Universidade Federal de Goiás - UFG Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB ISSN: 1518-6784

Revista Brasileira do Caribe
Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil

CECAB, Goiânia, vol. VIII, nº 15 - jul./dez., 2007

Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB
Diretora: Olga Cabrera Secretária: Leonardo de M. Rodrigues

Revista Brasileira do Caribe Editora Responsavel/Organizadora do Volume: Olga Cabrera
Indexada pela Library of Congress. Control number: 2004204431. www.catalog.loc.gov e pelo Directorio Latindex /UNAM/ México. www.latindex.unam.mx Conselho Editorial Olga Cabrera - Brígida M. Pastor - Danilo Rabelo Conselho Consultivo Juan J. Baldrich, Pedro L. San Miguel (Universidad de Río Piedras, Puerto Rico); Consuelo Naranjo (Consejo Superior de Investigaciones Científicas - CSIC-Madrid, Espanha); Ernest Pépin (Escritor, Guadaloupe); Olga Portuondo (Universidad de Santiago de Cuba, Cuba); Ileana Sanz (Universidad Habana, Cuba); Laura Muñoz (Instituto Mora, México); Maria Teresa Cortés Zavala, Universidad Michoacana de San Hidalgo, México); Miguel Suarez Bosa (Universidad de Las Palmas de Gran Canária, Espanha); Maria Therezinha F. Negrão de Melo, Eleonora Zicari, Jaime de Almeida (Universidade de Brasília, Brasil); Eugênio Rezende de Carvalho, Isabel Ibarra, Luis Sergio Duarte da Silva (Universidade Federal de Goiás, Brasil); Euridice Figuereido, Maria Bernadette Velloso Porto (Universidade Fluminense, R. de Janeiro, Brasil); Rohda Reddock, Susan Mains, Patsy Lewis (University of the West Indies,Jamaica); Rose Mary Allen (University of the Netherlands Antilles, Curaçao); Rawle Gibbons (Universisity of the West Indies, Trinidad), Diana Soto(Un. Bogotá Col.), Diana Lago e Alfonso Múnera (Un. Cartagena de Indias, Col.) Comissão Técnica (Projeto Gráfico/Editoração): Leonardo de Melo Rodrigues Capa: Adriana Mendonça Revista Brasileira do Caribe: Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil/Universidade Federal de Goiás, vol. VIII, nº 15, (jul./dez), Goiânia, Ed. CECAB, 2007. Semestral. Descrição baseada em: vol. VIII, nº 15 (jun./dez. 2007). ISSN:1518-6784 295 p. 1. Caribe - História - Periódicos.
CDU: 94 (1-928.9)

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* Os dados e conceitos emitidos nos artigos, bem como a exatidão das referências bibliográficas são de responsabilidade dos autores. ** Os artigos recebidos para publicação são apreciados por no mínimo 2 (dois) revisores, escolhidos preferencialmente entre os membros dos Conselhos Editorial e consultores externos especializados. Data de Circulação: Dezembro/2007 Copyright
©

Tiragem Bruta: 600 exemplares

2007, Centro de Estudos do Caribe no Brasil

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Sumário
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Carolyn Cooper ........................................................11 Os sons do Atlântico negro Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 O reggae na “Jamaica Brasileira” Cidadania e Política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa..........................................41 Enredando Brasil/Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrações de idéias, influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo..................85 Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto.................................109 A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à Antillanite Césaire e Glissant. Katia Frazão Costa Rodrigues...................................137

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Plantation Legal: Trinidad século XIX Alexandre Martins.....................................................165 O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes............................197 A morte branca do escravo negro: Considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola.................................................245 Estudios del Caribe en Colombia: Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives.................................................267 Gaztambide-Geigel, Antonio. Tan lejos de Dios... Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos Leonardo de Melo Rodrigues...................................284 Os autores........................................................................289

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Summary
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica Carolyn Cooper..........................................................11 The sounds of the black Athlantic Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 Reggae in the Brazilian Jamaica: Citizenship and politics in the lirics of Songs Maristani de Sousa Rosa...........................................41 Interlacing Brazil and Jamaica: An international connection through filmography and popular music Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrations of ideas, influences or reactivations? Cinematographic production in Brazil and Cuba as desterritorialized experiences Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo................85 A voice from the haitian diaspora in the migrant‘s literature of Quebec Maria Bernadette Velloso Porto...............................109

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.............................................197 The black slave´s with death: Some considerations on slavery in Brazil....... Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola.......... Essays about relation between Caribbean and United States............165 The slave trade in Brazil in the eighteenth century Cristina de Cassia Pereira Moraes........ Far of God.............. Katia Frazão Costa Rodrigues.........................................137 Legal plantation: Trinidad nineteenth century Alexandre Martins Araújo............267 Gaztambide Antonio..................The construction of identity in francophone caribbean from negritude to antilleanness: Césaire e Glissant.......................245 Studies of the Caribbean in Colombia: Between diversity and adversity Alberto Abello Vives...............................289 6 ...... Leonardo de Melo Rodrigues...................................................284 About the authors....................

Editorial Olga Cabrera Diretora da Revista Brasileira do Caribe. possibilita pensar na conversão dos próximos números em dossiês dedicados especialmente a um país do Caribe. Danilo Rabelo e desde o próximo número Orlinda Carrijo Melo. Olga Cabrera e inglês. da destacada historiadora jamaicana Carolyn Cooper. 16. será dedicado à Cuba.luj . Estas abrangem desde àquelas relacionadas ao conteúdo quanto às formais. O primeiro grupo de artigos da revista relaciona Brasil e Jamaica mediante a samba no solo jamaicano e o reggae no brasileiro. O aumento do Conselho Consultivo da Revista tem dado um fluxo mais rápido à avaliação dos artigos para sua publicação. No que respeita ao conteúdo. A presença de um número muito mais expressivo de colaboradores no Conselho Consultivo e o acréscimo de artigos para ser avaliados. A Revista Brasileira do Caribe alcança seu número 15 após algumas transformações que começaram no número 9. Do ponto de vista formal a Revista tem uma artista responsável pelo seu projeto gráfico. O primeiro deles. O próximo número. A reformulação do Conselho Editorial e de seu compromisso com a terminação bem sucedida da revista mediante uma revisão cuidadosa das línguas (português. Quatro artigos com diferentes abordagens estudam essas relaciones. Brígida Pastor) e da aplicação das normas de publicação aos artigos. O presente número da Revista Brasileira do Caribe apresenta vários temas que podem ser agrupados no eixo das Conexões Afro-Atlânticas: Jamaica/Brasil/Caribe. Adriana Mendonça. o número 17 ao Haiti e o 18 à literatura francófona. a transcendência da Revista tem permitido o aumento de artigos de todo o mundo que chegam até a redação. e a arte utilizada nas capas das revistas são todas originais. “Lick Samba: 7 7002 . é outro dos objetivos alcançados. autorizando a submissão dos mesmos a uma avaliação mais rigorosa. ou em torno a um tema.zed/. espanhol.

“Os Sons do Atlântico Negro” alerta das abordagens identitárias embasadas apenas nas análises sociais. n° 15 . influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas” revela a transcendência e as conexões que decorrem do cinema de Glauber Rocha para a compreensão do espaço latino-americano. O artigo de Maria Terezinha Negrão de Melo “Migrações de idéias. Negrão de Melo. Ainda o terceiro artigo de Maristane de Sousa Rosa “O Reggae na “Jamaica brasileira. vol. Além do viés sexual utilizado nas interpretações sobre este tema. Carlos Benedito Rodrigues da Silva. O artigo de Leonardo Vidigal “Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular” se enlaça de maneira simultânea aos três artigos anteriores e ao seguinte de Maria Therezinha F. econômicas. as emoções. certamente. no artigo “A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant”. uma expressão das conexões AfroAtlânticas que enlaçam Brasil a Jamaica. O segundo artigo do reconhecido estudioso do reggae em Brasil. A interpretação da desterritorialização no Caribe reaparece no excelente artigo de Maria Bernadette Velloso Porto “Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec”. na visão de um poeta da diáspora caribenha (haitiana) no Canadá. a samba jamaicana é.Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica” num jogo de palavras que transcendem as distorções sobre Kingston como a capital do crime para capital como “primeiro valor” que exemplifica com o estudo sobre a samba que se recria na Jamaica. Katia Frazão de Costa Rodrigues. O autor aborda o reggae e os vínculos inter-culturais entre Brasil e Jamaica mediante a utilização do cinema como fonte de análise. por sua vez apresenta em uma perspectiva relacional 8 Revista Brasileira do Caribe. e que deixam fora os sentimentos. VIII. Cidadania e política a partir de letras musicais” procura explicar mediante a música o processo identitário que transcende as fronteiras regionais e nacionais para conclamar objetivos sociais comuns dos negros da diáspora. reclamados por Norbert Elias para compreender as mudanças na História.

. 2007 . A presença de várias culturas africanas na formação social aparece refletida na pesquisa documentada de Cristina de Cássia Pereira de Moraes “O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII” e no artigo de Maria Lemke Loiolo “A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776)”. sobretudo. A revista contém outros dois artigos que relatam a experiência da escravidão no Goiás. quer seja nas ilhas ou no continente. Entre la diversidad y la adversidad”./dez. os dois destacados literatos de Martinica. no século XIX. “Estudios del Caribe en Colombia.os aportes teóricos na construção da idéia de antilhanité em Césaire e Glissant. a resenha à obra de Antonio Gaztambide-Geigel. GAZTAMBIDE-GEIGEL. Trinidad século XIX” aborda as experiências dos imigrantes indianos e dos negros em Trinidad. Brasil. Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos A seção final da Revista Brasileira do Caribe oferece também os dados mais importantes sobre os autores que participaram neste número. A problemática e. destaca a relevância deste último livro do reconhecido historiador porto-riquenho e coloca a importância para o Brasil do estudo dos especialistas da região. oferecendo um outro lado desse complexo mundo do Caribe. Por último. Tan lejos de Dios. o artigo de Alexandre Martins de Araújo “Plantation legal. Os sete artigos se enlaçam a uma globalizada visão do Caribe nas suas múltiplas conexões e possibilidades de abordagens.. 9 jul. a indefinida e nebulosa situação do Caribe colombiano não é diferente à de outros países do Caribe e o reclamo do autor para atentar contra as desigualdades sociais procedentes da racialização pode ser ampliado a toda Afro-América ou Caribe. aborda o tema específico dos documentos de óbitos de negros tanto escravos como livres na região de Meya Ponte (Pirenópolis) Encerra a revista o artigo de Alberto Abello Vives. Por último. também documental. por Leonardo de Melo Rodrigues. O primeiro é um estudo sobre a escravidão em Goiás a partir da documentação dos arquivos e o segundo. Antonio.

10 .

Goiânia. Spirit of the Crossroads) Carolyn Cooper Abstract This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing”. vol. mais que uma investigação. Jamaica.’ This is an article that is based. Jamaica Resumo Este artigo embrionário teve sua origem em maio de 2000 no Simpósio “Sinergias Culturais e oportunidades de negócios entre Brasil e Jamaica. 11-20. significando não somente o local geopolítico da cidade senão também algo coloquial do moderno sentido de “capital” significando “primeiro valor”. held in the capital city of Kingston. I intend a pun on ‘capital. O caso da música e das publicações”. Este é um artigo que tem como base. n° 15.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital. in conversations about samba from Jamaica to Brazil. *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 11 Revista Brasileira do Caribe. Keywords: Samba. Há um jogo de palavras sobre o conceito “capital”. VIII. beyond investigation. iniciadas na Jamaica e que agora se estendem ao solo brasileiro. Brazil. conversações sobre a samba.Lick Samba Cultural Synergies between Brazil and Jamaica (Dedicated to the memory of Lino de Almeida. Jamaica. 2007 . cidade de Kingston. realizado na capital.’ meaning ‘first rate.

it is an intervention in a conversation. Brasil.” held in the capital city of Kingston. deadly’ as in capital punishment. often excluded from the itinerary of most visitors to Jamaica who fear its vile reputation as a ‘murder capital. My intuitive reflections on that occasion have now been somewhat refined for presentation on this panel. n° 15 . 12 Revista Brasileira do Caribe. This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing. más allá de la investigación. Instead. Jamaica. yet another meaning of ‘capital’ resonates: ‘mortal. initiated in Jamaica. Jamaica. now re-branded as Jamaica Trade and Invest. Jamaica Resumen Este embrionario artículo tuvo su génesis en mayo de 2000 en el Simposio “Sinergías Culturales y oportunidades de negocios entre Brasil y Jamaica. I intend a pun on ‘capital.’ Here. significando no sólo el local geopolítico de la ciudad sino también algo coloquial del moderno sentido de “capital” significando “primer valor”. Palabras Claves: Samba. Brasil.chave: Samba.Carolyn Cooper Palavras. I was invited to contribute to the deliberations. As a cultural critic specialising in Jamaican popular culture and literature. Este es un artículo que tiene como base. VIII.’ meaning ‘first rate. Jamaica. The 2000 “Cultural Synergies” symposium was hosted by the Jamaica Promotions Corporation (JAMPRO). realizado en la ciudad de Kinsgton. conversaciones iniciadas en Jamaica y que ahora se extienden al suelo brasileño.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital. El caso de la música y de las publicaciones”. But I wish to make it absolutely clear that what I offer here is not a scholarly article – the product of prolonged research and analysis.’ Kingston is a much under-rated city. En este intento un juego de palabras sobre el concepto “capital”. vol.

lick samba Oh oh. noon and night. oh nah And though I know you hurt me again I’ll go on.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica that now continues on Brazilian soil. de 2007 . oh nah Another like this. I’m ready And if it’s late at night I’m steady Give it to you anytime. lick samba Ah say. which are heightened by the seductive refrain. however “little. lick samba. “lick samba.’ In slang usage in English. lick Samba1 Though somewhat enigmatically expressed. it means 13 jul. the man surrenders to the painful pleasures of love.” The singer is ready for action. apparent: “And it’s not that I am meek/ But it’s that I’m on a peak. Oh darling I’m not a preacher. lick samba. lick samba An mi seh. oh darling Ah just a lick samba.” The primary meaning of ‘lick’ in English is to ‘tongue. Bob Marley’s invocation to “lick samba. but I am calling Ooh. lick samba. lick samba If it’s morning time. lick samba. baby You can write it down in my name Morning time.” Unable to resist the woman’s power./dez. ah lick i one time. I’ll feel the pain And it’s not that I am meek But it’s that I’m on a peak.” which I use to frame my remarks here. ooh. morning. oh darling. the sexual allusions are. lick samba Oh yeah I could not resist. nevertheless. is the pulsating refrain of a song which appears to emblematize samba in primarily sexual terms: Lick samba. But there are claims to be settled. lick samba Ah bring it up. right here I’ll settle the little I claim. noon or night Ah just a lick samba.

explicitly evokes playful sexual seduction. connoting the call and response structure of African oral discourse. Widened beyond the immediate sexual context. heightened by percussive guitar beats: “ooh! hah! aiya! woyio!” After the opening refrain. right here. The line “Ah bring it up. This ameliorative meaning of “lick” that I attempt to recuperate here encodes the complexity of male/female relationships that are not always open to transparent. VIII.” sung as a duet. sound and power. Marcia Griffiths and Judy Mowatt) on the Kaya N’Gan Daya CD. The entire song becomes an amusing mating ritual.’ is essentially a euphoric expression of a natural high.Carolyn Cooper as well “to beat. ah lick i one time. Gilberto takes the lead. Not just the conventional chart ‘hit’ but also the physical impact of megawattage sound systems licking the body: One good thing about music. right here] ambiguously suggests the pleasurable hit of vigorous – not violent – oral/sexual contact. n° 15 .” to which Rita replies. the percussive beats of global African music.2 The song opens with titillating exclamations. singular interpretation. the refrain ‘lick samba’ evokes. In the song “Trench Town Rock. “I could not resist.’ conjoined to ‘lick. oh.” This is the primary sense in which the word is used in Jamaican. that here this ‘it.” [I bring it up. But the double English/Jamaican meanings appear to converge in this song. thrash. But I would argue. The generic ‘it’ that is licked/hit may be read as the objectified female body. “Another like this”. instead. “Lick Samba. When it hits you feel no pain 14 Revista Brasileira do Caribe. the version of “Lick Samba” that is recorded by Gilbert Gil and Rita Marley (and the other I-Three. especially by those disposed to see misogyny at every turn in Jamaican popular music.” Bob Marley deploys the trope of music as a ‘hit’ in precisely this way. When it hits you feel no pain Wo wo I say One good thing about music. The explosive hit/lick becomes a celebration of the potency of music as word. as well. I hit/lick it once. Indeed. vol.

The book was simultaneously published in 1998 by the Press University of the West Indies and the University of North Carolina Press in the series “Latin America in Translation/ en Traduccion/ em Traducao. this localised. Vianna declares that he valorises “the intellectual trajectory of anthropologist Gilberto 15 jul. At that JAMPRO seminar. Similarly. exemplifying the cultural synergies between Brazil and Jamaica in the field of book publishing. African diasporic music is not only globalised but it becomes an iconic manifestation of national identity./dez. Hermano Vianna’s book The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. samba is the music of Rio de Janeiro. a Kingston 12 groove. In his author’s preface to the US edition. working-class. de 2007 .Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Hit me with music Hit me with music now This is Trench Town rock Don’t watch that Trench Town Rock Big fish or sprat You reap what you sow Trench Town Rock And only Jah Jah know Trench Town I’ll never turn my back Groovin it’s Kingston 12 Groovin It’s Kingston 12 No waan yu come galang so No waan yu fi galang so Ska ba dip. incorporating cultural meanings far beyond the intentions of its progenitors.” sponsored by the Duke-University of North Carolina joint program in Latin American Studies. was a featured text. But in both instances. ska ba dip You waan come cold I up I’m a groover an the world know it by now3 Like reggae. samba is a popular music whose origins are decidedly urban and down market. Reggae is “Trench Town rock”.

and the rest of the Atlantic world as well. become crucial to the ‘nationalization’ of samba. Jamaican cultural icon Louise Bennett-Coverley. the ventriloquist. This book is about movement. gives an amusing rendering of the Jamaican psychology of ‘largeness’ in her poem “Independance. Nevertheless. In private conversation with me. a self-aggrandizing character she creates. but that does not matter. Various kinds of cultural mediation.” Miss Lou. trans/national cultural flows are an essential element of the formation and reproduction of the music. n° 15 .4 For reggae. but to France. Flag independence confirms an enlargened conception of both her own person and the landmass of the former colony: Jamaican She hope dem caution worl-map 16 Revista Brasileira do Caribe. Freyre was one the mediators. Jamaica’s international reach greatly exceeds our geographical size. VIII. as with athletics and football. Given the scale of geographical difference between Jamaica and Brazil. vol. not Rio de Janeiro.” disclosed that it was his own involvement with football in Brazil that sparked Bob Marley’s experimentation with samba. legendary Jamaican footballer Allan ‘Skill’ Cole. the United States. He elaborates the rationale: Freyre’s home was the Brazilian northeast. Would Jamaica have made it to the World Cup without the technical input of the celebrated Professor Rene Simoes? Hardly likely. spanning geographical and social distances. about back-and-forth flows of influence that connected Rio not only to Pernambuco. affectionately known as Miss Lou. speaks through the mouth of Miss Mattie. Marley’s long-time friend and producer of the song “Lick Samba. the globalisation of reggae suggests that. as for samba.Carolyn Cooper Freyre” as a “narrative and interpretive thread” for the book. who loudly proclaims the benefits of the nation’s newly acquired state of independence. That football connection is a whole other story of cultural synergies. it might appear hubristic to even attempt to delineate cultural synergies between the two.

Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica

Fi stop draw Jamaica small, For de lickle speck cyaan show We independantness at all! Moresomever we must tell map dat We don’t like we position Please kindly teck we out a sea An draw we in de ocean.5 English She hopes they’ve warned the mapmakers To stop representing Jamaica as tiny, For the little speck can’t show Our independence at all! Moreover we must tell the mapmakers That we don’t like our position – They must please take us out of the sea And put us in the ocean.6

Jamaicans do, indeed, have an oceanic consciousness. The landmass of the island (and ‘mass’ is a gross exaggeration in comparison to the expansive landscape of Brazil) does not contain us. Though seemingly bound on all sides by the sea, we are not insular. Psychologically free, many Jamaicans claim a much wider sphere of influence than the circumference of a small island, especially when the diaspora is taken into account – all those Jamaicans, with so many passports (legal and illegal), scattered across the globe. We constitute a formidable, transnational, constantly mobile nation-state. There is, obviously, another quite literal sense in which the Jamaican people are continental, like the Brazilians. The majority of Jamaicans are of African origin and we retain ancestral memories of a vast continent of mythic proportions. It is Rastafari who have most articulately propagated the philosophy of repatriation of the mind. Many Africans in the diaspora – in Brazil as in Jamaica – choose to keep genetic memory alive. In our language, music,

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Carolyn Cooper

food culture, religion we memorialize the past. And we keep our ancestors alive and available to dream us into waking consciousness; in the present. Africa is not the distant past; it is contemporary culture. But, like Jamaica, with our optimistic national motto, “out of many, one people”, Brazil privileges a model of multi-racial harmony that to outsiders often appears to repress the powerful African presence in this complex society. Brazil is home to the largest number of people of African origin outside the continent of Africa. John Chasteen, translator of Hermano Vianna’s The Mystery of Samba, defines the issue of racial identity in Brazil in this diplomatic way:
Scorn for the official platitudes about Brazilian ‘racial democracy’ has animated a number of recent U.S. multiculturalist views. They emphasize that, when racial and cultural mixing becomes a nationalist ideology, other racial identities (especially indigenous and African ones) remain marginalized and may be snuffed out altogether. In Brazil, the multiculturalist critique has circulated only in narrow intellectual circles and seems unlikely, for now, to diminish the popular appeal of mixed-race (mestico) nationalism. After all, it was not so long ago – in the 1930s – that mestico nationalism overthrew and replaced the official doctrines of white supremacy. Nor is white supremacy gone from Brazil, except officially. Therefore, the basic nationalist message – ‘It’s okay not to be white and European’ – retains its value in many people’s lives. The mestico category is so loose as to exclude almost nobody who seeks an ‘authentic Brazilian’ identity.7

A much less diplomatic reading of ‘authentic Brazilian identity’ recognizes that it is not only in ‘narrow intellectual circles’ that the critique of ‘mestico’ identity circulates. There is a popular Black nationalist movement alive and growing in Brazil. And this present African political struggle can be related to the long history of resistance to enslavement, both literal and mental – to cite Bob Marley and before him Marcus Garvey who truly exemplifies the

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continental consciousness of African Jamaicans: “Emancipate yourselves from mental slavery/ None but ourselves can free our mind.”8 Like Jamaica, Brazil has a long history of maroonage: an intractable refusal to be enslaved on the plantation. And we must remember that Brazil is directly responsible for the development of the sugar plantation economy in the Caribbean. It was the expulsion of the Sephardic Jews from Brazil in the seventeenth century that forced them to seek refuge first in Suriname, then Barbados where they developed the sugar industry, which then spread to other islands and precipitated the enforced migration of Africans to work on the plantations in the Caribbean. Movement of Jah people. In The Mystery of Samba, Hermano Vianna asks a provocative question: “How and why did Brazilian ‘authenticity’ become essentially ‘Afro-Brazilian’?”9 The answer he provides is equally provocative, especially for us in Jamaica where the elite continue to disparage forms of popular culture (like dancehall) that have their origins in the consciousness of the masses – or, as we prefer the ‘massive’ with its connotations of power, not just faceless anonymity. It is these very despised cultural forms, like contemporary dancehall culture, that have come to be identified globally as the quintessential markers of Jamaican identity. Vianna argues that “[t]he invention of Brazil’s national essence, at least in the version symbolized by samba, turns on the importance of popular culture.”10 He foregrounds the distinction between ‘pop’ culture and ‘popular’ culture: ‘Samba, despite its long and intense association with the Brazilian mass media, is never thought to have originated (or even to belong) there. Pop culture has been viewed, to the contrary, as a corrupting, alienating influence: the worst enemy of “authentic” popular culture.”11 Just as Jamaicans have been hit by samba and feel no pain, Brazilians have been hit by reggae. I must honour Jimmy Cliff for the role he has played in the globalisation of reggae music, particularly in Brazil. I must also celebrate the work of Lino de Almeida, now numbered among our ancestors, who was so instrumental in

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establishing the musical connection between Jamaica and Brazil. It is my vision that we, at the University of the West Indies, can initiate with our colleagues in Brazil a multi-disciplinary, multi-sectoral research project focusing on intellectual property and related cultural productions – with practical industry applications – that will indeed strengthen strategic partnerships between Jamaica and Brazil.

Notas
1

Bob Marley, “Lick Samba,” Track 2, Disc 2, Songs of Freedom, Compilation, Tuff Gong/Island Records, LC0407, 1992.

2

Bob Marley and the Wailers, “Trench Town Rock,” Track 4, African Herbsman, Disc 1,Trojan Records, ASIN:B0000011DQ, 1973.

Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xvii.
3

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
4

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
5 6

John Charles Chasteen, “Translator’s Preface,” in Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xiv-xv.

Bob Marley, “Redemption Song,” Track 10, Uprising, Island Records, ILPS 9596, 1980 8 Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil, xvii.
7 9

Ibid.

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Os Sons do Atlântico Negro
Carlos Benedito Rodrigues da Silva Abstract
Reggae was born in Jamaica in the mid sixties as a result of a musical and rhythmic evolution from the Black-African traditions to the rock-steady rhythm and blues, in addition to the notable influences of Rastafarianism. In São Luis de Maranhão, considered the “Portal of Amazônia”, including the States of Pará and Maranhão, there was always a musical predominance of Caribbean Rhythms, such as merengue, carimbó, bolero, among others, in the popular festivities. This study attempts to formulate some of the hypothesis that explains the phenomenon of the incorporation of reggae into São Luis´s culture. Keywords: Popular culture, Reggae, São Luis de Maranhão (Brazil)

Resumo
O artigo analisa a apropriação e a ressignificação do reggae jamaicano entre as camadas populares da cidade de São Luís, Maranhão, como forma identitária e de resistência à marginalização social a que estão submetidas desde o passado de escravidão. Busca-se também traçar as origens do reggae na Jamaica, bem como explicar as condições para a popularização do reggae no Maranhão, bem como os embates ideológicos com as elites locais que estigmatizam o reggae em nome da ‘tradição’ e da preservação de seus privilégios sociais, econômicos e políticos. Palavras-Chave: Cultura Popular – Reggae – São Luis de Maranhão (Brasil)

Resumen
El reggae nació en Jamaica, a mediados de los años 60 del siglo XX, como consecuencia de una evolución rítmica y musical, desde las tradiciones negroafricanas, pasando por el rock-steady, rhythm and blues, además de las influencias

*Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 21-39, 2007

culturais e políticas da Jamaica. como conseqüência de uma evolução rítmica e musical. rhythm and blues. em meados dos anos sessenta. que se tornaram profetas. um dos principais articuladores do PanAfricanismo. um dos elementos fundamentais das mensagens político-filosóficas do reggae. por meio de compositores e cantores. desde as tradições negro-africanas. Embora não professem um credo monolítico. n° 15 . por isso tornou-se um amplo movimento popular na Jamaica. em las fiestas populares. impulsionado pelas pregações. especialmente a partir da industrialização da Jamaica. críticos sociais ou líderes espirituais. VIII. entre otros. além das influências marcantes do rastafarianismo. bolero. Inspirado em interpretações bíblicas. Palabras Claves: Cultura Popular. nos idos de 1950. pelo rock-steady. Desde o seu início. o rastafarianismo constituiu-se numa alternativa de construção da nacionalidade para milhares de jovens jamaicanos. o reggae concentrou todas as expressões sociais. que envuelve los Estados del Pará y Maranhão. passando pelo mento. En São Luis de Maranhão. entre outros. El presente artículo intenta formular algunas hipótesis explicativas sobre el fenómeno de la incorporación del reggae a la cultura de San Luis. carimbó. adeptos do rastafarianismo. refletindo uma identidade cultural de oprimidos que adotavam o reggae como o símbolo da expressão de suas angústias. Reggae. considerada el “Portal de la Amazônia”. os rastas acreditam que Ras Tafari é o “Deus Vivo” e que a salvação do homem negro passa pelo retorno à África. sempre hubo un predominio musical de ritmos caribeños. portanto. vol.Carlos Benedito Rodrigues da Silva marcantes del rastafarianismo. San Luis de Marañón (Brasil) O reggae surgiu na Jamaica. 22 Revista Brasileira do Caribe. de Marcus Garvey. como merengue. O rastafarianismo se tornou. atribuindo-lhe uma característica de movimento messiânico. que viviam no desemprego e na marginalidade. e ao longo dos anos setenta do século XX.

porém não se tem nenhuma conclusão definitiva sobre essa ligação. Essa palavra apareceu pela primeira vez em um disco do grupo Toots and Maytals. o reggae está em permanente evolução. sofridas e que não tem o que querem. Secundado por nomes não menos famosos hoje. significando “raiva”. em 1967./dez. de beber sua essência na fonte básica que o originou. em meados dos anos setenta. marcando uma revolução na música negra em todo o mundo. Com um acentuado caráter de contestação política. Juntamente com a banda The Wailers. serviu para abrir as portas para vários cantores e compositores jamaicanos. vocalista do grupo. 23 jul. porém. de 2007 . palavra caribenha usada para designar prostituta. os guetos do Terceiro Mundo. Talvez por isso. ou “desigualdade”. a expressão teria se derivado de “streggae”. isto é.Os sons do Atlântico negro Não existe um significado específico para a palavra reggae. Alguns a consideram originária das misturas de línguas afrocaribenha e inglesa. como Jimmy Cliff e Peter Tosh. as mesmas bases culturais que impulsionaram o surgimento do reggae na Jamaica tenham contribuído para a explosão do ritmo jamaicano entre as populações negras e pobres das favelas e palafitas de São Luís do Maranhão. A expressão máxima do reggae jamaicano no mundo está em Robert Nesta Marley. presentes na Jamaica. Bob Marley foi o responsável pela explosão do reggae para além das fronteiras jamaicanas. definiu-a como “uma coisa que vem do povo dos guetos”. Os ecos do grito jamaicano ressoam no Maranhão É possível que. uma expressão para designar pessoas simples. donominado “Do The Reggay”. como algo que identifica o povo sofrido dos guetos. que começaram a excursionar e editar seus discos fora do país. coisa que se usa como comida. saindo em busca de novos ritmos. resguardando as devidas proporções. Toots tenha definido o reggae. o sucesso internacional dos Wailers. O próprio Toots Hibbert. Sem deixar. originando novas tendências e conquistando novos espaços.

acionadas pela memória coletiva a partir de estímulos diversos. ainda que aparentemente inconsciente e imprecisa de se definir. que envolve os Estados do Pará e Maranhão. Uma aproximação cultural pode ser encontrada ainda. algumas inclusive. sempre houve uma predominância musical de ritmos caribenhos. carimbó. de caráter geográfico. n° 15 . nas variações rítmicas do bumba–meu-boi. que são também tocados nas festas dos povoados negros do interior do Estado. é resultante das raízes culturais africanas. como merengue. que por isso. Algumas pessoas. sendo que a maioria delas apresentam certo grau de veracidade. herdadas dos africanos escravizados. bolero. nas festas populares1. vol. Moradores de áreas rurais do Maranhão. O reconhecimento de uma batida semelhante entre o reggae e o bumba é o que permite a circulação dos regueiros entre os salões de reggae 24 Revista Brasileira do Caribe. ou seja. várias explicações são apresentadas para justificar essa forte identificação. atribuem ainda o gosto pelo reggae a uma possível identificação étnico-racial entre jamaicanos e maranhenses. afirmam que sintonizam emissoras do Caribe em algumas horas da madrugada e. entre outros. Isto revela que raízes culturais africanas teriam sido transplantadas para as duas regiões pelo processo de escravização e permanecido ali com algumas ressignifições3. Nessa região. acabam florescendo em situações específicas na diáspora. como o comunicador Ademar Danilo2. têm uma familiaridade com os ritmos. VIII. Embora permaneçam “invisíveis” por muito tempo. especialmente da chamada Baixada Maranhense. através do Atlântico Negro. Na verdade. considerada o “Portal da Amazônia”. essa identificação. chamadas de “sotaque”. transportados para regiões diversificadas das Américas e do Caribe.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Embora seja difícil precisar exatamente quais os caminhos percorridos pelo reggae até cair no gosto da população maranhense. tanto na Jamaica como em São Luís existe uma população predominantemente negra com algumas características culturais semelhantes.

. incitando o imaginário popular a respeito da inserção do reggae no espaço maranhense. foi isso que chamou a atenção do pessoal. Segundo ele. agora a gente pode até ver com outros olhos. isso superou a barreira do preconceito pra depois entrar no mercado.) os marinheiros infestavam a zona. mas isso é a maneira como o reggae está sendo manipulado e 25 jul. Várias vozes e narrativas tecem os discursos. ele se assemelha ao peso da pancada do reggae. podemos salientar as declarações de Joãozinho Ribeiro. foi essa pancada semelhante. mas a origem foi de participação. o reggae teve que superar muitos preconceitos para ser aceito como uma das maiores manifestações dentro da cultura maranhense. foi suburbana./dez. de 2007 . o reggae se tornou um instrumento de exploração do próprio negro. Era comum eles aportarem todo mês.4 A gente sente o peso da trupiada do boi. Hoje.. mas escutei lá. que veio de baixo. aí quebra os preconceitos. Insistindo no relato de alguns depoimentos. A partir que se torna mercadoria. músico e atual secretário estadual de cultura do Maranhão. Inclusive. não é outra coisa não. entre as décadas de 60 e 70 e depois fomos vendo o reggae se expandindo nas festas da periferia e a periferia sendo muito mal tratada. Não sei a origem. o primeiro disco de reggae que escutei foi na zona. Morei mais da metade da minha vida na zona do baixo meretrício e ali era comum esses navios que vinham das Guianas (.Os sons do Atlântico negro e os terreiros de apresentação das “brincadeiras” da cultura regional no período junino. infelizmente. Agora vemos o reggae conseguindo uma grande identificação na cidade. geralmente eles pagavam as prostitutas com discos. cantador do bumbameu boi do Maracanã. Foi isso que chamou a atenção. A caminhada do reggae foi popular. como afirma Humberto.

Curiosamente. “mulheres vulgares” que sofrem a violência diária de comercializarem o corpo por não ter o que querem. que se faça alguns cruzamentos com a definição atribuída ao cantor Toot Hiberts. fundamentalmente. n° 15 . para quem a expressão reggae. em certo sentido. A zona do baixo meretrício é uma região localizada no Centro Histórico de São Luis. com sua forma de dançar agarradinho reflete determinada sensualidade inscrita culturalmente em corpos. entre outras coisas. a sua identificação como uma música de negros marginalizados. pode ser relacionada com a moral burguesa. branca e cristã. O ritmo do reggae em São Luís. denunciando a exclusão que a escravidão impõe e os processos da modernidade sustentam. com prostitutas. visto que no reggae o corpo é concebido. pela sensualidade que enseja. como uma atitude de rebeldia. que povoam os guetos e palafitas da Jamaica ao Maranhão e. Joãozinho Ribeiro revela que um dos caminhos de divulgação do reggae em São Luís foi pela zona do baixo meretrício possibilitando. que sofrem e que não tem o que querem” Entre outras coisas. o que nos remete a situações semelhantes atribuídas ao reggae desde as suas origens na Jamaica. VIII. em cujos bares e cabarés ouve-se diariamente o ritmo jamaicano entremeado de boleros e merengues. ainda. qual seja. está relacionada “ao povo sofrido dos guetos. nem o que precisam para assegurar respeito e dignidade numa sociedade de opressão. Podemos ainda salientar que a construção do reggae.Carlos Benedito Rodrigues da Silva assimilado por poucas pessoas que estão ganhando muito dinheiro. pessoas simples. Conforme MartinBarbero (1997:240) 26 Revista Brasileira do Caribe. assentada em uma semântica pejorativa. manifestando-se no lazer e no trabalho. de vigilância e punição às exibições do corpo como instrumento do prazer. despossuídos. vol. é possível identificar neste ponto uma das vias fortes de discriminação contra o reggae em São Luís.

o reggae se instalou na ilha e se espalhou por alguns outros municípios do estado.. Essas afirmações. de sua evocação do processo de trabalho no próprio coração da dança: no ritmo. ao mesmo tempo. onde o reggae é um dos atrativos para os boêmios freqüentadores das casas e bares da região. E é a dialética dessa dupla indecência o que vai de fato escandalizar a ‘sociedade’ (. que o adotou como uma das mais importantes opções de lazer.Os sons do Atlântico negro Através de uma cadência quase hipnótica. a existência de várias versões explicativas indica que é muito difícil precisar qual o caminho de introdução de determinados elementos culturais em um novo contexto. e sim de descobrir que a indecência do gesto negro não vem somente de sua atrevida relação com o sexo.). Logo. o cansaço e o esforço doem menos. Se por um lado. como é o caso do reggae jamaicano em São Luís. todos os caminhos. não é suficiente para atribuir-lhe qualificação social. a princípio. envolvidos num ritmo frenético./dez. É uma embriaguez sem álcool. inclusive a zona do baixo meretrício. como para nos dar pistas sobre as possibilidades de existência de raízes culturais semelhantes envolvendo povos das duas regiões. 27 jul. mas também. embora também ‘carregada’ oniricamente. duvidosas ou legítimas. E não se trata de reduzir o sentido da dança ao do trabalho. possibilita visibilidade. Por sua vez. Produzido originalmente em um idioma diferente.. criando uma nova linguagem como canal de comunicação e identificação. o negro enfrenta o trabalho extenuante e. de 2007 . O consumo da cultura do negro como espetáculo midiático. precipitadas. reforça os elementos de manutenção das desigualdades. principalmente nos locais habitados pela população negra de baixa renda da periferia. concentrando-se com algumas características marcantes. são contribuições importantes. são legítimos. tanto para mostrar que um dos fatores de aceitação do reggae pela população da ilha de São Luís foi a sua relação com os ritmos caribenhos.

de sangue ou de orientação 28 Revista Brasileira do Caribe. de uma vigilância acirrada sobre os regueiros. possibilitando ganhos econômicos e prestígio para quem o manipula. vol. ele passa a ter uma aceitação como mercadoria de consumo. já apresentam as músicas com o nome da melô conhecida. Mesmo que tenha se expandido atualmente para outros setores considerados “mais higienizados” da cidade. No próprio espaço das festas. dinamizadora dos eventos. tanto por parte da polícia. mas principalmente pelos proprietários de clubes e radiolas. é possível encontrar diariamente crianças dançando reggae nas ruas ao som dos programas de rádio. as músicas são apelidadas de melô. adquiriu uma posição destacada no contexto das programações culturais de São Luís. habitantes da periferia e prostitutas do “baixo meretrício”. o reggae que não trilha por esse mesmo caminho. mesmo que o ritmo esteja inserido em jingles e propagandas comerciais veiculados nas emissoras de TV. pelos organizadores. cujos descendentes. De elemento identificador de negros marginalizados.5 Contrariando os movimentos midiáticos. que concebem os eventos apenas como fonte de lucro.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Nessas áreas. que “aquecem” ou “esfriam” determinados ritmos de acordo com os interesses das gravadoras. sem revelar nenhuma outra preocupação de caráter sócio-coletivo que possa beneficiar a chamada “massa regueira”. pois isso remeteria São Luís a uma Jamaica negra e pobre. contratados especialmente para os eventos. Ainda que alguns preconceitos sejam quebrados. o reggae ainda não é aceito por esses grupos como um símbolo da cultura maranhense. paradoxalmente. permanece no plano social a relação direta reggae/marginalidade. n° 15 . VIII. No universo regueiro de São Luís não se toca reggae nacional e na falta de entendimento das letras. como pelos grupos de segurança. constata-se a exigência. ostentado com tanto orgulho pelos intelectuais maranhenses desde o século XIX. Um fator a ser ressaltado é que a exploração do reggae a que se refere o compositor Joãozinho Ribeiro se dá não tanto pelas elites. distanciando-se cada vez mais do título de Atenas Brasileira. Os próprios Dj’s.

especialmente para aqueles que assimilaram a ideologia de europeização. apesar de ainda não serem suficientes para transformar a cidade em uma nova Jamaica. O reggae é um dos elementos desse processo e ganha força na concepção popular. de 2007 . pois o sonho de europeização precisa ser construído sob a concepção dominante de desqualificação da herança cultural africana. como uma maneira de reforçar o desejo de ser menos negro em sua cultura. do trabalho e do lazer de amplos segmentos da população maranhense. remetê-la a um passado de inferioridade e distanciamento em relação à europeização pretendida e nega. assim. em grande parte responsável pela construção da sociedade brasileira. e o ex-escravo era definido como incapacitado para o desenvolvimento econômico e cultural da nação. São essas raízes que desafiam as imposições das “elites atenienses” de São Luís e trazem o reggae como uma força dinamizadora de identidades que. Deste modo. constroem seus próprios caminhos a partir das pluralizações culturais que vivenciam. ou menos jamaicano. significa para alguns. à denominação Jamaica Brasileira atribuída a São Luís pelos DJ’s. de animalidade. Portanto. contribuem para o estabelecimento de novos referenciais de identificação para segmentos populacionais que. “o belo e edificante epíteto” de 29 jul./dez. desconhecendo uma ou outra realidade. quando o trabalho escravo foi substituído pelo assalariado. Se nos períodos imediatamente após a abolição da escravatura. A presença do reggae estaria provocando uma atrocidade na cultura maranhense. reivindica-se o título. principalmente. a presença do negro era vista como sinônimo de atraso. construída na sociedade brasileira após a abolição da escravatura. deixam transparecer uma atitude de repúdio à assimilação do reggae por amplos segmentos da população maranhense e. de Atenas Brasileira. a identificação de São Luís com a Jamaica hoje. menos africano. “mais nobre”.Os sons do Atlântico negro ideológica branca. que teima em permanecer com fortes raízes no cotidiano religioso. a importância da presença da população negra.

com grupos de três ou cinco pessoas exibindo passos coordenados. Embora a predominância seja dançar aos pares. vol. (Riba Macedo. tanto entre os diversos segmentos da população da capital. a gente não sabia separar o que era reggae. Os programas. predominantes na região. algumas pessoas preferem dançar sozinhas próximas às caixas de som. muitos desses discos já estavam fora de catálogo na própria Jamaica. Há também as coreografias coletivas. a programação de rádio teve um papel muito importante nesse processo. como nos municípios e povoados rurais do interior do estado. Na época. n° 15 . pois violentador da dignidade humana. A dança adquiriu essa característica misturando passos do forró e do merengue. pois desde meados dos anos oitenta. A gente dançava sem fazer definição. eram feitos com material exclusivo dos DJs. a não ser para a satisfação de determinados segmentos sociais que se outorgam guardiões das tradições como retrato de um passado escravista. As fitas eram gravadas de discos importados da Jamaica que somente alguns discotecários tinham acesso. este sim atroz. Além do comércio de fitas. a propagação do reggae em São Luís esteve ligada muito mais a um comércio alternativo de gravação de fitas e ao aluguel de radiolas do que à industria cultural. quando se deu a grande projeção do reggae na ilha. chegando a São Luís como raridades. porque as próprias emissoras não tinham os discos de reggae. Durante muitos anos.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Atenas Brasileira já não faz sentido. pois possibilitou que o ritmo alcançasse espaços cada vez mais distantes. Uma das diferenças marcantes em relação à Jamaica é que o reggae em São Luís é dançado aos pares. VIII. discotecário: julho/98). embora mantidos pelas emissoras. As pessoas gostavam porque era música lenta. o que era música lenta. A divulgação se fez com a promoção de festas e programas de rádio. 30 Revista Brasileira do Caribe.

que preferencialmente se dança solto. nas regiões Norte e Nordeste os ritmos predominantes eram: forró. Altemar Dutra. A gente gostava muito de Lindomar Castilho. A música internacional que se dançava aqui era o merengue. com exceção do merengue que vinha da Guiana e era aceito porque se assemelhava aos passos do forró nordestino. porque na época tinham os cantores brasileiros.) antes de se conhecer a palavra reggae aqui. Tanto que os primeiros sons de reggae em São Luís foram pela música de Jimmy Clyff. merengue.Os sons do Atlântico negro A dinamização do ritmo jamaicano no Maranhão coincide com a explosão dos hits da “Discoteque” na região Sudeste do País. ‘I Can See 31 jul. “balanço”. mas o merengue também estava no auge. ou “Jimi Clife”../dez. as pessoas chamavam balanço.. Era aquele estilo que a gente dançava. a discoteca ou o funk. então chamava Jimi Clife e tal (. bolero etc. que agradava ao público.. de 2007 . Enquanto nas regiões Sul e Sudeste a preferência musical para as festas da juventude recaía sobre os ritmos mais acelerados. ou “agarradinho” que é uma expressão nordestina para as danças de salão.) (Chico Pinheiro. A música estrangeira não tinha muita penetração. Carlos Alexandre. Seus discos estavam chegando ao Brasil no embalo desse novo som e já podiam ser comprados nas lojas locais. Muitas pessoas afirmam que antes de se conhecer a palavra reggae no Maranhão. esse ritmo era identificado como “discoteca lenta”. (. Depois chegou às lojas um LP de Johnny Nash. ritmos que se dançam aos pares.. Evaldo Braga. O rei do merengue aqui era considerado Luiz Calaf.. maestro: 1998). ‘ô que balanço bonito é o do Jimmy Clyff’. As músicas de Jimmy Cliff eram muito solicitadas nas festas porque tinham um balanço diferente. como o rock. baião.

da mesma forma que os sound systems jamaicanos. lambada. as radiolas são contratadas para animar festas em vários pontos da cidade. Operadas por discotecários que nem sempre são os seus proprietários. possuindo semelhanças com os “sound systems” jamaicanos que popularizaram o Ska e depois o Rock Steady como alternativa ao controle excessivo exercido pelo governo à rádio jamaicana. vol. merengue. como havia uma competição intensa entre os discotecários ambulantes na Jamaica que chegavam a raspar a etiqueta ou o selo dos discos novos para dificultar a aquisição pelos concorrentes. eles contribuíram para que o ritmo se espalhasse praticamente por todos os bairros de São Luís. As radiolas tiveram também uma grande importância no processo de divulgação do reggae em São Luís. (Riba Macedo: julho/98). faziam muito sucesso nas festas no início dos anos setenta. regravado no Brasil em l971. Alguns proprietários de radiolas chegavam a comprar todos os exemplares de um mesmo disco e raspar os selos para que outros não pudessem identificá-lo. criando rivalidades entre eles. Essa música. n° 15 . em São Luís essa prática também foi adotada pelos produtores das festas de reggae. oferecendo lazer para uma grande faixa da população de baixa renda que não tinha condições de adquirir os discos. elas já existiam anteriormente. contendo várias caixas de som formando paredões nos clubes. em festejos de santo na capital ou no interior do estado6. As radiolas maranhenses não nasceram com o reggae. A disputa pela exclusividade de um disco sempre foi muito acirrada. Curiosamente. promovendo festas com forró. 32 Revista Brasileira do Caribe. ‘You Can Get It If You Really Want’ e ‘I Love I Need’. entre outros ritmos. VIII. Voltados quase exclusivamente para a festa de reggae.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Clearly Now’. Elas são sistemas montados com uma aparelhagem sofisticada. A partir do início dos anos oitenta houve uma proliferação desses equipamentos. junto com outras de Jimmy Cliff.

Para alguns regueiros maranhenses a herança negro-africana é responsável pela concepção pejorativa que se atribui ao reggae e também pelos atos de discriminação que vivenciam por serem relacionados a ela. dançarino). é uma música marginalizada. O reggae vem do negro. muitos demonstram ter consciência de que a discriminação se dá pela sua condição social e racial. Ainda que não estejam ligados a nenhum movimento político organizado. O contingente de negros aqui no Maranhão é muito grande. e as músicas preferidas dos regueiros maranhenses não são encontradas facilmente. por isso a gente se identifica com ele (Ronaldinho. determinando a criação de novas linguagens e estéticas comunicativas em várias regiões. Segundo eles. quem conseguir mais raridades vai ter mais condições de assegurar o seu público e se manter em evidência junto à “comunidade regueira”. O reggae é música do negro. Por tudo isso. não é música dos brancos. especialmente. Bahia. Por isso. é possível compreender a importância do reggae como conseqüência da dinâmica expansão midiática que ultrapassa as fronteiras nacionais com uma velocidade inusitada neste final de século. nos locais de grande concentração de população negra.Os sons do Atlântico negro Essa atitude. a evolução musical na Jamaica é muito rápida. criou também uma animosidade entre os radioleiros e discotecários que mantinham em segredo suas fontes de aquisição. é imenso mesmo e tá sempre na periferia. Baixada Fluminense etc. No Brasil. Coisa de nego que mora ali Pelas ondas de rádio e pelos clips televisivos o ritmo se espalhou pelo planeta./dez. de 2007 . redefinindo seu território de atuação. se de alguma forma serviu para conquistar o público. este fenômeno pode ser observado em regiões como Maranhão. onde tem sempre um 33 jul.

Analisando o desenvolvimento das escolas de samba cariocas. Para os que compõem o minoritário quadro das elites são ofertados espaços luxuosos. já que todos os participantes. já que este é a 34 Revista Brasileira do Caribe. vol. Entretanto. Existe um caráter integrativo do ponto de vista sociológico nessas festas. as alternativas de lazer são consideravelmente mais restritas.Carlos Benedito Rodrigues da Silva salão de reggae. mais uma opção de lazer entre outras. resta o anonimato nas alas e baterias das escolas de samba. uma vez que o objetivo é estar entre seus iguais. dançarino). Dessa forma. Os brancos nem sabiam que o reggae existia. serve também. ou até mesmo. nas cordas dos trios elétricos baianos. o reggae é. a princípio. o espaço para estes últimos. no tempo que a polícia vivia baixando o pau na negrada. Nesse sentido. podemos dizer que ela se expressa tanto na exibição das fantasias. O mesmo argumento vale para as festas de reggae. para alguns. a exclusão dos espaços de lazer. pois mesmo que determinados grupos estejam participando de uma atividade comum. De fato. no carnaval essa relação pode ser constatada em várias instâncias. estão ali com o mesmo objetivo da busca do lazer. Agora que o reggae virou moda. bem como para a maioria das festas populares. um ritmo que mexe com a gente. não se pode perder de vista que esse caráter integrativo é momentâneo e não elimina as diferenças e nem as desigualdades. Clóvis Moura7 aponta para o papel integrativo do carnaval. como nos espaços escolhidos ou oferecidos para o lazer. essa participação não se dá em condições de igualdade para todos. os brancos começam a invadir o salão e a gente não tem mais espaço pra dançar (Guiu Jamaica. n° 15 . como uma invasão. enquanto para a grande maioria. sabe? É um ritmo negro. geralmente incômoda. por alguns. como alternativa de auto-afirmação. Daí a presença do branco ser vista. enquanto para os segmentos definidos como regueiros que sofrem as consequências da exclusão. VIII.

Além do que. ameaçadora. a exemplo de várias outras manifestações que recebem o mesmo tratamento./dez. a discriminação contra o negro não se dá por conta do reggae. Por outro lado. de tal forma que causavam espanto nos fazendeiros. Ele considera que O fato de os batuques constituírem para os escravos africanos. passível de vigilância e controle. contribuindo para a construção de uma imagem estereotipada do regueiro. por exemplo. Tinhorão mostra que desde o século XVI os batuques de escravos representavam momentos de expressão de alegria e felicidade. 35 jul. levando-o a assumir essa condição como uma identificação positiva. dançar afasta as angústias do cotidiano. As reações de vigilância e controle exercidas. de 2007 . um dos raros momentos de livre exercício de seus costumes originais. ia garantir a esses encontros uma riqueza de expressões de que os colonizadores jamais poderiam imaginar a extensão. é discriminado por sua identificação como “coisa de negro” e. as festas do reggae atribuíram visibilidade a uma grande parcela da população de baixa renda em São Luís. Ao contrário.Os sons do Atlântico negro representação do grupo que caracteriza o reggae como uma atividade marginal. a presença cada vez maior de grupos não negros (jovens estudantes da classe média e até turistas nacionais e estrangeiros) em alguns “clubes de reggae” possibilita ao regueiro um auto-reconhecimento. ele (o regueiro) se sente prestigiado frente à “comunidade” Sem dúvida. desde o século XVI. é atingido também. quando é reconhecido como um bom dançarino ou um bom DJ. Para estes. pela polícia e pela imprensa local refletem a concepção das elites maranhenses sobre o reggae e seus freqüentadores. mesmo em meio às agruras da escravidão. (1988:45). onde se concentram majoritariamente os grupos negros. pela desqualificação atribuída às atividades lúdicas construídas pelos grupos negros na cultura brasileira. neste sentido. o reggae. Na verdade.

o corpo-coisa do escravo propõe a experiência assustadora da ausência de limites: pode ser surrado. sempre atribuíram às manifestações dos afrodescendentes. Assim. inventando gingas e artimanhas que constantemente apontam para a ambigüidade da moral escravista. o primitivo a ser domado — também o assinalam como objeto de repulsão. a escravidão impôs aos negros escravizados a imagem do pecado. Sem dúvida. em que pesem as várias e diversificadas tentativas de controle exercidas em nome da religião. as marcas que designam esse corpo enquanto outro-mercadoria. vol. portanto. religiosas ou de lazer manifestadas pelos segmentos negros. a qual ao mesmo tempo em que proíbe sua exposição pública. Ainda segundo Maria Lúcia Montes (2000: 65) Mesmo para o senhor. VIII. ultrapassa a compreensão das elites que. Legitimada entre outras coisas. controlando não apenas suas vidas. dilacerado e morto. Maria Lúcia Montes mostra que esse mesmo corpo neutralizado pelos horrores da escravidão. a dança sempre foi uma das mais fortes expressões dos grupos humanos em toda a história da 36 Revista Brasileira do Caribe. torturado. mas também seus corpos e almas. traz consigo a inscrição simbólica dos confrontos entre a civilização ocidental e as culturas profanadas pela diáspora. escravos ou libertos. um caráter de lascivosidade e desordem. desejo e sedução. presas às orientações cristãs européias. por uma moralidade cristã. O próprio corpo é depositário do pecado. mas também apropriado a bel-prazer. n° 15 . tem de ser coberto e aprisionado para inibir seus anseios e transformá-lo em simples instrumento de trabalho. utiliza-se deste corpo para satisfação de desejos. para satisfação dos apelos da carne.. Assim.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Essa diversidade de práticas rituais. instrumento de trabalho. ele se projeta como um elemento de desafio ao poder das elites. da ordem social ou da moral burguesa.

capoeira ou reggae. desde um passado no qual a sujeição à condição de escravo ao mesmo tempo em que bloqueava as condições de emancipação do indivíduo. estão relacionadas com as lembranças armazenadas. mas são representadas por uma memória corporal que burla a vigilância das elites com uma linguagem simulada. num percurso de ida e volta tanto nas ondas midiáticas da indústria cultural como nas marés do Atlântico Negro. a malícia. as angústias e as alegrias que não podem ser pronunciadas livremente. em agradecimento aos deuses pelas alegrias da vida. da Amazônia. merengue. 2 Ademar Danilo foi um dos primeiros comunicadores a apresentar programa específico sobre reggae nas emissoras de rádio em São Luís e foi eleito vereador pelo PT. pelos ciclos de colheita nas sociedades agrárias e da fertilidade em sociedades tradicionais ou. tanto individual como coletivamente. são vertentes rítmicas produzidas na diáspora africana. Assim. Notas 1 Pude constatar através de alguns relatos. entre tantos outros. Isto nos leva a afirmar que samba de roda. que mobilizam segmentos das várias regiões estendendose até a África. A ginga. Essas performances desenvolvidas pelos grupos negros que viveram a diáspora. de 2007 . em algumas festas de grupos negros em Salvador na Bahia. com a qual se produziu a ligação com o presente. mesmo considerando as especificidades. ou da América Latina. bumba-meu boi. instigava-lhe a sociabilidade. com votos da “comunidade regueira”. existem fortes aproximações culturais seja entre os povos do Caribe. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de religião afro-brasileira de São Luís é a Casa 37 jul. maracatu. 3 Uma curiosidade é que segundo historiadores. também.Os sons do Atlântico negro humanidade: em busca da liberdade./dez. representam a explicitação da rebeldia e expressam. simplesmente pelo prazer de se sentir bem. a sensualidade. que esse ritmo é tocado também.

BOURDIEU. Rasta and resistance: from Marcus Garvey to Walter Rodney. 1985. os cds foram adotados posteriormente. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. Sincretismos: uma exploração das hibridações culturais. e assim por diante. São Paulo: Editora 34. 1995. UFMG. A radiola Diamante Negro lançou um CD com 20 músicas preferidas dos regueiros em São Luís e no encarte vinha impresso o nome das músicas. “O Conceito de Tradição”.Carlos Benedito Rodrigues da Silva de Fanti-Ashanti. Melô do Sapato. Belo Horizonte: Ed. Melô do Gerente. Lisboa: DIFEL1989. 1997. Bibliografia ALBUQUERQUE. n° 15 . A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa. Rio de Janeiro: Zahar/Funar. o nome “melô” que é criado pelos regueiros. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Pierre. onde acontece algumas festas importantes da cultura popular. A magia do reggae. vol. 1998 BORNHEIM. 5 Existem atualmente gravações de coletâneas em CD’s piratas. O Local da Cultura. 1997. London: Fonthill Road.143. 6 É importante ressaltar. que até o final da década de 80. Marco Antonio (org. 4 O Maracanã é um bairro rural do interior da Ilha de São Luis. Gerd A. São Paulo: Studio. Horace. In: Cultura Brasileira: Tradição e contradição. . CAMPBELL. O Poder Simbólico. Carlos. O “melô” seria uma espécie de alcunha da música. Melô da formiga. O eterno verão do reggae. 1996. que já trazem junto ao título da música. 1983. Nestor Garcia. Reggae: Música e cultura da Jamaica. Lisboa: Centelha. & SIMON P. CANCLINI. VIII. p. 38 Revista Brasileira do Caribe. São Paulo: Martin Claret Editores. Massimo. as festas eram feitas com discos de vinil ou fitas cassete. Melô da Guerreira. Homi K. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.). BHABHA. CARDOSO. 7 Sociologia do Negro Brasileiro. com seus respectivos melôs. 3. DAVIS S. 1988. tais como: o Melô do Morcego. CANEVACCI. São Paulo: Ática. 1997.

1999. 2000. “Olhar o Corpo”. 1988. Cultura popular: uma introdução. SANSONE. In: Negro de corpo e alma. São Luis: EDUFMA. 1997. Os sons dos negros no Brasil. Clifford. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo. novembro. São Paulo: ERT Editora. MARTIN-BARBERO. Terence (organizadores) A invenção das tradições. MONTEIRO. Clóvis. Maria Lúcia. 1995. Rio de Janeiro: DP&A. Rio de Janeiro. “Globalização. São Paulo: Editora 34. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Paz e Terra. A Era do Globalismo. 1997. Mundialização e cultura. Goli. Rio de Janeiro: Zahar Editores. 1988. 1999. 1997. TINHORÃO. In: Novos Estudos CEBRAP Nº 49. WHITE. MONTES. 1996. reggae. Identidades culturais na pós-modernidade. 2000. 1984. Ritmos em trânsito: socio-antropologia da música baiana. Eric e RANGER. Timothi. MOURA. Renato.). Identidade e Diferença”./dez. HALL. 47-64. Civilização Brasileira. Dominic. Livio e SANTOS. STRINATI. 1997. SILVA. 1997.Os sons do Atlântico negro GEERTZ. Revista da Mostra o Redescobrimento. Jesús. HOBSBAWN. ORTIZ. Jocélio Teles dos (org. José Ramos. São Paulo: Hedra. pp. Paula. cultura e hegemonia. Stuart. GUERREIRO. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Carlos Benedito Rodrigues da. 39 jul. de 2007 . Da Terra das Primaveras ‘a Ilha do Amor. São Paulo: Dynamics Editorial. Sociologia do negro brasileiro. Rio de Janeiro: Record. A trama dos tambores: a música afro-pop de Salvador. 1978. Queimando tudo: a biografia definitiva de Bob Marley. Dos meios às mediações: comunicação. IANNI. São Paulo: Ática. Octávio. lazer e identidade cultural. São Paulo: Brasiliense.

40 .

but also to the battle against social inequality. 2007 . where there exists one of the most important multi-ethnic societies of the world. seja nas festas. Goiânia. Esse artigo analisa letras musicais e depoimentos orais entre outros elementos como exemplos dessas relações de apropriação e resignificação. Culturas Afro-americanas. Diáspora Africana. the phenomenon of reggae is not only linked to the cultural traditions. nos simbolismos. *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 41 Revista Brasileira do Caribe. vol. a apropriação do ritmo jamaicano do reggae pelas camadas populares constitui um movimento de resistência cultural. African diaspora Resumo Na cidade de São Luís do Maranhão. VIII. In a social scenario. Afro-American cultures. social e política contra a marginalização que elas sofrem em seu cotidiano. Within this context. n° 15. characterized by economic inequality with the hallmark of oligarchic politics. The Afrodescendent music was not just coincidence. Trata-se também da ressignificação das letras e melodias das canções produzidas por músicos jamaicanos na formação identitária dessa população. Palavras-Chave: Reggae. especially in Maranhão. 41-60. the population of São Luis incorporated Jamaican rhythm in its dance-rituals and drums.O Reggae na “Jamaica brasileira”:Cidadania e política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa Abstract The African Diaspora has contributed to the formation of artistic expressions in Brazil. Keywords: Reggae. nas equipes de som.

Ao contrário. donde existe una de las más importantes sociedades pluriétnicas del mundo. ressignificados e relidos. Palabras Claves: Reggae. La música afro-descendente no fue asumida por un simple pase de magia. permitindo considerar o ciclo do reggae neste tripé. Diáspora Africana Em todas as regiões nacionais podem ser observadas a ‘olho nu’ elementos de africanidade reterritorializados. 42 Revista Brasileira do Caribe. Culturas Afro-americanas. En un escenario social pleno de desigualdades económicas y en el cual reina la política oligárquica y ‘coronelista’. Embrionariamente veio da África durante a travessia do Atlântico. revelado tradicionalmente nas danças e nos tambores. ‘coronelista’. vol. vivenciados historicamente pelos africanos e descendentes. En ese contexto de significados la población de São Luis en sus danzas y tambores. el fenômeno del reggae está vinculado no apenas a las tradiciones culturales sino también a la lucha contra las desigualdades sociales. O mesmo aconteceu com o ritmo surgido na Jamaica que chegou a São Luis indo até a África. ouvir e festejar. incorporaron el ritmo jamaicano. A música afro-descendente não se fixou por um simples passe de mágica. VIII. nem tampouco fora de propósito num cenário social infestado de desigualdades econômicas em que reina uma política oligárquica e.Maristane de Sousa Rosa Resumen La diáspora africana ha contribuído para la formación de las manifestaciones artísticas en Brasil. especialmente en Maranhão. Goiânia. especialmente no Maranhão. o fenômeno estudado forneceu visibilidade ao bluff1 de tradições conferidas a um restrito grupo social dominante no Maranhão e aos processos de ‘higienização’ cultural. A diáspora africana em muito contribuiu para a formação das manifestações artísticas no Brasil. Nesse contexto de significados o gosto artístico da população ludovicense. ainda. constituindo uma das mais importantes sociedades pluriétnicas do mundo e um dos maiores berços culturais transatlânticos. n° 15 . adotou o ritmo jamaicano para dançar.

The Elizabethan World Picture (1943). demonstrando a transição da ‘usança africana’ como instituição tão presente entre nós. M. M. Trata-se de uma abordagem inaugurada por Aby Warburg. Warburg havia morrido quando Hitler chegou ao poder em 1933 e estudiosos alemães associados ao seu Instituto refugiaramse no exterior. uma das figuras mais originais e influentes da história cultural no estilo alemão. Entre as contribuições mais importantes dadas a essa tradição está o livro de Basil Willey. “estudos sobre o pensamento da época”. p. The Seventeenth-Century Background (1934). Em virtude das interpretações propostas se confirma o viés histórico-antropológico. evitando tradições acadêmicas fronteiriças e delimitadas temporalmente. e o livro de G. escrito por um professor de inglês e apresentado como ‘panorama’ para a literatura. 43 jul. que contribuiu para a construção da ciência cultural. culturais e educacionais estabelecidos por séculos. Victorian England (1936). o de E.25). W. transferindo-o para Londres nas figuras de Saxl e Wind. cacuriá. Tillyard. da sociologia e de certos estilos de filosofia. Os efeitos desses escritos literários contribuíram para a ascensão da história cultural. A cultura africana e de seus descendentes constitui importante legado para o Brasil pelas festas de bumba-meu-boi.. Young. na Grã-Bretanha da década de 1930 estava se escrevendo uma história culturalista. tambor-decrioula. na Grã-Bretanha./dez. (BURKE. Do mesmo modo outras festas dos negros brasileiros tornaram-se equivalentes às de origem africana. outra contribuição da Faculdade de Inglês de Cambridge. Assim. adicionando ou integrando a si lembranças e sentimentos. por abordar o reencontro de populações em um contexto de mudança social. 2007 . assim como para a história da arte. tambor-de-mina. 2005.O reggae na “Jamica brasileira”.. lili. De forma que a etnografia do ritmo jamaicano é uma importante ferramenta historiográfica para desconstruir estereótipos e preconceitos sociais.

Assim como Yates diz que foi “iniciada na técnica warburguiana de usar aspectos visuais como evidências históricas”. Concordando com as características atribuídas ao jazz por Hobsbawm. 44 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . Como seria de se esperar de um famoso historiador econômico e social. p. publicado em 1959. foi cunhada a famosa expressão ‘estruturas do sentimento’ (BURKE. No entanto não é difícil combinar uma abordagem ‘leavisita’ com a marxista. Sua ênfase na idéia de que a literatura dependia de “uma cultura social e de uma arte do viver” deve-se menos a Marx e mais à nostalgia pelas ‘comunidades orgânicas’ tradicionais. também na música reggae adotada na Jamaica podemos sugerir. funcionando como elemento de fortalecimento da auto-estima de grupos dominados economicamente. pelos textos e performances. Um outro exemplo e o alvo dessa contextualização. Leavis. um dos pseudônimos de Eric Hobsbawm. vieses de contestação por direitos e justiça social. é a História social do jazz escrita por ‘Francis Newton’. R.Maristane de Sousa Rosa Nesse episódio cabe estudar o exemplo da inglesa Frances Yates. especialista em Shakespere que encontrou no circuito da Escola de Warburg intelectuais instigantes e uma biblioteca inspiradora trazida por eles. também estudiosos marxistas foram incluídos na preocupação relacional entre cultura e sociedade. além disso. mais ainda. como forma de protesto político e social. VIII. o autor discute não apenas a música. vol. 1990:272). 2005. livro que discutia a história social do teatro e em que.29). F. autor de The Great Tradition (1948). justamente pelo “aflorar de emoções incrivelmente poderosas e tenazes tanto entre os seus seguidores quanto entre os seus oponentes” (HOBSBAWM. As emoções são realmente gritos tenazes contra a opressão e a favor de resistência. como fez Raymond Williams em The Long Revolution (1961). Goiânia. também estava profundamente interessado na relação entre a cultura e seu ambiente. abordando o jazz como negócio e. mas também seu público.

para não olhar a extremidade? Isto não é submissão. São Luis e África./dez. com sonoridade simbólica de persistência e contestação.” O sucesso musical We Are a Warrior (Are We a Warrior) eleito na cidade de São Luis como o hino do reggae no Maranhão. A performance musical do jamaicano IJahman é uma ritualização do culto sagrado rasta. exemplifica um dos caminhos a ser percorrido pela pedagogia inclusiva. oh love 45 jul. não confunda. ilustra a relação de pertença socioétnica entre Jamaica.. stupid Let not your arrow From your bow. 2007 . cupid. no visível e no imaginário.O reggae na “Jamica brasileira”. Oh. Essa canção Are We a Warrior (Nós Somos Guerreiros?) interpretada e composta por IJahman em álbum gravado no ano de 1978. Vejamos: The perfection is love And I give thanks For the fullness Within the full me nice Its cool mild these peace me nights Its gentleness Made I a man son of him Life was divided In sweet harmony Come it A woman until dream Are we a warrior? Are we a warrior. simultaneamente proporcionando reações no audível. pois estamos numa guerra. de luta. ora prevendo que esse e outros enredos literários construídos pela cultura da diáspora sejam acessíveis como conteúdos educacionais que privilegiam a diversidade do conhecimento.. quando diz: “Por que nos tornamos como cordeiros.

n° 15 . Are we a warrior. vol. 46 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. stupid Let not you arrow From your bow So out low And never let it go What caused You have a pistol In your endless love Is it far? To shut the man down there Do we give in? After we have star lit Why can’t We become like a lamb Not look end It’s not humble when These is a small confusion It is a war They rather way as be and Sometimes being confused Within your own head Because at times How us get have down led Are we a warrior? Are we a warrior. VIII. Oh cupid.Maristane de Sousa Rosa Faith is a mountain. So silent and filled Fountains of waters For also all his lovely creatures He gave us wisdom And knowledge to understand its love Do us after a war Are we a warrior? Are we a warrior.

/dez.. Are we a warrior. Are we a warrior. Oh cupid. Oh cupid. stupid Let not your arrow 47 jul. Oh cupid. Are we a warrior. stupid Let not your arrow From your bow Prophecy is now revealed The son of man won’t take it The heart is giving up Why life is taking in the sudden shock The crying of the people Multiply in all over Jah will give an answer To have are stop cry our Are we a warrior? Are we a warrior.O reggae na “Jamica brasileira”.. stupid Let now your arrow From your bow So out low And never let it go Take a look at certain dream And there are often true stories It would be On all our own glory How often I ask Still like it see no love its why For full close and shelter The cry of mamas and papas Are we a warrior? Are we a warrior. 2007 .

ou seja. a figura do leão. Peter Burke e Eric Hobsbawm como exemplos que inseriram narrativas dinâmicas às festas carnavalescas. Lorand Motory. estruturou sua língua ao português. 48 Revista Brasileira do Caribe. os reizados.2 Tomando a canção como referência. as cores pan-africanas). say”. Os regueiros maranhenses apreciam a melodia e desconhecem as letras das canções em língua inglesa que falam sobre os fundamentos filosóficos do movimento Rastafari e de elementos de simbologia afro (o cabelo. seus costumes e valores. os cultos jeje4 e nagô ilustram este processo de resistência do negro africano que atravessou o Atlântico e. o vestuário. ao francês ou ao inglês. as danças e mais ainda. Desse modo. “Melô de Poliana” é Think twice da intérprete Donna Marie (apelido adotado segundo a preferência dos regueiros ou regueiras) e “Melô de Pinto” é uma homenagem a radiola6 Itamaraty. Jah. realizado por autores como J. vol. Com referência aos fatores lingüísticos não por acaso o reggae cantado em ‘inglês jamaicano’ é ouvido em São Luís na forma de melôs5. o carnaval. 1997:29). associado ao contexto musical jamaicano do século XX. mesclando-lhes vocábulos ou sotaques. Nesse sentido. o ritmo da diáspora fez emergir sentimentos de orgulho negro quando elegeu fatos históricos e da Bíblia para serem recontados sob a luz de ideais pan-africanistas fortemente difundidos nos Estados Unidos e no Caribe. Goiânia. n° 15 . Ao cenário associativista bem se aplica o diálogo reflexivo da antropologia com a história.Maristane de Sousa Rosa From your bow And never let it go. pelo sotaque que o ouvido capta e torna mais evidente: “Melô do Cachaceiro” representa a sonoridade do refrão “Jah. VIII. ressignificou a alimentação. serviu como instrumento para dar visibilidade às tradições milenares africanas do “Egito e Etiópia” (ALBUQUERQUE. cita-se o Rastafarismo3 que. as músicas são apelidadas pelo nome ressonante. vindo com seu idioma. Soam mais estranhas ainda expressões como Jah. as cantorias.

eletrônico não. pois os melôs romperam barreiras impostas pelo idioma dantes colonial. As melodias que envolvem fortes denúncias das desigualdades socioétnicas contra a população negra não tem como ponto de partida a versão jamaicana. Antonio Domingos Almeida Santos. disse: Começamos a dançar reggae no quintal. Um assíduo freqüentador das festas de reggae roots. o reggae roots7 mesclado com patois8 se mostrou incompreensível também também confrontado ao padrão lingüístico fonográfico de sotaque anglo. Hailé Salassié I ou Ras Tafari. o reggae é uma maravilha. Ou seja. com 77 anos de idade conhecido pelo apelido de Sapo. passei dois anos na igreja. camisa branca. boina branca.O reggae na “Jamica brasileira”. tenho 9 netos. Sou viúvo. 6 filhos. Marcus Garvey. pensado como elemento sócioeducacional para consolidar a cidadania na sociedade do Maranhão. foram direcionadas como subsídio histórico para reescrever a História e Cultura Africana por meio do reggae. ninguém sabia as cores. Meu lazer é reggae. criando até descobrir 49 jul. Já fui evangélico. não têm essa pegada. Embora a população ludovicense possua baixas taxas de escolaridade e tenha dificuldades para utilizar o português da gramática normativa não se descartam sinais de “parentesco” afrocultural entre jamaicanos e maranhenses. aí eu sou aposentado como peixeiro.. na Praia do Gaspar. no Sá Viana. num cercado de palha. Peixeiro. às vezes eu tava na igreja aí escutava uma batida de reggae não agüentava. esse fenômeno foi estudado para compreender como a melodia produziu emoções no corpo e na ‘alma’ dos afro-ludovicenses em que sentimentos de êxtase são almejados pela audição do ritmo jamaicano e não outro. 1980 e 1990.. Eu gosto do reggae roots./dez. mesmo desconhecendo a língua inglesa. radiolas grandes e pequenas. 2007 . cinturão preto. aí fomos criando. No tempo que nós aprendemos a dançar era calça preta. Na capital do Maranhão foram re-significadas pela emoção. As letras musicais jamaicanas das décadas de 1970. peixeiro aposentado. De outro lado. amplamente tocadas na cidade São Luis. não agüentei.

é um bom lamento. quando ele faz assim (abre os braços) pedindo a Deus. As simbologias musicais na década de 1970 entre Jamaica e Maranhão implicaram no fortalecimento cultural da diáspora que pela música percussiva dos tambores nyahbinghi e tambor-demina. você podes crê. Os cultos de possessão desse tipo continuam entre os negros nas Américas.Maristane de Sousa Rosa uma origem. dançamos bumba-boi. é uma beleza de lamento. desde 1970. 2006). VIII. pra uma árvore. integridade. muita coreografia. Sou regueiro antigo. japonês coleciona muito reggae. São Luis. é muita gente. Nós maranhenses já trazemos esse ritmo no corpo. o tambor-de-mina. tudo isso é cultura. o reggae nasceu para o povo. (Sapo. O reggae pra mim é uma cultura autônoma nossa. O reggae levanta a gente assim. americano também. toca no corpo todo. guardando as devidas proporções. dançamos tambor-de-mina. eles cantam pra uma pedra. pra Jah. 50 Revista Brasileira do Caribe. Por isso narrativas histórico-culturais são pertinentes à chegada do ritmo de matriz africana com sotaque inglês. nome que enfatiza a batida do tambor”. alemão. mar. abraça-me. o reggae é um lamento. pela política colonial escravista de São Luis e o decorrente preconceito racial estendido aos negros descendentes. se imbricaram nos dois territórios pelo reggae roots. Ele saiu lá da Jamaica. o reggae toca no corpo todo. uma cultura. batemos tambor-de-mina. o reggae pra mim sempre foi uma cultura. respeito. ou seu equivalente no Maranhão. “Os tambores eram considerados as vozes das divindades. trazendo muita paz. fibra e cultura. Goiânia. Os jamaicanos eles faz muita mímica. desde o vodu do Haiti à santería de Cuba e ao candomblé do Brasil (que tem ligações particularmente estreitas com as tradições iorubas). Nesse sentido. as cores originais. todo mundo coleciona reggae. eles cantam pra Babilônia. dançamos tambor-de-crioula. É nossa música. n° 15 . vol. Eles cantam pra uma criança. Conforme Peter Burke (2000: 224). trazemos no coração. que fez até a cidade de São Luís receber o codinome de “Jamaica Brasileira”9. cada uma associada a um ritmo característico. até que apareceu a original. já nascemos com esse ritmo no corpo.

Assim. sociais. carregados de mensagens religiosas. como questiona o refrão: “Nós somos guerreiros? – É nós somos guerreiros”. de certa forma. se aproximam por mecanismos de cognação nos quais os lugares da memória não são espontâneos mas..] Examine e olhe determinados sonhos. compreendeu-se como autênticos os sentimentos desenvolvidos pelos regueiros em relação à melodia jamaicana. 56) é por isso que. nós as compomos ou construímos utilizando as linguagens e os significados de nossa cultura. mas ‘legitimados’ pela leitura social.O reggae na “Jamica brasileira”./dez. p. aparentemente dissociados pela geografia ou por fatores lingüísticos. pelo trecho que diz: “Para possuir nossa cabeça como em outras épocas. esta pensada como ferramenta pedagógica para construção de consciência política e reivindicação de cidadania. quando nos conduziram sob seus pés [. onde há freqüentemente histórias verdadeiras”. a música e as letras do reggae jamaicano foram utilizadas como meio de efetivação da historiografia africana e de seus descendentes à sociedade maranhense. composição de arquivos do passado sob os quais ela se escora. políticas e históricas.. gostos e atitudes musicais. 2007 . conteúdos vocabulares em língua inglesa são posicionados como narrativas etnográficas do movimento panafricanista da Jamaica que rememorou os milenares costumes da África por meio de danças. De acordo com Alistair Thompson (1981. os espaços. A partir da divulgação dos conteúdos musicais do reggae jamaicano das décadas de 1970. 1980 e 1990. Os territórios. composição é um termo adequadamente ambíguo papa descrever o processo de ‘construção de reminiscências’. 51 jul. Compomos nossas reminiscências para dar sentido à nossa vida passada e presente. aqui considerados como instrumento de resistência para validar a historiografia africana frente aos conteúdos eurocêntricos.. gestos..

Maristane de Sousa Rosa Concordando que história é memória e vice-versa.36) diz que. ioruba e akan. e vão. jazz. minas seriam os nagôs. a denominação genérica de angolas designa todos os bantos. calipso e rumba. por ardras claramente se deve corrigir o nome.119): Os escravos Akan (no Brasil conhecidos como fante-achanti) são comerciados na Costa do Ouro nas proximidades do Castelo da Mina e em Cape Coast.” Para Mariza de Carvalho Soares (2000. Não é difícil supor que algumas vezes essa divisão de mercado tenha sido rompida. quando o intangível se apóia nos traços exteriores e nas referências tangíveis de uma existência que se supõe existir por detrás deste estoque material. n° 15 . 52 Revista Brasileira do Caribe. Aos grupos referenciados acima Nina Rodrigues (1982. p.15) destaca os seguintes grupos étnicos vindos para a Jamaica: “escravos da África Ocidental. VIII. em que agora as identidades revitalizam a própria historiografia de si. todos da tribo dos coromanti. p. Já Cuba e Brasil recebem dessa costa escravos de vários grupos étnicos de língua ioruba (na Bahia chamados de nagôs). Pelo que toca aos negros que Henrique Dias chama ardas. Goiânia. Os escravos do Daomé (de língua fon) vão principalmente para as colônias francesas (Haiti e Louisiana). fantis e outros. O antigo reino de Ardra. p. onde têm boa aceitação. vol. numa simbiose de etnicidade encontrada entre nações de procedência na travessia do Atlântico. para as colônias inglesas. por ingleses e holandeses. e neles se descobrem negros jejes ou daomeanos. O franco diálogo entre a cultura musical da América do Norte e Caribe foi responsável pelo surgimento do reggae na Jamaica que se formou de elementos do rhythm and blues. Carlos Albuquerque (1999. em sua maioria. a maior parte formada por integrantes dos povos ashanti. próximo de Abomey.

povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de 53 jul. constitui há séculos. As descrições utilizadas situam os Akan ou Fante-Achanti. referência encontrada pelos depoimentos colhidos no documentário “Atlântico Negro – na rota dos orixás”. mas seu registro na África depois de 1864 revela muito sobre a história da etnicidade e da nação. p.63). Fantis ou Minas. Também Nina Rodrigues em Os africanos no Brasil.. Essa associação deu-se também pelo cruzamento de informações coletadas nas abordagens de Carlos Albuquerque em O eterno verão do reggae. entre os grupos étnicos vindos da África Fanti. gen. Ashanti. Akan ou Minas. pela tese de doutorado de Carlos Benedito Rodrigues da Silva. em destaque para o primeiro caso os Fanti e para o segundo os Ashanti. Assim interpreta-se que os diálogos interrompidos por séculos entre maranhenses e jamaicanos. ou melhor. designando o ‘parentesco’ jeje pela religiosidade de tronco comum na América do Norte. 1999. concorda com a procedência ocidental dos africanos escravizados que vieram para as Américas e Caribe. para todos os falantes de ewe./dez. capital dos daomeanos. um afamado empório do tráfico negreiro. Lorand Matory. como grupos étnicos de travessia. (MATORY. De modo que para o Maranhão e Jamaica vieram grupos étnicos comuns (Minas).O reggae na “Jamica brasileira”. foram retomados após a travessia transatlântica em meados da década de 1970. aja e fon. 2007 .. entendendo que as imagens e a discografia jamaicana interagiram com culturas que o passado escravista separou. o termo jeje foi designado no Brasil em meados do século XVIII. Conforme J. onde os europeus haviam estabelecido importantes casas de comissão. Caribe e Brasil (Casa Fanti-Ashanti e Casadas-Minas no Maranhão). evidências encontradas em São Luis pela formação vocabular do terreiro Fanti-Ashanti fundado por Pai Euclides no ano de 195410. regional e transatlanticamente. tratando-se da mesma língua de adoração dos deuses vodun. Ashanti. Segundo Silva “uma curiosidade é que segundo historiadores.

p. Essa reflexão depara-se então com a representação normativa do passado. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. Assim. vol. isto é. Com efeito. não descarta a dialogicidade entre cá e lá a qual este estudo se ocupou em estabelecer partindo de fatores que ultrapassam barreiras fronteiriças. n° 15 . através dessas próprias instituições. depende do grau em que o passado das instituições em causa é considerado como algo que está em jogo e como instrumento de luta. mais uma vez concorda-se com os conceitos de memória latente e em potencial avaliando que os lugares da memória não devem ser julgados somente como espontâneos. no espaço social em que se situa o historiador.79): De facto. prontos para serem utilizados no momento em que são solicitados. ele próprio mais ou menos autônomo em relação a essas lutas. no campo das lutas sociais e no campo de produção cultural. interpretada como responsável pela memória histórica e identitária que reveste de simbolismos a comunidade afrodescendente ouvinte de “música negra de raiz”. VIII. condenar ou reabilitar imputando a vontades benéficas ou malignas as propriedades aprovadas ou reprovadas do passado. são arquivos criados no presente. De acordo com Pierre Bourdieu (2001. de idioma. desenvolve-se uma reflexão sobre a existência mista de oralidade que ora se apresenta na forma de variabilidades textuais discursivas. Goiânia. 54 Revista Brasileira do Caribe. p. mas ficam latentes.Maristane de Sousa Rosa religião afro-brasileira de São Luís é a Casa de Fanti-Ashanti. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa” (2001.113). de espaço. desenhada nos ritos religiosos de origem africana. a propensão para a visão teológico-política que permite censurar ou louvar. ora com possibilidades de percepção do passado. No entanto o fato do referido pesquisador não ter encontrado evidências dessa associação.

.. Mas o espírito do Senhor entrou em Sansão. Os costumes Masai caracterizaram não somente o visual dreadlocks11 mas também o totemismo entre homem e leão que o reggae jamaicano utiliza expressivamente em camisetas. Quando chegaram às vinhas da cidade. p. daí advindo o não uso da navalha nos cabelos de forma que as tranças rastas pudessem crescer livremente. (Jz. que despedaçou o leão como se fosse um cabrito.17). p. perderei a minha força e então serei como qualquer outro homem. o qual. estampas. 16. Então. principalmente as menções aos primeiros israelitas. (Jz. vídeos e na bandeira da Etiópia. Sansão.O reggae na “Jamica brasileira”. desceu com seu pai e sua mãe a Tamna. descrita no livro de Juízes: Sobre a minha cabeça. pois. o uso de ‘terríveis tranças’ estava associado às “fotos de guerreiros somalis e suas 55 jul.34). porque sou nazareno de Deus desde o ventre de minha mãe. p. que cortou a Sansão as sete tranças do seu cabelo. chamou um homem. arremeteu contra ele. 14. sem ter na mão qualquer arma. (GILBERT. o uso de tranças e a força física para lutar com o leão. rugindo.164-165). A releitura da Bíblia proposta pelo movimento Rastafari consistiu numa revisão. 2003. Se me for rapada a cabeça. apareceu de repente um leão novo e feroz. o mito da força dos cabelos. fazendo-o adormecer sobre os seus joelhos. reivindicações de orgulho negro da década de 1930 foram aproveitadas como viés teórico a partir da inspiração bíblica utilizada pelo movimento Rastafari. (Jz. As escrituras lidas nos moldes da colonização ocidental e nas pinturas da Europa renascentistas apresentaram de forma “branqueada” a lenda de Sansão. aos profetas e até mesmo ao Cristo como usuários de ‘tranças’. disse ele. introduziram importantes referências aos negros subtraídas ou adulteradas pelo mundo Ocidental./dez. nunca passou a navalha. 16:19).5-6). Segundo Carlos Albuquerque (1997. Dalila. 2007 . p.

Estavam ali sete deles. mas Jah dará uma resposta para nosso choro”. Oxalá. porque já haviam matado pelo menos um leão na vida e se tornaram autênticos guerreiros da tribo. vistas na Jamaica pela primeira vez nos anos 30. teriam dado aos rastas a certeza de que com as dreadlocks eles estavam seguindo. De modo que partindo do título do hino do reggae no Maranhão (Nós somos guerreiros). pois a vida o levará num súbito choque. Prevendo ainda pela música. repetiram as apresentações aos masais. de suposições sobre os guerreiros somalis e o lendário Sansão. uma tradição milenar africana”.61) na reportagem da revista “Os caminhos da Terra”. membros de ‘uma das tribos mais selvagens da África’ [grifo nosso]. tais narrativas apontaram na direção do grupo étnico Masai por adotarem o uso de dread e principalmente pelo ‘costume’12 de combater com leões nos rituais de passagem13. desconstruir ‘tradições inventadas’ e abordagens etnocêntricas. cabelos compridos e trançados. e os adultos. e respeitando. p. Conforme IJahman: “A profecia agora é revelada. estudantes europeus em sua maioria. todos ornamentados. organizações militantes negras e a musica jamaicana reivindicaram oportunamente da cultura Ocidental. Contrariando a referência. o som onipresente do reggae que se tornou práxis política desalienadora e operante para romper a segregação visível 56 Revista Brasileira do Caribe. vol. chamados de ilkelianis.Maristane de Sousa Rosa carapinhas em estilo medusa. n° 15 . ao descrever um trekking com os Masais: As 25 pessoas de nosso grupo. VIII. Os mais jovens. Goiânia. eram carecas. O choro do povo se multiplica em toda parte. os moranis. aspectos pioneiros do legado patrimonial negro da África à humanidade. como o exemplo encontrado na referência de Diego Lezama (1999. O filho do homem não fará exame do coração que está desistindo. tinham cerca de 20 anos.

/dez. cupido./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros./Oh cupido. A profecia é revelada agora. pela mansidão que me fez filho do homem. lograr. Ele deu sabedoria e conhecimento para entender o amor após uma guerra. A vida foi dividida em doce harmonia fazendo uma mulher até sonhar. Eles certamente querem o caminho às vezes mais confuso./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros.. estúpido./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão.. lá na Jamaica. 57 jul. estúpido. É nós somos guerreiros. para possuir nossa cabeça. não atire a flecha de seu arco./Examine e olhe determinados sonhos onde há freqüentemente histórias verdadeiras. não lance sua flecha de seu arco. por que a vida o levará num súbito choque. amor. como freqüentemente eu peço. sirva para consolidar ações afirmativas entre a comunidade afrodescendente do Maranhão. estúpido./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. estúpido. não confunda. enganar./Oh cupido.O reggae na “Jamica brasileira”./ Oh cupido. não atire a flecha de seu arco e nunca a lance. deixe-a baixa e nunca a lance./Fé é uma montanha tão silenciosa e cheia de fontes d’água para todas as adoráveis criaturas. Seria toda a nossa própria glória. não atire a flecha de seu arco./Oh./São suaves e cheias de paz minhas noites. mas Jah dará uma resposta para o nosso grito. O filho do homem não examinará o coração que está desistindo./Oh cupido. Ainda que não vejamos nenhum amor. estúpido. mas para o fim haverá abrigos cheios com clamor de mães e pais. 2 Título: Nós somos guerreiros (We Are a Warrior – tradução da autora) O amor é a perfeição e eu dou graças pela agradável plenitude presente dentro de mim. pois estamos numa guerra. deixe-a baixa e nunca a lance. É nós somos guerreiros. 2007 . Oh. como em outras épocas quando nos conduziram sob seus pés. É nós somos guerreiros. É nós somos guerreiros./ Nós somos guerreiros?/É nós somos guerreiros. não atire a flecha de seu arco. O choro do povo se multiplica em toda parte. Notas 1 Palavra inglesa que deriva a forma aportuguesada blefe significando iludir./O que te fez ter uma pistola? Seu amor infinito acabou para você atirar no homem ali? Nós desistimos depois que a estrela nos iluminou? Por que nos tornamos como cordeiros.

Feitos de madeira compensada que medem por vezes 3 m de altura por 5 m de largura. Título dado às músicas reggae pela sonoridade produzida em inglês ou patois jamaicano. ou seja.br/ artigos2.php?id=28. sendo também usada para definir aspirações espirituais. 3 4 Grupo étnico heterogêneo vindo da África durante a travessia transatlântica em meados do século XVII.gov. Acessado em: 05/01/2006. de tronco lingüístico comum. aquele originado no início dos anos de 1960. Ashanti. vol. época do disco de vinil. Fanti. por vezes também homenageiam a preferência do regueiro mais considerado. devido a grande projeção do ritmo jamaicano entre a população maranhense. imperador da Etiópia. então reggae roots ou somente roots representa o ritmo de raiz. composto por Minas. Informação disponível em: http://www.ma. econômico. Goiânia. 10 58 Revista Brasileira do Caribe. 8 9 Conforme Silva (2001:44). 7 As mudanças melódicas a partir de meados da década de 1990 adjetivaram o ritmo jamaicano atual de Dancehall ou batida eletrônica. ainda compostas por mesa de mixagem do som e pela presença de DJ’s. com amplificações de som de alta freqüência. VIII. Ardras. incluindo ainda o jamaicano Marcus Garvey como profeta afro-centrista que inspirou a visão do orgulho negro. Língua religiosa adotada pelos rastas compondo a maneira ritualística de falar para definir o mundo político. Nagôs. como reencarnação divina na terra.culturapopular. n° 15 . particularmente no Maranhão são assim chamados os grandes paredões de som que animam os eventos de reggae. em que grandes shows reúnem até cinco estruturas desse porte. os Dj’s atribuíram esse ‘codinome’ à capital do Maranhão como forma de relacionar São Luis e Jamaica com o reggae. 5 6 Ressignificação dada aos sound-systems jamaicanos. Formou-se da mistura do inglês com termos creoles.Maristane de Sousa Rosa Filosofia religiosa afro-caribenha surgida em meados dos anos 1930 que proclama Jah como Deus Supremo e Hailé Salassié I. chegando o novo nome aos outros redutos regueiros fora de São Luis. Ioruba e Akan.

1989. Negros estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. 1986. 2000. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. (Trad.asp>. Rio de Janeiro: Zahar. (Coleção Ouvido Musical). O poder simbólico. v. BURKE. 2002. Eric. Michel de. 13 Bibliografia ALBUQUERQUE. Sua função é dar a qualquer mudança desejada (ou resistência à inovação) a sanção precedente. São Paulo: Stampley Publicações. Campinas. Manuela Carneiro. continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história. 1999. 2002. 1994. ciudadanía y patrimônio em América Latina”. Rio de Janeiro: DIFEL. Memória e sociedade: lembranças de velhos.tribooffroad. podendo mudar até certo ponto. Eric. (Trad. Visual do cabelo enrolado em forma de pavio. por vezes com cera de abelha. In: Revista Os Caminhos da Terra. Enid Abreu Dobránszky). CUNHA. BURKE.com. Diego. Terence. História social do jazz. Peter. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Das Letras. O eterno verão do reggae. 8. Marcelo Álverez (Comp.. In: La (indi)gestión cultural: uma cartografia de los processos culturales contemporâneos. Ecléa.. Mônica Lacarrieu. 9. embora por vezes seja tolhido pela exigência de que dever parecer compatível ou idêntico ao precendente. formando grossas tranças. HOBSBAWM. 34. SP: Papirus. BOURDIEU. 59 jul. Carlos. 2005. São Paulo: Brasiliense. 12 Disponível em: < www. O que é história cultural. 1995. n. “Um trekking com os masais”. set.br/4x4/ed08/masai. Pierre. São Paulo: Cia.O reggae na “Jamica brasileira”. RANGER. 32ª ed. Pedagogia do oprimido. CERTEAU. Argentina: CICCUS/LaCrujía. Celina LEZAMA.). 3ª ed. FREIRE. A invenção das tradições. 1990. São Paulo: Ed. ARANTES. Peter Variedades de história cultural. [1971?]. Acessado em: 07/09/2006. 1997. 11 De acordo com Eric Hobsbawm (2006:10) que toma costume no sentido de possibilitar inovações. São Paulo: Paz e Terra. “Cultura./dez. 2007 . Antonio Augusto. Tradução Missionários Capuchinhos de Lisboa. BÍBLIA SAGRADA. BOSI. Paulo. HOBSBAWM. A cultura no plural.

Rio de Janeiro: Paz e Terra. v. SOARES. Moritz. Lília K. 2000. Lorand. 1997. Goiânia. Mariza de Carvalho. “Questão racial e etnicidade”. 221-286. SCHWARCZ. In: Revista de Antropologia. São Paulo: Ática. Porto Alegre. Nina. 1998. Carlos Benedito Rodrigues da. Tese de Doutorado em Ciências Sociais Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 1982. Cardim Cavalcante). Tiago de Oliveira. abr. In: Horizontes antropológicos. SILVA. Porto Alegre. 2001. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Sociologia do negro brasileiro. PINTO. 1997. DF: CAPES. São Paulo. THOMPSON. São Paulo. “Som e música: questões de uma Antropologia Sonora”. MOURA. 44. v. In: Sérgio Miceli. RODRIGUES. J. “Jeje: repensando nações e transnacionalismo”.Maristane de Sousa Rosa MATORY. mar. 60 Revista Brasileira do Caribe. 1999. p. vol. 1985. Carlos Benedito Rodrigues da “Ritmos da identidade: mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão”. PPGASUFGRS. Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae. In: Projeto História. Clovis. n. 1. Sumaré/ ANPOCS. SILVA. São Paulo: Ed. O que ler na Ciência Social Brasileira (1979-1995). Devotos da cor. 1988. “Recompondo a memória: questões sobre a relação entre história oral e as memórias”. 2001. 9. n. VIII . Alistair. lazer e identidade cultural. Brasília. Brasília: Universidade de Brasília. São Luís: EDUFMA. ano 4. 1. São Paulo. Os africanos no Brasil. 2ª ed.

Reggae. 61-84. VIII. Goiânia. 2007 . considerados tanto en sus sujetos y practicas sociales. son estudiados em este artículo no como sistemas cerrados sino abiertos. filmes jamaicanos e documentários brasileiros como representações e veículos dessa comunicação intercultural. Palavras-Chave: Jamaica/Brasil. em que o reggae jamaicano é apropriado e ressignificado em algumas regiões brasileiras. Para tanto. recreated in Brazil. The exploration of the audiovisual and musical performances in both countries contributes to deepen into its culture. Keywords: Jamaica-Brazil. Nessas relações a música popular e a produção audiovisual constituem veículos de reinterpretação e ressignificação das culturas de ambos os países que revelam semelhanças e especificidades. Investigar los grados de intensidad y sobre todo las performances en la relación entre ambos *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 61 Revista Brasileira do Caribe. both from its subjects and its social practices. vol. but open systems. são analisados em seu contexto.Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal Abstract This study attempts to look at Brazil and Jamaica not as closed. Resumen Brasil y Jamaica. n° 15. conforms the vision of the spectator departing from a series of symbolic audiovisual references. Comunicação Audiovisual. which emerge from the Jamaican filmography and other iconographic sources. Reggae Resumo Este artigo analisa as relações interculturais entre Brasil e Jamaica por meio dos conceitos de contaminação e apropriação. Reggae. Audiovisual.

El reggae recreado colectivamente en Brasil. vol. conforma la visión del espectador a partir de un conjunto de referenciales simbólicos audiovisuales procedentes de la filmografía jamaicana y otras fuentes iconográficas. como todos os diferentes contextos culturais. Como os contatos entre esses dois contextos poderiam ser abordados de forma a trazer novas luzes para o debate sobre a comunicação intercultural1? Em primeiro lugar. sempre estiveram em contato. regionais ou nacionais. sejam eles locais. entendidos não como unidades fechadas de características facilmente delimitáveis. seria preciso usar uma abordagem que procurasse ultrapassar os limites da rígida organização do conhecimento especializado. n° 15 . Michel Serres apresenta as redes como espaços irregulares. em complexas gradações de intensidade e performatividade. envolvendo uma reinvenção de conceitos bastante utilizados. Goiânia. mas como sistemas abertos de sujeitos. Para tentar incorporar esta visão relacional ao estudo dos contatos entre os sistemas culturais. como algumas especulações e pesquisas no âmbito antropológico e filosófico parecem afirmar. VIII. práticas sociais. “onde a 62 Revista Brasileira do Caribe. meios e produtos que se encontram envelopados em subdivisões jurídicas e econômicas cada vez mais frágeis.Leonardo Vidigal países mediante la producción audiovisual y musical permite profundizar en la cultura. Comunicación audiovisual. em sua concepção de comunicação. que poderiam contar com uma “pluralidade de subtotalidades” (o que corresponderia aos contextos locais). Palabras Clave: Brasil/Jamaica. tais contatos foram a base da constituição recíproca dos contextos socioculturais planetários ao longo do tempo. como o de rede. que estariam sujeitas a toda sorte de variações. Reggae Brasil e Jamaica. o que vem sendo desenvolvido por uma grande variedade de pensadores de diversos lugares e tradições de saber diferentes. pode-se ter em conta que. Nesse sentido. estabelecendo as condições para o auto-reconhecimento dos habitantes de tais contextos como “distintos” de seus congêneres. longe de serem momentos excepcionais e fugazes.

recorte que nesse caso destacou o audiovisual. documentários e outros produtos audiovisuais (como videoclipes) realizados tanto por equipes locais. negociada. foram produzidos ao longo do tempo na Jamaica..Enredando Brasil/Jamaica./dez. Em segundo lugar. aberta). determinação é construída. apropriações e combinações possíveis entre os diferentes produtos e interpretantes. quanto por equipes mistas e ainda por outras totalmente estrangeiras. na TV Bandeirantes (privada. tornando-se parte da constituição de um tecido cultural aberto. Dessa forma. 2007 . posto que os processos de tessitura continuam em plena atuação. Tal disposição somente 63 jul. Quando a articulação de imagem e som incorpora uma expressão igualmente mobilizadora como a música popular. de leitura complexa. filmes de ficção semi-documentais. Tais audiovisuais foram realizados por equipes independentes que posteriormente tiveram seus programas veiculados na TV Cultura de São Paulo (pública. ela amplia o seu potencial de aglutinação e torna-se também um indicador. com grande e perceptível vitalidade.. que circulam de forma cada vez mais rápida e acessível pelo mundo. pode-se concluir que o interesse de documentaristas e jornalistas televisivos do Brasil pela situação jamaicana é significativo. veiculada na TV por assinatura). por diferentes processos. Dessa forma. aberta) e no canal GNT (privada. que fizeram pelo menos três incursões deste tipo naquela ilha do Caribe anglófono. ensaiada” e não deveria ser considerada como fixa (MORAES. Entre estas equipes de gravação estrangeiras estavam os brasileiros. para melhor focar e direcionar tal compreensão. 2000). pertencente à mesma empresa mantenedora da Rede Globo. é preciso recortar um aspecto ou elemento deste processo. Se for assim. um dos principais meios a organizar a expressão humana. o que acontece hoje entre as subtotalidades que compõem as subdivisões maiores denominadas Brasil e Jamaica pode ser chamado de enredamento. mas que pode revelar muito sobre as transformações culturais em curso na contemporaneidade. Isso porque ela atualiza continuamente e torna explícitas as contaminações. estabelecendo assim uma necessidade de maior compreensão dos fenômenos envolvidos.

mais do que considera. com nossos colegas de universidades situadas nos grandes centros. naturalmente complexo e plural. reduz muito fácil e acriticamente as manifestações culturais menos conhecidas ao estereótipo exoticizado.Leonardo Vidigal encontra paralelo entre os realizadores provenientes de países como Inglaterra e Estados Unidos. tornando-os sócios ou seguidores dos modelos hegemônicos. Este tipo de mentalidade que partilhamos. Sem entrar nos méritos dessa produção e partindo de um olhar que. ao mesmo tempo em que os submetem a todos às decisões macroeconômicas tomadas pelos organismos internacionais como o FMI. até porque é neles que se concentra a maior parte da produção audiovisual hoje em dia. No entanto isso não acontece sem problemas para quem deseja estudar as relações culturais entre os países à margem. Isso porque o pesquisador pertencente ao contexto brasileiro sente-se inteiramente à vontade para tratar de objetos referentes ao chamado cânone ocidental. o Banco Mundial e a OMC (ANTELO. 2002). podemos afirmar que um estudo 64 Revista Brasileira do Caribe. procura incorporar a extrema heterogeneidade de tais contextos culturais na sua análise. mais estreitamente ligados à Jamaica por abrigarem colônias numerosas de oriundos da ilha caribenha. mas hesita em investigar culturas consideradas exóticas pelo olhar condicionado por este mesmo cânone. A comparação e a análise de tais esforços não podem deixar de levar em conta a atual situação. em que os processos de integração do capitalismo contemporâneo estão generalizando uma lógica de mercado e de consumo que coopta determinados agentes dos países à margem. é preciso pesquisar caminhos para a abertura ou o melhor aproveitamento de circuitos alternativos de cultura entre os países à margem. Neste sentido. As persistentes assimetrias de poder entre os estados-nações e no interior destes. n° 15 . Goiânia. elegendo assim aspectos específicos de um contexto cultural como representantes de toda a produção desse contexto. mas incorporadas nas perspectivas de análise. não podem ser ignoradas na tentativa de operar com essa percepção. talvez inconscientemente. vol. VIII.

estes não devem ser 65 jul.Enredando Brasil/Jamaica. mais atento e menos eurocêntrico seria altamente proveitoso. derivados das ambigüidades socioeconômicas e outras características que compartilhamos. Culturas do audiovisual Mas antes é necessário compreender melhor o recorte usado para esse estudo. o celular e outros meios. o computador. É um esforço de reinterpretação e ressignificação (DHARESHWAR e NIRANJANA. o que poderia abrir espaço para novos reconhecimentos. pois é ao mesmo tempo próxima e distanciada. 2001). No entanto. O termo “audiovisual” é bastante abrangente e corresponde. nesse caso sob o formato de produtos audiovisuais. 1996) que oferece novas perspectivas sobre nossa própria condição. ao norte. a televisão. Esta é certamente uma definição que faz jus aos estudos mais atuais e rigorosos sobre o assunto. menos hegemonizante e homogeneizante? O caso que se pretende analisar parece indicar que sim. podem ser descobertas também algumas soluções comuns que são ou podem ser adotadas para tais impasses. as relações entre os contextos à margem. a qualquer articulação possível entre signos visuais e sonoros. em sua acepção contemporânea. talvez até mais receptivos do que os mais cobiçados./dez. familiar e estranha.. mas sob certas premissas teóricas que este texto procura discutir. como o cinema. 2007 . com ou sem a mediação de meios tecnológicos (BETHÔNICO. podem ser analisadas como trazendo uma motivação diferenciada. pelo fato do termo audiovisual estar consagrado como um coletivo para tais dispositivos. Nesse contexto.. Para uma compreensão dos produtos audiovisuais de acordo com as premissas desse estudo. Pesquisar outros circuitos por onde circula o audiovisual pode revelar impasses e questionamentos semelhantes aos nossos. novas identificações e também novos mercados. mas neste texto iremos restringir o uso de tal conceito aos suportes técnicos. tanto para o público em geral como para a esfera acadêmica em particular.

Nesse ponto é necessário esclarecer com um pouco mais de precisão como este trabalho irá lidar com o conceito de “cultura”. VIII. produzindo diversos sentidos potenciais. que também passou por diversos processos de produção e manipulação. para a modalidade de pesquisa empreendida aqui. ao serem atualizados a cada exibição para os indivíduos. Assim. vol. o olhar construído pela experiência e pelos meios usados para se observar. n° 15 . nem como uma emanação do objeto. ligado à produção material ou imaterial que expresse de alguma forma a ação criativa humana (considerando-se as camadas descritivas e normativas acumuladas sobre termos como “arte”) e que seja socialmente aceita como tal. por sua vez. Seria preciso então recorrer a uma visão mais ampla. reinventando um novo arranjo de componentes que.Leonardo Vidigal encarados apenas como reflexos ou sintomas de fatores socioeconômicos e culturais externos aos fluxos de enredamento imaginário e concreto. Trata-se de um processo de contaminação por parte de certos elementos. que é muitas vezes tomado como dado. também o modifica. Goiânia. mas como elementos que participariam tanto do estabelecimento das condições básicas de tessitura como do seu direcionamento. embora não seja o objetivo desse texto estabelecer uma conceituação “correta” para um termo tão complexo. que seriam apropriados a partir de um processo recursivo e reflexivo. Neste. Esta. Isso porque muitas vezes a cultura é citada apenas em seu sentido restrito. colaboram de modo significativo para formar comunidades imaginadas e sistemas culturais reconhecíveis. dessa vez vista como um conjunto de 66 Revista Brasileira do Caribe. mas como resultado de um certo encontro. Não é um significado fixo porque depende das relações e arranjos nos quais está inserido em um dado momento da observação. mas a necessidade de estabelecer limites faz com que uma visão totalizante da cultura. a produção audiovisual que emerge como resultado dessa dinâmica não é analisada como algo acrescentado por um sujeito totalmente separado de seu entorno. molda e é moldado pela forma material.

processo infindável. já citadas. tomando parte desse jogo com todas as suas características próprias./dez. a televisão também começou a participar desse processo de produção e reinterpretação de elementos de identificação. 67 jul. serão mais detidamente examinadas. bem como ideologicamente direcionada para a construção de uma unidade identitária nacional homogeneizante. a saber: Contaminação. processo que também pode passar pela atuação mediadora. que gera produtos variados a partir de referenciais simbólicos oriundos de contextos diferentes do local onde são reinventados. 1994). A partir dos anos 1950. comportamentos e pontos de vista compartilhados tenda a enxergar cada contexto localizado de forma essencialista e fechada. por sua extensão em cadeia de dezenas de emissoras estrategicamente localizadas. reinventados e colocados em contato por intermediários culturais e/ou agentes individuais. o cinema tornou-se uma das principais portas de entrada para a tessitura da rede imaginária que participa do processo de construção e difusão dos produtos audiovisuais. São estratégias que poderiam se alternar em gradações ainda não estabelecidas precisamente. no qual referenciais simbólicos concebidos em um dado contexto se interpõem ativamente pelos meandros de outro.Enredando Brasil/Jamaica. Esta última característica é especialmente importante porque toca no problema crucial da capacidade de tais combinações sígnicas favorecerem ou não processos de identificação através de diversas estratégias relacionais. duas das quais. é preciso reiterar aqui que os sistemas culturais são encarados como relativamente autônomos em relação aos limites e condicionantes socioeconômicos e jurídicos que compõem os atuais estados-nação (CARVALHO. 2007 . movimento ativo de recepção colaborativa. Assim.. conjugada a uma capilaridade social ao mesmo tempo verticalizada e horizontalizada.. Ao longo do último século. Apropriação. Essas características são a sua extremamente prolífica e efêmera produção de conteúdo. em contraste com a visão expressa desde o início deste trabalho.

principalmente pelas camadas mais jovens da população. Goiânia. Nascido quando a sociedade de consumo começava a consolidar sua hegemonia pela difusão planetária de seus produtos (a primeira banda de ska. VIII. 2001. no começo 68 Revista Brasileira do Caribe. o que não foi contestado por estudos anteriores (COOPER. sugerindo não haver diferenças absolutas entre um e outro sistema cultural. sempre por meio de ações. Aqui se procura construir um ponto de vista teórico mais permeável do que a constituída por noções como a de hibridismo2. de contaminação e apropriação. sujeitos ou culturas como entidades que teriam um estado inegavelmente original ou “autêntico” de existência e não como percepções contingentes. era conhecida como Skatalites. o reggae teve pouco tempo de maturação antes de se consolidar em um estilo hoje chamado de roots. STOLZOFF. em homenagem aos primeiros satélites). consumidos e praticados nos cinco continentes. reconhecido como a primeira forma do reggae. 2003)3. Para ambos. que são ouvidos. mas que eles estariam parcialmente contidos uns nos outros. que poderiam ser chamadas de moleculares (para usar terminologia de Deleuze).Leonardo Vidigal É importante apresentar uma definição mais precisa para estes conceitos por causa da conotação pejorativa que pode ser conferida aos termos “contaminação” e “apropriação”. Música popular e audiovisual Os produtos audiovisuais que possuem como tema a Jamaica geralmente dão grande ênfase ao gênero musical conhecido como reggae. determinando a ilha caribenha como seu local de origem. captadas e compreendidas sempre parcialmente. n° 15 . KATZ. tal interpretação acontece segundo concepções que tomam coisas. permitiu constatar que o reggae encontra-se atualmente fragmentado em diversos subgêneros construídos coletivamente ao longo de seus quarenta anos de história. “questão de relações e alianças em estado de fluxo” (FISHER. A leitura de tais estudos e a observação vivenciada nestes vinte anos de envolvimento deste pesquisador com o gênero. vol. 1995. 1995).

Enredando Brasil/Jamaica. que existem até os dias de hoje no norte da ilha. mas que ganharam a forma atual a partir da década de 1930 e só se tornaram relativamente populares nos anos 1970. tanto formalmente. como vem sendo reivindicado por acadêmicos da ilha) que combina palavras inglesas. isto é. oriundos das comunidades quilombolas (chamadas de maroons). que foi gradativamente sendo ressignificado. Todo esse ethos era claramente ou obscuramente exposto nas letras das canções. motivadas certamente pela revolução negra no vizinho Haiti. fundamentalistas. As origens desse sistema de crenças e valores datam das lutas políticas anti-coloniais que explodiram no Caribe no século XIX.. porque ditas em um dialeto patois (ou na língua jamaicana. dos anos 1970 e ser internacionalizado por filmes produzidos na mesma época e pelo carisma de Bob Marley. combinados com a tradição oral do canto falado (mais tarde apropriado pelos rappers americanos e jamericanos. sendo considerado inicialmente como algo marginal. Além disso. a instrumentação musical era muitas vezes baseada nos tambores nyabinghi. descendentes de jamaicanos nascidos nos Estados Unidos). As convicções dos rastas são professadas em variados graus. às vezes./dez. O entrelaçamento entre a mensagem espiritual e 69 jul. ou inglês jamaicano. espanholas. como nas temáticas.. Este é um complexo sistema filosófico. um dos pontos em comum entre os diversos grupos de fiéis. discursivo e simbólico foi sendo composto. depois como um elemento relativamente assimilado pela cultura praticada na Jamaica. envolvendo-o com o rastafarianismo. indianas e africanas. Esse formato é o mais conhecido mundialmente e suas características formais são as mais facilmente reconhecidas e associadas ao reggae. todo um denso arranjo ético. 2007 . em um contexto de anarquia litúrgica e antidogmática. até se tornar praticamente uma norma para a maioria dos músicos e cantores de reggae. encarnado na figura do antigo imperador etíope Haile Selassie I. que têm na adoração de um deus negro. Como parte do processo de edificação do roots reggae. religioso e moral que combina a política de valorização da herança africana com crenças milenaristas e.

Nesse último. Canadá e Estados Unidos. os grandes intermediários culturais passariam a ter pouca influência sobre o desenvolvimento do reggae.Leonardo Vidigal política se tornou uma marca do reggae. vol. Os instrumentos eletrônicos foram tornados populares pelos rappers americanos. e de Peter Tosh. em 1987. no caso o mestre de cerimônias. este contato proporcionado pelas correntes migratórias e pelo maior fluxo de bens simbólicos entre os países modificou decisivamente a música popular mundial no início dos anos 1980. contratos foram cancelados e os artistas foram forçados a se adaptar ou a emigrar. o MC – os outros três elementos seriam os dançarinos. onde o hip-hop é hoje uma das principais expressões da juventude (embora o dancehall jamaicano somente agora esteja começando a ser apreciado por aqui). que constituiria um dos “quatro elementos” do hip-hop. hoje dominante nas paradas jamaicanas4. Goiânia. cujos agentes passaram a priorizar o mercado interno e aquele composto pelas colônias jamaicanas em países de fala inglesa como Inglaterra. mas outras modalidades de discurso ainda aconteciam. no então emergente subgênero chamado de dancehall (chamado assim por ter sido consagrado nos bailes). a música popular na Jamaica foi simultaneamente modificada pela adoção progressiva das baterias eletrônicas. juntamente com algumas cuícas compradas em sua única e breve passagem pelo Brasil. VIII. 2006). que Marley foi um dos primeiros a utilizar em seu mega-sucesso “Could you be loved”. n° 15 . Os contatos entre Brasil e Jamaica não aconteceram por meio de correntes migratórias diretas. ao inspirar a concepção do hip-hop (graças ao canto falado – o toasting– que os imigrantes jamaicanos levaram dos bailes de rua da ilha para os bailes de clube em Nova York. Por seu lado. em março de 1980 (VIDIGAL. A partir de então. Este é um caso de comunicação intercultural que também teria suas conseqüências no Brasil. como entre 70 Revista Brasileira do Caribe. depois do falecimento de Bob Marley. os grafiteiros e os DJs). houve uma queda no interesse das gravadoras em continuar promovendo o reggae. No entanto. em 1981.

além das relativas à composição social e cultural. contaminação e apropriação mediadas também pelo audiovisual. i) suas economias atuais estão amarradas por um alto grau de endividamento externo e pesados juros internos. f) possuem uma cinematografia razoavelmente consolidada (a Jamaica tem hoje a cinematografia mais desenvolvida do Caribe depois de Cuba)./dez. principalmente no período colonial. tornada explícita em eventos públicos onde a dança é elemento central. com todas as suas implicações socioculturais. relativas às diferentes formas de colonização empreendidas ao longo dos últimos séculos. Jamaica e Estados Unidos. g) têm na música popular a expressão mundialmente mais conhecida de sua cultura. mas também de ordem histórica. compondo assim uma população atual de maioria negra ou mestiça. h) na maioria das vezes são imaginados pelo resto do mundo como lugares que combinam a natureza paradisíaca com um cotidiano violento e. d) os contatos interculturais que forjaram os atuais sistemas foram muitas vezes violentos. No entanto. não apenas em termos de extensão territorial e pujança econômica. como os Yorubá e os Nagô. 2007 . Relações entre Brasil e Jamaica Brasil e Jamaica são duas nações que apresentam profundas diferenças. 71 jul. finalmente. e) apresentam uma expressividade corporal elaborada. c) a cultura negra é representada por quase todas as correntes ideológicas do espectro político como um emblema da identidade cultural imaginada. inspirando táticas de apropriação e de posterior retomada de matrizes culturais (já em um ambiente onde o contato se processava de modo predominante como contaminação. por uma variedade significativa de grupos étnicos africanos... nos últimos séculos.Enredando Brasil/Jamaica. mas por mecanismos de identificação. sem imposição forçada). que podem ser resumidas nos seguintes elementos: a) carregam uma pesada herança do passado colonial e escravista. b) foram povoados à força. alguns deles compartilhados. possuem muitas similaridades.

exemplos concretos de influência direta dos representantes da cultura produzida no Brasil sobre os jamaicanos. como a Ariola (que. da Rede Globo. n° 15 . Mystical Roots. VIII. Gilberto Gil percorreu o país em uma turnê com o cantor Jimmy Cliff (o mesmo de “The harder they come”) que apresentaria o reggae para um grande público. jogando futebol no campo de Chico Buarque e fazendo cooper em Copacabana (VIDIGAL. Tribo de Jah. ou o “forreggae” (VIDIGAL. na época contratado da Columbia (hoje Sony). o “reggae-toada”. foram 72 Revista Brasileira do Caribe. 1997). Assim. mas ainda assim repercutem de forma significativa. do ponto de vista do senso comum. No Brasil os modelos de representação do reggae chegaram primeiramente de forma mercantilizada.Leonardo Vidigal A partir de tais aproximações foi construída uma relação negociada de compartilhamento cultural entre estas duas subtotalidades. gerando apropriações como o “reggae-capoeira”. Em um segundo momento. A partir de então. foi comprada recentemente pela Sony). vol. Na maioria das vezes estas proximidades se encontram escamoteadas pela distância geográfica e pela falta de conhecimento histórico dos atores sociais. Outro artista de reggae que veio ao Brasil no mesmo ano foi Peter Tosh. gravadora responsável pela breve visita de Bob Marley (cujo catálogo hoje pertence à Universal) ao Brasil em 1980. na novela “Água Viva”. que foi registrada pela TV. Em 1981. 2002). de uma maneira pouco estudada. em trabalhos de bandas como Paralamas do Sucesso. englobados pelos intermediários culturais multinacionais. Ele também apareceu cantando na sala da personagem de Tônia Carrero. que teve sua apresentação no Festival de Jazz de São Paulo transmitida pela TV Cultura daquele estado. Titãs. O reggae desencadeou um movimento cultural significativo no Brasil. é difícil perceber. que se materializaram primeiramente sob a forma musical. havendo a necessidade de uma pesquisa mais detalhada sobre esse aspecto6. Cidade Negra. depois de se fundir com a BMG. Goiânia. entre muitas outras. expressada por certa atitude carnavalizante5 de ambas ante a expressão artística e pelas raízes comuns. a apropriação do reggae começou a gerar uma grande variedade de apropriações.

2002). além das atividades normais de consumo e fruição. documentada no documentário de média-metragem Bonde do Rastafari. onde apreciadores do gênero podem ser encontrados em articulações com o movimento sindical e até com igrejas evangélicas. principalmente nas capitais e cidades médias.. apresentados em filmes. sincronizando as pistas de dança de lá com as jamaicanas e inglesas. juntamente com os produtos de matriz jamaicana. tratada como um gênero separado também emergiu na Bahia sob a forma do samba-reggae. documentários para TV e folhetins televisivos que abordaram o universo cultural do reggae no Brasil. O reggae vem marcando presença em quase todo o Brasil nos últimos trinta anos. o estado do Maranhão. estabeleceu uma relação intercultural continuada e estável com a ilha caribenha. Uma nova apropriação. é o contexto regional que mais aparece nos produtos audiovisuais que tratam do reggae no Brasil. para onde convergiu boa parte das bandas formadas em diversos contextos regionais. A cidade também conta com seus coletivos sonoros de dub. Chamado popularmente de “Jamaica brasileira”. em que se pode verificar outra apropriação sob a forma do forreggae. o corpus a ser analisado e que será descrito adiante. sem obedecer aos ciclos de alta e baixa intensidade observados em outros estados (VIDIGAL. e que agora também começa a produzir suas apropriações. Contudo. também elaborados outros produtos./dez. formando. Em terras paulistanas também existe um ativo circuito de DJs de dub (versão instrumental e experimental do reggae) e dancehall.. Outro local onde o reggae tem uma forte capilaridade é a região metropolitana da grande São Paulo. O Rio de Janeiro foi cenário de uma forte concentração em torno do reggae em meados dos anos 1990.Enredando Brasil/Jamaica. dessa vez sob o formato audiovisual. 2007 . com destaque para a cena baiana. O interesse pelo reggae foi crescendo gradualmente até atingir um patamar de auto-sustentação entre a população de 73 jul. e foi o local onde surgiram bandas hoje consagradas como Cidade Negra e O Rappa e que gerou expressões locais como o reggae-capoeira. o local onde foi concebido o reggae-toada. como blocos de carnaval. de Cynthia Sims.

que é tematizada em todos os documentários e programas que tratam daquele ambiente. como a prática de se dançar o reggae aos pares (como no forró). fazendo surgir algumas das principais bandas do gênero no Brasil. n° 15 . O Maranhão também apresenta uma rica cultura popular (como mostra o curta “São Luís Caleidoscópio”. como principal fonte de lazer (SILVA. Mystical Roots e Manu Bantu. VIII. como Legenda e cantores como Dub Brown. única no mundo. Gerações de músicos e instrumentistas do Maranhão se formaram ouvindo reggae desde crianças. como no sudeste ou mesmo na Bahia (como foi observado in loco por este pesquisador). como Tribo de Jah. Formas de “apropriação corporal”. além de acompanharem os artistas jamaicanos. embora isso não tenha sido ainda pesquisado adequadamente. Ultimamente. 1995). Os donos de radiola costumam ir para a ilha adquirir novos discos. como alguns temiam. como Eric Donaldson e Owen Gray. de Hermano Figueiredo). se especializaram em tocar versões de melôs. Outras bandas. que tem as chamadas radiolas (equipes de som que tocam as músicas mais apreciadas. já tendo praticamente acabado com o estoque de compactos da década de 1970 de estilo roots. os radioleiros estão alugando os serviços de instrumentistas da Jamaica para produzir faixas “exclusivas” e assim poder ofuscar a concorrência. que não foi destruída pelo reggae. mas que não ficou imune à sua capacidade contaminante (como será visto adiante no exemplo dado pela série Música do Brasil). Festivais de música trazem artistas da Jamaica. produzidas na Jamaica ou localmente). Goiânia. é um exemplo da reinvenção praticada nos bailes maranhenses.Leonardo Vidigal menor poder aquisitivo. em apresentações que contam com um público composto por pessoas de todas as idades e não apenas por jovens. os melôs7. ignorados pela maioria do público no resto do país. vol. o mais apreciado pelos maranhenses. 74 Revista Brasileira do Caribe. Os atores sociais maranhenses também modificaram o contexto jamaicano.

questionados e. e também o aparato estatal. Alguns dos produtos audiovisuais analisados As convenções que foram se cristalizando ao redor das mais diversas metáforas inventivas. Conceitos bíblicos como o da “Terra Prometida” e a história do cativeiro dos hebreus na Babilônia foram metaforizados pelo sistema de crenças rastafari. intuito que foi parcialmente atingido./dez. como as gravadoras locais e multinacionais. no caso jamaicano o de correntes protestantes como a batista. único rastafari de “The harder they come”.Enredando Brasil/Jamaica. são apresentadas e congeladas nos filmes “The harder they come” e “Rockers”. apenas a consomem. diretamente ou indiretamente. concebidas primeiramente no contexto jamaicano. Eles viriam a servir como referência para a formação de novos produtos audiovisuais por realizadores em todo o mundo acerca do reggae e o rastafarianismo. 75 jul. o que foi tornado visível e legível a todos pelo amálgama audiovisual. atualizando a percepção do que era vivido pela população de origem africana no Novo Mundo. reinventados. Por exemplo. Já em “Rockers”. Alguns desses filmes serão mais bem analisados a seguir.. Tais filmes também foram financiados por intermediários culturais. se limita a apoiar Ivan sem tomar a iniciativa de nenhum movimento mais conseqüente. religioso e político do rastafarianismo é preparado em “The harder they come” (que critica violentamente a hipocrisia da religião tradicional. apresentado como financiador e beneficiário do crime organizado) e explicitado em “Rockers” (com seus personagens defendendo claramente os preceitos rastafari).. Por ter sido o primeiro longa-metragem produzido na Jamaica. facilitando a ascensão de uma nova geração do reggae. Pedro. nos produtos audiovisuais subseqüentes realizados naquele contexto. Esse amálgama entre o discurso ético. para inventar uma dada concepção do que se passava musicalmente na Jamaica naquela época. assim. “The harder they come” apresenta temas e personagens que foram desenvolvidos. os rastas apresentam um papel muito mais ativo na condução da trama e não comercializam a erva. 2007 . além de fazer parte do comércio de ganja (maconha).

Ao grupo 1 pertencem as obras do documentarista Belisário França. associando-o aos tambores afros logo na primeira cena. VIII. principalmente pela forma como apresenta o discurso rastafari. Os programas realizados no Brasil dividem-se basicamente em dois grupos: 1) os que foram realizados tendo como tema os agentes e elementos apropriadores do universo do reggae no Brasil. em seqüências como as que mostram as gravações em um estúdio e a posterior volta de bicicleta do protagonista para distribuir seus discos. e enfatiza a forma como os casais dançam aos pares. que jamais voltaria a fazer outro filme) e sua solução pela via da ação coletiva e solidária. Em outro episódio. tido como o primeiro a tocar o gênero regularmente. dedicado inteiramente 76 Revista Brasileira do Caribe. elementos e abordagens desse filme pode ser sentida primeiramente em “Rockers”. Quando tematiza o reggae (em um episódio que ainda trata do rap paulista e do funk carioca). Goiânia. vol. privilegiando situações de apropriação. entrevista Riba Macedo. Leroy “Horsemouth” Wallace. “Rockers” também aparece como uma citação freqüente em outras unidades audiovisuais. Ela trata do contexto maranhense em dois episódios. que ecoam claramente no filme “The harder they come”. que trabalhou em conjunto com o antropólogo Hermano Vianna na realização da série “Música do Brasil” (2001). pode ser vista como uma resposta ao individualismo e ao caminho do crime escolhido por Ivan em “The harder they come” (mesmo que este tenha sido quase justificado por um impulso revolucionário). particularmente no Maranhão e 2) os que pretendem documentar alguns dos elementos contaminantes encontrados na Jamaica. em conjunto com outros rastas. sons. fazendo inclusive que Macedo explique as origens de tal movimento (ele teria primeiramente substituído o bolero como “música lenta” na sua radiola e ao longo do tempo ele foi sendo adotado pelos bailantes como gênero principal). A apresentação dos problemas enfrentados pelo rastafari que protagoniza “Rockers” (na realidade um baterista reconhecido no meio reggae. na qual os créditos iniciais são projetados sobre um grupo de percussionistas nyabinghi8.Leonardo Vidigal A movimentação de figuras. n° 15 .

2007 . na primeira intervenção do personagem/apresentador. entre muitas outras manifestações pelo país afora. emblema do vídeo independente no Brasil vivido pelo diretor Marcelo Tas. que se apropria do reggae tanto na batida da toada quanto nas letras. Possui a singularidade de ser apresentado por um personagem fictício. São Luís estaria agora sendo “ocupada por jamaicanos”. programa de Éder Santos e Marcelo Tas. ao bumba-meu-boi. de um lado. é uma série dos primórdios da MTV brasileira. o repórter Ernesto Varela. apenas alguns aspectos do reggae como foi apropriado no Maranhão.Enredando Brasil/Jamaica. Tas e Santos vão montando com “Netos do Amaral” um painel que não parece ter a intenção de explicar ou de compreender aquele fenômeno e sim de apresentar uma reinvenção que enfatiza o lado caótico e exótico do que encontram. Bob Marley. além de enfeitar o boi com um bordado que representa. o que já fica claro na denominação do programa. apesar de não mostrar nenhum ao longo do programa. e. O programa apresenta seus personagens por meio de diálogos que apresentam frases como “o reggae fez a cabeça do mundo todo” ou pela fala de estudiosos como o jornalista Otávio Rodrigues. disfarçada de jornalismo. “Netos do Amaral”. O principal objetivo nesse caso é parodiar e explicitar as táticas empregadas pelos programas de reportagem da TV convencional. até então praticamente inéditos na TV brasileira. que também traz uma edição sobre o Maranhão. durante o ciclo militar. situada a duas horas de S. dá destaque a um grupo da cidade de Rosário. Seguindo esta rota. Jesus Cristo./dez. do outro. Mais uma vez a dança ganha 77 jul. invadida por holandeses e colonizada por portugueses”. este afirma que. depois de ter sido “fundada por franceses. Tais manifestações são muitas vezes sublinhadas com legendas de grande proporção e com esse e outros elaborados recursos gráficos. que acreditava ser o Maranhão “uma Jamaica congelada nos anos 60”.. o Repórter”.. Tais atualizações. expoente da propaganda do “milagre brasileiro”. mais recentes. Luís. A série adota uma abordagem panorâmica. podem ser confrontadas com outras datadas do início dos anos 1990. recortando. menção ao antigo “Amaral Neto.

A edição procura mostrar algumas situações de risco em que o público maranhense se envolve. pois este último retoma alguns personagens apresentados antes no “Documento Especial”. Lá. expressão repetida por Tas quando conversou com o mesmo personagem.Leonardo Vidigal destaque. O programa também destaca as radiolas. que precedeu o dedicado ao Maranhão no mesmo programa. enquanto mostra o seu baú com mais de dois mil discos “trancado a sete chaves”. o radialista e cantor Fauzi Beydoun (que em “Netos do Amaral” aparece apenas como locutor de rádio) e o dono de radiola Serralheiro (falecido recentemente). mostrada como uma mera emulação do universo country americano em outro bloco. que foi veiculada na TV Manchete (e. no SBT) com a direção-geral de Nelson Hoineff. Serralheiro foi entrevistado de forma algo jocosa por Marcelo Tas em “Netos do Amaral”. leva jovens jogadores maranhenses para a Europa e traz discos). mais tarde. como o intermediário Enéas Motoca (que. devido à posição marginalizada ocupada pelo reggae. quando o narrador Gilberto Gil anuncia o boi da cidade de Rosário como sendo “sotaque de orquestra”. com Varela confrontando a “maneira jamaicana” (expressão ressaltada com as legendas características) de se movimentar ao som da música (individualmente) e a “maneira brasileira” (aos pares). Também é possível identificar um percurso intertextual entre este programa e o mais recente “Música do Brasil”. n° 15 . Goiânia. conta ele de modo ligeiramente diferente nos dois programas. esclarecendo que nele são usados 78 Revista Brasileira do Caribe. o radioleiro declara humildemente que não se mudou de sua antiga moradia porque queria “acompanhar o ritmo da Jamaica. VIII. apresenta o assunto de forma mais crua. O fato de ter sido produzido apenas um ano antes de “Netos do Amaral” permite realizar algumas comparações específicas. sendo acompanhado até sua casa miserável pela equipe de “Documento Especial”. apresentando um retrato visivelmente mais simpático do que o da cidade de Barretos. A premiada série “Documento Especial: Televisão Verdade”. vol. lá todos os cantores moram numas casas pobrezinhas assim”.

É uma reportagem televisiva tradicional. mas precisam gravar fora do país”. instrumentos de sopro. onde Bob Marley viveu por alguns anos. 79 jul. veiculada no final de 1992 na Rede Bandeirantes. a imagem dos dançarinos também desacelera. A narradora explica a dificuldade em encontrar músicos “de raiz”: “muitos dos melhores artistas ainda vêm do gueto.Enredando Brasil/Jamaica. Tal passagem evoca a do Documento Especial em que o percussionista e baterista Paulinho Akomabu faz uma demonstração dos diversos “sotaques” (batidas. Quando a narradora explica que houve uma desaceleração no andamento musical. banjo. fora os comerciais) e pela variedade de temas abordados. uma produção de Ronaldo German e Ricardo Porto. De um modo geral. comparando-as com as batidas do reggae (assim como seu colega da banda Guetos Tadeu de Obatalá fez com a boca para “Netos do Amaral”). Ao grupo 2 pertence “Jamaica. originando o chamado rocksteady (uma espécie de proto-reggae). apresentando cenas raras de quarenta anos atrás. entre outros. em um interessante efeito sinestésico. ou riddims. A dança também ganha destaque quando o programa aborda o ska. o paraíso do reggae”./dez. que. “Documento Especial “é o programa que permite o afloramento das opiniões mais diversificadas sobre o assunto. não se limitando a apenas uma linha de interpretação”. pela longa duração (60 minutos. É visível o esforço de encontrar músicos que ainda pratiquem o chamado reggae roots. 2007 . que reveza depoimentos de artistas e jornalistas da Jamaica com cenas de rua e videoclips de reggae. o que é finalmente logrado na favela de Trenchtown. Os cantores também atestam a falta de condições de trabalho em seus depoimentos: “temos que ter um estúdio em Trenchtown”.. oferece uma ótima amostra sobre o que seria considerado relevante na cultura praticada na Jamaica por aquela equipe de realização.. para usar a terminologia jamaicana) do bumbameu-boi. o programa é pautado pelo imaginário sobre o reggae construído também pelos filmes dos anos 1970 analisados na pesquisa.

traz nessa mediação por um artista reconhecidamente ligado ao reggae roots (pois havia gravado nos anos 1980 a canção “Vamos Fugir” com a banda de Bob Marley) um viés de estranhamento. quando o dancehall é apresentado como a “tradição dos sistemas de som dos anos 50 remodelado por recursos eletrônicos.Leonardo Vidigal “Jamaica. segundo a narração. Um transeunte com longos “dreads” menciona querer trabalhar por um “governo rasta”. O excesso de efeitos de edição produz um efeito de “consciência do dispositivo” que ao mesmo tempo dificulta o entendimento do texto e promove certo nível de reflexividade. o paraíso do reggae” é o único dos programas produzidos no Brasil a mostrar a comunidade quilombola dos maroons. mas o rastafarianismo não é um movimento político. garantindo que o “o que os rastas fazem é político. O depoimento de um bobo dread que fala em “varrer o colonialismo e imperialismo” é contraposto ao da Ministra da Cultura da Jamaica. com uma temática social e sexual”. vol. associando-a com Marcus Garvey e também as “imagens proibidas” das comunidades rastafaris mais radicais. “os brancos são considerados inferiores”. mas é facilmente identificada pelos característicos turbantes cilíndricos). o que é confrontado com o produtor Stafford Ashanti. como os bobo dreads (que não foi chamada por este nome. Goiânia. VIII. ecoando o formalismo dinâmico do pioneiro “Netos do Amaral”. nas quais. mas espiritual”. n° 15 . O uso da maconha é contextualizado. com a narração vaticinando que “a erva faz parte da cultura e da economia”. Outro representante desse grupo é “Baila Caribe: Jamaica”. O discurso por ele proferido. o qual é parte de uma série realizada por Belisário França que aborda o universo da música caribenha por intermédio de depoimentos literalmente recortados e colados no fundo paradisíaco. O tema da dança volta a aparecer no final do programa. afirmando brevemente que seu governo “nunca discriminou os rastafaris”. outro que enverga as longas tranças emaranhadas. Narrado pelo onipresente Gilberto Gil. voltado para a louvação 80 Revista Brasileira do Caribe.

como restrições de 81 jul. chamada “Música Libre”. e algumas de suas aplicações possam lançar uma luz diferente sobre os processos de comunicação intercultural. no sentido de estudar os possíveis problemas interpessoais ou institucionais derivados da incompreensão ou falta de informação relativa a características culturais de cunho comportamental. Contribuir para a constituição de uma abordagem relacional sobre tais processos de contaminação e apropriação cultural é talvez o principal objetivo dessa investigação. desta vez exibida no GNT (canal a cabo da Rede Globo). evocando cena semelhante em “Rockers”. outra visão do universo jamaicano. com apresentação e direção de Carolina Sá. que mostrou. A análise dos produtos audiovisuais produzidos no Brasil permite concluir que alguns deles procuram organizar o olhar no sentido de conformar a visão do espectador a certo conjunto de referenciais simbólicos audiovisuais. evocam recurso semelhante usado em “The harder they come”. que se refere na maioria das vezes a uma dimensão mais prática.. Desse modo espera-se que os pressupostos teóricos examinados neste trabalho.Enredando Brasil/Jamaica. o que talvez seja mais condizente com a atmosfera local. Já os travellings pelas ruas de Kingston. 2007 . construídos a partir dos filmes jamaicanos e outras fontes iconográficas. Em um dado momento mostra um pouco do processo de prensagem de um compacto. Com uma duração maior do que o antecessor e com uma abordagem que enfatiza mais o conteúdo do que a forma consegue reinventar o cenário jamaicano de maneira mais relaxada. Outros procuram se desvencilhar de tais modelos e tentam eles mesmos estabeleceremse como referência. Notas 1 O conceito de comunicação intercultural trabalhado neste texto difere do que é normalmente utilizado na literatura disponível./dez. O conceito da série “Baila Caribe” foi emulado nove anos depois em outra série. tem seu sentido deslocado e reinventado. da ascensão do dancehall e para o desvinculamento do reggae da filosofia rastafari.. recorrentes em todos os programas abordados.

culminando na discreta. o país não se classificou para as Copas de 2002 e 2006. A noção de comunicação entre culturas usada neste trabalho. Músicas de sucesso. parte do corpus de análise. No sentido dado por Bakhtin (1987). como a homofobia. O programa Netos do Amaral. denominadas por títulos que evocam apropriações locais das letras em inglês. 3 4 Houve recentemente a chamada retomada dos “valores rastafari”.Leonardo Vidigal contato. VIII. Nas produções jamaicanas tal associação não é explicitada no título. Goiânia. como um questionamento da representação de um produto ou manifestação cultural pela visão hegemônica. por um lado. gênero e outras. No entanto. oferecendo em troca uma miscelânea de ofertas de consumo cultural para aplacar a sede de exotismo. treinada pelo brasileiro Renê Simões na Copa de 1998. será construída ao longo do texto. Bonde do Rastafari. mas também possibilitou uma exposição exagerada de algumas características “fundamentalistas” e altamente questionáveis de alguns seguidores. para usar a expressão de fundo escravista e colonialista que tal conceito visava combater. a vitoriosa campanha brasileira na Copa do Mundo de 1970 popularizou enormemente o futebol no país. apesar de valorizada e celebrada. entre outras (Nair-Venugopal. 5 6 7 82 Revista Brasileira do Caribe. como Jamaica: Paraíso do Reggae. 2003). movimento também conhecido como modern roots. pois. Para Ahmad seria mais um meio de ignorar as diferenças de classe. Um exemplo claro está na área esportiva. particularmente a operada por Homi Bhabha. de cunho relacional. n° 15 . que classifica a cultura em “erudita” e “popular”. 2 Tal direcionamento é quase sempre expresso no título dos audiovisuais estudados que foram produzidas no Brasil. vol. como contou Bob Marley em sua breve visita ao Brasil (em 1980). Algumas das noções de hibridismo. que. ainda mantém as culturas à margem “em seu devido lugar”. tratamento dado a homens e mulheres. o que teve consequências diversas. e a indignação pelas injustiças sociais. de outro (2001). mas altamente valorizada participação da Jamaica. vêm sendo questionadas por erigir um novo estatuto da diferença. como a ascensão de uma nova geração que voltou a assumir o discurso e o visual de tranças da época de Bob Marley. mas invariavelmente ocorre no conteúdo. Baila Caribe. Música Libre.

“Whose Underground? Asian cool and the poverty of hybridity”. regravada em 1993 pelo hoje mega-estrela Shaggy. In: Third Text. “The System of Canzone in Italy today”. O Atlântico Negro. 8 Forma musical praticada na Jamaica baseada no som dos tambores. Mbye (org. 29. 11. NIRANJANA. In: Horizontes Antropológicos. 3-7 GILROY.). 1996. apresenta uma seqüência de casais dançando. Belo Horizonte/Buenos Aires/Mar del Plata/Salvador: Projeto Margens/Márgenes. Surrey: Kala Press. Porto Alegre.. Paul. 2007 . Victoria. Noises in the blood: orality. 1999. In: Third Text. legendados por letras garrafais que passam na metade inferior da tela anunciando: “Essa música é uma das 10 mais escutadas de S.). Durham: Duke University Press. Carolyn. “Kaadalan and the politics of Resignification”. Spring 2001. Vivek. 1992. Surrey: Kala Press. Simon (org. dos Folkes Brothers. 2003 MARSHALL. Franco. World music. p. ano 5. In: FRITH.. de Eric Donaldson. Luís: ‘Better Days are Coming’. 1997. que realizam a marcação feita pela guitarra no reggae roots./dez. ANTELO. gender and the “vulgar” body of Jamaican popular culture. 83 jul. New York: Manchester University. 1995 DHARESHWAR. Bibliografia AHMAD. “Transformações da Sensibilidade Musical Contemporânea”. In: Journal of Art and Ideas. 53-91. In: CHAM. Jean. 2001 KATZ. conhecida como “Melô do Ladrão 3”. José Jorge de Carvalho. Ali Nobil. Mikhail. p. In: Margens/Márgenes. n. Solid Foundation – An oral history of reggae. and social change: papers from the International Association for the Study of Popular Music. Vol. Autumn 1995. Ex-iles: Essays on Caribbean Cinema. 5-26 FABBRI. “Filmmaking in Jamaica: Likkle but Tallawah”. Estética da Criação Verbal. p. Nova York: Bloomsbury. CARVALHO. 1991 FISHER. David. Raul.Enredando Brasil/Jamaica. politics. 2002 BAKHTIN. São Paulo: Editora 34. COOPER. lembrando um pouco o sambareggae. Tejaswini. Trenton: África World Press. “Quantas margens têm uma margem?”. “Editorial– Some Thoughts on ‘Contaminations’”. São Paulo: Martins Fontes. Uma das primeiras canções a se utilizar dessa instrumentação foi Oh Carolina.

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Inspirando-se em conceitos deleuzianos. de modo a destacar. Trata-se de um enfoque produtivo da obra do cineasta brasileiro e de seus diálogos com artistas cubanos Palavras-Chave: Cinema Novo. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo “Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. Brazil/Cuba Resumo O artigo analisa as relações entre o Brasil e o Caribe. 2007 .” Glauber Rocha Abstract This study addresses Glauber Rocha´s performance with the objective of offering insights on some of the aspects of his actions in the 1969s and 1970s. em torno deste atributo. Goiânia. Brasil/Cuba. It particularly focuses on the representations that emerge in his discourse revealing the idea of nomadism. Keywords: New cinema. Glauber Rocha. nuances do seu nomadismo.Migrações de idéias. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. VIII. pois. nas representações que afloram do seu discurso. tendo como objetivo principal. vol. 85-107. n° 15. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 85 Revista Brasileira do Caribe. a análise inclui o cineasta Glauber Rocha na categoria de pensadoresnômades. Glauber Rocha. gravita o argumento norteador desta reflexão.

Shöpke (2004 p. pois. VIII. faço-o não apenas estimulada pela profícua interdiscursividade que. em configuração metonímica. concepto en torno al cual se va a nortear la reflexión de este artículo. nomadismos e pontes imaginárias Neste ensaio enfoco a performance do cineasta Glauber Rocha tendo como objetivo principal. vol. mas ademais. em torno deste atributo. não podemos negar que Deleuze tende a identificá-los pelo fato de ambos devotarem a vida à criação 86 Revista Brasileira do Caribe. Glauber Rocha. nas representações que afloram do seu discurso. igualmente nômades. movida pela convicção de que. El interés está centrado en el destaque de las representaciones que afloran en su discurso. Afinal. Éstas son reveladoras de la idea del nomadismo. Brasil/Cuba Sintonias. Tais sintonias não escaparam ao horizonte nômade de Glauber Rocha e ensejaram diálogos entre “pensadores – artistas”. 172) sublinha: É bom frisar que estamos tomando os termos pensador e artista quase como sinônimos.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Resumen El estudio enfoca la performance del cineasta Glauber Rocha con el objetivo de profundizar en algunos aspectos de sus acciones em los años 60 y 70 del siglo XX . de modo a destacar. gravita o argumento norteador desta reflexão. Com este propósito. Na esteira do pensamento deleuziano. Goiânia. uma nomeação possível para as formações do terceiro mundo. nas “Terras do Sol”. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. a despeito das diferenças que existem entre eles. desde as lidas preliminares as fontes indiciavam. dentre outras formações que redesenham o cenário pós-colonial. Palabras Claves: Cine nuevo. ao selecionar Cuba como referência. nuances do seu nomadismo. Cuba se inscreve como um especial “lugar de sintonias”. n° 15 .

Exemplifica este encontro com a vida. em maio de 1971. neste. 411). Para o filósofo: Se ela também é uma ilusão que nos faz viver. na verdade. especialmente os cubanos. a carta que escreve do exílio. a moral e metafísica). espero que este documento possa ser lido com tranqüilidade pelos companheiros latino-americanos. Todo pensador e artista nômade é necessariamente um criador. em constante movimento de ruptura com modelos préestabelecidos. 87 jul. 1997 p. p. “feiticeira salvadora”. o papel dos cineastas do terceiro mundo. como ocorre em tantas outras. 2007 . o pedido de divulgação do que nomeia como “carta-documento”. o “pensador-artista” nômade recusa a mera recognição e reivindica outro estatuto para as representações que constrói. Muito embora em outro momento e em outro contexto. o cinema novo e. (no sentido mais estrito do termo). se também é uma mentira (tal como a religião. que nos fazem crer na vida a ponto de afirmá-la e amá-la sob todas as circunstâncias. é preciso escolher dentre estas ilusões aquelas que nos fazem mais fortes. E somente a arte pode nos oferecer tal poder. 123). Ao encarecer por mais de uma vez. A carta. 2004. O fio condutor para tal performance convida a pensar na arte como a “feiticeira salvadora” (NIETZSCHE Apud SHÖPKE. como que ungida pelo sopro da arte. Glauber Rocha escreveu: Meu querido Alfredo. Diferentemente do sedentário. ocasião em que metaforiza: “os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. é um sítio discursivo no qual o “pensador-artista” reflete sobre o Brasil. o cinema. influências ou reativações?.. portanto.. a seu colega e amigo cubano Alfredo Guevara./dez. em Santiago do Chile.Migrações de idéias. pois é justamente em seu nomadismo que encontra o vetor que o impulsiona a agir e ousar. a voz de Glauber Rocha parece interagir com o enunciado filosófico acima transcrito.

Aliás. entre as contigências do exílio ou não mais que ditadas por um peculiar e irriquieto temperamento. Ao final. que a escolheu. 41). Em seguida. um nomadismo radical e vital e centenas de cartas escritas de quartos de hotel. Segundo o filho de Glauber Rocha. cujas performances. no item que se segue.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo porque pouco me importa os europeus. VIII. Como se verá. Quando Marx denunciou a escravidão econômica do homem. É interessante observar que a força simbólica da imagem da ponte interpelou também o jovem cineasta Eryk Rocha. a biografia de Glauber Rocha mostra que não apenas o nomadismo das “pontes abstratas” ensejou suas errâncias. selecionadas sob a forma de alguns fragmentos discursivos. Inclusive literalmente. para falar sobre seu celebrado documentário “Rocha que voa”. sua proposta foi a de “criar uma ponte entre o imaginário da época e a atualidade” (F. tomando como contraponto o mesmo atributo de seus colegas cubanos.’( grifos meus). estava pregando uma sociedade onde o homem não existisse em função da economia. em contexto recente. Goiânia. n° 15 . apartamentos provisórios dos amigos. suas muitas ausências do Brasil constituem “um périplo romanesco. no item “Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças”.S. seu tempo e sua obra”. fornecem o suporte empírico para as incursões pretendidas. Por isto os artistas são tão necessários quanto os engenheiros.P 15/07/04). as “pontes” construídas se incumbem de situá-lo no conjunto de expressões culturais que fervilham na cena brasileira nos anos sessenta e setenta. 1997. vol. Espero que seja divulgado em Cine Cubano e em muitas outras publicações. ‘Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. concluindo: Brasil e Cuba em 88 Revista Brasileira do Caribe. Assim. também no presente ensaio valho-me de “pontes imaginárias” para construir articulações cujo conjunto logre evidenciar o nomadismo de Glauber Rocha. produtores ou mulheres” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. p. lanço um olhar sobre as “pontes” estabelecidas entre Glauber Rocha e outros “pensadores-artistas” igualmente nômades. “Glauber Rocha.

influências ou reativações?. Era “a hora e a vez” da chamada arte engajada brasileira. 38). em meio a um cenário sombrio. mas. enfocando um momento da vida brasileira. Conforme anunciado anteriormente. teimosas réstias de luz. a brecha possível para conscientizar. contando com a interlocução de autores que se ocuparam com o recorte temporal aqui considerado e aí se detiveram no viés das artes. seu tempo e sua obra Pertenço a uma geração que elegeu Glauber Rocha como uma espécie de porta-voz das nossas inquietações políticas. p. denunciar e sonhar. estratégias e táticas. atendo ao “chamado da lembrança” e aos meus objetivos. Naqueles já longínquos meados dos sessenta e primórdios dos setenta. jovens universitários ou recém-formados.Migrações de idéias. 89 jul. ou bem por isso. Cuba é tomada como referência metonímica do universo pós-colonial e este. Glauber Rocha. Era a possibilidade de entrever. movimento que mobilizou artistas e receptores. é a força motriz do nomadismo glauberiano. 2007 . mesmo em meio às discordâncias. apesar de tudo. cujas etapas são reconhecidas pela efervescência cultural. ver e rever a obra glauberiana significava para muitos de nós. a própria história do país sinalizou etapas. sintonia rizomática. Neste entendimento. em sua abrangência./dez. Caprichos da memória atualizam no presente “o chamado ao qual a lembrança responde” (BERGSON Apud BOSI. ainda assim. retomo alguns aspectos trabalhados no texto como um todo. cabendo enfatizar ao final destas anotações introdutórias.. Assim. um foro privilegiado.. No amplo leque das manifestações artísticas que povoam os anos sessenta e setenta. ajustadas às condições de resistência política que encontravam na arte. rompeu fronteiras espaciais e fez da cultura. um modo de exorcizar os fantasmas que nos rondavam. como que incansavelmente ali encontrando o referendo para nossas utopias de um mundo melhor. o relato da efetiva estada do nosso cineasta entre os cubanos constitui uma variável secundária. de modo a destacar a argumentação que o presidiu.

ou na entronização do universo sertanejo. ao pescador. aos herdeiros da nossa “democracia racial”. Em suma. com suas especificidades permitiram ao estudioso resumir: “O caráter catequizador antes de 1964 e. que. eram suportes de representações engajadas. 33). As primeiras músicas consideradas de protesto. mesmo o movimento da chamada Bossa Nova. mas mantinham a essência da sofisticação instrumental.1 90 Revista Brasileira do Caribe. Estas etapas. enfim. pautar-se pela tônica da denúncia. fosse nas férteis articulações entre as vozes do morro e as das cidades. responderão pela atração à história. VIII. 2004. p. “Zelão”. elementos identificados com o movimento (NAPOLITANO. passa a fazer coro com a arte engajada. “discursos musicados”. “a catequese” e a conscientização davam o tom ao teatro engajado para. depois da resistência. 341). Goiânia. p. Nessa época os riscos de vida não serão literatura” (NAVAS. transfigura em resistência. ao guri favelado e tantos outros atores anônimos cujo árduo cotidiano. Navas (2001. vol. Entendo que neste mesmo percurso é possível inscrever também a música brasileira do período. depois dessa data. traziam alguns elementos de ruptura com o estilo consagrado por João Gilberto. o talento de artistas e cantores brasileiros. celebrou e deu visibilidade. 2001. E identificadas com o movimento estavam também variantes desta expressão musical engajada. composta e cantada por Sérgio Ricardo e “Quem quiser encontrar o amor” de Geraldo Vandré e Carlos Lyra. isto já nos primeiros anos da década de sessenta. pois. aos homens e mulheres do campo. 341) considera que até o ano de 1964. a partir dali. prisão e exílio. cuja característica principal advém da elaboração harmônica. complexidade harmônica e sutileza vocal. que o emblemático ano de 1968.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Referindo-se ao mundo do teatro. A realidade do teatro. p. aos beatos. eram canções que escancaravam injustiças históricas em relação ao operário. vai ser de violência. n° 15 . o caráter ritualístico.

Tal cenário traz à lembrança os chamados festivais da M. ou nas trilhas dos filmes obteve alguns sucessos no rádio e no mercado discográfico. vitrine privilegiada. o teatro e o cinema. pois as trilhas sonoras dos filmes. Líricas como “A Banda”. influências ou reativações?. no binômio “qualidade-discurso engajado”. Lembrando o festival de música da TV “Excelsior” no ano de 1965.B. em janeiro de 1968. não logravam alcançar o mesmo sucesso comercial. com faturamento assegurado. Somente em algumas ocasiões. p. arranjos. cabia divulgar tais eventos que mobilizavam torcidas e traziam para o palco diversos modos de comunicação musical. por exemplo. além do mais para quê. ritmos.. a apropriação de “discursos cantados” no teatro. pelo menos no caso da música./dez. com harmonias européias e ainda vencer festivais?” Não seria o 91 jul. no conjunto das manifestações culturais da época. assim como ocorrera no filme “Deus e o diabo na Terra do Sol”: “Quem queria ouvir aquilo? E. de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. tais migrações foram menos efetivas. estreou em São Paulo. não estimulavam maiores incursões da indústria cultural. muito embora dialogassem com a música. cujo repertório se assentava. comoventes como “Arrastão”.P. se era possível produzir industrialmente este mesmo folclore. cuja qualidade foi reconhecida por muitos. Aos festivais seguiam-se os lançamentos dos discos. arregimentadoras como “Pra não dizer que não falei das flores”. Foi o que ocorreu. cuja peça teatral de mesmo nome.. a chamada arte engajada. não escapou à voracidade da indústria cultural. no ano de 1964 e “Roda Viva”. À televisão.Migrações de idéias. Castro (1990. de Chico Buarque. pinçada do espetáculo “Opinião”. 2007 . Enquanto isso. com a “Marcha da Quarta feira de Cinzas”. sigla mágica que rotulou um filão da música popular brasileira. instrumentos e. sobretudo letras. quase sempre longas. estas peças musicais guardavam em comum o engajamento com o povo brasileiro2. apresentado no Rio de Janeiro. Já no caso do cinema. É preciso lembrar que. que um público ávido decorava.. 402) reproduz o discurso irônico sobre a perfomance do artista Sérgio Ricardo e sua apropriação dos cantores nordestinos.

o público privilegiado do cinema novo” (NAPOLITANO. VIII.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo caso de retomar a polêmica. projetos. pois a intenção deste item é não mais que desenhar um breve painel3. pois. Eco contrasta as vertentes do enredo e da ação. até porque “a autocrítica desenvolvida pelo cinema tinha um sentido muito mais radical e procurava repensar a difícil situação existencial do jovem intelectual de esquerda.1986 p. Uma resposta breve convidaria a pensar nos mesmos estudantes que compareciam aos festivais. reveladores do seu talento e do seu modo de representação da realidade. não estava na preocupação do cinema novo4. escapando ao consensual. ela mantém a pertinência. um tipo de sucesso alcançado pelas mãos da indústria cultural. são aspectos que pontuam a trajetória de Glauber Rocha e dão suporte ao seu nomadismo5. pretensão que. seja na leitura e releitura dos seus filmes. “a ação de Hamlet fez e fará correr rios de tinta. vol. escapa a estas anotações. entrevistas e um repertório de frases e slogans. festinhas e nos sempre povoados centros acadêmicos. p. tomando Hamlet como exemplo. transbordantes. pois é uma. Mas na verdade. 54). mas não é unívoca” (ECO. seja na pluraridade 92 Revista Brasileira do Caribe. e reterritorialização. Se no primeiro. aliás. aliás. elas se consubstanciaram em filmes. a narrativa “pode ser contada até por um ginasiano” na segunda. Trazendo a imagem para o universo glauberiano. Bem por isso. n° 15 . Goiânia. a plurivocidade das ações abre-se para um sem número de possibilidades interpretativas. correspondências. A importância desse legado “radical” e alguns dos sentidos possíveis da sua movente tônica de desterritorialização. integravam um público consumidor de classe média e expressavam seu agrado conhecendo o repertório das trilhas sonoras. cantadas nas muitas reuniões. 192). assistiam aos filmes. Referindo-se ao universo do teatro. Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças Idéias não faltaram a Glauber Rocha. 2004. manifestos.

desde as primeiras incursões dedicadas à elaboração deste ensaio. quase sempre. pondera sobre a audácia de um pensamento que. partilhando “uma deriva. a suspensão máxima imposta pela morte.. para meus objetivos. de publicações centradas na obra de Glauber Rocha. um momento de deriva ou de desterritorialização” (DELEUZE Apud SHÖPKE. tertúlias. será suficiente reter alguns pontos do movimento liderado pelo cineasta brasileiro que. tomou o poder cinematográfico no Brazyl em 1962 (independente dos fluxos paralelos) fundando novas fronteyras criativas e comerciais em terras de Oropa. para entendermos. suas ações e seu legado ainda hoje interpelam a muitos. tinha como tripulantes um grupo de jovens cineastas que escolheu a cidade do Rio de Janeiro. claro. como espaços de suas “derivas”. Percebo que a chama viva da polêmica. p./dez. para uma espécie de “crítica da crítica” ou. p.S. aos cuidados dos especialistas. no ano 1980 afirmou. desdobra-se da retomada das críticas coevas aos filmes. já ao final dos anos cinqüenta. música. e América Latyna” (GLAUBER ROCHA Apud GOMES. interessada desde os tempos de estudante pelos filmes e pela trajetória de Glauber Rocha. U. influências ou reativações?. impressionaram-me os “rios de tinta” que me chegaram. 170). política. com a ortografia que se permitira cunhar: “o movimento do Kynema novo. capitaneadas por Glauber Rocha. começando a atuar desde 1959. Uma trajetória marcada por turbulências e inquietações é apanágio do “artista-nômade”. ao alastrar-se. Deixo o inventário compromissado com os rigores cronológicos. Áfryca. materializadas em acalorados debates sobre teatro. pois. 93 jul. 2004. 175).Migrações de idéias. mas especificamente alguns bares do Rio de Janeiro. 1997. cinema. é preciso que estejamos no mesmo barco. sobre tudo aos estudiosos da Sétima Arte. Ázya.. para a “celebração da celebração”. cuja obra logra transcender até mesmo. 2007 . na esteira do pensamento nietzschiano.A. Deleuze. O “barco” dos precursores do chamado cinema novo. literatura e. Não mais que “louca por cinema” e conforme anteriormente mencionado.

Prima della Rivoluzione e ‘Terra em Transe tinham sido os filmes que mais influenciaram o movimento de maio de 1968’. Afinal. jamais por ele próprio negado. Sobre “Terra em Transe”. sequer nos momentos em que Glauber se consagrou como gênio em algumas hostes. no caso de Glauber Rocha. p. 407) (grifos meus). não contou com a mesma receptividade. n° 15 . Se. trata-se de “um ideograma chinês de cabeça para baixo”. VIII. a unanimidade para além de “burra”. bastante persuasivo quanto à troca de sinais acima referida. “toda unanimidade é burra”. Na verdade. 94 Revista Brasileira do Caribe. a revista direitista Fatos e Fotos publicou a notícia em tom de denúncia política” (GLAUBER Apud BENTES. em blague hoje tão conhecida no Brasil. conforme ironizou o jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. vol. se pode falar em unanimidade. esta nova performance cinematográfica do terceiro mundo. Goiânia. o dramaturgo resumiu. o rotularam de “confuso” e nisto. de resto. ao ensejo do cinema novo. um irônico e conciso sujeito-suporte. o cinema novo entra em declínio na segunda metade dos anos setenta. Nossa historicamente construída condição de receptores de idéias. No Brasil. seria impossível. conheceu episódicas trocas de sinais. que encontrou em Nelson Rodrigues. se “Deus e o diabo na terra do sol” foi aplaudido quase unanimemente no ano de 1964. entre avanços e recuos e em meio a uma conjuntura política adversa. 1997. Se não vejamos: “Quando os estudantes da Sorbonne apresentavam uma tese demonstrando que Weekend. construíram discursos parafrásticos em relação à crítica de direita. Da mesma carta-documento enviada ao cineasta cubano Alfredo Guevara e já citada em páginas anteriores. Setores de esquerda criticaram o filme por sua liberdade narrativa. destaco outro fragmento discursivo. a repercussão de “Terra em Transe”. no que possa parecer um exagero. quanto são reconhecidos seu talento e seu conservadorismo. não obstante as tantas resistências que pontuam o cenário pós-colonial.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo De fato. não apenas comercialmente transpunha fronteira. pelo menos por ocasião do seu lançamento em 1967.

influências ou reativações?. problematiza a realidade.. Eldorado simplesmente era o Brasil injusto. para escapar ao assédio da ditadura./dez. 184). ao lado de certa intencionalidade. dominado pelo latifúndio e pelos interesses das classes privilegiadas. para confundir a violência do poder. sob a alegação de subversão e cunho ofensivo à igreja católica. a reiterar que a obra como um todo. 445).P. pois. desenvolve análise e crítica dignas de transcrição. posto que pautadas na busca de sentidos e representações de “Terra em Transe”: Era uma interpretação brilhante e de grande beleza literária. O filme “Terra em Transe” durante abril de 1967 foi proibido em todo o território nacional. Pensar na análise desses discursos nas vertentes do discurso do emissor (Glauber Rocha) e nos dos receptores (a crítica). 1997. seria necessário pensar nas condições do momento em que o filme foi produzido.Migrações de idéias. sendo liberado no início de maio. p. ao se descolar da confortável reprodução mimética. Limito-me. E não poderia ser de outra forma. não escaparam aos olhos e ouvidos atentos da ditatura. evidenciada no “discurso confuso”. promovendo “uma reordenação e não uma submissão visual. Cabe lembrar que a exibição em São Paulo organizada pelo T. mas que se ocultava nos jogos do pensamento. ANDRÉ Apud GOMES. p. Gomes (1997.U. Prosseguir rastreando a exuberante filmografia de Glauber Rocha seria extrapolar os limites disponibilizados para estas reflexões. Glauber também precisara dissimular a denúncia com os ardis formais de uma linguagem extremamente elaborada. Ocorre que os equipamentos retóricos que não ficaram claros a muitos críticos. 95 jul. 2007 . não contente com a abundância informacional com que brinda seus leitores. portanto. que conseguiu captar seus sentidos.S. (teatro universitário) recebeu aplausos ao longo da sessão. os poetas e os artistas aprenderam a dizer verdades duras sob o manto da forma requintada.. uma forma inclusive de fraturar o real com intenções artísticas” (BAZIN. apesar dos ardis de linguagem. a quem venho recorrendo para a construção deste item. guarda em comum a característica de uma linguagem cinematográfica inovadora que. que provocou perplexidade. Sobretudo desde o barroco.

Sequer seria o caso de estabelecer comparações entre iniciativas e posturas. sintonizados com a arte e com a “Ilha”. as “intenções artísticas” do pensador e cineasta.C.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo nômades. nas trilhas do cinema cubano e do cinema novo brasileiro (GOMES. É neste afã de conhecer e de re-conhecer que Glauber Rocha reconhece a porosidade das fronteiras territoriais que. Lá estava o Instituto Cubano de Artes Cinematográficas. para o nômade. p. recorte que desdobra das perguntas que faço ao tema. que floresceu nos anos sessenta e estruturou-se como movimento. Ademais de sua estada. o que este suporte enseja é a reflexão sobre as sintonias de uma experiência nômade e desterritorializada. 1997. diferentemente sedentário. não conseguem apagar sintonias na diversidade do cenário pós-colonial. pautadas no viés dos rigores cronológicos. Goiânia. publicações ou filmes. atos de criação e não de recognição (SHÖPKE. 184). VIII. Neste reconhecimento. muito embora as articulações tenham sido muitas. sem dúvida um importante ponto de inflexão na trajetória de Glauber Rocha. ocupados com primazia das datas de veiculações de projetos. independentemente da precedência das ações. Se. 96 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . o I. cineastas e intelectuais cubanos. centro em torno do qual se mobilizavam artistas.A. Para os objetivos deste artigo e em consonância com os referenciais adotados. tanto conhecer como re-conhecer.I. este conjunto deve ser destacado. uma correspondência intensa atesta as afinidades entre Glauber Rocha. Glauber Rocha reconhecia o cinema latinoamericano. Não por acaso. vol. desterritorializando-se e reterritorializando-se. sempre se inscrevem no gesto criador. 256). intelectuais e cineastas. Cuba significou.C. já que. são. e tripulantes do mesmo “barco”. também estes ungidos pela arte“feiticeira salvadora”. 2004. p. considero importante ressaltar que a sintonia observada entre as práticas e representações de Glauber Rocha e as dos cineastas cubanos. como exemplo empírico. algumas das respostas. onde o diverso e uno se imbricam. não poderiam ser buscadas na perspectiva da mera “influência”.

Heráclito. Deleuze (1988. sem que por isto. influências ou reativações?. é provocar no pensamento forças que não são as das recognição”. o mesmo ocorre com os praticamente intermináveis diálogos nos quais Nietzsche comparece cumprindo a função do “discurso de outrem”. ora questionada. Antes cabe falar em reativação de representações e ações. justamente. enleada pela noção de diferença e que faz do reconhecimento.Migrações de idéias. inspirando-se em Nietzsche. tais sejam. esta complexa grade de idéias. Saltando no tempo. Inspiradora. agrega ou entrelaça às suas reflexões. Aristóteles. Refiro-me aqui. uma postura que se aparta da mera recognição. 48-66) ao conceito de “diferença” em Platão. para ficarmos apenas com alguns dos interlocutores. conforme venho enfatizando. pela provocação. Deleuze por exemplo. matrizes de sentido que integram pensamentos./dez. expressão adotada por Deleuze ao lado das noções de “maquinação” e “reativação” que não incluem a idéia de 97 jul. então. para. Seria um esforço improfícuo. p. elementos que remontam ao mundo grego. posto que falo em sintonias. 2007 . destaca-se. sobre a força do pensamento. em grandes enunciações. portanto. intencionalmente invocado. de uma “constelação de agenciamentos”. a partir daí. Glauber Rocha e os cineastas cubanos. cujo nomadismo terá por certo lhe ensejado a reativação do conceito de diferença.. isto é a diferença. Ora o arquivo constituído pelas obras e ações dos “pensadores-artistas” aqui referidos.. pois o próprio do novo. Em dado momento. articulá-lo às pontes estabelecidas com os cubanos. A opção por tematizar as repercussões de perfis nômades no cenário pós-colonial sugeriu a construção de um texto centrado em Glauber Rocha. 205) reflete: “O que se estabelece no novo não precisamente o novo. matiza o pensamento deleuziano. vale insistir tomar para tanto o rumo das “influências”. se constituam como decalques. porém ele lhe infunde o seu tom. Trata-se. ora reelaborada. em modos de ver de sujeitos. presentes. ora desdobrada em complexas ramificações. p. pela inovação. Parmênides. assim como o faz Shöpke (2004.

Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo

“influência”, para o filósofo, um termo fraco e inapropriado para designar a circulação de idéias que anima os pensadores nômades (SHÖPKE, 2004, p.201). No caso da comunidade cubana e, na impossibilidade de todos mencionar e, mais que isto, comentar as respectivas ações, limitome a destacar algumas evidências empíricas, articulando-as a alguns nomes e propostas. Por exemplo, o “Tercer Cine” de Fernando Solanas assim como Júlio Garcia Espinosa, com seu “Cine Imperfecto”, desenvolveram ações que estão, para a renovação do cinema latino-americano, em sublinhada sintonia com a performance de Glauber Rocha, com o seu cinema novo. Seleciono em Espinosa (1996, p. 125) importantes reflexões sobre as motivações primeiras do “Nuevo Cine Latinoamericano” e as reativações promovidas pelo neo-realismo italiano, no caso, “ponte abstrata” das suas incursões preliminares:
Un primer puente fue el neorealismo italiano. El Nuevo Cine Latinoamericano daba sus primeros pasos cargados de una indiscutible autenticidad. No fueron actitudes miméticas las que nos motivaron. El neorealismo no era un estilo a copiar, era una actitud ante el cine que había de cambiar y ante la vida que había que transformar. Nada podía atizar mejor nuestras esperanzas y nuestras ilusiones. La relación resultó tan fecunda y consecuente que sus huellas vivirán siempre en cualquier obra del cine latinoamericano. No obstante, ya avanzados los años sesenta, la realidad de nuestros países poco tenía que ver con la de la postguerra italiana. En nuestras vidas el espíritu cambio crecía, se aceleraba y se materializaba en acciones de lucha concreta. ‘La identidad se buscaba rompiendo con la máscara de identidad que se nos ofrecía. Y nosotros, cineastas nos identificábamos buscando una identidad que sabíamos única y, a la vez, múltiple y diversa’. (grifos meus). 6

Encontro justificativa para tão longa transcrição por entender que, refraseada ou recortada em pequenos fragmentos, a seqüência

98 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

Migrações de idéias, influências ou reativações?...

assim obtida privaria o leitor de acompanhar o informacional e as argumentações do cineasta Espinosa, cuja clareza me libera de retomar os propósitos de um grupo, e as reativações face ao neorealismo italiano observo ademais, que a metáfora da “ponte” parece resultar de uma acordo tácito entre estes nômades. A Alfredo Guevara coube o estabelecimento da “ponte” inicial entre a arte cinematográfica brasileira e a cubana. Em cartaresposta a Glauber Rocha escrita em 4 de fevereiro de 1961, o cineasta cubano agradece pelo envio de fotografias do filme “Barravento” e também pelos interessantes artigos recebidos. Por sua parte, comunica o envio de fotografias e revistas, informando a disposição da Revista del Cine Cubano e da cinemateca de Cuba de enviar todas as publicações e notícias sobre o cinema cubano. No aguardo da exibição de “Barravento” em Cuba, Alfredo Guevara argumenta, na mesma carta: “Sabemos hasta qué punto tienen contacto nuestras realidades y culturas, cuán cercano, mucho más de lo que uno y otro saben – están nuestros pueblos, y como en la psicología, las costumbres, los problemas, los sueños, la música y el arte se encuentra una común raíz” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES, 1997, p. 36)7. Estas sintonias, estas “raízes comuns”, desde sempre percebidas por Glauber Rocha, se explicitam por ocasião do exílio, ao ensejo da experiência cotidiana. Nas representações de Glauber Rocha, África e Cuba significavam “duas Bahias”. É preciso reter, entretanto, que esta identificação que se patenteia na socialidade do dia-a-dia, ao longo do processo, passou por impasses. Em Cuba, Glauber Rocha viveu entre os anos de 1971 e 1972 e, na feliz expressão de Bentes (1997, p. 49), a Ilha foi para ele “uma espécie de laboratório político”. Neste aspecto, seu entusiasmo inicial experimentou frustrações e desencantamento. O ideal era o mesmo, assim como eram as mesmas, as sintonias promovidas pelas sempre lembradas “raízes”, os amigos eram muitos, mas, a cotidianidade da ambiência política, acabou por assustá-lo. “Admitia que permanecendo em

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Cuba oficializava seu rompimento com o Brasil e, isto é o que ele menos desejava. (GOMES, 1997, p. 163). Por outro lado, houve ruídos ao final de sua estada, provocados pelos questionamentos quanto à retirada dos créditos cubanos ao filme “História do Brasil”. Tais ruídos, porém, não foram maiores que o apreço cultivado entre os “hermanos” cubanos. Por ocasião da morte de Glauber, o amigo primeiro, Alfredo Guevara, homenageou-o com uma edição da revista Cine Cubano, com foto de capa e inclusão de algumas cartas (GOMES, 1997, p. 263 e 264). Nelas, como venho destacando, evidenciam-se os atributos nômades destes “pensadores-artistas”. Sintonias quanto às práticas e representações como as que venho, aqui e acolá, garimpando neste item, pela impossibilidade de detalhá-las neste espaço, foram também percebidas por Villaça (2004) em estudo igualmente centrado em Glauber Rocha8. A autora observa a repercussão da obra glauberiana em Cuba, na segunda metade da década de 60. De fato, “Terra em Transe” (1967) e “Memórias del subdesarrollo” (1968), do cineasta cubano Tomás Gutierréz Alea, guardam em comum vários elementos. Por exemplo, a construção das tramas em torno de personagens interpelados por crises existenciais e identitárias, os monólogos, as trilhas sonoras inovadoras e uma linguagem aberta que dista dos convencionalismos lineares. “Pensador-artista”, assim como foi Glauber Rocha, Alea discorre sobre seu fazer, em um conjunto de entrevistas publicadas no ano de 1989. Chamou minha atenção à imagem por ele adotada para refletir sobre a responsabilidade do cineasta que, ao mesmo tempo, deve preocupar-se com o plano ideológico e o estético.
Jamás he pensado que estoy libre de esa responsabilidad, vivo en una sociedad con la que quiero tener una relación productiva. Al mismo tiempo no puedo olvidar que lo que estoy haciendo es un producto muy particular. ‘No soy un ingeniero, un constructor de puentes, un economista. Soy un cineasta. Lo que hago es fundamentalmente un producto

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estético que cumple una función social’ (ALEA Apud OROZ 1989 p. 19)9 (grifos meus).

A julgar, pelo que veio, insistindo desde o ínicio, Glauber Rocha, sintonizado lhe devolveria a reflexão completando-a, pois o ‘pensador-artista’ é “engenheiro de uma ponte abstrata”. Ao construí-la, estes nômades guiadas pelas mãos da ‘feiticeira- salvadora’, se re-conhecem na mesma missão para a qual dedicam suas vidas. Bem por isso, o já lembrado Espinosa, mais uma vez participa do diálogo lembrando que: “... el arte, como la vida, está siempre en una búsqueda permanente de su identidad. De ahí su importancia y su grandeza. El arte, en este caso el cine, que dé por concluida la búsqueda de su identidad, es un cine” (ESPINOSA: 1996, 123) 10 . Esta busca de identidade e este compromisso com a vida, com a arte e com a estética, não poderiam ser procurados em linguagens cinematográficas alhures, pois, ainda que tecnicamente perfeitas, a estas faltaria a sintonia com a arte compromissada. Assim, no mesmo barco desterritorializado, os ‘pensadoresnômades’ reuniram os seus esforços em torno do melhor do seu fazer, já que: “não é um filme, mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim ao público, a consciência da sua própria existência”, conforme lembra Glauber Rocha nas palavras finais da sua Estética da Fome (GLAUBER ROCHA Apud GOMES, 1997, p.599). Prosseguir garimpando sintonias, entre os cineastas das ‘terras do sol’, seria lembrar muitos outros nomes de tripulantes do mesmo barco, já para não falar da curiosidade com que me peguei, ao saber que não apenas homens, o integravam. Nele estava, por exemplo, a documentarista Sara Gomes, cuja trajetória chamou a atenção do jovem cineasta Eryck Rocha (F.S.P. 15/07/04). Em Eryk encontro também, subsídios que corroboram o argumento norteador deste ensaio. Entrevistado pelo suplemento Domingo, do jornal peruano La Republica, em 4 de agosto de 2002, ele avalia: “Meu pai foi um nômade pós-moderno em plena

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década de 60. Imaginas? Adiantou-se à sua época, tinha um pensamento vanguardista e lutou por uma ideologia, autenticamente latino–americana. Muitas das coisas que defendia à época são vigentes agora. Creio que sua obra é um baú muito grande, que dia-a-dia, deveria ser redescoberta, reinterpretada”11. Neste nomadismo, a passagem de Glauber Rocha pela ‘ Ilha’ constitui, ao mesmo tempo, um porto seguro e uma ‘revolução dentro da revolução’, pois, “no auge das suas inquietações estéticas e políticas, o cineasta baiano filmou, agitou e polemizou como nunca em Cuba” (F.S.P. 15/07/04). Afinal, é atributo dos desterritorializados, este ‘sentir-se em casa’. De Havana, Glauber escreve para o cineasta Cacá Diegues: “estou em Recife muito feliz, estou na Bahia muito feliz, e todo caminho dá no mar [...] Soy feliz y tengo saudades” (GLAUBER
ROCHA Apud GOMES , 1997, p.432).

Bem sem vê, pelo fragmento discursivo acima, o que significou o cotidiano em Cuba, nas representações de Glauber Rocha. Especular sobre as condições de significação de tal sintonia, convida ao diálogo com pensadores cuja concepção do identitário se assenta no lugar de confluência do múltiplo aberto ao diverso e ao movente, onde o ‘reinado do ser é substituído pelo sendo’ (GLISSANT Apud BERND, 2004, p . 104 ). Algumas reflexões que desdobram deste modo de ver, aparecem a seguir, no próximo e último item.

Concluindo: Brasil e Cuba, em sintonia rizomática
Conforme lembra a acima citada Bernd (2004, p.101), os enfoques de Glissant e Chamoiseau quanto às questões identitárias, dialogam com as idéias de Deleuze e Guattari, pensadores que, como se viu, foram lembrados ao longo do presente texto. Glissant e Chamoiseau 12 se opõem aos integrismos e fundamentalismos dos discursos convencionais, quando a questão

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p. Ora. que. é possível se encontrar as raízes mais secretas do mistério dos homens e das sociedades que constroem e destroem: as suas mitologias. que só na viagem e através dela. bem como o fazem os ‘pensadores-nômades’. Em outro contexto e com outra conotação. O termo ‘rizoma’ foi tomado por empréstimo à Botânica.” (LOPES Apud GLAUBER ROCHA. sugeridos por ele e por Deleuze: Os diagramas arborescentes procedem por hierarquias sucessivas. Desta percepção partilha o historiador e poeta: Suprimir diferenças entre o passado. Os sistemas em rizoma ou ‘ em treliça’.]. p. influências ou reativações?. construir e destruir mitologias é viagem incessante. secundarizando as construções das fronteiras espaciais e sua importância. sem que se possa. Elas ressoam rizomaticamente dos ‘caules subterrâneos de plantas flexíveis’ cujas raízes multi-seculares se plantaram no solo fecundo dos territórios pós. presente e futuro 103 jul.coloniais. e dos cineastas cubanos sintonizados quanto às representações que construíram sobre o papel da arte cinematográfica para os povos do Terceiro Mundo. 2007 . ao contrário. Glauber é este cineasta [. Dir-se-ia. é a identidade. no qual as temporalidades.. é noção que remete à idéia de raízes múltiplas e abrangentes. ROLNIK. mas sugerindo entrelaçamentos. 1983.Migrações de idéias. centrá-los ou cercálos. 322 )./dez. Guattari explica a adoção dos termos ‘rizoma’ e ‘rizomático’. 1996.. onde ele define os sistemas de caules subterrâneos de plantas flexíveis que dão brotos e raízes adventícias em sua parte inferior (GUATTARI. se reterritorializam. Nestas ‘conexões transversais’ encontro os suportes do nomadismo de Glauber Rocha. se entrecruzam e os territórios se desterritorializam. João Lopes reflete: “se há cineasta a que convenha a designação de nômade. a partir de um ponto central em relação ao qual remonta cada elemento local. para ambos. 246).. estabelecer conexões transversais.. transe histórico. podem derivar infinitamente.

este breve ensaio se junta como gota atraída pelas sintonias de alguém que pertence a uma geração que desde logo aprendeu a admirar Glauber Rocha. Vinícius de Morais. Goiânia. o fragmento acima sugere conexões e pontes com a trajetória de Glauber Rocha. Polêmica. dentre outros. seu nomadismo. Caetano Veloso. pp 432 – 433 ) “ele gostava não apenas de música clássica – Villa-Lobos. quanto na subseqüência da ação dramática e seu eco musical” 3 104 Revista Brasileira do Caribe. João do Vale. ‘rios de tinta’. tendo sido um pesquisador das fontes nordestinas da música interiorana. Geraldo Vandré. Carlos Lyra. Chico Buarque. mas sempre sintonizada com os que com ele partilharam e partilham ainda o mesmo barco. Edu Lobo e Geraldo Vandré. na polissemia de que se reveste tal expressão e sua palavra.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo È uma forma de viajar: Saio de meu próprio nicho e participo da vida de outros. nem sempre entendida. naturalmente à frente – mas também da popular e da folclórica. por exemplo. são portadoras de uma infra-estrutura despertada pela música. O valor de um homem é a sua palavra (LEONARDI. Paulo Perdigão dedicou todo um item de seu ensaio ‘Ficha Filmográgica’. ao repertório. incluído no livro ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ de 1965 à importância da música para Glauber. tanto em justaposição de som e imagem. Elis Regina e Maria Betânia. 2003. por certo. VIII. No espaço discursivo da poesia e na riqueza das imagens. Em seu afã de registrar a mensagem dos cantadores ou dos violeiros cegos. n° 15 . p 12 ). Nara Leão. Edu Lobo. Nestas águas. suas viagens. lembrando que no filme. 1 2 Os autores das músicas são respectivamente. Gilberto Gil. todas as seqüências enfáticas. vol. a ‘palavra’ de Glauber Rocha e as representações que a ela subjazem motivou e motivará. Chico Buarque. Notas Refiro-me. A qualidade das trilhas sonoras dos filmes de Glauber Rocha foi reconhecida por setores do Brasil e do exterior segundo Gomes (op cit.

Rolunik op cit p.] Ele é um conjunto dos projetos e de representações nos quais vai desembocar. O novo cinema latino americano dava seus primeiros passos carregados de uma indiscutível autenticidade.. isto é./dez. Buscava-se a identidade rompendo com a máscara de identidade que nos era oferecida.. influências ou reativações?.] A reterritorialização consistirá numa tentativa de recomposição de um território engajado num processo desterritorializante (Guattari. e como na psicologia. E nós. toda uma série de comportamentos. os sonhos. de autoria da historiadora Mariana Martins Villaça. a noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo. se acelerava e se materializava em ações de luta concreta. (tradução livre). Em nossas vidas. quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente “em casa”.. cognitivos.. a realidade de nossos países pouco tinha a ver com a da pósguerra italiana.] o território poder ser relativo tanto a um espaço vivido. 323). se encontra uma raiz comum. engajar-se em linha de fuga [. do ponto de 8 105 jul. era uma atitude perante o cinema que havia de mudar e perante a vida..Migrações de idéias. Nada podia atiçar melhor nossas esperanças e nossas ilusões. 4 O repertório dos filmes será enfocado mais adiante. O neo-realismo não era um estilo a copiar. que ultrapassa o uso que dela fazem a etologia e a etnologia [. muito mais que alguns sabem. 6 7 Sabemos até que ponto têm contacto nossas realidades e culturas. abrir-se. os costumes. 5 Territorialidade/desterritorialização/reterritorialização são noções caras ao referencial proposto por Guattari e Deleuze em seus estudos voltados para a problemática das identidades. [. quão perto. estão nossos povos. nos identificávamos buscando uma identidade que sabíamos única e ao mesmo tempo. nos tempos e nos espaços sociais. A relação resultou tão fecunda e conseqüente que suas marcas viveram sempre em qualquer obra do cinema latino americano. Não obstante já avançados nos anos sessenta. O excelente artigo “América Nuestra e o cinema cubano”. culturais estéticos. a música e na arte. que havia de se transformar. dialoga com o presente ensaio.. o espírito de mudança crescia. cineastas.. Segundo Guattari. 2007 . mútipla e diversa” (tradução livre). Uma primeira ponte foi o neo-realismo italiano. Não fora atitudes miméticas que nos motivaram.. de investimentos. os problemas. O território pode se desterritorializar. pragmaticamente.

1997 e ao de Glissant.J: Ed. Paris. BERND. Creo que su obra es un baúl muy grande que día a día debería ser redescubierta. Ruy. Chega de saudades. neste caso. 1997. A arte. reinterpretada. Traité du tout. entretanto. um economista. 4/08/2002): “Mi padre fue un nómada posmoderno en plena década del 60. Ecléa. 1990 COSTA. 12 Bibliografia BENTES. Édouard.) Margens da Cultura: mestiçagem. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social.monde. (tradução livre). Sou um cineasta. Oscilação e Simulacro. In. que dá por concluída a busca da identidade. Ivana (Org. Bernd menciona pontualmente os estudos de Chamoiseau. vivo em uma sociedade com a qual quero manter uma relação produtiva. têm modos distintos quanto à construção do objeto e os referenciais teóricos adotados. 106 Revista Brasileira do Caribe. Galimard. SP: Boitempo. pelo jornal peruano La Republica (suplemento Domingo. como a vida.) Cartas ao Mundo/Glauber Rocha. VIII. Te imaginas se adelantó a su época. Benjamim. 11 Tradução livre do texto publicado. Patrick. Goiânia. S. “Jamais pensei que estou livre dessa responsabilidade.” Neste aspecto. BOSI. Écrire en pays dominé. é um cinema morto” (tradução livre). Luis Cláudio da. 2003. Muchas de las cosas que defendía en ese entonces ahora siguen vigentes. SP: Companhia da Letras. tenía un pensamiento vanguardista y luchó por una ideologia auténticamente latinoamericana. Zila: “O Elogio da Crioulidade: o conceito de Hibridação a partir dos autores francófonos do Caribe”. 2004. Paris. Hibridismo & outras misturas. Abdala Jr (org. 2000. As abordagens. Galimard. está sempre numa busca permanente da sua identidade. R. Não sou um engenheiro. Daí sua importância e sua grandeza. 1997 . um construtor de pontes. SP: Companhia das Letras. Ao mesmo tempo não posso esquecer que o que estou fazendo é um produto muito particular.: Ateliê Editorial. 9 10 “A arte. O que faço é fundamentalmente um produto estético que cumpre uma função social. n° 15 . 7 Letras. A história e as histórias da bossa nova. CASTRO. Cinema brasileiro (anos 60-70): Dissimetria.P.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo vista temático. vol. o cinema.

Júlio Garcia. DELEUZE. MESQUISTA. J. Hibridismo & outras misturas. Abdala Jr (org.: Ed 34. 107 jul. Esse vulcão. La doble moral Del cine. 1997. Vol.pe.J. Conversações: 1972-1990. Revista Domingo del diário de La República. Adolfo Montejo: “Cinco notas sobre o teatro engajado no Brasil”. NAPOLITANO.J. In: Benjamim. Gilles. nº 29. 2003. Menezes de. IPHAN. S. influências ou reativações?. S. Território e Lugar: estas palavras ciganas. Raízes e Errantes. 2004.. o pensador nômade.) Margens da Cultura: mestiçagem. “Espaço. Carlos Teixeira: Glauber Rocha. Félix e ROLNIK. Subjetividade e Poder. Alhanbra/Embrafilme. 5. R. 4ª Ed.P.larepublica. Victor Paes de Barros: A Arte de Viajar à Deriva e Ressurgir com Paixão.2002. GOMES. http://www3. Zila.com. http/ :www. 2004. no. 1998.: Nova Fronteira. “El legado Glauber Rocha”. 2004. Silvia: Tomás Gutiérres Alea: Los filmes que no filme.”. 2003 MALDONATO. 1983.Migrações de idéias. Suely: Micropolítica: Cartografias do Desejo. S.J.. LEONARDI. ESPINOSA. Bsb. R.P/EDUSP. 1989. In Revista do patrimônio histórico.In Revista Educação. Rio de Janeiro: Instituto Diversidade Brasil.. Mauro. Glauber. RJ: Contraponto S. 2004. VILLAÇA. Porto Alegre. OROZ./dez. no. Lynn Mário T.br/scielo.P. 2ª Ed. GUATARI.scielo. Marcos: Cultura Brasileira: Utopia e Massificação (19501980).P: Boitempo. SCHÖPKE. ROCHA. “Hibridismo e tradução cultural em BHABHA”. O século do cinema. 1996. SP: Contexto. Regina: por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze. vol. 2001. Petrópolis: Vozes. 22.In: Revista Brasileira de História. SOUZA.: Ed 34. 5.. Madrid: Ollero & Ramos Editores. “América Nuestra – Glauber Rocha e o cinema cubano”.R. Mariana Martins. 4 de agosto del 2002. NAVAS.. 44. La Habana: Ediciones Unión. 2007 ..

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onde. 2004) e a situação paratópica do autor (MAINGUENEAU. the representative figure of identities in transit of contemporaneity. nome representativo das identidades em trânsito da contemporaneidade.Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto Abstract This article focuses on the analysis of the books Passages (1994) and Reperages (2001) by the Haitian writer Émile Ollivier. Palavras-Chave: Literatura. Goiânia. 2000). vol. do escritor haitiano Émile Ollivier. where until recently identity was seen by the elites as homogeneus. Identidade *Artigo recedido em Janeiro e aprovado para publicação em Março de 2007 109 Revista Brasileira do Caribe. 2001) que conferem à sua escrita um caráter particular e significativo no âmbito da chamada literatura migrante do Quebec. a identidade era vista pelas elites como homogeneidade (BOUCHARD. Identity Resumo Apoiando-se na análise dos livros Passages (1994) e Repérages (2001). até recentemente. Caribbean Migrations. 109-135 . pretende-se refletir sobre a inscrição de um “entre-dois” produtivo no corpus escolhido. Keywords: Literature. Migrações Caribenhas. Trata-se de levar em conta a pluralidade de imaginários do pertencimento (SIMON. VIII. n° 15. It is important to take into consideration the plurality of imaginaries of belonging and the paratopic situation of the author which award their writing a particular and significative character in the context of the migrant´s literature of Quebec. It offers a reflection on the inscription of on the inbetween productive place in the selected location.

reflexionando sobre la inscripción de un entre lugar productivo en el locus seleccionado. donde hasta recientemente la identidad era vista por las élites como homogénea. Goiânia. Identidad Encarada. Palabras Claves: Literatura. sobretudo como questão conceitual e epistemológica e não como experiência empírica. n° 15 . considera-se a identidade não como um dado fixo e estável. como algo que se expressa como deslize. Se trata de llevar en cuenta la pluralidad de imaginarios de pertenencia y la situación paratópica del autor que otorgan a su escrita un carácter particular y significativo en el ámbito de la llamada literatura migrante de Quebec.Maria Bernadette Velloso Porto Resumen El artículo se apoya en el análisis de los libros Passages (1994) y Reperages (2001). Definindo-se no livro Les identités meurtrières (1998) como alguém situado em um entre-lugar que o leva a se ver como libanês e francês. o local de origem não podendo ser associado a uma única fonte de identificação. permitenos repensar os processos de construções identitárias de nosso tempo e as idéias atribuídas até recentemente à nação. que sugere mais os movimentos do “tornar-se” do que as certezas do “ser”. Em se tratando das Américas. que constitui uma ilustração das elaborações das identidades em trânsito de nossa época. a noção de diáspora. 2000) a partir de situações 110 Revista Brasileira do Caribe. à luz da “différance” derridiana. vol. o escritor e teórico Amin Maalouf salienta a interferência de múltiplos pertencimentos em sua história de vida. que passou a ser vista na qualidade de comunidade imaginária. nombre representativo de las identidades en tránsito de la contemporaneidad. ao longo de histórias plurais de deslocamentos e desterritorializações. construíram-se coletividades novas (BOUCHARD. Graças ao reconhecimento da perspectiva diaspórica da cultura. Em contextos marcados pela diáspora. as identidades são múltiplas. mas. del escritor haitiano Émile Ollivier. VIII. Migraciones caribeñas. revisitada por teóricos como Stuart Hall (2003). deslocamento e devir inacabado.

Nascido dentro da violência colonial e por meio dela. 1993.Uma voz da diáspora haitiana. p. Nos últimos anos. Pois todos aqueles que moram hoje na América vieram de outro lugar. no campo literário.. Considerando-se. do chamado Terceiro Mundo francófono (Antilhas. Como pensa Maximilien Laroche. Inserindo o Caribe no cenário da diáspora pós-colonial. em especial. deu-se a revisão da identidade quebequense. Como se sabe./dez. e mesmo o primeiro habitante desta terra. violentas e abruptas” (HALL. e em particular. exemplo maior da ruptura de modelos fechados e homogêneos de pertencimento cultural. o Caribe é fruto da crioulização. Salman. com Salman Rushdie.. 1993. imprevisível e produtivo do contato entre culturas. “movimento perpétuo de interpenetrabilidade cultural e lingüístico” (GLISSANT. encarada 111 jul. o que explica seu caráter impuro. Segundo ele.75).92). todos os que estão no espaço caribenho “pertenciam originalmente a um outro lugar” e sua relação com essa história “está marcada pelas rupturas mais aterradoras. percebe-se o caráter inovador do Caribe. 2003. o espaço caribenho é marcado por uma estética diaspórica.394). 2007 . há mais ou menos tempo e sofreram a metamorfose que esta terra e sua história impunham. p. que é pela mistura que a novidade entra no mundo (RUSHDIE. no Quebec. Resultante das relações enriquecedoras entre elementos culturais variados. verdadeiro habitante de um Novo Mundo. neste homem novo. diaspóricas. híbrido. com o aporte de vozes de imigrantes oriundos de diversos países não-europeus e. segundo as modalidades particulares de sua entrada neste Novo Mundo e segundo as peripécias de sua existência aqui (LAROCHE. p. Ásia e África). depreende-se. professor e crítico haitiano naturalizado canadense: Ser americano é ter conhecido a metamorfose que transforma um europeu.1995. a inegável contribuição caribenha na configuração das novas cartografias identitárias decorrentes das migrações pós-coloniais nas Américas.30). processo inacabado. um asiático. o crítico da cultura Stuart Hall (Jamaica) também reconhece o que é dito na citação anterior. p.

por um vocabulário díspar. 1991). opta por criar um texto crioulizado. p. Tais escritores e poetas apresentam em suas obras o que Maximilien Laroche chama de o “duplo palco da representação” (LAROCHE. um texto em que a confrontação dos elementos díspares produz o novo. vol. o reconhecimento das vozes migrantes. Estes efeitos estéticos são o resultado da situação de fronteira vivida pelo escritor que. vêem ameaçados seus valores identitários tradicionais – 112 Revista Brasileira do Caribe. em certos casos. Graças à inclusão do olhar de estrangeiros. Goiânia. muitas vezes problemático para os “Québécois de souche” que. Cabe lembrar aqui a definição do texto híbrido proposta por Sherry Simon: O que se pode entender por um texto híbrido? Trata-se de um texto que interroga os imaginários do pertencimento. Da fricção criativa de dois pertencimentos nasceram obras marcadas pelo híbrido. diante da presença de alofonias diversas. Pode-se dizer que. Nesse cenário de profundas transformações e questionamentos identitários. uma sintaxe não habitual. n° 15 . 2004. ou seja. uma certa abertura ou fragilidade no plano do domínio lingüístico ou do tecido de referências. um despojamento desterritorializante. ressalta-se a presença de autores haitianos que emigraram para o Quebec em decorrência da abertura do Canadá à política de imigração. tal identidade passou a ser considerada sob o prisma da multiplicidade de centros de referência. no panorama identitário do Quebec. pois seus textos misturam imagens e signos do Haiti e do Quebec. interferências lingüísticas ou culturais. VIII. O texto híbrido é portanto um texto que manifesta “efeitos de tradução”. aculturado. o que lhes permitia fugir dos horrores da ditadura de Duvalier. levando em conta um estado de dissonâncias e de interferências de várias formas. mas que deixa traços do primeiro texto no novo.Maria Bernadette Velloso Porto como homogênea pelas elites do século XIX e parte do século XX. uma relação de transferência ou de passagem que não acaba em um produto naturalizado. o imprevisível (SIMON. consciente da multiplicidade.13-14) Cabe lembrar que. segundo a expressão de Édouard Glissant. estes efeitos de dissonância são o resultado de um processo de tradução inacabada.

les maux du pouvoir. Tratar da diáspora haitiana no Quebec nos remete ao livro de Jean Jonassaint intitulado Le pouvoir des mots. esse outro que não é um observador de passagem. Nessa revisão contínua das identidades. em sua maioria. Segundo Jonassaint. os romances haitianos de 1970 a 1980 foram escritos e/ou publicados na América do Norte. os quais viam seu país como incerto. as ambigüidades 113 jul. uma cultura que carrega as origens se enriquece com a contribuição múltipla e aceita modificar-se sem se trair. 2007 ./dez. mas que está aí para ficar. ao trazer para a cena coletiva a pluralidade de pontos de referência e de memórias culturais. na condição de migrante. autores migrantes colaboram de perto na reinvenção identitária do país que lhes deu abrigo. que todo desenraizamento é ou pode ser fator de grande criatividade e que toda migração é útil ao país de origem e ao país de adoção. de modo exemplar.43). o imaginário migrante dialoga com a representação simbólica do exílio que afetou anteriormente muitos autores do Quebec. já que. ilustra.. ele reúne trechos e depoimentos valiosos de seres diaspóricos. Em outras palavras. já presente na memória coletiva dos quebequenses. material importante para os estudos do romance haitiano contemporâneo.. Buscando mostrar que o exílio pode ser fecundo. 2001. ausente ou inacabado. torna-se um fator de revisão do implícito. um dos privilégios do autor migrante é o olhar novo que ele lança sobre o país em que se instala: O imigrante. 2001) de todo escritor que.Uma voz da diáspora haitiana. Encarnação expressiva da situação paratópica (MAINGUENEAU. não ocorreu por acaso. p. inscrevendo no seio da cultura quebequense as marcas de sua diferença e os apelos do exílio. em especial. o escritor iraquiano Naïm Kattan. Um dos representantes da presença do Haiti no Quebec contemplados na obra citada é Émile Ollivier. Como pensa outro representante diaspórico da chamada literatura migrante do Quebec. desabrochar ao se reinventar (KATTAN.

se instalou no Quebec onde se tornou professor de sociologia na Universidade de Montreal. Optando por um desvio provisório. Como tantos outros haitianos que pensaram. Goiânia. negociando incessantemente entre o lugar e o não-lugar. Ao exercer sua atividade profissional no campo das letras. Ao declarar. VIII. na sua obra teórica Repérages (2001). com a exigüidade de sua ilha para partir em busca da conquista de vastos territórios. Como muitos imigrantes (autores e personagens romanescos). A mesma pergunta que aflige seres migrantes em geral se coloca para o autor em questão: “Como é possível viver não sendo totalmente daqui nem mais totalmente de lá?”(OLLIVIER. Como todo escritor. uma experiência inédita que 114 Revista Brasileira do Caribe. no passado. “alimenta sua obra com o caráter radicalmente problemático de sua própria pertinência ao campo literário e à sociedade” (MAINGUENEAU. 37). Consciente de que se encontra diante de uma sensibilidade inusitada e de que vive. 2001. não existe verdadeira literatura” (MAINGUENEAU. p. Émile Ollivier privilegia em textos teóricos e ficcionais reflexões sobre o trajeto identitário de seres deslocados de nosso tempo. estar de passagem no Canadá.27). como tantos outros indivíduos.28). ele não chegou a empreender o retorno ao país natal. Buscou. esperava retornar à sua terra natal logo que essa situação política tivesse mudado. tira partido da deslocalização que caracteriza toda produção literária “sem ‘deslocalização’. que teria permanecido o mesmo jovem que rompera. Ollivier salienta sua identidade móvel que o levou a adotar compromissos e a efetuar negociações a cada dia. Após ter vivido seus primeiros vinte e cinco anos em PortoPríncipe. Em 1968. em 1965. E é na impossibilidade de se estabilizar em um lugar preciso que sua obra se constrói. abrigo na França onde. p. exerceu várias ocupações e obteve um certificado de estudos literários na Sorbonne.Maria Bernadette Velloso Porto e contradições de quem não coincide necessariamente com um lugar no mundo. durante um ano. 2001. Ollivier decidiu se afastar do Haiti para escapar da violência da ditadura de François Duvalier. vol. 2001. um dia. a princípio. Ollivier acabou por aí criar um espaço de vida e de criação. p. morrendo no estrangeiro. n° 15 .

só importam as estradas.Uma voz da diáspora haitiana. ao chegar ao Quebec. assim como a intimidade. já que uma estrada não tem nunca verdadeiro começo.(. ao longo de trinta anos de vida no Quebec. Émile Ollivier passou da posição de exilado à de migrante. ele parece dialogar com a visão de Amin Maalouf em seu livro Origines: As árvores devem se resignar.) Ao contrário das árvores. da servidão à liberdade ou à morte violenta. e quando nos enfiamos na terra.prefere as idéias de estrada.910). Exposto a outros modos de socialização como todos os migrantes.. Por isso mesmo. antes da primeira curva. p. reconhece-se como um “ser feito da interferência de todos os lugares que atravessou” (OLLIVIER.. 2004. que. 2001. 2001. nossos pés só servem para andar. Para evocarmos o sociólogo Zygmunt Bauman. podemos lembrar que. Ollivier se colocou à escuta da realidade cultural a sua volta. após ter sonhado durante muito tempo com o retorno ao país natal. São elas que nos levam – da pobreza à riqueza ou a uma outra pobreza. Vendo-se como um escritor das fronteiras (OLLIVIER. as estradas não emergem do solo ao acaso das sementes. por sua vez. Origem inatingível. Origem ilusória. lá atrás.69). ao invés de valorizar a noção de raiz –associada às árvores . para se considerar como alguém deslocado que. elas têm uma origem. desejamos o céu. percebe que sua vida era pontuada por várias mortes 115 jul. Respiramos a luz. p.. empreendendo uma operação de descentramento (OLLIVIER. p. o autor do livro citado diz que é preciso desenvolver competências de “bricoleur” e aprender a viver nos interstícios. cita o escritor Juan Goytsolo. Para nós. p. de caminho. A seiva do solo natal não se eleva por nossos pés em direção à cabeça. a distância cria uma situação privilegiada (BAUMAN. elas precisam de suas raízes. p.22).. os homens não. Desse modo. p. 20). 2001./dez. 2005. faz de todos nós seres mutantes por excelência (OLLIVIER.38) . 2001.24). Como nós. Sob esse prisma. pois a cada cruzamento se uniram outras estradas que vinham de outras origens (MAALOUF. é para apodrecer. já havia uma curva e mais uma. 2007 .

Ollivier participou das profundas modificações ocorridas no Quebec a partir da Revolução Tranqüila. vol. a experiência lingüística constitui um domínio privilegiado para se refletir sobre a condição migrante por parte de seres cindidos sob o ponto de vista identitário. 2001.37). sua outra língua. pelo gesto de migrar. o autor de Repérages afirma ter feito o luto de sua origem. VIII. Para o autor de Repérages. tornado. 2001. seu espaço de enunciação. para se tornar seu país de adoção (OLLIVIER. 116 Revista Brasileira do Caribe. o jovem haitiano compartilhou com outros a sensação de estranhamento.Maria Bernadette Velloso Porto e renascimentos sucessivos (OLLIVIER. p. que trouxeram para o cenário das discussões identitárias o questionamento das certezas estabelecidas. a presença de “estrangeiros do interior”: os quebequenses que acabavam de deixar o espaço rural para se instalarem no tecido urbano de uma cidade em expansão que recebia alteridades plurais. como propôs Salman Rushdie (1993. aos poucos. Ao ter perdido. 28).64). Ciente de que a língua francesa se tornara cada vez mais indispensável em sua profissão. vista como seu lugar de asilo (OLLIVIER. Com outros representantes de diferentes modos de ser e de ler o mundo. p. Ao se fixar em Montreal. p. Aos olhos de Émile Ollivier. pois logo percebeu. Situando-se numa encruzilhada entre dois idiomas – o crioulo e o francês – o autor leva em conta a questão de seu público. Embora trate de assuntos referentes à sua terra de origem. precisou conquistar um outro. conquistada a cada dia de sua própria reconstrução identitária no novo país. que ele reforça seus vínculos com a realidade caribenha. p. falar uma outra língua equivale a assumir a posição do tradutor. a seu lado. 2001. Goiânia. n° 15 . Por isso mesmo. a língua francesa. A maneira de continuar fiel à sua origem não seria falar continuamente dela na língua estrangeira que poderia lhe conferir maior visibilidade? E é no corpo a corpo com a diferença e com o francês. o Quebec mudou de estatuto a seus olhos. o que remete à existência de “homens traduzidos” de nosso tempo.23). sabe que seus livros não são de fato consumidos pela comunidade haitiana. dado o forte índice de analfabetismo de seu país. deixando de ser simplesmente a terra que lhe ofereceu asilo.

aqui a realização do luto da origem supõe também a interferência constante. p. mas também da realidade quebequense. E penso de fato que é uma situação de esquizofrenia... isto é.88) Como “esquizofrênico feliz”. nascida do roçar entre as diferenças. 1986. assim. a literatura migrante de Émile Ollivier coloca a questão lingüística como componente maior do capital literário. Marcada. Tenho o hábito de dizer que sou haitiano à noite e quebequense de dia. exercitando a prática tradutória não como um exercício de simples transposição de uma língua a outra. na superfície do texto. de alguém que está desvinculado da realidade./dez. um reservatório de sons. o próprio Ollivier se refere a esse dilaceramento de forma lúdica e criativa: Essa esquizofrenia vai ser encontrada provavelmente ao longo de toda a minha produção. presente nele como uma cripta. Ollivier vale-se de um duplo pertencimento. de uma memória impossível que aflora.382). vivenciada sob a forma de diglossia. Em entrevista a Jean Jonassaint. por uma dupla inscrição.. 2007 . p. ritmos e imagens (OLLIVIER. Como no próprio Haiti ele já conhecera de perto a dualidade lingüística. Estou desvinculado da realidade haitiana. optando pela procura de um equilíbrio na instabilidade: 117 jul. no ato da escrita... mas como busca inacabada e rentável que supõe a fricção produtiva entre dois idiomas e memórias culturais. transformação e um trabalho de recriação permanente. meus trabalhos e meus dias (JONASSAINT. Além de sugerir travessia. apesar de tudo. Apesar dessas duas realidades trabalharem meus desejos. p.Uma voz da diáspora haitiana.64) . dois universos e dois apelos lingüísticos que a obra desse autor se inscreve sob o signo da dualidade ou da digrafia.. 2001. e a criação de uma terceira língua. para evocarmos o capítulo “La tragédie des hommes traduits”. E é no ir e vir entre duas culturas. de Pascale Casanova (1999. minhas alegrias. Ollivier tenta evitar qualquer perspectiva reducionista que poderia tornar exótica sua escrita.

vol. n° 15 . Como resolver esse problema no plano da criação? No que me diz respeito. a experiência do exílio.89) No conjunto da obra de Émile Ollivier. em resumo. e a caracterização do escritor migrante como um tradutor adquirem. seu lugar por excelência no mundo. coabitaram. de preferência. ao invés de se deixar paralisar pela dor da ruptura e do dilaceramento. as duas línguas foram vizinhas. um grupo de haitianos se organiza para fugir das misérias de sua terra natal. isto é. Trata-se de levar em conta esse fenômeno.Maria Bernadette Velloso Porto Tenho consciência de não trazer nenhuma resposta explícita à questão da diglossia. publicado em 1991. e a encontrar. pois. destaque. 1997. VIII. liderados por Amédée Hosange. Um romance em particular ilustra a complexidade do universo do autor: trata-se de Passages. fugir da relação de equivalência e. revestindo-se de um caráter eminentemente dinâmico. captar a substância da língua crioula e restituí-la diretamente em francês (JONASSAINT. cheiros e sabores de seu país. a negociar entre danos e perdas. a desterritorialização da língua francesa. Numa narrativa de caráter polifônico. ressemantizados no contexto estrangeiro. Historicamente. Goiânia. mesmo em relações de dominação. cujos trajetos de vida se entrecruzam. não se trata de decidir entre o crioulo e o francês. Minha principal preocupação é de expulsar toda folclorização. os provérbios. trabalhar sobre as imagens. embarcando em um barco frágil que os levaria. como 118 Revista Brasileira do Caribe. p. duas histórias principais estão vinculadas ao Haiti: de um lado. p. na formação social haitiana. evitar a tradução literal do crioulo em francês. trata-se de andar sobre essas duas pernas. reinventada graças ao crioulo. Considerado pela autora do ensaio La mémoire sans frontières como uma “deriva polifônica” (GAUTHIER. a gente se exprime. na própria escrita. a interiorizar cores. a refazer seu imaginário. 1986. o escritor identifica na desterritorialização um espaço de liberdade que o leva a fazer escolhas.62). em francês e em crioulo como ser haitiano. o romance Passages apresenta vários personagens migrantes. ao mesmo tempo. as metáforas. Logo. na maioria haitianos.

” (GAUVIN. 1994. p. a vida e a morte se conjugam na dinâmica do transitório. Voilà pourquoi nous intervenons ! Voilà pourquoi nous sommes intempestifs et insolites“ (OLLIVIER. pois morre de um ataque cardíaco.. A narrativa referente à preparação da viagem dos boat people haitianos em direção a Miami se reveste de um sentido 119 jul. Como afirma Lise Gauvin. que há anos deixara o Haiti para viver em Montreal. Destaca-se aí a figura perturbadora do estrangeiro aos olhos de quem se definia pelas certezas identitárias. Priorizando a idéia de passagem. à infliger notre chaleur. Outra referência importante à noção de passagem se destaca de versos de René Char: “Nous sommes des passants appliqués à passer. de outro. o jornalista Normand Malavy. Cabe a outro personagem haitiano (Régis). 2000. 2007 .7).1994. Normand grava o depoimento de Brigitte em cassetes. acaba conhecendo. sem realizar o desejo de retorno ao país natal.194). enviado pela esposa do morto para buscar seu corpo. servir de intermediário entre as diversas vozes narrativas desse romance formado da reconstituição de diversas memórias. uma das poucas pessoas que sobreviveram ao naufrágio da embarcação e os sonhos dos que ousaram optar pelo exílio (ainda que visto como provisório). je peins le passage”(OLLIVIER. clandestinos. Como se atualizasse a mesma frase. p. Vistas como trânsito. em Miami. Histórias do viver e do morrer se intercalam no tecido narrativo marcado pela poética dos encontros e (des)encontros ligados às movências identitárias. o livro em questão coloca em cena múltiplas passagens.Uma voz da diáspora haitiana. a Miami. esse romance deixa provisoriamente o espaço geográfico haitiano para melhor encontrá-lo nas lembranças e no imaginário de indivíduos à procura de seu destino. p. viúva de Amédée. abaladas pela inclusão da diferença no âmbito de uma familiaridade construída a partir da ilusão e da pretensão da homogeneidade. “história de migrações e de errâncias. sua compatriota. o romance se abre com uma epígrafe significativa de Montaigne: “Je ne peins pas l’être. mas não chega a divulgá-lo. no plano da intriga e na própria construção do romance.181). à dire notre exubérance./dez. donc à jeter le trouble.. Brigitte Kadmon Hosange.

passou a ser o espaço da improdutividade. ce n’est plus le pays de la canne à sucre . com a crise da pequena cidade. un bien grand et riche domaine. VIII. n° 15 . Goiânia. A abertura do romance aponta para a decadência que afeta a cidadezinha de Port-à-L’Écu. belles cases. condenada ao abandono e ao silenciamento. de onde fora expulso um dia. vol. Em um mundo pleno de sinais. Et pourtant. ele parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos) acarreta um efetivo desequilíbrio ecológico que compromete a própria existência da coletividade. 120 Revista Brasileira do Caribe. 1994. c’était un village qui comptait tout près de trois mille chrétiens vivants. pois. il n’y a guère de temps. colocando em confronto dois tempos de um mesmo lugar. p.Maria Bernadette Velloso Porto mítico.25). Il y avait à Port-à-L’Écu dix carreaux de terre. essas terras representam todo seu sopro vital (OLLIVIER. Là vivait Amédée Hosange. mesmo no estado em que se encontram. mas também de desafio e de orgulho (OLLIVIER. au lendemain des grandes tueries de l’indépendance (OLLIVIER. 1994. da desolação e da miséria absoluta: Port-à-L’Écu. Port-à-L’Écu n’existe nulle part. p. des deuxmoitiés. a morte repentina desse cadáver em vida (extremamente magro. como ocorre com a chegada de um ser inquietante que coincide. Nul besoin de chercher son nom sur une carte . Port-à-L’Écu n’existe plus. de la main même de l’Empereur. feita por eles mesmos. de modo misterioso. que os levaria a Miami. vaste grange. augúrios e presságios. conscientes de que. lequel l’avait obtenue. Prisioneiros de um mutismo feito de medo. 1994. p. O retorno desse habitante a Portà-L’Écu. os habitantes da referida cidade escolhem uma forma particular de resistência: a fuga numa embarcação precária. cinq maîtresses. les loup-garous y ont élu domicile et parfois volent en plein jour. il ne figure sur aucune.27). a intervenção do sobrenatural se dá nas pequenas histórias do cotidiano marcadas pelo realismo mágico. Il tenait la terre de son grand-père. é revestido de tragédia.14). disait-il. que corre o risco de se tornar “lata de lixo dos Brancos”: afastando-se da representação do lugar habitável que fora um dia.

1994. abre-se para a expansão dos limites identitários. 1994. Em estreita sintonia com a natureza.19) e dotado do sentido da orientação por ter uma bússola em suas narinas e por ser capaz de se valer do sol como seu compasso e seu cronômetro (OLLIVIER. Tendo em sua bagagem existencial a experiência do nomadismo (cf. Convencido de que lhe cabe a responsabilidade de assumir para si a resistência contra os riscos de desaparecimento de seu 121 jul. Amédée é escolhido por seus compatriotas como líder. o desvio é sinônimo de astúcia. 1994.Uma voz da diáspora haitiana. Il n’avait pas besoin de montre pour déterminer quelle partie de la nuit ou du jour était passée (OLLIVIER. il associait les odeurs à la direction du vent.63). 1997. en fixant le ciel.65) equivale a um “détour” no sentido glissantiano. como o “passeur” que os levaria à salvação. sabe ler os sinais inscritos na paisagem. Concebido como um recurso temporário. dominando as artes do enraizamento e da errância: Amédée. p. p. Il m’avait souvent parlé de ses voyages en haute mer.. La nuit. Tal viagem clandestina em direção a um “Eldorado de lenda” (OLLIVIER. Mestre da ciência dos ventos baseada no vivido. a prática do desvio constitui uma estratégia de sobrevivência eficaz para se enfrentar uma impossibilidade (GLISSANT. 2007 . deslocando-se como um pombo correio. Il connaissait la position des étoiles fixes et des étoiles errantes.Il m’avait souvent parlé de ses voyages au long cours. je vous l’ai déjà dit. il pouvait faire le décompte des milles marins parcourus. 1994. en reniflant. dire combien le ciel avait marché au-dessus de la terre. p. connaissait la navigation en haute mer. “il avait foulé cette terre en nômade” (OLLIVIER./dez. Véritable pigeon voyageur. 64). monsieur.. inteligência prática de seres oprimidos que a ela recorrem para contornar um problema de difícil solução. p. Segundo Édouard Glissant.48). novo Hermes responsável pela transmissão da nova boa nova: a possibilidade do recomeço em outro lugar e da reconstrução da identidade nas searas da diáspora. p.

Na base da resistência coletiva à decadência de sua cidadezinha e de sua própria dignidade como povo. persévéré sur les flots du temps.184-185). nous avons franchi cinq siècles d’histoire. l’esclavage et. vol. n° 15 . o candomblé. as danças. de se défaire. os habitantes de Port-à-L’Écu se mostram atingidos pela sensação incômoda de exigüidade (PARÉ. Notre histoire est celle d’une perpétuelle menace d’effacement. não constituindo uma simples referência física que marcaria seres insulares. no cerne dessa obra. aponta para a consciência da fragilidade e dos riscos de invisibilidade e de desaparecimento de uma comunidade. une interminable histoire de brigandage. Notre substance est tissée de défaites et de décompositions. 2001).Maria Bernadette Velloso Porto povo. cette éternité dans le purgatoire. Goiânia. está a consciência da exigüidade que. effacement d’un peuplement : le génocide des Indiens caraïbes. podemos dizer que. dégradable et pérenne. p. ce temps de tourments. nous continuons à survivre en nous livrant à d’impossibles gymnastiques (OLLIVIER. la grande transhumance. Uma passagem em especial ilustra a consciência da fragilidade do ser exíguo. Ausentes dos estudos 122 Revista Brasileira do Caribe. opiniâtres et inaltérables galériens. mas a todo gesto do resistir que se manifesta como prática cultural (como o vodu. de se refaire. VIII. dans cette barque putride et imputrescible à la fois. a capoeira. malgré ce présent en feu. depuis la mort de l’Empereur. Nous avons subsisté. dilacerado entre o sentimento de impotência e o desejo de sobrevivência: Nous venons d’un pays qui n’en finit pas de se faire . Apoiando-nos em pistas oferecidas por Simon Harel e Jacques Mathieu-Alexandre (2003) em sua análise do romance Passages. Et pourtant. effacement d’un paysage. que remete não só à fuga de escravos. entre outras manifestações criativas). 1994. Amédée atualiza o exercício do “marronnage” (termo criado a partir de “nègre marron”= “quilombola”). Coureurs de fond. nous traversons le temps même si le sol semble se dérober sous nos pas. nous franchissons la durée. Malgré vents et marées.

um sítio importante para se rever sob o ponto de vista identitário e para reler o próprio existir. o abafamento e o silêncio. p. 1994. pois./dez.97). uma terra de errância. 2007 . “a escrita e a prática da arte acarretam uma liberação do espaço” (PARÉ. além de ser “um lugar de esperança e de miséria para os que conseguiram deixar sua terra de miséria” (GAUTHIER. 2001. pois. sob a máscara do sol que esconde cóleras e violências. a situação diaspórica favorece a atividade da escrita. ao exercício criativo de práticas de sobrevivência adotadas pelos excluídos da História oficial. Amédée 123 jul. fragmentada em várias cidades onde há diversas solidões (OLLIVIER. 2001. p.Uma voz da diáspora haitiana. Obra-refúgio ou obra-insular. na busca de um outro lugar no mundo. 87). p. Mas. após certa hesitação e influenciado por uma visão mágica. essa cidade se reveste também de um sentido negativo. uma possibilidade é vislumbrada pelo grupo liderado por Amédée como viável: Miami. Como foi salientado. p. Apontada como a “América latina na América do Norte” (OLLIVIER. 2003.206).. no espaço das letras. pelo paralelismo estabelecido entre a casa e a escritura. p. mas que encontram. p. Escrita muitas vezes epistolar. 1997. as produções da exigüidade correspondem à “fabricação original e autônoma de bens simbólicos inéditos” (PARÉ.. Escrita do trânsito e das transferências culturais que se abrem para os diálogos sempre inacabados da crioulização.66). mesmo sabendo disso.65). Espaço de convergência de inúmeras experiências diaspóricas.66). 1994. a função da escritura é a “de aumentar desmesuradamente nossa relação com o mundo de modo a nos proteger da pequenez da condição humana e da insegurança que a acompanha” (HAREL & JACQUES. Miami aparece na narrativa como um lugar de passagem. oferecendo aos seres desterritorializados a oportunidade de inscrever seu lugar no mundo nas páginas da escrita. capaz de preencher e de superar o hiato geográfico instalado entre seres distanciados fisicamente. Miami não seria. acadêmicos voltados para as chamadas grandes literaturas. É o que faz Ollivier no romance em pauta. uma solução definitiva para seres desterritorializados. Lutando contra o confinamento. Como experiência enriquecedora que leva indivíduos a ultrapassar limites.

Identificando.) Mais déjà. quelles que soient ses fins secrètes n’a jamais le temps de revenir. n° 15 . 1994. p.86-87). les grands espaces. Leyda oferece ao leitor pistas valiosas para a compreensão da diáspora: Voyez-vous. vol. Amédée. influencé par sa vision. Ils sautent dans des voiliers de hasard . 124 Revista Brasileira do Caribe. não corresponde ao ideal de vida valorizado pelo próprio Émile Ollivier. avec le vent. haveria os seres sedentários. inspirando-se na fixidez do mineral ou no modelo da raiz que. sans but. ne l’emporte-t-on pas partout avec soi ? (OLLIVIER. Il aimait ces déplacements à tâtons qui se jouent sur des surfaces illimitées où départs et retours finissent par se confondre (OLLIVIER. Na base de sua decisão está a certeza de que mesmo quando deixamos o país natal.Maria Bernadette Velloso Porto responde afirmativamente à demanda dos que o procuraram como guia. interiorizado nas memórias e paisagens afetivas: Amédée ne comprit pas tout de suíte pourquoi ils devaient partir.31). Pourtant. qui se tissent un destin minéral dans un rêve de pierre et ceux qui se prennent pour le pollen. seu próprio marido Normand. le monde est constitué de deux grandes races d’hommes : ceux qui prennent racine. VIII. Normand était de cette race. Um dos trechos mais poéticos do romance Passages referese a uma reflexão da personagem Leyda a respeito de duas formas de se estar no mundo: de um lado. que acabara de morrer. ce jour-là. Sa part de territoire. Adeptes de vastes chevauchées. a partir dos apelos da polinização. quitter le pays où ils étaient nés. avait changé d’avis. ele nos acompanha. alguns homens se deixariam levar pelos movimentos do devir. p. nessa segunda categoria. il savait que souvent le crabe qui s’éloigne à une trop grande distance de la mer. ils traversent. como já foi visto.. sans trajet préalablement déterminés. Goiânia. (. 1994.. empruntent d’aléatoires chemins. devenir une race sans terre. de outro.

19). além de se morrer de fome. um caráter não definitivo.39). p. um enriquecimento cultural. As que caem bem perto do tronco não têm nenhuma chance de crescer e de desabrochar. segundo o autor citado. p. Para eles. Daí se explica a razão que leva Maffesoli a acreditar na necessidade de se empurrar para longe as fronteiras (MAFFESOLI. mais temos acesso a riquezas imateriais (MAFFESOLI. p. abrir-se para o outro” (MAFFESOLI. da família. “só havia partida na perspectiva de um retorno 125 jul. para quem existir significa “sair de si mesmo. Amédée e Brigitte encaram a ida para Miami como recurso temporário. p. mas também desprendimento. Para Maffesoli. No romance Passages. Apenas as sementes que vão longe têm oportunidades de frutificar. em geral. 1997. 1997. hedonista e místico das « nourritures terrestres » gozando do vento espalhando sementes. conforme foi apontado. convite para a novidade e para a aventura no campo dos sentidos – transitórios como a própria existência–. pois. p. Sinônimo de fecundação e de renovação. 1997.142). como sinônimo de confinamento. Por isso. Apenas permanecerão vivas as plantas que jorrarão longe da árvore semeadora. 1997. segundo a lógica diaspórica. diferentes personagens conhecem de perto tal experiência. o que corrobora o pensamento de Michel Maffesoli. permite. a passagem abaixo se aproxima da citação de Ollivier: Fazer uma leitura contemporânea de Gide. 1997. palavra que recobre diversas situações.. 1997.22).. portanto. 141-142). Referindo-se à metáfora da raiz. Gide. já que a imobilização. atribuindo-lhe.28). já que. da terra dos mortos (MAFFESOLI. a diáspora é. opondo-o a Barrès que pedia aos homens para se enraizarem na terra e nos mortos. tem um efeito mortífero (MAFFESOLI.Uma voz da diáspora haitiana. p. 2007 . Segundo a perspectiva do exílio visto como “détour”./dez. Não se poderia falar melhor da força do desprendimento que cresce longe das raízes. a cultura não é somente enraizamento. do ninho. quanto mais longe nos encontramos da “terra dos mortos”. pode-se morrer de tédio ou de desespero (MAFFESOLI. A vivência do exílio.

Também Normand. Goiânia. une grande déchirure. seus atos se revelam incapazes de garantir uma mudança na ordem das coisas e de lhe assegurar uma nova meta de vida. 1994. 45). p. descobre a impossibilidade do retorno. Amparo fixa sur Leyda un regard mouillé : “ Jamais plus je ne pourrai vivre à La Havane” (OLLIVIER. como se buscasse compensar a desorientação de seus dias. outro personagem migrante conhece a frustração ao fazer uma viagem a seu país. Ora. derrière ce nouveau masque. p. p. situa-se paradoxalmente entre a busca de um impossível acordo consigo mesmo e um movimento de felicidade. por mais que ela se esforce. Filha de sírios que emigraram para Cuba e depois se instalaram nos Estados Unidos. tentando se enraizar em projetos de melhoria do mundo. Trata-se de Amparo. le visage secret.112). Brigitte manifesta o desejo de voltar a Port-à-L’Écu para ser enterrada na sua língua (OLLIVIER. 1994. ou à elaboração de petições pela Nicarágua. P. vol. alimentou o desejo de rever Cuba.113). “anda em círculos” (OLLIVIER. Na verdade. não realiza seu sonho de voltar ao país de origem. 1994. Para reforçar a inviabilidade do retorno à origem. ser dos trânsitos por excelência. intime. 1994. mas ao empreender uma viagem ao seu país natal. 1994. p. peut-être auraitelle découvert. ela vive no Canadá há cerca de dez anos.42). Durante muito tempo. um desejo de viver (OLLIVIER. n° 15 . une douleur intense. como já foi dito. o enorme hiato criado entre ela e sua terra de origem.229).Maria Bernadette Velloso Porto enriquecido de mil perfumes. Tendo contínuo contato com imigrantes latinoamericanos. Mas. preenchendo o vazio de sua vida de modo a parecer muito ocupada. Cela avait suffi pour constater que la magie avait quitté sa ville. Dividido entre duas forças – o quimérico ressurgimento de seu passado e o esquecimento de suas raízes (OLLIVIER. viveu um tempo com um chileno e se dedica a manifestações contra o racismo e a utilização de armas nucleares.176). Assim. de mil odores do alhures” (OLLIVIER. p. diante do fracasso da empreitada chefiada pelo marido. Si elle était restée plus longtemps. Elle n’avait eu qu’une semaine. préservé de la ville longtemps imaginée. 1994. VIII. 126 Revista Brasileira do Caribe. Son séjour à la Havane.

Amar é desejar encontrar o ser que possa abalar sua memória inerte para lhe dar vida nova.. por todos nós. p. E a imagem de seu país natal não passa de uma das versões possíveis de sua terra. que não precisamos. Mas onde é o início de tudo? Não somos todos migrantes em trânsito permanente que nos leva a recomeçar sempre? No caso da personagem Amparo. p. segundo Daniel Sibony. sendo. necessariamente. 1991. já que. Assim como Amédée e Normand. encontra-se o valor da viagem como busca e requisição da memória. destaca-se a sensação familiar e moderna de “des-locamento”. viajar para senti-la. p.34). o exílio é freqüentemente uma viagem que não sabe encontrar seu retorno” (SIBONY. a noção de pátria confundindo-se com uma construção provisória e inacabada. o amor equivale a uma procura de renovação identitária e de revitalização da memória graças ao contato com a diferença e o alargamento de fronteiras. em nosso tempo. antes./dez.Uma voz da diáspora haitiana. Amparo parece ilustrar o pensamento do autor do livro Entre-deux: l’origine en partage: “Ora. experimentada. embora procure se fixar em projetos coletivos. Tratase ainda da dificuldade de nos situarmos de fato em um lugar preciso e da consciência de que não nos é facultada a possibilidade de voltar para casa.57) 127 jul. que forçará sua identidade a efetuar a viagem que ela escamoteia. a reencontrar sua carência vital e sua distância em relação a ela mesma (SIBONY. 2007 . Como “impulso em direção a outros lugares” (SIBONY. a origem nada tem de paralisante.55). o próprio presente nada lhe oferece de estável. No exemplo acima. 2003. um convite para se ultrapassarem fronteiras e para se descobrir que é possível desejar (em) outros lugares. pois há sempre algo no meio.. entre o presente e lá onde tudo começou (HALL. 1991. reconstruída sem cessar por sua memória. até então inerte ou cansada de ser igual a ela mesma. 1991. Lido a partir dessa concepção de origem. “Ora. No nível cultural como na experiência subjetiva. 27). aí está a própria procura do amor”. p. abalar seu suporte de ser idêntico a si mesmo.

Goiânia. Normand tinha “uma vida em suspenso” ao longo dos últimos dez anos durante os quais sofria de grave doença renal. para personagens desterritorializados. já que suas relações são superficiais.69). Ao contrário do lugar. os não-lugares de nossa época se associam ao trânsito. que é histórico e supõe a idéia de um vínculo. Amparo e Normand se encontram em um aeroporto. Quanto a Amparo. VIII. 1994. n° 15 . a oportunidade do encontro – encontro do outro e de um outro lugar de referência identitária. ao efêmero e ao não-estabelecimento de relações efetivas.86). Assim. perda e fragmentação. ainda que de modo fugaz. seu cotidiano nada lhe reserva de concreto e de promissor. na experiência amorosa. 1994. Normand se identifica a Montreal.68). a representação do amor no contexto diaspórico remete. nos territórios da paixão e/ou da afetividade. p. p. 2004. Identificando. o exílio como ruptura é compensado pela vivência amorosa que constitui. cidade de outros seres transplantados. não-lugar próprio da supermodernidade aos olhos de Marc Augé (1994). Conhecendo um duplo transplante (identitário e cirúrgico). Cabe-nos aqui aprofundar a leitura do amor em tempos de exílio. mesmo efêmeras. os amantes exercitam o gesto de se enraizarem. No romance Passages. como se o amor fosse o ato inaugural de uma outra origem. no romance Passages.Maria Bernadette Velloso Porto Não é por um simples acaso que. o espaço para escreverem outras marcas de parcerias. o encontro desse casal equivale a uma possibilidade de neutralizar sua situação diaspórica. a disponibilidade para acolher outras histórias e outras memórias culturais” (PORTO. vol. e de identificarem. o que contribuía para uma vida de recluso em uma cidade (Montreal) que se tornara uma prisão para ele (OLLIVIER. na pele de outrem. um modo especial de suprir o vazio. em particular. p. A coincidência de trajetos existenciais parece reger o encontro dos dois amantes: vindo “de longe. Embora não dominem um idioma em comum. Associado às idéias de hiato. corpo tatuado pelo já vivido. Seres 128 Revista Brasileira do Caribe. do outro lado da vida” (OLLIVIER. à história entre a cubana Amparo e o polonês Janush. conseguem se comunicar pela criação de uma terceira língua. “O importante é descobrir no corpo-texto do(a) amante.

constituindo “a busca desvairada 129 jul. bénéficiaire d’une bourse du gouvernement français. o exercício do diálogo.Uma voz da diáspora haitiana. Feita de silêncios. revisitado pela perspectiva de Pentecostes que assegura a comunicabilidade a despeito das diferenças. por meio do jogo amoroso.. a possibilidade de entendimento entre dois mundos. Elle ne comprenait que l’espagnol et l’anglais. apesar de todos os desafios e riscos. 1994. seguindo diversos roteiros em que adotam várias identidades. os dois personagens apontam para o exercício maior dos diálogos interculturais: Un jour à la cité des Arts. Aucun des deux ne parlait la langue de l’autre: typique dialogue Est-Ouest. Como se exprimissem. elle avait rencontré Janush. experimentam.. como na vivência da diáspora. onde assumem diferentes papéis. os amantes transformam o quarto do hotel em Paris em uma espécie de templo. Il était polonais. Qu’importait ce manque! Une langue commune n’est pas absolument indispensable à la prise des langues et l’emmêlement de deux vies.128).. atualizando. ou do outro lado do espelho. dans l’affrontement désespéré de deux impuissantes paroles en quête de vérités (OLLIVIER. eles tiram partido da capacidade tradutória. o amor se mostra capaz de abalar as certezas identitárias. Leurs échanges se situaient en deçà ou par-delà les langues. para além de suas opacidades culturais. baragouinait le français. Colocando em prática uma espécie de sacralização do amor. como se exercitassem. p. os dois amantes vencem qualquer impedimento. Assim./dez. inúmeros deslocamentos e trajetos inéditos.. de impossibilidades. da fronteira. sob o modo metafórico. Janush était de ces êtres sensibles qui captaient intuitivement toutes les manifestations de la vie. il pouvait se livrer sans restriction à ses activités de peintre. sua linguagem parece ilustrar a recuperação do episódio bíblico de Babel. Mergulho vertiginoso no fundo de si mesmo. Le silence fondait leur relation. Ils avaient fini par créer une langue médiane mâtinée de gestes et surtout de silences. de não-dito. a experiência maior da alteridade. 2007 . Por isso. Il parlait polonais.

faisions escale dans des contrées prodigieuses. da pluralidade e da hibridação. conforme foi visto na citação de Sibony o suporte identitário dos dois personagens. lovés dans l’été de notre édredon (OLLIVIER. le lendemain à Singapour. pois. Nous revenions sur les ailes de midi. Vivido. Janush et moi nous nous réveillions sur un point différent de la planète. há muito esquecida” (OLLIVIER. reinventando seu cotidiano. Oiseaux migrateurs. descobrem-se em um lugar diferente da cama. o pacto amoroso aposta na estranheza. define-se como reinvenção permanente e experiência do heterogêneo. como se o movimento de seus corpos os levasse a um outro continente. l’aventure commençait dès le petit matin. Certains matins. p. 1994. isto é. Por isso mesmo. vol.131).. No teto do quarto de hotel parisiense. após uma noite de amor. nous prenions le petit-déjeuner à Sidney.Maria Bernadette Velloso Porto de uma parte de si mesmo.p. já que os parceiros investem na contínua renovação de papéis e de lugares 130 Revista Brasileira do Caribe. Trata-se ainda da vivência do imprevisível e da renovação cotidiana da disponibilidade para o gesto de partir: Avec Janush.129). com a unidade narcísica. Kilimandjaro aux neiges fumantes.)”(SIBONY. mourir sous les toits de cette mansarde de l’avenue de Wagram à Paris. 1994. p. “não combina com o um-só. visitions des pays de légendes et de merveilles : cratères éteints de la cordillière des Andes. nous traversions plusieurs fois le globe. Abalando. Goiânia. há um grande mapa-mundi e a cada novo dia. Le ciel de notre lit figurait une carte du monde et chaque jour. convidando-os para exercitarem o próprio simbólico que.57). passagens. Ele convoca o entredois. Exprimindo-se criativamente em situação de fronteiras culturais. Orient imaginaire. o amor os leva a se despirem de qualquer sugestão de fixação. o amor não poderia se manifestar em contexto marcado pela idéia de unidade: como falta e busca. à luz da experiência diaspórica.. eles imaginam que viajam a cada noite.1991. VIII. de acordo com Daniel Sibony. à New Delhi ou à Buenos Aires. no deslocamento. ‘viagens’(. n° 15 .

identitários.. um grande lirismo se destaca nessa obra. para empreender uma viagem em um universo marcado pela riqueza de imagens e de metáforas inesperadas. Isso explica a cenografia do ritual amoroso inventado por esses personagens que elegem a vivência amorosa (e aqui pouco importa se se trata de amor ou de paixão) como espaço significativo da condição diaspórica. ela registra o 131 jul.71).Uma voz da diáspora haitiana. associada às expectativas de um ir além. Se na narrativa da viúva de Amédée. pertence a um domínio mais culto do francês.. Hibridação de registros de língua. engajando-se em uma escrita fundamentada na hibridação. Espaço da polifonia e da pluralidade. na riqueza da não-coincidência. Assim. a do personagem Régis – que tece as ligações entre diversas histórias. graças à inclusão da multiplicidade de cores. Cabe agora ressaltar que o prazer da leitura do romance Passages está diretamente ligado à representação das movências: o leitor é chamado para se deslocar dos limites de seu mundo. surpresos diante da manifestação dionisíaca da diferença em seu território. precisam levar adiante seu desejo – sempre movente. de paisagens e de manifestações culturais que remetem a um “dépaysement” criativo que nada tem de exótico. Como salienta Louise Gauthier (1997. o que reforça a paratopia de seres desterritorializados. odores. identificam-se a sabedoria ligada à experiência presente em provérbios haitianos e o ritmo próprio do conto e da oralidade. Émile Ollivier imprimiu em seu romance as marcas da Poética da Relação proposta por Édouard Glissant (1990). Atenta aos excessos característicos do carnaval. o personagem Leyda evoca esse momento expressivo do encontro de culturas e seus efeitos sobre os quebequenses./dez. 2007 . Valendo-se das promessas da diáspora. como todo desejo – de “escreverem” suas histórias graças à travessia de línguas e de memórias corporais e culturais. em que diversos níveis lingüísticos coabitam sem hierarquias. gostos e ritmos e à liberação do corpo grotesco próprio da carnavalização rabelaisiana. p. Na reconstituição de suas memórias elaboradas em Montreal. o livro em questão coloca na paisagem transcultural montrealense a explosão do orgiasmo carnavalesco caribenho.

distribuent victuailles et rafraîchissements . des punchs exotiques. VIII. échouaient là. d’ail. femmes-lézards. assoiffés de fentes.38-39) Na lógica da carnavalização. calypso. p. a manifestação do corpo grotesco 132 Revista Brasileira do Caribe. femmes-libellules.) Et l’on tape sur tout ce qui peut résonner : bouteiilles vides. rabordaille. reggae. après avoir fait le tour du monde. casseroles ébréchées. incitant à des déhanchements. plantes parvenues à maturité sans que l’on puisse en préciser l’âge. Et les odeurs! Des matrones. un coup pour moi. royaume de testicules. méringue. pulsions sauvages de la violence lascive des tropiques. de phallus aux proportions gigantesques. de vanille. plantes plantureuses aux yeux rouges de plusieurs veilles de laborieuses préparations. rubans de dentelles. a dessacralização da cultura oficial. du bruit qui soudain devient rythmes. de fruits de la passion: irruption de la Caraïbe des origines . dá-se uma série de transformações: a revelação do mundo às avessas. vol. n° 15 .. de muscade. masques. une foule criant haut et fort. serpentins qui deviennent cerceaux emmêlés. sandwichs à l’avocat. de clou de girofle. de basilic. bouquets de canelle . renovada pela irrupção dos signos da alteridade: Leyda gardait en mémoire l’image de toutes les couleurs de peaux se côtoyant dans une débauche de costumes bigarrés. défilés de couples mimant des scénes d’accouplement. une cacophonie.Maria Bernadette Velloso Porto transbordamento de limites. steelbands d’un jour. n’était la présence massive et rassurante de la flicaille prête à toute éventualité (OLLIVIER. une horde de corps que des coulées de sueur font luire au soleil . cette partie de la ville devenue soudain folle (. de trous. femmes-tortues. pâtés relevés de poivre. rythmes célébres qui. dans ce parc de Notre-Dame-de-Grâce. 1994. a transgressão ou a travessia das fronteiras da ordem cotidiana. un coup pour toi. de piment. des assauts de fantaisie. Goiânia. de fourreaux.. tout cela vibrait sous le regard médusé des archéo-Québécois qui auraient pris panique. démêlés. vieux bidons d’essences. Et l’on voit passer des bipèdes obscènes sur des plates-formes mobiles. cercles de femmes.

. Seja como for. mesmo que por momentos.. No âmbito de jogos identitários característicos do carnaval. Desse modo. a cerimônia vodu realizada a bordo do barco. a vivência da religiosidade por parte de personagens é marcada pelo sincretismo. Sugerindo a dupla inscrição identitária do autor. mantenedora da ordem. as referências a manifestações culturais do Haiti desempenham sempre um papel relevante na obra de Émile Ollivier. com seus excessos e transgressões de limites habituais.. na vela do barco que levaria alguns haitianos a Miami. comprova que. recusando-se a reconhecer uma concepção simplista de pertencimento. o carnaval caribenho reinventado em uma metrópole da América do Norte acena com as promessas de renovação e de metamorfose. o devir animal: revestindo-se de atributos de libélula.Uma voz da diáspora haitiana. 2003. Por uma espécie de crescendo. os corpos individuais encontrando seu prolongamento no corpo social “contaminado” pelos apelos caribenhos. Assim. Entretanto. a polícia permanece de sobreaviso. e da sexualidade desenfreada. mesmo localizados. aprofundou sua experiência do entre-dois. mostra-se disponível para incluir em seus referenciais identitários valores e 133 jul. ainda que debaixo de fantasias e disfarces. 2007 . e a presença dos excessos associados à enumeração. 1994. investindo. em formas diferenciadas de identidade. lagarto e tartaruga. No caso de Ollivier. elas parecem brincar de outras possibilidades de ser e de estar no mundo. Longe de se fundamentarem numa visão folclorizante da diferença.. ao longo da qual o improviso é permitido. atinge a todos. no Quebec. Isso indica o caráter de duplicidade identitária do autor que. p. p. insinuando que toda essa algazarra é apenas provisória.83). cultuados em seu país natal. as mulheres conhecem. por mais que a identidade esteja ligada aos movimentos do devir.) o ser humano não pára de se inventar” (OLLIVIER. todos nós nos originamos e falamos a partir de “algum lugar” (HALL. foram bordadas imagens do panteão católico e de divindades do vento e do mar./dez. a euforia contagiante da festa. Todavia. nossa relação com o passado e com a origem é sempre passível de releitura e nos permite atestar a veracidade de uma afirmação do romance: “(. 240). abalada com a desmedida da festa carnavalesca.

Montréal : Les Presses de l’Université de Montréal. CASANOVA. esse se viu transformado com as vozes caribenhas. Naïm Kattan et les écrivains migrants au Québec. 2000. VIII. Niterói: EDUFF/ABECAN. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Les pouvoirs des mots.. São Paulo: Papirus. Ottawa : Conseil International d’Études Canadiennes. La mémoire sans frontières : Émile Ollivier. S. transferts culturels et l’expérience de l’habitabilité dans les romans d’exil d’Émile Ollivier”. Montréal : Presses de l’Université de Montréal. Introduction à une poétique du divers. Da diáspora : identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora da UFMG. 134 Revista Brasileira do Caribe. 1997. Bibliografia AUGÉ.(org. J. M. 2003. n° 15 . É. GLISSANT. Poétique de la Relation. Paris : Seuil. E se a idéia de identidade supõe limites. Le discours antillais. 1994. 1997. Langagement : l’écrivain et la langue au Québec. HALL. Identidade. BAUMAN. Sainte-Foy (Québec) : Les Presses de l’Université Laval. 1986. 1999. GLISSANT. La République Mondiale des Lettres. & JACQUES. É. Por sua vez. numa via de mão dupla enriquecedora. Z. BOUCHARD. G. HAREL. L. 2000. M. Montréal : Boréal. 2003.In : PORTO. P. In : Revue Internationale d’Études Canadiennes n° 27. a despeito de alguma resistência. GAUTHIER. Brasília: Representação da UNESCO no Brasil. JONASSAINT. distinção e ruptura. vol. É . L. S. exclusão. GLISSANT. Paris : Seuil. « Littérature et culture nationale du Québec : le clivage culture savante/culture populaire ». Goiânia. Fronteiras. Paris: Éditions de l’Arcantère . paisagens na literatura canadense. 2005.. GAUVIN. Paris : Gallimard. “L’écrivain témoin : déplacement.). les maux du pouvoir : des romanciers haïtiens de l’exil. 1995. ela também pode ser concebida como falta. Campinas. insuficiência e ausência que levam o ser humano a largar as amarras de um porto seguro das certezas para se deixar envolver pelos movimentos do devir e pela expansão diaspórica. M. passagens. 1990.Maria Bernadette Velloso Porto produtos culturais do país que o recebeu. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

“Hibridações culturais. RUSHDIE.Ottawa : Leméac.. M. (org. Entre-deux: l’origine en partage.. S. (org. In: PORTO./dez. SIBONY. Niterói: EDUFF/ABECAN. PORTO.). M. 1994.). “Pátrias imaginárias na poética das migrações”. PORTO. Identidades em trânsito. MAALOUF. S. PORTO.. LAROCHE. D. PARÉ. M. Les identités meurtrières.. Les littératures de l’exigüité. É. 1998. paisagens na literatura canadense. Identidades em trânsito. LAROCHE. Patries imaginaires: essais et critiques 1981/1991. M. (org. Du nomadisme: vagabondages initiatiques. Niterói: EDUFF/ABECAN. passagens. N. Niterói: EDUFF/ABECAN. OLLIVIER.Paris: Seuil. La double scène de la représentation : oraliture et littérature dans la Caraïbe. A. 2004. Niterói: EDUFF/ABECAN. : essais sur des cités et des hommes. 1991. 2007 . PORTO. MAINGUENEAU. 2004 MAFFESOLI. SIMON.). (org. hibridações textuais”. 2001. 2001. 1993. 1993. Dialectique de l’américanisation. Repérages. São Paulo: Martins Fontes. Québec : Presses de l’Université Laval.. 2001. A. Origines. . Paris : Le Serpent à Plumes. Montréal : Hurtubise HMH. M. Paris : Christian Bourgois.Uma voz da diáspora haitiana. 135 jul. M. O contexto da obra literária: enunciação. M. KATTAN. OLLIVIER.Paris:Librairie Générale Française. escritor e sociedade. Québec : GRELCA. M. 1991. Identidades em trânsito. L’écrivain migrant. 2004. Ottawa : Le Nordir. 2001.Paris: Bernard Grasset. Paris: Grasset & Fasquelle. F. MAALOUF. D. Passages. 2000. 1997. 2004. É..) Fronteiras.

136 .

Keywords: Césaire. O diálogo se dá pela via da Psicanálise de Jacques Lacan. Literature. VIII. This analysis will draw on the theories of Jacques Lacan on Jean-Luc Nancy´s philosophy and the most contemporary conceptions of identity. mas que. Na perspectiva de uma voz que inicialmente surge como expressão inconsciente do coletivo e ainda sobredeterminada pelo significante do colonizador. Antilhanidade. num movimento outro. 137-164. n° 15. Goiânia. Negritude Resumo Este trabalho representa à subjetividade antilhana a partir das poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. Crioulidade e Crioulização. a way of political and social compromise with the progress of humanity. From the perspective of a voice which initially emerges as an expression of the unconscious of the collective and still over influenced by the legacy of the colonizer. a new perspective towards the future encourages to re-evaluate concepts such as Negritude. da Filosofia de Jean-Luc Nancy e da concepção mais contemporânea de *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 137 Revista Brasileira do Caribe. but on a different turn. 2007 . Identities.A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant Kátia Frazão Costa Rodrigues Abstract This study focuses on the exploration of the Antillean subjectivity as it is conveyed in the poetry by Aimé Césaire and Edouard Glissant. sob um olhar mais paciente e também voltado para o futuro. interview with Brazilian poet Paula Glenadel. allowing thus the dialogue between differences. se reedita e deixa mostrar a outra face da resistência. Creoleness and creolization. Antilleanness. convite para se repensar conceitos como Negritude. Glissant. The acknowledgement of this subjectivity leads to a reformulation of the way of thinking and acting. vol.

vol. poetisa brasileira. O reconhecimento dessa subjetividade leva. Já a palavra sujeito. A subjetividade. pessoal. Palabras Claves Césaire. Literatura.Kátia Frazão Costa Rodrigues identidade. VIII. criollidad y criollización. em duplo gesto. o diálogo entre as diferenças. Identidades. Es la perspectiva de una voz que inicialmente nace como expresión del insconsciente colectivo y ainda sobredeterminada por el significante del colonizador pero que en un movimiento “otro” se reedita y deja mostrar la otra cara de la resistencia sobre una mirada más paciente y dirigida para el futuro. à reformulação do pensar e do agir humano. Negritude Resumen Este trabajo es una investigación sobre subjetividad antillana a partir de las poesías de Aimé Césaire y de Edouard Glissant. Glissant. Negritude Pretendo suscitar interrogações acerca de uma possível subjetividade antilhana a partir do diálogo entre as poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. permitiendo así el diálogo entre las diferencias. particular ou que pertence unicamente ao pensamento humano e é suscetível de variar em função da personalidade de cada um1. Glissant. entrevista en la poetisa brasileña Paula Glenadel. sem dúvida. assim. onde traços se repetem e. designa o substantivo feminino que concerne à qualidade ou caráter de subjetivo. n° 15 . entrevista em Paula Glenadel. produzem movimentos de fechamento e de abertura próprios de uma existência híbrida e resultante do processo de ser singularmente plural. pois embora esses autores martinicanos se inscrevam na Literatura de forma particularizada. aqui entrevista. seus poemas parecem remeter a um espaço comum. adjetivo do latim subjectivu que significa: relativo ou existente no sujeito. Goiânia. individual. possibilitando. forma de compromiso social y político con el efectivo progreso de la humanidad. El diálogo se da por la vía del psicoanálisis de Jacques Lacan. forma de engajamento social e político com o efetivo progresso da humanidade. Literatura. Palavras-Chave: Cesáire. invitando para repensar los conceptos Negritud. antillanidad. de la filosofia de Jean-Luc Nancy y de la concepción más contemporánea de la identidad. El reconocimiento de esa subjetividad lleva sin duda a la reformulación del pensar y del actuar humanos. conforme 138 Revista Brasileira do Caribe.

/dez. àquele que se sujeita à vontade dos outros. Cabe ressalvar. este pode se legitimar como seu fiel representante. pela oralidade do conto e pelas práticas culturais. o termo sujeito designa o indivíduo indeterminado ou cujo nome se quer omitir. ao redesenhar a trajetória de um devir sempre descontínuo. mas à palavra exterminada dos indígenas e amordaçada dos escravos africanos. Cito Pépin. Investigar a subjetividade antilhana é. primeiramente. O autor deixa entrever. a escritura martinicana está diretamente ligada à questão identitária e esta ainda parece ser a grande problemática do antilhano em geral. como adjetivo. um alguém. no ponto intersecional das poéticas de Césaire e de Glissant. muitas vezes ficaram sem registro. No entanto. entrevista a partir do encontro dessas potências em diferença ou. Como substantivo. muitas vezes interrompida e consignada na memória crioula. materialização na escrita de uma potência que não cessa de se recarregar. Não foi senão a partir dos primeiros cronistas. que toda essa literatura mestiça está presa não somente ao ocidente. em outras vozes do plano da composição. apostando na existência de um alguém. iniciado pelo marronage3. nesse caso. reconhecendo-se. tamanha é a sua importância no processo de reconstrução sócio-cultural e histórica das Antilhas. Les composantes sont diverses. escritor nascido em Guadalupe: “Nous ne sommes pas que des descendants de l’Afrique. que 139 jul. Pépin também nos dá pistas de que é pela palavra. assim. cativo. pesquisa de mesma fonte. ainda. que a Literatura Antilhana possui uma dimensão muito maior do que o universo restrito da Martinica. obrigado e constrangido ou.. escravizado. refere-se ao súdito. Ademais. que. assim. 2007 . ainda que instantaneamente.. A subjetividade é. Nous portons tous en nous ces parcelles d’identité qui nous constituent en tant qu’Antillais et Caribéens créoles2”.A construção da identidade no Caribe. antes de tudo. vem do latim subjectu (posto debaixo) e. As investidas em favor desse resgate identitário. assim. esbarra. convocar à cena a voz que se apresenta poeticamente como “eu”. como o padre Labat e o padre do Tertre. que deve ser redescoberta a qualidade desse eu enunciador.

Jean Bernabé e Patrick Chamoiseau. que também se revela como problemática. escreviam em francês e. a crioulidade apela para a consciência de uma etnia plural. tão distante e estrangeira. assim. em seus anseios linguageiros pela cultura dominante. deparando-se com algumas barreiras. a da própria língua. Goiânia. retratar a realidade antilhana. como afirmou Pépin. Césaire. a mestiçagem. Desde sempre atraído pela questão identitária e querendo ultrapassar as barreiras essencialistas criadas 140 Revista Brasileira do Caribe. Ao denunciar o falso monolingüismo e a pureza das raças sem evidenciar. a “Negritude”. assinado pelos martinicanos Raphaël Confiant. por isso. porque designa ora os brancos nascidos nas colônias. nos anos 80 do mesmo século. VIII. é formulado em favor dessa contraposição. foi Edouard Glissant. muitos deles seus futuros e acirrados críticos. sobretudo. n° 15 . dentre elas. a então chamada “literatura assimilacionista” também não chegou a apresentar uma dimensão histórica e social. esses “brancos da terra”. então. Segundo Confiant. A eles se segue a escrita duduísta. dentre outras razões por fazer uso da língua francesa. quem primeiro explorou mais profundamente a unidade. Era a escrita dos primeiros mulatos antilhanos assimilados. a escrita regionalista. ainda nos anos 60. na busca de uma poética própria. acusa Césaire de essencialista. A “cria da Negritude”. a crioulidade acentua ainda mais as diferenças culturais e antropológicas. vol. que liderou essa empreitada identitária. Cheia de clichês. de fato. Mas. Entretanto. contudo. conquistou rapidamente um grande número de adeptos. Surge. igualmente dicotômica e marcada pelo exotismo. O conceito de “Crioulidade”. ora os negros. igualmente presa aos padrões ocidentais. não conseguiram. No projeto de uma concepção unificada do povo antilhano. movimento que se inicia nos anos 30 do século passado e marca uma consciência mais desenvolvida em favor da dignidade negra.Kátia Frazão Costa Rodrigues se inaugurou timidamente uma sondagem. a existência de uma matriz cultural fundamentada na plantação da cana e na escravidão faz persistir a idéia do “um” em relação ao sujeito antilhano. como é chamada por Pépin. vista como eurocêntrica e dominadora. Desse cenário evolutivo nasce.

fazendo ampliar as fronteiras não somente da Martinica. Chamoiseau chega mesmo a afirmar que não é possível falar em Literatura Antilhana antes de Glissant e que tudo que o antecede não passa de uma pré-literatura. com o monolingüismo e com a identidade-raiz. A identidade passa a ser concebida não mais como regional. Por volta dos anos 1980-1990. Glissant desenvolve a idéia de uma “identidade regional”. a universalização do devir. é o próprio Glissant quem atualiza a noção de antilhanidade. assim. talvez seja mais interessante pensar que. conceito articulador da “Poética da Relação”.A construção da identidade no Caribe. com o discurso hegemônico do ocidente. Para ele. provocados pela globalização. as tentativas de ressignificação do sujeito antilhano representam as muitas etapas da construção de uma subjetividade híbrida que se desenha no entre-lugar de algumas falas. por 141 jul. até contraditórios. onde interagem o cultural e o lingüístico. o conceito de “Antilhanidade”. aí. acerca da oposição raiz-rizoma. Entretanto. confirmando a existência de uma cultura crioula que. longe de serem consideradas como movimentos isolados e. o resgate da identidade antilhana só é possível pela ruptura com a tradição baseada na filiação.. Elabora. Afetado pelas idéias de Deleuze e Guattari. o autor desenvolve o conceito de “Identidade-rizoma”. que se fundamenta no diverso. a obra de Césaire. assim. e também pela migração e maior contato entre os povos. A identidade não mais se concentraria no ser. o devir crioulo passaria por essa conscientização. mas como múltipla e decorrente da relação com o outro. a partir da observação dos traços comuns das várias culturas caribenhas. na aceitação do outro e de suas diferenças. pela Negritude./dez. Segundo o autor. por vezes. as diferenças. incluindo-se. o pensamento de Glissant se estende às problemáticas humanas. que busca. no mesmo. mas também das Antilhas e da América em geral. Glissant define as diferentes culturas como formas mestiças que se entrecruzam de maneira dinâmica num processo de “Crioulização”. apesar de diversa e sem consciência de si mesma. 2007 . desrespeitando. possuiria uma identidade própria. Dessa forma. mas no “ser com”. Em 1995..

Cito Glissant: “Et parmi les chants de midi / Ravinés de sueurs triomphales / Sur un cheval vient à passer / La mort demain la Pitié” (GLISSANT.. 1965.. “. incitando à reflexão. le vin. de Aimé Césaire. le pain. como diz o poeta da negritude. gestes imbéciles et fous pour faire revivre l’ éclaboussement d’ or des instants favorisés. n° 15 . também. un vieux silence crevant de pustules tièdes. como também. vol. do drama de todo negro da história da humanidade. / l’affreuse inanité de notre raison d’être” (CESAIRE. Mas foi Césaire quem primeiro denunciou essa marca indelével da violência: “. caminho possível para uma atitude menos passiva diante dos acontecimentos que envolvem a própria vida. A descrição do sofrimento causado pela escravidão. inicialmente.24). le pain. feita por Glissant na sua obra Poèmes 4. por exemplo. Cito: Cette argile à nouveau remue! Serait-ce que l’oiseau guide le ciel vers une source ? Serait-ce. l’ 142 Revista Brasileira do Caribe. honra e respeito. invocando atenção para questões morais que colocam em jogo valores como dignidade. VIII. et le vin de la complicité. buscando. um cunho pedagógico. Essa escrita marcada pela emoção apresenta. 14). très lointaine. não somente em favor de uma maior consciência acerca do negro colonizado.10). sacudindo a consciência. p. le sang des épousailles véridiques” (CESAIRE. Daí a abundância de interrogações. Goiânia.. p. le cordon ombilical restitué à sa splendeur fragile. 1994. A escritura antilhana tem a marca de um apelo que se funda. A interpelação em Glissant tenta atingir a cristalização causada por um real que ainda resiste à palavra. e por extensão.une vieille misère pourrissant sous le soleil. 1994. p. silencieusement.Kátia Frazão Costa Rodrigues aproximação e distanciamento.. dá pistas de uma incontestável proximidade com aquela que se desenhou no Cahier d’ un retour au pays natal5. numa verdade exterior.

2007 . Et vous.. para saudar Edouard Maunick”. le souvenir encourt les tournoiements de l’ arbre. Faitesle feuille de vos mains. ocupando também o lugar do outro.1965. quando diz: Si nous voulons réappareiller l’ abeille dans les campêchiers du sang Si nous voulons désentraver les mares et les jacinthes d’ eau Si nous voulons réfuter les crabes escaladeurs d’ arbres et dévoreurs de feuilles Si nous voulons transformer la rouille et la poussière des rêves en avalanche d’ aube Qu’ es-tu. Cito: “Durant que vous dormez dans cette plaine. da mesma forma. et plus haut son sang. (GLISSANT. no poema “Palavras de ilhas. embarquement des rives de la neige vers une foule incendiée ? Ou le coeur. permanece “como uma baía!” (GLISSANT. p.. son ressac tumultueux ? Nul n’ avoue. Glissant responde. 1965.faites-le flamboyance de l’indécis. et l’ébloui de vos brisures.” (GLISSANT. 1965. faites mystère ainsi que lui de ce silence où bruit la ville. ausente de todo trabalho. nul ne peut. qui fume sur la ville sa suée de terres. 13-14) Mas.. que cette enfance soit la vieille d’ un bivouac. 15-16). à peine devinant tout ce remous d’ étoiles et de lierres. Toute prose devient feuille et accumule dans l’obscur ses éblouies. profuse en ce langage.. p. O uso dos verbos no modo imperativo já atesta o desejo de guiar impulsionando essa multidão que. agité comme une gare de populations végétales. indifférente et soudain calme dans le fruit.../dez.15). Césaire parece. ensaiar a instrução de um possível caminho para o resgate identitário. ao traçar a estratégia para a resistência.A construção da identidade no Caribe. est-ce le coeur. Lui ne craint plus le sentiment (de dire « je » dans cette terre)... ao mesmo tempo em que interroga. mais l’ emblave et l’ ensemence. Toi qui comprend ce qui disent les îles Et qu’ elles se communiquent dans la marge des mers et dans le dos des terres dans leur jargon secret d’ algues 143 jul. faites-le prose de l’obscur.

completamente muda. ao tentar desmistificar o exotismo das Antilhas. p. Seu referencial de verdade está no passado e aponta para a consciência de que algo precisa ser empreendido. n° 15 . A escrita hesita entre o desejo de ser o seu próprio modelo e a missão de um testemunho coletivo acerca do passado traumático que seria esquecido sem ela. expressa na passagem perversa do outro por essa ilha lastimável de uma gente passiva ou.Kátia Frazão Costa Rodrigues Et d’ oiseaux Qu’ es-tu comparse du feu et du flux et du soufle (CÉSAIRE. 1994. A mesma ambigüidade se dá em relação à descrição da Martinica. 508). quando. Glissant o faz pela pintura da sua inversa miséria. “de uma multidão que não sabe fazer multidão”6. deriva. pelo menos como tal. vol. como diz Césaire. pois esse tempo distante é constituído de matéria fictícia e remete a algo que não existe mais ou que nunca existiu. que se deixa abater e. Goiânia. 24) Essa expressão cheia de predicações compõe. deixando-se representar por cores sombrias que escrevem simbolicamente o desencanto: 144 Revista Brasileira do Caribe. um novo traço dessa dura realidade se revela. a cada pincelada. de fato. pouco a pouco. p. o cenário do drama. Nos versos abaixo. 1965. revelando uma escritura marcada pela antítese branconegro. VIII. E. náufraga. Glissant parece assumir a mesma fala que um dia proferiu o poeta “portavoz das bocas das desgraças que não têm boca nenhuma”7 ao dizer: L’ île entière est une pitié Qui sur soi-même se suicide Dans cet amas d’argiles tuées O la terre avance ses vierges Apitoyée cette île et pitoyable Elle vit de mots dérivés Comme un halo de naufragés A la rencontre des rochers (GLISSANT.

plus que l’ aurore dans les chambres. perde o contato com o mundo e. Ma mémoire est entourée de sang. 1994. os dois poetas dão indícios de que. Nessa perspectiva. Ce vent n’ est plus l’arène où s’ ébattent les pluviers ! Jamais plus. mostra que a poesia construída a partir da autofragmentação patológica do negro e da sua vitimização vai alimentar o plano das composições antilhanas em geral.32). Elles sont couvertes de têtes de morts.A construção da identidade no Caribe. Que de sang dans ma mémoire! dans ma mémoire sont des lagunes. a permanência. ô jamais n’ ira l’ aurore disant l’aurore. Sua recorrência atesta não só a não resolução como a fixação do drama. p. de roses sales. pelo pessimismo. também no plano ficcional e como algo ainda passível de ser questionado. diante do sofrimento moral e material a que foi submetido. se desajusta. a posição privilegiada do ocidente. Ma mémoire a sa ceinture de cadavres! et mitraille de barils de rhum génialement arrosant nos révoltes ignobles. 145 jul. fazendo realçar. no imaginário antilhano. assim. na obra dos dois autores. Le soir est écuelle de broussailles. assim. Sur leurs rives ne sont pas étendus des pagnes de femmes. confirmando. Dans ma mémoire sont des lagunes. antigas antinomias. a sua própria condição humana. Elles ne sont pas couvertes de nénuphars. entregando-se. Jamais plus n’ ira le vent par la parole. “na eterna fixação dos dias e dos gemidos”8: O tout ce lieu est mort. Essa dimensão psicológica encontrada. de um sentimento de incapacidade do negro diante da supremacia branca. É interessante destacar também que tanto Glissant quanto Césaire demonstram a especificidade do negro colonizado como alguém que. como um traço identitário que não se apaga. acheminant des rêveries. loin du vent. ao ser mantida. 2007 . coisificado. não por acaso. ao mundo maniqueísta instaurado pela escravidão. além da memória./dez. a escrita antilhana também é marcada pelo desastre. perde a noção de si e da realidade... pâmoisons d’ yeux doux d’ avoir lampé la liberté féroce (CÉSAIRE.

Peut-être êtes-vous là. se submete ao código do outro. et de cette couleur d’ amour. s’ouvre bientôt un champ de misère et d’ incendies.13). o poeta do “Cahier”: “. Il est de la race des choses mûres de mûrir dans l’ été lourd et l’ encombre tumultueux. o psicanalista Jacques Lacan9 demonstra que o exterior tem importância decisiva. A linguagem determina o sujeito porque a palavra não só precede a sua existência.Après la traversée.car sa voix s’ oublie dans les marais de la faim. / qu’ une “faim qui ne sait plus grimper aux agrès de sa voix / une faim lourde et veule. pleuré les rêveries. n° 15 . na mesma encruzilhada do pensamento. O Soleil ! ô travail séculaire sourdement mêlé de mer. 31).. et de sang noir précipité. fazendo com que o homem perca a sua aurora e os seus devaneios. Na sua teoria sobre a constituição do sujeito.. a partir de um comprometimento involuntário com o sistema simbólico pré-existente.Disaitil seulement. et la colère des requins. a resistência rumo à individuação.. comme l’ aurore. O verbo se faz presente entre o 146 Revista Brasileira do Caribe. abandonné la rare bleuité de ceux qui aiment et sont aimés. (GLISSANT. paradoxalmente. p. 1994. “je”. p. dans la voix fissurée. VIII. na impossibilidade da troca com o outro. como estrutura a dimensão inconsciente e. Goiânia..Kátia Frazão Costa Rodrigues « je suis l’éveil des yeux et la clarté des profondeurs”. Un homme chaque matin ouvre les yeux sur la solitude où il se garde. E. pois o eu se descobre no outro. na falta de comunicação.. Il a quitté les flamboyances. A morte é também da palavra que. cette naissance hivernale ? (GLISSANT.146). p. rien à tirer vraiment de ce petit vaurien.1965... vol. escravizada. la solitude.. / une faim ensevelie au plus profond de la Faim de ce morne famélique” (CESAIRE. 1965. na impossibilidade de amar e de ser amado. dans cet effroi des promenades ? – nul ne sait. / et il n’y a rien.

o processo subjetivo só pode ser pensado na relação com o outro. pois não se trata apenas do assujeitamento primordial à língua do grupo. numa imaginada cumplicidade com o colonizador: Je me cachais derrière une vanité stupide le destin m’ appelait j’ étais caché derrière et voici l’ homme par 147 jul. da mesma forma que é impossível conceber a subjetividade sem essa presença fantasmática. 2007 . Cito Césaire: “Mais pourquoi brousse impénétrable encore cacher le vif / zéro de ma mendicité et par un souci de noblesse apprise/ Ne pas entonner l’ horrible bond de ma laideur pahouine ? / Voum rooh oh / Voum rooh oh “ (CESAIRE. 27) Na situação diaspórica.. Tornar-se sujeito. ao mesmo tempo. como efeito da própria socialização. desengonçado. 1994. diferente do eu. sujeito e a sua fala. p. tropeçando na língua do outro e. sem ritmo e sem medida. (GLISSANT. 85) Em Cahier d’un retour au pays natal. mas da subordinação à língua do estrangeiro colonizador. se escondia em si mesmo.A construção da identidade no Caribe. Entre sujeito e discurso. há sempre algo no meio. implica também resistir a essa palavra escravizadora de consciências. sem enxergar a si mesmo: Qu’ était la mer et son écume ? Savait-on si sa parole ne se mourait En quelque gouffre. Césaire já apontava para esse homem que. que fez com que o homem se perdesse durante tanto tempo na obscuridade. au loin des routes révélées ? Longtemps ainsi la voix de l’ homme se perdit aux temples Pour obscure qu’ était la route jusqu’ au temple ! et cette mer. P. Neste sentido. esboçando sorrisos pálidos. 1965. a dependência do outro se torna ainda mais traumática./dez. nesse caso. aprisionado pela brancura de uma vã assimilação à cultura ariana. verdadeiro instrumento de dominação.. estranho e ameaçador.

1965. em outras palavras. Essas fixações atestam não somente o conflito do eu. (CÉSAIRE. 1994. A alienação seria. A concepção lacaniana do homem como ser sobredeterminado pela linguagem permite. VIII. a extensão da estrutura que cessa para algo se opor a ela. (CESAIRE. p. adornos!” (GLISSANT. E. fala o poeta da negritude: Des mots? quand nous manions des quartiers de monde Quand nous épousons des continents en délire. a partir daquilo que um significante representa para outro significante. decorrente do funcionamento da própria linguagem. resultante da sua relação com o mundo. et des flambées de chair. desejado ser como o outro.30). citado por Bruce Fink10. n° 15 . dessa forma.Kátia Frazão Costa Rodrigues terre. sa très fragile défense dispersée. ah oui. a “doença”. a cessão do eu. Goiânia. A alteridade implicaria.. 36). p. ses déclamations pédantesques rendant du vent par chaque blessure. um dia. assim. mas também o exercício de um fazer-se sujeito ou a “cura”. ses maximes sacrées foulées aux pieds. des mots! mais des mots de sang frais. et des flambées de ville. des mots qui sont des raz-de-maré et des érésipèles et de paludismes et des laves et des feux de brousse. confirma o pensamento freudiano de que é pela linguagem que o homem se revela. Lacan.. 39) A consciência de que a língua do outro é feita de “Brancuras! viscosidades da palavra que não interpela! Febre nevada. por conseguinte. do desejo do outro. Voici l’ homme par terre Et son âme est comme nue. quand nous forçons de fumantes portes. ou ainda. assim.. des mots.. 1994. p. vol. que a sua relação com o 148 Revista Brasileira do Caribe. mostrando que as repetições na fala seriam a representação sintomática do inconsciente. pensar que o sujeito é sempre definido em função do outro. então. e a alteridade. traz a certeza de que é preciso buscar uma outra expressão. que seja capaz de exprimir toda a angústia e o arrependimento por ter. Pode-se supor. e.

ora repulsa. é Césaire quem poetiza: les nuits de par ici sont des nuits sans façon elles sont toujours en papellotes elles ne sont pas sans force même si elles sont sans mains pour brandir le coutelas mais force reste à la loi – à l’ angoisse la nuit ici descend de grillons en grenouilles doucement les pieds nus en bas un gosier de coq patiente 149 jul. mundo é sempre ambígua. O homem nasce. 22).A construção da identidade no Caribe. portanto. A letra mata o sujeito para lhe oferecer vida própria. pois ao mesmo tempo em que permanece ligado de forma irremediável à língua do colonizador. de onde talvez sejam possíveis a consciência de si mesmo e uma relação menos traumática com o mundo. porque inclui o outro que. mais de uma dimensão. assim. como linguagem. 2007 . senão. assim. o fruto dessa ilha lamentável.. de uma ficção quando toma para si a alteridade. 1965. E. revela-se agora. preenche vazios e transforma o desejo. O desejo não é./dez. fonte de toda comunicação. tornando seu algo que antes era estranho e ameaçador. os laços que geram a dependência primordial ao significante do outro também fazem armazenar a energia que principia toda resistência e. p. O discurso apresenta. dirige o seu olhar para um devir. porque o outro se interpõe provocando ora admiração. Nesse processo de aproximação e de distanciamento. Declara Glissant: “Le soir à son tour germera / Dans le pays de la douleur/ Une main qui fuse le Soir/ A son tour doucement tombera” (GLISSANT. o outro que habita em nós. investido de mais de um sentido. aquele que apenas a ordem simbólica é capaz de captar. em paralelo. na adoção da causa que perturba o funcionamento da estrutura. Entretanto.. que padece das palavras derivadas. fantasias se produzem e oferecem a sensação de um falso ser que tenta superar o conflito.

na visão lacaniana. As imagens enunciam uma subjetividade que assume o comando e a responsabilidade por toda a expressão. entrevistas as duas poéticas. A primeira refere-se a um duplo assujeitamento do homem antilhano.11-12). 1965. agora. Desenham-se. embora “sem mãos para erguer o facão”. assim mesmo ou por isso. através de duplos gestos. de grilos em rãs”. causado pela sua constituição como ser social e. a exegese do eu e do desejo. ainda. se reinventa.Kátia Frazão Costa Rodrigues pour cueillir la giclée ce n’ est pas toujours de la cellule de gestion de la catastofre que la journée téméraire fait part de sa propre naissance (CESAIRE. do marronage à crioulização. da alienação que dirige o homem para a assunção de um papel vazio a ser preenchido pelo outro. p. investidas de interesse e de valor libidinal. em decorrência da própria anulação. VIII. como um furo de significantes que nos chegam numa linguagem truncada e aparentemente sem sentido. Assim. Uma anulação que é. n° 15 . de responsabilidade frente 150 Revista Brasileira do Caribe. mas. O segundo movimento revelaria um percurso outro. igualmente. reanima a existência. deixando entrever. o primeiro passo para a constituição do sujeito. duas trajetórias para se pensar a subjetividade. incita ao exercício de um olhar mais amadurecido e próprio de um eu que se confessa “laminar”11 em Césaire ou. na busca da realização do eu reprimido e na assunção também de um papel. 1994. como uma paciência que “cresceu na ausência”. A ordem simbólica internaliza as imagens especulares que. 418). pois. em contrapartida. Goiânia. a história antilhana se retraça. vol. mas que faz uma argila resmungar novamente. irrompem no discurso. desta vez. p. Tratar-se-ia. se mexer e “gravitar em torno do seu próprio corpo” (GLISSANT. a existência de um alguém que. É também dentro dessa perspectiva ética de sujeito que são. mais ainda. permitindo. A noite que cai “docemente e. próprio daquele que Glissant anuncia como nascido da poesia que ultrapassa o drama e faz reacender a chama da vida. nascido no país da dor. como ser negro e escravizado.

a partir do reconhecimento da espectralidade que assombra a fala do sujeito12. desarmado. A subjetividade adviria. “a ‘identidade’ está e não está onde se procura por ela”13. faria com que o sujeito se expusesse com toda a sua complexidade. assim. A separação implica a dupla falta e marca a possibilidade do sujeito vir a ser. vivendo a sensação fantasmática da completude causada pela utopia de um preenchimento. sustentado apenas pela ilusão de uma totalidade. alavanca o processo de subjetivação do drama. imprevisível. que não é nem eu nem outro. único caminho para a fantasia que. completamente nu. Paula Glenadel propõe pensar a identidade como identificação. chamando para si o sujeito. mas o gozo de uma vida.A construção da identidade no Caribe. 2007 . ao ser atravessada. É preciso pensar o trauma antilhano como bloqueio. Segundo Glenadel. Chico Science”. A identidade seria. no firme propósito de ser como tal. uma vez rompida. em fluxo constante. A partir dessa concepção mais contemporânea acerca do sujeito e da identidade. provocando a ruptura da hipotética unidade anterior. um fantasma que reinventa o drama e se apropria do sentido. mas alguma coisa ou alguém entre os dois. Tal processo corresponderia ao conceito de separação e daria origem ao ser marcado pela hibridez. tenta fazer essas duas faltas coincidirem. ao próprio futuro. a subjetividade pode ser pensada como resultante do processo de carga e “des-carga” emocionada. pelo qual o sujeito se permitiria construir e “des-construir” fantasias. que o sujeito se atesta.. talvez seja possível pensar que existe. fruto de dor e de prazer. Nesse sentido. fazendo com que ele assuma não só as responsabilidades. como uma herança inquietante que atravessa o discurso produzido pelo imaginário e pelo desejo das margens. assim. de 151 jul. provocando proximidade e distância. de um grande paradoxo que incluiria alienação e separação ou fechamento e abertura.. em toda a sua diferença. na conformidade de uma contradição que. Essa unidade. É dessa forma./dez. mas também como possibilidade de encontro com o desejo do outro. penso. Em “Entre mangue e manguetown.

Kátia Frazão Costa Rodrigues fato. vol. por ser traço descontínuo sempre em movimento. não se funda 152 Revista Brasileira do Caribe. a possibilidade de reformulação de um futuro. 457). a palavra. p. como poetiza o fundador da Negritude. há tempo reprimida. mas as mudanças de pele: quand les flèches de la mort atteignirent Miguel Angel on ne le vit point couché mais bien plutôt déplier sa grande taille au fond du lac qui s’ illumina Miguel Angel immergea sa peau d’ homme et revêtit sa peau de dauphin Miguel Angel dévêtit sa peau de dauphin et se changea en arc-en-ciel Miguel Angel rejetant sa peau d’ eau bleue revêtit sa peau de volcan Et s’ installa montagne toujours verte a l’ horizon de tous les hommes (CESAIRE. VIII. provoca aporias. estabelecendo. n° 15 . confirmando a dependência em relação ao significante do outro. no “furor de dar vida a um desmoronamento de paisagens”15. para que uma “nova bondade não deixe de crescer no horizonte”14. lançando-se para um devir que prevê não mais a fixidez do pensamento. Contraria. de um por-vir”17. um alguém que se expressa fantasmagoricamente nas duas poéticas. como nomeia Glenadel.É quando. o devir se anuncia no espaço de um não-tempo. deixa lacunas. espaço que só se habita provisoriamente. e abre-se ao desconhecido. Goiânia. 1994. assim. de uma promessa. então. mas que. produto arbitrário de uma consciência. como presença em ausência que traz sempre à tona o passado como sintoma. Essa palavra. pela “reabilitação de delírios muito antigos”16. os “mecanismos espectrais de permanência” e faz reavivar os de “transformação. Sob essa perspectiva. se libera “para reavivar o verso solar dos sonhos”18.

expressa por uma sensibilidade que se coloca à margem de toda lei. p. a espuma e a casa de lavas por vezes”. 397) A autoridade fincada no presente pela expressão de uma vontade deliberada delimita o passado porque não se reconhece mais como histórica.A construção da identidade no Caribe. Glissant também apela para as palavras que “fazem o céu e o horizonte”. mas à produção do seu efeito. A existência agora se expõe não mais submetida ao tempo. São elas. um reflexo instantâneo da verdade do eu. assim. por intermédio de um código interno e variado que coloca em questão a própria linguagem. para um futuro que guardará a sua qualidade na memória. O subjetivo volta-se do passado para o presente e. O dito coloca em cena. Continuar a vida significaria viver o efeito de cada instante e. um je que não representa mais o coletivo. hoje. na expressão do sujeito por ele mesmo. são as produzidas pela mão que faz igualmente “a riqueza 153 jul. mas na reivindicação de uma verdade nova que marca a passagem da ficção à efetiva presença de um eu. em contínuo devir. ultrapassar também o presente. a partir de um referencial interno e subversivo. mas o resultado da íntima relação entre o ser e a realidade. por extensão... O imaginário desempenha o papel de imagem do eu. mostrando que a escrita do desastre se constrói a partir das abstrações de uma consciência em enunciação: il y a aussi les capteurs solaires du désir de nuit je les braque: ce sont des mots que j’entasse dans mes réserves et dont l’ énergie est à dispenser aux temps froids des peuples (ni drèches ni bagasses. 2007 . mais na intenção de transmitir uma verdade exterior. então.. mas fruto de uma escolha carregada de sentido que propõe. apesar de tudo. as escritas pela “mão que floresce a dor. a continuação da vida.. assim. segundo o poeta. que faz o pássaro. 1994. como algo que lhe é pertinente e o identifica como tal./dez. ) (CESAIRE. A poesia seria.

“Toute parole est une terre/ Il est de fouiller son sous-sol/ Où un espace meuble est gardé/ Brûlant. 1965. VIII. p. vol. Como poetiza Glissant. buscando uma completa harmonia com o Cosmos. 1965. p.. onde o céu dança porque “da dor se fez uma palavra / uma nova palavra que multiplica”19. estão as duas poéticas. Ecoutant ruisseler mes tambours Attendant l’ éclat brusque des lames 154 Revista Brasileira do Caribe..24-25). Assim. entre permanência e transformação.Kátia Frazão Costa Rodrigues dos fossos e a colheita do passado” (GLISSANT. delineando uma subjetividade que irrompe para renovar a existência e florir a dura realidade.26). pour ce que l’ arbre dit ” (GLISSANT. Diz o poetarizoma: Celui qui parmi les neiges enfante Un paysage une ville des soifs Celui qui range ses tambours ses étoffes Dans la sablure des paroles Attendant l’ ouverture des Eaux Le grand éclat des vagues Midi Plus ardent que la morsure des givres Plus retenu que votre impatience d’ épine Celui qui prolonge l’ attente Et toutes les mains dans sa tête Toutes splendeurs dans sa nuit Pour que la terre s’ émerveille Il accepte le bruit des mots Plus égal que l’ effroi des sources Plus uni que la chair des plaines Dechirée ensemencée . n° 15 . Os verbos no presente do indicativo reforçam a idéia de que tudo é modelado a partir de uma presencialidade e que todo esse passado “móvel” depende da atualidade de um ponto da vista. Goiânia.

O real. pela presença em ausência de um conflito identificatório que se renova e ruma em direção ao espaço onde “Toda palavra se confunde / Com o silêncio das águas”. libertária e própria das duas poéticas. é aquela capaz de preservar a oralidade. é preciso “contornar os lugares escolhidos da gravidade histórica”20 e invadir a opacidade. que resistiu a toda simbolização. reivindicadora. (GLISSANT. se presentificam por uma voz que ultrapassa o 155 jul. Dessa forma.../dez. 1965. como aponta Michel Zink22. 28-30) A palavra. 1965. criando espaços. “nada liberta mais do que a obscuridade de um dizer”21. Je me fais mer où l’enfant va rêver. 21). Em outras palavras. Aparece no discurso como a qualidade de algo que se desenha dentro dos contornos de um eu também nada preocupado com o tempo ou com a necessidade de fugir dele. É a expressão das contingências que. é o produto de uma consciência particular que se autoriza a falar em nome de uma causa. pois como o poeta mesmo diz. das opiniões e dos sentimentos do autor. num discurso truncado que funciona como ponte também para o acesso ao totalmente outro. não é a simples expressão do real pelo simbólico. particularizadas. L’ éveil sur l’ eau des danseurs Et des chiens qui entre les jambes regardent Dans ce bruit de fraternité La pierre et son lichen ma parole Juste mais vive demain pour vous Telle fureur dans la douceur marine. tornar frágil a aparência e captar o segredo das raízes. p. a escrita traz à tona materiais inconscientes que emergem da subjetividade inquieta. aos impasses que concernem à existência. agora se faz representar por imagens. A subjetividade literária.A construção da identidade no Caribe. também para Césaire. como diz Glissant (GLISSANT. mas a marca de um ponto de vista frente. Para tanto. por exemplo. p. 2007 . muito menos a efusão espontânea e verdadeira da personalidade. de onde a resistência ressuscita em torno de alguns fantasmas. sem qualquer preocupação com a erudição ou com a legitimidade do proferível.

pois como diz Glenadel. Derrida24 afirma que.chaque minute je change d’ appartement“ (CESAIRE. está sempre em movimento. a identidade “constitui uma promessa fundamentalmente incerta. apostando.385). porque vai de encontro às aporias do outro. vol. enfim. sugerir uma promessa de vida na diversidade. talvez. 1994. na busca incessante de um espaço próprio que.. muitas vezes inesperada. parece revelar a existência dessa subjetividade que. de sua cultura e de sua memória. na diáspora. Habitar vários lugares sem deles se apropriar também é se permitir outras impressões.Kátia Frazão Costa Rodrigues real e a materialidade da escrita. Talvez seja exatamente isso que exprime Césaire. p. A palavra rejeita toda mediação de uma lógica que desautorizaria o habitar em vários lugares e a expressão de um tempo que remete tão somente à interioridade. se diz habitando vários endereços ou o lugar mesmo da indefinição. para o outro. só se encontre no silêncio e na comunicação interrompida. promovendo a comunhão momentânea do poeta e do leitor.. em aporia. liberto das cronologias e de toda sinopse. A palavra se multiplica no poema. investindo no novo.. não. à cultura e à memória do colonizador. recebida ou atingida. de Césaire. assim como não se associa jamais à língua. de um discurso truncado. estruturalmente aberta que pode a todo instante converter-se em ameaça de fechamento numa identidade ou em ameaça de perda de uma identidade”. O poema “Calendrier lagunaire”23. aparentemente sem consistência. sob a forma. que cita Derrida25: “uma identidade não é jamais dada. dos homens. n° 15 . mostrando que a palavra ferida. por assim dizer. de expressão inevitavelmente estrangeira. apenas se 156 Revista Brasileira do Caribe. o eu se dissocia de sua língua. despojando-se da fixidez de um pensamento e voltando-se para o desconhecido. mas que anima tanto quanto uma paixão. VIII. É. como numa espécie de amnésia./ . ao se repetir em heterogeneidade pela via do sonho.Cito ainda Glenadel. ao dizer: “j’ habite une blessure sacrée/ j’ habite des ancêtres imaginaires/ j’ habite un vouloir obscur/ j’ habite un long silence. Goiânia. ainda que assim seja. na incerteza de um devir.

/dez. montre celui-ci aux prises avec les contingences du réel. indefinidamente fantasmático da identificação” (GLENADEL. A poesia personifica forças fazendo emergir o presente de uma subjetividade que vive unicamente cada instante. p. a representação do inconsciente. na sua obra já citada. une caresse dévolue Le soleil ici revenu Beauté de l’ espace ou otage De l’ avenir tentaculaire Toute parole s’ y confond Avec le silence des Eaux Beauté des temps pour um mirage Le temps qui demeure est d’ attente Le temps qui vole est un cyclone Ou c’ est la route éparpillée (GLISSANT.142). somados. E. qui le déterminent et qui le façonnent” (ZINK. pelo sonho. o convida para a cena. ao caminhar. Na interseção dessa perspectiva: Savoir ce qui dans vos yeux berce Une baie de ciel un oiseau La mer. o sentido do real e. p. 2003.. então. 2007 . A poesia passa. recupera-se cada herança ou “apartamento”. pela palavra que. Assim. retórica que opera os movimentos de uma vida interior. também constroem a singularidade de todo dito ou do que se encontra em seu lugar. que força hesitante a passagem do mundo interior para o exterior. na medida em que se tem a consciência de que marcas não se apagam totalmente. se desenvolve na voz do poeta. a poesia liberta. 21). Diz Zink: “On a vu que la poésie du dit.A construção da identidade no Caribe. 1965. Despojar-se é tarefa inquietante. efeito da constante relação do sujeito com o mundo. carrega consigo a 157 jul. a ser metáfora contínua. elementos que. passa pelo processo interminável.. p.48). por sua vez. au lieu de construire une image idéale d’un moi. Como deixa entrever Michel Zink. 1985. ao mesmo tempo.

também é possível pensar a subjetividade antilhana como potência de uma existência marcada pelo conflito identificatório. como realça Glissant26.Kátia Frazão Costa Rodrigues força dessa subjetividade. recarregada pela energia dos versos solares que não retornam ao lugar do drama. a mesma que nos ensina. que irrompe surpreendendo e desarmando discursos prontos sobre o bem e o mal. É. em Césaire. É. n° 15 . É. uma trajetória descompassada e diferente de toda linearidade. que o essencial é: nu l’ essentiel est de se sentir nu de penser nu la poussière d’ alizé la vertu de l’ écume et la force de la terre la relance ici se fait par l’ influx plus encore que par l’ afflux la relance ici se fait algue laminaire (CESAIRE. para além do discurso que separa significante de significado. A construção dessa subjetividade implica uma travessia. 415). mas caminham atraindo e colhendo o seu efeito. a força maior. p. a força que faz embalar nos olhos uma “baía de céu. VIII. inscrita no entretempo “da espera e do ciclone”. Seria. ponto de vista do eu sobre o eu. na confecção do seu produto arbitrário: a poesia. vol. A palavra também irrompe no discurso sob a forma de fantasia. provavelmente. sem dúvida. ética e moral. produzindo abertura e fazendo com que o sujeito não opere mais como testemunha. assim. quem sabe. tornando o ser inevitavelmente refém e senhor de todo “futuro tentacular”. 1994. perfazendo. mas como agente modelador de uma exterioridade. que tenta recuperar as suas sensibilidades estética. a força que resiste a todo fechamento e impulsiona a existência para frente ao mesmo tempo em que a autoriza a olhar para trás. por isso. o pássaro e o mar”. Goiânia. Atravessar 158 Revista Brasileira do Caribe. Neste sentido.

unidos por um duplo gesto. de toda possibilidade também nova de ser.. pois requer a manutenção.. uma realidade se expressa. o mesmo já seria necessariamente outro. de passado e de presente. principalmente quando se trata de um povo nascido da diáspora. Glenadel27 também ressalta que essa promessa alimenta-se daquilo que fica como seu pano de fundo. o discurso é se manifestar pela resistência. em hospitalidade. compõem o esboço primeiro do subjetivo. Na perspectiva derridiana de pensamento. Ademais. manifestando a abertura ética para o outro. etnias ou nações. Segundo o filósofo Jean-Luc Nancy. a passividade e a resistência. subgrupos. 2007 . de toda promessa que se apresenta. 2000. e pressupõe negociações.A construção da identidade no Caribe. tal como pensou Lacan ao descrever a entrada na fase do espelho. pois cada vez que algo ou alguém é suposto. então 159 jul. Supor e aceitar a existência dessa subjetividade. que implica a afirmação de uma subjetividade e prevê a busca do ser em si segundo Lacan. a tradução–transporte de significados relativos à subjetividade que se expressa no universo da escrita–pressupõe a necessidade de uma desconstrução do pensamento eurocêntrico. Nancy deixa entrever que nem o ser. mas quando nos leva a descobrir os traços que estruturaram a alienação e a individuação. ser irredutível. confrontando o real e o simbólico que. ao se expor. a tradição ocidental acabou produzindo a cisão do sujeito. múltiplo e historicamente mutante. é também uma tarefa angustiante. na sua busca insistente por definições estáticas do Homem. momento arriscado de busca em que o ser assume papéis imaginados. de agitação e de paciência. misto de individual e de coletivo. se a identificação. disposição nem sempre confortável. deslocamentos. marcado desde sempre pelo outro./dez.64). não um conceito formal que classifica indivíduos. Nesse caso. No seu texto Un sujet?28. deslizando pelos significados construídos. como mémoire reconquise (memória reconquistada) de um instante (GLENADEL. como justiça por vir. nem a sua suposição podem ser concebidos num único sentido. p. A busca por uma subjetividade – qualidade ou caráter do subjetivo – só é valiosa quando se espera como resposta.

au carrefour. quando diz: Le non-temps impose au temps la tyrannie de sa spacialité : dans toute vie il y a un nord et un sud . Ainsi va toute vie. de la ferveur et de la lucidité. Ainsi va ce livre. Et puis. ao atentar para a similaridade percebida na descrição do drama. entre montagne et mangrove. esboço também primeiro de uma subjetividade. p.383) Essa nova perspectiva de ser também abre a possibilidade do Tis. na ressonância de uma mesma voz. na tentativa de desmistificação do exotismo. cette entreprise de bâtir le paysage ? – parfois le coeur est écrasé. se relacionar consigo mesmo. p. claudicant et binaire. vol. Césaire também parece revelar o segredo de toda a existência. 386). n° 15 . VIII. dialogando com a sua própria negatividade. tronc noir et nu. alguém de Platão29. no exercício de reconhecimento e aceitação das próprias diferenças. E é Glissant quem diz que Maintenant les sables sont d’ autre clarté. numa espécie de experiência de si como outro e do outro como si. 1965. Césaire anuncia: “frère n’ insistez pas/ vrac de varech/ m’ accrochant en cuscute/ ou me déployant en porana/ c’ est tout un . l’ air est hostile . entre soleil et ombre. pour le moins. l’ inégale lutte de la vie et de la mort.. ou. 35). et l’orient et l’ occident. Au plus extrême. il faut venir! soit par la mer. polifônica. 1994.Kátia Frazão Costa Rodrigues essa procura só pode ser em favor de uma referência implícita heterogênea e. c’est un fil des saisons survolées. “ (CESAIRE. Goiânia. na escrita 160 Revista Brasileira do Caribe. Il faut choisir. entre chien et loup. E... por conseguinte. Assim. connue des martins-pêcheurs aux songes funèbres.. Le temps aussi de régler leur compte à quelques fantasmes et à quelques fantômes (CÉSAIRE. fût-ce celle du désespoir et de la retombée. p. 1994. la saviez-vous. la force aussi toujours de regarder demain. soit dans la terre. parfois la main s’apaise – et la lumière monte des choses comme une parole d’ architecte (GLISSANT.

o sujeito pode ser aquilo que um significante representa para outro significante. As poéticas de Césaire e de Glissant traçam trajetórias que se entrelaçam em alguns pontos para mostrar que existe uma unidade na diversidade antilhana. no qual a palavra ferida se libera e traz à tona o inconsciente. 2007 . que não se apaga por completo e reincide para atestar a exterioridade que a constituiu. ao mesmo tempo. Sendo as várias vozes de uma suposição. no movimento de resistência voltado para um devir. a afirmação do eu antilhano inclui também a sua negatividade. ao comprometer exterioridade e interioridade. Segundo Nancy. marcada pela auto-fragmentação e vitimização do negro antilhano e. tornando frágil a aparência. Nesta perspectiva.. O sujeito só é como possibilidade. mas também o que emerge deles no espaço de um instante. a marca de um apelo que. porém nem mesmo assim garantiria a sua essência. o que ela tem de mais próprio: o seu caráter de “re-nova-(a)ção”. faz irromper uma subjetividade como fantasma. Voltando sempre como atualidade. marcada pela presença do eu e do outro sempre em processo. entender a Crioulidade ou a Antilhanidade como um contraponto da Negritude e essa como essencialista e eurocêntrica é seccionar o movimento da história e não reconhecer o outro. mas a qualidade do seu último traço. o antilhano. como constante novidade do Cosmos. Qualquer tentativa estática da sua definição descaracterizaria.A construção da identidade no Caribe. A correspondência que se vislumbrou entre os fragmentos poéticos de Césaire e de Glissant vem marcar esses últimos tantos traços que apontam para um ser que caminha rumo à presença em si como mesmo e. seja reconhecida pela sua abertura em direção ao outro. ao buscar o seu espaço próprio. seja entrevista pelo seu fechamento. além disso. portanto.. o sujeito só acontece quando e enquanto se expõe. Tanto Césaire quanto Glissant são sujeitos dessa nova ordem simbólica. da mesma forma que deve ser entendida a qualidade do que lhe é próprio. em toda a sua 161 jul. concluo acreditando que a escritura antilhana é./dez. sem dúvida. renovando a existência pela libertação contida no ato de contornar a gravidade histórica e invadir a opacidade.

1994. Poèmes. constante no site: http://www. 5 Cahier d’ un retour au pays natal .html. entre a linguagem e o gozo. 1965. Notas 1 Le Petit Larousse. 1965. 6 La Poésie. 1994. É na diversidade que caminha. edição 2001 e no Novo Dicionário Aurélio. 1965. p. E. 1998. 1ª obra de Césaire . p. como diz Césaire.com.com/article7507. em 03 de agosto de 2004..11. 9 LACAN. publicada em 1939 pela Revue Volontés. de presença e de ausência. Paris: Seuil. 10 FINK. toda vida: “entre sol e sombra. VIII. In: Afrik.afrik. 19-20).. 4 GLISSANT. 21. É preciso repetir que “durante muito tempo a voz do homem se perdeu nos templos por obscuro que era o caminho até o templo! e esse mar. vol. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. p. Bruce. 85). Paris: Seuil. ed. J. 8 GLISSANT. Goiânia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. É preciso fugir das armadilhas da síntese. A obra consta da coletânea intitulada La Poésie. onde o autor utiliza pela 1ª vez o termo négritude. É. 2 Il ne faut pas opposer négritude et créolité.. edição escolhida aqui para essa e as demais referências sobre o autor. entre montanha e pântano. talvez. Séminaire. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse.” (GLISSANT. É de lá que se ouve a voz de alguém dizendo eu. Paris: Seuil. n° 15 . O sujeito lacaniano.171. ainda sobredeterminado por uma lógica narcísica que nega parte do amplo processo que vem constituindo essa grande Crioulização. sobretudo. 1975. 1965. porque “toda carne se ramifica. entre cachorro e lobo. por um fogo e por um desmame”.1991. Ernest Pépin em entrevista concedida a David Cadasse. 7 ibid. Nova Fronteira. 3 Termo que designa a resistência dos mulatos fujões. 162 Revista Brasileira do Caribe. 1994.Kátia Frazão Costa Rodrigues diferença. p. claudicante e binária” (CESAIRE. na aurora e na noite. segundo o poeta-rizoma (GLISSANT.383). p. le portail de l’Afrique. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. tender o olhar numa só direção e permanecer. p. porque a história tem mostrado que é na complexidade que o humano se afirma e pode ser afirmado.

Niterói: Eduff. La subjectivité littéraire. J. FINK. CHAMOISEAU.53. 53. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 11 Título da sua obra Moi.. p. “Tradução. Pour une littérature mineure. 48. R. 23 ibidem 24 DERRIDA. 29 Ibid. p. 2003. traduzível por Eu. 26 GLISSANT. p. 1998. laminar. BERNABÉ.21. 163 jul. La Poésie. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. 472.. 23 ibid. São Paulo: Universidade Estadual Paulista. 22 ZINK. J. 20 CESAIRE. p. Le monolingüisme de l’ autre. 45 ibid . p.15 67 ibid. F. 1994. Tradução. p. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. GLENADEL. P. CONFIANT. DELEUZE. P. 56 Cf. La Poésie. Chico science”. p. 8. 2 78 Cf 14. desconstrução./dez. Paris: Seuil.396. entre a linguagem e o gozo.. In Revista Gragoatá n8. 1994. In: Revista Gragoatá.L. M. 1994. p. M. desconstrução. 1994. 28. 28 NANCY. Paris: puf écriture.. Niterói: Eduff. G. Paris: Galilée. 25 Ibid. 1989. 27 GLENADEL. p. p. La poésie. 89 GLISSANT. P. GUATTARI. 1965. p.1996. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales. n. Paris: Seuil. CÉSAIRE.8.. 1994. 391. 2007 . 2 34 CESAIRE. O sujeito lacaniano. Paris: Galilée. A. 43 (1). Paris: Gallimard. Paris: Minuit. laminaire. DERRIDA. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia”.. J. p.. 521. p. 1996c. J. 12 GLENADEL. Eloge de la créolité.. 397. Bibliografia... 29 Ibid. 1965. 1975. In: Revista de Letras.In: La Poésie. Un sujet ? In: Homme et sujet. A. v. E.. P. Le Monolinguisme de l’ autre. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia. A. 2000. 1985. 2000.53.A construção da identidade no Caribe. Poèmes. Kafka. “Entre mangue e manguetown. p.

Paris: Puf écriture. Chico Science”. Séminaire.afrik. E. ________.___________. Paris: Seuil. J. In: Écrits. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales. “Subversion du sujet et dialectique du désir dans l’ inconscient freudien”. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse. Site: http://www. 1965.html 164 .com/article7507. Poemes.-L. GLISSANT.1991. La subjectivité littéraire. São Paulo: Universidade Estadual Paulista.“Entre mangue e manguetown. Paris: Seuil. Paris: Seuil. 1985. In: Revista de Letras. J. NANCY. 1966. LACAN. ZINK. “Un sujet ?” In: Homme et sujet. M. 2003. 43 (1) 47-56. 1994.

Trinidad século XIX Alexandre Martins de Araujo “O que você faria se não pudesse fazer nada? Até onde você iria se não pudesse sair? Quem você seria se não fosse ninguém?” 1 Abstract This essay looks at the historical process of settlement of the immigrants Indians community in Trinidad during the nineteen century. de difícil *Artigo recebido em fevereiro de 2007 e aprovado para a publicação em março de 2007 Revista Brasileira do Caribe. The main question that emerges from this process is exactly the phenom of cultural recreation and establishment of the Indians social institutions in face of so powerful policy of the westernization imposed upon all work population of that island by the British colonial government. we’ll try to observe the historical conditions by which some vital social institutions of the Indian community amalgamated in that colonial social environment. foi instituído um rigoroso conjunto de regras e normas destinado a controlar a qualidade. porém. 165-195. Trinidad. vol. Tratava-se de um sistema aberto de relações. o convívio e o volume de trabalho dentro das fazendas. Keywords: Indians Immigrants. n° 15. Goiânia. adequado a natureza plural de sua paisagem humana. as circunstâncias históricas ali vividas possibilitaram a gestação de um sistema de convívio. a substituição de trabalhadores negros livres por indianos causou grande atordoamento. destinado a controlar o dia-a-dia dos trabalhadores nas fazendas.Plantation legal. nas Plantations de Trinidad. 2007 165 . Thus. tanto para os fazendeiros como para as populações afro-descendentes recém emancipadas. Assim. VIII. Contudo. Indians Inmigrants Resumo Durante o século XIX. diferente daquele previsto no conjunto de leis.

a pesar de la poderosa política de colonización impuesta por el gobierno británico. de suas condições de trabalho. Resumen Este ensayo analiza el proceso histórico del establecimiento de los inmigrantes de la India en Trinidad durante el siglo XIX. Essa primeira tendência se baseia em fontes oficiais do governo da colônia e registros particulares locais. durante o século XIX. Trinidad. 166 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . Goiânia. onde se utilizou. Para o historiador indo-descendente de Trinidad. nos dedicamos ao sistema Plantations de Trinidad pós-escravidão. Haraksingh (1981). sobretudo. concentrando suas observações na perspectiva dos grupos sociais e das práticas culturais cujos esforços tentam identificar fenômenos de mudanças e adaptações. Los fenómenos de la recreación cultural y la permanencia de las instituciones del país de procedencia. as ênfases vão à direção da experiência indiana no interior das Plantations. No nosso caso. das experiências humanas vividas no interior das Plantations. em particular. o mais perto possível. VIII. Palavras-Chave: Plantations. Em termos historiográficos. nesse caso. pois para entrar e sair dessa outra Plantation – a que tomei a liberdade de chamar de Plantation Plural em oposição a uma Plantation Legal. imigrantes indianos.Alexandre Martins visualização. Palabras Claves: Plantación. Trinidad. Inmigrantes indianos Muitos foram e são aqueles que se dedicam à tarefa de aproximar. Uma conduz as investigações tomando os indianos essencialmente como trabalhadores nas fazendas. era necessário possuir as chaves simbólicas. vol. nenhuma dessas duas tendências se encontra consistente ou rigidamente definida. duas diferentes correntes discutem a presença indiana nas Plantations. son los aspectos de más relieve en esta investigación. e essas. somente eram apropriadas nos espaços intersticiais das relações. A outra se identifica na etno-história. largamente. a mão-de-obra indiana.

por igual. Em linhas gerais. 167 jul. 1872. At least a christmas in the West Indies. Fonte: KINGSLEY. 2007 . esforçar-nos-emos para trazer a lume a maior porção possível da realidade histórica vivida por aqueles que um dia se sentiram. afetados pelo sistema Plantation de Trinidad. porém procurando valorizar. London./dez. os fatores evidenciados tanto numa quanto noutra das tendências acima mencionadas. Charles. direta e indiretamente. ai g u r F “Waiting for the Races”. assim como outros historiadores fizeram antes.Plantation Legal: Trinidad século XIX Neste estudo tentaremos. nos aproximar da experiência indiana nas Plantations do século dezenove.

inibidores das vozes subalternas. entre outras coisas. como também da estratégia “desconstrutivista” valorizada por Bhabha3. esteja sob a forma de contratos particulares ou de leis juramentadas. No entanto. balanços anuais. da enorme dificuldade encontrada pela maior parte dos historiadores em apreender as “vozes subalternas”. ou melhor. ao desconstruirmos tais políticas de controle. a população indiana e sua presença naquele espaço e tempo? Tal questionamento nos lança diretamente para o ambiente histórico ao qual desejamos entrar. tanto das estratégias metodológicas utilizadas por Ranajit Guha2 em seus estudos sobre a Índia colonial. Para empreendermos essa tarefa.Alexandre Martins Sabemos. todavia. inquéritos. enfrentaremos o dilema da supressão dessas vozes lançando mão. tratam-se de documentos cujos teores e formas foram moldados por mãos de pessoas ligadas às elites locais. jornais de época. instituídas pela administração colonial em conluio com os proprietários de terras. sensos. Goiânia. leis de imigração. para a elite local. relatos de viajantes europeus e diários de missionários religiosos. local onde são produzidas. Começaremos. dentro das Plantations. n° 15 . impregnadas com as crenças de quem as 168 Revista Brasileira do Caribe. ou seja. todos os sistemas coloniais de controle de trabalhadores. as políticas de controle dos trabalhadores. principalmente no interior de sistemas autoritários e fechados como era o caso das Plantations nas colônias inglesas. portanto. a nossa visita ao interior das Plantations de Trinidad pela seguinte pergunta: O que exatamente significava. estão sempre acompanhadas de práticas discursivas. tê-los. Acreditamos que. Dito de outro modo. vol. VIII. em suas análises sobre o discurso colonial britânico na Índia no século XIX. comissões reais. então. reunimos um conjunto variado de fontes: relatórios oficiais. portanto. Em face disso. o centro de inteligência das Plantations. ganharemos acesso aos significados e sentidos atribuídos aos imigrantes indianos por aquelas pessoas interessadas em vê-los.

Plantation Legal: Trinidad século XIX

produziu. Todo discurso, para Bhabha, é uma prática significatória, ou seja, “processo que postula a significação como uma produção sistêmica situada dentro de determinados sistemas e instituições de representação – ideológicos, históricos, estéticos, políticos” (JUNIOR, 2004, p.113-133). Mas antes de adentrarmos o espaço ao qual denominamos de o centro de inteligência das Plantations, faz-se necessário uma breve mirada para o contexto histórico, em torno do qual aportou em Trinidad, o famoso “Fatel Rozack”, o primeiro navio a transportar imigrantes indianos para Trinidad: “Em março de 1845 Thomas Caird anunciou em um despacho ao ministério do interior, ‘eu tenho a honra em informar... que enviei o Futtle Rozack para Trinidad” 4 (Tradução nossa). Inicialmente, podemos dizer que a Inglaterra chegou a Trinidad relativamente tarde, em relação à exploração do açúcar nas Antilhas, pois foi já no apagar das luzes do século dezoito (1797), que ela tomou de assalto aquela ilha das mãos da coroa espanhola e, nesse caso, é bom lembrar que a exploração do açúcar vivia aquela época o seu momento de maior esplendor entre as demais colônias americanas. Para o historiador sul africano Sookdeo (2000, p. 253), o propósito da ocupação de Trinidad foi de natureza menos econômica e mais militar. Seja como for, assim que a administração colonial britânica se instalou em Trinidad, não teve dúvidas quanto à necessidade de tomar parte nos negócios do açúcar. Já em 1799, o primeiro governador inglês de Trinidad, General Picton, escreveu à coroa britânica informando-a de seu posicionamento quanto às condições favoráveis de transformar Trinidad em uma colônia de produção de açúcar:
Trinidad será considerada como uma colônia açucareira, as terras sendo, em quase toda parte, mais favoráveis à produção de cana do que café ou algodão. A quantidade de terras a serem concedidas dependerá certamente dos meios de cultivo, mas tudo considerado à pequena classe de plantadores de

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cana não pode compreender menos do que 200 acres de boa terra, das quais 100 acres para cana, 50 para pasto e 50 para terrenos de negros, estabelecimento e eventualidades. Uma plantação dessa categoria, conduzida a um máximo de economia requererá um capital de aproximadamente £ 8,000 libras esterlinas 5 (tradução nossa).

A cana então substituiu o algodão devido a uma praga, porém, ele e outros gêneros continuaram sendo produzidos na ilha. Nessa época, Trinidad ainda estava longe de se tornar um modelo de monocultura e o negócio do açúcar se mantinha sob o domínio de mercadores e de intermediários ingleses donos de navios. Estes controlavam o fluxo de mercadorias e escravos na ilha negociando com o continente devido às vantagens oferecidas pela política fiscal de importação. Todo esse alvoroço atraiu para Trinidad um grande número de estrangeiros à procura de enriquecimento rápido. Conforme os registros da época, no ano de 1826, exatamente oito anos antes da emancipação dos escravos, Trinidad conheceu a sua maior safra de cana. Por esse motivo, quando os indianos chegaram à ilha, no ano de 1845, os ingleses ansiavam por uma produção ainda maior do que aquela obtida sob o regime de escravidão. Uma vez que a superação daquela safra significaria, entre outras coisas, a certeza do sucesso da utilização da mão-deobra indiana e, por conseguinte, o arrefecimento das oposições a tal sistema. Entretanto, assim que os indianos chegaram, foram vistos pelos proprietários de terras, tanto como um benefício, quanto como um dilema. Quer dizer, se por um lado eles representavam a esperança de superação da aludida escassez de braços adaptados às condições oferecidas nas Plantations, por outro, eram vistos como uma nova e incômoda realidade a qual esses proprietários teriam que se adaptar, pois se tratava de uma mão-de-obra remunerada e de permanência limitada, apenas cinco anos, conforme contratos firmados antes do embarque. Assim, a imagem que se forma, a partir desse quadro, é a de

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uma classe de plantadores completamente insegura quanto ao rumo de suas empresas, já que todas aquelas novas situações eram, de certa maneira, diametralmente opostas ao modelo escravista até então praticado. Em outros termos, o que lhes asseguraria o pleno sucesso da utilização da mão-de-obra indiana em face de, por um lado, os riscos sobre o capital investido no processo de contratação (transporte, alimentação, hospitais, roupas e pagamento de salários) e, por outro, a concorrência externa, sobretudo, devido os novos rumos que tomara o comercio internacional do açúcar por aquela época? Em razão disso, é natural aceitarmos a idéia de que todas as atenções dos plantadores estivessem voltadas para a relação custobenefício, atinente ao processo de contratação da mão-de-obra indiana. Portanto, não seria exagero de nossa parte pensar que os indianos contratados (Indentured Indians) 6, de início, não significassem para os plantadores nada além de músculos e ossos a serem aplicados nas lavouras de cana-de-açúcar. Nesse sentido, não nos restam dúvidas quanto ao fato das circunstâncias históricas terem apontado para os plantadores a necessidade de impor, aos imigrantes indianos, um regime autoritário de trabalho. E para garantir o controle dos trabalhadores indianos dentro das Plantations, foi elaborado um extenso conjunto de leis, difundido por meio de documentos ultramarinos denominados pela administração colonial britânica de Regulamentos de Imigração para Trinidad e Guiana Inglesa (Immigration Ordinances of Trinidad and British Guiana). Neles, os imigrantes indianos eram denominados simplesmente de Indianos Contratados (Indentured Immigrants). Dirigir-nos-emos, então, a partir daqui, para o ambiente ao qual denominamos de centro de inteligência das Plantations, olhando, primeiramente, na direção do conjunto de leis, constituídas para assegurar o cumprimento dos contratos e, por conseguinte, controlar a vida diária dos indianos no interior das Plantations. Em meio a tal conjunto de leis, somente algumas buscavam

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assegurar a efetivação de alguns direitos adquiridos pelos trabalhadores indianos, quando da assinatura dos contratos. Tratavase de normas que versavam sobre a condução das jornadas diárias de trabalho em termos, por exemplo, da quantidade de horas a serem cumpridas, do salário condizente às tarefas realizadas, do direito a assistência médica e do direito de denúncia por abusos sofridos no interior das Plantations. Neste caso, as denúncias deveriam ser feitas a oficiais designados pelo governo à proteção dos indianos contratados, os chamados Protetores de Imigrantes (Protector of Immigrants). Numa visão de conjunto, quase a totalidade das leis visavam assegurar uma política de contenção de imigrantes dentro das fazendas. Obviamente que, se o controle total sobre os trabalhadores indianos era o que mais importava a todos aqueles que dependiam, direta e indiretamente do sucesso da utilização da mão-de-obra indiana, é de se supor que as leis de regulamentação do Indenture System, tendessem para a satisfação das necessidades desses beneficiados. No entanto, do ponto de vista jurídico, o formato das leis não parece, à primeira vista, tendencioso, ou seja, na mesma medida que há punição destinada ao contratado, há, também, para o contratante, caso venham descumprir qualquer uma das cláusulas nele previstas. Todavia, nenhum sistema legal é auto-explicativo, por isso torna-se mister analisá-lo à luz de outras fontes do mesmo período. Começaremos, então, a sua análise por aquilo que nos pareceu mais recorrente em toda a sua extensão, ou seja, o aparentemente inocente termo, “Indentured Immigrants”, usado em todas as suas cláusulas para se referir ao trabalhador imigrante indiano. Se olharmos mais profundamente para a sua utilização, no âmbito das leis de regulamentação do Indenture System, ou, Sistema de Contratação, veremos que a naturalização do termo indenture, não somente nos documentos oficiais, como também nos discursos da elite, carregava uma intenção velada de eclipsar qualquer traço que pudesse ligar os indianos a alguma imagem de autonomia social. Pois quando se pronuncia o termo imigrante contratado, nota-se
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que na palavra que dá qualidade ao sujeito (contratado), não há nada que permite ligar o sujeito (indiano) à sua trajetória de vida ou mesmo ao lugar de onde veio, mas antes, a um acordo (um contrato). Isso faz com que o usuário da língua desvie o pensamento do substantivo (indiano) para as possibilidades de apreensão do significado da palavra contratado. E as imagens primeiras que afloram do signo Contrato são aquelas ligadas a alguma forma de prestação de contas; assim, a imagem do sujeito (o indiano), se funde aos referentes do signo Contratado, possibilitando ao usuário da língua um raciocínio lógico do tipo: se um contrato pressupõe algum benefício para o contratado, este deve prestar conta daquilo que contratou, logo, ele deve ressarcir o contratante (no caso o plantador), as despesas consoantes aos benefícios consumidos; no caso dos indianos contratados, a viagem, a alimentação, os cuidados médicos, as roupas etc., sob a forma de trabalho. Desse modo, podemos afirmar que o apelo mais forte atribuído ao uso do termo Imigrante Contratado era minar as possibilidades de o trabalhador indiano impor qualquer tipo de autonomia, uma vez que os sentidos construídos pelo uso constante de tal termo, funcionavam como uma espécie de “luz vermelha” sinalizando para o imigrante sua condição primeira de devedor perante o proprietário da fazenda. Em linhas muito gerais, nota-se uma tendência, entre as diversas leis desse conjunto, de precaver o lado do contratante, no que se refere a duas situações: por um lado, o risco de o trabalhador se ausentar da fazenda, durante a execução de uma dada tarefa e, por outro, é atribuído um excessivo peso a tudo aquilo que é considerado ofensa ou negligência por parte do contratado. No entanto, parece contraditório o fato de, se por um lado as leis tentavam, de toda forma, dificultar a saída do contratado, inclusive, descontando de seu salário o dia de trabalho em que ele se ausentava para se queixar ao protetor de imigrantes abusos sofridos ou descumprimento de seus direitos assegurados no contrato; por outro, vê-se um total relaxamento nas permissões para o trabalhador se ausentar, caso ele tivesse ganhado certa
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incapazes de falarem a linguagem das classes inferiores aqui correntes. (.. foram. Segundo. ou outra pessoa empregada na plantação. principalmente porque uma das leis previa que o trabalhador executasse qualquer trabalho desde que compatível com sua qualificação física. tanto o uso do termo Imigrante Contratado. independente do seu grau de dificuldade. o que consideramos ter sido “a pedra no sapato“ dos trabalhadores indianos. inspetor. sem dúvida. Goiânia. e. chamamos de “liberdade condicional”. era conveniente para o patrão que o trabalhador esgotasse as suas reservas financeiras na cidade.. VIII. soldado. uma dívida simbólica. capataz. n° 15 . arriscamo-nos em dizer que.Alexandre Martins quantia em dinheiro. objetivava funcionar tal qual o famoso “sistema de barracão”. pois estar preso a um contrato é o mesmo que estar sob juízo de sentença. em termos das injustiças que sofreram durante a permanência nas fazendas. cocheiro. ou seja. no primeiro caso. estão sujeitos a serem encontrados em desvantagem o que pode terminar em multas ou prisões 8 (tradução nossa). 174 Revista Brasileira do Caribe. Tal contradição nos leva a supor a existência de. pelo menos. sem nenhuma resistência. duas intenções subliminares: primeiro. porém. após o trabalhador ter juntado certa soma em dinheiro. vol. Contudo. qualquer tarefa exigida pelo patrão. próximo àquilo que no sistema judicial atual. tampouco sobre tal fazenda ou ao alcance de cinco milhas dela” 7 (tradução nossa). um possível acordo entre proprietários de fazendas e proprietários de comércio. as inúmeras condenações judiciais devido às acusações de descumprimento das leis que versavam sobre ofensas atribuídas ao patrão e negligências durante a execução de tarefas. moral. uma vez que “Nenhum comércio deve ser mantido por qualquer patrão. pois voltaria para a fazenda se sentindo constrangido a aceitar. no lugar de uma dívida material.) É perfeitamente possível que eles possam ser acusados diante de um juiz sob a denuncia de agressão. quanto as permissões de afastamento da fazenda. Numa palavra.

Isso por que. sob a alegação de práticas indevidas. declarasse o mal uso de algum equipamento da fazenda para se consumar 175 jul. a mais freqüente e. e as quais eles não somente recusaram fazer como também mostraram fortes sinais de hostilidade. uma palavra ameaçadora. um dos proprietários da companhia Colonial.Plantation Legal: Trinidad século XIX Entre as condenações por ofensas. porem eles foram recebidos por uma irada recepção dos coolies que os repulsaram e os injuriaram (../dez. ou. 9 (tradução nossa). Tratava-se da prática de descontar do salário do imigrante contratado certa quantia. o tradicional chicote.. Num certo sentido. entre os coolies da fazenda e o corpo administrativo. sob pena de sofrer condenações consoantes a tal alegação. imediatamente. Sob a veemência dessa informação dois policiais a cavalo foram mandados com a intenção de apaziguar a desafeição. uma vez notificado sobre a execução imprópria de seu trabalho. de forma extrajudicial. Na ultima quinta feira a polícia recebeu informações de que um sério distúrbio havia ocorrido na fazenda Cedar Hill. 2007 . designada ao indiano por um superior da fazenda.) os outros escaparam ilesos somente por causa do instinto de seus cavalos que coicearam os agressores a distância. alegasse ter ouvido da boca de um indiano. também a que causava maiores distúrbios era a acusação por má execução de uma dada tarefa. surgido de um desentendimento causado por coolies terem executado impropriamente certas tarefas as quais eles foram requeridos para completar. foi substituído por uma outra arma igualmente eficaz em termos de alertar o trabalhador quanto a sua pequenez diante da força do patrão. Bastava apenas que o capataz. previstas no sistema de leis. ou qualquer outro funcionário superior da fazenda. usado contra os escravos. o imigrante contratado deveria refazêlo.

açitsuj/sodatartnoc .( ...seõrtap so artnoc áj saferat ed otnemagap reuqlauq repmorretni ed rodagerpme .seilooC ralortnoc é .sotisóporp so sodot arap sovres ed etneicifus lat .saus sad mif oa oçemoc od .etnemetnedive otiuM .ossi a otnauQ ..( ed sadnezaf san sodagerpme .sianroj sortuO /oãrtap seõçaler sad laretalinu retárac o etnematreba mavaicnuned é oxiaba aton a .racúça-ed-anac mes adacitarp etnemetnetsisrep e otium a odis met ..raicnedivorp omoc rebaS ).ossid rasepa .acitárp an setnega oãs euq seleuqa sodot ed setnem o res ed amrof amu otsin agrexne euq oãçagela ariejnosil amu sadnetnoc recelebatse ed selpmis siam e otruc siam ohnimac so rative ed oiem mu e .anaidni oãçargimi à soirártnoc .arodeceralcse sadasu mare oãn siel sa euq ed otaf o aicnedive mébmat . Goiânia.serosivrepus e sezatapac sod odigixe é euq o odut .setnargimi sessed maizaf me odidecus meb oãt odis met onrevog osson o sam ).saicnêgilgen uo/e sasnefo ed seõçasuca oa .Alexandre Martins .sele rop .sairáid saferat saus ed mif oa oçemoc od ..adived ale a socilbúp serfoc sod airgnas a meraicnuned soriednezaf so euq osu uam o mébmat raicnuned arap mavatievorpa .otnop oa oterid mai .sotnemicerroba 176 Revista Brasileira do Caribe.ocilbúp oriehnid od atsuc à .sadalortnoc oãs salum sa omoc oãçudart( 01 .( edaditnauq amu .setnargimi lageli oãçneter ed acitárp a raicnuned ed méla siop ... n° 15 .sodasuo siam .majes otnemidecorp lat ed açitsujni ad san .ahli atsen eicépse reuqlauq ed lagel aicnêrefretni uo odomôcni setneicsnoc etnemanelp saossep euq rarimda es ed é oãn euq o a sadavel . vol. VIII.odagerpme olep sadazilaer so etnemadanimircsidni reted ed etnanimoderp emutsoc O ).rezid reuQ .soirálas ed o aibiorp euq .olpmexe osoicinrep o meriuges etsixe .)asson .siacol sianroj snuglA .911 .serodahlabart soa otnuj soirálas saditemoc etnematsopus sasnefo ed asuac rop .sodagerpme e seõrtap ertne ed etnaid ri euq meret ed seõçaloma e sotsag .ºN ed iel a etnemlapicnirp ..

Segundo o historiador indo-descendente. qualquer sentença da corte fora alguma vez feita contra um patrão ou membro da equipe administrativa da fazenda”. “existe pouca evidência para sugerir que antes dos inícios dos anos de 1880. propôs três novas cláusulas.. o honorável Sr. que provavelmente seria uma supervisão da parte de autoridades médicas. ou por qualquer outra suposta quebra das regras da fazenda. 2007 . que nos não podemos a não ser anotar as investigações que correm de tempo em tempo sobre os Coolies e os chineses pagãos 12 (tradução nossa). durante a reorientação dos regulamentos de imigração.Plantation Legal: Trinidad século XIX um juiz por causa de todas insignificantes ofensas cometidas por um trabalhador na fazenda. New Era. dava sinais de desconfiança em relação ao comportamento dos encarregados da justiça de Trinidad.13 177 jul.. Tão difundidos eram os sentimentos filantrópicos derramados sobre a imigração de Coolies. de modo que a segunda clausula oferece recursos para o imigrante procurar residência industrial antes que a total conclusão de seu contrato fosse apresentada.. o jornal local.. No ano de 1876. a primeira da qual impôs ao plantador a manutenção de um livro de atividades para conter todos os dados para identificação de todos os imigrantes. A terceira sugestão era uma questão de rotina hospitalar. e inquestionavelmente mais conveniente para um capataz ou supervisor reter Cinco dólares do pagamento do trabalhador por motivo de roubar uma cana. Na última reunião do conselho legislativo.. e a descrição das tarefas diárias executadas. Smyth. Possivelmente foi para convencer o governo que eles estavam de fato empenhados na doutrina de proteção do imigrante. É infinitamente mais fácil. ou semelhante soma em nome de maltratar uma mula... a uma exclusão de questões igualmente importantes que afetavam outras raças./dez. do que é correr o risco e aborrecimentos de ter que dar prova de tal acusação perante um magistrado 11 (tradução nossa).. Kelvin Singh.

p. n° 15 .. nesta parte da ilha. o Protetor de Imigrantes. nos faz julgar o oficial distribuindo justiça. Goiânia. ao término de seus contratos. naturalmente supomos apoiado pelo chefe do departamento de imigração. Joseph. Mitchel.. Temos ouvido ultimamente uma considerável quantidade de notas ditatoriais de autoria do juiz de St. de propriedade do Dr. executar meses extras de trabalho como dias perdidos. em oposição à discriminação dos coolies) fosse condenando coolies contratados a trabalhar na fazenda Paradise. de qualquer modo. É alguma coisa estranhamente sugestiva que a maior parte dos endossos (que são relatados como sendo inadequados. De fato. no qual foram levantadas as estatísticas sobre o volume de 178 Revista Brasileira do Caribe. vol. que. e também como sendo uma vantagem desonesta em favor dos proprietários de fazenda. Para ampliarmos a nossa visão sobre o grau de aplicação das leis sobre os trabalhadores nas fazendas. . que nos refletiremos a dúvida sobre alguns endossos de dias perdidos de Coolies nas fazendas. VIII. recorreremos a um aprofundado estudo levado a cabo por Sookdeo (2000. não eram incomuns as denúncias sobre protetores de imigrantes envolvidos nos negócios da cana-de-açúcar. Esse Dr. feito pelo juiz anteriormente aludido. motivo de desapontamento que circunstâncias assim coincidissem de tal modo que aquele ato inadequado do juiz nesse respeito teria (num senso mundano) uma inclinação rumo ao benefício do oficial protetor e legal dos coolies 14 (tradução nossa). como um homem particularmente perigoso. É.Alexandre Martins (tradução nossa). e ainda. Mitchell é Protetor de Imigrantes. caso nos podemos julgar pela passividade de seus atos em relação a eles. 110-122). essas evidências nos levam a refletir acerca do grau de autonomia que os fazendeiros teriam alcançado junto ao sistema judiciário implantado naquela colônia. embora não distante da linha seguida por outros semelhantes juizes. É a respeito de nada mais nada menos que um importante personagem. Também. e ainda alguém que aparentemente não percebeu a direção e tendência desses endossos.

pois. um inspetor dá a sua receita de como os prisioneiros devem ser disciplinados: 179 jul. durante a execução de tarefas. para quem.9%.Plantation Legal: Trinidad século XIX condenações. Para o ano de 1873. Somente no ano de 1870 foram registradas 2. entre os anos de 1828 a 1835. quando as leis de imigração apertaram o nó em torno dos trabalhadores indianos. extraída pelo autor. afro-descendentes. Numa nota. a média de condenações flutuou em torno de 53 prisões de homens por ano. a extração da força de trabalho era conseguida menos pelas condenações e mais pelo chicote. de 60 aprisionamentos anuais. antes do advento dos imigrantes indianos. creoles. respectivamente. a que mais figurou foi a de imigrantes indianos capturados sem passes livres. Segundo Sookdeo.012 prisões. 213 agressões. respectivamente. 354 e 476. eles foram freqüentemente culpados de quebras de leis de trabalho”. quanto na época em que se passou a utilizar da mãode-obra indiana. sendo que os anos de 1832 e 1833. 154 condutas indecentes no uso da língua e 116 ofensas. em 1835. entre as categorias de ofensas que culminavam em prisões.15 (tradução nossa). também uma nova carga de criminosos em potencial./dez. 1. Desse total. os documentos do conselho revelaram 2. ou seja. Mas com a chegada dos imigrantes indianos. “após 1854. 48 e 45 do sexo masculino. a média alcançada foi de 54 prisões anuais. os magistrados de Trinidad passariam a conviver com a idéia de que a cada nova carga de indianos contratados.649 prisioneiros dentro das cadeias reais. Sookdeo reitera a opinião de conceituados historiadores. 2007 . 154 jovens abaixo de quinze anos e 282 mulheres de idades variadas16. Uma significativa elevação dessa média. O restante dos prisioneiros estava dividido entre indianos mulçumanos. Segundo os dados por ele reunidos. diante da Corte de Trinidad. cujas principais acusações podem ser assim distribuídas: 727 furtos. a exemplo de Eric Williams. é constatada ao final da escravidão.059 eram hindus. Nesse ponto. 257 endividamentos. nos anos de 1872 e 1873. tanto na época da escravidão. 39.

Goiânia. competições nas esferas do trabalho e frustrações sexuais.Alexandre Martins Sir Joshua Jebb. tais sanções penais se perfilaram numa excelente forma de se exercer o controle sobre os imigrantes contratados. sendo que a maior parte dessas condenações foram alegadamente por motivo de descumprimento das leis de contrato de trabalho por parte dos imigrantes indianos (Ibid. respectivamente. Por último. Segundo. uma vez que os custos de subsistência dos imigrantes.120). em certo período do ano. vol. quem recomenda. pois. 2000.. que se encontravam presos. n° 15 . o fato de que as duras sentenças aplicadas sobre os imigrantes contratados tornaram-se convenientes para a classe de plantadores.411 e 4. sobretudo nas estações em que as fazendas necessitavam de poucos trabalhadores. predominantemente masculina. “os elementos intimidadores de punição são trabalhos forçados. “uma reconhecida autoridade em matéria de castigo disciplinar em prisões”. “os contratados prosseguiram em receber com alegria o repouso oferecido pelas prisões comparado à vida em algumas das severas fazendas” 18 (tradução nossa). Quanto a isso.363. Sentenças duras”. acima discutidas. corriam por conta do governo. os números de aprisionamentos foram de 4. quanto às relações de poder que os fazendeiros mantinham 180 Revista Brasileira do Caribe. acerca do recrudescimento das sanções penais em Trinidad. No balanço geral que fez Sookdeo. p. os crimes categorizados como agressões dobraram. comida ruim e cama ruim. destacam-se três interessantes posições: primeiro. ele aponta algumas possíveis causas: frustração entre as classes trabalhadoras. e para as classes mais baixas de prisioneiros. Sookdeo destaca ainda que. dado ao fato de os imigrantes indianos se constituírem de uma classe de trabalhadores. as quais corresponderiam a “trabalhos nos moinhos ou abrir covas ou quebrar pedras ou alguma atividade semelhante” 17 (tradução nossa). incluindo conflitos inter-raciais. o lado positivo de se estar preso. Para os anos de 1885 e 1886. Sookdeo revela. entre os anos de 1872 e 1873. VIII. As posições de Sookdeu corroboram as evidências. do ponto de vista dos indianos..

o coolie leva algum tempo antes de se estabelecer dentro de seu regular costume de trabalho pacífico e constante. nos permitem afirmar a existência de uma ampla rede de relações entre fazendeiros. extraímos um trecho que versa sobre o cumprimento das leis nas fazendas de Trinidad. alguns dias antes que ele seja levado à corte. magistrados e imigrantes contratados. especialmente se ele for absolvido ou meramente advertido. Nele. as boas relações entre mestre e servo são prejudicadas./dez. e. Pois. além disso. caso o coolie seja punido ou não. capatazes. porque ele deve cozinhar a sua comida. e ainda se mandado para prisão ele perde o respeito por si mesmo e torna-se um membro das classes criminosas. Então o capataz ou qualquer um em posição de gerência deve comparecer à corte com o livro da fazenda de modo que um dia é perdido. e geralmente decidem tal questão. trabalhar tão firme quanto é requerido pelo regulamento. protetores de imigrantes. Muitos capatazes tem uma forte e muito justa discriminação contra levar um homem diante da corte por causa de alguma insignificante negligência. o coolie é provável. Todas as evidências. também não decidirão processar por deserção.Plantation Legal: Trinidad século XIX junto ao sistema judiciário de Trinidad. o coolie se torna mal humorado e não trabalha devidamente. Casos diante da Corte. ambos para o empregador como para o trabalhador. a qual ele não foi capaz de fazer enquanto estava na corte19 (tradução nossa). quando se tratava de oficializar uma denuncia ao juiz local: 26. perder respeito à autoridade de seu mestre. Num documento ultramarino para assuntos da imigração indiana. No total desses casos diante do juiz existe sempre uma grande perda de precioso tempo. “dias perdidos” como eles são chamados. fora da corte pela ação de multar o transgressor. Depois que o caso é terminado. supervisores. podem ser percebidos os “espaços de negociação” entre imigrantes indianos e seus capatazes. O dia posterior ao caso ele declara que não vai ao trabalho. 2007 . 181 jul. e ainda. Nem muitos patrões reivindicarão e adicionarão ao tempo de contrato os dias em que o imigrante não tem trabalhado. até aqui analisadas.

De qualquer modo. a máquina judiciária. Observa-se que. é devido a alguns problemas teóricos. Se alguns estudiosos insistiram. o processo de vitimização da população indiana de Trinidad colonial também fez parte dos jogos de cena. capatazes e imigrantes buscavam acordos diante das contendas. o documento acima mostra os trabalhadores indianos desenvolvendo certo grau de autonomia diante de seus opressores no momento em que. particularmente. a fim de não se afastarem das fazendas e não colocarem em risco o capital moral que construíam a partir de suas relações dentro das Plantations. não faz parte das nossas intenções. desmoralizar o imigrante. a um estado de marginalização. tendem a vitimizar as populações subalternizadas no Caribe colonial20. Queremos salientar que. ou minar à autoridade do capataz diante. Morton21 e o reverendo Mr. no sentido de educá-los e evangelizá-los. se condenado fosse. na mesma medida.Alexandre Martins De fato. ou seja. dependia dos trabalhos que desenvolviam junto aos indianos nas Plantations. tanto do imigrante acusado como de todo o restante do grupo a ele subordinado. sobretudo por meio do uso indiscriminado das leis de imigração. Grant. paradoxalmente. Por essa razão. ou ainda insistem. alguns missionários presbiterianos canadenses. fazem uso da própria arma criada por seus patrões para oprimi-los. Goiânia. quer dizer. ou não. vol. a partir do ano de 1860. VIII. Também estavam em jogo certas perdas subjetivas que poderiam. como. por exemplo. n° 15 .22 cuja permanência em Trinidad. ainda não superados entre aqueles que. embora tenhamos dado um considerável relevo ao penoso processo de opressão por que passaram os indianos. o reverendo Mr. um tipo de escravidão a vida dos imigrantes indianos nas Plantations. reascendermos o velho questionamento a respeito do fato de ter sido. não somente as perdas financeiras estavam em jogo. pois favorecia outras categorias de pessoas residentes na ilha. ou. em tal questionamento. as horas de trabalho que ambos os lados poderiam perder se ocupados com os inquéritos. 182 Revista Brasileira do Caribe. embora carregados de boas intenções.

violentamente tentou. residente no distrito. morais e intelectuais. Na conclusão do inquérito. na Plantation. Esses não são os dias de escravidão 23 (tradução nossa). amarrar uma corda em torno da cintura de um pequeno número de líderes. na ótica dos missionários. em uma mais ou menos jocosa forma. Desse modo. nas vizinhanças de San Fernando. 2007 . o juiz virou-se para a defesa. o melhor instrumento de atração seria. indubitavelmente. alguma forma de proteção contra as injustiças. pelo desencontro e. com quem eles apresentaram a informação ou acusação formal. uma vez que os contratos assinados na Índia. para ganhar a sua confiança. e os colocou pra trabalhar. principalmente. Sob o manto da noite eles deixaram a fazenda e foram até a casa do subprotetor. Certa ocasião. um discurso protecionista. uma série de passagens que. perante os indianos. tal ato sugere circunstâncias as quais as leis britânicas desaprovam”. conforme mostramos. e ao cair da noite eles foram liberados com algumas boas recomendações. era incorporada em seus diários. segundo alguns trabalhadores foragidos. os missionários procuravam justificar as suas ações por meio de alvissareiros objetivos que prometiam subtrair os indianos das condições degradantes que encontravam suas vidas espirituais. Ele imediatamente iniciou uma ação contra o capataz. o capataz de uma fazenda de açúcar.Plantation Legal: Trinidad século XIX Os missionários deveriam assumir. Sem resistência os homens trabalharam o dia todo. conforme mostra o documento abaixo. pois. se converteram em instrumentos de opressão nas mãos dos proprietários./dez. marcada pelo despotismo. pela imprevisibilidade. dizendo a ele: “Eu estou completamente consciente que o tratamento dado a esses homens não tem causado sofrimento físicos. poderia fundamentar a suas posições diante das injustiças cometidas contra os imigrantes indianos. Já para os olhares do governo e da população local. 183 jul. porém.

e estão. ou intitulado por alguns de nossos trabalhadores 184 Revista Brasileira do Caribe. (. cuja denúncia se dirige tanto aos trabalhadores Creoles. The Palladium. morais e intelectuais de um povo. pois viram nessa forma de clivagem um poderoso instrumento para causar ao indiano um sentimento de inferioridade diante da outras populações presentes na ilha.. os missionários passaram a protestar contra o uso do termo Coolie. inclusive. o reconhecimento e o apoio do governo e dos cidadãos em quase toda parte 24 (tradução nossa).) E até o momento nada é mais comum do que observar as desdenhosas maneiras pela qual o trabalhador indiano oriental é. usado para designar os indianos contratados nas Plantations. e o termo “Indianos Orientais” está agora em uso geral 25 (tradução nossa). testemunhos de sua baixa estima. VIII. tem na língua “Hindi” o significado de um faxineiro ou carregador. por imputarem aos trabalhadores indianos uma condição de inferioridade. que cresce rapidamente a cada ano pela imigração. dando. Os missionários têm evitado usar esse termo. n° 15 . tem feito dele extremamente ofensivo para uma grande proporção de pessoas. ou referido. mas tem garantido por meio de seus trabalhos. assim como para os nativos da Índia. nossos missionários têm. quanto aos próprios indianos por aceitarem tal condição de inferioridade. sendo mandados. Goiânia. como também pelo aumento natural. recorremos a uma nota extraída de um jornal local. o fato de ter sido originalmente a designação da mais baixa classe de trabalhadores. e na tentativa de satisfazer necessidades espirituais. vol. Como parte das táticas de atração e negociação. O termo “Kuli”. Embora “Coolie” seja o termo oficial e é usado durante o prazo do contrato.Alexandre Martins Assim era nossa missão em Trinidad.. Para dar materialidade a essa questão. que tem sido aplicado a outras raças asiáticas. cumprido os propósitos para os quais eles foram. não somente numa larga medida.

talvez. as noções de docilidade e o próprio sentimento de inferioridade.Plantation Legal: Trinidad século XIX Creoles. como por exemplo. devem ser vistas por um outro prisma. e ele revelará a você à baixa estima na qual ele encerra a si mesmo. p. consubstanciava a noção de docilidade era o fato de uma grande maioria de imigrantes viverem dentro das Plantations sob regime de contratos./dez. a de docilidade.155).) Mas esses orientais freqüentemente reconhecem a si próprios como ocupando o mais baixo status. quem parece reconhecê-los como a raça mais inferior de todas as outras por causa da degradação. ambos imputados aos imigrantes indianos.. Pergunte a um coolie de classe baixa (visto que o ideal de sua casta inerente permanece na mais alta norma para eles) se ele for um trabalhador contratado. e principalmente. o que indubitavelmente manteria os plantadores felizes” 27 (tradução nossa).. no tempo em que chegaram aqui eles entraram em suas obrigações agrícolas como trabalhadores contratados. Eles seriam submissos e trabalhariam duro. normalmente usado para acentuar a preferência dos fazendeiros por trabalhadores indianos. grande parte da resistência indiana deve ser vista em termos de quem teria o último riso. 185 jul. não combina com a quantidade de distúrbios e violências cometidas por indianos em seus locais de trabalho. o que permitia aos seus patrões reunirem as condições necessárias para exercer um amplo controle sobre eles. 2007 . Haraksingh contesta essa primeira noção. em última análise. Haraksingh interpreta como sendo uma espécie de comportamento estratégico para manter os patrões felizes até poderem escapar das Plantations: “pois. Quanto à aparente submissão dos indianos. dizendo que esse estereótipo. o que. mostra-nos que certas imagens geradas durante o período colonial. em especial o professor indodescendente Haraksingh (1981. pelo fato de eles terem chegado aqui numa condição de quase escravos (. Segundo ele. Mas alguns historiadores. Desta maneira eles têm a consciência de que eles ocupam a mais baixa condição nesta ilha 26 (tradução nossa).

foram. extrajudiciais. destinados à asseguração do sucesso da companhia colonial de imigração. R. tanto o estereótipo de docilidade. de relacionamentos capazes de assegurar a continuidade dos acordos estabelecidos entre todos os grupos envolvidos e 4) assegurar aos imigrantes indianos a construção de espaços de negociação para que aquela difícil existência nas Plantations pudesse ser transfigurada em algo mais próximo de seus horizontes de expectativa. essa idéia de os indianos desenvolverem uma atitude de submissão. uma vez que tais imagens ajudavam a confundir seus opressores quanto aos seus verdadeiros projetos. Direção e texto: Danilo Alencar. 2) obter benefícios financeiros a partir dos recursos do tesouro real. teatro da Universidade Católica de Goiás (Campos-V). vol. Notas 1 “A CLARA do Ovo”. Dito de outro modo. Goiânia. 1999. estrategicamente. forjado pelos proprietários para fortalecer os mecanismos de contratação dos indianos. a fim de convertê-los ao cristianismo. aceitos pelos próprios indianos. Outubro de 2006. desenvolvido pelos missionários. Numa visão de conjunto. 186 Revista Brasileira do Caribe. como sendo um tipo de estratégia de preparação para uma vida melhor fora das Plantations. submetidas ao conjunto de leis de imigração. 3) constituir códigos. formavam um complexo jogo de cena. VIII.Alexandre Martins Analisando. as relações construídas entre as diversas categorias de pessoas. quanto o estereótipo de injustiçados. Goiânia. Elementary Aspects of Peasant Insurgency in Colonial India. n° 15 . ver-se-á que mais uma vez os imigrantes estão tentando se beneficiar com as próprias imagens que deles eram construídas. 2 GUHA. com mais profundidade. London: Duke University Press. por aqueles setores da sociedade interessados em explorá-los. cujas principais intenções eram: 1) criar um teatro capaz de deixar as autoridades inglesas em Londres satisfeitas quanto ao perfeito cumprimento das leis de imigração em suas colônias.

Belo Horizonte: Ed.)It is just possible that they may be arraigned before the magistrate on the charge of assault. arising out of misunderstanding caused by the coolies having imperfectly performed certain work which they were requested to complete. 50 for pasture. and. UFMG.59. unable to speak the language of the lower orders here fluently. 2001. p. A plantation of this class carried on with the greatest economy will require a capital of about £ 8. but everything considered to the smallest class of sugar plantation cannot consist of less than 200 acres of good land. or other person employed on the plantation. 7 March 1845. ranger. which may end in fine_or_imprisonment (…) (The Palladium. apud PERRY. London : H. either upon such plantation or within five miles thereof” (Coolie immigration. 1904. 062117110523. and 50 for Negro grounds. 1962. (cf. but they were met by a warm reception from the coolies who 187 jul. “I have the honor to report… that I have despatched the Futtle Rozack to Trinidad”. 8 (. H. of which 100 acres for cane. Caird to Hope. driver. 1880.. On the strength of this information two policemen on horseback were sent out with a view to appease the disaffection.. immigration ordinances of Trinidad and British Guiana. 4 In March of 1845 Thomas Caird announced in a despatch to the Home Office. p. 165. 7 “No shop shall be kept by any employer. vol. (Colonial Office 318. sendo estes responsáveis por todos os custos de transporte e alimentação dos trabalhadores até aos seus locais de trabalho. overseer.M. The quantity of land to be granted should certainly depend upon the means of cultivation. and which they not only refused to do but showed strong signs of hostility. O local da cultura./dez. 6 O termo Indenture se refere aos acordos sob a forma de contrato realizado entre trabalhadores e empregadores. 1969.Plantation Legal: Trinidad século XIX 3 BHABHA. than Coffee or Cotton. are liable to be found at a disadvantage. WILLIAMS. Stationery Off. manage.) 9 “On Thursday last the police received information that a serious disturbance had taken place at Cedar Hill estate. 5 “Trinidad should be regarded as a sugar Colony. K. establishments and Casualties. between the coolies of the estate and the managing body. May 15. the lands being generally more favorable to the Production of Cane. 29). 2007 . 74).000 sterling”. one of the properties of the Colonial Company.. p.

Alexandre Martins repulsed them. So diffuse are the philanthropic sentiments wasted on coolie immigration. .) 11 “The prevailing custom of indiscriminately checking the wages at labourers employed on sugar estates for offences alleged to be committed by them has been so long and persistently practiced without molestation or legal interference of any kind in this island that it is not to be wondered at that persons fully conscious of the iniquity of such proceedings should nevertheless he led to follow the pernicious example. expense and annoyance of going before a magistrate for every trifling offence committed by a labourer on the estate. on the recommital of the Immigration Ordinance. Editorial. and a means of avoiding the trouble. August 31. Editorial). vol. in the minds of all those who are agents in the practice. Mr. . injuring one (. or a similar sum for maltreating a mule.. the Hon. The third suggestion was a matter of hospital routine. 1882). Smyth. Possibly it was to convince the government that they were really in earnest in the immigrant protection doctrine that the second clause offering facilities to the immigrant to procure industrial residence before the full completion of his indenture was introduced. n° 15 . that we cannot but note the disquisitions which take place from time to 188 Revista Brasileira do Caribe. Very evidently. and the description of the daily work performed.) the other escaping unhurt only by the instinct of his horse which kicked the assailants away”. VIII.. (San Fernando Gazette. Goiânia. (San Fernando Gazette. 10 (…) But our Government has been so successful in providing at the public expense a sufficiency of serfs for all purposes (…) To know how to drive coolies through their daily tasks. proposed three new clauses the first of which imposed on the plantcr the keeping of a ‘Labour Book’ to contain all materials for identification of every Immigrant. which probably was an oversight on the part of the medical authorities. and unquestionably more convenient for a manager or overseer to check five dollars from a labourer’s pay for stealing a cane. 1878. to the exclusion of equally important questions which affect other races. 1871. It is infinitely easier.. February 4. as the mules are driven through theirs. 12 At the last meeting of the Legislative Council. there is an unctuous excuse which views it in the shape of being a shorter and more summary way of settling disputes between master and servant. September 30. or for any other suppositious breach of estates’ discipline than it is to take the risk and trouble of proving such a charge before the Police magistrate”. is all that is required of managers and overseers (…) (San Fernando Gazette..... .

Editorial). “The deterring elements of punishment are hard labour.Plantation Legal: Trinidad século XIX time on the coolie and heathen Chinee. 1988. which. however. It is somewhat strangely suggestive that most of the endorsations (which are reported to be improper. p. 17 Sir. 13 (…) “There is little evidenced to suggest that before the early 1880s any court decision was ever made against a planter or member of the estate’s managerial staff”. made by the magistrate first alluded to. 14 We have heard a good deal lately of magisterial not by the St. if we may judge by the passiveness of his acts with respect to them. we naturally suppose. to work out extra months of labour as lost days. although not out ct the hue pursued by other like magistrates. and to be an unfair advantage in favour of the proprietor of the estate. 2000. hard fare. approved of by the Chief of the Immigration Department. to the prejudice of the coolie) should he endorsations condemning coolies indentured to labour on the Paradise Estate. 16 Dentre as principais fontes utilizadas por Sookdeo destacam-se os despachos do governador Longden. 189 jul. 15 “After 1854. Joseph Magistrate. June 12. makes us regard the officer dispensing justice in this quarter of the island as a peculiarly hazardous man.. It is. 2000. and for the lowest class of prisoners. 10. SINGH. Joshua Jebb. they were frequently “guilty of breaches” of labor laws”. and a hard bed. Hard sentences. the property of Dr. 1880. Cf. London: Macmillan. Kelvin. (cf./dez. It is with no less an important personage than the Protector of Immigrants that we would consider the question of some endorsations of coolies’ lost days on estates. Mitchell.” who advised. 114). Editorial). In: Bloodstained tombs: the Muharram massacre 1884. “an admitted authority in matter of Prison discipline.. (New Era. o anuário Blue Books e relatos de inspetores de prisões. p. subject for regret that circumstances should so coincide that the improper act of the magistrate in this respect should have (in a worldly sense) a leaning towards the profit of the coolies’ legal and official Protector… (New Era. at the expiration of the term of their indenture. SOOKDEO. This Dr. (COUNCIL Paper (Trinidad) nº 39 of 1874 apud SOOKDEO. p.111). 2007 .. March 22.” Which amounted to “labour at the treadwheel or shot drill or stone breaking or some such work”. and.. when indenture laws tightened the lasso around Indian worker. Mitchell is Protector of Immigrants and one who apparently did not see the leaning and tendency of these endorsations... 1876.

—Many managers have a strong and very reasonable prejudice against haling a man before the Courts for some trifling negligence to work as hard as required by the ordinance. Morton. 1989. 21 Morton. 23 “On one occasion the manager of a sugar estate in the neighborhood of San Fernando. nor will they prosecute for desertion. and if sent to jail he loses respect for himself and becomes the associate of the criminal classes. sorely tried by some absconding laborers. (COMINS. 1893. 1839-1912.. as he must cook his food. and generally settle such cases out of Court by fining the offender. 1916. — “lost days” as they are called. the good relations between master and servant are disturbed. Halifax. N. 20 Para uma melhor compreensão das críticas feitas a perspectiva de vitimização de populações coloniais. Kenneth James. After the case is over. tied a rope around the waist 190 Revista Brasileira do Caribe. or at all estates the overseer.. n° 15 . veja: GLISSANT É. the cooly is sulky and does not work properly. Nor will many employers claim and add to the period of indenture the days the immigrant has not worked. (ibid. John Morton of Trinidad: pioneer missionary of the Presbyterian Church in Canada to the East Indians in the British West Indies: journals. The day after the case he says he is not going to work. The authority of his master. sobretudo das populações afro-descendentes do Caribe. Caribbean Discourse.S. and then. In all these cases before the Magistrate there is always a great loss of valuable time both to the employer and to the labourer.Alexandre Martins 18 “The indenteds continued to welcome the respite offered by prisons compared to life on some of the harsher plantations. 2000. Co. Goiânia. 19 26. John. letters and papers / edited by Sarah E. Charlottesville. to lose respect for.Cases before Magistrate. and the cooly is likely. Then the manager. whether the cooly is punished or not. [c1923] 062117110523. which he was not able to do when he was at Court. the cooly takes some little time before he settles down into his normal ‘habit of quiet and steady work. 42). vol. especially if he is acquitted or merely warned. For some days before he is taken to Court. p. VIII.: Imperial Pub. Toronto: Westminster Co. p. 114). 22 Grant. has to attend the Court with the estate books and a day is lost. University Press of Virginia. 1839-1923 My missionary memories.

and put them to work. 26 And yet nothing is more common than to observe the contemptuous manner in which the East Indian labourer is either referred to or addressed by some of our creole labourers. At the conclusion of the trial the magistrate. Without resistance the men worked in the fields all day. The missionaries have avoided using it.p. While “Coolie” is the official word an is used during the term of indenture. and chiefly. Under cover of the darkness they left the estate and went to the house of the Sub-Protector. residing in the district. in a more or less jocular way.. turning to the defendant. when. and he will tell you the low esteem in which he holds himself. but it does suggest conditions on which British law frown. has in the “Hindi” language the meaning of a porter or laborer. (ibid. perhaps. on arriving here they enter on their agricultural duties as indentured labourers.. 1880). the fact that it was originally the designation of the very lowest class of laborers has made it extremely offensive to a large proportion of the people”. but have secured for their work the recognition and support of the Government and the citizens generally. These are not the days of slavery”. and the term “East Indians” is now in general use. and in attempting to meet spiritual.. Ask a coolie of a low class (for the ideal of their inherent caste remains with the higher order of them) whether he is an indentured labourer. because they come here in a kind of quasislavery. 2007 . with whom they laid an information or charge.” (ibid. (GRANT. which has been applied to other Asiatic peoples as well as to the natives of India.60). 24 “Such was our mission in Trinidad.p. moral e intellectual needs of a people growing rapidly each year by immigration. and towards evening they were dismissed with some good advice./dez.Plantation Legal: Trinidad século XIX of a few of the leaders. who seem to regard them as a race far beneath every other for degradation. our missionaries have not only in a large measure fulfilled the purpose for which they were and are sent out. april 24. said to him: “I am fully aware that the treatment given these men has not caused physical suffering. (The Palladium. But these Orientals do often regard themselves as occupying the lowest status. as well as by natural increase. He immediately entered an action against the manager. 63). 25 “The term “Kuli”.60). Thus they have the consciousness that they occupy the lowest condition in this island. 1923. p. 191 jul.

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196 .

2007 . Goias/Brazil. 197-243. facing the difficulty to locate the nation of the slaves brought to Goiás. Therefore. viviam nas áreas aonde eram apresados. Goiânia. It does not seem appropriate to adopt the criteria of African nations as a unifying concept for cultural and religious affinities and identities of Blacks that in the eighteenth century came to the rural areas of the Guayazes. mas também pode significar a variada presença deles numa mesma embarcação que aportou no Brasil. because such concept alludes to large African regions where slaves where shipped and secondly because there were various places where these shipments happened. Por isso. n° 15. with the purpose to locate its origins. Keywords: Slave trade. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina por onde os portugueses estrearam no comércio de escravos. ethnic groups Resumo Nossa análise se pauta em discutir o tráfico de escravos para a Capitania de Goiás com o objetivo de “rastrear” o lugar de procedência dos escravos. Firstly. in Angola and Benguela and Costa de Mina—regions in which the Portuguese started the slavery trade. vol. Isto porque essa palavra em um primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos. Não nos parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que no século XVIII. some hypothesis can be established based on the different ethnic groups that in that period lived in those areas where they were captured. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. vieram para o sertão dos Guayazes. a saber. na época. VIII.O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes Abstract This article focuses on the slave trade in Goiás. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 197 Revista Brasileira do Caribe. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que.

O conceito num primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos.Cristina Cássia Pereira Moraes Palavras chave: Comércio de escravos. as discussões recentes sobre o tema alertam para o movimento – historicamente construído – de uso do conceito de raça como forma de naturalização de opções e interesses engendrados na vida social. Goiânia. hábitos comuns e um sentido de homogeneidade. Por eso. que o conceito de nação envolve um grupo social que partilha um ideário. n° 15 . No parece oportuno adoptar el criterio de naciones africanas como concepto aglutinador de afinidades o identidades culturales y religiosas de los negros que en el siglo XVIII vinieron para el sertão de los Guayazes. frente a la dificultad de determinar la nación de los esclavos traidos a Goiás podemos establecer algunas hipótesis basadas en las etnias que en la época vivían en las áreas donde eran capturados. en el reino de Angola y de Benguela y en la Costa de Mina. Parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que vieram para Brasil no século XVIII. Palabras Claves: Comercio de esclavos. Goiás/Brasil. VIII. sociais 198 Revista Brasileira do Caribe. vol. É oportuno lembrar também. En primer lugar porque ese concepto alude a grandes regiones africanas de embarque de esclavos y en segundo. movimento que tem sido levado a cabo de forma a construir explicações para diferenças pessoais. regiones en las cuales los portugueses estrenaron el comercio de esclavos. Goiás/Brasil. Outrossim. grupos étnicos Resumen El análisis del artículo se pauta en la discusión del tráfico de esclavos para la Capitanía de Goiás con el objetivo de localizar el lugar de procedencia de éstos. grupos étnicos Os livros de registros de batismos e de óbitos no Brasil indicam em muitos casos o lugar de procedência dos escravos africanos. um forte sentido de pertencimento relativamente ao grupo associado a um território concreto considerado como sendo especificamente o seu. porque era variada la procedencia de los que eran violentamente arrojados en el barco negrero. pensado como unidades de linhagens biológicas ou culturais.

mas sim. modificado. luandatchokues.1 Para além. p. Raça é um conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural. reinventado e re-significado. p. 2007 .2 Nas matrículas de escravos encontradas no século XVIII em Goiás. o construto “raça” está vinculado a interesses e a circunstancias produzidas em determinado tempo e lugar. Gâmbia. Segundo Rodrigues é impossível calcular de que 199 jul. cabindas. bakongos. hereros. silenciado. 1993). gentio da guiné. As diferenças raciais. apropriado. eram denominados por angolas. ao mundo social (GUIMARAES. Ademais. pela imigração européia (PEREIRA. Benin e Togo. é preciso ainda. baseada numa atitude negativa frente a certos grupos sociais e informada por uma noção especifica de natureza. acreditamos que não há raças./dez. entender a sua complexa tessitura informada pela escravidão indígena e africana. 9). de um conceito que denota tão somente uma forma de classificação social. representação historicamente construída entre diferenças pessoais e grupais. No caso dos sertões goianos. ao contrario. Angola e Moçambique. 2002. a saber: ambós. A realidade das raças limita-se. no centro do país. Nigéria. caçanjes. nhanecas-humbes. da mina e moçambique.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII e culturais como diferenças naturalmente dadas. 81-96). ressaltar suas permanências e descontinuidades é entender que ele foi socialmente negociado. foram respaldadas e alimentadas pela ciência no Brasil no final do século XIX (SCHWARCZ. relações raciais. bem como. Os primeiros podem ser reunidos em nove grupos. quimbundos e xindongas que viviam nos atuais Congo.3 Os sudaneses aglutinavam os povos da África ocidental e que habitavam as regiões hoje denominadas Gana. benguelas. Portanto. Entender o seu percurso. entendidas dentro do marco da hierarquia. portanto. é certo que sua ocupação foi efetuada por inúmeros grupos etno-linguísticos de origem bantos e sudaneses. ovimbundos. como algo indeterminado. ngangualas. Trata-se. 2002.

000. n° 15 . Lourenço de Mendonça. 98-120)4. não atingia a cifra de 40. Sob o aspecto da quantidade de escravos africanos que vieram para Goiás no século XVIII. pois se estendiam desde a Costa do Marfim. um prelado do Rio de Janeiro. o número deles. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. Por isso. a saber. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. a maioria deles.Cristina Cássia Pereira Moraes data é a introdução dos nagôs no Brasil porque só no fim do século XVII se tornou conhecido dos europeus o poderoso reino de Ioruba (1977. 200 Revista Brasileira do Caribe. certamente. VIII. até a Costa dos escravos. se levarmos em conta centenas de milhares de escravos que trabalharam nas minas de Minas Gerais ou em plantações de açúcar no Nordeste. já que significava adesão aos valores religiosos e morais do mundo branco e propiciava grandemente a resignação à sua condição servil. para saber sobre os escravos traficados. p. não foi registrada. de qual nação chegavam. Desde 1633. no auge da exploração aurífera documentada em 1792. vol. era muito fácil fugir ou se locomover dum lugar para outro.6 Quando aqui chegavam. passando pela do Ouro. se traziam livros proibidos ou se e vinham desobrigados7. vinham convertidos ao catolicismo. Na Capitania de Goiás os iorubás ou nagôs e jejês como eram5 denominados nas matriculas oficiais de escravos são introduzidos pelo tráfico na região desde meados do século XVIII. Um dado chama a atenção do estudioso: comparativamente. pois essa conversão era vista como benéfica aos seus senhores. Goiânia. na época. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina onde se encontrava o forte de “ElMina” ou da “Mina” por onde os portugueses estrearam no comercio de escravos. Essas regiões também apresentam um caráter vago. viviam nas áreas aonde eram apresados. dado que a região era muito extensa. Comissário do Santo Ofício. ainda que os registros possam camuflar a verdade. havia determinado que todos os navios ou embarcações que chegassem ao porto de Santos fossem visitados.

atualmente. 276) aponta um montante de 10. 201 jul. foram incluídos no citado censo.207. Os demais arraiais possuíam menos de 1000 cativos. o julgado de Vila Boa teve 9. Os africanos que. 2007 . os dados oficiais registram a presença de aproximadamente 35. por registrar aumento da atividade de mineração em Pilar. devido aos motivos acima apontados. Desemboque e Carmo que. a saber: Belém do Pará.8 Em 1783. futuro Julgado do Desemboque que. Salvador. Rio de Janeiro e. de Traíras para 5. seguido por Traíras com 6. na época em apreço./dez. excetuandose os julgados de Cavalcante. o censo de 1789 registrou um aumento na população de escravos para 37.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Com efeito.682. Alguns julgados. O censo de 1804 confirma essa tendência descendente. chegaram à Capitania de Goiás desembarcaram em diferentes portos. Traíras com 3.000 escravos. Os outros tiveram menos que 3.245 e Meia Ponte. Pilar com 1.777. como o de Meia Ponte e Natividade.599.713 cativos trabalhavam na Capitania. Em 1779. Em 1792. pela primeira vez.790.567 e Crixás com 1. São Luis do Maranhão. e de São Félix para 2.027 escravos na região. sofreram aumentos leves. Karasch9 observou que o censo de 1783 estava incompleto.689 escravos. no entanto.328. o maior número de escravos já documentado na capitania de Goiás.568.533 escravos. o censo aponta os seguintes números de escravos para a Vila Boa e os arraiais mais ricos: Vila Boa com 4. p. com 4. Salles (1992.000 cativos. contudo. também.000 a 17.000. faz parte de Minas Gerais e.309. Este censo é particularmente valioso porque revela um novo descoberto aurífero na região do Rio das Velhas. Como demonstra o gráfico abaixo. a população de cativos de Vila Boa tinha reduzido para 8. de 1733 a 1750. outro censo registrou a presença de 38. A maioria dos arraiais que desenvolvia a exploração do ouro de aluvião listou 60 a 80% da população composta por pretos. pois demonstrou apenas que 17. Seis anos depois. Neste censo de 1792.200 escravos. Meia Ponte com 1. indicando a existência de 20. o que mostra uma ligeira tendência à diminuição da população escrava na Capitania.

Economia e na de Escravidão da 202 Revista Brasileira do Caribe.045 2. Karasch suspeita que muitos africanos recém-chegados ao Brasil ficaram algum tempo em outras capitanias.223 723 1. VIII.682 4.000 1783 1789 1792 1804 Gráfico 1 – Número de Escravos na Capitania de Goiás 1783-1804 (A cópia manuscrita do censo de 1783 dá o número como 364 em lugar de 363.567 997 1.207 1. 660 Desemboque Das de Rio Velhas 2.967 1.282 4.Cristina Cássia Pereira Moraes provavelmente.000 10. de de F.777 1. Goiânia.689 Crixás Pilar Santa Cruz Santa Luzia Meia Ponte Vila Boa 0 2.000 4.491 2. de Parnaíba no Piauí e de Recife.264 2.000 6. O certo é que as principais rotas de entradas de africanos na capitania de Goiás eram pelo Pará.839 1. n° 15 .855 4.153 1. 1783-1804. vol.000 8. Fontes: Gilka V.261 277 299 634 2. antes de serem trazidos para as minas de ouro de Goiás. como Minas Gerais e Bahia.568 9.432 8. Maranhão e Bahia.444 1.960 899 2. SalIes.200 4.575 3. Os Escravos na Capitania de Goiás.

começava no Rio de Janeiro e passava por Vila Rica e Paracatu em Minas Gerais. traziam artigos e produtos importantes que por cá não havia. Conforme os registros da Igreja Matriz de Santa Ana. tecidos finos. João de Botelho Cunha que. (MOTT. 170) Um outro exemplo. sal. Goiânia: CEGRAF/UFG./dez. Mapa em que o Governador. bacalhau. encontramo-lo num recibo de compra. Seção Manuscrito. e Capitão da Geral da Capitania Goyaz Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério 29 julho 1792. Biblioteca Nacional. Rio de janeiro. trouxe de Salvador. 1790-1798. Eram conduzidos por tropeiros que. p.4. em geral. 1993. 2002. caixa 35. AHU. inventários e termos de assentos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos localizados em Vila Boa. . Esses comboios. Como exemplo. Mapa em que Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério. 277. 19 de outubro 1790. como utensílios e objetos de ferro. entre 1794-1827 entre adultos e crianças foram batizados: 203 jul. até o prezente anno d’ 1789. entre outros. pagando por cada um aproximadamente 80$000”. Goiás. e artigos de luxo. em 1765. óbitos. 2007 .) Inúmeros comerciantes de Vila Boa organizavam grandes comboios para importarem cativos de São Luis do Maranhão e de Salvador. AHU. ibid. p. levavam em média três meses de viagem para chegarem a Goiás.11 Como foi abordado anteriormente por nós. KARASCH. 170 escravos para Vila Boa. localizar e determinar especificamente a “nação” a que pertencia os cativos em Goiás é uma tarefa hercúlea. vestidos.2. de 1793:“ Michaela Xavier de Aguirre deu 230 oitavas de ouro para Capitão Gaspar José Lisboa para ir a Cidade de Salvador para comprar três “moleques Minas”. p. Documento 2109 Reflexões Econômicas ficam sóbrio como Tabelas da de estatísticas da Capitania de Goyaz Pertencentes ao anuo de 1804 feitas de e nenhum de 1806. além de cativos.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Capitania Goiás. vinhos. 11. 119.10 Outra rota por onde os escravos chegavam à Capitania. 1992. Optamos em utilizar alguns registros de batismos. perfumes. podemos citar o comerciante.

1794 -1810 e KARASCH. p. Goiânia. vol. Diocese Goiás. Arquivo Geral. Batizados. 132). n° 15 . livro 3. VIII.Cristina Cássia Pereira Moraes Batismos de crianças escrav em Vila Boa de Goiás 1794-1810. as 6 angola mina crioulo(a) 5 moçambique 4 nagô buçá 3 desconhecido 2 1 0 17 94 17 95 17 96 17 97 17 98 17 99 18 00 18 01 18 02 18 03 18 04 18 05 18 06 18 07 18 08 18 09 18 10 Gráfico 2– Batismo de crianças escravas em Vila Boa 1794-1810 (Orfanato São José. 2002.12 204 Revista Brasileira do Caribe.

Batizados. Arquivo Geral.. Na coluna “desconhecido” pressupomos que seria o batismo do “gentio”. 2007 . 2002. 1794 -18270 e KARASCH Op.) A maior parte dos registros de batismo e de óbito indicava o grupo étnico a que o escravo pertencia como podemos observar nos gráficos acima. p. Como exemplo temos: “Maria. elas ocorriam e estes eram incluídos nos registros. livro 3. pois. Cit. embora a legislação proibisse a escravidão dos índios13. criança legítima de João 205 jul. Diocese Goiás. 132.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII : Gráfico 3– Batismos de escravos por gênero em Vila Boa de Goiás 1794-1827 (Orfanato São José./dez.

relativo a 1803-1810. nagô. A título de exemplo.Cristina Cássia Pereira Moraes Angola e Eugênia Índia Chavante. Natividade e Porto Nacional. foi batizada no dia 22 de fevereiro de 1818 em Santa Anna. anota 834 escravos falecidos. Meia Ponte. nada consta:15 Ó bitos1794-1834 800 700 600 500 400 300 200 100 0 total Gráfico 4– Óbitos 1794-1834. Infelizmente. VIII. KARASCH. vol. gentio. 206 Revista Brasileira do Caribe. apontam a origem étnica dos cativos falecidos na Capitania. 1803-1810. 135). (IPHBC: Livro de Registro de Óbitos de Meia Pontes. pretos da costa. conquanto se restrinjam a Natividade. quando podiam. 1800-1827. p. muito superficialmente. a fim de evitar sua escravização no futuro” (2002. mas. AFSD: Livro Óbitos. No entanto.14. denominando-os como mina. os registros de óbitos. o Livro de Registro de Óbitos de Meya Ponte. gentio da guiné. Goiânia. segundo Karasch. n° 15 m pr in a et na os gô da co s at nã na g ge o ola nt c io ons da ta gu de i ca gné en st ad tio at daer s Ira l da has te r cig ra an o . cigano. das ilhas. os párocos evitavam registrar uma criança indígena como escrava. Jaraguá e Corumbá e datem do início do século XIX. da terra. o maior numero de registros.

1794 -1834. Diocese de Goiás. op. m ina na g an ô go l re a b be olo ng u ca ela bi n m da un m oç j am olo bi q ile ue gi ve l 207 jul. página 48 v. Batizados./dez. (AFSD: Testamento de Marcelino Baptista Silva – Herdeiro: Manoel Teixeira dos Santos. p. Livro Letra K – 1789 – nº012.cit.) Um testamento de 1789 de Marcelino Baptista Silva cuja herdeira era N. Orfanato São José: Arquivo Geral. da Boa Morte representada pelo procurador da Irmandade Manoel Teixeira dos Santos nos indica que aos fins do século XVIII a maioria de seus cativos eram mina como podemos observar no gráfico abaixo: T estam Vila Boa 1789 ento 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 H omens Gráfico 5 – Predominância de escravos mina.). Sra. Goiás. 2007 .Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Mary. 43-43v. 133. livro 3. p..

o número de escravos pretos era bem maior que o dos brancos. Sra. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. do Rosário dos Pretos 1736-1810 60 50 40 Homens 30 Mulheres 20 10 0 17 17 35 36 17 39 40 17 44 45 17 49 50 17 54 55 -5 17 9 60 17 64 65 -6 17 9 70 17 74 75 17 79 80 17 84 85 -8 17 9 90 17 94 95 -9 18 9 00 18 04 05 18 09 10 -1 4 Gráfico 6 – Número de Irmãos e Irmãs na Irmandade de N. Ora. posto que essa Irmandade apenas aceitava cativos como 208 Revista Brasileira do Caribe. pardos e pretos livres. No entanto. vol. através dos censos efetuados na Vila e nos arraiais. Goiânia.Cristina Cássia Pereira Moraes Sabe-se. VIII. entre 1755 e 1784. nos termos de assento e anuidades dos membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Vila Boa. Do Rosário dos Pretos de Vila Boa. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1810).S. que durante o século XVIII. Sra. n° 15 . o número de escravos que fazia parte da associação era relativamente pequeno: Irmãos e Irmãs da Irmandade de N. com certeza.

rogava aos oficiais que obtivessem sua liberdade. do ano de 1764. devido às leis portuguesas de proibição à escravidão onde a maioria dos senhores de escravos os venderam para o Brasil. conforme o gráfico acima. Para mais. os demais negros podiam ser apenas irmãos de devoção.17 Apesar da terrível condição em que se encontravam. dando primeiro hum fiador a irmandade que se obrigues pelo tempo que sejustarem satisfazer à dita Irmandade o que desembolçar e será este fiador eleito pela Meza e passará obrigação à mesma. podemos observar que o numero de irmãos aumentou significativamente. Em termo de mesa. o irmão Francisco. e não de compromisso. Estes./dez. da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. os escravos urbanos da Capitania viviam melhor que os do campo. não tendo nenhuma chance de ajuntar algum dinheiro. ela não media esforços com vista a alforriar escravos: Havendo algum Irmão captivo que sequeira libertar a Irmandade lhe assistirá com oprecizo para se libertar. em Vila Boa. apenas na década de 1770. escrava do Coronel Pacifico. devido às quantias que eram cobradas pela entrada e por anuidade. embora a Irmandade. 2007 .16 Dois casos ilustram bem o que reza esse documento. o que geralmente acontecia com as mulheres . para além de trabalhar para seus donos. declarava ter quatrocentas oitavas de ouro e pedia que o tesoureiro da Irmandade indicasse um fiador para avalizar o restante da quantia a ser paga ao seu senhor por sua carta alforria. declarando que possuía um pecúlio de trezentas oitavas. a irmã Zeferina. de 1775. não aceitasse libertos como membros. escravo do Capitão Dantas. só produziam o suficiente para si e para os seus. podemos inferir de tal registro que bem poucos puderam nela ingressar como irmãos. nem a oportunidade de ingressar na Irmandade e se beneficiar da ajuda da mesma.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII associados. Aqueles ainda tinham a ocasião de fazer serviços extras para outrem e 209 jul. curiosamente. quando tinham família. Outrossim. Em outro termo. de modo que.

herdeiros não respeitavam as decisões. No período em apreço. de outro. Raramente encontramse dados sobre a profissão do senhor. após sua morte. Mas “os. vendiam-nos a terceiros e de preferência. Mattoso20 observa que “se tornou hábito que o documento seja registrado em cartório em presença de testemunhas” (1992.19 (MORAES. vir a obter a manumissão de seus senhores ou a coortação. cujo anseio principal fora alcançar a liberdade. em caso de eventuais dúvidas. pelos bons serviços prestados a si e à sua família. bafejados pela sorte. de um lado. gratuita ou onerosa. tal ou tais escravos deviam ser libertados. 177). As cartas de alforria nos fornecem vários dados interessantes: o nome do escravo que estava sendo libertado. A fim de evitar contestações. as modalidades e as condições dessa libertação. comerciavam-nos em outros lugares”. cor. ou eram públicos.. os nomes das testemunhas e a data do registro em cartório. entre o senhor e ele. Goiânia. VIII. podiam ser a “expressão da última vontade do dono”. ou um documento particular. filiação. p. 659-695) No segundo caso. ou “a conquista de um favor no céu”. os motivos pelos quais era alforriado. sua origem.burlavam a lei.. No primeiro caso. a idade e o ofício do liberto. 1973. mediante o qual. aos escravos pelos senhores era sempre tida na conta duma dádiva de sua parte. Eram as tais Cartas. As cartas de alforria eram instrumento legal. redigido por um tabelião. p. porque estavam a buscar uma “graça divina”.Cristina Cássia Pereira Moraes acumular um certo pecúlio para comprar a sua alforria18 e tal era o caso dos que exerciam ofícios específicos como os alfaiates. quando registrados em cartório. para garantir seu direito. isto é. para assegurarem suas vantagens. à situação de homem livre. n° 15 . vol.. caracterizavam-se por ser um acordo firmado “inter vivos”. por sua generosidade e. Todos esses dados reproduzem a vida dos alforriados. apossando-se dos escravos e. O documento ficava em posse do liberto. sua moradia na cidade ou no campo.. ou. a concessão da carta de liberdade ou de alforria. Isso os 210 Revista Brasileira do Caribe. os pedreiros e até mesmo os simples jornaleiros. o escravo passava ou simplesmente sub conditionibus. isto é. mas não registrado. motivada. o senhor estipulava em testamento que.

em alguns casos. Essa revogação poderia ser feita por terceiros. na idade. os prazos constantes dos documentos desse tipo. assegurando desse modo. no entanto./dez. Parece provável que parte das alforrias gratuitas tivesse relação com ligações afetivas” (1999. poderia ser revogada. Observa Aguiar que “as relações familiares representavam importante elemento neste processo. no sexo. em idade produtiva. Poderia consistir na autocompra da liberdade. oscilavam entre dois e cinco anos. certa segurança quanto à percepção da quantia acordada. particularmente para as crianças. referido no contrato. porquanto. consistia em o escravo obter uma semi-liberdade. quando se tratava de cartas de alforria onerosas. determinar as condições para o pagamento. o escravo devia pagar por sua liberdade. No entanto. Entretanto. gratuita ou onerosa. aquela sob condições. ou seja. Na Capitania. herdeiros ou um procurador do falecido proprietário. Concernia a escravos adultos e. A coartação era um tipo de alforria onerosa. Um outro tipo de alforria. na maioria das vezes. O pagamento das parcelas e a definição do tempo de vigência dos contratos variavam e eram acertados entre as partes. Em Goiás. a situação do coartado se tornava particularmente delicada e. 211 jul. a maior parte deles estipulava o valor fixo das parcelas e sua regularidade. p. Muitos senhores estipulavam o valor a ser pago. o pagamento da alforria era efetuado por outrem.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII levou a denominar esse ato de “boa ação pela fé”. eram subjetivos. sem. isto é. o senhor do escravo registrava esta observação na própria carta de alforria. No entanto.Mas a alforria. as condições do contrato eram cumpridas tal como foram originalmente acordadas. ou de uma só vez ou em várias prestações. O valor pecuniário do escravo e sua alforria. 16) . o pagamento pela liberdade era feito a prazo. nas suas qualificações. proibiam-lhes reger sua própria pessoa e gerir seus bens. porém. raramente. ao que tudo indica. e os motivos dos proprietários. era baseado na saúde do escravo. as cartas de liberdade trazem prazos que vão de dois a cinco anos e o escravo vivia uma fase de transição entre a liberdade e a escravidão. No caso de retaliação posterior. 2007 . se o senhor morresse. porquanto.

esmerando-se no cumprimento de suas tarefas. então. (BELLINI. muitas vezes. ou por causa dos serviços regulares que prestavam. De fato. com vista ou a obter a alforria ou a tornar sua vida mais suportável. portanto. entretanto. os escravos utilizaram diversas formas de resistência. como amas-deleite. às fugas. a convivência estreita na mesma casa e até no mesmo quarto. Como sabemos. por exemplo. tendo investigado a situação dos escravos na Capitania de Minas Gerais. Aguiar ressalta que a flexibilidade era a regra no pagamento das parcelas da coartação e na definição do tempo de vigência dos contratos. p. lavadeiras e etc. se o senhor falecia antes que o mesmo se completasse. vol. obrigando-o. VIII. Mas. ainda surgiam outros problemas entre o escravo e os sucessores daquele. 22-25) . p. ou prestando-lhes e aos seus filhos. especialmente as gratuitas. 1988. Muitas cartas de alforria. 75). diretamente os corpos do senhor e do escravo. em geral. tiveram um com o outro. cozinheiras. decorreram. o senhor não efetivava a sua libertação. de afeto e de intimidade entre senhores e escravos que não apenas contemplaram “os bons serviços prestados pelos escravos”. dessas relações de cumplicidade.Cristina Cássia Pereira Moraes ainda que as parcelas fossem pagas pelo coartado. igualmente. que ocupavam lugares institucionais tão diferentes. Goiânia. recorrendo às sabotagens. favorecidos por situações que envolvem.. n° 15 . p. as relações sexuais e filhos. 1999. a entrar na justiça para reivindicar o seu direito (AGUIAR. decorrentes dum relacionamento mais próximo com os seus senhores. às rebeliões. de acordo com o que consta do seguinte documento: “Concedo a liberdade do escravo Terthulianno Crioulo de 70 anos gratuitamente 212 Revista Brasileira do Caribe. “serviços especiais” em seus leitos: Na realidade de jogos singulares de poder e sedução. estes protagonistas. 21-22). eles souberam aproveitar das oportunidades. a revogação unilateral do contrato (1999. o cuidado e a amamentação das crianças brancas pelas amas. como a preparação da comida dos proprietários pelas escravas.

neste caso como em muitos outros semelhantes. no tocante a ex-escravos.)23. durante certo período de tempo. p. embora a maioria dos senhores de cativos usasse a palavra “gratuitamente” nas cartas de alforria. o liberto.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII pelo valor de uma oytava e meya. consta a sua condição de coartado: Aos dez de Dezembro de mil oito centos e quatro falesceu com os Sacramentos da penitencia. em troca de alguma remuneração. e sepultado no Adro da Capella de Nossa Senhora da Penha de Jaragua.22 O documento abaixo comprova o que afirmamos: Eu. ainda convém observar que. pelos bons serviços que me tem prestado”21./dez. Em alguns registros de óbitos. Na verdade. sendo o pagamento à vista pela minha livre e espontânea vontade.. Todavia. importa ressaltar que. que entre os bens que possuo. após sua liberdade. que concedo a liberdade pelos bons serviços prestados. Por outro lado. pelo valor da primeira parcela de cento e noventa e oitava de ouro. nascera em casa dele e. abaixo assignado. havendo a Encommendação do costume. um escravo de nome Ignácio Crioulo. as mesmas aludem a pagamentos e às obrigações da parte dos escravos. se estenderam para além do mero ato de obtenção da liberdade. recebendo sua liberdade após o pagamento de sua dívida (.69) mas. ele era estimado pelo seu dono. ficando o restante a ser pago pelo dito escravo. 2000. do 213 jul.. devia prestar algum tipo de serviço ao seu ex-dono quem não era tão magnânimo quanto aparentava ser. pelo amor que lhe tenho e por ele ser cria da casa. e extremaunção João Mina esravo coartado da heransa do falescido Jeronimo Gomes: seu corpo foi amortalhado em pano branco. embora possa parecer paradoxal conceder liberdade a um escravo em plena idade produtiva. Capitão Felipe Rodrigues Lisboa. tudo leva a crer que. ou os nascidos nas casas senhorias (LEITE. devido a essas circunstâncias. ainda iria continuar a trabalhar para seu antigo dono. 2007 .

no mínimo contraditória. vol. caso conseguissem recursos para obter a alforria. diz respeito a eles poderem ter escravos para os ajudar nos serviços que faziam ou vir a substituí-lo. com a qual nos deparamos ao fazer esta pesquisa. Ora. os senhores consentiam naquela situação de facto 214 Revista Brasileira do Caribe. não sendo reconhecido como pessoa. ao escravo era proibido ser testemunha26. possuir quaisquer bens etc. VIII. Goiânia. ser tutor29.25 Alforrias 1794-1810 70 60 50 40 30 20 10 0 as da as as s total ui t at ad ul us Gr er c la m Gráfico 7– Tipos de Alforrias (AFSD: Documentos avulsos: Cartório do 1º Oficio: Testamentos. enfim.Cristina Cássia Pereira Moraes que fiz este assento”. sujeita de direitos. o que se passava era o seguinte: face à predita segunda hipótese. muito comum no Brasil do século XVIII. 17551798) Uma outra situação. fazer testamento27. Na verdade. relativa ao escravo ou ao liberto. herdar28.O Coadj or Joaquim Glz´ Dias Goulão. bem como para burlar o imposto de capitação. de acordo com a legislação em vigor. n° 15 Co Re m un Co ar ta .

28) a propósito.30 Por conseguinte. camufladamente. de 1792. Não perdendo de vista as observações de Aguiar (1999. 215 jul. Raríssimas vezes conseguimos encontrar os documentos em séries completas. os escravos negros encontraram nelas um importante espaço de reorganização e reconstrução duma solidariedade étnica que se perdera. do Rozario estando prezente o nosso Juiz e Escrivam e mais irmãos da meza concordaram q a irmã Maria Banguella posuia o direicto a quartação acertada em cinco annos com o fiador Antonio M Vasconcellos por meia libra de oiro o erão taobem a sua moleca de 5 annos mais ou menos. ao serem trazidos do continente africano. José da Silva Porto. As condições sócio-econômicas e religiosas do escravo na Capitania de Goiás e a perspectiva de libertação que se lhe abria. a pagar ao seu senhor. de jure. Por mais que a Igreja Católica tenha se preocupado em registrar os acontecimentos. em troca de sua liberdade e da de seus filhos. em nossos arquivos a documentação sobre os cativos – quando a encontramos – aparece mutilada. 2007 . pouco foi preservado. pelo prazo de cinco anos. meia libra de ouro: Aos 25 do mez de 7bro de 1792 – neste consistório de N. 95). se comprometia.Sra. desfigurada por causa de muito tempo de descuido e por incursões de traças. em que os irmãos decidiram assumir e pagar a coartação da irmã Maria Benguela. 1993. ao se associarem às irmandades./dez. Infelizmente.S. indicando o irmão Antonio de Melo e Vasconcellos como seu fiador. tendo condições de associar-se à Irmandade de N. p. conservavam a propriedade sobre tal escravo de escravo. a qual. Trata-se dum Termo de Mesa da predita Irmandade. arrematamo-las apresentando um documento bastante ilustrativo sobre isso. p. fazendo valer seus direitos em pendências judiciais (ARAUJO. inclusive os nascituros. do Rosário e cumprir com suas obrigações pecuniárias é o sinal concreto de solidariedade e caridade cristã entre todos os membros.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII mas.

VIII.Cristina Cássia Pereira Moraes Ademais. cultuada tanto pelos índios como pelos africanos. os quais. recusando sua situação de inferioridade. conveniência ou compartimentação entre o catolicismo e a sua africanidade. (JULIA. Com efeito. faz-se pertinente analisarmos a força da religiosidade dos pretos cativos. para os de fora de sua cultura. no tocante à religiosidade original dos negros. de praticarem suas crenças e. que os brancos é que não sabiam exteriorizar a sua fé. formularam e atribuíram novos significados à sua religião e ao catolicismo. mas de forma alguma sua religiosidade podia ser considerada como superficial e de aparência. tendo em vista a total impossibilidade de regressar às suas origens e. do ponto de vista deles. o politeísmo africano se identificou com o politeísmo indígena e com o culto aos santos católicos. os pretos eram capazes de conciliar coisas que. n° 15 . mas. No segundo. 216 Revista Brasileira do Caribe. é provável. 3-4). No primeiro caso. possibilitaram-lhes tomar consciência de sua unidade étnica e proporcionaram-lhes expectativas transcendentes que minimizavam seu sofrimento interior e exterior. de se tornarem pseudo-católicos31 fervorosos e convictos dos dogmas da fé cristã. Não pudemos perceber obrigação. parecem contraditórias e inconciliáveis. É importante destacar que a maneira do preto manifestar a sua devoção causava temor e incomodava aos brancos pelo apego às “exterioridades das celebrações”. por um lado. p. tais como o de São Jorge. tendo presente o contato que estabeleceram com as tradições dos índios e a dos luso-brasileiros. por exemplo. 1994. os africanos depois de trazidos à força de sua terra natal e inseridos na sociedade luso-brasileira. Goiânia. o culto aos santos se relacionava de modo coerente com muitos mitos religiosos africanos. vol. ao mesmo tempo. p. 115-116). a identificação se dava inclusive pela divinização de elementos da natureza como a mata. reconhecido como o orixá Ogum. algumas semelhanças entre elas possibilitou um estreito diálogo32 e a circularidade cultural33. concomitantemente. O certo é que. pois conforme observou Quintão (1997. pois mesmos os recém-chegados da África não eram impedidos. por outro.

essa lacuna documental prejudica. eles também preferiram guardar silêncio e continuar praticando seus rituais misturados ao Catolicismo. com muita perspicácia. dos anjos e dos santos dados aos homens como seus guardiões e protetores. Infelizmente. se entrega a feitiçaria e se transforma em Lúcifer. pregam o evangelho e se tornam santos (HURBON./dez. p. Deus envia a terra doze apóstolos. admirado com a fervorosa religiosidade dos cativos. só muito dificilmente se distingue do Deus do catolicismo à medida que este sempre foi representado na pregação. quanto à maneira como veneravam Nossa Senhora do Rosário. 47). em geral. em 1722. e como. os registros que alcançaram nosso tempo. se recusando a partir. o agostiniano. grupos como os iorubás ou gegês acreditavam. frei Agostinho de Santa Maria ressaltava a generosidade dos mesmos nas celebrações das festas. os manda para a Guiné. o trabalho dos investigadores (MUNANGA. como os católicos. o mundo religioso dos escravos africanos era avesso ao profano e sua crença apoiava-se na simbologia do sagrado. deixados pelos religiosos. 102-107) Para mais. que Deus é a chave da abóbada que sustém todo o sistema dos espíritos e de todas as práticas desse culto. os senhores não tinham interesse em saber nada a respeito de tais crenças. efetivada nos vaticínios. 2007 . comentando: “as maravilhas de Deos. Em seu orgulho eles se rebelam contra Deus que. fornecem dados preciosos. pois faz com a sua devoção se alegrem tanto os pretinhos. porém. p. que parece huns doudos de contentes”: 217 jul. Mais tarde. Apesar disso. os favores e mercês da Maria Santíssima. alem disso. 1996. Eles se multiplicam e se transformam nos loas. com exceção de um que. Ele é o criador dos espíritos e dos santos católicos correspondentes e. no catecismo. como castigo. Deus envia doze apóstolos que se comportam melhor. De fato. nos cânticos e nas orações como o criador do universo.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Outrossim. hoje. 1987. sortilégios e magias.

. Alguns deles asseveram que elas surgiram com os fitos de difundir uma “falsa igualdade”. Mais recentemente. em Lisboa. n° 15 . Goiânia. perante a maioria branca. VIII. não sendo vistas como que estimuladas.. com que aquelles pretinhos servem à sua Senhora. e propiciar aos seus membros um lenitivo religioso. pois sendo pobres.) (SANTA MARIA.Cristina Cássia Pereira Moraes He muyto para admirar a fervorosa generosidade. faz-se pertinente buscar a origem da maior devoção dos cativos dedicada a Nossa Senhora do Rosário primeiramente. Segundo o referido frade. isto é. A partir de 1520. dominada pelos brancos. 1947. ao lado da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de brancos. em Portugal e depois para o sertão dos Guayazes. e como um meio de enraizamento da comunidade negra nos domínios ultramarinos. esmerando-se muyto em levar a vantagem a todos os mais (. por excelência junto de Seu Filho Divino. & não tendo nada. por motivos profanos ou seculares. Outros julgam que elas foram concebidas e organizadas visando a inserção dos cativos naquela sociedade. p. & festejarem à Senhora. que possuam. 86). “a integração do homem de cor” – o que podemos chamar de estratégia de convivência harmoniosa ou de “auxílio mútuo”. que em tudo excedem aos brancos. os estudos sobre esse assunto apontam para os fatos de que tais irmandades surgiram face às necessidades de se aliviar as pressões advindas duma sociedade competitiva. uma outra constituída 218 Revista Brasileira do Caribe. os escravos negros provenientes da África erigiram na igreja de São Domingos. meramente. o fazem com tanta grandeza. vol. Estudiosos do tema em apreço não estão em acordo quanto à explicação das possíveis origens das irmandades religiosas das pessoas de cor. faziam com que as festividades em louvor à Virgem fossem quase uma epifania do transcendente que lhes causava imensa alegria. no âmbito da sociedade escravocrata que acentuava a divisão social. para servirem. & captivos.34 Outrossim. as concepções de acordo com as quais Maria era a mãe de todos os desvalidos bem como de Jesus Cristo e a intercessora.

nela incluída a recitação do Terço. quando os negros cativos adotaram a devoção a Nossa Senhora do Rosário. entre grupos sociais populares. ao contrário. isto é. do Rosário. ligada a São Domingos e aos seus filhos. Alem disso. Os negros. cada uma precedida do Pai-Nosso. que pode ser classificada como sincrética. os brancos a abandonaram completamente e passaram a menosprezá-la. 261) Ela quase se igualou em importância à prestada ao Ssmo. face à ameaça islâmico-turca perante uma Cristandade dividida por causa da Reforma Protestante Rapidamente. A devoção a N. Tridentina e institucional. nessa época. Sacramento. Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e as quinze dezenas que se he 219 jul. “Sua recitação está intimamente ligada aos mistérios da Vida. e consistia na recitação do terço ou do rosário. se revestiu com uma roupagem nova. (SCARANO. 1976. os frades Pregadores ou Dominicanos./dez. que he com que hoje ao presente he buscada e servida dos seus devotos pretinhos”. surgindo assim. de cento e cinqüenta ave-marias. presos e casarem orfaons”. divididos em quinze dezenas. à época da batalha de Lepanto. em Portugal. na Península Ibérica. aonde a milagrosa Virgem do Rosário era cultuada pelos marinheiros. “lhe deram o titulo do Rosario. essa devoção encontrou guarida em igrejas e conventos de cidades e vilas e. dizendo que tal devoção surgiu quando os escravos foram “fazendo hum ajuntamento e pondo hua mezinha a porta da igreja e depois outra maior e mais dentro a maneira de confraria por onde se vieram alevantar”36.Sra. mesclada com o popular e afetivo. 2007 . como ocorreu no Porto. Entretanto. 1961. 39-40) 35 Seus associados portugueses tinham como obrigação “remirem cativos. se intensificou sobremaneira graças ação religiosa dos Dominicanos. também passaram a criticar os frades Dominicanos por lhes terem permitido organizar uma confraria inteira exclusivamente com sua gente. p. dada a impossibilidade de os mesmos participarem da Irmandade de seus senhores. a nova devoção mariana. p. as irmandades.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII somente por eles. então.37 Não obstante a sua origem medieval. (ENES.

38 O pesquisador francês Lahon ao estudar a origem das irmandades de N.au moins théorique . a 220 Revista Brasileira do Caribe. S. 448). do Rosário dos Pretos de Lisboa observa que eles foram os primeiros a elaborarem – em 1565 . se consagram e se dedicam a Nossa Senhora” (AMARAL. où les noirs auront le contrôle . numa sociedade católica e branca. conforme o primeiro levantamento populacional de Lisboa realizado por Cristóvão Rodrigues de Oliveira em seu Sumario em que brevemente se contam algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa em 1551: Há neste mosteiro de São Domingos sete confrarias. em coroa se oferecem. 18). 1953. Segundo o autor acima a ereção dessa irmandade é a primeira do gênero e seu Compromisso data de 1565. p. n° 15 .de leurs associations. assisteront et défendront légalement les intérêts des captifs contre les maîtres. Sra. mas. Esses observam a vantagem de se congregarem em irmandades por “ser notoriamente o grande proveyto q resultara a conversão das almas q até os Reis Gentios mandavam esmolas para a confraria e pedião retabolos de nossa Sra. vol. cette attitude provoque le dédoublement de l’association et la création officielle d’une confrérie noire sanctionnée par des statuts ratifiés en 1565(…) Ces statuts sont le prélude à la création d’autres associations organisées sur le même modèle. VIII. No seu esforço de enquadramento religioso. affirmeront leur identité. atraindo-o para as irmandades mais capazes de interessá-lo. Sra. p. a Igreja não poupou esforços para integrar o africano. Do Rosário”. Goiânia.Cristina Cássia Pereira Moraes devotam constituem rosas que. un peu partout sur le territoire. do Rosário de homens “brancos”: Comme nous l’avons observé.um estatuto próprio que diferia do Compromisso da irmandade de N. Or. recém-chegado. jamais ce dernier objectif n’atteindra au Brésil les mêmes proportions qu’au Portugal (2001.

Para essa irmandade de Recife em Pernambuco o critério de nação entre os irmãos fica muito claro na documentação. O de Vila Boa é diferente dos “Termos” 221 jul. no Recife do período do reinado de Afonso VI. são haussás. ao seu ingresso na mesma. Benquela. cujos sacerdotes desse orixá usavam o “rosário de Ifá” à volta do pescoço. ou seja. De acordo com esse estudioso. Segundo Tinhorão./dez. p. recitado pelos irmãos. são jejes. reforçando o compromisso de adesão. são tapas.41 Geralmente. Sra do Rosário no Brasil. somente aceitavam negros cativos. sobre o próprio destino ou sobre a sorte no amor. Angola. período do reinado de Afonso VI (1643-1683) de Portugal. Sra. 2007 . dentre outros.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII confraria de Jesus regida por pessoas nobres E principais cidadões. do Rosário entre os cativos surgiu à volta de 1662 a 1668. Sra. O mesmo não podemos afirmar para a Capitania de Goiás. começavam com uma exortação. hua de pessoas honrradas. são bornus. Cabinda e Moçambique. são minas. como se fosse um colar. são mandingas. as contas dos rosários não eram constituídas por esferas polidas e iguais. Quanto à devoção à Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos que nos Guayazes. E a confraria de nossa Senhora do Rosário repartida em duas. durante a Idade Média.39 No Brasil. são bantus. a saber. do Rosário. era composta por africanos e crioulos e certamente tomaram como modelo a já centenária irmandade congênere de Lisboa. são fulas. podemos analisá-la a partir do estudo de seus “Termos de Compromissos”. cuja devoção visava. em Pernambuco. 126-127) . o mais provável é que a primeira irmandade de N. soltas ou unidas em forma de rosário as nozes duma palmeira africana chamada OKpê-lifá. eles a associaram ao culto anteriormente prestado ao orixá40 Ifá. a devoção a N. Assim. pois o critério de união não é a nação e sim a procedência dos cativos que faziam parte da irmandade de N. São nagôs. mas por pequenas rosas esculpidas em madeira (1988. atirando ao chão. especificamente. E outra de pretos forros e escravos de Lixboa.

Goiânia. se comparada com a dos que viviam no interior da Capitania: Ao primeiro de Mayo de mil e sete centos e setenta e cuatro na Igreja de Nossa Snra do Rozario dos pretos da Vila Boa dos Guayazes estando congregado o escrivam que prezidia pelo 222 Revista Brasileira do Caribe. passando a aceitar brancos como irmãos..) o modo mais concernente para conduzir novos devotos a esta pia congregação e que pela intercessão da Virgem Mãe e Senhora do Rosário na vida eterna. e ainda a aquelles que pela sua desgraçada conducta.. mercês e favores que cada instante esta.. 11 irmãos escrivãos e 8 tesoureiros letrados se revezaram no exercício dessas incumbências. o que denota uma condição sócio-cultural melhor dos pretos escravos da Vila43.Cristina Cássia Pereira Moraes dos arraiais de Pilar.como May de mizericordia a todos os seus filhos e dovotos. entre 1748-92. após. ao especificar que as irmandades. são as mais eficazes para a conservação dos Louvores dos Santos aos quais se consagram “e(. Conforme os dados registrados nos “Termos de Mesa” que pesquisamos. reformulou o seu “Termo”. della senão lembrão e a mesma Senhora para os favoresser e amparar de tudo se esquece.42 Nos outros. embora admitisse que brancos pudessem ser devotos de N. do Rosário.. n° 15 .. Entretanto.) e depois de terem também nesta irmandade participado os copiozos prantos e incomprehensiveis benefícios. a de Vila Boa. e só se lembra deque todos forão remidos com o infinito preço de sangue de seu unigênito Filho. vol. Crixás. só aceitava pessoas de cor e escravos como membros. São Jose do Tocantins e Trairas. Essa Irmandade em geral.. todos os irmãos e irmãs colherão o fruto da Bem-aventurança”. (.Sra. os quais “desde o primeiro dia em que nella se assentarem por serviço da mesma Senhora. ficão sugeitos atoda a Ley deste compromisso”. 1803. ao contrário das confrarias. está escrito que confraria e irmandade é a congregação de muitas pessoas que se sujeitam voluntariamente ao serviço de Deus e de Sua Mãe Santíssima. VIII.

O Reverendo Capelão podia assistir às reuniões e. um andador. no ano em que estivessem ocupando cargos não pagavam anuais. aceitavam brancos apenas como oficiais escrivão e tesoureiro “por não dominarem as letras”. tinham de obter “o seu beneplácito e consentimento da Eleição e cargo que os seus servos forao nomeados. as Irmandades dos mencionados arraiais. p.se propoz que o dito escrivam permanessese no cargo posto ser o mior para a função q exerce juntoa Seu Senhor de caixeiro de fazendas secas dominando as letras e contas./dez.46 Essas irmandades construíram suas próprias capelas com as esmolas arrecadas com os irmãos. doze irmãos e doze irmãs de mesa.47 Compunham a mesa da Irmandade do Rosário de Vila Boa.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Irmão juiz.44. encontrando-se todas com “a devida dessencia e ornato que se precisa” sem ajuda da fábrica da matriz. dos seus senhores. sirvão dous homens brancos debom nome e inteligência para o governo e direcção da Irmandade em quanto não houverem homens pretos com sufficiencia para os referidos cargos. um juiz e uma juíza. um procurador. em caso de empate na votação sobre alguma determinação. um zelador. grassava entre os escravos que aí viviam (GAETA. acentuadamente. um tesoureiro... Os irmãos pagavam duas oitavas de entrada e uma de anual. o seu voto decidiria a celeuma. mas assim mesmo se a Irmandade não quisesse aceitá-los serão “nomeados homens pretos para exercerem os ditos cargos” 45. porque rejeitando o que a mesma Senhora não hade permitir. 2007 . De fato. de Trairas e de Pilar um rei e uma rainha.. quanto por causa do analfabetismo que. um escrivão. 102).. se procederá 223 jul. tanto por motivos administrativos e financeiros. 48 Todos os irmãos escolhidos para desempenhar os mencionados cargos. No caso da Irmandade de Crixás está explicitamente escrito: Como nosso estado e condição dificulta haverem pessoas capazes e inteligentes para servirem as occupaçoens de escrivão e thezoureiro. 1995.

Goiânia. O rei e a rainha pagavam a anuidade de vinte oitavas cada um. face ao motivo supra-citado. As eleições para os citados cargos eram realizadas na véspera da festa de Nossa Senhora do Rosário. um juiz e uma juíza. ocorria na oitava de Pentecostes.Cristina Cássia Pereira Moraes a nova eleição”49. o escrivão. um tesoureiro. era justo que “selhe facão todos os suffragios por sua morte”. n° 15 . era o eleito.52 224 Revista Brasileira do Caribe. sua anuidade. exceto se o procurador justificasse que o devedor vinha passando por algum infortúnio e a mesa deliberasse postergar a quitação da dívida por mais um ano. expirado o prazo. vol. por exemplo. seriam convocados perante a mesa para acertarem a quantia devida no próximo ano. se não quitassem seu débito em três anos. aquele que tivesse obtido mais indicações para cada posto. Constatou-se na documentação examinada. a qual. Embora a reeleição para tais cargos fosse proibida. geralmente. O escrivão. Em caso de empate. Os 24 irmãos e irmãs de Mesa pagavam três oitavas cada um e os demais irmãos. dois procuradores e doze irmãos de mesa entre homens e mulheres. o tesoureiro. prevendo-se até um interstício de 3 anos. designados por irmãos rasos pagavam uma oitava de ouro. Irmãos e irmãs votavam secretamente e. Se. A anuidade cobrada para se exercer os 4 principais cargos era de 24 oitavas de ouro. o rei decidia com o seu voto. O rei apresentava à mesa três pretos capazes de exercerem o ofício de rei e demais cargos. abriam-se exceções. o que obrigava as Irmandades a tomarem algumas providências. continuassem devedores. o procurador e o andador nada pagavam.51 Aos fiéis pagadores. um escrivão. o juiz e a juíza pagavam dezesseis oitavas. que muitos dos demais irmãos de compromisso não pagavam “religiosamente”. o tesoureiro e o procurador nada pagavam “pelo grande trabalho que tem nas referidas occupações”. apurados os votos.50 Compunham a mesa da Irmandade de Crixás e de São José do Tocantins um rei e uma rainha. VIII. seriam expulsos. Aos escravos que obtivessem a alforria e fossem devedores “deva cobrar executivamente”. bem como pela dedicação da pessoa ao exercê-lo. O procedimento em todas as Irmandades era bem simples.

na Vila e arredores e nos arraiais e adjacências. tinha as seguintes obrigações: rezar missas pelos irmãos falecidos. foi nas festas dessa Irmandade que os escravos mantiveram um bom número de seus antigos costumes e tradições. na continuação das festividades. os quais. à de São José do Tocantins. o juiz e a juíza vestiam-se com opa e portavam a vara e. como o ritual da coroação de seus reis e rainhas. sem a autorização da mesma e. p. se viesse a fazer isso. com o pagamento de uma multa pecuniária. os demais oficiais. vestiam-se com as opas brancas. no dia seguinte. os juízes e juízas tinham de “tirar esmola com a Bacia”. os reis e rainhas. Aliás. No outro dia. seria penalizado. começo do ano novo. o rei e a rainha. arregimentar um número maior de associados e convocar as 225 jul./dez. apesar de se vestirem à maneira do branco. por isso mesmo. Quanto aos deveres dos dirigentes dessa Irmandade. entregava-os ao sacerdote pregador da festa que os proclamaria após o sermão em louvor a Sra. 44-46) . posto que é o dia consagrado em seu louvor. por auto-iniciativa. no interior de suas comunidades ocupavam posição eminente e. eleito pela mesa. Constam de todos os “Termos de Compromisso”. nas celebrações religiosas. o juiz também tinha os encargos relevantes de cuidar da boa paz e sossego entre os irmãos. 2007 . rezar pelos benfeitores da Irmandade e acompanhar à sepultura os irmãos falecidos. em 1 de janeiro. do Rosário. no que concerne à de Vila Boa. a ponto de. rezar o terço aos domingos. todos os sábados. cujo valor era de “hua oitava do que tudo se ajustar”54.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII O capelão guardava os resultados consigo e. que o capelão da Irmandade. no tocante à sua remuneração pelos serviços religiosos que tinha de prestar. dançavam suas próprias danças próprias e cantam suas músicas ancestrais misturadas com as letras de cantos católicos (SCARANO. Era-lhe proibido modificar o “Termo” da Irmandade. delas já participavam revestidos com todas as insígnias de Majestade53. se tributavam homenagem e respeito. à de Crixás. sempre estarem junto ao altar-mor. Somente na de Vila Boa. rezar a Ladainha de N. à de Trairas e à de Pilar. 1976. Sra. Ademais.

Do “Termo de Compromisso” da irmandade. administrar as obras de construção ou de restauração sob encargo da mesma. fazer procurações e segullas até mayor 226 Revista Brasileira do Caribe. os ornamentos e as alfaias pertencentes à mesma. Apenas a de Crixás delegava poderes de “fato e direito”. Entretanto. cujas incumbências eram guardar e anotar nos livros apropriados. o escrivão anotava o nome dos irmãos que. firmavam o “Compromisso”. em caso de falecimento ou ausência de algum irmão. os bens.“ E concede ao thezoureiro e Procurador os poderes em direito necessarios para todas as dependencias da irmandade em Juizo e fora delle e para intentar cauzas. bem como. O terceiro cargo em importância nas Irmandades do Rosário era o de tesoureiro. aqueles provenientes das “esmolas de bacia” e outras mais. inclusive. no seu impedimento. n° 15 .Cristina Cássia Pereira Moraes reuniões necessárias ao bem da irmandade. Livro da Fábrica . o tesoureiro exercia suas atribuições. uma espécie de ata do que havia sido discutido e decidido em reunião. anotava as receitas e despesas da irmandade. consta a proibição de o tesoureiro não poder emprestar a ninguém nem ouro nem os bens pertencentes às mesmas. radicada nos arraiais analisados. depois. radicadas nos arraiais. conforme orientação do tesoureiro. Ele ocupava o segundo cargo mais importante da mesma e. Num desses livros. vol. por exemplo. com a ajuda do escrivão. vistas nos capítulos anteriores. os rendimentos da irmandade. Num terceiro livro. o irmão escrivão era o responsável pela guarda e conservação dos livros de registros da irmandade. defendellas. cuidar. o cargo de irmão procurador dessa Irmandade. prática essa comum entre demais irmandades. “declarava por cota ao pé do mesmo assento todos os annuais” devidamente registrados. ao procurador. da lavagem das alfaias utilizadas na celebração da missa e das opas dos demais irmãos. Estavam obrigados a cuidar do asseio da capela e. apresenta algumas peculiaridades em relação ao da Vila e as outras.55 Noutro. VIII. inclusive. Em todas as Irmandades. o escrivão registrava as eleições e “accordaons” ou termos de mesa. limpar e inventariar em livro apropriado. Goiânia. ao seu ingresso. primeiro ao tesoureiro e.

tendo os direitos de “appellar. face ao motivo que aludimos antes. tratando de outras Irmandades. com idêntica devoção. 2007 . No entanto. diz respeito à condição dum pretinho escravo oferecido à Nossa Senhora do Rosário: Aos trinta dias do mes de setembro de 1759. as responsabilidades do procurador./dez. registrado no Livro de Termos de 1791. no tocante às demais. determinou que o procurador não consentisse que tal fato continuasse a ocorrer na “irmandade irmã porque os envolvidos seriam remetidos aos seus Prelados para que este os corrigissem como mereciam”. que ressalta a importância do cargo de procurador da Irmandade do Rosário da Vila. Os irmãos deliberaram e decidiram em reunião.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII alçada”. bem como “passará recibo do dinheiro q receber dos alugadores das cazas e apresentar em Meza o q se fizer preciso”. bem como ajudar o irmão escrivão.58Outrossim. aggravar. equivalia às incumbências dos zeladores. a partir dum acontecimento estreitamente vinculado às práticas religiosas sincréticas dos pretos. que o procurador Manuel Gomes Alvarez admoestasse os irmãos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Crixás a respeito de um ofício emitido pelo Padre José Maria Santana Fernandes sobre as “dansas supersticiosas que os ditos pretos divididos em Nasçoens e com instrumentos proprios de cada hum. como nos arraiais homens brancos “ornados e de bons costumes” ocupavam os cargos de escrivão e de tesoureiro. no “Juízo de Órfãos e Auzentes”. embargar e seguir a sua justiça ate mayor alçada”. para que no Livro dos Assentos para não só anotar o falecimento de algum irmão. no mínimo curioso. dansão com diversos movimentos do corpo”. estando o escrivão 227 jul. conforme tivemos a ocasião de ver. por razão análoga.59 Um outro fato.57 Pode-se notar a ligação e a ascendência da Irmandade do Rosário da Vila sobre as demais congêneres.56 Ora. o procurador da Irmandade de Vila Boa a representava junto ao Tribunal da Real Fazenda. Também devia cobrar a anuidade dos irmãos devedores.

se não vendesse e só o deixassem tomar carne para depois o vender por mayor quantia q.63 Devia. não há um capítulo sobre como proceder. somente o procurador podia ser incumbido desse ônus. nos relativos às dos arraiais. como tivemos a ocasião de verificar. as Irmandades devotas dum mesmo orago. Ambos os documentos reforçam nossa tese. pois. tratando de outras Irmandades. concernentes à legislação e ao compromisso. igualmente. antes. porquanto apenas ele tinha competência para fazer “o mais em que se precisa especial e geral mandado de representação”61 e o moleque ou podia ser reivindicado por algum suposto dono. por ventura se fizessem necessárias. de acordo com a qual. E tomados os votos assentarão q. da leitura e análise de todos os “Termos de Compromisso” das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. de onde partiam as normas e resoluções pertinentes aos interesses comuns de todas elas. No concernente à Irmandade da vila.Cristina Cássia Pereira Moraes e mais irmaons da meza do anno nesta Igreja de Nossa Sra do Rdo de Villa Boa dos Guayazes. tentar fugir. existentes nos arraiais. Jozé. ainda. 62 Só na Irmandade da Vila havia o cargo de zelador. Era um assalariado da irmandade e escolhido em mesa. por maioria dos votos dos irmãos. tinham as obrigações de zelar por tudo o que condissesse ao bem e ao aumento da irmandade. se propoz o que faser com hum cabrinha dado a Nossa Sra do arraial de S. para além desse 228 Revista Brasileira do Caribe. em caso de eventuais modificações que. de bons costumes e bastante devoto. n° 15 . ou pertencer a algum espólio de herança ou. de usarem a opa branca em todas as cerimônias que a mesma tivesse de estar presente. ainda constatamos algumas particularidades que convém destacar. cujas incumbências principais consistiam em guardar as chaves da capela e cuidar do seu asseio bem como de seus ornamentos e guisamentos. estavam ligadas à da Vila. vol. se prometia ao prezente. Goiânia.64 Finalmente. a saber. eleitos para a mesma. VIII. Quanto aos demais irmãos de “mesa” das irmandades em apreço.60 De fato. ser um homem probo.

se sujeitavam. a Irmandade da Vila passou a aceitar irmãos de qualquer idade. tendo sido apenas irmãos de devoção que.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII capítulo. terão à celebração de duas missas por suas almas.66 229 jul. o texto frisa que os negligentes com seus deveres pecuniários não gozarão desse favor. Quais os motivos que levaram os brancos a ingressarem nessa Irmandade após 1805? Como observa Scarano. tendo em vista a devassa aberta contra os mulatos da Irmandade de São Benedito. No entanto. já no início do século XIX. em determinadas ocasiões. Em seu Livro de Receitas e Despesas. embora não deixassem de invocar para tanto razões piedosas. conquanto isso não tenha implicado em que eles tivessem passado a ocupar os cargos de direção da mesma. parece inegável que a sua presença representava uma forma de controle sobre os escravos. ao menos teoricamente. às leis da Irmandade. o que pode ser aceito como hipótese. certamente. aquela Irmandade passasse a usar a capela do Rosário dos Pretos. pensamos que. esse fato contribuiu para que. conforme vimos no capítulo anterior. terá contribuído para aumentar o número de devotos de Nossa Senhora do Rosário. a presença de brancos passa a ser preponderante. os irmãos observam: “que as vaidades do tempo são impessptiveis (sic) ao entendimento humano e pode acontesser a estas minas cresserem ou deminuirem as riquezas em que seja necessario deminuir ou agmentar as Leys do compromisso”. 2007 . como os outros. o que. igualmente. deixaram de pagar suas mesadas. por “estado de pobreza”. quando vierem a falecer. por esse motivo.65 Posteriormente. os quais. sobre a Irmandade do Senhor dos Passos de Vila Boa. sexo ou condição. como a igreja Matriz continuava a ruir aos poucos e era necessário encontrar um outro lugar para a celebração do culto. Entretanto./dez. Há ainda um outro capítulo sobre os sufrágios pelos irmãos que. o 21º.

129-142) 230 Revista Brasileira do Caribe. VIII. gradualmente. vol. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. a Irmandade já não conservava a antiga rigidez e. foi adquirindo novas características. Goiânia. Do Rosário no início do século XIX. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1816). Sra.(SCARANO. 1975. n° 15 . O fato é que. no século XIX.Cristina Cássia Pereira Moraes DevotosdaIrm andadedeN. “Das diferenças raciais passa-se pouco a pouco a uma acentuação maior das distâncias sociais independentes da cor da pele e ao aumento de pretos e pardos livres”. Sra.S. doRosáriodosPretos deVilaBoanoiniciodoséculoXIX 30 25 20 Pretos liv res 15 10 5 0 1800-04 1805-09 1810-14 Pardos liv res Brancos Gráfico 8 – Devotos de N.

VALE E SILVA. pp. Helio. Guerra e paz: Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. Lilia. Ricardo Ventura. Nelson 231 jul. bem como os seus Livros. 173-244. L O espetáculo das raças: cientistas. tanto do ponto de vista dos recursos econômicos. Os irmãos cativos que não conseguiam obter a liberdade. Rio de janeiro: Rocco. 5. Nem preto nem branco. In: MAIO. Aqueles a quem foi negada a cor do dia: as categorias cor e raça na cultura brasileira.) História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. muito pelo contrario: cor e raça na intimidade. Rio de Janeiro: Editora 34. v.as questões historicamente construídas entre mestiçagem e branqueamento: SCHWARCZ. 1993. por exemplo. pp. SILVA JR. 1998. a de São Benedito. estaduais e municipais). Racismo e anti-racismo no Brasil. 2007 . Marcos Chor. 1994. São Paulo: EDUSP. Ricardo Benzaquén de. Rio de janeiro: FIOCRUZ/CCBB. In: NOVAIS. instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. 225-234. mantinham suas capelas em grande ordem e limpeza. 1987. SANTOS.A questão da cor: SCHWARCZ. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo/ Editora 34. MAGGIE. passaram a pertencer às Irmandades que aceitavam os forros. São Paulo: Companhia das Letras.a questão da democracia racial: ARAUJO. apesar de desfavorecidos. competiam em igualdade de condições com pessoas mais bem aquinhoadas pela sorte./dez. Antonio Sergio Alfredo.a questão do mito fundador das três raças: DA MATTA. Kabengele. Relativizando: uma introdução à antropologia social. 1996. a de Nossa Senhora das Mercês e a de Santa Efigênia. quanto de um relativo otium cum dignitate Notas 1 Para entender as relações raciais historicamente construídas no Brasil consultar os descritores que analisam: 1.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Enfim. Por isso.) Raça. demonstrando um desejo de se igualarem aos forros. 1998. 1999. quanto aos ex-escravos alforriados pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário.4. ciência e sociedade. 1996. (Org. São Paulo: Companhia das Letras.a questão de anti-racismo: GUIMARAES. Fernando (Coord.a questão da invisibilidade do negro em espaços sócioculturais e políticos: MUNANGA. São Paulo: Editora Oliveira Mendes. 3. sempre foram elogiados pelos Visitadores eclesiásticos que reconheciam que. 6. 4. Antiracismo: coletâneas de leis brasileiras (federais. Yvonne. Roberto. (Org) Estratégias e políticas de combate à discriminação social. 2.

Rio de Janeiro: s.437 escravos e apenas 10% são nagôs. A África na sala de aula. 5º ed. Nancy. O segundo maior grupo era formado pelos quimbundos e o terceiro era formado pelos bancongos que ocupavam os territórios de Cabinda e as províncias do norte do país. 1977. In: Microfilmes do C. Goiânia. The Idea of race in science: Great Britain 1800-1960. Uma nota sobre raça social no Brasil. 5 Nas matrículas oficiais de escravos pesquisadas por nós. HERNANDES. 232 Revista Brasileira do Caribe.D. Arquivo Frei Simão Dorvi doravante AFSD: Doc. 2 Dos grupos acima citados. n° 15 . Arquivo do Museu das Bandeiras doravante AMB: Impostos e Dízimos. STEPAN. Em 1750 a Capitania possuía 14. Leila L. London: MacMillan University Press. Florentino (1997) observa que entre 1701 e 1800 foram exportados mais de dois milhões de cativos para as Américas. 6 A respeito do tráfico. Arquivo Histórico de Goiás doravante AHG: Documentos avulsos: códice 1129. da USP. bem como.1-13. 3 Instituto de Pesquisas Históricas do Brasil Central doravante lPEHBC: Livro do Registro de Óbitos. p. rolos 10. Os africanos no Brasil.. Livro 329. pp. 98-120. avulsos: Termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos 17381792. 1803-1810. Raimundo Nina. Visita à História Contemporânea. pp. Estudos Afro-asiáticos. registros de batismos e inventários encontramos entre os anos de 1750 e 1783 um aumento substancial no tráfico de escravos nagôs para Goiás. VIII. novas invasões de povos do interior do continente e o aumento do tráfico internacional de escravos para o Brasil. o maior era formado pelos ovimbundos. v. v. 4 RODRIGUES. Na maior parte dos registros há um acentuado número de escravos de Moçambique nas primeiras décadas do oitocentos para Goiás.Cristina Cássia Pereira Moraes do. nos termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. 1994. 2005. nº 26.11 e 12.e. São Paulo: Selo negro.5. Em 1783 registrou-se 17613 escravos e 40% são nagôs. Cuba e os Estados Unidos. 67-80. 1982. 2005. 588: grave seca que ocasionou além de fome. p. falavam a lingua umbundo e ocupavam principalmente a província de Benguela no planalto central de Angola. São Paulo: Companhia Editora Nacional. epidemias e grande número de mortos.567. devido a uma desestruturação interna na região tais como observa HERNANDES.H. vol.

foi de primordial importância para nossa pesquisa o capítulo “Central Africans Central Brasil. História dos quilombos no Brasil. 127). 242. aonde eram contados e registrados. op. NJ. Uma segunda rota para os comerciantes da Bahia passava pelos registros de São Domingos ou Lagôa Feia a Meia Ponte e. Mary C. Princeton University Press. Cit. 233 jul. na Cidade de Goiás e foram compilados por nós e pela Dra. 12 Os registros de batismos e óbitos se encontram no Orfanato São José. (Org) Liberdade por um fio. nota 13. 2002.123 e entre 1791 e 1799 foram de 1. 1808 -1850.. Princeton. Flávio dos Santos. Cambridge University Press. Outrossim. p. 2007 . Capítulos da Visita: “Por ser obrigação nossa e do Officio Ecclesiastico Ordinário mandamos ao Vigário Ouvidor da Vara q hé e ao diante for nesta Vila q chegando aqui algum Navio ou barco de qualquer parte q venha o vá visitar como se faz em todos os portos de mar do reyno e saiba a gente q traz e de q religião e Nação são e q livros trasem e sendo depois da quaresma se se hão desobrigar no lugar donde vem”. documento 1518. p. A rota percorrida pelos cativos de Salvador para Vila Boa passava Cachoeira. 11 O número de cativos advindos para a Capitania de Goiás por essa rota em 1767 foram 1. a Vila Boa ou a Natividade. 162. p. 9 Agradecemos à professora Mary Karasch que gentilmente nos propiciou todos os dados sobre os escravos na Capitania de Goiás. Gilka SALLES. 2002. 1992. eram conduzidos a São Félix e. p.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 7 Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do tombo doravante IANTT: Mesa de Consciência e Ordens: Secretaria do Mestrado da Ordem de Cristo: Papeis do Brasil: Jurisdição Eclesiástica no Brasil. p. São Paulo: Companhia das Letras. 53. p. Karasch. 10 (KARASCH. Karasch. Depois./dez. Cruzava o Rio São Francisco em Barreiras. Códice 15: Capítulo 16. Mappa de Contagens de Escravos. chegava a Vila Boa. e p. João José. Transformations in the American Diáspora. finalmente. In: REIS. Mary Karasch. “Os quilombos do ouro na Capitania de Goiás”. 1767. England. de seu livro intitulado Central Africans and Cultural. 8 Censos de 1779: “Tabela 1: População da Capitania Goiás em 1779. 24 junho 1768. 1996. prosseguia até o registro do Duro. e AHU: caixa 24. AFSD: Documentos avulsos: Cartório do Primeiro Ofício. posteriormente. GOMES. no interior de sertão da Bahia. 1987. 1792-1799.117151. 22 de Ju1ho 1793. 336. Slave Life in Rio de Janeiro. nº 13. 1780-1835”.208: Mary C. 100-101.

n° 15 . 15 Todos os dados referentes ao Livro de Óbitos de Meya Ponte foram transcritos pela estudante do curso de Historia da Universidade Federal de Goiás Maria Lemke Loiola. prohibindo debaixo de severissimas penas e censuras ecclesiásticas que se lhes fizessem injurias que se lhes dessem açoites.. mas até os mesmos que já se acham batizados e habitão nos Sertoens do mesmo Brasil. 1748. Batizados. 1794 -1834. despojallos de seus bens. folha 17v e 1775.169v.. nem attente daqui em diante fazer escravo os referidos indios.Cristina Cássia Pereira Moraes 13 Biblioteca Nacional de Lisboa doravante BNL: Reservados 1972 5v: Breve do Papa Benedito XIV sobre escravidão dos índios do Brasil. tudo o referido não obstante. se achão agora principalente nessas regiões do Brasil homens que fazendo profissão da Fé Católica vivem tão inteiramente esquecidos da Caridade insufa pelo Espirito Santo nos nossos coraçoens e sentidos que reduzem a cativeiro vendem como escravos e privão de todos os seus bens não só aos miseraveis indios que ainda não allumiou a luz do Evangelho.134 e 134v. e fazendas. trocallos. p. Orfanato São José. vendellos. 234 Revista Brasileira do Caribe. transportallos ou por qualquer modo privallos da sua liberdade e retellos em escravidão. PIBIC-UFG – 2001-2003..) se atreva.. VIII.(. ou dallos separallos de suas mulheres e filhos. (. 17 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. que os sujeitassem a escravidões e que lhes maquinasse ou fosse dada a morte. Parágrafo 6º. comprallos. 1764.) e depois das constituições em que ordenarão que se devião socorrer os infieis no melhor modo. p.) mandeis afixar Edictos publicos pelos quaes apertadamente se prohiba debaixo de Excomunhão late sentente (. que fossem metidos em cárcere. Goiás.1792: Termo de concentimento da Irmandade sobre a quartação do irmão Francisco... 16 Arquivo Histórico Ultramarino doravante AHU::Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás.) 14 Arquivo Geral Diocese de Goiás.. (. 1777: códice 1814: Capítulo 3.. Goiânia. levallos para outras terras. 20 de dez 1741. vol. livro 3.

a legislação definiu algumas normas que influenciavam na aquisição das alforrias.. que têm posses. 1988: 80). 2007 . 64. Exemplo: José Antonio da Silva abaixo assignado declara possuir entre os seus 235 jul. (BELLINI. irmãos. irmãs. mãe. muitas foram beneficiadas pela fidelidade da mãe aos proprietários. autorizando a liberdade dos “escravos de nação”. 18 O termo alforria é uma palavra oriunda do árabe ah-horria que significa liberdade do cativeiro. já adultos. 20 Somente no século XIX. (BELLINI.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII folha 32. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. Maria Augusta de S. isto é. madrinha. (LEITE. marido. se um dos membros do casal é livre. “ O Abolicionismo em Goiás. 113.” In: Anais do VI Simpósio Nacional da ANPUH.659-695. São Paulo: Marco Zero/ANPUH. para ele. libertando também o cônjuge legal de um casamento. 24 A historiadora MATTOSO. páginas 112b. 23 Livro de notas. já adultos. acorram em auxílio do parente incapaz de juntar o dinheiro necessário à sua libertação. 19 MORAES . A alforria era um ato jurídico pelo qual o senhor por sua vontade concedia liberdade ao escravo.113b: 22 O fato de um escravo ser criança deve ter favorecido a conquista de afeto e atenção especial dos senhores. mas cujo senhor parece disposto a alforriálo. ou ainda eram crianças ou obtiveram a liberdade. liberta a criança “achada” pois presumidamente é livre. liberta o escravo que encontra um diamante de grande valor e a mesma graça é concedida ao escravo que denuncia seu senhor contrabandista ou fraudador 21 AFSD: Documentos avulsos: Inventário do Capitão Francizco Pr ª Mendez . avós. pp. p. 2000: 15).observa que pai. 1973. eram crianças ou obtiveram a liberdade. Os escravos alforriados por terem sido criados pelos donos. O ex-cativo passava a ter capacidade jurídica e passava a exercer diversos direitos anteriormente inexistentes. Cartório do 1º ofício de Vila Boa de Goiás. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. 1988: 80)./dez. Além disso. os escravos que pertenciam a toda nação por haverem chegado ilegalmente após a abolição do trafico em 1850.

Rita de Cássia. faz referência a esse documento. tít. tít. n° 15 . parag. 56. “pseudocatólicos”. filha de sua escrava Delfina. Letícia V. classificou os colonos da seguinte maneira. parag. lhe concedo a liberdade pelo amor que lhe tenho. mais como encenação social do que com convicção interior. e por desejar manifestar o reconhecimento pela dedicação prestada e reconhece a escrava como legitima filha.Cristina Cássia Pereira Moraes bens uma escrava de nome Felicidade de 20 annos. freqüentavam os rituais impostos e controlados pela hierarquia eclesiástica mas que mantinham secretamente crenças heterodoxas ou sincréticas. KARASCH. do Rosário de Villa Boa. (Org. 81. 4. VIII.) Negras Imagens. (1995: 191). Ensaios sobre a Cultura e Escravidão no Brasil. 31 QUINTÃO Apud. 1803-1810. 2002. “católicos praticantes autênticos”. Por que o candomblé ?” In: SCHWARCZ. 1. 1748-1792. livro 4.195-210. 30 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de N. 102 e 102 v. fl. liv. 1996. Cf: SILVA. 18 de março de 1793. libertinos e ateus que apenas por conveniência e camuflagem. livro 4. para evitar a repressão inquisitorial. introdução do tít. tít. (1997: 175). vol. 3 e livro 4. introdução do tít. 81. 25 IPHBC: Livro do Registro de Óbitos. de S. parag. referindo-se ao “panorama” religioso do Brasil. 28 Ibidem. p. 85. 146. 102. fl. da e AMARAL. Lilia Moritz e REIS. 236 Revista Brasileira do Caribe. concedendo sua liberdade de hoje para sempre. 29. Vagner G. 29 Ibidem. 27 Ibidem. que cumpriam apenas os rituais e deveres religiosos obrigatórios. 32 Sobre o tema. 26 Ordenações. p. Maria Banguela. que evitavam os sacramentos e demais cerimônias sacras não por convicção ideológica. os católicos praticantes superficiais”.S. p. Goiânia. boa parte dos cristãos-novos. “católicos displicentes”. 4. que aceitavam convictamente os dogmas e ensinamentos impostos pela hierarquia eclesiástica. Luis MOTT. animistas. “Símbolos da herança africana. 92. mas por indiferença e descaso espiritual. muitas vezes incluindo em seu cotidiano “sincretismos” heterodoxos. São Paulo: EDUSP. livro 4.

Germão Galhardo. 1707 a 1721. 2001. São Paulo: Huicitec.30: Petição dos confrades e irmãos da antiga irmandade de confraria da madre de deos. 38 IANTT: Livro de São Domingos. In: Luso-Brazilian Review.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 33 Entendemos a circularidade como uma interpenetração de diferentes elementos culturais a partir dos estudos de Mikail Backitin. E. também em 1939 pela editora Casa do Livro e em 1987 pela editora Livros Horizonte. Esclavage et Confréries Noires au Portugal durant l’Ancien Régime (1441-1830). MS. 1968. s/d (Feito Creca de 1551 segundo cardeal Cerejeira. 39 OLIVEIRA. nº 2. BASTIDE. As Religiões Africanas no Brasil. MS. MULVEY. SCARANO. Patrícia A. p. In: Revista Afro-Asia. 35 IANTT: Livro de São Domingos. A paz nas senzalas. “Black brothers and sisters: Membership in the black lay brotherhoods of Colonial Brasil”. Christovão Ruiz Rodrigues de./dez. nº 4. MS. L. Paris: Ecole Des Hautes Etudes En Sciences Sociales. Cambridge: Cambridge U. Carlos. p. v. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. de Lisboa. 143. 1974. RUSSELL-WOOD. 36 Ibid. Brasília: EDUNB. 37 Frei AGOSTINHO DE SANTA MARIA. 17. Lisboa: Pedrozo Galvão. 237 jul. São Paulo: Pioneira. 1976. v. Carta dos Mordomos e irmãos da antigua confraria da madre de Deos. Didier. winter. A. Caio C. 54. In: Clenardo e a sociedade portuguesa do seu tempo. 1971. p. J. KARACH. “A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Pelourinho”. Manolo e GOES. Roger.. Sumario em que brevemente se contem algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa. Slave in Rio de Janeiro 1807-1850. “Black and mulatto brotherhoods in Colonial Brasil: A study in collective behavior. OTT. 34 Sobre essas análises ver: LAHON. 1987. Os leigos e o Poder. O contexto de François Rabelais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.30. Santuário Mariano. Mary.” In: Hispanic America Historical Review.147.145. 1997. São Paulo: Ática. BOSCHI. L. José Roberto. P. FLORENTINO. p. Julia. nº 6-7. Devoção e Escravidão. 160. (Tese de Doutoramento). São Paulo: Companhia Editora Nacional. R. O Sumário foi publicado também em 1755. 1980. 1987. 1986. 2007 .

serviu três vezes. Gregorio da Costa serviu por quatro vezes e não aparece sua profissão e somente em um termo de mesa há referência ao seu senhor. 42 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. era um compromisso moral e ético assumido por todos os que eram aceitos para participarem da irmandade. Termo sem titulo legível: página 16.Cristina Cássia Pereira Moraes 40 Orixá entre os iorubas e nos ritos religiosos afro-brasileiros significa a personificação ou deificação das forças da natureza ou ancestral divinizado que. o qual também era Alferes. escravo do Vicentinho.1792: como exemplo. VIII. João. 44 Ibid. de São José do Tocantins. como tesoureiro: Francisco. 1762:Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. 1762: Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. o qual serviu por quatro vezes. em vida. (a data de ereção é de 1734) 43 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. sem especificar o nome dele. 1748. obteve controle sobre essas forças. escravo do Capitão Dantas. 41 Documento lido pela irmandade em reunião fechada com os irmãos. vol. 45 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. é reconhecido como um guia. temos como escrivãos. que serviu por nove vezes de escrivão e tesoureiro. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. n° 15 . pois arrematava obras e possuía dois escravos e serviu por sete vezes. Era um pedreiro empreendedor. escravo de Anna Paes. AFSD: Documentos avulsos Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. que serviu por seis vezes. Coronel Joze Boiz. Luiz. Goiânia. por ocasião da entrada de algum membro. Leonardo. 238 Revista Brasileira do Caribe. Theodosio. escravo do Tenente. 46 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 1748: Capítulo 1: Composição da Irmandade. era o caixeiro da loja de fazendas secas. ou seja. 1796. seu Senhor Vicentinho. 1777: Parágrafo 2º. escravo do Alferes Jose Manoel.

Trairas e São José do Tocantins para sabermos o número de irmãos que participavam das associações de pretos. 1777: Capítulo 4º. 1777: Capítulo 4º. Capítulo 4º: Das mezadas e sua aplicação.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 47 Infelizmente. passaram a englobar sob o nome de Angola tudo o que antes se sujeitara ao poder africano vencido no Manicongo. AFSD. Documentos avulsos Termo de 239 jul. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 49 Ibid./dez. sob responsabilidade da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário aparecem nos livros de despesa e receita. à volta de 1674 a 1675. após duas guerras contra os reis do Congo em 1656 e 1666. Capítulo 2º: Da mesa e suas atribuições. 1762. 1796. 2007 . 50 Ibid. as mais antigas referências documentadas sobre as solenidades de coroação de Rei do Congo.: Parágrafo 4º e 5º. no Recife. não temos todos os dados dos termos de assento das irmandades dos arraiais de Pilar. parágrafo 5º. Capítulo 15. 1777. Crixás. procurador. Capítulo 4: Das obrigações dos officiaes escrivão. 55 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 53 No Brasil. 2000:88) 54 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. (TINHORÃO. Capítulo 3º: Da nova eleição dos officiaes. Capítulo 5. 48 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. thesoureiro. 51 AHU: códice 1814:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. AFSD. 52 Ibid. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. Documentos avulsos. 1796. referindo-se ao Rei dos Angolas: os portugueses.

1762. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. 62 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 61 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 1796. 1748-1792. 1748. 56 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 60 Ibidem. Capítulo 10. fl. Documentos avulsos. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. 240 Revista Brasileira do Caribe. 42. parágrafo 1.Cristina Cássia Pereira Moraes Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. 57 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. parágrafo 3º. 59 Ibidem. parágrafo 2º. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos de Pilar. Capítulo 2º. vol. ao serviço divino 64 AFSD. 1796. 1796. Villa Boa. AFSD: Documentos avulsos. VIII. 1777. 63 Guisamentos são utensílios e alfaias necessários ao culto. Goiânia. 1762. 1777: Capítulo 4º. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. Capítulo 10. Capítulo 4: funçoens dos officiaes.1762. 1748. Capítulo 14. fl. AFSD. Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. Capítulo 5: Das obrigações dos irmãos. 58 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos. Capítulo 5: atribuiçoens do escrivão. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 71v. n° 15 .

AGUIAR. (Tese de Doutorado) AMARAL. 2001. T. “Le Vandou est-il une réligion polythéiste u monothéiste?” In: Bulletin du Bureau d’Etnologie. Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa. Todas as irmandades de pretos foram instaladas nas Igrejas de um monastério. Port-au-Prince. de um eremitério. (Org) Festa. Idéias Religiosas em História das Idéias. Vol. BELLINI. Maria Fernanda D. Raul Joviano do. Brasília: EDUNB. Cf. BACKITIN. Maria Fernanda D. 361-396. 2007 . São Paulo: Huicitec. ENES. João J. 1993. Os pretos do Rosário de São Paulo. Cf. O Teatro dos Vícios. São Paulo: USP. Lisboa: Centro de História da Cultura. p. Paul E. 1961 e HURBON. Marcos Magalhães de Negras Minas Gerais: Uma História da Diáspora Africana no Brasil Colonial. István.95. O deus da Resistência Negra. 447-512. São Paulo: HUCITEC/FAPESP: Imprensa Oficial. 2001. p. L. 1987. Emanuel. “Por amor e por interesse a relação senhor-escravo em cartas de alforria. Mikail.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 65 Ibidem. Subsídios Históricos. Transgressão e transigência na sociedade urbana colonial. “Festas e rituais de inversão hierárquica nas irmandades negras de Minas colonial. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Íris. de uma paróquia. 1988. ou seja.I e II. Capítulo 20. C.” In: KANTOR. p. 1999./dez. p. São Paulo: Paulinas. 2002.” Actas del II 241 jul. nenhuma irmandade composta por homens pretos construiu um lugar de culto.. Aproximação à matriz civilizacional do ocidente cristão. Bibliografia AGUIAR. nº 5. ENES. 102-104. perto do coro e muito longe do altar principal. São Paulo: Edições Alarico. Brasília: EDUNB. 1987. Marcos Magalhães de. O contexto de François Rabelais. Laennec.” In: REIS. LAHON. p. JANCSÓ. op.75. sempre cercada por outras associações religiosas de branços e localizadas no espaço interior das igrejas geralmente no primeiro altar da esquerda ou direita da entrada. 66 Um dado interessante sobre as nossas congêneres portuguesas: Em Portugal. (Org) Escravidão e Liberdade: estudos sobre o negro no Brasil. abril. “O Culto da cruz e do sangue na afirmação da Humanidade de Cristo no Portugal de seiscentos e setecentos. nem mesmo uma capela pequena. São Paulo: Brasiliense. Cit.18. T. ARAUJO. 1953.

Pierre.. 1999. FLORENTINO. T.” In: Actas do Colóquio: O Cinquentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. T. I vol. T. T. Ponta Delgada. 2002. Ponta Delgada: Universidade dos Açores. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo. raça e democracia. Maria Fernanda D. “Clero Secular: do século XVI ao século XVIII. T. p. 1780-1835”. “A Diocese de Angra e Ilhas dos Açores. ENES.ª (11).” In: Actas Congresso Internacional de História: Missionação Portuguesa e Encontro de Culturas. José Roberto. 2000. Clara D. p. In: LE GOFF. Maria Fernanda D.” In : Revista Arquipélago. GAETA. “A Proclamação de 1789. KARASCH. LEITE. p. 1983. 2000. England. ENES. Dominique. T. Maria Aparecida Junqueira da Veiga. 1998. “A religião: História religiosa”. GUIMARAES. ENES. Braga : Universitas Catholica Lusitana. 61-95.69 (Dissertação de Mestrado) 242 Revista Brasileira do Caribe. Tecendo a Liberdade: Alforria em Goiás no século XIX. São Paulo: Francisco Alves Editora. ENES. 1994.” In: Dicionário de História Religiosa em Portugal.“A vida conventual nos Açores: Regalismo e Secularização (1759-1832)”. 2. ENES. História: Novas Abordagens. Transformations in the American Diáspora. Maria Fernanda D.” In: Revista Estudos de História. 1997. Goiânia. In: Central Africans and Cultural. A paz nas senzalas. Maria Fernanda D. Filipe I sobre o Clero das ilhas dos Açores de 1590. Maria Fernanda D. Jacques e NORA. VIII. I vol. 115-116. Franca 2 (1995): 11-36. Maria Fernanda D. ENES. ” In : Dicionário de História Religiosa em Portugal.. Múrcia: 2000. Reforma Tridentina e a religião Vivida. Central Africans Central Brasil. Manolo e GOES.Cristina Cássia Pereira Moraes Congresso Internacional de la Vera Cruz.. “A Reforma Pombalina nos Açores. T. T. 67-81. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. ENES. 1993. Mary. Maria Fernanda D. n° 15 . 1991. Lisboa: Círculo de Leitores. Momento Fundacional dos Direitos do Homem e do Cidadão. 2002. Pombal. JULIA. Antonio Sergio Alfredo. 2000. ENES. Lusitana Sacra. Ponta Delgada: Signo. p.” In: Actas do Colóquio: Pombal e a sua Época. “Redes de Sociabilidade e de Solidariedade no Brasil Colonial: As Irmandades e confrarias religiosas. 1999. Classes. “ Uma Carta de D. Lisboa: Círculo de Leitores. “As polémicas missões dos anos sessenta de oitocentos em São Miguel. Cambridge University Press. Maria Fernanda D. Goiânia: UFG. vol.

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244

A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (17601776)
Maria Lemke Loiola Abstract
The orbital books in churches are sources little explored in the study of slavery. However, these sources contain relevant informations about the life of slaves: origin, cause of death, place of burial, links to religious groups and interpersonal relations. The analysis of these sources can help to understand some of the gaps that historiography of Colonial Goias regarding slavery. The access to eclesiastical sources, orbital books and ecclesiastical visits allow my study to address some issues about the slaves in Meya Ponte (under the name of Pirenolopolis today , Goias , Brazil) between 1760 and 1776. Keywords: Slavery, Social relations, XVIII Century, Dead

Resumo
Os livros de registro de óbitos são fontes pouco pesquisadas para os estudos da escravidão. Entretanto, eles trazem informações importantes sobre as vivências escravas: seu grupo de procedência (SOARES, 2002), causa mortis, lugar de enterramento, associação, ou não, às irmandades, bem como suas relações interpessoais. A análise dessas informações pode contribuir para minimizar as lacunas na historiografia de Goiás colonial referente à escravidão. Dialogando com fontes eclesiásticas, registros de óbitos e visitações eclesiásticas, o presente estudo aborda algumas questões acerca das vivências escravas em Meya Ponte (atual Pirenópolis) entre 1760 e 1776. Palavras-Chave: Escravidão, Relações Sociais, Século XVIII, Morte.

*Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 245-265, 2007

Maria Lemke Loiola

Resumen
Los libros de óbitos de las iglesias son fuentes poco investigadas en los estúdios de la esclavitud. Sin embargo, ellos traen informaciones relevantes sobre la vida de los esclavos: procedencia, causa de muerte, lugar de enterramiento, si estaban o no asociados a hermandades así como sobre relaciones interpersonales. El análisis de esas informaciones puede minimizar las lagunas en la historiografía de Goiás colonial referentes a la esclavitud. El diálogo con fuentes eclesiástticas, libros de óbitos y visitas eclesiásticas, utilizadas en el presente estudio, permite abordar algunas cuestiones sobre la vida de los esclavos en Meya Ponte, actual Pirinópolis, Goiás Brasil, entre 1760 y 1776. Palabras clave: Esclavitud, relaciones sociales, Siglo XVIII, Muerte

Há algum tempo assistimos o revigorar dos estudos sobre a escravidão colonial em suas múltiplas faces, em perspectivas regionais e menos totalizantes como sugeriu Britto (2002). Contudo, nos deparamos com alguns aspectos que podem dificultar nossa “aproximação” a um passado mais dinâmico, mais rico em sua cotidianidade. É o caso das fontes que, para análise de Goiás colonial, estão espalhadas em vários arquivos, além de muitas terem desaparecido nas brumas do tempo pela ação dos homens e dos “papirófagos” vorazes. Entretanto, nem tudo está perdido. A documentação eclesiástica tem sido bastante profícua aos historiadores interessados na vida dos atores sociais de um período mais recuado no tempo. Várias pesquisas têm renovado os olhares sobre a escravidão e nessa temática tem se destacado a religiosidade escrava. Termos de compromissos de irmandades têm trazido contribuições importantes sobre a organização dessas redes de solidariedade.1 Mas, se por um lado os compromissos podem nos ajudar a apreender os fundamentos e preceitos das irmandades, a ênfase na morte e a ajuda mútua ou empréstimo a juros; por outro, não nos dizem muito sobre a quantidade de homens e mulheres que nelas congregavam. Para a região de Meya Ponte2 até o presente não
246 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

A morte branca do escravo negro...

nos deparamos com registros que atestem o número de seus confrades. A preparação para a morte foi algo bastante enfatizado nos compromissos. Boa parte dos trinta e seis capítulos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte dispõe sobre o assunto. Por isso, neste ensaio, proponho os livros de assento de obituários como fonte a ser utilizada para verificar a abrangência e inserção das irmandades de pretos no contexto da escravidão. Assim, pode-se supor que houvesse muitos homens e mulheres preocupados com o bem morrer, buscando essas associações. Entretanto, o livro de assentos de óbitos de 1760 a 1776 nos mostra que do total de quase oitocentos óbitos, apenas 39 foram acompanhados ou enterrados por essas confrarias.3 É certo que os párocos freqüentemente omitiram informações e é possível que o número de acompanhamentos por irmandades aumente, mas seria um aumento pouco expressivo, da ordem de 2% do total.4 Quando compararmos estes assentos com o período de 1803 a 1810, percebemos que seu número dobra. De 1760 e 1776 temos uma proporção bastante próxima entre enterros feitos pela Irmandade do Rosário dos Pretos (17), destes, a metade era de escravos, e irmandades de brancos, como Almas e Santíssimo Sacramento (22); no período de 1803-1810, tivemos um total de cinqüenta e oito acompanhamentos/enterros feitos por irmandades. Nestes sete anos, o número de forros enterrados na capela do Rosário é significativamente superior ao de escravos, somente 10% do total de trinta e quatro enterros feitos na capela do Rosário foi de escravos.
Desse modo, não se pode dizer que para os escravos de Meya Ponte e adjacências fazer parte de uma irmandade fosse questão de vida ou morte. Mas, isto poderia evitar que abusos cometidos por “[...] alguas pessoas esquecidas de toda a humanidade christãa, [que] não escrupulizão em mandar enterrar no campo, e mato, os escravos, q’ lhes morrem, como se fossem animaes brutos, contra o antigo, pio, e Louvavel costume da Igreja

247 jul./dez. 2007

Maria Lemke Loiola

Catholica [...].”.5

Talvez, por isso, as irmandades enfatizassem tanto nos preparativos para a morte. Mas, enquanto uns enterravam escravos no mato, seja por incúria, seja pela situação de pobreza, havia ainda os que recorriam a mentiras para conseguir enterrar um escravo. Henríquez Ferreira Pinto manifestou ao padre Jozé Pires que gostaria de ter seu escravo João Angola enterrado na capela dos pretos por ser este irmão da mesma “[...] o que constou-me depois de ser ter dado a sepultura tal não ser, de que para constar fiz este assento.”6 Teria enganado o padre apenas por ser pobre ou por, mesmo na situação precária, manter relações de afeto com seu escravo? Se existiram brancos pobres, sem recursos que usavam de insólitas estratégias para enterrar seus escravos, também temos notícias de pretos “mina” que superaram a condição escrava e chegaram a fazer testamento e ser enterrado com toda a pompa fúnebre. Tal é o caso de Gaspar,
[...] homem preto forro de nação minna,[...], e Fez seu Testamento, em que declarou que o acompanhasse o seu Reverendo Parocho, e lhe disse no dia do seu falescimento, se podesse ser, missa de corpo prezente, e deixou mais ao alvidrio de seu testamenteiro, lhe mandasse dizer aonde lhe parecer, vinte missas, pela sua alma; e era cazado com Domingas Machado, crioula forra [...]7

Gaspar certamente teve vínculos com a irmandade do Rosário dos pretos. A proximidade de sua cova do altar-mor sinaliza um cargo importante na Mesa administrativa, o que lhe conferia certas prerrogativas. O preço pago para ser enterrado em lugar tão importante na capela do Rosário dos Pretos de Meya Ponte era alto. Gaspar deveria desembolsar vinte oitavas de ouro, caso não tivesse sido irmão “comum”, ou seja, nunca ter tido cargo administrativo.

248 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

Embora não saibamos o que levou boa parte dos homens e mulheres da região de Meya Ponte ao óbito. no máximo.. dois a cinco dias.A morte branca do escravo negro. O fato de ter morrido com todos os sacramentos reforça a hipótese. se tivesse sido “juiz de mesa”. escravoz. Chamava-se Nicolao do Rozário e foi enterrado dentro da capela. Provavelmente Gaspar viveu no núcleo urbano de Meya Ponte.. Na primeira visitação eclesiástica (1734). pois muitos deixavam de receber sacramentos pela demora dos padres em percorrer a distância até o moribundo. 2007 . que aceitava “todos os fieis aque sua noção incita (. mas pela aparente condição alcançada por Gaspar é quase certo que também possuísse seus próprios escravos. Houve senhores que perderam dois ou três escravos num pequeno período de tempo.... a oito missas. mas também às posses. o visitador Alexandre Marques do Valle determinava que no segundo dia após haver notícia de doença ou se a enfermidade se mostrasse grave. teria direito.r qualide [. raios e “acidentes de trabalho” são sempre descritos...] assim serão admitidos aella Brancoz. recebera o sobrenome do dono. supomos que eventualmente ocorriam epidemias. e Forroz (. Mas as moléstias que ceifavam muitas vidas em poucos dias continuam na obscuridade pretérita. Como ocorria com a maioria dos escravos. Mesmo a Irmandade do Rosário dos Pretos. Como irmão comum teria direito a cinco missas. picada de animais peçonhentos. De igual modo não podemos chamar estes homens e mulheres libertos de coniventes com a escravidão por conservarem cativos seus semelhantes. Não seria o único a tê-los. Seu testamenteiro teria que providenciar vinte./dez.. o que lhe deu mais mobilidade e liberdade para conseguir juntar pecúlio e transcender a condição escrava. É mais provável que o reconhecimento na sociedade estava relacionado não somente à cor. Casos de mortes violentas por armas de fogo. Não podemos afirmar seguramente.)”8 tinha seu próprio escravo. os párocos deveriam imediatamente administrar os sacramentos: “Porquanto pellas grandes enfermidades q’ cotidiannamente estão dando nos 249 jul.) se exceptua Pessoa algua’ dequalq. A maioria desses escravos morreu sem sacramentos. Pretoz.

.] nação Mina escravo de Manoel Moreira de Carvalho.] o qual morreu sem sacramentos. no mato ou jogar os corpos dos escravos no rio. deve acodir com promptidão. e foi sepultado em hum lugar distado na tal paragem. n° 15 . ou Capellão de capella filial.. ou em qualquer outro lugar onde serviam de comida aos cães9. e caminhando toda noite para chegar ao citio aonde se achava o infermo. como porque se por sua culpa morrer o infermo sem confissão..Maria Lemke Loiola escravos. o visitador João de Almeyda Cardozo volta a ameaçar: “Qualquer Sacerdote. ou impedido o parocho.. que for chamado para confessar algum infermo. escravo adulto do referido Basto.]”. quando cheguei o achei já morto. Segundo o padre. Jozé. VIII. A situação dos escravos não parece ter mudado ao longo do tempo... se por um lado 250 Revista Brasileira do Caribe.13 Mas. destinado na tal paragem. será castigado. vol.]11 Justificações como estas são ainda presentes em vários registros: “por morrer de repente”. Decorridos quase cinqüenta anos das palavras do reverendo Valle.. por que sendo chamado pelas seis horas da tarde.. que fica distante desta freguezia seis legoaz. e ainda naquelles q’ o não São [. O visitador recriminava ainda as práticas comuns de enterrar no campo...]”. Goiânia. [. na forma das Comstituiçoens tit. o vigário Joze Pires dos Santos Souza explicou no assento de Viscencia que “faleceu sem sacramentos por incúria de seu senhor. como se de justiça fosse a isso obrigado. estando distante.. Para se eximir de multas e reprimendas. “morreu sem sacramento algum. 48 no 204”. digo. [.. poiz do assento não consta [ilegível] o senhor tinha dado só para lhe não pedir o Estipendio dos sufragios por ser acostumado a isto [. segundo informação do padre que andou dezobrigando aquelle destricto [. “pela grande distância”.]”12 O dito vigário foi mais longe e não hesitou denunciar Luis Antonio Basto. não só por preceito de charidade.10 Talvez pela possibilidade de pagar multas por omissão encontramos frequentemente assentos como o de Gregório [.

O mesmo tipo de morte.. as irmandades manifestavam o desejo de manter os párocos como seus subordinados para celebrar festejos e missas. em hum corrego lhe cahio na cabeça hum pao.../dez.] e faltando a sua obrigação Sem cauza Se lhe dezcontara hua 8a por cada vez. Os senhores deixavam livres apenas os domingos 251 jul. em época de epidemias. por outro..17 Apesar de não sabermos se Antonio... os padres chegavam a enriquecer tal era o abuso com que cobravam os emolumentos.. esses escravos morreram quando trabalhavam por conta própria..”19 Se os óbitos ocorreram no domingo.] acompanhara os Irmãos deffuntos com Sobrepelliz asistira as feztas e solenid. decorrente de acidente de trabalho.] quando lhe cahio em cima uma pouca de terra..es da Irmand. leva ao alto preço cobrado pelos párocos por serviços funerários.A morte branca do escravo negro..r Religião [.]”18 Jozé mina “estava andando a minerar em huma mina. conforme lembra Hoornaert (1992.”15 Mas nem só de emolumentos e benesses cobradas exageradamente viviam os padres das minas de Meya Ponte. 2007 .e tudo pago pella porção em q’ Se ajustar com a Meza [.. podemos imaginar que os padres estiveram entre os que não estavam muito preocupados com as condições de trabalho dos seus escravos. Em 1762. p. que o cobriu [.] qualquer Religioso de qualq. que para logo o matou. Essa subordinação também pode ser vista no capítulo do compromisso da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte que compreendia as obrigações do eclesiástico “[. Vários deles possuíam escravos empregados na extração aurífera e.] Jeronymo nação minna escravo (. por assim dizer. esta informação remete às recorrentes recriminações feitas aos senhores negligentes. também perdiam seus investimentos. [. por vezes.) que andando a minerar.... levou até mesmo os oficiais da Câmara de Vila Boa a denunciarem que. 282)... Miguel e Thomé eram escravos africanos. não foi muito incomum “[.. A taxa tanatológica. buscando o próprio sustento ou mesmo tentando encontrar a pepita que lhes daria a liberdade.].. de uma só vez o reverendo José Pinto Braga16 perdeu três escravos enquanto mineravam numa cata. e não houve Lugar para Se lhe acodir com os Sacramentos [.14 Talvez por isso.

“Donde provem q’ os mizeraveis escravos não ouvem missa. Quiçá. podermos chamá-los de relapsos e pouco cuidadosos. como sugere o trecho acima. apesar de. p.. esta afirmação já carregue a resposta para o motivo de haver tão poucos escravos presentes nas irmandades. o capítulo 7º da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte determinava que. restaria pouco tempo para atividades relacionadas à religião. No compromisso confirmado em 1782.Maria Lemke Loiola e dias santos. n° 15 . de modo que penetravam desimpedidas não só as águas do solo como as águas pluviais. sem querer. Acidentes de trabalho aconteceram e acontecem em todas as épocas e lugares. quem eram esses homens que extraíam o ouro? De onde foram trazidos? Tal pergunta pode. por respeito aos irmãos cativos. o que forçosamente. aberto por cima. ainda assim nos informam sobre a diversidade das nações d’África que constituíam a escravaria da região de Meya Ponte e adjacências 252 Revista Brasileira do Caribe. ser respondida com as informações deixadas pelos párocos que registravam os batismos. no rastro dos visitadores eclesiásticos.. Goiânia. nem guardão o preceito da ley de Deos. acabaria por alagar a mina” (1976. Naturalistas como Pohl. casamentos e óbitos. vol. Acrescentar-se-ia que não haveria somente alagamentos. em parte. Mas os soterramentos nos sugerem que o sistema de prospecção empregado não fosse o mais indicado para o tipo de solo local. VIII.]”20. enfatizavam que a falta de princípios mineralógicos e interesse dos mineiros em melhorar as técnicas de extração levava ao abandono prematuro das lavras. Mas. que prohibe trabalharse naquelles dias [. Por isso. Talvez. redes de conchavos e conspirações. Pohl tenha nos dado um indício de como trabalhavam e morreram os escravos do padre Jozé Pinto Braga. São eles ainda que nos relatam algumas formas de extração do ouro: “o poço era inteiramente desprotegido. O tempo livre para pensar nas coisas de Deus também poderia ser usado para criar laços de solidariedade e. 176). mas também desmoronamentos. mais perigosamente ainda.21 Se o tempo “livre” deveria ser empregado para o sustento próprio. as reuniões de mesa ocorressem aos domingos.

ainda é aceita atualmente. não temos nenhum registro. os “caboverde”.. Quem sabe os registros de seus filhos possam.. p.A morte branca do escravo negro. 2007 . Os “angola” predominavam na região de economia agropastoril. mais provavelmente..22 Para Soares os estudiosos sobre o Brasil colônia se preocupam mais com a expansão dos povos europeus do que com a diversidade racial e cultural africana (2000. Da mulher de Francisco Gonçalves sabemos apenas que era mina. Muito mais não sabemos deste casal. Nina Rodrigues e Silvio Romero. apesar de serem os precursores desses estudos. Será que este padrão também pode ser empregado em Goiás? A questão sobre as identidades étnicas africanas é bem recente na historiografia brasileira. os “cobu. será difícil aproximarmo-nos de suas histórias./dez. Por ter morrido sem testamento. Designação genérica que encobre não somente o lugar de onde veio. seguidos de “angolas”. os escravos “mina” eram maioria. a complexidade da pergunta. entre os africanos encontramos os “mina” em maior número. foram também os responsáveis por disseminar a idéia do que se poderia chamar de “homogeneidade da e na diversidade” que. no século XVIII. ainda pouco investigada. dificultam sobremaneira a compreensão de aspectos da “estratificação social e suas representações nos primeiros séculos de nossa história” (1999. por incrível que pareça. p. de gentio da Guiné”. mas 253 jul. algum dia. Na esteira desta afirmação podemos refletir como seria o cotidiano de uma família construída pelos laços entre dois continentes distintos? Uma pista para esta resposta ou. Paiva (2002) constatou que nas regiões de Minas Gerais onde prevalecia a mineração. está no casamento entre o castelhano Francisco Gonçalves e uma preta mina anônima. 23 Sabemos que “perpetuaram sua espécie”. os “benguela”. nos contar algo mais. No período analisado (1760-1776). 22). 26). É de se considerar que o número maior de trabalhadores “mina” esteja relacionado aos conhecimentos técnicos de mineração que possuíam. no trato com a questão racial e a miscigenação. mais próxima ao litoral. Ronaldo Vainfas também alerta para os “equívocos e tabus da historiografia brasileira”..

nos mostram os óbitos que sempre havia exceção. Salles nos lembra que: “Conhecidos apenas pela desdenhosa designação de negros. inclusive a alma e o nome na infeliz travessia [. A afirmação parece demasiado generalizante. Neste trecho a historiadora goiana nos alerta sobre a importância de se desvendar as especificidades étnicas dos vários grupos que constituíam a população negra da capitania de Goiás. Mais recentemente. 230). se considerarmos que provavelmente Goiás recebeu vários grupos em diferentes épocas com objetivos específicos.. isso dificulta a identificação dos grupos africanos. A bem dizer. e crenças religiosas” (1992. “[o escravo] já chegava da África desestruturado de sua tribo. Martiniano José Silva. Martiniano deixa entrever claramente sua postura em relação à escravidão e sua vinculação a uma historiografia tradicional que privilegia mais a violência da escravidão per se do que propriamente os saberes escravos e as múltiplas formas de sobrevivência empregadas no cotidiano. p. p. n° 15 . Goiânia. o que era interpretado pelos senhores como mostra de sua “resignação à condição servil” (2005). daí a discrepância entre os censos e números dispostos ao longo do período colonial.. suas características psico-somáticas se destacam. Em sua análise sobre a escravidão no Brasil Central. pautando-se em estudiosos como Arthur Ramos. assim.]” (SILVA. Para Moraes. a religião. VIII.Maria Lemke Loiola principalmente sua carga cultural e religiosa. Lembra que os escravos já chegavam aos Guayazes convertidos ao catolicismo. Alguns receberem o sacramento do batismo na hora da morte por 254 Revista Brasileira do Caribe. dando tonalidade própria ao comportamento. Por sua vez. Moraes alerta que a grande maioria dos escravos africanos não foi registrada ao entrar na capitania de Goiás dada sua grande extensão. 77). Entretanto. o autor recrimina o suposto “racismo ideológico” existente na academia responsável pela falta de estudos sobre a procedência escrava. Salientando sempre a violência que. 2002. em grupo. os costumes. se espraiou nas relações sociais. vol. a língua. a seu ver. perdendo. as artes. modo de vida. no entanto. assevera a predominância dos bantus no Brasil central. destribalizado.

a recriação de suas identidades a partir dos novos laços tecidos no cativeiro. mais importante.”27 Designá-los apenas por seu lugar de origem/porto de embarque esconde a diversidade cultural que os caracterizou. mas clarear as especificidades e identidades étnicas e como foram reconstituídas no longo processo de reinvenção dos saberes e. também mina. Água Limpa ficava no termo da freguesia de Meya Ponte e Antonio Dias Ribeiro pode ter se beneficiado disso para manter Joze irregularmente. não recebiam sacramentos por “rude.. Nesse processo de recriação de identidades a língua era de fato um elemento fundamental. seja pela “rudeza.”28 solicitando aos párocos fornecer instrumentos para catequização dos escravos. o reverendo José de Frias e Vasconcellos durante uma visita eclesiástica. não significava que os mina desconhecessem a língua dos angola e vice versa. Gestos e olhares certamente diziam tanto quanto palavras. porém não se furtou de incluir entre eles alguns 255 jul. 2007 . Frota possuía escravos mina e angola. senão responder. tanto em sua terra natal quanto na recriação sociocultural na terra brasilis. mas certamente não foi o único. morreu “sem o sacramento da eucaristia pois era ainda boçal. e ignorante do que havia de receber”26 ou “alienado do entendimento. “ser ainda boçal e novato nesta freguezia Joze mina”24 É possível que Jozé tenha permanecido ignorante dos preceitos cristãos devido à distância que o separava de alguma igreja. ou pela diversidade de línguas. por outro. Pedro.A morte branca do escravo negro.. se queixou do pouco entendimento que os escravos tinham dos ensinamentos cristãos que recebiam. não devemos esquecer que essa diversidade nem sempre significava incomunicabilidade. Acreditamos que uma pesquisa pautada em diferentes tipologias documentais possa. também mina. Mas. Em 1742./dez. A diversidade das falas africanas pode ter sido empregada como estratégia para evitar conchavos e conluios entre os cativos. Da mesma forma. como Domingos. Provavelmente o sargento mor Antonio Rodrigues Frota usou o estratagema de misturar várias etnias.”25 Outros ainda. se pensarmos que realmente houve uma diversidade de línguas.

p. 311). É certo que com informações fragmentárias como as que temos. recebendo sacramentos na medida do possível. vol. Do total de vinte e nove escravos. É do mesmo autor a informação de que Gregório Bailão foi um eminente escravocrata de Meya Ponte. cobus e crioulos. Essa hipótese poderá. Um deles foi Jeronymo mina. Goiânia. mas houve épocas em que o sargento Frota perdeu até três escravos por mês. natural do Arcebispado de Braga. crianças. O lusitano. os de Gregório Baylão foram enterrados no adro da igreja e também não tiveram vínculo com irmandades. ou seja. ou não. Contudo. é significativo que estes dados estejam em 256 Revista Brasileira do Caribe. Foi acompanhado por todas as irmandades do arraial de Meia Ponte. encontramos minas. contando também os que faleceram após a morte do sargento. Esse pequeno número de óbitos infantis em relação ao de adultos sugere que os Frota talvez não tivessem o hábito de manter famílias escravas. Não houve mudança no padrão de enterramento dos escravos: continuaram a ser enterrados no mesmo lugar: na capela de Nossa Senhora do Carmo. Mas a “mistura de minas. do qual já falamos. angolas. Não sabemos como eram as relações com seus escravos. temos apenas três escravos “inocentes”. faleceu com seu solene testamento. Entre seus escravos. seja precipitado identificar a prevalência de africanos “Mina”. Outro oficial que também tinha escravos de procedência diversa foi Gregório da Silva Bailão. O sargento. Após sua morte. ser corroborada cruzando estas informações com os assentos de matrimônio ou batismo. natural da freguesia de São Miguel de Alfama. mas nunca acompanhados por irmandade. angolas. De modo semelhante ao ocorrido com os escravos do sargento Frota. conforme informa Pinheiro (2002.Maria Lemke Loiola índios cayapó como “administrados”. crioulos e caiapós” reforça a idéia de que a diversidade de grupos foi uma estratégia utilizada para tentar evitar o surgimento de afetos e laços de solidariedade. n° 15 . sua mulher. foi alferes da Companhia e Guarda-mor das Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. dona Antonia Ignacia Maria de Jesus passou a administrar os bens do falecido. VIII.

consonância com o período no qual a atividade aurífera foi a mais representativa para a economia. para a valorização da pecuária e agricultura.. Os dados ora apresentados são ainda parciais e necessitam de estudos mais aprofundados. O aumento do número de pardos e crioulos no início do século XIX nos dá uma pista de que a mestiçagem aumentou com o decorrer do tempo. são qualificados como nações. os africanos. 2007 . é possível que os “angola” daqui também tenham sido empregados em atividades agropastoris. à medida que o aumento do tráfico reconfigura as rotas e portos de embarque há uma resemantização e re-significação da África (SOARES. veremos que neste último. Contudo. e a transplantarmos para Meya Ponte. na documentação pesquisada.. 91). Desta forma. a julgar pelos dados apresentados. Ao compararmos as informações deste período com o posterior (1803-1810). 75).A morte branca do escravo negro. o direcionamento de uma economia anteriormente voltada à extração aurífera. pode ter contribuído para mudar a configuração étnica da população da região de Meya Ponte. ao passo que “nação” é consoante às mudanças nas relações que os portugueses estabeleceram com os africanos. Soares tem como fonte principal os assentos de batizados que. 2000. p. 1998. o número de escravos “angola” supera aquele dos “mina”. correspondentes a diferentes sistemas de classificação” (SOARES. O primeiro caracteriza os povos a serem convertidos. se aceitarmos a constatação de Paiva. batismos e casamentos como podemos perceber nos documentos coloniais da capitania 257 jul. p. De modo geral. E isso tanto para os casos de grupos africanos quanto dos nascidos na sociedade colonial. Ou seja. Talvez a distância de Goiás dos centros de poder favorecesse os hábitos relapsos dos párocos no momento de registrar óbitos. Poder-se-ia dizer que a ponte estabelecida por Soares entre a África e o Rio de Janeiro enriquece significativamente a interpretação sobre as identidades étnicas africanas estabelecidas no interior da sociedade colonial. são sempre mais completos que os de Goiás./dez. Os termos gentio e nação se referem a “universos semânticos distintos.

na hora da morte.]”. Pedro Angolla foi um dos que teve a vida abreviada “[. eles quase sempre são descritos como “gentios brabos.32 Não só os autóctones causavam mortes. como “Thereza.] com 258 Revista Brasileira do Caribe.]”30.. mesmo os libertos. Goiânia. A assertiva de Soares de que a nação/procedência acompanhava o escravo/liberto até o fim da vida. Mesmo depois de livres. Martinho de Mello e Castro. preta forra de nação mina29 Acrescentese que. De modo mais emblemático. como lembra Salles (1992) . n° 15 . No início do XIX.] por ser morto pellos calhambollas com hum tiro que logo o matou [. Jozé foi lembrado como escravo do defunto Francisco João Ribeiro!31 Mas a qualificação grupal não marcou somente os africanos. são sempre referenciados como “gentios da terra”. os livros de assentos de óbitos apresentam informações cada vez mais completas à medida que recuamos no tempo. selvagens e desumanos”. Os autóctones aparecem nos assentos eclesiásticos com maior freqüência no século XVIII do que em período posterior. “nação xicriabá” e. receberam denominações que variaram ao longo do tempo.Maria Lemke Loiola dos Guayazes. VIII. eles conservavam agregado ao nome o grupo ao qual pertenciam: Maria Dias. nação mina... Nesta última. em alguns casos. vol.. não mais como “nação”. quartada escrava do Sargento Mor Carlos de Assupçam Ferraz [. comumente tratados com o eufemismo de “administrado”. 33 Segundo o capitão geral Jozé de Almeida e Vasconcelos.. gentio da terra.. Os escravos autóctones. “[. Talvez essa mudança esteja relacionada com os conflitos entre os “naturais da terra” e os portugueses.. Apesar disso. prejuízos e distúrbios. No século XVIII eram conhecidos como “nação cayapó”. e tenha sido mais lenta na escrita da documentação eclesiástica em relação à administrativa. dado o grande número de ataques que promoviam a arraiais deixando a população aflita pelos grandes prejuízos e mortes que causavam. nas notícias que deu nos idos de 1774 ao secretário da Marinha e Ultramar.. eram conhecidos pelo nome de seu antigo senhor. só muito raramente. também pode ser empregada para aqueles que viviam em Meya Ponte.

. apoiado em relatos de viajantes. de tiros por vingança. também existiram mulheres: mães livres.A morte branca do escravo negro. exceção de alguns vadios. outros.] de nação Mina escravo do Furriel João de Campos Cardozo o qual morreo de repente sem sacramentos porque o mesmo seu senhor me disse. p. forras que possuíam seus próprios escravos.. ou lhe sobreviera de ter no dia antecedente comido húa pouca de mandioca mortífera como ao depois da sua morte soube.. porem da maior parte dos insultos. em satisfazer com hum tiro á paixão alheia. são agressores os negros fugidos e calhambolas... como os escravos. encontramos um indício de que a mandioca mortífera comida por Jozé não foi um acidente: a diferença entre a mandioca mortífera e o aipim é reconhecida imediatamente “por qualquer selvagem” (POHL. solteiras que viviam sozinhas. que a sua morte fora originada. Paiva (2002). como parece ter sido a morte de José: [.]. indicando que nem tudo estava na maior tranqüilidade. Muitos perderam a vida dentro dos poços. não previo com a cautella ao menos sequer para ser confessado por amanhecer morto na cama. 2007 .. tiveram a vida ceifada por morte súbita e repentina. Para além de mortes consideradas apressadas. que registra os óbitos de 1760 a 1776. não trocassem informações e know-how acerca do poder das plantas do cerrado. mães escravas. que mantinham relação estreita com a natureza.35 Nas palavras preconceituosas do naturalista Pohl... quiçá premeditada. mulheres de oficiais. 1976. estão promptos pello mais pequenno premio. de descaso de senhores negligentes.”34 Neste livro de assentos. 110). Mas nesse universo. e que sem saber a cauza da sua morte. o que tudo pode afirmar o mesmo seu senhor [./dez. nos lembra que em Minas Gerais os escravos africanos utilizavam ervas para separar ouro e diamantes do cascalho nas bateias. 259 jul. às vezes ela poderia ser preparada. Foi esse ouro lavado nas bateias e extraído de poços que garantia a riqueza dos homens vindos de longínquas paragens. encontramos vários registros de mortes violentas. que sem a menor duvida. É difícil imaginar que duas culturas. a autóctone e a africana.

de incertezas e de possíveis dissabores. Mas. morreu na idade que “parecia se de perto de cetenta annos”. Do registro da paulista sabemos que teve relações com pessoas influentes. possibilitaram a esta “pobre mulher” um enterro dentro da capela. Bem ou mal e na medida do possível. possivelmente se estreitaram com a liberdade. Se houve manifestações de pesar e rituais africanos. os africanos sempre foram enterrados de acordo com os preceitos católicos. Embora não saibamos o que a uniu ao vigário de Santa Cruz. parda. depois dessas breves notícias sobre os mortos e os vivos de Meya Ponte. n° 15 . à sua maneira. Maria parece ter vivido a aventura insólita da peregrinação para as bandas do sertão. onde recebeu todos os sacramentos. Outras não tiveram a mesma sorte. que o mundo das bateias e das lavras. e não somente a esmola por amor a Deus. em algum momento do passado que não nos foi dado saber. não era prerrogativa masculina. depois de liberta.Maria Lemke Loiola Maria Cordeiro de Jezus teve uma história diferente se comparada à maioria das mulheres.. como enfatizou o coadjutor Carlos Francisco Torre quando o registrou. Goiânia.37 Uma história das mulheres do sertão dos Guayazes no período setecentista poderia nos mostrar que nem sempre foram submissas. Provavelmente. Cada uma. Francisco Alves Mota. vol. Maria morreu na casa do referido vigário. duas missas de corpo presente e mais quatro pela sua alma que o dito Francisco “se obrigou” a pagar. elas foram muito bem 260 Revista Brasileira do Caribe.. Aparentemente teve uma vida longa. A viandante Maria veio das partes de São Paulo. as relações entre os dois não cessaram depois da libertação. reescrevia sua história. o leitor questione o título desta apresentação. Provavelmente os vínculos que a ligavam ao padre. imagina-se que foi um laço mais estreito. Mostranos seu assento. VIII. 36 Felipa. Maria. moradora no sertão. morreu na casa de seu antigo senhor. A jovem de pouco mais de vinte anos recebeu todos os sacramentos. Felipa e tantas outras puderam contar com as amizades e afetos construídos ao longo de suas vidas. como registrou o pároco Joze Pires dos Santos Souza.. Dizem ter sido muito pobre.

Sobre as irmandades de pretos ver especificamente o capítulo 5º: As irmandades de homens pretos. 261 jul. fazer uma escala na África e outra em Portugal para novamente nos embrenharmos no caminho que leva ao passado do sertão dos Guayazes. este título quis lembrar um pouco da mistura cultural ocorrida nas Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. a partir de diferentes escalas./dez. o objetivo é levantar mais questionamentos e reflexões com vistas a fomentar os debates sobre as identidades étnicas e experiências escravas. os trabalhos de Soares. Quintão. pardos e negros. Notas 1 É considerável a produção bibliográfica sobre o tema. 1997... destaca-se a tese de doutoramento da professora Cristina de Cássia Pereira Moraes na qual analisa as especificidades das 34 irmandades encontradas: brancos. não pretendemos exaurir as discussões sobre a escravidão em Goiás. Lisboa: UNL. Jaraguá. Mas a história dos padres do sertão dos Guayazes merece ser contada em outro momento. Para a compreensão da complexa relação e interação de diferentes culturas será preciso olhar para cada um desses lugares de onde vieram nossos atores sociais. 1975. 2 Neste livro constam os registros dos arraiais de Santana do Rio do Peixe. P. 2007 . Experiências que não podem apenas ser apreendidas se permanecermos no pequeno arraial de Meya Ponte. pelo contrário. 2005. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 17361808. Cristina C. 1998.A morte branca do escravo negro. Neste ensaio. Boschi. Da mesma forma. (Edição em CdRom)... Estes últimos muitas vezes estavam mais preocupados com a forma de angariar pecúlio em proveito próprio que necessariamente com o cumprimento das leis às quais estavam sujeitos. 2002. 2000. Corumbá e Lavrinhas. sem hierarquias. 1986. destacam-se entre outros. MORAES. Scarano. Mott. 2002. Em Goiás. resguardadas dos olhares dos visitadores eclesiásticos e padres. Será necessário atravessar o mar oceano.

12 Idem. Capítulo 2º. 54 verso. vol. 8 Idem. 1999. 4 verso 10 Idem. 6 Idem.. perdeu a faculdade de rezar missas e quaisquer outras 262 Revista Brasileira do Caribe. Livro de registro de óbitos 1760-1776. idem. 1995. (A representação está entre os anexos existentes do documento nº 1939 e data de 16 de dezembro de 1773. 1992. p. 4 Esses 2% aos quais me refiro são portugueses e paulistas acompanhados por “todos os padres do arraial”. 1975. 38. Cd-rom Projeto Resgate Barão do Rio Branco). p.Maria Lemke Loiola 3 Aqui uso confraria e irmandade como sinônimos. p.. p. 14 Idem.. VIII. sobre a representação dos oficiais da Câmara de Vila Boa de Goiás. 7 Idem. 5 Idem: Cópia da Primeira e última visita do Doutor Alexandre Marques do Valle.. 13 Idem. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte 1758. 29. livro. p. 86 verso. 23. 86. Goiânia. Scarano. 16 Idem. 11 Idem. O padre Braga foi um dos vários padres “convidados” a se retirar da capitania de Goiás em 1764. 1758. (1734-1824) p. 9 Idem. Subordinar o capelão parece ter sido um elemento comum de diversas irmandades e implicava sempre em relações de poder. mas não há alusão a irmandades. idem. n° 15 . 5 verso. Consulta do Conselho Ultramarino. 15 Idem. 56. p. cópia. à Rainha Maria I. também: Hoornaert. Teria se retirado ou permanecido recluso? Se ele optou por ficar. p. 7 de Outubro de 1778. Gaeta. Estes portugueses e paulistas quase sempre morreram com seu solene testamento. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte. Reis. idem. 72. cópia. cf. p. visitador que foi das Minas de Goyaz. 7 verso. idem. p. p.

25 verso. p.A morte branca do escravo negro. 8 verso.39 verso. 18 Idem. livro de óbitos 1760-1776. 22 verso. p. 4 verso. idem. 8. 27 Idem. 19 Idem. chama a atenção para a necessidade de se repensar os conceitos e categorias subjacentes à questão. p. 40 verso. Mas esta já é uma outra história. 28 Idem.. p. idem. 2007 . cópia. 13 verso. atividades religiosas. idem. idem. p. 36. no Rio de Janeiro.. 26 Idem./dez. em Minas Gerais e Mariza de Carvalho Soares. 31 Idem. idem. p. 85 verso 21 AHEGO: Cópia do compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos das Minas de Meya Ponte 1782.. 29 IPEHBC.. 25 Idem. com olhares diferentes. p. 23 Idem. cópia. 27 verso. 17 Idem.. têm trazido reflexões importantes sobre a diversidade étnica dos africanos no Brasil e como cada etnia estampou suas especificidades na sociedade colonial. idem.. Livro de registro de óbitos 1760-1776. 30 Idem.. 24 Idem. idem. p. Cada qual. 20. 2 22 Autores como Eduardo França Paiva. 46 verso. p. p. idem. p. p. p. p.. 20 Idem. Livro de registro de óbitos 1760-1776. 85.. 32 A partir de meados de 1750 as chamadas guerras justas fizeram muitas mortes 263 jul.

E. José de Almeida e Vasconcelos [. Documento n. idem. L. 2002 (mimeo).] In: Catálogo de verbetes dos documentos manuscritos avulsos da capitania de Goiás existentes no Arquivo Histórico Ultramarino (1731-1822). In: PAIVA. “Bateias.. São Paulo. pp.. idem. tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo”. da V. In: Revista de Estudos de História.Maria Lemke Loiola de ambos os lados. 2005 (Tese). M. Ensaio de interpretação a partir do povo. da C. temas e desafios 1990-2001. São Paulo: Ática. 1997. P. C. 11-36. barão de Mossâmedes. 1986. A. MORAES. n° 15 . O trabalho mestiço: maneiras de pensar e formas de viver – séculos XVI a XIX. São Paulo: Companhia das Letras.. “Redes de sociabilidade e de solidariedade no Brasil Colonial: as irmandades e confrarias religiosas”. A historiografia da escravidão: tendências. C. 1992. idem. “Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu”. p. Laura de Mello e (org). p. J. E. História da vida privada na América portuguesa. Franca. 2. (orgs). 187-207. V. 1754. Ê. ofício do governador e capitão general de Goiás.] sobre a administração civil e eclesiástica da capitania de Goiás [. 37 Idem. 2002. 155-220. E. nº 2. C. 35 Idem. São Paulo/ Belo Horizonte: AnnaBlume/PPGH-UFMG. pp. Goiás 1722-1822. PAIVA. C. vol. HOORNAERT. 72. In: SOUZA. Estrutura e conjuntura numa capitania de 264 Revista Brasileira do Caribe. História da Igreja no Brasil. Luis. & ANASTÁCIA. carumbés. O “Livro para servir do caminho de Paraty” está repleto de informações sobre o assunto. F.F. 33 Idem. idem. 4ª Ed. Goiânia. J. p. 66 34 Idem. 22 verso.. PALACIN. J. et al.M. Bibliografia BRITO. Os leigos e o poder. 67 verso. C. p. p. BOSCHI. Petrópolis: Vozes. São Paulo: 1995. GAETA. 23 36 Idem. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 1736-1808. Lisboa: UNL. VIII. MOTT.

SOARES. A. miscigenação e questão racial: notas sobre equívocos e tabus da historiografia brasleira”. M. São Paulo: Itatiaia. 161 (407). 2003. 2007 . de C. “Colonização. “Descobrindo a África no Brasil colonial”. E.. São Paulo: FAPESP. Mina. século XVIII. dezembro 1998. . J. M. nº 8. Goiânia: CEGRAF/UFG. SILVA. G V. A. REIS. SOARES. religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro. 73-93. de. SOARES. abr/jun 2000. 1975. Tempo. J. A. de C. Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava. Goiânia: Kelps. M. Angola e Guiné: nomes d’África no Rio de Janeiro setecentista.C. Viagem ao interior do Brasil. 2002. de C. 2002. Z. Goiânia: Bandeirante. São Paulo: Cia das Letras. 3. 1999. Rio de Janeiro./dez. Lá vem meu parente: as irmandades de pretos e pardos no Rio de Janeiro e em Pernambuco no século XVIII. 1999. VAINFAS. J. p. & PINHEIRO. 3ª Reimpressão. v. João J.C. 71-94. In: RIHGB. Anna Blume. In: Tempo. de G. 1992. Identidade étnica. v. PINHEIRO. Devotos da cor. 7-22. 1976. p. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura. Trad. 1972. Economia e escravidão na Capitania de Goiás. QUINTÃO. 265 jul. nº 6. 2000. SALLES. F. 4..A morte branca do escravo negro. SCARANO. A morte é uma festa. M. Ronaldo. Devoção e escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século XVIII. Goiânia: Oriente. Tronco e vergônteas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Milton Amado e Eugenio Amado. POHL. Minas.

266 .

an underdevelopment of the life conditions of its population. diversidade. adversity Resumo Desde a publicação da Biografia del Caribe escrita por Germán Arciniegas até a recente publicação de Respirando el Caribe. Today the Caribbean region is undoubtedly the more studied region of Colombia. vol. Hoje a região do Caribe é. Colômbia. Within this context. Palavras chave: Caribe. como manifestação das desigualdades regionais que existem neste país. VIII. A inserção em um mundo globalizado e as políticas públicas orientadas para uma maior descentralização não logram mostrar os resultados esperados. mas apresenta. a região mais estudada da Colômbia. adversidade *Artigo recebido em janeiro e aprovado para a publicação em abril de 2007 267 Revista Brasileira do Caribe. Keywords: Caribbean. diversity. there has elapsed more that sixty years in order to have an exhaustive compilation on the state of art of the studies on the Colombian Caribbean. but it offers an expression of the regional inequalities that exist in the country. no meio desta situação surge como um dos desafios dos estudos do Caribe sua contribuição ao estudo de políticas para o desenvolvimento regional. n° 15. um atraso das condições de vida de sua população. Colombia. 267-281. 2007 . Its insertion in a globalized world and the public politics towards a greater decentralization do not succeeds in showing the expected results. se passaram mais de sessenta anos. sem dúvida. this study emerges like one of the most challenging explorations of the Caribbean and its contribution to the study of the politics that support the regional development. uma exaustiva compilação do estado da arte dos estudos sobre o Caribe colombiano.Estudios del Caribe en Colombia Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives Abstract Since the publication of the Biografía del Caribe written by Germán Arciniegas until the recent publication Respirando el Caribe.

Es compartativamente más grande. un rezago en las condiciones de vida de su población.Alberto Abello Vives Resumen Desde la publicación de la Biografía del Caribe escrita por Germán Arciniegas hasta la reciente publicación de Respirando el Caribe. diversidad. Porcentaje de la población creciente. El Caribe colombiano lo conforma un territorio (70 km² de territorio insular y 132. Colombia. buena parte de las prioridades investigativas son producto de las particularidades de este caso particular: el Caribe colombiano es una región subnacional de Colombia. pasó del 10% al 22% entre el comienzo y el fin del siglo XX. han transcurrido más de 60 años. pero presenta. vol. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. Hoy la región Caribe es sin lugar a dudas la región más estudiada de Colombia. VIII.444 km² de territorio continental = 12% del territorio nacional). en medio de esta situación surge como uno de los retos de los estudios del Caribe su contribución al estudio de políticas que contribuyan al desarrollo regional. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. 22% de la población colombiana. n° 15 . tres veces. 268 Revista Brasileira do Caribe. En efecto. una exhaustiva compilación sobre el estado del arte de los estudios sobre el Caribe colombiano. al tamaño de un país como República Dominicana. adversidad Preámbulo Es muy importante en este escenario recordar algunas características del Caribe colombiano que sirven de marco para entender la evolución de los estudios del Caribe en Colombia. el cual es un páis de regiones geográficas y culturales con profundas disparidades en lo económico y el desarrollo social entre ellas. Palabras clave: Caribe.000 km² y una población cercana a 9 millones de habitantes. con una población similar. un territorio marítimo en el Caribe de más 570.

a diferencia del resto del Caribe.. que tuvo el primer puerto esclavista durante el período colonial habiendo dejado profundas huellas en el patrimonio cultural (tangible e intangible). República Dominicana. El Caribe en Colombia tiene una economía que con las reformas neoliberales de los noventa perdieron participación nacional el agro y la industria manufacturera. gas). la región por donde entra la modernidad 269 jan. 2007 . se hace referencia a la Caribe). valles. es la región donde muere el Libertador. Haití. sabanas. los indígenas de la Sierra Nevada. ambas comunidades binacionales. Entre los aspectos históricos. Curazao. y de manera particular. Jamaica. el macizo montañoso nevado a orillas del mar. el archipiélago en el Caribe occidental. El Caribe de Colombia posee una población mestiza en la que se conjugan la herencia africana. una población indígena importante (ver caso wayuus en la Guajira. Ecuador. Tradicionalmente. Es una región diferenciada y diferenciable del conjunto nacional por sus atributos naturales y culturales. podría decirse que es un Caribe “atípico” (donde no hubo plantaciones). con vínculos históricos con las islas del Caribe (Santo Domingo. Brasil y Venezuela. de los distintos resguardos). Tiene hoy en día una economía dinamizada por el sector servicios (principal región turística de Colombia./jul. Es el mar Caribe el que le da la vecindad a Colombia con Venezuela.Estudios del Caribe en Colômbia. Costa Rica y Panamá. Perú. Cuba) pero que se pierden en gran medida con la independencia de Panamá. Una región que aun se nombra como Costa Atlántica (Colombia es un país de dos costas. Entre los naturales se encuentran un desierto. Nicaragua. 6 % de la población se reconoció como indígena en el Censo de 2005 y 14% como afrodescendiente. una gran depresión. al verse como país andino. es la región donde se inicia el poblamiento de la hoy Colombia (conectada con Santo Domingo).. Jamaica. se enseñan en la escuela los límites terrestres Panamá. Con una alta población afrodescendiente. tres puertos) y la minería (carbón. Honduras. áreas inundables. los Cuna en el golfo de Urabá. hispana e indígena. pero cuando se habla de la Costa.

mayor concentración económica) y esta región. vol. históricos y culturales. con manifestaciones musicales (cumbia. más avanzada. por debajo de los promedios nacionales y una inmensa porción de la población por debajo de la línea de pobreza (cerca del 60% de sus habitantes). Con ingreso per cápita por debajo del promedio nacional. Una tasa de desempleo del 15% en las ciudades como Cartagena. chibcha. el rezago relativo. 270 Revista Brasileira do Caribe. literatura y plástica que han sido aceptadas como expresiones nacionales y hacen parte del panorama artístico reconocido de Colombia en el exterior. Mantiene una viva cultura popular. n° 15 . Tiene indicadores sociales de educación y salud deficientes. Es un región con grandes retos: el reto de la superación de pobreza. con una caída de los empleos calificados. precisamente. En una ciudad como Cartagena de Indias el 10% más rico de la población percibe el 50% del ingreso generado en la ciudad y el 10% más pobre solo recibe el 1% del ingreso (año 2000). arawak y chocó). una región que a la vez reclama su pertenencia al Caribe y promueve su redenominación: Caribe colombiano y no Costa Atlántica. Sus rasgos culturales derivados de procesos de poblamiento intervenido por las ocupaciones hispanas y puritanos ingleses arroja hoy en día la existencia de 11 lenguas vivas (español. Es una región con una profunda desigualdad social. andina. vallenato. las tensiones entre la Nación (centralista. En una brecha creciente a pesar de las reformas que anunciaba que sería la región más favorecida con los cambios. dos lenguas criollas y 8 lenguas indígenas de familias lingüisticas caribe. así como los procesos identitarios y el reencuentro con el Caribe al que pertenece por sus rasgos geográficos. El Caribe es en Colombia una región rezagada del conjunto nacional. el atraso.Alberto Abello Vives al interior del país con el auge de Barranquilla (finales del XIX y principios del XX). porro). con un profundo atraso relativo. con una creciente informalidad. Los estudios del Caribe en Colombia tienen como marco. VIII.

Los primeros intentos los encontramos en ensayos y artículos de prensa de líderes de la independencia que se preguntaban por las características del hombre y la vida de la región. sino todo un esfuerzo integral 271 jan. El conocimiento del Caribe colombiano La Biografía del Caribe de Germán Arciniegas no sólo fue el libro colombiano más leído en el exterior antes de Cien años de Soledad. Gabriel García Márquez no fueron nunca aficionados superciales henchidos de tropicalismo. Allí está tal vez la génesis del pensamiento sobre la región. ese extraño. quien retrata un ambiente aldeano y decimonónico. Por otro lado. austero y formidable bizco de las letras cartageneras. La modernidad de la indagación provino con la obra poética de Luis Carlos López. no hace parte de las regiones ganadoras en el proceso de inserción nacional en esta economía contemporánea. De Cristobal Colón a Fidel Castro. esta gran obra incorpora a la academia colombiana el estudio del Caribe y se convierte en el referente obligado de la comunidad científica de la segunda mitad del siglo XX que ha salido al reencuentro de ese “charco violento por donde se han paseado todos los huracanes”. Héctor Rojas Herazo. Voces como las de Manuel Zapata Olivella. seguía jugando a enmascararse en el ámbito europeo. de espaldas a la realidad atroz. situación que marca no sólo ciertas líneas y tendencias en el campo de la investigación sino que compromete el desarrollo de la educación superior. Son la literatura y el arte de mediados del siglo XX los que salen al encuentro de la realidad de esta región.Estudios del Caribe en Colômbia. Esta Biografía (1945) antecedió a los libros casi homónimos de Juan Bosch y Eric Williams. 2007 . con la globalización esta región no ha sido favorecida. como llamara el mismo Arciniégas a nuestro mar Caribe. Pero no fueron las ciencias sociales en el Caribe colombiano las encargadas de indagar por la tierra que habitamos. cuya elite.. De Colón a Castro (1969 y 1970 respectivamente)../jul. Álvaro Cepeda Samudio.

las demás ciencias sociales. la aparición de centros y grupos de investigación son las características de esta nueva etapa. Son sin lugar a dudas. apoyo financiero a los estudios del Caribe. Hoy la región cuenta con seis centros regionales de investigación especializados en el estudio de la región: el Instituto de Estudios Caribeños de la Universidad Nacional en la isla de San Andrés que cuenta con el programa de maestría en estudios del Caribe. el Instituto de Estudios Económicos de la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. Estaban vigentes aun las políticas keynesianas que daban importancia a la planeación regional (aparecen los organismos de planeación regional. Es la Universidad Nacional de Colombia la que buscando construir una nación con miradas desde los territorios de frontera la que crea la sede Caribe en la isla de 272 Revista Brasileira do Caribe. Entre los pioneros en el campo de las ciencias sociales encontramos a Luis Eduardo Nieto Arteta. la reedición de textos históricos. la economía. A todo ello. Ocurre una dinámica que convierte a la región en la más estudiada de Colombia: desde la historia. Gerardo ReichelDolmatoff y Orlando Fals Borda. el Centro de Estudios Económicos Regionales del Banco de la República en Cartagena de Indias. el Instituto Internacional de Estudios del Caribe de la Universidad de Cartagena que realiza cada dos años el Seminario Internacional de Estudios del Caribe. n° 15 .Alberto Abello Vives de la inteligencia. Fundesarrollo en Barranquilla. los desencantos y las esperanzas de una región. las universidades las que han brindado. bajo el empuje brindado por un organismo regional de planificación cuando comienza con entusiasmo la siguiente etapa de estudios sobre la región. contribuyeron en la búsqueda por ilustrar las culturas populares y la naturaleza caribe los artistas plásticos Alejandro Obregón y Enrique Grau. El nuevo conocimiento. de manera dispar. Es durante la década de los ochenta. la sensibilidad y la información por desentrañar los rumbos. VIII. los rasgos. en distintas etapas y con mucha fragilidad. entre otros. vol. el Caribe colombiano contó con un esquema que sirvió de base para el resto del país) y de la intervención estatal.

2007 . las convocatorias para la financiación de proyectos privilegian otras regiones (el mismo sistema lesiona a regiones con baja capacidad como el Caribe beneficiando a las de mayor desarrollo). las lenguas. Los investigadores universitarios vienen siendo empujados a un mayor número de horas de clase y de actividad burocrática. así como a la obligatoriedad de vender servicios para complementar sus ingresos. A su vez son muy pocos los investigadores que pueden dedicar 100% de su trabajo a esta labor. la antropología. la música. Son las siete universidades públicas asociadas al Sistema Universitario Estatal del Caribe las que asumen a partir de 2003 el soporte financiero al Observatorio del Caribe. sin embargo. en los que lo “nacional” se coloca por encima de los interéses regionales. igualmente grupos de investigación e investigadores con amplia trayectoria y reconocimiento en diversas disciplinas cuya región objeto de estudio es el Caribe colombiano. trabajan por proyecto y sin estabilidad 273 jan.. la dota del instituto y abre la maestría arriba señalada. a una iniciativa regional como fue la creación del Observatorio del Caribe Colombiano. respaldada igualmente por dos cámaras de comercio. el medio ambiente. salvo contadas excepciones. nacido después de una década de planteamientos provenientes de distintas instancias sobre la necesidad de dotar a la región de un centro de estudios regionales independiente y vinculado a los procesos de desarrollo regional./jul. San Andrés. El Observatorio fue creado como una entidad que articula el desarrollo y la cultura regionales. Muchos de estos grupos surgen como tal ante la política nacional de ciencia y tecnología. Los investigadores de los centros de investigación independientes. privilegian también otras áreas de estudio y otro tipo de proyectos (aquellos considerados como estratégicos y el Caribe no es un sector estratégico). una entidad autónoma. Me refiero a grupos que indagan por la historia. el organismo rector de la ciencia y la tecnológia en Colombia. la economía y la sociología. los fondos públicos son insuficientes. la plástica.. Quiero resaltar el apoyo nacional a través de recursos financieros de Colciencias. En las principales universidades hay. la literatura.Estudios del Caribe en Colômbia.

VIII. hay que resaltar para el análisis de este panel la Red Ocaribe a la que pertenecen decenas de investigadores y que en los últimos años ha permitido el desarrollo de proyectos interdisciplinarios. Igualmente. Francia. promotores del desarrollo regional). Inglaterra. España. en dos universidades existen cátedras del Caribe dirigidas a estudiantes de pregrado (Universidad del Magdalena y Universidad Tecnológica de Bolívar). en esta última se realiza anualmente un diplomado durante la Escuela de Verano sobre Cartagena y el conocimiento vital del Caribe. Se nombran aquí como parte de la reseña: se trata de El Caribe en la Nación Colombiana. En este ejercicio. así como la Universidad del Norte en Baranquilla que lideró la nueva generación de publicaciones y estudios. la Universidad de los Andes y la Universidad de Antioquia. principalmente). que fue llamada Caribe Espléndido y el desarrollo de la primera cátedra virtual sobre el Caribe que dio pie a la publicación Un Caribe sin plantación. además de programas de divulgación científica.Alberto Abello Vives laboral y participan en la gestión de los recursos para financiar sus líneas de investigación. periodistas. en los que de manera particular he estado involucrado. empresariales y políticos. también investigadores extranjeros (Suiza. cultuales. La mayor parte de las instituciones que arriba se mencionan. Quiero resaltar 274 Revista Brasileira do Caribe. valora la producción intelectual de la región y facilita la discusión. Estados Unidos) con los que hay rico intercambio. vol. n° 15 . una reflexión nacional que sirvió de base para una exposición en el Museo Nacional de Colombia en Bogotá. De esta red forman parte investigadores colombianos no oriundos ni residentes en la región pero que se han dedicado al estudio del Caribe colombiano (investigadores de la Universidad Nacional de Colombia. los estudios del Caribe interactuan con sectores sociales. tienen líneas de publicaciones y revistas (de las de nueva generación hay que destacar a Huellas de la Universidad del Norte). La región cuenta con una Cátedra del Caribe itinerante por las principales ciudades que divulga el conocimiento nuevo. Hoy el Caribe colombiano cuenta con varias redes (investigadores.

del Área Cultural del Banco de la República de Cartagena de Indias. Hoy la Cinemateca del Caribe. así como la articulación entre el sector empresarial de Barranquilla con Fundesarrollo. En Barranquilla. por lo menos una decena de grandes compilaciones que bien podrían entenderse 275 jan. Hoy existe una extensa y rica bibliografía nacional derivada de los estudios del Caribe colombiano codiciada por investigadores extranjeros. Hay que resaltar igualmente la labor. En Respirando el Caribe (volumen II) editado por Aarón Espinosa. ha sido publicada con las memorias de estos eventos académicos internacionales. la asociación que existe entre el Observatorio del Caribe y la Cámara de Comercio de Cartagena alrededor de una línea de estudios sobre la competitividad de Cartagena. en este momento. lingüística. Historia. 2007 . Santa Marta y Cartagena existen arhivos históricos y eclesiásticos (caso de Santa Marta). Santa Marta y Sincelejo. literatura y música.Estudios del Caribe en Colômbia. Con el la ciudad y parte de la región Caribe se han nutrido de los adelantos en el conocimiento derivados de la producción de destacados investigadores mundiales. se encuentran los avances en 10 áreas centrales del conocimiento. en Barranquilla. geografía. educación. ciudades. Así como la interacción con programas radiales (Concierto caribe en Uninorte FM Estéreo) y de la televisión regional. que recoge las memorias del II Encuentro de la Red Ocaribe realizado en 2005. diez ensayos sobre el estado del arte de la investigación.. Hay. ambiente. publicado en 2006. si así pudiera llamarse. Hay que destacar en esta interacción. cuenta con un archivo que conserva la memoria audiovisual de la región. economía. también existen archivos fotográficos y fototecas históricas en las ciudades de Cartagena. que lleva una década. construcción y montaje del Museo del Caribe en Barranquilla que ha convocado igualmente a investigadores de distintas disciplinas a lo largo de los últimos seis años. antropología. Una “nueva” historia de Cartagena. que realiza de manera bienal el Simposio sobre la Historiografía de Cartagena./jul. diseño.. la conceptualización.

se encontrarán datos. entre otras. museos y foros. de publicaciones virtuales en sitios de buena parte de las instituciones arriba mencionadas. no se detiene. VIII. hasta que lo cuartean y lo desbaratan. la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. Así es también en Colombia la búsqueda del conocimiento del Caribe. Mirada en perspectiva. Quiero recordar una frase de Gabriel García Márquez que podría utilizarse para entender los estudios del Caribe colombiano: “Mi profesor Juan Bosch. de Estudios del Caribe colombiano. cátedras. y vuelven a florecer en el mismo sitio”. a pesar de las dificultades. vol. la formación y la divulgación en el campo de los estudios del Caribe colombiano. No pueden estar ausentes de este análisis la aparición. entre otras muchas cosas. así como el accionar de redes lo demuestran. militar. sino que avanza. en el que la región ha sido una de las regiones colombianas capturadas (en lo político. Si se examinan los sitios de Internet de entidades como el Banco de la República. paralelo a todo esto. autor. mayores herramientas de análisis por parte de la ciudadanía1. Después de este corto recorrido sobre la investigación. aun fragmentado. 276 Revista Brasileira do Caribe.Alberto Abello Vives como un Manual General. económico) por el narcoparamilitarismo de derecha. Cada vez más el desciframiento del Caribe supera las individualidades y avanza por el camino de la cooperación y las redes. Y la utilización de ellos es alta. n° 15 . La existencia de centros especializados y grupos de investigación. Mayores fortalezas en este campo permitirían en las actuales circunstancias de auge de un conflicto armado. se puede anotar que éstos se encuentran vivos y su ejercicio es un continuo que no se detiene. agendas. de una historia monumental del Caribe. estudios. Fundesarrollo. ya hay una primera fase de los estudios del Caribe en la era digital. dijo alguna vez en privado que nuestro mundo mágico es como esas plantas invencibles que renacen debajo del cemento. La Ciencia Política es una de las disicplinas de análisis con mayores debilidades. La producción audiovisual se ha enriquecido con los estudios y la virtualidad vive su primera generación.

Gracias a todo ello. Todo esto ha contribuído a reducir la dispersión. el país se ha “caribeñizado”. sino en cuanto a visiones y enfoques sobre la historia y el desarrollo regional. Durante casi veinte años (desde finales de los setenta hasta la desaparición del organismo regional de planificación –Corpes) la región ha adelantado grandes foros y simposios regionales. de promover una mayor integración regional y de reivindicar el desarrollo social y económico. Se destacan igualmente la pluralidad no sólo en el campo de las disciplinas. como no ha ocurrido en otra región de Colombia. músicos./jul. así como diversos estamentos. en la producción de diagnósticos y análisis sobre su economía y el grado de desarrollo social. artistas. enriquece y enaltece el ejercicio académico. aunque con altibajos. en la discusión de las políticas públicas nacionales que la afectan. Asímismo. mantiene la discusión sobre el desarrollo regional. En el momento de escribir este ensayo. a deconstruir estereotipos y falsas concepciones sobre la “costeñidad” existentes en el imaginario nacional. por supuesto. promovido por tres de los centros de investigación arriba señalados adelantan una disusión... y como parte de ella. un nuevo ejercicio. económicos y culturales que. hoy ya existe controversia académica sobre fenómenos históricos. Una serie de publicaciones y eventos en los que se encuentran la nación y la región. Los estudios del Caribe han contribuido al igual que la cultura regional. precisamente por la diversidad. 2007 . en la que 277 jan. escritores. La academia ha dado continuidad a una tradición regional de pensarse. en el manejo de información y estadísticas sobre su situación. un mayor conocimiento nacional sobre el Caribe se debe a la labor de investigadores. la espontaneidad y le emotividad que habían caracterizado al Caribe colombiano en sus esfuerzos por pensarse. el Taller del Caribe Colombiano. ya ha sido superada.Estudios del Caribe en Colômbia. la falta de sistematicidad. Es más. la era de las primeras obras que durante cierto tiempo generaron una mirada unánime. La región ha avanzado en el conocimiento de las causas de su atraso. viva. y en los que la academia hace cada vez mayores aportes.

es sin lugar a dudas la región más estudiadas de Colombia. especialmente. Las disparidades regionales en Colombia son reales y persistentes. indagando por los obstáculos al desarrollo y por las políticas públicas que Colombia requiere para superar las disparidades económicas regionales. en la región exportadora de Colombia. un rezago en las condiciones de vida de su población. la región a la que no le ha ido bien con uno u otro modelo de desarrollo vio aparecer casi dos millones de nuevos pobres.Alberto Abello Vives participan distintos estamentos. n° 15 . tampoco hubo aquí una expansión industrial. en las principales ciudades. Hoy la región Caribe. igualmente. Entre 1998 y 2003. pero presenta. y muy a pesar de tener tres puertos de primer orden. Las brechas entre los niveles de ingreso per cápita son. en un modelo supuestamente pensado para la inserción a la economía internacional. Por el contrario hemos visto un acentuado proceso de desindustrialización que ha acompañado a la disminución del producto bruto agropecuario. En el Caribe la pobreza por ingreso de sus habitantes es aun sumamente alta. Los nuevos sectores. en regiones como el Caribe colombiano la divergencia ha crecido. no han generado una recomposición económica. persistentes y se han acentuado. Mientras el centro del país se ha consolidado aun más. Muy a pesar de que el Caribe estaba llamado a convertirse en la región más favorecida con la inserción al nuevo modelo económico los resultados sobre los que hoy debaten sus centros de investigación no son favorables. mientras la economía nacional se consolida en el centro andino. los sectores mineros. debemos recalcar. La propuesta de los centros de investigación del Caribe colocando en la agenda pública la búsqueda de políticas regionales diferenciadas que contribuyan efectivamente a disminuir las 278 Revista Brasileira do Caribe. VIII. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. fundamentalmente de enclave. La Costa Caribe no se convirtió. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. vol.

Pero es innegable el impacto del modelo económico vigente en los estudios del Caribe. La reducción de fuentes de financiación. como parte del Gran Caribe. c. 2007 . b. en vista de que se han estudiado en espacios geográficos separados (Caribe continental y caribe insular. Buscar entender procesos sincrónicos. las dificultades financieras de amplios sectores del empresariado local y la centralización a escala global de las decisiones financieras de apoyo a la cultura y la investigación por parte de empresas multinacionales con inversiones en la región. Realizar estudios que dialoguen con las otras regiones de Colombia. En Colombia. no contribuyen al fortalecimiento de los estudios del Caribe. Retos de los estudios del Caribe Los siguientes son los principales retos de los estudios del Caribe en Colombia2: a. visiones) y la adversidad (financiera). los estudios del Caribe avanzan en medio de la diversidad (institucional. disparidades regionales le da a los estudios del Caribe en Colombia una singular particularidad. Profundizar una visión internacional. Los estudios del Caribe en Colombia se caracterizan por sus miradas locales.../jul. hay zonas menos estudiadas –Caribe chocoano y antioqueño). Aproximarse a una mayor escala y a los estudios comparativos ayudará a enriquecer esa búsqueda de identidades y a llenar de argumentos las 279 jan. d. por ejemplo).Estudios del Caribe en Colômbia. modelo caracterizado por la disminución del tamaño del estado y la consecuente fragilidad financiera de las universidades públicas. Completar la visión regional de conjunto (hay disciplinas con mayores aportes y predominios (historia y economía). áreas de estudio. Un mayor entendimiento de Colombia saldría de esa urdimbre resultado del cruce de esos hilos que conectan el país a lo largo de su historia.

aunque más dispendioso y costoso. un historiador se preguntaba porqué se estaba haciendo ese encuentro por fuera del Caribe. VIII.3 e. En ello. El entendimiento de la realidad y la construcción de conocimiento complejo está exigiendo el rompimiento de las visiones disciplinarias. de los vínculos con el Centro de Estudios del Caribe de la Universidad Metropolitana de Londres. de la Asociación Mexicana de Estudios del Caribe (AMEC). y multilingüe. Si bien las particularidades colombianas dan a los estudios del Caribe. Se ha dado un paso en aumentar las relaciones de los investigadores y universidades con el Gran Caribe. actividades permanentemente. el intercambio de métodos y el trabajo colectivo. durante el cuatrienio 19982002. construcción de redes. de la vinculación a la conceptualización de la maestría virtual en estudios del Caribe coordinada por West Indies University y apoyada por la Unesco. Creo que la experiencia colombiana arroja elementos. como una múltiple institucionalidad. del Centro de Estudios del Caribe en Brasil. Colombia desarrolló una iniciativa gubernamental de acercarse a este mundo. sino hacer parte de redes y la organización de proyectos científicos de la gran área del Caribe. particularidades propias. Hoy más allá de la asistencia a congresos de la Asociación de Estudios del Caribe (CSA en su sigla en inglés). n° 15 . los estudios colombianos del Caribe requieren no sólo una mayor visibilidad internacional.Alberto Abello Vives propuestas de integración política y relaciones comerciales. Recordemos que en mayo de 2005 cuando se realizó en Cartagena de Indias la 37ª Conferencia Anual de Historiadores del Caribe. contando con sectores de la academia para ello. vol. los dos últimos retos de los estudios del Caribe en Colombia son sin lugar a dudas de aquellos que caracterizan en general a los estudios del Caribe: la falta de visiones regionales de Gran Caribe y la debilidad aún de la interdisciplinariedad. generación e intercambio contínuo de 280 Revista Brasileira do Caribe. Promover aun más el encuentro de las disciplinas. está llamado a facilitar la organización de grupos de investigación internacionales. el ejercicio virtual. igualmente.

por una mayor dinámica virtual. del profesor Jario Parada en el sexto taller del Caribe. NOTAS Se destacan Los señores de la Guerra de Gustavo Duncan. comunicación. desde la economía política. 3 Ibidem. que se convierten en factores positivos para la supervivencia de los estudios del Caribe en medio de las dificultades. que promueven la interdisciplinariedad.Estudios del Caribe en Colômbia. p. por ejemplo. por la gestión de recursos para programas de impacto regional. Repensar los estudios del Caribe significa repensar la forma como hasta ahora se actúa para su desarrollo. 2007 . 16 de mayo de 20072 Estos comentarios fueron planteados por el autor anteriormente y publicados. investigativa o de posgrados. 2006. y las disciplinas de los pregrados se encuentra aún por conocerse mejor. se organizan. por la promoción del trabajo en grupo entre investigadores de distintos países. p. La relación entre los estudios del Caribe como especialidad. publicado por Planeta en 2006 y el ensayo. con amplia convocatoria. Una verdadera red de estudios del Caribe.. Bogotá: Museo Nacional de la Colombia. interacción con el resto de la sociedad. Un esfuerzo adicional es necesario hacer para alcanzar una mayor comprensión de los profesionales de distintas disciplinas que acceden a maestrías en estudios del Caribe. debería de ir más allá de convocar a un evento internacional periódico y preocuparse por un mayor flujo de información y de contenidos.93. se les valora y reconoce. Las mejores experiencias son aquellas incluyentes. 21 1 281 jan. la organización de grupos de trabajo.. Barranquilla. Ver El Caribe en la Nación colombiana (2006)./jul.

282 .

Porto Rico.. na qual se elevara ao avatar de maior poderio atual. Tan lejos de Dios. este dito expressa uma condição de existência comum a países do continente meso e sul americano: a proximidade física em relação aos Estados Unidos. ainda mais estando este incompleto. e tão perto dos Estados Unidos”. dela decorre um sentido que expressa a novidade deste trabalho.. n° 15.. particularmente os antilhanos. 2006. potência esta que teve uma sobressalente mudança hierárquica no cenário econômico mundial. uma idéia de unidade se entrelaça com o omitido e suspenso pelas reticências: “. vol. A invocação de um dito popular não se dá de forma gratuita. VIII. Além levar este paradoxo acerca da política americana com 283 Revista Brasileira do Caribe.. Antonio. 242 p. E a novidade deste trabalho é justamente se adentrar no conjunto de relações que presidiram o processo de emergência da potência norte americana em relação aos vizinhos do sul. Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos. A atualidade do dito faz-se clara. Leonardo de Melo Rodrigues Ao nomear ensaios aparentemente dispersos sob o título de um dito popular. San Ruan: Edicines Callejón. Seu sentido coloca em xeque o paradoxo implicado na bandeira política norte americana: um imperialismo salvífico quase natural que na prática é muito distante disso—a recente investida democrática em terras iraquianas é exemplo atual de peso. 283-287. Mesmo o dito sendo de origem mexicana. como Gaztambide-Geigel faz questão de ressaltar.Resenha GAZTAMBIDE-GEIGEL. 2007 .

Situa seu caráter enquanto invenção. São muitas as perspectivas de utilização. se formam as identidades postas em jogo ao evocar os Caribes. e sim um objeto inventado. que bastaria ao historiador expor suas formas e conteúdos. as contingências e encontros que marcaram sua emergência. oriundos de outros campos de saber. sociologia. Hoje oferece tal diversidade.Leonardo de Melo Rodrigues meticulosidade. O que atesta seu estatuto de relevante acontecimento no pensamento das ditas “ciências humanas”. Gaztambide-Geigel abordou tal temática numa dimensão bem delimitada. e se servir de um avantajado corpo material. Todavia. “La invención del Caribe a partir de 1898”. Desse modo. ou melhor. a apresentação do presente trabalho se releva não só entre os pesquisadores caribenhos. E ao inquirir quanto às relações políticas embutidas no momento de sua construção. No primeiro ensaio. vol. apoiado em uma massa documentária de fôlego e decorrente de vários anos de pesquisa. que não cessa de se recriar e reiterar-se. submete o termo Caribe à sua análise historiográfica. E. história. a filosofia. De modo que tal temática fora incorporada nas ciências humanas. radicados no Brasil ou não. É certo que as discussões identitárias provêem de pesquisas inscritas metodicamente no campo dos estudos culturais. VIII. n° 15 . o conceito de identidade não deixou de se atravessar por objetos os mais distintos. seria uma ingenuidade supor que seus métodos permaneceriam os mesmos submetidos a objetos tão singulares. tomado como invenção. antropologia. este sem dúvida é o jogo implícito em vista das circunstâncias pelas quais se forma o conceito Caribe. Desse modo. geografia e mesmo. que consuma ainda mais o seu valor analítico. busca-se ver justamente as circunstâncias em jogo no momento de sua criação. Entretanto. 284 Revista Brasileira do Caribe. como também para interessados no tema da “identidade” na contemporaneidade. o Caribe não é um objeto fixo e estático. se se pode falar de um tema central coordenador dos setes ensaios constituintes da presente coletânea. Seu problema foi como se construiu o termo Caribe em relação à política internacional norteamericana para os vizinhos antilhanos. em geral.

Gaztambide cunhou quatro momentos que são decisivos para a significação do termo caribe. Mostra como. já na década de 90 deste mesmo século. Por conseguinte. dado sua localização estratégica em relação ao mercado mundial internacional. as Antilhas espanholas. encabeçariam o sonho da “nuestra América”. do final do século XIX aos dias atuais: o caribe insular. e pôde ver suas diversas usagens mediante as situações próprias e específicas à história antilhana: de um arquipélago atlântico fragmentado submisso à metrópoles coloniais ao “Gran Caribe” em vias de emancipação cultural. não falam dos mesmos objetos. Hostos e Betonces. e há. foram decorridas enunciações bem diversas para o conceito “caribe”. persistia uma colonialidade já dita como “cultural” e combatida pelos libertários antilhanos. pronto e acabado. em cada situação histórica em que é invocado. começa-se a convergir às idéias de hispanoamericanismo e de latinoamericanismo. cujo sentido atravessaria a história latinoamericana. por volta da metade do século XIX. sob as luzes antilhanas. Em vista disso. 2007 . o Gran Caribe ou Cuenca del Caribe e o caribe cultural. o caribe geopolítico. o autor propôs uma historicização do termo. diante da ameaça imperial norteamericana. “La geopolítica del antillanismo de fines del siglo XIX”. Porto Rico e República Dominicana. O papel deles expressam um movimento. E a emancipação devia ser alçada nem tanto em 285 jan. numa engrenagem à qual as Antilhas estariam em função otimizada. Assim. procura-se destacar as forças motrizes do latinoamericanismo. Mesmo que uma primeira onda de independência arrebatara o continente décadas antes.Resenha O que o jogo em torno da criação do termo Caribe revela é que não há um Caribe. Situação que muda. e sim como houve. o termo não se refere às mesmas coisas. Personagens que dedicaram à luta emancipatória dos territórios coloniais da metrópole espanhola./jul. Gaztambide avalia as idéias antilhanas a partir de figuras históricas inseridas no redemoinho hispanoamericano e antilhano: Marti. vários Caribes de maneira que. Cuba. No segundo ensaio.

já que é das ambigüidades geradas no interior da política imperial americana a razão das variações acerca deste processo de invenção. como o título mesmo diz. como atributo qualitativo da política externa norte americana. Entretanto. foi fator de grande determinação no caso de invenção do Caribe. passada a Segunda Guerra Mundial e com a efetivação do poderio norte americano. posta em prática no terço inicial do século XX e alterada com o término da Segunda Guerra Mundial.Leonardo de Melo Rodrigues relação aos velhos impérios europeus. Em “La Buena vencidad y populismo”. trata das relações da política internacional norte americana. Essa transição é o tema dos ensaios “Hacia uma historia social de las relaciones interamericanas: 286 Revista Brasileira do Caribe. E a emergência dos Estados Unidos. defendida como verdadeira representante do ideal republicano. vol. marca de maneira decisiva a postura específica de seu imperialismo. estava constituída às voltas de ambigüidades visíveis. E explorar as ambigüidades por detrás das políticas internacionais norte americana é o tema central do terceiro ensaio: “El imperio ‘bueno’ del 98”. como defende Gaztambide. Ressaltando a particularidade do populismo caribenho. VIII. Pois ao mesmo tempo em que o final do século XIX foi marcado por projetos políticos de cunho expansionista. O conceito de ambigüidade. A política imperial desta potência emergente aos fins do século XIX. que a partir da compra da Lousiana começou a deferir ações com finalidade de expandir sua soberania. bem como devia ser buscada em vista da potência emergente: a República norte americana. a política da boa vizinhança cede lugar à política do bom sócio. São ambigüidades deste tipo que se alocam no cerne da campanha norte americana rumo à ascensão econômica e que foi aplicada aos vizinhos do Sul. n° 15 . continentais e antilhanos. com a práxis política do populismo. seguindo assim o exemplo do populismo de Porto Rico. este ensaio propõe a hipótese de como os efeitos da política de boa vizinhança fizeram valer no modo de organização interno dos países atingidos por tal postura ambígua. encontrava-se também mostras de uma ação não imperialista.

o Gran Caribe e o latinoamericano.Resenha El camino del desarrollismo: 1946-1960” e “Estados Unidos. e sim o que se dá é um complexo jogo no qual relações de forças heterogêneas se interagem incessantemente. é o modo como a política do bom sócio criou um imaginário internacional que abaixo suas variações locais possibilitou a criação de identidades multiculturais. 287 jan. O projeto desenvolvimentista que esta política visa suplantar nos sócios do sul adapta-os aos moldes do capitalismo mundial integrado sob a égide do desenvolvimento econômico. O tema do ultimo ensaio. A política do bom sócio nada mais é que a adaptação da política externa norte americana no momento em que esta nação acede ao topo econômico da economia mundial. la idea del desarrolismo y el Caribe: Los orígenes”. e sim são efeitos da historicidade que perpassam as formações históricas. Desse modo o que o trajeto destes ensaios evidenciam é como as políticas internacionais não são exercidas de forma aleatória. ajustando de forma a assegurar ainda mais a supremacia americana. “Identidades internacionales y cooperación regional en el Caribe”. 2007 . E também que não é simplesmente a modulação dos estratos interiores de uma sociedade por um fora./jul.

VIII.288 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . vol.

Núcleo de Estudos AfroBrasileiros. Ciências Sociais.br 289 jan. Co-fundador e primeiro diretor do Observatório do Caribe Colombiano. Corréio eletrônico:araujo.São Luis:SEIR/FAPEMA/EDUFMA. Goiânia. Tem publicado vários livros sobre o Caribe colombiano. Atualmente é decano da Faculdade de Ciencias Econômicas e Administrativas da Universidade Tecnológica de Bolívar en Cartagena de IndiasColombia. Goiânia: GEV. Recientemente duas compilações suas foram publicadas na Colombia: El Caribe en la nación colombiana e Un Caribe sin plantación. Relações Culturais Século XIX: Negros e Coolies em Trinidad (1845-1870).edu. Expeirências e Memórias. 2007. Correo electrônico: aabello@unitecnologica.com./jul. 2004. Universidade Federal do Maranhão.Os autores Doctor Alberto Abello Vives é economista. Dentre suas obras destacamos: Ritmos da identidade. Caribe. a revista Aguaita e a Cátedra do Caribe colombiano. dentre elas: “Memórias que curam” In Olga Cabrera.br Doutor Carlos Benedito Rodrigues da Silva Programa de PósGraduação de. 2002.com. Correio eletrônico: carlosbene@terra.co Doutor Alexandre Martins de Araújo Doutor pela UFG possui várias obras publicadas.Mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão. 2007 .alexandre@uol.

In sociedade e Cultura.Os autores Doutora Carolyn Cooper. intitulado A escrita de uma subjetividade sem sujeito em Aimé Césaire e Edouard Glissant. 2007. na revisão de textos de jovens autores. onde colabora como professora convidada da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. 2004. Correio eletrónico: Carolyn. Cristianismo em Goiás. Um balanço historiográfico. além de colaborar com a União dos Escritores Angolanos. Dentre alguns artigos: “Noises in the blood:Orality. “Enslaved in Stereotipes Race and representationin Post Independence Jamaica”. trabalhos na área social com 154 crianças 290 Revista Brasileira do Caribe. Durham: Duke University Press.edu.UCG. em março de 2007. 1993. na área de Literatura Comparada. também. na cadeira de Metodologia Científica. pela mesma instituição.com Kátia Frazão Costa Rodrigues é psicóloga clínica. Gender and the ‘Vulgar’ Body of Jamaican Popular Culture. Correio eletrônico: cristinadecassiapmoraes@hotmail. Mona. dentre suas principais publicações destacam: Livros: Sound clash. rpt 1994. rpt 2000.Noises in the Blood: Orality. 2006 e Religiosidade e Sociabilidade entre os confrades do Patriarca São Jose In Quadros Eduardo. mestre em Letras pela Universidade Federal Fluminense e doutoranda. Professora de Literary and Cultural Studies e Diretora do Institute of Caribbean Studies University of the West Indies. Jamaica. Reside em Luanda.jm Doutora Cristina de Cassia Pereira Moraes. rpt 2005. com pósgraduação em Psicoterapia e Psicologia Centrada na Pessoa. desde abril de 2007. MBA em Gestão de Recursos Humanos pela FGV-RJ. 1995. VIII.cooper@uwimona. Realiza. Ed. vol. Gender and the vulgar body of Jamaican Popular Culture”. Jamaican Dancehal Culture at large. New York: Palgrave MacMillan. Reconhecida pela sua trajetória. London: Macmillan Caribbean. Qualificou o seu projeto. 2003. Goiânia. n° 15 . Entre suas publicações mais recentes destacam-se “Deus e o diabo no sertão dos Guayazes Abusos e desmandos do vigário da Vara de Vilan.

passagens. Eurídice e PORTO.bhz@terra. 2007). paisagens na literatura canadense (EdUFF/ABECAN. Organizou as seguintes obras coletivas: Mulher e Literatura.com. É coordenadora do Núcleo de Estudos Canadenses da UFF. vagabundos e mendigos: desvios. Algumas publicações: “Lieux de la mémoire et de l’oubli dans des textes migrants” (In: ALMEIDA. 2007 . Organizou o número 12.Correio eletrônico: leovid.2006). EdUFF/ABECAN. 2000). possui várias publicações. estimulando o contato com a Literatura. 2007). 1997. pesquisa sobre a temática do reggae há vários anos. 2004) e Figurações da alteridade (em colaboração com a Profa Eurídice Figueiredo. Maria Bernadette. EdUFF/ ABECAN. Publicou artigos. Correio eletrônico: mbvporto@hotmail. In: The Beat Magaziine. ensaios em revistas especializadas . “Habitabilidade e cartografias do virtual no universo de Régine Robin” (In: HANCIAU. Brasil/Canadá: visões. Fronteiras. capítulos de livros. Los angeles. “Andarilhos. Faz parte de dois grupos de pesquisa do CNPq: Identidades em trânsito:estéticas transnacionais (coordenadora ao lado da Profa Vera Lúcia Soares da UFF) e Estudos do Caribe no Brasil (coordenado pela Profa Olga Cabrera). 2005). devires e lugares da alteridade” (In: FIGUEIREDO. UFMG.br Doutora Maria Bernadette Velloso Porto. no atendimento psicoterápico e em oficinas de leitura. Identidades em trânsito (EdUFF/ABECAN. perspectivas do Ártico ao Antártico”. Sandra Regina Goulart de. Textos apresentados no VIII Simpósio Nacional (em colaboração com Lucia Helena Vianna e Lívia Reis(1999)./jul.Os autores órfãs da guerra. Nubia. ABECAN/FURG. dentre elas destacam-se: “Bob Marley in Brazil”.com Leonardo Vidigal doutorando da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).com 291 jan. Correio eletrônico: mbvporto@hotmail. Perspectivas transnacionais. volume VI da Revista Brasileira do Caribe.

2002. Estudante da Pós Graduação da Universidade Federal de Maranhão. Dentre suas publicações destacam-se: “Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava”. Goiânia.143. In: III Simpósio Internacional Cultura e Identidades.383. 2007. 2007. Brasil e cuba nas representações de Glauber rocha” In: Caribe sintonias e dissonancias. Correio eletrônico: tnegrão@gmail.com.377 . Departamento de História e Geografia. . Goiânia: Universidade Católica de Goiás.141 . Correio eletrônico: marialemke@pop. Goiânia. Correio eletrônico: maristanerosa@terra. 2007.com Maristani de Sousa Rosa Universidade Estadual do Maranhão.2.22. v. “História e Cultura Africana e Afro-americana”.br Doutora Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo possui uma rica trajetória como professora da Universidade de Brasília. autora de “Santa Maria. 2003. Goiânia: UCG. Boletim Goiano de Geografia. “Quatro Tempos de Ideologia em Goiás”. In: História Revista. Goiânia: Ed. p.Maria Lemke Loiola . p.165 . Pinta e Nina: a redescoberta dos Caribes em espaços discursivos brasileiros” In: Cenários Caribenhos. é mestranda da pós-graduação em História pela UFG. .166. p. Centro de Estudos Superiores de Imperatriz.b 292 . E “Ritmos de Identidade: música. Brasília:Paralelo 15 e “Nas terras do sol. “Coração das trevas”.23. Dentre suas publicações: “Cultura jeje na diáspora: Maranhão e Jamaica”. 2004. Boletim Goiano de Geografia. CECAB. “O reggae na Jamaica Brasileira: interlocução jurídica com cidadania e política a partir de letras musicais” In: 25a Reunião Brasileira de Antropologia.com. territorialidade e corporalidade”. v. v. 2005.

inventários etc. bem como de três palavras-chave. EXTENSÃO DOS TEXTOS: a extensão dos artigos deverá ter entre 15 e 20 páginas. Uma citação dentro de 293 . com o mesmo tipo e tamanho da letra do texto. todas no formato acima especificado. NORMATIZAÇÃO: todos os textos deverão obedecer ao padrão normativo da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas . Entrevistas com personalidades de grande expressão na historiografia caribenha. parágrafo justificado. 6.5 cm. p. 2. que deverão ser colocadas logo abaixo dos resumos. em corpo 10 normal. a partir da letra a. que reproduzam documentos históricos importantes relacionados com o Caribe. CITAÇÕES: No corpo do texto. sem deslocamento da primeira linha. incluindo endereço. deverão ser diferenciados com uma letra após a data. Com mais de cinco linhas devem ser transcritas em parágrafo distinto. e a das resenhas entre 3 e 7 páginas. Resenhas Críticas. fonte Times New Roman em corpo nº 11. também no idioma original e em inglês e espanhol. Os artigos deverão ainda ser acompanhados de dois resumos. acompanhadas da indicação entre parêntesis do sobrenome do(s) autor(es). francês ou inglês. com recuo à esquerda e sem aspas. sobretudo e-mail para contato. 3. telefone/fax e. sendo neste caso uma cópia em disquete e outra impressa. o segundo idioma do resumo e das palavras-chave deverá ser o português e o espanhol. inéditos. via e-mail ou via correio convencional. e Instrumentos de Trabalho. ou que informem comentadamente sobre arquivos. que possam interessar aos pesquisadores caribenhos. que tratem de estudos relacionados com o Caribe. Já os dois resumos dos artigos deverão conter em torno de 10 (dez) linhas. IDIOMAS: A Revista Brasileira do Caribe publica colaborações em português. 4. data da publicação e página(s) citada(s). Exemplo: (CASTILLO. espaçamento entre linhas simples. TIPOS DE TRABALHOS PUBLICADOS: Artigos.Normas Editoriais para Publicação de Artigos 1. FORMA DE APRESENTAÇÃO: os trabalhos deverão ser encaminhados no formato Microsoft Word for Windows. espanhol. sendo um no idioma original e outro em inglês (abstract) ou espanhol. cujo conteúdo se relacione com a história do Caribe. referências e notas. margens de 2. sobretudo no que se refere às citações. 1940. devem vir transcritas entre aspas duplas. repertórios. 5. sobre obra bibliográfica publicada nos últimos dois anos. com menos de cinco linhas. bibliotecas. sendo que diferentes títulos de um mesmo autor no mesmo ano. versão 2000 ou 2003. 18-19). Deverão ser acompanhados de um breve currículo do autor. No caso do idioma original ser o inglês.para apresentação de trabalhos científicos.

Letra inicial do nome do Autor. Local: Editora. Letra inicial do nome do Autor. Título do periódico. serão apreciados pelo Conselho Editorial. UBIETA GOMEZ. página inicial-final do artigo. 1994. 7. BIBLIOGRAFIA: deve vir ao final do trabalho e contemplar as obras efetivamente citadas e referenciadas ao longo do texto e nas notas de rodapé. Local: Editora. Os demais tipos de textos. conforme os modelos abaixo: Livro: SOBRENOME. Reinterpretar el Caribe. (org. Modernidad razón e identidad en América Latina. ENDEREÇO PARA ENVIO DAS CONTRIBUIÇÕES: 294 . Título do artigo ou capítulo. Revista Mexicana del Caribe. ano. p. Santiago. Letra inicial do nome do organizador.outra é indicado por aspas simples. Estas citações abreviadas enviam à bibliografia no final do artigo. ARTIGO OU CAPÍTULO DE COLETÂNEA: SOBRENOME. N. ano e página como a anterior. O Conselho Editorial se reserva o direito de sugerir ao autor modificações de forma com o objetivo de adequar o texto às dimensões da revista e a seu padrão editorial e gráfico. F. número do fascículo. (org. p. usadas para a apresentação de comentários. J. Título do artigo.) Título da Coletânea. ano de publicação. 6-34. Letra incial do nome do Autor. ou ainda recomendá-la com modificações. número do volume. ARTIGO DE REVISTAS OU PERIÓDICOS: SOBRENOME. sucintas e claras. 9. Título do livro: sub-título. a quem cabe a decisão referente à oportunidade da publicação das contribuições recebidas. Exemplo: AINSA.) Identidad cultural latinoamericana. Reflejos y antinomias de la problematica de la identidad en el discurso narrativo latinoamericano. Chile: Editorial Andrés Bello. 1999. E. V. CRITÉRIOS DE REVISÃO: os artigos enviados à Revista Brasileira do Caribe serão remetidos a pelo menos dois pareceristas escolhidos entre os membros dos Conselhos Editorial e Consultivo que poderão recomendar ou não a publicação. N. página inicial-página final do artigo ou capítulo. explanações ou traduções que não caberiam no texto. 10. Exemplo: LARRAÍN IBÁÑEZ. 7. 53-72. a mesma deve vir com citação de autor./dec. Exemplo: GIRVAN. Local de publicação. data. Devem vir em corpo 8. 1996. bem como apresentar indicações completas. La Habana: Editorial Academia. jul. podem ser de esclarecimento ou explicativas. : SOBRENOME. NOTAS DE RODAPÉ: breves. Enfoques filosóficos literarios. 4. 8. em ordem crescente de numeração. que não os artigos.

3521-1457 Fax: 55-62-3292-1118 E-mail: ocabrera@fchf.001-970 Fone: 55-62.ufg.br 295 .Goiás CEP: 74.Revista Brasileira do Caribe Universidade Federal de Goiás Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia Campus II .sala 42 Goiânia .

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