Universidade Federal de Goiás - UFG Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB ISSN: 1518-6784

Revista Brasileira do Caribe
Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil

CECAB, Goiânia, vol. VIII, nº 15 - jul./dez., 2007

Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB
Diretora: Olga Cabrera Secretária: Leonardo de M. Rodrigues

Revista Brasileira do Caribe Editora Responsavel/Organizadora do Volume: Olga Cabrera
Indexada pela Library of Congress. Control number: 2004204431. www.catalog.loc.gov e pelo Directorio Latindex /UNAM/ México. www.latindex.unam.mx Conselho Editorial Olga Cabrera - Brígida M. Pastor - Danilo Rabelo Conselho Consultivo Juan J. Baldrich, Pedro L. San Miguel (Universidad de Río Piedras, Puerto Rico); Consuelo Naranjo (Consejo Superior de Investigaciones Científicas - CSIC-Madrid, Espanha); Ernest Pépin (Escritor, Guadaloupe); Olga Portuondo (Universidad de Santiago de Cuba, Cuba); Ileana Sanz (Universidad Habana, Cuba); Laura Muñoz (Instituto Mora, México); Maria Teresa Cortés Zavala, Universidad Michoacana de San Hidalgo, México); Miguel Suarez Bosa (Universidad de Las Palmas de Gran Canária, Espanha); Maria Therezinha F. Negrão de Melo, Eleonora Zicari, Jaime de Almeida (Universidade de Brasília, Brasil); Eugênio Rezende de Carvalho, Isabel Ibarra, Luis Sergio Duarte da Silva (Universidade Federal de Goiás, Brasil); Euridice Figuereido, Maria Bernadette Velloso Porto (Universidade Fluminense, R. de Janeiro, Brasil); Rohda Reddock, Susan Mains, Patsy Lewis (University of the West Indies,Jamaica); Rose Mary Allen (University of the Netherlands Antilles, Curaçao); Rawle Gibbons (Universisity of the West Indies, Trinidad), Diana Soto(Un. Bogotá Col.), Diana Lago e Alfonso Múnera (Un. Cartagena de Indias, Col.) Comissão Técnica (Projeto Gráfico/Editoração): Leonardo de Melo Rodrigues Capa: Adriana Mendonça Revista Brasileira do Caribe: Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil/Universidade Federal de Goiás, vol. VIII, nº 15, (jul./dez), Goiânia, Ed. CECAB, 2007. Semestral. Descrição baseada em: vol. VIII, nº 15 (jun./dez. 2007). ISSN:1518-6784 295 p. 1. Caribe - História - Periódicos.
CDU: 94 (1-928.9)

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* Os dados e conceitos emitidos nos artigos, bem como a exatidão das referências bibliográficas são de responsabilidade dos autores. ** Os artigos recebidos para publicação são apreciados por no mínimo 2 (dois) revisores, escolhidos preferencialmente entre os membros dos Conselhos Editorial e consultores externos especializados. Data de Circulação: Dezembro/2007 Copyright
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Tiragem Bruta: 600 exemplares

2007, Centro de Estudos do Caribe no Brasil

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Sumário
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Carolyn Cooper ........................................................11 Os sons do Atlântico negro Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 O reggae na “Jamaica Brasileira” Cidadania e Política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa..........................................41 Enredando Brasil/Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrações de idéias, influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo..................85 Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto.................................109 A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à Antillanite Césaire e Glissant. Katia Frazão Costa Rodrigues...................................137

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Plantation Legal: Trinidad século XIX Alexandre Martins.....................................................165 O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes............................197 A morte branca do escravo negro: Considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola.................................................245 Estudios del Caribe en Colombia: Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives.................................................267 Gaztambide-Geigel, Antonio. Tan lejos de Dios... Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos Leonardo de Melo Rodrigues...................................284 Os autores........................................................................289

4

Summary
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica Carolyn Cooper..........................................................11 The sounds of the black Athlantic Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 Reggae in the Brazilian Jamaica: Citizenship and politics in the lirics of Songs Maristani de Sousa Rosa...........................................41 Interlacing Brazil and Jamaica: An international connection through filmography and popular music Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrations of ideas, influences or reactivations? Cinematographic production in Brazil and Cuba as desterritorialized experiences Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo................85 A voice from the haitian diaspora in the migrant‘s literature of Quebec Maria Bernadette Velloso Porto...............................109

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.....................267 Gaztambide Antonio.......... Leonardo de Melo Rodrigues.....165 The slave trade in Brazil in the eighteenth century Cristina de Cassia Pereira Moraes.....................The construction of identity in francophone caribbean from negritude to antilleanness: Césaire e Glissant.............................. Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola.197 The black slave´s with death: Some considerations on slavery in Brazil.....................284 About the authors..... Far of God.......................................................................................137 Legal plantation: Trinidad nineteenth century Alexandre Martins Araújo.................................................. Katia Frazão Costa Rodrigues.............245 Studies of the Caribbean in Colombia: Between diversity and adversity Alberto Abello Vives..............289 6 ................... Essays about relation between Caribbean and United States.

Olga Cabrera e inglês. da destacada historiadora jamaicana Carolyn Cooper. Adriana Mendonça. O presente número da Revista Brasileira do Caribe apresenta vários temas que podem ser agrupados no eixo das Conexões Afro-Atlânticas: Jamaica/Brasil/Caribe. a transcendência da Revista tem permitido o aumento de artigos de todo o mundo que chegam até a redação. e a arte utilizada nas capas das revistas são todas originais. “Lick Samba: 7 7002 . O primeiro deles. Brígida Pastor) e da aplicação das normas de publicação aos artigos. ou em torno a um tema. é outro dos objetivos alcançados. será dedicado à Cuba. Estas abrangem desde àquelas relacionadas ao conteúdo quanto às formais. A reformulação do Conselho Editorial e de seu compromisso com a terminação bem sucedida da revista mediante uma revisão cuidadosa das línguas (português. O aumento do Conselho Consultivo da Revista tem dado um fluxo mais rápido à avaliação dos artigos para sua publicação. o número 17 ao Haiti e o 18 à literatura francófona. possibilita pensar na conversão dos próximos números em dossiês dedicados especialmente a um país do Caribe. Quatro artigos com diferentes abordagens estudam essas relaciones.Editorial Olga Cabrera Diretora da Revista Brasileira do Caribe. No que respeita ao conteúdo. autorizando a submissão dos mesmos a uma avaliação mais rigorosa. A presença de um número muito mais expressivo de colaboradores no Conselho Consultivo e o acréscimo de artigos para ser avaliados.zed/. Do ponto de vista formal a Revista tem uma artista responsável pelo seu projeto gráfico.luj . espanhol. Danilo Rabelo e desde o próximo número Orlinda Carrijo Melo. O próximo número. O primeiro grupo de artigos da revista relaciona Brasil e Jamaica mediante a samba no solo jamaicano e o reggae no brasileiro. A Revista Brasileira do Caribe alcança seu número 15 após algumas transformações que começaram no número 9. 16.

e que deixam fora os sentimentos. no artigo “A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant”. Cidadania e política a partir de letras musicais” procura explicar mediante a música o processo identitário que transcende as fronteiras regionais e nacionais para conclamar objetivos sociais comuns dos negros da diáspora. O artigo de Maria Terezinha Negrão de Melo “Migrações de idéias. uma expressão das conexões AfroAtlânticas que enlaçam Brasil a Jamaica. A interpretação da desterritorialização no Caribe reaparece no excelente artigo de Maria Bernadette Velloso Porto “Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec”. certamente. Carlos Benedito Rodrigues da Silva. O autor aborda o reggae e os vínculos inter-culturais entre Brasil e Jamaica mediante a utilização do cinema como fonte de análise. Negrão de Melo.Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica” num jogo de palavras que transcendem as distorções sobre Kingston como a capital do crime para capital como “primeiro valor” que exemplifica com o estudo sobre a samba que se recria na Jamaica. Além do viés sexual utilizado nas interpretações sobre este tema. a samba jamaicana é. n° 15 . influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas” revela a transcendência e as conexões que decorrem do cinema de Glauber Rocha para a compreensão do espaço latino-americano. Katia Frazão de Costa Rodrigues. por sua vez apresenta em uma perspectiva relacional 8 Revista Brasileira do Caribe. vol. “Os Sons do Atlântico Negro” alerta das abordagens identitárias embasadas apenas nas análises sociais. as emoções. reclamados por Norbert Elias para compreender as mudanças na História. VIII. O artigo de Leonardo Vidigal “Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular” se enlaça de maneira simultânea aos três artigos anteriores e ao seguinte de Maria Therezinha F. O segundo artigo do reconhecido estudioso do reggae em Brasil. na visão de um poeta da diáspora caribenha (haitiana) no Canadá. Ainda o terceiro artigo de Maristane de Sousa Rosa “O Reggae na “Jamaica brasileira. econômicas.

Antonio. Os sete artigos se enlaçam a uma globalizada visão do Caribe nas suas múltiplas conexões e possibilidades de abordagens. por Leonardo de Melo Rodrigues. “Estudios del Caribe en Colombia./dez.. a resenha à obra de Antonio Gaztambide-Geigel. sobretudo. A revista contém outros dois artigos que relatam a experiência da escravidão no Goiás. Entre la diversidad y la adversidad”.. aborda o tema específico dos documentos de óbitos de negros tanto escravos como livres na região de Meya Ponte (Pirenópolis) Encerra a revista o artigo de Alberto Abello Vives. Por último. Trinidad século XIX” aborda as experiências dos imigrantes indianos e dos negros em Trinidad. também documental. A problemática e. no século XIX. O primeiro é um estudo sobre a escravidão em Goiás a partir da documentação dos arquivos e o segundo. destaca a relevância deste último livro do reconhecido historiador porto-riquenho e coloca a importância para o Brasil do estudo dos especialistas da região. 9 jul. quer seja nas ilhas ou no continente. A presença de várias culturas africanas na formação social aparece refletida na pesquisa documentada de Cristina de Cássia Pereira de Moraes “O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII” e no artigo de Maria Lemke Loiolo “A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776)”.os aportes teóricos na construção da idéia de antilhanité em Césaire e Glissant. Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos A seção final da Revista Brasileira do Caribe oferece também os dados mais importantes sobre os autores que participaram neste número. Tan lejos de Dios. o artigo de Alexandre Martins de Araújo “Plantation legal. Por último. 2007 . a indefinida e nebulosa situação do Caribe colombiano não é diferente à de outros países do Caribe e o reclamo do autor para atentar contra as desigualdades sociais procedentes da racialização pode ser ampliado a toda Afro-América ou Caribe. oferecendo um outro lado desse complexo mundo do Caribe. Brasil. os dois destacados literatos de Martinica. GAZTAMBIDE-GEIGEL.

10 .

Lick Samba Cultural Synergies between Brazil and Jamaica (Dedicated to the memory of Lino de Almeida. cidade de Kingston. in conversations about samba from Jamaica to Brazil. iniciadas na Jamaica e que agora se estendem ao solo brasileiro. 2007 . Jamaica Resumo Este artigo embrionário teve sua origem em maio de 2000 no Simpósio “Sinergias Culturais e oportunidades de negócios entre Brasil e Jamaica. Brazil. I intend a pun on ‘capital. mais que uma investigação. Jamaica. Jamaica. 11-20.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital. Este é um artigo que tem como base. VIII. n° 15. Goiânia. realizado na capital.’ meaning ‘first rate. Keywords: Samba. held in the capital city of Kingston. *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 11 Revista Brasileira do Caribe. significando não somente o local geopolítico da cidade senão também algo coloquial do moderno sentido de “capital” significando “primeiro valor”. beyond investigation.’ This is an article that is based. Há um jogo de palavras sobre o conceito “capital”. Spirit of the Crossroads) Carolyn Cooper Abstract This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing”. vol. conversações sobre a samba. O caso da música e das publicações”.

n° 15 . El caso de la música y de las publicaciones”.” held in the capital city of Kingston. deadly’ as in capital punishment. Palabras Claves: Samba. Brasil. But I wish to make it absolutely clear that what I offer here is not a scholarly article – the product of prolonged research and analysis. Instead. realizado en la ciudad de Kinsgton.’ meaning ‘first rate. Jamaica. This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing. 12 Revista Brasileira do Caribe. conversaciones iniciadas en Jamaica y que ahora se extienden al suelo brasileño. yet another meaning of ‘capital’ resonates: ‘mortal.’ Kingston is a much under-rated city. VIII.’ Here.chave: Samba. I was invited to contribute to the deliberations. Jamaica Resumen Este embrionario artículo tuvo su génesis en mayo de 2000 en el Simposio “Sinergías Culturales y oportunidades de negocios entre Brasil y Jamaica.Carolyn Cooper Palavras. As a cultural critic specialising in Jamaican popular culture and literature. My intuitive reflections on that occasion have now been somewhat refined for presentation on this panel. Jamaica. Este es un artículo que tiene como base. Jamaica. I intend a pun on ‘capital. it is an intervention in a conversation. En este intento un juego de palabras sobre el concepto “capital”. significando no sólo el local geopolítico de la ciudad sino también algo coloquial del moderno sentido de “capital” significando “primer valor”. now re-branded as Jamaica Trade and Invest. often excluded from the itinerary of most visitors to Jamaica who fear its vile reputation as a ‘murder capital. más allá de la investigación. The 2000 “Cultural Synergies” symposium was hosted by the Jamaica Promotions Corporation (JAMPRO). initiated in Jamaica. Brasil.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital. vol.

I’m ready And if it’s late at night I’m steady Give it to you anytime. I’ll feel the pain And it’s not that I am meek But it’s that I’m on a peak. lick samba An mi seh. But there are claims to be settled. the man surrenders to the painful pleasures of love. oh nah And though I know you hurt me again I’ll go on. lick samba. but I am calling Ooh. lick samba Oh yeah I could not resist. oh darling Ah just a lick samba.” Unable to resist the woman’s power. de 2007 . nevertheless. morning. which are heightened by the seductive refrain. apparent: “And it’s not that I am meek/ But it’s that I’m on a peak. it means 13 jul.” which I use to frame my remarks here. lick samba Ah say. ah lick i one time. lick samba If it’s morning time. “lick samba. right here I’ll settle the little I claim. lick samba. noon and night. oh darling. lick samba.” The primary meaning of ‘lick’ in English is to ‘tongue. ooh.” The singer is ready for action./dez. is the pulsating refrain of a song which appears to emblematize samba in primarily sexual terms: Lick samba. lick samba Ah bring it up.’ In slang usage in English. however “little. baby You can write it down in my name Morning time. Oh darling I’m not a preacher. the sexual allusions are. lick samba. noon or night Ah just a lick samba.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica that now continues on Brazilian soil. lick Samba1 Though somewhat enigmatically expressed. oh nah Another like this. lick samba Oh oh. Bob Marley’s invocation to “lick samba.

“Another like this”. In the song “Trench Town Rock. right here] ambiguously suggests the pleasurable hit of vigorous – not violent – oral/sexual contact. as well. that here this ‘it. connoting the call and response structure of African oral discourse.” Bob Marley deploys the trope of music as a ‘hit’ in precisely this way. the percussive beats of global African music. When it hits you feel no pain Wo wo I say One good thing about music. “I could not resist. singular interpretation. Not just the conventional chart ‘hit’ but also the physical impact of megawattage sound systems licking the body: One good thing about music. When it hits you feel no pain 14 Revista Brasileira do Caribe.Carolyn Cooper as well “to beat. The generic ‘it’ that is licked/hit may be read as the objectified female body.2 The song opens with titillating exclamations. oh. Gilberto takes the lead. ah lick i one time. I hit/lick it once.’ conjoined to ‘lick. n° 15 . vol. Widened beyond the immediate sexual context.” sung as a duet.’ is essentially a euphoric expression of a natural high. right here. the refrain ‘lick samba’ evokes. This ameliorative meaning of “lick” that I attempt to recuperate here encodes the complexity of male/female relationships that are not always open to transparent. explicitly evokes playful sexual seduction. The line “Ah bring it up. The explosive hit/lick becomes a celebration of the potency of music as word. sound and power. especially by those disposed to see misogyny at every turn in Jamaican popular music.” This is the primary sense in which the word is used in Jamaican.” [I bring it up. But I would argue.” to which Rita replies. heightened by percussive guitar beats: “ooh! hah! aiya! woyio!” After the opening refrain. Marcia Griffiths and Judy Mowatt) on the Kaya N’Gan Daya CD. The entire song becomes an amusing mating ritual. the version of “Lick Samba” that is recorded by Gilbert Gil and Rita Marley (and the other I-Three. But the double English/Jamaican meanings appear to converge in this song. Indeed. thrash. instead. VIII. “Lick Samba.

ska ba dip You waan come cold I up I’m a groover an the world know it by now3 Like reggae. this localised. Similarly. working-class. Reggae is “Trench Town rock”. Hermano Vianna’s book The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. was a featured text. African diasporic music is not only globalised but it becomes an iconic manifestation of national identity. a Kingston 12 groove.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Hit me with music Hit me with music now This is Trench Town rock Don’t watch that Trench Town Rock Big fish or sprat You reap what you sow Trench Town Rock And only Jah Jah know Trench Town I’ll never turn my back Groovin it’s Kingston 12 Groovin It’s Kingston 12 No waan yu come galang so No waan yu fi galang so Ska ba dip. At that JAMPRO seminar. incorporating cultural meanings far beyond the intentions of its progenitors. The book was simultaneously published in 1998 by the Press University of the West Indies and the University of North Carolina Press in the series “Latin America in Translation/ en Traduccion/ em Traducao. samba is a popular music whose origins are decidedly urban and down market. samba is the music of Rio de Janeiro. Vianna declares that he valorises “the intellectual trajectory of anthropologist Gilberto 15 jul.” sponsored by the Duke-University of North Carolina joint program in Latin American Studies. de 2007 . In his author’s preface to the US edition./dez. But in both instances. exemplifying the cultural synergies between Brazil and Jamaica in the field of book publishing.

Freyre was one the mediators. Marley’s long-time friend and producer of the song “Lick Samba. Nevertheless. a self-aggrandizing character she creates. Flag independence confirms an enlargened conception of both her own person and the landmass of the former colony: Jamaican She hope dem caution worl-map 16 Revista Brasileira do Caribe.” disclosed that it was his own involvement with football in Brazil that sparked Bob Marley’s experimentation with samba. vol. spanning geographical and social distances. affectionately known as Miss Lou. as for samba. Jamaica’s international reach greatly exceeds our geographical size.4 For reggae. Jamaican cultural icon Louise Bennett-Coverley. Various kinds of cultural mediation.” Miss Lou. This book is about movement. VIII. become crucial to the ‘nationalization’ of samba. legendary Jamaican footballer Allan ‘Skill’ Cole. but that does not matter. not Rio de Janeiro. trans/national cultural flows are an essential element of the formation and reproduction of the music. That football connection is a whole other story of cultural synergies. Given the scale of geographical difference between Jamaica and Brazil. n° 15 . the globalisation of reggae suggests that. In private conversation with me. but to France. about back-and-forth flows of influence that connected Rio not only to Pernambuco. as with athletics and football.Carolyn Cooper Freyre” as a “narrative and interpretive thread” for the book. gives an amusing rendering of the Jamaican psychology of ‘largeness’ in her poem “Independance. who loudly proclaims the benefits of the nation’s newly acquired state of independence. speaks through the mouth of Miss Mattie. and the rest of the Atlantic world as well. Would Jamaica have made it to the World Cup without the technical input of the celebrated Professor Rene Simoes? Hardly likely. the ventriloquist. it might appear hubristic to even attempt to delineate cultural synergies between the two. He elaborates the rationale: Freyre’s home was the Brazilian northeast. the United States.

Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica

Fi stop draw Jamaica small, For de lickle speck cyaan show We independantness at all! Moresomever we must tell map dat We don’t like we position Please kindly teck we out a sea An draw we in de ocean.5 English She hopes they’ve warned the mapmakers To stop representing Jamaica as tiny, For the little speck can’t show Our independence at all! Moreover we must tell the mapmakers That we don’t like our position – They must please take us out of the sea And put us in the ocean.6

Jamaicans do, indeed, have an oceanic consciousness. The landmass of the island (and ‘mass’ is a gross exaggeration in comparison to the expansive landscape of Brazil) does not contain us. Though seemingly bound on all sides by the sea, we are not insular. Psychologically free, many Jamaicans claim a much wider sphere of influence than the circumference of a small island, especially when the diaspora is taken into account – all those Jamaicans, with so many passports (legal and illegal), scattered across the globe. We constitute a formidable, transnational, constantly mobile nation-state. There is, obviously, another quite literal sense in which the Jamaican people are continental, like the Brazilians. The majority of Jamaicans are of African origin and we retain ancestral memories of a vast continent of mythic proportions. It is Rastafari who have most articulately propagated the philosophy of repatriation of the mind. Many Africans in the diaspora – in Brazil as in Jamaica – choose to keep genetic memory alive. In our language, music,

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Carolyn Cooper

food culture, religion we memorialize the past. And we keep our ancestors alive and available to dream us into waking consciousness; in the present. Africa is not the distant past; it is contemporary culture. But, like Jamaica, with our optimistic national motto, “out of many, one people”, Brazil privileges a model of multi-racial harmony that to outsiders often appears to repress the powerful African presence in this complex society. Brazil is home to the largest number of people of African origin outside the continent of Africa. John Chasteen, translator of Hermano Vianna’s The Mystery of Samba, defines the issue of racial identity in Brazil in this diplomatic way:
Scorn for the official platitudes about Brazilian ‘racial democracy’ has animated a number of recent U.S. multiculturalist views. They emphasize that, when racial and cultural mixing becomes a nationalist ideology, other racial identities (especially indigenous and African ones) remain marginalized and may be snuffed out altogether. In Brazil, the multiculturalist critique has circulated only in narrow intellectual circles and seems unlikely, for now, to diminish the popular appeal of mixed-race (mestico) nationalism. After all, it was not so long ago – in the 1930s – that mestico nationalism overthrew and replaced the official doctrines of white supremacy. Nor is white supremacy gone from Brazil, except officially. Therefore, the basic nationalist message – ‘It’s okay not to be white and European’ – retains its value in many people’s lives. The mestico category is so loose as to exclude almost nobody who seeks an ‘authentic Brazilian’ identity.7

A much less diplomatic reading of ‘authentic Brazilian identity’ recognizes that it is not only in ‘narrow intellectual circles’ that the critique of ‘mestico’ identity circulates. There is a popular Black nationalist movement alive and growing in Brazil. And this present African political struggle can be related to the long history of resistance to enslavement, both literal and mental – to cite Bob Marley and before him Marcus Garvey who truly exemplifies the

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continental consciousness of African Jamaicans: “Emancipate yourselves from mental slavery/ None but ourselves can free our mind.”8 Like Jamaica, Brazil has a long history of maroonage: an intractable refusal to be enslaved on the plantation. And we must remember that Brazil is directly responsible for the development of the sugar plantation economy in the Caribbean. It was the expulsion of the Sephardic Jews from Brazil in the seventeenth century that forced them to seek refuge first in Suriname, then Barbados where they developed the sugar industry, which then spread to other islands and precipitated the enforced migration of Africans to work on the plantations in the Caribbean. Movement of Jah people. In The Mystery of Samba, Hermano Vianna asks a provocative question: “How and why did Brazilian ‘authenticity’ become essentially ‘Afro-Brazilian’?”9 The answer he provides is equally provocative, especially for us in Jamaica where the elite continue to disparage forms of popular culture (like dancehall) that have their origins in the consciousness of the masses – or, as we prefer the ‘massive’ with its connotations of power, not just faceless anonymity. It is these very despised cultural forms, like contemporary dancehall culture, that have come to be identified globally as the quintessential markers of Jamaican identity. Vianna argues that “[t]he invention of Brazil’s national essence, at least in the version symbolized by samba, turns on the importance of popular culture.”10 He foregrounds the distinction between ‘pop’ culture and ‘popular’ culture: ‘Samba, despite its long and intense association with the Brazilian mass media, is never thought to have originated (or even to belong) there. Pop culture has been viewed, to the contrary, as a corrupting, alienating influence: the worst enemy of “authentic” popular culture.”11 Just as Jamaicans have been hit by samba and feel no pain, Brazilians have been hit by reggae. I must honour Jimmy Cliff for the role he has played in the globalisation of reggae music, particularly in Brazil. I must also celebrate the work of Lino de Almeida, now numbered among our ancestors, who was so instrumental in

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establishing the musical connection between Jamaica and Brazil. It is my vision that we, at the University of the West Indies, can initiate with our colleagues in Brazil a multi-disciplinary, multi-sectoral research project focusing on intellectual property and related cultural productions – with practical industry applications – that will indeed strengthen strategic partnerships between Jamaica and Brazil.

Notas
1

Bob Marley, “Lick Samba,” Track 2, Disc 2, Songs of Freedom, Compilation, Tuff Gong/Island Records, LC0407, 1992.

2

Bob Marley and the Wailers, “Trench Town Rock,” Track 4, African Herbsman, Disc 1,Trojan Records, ASIN:B0000011DQ, 1973.

Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xvii.
3

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
4

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
5 6

John Charles Chasteen, “Translator’s Preface,” in Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xiv-xv.

Bob Marley, “Redemption Song,” Track 10, Uprising, Island Records, ILPS 9596, 1980 8 Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil, xvii.
7 9

Ibid.

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Os Sons do Atlântico Negro
Carlos Benedito Rodrigues da Silva Abstract
Reggae was born in Jamaica in the mid sixties as a result of a musical and rhythmic evolution from the Black-African traditions to the rock-steady rhythm and blues, in addition to the notable influences of Rastafarianism. In São Luis de Maranhão, considered the “Portal of Amazônia”, including the States of Pará and Maranhão, there was always a musical predominance of Caribbean Rhythms, such as merengue, carimbó, bolero, among others, in the popular festivities. This study attempts to formulate some of the hypothesis that explains the phenomenon of the incorporation of reggae into São Luis´s culture. Keywords: Popular culture, Reggae, São Luis de Maranhão (Brazil)

Resumo
O artigo analisa a apropriação e a ressignificação do reggae jamaicano entre as camadas populares da cidade de São Luís, Maranhão, como forma identitária e de resistência à marginalização social a que estão submetidas desde o passado de escravidão. Busca-se também traçar as origens do reggae na Jamaica, bem como explicar as condições para a popularização do reggae no Maranhão, bem como os embates ideológicos com as elites locais que estigmatizam o reggae em nome da ‘tradição’ e da preservação de seus privilégios sociais, econômicos e políticos. Palavras-Chave: Cultura Popular – Reggae – São Luis de Maranhão (Brasil)

Resumen
El reggae nació en Jamaica, a mediados de los años 60 del siglo XX, como consecuencia de una evolución rítmica y musical, desde las tradiciones negroafricanas, pasando por el rock-steady, rhythm and blues, además de las influencias

*Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 21-39, 2007

En São Luis de Maranhão. rhythm and blues. o rastafarianismo constituiu-se numa alternativa de construção da nacionalidade para milhares de jovens jamaicanos. considerada el “Portal de la Amazônia”. n° 15 . entre otros. que envuelve los Estados del Pará y Maranhão. vol. culturais e políticas da Jamaica. adeptos do rastafarianismo. além das influências marcantes do rastafarianismo. como conseqüência de uma evolução rítmica e musical. e ao longo dos anos setenta do século XX. que se tornaram profetas. como merengue. Palabras Claves: Cultura Popular. um dos elementos fundamentais das mensagens político-filosóficas do reggae. Reggae. VIII. o reggae concentrou todas as expressões sociais. os rastas acreditam que Ras Tafari é o “Deus Vivo” e que a salvação do homem negro passa pelo retorno à África. entre outros. carimbó. El presente artículo intenta formular algunas hipótesis explicativas sobre el fenómeno de la incorporación del reggae a la cultura de San Luis.Carlos Benedito Rodrigues da Silva marcantes del rastafarianismo. sempre hubo un predominio musical de ritmos caribeños. críticos sociais ou líderes espirituais. impulsionado pelas pregações. refletindo uma identidade cultural de oprimidos que adotavam o reggae como o símbolo da expressão de suas angústias. por isso tornou-se um amplo movimento popular na Jamaica. Inspirado em interpretações bíblicas. que viviam no desemprego e na marginalidade. bolero. desde as tradições negro-africanas. em las fiestas populares. portanto. pelo rock-steady. nos idos de 1950. em meados dos anos sessenta. especialmente a partir da industrialização da Jamaica. um dos principais articuladores do PanAfricanismo. atribuindo-lhe uma característica de movimento messiânico. O rastafarianismo se tornou. por meio de compositores e cantores. San Luis de Marañón (Brasil) O reggae surgiu na Jamaica. Embora não professem um credo monolítico. passando pelo mento. Desde o seu início. de Marcus Garvey. 22 Revista Brasileira do Caribe.

Sem deixar. Alguns a consideram originária das misturas de línguas afrocaribenha e inglesa. de beber sua essência na fonte básica que o originou. Talvez por isso. originando novas tendências e conquistando novos espaços. vocalista do grupo. Essa palavra apareceu pela primeira vez em um disco do grupo Toots and Maytals. que começaram a excursionar e editar seus discos fora do país. uma expressão para designar pessoas simples. donominado “Do The Reggay”. as mesmas bases culturais que impulsionaram o surgimento do reggae na Jamaica tenham contribuído para a explosão do ritmo jamaicano entre as populações negras e pobres das favelas e palafitas de São Luís do Maranhão. coisa que se usa como comida. os guetos do Terceiro Mundo. sofridas e que não tem o que querem. Bob Marley foi o responsável pela explosão do reggae para além das fronteiras jamaicanas. como Jimmy Cliff e Peter Tosh.Os sons do Atlântico negro Não existe um significado específico para a palavra reggae. em 1967. significando “raiva”. serviu para abrir as portas para vários cantores e compositores jamaicanos. palavra caribenha usada para designar prostituta. isto é./dez. em meados dos anos setenta. porém. Secundado por nomes não menos famosos hoje. resguardando as devidas proporções. porém não se tem nenhuma conclusão definitiva sobre essa ligação. o sucesso internacional dos Wailers. Toots tenha definido o reggae. A expressão máxima do reggae jamaicano no mundo está em Robert Nesta Marley. 23 jul. como algo que identifica o povo sofrido dos guetos. a expressão teria se derivado de “streggae”. Com um acentuado caráter de contestação política. presentes na Jamaica. de 2007 . Juntamente com a banda The Wailers. ou “desigualdade”. Os ecos do grito jamaicano ressoam no Maranhão É possível que. saindo em busca de novos ritmos. O próprio Toots Hibbert. o reggae está em permanente evolução. definiu-a como “uma coisa que vem do povo dos guetos”. marcando uma revolução na música negra em todo o mundo.

acionadas pela memória coletiva a partir de estímulos diversos. Nessa região. acabam florescendo em situações específicas na diáspora. afirmam que sintonizam emissoras do Caribe em algumas horas da madrugada e. considerada o “Portal da Amazônia”. herdadas dos africanos escravizados. que envolve os Estados do Pará e Maranhão. vol. carimbó. O reconhecimento de uma batida semelhante entre o reggae e o bumba é o que permite a circulação dos regueiros entre os salões de reggae 24 Revista Brasileira do Caribe. várias explicações são apresentadas para justificar essa forte identificação. ainda que aparentemente inconsciente e imprecisa de se definir. chamadas de “sotaque”. que são também tocados nas festas dos povoados negros do interior do Estado. sempre houve uma predominância musical de ritmos caribenhos. algumas inclusive. bolero. transportados para regiões diversificadas das Américas e do Caribe. têm uma familiaridade com os ritmos. nas variações rítmicas do bumba–meu-boi. como merengue. ou seja. é resultante das raízes culturais africanas. como o comunicador Ademar Danilo2. Isto revela que raízes culturais africanas teriam sido transplantadas para as duas regiões pelo processo de escravização e permanecido ali com algumas ressignifições3. Embora permaneçam “invisíveis” por muito tempo. essa identificação.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Embora seja difícil precisar exatamente quais os caminhos percorridos pelo reggae até cair no gosto da população maranhense. sendo que a maioria delas apresentam certo grau de veracidade. VIII. Uma aproximação cultural pode ser encontrada ainda. atribuem ainda o gosto pelo reggae a uma possível identificação étnico-racial entre jamaicanos e maranhenses. especialmente da chamada Baixada Maranhense. Na verdade. que por isso. de caráter geográfico. n° 15 . entre outros. Moradores de áreas rurais do Maranhão. nas festas populares1. tanto na Jamaica como em São Luís existe uma população predominantemente negra com algumas características culturais semelhantes. através do Atlântico Negro. Algumas pessoas.

Várias vozes e narrativas tecem os discursos. Insistindo no relato de alguns depoimentos.Os sons do Atlântico negro e os terreiros de apresentação das “brincadeiras” da cultura regional no período junino.4 A gente sente o peso da trupiada do boi. Inclusive. foi suburbana.. cantador do bumbameu boi do Maracanã. músico e atual secretário estadual de cultura do Maranhão. entre as décadas de 60 e 70 e depois fomos vendo o reggae se expandindo nas festas da periferia e a periferia sendo muito mal tratada. mas isso é a maneira como o reggae está sendo manipulado e 25 jul. Hoje. não é outra coisa não. foi essa pancada semelhante. Segundo ele. A caminhada do reggae foi popular. o reggae se tornou um instrumento de exploração do próprio negro. o reggae teve que superar muitos preconceitos para ser aceito como uma das maiores manifestações dentro da cultura maranhense. A partir que se torna mercadoria. aí quebra os preconceitos. mas escutei lá.. ele se assemelha ao peso da pancada do reggae. Não sei a origem. como afirma Humberto. que veio de baixo. isso superou a barreira do preconceito pra depois entrar no mercado. Foi isso que chamou a atenção. mas a origem foi de participação. o primeiro disco de reggae que escutei foi na zona. de 2007 . foi isso que chamou a atenção do pessoal. podemos salientar as declarações de Joãozinho Ribeiro. Morei mais da metade da minha vida na zona do baixo meretrício e ali era comum esses navios que vinham das Guianas (.) os marinheiros infestavam a zona. Era comum eles aportarem todo mês. infelizmente./dez. agora a gente pode até ver com outros olhos. geralmente eles pagavam as prostitutas com discos. incitando o imaginário popular a respeito da inserção do reggae no espaço maranhense. Agora vemos o reggae conseguindo uma grande identificação na cidade.

vol. é possível identificar neste ponto uma das vias fortes de discriminação contra o reggae em São Luís. que se faça alguns cruzamentos com a definição atribuída ao cantor Toot Hiberts. com prostitutas. Conforme MartinBarbero (1997:240) 26 Revista Brasileira do Caribe. nem o que precisam para assegurar respeito e dignidade numa sociedade de opressão. fundamentalmente. de vigilância e punição às exibições do corpo como instrumento do prazer. visto que no reggae o corpo é concebido. para quem a expressão reggae. branca e cristã. a sua identificação como uma música de negros marginalizados. qual seja. como uma atitude de rebeldia. o que nos remete a situações semelhantes atribuídas ao reggae desde as suas origens na Jamaica. manifestando-se no lazer e no trabalho.Carlos Benedito Rodrigues da Silva assimilado por poucas pessoas que estão ganhando muito dinheiro. pessoas simples. denunciando a exclusão que a escravidão impõe e os processos da modernidade sustentam. entre outras coisas. em certo sentido. que povoam os guetos e palafitas da Jamaica ao Maranhão e. em cujos bares e cabarés ouve-se diariamente o ritmo jamaicano entremeado de boleros e merengues. “mulheres vulgares” que sofrem a violência diária de comercializarem o corpo por não ter o que querem. que sofrem e que não tem o que querem” Entre outras coisas. n° 15 . despossuídos. está relacionada “ao povo sofrido dos guetos. assentada em uma semântica pejorativa. VIII. O ritmo do reggae em São Luís. Joãozinho Ribeiro revela que um dos caminhos de divulgação do reggae em São Luís foi pela zona do baixo meretrício possibilitando. Podemos ainda salientar que a construção do reggae. ainda. Curiosamente. com sua forma de dançar agarradinho reflete determinada sensualidade inscrita culturalmente em corpos. pela sensualidade que enseja. A zona do baixo meretrício é uma região localizada no Centro Histórico de São Luis. pode ser relacionada com a moral burguesa.

precipitadas. criando uma nova linguagem como canal de comunicação e identificação. são contribuições importantes.). E é a dialética dessa dupla indecência o que vai de fato escandalizar a ‘sociedade’ (. Por sua vez. Se por um lado. É uma embriaguez sem álcool. a princípio. a existência de várias versões explicativas indica que é muito difícil precisar qual o caminho de introdução de determinados elementos culturais em um novo contexto. tanto para mostrar que um dos fatores de aceitação do reggae pela população da ilha de São Luís foi a sua relação com os ritmos caribenhos. Logo. O consumo da cultura do negro como espetáculo midiático. de 2007 . embora também ‘carregada’ oniricamente. 27 jul./dez. Produzido originalmente em um idioma diferente. o cansaço e o esforço doem menos. onde o reggae é um dos atrativos para os boêmios freqüentadores das casas e bares da região. como é o caso do reggae jamaicano em São Luís. E não se trata de reduzir o sentido da dança ao do trabalho.. são legítimos. principalmente nos locais habitados pela população negra de baixa renda da periferia. concentrando-se com algumas características marcantes. ao mesmo tempo. o reggae se instalou na ilha e se espalhou por alguns outros municípios do estado.Os sons do Atlântico negro Através de uma cadência quase hipnótica. que o adotou como uma das mais importantes opções de lazer. de sua evocação do processo de trabalho no próprio coração da dança: no ritmo. inclusive a zona do baixo meretrício. duvidosas ou legítimas. todos os caminhos. o negro enfrenta o trabalho extenuante e. envolvidos num ritmo frenético. mas também. reforça os elementos de manutenção das desigualdades. não é suficiente para atribuir-lhe qualificação social. como para nos dar pistas sobre as possibilidades de existência de raízes culturais semelhantes envolvendo povos das duas regiões. e sim de descobrir que a indecência do gesto negro não vem somente de sua atrevida relação com o sexo.. Essas afirmações. possibilita visibilidade.

Um fator a ser ressaltado é que a exploração do reggae a que se refere o compositor Joãozinho Ribeiro se dá não tanto pelas elites. mesmo que o ritmo esteja inserido em jingles e propagandas comerciais veiculados nas emissoras de TV. como pelos grupos de segurança. No próprio espaço das festas. pelos organizadores. constata-se a exigência. dinamizadora dos eventos. que concebem os eventos apenas como fonte de lucro. de uma vigilância acirrada sobre os regueiros. o reggae ainda não é aceito por esses grupos como um símbolo da cultura maranhense. é possível encontrar diariamente crianças dançando reggae nas ruas ao som dos programas de rádio. cujos descendentes. No universo regueiro de São Luís não se toca reggae nacional e na falta de entendimento das letras. pois isso remeteria São Luís a uma Jamaica negra e pobre. vol. as músicas são apelidadas de melô. n° 15 . De elemento identificador de negros marginalizados. ostentado com tanto orgulho pelos intelectuais maranhenses desde o século XIX. VIII. permanece no plano social a relação direta reggae/marginalidade. Mesmo que tenha se expandido atualmente para outros setores considerados “mais higienizados” da cidade. distanciando-se cada vez mais do título de Atenas Brasileira. contratados especialmente para os eventos. já apresentam as músicas com o nome da melô conhecida. habitantes da periferia e prostitutas do “baixo meretrício”. tanto por parte da polícia. ele passa a ter uma aceitação como mercadoria de consumo. o reggae que não trilha por esse mesmo caminho. Ainda que alguns preconceitos sejam quebrados.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Nessas áreas. que “aquecem” ou “esfriam” determinados ritmos de acordo com os interesses das gravadoras. sem revelar nenhuma outra preocupação de caráter sócio-coletivo que possa beneficiar a chamada “massa regueira”. adquiriu uma posição destacada no contexto das programações culturais de São Luís.5 Contrariando os movimentos midiáticos. possibilitando ganhos econômicos e prestígio para quem o manipula. mas principalmente pelos proprietários de clubes e radiolas. Os próprios Dj’s. paradoxalmente. de sangue ou de orientação 28 Revista Brasileira do Caribe.

Deste modo. que teima em permanecer com fortes raízes no cotidiano religioso. ou menos jamaicano.Os sons do Atlântico negro ideológica branca. assim. remetê-la a um passado de inferioridade e distanciamento em relação à europeização pretendida e nega. menos africano. “mais nobre”. à denominação Jamaica Brasileira atribuída a São Luís pelos DJ’s. deixam transparecer uma atitude de repúdio à assimilação do reggae por amplos segmentos da população maranhense e. principalmente. especialmente para aqueles que assimilaram a ideologia de europeização. Portanto. contribuem para o estabelecimento de novos referenciais de identificação para segmentos populacionais que. Se nos períodos imediatamente após a abolição da escravatura. do trabalho e do lazer de amplos segmentos da população maranhense. quando o trabalho escravo foi substituído pelo assalariado. de Atenas Brasileira. a presença do negro era vista como sinônimo de atraso. desconhecendo uma ou outra realidade. de 2007 . apesar de ainda não serem suficientes para transformar a cidade em uma nova Jamaica. São essas raízes que desafiam as imposições das “elites atenienses” de São Luís e trazem o reggae como uma força dinamizadora de identidades que. em grande parte responsável pela construção da sociedade brasileira. O reggae é um dos elementos desse processo e ganha força na concepção popular. a identificação de São Luís com a Jamaica hoje. construída na sociedade brasileira após a abolição da escravatura. como uma maneira de reforçar o desejo de ser menos negro em sua cultura. pois o sonho de europeização precisa ser construído sob a concepção dominante de desqualificação da herança cultural africana. significa para alguns. constroem seus próprios caminhos a partir das pluralizações culturais que vivenciam. e o ex-escravo era definido como incapacitado para o desenvolvimento econômico e cultural da nação. A presença do reggae estaria provocando uma atrocidade na cultura maranhense. “o belo e edificante epíteto” de 29 jul. a importância da presença da população negra./dez. de animalidade. reivindica-se o título.

pois violentador da dignidade humana. Embora a predominância seja dançar aos pares. eram feitos com material exclusivo dos DJs. Há também as coreografias coletivas. a propagação do reggae em São Luís esteve ligada muito mais a um comércio alternativo de gravação de fitas e ao aluguel de radiolas do que à industria cultural. tanto entre os diversos segmentos da população da capital. As pessoas gostavam porque era música lenta. As fitas eram gravadas de discos importados da Jamaica que somente alguns discotecários tinham acesso. A gente dançava sem fazer definição. como nos municípios e povoados rurais do interior do estado. A dança adquiriu essa característica misturando passos do forró e do merengue. o que era música lenta. a programação de rádio teve um papel muito importante nesse processo. vol. Uma das diferenças marcantes em relação à Jamaica é que o reggae em São Luís é dançado aos pares. predominantes na região. chegando a São Luís como raridades. discotecário: julho/98).Carlos Benedito Rodrigues da Silva Atenas Brasileira já não faz sentido. pois possibilitou que o ritmo alcançasse espaços cada vez mais distantes. A divulgação se fez com a promoção de festas e programas de rádio. Na época. algumas pessoas preferem dançar sozinhas próximas às caixas de som. embora mantidos pelas emissoras. este sim atroz. n° 15 . Durante muitos anos. a não ser para a satisfação de determinados segmentos sociais que se outorgam guardiões das tradições como retrato de um passado escravista. quando se deu a grande projeção do reggae na ilha. Além do comércio de fitas. 30 Revista Brasileira do Caribe. (Riba Macedo. porque as próprias emissoras não tinham os discos de reggae. com grupos de três ou cinco pessoas exibindo passos coordenados. Os programas. muitos desses discos já estavam fora de catálogo na própria Jamaica. a gente não sabia separar o que era reggae. pois desde meados dos anos oitenta. VIII.

a discoteca ou o funk. Carlos Alexandre. Enquanto nas regiões Sul e Sudeste a preferência musical para as festas da juventude recaía sobre os ritmos mais acelerados. (.. mas o merengue também estava no auge. de 2007 .. esse ritmo era identificado como “discoteca lenta”./dez. ritmos que se dançam aos pares. A música estrangeira não tinha muita penetração. bolero etc. ‘I Can See 31 jul. nas regiões Norte e Nordeste os ritmos predominantes eram: forró. As músicas de Jimmy Cliff eram muito solicitadas nas festas porque tinham um balanço diferente. A música internacional que se dançava aqui era o merengue. Tanto que os primeiros sons de reggae em São Luís foram pela música de Jimmy Clyff. A gente gostava muito de Lindomar Castilho. com exceção do merengue que vinha da Guiana e era aceito porque se assemelhava aos passos do forró nordestino. que preferencialmente se dança solto. as pessoas chamavam balanço. então chamava Jimi Clife e tal (. maestro: 1998). Seus discos estavam chegando ao Brasil no embalo desse novo som e já podiam ser comprados nas lojas locais. como o rock.) antes de se conhecer a palavra reggae aqui.. Muitas pessoas afirmam que antes de se conhecer a palavra reggae no Maranhão. Depois chegou às lojas um LP de Johnny Nash. “balanço”. porque na época tinham os cantores brasileiros.) (Chico Pinheiro. que agradava ao público... merengue. Era aquele estilo que a gente dançava. ou “Jimi Clife”. ‘ô que balanço bonito é o do Jimmy Clyff’. Altemar Dutra. ou “agarradinho” que é uma expressão nordestina para as danças de salão. O rei do merengue aqui era considerado Luiz Calaf. baião. Evaldo Braga.Os sons do Atlântico negro A dinamização do ritmo jamaicano no Maranhão coincide com a explosão dos hits da “Discoteque” na região Sudeste do País.

Alguns proprietários de radiolas chegavam a comprar todos os exemplares de um mesmo disco e raspar os selos para que outros não pudessem identificá-lo. possuindo semelhanças com os “sound systems” jamaicanos que popularizaram o Ska e depois o Rock Steady como alternativa ao controle excessivo exercido pelo governo à rádio jamaicana. A disputa pela exclusividade de um disco sempre foi muito acirrada. criando rivalidades entre eles. VIII. merengue. 32 Revista Brasileira do Caribe. As radiolas tiveram também uma grande importância no processo de divulgação do reggae em São Luís. A partir do início dos anos oitenta houve uma proliferação desses equipamentos. faziam muito sucesso nas festas no início dos anos setenta.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Clearly Now’. em festejos de santo na capital ou no interior do estado6. Operadas por discotecários que nem sempre são os seus proprietários. em São Luís essa prática também foi adotada pelos produtores das festas de reggae. eles contribuíram para que o ritmo se espalhasse praticamente por todos os bairros de São Luís. promovendo festas com forró. lambada. as radiolas são contratadas para animar festas em vários pontos da cidade. vol. (Riba Macedo: julho/98). Elas são sistemas montados com uma aparelhagem sofisticada. n° 15 . como havia uma competição intensa entre os discotecários ambulantes na Jamaica que chegavam a raspar a etiqueta ou o selo dos discos novos para dificultar a aquisição pelos concorrentes. contendo várias caixas de som formando paredões nos clubes. da mesma forma que os sound systems jamaicanos. regravado no Brasil em l971. oferecendo lazer para uma grande faixa da população de baixa renda que não tinha condições de adquirir os discos. Curiosamente. junto com outras de Jimmy Cliff. elas já existiam anteriormente. Essa música. entre outros ritmos. ‘You Can Get It If You Really Want’ e ‘I Love I Need’. Voltados quase exclusivamente para a festa de reggae. As radiolas maranhenses não nasceram com o reggae.

é possível compreender a importância do reggae como conseqüência da dinâmica expansão midiática que ultrapassa as fronteiras nacionais com uma velocidade inusitada neste final de século. onde tem sempre um 33 jul. Por isso. Por tudo isso. e as músicas preferidas dos regueiros maranhenses não são encontradas facilmente. redefinindo seu território de atuação. é imenso mesmo e tá sempre na periferia. O reggae vem do negro. por isso a gente se identifica com ele (Ronaldinho. se de alguma forma serviu para conquistar o público. é uma música marginalizada. O reggae é música do negro. Segundo eles. a evolução musical na Jamaica é muito rápida. Ainda que não estejam ligados a nenhum movimento político organizado. especialmente. muitos demonstram ter consciência de que a discriminação se dá pela sua condição social e racial. Para alguns regueiros maranhenses a herança negro-africana é responsável pela concepção pejorativa que se atribui ao reggae e também pelos atos de discriminação que vivenciam por serem relacionados a ela. Coisa de nego que mora ali Pelas ondas de rádio e pelos clips televisivos o ritmo se espalhou pelo planeta. este fenômeno pode ser observado em regiões como Maranhão.Os sons do Atlântico negro Essa atitude. dançarino). O contingente de negros aqui no Maranhão é muito grande. quem conseguir mais raridades vai ter mais condições de assegurar o seu público e se manter em evidência junto à “comunidade regueira”. determinando a criação de novas linguagens e estéticas comunicativas em várias regiões. No Brasil. nos locais de grande concentração de população negra./dez. não é música dos brancos. Bahia. criou também uma animosidade entre os radioleiros e discotecários que mantinham em segredo suas fontes de aquisição. Baixada Fluminense etc. de 2007 .

as alternativas de lazer são consideravelmente mais restritas. Dessa forma. dançarino). Para os que compõem o minoritário quadro das elites são ofertados espaços luxuosos. mais uma opção de lazer entre outras. por alguns. O mesmo argumento vale para as festas de reggae. bem como para a maioria das festas populares. como alternativa de auto-afirmação. pois mesmo que determinados grupos estejam participando de uma atividade comum. como nos espaços escolhidos ou oferecidos para o lazer.Carlos Benedito Rodrigues da Silva salão de reggae. resta o anonimato nas alas e baterias das escolas de samba. a exclusão dos espaços de lazer. n° 15 . enquanto para os segmentos definidos como regueiros que sofrem as consequências da exclusão. Daí a presença do branco ser vista. vol. no carnaval essa relação pode ser constatada em várias instâncias. Entretanto. no tempo que a polícia vivia baixando o pau na negrada. ou até mesmo. VIII. o reggae é. Clóvis Moura7 aponta para o papel integrativo do carnaval. Existe um caráter integrativo do ponto de vista sociológico nessas festas. geralmente incômoda. podemos dizer que ela se expressa tanto na exibição das fantasias. uma vez que o objetivo é estar entre seus iguais. um ritmo que mexe com a gente. o espaço para estes últimos. sabe? É um ritmo negro. nas cordas dos trios elétricos baianos. Nesse sentido. a princípio. para alguns. os brancos começam a invadir o salão e a gente não tem mais espaço pra dançar (Guiu Jamaica. essa participação não se dá em condições de igualdade para todos. serve também. não se pode perder de vista que esse caráter integrativo é momentâneo e não elimina as diferenças e nem as desigualdades. enquanto para a grande maioria. Agora que o reggae virou moda. como uma invasão. De fato. estão ali com o mesmo objetivo da busca do lazer. Os brancos nem sabiam que o reggae existia. já que este é a 34 Revista Brasileira do Caribe. já que todos os participantes. Analisando o desenvolvimento das escolas de samba cariocas.

passível de vigilância e controle. ia garantir a esses encontros uma riqueza de expressões de que os colonizadores jamais poderiam imaginar a extensão. Para estes. um dos raros momentos de livre exercício de seus costumes originais. (1988:45). Além do que. contribuindo para a construção de uma imagem estereotipada do regueiro. por exemplo. dançar afasta as angústias do cotidiano. é atingido também. levando-o a assumir essa condição como uma identificação positiva. pela desqualificação atribuída às atividades lúdicas construídas pelos grupos negros na cultura brasileira. quando é reconhecido como um bom dançarino ou um bom DJ. ele (o regueiro) se sente prestigiado frente à “comunidade” Sem dúvida. a exemplo de várias outras manifestações que recebem o mesmo tratamento. de tal forma que causavam espanto nos fazendeiros. neste sentido. mesmo em meio às agruras da escravidão./dez. ameaçadora. as festas do reggae atribuíram visibilidade a uma grande parcela da população de baixa renda em São Luís. desde o século XVI. de 2007 . As reações de vigilância e controle exercidas. o reggae. a discriminação contra o negro não se dá por conta do reggae. Tinhorão mostra que desde o século XVI os batuques de escravos representavam momentos de expressão de alegria e felicidade. onde se concentram majoritariamente os grupos negros. 35 jul. é discriminado por sua identificação como “coisa de negro” e. pela polícia e pela imprensa local refletem a concepção das elites maranhenses sobre o reggae e seus freqüentadores. Na verdade. Ele considera que O fato de os batuques constituírem para os escravos africanos. Ao contrário. a presença cada vez maior de grupos não negros (jovens estudantes da classe média e até turistas nacionais e estrangeiros) em alguns “clubes de reggae” possibilita ao regueiro um auto-reconhecimento. Por outro lado.Os sons do Atlântico negro representação do grupo que caracteriza o reggae como uma atividade marginal.

dilacerado e morto. mas também seus corpos e almas. as marcas que designam esse corpo enquanto outro-mercadoria. O próprio corpo é depositário do pecado. vol. para satisfação dos apelos da carne. Maria Lúcia Montes mostra que esse mesmo corpo neutralizado pelos horrores da escravidão. desejo e sedução. instrumento de trabalho. VIII. Assim. utiliza-se deste corpo para satisfação de desejos.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Essa diversidade de práticas rituais.. mas também apropriado a bel-prazer. n° 15 . da ordem social ou da moral burguesa. Ainda segundo Maria Lúcia Montes (2000: 65) Mesmo para o senhor. ele se projeta como um elemento de desafio ao poder das elites. tem de ser coberto e aprisionado para inibir seus anseios e transformá-lo em simples instrumento de trabalho. o primitivo a ser domado — também o assinalam como objeto de repulsão. portanto. torturado. escravos ou libertos. inventando gingas e artimanhas que constantemente apontam para a ambigüidade da moral escravista. ultrapassa a compreensão das elites que. religiosas ou de lazer manifestadas pelos segmentos negros. Sem dúvida. em que pesem as várias e diversificadas tentativas de controle exercidas em nome da religião. o corpo-coisa do escravo propõe a experiência assustadora da ausência de limites: pode ser surrado. Legitimada entre outras coisas. a dança sempre foi uma das mais fortes expressões dos grupos humanos em toda a história da 36 Revista Brasileira do Caribe. por uma moralidade cristã. traz consigo a inscrição simbólica dos confrontos entre a civilização ocidental e as culturas profanadas pela diáspora. presas às orientações cristãs européias. a escravidão impôs aos negros escravizados a imagem do pecado. a qual ao mesmo tempo em que proíbe sua exposição pública. controlando não apenas suas vidas. sempre atribuíram às manifestações dos afrodescendentes. Assim. um caráter de lascivosidade e desordem.

num percurso de ida e volta tanto nas ondas midiáticas da indústria cultural como nas marés do Atlântico Negro. merengue. em agradecimento aos deuses pelas alegrias da vida. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de religião afro-brasileira de São Luís é a Casa 37 jul. Notas 1 Pude constatar através de alguns relatos. que mobilizam segmentos das várias regiões estendendose até a África. Essas performances desenvolvidas pelos grupos negros que viveram a diáspora. de 2007 . A ginga. que esse ritmo é tocado também. ou da América Latina. 3 Uma curiosidade é que segundo historiadores. também./dez. desde um passado no qual a sujeição à condição de escravo ao mesmo tempo em que bloqueava as condições de emancipação do indivíduo.Os sons do Atlântico negro humanidade: em busca da liberdade. tanto individual como coletivamente. simplesmente pelo prazer de se sentir bem. 2 Ademar Danilo foi um dos primeiros comunicadores a apresentar programa específico sobre reggae nas emissoras de rádio em São Luís e foi eleito vereador pelo PT. pelos ciclos de colheita nas sociedades agrárias e da fertilidade em sociedades tradicionais ou. estão relacionadas com as lembranças armazenadas. a malícia. as angústias e as alegrias que não podem ser pronunciadas livremente. a sensualidade. capoeira ou reggae. em algumas festas de grupos negros em Salvador na Bahia. com a qual se produziu a ligação com o presente. entre tantos outros. da Amazônia. instigava-lhe a sociabilidade. com votos da “comunidade regueira”. mesmo considerando as especificidades. são vertentes rítmicas produzidas na diáspora africana. existem fortes aproximações culturais seja entre os povos do Caribe. Isto nos leva a afirmar que samba de roda. mas são representadas por uma memória corporal que burla a vigilância das elites com uma linguagem simulada. maracatu. representam a explicitação da rebeldia e expressam. bumba-meu boi. Assim.

1985. Sincretismos: uma exploração das hibridações culturais. que até o final da década de 80. Melô do Sapato. CANEVACCI. Melô da Guerreira. O Poder Simbólico. Bibliografia ALBUQUERQUE. . São Paulo: Ática. A magia do reggae. 3. 5 Existem atualmente gravações de coletâneas em CD’s piratas. Marco Antonio (org. Rasta and resistance: from Marcus Garvey to Walter Rodney. Lisboa: Centelha. Reggae: Música e cultura da Jamaica. e assim por diante. vol. tais como: o Melô do Morcego. que já trazem junto ao título da música. 6 É importante ressaltar. 1997. Lisboa: DIFEL1989. CANCLINI. o nome “melô” que é criado pelos regueiros. 1995. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Melô do Gerente. 7 Sociologia do Negro Brasileiro. São Paulo: Editora 34. 1983. n° 15 . CARDOSO.Carlos Benedito Rodrigues da Silva de Fanti-Ashanti. & SIMON P. Melô da formiga. CAMPBELL. O eterno verão do reggae. Gerd A. In: Cultura Brasileira: Tradição e contradição.143. Rio de Janeiro: Zahar/Funar. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa. BOURDIEU. São Paulo: Martin Claret Editores. p. 4 O Maracanã é um bairro rural do interior da Ilha de São Luis. São Paulo: Studio. BHABHA. onde acontece algumas festas importantes da cultura popular. Massimo. 1997. DAVIS S. 1998 BORNHEIM. 38 Revista Brasileira do Caribe. UFMG. A radiola Diamante Negro lançou um CD com 20 músicas preferidas dos regueiros em São Luís e no encarte vinha impresso o nome das músicas. Pierre. os cds foram adotados posteriormente. Nestor Garcia. VIII. “O Conceito de Tradição”. Horace. com seus respectivos melôs. Carlos.). 1997. 1988. Belo Horizonte: Ed. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. O “melô” seria uma espécie de alcunha da música. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. O Local da Cultura. as festas eram feitas com discos de vinil ou fitas cassete. 1996. London: Fonthill Road. Homi K.

GUERREIRO. 1988. Clóvis. Livio e SANTOS. HOBSBAWN. SILVA. Os sons dos negros no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar Editores. Renato. In: Novos Estudos CEBRAP Nº 49. 1978. Octávio. 2000. Identidade e Diferença”. ORTIZ. 1984. Clifford. Goli. de 2007 . José Ramos. Queimando tudo: a biografia definitiva de Bob Marley. novembro. São Paulo: Ática. IANNI. São Paulo: Editora 34. 1988. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo. São Paulo: ERT Editora.). Identidades culturais na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 39 jul. 1999. In: Negro de corpo e alma. SANSONE. A Era do Globalismo. “Globalização. HALL. Sociologia do negro brasileiro. São Luis: EDUFMA. 1997. cultura e hegemonia. São Paulo: Hedra. 1997. Jocélio Teles dos (org. Eric e RANGER. Carlos Benedito Rodrigues da. 1997./dez.Os sons do Atlântico negro GEERTZ. A trama dos tambores: a música afro-pop de Salvador. reggae. lazer e identidade cultural. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Record. Rio de Janeiro. Maria Lúcia. 1997. “Olhar o Corpo”. MONTEIRO. 1996. 47-64. MONTES. 1995. Mundialização e cultura. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Dos meios às mediações: comunicação. Jesús. São Paulo: Brasiliense. Revista da Mostra o Redescobrimento. STRINATI. Rio de Janeiro: DP&A. WHITE. Terence (organizadores) A invenção das tradições. Dominic. Ritmos em trânsito: socio-antropologia da música baiana. 1997. Cultura popular: uma introdução. MOURA. 2000. MARTIN-BARBERO. pp. Da Terra das Primaveras ‘a Ilha do Amor. Civilização Brasileira. Paula. Timothi. TINHORÃO. São Paulo: Dynamics Editorial. 1999. Stuart.

40 .

the phenomenon of reggae is not only linked to the cultural traditions. Within this context. Keywords: Reggae. nos simbolismos. social e política contra a marginalização que elas sofrem em seu cotidiano.O Reggae na “Jamaica brasileira”:Cidadania e política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa Abstract The African Diaspora has contributed to the formation of artistic expressions in Brazil. 2007 . vol. The Afrodescendent music was not just coincidence. Esse artigo analisa letras musicais e depoimentos orais entre outros elementos como exemplos dessas relações de apropriação e resignificação. Culturas Afro-americanas. nas equipes de som. Goiânia. especially in Maranhão. African diaspora Resumo Na cidade de São Luís do Maranhão. n° 15. In a social scenario. Afro-American cultures. the population of São Luis incorporated Jamaican rhythm in its dance-rituals and drums. seja nas festas. *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 41 Revista Brasileira do Caribe. but also to the battle against social inequality. Palavras-Chave: Reggae. Trata-se também da ressignificação das letras e melodias das canções produzidas por músicos jamaicanos na formação identitária dessa população. 41-60. VIII. Diáspora Africana. characterized by economic inequality with the hallmark of oligarchic politics. a apropriação do ritmo jamaicano do reggae pelas camadas populares constitui um movimento de resistência cultural. where there exists one of the most important multi-ethnic societies of the world.

Ao contrário. especialmente no Maranhão. Diáspora Africana Em todas as regiões nacionais podem ser observadas a ‘olho nu’ elementos de africanidade reterritorializados. Palabras Claves: Reggae. Nesse contexto de significados o gosto artístico da população ludovicense. n° 15 . adotou o ritmo jamaicano para dançar. ouvir e festejar. A música afro-descendente não se fixou por um simples passe de mágica. En un escenario social pleno de desigualdades económicas y en el cual reina la política oligárquica y ‘coronelista’. 42 Revista Brasileira do Caribe. nem tampouco fora de propósito num cenário social infestado de desigualdades econômicas em que reina uma política oligárquica e. donde existe una de las más importantes sociedades pluriétnicas del mundo. A diáspora africana em muito contribuiu para a formação das manifestações artísticas no Brasil. permitindo considerar o ciclo do reggae neste tripé. vol. Culturas Afro-americanas. revelado tradicionalmente nas danças e nos tambores. O mesmo aconteceu com o ritmo surgido na Jamaica que chegou a São Luis indo até a África. Goiânia. constituindo uma das mais importantes sociedades pluriétnicas do mundo e um dos maiores berços culturais transatlânticos. vivenciados historicamente pelos africanos e descendentes.Maristane de Sousa Rosa Resumen La diáspora africana ha contribuído para la formación de las manifestaciones artísticas en Brasil. ressignificados e relidos. VIII. incorporaron el ritmo jamaicano. o fenômeno estudado forneceu visibilidade ao bluff1 de tradições conferidas a um restrito grupo social dominante no Maranhão e aos processos de ‘higienização’ cultural. Embrionariamente veio da África durante a travessia do Atlântico. el fenômeno del reggae está vinculado no apenas a las tradiciones culturales sino también a la lucha contra las desigualdades sociales. ainda. ‘coronelista’. especialmente en Maranhão. En ese contexto de significados la población de São Luis en sus danzas y tambores. La música afro-descendente no fue asumida por un simple pase de magia.

assim como para a história da arte. De forma que a etnografia do ritmo jamaicano é uma importante ferramenta historiográfica para desconstruir estereótipos e preconceitos sociais. escrito por um professor de inglês e apresentado como ‘panorama’ para a literatura. 2007 . Young. Trata-se de uma abordagem inaugurada por Aby Warburg. A cultura africana e de seus descendentes constitui importante legado para o Brasil pelas festas de bumba-meu-boi. (BURKE.O reggae na “Jamica brasileira”. tambor-decrioula. Victorian England (1936). The Seventeenth-Century Background (1934). 2005. cacuriá. p. que contribuiu para a construção da ciência cultural. uma das figuras mais originais e influentes da história cultural no estilo alemão. evitando tradições acadêmicas fronteiriças e delimitadas temporalmente. transferindo-o para Londres nas figuras de Saxl e Wind. lili. Warburg havia morrido quando Hitler chegou ao poder em 1933 e estudiosos alemães associados ao seu Instituto refugiaramse no exterior. tambor-de-mina. o de E. na Grã-Bretanha da década de 1930 estava se escrevendo uma história culturalista. M.. Os efeitos desses escritos literários contribuíram para a ascensão da história cultural./dez. e o livro de G. adicionando ou integrando a si lembranças e sentimentos. W.. Tillyard. Assim. “estudos sobre o pensamento da época”. Em virtude das interpretações propostas se confirma o viés histórico-antropológico. M. 43 jul. demonstrando a transição da ‘usança africana’ como instituição tão presente entre nós. por abordar o reencontro de populações em um contexto de mudança social. Do mesmo modo outras festas dos negros brasileiros tornaram-se equivalentes às de origem africana. da sociologia e de certos estilos de filosofia. na Grã-Bretanha. culturais e educacionais estabelecidos por séculos.25). outra contribuição da Faculdade de Inglês de Cambridge. The Elizabethan World Picture (1943). Entre as contribuições mais importantes dadas a essa tradição está o livro de Basil Willey.

Leavis. pelos textos e performances. além disso. livro que discutia a história social do teatro e em que. Um outro exemplo e o alvo dessa contextualização. também estava profundamente interessado na relação entre a cultura e seu ambiente.Maristane de Sousa Rosa Nesse episódio cabe estudar o exemplo da inglesa Frances Yates.29). especialista em Shakespere que encontrou no circuito da Escola de Warburg intelectuais instigantes e uma biblioteca inspiradora trazida por eles. Assim como Yates diz que foi “iniciada na técnica warburguiana de usar aspectos visuais como evidências históricas”. também estudiosos marxistas foram incluídos na preocupação relacional entre cultura e sociedade. VIII. funcionando como elemento de fortalecimento da auto-estima de grupos dominados economicamente. abordando o jazz como negócio e. 44 Revista Brasileira do Caribe. F. 2005. R. como fez Raymond Williams em The Long Revolution (1961). vol. vieses de contestação por direitos e justiça social. foi cunhada a famosa expressão ‘estruturas do sentimento’ (BURKE. publicado em 1959. 1990:272). Como seria de se esperar de um famoso historiador econômico e social. também na música reggae adotada na Jamaica podemos sugerir. como forma de protesto político e social. mas também seu público. As emoções são realmente gritos tenazes contra a opressão e a favor de resistência. Sua ênfase na idéia de que a literatura dependia de “uma cultura social e de uma arte do viver” deve-se menos a Marx e mais à nostalgia pelas ‘comunidades orgânicas’ tradicionais. o autor discute não apenas a música. p. No entanto não é difícil combinar uma abordagem ‘leavisita’ com a marxista. um dos pseudônimos de Eric Hobsbawm. mais ainda. justamente pelo “aflorar de emoções incrivelmente poderosas e tenazes tanto entre os seus seguidores quanto entre os seus oponentes” (HOBSBAWM. n° 15 . Concordando com as características atribuídas ao jazz por Hobsbawm. Goiânia. autor de The Great Tradition (1948). é a História social do jazz escrita por ‘Francis Newton’.

cupid.. com sonoridade simbólica de persistência e contestação. oh love 45 jul. 2007 .” O sucesso musical We Are a Warrior (Are We a Warrior) eleito na cidade de São Luis como o hino do reggae no Maranhão. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão. São Luis e África. ora prevendo que esse e outros enredos literários construídos pela cultura da diáspora sejam acessíveis como conteúdos educacionais que privilegiam a diversidade do conhecimento. não confunda. stupid Let not your arrow From your bow. no visível e no imaginário. simultaneamente proporcionando reações no audível..O reggae na “Jamica brasileira”. Oh. ilustra a relação de pertença socioétnica entre Jamaica. exemplifica um dos caminhos a ser percorrido pela pedagogia inclusiva. pois estamos numa guerra. Essa canção Are We a Warrior (Nós Somos Guerreiros?) interpretada e composta por IJahman em álbum gravado no ano de 1978. de luta. Vejamos: The perfection is love And I give thanks For the fullness Within the full me nice Its cool mild these peace me nights Its gentleness Made I a man son of him Life was divided In sweet harmony Come it A woman until dream Are we a warrior? Are we a warrior./dez. quando diz: “Por que nos tornamos como cordeiros. A performance musical do jamaicano IJahman é uma ritualização do culto sagrado rasta.

46 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . VIII. So silent and filled Fountains of waters For also all his lovely creatures He gave us wisdom And knowledge to understand its love Do us after a war Are we a warrior? Are we a warrior. Goiânia. stupid Let not you arrow From your bow So out low And never let it go What caused You have a pistol In your endless love Is it far? To shut the man down there Do we give in? After we have star lit Why can’t We become like a lamb Not look end It’s not humble when These is a small confusion It is a war They rather way as be and Sometimes being confused Within your own head Because at times How us get have down led Are we a warrior? Are we a warrior. Are we a warrior. vol. Oh cupid.Maristane de Sousa Rosa Faith is a mountain.

Oh cupid. Are we a warrior. Oh cupid./dez. Oh cupid..O reggae na “Jamica brasileira”. stupid Let not your arrow 47 jul. stupid Let now your arrow From your bow So out low And never let it go Take a look at certain dream And there are often true stories It would be On all our own glory How often I ask Still like it see no love its why For full close and shelter The cry of mamas and papas Are we a warrior? Are we a warrior.. Are we a warrior. stupid Let not your arrow From your bow Prophecy is now revealed The son of man won’t take it The heart is giving up Why life is taking in the sudden shock The crying of the people Multiply in all over Jah will give an answer To have are stop cry our Are we a warrior? Are we a warrior. 2007 . Are we a warrior.

seus costumes e valores. 1997:29). VIII. Jah. Ao cenário associativista bem se aplica o diálogo reflexivo da antropologia com a história. pelo sotaque que o ouvido capta e torna mais evidente: “Melô do Cachaceiro” representa a sonoridade do refrão “Jah. as músicas são apelidadas pelo nome ressonante. Soam mais estranhas ainda expressões como Jah. associado ao contexto musical jamaicano do século XX. n° 15 . o carnaval.Maristane de Sousa Rosa From your bow And never let it go. 48 Revista Brasileira do Caribe. o vestuário. “Melô de Poliana” é Think twice da intérprete Donna Marie (apelido adotado segundo a preferência dos regueiros ou regueiras) e “Melô de Pinto” é uma homenagem a radiola6 Itamaraty. Nesse sentido. realizado por autores como J. Goiânia. Os regueiros maranhenses apreciam a melodia e desconhecem as letras das canções em língua inglesa que falam sobre os fundamentos filosóficos do movimento Rastafari e de elementos de simbologia afro (o cabelo. Lorand Motory. as danças e mais ainda. estruturou sua língua ao português. vindo com seu idioma. ressignificou a alimentação. mesclando-lhes vocábulos ou sotaques. serviu como instrumento para dar visibilidade às tradições milenares africanas do “Egito e Etiópia” (ALBUQUERQUE. Peter Burke e Eric Hobsbawm como exemplos que inseriram narrativas dinâmicas às festas carnavalescas. ou seja. ao francês ou ao inglês. Com referência aos fatores lingüísticos não por acaso o reggae cantado em ‘inglês jamaicano’ é ouvido em São Luís na forma de melôs5. say”. os reizados. a figura do leão. Desse modo. as cores pan-africanas). o ritmo da diáspora fez emergir sentimentos de orgulho negro quando elegeu fatos históricos e da Bíblia para serem recontados sob a luz de ideais pan-africanistas fortemente difundidos nos Estados Unidos e no Caribe. cita-se o Rastafarismo3 que. os cultos jeje4 e nagô ilustram este processo de resistência do negro africano que atravessou o Atlântico e. vol. as cantorias.2 Tomando a canção como referência.

eletrônico não. Marcus Garvey. passei dois anos na igreja. Já fui evangélico. não têm essa pegada. Peixeiro. Sou viúvo. Na capital do Maranhão foram re-significadas pela emoção.. aí fomos criando. num cercado de palha.O reggae na “Jamica brasileira”./dez. às vezes eu tava na igreja aí escutava uma batida de reggae não agüentava. Eu gosto do reggae roots. peixeiro aposentado. pensado como elemento sócioeducacional para consolidar a cidadania na sociedade do Maranhão. Um assíduo freqüentador das festas de reggae roots. boina branca. radiolas grandes e pequenas. No tempo que nós aprendemos a dançar era calça preta. com 77 anos de idade conhecido pelo apelido de Sapo. não agüentei. disse: Começamos a dançar reggae no quintal. foram direcionadas como subsídio histórico para reescrever a História e Cultura Africana por meio do reggae. Hailé Salassié I ou Ras Tafari. As melodias que envolvem fortes denúncias das desigualdades socioétnicas contra a população negra não tem como ponto de partida a versão jamaicana. tenho 9 netos.. criando até descobrir 49 jul. ninguém sabia as cores. 2007 . aí eu sou aposentado como peixeiro. camisa branca. Ou seja. na Praia do Gaspar. mesmo desconhecendo a língua inglesa. no Sá Viana. 6 filhos. Antonio Domingos Almeida Santos. 1980 e 1990. De outro lado. o reggae roots7 mesclado com patois8 se mostrou incompreensível também também confrontado ao padrão lingüístico fonográfico de sotaque anglo. cinturão preto. Embora a população ludovicense possua baixas taxas de escolaridade e tenha dificuldades para utilizar o português da gramática normativa não se descartam sinais de “parentesco” afrocultural entre jamaicanos e maranhenses. Meu lazer é reggae. As letras musicais jamaicanas das décadas de 1970. o reggae é uma maravilha. amplamente tocadas na cidade São Luis. esse fenômeno foi estudado para compreender como a melodia produziu emoções no corpo e na ‘alma’ dos afro-ludovicenses em que sentimentos de êxtase são almejados pela audição do ritmo jamaicano e não outro. pois os melôs romperam barreiras impostas pelo idioma dantes colonial.

Por isso narrativas histórico-culturais são pertinentes à chegada do ritmo de matriz africana com sotaque inglês. Nesse sentido. O reggae levanta a gente assim.Maristane de Sousa Rosa uma origem. todo mundo coleciona reggae. tudo isso é cultura. VIII. toca no corpo todo. o tambor-de-mina. (Sapo. abraça-me. muita coreografia. o reggae pra mim sempre foi uma cultura. é um bom lamento. japonês coleciona muito reggae. Conforme Peter Burke (2000: 224). É nossa música. é uma beleza de lamento. “Os tambores eram considerados as vozes das divindades. Os cultos de possessão desse tipo continuam entre os negros nas Américas. Ele saiu lá da Jamaica. o reggae é um lamento. o reggae toca no corpo todo. dançamos bumba-boi. Nós maranhenses já trazemos esse ritmo no corpo. vol. nome que enfatiza a batida do tambor”. que fez até a cidade de São Luís receber o codinome de “Jamaica Brasileira”9. eles cantam pra uma pedra. integridade. Eles cantam pra uma criança. alemão. pra Jah. São Luis. cada uma associada a um ritmo característico. as cores originais. 2006). mar. Os jamaicanos eles faz muita mímica. é muita gente. guardando as devidas proporções. Goiânia. As simbologias musicais na década de 1970 entre Jamaica e Maranhão implicaram no fortalecimento cultural da diáspora que pela música percussiva dos tambores nyahbinghi e tambor-demina. 50 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . fibra e cultura. dançamos tambor-de-mina. o reggae nasceu para o povo. pela política colonial escravista de São Luis e o decorrente preconceito racial estendido aos negros descendentes. Sou regueiro antigo. eles cantam pra Babilônia. quando ele faz assim (abre os braços) pedindo a Deus. desde 1970. uma cultura. dançamos tambor-de-crioula. desde o vodu do Haiti à santería de Cuba e ao candomblé do Brasil (que tem ligações particularmente estreitas com as tradições iorubas). respeito. ou seu equivalente no Maranhão. se imbricaram nos dois territórios pelo reggae roots. até que apareceu a original. batemos tambor-de-mina. você podes crê. pra uma árvore. O reggae pra mim é uma cultura autônoma nossa. já nascemos com esse ritmo no corpo. trazemos no coração. americano também. trazendo muita paz.

gestos. políticas e históricas. De acordo com Alistair Thompson (1981. composição de arquivos do passado sob os quais ela se escora. gostos e atitudes musicais. 1980 e 1990. A partir da divulgação dos conteúdos musicais do reggae jamaicano das décadas de 1970. os espaços. Compomos nossas reminiscências para dar sentido à nossa vida passada e presente. se aproximam por mecanismos de cognação nos quais os lugares da memória não são espontâneos mas. esta pensada como ferramenta pedagógica para construção de consciência política e reivindicação de cidadania. sociais. conteúdos vocabulares em língua inglesa são posicionados como narrativas etnográficas do movimento panafricanista da Jamaica que rememorou os milenares costumes da África por meio de danças. nós as compomos ou construímos utilizando as linguagens e os significados de nossa cultura. Os territórios. 2007 . carregados de mensagens religiosas. p. mas ‘legitimados’ pela leitura social. 56) é por isso que. onde há freqüentemente histórias verdadeiras”. aqui considerados como instrumento de resistência para validar a historiografia africana frente aos conteúdos eurocêntricos. 51 jul. como questiona o refrão: “Nós somos guerreiros? – É nós somos guerreiros”. compreendeu-se como autênticos os sentimentos desenvolvidos pelos regueiros em relação à melodia jamaicana. a música e as letras do reggae jamaicano foram utilizadas como meio de efetivação da historiografia africana e de seus descendentes à sociedade maranhense../dez..] Examine e olhe determinados sonhos. Assim..O reggae na “Jamica brasileira”. pelo trecho que diz: “Para possuir nossa cabeça como em outras épocas. aparentemente dissociados pela geografia ou por fatores lingüísticos. quando nos conduziram sob seus pés [. composição é um termo adequadamente ambíguo papa descrever o processo de ‘construção de reminiscências’. de certa forma..

36) diz que.Maristane de Sousa Rosa Concordando que história é memória e vice-versa. fantis e outros. 52 Revista Brasileira do Caribe.119): Os escravos Akan (no Brasil conhecidos como fante-achanti) são comerciados na Costa do Ouro nas proximidades do Castelo da Mina e em Cape Coast. todos da tribo dos coromanti. Não é difícil supor que algumas vezes essa divisão de mercado tenha sido rompida. calipso e rumba. Carlos Albuquerque (1999.” Para Mariza de Carvalho Soares (2000. quando o intangível se apóia nos traços exteriores e nas referências tangíveis de uma existência que se supõe existir por detrás deste estoque material. minas seriam os nagôs. p. Pelo que toca aos negros que Henrique Dias chama ardas. por ingleses e holandeses.15) destaca os seguintes grupos étnicos vindos para a Jamaica: “escravos da África Ocidental. em sua maioria. Goiânia. O franco diálogo entre a cultura musical da América do Norte e Caribe foi responsável pelo surgimento do reggae na Jamaica que se formou de elementos do rhythm and blues. próximo de Abomey. O antigo reino de Ardra. p. e vão. numa simbiose de etnicidade encontrada entre nações de procedência na travessia do Atlântico. VIII. Já Cuba e Brasil recebem dessa costa escravos de vários grupos étnicos de língua ioruba (na Bahia chamados de nagôs). vol. onde têm boa aceitação. ioruba e akan. a denominação genérica de angolas designa todos os bantos. Aos grupos referenciados acima Nina Rodrigues (1982. por ardras claramente se deve corrigir o nome. Os escravos do Daomé (de língua fon) vão principalmente para as colônias francesas (Haiti e Louisiana). a maior parte formada por integrantes dos povos ashanti. jazz. p. para as colônias inglesas. n° 15 . em que agora as identidades revitalizam a própria historiografia de si. e neles se descobrem negros jejes ou daomeanos.

capital dos daomeanos. para todos os falantes de ewe. foram retomados após a travessia transatlântica em meados da década de 1970.O reggae na “Jamica brasileira”. Assim interpreta-se que os diálogos interrompidos por séculos entre maranhenses e jamaicanos. Conforme J. gen. um afamado empório do tráfico negreiro. p. aja e fon. Akan ou Minas. De modo que para o Maranhão e Jamaica vieram grupos étnicos comuns (Minas). em destaque para o primeiro caso os Fanti e para o segundo os Ashanti. entre os grupos étnicos vindos da África Fanti. Segundo Silva “uma curiosidade é que segundo historiadores.63). referência encontrada pelos depoimentos colhidos no documentário “Atlântico Negro – na rota dos orixás”. ou melhor. constitui há séculos. (MATORY. regional e transatlanticamente. As descrições utilizadas situam os Akan ou Fante-Achanti. onde os europeus haviam estabelecido importantes casas de comissão. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de 53 jul. como grupos étnicos de travessia. Ashanti.. pela tese de doutorado de Carlos Benedito Rodrigues da Silva. Também Nina Rodrigues em Os africanos no Brasil./dez. entendendo que as imagens e a discografia jamaicana interagiram com culturas que o passado escravista separou. designando o ‘parentesco’ jeje pela religiosidade de tronco comum na América do Norte.. evidências encontradas em São Luis pela formação vocabular do terreiro Fanti-Ashanti fundado por Pai Euclides no ano de 195410. Fantis ou Minas. concorda com a procedência ocidental dos africanos escravizados que vieram para as Américas e Caribe. o termo jeje foi designado no Brasil em meados do século XVIII. mas seu registro na África depois de 1864 revela muito sobre a história da etnicidade e da nação. Caribe e Brasil (Casa Fanti-Ashanti e Casadas-Minas no Maranhão). 1999. 2007 . Ashanti. Lorand Matory. Essa associação deu-se também pelo cruzamento de informações coletadas nas abordagens de Carlos Albuquerque em O eterno verão do reggae. tratando-se da mesma língua de adoração dos deuses vodun.

isto é. ora com possibilidades de percepção do passado. de espaço. depende do grau em que o passado das instituições em causa é considerado como algo que está em jogo e como instrumento de luta. De acordo com Pierre Bourdieu (2001. Com efeito. Goiânia. não descarta a dialogicidade entre cá e lá a qual este estudo se ocupou em estabelecer partindo de fatores que ultrapassam barreiras fronteiriças. condenar ou reabilitar imputando a vontades benéficas ou malignas as propriedades aprovadas ou reprovadas do passado.Maristane de Sousa Rosa religião afro-brasileira de São Luís é a Casa de Fanti-Ashanti. a propensão para a visão teológico-política que permite censurar ou louvar. n° 15 . no espaço social em que se situa o historiador. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa” (2001. interpretada como responsável pela memória histórica e identitária que reveste de simbolismos a comunidade afrodescendente ouvinte de “música negra de raiz”. Essa reflexão depara-se então com a representação normativa do passado. de idioma. p. mais uma vez concorda-se com os conceitos de memória latente e em potencial avaliando que os lugares da memória não devem ser julgados somente como espontâneos.113). mas ficam latentes. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. 54 Revista Brasileira do Caribe. No entanto o fato do referido pesquisador não ter encontrado evidências dessa associação. Assim. através dessas próprias instituições. no campo das lutas sociais e no campo de produção cultural. ele próprio mais ou menos autônomo em relação a essas lutas. prontos para serem utilizados no momento em que são solicitados. p.79): De facto. vol. VIII. desenhada nos ritos religiosos de origem africana. desenvolve-se uma reflexão sobre a existência mista de oralidade que ora se apresenta na forma de variabilidades textuais discursivas. são arquivos criados no presente.

reivindicações de orgulho negro da década de 1930 foram aproveitadas como viés teórico a partir da inspiração bíblica utilizada pelo movimento Rastafari. 14. fazendo-o adormecer sobre os seus joelhos. descrita no livro de Juízes: Sobre a minha cabeça. Segundo Carlos Albuquerque (1997.. o mito da força dos cabelos. arremeteu contra ele. 2007 . perderei a minha força e então serei como qualquer outro homem. porque sou nazareno de Deus desde o ventre de minha mãe. 2003. p.34). disse ele. sem ter na mão qualquer arma. Quando chegaram às vinhas da cidade. (GILBERT. (Jz. Os costumes Masai caracterizaram não somente o visual dreadlocks11 mas também o totemismo entre homem e leão que o reggae jamaicano utiliza expressivamente em camisetas. pois.17). p. A releitura da Bíblia proposta pelo movimento Rastafari consistiu numa revisão. vídeos e na bandeira da Etiópia. Mas o espírito do Senhor entrou em Sansão. estampas. chamou um homem. o uso de tranças e a força física para lutar com o leão. (Jz. nunca passou a navalha. p. rugindo. que despedaçou o leão como se fosse um cabrito./dez. o qual. apareceu de repente um leão novo e feroz. (Jz. Sansão. p.164-165). o uso de ‘terríveis tranças’ estava associado às “fotos de guerreiros somalis e suas 55 jul.5-6). Se me for rapada a cabeça. As escrituras lidas nos moldes da colonização ocidental e nas pinturas da Europa renascentistas apresentaram de forma “branqueada” a lenda de Sansão. Dalila.O reggae na “Jamica brasileira”. 16. Então. desceu com seu pai e sua mãe a Tamna. 16:19). introduziram importantes referências aos negros subtraídas ou adulteradas pelo mundo Ocidental.. que cortou a Sansão as sete tranças do seu cabelo. aos profetas e até mesmo ao Cristo como usuários de ‘tranças’. daí advindo o não uso da navalha nos cabelos de forma que as tranças rastas pudessem crescer livremente. principalmente as menções aos primeiros israelitas.

uma tradição milenar africana”. p. aspectos pioneiros do legado patrimonial negro da África à humanidade. porque já haviam matado pelo menos um leão na vida e se tornaram autênticos guerreiros da tribo. tinham cerca de 20 anos. como o exemplo encontrado na referência de Diego Lezama (1999. vol. De modo que partindo do título do hino do reggae no Maranhão (Nós somos guerreiros). cabelos compridos e trançados. o som onipresente do reggae que se tornou práxis política desalienadora e operante para romper a segregação visível 56 Revista Brasileira do Caribe. Estavam ali sete deles. vistas na Jamaica pela primeira vez nos anos 30. Conforme IJahman: “A profecia agora é revelada. membros de ‘uma das tribos mais selvagens da África’ [grifo nosso].61) na reportagem da revista “Os caminhos da Terra”. chamados de ilkelianis. VIII. e respeitando. e os adultos. O choro do povo se multiplica em toda parte. teriam dado aos rastas a certeza de que com as dreadlocks eles estavam seguindo. Contrariando a referência. Os mais jovens. organizações militantes negras e a musica jamaicana reivindicaram oportunamente da cultura Ocidental.Maristane de Sousa Rosa carapinhas em estilo medusa. Oxalá. tais narrativas apontaram na direção do grupo étnico Masai por adotarem o uso de dread e principalmente pelo ‘costume’12 de combater com leões nos rituais de passagem13. repetiram as apresentações aos masais. eram carecas. Prevendo ainda pela música. ao descrever um trekking com os Masais: As 25 pessoas de nosso grupo. todos ornamentados. O filho do homem não fará exame do coração que está desistindo. n° 15 . estudantes europeus em sua maioria. de suposições sobre os guerreiros somalis e o lendário Sansão. desconstruir ‘tradições inventadas’ e abordagens etnocêntricas. os moranis. Goiânia. mas Jah dará uma resposta para nosso choro”. pois a vida o levará num súbito choque.

estúpido. 2 Título: Nós somos guerreiros (We Are a Warrior – tradução da autora) O amor é a perfeição e eu dou graças pela agradável plenitude presente dentro de mim. cupido. não atire a flecha de seu arco e nunca a lance. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão.O reggae na “Jamica brasileira”./ Nós somos guerreiros?/É nós somos guerreiros. sirva para consolidar ações afirmativas entre a comunidade afrodescendente do Maranhão./Fé é uma montanha tão silenciosa e cheia de fontes d’água para todas as adoráveis criaturas. 57 jul.. Notas 1 Palavra inglesa que deriva a forma aportuguesada blefe significando iludir. pois estamos numa guerra. deixe-a baixa e nunca a lance. estúpido. lá na Jamaica. Ele deu sabedoria e conhecimento para entender o amor após uma guerra. Seria toda a nossa própria glória./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. Eles certamente querem o caminho às vezes mais confuso. Oh./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. enganar. estúpido. mas para o fim haverá abrigos cheios com clamor de mães e pais./O que te fez ter uma pistola? Seu amor infinito acabou para você atirar no homem ali? Nós desistimos depois que a estrela nos iluminou? Por que nos tornamos como cordeiros. estúpido. É nós somos guerreiros. O choro do povo se multiplica em toda parte. estúpido. lograr. não confunda. para possuir nossa cabeça. Ainda que não vejamos nenhum amor. não atire a flecha de seu arco. não lance sua flecha de seu arco. por que a vida o levará num súbito choque./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros./Oh cupido. deixe-a baixa e nunca a lance. É nós somos guerreiros./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros./dez. pela mansidão que me fez filho do homem./Oh cupido. A profecia é revelada agora.. A vida foi dividida em doce harmonia fazendo uma mulher até sonhar./Examine e olhe determinados sonhos onde há freqüentemente histórias verdadeiras. mas Jah dará uma resposta para o nosso grito. amor. como freqüentemente eu peço./São suaves e cheias de paz minhas noites. É nós somos guerreiros. não atire a flecha de seu arco./ Oh cupido. O filho do homem não examinará o coração que está desistindo. É nós somos guerreiros. como em outras épocas quando nos conduziram sob seus pés./Oh./Oh cupido. 2007 . não atire a flecha de seu arco.

Ioruba e Akan. 3 4 Grupo étnico heterogêneo vindo da África durante a travessia transatlântica em meados do século XVII. Formou-se da mistura do inglês com termos creoles. Goiânia.br/ artigos2.php?id=28. composto por Minas. Informação disponível em: http://www. por vezes também homenageiam a preferência do regueiro mais considerado. sendo também usada para definir aspirações espirituais. de tronco lingüístico comum. então reggae roots ou somente roots representa o ritmo de raiz. Língua religiosa adotada pelos rastas compondo a maneira ritualística de falar para definir o mundo político. os Dj’s atribuíram esse ‘codinome’ à capital do Maranhão como forma de relacionar São Luis e Jamaica com o reggae.ma. com amplificações de som de alta freqüência. em que grandes shows reúnem até cinco estruturas desse porte. devido a grande projeção do ritmo jamaicano entre a população maranhense. VIII. Acessado em: 05/01/2006. imperador da Etiópia. econômico. como reencarnação divina na terra. n° 15 . ou seja. Título dado às músicas reggae pela sonoridade produzida em inglês ou patois jamaicano. Fanti.gov. 5 6 Ressignificação dada aos sound-systems jamaicanos. ainda compostas por mesa de mixagem do som e pela presença de DJ’s. Nagôs. Ashanti.culturapopular. incluindo ainda o jamaicano Marcus Garvey como profeta afro-centrista que inspirou a visão do orgulho negro. 10 58 Revista Brasileira do Caribe.Maristane de Sousa Rosa Filosofia religiosa afro-caribenha surgida em meados dos anos 1930 que proclama Jah como Deus Supremo e Hailé Salassié I. vol. época do disco de vinil. 8 9 Conforme Silva (2001:44). particularmente no Maranhão são assim chamados os grandes paredões de som que animam os eventos de reggae. 7 As mudanças melódicas a partir de meados da década de 1990 adjetivaram o ritmo jamaicano atual de Dancehall ou batida eletrônica. Feitos de madeira compensada que medem por vezes 3 m de altura por 5 m de largura. Ardras. aquele originado no início dos anos de 1960. chegando o novo nome aos outros redutos regueiros fora de São Luis.

embora por vezes seja tolhido pela exigência de que dever parecer compatível ou idêntico ao precendente. Manuela Carneiro. Negros estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. SP: Papirus. 2007 . Memória e sociedade: lembranças de velhos. Eric.. 1997.br/4x4/ed08/masai./dez. Argentina: CICCUS/LaCrujía. 13 Bibliografia ALBUQUERQUE. BURKE. Mônica Lacarrieu. BURKE. BÍBLIA SAGRADA. Rio de Janeiro: DIFEL. São Paulo: Brasiliense. 9. 2002. 11 De acordo com Eric Hobsbawm (2006:10) que toma costume no sentido de possibilitar inovações. BOURDIEU. set. Rio de Janeiro: Paz e Terra. “Um trekking com os masais”. Campinas. 1989. ciudadanía y patrimônio em América Latina”. podendo mudar até certo ponto. 1995. “Cultura. Tradução Missionários Capuchinhos de Lisboa. 12 Disponível em: < www. O poder simbólico. 2005. Peter.com. Pedagogia do oprimido. Eric. (Trad. Carlos. O que é história cultural.asp>. 1999.tribooffroad. CUNHA. 32ª ed. 1986. 2000. Terence. v. A invenção das tradições. Enid Abreu Dobránszky). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 8. 3ª ed. São Paulo: Ed. 34. FREIRE. n. 1994. Antonio Augusto. RANGER. Rio de Janeiro: Zahar. HOBSBAWM. HOBSBAWM. São Paulo: Stampley Publicações. Peter Variedades de história cultural. In: Revista Os Caminhos da Terra. Paulo. São Paulo: Paz e Terra..O reggae na “Jamica brasileira”. formando grossas tranças. (Coleção Ouvido Musical). Diego. CERTEAU.). Visual do cabelo enrolado em forma de pavio. ARANTES. por vezes com cera de abelha. 1990. Sua função é dar a qualquer mudança desejada (ou resistência à inovação) a sanção precedente. BOSI. Das Letras. História social do jazz. 59 jul. 2002. Celina LEZAMA. In: La (indi)gestión cultural: uma cartografia de los processos culturales contemporâneos. Ecléa. São Paulo: Cia. A cultura no plural. Acessado em: 07/09/2006. Michel de. [1971?]. O eterno verão do reggae. Marcelo Álverez (Comp. continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história. Pierre. (Trad.

“Questão racial e etnicidade”. Lorand. 1997. 1988. 1998. Clovis. 2001. VIII . SCHWARCZ. “Recompondo a memória: questões sobre a relação entre história oral e as memórias”. Sumaré/ ANPOCS. Os africanos no Brasil. Nina. 2000. J. 2001. Mariza de Carvalho. PPGASUFGRS. Cardim Cavalcante). SILVA. Carlos Benedito Rodrigues da “Ritmos da identidade: mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão”. “Som e música: questões de uma Antropologia Sonora”. Carlos Benedito Rodrigues da. mar. ano 4. Alistair. In: Revista de Antropologia. PINTO. Brasília: Universidade de Brasília. 9. 1. São Paulo: Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.Maristane de Sousa Rosa MATORY. Tese de Doutorado em Ciências Sociais Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. p. 1985. 1982. Lília K. Goiânia. SILVA. 2ª ed. Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae. THOMPSON. v. SOARES. In: Sérgio Miceli. São Luís: EDUFMA. Devotos da cor. Rio de Janeiro: Paz e Terra. vol. n. Porto Alegre. Sociologia do negro brasileiro. In: Horizontes antropológicos. São Paulo. v. Moritz. Brasília. Porto Alegre. 1999. São Paulo: Ática. abr. DF: CAPES. 221-286. 1997. “Jeje: repensando nações e transnacionalismo”. MOURA. lazer e identidade cultural. n. Tiago de Oliveira. São Paulo. 60 Revista Brasileira do Caribe. São Paulo. O que ler na Ciência Social Brasileira (1979-1995). 1. 44. RODRIGUES. In: Projeto História.

Resumen Brasil y Jamaica. Keywords: Jamaica-Brazil. 61-84. conforms the vision of the spectator departing from a series of symbolic audiovisual references. Goiânia. filmes jamaicanos e documentários brasileiros como representações e veículos dessa comunicação intercultural. vol. VIII.Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal Abstract This study attempts to look at Brazil and Jamaica not as closed. considerados tanto en sus sujetos y practicas sociales. The exploration of the audiovisual and musical performances in both countries contributes to deepen into its culture. Para tanto. Reggae. são analisados em seu contexto. Audiovisual. n° 15. but open systems. Comunicação Audiovisual. Palavras-Chave: Jamaica/Brasil. both from its subjects and its social practices. 2007 . Reggae. em que o reggae jamaicano é apropriado e ressignificado em algumas regiões brasileiras. Nessas relações a música popular e a produção audiovisual constituem veículos de reinterpretação e ressignificação das culturas de ambos os países que revelam semelhanças e especificidades. Investigar los grados de intensidad y sobre todo las performances en la relación entre ambos *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 61 Revista Brasileira do Caribe. Reggae Resumo Este artigo analisa as relações interculturais entre Brasil e Jamaica por meio dos conceitos de contaminação e apropriação. which emerge from the Jamaican filmography and other iconographic sources. recreated in Brazil. son estudiados em este artículo no como sistemas cerrados sino abiertos.

n° 15 . Para tentar incorporar esta visão relacional ao estudo dos contatos entre os sistemas culturais. práticas sociais. conforma la visión del espectador a partir de un conjunto de referenciales simbólicos audiovisuales procedentes de la filmografía jamaicana y otras fuentes iconográficas. vol. meios e produtos que se encontram envelopados em subdivisões jurídicas e econômicas cada vez mais frágeis. regionais ou nacionais. sempre estiveram em contato. Reggae Brasil e Jamaica. Michel Serres apresenta as redes como espaços irregulares. seria preciso usar uma abordagem que procurasse ultrapassar os limites da rígida organização do conhecimento especializado. envolvendo uma reinvenção de conceitos bastante utilizados. Nesse sentido. El reggae recreado colectivamente en Brasil.Leonardo Vidigal países mediante la producción audiovisual y musical permite profundizar en la cultura. estabelecendo as condições para o auto-reconhecimento dos habitantes de tais contextos como “distintos” de seus congêneres. o que vem sendo desenvolvido por uma grande variedade de pensadores de diversos lugares e tradições de saber diferentes. pode-se ter em conta que. Como os contatos entre esses dois contextos poderiam ser abordados de forma a trazer novas luzes para o debate sobre a comunicação intercultural1? Em primeiro lugar. “onde a 62 Revista Brasileira do Caribe. VIII. que estariam sujeitas a toda sorte de variações. tais contatos foram a base da constituição recíproca dos contextos socioculturais planetários ao longo do tempo. em complexas gradações de intensidade e performatividade. Comunicación audiovisual. em sua concepção de comunicação. que poderiam contar com uma “pluralidade de subtotalidades” (o que corresponderia aos contextos locais). sejam eles locais. como algumas especulações e pesquisas no âmbito antropológico e filosófico parecem afirmar. mas como sistemas abertos de sujeitos. Palabras Clave: Brasil/Jamaica. entendidos não como unidades fechadas de características facilmente delimitáveis. longe de serem momentos excepcionais e fugazes. Goiânia. como todos os diferentes contextos culturais. como o de rede.

ensaiada” e não deveria ser considerada como fixa (MORAES. Isso porque ela atualiza continuamente e torna explícitas as contaminações. posto que os processos de tessitura continuam em plena atuação./dez. Se for assim. aberta) e no canal GNT (privada.. por diferentes processos. na TV Bandeirantes (privada. estabelecendo assim uma necessidade de maior compreensão dos fenômenos envolvidos. de leitura complexa. Entre estas equipes de gravação estrangeiras estavam os brasileiros. mas que pode revelar muito sobre as transformações culturais em curso na contemporaneidade.Enredando Brasil/Jamaica.. Tal disposição somente 63 jul. pode-se concluir que o interesse de documentaristas e jornalistas televisivos do Brasil pela situação jamaicana é significativo. Em segundo lugar. o que acontece hoje entre as subtotalidades que compõem as subdivisões maiores denominadas Brasil e Jamaica pode ser chamado de enredamento. pertencente à mesma empresa mantenedora da Rede Globo. ela amplia o seu potencial de aglutinação e torna-se também um indicador. é preciso recortar um aspecto ou elemento deste processo. quanto por equipes mistas e ainda por outras totalmente estrangeiras. Dessa forma. veiculada na TV por assinatura). recorte que nesse caso destacou o audiovisual. que circulam de forma cada vez mais rápida e acessível pelo mundo. com grande e perceptível vitalidade. um dos principais meios a organizar a expressão humana. foram produzidos ao longo do tempo na Jamaica. tornando-se parte da constituição de um tecido cultural aberto. Dessa forma. documentários e outros produtos audiovisuais (como videoclipes) realizados tanto por equipes locais. negociada. Tais audiovisuais foram realizados por equipes independentes que posteriormente tiveram seus programas veiculados na TV Cultura de São Paulo (pública. 2007 . para melhor focar e direcionar tal compreensão. Quando a articulação de imagem e som incorpora uma expressão igualmente mobilizadora como a música popular. 2000). que fizeram pelo menos três incursões deste tipo naquela ilha do Caribe anglófono. aberta). filmes de ficção semi-documentais. determinação é construída. apropriações e combinações possíveis entre os diferentes produtos e interpretantes.

ao mesmo tempo em que os submetem a todos às decisões macroeconômicas tomadas pelos organismos internacionais como o FMI. naturalmente complexo e plural. tornando-os sócios ou seguidores dos modelos hegemônicos. mas incorporadas nas perspectivas de análise. n° 15 . A comparação e a análise de tais esforços não podem deixar de levar em conta a atual situação. até porque é neles que se concentra a maior parte da produção audiovisual hoje em dia. mais estreitamente ligados à Jamaica por abrigarem colônias numerosas de oriundos da ilha caribenha. Sem entrar nos méritos dessa produção e partindo de um olhar que. Isso porque o pesquisador pertencente ao contexto brasileiro sente-se inteiramente à vontade para tratar de objetos referentes ao chamado cânone ocidental. As persistentes assimetrias de poder entre os estados-nações e no interior destes. Goiânia. elegendo assim aspectos específicos de um contexto cultural como representantes de toda a produção desse contexto. Este tipo de mentalidade que partilhamos. procura incorporar a extrema heterogeneidade de tais contextos culturais na sua análise. com nossos colegas de universidades situadas nos grandes centros. Neste sentido. mais do que considera. talvez inconscientemente. o Banco Mundial e a OMC (ANTELO. em que os processos de integração do capitalismo contemporâneo estão generalizando uma lógica de mercado e de consumo que coopta determinados agentes dos países à margem. reduz muito fácil e acriticamente as manifestações culturais menos conhecidas ao estereótipo exoticizado. não podem ser ignoradas na tentativa de operar com essa percepção. vol. podemos afirmar que um estudo 64 Revista Brasileira do Caribe. é preciso pesquisar caminhos para a abertura ou o melhor aproveitamento de circuitos alternativos de cultura entre os países à margem. VIII. 2002).Leonardo Vidigal encontra paralelo entre os realizadores provenientes de países como Inglaterra e Estados Unidos. No entanto isso não acontece sem problemas para quem deseja estudar as relações culturais entre os países à margem. mas hesita em investigar culturas consideradas exóticas pelo olhar condicionado por este mesmo cânone.

novas identificações e também novos mercados. como o cinema. as relações entre os contextos à margem. o computador. Para uma compreensão dos produtos audiovisuais de acordo com as premissas desse estudo.Enredando Brasil/Jamaica. o que poderia abrir espaço para novos reconhecimentos. derivados das ambigüidades socioeconômicas e outras características que compartilhamos. com ou sem a mediação de meios tecnológicos (BETHÔNICO. ao norte. mas sob certas premissas teóricas que este texto procura discutir. a televisão./dez. nesse caso sob o formato de produtos audiovisuais. Culturas do audiovisual Mas antes é necessário compreender melhor o recorte usado para esse estudo. pois é ao mesmo tempo próxima e distanciada.. É um esforço de reinterpretação e ressignificação (DHARESHWAR e NIRANJANA. Nesse contexto. 2007 . menos hegemonizante e homogeneizante? O caso que se pretende analisar parece indicar que sim. a qualquer articulação possível entre signos visuais e sonoros. No entanto. pelo fato do termo audiovisual estar consagrado como um coletivo para tais dispositivos. em sua acepção contemporânea. mais atento e menos eurocêntrico seria altamente proveitoso. podem ser analisadas como trazendo uma motivação diferenciada. familiar e estranha. 1996) que oferece novas perspectivas sobre nossa própria condição. tanto para o público em geral como para a esfera acadêmica em particular. mas neste texto iremos restringir o uso de tal conceito aos suportes técnicos. 2001). O termo “audiovisual” é bastante abrangente e corresponde. podem ser descobertas também algumas soluções comuns que são ou podem ser adotadas para tais impasses. o celular e outros meios. Esta é certamente uma definição que faz jus aos estudos mais atuais e rigorosos sobre o assunto. talvez até mais receptivos do que os mais cobiçados. estes não devem ser 65 jul.. Pesquisar outros circuitos por onde circula o audiovisual pode revelar impasses e questionamentos semelhantes aos nossos.

mas a necessidade de estabelecer limites faz com que uma visão totalizante da cultura. colaboram de modo significativo para formar comunidades imaginadas e sistemas culturais reconhecíveis. Seria preciso então recorrer a uma visão mais ampla. para a modalidade de pesquisa empreendida aqui. reinventando um novo arranjo de componentes que. mas como elementos que participariam tanto do estabelecimento das condições básicas de tessitura como do seu direcionamento. vol. que seriam apropriados a partir de um processo recursivo e reflexivo. Não é um significado fixo porque depende das relações e arranjos nos quais está inserido em um dado momento da observação. Esta. Isso porque muitas vezes a cultura é citada apenas em seu sentido restrito. o olhar construído pela experiência e pelos meios usados para se observar.Leonardo Vidigal encarados apenas como reflexos ou sintomas de fatores socioeconômicos e culturais externos aos fluxos de enredamento imaginário e concreto. embora não seja o objetivo desse texto estabelecer uma conceituação “correta” para um termo tão complexo. ligado à produção material ou imaterial que expresse de alguma forma a ação criativa humana (considerando-se as camadas descritivas e normativas acumuladas sobre termos como “arte”) e que seja socialmente aceita como tal. por sua vez. que é muitas vezes tomado como dado. dessa vez vista como um conjunto de 66 Revista Brasileira do Caribe. a produção audiovisual que emerge como resultado dessa dinâmica não é analisada como algo acrescentado por um sujeito totalmente separado de seu entorno. também o modifica. Trata-se de um processo de contaminação por parte de certos elementos. mas como resultado de um certo encontro. molda e é moldado pela forma material. Neste. produzindo diversos sentidos potenciais. ao serem atualizados a cada exibição para os indivíduos. Nesse ponto é necessário esclarecer com um pouco mais de precisão como este trabalho irá lidar com o conceito de “cultura”. nem como uma emanação do objeto. n° 15 . que também passou por diversos processos de produção e manipulação. VIII. Assim. Goiânia.

A partir dos anos 1950. no qual referenciais simbólicos concebidos em um dado contexto se interpõem ativamente pelos meandros de outro. Essas características são a sua extremamente prolífica e efêmera produção de conteúdo. Ao longo do último século. em contraste com a visão expressa desde o início deste trabalho. a saber: Contaminação. já citadas. conjugada a uma capilaridade social ao mesmo tempo verticalizada e horizontalizada.. processo infindável. o cinema tornou-se uma das principais portas de entrada para a tessitura da rede imaginária que participa do processo de construção e difusão dos produtos audiovisuais. São estratégias que poderiam se alternar em gradações ainda não estabelecidas precisamente. serão mais detidamente examinadas. é preciso reiterar aqui que os sistemas culturais são encarados como relativamente autônomos em relação aos limites e condicionantes socioeconômicos e jurídicos que compõem os atuais estados-nação (CARVALHO. a televisão também começou a participar desse processo de produção e reinterpretação de elementos de identificação. duas das quais. que gera produtos variados a partir de referenciais simbólicos oriundos de contextos diferentes do local onde são reinventados. 1994). 67 jul. 2007 . Esta última característica é especialmente importante porque toca no problema crucial da capacidade de tais combinações sígnicas favorecerem ou não processos de identificação através de diversas estratégias relacionais. processo que também pode passar pela atuação mediadora. Apropriação.. bem como ideologicamente direcionada para a construção de uma unidade identitária nacional homogeneizante. por sua extensão em cadeia de dezenas de emissoras estrategicamente localizadas. reinventados e colocados em contato por intermediários culturais e/ou agentes individuais./dez. Assim. movimento ativo de recepção colaborativa. comportamentos e pontos de vista compartilhados tenda a enxergar cada contexto localizado de forma essencialista e fechada.Enredando Brasil/Jamaica. tomando parte desse jogo com todas as suas características próprias.

no começo 68 Revista Brasileira do Caribe. o reggae teve pouco tempo de maturação antes de se consolidar em um estilo hoje chamado de roots. KATZ. 1995). 2001. n° 15 . Goiânia. mas que eles estariam parcialmente contidos uns nos outros. A leitura de tais estudos e a observação vivenciada nestes vinte anos de envolvimento deste pesquisador com o gênero. Para ambos. Nascido quando a sociedade de consumo começava a consolidar sua hegemonia pela difusão planetária de seus produtos (a primeira banda de ska. 1995. principalmente pelas camadas mais jovens da população. Música popular e audiovisual Os produtos audiovisuais que possuem como tema a Jamaica geralmente dão grande ênfase ao gênero musical conhecido como reggae. 2003)3. VIII. em homenagem aos primeiros satélites). sempre por meio de ações. sugerindo não haver diferenças absolutas entre um e outro sistema cultural. STOLZOFF.Leonardo Vidigal É importante apresentar uma definição mais precisa para estes conceitos por causa da conotação pejorativa que pode ser conferida aos termos “contaminação” e “apropriação”. sujeitos ou culturas como entidades que teriam um estado inegavelmente original ou “autêntico” de existência e não como percepções contingentes. vol. que poderiam ser chamadas de moleculares (para usar terminologia de Deleuze). captadas e compreendidas sempre parcialmente. Aqui se procura construir um ponto de vista teórico mais permeável do que a constituída por noções como a de hibridismo2. “questão de relações e alianças em estado de fluxo” (FISHER. o que não foi contestado por estudos anteriores (COOPER. reconhecido como a primeira forma do reggae. permitiu constatar que o reggae encontra-se atualmente fragmentado em diversos subgêneros construídos coletivamente ao longo de seus quarenta anos de história. era conhecida como Skatalites. tal interpretação acontece segundo concepções que tomam coisas. consumidos e praticados nos cinco continentes. determinando a ilha caribenha como seu local de origem. de contaminação e apropriação. que são ouvidos.

sendo considerado inicialmente como algo marginal.. espanholas. combinados com a tradição oral do canto falado (mais tarde apropriado pelos rappers americanos e jamericanos. religioso e moral que combina a política de valorização da herança africana com crenças milenaristas e. dos anos 1970 e ser internacionalizado por filmes produzidos na mesma época e pelo carisma de Bob Marley. Além disso. discursivo e simbólico foi sendo composto. que têm na adoração de um deus negro. que foi gradativamente sendo ressignificado. O entrelaçamento entre a mensagem espiritual e 69 jul. como vem sendo reivindicado por acadêmicos da ilha) que combina palavras inglesas. tanto formalmente. que existem até os dias de hoje no norte da ilha. mas que ganharam a forma atual a partir da década de 1930 e só se tornaram relativamente populares nos anos 1970. isto é. indianas e africanas.Enredando Brasil/Jamaica. As origens desse sistema de crenças e valores datam das lutas políticas anti-coloniais que explodiram no Caribe no século XIX. Como parte do processo de edificação do roots reggae. ou inglês jamaicano. a instrumentação musical era muitas vezes baseada nos tambores nyabinghi. depois como um elemento relativamente assimilado pela cultura praticada na Jamaica. às vezes. motivadas certamente pela revolução negra no vizinho Haiti. envolvendo-o com o rastafarianismo. fundamentalistas. Este é um complexo sistema filosófico. todo um denso arranjo ético./dez.. Todo esse ethos era claramente ou obscuramente exposto nas letras das canções. até se tornar praticamente uma norma para a maioria dos músicos e cantores de reggae. oriundos das comunidades quilombolas (chamadas de maroons). Esse formato é o mais conhecido mundialmente e suas características formais são as mais facilmente reconhecidas e associadas ao reggae. em um contexto de anarquia litúrgica e antidogmática. descendentes de jamaicanos nascidos nos Estados Unidos). As convicções dos rastas são professadas em variados graus. como nas temáticas. um dos pontos em comum entre os diversos grupos de fiéis. 2007 . porque ditas em um dialeto patois (ou na língua jamaicana. encarnado na figura do antigo imperador etíope Haile Selassie I.

Nesse último. os grafiteiros e os DJs). vol. em 1981. hoje dominante nas paradas jamaicanas4. juntamente com algumas cuícas compradas em sua única e breve passagem pelo Brasil. no então emergente subgênero chamado de dancehall (chamado assim por ter sido consagrado nos bailes). cujos agentes passaram a priorizar o mercado interno e aquele composto pelas colônias jamaicanas em países de fala inglesa como Inglaterra. ao inspirar a concepção do hip-hop (graças ao canto falado – o toasting– que os imigrantes jamaicanos levaram dos bailes de rua da ilha para os bailes de clube em Nova York. e de Peter Tosh. como entre 70 Revista Brasileira do Caribe. onde o hip-hop é hoje uma das principais expressões da juventude (embora o dancehall jamaicano somente agora esteja começando a ser apreciado por aqui). Os contatos entre Brasil e Jamaica não aconteceram por meio de correntes migratórias diretas. o MC – os outros três elementos seriam os dançarinos. 2006). depois do falecimento de Bob Marley. No entanto. que constituiria um dos “quatro elementos” do hip-hop. A partir de então. mas outras modalidades de discurso ainda aconteciam. Goiânia. Canadá e Estados Unidos. VIII. Os instrumentos eletrônicos foram tornados populares pelos rappers americanos. os grandes intermediários culturais passariam a ter pouca influência sobre o desenvolvimento do reggae. no caso o mestre de cerimônias. em 1987. este contato proporcionado pelas correntes migratórias e pelo maior fluxo de bens simbólicos entre os países modificou decisivamente a música popular mundial no início dos anos 1980. que Marley foi um dos primeiros a utilizar em seu mega-sucesso “Could you be loved”. houve uma queda no interesse das gravadoras em continuar promovendo o reggae. contratos foram cancelados e os artistas foram forçados a se adaptar ou a emigrar. n° 15 . Por seu lado. a música popular na Jamaica foi simultaneamente modificada pela adoção progressiva das baterias eletrônicas. Este é um caso de comunicação intercultural que também teria suas conseqüências no Brasil. em março de 1980 (VIDIGAL.Leonardo Vidigal política se tornou uma marca do reggae.

tornada explícita em eventos públicos onde a dança é elemento central. No entanto. principalmente no período colonial. alguns deles compartilhados. além das relativas à composição social e cultural. como os Yorubá e os Nagô. Jamaica e Estados Unidos. f) possuem uma cinematografia razoavelmente consolidada (a Jamaica tem hoje a cinematografia mais desenvolvida do Caribe depois de Cuba). b) foram povoados à força. 71 jul. finalmente. que podem ser resumidas nos seguintes elementos: a) carregam uma pesada herança do passado colonial e escravista. d) os contatos interculturais que forjaram os atuais sistemas foram muitas vezes violentos. 2007 . não apenas em termos de extensão territorial e pujança econômica. g) têm na música popular a expressão mundialmente mais conhecida de sua cultura. nos últimos séculos.Enredando Brasil/Jamaica. possuem muitas similaridades. i) suas economias atuais estão amarradas por um alto grau de endividamento externo e pesados juros internos.. compondo assim uma população atual de maioria negra ou mestiça. relativas às diferentes formas de colonização empreendidas ao longo dos últimos séculos. Relações entre Brasil e Jamaica Brasil e Jamaica são duas nações que apresentam profundas diferenças. mas por mecanismos de identificação. com todas as suas implicações socioculturais. c) a cultura negra é representada por quase todas as correntes ideológicas do espectro político como um emblema da identidade cultural imaginada.. sem imposição forçada). e) apresentam uma expressividade corporal elaborada. contaminação e apropriação mediadas também pelo audiovisual. inspirando táticas de apropriação e de posterior retomada de matrizes culturais (já em um ambiente onde o contato se processava de modo predominante como contaminação. h) na maioria das vezes são imaginados pelo resto do mundo como lugares que combinam a natureza paradisíaca com um cotidiano violento e. por uma variedade significativa de grupos étnicos africanos./dez. mas também de ordem histórica.

mas ainda assim repercutem de forma significativa. é difícil perceber. n° 15 . a apropriação do reggae começou a gerar uma grande variedade de apropriações. havendo a necessidade de uma pesquisa mais detalhada sobre esse aspecto6. Na maioria das vezes estas proximidades se encontram escamoteadas pela distância geográfica e pela falta de conhecimento histórico dos atores sociais. na novela “Água Viva”. Goiânia. Assim. VIII. como a Ariola (que. da Rede Globo. No Brasil os modelos de representação do reggae chegaram primeiramente de forma mercantilizada. Gilberto Gil percorreu o país em uma turnê com o cantor Jimmy Cliff (o mesmo de “The harder they come”) que apresentaria o reggae para um grande público. exemplos concretos de influência direta dos representantes da cultura produzida no Brasil sobre os jamaicanos. Ele também apareceu cantando na sala da personagem de Tônia Carrero. Outro artista de reggae que veio ao Brasil no mesmo ano foi Peter Tosh. de uma maneira pouco estudada. o “reggae-toada”. ou o “forreggae” (VIDIGAL. jogando futebol no campo de Chico Buarque e fazendo cooper em Copacabana (VIDIGAL. foi comprada recentemente pela Sony). do ponto de vista do senso comum. em trabalhos de bandas como Paralamas do Sucesso. expressada por certa atitude carnavalizante5 de ambas ante a expressão artística e pelas raízes comuns. gerando apropriações como o “reggae-capoeira”. Em 1981. Mystical Roots. Cidade Negra. gravadora responsável pela breve visita de Bob Marley (cujo catálogo hoje pertence à Universal) ao Brasil em 1980. Em um segundo momento.Leonardo Vidigal A partir de tais aproximações foi construída uma relação negociada de compartilhamento cultural entre estas duas subtotalidades. englobados pelos intermediários culturais multinacionais. A partir de então. 1997). na época contratado da Columbia (hoje Sony). que se materializaram primeiramente sob a forma musical. que teve sua apresentação no Festival de Jazz de São Paulo transmitida pela TV Cultura daquele estado. que foi registrada pela TV. Titãs. depois de se fundir com a BMG. entre muitas outras. vol. foram 72 Revista Brasileira do Caribe. Tribo de Jah. 2002). O reggae desencadeou um movimento cultural significativo no Brasil.

sincronizando as pistas de dança de lá com as jamaicanas e inglesas. além das atividades normais de consumo e fruição. documentários para TV e folhetins televisivos que abordaram o universo cultural do reggae no Brasil.Enredando Brasil/Jamaica. documentada no documentário de média-metragem Bonde do Rastafari. 2007 . formando. como blocos de carnaval. tratada como um gênero separado também emergiu na Bahia sob a forma do samba-reggae.. e foi o local onde surgiram bandas hoje consagradas como Cidade Negra e O Rappa e que gerou expressões locais como o reggae-capoeira. Em terras paulistanas também existe um ativo circuito de DJs de dub (versão instrumental e experimental do reggae) e dancehall. o local onde foi concebido o reggae-toada. estabeleceu uma relação intercultural continuada e estável com a ilha caribenha. dessa vez sob o formato audiovisual. é o contexto regional que mais aparece nos produtos audiovisuais que tratam do reggae no Brasil. apresentados em filmes. principalmente nas capitais e cidades médias./dez. de Cynthia Sims. O interesse pelo reggae foi crescendo gradualmente até atingir um patamar de auto-sustentação entre a população de 73 jul. O reggae vem marcando presença em quase todo o Brasil nos últimos trinta anos. 2002). Contudo. A cidade também conta com seus coletivos sonoros de dub. onde apreciadores do gênero podem ser encontrados em articulações com o movimento sindical e até com igrejas evangélicas. o estado do Maranhão. juntamente com os produtos de matriz jamaicana. O Rio de Janeiro foi cenário de uma forte concentração em torno do reggae em meados dos anos 1990. sem obedecer aos ciclos de alta e baixa intensidade observados em outros estados (VIDIGAL. Chamado popularmente de “Jamaica brasileira”. Uma nova apropriação. também elaborados outros produtos. para onde convergiu boa parte das bandas formadas em diversos contextos regionais.. Outro local onde o reggae tem uma forte capilaridade é a região metropolitana da grande São Paulo. com destaque para a cena baiana. em que se pode verificar outra apropriação sob a forma do forreggae. e que agora também começa a produzir suas apropriações. o corpus a ser analisado e que será descrito adiante.

em apresentações que contam com um público composto por pessoas de todas as idades e não apenas por jovens. como Tribo de Jah. que é tematizada em todos os documentários e programas que tratam daquele ambiente. como no sudeste ou mesmo na Bahia (como foi observado in loco por este pesquisador). Formas de “apropriação corporal”. Festivais de música trazem artistas da Jamaica. como principal fonte de lazer (SILVA. o mais apreciado pelos maranhenses. Os atores sociais maranhenses também modificaram o contexto jamaicano. que não foi destruída pelo reggae. de Hermano Figueiredo). que tem as chamadas radiolas (equipes de som que tocam as músicas mais apreciadas. Goiânia. 1995). Os donos de radiola costumam ir para a ilha adquirir novos discos. única no mundo. se especializaram em tocar versões de melôs. os radioleiros estão alugando os serviços de instrumentistas da Jamaica para produzir faixas “exclusivas” e assim poder ofuscar a concorrência. Mystical Roots e Manu Bantu. Outras bandas. é um exemplo da reinvenção praticada nos bailes maranhenses. O Maranhão também apresenta uma rica cultura popular (como mostra o curta “São Luís Caleidoscópio”. Gerações de músicos e instrumentistas do Maranhão se formaram ouvindo reggae desde crianças.Leonardo Vidigal menor poder aquisitivo. como Eric Donaldson e Owen Gray. embora isso não tenha sido ainda pesquisado adequadamente. vol. 74 Revista Brasileira do Caribe. produzidas na Jamaica ou localmente). como Legenda e cantores como Dub Brown. como alguns temiam. já tendo praticamente acabado com o estoque de compactos da década de 1970 de estilo roots. ignorados pela maioria do público no resto do país. VIII. além de acompanharem os artistas jamaicanos. os melôs7. Ultimamente. mas que não ficou imune à sua capacidade contaminante (como será visto adiante no exemplo dado pela série Música do Brasil). fazendo surgir algumas das principais bandas do gênero no Brasil. como a prática de se dançar o reggae aos pares (como no forró). n° 15 .

atualizando a percepção do que era vivido pela população de origem africana no Novo Mundo. Esse amálgama entre o discurso ético. são apresentadas e congeladas nos filmes “The harder they come” e “Rockers”. se limita a apoiar Ivan sem tomar a iniciativa de nenhum movimento mais conseqüente. para inventar uma dada concepção do que se passava musicalmente na Jamaica naquela época. Alguns desses filmes serão mais bem analisados a seguir. assim. “The harder they come” apresenta temas e personagens que foram desenvolvidos. apenas a consomem. Já em “Rockers”./dez. Tais filmes também foram financiados por intermediários culturais. Por ter sido o primeiro longa-metragem produzido na Jamaica. Conceitos bíblicos como o da “Terra Prometida” e a história do cativeiro dos hebreus na Babilônia foram metaforizados pelo sistema de crenças rastafari. além de fazer parte do comércio de ganja (maconha). os rastas apresentam um papel muito mais ativo na condução da trama e não comercializam a erva. como as gravadoras locais e multinacionais. Por exemplo. nos produtos audiovisuais subseqüentes realizados naquele contexto. reinventados. no caso jamaicano o de correntes protestantes como a batista. facilitando a ascensão de uma nova geração do reggae. único rastafari de “The harder they come”. Alguns dos produtos audiovisuais analisados As convenções que foram se cristalizando ao redor das mais diversas metáforas inventivas.. questionados e.Enredando Brasil/Jamaica. o que foi tornado visível e legível a todos pelo amálgama audiovisual.. concebidas primeiramente no contexto jamaicano. Eles viriam a servir como referência para a formação de novos produtos audiovisuais por realizadores em todo o mundo acerca do reggae e o rastafarianismo. diretamente ou indiretamente. Pedro. apresentado como financiador e beneficiário do crime organizado) e explicitado em “Rockers” (com seus personagens defendendo claramente os preceitos rastafari). 2007 . intuito que foi parcialmente atingido. e também o aparato estatal. religioso e político do rastafarianismo é preparado em “The harder they come” (que critica violentamente a hipocrisia da religião tradicional. 75 jul.

e enfatiza a forma como os casais dançam aos pares. Quando tematiza o reggae (em um episódio que ainda trata do rap paulista e do funk carioca). Em outro episódio. A apresentação dos problemas enfrentados pelo rastafari que protagoniza “Rockers” (na realidade um baterista reconhecido no meio reggae. principalmente pela forma como apresenta o discurso rastafari. Ao grupo 1 pertencem as obras do documentarista Belisário França. que ecoam claramente no filme “The harder they come”. vol. particularmente no Maranhão e 2) os que pretendem documentar alguns dos elementos contaminantes encontrados na Jamaica.Leonardo Vidigal A movimentação de figuras. Ela trata do contexto maranhense em dois episódios. pode ser vista como uma resposta ao individualismo e ao caminho do crime escolhido por Ivan em “The harder they come” (mesmo que este tenha sido quase justificado por um impulso revolucionário). elementos e abordagens desse filme pode ser sentida primeiramente em “Rockers”. Os programas realizados no Brasil dividem-se basicamente em dois grupos: 1) os que foram realizados tendo como tema os agentes e elementos apropriadores do universo do reggae no Brasil. dedicado inteiramente 76 Revista Brasileira do Caribe. entrevista Riba Macedo. em conjunto com outros rastas. que trabalhou em conjunto com o antropólogo Hermano Vianna na realização da série “Música do Brasil” (2001). em seqüências como as que mostram as gravações em um estúdio e a posterior volta de bicicleta do protagonista para distribuir seus discos. Goiânia. Leroy “Horsemouth” Wallace. privilegiando situações de apropriação. que jamais voltaria a fazer outro filme) e sua solução pela via da ação coletiva e solidária. associando-o aos tambores afros logo na primeira cena. n° 15 . sons. na qual os créditos iniciais são projetados sobre um grupo de percussionistas nyabinghi8. VIII. tido como o primeiro a tocar o gênero regularmente. “Rockers” também aparece como uma citação freqüente em outras unidades audiovisuais. fazendo inclusive que Macedo explique as origens de tal movimento (ele teria primeiramente substituído o bolero como “música lenta” na sua radiola e ao longo do tempo ele foi sendo adotado pelos bailantes como gênero principal).

Possui a singularidade de ser apresentado por um personagem fictício. podem ser confrontadas com outras datadas do início dos anos 1990. é uma série dos primórdios da MTV brasileira. “Netos do Amaral”. programa de Éder Santos e Marcelo Tas. ao bumba-meu-boi.. o que já fica claro na denominação do programa./dez. invadida por holandeses e colonizada por portugueses”. Luís. do outro. Bob Marley. de um lado. este afirma que. A série adota uma abordagem panorâmica. até então praticamente inéditos na TV brasileira. São Luís estaria agora sendo “ocupada por jamaicanos”. que se apropria do reggae tanto na batida da toada quanto nas letras. O principal objetivo nesse caso é parodiar e explicitar as táticas empregadas pelos programas de reportagem da TV convencional. depois de ter sido “fundada por franceses. apenas alguns aspectos do reggae como foi apropriado no Maranhão. entre muitas outras manifestações pelo país afora. expoente da propaganda do “milagre brasileiro”. dá destaque a um grupo da cidade de Rosário. recortando. que também traz uma edição sobre o Maranhão.Enredando Brasil/Jamaica. mais recentes. Tais atualizações. apesar de não mostrar nenhum ao longo do programa. na primeira intervenção do personagem/apresentador. Mais uma vez a dança ganha 77 jul. que acreditava ser o Maranhão “uma Jamaica congelada nos anos 60”. o repórter Ernesto Varela. Jesus Cristo. O programa apresenta seus personagens por meio de diálogos que apresentam frases como “o reggae fez a cabeça do mundo todo” ou pela fala de estudiosos como o jornalista Otávio Rodrigues. além de enfeitar o boi com um bordado que representa. Tais manifestações são muitas vezes sublinhadas com legendas de grande proporção e com esse e outros elaborados recursos gráficos. Tas e Santos vão montando com “Netos do Amaral” um painel que não parece ter a intenção de explicar ou de compreender aquele fenômeno e sim de apresentar uma reinvenção que enfatiza o lado caótico e exótico do que encontram. e. situada a duas horas de S. 2007 . disfarçada de jornalismo. durante o ciclo militar. menção ao antigo “Amaral Neto.. emblema do vídeo independente no Brasil vivido pelo diretor Marcelo Tas. Seguindo esta rota. o Repórter”.

vol. enquanto mostra o seu baú com mais de dois mil discos “trancado a sete chaves”. apresentando um retrato visivelmente mais simpático do que o da cidade de Barretos. como o intermediário Enéas Motoca (que. o radioleiro declara humildemente que não se mudou de sua antiga moradia porque queria “acompanhar o ritmo da Jamaica. O programa também destaca as radiolas. que precedeu o dedicado ao Maranhão no mesmo programa. A premiada série “Documento Especial: Televisão Verdade”. Goiânia. pois este último retoma alguns personagens apresentados antes no “Documento Especial”. O fato de ter sido produzido apenas um ano antes de “Netos do Amaral” permite realizar algumas comparações específicas. o radialista e cantor Fauzi Beydoun (que em “Netos do Amaral” aparece apenas como locutor de rádio) e o dono de radiola Serralheiro (falecido recentemente). lá todos os cantores moram numas casas pobrezinhas assim”. mostrada como uma mera emulação do universo country americano em outro bloco. mais tarde. expressão repetida por Tas quando conversou com o mesmo personagem. leva jovens jogadores maranhenses para a Europa e traz discos). devido à posição marginalizada ocupada pelo reggae. quando o narrador Gilberto Gil anuncia o boi da cidade de Rosário como sendo “sotaque de orquestra”. Lá. Serralheiro foi entrevistado de forma algo jocosa por Marcelo Tas em “Netos do Amaral”. n° 15 . esclarecendo que nele são usados 78 Revista Brasileira do Caribe. Também é possível identificar um percurso intertextual entre este programa e o mais recente “Música do Brasil”. sendo acompanhado até sua casa miserável pela equipe de “Documento Especial”. que foi veiculada na TV Manchete (e. apresenta o assunto de forma mais crua. conta ele de modo ligeiramente diferente nos dois programas. VIII.Leonardo Vidigal destaque. A edição procura mostrar algumas situações de risco em que o público maranhense se envolve. no SBT) com a direção-geral de Nelson Hoineff. com Varela confrontando a “maneira jamaicana” (expressão ressaltada com as legendas características) de se movimentar ao som da música (individualmente) e a “maneira brasileira” (aos pares).

79 jul. mas precisam gravar fora do país”. ou riddims. que. 2007 . em um interessante efeito sinestésico. Os cantores também atestam a falta de condições de trabalho em seus depoimentos: “temos que ter um estúdio em Trenchtown”.. o paraíso do reggae”. entre outros.. Tal passagem evoca a do Documento Especial em que o percussionista e baterista Paulinho Akomabu faz uma demonstração dos diversos “sotaques” (batidas. comparando-as com as batidas do reggae (assim como seu colega da banda Guetos Tadeu de Obatalá fez com a boca para “Netos do Amaral”). “Documento Especial “é o programa que permite o afloramento das opiniões mais diversificadas sobre o assunto./dez. oferece uma ótima amostra sobre o que seria considerado relevante na cultura praticada na Jamaica por aquela equipe de realização. É visível o esforço de encontrar músicos que ainda pratiquem o chamado reggae roots. instrumentos de sopro. banjo. que reveza depoimentos de artistas e jornalistas da Jamaica com cenas de rua e videoclips de reggae.Enredando Brasil/Jamaica. apresentando cenas raras de quarenta anos atrás. o que é finalmente logrado na favela de Trenchtown. onde Bob Marley viveu por alguns anos. veiculada no final de 1992 na Rede Bandeirantes. Ao grupo 2 pertence “Jamaica. fora os comerciais) e pela variedade de temas abordados. uma produção de Ronaldo German e Ricardo Porto. não se limitando a apenas uma linha de interpretação”. o programa é pautado pelo imaginário sobre o reggae construído também pelos filmes dos anos 1970 analisados na pesquisa. a imagem dos dançarinos também desacelera. É uma reportagem televisiva tradicional. A narradora explica a dificuldade em encontrar músicos “de raiz”: “muitos dos melhores artistas ainda vêm do gueto. Quando a narradora explica que houve uma desaceleração no andamento musical. pela longa duração (60 minutos. para usar a terminologia jamaicana) do bumbameu-boi. A dança também ganha destaque quando o programa aborda o ska. originando o chamado rocksteady (uma espécie de proto-reggae). De um modo geral.

Narrado pelo onipresente Gilberto Gil. com a narração vaticinando que “a erva faz parte da cultura e da economia”.Leonardo Vidigal “Jamaica. mas é facilmente identificada pelos característicos turbantes cilíndricos). mas espiritual”. quando o dancehall é apresentado como a “tradição dos sistemas de som dos anos 50 remodelado por recursos eletrônicos. o qual é parte de uma série realizada por Belisário França que aborda o universo da música caribenha por intermédio de depoimentos literalmente recortados e colados no fundo paradisíaco. o que é confrontado com o produtor Stafford Ashanti. associando-a com Marcus Garvey e também as “imagens proibidas” das comunidades rastafaris mais radicais. vol. com uma temática social e sexual”. O depoimento de um bobo dread que fala em “varrer o colonialismo e imperialismo” é contraposto ao da Ministra da Cultura da Jamaica. garantindo que o “o que os rastas fazem é político. “os brancos são considerados inferiores”. afirmando brevemente que seu governo “nunca discriminou os rastafaris”. como os bobo dreads (que não foi chamada por este nome. Outro representante desse grupo é “Baila Caribe: Jamaica”. voltado para a louvação 80 Revista Brasileira do Caribe. segundo a narração. o paraíso do reggae” é o único dos programas produzidos no Brasil a mostrar a comunidade quilombola dos maroons. O discurso por ele proferido. O tema da dança volta a aparecer no final do programa. VIII. traz nessa mediação por um artista reconhecidamente ligado ao reggae roots (pois havia gravado nos anos 1980 a canção “Vamos Fugir” com a banda de Bob Marley) um viés de estranhamento. Um transeunte com longos “dreads” menciona querer trabalhar por um “governo rasta”. ecoando o formalismo dinâmico do pioneiro “Netos do Amaral”. mas o rastafarianismo não é um movimento político. O uso da maconha é contextualizado. n° 15 . O excesso de efeitos de edição produz um efeito de “consciência do dispositivo” que ao mesmo tempo dificulta o entendimento do texto e promove certo nível de reflexividade. Goiânia. outro que enverga as longas tranças emaranhadas. nas quais.

que se refere na maioria das vezes a uma dimensão mais prática. da ascensão do dancehall e para o desvinculamento do reggae da filosofia rastafari. que mostrou. tem seu sentido deslocado e reinventado. desta vez exibida no GNT (canal a cabo da Rede Globo). O conceito da série “Baila Caribe” foi emulado nove anos depois em outra série. evocam recurso semelhante usado em “The harder they come”.Enredando Brasil/Jamaica. e algumas de suas aplicações possam lançar uma luz diferente sobre os processos de comunicação intercultural. Outros procuram se desvencilhar de tais modelos e tentam eles mesmos estabeleceremse como referência. com apresentação e direção de Carolina Sá. no sentido de estudar os possíveis problemas interpessoais ou institucionais derivados da incompreensão ou falta de informação relativa a características culturais de cunho comportamental./dez. Notas 1 O conceito de comunicação intercultural trabalhado neste texto difere do que é normalmente utilizado na literatura disponível. 2007 . outra visão do universo jamaicano. o que talvez seja mais condizente com a atmosfera local. Com uma duração maior do que o antecessor e com uma abordagem que enfatiza mais o conteúdo do que a forma consegue reinventar o cenário jamaicano de maneira mais relaxada.. Já os travellings pelas ruas de Kingston. A análise dos produtos audiovisuais produzidos no Brasil permite concluir que alguns deles procuram organizar o olhar no sentido de conformar a visão do espectador a certo conjunto de referenciais simbólicos audiovisuais. Contribuir para a constituição de uma abordagem relacional sobre tais processos de contaminação e apropriação cultural é talvez o principal objetivo dessa investigação. recorrentes em todos os programas abordados. Em um dado momento mostra um pouco do processo de prensagem de um compacto. chamada “Música Libre”. evocando cena semelhante em “Rockers”. Desse modo espera-se que os pressupostos teóricos examinados neste trabalho.. como restrições de 81 jul. construídos a partir dos filmes jamaicanos e outras fontes iconográficas.

como um questionamento da representação de um produto ou manifestação cultural pela visão hegemônica. Um exemplo claro está na área esportiva. que classifica a cultura em “erudita” e “popular”. o país não se classificou para as Copas de 2002 e 2006. Algumas das noções de hibridismo. entre outras (Nair-Venugopal. de cunho relacional. Bonde do Rastafari. Música Libre. Músicas de sucesso. movimento também conhecido como modern roots. A noção de comunicação entre culturas usada neste trabalho. 5 6 7 82 Revista Brasileira do Caribe. No entanto. gênero e outras. ainda mantém as culturas à margem “em seu devido lugar”. como a homofobia. treinada pelo brasileiro Renê Simões na Copa de 1998. n° 15 . e a indignação pelas injustiças sociais. 3 4 Houve recentemente a chamada retomada dos “valores rastafari”. O programa Netos do Amaral. Para Ahmad seria mais um meio de ignorar as diferenças de classe. culminando na discreta. mas altamente valorizada participação da Jamaica. oferecendo em troca uma miscelânea de ofertas de consumo cultural para aplacar a sede de exotismo. No sentido dado por Bakhtin (1987). por um lado. VIII. como Jamaica: Paraíso do Reggae. apesar de valorizada e celebrada. como a ascensão de uma nova geração que voltou a assumir o discurso e o visual de tranças da época de Bob Marley. vêm sendo questionadas por erigir um novo estatuto da diferença. vol. mas invariavelmente ocorre no conteúdo. que. denominadas por títulos que evocam apropriações locais das letras em inglês. de outro (2001). 2003). Baila Caribe. particularmente a operada por Homi Bhabha. o que teve consequências diversas. 2 Tal direcionamento é quase sempre expresso no título dos audiovisuais estudados que foram produzidas no Brasil.Leonardo Vidigal contato. mas também possibilitou uma exposição exagerada de algumas características “fundamentalistas” e altamente questionáveis de alguns seguidores. para usar a expressão de fundo escravista e colonialista que tal conceito visava combater. Nas produções jamaicanas tal associação não é explicitada no título. a vitoriosa campanha brasileira na Copa do Mundo de 1970 popularizou enormemente o futebol no país. será construída ao longo do texto. pois. como contou Bob Marley em sua breve visita ao Brasil (em 1980). Goiânia. parte do corpus de análise. tratamento dado a homens e mulheres.

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nas representações que afloram do seu discurso.” Glauber Rocha Abstract This study addresses Glauber Rocha´s performance with the objective of offering insights on some of the aspects of his actions in the 1969s and 1970s. Brazil/Cuba Resumo O artigo analisa as relações entre o Brasil e o Caribe. It particularly focuses on the representations that emerge in his discourse revealing the idea of nomadism. VIII. Glauber Rocha. Trata-se de um enfoque produtivo da obra do cineasta brasileiro e de seus diálogos com artistas cubanos Palavras-Chave: Cinema Novo. tendo como objetivo principal. 85-107. Inspirando-se em conceitos deleuzianos. Brasil/Cuba. Keywords: New cinema. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo “Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. de modo a destacar. em torno deste atributo. nuances do seu nomadismo. 2007 . Glauber Rocha. vol. pois. Goiânia. a análise inclui o cineasta Glauber Rocha na categoria de pensadoresnômades.Migrações de idéias. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 85 Revista Brasileira do Caribe. n° 15. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. gravita o argumento norteador desta reflexão.

nuances do seu nomadismo. pois. Tais sintonias não escaparam ao horizonte nômade de Glauber Rocha e ensejaram diálogos entre “pensadores – artistas”. mas ademais. nas representações que afloram do seu discurso. Com este propósito. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. dentre outras formações que redesenham o cenário pós-colonial. Afinal. não podemos negar que Deleuze tende a identificá-los pelo fato de ambos devotarem a vida à criação 86 Revista Brasileira do Caribe. Shöpke (2004 p. uma nomeação possível para as formações do terceiro mundo. em torno deste atributo. concepto en torno al cual se va a nortear la reflexión de este artículo. movida pela convicção de que. igualmente nômades. 172) sublinha: É bom frisar que estamos tomando os termos pensador e artista quase como sinônimos.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Resumen El estudio enfoca la performance del cineasta Glauber Rocha con el objetivo de profundizar en algunos aspectos de sus acciones em los años 60 y 70 del siglo XX . nomadismos e pontes imaginárias Neste ensaio enfoco a performance do cineasta Glauber Rocha tendo como objetivo principal. El interés está centrado en el destaque de las representaciones que afloran en su discurso. Éstas son reveladoras de la idea del nomadismo. Glauber Rocha. em configuração metonímica. vol. faço-o não apenas estimulada pela profícua interdiscursividade que. VIII. a despeito das diferenças que existem entre eles. ao selecionar Cuba como referência. Palabras Claves: Cine nuevo. n° 15 . gravita o argumento norteador desta reflexão. Cuba se inscreve como um especial “lugar de sintonias”. nas “Terras do Sol”. desde as lidas preliminares as fontes indiciavam. Goiânia. Brasil/Cuba Sintonias. Na esteira do pensamento deleuziano. de modo a destacar.

E somente a arte pode nos oferecer tal poder. Glauber Rocha escreveu: Meu querido Alfredo.. 123). 1997 p.Migrações de idéias. Muito embora em outro momento e em outro contexto. em constante movimento de ruptura com modelos préestabelecidos. Exemplifica este encontro com a vida. O fio condutor para tal performance convida a pensar na arte como a “feiticeira salvadora” (NIETZSCHE Apud SHÖPKE. na verdade. Ao encarecer por mais de uma vez. a moral e metafísica). como que ungida pelo sopro da arte. neste. a seu colega e amigo cubano Alfredo Guevara. a carta que escreve do exílio. em maio de 1971.. espero que este documento possa ser lido com tranqüilidade pelos companheiros latino-americanos. o “pensador-artista” nômade recusa a mera recognição e reivindica outro estatuto para as representações que constrói. Para o filósofo: Se ela também é uma ilusão que nos faz viver. especialmente os cubanos. Todo pensador e artista nômade é necessariamente um criador. (no sentido mais estrito do termo). o pedido de divulgação do que nomeia como “carta-documento”. 87 jul. é preciso escolher dentre estas ilusões aquelas que nos fazem mais fortes. que nos fazem crer na vida a ponto de afirmá-la e amá-la sob todas as circunstâncias. ocasião em que metaforiza: “os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. influências ou reativações?. pois é justamente em seu nomadismo que encontra o vetor que o impulsiona a agir e ousar. em Santiago do Chile. se também é uma mentira (tal como a religião. o cinema novo e. “feiticeira salvadora”. a voz de Glauber Rocha parece interagir com o enunciado filosófico acima transcrito. é um sítio discursivo no qual o “pensador-artista” reflete sobre o Brasil. o cinema. portanto. A carta. p. 2007 ./dez. o papel dos cineastas do terceiro mundo. 411). como ocorre em tantas outras. Diferentemente do sedentário. 2004.

Assim. entre as contigências do exílio ou não mais que ditadas por um peculiar e irriquieto temperamento. Como se verá. lanço um olhar sobre as “pontes” estabelecidas entre Glauber Rocha e outros “pensadores-artistas” igualmente nômades. ‘Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. seu tempo e sua obra”. “Glauber Rocha. produtores ou mulheres” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. n° 15 . para falar sobre seu celebrado documentário “Rocha que voa”. Em seguida. em contexto recente.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo porque pouco me importa os europeus. selecionadas sob a forma de alguns fragmentos discursivos. 41). Ao final. tomando como contraponto o mesmo atributo de seus colegas cubanos. suas muitas ausências do Brasil constituem “um périplo romanesco. VIII. Quando Marx denunciou a escravidão econômica do homem. um nomadismo radical e vital e centenas de cartas escritas de quartos de hotel. Segundo o filho de Glauber Rocha.S. Por isto os artistas são tão necessários quanto os engenheiros. estava pregando uma sociedade onde o homem não existisse em função da economia. vol.P 15/07/04). as “pontes” construídas se incumbem de situá-lo no conjunto de expressões culturais que fervilham na cena brasileira nos anos sessenta e setenta. Goiânia. no item que se segue. também no presente ensaio valho-me de “pontes imaginárias” para construir articulações cujo conjunto logre evidenciar o nomadismo de Glauber Rocha. a biografia de Glauber Rocha mostra que não apenas o nomadismo das “pontes abstratas” ensejou suas errâncias. Inclusive literalmente. apartamentos provisórios dos amigos. que a escolheu. fornecem o suporte empírico para as incursões pretendidas. 1997. sua proposta foi a de “criar uma ponte entre o imaginário da época e a atualidade” (F. Espero que seja divulgado em Cine Cubano e em muitas outras publicações. Aliás. no item “Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças”.’( grifos meus). p. É interessante observar que a força simbólica da imagem da ponte interpelou também o jovem cineasta Eryk Rocha. concluindo: Brasil e Cuba em 88 Revista Brasileira do Caribe. cujas performances.

p. em meio a um cenário sombrio. jovens universitários ou recém-formados. retomo alguns aspectos trabalhados no texto como um todo. ajustadas às condições de resistência política que encontravam na arte. movimento que mobilizou artistas e receptores. Naqueles já longínquos meados dos sessenta e primórdios dos setenta. um modo de exorcizar os fantasmas que nos rondavam.Migrações de idéias. sintonia rizomática. ver e rever a obra glauberiana significava para muitos de nós. cabendo enfatizar ao final destas anotações introdutórias. Glauber Rocha. Caprichos da memória atualizam no presente “o chamado ao qual a lembrança responde” (BERGSON Apud BOSI. rompeu fronteiras espaciais e fez da cultura. em sua abrangência. Era “a hora e a vez” da chamada arte engajada brasileira. No amplo leque das manifestações artísticas que povoam os anos sessenta e setenta. estratégias e táticas. apesar de tudo. o relato da efetiva estada do nosso cineasta entre os cubanos constitui uma variável secundária. influências ou reativações?. atendo ao “chamado da lembrança” e aos meus objetivos. 2007 . como que incansavelmente ali encontrando o referendo para nossas utopias de um mundo melhor. seu tempo e sua obra Pertenço a uma geração que elegeu Glauber Rocha como uma espécie de porta-voz das nossas inquietações políticas. Conforme anunciado anteriormente. enfocando um momento da vida brasileira. de modo a destacar a argumentação que o presidiu./dez. ou bem por isso. Neste entendimento. mas. mesmo em meio às discordâncias. Assim. denunciar e sonhar. ainda assim. contando com a interlocução de autores que se ocuparam com o recorte temporal aqui considerado e aí se detiveram no viés das artes. é a força motriz do nomadismo glauberiano.. Era a possibilidade de entrever. teimosas réstias de luz. 89 jul. cujas etapas são reconhecidas pela efervescência cultural. a brecha possível para conscientizar. Cuba é tomada como referência metonímica do universo pós-colonial e este. 38). um foro privilegiado. a própria história do país sinalizou etapas..

responderão pela atração à história. isto já nos primeiros anos da década de sessenta. Entendo que neste mesmo percurso é possível inscrever também a música brasileira do período. que. Navas (2001. A realidade do teatro. “Zelão”.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Referindo-se ao mundo do teatro. vol. pois. elementos identificados com o movimento (NAPOLITANO. vai ser de violência. ao guri favelado e tantos outros atores anônimos cujo árduo cotidiano. Em suma. que o emblemático ano de 1968. 2001. depois dessa data. Estas etapas. VIII. 341). aos beatos. As primeiras músicas consideradas de protesto. Nessa época os riscos de vida não serão literatura” (NAVAS. com suas especificidades permitiram ao estudioso resumir: “O caráter catequizador antes de 1964 e. o caráter ritualístico. ao pescador.1 90 Revista Brasileira do Caribe. pautar-se pela tônica da denúncia. 33). p. eram suportes de representações engajadas. complexidade harmônica e sutileza vocal. n° 15 . eram canções que escancaravam injustiças históricas em relação ao operário. prisão e exílio. cuja característica principal advém da elaboração harmônica. aos herdeiros da nossa “democracia racial”. E identificadas com o movimento estavam também variantes desta expressão musical engajada. o talento de artistas e cantores brasileiros. traziam alguns elementos de ruptura com o estilo consagrado por João Gilberto. composta e cantada por Sérgio Ricardo e “Quem quiser encontrar o amor” de Geraldo Vandré e Carlos Lyra. p. 2004. depois da resistência. Goiânia. passa a fazer coro com a arte engajada. ou na entronização do universo sertanejo. transfigura em resistência. fosse nas férteis articulações entre as vozes do morro e as das cidades. celebrou e deu visibilidade. mas mantinham a essência da sofisticação instrumental. mesmo o movimento da chamada Bossa Nova. “a catequese” e a conscientização davam o tom ao teatro engajado para. “discursos musicados”. enfim. p. 341) considera que até o ano de 1964. a partir dali. aos homens e mulheres do campo.

com faturamento assegurado. arregimentadoras como “Pra não dizer que não falei das flores”.B. 2007 . cujo repertório se assentava. ou nas trilhas dos filmes obteve alguns sucessos no rádio e no mercado discográfico. instrumentos e. p. que um público ávido decorava. cuja qualidade foi reconhecida por muitos. de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. cuja peça teatral de mesmo nome. quase sempre longas. no binômio “qualidade-discurso engajado”. À televisão. estas peças musicais guardavam em comum o engajamento com o povo brasileiro2. influências ou reativações?. Somente em algumas ocasiões. pinçada do espetáculo “Opinião”. Castro (1990. arranjos. a chamada arte engajada. sigla mágica que rotulou um filão da música popular brasileira. Líricas como “A Banda”.. assim como ocorrera no filme “Deus e o diabo na Terra do Sol”: “Quem queria ouvir aquilo? E. além do mais para quê. muito embora dialogassem com a música. pois as trilhas sonoras dos filmes. Tal cenário traz à lembrança os chamados festivais da M. Aos festivais seguiam-se os lançamentos dos discos. em janeiro de 1968. no conjunto das manifestações culturais da época. cabia divulgar tais eventos que mobilizavam torcidas e traziam para o palco diversos modos de comunicação musical. não logravam alcançar o mesmo sucesso comercial. sobretudo letras. não escapou à voracidade da indústria cultural. no ano de 1964 e “Roda Viva”.Migrações de idéias. Já no caso do cinema. por exemplo. tais migrações foram menos efetivas. se era possível produzir industrialmente este mesmo folclore. com a “Marcha da Quarta feira de Cinzas”. 402) reproduz o discurso irônico sobre a perfomance do artista Sérgio Ricardo e sua apropriação dos cantores nordestinos. pelo menos no caso da música. ritmos. É preciso lembrar que.. não estimulavam maiores incursões da indústria cultural. Foi o que ocorreu.. com harmonias européias e ainda vencer festivais?” Não seria o 91 jul. Enquanto isso.P. comoventes como “Arrastão”. vitrine privilegiada. a apropriação de “discursos cantados” no teatro./dez. o teatro e o cinema. de Chico Buarque. apresentado no Rio de Janeiro. estreou em São Paulo. Lembrando o festival de música da TV “Excelsior” no ano de 1965.

Se no primeiro. entrevistas e um repertório de frases e slogans. p. 2004. ela mantém a pertinência. cantadas nas muitas reuniões. correspondências. elas se consubstanciaram em filmes. não estava na preocupação do cinema novo4. projetos. seja na pluraridade 92 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . o público privilegiado do cinema novo” (NAPOLITANO. festinhas e nos sempre povoados centros acadêmicos. transbordantes. escapa a estas anotações. assistiam aos filmes. a plurivocidade das ações abre-se para um sem número de possibilidades interpretativas.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo caso de retomar a polêmica. a narrativa “pode ser contada até por um ginasiano” na segunda. Bem por isso. “a ação de Hamlet fez e fará correr rios de tinta. pois é uma. escapando ao consensual. Goiânia.1986 p. até porque “a autocrítica desenvolvida pelo cinema tinha um sentido muito mais radical e procurava repensar a difícil situação existencial do jovem intelectual de esquerda. manifestos. Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças Idéias não faltaram a Glauber Rocha. Trazendo a imagem para o universo glauberiano. Referindo-se ao universo do teatro. são aspectos que pontuam a trajetória de Glauber Rocha e dão suporte ao seu nomadismo5. vol. VIII. Mas na verdade. aliás. tomando Hamlet como exemplo. pretensão que. e reterritorialização. 54). pois. pois a intenção deste item é não mais que desenhar um breve painel3. reveladores do seu talento e do seu modo de representação da realidade. 192). A importância desse legado “radical” e alguns dos sentidos possíveis da sua movente tônica de desterritorialização. mas não é unívoca” (ECO. um tipo de sucesso alcançado pelas mãos da indústria cultural. seja na leitura e releitura dos seus filmes. aliás. integravam um público consumidor de classe média e expressavam seu agrado conhecendo o repertório das trilhas sonoras. Eco contrasta as vertentes do enredo e da ação. Uma resposta breve convidaria a pensar nos mesmos estudantes que compareciam aos festivais.

interessada desde os tempos de estudante pelos filmes e pela trajetória de Glauber Rocha. e América Latyna” (GLAUBER ROCHA Apud GOMES. tomou o poder cinematográfico no Brazyl em 1962 (independente dos fluxos paralelos) fundando novas fronteyras criativas e comerciais em terras de Oropa.. será suficiente reter alguns pontos do movimento liderado pelo cineasta brasileiro que. música. começando a atuar desde 1959.. de publicações centradas na obra de Glauber Rocha. sobre tudo aos estudiosos da Sétima Arte. ao alastrar-se. 1997. Uma trajetória marcada por turbulências e inquietações é apanágio do “artista-nômade”. partilhando “uma deriva. 93 jul./dez. é preciso que estejamos no mesmo barco. a suspensão máxima imposta pela morte. para uma espécie de “crítica da crítica” ou. Deixo o inventário compromissado com os rigores cronológicos. já ao final dos anos cinqüenta. Deleuze. pois. cuja obra logra transcender até mesmo. literatura e.A. 170). Percebo que a chama viva da polêmica. para a “celebração da celebração”. 2004. para meus objetivos. desde as primeiras incursões dedicadas à elaboração deste ensaio. mas especificamente alguns bares do Rio de Janeiro. Não mais que “louca por cinema” e conforme anteriormente mencionado. cinema. tinha como tripulantes um grupo de jovens cineastas que escolheu a cidade do Rio de Janeiro. O “barco” dos precursores do chamado cinema novo. U. suas ações e seu legado ainda hoje interpelam a muitos. desdobra-se da retomada das críticas coevas aos filmes.Migrações de idéias. como espaços de suas “derivas”. para entendermos. 175). quase sempre. Ázya. tertúlias. na esteira do pensamento nietzschiano. aos cuidados dos especialistas. 2007 . no ano 1980 afirmou. materializadas em acalorados debates sobre teatro. política. p. com a ortografia que se permitira cunhar: “o movimento do Kynema novo. impressionaram-me os “rios de tinta” que me chegaram. capitaneadas por Glauber Rocha.S. um momento de deriva ou de desterritorialização” (DELEUZE Apud SHÖPKE. pondera sobre a audácia de um pensamento que. claro. p. Áfryca. influências ou reativações?.

não apenas comercialmente transpunha fronteira. vol. 94 Revista Brasileira do Caribe. esta nova performance cinematográfica do terceiro mundo. Na verdade. 407) (grifos meus). seria impossível. a repercussão de “Terra em Transe”. entre avanços e recuos e em meio a uma conjuntura política adversa. não contou com a mesma receptividade. 1997. construíram discursos parafrásticos em relação à crítica de direita. jamais por ele próprio negado. Sobre “Terra em Transe”. Da mesma carta-documento enviada ao cineasta cubano Alfredo Guevara e já citada em páginas anteriores. no que possa parecer um exagero. Setores de esquerda criticaram o filme por sua liberdade narrativa. bastante persuasivo quanto à troca de sinais acima referida. conforme ironizou o jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. Nossa historicamente construída condição de receptores de idéias. a revista direitista Fatos e Fotos publicou a notícia em tom de denúncia política” (GLAUBER Apud BENTES. Prima della Rivoluzione e ‘Terra em Transe tinham sido os filmes que mais influenciaram o movimento de maio de 1968’. em blague hoje tão conhecida no Brasil. No Brasil. quanto são reconhecidos seu talento e seu conservadorismo. conheceu episódicas trocas de sinais. “toda unanimidade é burra”. ao ensejo do cinema novo. p. destaco outro fragmento discursivo. se pode falar em unanimidade. um irônico e conciso sujeito-suporte.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo De fato. o cinema novo entra em declínio na segunda metade dos anos setenta. a unanimidade para além de “burra”. VIII. o dramaturgo resumiu. trata-se de “um ideograma chinês de cabeça para baixo”. Se. n° 15 . Se não vejamos: “Quando os estudantes da Sorbonne apresentavam uma tese demonstrando que Weekend. pelo menos por ocasião do seu lançamento em 1967. de resto. Goiânia. no caso de Glauber Rocha. o rotularam de “confuso” e nisto. sequer nos momentos em que Glauber se consagrou como gênio em algumas hostes. se “Deus e o diabo na terra do sol” foi aplaudido quase unanimemente no ano de 1964. não obstante as tantas resistências que pontuam o cenário pós-colonial. Afinal. que encontrou em Nelson Rodrigues.

(teatro universitário) recebeu aplausos ao longo da sessão. 445). ANDRÉ Apud GOMES. Prosseguir rastreando a exuberante filmografia de Glauber Rocha seria extrapolar os limites disponibilizados para estas reflexões. sendo liberado no início de maio. Ocorre que os equipamentos retóricos que não ficaram claros a muitos críticos.Migrações de idéias. os poetas e os artistas aprenderam a dizer verdades duras sob o manto da forma requintada.S. problematiza a realidade. evidenciada no “discurso confuso”. p. para confundir a violência do poder.U. desenvolve análise e crítica dignas de transcrição. uma forma inclusive de fraturar o real com intenções artísticas” (BAZIN. guarda em comum a característica de uma linguagem cinematográfica inovadora que. Pensar na análise desses discursos nas vertentes do discurso do emissor (Glauber Rocha) e nos dos receptores (a crítica). influências ou reativações?. Cabe lembrar que a exibição em São Paulo organizada pelo T. Eldorado simplesmente era o Brasil injusto. promovendo “uma reordenação e não uma submissão visual. Gomes (1997.. Glauber também precisara dissimular a denúncia com os ardis formais de uma linguagem extremamente elaborada. posto que pautadas na busca de sentidos e representações de “Terra em Transe”: Era uma interpretação brilhante e de grande beleza literária. Sobretudo desde o barroco. que conseguiu captar seus sentidos. 184). 2007 . apesar dos ardis de linguagem. 1997. ao lado de certa intencionalidade. pois. p. O filme “Terra em Transe” durante abril de 1967 foi proibido em todo o território nacional. Limito-me. não escaparam aos olhos e ouvidos atentos da ditatura. a reiterar que a obra como um todo. não contente com a abundância informacional com que brinda seus leitores. seria necessário pensar nas condições do momento em que o filme foi produzido. portanto. ao se descolar da confortável reprodução mimética. 95 jul. que provocou perplexidade.. E não poderia ser de outra forma. sob a alegação de subversão e cunho ofensivo à igreja católica. para escapar ao assédio da ditadura./dez.P. dominado pelo latifúndio e pelos interesses das classes privilegiadas. mas que se ocultava nos jogos do pensamento. a quem venho recorrendo para a construção deste item.

centro em torno do qual se mobilizavam artistas. Goiânia. 184). intelectuais e cineastas. Sequer seria o caso de estabelecer comparações entre iniciativas e posturas. são. É neste afã de conhecer e de re-conhecer que Glauber Rocha reconhece a porosidade das fronteiras territoriais que. muito embora as articulações tenham sido muitas. sintonizados com a arte e com a “Ilha”. p. uma correspondência intensa atesta as afinidades entre Glauber Rocha. pautadas no viés dos rigores cronológicos.C. publicações ou filmes. cineastas e intelectuais cubanos. ocupados com primazia das datas de veiculações de projetos. para o nômade. não conseguem apagar sintonias na diversidade do cenário pós-colonial. Não por acaso. vol.I. Para os objetivos deste artigo e em consonância com os referenciais adotados. independentemente da precedência das ações. como exemplo empírico. 96 Revista Brasileira do Caribe. recorte que desdobra das perguntas que faço ao tema. as “intenções artísticas” do pensador e cineasta. p. 2004. já que.A. diferentemente sedentário. sem dúvida um importante ponto de inflexão na trajetória de Glauber Rocha. considero importante ressaltar que a sintonia observada entre as práticas e representações de Glauber Rocha e as dos cineastas cubanos. desterritorializando-se e reterritorializando-se. não poderiam ser buscadas na perspectiva da mera “influência”. Cuba significou. Lá estava o Instituto Cubano de Artes Cinematográficas. tanto conhecer como re-conhecer. onde o diverso e uno se imbricam. 1997. Neste reconhecimento. Se. atos de criação e não de recognição (SHÖPKE. 256). e tripulantes do mesmo “barco”. o que este suporte enseja é a reflexão sobre as sintonias de uma experiência nômade e desterritorializada. este conjunto deve ser destacado. Glauber Rocha reconhecia o cinema latinoamericano.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo nômades. nas trilhas do cinema cubano e do cinema novo brasileiro (GOMES. sempre se inscrevem no gesto criador. o I. VIII. também estes ungidos pela arte“feiticeira salvadora”.C. algumas das respostas. n° 15 . Ademais de sua estada. que floresceu nos anos sessenta e estruturou-se como movimento.

agrega ou entrelaça às suas reflexões. Aristóteles. Trata-se. 2007 . Inspiradora. então. justamente. de uma “constelação de agenciamentos”. isto é a diferença. Refiro-me aqui. Seria um esforço improfícuo.. articulá-lo às pontes estabelecidas com os cubanos. Deleuze por exemplo. portanto.Migrações de idéias. matiza o pensamento deleuziano. em grandes enunciações. ora reelaborada. uma postura que se aparta da mera recognição. cujo nomadismo terá por certo lhe ensejado a reativação do conceito de diferença. 205) reflete: “O que se estabelece no novo não precisamente o novo. Glauber Rocha e os cineastas cubanos. inspirando-se em Nietzsche. presentes. 48-66) ao conceito de “diferença” em Platão. ora desdobrada em complexas ramificações. enleada pela noção de diferença e que faz do reconhecimento. matrizes de sentido que integram pensamentos. influências ou reativações?. vale insistir tomar para tanto o rumo das “influências”. porém ele lhe infunde o seu tom. ora questionada. o mesmo ocorre com os praticamente intermináveis diálogos nos quais Nietzsche comparece cumprindo a função do “discurso de outrem”.. Parmênides. p. conforme venho enfatizando. expressão adotada por Deleuze ao lado das noções de “maquinação” e “reativação” que não incluem a idéia de 97 jul. a partir daí. Antes cabe falar em reativação de representações e ações. pois o próprio do novo. pela inovação. se constituam como decalques. destaca-se. é provocar no pensamento forças que não são as das recognição”. em modos de ver de sujeitos./dez. Heráclito. Em dado momento. A opção por tematizar as repercussões de perfis nômades no cenário pós-colonial sugeriu a construção de um texto centrado em Glauber Rocha. para. tais sejam. assim como o faz Shöpke (2004. sobre a força do pensamento. intencionalmente invocado. esta complexa grade de idéias. elementos que remontam ao mundo grego. Saltando no tempo. Deleuze (1988. para ficarmos apenas com alguns dos interlocutores. Ora o arquivo constituído pelas obras e ações dos “pensadores-artistas” aqui referidos. pela provocação. posto que falo em sintonias. sem que por isto. p.

Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo

“influência”, para o filósofo, um termo fraco e inapropriado para designar a circulação de idéias que anima os pensadores nômades (SHÖPKE, 2004, p.201). No caso da comunidade cubana e, na impossibilidade de todos mencionar e, mais que isto, comentar as respectivas ações, limitome a destacar algumas evidências empíricas, articulando-as a alguns nomes e propostas. Por exemplo, o “Tercer Cine” de Fernando Solanas assim como Júlio Garcia Espinosa, com seu “Cine Imperfecto”, desenvolveram ações que estão, para a renovação do cinema latino-americano, em sublinhada sintonia com a performance de Glauber Rocha, com o seu cinema novo. Seleciono em Espinosa (1996, p. 125) importantes reflexões sobre as motivações primeiras do “Nuevo Cine Latinoamericano” e as reativações promovidas pelo neo-realismo italiano, no caso, “ponte abstrata” das suas incursões preliminares:
Un primer puente fue el neorealismo italiano. El Nuevo Cine Latinoamericano daba sus primeros pasos cargados de una indiscutible autenticidad. No fueron actitudes miméticas las que nos motivaron. El neorealismo no era un estilo a copiar, era una actitud ante el cine que había de cambiar y ante la vida que había que transformar. Nada podía atizar mejor nuestras esperanzas y nuestras ilusiones. La relación resultó tan fecunda y consecuente que sus huellas vivirán siempre en cualquier obra del cine latinoamericano. No obstante, ya avanzados los años sesenta, la realidad de nuestros países poco tenía que ver con la de la postguerra italiana. En nuestras vidas el espíritu cambio crecía, se aceleraba y se materializaba en acciones de lucha concreta. ‘La identidad se buscaba rompiendo con la máscara de identidad que se nos ofrecía. Y nosotros, cineastas nos identificábamos buscando una identidad que sabíamos única y, a la vez, múltiple y diversa’. (grifos meus). 6

Encontro justificativa para tão longa transcrição por entender que, refraseada ou recortada em pequenos fragmentos, a seqüência

98 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

Migrações de idéias, influências ou reativações?...

assim obtida privaria o leitor de acompanhar o informacional e as argumentações do cineasta Espinosa, cuja clareza me libera de retomar os propósitos de um grupo, e as reativações face ao neorealismo italiano observo ademais, que a metáfora da “ponte” parece resultar de uma acordo tácito entre estes nômades. A Alfredo Guevara coube o estabelecimento da “ponte” inicial entre a arte cinematográfica brasileira e a cubana. Em cartaresposta a Glauber Rocha escrita em 4 de fevereiro de 1961, o cineasta cubano agradece pelo envio de fotografias do filme “Barravento” e também pelos interessantes artigos recebidos. Por sua parte, comunica o envio de fotografias e revistas, informando a disposição da Revista del Cine Cubano e da cinemateca de Cuba de enviar todas as publicações e notícias sobre o cinema cubano. No aguardo da exibição de “Barravento” em Cuba, Alfredo Guevara argumenta, na mesma carta: “Sabemos hasta qué punto tienen contacto nuestras realidades y culturas, cuán cercano, mucho más de lo que uno y otro saben – están nuestros pueblos, y como en la psicología, las costumbres, los problemas, los sueños, la música y el arte se encuentra una común raíz” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES, 1997, p. 36)7. Estas sintonias, estas “raízes comuns”, desde sempre percebidas por Glauber Rocha, se explicitam por ocasião do exílio, ao ensejo da experiência cotidiana. Nas representações de Glauber Rocha, África e Cuba significavam “duas Bahias”. É preciso reter, entretanto, que esta identificação que se patenteia na socialidade do dia-a-dia, ao longo do processo, passou por impasses. Em Cuba, Glauber Rocha viveu entre os anos de 1971 e 1972 e, na feliz expressão de Bentes (1997, p. 49), a Ilha foi para ele “uma espécie de laboratório político”. Neste aspecto, seu entusiasmo inicial experimentou frustrações e desencantamento. O ideal era o mesmo, assim como eram as mesmas, as sintonias promovidas pelas sempre lembradas “raízes”, os amigos eram muitos, mas, a cotidianidade da ambiência política, acabou por assustá-lo. “Admitia que permanecendo em

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Cuba oficializava seu rompimento com o Brasil e, isto é o que ele menos desejava. (GOMES, 1997, p. 163). Por outro lado, houve ruídos ao final de sua estada, provocados pelos questionamentos quanto à retirada dos créditos cubanos ao filme “História do Brasil”. Tais ruídos, porém, não foram maiores que o apreço cultivado entre os “hermanos” cubanos. Por ocasião da morte de Glauber, o amigo primeiro, Alfredo Guevara, homenageou-o com uma edição da revista Cine Cubano, com foto de capa e inclusão de algumas cartas (GOMES, 1997, p. 263 e 264). Nelas, como venho destacando, evidenciam-se os atributos nômades destes “pensadores-artistas”. Sintonias quanto às práticas e representações como as que venho, aqui e acolá, garimpando neste item, pela impossibilidade de detalhá-las neste espaço, foram também percebidas por Villaça (2004) em estudo igualmente centrado em Glauber Rocha8. A autora observa a repercussão da obra glauberiana em Cuba, na segunda metade da década de 60. De fato, “Terra em Transe” (1967) e “Memórias del subdesarrollo” (1968), do cineasta cubano Tomás Gutierréz Alea, guardam em comum vários elementos. Por exemplo, a construção das tramas em torno de personagens interpelados por crises existenciais e identitárias, os monólogos, as trilhas sonoras inovadoras e uma linguagem aberta que dista dos convencionalismos lineares. “Pensador-artista”, assim como foi Glauber Rocha, Alea discorre sobre seu fazer, em um conjunto de entrevistas publicadas no ano de 1989. Chamou minha atenção à imagem por ele adotada para refletir sobre a responsabilidade do cineasta que, ao mesmo tempo, deve preocupar-se com o plano ideológico e o estético.
Jamás he pensado que estoy libre de esa responsabilidad, vivo en una sociedad con la que quiero tener una relación productiva. Al mismo tiempo no puedo olvidar que lo que estoy haciendo es un producto muy particular. ‘No soy un ingeniero, un constructor de puentes, un economista. Soy un cineasta. Lo que hago es fundamentalmente un producto

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estético que cumple una función social’ (ALEA Apud OROZ 1989 p. 19)9 (grifos meus).

A julgar, pelo que veio, insistindo desde o ínicio, Glauber Rocha, sintonizado lhe devolveria a reflexão completando-a, pois o ‘pensador-artista’ é “engenheiro de uma ponte abstrata”. Ao construí-la, estes nômades guiadas pelas mãos da ‘feiticeira- salvadora’, se re-conhecem na mesma missão para a qual dedicam suas vidas. Bem por isso, o já lembrado Espinosa, mais uma vez participa do diálogo lembrando que: “... el arte, como la vida, está siempre en una búsqueda permanente de su identidad. De ahí su importancia y su grandeza. El arte, en este caso el cine, que dé por concluida la búsqueda de su identidad, es un cine” (ESPINOSA: 1996, 123) 10 . Esta busca de identidade e este compromisso com a vida, com a arte e com a estética, não poderiam ser procurados em linguagens cinematográficas alhures, pois, ainda que tecnicamente perfeitas, a estas faltaria a sintonia com a arte compromissada. Assim, no mesmo barco desterritorializado, os ‘pensadoresnômades’ reuniram os seus esforços em torno do melhor do seu fazer, já que: “não é um filme, mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim ao público, a consciência da sua própria existência”, conforme lembra Glauber Rocha nas palavras finais da sua Estética da Fome (GLAUBER ROCHA Apud GOMES, 1997, p.599). Prosseguir garimpando sintonias, entre os cineastas das ‘terras do sol’, seria lembrar muitos outros nomes de tripulantes do mesmo barco, já para não falar da curiosidade com que me peguei, ao saber que não apenas homens, o integravam. Nele estava, por exemplo, a documentarista Sara Gomes, cuja trajetória chamou a atenção do jovem cineasta Eryck Rocha (F.S.P. 15/07/04). Em Eryk encontro também, subsídios que corroboram o argumento norteador deste ensaio. Entrevistado pelo suplemento Domingo, do jornal peruano La Republica, em 4 de agosto de 2002, ele avalia: “Meu pai foi um nômade pós-moderno em plena

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década de 60. Imaginas? Adiantou-se à sua época, tinha um pensamento vanguardista e lutou por uma ideologia, autenticamente latino–americana. Muitas das coisas que defendia à época são vigentes agora. Creio que sua obra é um baú muito grande, que dia-a-dia, deveria ser redescoberta, reinterpretada”11. Neste nomadismo, a passagem de Glauber Rocha pela ‘ Ilha’ constitui, ao mesmo tempo, um porto seguro e uma ‘revolução dentro da revolução’, pois, “no auge das suas inquietações estéticas e políticas, o cineasta baiano filmou, agitou e polemizou como nunca em Cuba” (F.S.P. 15/07/04). Afinal, é atributo dos desterritorializados, este ‘sentir-se em casa’. De Havana, Glauber escreve para o cineasta Cacá Diegues: “estou em Recife muito feliz, estou na Bahia muito feliz, e todo caminho dá no mar [...] Soy feliz y tengo saudades” (GLAUBER
ROCHA Apud GOMES , 1997, p.432).

Bem sem vê, pelo fragmento discursivo acima, o que significou o cotidiano em Cuba, nas representações de Glauber Rocha. Especular sobre as condições de significação de tal sintonia, convida ao diálogo com pensadores cuja concepção do identitário se assenta no lugar de confluência do múltiplo aberto ao diverso e ao movente, onde o ‘reinado do ser é substituído pelo sendo’ (GLISSANT Apud BERND, 2004, p . 104 ). Algumas reflexões que desdobram deste modo de ver, aparecem a seguir, no próximo e último item.

Concluindo: Brasil e Cuba, em sintonia rizomática
Conforme lembra a acima citada Bernd (2004, p.101), os enfoques de Glissant e Chamoiseau quanto às questões identitárias, dialogam com as idéias de Deleuze e Guattari, pensadores que, como se viu, foram lembrados ao longo do presente texto. Glissant e Chamoiseau 12 se opõem aos integrismos e fundamentalismos dos discursos convencionais, quando a questão

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construir e destruir mitologias é viagem incessante. e dos cineastas cubanos sintonizados quanto às representações que construíram sobre o papel da arte cinematográfica para os povos do Terceiro Mundo. João Lopes reflete: “se há cineasta a que convenha a designação de nômade. 2007 . ROLNIK. 322 ). estabelecer conexões transversais. Os sistemas em rizoma ou ‘ em treliça’. Em outro contexto e com outra conotação. influências ou reativações?.. Nestas ‘conexões transversais’ encontro os suportes do nomadismo de Glauber Rocha. presente e futuro 103 jul. Elas ressoam rizomaticamente dos ‘caules subterrâneos de plantas flexíveis’ cujas raízes multi-seculares se plantaram no solo fecundo dos territórios pós. é a identidade. podem derivar infinitamente. ao contrário. se entrecruzam e os territórios se desterritorializam. é possível se encontrar as raízes mais secretas do mistério dos homens e das sociedades que constroem e destroem: as suas mitologias. centrá-los ou cercálos.]. 246). Desta percepção partilha o historiador e poeta: Suprimir diferenças entre o passado. onde ele define os sistemas de caules subterrâneos de plantas flexíveis que dão brotos e raízes adventícias em sua parte inferior (GUATTARI. para ambos. Ora.” (LOPES Apud GLAUBER ROCHA. Glauber é este cineasta [.Migrações de idéias./dez.. Guattari explica a adoção dos termos ‘rizoma’ e ‘rizomático’.. 1983. Dir-se-ia. mas sugerindo entrelaçamentos. é noção que remete à idéia de raízes múltiplas e abrangentes.coloniais. p. sem que se possa. transe histórico. no qual as temporalidades. a partir de um ponto central em relação ao qual remonta cada elemento local. 1996. p. que. sugeridos por ele e por Deleuze: Os diagramas arborescentes procedem por hierarquias sucessivas. O termo ‘rizoma’ foi tomado por empréstimo à Botânica. secundarizando as construções das fronteiras espaciais e sua importância. se reterritorializam. bem como o fazem os ‘pensadores-nômades’.. que só na viagem e através dela.

por exemplo. Nara Leão. João do Vale. mas sempre sintonizada com os que com ele partilharam e partilham ainda o mesmo barco. n° 15 . ao repertório. Paulo Perdigão dedicou todo um item de seu ensaio ‘Ficha Filmográgica’. quanto na subseqüência da ação dramática e seu eco musical” 3 104 Revista Brasileira do Caribe. Em seu afã de registrar a mensagem dos cantadores ou dos violeiros cegos. pp 432 – 433 ) “ele gostava não apenas de música clássica – Villa-Lobos.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo È uma forma de viajar: Saio de meu próprio nicho e participo da vida de outros. ‘rios de tinta’. No espaço discursivo da poesia e na riqueza das imagens. na polissemia de que se reveste tal expressão e sua palavra. tendo sido um pesquisador das fontes nordestinas da música interiorana. Edu Lobo e Geraldo Vandré. Goiânia. 1 2 Os autores das músicas são respectivamente. O valor de um homem é a sua palavra (LEONARDI. 2003. este breve ensaio se junta como gota atraída pelas sintonias de alguém que pertence a uma geração que desde logo aprendeu a admirar Glauber Rocha. dentre outros. Carlos Lyra. Polêmica. Gilberto Gil. Edu Lobo. naturalmente à frente – mas também da popular e da folclórica. Notas Refiro-me. suas viagens. nem sempre entendida. incluído no livro ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ de 1965 à importância da música para Glauber. o fragmento acima sugere conexões e pontes com a trajetória de Glauber Rocha. todas as seqüências enfáticas. vol. são portadoras de uma infra-estrutura despertada pela música. Caetano Veloso. seu nomadismo. lembrando que no filme. a ‘palavra’ de Glauber Rocha e as representações que a ela subjazem motivou e motivará. Elis Regina e Maria Betânia. Chico Buarque. Nestas águas. A qualidade das trilhas sonoras dos filmes de Glauber Rocha foi reconhecida por setores do Brasil e do exterior segundo Gomes (op cit. tanto em justaposição de som e imagem. p 12 ). por certo. VIII. Geraldo Vandré. Vinícius de Morais. Chico Buarque.

engajar-se em linha de fuga [. Buscava-se a identidade rompendo com a máscara de identidade que nos era oferecida. era uma atitude perante o cinema que havia de mudar e perante a vida.. Uma primeira ponte foi o neo-realismo italiano. 6 7 Sabemos até que ponto têm contacto nossas realidades e culturas. e como na psicologia.] A reterritorialização consistirá numa tentativa de recomposição de um território engajado num processo desterritorializante (Guattari... quão perto. O novo cinema latino americano dava seus primeiros passos carregados de uma indiscutível autenticidade. 2007 . abrir-se. do ponto de 8 105 jul. nos tempos e nos espaços sociais.] Ele é um conjunto dos projetos e de representações nos quais vai desembocar. O excelente artigo “América Nuestra e o cinema cubano”. pragmaticamente. os sonhos. os problemas. O território pode se desterritorializar. cognitivos. a noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo. a música e na arte./dez. culturais estéticos. quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente “em casa”..Migrações de idéias. O neo-realismo não era um estilo a copiar. Não obstante já avançados nos anos sessenta. E nós. se acelerava e se materializava em ações de luta concreta.. (tradução livre). Rolunik op cit p. estão nossos povos. Nada podia atiçar melhor nossas esperanças e nossas ilusões.] o território poder ser relativo tanto a um espaço vivido. de investimentos. mútipla e diversa” (tradução livre). toda uma série de comportamentos. influências ou reativações?. que ultrapassa o uso que dela fazem a etologia e a etnologia [. os costumes. [. muito mais que alguns sabem.. a realidade de nossos países pouco tinha a ver com a da pósguerra italiana. que havia de se transformar. Em nossas vidas. 5 Territorialidade/desterritorialização/reterritorialização são noções caras ao referencial proposto por Guattari e Deleuze em seus estudos voltados para a problemática das identidades. nos identificávamos buscando uma identidade que sabíamos única e ao mesmo tempo. se encontra uma raiz comum. 323).. o espírito de mudança crescia. de autoria da historiadora Mariana Martins Villaça. Não fora atitudes miméticas que nos motivaram. Segundo Guattari. isto é. 4 O repertório dos filmes será enfocado mais adiante. A relação resultou tão fecunda e conseqüente que suas marcas viveram sempre em qualquer obra do cinema latino americano. dialoga com o presente ensaio.. cineastas.

Sou um cineasta. SP: Boitempo. Hibridismo & outras misturas. um construtor de pontes. CASTRO. In. Galimard. Paris. R. n° 15 . um economista. Écrire en pays dominé. Zila: “O Elogio da Crioulidade: o conceito de Hibridação a partir dos autores francófonos do Caribe”. está sempre numa busca permanente da sua identidade. 2000. As abordagens. SP: Companhia das Letras. Abdala Jr (org. BOSI. 7 Letras. Ao mesmo tempo não posso esquecer que o que estou fazendo é um produto muito particular. 2003. tenía un pensamiento vanguardista y luchó por una ideologia auténticamente latinoamericana. o cinema. Ecléa. Patrick. Ruy. O que faço é fundamentalmente um produto estético que cumpre uma função social. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. A arte. reinterpretada. 4/08/2002): “Mi padre fue un nómada posmoderno en plena década del 60.: Ateliê Editorial. vivo em uma sociedade com a qual quero manter uma relação produtiva. 9 10 “A arte.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo vista temático. Te imaginas se adelantó a su época. que dá por concluída a busca da identidade. Oscilação e Simulacro. Chega de saudades. BERND. Galimard. Benjamim. têm modos distintos quanto à construção do objeto e os referenciais teóricos adotados. 2004. Bernd menciona pontualmente os estudos de Chamoiseau. 1990 COSTA.J: Ed. como a vida. Édouard. Creo que su obra es un baúl muy grande que día a día debería ser redescubierta.) Margens da Cultura: mestiçagem. S. Traité du tout. Luis Cláudio da. neste caso. Muchas de las cosas que defendía en ese entonces ahora siguen vigentes.monde. 1997 e ao de Glissant. Ivana (Org. Goiânia. (tradução livre).) Cartas ao Mundo/Glauber Rocha. Daí sua importância e sua grandeza.” Neste aspecto. 11 Tradução livre do texto publicado. 1997. entretanto. Não sou um engenheiro. 1997 . VIII. A história e as histórias da bossa nova. pelo jornal peruano La Republica (suplemento Domingo.P. “Jamais pensei que estou livre dessa responsabilidade. Paris. vol. Cinema brasileiro (anos 60-70): Dissimetria. é um cinema morto” (tradução livre). 106 Revista Brasileira do Caribe. SP: Companhia da Letras. 12 Bibliografia BENTES.

1996. 2003 MALDONATO. GUATARI. Gilles. Mariana Martins. Petrópolis: Vozes. 1983. Revista Domingo del diário de La República. “Espaço. DELEUZE. ROCHA. 107 jul. Regina: por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze. R.J. Mauro. J. Adolfo Montejo: “Cinco notas sobre o teatro engajado no Brasil”.2002. Porto Alegre. Bsb.br/scielo. VILLAÇA.. S.P: Boitempo. IPHAN./dez.J. 2004. Júlio Garcia. NAPOLITANO. R. Menezes de.com. no. o pensador nômade.P/EDUSP. vol. In: Benjamim. “Hibridismo e tradução cultural em BHABHA”. 2004. “América Nuestra – Glauber Rocha e o cinema cubano”. 2001. SP: Contexto. S. http/ :www.J.Migrações de idéias.pe.P. ESPINOSA.: Ed 34. O século do cinema.larepublica. 2007 .. SOUZA. Zila.scielo.: Ed 34.In Revista Educação. nº 29. Subjetividade e Poder. Vol.P. La doble moral Del cine. 2004. Território e Lugar: estas palavras ciganas. LEONARDI. Félix e ROLNIK. 1998. 4 de agosto del 2002. no. influências ou reativações?. 1989. Alhanbra/Embrafilme. Suely: Micropolítica: Cartografias do Desejo. 44. Raízes e Errantes. In Revista do patrimônio histórico. Lynn Mário T. GOMES. 5. 2ª Ed. S.. 2003. OROZ. NAVAS. Madrid: Ollero & Ramos Editores. Carlos Teixeira: Glauber Rocha. Glauber. SCHÖPKE. 1997. Rio de Janeiro: Instituto Diversidade Brasil. 4ª Ed. Abdala Jr (org. La Habana: Ediciones Unión. Silvia: Tomás Gutiérres Alea: Los filmes que no filme.: Nova Fronteira..R.) Margens da Cultura: mestiçagem. 2004. http://www3. RJ: Contraponto S. 22. Esse vulcão. “El legado Glauber Rocha”.”. Conversações: 1972-1990..In: Revista Brasileira de História. Marcos: Cultura Brasileira: Utopia e Massificação (19501980). 5. Victor Paes de Barros: A Arte de Viajar à Deriva e Ressurgir com Paixão. MESQUISTA. Hibridismo & outras misturas..

108 .

Caribbean Migrations. Keywords: Literature. até recentemente.Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto Abstract This article focuses on the analysis of the books Passages (1994) and Reperages (2001) by the Haitian writer Émile Ollivier. nome representativo das identidades em trânsito da contemporaneidade. Goiânia. 2001) que conferem à sua escrita um caráter particular e significativo no âmbito da chamada literatura migrante do Quebec. VIII. It offers a reflection on the inscription of on the inbetween productive place in the selected location. onde. a identidade era vista pelas elites como homogeneidade (BOUCHARD. 109-135 . Migrações Caribenhas. Palavras-Chave: Literatura. vol. It is important to take into consideration the plurality of imaginaries of belonging and the paratopic situation of the author which award their writing a particular and significative character in the context of the migrant´s literature of Quebec. n° 15. Trata-se de levar em conta a pluralidade de imaginários do pertencimento (SIMON. pretende-se refletir sobre a inscrição de um “entre-dois” produtivo no corpus escolhido. 2004) e a situação paratópica do autor (MAINGUENEAU. Identity Resumo Apoiando-se na análise dos livros Passages (1994) e Repérages (2001). where until recently identity was seen by the elites as homogeneus. Identidade *Artigo recedido em Janeiro e aprovado para publicação em Março de 2007 109 Revista Brasileira do Caribe. do escritor haitiano Émile Ollivier. the representative figure of identities in transit of contemporaneity. 2000).

o escritor e teórico Amin Maalouf salienta a interferência de múltiplos pertencimentos em sua história de vida. Palabras Claves: Literatura. ao longo de histórias plurais de deslocamentos e desterritorializações. à luz da “différance” derridiana. revisitada por teóricos como Stuart Hall (2003). mas. que constitui uma ilustração das elaborações das identidades em trânsito de nossa época. Goiânia. Graças ao reconhecimento da perspectiva diaspórica da cultura. 2000) a partir de situações 110 Revista Brasileira do Caribe. deslocamento e devir inacabado. construíram-se coletividades novas (BOUCHARD.Maria Bernadette Velloso Porto Resumen El artículo se apoya en el análisis de los libros Passages (1994) y Reperages (2001). vol. n° 15 . o local de origem não podendo ser associado a uma única fonte de identificação. Identidad Encarada. permitenos repensar os processos de construções identitárias de nosso tempo e as idéias atribuídas até recentemente à nação. Em se tratando das Américas. nombre representativo de las identidades en tránsito de la contemporaneidad. Em contextos marcados pela diáspora. del escritor haitiano Émile Ollivier. que sugere mais os movimentos do “tornar-se” do que as certezas do “ser”. considera-se a identidade não como um dado fixo e estável. Definindo-se no livro Les identités meurtrières (1998) como alguém situado em um entre-lugar que o leva a se ver como libanês e francês. reflexionando sobre la inscripción de un entre lugar productivo en el locus seleccionado. como algo que se expressa como deslize. Migraciones caribeñas. Se trata de llevar en cuenta la pluralidad de imaginarios de pertenencia y la situación paratópica del autor que otorgan a su escrita un carácter particular y significativo en el ámbito de la llamada literatura migrante de Quebec. as identidades são múltiplas. a noção de diáspora. VIII. que passou a ser vista na qualidade de comunidade imaginária. donde hasta recientemente la identidad era vista por las élites como homogénea. sobretudo como questão conceitual e epistemológica e não como experiência empírica.

. deu-se a revisão da identidade quebequense. no Quebec. que é pela mistura que a novidade entra no mundo (RUSHDIE. “movimento perpétuo de interpenetrabilidade cultural e lingüístico” (GLISSANT. Salman. violentas e abruptas” (HALL. e em particular.Uma voz da diáspora haitiana. a inegável contribuição caribenha na configuração das novas cartografias identitárias decorrentes das migrações pós-coloniais nas Américas. em especial. o Caribe é fruto da crioulização. com o aporte de vozes de imigrantes oriundos de diversos países não-europeus e. e mesmo o primeiro habitante desta terra.92). o crítico da cultura Stuart Hall (Jamaica) também reconhece o que é dito na citação anterior. professor e crítico haitiano naturalizado canadense: Ser americano é ter conhecido a metamorfose que transforma um europeu./dez. Nos últimos anos. 2007 . híbrido. Segundo ele. encarada 111 jul. o espaço caribenho é marcado por uma estética diaspórica. com Salman Rushdie. processo inacabado. segundo as modalidades particulares de sua entrada neste Novo Mundo e segundo as peripécias de sua existência aqui (LAROCHE. 1993.75). p. Ásia e África). 1993.30). todos os que estão no espaço caribenho “pertenciam originalmente a um outro lugar” e sua relação com essa história “está marcada pelas rupturas mais aterradoras. p.394). percebe-se o caráter inovador do Caribe. Nascido dentro da violência colonial e por meio dela. Como pensa Maximilien Laroche. verdadeiro habitante de um Novo Mundo. neste homem novo.. do chamado Terceiro Mundo francófono (Antilhas. o que explica seu caráter impuro. p. exemplo maior da ruptura de modelos fechados e homogêneos de pertencimento cultural. diaspóricas. depreende-se. Inserindo o Caribe no cenário da diáspora pós-colonial. Pois todos aqueles que moram hoje na América vieram de outro lugar. Resultante das relações enriquecedoras entre elementos culturais variados. no campo literário. p. Considerando-se. um asiático. 2003. há mais ou menos tempo e sofreram a metamorfose que esta terra e sua história impunham. Como se sabe. imprevisível e produtivo do contato entre culturas.1995.

segundo a expressão de Édouard Glissant. uma certa abertura ou fragilidade no plano do domínio lingüístico ou do tecido de referências. O texto híbrido é portanto um texto que manifesta “efeitos de tradução”. interferências lingüísticas ou culturais. 2004. estes efeitos de dissonância são o resultado de um processo de tradução inacabada. Cabe lembrar aqui a definição do texto híbrido proposta por Sherry Simon: O que se pode entender por um texto híbrido? Trata-se de um texto que interroga os imaginários do pertencimento. Tais escritores e poetas apresentam em suas obras o que Maximilien Laroche chama de o “duplo palco da representação” (LAROCHE. vol. tal identidade passou a ser considerada sob o prisma da multiplicidade de centros de referência. mas que deixa traços do primeiro texto no novo. o que lhes permitia fugir dos horrores da ditadura de Duvalier. vêem ameaçados seus valores identitários tradicionais – 112 Revista Brasileira do Caribe. 1991). levando em conta um estado de dissonâncias e de interferências de várias formas. pois seus textos misturam imagens e signos do Haiti e do Quebec. Nesse cenário de profundas transformações e questionamentos identitários. diante da presença de alofonias diversas. consciente da multiplicidade. ou seja. aculturado.Maria Bernadette Velloso Porto como homogênea pelas elites do século XIX e parte do século XX. VIII. Graças à inclusão do olhar de estrangeiros. um despojamento desterritorializante. em certos casos. um texto em que a confrontação dos elementos díspares produz o novo. o reconhecimento das vozes migrantes. p. no panorama identitário do Quebec. uma sintaxe não habitual. uma relação de transferência ou de passagem que não acaba em um produto naturalizado. Pode-se dizer que. ressalta-se a presença de autores haitianos que emigraram para o Quebec em decorrência da abertura do Canadá à política de imigração. o imprevisível (SIMON. n° 15 . Da fricção criativa de dois pertencimentos nasceram obras marcadas pelo híbrido. opta por criar um texto crioulizado. muitas vezes problemático para os “Québécois de souche” que. Estes efeitos estéticos são o resultado da situação de fronteira vivida pelo escritor que.13-14) Cabe lembrar que. por um vocabulário díspar. Goiânia.

Em outras palavras. de modo exemplar.43). uma cultura que carrega as origens se enriquece com a contribuição múltipla e aceita modificar-se sem se trair.Uma voz da diáspora haitiana. Nessa revisão contínua das identidades. Um dos representantes da presença do Haiti no Quebec contemplados na obra citada é Émile Ollivier. Como pensa outro representante diaspórico da chamada literatura migrante do Quebec.. as ambigüidades 113 jul. esse outro que não é um observador de passagem. les maux du pouvoir. em sua maioria. ao trazer para a cena coletiva a pluralidade de pontos de referência e de memórias culturais. mas que está aí para ficar. na condição de migrante. Segundo Jonassaint. em especial. Tratar da diáspora haitiana no Quebec nos remete ao livro de Jean Jonassaint intitulado Le pouvoir des mots. os romances haitianos de 1970 a 1980 foram escritos e/ou publicados na América do Norte. ilustra. inscrevendo no seio da cultura quebequense as marcas de sua diferença e os apelos do exílio. o imaginário migrante dialoga com a representação simbólica do exílio que afetou anteriormente muitos autores do Quebec./dez. material importante para os estudos do romance haitiano contemporâneo. 2001. um dos privilégios do autor migrante é o olhar novo que ele lança sobre o país em que se instala: O imigrante. desabrochar ao se reinventar (KATTAN. torna-se um fator de revisão do implícito. Encarnação expressiva da situação paratópica (MAINGUENEAU. já presente na memória coletiva dos quebequenses. que todo desenraizamento é ou pode ser fator de grande criatividade e que toda migração é útil ao país de origem e ao país de adoção. ele reúne trechos e depoimentos valiosos de seres diaspóricos. não ocorreu por acaso. ausente ou inacabado. Buscando mostrar que o exílio pode ser fecundo. 2007 . já que.. autores migrantes colaboram de perto na reinvenção identitária do país que lhes deu abrigo. o escritor iraquiano Naïm Kattan. p. os quais viam seu país como incerto. 2001) de todo escritor que.

estar de passagem no Canadá. ele não chegou a empreender o retorno ao país natal. não existe verdadeira literatura” (MAINGUENEAU. se instalou no Quebec onde se tornou professor de sociologia na Universidade de Montreal. durante um ano. Em 1968. 2001. Émile Ollivier privilegia em textos teóricos e ficcionais reflexões sobre o trajeto identitário de seres deslocados de nosso tempo. vol. Optando por um desvio provisório. que teria permanecido o mesmo jovem que rompera. A mesma pergunta que aflige seres migrantes em geral se coloca para o autor em questão: “Como é possível viver não sendo totalmente daqui nem mais totalmente de lá?”(OLLIVIER. na sua obra teórica Repérages (2001). p. Consciente de que se encontra diante de uma sensibilidade inusitada e de que vive. com a exigüidade de sua ilha para partir em busca da conquista de vastos territórios. E é na impossibilidade de se estabilizar em um lugar preciso que sua obra se constrói.27). a princípio. como tantos outros indivíduos. 37).28). n° 15 . negociando incessantemente entre o lugar e o não-lugar. 2001. p. exerceu várias ocupações e obteve um certificado de estudos literários na Sorbonne. Ao exercer sua atividade profissional no campo das letras. p.Maria Bernadette Velloso Porto e contradições de quem não coincide necessariamente com um lugar no mundo. em 1965. Buscou. Como todo escritor. 2001. Após ter vivido seus primeiros vinte e cinco anos em PortoPríncipe. um dia. Como muitos imigrantes (autores e personagens romanescos). esperava retornar à sua terra natal logo que essa situação política tivesse mudado. abrigo na França onde. uma experiência inédita que 114 Revista Brasileira do Caribe. Ollivier acabou por aí criar um espaço de vida e de criação. morrendo no estrangeiro. tira partido da deslocalização que caracteriza toda produção literária “sem ‘deslocalização’. no passado. Ao declarar. Ollivier decidiu se afastar do Haiti para escapar da violência da ditadura de François Duvalier. Ollivier salienta sua identidade móvel que o levou a adotar compromissos e a efetuar negociações a cada dia. VIII. “alimenta sua obra com o caráter radicalmente problemático de sua própria pertinência ao campo literário e à sociedade” (MAINGUENEAU. Goiânia. Como tantos outros haitianos que pensaram.

. empreendendo uma operação de descentramento (OLLIVIER. que. 2007 . e quando nos enfiamos na terra. percebe que sua vida era pontuada por várias mortes 115 jul. nossos pés só servem para andar. Desse modo. São elas que nos levam – da pobreza à riqueza ou a uma outra pobreza. lá atrás.. Origem inatingível. 2001. cita o escritor Juan Goytsolo...38) . 2001. elas precisam de suas raízes. da servidão à liberdade ou à morte violenta. desejamos o céu.22). p. 2001. Como nós. Por isso mesmo. p. 20). Ollivier se colocou à escuta da realidade cultural a sua volta. Exposto a outros modos de socialização como todos os migrantes. Origem ilusória.(. a distância cria uma situação privilegiada (BAUMAN. só importam as estradas. após ter sonhado durante muito tempo com o retorno ao país natal. de caminho. já que uma estrada não tem nunca verdadeiro começo. os homens não. 2005. faz de todos nós seres mutantes por excelência (OLLIVIER.Uma voz da diáspora haitiana. p.) Ao contrário das árvores. Émile Ollivier passou da posição de exilado à de migrante.69). Para nós. ele parece dialogar com a visão de Amin Maalouf em seu livro Origines: As árvores devem se resignar. elas têm uma origem. ao chegar ao Quebec. por sua vez./dez. para se considerar como alguém deslocado que. já havia uma curva e mais uma. Respiramos a luz.prefere as idéias de estrada. Vendo-se como um escritor das fronteiras (OLLIVIER.24). A seiva do solo natal não se eleva por nossos pés em direção à cabeça. p. podemos lembrar que. pois a cada cruzamento se uniram outras estradas que vinham de outras origens (MAALOUF. as estradas não emergem do solo ao acaso das sementes. reconhece-se como um “ser feito da interferência de todos os lugares que atravessou” (OLLIVIER. ao longo de trinta anos de vida no Quebec. p. Para evocarmos o sociólogo Zygmunt Bauman. 2004.910). assim como a intimidade. o autor do livro citado diz que é preciso desenvolver competências de “bricoleur” e aprender a viver nos interstícios. p. é para apodrecer. antes da primeira curva. 2001. Sob esse prisma. ao invés de valorizar a noção de raiz –associada às árvores .

Ao se fixar em Montreal. 2001.Maria Bernadette Velloso Porto e renascimentos sucessivos (OLLIVIER. a experiência lingüística constitui um domínio privilegiado para se refletir sobre a condição migrante por parte de seres cindidos sob o ponto de vista identitário. a presença de “estrangeiros do interior”: os quebequenses que acabavam de deixar o espaço rural para se instalarem no tecido urbano de uma cidade em expansão que recebia alteridades plurais. Por isso mesmo. pelo gesto de migrar. Ao ter perdido. Para o autor de Repérages.23). Situando-se numa encruzilhada entre dois idiomas – o crioulo e o francês – o autor leva em conta a questão de seu público. deixando de ser simplesmente a terra que lhe ofereceu asilo. 116 Revista Brasileira do Caribe. a língua francesa.37). a seu lado. tornado. vista como seu lugar de asilo (OLLIVIER. 28). o que remete à existência de “homens traduzidos” de nosso tempo. pois logo percebeu. que ele reforça seus vínculos com a realidade caribenha. aos poucos. sabe que seus livros não são de fato consumidos pela comunidade haitiana. 2001. Ollivier participou das profundas modificações ocorridas no Quebec a partir da Revolução Tranqüila. para se tornar seu país de adoção (OLLIVIER. Com outros representantes de diferentes modos de ser e de ler o mundo. 2001. p. Aos olhos de Émile Ollivier. conquistada a cada dia de sua própria reconstrução identitária no novo país. Embora trate de assuntos referentes à sua terra de origem. o autor de Repérages afirma ter feito o luto de sua origem. vol. n° 15 .64). seu espaço de enunciação. A maneira de continuar fiel à sua origem não seria falar continuamente dela na língua estrangeira que poderia lhe conferir maior visibilidade? E é no corpo a corpo com a diferença e com o francês. dado o forte índice de analfabetismo de seu país. o jovem haitiano compartilhou com outros a sensação de estranhamento. p. que trouxeram para o cenário das discussões identitárias o questionamento das certezas estabelecidas. falar uma outra língua equivale a assumir a posição do tradutor. VIII. Ciente de que a língua francesa se tornara cada vez mais indispensável em sua profissão. como propôs Salman Rushdie (1993. Goiânia. precisou conquistar um outro. p. p. o Quebec mudou de estatuto a seus olhos. sua outra língua.

E penso de fato que é uma situação de esquizofrenia. exercitando a prática tradutória não como um exercício de simples transposição de uma língua a outra.64) . p.Uma voz da diáspora haitiana. 2001./dez.. Além de sugerir travessia... Como no próprio Haiti ele já conhecera de perto a dualidade lingüística.382). 2007 . Ollivier vale-se de um duplo pertencimento. 1986. por uma dupla inscrição. Marcada.88) Como “esquizofrênico feliz”. E é no ir e vir entre duas culturas. Ollivier tenta evitar qualquer perspectiva reducionista que poderia tornar exótica sua escrita. mas também da realidade quebequense. de uma memória impossível que aflora. a literatura migrante de Émile Ollivier coloca a questão lingüística como componente maior do capital literário. o próprio Ollivier se refere a esse dilaceramento de forma lúdica e criativa: Essa esquizofrenia vai ser encontrada provavelmente ao longo de toda a minha produção.. nascida do roçar entre as diferenças. na superfície do texto.. meus trabalhos e meus dias (JONASSAINT.. vivenciada sob a forma de diglossia. Tenho o hábito de dizer que sou haitiano à noite e quebequense de dia. transformação e um trabalho de recriação permanente. mas como busca inacabada e rentável que supõe a fricção produtiva entre dois idiomas e memórias culturais. p. p. de alguém que está desvinculado da realidade. Estou desvinculado da realidade haitiana. dois universos e dois apelos lingüísticos que a obra desse autor se inscreve sob o signo da dualidade ou da digrafia. de Pascale Casanova (1999. Em entrevista a Jean Jonassaint. Apesar dessas duas realidades trabalharem meus desejos. e a criação de uma terceira língua. isto é. para evocarmos o capítulo “La tragédie des hommes traduits”. optando pela procura de um equilíbrio na instabilidade: 117 jul. no ato da escrita. minhas alegrias. assim. um reservatório de sons. apesar de tudo. aqui a realização do luto da origem supõe também a interferência constante. ritmos e imagens (OLLIVIER. presente nele como uma cripta.

reinventada graças ao crioulo. Um romance em particular ilustra a complexidade do universo do autor: trata-se de Passages. Minha principal preocupação é de expulsar toda folclorização. Considerado pela autora do ensaio La mémoire sans frontières como uma “deriva polifônica” (GAUTHIER. Numa narrativa de caráter polifônico. cujos trajetos de vida se entrecruzam. p. a negociar entre danos e perdas. embarcando em um barco frágil que os levaria. e a encontrar. trata-se de andar sobre essas duas pernas. isto é. a desterritorialização da língua francesa. captar a substância da língua crioula e restituí-la diretamente em francês (JONASSAINT. as metáforas. revestindo-se de um caráter eminentemente dinâmico. o escritor identifica na desterritorialização um espaço de liberdade que o leva a fazer escolhas. um grupo de haitianos se organiza para fugir das misérias de sua terra natal. duas histórias principais estão vinculadas ao Haiti: de um lado.89) No conjunto da obra de Émile Ollivier.Maria Bernadette Velloso Porto Tenho consciência de não trazer nenhuma resposta explícita à questão da diglossia. as duas línguas foram vizinhas. vol. pois. ao mesmo tempo. destaque. Historicamente. e a caracterização do escritor migrante como um tradutor adquirem. de preferência. os provérbios. na formação social haitiana. 1986. seu lugar por excelência no mundo.62). 1997. liderados por Amédée Hosange. n° 15 . evitar a tradução literal do crioulo em francês. Como resolver esse problema no plano da criação? No que me diz respeito. na própria escrita. a interiorizar cores. na maioria haitianos. ao invés de se deixar paralisar pela dor da ruptura e do dilaceramento. cheiros e sabores de seu país. Trata-se de levar em conta esse fenômeno. Goiânia. a gente se exprime. não se trata de decidir entre o crioulo e o francês. VIII. como 118 Revista Brasileira do Caribe. a experiência do exílio. publicado em 1991. em francês e em crioulo como ser haitiano. o romance Passages apresenta vários personagens migrantes. Logo. trabalhar sobre as imagens. p. fugir da relação de equivalência e. a refazer seu imaginário. ressemantizados no contexto estrangeiro. mesmo em relações de dominação. em resumo. coabitaram.

je peins le passage”(OLLIVIER.181). mas não chega a divulgá-lo. Como se atualizasse a mesma frase. à infliger notre chaleur./dez. A narrativa referente à preparação da viagem dos boat people haitianos em direção a Miami se reveste de um sentido 119 jul. enviado pela esposa do morto para buscar seu corpo. p. 2000. p. que há anos deixara o Haiti para viver em Montreal..1994. a vida e a morte se conjugam na dinâmica do transitório. “história de migrações e de errâncias.7). o romance se abre com uma epígrafe significativa de Montaigne: “Je ne peins pas l’être. Normand grava o depoimento de Brigitte em cassetes. abaladas pela inclusão da diferença no âmbito de uma familiaridade construída a partir da ilusão e da pretensão da homogeneidade. acaba conhecendo. Histórias do viver e do morrer se intercalam no tecido narrativo marcado pela poética dos encontros e (des)encontros ligados às movências identitárias. 2007 . Priorizando a idéia de passagem. sua compatriota. de outro. 1994. p.Uma voz da diáspora haitiana. sem realizar o desejo de retorno ao país natal. servir de intermediário entre as diversas vozes narrativas desse romance formado da reconstituição de diversas memórias. o jornalista Normand Malavy.194). viúva de Amédée. Outra referência importante à noção de passagem se destaca de versos de René Char: “Nous sommes des passants appliqués à passer.. à dire notre exubérance. Brigitte Kadmon Hosange. clandestinos. Cabe a outro personagem haitiano (Régis). em Miami. esse romance deixa provisoriamente o espaço geográfico haitiano para melhor encontrá-lo nas lembranças e no imaginário de indivíduos à procura de seu destino. no plano da intriga e na própria construção do romance. pois morre de um ataque cardíaco. Vistas como trânsito. uma das poucas pessoas que sobreviveram ao naufrágio da embarcação e os sonhos dos que ousaram optar pelo exílio (ainda que visto como provisório).” (GAUVIN. Voilà pourquoi nous intervenons ! Voilà pourquoi nous sommes intempestifs et insolites“ (OLLIVIER. Como afirma Lise Gauvin. Destaca-se aí a figura perturbadora do estrangeiro aos olhos de quem se definia pelas certezas identitárias. o livro em questão coloca em cena múltiplas passagens. a Miami. donc à jeter le trouble.

il ne figure sur aucune. essas terras representam todo seu sopro vital (OLLIVIER. VIII. A abertura do romance aponta para a decadência que afeta a cidadezinha de Port-à-L’Écu. 1994.25). ele parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos) acarreta um efetivo desequilíbrio ecológico que compromete a própria existência da coletividade. 1994. Goiânia. Port-à-L’Écu n’existe plus. un bien grand et riche domaine.27). 1994. 120 Revista Brasileira do Caribe. Nul besoin de chercher son nom sur une carte . il n’y a guère de temps. como ocorre com a chegada de um ser inquietante que coincide. p. que os levaria a Miami. mas também de desafio e de orgulho (OLLIVIER. Là vivait Amédée Hosange. des deuxmoitiés. O retorno desse habitante a Portà-L’Écu. vaste grange. com a crise da pequena cidade. cinq maîtresses. Em um mundo pleno de sinais. Port-à-L’Écu n’existe nulle part.Maria Bernadette Velloso Porto mítico. que corre o risco de se tornar “lata de lixo dos Brancos”: afastando-se da representação do lugar habitável que fora um dia. lequel l’avait obtenue. da desolação e da miséria absoluta: Port-à-L’Écu. feita por eles mesmos. colocando em confronto dois tempos de um mesmo lugar. pois. les loup-garous y ont élu domicile et parfois volent en plein jour. ce n’est plus le pays de la canne à sucre . de la main même de l’Empereur. Et pourtant. a intervenção do sobrenatural se dá nas pequenas histórias do cotidiano marcadas pelo realismo mágico. conscientes de que. p. vol. de onde fora expulso um dia. disait-il. Il y avait à Port-à-L’Écu dix carreaux de terre. Il tenait la terre de son grand-père. belles cases.14). n° 15 . Prisioneiros de um mutismo feito de medo. au lendemain des grandes tueries de l’indépendance (OLLIVIER. os habitantes da referida cidade escolhem uma forma particular de resistência: a fuga numa embarcação precária. mesmo no estado em que se encontram. p. é revestido de tragédia. c’était un village qui comptait tout près de trois mille chrétiens vivants. condenada ao abandono e ao silenciamento. passou a ser o espaço da improdutividade. de modo misterioso. a morte repentina desse cadáver em vida (extremamente magro. augúrios e presságios.

en reniflant. como o “passeur” que os levaria à salvação. sabe ler os sinais inscritos na paisagem. 2007 . Véritable pigeon voyageur. “il avait foulé cette terre en nômade” (OLLIVIER. p. Mestre da ciência dos ventos baseada no vivido. en fixant le ciel. il pouvait faire le décompte des milles marins parcourus. o desvio é sinônimo de astúcia. 1994. il associait les odeurs à la direction du vent. La nuit. p.. Concebido como um recurso temporário. je vous l’ai déjà dit./dez. Il m’avait souvent parlé de ses voyages en haute mer. 64). Tal viagem clandestina em direção a um “Eldorado de lenda” (OLLIVIER. Il n’avait pas besoin de montre pour déterminer quelle partie de la nuit ou du jour était passée (OLLIVIER. dire combien le ciel avait marché au-dessus de la terre.19) e dotado do sentido da orientação por ter uma bússola em suas narinas e por ser capaz de se valer do sol como seu compasso e seu cronômetro (OLLIVIER. deslocando-se como um pombo correio.65) equivale a um “détour” no sentido glissantiano. dominando as artes do enraizamento e da errância: Amédée. 1997. Il connaissait la position des étoiles fixes et des étoiles errantes.63). Em estreita sintonia com a natureza. Segundo Édouard Glissant. Tendo em sua bagagem existencial a experiência do nomadismo (cf.. monsieur. Convencido de que lhe cabe a responsabilidade de assumir para si a resistência contra os riscos de desaparecimento de seu 121 jul. 1994. abre-se para a expansão dos limites identitários. 1994.Uma voz da diáspora haitiana. p. p. inteligência prática de seres oprimidos que a ela recorrem para contornar um problema de difícil solução.Il m’avait souvent parlé de ses voyages au long cours. Amédée é escolhido por seus compatriotas como líder. connaissait la navigation en haute mer. novo Hermes responsável pela transmissão da nova boa nova: a possibilidade do recomeço em outro lugar e da reconstrução da identidade nas searas da diáspora. 1994.48). p. a prática do desvio constitui uma estratégia de sobrevivência eficaz para se enfrentar uma impossibilidade (GLISSANT.

nous franchissons la durée. de se défaire. VIII. l’esclavage et. effacement d’un peuplement : le génocide des Indiens caraïbes.Maria Bernadette Velloso Porto povo. 2001). ce temps de tourments.184-185). dégradable et pérenne. entre outras manifestações criativas). effacement d’un paysage. vol. malgré ce présent en feu. une interminable histoire de brigandage. opiniâtres et inaltérables galériens. Notre histoire est celle d’une perpétuelle menace d’effacement. aponta para a consciência da fragilidade e dos riscos de invisibilidade e de desaparecimento de uma comunidade. Malgré vents et marées. p. Notre substance est tissée de défaites et de décompositions. n° 15 . de se refaire. as danças. Apoiando-nos em pistas oferecidas por Simon Harel e Jacques Mathieu-Alexandre (2003) em sua análise do romance Passages. que remete não só à fuga de escravos. o candomblé. Et pourtant. Uma passagem em especial ilustra a consciência da fragilidade do ser exíguo. depuis la mort de l’Empereur. no cerne dessa obra. 1994. dilacerado entre o sentimento de impotência e o desejo de sobrevivência: Nous venons d’un pays qui n’en finit pas de se faire . cette éternité dans le purgatoire. mas a todo gesto do resistir que se manifesta como prática cultural (como o vodu. a capoeira. não constituindo uma simples referência física que marcaria seres insulares. Amédée atualiza o exercício do “marronnage” (termo criado a partir de “nègre marron”= “quilombola”). la grande transhumance. Na base da resistência coletiva à decadência de sua cidadezinha e de sua própria dignidade como povo. Coureurs de fond. está a consciência da exigüidade que. podemos dizer que. Ausentes dos estudos 122 Revista Brasileira do Caribe. nous traversons le temps même si le sol semble se dérober sous nos pas. nous continuons à survivre en nous livrant à d’impossibles gymnastiques (OLLIVIER. persévéré sur les flots du temps. Goiânia. dans cette barque putride et imputrescible à la fois. os habitantes de Port-à-L’Écu se mostram atingidos pela sensação incômoda de exigüidade (PARÉ. nous avons franchi cinq siècles d’histoire. Nous avons subsisté.

um sítio importante para se rever sob o ponto de vista identitário e para reler o próprio existir. acadêmicos voltados para as chamadas grandes literaturas. Como foi salientado. Como experiência enriquecedora que leva indivíduos a ultrapassar limites. as produções da exigüidade correspondem à “fabricação original e autônoma de bens simbólicos inéditos” (PARÉ. mesmo sabendo disso. p. 1994. 2001.. Miami aparece na narrativa como um lugar de passagem. Escrita muitas vezes epistolar. na busca de um outro lugar no mundo.Uma voz da diáspora haitiana. uma solução definitiva para seres desterritorializados. sob a máscara do sol que esconde cóleras e violências. a situação diaspórica favorece a atividade da escrita. após certa hesitação e influenciado por uma visão mágica.66). p. pois. capaz de preencher e de superar o hiato geográfico instalado entre seres distanciados fisicamente. Lutando contra o confinamento. 2001. a função da escritura é a “de aumentar desmesuradamente nossa relação com o mundo de modo a nos proteger da pequenez da condição humana e da insegurança que a acompanha” (HAREL & JACQUES. mas que encontram. Apontada como a “América latina na América do Norte” (OLLIVIER. “a escrita e a prática da arte acarretam uma liberação do espaço” (PARÉ. pelo paralelismo estabelecido entre a casa e a escritura. Obra-refúgio ou obra-insular. p. essa cidade se reveste também de um sentido negativo./dez.206). Amédée 123 jul. 2007 .65). uma terra de errância. p. É o que faz Ollivier no romance em pauta. no espaço das letras. 1997. pois. Miami não seria. p. 1994. Espaço de convergência de inúmeras experiências diaspóricas. além de ser “um lugar de esperança e de miséria para os que conseguiram deixar sua terra de miséria” (GAUTHIER.66). ao exercício criativo de práticas de sobrevivência adotadas pelos excluídos da História oficial.97).. 2003. 87). o abafamento e o silêncio. oferecendo aos seres desterritorializados a oportunidade de inscrever seu lugar no mundo nas páginas da escrita. Escrita do trânsito e das transferências culturais que se abrem para os diálogos sempre inacabados da crioulização. fragmentada em várias cidades onde há diversas solidões (OLLIVIER. Mas. p. uma possibilidade é vislumbrada pelo grupo liderado por Amédée como viável: Miami.

inspirando-se na fixidez do mineral ou no modelo da raiz que. Na base de sua decisão está a certeza de que mesmo quando deixamos o país natal. sans but. les grands espaces. não corresponde ao ideal de vida valorizado pelo próprio Émile Ollivier. de outro. devenir une race sans terre. il savait que souvent le crabe qui s’éloigne à une trop grande distance de la mer. quelles que soient ses fins secrètes n’a jamais le temps de revenir.) Mais déjà. VIII. ele nos acompanha. alguns homens se deixariam levar pelos movimentos do devir.. interiorizado nas memórias e paisagens afetivas: Amédée ne comprit pas tout de suíte pourquoi ils devaient partir. vol. nessa segunda categoria. Pourtant. que acabara de morrer.. Amédée. ce jour-là. le monde est constitué de deux grandes races d’hommes : ceux qui prennent racine. a partir dos apelos da polinização. (. sans trajet préalablement déterminés. ils traversent. avec le vent. 1994.86-87).Maria Bernadette Velloso Porto responde afirmativamente à demanda dos que o procuraram como guia. influencé par sa vision. Adeptes de vastes chevauchées.31). Normand était de cette race. 1994. seu próprio marido Normand. Sa part de territoire. empruntent d’aléatoires chemins. ne l’emporte-t-on pas partout avec soi ? (OLLIVIER. n° 15 . Leyda oferece ao leitor pistas valiosas para a compreensão da diáspora: Voyez-vous. como já foi visto. Il aimait ces déplacements à tâtons qui se jouent sur des surfaces illimitées où départs et retours finissent par se confondre (OLLIVIER. p. qui se tissent un destin minéral dans un rêve de pierre et ceux qui se prennent pour le pollen. haveria os seres sedentários. Goiânia. 124 Revista Brasileira do Caribe. Ils sautent dans des voiliers de hasard . quitter le pays où ils étaient nés. Identificando. avait changé d’avis. Um dos trechos mais poéticos do romance Passages referese a uma reflexão da personagem Leyda a respeito de duas formas de se estar no mundo: de um lado. p.

Sinônimo de fecundação e de renovação. portanto. hedonista e místico das « nourritures terrestres » gozando do vento espalhando sementes. um caráter não definitivo. a diáspora é. segundo o autor citado./dez. 141-142). a cultura não é somente enraizamento. o que corrobora o pensamento de Michel Maffesoli. 2007 . As que caem bem perto do tronco não têm nenhuma chance de crescer e de desabrochar. como sinônimo de confinamento. mas também desprendimento. quanto mais longe nos encontramos da “terra dos mortos”.. já que a imobilização.. além de se morrer de fome. Referindo-se à metáfora da raiz. pode-se morrer de tédio ou de desespero (MAFFESOLI. opondo-o a Barrès que pedia aos homens para se enraizarem na terra e nos mortos. Segundo a perspectiva do exílio visto como “détour”. pois. Gide. 1997. 1997. da família. permite. 1997. diferentes personagens conhecem de perto tal experiência. 1997. p. No romance Passages. já que. A vivência do exílio. p. Amédée e Brigitte encaram a ida para Miami como recurso temporário. p.Uma voz da diáspora haitiana. segundo a lógica diaspórica. convite para a novidade e para a aventura no campo dos sentidos – transitórios como a própria existência–. Para Maffesoli. Não se poderia falar melhor da força do desprendimento que cresce longe das raízes.19). p. Por isso.22).39). p. um enriquecimento cultural. 1997. p. atribuindo-lhe. Apenas permanecerão vivas as plantas que jorrarão longe da árvore semeadora.142). 1997. “só havia partida na perspectiva de um retorno 125 jul. tem um efeito mortífero (MAFFESOLI. em geral. a passagem abaixo se aproxima da citação de Ollivier: Fazer uma leitura contemporânea de Gide. da terra dos mortos (MAFFESOLI. do ninho. abrir-se para o outro” (MAFFESOLI. para quem existir significa “sair de si mesmo. conforme foi apontado. palavra que recobre diversas situações.28). Daí se explica a razão que leva Maffesoli a acreditar na necessidade de se empurrar para longe as fronteiras (MAFFESOLI. mais temos acesso a riquezas imateriais (MAFFESOLI. Para eles. Apenas as sementes que vão longe têm oportunidades de frutificar.

não realiza seu sonho de voltar ao país de origem. une douleur intense. situa-se paradoxalmente entre a busca de um impossível acordo consigo mesmo e um movimento de felicidade. 1994. p. Filha de sírios que emigraram para Cuba e depois se instalaram nos Estados Unidos. Amparo fixa sur Leyda un regard mouillé : “ Jamais plus je ne pourrai vivre à La Havane” (OLLIVIER. o enorme hiato criado entre ela e sua terra de origem. une grande déchirure.113). um desejo de viver (OLLIVIER. preenchendo o vazio de sua vida de modo a parecer muito ocupada. Cela avait suffi pour constater que la magie avait quitté sa ville. alimentou o desejo de rever Cuba. n° 15 . como se buscasse compensar a desorientação de seus dias. viveu um tempo com um chileno e se dedica a manifestações contra o racismo e a utilização de armas nucleares. 1994. ser dos trânsitos por excelência.Maria Bernadette Velloso Porto enriquecido de mil perfumes. derrière ce nouveau masque. Na verdade. Elle n’avait eu qu’une semaine. ela vive no Canadá há cerca de dez anos. Mas. por mais que ela se esforce. 1994. Dividido entre duas forças – o quimérico ressurgimento de seu passado e o esquecimento de suas raízes (OLLIVIER. p.176).112). Trata-se de Amparo. p. peut-être auraitelle découvert. 126 Revista Brasileira do Caribe. Si elle était restée plus longtemps. 1994. p. de mil odores do alhures” (OLLIVIER. ou à elaboração de petições pela Nicarágua. p. descobre a impossibilidade do retorno. VIII. Para reforçar a inviabilidade do retorno à origem. 45). Também Normand. Assim. 1994. Goiânia. outro personagem migrante conhece a frustração ao fazer uma viagem a seu país. Brigitte manifesta o desejo de voltar a Port-à-L’Écu para ser enterrada na sua língua (OLLIVIER. “anda em círculos” (OLLIVIER.42). Ora. 1994. vol. intime. mas ao empreender uma viagem ao seu país natal. diante do fracasso da empreitada chefiada pelo marido. como já foi dito. P. préservé de la ville longtemps imaginée. tentando se enraizar em projetos de melhoria do mundo.229). Durante muito tempo. le visage secret. seus atos se revelam incapazes de garantir uma mudança na ordem das coisas e de lhe assegurar uma nova meta de vida. Son séjour à la Havane. Tendo contínuo contato com imigrantes latinoamericanos.

a origem nada tem de paralisante.. pois há sempre algo no meio. 1991. entre o presente e lá onde tudo começou (HALL. 2003. E a imagem de seu país natal não passa de uma das versões possíveis de sua terra. que forçará sua identidade a efetuar a viagem que ela escamoteia. antes. “Ora. necessariamente. Assim como Amédée e Normand. 2007 . 1991. por todos nós. segundo Daniel Sibony. abalar seu suporte de ser idêntico a si mesmo. p.34). um convite para se ultrapassarem fronteiras e para se descobrir que é possível desejar (em) outros lugares. a noção de pátria confundindo-se com uma construção provisória e inacabada. p. destaca-se a sensação familiar e moderna de “des-locamento”. Tratase ainda da dificuldade de nos situarmos de fato em um lugar preciso e da consciência de que não nos é facultada a possibilidade de voltar para casa. Mas onde é o início de tudo? Não somos todos migrantes em trânsito permanente que nos leva a recomeçar sempre? No caso da personagem Amparo.Uma voz da diáspora haitiana. já que. p. sendo. Amar é desejar encontrar o ser que possa abalar sua memória inerte para lhe dar vida nova. Amparo parece ilustrar o pensamento do autor do livro Entre-deux: l’origine en partage: “Ora. o exílio é freqüentemente uma viagem que não sabe encontrar seu retorno” (SIBONY. Lido a partir dessa concepção de origem. 27). a reencontrar sua carência vital e sua distância em relação a ela mesma (SIBONY. até então inerte ou cansada de ser igual a ela mesma.55). Como “impulso em direção a outros lugares” (SIBONY. 1991. embora procure se fixar em projetos coletivos. experimentada. viajar para senti-la.. aí está a própria procura do amor”. que não precisamos. o próprio presente nada lhe oferece de estável. em nosso tempo. p. o amor equivale a uma procura de renovação identitária e de revitalização da memória graças ao contato com a diferença e o alargamento de fronteiras. No exemplo acima. reconstruída sem cessar por sua memória.57) 127 jul. No nível cultural como na experiência subjetiva./dez. encontra-se o valor da viagem como busca e requisição da memória.

Associado às idéias de hiato. Seres 128 Revista Brasileira do Caribe. Cabe-nos aqui aprofundar a leitura do amor em tempos de exílio. para personagens desterritorializados. o que contribuía para uma vida de recluso em uma cidade (Montreal) que se tornara uma prisão para ele (OLLIVIER. Embora não dominem um idioma em comum. Identificando. à história entre a cubana Amparo e o polonês Janush. nos territórios da paixão e/ou da afetividade. p.Maria Bernadette Velloso Porto Não é por um simples acaso que. corpo tatuado pelo já vivido. Normand tinha “uma vida em suspenso” ao longo dos últimos dez anos durante os quais sofria de grave doença renal. mesmo efêmeras. 2004. perda e fragmentação. os amantes exercitam o gesto de se enraizarem. no romance Passages.86). 1994. do outro lado da vida” (OLLIVIER. não-lugar próprio da supermodernidade aos olhos de Marc Augé (1994). Amparo e Normand se encontram em um aeroporto. Ao contrário do lugar. na experiência amorosa. n° 15 . p. em particular. a disponibilidade para acolher outras histórias e outras memórias culturais” (PORTO. conseguem se comunicar pela criação de uma terceira língua. Conhecendo um duplo transplante (identitário e cirúrgico). Assim. na pele de outrem. “O importante é descobrir no corpo-texto do(a) amante.68). como se o amor fosse o ato inaugural de uma outra origem. Quanto a Amparo. e de identificarem. Normand se identifica a Montreal. o espaço para escreverem outras marcas de parcerias. que é histórico e supõe a idéia de um vínculo. cidade de outros seres transplantados. ainda que de modo fugaz. a oportunidade do encontro – encontro do outro e de um outro lugar de referência identitária. o encontro desse casal equivale a uma possibilidade de neutralizar sua situação diaspórica. a representação do amor no contexto diaspórico remete. seu cotidiano nada lhe reserva de concreto e de promissor. vol. VIII. 1994. A coincidência de trajetos existenciais parece reger o encontro dos dois amantes: vindo “de longe.69). o exílio como ruptura é compensado pela vivência amorosa que constitui. já que suas relações são superficiais. Goiânia. um modo especial de suprir o vazio. ao efêmero e ao não-estabelecimento de relações efetivas. p. os não-lugares de nossa época se associam ao trânsito. No romance Passages.

p. experimentam. Mergulho vertiginoso no fundo de si mesmo. Janush était de ces êtres sensibles qui captaient intuitivement toutes les manifestations de la vie. da fronteira. baragouinait le français.Uma voz da diáspora haitiana. sob o modo metafórico. a possibilidade de entendimento entre dois mundos./dez. como na vivência da diáspora. il pouvait se livrer sans restriction à ses activités de peintre. Colocando em prática uma espécie de sacralização do amor. os dois personagens apontam para o exercício maior dos diálogos interculturais: Un jour à la cité des Arts. por meio do jogo amoroso. 2007 . o exercício do diálogo. ou do outro lado do espelho. de impossibilidades. apesar de todos os desafios e riscos. Feita de silêncios. Le silence fondait leur relation.128).. revisitado pela perspectiva de Pentecostes que assegura a comunicabilidade a despeito das diferenças. Leurs échanges se situaient en deçà ou par-delà les langues.. atualizando. 1994. os amantes transformam o quarto do hotel em Paris em uma espécie de templo. eles tiram partido da capacidade tradutória. constituindo “a busca desvairada 129 jul. de não-dito.. Elle ne comprenait que l’espagnol et l’anglais. como se exercitassem. dans l’affrontement désespéré de deux impuissantes paroles en quête de vérités (OLLIVIER. seguindo diversos roteiros em que adotam várias identidades. a experiência maior da alteridade. Como se exprimissem. Il parlait polonais. Por isso. Ils avaient fini par créer une langue médiane mâtinée de gestes et surtout de silences. elle avait rencontré Janush. os dois amantes vencem qualquer impedimento. Aucun des deux ne parlait la langue de l’autre: typique dialogue Est-Ouest. Il était polonais.. para além de suas opacidades culturais. o amor se mostra capaz de abalar as certezas identitárias. onde assumem diferentes papéis. inúmeros deslocamentos e trajetos inéditos. bénéficiaire d’une bourse du gouvernement français. Assim. Qu’importait ce manque! Une langue commune n’est pas absolument indispensable à la prise des langues et l’emmêlement de deux vies. sua linguagem parece ilustrar a recuperação do episódio bíblico de Babel.

visitions des pays de légendes et de merveilles : cratères éteints de la cordillière des Andes. passagens.Maria Bernadette Velloso Porto de uma parte de si mesmo. mourir sous les toits de cette mansarde de l’avenue de Wagram à Paris. à luz da experiência diaspórica. Certains matins. 1994. o amor os leva a se despirem de qualquer sugestão de fixação. Exprimindo-se criativamente em situação de fronteiras culturais. à New Delhi ou à Buenos Aires. isto é. descobrem-se em um lugar diferente da cama. Oiseaux migrateurs. le lendemain à Singapour. conforme foi visto na citação de Sibony o suporte identitário dos dois personagens. como se o movimento de seus corpos os levasse a um outro continente.p.1991. define-se como reinvenção permanente e experiência do heterogêneo. após uma noite de amor. já que os parceiros investem na contínua renovação de papéis e de lugares 130 Revista Brasileira do Caribe.129). com a unidade narcísica. faisions escale dans des contrées prodigieuses. da pluralidade e da hibridação. VIII. “não combina com o um-só. Vivido. pois. Ele convoca o entredois. Janush et moi nous nous réveillions sur un point différent de la planète. ‘viagens’(. o pacto amoroso aposta na estranheza. n° 15 . Nous revenions sur les ailes de midi. convidando-os para exercitarem o próprio simbólico que. vol. No teto do quarto de hotel parisiense. lovés dans l’été de notre édredon (OLLIVIER.)”(SIBONY.. Kilimandjaro aux neiges fumantes. p. Por isso mesmo. o amor não poderia se manifestar em contexto marcado pela idéia de unidade: como falta e busca. no deslocamento.57). de acordo com Daniel Sibony. reinventando seu cotidiano. Orient imaginaire. Abalando. Goiânia. nous prenions le petit-déjeuner à Sidney. l’aventure commençait dès le petit matin. 1994. há um grande mapa-mundi e a cada novo dia. há muito esquecida” (OLLIVIER. p.131). nous traversions plusieurs fois le globe.. Trata-se ainda da vivência do imprevisível e da renovação cotidiana da disponibilidade para o gesto de partir: Avec Janush. Le ciel de notre lit figurait une carte du monde et chaque jour. eles imaginam que viajam a cada noite.

associada às expectativas de um ir além. um grande lirismo se destaca nessa obra. Como salienta Louise Gauthier (1997. odores. gostos e ritmos e à liberação do corpo grotesco próprio da carnavalização rabelaisiana. Valendo-se das promessas da diáspora. em que diversos níveis lingüísticos coabitam sem hierarquias. de paisagens e de manifestações culturais que remetem a um “dépaysement” criativo que nada tem de exótico. o que reforça a paratopia de seres desterritorializados. o livro em questão coloca na paisagem transcultural montrealense a explosão do orgiasmo carnavalesco caribenho.. Cabe agora ressaltar que o prazer da leitura do romance Passages está diretamente ligado à representação das movências: o leitor é chamado para se deslocar dos limites de seu mundo. p.Uma voz da diáspora haitiana. como todo desejo – de “escreverem” suas histórias graças à travessia de línguas e de memórias corporais e culturais. pertence a um domínio mais culto do francês. surpresos diante da manifestação dionisíaca da diferença em seu território. Se na narrativa da viúva de Amédée. engajando-se em uma escrita fundamentada na hibridação. Isso explica a cenografia do ritual amoroso inventado por esses personagens que elegem a vivência amorosa (e aqui pouco importa se se trata de amor ou de paixão) como espaço significativo da condição diaspórica. identificam-se a sabedoria ligada à experiência presente em provérbios haitianos e o ritmo próprio do conto e da oralidade. 2007 . na riqueza da não-coincidência. Assim../dez.71). graças à inclusão da multiplicidade de cores. Espaço da polifonia e da pluralidade. Atenta aos excessos característicos do carnaval. o personagem Leyda evoca esse momento expressivo do encontro de culturas e seus efeitos sobre os quebequenses. identitários. Émile Ollivier imprimiu em seu romance as marcas da Poética da Relação proposta por Édouard Glissant (1990). a do personagem Régis – que tece as ligações entre diversas histórias. ela registra o 131 jul. Hibridação de registros de língua. para empreender uma viagem em um universo marcado pela riqueza de imagens e de metáforas inesperadas. Na reconstituição de suas memórias elaboradas em Montreal. precisam levar adiante seu desejo – sempre movente.

de vanille. vieux bidons d’essences. une foule criant haut et fort. de clou de girofle. de piment. Et les odeurs! Des matrones. femmes-tortues. de basilic. rubans de dentelles. Goiânia. steelbands d’un jour. rabordaille. une horde de corps que des coulées de sueur font luire au soleil . du bruit qui soudain devient rythmes. VIII.. des punchs exotiques. un coup pour toi. méringue. serpentins qui deviennent cerceaux emmêlés. royaume de testicules.38-39) Na lógica da carnavalização. sandwichs à l’avocat. des assauts de fantaisie. de phallus aux proportions gigantesques. après avoir fait le tour du monde. n’était la présence massive et rassurante de la flicaille prête à toute éventualité (OLLIVIER. d’ail. rythmes célébres qui. calypso. casseroles ébréchées.) Et l’on tape sur tout ce qui peut résonner : bouteiilles vides. reggae. n° 15 . a manifestação do corpo grotesco 132 Revista Brasileira do Caribe.Maria Bernadette Velloso Porto transbordamento de limites. tout cela vibrait sous le regard médusé des archéo-Québécois qui auraient pris panique. cette partie de la ville devenue soudain folle (. bouquets de canelle . démêlés. incitant à des déhanchements. plantes plantureuses aux yeux rouges de plusieurs veilles de laborieuses préparations. une cacophonie. plantes parvenues à maturité sans que l’on puisse en préciser l’âge. échouaient là. de fruits de la passion: irruption de la Caraïbe des origines . pulsions sauvages de la violence lascive des tropiques. femmes-libellules. de trous. dans ce parc de Notre-Dame-de-Grâce. de fourreaux.. distribuent victuailles et rafraîchissements . dá-se uma série de transformações: a revelação do mundo às avessas. de muscade. un coup pour moi. cercles de femmes. Et l’on voit passer des bipèdes obscènes sur des plates-formes mobiles. a dessacralização da cultura oficial. femmes-lézards. vol. assoiffés de fentes. défilés de couples mimant des scénes d’accouplement. p. renovada pela irrupção dos signos da alteridade: Leyda gardait en mémoire l’image de toutes les couleurs de peaux se côtoyant dans une débauche de costumes bigarrés. pâtés relevés de poivre. 1994. a transgressão ou a travessia das fronteiras da ordem cotidiana. masques.

1994. e a presença dos excessos associados à enumeração. Todavia.. Por uma espécie de crescendo. em formas diferenciadas de identidade. atinge a todos. cultuados em seu país natal. p. no Quebec. abalada com a desmedida da festa carnavalesca. o devir animal: revestindo-se de atributos de libélula. ao longo da qual o improviso é permitido. recusando-se a reconhecer uma concepção simplista de pertencimento. por mais que a identidade esteja ligada aos movimentos do devir. No caso de Ollivier. o carnaval caribenho reinventado em uma metrópole da América do Norte acena com as promessas de renovação e de metamorfose. Isso indica o caráter de duplicidade identitária do autor que. Longe de se fundamentarem numa visão folclorizante da diferença. e da sexualidade desenfreada. insinuando que toda essa algazarra é apenas provisória. 2003. nossa relação com o passado e com a origem é sempre passível de releitura e nos permite atestar a veracidade de uma afirmação do romance: “(. p. aprofundou sua experiência do entre-dois. com seus excessos e transgressões de limites habituais. 240).. as referências a manifestações culturais do Haiti desempenham sempre um papel relevante na obra de Émile Ollivier. todos nós nos originamos e falamos a partir de “algum lugar” (HALL.. lagarto e tartaruga. foram bordadas imagens do panteão católico e de divindades do vento e do mar. Entretanto. Assim. a euforia contagiante da festa. a polícia permanece de sobreaviso. investindo.. as mulheres conhecem. mesmo que por momentos. ainda que debaixo de fantasias e disfarces.Uma voz da diáspora haitiana. comprova que. 2007 . os corpos individuais encontrando seu prolongamento no corpo social “contaminado” pelos apelos caribenhos. mantenedora da ordem. na vela do barco que levaria alguns haitianos a Miami.83). mostra-se disponível para incluir em seus referenciais identitários valores e 133 jul. elas parecem brincar de outras possibilidades de ser e de estar no mundo. mesmo localizados. Seja como for.) o ser humano não pára de se inventar” (OLLIVIER. a cerimônia vodu realizada a bordo do barco. Sugerindo a dupla inscrição identitária do autor./dez. a vivência da religiosidade por parte de personagens é marcada pelo sincretismo. No âmbito de jogos identitários característicos do carnaval. Desse modo.

(org.). Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. 2003. les maux du pouvoir : des romanciers haïtiens de l’exil. Da diáspora : identidades e mediações culturais. distinção e ruptura. Montréal : Les Presses de l’Université de Montréal. GLISSANT. Brasília: Representação da UNESCO no Brasil. HALL. São Paulo: Papirus. M. É. BOUCHARD. S. Por sua vez. GLISSANT. Identidade. La mémoire sans frontières : Émile Ollivier. « Littérature et culture nationale du Québec : le clivage culture savante/culture populaire ». Montréal : Presses de l’Université de Montréal. M. JONASSAINT. Z. insuficiência e ausência que levam o ser humano a largar as amarras de um porto seguro das certezas para se deixar envolver pelos movimentos do devir e pela expansão diaspórica. 2003. & JACQUES. “L’écrivain témoin : déplacement. Ottawa : Conseil International d’Études Canadiennes. numa via de mão dupla enriquecedora. Introduction à une poétique du divers. Paris: Éditions de l’Arcantère . ela também pode ser concebida como falta. J. GAUTHIER. VIII. 1990. transferts culturels et l’expérience de l’habitabilité dans les romans d’exil d’Émile Ollivier”.. 1999. Les pouvoirs des mots. passagens. Bibliografia AUGÉ. Naïm Kattan et les écrivains migrants au Québec. 1997. P. Fronteiras. esse se viu transformado com as vozes caribenhas. Campinas. n° 15 . G.Maria Bernadette Velloso Porto produtos culturais do país que o recebeu. 2000. L. vol. 1997. Montréal : Boréal. É . a despeito de alguma resistência. BAUMAN. Langagement : l’écrivain et la langue au Québec.. 134 Revista Brasileira do Caribe. Sainte-Foy (Québec) : Les Presses de l’Université Laval. E se a idéia de identidade supõe limites. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. É. Poétique de la Relation. S. Goiânia. 1986. 1995. In : Revue Internationale d’Études Canadiennes n° 27. 1994. Le discours antillais. exclusão. GAUVIN. Paris : Seuil. HAREL. Paris : Gallimard. 2000. 2005. CASANOVA. paisagens na literatura canadense. Paris : Seuil.In : PORTO. Niterói: EDUFF/ABECAN. GLISSANT. La République Mondiale des Lettres. L. Belo Horizonte: Editora da UFMG. M.

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Antilleanness. Negritude Resumo Este trabalho representa à subjetividade antilhana a partir das poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. da Filosofia de Jean-Luc Nancy e da concepção mais contemporânea de *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 137 Revista Brasileira do Caribe. a new perspective towards the future encourages to re-evaluate concepts such as Negritude. Goiânia. vol. Antilhanidade. interview with Brazilian poet Paula Glenadel. se reedita e deixa mostrar a outra face da resistência. Creoleness and creolization. The acknowledgement of this subjectivity leads to a reformulation of the way of thinking and acting. Crioulidade e Crioulização. O diálogo se dá pela via da Psicanálise de Jacques Lacan. Glissant. Na perspectiva de uma voz que inicialmente surge como expressão inconsciente do coletivo e ainda sobredeterminada pelo significante do colonizador. Keywords: Césaire. Literature.A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant Kátia Frazão Costa Rodrigues Abstract This study focuses on the exploration of the Antillean subjectivity as it is conveyed in the poetry by Aimé Césaire and Edouard Glissant. allowing thus the dialogue between differences. sob um olhar mais paciente e também voltado para o futuro. convite para se repensar conceitos como Negritude. From the perspective of a voice which initially emerges as an expression of the unconscious of the collective and still over influenced by the legacy of the colonizer. Identities. VIII. 137-164. This analysis will draw on the theories of Jacques Lacan on Jean-Luc Nancy´s philosophy and the most contemporary conceptions of identity. but on a different turn. 2007 . a way of political and social compromise with the progress of humanity. n° 15. mas que. num movimento outro.

assim. vol. onde traços se repetem e. Goiânia. à reformulação do pensar e do agir humano. Já a palavra sujeito. seus poemas parecem remeter a um espaço comum. designa o substantivo feminino que concerne à qualidade ou caráter de subjetivo. Negritude Pretendo suscitar interrogações acerca de uma possível subjetividade antilhana a partir do diálogo entre as poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. possibilitando. Palabras Claves Césaire. conforme 138 Revista Brasileira do Caribe. sem dúvida. O reconhecimento dessa subjetividade leva. em duplo gesto. Identidades. pessoal.Kátia Frazão Costa Rodrigues identidade. El diálogo se da por la vía del psicoanálisis de Jacques Lacan. Negritude Resumen Este trabajo es una investigación sobre subjetividad antillana a partir de las poesías de Aimé Césaire y de Edouard Glissant. invitando para repensar los conceptos Negritud. forma de engajamento social e político com o efetivo progresso da humanidade. Es la perspectiva de una voz que inicialmente nace como expresión del insconsciente colectivo y ainda sobredeterminada por el significante del colonizador pero que en un movimiento “otro” se reedita y deja mostrar la otra cara de la resistencia sobre una mirada más paciente y dirigida para el futuro. aqui entrevista. Palavras-Chave: Cesáire. A subjetividade. particular ou que pertence unicamente ao pensamento humano e é suscetível de variar em função da personalidade de cada um1. Literatura. forma de compromiso social y político con el efectivo progreso de la humanidad. VIII. poetisa brasileira. produzem movimentos de fechamento e de abertura próprios de uma existência híbrida e resultante do processo de ser singularmente plural. Glissant. entrevista en la poetisa brasileña Paula Glenadel. permitiendo así el diálogo entre las diferencias. individual. El reconocimiento de esa subjetividad lleva sin duda a la reformulación del pensar y del actuar humanos. adjetivo do latim subjectivu que significa: relativo ou existente no sujeito. antillanidad. o diálogo entre as diferenças. pois embora esses autores martinicanos se inscrevam na Literatura de forma particularizada. n° 15 . Literatura. criollidad y criollización. entrevista em Paula Glenadel. de la filosofia de Jean-Luc Nancy y de la concepción más contemporánea de la identidad. Glissant.

ainda. a escritura martinicana está diretamente ligada à questão identitária e esta ainda parece ser a grande problemática do antilhano em geral. apostando na existência de um alguém. convocar à cena a voz que se apresenta poeticamente como “eu”. iniciado pelo marronage3. Não foi senão a partir dos primeiros cronistas. entrevista a partir do encontro dessas potências em diferença ou. O autor deixa entrever. Cito Pépin. Investigar a subjetividade antilhana é. no ponto intersecional das poéticas de Césaire e de Glissant. escritor nascido em Guadalupe: “Nous ne sommes pas que des descendants de l’Afrique. refere-se ao súdito. Pépin também nos dá pistas de que é pela palavra. antes de tudo. em outras vozes do plano da composição. como adjetivo. muitas vezes interrompida e consignada na memória crioula. ainda que instantaneamente. As investidas em favor desse resgate identitário. Ademais. No entanto. pela oralidade do conto e pelas práticas culturais.A construção da identidade no Caribe. 2007 . Nous portons tous en nous ces parcelles d’identité qui nous constituent en tant qu’Antillais et Caribéens créoles2”. um alguém. àquele que se sujeita à vontade dos outros. escravizado.. que 139 jul. reconhecendo-se.. tamanha é a sua importância no processo de reconstrução sócio-cultural e histórica das Antilhas. o termo sujeito designa o indivíduo indeterminado ou cujo nome se quer omitir. que deve ser redescoberta a qualidade desse eu enunciador. vem do latim subjectu (posto debaixo) e. A subjetividade é. que a Literatura Antilhana possui uma dimensão muito maior do que o universo restrito da Martinica. assim. Les composantes sont diverses. pesquisa de mesma fonte. este pode se legitimar como seu fiel representante. obrigado e constrangido ou. Cabe ressalvar. Como substantivo. que toda essa literatura mestiça está presa não somente ao ocidente. cativo. como o padre Labat e o padre do Tertre. primeiramente. mas à palavra exterminada dos indígenas e amordaçada dos escravos africanos. que./dez. muitas vezes ficaram sem registro. materialização na escrita de uma potência que não cessa de se recarregar. nesse caso. esbarra. assim. assim. ao redesenhar a trajetória de um devir sempre descontínuo.

dentre elas. na busca de uma poética própria. A eles se segue a escrita duduísta. que liderou essa empreitada identitária. igualmente presa aos padrões ocidentais. é formulado em favor dessa contraposição. Goiânia. Surge. então. Entretanto. como é chamada por Pépin. deparando-se com algumas barreiras. por isso. igualmente dicotômica e marcada pelo exotismo. como afirmou Pépin. vol. Desde sempre atraído pela questão identitária e querendo ultrapassar as barreiras essencialistas criadas 140 Revista Brasileira do Caribe. ora os negros. de fato. esses “brancos da terra”. A “cria da Negritude”. acusa Césaire de essencialista. a então chamada “literatura assimilacionista” também não chegou a apresentar uma dimensão histórica e social. ainda nos anos 60. retratar a realidade antilhana. dentre outras razões por fazer uso da língua francesa. Desse cenário evolutivo nasce. a da própria língua. conquistou rapidamente um grande número de adeptos. Era a escrita dos primeiros mulatos antilhanos assimilados. a mestiçagem. que também se revela como problemática. assim. Ao denunciar o falso monolingüismo e a pureza das raças sem evidenciar. Mas. O conceito de “Crioulidade”. nos anos 80 do mesmo século. foi Edouard Glissant. Cheia de clichês. a “Negritude”. a escrita regionalista. Segundo Confiant. quem primeiro explorou mais profundamente a unidade. contudo. escreviam em francês e. tão distante e estrangeira. sobretudo. No projeto de uma concepção unificada do povo antilhano. movimento que se inicia nos anos 30 do século passado e marca uma consciência mais desenvolvida em favor da dignidade negra.Kátia Frazão Costa Rodrigues se inaugurou timidamente uma sondagem. a crioulidade acentua ainda mais as diferenças culturais e antropológicas. vista como eurocêntrica e dominadora. VIII. muitos deles seus futuros e acirrados críticos. a existência de uma matriz cultural fundamentada na plantação da cana e na escravidão faz persistir a idéia do “um” em relação ao sujeito antilhano. n° 15 . assinado pelos martinicanos Raphaël Confiant. Jean Bernabé e Patrick Chamoiseau. em seus anseios linguageiros pela cultura dominante. a crioulidade apela para a consciência de uma etnia plural. porque designa ora os brancos nascidos nas colônias. Césaire. não conseguiram.

A construção da identidade no Caribe. Chamoiseau chega mesmo a afirmar que não é possível falar em Literatura Antilhana antes de Glissant e que tudo que o antecede não passa de uma pré-literatura. A identidade não mais se concentraria no ser. Glissant define as diferentes culturas como formas mestiças que se entrecruzam de maneira dinâmica num processo de “Crioulização”. Dessa forma. que se fundamenta no diverso. longe de serem consideradas como movimentos isolados e. o conceito de “Antilhanidade”. a partir da observação dos traços comuns das várias culturas caribenhas. provocados pela globalização. assim. conceito articulador da “Poética da Relação”. aí. apesar de diversa e sem consciência de si mesma. assim. é o próprio Glissant quem atualiza a noção de antilhanidade. que busca. Entretanto. Por volta dos anos 1980-1990. Para ele. e também pela migração e maior contato entre os povos. pela Negritude. com o monolingüismo e com a identidade-raiz. Afetado pelas idéias de Deleuze e Guattari. possuiria uma identidade própria. as diferenças. mas como múltipla e decorrente da relação com o outro. acerca da oposição raiz-rizoma./dez. no mesmo. o autor desenvolve o conceito de “Identidade-rizoma”. as tentativas de ressignificação do sujeito antilhano representam as muitas etapas da construção de uma subjetividade híbrida que se desenha no entre-lugar de algumas falas. com o discurso hegemônico do ocidente.. onde interagem o cultural e o lingüístico. talvez seja mais interessante pensar que. na aceitação do outro e de suas diferenças. incluindo-se.. até contraditórios. o devir crioulo passaria por essa conscientização. o resgate da identidade antilhana só é possível pela ruptura com a tradição baseada na filiação. Glissant desenvolve a idéia de uma “identidade regional”. fazendo ampliar as fronteiras não somente da Martinica. Segundo o autor. a obra de Césaire. A identidade passa a ser concebida não mais como regional. mas no “ser com”. a universalização do devir. por 141 jul. mas também das Antilhas e da América em geral. Elabora. confirmando a existência de uma cultura crioula que. o pensamento de Glissant se estende às problemáticas humanas. 2007 . por vezes. desrespeitando. Em 1995.

Kátia Frazão Costa Rodrigues aproximação e distanciamento. também. p. por exemplo. invocando atenção para questões morais que colocam em jogo valores como dignidade. l’ 142 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. feita por Glissant na sua obra Poèmes 4. Essa escrita marcada pela emoção apresenta. 14). de Aimé Césaire. silencieusement. un vieux silence crevant de pustules tièdes. do drama de todo negro da história da humanidade. p..24). como também. A descrição do sofrimento causado pela escravidão. vol. / l’affreuse inanité de notre raison d’être” (CESAIRE. gestes imbéciles et fous pour faire revivre l’ éclaboussement d’ or des instants favorisés. 1994.une vieille misère pourrissant sous le soleil. p. “.10). Daí a abundância de interrogações. le pain. et le vin de la complicité. Cito: Cette argile à nouveau remue! Serait-ce que l’oiseau guide le ciel vers une source ? Serait-ce. le vin. um cunho pedagógico. A interpelação em Glissant tenta atingir a cristalização causada por um real que ainda resiste à palavra. honra e respeito. incitando à reflexão. Cito Glissant: “Et parmi les chants de midi / Ravinés de sueurs triomphales / Sur un cheval vient à passer / La mort demain la Pitié” (GLISSANT. numa verdade exterior. le sang des épousailles véridiques” (CESAIRE. buscando. não somente em favor de uma maior consciência acerca do negro colonizado. 1994. dá pistas de uma incontestável proximidade com aquela que se desenhou no Cahier d’ un retour au pays natal5... inicialmente. n° 15 . très lointaine. le pain. le cordon ombilical restitué à sa splendeur fragile.. 1965. Mas foi Césaire quem primeiro denunciou essa marca indelével da violência: “. sacudindo a consciência. e por extensão. caminho possível para uma atitude menos passiva diante dos acontecimentos que envolvem a própria vida. VIII. como diz o poeta da negritude. A escritura antilhana tem a marca de um apelo que se funda.

agité comme une gare de populations végétales. p./dez. 1965. à peine devinant tout ce remous d’ étoiles et de lierres.. et l’ébloui de vos brisures.. le souvenir encourt les tournoiements de l’ arbre.. ocupando também o lugar do outro. 15-16). para saudar Edouard Maunick”. son ressac tumultueux ? Nul n’ avoue. profuse en ce langage.” (GLISSANT. (GLISSANT. 2007 . p. que cette enfance soit la vieille d’ un bivouac. Glissant responde.. quando diz: Si nous voulons réappareiller l’ abeille dans les campêchiers du sang Si nous voulons désentraver les mares et les jacinthes d’ eau Si nous voulons réfuter les crabes escaladeurs d’ arbres et dévoreurs de feuilles Si nous voulons transformer la rouille et la poussière des rêves en avalanche d’ aube Qu’ es-tu. qui fume sur la ville sa suée de terres.1965. faites mystère ainsi que lui de ce silence où bruit la ville. faites-le prose de l’obscur. Cito: “Durant que vous dormez dans cette plaine. Lui ne craint plus le sentiment (de dire « je » dans cette terre). O uso dos verbos no modo imperativo já atesta o desejo de guiar impulsionando essa multidão que. Faitesle feuille de vos mains. indifférente et soudain calme dans le fruit. ausente de todo trabalho.. mais l’ emblave et l’ ensemence. Toute prose devient feuille et accumule dans l’obscur ses éblouies.. da mesma forma. Et vous.15). nul ne peut. ao mesmo tempo em que interroga.A construção da identidade no Caribe. Toi qui comprend ce qui disent les îles Et qu’ elles se communiquent dans la marge des mers et dans le dos des terres dans leur jargon secret d’ algues 143 jul.. ensaiar a instrução de um possível caminho para o resgate identitário. ao traçar a estratégia para a resistência. Césaire parece. est-ce le coeur. no poema “Palavras de ilhas. 1965. permanece “como uma baía!” (GLISSANT. et plus haut son sang.faites-le flamboyance de l’indécis.. 13-14) Mas. embarquement des rives de la neige vers une foule incendiée ? Ou le coeur.

deixando-se representar por cores sombrias que escrevem simbolicamente o desencanto: 144 Revista Brasileira do Caribe. a cada pincelada. um novo traço dessa dura realidade se revela. p. VIII. p. Nos versos abaixo. Glissant o faz pela pintura da sua inversa miséria. n° 15 . “de uma multidão que não sabe fazer multidão”6. 24) Essa expressão cheia de predicações compõe. E. que se deixa abater e. náufraga. como diz Césaire. revelando uma escritura marcada pela antítese branconegro. 508). deriva.Kátia Frazão Costa Rodrigues Et d’ oiseaux Qu’ es-tu comparse du feu et du flux et du soufle (CÉSAIRE. ao tentar desmistificar o exotismo das Antilhas. de fato. Goiânia. pouco a pouco. A mesma ambigüidade se dá em relação à descrição da Martinica. vol. quando. A escrita hesita entre o desejo de ser o seu próprio modelo e a missão de um testemunho coletivo acerca do passado traumático que seria esquecido sem ela. 1965. o cenário do drama. expressa na passagem perversa do outro por essa ilha lastimável de uma gente passiva ou. Seu referencial de verdade está no passado e aponta para a consciência de que algo precisa ser empreendido. completamente muda. pelo menos como tal. 1994. pois esse tempo distante é constituído de matéria fictícia e remete a algo que não existe mais ou que nunca existiu. Glissant parece assumir a mesma fala que um dia proferiu o poeta “portavoz das bocas das desgraças que não têm boca nenhuma”7 ao dizer: L’ île entière est une pitié Qui sur soi-même se suicide Dans cet amas d’argiles tuées O la terre avance ses vierges Apitoyée cette île et pitoyable Elle vit de mots dérivés Comme un halo de naufragés A la rencontre des rochers (GLISSANT.

Ce vent n’ est plus l’arène où s’ ébattent les pluviers ! Jamais plus. se desajusta. plus que l’ aurore dans les chambres. ô jamais n’ ira l’ aurore disant l’aurore. a permanência. É interessante destacar também que tanto Glissant quanto Césaire demonstram a especificidade do negro colonizado como alguém que. Elles sont couvertes de têtes de morts. de um sentimento de incapacidade do negro diante da supremacia branca. na obra dos dois autores. mostra que a poesia construída a partir da autofragmentação patológica do negro e da sua vitimização vai alimentar o plano das composições antilhanas em geral. ao ser mantida. Nessa perspectiva. de roses sales. 145 jul. perde o contato com o mundo e. ao mundo maniqueísta instaurado pela escravidão. Sua recorrência atesta não só a não resolução como a fixação do drama. os dois poetas dão indícios de que. como um traço identitário que não se apaga./dez. acheminant des rêveries. fazendo realçar. perde a noção de si e da realidade. loin du vent. a escrita antilhana também é marcada pelo desastre. pelo pessimismo.. 1994. diante do sofrimento moral e material a que foi submetido. entregando-se. Sur leurs rives ne sont pas étendus des pagnes de femmes. antigas antinomias. também no plano ficcional e como algo ainda passível de ser questionado. além da memória. coisificado. não por acaso. Essa dimensão psicológica encontrada. Ma mémoire est entourée de sang. Que de sang dans ma mémoire! dans ma mémoire sont des lagunes. Elles ne sont pas couvertes de nénuphars. a posição privilegiada do ocidente. confirmando. pâmoisons d’ yeux doux d’ avoir lampé la liberté féroce (CÉSAIRE. Jamais plus n’ ira le vent par la parole. p. Dans ma mémoire sont des lagunes. a sua própria condição humana.A construção da identidade no Caribe. “na eterna fixação dos dias e dos gemidos”8: O tout ce lieu est mort. assim. 2007 .32).. Ma mémoire a sa ceinture de cadavres! et mitraille de barils de rhum génialement arrosant nos révoltes ignobles. assim. no imaginário antilhano. Le soir est écuelle de broussailles.

Il est de la race des choses mûres de mûrir dans l’ été lourd et l’ encombre tumultueux. / qu’ une “faim qui ne sait plus grimper aux agrès de sa voix / une faim lourde et veule. A morte é também da palavra que. / et il n’y a rien. pleuré les rêveries.Disaitil seulement.Kátia Frazão Costa Rodrigues « je suis l’éveil des yeux et la clarté des profondeurs”. n° 15 . o poeta do “Cahier”: “. O Soleil ! ô travail séculaire sourdement mêlé de mer. dans cet effroi des promenades ? – nul ne sait. o psicanalista Jacques Lacan9 demonstra que o exterior tem importância decisiva. et de cette couleur d’ amour. cette naissance hivernale ? (GLISSANT. como estrutura a dimensão inconsciente e. se submete ao código do outro...1965. Peut-être êtes-vous là. E.Après la traversée. Un homme chaque matin ouvre les yeux sur la solitude où il se garde.. “je”. rien à tirer vraiment de ce petit vaurien. 1965. abandonné la rare bleuité de ceux qui aiment et sont aimés. 31). dans la voix fissurée.13). VIII. (GLISSANT. 1994. na falta de comunicação. A linguagem determina o sujeito porque a palavra não só precede a sua existência. la solitude. et de sang noir précipité. a partir de um comprometimento involuntário com o sistema simbólico pré-existente. Goiânia. paradoxalmente. pois o eu se descobre no outro. comme l’ aurore. Il a quitté les flamboyances.. Na sua teoria sobre a constituição do sujeito. / une faim ensevelie au plus profond de la Faim de ce morne famélique” (CESAIRE..car sa voix s’ oublie dans les marais de la faim. fazendo com que o homem perca a sua aurora e os seus devaneios.146). na impossibilidade da troca com o outro. p... na mesma encruzilhada do pensamento. a resistência rumo à individuação. p. vol. et la colère des requins. p. na impossibilidade de amar e de ser amado. escravizada. O verbo se faz presente entre o 146 Revista Brasileira do Caribe.. s’ouvre bientôt un champ de misère et d’ incendies.

sujeito e a sua fala. 1965. 85) Em Cahier d’un retour au pays natal. da mesma forma que é impossível conceber a subjetividade sem essa presença fantasmática. au loin des routes révélées ? Longtemps ainsi la voix de l’ homme se perdit aux temples Pour obscure qu’ était la route jusqu’ au temple ! et cette mer. aprisionado pela brancura de uma vã assimilação à cultura ariana. p. P. diferente do eu. há sempre algo no meio. se escondia em si mesmo.A construção da identidade no Caribe. o processo subjetivo só pode ser pensado na relação com o outro. tropeçando na língua do outro e. como efeito da própria socialização. estranho e ameaçador. verdadeiro instrumento de dominação. a dependência do outro se torna ainda mais traumática. mas da subordinação à língua do estrangeiro colonizador.. 1994. nesse caso. Césaire já apontava para esse homem que.. Tornar-se sujeito. esboçando sorrisos pálidos./dez. ao mesmo tempo. 2007 . numa imaginada cumplicidade com o colonizador: Je me cachais derrière une vanité stupide le destin m’ appelait j’ étais caché derrière et voici l’ homme par 147 jul. Cito Césaire: “Mais pourquoi brousse impénétrable encore cacher le vif / zéro de ma mendicité et par un souci de noblesse apprise/ Ne pas entonner l’ horrible bond de ma laideur pahouine ? / Voum rooh oh / Voum rooh oh “ (CESAIRE. desengonçado. Entre sujeito e discurso. Neste sentido. (GLISSANT. pois não se trata apenas do assujeitamento primordial à língua do grupo. 27) Na situação diaspórica. sem enxergar a si mesmo: Qu’ était la mer et son écume ? Savait-on si sa parole ne se mourait En quelque gouffre. que fez com que o homem se perdesse durante tanto tempo na obscuridade. sem ritmo e sem medida. implica também resistir a essa palavra escravizadora de consciências.

et des flambées de chair. resultante da sua relação com o mundo. des mots.. 36). adornos!” (GLISSANT. sa très fragile défense dispersée. a extensão da estrutura que cessa para algo se opor a ela. mostrando que as repetições na fala seriam a representação sintomática do inconsciente.30). Pode-se supor. por conseguinte. des mots! mais des mots de sang frais. 39) A consciência de que a língua do outro é feita de “Brancuras! viscosidades da palavra que não interpela! Febre nevada. (CESAIRE. 1994. então. p. 1994. Essas fixações atestam não somente o conflito do eu. um dia. A concepção lacaniana do homem como ser sobredeterminado pela linguagem permite. que seja capaz de exprimir toda a angústia e o arrependimento por ter.Kátia Frazão Costa Rodrigues terre. assim. p. E. ou ainda. confirma o pensamento freudiano de que é pela linguagem que o homem se revela. a “doença”. pensar que o sujeito é sempre definido em função do outro. fala o poeta da negritude: Des mots? quand nous manions des quartiers de monde Quand nous épousons des continents en délire. e a alteridade. desejado ser como o outro.. vol. ses déclamations pédantesques rendant du vent par chaque blessure. que a sua relação com o 148 Revista Brasileira do Caribe. A alienação seria. traz a certeza de que é preciso buscar uma outra expressão. citado por Bruce Fink10. em outras palavras. (CÉSAIRE. des mots qui sont des raz-de-maré et des érésipèles et de paludismes et des laves et des feux de brousse. n° 15 . mas também o exercício de um fazer-se sujeito ou a “cura”. et des flambées de ville. e. ah oui. Goiânia. ses maximes sacrées foulées aux pieds. quand nous forçons de fumantes portes. A alteridade implicaria. assim. a cessão do eu. a partir daquilo que um significante representa para outro significante. Voici l’ homme par terre Et son âme est comme nue. dessa forma. decorrente do funcionamento da própria linguagem. VIII. Lacan. 1965. do desejo do outro. p...

22). dirige o seu olhar para um devir. 2007 . Entretanto. O homem nasce. tornando seu algo que antes era estranho e ameaçador. o fruto dessa ilha lamentável. porque inclui o outro que. de onde talvez sejam possíveis a consciência de si mesmo e uma relação menos traumática com o mundo. senão. revela-se agora. assim. A letra mata o sujeito para lhe oferecer vida própria. Nesse processo de aproximação e de distanciamento. pois ao mesmo tempo em que permanece ligado de forma irremediável à língua do colonizador. os laços que geram a dependência primordial ao significante do outro também fazem armazenar a energia que principia toda resistência e. 1965.A construção da identidade no Caribe. O discurso apresenta. assim. portanto. p. como linguagem. na adoção da causa que perturba o funcionamento da estrutura. O desejo não é. mais de uma dimensão. mundo é sempre ambígua.. o outro que habita em nós. ora repulsa. E. de uma ficção quando toma para si a alteridade. fonte de toda comunicação.. em paralelo. porque o outro se interpõe provocando ora admiração. Declara Glissant: “Le soir à son tour germera / Dans le pays de la douleur/ Une main qui fuse le Soir/ A son tour doucement tombera” (GLISSANT. preenche vazios e transforma o desejo. investido de mais de um sentido. aquele que apenas a ordem simbólica é capaz de captar./dez. fantasias se produzem e oferecem a sensação de um falso ser que tenta superar o conflito. é Césaire quem poetiza: les nuits de par ici sont des nuits sans façon elles sont toujours en papellotes elles ne sont pas sans force même si elles sont sans mains pour brandir le coutelas mais force reste à la loi – à l’ angoisse la nuit ici descend de grillons en grenouilles doucement les pieds nus en bas un gosier de coq patiente 149 jul. que padece das palavras derivadas.

Kátia Frazão Costa Rodrigues pour cueillir la giclée ce n’ est pas toujours de la cellule de gestion de la catastofre que la journée téméraire fait part de sa propre naissance (CESAIRE. Tratar-se-ia. As imagens enunciam uma subjetividade que assume o comando e a responsabilidade por toda a expressão. entrevistas as duas poéticas. pois. A noite que cai “docemente e. em contrapartida. agora. de grilos em rãs”. A ordem simbólica internaliza as imagens especulares que. como um furo de significantes que nos chegam numa linguagem truncada e aparentemente sem sentido. VIII. 1965. O segundo movimento revelaria um percurso outro. p. de responsabilidade frente 150 Revista Brasileira do Caribe. através de duplos gestos. próprio daquele que Glissant anuncia como nascido da poesia que ultrapassa o drama e faz reacender a chama da vida. permitindo. investidas de interesse e de valor libidinal. 418). assim mesmo ou por isso. ainda. mas. irrompem no discurso. Goiânia. É também dentro dessa perspectiva ética de sujeito que são. se mexer e “gravitar em torno do seu próprio corpo” (GLISSANT. a exegese do eu e do desejo. 1994. embora “sem mãos para erguer o facão”. da alienação que dirige o homem para a assunção de um papel vazio a ser preenchido pelo outro. se reinventa. A primeira refere-se a um duplo assujeitamento do homem antilhano. desta vez. mas que faz uma argila resmungar novamente. p. em decorrência da própria anulação. n° 15 . na busca da realização do eu reprimido e na assunção também de um papel. causado pela sua constituição como ser social e. incita ao exercício de um olhar mais amadurecido e próprio de um eu que se confessa “laminar”11 em Césaire ou. do marronage à crioulização. igualmente. Desenham-se. Uma anulação que é. como uma paciência que “cresceu na ausência”. na visão lacaniana. o primeiro passo para a constituição do sujeito. como ser negro e escravizado. Assim. vol. a existência de um alguém que. reanima a existência. deixando entrever. a história antilhana se retraça.11-12). mais ainda. nascido no país da dor. duas trajetórias para se pensar a subjetividade.

fazendo com que ele assuma não só as responsabilidades. em toda a sua diferença. É preciso pensar o trauma antilhano como bloqueio. na conformidade de uma contradição que. assim. vivendo a sensação fantasmática da completude causada pela utopia de um preenchimento. mas o gozo de uma vida. de 151 jul. como uma herança inquietante que atravessa o discurso produzido pelo imaginário e pelo desejo das margens. Tal processo corresponderia ao conceito de separação e daria origem ao ser marcado pela hibridez. provocando a ruptura da hipotética unidade anterior. sustentado apenas pela ilusão de uma totalidade. único caminho para a fantasia que. talvez seja possível pensar que existe. Chico Science”. faria com que o sujeito se expusesse com toda a sua complexidade. mas também como possibilidade de encontro com o desejo do outro. ao próprio futuro. “a ‘identidade’ está e não está onde se procura por ela”13. A identidade seria. assim. mas alguma coisa ou alguém entre os dois. chamando para si o sujeito. que o sujeito se atesta. Essa unidade. em fluxo constante. imprevisível. de um grande paradoxo que incluiria alienação e separação ou fechamento e abertura./dez.. 2007 . ao ser atravessada. Segundo Glenadel. Paula Glenadel propõe pensar a identidade como identificação. pelo qual o sujeito se permitiria construir e “des-construir” fantasias. penso.A construção da identidade no Caribe. alavanca o processo de subjetivação do drama. A partir dessa concepção mais contemporânea acerca do sujeito e da identidade. desarmado. uma vez rompida. A subjetividade adviria. um fantasma que reinventa o drama e se apropria do sentido. completamente nu. fruto de dor e de prazer. a partir do reconhecimento da espectralidade que assombra a fala do sujeito12. no firme propósito de ser como tal. Nesse sentido. provocando proximidade e distância. A separação implica a dupla falta e marca a possibilidade do sujeito vir a ser.. que não é nem eu nem outro. É dessa forma. a subjetividade pode ser pensada como resultante do processo de carga e “des-carga” emocionada. Em “Entre mangue e manguetown. tenta fazer essas duas faltas coincidirem.

Goiânia. vol. lançando-se para um devir que prevê não mais a fixidez do pensamento. então. Essa palavra. 1994. como presença em ausência que traz sempre à tona o passado como sintoma. produto arbitrário de uma consciência. o devir se anuncia no espaço de um não-tempo. mas que. Sob essa perspectiva. a palavra. 457). VIII. e abre-se ao desconhecido. p. deixa lacunas.Kátia Frazão Costa Rodrigues fato. mas as mudanças de pele: quand les flèches de la mort atteignirent Miguel Angel on ne le vit point couché mais bien plutôt déplier sa grande taille au fond du lac qui s’ illumina Miguel Angel immergea sa peau d’ homme et revêtit sa peau de dauphin Miguel Angel dévêtit sa peau de dauphin et se changea en arc-en-ciel Miguel Angel rejetant sa peau d’ eau bleue revêtit sa peau de volcan Et s’ installa montagne toujours verte a l’ horizon de tous les hommes (CESAIRE. provoca aporias. um alguém que se expressa fantasmagoricamente nas duas poéticas. por ser traço descontínuo sempre em movimento. estabelecendo. não se funda 152 Revista Brasileira do Caribe. Contraria. n° 15 . pela “reabilitação de delírios muito antigos”16. no “furor de dar vida a um desmoronamento de paisagens”15. confirmando a dependência em relação ao significante do outro. como nomeia Glenadel. espaço que só se habita provisoriamente. assim. de uma promessa. para que uma “nova bondade não deixe de crescer no horizonte”14. a possibilidade de reformulação de um futuro. como poetiza o fundador da Negritude. se libera “para reavivar o verso solar dos sonhos”18. de um por-vir”17. os “mecanismos espectrais de permanência” e faz reavivar os de “transformação.É quando. há tempo reprimida.

A existência agora se expõe não mais submetida ao tempo./dez. assim. 397) A autoridade fincada no presente pela expressão de uma vontade deliberada delimita o passado porque não se reconhece mais como histórica. então. O imaginário desempenha o papel de imagem do eu. mas à produção do seu efeito. mostrando que a escrita do desastre se constrói a partir das abstrações de uma consciência em enunciação: il y a aussi les capteurs solaires du désir de nuit je les braque: ce sont des mots que j’entasse dans mes réserves et dont l’ énergie est à dispenser aux temps froids des peuples (ni drèches ni bagasses. que faz o pássaro. mas na reivindicação de uma verdade nova que marca a passagem da ficção à efetiva presença de um eu. hoje. 2007 . as escritas pela “mão que floresce a dor. O subjetivo volta-se do passado para o presente e. para um futuro que guardará a sua qualidade na memória. a continuação da vida. Glissant também apela para as palavras que “fazem o céu e o horizonte”. 1994.. por intermédio de um código interno e variado que coloca em questão a própria linguagem. São elas. mais na intenção de transmitir uma verdade exterior. um je que não representa mais o coletivo. a espuma e a casa de lavas por vezes”. mas o resultado da íntima relação entre o ser e a realidade. como algo que lhe é pertinente e o identifica como tal.. são as produzidas pela mão que faz igualmente “a riqueza 153 jul. O dito coloca em cena. A poesia seria. ultrapassar também o presente. em contínuo devir. p. expressa por uma sensibilidade que se coloca à margem de toda lei. um reflexo instantâneo da verdade do eu. ) (CESAIRE. assim. por extensão.A construção da identidade no Caribe.. mas fruto de uma escolha carregada de sentido que propõe.. na expressão do sujeito por ele mesmo. a partir de um referencial interno e subversivo. Continuar a vida significaria viver o efeito de cada instante e. segundo o poeta. apesar de tudo.

1965. p. VIII. vol. Os verbos no presente do indicativo reforçam a idéia de que tudo é modelado a partir de uma presencialidade e que todo esse passado “móvel” depende da atualidade de um ponto da vista. Goiânia. 1965. “Toute parole est une terre/ Il est de fouiller son sous-sol/ Où un espace meuble est gardé/ Brûlant. Diz o poetarizoma: Celui qui parmi les neiges enfante Un paysage une ville des soifs Celui qui range ses tambours ses étoffes Dans la sablure des paroles Attendant l’ ouverture des Eaux Le grand éclat des vagues Midi Plus ardent que la morsure des givres Plus retenu que votre impatience d’ épine Celui qui prolonge l’ attente Et toutes les mains dans sa tête Toutes splendeurs dans sa nuit Pour que la terre s’ émerveille Il accepte le bruit des mots Plus égal que l’ effroi des sources Plus uni que la chair des plaines Dechirée ensemencée .. Ecoutant ruisseler mes tambours Attendant l’ éclat brusque des lames 154 Revista Brasileira do Caribe.Kátia Frazão Costa Rodrigues dos fossos e a colheita do passado” (GLISSANT. p. pour ce que l’ arbre dit ” (GLISSANT.. buscando uma completa harmonia com o Cosmos. estão as duas poéticas. entre permanência e transformação. delineando uma subjetividade que irrompe para renovar a existência e florir a dura realidade. n° 15 .24-25). Como poetiza Glissant. Assim.26). onde o céu dança porque “da dor se fez uma palavra / uma nova palavra que multiplica”19.

reivindicadora. Je me fais mer où l’enfant va rêver. num discurso truncado que funciona como ponte também para o acesso ao totalmente outro. é preciso “contornar os lugares escolhidos da gravidade histórica”20 e invadir a opacidade.. como aponta Michel Zink22. sem qualquer preocupação com a erudição ou com a legitimidade do proferível. criando espaços. é aquela capaz de preservar a oralidade. agora se faz representar por imagens. das opiniões e dos sentimentos do autor. (GLISSANT. 2007 . particularizadas. que resistiu a toda simbolização. mas a marca de um ponto de vista frente. pela presença em ausência de um conflito identificatório que se renova e ruma em direção ao espaço onde “Toda palavra se confunde / Com o silêncio das águas”. 21). tornar frágil a aparência e captar o segredo das raízes. aos impasses que concernem à existência. 1965. também para Césaire. L’ éveil sur l’ eau des danseurs Et des chiens qui entre les jambes regardent Dans ce bruit de fraternité La pierre et son lichen ma parole Juste mais vive demain pour vous Telle fureur dans la douceur marine. Aparece no discurso como a qualidade de algo que se desenha dentro dos contornos de um eu também nada preocupado com o tempo ou com a necessidade de fugir dele. libertária e própria das duas poéticas. 28-30) A palavra. é o produto de uma consciência particular que se autoriza a falar em nome de uma causa. a escrita traz à tona materiais inconscientes que emergem da subjetividade inquieta. 1965. não é a simples expressão do real pelo simbólico. p.A construção da identidade no Caribe. por exemplo. Para tanto. Dessa forma. “nada liberta mais do que a obscuridade de um dizer”21./dez. de onde a resistência ressuscita em torno de alguns fantasmas. se presentificam por uma voz que ultrapassa o 155 jul. A subjetividade literária. O real. muito menos a efusão espontânea e verdadeira da personalidade. p. pois como o poeta mesmo diz.. como diz Glissant (GLISSANT. É a expressão das contingências que. Em outras palavras.

investindo no novo.. Derrida24 afirma que. na diáspora. muitas vezes inesperada. pois como diz Glenadel. aparentemente sem consistência. A palavra se multiplica no poema. n° 15 . de sua cultura e de sua memória. ainda que assim seja. parece revelar a existência dessa subjetividade que. talvez. recebida ou atingida. se diz habitando vários endereços ou o lugar mesmo da indefinição. estruturalmente aberta que pode a todo instante converter-se em ameaça de fechamento numa identidade ou em ameaça de perda de uma identidade”.Kátia Frazão Costa Rodrigues real e a materialidade da escrita. para o outro. Talvez seja exatamente isso que exprime Césaire. sob a forma. de Césaire. dos homens. mostrando que a palavra ferida. assim como não se associa jamais à língua. apenas se 156 Revista Brasileira do Caribe. despojando-se da fixidez de um pensamento e voltando-se para o desconhecido. sugerir uma promessa de vida na diversidade. de expressão inevitavelmente estrangeira. A palavra rejeita toda mediação de uma lógica que desautorizaria o habitar em vários lugares e a expressão de um tempo que remete tão somente à interioridade.385).chaque minute je change d’ appartement“ (CESAIRE. apostando. que cita Derrida25: “uma identidade não é jamais dada. mas que anima tanto quanto uma paixão. na incerteza de um devir. O poema “Calendrier lagunaire”23. Goiânia. Habitar vários lugares sem deles se apropriar também é se permitir outras impressões. na busca incessante de um espaço próprio que. por assim dizer. de um discurso truncado. como numa espécie de amnésia. vol.. ao dizer: “j’ habite une blessure sacrée/ j’ habite des ancêtres imaginaires/ j’ habite un vouloir obscur/ j’ habite un long silence. 1994. a identidade “constitui uma promessa fundamentalmente incerta. ao se repetir em heterogeneidade pela via do sonho. só se encontre no silêncio e na comunicação interrompida. não. o eu se dissocia de sua língua. à cultura e à memória do colonizador. porque vai de encontro às aporias do outro. promovendo a comunhão momentânea do poeta e do leitor. em aporia. está sempre em movimento.. VIII.Cito ainda Glenadel. p. enfim. liberto das cronologias e de toda sinopse./ . É.

ao caminhar. por sua vez. retórica que opera os movimentos de uma vida interior. a poesia liberta.142). também constroem a singularidade de todo dito ou do que se encontra em seu lugar. somados. une caresse dévolue Le soleil ici revenu Beauté de l’ espace ou otage De l’ avenir tentaculaire Toute parole s’ y confond Avec le silence des Eaux Beauté des temps pour um mirage Le temps qui demeure est d’ attente Le temps qui vole est un cyclone Ou c’ est la route éparpillée (GLISSANT. Diz Zink: “On a vu que la poésie du dit. se desenvolve na voz do poeta.48). montre celui-ci aux prises avec les contingences du réel. 2003. a representação do inconsciente. Na interseção dessa perspectiva: Savoir ce qui dans vos yeux berce Une baie de ciel un oiseau La mer. pela palavra que. Como deixa entrever Michel Zink. na medida em que se tem a consciência de que marcas não se apagam totalmente. recupera-se cada herança ou “apartamento”.. 1965. ao mesmo tempo. pelo sonho. passa pelo processo interminável. então. elementos que. p.. o convida para a cena. 2007 . E. indefinidamente fantasmático da identificação” (GLENADEL. 1985. a ser metáfora contínua. A poesia passa. efeito da constante relação do sujeito com o mundo. Despojar-se é tarefa inquietante. p. carrega consigo a 157 jul. o sentido do real e. au lieu de construire une image idéale d’un moi. que força hesitante a passagem do mundo interior para o exterior./dez. A poesia personifica forças fazendo emergir o presente de uma subjetividade que vive unicamente cada instante.A construção da identidade no Caribe. na sua obra já citada. p. 21). qui le déterminent et qui le façonnent” (ZINK. Assim.

assim. quem sabe. o pássaro e o mar”. também é possível pensar a subjetividade antilhana como potência de uma existência marcada pelo conflito identificatório. vol. a força que resiste a todo fechamento e impulsiona a existência para frente ao mesmo tempo em que a autoriza a olhar para trás. na confecção do seu produto arbitrário: a poesia. recarregada pela energia dos versos solares que não retornam ao lugar do drama. uma trajetória descompassada e diferente de toda linearidade. em Césaire. por isso. Seria. tornando o ser inevitavelmente refém e senhor de todo “futuro tentacular”. a mesma que nos ensina. É. É. a força que faz embalar nos olhos uma “baía de céu. perfazendo. É. VIII. como realça Glissant26. sem dúvida. que irrompe surpreendendo e desarmando discursos prontos sobre o bem e o mal. p. Atravessar 158 Revista Brasileira do Caribe. A construção dessa subjetividade implica uma travessia. produzindo abertura e fazendo com que o sujeito não opere mais como testemunha.Kátia Frazão Costa Rodrigues força dessa subjetividade. Goiânia. que tenta recuperar as suas sensibilidades estética. 415). que o essencial é: nu l’ essentiel est de se sentir nu de penser nu la poussière d’ alizé la vertu de l’ écume et la force de la terre la relance ici se fait par l’ influx plus encore que par l’ afflux la relance ici se fait algue laminaire (CESAIRE. ética e moral. inscrita no entretempo “da espera e do ciclone”. a força maior. ponto de vista do eu sobre o eu. mas caminham atraindo e colhendo o seu efeito. mas como agente modelador de uma exterioridade. para além do discurso que separa significante de significado. 1994. n° 15 . Neste sentido. provavelmente. A palavra também irrompe no discurso sob a forma de fantasia.

deslocamentos. Nancy deixa entrever que nem o ser. o discurso é se manifestar pela resistência. é também uma tarefa angustiante. em hospitalidade.A construção da identidade no Caribe. Nesse caso. misto de individual e de coletivo. se a identificação.. Segundo o filósofo Jean-Luc Nancy. 2000. p. etnias ou nações.. na sua busca insistente por definições estáticas do Homem. a tradução–transporte de significados relativos à subjetividade que se expressa no universo da escrita–pressupõe a necessidade de uma desconstrução do pensamento eurocêntrico.64). que implica a afirmação de uma subjetividade e prevê a busca do ser em si segundo Lacan. manifestando a abertura ética para o outro. então 159 jul. uma realidade se expressa. pois requer a manutenção. ao se expor. de passado e de presente. momento arriscado de busca em que o ser assume papéis imaginados. disposição nem sempre confortável. compõem o esboço primeiro do subjetivo. No seu texto Un sujet?28./dez. 2007 . Glenadel27 também ressalta que essa promessa alimenta-se daquilo que fica como seu pano de fundo. deslizando pelos significados construídos. Ademais. tal como pensou Lacan ao descrever a entrada na fase do espelho. a passividade e a resistência. o mesmo já seria necessariamente outro. e pressupõe negociações. Na perspectiva derridiana de pensamento. subgrupos. pois cada vez que algo ou alguém é suposto. múltiplo e historicamente mutante. nem a sua suposição podem ser concebidos num único sentido. unidos por um duplo gesto. como mémoire reconquise (memória reconquistada) de um instante (GLENADEL. mas quando nos leva a descobrir os traços que estruturaram a alienação e a individuação. confrontando o real e o simbólico que. de toda promessa que se apresenta. ser irredutível. a tradição ocidental acabou produzindo a cisão do sujeito. como justiça por vir. não um conceito formal que classifica indivíduos. de agitação e de paciência. A busca por uma subjetividade – qualidade ou caráter do subjetivo – só é valiosa quando se espera como resposta. marcado desde sempre pelo outro. de toda possibilidade também nova de ser. principalmente quando se trata de um povo nascido da diáspora. Supor e aceitar a existência dessa subjetividade.

383) Essa nova perspectiva de ser também abre a possibilidade do Tis. por conseguinte. numa espécie de experiência de si como outro e do outro como si. c’est un fil des saisons survolées.. p. ou. entre soleil et ombre. p. soit dans la terre. E é Glissant quem diz que Maintenant les sables sont d’ autre clarté. E. entre montagne et mangrove. l’ air est hostile . se relacionar consigo mesmo. p. il faut venir! soit par la mer. 1965. alguém de Platão29. vol. tronc noir et nu. au carrefour. n° 15 .. quando diz: Le non-temps impose au temps la tyrannie de sa spacialité : dans toute vie il y a un nord et un sud . de la ferveur et de la lucidité. na ressonância de uma mesma voz. Césaire anuncia: “frère n’ insistez pas/ vrac de varech/ m’ accrochant en cuscute/ ou me déployant en porana/ c’ est tout un . Ainsi va ce livre. Le temps aussi de régler leur compte à quelques fantasmes et à quelques fantômes (CÉSAIRE. ao atentar para a similaridade percebida na descrição do drama. dialogando com a sua própria negatividade. et l’orient et l’ occident. VIII. 1994.. Il faut choisir. l’ inégale lutte de la vie et de la mort. claudicant et binaire. Et puis. cette entreprise de bâtir le paysage ? – parfois le coeur est écrasé.Kátia Frazão Costa Rodrigues essa procura só pode ser em favor de uma referência implícita heterogênea e. parfois la main s’apaise – et la lumière monte des choses comme une parole d’ architecte (GLISSANT. connue des martins-pêcheurs aux songes funèbres. Césaire também parece revelar o segredo de toda a existência. la force aussi toujours de regarder demain. Ainsi va toute vie. polifônica. Assim. na escrita 160 Revista Brasileira do Caribe.. entre chien et loup. fût-ce celle du désespoir et de la retombée. esboço também primeiro de uma subjetividade. Au plus extrême. la saviez-vous. 1994. na tentativa de desmistificação do exotismo. no exercício de reconhecimento e aceitação das próprias diferenças. 386). “ (CESAIRE. pour le moins. 35). Goiânia.

que não se apaga por completo e reincide para atestar a exterioridade que a constituiu. o sujeito pode ser aquilo que um significante representa para outro significante. Voltando sempre como atualidade. O sujeito só é como possibilidade. portanto. Qualquer tentativa estática da sua definição descaracterizaria. o antilhano. seja reconhecida pela sua abertura em direção ao outro. Sendo as várias vozes de uma suposição. renovando a existência pela libertação contida no ato de contornar a gravidade histórica e invadir a opacidade. sem dúvida. além disso. entender a Crioulidade ou a Antilhanidade como um contraponto da Negritude e essa como essencialista e eurocêntrica é seccionar o movimento da história e não reconhecer o outro. Nesta perspectiva. faz irromper uma subjetividade como fantasma. da mesma forma que deve ser entendida a qualidade do que lhe é próprio. seja entrevista pelo seu fechamento. a marca de um apelo que.. mas também o que emerge deles no espaço de um instante. em toda a sua 161 jul. mas a qualidade do seu último traço. A correspondência que se vislumbrou entre os fragmentos poéticos de Césaire e de Glissant vem marcar esses últimos tantos traços que apontam para um ser que caminha rumo à presença em si como mesmo e.. o que ela tem de mais próprio: o seu caráter de “re-nova-(a)ção”. ao buscar o seu espaço próprio. 2007 . As poéticas de Césaire e de Glissant traçam trajetórias que se entrelaçam em alguns pontos para mostrar que existe uma unidade na diversidade antilhana. a afirmação do eu antilhano inclui também a sua negatividade.A construção da identidade no Caribe. Segundo Nancy. marcada pela presença do eu e do outro sempre em processo. o sujeito só acontece quando e enquanto se expõe. concluo acreditando que a escritura antilhana é. tornando frágil a aparência. ao comprometer exterioridade e interioridade. porém nem mesmo assim garantiria a sua essência. marcada pela auto-fragmentação e vitimização do negro antilhano e. no movimento de resistência voltado para um devir. Tanto Césaire quanto Glissant são sujeitos dessa nova ordem simbólica./dez. como constante novidade do Cosmos. no qual a palavra ferida se libera e traz à tona o inconsciente. ao mesmo tempo.

E. É. In: Afrik. tender o olhar numa só direção e permanecer.. p. 8 GLISSANT. p. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse. Séminaire. 1994. 1965. vol. sobretudo. le portail de l’Afrique. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. p. 1994. porque “toda carne se ramifica. 2 Il ne faut pas opposer négritude et créolité. p. 5 Cahier d’ un retour au pays natal . 85). p. Goiânia. É preciso fugir das armadilhas da síntese. por um fogo e por um desmame”. Poèmes.. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. 4 GLISSANT. talvez. Bruce. VIII. segundo o poeta-rizoma (GLISSANT. 10 FINK.Kátia Frazão Costa Rodrigues diferença. 9 LACAN.383). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. J. 3 Termo que designa a resistência dos mulatos fujões. 162 Revista Brasileira do Caribe. 7 ibid.1991. Paris: Seuil. 1965.com/article7507. 1965. 1998. Notas 1 Le Petit Larousse. O sujeito lacaniano. entre a linguagem e o gozo. na aurora e na noite. ainda sobredeterminado por uma lógica narcísica que nega parte do amplo processo que vem constituindo essa grande Crioulização. claudicante e binária” (CESAIRE. publicada em 1939 pela Revue Volontés.11. onde o autor utiliza pela 1ª vez o termo négritude. entre cachorro e lobo. 1ª obra de Césaire . É na diversidade que caminha. porque a história tem mostrado que é na complexidade que o humano se afirma e pode ser afirmado.. Ernest Pépin em entrevista concedida a David Cadasse. 6 La Poésie. Paris: Seuil.com. É de lá que se ouve a voz de alguém dizendo eu. É preciso repetir que “durante muito tempo a voz do homem se perdeu nos templos por obscuro que era o caminho até o templo! e esse mar. A obra consta da coletânea intitulada La Poésie.171.” (GLISSANT.html. 1965. constante no site: http://www. Paris: Seuil. p. edição escolhida aqui para essa e as demais referências sobre o autor. 19-20). toda vida: “entre sol e sombra. 1975. Nova Fronteira.afrik. 21. em 03 de agosto de 2004. entre montanha e pântano. edição 2001 e no Novo Dicionário Aurélio. como diz Césaire. n° 15 . 1994. de presença e de ausência. ed.

Niterói: Eduff. Poèmes./dez. 89 GLISSANT. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia”. La Poésie. Paris: Gallimard. A. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia. CÉSAIRE. p. 397. Tradução. Paris: Galilée. p.. 20 CESAIRE. desconstrução. 56 Cf. J. F. GLENADEL.. 1994. 1975. P. La subjectivité littéraire. Niterói: Eduff.. In Revista Gragoatá n8. p. 26 GLISSANT. 53. p. P. laminaire. 1985. 1994. 391. M..53. La poésie. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. Paris: Galilée.396. p... 163 jul. Un sujet ? In: Homme et sujet.8. A. desconstrução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. La Poésie.53. Paris: Minuit. 45 ibid . Bibliografia. 1994. p. J. 1996c. G. In: Revista Gragoatá. 2003. Pour une littérature mineure. p..21. 22 ZINK. P. DELEUZE. DERRIDA. J. 25 Ibid. Paris: puf écriture. p. 29 Ibid. 43 (1). Paris: Seuil. 8. Eloge de la créolité. 23 ibid.A construção da identidade no Caribe. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. A. p. In: Revista de Letras. CONFIANT. Paris: Seuil. 2000. 1989. “Entre mangue e manguetown. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales.L. Le monolingüisme de l’ autre. 12 GLENADEL. 521. p. FINK. 1998. E.. 2 34 CESAIRE. 1994. traduzível por Eu. 48.In: La Poésie. p.15 67 ibid. Le Monolinguisme de l’ autre. 2000. 28 NANCY.. 29 Ibid. 1994. entre a linguagem e o gozo.. BERNABÉ. Chico science”. 1965.. 11 Título da sua obra Moi. p. Kafka. 1965. n. O sujeito lacaniano. p. P. 472. São Paulo: Universidade Estadual Paulista. M. 2 78 Cf 14. laminar. p. 28. R. v. J. “Tradução. 2007 . CHAMOISEAU.1996. GUATTARI. 27 GLENADEL. 23 ibidem 24 DERRIDA.

Paris: Puf écriture. ZINK. GLISSANT.html 164 . 2003. J.“Entre mangue e manguetown. 1966. Paris: Seuil. Chico Science”. Poemes.1991. NANCY. 1994. Paris: Seuil. ________.afrik. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse. “Un sujet ?” In: Homme et sujet. LACAN. Paris: Seuil. M. In: Écrits. São Paulo: Universidade Estadual Paulista.com/article7507. 1985. J.-L. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales. “Subversion du sujet et dialectique du désir dans l’ inconscient freudien”. Séminaire. E. 1965.___________. 43 (1) 47-56. Site: http://www. In: Revista de Letras. La subjectivité littéraire.

de difícil *Artigo recebido em fevereiro de 2007 e aprovado para a publicação em março de 2007 Revista Brasileira do Caribe. foi instituído um rigoroso conjunto de regras e normas destinado a controlar a qualidade. as circunstâncias históricas ali vividas possibilitaram a gestação de um sistema de convívio. 2007 165 . o convívio e o volume de trabalho dentro das fazendas. 165-195. Indians Inmigrants Resumo Durante o século XIX. The main question that emerges from this process is exactly the phenom of cultural recreation and establishment of the Indians social institutions in face of so powerful policy of the westernization imposed upon all work population of that island by the British colonial government.Plantation legal. Goiânia. Trinidad século XIX Alexandre Martins de Araujo “O que você faria se não pudesse fazer nada? Até onde você iria se não pudesse sair? Quem você seria se não fosse ninguém?” 1 Abstract This essay looks at the historical process of settlement of the immigrants Indians community in Trinidad during the nineteen century. VIII. nas Plantations de Trinidad. Contudo. destinado a controlar o dia-a-dia dos trabalhadores nas fazendas. a substituição de trabalhadores negros livres por indianos causou grande atordoamento. Assim. Thus. we’ll try to observe the historical conditions by which some vital social institutions of the Indian community amalgamated in that colonial social environment. diferente daquele previsto no conjunto de leis. Trinidad. adequado a natureza plural de sua paisagem humana. Tratava-se de um sistema aberto de relações. tanto para os fazendeiros como para as populações afro-descendentes recém emancipadas. n° 15. Keywords: Indians Immigrants. vol. porém.

somente eram apropriadas nos espaços intersticiais das relações. Inmigrantes indianos Muitos foram e são aqueles que se dedicam à tarefa de aproximar. Para o historiador indo-descendente de Trinidad. A outra se identifica na etno-história. em particular. o mais perto possível. vol. durante o século XIX. a mão-de-obra indiana. son los aspectos de más relieve en esta investigación. Goiânia. sobretudo. nesse caso. Palavras-Chave: Plantations. Palabras Claves: Plantación. VIII. No nosso caso. imigrantes indianos.Alexandre Martins visualização. as ênfases vão à direção da experiência indiana no interior das Plantations. das experiências humanas vividas no interior das Plantations. Uma conduz as investigações tomando os indianos essencialmente como trabalhadores nas fazendas. Trinidad. Em termos historiográficos. nenhuma dessas duas tendências se encontra consistente ou rigidamente definida. Haraksingh (1981). largamente. Resumen Este ensayo analiza el proceso histórico del establecimiento de los inmigrantes de la India en Trinidad durante el siglo XIX. duas diferentes correntes discutem a presença indiana nas Plantations. Los fenómenos de la recreación cultural y la permanencia de las instituciones del país de procedencia. era necessário possuir as chaves simbólicas. Essa primeira tendência se baseia em fontes oficiais do governo da colônia e registros particulares locais. nos dedicamos ao sistema Plantations de Trinidad pós-escravidão. e essas. Trinidad. a pesar de la poderosa política de colonización impuesta por el gobierno británico. concentrando suas observações na perspectiva dos grupos sociais e das práticas culturais cujos esforços tentam identificar fenômenos de mudanças e adaptações. n° 15 . pois para entrar e sair dessa outra Plantation – a que tomei a liberdade de chamar de Plantation Plural em oposição a uma Plantation Legal. onde se utilizou. 166 Revista Brasileira do Caribe. de suas condições de trabalho.

Charles. esforçar-nos-emos para trazer a lume a maior porção possível da realidade histórica vivida por aqueles que um dia se sentiram.Plantation Legal: Trinidad século XIX Neste estudo tentaremos. afetados pelo sistema Plantation de Trinidad. At least a christmas in the West Indies./dez. 167 jul. direta e indiretamente. por igual. porém procurando valorizar. Em linhas gerais. London. assim como outros historiadores fizeram antes. 1872. nos aproximar da experiência indiana nas Plantations do século dezenove. Fonte: KINGSLEY. ai g u r F “Waiting for the Races”. os fatores evidenciados tanto numa quanto noutra das tendências acima mencionadas. 2007 .

portanto. tratam-se de documentos cujos teores e formas foram moldados por mãos de pessoas ligadas às elites locais. ganharemos acesso aos significados e sentidos atribuídos aos imigrantes indianos por aquelas pessoas interessadas em vê-los. o centro de inteligência das Plantations. da enorme dificuldade encontrada pela maior parte dos historiadores em apreender as “vozes subalternas”. inquéritos. VIII.Alexandre Martins Sabemos. enfrentaremos o dilema da supressão dessas vozes lançando mão. principalmente no interior de sistemas autoritários e fechados como era o caso das Plantations nas colônias inglesas. local onde são produzidas. para a elite local. Em face disso. então. reunimos um conjunto variado de fontes: relatórios oficiais. portanto. ao desconstruirmos tais políticas de controle. instituídas pela administração colonial em conluio com os proprietários de terras. relatos de viajantes europeus e diários de missionários religiosos. a população indiana e sua presença naquele espaço e tempo? Tal questionamento nos lança diretamente para o ambiente histórico ao qual desejamos entrar. sensos. leis de imigração. todavia. ou melhor. como também da estratégia “desconstrutivista” valorizada por Bhabha3. em suas análises sobre o discurso colonial britânico na Índia no século XIX. Dito de outro modo. as políticas de controle dos trabalhadores. dentro das Plantations. Para empreendermos essa tarefa. vol. Acreditamos que. tanto das estratégias metodológicas utilizadas por Ranajit Guha2 em seus estudos sobre a Índia colonial. esteja sob a forma de contratos particulares ou de leis juramentadas. todos os sistemas coloniais de controle de trabalhadores. ou seja. No entanto. entre outras coisas. balanços anuais. tê-los. n° 15 . estão sempre acompanhadas de práticas discursivas. inibidores das vozes subalternas. a nossa visita ao interior das Plantations de Trinidad pela seguinte pergunta: O que exatamente significava. impregnadas com as crenças de quem as 168 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. Começaremos. comissões reais. jornais de época.

Plantation Legal: Trinidad século XIX

produziu. Todo discurso, para Bhabha, é uma prática significatória, ou seja, “processo que postula a significação como uma produção sistêmica situada dentro de determinados sistemas e instituições de representação – ideológicos, históricos, estéticos, políticos” (JUNIOR, 2004, p.113-133). Mas antes de adentrarmos o espaço ao qual denominamos de o centro de inteligência das Plantations, faz-se necessário uma breve mirada para o contexto histórico, em torno do qual aportou em Trinidad, o famoso “Fatel Rozack”, o primeiro navio a transportar imigrantes indianos para Trinidad: “Em março de 1845 Thomas Caird anunciou em um despacho ao ministério do interior, ‘eu tenho a honra em informar... que enviei o Futtle Rozack para Trinidad” 4 (Tradução nossa). Inicialmente, podemos dizer que a Inglaterra chegou a Trinidad relativamente tarde, em relação à exploração do açúcar nas Antilhas, pois foi já no apagar das luzes do século dezoito (1797), que ela tomou de assalto aquela ilha das mãos da coroa espanhola e, nesse caso, é bom lembrar que a exploração do açúcar vivia aquela época o seu momento de maior esplendor entre as demais colônias americanas. Para o historiador sul africano Sookdeo (2000, p. 253), o propósito da ocupação de Trinidad foi de natureza menos econômica e mais militar. Seja como for, assim que a administração colonial britânica se instalou em Trinidad, não teve dúvidas quanto à necessidade de tomar parte nos negócios do açúcar. Já em 1799, o primeiro governador inglês de Trinidad, General Picton, escreveu à coroa britânica informando-a de seu posicionamento quanto às condições favoráveis de transformar Trinidad em uma colônia de produção de açúcar:
Trinidad será considerada como uma colônia açucareira, as terras sendo, em quase toda parte, mais favoráveis à produção de cana do que café ou algodão. A quantidade de terras a serem concedidas dependerá certamente dos meios de cultivo, mas tudo considerado à pequena classe de plantadores de

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cana não pode compreender menos do que 200 acres de boa terra, das quais 100 acres para cana, 50 para pasto e 50 para terrenos de negros, estabelecimento e eventualidades. Uma plantação dessa categoria, conduzida a um máximo de economia requererá um capital de aproximadamente £ 8,000 libras esterlinas 5 (tradução nossa).

A cana então substituiu o algodão devido a uma praga, porém, ele e outros gêneros continuaram sendo produzidos na ilha. Nessa época, Trinidad ainda estava longe de se tornar um modelo de monocultura e o negócio do açúcar se mantinha sob o domínio de mercadores e de intermediários ingleses donos de navios. Estes controlavam o fluxo de mercadorias e escravos na ilha negociando com o continente devido às vantagens oferecidas pela política fiscal de importação. Todo esse alvoroço atraiu para Trinidad um grande número de estrangeiros à procura de enriquecimento rápido. Conforme os registros da época, no ano de 1826, exatamente oito anos antes da emancipação dos escravos, Trinidad conheceu a sua maior safra de cana. Por esse motivo, quando os indianos chegaram à ilha, no ano de 1845, os ingleses ansiavam por uma produção ainda maior do que aquela obtida sob o regime de escravidão. Uma vez que a superação daquela safra significaria, entre outras coisas, a certeza do sucesso da utilização da mão-deobra indiana e, por conseguinte, o arrefecimento das oposições a tal sistema. Entretanto, assim que os indianos chegaram, foram vistos pelos proprietários de terras, tanto como um benefício, quanto como um dilema. Quer dizer, se por um lado eles representavam a esperança de superação da aludida escassez de braços adaptados às condições oferecidas nas Plantations, por outro, eram vistos como uma nova e incômoda realidade a qual esses proprietários teriam que se adaptar, pois se tratava de uma mão-de-obra remunerada e de permanência limitada, apenas cinco anos, conforme contratos firmados antes do embarque. Assim, a imagem que se forma, a partir desse quadro, é a de

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uma classe de plantadores completamente insegura quanto ao rumo de suas empresas, já que todas aquelas novas situações eram, de certa maneira, diametralmente opostas ao modelo escravista até então praticado. Em outros termos, o que lhes asseguraria o pleno sucesso da utilização da mão-de-obra indiana em face de, por um lado, os riscos sobre o capital investido no processo de contratação (transporte, alimentação, hospitais, roupas e pagamento de salários) e, por outro, a concorrência externa, sobretudo, devido os novos rumos que tomara o comercio internacional do açúcar por aquela época? Em razão disso, é natural aceitarmos a idéia de que todas as atenções dos plantadores estivessem voltadas para a relação custobenefício, atinente ao processo de contratação da mão-de-obra indiana. Portanto, não seria exagero de nossa parte pensar que os indianos contratados (Indentured Indians) 6, de início, não significassem para os plantadores nada além de músculos e ossos a serem aplicados nas lavouras de cana-de-açúcar. Nesse sentido, não nos restam dúvidas quanto ao fato das circunstâncias históricas terem apontado para os plantadores a necessidade de impor, aos imigrantes indianos, um regime autoritário de trabalho. E para garantir o controle dos trabalhadores indianos dentro das Plantations, foi elaborado um extenso conjunto de leis, difundido por meio de documentos ultramarinos denominados pela administração colonial britânica de Regulamentos de Imigração para Trinidad e Guiana Inglesa (Immigration Ordinances of Trinidad and British Guiana). Neles, os imigrantes indianos eram denominados simplesmente de Indianos Contratados (Indentured Immigrants). Dirigir-nos-emos, então, a partir daqui, para o ambiente ao qual denominamos de centro de inteligência das Plantations, olhando, primeiramente, na direção do conjunto de leis, constituídas para assegurar o cumprimento dos contratos e, por conseguinte, controlar a vida diária dos indianos no interior das Plantations. Em meio a tal conjunto de leis, somente algumas buscavam

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assegurar a efetivação de alguns direitos adquiridos pelos trabalhadores indianos, quando da assinatura dos contratos. Tratavase de normas que versavam sobre a condução das jornadas diárias de trabalho em termos, por exemplo, da quantidade de horas a serem cumpridas, do salário condizente às tarefas realizadas, do direito a assistência médica e do direito de denúncia por abusos sofridos no interior das Plantations. Neste caso, as denúncias deveriam ser feitas a oficiais designados pelo governo à proteção dos indianos contratados, os chamados Protetores de Imigrantes (Protector of Immigrants). Numa visão de conjunto, quase a totalidade das leis visavam assegurar uma política de contenção de imigrantes dentro das fazendas. Obviamente que, se o controle total sobre os trabalhadores indianos era o que mais importava a todos aqueles que dependiam, direta e indiretamente do sucesso da utilização da mão-de-obra indiana, é de se supor que as leis de regulamentação do Indenture System, tendessem para a satisfação das necessidades desses beneficiados. No entanto, do ponto de vista jurídico, o formato das leis não parece, à primeira vista, tendencioso, ou seja, na mesma medida que há punição destinada ao contratado, há, também, para o contratante, caso venham descumprir qualquer uma das cláusulas nele previstas. Todavia, nenhum sistema legal é auto-explicativo, por isso torna-se mister analisá-lo à luz de outras fontes do mesmo período. Começaremos, então, a sua análise por aquilo que nos pareceu mais recorrente em toda a sua extensão, ou seja, o aparentemente inocente termo, “Indentured Immigrants”, usado em todas as suas cláusulas para se referir ao trabalhador imigrante indiano. Se olharmos mais profundamente para a sua utilização, no âmbito das leis de regulamentação do Indenture System, ou, Sistema de Contratação, veremos que a naturalização do termo indenture, não somente nos documentos oficiais, como também nos discursos da elite, carregava uma intenção velada de eclipsar qualquer traço que pudesse ligar os indianos a alguma imagem de autonomia social. Pois quando se pronuncia o termo imigrante contratado, nota-se
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que na palavra que dá qualidade ao sujeito (contratado), não há nada que permite ligar o sujeito (indiano) à sua trajetória de vida ou mesmo ao lugar de onde veio, mas antes, a um acordo (um contrato). Isso faz com que o usuário da língua desvie o pensamento do substantivo (indiano) para as possibilidades de apreensão do significado da palavra contratado. E as imagens primeiras que afloram do signo Contrato são aquelas ligadas a alguma forma de prestação de contas; assim, a imagem do sujeito (o indiano), se funde aos referentes do signo Contratado, possibilitando ao usuário da língua um raciocínio lógico do tipo: se um contrato pressupõe algum benefício para o contratado, este deve prestar conta daquilo que contratou, logo, ele deve ressarcir o contratante (no caso o plantador), as despesas consoantes aos benefícios consumidos; no caso dos indianos contratados, a viagem, a alimentação, os cuidados médicos, as roupas etc., sob a forma de trabalho. Desse modo, podemos afirmar que o apelo mais forte atribuído ao uso do termo Imigrante Contratado era minar as possibilidades de o trabalhador indiano impor qualquer tipo de autonomia, uma vez que os sentidos construídos pelo uso constante de tal termo, funcionavam como uma espécie de “luz vermelha” sinalizando para o imigrante sua condição primeira de devedor perante o proprietário da fazenda. Em linhas muito gerais, nota-se uma tendência, entre as diversas leis desse conjunto, de precaver o lado do contratante, no que se refere a duas situações: por um lado, o risco de o trabalhador se ausentar da fazenda, durante a execução de uma dada tarefa e, por outro, é atribuído um excessivo peso a tudo aquilo que é considerado ofensa ou negligência por parte do contratado. No entanto, parece contraditório o fato de, se por um lado as leis tentavam, de toda forma, dificultar a saída do contratado, inclusive, descontando de seu salário o dia de trabalho em que ele se ausentava para se queixar ao protetor de imigrantes abusos sofridos ou descumprimento de seus direitos assegurados no contrato; por outro, vê-se um total relaxamento nas permissões para o trabalhador se ausentar, caso ele tivesse ganhado certa
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foram. soldado. sem nenhuma resistência. uma dívida simbólica. sem dúvida. tampouco sobre tal fazenda ou ao alcance de cinco milhas dela” 7 (tradução nossa). moral. Numa palavra. vol. as inúmeras condenações judiciais devido às acusações de descumprimento das leis que versavam sobre ofensas atribuídas ao patrão e negligências durante a execução de tarefas. no primeiro caso. Goiânia. incapazes de falarem a linguagem das classes inferiores aqui correntes. (. tanto o uso do termo Imigrante Contratado. pelo menos. após o trabalhador ter juntado certa soma em dinheiro. principalmente porque uma das leis previa que o trabalhador executasse qualquer trabalho desde que compatível com sua qualificação física. era conveniente para o patrão que o trabalhador esgotasse as suas reservas financeiras na cidade.Alexandre Martins quantia em dinheiro. uma vez que “Nenhum comércio deve ser mantido por qualquer patrão. n° 15 . ou seja. quanto as permissões de afastamento da fazenda. chamamos de “liberdade condicional”. porém. 174 Revista Brasileira do Caribe. pois estar preso a um contrato é o mesmo que estar sob juízo de sentença. próximo àquilo que no sistema judicial atual. cocheiro. estão sujeitos a serem encontrados em desvantagem o que pode terminar em multas ou prisões 8 (tradução nossa). objetivava funcionar tal qual o famoso “sistema de barracão”. um possível acordo entre proprietários de fazendas e proprietários de comércio. independente do seu grau de dificuldade. no lugar de uma dívida material.. arriscamo-nos em dizer que..) É perfeitamente possível que eles possam ser acusados diante de um juiz sob a denuncia de agressão. capataz. ou outra pessoa empregada na plantação. inspetor. duas intenções subliminares: primeiro. qualquer tarefa exigida pelo patrão. e. pois voltaria para a fazenda se sentindo constrangido a aceitar. VIII. Segundo. Tal contradição nos leva a supor a existência de. o que consideramos ter sido “a pedra no sapato“ dos trabalhadores indianos. Contudo. em termos das injustiças que sofreram durante a permanência nas fazendas.

9 (tradução nossa). de forma extrajudicial. sob a alegação de práticas indevidas. uma vez notificado sobre a execução imprópria de seu trabalho. o tradicional chicote. 2007 . imediatamente. surgido de um desentendimento causado por coolies terem executado impropriamente certas tarefas as quais eles foram requeridos para completar. Tratava-se da prática de descontar do salário do imigrante contratado certa quantia. previstas no sistema de leis. declarasse o mal uso de algum equipamento da fazenda para se consumar 175 jul. entre os coolies da fazenda e o corpo administrativo. ou qualquer outro funcionário superior da fazenda. a mais freqüente e. ou.. usado contra os escravos. uma palavra ameaçadora. porem eles foram recebidos por uma irada recepção dos coolies que os repulsaram e os injuriaram (. e as quais eles não somente recusaram fazer como também mostraram fortes sinais de hostilidade.. designada ao indiano por um superior da fazenda. alegasse ter ouvido da boca de um indiano. Sob a veemência dessa informação dois policiais a cavalo foram mandados com a intenção de apaziguar a desafeição. sob pena de sofrer condenações consoantes a tal alegação. Bastava apenas que o capataz.) os outros escaparam ilesos somente por causa do instinto de seus cavalos que coicearam os agressores a distância. o imigrante contratado deveria refazêlo. foi substituído por uma outra arma igualmente eficaz em termos de alertar o trabalhador quanto a sua pequenez diante da força do patrão. Na ultima quinta feira a polícia recebeu informações de que um sério distúrbio havia ocorrido na fazenda Cedar Hill.Plantation Legal: Trinidad século XIX Entre as condenações por ofensas. Isso por que. um dos proprietários da companhia Colonial. Num certo sentido. também a que causava maiores distúrbios era a acusação por má execução de uma dada tarefa./dez.

( .saicnêgilgen uo/e sasnefo ed seõçasuca oa .)asson .setnargimi lageli oãçneter ed acitárp a raicnuned ed méla siop .serosivrepus e sezatapac sod odigixe é euq o odut .sotisóporp so sodot arap sovres ed etneicifus lat ..raicnedivorp omoc rebaS ).sadalortnoc oãs salum sa omoc oãçudart( 01 ..adived ale a socilbúp serfoc sod airgnas a meraicnuned soriednezaf so euq osu uam o mébmat raicnuned arap mavatievorpa .ossi a otnauQ . Goiânia.majes otnemidecorp lat ed açitsujni ad san ..ahli atsen eicépse reuqlauq ed lagel aicnêrefretni uo odomôcni setneicsnoc etnemanelp saossep euq rarimda es ed é oãn euq o a sadavel .siacol sianroj snuglA .sairáid saferat saus ed mif oa oçemoc od .ºN ed iel a etnemlapicnirp ..serodahlabart soa otnuj soirálas saditemoc etnematsopus sasnefo ed asuac rop .rezid reuQ .olpmexe osoicinrep o meriuges etsixe .arodeceralcse sadasu mare oãn siel sa euq ed otaf o aicnedive mébmat .( edaditnauq amu .racúça-ed-anac mes adacitarp etnemetnetsisrep e otium a odis met .soirálas ed o aibiorp euq . n° 15 .saus sad mif oa oçemoc od .sianroj sortuO /oãrtap seõçaler sad laretalinu retárac o etnematreba mavaicnuned é oxiaba aton a .ocilbúp oriehnid od atsuc à .seilooC ralortnoc é . vol.acitárp an setnega oãs euq seleuqa sodot ed setnem o res ed amrof amu otsin agrexne euq oãçagela ariejnosil amu sadnetnoc recelebatse ed selpmis siam e otruc siam ohnimac so rative ed oiem mu e .açitsuj/sodatartnoc .otnop oa oterid mai .911 .Alexandre Martins ..sodasuo siam .etnemetnedive otiuM .sodagerpme e seõrtap ertne ed etnaid ri euq meret ed seõçaloma e sotsag .ossid rasepa .. VIII.seõrtap so artnoc áj saferat ed otnemagap reuqlauq repmorretni ed rodagerpme .odagerpme olep sadazilaer so etnemadanimircsidni reted ed etnanimoderp emutsoc O ).sotnemicerroba 176 Revista Brasileira do Caribe.sele rop .( ed sadnezaf san sodagerpme ...anaidni oãçargimi à soirártnoc .setnargimi sessed maizaf me odidecus meb oãt odis met onrevog osson o sam ).

No ano de 1876. que nos não podemos a não ser anotar as investigações que correm de tempo em tempo sobre os Coolies e os chineses pagãos 12 (tradução nossa). propôs três novas cláusulas.. de modo que a segunda clausula oferece recursos para o imigrante procurar residência industrial antes que a total conclusão de seu contrato fosse apresentada. New Era.. Possivelmente foi para convencer o governo que eles estavam de fato empenhados na doutrina de proteção do imigrante.13 177 jul.Plantation Legal: Trinidad século XIX um juiz por causa de todas insignificantes ofensas cometidas por um trabalhador na fazenda. Kelvin Singh. Segundo o historiador indo-descendente. Tão difundidos eram os sentimentos filantrópicos derramados sobre a imigração de Coolies. o jornal local. ou por qualquer outra suposta quebra das regras da fazenda. que provavelmente seria uma supervisão da parte de autoridades médicas. É infinitamente mais fácil. dava sinais de desconfiança em relação ao comportamento dos encarregados da justiça de Trinidad. “existe pouca evidência para sugerir que antes dos inícios dos anos de 1880.. a uma exclusão de questões igualmente importantes que afetavam outras raças. ou semelhante soma em nome de maltratar uma mula... qualquer sentença da corte fora alguma vez feita contra um patrão ou membro da equipe administrativa da fazenda”. A terceira sugestão era uma questão de rotina hospitalar. a primeira da qual impôs ao plantador a manutenção de um livro de atividades para conter todos os dados para identificação de todos os imigrantes. do que é correr o risco e aborrecimentos de ter que dar prova de tal acusação perante um magistrado 11 (tradução nossa)./dez.. durante a reorientação dos regulamentos de imigração. e a descrição das tarefas diárias executadas. o honorável Sr. Na última reunião do conselho legislativo.. e inquestionavelmente mais conveniente para um capataz ou supervisor reter Cinco dólares do pagamento do trabalhador por motivo de roubar uma cana. Smyth. 2007 ..

e ainda. de qualquer modo. Goiânia. que nos refletiremos a dúvida sobre alguns endossos de dias perdidos de Coolies nas fazendas. embora não distante da linha seguida por outros semelhantes juizes. motivo de desapontamento que circunstâncias assim coincidissem de tal modo que aquele ato inadequado do juiz nesse respeito teria (num senso mundano) uma inclinação rumo ao benefício do oficial protetor e legal dos coolies 14 (tradução nossa). Temos ouvido ultimamente uma considerável quantidade de notas ditatoriais de autoria do juiz de St. De fato. no qual foram levantadas as estatísticas sobre o volume de 178 Revista Brasileira do Caribe. Mitchel. p. em oposição à discriminação dos coolies) fosse condenando coolies contratados a trabalhar na fazenda Paradise. Para ampliarmos a nossa visão sobre o grau de aplicação das leis sobre os trabalhadores nas fazendas. Mitchell é Protetor de Imigrantes. recorreremos a um aprofundado estudo levado a cabo por Sookdeo (2000. e também como sendo uma vantagem desonesta em favor dos proprietários de fazenda. Joseph. e ainda alguém que aparentemente não percebeu a direção e tendência desses endossos. n° 15 . É. naturalmente supomos apoiado pelo chefe do departamento de imigração. de propriedade do Dr. ao término de seus contratos. . nos faz julgar o oficial distribuindo justiça.. feito pelo juiz anteriormente aludido. o Protetor de Imigrantes. executar meses extras de trabalho como dias perdidos. não eram incomuns as denúncias sobre protetores de imigrantes envolvidos nos negócios da cana-de-açúcar. essas evidências nos levam a refletir acerca do grau de autonomia que os fazendeiros teriam alcançado junto ao sistema judiciário implantado naquela colônia. caso nos podemos julgar pela passividade de seus atos em relação a eles. vol. É alguma coisa estranhamente sugestiva que a maior parte dos endossos (que são relatados como sendo inadequados. Também.Alexandre Martins (tradução nossa). como um homem particularmente perigoso. É a respeito de nada mais nada menos que um importante personagem. Esse Dr. nesta parte da ilha. que. 110-122). VIII..

em 1835. 257 endividamentos. nos anos de 1872 e 1873. para quem. Segundo os dados por ele reunidos. Para o ano de 1873. afro-descendentes. a que mais figurou foi a de imigrantes indianos capturados sem passes livres.15 (tradução nossa). pois. ou seja. 2007 .012 prisões. a exemplo de Eric Williams. Desse total. respectivamente. 39. “após 1854. antes do advento dos imigrantes indianos. 48 e 45 do sexo masculino.649 prisioneiros dentro das cadeias reais. Mas com a chegada dos imigrantes indianos. quanto na época em que se passou a utilizar da mãode-obra indiana. diante da Corte de Trinidad. eles foram freqüentemente culpados de quebras de leis de trabalho”./dez. Numa nota. 354 e 476. tanto na época da escravidão. os documentos do conselho revelaram 2. de 60 aprisionamentos anuais.059 eram hindus. sendo que os anos de 1832 e 1833. entre as categorias de ofensas que culminavam em prisões. creoles. entre os anos de 1828 a 1835. extraída pelo autor. O restante dos prisioneiros estava dividido entre indianos mulçumanos. um inspetor dá a sua receita de como os prisioneiros devem ser disciplinados: 179 jul. 213 agressões. Segundo Sookdeo. Nesse ponto.9%. Uma significativa elevação dessa média. respectivamente. os magistrados de Trinidad passariam a conviver com a idéia de que a cada nova carga de indianos contratados. é constatada ao final da escravidão. cujas principais acusações podem ser assim distribuídas: 727 furtos. a extração da força de trabalho era conseguida menos pelas condenações e mais pelo chicote. 1. 154 jovens abaixo de quinze anos e 282 mulheres de idades variadas16. 154 condutas indecentes no uso da língua e 116 ofensas. Somente no ano de 1870 foram registradas 2. também uma nova carga de criminosos em potencial. Sookdeo reitera a opinião de conceituados historiadores. a média de condenações flutuou em torno de 53 prisões de homens por ano.Plantation Legal: Trinidad século XIX condenações. a média alcançada foi de 54 prisões anuais. durante a execução de tarefas. quando as leis de imigração apertaram o nó em torno dos trabalhadores indianos.

do ponto de vista dos indianos. em certo período do ano. as quais corresponderiam a “trabalhos nos moinhos ou abrir covas ou quebrar pedras ou alguma atividade semelhante” 17 (tradução nossa). Por último. n° 15 . Segundo. o lado positivo de se estar preso. dado ao fato de os imigrantes indianos se constituírem de uma classe de trabalhadores. entre os anos de 1872 e 1873. incluindo conflitos inter-raciais. VIII. “uma reconhecida autoridade em matéria de castigo disciplinar em prisões”. ele aponta algumas possíveis causas: frustração entre as classes trabalhadoras. e para as classes mais baixas de prisioneiros. As posições de Sookdeu corroboram as evidências. quanto às relações de poder que os fazendeiros mantinham 180 Revista Brasileira do Caribe. “os contratados prosseguiram em receber com alegria o repouso oferecido pelas prisões comparado à vida em algumas das severas fazendas” 18 (tradução nossa). corriam por conta do governo. sendo que a maior parte dessas condenações foram alegadamente por motivo de descumprimento das leis de contrato de trabalho por parte dos imigrantes indianos (Ibid. Goiânia. pois. 2000. No balanço geral que fez Sookdeo. Para os anos de 1885 e 1886. tais sanções penais se perfilaram numa excelente forma de se exercer o controle sobre os imigrantes contratados. acerca do recrudescimento das sanções penais em Trinidad.. sobretudo nas estações em que as fazendas necessitavam de poucos trabalhadores. vol.. quem recomenda.Alexandre Martins Sir Joshua Jebb. os crimes categorizados como agressões dobraram. o fato de que as duras sentenças aplicadas sobre os imigrantes contratados tornaram-se convenientes para a classe de plantadores. Quanto a isso.411 e 4. “os elementos intimidadores de punição são trabalhos forçados. Sentenças duras”. predominantemente masculina. uma vez que os custos de subsistência dos imigrantes.120). respectivamente. comida ruim e cama ruim. Sookdeo revela. destacam-se três interessantes posições: primeiro. que se encontravam presos.363. Sookdeo destaca ainda que. acima discutidas. competições nas esferas do trabalho e frustrações sexuais. p. os números de aprisionamentos foram de 4.

Depois que o caso é terminado. perder respeito à autoridade de seu mestre. e ainda se mandado para prisão ele perde o respeito por si mesmo e torna-se um membro das classes criminosas. nos permitem afirmar a existência de uma ampla rede de relações entre fazendeiros. e ainda. quando se tratava de oficializar uma denuncia ao juiz local: 26. porque ele deve cozinhar a sua comida./dez. alguns dias antes que ele seja levado à corte. supervisores. até aqui analisadas. fora da corte pela ação de multar o transgressor. Então o capataz ou qualquer um em posição de gerência deve comparecer à corte com o livro da fazenda de modo que um dia é perdido. Todas as evidências. o coolie se torna mal humorado e não trabalha devidamente. No total desses casos diante do juiz existe sempre uma grande perda de precioso tempo. 2007 . Muitos capatazes tem uma forte e muito justa discriminação contra levar um homem diante da corte por causa de alguma insignificante negligência. Pois. ambos para o empregador como para o trabalhador. Nem muitos patrões reivindicarão e adicionarão ao tempo de contrato os dias em que o imigrante não tem trabalhado.Plantation Legal: Trinidad século XIX junto ao sistema judiciário de Trinidad. especialmente se ele for absolvido ou meramente advertido. as boas relações entre mestre e servo são prejudicadas. Casos diante da Corte. a qual ele não foi capaz de fazer enquanto estava na corte19 (tradução nossa). capatazes. “dias perdidos” como eles são chamados. e geralmente decidem tal questão. também não decidirão processar por deserção. além disso. O dia posterior ao caso ele declara que não vai ao trabalho. podem ser percebidos os “espaços de negociação” entre imigrantes indianos e seus capatazes. caso o coolie seja punido ou não. o coolie leva algum tempo antes de se estabelecer dentro de seu regular costume de trabalho pacífico e constante. e. trabalhar tão firme quanto é requerido pelo regulamento. extraímos um trecho que versa sobre o cumprimento das leis nas fazendas de Trinidad. 181 jul. o coolie é provável. Num documento ultramarino para assuntos da imigração indiana. magistrados e imigrantes contratados. protetores de imigrantes. Nele.

desmoralizar o imigrante. VIII. quer dizer. ou. Queremos salientar que. capatazes e imigrantes buscavam acordos diante das contendas. De qualquer modo. Também estavam em jogo certas perdas subjetivas que poderiam. fazem uso da própria arma criada por seus patrões para oprimi-los. um tipo de escravidão a vida dos imigrantes indianos nas Plantations. a fim de não se afastarem das fazendas e não colocarem em risco o capital moral que construíam a partir de suas relações dentro das Plantations. o documento acima mostra os trabalhadores indianos desenvolvendo certo grau de autonomia diante de seus opressores no momento em que. a máquina judiciária. ainda não superados entre aqueles que. ou minar à autoridade do capataz diante. reascendermos o velho questionamento a respeito do fato de ter sido. Grant. é devido a alguns problemas teóricos. sobretudo por meio do uso indiscriminado das leis de imigração. ou seja.Alexandre Martins De fato.22 cuja permanência em Trinidad. ou não. paradoxalmente. embora tenhamos dado um considerável relevo ao penoso processo de opressão por que passaram os indianos. não faz parte das nossas intenções. por exemplo. a um estado de marginalização. n° 15 . não somente as perdas financeiras estavam em jogo. Goiânia. tendem a vitimizar as populações subalternizadas no Caribe colonial20. Por essa razão. pois favorecia outras categorias de pessoas residentes na ilha. se condenado fosse. o reverendo Mr. em tal questionamento. na mesma medida. as horas de trabalho que ambos os lados poderiam perder se ocupados com os inquéritos. como. Morton21 e o reverendo Mr. o processo de vitimização da população indiana de Trinidad colonial também fez parte dos jogos de cena. vol. ou ainda insistem. no sentido de educá-los e evangelizá-los. particularmente. Se alguns estudiosos insistiram. alguns missionários presbiterianos canadenses. embora carregados de boas intenções. 182 Revista Brasileira do Caribe. a partir do ano de 1860. Observa-se que. tanto do imigrante acusado como de todo o restante do grupo a ele subordinado. dependia dos trabalhos que desenvolviam junto aos indianos nas Plantations.

183 jul. pois. amarrar uma corda em torno da cintura de um pequeno número de líderes. segundo alguns trabalhadores foragidos. e ao cair da noite eles foram liberados com algumas boas recomendações. com quem eles apresentaram a informação ou acusação formal. marcada pelo despotismo. na ótica dos missionários. em uma mais ou menos jocosa forma. uma série de passagens que. uma vez que os contratos assinados na Índia. Ele imediatamente iniciou uma ação contra o capataz. residente no distrito. era incorporada em seus diários. principalmente. o capataz de uma fazenda de açúcar. pelo desencontro e. porém. tal ato sugere circunstâncias as quais as leis britânicas desaprovam”. violentamente tentou. nas vizinhanças de San Fernando. Certa ocasião. Sem resistência os homens trabalharam o dia todo. se converteram em instrumentos de opressão nas mãos dos proprietários. para ganhar a sua confiança. morais e intelectuais. indubitavelmente. um discurso protecionista./dez. pela imprevisibilidade. o melhor instrumento de atração seria. o juiz virou-se para a defesa. conforme mostra o documento abaixo. na Plantation. poderia fundamentar a suas posições diante das injustiças cometidas contra os imigrantes indianos. alguma forma de proteção contra as injustiças.Plantation Legal: Trinidad século XIX Os missionários deveriam assumir. os missionários procuravam justificar as suas ações por meio de alvissareiros objetivos que prometiam subtrair os indianos das condições degradantes que encontravam suas vidas espirituais. Desse modo. Na conclusão do inquérito. perante os indianos. e os colocou pra trabalhar. 2007 . conforme mostramos. Esses não são os dias de escravidão 23 (tradução nossa). dizendo a ele: “Eu estou completamente consciente que o tratamento dado a esses homens não tem causado sofrimento físicos. Sob o manto da noite eles deixaram a fazenda e foram até a casa do subprotetor. Já para os olhares do governo e da população local.

tem feito dele extremamente ofensivo para uma grande proporção de pessoas. e estão. recorremos a uma nota extraída de um jornal local. Para dar materialidade a essa questão. Como parte das táticas de atração e negociação. o fato de ter sido originalmente a designação da mais baixa classe de trabalhadores. os missionários passaram a protestar contra o uso do termo Coolie. morais e intelectuais de um povo. cuja denúncia se dirige tanto aos trabalhadores Creoles. que cresce rapidamente a cada ano pela imigração. n° 15 .. (. como também pelo aumento natural. por imputarem aos trabalhadores indianos uma condição de inferioridade. Os missionários têm evitado usar esse termo. sendo mandados. VIII. que tem sido aplicado a outras raças asiáticas. e o termo “Indianos Orientais” está agora em uso geral 25 (tradução nossa).) E até o momento nada é mais comum do que observar as desdenhosas maneiras pela qual o trabalhador indiano oriental é. o reconhecimento e o apoio do governo e dos cidadãos em quase toda parte 24 (tradução nossa). quanto aos próprios indianos por aceitarem tal condição de inferioridade. O termo “Kuli”. inclusive. usado para designar os indianos contratados nas Plantations. dando. ou intitulado por alguns de nossos trabalhadores 184 Revista Brasileira do Caribe. mas tem garantido por meio de seus trabalhos. Embora “Coolie” seja o termo oficial e é usado durante o prazo do contrato.Alexandre Martins Assim era nossa missão em Trinidad. nossos missionários têm. tem na língua “Hindi” o significado de um faxineiro ou carregador. pois viram nessa forma de clivagem um poderoso instrumento para causar ao indiano um sentimento de inferioridade diante da outras populações presentes na ilha. não somente numa larga medida. The Palladium. assim como para os nativos da Índia. Goiânia. ou referido. cumprido os propósitos para os quais eles foram. vol.. testemunhos de sua baixa estima. e na tentativa de satisfazer necessidades espirituais.

dizendo que esse estereótipo. Segundo ele. Haraksingh contesta essa primeira noção.. devem ser vistas por um outro prisma. Eles seriam submissos e trabalhariam duro. Pergunte a um coolie de classe baixa (visto que o ideal de sua casta inerente permanece na mais alta norma para eles) se ele for um trabalhador contratado. grande parte da resistência indiana deve ser vista em termos de quem teria o último riso.Plantation Legal: Trinidad século XIX Creoles. talvez. as noções de docilidade e o próprio sentimento de inferioridade./dez. em especial o professor indodescendente Haraksingh (1981. 185 jul. 2007 . em última análise. ambos imputados aos imigrantes indianos. Haraksingh interpreta como sendo uma espécie de comportamento estratégico para manter os patrões felizes até poderem escapar das Plantations: “pois. Desta maneira eles têm a consciência de que eles ocupam a mais baixa condição nesta ilha 26 (tradução nossa). o que.155). como por exemplo. Mas alguns historiadores. o que permitia aos seus patrões reunirem as condições necessárias para exercer um amplo controle sobre eles. normalmente usado para acentuar a preferência dos fazendeiros por trabalhadores indianos. e ele revelará a você à baixa estima na qual ele encerra a si mesmo. quem parece reconhecê-los como a raça mais inferior de todas as outras por causa da degradação.) Mas esses orientais freqüentemente reconhecem a si próprios como ocupando o mais baixo status. a de docilidade. no tempo em que chegaram aqui eles entraram em suas obrigações agrícolas como trabalhadores contratados. consubstanciava a noção de docilidade era o fato de uma grande maioria de imigrantes viverem dentro das Plantations sob regime de contratos. p. pelo fato de eles terem chegado aqui numa condição de quase escravos (. Quanto à aparente submissão dos indianos.. o que indubitavelmente manteria os plantadores felizes” 27 (tradução nossa). e principalmente. mostra-nos que certas imagens geradas durante o período colonial. não combina com a quantidade de distúrbios e violências cometidas por indianos em seus locais de trabalho.

Alexandre Martins Analisando. Direção e texto: Danilo Alencar. Dito de outro modo. a fim de convertê-los ao cristianismo. Notas 1 “A CLARA do Ovo”. 3) constituir códigos. ver-se-á que mais uma vez os imigrantes estão tentando se beneficiar com as próprias imagens que deles eram construídas. 1999. desenvolvido pelos missionários. vol. de relacionamentos capazes de assegurar a continuidade dos acordos estabelecidos entre todos os grupos envolvidos e 4) assegurar aos imigrantes indianos a construção de espaços de negociação para que aquela difícil existência nas Plantations pudesse ser transfigurada em algo mais próximo de seus horizontes de expectativa. estrategicamente. Elementary Aspects of Peasant Insurgency in Colonial India. destinados à asseguração do sucesso da companhia colonial de imigração. quanto o estereótipo de injustiçados. tanto o estereótipo de docilidade. aceitos pelos próprios indianos. essa idéia de os indianos desenvolverem uma atitude de submissão. por aqueles setores da sociedade interessados em explorá-los. 186 Revista Brasileira do Caribe. formavam um complexo jogo de cena. com mais profundidade. Goiânia. forjado pelos proprietários para fortalecer os mecanismos de contratação dos indianos. R. cujas principais intenções eram: 1) criar um teatro capaz de deixar as autoridades inglesas em Londres satisfeitas quanto ao perfeito cumprimento das leis de imigração em suas colônias. as relações construídas entre as diversas categorias de pessoas. n° 15 . Numa visão de conjunto. 2) obter benefícios financeiros a partir dos recursos do tesouro real. teatro da Universidade Católica de Goiás (Campos-V). VIII. uma vez que tais imagens ajudavam a confundir seus opressores quanto aos seus verdadeiros projetos. Outubro de 2006. submetidas ao conjunto de leis de imigração. London: Duke University Press. foram. 2 GUHA. Goiânia. como sendo um tipo de estratégia de preparação para uma vida melhor fora das Plantations. extrajudiciais.

May 15.M. 7 March 1845. 1962. Belo Horizonte: Ed. which may end in fine_or_imprisonment (…) (The Palladium. ranger. or other person employed on the plantation. p. are liable to be found at a disadvantage. 29).Plantation Legal: Trinidad século XIX 3 BHABHA. 50 for pasture. (Colonial Office 318. sendo estes responsáveis por todos os custos de transporte e alimentação dos trabalhadores até aos seus locais de trabalho. 2001. 1904.) 9 “On Thursday last the police received information that a serious disturbance had taken place at Cedar Hill estate. p. establishments and Casualties. On the strength of this information two policemen on horseback were sent out with a view to appease the disaffection. 1969. one of the properties of the Colonial Company. “I have the honor to report… that I have despatched the Futtle Rozack to Trinidad”. O local da cultura.. The quantity of land to be granted should certainly depend upon the means of cultivation. 8 (. and 50 for Negro grounds. of which 100 acres for cane. and which they not only refused to do but showed strong signs of hostility. 74). 062117110523. immigration ordinances of Trinidad and British Guiana. (cf. WILLIAMS. p. than Coffee or Cotton. but everything considered to the smallest class of sugar plantation cannot consist of less than 200 acres of good land./dez. A plantation of this class carried on with the greatest economy will require a capital of about £ 8.)It is just possible that they may be arraigned before the magistrate on the charge of assault. 165. vol. and. Stationery Off. 6 O termo Indenture se refere aos acordos sob a forma de contrato realizado entre trabalhadores e empregadores. 4 In March of 1845 Thomas Caird announced in a despatch to the Home Office. between the coolies of the estate and the managing body. 7 “No shop shall be kept by any employer. either upon such plantation or within five miles thereof” (Coolie immigration..59. overseer. UFMG. driver. unable to speak the language of the lower orders here fluently. arising out of misunderstanding caused by the coolies having imperfectly performed certain work which they were requested to complete. 5 “Trinidad should be regarded as a sugar Colony. apud PERRY.000 sterling”. K.. 2007 . Caird to Hope. manage. the lands being generally more favorable to the Production of Cane. but they were met by a warm reception from the coolies who 187 jul. London : H. H. 1880.

. 1871. Very evidently. Goiânia. It is infinitely easier. So diffuse are the philanthropic sentiments wasted on coolie immigration. and the description of the daily work performed. in the minds of all those who are agents in the practice.) 11 “The prevailing custom of indiscriminately checking the wages at labourers employed on sugar estates for offences alleged to be committed by them has been so long and persistently practiced without molestation or legal interference of any kind in this island that it is not to be wondered at that persons fully conscious of the iniquity of such proceedings should nevertheless he led to follow the pernicious example. and unquestionably more convenient for a manager or overseer to check five dollars from a labourer’s pay for stealing a cane. the Hon. Smyth. (San Fernando Gazette. to the exclusion of equally important questions which affect other races. is all that is required of managers and overseers (…) (San Fernando Gazette. proposed three new clauses the first of which imposed on the plantcr the keeping of a ‘Labour Book’ to contain all materials for identification of every Immigrant. or a similar sum for maltreating a mule. vol.. that we cannot but note the disquisitions which take place from time to 188 Revista Brasileira do Caribe.. Editorial. August 31.Alexandre Martins repulsed them. as the mules are driven through theirs. there is an unctuous excuse which views it in the shape of being a shorter and more summary way of settling disputes between master and servant. September 30. 1878.. The third suggestion was a matter of hospital routine. VIII. on the recommital of the Immigration Ordinance. or for any other suppositious breach of estates’ discipline than it is to take the risk and trouble of proving such a charge before the Police magistrate”.) the other escaping unhurt only by the instinct of his horse which kicked the assailants away”. expense and annoyance of going before a magistrate for every trifling offence committed by a labourer on the estate. Editorial). . 10 (…) But our Government has been so successful in providing at the public expense a sufficiency of serfs for all purposes (…) To know how to drive coolies through their daily tasks. ... . which probably was an oversight on the part of the medical authorities. n° 15 . February 4. and a means of avoiding the trouble. 12 At the last meeting of the Legislative Council. injuring one (. (San Fernando Gazette. Possibly it was to convince the government that they were really in earnest in the immigrant protection doctrine that the second clause offering facilities to the immigrant to procure industrial residence before the full completion of his indenture was introduced. Mr. 1882)..

“The deterring elements of punishment are hard labour.” Which amounted to “labour at the treadwheel or shot drill or stone breaking or some such work”. 15 “After 1854. 17 Sir. the property of Dr. 13 (…) “There is little evidenced to suggest that before the early 1880s any court decision was ever made against a planter or member of the estate’s managerial staff”. to the prejudice of the coolie) should he endorsations condemning coolies indentured to labour on the Paradise Estate. It is with no less an important personage than the Protector of Immigrants that we would consider the question of some endorsations of coolies’ lost days on estates. 1988. we naturally suppose. made by the magistrate first alluded to. 1876. 10. (COUNCIL Paper (Trinidad) nº 39 of 1874 apud SOOKDEO.111). which. p... “an admitted authority in matter of Prison discipline. approved of by the Chief of the Immigration Department. Editorial). 189 jul. It is. o anuário Blue Books e relatos de inspetores de prisões. 2007 . June 12. p. and to be an unfair advantage in favour of the proprietor of the estate. subject for regret that circumstances should so coincide that the improper act of the magistrate in this respect should have (in a worldly sense) a leaning towards the profit of the coolies’ legal and official Protector… (New Era.. makes us regard the officer dispensing justice in this quarter of the island as a peculiarly hazardous man. when indenture laws tightened the lasso around Indian worker. SOOKDEO. 16 Dentre as principais fontes utilizadas por Sookdeo destacam-se os despachos do governador Longden. Editorial).. Kelvin. It is somewhat strangely suggestive that most of the endorsations (which are reported to be improper. although not out ct the hue pursued by other like magistrates. 14 We have heard a good deal lately of magisterial not by the St. and a hard bed. Mitchell.” who advised. they were frequently “guilty of breaches” of labor laws”.. at the expiration of the term of their indenture. Joseph Magistrate. however. and. In: Bloodstained tombs: the Muharram massacre 1884. March 22. to work out extra months of labour as lost days. SINGH. if we may judge by the passiveness of his acts with respect to them. Joshua Jebb. Mitchell is Protector of Immigrants and one who apparently did not see the leaning and tendency of these endorsations. p.Plantation Legal: Trinidad século XIX time on the coolie and heathen Chinee. (New Era. This Dr. 2000. and for the lowest class of prisoners./dez. (cf. Hard sentences.. 2000. Cf. hard fare. 1880. London: Macmillan. 114).

22 Grant. n° 15 . to lose respect for. has to attend the Court with the estate books and a day is lost. Toronto: Westminster Co. 19 26.Cases before Magistrate. and the cooly is likely. especially if he is acquitted or merely warned. After the case is over. (COMINS. 21 Morton. —Many managers have a strong and very reasonable prejudice against haling a man before the Courts for some trifling negligence to work as hard as required by the ordinance.: Imperial Pub. Caribbean Discourse. whether the cooly is punished or not. Halifax. 23 “On one occasion the manager of a sugar estate in the neighborhood of San Fernando. Then the manager. vol. University Press of Virginia. letters and papers / edited by Sarah E. Goiânia. 1839-1923 My missionary memories.. N. the cooly is sulky and does not work properly. sorely tried by some absconding laborers. VIII. In all these cases before the Magistrate there is always a great loss of valuable time both to the employer and to the labourer. Morton. which he was not able to do when he was at Court. and generally settle such cases out of Court by fining the offender. the cooly takes some little time before he settles down into his normal ‘habit of quiet and steady work. The day after the case he says he is not going to work. Kenneth James. 1839-1912. sobretudo das populações afro-descendentes do Caribe. and if sent to jail he loses respect for himself and becomes the associate of the criminal classes. John. and then. 1916. 2000. For some days before he is taken to Court. The authority of his master. 1893. tied a rope around the waist 190 Revista Brasileira do Caribe. 1989. the good relations between master and servant are disturbed. 20 Para uma melhor compreensão das críticas feitas a perspectiva de vitimização de populações coloniais. Co. p. as he must cook his food. John Morton of Trinidad: pioneer missionary of the Presbyterian Church in Canada to the East Indians in the British West Indies: journals. (ibid. Nor will many employers claim and add to the period of indenture the days the immigrant has not worked. 114). p. — “lost days” as they are called. nor will they prosecute for desertion. 42). or at all estates the overseer.Alexandre Martins 18 “The indenteds continued to welcome the respite offered by prisons compared to life on some of the harsher plantations.. Charlottesville.S. veja: GLISSANT É. [c1923] 062117110523.

Under cover of the darkness they left the estate and went to the house of the Sub-Protector.. but have secured for their work the recognition and support of the Government and the citizens generally. and chiefly. said to him: “I am fully aware that the treatment given these men has not caused physical suffering. 63). as well as by natural increase. The missionaries have avoided using it.. Thus they have the consciousness that they occupy the lowest condition in this island. in a more or less jocular way. 26 And yet nothing is more common than to observe the contemptuous manner in which the East Indian labourer is either referred to or addressed by some of our creole labourers. 2007 . and the term “East Indians” is now in general use. He immediately entered an action against the manager. residing in the district. These are not the days of slavery”. Without resistance the men worked in the fields all day. But these Orientals do often regard themselves as occupying the lowest status. and he will tell you the low esteem in which he holds himself. when.60).p. (The Palladium. moral e intellectual needs of a people growing rapidly each year by immigration. 191 jul. 1880). april 24. Ask a coolie of a low class (for the ideal of their inherent caste remains with the higher order of them) whether he is an indentured labourer. 25 “The term “Kuli”.” (ibid.Plantation Legal: Trinidad século XIX of a few of the leaders.p. and put them to work. (ibid./dez. but it does suggest conditions on which British law frown. While “Coolie” is the official word an is used during the term of indenture. our missionaries have not only in a large measure fulfilled the purpose for which they were and are sent out. with whom they laid an information or charge. the fact that it was originally the designation of the very lowest class of laborers has made it extremely offensive to a large proportion of the people”. which has been applied to other Asiatic peoples as well as to the natives of India.60). and in attempting to meet spiritual. At the conclusion of the trial the magistrate. 1923. perhaps.. turning to the defendant. and towards evening they were dismissed with some good advice. on arriving here they enter on their agricultural duties as indentured labourers. (GRANT. p. has in the “Hindi” language the meaning of a porter or laborer. because they come here in a kind of quasislavery. 24 “Such was our mission in Trinidad. who seem to regard them as a race far beneath every other for degradation.

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196 .

mas também pode significar a variada presença deles numa mesma embarcação que aportou no Brasil. some hypothesis can be established based on the different ethnic groups that in that period lived in those areas where they were captured. VIII. with the purpose to locate its origins. Keywords: Slave trade. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. 2007 . Isto porque essa palavra em um primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 197 Revista Brasileira do Caribe. in Angola and Benguela and Costa de Mina—regions in which the Portuguese started the slavery trade. Therefore. a saber. facing the difficulty to locate the nation of the slaves brought to Goiás. vieram para o sertão dos Guayazes. viviam nas áreas aonde eram apresados. na época. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina por onde os portugueses estrearam no comércio de escravos. because such concept alludes to large African regions where slaves where shipped and secondly because there were various places where these shipments happened. vol. Goiânia. Goias/Brazil. It does not seem appropriate to adopt the criteria of African nations as a unifying concept for cultural and religious affinities and identities of Blacks that in the eighteenth century came to the rural areas of the Guayazes. Não nos parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que no século XVIII. Firstly. n° 15. ethnic groups Resumo Nossa análise se pauta em discutir o tráfico de escravos para a Capitania de Goiás com o objetivo de “rastrear” o lugar de procedência dos escravos. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. Por isso. 197-243.O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes Abstract This article focuses on the slave trade in Goiás.

frente a la dificultad de determinar la nación de los esclavos traidos a Goiás podemos establecer algunas hipótesis basadas en las etnias que en la época vivían en las áreas donde eran capturados. É oportuno lembrar também. regiones en las cuales los portugueses estrenaron el comercio de esclavos. pensado como unidades de linhagens biológicas ou culturais. movimento que tem sido levado a cabo de forma a construir explicações para diferenças pessoais. as discussões recentes sobre o tema alertam para o movimento – historicamente construído – de uso do conceito de raça como forma de naturalização de opções e interesses engendrados na vida social. Palabras Claves: Comercio de esclavos. grupos étnicos Resumen El análisis del artículo se pauta en la discusión del tráfico de esclavos para la Capitanía de Goiás con el objetivo de localizar el lugar de procedencia de éstos. vol. en el reino de Angola y de Benguela y en la Costa de Mina. No parece oportuno adoptar el criterio de naciones africanas como concepto aglutinador de afinidades o identidades culturales y religiosas de los negros que en el siglo XVIII vinieron para el sertão de los Guayazes. Goiás/Brasil. que o conceito de nação envolve um grupo social que partilha um ideário. O conceito num primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos. Por eso. En primer lugar porque ese concepto alude a grandes regiones africanas de embarque de esclavos y en segundo. n° 15 . Goiás/Brasil. Goiânia.Cristina Cássia Pereira Moraes Palavras chave: Comércio de escravos. hábitos comuns e um sentido de homogeneidade. Outrossim. sociais 198 Revista Brasileira do Caribe. grupos étnicos Os livros de registros de batismos e de óbitos no Brasil indicam em muitos casos o lugar de procedência dos escravos africanos. VIII. porque era variada la procedencia de los que eran violentamente arrojados en el barco negrero. um forte sentido de pertencimento relativamente ao grupo associado a um território concreto considerado como sendo especificamente o seu. Parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que vieram para Brasil no século XVIII.

Ademais. entender a sua complexa tessitura informada pela escravidão indígena e africana. reinventado e re-significado. 2002. luandatchokues.1 Para além. gentio da guiné. a saber: ambós. p. entendidas dentro do marco da hierarquia. eram denominados por angolas. representação historicamente construída entre diferenças pessoais e grupais. Os primeiros podem ser reunidos em nove grupos. cabindas. benguelas. pela imigração européia (PEREIRA. nhanecas-humbes. portanto. ao contrario. bakongos. de um conceito que denota tão somente uma forma de classificação social. bem como. ngangualas. mas sim. acreditamos que não há raças. p.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII e culturais como diferenças naturalmente dadas.3 Os sudaneses aglutinavam os povos da África ocidental e que habitavam as regiões hoje denominadas Gana. o construto “raça” está vinculado a interesses e a circunstancias produzidas em determinado tempo e lugar. Raça é um conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural. como algo indeterminado. relações raciais. silenciado. 2007 . Gâmbia. No caso dos sertões goianos. no centro do país. 1993). Segundo Rodrigues é impossível calcular de que 199 jul. Entender o seu percurso. é preciso ainda. A realidade das raças limita-se. 9). caçanjes. da mina e moçambique. ao mundo social (GUIMARAES. foram respaldadas e alimentadas pela ciência no Brasil no final do século XIX (SCHWARCZ. modificado. baseada numa atitude negativa frente a certos grupos sociais e informada por uma noção especifica de natureza. ressaltar suas permanências e descontinuidades é entender que ele foi socialmente negociado. é certo que sua ocupação foi efetuada por inúmeros grupos etno-linguísticos de origem bantos e sudaneses. Portanto. 2002. quimbundos e xindongas que viviam nos atuais Congo. 81-96). Benin e Togo. Trata-se. As diferenças raciais. Nigéria.2 Nas matrículas de escravos encontradas no século XVIII em Goiás. apropriado./dez. ovimbundos. hereros. Angola e Moçambique.

de qual nação chegavam. 98-120)4. pois se estendiam desde a Costa do Marfim. Por isso. n° 15 . certamente. Lourenço de Mendonça. Goiânia. Um dado chama a atenção do estudioso: comparativamente. havia determinado que todos os navios ou embarcações que chegassem ao porto de Santos fossem visitados. p. não atingia a cifra de 40. no auge da exploração aurífera documentada em 1792.6 Quando aqui chegavam. viviam nas áreas aonde eram apresados. ainda que os registros possam camuflar a verdade. passando pela do Ouro. o número deles. pois essa conversão era vista como benéfica aos seus senhores. a maioria deles. não foi registrada. vol. Desde 1633. 200 Revista Brasileira do Caribe.Cristina Cássia Pereira Moraes data é a introdução dos nagôs no Brasil porque só no fim do século XVII se tornou conhecido dos europeus o poderoso reino de Ioruba (1977. já que significava adesão aos valores religiosos e morais do mundo branco e propiciava grandemente a resignação à sua condição servil. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. a saber. até a Costa dos escravos.000. vinham convertidos ao catolicismo. para saber sobre os escravos traficados. se levarmos em conta centenas de milhares de escravos que trabalharam nas minas de Minas Gerais ou em plantações de açúcar no Nordeste. se traziam livros proibidos ou se e vinham desobrigados7. dado que a região era muito extensa. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. Na Capitania de Goiás os iorubás ou nagôs e jejês como eram5 denominados nas matriculas oficiais de escravos são introduzidos pelo tráfico na região desde meados do século XVIII. VIII. Sob o aspecto da quantidade de escravos africanos que vieram para Goiás no século XVIII. na época. Essas regiões também apresentam um caráter vago. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina onde se encontrava o forte de “ElMina” ou da “Mina” por onde os portugueses estrearam no comercio de escravos. um prelado do Rio de Janeiro. era muito fácil fugir ou se locomover dum lugar para outro. Comissário do Santo Ofício.

outro censo registrou a presença de 38.000 a 17. e de São Félix para 2.568./dez. o que mostra uma ligeira tendência à diminuição da população escrava na Capitania. São Luis do Maranhão.207.777. Salles (1992. indicando a existência de 20.790. de 1733 a 1750.000 cativos. Seis anos depois. sofreram aumentos leves.689 escravos. também.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Com efeito. a saber: Belém do Pará.000 escravos. foram incluídos no citado censo. no entanto. o censo de 1789 registrou um aumento na população de escravos para 37.309. p. Neste censo de 1792. Meia Ponte com 1. Os demais arraiais possuíam menos de 1000 cativos. Rio de Janeiro e. pela primeira vez. excetuandose os julgados de Cavalcante.8 Em 1783. atualmente. 201 jul. Alguns julgados. O censo de 1804 confirma essa tendência descendente. por registrar aumento da atividade de mineração em Pilar. Em 1792. o maior número de escravos já documentado na capitania de Goiás.599.245 e Meia Ponte. Os outros tiveram menos que 3. contudo.682. 276) aponta um montante de 10. Karasch9 observou que o censo de 1783 estava incompleto. os dados oficiais registram a presença de aproximadamente 35.000.328. Em 1779. futuro Julgado do Desemboque que. faz parte de Minas Gerais e. Este censo é particularmente valioso porque revela um novo descoberto aurífero na região do Rio das Velhas. A maioria dos arraiais que desenvolvia a exploração do ouro de aluvião listou 60 a 80% da população composta por pretos. Desemboque e Carmo que.567 e Crixás com 1. devido aos motivos acima apontados.200 escravos. Os africanos que.027 escravos na região. de Traíras para 5. Salvador. 2007 .713 cativos trabalhavam na Capitania. como o de Meia Ponte e Natividade. Traíras com 3. com 4. chegaram à Capitania de Goiás desembarcaram em diferentes portos. o censo aponta os seguintes números de escravos para a Vila Boa e os arraiais mais ricos: Vila Boa com 4. seguido por Traíras com 6. pois demonstrou apenas que 17. Como demonstra o gráfico abaixo. a população de cativos de Vila Boa tinha reduzido para 8.533 escravos. na época em apreço. o julgado de Vila Boa teve 9. Pilar com 1.

839 1. Os Escravos na Capitania de Goiás.153 1. SalIes.855 4.689 Crixás Pilar Santa Cruz Santa Luzia Meia Ponte Vila Boa 0 2.000 6. Maranhão e Bahia.432 8.045 2.223 723 1. vol.Cristina Cássia Pereira Moraes provavelmente. 660 Desemboque Das de Rio Velhas 2.261 277 299 634 2.264 2. como Minas Gerais e Bahia.000 8. 1783-1804.000 4. Fontes: Gilka V.282 4.960 899 2.444 1.682 4.967 1. O certo é que as principais rotas de entradas de africanos na capitania de Goiás eram pelo Pará. n° 15 . antes de serem trazidos para as minas de ouro de Goiás.777 1. de Parnaíba no Piauí e de Recife. Karasch suspeita que muitos africanos recém-chegados ao Brasil ficaram algum tempo em outras capitanias.000 1783 1789 1792 1804 Gráfico 1 – Número de Escravos na Capitania de Goiás 1783-1804 (A cópia manuscrita do censo de 1783 dá o número como 364 em lugar de 363. Goiânia.200 4. Economia e na de Escravidão da 202 Revista Brasileira do Caribe.568 9.491 2.207 1. de de F.575 3.000 10.567 997 1. VIII.

Mapa em que Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério. localizar e determinar especificamente a “nação” a que pertencia os cativos em Goiás é uma tarefa hercúlea. 2002. 1993. além de cativos. começava no Rio de Janeiro e passava por Vila Rica e Paracatu em Minas Gerais. Documento 2109 Reflexões Econômicas ficam sóbrio como Tabelas da de estatísticas da Capitania de Goyaz Pertencentes ao anuo de 1804 feitas de e nenhum de 1806. até o prezente anno d’ 1789. p. em 1765. podemos citar o comerciante.2. vestidos. João de Botelho Cunha que. Como exemplo. (MOTT. 1992. pagando por cada um aproximadamente 80$000”. Seção Manuscrito. e Capitão da Geral da Capitania Goyaz Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério 29 julho 1792. 170) Um outro exemplo. trouxe de Salvador. e artigos de luxo. Mapa em que o Governador. Biblioteca Nacional. 1790-1798. levavam em média três meses de viagem para chegarem a Goiás. perfumes. p. de 1793:“ Michaela Xavier de Aguirre deu 230 oitavas de ouro para Capitão Gaspar José Lisboa para ir a Cidade de Salvador para comprar três “moleques Minas”. . 11. entre outros.11 Como foi abordado anteriormente por nós. Rio de janeiro.10 Outra rota por onde os escravos chegavam à Capitania.) Inúmeros comerciantes de Vila Boa organizavam grandes comboios para importarem cativos de São Luis do Maranhão e de Salvador. vinhos. Goiânia: CEGRAF/UFG. tecidos finos. entre 1794-1827 entre adultos e crianças foram batizados: 203 jul. em geral. caixa 35. AHU./dez. Goiás. KARASCH. p. AHU. Conforme os registros da Igreja Matriz de Santa Ana. encontramo-lo num recibo de compra. 119.4.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Capitania Goiás. ibid. traziam artigos e produtos importantes que por cá não havia. Optamos em utilizar alguns registros de batismos. como utensílios e objetos de ferro. Eram conduzidos por tropeiros que. 277. 170 escravos para Vila Boa. bacalhau. 2007 . inventários e termos de assentos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos localizados em Vila Boa. Esses comboios. óbitos. 19 de outubro 1790. sal.

as 6 angola mina crioulo(a) 5 moçambique 4 nagô buçá 3 desconhecido 2 1 0 17 94 17 95 17 96 17 97 17 98 17 99 18 00 18 01 18 02 18 03 18 04 18 05 18 06 18 07 18 08 18 09 18 10 Gráfico 2– Batismo de crianças escravas em Vila Boa 1794-1810 (Orfanato São José. VIII. n° 15 . 2002. p. Goiânia. 1794 -1810 e KARASCH. livro 3. 132). Diocese Goiás.12 204 Revista Brasileira do Caribe. vol. Batizados.Cristina Cássia Pereira Moraes Batismos de crianças escrav em Vila Boa de Goiás 1794-1810. Arquivo Geral.

Diocese Goiás. pois. Cit.) A maior parte dos registros de batismo e de óbito indicava o grupo étnico a que o escravo pertencia como podemos observar nos gráficos acima. 1794 -18270 e KARASCH Op. livro 3. 132. 2007 . Arquivo Geral. embora a legislação proibisse a escravidão dos índios13. Na coluna “desconhecido” pressupomos que seria o batismo do “gentio”.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII : Gráfico 3– Batismos de escravos por gênero em Vila Boa de Goiás 1794-1827 (Orfanato São José. elas ocorriam e estes eram incluídos nos registros. 2002. criança legítima de João 205 jul.. p./dez. Batizados. Como exemplo temos: “Maria.

anota 834 escravos falecidos. 135). foi batizada no dia 22 de fevereiro de 1818 em Santa Anna. VIII. denominando-os como mina. n° 15 m pr in a et na os gô da co s at nã na g ge o ola nt c io ons da ta gu de i ca gné en st ad tio at daer s Ira l da has te r cig ra an o . Jaraguá e Corumbá e datem do início do século XIX.Cristina Cássia Pereira Moraes Angola e Eugênia Índia Chavante. (IPHBC: Livro de Registro de Óbitos de Meia Pontes. a fim de evitar sua escravização no futuro” (2002. p. nada consta:15 Ó bitos1794-1834 800 700 600 500 400 300 200 100 0 total Gráfico 4– Óbitos 1794-1834. o Livro de Registro de Óbitos de Meya Ponte. relativo a 1803-1810. Goiânia. cigano. os registros de óbitos. o maior numero de registros. os párocos evitavam registrar uma criança indígena como escrava. das ilhas. Infelizmente. da terra. gentio. apontam a origem étnica dos cativos falecidos na Capitania. KARASCH. quando podiam. conquanto se restrinjam a Natividade. 206 Revista Brasileira do Caribe. A título de exemplo. No entanto.14. Meia Ponte. nagô. pretos da costa. muito superficialmente. vol. AFSD: Livro Óbitos. mas. 1803-1810. Natividade e Porto Nacional. segundo Karasch. 1800-1827. gentio da guiné.

/dez. Goiás. 2007 . Orfanato São José: Arquivo Geral. p.) Um testamento de 1789 de Marcelino Baptista Silva cuja herdeira era N.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Mary. op. livro 3. Livro Letra K – 1789 – nº012. página 48 v. Diocese de Goiás. p..cit. da Boa Morte representada pelo procurador da Irmandade Manoel Teixeira dos Santos nos indica que aos fins do século XVIII a maioria de seus cativos eram mina como podemos observar no gráfico abaixo: T estam Vila Boa 1789 ento 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 H omens Gráfico 5 – Predominância de escravos mina. 1794 -1834. 43-43v. Sra. Batizados.). m ina na g an ô go l re a b be olo ng u ca ela bi n m da un m oç j am olo bi q ile ue gi ve l 207 jul. (AFSD: Testamento de Marcelino Baptista Silva – Herdeiro: Manoel Teixeira dos Santos. 133.

VIII. posto que essa Irmandade apenas aceitava cativos como 208 Revista Brasileira do Caribe. do Rosário dos Pretos 1736-1810 60 50 40 Homens 30 Mulheres 20 10 0 17 17 35 36 17 39 40 17 44 45 17 49 50 17 54 55 -5 17 9 60 17 64 65 -6 17 9 70 17 74 75 17 79 80 17 84 85 -8 17 9 90 17 94 95 -9 18 9 00 18 04 05 18 09 10 -1 4 Gráfico 6 – Número de Irmãos e Irmãs na Irmandade de N. Do Rosário dos Pretos de Vila Boa. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1810). o número de escravos que fazia parte da associação era relativamente pequeno: Irmãos e Irmãs da Irmandade de N. pardos e pretos livres. n° 15 . através dos censos efetuados na Vila e nos arraiais. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. com certeza. Ora. vol. o número de escravos pretos era bem maior que o dos brancos. nos termos de assento e anuidades dos membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Vila Boa.S. entre 1755 e 1784. No entanto.Cristina Cássia Pereira Moraes Sabe-se. que durante o século XVIII. Goiânia. Sra. Sra.

Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII associados. Em termo de mesa.16 Dois casos ilustram bem o que reza esse documento. em Vila Boa./dez. dando primeiro hum fiador a irmandade que se obrigues pelo tempo que sejustarem satisfazer à dita Irmandade o que desembolçar e será este fiador eleito pela Meza e passará obrigação à mesma. os demais negros podiam ser apenas irmãos de devoção. não tendo nenhuma chance de ajuntar algum dinheiro. Estes. nem a oportunidade de ingressar na Irmandade e se beneficiar da ajuda da mesma. os escravos urbanos da Capitania viviam melhor que os do campo. embora a Irmandade. de 1775. curiosamente. o irmão Francisco. escravo do Capitão Dantas. e não de compromisso. declarando que possuía um pecúlio de trezentas oitavas. Outrossim.17 Apesar da terrível condição em que se encontravam. devido às quantias que eram cobradas pela entrada e por anuidade. podemos inferir de tal registro que bem poucos puderam nela ingressar como irmãos. conforme o gráfico acima. rogava aos oficiais que obtivessem sua liberdade. do ano de 1764. Para mais. a irmã Zeferina. apenas na década de 1770. Aqueles ainda tinham a ocasião de fazer serviços extras para outrem e 209 jul. quando tinham família. 2007 . não aceitasse libertos como membros. o que geralmente acontecia com as mulheres . só produziam o suficiente para si e para os seus. de modo que. devido às leis portuguesas de proibição à escravidão onde a maioria dos senhores de escravos os venderam para o Brasil. Em outro termo. declarava ter quatrocentas oitavas de ouro e pedia que o tesoureiro da Irmandade indicasse um fiador para avalizar o restante da quantia a ser paga ao seu senhor por sua carta alforria. podemos observar que o numero de irmãos aumentou significativamente. para além de trabalhar para seus donos. ela não media esforços com vista a alforriar escravos: Havendo algum Irmão captivo que sequeira libertar a Irmandade lhe assistirá com oprecizo para se libertar. da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. escrava do Coronel Pacifico.

tal ou tais escravos deviam ser libertados. As cartas de alforria nos fornecem vários dados interessantes: o nome do escravo que estava sendo libertado. para garantir seu direito. os pedreiros e até mesmo os simples jornaleiros.. apossando-se dos escravos e. após sua morte. podiam ser a “expressão da última vontade do dono”. No período em apreço... caracterizavam-se por ser um acordo firmado “inter vivos”. o escravo passava ou simplesmente sub conditionibus. Raramente encontramse dados sobre a profissão do senhor. pelos bons serviços prestados a si e à sua família. ou. gratuita ou onerosa. entre o senhor e ele. bafejados pela sorte. vol. O documento ficava em posse do liberto.. Isso os 210 Revista Brasileira do Caribe. aos escravos pelos senhores era sempre tida na conta duma dádiva de sua parte. n° 15 . A fim de evitar contestações. Eram as tais Cartas. 177). vir a obter a manumissão de seus senhores ou a coortação. cor. a concessão da carta de liberdade ou de alforria. para assegurarem suas vantagens. 1973. mediante o qual. motivada. No primeiro caso. p. isto é. a idade e o ofício do liberto. à situação de homem livre. VIII. 659-695) No segundo caso. filiação. os nomes das testemunhas e a data do registro em cartório. porque estavam a buscar uma “graça divina”.Cristina Cássia Pereira Moraes acumular um certo pecúlio para comprar a sua alforria18 e tal era o caso dos que exerciam ofícios específicos como os alfaiates. cujo anseio principal fora alcançar a liberdade. os motivos pelos quais era alforriado. o senhor estipulava em testamento que. vendiam-nos a terceiros e de preferência. em caso de eventuais dúvidas. de outro. Mattoso20 observa que “se tornou hábito que o documento seja registrado em cartório em presença de testemunhas” (1992. as modalidades e as condições dessa libertação. sua moradia na cidade ou no campo. Goiânia.19 (MORAES. Todos esses dados reproduzem a vida dos alforriados. herdeiros não respeitavam as decisões. Mas “os. comerciavam-nos em outros lugares”. ou eram públicos. p. de um lado. quando registrados em cartório. sua origem. ou “a conquista de um favor no céu”. isto é.burlavam a lei. ou um documento particular. por sua generosidade e. As cartas de alforria eram instrumento legal. mas não registrado. redigido por um tabelião.

Mas a alforria. O pagamento das parcelas e a definição do tempo de vigência dos contratos variavam e eram acertados entre as partes. porquanto. no entanto. Observa Aguiar que “as relações familiares representavam importante elemento neste processo. eram subjetivos. e os motivos dos proprietários. na maioria das vezes. no sexo. era baseado na saúde do escravo. proibiam-lhes reger sua própria pessoa e gerir seus bens. referido no contrato. ao que tudo indica. Entretanto. o escravo devia pagar por sua liberdade. a maior parte deles estipulava o valor fixo das parcelas e sua regularidade. o pagamento da alforria era efetuado por outrem. em idade produtiva. Poderia consistir na autocompra da liberdade. a situação do coartado se tornava particularmente delicada e./dez. A coartação era um tipo de alforria onerosa. herdeiros ou um procurador do falecido proprietário. p. as cartas de liberdade trazem prazos que vão de dois a cinco anos e o escravo vivia uma fase de transição entre a liberdade e a escravidão. porém. O valor pecuniário do escravo e sua alforria. se o senhor morresse. Concernia a escravos adultos e. sem.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII levou a denominar esse ato de “boa ação pela fé”. quando se tratava de cartas de alforria onerosas. certa segurança quanto à percepção da quantia acordada. os prazos constantes dos documentos desse tipo. as condições do contrato eram cumpridas tal como foram originalmente acordadas. porquanto. assegurando desse modo. isto é. ou seja. oscilavam entre dois e cinco anos. 211 jul. determinar as condições para o pagamento. Parece provável que parte das alforrias gratuitas tivesse relação com ligações afetivas” (1999. o senhor do escravo registrava esta observação na própria carta de alforria. aquela sob condições. Na Capitania. 16) . em alguns casos. consistia em o escravo obter uma semi-liberdade. Essa revogação poderia ser feita por terceiros. Em Goiás. o pagamento pela liberdade era feito a prazo. raramente. particularmente para as crianças. gratuita ou onerosa. Um outro tipo de alforria. poderia ser revogada. No caso de retaliação posterior. No entanto. ou de uma só vez ou em várias prestações. Muitos senhores estipulavam o valor a ser pago. na idade. nas suas qualificações. 2007 . No entanto.

recorrendo às sabotagens. cozinheiras. entretanto. 21-22). portanto.Cristina Cássia Pereira Moraes ainda que as parcelas fossem pagas pelo coartado. dessas relações de cumplicidade. o cuidado e a amamentação das crianças brancas pelas amas. que ocupavam lugares institucionais tão diferentes. ou por causa dos serviços regulares que prestavam. 1988. Goiânia.. ainda surgiam outros problemas entre o escravo e os sucessores daquele. p. De fato. os escravos utilizaram diversas formas de resistência. VIII. por exemplo. esmerando-se no cumprimento de suas tarefas. em geral. favorecidos por situações que envolvem. como a preparação da comida dos proprietários pelas escravas. a convivência estreita na mesma casa e até no mesmo quarto. decorrentes dum relacionamento mais próximo com os seus senhores. igualmente. vol. 22-25) . decorreram. muitas vezes. se o senhor falecia antes que o mesmo se completasse. 1999. p. Muitas cartas de alforria. o senhor não efetivava a sua libertação. eles souberam aproveitar das oportunidades. então. Mas. de acordo com o que consta do seguinte documento: “Concedo a liberdade do escravo Terthulianno Crioulo de 70 anos gratuitamente 212 Revista Brasileira do Caribe. às fugas. Aguiar ressalta que a flexibilidade era a regra no pagamento das parcelas da coartação e na definição do tempo de vigência dos contratos. n° 15 . (BELLINI. as relações sexuais e filhos. a revogação unilateral do contrato (1999. obrigando-o. de afeto e de intimidade entre senhores e escravos que não apenas contemplaram “os bons serviços prestados pelos escravos”. estes protagonistas. com vista ou a obter a alforria ou a tornar sua vida mais suportável. ou prestando-lhes e aos seus filhos. tiveram um com o outro. 75). diretamente os corpos do senhor e do escravo. a entrar na justiça para reivindicar o seu direito (AGUIAR. lavadeiras e etc. especialmente as gratuitas. Como sabemos. tendo investigado a situação dos escravos na Capitania de Minas Gerais. “serviços especiais” em seus leitos: Na realidade de jogos singulares de poder e sedução. às rebeliões. p. como amas-deleite.

pelo valor da primeira parcela de cento e noventa e oitava de ouro. que entre os bens que possuo.69) mas. importa ressaltar que. p. embora possa parecer paradoxal conceder liberdade a um escravo em plena idade produtiva.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII pelo valor de uma oytava e meya. as mesmas aludem a pagamentos e às obrigações da parte dos escravos. devido a essas circunstâncias. Em alguns registros de óbitos. ainda convém observar que. Na verdade. e sepultado no Adro da Capella de Nossa Senhora da Penha de Jaragua. durante certo período de tempo. ficando o restante a ser pago pelo dito escravo. pelos bons serviços que me tem prestado”21. no tocante a ex-escravos./dez.)23. embora a maioria dos senhores de cativos usasse a palavra “gratuitamente” nas cartas de alforria. sendo o pagamento à vista pela minha livre e espontânea vontade. Todavia. após sua liberdade. que concedo a liberdade pelos bons serviços prestados. 2007 . um escravo de nome Ignácio Crioulo. ainda iria continuar a trabalhar para seu antigo dono. pelo amor que lhe tenho e por ele ser cria da casa. Capitão Felipe Rodrigues Lisboa. Por outro lado. abaixo assignado. consta a sua condição de coartado: Aos dez de Dezembro de mil oito centos e quatro falesceu com os Sacramentos da penitencia. se estenderam para além do mero ato de obtenção da liberdade. 2000. neste caso como em muitos outros semelhantes.22 O documento abaixo comprova o que afirmamos: Eu. havendo a Encommendação do costume.. ou os nascidos nas casas senhorias (LEITE. do 213 jul. em troca de alguma remuneração.. recebendo sua liberdade após o pagamento de sua dívida (. tudo leva a crer que. nascera em casa dele e. devia prestar algum tipo de serviço ao seu ex-dono quem não era tão magnânimo quanto aparentava ser. e extremaunção João Mina esravo coartado da heransa do falescido Jeronimo Gomes: seu corpo foi amortalhado em pano branco. ele era estimado pelo seu dono. o liberto.

Ora. n° 15 Co Re m un Co ar ta . de acordo com a legislação em vigor. o que se passava era o seguinte: face à predita segunda hipótese.O Coadj or Joaquim Glz´ Dias Goulão. ao escravo era proibido ser testemunha26. fazer testamento27. vol. Na verdade. 17551798) Uma outra situação. relativa ao escravo ou ao liberto. caso conseguissem recursos para obter a alforria. diz respeito a eles poderem ter escravos para os ajudar nos serviços que faziam ou vir a substituí-lo. enfim. Goiânia.25 Alforrias 1794-1810 70 60 50 40 30 20 10 0 as da as as s total ui t at ad ul us Gr er c la m Gráfico 7– Tipos de Alforrias (AFSD: Documentos avulsos: Cartório do 1º Oficio: Testamentos. muito comum no Brasil do século XVIII. os senhores consentiam naquela situação de facto 214 Revista Brasileira do Caribe. bem como para burlar o imposto de capitação. herdar28.Cristina Cássia Pereira Moraes que fiz este assento”. VIII. não sendo reconhecido como pessoa. no mínimo contraditória. sujeita de direitos. ser tutor29. com a qual nos deparamos ao fazer esta pesquisa. possuir quaisquer bens etc.

tendo condições de associar-se à Irmandade de N. inclusive os nascituros. em nossos arquivos a documentação sobre os cativos – quando a encontramos – aparece mutilada.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII mas. desfigurada por causa de muito tempo de descuido e por incursões de traças. arrematamo-las apresentando um documento bastante ilustrativo sobre isso. se comprometia. ao se associarem às irmandades. As condições sócio-econômicas e religiosas do escravo na Capitania de Goiás e a perspectiva de libertação que se lhe abria. Por mais que a Igreja Católica tenha se preocupado em registrar os acontecimentos. 28) a propósito. fazendo valer seus direitos em pendências judiciais (ARAUJO. p. 95)./dez. a pagar ao seu senhor.S. de 1792. Não perdendo de vista as observações de Aguiar (1999. José da Silva Porto. conservavam a propriedade sobre tal escravo de escravo. a qual.Sra. camufladamente. em que os irmãos decidiram assumir e pagar a coartação da irmã Maria Benguela. ao serem trazidos do continente africano. p. de jure.30 Por conseguinte. Trata-se dum Termo de Mesa da predita Irmandade. 2007 . em troca de sua liberdade e da de seus filhos. 215 jul. indicando o irmão Antonio de Melo e Vasconcellos como seu fiador. do Rozario estando prezente o nosso Juiz e Escrivam e mais irmãos da meza concordaram q a irmã Maria Banguella posuia o direicto a quartação acertada em cinco annos com o fiador Antonio M Vasconcellos por meia libra de oiro o erão taobem a sua moleca de 5 annos mais ou menos. meia libra de ouro: Aos 25 do mez de 7bro de 1792 – neste consistório de N. pelo prazo de cinco anos. Raríssimas vezes conseguimos encontrar os documentos em séries completas. do Rosário e cumprir com suas obrigações pecuniárias é o sinal concreto de solidariedade e caridade cristã entre todos os membros. os escravos negros encontraram nelas um importante espaço de reorganização e reconstrução duma solidariedade étnica que se perdera. Infelizmente. 1993. pouco foi preservado.

os pretos eram capazes de conciliar coisas que. cultuada tanto pelos índios como pelos africanos. vol. pois conforme observou Quintão (1997. n° 15 . Com efeito. 115-116). é provável. faz-se pertinente analisarmos a força da religiosidade dos pretos cativos. possibilitaram-lhes tomar consciência de sua unidade étnica e proporcionaram-lhes expectativas transcendentes que minimizavam seu sofrimento interior e exterior. concomitantemente. os quais. tendo presente o contato que estabeleceram com as tradições dos índios e a dos luso-brasileiros. parecem contraditórias e inconciliáveis. 216 Revista Brasileira do Caribe. mas de forma alguma sua religiosidade podia ser considerada como superficial e de aparência. por outro. formularam e atribuíram novos significados à sua religião e ao catolicismo. tais como o de São Jorge. o culto aos santos se relacionava de modo coerente com muitos mitos religiosos africanos. o politeísmo africano se identificou com o politeísmo indígena e com o culto aos santos católicos. É importante destacar que a maneira do preto manifestar a sua devoção causava temor e incomodava aos brancos pelo apego às “exterioridades das celebrações”. para os de fora de sua cultura. de se tornarem pseudo-católicos31 fervorosos e convictos dos dogmas da fé cristã.Cristina Cássia Pereira Moraes Ademais. no tocante à religiosidade original dos negros. de praticarem suas crenças e. mas. ao mesmo tempo. No primeiro caso. Não pudemos perceber obrigação. reconhecido como o orixá Ogum. No segundo. VIII. a identificação se dava inclusive pela divinização de elementos da natureza como a mata. por um lado. do ponto de vista deles. os africanos depois de trazidos à força de sua terra natal e inseridos na sociedade luso-brasileira. recusando sua situação de inferioridade. por exemplo. O certo é que. Goiânia. (JULIA. pois mesmos os recém-chegados da África não eram impedidos. p. tendo em vista a total impossibilidade de regressar às suas origens e. algumas semelhanças entre elas possibilitou um estreito diálogo32 e a circularidade cultural33. que os brancos é que não sabiam exteriorizar a sua fé. 3-4). p. conveniência ou compartimentação entre o catolicismo e a sua africanidade. 1994.

deixados pelos religiosos. pregam o evangelho e se tornam santos (HURBON. dos anjos e dos santos dados aos homens como seus guardiões e protetores. o agostiniano. porém. comentando: “as maravilhas de Deos. 47). De fato.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Outrossim. que Deus é a chave da abóbada que sustém todo o sistema dos espíritos e de todas as práticas desse culto. p. e como. em 1722. no catecismo. nos cânticos e nas orações como o criador do universo. sortilégios e magias. p. os registros que alcançaram nosso tempo./dez. quanto à maneira como veneravam Nossa Senhora do Rosário. 1987. Ele é o criador dos espíritos e dos santos católicos correspondentes e. Apesar disso. os senhores não tinham interesse em saber nada a respeito de tais crenças. em geral. como castigo. Eles se multiplicam e se transformam nos loas. o mundo religioso dos escravos africanos era avesso ao profano e sua crença apoiava-se na simbologia do sagrado. se entrega a feitiçaria e se transforma em Lúcifer. hoje. efetivada nos vaticínios. Deus envia a terra doze apóstolos. Em seu orgulho eles se rebelam contra Deus que. frei Agostinho de Santa Maria ressaltava a generosidade dos mesmos nas celebrações das festas. grupos como os iorubás ou gegês acreditavam. se recusando a partir. Infelizmente. essa lacuna documental prejudica. fornecem dados preciosos. alem disso. os manda para a Guiné. os favores e mercês da Maria Santíssima. com exceção de um que. eles também preferiram guardar silêncio e continuar praticando seus rituais misturados ao Catolicismo. 2007 . como os católicos. admirado com a fervorosa religiosidade dos cativos. com muita perspicácia. o trabalho dos investigadores (MUNANGA. pois faz com a sua devoção se alegrem tanto os pretinhos. que parece huns doudos de contentes”: 217 jul. 1996. 102-107) Para mais. só muito dificilmente se distingue do Deus do catolicismo à medida que este sempre foi representado na pregação. Deus envia doze apóstolos que se comportam melhor. Mais tarde.

Mais recentemente.) (SANTA MARIA. com que aquelles pretinhos servem à sua Senhora. faziam com que as festividades em louvor à Virgem fossem quase uma epifania do transcendente que lhes causava imensa alegria. ao lado da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de brancos. o fazem com tanta grandeza. “a integração do homem de cor” – o que podemos chamar de estratégia de convivência harmoniosa ou de “auxílio mútuo”. Goiânia. vol. Outros julgam que elas foram concebidas e organizadas visando a inserção dos cativos naquela sociedade. os escravos negros provenientes da África erigiram na igreja de São Domingos. isto é. 1947. as concepções de acordo com as quais Maria era a mãe de todos os desvalidos bem como de Jesus Cristo e a intercessora.34 Outrossim.. & festejarem à Senhora. que possuam. n° 15 . por motivos profanos ou seculares. para servirem. Segundo o referido frade. no âmbito da sociedade escravocrata que acentuava a divisão social. os estudos sobre esse assunto apontam para os fatos de que tais irmandades surgiram face às necessidades de se aliviar as pressões advindas duma sociedade competitiva.. e como um meio de enraizamento da comunidade negra nos domínios ultramarinos. que em tudo excedem aos brancos. em Lisboa. meramente. não sendo vistas como que estimuladas. perante a maioria branca. Alguns deles asseveram que elas surgiram com os fitos de difundir uma “falsa igualdade”. VIII. & captivos. Estudiosos do tema em apreço não estão em acordo quanto à explicação das possíveis origens das irmandades religiosas das pessoas de cor. por excelência junto de Seu Filho Divino. em Portugal e depois para o sertão dos Guayazes. e propiciar aos seus membros um lenitivo religioso. faz-se pertinente buscar a origem da maior devoção dos cativos dedicada a Nossa Senhora do Rosário primeiramente. A partir de 1520. uma outra constituída 218 Revista Brasileira do Caribe. 86). & não tendo nada. p.Cristina Cássia Pereira Moraes He muyto para admirar a fervorosa generosidade. dominada pelos brancos. esmerando-se muyto em levar a vantagem a todos os mais (. pois sendo pobres.

Sacramento. 1961. na Península Ibérica. do Rosário. então. também passaram a criticar os frades Dominicanos por lhes terem permitido organizar uma confraria inteira exclusivamente com sua gente. isto é.37 Não obstante a sua origem medieval. ao contrário. Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e as quinze dezenas que se he 219 jul. “Sua recitação está intimamente ligada aos mistérios da Vida./dez. A devoção a N. (SCARANO. nela incluída a recitação do Terço. presos e casarem orfaons”. 1976. à época da batalha de Lepanto.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII somente por eles. Tridentina e institucional. 261) Ela quase se igualou em importância à prestada ao Ssmo. Entretanto. em Portugal. cada uma precedida do Pai-Nosso. e consistia na recitação do terço ou do rosário. de cento e cinqüenta ave-marias. surgindo assim. (ENES. se revestiu com uma roupagem nova. os brancos a abandonaram completamente e passaram a menosprezá-la. face à ameaça islâmico-turca perante uma Cristandade dividida por causa da Reforma Protestante Rapidamente. Os negros. dizendo que tal devoção surgiu quando os escravos foram “fazendo hum ajuntamento e pondo hua mezinha a porta da igreja e depois outra maior e mais dentro a maneira de confraria por onde se vieram alevantar”36. dada a impossibilidade de os mesmos participarem da Irmandade de seus senhores. aonde a milagrosa Virgem do Rosário era cultuada pelos marinheiros. p. que he com que hoje ao presente he buscada e servida dos seus devotos pretinhos”. p. divididos em quinze dezenas. ligada a São Domingos e aos seus filhos. 2007 . 39-40) 35 Seus associados portugueses tinham como obrigação “remirem cativos.Sra. nessa época. se intensificou sobremaneira graças ação religiosa dos Dominicanos. os frades Pregadores ou Dominicanos. como ocorreu no Porto. “lhe deram o titulo do Rosario. as irmandades. que pode ser classificada como sincrética. a nova devoção mariana. Alem disso. quando os negros cativos adotaram a devoção a Nossa Senhora do Rosário. essa devoção encontrou guarida em igrejas e conventos de cidades e vilas e. entre grupos sociais populares. mesclada com o popular e afetivo.

recém-chegado. affirmeront leur identité. Sra. 1953. p. assisteront et défendront légalement les intérêts des captifs contre les maîtres.um estatuto próprio que diferia do Compromisso da irmandade de N. un peu partout sur le territoire. Esses observam a vantagem de se congregarem em irmandades por “ser notoriamente o grande proveyto q resultara a conversão das almas q até os Reis Gentios mandavam esmolas para a confraria e pedião retabolos de nossa Sra. em coroa se oferecem. numa sociedade católica e branca.au moins théorique . No seu esforço de enquadramento religioso. a Igreja não poupou esforços para integrar o africano. p. S.de leurs associations. jamais ce dernier objectif n’atteindra au Brésil les mêmes proportions qu’au Portugal (2001.38 O pesquisador francês Lahon ao estudar a origem das irmandades de N.Cristina Cássia Pereira Moraes devotam constituem rosas que. Sra. mas. vol. do Rosário de homens “brancos”: Comme nous l’avons observé. Goiânia. où les noirs auront le contrôle . Segundo o autor acima a ereção dessa irmandade é a primeira do gênero e seu Compromisso data de 1565. Do Rosário”. VIII. cette attitude provoque le dédoublement de l’association et la création officielle d’une confrérie noire sanctionnée par des statuts ratifiés en 1565(…) Ces statuts sont le prélude à la création d’autres associations organisées sur le même modèle. n° 15 . 448). conforme o primeiro levantamento populacional de Lisboa realizado por Cristóvão Rodrigues de Oliveira em seu Sumario em que brevemente se contam algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa em 1551: Há neste mosteiro de São Domingos sete confrarias. Or. 18). a 220 Revista Brasileira do Caribe. atraindo-o para as irmandades mais capazes de interessá-lo. do Rosário dos Pretos de Lisboa observa que eles foram os primeiros a elaborarem – em 1565 . se consagram e se dedicam a Nossa Senhora” (AMARAL.

hua de pessoas honrradas. como se fosse um colar. especificamente. Sra. mas por pequenas rosas esculpidas em madeira (1988. cuja devoção visava. O mesmo não podemos afirmar para a Capitania de Goiás. ou seja. E a confraria de nossa Senhora do Rosário repartida em duas. começavam com uma exortação. 126-127) . do Rosário entre os cativos surgiu à volta de 1662 a 1668. Assim. ao seu ingresso na mesma. sobre o próprio destino ou sobre a sorte no amor. Para essa irmandade de Recife em Pernambuco o critério de nação entre os irmãos fica muito claro na documentação. Angola. O de Vila Boa é diferente dos “Termos” 221 jul. De acordo com esse estudioso. são jejes. cujos sacerdotes desse orixá usavam o “rosário de Ifá” à volta do pescoço. no Recife do período do reinado de Afonso VI. p.39 No Brasil. pois o critério de união não é a nação e sim a procedência dos cativos que faziam parte da irmandade de N.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII confraria de Jesus regida por pessoas nobres E principais cidadões. Cabinda e Moçambique. a saber. do Rosário. reforçando o compromisso de adesão. São nagôs. dentre outros. são bornus. eles a associaram ao culto anteriormente prestado ao orixá40 Ifá. atirando ao chão. recitado pelos irmãos. são bantus. Quanto à devoção à Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos que nos Guayazes. E outra de pretos forros e escravos de Lixboa.41 Geralmente. soltas ou unidas em forma de rosário as nozes duma palmeira africana chamada OKpê-lifá. Segundo Tinhorão. Sra do Rosário no Brasil. em Pernambuco. Benquela. Sra. a devoção a N. são fulas. 2007 . era composta por africanos e crioulos e certamente tomaram como modelo a já centenária irmandade congênere de Lisboa. as contas dos rosários não eram constituídas por esferas polidas e iguais. são minas. são mandingas. período do reinado de Afonso VI (1643-1683) de Portugal. durante a Idade Média. são tapas./dez. somente aceitavam negros cativos. são haussás. o mais provável é que a primeira irmandade de N. podemos analisá-la a partir do estudo de seus “Termos de Compromissos”.

após. 11 irmãos escrivãos e 8 tesoureiros letrados se revezaram no exercício dessas incumbências. embora admitisse que brancos pudessem ser devotos de N. e ainda a aquelles que pela sua desgraçada conducta. mercês e favores que cada instante esta.Sra. a de Vila Boa. São Jose do Tocantins e Trairas. Goiânia. passando a aceitar brancos como irmãos. n° 15 . só aceitava pessoas de cor e escravos como membros. Conforme os dados registrados nos “Termos de Mesa” que pesquisamos. se comparada com a dos que viviam no interior da Capitania: Ao primeiro de Mayo de mil e sete centos e setenta e cuatro na Igreja de Nossa Snra do Rozario dos pretos da Vila Boa dos Guayazes estando congregado o escrivam que prezidia pelo 222 Revista Brasileira do Caribe. o que denota uma condição sócio-cultural melhor dos pretos escravos da Vila43. della senão lembrão e a mesma Senhora para os favoresser e amparar de tudo se esquece. Essa Irmandade em geral.. ficão sugeitos atoda a Ley deste compromisso”. entre 1748-92.) e depois de terem também nesta irmandade participado os copiozos prantos e incomprehensiveis benefícios. reformulou o seu “Termo”..Cristina Cássia Pereira Moraes dos arraiais de Pilar. do Rosário.. está escrito que confraria e irmandade é a congregação de muitas pessoas que se sujeitam voluntariamente ao serviço de Deus e de Sua Mãe Santíssima.. os quais “desde o primeiro dia em que nella se assentarem por serviço da mesma Senhora.. VIII. ao contrário das confrarias.como May de mizericordia a todos os seus filhos e dovotos. todos os irmãos e irmãs colherão o fruto da Bem-aventurança”..42 Nos outros. 1803. ao especificar que as irmandades. e só se lembra deque todos forão remidos com o infinito preço de sangue de seu unigênito Filho. (. são as mais eficazes para a conservação dos Louvores dos Santos aos quais se consagram “e(.) o modo mais concernente para conduzir novos devotos a esta pia congregação e que pela intercessão da Virgem Mãe e Senhora do Rosário na vida eterna. Crixás. vol. Entretanto.

/dez. um escrivão. aceitavam brancos apenas como oficiais escrivão e tesoureiro “por não dominarem as letras”. um juiz e uma juíza. sirvão dous homens brancos debom nome e inteligência para o governo e direcção da Irmandade em quanto não houverem homens pretos com sufficiencia para os referidos cargos. as Irmandades dos mencionados arraiais.. se procederá 223 jul. De fato.. de Trairas e de Pilar um rei e uma rainha. tinham de obter “o seu beneplácito e consentimento da Eleição e cargo que os seus servos forao nomeados. 2007 . 48 Todos os irmãos escolhidos para desempenhar os mencionados cargos. No caso da Irmandade de Crixás está explicitamente escrito: Como nosso estado e condição dificulta haverem pessoas capazes e inteligentes para servirem as occupaçoens de escrivão e thezoureiro. no ano em que estivessem ocupando cargos não pagavam anuais. doze irmãos e doze irmãs de mesa. acentuadamente. um andador. O Reverendo Capelão podia assistir às reuniões e. em caso de empate na votação sobre alguma determinação. Os irmãos pagavam duas oitavas de entrada e uma de anual.se propoz que o dito escrivam permanessese no cargo posto ser o mior para a função q exerce juntoa Seu Senhor de caixeiro de fazendas secas dominando as letras e contas. grassava entre os escravos que aí viviam (GAETA. um procurador. 1995. dos seus senhores. mas assim mesmo se a Irmandade não quisesse aceitá-los serão “nomeados homens pretos para exercerem os ditos cargos” 45. 102). o seu voto decidiria a celeuma. tanto por motivos administrativos e financeiros..46 Essas irmandades construíram suas próprias capelas com as esmolas arrecadas com os irmãos.47 Compunham a mesa da Irmandade do Rosário de Vila Boa.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Irmão juiz. porque rejeitando o que a mesma Senhora não hade permitir.44. encontrando-se todas com “a devida dessencia e ornato que se precisa” sem ajuda da fábrica da matriz. quanto por causa do analfabetismo que. p.. um zelador. um tesoureiro.

Se. que muitos dos demais irmãos de compromisso não pagavam “religiosamente”. Constatou-se na documentação examinada. bem como pela dedicação da pessoa ao exercê-lo. ocorria na oitava de Pentecostes.Cristina Cássia Pereira Moraes a nova eleição”49. dois procuradores e doze irmãos de mesa entre homens e mulheres. era o eleito. por exemplo. O escrivão. o juiz e a juíza pagavam dezesseis oitavas.51 Aos fiéis pagadores. sua anuidade. abriam-se exceções. Goiânia. expirado o prazo. apurados os votos. seriam expulsos. o rei decidia com o seu voto. Aos escravos que obtivessem a alforria e fossem devedores “deva cobrar executivamente”. aquele que tivesse obtido mais indicações para cada posto. vol. um juiz e uma juíza. a qual. O rei apresentava à mesa três pretos capazes de exercerem o ofício de rei e demais cargos. Embora a reeleição para tais cargos fosse proibida. o escrivão. A anuidade cobrada para se exercer os 4 principais cargos era de 24 oitavas de ouro. Irmãos e irmãs votavam secretamente e.50 Compunham a mesa da Irmandade de Crixás e de São José do Tocantins um rei e uma rainha. n° 15 . exceto se o procurador justificasse que o devedor vinha passando por algum infortúnio e a mesa deliberasse postergar a quitação da dívida por mais um ano. o procurador e o andador nada pagavam. prevendo-se até um interstício de 3 anos. o tesoureiro e o procurador nada pagavam “pelo grande trabalho que tem nas referidas occupações”. o que obrigava as Irmandades a tomarem algumas providências. VIII. As eleições para os citados cargos eram realizadas na véspera da festa de Nossa Senhora do Rosário. O rei e a rainha pagavam a anuidade de vinte oitavas cada um. se não quitassem seu débito em três anos. Em caso de empate. era justo que “selhe facão todos os suffragios por sua morte”. um tesoureiro. seriam convocados perante a mesa para acertarem a quantia devida no próximo ano.52 224 Revista Brasileira do Caribe. O procedimento em todas as Irmandades era bem simples. um escrivão. o tesoureiro. designados por irmãos rasos pagavam uma oitava de ouro. Os 24 irmãos e irmãs de Mesa pagavam três oitavas cada um e os demais irmãos. geralmente. continuassem devedores. face ao motivo supra-citado.

à de Crixás. foi nas festas dessa Irmandade que os escravos mantiveram um bom número de seus antigos costumes e tradições. no que concerne à de Vila Boa. Era-lhe proibido modificar o “Termo” da Irmandade. Aliás. 1976. do Rosário. no dia seguinte.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII O capelão guardava os resultados consigo e. seria penalizado. por auto-iniciativa. o juiz também tinha os encargos relevantes de cuidar da boa paz e sossego entre os irmãos. na continuação das festividades. com o pagamento de uma multa pecuniária. Somente na de Vila Boa. como o ritual da coroação de seus reis e rainhas. tinha as seguintes obrigações: rezar missas pelos irmãos falecidos. Constam de todos os “Termos de Compromisso”./dez. 44-46) . sem a autorização da mesma e. entregava-os ao sacerdote pregador da festa que os proclamaria após o sermão em louvor a Sra. os juízes e juízas tinham de “tirar esmola com a Bacia”. os demais oficiais. o rei e a rainha. os reis e rainhas. começo do ano novo. o juiz e a juíza vestiam-se com opa e portavam a vara e. 2007 . a ponto de. arregimentar um número maior de associados e convocar as 225 jul. Quanto aos deveres dos dirigentes dessa Irmandade. se tributavam homenagem e respeito. à de São José do Tocantins. sempre estarem junto ao altar-mor. em 1 de janeiro. Ademais. se viesse a fazer isso. rezar a Ladainha de N. cujo valor era de “hua oitava do que tudo se ajustar”54. rezar pelos benfeitores da Irmandade e acompanhar à sepultura os irmãos falecidos. que o capelão da Irmandade. No outro dia. por isso mesmo. no tocante à sua remuneração pelos serviços religiosos que tinha de prestar. no interior de suas comunidades ocupavam posição eminente e. rezar o terço aos domingos. delas já participavam revestidos com todas as insígnias de Majestade53. Sra. p. apesar de se vestirem à maneira do branco. posto que é o dia consagrado em seu louvor. todos os sábados. à de Trairas e à de Pilar. vestiam-se com as opas brancas. eleito pela mesa. dançavam suas próprias danças próprias e cantam suas músicas ancestrais misturadas com as letras de cantos católicos (SCARANO. os quais. na Vila e arredores e nos arraiais e adjacências. nas celebrações religiosas.

inclusive. vistas nos capítulos anteriores. cuidar. bem como. Goiânia. fazer procurações e segullas até mayor 226 Revista Brasileira do Caribe. aqueles provenientes das “esmolas de bacia” e outras mais. radicada nos arraiais analisados. apresenta algumas peculiaridades em relação ao da Vila e as outras. em caso de falecimento ou ausência de algum irmão. ao procurador.“ E concede ao thezoureiro e Procurador os poderes em direito necessarios para todas as dependencias da irmandade em Juizo e fora delle e para intentar cauzas. Num desses livros. por exemplo. uma espécie de ata do que havia sido discutido e decidido em reunião. anotava as receitas e despesas da irmandade. o cargo de irmão procurador dessa Irmandade. os bens. prática essa comum entre demais irmandades. VIII. Entretanto. Estavam obrigados a cuidar do asseio da capela e. radicadas nos arraiais. o irmão escrivão era o responsável pela guarda e conservação dos livros de registros da irmandade. primeiro ao tesoureiro e. com a ajuda do escrivão. o tesoureiro exercia suas atribuições.Cristina Cássia Pereira Moraes reuniões necessárias ao bem da irmandade. os rendimentos da irmandade. n° 15 . Apenas a de Crixás delegava poderes de “fato e direito”. vol. Livro da Fábrica . defendellas. no seu impedimento. consta a proibição de o tesoureiro não poder emprestar a ninguém nem ouro nem os bens pertencentes às mesmas. da lavagem das alfaias utilizadas na celebração da missa e das opas dos demais irmãos. “declarava por cota ao pé do mesmo assento todos os annuais” devidamente registrados. Do “Termo de Compromisso” da irmandade. Em todas as Irmandades. cujas incumbências eram guardar e anotar nos livros apropriados. firmavam o “Compromisso”. depois. o escrivão registrava as eleições e “accordaons” ou termos de mesa. limpar e inventariar em livro apropriado. O terceiro cargo em importância nas Irmandades do Rosário era o de tesoureiro. o escrivão anotava o nome dos irmãos que. ao seu ingresso. inclusive. os ornamentos e as alfaias pertencentes à mesma. Ele ocupava o segundo cargo mais importante da mesma e. administrar as obras de construção ou de restauração sob encargo da mesma. Num terceiro livro. conforme orientação do tesoureiro.55 Noutro.

No entanto. bem como “passará recibo do dinheiro q receber dos alugadores das cazas e apresentar em Meza o q se fizer preciso”. aggravar.58Outrossim. equivalia às incumbências dos zeladores. dansão com diversos movimentos do corpo”. a partir dum acontecimento estreitamente vinculado às práticas religiosas sincréticas dos pretos. tratando de outras Irmandades. registrado no Livro de Termos de 1791. tendo os direitos de “appellar. para que no Livro dos Assentos para não só anotar o falecimento de algum irmão.57 Pode-se notar a ligação e a ascendência da Irmandade do Rosário da Vila sobre as demais congêneres.59 Um outro fato. por razão análoga. 2007 . no tocante às demais. Também devia cobrar a anuidade dos irmãos devedores. diz respeito à condição dum pretinho escravo oferecido à Nossa Senhora do Rosário: Aos trinta dias do mes de setembro de 1759. que ressalta a importância do cargo de procurador da Irmandade do Rosário da Vila. face ao motivo que aludimos antes.56 Ora. embargar e seguir a sua justiça ate mayor alçada”. como nos arraiais homens brancos “ornados e de bons costumes” ocupavam os cargos de escrivão e de tesoureiro. estando o escrivão 227 jul. com idêntica devoção. bem como ajudar o irmão escrivão. determinou que o procurador não consentisse que tal fato continuasse a ocorrer na “irmandade irmã porque os envolvidos seriam remetidos aos seus Prelados para que este os corrigissem como mereciam”. o procurador da Irmandade de Vila Boa a representava junto ao Tribunal da Real Fazenda. Os irmãos deliberaram e decidiram em reunião. as responsabilidades do procurador.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII alçada”. no mínimo curioso. conforme tivemos a ocasião de ver. que o procurador Manuel Gomes Alvarez admoestasse os irmãos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Crixás a respeito de um ofício emitido pelo Padre José Maria Santana Fernandes sobre as “dansas supersticiosas que os ditos pretos divididos em Nasçoens e com instrumentos proprios de cada hum./dez. no “Juízo de Órfãos e Auzentes”.

se prometia ao prezente. ou pertencer a algum espólio de herança ou. por maioria dos votos dos irmãos. se não vendesse e só o deixassem tomar carne para depois o vender por mayor quantia q. de acordo com a qual. por ventura se fizessem necessárias. ainda. as Irmandades devotas dum mesmo orago. de usarem a opa branca em todas as cerimônias que a mesma tivesse de estar presente. No concernente à Irmandade da vila. nos relativos às dos arraiais. Quanto aos demais irmãos de “mesa” das irmandades em apreço. como tivemos a ocasião de verificar. de bons costumes e bastante devoto. 62 Só na Irmandade da Vila havia o cargo de zelador. concernentes à legislação e ao compromisso.60 De fato. para além desse 228 Revista Brasileira do Caribe. ser um homem probo. tinham as obrigações de zelar por tudo o que condissesse ao bem e ao aumento da irmandade. VIII. se propoz o que faser com hum cabrinha dado a Nossa Sra do arraial de S. não há um capítulo sobre como proceder. Goiânia. eleitos para a mesma. E tomados os votos assentarão q.63 Devia. estavam ligadas à da Vila. igualmente. Era um assalariado da irmandade e escolhido em mesa. ainda constatamos algumas particularidades que convém destacar. vol. a saber.Cristina Cássia Pereira Moraes e mais irmaons da meza do anno nesta Igreja de Nossa Sra do Rdo de Villa Boa dos Guayazes. n° 15 . da leitura e análise de todos os “Termos de Compromisso” das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. tratando de outras Irmandades. Jozé. pois. em caso de eventuais modificações que. antes.64 Finalmente. de onde partiam as normas e resoluções pertinentes aos interesses comuns de todas elas. cujas incumbências principais consistiam em guardar as chaves da capela e cuidar do seu asseio bem como de seus ornamentos e guisamentos. somente o procurador podia ser incumbido desse ônus. tentar fugir. Ambos os documentos reforçam nossa tese. existentes nos arraiais. porquanto apenas ele tinha competência para fazer “o mais em que se precisa especial e geral mandado de representação”61 e o moleque ou podia ser reivindicado por algum suposto dono.

No entanto. tendo em vista a devassa aberta contra os mulatos da Irmandade de São Benedito.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII capítulo. como a igreja Matriz continuava a ruir aos poucos e era necessário encontrar um outro lugar para a celebração do culto. esse fato contribuiu para que. terá contribuído para aumentar o número de devotos de Nossa Senhora do Rosário. às leis da Irmandade. certamente.65 Posteriormente. conquanto isso não tenha implicado em que eles tivessem passado a ocupar os cargos de direção da mesma. a Irmandade da Vila passou a aceitar irmãos de qualquer idade. a presença de brancos passa a ser preponderante. igualmente. embora não deixassem de invocar para tanto razões piedosas. deixaram de pagar suas mesadas. sexo ou condição. pensamos que. terão à celebração de duas missas por suas almas.66 229 jul. por esse motivo. em determinadas ocasiões. Quais os motivos que levaram os brancos a ingressarem nessa Irmandade após 1805? Como observa Scarano. conforme vimos no capítulo anterior. se sujeitavam. por “estado de pobreza”. o que. o 21º. o que pode ser aceito como hipótese./dez. 2007 . os quais. quando vierem a falecer. Em seu Livro de Receitas e Despesas. Entretanto. Há ainda um outro capítulo sobre os sufrágios pelos irmãos que. parece inegável que a sua presença representava uma forma de controle sobre os escravos. como os outros. os irmãos observam: “que as vaidades do tempo são impessptiveis (sic) ao entendimento humano e pode acontesser a estas minas cresserem ou deminuirem as riquezas em que seja necessario deminuir ou agmentar as Leys do compromisso”. aquela Irmandade passasse a usar a capela do Rosário dos Pretos. sobre a Irmandade do Senhor dos Passos de Vila Boa. tendo sido apenas irmãos de devoção que. já no início do século XIX. ao menos teoricamente. o texto frisa que os negligentes com seus deveres pecuniários não gozarão desse favor.

(AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. doRosáriodosPretos deVilaBoanoiniciodoséculoXIX 30 25 20 Pretos liv res 15 10 5 0 1800-04 1805-09 1810-14 Pardos liv res Brancos Gráfico 8 – Devotos de N.S. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1816). Sra. no século XIX. Goiânia.Cristina Cássia Pereira Moraes DevotosdaIrm andadedeN. O fato é que. gradualmente. VIII. foi adquirindo novas características. Sra. vol.(SCARANO. “Das diferenças raciais passa-se pouco a pouco a uma acentuação maior das distâncias sociais independentes da cor da pele e ao aumento de pretos e pardos livres”. 1975. Do Rosário no início do século XIX. 129-142) 230 Revista Brasileira do Caribe. a Irmandade já não conservava a antiga rigidez e. n° 15 .

4. In: NOVAIS. quanto de um relativo otium cum dignitate Notas 1 Para entender as relações raciais historicamente construídas no Brasil consultar os descritores que analisam: 1. Fernando (Coord. pp. a de São Benedito. 1994. Rio de Janeiro: Editora 34. 1999. 1998. Ricardo Benzaquén de. São Paulo: EDUSP. Ricardo Ventura. Rio de janeiro: Rocco. 2. Nem preto nem branco. 2007 . Por isso. mantinham suas capelas em grande ordem e limpeza. Rio de janeiro: FIOCRUZ/CCBB. instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. sempre foram elogiados pelos Visitadores eclesiásticos que reconheciam que.a questão da democracia racial: ARAUJO. Roberto. Lilia. L O espetáculo das raças: cientistas.a questão da invisibilidade do negro em espaços sócioculturais e políticos: MUNANGA. Antiracismo: coletâneas de leis brasileiras (federais. 1996. Guerra e paz: Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. demonstrando um desejo de se igualarem aos forros.a questão do mito fundador das três raças: DA MATTA. Relativizando: uma introdução à antropologia social. 1998. passaram a pertencer às Irmandades que aceitavam os forros. estaduais e municipais). muito pelo contrario: cor e raça na intimidade.as questões historicamente construídas entre mestiçagem e branqueamento: SCHWARCZ. Marcos Chor. v. ciência e sociedade. a de Nossa Senhora das Mercês e a de Santa Efigênia.4. competiam em igualdade de condições com pessoas mais bem aquinhoadas pela sorte. (Org) Estratégias e políticas de combate à discriminação social. 3. por exemplo.A questão da cor: SCHWARCZ. 5. 225-234. Os irmãos cativos que não conseguiam obter a liberdade. Aqueles a quem foi negada a cor do dia: as categorias cor e raça na cultura brasileira. Racismo e anti-racismo no Brasil.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Enfim. tanto do ponto de vista dos recursos econômicos. bem como os seus Livros. São Paulo: Companhia das Letras. 6. Yvonne. 1993.) História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. (Org. São Paulo: Editora Oliveira Mendes. MAGGIE. In: MAIO. SANTOS. 1987. pp./dez. 173-244. SILVA JR. quanto aos ex-escravos alforriados pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. VALE E SILVA. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo/ Editora 34. Helio. 1996. apesar de desfavorecidos.a questão de anti-racismo: GUIMARAES. Kabengele.) Raça. Nelson 231 jul. Antonio Sergio Alfredo. São Paulo: Companhia das Letras.

Goiânia. Arquivo do Museu das Bandeiras doravante AMB: Impostos e Dízimos.5.437 escravos e apenas 10% são nagôs. 5º ed. Em 1783 registrou-se 17613 escravos e 40% são nagôs. v. Cuba e os Estados Unidos. registros de batismos e inventários encontramos entre os anos de 1750 e 1783 um aumento substancial no tráfico de escravos nagôs para Goiás. pp. nos termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. 3 Instituto de Pesquisas Históricas do Brasil Central doravante lPEHBC: Livro do Registro de Óbitos. Florentino (1997) observa que entre 1701 e 1800 foram exportados mais de dois milhões de cativos para as Américas. In: Microfilmes do C. falavam a lingua umbundo e ocupavam principalmente a província de Benguela no planalto central de Angola. Estudos Afro-asiáticos. Uma nota sobre raça social no Brasil. nº 26..H. pp.e. 1982. Na maior parte dos registros há um acentuado número de escravos de Moçambique nas primeiras décadas do oitocentos para Goiás. epidemias e grande número de mortos. VIII. vol. novas invasões de povos do interior do continente e o aumento do tráfico internacional de escravos para o Brasil. O segundo maior grupo era formado pelos quimbundos e o terceiro era formado pelos bancongos que ocupavam os territórios de Cabinda e as províncias do norte do país. Em 1750 a Capitania possuía 14. São Paulo: Companhia Editora Nacional. Livro 329. 98-120. Rio de Janeiro: s. 1977. 67-80. 1994. The Idea of race in science: Great Britain 1800-1960.1-13. STEPAN. 4 RODRIGUES. 6 A respeito do tráfico. avulsos: Termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos 17381792. Arquivo Histórico de Goiás doravante AHG: Documentos avulsos: códice 1129.567. p. v. p. Visita à História Contemporânea. Os africanos no Brasil. Leila L. 588: grave seca que ocasionou além de fome. Nancy. 1803-1810. n° 15 . Raimundo Nina. A África na sala de aula. 5 Nas matrículas oficiais de escravos pesquisadas por nós. 2005. o maior era formado pelos ovimbundos. bem como. HERNANDES. London: MacMillan University Press. 2005.11 e 12. São Paulo: Selo negro. 2 Dos grupos acima citados. Arquivo Frei Simão Dorvi doravante AFSD: Doc.Cristina Cássia Pereira Moraes do. 232 Revista Brasileira do Caribe.D. rolos 10. da USP. devido a uma desestruturação interna na região tais como observa HERNANDES.

GOMES. nota 13.123 e entre 1791 e 1799 foram de 1. eram conduzidos a São Félix e. 8 Censos de 1779: “Tabela 1: População da Capitania Goiás em 1779. Slave Life in Rio de Janeiro. 127). Capítulos da Visita: “Por ser obrigação nossa e do Officio Ecclesiastico Ordinário mandamos ao Vigário Ouvidor da Vara q hé e ao diante for nesta Vila q chegando aqui algum Navio ou barco de qualquer parte q venha o vá visitar como se faz em todos os portos de mar do reyno e saiba a gente q traz e de q religião e Nação são e q livros trasem e sendo depois da quaresma se se hão desobrigar no lugar donde vem”. Gilka SALLES. Karasch. Mary Karasch. na Cidade de Goiás e foram compilados por nós e pela Dra. p. Mappa de Contagens de Escravos. op. Códice 15: Capítulo 16. (Org) Liberdade por um fio. 1992./dez. Mary C. p. p. Karasch. NJ. 233 jul. 1792-1799. 2002. Transformations in the American Diáspora. 336. Cambridge University Press. e p. Princeton University Press. 162. 2002. 1996. de seu livro intitulado Central Africans and Cultural. “Os quilombos do ouro na Capitania de Goiás”. posteriormente. Cit. 10 (KARASCH. 2007 .208: Mary C. p. 100-101. Depois. no interior de sertão da Bahia. prosseguia até o registro do Duro.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 7 Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do tombo doravante IANTT: Mesa de Consciência e Ordens: Secretaria do Mestrado da Ordem de Cristo: Papeis do Brasil: Jurisdição Eclesiástica no Brasil. 242. In: REIS. documento 1518. a Vila Boa ou a Natividade. finalmente. 24 junho 1768. 22 de Ju1ho 1793. São Paulo: Companhia das Letras. João José.117151. Cruzava o Rio São Francisco em Barreiras. England. História dos quilombos no Brasil. aonde eram contados e registrados. 9 Agradecemos à professora Mary Karasch que gentilmente nos propiciou todos os dados sobre os escravos na Capitania de Goiás. AFSD: Documentos avulsos: Cartório do Primeiro Ofício. 12 Os registros de batismos e óbitos se encontram no Orfanato São José. nº 13. e AHU: caixa 24. 1987. Princeton. 1767.. A rota percorrida pelos cativos de Salvador para Vila Boa passava Cachoeira. Outrossim. p. 53. Flávio dos Santos. 1808 -1850. 11 O número de cativos advindos para a Capitania de Goiás por essa rota em 1767 foram 1. Uma segunda rota para os comerciantes da Bahia passava pelos registros de São Domingos ou Lagôa Feia a Meia Ponte e. 1780-1835”. p. chegava a Vila Boa. foi de primordial importância para nossa pesquisa o capítulo “Central Africans Central Brasil.

e fazendas. mas até os mesmos que já se acham batizados e habitão nos Sertoens do mesmo Brasil.134 e 134v.. comprallos. 1764. levallos para outras terras. 1794 -1834. vendellos. 15 Todos os dados referentes ao Livro de Óbitos de Meya Ponte foram transcritos pela estudante do curso de Historia da Universidade Federal de Goiás Maria Lemke Loiola.169v. Parágrafo 6º. p. transportallos ou por qualquer modo privallos da sua liberdade e retellos em escravidão.. 20 de dez 1741. n° 15 . (. tudo o referido não obstante. 1748.. Orfanato São José.) 14 Arquivo Geral Diocese de Goiás. 16 Arquivo Histórico Ultramarino doravante AHU::Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. vol. 1777: códice 1814: Capítulo 3. 234 Revista Brasileira do Caribe.Cristina Cássia Pereira Moraes 13 Biblioteca Nacional de Lisboa doravante BNL: Reservados 1972 5v: Breve do Papa Benedito XIV sobre escravidão dos índios do Brasil. Goiás.) mandeis afixar Edictos publicos pelos quaes apertadamente se prohiba debaixo de Excomunhão late sentente (.. despojallos de seus bens.. se achão agora principalente nessas regiões do Brasil homens que fazendo profissão da Fé Católica vivem tão inteiramente esquecidos da Caridade insufa pelo Espirito Santo nos nossos coraçoens e sentidos que reduzem a cativeiro vendem como escravos e privão de todos os seus bens não só aos miseraveis indios que ainda não allumiou a luz do Evangelho.. VIII. p. Batizados.(. livro 3. folha 17v e 1775. que os sujeitassem a escravidões e que lhes maquinasse ou fosse dada a morte. (. prohibindo debaixo de severissimas penas e censuras ecclesiásticas que se lhes fizessem injurias que se lhes dessem açoites. trocallos. que fossem metidos em cárcere.) se atreva.1792: Termo de concentimento da Irmandade sobre a quartação do irmão Francisco. ou dallos separallos de suas mulheres e filhos. Goiânia.) e depois das constituições em que ordenarão que se devião socorrer os infieis no melhor modo. 17 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. PIBIC-UFG – 2001-2003. nem attente daqui em diante fazer escravo os referidos indios...

2000: 15). libertando também o cônjuge legal de um casamento. muitas foram beneficiadas pela fidelidade da mãe aos proprietários. avós.113b: 22 O fato de um escravo ser criança deve ter favorecido a conquista de afeto e atenção especial dos senhores. acorram em auxílio do parente incapaz de juntar o dinheiro necessário à sua libertação. 19 MORAES . 113. mas cujo senhor parece disposto a alforriálo. A alforria era um ato jurídico pelo qual o senhor por sua vontade concedia liberdade ao escravo. Os escravos alforriados por terem sido criados pelos donos. 1988: 80). (BELLINI.. O ex-cativo passava a ter capacidade jurídica e passava a exercer diversos direitos anteriormente inexistentes. p. os escravos que pertenciam a toda nação por haverem chegado ilegalmente após a abolição do trafico em 1850. 1973. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. Maria Augusta de S. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. Cartório do 1º ofício de Vila Boa de Goiás. mãe. autorizando a liberdade dos “escravos de nação”.659-695. 23 Livro de notas. 64. se um dos membros do casal é livre. (BELLINI. isto é. 18 O termo alforria é uma palavra oriunda do árabe ah-horria que significa liberdade do cativeiro. 1988: 80). 2007 . 24 A historiadora MATTOSO. irmãs.” In: Anais do VI Simpósio Nacional da ANPUH. (LEITE. liberta a criança “achada” pois presumidamente é livre. a legislação definiu algumas normas que influenciavam na aquisição das alforrias. já adultos. eram crianças ou obtiveram a liberdade. liberta o escravo que encontra um diamante de grande valor e a mesma graça é concedida ao escravo que denuncia seu senhor contrabandista ou fraudador 21 AFSD: Documentos avulsos: Inventário do Capitão Francizco Pr ª Mendez . Exemplo: José Antonio da Silva abaixo assignado declara possuir entre os seus 235 jul. já adultos. para ele.observa que pai. marido. pp./dez. “ O Abolicionismo em Goiás. irmãos. Além disso. madrinha. páginas 112b. São Paulo: Marco Zero/ANPUH.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII folha 32. ou ainda eram crianças ou obtiveram a liberdade. que têm posses. 20 Somente no século XIX.

liv. 1996. libertinos e ateus que apenas por conveniência e camuflagem. 4. introdução do tít. parag. fl. p. Vagner G. tít. Lilia Moritz e REIS. boa parte dos cristãos-novos. 27 Ibidem. livro 4. VIII.S. 1748-1792. mais como encenação social do que com convicção interior. filha de sua escrava Delfina. 18 de março de 1793. e por desejar manifestar o reconhecimento pela dedicação prestada e reconhece a escrava como legitima filha. Cf: SILVA. referindo-se ao “panorama” religioso do Brasil. 102. vol. que aceitavam convictamente os dogmas e ensinamentos impostos pela hierarquia eclesiástica.) Negras Imagens. freqüentavam os rituais impostos e controlados pela hierarquia eclesiástica mas que mantinham secretamente crenças heterodoxas ou sincréticas.Cristina Cássia Pereira Moraes bens uma escrava de nome Felicidade de 20 annos. 25 IPHBC: Livro do Registro de Óbitos. Goiânia. (1995: 191). 4. do Rosário de Villa Boa. Letícia V. parag. p. livro 4.195-210. 102 e 102 v. muitas vezes incluindo em seu cotidiano “sincretismos” heterodoxos. São Paulo: EDUSP. 81. 28 Ibidem. classificou os colonos da seguinte maneira. 1803-1810. animistas. Por que o candomblé ?” In: SCHWARCZ. “Símbolos da herança africana. (Org. Ensaios sobre a Cultura e Escravidão no Brasil. para evitar a repressão inquisitorial. livro 4. parag. “católicos displicentes”. 29 Ibidem. tít. 236 Revista Brasileira do Caribe. 81. que cumpriam apenas os rituais e deveres religiosos obrigatórios. n° 15 . tít. mas por indiferença e descaso espiritual. 26 Ordenações. 1. KARASCH. concedendo sua liberdade de hoje para sempre. da e AMARAL. “católicos praticantes autênticos”. de S. 3 e livro 4. 30 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de N. p. 146. que evitavam os sacramentos e demais cerimônias sacras não por convicção ideológica. 85. “pseudocatólicos”. Rita de Cássia. introdução do tít. os católicos praticantes superficiais”. 92. Maria Banguela. fl. 2002. 56. faz referência a esse documento. 32 Sobre o tema. 29. (1997: 175). 31 QUINTÃO Apud. Luis MOTT. lhe concedo a liberdade pelo amor que lhe tenho.

BASTIDE. 37 Frei AGOSTINHO DE SANTA MARIA. MS. 38 IANTT: Livro de São Domingos.147. p. In: Luso-Brazilian Review. 2007 . Carlos. também em 1939 pela editora Casa do Livro e em 1987 pela editora Livros Horizonte. 1986. “A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Pelourinho”. Devoção e Escravidão.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 33 Entendemos a circularidade como uma interpenetração de diferentes elementos culturais a partir dos estudos de Mikail Backitin. Carta dos Mordomos e irmãos da antigua confraria da madre de Deos.145. Roger.. 1974. Caio C. L. 35 IANTT: Livro de São Domingos. Lisboa: Pedrozo Galvão. Julia. Brasília: EDUNB.” In: Hispanic America Historical Review. 1987. O contexto de François Rabelais. v. p. 1976. BOSCHI. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. 1707 a 1721. In: Clenardo e a sociedade portuguesa do seu tempo. nº 2. s/d (Feito Creca de 1551 segundo cardeal Cerejeira. São Paulo: Pioneira. winter.30. As Religiões Africanas no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional. L. Santuário Mariano. FLORENTINO. J. OTT. p. In: Revista Afro-Asia. 17. nº 6-7. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. A. 54. Paris: Ecole Des Hautes Etudes En Sciences Sociales. 1980. José Roberto. KARACH. Os leigos e o Poder. Mary. RUSSELL-WOOD. 1968. Didier. 34 Sobre essas análises ver: LAHON. São Paulo: Ática. nº 4. Patrícia A. R. Germão Galhardo.30: Petição dos confrades e irmãos da antiga irmandade de confraria da madre de deos. MS. Christovão Ruiz Rodrigues de. “Black and mulatto brotherhoods in Colonial Brasil: A study in collective behavior. Esclavage et Confréries Noires au Portugal durant l’Ancien Régime (1441-1830). p. de Lisboa. v. MS. 237 jul. Sumario em que brevemente se contem algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa. “Black brothers and sisters: Membership in the black lay brotherhoods of Colonial Brasil”. 1997. 2001. P. Cambridge: Cambridge U. A paz nas senzalas. 36 Ibid. MULVEY. 160. Slave in Rio de Janeiro 1807-1850. E. SCARANO. São Paulo: Huicitec./dez. 143. 39 OLIVEIRA. (Tese de Doutoramento). O Sumário foi publicado também em 1755. 1971. Manolo e GOES. 1987.

1796. Era um pedreiro empreendedor. seu Senhor Vicentinho. de São José do Tocantins. obteve controle sobre essas forças. 45 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Coronel Joze Boiz. em vida. 1748. n° 15 . que serviu por seis vezes. é reconhecido como um guia. vol. por ocasião da entrada de algum membro. sem especificar o nome dele.1792: como exemplo. 44 Ibid. 1777: Parágrafo 2º. temos como escrivãos. 1762: Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. escravo do Capitão Dantas.Cristina Cássia Pereira Moraes 40 Orixá entre os iorubas e nos ritos religiosos afro-brasileiros significa a personificação ou deificação das forças da natureza ou ancestral divinizado que. ou seja. 238 Revista Brasileira do Caribe. Luiz. escravo do Alferes Jose Manoel. Leonardo. escravo do Vicentinho. Theodosio. 42 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 1762:Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. escravo do Tenente. escravo de Anna Paes. João. o qual também era Alferes. Goiânia. como tesoureiro: Francisco. serviu três vezes. Gregorio da Costa serviu por quatro vezes e não aparece sua profissão e somente em um termo de mesa há referência ao seu senhor. 1748: Capítulo 1: Composição da Irmandade. era um compromisso moral e ético assumido por todos os que eram aceitos para participarem da irmandade. 41 Documento lido pela irmandade em reunião fechada com os irmãos. era o caixeiro da loja de fazendas secas. que serviu por nove vezes de escrivão e tesoureiro. o qual serviu por quatro vezes. 46 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. AFSD: Documentos avulsos Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. VIII. Termo sem titulo legível: página 16. (a data de ereção é de 1734) 43 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. pois arrematava obras e possuía dois escravos e serviu por sete vezes. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar.

49 Ibid. (TINHORÃO. 1777: Capítulo 4º. Capítulo 4º: Das mezadas e sua aplicação. Documentos avulsos Termo de 239 jul. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. Capítulo 5./dez. passaram a englobar sob o nome de Angola tudo o que antes se sujeitara ao poder africano vencido no Manicongo. Capítulo 4: Das obrigações dos officiaes escrivão. referindo-se ao Rei dos Angolas: os portugueses. Capítulo 15. no Recife.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 47 Infelizmente. 52 Ibid. 2007 . 1796. à volta de 1674 a 1675. 50 Ibid. as mais antigas referências documentadas sobre as solenidades de coroação de Rei do Congo. 48 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. procurador. AFSD. 1762. Trairas e São José do Tocantins para sabermos o número de irmãos que participavam das associações de pretos. thesoureiro. 1777: Capítulo 4º. Capítulo 3º: Da nova eleição dos officiaes. AFSD. Crixás. 51 AHU: códice 1814:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. sob responsabilidade da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário aparecem nos livros de despesa e receita. Capítulo 2º: Da mesa e suas atribuições. 53 No Brasil. parágrafo 5º. não temos todos os dados dos termos de assento das irmandades dos arraiais de Pilar. 1796.: Parágrafo 4º e 5º. 2000:88) 54 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Documentos avulsos. 55 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. após duas guerras contra os reis do Congo em 1656 e 1666. 1777.

Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 1748. 71v. Capítulo 5: Das obrigações dos irmãos. 1796. fl.1762. 1777. 58 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos. Capítulo 10. 42. Villa Boa. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. 1762. VIII. Capítulo 2º. parágrafo 3º. Goiânia. 1748-1792. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. Capítulo 4: funçoens dos officiaes. n° 15 . 57 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 1777: Capítulo 4º. ao serviço divino 64 AFSD. 1748. AFSD. 1762.Cristina Cássia Pereira Moraes Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. 56 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. AFSD: Documentos avulsos. 240 Revista Brasileira do Caribe. 1796. Capítulo 10. 1796. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. Capítulo 5: atribuiçoens do escrivão. fl. parágrafo 2º. 63 Guisamentos são utensílios e alfaias necessários ao culto. Capítulo 14. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos de Pilar. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. 61 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 62 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. Documentos avulsos. vol. parágrafo 1. 60 Ibidem. 59 Ibidem.

Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa.” Actas del II 241 jul. de uma paróquia. 1993. Brasília: EDUNB. 1999. JANCSÓ. p. 66 Um dado interessante sobre as nossas congêneres portuguesas: Em Portugal. 2002. O Teatro dos Vícios. São Paulo: Paulinas. p. ou seja. O contexto de François Rabelais. nem mesmo uma capela pequena. Maria Fernanda D.” In: KANTOR. Os pretos do Rosário de São Paulo. Brasília: EDUNB. 102-104. Lisboa: Centro de História da Cultura.95. de um eremitério. LAHON. Maria Fernanda D. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. T. Idéias Religiosas em História das Idéias. T. São Paulo: HUCITEC/FAPESP: Imprensa Oficial. Mikail. 2001. Cf. 1961 e HURBON. C. Todas as irmandades de pretos foram instaladas nas Igrejas de um monastério. Cit. “Le Vandou est-il une réligion polythéiste u monothéiste?” In: Bulletin du Bureau d’Etnologie. São Paulo: Edições Alarico. Aproximação à matriz civilizacional do ocidente cristão. (Tese de Doutorado) AMARAL. Laennec. Subsídios Históricos. István.” In: REIS. p. 2001. Íris. ENES. Raul Joviano do. 361-396. L. p. Transgressão e transigência na sociedade urbana colonial.18. AGUIAR. Bibliografia AGUIAR. São Paulo: USP. (Org) Escravidão e Liberdade: estudos sobre o negro no Brasil. ARAUJO. Paul E. BELLINI. perto do coro e muito longe do altar principal. p. 447-512. 1987. Vol.I e II. Emanuel.. 1953. nenhuma irmandade composta por homens pretos construiu um lugar de culto./dez.75. “O Culto da cruz e do sangue na afirmação da Humanidade de Cristo no Portugal de seiscentos e setecentos. Port-au-Prince. O deus da Resistência Negra. São Paulo: Huicitec. 1987. BACKITIN. Cf. abril. sempre cercada por outras associações religiosas de branços e localizadas no espaço interior das igrejas geralmente no primeiro altar da esquerda ou direita da entrada. São Paulo: Brasiliense. João J. ENES. (Org) Festa. Capítulo 20.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 65 Ibidem. op. 1988. 2007 . nº 5. Marcos Magalhães de. “Por amor e por interesse a relação senhor-escravo em cartas de alforria. “Festas e rituais de inversão hierárquica nas irmandades negras de Minas colonial. Marcos Magalhães de Negras Minas Gerais: Uma História da Diáspora Africana no Brasil Colonial.

2000.” In: Dicionário de História Religiosa em Portugal. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo. ENES. 1999. T. Lisboa: Círculo de Leitores. T. ” In : Dicionário de História Religiosa em Portugal. 1983. 115-116. Reforma Tridentina e a religião Vivida. 1999. VIII. 1994. KARASCH. 1998. “A Diocese de Angra e Ilhas dos Açores. São Paulo: Francisco Alves Editora. “A Proclamação de 1789. T. Ponta Delgada. Antonio Sergio Alfredo. Central Africans Central Brasil. FLORENTINO. Ponta Delgada: Signo. Pombal. p. Maria Fernanda D. Transformations in the American Diáspora.” In: Actas do Colóquio: O Cinquentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem.. Clara D.. I vol. Tecendo a Liberdade: Alforria em Goiás no século XIX. Franca 2 (1995): 11-36.Cristina Cássia Pereira Moraes Congresso Internacional de la Vera Cruz. Múrcia: 2000.69 (Dissertação de Mestrado) 242 Revista Brasileira do Caribe. 2. n° 15 . ENES. In: LE GOFF. Filipe I sobre o Clero das ilhas dos Açores de 1590. Maria Aparecida Junqueira da Veiga. Goiânia. Manolo e GOES. Goiânia: UFG. “Redes de Sociabilidade e de Solidariedade no Brasil Colonial: As Irmandades e confrarias religiosas. Maria Fernanda D. GAETA. T. Maria Fernanda D. 2000. Maria Fernanda D. Ponta Delgada: Universidade dos Açores. 2000. ENES. p. ENES.” In: Actas do Colóquio: Pombal e a sua Época. 61-95. p.” In : Revista Arquipélago. GUIMARAES. In: Central Africans and Cultural. Maria Fernanda D. T. T. “As polémicas missões dos anos sessenta de oitocentos em São Miguel. LEITE. ENES. “A Reforma Pombalina nos Açores. Dominique.” In: Actas Congresso Internacional de História: Missionação Portuguesa e Encontro de Culturas. “A religião: História religiosa”. p. 1780-1835”. José Roberto. T. T. raça e democracia. Classes. 1997. ENES. Mary. A paz nas senzalas. 1993. vol. Maria Fernanda D. Pierre. Lusitana Sacra. História: Novas Abordagens. “ Uma Carta de D. Momento Fundacional dos Direitos do Homem e do Cidadão.“A vida conventual nos Açores: Regalismo e Secularização (1759-1832)”. ENES. 67-81. I vol.ª (11).. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2002. Jacques e NORA. 1991. ENES. Maria Fernanda D. Maria Fernanda D. Lisboa: Círculo de Leitores. Cambridge University Press. Braga : Universitas Catholica Lusitana. 2002.” In: Revista Estudos de História. JULIA. England. “Clero Secular: do século XVI ao século XVIII.

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244

A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (17601776)
Maria Lemke Loiola Abstract
The orbital books in churches are sources little explored in the study of slavery. However, these sources contain relevant informations about the life of slaves: origin, cause of death, place of burial, links to religious groups and interpersonal relations. The analysis of these sources can help to understand some of the gaps that historiography of Colonial Goias regarding slavery. The access to eclesiastical sources, orbital books and ecclesiastical visits allow my study to address some issues about the slaves in Meya Ponte (under the name of Pirenolopolis today , Goias , Brazil) between 1760 and 1776. Keywords: Slavery, Social relations, XVIII Century, Dead

Resumo
Os livros de registro de óbitos são fontes pouco pesquisadas para os estudos da escravidão. Entretanto, eles trazem informações importantes sobre as vivências escravas: seu grupo de procedência (SOARES, 2002), causa mortis, lugar de enterramento, associação, ou não, às irmandades, bem como suas relações interpessoais. A análise dessas informações pode contribuir para minimizar as lacunas na historiografia de Goiás colonial referente à escravidão. Dialogando com fontes eclesiásticas, registros de óbitos e visitações eclesiásticas, o presente estudo aborda algumas questões acerca das vivências escravas em Meya Ponte (atual Pirenópolis) entre 1760 e 1776. Palavras-Chave: Escravidão, Relações Sociais, Século XVIII, Morte.

*Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 245-265, 2007

Maria Lemke Loiola

Resumen
Los libros de óbitos de las iglesias son fuentes poco investigadas en los estúdios de la esclavitud. Sin embargo, ellos traen informaciones relevantes sobre la vida de los esclavos: procedencia, causa de muerte, lugar de enterramiento, si estaban o no asociados a hermandades así como sobre relaciones interpersonales. El análisis de esas informaciones puede minimizar las lagunas en la historiografía de Goiás colonial referentes a la esclavitud. El diálogo con fuentes eclesiástticas, libros de óbitos y visitas eclesiásticas, utilizadas en el presente estudio, permite abordar algunas cuestiones sobre la vida de los esclavos en Meya Ponte, actual Pirinópolis, Goiás Brasil, entre 1760 y 1776. Palabras clave: Esclavitud, relaciones sociales, Siglo XVIII, Muerte

Há algum tempo assistimos o revigorar dos estudos sobre a escravidão colonial em suas múltiplas faces, em perspectivas regionais e menos totalizantes como sugeriu Britto (2002). Contudo, nos deparamos com alguns aspectos que podem dificultar nossa “aproximação” a um passado mais dinâmico, mais rico em sua cotidianidade. É o caso das fontes que, para análise de Goiás colonial, estão espalhadas em vários arquivos, além de muitas terem desaparecido nas brumas do tempo pela ação dos homens e dos “papirófagos” vorazes. Entretanto, nem tudo está perdido. A documentação eclesiástica tem sido bastante profícua aos historiadores interessados na vida dos atores sociais de um período mais recuado no tempo. Várias pesquisas têm renovado os olhares sobre a escravidão e nessa temática tem se destacado a religiosidade escrava. Termos de compromissos de irmandades têm trazido contribuições importantes sobre a organização dessas redes de solidariedade.1 Mas, se por um lado os compromissos podem nos ajudar a apreender os fundamentos e preceitos das irmandades, a ênfase na morte e a ajuda mútua ou empréstimo a juros; por outro, não nos dizem muito sobre a quantidade de homens e mulheres que nelas congregavam. Para a região de Meya Ponte2 até o presente não
246 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

A morte branca do escravo negro...

nos deparamos com registros que atestem o número de seus confrades. A preparação para a morte foi algo bastante enfatizado nos compromissos. Boa parte dos trinta e seis capítulos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte dispõe sobre o assunto. Por isso, neste ensaio, proponho os livros de assento de obituários como fonte a ser utilizada para verificar a abrangência e inserção das irmandades de pretos no contexto da escravidão. Assim, pode-se supor que houvesse muitos homens e mulheres preocupados com o bem morrer, buscando essas associações. Entretanto, o livro de assentos de óbitos de 1760 a 1776 nos mostra que do total de quase oitocentos óbitos, apenas 39 foram acompanhados ou enterrados por essas confrarias.3 É certo que os párocos freqüentemente omitiram informações e é possível que o número de acompanhamentos por irmandades aumente, mas seria um aumento pouco expressivo, da ordem de 2% do total.4 Quando compararmos estes assentos com o período de 1803 a 1810, percebemos que seu número dobra. De 1760 e 1776 temos uma proporção bastante próxima entre enterros feitos pela Irmandade do Rosário dos Pretos (17), destes, a metade era de escravos, e irmandades de brancos, como Almas e Santíssimo Sacramento (22); no período de 1803-1810, tivemos um total de cinqüenta e oito acompanhamentos/enterros feitos por irmandades. Nestes sete anos, o número de forros enterrados na capela do Rosário é significativamente superior ao de escravos, somente 10% do total de trinta e quatro enterros feitos na capela do Rosário foi de escravos.
Desse modo, não se pode dizer que para os escravos de Meya Ponte e adjacências fazer parte de uma irmandade fosse questão de vida ou morte. Mas, isto poderia evitar que abusos cometidos por “[...] alguas pessoas esquecidas de toda a humanidade christãa, [que] não escrupulizão em mandar enterrar no campo, e mato, os escravos, q’ lhes morrem, como se fossem animaes brutos, contra o antigo, pio, e Louvavel costume da Igreja

247 jul./dez. 2007

Maria Lemke Loiola

Catholica [...].”.5

Talvez, por isso, as irmandades enfatizassem tanto nos preparativos para a morte. Mas, enquanto uns enterravam escravos no mato, seja por incúria, seja pela situação de pobreza, havia ainda os que recorriam a mentiras para conseguir enterrar um escravo. Henríquez Ferreira Pinto manifestou ao padre Jozé Pires que gostaria de ter seu escravo João Angola enterrado na capela dos pretos por ser este irmão da mesma “[...] o que constou-me depois de ser ter dado a sepultura tal não ser, de que para constar fiz este assento.”6 Teria enganado o padre apenas por ser pobre ou por, mesmo na situação precária, manter relações de afeto com seu escravo? Se existiram brancos pobres, sem recursos que usavam de insólitas estratégias para enterrar seus escravos, também temos notícias de pretos “mina” que superaram a condição escrava e chegaram a fazer testamento e ser enterrado com toda a pompa fúnebre. Tal é o caso de Gaspar,
[...] homem preto forro de nação minna,[...], e Fez seu Testamento, em que declarou que o acompanhasse o seu Reverendo Parocho, e lhe disse no dia do seu falescimento, se podesse ser, missa de corpo prezente, e deixou mais ao alvidrio de seu testamenteiro, lhe mandasse dizer aonde lhe parecer, vinte missas, pela sua alma; e era cazado com Domingas Machado, crioula forra [...]7

Gaspar certamente teve vínculos com a irmandade do Rosário dos pretos. A proximidade de sua cova do altar-mor sinaliza um cargo importante na Mesa administrativa, o que lhe conferia certas prerrogativas. O preço pago para ser enterrado em lugar tão importante na capela do Rosário dos Pretos de Meya Ponte era alto. Gaspar deveria desembolsar vinte oitavas de ouro, caso não tivesse sido irmão “comum”, ou seja, nunca ter tido cargo administrativo.

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raios e “acidentes de trabalho” são sempre descritos. Houve senhores que perderam dois ou três escravos num pequeno período de tempo. a oito missas. Casos de mortes violentas por armas de fogo. os párocos deveriam imediatamente administrar os sacramentos: “Porquanto pellas grandes enfermidades q’ cotidiannamente estão dando nos 249 jul. dois a cinco dias.] assim serão admitidos aella Brancoz. que aceitava “todos os fieis aque sua noção incita (. escravoz.) se exceptua Pessoa algua’ dequalq. no máximo. De igual modo não podemos chamar estes homens e mulheres libertos de coniventes com a escravidão por conservarem cativos seus semelhantes. o visitador Alexandre Marques do Valle determinava que no segundo dia após haver notícia de doença ou se a enfermidade se mostrasse grave.. Chamava-se Nicolao do Rozário e foi enterrado dentro da capela.A morte branca do escravo negro. picada de animais peçonhentos.. Não podemos afirmar seguramente.)”8 tinha seu próprio escravo.. se tivesse sido “juiz de mesa”. A maioria desses escravos morreu sem sacramentos. mas pela aparente condição alcançada por Gaspar é quase certo que também possuísse seus próprios escravos. Pretoz. Como irmão comum teria direito a cinco missas.. mas também às posses. teria direito. É mais provável que o reconhecimento na sociedade estava relacionado não somente à cor. e Forroz (. Na primeira visitação eclesiástica (1734).r qualide [. 2007 . pois muitos deixavam de receber sacramentos pela demora dos padres em percorrer a distância até o moribundo. Embora não saibamos o que levou boa parte dos homens e mulheres da região de Meya Ponte ao óbito. supomos que eventualmente ocorriam epidemias.. o que lhe deu mais mobilidade e liberdade para conseguir juntar pecúlio e transcender a condição escrava./dez. Mesmo a Irmandade do Rosário dos Pretos. Não seria o único a tê-los. O fato de ter morrido com todos os sacramentos reforça a hipótese.. Como ocorria com a maioria dos escravos. Mas as moléstias que ceifavam muitas vidas em poucos dias continuam na obscuridade pretérita... Seu testamenteiro teria que providenciar vinte. recebera o sobrenome do dono. Provavelmente Gaspar viveu no núcleo urbano de Meya Ponte.

e ainda naquelles q’ o não São [. “pela grande distância”. se por um lado 250 Revista Brasileira do Caribe. O visitador recriminava ainda as práticas comuns de enterrar no campo. será castigado.. o visitador João de Almeyda Cardozo volta a ameaçar: “Qualquer Sacerdote.. Jozé. digo. na forma das Comstituiçoens tit. não só por preceito de charidade. “morreu sem sacramento algum. quando cheguei o achei já morto.. por que sendo chamado pelas seis horas da tarde.. o vigário Joze Pires dos Santos Souza explicou no assento de Viscencia que “faleceu sem sacramentos por incúria de seu senhor..13 Mas. que for chamado para confessar algum infermo.. segundo informação do padre que andou dezobrigando aquelle destricto [. [. no mato ou jogar os corpos dos escravos no rio. n° 15 . deve acodir com promptidão. escravo adulto do referido Basto. [... e foi sepultado em hum lugar distado na tal paragem.]”.Maria Lemke Loiola escravos.. que fica distante desta freguezia seis legoaz.] nação Mina escravo de Manoel Moreira de Carvalho.]”.] o qual morreu sem sacramentos. estando distante. Para se eximir de multas e reprimendas. Goiânia. ou impedido o parocho. A situação dos escravos não parece ter mudado ao longo do tempo. VIII. 48 no 204”. como se de justiça fosse a isso obrigado.. como porque se por sua culpa morrer o infermo sem confissão. ou em qualquer outro lugar onde serviam de comida aos cães9.. Segundo o padre. vol.]11 Justificações como estas são ainda presentes em vários registros: “por morrer de repente”. ou Capellão de capella filial. destinado na tal paragem.10 Talvez pela possibilidade de pagar multas por omissão encontramos frequentemente assentos como o de Gregório [. poiz do assento não consta [ilegível] o senhor tinha dado só para lhe não pedir o Estipendio dos sufragios por ser acostumado a isto [..]”12 O dito vigário foi mais longe e não hesitou denunciar Luis Antonio Basto. e caminhando toda noite para chegar ao citio aonde se achava o infermo. Decorridos quase cinqüenta anos das palavras do reverendo Valle.

podemos imaginar que os padres estiveram entre os que não estavam muito preocupados com as condições de trabalho dos seus escravos. decorrente de acidente de trabalho.. por vezes.]. e não houve Lugar para Se lhe acodir com os Sacramentos [. Os senhores deixavam livres apenas os domingos 251 jul. [. que para logo o matou. Vários deles possuíam escravos empregados na extração aurífera e.A morte branca do escravo negro.] Jeronymo nação minna escravo (. buscando o próprio sustento ou mesmo tentando encontrar a pepita que lhes daria a liberdade. não foi muito incomum “[. que o cobriu [.14 Talvez por isso. A taxa tanatológica. esta informação remete às recorrentes recriminações feitas aos senhores negligentes.. por outro. os padres chegavam a enriquecer tal era o abuso com que cobravam os emolumentos.. p. leva ao alto preço cobrado pelos párocos por serviços funerários.] acompanhara os Irmãos deffuntos com Sobrepelliz asistira as feztas e solenid.es da Irmand...... em hum corrego lhe cahio na cabeça hum pao./dez.. conforme lembra Hoornaert (1992. esses escravos morreram quando trabalhavam por conta própria..] qualquer Religioso de qualq.] e faltando a sua obrigação Sem cauza Se lhe dezcontara hua 8a por cada vez. levou até mesmo os oficiais da Câmara de Vila Boa a denunciarem que. de uma só vez o reverendo José Pinto Braga16 perdeu três escravos enquanto mineravam numa cata.e tudo pago pella porção em q’ Se ajustar com a Meza [. Em 1762.]”18 Jozé mina “estava andando a minerar em huma mina. 282)....”19 Se os óbitos ocorreram no domingo.] quando lhe cahio em cima uma pouca de terra. 2007 .17 Apesar de não sabermos se Antonio. Miguel e Thomé eram escravos africanos. por assim dizer. O mesmo tipo de morte.) que andando a minerar.... em época de epidemias... também perdiam seus investimentos. as irmandades manifestavam o desejo de manter os párocos como seus subordinados para celebrar festejos e missas. Essa subordinação também pode ser vista no capítulo do compromisso da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte que compreendia as obrigações do eclesiástico “[.r Religião [.”15 Mas nem só de emolumentos e benesses cobradas exageradamente viviam os padres das minas de Meya Ponte.

No compromisso confirmado em 1782. o que forçosamente. 176). p. de modo que penetravam desimpedidas não só as águas do solo como as águas pluviais. esta afirmação já carregue a resposta para o motivo de haver tão poucos escravos presentes nas irmandades. ser respondida com as informações deixadas pelos párocos que registravam os batismos.. São eles ainda que nos relatam algumas formas de extração do ouro: “o poço era inteiramente desprotegido. O tempo livre para pensar nas coisas de Deus também poderia ser usado para criar laços de solidariedade e. enfatizavam que a falta de princípios mineralógicos e interesse dos mineiros em melhorar as técnicas de extração levava ao abandono prematuro das lavras. mas também desmoronamentos. casamentos e óbitos. Por isso. em parte.Maria Lemke Loiola e dias santos. que prohibe trabalharse naquelles dias [. apesar de. Naturalistas como Pohl. o capítulo 7º da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte determinava que. vol.21 Se o tempo “livre” deveria ser empregado para o sustento próprio.]”20. por respeito aos irmãos cativos. n° 15 . Mas. as reuniões de mesa ocorressem aos domingos. Acrescentar-se-ia que não haveria somente alagamentos. restaria pouco tempo para atividades relacionadas à religião. como sugere o trecho acima. Pohl tenha nos dado um indício de como trabalhavam e morreram os escravos do padre Jozé Pinto Braga. aberto por cima. “Donde provem q’ os mizeraveis escravos não ouvem missa. no rastro dos visitadores eclesiásticos. ainda assim nos informam sobre a diversidade das nações d’África que constituíam a escravaria da região de Meya Ponte e adjacências 252 Revista Brasileira do Caribe. Mas os soterramentos nos sugerem que o sistema de prospecção empregado não fosse o mais indicado para o tipo de solo local. redes de conchavos e conspirações. VIII. podermos chamá-los de relapsos e pouco cuidadosos. quem eram esses homens que extraíam o ouro? De onde foram trazidos? Tal pergunta pode. Quiçá. sem querer. nem guardão o preceito da ley de Deos.. Goiânia. Talvez. mais perigosamente ainda. acabaria por alagar a mina” (1976. Acidentes de trabalho aconteceram e acontecem em todas as épocas e lugares.

22 Para Soares os estudiosos sobre o Brasil colônia se preocupam mais com a expansão dos povos europeus do que com a diversidade racial e cultural africana (2000. Por ter morrido sem testamento. Quem sabe os registros de seus filhos possam. mas 253 jul. será difícil aproximarmo-nos de suas histórias. mais próxima ao litoral. Ronaldo Vainfas também alerta para os “equívocos e tabus da historiografia brasileira”. está no casamento entre o castelhano Francisco Gonçalves e uma preta mina anônima. No período analisado (1760-1776). p. nos contar algo mais. 22). os “cobu.. dificultam sobremaneira a compreensão de aspectos da “estratificação social e suas representações nos primeiros séculos de nossa história” (1999. foram também os responsáveis por disseminar a idéia do que se poderia chamar de “homogeneidade da e na diversidade” que. por incrível que pareça. 2007 .A morte branca do escravo negro. ainda pouco investigada. no século XVIII. p. os escravos “mina” eram maioria. apesar de serem os precursores desses estudos.. de gentio da Guiné”. Paiva (2002) constatou que nas regiões de Minas Gerais onde prevalecia a mineração. os “benguela”. seguidos de “angolas”. mais provavelmente. Será que este padrão também pode ser empregado em Goiás? A questão sobre as identidades étnicas africanas é bem recente na historiografia brasileira. Da mulher de Francisco Gonçalves sabemos apenas que era mina.. Nina Rodrigues e Silvio Romero.. algum dia. É de se considerar que o número maior de trabalhadores “mina” esteja relacionado aos conhecimentos técnicos de mineração que possuíam. Muito mais não sabemos deste casal. no trato com a questão racial e a miscigenação./dez. Na esteira desta afirmação podemos refletir como seria o cotidiano de uma família construída pelos laços entre dois continentes distintos? Uma pista para esta resposta ou. não temos nenhum registro. 23 Sabemos que “perpetuaram sua espécie”. 26). os “caboverde”. Os “angola” predominavam na região de economia agropastoril. a complexidade da pergunta. entre os africanos encontramos os “mina” em maior número. ainda é aceita atualmente. Designação genérica que encobre não somente o lugar de onde veio.

“[o escravo] já chegava da África desestruturado de sua tribo. modo de vida. Neste trecho a historiadora goiana nos alerta sobre a importância de se desvendar as especificidades étnicas dos vários grupos que constituíam a população negra da capitania de Goiás. A bem dizer. destribalizado. Salientando sempre a violência que. inclusive a alma e o nome na infeliz travessia [.. VIII. Alguns receberem o sacramento do batismo na hora da morte por 254 Revista Brasileira do Caribe. Em sua análise sobre a escravidão no Brasil Central. e crenças religiosas” (1992. Lembra que os escravos já chegavam aos Guayazes convertidos ao catolicismo. isso dificulta a identificação dos grupos africanos. assevera a predominância dos bantus no Brasil central. Para Moraes. em grupo. Goiânia. 230). Entretanto. no entanto. a seu ver. a religião. p. Moraes alerta que a grande maioria dos escravos africanos não foi registrada ao entrar na capitania de Goiás dada sua grande extensão. 2002. Salles nos lembra que: “Conhecidos apenas pela desdenhosa designação de negros. as artes. A afirmação parece demasiado generalizante. suas características psico-somáticas se destacam. se espraiou nas relações sociais. perdendo. dando tonalidade própria ao comportamento. vol. 77). Martiniano deixa entrever claramente sua postura em relação à escravidão e sua vinculação a uma historiografia tradicional que privilegia mais a violência da escravidão per se do que propriamente os saberes escravos e as múltiplas formas de sobrevivência empregadas no cotidiano. Mais recentemente. n° 15 . pautando-se em estudiosos como Arthur Ramos. p. a língua. Por sua vez.. o autor recrimina o suposto “racismo ideológico” existente na academia responsável pela falta de estudos sobre a procedência escrava.Maria Lemke Loiola principalmente sua carga cultural e religiosa. o que era interpretado pelos senhores como mostra de sua “resignação à condição servil” (2005). nos mostram os óbitos que sempre havia exceção. assim. Martiniano José Silva. se considerarmos que provavelmente Goiás recebeu vários grupos em diferentes épocas com objetivos específicos. daí a discrepância entre os censos e números dispostos ao longo do período colonial.]” (SILVA. os costumes.

também mina. Gestos e olhares certamente diziam tanto quanto palavras... Nesse processo de recriação de identidades a língua era de fato um elemento fundamental. se pensarmos que realmente houve uma diversidade de línguas. Da mesma forma. Mas. Frota possuía escravos mina e angola.”28 solicitando aos párocos fornecer instrumentos para catequização dos escravos. e ignorante do que havia de receber”26 ou “alienado do entendimento. mas clarear as especificidades e identidades étnicas e como foram reconstituídas no longo processo de reinvenção dos saberes e. A diversidade das falas africanas pode ter sido empregada como estratégia para evitar conchavos e conluios entre os cativos. Acreditamos que uma pesquisa pautada em diferentes tipologias documentais possa. Água Limpa ficava no termo da freguesia de Meya Ponte e Antonio Dias Ribeiro pode ter se beneficiado disso para manter Joze irregularmente. mas certamente não foi o único. seja pela “rudeza. mais importante. Pedro. morreu “sem o sacramento da eucaristia pois era ainda boçal. Em 1742. por outro./dez. ou pela diversidade de línguas. 2007 . não recebiam sacramentos por “rude. não devemos esquecer que essa diversidade nem sempre significava incomunicabilidade. Provavelmente o sargento mor Antonio Rodrigues Frota usou o estratagema de misturar várias etnias. o reverendo José de Frias e Vasconcellos durante uma visita eclesiástica.”25 Outros ainda.A morte branca do escravo negro.”27 Designá-los apenas por seu lugar de origem/porto de embarque esconde a diversidade cultural que os caracterizou. tanto em sua terra natal quanto na recriação sociocultural na terra brasilis. senão responder. se queixou do pouco entendimento que os escravos tinham dos ensinamentos cristãos que recebiam. não significava que os mina desconhecessem a língua dos angola e vice versa. “ser ainda boçal e novato nesta freguezia Joze mina”24 É possível que Jozé tenha permanecido ignorante dos preceitos cristãos devido à distância que o separava de alguma igreja. a recriação de suas identidades a partir dos novos laços tecidos no cativeiro. porém não se furtou de incluir entre eles alguns 255 jul. também mina. como Domingos.

do qual já falamos. foi alferes da Companhia e Guarda-mor das Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. Entre seus escravos. vol. natural da freguesia de São Miguel de Alfama. Não sabemos como eram as relações com seus escravos. Do total de vinte e nove escravos.Maria Lemke Loiola índios cayapó como “administrados”. 311). Após sua morte. O sargento. ou não. cobus e crioulos. Não houve mudança no padrão de enterramento dos escravos: continuaram a ser enterrados no mesmo lugar: na capela de Nossa Senhora do Carmo. p. ser corroborada cruzando estas informações com os assentos de matrimônio ou batismo. natural do Arcebispado de Braga. ou seja. De modo semelhante ao ocorrido com os escravos do sargento Frota. conforme informa Pinheiro (2002. sua mulher. crianças. mas nunca acompanhados por irmandade. Goiânia. É certo que com informações fragmentárias como as que temos. Esse pequeno número de óbitos infantis em relação ao de adultos sugere que os Frota talvez não tivessem o hábito de manter famílias escravas. Outro oficial que também tinha escravos de procedência diversa foi Gregório da Silva Bailão. n° 15 . seja precipitado identificar a prevalência de africanos “Mina”. os de Gregório Baylão foram enterrados no adro da igreja e também não tiveram vínculo com irmandades. recebendo sacramentos na medida do possível. É do mesmo autor a informação de que Gregório Bailão foi um eminente escravocrata de Meya Ponte. Essa hipótese poderá. contando também os que faleceram após a morte do sargento. encontramos minas. crioulos e caiapós” reforça a idéia de que a diversidade de grupos foi uma estratégia utilizada para tentar evitar o surgimento de afetos e laços de solidariedade. temos apenas três escravos “inocentes”. Foi acompanhado por todas as irmandades do arraial de Meia Ponte. O lusitano. Mas a “mistura de minas. Um deles foi Jeronymo mina. faleceu com seu solene testamento. mas houve épocas em que o sargento Frota perdeu até três escravos por mês. angolas. dona Antonia Ignacia Maria de Jesus passou a administrar os bens do falecido. é significativo que estes dados estejam em 256 Revista Brasileira do Caribe. angolas. VIII. Contudo.

. correspondentes a diferentes sistemas de classificação” (SOARES. Talvez a distância de Goiás dos centros de poder favorecesse os hábitos relapsos dos párocos no momento de registrar óbitos./dez. pode ter contribuído para mudar a configuração étnica da população da região de Meya Ponte. e a transplantarmos para Meya Ponte. Os termos gentio e nação se referem a “universos semânticos distintos. 91). ao passo que “nação” é consoante às mudanças nas relações que os portugueses estabeleceram com os africanos. para a valorização da pecuária e agricultura.A morte branca do escravo negro. os africanos. se aceitarmos a constatação de Paiva. Ou seja. a julgar pelos dados apresentados. na documentação pesquisada. Soares tem como fonte principal os assentos de batizados que. o direcionamento de uma economia anteriormente voltada à extração aurífera. p.. consonância com o período no qual a atividade aurífera foi a mais representativa para a economia. E isso tanto para os casos de grupos africanos quanto dos nascidos na sociedade colonial. 75). Ao compararmos as informações deste período com o posterior (1803-1810). O aumento do número de pardos e crioulos no início do século XIX nos dá uma pista de que a mestiçagem aumentou com o decorrer do tempo. Contudo. são qualificados como nações. são sempre mais completos que os de Goiás. veremos que neste último. 2007 . à medida que o aumento do tráfico reconfigura as rotas e portos de embarque há uma resemantização e re-significação da África (SOARES. O primeiro caracteriza os povos a serem convertidos. p. Poder-se-ia dizer que a ponte estabelecida por Soares entre a África e o Rio de Janeiro enriquece significativamente a interpretação sobre as identidades étnicas africanas estabelecidas no interior da sociedade colonial. 2000. batismos e casamentos como podemos perceber nos documentos coloniais da capitania 257 jul. Os dados ora apresentados são ainda parciais e necessitam de estudos mais aprofundados. De modo geral. 1998. é possível que os “angola” daqui também tenham sido empregados em atividades agropastoris. o número de escravos “angola” supera aquele dos “mina”. Desta forma.

Os escravos autóctones. receberam denominações que variaram ao longo do tempo. “nação xicriabá” e. VIII. No início do XIX. também pode ser empregada para aqueles que viviam em Meya Ponte.] com 258 Revista Brasileira do Caribe.. e tenha sido mais lenta na escrita da documentação eclesiástica em relação à administrativa. são sempre referenciados como “gentios da terra”.32 Não só os autóctones causavam mortes. Nesta última.. só muito raramente. Jozé foi lembrado como escravo do defunto Francisco João Ribeiro!31 Mas a qualificação grupal não marcou somente os africanos.. Goiânia. 33 Segundo o capitão geral Jozé de Almeida e Vasconcelos. como “Thereza. Martinho de Mello e Castro.]”. A assertiva de Soares de que a nação/procedência acompanhava o escravo/liberto até o fim da vida. Pedro Angolla foi um dos que teve a vida abreviada “[. dado o grande número de ataques que promoviam a arraiais deixando a população aflita pelos grandes prejuízos e mortes que causavam. eram conhecidos pelo nome de seu antigo senhor. mesmo os libertos.Maria Lemke Loiola dos Guayazes. eles quase sempre são descritos como “gentios brabos..] por ser morto pellos calhambollas com hum tiro que logo o matou [. comumente tratados com o eufemismo de “administrado”. como lembra Salles (1992) . em alguns casos. eles conservavam agregado ao nome o grupo ao qual pertenciam: Maria Dias. nação mina. Mesmo depois de livres. prejuízos e distúrbios. nas notícias que deu nos idos de 1774 ao secretário da Marinha e Ultramar. não mais como “nação”.... Talvez essa mudança esteja relacionada com os conflitos entre os “naturais da terra” e os portugueses. Apesar disso. De modo mais emblemático. quartada escrava do Sargento Mor Carlos de Assupçam Ferraz [.]”30. “[. vol. preta forra de nação mina29 Acrescentese que. na hora da morte. selvagens e desumanos”. gentio da terra. Os autóctones aparecem nos assentos eclesiásticos com maior freqüência no século XVIII do que em período posterior. os livros de assentos de óbitos apresentam informações cada vez mais completas à medida que recuamos no tempo. No século XVIII eram conhecidos como “nação cayapó”.. n° 15 .

encontramos um indício de que a mandioca mortífera comida por Jozé não foi um acidente: a diferença entre a mandioca mortífera e o aipim é reconhecida imediatamente “por qualquer selvagem” (POHL.. forras que possuíam seus próprios escravos. de descaso de senhores negligentes.. quiçá premeditada.] de nação Mina escravo do Furriel João de Campos Cardozo o qual morreo de repente sem sacramentos porque o mesmo seu senhor me disse. 110). em satisfazer com hum tiro á paixão alheia. tiveram a vida ceifada por morte súbita e repentina. estão promptos pello mais pequenno premio. que registra os óbitos de 1760 a 1776.]. mulheres de oficiais. mães escravas. nos lembra que em Minas Gerais os escravos africanos utilizavam ervas para separar ouro e diamantes do cascalho nas bateias./dez. Para além de mortes consideradas apressadas. solteiras que viviam sozinhas. como os escravos.. o que tudo pode afirmar o mesmo seu senhor [. que a sua morte fora originada. Muitos perderam a vida dentro dos poços. encontramos vários registros de mortes violentas. e que sem saber a cauza da sua morte. Foi esse ouro lavado nas bateias e extraído de poços que garantia a riqueza dos homens vindos de longínquas paragens... 259 jul.. não trocassem informações e know-how acerca do poder das plantas do cerrado. É difícil imaginar que duas culturas. que mantinham relação estreita com a natureza. 2007 . ou lhe sobreviera de ter no dia antecedente comido húa pouca de mandioca mortífera como ao depois da sua morte soube. às vezes ela poderia ser preparada. Mas nesse universo. que sem a menor duvida.. indicando que nem tudo estava na maior tranqüilidade. como parece ter sido a morte de José: [. a autóctone e a africana.. Paiva (2002).”34 Neste livro de assentos. também existiram mulheres: mães livres.A morte branca do escravo negro. de tiros por vingança. p. apoiado em relatos de viajantes. são agressores os negros fugidos e calhambolas. 1976. exceção de alguns vadios. não previo com a cautella ao menos sequer para ser confessado por amanhecer morto na cama.35 Nas palavras preconceituosas do naturalista Pohl. porem da maior parte dos insultos. outros.

depois de liberta. parda. Aparentemente teve uma vida longa. Maria. como registrou o pároco Joze Pires dos Santos Souza.. Goiânia. Bem ou mal e na medida do possível.37 Uma história das mulheres do sertão dos Guayazes no período setecentista poderia nos mostrar que nem sempre foram submissas. Mostranos seu assento. Mas. depois dessas breves notícias sobre os mortos e os vivos de Meya Ponte. e não somente a esmola por amor a Deus. em algum momento do passado que não nos foi dado saber. imagina-se que foi um laço mais estreito. os africanos sempre foram enterrados de acordo com os preceitos católicos. as relações entre os dois não cessaram depois da libertação.Maria Lemke Loiola Maria Cordeiro de Jezus teve uma história diferente se comparada à maioria das mulheres. A jovem de pouco mais de vinte anos recebeu todos os sacramentos. não era prerrogativa masculina. Cada uma. que o mundo das bateias e das lavras.. Maria parece ter vivido a aventura insólita da peregrinação para as bandas do sertão. duas missas de corpo presente e mais quatro pela sua alma que o dito Francisco “se obrigou” a pagar. morreu na casa de seu antigo senhor. Embora não saibamos o que a uniu ao vigário de Santa Cruz. n° 15 . Maria morreu na casa do referido vigário. Provavelmente. Outras não tiveram a mesma sorte. possibilitaram a esta “pobre mulher” um enterro dentro da capela. A viandante Maria veio das partes de São Paulo. Felipa e tantas outras puderam contar com as amizades e afetos construídos ao longo de suas vidas. possivelmente se estreitaram com a liberdade. Dizem ter sido muito pobre. VIII. morreu na idade que “parecia se de perto de cetenta annos”. moradora no sertão. reescrevia sua história. como enfatizou o coadjutor Carlos Francisco Torre quando o registrou. vol.. o leitor questione o título desta apresentação. elas foram muito bem 260 Revista Brasileira do Caribe. Francisco Alves Mota. 36 Felipa. Provavelmente os vínculos que a ligavam ao padre. Do registro da paulista sabemos que teve relações com pessoas influentes. de incertezas e de possíveis dissabores. à sua maneira. Se houve manifestações de pesar e rituais africanos. onde recebeu todos os sacramentos.

(Edição em CdRom). Lisboa: UNL./dez. Neste ensaio. pardos e negros. MORAES. 1986.. sem hierarquias... Sobre as irmandades de pretos ver especificamente o capítulo 5º: As irmandades de homens pretos. destacam-se entre outros. 1998. não pretendemos exaurir as discussões sobre a escravidão em Goiás. fazer uma escala na África e outra em Portugal para novamente nos embrenharmos no caminho que leva ao passado do sertão dos Guayazes. 2002. Quintão. Experiências que não podem apenas ser apreendidas se permanecermos no pequeno arraial de Meya Ponte. Em Goiás. destaca-se a tese de doutoramento da professora Cristina de Cássia Pereira Moraes na qual analisa as especificidades das 34 irmandades encontradas: brancos. Corumbá e Lavrinhas. pelo contrário. este título quis lembrar um pouco da mistura cultural ocorrida nas Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. Mott. 2 Neste livro constam os registros dos arraiais de Santana do Rio do Peixe. o objetivo é levantar mais questionamentos e reflexões com vistas a fomentar os debates sobre as identidades étnicas e experiências escravas. Notas 1 É considerável a produção bibliográfica sobre o tema. P. Será necessário atravessar o mar oceano.A morte branca do escravo negro. 2002. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 17361808. 261 jul. 1975. Boschi. 2007 . Scarano. 1997. 2000. Para a compreensão da complexa relação e interação de diferentes culturas será preciso olhar para cada um desses lugares de onde vieram nossos atores sociais. a partir de diferentes escalas. resguardadas dos olhares dos visitadores eclesiásticos e padres. Estes últimos muitas vezes estavam mais preocupados com a forma de angariar pecúlio em proveito próprio que necessariamente com o cumprimento das leis às quais estavam sujeitos. Cristina C. Mas a história dos padres do sertão dos Guayazes merece ser contada em outro momento. Jaraguá. os trabalhos de Soares. 2005. Da mesma forma..

cópia. p. 5 Idem: Cópia da Primeira e última visita do Doutor Alexandre Marques do Valle.. 13 Idem. cópia. idem. 7 Idem. 29. Livro de registro de óbitos 1760-1776. 1758. Teria se retirado ou permanecido recluso? Se ele optou por ficar. p. 86. Reis. também: Hoornaert. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte. 11 Idem. p. (1734-1824) p. p. 54 verso. 86 verso. 7 verso. visitador que foi das Minas de Goyaz. livro. 1975. n° 15 . Goiânia. p. perdeu a faculdade de rezar missas e quaisquer outras 262 Revista Brasileira do Caribe. cf. Subordinar o capelão parece ter sido um elemento comum de diversas irmandades e implicava sempre em relações de poder. idem. p. 16 Idem. à Rainha Maria I. 9 Idem. 6 Idem. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte 1758. mas não há alusão a irmandades. 1995. 12 Idem. vol.. p. 4 verso 10 Idem. p. 1999. Consulta do Conselho Ultramarino. Estes portugueses e paulistas quase sempre morreram com seu solene testamento. idem. 56. 5 verso. 23. 7 de Outubro de 1778. Capítulo 2º. 4 Esses 2% aos quais me refiro são portugueses e paulistas acompanhados por “todos os padres do arraial”. (A representação está entre os anexos existentes do documento nº 1939 e data de 16 de dezembro de 1773. sobre a representação dos oficiais da Câmara de Vila Boa de Goiás.. p. 14 Idem. 72. VIII. Gaeta. 1992. idem. 8 Idem. Cd-rom Projeto Resgate Barão do Rio Branco). Scarano. O padre Braga foi um dos vários padres “convidados” a se retirar da capitania de Goiás em 1764.Maria Lemke Loiola 3 Aqui uso confraria e irmandade como sinônimos. 38.. 15 Idem. p.

cópia. 31 Idem. 8. 18 Idem. p.. p. 85. Mas esta já é uma outra história. p. p. chama a atenção para a necessidade de se repensar os conceitos e categorias subjacentes à questão.. 20. com olhares diferentes. 32 A partir de meados de 1750 as chamadas guerras justas fizeram muitas mortes 263 jul. 17 Idem. 8 verso. idem. 22 verso. p. 2 22 Autores como Eduardo França Paiva. p. p. atividades religiosas. 30 Idem.. cópia. idem. p.. 36. 46 verso.. 4 verso. p. 25 verso. idem. p./dez.A morte branca do escravo negro. idem. em Minas Gerais e Mariza de Carvalho Soares. 24 Idem. 27 Idem. 19 Idem. idem.39 verso. 26 Idem. 13 verso.. 85 verso 21 AHEGO: Cópia do compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos das Minas de Meya Ponte 1782. p. 28 Idem. 2007 . no Rio de Janeiro. p. 27 verso. p. Livro de registro de óbitos 1760-1776. Livro de registro de óbitos 1760-1776. 20 Idem. têm trazido reflexões importantes sobre a diversidade étnica dos africanos no Brasil e como cada etnia estampou suas especificidades na sociedade colonial. idem. livro de óbitos 1760-1776. Cada qual. 40 verso. idem. idem.. 25 Idem. 29 IPEHBC... 23 Idem. p.

p. Ensaio de interpretação a partir do povo. idem. E. pp. São Paulo: Companhia das Letras. A. C. n° 15 . BOSCHI. Goiânia. Franca. C. 33 Idem. São Paulo: Ática. 187-207. Os leigos e o poder. O “Livro para servir do caminho de Paraty” está repleto de informações sobre o assunto.. V. “Redes de sociabilidade e de solidariedade no Brasil Colonial: as irmandades e confrarias religiosas”.Maria Lemke Loiola de ambos os lados. F. p. 2.M. A historiografia da escravidão: tendências. PALACIN. In: Revista de Estudos de História. 22 verso. (orgs). J. Goiás 1722-1822. VIII.. 1754. 2002 (mimeo). PAIVA. vol. HOORNAERT. São Paulo/ Belo Horizonte: AnnaBlume/PPGH-UFMG. Documento n. da V. C. Lisboa: UNL. temas e desafios 1990-2001. 35 Idem.. 2005 (Tese). p. nº 2. carumbés. pp. barão de Mossâmedes.. In: PAIVA.] In: Catálogo de verbetes dos documentos manuscritos avulsos da capitania de Goiás existentes no Arquivo Histórico Ultramarino (1731-1822). J. idem. L. Petrópolis: Vozes. História da vida privada na América portuguesa. O trabalho mestiço: maneiras de pensar e formas de viver – séculos XVI a XIX. Luis. J. et al. C. p. 72. “Bateias. 1986. 2002. idem. P. tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo”. Estrutura e conjuntura numa capitania de 264 Revista Brasileira do Caribe. E.] sobre a administração civil e eclesiástica da capitania de Goiás [. Laura de Mello e (org). Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 1736-1808. História da Igreja no Brasil.F. “Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu”. C. Ê. São Paulo. 66 34 Idem. 67 verso. MORAES. p. 11-36. In: SOUZA. 155-220. 37 Idem. 4ª Ed. Bibliografia BRITO. MOTT. 1997. 23 36 Idem. 1992. da C. ofício do governador e capitão general de Goiás. São Paulo: 1995. E. M. & ANASTÁCIA. idem. GAETA. José de Almeida e Vasconcelos [.

. 2002. QUINTÃO. 265 jul. 73-93. Goiânia: Kelps. E. 2000. v. Devoção e escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século XVIII. Economia e escravidão na Capitania de Goiás. Goiânia: Oriente. 3.C. J. Identidade étnica. 1999. SALLES. & PINHEIRO. 4. Mina. Lá vem meu parente: as irmandades de pretos e pardos no Rio de Janeiro e em Pernambuco no século XVIII. M. A. In: RIHGB. Tronco e vergônteas. “Descobrindo a África no Brasil colonial”. J. SILVA. São Paulo: Cia das Letras. p. 161 (407)./dez. “Colonização. 1992. São Paulo: Itatiaia. SCARANO. M. 71-94. A. 7-22. São Paulo: FAPESP. religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro.C. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. abr/jun 2000. Trad. J. 3ª Reimpressão. Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava. Rio de Janeiro. Angola e Guiné: nomes d’África no Rio de Janeiro setecentista. Goiânia: CEGRAF/UFG. 2002. nº 8. 1999. F. Viagem ao interior do Brasil. 1975. SOARES. POHL. A. 2003. VAINFAS. In: Tempo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura. nº 6. SOARES. de C. Z. Devotos da cor. Tempo. G V.. Goiânia: Bandeirante. de C. miscigenação e questão racial: notas sobre equívocos e tabus da historiografia brasleira”. Minas. dezembro 1998. REIS. de G. 1976. . de C. M. século XVIII. João J. p. v. SOARES. 2007 . M.A morte branca do escravo negro. A morte é uma festa. PINHEIRO. Milton Amado e Eugenio Amado. Anna Blume. de. 1972. Ronaldo.

266 .

sem dúvida. a região mais estudada da Colômbia. Its insertion in a globalized world and the public politics towards a greater decentralization do not succeeds in showing the expected results.Estudios del Caribe en Colombia Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives Abstract Since the publication of the Biografía del Caribe written by Germán Arciniegas until the recent publication Respirando el Caribe. this study emerges like one of the most challenging explorations of the Caribbean and its contribution to the study of the politics that support the regional development. um atraso das condições de vida de sua população. diversity. an underdevelopment of the life conditions of its population. adversity Resumo Desde a publicação da Biografia del Caribe escrita por Germán Arciniegas até a recente publicação de Respirando el Caribe. A inserção em um mundo globalizado e as políticas públicas orientadas para uma maior descentralização não logram mostrar os resultados esperados. Colômbia. there has elapsed more that sixty years in order to have an exhaustive compilation on the state of art of the studies on the Colombian Caribbean. Within this context. VIII. but it offers an expression of the regional inequalities that exist in the country. mas apresenta. n° 15. vol. Hoje a região do Caribe é. diversidade. Today the Caribbean region is undoubtedly the more studied region of Colombia. se passaram mais de sessenta anos. no meio desta situação surge como um dos desafios dos estudos do Caribe sua contribuição ao estudo de políticas para o desenvolvimento regional. Palavras chave: Caribe. Keywords: Caribbean. 267-281. 2007 . uma exaustiva compilação do estado da arte dos estudos sobre o Caribe colombiano. adversidade *Artigo recebido em janeiro e aprovado para a publicação em abril de 2007 267 Revista Brasileira do Caribe. como manifestação das desigualdades regionais que existem neste país. Colombia.

un territorio marítimo en el Caribe de más 570. en medio de esta situación surge como uno de los retos de los estudios del Caribe su contribución al estudio de políticas que contribuyan al desarrollo regional. 22% de la población colombiana. En efecto. Colombia. adversidad Preámbulo Es muy importante en este escenario recordar algunas características del Caribe colombiano que sirven de marco para entender la evolución de los estudios del Caribe en Colombia. tres veces. al tamaño de un país como República Dominicana. con una población similar. un rezago en las condiciones de vida de su población. han transcurrido más de 60 años. Es compartativamente más grande. 268 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . Palabras clave: Caribe. diversidad. vol. Porcentaje de la población creciente. pero presenta. VIII. el cual es un páis de regiones geográficas y culturales con profundas disparidades en lo económico y el desarrollo social entre ellas.Alberto Abello Vives Resumen Desde la publicación de la Biografía del Caribe escrita por Germán Arciniegas hasta la reciente publicación de Respirando el Caribe. una exhaustiva compilación sobre el estado del arte de los estudios sobre el Caribe colombiano. pasó del 10% al 22% entre el comienzo y el fin del siglo XX. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. Hoy la región Caribe es sin lugar a dudas la región más estudiada de Colombia. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país.000 km² y una población cercana a 9 millones de habitantes.444 km² de territorio continental = 12% del territorio nacional). buena parte de las prioridades investigativas son producto de las particularidades de este caso particular: el Caribe colombiano es una región subnacional de Colombia. El Caribe colombiano lo conforma un territorio (70 km² de territorio insular y 132.

los indígenas de la Sierra Nevada. gas). valles. el macizo montañoso nevado a orillas del mar. ambas comunidades binacionales. los Cuna en el golfo de Urabá. se hace referencia a la Caribe). al verse como país andino. Cuba) pero que se pierden en gran medida con la independencia de Panamá. Perú. Una región que aun se nombra como Costa Atlántica (Colombia es un país de dos costas. Honduras. Jamaica. de los distintos resguardos). 6 % de la población se reconoció como indígena en el Censo de 2005 y 14% como afrodescendiente. Es una región diferenciada y diferenciable del conjunto nacional por sus atributos naturales y culturales. 2007 . pero cuando se habla de la Costa. Brasil y Venezuela. sabanas. República Dominicana. Con una alta población afrodescendiente. a diferencia del resto del Caribe. El Caribe de Colombia posee una población mestiza en la que se conjugan la herencia africana. es la región donde muere el Libertador. una gran depresión. se enseñan en la escuela los límites terrestres Panamá. El Caribe en Colombia tiene una economía que con las reformas neoliberales de los noventa perdieron participación nacional el agro y la industria manufacturera. Haití. Jamaica. Tradicionalmente./jul. el archipiélago en el Caribe occidental. Entre los naturales se encuentran un desierto.. la región por donde entra la modernidad 269 jan. Es el mar Caribe el que le da la vecindad a Colombia con Venezuela. Costa Rica y Panamá.Estudios del Caribe en Colômbia. una población indígena importante (ver caso wayuus en la Guajira. y de manera particular. Nicaragua. Tiene hoy en día una economía dinamizada por el sector servicios (principal región turística de Colombia. Ecuador. tres puertos) y la minería (carbón. podría decirse que es un Caribe “atípico” (donde no hubo plantaciones). Entre los aspectos históricos. hispana e indígena. Curazao.. con vínculos históricos con las islas del Caribe (Santo Domingo. áreas inundables. es la región donde se inicia el poblamiento de la hoy Colombia (conectada con Santo Domingo). que tuvo el primer puerto esclavista durante el período colonial habiendo dejado profundas huellas en el patrimonio cultural (tangible e intangible).

con una caída de los empleos calificados. vallenato. el atraso. precisamente. Con ingreso per cápita por debajo del promedio nacional. con una creciente informalidad. una región que a la vez reclama su pertenencia al Caribe y promueve su redenominación: Caribe colombiano y no Costa Atlántica. Mantiene una viva cultura popular. arawak y chocó). En una brecha creciente a pesar de las reformas que anunciaba que sería la región más favorecida con los cambios. Tiene indicadores sociales de educación y salud deficientes. Una tasa de desempleo del 15% en las ciudades como Cartagena. las tensiones entre la Nación (centralista. n° 15 . En una ciudad como Cartagena de Indias el 10% más rico de la población percibe el 50% del ingreso generado en la ciudad y el 10% más pobre solo recibe el 1% del ingreso (año 2000). 270 Revista Brasileira do Caribe. vol. más avanzada. literatura y plástica que han sido aceptadas como expresiones nacionales y hacen parte del panorama artístico reconocido de Colombia en el exterior. Es una región con una profunda desigualdad social. históricos y culturales.Alberto Abello Vives al interior del país con el auge de Barranquilla (finales del XIX y principios del XX). así como los procesos identitarios y el reencuentro con el Caribe al que pertenece por sus rasgos geográficos. Sus rasgos culturales derivados de procesos de poblamiento intervenido por las ocupaciones hispanas y puritanos ingleses arroja hoy en día la existencia de 11 lenguas vivas (español. Es un región con grandes retos: el reto de la superación de pobreza. andina. chibcha. mayor concentración económica) y esta región. VIII. dos lenguas criollas y 8 lenguas indígenas de familias lingüisticas caribe. porro). por debajo de los promedios nacionales y una inmensa porción de la población por debajo de la línea de pobreza (cerca del 60% de sus habitantes). Los estudios del Caribe en Colombia tienen como marco. El Caribe es en Colombia una región rezagada del conjunto nacional. el rezago relativo. con manifestaciones musicales (cumbia. con un profundo atraso relativo.

no hace parte de las regiones ganadoras en el proceso de inserción nacional en esta economía contemporánea. 2007 .. como llamara el mismo Arciniégas a nuestro mar Caribe. seguía jugando a enmascararse en el ámbito europeo. ese extraño. sino todo un esfuerzo integral 271 jan. Pero no fueron las ciencias sociales en el Caribe colombiano las encargadas de indagar por la tierra que habitamos. Esta Biografía (1945) antecedió a los libros casi homónimos de Juan Bosch y Eric Williams. Gabriel García Márquez no fueron nunca aficionados superciales henchidos de tropicalismo. quien retrata un ambiente aldeano y decimonónico.Estudios del Caribe en Colômbia. austero y formidable bizco de las letras cartageneras. cuya elite. Por otro lado. Álvaro Cepeda Samudio. con la globalización esta región no ha sido favorecida. Allí está tal vez la génesis del pensamiento sobre la región.. esta gran obra incorpora a la academia colombiana el estudio del Caribe y se convierte en el referente obligado de la comunidad científica de la segunda mitad del siglo XX que ha salido al reencuentro de ese “charco violento por donde se han paseado todos los huracanes”. De Colón a Castro (1969 y 1970 respectivamente). Son la literatura y el arte de mediados del siglo XX los que salen al encuentro de la realidad de esta región. La modernidad de la indagación provino con la obra poética de Luis Carlos López. Héctor Rojas Herazo./jul. Voces como las de Manuel Zapata Olivella. De Cristobal Colón a Fidel Castro. Los primeros intentos los encontramos en ensayos y artículos de prensa de líderes de la independencia que se preguntaban por las características del hombre y la vida de la región. de espaldas a la realidad atroz. El conocimiento del Caribe colombiano La Biografía del Caribe de Germán Arciniegas no sólo fue el libro colombiano más leído en el exterior antes de Cien años de Soledad. situación que marca no sólo ciertas líneas y tendencias en el campo de la investigación sino que compromete el desarrollo de la educación superior.

el Centro de Estudios Económicos Regionales del Banco de la República en Cartagena de Indias. Entre los pioneros en el campo de las ciencias sociales encontramos a Luis Eduardo Nieto Arteta. la reedición de textos históricos. Gerardo ReichelDolmatoff y Orlando Fals Borda. VIII. Estaban vigentes aun las políticas keynesianas que daban importancia a la planeación regional (aparecen los organismos de planeación regional. el Caribe colombiano contó con un esquema que sirvió de base para el resto del país) y de la intervención estatal. n° 15 . Hoy la región cuenta con seis centros regionales de investigación especializados en el estudio de la región: el Instituto de Estudios Caribeños de la Universidad Nacional en la isla de San Andrés que cuenta con el programa de maestría en estudios del Caribe. los desencantos y las esperanzas de una región. la economía. El nuevo conocimiento. contribuyeron en la búsqueda por ilustrar las culturas populares y la naturaleza caribe los artistas plásticos Alejandro Obregón y Enrique Grau. en distintas etapas y con mucha fragilidad. bajo el empuje brindado por un organismo regional de planificación cuando comienza con entusiasmo la siguiente etapa de estudios sobre la región. de manera dispar.Alberto Abello Vives de la inteligencia. Son sin lugar a dudas. la sensibilidad y la información por desentrañar los rumbos. el Instituto Internacional de Estudios del Caribe de la Universidad de Cartagena que realiza cada dos años el Seminario Internacional de Estudios del Caribe. la aparición de centros y grupos de investigación son las características de esta nueva etapa. Es durante la década de los ochenta. las demás ciencias sociales. apoyo financiero a los estudios del Caribe. los rasgos. el Instituto de Estudios Económicos de la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. Es la Universidad Nacional de Colombia la que buscando construir una nación con miradas desde los territorios de frontera la que crea la sede Caribe en la isla de 272 Revista Brasileira do Caribe. las universidades las que han brindado. Ocurre una dinámica que convierte a la región en la más estudiada de Colombia: desde la historia. entre otros. Fundesarrollo en Barranquilla. vol. A todo ello.

a una iniciativa regional como fue la creación del Observatorio del Caribe Colombiano. San Andrés. la dota del instituto y abre la maestría arriba señalada. igualmente grupos de investigación e investigadores con amplia trayectoria y reconocimiento en diversas disciplinas cuya región objeto de estudio es el Caribe colombiano. las convocatorias para la financiación de proyectos privilegian otras regiones (el mismo sistema lesiona a regiones con baja capacidad como el Caribe beneficiando a las de mayor desarrollo). los fondos públicos son insuficientes. la literatura. la antropología. A su vez son muy pocos los investigadores que pueden dedicar 100% de su trabajo a esta labor. Los investigadores de los centros de investigación independientes. Me refiero a grupos que indagan por la historia./jul. respaldada igualmente por dos cámaras de comercio. 2007 .Estudios del Caribe en Colômbia. una entidad autónoma.. En las principales universidades hay. trabajan por proyecto y sin estabilidad 273 jan. las lenguas. Muchos de estos grupos surgen como tal ante la política nacional de ciencia y tecnología. en los que lo “nacional” se coloca por encima de los interéses regionales. sin embargo. nacido después de una década de planteamientos provenientes de distintas instancias sobre la necesidad de dotar a la región de un centro de estudios regionales independiente y vinculado a los procesos de desarrollo regional. la economía y la sociología. la plástica. el organismo rector de la ciencia y la tecnológia en Colombia. Los investigadores universitarios vienen siendo empujados a un mayor número de horas de clase y de actividad burocrática. la música. privilegian también otras áreas de estudio y otro tipo de proyectos (aquellos considerados como estratégicos y el Caribe no es un sector estratégico). El Observatorio fue creado como una entidad que articula el desarrollo y la cultura regionales. salvo contadas excepciones. Son las siete universidades públicas asociadas al Sistema Universitario Estatal del Caribe las que asumen a partir de 2003 el soporte financiero al Observatorio del Caribe. el medio ambiente. así como a la obligatoriedad de vender servicios para complementar sus ingresos. Quiero resaltar el apoyo nacional a través de recursos financieros de Colciencias..

Igualmente. En este ejercicio. periodistas. Francia. VIII. además de programas de divulgación científica. la Universidad de los Andes y la Universidad de Antioquia. vol. empresariales y políticos. en dos universidades existen cátedras del Caribe dirigidas a estudiantes de pregrado (Universidad del Magdalena y Universidad Tecnológica de Bolívar). cultuales. promotores del desarrollo regional). en los que de manera particular he estado involucrado. en esta última se realiza anualmente un diplomado durante la Escuela de Verano sobre Cartagena y el conocimiento vital del Caribe. Quiero resaltar 274 Revista Brasileira do Caribe. que fue llamada Caribe Espléndido y el desarrollo de la primera cátedra virtual sobre el Caribe que dio pie a la publicación Un Caribe sin plantación.Alberto Abello Vives laboral y participan en la gestión de los recursos para financiar sus líneas de investigación. Hoy el Caribe colombiano cuenta con varias redes (investigadores. valora la producción intelectual de la región y facilita la discusión. también investigadores extranjeros (Suiza. La mayor parte de las instituciones que arriba se mencionan. España. tienen líneas de publicaciones y revistas (de las de nueva generación hay que destacar a Huellas de la Universidad del Norte). principalmente). La región cuenta con una Cátedra del Caribe itinerante por las principales ciudades que divulga el conocimiento nuevo. hay que resaltar para el análisis de este panel la Red Ocaribe a la que pertenecen decenas de investigadores y que en los últimos años ha permitido el desarrollo de proyectos interdisciplinarios. así como la Universidad del Norte en Baranquilla que lideró la nueva generación de publicaciones y estudios. Se nombran aquí como parte de la reseña: se trata de El Caribe en la Nación Colombiana. los estudios del Caribe interactuan con sectores sociales. De esta red forman parte investigadores colombianos no oriundos ni residentes en la región pero que se han dedicado al estudio del Caribe colombiano (investigadores de la Universidad Nacional de Colombia. n° 15 . Estados Unidos) con los que hay rico intercambio. una reflexión nacional que sirvió de base para una exposición en el Museo Nacional de Colombia en Bogotá. Inglaterra.

así como la articulación entre el sector empresarial de Barranquilla con Fundesarrollo. Hay que resaltar igualmente la labor. Una “nueva” historia de Cartagena. que lleva una década. se encuentran los avances en 10 áreas centrales del conocimiento. Hay que destacar en esta interacción. Hoy la Cinemateca del Caribe. Con el la ciudad y parte de la región Caribe se han nutrido de los adelantos en el conocimiento derivados de la producción de destacados investigadores mundiales. educación./jul.. geografía. también existen archivos fotográficos y fototecas históricas en las ciudades de Cartagena. ambiente. economía. que realiza de manera bienal el Simposio sobre la Historiografía de Cartagena. lingüística. antropología. por lo menos una decena de grandes compilaciones que bien podrían entenderse 275 jan. 2007 . del Área Cultural del Banco de la República de Cartagena de Indias. Hay. publicado en 2006. Santa Marta y Sincelejo. cuenta con un archivo que conserva la memoria audiovisual de la región. diseño. Historia.. literatura y música. en Barranquilla. ha sido publicada con las memorias de estos eventos académicos internacionales. la asociación que existe entre el Observatorio del Caribe y la Cámara de Comercio de Cartagena alrededor de una línea de estudios sobre la competitividad de Cartagena. construcción y montaje del Museo del Caribe en Barranquilla que ha convocado igualmente a investigadores de distintas disciplinas a lo largo de los últimos seis años. en este momento. que recoge las memorias del II Encuentro de la Red Ocaribe realizado en 2005. En Respirando el Caribe (volumen II) editado por Aarón Espinosa. si así pudiera llamarse. Hoy existe una extensa y rica bibliografía nacional derivada de los estudios del Caribe colombiano codiciada por investigadores extranjeros. Santa Marta y Cartagena existen arhivos históricos y eclesiásticos (caso de Santa Marta). Así como la interacción con programas radiales (Concierto caribe en Uninorte FM Estéreo) y de la televisión regional.Estudios del Caribe en Colômbia. ciudades. En Barranquilla. la conceptualización. diez ensayos sobre el estado del arte de la investigación.

Alberto Abello Vives como un Manual General. La Ciencia Política es una de las disicplinas de análisis con mayores debilidades. Cada vez más el desciframiento del Caribe supera las individualidades y avanza por el camino de la cooperación y las redes. y vuelven a florecer en el mismo sitio”. de Estudios del Caribe colombiano. Después de este corto recorrido sobre la investigación. cátedras. se encontrarán datos. n° 15 . VIII. de publicaciones virtuales en sitios de buena parte de las instituciones arriba mencionadas. vol. de una historia monumental del Caribe. hasta que lo cuartean y lo desbaratan. en el que la región ha sido una de las regiones colombianas capturadas (en lo político. Y la utilización de ellos es alta. la formación y la divulgación en el campo de los estudios del Caribe colombiano. entre otras. se puede anotar que éstos se encuentran vivos y su ejercicio es un continuo que no se detiene. La producción audiovisual se ha enriquecido con los estudios y la virtualidad vive su primera generación. aun fragmentado. Quiero recordar una frase de Gabriel García Márquez que podría utilizarse para entender los estudios del Caribe colombiano: “Mi profesor Juan Bosch. Así es también en Colombia la búsqueda del conocimiento del Caribe. no se detiene. Mayores fortalezas en este campo permitirían en las actuales circunstancias de auge de un conflicto armado. No pueden estar ausentes de este análisis la aparición. Mirada en perspectiva. Fundesarrollo. a pesar de las dificultades. museos y foros. militar. estudios. sino que avanza. autor. paralelo a todo esto. dijo alguna vez en privado que nuestro mundo mágico es como esas plantas invencibles que renacen debajo del cemento. así como el accionar de redes lo demuestran. ya hay una primera fase de los estudios del Caribe en la era digital. mayores herramientas de análisis por parte de la ciudadanía1. 276 Revista Brasileira do Caribe. entre otras muchas cosas. La existencia de centros especializados y grupos de investigación. Si se examinan los sitios de Internet de entidades como el Banco de la República. la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. agendas. económico) por el narcoparamilitarismo de derecha.

Una serie de publicaciones y eventos en los que se encuentran la nación y la región. en el manejo de información y estadísticas sobre su situación. Se destacan igualmente la pluralidad no sólo en el campo de las disciplinas. la falta de sistematicidad./jul.Estudios del Caribe en Colômbia. Todo esto ha contribuído a reducir la dispersión.. Gracias a todo ello. mantiene la discusión sobre el desarrollo regional. económicos y culturales que. Los estudios del Caribe han contribuido al igual que la cultura regional. ya ha sido superada. artistas. el Taller del Caribe Colombiano. el país se ha “caribeñizado”. Asímismo. promovido por tres de los centros de investigación arriba señalados adelantan una disusión. y como parte de ella.. en la discusión de las políticas públicas nacionales que la afectan. por supuesto. Es más. La academia ha dado continuidad a una tradición regional de pensarse. La región ha avanzado en el conocimiento de las causas de su atraso. y en los que la academia hace cada vez mayores aportes. hoy ya existe controversia académica sobre fenómenos históricos. la espontaneidad y le emotividad que habían caracterizado al Caribe colombiano en sus esfuerzos por pensarse. 2007 . viva. un mayor conocimiento nacional sobre el Caribe se debe a la labor de investigadores. en la producción de diagnósticos y análisis sobre su economía y el grado de desarrollo social. precisamente por la diversidad. a deconstruir estereotipos y falsas concepciones sobre la “costeñidad” existentes en el imaginario nacional. aunque con altibajos. la era de las primeras obras que durante cierto tiempo generaron una mirada unánime. así como diversos estamentos. músicos. un nuevo ejercicio. de promover una mayor integración regional y de reivindicar el desarrollo social y económico. como no ha ocurrido en otra región de Colombia. sino en cuanto a visiones y enfoques sobre la historia y el desarrollo regional. enriquece y enaltece el ejercicio académico. escritores. En el momento de escribir este ensayo. Durante casi veinte años (desde finales de los setenta hasta la desaparición del organismo regional de planificación –Corpes) la región ha adelantado grandes foros y simposios regionales. en la que 277 jan.

persistentes y se han acentuado. en regiones como el Caribe colombiano la divergencia ha crecido. Las brechas entre los niveles de ingreso per cápita son. indagando por los obstáculos al desarrollo y por las políticas públicas que Colombia requiere para superar las disparidades económicas regionales. en las principales ciudades.Alberto Abello Vives participan distintos estamentos. En el Caribe la pobreza por ingreso de sus habitantes es aun sumamente alta. Las disparidades regionales en Colombia son reales y persistentes. igualmente. no han generado una recomposición económica. es sin lugar a dudas la región más estudiadas de Colombia. la región a la que no le ha ido bien con uno u otro modelo de desarrollo vio aparecer casi dos millones de nuevos pobres. Hoy la región Caribe. Muy a pesar de que el Caribe estaba llamado a convertirse en la región más favorecida con la inserción al nuevo modelo económico los resultados sobre los que hoy debaten sus centros de investigación no son favorables. Los nuevos sectores. n° 15 . debemos recalcar. Mientras el centro del país se ha consolidado aun más. Entre 1998 y 2003. vol. especialmente. La Costa Caribe no se convirtió. los sectores mineros. VIII. pero presenta. Por el contrario hemos visto un acentuado proceso de desindustrialización que ha acompañado a la disminución del producto bruto agropecuario. La propuesta de los centros de investigación del Caribe colocando en la agenda pública la búsqueda de políticas regionales diferenciadas que contribuyan efectivamente a disminuir las 278 Revista Brasileira do Caribe. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. un rezago en las condiciones de vida de su población. fundamentalmente de enclave. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. mientras la economía nacional se consolida en el centro andino. en la región exportadora de Colombia. y muy a pesar de tener tres puertos de primer orden. en un modelo supuestamente pensado para la inserción a la economía internacional. tampoco hubo aquí una expansión industrial.

Aproximarse a una mayor escala y a los estudios comparativos ayudará a enriquecer esa búsqueda de identidades y a llenar de argumentos las 279 jan. Un mayor entendimiento de Colombia saldría de esa urdimbre resultado del cruce de esos hilos que conectan el país a lo largo de su historia. c. b. Realizar estudios que dialoguen con las otras regiones de Colombia. Buscar entender procesos sincrónicos. por ejemplo). áreas de estudio. d. disparidades regionales le da a los estudios del Caribe en Colombia una singular particularidad. las dificultades financieras de amplios sectores del empresariado local y la centralización a escala global de las decisiones financieras de apoyo a la cultura y la investigación por parte de empresas multinacionales con inversiones en la región. como parte del Gran Caribe. en vista de que se han estudiado en espacios geográficos separados (Caribe continental y caribe insular.Estudios del Caribe en Colômbia.. los estudios del Caribe avanzan en medio de la diversidad (institucional. Pero es innegable el impacto del modelo económico vigente en los estudios del Caribe. Completar la visión regional de conjunto (hay disciplinas con mayores aportes y predominios (historia y economía). En Colombia. La reducción de fuentes de financiación. modelo caracterizado por la disminución del tamaño del estado y la consecuente fragilidad financiera de las universidades públicas. Los estudios del Caribe en Colombia se caracterizan por sus miradas locales.. hay zonas menos estudiadas –Caribe chocoano y antioqueño). Retos de los estudios del Caribe Los siguientes son los principales retos de los estudios del Caribe en Colombia2: a. visiones) y la adversidad (financiera). Profundizar una visión internacional./jul. no contribuyen al fortalecimiento de los estudios del Caribe. 2007 .

Creo que la experiencia colombiana arroja elementos. los dos últimos retos de los estudios del Caribe en Colombia son sin lugar a dudas de aquellos que caracterizan en general a los estudios del Caribe: la falta de visiones regionales de Gran Caribe y la debilidad aún de la interdisciplinariedad. n° 15 . un historiador se preguntaba porqué se estaba haciendo ese encuentro por fuera del Caribe. de la vinculación a la conceptualización de la maestría virtual en estudios del Caribe coordinada por West Indies University y apoyada por la Unesco. Si bien las particularidades colombianas dan a los estudios del Caribe. durante el cuatrienio 19982002. y multilingüe. igualmente. Se ha dado un paso en aumentar las relaciones de los investigadores y universidades con el Gran Caribe. el ejercicio virtual.Alberto Abello Vives propuestas de integración política y relaciones comerciales. Hoy más allá de la asistencia a congresos de la Asociación de Estudios del Caribe (CSA en su sigla en inglés). el intercambio de métodos y el trabajo colectivo. de los vínculos con el Centro de Estudios del Caribe de la Universidad Metropolitana de Londres. actividades permanentemente. está llamado a facilitar la organización de grupos de investigación internacionales. Promover aun más el encuentro de las disciplinas. aunque más dispendioso y costoso. Recordemos que en mayo de 2005 cuando se realizó en Cartagena de Indias la 37ª Conferencia Anual de Historiadores del Caribe. sino hacer parte de redes y la organización de proyectos científicos de la gran área del Caribe. VIII. Colombia desarrolló una iniciativa gubernamental de acercarse a este mundo. generación e intercambio contínuo de 280 Revista Brasileira do Caribe. contando con sectores de la academia para ello.3 e. del Centro de Estudios del Caribe en Brasil. En ello. El entendimiento de la realidad y la construcción de conocimiento complejo está exigiendo el rompimiento de las visiones disciplinarias. particularidades propias. los estudios colombianos del Caribe requieren no sólo una mayor visibilidad internacional. de la Asociación Mexicana de Estudios del Caribe (AMEC). construcción de redes. vol. como una múltiple institucionalidad.

del profesor Jario Parada en el sexto taller del Caribe. comunicación. desde la economía política. por la gestión de recursos para programas de impacto regional. 2006. 3 Ibidem. Ver El Caribe en la Nación colombiana (2006). La relación entre los estudios del Caribe como especialidad.Estudios del Caribe en Colômbia. investigativa o de posgrados. por ejemplo. p. con amplia convocatoria. se les valora y reconoce. Un esfuerzo adicional es necesario hacer para alcanzar una mayor comprensión de los profesionales de distintas disciplinas que acceden a maestrías en estudios del Caribe. por una mayor dinámica virtual. que promueven la interdisciplinariedad. Barranquilla. publicado por Planeta en 2006 y el ensayo. p.93. 2007 ../jul. que se convierten en factores positivos para la supervivencia de los estudios del Caribe en medio de las dificultades. la organización de grupos de trabajo. 16 de mayo de 20072 Estos comentarios fueron planteados por el autor anteriormente y publicados. Bogotá: Museo Nacional de la Colombia. 21 1 281 jan. Una verdadera red de estudios del Caribe. NOTAS Se destacan Los señores de la Guerra de Gustavo Duncan. Repensar los estudios del Caribe significa repensar la forma como hasta ahora se actúa para su desarrollo. debería de ir más allá de convocar a un evento internacional periódico y preocuparse por un mayor flujo de información y de contenidos.. interacción con el resto de la sociedad. Las mejores experiencias son aquellas incluyentes. se organizan. por la promoción del trabajo en grupo entre investigadores de distintos países. y las disciplinas de los pregrados se encuentra aún por conocerse mejor.

282 .

e tão perto dos Estados Unidos”. Porto Rico.. Leonardo de Melo Rodrigues Ao nomear ensaios aparentemente dispersos sob o título de um dito popular. ainda mais estando este incompleto.. como Gaztambide-Geigel faz questão de ressaltar. Mesmo o dito sendo de origem mexicana. potência esta que teve uma sobressalente mudança hierárquica no cenário econômico mundial. San Ruan: Edicines Callejón.. Seu sentido coloca em xeque o paradoxo implicado na bandeira política norte americana: um imperialismo salvífico quase natural que na prática é muito distante disso—a recente investida democrática em terras iraquianas é exemplo atual de peso. particularmente os antilhanos. A atualidade do dito faz-se clara. este dito expressa uma condição de existência comum a países do continente meso e sul americano: a proximidade física em relação aos Estados Unidos. VIII. 2007 . vol. uma idéia de unidade se entrelaça com o omitido e suspenso pelas reticências: “.Resenha GAZTAMBIDE-GEIGEL. Tan lejos de Dios. E a novidade deste trabalho é justamente se adentrar no conjunto de relações que presidiram o processo de emergência da potência norte americana em relação aos vizinhos do sul. Antonio. A invocação de um dito popular não se dá de forma gratuita. Além levar este paradoxo acerca da política americana com 283 Revista Brasileira do Caribe. 2006. 283-287. 242 p. dela decorre um sentido que expressa a novidade deste trabalho. Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos. n° 15. na qual se elevara ao avatar de maior poderio atual..

VIII. São muitas as perspectivas de utilização. n° 15 . ou melhor. a apresentação do presente trabalho se releva não só entre os pesquisadores caribenhos. seria uma ingenuidade supor que seus métodos permaneceriam os mesmos submetidos a objetos tão singulares. E ao inquirir quanto às relações políticas embutidas no momento de sua construção. história.Leonardo de Melo Rodrigues meticulosidade. submete o termo Caribe à sua análise historiográfica. radicados no Brasil ou não. em geral. sociologia. Desse modo. O que atesta seu estatuto de relevante acontecimento no pensamento das ditas “ciências humanas”. vol. antropologia. oriundos de outros campos de saber. tomado como invenção. apoiado em uma massa documentária de fôlego e decorrente de vários anos de pesquisa. e sim um objeto inventado. No primeiro ensaio. “La invención del Caribe a partir de 1898”. este sem dúvida é o jogo implícito em vista das circunstâncias pelas quais se forma o conceito Caribe. que consuma ainda mais o seu valor analítico. que bastaria ao historiador expor suas formas e conteúdos. se se pode falar de um tema central coordenador dos setes ensaios constituintes da presente coletânea. geografia e mesmo. a filosofia. 284 Revista Brasileira do Caribe. busca-se ver justamente as circunstâncias em jogo no momento de sua criação. e se servir de um avantajado corpo material. Gaztambide-Geigel abordou tal temática numa dimensão bem delimitada. as contingências e encontros que marcaram sua emergência. o Caribe não é um objeto fixo e estático. E. que não cessa de se recriar e reiterar-se. Situa seu caráter enquanto invenção. Desse modo. como também para interessados no tema da “identidade” na contemporaneidade. o conceito de identidade não deixou de se atravessar por objetos os mais distintos. É certo que as discussões identitárias provêem de pesquisas inscritas metodicamente no campo dos estudos culturais. Entretanto. se formam as identidades postas em jogo ao evocar os Caribes. Todavia. Seu problema foi como se construiu o termo Caribe em relação à política internacional norteamericana para os vizinhos antilhanos. Hoje oferece tal diversidade. De modo que tal temática fora incorporada nas ciências humanas.

diante da ameaça imperial norteamericana. Em vista disso. e pôde ver suas diversas usagens mediante as situações próprias e específicas à história antilhana: de um arquipélago atlântico fragmentado submisso à metrópoles coloniais ao “Gran Caribe” em vias de emancipação cultural. Gaztambide avalia as idéias antilhanas a partir de figuras históricas inseridas no redemoinho hispanoamericano e antilhano: Marti. sob as luzes antilhanas. Mesmo que uma primeira onda de independência arrebatara o continente décadas antes. pronto e acabado. O papel deles expressam um movimento. em cada situação histórica em que é invocado. as Antilhas espanholas. Personagens que dedicaram à luta emancipatória dos territórios coloniais da metrópole espanhola. Assim. Gaztambide cunhou quatro momentos que são decisivos para a significação do termo caribe. o autor propôs uma historicização do termo. numa engrenagem à qual as Antilhas estariam em função otimizada. Hostos e Betonces. o Gran Caribe ou Cuenca del Caribe e o caribe cultural. o caribe geopolítico. cujo sentido atravessaria a história latinoamericana. vários Caribes de maneira que. do final do século XIX aos dias atuais: o caribe insular. Mostra como.Resenha O que o jogo em torno da criação do termo Caribe revela é que não há um Caribe. “La geopolítica del antillanismo de fines del siglo XIX”. persistia uma colonialidade já dita como “cultural” e combatida pelos libertários antilhanos. começa-se a convergir às idéias de hispanoamericanismo e de latinoamericanismo. foram decorridas enunciações bem diversas para o conceito “caribe”. e há. já na década de 90 deste mesmo século. por volta da metade do século XIX. dado sua localização estratégica em relação ao mercado mundial internacional. E a emancipação devia ser alçada nem tanto em 285 jan. procura-se destacar as forças motrizes do latinoamericanismo. Cuba. o termo não se refere às mesmas coisas. Porto Rico e República Dominicana. não falam dos mesmos objetos./jul. encabeçariam o sonho da “nuestra América”. 2007 . Por conseguinte. e sim como houve. No segundo ensaio. Situação que muda.

marca de maneira decisiva a postura específica de seu imperialismo. E explorar as ambigüidades por detrás das políticas internacionais norte americana é o tema central do terceiro ensaio: “El imperio ‘bueno’ del 98”. trata das relações da política internacional norte americana. São ambigüidades deste tipo que se alocam no cerne da campanha norte americana rumo à ascensão econômica e que foi aplicada aos vizinhos do Sul. como o título mesmo diz. este ensaio propõe a hipótese de como os efeitos da política de boa vizinhança fizeram valer no modo de organização interno dos países atingidos por tal postura ambígua. A política imperial desta potência emergente aos fins do século XIX. continentais e antilhanos. foi fator de grande determinação no caso de invenção do Caribe. vol. já que é das ambigüidades geradas no interior da política imperial americana a razão das variações acerca deste processo de invenção. defendida como verdadeira representante do ideal republicano. Essa transição é o tema dos ensaios “Hacia uma historia social de las relaciones interamericanas: 286 Revista Brasileira do Caribe. O conceito de ambigüidade. seguindo assim o exemplo do populismo de Porto Rico. Em “La Buena vencidad y populismo”. Ressaltando a particularidade do populismo caribenho. Entretanto. Pois ao mesmo tempo em que o final do século XIX foi marcado por projetos políticos de cunho expansionista. passada a Segunda Guerra Mundial e com a efetivação do poderio norte americano.Leonardo de Melo Rodrigues relação aos velhos impérios europeus. E a emergência dos Estados Unidos. com a práxis política do populismo. VIII. bem como devia ser buscada em vista da potência emergente: a República norte americana. n° 15 . encontrava-se também mostras de uma ação não imperialista. como atributo qualitativo da política externa norte americana. posta em prática no terço inicial do século XX e alterada com o término da Segunda Guerra Mundial. a política da boa vizinhança cede lugar à política do bom sócio. estava constituída às voltas de ambigüidades visíveis. como defende Gaztambide. que a partir da compra da Lousiana começou a deferir ações com finalidade de expandir sua soberania.

Desse modo o que o trajeto destes ensaios evidenciam é como as políticas internacionais não são exercidas de forma aleatória./jul. O tema do ultimo ensaio. e sim o que se dá é um complexo jogo no qual relações de forças heterogêneas se interagem incessantemente. 287 jan. la idea del desarrolismo y el Caribe: Los orígenes”.Resenha El camino del desarrollismo: 1946-1960” e “Estados Unidos. ajustando de forma a assegurar ainda mais a supremacia americana. 2007 . e sim são efeitos da historicidade que perpassam as formações históricas. E também que não é simplesmente a modulação dos estratos interiores de uma sociedade por um fora. “Identidades internacionales y cooperación regional en el Caribe”. A política do bom sócio nada mais é que a adaptação da política externa norte americana no momento em que esta nação acede ao topo econômico da economia mundial. é o modo como a política do bom sócio criou um imaginário internacional que abaixo suas variações locais possibilitou a criação de identidades multiculturais. o Gran Caribe e o latinoamericano. O projeto desenvolvimentista que esta política visa suplantar nos sócios do sul adapta-os aos moldes do capitalismo mundial integrado sob a égide do desenvolvimento econômico.

vol. n° 15 .288 Revista Brasileira do Caribe. VIII.

com. Corréio eletrônico:araujo.Os autores Doctor Alberto Abello Vives é economista.edu. 2007. Goiânia.São Luis:SEIR/FAPEMA/EDUFMA. Correio eletrônico: carlosbene@terra. Tem publicado vários livros sobre o Caribe colombiano.alexandre@uol. Núcleo de Estudos AfroBrasileiros./jul. Atualmente é decano da Faculdade de Ciencias Econômicas e Administrativas da Universidade Tecnológica de Bolívar en Cartagena de IndiasColombia.co Doutor Alexandre Martins de Araújo Doutor pela UFG possui várias obras publicadas. Universidade Federal do Maranhão. dentre elas: “Memórias que curam” In Olga Cabrera.com. Recientemente duas compilações suas foram publicadas na Colombia: El Caribe en la nación colombiana e Un Caribe sin plantación. 2004. Co-fundador e primeiro diretor do Observatório do Caribe Colombiano. Correo electrônico: aabello@unitecnologica. Relações Culturais Século XIX: Negros e Coolies em Trinidad (1845-1870). Expeirências e Memórias. Dentre suas obras destacamos: Ritmos da identidade.br 289 jan. 2007 . 2002.Mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão. Caribe. a revista Aguaita e a Cátedra do Caribe colombiano.br Doutor Carlos Benedito Rodrigues da Silva Programa de PósGraduação de. Ciências Sociais. Goiânia: GEV.

New York: Palgrave MacMillan. desde abril de 2007. pela mesma instituição. 1995. n° 15 .Noises in the Blood: Orality.cooper@uwimona. Ed. com pósgraduação em Psicoterapia e Psicologia Centrada na Pessoa. dentre suas principais publicações destacam: Livros: Sound clash. Correio eletrônico: cristinadecassiapmoraes@hotmail. na cadeira de Metodologia Científica. MBA em Gestão de Recursos Humanos pela FGV-RJ.edu. rpt 1994. VIII.UCG. Entre suas publicações mais recentes destacam-se “Deus e o diabo no sertão dos Guayazes Abusos e desmandos do vigário da Vara de Vilan. 2007. Goiânia. Jamaican Dancehal Culture at large. “Enslaved in Stereotipes Race and representationin Post Independence Jamaica”. London: Macmillan Caribbean.com Kátia Frazão Costa Rodrigues é psicóloga clínica. na área de Literatura Comparada. 2003. Professora de Literary and Cultural Studies e Diretora do Institute of Caribbean Studies University of the West Indies. Qualificou o seu projeto. 1993. 2004. intitulado A escrita de uma subjetividade sem sujeito em Aimé Césaire e Edouard Glissant. também. Reside em Luanda. além de colaborar com a União dos Escritores Angolanos. Mona. Gender and the ‘Vulgar’ Body of Jamaican Popular Culture. In sociedade e Cultura. trabalhos na área social com 154 crianças 290 Revista Brasileira do Caribe. onde colabora como professora convidada da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. em março de 2007. Cristianismo em Goiás. mestre em Letras pela Universidade Federal Fluminense e doutoranda. Realiza. Correio eletrónico: Carolyn. vol. 2006 e Religiosidade e Sociabilidade entre os confrades do Patriarca São Jose In Quadros Eduardo.Os autores Doutora Carolyn Cooper. na revisão de textos de jovens autores. Dentre alguns artigos: “Noises in the blood:Orality.jm Doutora Cristina de Cassia Pereira Moraes. Reconhecida pela sua trajetória. Durham: Duke University Press. rpt 2005. Gender and the vulgar body of Jamaican Popular Culture”. rpt 2000. Um balanço historiográfico. Jamaica.

no atendimento psicoterápico e em oficinas de leitura. Publicou artigos. Los angeles. 2005). Algumas publicações: “Lieux de la mémoire et de l’oubli dans des textes migrants” (In: ALMEIDA.com. 2007). É coordenadora do Núcleo de Estudos Canadenses da UFF. volume VI da Revista Brasileira do Caribe.br Doutora Maria Bernadette Velloso Porto. Textos apresentados no VIII Simpósio Nacional (em colaboração com Lucia Helena Vianna e Lívia Reis(1999). paisagens na literatura canadense (EdUFF/ABECAN. Perspectivas transnacionais.com 291 jan.com Leonardo Vidigal doutorando da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). possui várias publicações.Os autores órfãs da guerra. Eurídice e PORTO. ABECAN/FURG. EdUFF/ ABECAN. Correio eletrônico: mbvporto@hotmail. 2007 . Identidades em trânsito (EdUFF/ABECAN. “Habitabilidade e cartografias do virtual no universo de Régine Robin” (In: HANCIAU. Sandra Regina Goulart de. Nubia. estimulando o contato com a Literatura. In: The Beat Magaziine. Organizou o número 12. perspectivas do Ártico ao Antártico”. Faz parte de dois grupos de pesquisa do CNPq: Identidades em trânsito:estéticas transnacionais (coordenadora ao lado da Profa Vera Lúcia Soares da UFF) e Estudos do Caribe no Brasil (coordenado pela Profa Olga Cabrera). vagabundos e mendigos: desvios. Correio eletrônico: mbvporto@hotmail.bhz@terra. “Andarilhos./jul. ensaios em revistas especializadas .2006). capítulos de livros. Organizou as seguintes obras coletivas: Mulher e Literatura. 1997. 2007). EdUFF/ABECAN.Correio eletrônico: leovid. 2004) e Figurações da alteridade (em colaboração com a Profa Eurídice Figueiredo. Maria Bernadette. devires e lugares da alteridade” (In: FIGUEIREDO. passagens. UFMG. Fronteiras. 2000). pesquisa sobre a temática do reggae há vários anos. Brasil/Canadá: visões. dentre elas destacam-se: “Bob Marley in Brazil”.

2007. . territorialidade e corporalidade”.143.22.com Maristani de Sousa Rosa Universidade Estadual do Maranhão.2. Boletim Goiano de Geografia.141 . p.com.Maria Lemke Loiola .com.166. v. E “Ritmos de Identidade: música. Pinta e Nina: a redescoberta dos Caribes em espaços discursivos brasileiros” In: Cenários Caribenhos. 2007. Estudante da Pós Graduação da Universidade Federal de Maranhão. é mestranda da pós-graduação em História pela UFG. 2002. p. Dentre suas publicações destacam-se: “Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava”. “O reggae na Jamaica Brasileira: interlocução jurídica com cidadania e política a partir de letras musicais” In: 25a Reunião Brasileira de Antropologia.377 . Brasília:Paralelo 15 e “Nas terras do sol. v. Goiânia. Dentre suas publicações: “Cultura jeje na diáspora: Maranhão e Jamaica”. In: III Simpósio Internacional Cultura e Identidades. “Coração das trevas”. Goiânia: Ed. Correio eletrônico: tnegrão@gmail.b 292 .23. Goiânia: Universidade Católica de Goiás.165 . autora de “Santa Maria. p. . Goiânia. 2005. Boletim Goiano de Geografia. Centro de Estudos Superiores de Imperatriz. “Quatro Tempos de Ideologia em Goiás”. Brasil e cuba nas representações de Glauber rocha” In: Caribe sintonias e dissonancias. In: História Revista.383. CECAB. 2007. Goiânia: UCG. “História e Cultura Africana e Afro-americana”. Correio eletrônico: maristanerosa@terra.br Doutora Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo possui uma rica trajetória como professora da Universidade de Brasília. 2004. v. Correio eletrônico: marialemke@pop. Departamento de História e Geografia. 2003.

sobretudo e-mail para contato. com recuo à esquerda e sem aspas. sendo um no idioma original e outro em inglês (abstract) ou espanhol. TIPOS DE TRABALHOS PUBLICADOS: Artigos. via e-mail ou via correio convencional. sendo que diferentes títulos de um mesmo autor no mesmo ano. espaçamento entre linhas simples. e Instrumentos de Trabalho.Normas Editoriais para Publicação de Artigos 1. bibliotecas. sendo neste caso uma cópia em disquete e outra impressa. 2. parágrafo justificado. que reproduzam documentos históricos importantes relacionados com o Caribe. espanhol. Deverão ser acompanhados de um breve currículo do autor. repertórios. e a das resenhas entre 3 e 7 páginas. Uma citação dentro de 293 . o segundo idioma do resumo e das palavras-chave deverá ser o português e o espanhol. Os artigos deverão ainda ser acompanhados de dois resumos. 6. Com mais de cinco linhas devem ser transcritas em parágrafo distinto. Já os dois resumos dos artigos deverão conter em torno de 10 (dez) linhas. que possam interessar aos pesquisadores caribenhos. 5. inventários etc. NORMATIZAÇÃO: todos os textos deverão obedecer ao padrão normativo da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas . telefone/fax e. 3. referências e notas. devem vir transcritas entre aspas duplas. p. FORMA DE APRESENTAÇÃO: os trabalhos deverão ser encaminhados no formato Microsoft Word for Windows. também no idioma original e em inglês e espanhol. todas no formato acima especificado.5 cm. com o mesmo tipo e tamanho da letra do texto. 18-19). ou que informem comentadamente sobre arquivos. que tratem de estudos relacionados com o Caribe. com menos de cinco linhas. 4. data da publicação e página(s) citada(s). em corpo 10 normal. No caso do idioma original ser o inglês. francês ou inglês. EXTENSÃO DOS TEXTOS: a extensão dos artigos deverá ter entre 15 e 20 páginas. 1940. IDIOMAS: A Revista Brasileira do Caribe publica colaborações em português. CITAÇÕES: No corpo do texto. inéditos.para apresentação de trabalhos científicos. versão 2000 ou 2003. que deverão ser colocadas logo abaixo dos resumos. bem como de três palavras-chave. incluindo endereço. sobretudo no que se refere às citações. a partir da letra a. margens de 2. cujo conteúdo se relacione com a história do Caribe. Exemplo: (CASTILLO. sem deslocamento da primeira linha. deverão ser diferenciados com uma letra após a data. sobre obra bibliográfica publicada nos últimos dois anos. fonte Times New Roman em corpo nº 11. acompanhadas da indicação entre parêntesis do sobrenome do(s) autor(es). Resenhas Críticas. Entrevistas com personalidades de grande expressão na historiografia caribenha.

explanações ou traduções que não caberiam no texto. conforme os modelos abaixo: Livro: SOBRENOME. Local: Editora. V. Título do artigo ou capítulo. (org. Modernidad razón e identidad en América Latina. Título do livro: sub-título. La Habana: Editorial Academia. número do fascículo. a mesma deve vir com citação de autor. Revista Mexicana del Caribe. Santiago. (org. ARTIGO OU CAPÍTULO DE COLETÂNEA: SOBRENOME. Letra inicial do nome do Autor. N. sucintas e claras. data. Título do artigo. serão apreciados pelo Conselho Editorial. usadas para a apresentação de comentários. ENDEREÇO PARA ENVIO DAS CONTRIBUIÇÕES: 294 . bem como apresentar indicações completas. a quem cabe a decisão referente à oportunidade da publicação das contribuições recebidas. Os demais tipos de textos. F. Reflejos y antinomias de la problematica de la identidad en el discurso narrativo latinoamericano. 9. ano de publicação. Devem vir em corpo 8. Exemplo: LARRAÍN IBÁÑEZ. 10. 6-34.) Título da Coletânea. Exemplo: GIRVAN. NOTAS DE RODAPÉ: breves. 4. 1994.outra é indicado por aspas simples. página inicial-final do artigo. Letra inicial do nome do organizador. 1999. 53-72. 8. 1996. Chile: Editorial Andrés Bello. ano e página como a anterior./dec. O Conselho Editorial se reserva o direito de sugerir ao autor modificações de forma com o objetivo de adequar o texto às dimensões da revista e a seu padrão editorial e gráfico. J. Exemplo: AINSA. p. E. Reinterpretar el Caribe. p. jul. Local: Editora. N. em ordem crescente de numeração. Letra incial do nome do Autor. Local de publicação.) Identidad cultural latinoamericana. 7. podem ser de esclarecimento ou explicativas. ARTIGO DE REVISTAS OU PERIÓDICOS: SOBRENOME. Estas citações abreviadas enviam à bibliografia no final do artigo. ano. Título do periódico. CRITÉRIOS DE REVISÃO: os artigos enviados à Revista Brasileira do Caribe serão remetidos a pelo menos dois pareceristas escolhidos entre os membros dos Conselhos Editorial e Consultivo que poderão recomendar ou não a publicação. Enfoques filosóficos literarios. página inicial-página final do artigo ou capítulo. BIBLIOGRAFIA: deve vir ao final do trabalho e contemplar as obras efetivamente citadas e referenciadas ao longo do texto e nas notas de rodapé. UBIETA GOMEZ. : SOBRENOME. número do volume. Letra inicial do nome do Autor. 7. que não os artigos. ou ainda recomendá-la com modificações.

Goiás CEP: 74.3521-1457 Fax: 55-62-3292-1118 E-mail: ocabrera@fchf.br 295 .001-970 Fone: 55-62.sala 42 Goiânia .Revista Brasileira do Caribe Universidade Federal de Goiás Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia Campus II .ufg.

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