atingia a cifra de 40. 98-120)4. pois essa conversão era vista como benéfica aos seus senhores. um prelado do Rio de Janeiro. de qual nação chegavam. se levarmos em conta centenas de milhares de escravos que trabalharam nas minas de Minas Gerais ou em plantações de açúcar no Nordeste. vinham convertidos ao catolicismo. Comissário do Santo Ofício. ainda que os registros possam camuflar a verdade. até a Costa dos escravos. passando pela do Ouro. Na Capitania de Goiás os iorubás ou nagôs e jejês como eram5 denominados nas matriculas oficiais de escravos são introduzidos pelo tráfico na região desde meados do século XVIII.6 Quando aqui chegavam. Sob o aspecto da quantidade de escravos africanos que vieram para Goiás no século XVIII. 200 Revista Brasileira do Caribe. na época. n° 15 . face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. no auge da exploração aurífera documentada em 1792. Um dado chama a atenção do estudioso: comparativamente. a maioria deles.

o que mostra uma ligeira tendência à diminuição da população escrava na Capitania. Karasch9 observou que o censo de 1783 estava incompleto. com 4.689 escravos. Traíras com 3. o maior número de escravos já documentado na capitania de Goiás. seguido por Traíras com 6. A maioria dos arraiais que desenvolvia a exploração do ouro de aluvião listou 60 a 80% da população composta por pretos. de Traíras para 5.567 e Crixás com 1. Em 1792. a população de cativos de Vila Boa tinha reduzido para 8. 201 jul. o censo aponta os seguintes números de escravos para a Vila Boa e os arraiais mais ricos: Vila Boa com 4. futuro Julgado do Desemboque que. Como demonstra o gráfico abaixo. Pilar com 1. pois demonstrou apenas que 17. Salvador. Os africanos que. Rio de Janeiro e.000.000 a 17.599.207. no entanto.000 escravos. o julgado de Vila Boa teve 9. Desemboque e Carmo que. foram incluídos no citado censo. de 1733 a 1750. excetuandose os julgados de Cavalcante. os dados oficiais registram a presença de aproximadamente 35.245 e Meia Ponte.8 Em 1783.682. chegaram à Capitania de Goiás desembarcaram em diferentes portos.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Com efeito. o censo de 1789 registrou um aumento na população de escravos para 37. faz parte de Minas Gerais e.200 escravos. Os outros tiveram menos que 3.777. a saber: Belém do Pará. São Luis do Maranhão. e de São Félix para 2. também. Salles (1992. 276) aponta um montante de 10. atualmente.309. O censo de 1804 confirma essa tendência descendente. Os demais arraiais possuíam menos de 1000 cativos. devido aos motivos acima apontados./dez. Em 1779. p.027 escravos na região. na época em apreço. Seis anos depois. pela primeira vez. Este censo é particularmente valioso porque revela um novo descoberto aurífero na região do Rio das Velhas.568.000 cativos. Alguns julgados. contudo.790. como o de Meia Ponte e Natividade. Neste censo de 1792. indicando a existência de 20. 2007 . por registrar aumento da atividade de mineração em Pilar. sofreram aumentos leves.713 cativos trabalhavam na Capitania. outro censo registrou a presença de 38. Meia Ponte com 1.328.533 escravos.

207 1. 660 Desemboque Das de Rio Velhas 2.Cristina Cássia Pereira Moraes provavelmente. de de F.000 6.568 9. Karasch suspeita que muitos africanos recém-chegados ao Brasil ficaram algum tempo em outras capitanias.839 1.432 8.264 2. como Minas Gerais e Bahia.960 899 2.000 10.282 4.153 1.491 2.567 997 1. antes de serem trazidos para as minas de ouro de Goiás.223 723 1. Fontes: Gilka V. de Parnaíba no Piauí e de Recife.967 1. vol.682 4. 1783-1804.000 4. n° 15 . SalIes.575 3.045 2.261 277 299 634 2.444 1.200 4.000 1783 1789 1792 1804 Gráfico 1 – Número de Escravos na Capitania de Goiás 1783-1804 (A cópia manuscrita do censo de 1783 dá o número como 364 em lugar de 363.777 1. O certo é que as principais rotas de entradas de africanos na capitania de Goiás eram pelo Pará.689 Crixás Pilar Santa Cruz Santa Luzia Meia Ponte Vila Boa 0 2. VIII. Goiânia. Maranhão e Bahia.000 8. Economia e na de Escravidão da 202 Revista Brasileira do Caribe. Os Escravos na Capitania de Goiás.855 4.

João de Botelho Cunha que. ibid. p. inventários e termos de assentos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos localizados em Vila Boa. perfumes.4. óbitos. Esses comboios. Goiânia: CEGRAF/UFG. Mapa em que Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério. de 1793:“ Michaela Xavier de Aguirre deu 230 oitavas de ouro para Capitão Gaspar José Lisboa para ir a Cidade de Salvador para comprar três “moleques Minas”. 1992.11 Como foi abordado anteriormente por nós. caixa 35. KARASCH. localizar e determinar especificamente a “nação” a que pertencia os cativos em Goiás é uma tarefa hercúlea.) Inúmeros comerciantes de Vila Boa organizavam grandes comboios para importarem cativos de São Luis do Maranhão e de Salvador. trouxe de Salvador. até o prezente anno d’ 1789. Goiás. e artigos de luxo. Biblioteca Nacional. Mapa em que o Governador. tecidos finos. 11. 119. 2007 . pagando por cada um aproximadamente 80$000”. traziam artigos e produtos importantes que por cá não havia.10 Outra rota por onde os escravos chegavam à Capitania. em geral. bacalhau. sal. AHU.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Capitania Goiás. Conforme os registros da Igreja Matriz de Santa Ana.2. 1993. (MOTT. além de cativos. Rio de janeiro. p. como utensílios e objetos de ferro. começava no Rio de Janeiro e passava por Vila Rica e Paracatu em Minas Gerais. encontramo-lo num recibo de compra. entre outros. levavam em média três meses de viagem para chegarem a Goiás. p. Como exemplo. em 1765. 19 de outubro 1790. 2002. e Capitão da Geral da Capitania Goyaz Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério 29 julho 1792. Documento 2109 Reflexões Econômicas ficam sóbrio como Tabelas da de estatísticas da Capitania de Goyaz Pertencentes ao anuo de 1804 feitas de e nenhum de 1806. entre 1794-1827 entre adultos e crianças foram batizados: 203 jul. Eram conduzidos por tropeiros que. 170) Um outro exemplo./dez. 1790-1798. . 170 escravos para Vila Boa. Seção Manuscrito. vinhos. podemos citar o comerciante. Optamos em utilizar alguns registros de batismos. 277. AHU. vestidos.

2002. Arquivo Geral. VIII. Goiânia. livro 3. vol. p. Batizados. 1794 -1810 e KARASCH. n° 15 .Cristina Cássia Pereira Moraes Batismos de crianças escrav em Vila Boa de Goiás 1794-1810.12 204 Revista Brasileira do Caribe. 132). Diocese Goiás. as 6 angola mina crioulo(a) 5 moçambique 4 nagô buçá 3 desconhecido 2 1 0 17 94 17 95 17 96 17 97 17 98 17 99 18 00 18 01 18 02 18 03 18 04 18 05 18 06 18 07 18 08 18 09 18 10 Gráfico 2– Batismo de crianças escravas em Vila Boa 1794-1810 (Orfanato São José.

. 2007 . pois. elas ocorriam e estes eram incluídos nos registros. Na coluna “desconhecido” pressupomos que seria o batismo do “gentio”. Cit. Como exemplo temos: “Maria. embora a legislação proibisse a escravidão dos índios13. Batizados. livro 3./dez.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII : Gráfico 3– Batismos de escravos por gênero em Vila Boa de Goiás 1794-1827 (Orfanato São José. 1794 -18270 e KARASCH Op. Arquivo Geral.) A maior parte dos registros de batismo e de óbito indicava o grupo étnico a que o escravo pertencia como podemos observar nos gráficos acima. Diocese Goiás. p. 2002. 132. criança legítima de João 205 jul.

a fim de evitar sua escravização no futuro” (2002. No entanto. gentio da guiné. p. mas. 1800-1827. A título de exemplo. das ilhas. 135).Cristina Cássia Pereira Moraes Angola e Eugênia Índia Chavante. da terra. pretos da costa. vol. 206 Revista Brasileira do Caribe. Jaraguá e Corumbá e datem do início do século XIX. (IPHBC: Livro de Registro de Óbitos de Meia Pontes. n° 15 m pr in a et na os gô da co s at nã na g ge o ola nt c io ons da ta gu de i ca gné en st ad tio at daer s Ira l da has te r cig ra an o . nagô. anota 834 escravos falecidos. nada consta:15 Ó bitos1794-1834 800 700 600 500 400 300 200 100 0 total Gráfico 4– Óbitos 1794-1834. os párocos evitavam registrar uma criança indígena como escrava. denominando-os como mina. AFSD: Livro Óbitos. quando podiam. Goiânia. o maior numero de registros. conquanto se restrinjam a Natividade. Meia Ponte. foi batizada no dia 22 de fevereiro de 1818 em Santa Anna. apontam a origem étnica dos cativos falecidos na Capitania. os registros de óbitos. segundo Karasch.14. KARASCH. 1803-1810. cigano. gentio. VIII. o Livro de Registro de Óbitos de Meya Ponte. Infelizmente. Natividade e Porto Nacional. muito superficialmente. relativo a 1803-1810.

Batizados. 2007 . página 48 v. 1794 -1834. p. Livro Letra K – 1789 – nº012. Sra. da Boa Morte representada pelo procurador da Irmandade Manoel Teixeira dos Santos nos indica que aos fins do século XVIII a maioria de seus cativos eram mina como podemos observar no gráfico abaixo: T estam Vila Boa 1789 ento 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 H omens Gráfico 5 – Predominância de escravos mina.. Goiás.cit. p. (AFSD: Testamento de Marcelino Baptista Silva – Herdeiro: Manoel Teixeira dos Santos. 133. m ina na g an ô go l re a b be olo ng u ca ela bi n m da un m oç j am olo bi q ile ue gi ve l 207 jul. livro 3. 43-43v. Orfanato São José: Arquivo Geral./dez. op. Diocese de Goiás.).Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Mary.) Um testamento de 1789 de Marcelino Baptista Silva cuja herdeira era N.

pardos e pretos livres. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1810). n° 15 . Ora. através dos censos efetuados na Vila e nos arraiais. No entanto. com certeza. Do Rosário dos Pretos de Vila Boa. VIII. nos termos de assento e anuidades dos membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Vila Boa. vol. entre 1755 e 1784.S. do Rosário dos Pretos 1736-1810 60 50 40 Homens 30 Mulheres 20 10 0 17 17 35 36 17 39 40 17 44 45 17 49 50 17 54 55 -5 17 9 60 17 64 65 -6 17 9 70 17 74 75 17 79 80 17 84 85 -8 17 9 90 17 94 95 -9 18 9 00 18 04 05 18 09 10 -1 4 Gráfico 6 – Número de Irmãos e Irmãs na Irmandade de N. que durante o século XVIII. o número de escravos pretos era bem maior que o dos brancos. Sra. o número de escravos que fazia parte da associação era relativamente pequeno: Irmãos e Irmãs da Irmandade de N. Goiânia. posto que essa Irmandade apenas aceitava cativos como 208 Revista Brasileira do Caribe. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. Sra.Cristina Cássia Pereira Moraes Sabe-se.

embora a Irmandade. de modo que. escravo do Capitão Dantas. não aceitasse libertos como membros. podemos observar que o numero de irmãos aumentou significativamente. podemos inferir de tal registro que bem poucos puderam nela ingressar como irmãos. 2007 . Em termo de mesa./dez. declarando que possuía um pecúlio de trezentas oitavas. curiosamente. quando tinham família. os demais negros podiam ser apenas irmãos de devoção. para além de trabalhar para seus donos. nem a oportunidade de ingressar na Irmandade e se beneficiar da ajuda da mesma.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII associados. os escravos urbanos da Capitania viviam melhor que os do campo. Outrossim. escrava do Coronel Pacifico. ela não media esforços com vista a alforriar escravos: Havendo algum Irmão captivo que sequeira libertar a Irmandade lhe assistirá com oprecizo para se libertar. dando primeiro hum fiador a irmandade que se obrigues pelo tempo que sejustarem satisfazer à dita Irmandade o que desembolçar e será este fiador eleito pela Meza e passará obrigação à mesma. Para mais. de 1775. apenas na década de 1770. da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.17 Apesar da terrível condição em que se encontravam. devido às leis portuguesas de proibição à escravidão onde a maioria dos senhores de escravos os venderam para o Brasil. declarava ter quatrocentas oitavas de ouro e pedia que o tesoureiro da Irmandade indicasse um fiador para avalizar o restante da quantia a ser paga ao seu senhor por sua carta alforria. o que geralmente acontecia com as mulheres . só produziam o suficiente para si e para os seus. Em outro termo. Estes. Aqueles ainda tinham a ocasião de fazer serviços extras para outrem e 209 jul. não tendo nenhuma chance de ajuntar algum dinheiro. o irmão Francisco. em Vila Boa. e não de compromisso. conforme o gráfico acima. devido às quantias que eram cobradas pela entrada e por anuidade.16 Dois casos ilustram bem o que reza esse documento. a irmã Zeferina. rogava aos oficiais que obtivessem sua liberdade. do ano de 1764.

As cartas de alforria eram instrumento legal. de outro. os pedreiros e até mesmo os simples jornaleiros. por sua generosidade e. bafejados pela sorte. isto é. A fim de evitar contestações. as modalidades e as condições dessa libertação. ou.. pelos bons serviços prestados a si e à sua família. As cartas de alforria nos fornecem vários dados interessantes: o nome do escravo que estava sendo libertado. após sua morte. No período em apreço.19 (MORAES. gratuita ou onerosa. Eram as tais Cartas. caracterizavam-se por ser um acordo firmado “inter vivos”. de um lado. p. redigido por um tabelião. filiação.Cristina Cássia Pereira Moraes acumular um certo pecúlio para comprar a sua alforria18 e tal era o caso dos que exerciam ofícios específicos como os alfaiates. p. para assegurarem suas vantagens.. 659-695) No segundo caso. isto é. cor. para garantir seu direito. aos escravos pelos senhores era sempre tida na conta duma dádiva de sua parte. cujo anseio principal fora alcançar a liberdade.. o senhor estipulava em testamento que. mas não registrado. ou um documento particular.burlavam a lei. ou “a conquista de um favor no céu”. à situação de homem livre. 1973.. herdeiros não respeitavam as decisões. Mattoso20 observa que “se tornou hábito que o documento seja registrado em cartório em presença de testemunhas” (1992. comerciavam-nos em outros lugares”. Raramente encontramse dados sobre a profissão do senhor. Isso os 210 Revista Brasileira do Caribe. os motivos pelos quais era alforriado. 177). entre o senhor e ele. No primeiro caso. porque estavam a buscar uma “graça divina”. ou eram públicos. o escravo passava ou simplesmente sub conditionibus. a idade e o ofício do liberto. VIII. em caso de eventuais dúvidas. podiam ser a “expressão da última vontade do dono”. vir a obter a manumissão de seus senhores ou a coortação. apossando-se dos escravos e. Mas “os. tal ou tais escravos deviam ser libertados. a concessão da carta de liberdade ou de alforria. mediante o qual. sua origem. quando registrados em cartório. O documento ficava em posse do liberto. vol. vendiam-nos a terceiros e de preferência. Goiânia. sua moradia na cidade ou no campo. os nomes das testemunhas e a data do registro em cartório. motivada. n° 15 . Todos esses dados reproduzem a vida dos alforriados.

isto é. as condições do contrato eram cumpridas tal como foram originalmente acordadas. 2007 . particularmente para as crianças. determinar as condições para o pagamento. o senhor do escravo registrava esta observação na própria carta de alforria. porém./dez. aquela sob condições. e os motivos dos proprietários. Essa revogação poderia ser feita por terceiros. o pagamento da alforria era efetuado por outrem. quando se tratava de cartas de alforria onerosas. p. No entanto. as cartas de liberdade trazem prazos que vão de dois a cinco anos e o escravo vivia uma fase de transição entre a liberdade e a escravidão. Parece provável que parte das alforrias gratuitas tivesse relação com ligações afetivas” (1999. herdeiros ou um procurador do falecido proprietário. Observa Aguiar que “as relações familiares representavam importante elemento neste processo. nas suas qualificações. era baseado na saúde do escravo. na maioria das vezes. no entanto. Muitos senhores estipulavam o valor a ser pago. o escravo devia pagar por sua liberdade. sem. em alguns casos. a maior parte deles estipulava o valor fixo das parcelas e sua regularidade. ao que tudo indica. referido no contrato. Um outro tipo de alforria. certa segurança quanto à percepção da quantia acordada. O valor pecuniário do escravo e sua alforria. assegurando desse modo. Entretanto. consistia em o escravo obter uma semi-liberdade. No caso de retaliação posterior. Na Capitania.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII levou a denominar esse ato de “boa ação pela fé”. o pagamento pela liberdade era feito a prazo. os prazos constantes dos documentos desse tipo. Em Goiás. No entanto. 211 jul.Mas a alforria. oscilavam entre dois e cinco anos. a situação do coartado se tornava particularmente delicada e. ou seja. Concernia a escravos adultos e. ou de uma só vez ou em várias prestações. gratuita ou onerosa. se o senhor morresse. eram subjetivos. raramente. em idade produtiva. porquanto. 16) . no sexo. A coartação era um tipo de alforria onerosa. na idade. proibiam-lhes reger sua própria pessoa e gerir seus bens. O pagamento das parcelas e a definição do tempo de vigência dos contratos variavam e eram acertados entre as partes. porquanto. poderia ser revogada. Poderia consistir na autocompra da liberdade.

1988. tiveram um com o outro. n° 15 . em geral. vol.. os escravos utilizaram diversas formas de resistência. ainda surgiam outros problemas entre o escravo e os sucessores daquele. portanto. se o senhor falecia antes que o mesmo se completasse. igualmente. ou prestando-lhes e aos seus filhos. esmerando-se no cumprimento de suas tarefas. estes protagonistas. de acordo com o que consta do seguinte documento: “Concedo a liberdade do escravo Terthulianno Crioulo de 70 anos gratuitamente 212 Revista Brasileira do Caribe. Muitas cartas de alforria. às rebeliões. 1999. p. de afeto e de intimidade entre senhores e escravos que não apenas contemplaram “os bons serviços prestados pelos escravos”. 21-22). tendo investigado a situação dos escravos na Capitania de Minas Gerais. decorreram. lavadeiras e etc. a revogação unilateral do contrato (1999. “serviços especiais” em seus leitos: Na realidade de jogos singulares de poder e sedução. ou por causa dos serviços regulares que prestavam. especialmente as gratuitas. que ocupavam lugares institucionais tão diferentes. eles souberam aproveitar das oportunidades. então. com vista ou a obter a alforria ou a tornar sua vida mais suportável. VIII. De fato. por exemplo. diretamente os corpos do senhor e do escravo. p. 75). às fugas. as relações sexuais e filhos. favorecidos por situações que envolvem. o senhor não efetivava a sua libertação. a convivência estreita na mesma casa e até no mesmo quarto. decorrentes dum relacionamento mais próximo com os seus senhores. Aguiar ressalta que a flexibilidade era a regra no pagamento das parcelas da coartação e na definição do tempo de vigência dos contratos. entretanto. como amas-deleite. cozinheiras. o cuidado e a amamentação das crianças brancas pelas amas. Como sabemos. recorrendo às sabotagens.Cristina Cássia Pereira Moraes ainda que as parcelas fossem pagas pelo coartado. a entrar na justiça para reivindicar o seu direito (AGUIAR. (BELLINI. Goiânia. muitas vezes. como a preparação da comida dos proprietários pelas escravas. Mas. 22-25) . dessas relações de cumplicidade. obrigando-o. p.

ainda iria continuar a trabalhar para seu antigo dono. um escravo de nome Ignácio Crioulo. ele era estimado pelo seu dono. o liberto. Capitão Felipe Rodrigues Lisboa. abaixo assignado. importa ressaltar que. nascera em casa dele e. Em alguns registros de óbitos. consta a sua condição de coartado: Aos dez de Dezembro de mil oito centos e quatro falesceu com os Sacramentos da penitencia..)23. ou os nascidos nas casas senhorias (LEITE. p. e extremaunção João Mina esravo coartado da heransa do falescido Jeronimo Gomes: seu corpo foi amortalhado em pano branco. sendo o pagamento à vista pela minha livre e espontânea vontade. 2000. e sepultado no Adro da Capella de Nossa Senhora da Penha de Jaragua. pelos bons serviços que me tem prestado”21. ainda convém observar que. embora a maioria dos senhores de cativos usasse a palavra “gratuitamente” nas cartas de alforria.22 O documento abaixo comprova o que afirmamos: Eu. ficando o restante a ser pago pelo dito escravo. durante certo período de tempo.. em troca de alguma remuneração. Todavia. embora possa parecer paradoxal conceder liberdade a um escravo em plena idade produtiva.69) mas. se estenderam para além do mero ato de obtenção da liberdade. devia prestar algum tipo de serviço ao seu ex-dono quem não era tão magnânimo quanto aparentava ser. neste caso como em muitos outros semelhantes. as mesmas aludem a pagamentos e às obrigações da parte dos escravos./dez. pelo valor da primeira parcela de cento e noventa e oitava de ouro. que concedo a liberdade pelos bons serviços prestados.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII pelo valor de uma oytava e meya. Por outro lado. havendo a Encommendação do costume. pelo amor que lhe tenho e por ele ser cria da casa. tudo leva a crer que. devido a essas circunstâncias. Na verdade. do 213 jul. 2007 . que entre os bens que possuo. após sua liberdade. recebendo sua liberdade após o pagamento de sua dívida (. no tocante a ex-escravos.

n° 15 Co Re m un Co ar ta . enfim. os senhores consentiam naquela situação de facto 214 Revista Brasileira do Caribe. diz respeito a eles poderem ter escravos para os ajudar nos serviços que faziam ou vir a substituí-lo. o que se passava era o seguinte: face à predita segunda hipótese. relativa ao escravo ou ao liberto. fazer testamento27. no mínimo contraditória. sujeita de direitos. Ora. vol. muito comum no Brasil do século XVIII. bem como para burlar o imposto de capitação. caso conseguissem recursos para obter a alforria. VIII. não sendo reconhecido como pessoa. Goiânia. 17551798) Uma outra situação.Cristina Cássia Pereira Moraes que fiz este assento”. de acordo com a legislação em vigor. possuir quaisquer bens etc. Na verdade. ser tutor29. com a qual nos deparamos ao fazer esta pesquisa.O Coadj or Joaquim Glz´ Dias Goulão.25 Alforrias 1794-1810 70 60 50 40 30 20 10 0 as da as as s total ui t at ad ul us Gr er c la m Gráfico 7– Tipos de Alforrias (AFSD: Documentos avulsos: Cartório do 1º Oficio: Testamentos. herdar28. ao escravo era proibido ser testemunha26.

p. As condições sócio-econômicas e religiosas do escravo na Capitania de Goiás e a perspectiva de libertação que se lhe abria. 215 jul. ao serem trazidos do continente africano. Não perdendo de vista as observações de Aguiar (1999.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII mas. pouco foi preservado. em troca de sua liberdade e da de seus filhos. desfigurada por causa de muito tempo de descuido e por incursões de traças. meia libra de ouro: Aos 25 do mez de 7bro de 1792 – neste consistório de N. de 1792. arrematamo-las apresentando um documento bastante ilustrativo sobre isso. a pagar ao seu senhor. do Rosário e cumprir com suas obrigações pecuniárias é o sinal concreto de solidariedade e caridade cristã entre todos os membros. José da Silva Porto. inclusive os nascituros. ao se associarem às irmandades.Sra. tendo condições de associar-se à Irmandade de N.S.30 Por conseguinte. 95). em nossos arquivos a documentação sobre os cativos – quando a encontramos – aparece mutilada./dez. pelo prazo de cinco anos. conservavam a propriedade sobre tal escravo de escravo. Trata-se dum Termo de Mesa da predita Irmandade. camufladamente. Raríssimas vezes conseguimos encontrar os documentos em séries completas. em que os irmãos decidiram assumir e pagar a coartação da irmã Maria Benguela. a qual. de jure. 2007 . 28) a propósito. os escravos negros encontraram nelas um importante espaço de reorganização e reconstrução duma solidariedade étnica que se perdera. Infelizmente. indicando o irmão Antonio de Melo e Vasconcellos como seu fiador. 1993. se comprometia. fazendo valer seus direitos em pendências judiciais (ARAUJO. p. Por mais que a Igreja Católica tenha se preocupado em registrar os acontecimentos. do Rozario estando prezente o nosso Juiz e Escrivam e mais irmãos da meza concordaram q a irmã Maria Banguella posuia o direicto a quartação acertada em cinco annos com o fiador Antonio M Vasconcellos por meia libra de oiro o erão taobem a sua moleca de 5 annos mais ou menos.

pois mesmos os recém-chegados da África não eram impedidos. vol. p. por outro. É importante destacar que a maneira do preto manifestar a sua devoção causava temor e incomodava aos brancos pelo apego às “exterioridades das celebrações”. algumas semelhanças entre elas possibilitou um estreito diálogo32 e a circularidade cultural33. ao mesmo tempo. concomitantemente. parecem contraditórias e inconciliáveis. os quais. Não pudemos perceber obrigação. por um lado. de se tornarem pseudo-católicos31 fervorosos e convictos dos dogmas da fé cristã. n° 15 . 216 Revista Brasileira do Caribe. cultuada tanto pelos índios como pelos africanos. os pretos eram capazes de conciliar coisas que. p. O certo é que. 3-4). 115-116). possibilitaram-lhes tomar consciência de sua unidade étnica e proporcionaram-lhes expectativas transcendentes que minimizavam seu sofrimento interior e exterior. para os de fora de sua cultura. 1994. formularam e atribuíram novos significados à sua religião e ao catolicismo. o culto aos santos se relacionava de modo coerente com muitos mitos religiosos africanos. tendo presente o contato que estabeleceram com as tradições dos índios e a dos luso-brasileiros. recusando sua situação de inferioridade. Com efeito.Cristina Cássia Pereira Moraes Ademais. por exemplo. os africanos depois de trazidos à força de sua terra natal e inseridos na sociedade luso-brasileira. Goiânia. de praticarem suas crenças e. reconhecido como o orixá Ogum. conveniência ou compartimentação entre o catolicismo e a sua africanidade. do ponto de vista deles. mas. tais como o de São Jorge. faz-se pertinente analisarmos a força da religiosidade dos pretos cativos. a identificação se dava inclusive pela divinização de elementos da natureza como a mata. No primeiro caso. mas de forma alguma sua religiosidade podia ser considerada como superficial e de aparência. que os brancos é que não sabiam exteriorizar a sua fé. (JULIA. VIII. No segundo. no tocante à religiosidade original dos negros. tendo em vista a total impossibilidade de regressar às suas origens e. o politeísmo africano se identificou com o politeísmo indígena e com o culto aos santos católicos. pois conforme observou Quintão (1997. é provável.

quanto à maneira como veneravam Nossa Senhora do Rosário. pregam o evangelho e se tornam santos (HURBON. o mundo religioso dos escravos africanos era avesso ao profano e sua crença apoiava-se na simbologia do sagrado. admirado com a fervorosa religiosidade dos cativos. em 1722. fornecem dados preciosos. se recusando a partir. com muita perspicácia. Infelizmente. deixados pelos religiosos. 2007 . como os católicos. em geral. efetivada nos vaticínios. os manda para a Guiné. p. se entrega a feitiçaria e se transforma em Lúcifer. Deus envia a terra doze apóstolos. hoje. o trabalho dos investigadores (MUNANGA. comentando: “as maravilhas de Deos. sortilégios e magias. que Deus é a chave da abóbada que sustém todo o sistema dos espíritos e de todas as práticas desse culto. os registros que alcançaram nosso tempo. Eles se multiplicam e se transformam nos loas. Em seu orgulho eles se rebelam contra Deus que. que parece huns doudos de contentes”: 217 jul. dos anjos e dos santos dados aos homens como seus guardiões e protetores./dez. Deus envia doze apóstolos que se comportam melhor. grupos como os iorubás ou gegês acreditavam. essa lacuna documental prejudica. com exceção de um que. 47). no catecismo.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Outrossim. e como. Apesar disso. nos cânticos e nas orações como o criador do universo. Mais tarde. como castigo. frei Agostinho de Santa Maria ressaltava a generosidade dos mesmos nas celebrações das festas. eles também preferiram guardar silêncio e continuar praticando seus rituais misturados ao Catolicismo. 102-107) Para mais. alem disso. pois faz com a sua devoção se alegrem tanto os pretinhos. só muito dificilmente se distingue do Deus do catolicismo à medida que este sempre foi representado na pregação. porém. 1987. os favores e mercês da Maria Santíssima. os senhores não tinham interesse em saber nada a respeito de tais crenças. De fato. 1996. o agostiniano. Ele é o criador dos espíritos e dos santos católicos correspondentes e. p.

no âmbito da sociedade escravocrata que acentuava a divisão social. e como um meio de enraizamento da comunidade negra nos domínios ultramarinos. o fazem com tanta grandeza. & não tendo nada. por motivos profanos ou seculares. que em tudo excedem aos brancos. 1947.Cristina Cássia Pereira Moraes He muyto para admirar a fervorosa generosidade. uma outra constituída 218 Revista Brasileira do Caribe.. “a integração do homem de cor” – o que podemos chamar de estratégia de convivência harmoniosa ou de “auxílio mútuo”. que possuam. faz-se pertinente buscar a origem da maior devoção dos cativos dedicada a Nossa Senhora do Rosário primeiramente. por excelência junto de Seu Filho Divino. isto é.34 Outrossim.. em Lisboa. esmerando-se muyto em levar a vantagem a todos os mais (. os escravos negros provenientes da África erigiram na igreja de São Domingos. em Portugal e depois para o sertão dos Guayazes. VIII. & festejarem à Senhora. com que aquelles pretinhos servem à sua Senhora. não sendo vistas como que estimuladas. faziam com que as festividades em louvor à Virgem fossem quase uma epifania do transcendente que lhes causava imensa alegria. os estudos sobre esse assunto apontam para os fatos de que tais irmandades surgiram face às necessidades de se aliviar as pressões advindas duma sociedade competitiva. Goiânia. perante a maioria branca. n° 15 . Mais recentemente. 86). dominada pelos brancos. meramente. p. para servirem.) (SANTA MARIA. ao lado da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de brancos. e propiciar aos seus membros um lenitivo religioso. vol. Alguns deles asseveram que elas surgiram com os fitos de difundir uma “falsa igualdade”. pois sendo pobres. Outros julgam que elas foram concebidas e organizadas visando a inserção dos cativos naquela sociedade. Estudiosos do tema em apreço não estão em acordo quanto à explicação das possíveis origens das irmandades religiosas das pessoas de cor. Segundo o referido frade. & captivos. as concepções de acordo com as quais Maria era a mãe de todos os desvalidos bem como de Jesus Cristo e a intercessora. A partir de 1520.

que he com que hoje ao presente he buscada e servida dos seus devotos pretinhos”. dizendo que tal devoção surgiu quando os escravos foram “fazendo hum ajuntamento e pondo hua mezinha a porta da igreja e depois outra maior e mais dentro a maneira de confraria por onde se vieram alevantar”36. os frades Pregadores ou Dominicanos. se intensificou sobremaneira graças ação religiosa dos Dominicanos.37 Não obstante a sua origem medieval. p. “Sua recitação está intimamente ligada aos mistérios da Vida. 1961. presos e casarem orfaons”. então. se revestiu com uma roupagem nova. Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e as quinze dezenas que se he 219 jul./dez. Tridentina e institucional. do Rosário. como ocorreu no Porto. Sacramento. os brancos a abandonaram completamente e passaram a menosprezá-la. na Península Ibérica. face à ameaça islâmico-turca perante uma Cristandade dividida por causa da Reforma Protestante Rapidamente. que pode ser classificada como sincrética. 1976. p. entre grupos sociais populares. essa devoção encontrou guarida em igrejas e conventos de cidades e vilas e. a nova devoção mariana. 2007 . nessa época. dada a impossibilidade de os mesmos participarem da Irmandade de seus senhores. em Portugal. surgindo assim. nela incluída a recitação do Terço. à época da batalha de Lepanto. ligada a São Domingos e aos seus filhos. mesclada com o popular e afetivo. Alem disso. Entretanto. quando os negros cativos adotaram a devoção a Nossa Senhora do Rosário. A devoção a N. 261) Ela quase se igualou em importância à prestada ao Ssmo. de cento e cinqüenta ave-marias. 39-40) 35 Seus associados portugueses tinham como obrigação “remirem cativos.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII somente por eles. isto é. (SCARANO. as irmandades. também passaram a criticar os frades Dominicanos por lhes terem permitido organizar uma confraria inteira exclusivamente com sua gente. cada uma precedida do Pai-Nosso. ao contrário. aonde a milagrosa Virgem do Rosário era cultuada pelos marinheiros. divididos em quinze dezenas. (ENES.Sra. e consistia na recitação do terço ou do rosário. Os negros. “lhe deram o titulo do Rosario.

1953. n° 15 . Sra. No seu esforço de enquadramento religioso. un peu partout sur le territoire. Goiânia. vol. a Igreja não poupou esforços para integrar o africano. do Rosário de homens “brancos”: Comme nous l’avons observé. se consagram e se dedicam a Nossa Senhora” (AMARAL. Esses observam a vantagem de se congregarem em irmandades por “ser notoriamente o grande proveyto q resultara a conversão das almas q até os Reis Gentios mandavam esmolas para a confraria e pedião retabolos de nossa Sra. assisteront et défendront légalement les intérêts des captifs contre les maîtres. VIII.Cristina Cássia Pereira Moraes devotam constituem rosas que. 18). S. a 220 Revista Brasileira do Caribe. où les noirs auront le contrôle . mas. recém-chegado. p. p.um estatuto próprio que diferia do Compromisso da irmandade de N. 448).de leurs associations. affirmeront leur identité.38 O pesquisador francês Lahon ao estudar a origem das irmandades de N. Segundo o autor acima a ereção dessa irmandade é a primeira do gênero e seu Compromisso data de 1565. Do Rosário”. cette attitude provoque le dédoublement de l’association et la création officielle d’une confrérie noire sanctionnée par des statuts ratifiés en 1565(…) Ces statuts sont le prélude à la création d’autres associations organisées sur le même modèle. conforme o primeiro levantamento populacional de Lisboa realizado por Cristóvão Rodrigues de Oliveira em seu Sumario em que brevemente se contam algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa em 1551: Há neste mosteiro de São Domingos sete confrarias. atraindo-o para as irmandades mais capazes de interessá-lo. em coroa se oferecem.au moins théorique . numa sociedade católica e branca. jamais ce dernier objectif n’atteindra au Brésil les mêmes proportions qu’au Portugal (2001. Or. do Rosário dos Pretos de Lisboa observa que eles foram os primeiros a elaborarem – em 1565 . Sra.

especificamente. São nagôs. Assim. durante a Idade Média. ou seja. são haussás. são bornus. eles a associaram ao culto anteriormente prestado ao orixá40 Ifá. Cabinda e Moçambique. são tapas. recitado pelos irmãos./dez. Sra. período do reinado de Afonso VI (1643-1683) de Portugal. dentre outros. como se fosse um colar. sobre o próprio destino ou sobre a sorte no amor. em Pernambuco. são mandingas. O de Vila Boa é diferente dos “Termos” 221 jul. 2007 . E a confraria de nossa Senhora do Rosário repartida em duas. podemos analisá-la a partir do estudo de seus “Termos de Compromissos”. atirando ao chão. no Recife do período do reinado de Afonso VI. pois o critério de união não é a nação e sim a procedência dos cativos que faziam parte da irmandade de N. do Rosário entre os cativos surgiu à volta de 1662 a 1668. ao seu ingresso na mesma. Sra do Rosário no Brasil. as contas dos rosários não eram constituídas por esferas polidas e iguais. Sra. E outra de pretos forros e escravos de Lixboa. Benquela. cujos sacerdotes desse orixá usavam o “rosário de Ifá” à volta do pescoço. a devoção a N. Quanto à devoção à Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos que nos Guayazes. somente aceitavam negros cativos. soltas ou unidas em forma de rosário as nozes duma palmeira africana chamada OKpê-lifá. reforçando o compromisso de adesão. cuja devoção visava. são jejes.39 No Brasil. De acordo com esse estudioso.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII confraria de Jesus regida por pessoas nobres E principais cidadões. o mais provável é que a primeira irmandade de N. era composta por africanos e crioulos e certamente tomaram como modelo a já centenária irmandade congênere de Lisboa. Angola.41 Geralmente. do Rosário. começavam com uma exortação. a saber. são minas. são bantus. são fulas. Para essa irmandade de Recife em Pernambuco o critério de nação entre os irmãos fica muito claro na documentação. p. Segundo Tinhorão. mas por pequenas rosas esculpidas em madeira (1988. hua de pessoas honrradas. 126-127) . O mesmo não podemos afirmar para a Capitania de Goiás.

Essa Irmandade em geral.. após. passando a aceitar brancos como irmãos. VIII. entre 1748-92.Sra. ao especificar que as irmandades. embora admitisse que brancos pudessem ser devotos de N. Crixás. 11 irmãos escrivãos e 8 tesoureiros letrados se revezaram no exercício dessas incumbências. são as mais eficazes para a conservação dos Louvores dos Santos aos quais se consagram “e(. e só se lembra deque todos forão remidos com o infinito preço de sangue de seu unigênito Filho. São Jose do Tocantins e Trairas. Conforme os dados registrados nos “Termos de Mesa” que pesquisamos. vol. ao contrário das confrarias.. della senão lembrão e a mesma Senhora para os favoresser e amparar de tudo se esquece. se comparada com a dos que viviam no interior da Capitania: Ao primeiro de Mayo de mil e sete centos e setenta e cuatro na Igreja de Nossa Snra do Rozario dos pretos da Vila Boa dos Guayazes estando congregado o escrivam que prezidia pelo 222 Revista Brasileira do Caribe. está escrito que confraria e irmandade é a congregação de muitas pessoas que se sujeitam voluntariamente ao serviço de Deus e de Sua Mãe Santíssima.como May de mizericordia a todos os seus filhos e dovotos. só aceitava pessoas de cor e escravos como membros.42 Nos outros. Entretanto. todos os irmãos e irmãs colherão o fruto da Bem-aventurança”. e ainda a aquelles que pela sua desgraçada conducta. os quais “desde o primeiro dia em que nella se assentarem por serviço da mesma Senhora..) e depois de terem também nesta irmandade participado os copiozos prantos e incomprehensiveis benefícios. Goiânia. a de Vila Boa.. ficão sugeitos atoda a Ley deste compromisso”. n° 15 .) o modo mais concernente para conduzir novos devotos a esta pia congregação e que pela intercessão da Virgem Mãe e Senhora do Rosário na vida eterna. reformulou o seu “Termo”. do Rosário. 1803. o que denota uma condição sócio-cultural melhor dos pretos escravos da Vila43. mercês e favores que cada instante esta. (.Cristina Cássia Pereira Moraes dos arraiais de Pilar...

o seu voto decidiria a celeuma. um juiz e uma juíza. um andador. mas assim mesmo se a Irmandade não quisesse aceitá-los serão “nomeados homens pretos para exercerem os ditos cargos” 45.se propoz que o dito escrivam permanessese no cargo posto ser o mior para a função q exerce juntoa Seu Senhor de caixeiro de fazendas secas dominando as letras e contas.44. No caso da Irmandade de Crixás está explicitamente escrito: Como nosso estado e condição dificulta haverem pessoas capazes e inteligentes para servirem as occupaçoens de escrivão e thezoureiro. 102). p. encontrando-se todas com “a devida dessencia e ornato que se precisa” sem ajuda da fábrica da matriz. aceitavam brancos apenas como oficiais escrivão e tesoureiro “por não dominarem as letras”. em caso de empate na votação sobre alguma determinação.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Irmão juiz. um escrivão. um zelador. um procurador.47 Compunham a mesa da Irmandade do Rosário de Vila Boa. grassava entre os escravos que aí viviam (GAETA. 48 Todos os irmãos escolhidos para desempenhar os mencionados cargos. dos seus senhores. as Irmandades dos mencionados arraiais. O Reverendo Capelão podia assistir às reuniões e.. quanto por causa do analfabetismo que. Os irmãos pagavam duas oitavas de entrada e uma de anual.. tanto por motivos administrativos e financeiros. se procederá 223 jul. de Trairas e de Pilar um rei e uma rainha. acentuadamente.. tinham de obter “o seu beneplácito e consentimento da Eleição e cargo que os seus servos forao nomeados. sirvão dous homens brancos debom nome e inteligência para o governo e direcção da Irmandade em quanto não houverem homens pretos com sufficiencia para os referidos cargos. 1995. 2007 .46 Essas irmandades construíram suas próprias capelas com as esmolas arrecadas com os irmãos. doze irmãos e doze irmãs de mesa. De fato. porque rejeitando o que a mesma Senhora não hade permitir./dez. no ano em que estivessem ocupando cargos não pagavam anuais. um tesoureiro..

51 Aos fiéis pagadores. O rei e a rainha pagavam a anuidade de vinte oitavas cada um.50 Compunham a mesa da Irmandade de Crixás e de São José do Tocantins um rei e uma rainha.Cristina Cássia Pereira Moraes a nova eleição”49. VIII. expirado o prazo. Os 24 irmãos e irmãs de Mesa pagavam três oitavas cada um e os demais irmãos. A anuidade cobrada para se exercer os 4 principais cargos era de 24 oitavas de ouro. face ao motivo supra-citado. era o eleito. aquele que tivesse obtido mais indicações para cada posto. o tesoureiro. Embora a reeleição para tais cargos fosse proibida. o rei decidia com o seu voto. apurados os votos. Irmãos e irmãs votavam secretamente e. dois procuradores e doze irmãos de mesa entre homens e mulheres. sua anuidade. que muitos dos demais irmãos de compromisso não pagavam “religiosamente”. abriam-se exceções. se não quitassem seu débito em três anos. ocorria na oitava de Pentecostes. Aos escravos que obtivessem a alforria e fossem devedores “deva cobrar executivamente”. a qual. seriam convocados perante a mesa para acertarem a quantia devida no próximo ano. exceto se o procurador justificasse que o devedor vinha passando por algum infortúnio e a mesa deliberasse postergar a quitação da dívida por mais um ano. o juiz e a juíza pagavam dezesseis oitavas. o procurador e o andador nada pagavam. O escrivão. n° 15 . um juiz e uma juíza. Goiânia. Em caso de empate. o escrivão. designados por irmãos rasos pagavam uma oitava de ouro. por exemplo. Constatou-se na documentação examinada. era justo que “selhe facão todos os suffragios por sua morte”. vol. bem como pela dedicação da pessoa ao exercê-lo. As eleições para os citados cargos eram realizadas na véspera da festa de Nossa Senhora do Rosário. prevendo-se até um interstício de 3 anos. um escrivão. geralmente. Se. um tesoureiro. continuassem devedores.52 224 Revista Brasileira do Caribe. O rei apresentava à mesa três pretos capazes de exercerem o ofício de rei e demais cargos. o tesoureiro e o procurador nada pagavam “pelo grande trabalho que tem nas referidas occupações”. seriam expulsos. o que obrigava as Irmandades a tomarem algumas providências. O procedimento em todas as Irmandades era bem simples.

2007 . seria penalizado. 44-46) . Constam de todos os “Termos de Compromisso”. todos os sábados. os demais oficiais. sem a autorização da mesma e.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII O capelão guardava os resultados consigo e. os reis e rainhas. o juiz também tinha os encargos relevantes de cuidar da boa paz e sossego entre os irmãos. Ademais. do Rosário. apesar de se vestirem à maneira do branco. no interior de suas comunidades ocupavam posição eminente e. tinha as seguintes obrigações: rezar missas pelos irmãos falecidos. Quanto aos deveres dos dirigentes dessa Irmandade. Aliás. à de Crixás. rezar o terço aos domingos. No outro dia. o juiz e a juíza vestiam-se com opa e portavam a vara e. sempre estarem junto ao altar-mor. arregimentar um número maior de associados e convocar as 225 jul. 1976. os juízes e juízas tinham de “tirar esmola com a Bacia”. Era-lhe proibido modificar o “Termo” da Irmandade. no que concerne à de Vila Boa. na Vila e arredores e nos arraiais e adjacências. rezar a Ladainha de N. dançavam suas próprias danças próprias e cantam suas músicas ancestrais misturadas com as letras de cantos católicos (SCARANO. com o pagamento de uma multa pecuniária. se tributavam homenagem e respeito. por auto-iniciativa. delas já participavam revestidos com todas as insígnias de Majestade53. foi nas festas dessa Irmandade que os escravos mantiveram um bom número de seus antigos costumes e tradições. se viesse a fazer isso. cujo valor era de “hua oitava do que tudo se ajustar”54. em 1 de janeiro. a ponto de./dez. no tocante à sua remuneração pelos serviços religiosos que tinha de prestar. p. os quais. entregava-os ao sacerdote pregador da festa que os proclamaria após o sermão em louvor a Sra. que o capelão da Irmandade. na continuação das festividades. posto que é o dia consagrado em seu louvor. Sra. Somente na de Vila Boa. eleito pela mesa. à de Trairas e à de Pilar. no dia seguinte. o rei e a rainha. vestiam-se com as opas brancas. nas celebrações religiosas. por isso mesmo. como o ritual da coroação de seus reis e rainhas. à de São José do Tocantins. rezar pelos benfeitores da Irmandade e acompanhar à sepultura os irmãos falecidos. começo do ano novo.

o tesoureiro exercia suas atribuições. com a ajuda do escrivão. o escrivão anotava o nome dos irmãos que. radicadas nos arraiais. limpar e inventariar em livro apropriado. apresenta algumas peculiaridades em relação ao da Vila e as outras. radicada nos arraiais analisados. conforme orientação do tesoureiro. Livro da Fábrica . O terceiro cargo em importância nas Irmandades do Rosário era o de tesoureiro. n° 15 . Estavam obrigados a cuidar do asseio da capela e. os rendimentos da irmandade. fazer procurações e segullas até mayor 226 Revista Brasileira do Caribe. o irmão escrivão era o responsável pela guarda e conservação dos livros de registros da irmandade. firmavam o “Compromisso”. o cargo de irmão procurador dessa Irmandade. Em todas as Irmandades. os bens. por exemplo. Num terceiro livro. primeiro ao tesoureiro e. vistas nos capítulos anteriores. aqueles provenientes das “esmolas de bacia” e outras mais. administrar as obras de construção ou de restauração sob encargo da mesma. bem como. ao seu ingresso. Entretanto. Num desses livros. Goiânia. o escrivão registrava as eleições e “accordaons” ou termos de mesa. Do “Termo de Compromisso” da irmandade. consta a proibição de o tesoureiro não poder emprestar a ninguém nem ouro nem os bens pertencentes às mesmas. ao procurador. “declarava por cota ao pé do mesmo assento todos os annuais” devidamente registrados. cuidar. em caso de falecimento ou ausência de algum irmão. prática essa comum entre demais irmandades. vol. anotava as receitas e despesas da irmandade. inclusive. cujas incumbências eram guardar e anotar nos livros apropriados. os ornamentos e as alfaias pertencentes à mesma.“ E concede ao thezoureiro e Procurador os poderes em direito necessarios para todas as dependencias da irmandade em Juizo e fora delle e para intentar cauzas. depois.Cristina Cássia Pereira Moraes reuniões necessárias ao bem da irmandade. no seu impedimento. Ele ocupava o segundo cargo mais importante da mesma e. da lavagem das alfaias utilizadas na celebração da missa e das opas dos demais irmãos.55 Noutro. Apenas a de Crixás delegava poderes de “fato e direito”. uma espécie de ata do que havia sido discutido e decidido em reunião. inclusive. defendellas. VIII.

para que no Livro dos Assentos para não só anotar o falecimento de algum irmão. No entanto. no “Juízo de Órfãos e Auzentes”. embargar e seguir a sua justiça ate mayor alçada”.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII alçada”. no mínimo curioso. tratando de outras Irmandades./dez. com idêntica devoção. diz respeito à condição dum pretinho escravo oferecido à Nossa Senhora do Rosário: Aos trinta dias do mes de setembro de 1759. que o procurador Manuel Gomes Alvarez admoestasse os irmãos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Crixás a respeito de um ofício emitido pelo Padre José Maria Santana Fernandes sobre as “dansas supersticiosas que os ditos pretos divididos em Nasçoens e com instrumentos proprios de cada hum.57 Pode-se notar a ligação e a ascendência da Irmandade do Rosário da Vila sobre as demais congêneres. bem como ajudar o irmão escrivão.59 Um outro fato. aggravar. conforme tivemos a ocasião de ver. Também devia cobrar a anuidade dos irmãos devedores. a partir dum acontecimento estreitamente vinculado às práticas religiosas sincréticas dos pretos. dansão com diversos movimentos do corpo”. o procurador da Irmandade de Vila Boa a representava junto ao Tribunal da Real Fazenda. tendo os direitos de “appellar. por razão análoga. as responsabilidades do procurador. face ao motivo que aludimos antes. 2007 . determinou que o procurador não consentisse que tal fato continuasse a ocorrer na “irmandade irmã porque os envolvidos seriam remetidos aos seus Prelados para que este os corrigissem como mereciam”. equivalia às incumbências dos zeladores. registrado no Livro de Termos de 1791.56 Ora. estando o escrivão 227 jul. Os irmãos deliberaram e decidiram em reunião. no tocante às demais. que ressalta a importância do cargo de procurador da Irmandade do Rosário da Vila. como nos arraiais homens brancos “ornados e de bons costumes” ocupavam os cargos de escrivão e de tesoureiro. bem como “passará recibo do dinheiro q receber dos alugadores das cazas e apresentar em Meza o q se fizer preciso”.58Outrossim.

para além desse 228 Revista Brasileira do Caribe. estavam ligadas à da Vila. eleitos para a mesma. somente o procurador podia ser incumbido desse ônus. se prometia ao prezente. concernentes à legislação e ao compromisso. se propoz o que faser com hum cabrinha dado a Nossa Sra do arraial de S.Cristina Cássia Pereira Moraes e mais irmaons da meza do anno nesta Igreja de Nossa Sra do Rdo de Villa Boa dos Guayazes. nos relativos às dos arraiais. se não vendesse e só o deixassem tomar carne para depois o vender por mayor quantia q. da leitura e análise de todos os “Termos de Compromisso” das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário.60 De fato. ainda constatamos algumas particularidades que convém destacar. de bons costumes e bastante devoto. E tomados os votos assentarão q. cujas incumbências principais consistiam em guardar as chaves da capela e cuidar do seu asseio bem como de seus ornamentos e guisamentos. de onde partiam as normas e resoluções pertinentes aos interesses comuns de todas elas. pois. a saber. as Irmandades devotas dum mesmo orago. No concernente à Irmandade da vila. tinham as obrigações de zelar por tudo o que condissesse ao bem e ao aumento da irmandade. vol. porquanto apenas ele tinha competência para fazer “o mais em que se precisa especial e geral mandado de representação”61 e o moleque ou podia ser reivindicado por algum suposto dono. n° 15 . ou pertencer a algum espólio de herança ou. Era um assalariado da irmandade e escolhido em mesa. antes. ainda. igualmente. ser um homem probo. Quanto aos demais irmãos de “mesa” das irmandades em apreço. não há um capítulo sobre como proceder. tratando de outras Irmandades. tentar fugir. de usarem a opa branca em todas as cerimônias que a mesma tivesse de estar presente. Jozé.64 Finalmente. por maioria dos votos dos irmãos.63 Devia. em caso de eventuais modificações que. existentes nos arraiais. 62 Só na Irmandade da Vila havia o cargo de zelador. Ambos os documentos reforçam nossa tese. Goiânia. por ventura se fizessem necessárias. de acordo com a qual. VIII. como tivemos a ocasião de verificar.

Entretanto. tendo em vista a devassa aberta contra os mulatos da Irmandade de São Benedito. esse fato contribuiu para que. o 21º. tendo sido apenas irmãos de devoção que.65 Posteriormente. por esse motivo. ao menos teoricamente. terá contribuído para aumentar o número de devotos de Nossa Senhora do Rosário. Quais os motivos que levaram os brancos a ingressarem nessa Irmandade após 1805? Como observa Scarano. já no início do século XIX. o que pode ser aceito como hipótese. às leis da Irmandade. como os outros. o que. pensamos que. a presença de brancos passa a ser preponderante. sobre a Irmandade do Senhor dos Passos de Vila Boa. conquanto isso não tenha implicado em que eles tivessem passado a ocupar os cargos de direção da mesma./dez. em determinadas ocasiões. 2007 . os quais. como a igreja Matriz continuava a ruir aos poucos e era necessário encontrar um outro lugar para a celebração do culto. sexo ou condição. aquela Irmandade passasse a usar a capela do Rosário dos Pretos. o texto frisa que os negligentes com seus deveres pecuniários não gozarão desse favor. deixaram de pagar suas mesadas. No entanto. a Irmandade da Vila passou a aceitar irmãos de qualquer idade. por “estado de pobreza”. quando vierem a falecer.66 229 jul. igualmente. embora não deixassem de invocar para tanto razões piedosas.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII capítulo. certamente. se sujeitavam. Há ainda um outro capítulo sobre os sufrágios pelos irmãos que. conforme vimos no capítulo anterior. os irmãos observam: “que as vaidades do tempo são impessptiveis (sic) ao entendimento humano e pode acontesser a estas minas cresserem ou deminuirem as riquezas em que seja necessario deminuir ou agmentar as Leys do compromisso”. parece inegável que a sua presença representava uma forma de controle sobre os escravos. Em seu Livro de Receitas e Despesas. terão à celebração de duas missas por suas almas.

n° 15 . “Das diferenças raciais passa-se pouco a pouco a uma acentuação maior das distâncias sociais independentes da cor da pele e ao aumento de pretos e pardos livres”. doRosáriodosPretos deVilaBoanoiniciodoséculoXIX 30 25 20 Pretos liv res 15 10 5 0 1800-04 1805-09 1810-14 Pardos liv res Brancos Gráfico 8 – Devotos de N. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1816). foi adquirindo novas características. Goiânia. VIII. O fato é que. vol.Cristina Cássia Pereira Moraes DevotosdaIrm andadedeN. 1975. Sra. no século XIX. gradualmente. 129-142) 230 Revista Brasileira do Caribe.S.(SCARANO. a Irmandade já não conservava a antiga rigidez e. Do Rosário no início do século XIX. Sra.

São Paulo: Companhia das Letras.a questão da democracia racial: ARAUJO. 4. In: NOVAIS.as questões historicamente construídas entre mestiçagem e branqueamento: SCHWARCZ. São Paulo: Companhia das Letras. 1993. 5. (Org) Estratégias e políticas de combate à discriminação social. por exemplo. Antiracismo: coletâneas de leis brasileiras (federais. 6. pp. 1994.a questão do mito fundador das três raças: DA MATTA. v./dez. Nelson 231 jul. quanto aos ex-escravos alforriados pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. Rio de Janeiro: Editora 34. Fernando (Coord. Relativizando: uma introdução à antropologia social. estaduais e municipais). Roberto. In: MAIO. 3.) História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. tanto do ponto de vista dos recursos econômicos. Aqueles a quem foi negada a cor do dia: as categorias cor e raça na cultura brasileira. ciência e sociedade. competiam em igualdade de condições com pessoas mais bem aquinhoadas pela sorte. pp. MAGGIE. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo/ Editora 34.A questão da cor: SCHWARCZ. Marcos Chor.) Raça. Racismo e anti-racismo no Brasil. 1987. São Paulo: EDUSP. mantinham suas capelas em grande ordem e limpeza. passaram a pertencer às Irmandades que aceitavam os forros. sempre foram elogiados pelos Visitadores eclesiásticos que reconheciam que. 1996. demonstrando um desejo de se igualarem aos forros. 1996. (Org.4. Ricardo Ventura. Helio. 1998. 225-234. instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. Por isso. Guerra e paz: Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. Yvonne. Ricardo Benzaquén de. Nem preto nem branco. L O espetáculo das raças: cientistas. Rio de janeiro: Rocco.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Enfim. VALE E SILVA. Rio de janeiro: FIOCRUZ/CCBB. bem como os seus Livros. Lilia. 2. apesar de desfavorecidos. muito pelo contrario: cor e raça na intimidade. a de São Benedito. 173-244. 1999. a de Nossa Senhora das Mercês e a de Santa Efigênia.a questão da invisibilidade do negro em espaços sócioculturais e políticos: MUNANGA. SILVA JR. 2007 . Antonio Sergio Alfredo. Os irmãos cativos que não conseguiam obter a liberdade. quanto de um relativo otium cum dignitate Notas 1 Para entender as relações raciais historicamente construídas no Brasil consultar os descritores que analisam: 1. 1998.a questão de anti-racismo: GUIMARAES. Kabengele. SANTOS. São Paulo: Editora Oliveira Mendes.

Arquivo do Museu das Bandeiras doravante AMB: Impostos e Dízimos. 98-120. 2005. Uma nota sobre raça social no Brasil.437 escravos e apenas 10% são nagôs. pp. Rio de Janeiro: s. 5º ed. 2005.11 e 12. STEPAN. 3 Instituto de Pesquisas Históricas do Brasil Central doravante lPEHBC: Livro do Registro de Óbitos. bem como. The Idea of race in science: Great Britain 1800-1960. HERNANDES.567. VIII. falavam a lingua umbundo e ocupavam principalmente a província de Benguela no planalto central de Angola. 2 Dos grupos acima citados. p. 67-80. vol. Livro 329. Em 1783 registrou-se 17613 escravos e 40% são nagôs. devido a uma desestruturação interna na região tais como observa HERNANDES.H. v.. pp. São Paulo: Selo negro. registros de batismos e inventários encontramos entre os anos de 1750 e 1783 um aumento substancial no tráfico de escravos nagôs para Goiás. n° 15 . 1803-1810. epidemias e grande número de mortos. 1994.Cristina Cássia Pereira Moraes do. Goiânia. 588: grave seca que ocasionou além de fome. Em 1750 a Capitania possuía 14. Visita à História Contemporânea. 6 A respeito do tráfico. nos termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. 5 Nas matrículas oficiais de escravos pesquisadas por nós. Estudos Afro-asiáticos. Nancy. 1982. In: Microfilmes do C. Arquivo Frei Simão Dorvi doravante AFSD: Doc.e. rolos 10. 1977. São Paulo: Companhia Editora Nacional.D. Arquivo Histórico de Goiás doravante AHG: Documentos avulsos: códice 1129. Leila L. A África na sala de aula. Na maior parte dos registros há um acentuado número de escravos de Moçambique nas primeiras décadas do oitocentos para Goiás. Cuba e os Estados Unidos. 4 RODRIGUES. London: MacMillan University Press. nº 26. avulsos: Termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos 17381792. novas invasões de povos do interior do continente e o aumento do tráfico internacional de escravos para o Brasil. o maior era formado pelos ovimbundos. Florentino (1997) observa que entre 1701 e 1800 foram exportados mais de dois milhões de cativos para as Américas. v. O segundo maior grupo era formado pelos quimbundos e o terceiro era formado pelos bancongos que ocupavam os territórios de Cabinda e as províncias do norte do país. 232 Revista Brasileira do Caribe. p. da USP. Raimundo Nina.1-13. Os africanos no Brasil.5.

op. 22 de Ju1ho 1793. Princeton University Press. 10 (KARASCH. a Vila Boa ou a Natividade. História dos quilombos no Brasil. Uma segunda rota para os comerciantes da Bahia passava pelos registros de São Domingos ou Lagôa Feia a Meia Ponte e. Slave Life in Rio de Janeiro.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 7 Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do tombo doravante IANTT: Mesa de Consciência e Ordens: Secretaria do Mestrado da Ordem de Cristo: Papeis do Brasil: Jurisdição Eclesiástica no Brasil. p.. p. 1792-1799. de seu livro intitulado Central Africans and Cultural. 1996. NJ. GOMES.208: Mary C. no interior de sertão da Bahia. 233 jul. “Os quilombos do ouro na Capitania de Goiás”. Mappa de Contagens de Escravos. foi de primordial importância para nossa pesquisa o capítulo “Central Africans Central Brasil. 9 Agradecemos à professora Mary Karasch que gentilmente nos propiciou todos os dados sobre os escravos na Capitania de Goiás. 1767. 242. São Paulo: Companhia das Letras. 1780-1835”. Gilka SALLES. Outrossim.117151. aonde eram contados e registrados. England. 336. 2002. na Cidade de Goiás e foram compilados por nós e pela Dra. 2007 . Flávio dos Santos. nº 13./dez. finalmente. 1987. p. Cit. e AHU: caixa 24. Mary Karasch. Cruzava o Rio São Francisco em Barreiras. nota 13. Princeton. 8 Censos de 1779: “Tabela 1: População da Capitania Goiás em 1779. posteriormente.123 e entre 1791 e 1799 foram de 1. 162. Cambridge University Press. 127). e p. 1992. p. Karasch. 53. p. prosseguia até o registro do Duro. (Org) Liberdade por um fio. Transformations in the American Diáspora. 24 junho 1768. eram conduzidos a São Félix e. 11 O número de cativos advindos para a Capitania de Goiás por essa rota em 1767 foram 1. 12 Os registros de batismos e óbitos se encontram no Orfanato São José. chegava a Vila Boa. 2002. Códice 15: Capítulo 16. AFSD: Documentos avulsos: Cartório do Primeiro Ofício. 100-101. 1808 -1850. João José. Capítulos da Visita: “Por ser obrigação nossa e do Officio Ecclesiastico Ordinário mandamos ao Vigário Ouvidor da Vara q hé e ao diante for nesta Vila q chegando aqui algum Navio ou barco de qualquer parte q venha o vá visitar como se faz em todos os portos de mar do reyno e saiba a gente q traz e de q religião e Nação são e q livros trasem e sendo depois da quaresma se se hão desobrigar no lugar donde vem”. Depois. documento 1518. Karasch. Mary C. A rota percorrida pelos cativos de Salvador para Vila Boa passava Cachoeira. In: REIS. p.

16 Arquivo Histórico Ultramarino doravante AHU::Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 15 Todos os dados referentes ao Livro de Óbitos de Meya Ponte foram transcritos pela estudante do curso de Historia da Universidade Federal de Goiás Maria Lemke Loiola. 234 Revista Brasileira do Caribe. VIII... vol. nem attente daqui em diante fazer escravo os referidos indios..) 14 Arquivo Geral Diocese de Goiás. Goiânia. 17 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. livro 3. 1777: códice 1814: Capítulo 3.(. vendellos.Cristina Cássia Pereira Moraes 13 Biblioteca Nacional de Lisboa doravante BNL: Reservados 1972 5v: Breve do Papa Benedito XIV sobre escravidão dos índios do Brasil. se achão agora principalente nessas regiões do Brasil homens que fazendo profissão da Fé Católica vivem tão inteiramente esquecidos da Caridade insufa pelo Espirito Santo nos nossos coraçoens e sentidos que reduzem a cativeiro vendem como escravos e privão de todos os seus bens não só aos miseraveis indios que ainda não allumiou a luz do Evangelho.) mandeis afixar Edictos publicos pelos quaes apertadamente se prohiba debaixo de Excomunhão late sentente (. Parágrafo 6º. Goiás. transportallos ou por qualquer modo privallos da sua liberdade e retellos em escravidão. que fossem metidos em cárcere. e fazendas.1792: Termo de concentimento da Irmandade sobre a quartação do irmão Francisco. Orfanato São José. que os sujeitassem a escravidões e que lhes maquinasse ou fosse dada a morte. comprallos. despojallos de seus bens. trocallos. 20 de dez 1741. (.. 1748.. p. mas até os mesmos que já se acham batizados e habitão nos Sertoens do mesmo Brasil.. p. Batizados..134 e 134v. 1794 -1834.) se atreva. levallos para outras terras.) e depois das constituições em que ordenarão que se devião socorrer os infieis no melhor modo. (. tudo o referido não obstante. prohibindo debaixo de severissimas penas e censuras ecclesiásticas que se lhes fizessem injurias que se lhes dessem açoites. n° 15 . 1764. ou dallos separallos de suas mulheres e filhos. folha 17v e 1775..169v. PIBIC-UFG – 2001-2003.

19 MORAES . 113. Cartório do 1º ofício de Vila Boa de Goiás. eram crianças ou obtiveram a liberdade. 18 O termo alforria é uma palavra oriunda do árabe ah-horria que significa liberdade do cativeiro. 64. Maria Augusta de S. A alforria era um ato jurídico pelo qual o senhor por sua vontade concedia liberdade ao escravo. p. 23 Livro de notas. se um dos membros do casal é livre. os escravos que pertenciam a toda nação por haverem chegado ilegalmente após a abolição do trafico em 1850. mas cujo senhor parece disposto a alforriálo. ou ainda eram crianças ou obtiveram a liberdade. irmãs.659-695. páginas 112b. São Paulo: Marco Zero/ANPUH.113b: 22 O fato de um escravo ser criança deve ter favorecido a conquista de afeto e atenção especial dos senhores. 2000: 15).. 24 A historiadora MATTOSO. O ex-cativo passava a ter capacidade jurídica e passava a exercer diversos direitos anteriormente inexistentes. madrinha. libertando também o cônjuge legal de um casamento.observa que pai.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII folha 32. acorram em auxílio do parente incapaz de juntar o dinheiro necessário à sua libertação. Além disso. pp. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. 1973. “ O Abolicionismo em Goiás. (LEITE. que têm posses. (BELLINI. muitas foram beneficiadas pela fidelidade da mãe aos proprietários. a legislação definiu algumas normas que influenciavam na aquisição das alforrias.” In: Anais do VI Simpósio Nacional da ANPUH. 1988: 80). marido. irmãos. autorizando a liberdade dos “escravos de nação”. 1988: 80). em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. já adultos. liberta o escravo que encontra um diamante de grande valor e a mesma graça é concedida ao escravo que denuncia seu senhor contrabandista ou fraudador 21 AFSD: Documentos avulsos: Inventário do Capitão Francizco Pr ª Mendez . mãe. 2007 . 20 Somente no século XIX. avós. (BELLINI. isto é. Os escravos alforriados por terem sido criados pelos donos. para ele. liberta a criança “achada” pois presumidamente é livre. Exemplo: José Antonio da Silva abaixo assignado declara possuir entre os seus 235 jul./dez. já adultos.

81. 18 de março de 1793. 1996. 146. “Símbolos da herança africana. tít. São Paulo: EDUSP. 2002. VIII.) Negras Imagens. “pseudocatólicos”. liv. Luis MOTT. 28 Ibidem. libertinos e ateus que apenas por conveniência e camuflagem. da e AMARAL. 1748-1792. 29 Ibidem. (1995: 191). (1997: 175). 3 e livro 4.Cristina Cássia Pereira Moraes bens uma escrava de nome Felicidade de 20 annos. concedendo sua liberdade de hoje para sempre. 4. “católicos displicentes”. vol. freqüentavam os rituais impostos e controlados pela hierarquia eclesiástica mas que mantinham secretamente crenças heterodoxas ou sincréticas. lhe concedo a liberdade pelo amor que lhe tenho. mais como encenação social do que com convicção interior. que aceitavam convictamente os dogmas e ensinamentos impostos pela hierarquia eclesiástica. e por desejar manifestar o reconhecimento pela dedicação prestada e reconhece a escrava como legitima filha. parag. introdução do tít. Por que o candomblé ?” In: SCHWARCZ. Cf: SILVA. fl. 85. do Rosário de Villa Boa. Goiânia. 236 Revista Brasileira do Caribe. p. KARASCH. mas por indiferença e descaso espiritual. 102. Rita de Cássia. os católicos praticantes superficiais”. parag. boa parte dos cristãos-novos. “católicos praticantes autênticos”. livro 4. 81. filha de sua escrava Delfina.195-210. que evitavam os sacramentos e demais cerimônias sacras não por convicção ideológica. 1. parag. 25 IPHBC: Livro do Registro de Óbitos. para evitar a repressão inquisitorial. muitas vezes incluindo em seu cotidiano “sincretismos” heterodoxos. introdução do tít. Letícia V. de S. fl. n° 15 . tít. animistas. faz referência a esse documento. Lilia Moritz e REIS. Vagner G. 29. 1803-1810. livro 4. Maria Banguela.S. 32 Sobre o tema. p. tít. referindo-se ao “panorama” religioso do Brasil. 56. 26 Ordenações. p. 31 QUINTÃO Apud. 92. que cumpriam apenas os rituais e deveres religiosos obrigatórios. Ensaios sobre a Cultura e Escravidão no Brasil. (Org. 4. 27 Ibidem. 102 e 102 v. classificou os colonos da seguinte maneira. livro 4. 30 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de N.

143. Os leigos e o Poder. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Carta dos Mordomos e irmãos da antigua confraria da madre de Deos. 54. Paris: Ecole Des Hautes Etudes En Sciences Sociales. Mary. Christovão Ruiz Rodrigues de. p. Manolo e GOES. O Sumário foi publicado também em 1755. 1987. OTT. Carlos. MULVEY. p. winter.30. São Paulo: Huicitec. 1974. “A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Pelourinho”. Slave in Rio de Janeiro 1807-1850. São Paulo: Pioneira./dez. 2007 . BOSCHI. Esclavage et Confréries Noires au Portugal durant l’Ancien Régime (1441-1830). Sumario em que brevemente se contem algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa. In: Luso-Brazilian Review. p. MS.. Brasília: EDUNB. L.30: Petição dos confrades e irmãos da antiga irmandade de confraria da madre de deos.” In: Hispanic America Historical Review.145. Patrícia A. (Tese de Doutoramento). São Paulo: Ática. p. 1980. In: Clenardo e a sociedade portuguesa do seu tempo. v. E. São Paulo: Companhia Editora Nacional. 2001. BASTIDE. “Black and mulatto brotherhoods in Colonial Brasil: A study in collective behavior. nº 2. Caio C. “Black brothers and sisters: Membership in the black lay brotherhoods of Colonial Brasil”. Santuário Mariano. 17. 35 IANTT: Livro de São Domingos. Lisboa: Pedrozo Galvão.147. 1707 a 1721. O contexto de François Rabelais. nº 6-7. 34 Sobre essas análises ver: LAHON. de Lisboa. 160. Julia. Germão Galhardo. A. 36 Ibid. s/d (Feito Creca de 1551 segundo cardeal Cerejeira. v. MS. In: Revista Afro-Asia. Didier. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. também em 1939 pela editora Casa do Livro e em 1987 pela editora Livros Horizonte. As Religiões Africanas no Brasil. KARACH.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 33 Entendemos a circularidade como uma interpenetração de diferentes elementos culturais a partir dos estudos de Mikail Backitin. 37 Frei AGOSTINHO DE SANTA MARIA. José Roberto. R. MS. 38 IANTT: Livro de São Domingos. 237 jul. FLORENTINO. 1968. A paz nas senzalas. Cambridge: Cambridge U. 1971. J. 1997. 1976. L. P. Roger. Devoção e Escravidão. 1986. nº 4. 39 OLIVEIRA. RUSSELL-WOOD. 1987. SCARANO.

1748. escravo do Alferes Jose Manoel. Leonardo. que serviu por seis vezes. temos como escrivãos. por ocasião da entrada de algum membro. 45 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. 1762:Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. 1748: Capítulo 1: Composição da Irmandade. vol.Cristina Cássia Pereira Moraes 40 Orixá entre os iorubas e nos ritos religiosos afro-brasileiros significa a personificação ou deificação das forças da natureza ou ancestral divinizado que. Coronel Joze Boiz. Luiz. Termo sem titulo legível: página 16. escravo do Vicentinho. em vida. o qual também era Alferes. n° 15 . AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. sem especificar o nome dele. 1762: Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. obteve controle sobre essas forças. João. 41 Documento lido pela irmandade em reunião fechada com os irmãos. serviu três vezes. 1796. Gregorio da Costa serviu por quatro vezes e não aparece sua profissão e somente em um termo de mesa há referência ao seu senhor. VIII. Era um pedreiro empreendedor. escravo do Capitão Dantas. pois arrematava obras e possuía dois escravos e serviu por sete vezes. Goiânia. de São José do Tocantins. era o caixeiro da loja de fazendas secas. é reconhecido como um guia. Theodosio. 46 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. seu Senhor Vicentinho. (a data de ereção é de 1734) 43 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. ou seja. 238 Revista Brasileira do Caribe. o qual serviu por quatro vezes. que serviu por nove vezes de escrivão e tesoureiro. como tesoureiro: Francisco. 1777: Parágrafo 2º. era um compromisso moral e ético assumido por todos os que eram aceitos para participarem da irmandade.1792: como exemplo. escravo do Tenente. 42 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. escravo de Anna Paes. AFSD: Documentos avulsos Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. 44 Ibid.

Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 47 Infelizmente. (TINHORÃO. à volta de 1674 a 1675. Capítulo 5. Capítulo 4º: Das mezadas e sua aplicação. 1762. não temos todos os dados dos termos de assento das irmandades dos arraiais de Pilar. após duas guerras contra os reis do Congo em 1656 e 1666. as mais antigas referências documentadas sobre as solenidades de coroação de Rei do Congo. sob responsabilidade da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário aparecem nos livros de despesa e receita. no Recife. 1796. AFSD. passaram a englobar sob o nome de Angola tudo o que antes se sujeitara ao poder africano vencido no Manicongo. Capítulo 4: Das obrigações dos officiaes escrivão. 1777: Capítulo 4º. 53 No Brasil. 1777: Capítulo 4º. 1777. 49 Ibid. 1796. 55 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. referindo-se ao Rei dos Angolas: os portugueses. Capítulo 15. 2000:88) 54 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Capítulo 3º: Da nova eleição dos officiaes. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. AFSD. parágrafo 5º. thesoureiro. Documentos avulsos. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. Trairas e São José do Tocantins para sabermos o número de irmãos que participavam das associações de pretos. Capítulo 2º: Da mesa e suas atribuições. Documentos avulsos Termo de 239 jul. 52 Ibid. 48 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa.: Parágrafo 4º e 5º./dez. 50 Ibid. procurador. 2007 . Crixás. 51 AHU: códice 1814:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás.

vol.1762. parágrafo 1. 42. AFSD: Documentos avulsos. Capítulo 14. ao serviço divino 64 AFSD. 1748. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. 71v. Capítulo 5: atribuiçoens do escrivão. Capítulo 10. Documentos avulsos. n° 15 . 1762. 58 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. Goiânia. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos de Pilar. 1777: Capítulo 4º. 1796. Capítulo 5: Das obrigações dos irmãos. 59 Ibidem. 63 Guisamentos são utensílios e alfaias necessários ao culto. 1748. 1796. 1796. AFSD. fl. 60 Ibidem. fl.Cristina Cássia Pereira Moraes Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. Capítulo 4: funçoens dos officiaes. 1748-1792. parágrafo 3º. 1762. 56 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 57 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 61 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. Capítulo 2º. Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. 62 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Villa Boa. Capítulo 10. 1777. VIII. 240 Revista Brasileira do Caribe. parágrafo 2º.

Laennec. O contexto de François Rabelais. 1988. Aproximação à matriz civilizacional do ocidente cristão. de um eremitério. São Paulo: Huicitec. 1987. (Org) Festa. Brasília: EDUNB. 2001. ou seja. Os pretos do Rosário de São Paulo. Raul Joviano do. “Festas e rituais de inversão hierárquica nas irmandades negras de Minas colonial. 1953. perto do coro e muito longe do altar principal. T.I e II. ENES. 66 Um dado interessante sobre as nossas congêneres portuguesas: Em Portugal. Capítulo 20.” Actas del II 241 jul.” In: REIS. São Paulo: USP. São Paulo: Paulinas. 102-104. Brasília: EDUNB.75. Todas as irmandades de pretos foram instaladas nas Igrejas de um monastério. 2001. T. 2007 . 447-512. p. João J. Port-au-Prince. nenhuma irmandade composta por homens pretos construiu um lugar de culto.. São Paulo: Brasiliense. Maria Fernanda D. Subsídios Históricos. Cit. Maria Fernanda D.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 65 Ibidem. Mikail. C. São Paulo: HUCITEC/FAPESP: Imprensa Oficial. “Le Vandou est-il une réligion polythéiste u monothéiste?” In: Bulletin du Bureau d’Etnologie. 1961 e HURBON. (Org) Escravidão e Liberdade: estudos sobre o negro no Brasil. 1993. L. BELLINI. 2002. (Tese de Doutorado) AMARAL. Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa. São Paulo: Edições Alarico. 361-396. Lisboa: Centro de História da Cultura. AGUIAR. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. p. Cf. op. abril. Transgressão e transigência na sociedade urbana colonial. p./dez. István. Marcos Magalhães de Negras Minas Gerais: Uma História da Diáspora Africana no Brasil Colonial.” In: KANTOR. Paul E. O deus da Resistência Negra. Idéias Religiosas em História das Idéias. nem mesmo uma capela pequena. de uma paróquia. Vol. p. ARAUJO. JANCSÓ. ENES. “Por amor e por interesse a relação senhor-escravo em cartas de alforria. Cf. 1987. “O Culto da cruz e do sangue na afirmação da Humanidade de Cristo no Portugal de seiscentos e setecentos. LAHON. 1999.18. sempre cercada por outras associações religiosas de branços e localizadas no espaço interior das igrejas geralmente no primeiro altar da esquerda ou direita da entrada.95. Bibliografia AGUIAR. p. BACKITIN. Emanuel. Marcos Magalhães de. Íris. nº 5. O Teatro dos Vícios.

Ponta Delgada: Signo. 61-95. Goiânia: UFG. T. Lisboa: Círculo de Leitores. “ Uma Carta de D. n° 15 . Momento Fundacional dos Direitos do Homem e do Cidadão. “A Reforma Pombalina nos Açores. 2. In: LE GOFF. Goiânia. p.. 115-116. 1983. 2002. I vol. T. ENES. ENES. ENES. Classes. Transformations in the American Diáspora. raça e democracia. Lusitana Sacra. T. “Clero Secular: do século XVI ao século XVIII. Jacques e NORA. Mary. 1997. GUIMARAES. 1998. ENES. Reforma Tridentina e a religião Vivida. 67-81. Maria Fernanda D. Maria Fernanda D. Central Africans Central Brasil.” In: Dicionário de História Religiosa em Portugal. p. VIII. T. ENES.” In: Actas do Colóquio: Pombal e a sua Época.” In : Revista Arquipélago. In: Central Africans and Cultural. T. 1780-1835”. “A Diocese de Angra e Ilhas dos Açores. Dominique. Filipe I sobre o Clero das ilhas dos Açores de 1590. Maria Fernanda D. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.” In: Actas Congresso Internacional de História: Missionação Portuguesa e Encontro de Culturas. Múrcia: 2000. T. 1993. ENES. São Paulo: Francisco Alves Editora.” In: Actas do Colóquio: O Cinquentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Maria Fernanda D. 1999. ENES. José Roberto.Cristina Cássia Pereira Moraes Congresso Internacional de la Vera Cruz. Clara D. 2002. História: Novas Abordagens. 2000. FLORENTINO. Pombal.69 (Dissertação de Mestrado) 242 Revista Brasileira do Caribe. Maria Aparecida Junqueira da Veiga. Lisboa: Círculo de Leitores. Maria Fernanda D. p. “A Proclamação de 1789. T.“A vida conventual nos Açores: Regalismo e Secularização (1759-1832)”. KARASCH.. Maria Fernanda D. Antonio Sergio Alfredo. Tecendo a Liberdade: Alforria em Goiás no século XIX.ª (11). T. ” In : Dicionário de História Religiosa em Portugal. 1991. “A religião: História religiosa”. JULIA. ENES. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo. 1999. Ponta Delgada: Universidade dos Açores. GAETA. Braga : Universitas Catholica Lusitana. p. England. Cambridge University Press. Maria Fernanda D. A paz nas senzalas. 1994. LEITE. “Redes de Sociabilidade e de Solidariedade no Brasil Colonial: As Irmandades e confrarias religiosas. Pierre. vol. 2000.. Ponta Delgada. Maria Fernanda D. I vol.” In: Revista Estudos de História. “As polémicas missões dos anos sessenta de oitocentos em São Miguel. 2000. Franca 2 (1995): 11-36. Manolo e GOES.

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244

A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (17601776)
Maria Lemke Loiola Abstract
The orbital books in churches are sources little explored in the study of slavery. However, these sources contain relevant informations about the life of slaves: origin, cause of death, place of burial, links to religious groups and interpersonal relations. The analysis of these sources can help to understand some of the gaps that historiography of Colonial Goias regarding slavery. The access to eclesiastical sources, orbital books and ecclesiastical visits allow my study to address some issues about the slaves in Meya Ponte (under the name of Pirenolopolis today , Goias , Brazil) between 1760 and 1776. Keywords: Slavery, Social relations, XVIII Century, Dead

Resumo
Os livros de registro de óbitos são fontes pouco pesquisadas para os estudos da escravidão. Entretanto, eles trazem informações importantes sobre as vivências escravas: seu grupo de procedência (SOARES, 2002), causa mortis, lugar de enterramento, associação, ou não, às irmandades, bem como suas relações interpessoais. A análise dessas informações pode contribuir para minimizar as lacunas na historiografia de Goiás colonial referente à escravidão. Dialogando com fontes eclesiásticas, registros de óbitos e visitações eclesiásticas, o presente estudo aborda algumas questões acerca das vivências escravas em Meya Ponte (atual Pirenópolis) entre 1760 e 1776. Palavras-Chave: Escravidão, Relações Sociais, Século XVIII, Morte.

*Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 245-265, 2007

Maria Lemke Loiola

Resumen
Los libros de óbitos de las iglesias son fuentes poco investigadas en los estúdios de la esclavitud. Sin embargo, ellos traen informaciones relevantes sobre la vida de los esclavos: procedencia, causa de muerte, lugar de enterramiento, si estaban o no asociados a hermandades así como sobre relaciones interpersonales. El análisis de esas informaciones puede minimizar las lagunas en la historiografía de Goiás colonial referentes a la esclavitud. El diálogo con fuentes eclesiástticas, libros de óbitos y visitas eclesiásticas, utilizadas en el presente estudio, permite abordar algunas cuestiones sobre la vida de los esclavos en Meya Ponte, actual Pirinópolis, Goiás Brasil, entre 1760 y 1776. Palabras clave: Esclavitud, relaciones sociales, Siglo XVIII, Muerte

Há algum tempo assistimos o revigorar dos estudos sobre a escravidão colonial em suas múltiplas faces, em perspectivas regionais e menos totalizantes como sugeriu Britto (2002). Contudo, nos deparamos com alguns aspectos que podem dificultar nossa “aproximação” a um passado mais dinâmico, mais rico em sua cotidianidade. É o caso das fontes que, para análise de Goiás colonial, estão espalhadas em vários arquivos, além de muitas terem desaparecido nas brumas do tempo pela ação dos homens e dos “papirófagos” vorazes. Entretanto, nem tudo está perdido. A documentação eclesiástica tem sido bastante profícua aos historiadores interessados na vida dos atores sociais de um período mais recuado no tempo. Várias pesquisas têm renovado os olhares sobre a escravidão e nessa temática tem se destacado a religiosidade escrava. Termos de compromissos de irmandades têm trazido contribuições importantes sobre a organização dessas redes de solidariedade.1 Mas, se por um lado os compromissos podem nos ajudar a apreender os fundamentos e preceitos das irmandades, a ênfase na morte e a ajuda mútua ou empréstimo a juros; por outro, não nos dizem muito sobre a quantidade de homens e mulheres que nelas congregavam. Para a região de Meya Ponte2 até o presente não
246 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

A morte branca do escravo negro...

nos deparamos com registros que atestem o número de seus confrades. A preparação para a morte foi algo bastante enfatizado nos compromissos. Boa parte dos trinta e seis capítulos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte dispõe sobre o assunto. Por isso, neste ensaio, proponho os livros de assento de obituários como fonte a ser utilizada para verificar a abrangência e inserção das irmandades de pretos no contexto da escravidão. Assim, pode-se supor que houvesse muitos homens e mulheres preocupados com o bem morrer, buscando essas associações. Entretanto, o livro de assentos de óbitos de 1760 a 1776 nos mostra que do total de quase oitocentos óbitos, apenas 39 foram acompanhados ou enterrados por essas confrarias.3 É certo que os párocos freqüentemente omitiram informações e é possível que o número de acompanhamentos por irmandades aumente, mas seria um aumento pouco expressivo, da ordem de 2% do total.4 Quando compararmos estes assentos com o período de 1803 a 1810, percebemos que seu número dobra. De 1760 e 1776 temos uma proporção bastante próxima entre enterros feitos pela Irmandade do Rosário dos Pretos (17), destes, a metade era de escravos, e irmandades de brancos, como Almas e Santíssimo Sacramento (22); no período de 1803-1810, tivemos um total de cinqüenta e oito acompanhamentos/enterros feitos por irmandades. Nestes sete anos, o número de forros enterrados na capela do Rosário é significativamente superior ao de escravos, somente 10% do total de trinta e quatro enterros feitos na capela do Rosário foi de escravos.
Desse modo, não se pode dizer que para os escravos de Meya Ponte e adjacências fazer parte de uma irmandade fosse questão de vida ou morte. Mas, isto poderia evitar que abusos cometidos por “[...] alguas pessoas esquecidas de toda a humanidade christãa, [que] não escrupulizão em mandar enterrar no campo, e mato, os escravos, q’ lhes morrem, como se fossem animaes brutos, contra o antigo, pio, e Louvavel costume da Igreja

247 jul./dez. 2007

Maria Lemke Loiola

Catholica [...].”.5

Talvez, por isso, as irmandades enfatizassem tanto nos preparativos para a morte. Mas, enquanto uns enterravam escravos no mato, seja por incúria, seja pela situação de pobreza, havia ainda os que recorriam a mentiras para conseguir enterrar um escravo. Henríquez Ferreira Pinto manifestou ao padre Jozé Pires que gostaria de ter seu escravo João Angola enterrado na capela dos pretos por ser este irmão da mesma “[...] o que constou-me depois de ser ter dado a sepultura tal não ser, de que para constar fiz este assento.”6 Teria enganado o padre apenas por ser pobre ou por, mesmo na situação precária, manter relações de afeto com seu escravo? Se existiram brancos pobres, sem recursos que usavam de insólitas estratégias para enterrar seus escravos, também temos notícias de pretos “mina” que superaram a condição escrava e chegaram a fazer testamento e ser enterrado com toda a pompa fúnebre. Tal é o caso de Gaspar,
[...] homem preto forro de nação minna,[...], e Fez seu Testamento, em que declarou que o acompanhasse o seu Reverendo Parocho, e lhe disse no dia do seu falescimento, se podesse ser, missa de corpo prezente, e deixou mais ao alvidrio de seu testamenteiro, lhe mandasse dizer aonde lhe parecer, vinte missas, pela sua alma; e era cazado com Domingas Machado, crioula forra [...]7

Gaspar certamente teve vínculos com a irmandade do Rosário dos pretos. A proximidade de sua cova do altar-mor sinaliza um cargo importante na Mesa administrativa, o que lhe conferia certas prerrogativas. O preço pago para ser enterrado em lugar tão importante na capela do Rosário dos Pretos de Meya Ponte era alto. Gaspar deveria desembolsar vinte oitavas de ouro, caso não tivesse sido irmão “comum”, ou seja, nunca ter tido cargo administrativo.

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no máximo. Pretoz. o que lhe deu mais mobilidade e liberdade para conseguir juntar pecúlio e transcender a condição escrava. Como irmão comum teria direito a cinco missas... o visitador Alexandre Marques do Valle determinava que no segundo dia após haver notícia de doença ou se a enfermidade se mostrasse grave. os párocos deveriam imediatamente administrar os sacramentos: “Porquanto pellas grandes enfermidades q’ cotidiannamente estão dando nos 249 jul. pois muitos deixavam de receber sacramentos pela demora dos padres em percorrer a distância até o moribundo.r qualide [../dez. picada de animais peçonhentos. Embora não saibamos o que levou boa parte dos homens e mulheres da região de Meya Ponte ao óbito. escravoz.. É mais provável que o reconhecimento na sociedade estava relacionado não somente à cor.. supomos que eventualmente ocorriam epidemias. mas pela aparente condição alcançada por Gaspar é quase certo que também possuísse seus próprios escravos. O fato de ter morrido com todos os sacramentos reforça a hipótese. se tivesse sido “juiz de mesa”. que aceitava “todos os fieis aque sua noção incita (.A morte branca do escravo negro.] assim serão admitidos aella Brancoz. Não seria o único a tê-los. a oito missas..)”8 tinha seu próprio escravo. Chamava-se Nicolao do Rozário e foi enterrado dentro da capela. A maioria desses escravos morreu sem sacramentos. Casos de mortes violentas por armas de fogo. Mas as moléstias que ceifavam muitas vidas em poucos dias continuam na obscuridade pretérita. recebera o sobrenome do dono. Provavelmente Gaspar viveu no núcleo urbano de Meya Ponte. De igual modo não podemos chamar estes homens e mulheres libertos de coniventes com a escravidão por conservarem cativos seus semelhantes. mas também às posses. Como ocorria com a maioria dos escravos... teria direito. dois a cinco dias. Houve senhores que perderam dois ou três escravos num pequeno período de tempo. Na primeira visitação eclesiástica (1734). e Forroz (. 2007 . Não podemos afirmar seguramente. Mesmo a Irmandade do Rosário dos Pretos. Seu testamenteiro teria que providenciar vinte.) se exceptua Pessoa algua’ dequalq. raios e “acidentes de trabalho” são sempre descritos.

. e ainda naquelles q’ o não São [. estando distante. n° 15 . ou em qualquer outro lugar onde serviam de comida aos cães9. na forma das Comstituiçoens tit.10 Talvez pela possibilidade de pagar multas por omissão encontramos frequentemente assentos como o de Gregório [. 48 no 204”.. quando cheguei o achei já morto. [.. deve acodir com promptidão. “pela grande distância”. poiz do assento não consta [ilegível] o senhor tinha dado só para lhe não pedir o Estipendio dos sufragios por ser acostumado a isto [. ou Capellão de capella filial. se por um lado 250 Revista Brasileira do Caribe. o vigário Joze Pires dos Santos Souza explicou no assento de Viscencia que “faleceu sem sacramentos por incúria de seu senhor..] nação Mina escravo de Manoel Moreira de Carvalho.. o visitador João de Almeyda Cardozo volta a ameaçar: “Qualquer Sacerdote. será castigado. escravo adulto do referido Basto. no mato ou jogar os corpos dos escravos no rio. [. Decorridos quase cinqüenta anos das palavras do reverendo Valle. destinado na tal paragem. segundo informação do padre que andou dezobrigando aquelle destricto [. Para se eximir de multas e reprimendas.Maria Lemke Loiola escravos. “morreu sem sacramento algum. que for chamado para confessar algum infermo.] o qual morreu sem sacramentos. Segundo o padre. A situação dos escravos não parece ter mudado ao longo do tempo. Goiânia.]”. como porque se por sua culpa morrer o infermo sem confissão..]11 Justificações como estas são ainda presentes em vários registros: “por morrer de repente”. e caminhando toda noite para chegar ao citio aonde se achava o infermo. VIII. e foi sepultado em hum lugar distado na tal paragem.]”12 O dito vigário foi mais longe e não hesitou denunciar Luis Antonio Basto.13 Mas.]”.. como se de justiça fosse a isso obrigado. por que sendo chamado pelas seis horas da tarde. ou impedido o parocho..... digo. O visitador recriminava ainda as práticas comuns de enterrar no campo.. vol. não só por preceito de charidade. que fica distante desta freguezia seis legoaz. Jozé.

) que andando a minerar...”15 Mas nem só de emolumentos e benesses cobradas exageradamente viviam os padres das minas de Meya Ponte.] quando lhe cahio em cima uma pouca de terra. esta informação remete às recorrentes recriminações feitas aos senhores negligentes.. Em 1762. O mesmo tipo de morte./dez.14 Talvez por isso. buscando o próprio sustento ou mesmo tentando encontrar a pepita que lhes daria a liberdade... esses escravos morreram quando trabalhavam por conta própria. Essa subordinação também pode ser vista no capítulo do compromisso da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte que compreendia as obrigações do eclesiástico “[. p. também perdiam seus investimentos. [. não foi muito incomum “[.. leva ao alto preço cobrado pelos párocos por serviços funerários.]. e não houve Lugar para Se lhe acodir com os Sacramentos [. que o cobriu [.. levou até mesmo os oficiais da Câmara de Vila Boa a denunciarem que. as irmandades manifestavam o desejo de manter os párocos como seus subordinados para celebrar festejos e missas. por vezes.] e faltando a sua obrigação Sem cauza Se lhe dezcontara hua 8a por cada vez. em hum corrego lhe cahio na cabeça hum pao..17 Apesar de não sabermos se Antonio.] qualquer Religioso de qualq. 282). conforme lembra Hoornaert (1992.. A taxa tanatológica. em época de epidemias. 2007 .. que para logo o matou.r Religião [. por outro.] Jeronymo nação minna escravo (.. os padres chegavam a enriquecer tal era o abuso com que cobravam os emolumentos..] acompanhara os Irmãos deffuntos com Sobrepelliz asistira as feztas e solenid.]”18 Jozé mina “estava andando a minerar em huma mina.. Os senhores deixavam livres apenas os domingos 251 jul.A morte branca do escravo negro.. Vários deles possuíam escravos empregados na extração aurífera e.e tudo pago pella porção em q’ Se ajustar com a Meza [.. decorrente de acidente de trabalho.. Miguel e Thomé eram escravos africanos. de uma só vez o reverendo José Pinto Braga16 perdeu três escravos enquanto mineravam numa cata..”19 Se os óbitos ocorreram no domingo.es da Irmand. por assim dizer. podemos imaginar que os padres estiveram entre os que não estavam muito preocupados com as condições de trabalho dos seus escravos..

Talvez.Maria Lemke Loiola e dias santos. no rastro dos visitadores eclesiásticos. enfatizavam que a falta de princípios mineralógicos e interesse dos mineiros em melhorar as técnicas de extração levava ao abandono prematuro das lavras. mais perigosamente ainda. de modo que penetravam desimpedidas não só as águas do solo como as águas pluviais. Acrescentar-se-ia que não haveria somente alagamentos.]”20. por respeito aos irmãos cativos. ainda assim nos informam sobre a diversidade das nações d’África que constituíam a escravaria da região de Meya Ponte e adjacências 252 Revista Brasileira do Caribe. casamentos e óbitos. restaria pouco tempo para atividades relacionadas à religião. “Donde provem q’ os mizeraveis escravos não ouvem missa. p. Acidentes de trabalho aconteceram e acontecem em todas as épocas e lugares. esta afirmação já carregue a resposta para o motivo de haver tão poucos escravos presentes nas irmandades. quem eram esses homens que extraíam o ouro? De onde foram trazidos? Tal pergunta pode. Por isso. Quiçá. Goiânia. apesar de. acabaria por alagar a mina” (1976.. nem guardão o preceito da ley de Deos. aberto por cima. o que forçosamente.21 Se o tempo “livre” deveria ser empregado para o sustento próprio. as reuniões de mesa ocorressem aos domingos. Mas os soterramentos nos sugerem que o sistema de prospecção empregado não fosse o mais indicado para o tipo de solo local. sem querer. o capítulo 7º da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte determinava que. redes de conchavos e conspirações. No compromisso confirmado em 1782. Pohl tenha nos dado um indício de como trabalhavam e morreram os escravos do padre Jozé Pinto Braga. mas também desmoronamentos. ser respondida com as informações deixadas pelos párocos que registravam os batismos. vol. como sugere o trecho acima. O tempo livre para pensar nas coisas de Deus também poderia ser usado para criar laços de solidariedade e.. n° 15 . Mas. São eles ainda que nos relatam algumas formas de extração do ouro: “o poço era inteiramente desprotegido. podermos chamá-los de relapsos e pouco cuidadosos. 176). em parte. que prohibe trabalharse naquelles dias [. VIII. Naturalistas como Pohl.

nos contar algo mais. 26).A morte branca do escravo negro. Ronaldo Vainfas também alerta para os “equívocos e tabus da historiografia brasileira”. não temos nenhum registro. por incrível que pareça. mais próxima ao litoral. dificultam sobremaneira a compreensão de aspectos da “estratificação social e suas representações nos primeiros séculos de nossa história” (1999.. está no casamento entre o castelhano Francisco Gonçalves e uma preta mina anônima. No período analisado (1760-1776).. de gentio da Guiné”. os escravos “mina” eram maioria. será difícil aproximarmo-nos de suas histórias. entre os africanos encontramos os “mina” em maior número. p. Nina Rodrigues e Silvio Romero. Paiva (2002) constatou que nas regiões de Minas Gerais onde prevalecia a mineração.22 Para Soares os estudiosos sobre o Brasil colônia se preocupam mais com a expansão dos povos europeus do que com a diversidade racial e cultural africana (2000. Será que este padrão também pode ser empregado em Goiás? A questão sobre as identidades étnicas africanas é bem recente na historiografia brasileira. no trato com a questão racial e a miscigenação. algum dia. no século XVIII. ainda é aceita atualmente. Designação genérica que encobre não somente o lugar de onde veio. os “caboverde”. Da mulher de Francisco Gonçalves sabemos apenas que era mina. os “benguela”. Muito mais não sabemos deste casal. apesar de serem os precursores desses estudos. os “cobu. mais provavelmente.. Quem sabe os registros de seus filhos possam. 23 Sabemos que “perpetuaram sua espécie”. 2007 . Os “angola” predominavam na região de economia agropastoril. ainda pouco investigada./dez. mas 253 jul. Na esteira desta afirmação podemos refletir como seria o cotidiano de uma família construída pelos laços entre dois continentes distintos? Uma pista para esta resposta ou. a complexidade da pergunta.. p. Por ter morrido sem testamento. 22). foram também os responsáveis por disseminar a idéia do que se poderia chamar de “homogeneidade da e na diversidade” que. É de se considerar que o número maior de trabalhadores “mina” esteja relacionado aos conhecimentos técnicos de mineração que possuíam. seguidos de “angolas”.

assim. Em sua análise sobre a escravidão no Brasil Central. 2002. VIII. 77). Salles nos lembra que: “Conhecidos apenas pela desdenhosa designação de negros. Martiniano José Silva. 230). Goiânia. modo de vida. pautando-se em estudiosos como Arthur Ramos. Neste trecho a historiadora goiana nos alerta sobre a importância de se desvendar as especificidades étnicas dos vários grupos que constituíam a população negra da capitania de Goiás. a religião. destribalizado. Por sua vez. Alguns receberem o sacramento do batismo na hora da morte por 254 Revista Brasileira do Caribe. se espraiou nas relações sociais. em grupo. no entanto. perdendo.Maria Lemke Loiola principalmente sua carga cultural e religiosa. os costumes. Lembra que os escravos já chegavam aos Guayazes convertidos ao catolicismo.]” (SILVA. A afirmação parece demasiado generalizante. Entretanto. daí a discrepância entre os censos e números dispostos ao longo do período colonial. n° 15 . “[o escravo] já chegava da África desestruturado de sua tribo. se considerarmos que provavelmente Goiás recebeu vários grupos em diferentes épocas com objetivos específicos. Salientando sempre a violência que. p. Para Moraes. vol. nos mostram os óbitos que sempre havia exceção. as artes. dando tonalidade própria ao comportamento.. Martiniano deixa entrever claramente sua postura em relação à escravidão e sua vinculação a uma historiografia tradicional que privilegia mais a violência da escravidão per se do que propriamente os saberes escravos e as múltiplas formas de sobrevivência empregadas no cotidiano. a seu ver. inclusive a alma e o nome na infeliz travessia [. Mais recentemente.. o que era interpretado pelos senhores como mostra de sua “resignação à condição servil” (2005). A bem dizer. o autor recrimina o suposto “racismo ideológico” existente na academia responsável pela falta de estudos sobre a procedência escrava. assevera a predominância dos bantus no Brasil central. isso dificulta a identificação dos grupos africanos. p. a língua. suas características psico-somáticas se destacam. e crenças religiosas” (1992. Moraes alerta que a grande maioria dos escravos africanos não foi registrada ao entrar na capitania de Goiás dada sua grande extensão.

Mas. o reverendo José de Frias e Vasconcellos durante uma visita eclesiástica. Pedro. “ser ainda boçal e novato nesta freguezia Joze mina”24 É possível que Jozé tenha permanecido ignorante dos preceitos cristãos devido à distância que o separava de alguma igreja.”27 Designá-los apenas por seu lugar de origem/porto de embarque esconde a diversidade cultural que os caracterizou. seja pela “rudeza. se pensarmos que realmente houve uma diversidade de línguas./dez.”28 solicitando aos párocos fornecer instrumentos para catequização dos escravos. tanto em sua terra natal quanto na recriação sociocultural na terra brasilis. porém não se furtou de incluir entre eles alguns 255 jul. e ignorante do que havia de receber”26 ou “alienado do entendimento. Provavelmente o sargento mor Antonio Rodrigues Frota usou o estratagema de misturar várias etnias.. 2007 . por outro.”25 Outros ainda. não recebiam sacramentos por “rude. Nesse processo de recriação de identidades a língua era de fato um elemento fundamental. A diversidade das falas africanas pode ter sido empregada como estratégia para evitar conchavos e conluios entre os cativos. Em 1742. mas clarear as especificidades e identidades étnicas e como foram reconstituídas no longo processo de reinvenção dos saberes e. como Domingos. também mina. Acreditamos que uma pesquisa pautada em diferentes tipologias documentais possa. a recriação de suas identidades a partir dos novos laços tecidos no cativeiro. mas certamente não foi o único. também mina. não significava que os mina desconhecessem a língua dos angola e vice versa. ou pela diversidade de línguas. não devemos esquecer que essa diversidade nem sempre significava incomunicabilidade.A morte branca do escravo negro. Água Limpa ficava no termo da freguesia de Meya Ponte e Antonio Dias Ribeiro pode ter se beneficiado disso para manter Joze irregularmente. Gestos e olhares certamente diziam tanto quanto palavras.. mais importante. Frota possuía escravos mina e angola. se queixou do pouco entendimento que os escravos tinham dos ensinamentos cristãos que recebiam. morreu “sem o sacramento da eucaristia pois era ainda boçal. senão responder. Da mesma forma.

Entre seus escravos. Goiânia. encontramos minas. temos apenas três escravos “inocentes”. É do mesmo autor a informação de que Gregório Bailão foi um eminente escravocrata de Meya Ponte. De modo semelhante ao ocorrido com os escravos do sargento Frota. do qual já falamos. natural da freguesia de São Miguel de Alfama. O lusitano. é significativo que estes dados estejam em 256 Revista Brasileira do Caribe. conforme informa Pinheiro (2002. angolas. ou seja.Maria Lemke Loiola índios cayapó como “administrados”. Esse pequeno número de óbitos infantis em relação ao de adultos sugere que os Frota talvez não tivessem o hábito de manter famílias escravas. natural do Arcebispado de Braga. crianças. sua mulher. n° 15 . Essa hipótese poderá. contando também os que faleceram após a morte do sargento. p. O sargento. dona Antonia Ignacia Maria de Jesus passou a administrar os bens do falecido. Um deles foi Jeronymo mina. 311). crioulos e caiapós” reforça a idéia de que a diversidade de grupos foi uma estratégia utilizada para tentar evitar o surgimento de afetos e laços de solidariedade. cobus e crioulos. VIII. Não sabemos como eram as relações com seus escravos. Após sua morte. Do total de vinte e nove escravos. foi alferes da Companhia e Guarda-mor das Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. Foi acompanhado por todas as irmandades do arraial de Meia Ponte. Contudo. vol. Outro oficial que também tinha escravos de procedência diversa foi Gregório da Silva Bailão. faleceu com seu solene testamento. ser corroborada cruzando estas informações com os assentos de matrimônio ou batismo. mas houve épocas em que o sargento Frota perdeu até três escravos por mês. recebendo sacramentos na medida do possível. Mas a “mistura de minas. Não houve mudança no padrão de enterramento dos escravos: continuaram a ser enterrados no mesmo lugar: na capela de Nossa Senhora do Carmo. seja precipitado identificar a prevalência de africanos “Mina”. mas nunca acompanhados por irmandade. angolas. É certo que com informações fragmentárias como as que temos. ou não. os de Gregório Baylão foram enterrados no adro da igreja e também não tiveram vínculo com irmandades.

1998. 75). O aumento do número de pardos e crioulos no início do século XIX nos dá uma pista de que a mestiçagem aumentou com o decorrer do tempo.A morte branca do escravo negro. De modo geral. o número de escravos “angola” supera aquele dos “mina”. 2007 . veremos que neste último. na documentação pesquisada. Ao compararmos as informações deste período com o posterior (1803-1810). consonância com o período no qual a atividade aurífera foi a mais representativa para a economia. Talvez a distância de Goiás dos centros de poder favorecesse os hábitos relapsos dos párocos no momento de registrar óbitos.. são qualificados como nações. são sempre mais completos que os de Goiás. p. se aceitarmos a constatação de Paiva. O primeiro caracteriza os povos a serem convertidos. Os termos gentio e nação se referem a “universos semânticos distintos. é possível que os “angola” daqui também tenham sido empregados em atividades agropastoris. 2000. E isso tanto para os casos de grupos africanos quanto dos nascidos na sociedade colonial. à medida que o aumento do tráfico reconfigura as rotas e portos de embarque há uma resemantização e re-significação da África (SOARES. ao passo que “nação” é consoante às mudanças nas relações que os portugueses estabeleceram com os africanos.. para a valorização da pecuária e agricultura. o direcionamento de uma economia anteriormente voltada à extração aurífera. Os dados ora apresentados são ainda parciais e necessitam de estudos mais aprofundados. Desta forma. p. a julgar pelos dados apresentados. Contudo. batismos e casamentos como podemos perceber nos documentos coloniais da capitania 257 jul. Soares tem como fonte principal os assentos de batizados que. correspondentes a diferentes sistemas de classificação” (SOARES. 91). pode ter contribuído para mudar a configuração étnica da população da região de Meya Ponte. Poder-se-ia dizer que a ponte estabelecida por Soares entre a África e o Rio de Janeiro enriquece significativamente a interpretação sobre as identidades étnicas africanas estabelecidas no interior da sociedade colonial. os africanos. Ou seja. e a transplantarmos para Meya Ponte./dez.

e tenha sido mais lenta na escrita da documentação eclesiástica em relação à administrativa. não mais como “nação”. gentio da terra. são sempre referenciados como “gentios da terra”. “[. também pode ser empregada para aqueles que viviam em Meya Ponte.]”30. Os escravos autóctones. prejuízos e distúrbios.. eles conservavam agregado ao nome o grupo ao qual pertenciam: Maria Dias.Maria Lemke Loiola dos Guayazes. No início do XIX. Pedro Angolla foi um dos que teve a vida abreviada “[... comumente tratados com o eufemismo de “administrado”. selvagens e desumanos”.. No século XVIII eram conhecidos como “nação cayapó”. mesmo os libertos. os livros de assentos de óbitos apresentam informações cada vez mais completas à medida que recuamos no tempo.] com 258 Revista Brasileira do Caribe. Nesta última. vol. dado o grande número de ataques que promoviam a arraiais deixando a população aflita pelos grandes prejuízos e mortes que causavam. n° 15 . eram conhecidos pelo nome de seu antigo senhor. VIII. só muito raramente. preta forra de nação mina29 Acrescentese que.32 Não só os autóctones causavam mortes. em alguns casos. Os autóctones aparecem nos assentos eclesiásticos com maior freqüência no século XVIII do que em período posterior. eles quase sempre são descritos como “gentios brabos. Mesmo depois de livres. Jozé foi lembrado como escravo do defunto Francisco João Ribeiro!31 Mas a qualificação grupal não marcou somente os africanos. nação mina. receberam denominações que variaram ao longo do tempo.. “nação xicriabá” e. Apesar disso. nas notícias que deu nos idos de 1774 ao secretário da Marinha e Ultramar.. Martinho de Mello e Castro. Goiânia. De modo mais emblemático. A assertiva de Soares de que a nação/procedência acompanhava o escravo/liberto até o fim da vida.. Talvez essa mudança esteja relacionada com os conflitos entre os “naturais da terra” e os portugueses. como lembra Salles (1992) . como “Thereza. 33 Segundo o capitão geral Jozé de Almeida e Vasconcelos.] por ser morto pellos calhambollas com hum tiro que logo o matou [.. na hora da morte.]”. quartada escrava do Sargento Mor Carlos de Assupçam Ferraz [.

A morte branca do escravo negro. a autóctone e a africana. p. solteiras que viviam sozinhas. como os escravos. mulheres de oficiais.35 Nas palavras preconceituosas do naturalista Pohl.. nos lembra que em Minas Gerais os escravos africanos utilizavam ervas para separar ouro e diamantes do cascalho nas bateias. o que tudo pode afirmar o mesmo seu senhor [. É difícil imaginar que duas culturas.. quiçá premeditada. que a sua morte fora originada.. 110). Mas nesse universo.. indicando que nem tudo estava na maior tranqüilidade. em satisfazer com hum tiro á paixão alheia. às vezes ela poderia ser preparada. também existiram mulheres: mães livres. que mantinham relação estreita com a natureza. que sem a menor duvida.. encontramos um indício de que a mandioca mortífera comida por Jozé não foi um acidente: a diferença entre a mandioca mortífera e o aipim é reconhecida imediatamente “por qualquer selvagem” (POHL. encontramos vários registros de mortes violentas./dez. exceção de alguns vadios.. estão promptos pello mais pequenno premio. são agressores os negros fugidos e calhambolas. ou lhe sobreviera de ter no dia antecedente comido húa pouca de mandioca mortífera como ao depois da sua morte soube. não previo com a cautella ao menos sequer para ser confessado por amanhecer morto na cama. e que sem saber a cauza da sua morte. não trocassem informações e know-how acerca do poder das plantas do cerrado. outros. 2007 . Para além de mortes consideradas apressadas. Muitos perderam a vida dentro dos poços. mães escravas. como parece ter sido a morte de José: [. 259 jul. 1976.] de nação Mina escravo do Furriel João de Campos Cardozo o qual morreo de repente sem sacramentos porque o mesmo seu senhor me disse.”34 Neste livro de assentos. Foi esse ouro lavado nas bateias e extraído de poços que garantia a riqueza dos homens vindos de longínquas paragens. que registra os óbitos de 1760 a 1776. de tiros por vingança. de descaso de senhores negligentes. porem da maior parte dos insultos.]. tiveram a vida ceifada por morte súbita e repentina. Paiva (2002)... apoiado em relatos de viajantes. forras que possuíam seus próprios escravos.

depois de liberta. morreu na idade que “parecia se de perto de cetenta annos”. possibilitaram a esta “pobre mulher” um enterro dentro da capela. e não somente a esmola por amor a Deus. à sua maneira. não era prerrogativa masculina. possivelmente se estreitaram com a liberdade. parda. Dizem ter sido muito pobre. reescrevia sua história.37 Uma história das mulheres do sertão dos Guayazes no período setecentista poderia nos mostrar que nem sempre foram submissas. Outras não tiveram a mesma sorte. como enfatizou o coadjutor Carlos Francisco Torre quando o registrou. Francisco Alves Mota. Do registro da paulista sabemos que teve relações com pessoas influentes. Mas. n° 15 .. Provavelmente os vínculos que a ligavam ao padre. o leitor questione o título desta apresentação.Maria Lemke Loiola Maria Cordeiro de Jezus teve uma história diferente se comparada à maioria das mulheres. Se houve manifestações de pesar e rituais africanos. Provavelmente. morreu na casa de seu antigo senhor. como registrou o pároco Joze Pires dos Santos Souza. Embora não saibamos o que a uniu ao vigário de Santa Cruz. Felipa e tantas outras puderam contar com as amizades e afetos construídos ao longo de suas vidas. em algum momento do passado que não nos foi dado saber. duas missas de corpo presente e mais quatro pela sua alma que o dito Francisco “se obrigou” a pagar. os africanos sempre foram enterrados de acordo com os preceitos católicos. moradora no sertão. Maria morreu na casa do referido vigário. Maria. Cada uma. VIII. que o mundo das bateias e das lavras.. onde recebeu todos os sacramentos. Maria parece ter vivido a aventura insólita da peregrinação para as bandas do sertão. de incertezas e de possíveis dissabores. elas foram muito bem 260 Revista Brasileira do Caribe. Mostranos seu assento.. A viandante Maria veio das partes de São Paulo. as relações entre os dois não cessaram depois da libertação. imagina-se que foi um laço mais estreito. 36 Felipa. Aparentemente teve uma vida longa. Goiânia. A jovem de pouco mais de vinte anos recebeu todos os sacramentos. depois dessas breves notícias sobre os mortos e os vivos de Meya Ponte. vol. Bem ou mal e na medida do possível.

Experiências que não podem apenas ser apreendidas se permanecermos no pequeno arraial de Meya Ponte. Boschi.. Jaraguá.. Scarano. sem hierarquias. Mas a história dos padres do sertão dos Guayazes merece ser contada em outro momento. 2005. pelo contrário.. este título quis lembrar um pouco da mistura cultural ocorrida nas Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. Para a compreensão da complexa relação e interação de diferentes culturas será preciso olhar para cada um desses lugares de onde vieram nossos atores sociais. Lisboa: UNL. pardos e negros. Cristina C. Quintão. Notas 1 É considerável a produção bibliográfica sobre o tema. Mott. Da mesma forma. destacam-se entre outros. o objetivo é levantar mais questionamentos e reflexões com vistas a fomentar os debates sobre as identidades étnicas e experiências escravas. os trabalhos de Soares.. fazer uma escala na África e outra em Portugal para novamente nos embrenharmos no caminho que leva ao passado do sertão dos Guayazes. 1998. Neste ensaio. P. 1975.A morte branca do escravo negro. 1986. MORAES. a partir de diferentes escalas. Estes últimos muitas vezes estavam mais preocupados com a forma de angariar pecúlio em proveito próprio que necessariamente com o cumprimento das leis às quais estavam sujeitos. 2000. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 17361808. resguardadas dos olhares dos visitadores eclesiásticos e padres. 2007 . 261 jul. 2 Neste livro constam os registros dos arraiais de Santana do Rio do Peixe. destaca-se a tese de doutoramento da professora Cristina de Cássia Pereira Moraes na qual analisa as especificidades das 34 irmandades encontradas: brancos./dez. 2002. 1997. Será necessário atravessar o mar oceano. (Edição em CdRom). não pretendemos exaurir as discussões sobre a escravidão em Goiás. Sobre as irmandades de pretos ver especificamente o capítulo 5º: As irmandades de homens pretos. 2002. Corumbá e Lavrinhas. Em Goiás.

cópia. Reis. 1999. 23. 1758. 5 Idem: Cópia da Primeira e última visita do Doutor Alexandre Marques do Valle. 7 de Outubro de 1778. p. 54 verso. p. 6 Idem. idem. 15 Idem. VIII. 12 Idem. 86. também: Hoornaert. sobre a representação dos oficiais da Câmara de Vila Boa de Goiás. 1992. 7 verso. Cd-rom Projeto Resgate Barão do Rio Branco). p.. visitador que foi das Minas de Goyaz. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte 1758. 86 verso. p. 13 Idem. 72. à Rainha Maria I. Goiânia. Scarano. Consulta do Conselho Ultramarino. 1975. p. n° 15 . 4 Esses 2% aos quais me refiro são portugueses e paulistas acompanhados por “todos os padres do arraial”. 5 verso. 11 Idem. 4 verso 10 Idem. (A representação está entre os anexos existentes do documento nº 1939 e data de 16 de dezembro de 1773. cópia.. vol.. p. 56. 29. O padre Braga foi um dos vários padres “convidados” a se retirar da capitania de Goiás em 1764. 16 Idem. Teria se retirado ou permanecido recluso? Se ele optou por ficar. 1995.Maria Lemke Loiola 3 Aqui uso confraria e irmandade como sinônimos. 14 Idem. mas não há alusão a irmandades. Gaeta. (1734-1824) p. 38. p. 9 Idem. Capítulo 2º. perdeu a faculdade de rezar missas e quaisquer outras 262 Revista Brasileira do Caribe. cf. p. p. p. 7 Idem. livro.. Livro de registro de óbitos 1760-1776. Subordinar o capelão parece ter sido um elemento comum de diversas irmandades e implicava sempre em relações de poder. idem. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte. idem. idem. 8 Idem. Estes portugueses e paulistas quase sempre morreram com seu solene testamento.

atividades religiosas.. 32 A partir de meados de 1750 as chamadas guerras justas fizeram muitas mortes 263 jul. 23 Idem.. p. 27 verso. 17 Idem. com olhares diferentes. p. Livro de registro de óbitos 1760-1776. p.A morte branca do escravo negro. cópia. p. Cada qual. 26 Idem.39 verso. têm trazido reflexões importantes sobre a diversidade étnica dos africanos no Brasil e como cada etnia estampou suas especificidades na sociedade colonial. 22 verso.. p. Mas esta já é uma outra história.. 85 verso 21 AHEGO: Cópia do compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos das Minas de Meya Ponte 1782. 20. 8. 25 verso. 36. idem. idem. 40 verso. no Rio de Janeiro. 19 Idem. p. p. 13 verso. 18 Idem. em Minas Gerais e Mariza de Carvalho Soares. 24 Idem. 46 verso. 29 IPEHBC. cópia. 30 Idem.. p. chama a atenção para a necessidade de se repensar os conceitos e categorias subjacentes à questão. p.. 31 Idem. p. 27 Idem. p.. 20 Idem./dez. p. 2 22 Autores como Eduardo França Paiva. p. 8 verso. 2007 . 4 verso. 25 Idem.. idem. livro de óbitos 1760-1776. p. idem. 85. idem. idem. idem. idem. 28 Idem. Livro de registro de óbitos 1760-1776..

Ensaio de interpretação a partir do povo. 2. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 1736-1808. A historiografia da escravidão: tendências. n° 15 .] sobre a administração civil e eclesiástica da capitania de Goiás [.. A. barão de Mossâmedes. 1992. O trabalho mestiço: maneiras de pensar e formas de viver – séculos XVI a XIX. 1986. da V. J. História da vida privada na América portuguesa. pp. E. p. et al. p. São Paulo: 1995. In: PAIVA. 72..Maria Lemke Loiola de ambos os lados. Lisboa: UNL. Documento n. tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo”. Estrutura e conjuntura numa capitania de 264 Revista Brasileira do Caribe. Bibliografia BRITO. São Paulo: Companhia das Letras. “Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu”. C. 4ª Ed. 11-36. (orgs). J. Luis. HOORNAERT.] In: Catálogo de verbetes dos documentos manuscritos avulsos da capitania de Goiás existentes no Arquivo Histórico Ultramarino (1731-1822). nº 2. vol. carumbés. p. História da Igreja no Brasil. São Paulo/ Belo Horizonte: AnnaBlume/PPGH-UFMG. 187-207. Goiás 1722-1822. 23 36 Idem. Goiânia. 22 verso. temas e desafios 1990-2001. MOTT. In: Revista de Estudos de História. 2005 (Tese). pp. GAETA. PALACIN.. São Paulo. “Bateias. idem. idem. “Redes de sociabilidade e de solidariedade no Brasil Colonial: as irmandades e confrarias religiosas”. da C. V. J. & ANASTÁCIA. BOSCHI. 2002. L. 37 Idem. C. C. 155-220. São Paulo: Ática. idem. E. 67 verso. PAIVA. Franca. O “Livro para servir do caminho de Paraty” está repleto de informações sobre o assunto. F. VIII. idem. M. 66 34 Idem. Petrópolis: Vozes. 1754. 33 Idem. In: SOUZA. 2002 (mimeo). E. p. MORAES.. Laura de Mello e (org). 1997. José de Almeida e Vasconcelos [. C. Ê. Os leigos e o poder.F. C. P. p.M. ofício do governador e capitão general de Goiás. 35 Idem.

C. 2007 .A morte branca do escravo negro. G V. A. Angola e Guiné: nomes d’África no Rio de Janeiro setecentista. Devoção e escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século XVIII. A. “Descobrindo a África no Brasil colonial”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Lá vem meu parente: as irmandades de pretos e pardos no Rio de Janeiro e em Pernambuco no século XVIII. nº 6. 1999. 73-93. de G. Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava. 7-22. 71-94. de C. Viagem ao interior do Brasil. . REIS. p. 1972. São Paulo: FAPESP. João J. 1976. M. Tempo. Goiânia: Bandeirante. 4. Goiânia: Oriente. Tronco e vergônteas./dez. dezembro 1998. 161 (407). século XVIII. E. 2003. In: Tempo. SALLES. p. Identidade étnica. 2000. M. 3ª Reimpressão. M. 1975. São Paulo: Cia das Letras. v. QUINTÃO. 265 jul. J. M. Minas. Goiânia: CEGRAF/UFG. 1999. de C. SCARANO. v. VAINFAS. J. Mina. J. A. Economia e escravidão na Capitania de Goiás. POHL. 3. Goiânia: Kelps. Devotos da cor.. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura. “Colonização. SOARES. de. abr/jun 2000. SOARES. 1992. de C. Z. PINHEIRO. nº 8. Milton Amado e Eugenio Amado. São Paulo: Itatiaia. SILVA. Rio de Janeiro. religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro. & PINHEIRO.. SOARES. Anna Blume. 2002. A morte é uma festa. F.C. In: RIHGB. Trad. miscigenação e questão racial: notas sobre equívocos e tabus da historiografia brasleira”. Ronaldo. 2002.

266 .

diversidade. um atraso das condições de vida de sua população. a região mais estudada da Colômbia. adversity Resumo Desde a publicação da Biografia del Caribe escrita por Germán Arciniegas até a recente publicação de Respirando el Caribe. A inserção em um mundo globalizado e as políticas públicas orientadas para uma maior descentralização não logram mostrar os resultados esperados. Today the Caribbean region is undoubtedly the more studied region of Colombia. Hoje a região do Caribe é. adversidade *Artigo recebido em janeiro e aprovado para a publicação em abril de 2007 267 Revista Brasileira do Caribe. Its insertion in a globalized world and the public politics towards a greater decentralization do not succeeds in showing the expected results. this study emerges like one of the most challenging explorations of the Caribbean and its contribution to the study of the politics that support the regional development. Within this context. sem dúvida. Colômbia. Colombia. Keywords: Caribbean. Palavras chave: Caribe. se passaram mais de sessenta anos. no meio desta situação surge como um dos desafios dos estudos do Caribe sua contribuição ao estudo de políticas para o desenvolvimento regional. 2007 .Estudios del Caribe en Colombia Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives Abstract Since the publication of the Biografía del Caribe written by Germán Arciniegas until the recent publication Respirando el Caribe. n° 15. but it offers an expression of the regional inequalities that exist in the country. mas apresenta. VIII. como manifestação das desigualdades regionais que existem neste país. diversity. 267-281. uma exaustiva compilação do estado da arte dos estudos sobre o Caribe colombiano. an underdevelopment of the life conditions of its population. vol. there has elapsed more that sixty years in order to have an exhaustive compilation on the state of art of the studies on the Colombian Caribbean.

Es compartativamente más grande. Hoy la región Caribe es sin lugar a dudas la región más estudiada de Colombia. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. un rezago en las condiciones de vida de su población. pero presenta. pasó del 10% al 22% entre el comienzo y el fin del siglo XX. Colombia.444 km² de territorio continental = 12% del territorio nacional). En efecto.000 km² y una población cercana a 9 millones de habitantes. un territorio marítimo en el Caribe de más 570.Alberto Abello Vives Resumen Desde la publicación de la Biografía del Caribe escrita por Germán Arciniegas hasta la reciente publicación de Respirando el Caribe. adversidad Preámbulo Es muy importante en este escenario recordar algunas características del Caribe colombiano que sirven de marco para entender la evolución de los estudios del Caribe en Colombia. buena parte de las prioridades investigativas son producto de las particularidades de este caso particular: el Caribe colombiano es una región subnacional de Colombia. una exhaustiva compilación sobre el estado del arte de los estudios sobre el Caribe colombiano. 22% de la población colombiana. 268 Revista Brasileira do Caribe. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. Porcentaje de la población creciente. al tamaño de un país como República Dominicana. VIII. han transcurrido más de 60 años. con una población similar. El Caribe colombiano lo conforma un territorio (70 km² de territorio insular y 132. Palabras clave: Caribe. diversidad. en medio de esta situación surge como uno de los retos de los estudios del Caribe su contribución al estudio de políticas que contribuyan al desarrollo regional. tres veces. vol. n° 15 . el cual es un páis de regiones geográficas y culturales con profundas disparidades en lo económico y el desarrollo social entre ellas.

los Cuna en el golfo de Urabá. Es una región diferenciada y diferenciable del conjunto nacional por sus atributos naturales y culturales. Es el mar Caribe el que le da la vecindad a Colombia con Venezuela. Nicaragua. podría decirse que es un Caribe “atípico” (donde no hubo plantaciones). Una región que aun se nombra como Costa Atlántica (Colombia es un país de dos costas. República Dominicana./jul. Costa Rica y Panamá. es la región donde se inicia el poblamiento de la hoy Colombia (conectada con Santo Domingo). Jamaica. Entre los aspectos históricos. la región por donde entra la modernidad 269 jan. una gran depresión. de los distintos resguardos). Cuba) pero que se pierden en gran medida con la independencia de Panamá. hispana e indígena. se enseñan en la escuela los límites terrestres Panamá.. 2007 . al verse como país andino. áreas inundables. gas). El Caribe en Colombia tiene una economía que con las reformas neoliberales de los noventa perdieron participación nacional el agro y la industria manufacturera. una población indígena importante (ver caso wayuus en la Guajira. se hace referencia a la Caribe). Tradicionalmente. Tiene hoy en día una economía dinamizada por el sector servicios (principal región turística de Colombia. a diferencia del resto del Caribe. que tuvo el primer puerto esclavista durante el período colonial habiendo dejado profundas huellas en el patrimonio cultural (tangible e intangible).. Con una alta población afrodescendiente. Jamaica. Ecuador. el macizo montañoso nevado a orillas del mar. valles. con vínculos históricos con las islas del Caribe (Santo Domingo. Entre los naturales se encuentran un desierto. 6 % de la población se reconoció como indígena en el Censo de 2005 y 14% como afrodescendiente. los indígenas de la Sierra Nevada. Haití. sabanas. Honduras. Perú. Brasil y Venezuela. y de manera particular. Curazao. ambas comunidades binacionales. tres puertos) y la minería (carbón. el archipiélago en el Caribe occidental.Estudios del Caribe en Colômbia. es la región donde muere el Libertador. pero cuando se habla de la Costa. El Caribe de Colombia posee una población mestiza en la que se conjugan la herencia africana.

más avanzada. históricos y culturales. En una brecha creciente a pesar de las reformas que anunciaba que sería la región más favorecida con los cambios. arawak y chocó). Mantiene una viva cultura popular. Sus rasgos culturales derivados de procesos de poblamiento intervenido por las ocupaciones hispanas y puritanos ingleses arroja hoy en día la existencia de 11 lenguas vivas (español. así como los procesos identitarios y el reencuentro con el Caribe al que pertenece por sus rasgos geográficos. dos lenguas criollas y 8 lenguas indígenas de familias lingüisticas caribe. por debajo de los promedios nacionales y una inmensa porción de la población por debajo de la línea de pobreza (cerca del 60% de sus habitantes). VIII. Una tasa de desempleo del 15% en las ciudades como Cartagena. el rezago relativo. En una ciudad como Cartagena de Indias el 10% más rico de la población percibe el 50% del ingreso generado en la ciudad y el 10% más pobre solo recibe el 1% del ingreso (año 2000). Tiene indicadores sociales de educación y salud deficientes. n° 15 . vol. vallenato. una región que a la vez reclama su pertenencia al Caribe y promueve su redenominación: Caribe colombiano y no Costa Atlántica. con una creciente informalidad. Es una región con una profunda desigualdad social. chibcha. andina. las tensiones entre la Nación (centralista. 270 Revista Brasileira do Caribe. el atraso. Con ingreso per cápita por debajo del promedio nacional. literatura y plástica que han sido aceptadas como expresiones nacionales y hacen parte del panorama artístico reconocido de Colombia en el exterior. con un profundo atraso relativo. mayor concentración económica) y esta región. con manifestaciones musicales (cumbia. con una caída de los empleos calificados. Es un región con grandes retos: el reto de la superación de pobreza. El Caribe es en Colombia una región rezagada del conjunto nacional.Alberto Abello Vives al interior del país con el auge de Barranquilla (finales del XIX y principios del XX). precisamente. Los estudios del Caribe en Colombia tienen como marco. porro).

2007 . Pero no fueron las ciencias sociales en el Caribe colombiano las encargadas de indagar por la tierra que habitamos./jul. Gabriel García Márquez no fueron nunca aficionados superciales henchidos de tropicalismo. austero y formidable bizco de las letras cartageneras. De Colón a Castro (1969 y 1970 respectivamente). Voces como las de Manuel Zapata Olivella. con la globalización esta región no ha sido favorecida.. La modernidad de la indagación provino con la obra poética de Luis Carlos López. ese extraño. Son la literatura y el arte de mediados del siglo XX los que salen al encuentro de la realidad de esta región. situación que marca no sólo ciertas líneas y tendencias en el campo de la investigación sino que compromete el desarrollo de la educación superior. no hace parte de las regiones ganadoras en el proceso de inserción nacional en esta economía contemporánea. esta gran obra incorpora a la academia colombiana el estudio del Caribe y se convierte en el referente obligado de la comunidad científica de la segunda mitad del siglo XX que ha salido al reencuentro de ese “charco violento por donde se han paseado todos los huracanes”. quien retrata un ambiente aldeano y decimonónico. Esta Biografía (1945) antecedió a los libros casi homónimos de Juan Bosch y Eric Williams.. El conocimiento del Caribe colombiano La Biografía del Caribe de Germán Arciniegas no sólo fue el libro colombiano más leído en el exterior antes de Cien años de Soledad. Por otro lado.Estudios del Caribe en Colômbia. Héctor Rojas Herazo. De Cristobal Colón a Fidel Castro. seguía jugando a enmascararse en el ámbito europeo. Álvaro Cepeda Samudio. de espaldas a la realidad atroz. Allí está tal vez la génesis del pensamiento sobre la región. cuya elite. Los primeros intentos los encontramos en ensayos y artículos de prensa de líderes de la independencia que se preguntaban por las características del hombre y la vida de la región. sino todo un esfuerzo integral 271 jan. como llamara el mismo Arciniégas a nuestro mar Caribe.

Es durante la década de los ochenta. Estaban vigentes aun las políticas keynesianas que daban importancia a la planeación regional (aparecen los organismos de planeación regional. n° 15 . apoyo financiero a los estudios del Caribe. en distintas etapas y con mucha fragilidad. A todo ello. Es la Universidad Nacional de Colombia la que buscando construir una nación con miradas desde los territorios de frontera la que crea la sede Caribe en la isla de 272 Revista Brasileira do Caribe. la economía. El nuevo conocimiento. el Instituto de Estudios Económicos de la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. Son sin lugar a dudas. Entre los pioneros en el campo de las ciencias sociales encontramos a Luis Eduardo Nieto Arteta. la reedición de textos históricos. las universidades las que han brindado. entre otros.Alberto Abello Vives de la inteligencia. la sensibilidad y la información por desentrañar los rumbos. los desencantos y las esperanzas de una región. contribuyeron en la búsqueda por ilustrar las culturas populares y la naturaleza caribe los artistas plásticos Alejandro Obregón y Enrique Grau. Gerardo ReichelDolmatoff y Orlando Fals Borda. el Instituto Internacional de Estudios del Caribe de la Universidad de Cartagena que realiza cada dos años el Seminario Internacional de Estudios del Caribe. la aparición de centros y grupos de investigación son las características de esta nueva etapa. las demás ciencias sociales. el Caribe colombiano contó con un esquema que sirvió de base para el resto del país) y de la intervención estatal. el Centro de Estudios Económicos Regionales del Banco de la República en Cartagena de Indias. Ocurre una dinámica que convierte a la región en la más estudiada de Colombia: desde la historia. vol. los rasgos. de manera dispar. Hoy la región cuenta con seis centros regionales de investigación especializados en el estudio de la región: el Instituto de Estudios Caribeños de la Universidad Nacional en la isla de San Andrés que cuenta con el programa de maestría en estudios del Caribe. bajo el empuje brindado por un organismo regional de planificación cuando comienza con entusiasmo la siguiente etapa de estudios sobre la región. VIII. Fundesarrollo en Barranquilla.

El Observatorio fue creado como una entidad que articula el desarrollo y la cultura regionales. una entidad autónoma. Quiero resaltar el apoyo nacional a través de recursos financieros de Colciencias. la música. Muchos de estos grupos surgen como tal ante la política nacional de ciencia y tecnología. privilegian también otras áreas de estudio y otro tipo de proyectos (aquellos considerados como estratégicos y el Caribe no es un sector estratégico).. la antropología. la economía y la sociología. San Andrés. Me refiero a grupos que indagan por la historia. así como a la obligatoriedad de vender servicios para complementar sus ingresos. respaldada igualmente por dos cámaras de comercio. el medio ambiente. trabajan por proyecto y sin estabilidad 273 jan. a una iniciativa regional como fue la creación del Observatorio del Caribe Colombiano. las convocatorias para la financiación de proyectos privilegian otras regiones (el mismo sistema lesiona a regiones con baja capacidad como el Caribe beneficiando a las de mayor desarrollo). el organismo rector de la ciencia y la tecnológia en Colombia. en los que lo “nacional” se coloca por encima de los interéses regionales. sin embargo. igualmente grupos de investigación e investigadores con amplia trayectoria y reconocimiento en diversas disciplinas cuya región objeto de estudio es el Caribe colombiano. A su vez son muy pocos los investigadores que pueden dedicar 100% de su trabajo a esta labor. Son las siete universidades públicas asociadas al Sistema Universitario Estatal del Caribe las que asumen a partir de 2003 el soporte financiero al Observatorio del Caribe.. las lenguas./jul. Los investigadores universitarios vienen siendo empujados a un mayor número de horas de clase y de actividad burocrática. 2007 . salvo contadas excepciones. nacido después de una década de planteamientos provenientes de distintas instancias sobre la necesidad de dotar a la región de un centro de estudios regionales independiente y vinculado a los procesos de desarrollo regional. Los investigadores de los centros de investigación independientes. los fondos públicos son insuficientes. la plástica. En las principales universidades hay.Estudios del Caribe en Colômbia. la dota del instituto y abre la maestría arriba señalada. la literatura.

hay que resaltar para el análisis de este panel la Red Ocaribe a la que pertenecen decenas de investigadores y que en los últimos años ha permitido el desarrollo de proyectos interdisciplinarios. empresariales y políticos. periodistas. VIII. la Universidad de los Andes y la Universidad de Antioquia. Inglaterra. Se nombran aquí como parte de la reseña: se trata de El Caribe en la Nación Colombiana. vol. en esta última se realiza anualmente un diplomado durante la Escuela de Verano sobre Cartagena y el conocimiento vital del Caribe. valora la producción intelectual de la región y facilita la discusión. cultuales. promotores del desarrollo regional). que fue llamada Caribe Espléndido y el desarrollo de la primera cátedra virtual sobre el Caribe que dio pie a la publicación Un Caribe sin plantación. principalmente). así como la Universidad del Norte en Baranquilla que lideró la nueva generación de publicaciones y estudios. La mayor parte de las instituciones que arriba se mencionan. en los que de manera particular he estado involucrado. España. Quiero resaltar 274 Revista Brasileira do Caribe.Alberto Abello Vives laboral y participan en la gestión de los recursos para financiar sus líneas de investigación. los estudios del Caribe interactuan con sectores sociales. Igualmente. Francia. De esta red forman parte investigadores colombianos no oriundos ni residentes en la región pero que se han dedicado al estudio del Caribe colombiano (investigadores de la Universidad Nacional de Colombia. n° 15 . una reflexión nacional que sirvió de base para una exposición en el Museo Nacional de Colombia en Bogotá. en dos universidades existen cátedras del Caribe dirigidas a estudiantes de pregrado (Universidad del Magdalena y Universidad Tecnológica de Bolívar). La región cuenta con una Cátedra del Caribe itinerante por las principales ciudades que divulga el conocimiento nuevo. también investigadores extranjeros (Suiza. Hoy el Caribe colombiano cuenta con varias redes (investigadores. En este ejercicio. tienen líneas de publicaciones y revistas (de las de nueva generación hay que destacar a Huellas de la Universidad del Norte). además de programas de divulgación científica. Estados Unidos) con los que hay rico intercambio.

economía. geografía. se encuentran los avances en 10 áreas centrales del conocimiento. la conceptualización. educación.Estudios del Caribe en Colômbia. En Barranquilla. publicado en 2006. en este momento. Una “nueva” historia de Cartagena. diez ensayos sobre el estado del arte de la investigación. Así como la interacción con programas radiales (Concierto caribe en Uninorte FM Estéreo) y de la televisión regional. Hay que destacar en esta interacción. diseño. Hay. construcción y montaje del Museo del Caribe en Barranquilla que ha convocado igualmente a investigadores de distintas disciplinas a lo largo de los últimos seis años. del Área Cultural del Banco de la República de Cartagena de Indias. Santa Marta y Cartagena existen arhivos históricos y eclesiásticos (caso de Santa Marta). Hay que resaltar igualmente la labor. literatura y música. que realiza de manera bienal el Simposio sobre la Historiografía de Cartagena. Historia. lingüística. Santa Marta y Sincelejo. Hoy la Cinemateca del Caribe. cuenta con un archivo que conserva la memoria audiovisual de la región. ambiente. que lleva una década. ciudades. la asociación que existe entre el Observatorio del Caribe y la Cámara de Comercio de Cartagena alrededor de una línea de estudios sobre la competitividad de Cartagena. así como la articulación entre el sector empresarial de Barranquilla con Fundesarrollo. también existen archivos fotográficos y fototecas históricas en las ciudades de Cartagena. En Respirando el Caribe (volumen II) editado por Aarón Espinosa. Con el la ciudad y parte de la región Caribe se han nutrido de los adelantos en el conocimiento derivados de la producción de destacados investigadores mundiales.. ha sido publicada con las memorias de estos eventos académicos internacionales./jul. antropología. Hoy existe una extensa y rica bibliografía nacional derivada de los estudios del Caribe colombiano codiciada por investigadores extranjeros.. si así pudiera llamarse. por lo menos una decena de grandes compilaciones que bien podrían entenderse 275 jan. que recoge las memorias del II Encuentro de la Red Ocaribe realizado en 2005. en Barranquilla. 2007 .

estudios. a pesar de las dificultades. en el que la región ha sido una de las regiones colombianas capturadas (en lo político. mayores herramientas de análisis por parte de la ciudadanía1. ya hay una primera fase de los estudios del Caribe en la era digital. no se detiene. aun fragmentado. Si se examinan los sitios de Internet de entidades como el Banco de la República. se puede anotar que éstos se encuentran vivos y su ejercicio es un continuo que no se detiene. Cada vez más el desciframiento del Caribe supera las individualidades y avanza por el camino de la cooperación y las redes. La existencia de centros especializados y grupos de investigación. de una historia monumental del Caribe. Fundesarrollo. hasta que lo cuartean y lo desbaratan. Y la utilización de ellos es alta. entre otras. de publicaciones virtuales en sitios de buena parte de las instituciones arriba mencionadas. Mirada en perspectiva. Mayores fortalezas en este campo permitirían en las actuales circunstancias de auge de un conflicto armado. así como el accionar de redes lo demuestran. 276 Revista Brasileira do Caribe. No pueden estar ausentes de este análisis la aparición. museos y foros. Después de este corto recorrido sobre la investigación. paralelo a todo esto. de Estudios del Caribe colombiano. VIII. Quiero recordar una frase de Gabriel García Márquez que podría utilizarse para entender los estudios del Caribe colombiano: “Mi profesor Juan Bosch.Alberto Abello Vives como un Manual General. militar. vol. sino que avanza. autor. dijo alguna vez en privado que nuestro mundo mágico es como esas plantas invencibles que renacen debajo del cemento. cátedras. la formación y la divulgación en el campo de los estudios del Caribe colombiano. La Ciencia Política es una de las disicplinas de análisis con mayores debilidades. la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. agendas. económico) por el narcoparamilitarismo de derecha. Así es también en Colombia la búsqueda del conocimiento del Caribe. La producción audiovisual se ha enriquecido con los estudios y la virtualidad vive su primera generación. n° 15 . se encontrarán datos. entre otras muchas cosas. y vuelven a florecer en el mismo sitio”.

/jul.. en la producción de diagnósticos y análisis sobre su economía y el grado de desarrollo social. la era de las primeras obras que durante cierto tiempo generaron una mirada unánime. y en los que la academia hace cada vez mayores aportes.. Se destacan igualmente la pluralidad no sólo en el campo de las disciplinas. Una serie de publicaciones y eventos en los que se encuentran la nación y la región. en la discusión de las políticas públicas nacionales que la afectan. a deconstruir estereotipos y falsas concepciones sobre la “costeñidad” existentes en el imaginario nacional. músicos. y como parte de ella. Gracias a todo ello. ya ha sido superada.Estudios del Caribe en Colômbia. por supuesto. hoy ya existe controversia académica sobre fenómenos históricos. aunque con altibajos. Asímismo. 2007 . mantiene la discusión sobre el desarrollo regional. Los estudios del Caribe han contribuido al igual que la cultura regional. precisamente por la diversidad. enriquece y enaltece el ejercicio académico. Todo esto ha contribuído a reducir la dispersión. así como diversos estamentos. La academia ha dado continuidad a una tradición regional de pensarse. artistas. económicos y culturales que. viva. Es más. el Taller del Caribe Colombiano. la falta de sistematicidad. sino en cuanto a visiones y enfoques sobre la historia y el desarrollo regional. En el momento de escribir este ensayo. en la que 277 jan. promovido por tres de los centros de investigación arriba señalados adelantan una disusión. de promover una mayor integración regional y de reivindicar el desarrollo social y económico. como no ha ocurrido en otra región de Colombia. en el manejo de información y estadísticas sobre su situación. un nuevo ejercicio. el país se ha “caribeñizado”. La región ha avanzado en el conocimiento de las causas de su atraso. un mayor conocimiento nacional sobre el Caribe se debe a la labor de investigadores. Durante casi veinte años (desde finales de los setenta hasta la desaparición del organismo regional de planificación –Corpes) la región ha adelantado grandes foros y simposios regionales. la espontaneidad y le emotividad que habían caracterizado al Caribe colombiano en sus esfuerzos por pensarse. escritores.

fundamentalmente de enclave. n° 15 . los sectores mineros. Las brechas entre los niveles de ingreso per cápita son. no han generado una recomposición económica. y muy a pesar de tener tres puertos de primer orden. Mientras el centro del país se ha consolidado aun más. Las disparidades regionales en Colombia son reales y persistentes. vol. indagando por los obstáculos al desarrollo y por las políticas públicas que Colombia requiere para superar las disparidades económicas regionales. igualmente. mientras la economía nacional se consolida en el centro andino. Por el contrario hemos visto un acentuado proceso de desindustrialización que ha acompañado a la disminución del producto bruto agropecuario. Muy a pesar de que el Caribe estaba llamado a convertirse en la región más favorecida con la inserción al nuevo modelo económico los resultados sobre los que hoy debaten sus centros de investigación no son favorables. la región a la que no le ha ido bien con uno u otro modelo de desarrollo vio aparecer casi dos millones de nuevos pobres. un rezago en las condiciones de vida de su población. en regiones como el Caribe colombiano la divergencia ha crecido. debemos recalcar. La propuesta de los centros de investigación del Caribe colocando en la agenda pública la búsqueda de políticas regionales diferenciadas que contribuyan efectivamente a disminuir las 278 Revista Brasileira do Caribe. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. Hoy la región Caribe. especialmente. pero presenta. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. en las principales ciudades. La Costa Caribe no se convirtió. persistentes y se han acentuado. en un modelo supuestamente pensado para la inserción a la economía internacional. tampoco hubo aquí una expansión industrial. en la región exportadora de Colombia. Los nuevos sectores.Alberto Abello Vives participan distintos estamentos. VIII. En el Caribe la pobreza por ingreso de sus habitantes es aun sumamente alta. es sin lugar a dudas la región más estudiadas de Colombia. Entre 1998 y 2003.

d./jul. visiones) y la adversidad (financiera). 2007 . hay zonas menos estudiadas –Caribe chocoano y antioqueño). c. En Colombia. Profundizar una visión internacional. como parte del Gran Caribe. las dificultades financieras de amplios sectores del empresariado local y la centralización a escala global de las decisiones financieras de apoyo a la cultura y la investigación por parte de empresas multinacionales con inversiones en la región. Completar la visión regional de conjunto (hay disciplinas con mayores aportes y predominios (historia y economía). Realizar estudios que dialoguen con las otras regiones de Colombia. Aproximarse a una mayor escala y a los estudios comparativos ayudará a enriquecer esa búsqueda de identidades y a llenar de argumentos las 279 jan. Un mayor entendimiento de Colombia saldría de esa urdimbre resultado del cruce de esos hilos que conectan el país a lo largo de su historia. áreas de estudio. Pero es innegable el impacto del modelo económico vigente en los estudios del Caribe. en vista de que se han estudiado en espacios geográficos separados (Caribe continental y caribe insular.. los estudios del Caribe avanzan en medio de la diversidad (institucional. Retos de los estudios del Caribe Los siguientes son los principales retos de los estudios del Caribe en Colombia2: a. no contribuyen al fortalecimiento de los estudios del Caribe.. Los estudios del Caribe en Colombia se caracterizan por sus miradas locales. Buscar entender procesos sincrónicos. modelo caracterizado por la disminución del tamaño del estado y la consecuente fragilidad financiera de las universidades públicas. La reducción de fuentes de financiación. por ejemplo). b. disparidades regionales le da a los estudios del Caribe en Colombia una singular particularidad.Estudios del Caribe en Colômbia.

VIII. de los vínculos con el Centro de Estudios del Caribe de la Universidad Metropolitana de Londres. contando con sectores de la academia para ello. y multilingüe. actividades permanentemente. Colombia desarrolló una iniciativa gubernamental de acercarse a este mundo. está llamado a facilitar la organización de grupos de investigación internacionales. particularidades propias. el ejercicio virtual. del Centro de Estudios del Caribe en Brasil. sino hacer parte de redes y la organización de proyectos científicos de la gran área del Caribe. vol. de la Asociación Mexicana de Estudios del Caribe (AMEC). Promover aun más el encuentro de las disciplinas.Alberto Abello Vives propuestas de integración política y relaciones comerciales. igualmente. Creo que la experiencia colombiana arroja elementos. los estudios colombianos del Caribe requieren no sólo una mayor visibilidad internacional. Hoy más allá de la asistencia a congresos de la Asociación de Estudios del Caribe (CSA en su sigla en inglés). el intercambio de métodos y el trabajo colectivo. Si bien las particularidades colombianas dan a los estudios del Caribe. de la vinculación a la conceptualización de la maestría virtual en estudios del Caribe coordinada por West Indies University y apoyada por la Unesco. construcción de redes. Recordemos que en mayo de 2005 cuando se realizó en Cartagena de Indias la 37ª Conferencia Anual de Historiadores del Caribe. durante el cuatrienio 19982002. Se ha dado un paso en aumentar las relaciones de los investigadores y universidades con el Gran Caribe. como una múltiple institucionalidad. un historiador se preguntaba porqué se estaba haciendo ese encuentro por fuera del Caribe. los dos últimos retos de los estudios del Caribe en Colombia son sin lugar a dudas de aquellos que caracterizan en general a los estudios del Caribe: la falta de visiones regionales de Gran Caribe y la debilidad aún de la interdisciplinariedad. El entendimiento de la realidad y la construcción de conocimiento complejo está exigiendo el rompimiento de las visiones disciplinarias.3 e. En ello. generación e intercambio contínuo de 280 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . aunque más dispendioso y costoso.

Un esfuerzo adicional es necesario hacer para alcanzar una mayor comprensión de los profesionales de distintas disciplinas que acceden a maestrías en estudios del Caribe. del profesor Jario Parada en el sexto taller del Caribe. se les valora y reconoce. 16 de mayo de 20072 Estos comentarios fueron planteados por el autor anteriormente y publicados. Repensar los estudios del Caribe significa repensar la forma como hasta ahora se actúa para su desarrollo. Ver El Caribe en la Nación colombiana (2006). publicado por Planeta en 2006 y el ensayo. 3 Ibidem. La relación entre los estudios del Caribe como especialidad.93. la organización de grupos de trabajo. p. investigativa o de posgrados. por una mayor dinámica virtual. 21 1 281 jan. Las mejores experiencias son aquellas incluyentes.. NOTAS Se destacan Los señores de la Guerra de Gustavo Duncan. Bogotá: Museo Nacional de la Colombia. Barranquilla. interacción con el resto de la sociedad. Una verdadera red de estudios del Caribe. debería de ir más allá de convocar a un evento internacional periódico y preocuparse por un mayor flujo de información y de contenidos. p. por la gestión de recursos para programas de impacto regional./jul. 2007 . por ejemplo. desde la economía política. comunicación. que se convierten en factores positivos para la supervivencia de los estudios del Caribe en medio de las dificultades. por la promoción del trabajo en grupo entre investigadores de distintos países. 2006. se organizan.Estudios del Caribe en Colômbia. con amplia convocatoria. y las disciplinas de los pregrados se encuentra aún por conocerse mejor.. que promueven la interdisciplinariedad.

282 .

Antonio.. n° 15. Seu sentido coloca em xeque o paradoxo implicado na bandeira política norte americana: um imperialismo salvífico quase natural que na prática é muito distante disso—a recente investida democrática em terras iraquianas é exemplo atual de peso. e tão perto dos Estados Unidos”. este dito expressa uma condição de existência comum a países do continente meso e sul americano: a proximidade física em relação aos Estados Unidos. VIII. potência esta que teve uma sobressalente mudança hierárquica no cenário econômico mundial. vol. Porto Rico. 242 p. dela decorre um sentido que expressa a novidade deste trabalho. na qual se elevara ao avatar de maior poderio atual. Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos. ainda mais estando este incompleto.. particularmente os antilhanos.Resenha GAZTAMBIDE-GEIGEL. uma idéia de unidade se entrelaça com o omitido e suspenso pelas reticências: “. A atualidade do dito faz-se clara. A invocação de um dito popular não se dá de forma gratuita. Além levar este paradoxo acerca da política americana com 283 Revista Brasileira do Caribe. Leonardo de Melo Rodrigues Ao nomear ensaios aparentemente dispersos sob o título de um dito popular. San Ruan: Edicines Callejón. como Gaztambide-Geigel faz questão de ressaltar. Mesmo o dito sendo de origem mexicana. 2006. E a novidade deste trabalho é justamente se adentrar no conjunto de relações que presidiram o processo de emergência da potência norte americana em relação aos vizinhos do sul.. Tan lejos de Dios.. 2007 . 283-287.

antropologia. o conceito de identidade não deixou de se atravessar por objetos os mais distintos. vol. No primeiro ensaio. Todavia. E. se formam as identidades postas em jogo ao evocar os Caribes. as contingências e encontros que marcaram sua emergência. Entretanto. apoiado em uma massa documentária de fôlego e decorrente de vários anos de pesquisa. a apresentação do presente trabalho se releva não só entre os pesquisadores caribenhos. história. Desse modo. submete o termo Caribe à sua análise historiográfica. como também para interessados no tema da “identidade” na contemporaneidade. busca-se ver justamente as circunstâncias em jogo no momento de sua criação. seria uma ingenuidade supor que seus métodos permaneceriam os mesmos submetidos a objetos tão singulares. o Caribe não é um objeto fixo e estático. É certo que as discussões identitárias provêem de pesquisas inscritas metodicamente no campo dos estudos culturais. em geral. que consuma ainda mais o seu valor analítico. 284 Revista Brasileira do Caribe. oriundos de outros campos de saber. ou melhor.Leonardo de Melo Rodrigues meticulosidade. que bastaria ao historiador expor suas formas e conteúdos. Desse modo. De modo que tal temática fora incorporada nas ciências humanas. sociologia. se se pode falar de um tema central coordenador dos setes ensaios constituintes da presente coletânea. O que atesta seu estatuto de relevante acontecimento no pensamento das ditas “ciências humanas”. E ao inquirir quanto às relações políticas embutidas no momento de sua construção. Gaztambide-Geigel abordou tal temática numa dimensão bem delimitada. n° 15 . este sem dúvida é o jogo implícito em vista das circunstâncias pelas quais se forma o conceito Caribe. Hoje oferece tal diversidade. e sim um objeto inventado. São muitas as perspectivas de utilização. Seu problema foi como se construiu o termo Caribe em relação à política internacional norteamericana para os vizinhos antilhanos. Situa seu caráter enquanto invenção. a filosofia. e se servir de um avantajado corpo material. geografia e mesmo. tomado como invenção. radicados no Brasil ou não. VIII. “La invención del Caribe a partir de 1898”. que não cessa de se recriar e reiterar-se.

foram decorridas enunciações bem diversas para o conceito “caribe”. “La geopolítica del antillanismo de fines del siglo XIX”. dado sua localização estratégica em relação ao mercado mundial internacional. vários Caribes de maneira que. começa-se a convergir às idéias de hispanoamericanismo e de latinoamericanismo. Porto Rico e República Dominicana. Mostra como. e sim como houve./jul. e pôde ver suas diversas usagens mediante as situações próprias e específicas à história antilhana: de um arquipélago atlântico fragmentado submisso à metrópoles coloniais ao “Gran Caribe” em vias de emancipação cultural. do final do século XIX aos dias atuais: o caribe insular. não falam dos mesmos objetos. em cada situação histórica em que é invocado. persistia uma colonialidade já dita como “cultural” e combatida pelos libertários antilhanos. O papel deles expressam um movimento. 2007 . procura-se destacar as forças motrizes do latinoamericanismo. Assim. diante da ameaça imperial norteamericana. Cuba. pronto e acabado. o autor propôs uma historicização do termo. já na década de 90 deste mesmo século. as Antilhas espanholas. numa engrenagem à qual as Antilhas estariam em função otimizada. por volta da metade do século XIX. e há. No segundo ensaio. Gaztambide avalia as idéias antilhanas a partir de figuras históricas inseridas no redemoinho hispanoamericano e antilhano: Marti. o termo não se refere às mesmas coisas. Hostos e Betonces. cujo sentido atravessaria a história latinoamericana. Por conseguinte. Gaztambide cunhou quatro momentos que são decisivos para a significação do termo caribe.Resenha O que o jogo em torno da criação do termo Caribe revela é que não há um Caribe. Situação que muda. Mesmo que uma primeira onda de independência arrebatara o continente décadas antes. Em vista disso. encabeçariam o sonho da “nuestra América”. sob as luzes antilhanas. o caribe geopolítico. E a emancipação devia ser alçada nem tanto em 285 jan. o Gran Caribe ou Cuenca del Caribe e o caribe cultural. Personagens que dedicaram à luta emancipatória dos territórios coloniais da metrópole espanhola.

como defende Gaztambide. O conceito de ambigüidade. como atributo qualitativo da política externa norte americana. posta em prática no terço inicial do século XX e alterada com o término da Segunda Guerra Mundial. defendida como verdadeira representante do ideal republicano. bem como devia ser buscada em vista da potência emergente: a República norte americana. VIII. seguindo assim o exemplo do populismo de Porto Rico. encontrava-se também mostras de uma ação não imperialista. E explorar as ambigüidades por detrás das políticas internacionais norte americana é o tema central do terceiro ensaio: “El imperio ‘bueno’ del 98”. foi fator de grande determinação no caso de invenção do Caribe. este ensaio propõe a hipótese de como os efeitos da política de boa vizinhança fizeram valer no modo de organização interno dos países atingidos por tal postura ambígua. estava constituída às voltas de ambigüidades visíveis. Essa transição é o tema dos ensaios “Hacia uma historia social de las relaciones interamericanas: 286 Revista Brasileira do Caribe. Entretanto. que a partir da compra da Lousiana começou a deferir ações com finalidade de expandir sua soberania. como o título mesmo diz. Pois ao mesmo tempo em que o final do século XIX foi marcado por projetos políticos de cunho expansionista. Ressaltando a particularidade do populismo caribenho. marca de maneira decisiva a postura específica de seu imperialismo. n° 15 .Leonardo de Melo Rodrigues relação aos velhos impérios europeus. continentais e antilhanos. E a emergência dos Estados Unidos. A política imperial desta potência emergente aos fins do século XIX. São ambigüidades deste tipo que se alocam no cerne da campanha norte americana rumo à ascensão econômica e que foi aplicada aos vizinhos do Sul. passada a Segunda Guerra Mundial e com a efetivação do poderio norte americano. Em “La Buena vencidad y populismo”. vol. com a práxis política do populismo. já que é das ambigüidades geradas no interior da política imperial americana a razão das variações acerca deste processo de invenção. trata das relações da política internacional norte americana. a política da boa vizinhança cede lugar à política do bom sócio.

la idea del desarrolismo y el Caribe: Los orígenes”. e sim são efeitos da historicidade que perpassam as formações históricas. é o modo como a política do bom sócio criou um imaginário internacional que abaixo suas variações locais possibilitou a criação de identidades multiculturais. E também que não é simplesmente a modulação dos estratos interiores de uma sociedade por um fora.Resenha El camino del desarrollismo: 1946-1960” e “Estados Unidos. e sim o que se dá é um complexo jogo no qual relações de forças heterogêneas se interagem incessantemente. O projeto desenvolvimentista que esta política visa suplantar nos sócios do sul adapta-os aos moldes do capitalismo mundial integrado sob a égide do desenvolvimento econômico. 2007 . O tema do ultimo ensaio./jul. A política do bom sócio nada mais é que a adaptação da política externa norte americana no momento em que esta nação acede ao topo econômico da economia mundial. Desse modo o que o trajeto destes ensaios evidenciam é como as políticas internacionais não são exercidas de forma aleatória. “Identidades internacionales y cooperación regional en el Caribe”. ajustando de forma a assegurar ainda mais a supremacia americana. 287 jan. o Gran Caribe e o latinoamericano.

288 Revista Brasileira do Caribe. VIII. n° 15 . vol.

edu. Tem publicado vários livros sobre o Caribe colombiano. Corréio eletrônico:araujo.alexandre@uol. 2007. Goiânia: GEV. Correo electrônico: aabello@unitecnologica./jul.São Luis:SEIR/FAPEMA/EDUFMA.co Doutor Alexandre Martins de Araújo Doutor pela UFG possui várias obras publicadas. 2007 . 2002. Núcleo de Estudos AfroBrasileiros. Recientemente duas compilações suas foram publicadas na Colombia: El Caribe en la nación colombiana e Un Caribe sin plantación. Expeirências e Memórias. Relações Culturais Século XIX: Negros e Coolies em Trinidad (1845-1870).com.Os autores Doctor Alberto Abello Vives é economista.com.Mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão. Co-fundador e primeiro diretor do Observatório do Caribe Colombiano. Atualmente é decano da Faculdade de Ciencias Econômicas e Administrativas da Universidade Tecnológica de Bolívar en Cartagena de IndiasColombia.br 289 jan. Dentre suas obras destacamos: Ritmos da identidade.br Doutor Carlos Benedito Rodrigues da Silva Programa de PósGraduação de. a revista Aguaita e a Cátedra do Caribe colombiano. Correio eletrônico: carlosbene@terra. Caribe. dentre elas: “Memórias que curam” In Olga Cabrera. Universidade Federal do Maranhão. 2004. Ciências Sociais. Goiânia.

London: Macmillan Caribbean.com Kátia Frazão Costa Rodrigues é psicóloga clínica. “Enslaved in Stereotipes Race and representationin Post Independence Jamaica”. rpt 2005. Goiânia. Cristianismo em Goiás. n° 15 . além de colaborar com a União dos Escritores Angolanos. mestre em Letras pela Universidade Federal Fluminense e doutoranda. em março de 2007. 2004. na cadeira de Metodologia Científica. Durham: Duke University Press.UCG. na área de Literatura Comparada. 1993. Jamaican Dancehal Culture at large. desde abril de 2007. Jamaica. pela mesma instituição. Correio eletrónico: Carolyn. dentre suas principais publicações destacam: Livros: Sound clash. 2006 e Religiosidade e Sociabilidade entre os confrades do Patriarca São Jose In Quadros Eduardo. In sociedade e Cultura. trabalhos na área social com 154 crianças 290 Revista Brasileira do Caribe. Um balanço historiográfico. intitulado A escrita de uma subjetividade sem sujeito em Aimé Césaire e Edouard Glissant. Correio eletrônico: cristinadecassiapmoraes@hotmail. Entre suas publicações mais recentes destacam-se “Deus e o diabo no sertão dos Guayazes Abusos e desmandos do vigário da Vara de Vilan. Realiza. Qualificou o seu projeto.edu. Ed. New York: Palgrave MacMillan. Mona. Dentre alguns artigos: “Noises in the blood:Orality. 2003. Professora de Literary and Cultural Studies e Diretora do Institute of Caribbean Studies University of the West Indies. VIII. com pósgraduação em Psicoterapia e Psicologia Centrada na Pessoa. 2007. rpt 1994.Noises in the Blood: Orality. Reconhecida pela sua trajetória. 1995. rpt 2000. também.Os autores Doutora Carolyn Cooper. MBA em Gestão de Recursos Humanos pela FGV-RJ. Gender and the ‘Vulgar’ Body of Jamaican Popular Culture.cooper@uwimona. na revisão de textos de jovens autores. onde colabora como professora convidada da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. vol. Gender and the vulgar body of Jamaican Popular Culture”.jm Doutora Cristina de Cassia Pereira Moraes. Reside em Luanda.

paisagens na literatura canadense (EdUFF/ABECAN.Correio eletrônico: leovid. Algumas publicações: “Lieux de la mémoire et de l’oubli dans des textes migrants” (In: ALMEIDA. 2007). 2004) e Figurações da alteridade (em colaboração com a Profa Eurídice Figueiredo.br Doutora Maria Bernadette Velloso Porto. Fronteiras. Faz parte de dois grupos de pesquisa do CNPq: Identidades em trânsito:estéticas transnacionais (coordenadora ao lado da Profa Vera Lúcia Soares da UFF) e Estudos do Caribe no Brasil (coordenado pela Profa Olga Cabrera).Os autores órfãs da guerra. vagabundos e mendigos: desvios. “Andarilhos. 1997.2006). 2007). capítulos de livros. 2005). devires e lugares da alteridade” (In: FIGUEIREDO. dentre elas destacam-se: “Bob Marley in Brazil”. Maria Bernadette.com. volume VI da Revista Brasileira do Caribe. Publicou artigos. UFMG. 2007 . possui várias publicações. Textos apresentados no VIII Simpósio Nacional (em colaboração com Lucia Helena Vianna e Lívia Reis(1999). Correio eletrônico: mbvporto@hotmail.com 291 jan. 2000). Eurídice e PORTO.com Leonardo Vidigal doutorando da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Brasil/Canadá: visões. In: The Beat Magaziine. Correio eletrônico: mbvporto@hotmail. “Habitabilidade e cartografias do virtual no universo de Régine Robin” (In: HANCIAU./jul. Organizou as seguintes obras coletivas: Mulher e Literatura. ensaios em revistas especializadas . É coordenadora do Núcleo de Estudos Canadenses da UFF. passagens.bhz@terra. ABECAN/FURG. no atendimento psicoterápico e em oficinas de leitura. EdUFF/ ABECAN. EdUFF/ABECAN. estimulando o contato com a Literatura. Perspectivas transnacionais. Organizou o número 12. pesquisa sobre a temática do reggae há vários anos. Nubia. Los angeles. Sandra Regina Goulart de. Identidades em trânsito (EdUFF/ABECAN. perspectivas do Ártico ao Antártico”.

Boletim Goiano de Geografia. Dentre suas publicações: “Cultura jeje na diáspora: Maranhão e Jamaica”. 2002. v.com. territorialidade e corporalidade”. p. Goiânia.143. In: III Simpósio Internacional Cultura e Identidades. Correio eletrônico: tnegrão@gmail.377 . p. v.166. Brasília:Paralelo 15 e “Nas terras do sol.165 .com Maristani de Sousa Rosa Universidade Estadual do Maranhão. v. Goiânia: Universidade Católica de Goiás.2. .Maria Lemke Loiola . 2003.br Doutora Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo possui uma rica trajetória como professora da Universidade de Brasília. Dentre suas publicações destacam-se: “Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava”. Boletim Goiano de Geografia.22. E “Ritmos de Identidade: música. . Correio eletrônico: marialemke@pop.383. Centro de Estudos Superiores de Imperatriz. 2007. CECAB. “Quatro Tempos de Ideologia em Goiás”. Departamento de História e Geografia. “Coração das trevas”. Correio eletrônico: maristanerosa@terra. In: História Revista. Goiânia. p. Pinta e Nina: a redescoberta dos Caribes em espaços discursivos brasileiros” In: Cenários Caribenhos. “O reggae na Jamaica Brasileira: interlocução jurídica com cidadania e política a partir de letras musicais” In: 25a Reunião Brasileira de Antropologia.141 .23.com. Goiânia: Ed. Goiânia: UCG. 2007.b 292 . 2005. 2007. é mestranda da pós-graduação em História pela UFG. Estudante da Pós Graduação da Universidade Federal de Maranhão. “História e Cultura Africana e Afro-americana”. 2004. Brasil e cuba nas representações de Glauber rocha” In: Caribe sintonias e dissonancias. autora de “Santa Maria.

p. referências e notas. que deverão ser colocadas logo abaixo dos resumos. sem deslocamento da primeira linha. todas no formato acima especificado. Entrevistas com personalidades de grande expressão na historiografia caribenha. TIPOS DE TRABALHOS PUBLICADOS: Artigos. parágrafo justificado. Uma citação dentro de 293 . 5. sobretudo e-mail para contato. Deverão ser acompanhados de um breve currículo do autor. também no idioma original e em inglês e espanhol. 3. data da publicação e página(s) citada(s). 18-19). Os artigos deverão ainda ser acompanhados de dois resumos. espaçamento entre linhas simples. acompanhadas da indicação entre parêntesis do sobrenome do(s) autor(es).Normas Editoriais para Publicação de Artigos 1. com menos de cinco linhas. sendo neste caso uma cópia em disquete e outra impressa. sobre obra bibliográfica publicada nos últimos dois anos. cujo conteúdo se relacione com a história do Caribe. 1940. que tratem de estudos relacionados com o Caribe. 6. margens de 2. No caso do idioma original ser o inglês. CITAÇÕES: No corpo do texto. EXTENSÃO DOS TEXTOS: a extensão dos artigos deverá ter entre 15 e 20 páginas. com o mesmo tipo e tamanho da letra do texto. NORMATIZAÇÃO: todos os textos deverão obedecer ao padrão normativo da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas . que possam interessar aos pesquisadores caribenhos. devem vir transcritas entre aspas duplas. a partir da letra a. que reproduzam documentos históricos importantes relacionados com o Caribe. incluindo endereço. Exemplo: (CASTILLO. bem como de três palavras-chave. e Instrumentos de Trabalho. bibliotecas. sobretudo no que se refere às citações. em corpo 10 normal. repertórios. francês ou inglês. 2. Já os dois resumos dos artigos deverão conter em torno de 10 (dez) linhas. inéditos. FORMA DE APRESENTAÇÃO: os trabalhos deverão ser encaminhados no formato Microsoft Word for Windows. o segundo idioma do resumo e das palavras-chave deverá ser o português e o espanhol. e a das resenhas entre 3 e 7 páginas. via e-mail ou via correio convencional. Com mais de cinco linhas devem ser transcritas em parágrafo distinto. sendo que diferentes títulos de um mesmo autor no mesmo ano.para apresentação de trabalhos científicos. com recuo à esquerda e sem aspas. inventários etc. IDIOMAS: A Revista Brasileira do Caribe publica colaborações em português. Resenhas Críticas. telefone/fax e. sendo um no idioma original e outro em inglês (abstract) ou espanhol. 4. espanhol. deverão ser diferenciados com uma letra após a data. ou que informem comentadamente sobre arquivos.5 cm. fonte Times New Roman em corpo nº 11. versão 2000 ou 2003.

6-34. Letra incial do nome do Autor. em ordem crescente de numeração. jul.) Título da Coletânea. Reinterpretar el Caribe. 1996. data. V. N. N. F. 1999. Local: Editora. página inicial-final do artigo.outra é indicado por aspas simples. explanações ou traduções que não caberiam no texto. Exemplo: GIRVAN. p. Revista Mexicana del Caribe. Modernidad razón e identidad en América Latina. J. bem como apresentar indicações completas. 9. ENDEREÇO PARA ENVIO DAS CONTRIBUIÇÕES: 294 . ano de publicação. a mesma deve vir com citação de autor. ARTIGO OU CAPÍTULO DE COLETÂNEA: SOBRENOME. ano e página como a anterior. conforme os modelos abaixo: Livro: SOBRENOME. que não os artigos. sucintas e claras. Título do periódico. Título do artigo. E. BIBLIOGRAFIA: deve vir ao final do trabalho e contemplar as obras efetivamente citadas e referenciadas ao longo do texto e nas notas de rodapé. Exemplo: LARRAÍN IBÁÑEZ. Letra inicial do nome do organizador. 10. Enfoques filosóficos literarios. 1994. Título do livro: sub-título. Chile: Editorial Andrés Bello. Estas citações abreviadas enviam à bibliografia no final do artigo. Local de publicação. : SOBRENOME. Exemplo: AINSA. La Habana: Editorial Academia. (org. UBIETA GOMEZ. Letra inicial do nome do Autor. CRITÉRIOS DE REVISÃO: os artigos enviados à Revista Brasileira do Caribe serão remetidos a pelo menos dois pareceristas escolhidos entre os membros dos Conselhos Editorial e Consultivo que poderão recomendar ou não a publicação. p. 8. Letra inicial do nome do Autor. página inicial-página final do artigo ou capítulo. podem ser de esclarecimento ou explicativas. O Conselho Editorial se reserva o direito de sugerir ao autor modificações de forma com o objetivo de adequar o texto às dimensões da revista e a seu padrão editorial e gráfico. usadas para a apresentação de comentários. número do volume. Reflejos y antinomias de la problematica de la identidad en el discurso narrativo latinoamericano. a quem cabe a decisão referente à oportunidade da publicação das contribuições recebidas. ano. (org. 7.) Identidad cultural latinoamericana. 53-72. 7. Devem vir em corpo 8. NOTAS DE RODAPÉ: breves. ARTIGO DE REVISTAS OU PERIÓDICOS: SOBRENOME. número do fascículo. Os demais tipos de textos. serão apreciados pelo Conselho Editorial. Santiago. ou ainda recomendá-la com modificações. Local: Editora. Título do artigo ou capítulo./dec. 4.

Revista Brasileira do Caribe Universidade Federal de Goiás Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia Campus II .sala 42 Goiânia .001-970 Fone: 55-62.ufg.3521-1457 Fax: 55-62-3292-1118 E-mail: ocabrera@fchf.br 295 .Goiás CEP: 74.