Universidade Federal de Goiás - UFG Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB ISSN: 1518-6784

Revista Brasileira do Caribe
Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil

CECAB, Goiânia, vol. VIII, nº 15 - jul./dez., 2007

Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB
Diretora: Olga Cabrera Secretária: Leonardo de M. Rodrigues

Revista Brasileira do Caribe Editora Responsavel/Organizadora do Volume: Olga Cabrera
Indexada pela Library of Congress. Control number: 2004204431. www.catalog.loc.gov e pelo Directorio Latindex /UNAM/ México. www.latindex.unam.mx Conselho Editorial Olga Cabrera - Brígida M. Pastor - Danilo Rabelo Conselho Consultivo Juan J. Baldrich, Pedro L. San Miguel (Universidad de Río Piedras, Puerto Rico); Consuelo Naranjo (Consejo Superior de Investigaciones Científicas - CSIC-Madrid, Espanha); Ernest Pépin (Escritor, Guadaloupe); Olga Portuondo (Universidad de Santiago de Cuba, Cuba); Ileana Sanz (Universidad Habana, Cuba); Laura Muñoz (Instituto Mora, México); Maria Teresa Cortés Zavala, Universidad Michoacana de San Hidalgo, México); Miguel Suarez Bosa (Universidad de Las Palmas de Gran Canária, Espanha); Maria Therezinha F. Negrão de Melo, Eleonora Zicari, Jaime de Almeida (Universidade de Brasília, Brasil); Eugênio Rezende de Carvalho, Isabel Ibarra, Luis Sergio Duarte da Silva (Universidade Federal de Goiás, Brasil); Euridice Figuereido, Maria Bernadette Velloso Porto (Universidade Fluminense, R. de Janeiro, Brasil); Rohda Reddock, Susan Mains, Patsy Lewis (University of the West Indies,Jamaica); Rose Mary Allen (University of the Netherlands Antilles, Curaçao); Rawle Gibbons (Universisity of the West Indies, Trinidad), Diana Soto(Un. Bogotá Col.), Diana Lago e Alfonso Múnera (Un. Cartagena de Indias, Col.) Comissão Técnica (Projeto Gráfico/Editoração): Leonardo de Melo Rodrigues Capa: Adriana Mendonça Revista Brasileira do Caribe: Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil/Universidade Federal de Goiás, vol. VIII, nº 15, (jul./dez), Goiânia, Ed. CECAB, 2007. Semestral. Descrição baseada em: vol. VIII, nº 15 (jun./dez. 2007). ISSN:1518-6784 295 p. 1. Caribe - História - Periódicos.
CDU: 94 (1-928.9)

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* Os dados e conceitos emitidos nos artigos, bem como a exatidão das referências bibliográficas são de responsabilidade dos autores. ** Os artigos recebidos para publicação são apreciados por no mínimo 2 (dois) revisores, escolhidos preferencialmente entre os membros dos Conselhos Editorial e consultores externos especializados. Data de Circulação: Dezembro/2007 Copyright
©

Tiragem Bruta: 600 exemplares

2007, Centro de Estudos do Caribe no Brasil

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Sumário
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Carolyn Cooper ........................................................11 Os sons do Atlântico negro Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 O reggae na “Jamaica Brasileira” Cidadania e Política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa..........................................41 Enredando Brasil/Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrações de idéias, influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo..................85 Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto.................................109 A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à Antillanite Césaire e Glissant. Katia Frazão Costa Rodrigues...................................137

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Plantation Legal: Trinidad século XIX Alexandre Martins.....................................................165 O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes............................197 A morte branca do escravo negro: Considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola.................................................245 Estudios del Caribe en Colombia: Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives.................................................267 Gaztambide-Geigel, Antonio. Tan lejos de Dios... Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos Leonardo de Melo Rodrigues...................................284 Os autores........................................................................289

4

Summary
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica Carolyn Cooper..........................................................11 The sounds of the black Athlantic Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 Reggae in the Brazilian Jamaica: Citizenship and politics in the lirics of Songs Maristani de Sousa Rosa...........................................41 Interlacing Brazil and Jamaica: An international connection through filmography and popular music Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrations of ideas, influences or reactivations? Cinematographic production in Brazil and Cuba as desterritorialized experiences Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo................85 A voice from the haitian diaspora in the migrant‘s literature of Quebec Maria Bernadette Velloso Porto...............................109

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..........................................The construction of identity in francophone caribbean from negritude to antilleanness: Césaire e Glissant...197 The black slave´s with death: Some considerations on slavery in Brazil.... Far of God................................................ Leonardo de Melo Rodrigues.......................................................289 6 ....... Katia Frazão Costa Rodrigues...............137 Legal plantation: Trinidad nineteenth century Alexandre Martins Araújo..........267 Gaztambide Antonio............. Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola.........................284 About the authors... Essays about relation between Caribbean and United States...........................................................165 The slave trade in Brazil in the eighteenth century Cristina de Cassia Pereira Moraes..........245 Studies of the Caribbean in Colombia: Between diversity and adversity Alberto Abello Vives....

O primeiro grupo de artigos da revista relaciona Brasil e Jamaica mediante a samba no solo jamaicano e o reggae no brasileiro. é outro dos objetivos alcançados. Danilo Rabelo e desde o próximo número Orlinda Carrijo Melo.Editorial Olga Cabrera Diretora da Revista Brasileira do Caribe. A Revista Brasileira do Caribe alcança seu número 15 após algumas transformações que começaram no número 9. Olga Cabrera e inglês. Do ponto de vista formal a Revista tem uma artista responsável pelo seu projeto gráfico. a transcendência da Revista tem permitido o aumento de artigos de todo o mundo que chegam até a redação. será dedicado à Cuba. o número 17 ao Haiti e o 18 à literatura francófona. autorizando a submissão dos mesmos a uma avaliação mais rigorosa. ou em torno a um tema. O aumento do Conselho Consultivo da Revista tem dado um fluxo mais rápido à avaliação dos artigos para sua publicação. O próximo número. No que respeita ao conteúdo. Brígida Pastor) e da aplicação das normas de publicação aos artigos. possibilita pensar na conversão dos próximos números em dossiês dedicados especialmente a um país do Caribe. A reformulação do Conselho Editorial e de seu compromisso com a terminação bem sucedida da revista mediante uma revisão cuidadosa das línguas (português. A presença de um número muito mais expressivo de colaboradores no Conselho Consultivo e o acréscimo de artigos para ser avaliados. O presente número da Revista Brasileira do Caribe apresenta vários temas que podem ser agrupados no eixo das Conexões Afro-Atlânticas: Jamaica/Brasil/Caribe. Adriana Mendonça. 16. da destacada historiadora jamaicana Carolyn Cooper.zed/. Quatro artigos com diferentes abordagens estudam essas relaciones.luj . “Lick Samba: 7 7002 . e a arte utilizada nas capas das revistas são todas originais. Estas abrangem desde àquelas relacionadas ao conteúdo quanto às formais. espanhol. O primeiro deles.

Cidadania e política a partir de letras musicais” procura explicar mediante a música o processo identitário que transcende as fronteiras regionais e nacionais para conclamar objetivos sociais comuns dos negros da diáspora. vol. O artigo de Maria Terezinha Negrão de Melo “Migrações de idéias. no artigo “A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant”. Negrão de Melo. a samba jamaicana é. n° 15 . uma expressão das conexões AfroAtlânticas que enlaçam Brasil a Jamaica. O autor aborda o reggae e os vínculos inter-culturais entre Brasil e Jamaica mediante a utilização do cinema como fonte de análise. reclamados por Norbert Elias para compreender as mudanças na História. Katia Frazão de Costa Rodrigues. O segundo artigo do reconhecido estudioso do reggae em Brasil. e que deixam fora os sentimentos. por sua vez apresenta em uma perspectiva relacional 8 Revista Brasileira do Caribe. as emoções. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas” revela a transcendência e as conexões que decorrem do cinema de Glauber Rocha para a compreensão do espaço latino-americano. “Os Sons do Atlântico Negro” alerta das abordagens identitárias embasadas apenas nas análises sociais. O artigo de Leonardo Vidigal “Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular” se enlaça de maneira simultânea aos três artigos anteriores e ao seguinte de Maria Therezinha F. certamente. Carlos Benedito Rodrigues da Silva. Além do viés sexual utilizado nas interpretações sobre este tema. Ainda o terceiro artigo de Maristane de Sousa Rosa “O Reggae na “Jamaica brasileira. VIII.Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica” num jogo de palavras que transcendem as distorções sobre Kingston como a capital do crime para capital como “primeiro valor” que exemplifica com o estudo sobre a samba que se recria na Jamaica. na visão de um poeta da diáspora caribenha (haitiana) no Canadá. econômicas. A interpretação da desterritorialização no Caribe reaparece no excelente artigo de Maria Bernadette Velloso Porto “Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec”.

a resenha à obra de Antonio Gaztambide-Geigel. Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos A seção final da Revista Brasileira do Caribe oferece também os dados mais importantes sobre os autores que participaram neste número. A problemática e. o artigo de Alexandre Martins de Araújo “Plantation legal. a indefinida e nebulosa situação do Caribe colombiano não é diferente à de outros países do Caribe e o reclamo do autor para atentar contra as desigualdades sociais procedentes da racialização pode ser ampliado a toda Afro-América ou Caribe. sobretudo. Por último. Brasil. oferecendo um outro lado desse complexo mundo do Caribe./dez. Tan lejos de Dios. Entre la diversidad y la adversidad”. A revista contém outros dois artigos que relatam a experiência da escravidão no Goiás. Trinidad século XIX” aborda as experiências dos imigrantes indianos e dos negros em Trinidad. Por último. Os sete artigos se enlaçam a uma globalizada visão do Caribe nas suas múltiplas conexões e possibilidades de abordagens. por Leonardo de Melo Rodrigues. destaca a relevância deste último livro do reconhecido historiador porto-riquenho e coloca a importância para o Brasil do estudo dos especialistas da região. A presença de várias culturas africanas na formação social aparece refletida na pesquisa documentada de Cristina de Cássia Pereira de Moraes “O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII” e no artigo de Maria Lemke Loiolo “A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776)”.. Antonio. quer seja nas ilhas ou no continente. “Estudios del Caribe en Colombia. aborda o tema específico dos documentos de óbitos de negros tanto escravos como livres na região de Meya Ponte (Pirenópolis) Encerra a revista o artigo de Alberto Abello Vives. os dois destacados literatos de Martinica.. 2007 . também documental. O primeiro é um estudo sobre a escravidão em Goiás a partir da documentação dos arquivos e o segundo. 9 jul. GAZTAMBIDE-GEIGEL. no século XIX.os aportes teóricos na construção da idéia de antilhanité em Césaire e Glissant.

10 .

’ This is an article that is based. Goiânia. cidade de Kingston. Jamaica Resumo Este artigo embrionário teve sua origem em maio de 2000 no Simpósio “Sinergias Culturais e oportunidades de negócios entre Brasil e Jamaica. in conversations about samba from Jamaica to Brazil. Este é um artigo que tem como base. 11-20. Keywords: Samba. beyond investigation. mais que uma investigação. O caso da música e das publicações”. significando não somente o local geopolítico da cidade senão também algo coloquial do moderno sentido de “capital” significando “primeiro valor”.’ meaning ‘first rate. I intend a pun on ‘capital. vol. VIII.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital. Há um jogo de palavras sobre o conceito “capital”. 2007 . iniciadas na Jamaica e que agora se estendem ao solo brasileiro. realizado na capital. conversações sobre a samba. Spirit of the Crossroads) Carolyn Cooper Abstract This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing”. Brazil. Jamaica. *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 11 Revista Brasileira do Caribe.Lick Samba Cultural Synergies between Brazil and Jamaica (Dedicated to the memory of Lino de Almeida. Jamaica. held in the capital city of Kingston. n° 15.

realizado en la ciudad de Kinsgton. now re-branded as Jamaica Trade and Invest. Brasil.’ meaning ‘first rate.Carolyn Cooper Palavras. As a cultural critic specialising in Jamaican popular culture and literature. Jamaica. But I wish to make it absolutely clear that what I offer here is not a scholarly article – the product of prolonged research and analysis. initiated in Jamaica. Instead. it is an intervention in a conversation.’ Here. más allá de la investigación. This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing. often excluded from the itinerary of most visitors to Jamaica who fear its vile reputation as a ‘murder capital. I was invited to contribute to the deliberations. I intend a pun on ‘capital. Brasil. significando no sólo el local geopolítico de la ciudad sino también algo coloquial del moderno sentido de “capital” significando “primer valor”. Palabras Claves: Samba. Jamaica. deadly’ as in capital punishment. En este intento un juego de palabras sobre el concepto “capital”. 12 Revista Brasileira do Caribe. Jamaica Resumen Este embrionario artículo tuvo su génesis en mayo de 2000 en el Simposio “Sinergías Culturales y oportunidades de negocios entre Brasil y Jamaica. My intuitive reflections on that occasion have now been somewhat refined for presentation on this panel. n° 15 . The 2000 “Cultural Synergies” symposium was hosted by the Jamaica Promotions Corporation (JAMPRO). Jamaica.chave: Samba. yet another meaning of ‘capital’ resonates: ‘mortal. VIII.” held in the capital city of Kingston. Este es un artículo que tiene como base. El caso de la música y de las publicaciones”. vol.’ Kingston is a much under-rated city. conversaciones iniciadas en Jamaica y que ahora se extienden al suelo brasileño.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital.

lick samba Oh yeah I could not resist. lick samba If it’s morning time. de 2007 . nevertheless.” The singer is ready for action. “lick samba. oh darling. the man surrenders to the painful pleasures of love. morning.” Unable to resist the woman’s power. Oh darling I’m not a preacher./dez. lick samba Ah say. lick Samba1 Though somewhat enigmatically expressed. oh nah And though I know you hurt me again I’ll go on. lick samba Oh oh. oh darling Ah just a lick samba. noon or night Ah just a lick samba.’ In slang usage in English. it means 13 jul. lick samba. I’m ready And if it’s late at night I’m steady Give it to you anytime. lick samba. baby You can write it down in my name Morning time. ah lick i one time. apparent: “And it’s not that I am meek/ But it’s that I’m on a peak. lick samba. Bob Marley’s invocation to “lick samba. lick samba Ah bring it up. lick samba An mi seh. I’ll feel the pain And it’s not that I am meek But it’s that I’m on a peak. oh nah Another like this.” The primary meaning of ‘lick’ in English is to ‘tongue.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica that now continues on Brazilian soil. however “little.” which I use to frame my remarks here. which are heightened by the seductive refrain. the sexual allusions are. noon and night. right here I’ll settle the little I claim. But there are claims to be settled. lick samba. is the pulsating refrain of a song which appears to emblematize samba in primarily sexual terms: Lick samba. ooh. but I am calling Ooh.

I hit/lick it once. The line “Ah bring it up.” sung as a duet. When it hits you feel no pain Wo wo I say One good thing about music. The generic ‘it’ that is licked/hit may be read as the objectified female body.’ conjoined to ‘lick. ah lick i one time. sound and power. But the double English/Jamaican meanings appear to converge in this song. “Another like this”. Gilberto takes the lead. The entire song becomes an amusing mating ritual.” This is the primary sense in which the word is used in Jamaican. especially by those disposed to see misogyny at every turn in Jamaican popular music. heightened by percussive guitar beats: “ooh! hah! aiya! woyio!” After the opening refrain.2 The song opens with titillating exclamations. Marcia Griffiths and Judy Mowatt) on the Kaya N’Gan Daya CD. instead. right here. Widened beyond the immediate sexual context. right here] ambiguously suggests the pleasurable hit of vigorous – not violent – oral/sexual contact. explicitly evokes playful sexual seduction. “Lick Samba. But I would argue. n° 15 . In the song “Trench Town Rock. the version of “Lick Samba” that is recorded by Gilbert Gil and Rita Marley (and the other I-Three. that here this ‘it.’ is essentially a euphoric expression of a natural high. thrash. connoting the call and response structure of African oral discourse.” Bob Marley deploys the trope of music as a ‘hit’ in precisely this way. vol. This ameliorative meaning of “lick” that I attempt to recuperate here encodes the complexity of male/female relationships that are not always open to transparent. oh. singular interpretation. Not just the conventional chart ‘hit’ but also the physical impact of megawattage sound systems licking the body: One good thing about music. “I could not resist. as well.Carolyn Cooper as well “to beat.” to which Rita replies. the percussive beats of global African music. Indeed. VIII. When it hits you feel no pain 14 Revista Brasileira do Caribe. The explosive hit/lick becomes a celebration of the potency of music as word.” [I bring it up. the refrain ‘lick samba’ evokes.

a Kingston 12 groove. African diasporic music is not only globalised but it becomes an iconic manifestation of national identity. Hermano Vianna’s book The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. working-class. ska ba dip You waan come cold I up I’m a groover an the world know it by now3 Like reggae.” sponsored by the Duke-University of North Carolina joint program in Latin American Studies.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Hit me with music Hit me with music now This is Trench Town rock Don’t watch that Trench Town Rock Big fish or sprat You reap what you sow Trench Town Rock And only Jah Jah know Trench Town I’ll never turn my back Groovin it’s Kingston 12 Groovin It’s Kingston 12 No waan yu come galang so No waan yu fi galang so Ska ba dip. The book was simultaneously published in 1998 by the Press University of the West Indies and the University of North Carolina Press in the series “Latin America in Translation/ en Traduccion/ em Traducao. Reggae is “Trench Town rock”. samba is the music of Rio de Janeiro. In his author’s preface to the US edition. But in both instances. this localised. incorporating cultural meanings far beyond the intentions of its progenitors. Similarly./dez. exemplifying the cultural synergies between Brazil and Jamaica in the field of book publishing. At that JAMPRO seminar. was a featured text. Vianna declares that he valorises “the intellectual trajectory of anthropologist Gilberto 15 jul. samba is a popular music whose origins are decidedly urban and down market. de 2007 .

but to France. Given the scale of geographical difference between Jamaica and Brazil. the United States. Nevertheless. vol. spanning geographical and social distances. Marley’s long-time friend and producer of the song “Lick Samba. trans/national cultural flows are an essential element of the formation and reproduction of the music. VIII.” disclosed that it was his own involvement with football in Brazil that sparked Bob Marley’s experimentation with samba.” Miss Lou. it might appear hubristic to even attempt to delineate cultural synergies between the two. Various kinds of cultural mediation. but that does not matter. not Rio de Janeiro. and the rest of the Atlantic world as well. That football connection is a whole other story of cultural synergies. n° 15 . legendary Jamaican footballer Allan ‘Skill’ Cole. a self-aggrandizing character she creates. as with athletics and football.Carolyn Cooper Freyre” as a “narrative and interpretive thread” for the book.4 For reggae. gives an amusing rendering of the Jamaican psychology of ‘largeness’ in her poem “Independance. In private conversation with me. who loudly proclaims the benefits of the nation’s newly acquired state of independence. Would Jamaica have made it to the World Cup without the technical input of the celebrated Professor Rene Simoes? Hardly likely. He elaborates the rationale: Freyre’s home was the Brazilian northeast. This book is about movement. about back-and-forth flows of influence that connected Rio not only to Pernambuco. the globalisation of reggae suggests that. speaks through the mouth of Miss Mattie. Jamaica’s international reach greatly exceeds our geographical size. become crucial to the ‘nationalization’ of samba. affectionately known as Miss Lou. as for samba. Jamaican cultural icon Louise Bennett-Coverley. the ventriloquist. Freyre was one the mediators. Flag independence confirms an enlargened conception of both her own person and the landmass of the former colony: Jamaican She hope dem caution worl-map 16 Revista Brasileira do Caribe.

Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica

Fi stop draw Jamaica small, For de lickle speck cyaan show We independantness at all! Moresomever we must tell map dat We don’t like we position Please kindly teck we out a sea An draw we in de ocean.5 English She hopes they’ve warned the mapmakers To stop representing Jamaica as tiny, For the little speck can’t show Our independence at all! Moreover we must tell the mapmakers That we don’t like our position – They must please take us out of the sea And put us in the ocean.6

Jamaicans do, indeed, have an oceanic consciousness. The landmass of the island (and ‘mass’ is a gross exaggeration in comparison to the expansive landscape of Brazil) does not contain us. Though seemingly bound on all sides by the sea, we are not insular. Psychologically free, many Jamaicans claim a much wider sphere of influence than the circumference of a small island, especially when the diaspora is taken into account – all those Jamaicans, with so many passports (legal and illegal), scattered across the globe. We constitute a formidable, transnational, constantly mobile nation-state. There is, obviously, another quite literal sense in which the Jamaican people are continental, like the Brazilians. The majority of Jamaicans are of African origin and we retain ancestral memories of a vast continent of mythic proportions. It is Rastafari who have most articulately propagated the philosophy of repatriation of the mind. Many Africans in the diaspora – in Brazil as in Jamaica – choose to keep genetic memory alive. In our language, music,

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Carolyn Cooper

food culture, religion we memorialize the past. And we keep our ancestors alive and available to dream us into waking consciousness; in the present. Africa is not the distant past; it is contemporary culture. But, like Jamaica, with our optimistic national motto, “out of many, one people”, Brazil privileges a model of multi-racial harmony that to outsiders often appears to repress the powerful African presence in this complex society. Brazil is home to the largest number of people of African origin outside the continent of Africa. John Chasteen, translator of Hermano Vianna’s The Mystery of Samba, defines the issue of racial identity in Brazil in this diplomatic way:
Scorn for the official platitudes about Brazilian ‘racial democracy’ has animated a number of recent U.S. multiculturalist views. They emphasize that, when racial and cultural mixing becomes a nationalist ideology, other racial identities (especially indigenous and African ones) remain marginalized and may be snuffed out altogether. In Brazil, the multiculturalist critique has circulated only in narrow intellectual circles and seems unlikely, for now, to diminish the popular appeal of mixed-race (mestico) nationalism. After all, it was not so long ago – in the 1930s – that mestico nationalism overthrew and replaced the official doctrines of white supremacy. Nor is white supremacy gone from Brazil, except officially. Therefore, the basic nationalist message – ‘It’s okay not to be white and European’ – retains its value in many people’s lives. The mestico category is so loose as to exclude almost nobody who seeks an ‘authentic Brazilian’ identity.7

A much less diplomatic reading of ‘authentic Brazilian identity’ recognizes that it is not only in ‘narrow intellectual circles’ that the critique of ‘mestico’ identity circulates. There is a popular Black nationalist movement alive and growing in Brazil. And this present African political struggle can be related to the long history of resistance to enslavement, both literal and mental – to cite Bob Marley and before him Marcus Garvey who truly exemplifies the

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Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica

continental consciousness of African Jamaicans: “Emancipate yourselves from mental slavery/ None but ourselves can free our mind.”8 Like Jamaica, Brazil has a long history of maroonage: an intractable refusal to be enslaved on the plantation. And we must remember that Brazil is directly responsible for the development of the sugar plantation economy in the Caribbean. It was the expulsion of the Sephardic Jews from Brazil in the seventeenth century that forced them to seek refuge first in Suriname, then Barbados where they developed the sugar industry, which then spread to other islands and precipitated the enforced migration of Africans to work on the plantations in the Caribbean. Movement of Jah people. In The Mystery of Samba, Hermano Vianna asks a provocative question: “How and why did Brazilian ‘authenticity’ become essentially ‘Afro-Brazilian’?”9 The answer he provides is equally provocative, especially for us in Jamaica where the elite continue to disparage forms of popular culture (like dancehall) that have their origins in the consciousness of the masses – or, as we prefer the ‘massive’ with its connotations of power, not just faceless anonymity. It is these very despised cultural forms, like contemporary dancehall culture, that have come to be identified globally as the quintessential markers of Jamaican identity. Vianna argues that “[t]he invention of Brazil’s national essence, at least in the version symbolized by samba, turns on the importance of popular culture.”10 He foregrounds the distinction between ‘pop’ culture and ‘popular’ culture: ‘Samba, despite its long and intense association with the Brazilian mass media, is never thought to have originated (or even to belong) there. Pop culture has been viewed, to the contrary, as a corrupting, alienating influence: the worst enemy of “authentic” popular culture.”11 Just as Jamaicans have been hit by samba and feel no pain, Brazilians have been hit by reggae. I must honour Jimmy Cliff for the role he has played in the globalisation of reggae music, particularly in Brazil. I must also celebrate the work of Lino de Almeida, now numbered among our ancestors, who was so instrumental in

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establishing the musical connection between Jamaica and Brazil. It is my vision that we, at the University of the West Indies, can initiate with our colleagues in Brazil a multi-disciplinary, multi-sectoral research project focusing on intellectual property and related cultural productions – with practical industry applications – that will indeed strengthen strategic partnerships between Jamaica and Brazil.

Notas
1

Bob Marley, “Lick Samba,” Track 2, Disc 2, Songs of Freedom, Compilation, Tuff Gong/Island Records, LC0407, 1992.

2

Bob Marley and the Wailers, “Trench Town Rock,” Track 4, African Herbsman, Disc 1,Trojan Records, ASIN:B0000011DQ, 1973.

Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xvii.
3

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
4

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
5 6

John Charles Chasteen, “Translator’s Preface,” in Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xiv-xv.

Bob Marley, “Redemption Song,” Track 10, Uprising, Island Records, ILPS 9596, 1980 8 Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil, xvii.
7 9

Ibid.

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Os Sons do Atlântico Negro
Carlos Benedito Rodrigues da Silva Abstract
Reggae was born in Jamaica in the mid sixties as a result of a musical and rhythmic evolution from the Black-African traditions to the rock-steady rhythm and blues, in addition to the notable influences of Rastafarianism. In São Luis de Maranhão, considered the “Portal of Amazônia”, including the States of Pará and Maranhão, there was always a musical predominance of Caribbean Rhythms, such as merengue, carimbó, bolero, among others, in the popular festivities. This study attempts to formulate some of the hypothesis that explains the phenomenon of the incorporation of reggae into São Luis´s culture. Keywords: Popular culture, Reggae, São Luis de Maranhão (Brazil)

Resumo
O artigo analisa a apropriação e a ressignificação do reggae jamaicano entre as camadas populares da cidade de São Luís, Maranhão, como forma identitária e de resistência à marginalização social a que estão submetidas desde o passado de escravidão. Busca-se também traçar as origens do reggae na Jamaica, bem como explicar as condições para a popularização do reggae no Maranhão, bem como os embates ideológicos com as elites locais que estigmatizam o reggae em nome da ‘tradição’ e da preservação de seus privilégios sociais, econômicos e políticos. Palavras-Chave: Cultura Popular – Reggae – São Luis de Maranhão (Brasil)

Resumen
El reggae nació en Jamaica, a mediados de los años 60 del siglo XX, como consecuencia de una evolución rítmica y musical, desde las tradiciones negroafricanas, pasando por el rock-steady, rhythm and blues, además de las influencias

*Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 21-39, 2007

passando pelo mento. Desde o seu início. que se tornaram profetas. desde as tradições negro-africanas. os rastas acreditam que Ras Tafari é o “Deus Vivo” e que a salvação do homem negro passa pelo retorno à África. críticos sociais ou líderes espirituais. sempre hubo un predominio musical de ritmos caribeños. impulsionado pelas pregações. adeptos do rastafarianismo. além das influências marcantes do rastafarianismo. atribuindo-lhe uma característica de movimento messiânico. por isso tornou-se um amplo movimento popular na Jamaica. como merengue. O rastafarianismo se tornou. En São Luis de Maranhão. VIII. bolero. entre otros. refletindo uma identidade cultural de oprimidos que adotavam o reggae como o símbolo da expressão de suas angústias. um dos principais articuladores do PanAfricanismo. por meio de compositores e cantores. 22 Revista Brasileira do Caribe. entre outros. n° 15 . em las fiestas populares. o rastafarianismo constituiu-se numa alternativa de construção da nacionalidade para milhares de jovens jamaicanos. Reggae. El presente artículo intenta formular algunas hipótesis explicativas sobre el fenómeno de la incorporación del reggae a la cultura de San Luis. culturais e políticas da Jamaica. San Luis de Marañón (Brasil) O reggae surgiu na Jamaica. portanto. pelo rock-steady. rhythm and blues. como conseqüência de uma evolução rítmica e musical. vol. Embora não professem um credo monolítico. em meados dos anos sessenta. que envuelve los Estados del Pará y Maranhão. e ao longo dos anos setenta do século XX. nos idos de 1950. Palabras Claves: Cultura Popular.Carlos Benedito Rodrigues da Silva marcantes del rastafarianismo. especialmente a partir da industrialização da Jamaica. que viviam no desemprego e na marginalidade. o reggae concentrou todas as expressões sociais. considerada el “Portal de la Amazônia”. um dos elementos fundamentais das mensagens político-filosóficas do reggae. carimbó. Inspirado em interpretações bíblicas. de Marcus Garvey.

definiu-a como “uma coisa que vem do povo dos guetos”. Juntamente com a banda The Wailers. as mesmas bases culturais que impulsionaram o surgimento do reggae na Jamaica tenham contribuído para a explosão do ritmo jamaicano entre as populações negras e pobres das favelas e palafitas de São Luís do Maranhão. em 1967. Essa palavra apareceu pela primeira vez em um disco do grupo Toots and Maytals. 23 jul. Os ecos do grito jamaicano ressoam no Maranhão É possível que. como Jimmy Cliff e Peter Tosh. uma expressão para designar pessoas simples. coisa que se usa como comida. Bob Marley foi o responsável pela explosão do reggae para além das fronteiras jamaicanas. presentes na Jamaica. em meados dos anos setenta. de beber sua essência na fonte básica que o originou. a expressão teria se derivado de “streggae”. Alguns a consideram originária das misturas de línguas afrocaribenha e inglesa.Os sons do Atlântico negro Não existe um significado específico para a palavra reggae. saindo em busca de novos ritmos. de 2007 . isto é. Sem deixar. como algo que identifica o povo sofrido dos guetos. serviu para abrir as portas para vários cantores e compositores jamaicanos. A expressão máxima do reggae jamaicano no mundo está em Robert Nesta Marley./dez. Talvez por isso. o sucesso internacional dos Wailers. originando novas tendências e conquistando novos espaços. resguardando as devidas proporções. O próprio Toots Hibbert. porém não se tem nenhuma conclusão definitiva sobre essa ligação. Secundado por nomes não menos famosos hoje. sofridas e que não tem o que querem. que começaram a excursionar e editar seus discos fora do país. porém. donominado “Do The Reggay”. Toots tenha definido o reggae. ou “desigualdade”. o reggae está em permanente evolução. Com um acentuado caráter de contestação política. os guetos do Terceiro Mundo. palavra caribenha usada para designar prostituta. significando “raiva”. marcando uma revolução na música negra em todo o mundo. vocalista do grupo.

Moradores de áreas rurais do Maranhão. ou seja. que envolve os Estados do Pará e Maranhão. acabam florescendo em situações específicas na diáspora. entre outros. algumas inclusive. bolero. atribuem ainda o gosto pelo reggae a uma possível identificação étnico-racial entre jamaicanos e maranhenses. Isto revela que raízes culturais africanas teriam sido transplantadas para as duas regiões pelo processo de escravização e permanecido ali com algumas ressignifições3. considerada o “Portal da Amazônia”. n° 15 . que por isso. Na verdade. VIII. sendo que a maioria delas apresentam certo grau de veracidade. tanto na Jamaica como em São Luís existe uma população predominantemente negra com algumas características culturais semelhantes. herdadas dos africanos escravizados. Embora permaneçam “invisíveis” por muito tempo. afirmam que sintonizam emissoras do Caribe em algumas horas da madrugada e. transportados para regiões diversificadas das Américas e do Caribe. que são também tocados nas festas dos povoados negros do interior do Estado. essa identificação. carimbó. várias explicações são apresentadas para justificar essa forte identificação. O reconhecimento de uma batida semelhante entre o reggae e o bumba é o que permite a circulação dos regueiros entre os salões de reggae 24 Revista Brasileira do Caribe. acionadas pela memória coletiva a partir de estímulos diversos. sempre houve uma predominância musical de ritmos caribenhos. Uma aproximação cultural pode ser encontrada ainda. é resultante das raízes culturais africanas. de caráter geográfico. chamadas de “sotaque”. vol. Nessa região. através do Atlântico Negro. como o comunicador Ademar Danilo2.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Embora seja difícil precisar exatamente quais os caminhos percorridos pelo reggae até cair no gosto da população maranhense. têm uma familiaridade com os ritmos. especialmente da chamada Baixada Maranhense. como merengue. nas variações rítmicas do bumba–meu-boi. ainda que aparentemente inconsciente e imprecisa de se definir. nas festas populares1. Algumas pessoas.

incitando o imaginário popular a respeito da inserção do reggae no espaço maranhense. ele se assemelha ao peso da pancada do reggae.Os sons do Atlântico negro e os terreiros de apresentação das “brincadeiras” da cultura regional no período junino. agora a gente pode até ver com outros olhos. Várias vozes e narrativas tecem os discursos. o primeiro disco de reggae que escutei foi na zona. isso superou a barreira do preconceito pra depois entrar no mercado. A partir que se torna mercadoria.) os marinheiros infestavam a zona. geralmente eles pagavam as prostitutas com discos. Insistindo no relato de alguns depoimentos.4 A gente sente o peso da trupiada do boi. músico e atual secretário estadual de cultura do Maranhão.. como afirma Humberto. mas a origem foi de participação. foi essa pancada semelhante. Foi isso que chamou a atenção. Agora vemos o reggae conseguindo uma grande identificação na cidade. podemos salientar as declarações de Joãozinho Ribeiro. Inclusive.. de 2007 . A caminhada do reggae foi popular. Hoje. o reggae se tornou um instrumento de exploração do próprio negro. cantador do bumbameu boi do Maracanã. mas escutei lá. Não sei a origem. mas isso é a maneira como o reggae está sendo manipulado e 25 jul. foi suburbana./dez. entre as décadas de 60 e 70 e depois fomos vendo o reggae se expandindo nas festas da periferia e a periferia sendo muito mal tratada. o reggae teve que superar muitos preconceitos para ser aceito como uma das maiores manifestações dentro da cultura maranhense. Morei mais da metade da minha vida na zona do baixo meretrício e ali era comum esses navios que vinham das Guianas (. aí quebra os preconceitos. não é outra coisa não. foi isso que chamou a atenção do pessoal. infelizmente. Segundo ele. Era comum eles aportarem todo mês. que veio de baixo.

com prostitutas. que povoam os guetos e palafitas da Jamaica ao Maranhão e. qual seja. está relacionada “ao povo sofrido dos guetos. com sua forma de dançar agarradinho reflete determinada sensualidade inscrita culturalmente em corpos. entre outras coisas. O ritmo do reggae em São Luís. em cujos bares e cabarés ouve-se diariamente o ritmo jamaicano entremeado de boleros e merengues. que se faça alguns cruzamentos com a definição atribuída ao cantor Toot Hiberts. VIII. branca e cristã. pode ser relacionada com a moral burguesa. que sofrem e que não tem o que querem” Entre outras coisas. em certo sentido. manifestando-se no lazer e no trabalho. visto que no reggae o corpo é concebido. como uma atitude de rebeldia. pessoas simples.Carlos Benedito Rodrigues da Silva assimilado por poucas pessoas que estão ganhando muito dinheiro. n° 15 . fundamentalmente. assentada em uma semântica pejorativa. Podemos ainda salientar que a construção do reggae. para quem a expressão reggae. o que nos remete a situações semelhantes atribuídas ao reggae desde as suas origens na Jamaica. ainda. despossuídos. “mulheres vulgares” que sofrem a violência diária de comercializarem o corpo por não ter o que querem. A zona do baixo meretrício é uma região localizada no Centro Histórico de São Luis. nem o que precisam para assegurar respeito e dignidade numa sociedade de opressão. é possível identificar neste ponto uma das vias fortes de discriminação contra o reggae em São Luís. Curiosamente. vol. denunciando a exclusão que a escravidão impõe e os processos da modernidade sustentam. a sua identificação como uma música de negros marginalizados. pela sensualidade que enseja. Joãozinho Ribeiro revela que um dos caminhos de divulgação do reggae em São Luís foi pela zona do baixo meretrício possibilitando. de vigilância e punição às exibições do corpo como instrumento do prazer. Conforme MartinBarbero (1997:240) 26 Revista Brasileira do Caribe.

como para nos dar pistas sobre as possibilidades de existência de raízes culturais semelhantes envolvendo povos das duas regiões. como é o caso do reggae jamaicano em São Luís. que o adotou como uma das mais importantes opções de lazer. Por sua vez. possibilita visibilidade. concentrando-se com algumas características marcantes. são contribuições importantes. e sim de descobrir que a indecência do gesto negro não vem somente de sua atrevida relação com o sexo. duvidosas ou legítimas. envolvidos num ritmo frenético. embora também ‘carregada’ oniricamente. principalmente nos locais habitados pela população negra de baixa renda da periferia. onde o reggae é um dos atrativos para os boêmios freqüentadores das casas e bares da região. o reggae se instalou na ilha e se espalhou por alguns outros municípios do estado. E é a dialética dessa dupla indecência o que vai de fato escandalizar a ‘sociedade’ (. todos os caminhos. de sua evocação do processo de trabalho no próprio coração da dança: no ritmo. Essas afirmações. 27 jul. Produzido originalmente em um idioma diferente. É uma embriaguez sem álcool.. o negro enfrenta o trabalho extenuante e. criando uma nova linguagem como canal de comunicação e identificação.. E não se trata de reduzir o sentido da dança ao do trabalho. a princípio. reforça os elementos de manutenção das desigualdades.Os sons do Atlântico negro Através de uma cadência quase hipnótica. não é suficiente para atribuir-lhe qualificação social. O consumo da cultura do negro como espetáculo midiático. de 2007 . o cansaço e o esforço doem menos. Se por um lado. são legítimos. tanto para mostrar que um dos fatores de aceitação do reggae pela população da ilha de São Luís foi a sua relação com os ritmos caribenhos. a existência de várias versões explicativas indica que é muito difícil precisar qual o caminho de introdução de determinados elementos culturais em um novo contexto. ao mesmo tempo. precipitadas./dez. Logo. mas também.). inclusive a zona do baixo meretrício.

constata-se a exigência. Os próprios Dj’s. já apresentam as músicas com o nome da melô conhecida. Ainda que alguns preconceitos sejam quebrados. VIII. contratados especialmente para os eventos. como pelos grupos de segurança.5 Contrariando os movimentos midiáticos. o reggae ainda não é aceito por esses grupos como um símbolo da cultura maranhense. dinamizadora dos eventos. pois isso remeteria São Luís a uma Jamaica negra e pobre.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Nessas áreas. que concebem os eventos apenas como fonte de lucro. cujos descendentes. De elemento identificador de negros marginalizados. paradoxalmente. de uma vigilância acirrada sobre os regueiros. pelos organizadores. possibilitando ganhos econômicos e prestígio para quem o manipula. distanciando-se cada vez mais do título de Atenas Brasileira. permanece no plano social a relação direta reggae/marginalidade. sem revelar nenhuma outra preocupação de caráter sócio-coletivo que possa beneficiar a chamada “massa regueira”. mesmo que o ritmo esteja inserido em jingles e propagandas comerciais veiculados nas emissoras de TV. é possível encontrar diariamente crianças dançando reggae nas ruas ao som dos programas de rádio. o reggae que não trilha por esse mesmo caminho. de sangue ou de orientação 28 Revista Brasileira do Caribe. adquiriu uma posição destacada no contexto das programações culturais de São Luís. No universo regueiro de São Luís não se toca reggae nacional e na falta de entendimento das letras. ele passa a ter uma aceitação como mercadoria de consumo. as músicas são apelidadas de melô. Um fator a ser ressaltado é que a exploração do reggae a que se refere o compositor Joãozinho Ribeiro se dá não tanto pelas elites. vol. mas principalmente pelos proprietários de clubes e radiolas. No próprio espaço das festas. Mesmo que tenha se expandido atualmente para outros setores considerados “mais higienizados” da cidade. ostentado com tanto orgulho pelos intelectuais maranhenses desde o século XIX. que “aquecem” ou “esfriam” determinados ritmos de acordo com os interesses das gravadoras. n° 15 . habitantes da periferia e prostitutas do “baixo meretrício”. tanto por parte da polícia.

pois o sonho de europeização precisa ser construído sob a concepção dominante de desqualificação da herança cultural africana. a identificação de São Luís com a Jamaica hoje. especialmente para aqueles que assimilaram a ideologia de europeização. São essas raízes que desafiam as imposições das “elites atenienses” de São Luís e trazem o reggae como uma força dinamizadora de identidades que. apesar de ainda não serem suficientes para transformar a cidade em uma nova Jamaica. de 2007 ./dez. a presença do negro era vista como sinônimo de atraso. de animalidade. contribuem para o estabelecimento de novos referenciais de identificação para segmentos populacionais que. que teima em permanecer com fortes raízes no cotidiano religioso. deixam transparecer uma atitude de repúdio à assimilação do reggae por amplos segmentos da população maranhense e. quando o trabalho escravo foi substituído pelo assalariado. reivindica-se o título. menos africano. de Atenas Brasileira. significa para alguns. Se nos períodos imediatamente após a abolição da escravatura. a importância da presença da população negra. “o belo e edificante epíteto” de 29 jul.Os sons do Atlântico negro ideológica branca. O reggae é um dos elementos desse processo e ganha força na concepção popular. Deste modo. construída na sociedade brasileira após a abolição da escravatura. do trabalho e do lazer de amplos segmentos da população maranhense. ou menos jamaicano. A presença do reggae estaria provocando uma atrocidade na cultura maranhense. constroem seus próprios caminhos a partir das pluralizações culturais que vivenciam. “mais nobre”. como uma maneira de reforçar o desejo de ser menos negro em sua cultura. Portanto. e o ex-escravo era definido como incapacitado para o desenvolvimento econômico e cultural da nação. assim. à denominação Jamaica Brasileira atribuída a São Luís pelos DJ’s. desconhecendo uma ou outra realidade. em grande parte responsável pela construção da sociedade brasileira. principalmente. remetê-la a um passado de inferioridade e distanciamento em relação à europeização pretendida e nega.

Além do comércio de fitas. a gente não sabia separar o que era reggae. predominantes na região. pois possibilitou que o ritmo alcançasse espaços cada vez mais distantes. muitos desses discos já estavam fora de catálogo na própria Jamaica. porque as próprias emissoras não tinham os discos de reggae. quando se deu a grande projeção do reggae na ilha. Durante muitos anos. tanto entre os diversos segmentos da população da capital. A divulgação se fez com a promoção de festas e programas de rádio. VIII. As pessoas gostavam porque era música lenta. o que era música lenta. (Riba Macedo. Embora a predominância seja dançar aos pares. a não ser para a satisfação de determinados segmentos sociais que se outorgam guardiões das tradições como retrato de um passado escravista. embora mantidos pelas emissoras. Na época. A gente dançava sem fazer definição. vol. A dança adquiriu essa característica misturando passos do forró e do merengue. Uma das diferenças marcantes em relação à Jamaica é que o reggae em São Luís é dançado aos pares. eram feitos com material exclusivo dos DJs. este sim atroz. pois violentador da dignidade humana. pois desde meados dos anos oitenta. com grupos de três ou cinco pessoas exibindo passos coordenados. como nos municípios e povoados rurais do interior do estado. a programação de rádio teve um papel muito importante nesse processo. Há também as coreografias coletivas.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Atenas Brasileira já não faz sentido. a propagação do reggae em São Luís esteve ligada muito mais a um comércio alternativo de gravação de fitas e ao aluguel de radiolas do que à industria cultural. algumas pessoas preferem dançar sozinhas próximas às caixas de som. n° 15 . chegando a São Luís como raridades. As fitas eram gravadas de discos importados da Jamaica que somente alguns discotecários tinham acesso. Os programas. 30 Revista Brasileira do Caribe. discotecário: julho/98).

bolero etc. nas regiões Norte e Nordeste os ritmos predominantes eram: forró. que preferencialmente se dança solto. esse ritmo era identificado como “discoteca lenta”. que agradava ao público.) (Chico Pinheiro. Depois chegou às lojas um LP de Johnny Nash. ou “agarradinho” que é uma expressão nordestina para as danças de salão.Os sons do Atlântico negro A dinamização do ritmo jamaicano no Maranhão coincide com a explosão dos hits da “Discoteque” na região Sudeste do País. ‘ô que balanço bonito é o do Jimmy Clyff’.. (.. A música internacional que se dançava aqui era o merengue. As músicas de Jimmy Cliff eram muito solicitadas nas festas porque tinham um balanço diferente. “balanço”. ou “Jimi Clife”. Evaldo Braga. Altemar Dutra./dez. Enquanto nas regiões Sul e Sudeste a preferência musical para as festas da juventude recaía sobre os ritmos mais acelerados. então chamava Jimi Clife e tal (. com exceção do merengue que vinha da Guiana e era aceito porque se assemelhava aos passos do forró nordestino. A música estrangeira não tinha muita penetração. Carlos Alexandre. Era aquele estilo que a gente dançava. Tanto que os primeiros sons de reggae em São Luís foram pela música de Jimmy Clyff. a discoteca ou o funk. maestro: 1998).) antes de se conhecer a palavra reggae aqui. de 2007 . merengue. porque na época tinham os cantores brasileiros.. O rei do merengue aqui era considerado Luiz Calaf. Seus discos estavam chegando ao Brasil no embalo desse novo som e já podiam ser comprados nas lojas locais. baião. as pessoas chamavam balanço. ritmos que se dançam aos pares.. ‘I Can See 31 jul. A gente gostava muito de Lindomar Castilho. mas o merengue também estava no auge. Muitas pessoas afirmam que antes de se conhecer a palavra reggae no Maranhão. como o rock..

Carlos Benedito Rodrigues da Silva Clearly Now’. contendo várias caixas de som formando paredões nos clubes. ‘You Can Get It If You Really Want’ e ‘I Love I Need’. elas já existiam anteriormente. regravado no Brasil em l971. As radiolas maranhenses não nasceram com o reggae. em festejos de santo na capital ou no interior do estado6. possuindo semelhanças com os “sound systems” jamaicanos que popularizaram o Ska e depois o Rock Steady como alternativa ao controle excessivo exercido pelo governo à rádio jamaicana. merengue. VIII. Voltados quase exclusivamente para a festa de reggae. As radiolas tiveram também uma grande importância no processo de divulgação do reggae em São Luís. (Riba Macedo: julho/98). vol. da mesma forma que os sound systems jamaicanos. junto com outras de Jimmy Cliff. faziam muito sucesso nas festas no início dos anos setenta. Operadas por discotecários que nem sempre são os seus proprietários. eles contribuíram para que o ritmo se espalhasse praticamente por todos os bairros de São Luís. 32 Revista Brasileira do Caribe. como havia uma competição intensa entre os discotecários ambulantes na Jamaica que chegavam a raspar a etiqueta ou o selo dos discos novos para dificultar a aquisição pelos concorrentes. criando rivalidades entre eles. Essa música. em São Luís essa prática também foi adotada pelos produtores das festas de reggae. as radiolas são contratadas para animar festas em vários pontos da cidade. oferecendo lazer para uma grande faixa da população de baixa renda que não tinha condições de adquirir os discos. A disputa pela exclusividade de um disco sempre foi muito acirrada. n° 15 . promovendo festas com forró. lambada. Alguns proprietários de radiolas chegavam a comprar todos os exemplares de um mesmo disco e raspar os selos para que outros não pudessem identificá-lo. Curiosamente. A partir do início dos anos oitenta houve uma proliferação desses equipamentos. Elas são sistemas montados com uma aparelhagem sofisticada. entre outros ritmos.

Ainda que não estejam ligados a nenhum movimento político organizado. de 2007 . Coisa de nego que mora ali Pelas ondas de rádio e pelos clips televisivos o ritmo se espalhou pelo planeta. por isso a gente se identifica com ele (Ronaldinho. se de alguma forma serviu para conquistar o público. e as músicas preferidas dos regueiros maranhenses não são encontradas facilmente. O reggae vem do negro. Para alguns regueiros maranhenses a herança negro-africana é responsável pela concepção pejorativa que se atribui ao reggae e também pelos atos de discriminação que vivenciam por serem relacionados a ela. não é música dos brancos. é imenso mesmo e tá sempre na periferia. Segundo eles. é possível compreender a importância do reggae como conseqüência da dinâmica expansão midiática que ultrapassa as fronteiras nacionais com uma velocidade inusitada neste final de século. muitos demonstram ter consciência de que a discriminação se dá pela sua condição social e racial.Os sons do Atlântico negro Essa atitude. dançarino). é uma música marginalizada. a evolução musical na Jamaica é muito rápida. nos locais de grande concentração de população negra. Por isso. quem conseguir mais raridades vai ter mais condições de assegurar o seu público e se manter em evidência junto à “comunidade regueira”. No Brasil. Por tudo isso. este fenômeno pode ser observado em regiões como Maranhão./dez. redefinindo seu território de atuação. determinando a criação de novas linguagens e estéticas comunicativas em várias regiões. criou também uma animosidade entre os radioleiros e discotecários que mantinham em segredo suas fontes de aquisição. O contingente de negros aqui no Maranhão é muito grande. Baixada Fluminense etc. especialmente. Bahia. O reggae é música do negro. onde tem sempre um 33 jul.

vol. Existe um caráter integrativo do ponto de vista sociológico nessas festas. uma vez que o objetivo é estar entre seus iguais.Carlos Benedito Rodrigues da Silva salão de reggae. geralmente incômoda. bem como para a maioria das festas populares. estão ali com o mesmo objetivo da busca do lazer. a exclusão dos espaços de lazer. no carnaval essa relação pode ser constatada em várias instâncias. já que este é a 34 Revista Brasileira do Caribe. pois mesmo que determinados grupos estejam participando de uma atividade comum. Entretanto. Clóvis Moura7 aponta para o papel integrativo do carnaval. como uma invasão. podemos dizer que ela se expressa tanto na exibição das fantasias. serve também. enquanto para a grande maioria. resta o anonimato nas alas e baterias das escolas de samba. Dessa forma. como nos espaços escolhidos ou oferecidos para o lazer. por alguns. já que todos os participantes. os brancos começam a invadir o salão e a gente não tem mais espaço pra dançar (Guiu Jamaica. mais uma opção de lazer entre outras. Agora que o reggae virou moda. essa participação não se dá em condições de igualdade para todos. um ritmo que mexe com a gente. n° 15 . sabe? É um ritmo negro. VIII. Daí a presença do branco ser vista. O mesmo argumento vale para as festas de reggae. não se pode perder de vista que esse caráter integrativo é momentâneo e não elimina as diferenças e nem as desigualdades. a princípio. Nesse sentido. enquanto para os segmentos definidos como regueiros que sofrem as consequências da exclusão. como alternativa de auto-afirmação. as alternativas de lazer são consideravelmente mais restritas. Os brancos nem sabiam que o reggae existia. Para os que compõem o minoritário quadro das elites são ofertados espaços luxuosos. De fato. Analisando o desenvolvimento das escolas de samba cariocas. nas cordas dos trios elétricos baianos. para alguns. ou até mesmo. no tempo que a polícia vivia baixando o pau na negrada. o reggae é. dançarino). o espaço para estes últimos.

um dos raros momentos de livre exercício de seus costumes originais. Tinhorão mostra que desde o século XVI os batuques de escravos representavam momentos de expressão de alegria e felicidade. passível de vigilância e controle. ameaçadora. quando é reconhecido como um bom dançarino ou um bom DJ. As reações de vigilância e controle exercidas. (1988:45). mesmo em meio às agruras da escravidão. Para estes. de tal forma que causavam espanto nos fazendeiros. dançar afasta as angústias do cotidiano. pela polícia e pela imprensa local refletem a concepção das elites maranhenses sobre o reggae e seus freqüentadores. contribuindo para a construção de uma imagem estereotipada do regueiro. a presença cada vez maior de grupos não negros (jovens estudantes da classe média e até turistas nacionais e estrangeiros) em alguns “clubes de reggae” possibilita ao regueiro um auto-reconhecimento. Na verdade. Ele considera que O fato de os batuques constituírem para os escravos africanos. o reggae. por exemplo. é atingido também. desde o século XVI. a discriminação contra o negro não se dá por conta do reggae. onde se concentram majoritariamente os grupos negros. Ao contrário. as festas do reggae atribuíram visibilidade a uma grande parcela da população de baixa renda em São Luís.Os sons do Atlântico negro representação do grupo que caracteriza o reggae como uma atividade marginal. Por outro lado. a exemplo de várias outras manifestações que recebem o mesmo tratamento. é discriminado por sua identificação como “coisa de negro” e. de 2007 . ele (o regueiro) se sente prestigiado frente à “comunidade” Sem dúvida. levando-o a assumir essa condição como uma identificação positiva. Além do que. neste sentido. pela desqualificação atribuída às atividades lúdicas construídas pelos grupos negros na cultura brasileira. ia garantir a esses encontros uma riqueza de expressões de que os colonizadores jamais poderiam imaginar a extensão. 35 jul./dez.

portanto. por uma moralidade cristã. as marcas que designam esse corpo enquanto outro-mercadoria.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Essa diversidade de práticas rituais. o primitivo a ser domado — também o assinalam como objeto de repulsão. instrumento de trabalho. torturado. escravos ou libertos. n° 15 . inventando gingas e artimanhas que constantemente apontam para a ambigüidade da moral escravista. da ordem social ou da moral burguesa. ultrapassa a compreensão das elites que.. O próprio corpo é depositário do pecado. Sem dúvida. a qual ao mesmo tempo em que proíbe sua exposição pública. tem de ser coberto e aprisionado para inibir seus anseios e transformá-lo em simples instrumento de trabalho. em que pesem as várias e diversificadas tentativas de controle exercidas em nome da religião. mas também seus corpos e almas. utiliza-se deste corpo para satisfação de desejos. Assim. um caráter de lascivosidade e desordem. controlando não apenas suas vidas. mas também apropriado a bel-prazer. Assim. traz consigo a inscrição simbólica dos confrontos entre a civilização ocidental e as culturas profanadas pela diáspora. Legitimada entre outras coisas. o corpo-coisa do escravo propõe a experiência assustadora da ausência de limites: pode ser surrado. sempre atribuíram às manifestações dos afrodescendentes. vol. a dança sempre foi uma das mais fortes expressões dos grupos humanos em toda a história da 36 Revista Brasileira do Caribe. Maria Lúcia Montes mostra que esse mesmo corpo neutralizado pelos horrores da escravidão. Ainda segundo Maria Lúcia Montes (2000: 65) Mesmo para o senhor. presas às orientações cristãs européias. VIII. dilacerado e morto. religiosas ou de lazer manifestadas pelos segmentos negros. a escravidão impôs aos negros escravizados a imagem do pecado. para satisfação dos apelos da carne. desejo e sedução. ele se projeta como um elemento de desafio ao poder das elites.

de 2007 . a malícia. também. pelos ciclos de colheita nas sociedades agrárias e da fertilidade em sociedades tradicionais ou./dez. tanto individual como coletivamente. 2 Ademar Danilo foi um dos primeiros comunicadores a apresentar programa específico sobre reggae nas emissoras de rádio em São Luís e foi eleito vereador pelo PT. representam a explicitação da rebeldia e expressam. Isto nos leva a afirmar que samba de roda. estão relacionadas com as lembranças armazenadas.Os sons do Atlântico negro humanidade: em busca da liberdade. bumba-meu boi. capoeira ou reggae. num percurso de ida e volta tanto nas ondas midiáticas da indústria cultural como nas marés do Atlântico Negro. são vertentes rítmicas produzidas na diáspora africana. em algumas festas de grupos negros em Salvador na Bahia. Essas performances desenvolvidas pelos grupos negros que viveram a diáspora. as angústias e as alegrias que não podem ser pronunciadas livremente. Assim. em agradecimento aos deuses pelas alegrias da vida. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de religião afro-brasileira de São Luís é a Casa 37 jul. Notas 1 Pude constatar através de alguns relatos. mas são representadas por uma memória corporal que burla a vigilância das elites com uma linguagem simulada. existem fortes aproximações culturais seja entre os povos do Caribe. merengue. que mobilizam segmentos das várias regiões estendendose até a África. com votos da “comunidade regueira”. ou da América Latina. instigava-lhe a sociabilidade. maracatu. entre tantos outros. simplesmente pelo prazer de se sentir bem. com a qual se produziu a ligação com o presente. 3 Uma curiosidade é que segundo historiadores. que esse ritmo é tocado também. da Amazônia. desde um passado no qual a sujeição à condição de escravo ao mesmo tempo em que bloqueava as condições de emancipação do indivíduo. a sensualidade. A ginga. mesmo considerando as especificidades.

CANCLINI. o nome “melô” que é criado pelos regueiros. com seus respectivos melôs. 5 Existem atualmente gravações de coletâneas em CD’s piratas. n° 15 . São Paulo: Editora 34. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. tais como: o Melô do Morcego. O “melô” seria uma espécie de alcunha da música. A magia do reggae.143. VIII. & SIMON P. O eterno verão do reggae. 1995. “O Conceito de Tradição”. O Local da Cultura. Belo Horizonte: Ed. Melô do Gerente. A radiola Diamante Negro lançou um CD com 20 músicas preferidas dos regueiros em São Luís e no encarte vinha impresso o nome das músicas. vol. Bibliografia ALBUQUERQUE. BOURDIEU. Rio de Janeiro: Zahar/Funar. Marco Antonio (org. São Paulo: Studio. BHABHA. DAVIS S. Nestor Garcia. Carlos. CARDOSO. 1997. 6 É importante ressaltar. 3. UFMG. 38 Revista Brasileira do Caribe. Melô da formiga. que já trazem junto ao título da música. CAMPBELL. e assim por diante. Sincretismos: uma exploração das hibridações culturais. as festas eram feitas com discos de vinil ou fitas cassete. Massimo. Homi K. os cds foram adotados posteriormente.). O Poder Simbólico. 1997. 4 O Maracanã é um bairro rural do interior da Ilha de São Luis. Lisboa: DIFEL1989. Horace. que até o final da década de 80. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa. 1983.Carlos Benedito Rodrigues da Silva de Fanti-Ashanti. 1998 BORNHEIM. In: Cultura Brasileira: Tradição e contradição. Rasta and resistance: from Marcus Garvey to Walter Rodney. Gerd A. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. Melô da Guerreira. 1988. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 1996. 1985. Melô do Sapato. onde acontece algumas festas importantes da cultura popular. 1997. 7 Sociologia do Negro Brasileiro. Pierre. . São Paulo: Ática. p. CANEVACCI. Lisboa: Centelha. London: Fonthill Road. São Paulo: Martin Claret Editores. Reggae: Música e cultura da Jamaica.

reggae. Cultura popular: uma introdução. 1988. STRINATI. Dominic. ORTIZ. Renato. São Paulo: Hedra. 1997. pp. Rio de Janeiro: Record. Jocélio Teles dos (org. Goli. MOURA. Carlos Benedito Rodrigues da. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo. Dos meios às mediações: comunicação. 1984. Mundialização e cultura. Paula. São Paulo: Dynamics Editorial. HALL. 1999. Clóvis. Identidades culturais na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Maria Lúcia. SILVA. 1997. Rio de Janeiro: Zahar Editores. José Ramos. Eric e RANGER. São Paulo: Editora 34. Revista da Mostra o Redescobrimento. 1997. Octávio.Os sons do Atlântico negro GEERTZ. 1999. Civilização Brasileira. Os sons dos negros no Brasil. 2000.). In: Negro de corpo e alma. Ritmos em trânsito: socio-antropologia da música baiana. 1995. cultura e hegemonia. Clifford. novembro. “Globalização. Rio de Janeiro: DP&A. Identidade e Diferença”./dez. MARTIN-BARBERO. São Luis: EDUFMA. Jesús. GUERREIRO. Timothi. 1996. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro. Queimando tudo: a biografia definitiva de Bob Marley. 1978. A trama dos tambores: a música afro-pop de Salvador. São Paulo: ERT Editora. 2000. SANSONE. IANNI. lazer e identidade cultural. Stuart. A Era do Globalismo. São Paulo: Ática. Terence (organizadores) A invenção das tradições. MONTEIRO. TINHORÃO. 47-64. MONTES. de 2007 . “Olhar o Corpo”. 1997. 1988. Sociologia do negro brasileiro. WHITE. HOBSBAWN. Da Terra das Primaveras ‘a Ilha do Amor. Livio e SANTOS. 1997. São Paulo: Brasiliense. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 39 jul. In: Novos Estudos CEBRAP Nº 49.

40 .

vol. but also to the battle against social inequality. where there exists one of the most important multi-ethnic societies of the world. the phenomenon of reggae is not only linked to the cultural traditions. nas equipes de som. Within this context. Palavras-Chave: Reggae. characterized by economic inequality with the hallmark of oligarchic politics. Keywords: Reggae. especially in Maranhão.O Reggae na “Jamaica brasileira”:Cidadania e política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa Abstract The African Diaspora has contributed to the formation of artistic expressions in Brazil. 2007 . Trata-se também da ressignificação das letras e melodias das canções produzidas por músicos jamaicanos na formação identitária dessa população. 41-60. African diaspora Resumo Na cidade de São Luís do Maranhão. Esse artigo analisa letras musicais e depoimentos orais entre outros elementos como exemplos dessas relações de apropriação e resignificação. n° 15. seja nas festas. Culturas Afro-americanas. Afro-American cultures. a apropriação do ritmo jamaicano do reggae pelas camadas populares constitui um movimento de resistência cultural. the population of São Luis incorporated Jamaican rhythm in its dance-rituals and drums. Goiânia. In a social scenario. VIII. *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 41 Revista Brasileira do Caribe. The Afrodescendent music was not just coincidence. Diáspora Africana. social e política contra a marginalização que elas sofrem em seu cotidiano. nos simbolismos.

especialmente en Maranhão. A diáspora africana em muito contribuiu para a formação das manifestações artísticas no Brasil. Embrionariamente veio da África durante a travessia do Atlântico. Palabras Claves: Reggae. ressignificados e relidos.Maristane de Sousa Rosa Resumen La diáspora africana ha contribuído para la formación de las manifestaciones artísticas en Brasil. En un escenario social pleno de desigualdades económicas y en el cual reina la política oligárquica y ‘coronelista’. incorporaron el ritmo jamaicano. el fenômeno del reggae está vinculado no apenas a las tradiciones culturales sino también a la lucha contra las desigualdades sociales. Goiânia. ainda. especialmente no Maranhão. o fenômeno estudado forneceu visibilidade ao bluff1 de tradições conferidas a um restrito grupo social dominante no Maranhão e aos processos de ‘higienização’ cultural. La música afro-descendente no fue asumida por un simple pase de magia. Nesse contexto de significados o gosto artístico da população ludovicense. vivenciados historicamente pelos africanos e descendentes. En ese contexto de significados la población de São Luis en sus danzas y tambores. vol. ouvir e festejar. A música afro-descendente não se fixou por um simples passe de mágica. VIII. Diáspora Africana Em todas as regiões nacionais podem ser observadas a ‘olho nu’ elementos de africanidade reterritorializados. nem tampouco fora de propósito num cenário social infestado de desigualdades econômicas em que reina uma política oligárquica e. donde existe una de las más importantes sociedades pluriétnicas del mundo. ‘coronelista’. Culturas Afro-americanas. permitindo considerar o ciclo do reggae neste tripé. 42 Revista Brasileira do Caribe. Ao contrário. adotou o ritmo jamaicano para dançar. O mesmo aconteceu com o ritmo surgido na Jamaica que chegou a São Luis indo até a África. n° 15 . constituindo uma das mais importantes sociedades pluriétnicas do mundo e um dos maiores berços culturais transatlânticos. revelado tradicionalmente nas danças e nos tambores.

outra contribuição da Faculdade de Inglês de Cambridge. M. tambor-decrioula. Do mesmo modo outras festas dos negros brasileiros tornaram-se equivalentes às de origem africana. 2007 . na Grã-Bretanha. Os efeitos desses escritos literários contribuíram para a ascensão da história cultural. Tillyard.. Em virtude das interpretações propostas se confirma o viés histórico-antropológico. The Seventeenth-Century Background (1934). Trata-se de uma abordagem inaugurada por Aby Warburg. 43 jul.. assim como para a história da arte. culturais e educacionais estabelecidos por séculos. “estudos sobre o pensamento da época”./dez. e o livro de G.25). na Grã-Bretanha da década de 1930 estava se escrevendo uma história culturalista. A cultura africana e de seus descendentes constitui importante legado para o Brasil pelas festas de bumba-meu-boi. Warburg havia morrido quando Hitler chegou ao poder em 1933 e estudiosos alemães associados ao seu Instituto refugiaramse no exterior. escrito por um professor de inglês e apresentado como ‘panorama’ para a literatura. cacuriá. uma das figuras mais originais e influentes da história cultural no estilo alemão. p. Entre as contribuições mais importantes dadas a essa tradição está o livro de Basil Willey. demonstrando a transição da ‘usança africana’ como instituição tão presente entre nós.O reggae na “Jamica brasileira”. tambor-de-mina. The Elizabethan World Picture (1943). 2005. (BURKE. De forma que a etnografia do ritmo jamaicano é uma importante ferramenta historiográfica para desconstruir estereótipos e preconceitos sociais. lili. que contribuiu para a construção da ciência cultural. por abordar o reencontro de populações em um contexto de mudança social. evitando tradições acadêmicas fronteiriças e delimitadas temporalmente. W. transferindo-o para Londres nas figuras de Saxl e Wind. da sociologia e de certos estilos de filosofia. adicionando ou integrando a si lembranças e sentimentos. Assim. o de E. Victorian England (1936). Young. M.

No entanto não é difícil combinar uma abordagem ‘leavisita’ com a marxista.29). foi cunhada a famosa expressão ‘estruturas do sentimento’ (BURKE. além disso. Concordando com as características atribuídas ao jazz por Hobsbawm. Um outro exemplo e o alvo dessa contextualização. Sua ênfase na idéia de que a literatura dependia de “uma cultura social e de uma arte do viver” deve-se menos a Marx e mais à nostalgia pelas ‘comunidades orgânicas’ tradicionais. também estudiosos marxistas foram incluídos na preocupação relacional entre cultura e sociedade. Leavis. Assim como Yates diz que foi “iniciada na técnica warburguiana de usar aspectos visuais como evidências históricas”. especialista em Shakespere que encontrou no circuito da Escola de Warburg intelectuais instigantes e uma biblioteca inspiradora trazida por eles. mas também seu público. vol. um dos pseudônimos de Eric Hobsbawm. é a História social do jazz escrita por ‘Francis Newton’. Como seria de se esperar de um famoso historiador econômico e social. n° 15 . também na música reggae adotada na Jamaica podemos sugerir.Maristane de Sousa Rosa Nesse episódio cabe estudar o exemplo da inglesa Frances Yates. vieses de contestação por direitos e justiça social. publicado em 1959. 1990:272). As emoções são realmente gritos tenazes contra a opressão e a favor de resistência. Goiânia. autor de The Great Tradition (1948). livro que discutia a história social do teatro e em que. funcionando como elemento de fortalecimento da auto-estima de grupos dominados economicamente. 2005. como fez Raymond Williams em The Long Revolution (1961). R. como forma de protesto político e social. pelos textos e performances. o autor discute não apenas a música. p. justamente pelo “aflorar de emoções incrivelmente poderosas e tenazes tanto entre os seus seguidores quanto entre os seus oponentes” (HOBSBAWM. 44 Revista Brasileira do Caribe. também estava profundamente interessado na relação entre a cultura e seu ambiente. F. mais ainda. abordando o jazz como negócio e. VIII.

São Luis e África. ora prevendo que esse e outros enredos literários construídos pela cultura da diáspora sejam acessíveis como conteúdos educacionais que privilegiam a diversidade do conhecimento. de luta. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão. pois estamos numa guerra.. Essa canção Are We a Warrior (Nós Somos Guerreiros?) interpretada e composta por IJahman em álbum gravado no ano de 1978. A performance musical do jamaicano IJahman é uma ritualização do culto sagrado rasta.. exemplifica um dos caminhos a ser percorrido pela pedagogia inclusiva. quando diz: “Por que nos tornamos como cordeiros./dez. Vejamos: The perfection is love And I give thanks For the fullness Within the full me nice Its cool mild these peace me nights Its gentleness Made I a man son of him Life was divided In sweet harmony Come it A woman until dream Are we a warrior? Are we a warrior. oh love 45 jul. ilustra a relação de pertença socioétnica entre Jamaica. no visível e no imaginário. cupid. não confunda. 2007 .O reggae na “Jamica brasileira”. Oh. simultaneamente proporcionando reações no audível.” O sucesso musical We Are a Warrior (Are We a Warrior) eleito na cidade de São Luis como o hino do reggae no Maranhão. com sonoridade simbólica de persistência e contestação. stupid Let not your arrow From your bow.

VIII. Goiânia. stupid Let not you arrow From your bow So out low And never let it go What caused You have a pistol In your endless love Is it far? To shut the man down there Do we give in? After we have star lit Why can’t We become like a lamb Not look end It’s not humble when These is a small confusion It is a war They rather way as be and Sometimes being confused Within your own head Because at times How us get have down led Are we a warrior? Are we a warrior. vol. 46 Revista Brasileira do Caribe. Are we a warrior. Oh cupid. n° 15 .Maristane de Sousa Rosa Faith is a mountain. So silent and filled Fountains of waters For also all his lovely creatures He gave us wisdom And knowledge to understand its love Do us after a war Are we a warrior? Are we a warrior.

2007 ./dez. Oh cupid. Are we a warrior. Oh cupid. stupid Let not your arrow 47 jul.O reggae na “Jamica brasileira”. Are we a warrior.. Oh cupid. Are we a warrior. stupid Let now your arrow From your bow So out low And never let it go Take a look at certain dream And there are often true stories It would be On all our own glory How often I ask Still like it see no love its why For full close and shelter The cry of mamas and papas Are we a warrior? Are we a warrior. stupid Let not your arrow From your bow Prophecy is now revealed The son of man won’t take it The heart is giving up Why life is taking in the sudden shock The crying of the people Multiply in all over Jah will give an answer To have are stop cry our Are we a warrior? Are we a warrior..

2 Tomando a canção como referência. estruturou sua língua ao português. as cantorias. realizado por autores como J. o vestuário. Soam mais estranhas ainda expressões como Jah. os reizados. as músicas são apelidadas pelo nome ressonante. Nesse sentido. serviu como instrumento para dar visibilidade às tradições milenares africanas do “Egito e Etiópia” (ALBUQUERQUE. Os regueiros maranhenses apreciam a melodia e desconhecem as letras das canções em língua inglesa que falam sobre os fundamentos filosóficos do movimento Rastafari e de elementos de simbologia afro (o cabelo. a figura do leão. 48 Revista Brasileira do Caribe. say”. Goiânia. cita-se o Rastafarismo3 que. n° 15 . pelo sotaque que o ouvido capta e torna mais evidente: “Melô do Cachaceiro” representa a sonoridade do refrão “Jah. 1997:29). ou seja. Desse modo. ressignificou a alimentação. os cultos jeje4 e nagô ilustram este processo de resistência do negro africano que atravessou o Atlântico e. vindo com seu idioma. as danças e mais ainda. as cores pan-africanas). o ritmo da diáspora fez emergir sentimentos de orgulho negro quando elegeu fatos históricos e da Bíblia para serem recontados sob a luz de ideais pan-africanistas fortemente difundidos nos Estados Unidos e no Caribe.Maristane de Sousa Rosa From your bow And never let it go. ao francês ou ao inglês. Ao cenário associativista bem se aplica o diálogo reflexivo da antropologia com a história. associado ao contexto musical jamaicano do século XX. “Melô de Poliana” é Think twice da intérprete Donna Marie (apelido adotado segundo a preferência dos regueiros ou regueiras) e “Melô de Pinto” é uma homenagem a radiola6 Itamaraty. mesclando-lhes vocábulos ou sotaques. vol. o carnaval. Lorand Motory. Jah. seus costumes e valores. Com referência aos fatores lingüísticos não por acaso o reggae cantado em ‘inglês jamaicano’ é ouvido em São Luís na forma de melôs5. Peter Burke e Eric Hobsbawm como exemplos que inseriram narrativas dinâmicas às festas carnavalescas. VIII.

radiolas grandes e pequenas. No tempo que nós aprendemos a dançar era calça preta. Sou viúvo. disse: Começamos a dançar reggae no quintal. Marcus Garvey.. camisa branca. pensado como elemento sócioeducacional para consolidar a cidadania na sociedade do Maranhão. Já fui evangélico. Meu lazer é reggae. Embora a população ludovicense possua baixas taxas de escolaridade e tenha dificuldades para utilizar o português da gramática normativa não se descartam sinais de “parentesco” afrocultural entre jamaicanos e maranhenses. Ou seja. 1980 e 1990./dez.. Na capital do Maranhão foram re-significadas pela emoção. Um assíduo freqüentador das festas de reggae roots. As letras musicais jamaicanas das décadas de 1970. As melodias que envolvem fortes denúncias das desigualdades socioétnicas contra a população negra não tem como ponto de partida a versão jamaicana. pois os melôs romperam barreiras impostas pelo idioma dantes colonial. tenho 9 netos. mesmo desconhecendo a língua inglesa. ninguém sabia as cores. com 77 anos de idade conhecido pelo apelido de Sapo. aí fomos criando. o reggae roots7 mesclado com patois8 se mostrou incompreensível também também confrontado ao padrão lingüístico fonográfico de sotaque anglo. Hailé Salassié I ou Ras Tafari. Peixeiro. na Praia do Gaspar. não têm essa pegada. esse fenômeno foi estudado para compreender como a melodia produziu emoções no corpo e na ‘alma’ dos afro-ludovicenses em que sentimentos de êxtase são almejados pela audição do ritmo jamaicano e não outro. num cercado de palha.O reggae na “Jamica brasileira”. peixeiro aposentado. Eu gosto do reggae roots. no Sá Viana. cinturão preto. não agüentei. 6 filhos. às vezes eu tava na igreja aí escutava uma batida de reggae não agüentava. De outro lado. aí eu sou aposentado como peixeiro. Antonio Domingos Almeida Santos. boina branca. amplamente tocadas na cidade São Luis. eletrônico não. passei dois anos na igreja. 2007 . foram direcionadas como subsídio histórico para reescrever a História e Cultura Africana por meio do reggae. o reggae é uma maravilha. criando até descobrir 49 jul.

já nascemos com esse ritmo no corpo. respeito.Maristane de Sousa Rosa uma origem. até que apareceu a original. japonês coleciona muito reggae. guardando as devidas proporções. nome que enfatiza a batida do tambor”. muita coreografia. dançamos tambor-de-mina. o reggae toca no corpo todo. americano também. abraça-me. É nossa música. fibra e cultura. dançamos tambor-de-crioula. integridade. é um bom lamento. Conforme Peter Burke (2000: 224). Goiânia. toca no corpo todo. desde o vodu do Haiti à santería de Cuba e ao candomblé do Brasil (que tem ligações particularmente estreitas com as tradições iorubas). o tambor-de-mina. pra Jah. uma cultura. batemos tambor-de-mina. alemão. São Luis. Nós maranhenses já trazemos esse ritmo no corpo. n° 15 . As simbologias musicais na década de 1970 entre Jamaica e Maranhão implicaram no fortalecimento cultural da diáspora que pela música percussiva dos tambores nyahbinghi e tambor-demina. Sou regueiro antigo. que fez até a cidade de São Luís receber o codinome de “Jamaica Brasileira”9. eles cantam pra Babilônia. O reggae pra mim é uma cultura autônoma nossa. o reggae pra mim sempre foi uma cultura. 2006). mar. (Sapo. o reggae nasceu para o povo. “Os tambores eram considerados as vozes das divindades. 50 Revista Brasileira do Caribe. Eles cantam pra uma criança. cada uma associada a um ritmo característico. Ele saiu lá da Jamaica. desde 1970. é muita gente. ou seu equivalente no Maranhão. eles cantam pra uma pedra. quando ele faz assim (abre os braços) pedindo a Deus. Os cultos de possessão desse tipo continuam entre os negros nas Américas. trazemos no coração. as cores originais. VIII. tudo isso é cultura. se imbricaram nos dois territórios pelo reggae roots. Por isso narrativas histórico-culturais são pertinentes à chegada do ritmo de matriz africana com sotaque inglês. pra uma árvore. vol. dançamos bumba-boi. você podes crê. o reggae é um lamento. é uma beleza de lamento. pela política colonial escravista de São Luis e o decorrente preconceito racial estendido aos negros descendentes. O reggae levanta a gente assim. Nesse sentido. Os jamaicanos eles faz muita mímica. todo mundo coleciona reggae. trazendo muita paz.

se aproximam por mecanismos de cognação nos quais os lugares da memória não são espontâneos mas. como questiona o refrão: “Nós somos guerreiros? – É nós somos guerreiros”. Assim. esta pensada como ferramenta pedagógica para construção de consciência política e reivindicação de cidadania. Compomos nossas reminiscências para dar sentido à nossa vida passada e presente. 1980 e 1990. De acordo com Alistair Thompson (1981. 51 jul. composição é um termo adequadamente ambíguo papa descrever o processo de ‘construção de reminiscências’. 56) é por isso que. aqui considerados como instrumento de resistência para validar a historiografia africana frente aos conteúdos eurocêntricos. p. quando nos conduziram sob seus pés [.. 2007 . A partir da divulgação dos conteúdos musicais do reggae jamaicano das décadas de 1970. Os territórios. onde há freqüentemente histórias verdadeiras”. de certa forma.. os espaços.] Examine e olhe determinados sonhos. sociais. composição de arquivos do passado sob os quais ela se escora. gostos e atitudes musicais. a música e as letras do reggae jamaicano foram utilizadas como meio de efetivação da historiografia africana e de seus descendentes à sociedade maranhense. carregados de mensagens religiosas.O reggae na “Jamica brasileira”. conteúdos vocabulares em língua inglesa são posicionados como narrativas etnográficas do movimento panafricanista da Jamaica que rememorou os milenares costumes da África por meio de danças.. nós as compomos ou construímos utilizando as linguagens e os significados de nossa cultura.. gestos./dez. políticas e históricas. aparentemente dissociados pela geografia ou por fatores lingüísticos. compreendeu-se como autênticos os sentimentos desenvolvidos pelos regueiros em relação à melodia jamaicana. mas ‘legitimados’ pela leitura social. pelo trecho que diz: “Para possuir nossa cabeça como em outras épocas.

O antigo reino de Ardra. ioruba e akan. onde têm boa aceitação.” Para Mariza de Carvalho Soares (2000. 52 Revista Brasileira do Caribe. Carlos Albuquerque (1999. e vão. p. todos da tribo dos coromanti. O franco diálogo entre a cultura musical da América do Norte e Caribe foi responsável pelo surgimento do reggae na Jamaica que se formou de elementos do rhythm and blues. a maior parte formada por integrantes dos povos ashanti. VIII.36) diz que. fantis e outros. jazz. próximo de Abomey.Maristane de Sousa Rosa Concordando que história é memória e vice-versa. n° 15 . por ingleses e holandeses. Pelo que toca aos negros que Henrique Dias chama ardas. minas seriam os nagôs.119): Os escravos Akan (no Brasil conhecidos como fante-achanti) são comerciados na Costa do Ouro nas proximidades do Castelo da Mina e em Cape Coast. em sua maioria. Os escravos do Daomé (de língua fon) vão principalmente para as colônias francesas (Haiti e Louisiana). por ardras claramente se deve corrigir o nome. para as colônias inglesas. Já Cuba e Brasil recebem dessa costa escravos de vários grupos étnicos de língua ioruba (na Bahia chamados de nagôs). Não é difícil supor que algumas vezes essa divisão de mercado tenha sido rompida. Goiânia. Aos grupos referenciados acima Nina Rodrigues (1982. em que agora as identidades revitalizam a própria historiografia de si. e neles se descobrem negros jejes ou daomeanos. numa simbiose de etnicidade encontrada entre nações de procedência na travessia do Atlântico.15) destaca os seguintes grupos étnicos vindos para a Jamaica: “escravos da África Ocidental. p. a denominação genérica de angolas designa todos os bantos. p. calipso e rumba. vol. quando o intangível se apóia nos traços exteriores e nas referências tangíveis de uma existência que se supõe existir por detrás deste estoque material.

Akan ou Minas. capital dos daomeanos. para todos os falantes de ewe. constitui há séculos. foram retomados após a travessia transatlântica em meados da década de 1970. Ashanti. mas seu registro na África depois de 1864 revela muito sobre a história da etnicidade e da nação. Fantis ou Minas. regional e transatlanticamente. concorda com a procedência ocidental dos africanos escravizados que vieram para as Américas e Caribe. gen. entendendo que as imagens e a discografia jamaicana interagiram com culturas que o passado escravista separou. o termo jeje foi designado no Brasil em meados do século XVIII.O reggae na “Jamica brasileira”. entre os grupos étnicos vindos da África Fanti. p. como grupos étnicos de travessia. em destaque para o primeiro caso os Fanti e para o segundo os Ashanti. 1999... onde os europeus haviam estabelecido importantes casas de comissão. designando o ‘parentesco’ jeje pela religiosidade de tronco comum na América do Norte./dez. De modo que para o Maranhão e Jamaica vieram grupos étnicos comuns (Minas). tratando-se da mesma língua de adoração dos deuses vodun. um afamado empório do tráfico negreiro. Caribe e Brasil (Casa Fanti-Ashanti e Casadas-Minas no Maranhão). Assim interpreta-se que os diálogos interrompidos por séculos entre maranhenses e jamaicanos. aja e fon. (MATORY. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de 53 jul. Ashanti. Essa associação deu-se também pelo cruzamento de informações coletadas nas abordagens de Carlos Albuquerque em O eterno verão do reggae. Lorand Matory. 2007 . referência encontrada pelos depoimentos colhidos no documentário “Atlântico Negro – na rota dos orixás”. pela tese de doutorado de Carlos Benedito Rodrigues da Silva. Segundo Silva “uma curiosidade é que segundo historiadores. Conforme J. Também Nina Rodrigues em Os africanos no Brasil. As descrições utilizadas situam os Akan ou Fante-Achanti.63). ou melhor. evidências encontradas em São Luis pela formação vocabular do terreiro Fanti-Ashanti fundado por Pai Euclides no ano de 195410.

Assim. ora com possibilidades de percepção do passado. no espaço social em que se situa o historiador. Essa reflexão depara-se então com a representação normativa do passado. depende do grau em que o passado das instituições em causa é considerado como algo que está em jogo e como instrumento de luta. vol.Maristane de Sousa Rosa religião afro-brasileira de São Luís é a Casa de Fanti-Ashanti. isto é. No entanto o fato do referido pesquisador não ter encontrado evidências dessa associação. desenvolve-se uma reflexão sobre a existência mista de oralidade que ora se apresenta na forma de variabilidades textuais discursivas. prontos para serem utilizados no momento em que são solicitados. mas ficam latentes. p. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. condenar ou reabilitar imputando a vontades benéficas ou malignas as propriedades aprovadas ou reprovadas do passado. de idioma. Com efeito. p. são arquivos criados no presente. interpretada como responsável pela memória histórica e identitária que reveste de simbolismos a comunidade afrodescendente ouvinte de “música negra de raiz”. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa” (2001.79): De facto. desenhada nos ritos religiosos de origem africana. n° 15 . a propensão para a visão teológico-política que permite censurar ou louvar. através dessas próprias instituições. de espaço. ele próprio mais ou menos autônomo em relação a essas lutas. no campo das lutas sociais e no campo de produção cultural. Goiânia. VIII. não descarta a dialogicidade entre cá e lá a qual este estudo se ocupou em estabelecer partindo de fatores que ultrapassam barreiras fronteiriças.113). De acordo com Pierre Bourdieu (2001. 54 Revista Brasileira do Caribe. mais uma vez concorda-se com os conceitos de memória latente e em potencial avaliando que os lugares da memória não devem ser julgados somente como espontâneos.

16. Então. Sansão.. disse ele./dez. principalmente as menções aos primeiros israelitas. estampas. desceu com seu pai e sua mãe a Tamna. vídeos e na bandeira da Etiópia. o uso de tranças e a força física para lutar com o leão.5-6). Mas o espírito do Senhor entrou em Sansão. A releitura da Bíblia proposta pelo movimento Rastafari consistiu numa revisão. 16:19). descrita no livro de Juízes: Sobre a minha cabeça. apareceu de repente um leão novo e feroz. (Jz.34). Se me for rapada a cabeça. introduziram importantes referências aos negros subtraídas ou adulteradas pelo mundo Ocidental. arremeteu contra ele. o uso de ‘terríveis tranças’ estava associado às “fotos de guerreiros somalis e suas 55 jul. (GILBERT. p. Os costumes Masai caracterizaram não somente o visual dreadlocks11 mas também o totemismo entre homem e leão que o reggae jamaicano utiliza expressivamente em camisetas. Quando chegaram às vinhas da cidade. fazendo-o adormecer sobre os seus joelhos. As escrituras lidas nos moldes da colonização ocidental e nas pinturas da Europa renascentistas apresentaram de forma “branqueada” a lenda de Sansão.164-165).17). pois. aos profetas e até mesmo ao Cristo como usuários de ‘tranças’. reivindicações de orgulho negro da década de 1930 foram aproveitadas como viés teórico a partir da inspiração bíblica utilizada pelo movimento Rastafari. 14. p.. p. chamou um homem.O reggae na “Jamica brasileira”. (Jz. que cortou a Sansão as sete tranças do seu cabelo. sem ter na mão qualquer arma. 2007 . daí advindo o não uso da navalha nos cabelos de forma que as tranças rastas pudessem crescer livremente. 2003. porque sou nazareno de Deus desde o ventre de minha mãe. p. perderei a minha força e então serei como qualquer outro homem. o mito da força dos cabelos. que despedaçou o leão como se fosse um cabrito. nunca passou a navalha. rugindo. o qual. Dalila. (Jz. Segundo Carlos Albuquerque (1997.

Conforme IJahman: “A profecia agora é revelada. pois a vida o levará num súbito choque. n° 15 . O filho do homem não fará exame do coração que está desistindo. todos ornamentados. cabelos compridos e trançados. tais narrativas apontaram na direção do grupo étnico Masai por adotarem o uso de dread e principalmente pelo ‘costume’12 de combater com leões nos rituais de passagem13. estudantes europeus em sua maioria. mas Jah dará uma resposta para nosso choro”. Goiânia. o som onipresente do reggae que se tornou práxis política desalienadora e operante para romper a segregação visível 56 Revista Brasileira do Caribe. Contrariando a referência. ao descrever um trekking com os Masais: As 25 pessoas de nosso grupo. repetiram as apresentações aos masais. desconstruir ‘tradições inventadas’ e abordagens etnocêntricas. de suposições sobre os guerreiros somalis e o lendário Sansão. chamados de ilkelianis. Estavam ali sete deles. vistas na Jamaica pela primeira vez nos anos 30. e respeitando. Os mais jovens.Maristane de Sousa Rosa carapinhas em estilo medusa. tinham cerca de 20 anos. p. porque já haviam matado pelo menos um leão na vida e se tornaram autênticos guerreiros da tribo. os moranis. teriam dado aos rastas a certeza de que com as dreadlocks eles estavam seguindo. Oxalá. membros de ‘uma das tribos mais selvagens da África’ [grifo nosso]. como o exemplo encontrado na referência de Diego Lezama (1999. organizações militantes negras e a musica jamaicana reivindicaram oportunamente da cultura Ocidental. e os adultos. uma tradição milenar africana”. eram carecas. vol. Prevendo ainda pela música. O choro do povo se multiplica em toda parte. De modo que partindo do título do hino do reggae no Maranhão (Nós somos guerreiros). aspectos pioneiros do legado patrimonial negro da África à humanidade.61) na reportagem da revista “Os caminhos da Terra”. VIII.

Seria toda a nossa própria glória. Oh. É nós somos guerreiros. estúpido.O reggae na “Jamica brasileira”./ Oh cupido. É nós somos guerreiros. 57 jul. mas Jah dará uma resposta para o nosso grito. Ainda que não vejamos nenhum amor. O filho do homem não examinará o coração que está desistindo./dez. não confunda. cupido. sirva para consolidar ações afirmativas entre a comunidade afrodescendente do Maranhão./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. 2007 . enganar. lá na Jamaica./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. 2 Título: Nós somos guerreiros (We Are a Warrior – tradução da autora) O amor é a perfeição e eu dou graças pela agradável plenitude presente dentro de mim. Ele deu sabedoria e conhecimento para entender o amor após uma guerra./ Nós somos guerreiros?/É nós somos guerreiros. A vida foi dividida em doce harmonia fazendo uma mulher até sonhar. Notas 1 Palavra inglesa que deriva a forma aportuguesada blefe significando iludir. para possuir nossa cabeça. estúpido./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros./Examine e olhe determinados sonhos onde há freqüentemente histórias verdadeiras./Oh cupido. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão. pela mansidão que me fez filho do homem.. estúpido. estúpido. não atire a flecha de seu arco. É nós somos guerreiros. deixe-a baixa e nunca a lance. O choro do povo se multiplica em toda parte. como freqüentemente eu peço. deixe-a baixa e nunca a lance. lograr. É nós somos guerreiros./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. não lance sua flecha de seu arco. amor../Oh. mas para o fim haverá abrigos cheios com clamor de mães e pais./Oh cupido. por que a vida o levará num súbito choque./O que te fez ter uma pistola? Seu amor infinito acabou para você atirar no homem ali? Nós desistimos depois que a estrela nos iluminou? Por que nos tornamos como cordeiros. como em outras épocas quando nos conduziram sob seus pés./Oh cupido. estúpido./Fé é uma montanha tão silenciosa e cheia de fontes d’água para todas as adoráveis criaturas. A profecia é revelada agora. não atire a flecha de seu arco e nunca a lance./São suaves e cheias de paz minhas noites. pois estamos numa guerra. Eles certamente querem o caminho às vezes mais confuso. não atire a flecha de seu arco. não atire a flecha de seu arco.

particularmente no Maranhão são assim chamados os grandes paredões de som que animam os eventos de reggae. Ashanti. por vezes também homenageiam a preferência do regueiro mais considerado. Acessado em: 05/01/2006.Maristane de Sousa Rosa Filosofia religiosa afro-caribenha surgida em meados dos anos 1930 que proclama Jah como Deus Supremo e Hailé Salassié I. Goiânia. composto por Minas. em que grandes shows reúnem até cinco estruturas desse porte. de tronco lingüístico comum.gov. ou seja. Feitos de madeira compensada que medem por vezes 3 m de altura por 5 m de largura. 3 4 Grupo étnico heterogêneo vindo da África durante a travessia transatlântica em meados do século XVII. época do disco de vinil. Ardras.ma. devido a grande projeção do ritmo jamaicano entre a população maranhense. aquele originado no início dos anos de 1960. 5 6 Ressignificação dada aos sound-systems jamaicanos.culturapopular. sendo também usada para definir aspirações espirituais. econômico. vol. Nagôs. Fanti. 7 As mudanças melódicas a partir de meados da década de 1990 adjetivaram o ritmo jamaicano atual de Dancehall ou batida eletrônica. como reencarnação divina na terra.php?id=28. Língua religiosa adotada pelos rastas compondo a maneira ritualística de falar para definir o mundo político.br/ artigos2. com amplificações de som de alta freqüência. os Dj’s atribuíram esse ‘codinome’ à capital do Maranhão como forma de relacionar São Luis e Jamaica com o reggae. Ioruba e Akan. então reggae roots ou somente roots representa o ritmo de raiz. imperador da Etiópia. 8 9 Conforme Silva (2001:44). VIII. ainda compostas por mesa de mixagem do som e pela presença de DJ’s. Título dado às músicas reggae pela sonoridade produzida em inglês ou patois jamaicano. Formou-se da mistura do inglês com termos creoles. chegando o novo nome aos outros redutos regueiros fora de São Luis. n° 15 . Informação disponível em: http://www. incluindo ainda o jamaicano Marcus Garvey como profeta afro-centrista que inspirou a visão do orgulho negro. 10 58 Revista Brasileira do Caribe.

São Paulo: Stampley Publicações. (Coleção Ouvido Musical). Diego. Pedagogia do oprimido. O eterno verão do reggae. HOBSBAWM. [1971?]. BÍBLIA SAGRADA. Michel de. A cultura no plural. Marcelo Álverez (Comp. 2007 ./dez.br/4x4/ed08/masai. 1994. História social do jazz. In: La (indi)gestión cultural: uma cartografia de los processos culturales contemporâneos. formando grossas tranças. v.. BOURDIEU. 1989. Eric. São Paulo: Cia. CUNHA. FREIRE. Terence. 13 Bibliografia ALBUQUERQUE. Rio de Janeiro: DIFEL. embora por vezes seja tolhido pela exigência de que dever parecer compatível ou idêntico ao precendente. Sua função é dar a qualquer mudança desejada (ou resistência à inovação) a sanção precedente. (Trad. Negros estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África.). Celina LEZAMA. ARANTES. n.tribooffroad. por vezes com cera de abelha. set.com. Mônica Lacarrieu. Ecléa. Visual do cabelo enrolado em forma de pavio. podendo mudar até certo ponto. Rio de Janeiro: Zahar. BURKE. Manuela Carneiro. 2000. SP: Papirus. O poder simbólico. 1986.. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. HOBSBAWM. São Paulo: Brasiliense. continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história. 2002. O que é história cultural. In: Revista Os Caminhos da Terra. Acessado em: 07/09/2006. Rio de Janeiro: Paz e Terra.asp>. Memória e sociedade: lembranças de velhos. Das Letras. 8. 1997. 11 De acordo com Eric Hobsbawm (2006:10) que toma costume no sentido de possibilitar inovações. 2002. 2005. Eric. São Paulo: Paz e Terra. 1995. BURKE. CERTEAU. 12 Disponível em: < www. Enid Abreu Dobránszky). 3ª ed. 59 jul. RANGER. Pierre. BOSI. 32ª ed. Carlos. “Cultura. Campinas. “Um trekking com os masais”. Peter Variedades de história cultural. Paulo. Peter. 9. São Paulo: Ed.O reggae na “Jamica brasileira”. Argentina: CICCUS/LaCrujía. ciudadanía y patrimônio em América Latina”. Antonio Augusto. (Trad. 34. Tradução Missionários Capuchinhos de Lisboa. 1990. 1999.

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both from its subjects and its social practices. VIII. Resumen Brasil y Jamaica. Reggae. Keywords: Jamaica-Brazil. which emerge from the Jamaican filmography and other iconographic sources. conforms the vision of the spectator departing from a series of symbolic audiovisual references. recreated in Brazil. Reggae.Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal Abstract This study attempts to look at Brazil and Jamaica not as closed. Reggae Resumo Este artigo analisa as relações interculturais entre Brasil e Jamaica por meio dos conceitos de contaminação e apropriação. vol. em que o reggae jamaicano é apropriado e ressignificado em algumas regiões brasileiras. considerados tanto en sus sujetos y practicas sociales. Audiovisual. Palavras-Chave: Jamaica/Brasil. filmes jamaicanos e documentários brasileiros como representações e veículos dessa comunicação intercultural. Nessas relações a música popular e a produção audiovisual constituem veículos de reinterpretação e ressignificação das culturas de ambos os países que revelam semelhanças e especificidades. Comunicação Audiovisual. n° 15. son estudiados em este artículo no como sistemas cerrados sino abiertos. Para tanto. The exploration of the audiovisual and musical performances in both countries contributes to deepen into its culture. Goiânia. but open systems. são analisados em seu contexto. 2007 . Investigar los grados de intensidad y sobre todo las performances en la relación entre ambos *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 61 Revista Brasileira do Caribe. 61-84.

meios e produtos que se encontram envelopados em subdivisões jurídicas e econômicas cada vez mais frágeis. em complexas gradações de intensidade e performatividade. como o de rede. sejam eles locais. longe de serem momentos excepcionais e fugazes. Nesse sentido. o que vem sendo desenvolvido por uma grande variedade de pensadores de diversos lugares e tradições de saber diferentes. vol. em sua concepção de comunicação. como todos os diferentes contextos culturais. como algumas especulações e pesquisas no âmbito antropológico e filosófico parecem afirmar. VIII. sempre estiveram em contato. seria preciso usar uma abordagem que procurasse ultrapassar os limites da rígida organização do conhecimento especializado. conforma la visión del espectador a partir de un conjunto de referenciales simbólicos audiovisuales procedentes de la filmografía jamaicana y otras fuentes iconográficas. “onde a 62 Revista Brasileira do Caribe. regionais ou nacionais. que estariam sujeitas a toda sorte de variações. pode-se ter em conta que. Goiânia. Palabras Clave: Brasil/Jamaica. que poderiam contar com uma “pluralidade de subtotalidades” (o que corresponderia aos contextos locais). n° 15 . Para tentar incorporar esta visão relacional ao estudo dos contatos entre os sistemas culturais. envolvendo uma reinvenção de conceitos bastante utilizados. Michel Serres apresenta as redes como espaços irregulares. tais contatos foram a base da constituição recíproca dos contextos socioculturais planetários ao longo do tempo. mas como sistemas abertos de sujeitos. Comunicación audiovisual. entendidos não como unidades fechadas de características facilmente delimitáveis. El reggae recreado colectivamente en Brasil. Como os contatos entre esses dois contextos poderiam ser abordados de forma a trazer novas luzes para o debate sobre a comunicação intercultural1? Em primeiro lugar. estabelecendo as condições para o auto-reconhecimento dos habitantes de tais contextos como “distintos” de seus congêneres. práticas sociais.Leonardo Vidigal países mediante la producción audiovisual y musical permite profundizar en la cultura. Reggae Brasil e Jamaica.

posto que os processos de tessitura continuam em plena atuação. veiculada na TV por assinatura). de leitura complexa. determinação é construída. tornando-se parte da constituição de um tecido cultural aberto./dez. por diferentes processos. para melhor focar e direcionar tal compreensão. pertencente à mesma empresa mantenedora da Rede Globo. que fizeram pelo menos três incursões deste tipo naquela ilha do Caribe anglófono. apropriações e combinações possíveis entre os diferentes produtos e interpretantes. Dessa forma.. Tais audiovisuais foram realizados por equipes independentes que posteriormente tiveram seus programas veiculados na TV Cultura de São Paulo (pública. ensaiada” e não deveria ser considerada como fixa (MORAES. que circulam de forma cada vez mais rápida e acessível pelo mundo. Dessa forma. mas que pode revelar muito sobre as transformações culturais em curso na contemporaneidade. Tal disposição somente 63 jul. Em segundo lugar. Quando a articulação de imagem e som incorpora uma expressão igualmente mobilizadora como a música popular. Se for assim. Isso porque ela atualiza continuamente e torna explícitas as contaminações. negociada. na TV Bandeirantes (privada. estabelecendo assim uma necessidade de maior compreensão dos fenômenos envolvidos. recorte que nesse caso destacou o audiovisual.Enredando Brasil/Jamaica. quanto por equipes mistas e ainda por outras totalmente estrangeiras. pode-se concluir que o interesse de documentaristas e jornalistas televisivos do Brasil pela situação jamaicana é significativo. com grande e perceptível vitalidade.. 2000). foram produzidos ao longo do tempo na Jamaica. filmes de ficção semi-documentais. aberta) e no canal GNT (privada. um dos principais meios a organizar a expressão humana. 2007 . documentários e outros produtos audiovisuais (como videoclipes) realizados tanto por equipes locais. Entre estas equipes de gravação estrangeiras estavam os brasileiros. o que acontece hoje entre as subtotalidades que compõem as subdivisões maiores denominadas Brasil e Jamaica pode ser chamado de enredamento. aberta). é preciso recortar um aspecto ou elemento deste processo. ela amplia o seu potencial de aglutinação e torna-se também um indicador.

naturalmente complexo e plural. talvez inconscientemente. Sem entrar nos méritos dessa produção e partindo de um olhar que. n° 15 . mas incorporadas nas perspectivas de análise. Este tipo de mentalidade que partilhamos. 2002). VIII. As persistentes assimetrias de poder entre os estados-nações e no interior destes. elegendo assim aspectos específicos de um contexto cultural como representantes de toda a produção desse contexto. o Banco Mundial e a OMC (ANTELO. procura incorporar a extrema heterogeneidade de tais contextos culturais na sua análise. com nossos colegas de universidades situadas nos grandes centros. é preciso pesquisar caminhos para a abertura ou o melhor aproveitamento de circuitos alternativos de cultura entre os países à margem. reduz muito fácil e acriticamente as manifestações culturais menos conhecidas ao estereótipo exoticizado. Neste sentido. até porque é neles que se concentra a maior parte da produção audiovisual hoje em dia. ao mesmo tempo em que os submetem a todos às decisões macroeconômicas tomadas pelos organismos internacionais como o FMI. No entanto isso não acontece sem problemas para quem deseja estudar as relações culturais entre os países à margem. Goiânia. podemos afirmar que um estudo 64 Revista Brasileira do Caribe.Leonardo Vidigal encontra paralelo entre os realizadores provenientes de países como Inglaterra e Estados Unidos. mas hesita em investigar culturas consideradas exóticas pelo olhar condicionado por este mesmo cânone. não podem ser ignoradas na tentativa de operar com essa percepção. tornando-os sócios ou seguidores dos modelos hegemônicos. mais do que considera. mais estreitamente ligados à Jamaica por abrigarem colônias numerosas de oriundos da ilha caribenha. vol. em que os processos de integração do capitalismo contemporâneo estão generalizando uma lógica de mercado e de consumo que coopta determinados agentes dos países à margem. Isso porque o pesquisador pertencente ao contexto brasileiro sente-se inteiramente à vontade para tratar de objetos referentes ao chamado cânone ocidental. A comparação e a análise de tais esforços não podem deixar de levar em conta a atual situação.

podem ser analisadas como trazendo uma motivação diferenciada.. em sua acepção contemporânea. mais atento e menos eurocêntrico seria altamente proveitoso.Enredando Brasil/Jamaica. O termo “audiovisual” é bastante abrangente e corresponde. a televisão. as relações entre os contextos à margem. É um esforço de reinterpretação e ressignificação (DHARESHWAR e NIRANJANA. Esta é certamente uma definição que faz jus aos estudos mais atuais e rigorosos sobre o assunto. Nesse contexto. mas sob certas premissas teóricas que este texto procura discutir. derivados das ambigüidades socioeconômicas e outras características que compartilhamos. ao norte../dez. 1996) que oferece novas perspectivas sobre nossa própria condição. Para uma compreensão dos produtos audiovisuais de acordo com as premissas desse estudo. com ou sem a mediação de meios tecnológicos (BETHÔNICO. o que poderia abrir espaço para novos reconhecimentos. mas neste texto iremos restringir o uso de tal conceito aos suportes técnicos. talvez até mais receptivos do que os mais cobiçados. No entanto. novas identificações e também novos mercados. a qualquer articulação possível entre signos visuais e sonoros. estes não devem ser 65 jul. pois é ao mesmo tempo próxima e distanciada. familiar e estranha. o computador. tanto para o público em geral como para a esfera acadêmica em particular. menos hegemonizante e homogeneizante? O caso que se pretende analisar parece indicar que sim. como o cinema. pelo fato do termo audiovisual estar consagrado como um coletivo para tais dispositivos. 2001). 2007 . Culturas do audiovisual Mas antes é necessário compreender melhor o recorte usado para esse estudo. Pesquisar outros circuitos por onde circula o audiovisual pode revelar impasses e questionamentos semelhantes aos nossos. nesse caso sob o formato de produtos audiovisuais. podem ser descobertas também algumas soluções comuns que são ou podem ser adotadas para tais impasses. o celular e outros meios.

Neste. também o modifica. para a modalidade de pesquisa empreendida aqui. dessa vez vista como um conjunto de 66 Revista Brasileira do Caribe. nem como uma emanação do objeto. Seria preciso então recorrer a uma visão mais ampla. molda e é moldado pela forma material.Leonardo Vidigal encarados apenas como reflexos ou sintomas de fatores socioeconômicos e culturais externos aos fluxos de enredamento imaginário e concreto. Isso porque muitas vezes a cultura é citada apenas em seu sentido restrito. reinventando um novo arranjo de componentes que. Esta. Assim. mas como elementos que participariam tanto do estabelecimento das condições básicas de tessitura como do seu direcionamento. ao serem atualizados a cada exibição para os indivíduos. mas a necessidade de estabelecer limites faz com que uma visão totalizante da cultura. a produção audiovisual que emerge como resultado dessa dinâmica não é analisada como algo acrescentado por um sujeito totalmente separado de seu entorno. mas como resultado de um certo encontro. n° 15 . ligado à produção material ou imaterial que expresse de alguma forma a ação criativa humana (considerando-se as camadas descritivas e normativas acumuladas sobre termos como “arte”) e que seja socialmente aceita como tal. Nesse ponto é necessário esclarecer com um pouco mais de precisão como este trabalho irá lidar com o conceito de “cultura”. Goiânia. vol. Trata-se de um processo de contaminação por parte de certos elementos. colaboram de modo significativo para formar comunidades imaginadas e sistemas culturais reconhecíveis. que é muitas vezes tomado como dado. Não é um significado fixo porque depende das relações e arranjos nos quais está inserido em um dado momento da observação. por sua vez. o olhar construído pela experiência e pelos meios usados para se observar. VIII. embora não seja o objetivo desse texto estabelecer uma conceituação “correta” para um termo tão complexo. que seriam apropriados a partir de um processo recursivo e reflexivo. que também passou por diversos processos de produção e manipulação. produzindo diversos sentidos potenciais.

conjugada a uma capilaridade social ao mesmo tempo verticalizada e horizontalizada. bem como ideologicamente direcionada para a construção de uma unidade identitária nacional homogeneizante. por sua extensão em cadeia de dezenas de emissoras estrategicamente localizadas. São estratégias que poderiam se alternar em gradações ainda não estabelecidas precisamente. movimento ativo de recepção colaborativa./dez. a saber: Contaminação. que gera produtos variados a partir de referenciais simbólicos oriundos de contextos diferentes do local onde são reinventados. o cinema tornou-se uma das principais portas de entrada para a tessitura da rede imaginária que participa do processo de construção e difusão dos produtos audiovisuais. no qual referenciais simbólicos concebidos em um dado contexto se interpõem ativamente pelos meandros de outro. comportamentos e pontos de vista compartilhados tenda a enxergar cada contexto localizado de forma essencialista e fechada. a televisão também começou a participar desse processo de produção e reinterpretação de elementos de identificação. é preciso reiterar aqui que os sistemas culturais são encarados como relativamente autônomos em relação aos limites e condicionantes socioeconômicos e jurídicos que compõem os atuais estados-nação (CARVALHO. 1994). A partir dos anos 1950. processo infindável. Assim. Essas características são a sua extremamente prolífica e efêmera produção de conteúdo. tomando parte desse jogo com todas as suas características próprias.. duas das quais. 2007 . 67 jul. Ao longo do último século. processo que também pode passar pela atuação mediadora. Esta última característica é especialmente importante porque toca no problema crucial da capacidade de tais combinações sígnicas favorecerem ou não processos de identificação através de diversas estratégias relacionais.. já citadas. em contraste com a visão expressa desde o início deste trabalho. serão mais detidamente examinadas.Enredando Brasil/Jamaica. Apropriação. reinventados e colocados em contato por intermediários culturais e/ou agentes individuais.

de contaminação e apropriação. vol. tal interpretação acontece segundo concepções que tomam coisas. sujeitos ou culturas como entidades que teriam um estado inegavelmente original ou “autêntico” de existência e não como percepções contingentes. sugerindo não haver diferenças absolutas entre um e outro sistema cultural. VIII. o reggae teve pouco tempo de maturação antes de se consolidar em um estilo hoje chamado de roots. era conhecida como Skatalites. 2003)3. mas que eles estariam parcialmente contidos uns nos outros. captadas e compreendidas sempre parcialmente. KATZ. n° 15 . no começo 68 Revista Brasileira do Caribe. 1995). o que não foi contestado por estudos anteriores (COOPER. Goiânia. Aqui se procura construir um ponto de vista teórico mais permeável do que a constituída por noções como a de hibridismo2. STOLZOFF. Música popular e audiovisual Os produtos audiovisuais que possuem como tema a Jamaica geralmente dão grande ênfase ao gênero musical conhecido como reggae. que são ouvidos. em homenagem aos primeiros satélites). sempre por meio de ações. Nascido quando a sociedade de consumo começava a consolidar sua hegemonia pela difusão planetária de seus produtos (a primeira banda de ska. 1995. “questão de relações e alianças em estado de fluxo” (FISHER. principalmente pelas camadas mais jovens da população. 2001. A leitura de tais estudos e a observação vivenciada nestes vinte anos de envolvimento deste pesquisador com o gênero. determinando a ilha caribenha como seu local de origem. reconhecido como a primeira forma do reggae. consumidos e praticados nos cinco continentes.Leonardo Vidigal É importante apresentar uma definição mais precisa para estes conceitos por causa da conotação pejorativa que pode ser conferida aos termos “contaminação” e “apropriação”. permitiu constatar que o reggae encontra-se atualmente fragmentado em diversos subgêneros construídos coletivamente ao longo de seus quarenta anos de história. que poderiam ser chamadas de moleculares (para usar terminologia de Deleuze). Para ambos.

Todo esse ethos era claramente ou obscuramente exposto nas letras das canções. motivadas certamente pela revolução negra no vizinho Haiti. porque ditas em um dialeto patois (ou na língua jamaicana. até se tornar praticamente uma norma para a maioria dos músicos e cantores de reggae. como nas temáticas. depois como um elemento relativamente assimilado pela cultura praticada na Jamaica. As convicções dos rastas são professadas em variados graus. As origens desse sistema de crenças e valores datam das lutas políticas anti-coloniais que explodiram no Caribe no século XIX. sendo considerado inicialmente como algo marginal. em um contexto de anarquia litúrgica e antidogmática. envolvendo-o com o rastafarianismo.Enredando Brasil/Jamaica./dez. um dos pontos em comum entre os diversos grupos de fiéis. tanto formalmente. dos anos 1970 e ser internacionalizado por filmes produzidos na mesma época e pelo carisma de Bob Marley. fundamentalistas. Além disso. isto é. espanholas. O entrelaçamento entre a mensagem espiritual e 69 jul. 2007 . que foi gradativamente sendo ressignificado. Como parte do processo de edificação do roots reggae. encarnado na figura do antigo imperador etíope Haile Selassie I.. descendentes de jamaicanos nascidos nos Estados Unidos).. que têm na adoração de um deus negro. combinados com a tradição oral do canto falado (mais tarde apropriado pelos rappers americanos e jamericanos. todo um denso arranjo ético. a instrumentação musical era muitas vezes baseada nos tambores nyabinghi. religioso e moral que combina a política de valorização da herança africana com crenças milenaristas e. que existem até os dias de hoje no norte da ilha. Este é um complexo sistema filosófico. indianas e africanas. às vezes. oriundos das comunidades quilombolas (chamadas de maroons). Esse formato é o mais conhecido mundialmente e suas características formais são as mais facilmente reconhecidas e associadas ao reggae. mas que ganharam a forma atual a partir da década de 1930 e só se tornaram relativamente populares nos anos 1970. discursivo e simbólico foi sendo composto. ou inglês jamaicano. como vem sendo reivindicado por acadêmicos da ilha) que combina palavras inglesas.

e de Peter Tosh. os grandes intermediários culturais passariam a ter pouca influência sobre o desenvolvimento do reggae. em 1981. Os instrumentos eletrônicos foram tornados populares pelos rappers americanos. n° 15 . Nesse último. depois do falecimento de Bob Marley. onde o hip-hop é hoje uma das principais expressões da juventude (embora o dancehall jamaicano somente agora esteja começando a ser apreciado por aqui). no caso o mestre de cerimônias. este contato proporcionado pelas correntes migratórias e pelo maior fluxo de bens simbólicos entre os países modificou decisivamente a música popular mundial no início dos anos 1980.Leonardo Vidigal política se tornou uma marca do reggae. 2006). A partir de então. VIII. houve uma queda no interesse das gravadoras em continuar promovendo o reggae. ao inspirar a concepção do hip-hop (graças ao canto falado – o toasting– que os imigrantes jamaicanos levaram dos bailes de rua da ilha para os bailes de clube em Nova York. em 1987. hoje dominante nas paradas jamaicanas4. os grafiteiros e os DJs). juntamente com algumas cuícas compradas em sua única e breve passagem pelo Brasil. que Marley foi um dos primeiros a utilizar em seu mega-sucesso “Could you be loved”. como entre 70 Revista Brasileira do Caribe. que constituiria um dos “quatro elementos” do hip-hop. o MC – os outros três elementos seriam os dançarinos. No entanto. em março de 1980 (VIDIGAL. mas outras modalidades de discurso ainda aconteciam. contratos foram cancelados e os artistas foram forçados a se adaptar ou a emigrar. no então emergente subgênero chamado de dancehall (chamado assim por ter sido consagrado nos bailes). cujos agentes passaram a priorizar o mercado interno e aquele composto pelas colônias jamaicanas em países de fala inglesa como Inglaterra. Os contatos entre Brasil e Jamaica não aconteceram por meio de correntes migratórias diretas. Goiânia. a música popular na Jamaica foi simultaneamente modificada pela adoção progressiva das baterias eletrônicas. Por seu lado. Este é um caso de comunicação intercultural que também teria suas conseqüências no Brasil. vol. Canadá e Estados Unidos.

Relações entre Brasil e Jamaica Brasil e Jamaica são duas nações que apresentam profundas diferenças. mas por mecanismos de identificação. que podem ser resumidas nos seguintes elementos: a) carregam uma pesada herança do passado colonial e escravista. alguns deles compartilhados. contaminação e apropriação mediadas também pelo audiovisual. 2007 . principalmente no período colonial. c) a cultura negra é representada por quase todas as correntes ideológicas do espectro político como um emblema da identidade cultural imaginada. d) os contatos interculturais que forjaram os atuais sistemas foram muitas vezes violentos. e) apresentam uma expressividade corporal elaborada. compondo assim uma população atual de maioria negra ou mestiça. f) possuem uma cinematografia razoavelmente consolidada (a Jamaica tem hoje a cinematografia mais desenvolvida do Caribe depois de Cuba). No entanto.. por uma variedade significativa de grupos étnicos africanos. possuem muitas similaridades. com todas as suas implicações socioculturais. h) na maioria das vezes são imaginados pelo resto do mundo como lugares que combinam a natureza paradisíaca com um cotidiano violento e. i) suas economias atuais estão amarradas por um alto grau de endividamento externo e pesados juros internos. nos últimos séculos.. como os Yorubá e os Nagô. finalmente. além das relativas à composição social e cultural. mas também de ordem histórica.Enredando Brasil/Jamaica. não apenas em termos de extensão territorial e pujança econômica. sem imposição forçada). 71 jul. inspirando táticas de apropriação e de posterior retomada de matrizes culturais (já em um ambiente onde o contato se processava de modo predominante como contaminação. b) foram povoados à força. tornada explícita em eventos públicos onde a dança é elemento central./dez. relativas às diferentes formas de colonização empreendidas ao longo dos últimos séculos. g) têm na música popular a expressão mundialmente mais conhecida de sua cultura. Jamaica e Estados Unidos.

englobados pelos intermediários culturais multinacionais. Outro artista de reggae que veio ao Brasil no mesmo ano foi Peter Tosh. Em um segundo momento. Goiânia. exemplos concretos de influência direta dos representantes da cultura produzida no Brasil sobre os jamaicanos. havendo a necessidade de uma pesquisa mais detalhada sobre esse aspecto6. que teve sua apresentação no Festival de Jazz de São Paulo transmitida pela TV Cultura daquele estado. que foi registrada pela TV. na época contratado da Columbia (hoje Sony). é difícil perceber. expressada por certa atitude carnavalizante5 de ambas ante a expressão artística e pelas raízes comuns. Em 1981. de uma maneira pouco estudada. No Brasil os modelos de representação do reggae chegaram primeiramente de forma mercantilizada. gerando apropriações como o “reggae-capoeira”. O reggae desencadeou um movimento cultural significativo no Brasil. Ele também apareceu cantando na sala da personagem de Tônia Carrero. na novela “Água Viva”. da Rede Globo. mas ainda assim repercutem de forma significativa. depois de se fundir com a BMG. Na maioria das vezes estas proximidades se encontram escamoteadas pela distância geográfica e pela falta de conhecimento histórico dos atores sociais. foram 72 Revista Brasileira do Caribe. VIII. como a Ariola (que. gravadora responsável pela breve visita de Bob Marley (cujo catálogo hoje pertence à Universal) ao Brasil em 1980. em trabalhos de bandas como Paralamas do Sucesso. 1997). A partir de então. Mystical Roots. ou o “forreggae” (VIDIGAL. que se materializaram primeiramente sob a forma musical. n° 15 .Leonardo Vidigal A partir de tais aproximações foi construída uma relação negociada de compartilhamento cultural entre estas duas subtotalidades. vol. jogando futebol no campo de Chico Buarque e fazendo cooper em Copacabana (VIDIGAL. Assim. 2002). o “reggae-toada”. do ponto de vista do senso comum. Titãs. entre muitas outras. Gilberto Gil percorreu o país em uma turnê com o cantor Jimmy Cliff (o mesmo de “The harder they come”) que apresentaria o reggae para um grande público. Tribo de Jah. Cidade Negra. foi comprada recentemente pela Sony). a apropriação do reggae começou a gerar uma grande variedade de apropriações.

e foi o local onde surgiram bandas hoje consagradas como Cidade Negra e O Rappa e que gerou expressões locais como o reggae-capoeira. A cidade também conta com seus coletivos sonoros de dub. O interesse pelo reggae foi crescendo gradualmente até atingir um patamar de auto-sustentação entre a população de 73 jul. formando. é o contexto regional que mais aparece nos produtos audiovisuais que tratam do reggae no Brasil.. também elaborados outros produtos. apresentados em filmes. em que se pode verificar outra apropriação sob a forma do forreggae. e que agora também começa a produzir suas apropriações. para onde convergiu boa parte das bandas formadas em diversos contextos regionais. como blocos de carnaval. com destaque para a cena baiana. Outro local onde o reggae tem uma forte capilaridade é a região metropolitana da grande São Paulo. principalmente nas capitais e cidades médias./dez. onde apreciadores do gênero podem ser encontrados em articulações com o movimento sindical e até com igrejas evangélicas. sincronizando as pistas de dança de lá com as jamaicanas e inglesas. sem obedecer aos ciclos de alta e baixa intensidade observados em outros estados (VIDIGAL. documentários para TV e folhetins televisivos que abordaram o universo cultural do reggae no Brasil.. juntamente com os produtos de matriz jamaicana. documentada no documentário de média-metragem Bonde do Rastafari. 2007 . dessa vez sob o formato audiovisual. o local onde foi concebido o reggae-toada. estabeleceu uma relação intercultural continuada e estável com a ilha caribenha. O reggae vem marcando presença em quase todo o Brasil nos últimos trinta anos. o estado do Maranhão. de Cynthia Sims. Contudo. tratada como um gênero separado também emergiu na Bahia sob a forma do samba-reggae. além das atividades normais de consumo e fruição. Uma nova apropriação. O Rio de Janeiro foi cenário de uma forte concentração em torno do reggae em meados dos anos 1990. o corpus a ser analisado e que será descrito adiante. Em terras paulistanas também existe um ativo circuito de DJs de dub (versão instrumental e experimental do reggae) e dancehall. Chamado popularmente de “Jamaica brasileira”.Enredando Brasil/Jamaica. 2002).

os melôs7. que é tematizada em todos os documentários e programas que tratam daquele ambiente. Mystical Roots e Manu Bantu. embora isso não tenha sido ainda pesquisado adequadamente. Formas de “apropriação corporal”. produzidas na Jamaica ou localmente). como Tribo de Jah. 1995). Os donos de radiola costumam ir para a ilha adquirir novos discos. mas que não ficou imune à sua capacidade contaminante (como será visto adiante no exemplo dado pela série Música do Brasil). como alguns temiam. os radioleiros estão alugando os serviços de instrumentistas da Jamaica para produzir faixas “exclusivas” e assim poder ofuscar a concorrência. VIII. se especializaram em tocar versões de melôs. Festivais de música trazem artistas da Jamaica. O Maranhão também apresenta uma rica cultura popular (como mostra o curta “São Luís Caleidoscópio”. Gerações de músicos e instrumentistas do Maranhão se formaram ouvindo reggae desde crianças. é um exemplo da reinvenção praticada nos bailes maranhenses. n° 15 . como Eric Donaldson e Owen Gray. já tendo praticamente acabado com o estoque de compactos da década de 1970 de estilo roots.Leonardo Vidigal menor poder aquisitivo. Outras bandas. como no sudeste ou mesmo na Bahia (como foi observado in loco por este pesquisador). o mais apreciado pelos maranhenses. única no mundo. Ultimamente. como Legenda e cantores como Dub Brown. Os atores sociais maranhenses também modificaram o contexto jamaicano. como a prática de se dançar o reggae aos pares (como no forró). Goiânia. que não foi destruída pelo reggae. de Hermano Figueiredo). além de acompanharem os artistas jamaicanos. em apresentações que contam com um público composto por pessoas de todas as idades e não apenas por jovens. que tem as chamadas radiolas (equipes de som que tocam as músicas mais apreciadas. fazendo surgir algumas das principais bandas do gênero no Brasil. vol. 74 Revista Brasileira do Caribe. como principal fonte de lazer (SILVA. ignorados pela maioria do público no resto do país.

. são apresentadas e congeladas nos filmes “The harder they come” e “Rockers”. no caso jamaicano o de correntes protestantes como a batista. intuito que foi parcialmente atingido. como as gravadoras locais e multinacionais. único rastafari de “The harder they come”. nos produtos audiovisuais subseqüentes realizados naquele contexto. Tais filmes também foram financiados por intermediários culturais. o que foi tornado visível e legível a todos pelo amálgama audiovisual. Esse amálgama entre o discurso ético. se limita a apoiar Ivan sem tomar a iniciativa de nenhum movimento mais conseqüente. 2007 . Já em “Rockers”.Enredando Brasil/Jamaica./dez. religioso e político do rastafarianismo é preparado em “The harder they come” (que critica violentamente a hipocrisia da religião tradicional. 75 jul. diretamente ou indiretamente. Pedro. concebidas primeiramente no contexto jamaicano. facilitando a ascensão de uma nova geração do reggae. Por ter sido o primeiro longa-metragem produzido na Jamaica.. reinventados. apresentado como financiador e beneficiário do crime organizado) e explicitado em “Rockers” (com seus personagens defendendo claramente os preceitos rastafari). “The harder they come” apresenta temas e personagens que foram desenvolvidos. assim. Alguns dos produtos audiovisuais analisados As convenções que foram se cristalizando ao redor das mais diversas metáforas inventivas. Eles viriam a servir como referência para a formação de novos produtos audiovisuais por realizadores em todo o mundo acerca do reggae e o rastafarianismo. Conceitos bíblicos como o da “Terra Prometida” e a história do cativeiro dos hebreus na Babilônia foram metaforizados pelo sistema de crenças rastafari. além de fazer parte do comércio de ganja (maconha). Por exemplo. apenas a consomem. e também o aparato estatal. questionados e. atualizando a percepção do que era vivido pela população de origem africana no Novo Mundo. para inventar uma dada concepção do que se passava musicalmente na Jamaica naquela época. os rastas apresentam um papel muito mais ativo na condução da trama e não comercializam a erva. Alguns desses filmes serão mais bem analisados a seguir.

Em outro episódio. associando-o aos tambores afros logo na primeira cena. elementos e abordagens desse filme pode ser sentida primeiramente em “Rockers”.Leonardo Vidigal A movimentação de figuras. dedicado inteiramente 76 Revista Brasileira do Caribe. vol. tido como o primeiro a tocar o gênero regularmente. sons. entrevista Riba Macedo. em seqüências como as que mostram as gravações em um estúdio e a posterior volta de bicicleta do protagonista para distribuir seus discos. que jamais voltaria a fazer outro filme) e sua solução pela via da ação coletiva e solidária. em conjunto com outros rastas. n° 15 . Leroy “Horsemouth” Wallace. Goiânia. Os programas realizados no Brasil dividem-se basicamente em dois grupos: 1) os que foram realizados tendo como tema os agentes e elementos apropriadores do universo do reggae no Brasil. Ao grupo 1 pertencem as obras do documentarista Belisário França. fazendo inclusive que Macedo explique as origens de tal movimento (ele teria primeiramente substituído o bolero como “música lenta” na sua radiola e ao longo do tempo ele foi sendo adotado pelos bailantes como gênero principal). e enfatiza a forma como os casais dançam aos pares. “Rockers” também aparece como uma citação freqüente em outras unidades audiovisuais. VIII. particularmente no Maranhão e 2) os que pretendem documentar alguns dos elementos contaminantes encontrados na Jamaica. privilegiando situações de apropriação. A apresentação dos problemas enfrentados pelo rastafari que protagoniza “Rockers” (na realidade um baterista reconhecido no meio reggae. Quando tematiza o reggae (em um episódio que ainda trata do rap paulista e do funk carioca). que ecoam claramente no filme “The harder they come”. pode ser vista como uma resposta ao individualismo e ao caminho do crime escolhido por Ivan em “The harder they come” (mesmo que este tenha sido quase justificado por um impulso revolucionário). na qual os créditos iniciais são projetados sobre um grupo de percussionistas nyabinghi8. que trabalhou em conjunto com o antropólogo Hermano Vianna na realização da série “Música do Brasil” (2001). Ela trata do contexto maranhense em dois episódios. principalmente pela forma como apresenta o discurso rastafari.

Enredando Brasil/Jamaica. Jesus Cristo. mais recentes. “Netos do Amaral”. podem ser confrontadas com outras datadas do início dos anos 1990. dá destaque a um grupo da cidade de Rosário.. o que já fica claro na denominação do programa. que se apropria do reggae tanto na batida da toada quanto nas letras./dez. apesar de não mostrar nenhum ao longo do programa. o Repórter”. situada a duas horas de S. menção ao antigo “Amaral Neto.. na primeira intervenção do personagem/apresentador. até então praticamente inéditos na TV brasileira. Mais uma vez a dança ganha 77 jul. recortando. invadida por holandeses e colonizada por portugueses”. que acreditava ser o Maranhão “uma Jamaica congelada nos anos 60”. além de enfeitar o boi com um bordado que representa. este afirma que. Luís. Possui a singularidade de ser apresentado por um personagem fictício. durante o ciclo militar. que também traz uma edição sobre o Maranhão. de um lado. o repórter Ernesto Varela. São Luís estaria agora sendo “ocupada por jamaicanos”. entre muitas outras manifestações pelo país afora. O programa apresenta seus personagens por meio de diálogos que apresentam frases como “o reggae fez a cabeça do mundo todo” ou pela fala de estudiosos como o jornalista Otávio Rodrigues. 2007 . A série adota uma abordagem panorâmica. é uma série dos primórdios da MTV brasileira. disfarçada de jornalismo. Seguindo esta rota. Tais atualizações. Bob Marley. programa de Éder Santos e Marcelo Tas. emblema do vídeo independente no Brasil vivido pelo diretor Marcelo Tas. Tais manifestações são muitas vezes sublinhadas com legendas de grande proporção e com esse e outros elaborados recursos gráficos. O principal objetivo nesse caso é parodiar e explicitar as táticas empregadas pelos programas de reportagem da TV convencional. depois de ter sido “fundada por franceses. apenas alguns aspectos do reggae como foi apropriado no Maranhão. expoente da propaganda do “milagre brasileiro”. Tas e Santos vão montando com “Netos do Amaral” um painel que não parece ter a intenção de explicar ou de compreender aquele fenômeno e sim de apresentar uma reinvenção que enfatiza o lado caótico e exótico do que encontram. do outro. ao bumba-meu-boi. e.

VIII. Serralheiro foi entrevistado de forma algo jocosa por Marcelo Tas em “Netos do Amaral”. quando o narrador Gilberto Gil anuncia o boi da cidade de Rosário como sendo “sotaque de orquestra”. pois este último retoma alguns personagens apresentados antes no “Documento Especial”. apresentando um retrato visivelmente mais simpático do que o da cidade de Barretos. como o intermediário Enéas Motoca (que. A premiada série “Documento Especial: Televisão Verdade”. mais tarde. leva jovens jogadores maranhenses para a Europa e traz discos). mostrada como uma mera emulação do universo country americano em outro bloco. o radialista e cantor Fauzi Beydoun (que em “Netos do Amaral” aparece apenas como locutor de rádio) e o dono de radiola Serralheiro (falecido recentemente). A edição procura mostrar algumas situações de risco em que o público maranhense se envolve. expressão repetida por Tas quando conversou com o mesmo personagem. apresenta o assunto de forma mais crua. O fato de ter sido produzido apenas um ano antes de “Netos do Amaral” permite realizar algumas comparações específicas. com Varela confrontando a “maneira jamaicana” (expressão ressaltada com as legendas características) de se movimentar ao som da música (individualmente) e a “maneira brasileira” (aos pares). enquanto mostra o seu baú com mais de dois mil discos “trancado a sete chaves”. Também é possível identificar um percurso intertextual entre este programa e o mais recente “Música do Brasil”. que foi veiculada na TV Manchete (e. sendo acompanhado até sua casa miserável pela equipe de “Documento Especial”. Goiânia. no SBT) com a direção-geral de Nelson Hoineff. Lá. devido à posição marginalizada ocupada pelo reggae. O programa também destaca as radiolas. esclarecendo que nele são usados 78 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . vol. que precedeu o dedicado ao Maranhão no mesmo programa. conta ele de modo ligeiramente diferente nos dois programas. o radioleiro declara humildemente que não se mudou de sua antiga moradia porque queria “acompanhar o ritmo da Jamaica. lá todos os cantores moram numas casas pobrezinhas assim”.Leonardo Vidigal destaque.

Tal passagem evoca a do Documento Especial em que o percussionista e baterista Paulinho Akomabu faz uma demonstração dos diversos “sotaques” (batidas. Ao grupo 2 pertence “Jamaica. o que é finalmente logrado na favela de Trenchtown. comparando-as com as batidas do reggae (assim como seu colega da banda Guetos Tadeu de Obatalá fez com a boca para “Netos do Amaral”). a imagem dos dançarinos também desacelera. entre outros. 79 jul. banjo. onde Bob Marley viveu por alguns anos. mas precisam gravar fora do país”. para usar a terminologia jamaicana) do bumbameu-boi. apresentando cenas raras de quarenta anos atrás. fora os comerciais) e pela variedade de temas abordados. É uma reportagem televisiva tradicional.. o programa é pautado pelo imaginário sobre o reggae construído também pelos filmes dos anos 1970 analisados na pesquisa. É visível o esforço de encontrar músicos que ainda pratiquem o chamado reggae roots./dez. ou riddims. Quando a narradora explica que houve uma desaceleração no andamento musical. originando o chamado rocksteady (uma espécie de proto-reggae). em um interessante efeito sinestésico. não se limitando a apenas uma linha de interpretação”.. pela longa duração (60 minutos. A dança também ganha destaque quando o programa aborda o ska.Enredando Brasil/Jamaica. instrumentos de sopro. 2007 . A narradora explica a dificuldade em encontrar músicos “de raiz”: “muitos dos melhores artistas ainda vêm do gueto. que reveza depoimentos de artistas e jornalistas da Jamaica com cenas de rua e videoclips de reggae. o paraíso do reggae”. “Documento Especial “é o programa que permite o afloramento das opiniões mais diversificadas sobre o assunto. De um modo geral. oferece uma ótima amostra sobre o que seria considerado relevante na cultura praticada na Jamaica por aquela equipe de realização. veiculada no final de 1992 na Rede Bandeirantes. que. uma produção de Ronaldo German e Ricardo Porto. Os cantores também atestam a falta de condições de trabalho em seus depoimentos: “temos que ter um estúdio em Trenchtown”.

O tema da dança volta a aparecer no final do programa. O depoimento de um bobo dread que fala em “varrer o colonialismo e imperialismo” é contraposto ao da Ministra da Cultura da Jamaica. mas o rastafarianismo não é um movimento político. O excesso de efeitos de edição produz um efeito de “consciência do dispositivo” que ao mesmo tempo dificulta o entendimento do texto e promove certo nível de reflexividade. ecoando o formalismo dinâmico do pioneiro “Netos do Amaral”. mas espiritual”. n° 15 . mas é facilmente identificada pelos característicos turbantes cilíndricos). voltado para a louvação 80 Revista Brasileira do Caribe. afirmando brevemente que seu governo “nunca discriminou os rastafaris”. o qual é parte de uma série realizada por Belisário França que aborda o universo da música caribenha por intermédio de depoimentos literalmente recortados e colados no fundo paradisíaco. garantindo que o “o que os rastas fazem é político. como os bobo dreads (que não foi chamada por este nome. “os brancos são considerados inferiores”. nas quais. O discurso por ele proferido. associando-a com Marcus Garvey e também as “imagens proibidas” das comunidades rastafaris mais radicais. traz nessa mediação por um artista reconhecidamente ligado ao reggae roots (pois havia gravado nos anos 1980 a canção “Vamos Fugir” com a banda de Bob Marley) um viés de estranhamento.Leonardo Vidigal “Jamaica. Goiânia. vol. VIII. O uso da maconha é contextualizado. quando o dancehall é apresentado como a “tradição dos sistemas de som dos anos 50 remodelado por recursos eletrônicos. segundo a narração. com a narração vaticinando que “a erva faz parte da cultura e da economia”. outro que enverga as longas tranças emaranhadas. Narrado pelo onipresente Gilberto Gil. o que é confrontado com o produtor Stafford Ashanti. o paraíso do reggae” é o único dos programas produzidos no Brasil a mostrar a comunidade quilombola dos maroons. com uma temática social e sexual”. Outro representante desse grupo é “Baila Caribe: Jamaica”. Um transeunte com longos “dreads” menciona querer trabalhar por um “governo rasta”.

. Contribuir para a constituição de uma abordagem relacional sobre tais processos de contaminação e apropriação cultural é talvez o principal objetivo dessa investigação. O conceito da série “Baila Caribe” foi emulado nove anos depois em outra série. com apresentação e direção de Carolina Sá. chamada “Música Libre”. outra visão do universo jamaicano. no sentido de estudar os possíveis problemas interpessoais ou institucionais derivados da incompreensão ou falta de informação relativa a características culturais de cunho comportamental. evocando cena semelhante em “Rockers”. Com uma duração maior do que o antecessor e com uma abordagem que enfatiza mais o conteúdo do que a forma consegue reinventar o cenário jamaicano de maneira mais relaxada.Enredando Brasil/Jamaica. Notas 1 O conceito de comunicação intercultural trabalhado neste texto difere do que é normalmente utilizado na literatura disponível. que se refere na maioria das vezes a uma dimensão mais prática. construídos a partir dos filmes jamaicanos e outras fontes iconográficas. desta vez exibida no GNT (canal a cabo da Rede Globo). e algumas de suas aplicações possam lançar uma luz diferente sobre os processos de comunicação intercultural./dez. recorrentes em todos os programas abordados. Outros procuram se desvencilhar de tais modelos e tentam eles mesmos estabeleceremse como referência. evocam recurso semelhante usado em “The harder they come”. como restrições de 81 jul. da ascensão do dancehall e para o desvinculamento do reggae da filosofia rastafari. 2007 . Já os travellings pelas ruas de Kingston. A análise dos produtos audiovisuais produzidos no Brasil permite concluir que alguns deles procuram organizar o olhar no sentido de conformar a visão do espectador a certo conjunto de referenciais simbólicos audiovisuais. tem seu sentido deslocado e reinventado. Desse modo espera-se que os pressupostos teóricos examinados neste trabalho. que mostrou. o que talvez seja mais condizente com a atmosfera local. Em um dado momento mostra um pouco do processo de prensagem de um compacto..

apesar de valorizada e celebrada. mas invariavelmente ocorre no conteúdo. treinada pelo brasileiro Renê Simões na Copa de 1998. 5 6 7 82 Revista Brasileira do Caribe. e a indignação pelas injustiças sociais. Bonde do Rastafari. Um exemplo claro está na área esportiva. n° 15 . oferecendo em troca uma miscelânea de ofertas de consumo cultural para aplacar a sede de exotismo. de cunho relacional. de outro (2001). tratamento dado a homens e mulheres. vol. 2 Tal direcionamento é quase sempre expresso no título dos audiovisuais estudados que foram produzidas no Brasil. que. como um questionamento da representação de um produto ou manifestação cultural pela visão hegemônica. mas altamente valorizada participação da Jamaica. gênero e outras. particularmente a operada por Homi Bhabha. Música Libre. Algumas das noções de hibridismo. Baila Caribe. mas também possibilitou uma exposição exagerada de algumas características “fundamentalistas” e altamente questionáveis de alguns seguidores. parte do corpus de análise. como contou Bob Marley em sua breve visita ao Brasil (em 1980). a vitoriosa campanha brasileira na Copa do Mundo de 1970 popularizou enormemente o futebol no país. entre outras (Nair-Venugopal. movimento também conhecido como modern roots. No sentido dado por Bakhtin (1987). 2003). pois. A noção de comunicação entre culturas usada neste trabalho. o país não se classificou para as Copas de 2002 e 2006. vêm sendo questionadas por erigir um novo estatuto da diferença. 3 4 Houve recentemente a chamada retomada dos “valores rastafari”. denominadas por títulos que evocam apropriações locais das letras em inglês. para usar a expressão de fundo escravista e colonialista que tal conceito visava combater. Nas produções jamaicanas tal associação não é explicitada no título. como Jamaica: Paraíso do Reggae. Músicas de sucesso.Leonardo Vidigal contato. ainda mantém as culturas à margem “em seu devido lugar”. Para Ahmad seria mais um meio de ignorar as diferenças de classe. como a ascensão de uma nova geração que voltou a assumir o discurso e o visual de tranças da época de Bob Marley. que classifica a cultura em “erudita” e “popular”. VIII. O programa Netos do Amaral. como a homofobia. por um lado. será construída ao longo do texto. culminando na discreta. Goiânia. No entanto. o que teve consequências diversas.

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nuances do seu nomadismo. VIII. Glauber Rocha.Migrações de idéias. a análise inclui o cineasta Glauber Rocha na categoria de pensadoresnômades. n° 15. 85-107. em torno deste atributo. Trata-se de um enfoque produtivo da obra do cineasta brasileiro e de seus diálogos com artistas cubanos Palavras-Chave: Cinema Novo. gravita o argumento norteador desta reflexão. 2007 . Brazil/Cuba Resumo O artigo analisa as relações entre o Brasil e o Caribe. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 85 Revista Brasileira do Caribe. Brasil/Cuba. vol. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo “Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. Glauber Rocha. tendo como objetivo principal. pois. Inspirando-se em conceitos deleuzianos. de modo a destacar. nas representações que afloram do seu discurso. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. It particularly focuses on the representations that emerge in his discourse revealing the idea of nomadism. Goiânia.” Glauber Rocha Abstract This study addresses Glauber Rocha´s performance with the objective of offering insights on some of the aspects of his actions in the 1969s and 1970s. Keywords: New cinema.

a despeito das diferenças que existem entre eles. concepto en torno al cual se va a nortear la reflexión de este artículo.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Resumen El estudio enfoca la performance del cineasta Glauber Rocha con el objetivo de profundizar en algunos aspectos de sus acciones em los años 60 y 70 del siglo XX . El interés está centrado en el destaque de las representaciones que afloran en su discurso. Shöpke (2004 p. Na esteira do pensamento deleuziano. movida pela convicção de que. Com este propósito. ao selecionar Cuba como referência. nomadismos e pontes imaginárias Neste ensaio enfoco a performance do cineasta Glauber Rocha tendo como objetivo principal. VIII. Glauber Rocha. em configuração metonímica. de modo a destacar. não podemos negar que Deleuze tende a identificá-los pelo fato de ambos devotarem a vida à criação 86 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . pois. nuances do seu nomadismo. Cuba se inscreve como um especial “lugar de sintonias”. uma nomeação possível para as formações do terceiro mundo. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. Palabras Claves: Cine nuevo. igualmente nômades. Afinal. Brasil/Cuba Sintonias. nas representações que afloram do seu discurso. 172) sublinha: É bom frisar que estamos tomando os termos pensador e artista quase como sinônimos. dentre outras formações que redesenham o cenário pós-colonial. em torno deste atributo. nas “Terras do Sol”. Tais sintonias não escaparam ao horizonte nômade de Glauber Rocha e ensejaram diálogos entre “pensadores – artistas”. desde as lidas preliminares as fontes indiciavam. vol. Éstas son reveladoras de la idea del nomadismo. mas ademais. faço-o não apenas estimulada pela profícua interdiscursividade que. Goiânia. gravita o argumento norteador desta reflexão.

. a moral e metafísica). 411). p. Exemplifica este encontro com a vida. Todo pensador e artista nômade é necessariamente um criador. em maio de 1971. 2007 . portanto. O fio condutor para tal performance convida a pensar na arte como a “feiticeira salvadora” (NIETZSCHE Apud SHÖPKE. o “pensador-artista” nômade recusa a mera recognição e reivindica outro estatuto para as representações que constrói. ocasião em que metaforiza: “os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. Para o filósofo: Se ela também é uma ilusão que nos faz viver. A carta. (no sentido mais estrito do termo). Glauber Rocha escreveu: Meu querido Alfredo.. influências ou reativações?. o cinema novo e. 123). 1997 p. em constante movimento de ruptura com modelos préestabelecidos. como que ungida pelo sopro da arte. espero que este documento possa ser lido com tranqüilidade pelos companheiros latino-americanos./dez. a voz de Glauber Rocha parece interagir com o enunciado filosófico acima transcrito. especialmente os cubanos. 87 jul. neste. Diferentemente do sedentário. que nos fazem crer na vida a ponto de afirmá-la e amá-la sob todas as circunstâncias. pois é justamente em seu nomadismo que encontra o vetor que o impulsiona a agir e ousar. se também é uma mentira (tal como a religião. o papel dos cineastas do terceiro mundo. a seu colega e amigo cubano Alfredo Guevara. “feiticeira salvadora”. Muito embora em outro momento e em outro contexto. o cinema. é preciso escolher dentre estas ilusões aquelas que nos fazem mais fortes. o pedido de divulgação do que nomeia como “carta-documento”. em Santiago do Chile. como ocorre em tantas outras. 2004. é um sítio discursivo no qual o “pensador-artista” reflete sobre o Brasil. na verdade. E somente a arte pode nos oferecer tal poder. a carta que escreve do exílio. Ao encarecer por mais de uma vez.Migrações de idéias.

É interessante observar que a força simbólica da imagem da ponte interpelou também o jovem cineasta Eryk Rocha. estava pregando uma sociedade onde o homem não existisse em função da economia. a biografia de Glauber Rocha mostra que não apenas o nomadismo das “pontes abstratas” ensejou suas errâncias. cujas performances. n° 15 . Como se verá. também no presente ensaio valho-me de “pontes imaginárias” para construir articulações cujo conjunto logre evidenciar o nomadismo de Glauber Rocha.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo porque pouco me importa os europeus. Espero que seja divulgado em Cine Cubano e em muitas outras publicações. Quando Marx denunciou a escravidão econômica do homem. vol. Ao final. produtores ou mulheres” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. suas muitas ausências do Brasil constituem “um périplo romanesco. selecionadas sob a forma de alguns fragmentos discursivos. um nomadismo radical e vital e centenas de cartas escritas de quartos de hotel. VIII. “Glauber Rocha. apartamentos provisórios dos amigos.S. lanço um olhar sobre as “pontes” estabelecidas entre Glauber Rocha e outros “pensadores-artistas” igualmente nômades. Inclusive literalmente. Segundo o filho de Glauber Rocha. as “pontes” construídas se incumbem de situá-lo no conjunto de expressões culturais que fervilham na cena brasileira nos anos sessenta e setenta. que a escolheu. Aliás. no item “Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças”. p. Goiânia. 41). no item que se segue. seu tempo e sua obra”. sua proposta foi a de “criar uma ponte entre o imaginário da época e a atualidade” (F. Por isto os artistas são tão necessários quanto os engenheiros. para falar sobre seu celebrado documentário “Rocha que voa”. Assim. em contexto recente.P 15/07/04). concluindo: Brasil e Cuba em 88 Revista Brasileira do Caribe.’( grifos meus). ‘Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. Em seguida. fornecem o suporte empírico para as incursões pretendidas. entre as contigências do exílio ou não mais que ditadas por um peculiar e irriquieto temperamento. 1997. tomando como contraponto o mesmo atributo de seus colegas cubanos.

estratégias e táticas. como que incansavelmente ali encontrando o referendo para nossas utopias de um mundo melhor. influências ou reativações?. de modo a destacar a argumentação que o presidiu. Conforme anunciado anteriormente. rompeu fronteiras espaciais e fez da cultura. jovens universitários ou recém-formados. a brecha possível para conscientizar. Neste entendimento. é a força motriz do nomadismo glauberiano. mesmo em meio às discordâncias. atendo ao “chamado da lembrança” e aos meus objetivos. denunciar e sonhar. contando com a interlocução de autores que se ocuparam com o recorte temporal aqui considerado e aí se detiveram no viés das artes. Glauber Rocha. ou bem por isso. sintonia rizomática.Migrações de idéias./dez.. Era “a hora e a vez” da chamada arte engajada brasileira. ajustadas às condições de resistência política que encontravam na arte. Cuba é tomada como referência metonímica do universo pós-colonial e este. a própria história do país sinalizou etapas. ainda assim. enfocando um momento da vida brasileira. No amplo leque das manifestações artísticas que povoam os anos sessenta e setenta. cabendo enfatizar ao final destas anotações introdutórias. em sua abrangência. ver e rever a obra glauberiana significava para muitos de nós. retomo alguns aspectos trabalhados no texto como um todo.. seu tempo e sua obra Pertenço a uma geração que elegeu Glauber Rocha como uma espécie de porta-voz das nossas inquietações políticas. Assim. 38). teimosas réstias de luz. 89 jul. movimento que mobilizou artistas e receptores. um modo de exorcizar os fantasmas que nos rondavam. o relato da efetiva estada do nosso cineasta entre os cubanos constitui uma variável secundária. Naqueles já longínquos meados dos sessenta e primórdios dos setenta. 2007 . Era a possibilidade de entrever. apesar de tudo. um foro privilegiado. cujas etapas são reconhecidas pela efervescência cultural. mas. em meio a um cenário sombrio. p. Caprichos da memória atualizam no presente “o chamado ao qual a lembrança responde” (BERGSON Apud BOSI.

transfigura em resistência. o caráter ritualístico. celebrou e deu visibilidade. enfim. 341) considera que até o ano de 1964. depois dessa data. ao guri favelado e tantos outros atores anônimos cujo árduo cotidiano. n° 15 . p. prisão e exílio. “discursos musicados”. pautar-se pela tônica da denúncia.1 90 Revista Brasileira do Caribe. a partir dali. composta e cantada por Sérgio Ricardo e “Quem quiser encontrar o amor” de Geraldo Vandré e Carlos Lyra. 2004. p. depois da resistência. As primeiras músicas consideradas de protesto. cuja característica principal advém da elaboração harmônica. vai ser de violência. que. aos herdeiros da nossa “democracia racial”. “a catequese” e a conscientização davam o tom ao teatro engajado para. A realidade do teatro. E identificadas com o movimento estavam também variantes desta expressão musical engajada. complexidade harmônica e sutileza vocal. que o emblemático ano de 1968. elementos identificados com o movimento (NAPOLITANO. vol. aos beatos. mas mantinham a essência da sofisticação instrumental. traziam alguns elementos de ruptura com o estilo consagrado por João Gilberto. 341). Estas etapas. pois. VIII. isto já nos primeiros anos da década de sessenta. 33). Nessa época os riscos de vida não serão literatura” (NAVAS. Goiânia. aos homens e mulheres do campo. “Zelão”.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Referindo-se ao mundo do teatro. eram canções que escancaravam injustiças históricas em relação ao operário. Em suma. Navas (2001. ou na entronização do universo sertanejo. com suas especificidades permitiram ao estudioso resumir: “O caráter catequizador antes de 1964 e. responderão pela atração à história. Entendo que neste mesmo percurso é possível inscrever também a música brasileira do período. passa a fazer coro com a arte engajada. o talento de artistas e cantores brasileiros. ao pescador. mesmo o movimento da chamada Bossa Nova. p. 2001. fosse nas férteis articulações entre as vozes do morro e as das cidades. eram suportes de representações engajadas.

Aos festivais seguiam-se os lançamentos dos discos. tais migrações foram menos efetivas. 402) reproduz o discurso irônico sobre a perfomance do artista Sérgio Ricardo e sua apropriação dos cantores nordestinos. Enquanto isso. estas peças musicais guardavam em comum o engajamento com o povo brasileiro2. o teatro e o cinema. em janeiro de 1968. Castro (1990. de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. cabia divulgar tais eventos que mobilizavam torcidas e traziam para o palco diversos modos de comunicação musical. pois as trilhas sonoras dos filmes. de Chico Buarque. cuja qualidade foi reconhecida por muitos. pelo menos no caso da música. ou nas trilhas dos filmes obteve alguns sucessos no rádio e no mercado discográfico. não logravam alcançar o mesmo sucesso comercial. no conjunto das manifestações culturais da época. muito embora dialogassem com a música.Migrações de idéias. além do mais para quê. pinçada do espetáculo “Opinião”.. no binômio “qualidade-discurso engajado”. cuja peça teatral de mesmo nome.B. À televisão. a apropriação de “discursos cantados” no teatro. Foi o que ocorreu. p. sigla mágica que rotulou um filão da música popular brasileira. no ano de 1964 e “Roda Viva”. não escapou à voracidade da indústria cultural. apresentado no Rio de Janeiro. a chamada arte engajada.P. vitrine privilegiada. instrumentos e. com faturamento assegurado.. que um público ávido decorava. cujo repertório se assentava. assim como ocorrera no filme “Deus e o diabo na Terra do Sol”: “Quem queria ouvir aquilo? E. Tal cenário traz à lembrança os chamados festivais da M. arregimentadoras como “Pra não dizer que não falei das flores”. quase sempre longas. não estimulavam maiores incursões da indústria cultural. Lembrando o festival de música da TV “Excelsior” no ano de 1965. sobretudo letras. comoventes como “Arrastão”. influências ou reativações?.. estreou em São Paulo. Líricas como “A Banda”. com a “Marcha da Quarta feira de Cinzas”. arranjos. se era possível produzir industrialmente este mesmo folclore. É preciso lembrar que. com harmonias européias e ainda vencer festivais?” Não seria o 91 jul. Somente em algumas ocasiões. 2007 . por exemplo./dez. Já no caso do cinema. ritmos.

pois a intenção deste item é não mais que desenhar um breve painel3. são aspectos que pontuam a trajetória de Glauber Rocha e dão suporte ao seu nomadismo5. e reterritorialização. VIII. 192). entrevistas e um repertório de frases e slogans. aliás. pretensão que. o público privilegiado do cinema novo” (NAPOLITANO. um tipo de sucesso alcançado pelas mãos da indústria cultural.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo caso de retomar a polêmica. tomando Hamlet como exemplo. escapando ao consensual. p. não estava na preocupação do cinema novo4. seja na pluraridade 92 Revista Brasileira do Caribe. mas não é unívoca” (ECO. pois. escapa a estas anotações. reveladores do seu talento e do seu modo de representação da realidade. seja na leitura e releitura dos seus filmes. Uma resposta breve convidaria a pensar nos mesmos estudantes que compareciam aos festivais. transbordantes. elas se consubstanciaram em filmes. assistiam aos filmes. até porque “a autocrítica desenvolvida pelo cinema tinha um sentido muito mais radical e procurava repensar a difícil situação existencial do jovem intelectual de esquerda. aliás. a narrativa “pode ser contada até por um ginasiano” na segunda. vol. Goiânia. festinhas e nos sempre povoados centros acadêmicos. integravam um público consumidor de classe média e expressavam seu agrado conhecendo o repertório das trilhas sonoras. “a ação de Hamlet fez e fará correr rios de tinta. Bem por isso. Mas na verdade. Referindo-se ao universo do teatro. pois é uma. 54). correspondências.1986 p. A importância desse legado “radical” e alguns dos sentidos possíveis da sua movente tônica de desterritorialização. Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças Idéias não faltaram a Glauber Rocha. Trazendo a imagem para o universo glauberiano. manifestos. Se no primeiro. cantadas nas muitas reuniões. projetos. n° 15 . Eco contrasta as vertentes do enredo e da ação. 2004. ela mantém a pertinência. a plurivocidade das ações abre-se para um sem número de possibilidades interpretativas.

para entendermos. a suspensão máxima imposta pela morte. 175). cinema. pois. 2007 . para meus objetivos. Percebo que a chama viva da polêmica.S. política. quase sempre. Uma trajetória marcada por turbulências e inquietações é apanágio do “artista-nômade”. para uma espécie de “crítica da crítica” ou. 170). Áfryca. aos cuidados dos especialistas. 2004. literatura e. U.Migrações de idéias. tomou o poder cinematográfico no Brazyl em 1962 (independente dos fluxos paralelos) fundando novas fronteyras criativas e comerciais em terras de Oropa./dez. na esteira do pensamento nietzschiano. no ano 1980 afirmou. claro. ao alastrar-se. já ao final dos anos cinqüenta. de publicações centradas na obra de Glauber Rocha. Deleuze. 93 jul. materializadas em acalorados debates sobre teatro. p. tinha como tripulantes um grupo de jovens cineastas que escolheu a cidade do Rio de Janeiro. é preciso que estejamos no mesmo barco. partilhando “uma deriva. suas ações e seu legado ainda hoje interpelam a muitos. música. começando a atuar desde 1959. cuja obra logra transcender até mesmo. Deixo o inventário compromissado com os rigores cronológicos. para a “celebração da celebração”. como espaços de suas “derivas”. um momento de deriva ou de desterritorialização” (DELEUZE Apud SHÖPKE. desdobra-se da retomada das críticas coevas aos filmes. sobre tudo aos estudiosos da Sétima Arte.A. Ázya.. capitaneadas por Glauber Rocha. com a ortografia que se permitira cunhar: “o movimento do Kynema novo. Não mais que “louca por cinema” e conforme anteriormente mencionado.. p. mas especificamente alguns bares do Rio de Janeiro. interessada desde os tempos de estudante pelos filmes e pela trajetória de Glauber Rocha. tertúlias. 1997. impressionaram-me os “rios de tinta” que me chegaram. O “barco” dos precursores do chamado cinema novo. será suficiente reter alguns pontos do movimento liderado pelo cineasta brasileiro que. e América Latyna” (GLAUBER ROCHA Apud GOMES. pondera sobre a audácia de um pensamento que. influências ou reativações?. desde as primeiras incursões dedicadas à elaboração deste ensaio.

Afinal. quanto são reconhecidos seu talento e seu conservadorismo. conheceu episódicas trocas de sinais. não obstante as tantas resistências que pontuam o cenário pós-colonial. não contou com a mesma receptividade. a revista direitista Fatos e Fotos publicou a notícia em tom de denúncia política” (GLAUBER Apud BENTES. jamais por ele próprio negado. não apenas comercialmente transpunha fronteira. Da mesma carta-documento enviada ao cineasta cubano Alfredo Guevara e já citada em páginas anteriores. 94 Revista Brasileira do Caribe. 407) (grifos meus). o cinema novo entra em declínio na segunda metade dos anos setenta. pelo menos por ocasião do seu lançamento em 1967. de resto. destaco outro fragmento discursivo. construíram discursos parafrásticos em relação à crítica de direita. ao ensejo do cinema novo. sequer nos momentos em que Glauber se consagrou como gênio em algumas hostes. No Brasil. Nossa historicamente construída condição de receptores de idéias. Sobre “Terra em Transe”. trata-se de “um ideograma chinês de cabeça para baixo”. se pode falar em unanimidade. que encontrou em Nelson Rodrigues. entre avanços e recuos e em meio a uma conjuntura política adversa. Se.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo De fato. seria impossível. a repercussão de “Terra em Transe”. VIII. se “Deus e o diabo na terra do sol” foi aplaudido quase unanimemente no ano de 1964. vol. p. 1997. a unanimidade para além de “burra”. Na verdade. o dramaturgo resumiu. bastante persuasivo quanto à troca de sinais acima referida. Goiânia. o rotularam de “confuso” e nisto. n° 15 . Prima della Rivoluzione e ‘Terra em Transe tinham sido os filmes que mais influenciaram o movimento de maio de 1968’. no que possa parecer um exagero. em blague hoje tão conhecida no Brasil. no caso de Glauber Rocha. “toda unanimidade é burra”. conforme ironizou o jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. um irônico e conciso sujeito-suporte. Setores de esquerda criticaram o filme por sua liberdade narrativa. esta nova performance cinematográfica do terceiro mundo. Se não vejamos: “Quando os estudantes da Sorbonne apresentavam uma tese demonstrando que Weekend.

E não poderia ser de outra forma. O filme “Terra em Transe” durante abril de 1967 foi proibido em todo o território nacional. evidenciada no “discurso confuso”. Gomes (1997. não contente com a abundância informacional com que brinda seus leitores. Sobretudo desde o barroco. Glauber também precisara dissimular a denúncia com os ardis formais de uma linguagem extremamente elaborada. desenvolve análise e crítica dignas de transcrição. sendo liberado no início de maio. Pensar na análise desses discursos nas vertentes do discurso do emissor (Glauber Rocha) e nos dos receptores (a crítica). 184). apesar dos ardis de linguagem. mas que se ocultava nos jogos do pensamento. pois. 95 jul. (teatro universitário) recebeu aplausos ao longo da sessão.S. Prosseguir rastreando a exuberante filmografia de Glauber Rocha seria extrapolar os limites disponibilizados para estas reflexões. 445).. 2007 . os poetas e os artistas aprenderam a dizer verdades duras sob o manto da forma requintada. p./dez. Ocorre que os equipamentos retóricos que não ficaram claros a muitos críticos. posto que pautadas na busca de sentidos e representações de “Terra em Transe”: Era uma interpretação brilhante e de grande beleza literária. a reiterar que a obra como um todo.P. para escapar ao assédio da ditadura.Migrações de idéias. seria necessário pensar nas condições do momento em que o filme foi produzido. para confundir a violência do poder. dominado pelo latifúndio e pelos interesses das classes privilegiadas. p. que conseguiu captar seus sentidos. problematiza a realidade. não escaparam aos olhos e ouvidos atentos da ditatura. uma forma inclusive de fraturar o real com intenções artísticas” (BAZIN. ANDRÉ Apud GOMES. Cabe lembrar que a exibição em São Paulo organizada pelo T. Limito-me. ao se descolar da confortável reprodução mimética. ao lado de certa intencionalidade. promovendo “uma reordenação e não uma submissão visual. sob a alegação de subversão e cunho ofensivo à igreja católica.U. guarda em comum a característica de uma linguagem cinematográfica inovadora que. que provocou perplexidade. 1997. a quem venho recorrendo para a construção deste item. portanto.. influências ou reativações?. Eldorado simplesmente era o Brasil injusto.

I. como exemplo empírico. atos de criação e não de recognição (SHÖPKE. também estes ungidos pela arte“feiticeira salvadora”. Sequer seria o caso de estabelecer comparações entre iniciativas e posturas. para o nômade. não conseguem apagar sintonias na diversidade do cenário pós-colonial. Lá estava o Instituto Cubano de Artes Cinematográficas. sintonizados com a arte e com a “Ilha”. Cuba significou. são. É neste afã de conhecer e de re-conhecer que Glauber Rocha reconhece a porosidade das fronteiras territoriais que. 184). p. muito embora as articulações tenham sido muitas.C. diferentemente sedentário. considero importante ressaltar que a sintonia observada entre as práticas e representações de Glauber Rocha e as dos cineastas cubanos. pautadas no viés dos rigores cronológicos. Goiânia. não poderiam ser buscadas na perspectiva da mera “influência”. 256). centro em torno do qual se mobilizavam artistas. vol. Se. onde o diverso e uno se imbricam. e tripulantes do mesmo “barco”. sem dúvida um importante ponto de inflexão na trajetória de Glauber Rocha. 1997. 96 Revista Brasileira do Caribe. cineastas e intelectuais cubanos. tanto conhecer como re-conhecer. VIII.C. ocupados com primazia das datas de veiculações de projetos. já que. este conjunto deve ser destacado. as “intenções artísticas” do pensador e cineasta. Neste reconhecimento. p. nas trilhas do cinema cubano e do cinema novo brasileiro (GOMES. uma correspondência intensa atesta as afinidades entre Glauber Rocha. desterritorializando-se e reterritorializando-se. o I. independentemente da precedência das ações. o que este suporte enseja é a reflexão sobre as sintonias de uma experiência nômade e desterritorializada. algumas das respostas. Ademais de sua estada. publicações ou filmes. Não por acaso.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo nômades. que floresceu nos anos sessenta e estruturou-se como movimento. Glauber Rocha reconhecia o cinema latinoamericano. sempre se inscrevem no gesto criador. Para os objetivos deste artigo e em consonância com os referenciais adotados. recorte que desdobra das perguntas que faço ao tema.A. n° 15 . intelectuais e cineastas. 2004.

para ficarmos apenas com alguns dos interlocutores. Saltando no tempo. o mesmo ocorre com os praticamente intermináveis diálogos nos quais Nietzsche comparece cumprindo a função do “discurso de outrem”. esta complexa grade de idéias. 2007 . Em dado momento.. isto é a diferença. em grandes enunciações. ora desdobrada em complexas ramificações. enleada pela noção de diferença e que faz do reconhecimento. 48-66) ao conceito de “diferença” em Platão. cujo nomadismo terá por certo lhe ensejado a reativação do conceito de diferença. pela provocação.. Refiro-me aqui. em modos de ver de sujeitos. Deleuze (1988. expressão adotada por Deleuze ao lado das noções de “maquinação” e “reativação” que não incluem a idéia de 97 jul. agrega ou entrelaça às suas reflexões. influências ou reativações?. Ora o arquivo constituído pelas obras e ações dos “pensadores-artistas” aqui referidos. portanto. elementos que remontam ao mundo grego. sobre a força do pensamento. Deleuze por exemplo. Parmênides. então. pela inovação. se constituam como decalques. Seria um esforço improfícuo. Glauber Rocha e os cineastas cubanos./dez. ora questionada. Heráclito. matiza o pensamento deleuziano. 205) reflete: “O que se estabelece no novo não precisamente o novo. articulá-lo às pontes estabelecidas com os cubanos. presentes. inspirando-se em Nietzsche. conforme venho enfatizando. intencionalmente invocado. vale insistir tomar para tanto o rumo das “influências”. de uma “constelação de agenciamentos”. destaca-se. porém ele lhe infunde o seu tom. posto que falo em sintonias. sem que por isto. justamente. pois o próprio do novo. Aristóteles. é provocar no pensamento forças que não são as das recognição”. Antes cabe falar em reativação de representações e ações. para. Inspiradora. uma postura que se aparta da mera recognição. Trata-se. matrizes de sentido que integram pensamentos. tais sejam. p.Migrações de idéias. A opção por tematizar as repercussões de perfis nômades no cenário pós-colonial sugeriu a construção de um texto centrado em Glauber Rocha. ora reelaborada. assim como o faz Shöpke (2004. p. a partir daí.

Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo

“influência”, para o filósofo, um termo fraco e inapropriado para designar a circulação de idéias que anima os pensadores nômades (SHÖPKE, 2004, p.201). No caso da comunidade cubana e, na impossibilidade de todos mencionar e, mais que isto, comentar as respectivas ações, limitome a destacar algumas evidências empíricas, articulando-as a alguns nomes e propostas. Por exemplo, o “Tercer Cine” de Fernando Solanas assim como Júlio Garcia Espinosa, com seu “Cine Imperfecto”, desenvolveram ações que estão, para a renovação do cinema latino-americano, em sublinhada sintonia com a performance de Glauber Rocha, com o seu cinema novo. Seleciono em Espinosa (1996, p. 125) importantes reflexões sobre as motivações primeiras do “Nuevo Cine Latinoamericano” e as reativações promovidas pelo neo-realismo italiano, no caso, “ponte abstrata” das suas incursões preliminares:
Un primer puente fue el neorealismo italiano. El Nuevo Cine Latinoamericano daba sus primeros pasos cargados de una indiscutible autenticidad. No fueron actitudes miméticas las que nos motivaron. El neorealismo no era un estilo a copiar, era una actitud ante el cine que había de cambiar y ante la vida que había que transformar. Nada podía atizar mejor nuestras esperanzas y nuestras ilusiones. La relación resultó tan fecunda y consecuente que sus huellas vivirán siempre en cualquier obra del cine latinoamericano. No obstante, ya avanzados los años sesenta, la realidad de nuestros países poco tenía que ver con la de la postguerra italiana. En nuestras vidas el espíritu cambio crecía, se aceleraba y se materializaba en acciones de lucha concreta. ‘La identidad se buscaba rompiendo con la máscara de identidad que se nos ofrecía. Y nosotros, cineastas nos identificábamos buscando una identidad que sabíamos única y, a la vez, múltiple y diversa’. (grifos meus). 6

Encontro justificativa para tão longa transcrição por entender que, refraseada ou recortada em pequenos fragmentos, a seqüência

98 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

Migrações de idéias, influências ou reativações?...

assim obtida privaria o leitor de acompanhar o informacional e as argumentações do cineasta Espinosa, cuja clareza me libera de retomar os propósitos de um grupo, e as reativações face ao neorealismo italiano observo ademais, que a metáfora da “ponte” parece resultar de uma acordo tácito entre estes nômades. A Alfredo Guevara coube o estabelecimento da “ponte” inicial entre a arte cinematográfica brasileira e a cubana. Em cartaresposta a Glauber Rocha escrita em 4 de fevereiro de 1961, o cineasta cubano agradece pelo envio de fotografias do filme “Barravento” e também pelos interessantes artigos recebidos. Por sua parte, comunica o envio de fotografias e revistas, informando a disposição da Revista del Cine Cubano e da cinemateca de Cuba de enviar todas as publicações e notícias sobre o cinema cubano. No aguardo da exibição de “Barravento” em Cuba, Alfredo Guevara argumenta, na mesma carta: “Sabemos hasta qué punto tienen contacto nuestras realidades y culturas, cuán cercano, mucho más de lo que uno y otro saben – están nuestros pueblos, y como en la psicología, las costumbres, los problemas, los sueños, la música y el arte se encuentra una común raíz” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES, 1997, p. 36)7. Estas sintonias, estas “raízes comuns”, desde sempre percebidas por Glauber Rocha, se explicitam por ocasião do exílio, ao ensejo da experiência cotidiana. Nas representações de Glauber Rocha, África e Cuba significavam “duas Bahias”. É preciso reter, entretanto, que esta identificação que se patenteia na socialidade do dia-a-dia, ao longo do processo, passou por impasses. Em Cuba, Glauber Rocha viveu entre os anos de 1971 e 1972 e, na feliz expressão de Bentes (1997, p. 49), a Ilha foi para ele “uma espécie de laboratório político”. Neste aspecto, seu entusiasmo inicial experimentou frustrações e desencantamento. O ideal era o mesmo, assim como eram as mesmas, as sintonias promovidas pelas sempre lembradas “raízes”, os amigos eram muitos, mas, a cotidianidade da ambiência política, acabou por assustá-lo. “Admitia que permanecendo em

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Cuba oficializava seu rompimento com o Brasil e, isto é o que ele menos desejava. (GOMES, 1997, p. 163). Por outro lado, houve ruídos ao final de sua estada, provocados pelos questionamentos quanto à retirada dos créditos cubanos ao filme “História do Brasil”. Tais ruídos, porém, não foram maiores que o apreço cultivado entre os “hermanos” cubanos. Por ocasião da morte de Glauber, o amigo primeiro, Alfredo Guevara, homenageou-o com uma edição da revista Cine Cubano, com foto de capa e inclusão de algumas cartas (GOMES, 1997, p. 263 e 264). Nelas, como venho destacando, evidenciam-se os atributos nômades destes “pensadores-artistas”. Sintonias quanto às práticas e representações como as que venho, aqui e acolá, garimpando neste item, pela impossibilidade de detalhá-las neste espaço, foram também percebidas por Villaça (2004) em estudo igualmente centrado em Glauber Rocha8. A autora observa a repercussão da obra glauberiana em Cuba, na segunda metade da década de 60. De fato, “Terra em Transe” (1967) e “Memórias del subdesarrollo” (1968), do cineasta cubano Tomás Gutierréz Alea, guardam em comum vários elementos. Por exemplo, a construção das tramas em torno de personagens interpelados por crises existenciais e identitárias, os monólogos, as trilhas sonoras inovadoras e uma linguagem aberta que dista dos convencionalismos lineares. “Pensador-artista”, assim como foi Glauber Rocha, Alea discorre sobre seu fazer, em um conjunto de entrevistas publicadas no ano de 1989. Chamou minha atenção à imagem por ele adotada para refletir sobre a responsabilidade do cineasta que, ao mesmo tempo, deve preocupar-se com o plano ideológico e o estético.
Jamás he pensado que estoy libre de esa responsabilidad, vivo en una sociedad con la que quiero tener una relación productiva. Al mismo tiempo no puedo olvidar que lo que estoy haciendo es un producto muy particular. ‘No soy un ingeniero, un constructor de puentes, un economista. Soy un cineasta. Lo que hago es fundamentalmente un producto

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estético que cumple una función social’ (ALEA Apud OROZ 1989 p. 19)9 (grifos meus).

A julgar, pelo que veio, insistindo desde o ínicio, Glauber Rocha, sintonizado lhe devolveria a reflexão completando-a, pois o ‘pensador-artista’ é “engenheiro de uma ponte abstrata”. Ao construí-la, estes nômades guiadas pelas mãos da ‘feiticeira- salvadora’, se re-conhecem na mesma missão para a qual dedicam suas vidas. Bem por isso, o já lembrado Espinosa, mais uma vez participa do diálogo lembrando que: “... el arte, como la vida, está siempre en una búsqueda permanente de su identidad. De ahí su importancia y su grandeza. El arte, en este caso el cine, que dé por concluida la búsqueda de su identidad, es un cine” (ESPINOSA: 1996, 123) 10 . Esta busca de identidade e este compromisso com a vida, com a arte e com a estética, não poderiam ser procurados em linguagens cinematográficas alhures, pois, ainda que tecnicamente perfeitas, a estas faltaria a sintonia com a arte compromissada. Assim, no mesmo barco desterritorializado, os ‘pensadoresnômades’ reuniram os seus esforços em torno do melhor do seu fazer, já que: “não é um filme, mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim ao público, a consciência da sua própria existência”, conforme lembra Glauber Rocha nas palavras finais da sua Estética da Fome (GLAUBER ROCHA Apud GOMES, 1997, p.599). Prosseguir garimpando sintonias, entre os cineastas das ‘terras do sol’, seria lembrar muitos outros nomes de tripulantes do mesmo barco, já para não falar da curiosidade com que me peguei, ao saber que não apenas homens, o integravam. Nele estava, por exemplo, a documentarista Sara Gomes, cuja trajetória chamou a atenção do jovem cineasta Eryck Rocha (F.S.P. 15/07/04). Em Eryk encontro também, subsídios que corroboram o argumento norteador deste ensaio. Entrevistado pelo suplemento Domingo, do jornal peruano La Republica, em 4 de agosto de 2002, ele avalia: “Meu pai foi um nômade pós-moderno em plena

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década de 60. Imaginas? Adiantou-se à sua época, tinha um pensamento vanguardista e lutou por uma ideologia, autenticamente latino–americana. Muitas das coisas que defendia à época são vigentes agora. Creio que sua obra é um baú muito grande, que dia-a-dia, deveria ser redescoberta, reinterpretada”11. Neste nomadismo, a passagem de Glauber Rocha pela ‘ Ilha’ constitui, ao mesmo tempo, um porto seguro e uma ‘revolução dentro da revolução’, pois, “no auge das suas inquietações estéticas e políticas, o cineasta baiano filmou, agitou e polemizou como nunca em Cuba” (F.S.P. 15/07/04). Afinal, é atributo dos desterritorializados, este ‘sentir-se em casa’. De Havana, Glauber escreve para o cineasta Cacá Diegues: “estou em Recife muito feliz, estou na Bahia muito feliz, e todo caminho dá no mar [...] Soy feliz y tengo saudades” (GLAUBER
ROCHA Apud GOMES , 1997, p.432).

Bem sem vê, pelo fragmento discursivo acima, o que significou o cotidiano em Cuba, nas representações de Glauber Rocha. Especular sobre as condições de significação de tal sintonia, convida ao diálogo com pensadores cuja concepção do identitário se assenta no lugar de confluência do múltiplo aberto ao diverso e ao movente, onde o ‘reinado do ser é substituído pelo sendo’ (GLISSANT Apud BERND, 2004, p . 104 ). Algumas reflexões que desdobram deste modo de ver, aparecem a seguir, no próximo e último item.

Concluindo: Brasil e Cuba, em sintonia rizomática
Conforme lembra a acima citada Bernd (2004, p.101), os enfoques de Glissant e Chamoiseau quanto às questões identitárias, dialogam com as idéias de Deleuze e Guattari, pensadores que, como se viu, foram lembrados ao longo do presente texto. Glissant e Chamoiseau 12 se opõem aos integrismos e fundamentalismos dos discursos convencionais, quando a questão

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Em outro contexto e com outra conotação. Nestas ‘conexões transversais’ encontro os suportes do nomadismo de Glauber Rocha. mas sugerindo entrelaçamentos. é a identidade. no qual as temporalidades.. ROLNIK. Ora. secundarizando as construções das fronteiras espaciais e sua importância. transe histórico. presente e futuro 103 jul.. p.Migrações de idéias. 2007 . bem como o fazem os ‘pensadores-nômades’. Glauber é este cineasta [. que só na viagem e através dela.coloniais.. onde ele define os sistemas de caules subterrâneos de plantas flexíveis que dão brotos e raízes adventícias em sua parte inferior (GUATTARI. é noção que remete à idéia de raízes múltiplas e abrangentes. Elas ressoam rizomaticamente dos ‘caules subterrâneos de plantas flexíveis’ cujas raízes multi-seculares se plantaram no solo fecundo dos territórios pós. p.. Desta percepção partilha o historiador e poeta: Suprimir diferenças entre o passado. centrá-los ou cercálos. é possível se encontrar as raízes mais secretas do mistério dos homens e das sociedades que constroem e destroem: as suas mitologias. 1996. Dir-se-ia. se entrecruzam e os territórios se desterritorializam. sem que se possa. O termo ‘rizoma’ foi tomado por empréstimo à Botânica. Guattari explica a adoção dos termos ‘rizoma’ e ‘rizomático’. 322 ). influências ou reativações?. podem derivar infinitamente. para ambos. 246).” (LOPES Apud GLAUBER ROCHA. ao contrário. a partir de um ponto central em relação ao qual remonta cada elemento local. construir e destruir mitologias é viagem incessante. estabelecer conexões transversais. que. e dos cineastas cubanos sintonizados quanto às representações que construíram sobre o papel da arte cinematográfica para os povos do Terceiro Mundo. se reterritorializam.]. sugeridos por ele e por Deleuze: Os diagramas arborescentes procedem por hierarquias sucessivas. 1983./dez. João Lopes reflete: “se há cineasta a que convenha a designação de nômade. Os sistemas em rizoma ou ‘ em treliça’.

suas viagens. Vinícius de Morais. ‘rios de tinta’. p 12 ). vol. VIII. A qualidade das trilhas sonoras dos filmes de Glauber Rocha foi reconhecida por setores do Brasil e do exterior segundo Gomes (op cit. 1 2 Os autores das músicas são respectivamente. O valor de um homem é a sua palavra (LEONARDI. a ‘palavra’ de Glauber Rocha e as representações que a ela subjazem motivou e motivará. são portadoras de uma infra-estrutura despertada pela música. Notas Refiro-me. tendo sido um pesquisador das fontes nordestinas da música interiorana. n° 15 . incluído no livro ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ de 1965 à importância da música para Glauber. naturalmente à frente – mas também da popular e da folclórica. Elis Regina e Maria Betânia. nem sempre entendida. Carlos Lyra. Gilberto Gil. Chico Buarque. por certo. Caetano Veloso. pp 432 – 433 ) “ele gostava não apenas de música clássica – Villa-Lobos. mas sempre sintonizada com os que com ele partilharam e partilham ainda o mesmo barco. Edu Lobo. seu nomadismo. Geraldo Vandré. este breve ensaio se junta como gota atraída pelas sintonias de alguém que pertence a uma geração que desde logo aprendeu a admirar Glauber Rocha. o fragmento acima sugere conexões e pontes com a trajetória de Glauber Rocha. Em seu afã de registrar a mensagem dos cantadores ou dos violeiros cegos. por exemplo.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo È uma forma de viajar: Saio de meu próprio nicho e participo da vida de outros. quanto na subseqüência da ação dramática e seu eco musical” 3 104 Revista Brasileira do Caribe. tanto em justaposição de som e imagem. João do Vale. dentre outros. Polêmica. Chico Buarque. Paulo Perdigão dedicou todo um item de seu ensaio ‘Ficha Filmográgica’. ao repertório. No espaço discursivo da poesia e na riqueza das imagens. Goiânia. Nara Leão. todas as seqüências enfáticas. Nestas águas. na polissemia de que se reveste tal expressão e sua palavra. lembrando que no filme. 2003. Edu Lobo e Geraldo Vandré.

Rolunik op cit p. mútipla e diversa” (tradução livre). de investimentos. estão nossos povos. a realidade de nossos países pouco tinha a ver com a da pósguerra italiana. quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente “em casa”. que ultrapassa o uso que dela fazem a etologia e a etnologia [. E nós.] A reterritorialização consistirá numa tentativa de recomposição de um território engajado num processo desterritorializante (Guattari. 4 O repertório dos filmes será enfocado mais adiante. era uma atitude perante o cinema que havia de mudar e perante a vida. O neo-realismo não era um estilo a copiar. quão perto. Uma primeira ponte foi o neo-realismo italiano. Segundo Guattari. do ponto de 8 105 jul.. pragmaticamente. se acelerava e se materializava em ações de luta concreta. nos identificávamos buscando uma identidade que sabíamos única e ao mesmo tempo.. e como na psicologia. o espírito de mudança crescia. Buscava-se a identidade rompendo com a máscara de identidade que nos era oferecida. 6 7 Sabemos até que ponto têm contacto nossas realidades e culturas.. A relação resultou tão fecunda e conseqüente que suas marcas viveram sempre em qualquer obra do cinema latino americano. [.. influências ou reativações?..] o território poder ser relativo tanto a um espaço vivido. Não fora atitudes miméticas que nos motivaram. os costumes. se encontra uma raiz comum. abrir-se./dez. nos tempos e nos espaços sociais. Não obstante já avançados nos anos sessenta. 5 Territorialidade/desterritorialização/reterritorialização são noções caras ao referencial proposto por Guattari e Deleuze em seus estudos voltados para a problemática das identidades.] Ele é um conjunto dos projetos e de representações nos quais vai desembocar. cineastas. muito mais que alguns sabem... O excelente artigo “América Nuestra e o cinema cubano”. isto é. Nada podia atiçar melhor nossas esperanças e nossas ilusões. que havia de se transformar. os problemas. a música e na arte. Em nossas vidas. cognitivos. os sonhos. a noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo. (tradução livre). de autoria da historiadora Mariana Martins Villaça. O território pode se desterritorializar. toda uma série de comportamentos. dialoga com o presente ensaio. engajar-se em linha de fuga [.. 323). 2007 . O novo cinema latino americano dava seus primeiros passos carregados de uma indiscutível autenticidade.Migrações de idéias. culturais estéticos.

S. Ecléa. SP: Boitempo. n° 15 . reinterpretada. Traité du tout. Daí sua importância e sua grandeza. está sempre numa busca permanente da sua identidade. 2003. Creo que su obra es un baúl muy grande que día a día debería ser redescubierta. Muchas de las cosas que defendía en ese entonces ahora siguen vigentes.monde. A arte. VIII. Paris. R. Benjamim. pelo jornal peruano La Republica (suplemento Domingo. Hibridismo & outras misturas.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo vista temático. vivo em uma sociedade com a qual quero manter uma relação produtiva. Goiânia.” Neste aspecto. que dá por concluída a busca da identidade. Ruy. como a vida. CASTRO. Ao mesmo tempo não posso esquecer que o que estou fazendo é um produto muito particular. Ivana (Org.) Cartas ao Mundo/Glauber Rocha. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. Bernd menciona pontualmente os estudos de Chamoiseau. 1997 e ao de Glissant. O que faço é fundamentalmente um produto estético que cumpre uma função social. Galimard. SP: Companhia das Letras. 1997. Oscilação e Simulacro. 9 10 “A arte. “Jamais pensei que estou livre dessa responsabilidade. BERND. Édouard.) Margens da Cultura: mestiçagem.: Ateliê Editorial. Cinema brasileiro (anos 60-70): Dissimetria. BOSI. 2004. Luis Cláudio da. SP: Companhia da Letras. (tradução livre). A história e as histórias da bossa nova. Te imaginas se adelantó a su época. 2000. entretanto. vol. 7 Letras. 1990 COSTA. neste caso. Paris. Sou um cineasta. Não sou um engenheiro. Chega de saudades. In. Patrick. 106 Revista Brasileira do Caribe. 11 Tradução livre do texto publicado. um economista. Écrire en pays dominé. Galimard. tenía un pensamiento vanguardista y luchó por una ideologia auténticamente latinoamericana. o cinema. 1997 .J: Ed. 4/08/2002): “Mi padre fue un nómada posmoderno en plena década del 60. têm modos distintos quanto à construção do objeto e os referenciais teóricos adotados. Zila: “O Elogio da Crioulidade: o conceito de Hibridação a partir dos autores francófonos do Caribe”. Abdala Jr (org.P. 12 Bibliografia BENTES. As abordagens. um construtor de pontes. é um cinema morto” (tradução livre).

. 2001. 2004. RJ: Contraponto S.2002.: Ed 34. Zila.larepublica. 1989.P/EDUSP. “Hibridismo e tradução cultural em BHABHA”. nº 29. Vol..Migrações de idéias. 44. NAVAS. 2004. Suely: Micropolítica: Cartografias do Desejo. Conversações: 1972-1990. vol. R. no. S. 1997. In: Benjamim.J. OROZ.: Ed 34.P. La Habana: Ediciones Unión. 5. Félix e ROLNIK. 2004. 2ª Ed. Território e Lugar: estas palavras ciganas. ESPINOSA. 2007 . Raízes e Errantes. 22. Silvia: Tomás Gutiérres Alea: Los filmes que no filme. SCHÖPKE.: Nova Fronteira.scielo.P.In: Revista Brasileira de História. “Espaço.. S. 4ª Ed. Alhanbra/Embrafilme. Mariana Martins. 2003. MESQUISTA.”.com. Menezes de. influências ou reativações?. NAPOLITANO. Bsb. Porto Alegre. 2004. “América Nuestra – Glauber Rocha e o cinema cubano”. Júlio Garcia. Mauro. Rio de Janeiro: Instituto Diversidade Brasil.J. Carlos Teixeira: Glauber Rocha.. VILLAÇA. LEONARDI.R.J.. 4 de agosto del 2002. DELEUZE. SP: Contexto. 1983. Marcos: Cultura Brasileira: Utopia e Massificação (19501980). 2003 MALDONATO. http://www3. 107 jul. SOUZA.. La doble moral Del cine. GOMES.pe. In Revista do patrimônio histórico. Petrópolis: Vozes. Lynn Mário T. Madrid: Ollero & Ramos Editores. Victor Paes de Barros: A Arte de Viajar à Deriva e Ressurgir com Paixão. 5. Subjetividade e Poder. Hibridismo & outras misturas. 1998. no. Regina: por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze. Abdala Jr (org.) Margens da Cultura: mestiçagem. Adolfo Montejo: “Cinco notas sobre o teatro engajado no Brasil”. GUATARI. S. o pensador nômade. “El legado Glauber Rocha”.P: Boitempo. R. Glauber. 1996. J.br/scielo. ROCHA. O século do cinema. Esse vulcão.In Revista Educação. Revista Domingo del diário de La República. Gilles./dez. http/ :www. IPHAN.

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Identity Resumo Apoiando-se na análise dos livros Passages (1994) e Repérages (2001). VIII. Identidade *Artigo recedido em Janeiro e aprovado para publicação em Março de 2007 109 Revista Brasileira do Caribe. pretende-se refletir sobre a inscrição de um “entre-dois” produtivo no corpus escolhido.Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto Abstract This article focuses on the analysis of the books Passages (1994) and Reperages (2001) by the Haitian writer Émile Ollivier. Palavras-Chave: Literatura. Trata-se de levar em conta a pluralidade de imaginários do pertencimento (SIMON. a identidade era vista pelas elites como homogeneidade (BOUCHARD. It is important to take into consideration the plurality of imaginaries of belonging and the paratopic situation of the author which award their writing a particular and significative character in the context of the migrant´s literature of Quebec. Caribbean Migrations. 2001) que conferem à sua escrita um caráter particular e significativo no âmbito da chamada literatura migrante do Quebec. até recentemente. vol. 2000). nome representativo das identidades em trânsito da contemporaneidade. 2004) e a situação paratópica do autor (MAINGUENEAU. the representative figure of identities in transit of contemporaneity. It offers a reflection on the inscription of on the inbetween productive place in the selected location. onde. Keywords: Literature. 109-135 . where until recently identity was seen by the elites as homogeneus. do escritor haitiano Émile Ollivier. n° 15. Goiânia. Migrações Caribenhas.

reflexionando sobre la inscripción de un entre lugar productivo en el locus seleccionado. mas. 2000) a partir de situações 110 Revista Brasileira do Caribe. construíram-se coletividades novas (BOUCHARD.Maria Bernadette Velloso Porto Resumen El artículo se apoya en el análisis de los libros Passages (1994) y Reperages (2001). Graças ao reconhecimento da perspectiva diaspórica da cultura. Migraciones caribeñas. Goiânia. Se trata de llevar en cuenta la pluralidad de imaginarios de pertenencia y la situación paratópica del autor que otorgan a su escrita un carácter particular y significativo en el ámbito de la llamada literatura migrante de Quebec. deslocamento e devir inacabado. vol. as identidades são múltiplas. del escritor haitiano Émile Ollivier. ao longo de histórias plurais de deslocamentos e desterritorializações. nombre representativo de las identidades en tránsito de la contemporaneidad. o local de origem não podendo ser associado a uma única fonte de identificação. que passou a ser vista na qualidade de comunidade imaginária. VIII. n° 15 . sobretudo como questão conceitual e epistemológica e não como experiência empírica. o escritor e teórico Amin Maalouf salienta a interferência de múltiplos pertencimentos em sua história de vida. donde hasta recientemente la identidad era vista por las élites como homogénea. Em se tratando das Américas. à luz da “différance” derridiana. como algo que se expressa como deslize. Identidad Encarada. Definindo-se no livro Les identités meurtrières (1998) como alguém situado em um entre-lugar que o leva a se ver como libanês e francês. revisitada por teóricos como Stuart Hall (2003). a noção de diáspora. Em contextos marcados pela diáspora. que sugere mais os movimentos do “tornar-se” do que as certezas do “ser”. permitenos repensar os processos de construções identitárias de nosso tempo e as idéias atribuídas até recentemente à nação. que constitui uma ilustração das elaborações das identidades em trânsito de nossa época. considera-se a identidade não como um dado fixo e estável. Palabras Claves: Literatura.

que é pela mistura que a novidade entra no mundo (RUSHDIE. p. deu-se a revisão da identidade quebequense. 2007 ./dez. o que explica seu caráter impuro. diaspóricas. no Quebec. 2003. há mais ou menos tempo e sofreram a metamorfose que esta terra e sua história impunham. com o aporte de vozes de imigrantes oriundos de diversos países não-europeus e. Inserindo o Caribe no cenário da diáspora pós-colonial. a inegável contribuição caribenha na configuração das novas cartografias identitárias decorrentes das migrações pós-coloniais nas Américas. Pois todos aqueles que moram hoje na América vieram de outro lugar.75). do chamado Terceiro Mundo francófono (Antilhas. híbrido. encarada 111 jul.. Nascido dentro da violência colonial e por meio dela. p. Como se sabe. segundo as modalidades particulares de sua entrada neste Novo Mundo e segundo as peripécias de sua existência aqui (LAROCHE. Ásia e África). 1993.92).394). todos os que estão no espaço caribenho “pertenciam originalmente a um outro lugar” e sua relação com essa história “está marcada pelas rupturas mais aterradoras. professor e crítico haitiano naturalizado canadense: Ser americano é ter conhecido a metamorfose que transforma um europeu.30). neste homem novo. com Salman Rushdie. Como pensa Maximilien Laroche. em especial. verdadeiro habitante de um Novo Mundo. p. o Caribe é fruto da crioulização. exemplo maior da ruptura de modelos fechados e homogêneos de pertencimento cultural. Segundo ele. Considerando-se. percebe-se o caráter inovador do Caribe.Uma voz da diáspora haitiana. o espaço caribenho é marcado por uma estética diaspórica. imprevisível e produtivo do contato entre culturas.1995. no campo literário. violentas e abruptas” (HALL. Salman. 1993. p. Resultante das relações enriquecedoras entre elementos culturais variados. o crítico da cultura Stuart Hall (Jamaica) também reconhece o que é dito na citação anterior. um asiático. e mesmo o primeiro habitante desta terra. depreende-se.. processo inacabado. Nos últimos anos. e em particular. “movimento perpétuo de interpenetrabilidade cultural e lingüístico” (GLISSANT.

Da fricção criativa de dois pertencimentos nasceram obras marcadas pelo híbrido. vol. Nesse cenário de profundas transformações e questionamentos identitários. o imprevisível (SIMON. por um vocabulário díspar. estes efeitos de dissonância são o resultado de um processo de tradução inacabada. um texto em que a confrontação dos elementos díspares produz o novo. Estes efeitos estéticos são o resultado da situação de fronteira vivida pelo escritor que. 2004. um despojamento desterritorializante. o que lhes permitia fugir dos horrores da ditadura de Duvalier.13-14) Cabe lembrar que. segundo a expressão de Édouard Glissant. no panorama identitário do Quebec. tal identidade passou a ser considerada sob o prisma da multiplicidade de centros de referência. em certos casos. O texto híbrido é portanto um texto que manifesta “efeitos de tradução”. pois seus textos misturam imagens e signos do Haiti e do Quebec. Goiânia. uma relação de transferência ou de passagem que não acaba em um produto naturalizado. aculturado. vêem ameaçados seus valores identitários tradicionais – 112 Revista Brasileira do Caribe. o reconhecimento das vozes migrantes. consciente da multiplicidade. opta por criar um texto crioulizado. VIII. Cabe lembrar aqui a definição do texto híbrido proposta por Sherry Simon: O que se pode entender por um texto híbrido? Trata-se de um texto que interroga os imaginários do pertencimento. levando em conta um estado de dissonâncias e de interferências de várias formas. n° 15 . ressalta-se a presença de autores haitianos que emigraram para o Quebec em decorrência da abertura do Canadá à política de imigração. Graças à inclusão do olhar de estrangeiros. 1991).Maria Bernadette Velloso Porto como homogênea pelas elites do século XIX e parte do século XX. muitas vezes problemático para os “Québécois de souche” que. uma sintaxe não habitual. diante da presença de alofonias diversas. Pode-se dizer que. p. mas que deixa traços do primeiro texto no novo. Tais escritores e poetas apresentam em suas obras o que Maximilien Laroche chama de o “duplo palco da representação” (LAROCHE. interferências lingüísticas ou culturais. ou seja. uma certa abertura ou fragilidade no plano do domínio lingüístico ou do tecido de referências.

les maux du pouvoir. 2001. ele reúne trechos e depoimentos valiosos de seres diaspóricos. inscrevendo no seio da cultura quebequense as marcas de sua diferença e os apelos do exílio. o escritor iraquiano Naïm Kattan. Tratar da diáspora haitiana no Quebec nos remete ao livro de Jean Jonassaint intitulado Le pouvoir des mots. Em outras palavras. uma cultura que carrega as origens se enriquece com a contribuição múltipla e aceita modificar-se sem se trair. esse outro que não é um observador de passagem. 2007 . mas que está aí para ficar. já que. material importante para os estudos do romance haitiano contemporâneo. de modo exemplar.43). em especial. desabrochar ao se reinventar (KATTAN. ausente ou inacabado. torna-se um fator de revisão do implícito. Segundo Jonassaint.. as ambigüidades 113 jul. já presente na memória coletiva dos quebequenses. não ocorreu por acaso. Nessa revisão contínua das identidades. que todo desenraizamento é ou pode ser fator de grande criatividade e que toda migração é útil ao país de origem e ao país de adoção. um dos privilégios do autor migrante é o olhar novo que ele lança sobre o país em que se instala: O imigrante. Como pensa outro representante diaspórico da chamada literatura migrante do Quebec. Buscando mostrar que o exílio pode ser fecundo. os quais viam seu país como incerto.. na condição de migrante. ao trazer para a cena coletiva a pluralidade de pontos de referência e de memórias culturais./dez. Encarnação expressiva da situação paratópica (MAINGUENEAU. autores migrantes colaboram de perto na reinvenção identitária do país que lhes deu abrigo. o imaginário migrante dialoga com a representação simbólica do exílio que afetou anteriormente muitos autores do Quebec. Um dos representantes da presença do Haiti no Quebec contemplados na obra citada é Émile Ollivier. ilustra.Uma voz da diáspora haitiana. p. os romances haitianos de 1970 a 1980 foram escritos e/ou publicados na América do Norte. 2001) de todo escritor que. em sua maioria.

um dia. vol. que teria permanecido o mesmo jovem que rompera. 2001. se instalou no Quebec onde se tornou professor de sociologia na Universidade de Montreal. no passado. morrendo no estrangeiro. Optando por um desvio provisório. 2001. Ollivier acabou por aí criar um espaço de vida e de criação. VIII. com a exigüidade de sua ilha para partir em busca da conquista de vastos territórios. ele não chegou a empreender o retorno ao país natal. durante um ano. p.28). Ao declarar. negociando incessantemente entre o lugar e o não-lugar. “alimenta sua obra com o caráter radicalmente problemático de sua própria pertinência ao campo literário e à sociedade” (MAINGUENEAU. na sua obra teórica Repérages (2001). Ollivier decidiu se afastar do Haiti para escapar da violência da ditadura de François Duvalier.Maria Bernadette Velloso Porto e contradições de quem não coincide necessariamente com um lugar no mundo. abrigo na França onde. estar de passagem no Canadá. E é na impossibilidade de se estabilizar em um lugar preciso que sua obra se constrói. tira partido da deslocalização que caracteriza toda produção literária “sem ‘deslocalização’. Consciente de que se encontra diante de uma sensibilidade inusitada e de que vive. 37). Ollivier salienta sua identidade móvel que o levou a adotar compromissos e a efetuar negociações a cada dia.27). a princípio. p. não existe verdadeira literatura” (MAINGUENEAU. uma experiência inédita que 114 Revista Brasileira do Caribe. Como tantos outros haitianos que pensaram. como tantos outros indivíduos. esperava retornar à sua terra natal logo que essa situação política tivesse mudado. Como todo escritor. Émile Ollivier privilegia em textos teóricos e ficcionais reflexões sobre o trajeto identitário de seres deslocados de nosso tempo. exerceu várias ocupações e obteve um certificado de estudos literários na Sorbonne. Como muitos imigrantes (autores e personagens romanescos). 2001. Buscou. Ao exercer sua atividade profissional no campo das letras. Após ter vivido seus primeiros vinte e cinco anos em PortoPríncipe. A mesma pergunta que aflige seres migrantes em geral se coloca para o autor em questão: “Como é possível viver não sendo totalmente daqui nem mais totalmente de lá?”(OLLIVIER. Goiânia. em 1965. p. n° 15 . Em 1968.

o autor do livro citado diz que é preciso desenvolver competências de “bricoleur” e aprender a viver nos interstícios. Desse modo. e quando nos enfiamos na terra. só importam as estradas. ao longo de trinta anos de vida no Quebec.69).. 2001.24). Vendo-se como um escritor das fronteiras (OLLIVIER.910)./dez. Sob esse prisma. 20). empreendendo uma operação de descentramento (OLLIVIER. ao invés de valorizar a noção de raiz –associada às árvores .prefere as idéias de estrada. já que uma estrada não tem nunca verdadeiro começo. assim como a intimidade. Origem inatingível. p. elas precisam de suas raízes. Para evocarmos o sociólogo Zygmunt Bauman. a distância cria uma situação privilegiada (BAUMAN. A seiva do solo natal não se eleva por nossos pés em direção à cabeça. Exposto a outros modos de socialização como todos os migrantes. para se considerar como alguém deslocado que. é para apodrecer. ao chegar ao Quebec. antes da primeira curva. Ollivier se colocou à escuta da realidade cultural a sua volta. nossos pés só servem para andar. Como nós.38) .(. 2004. da servidão à liberdade ou à morte violenta. desejamos o céu. 2001. as estradas não emergem do solo ao acaso das sementes. elas têm uma origem.) Ao contrário das árvores. faz de todos nós seres mutantes por excelência (OLLIVIER. pois a cada cruzamento se uniram outras estradas que vinham de outras origens (MAALOUF. p. lá atrás.Uma voz da diáspora haitiana. p.. Respiramos a luz. Por isso mesmo. que. por sua vez. 2001. 2005.. de caminho.22).. após ter sonhado durante muito tempo com o retorno ao país natal. 2007 . podemos lembrar que. 2001. reconhece-se como um “ser feito da interferência de todos os lugares que atravessou” (OLLIVIER. p. Para nós. percebe que sua vida era pontuada por várias mortes 115 jul. já havia uma curva e mais uma. p. ele parece dialogar com a visão de Amin Maalouf em seu livro Origines: As árvores devem se resignar. p. cita o escritor Juan Goytsolo. os homens não. São elas que nos levam – da pobreza à riqueza ou a uma outra pobreza. Origem ilusória. Émile Ollivier passou da posição de exilado à de migrante.

p. Ollivier participou das profundas modificações ocorridas no Quebec a partir da Revolução Tranqüila. Ao ter perdido. aos poucos. Embora trate de assuntos referentes à sua terra de origem. 2001. Por isso mesmo. p. n° 15 . 2001. Para o autor de Repérages. Aos olhos de Émile Ollivier. Ciente de que a língua francesa se tornara cada vez mais indispensável em sua profissão. como propôs Salman Rushdie (1993. Com outros representantes de diferentes modos de ser e de ler o mundo. o Quebec mudou de estatuto a seus olhos. p. a língua francesa.64). falar uma outra língua equivale a assumir a posição do tradutor. pelo gesto de migrar. a experiência lingüística constitui um domínio privilegiado para se refletir sobre a condição migrante por parte de seres cindidos sob o ponto de vista identitário. tornado. seu espaço de enunciação. o autor de Repérages afirma ter feito o luto de sua origem. que ele reforça seus vínculos com a realidade caribenha. precisou conquistar um outro. que trouxeram para o cenário das discussões identitárias o questionamento das certezas estabelecidas.23). sabe que seus livros não são de fato consumidos pela comunidade haitiana. vista como seu lugar de asilo (OLLIVIER. Situando-se numa encruzilhada entre dois idiomas – o crioulo e o francês – o autor leva em conta a questão de seu público. a presença de “estrangeiros do interior”: os quebequenses que acabavam de deixar o espaço rural para se instalarem no tecido urbano de uma cidade em expansão que recebia alteridades plurais. deixando de ser simplesmente a terra que lhe ofereceu asilo. a seu lado. pois logo percebeu. 116 Revista Brasileira do Caribe. A maneira de continuar fiel à sua origem não seria falar continuamente dela na língua estrangeira que poderia lhe conferir maior visibilidade? E é no corpo a corpo com a diferença e com o francês. vol. p. o jovem haitiano compartilhou com outros a sensação de estranhamento. 2001. para se tornar seu país de adoção (OLLIVIER.Maria Bernadette Velloso Porto e renascimentos sucessivos (OLLIVIER. sua outra língua. Ao se fixar em Montreal.37). o que remete à existência de “homens traduzidos” de nosso tempo. conquistada a cada dia de sua própria reconstrução identitária no novo país. Goiânia. 28). dado o forte índice de analfabetismo de seu país. VIII.

transformação e um trabalho de recriação permanente. ritmos e imagens (OLLIVIER. meus trabalhos e meus dias (JONASSAINT. p..64) . um reservatório de sons. Marcada. Tenho o hábito de dizer que sou haitiano à noite e quebequense de dia. Estou desvinculado da realidade haitiana. minhas alegrias.. Como no próprio Haiti ele já conhecera de perto a dualidade lingüística. optando pela procura de um equilíbrio na instabilidade: 117 jul. de uma memória impossível que aflora. vivenciada sob a forma de diglossia. Ollivier vale-se de um duplo pertencimento. de alguém que está desvinculado da realidade. E é no ir e vir entre duas culturas. aqui a realização do luto da origem supõe também a interferência constante. mas como busca inacabada e rentável que supõe a fricção produtiva entre dois idiomas e memórias culturais. por uma dupla inscrição. a literatura migrante de Émile Ollivier coloca a questão lingüística como componente maior do capital literário. na superfície do texto..Uma voz da diáspora haitiana. isto é.. 2001..88) Como “esquizofrênico feliz”. p. assim. o próprio Ollivier se refere a esse dilaceramento de forma lúdica e criativa: Essa esquizofrenia vai ser encontrada provavelmente ao longo de toda a minha produção.382). apesar de tudo. mas também da realidade quebequense. 2007 . no ato da escrita. 1986. Apesar dessas duas realidades trabalharem meus desejos. Além de sugerir travessia./dez.. p. de Pascale Casanova (1999. exercitando a prática tradutória não como um exercício de simples transposição de uma língua a outra. nascida do roçar entre as diferenças. Ollivier tenta evitar qualquer perspectiva reducionista que poderia tornar exótica sua escrita. presente nele como uma cripta. dois universos e dois apelos lingüísticos que a obra desse autor se inscreve sob o signo da dualidade ou da digrafia. E penso de fato que é uma situação de esquizofrenia. e a criação de uma terceira língua. para evocarmos o capítulo “La tragédie des hommes traduits”. Em entrevista a Jean Jonassaint.

o escritor identifica na desterritorialização um espaço de liberdade que o leva a fazer escolhas. Como resolver esse problema no plano da criação? No que me diz respeito. a desterritorialização da língua francesa. um grupo de haitianos se organiza para fugir das misérias de sua terra natal. ao invés de se deixar paralisar pela dor da ruptura e do dilaceramento. p. publicado em 1991. trata-se de andar sobre essas duas pernas. Um romance em particular ilustra a complexidade do universo do autor: trata-se de Passages. em francês e em crioulo como ser haitiano. em resumo. o romance Passages apresenta vários personagens migrantes. e a caracterização do escritor migrante como um tradutor adquirem. captar a substância da língua crioula e restituí-la diretamente em francês (JONASSAINT. duas histórias principais estão vinculadas ao Haiti: de um lado. pois.62). reinventada graças ao crioulo. isto é. evitar a tradução literal do crioulo em francês. a experiência do exílio. a negociar entre danos e perdas. e a encontrar. VIII. na formação social haitiana. ao mesmo tempo. vol. Minha principal preocupação é de expulsar toda folclorização. não se trata de decidir entre o crioulo e o francês. 1997. liderados por Amédée Hosange. trabalhar sobre as imagens. Trata-se de levar em conta esse fenômeno. as duas línguas foram vizinhas. a gente se exprime. Numa narrativa de caráter polifônico. na própria escrita. as metáforas. ressemantizados no contexto estrangeiro. destaque. a refazer seu imaginário. p.Maria Bernadette Velloso Porto Tenho consciência de não trazer nenhuma resposta explícita à questão da diglossia. n° 15 . Goiânia. cheiros e sabores de seu país. Logo. mesmo em relações de dominação. de preferência. coabitaram. como 118 Revista Brasileira do Caribe.89) No conjunto da obra de Émile Ollivier. a interiorizar cores. revestindo-se de um caráter eminentemente dinâmico. embarcando em um barco frágil que os levaria. os provérbios. Historicamente. cujos trajetos de vida se entrecruzam. fugir da relação de equivalência e. 1986. Considerado pela autora do ensaio La mémoire sans frontières como uma “deriva polifônica” (GAUTHIER. seu lugar por excelência no mundo. na maioria haitianos.

“história de migrações e de errâncias. p. donc à jeter le trouble.181). Como se atualizasse a mesma frase. viúva de Amédée. no plano da intriga e na própria construção do romance. Cabe a outro personagem haitiano (Régis). 2007 . je peins le passage”(OLLIVIER. o jornalista Normand Malavy. acaba conhecendo. sua compatriota. enviado pela esposa do morto para buscar seu corpo...Uma voz da diáspora haitiana. Voilà pourquoi nous intervenons ! Voilà pourquoi nous sommes intempestifs et insolites“ (OLLIVIER. Histórias do viver e do morrer se intercalam no tecido narrativo marcado pela poética dos encontros e (des)encontros ligados às movências identitárias. o romance se abre com uma epígrafe significativa de Montaigne: “Je ne peins pas l’être. pois morre de um ataque cardíaco. 2000. de outro. p. a Miami. uma das poucas pessoas que sobreviveram ao naufrágio da embarcação e os sonhos dos que ousaram optar pelo exílio (ainda que visto como provisório). clandestinos. Outra referência importante à noção de passagem se destaca de versos de René Char: “Nous sommes des passants appliqués à passer. 1994. Destaca-se aí a figura perturbadora do estrangeiro aos olhos de quem se definia pelas certezas identitárias. Brigitte Kadmon Hosange. Como afirma Lise Gauvin. Normand grava o depoimento de Brigitte em cassetes. mas não chega a divulgá-lo./dez. sem realizar o desejo de retorno ao país natal.7). Priorizando a idéia de passagem. à dire notre exubérance. o livro em questão coloca em cena múltiplas passagens. esse romance deixa provisoriamente o espaço geográfico haitiano para melhor encontrá-lo nas lembranças e no imaginário de indivíduos à procura de seu destino. p. A narrativa referente à preparação da viagem dos boat people haitianos em direção a Miami se reveste de um sentido 119 jul. abaladas pela inclusão da diferença no âmbito de uma familiaridade construída a partir da ilusão e da pretensão da homogeneidade. à infliger notre chaleur. que há anos deixara o Haiti para viver em Montreal. servir de intermediário entre as diversas vozes narrativas desse romance formado da reconstituição de diversas memórias.194). a vida e a morte se conjugam na dinâmica do transitório. em Miami.1994. Vistas como trânsito.” (GAUVIN.

passou a ser o espaço da improdutividade. un bien grand et riche domaine. os habitantes da referida cidade escolhem uma forma particular de resistência: a fuga numa embarcação precária. mas também de desafio e de orgulho (OLLIVIER. como ocorre com a chegada de um ser inquietante que coincide. vaste grange. mesmo no estado em que se encontram. augúrios e presságios. A abertura do romance aponta para a decadência que afeta a cidadezinha de Port-à-L’Écu. Goiânia. ce n’est plus le pays de la canne à sucre .25). com a crise da pequena cidade. c’était un village qui comptait tout près de trois mille chrétiens vivants. de modo misterioso. é revestido de tragédia. conscientes de que. Port-à-L’Écu n’existe nulle part. O retorno desse habitante a Portà-L’Écu. des deuxmoitiés. 1994. pois. 120 Revista Brasileira do Caribe. disait-il. a intervenção do sobrenatural se dá nas pequenas histórias do cotidiano marcadas pelo realismo mágico. que os levaria a Miami. Port-à-L’Écu n’existe plus. vol. que corre o risco de se tornar “lata de lixo dos Brancos”: afastando-se da representação do lugar habitável que fora um dia. Il y avait à Port-à-L’Écu dix carreaux de terre. p. au lendemain des grandes tueries de l’indépendance (OLLIVIER. Em um mundo pleno de sinais. Et pourtant. les loup-garous y ont élu domicile et parfois volent en plein jour.14). condenada ao abandono e ao silenciamento.Maria Bernadette Velloso Porto mítico. feita por eles mesmos. Prisioneiros de um mutismo feito de medo. 1994. de onde fora expulso um dia. 1994.27). de la main même de l’Empereur. il ne figure sur aucune. il n’y a guère de temps. cinq maîtresses. colocando em confronto dois tempos de um mesmo lugar. a morte repentina desse cadáver em vida (extremamente magro. p. da desolação e da miséria absoluta: Port-à-L’Écu. p. essas terras representam todo seu sopro vital (OLLIVIER. Il tenait la terre de son grand-père. ele parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos) acarreta um efetivo desequilíbrio ecológico que compromete a própria existência da coletividade. belles cases. n° 15 . VIII. Là vivait Amédée Hosange. lequel l’avait obtenue. Nul besoin de chercher son nom sur une carte .

Tendo em sua bagagem existencial a experiência do nomadismo (cf.Uma voz da diáspora haitiana. en fixant le ciel. en reniflant. La nuit. je vous l’ai déjà dit. connaissait la navigation en haute mer./dez. monsieur. dominando as artes do enraizamento e da errância: Amédée.. a prática do desvio constitui uma estratégia de sobrevivência eficaz para se enfrentar uma impossibilidade (GLISSANT. Segundo Édouard Glissant. Mestre da ciência dos ventos baseada no vivido. p. p.63). p. 64). novo Hermes responsável pela transmissão da nova boa nova: a possibilidade do recomeço em outro lugar e da reconstrução da identidade nas searas da diáspora. Convencido de que lhe cabe a responsabilidade de assumir para si a resistência contra os riscos de desaparecimento de seu 121 jul. 1994. abre-se para a expansão dos limites identitários. Concebido como um recurso temporário. 1994. Il connaissait la position des étoiles fixes et des étoiles errantes.19) e dotado do sentido da orientação por ter uma bússola em suas narinas e por ser capaz de se valer do sol como seu compasso e seu cronômetro (OLLIVIER.48). 1997. “il avait foulé cette terre en nômade” (OLLIVIER.. Tal viagem clandestina em direção a um “Eldorado de lenda” (OLLIVIER. il pouvait faire le décompte des milles marins parcourus. 2007 . 1994. Em estreita sintonia com a natureza. dire combien le ciel avait marché au-dessus de la terre. Véritable pigeon voyageur. Amédée é escolhido por seus compatriotas como líder. como o “passeur” que os levaria à salvação.Il m’avait souvent parlé de ses voyages au long cours. inteligência prática de seres oprimidos que a ela recorrem para contornar um problema de difícil solução.65) equivale a um “détour” no sentido glissantiano. sabe ler os sinais inscritos na paisagem. o desvio é sinônimo de astúcia. p. Il m’avait souvent parlé de ses voyages en haute mer. Il n’avait pas besoin de montre pour déterminer quelle partie de la nuit ou du jour était passée (OLLIVIER. deslocando-se como um pombo correio. p. 1994. il associait les odeurs à la direction du vent.

de se défaire. está a consciência da exigüidade que. de se refaire. nous franchissons la durée. Nous avons subsisté. o candomblé. dégradable et pérenne. 1994. Apoiando-nos em pistas oferecidas por Simon Harel e Jacques Mathieu-Alexandre (2003) em sua análise do romance Passages. as danças. opiniâtres et inaltérables galériens. dilacerado entre o sentimento de impotência e o desejo de sobrevivência: Nous venons d’un pays qui n’en finit pas de se faire . p. Coureurs de fond. nous traversons le temps même si le sol semble se dérober sous nos pas. vol. não constituindo uma simples referência física que marcaria seres insulares. no cerne dessa obra. Notre histoire est celle d’une perpétuelle menace d’effacement. dans cette barque putride et imputrescible à la fois. mas a todo gesto do resistir que se manifesta como prática cultural (como o vodu. depuis la mort de l’Empereur. a capoeira. nous continuons à survivre en nous livrant à d’impossibles gymnastiques (OLLIVIER. l’esclavage et. Malgré vents et marées. Et pourtant. n° 15 . persévéré sur les flots du temps. effacement d’un peuplement : le génocide des Indiens caraïbes. ce temps de tourments.184-185).Maria Bernadette Velloso Porto povo. Goiânia. 2001). Ausentes dos estudos 122 Revista Brasileira do Caribe. cette éternité dans le purgatoire. entre outras manifestações criativas). la grande transhumance. Uma passagem em especial ilustra a consciência da fragilidade do ser exíguo. que remete não só à fuga de escravos. nous avons franchi cinq siècles d’histoire. podemos dizer que. malgré ce présent en feu. Na base da resistência coletiva à decadência de sua cidadezinha e de sua própria dignidade como povo. Amédée atualiza o exercício do “marronnage” (termo criado a partir de “nègre marron”= “quilombola”). VIII. Notre substance est tissée de défaites et de décompositions. une interminable histoire de brigandage. effacement d’un paysage. os habitantes de Port-à-L’Écu se mostram atingidos pela sensação incômoda de exigüidade (PARÉ. aponta para a consciência da fragilidade e dos riscos de invisibilidade e de desaparecimento de uma comunidade.

97). Apontada como a “América latina na América do Norte” (OLLIVIER. p. 87). 1997. essa cidade se reveste também de um sentido negativo. “a escrita e a prática da arte acarretam uma liberação do espaço” (PARÉ. Espaço de convergência de inúmeras experiências diaspóricas. Escrita muitas vezes epistolar. Como experiência enriquecedora que leva indivíduos a ultrapassar limites. um sítio importante para se rever sob o ponto de vista identitário e para reler o próprio existir. 1994. o abafamento e o silêncio. no espaço das letras.. as produções da exigüidade correspondem à “fabricação original e autônoma de bens simbólicos inéditos” (PARÉ. p. a função da escritura é a “de aumentar desmesuradamente nossa relação com o mundo de modo a nos proteger da pequenez da condição humana e da insegurança que a acompanha” (HAREL & JACQUES. 2007 . após certa hesitação e influenciado por uma visão mágica. Lutando contra o confinamento. 2003. É o que faz Ollivier no romance em pauta. Miami não seria.206). p. capaz de preencher e de superar o hiato geográfico instalado entre seres distanciados fisicamente..66). uma solução definitiva para seres desterritorializados. pois. 2001. p.66). pois. 2001. a situação diaspórica favorece a atividade da escrita. fragmentada em várias cidades onde há diversas solidões (OLLIVIER. p. uma possibilidade é vislumbrada pelo grupo liderado por Amédée como viável: Miami. oferecendo aos seres desterritorializados a oportunidade de inscrever seu lugar no mundo nas páginas da escrita. mesmo sabendo disso. Miami aparece na narrativa como um lugar de passagem./dez. Amédée 123 jul. Mas. sob a máscara do sol que esconde cóleras e violências. pelo paralelismo estabelecido entre a casa e a escritura. p. 1994. uma terra de errância.65). Escrita do trânsito e das transferências culturais que se abrem para os diálogos sempre inacabados da crioulização. Obra-refúgio ou obra-insular. mas que encontram. além de ser “um lugar de esperança e de miséria para os que conseguiram deixar sua terra de miséria” (GAUTHIER. ao exercício criativo de práticas de sobrevivência adotadas pelos excluídos da História oficial. Como foi salientado. na busca de um outro lugar no mundo.Uma voz da diáspora haitiana. acadêmicos voltados para as chamadas grandes literaturas.

. Identificando. 124 Revista Brasileira do Caribe. Um dos trechos mais poéticos do romance Passages referese a uma reflexão da personagem Leyda a respeito de duas formas de se estar no mundo: de um lado. vol. nessa segunda categoria. quelles que soient ses fins secrètes n’a jamais le temps de revenir.Maria Bernadette Velloso Porto responde afirmativamente à demanda dos que o procuraram como guia. les grands espaces.31). 1994. Ils sautent dans des voiliers de hasard . a partir dos apelos da polinização. que acabara de morrer. ce jour-là. Pourtant. empruntent d’aléatoires chemins. Amédée. alguns homens se deixariam levar pelos movimentos do devir. quitter le pays où ils étaient nés. influencé par sa vision. le monde est constitué de deux grandes races d’hommes : ceux qui prennent racine. sans trajet préalablement déterminés.) Mais déjà. de outro. p. ils traversent.. Na base de sua decisão está a certeza de que mesmo quando deixamos o país natal. ele nos acompanha. sans but. ne l’emporte-t-on pas partout avec soi ? (OLLIVIER. não corresponde ao ideal de vida valorizado pelo próprio Émile Ollivier. seu próprio marido Normand. VIII. Normand était de cette race. como já foi visto. Adeptes de vastes chevauchées. 1994. inspirando-se na fixidez do mineral ou no modelo da raiz que. qui se tissent un destin minéral dans un rêve de pierre et ceux qui se prennent pour le pollen. il savait que souvent le crabe qui s’éloigne à une trop grande distance de la mer. Il aimait ces déplacements à tâtons qui se jouent sur des surfaces illimitées où départs et retours finissent par se confondre (OLLIVIER. (. avait changé d’avis. p. avec le vent. interiorizado nas memórias e paisagens afetivas: Amédée ne comprit pas tout de suíte pourquoi ils devaient partir. Goiânia. devenir une race sans terre. Leyda oferece ao leitor pistas valiosas para a compreensão da diáspora: Voyez-vous.86-87). Sa part de territoire. haveria os seres sedentários. n° 15 .

hedonista e místico das « nourritures terrestres » gozando do vento espalhando sementes. p. tem um efeito mortífero (MAFFESOLI. Sinônimo de fecundação e de renovação. Daí se explica a razão que leva Maffesoli a acreditar na necessidade de se empurrar para longe as fronteiras (MAFFESOLI.142). 1997. p. conforme foi apontado. já que a imobilização. opondo-o a Barrès que pedia aos homens para se enraizarem na terra e nos mortos. p. No romance Passages. mais temos acesso a riquezas imateriais (MAFFESOLI. As que caem bem perto do tronco não têm nenhuma chance de crescer e de desabrochar. para quem existir significa “sair de si mesmo. Referindo-se à metáfora da raiz. p. 1997. Para eles. a cultura não é somente enraizamento. Gide. Para Maffesoli. Apenas as sementes que vão longe têm oportunidades de frutificar. “só havia partida na perspectiva de um retorno 125 jul. quanto mais longe nos encontramos da “terra dos mortos”. da família. o que corrobora o pensamento de Michel Maffesoli. mas também desprendimento. portanto. além de se morrer de fome. segundo o autor citado. A vivência do exílio. Por isso. um enriquecimento cultural. 141-142). a diáspora é. 1997. p. atribuindo-lhe.22)./dez. pode-se morrer de tédio ou de desespero (MAFFESOLI. 1997.. 1997. em geral.19). Apenas permanecerão vivas as plantas que jorrarão longe da árvore semeadora. do ninho. pois. a passagem abaixo se aproxima da citação de Ollivier: Fazer uma leitura contemporânea de Gide.39).Uma voz da diáspora haitiana. convite para a novidade e para a aventura no campo dos sentidos – transitórios como a própria existência–. permite. da terra dos mortos (MAFFESOLI. já que. segundo a lógica diaspórica.28).. como sinônimo de confinamento. Segundo a perspectiva do exílio visto como “détour”. 2007 . p. Não se poderia falar melhor da força do desprendimento que cresce longe das raízes. diferentes personagens conhecem de perto tal experiência. abrir-se para o outro” (MAFFESOLI. palavra que recobre diversas situações. 1997. Amédée e Brigitte encaram a ida para Miami como recurso temporário. um caráter não definitivo.

Cela avait suffi pour constater que la magie avait quitté sa ville. o enorme hiato criado entre ela e sua terra de origem. outro personagem migrante conhece a frustração ao fazer uma viagem a seu país. tentando se enraizar em projetos de melhoria do mundo. Amparo fixa sur Leyda un regard mouillé : “ Jamais plus je ne pourrai vivre à La Havane” (OLLIVIER. ou à elaboração de petições pela Nicarágua. “anda em círculos” (OLLIVIER.Maria Bernadette Velloso Porto enriquecido de mil perfumes. peut-être auraitelle découvert. descobre a impossibilidade do retorno. Trata-se de Amparo. Brigitte manifesta o desejo de voltar a Port-à-L’Écu para ser enterrada na sua língua (OLLIVIER. Goiânia. une grande déchirure. situa-se paradoxalmente entre a busca de um impossível acordo consigo mesmo e um movimento de felicidade. une douleur intense. 1994. p.113). de mil odores do alhures” (OLLIVIER.176). 1994. Dividido entre duas forças – o quimérico ressurgimento de seu passado e o esquecimento de suas raízes (OLLIVIER. Si elle était restée plus longtemps. como já foi dito. intime. como se buscasse compensar a desorientação de seus dias. ser dos trânsitos por excelência. p.112). Ora. Assim. ela vive no Canadá há cerca de dez anos. Para reforçar a inviabilidade do retorno à origem. vol. Filha de sírios que emigraram para Cuba e depois se instalaram nos Estados Unidos. não realiza seu sonho de voltar ao país de origem. n° 15 . préservé de la ville longtemps imaginée. mas ao empreender uma viagem ao seu país natal. seus atos se revelam incapazes de garantir uma mudança na ordem das coisas e de lhe assegurar uma nova meta de vida. por mais que ela se esforce. VIII. alimentou o desejo de rever Cuba. 1994. diante do fracasso da empreitada chefiada pelo marido. viveu um tempo com um chileno e se dedica a manifestações contra o racismo e a utilização de armas nucleares. 1994. Mas.229). le visage secret. Son séjour à la Havane. 1994. 126 Revista Brasileira do Caribe. p. Tendo contínuo contato com imigrantes latinoamericanos. um desejo de viver (OLLIVIER. P. Na verdade. derrière ce nouveau masque. p.42). p. Elle n’avait eu qu’une semaine. Durante muito tempo. preenchendo o vazio de sua vida de modo a parecer muito ocupada. 1994. Também Normand. 45).

1991. p. No exemplo acima. segundo Daniel Sibony.55). o exílio é freqüentemente uma viagem que não sabe encontrar seu retorno” (SIBONY. embora procure se fixar em projetos coletivos. p.. 27). destaca-se a sensação familiar e moderna de “des-locamento”. um convite para se ultrapassarem fronteiras e para se descobrir que é possível desejar (em) outros lugares. entre o presente e lá onde tudo começou (HALL. o próprio presente nada lhe oferece de estável. 1991. 2003. já que. viajar para senti-la. que não precisamos. Tratase ainda da dificuldade de nos situarmos de fato em um lugar preciso e da consciência de que não nos é facultada a possibilidade de voltar para casa. Assim como Amédée e Normand. por todos nós.. Lido a partir dessa concepção de origem. em nosso tempo. sendo. abalar seu suporte de ser idêntico a si mesmo. que forçará sua identidade a efetuar a viagem que ela escamoteia. o amor equivale a uma procura de renovação identitária e de revitalização da memória graças ao contato com a diferença e o alargamento de fronteiras. aí está a própria procura do amor”. p. pois há sempre algo no meio. Como “impulso em direção a outros lugares” (SIBONY. antes. p. a reencontrar sua carência vital e sua distância em relação a ela mesma (SIBONY. 1991. E a imagem de seu país natal não passa de uma das versões possíveis de sua terra. até então inerte ou cansada de ser igual a ela mesma.57) 127 jul./dez. encontra-se o valor da viagem como busca e requisição da memória. experimentada. necessariamente. reconstruída sem cessar por sua memória.34). a origem nada tem de paralisante. “Ora.Uma voz da diáspora haitiana. No nível cultural como na experiência subjetiva. a noção de pátria confundindo-se com uma construção provisória e inacabada. 2007 . Mas onde é o início de tudo? Não somos todos migrantes em trânsito permanente que nos leva a recomeçar sempre? No caso da personagem Amparo. Amar é desejar encontrar o ser que possa abalar sua memória inerte para lhe dar vida nova. Amparo parece ilustrar o pensamento do autor do livro Entre-deux: l’origine en partage: “Ora.

VIII. o que contribuía para uma vida de recluso em uma cidade (Montreal) que se tornara uma prisão para ele (OLLIVIER. p. já que suas relações são superficiais. Embora não dominem um idioma em comum. Assim. em particular. A coincidência de trajetos existenciais parece reger o encontro dos dois amantes: vindo “de longe. como se o amor fosse o ato inaugural de uma outra origem. a oportunidade do encontro – encontro do outro e de um outro lugar de referência identitária. e de identificarem. 1994. Goiânia. Quanto a Amparo. para personagens desterritorializados. Ao contrário do lugar. vol.Maria Bernadette Velloso Porto Não é por um simples acaso que. no romance Passages. o encontro desse casal equivale a uma possibilidade de neutralizar sua situação diaspórica. 1994. “O importante é descobrir no corpo-texto do(a) amante. conseguem se comunicar pela criação de uma terceira língua. os amantes exercitam o gesto de se enraizarem.86). a representação do amor no contexto diaspórico remete. os não-lugares de nossa época se associam ao trânsito. um modo especial de suprir o vazio. Seres 128 Revista Brasileira do Caribe.69). à história entre a cubana Amparo e o polonês Janush. Conhecendo um duplo transplante (identitário e cirúrgico). o exílio como ruptura é compensado pela vivência amorosa que constitui. p. nos territórios da paixão e/ou da afetividade. p. Amparo e Normand se encontram em um aeroporto. a disponibilidade para acolher outras histórias e outras memórias culturais” (PORTO. n° 15 . Associado às idéias de hiato. ao efêmero e ao não-estabelecimento de relações efetivas. No romance Passages. que é histórico e supõe a idéia de um vínculo. na experiência amorosa.68). Normand se identifica a Montreal. o espaço para escreverem outras marcas de parcerias. 2004. do outro lado da vida” (OLLIVIER. cidade de outros seres transplantados. perda e fragmentação. não-lugar próprio da supermodernidade aos olhos de Marc Augé (1994). na pele de outrem. corpo tatuado pelo já vivido. Cabe-nos aqui aprofundar a leitura do amor em tempos de exílio. mesmo efêmeras. seu cotidiano nada lhe reserva de concreto e de promissor. Normand tinha “uma vida em suspenso” ao longo dos últimos dez anos durante os quais sofria de grave doença renal. Identificando. ainda que de modo fugaz.

Mergulho vertiginoso no fundo de si mesmo.. dans l’affrontement désespéré de deux impuissantes paroles en quête de vérités (OLLIVIER. Colocando em prática uma espécie de sacralização do amor. os dois personagens apontam para o exercício maior dos diálogos interculturais: Un jour à la cité des Arts. Como se exprimissem.Uma voz da diáspora haitiana. eles tiram partido da capacidade tradutória. sob o modo metafórico. 1994. apesar de todos os desafios e riscos.128). constituindo “a busca desvairada 129 jul. ou do outro lado do espelho. inúmeros deslocamentos e trajetos inéditos. elle avait rencontré Janush. Il parlait polonais.. seguindo diversos roteiros em que adotam várias identidades.. atualizando. experimentam. Ils avaient fini par créer une langue médiane mâtinée de gestes et surtout de silences. da fronteira. Por isso. Assim. de impossibilidades. por meio do jogo amoroso.. Janush était de ces êtres sensibles qui captaient intuitivement toutes les manifestations de la vie. baragouinait le français. o amor se mostra capaz de abalar as certezas identitárias. os amantes transformam o quarto do hotel em Paris em uma espécie de templo. a possibilidade de entendimento entre dois mundos. il pouvait se livrer sans restriction à ses activités de peintre./dez. Aucun des deux ne parlait la langue de l’autre: typique dialogue Est-Ouest. onde assumem diferentes papéis. Elle ne comprenait que l’espagnol et l’anglais. para além de suas opacidades culturais. de não-dito. os dois amantes vencem qualquer impedimento. Leurs échanges se situaient en deçà ou par-delà les langues. o exercício do diálogo. 2007 . sua linguagem parece ilustrar a recuperação do episódio bíblico de Babel. como na vivência da diáspora. Feita de silêncios. Le silence fondait leur relation. p. como se exercitassem. Il était polonais. revisitado pela perspectiva de Pentecostes que assegura a comunicabilidade a despeito das diferenças. Qu’importait ce manque! Une langue commune n’est pas absolument indispensable à la prise des langues et l’emmêlement de deux vies. bénéficiaire d’une bourse du gouvernement français. a experiência maior da alteridade.

convidando-os para exercitarem o próprio simbólico que.129). Por isso mesmo. define-se como reinvenção permanente e experiência do heterogêneo. o amor não poderia se manifestar em contexto marcado pela idéia de unidade: como falta e busca.Maria Bernadette Velloso Porto de uma parte de si mesmo. Oiseaux migrateurs. o pacto amoroso aposta na estranheza. ‘viagens’(. lovés dans l’été de notre édredon (OLLIVIER. nous prenions le petit-déjeuner à Sidney. n° 15 .p. já que os parceiros investem na contínua renovação de papéis e de lugares 130 Revista Brasileira do Caribe. Ele convoca o entredois. Nous revenions sur les ailes de midi. o amor os leva a se despirem de qualquer sugestão de fixação. mourir sous les toits de cette mansarde de l’avenue de Wagram à Paris. 1994. Certains matins. faisions escale dans des contrées prodigieuses. como se o movimento de seus corpos os levasse a um outro continente. Abalando. reinventando seu cotidiano. p.. vol. Goiânia. passagens. nous traversions plusieurs fois le globe. No teto do quarto de hotel parisiense.57). de acordo com Daniel Sibony. Exprimindo-se criativamente em situação de fronteiras culturais.. há um grande mapa-mundi e a cada novo dia. visitions des pays de légendes et de merveilles : cratères éteints de la cordillière des Andes. à luz da experiência diaspórica. descobrem-se em um lugar diferente da cama. Le ciel de notre lit figurait une carte du monde et chaque jour.1991.)”(SIBONY. p. pois. isto é. l’aventure commençait dès le petit matin. Trata-se ainda da vivência do imprevisível e da renovação cotidiana da disponibilidade para o gesto de partir: Avec Janush.131). Janush et moi nous nous réveillions sur un point différent de la planète. VIII. à New Delhi ou à Buenos Aires. Kilimandjaro aux neiges fumantes. 1994. após uma noite de amor. “não combina com o um-só. no deslocamento. há muito esquecida” (OLLIVIER. Vivido. conforme foi visto na citação de Sibony o suporte identitário dos dois personagens. com a unidade narcísica. eles imaginam que viajam a cada noite. le lendemain à Singapour. da pluralidade e da hibridação. Orient imaginaire.

identitários. 2007 . Valendo-se das promessas da diáspora. de paisagens e de manifestações culturais que remetem a um “dépaysement” criativo que nada tem de exótico. odores. Como salienta Louise Gauthier (1997. Se na narrativa da viúva de Amédée. Assim. para empreender uma viagem em um universo marcado pela riqueza de imagens e de metáforas inesperadas. graças à inclusão da multiplicidade de cores. ela registra o 131 jul. gostos e ritmos e à liberação do corpo grotesco próprio da carnavalização rabelaisiana. Hibridação de registros de língua.. o que reforça a paratopia de seres desterritorializados.. Atenta aos excessos característicos do carnaval. na riqueza da não-coincidência. engajando-se em uma escrita fundamentada na hibridação. pertence a um domínio mais culto do francês. como todo desejo – de “escreverem” suas histórias graças à travessia de línguas e de memórias corporais e culturais. o personagem Leyda evoca esse momento expressivo do encontro de culturas e seus efeitos sobre os quebequenses. Émile Ollivier imprimiu em seu romance as marcas da Poética da Relação proposta por Édouard Glissant (1990). Espaço da polifonia e da pluralidade. p. associada às expectativas de um ir além. Na reconstituição de suas memórias elaboradas em Montreal. precisam levar adiante seu desejo – sempre movente. Cabe agora ressaltar que o prazer da leitura do romance Passages está diretamente ligado à representação das movências: o leitor é chamado para se deslocar dos limites de seu mundo. um grande lirismo se destaca nessa obra. a do personagem Régis – que tece as ligações entre diversas histórias.71)./dez. o livro em questão coloca na paisagem transcultural montrealense a explosão do orgiasmo carnavalesco caribenho. surpresos diante da manifestação dionisíaca da diferença em seu território. em que diversos níveis lingüísticos coabitam sem hierarquias. Isso explica a cenografia do ritual amoroso inventado por esses personagens que elegem a vivência amorosa (e aqui pouco importa se se trata de amor ou de paixão) como espaço significativo da condição diaspórica. identificam-se a sabedoria ligada à experiência presente em provérbios haitianos e o ritmo próprio do conto e da oralidade.Uma voz da diáspora haitiana.

n° 15 . des assauts de fantaisie. casseroles ébréchées. dá-se uma série de transformações: a revelação do mundo às avessas. une horde de corps que des coulées de sueur font luire au soleil . assoiffés de fentes. cette partie de la ville devenue soudain folle (. pulsions sauvages de la violence lascive des tropiques. distribuent victuailles et rafraîchissements . d’ail. de piment. des punchs exotiques. un coup pour toi. vieux bidons d’essences. a dessacralização da cultura oficial. Goiânia. de muscade. royaume de testicules. serpentins qui deviennent cerceaux emmêlés. sandwichs à l’avocat. rabordaille. de phallus aux proportions gigantesques. une foule criant haut et fort. incitant à des déhanchements. méringue. défilés de couples mimant des scénes d’accouplement.38-39) Na lógica da carnavalização. démêlés. renovada pela irrupção dos signos da alteridade: Leyda gardait en mémoire l’image de toutes les couleurs de peaux se côtoyant dans une débauche de costumes bigarrés. Et l’on voit passer des bipèdes obscènes sur des plates-formes mobiles.Maria Bernadette Velloso Porto transbordamento de limites. de fourreaux. steelbands d’un jour.) Et l’on tape sur tout ce qui peut résonner : bouteiilles vides. cercles de femmes. femmes-lézards. de fruits de la passion: irruption de la Caraïbe des origines . n’était la présence massive et rassurante de la flicaille prête à toute éventualité (OLLIVIER. tout cela vibrait sous le regard médusé des archéo-Québécois qui auraient pris panique. dans ce parc de Notre-Dame-de-Grâce. un coup pour moi. bouquets de canelle . 1994. VIII. échouaient là. de vanille. masques. rubans de dentelles. p. calypso. a manifestação do corpo grotesco 132 Revista Brasileira do Caribe. vol. Et les odeurs! Des matrones. plantes parvenues à maturité sans que l’on puisse en préciser l’âge.. femmes-tortues. après avoir fait le tour du monde. femmes-libellules. rythmes célébres qui. une cacophonie. plantes plantureuses aux yeux rouges de plusieurs veilles de laborieuses préparations.. reggae. de clou de girofle. a transgressão ou a travessia das fronteiras da ordem cotidiana. pâtés relevés de poivre. de trous. du bruit qui soudain devient rythmes. de basilic.

. No âmbito de jogos identitários característicos do carnaval. No caso de Ollivier.. cultuados em seu país natal. ainda que debaixo de fantasias e disfarces. investindo. Assim. atinge a todos. mantenedora da ordem. mesmo localizados. p. por mais que a identidade esteja ligada aos movimentos do devir. comprova que. e da sexualidade desenfreada. 2003. com seus excessos e transgressões de limites habituais. abalada com a desmedida da festa carnavalesca.) o ser humano não pára de se inventar” (OLLIVIER. Todavia. Sugerindo a dupla inscrição identitária do autor. recusando-se a reconhecer uma concepção simplista de pertencimento. aprofundou sua experiência do entre-dois. ao longo da qual o improviso é permitido. p. Entretanto. Seja como for.Uma voz da diáspora haitiana. Desse modo. a polícia permanece de sobreaviso. nossa relação com o passado e com a origem é sempre passível de releitura e nos permite atestar a veracidade de uma afirmação do romance: “(. 2007 ./dez. mostra-se disponível para incluir em seus referenciais identitários valores e 133 jul. o carnaval caribenho reinventado em uma metrópole da América do Norte acena com as promessas de renovação e de metamorfose. Por uma espécie de crescendo. a cerimônia vodu realizada a bordo do barco. 1994. o devir animal: revestindo-se de atributos de libélula. todos nós nos originamos e falamos a partir de “algum lugar” (HALL. os corpos individuais encontrando seu prolongamento no corpo social “contaminado” pelos apelos caribenhos. na vela do barco que levaria alguns haitianos a Miami. foram bordadas imagens do panteão católico e de divindades do vento e do mar. as referências a manifestações culturais do Haiti desempenham sempre um papel relevante na obra de Émile Ollivier. no Quebec. e a presença dos excessos associados à enumeração. elas parecem brincar de outras possibilidades de ser e de estar no mundo. em formas diferenciadas de identidade.. insinuando que toda essa algazarra é apenas provisória. lagarto e tartaruga. as mulheres conhecem. a vivência da religiosidade por parte de personagens é marcada pelo sincretismo.83). Longe de se fundamentarem numa visão folclorizante da diferença. Isso indica o caráter de duplicidade identitária do autor que.. mesmo que por momentos. a euforia contagiante da festa. 240).

HALL. S. Bibliografia AUGÉ. 1990. 1999. Montréal : Boréal. Fronteiras. GAUTHIER. Montréal : Les Presses de l’Université de Montréal. M. Paris : Gallimard. Paris : Seuil. numa via de mão dupla enriquecedora. In : Revue Internationale d’Études Canadiennes n° 27. insuficiência e ausência que levam o ser humano a largar as amarras de um porto seguro das certezas para se deixar envolver pelos movimentos do devir e pela expansão diaspórica. Da diáspora : identidades e mediações culturais. les maux du pouvoir : des romanciers haïtiens de l’exil. P. 2003.In : PORTO. M. Por sua vez. BOUCHARD. 1997.(org. esse se viu transformado com as vozes caribenhas. Belo Horizonte: Editora da UFMG. Introduction à une poétique du divers.). S. 2000. “L’écrivain témoin : déplacement. ela também pode ser concebida como falta. Ottawa : Conseil International d’Études Canadiennes. Niterói: EDUFF/ABECAN. 1997. exclusão. Le discours antillais. Z. CASANOVA.Maria Bernadette Velloso Porto produtos culturais do país que o recebeu. É . Montréal : Presses de l’Université de Montréal. 2000. GLISSANT. 2005. E se a idéia de identidade supõe limites. VIII. GLISSANT. 1986. Paris : Seuil. & JACQUES. Les pouvoirs des mots. HAREL. L. 2003. G. a despeito de alguma resistência. Paris: Éditions de l’Arcantère . É. n° 15 . L. La mémoire sans frontières : Émile Ollivier. BAUMAN. M. distinção e ruptura.. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. JONASSAINT. 1994. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. GAUVIN. Brasília: Representação da UNESCO no Brasil. Campinas. 134 Revista Brasileira do Caribe. passagens. GLISSANT. Langagement : l’écrivain et la langue au Québec. vol. Poétique de la Relation. 1995.. Sainte-Foy (Québec) : Les Presses de l’Université Laval. transferts culturels et l’expérience de l’habitabilité dans les romans d’exil d’Émile Ollivier”. paisagens na literatura canadense. La République Mondiale des Lettres. Goiânia. É. « Littérature et culture nationale du Québec : le clivage culture savante/culture populaire ». Identidade. J. São Paulo: Papirus. Naïm Kattan et les écrivains migrants au Québec.

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136 .

137-164. convite para se repensar conceitos como Negritude. but on a different turn. da Filosofia de Jean-Luc Nancy e da concepção mais contemporânea de *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 137 Revista Brasileira do Caribe. O diálogo se dá pela via da Psicanálise de Jacques Lacan. This analysis will draw on the theories of Jacques Lacan on Jean-Luc Nancy´s philosophy and the most contemporary conceptions of identity. n° 15. Goiânia. allowing thus the dialogue between differences. Literature. VIII. num movimento outro. sob um olhar mais paciente e também voltado para o futuro. Glissant. a way of political and social compromise with the progress of humanity. 2007 . se reedita e deixa mostrar a outra face da resistência. Negritude Resumo Este trabalho representa à subjetividade antilhana a partir das poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. Na perspectiva de uma voz que inicialmente surge como expressão inconsciente do coletivo e ainda sobredeterminada pelo significante do colonizador. Identities. From the perspective of a voice which initially emerges as an expression of the unconscious of the collective and still over influenced by the legacy of the colonizer. Antilhanidade. a new perspective towards the future encourages to re-evaluate concepts such as Negritude.A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant Kátia Frazão Costa Rodrigues Abstract This study focuses on the exploration of the Antillean subjectivity as it is conveyed in the poetry by Aimé Césaire and Edouard Glissant. vol. The acknowledgement of this subjectivity leads to a reformulation of the way of thinking and acting. mas que. Creoleness and creolization. Antilleanness. interview with Brazilian poet Paula Glenadel. Crioulidade e Crioulização. Keywords: Césaire.

forma de compromiso social y político con el efectivo progreso de la humanidad. entrevista en la poetisa brasileña Paula Glenadel. entrevista em Paula Glenadel. Literatura. conforme 138 Revista Brasileira do Caribe. designa o substantivo feminino que concerne à qualidade ou caráter de subjetivo. Palabras Claves Césaire. onde traços se repetem e. Glissant. Goiânia. O reconhecimento dessa subjetividade leva. Glissant. invitando para repensar los conceptos Negritud. de la filosofia de Jean-Luc Nancy y de la concepción más contemporánea de la identidad. Palavras-Chave: Cesáire. produzem movimentos de fechamento e de abertura próprios de uma existência híbrida e resultante do processo de ser singularmente plural. aqui entrevista. particular ou que pertence unicamente ao pensamento humano e é suscetível de variar em função da personalidade de cada um1. Negritude Pretendo suscitar interrogações acerca de uma possível subjetividade antilhana a partir do diálogo entre as poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. El reconocimiento de esa subjetividad lleva sin duda a la reformulación del pensar y del actuar humanos. pois embora esses autores martinicanos se inscrevam na Literatura de forma particularizada.Kátia Frazão Costa Rodrigues identidade. assim. em duplo gesto. criollidad y criollización. El diálogo se da por la vía del psicoanálisis de Jacques Lacan. sem dúvida. o diálogo entre as diferenças. adjetivo do latim subjectivu que significa: relativo ou existente no sujeito. VIII. Identidades. n° 15 . pessoal. Es la perspectiva de una voz que inicialmente nace como expresión del insconsciente colectivo y ainda sobredeterminada por el significante del colonizador pero que en un movimiento “otro” se reedita y deja mostrar la otra cara de la resistencia sobre una mirada más paciente y dirigida para el futuro. Literatura. forma de engajamento social e político com o efetivo progresso da humanidade. Negritude Resumen Este trabajo es una investigación sobre subjetividad antillana a partir de las poesías de Aimé Césaire y de Edouard Glissant. possibilitando. vol. Já a palavra sujeito. individual. permitiendo así el diálogo entre las diferencias. A subjetividade. poetisa brasileira. à reformulação do pensar e do agir humano. antillanidad. seus poemas parecem remeter a um espaço comum.

que toda essa literatura mestiça está presa não somente ao ocidente. materialização na escrita de uma potência que não cessa de se recarregar. ainda. Cabe ressalvar. Les composantes sont diverses. àquele que se sujeita à vontade dos outros. como adjetivo. assim. assim. cativo. reconhecendo-se. O autor deixa entrever. que. este pode se legitimar como seu fiel representante. escritor nascido em Guadalupe: “Nous ne sommes pas que des descendants de l’Afrique. nesse caso.. um alguém. As investidas em favor desse resgate identitário. que 139 jul. apostando na existência de um alguém. obrigado e constrangido ou. esbarra. mas à palavra exterminada dos indígenas e amordaçada dos escravos africanos. ainda que instantaneamente. 2007 . vem do latim subjectu (posto debaixo) e. Como substantivo. refere-se ao súdito. convocar à cena a voz que se apresenta poeticamente como “eu”. Nous portons tous en nous ces parcelles d’identité qui nous constituent en tant qu’Antillais et Caribéens créoles2”. em outras vozes do plano da composição. Não foi senão a partir dos primeiros cronistas. Cito Pépin. pesquisa de mesma fonte.A construção da identidade no Caribe. escravizado. tamanha é a sua importância no processo de reconstrução sócio-cultural e histórica das Antilhas. No entanto. A subjetividade é. como o padre Labat e o padre do Tertre. antes de tudo. ao redesenhar a trajetória de um devir sempre descontínuo. muitas vezes ficaram sem registro.. que deve ser redescoberta a qualidade desse eu enunciador. Investigar a subjetividade antilhana é. a escritura martinicana está diretamente ligada à questão identitária e esta ainda parece ser a grande problemática do antilhano em geral. Pépin também nos dá pistas de que é pela palavra. muitas vezes interrompida e consignada na memória crioula. assim. pela oralidade do conto e pelas práticas culturais. Ademais. no ponto intersecional das poéticas de Césaire e de Glissant. entrevista a partir do encontro dessas potências em diferença ou. que a Literatura Antilhana possui uma dimensão muito maior do que o universo restrito da Martinica. iniciado pelo marronage3./dez. primeiramente. o termo sujeito designa o indivíduo indeterminado ou cujo nome se quer omitir.

A eles se segue a escrita duduísta. Césaire. é formulado em favor dessa contraposição. que liderou essa empreitada identitária. Jean Bernabé e Patrick Chamoiseau. dentre outras razões por fazer uso da língua francesa. a crioulidade apela para a consciência de uma etnia plural. Surge. quem primeiro explorou mais profundamente a unidade. em seus anseios linguageiros pela cultura dominante. a então chamada “literatura assimilacionista” também não chegou a apresentar uma dimensão histórica e social. ora os negros. assinado pelos martinicanos Raphaël Confiant. por isso. igualmente dicotômica e marcada pelo exotismo. Mas. como afirmou Pépin. não conseguiram. sobretudo. contudo. A “cria da Negritude”. deparando-se com algumas barreiras. esses “brancos da terra”. vista como eurocêntrica e dominadora. de fato. a “Negritude”. foi Edouard Glissant. muitos deles seus futuros e acirrados críticos. a escrita regionalista. a crioulidade acentua ainda mais as diferenças culturais e antropológicas. Ao denunciar o falso monolingüismo e a pureza das raças sem evidenciar. porque designa ora os brancos nascidos nas colônias. que também se revela como problemática. VIII. Era a escrita dos primeiros mulatos antilhanos assimilados. Entretanto. No projeto de uma concepção unificada do povo antilhano. conquistou rapidamente um grande número de adeptos. a da própria língua. tão distante e estrangeira. Goiânia. na busca de uma poética própria. acusa Césaire de essencialista. movimento que se inicia nos anos 30 do século passado e marca uma consciência mais desenvolvida em favor da dignidade negra. a existência de uma matriz cultural fundamentada na plantação da cana e na escravidão faz persistir a idéia do “um” em relação ao sujeito antilhano. Desde sempre atraído pela questão identitária e querendo ultrapassar as barreiras essencialistas criadas 140 Revista Brasileira do Caribe. como é chamada por Pépin. escreviam em francês e. Segundo Confiant. n° 15 . assim. igualmente presa aos padrões ocidentais. O conceito de “Crioulidade”. então. dentre elas. retratar a realidade antilhana. Cheia de clichês. vol. ainda nos anos 60. nos anos 80 do mesmo século. a mestiçagem.Kátia Frazão Costa Rodrigues se inaugurou timidamente uma sondagem. Desse cenário evolutivo nasce.

Afetado pelas idéias de Deleuze e Guattari. Para ele. o resgate da identidade antilhana só é possível pela ruptura com a tradição baseada na filiação. A identidade passa a ser concebida não mais como regional. que busca. que se fundamenta no diverso. pela Negritude. mas também das Antilhas e da América em geral. por vezes. incluindo-se. aí. assim. Segundo o autor. no mesmo. onde interagem o cultural e o lingüístico. as diferenças. o devir crioulo passaria por essa conscientização. Glissant desenvolve a idéia de uma “identidade regional”. 2007 . acerca da oposição raiz-rizoma. a obra de Césaire. confirmando a existência de uma cultura crioula que. o autor desenvolve o conceito de “Identidade-rizoma”. com o discurso hegemônico do ocidente. conceito articulador da “Poética da Relação”. na aceitação do outro e de suas diferenças.. possuiria uma identidade própria. Por volta dos anos 1980-1990. o conceito de “Antilhanidade”. até contraditórios. Glissant define as diferentes culturas como formas mestiças que se entrecruzam de maneira dinâmica num processo de “Crioulização”. Chamoiseau chega mesmo a afirmar que não é possível falar em Literatura Antilhana antes de Glissant e que tudo que o antecede não passa de uma pré-literatura. mas como múltipla e decorrente da relação com o outro. assim.. o pensamento de Glissant se estende às problemáticas humanas. provocados pela globalização./dez. talvez seja mais interessante pensar que. por 141 jul. Dessa forma. as tentativas de ressignificação do sujeito antilhano representam as muitas etapas da construção de uma subjetividade híbrida que se desenha no entre-lugar de algumas falas. Em 1995. longe de serem consideradas como movimentos isolados e. Elabora. a universalização do devir. apesar de diversa e sem consciência de si mesma. é o próprio Glissant quem atualiza a noção de antilhanidade. com o monolingüismo e com a identidade-raiz. desrespeitando. Entretanto. mas no “ser com”. fazendo ampliar as fronteiras não somente da Martinica. A identidade não mais se concentraria no ser. e também pela migração e maior contato entre os povos.A construção da identidade no Caribe. a partir da observação dos traços comuns das várias culturas caribenhas.

dá pistas de uma incontestável proximidade com aquela que se desenhou no Cahier d’ un retour au pays natal5. um cunho pedagógico. invocando atenção para questões morais que colocam em jogo valores como dignidade. 14). très lointaine. 1994. não somente em favor de uma maior consciência acerca do negro colonizado. Mas foi Césaire quem primeiro denunciou essa marca indelével da violência: “. feita por Glissant na sua obra Poèmes 4. incitando à reflexão. “. Goiânia. A descrição do sofrimento causado pela escravidão. e por extensão. como também.une vieille misère pourrissant sous le soleil. p. A interpelação em Glissant tenta atingir a cristalização causada por um real que ainda resiste à palavra. Daí a abundância de interrogações. buscando.. n° 15 . le cordon ombilical restitué à sa splendeur fragile. le sang des épousailles véridiques” (CESAIRE.. Essa escrita marcada pela emoção apresenta. p. inicialmente.. l’ 142 Revista Brasileira do Caribe. silencieusement. vol. por exemplo. le pain. le vin. p..Kátia Frazão Costa Rodrigues aproximação e distanciamento. numa verdade exterior. do drama de todo negro da história da humanidade. também. 1994. A escritura antilhana tem a marca de um apelo que se funda. gestes imbéciles et fous pour faire revivre l’ éclaboussement d’ or des instants favorisés. 1965. VIII. de Aimé Césaire. sacudindo a consciência. Cito Glissant: “Et parmi les chants de midi / Ravinés de sueurs triomphales / Sur un cheval vient à passer / La mort demain la Pitié” (GLISSANT. honra e respeito. le pain. un vieux silence crevant de pustules tièdes.24).10). caminho possível para uma atitude menos passiva diante dos acontecimentos que envolvem a própria vida. Cito: Cette argile à nouveau remue! Serait-ce que l’oiseau guide le ciel vers une source ? Serait-ce. / l’affreuse inanité de notre raison d’être” (CESAIRE. et le vin de la complicité. como diz o poeta da negritude.

que cette enfance soit la vieille d’ un bivouac. Césaire parece. 13-14) Mas. Glissant responde. permanece “como uma baía!” (GLISSANT.” (GLISSANT. le souvenir encourt les tournoiements de l’ arbre. faites mystère ainsi que lui de ce silence où bruit la ville. (GLISSANT. quando diz: Si nous voulons réappareiller l’ abeille dans les campêchiers du sang Si nous voulons désentraver les mares et les jacinthes d’ eau Si nous voulons réfuter les crabes escaladeurs d’ arbres et dévoreurs de feuilles Si nous voulons transformer la rouille et la poussière des rêves en avalanche d’ aube Qu’ es-tu. da mesma forma. 15-16)... à peine devinant tout ce remous d’ étoiles et de lierres.1965.A construção da identidade no Caribe. Toi qui comprend ce qui disent les îles Et qu’ elles se communiquent dans la marge des mers et dans le dos des terres dans leur jargon secret d’ algues 143 jul./dez... ocupando também o lugar do outro. profuse en ce langage. est-ce le coeur. et plus haut son sang. et l’ébloui de vos brisures. Toute prose devient feuille et accumule dans l’obscur ses éblouies. para saudar Edouard Maunick”.15). Et vous..faites-le flamboyance de l’indécis.. Cito: “Durant que vous dormez dans cette plaine. indifférente et soudain calme dans le fruit. Faitesle feuille de vos mains. nul ne peut. agité comme une gare de populations végétales. Lui ne craint plus le sentiment (de dire « je » dans cette terre). O uso dos verbos no modo imperativo já atesta o desejo de guiar impulsionando essa multidão que. qui fume sur la ville sa suée de terres. p. embarquement des rives de la neige vers une foule incendiée ? Ou le coeur. ensaiar a instrução de um possível caminho para o resgate identitário. son ressac tumultueux ? Nul n’ avoue. faites-le prose de l’obscur. 1965.. mais l’ emblave et l’ ensemence. p. 1965. 2007 . ao mesmo tempo em que interroga. no poema “Palavras de ilhas. ausente de todo trabalho. ao traçar a estratégia para a resistência..

ao tentar desmistificar o exotismo das Antilhas. “de uma multidão que não sabe fazer multidão”6. 1994. E. expressa na passagem perversa do outro por essa ilha lastimável de uma gente passiva ou. quando.Kátia Frazão Costa Rodrigues Et d’ oiseaux Qu’ es-tu comparse du feu et du flux et du soufle (CÉSAIRE. deriva. p. Glissant parece assumir a mesma fala que um dia proferiu o poeta “portavoz das bocas das desgraças que não têm boca nenhuma”7 ao dizer: L’ île entière est une pitié Qui sur soi-même se suicide Dans cet amas d’argiles tuées O la terre avance ses vierges Apitoyée cette île et pitoyable Elle vit de mots dérivés Comme un halo de naufragés A la rencontre des rochers (GLISSANT. a cada pincelada. 24) Essa expressão cheia de predicações compõe. VIII. pois esse tempo distante é constituído de matéria fictícia e remete a algo que não existe mais ou que nunca existiu. pouco a pouco. 1965. n° 15 . náufraga. deixando-se representar por cores sombrias que escrevem simbolicamente o desencanto: 144 Revista Brasileira do Caribe. como diz Césaire. Seu referencial de verdade está no passado e aponta para a consciência de que algo precisa ser empreendido. Nos versos abaixo. o cenário do drama. que se deixa abater e. de fato. vol. um novo traço dessa dura realidade se revela. p. revelando uma escritura marcada pela antítese branconegro. Glissant o faz pela pintura da sua inversa miséria. Goiânia. A escrita hesita entre o desejo de ser o seu próprio modelo e a missão de um testemunho coletivo acerca do passado traumático que seria esquecido sem ela. A mesma ambigüidade se dá em relação à descrição da Martinica. pelo menos como tal. 508). completamente muda.

perde a noção de si e da realidade. não por acaso. Le soir est écuelle de broussailles. É interessante destacar também que tanto Glissant quanto Césaire demonstram a especificidade do negro colonizado como alguém que. Sua recorrência atesta não só a não resolução como a fixação do drama. além da memória. como um traço identitário que não se apaga. 1994. assim. mostra que a poesia construída a partir da autofragmentação patológica do negro e da sua vitimização vai alimentar o plano das composições antilhanas em geral.32). loin du vent. de roses sales. de um sentimento de incapacidade do negro diante da supremacia branca. antigas antinomias. p. no imaginário antilhano. 2007 .A construção da identidade no Caribe.. ô jamais n’ ira l’ aurore disant l’aurore. também no plano ficcional e como algo ainda passível de ser questionado. confirmando.. Elles ne sont pas couvertes de nénuphars. perde o contato com o mundo e. Essa dimensão psicológica encontrada. acheminant des rêveries. Ma mémoire a sa ceinture de cadavres! et mitraille de barils de rhum génialement arrosant nos révoltes ignobles. pelo pessimismo. coisificado. Ce vent n’ est plus l’arène où s’ ébattent les pluviers ! Jamais plus. “na eterna fixação dos dias e dos gemidos”8: O tout ce lieu est mort. Elles sont couvertes de têtes de morts. 145 jul. Sur leurs rives ne sont pas étendus des pagnes de femmes. se desajusta. a posição privilegiada do ocidente. plus que l’ aurore dans les chambres. fazendo realçar. a permanência. entregando-se. os dois poetas dão indícios de que. diante do sofrimento moral e material a que foi submetido./dez. ao mundo maniqueísta instaurado pela escravidão. pâmoisons d’ yeux doux d’ avoir lampé la liberté féroce (CÉSAIRE. a sua própria condição humana. Nessa perspectiva. Jamais plus n’ ira le vent par la parole. assim. Dans ma mémoire sont des lagunes. ao ser mantida. Ma mémoire est entourée de sang. na obra dos dois autores. Que de sang dans ma mémoire! dans ma mémoire sont des lagunes. a escrita antilhana também é marcada pelo desastre.

comme l’ aurore. VIII.146). o psicanalista Jacques Lacan9 demonstra que o exterior tem importância decisiva. O verbo se faz presente entre o 146 Revista Brasileira do Caribe. A linguagem determina o sujeito porque a palavra não só precede a sua existência. na impossibilidade da troca com o outro. 1965. como estrutura a dimensão inconsciente e.13). Goiânia. escravizada. Il a quitté les flamboyances.. “je”. se submete ao código do outro. (GLISSANT. a resistência rumo à individuação. pleuré les rêveries. dans cet effroi des promenades ? – nul ne sait. p. n° 15 . a partir de um comprometimento involuntário com o sistema simbólico pré-existente. O Soleil ! ô travail séculaire sourdement mêlé de mer. na impossibilidade de amar e de ser amado. Il est de la race des choses mûres de mûrir dans l’ été lourd et l’ encombre tumultueux.. pois o eu se descobre no outro. na mesma encruzilhada do pensamento.. / une faim ensevelie au plus profond de la Faim de ce morne famélique” (CESAIRE. o poeta do “Cahier”: “. p. A morte é também da palavra que. Un homme chaque matin ouvre les yeux sur la solitude où il se garde.1965..Kátia Frazão Costa Rodrigues « je suis l’éveil des yeux et la clarté des profondeurs”. vol. rien à tirer vraiment de ce petit vaurien...Disaitil seulement. cette naissance hivernale ? (GLISSANT. s’ouvre bientôt un champ de misère et d’ incendies. na falta de comunicação. et de cette couleur d’ amour. Na sua teoria sobre a constituição do sujeito. fazendo com que o homem perca a sua aurora e os seus devaneios. 31). p. et de sang noir précipité. et la colère des requins. Peut-être êtes-vous là. abandonné la rare bleuité de ceux qui aiment et sont aimés. dans la voix fissurée. 1994. / qu’ une “faim qui ne sait plus grimper aux agrès de sa voix / une faim lourde et veule.car sa voix s’ oublie dans les marais de la faim.. la solitude.. paradoxalmente.Après la traversée. / et il n’y a rien. E.

como efeito da própria socialização. 85) Em Cahier d’un retour au pays natal. há sempre algo no meio. numa imaginada cumplicidade com o colonizador: Je me cachais derrière une vanité stupide le destin m’ appelait j’ étais caché derrière et voici l’ homme par 147 jul. mas da subordinação à língua do estrangeiro colonizador./dez. esboçando sorrisos pálidos. a dependência do outro se torna ainda mais traumática. ao mesmo tempo.. 2007 . 1965. (GLISSANT.. sujeito e a sua fala. p. Tornar-se sujeito. P. sem enxergar a si mesmo: Qu’ était la mer et son écume ? Savait-on si sa parole ne se mourait En quelque gouffre. implica também resistir a essa palavra escravizadora de consciências. verdadeiro instrumento de dominação. tropeçando na língua do outro e. 27) Na situação diaspórica. aprisionado pela brancura de uma vã assimilação à cultura ariana. 1994. Entre sujeito e discurso. Césaire já apontava para esse homem que. desengonçado. pois não se trata apenas do assujeitamento primordial à língua do grupo. estranho e ameaçador. da mesma forma que é impossível conceber a subjetividade sem essa presença fantasmática. nesse caso. o processo subjetivo só pode ser pensado na relação com o outro. Cito Césaire: “Mais pourquoi brousse impénétrable encore cacher le vif / zéro de ma mendicité et par un souci de noblesse apprise/ Ne pas entonner l’ horrible bond de ma laideur pahouine ? / Voum rooh oh / Voum rooh oh “ (CESAIRE. au loin des routes révélées ? Longtemps ainsi la voix de l’ homme se perdit aux temples Pour obscure qu’ était la route jusqu’ au temple ! et cette mer. se escondia em si mesmo. que fez com que o homem se perdesse durante tanto tempo na obscuridade. Neste sentido.A construção da identidade no Caribe. diferente do eu. sem ritmo e sem medida.

. Lacan. p. ou ainda. quand nous forçons de fumantes portes. mas também o exercício de um fazer-se sujeito ou a “cura”. que seja capaz de exprimir toda a angústia e o arrependimento por ter. a extensão da estrutura que cessa para algo se opor a ela. do desejo do outro. 36). adornos!” (GLISSANT. (CÉSAIRE. ah oui. 1965. Voici l’ homme par terre Et son âme est comme nue. a partir daquilo que um significante representa para outro significante. ses déclamations pédantesques rendant du vent par chaque blessure. traz a certeza de que é preciso buscar uma outra expressão.. a cessão do eu. desejado ser como o outro. e. que a sua relação com o 148 Revista Brasileira do Caribe. vol. assim.Kátia Frazão Costa Rodrigues terre. (CESAIRE. pensar que o sujeito é sempre definido em função do outro. p. por conseguinte. Pode-se supor. mostrando que as repetições na fala seriam a representação sintomática do inconsciente. n° 15 .30). des mots qui sont des raz-de-maré et des érésipèles et de paludismes et des laves et des feux de brousse. A alteridade implicaria. e a alteridade. resultante da sua relação com o mundo. citado por Bruce Fink10. dessa forma. a “doença”. p. et des flambées de ville. ses maximes sacrées foulées aux pieds. E. decorrente do funcionamento da própria linguagem. A concepção lacaniana do homem como ser sobredeterminado pela linguagem permite. fala o poeta da negritude: Des mots? quand nous manions des quartiers de monde Quand nous épousons des continents en délire. 39) A consciência de que a língua do outro é feita de “Brancuras! viscosidades da palavra que não interpela! Febre nevada.. confirma o pensamento freudiano de que é pela linguagem que o homem se revela. um dia. 1994. em outras palavras. Goiânia. 1994. assim. des mots! mais des mots de sang frais.. Essas fixações atestam não somente o conflito do eu. VIII. et des flambées de chair. então. A alienação seria. sa très fragile défense dispersée. des mots.

Nesse processo de aproximação e de distanciamento. tornando seu algo que antes era estranho e ameaçador. o fruto dessa ilha lamentável. preenche vazios e transforma o desejo. de onde talvez sejam possíveis a consciência de si mesmo e uma relação menos traumática com o mundo. O desejo não é. p. porque inclui o outro que. os laços que geram a dependência primordial ao significante do outro também fazem armazenar a energia que principia toda resistência e. mais de uma dimensão.A construção da identidade no Caribe. o outro que habita em nós. 22). E. fonte de toda comunicação. mundo é sempre ambígua./dez. de uma ficção quando toma para si a alteridade. assim.. Entretanto. que padece das palavras derivadas. revela-se agora. O discurso apresenta. portanto. em paralelo.. 1965. porque o outro se interpõe provocando ora admiração. como linguagem. ora repulsa. é Césaire quem poetiza: les nuits de par ici sont des nuits sans façon elles sont toujours en papellotes elles ne sont pas sans force même si elles sont sans mains pour brandir le coutelas mais force reste à la loi – à l’ angoisse la nuit ici descend de grillons en grenouilles doucement les pieds nus en bas un gosier de coq patiente 149 jul. pois ao mesmo tempo em que permanece ligado de forma irremediável à língua do colonizador. aquele que apenas a ordem simbólica é capaz de captar. assim. Declara Glissant: “Le soir à son tour germera / Dans le pays de la douleur/ Une main qui fuse le Soir/ A son tour doucement tombera” (GLISSANT. A letra mata o sujeito para lhe oferecer vida própria. 2007 . na adoção da causa que perturba o funcionamento da estrutura. fantasias se produzem e oferecem a sensação de um falso ser que tenta superar o conflito. senão. investido de mais de um sentido. O homem nasce. dirige o seu olhar para um devir.

A primeira refere-se a um duplo assujeitamento do homem antilhano. o primeiro passo para a constituição do sujeito. reanima a existência. Goiânia. p. de grilos em rãs”. VIII. entrevistas as duas poéticas.11-12). se mexer e “gravitar em torno do seu próprio corpo” (GLISSANT. investidas de interesse e de valor libidinal. a história antilhana se retraça. As imagens enunciam uma subjetividade que assume o comando e a responsabilidade por toda a expressão. igualmente. como ser negro e escravizado. Tratar-se-ia. permitindo. p. em decorrência da própria anulação. vol. O segundo movimento revelaria um percurso outro. Desenham-se.Kátia Frazão Costa Rodrigues pour cueillir la giclée ce n’ est pas toujours de la cellule de gestion de la catastofre que la journée téméraire fait part de sa propre naissance (CESAIRE. a existência de um alguém que. do marronage à crioulização. A ordem simbólica internaliza as imagens especulares que. ainda. agora. n° 15 . mas. como um furo de significantes que nos chegam numa linguagem truncada e aparentemente sem sentido. a exegese do eu e do desejo. 418). causado pela sua constituição como ser social e. incita ao exercício de um olhar mais amadurecido e próprio de um eu que se confessa “laminar”11 em Césaire ou. A noite que cai “docemente e. nascido no país da dor. 1994. Uma anulação que é. 1965. É também dentro dessa perspectiva ética de sujeito que são. irrompem no discurso. através de duplos gestos. em contrapartida. embora “sem mãos para erguer o facão”. Assim. como uma paciência que “cresceu na ausência”. duas trajetórias para se pensar a subjetividade. próprio daquele que Glissant anuncia como nascido da poesia que ultrapassa o drama e faz reacender a chama da vida. mas que faz uma argila resmungar novamente. de responsabilidade frente 150 Revista Brasileira do Caribe. mais ainda. assim mesmo ou por isso. da alienação que dirige o homem para a assunção de um papel vazio a ser preenchido pelo outro. desta vez. se reinventa. pois. deixando entrever. na visão lacaniana. na busca da realização do eu reprimido e na assunção também de um papel.

pelo qual o sujeito se permitiria construir e “des-construir” fantasias. imprevisível. único caminho para a fantasia que.. mas alguma coisa ou alguém entre os dois. Em “Entre mangue e manguetown. assim. chamando para si o sujeito./dez. É dessa forma. ao próprio futuro.. A subjetividade adviria. É preciso pensar o trauma antilhano como bloqueio. de 151 jul. assim. “a ‘identidade’ está e não está onde se procura por ela”13.A construção da identidade no Caribe. mas também como possibilidade de encontro com o desejo do outro. provocando proximidade e distância. talvez seja possível pensar que existe. Segundo Glenadel. faria com que o sujeito se expusesse com toda a sua complexidade. mas o gozo de uma vida. como uma herança inquietante que atravessa o discurso produzido pelo imaginário e pelo desejo das margens. sustentado apenas pela ilusão de uma totalidade. A separação implica a dupla falta e marca a possibilidade do sujeito vir a ser. A identidade seria. na conformidade de uma contradição que. completamente nu. a partir do reconhecimento da espectralidade que assombra a fala do sujeito12. 2007 . que não é nem eu nem outro. fazendo com que ele assuma não só as responsabilidades. fruto de dor e de prazer. que o sujeito se atesta. de um grande paradoxo que incluiria alienação e separação ou fechamento e abertura. Chico Science”. Essa unidade. Tal processo corresponderia ao conceito de separação e daria origem ao ser marcado pela hibridez. tenta fazer essas duas faltas coincidirem. Nesse sentido. alavanca o processo de subjetivação do drama. a subjetividade pode ser pensada como resultante do processo de carga e “des-carga” emocionada. desarmado. vivendo a sensação fantasmática da completude causada pela utopia de um preenchimento. no firme propósito de ser como tal. uma vez rompida. provocando a ruptura da hipotética unidade anterior. Paula Glenadel propõe pensar a identidade como identificação. um fantasma que reinventa o drama e se apropria do sentido. em fluxo constante. ao ser atravessada. em toda a sua diferença. penso. A partir dessa concepção mais contemporânea acerca do sujeito e da identidade.

e abre-se ao desconhecido. a palavra. por ser traço descontínuo sempre em movimento. estabelecendo. se libera “para reavivar o verso solar dos sonhos”18. como nomeia Glenadel. lançando-se para um devir que prevê não mais a fixidez do pensamento. vol. mas as mudanças de pele: quand les flèches de la mort atteignirent Miguel Angel on ne le vit point couché mais bien plutôt déplier sa grande taille au fond du lac qui s’ illumina Miguel Angel immergea sa peau d’ homme et revêtit sa peau de dauphin Miguel Angel dévêtit sa peau de dauphin et se changea en arc-en-ciel Miguel Angel rejetant sa peau d’ eau bleue revêtit sa peau de volcan Et s’ installa montagne toujours verte a l’ horizon de tous les hommes (CESAIRE. não se funda 152 Revista Brasileira do Caribe. provoca aporias. Contraria. de uma promessa. p. pela “reabilitação de delírios muito antigos”16. confirmando a dependência em relação ao significante do outro.Kátia Frazão Costa Rodrigues fato. a possibilidade de reformulação de um futuro. Goiânia. como presença em ausência que traz sempre à tona o passado como sintoma. 1994. há tempo reprimida. no “furor de dar vida a um desmoronamento de paisagens”15. o devir se anuncia no espaço de um não-tempo. produto arbitrário de uma consciência. Sob essa perspectiva. então. um alguém que se expressa fantasmagoricamente nas duas poéticas. n° 15 . assim. para que uma “nova bondade não deixe de crescer no horizonte”14. espaço que só se habita provisoriamente.É quando. Essa palavra. como poetiza o fundador da Negritude. mas que. deixa lacunas. os “mecanismos espectrais de permanência” e faz reavivar os de “transformação. 457). VIII. de um por-vir”17.

segundo o poeta. Glissant também apela para as palavras que “fazem o céu e o horizonte”. mais na intenção de transmitir uma verdade exterior../dez.. um reflexo instantâneo da verdade do eu. a partir de um referencial interno e subversivo. ultrapassar também o presente. que faz o pássaro. um je que não representa mais o coletivo. 2007 . Continuar a vida significaria viver o efeito de cada instante e. expressa por uma sensibilidade que se coloca à margem de toda lei. em contínuo devir. mostrando que a escrita do desastre se constrói a partir das abstrações de uma consciência em enunciação: il y a aussi les capteurs solaires du désir de nuit je les braque: ce sont des mots que j’entasse dans mes réserves et dont l’ énergie est à dispenser aux temps froids des peuples (ni drèches ni bagasses. São elas. por extensão. A poesia seria. ) (CESAIRE. mas o resultado da íntima relação entre o ser e a realidade. por intermédio de um código interno e variado que coloca em questão a própria linguagem. como algo que lhe é pertinente e o identifica como tal. assim. hoje. mas à produção do seu efeito. então. a espuma e a casa de lavas por vezes”. são as produzidas pela mão que faz igualmente “a riqueza 153 jul.. as escritas pela “mão que floresce a dor. 397) A autoridade fincada no presente pela expressão de uma vontade deliberada delimita o passado porque não se reconhece mais como histórica. assim.. mas na reivindicação de uma verdade nova que marca a passagem da ficção à efetiva presença de um eu. para um futuro que guardará a sua qualidade na memória. apesar de tudo. O imaginário desempenha o papel de imagem do eu. O subjetivo volta-se do passado para o presente e. p. mas fruto de uma escolha carregada de sentido que propõe. a continuação da vida. 1994. A existência agora se expõe não mais submetida ao tempo.A construção da identidade no Caribe. na expressão do sujeito por ele mesmo. O dito coloca em cena.

1965. Os verbos no presente do indicativo reforçam a idéia de que tudo é modelado a partir de uma presencialidade e que todo esse passado “móvel” depende da atualidade de um ponto da vista.24-25).. buscando uma completa harmonia com o Cosmos. delineando uma subjetividade que irrompe para renovar a existência e florir a dura realidade. n° 15 . Assim. p. 1965.26). estão as duas poéticas. pour ce que l’ arbre dit ” (GLISSANT. vol. entre permanência e transformação.. Como poetiza Glissant. Goiânia. p. Diz o poetarizoma: Celui qui parmi les neiges enfante Un paysage une ville des soifs Celui qui range ses tambours ses étoffes Dans la sablure des paroles Attendant l’ ouverture des Eaux Le grand éclat des vagues Midi Plus ardent que la morsure des givres Plus retenu que votre impatience d’ épine Celui qui prolonge l’ attente Et toutes les mains dans sa tête Toutes splendeurs dans sa nuit Pour que la terre s’ émerveille Il accepte le bruit des mots Plus égal que l’ effroi des sources Plus uni que la chair des plaines Dechirée ensemencée . Ecoutant ruisseler mes tambours Attendant l’ éclat brusque des lames 154 Revista Brasileira do Caribe. “Toute parole est une terre/ Il est de fouiller son sous-sol/ Où un espace meuble est gardé/ Brûlant.Kátia Frazão Costa Rodrigues dos fossos e a colheita do passado” (GLISSANT. onde o céu dança porque “da dor se fez uma palavra / uma nova palavra que multiplica”19. VIII.

libertária e própria das duas poéticas. como diz Glissant (GLISSANT. sem qualquer preocupação com a erudição ou com a legitimidade do proferível. por exemplo. 1965. reivindicadora. de onde a resistência ressuscita em torno de alguns fantasmas.. Em outras palavras. A subjetividade literária. pela presença em ausência de um conflito identificatório que se renova e ruma em direção ao espaço onde “Toda palavra se confunde / Com o silêncio das águas”. como aponta Michel Zink22. É a expressão das contingências que. não é a simples expressão do real pelo simbólico. é preciso “contornar os lugares escolhidos da gravidade histórica”20 e invadir a opacidade. tornar frágil a aparência e captar o segredo das raízes.. p. Dessa forma./dez. aos impasses que concernem à existência. O real. muito menos a efusão espontânea e verdadeira da personalidade. pois como o poeta mesmo diz. 2007 . criando espaços. L’ éveil sur l’ eau des danseurs Et des chiens qui entre les jambes regardent Dans ce bruit de fraternité La pierre et son lichen ma parole Juste mais vive demain pour vous Telle fureur dans la douceur marine. num discurso truncado que funciona como ponte também para o acesso ao totalmente outro. a escrita traz à tona materiais inconscientes que emergem da subjetividade inquieta. é aquela capaz de preservar a oralidade. p. 21). também para Césaire. Aparece no discurso como a qualidade de algo que se desenha dentro dos contornos de um eu também nada preocupado com o tempo ou com a necessidade de fugir dele. particularizadas. é o produto de uma consciência particular que se autoriza a falar em nome de uma causa. 28-30) A palavra.A construção da identidade no Caribe. Para tanto. agora se faz representar por imagens. “nada liberta mais do que a obscuridade de um dizer”21. mas a marca de um ponto de vista frente. (GLISSANT. 1965. se presentificam por uma voz que ultrapassa o 155 jul. das opiniões e dos sentimentos do autor. que resistiu a toda simbolização. Je me fais mer où l’enfant va rêver.

liberto das cronologias e de toda sinopse. O poema “Calendrier lagunaire”23.Kátia Frazão Costa Rodrigues real e a materialidade da escrita. promovendo a comunhão momentânea do poeta e do leitor. mostrando que a palavra ferida. despojando-se da fixidez de um pensamento e voltando-se para o desconhecido. A palavra rejeita toda mediação de uma lógica que desautorizaria o habitar em vários lugares e a expressão de um tempo que remete tão somente à interioridade. sob a forma. Habitar vários lugares sem deles se apropriar também é se permitir outras impressões. não. de Césaire. p. investindo no novo. 1994.385). Derrida24 afirma que.chaque minute je change d’ appartement“ (CESAIRE./ . estruturalmente aberta que pode a todo instante converter-se em ameaça de fechamento numa identidade ou em ameaça de perda de uma identidade”. vol. ao se repetir em heterogeneidade pela via do sonho. dos homens. na incerteza de um devir. na busca incessante de um espaço próprio que. o eu se dissocia de sua língua. se diz habitando vários endereços ou o lugar mesmo da indefinição. É. A palavra se multiplica no poema. pois como diz Glenadel. VIII. à cultura e à memória do colonizador. a identidade “constitui uma promessa fundamentalmente incerta.. aparentemente sem consistência.. de expressão inevitavelmente estrangeira. n° 15 . enfim. Goiânia. ao dizer: “j’ habite une blessure sacrée/ j’ habite des ancêtres imaginaires/ j’ habite un vouloir obscur/ j’ habite un long silence. que cita Derrida25: “uma identidade não é jamais dada. apenas se 156 Revista Brasileira do Caribe. porque vai de encontro às aporias do outro. mas que anima tanto quanto uma paixão. por assim dizer. só se encontre no silêncio e na comunicação interrompida. como numa espécie de amnésia. de sua cultura e de sua memória. para o outro. na diáspora. em aporia. recebida ou atingida. Talvez seja exatamente isso que exprime Césaire. apostando. ainda que assim seja. muitas vezes inesperada. sugerir uma promessa de vida na diversidade. está sempre em movimento. de um discurso truncado.. assim como não se associa jamais à língua.Cito ainda Glenadel. parece revelar a existência dessa subjetividade que. talvez.

também constroem a singularidade de todo dito ou do que se encontra em seu lugar.A construção da identidade no Caribe. p. qui le déterminent et qui le façonnent” (ZINK. na medida em que se tem a consciência de que marcas não se apagam totalmente.. Como deixa entrever Michel Zink. na sua obra já citada. passa pelo processo interminável. 2003.142). elementos que. a representação do inconsciente. a ser metáfora contínua.. pela palavra que. somados. p. A poesia passa. o sentido do real e. o convida para a cena. carrega consigo a 157 jul. A poesia personifica forças fazendo emergir o presente de uma subjetividade que vive unicamente cada instante. p. ao caminhar./dez. Assim. se desenvolve na voz do poeta. ao mesmo tempo.48). E. pelo sonho. então. montre celui-ci aux prises avec les contingences du réel. a poesia liberta. Diz Zink: “On a vu que la poésie du dit. indefinidamente fantasmático da identificação” (GLENADEL. au lieu de construire une image idéale d’un moi. 21). 1965. recupera-se cada herança ou “apartamento”. efeito da constante relação do sujeito com o mundo. Despojar-se é tarefa inquietante. Na interseção dessa perspectiva: Savoir ce qui dans vos yeux berce Une baie de ciel un oiseau La mer. 1985. 2007 . retórica que opera os movimentos de uma vida interior. une caresse dévolue Le soleil ici revenu Beauté de l’ espace ou otage De l’ avenir tentaculaire Toute parole s’ y confond Avec le silence des Eaux Beauté des temps pour um mirage Le temps qui demeure est d’ attente Le temps qui vole est un cyclone Ou c’ est la route éparpillée (GLISSANT. por sua vez. que força hesitante a passagem do mundo interior para o exterior.

vol. recarregada pela energia dos versos solares que não retornam ao lugar do drama. o pássaro e o mar”. ponto de vista do eu sobre o eu. que tenta recuperar as suas sensibilidades estética. assim. 1994. Neste sentido. que o essencial é: nu l’ essentiel est de se sentir nu de penser nu la poussière d’ alizé la vertu de l’ écume et la force de la terre la relance ici se fait par l’ influx plus encore que par l’ afflux la relance ici se fait algue laminaire (CESAIRE. p. inscrita no entretempo “da espera e do ciclone”.Kátia Frazão Costa Rodrigues força dessa subjetividade. Goiânia. para além do discurso que separa significante de significado. sem dúvida. Seria. quem sabe. produzindo abertura e fazendo com que o sujeito não opere mais como testemunha. mas caminham atraindo e colhendo o seu efeito. também é possível pensar a subjetividade antilhana como potência de uma existência marcada pelo conflito identificatório. mas como agente modelador de uma exterioridade. uma trajetória descompassada e diferente de toda linearidade. 415). na confecção do seu produto arbitrário: a poesia. em Césaire. A palavra também irrompe no discurso sob a forma de fantasia. É. provavelmente. ética e moral. Atravessar 158 Revista Brasileira do Caribe. A construção dessa subjetividade implica uma travessia. a força maior. que irrompe surpreendendo e desarmando discursos prontos sobre o bem e o mal. É. tornando o ser inevitavelmente refém e senhor de todo “futuro tentacular”. É. perfazendo. como realça Glissant26. VIII. por isso. a força que resiste a todo fechamento e impulsiona a existência para frente ao mesmo tempo em que a autoriza a olhar para trás. a força que faz embalar nos olhos uma “baía de céu. a mesma que nos ensina. n° 15 .

de agitação e de paciência. Glenadel27 também ressalta que essa promessa alimenta-se daquilo que fica como seu pano de fundo. tal como pensou Lacan ao descrever a entrada na fase do espelho. uma realidade se expressa. pois cada vez que algo ou alguém é suposto. de toda promessa que se apresenta. manifestando a abertura ética para o outro. Nesse caso. como justiça por vir. como mémoire reconquise (memória reconquistada) de um instante (GLENADEL. o mesmo já seria necessariamente outro. Ademais. Nancy deixa entrever que nem o ser. Na perspectiva derridiana de pensamento. na sua busca insistente por definições estáticas do Homem. não um conceito formal que classifica indivíduos. unidos por um duplo gesto. ser irredutível. marcado desde sempre pelo outro. compõem o esboço primeiro do subjetivo. de toda possibilidade também nova de ser... que implica a afirmação de uma subjetividade e prevê a busca do ser em si segundo Lacan.A construção da identidade no Caribe. nem a sua suposição podem ser concebidos num único sentido. se a identificação. de passado e de presente. misto de individual e de coletivo. o discurso é se manifestar pela resistência. em hospitalidade. No seu texto Un sujet?28. momento arriscado de busca em que o ser assume papéis imaginados. principalmente quando se trata de um povo nascido da diáspora. Supor e aceitar a existência dessa subjetividade. Segundo o filósofo Jean-Luc Nancy. 2007 . deslocamentos. então 159 jul. A busca por uma subjetividade – qualidade ou caráter do subjetivo – só é valiosa quando se espera como resposta. p. é também uma tarefa angustiante.64). 2000./dez. disposição nem sempre confortável. e pressupõe negociações. a tradição ocidental acabou produzindo a cisão do sujeito. confrontando o real e o simbólico que. mas quando nos leva a descobrir os traços que estruturaram a alienação e a individuação. múltiplo e historicamente mutante. a passividade e a resistência. ao se expor. subgrupos. etnias ou nações. a tradução–transporte de significados relativos à subjetividade que se expressa no universo da escrita–pressupõe a necessidade de uma desconstrução do pensamento eurocêntrico. deslizando pelos significados construídos. pois requer a manutenção.

ou. Césaire também parece revelar o segredo de toda a existência.. connue des martins-pêcheurs aux songes funèbres. na escrita 160 Revista Brasileira do Caribe. pour le moins. p. Assim. “ (CESAIRE.. la saviez-vous. la force aussi toujours de regarder demain. esboço também primeiro de uma subjetividade. tronc noir et nu. 386). polifônica. cette entreprise de bâtir le paysage ? – parfois le coeur est écrasé. E. VIII. por conseguinte. dialogando com a sua própria negatividade. c’est un fil des saisons survolées. entre montagne et mangrove. no exercício de reconhecimento e aceitação das próprias diferenças. quando diz: Le non-temps impose au temps la tyrannie de sa spacialité : dans toute vie il y a un nord et un sud . n° 15 . il faut venir! soit par la mer. Au plus extrême. na ressonância de uma mesma voz.Kátia Frazão Costa Rodrigues essa procura só pode ser em favor de uma referência implícita heterogênea e.. et l’orient et l’ occident. 1994. ao atentar para a similaridade percebida na descrição do drama. Le temps aussi de régler leur compte à quelques fantasmes et à quelques fantômes (CÉSAIRE. Ainsi va ce livre. Ainsi va toute vie. 35). l’ air est hostile . p. au carrefour. Césaire anuncia: “frère n’ insistez pas/ vrac de varech/ m’ accrochant en cuscute/ ou me déployant en porana/ c’ est tout un . parfois la main s’apaise – et la lumière monte des choses comme une parole d’ architecte (GLISSANT.383) Essa nova perspectiva de ser também abre a possibilidade do Tis. Et puis. alguém de Platão29. claudicant et binaire. vol. de la ferveur et de la lucidité. na tentativa de desmistificação do exotismo. Goiânia. entre soleil et ombre. 1965.. soit dans la terre. fût-ce celle du désespoir et de la retombée. numa espécie de experiência de si como outro e do outro como si. E é Glissant quem diz que Maintenant les sables sont d’ autre clarté. 1994. se relacionar consigo mesmo. Il faut choisir. l’ inégale lutte de la vie et de la mort. p. entre chien et loup.

como constante novidade do Cosmos. marcada pela auto-fragmentação e vitimização do negro antilhano e. sem dúvida. faz irromper uma subjetividade como fantasma. seja entrevista pelo seu fechamento. ao mesmo tempo. a marca de um apelo que.A construção da identidade no Caribe. 2007 . Sendo as várias vozes de uma suposição. o sujeito só acontece quando e enquanto se expõe. concluo acreditando que a escritura antilhana é. entender a Crioulidade ou a Antilhanidade como um contraponto da Negritude e essa como essencialista e eurocêntrica é seccionar o movimento da história e não reconhecer o outro. ao comprometer exterioridade e interioridade. Qualquer tentativa estática da sua definição descaracterizaria. a afirmação do eu antilhano inclui também a sua negatividade.. Tanto Césaire quanto Glissant são sujeitos dessa nova ordem simbólica. portanto. Segundo Nancy. O sujeito só é como possibilidade. no movimento de resistência voltado para um devir. mas a qualidade do seu último traço. o antilhano. Voltando sempre como atualidade. tornando frágil a aparência. no qual a palavra ferida se libera e traz à tona o inconsciente. que não se apaga por completo e reincide para atestar a exterioridade que a constituiu. A correspondência que se vislumbrou entre os fragmentos poéticos de Césaire e de Glissant vem marcar esses últimos tantos traços que apontam para um ser que caminha rumo à presença em si como mesmo e. em toda a sua 161 jul. ao buscar o seu espaço próprio. além disso. o que ela tem de mais próprio: o seu caráter de “re-nova-(a)ção”. seja reconhecida pela sua abertura em direção ao outro. renovando a existência pela libertação contida no ato de contornar a gravidade histórica e invadir a opacidade. da mesma forma que deve ser entendida a qualidade do que lhe é próprio. marcada pela presença do eu e do outro sempre em processo./dez.. Nesta perspectiva. o sujeito pode ser aquilo que um significante representa para outro significante. mas também o que emerge deles no espaço de um instante. As poéticas de Césaire e de Glissant traçam trajetórias que se entrelaçam em alguns pontos para mostrar que existe uma unidade na diversidade antilhana. porém nem mesmo assim garantiria a sua essência.

n° 15 . É preciso fugir das armadilhas da síntese. Nova Fronteira. 19-20). É. 1ª obra de Césaire . na aurora e na noite. 1998. tender o olhar numa só direção e permanecer. 5 Cahier d’ un retour au pays natal . VIII. p. segundo o poeta-rizoma (GLISSANT.1991. edição 2001 e no Novo Dicionário Aurélio. Bruce.com. 1965. É de lá que se ouve a voz de alguém dizendo eu... talvez. porque a história tem mostrado que é na complexidade que o humano se afirma e pode ser afirmado. em 03 de agosto de 2004. 2 Il ne faut pas opposer négritude et créolité. 6 La Poésie. 1965. p. 3 Termo que designa a resistência dos mulatos fujões.Kátia Frazão Costa Rodrigues diferença. Poèmes. 9 LACAN.” (GLISSANT. Paris: Seuil. J. 1975. 4 GLISSANT. 1994. É preciso repetir que “durante muito tempo a voz do homem se perdeu nos templos por obscuro que era o caminho até o templo! e esse mar. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. por um fogo e por um desmame”. 1994.afrik. 21. p. toda vida: “entre sol e sombra. vol. 1965. de presença e de ausência. onde o autor utiliza pela 1ª vez o termo négritude. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Séminaire. porque “toda carne se ramifica.171. claudicante e binária” (CESAIRE. 10 FINK. 7 ibid.html. p. entre montanha e pântano. É na diversidade que caminha.383). ed. A obra consta da coletânea intitulada La Poésie. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse. Paris: Seuil. entre a linguagem e o gozo. Paris: Seuil. 8 GLISSANT. 85). 162 Revista Brasileira do Caribe. p. sobretudo. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. Goiânia.com/article7507.. 1965. como diz Césaire. Notas 1 Le Petit Larousse. E. In: Afrik. p. publicada em 1939 pela Revue Volontés. edição escolhida aqui para essa e as demais referências sobre o autor. le portail de l’Afrique. ainda sobredeterminado por uma lógica narcísica que nega parte do amplo processo que vem constituindo essa grande Crioulização. O sujeito lacaniano.11. 1994. entre cachorro e lobo. Ernest Pépin em entrevista concedida a David Cadasse. constante no site: http://www.

p. 45 ibid . La poésie. 11 Título da sua obra Moi. 8. F. A. Bibliografia. Tradução. Paris: Minuit. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. J. Paris: Galilée. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia. n. desconstrução. CÉSAIRE. Un sujet ? In: Homme et sujet. 26 GLISSANT. Paris: puf écriture. O sujeito lacaniano.396. P. “Tradução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Paris: Seuil.. 391. 1994. 29 Ibid. In: Revista Gragoatá.21. 1965. M. traduzível por Eu. 1994. La Poésie.. p. 53. p.8. DELEUZE. 397. 89 GLISSANT. CONFIANT.. P. “Entre mangue e manguetown. R. Niterói: Eduff. 1965. 43 (1). In: Revista de Letras. p. 1975. p. Le monolingüisme de l’ autre. FINK. GUATTARI. Niterói: Eduff. desconstrução. 1994. 1996c.15 67 ibid. 28 NANCY. 22 ZINK... p. 1994. In Revista Gragoatá n8. 1989. 28. Kafka. 2000.53. p. p. 48. Paris: Galilée. v. 1985. Paris: Seuil. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. 2000. entre a linguagem e o gozo. 521.In: La Poésie.A construção da identidade no Caribe. P.53. 12 GLENADEL. M.. Chico science”. 2 78 Cf 14.L. Le Monolinguisme de l’ autre. Poèmes. 2 34 CESAIRE. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales. p. DERRIDA. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia”. laminaire. A. Eloge de la créolité. 2003. Paris: Gallimard. 27 GLENADEL. 2007 . p. La Poésie. Pour une littérature mineure. 163 jul. São Paulo: Universidade Estadual Paulista. 23 ibid. BERNABÉ. La subjectivité littéraire. 1994. 25 Ibid. GLENADEL. p. p. p. A... J. laminar./dez. J. 472. p. G. J... 23 ibidem 24 DERRIDA. 56 Cf. P. 1998. CHAMOISEAU.1996. E. 20 CESAIRE. 29 Ibid..

“Entre mangue e manguetown. J. São Paulo: Universidade Estadual Paulista. In: Revista de Letras. ________. Paris: Seuil. 43 (1) 47-56. E.___________. Site: http://www. In: Écrits. J. NANCY. 1994. Chico Science”.html 164 .1991. “Un sujet ?” In: Homme et sujet.-L. 1985. 1966. 1965. “Subversion du sujet et dialectique du désir dans l’ inconscient freudien”.com/article7507. La subjectivité littéraire. M.afrik. Paris: Seuil. Paris: Puf écriture. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales. Paris: Seuil. 2003. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse. ZINK. GLISSANT. Poemes. LACAN. Séminaire.

2007 165 . Contudo. as circunstâncias históricas ali vividas possibilitaram a gestação de um sistema de convívio. de difícil *Artigo recebido em fevereiro de 2007 e aprovado para a publicação em março de 2007 Revista Brasileira do Caribe. 165-195. n° 15. destinado a controlar o dia-a-dia dos trabalhadores nas fazendas. we’ll try to observe the historical conditions by which some vital social institutions of the Indian community amalgamated in that colonial social environment. Keywords: Indians Immigrants.Plantation legal. foi instituído um rigoroso conjunto de regras e normas destinado a controlar a qualidade. tanto para os fazendeiros como para as populações afro-descendentes recém emancipadas. Trinidad. The main question that emerges from this process is exactly the phenom of cultural recreation and establishment of the Indians social institutions in face of so powerful policy of the westernization imposed upon all work population of that island by the British colonial government. vol. Thus. Indians Inmigrants Resumo Durante o século XIX. VIII. a substituição de trabalhadores negros livres por indianos causou grande atordoamento. porém. Tratava-se de um sistema aberto de relações. nas Plantations de Trinidad. diferente daquele previsto no conjunto de leis. Assim. adequado a natureza plural de sua paisagem humana. o convívio e o volume de trabalho dentro das fazendas. Goiânia. Trinidad século XIX Alexandre Martins de Araujo “O que você faria se não pudesse fazer nada? Até onde você iria se não pudesse sair? Quem você seria se não fosse ninguém?” 1 Abstract This essay looks at the historical process of settlement of the immigrants Indians community in Trinidad during the nineteen century.

Inmigrantes indianos Muitos foram e são aqueles que se dedicam à tarefa de aproximar. onde se utilizou. das experiências humanas vividas no interior das Plantations. a pesar de la poderosa política de colonización impuesta por el gobierno británico. nos dedicamos ao sistema Plantations de Trinidad pós-escravidão. Haraksingh (1981). duas diferentes correntes discutem a presença indiana nas Plantations. Los fenómenos de la recreación cultural y la permanencia de las instituciones del país de procedencia. nesse caso. Resumen Este ensayo analiza el proceso histórico del establecimiento de los inmigrantes de la India en Trinidad durante el siglo XIX. pois para entrar e sair dessa outra Plantation – a que tomei a liberdade de chamar de Plantation Plural em oposição a uma Plantation Legal. somente eram apropriadas nos espaços intersticiais das relações. Trinidad. son los aspectos de más relieve en esta investigación. largamente. concentrando suas observações na perspectiva dos grupos sociais e das práticas culturais cujos esforços tentam identificar fenômenos de mudanças e adaptações. de suas condições de trabalho. VIII. o mais perto possível. A outra se identifica na etno-história. Palabras Claves: Plantación. Uma conduz as investigações tomando os indianos essencialmente como trabalhadores nas fazendas. vol. sobretudo. Essa primeira tendência se baseia em fontes oficiais do governo da colônia e registros particulares locais. Em termos historiográficos. Palavras-Chave: Plantations. as ênfases vão à direção da experiência indiana no interior das Plantations. em particular. Trinidad. nenhuma dessas duas tendências se encontra consistente ou rigidamente definida. Para o historiador indo-descendente de Trinidad. 166 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . Goiânia. durante o século XIX.Alexandre Martins visualização. No nosso caso. e essas. a mão-de-obra indiana. imigrantes indianos. era necessário possuir as chaves simbólicas.

1872. Fonte: KINGSLEY. London. 2007 . Em linhas gerais. assim como outros historiadores fizeram antes./dez. Charles.Plantation Legal: Trinidad século XIX Neste estudo tentaremos. afetados pelo sistema Plantation de Trinidad. nos aproximar da experiência indiana nas Plantations do século dezenove. os fatores evidenciados tanto numa quanto noutra das tendências acima mencionadas. ai g u r F “Waiting for the Races”. porém procurando valorizar. esforçar-nos-emos para trazer a lume a maior porção possível da realidade histórica vivida por aqueles que um dia se sentiram. 167 jul. direta e indiretamente. por igual. At least a christmas in the West Indies.

ou seja. estão sempre acompanhadas de práticas discursivas. portanto. ganharemos acesso aos significados e sentidos atribuídos aos imigrantes indianos por aquelas pessoas interessadas em vê-los. local onde são produzidas. Dito de outro modo. relatos de viajantes europeus e diários de missionários religiosos. sensos. inibidores das vozes subalternas. em suas análises sobre o discurso colonial britânico na Índia no século XIX. No entanto. a população indiana e sua presença naquele espaço e tempo? Tal questionamento nos lança diretamente para o ambiente histórico ao qual desejamos entrar. inquéritos. as políticas de controle dos trabalhadores. dentro das Plantations. então. enfrentaremos o dilema da supressão dessas vozes lançando mão. reunimos um conjunto variado de fontes: relatórios oficiais. tratam-se de documentos cujos teores e formas foram moldados por mãos de pessoas ligadas às elites locais. balanços anuais. portanto. jornais de época. ou melhor. n° 15 . a nossa visita ao interior das Plantations de Trinidad pela seguinte pergunta: O que exatamente significava. ao desconstruirmos tais políticas de controle.Alexandre Martins Sabemos. Para empreendermos essa tarefa. instituídas pela administração colonial em conluio com os proprietários de terras. todos os sistemas coloniais de controle de trabalhadores. o centro de inteligência das Plantations. Acreditamos que. entre outras coisas. tê-los. como também da estratégia “desconstrutivista” valorizada por Bhabha3. comissões reais. para a elite local. esteja sob a forma de contratos particulares ou de leis juramentadas. Em face disso. principalmente no interior de sistemas autoritários e fechados como era o caso das Plantations nas colônias inglesas. VIII. Goiânia. leis de imigração. da enorme dificuldade encontrada pela maior parte dos historiadores em apreender as “vozes subalternas”. tanto das estratégias metodológicas utilizadas por Ranajit Guha2 em seus estudos sobre a Índia colonial. vol. Começaremos. impregnadas com as crenças de quem as 168 Revista Brasileira do Caribe. todavia.

Plantation Legal: Trinidad século XIX

produziu. Todo discurso, para Bhabha, é uma prática significatória, ou seja, “processo que postula a significação como uma produção sistêmica situada dentro de determinados sistemas e instituições de representação – ideológicos, históricos, estéticos, políticos” (JUNIOR, 2004, p.113-133). Mas antes de adentrarmos o espaço ao qual denominamos de o centro de inteligência das Plantations, faz-se necessário uma breve mirada para o contexto histórico, em torno do qual aportou em Trinidad, o famoso “Fatel Rozack”, o primeiro navio a transportar imigrantes indianos para Trinidad: “Em março de 1845 Thomas Caird anunciou em um despacho ao ministério do interior, ‘eu tenho a honra em informar... que enviei o Futtle Rozack para Trinidad” 4 (Tradução nossa). Inicialmente, podemos dizer que a Inglaterra chegou a Trinidad relativamente tarde, em relação à exploração do açúcar nas Antilhas, pois foi já no apagar das luzes do século dezoito (1797), que ela tomou de assalto aquela ilha das mãos da coroa espanhola e, nesse caso, é bom lembrar que a exploração do açúcar vivia aquela época o seu momento de maior esplendor entre as demais colônias americanas. Para o historiador sul africano Sookdeo (2000, p. 253), o propósito da ocupação de Trinidad foi de natureza menos econômica e mais militar. Seja como for, assim que a administração colonial britânica se instalou em Trinidad, não teve dúvidas quanto à necessidade de tomar parte nos negócios do açúcar. Já em 1799, o primeiro governador inglês de Trinidad, General Picton, escreveu à coroa britânica informando-a de seu posicionamento quanto às condições favoráveis de transformar Trinidad em uma colônia de produção de açúcar:
Trinidad será considerada como uma colônia açucareira, as terras sendo, em quase toda parte, mais favoráveis à produção de cana do que café ou algodão. A quantidade de terras a serem concedidas dependerá certamente dos meios de cultivo, mas tudo considerado à pequena classe de plantadores de

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cana não pode compreender menos do que 200 acres de boa terra, das quais 100 acres para cana, 50 para pasto e 50 para terrenos de negros, estabelecimento e eventualidades. Uma plantação dessa categoria, conduzida a um máximo de economia requererá um capital de aproximadamente £ 8,000 libras esterlinas 5 (tradução nossa).

A cana então substituiu o algodão devido a uma praga, porém, ele e outros gêneros continuaram sendo produzidos na ilha. Nessa época, Trinidad ainda estava longe de se tornar um modelo de monocultura e o negócio do açúcar se mantinha sob o domínio de mercadores e de intermediários ingleses donos de navios. Estes controlavam o fluxo de mercadorias e escravos na ilha negociando com o continente devido às vantagens oferecidas pela política fiscal de importação. Todo esse alvoroço atraiu para Trinidad um grande número de estrangeiros à procura de enriquecimento rápido. Conforme os registros da época, no ano de 1826, exatamente oito anos antes da emancipação dos escravos, Trinidad conheceu a sua maior safra de cana. Por esse motivo, quando os indianos chegaram à ilha, no ano de 1845, os ingleses ansiavam por uma produção ainda maior do que aquela obtida sob o regime de escravidão. Uma vez que a superação daquela safra significaria, entre outras coisas, a certeza do sucesso da utilização da mão-deobra indiana e, por conseguinte, o arrefecimento das oposições a tal sistema. Entretanto, assim que os indianos chegaram, foram vistos pelos proprietários de terras, tanto como um benefício, quanto como um dilema. Quer dizer, se por um lado eles representavam a esperança de superação da aludida escassez de braços adaptados às condições oferecidas nas Plantations, por outro, eram vistos como uma nova e incômoda realidade a qual esses proprietários teriam que se adaptar, pois se tratava de uma mão-de-obra remunerada e de permanência limitada, apenas cinco anos, conforme contratos firmados antes do embarque. Assim, a imagem que se forma, a partir desse quadro, é a de

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uma classe de plantadores completamente insegura quanto ao rumo de suas empresas, já que todas aquelas novas situações eram, de certa maneira, diametralmente opostas ao modelo escravista até então praticado. Em outros termos, o que lhes asseguraria o pleno sucesso da utilização da mão-de-obra indiana em face de, por um lado, os riscos sobre o capital investido no processo de contratação (transporte, alimentação, hospitais, roupas e pagamento de salários) e, por outro, a concorrência externa, sobretudo, devido os novos rumos que tomara o comercio internacional do açúcar por aquela época? Em razão disso, é natural aceitarmos a idéia de que todas as atenções dos plantadores estivessem voltadas para a relação custobenefício, atinente ao processo de contratação da mão-de-obra indiana. Portanto, não seria exagero de nossa parte pensar que os indianos contratados (Indentured Indians) 6, de início, não significassem para os plantadores nada além de músculos e ossos a serem aplicados nas lavouras de cana-de-açúcar. Nesse sentido, não nos restam dúvidas quanto ao fato das circunstâncias históricas terem apontado para os plantadores a necessidade de impor, aos imigrantes indianos, um regime autoritário de trabalho. E para garantir o controle dos trabalhadores indianos dentro das Plantations, foi elaborado um extenso conjunto de leis, difundido por meio de documentos ultramarinos denominados pela administração colonial britânica de Regulamentos de Imigração para Trinidad e Guiana Inglesa (Immigration Ordinances of Trinidad and British Guiana). Neles, os imigrantes indianos eram denominados simplesmente de Indianos Contratados (Indentured Immigrants). Dirigir-nos-emos, então, a partir daqui, para o ambiente ao qual denominamos de centro de inteligência das Plantations, olhando, primeiramente, na direção do conjunto de leis, constituídas para assegurar o cumprimento dos contratos e, por conseguinte, controlar a vida diária dos indianos no interior das Plantations. Em meio a tal conjunto de leis, somente algumas buscavam

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assegurar a efetivação de alguns direitos adquiridos pelos trabalhadores indianos, quando da assinatura dos contratos. Tratavase de normas que versavam sobre a condução das jornadas diárias de trabalho em termos, por exemplo, da quantidade de horas a serem cumpridas, do salário condizente às tarefas realizadas, do direito a assistência médica e do direito de denúncia por abusos sofridos no interior das Plantations. Neste caso, as denúncias deveriam ser feitas a oficiais designados pelo governo à proteção dos indianos contratados, os chamados Protetores de Imigrantes (Protector of Immigrants). Numa visão de conjunto, quase a totalidade das leis visavam assegurar uma política de contenção de imigrantes dentro das fazendas. Obviamente que, se o controle total sobre os trabalhadores indianos era o que mais importava a todos aqueles que dependiam, direta e indiretamente do sucesso da utilização da mão-de-obra indiana, é de se supor que as leis de regulamentação do Indenture System, tendessem para a satisfação das necessidades desses beneficiados. No entanto, do ponto de vista jurídico, o formato das leis não parece, à primeira vista, tendencioso, ou seja, na mesma medida que há punição destinada ao contratado, há, também, para o contratante, caso venham descumprir qualquer uma das cláusulas nele previstas. Todavia, nenhum sistema legal é auto-explicativo, por isso torna-se mister analisá-lo à luz de outras fontes do mesmo período. Começaremos, então, a sua análise por aquilo que nos pareceu mais recorrente em toda a sua extensão, ou seja, o aparentemente inocente termo, “Indentured Immigrants”, usado em todas as suas cláusulas para se referir ao trabalhador imigrante indiano. Se olharmos mais profundamente para a sua utilização, no âmbito das leis de regulamentação do Indenture System, ou, Sistema de Contratação, veremos que a naturalização do termo indenture, não somente nos documentos oficiais, como também nos discursos da elite, carregava uma intenção velada de eclipsar qualquer traço que pudesse ligar os indianos a alguma imagem de autonomia social. Pois quando se pronuncia o termo imigrante contratado, nota-se
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que na palavra que dá qualidade ao sujeito (contratado), não há nada que permite ligar o sujeito (indiano) à sua trajetória de vida ou mesmo ao lugar de onde veio, mas antes, a um acordo (um contrato). Isso faz com que o usuário da língua desvie o pensamento do substantivo (indiano) para as possibilidades de apreensão do significado da palavra contratado. E as imagens primeiras que afloram do signo Contrato são aquelas ligadas a alguma forma de prestação de contas; assim, a imagem do sujeito (o indiano), se funde aos referentes do signo Contratado, possibilitando ao usuário da língua um raciocínio lógico do tipo: se um contrato pressupõe algum benefício para o contratado, este deve prestar conta daquilo que contratou, logo, ele deve ressarcir o contratante (no caso o plantador), as despesas consoantes aos benefícios consumidos; no caso dos indianos contratados, a viagem, a alimentação, os cuidados médicos, as roupas etc., sob a forma de trabalho. Desse modo, podemos afirmar que o apelo mais forte atribuído ao uso do termo Imigrante Contratado era minar as possibilidades de o trabalhador indiano impor qualquer tipo de autonomia, uma vez que os sentidos construídos pelo uso constante de tal termo, funcionavam como uma espécie de “luz vermelha” sinalizando para o imigrante sua condição primeira de devedor perante o proprietário da fazenda. Em linhas muito gerais, nota-se uma tendência, entre as diversas leis desse conjunto, de precaver o lado do contratante, no que se refere a duas situações: por um lado, o risco de o trabalhador se ausentar da fazenda, durante a execução de uma dada tarefa e, por outro, é atribuído um excessivo peso a tudo aquilo que é considerado ofensa ou negligência por parte do contratado. No entanto, parece contraditório o fato de, se por um lado as leis tentavam, de toda forma, dificultar a saída do contratado, inclusive, descontando de seu salário o dia de trabalho em que ele se ausentava para se queixar ao protetor de imigrantes abusos sofridos ou descumprimento de seus direitos assegurados no contrato; por outro, vê-se um total relaxamento nas permissões para o trabalhador se ausentar, caso ele tivesse ganhado certa
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no primeiro caso. moral. chamamos de “liberdade condicional”. capataz. inspetor. Goiânia. em termos das injustiças que sofreram durante a permanência nas fazendas. Contudo. vol.. no lugar de uma dívida material. após o trabalhador ter juntado certa soma em dinheiro. o que consideramos ter sido “a pedra no sapato“ dos trabalhadores indianos. sem nenhuma resistência. tanto o uso do termo Imigrante Contratado. e. uma vez que “Nenhum comércio deve ser mantido por qualquer patrão. VIII. pelo menos. era conveniente para o patrão que o trabalhador esgotasse as suas reservas financeiras na cidade. (. objetivava funcionar tal qual o famoso “sistema de barracão”. principalmente porque uma das leis previa que o trabalhador executasse qualquer trabalho desde que compatível com sua qualificação física. pois voltaria para a fazenda se sentindo constrangido a aceitar. próximo àquilo que no sistema judicial atual. 174 Revista Brasileira do Caribe. duas intenções subliminares: primeiro.Alexandre Martins quantia em dinheiro. Segundo. foram. tampouco sobre tal fazenda ou ao alcance de cinco milhas dela” 7 (tradução nossa). independente do seu grau de dificuldade. pois estar preso a um contrato é o mesmo que estar sob juízo de sentença. cocheiro. incapazes de falarem a linguagem das classes inferiores aqui correntes. as inúmeras condenações judiciais devido às acusações de descumprimento das leis que versavam sobre ofensas atribuídas ao patrão e negligências durante a execução de tarefas. um possível acordo entre proprietários de fazendas e proprietários de comércio. uma dívida simbólica. Tal contradição nos leva a supor a existência de. qualquer tarefa exigida pelo patrão.) É perfeitamente possível que eles possam ser acusados diante de um juiz sob a denuncia de agressão. porém. Numa palavra. soldado. estão sujeitos a serem encontrados em desvantagem o que pode terminar em multas ou prisões 8 (tradução nossa). ou outra pessoa empregada na plantação. ou seja. arriscamo-nos em dizer que. quanto as permissões de afastamento da fazenda.. sem dúvida. n° 15 .

Num certo sentido. Bastava apenas que o capataz.. porem eles foram recebidos por uma irada recepção dos coolies que os repulsaram e os injuriaram (. de forma extrajudicial. e as quais eles não somente recusaram fazer como também mostraram fortes sinais de hostilidade. sob pena de sofrer condenações consoantes a tal alegação. previstas no sistema de leis. designada ao indiano por um superior da fazenda. também a que causava maiores distúrbios era a acusação por má execução de uma dada tarefa. surgido de um desentendimento causado por coolies terem executado impropriamente certas tarefas as quais eles foram requeridos para completar. uma palavra ameaçadora. Isso por que. ou qualquer outro funcionário superior da fazenda. o imigrante contratado deveria refazêlo. ou. declarasse o mal uso de algum equipamento da fazenda para se consumar 175 jul. sob a alegação de práticas indevidas. a mais freqüente e.. um dos proprietários da companhia Colonial./dez. alegasse ter ouvido da boca de um indiano. Sob a veemência dessa informação dois policiais a cavalo foram mandados com a intenção de apaziguar a desafeição.) os outros escaparam ilesos somente por causa do instinto de seus cavalos que coicearam os agressores a distância. o tradicional chicote. foi substituído por uma outra arma igualmente eficaz em termos de alertar o trabalhador quanto a sua pequenez diante da força do patrão. 9 (tradução nossa).Plantation Legal: Trinidad século XIX Entre as condenações por ofensas. Na ultima quinta feira a polícia recebeu informações de que um sério distúrbio havia ocorrido na fazenda Cedar Hill. 2007 . imediatamente. entre os coolies da fazenda e o corpo administrativo. uma vez notificado sobre a execução imprópria de seu trabalho. usado contra os escravos. Tratava-se da prática de descontar do salário do imigrante contratado certa quantia.

raicnedivorp omoc rebaS ).olpmexe osoicinrep o meriuges etsixe .saus sad mif oa oçemoc od ..)asson .( .etnemetnedive otiuM .sadalortnoc oãs salum sa omoc oãçudart( 01 .Alexandre Martins ..ossi a otnauQ ..rezid reuQ .sodasuo siam .anaidni oãçargimi à soirártnoc .sele rop .( ed sadnezaf san sodagerpme .soirálas ed o aibiorp euq .odagerpme olep sadazilaer so etnemadanimircsidni reted ed etnanimoderp emutsoc O ).. n° 15 ..acitárp an setnega oãs euq seleuqa sodot ed setnem o res ed amrof amu otsin agrexne euq oãçagela ariejnosil amu sadnetnoc recelebatse ed selpmis siam e otruc siam ohnimac so rative ed oiem mu e .sotnemicerroba 176 Revista Brasileira do Caribe.racúça-ed-anac mes adacitarp etnemetnetsisrep e otium a odis met ..ossid rasepa .ahli atsen eicépse reuqlauq ed lagel aicnêrefretni uo odomôcni setneicsnoc etnemanelp saossep euq rarimda es ed é oãn euq o a sadavel .911 .serodahlabart soa otnuj soirálas saditemoc etnematsopus sasnefo ed asuac rop .ocilbúp oriehnid od atsuc à . Goiânia.seõrtap so artnoc áj saferat ed otnemagap reuqlauq repmorretni ed rodagerpme ..sairáid saferat saus ed mif oa oçemoc od .seilooC ralortnoc é .açitsuj/sodatartnoc .arodeceralcse sadasu mare oãn siel sa euq ed otaf o aicnedive mébmat .majes otnemidecorp lat ed açitsujni ad san .otnop oa oterid mai .sotisóporp so sodot arap sovres ed etneicifus lat .adived ale a socilbúp serfoc sod airgnas a meraicnuned soriednezaf so euq osu uam o mébmat raicnuned arap mavatievorpa .( edaditnauq amu .serosivrepus e sezatapac sod odigixe é euq o odut .siacol sianroj snuglA . VIII.. vol.ºN ed iel a etnemlapicnirp .saicnêgilgen uo/e sasnefo ed seõçasuca oa .setnargimi lageli oãçneter ed acitárp a raicnuned ed méla siop .sianroj sortuO /oãrtap seõçaler sad laretalinu retárac o etnematreba mavaicnuned é oxiaba aton a .setnargimi sessed maizaf me odidecus meb oãt odis met onrevog osson o sam ).sodagerpme e seõrtap ertne ed etnaid ri euq meret ed seõçaloma e sotsag .

a uma exclusão de questões igualmente importantes que afetavam outras raças. do que é correr o risco e aborrecimentos de ter que dar prova de tal acusação perante um magistrado 11 (tradução nossa). É infinitamente mais fácil. Segundo o historiador indo-descendente. o jornal local. que nos não podemos a não ser anotar as investigações que correm de tempo em tempo sobre os Coolies e os chineses pagãos 12 (tradução nossa). de modo que a segunda clausula oferece recursos para o imigrante procurar residência industrial antes que a total conclusão de seu contrato fosse apresentada... No ano de 1876. 2007 . New Era.. ou por qualquer outra suposta quebra das regras da fazenda. qualquer sentença da corte fora alguma vez feita contra um patrão ou membro da equipe administrativa da fazenda”. durante a reorientação dos regulamentos de imigração. Kelvin Singh. Possivelmente foi para convencer o governo que eles estavam de fato empenhados na doutrina de proteção do imigrante. a primeira da qual impôs ao plantador a manutenção de um livro de atividades para conter todos os dados para identificação de todos os imigrantes. ou semelhante soma em nome de maltratar uma mula.13 177 jul.. Smyth. Na última reunião do conselho legislativo. o honorável Sr... que provavelmente seria uma supervisão da parte de autoridades médicas... Tão difundidos eram os sentimentos filantrópicos derramados sobre a imigração de Coolies. e a descrição das tarefas diárias executadas./dez. “existe pouca evidência para sugerir que antes dos inícios dos anos de 1880. e inquestionavelmente mais conveniente para um capataz ou supervisor reter Cinco dólares do pagamento do trabalhador por motivo de roubar uma cana.Plantation Legal: Trinidad século XIX um juiz por causa de todas insignificantes ofensas cometidas por um trabalhador na fazenda. propôs três novas cláusulas. dava sinais de desconfiança em relação ao comportamento dos encarregados da justiça de Trinidad. A terceira sugestão era uma questão de rotina hospitalar.

. Também. Joseph. feito pelo juiz anteriormente aludido. de qualquer modo. que. não eram incomuns as denúncias sobre protetores de imigrantes envolvidos nos negócios da cana-de-açúcar. De fato. como um homem particularmente perigoso. nesta parte da ilha.. Para ampliarmos a nossa visão sobre o grau de aplicação das leis sobre os trabalhadores nas fazendas. Temos ouvido ultimamente uma considerável quantidade de notas ditatoriais de autoria do juiz de St. vol. Mitchel. Esse Dr. Mitchell é Protetor de Imigrantes. executar meses extras de trabalho como dias perdidos. nos faz julgar o oficial distribuindo justiça. n° 15 . de propriedade do Dr. e também como sendo uma vantagem desonesta em favor dos proprietários de fazenda. ao término de seus contratos. motivo de desapontamento que circunstâncias assim coincidissem de tal modo que aquele ato inadequado do juiz nesse respeito teria (num senso mundano) uma inclinação rumo ao benefício do oficial protetor e legal dos coolies 14 (tradução nossa). o Protetor de Imigrantes. recorreremos a um aprofundado estudo levado a cabo por Sookdeo (2000. essas evidências nos levam a refletir acerca do grau de autonomia que os fazendeiros teriam alcançado junto ao sistema judiciário implantado naquela colônia. caso nos podemos julgar pela passividade de seus atos em relação a eles. e ainda.. Goiânia. em oposição à discriminação dos coolies) fosse condenando coolies contratados a trabalhar na fazenda Paradise. que nos refletiremos a dúvida sobre alguns endossos de dias perdidos de Coolies nas fazendas. e ainda alguém que aparentemente não percebeu a direção e tendência desses endossos. embora não distante da linha seguida por outros semelhantes juizes. no qual foram levantadas as estatísticas sobre o volume de 178 Revista Brasileira do Caribe. p. É a respeito de nada mais nada menos que um importante personagem. 110-122). É alguma coisa estranhamente sugestiva que a maior parte dos endossos (que são relatados como sendo inadequados. É. VIII. naturalmente supomos apoiado pelo chefe do departamento de imigração.Alexandre Martins (tradução nossa).

a extração da força de trabalho era conseguida menos pelas condenações e mais pelo chicote. quanto na época em que se passou a utilizar da mãode-obra indiana. respectivamente. 213 agressões.15 (tradução nossa). “após 1854. pois. para quem.059 eram hindus. extraída pelo autor. cujas principais acusações podem ser assim distribuídas: 727 furtos. a exemplo de Eric Williams. também uma nova carga de criminosos em potencial. tanto na época da escravidão. Mas com a chegada dos imigrantes indianos. Numa nota. Sookdeo reitera a opinião de conceituados historiadores. quando as leis de imigração apertaram o nó em torno dos trabalhadores indianos. um inspetor dá a sua receita de como os prisioneiros devem ser disciplinados: 179 jul. 1. a média de condenações flutuou em torno de 53 prisões de homens por ano. a média alcançada foi de 54 prisões anuais. 154 condutas indecentes no uso da língua e 116 ofensas. Nesse ponto. ou seja. 257 endividamentos. O restante dos prisioneiros estava dividido entre indianos mulçumanos. os documentos do conselho revelaram 2. sendo que os anos de 1832 e 1833. eles foram freqüentemente culpados de quebras de leis de trabalho”. Desse total.Plantation Legal: Trinidad século XIX condenações. 2007 . nos anos de 1872 e 1873. 354 e 476. entre as categorias de ofensas que culminavam em prisões. a que mais figurou foi a de imigrantes indianos capturados sem passes livres. os magistrados de Trinidad passariam a conviver com a idéia de que a cada nova carga de indianos contratados. Segundo Sookdeo. afro-descendentes. Somente no ano de 1870 foram registradas 2. diante da Corte de Trinidad. entre os anos de 1828 a 1835. Segundo os dados por ele reunidos./dez. é constatada ao final da escravidão. 154 jovens abaixo de quinze anos e 282 mulheres de idades variadas16. de 60 aprisionamentos anuais. respectivamente. 48 e 45 do sexo masculino.649 prisioneiros dentro das cadeias reais.9%. creoles. antes do advento dos imigrantes indianos. durante a execução de tarefas.012 prisões. Uma significativa elevação dessa média. Para o ano de 1873. 39. em 1835.

as quais corresponderiam a “trabalhos nos moinhos ou abrir covas ou quebrar pedras ou alguma atividade semelhante” 17 (tradução nossa). uma vez que os custos de subsistência dos imigrantes. o fato de que as duras sentenças aplicadas sobre os imigrantes contratados tornaram-se convenientes para a classe de plantadores. competições nas esferas do trabalho e frustrações sexuais.363.411 e 4. p. corriam por conta do governo. pois.Alexandre Martins Sir Joshua Jebb. No balanço geral que fez Sookdeo. As posições de Sookdeu corroboram as evidências. VIII. o lado positivo de se estar preso. acerca do recrudescimento das sanções penais em Trinidad. “os contratados prosseguiram em receber com alegria o repouso oferecido pelas prisões comparado à vida em algumas das severas fazendas” 18 (tradução nossa). comida ruim e cama ruim. entre os anos de 1872 e 1873. Goiânia. ele aponta algumas possíveis causas: frustração entre as classes trabalhadoras. Sookdeo revela.120). sendo que a maior parte dessas condenações foram alegadamente por motivo de descumprimento das leis de contrato de trabalho por parte dos imigrantes indianos (Ibid. incluindo conflitos inter-raciais. 2000.. Por último. acima discutidas. quanto às relações de poder que os fazendeiros mantinham 180 Revista Brasileira do Caribe. vol. quem recomenda. e para as classes mais baixas de prisioneiros. Sentenças duras”. Quanto a isso. sobretudo nas estações em que as fazendas necessitavam de poucos trabalhadores. predominantemente masculina. que se encontravam presos. Para os anos de 1885 e 1886. destacam-se três interessantes posições: primeiro. respectivamente.. os números de aprisionamentos foram de 4. Segundo. do ponto de vista dos indianos. tais sanções penais se perfilaram numa excelente forma de se exercer o controle sobre os imigrantes contratados. em certo período do ano. dado ao fato de os imigrantes indianos se constituírem de uma classe de trabalhadores. Sookdeo destaca ainda que. “os elementos intimidadores de punição são trabalhos forçados. os crimes categorizados como agressões dobraram. “uma reconhecida autoridade em matéria de castigo disciplinar em prisões”. n° 15 .

Pois. o coolie se torna mal humorado e não trabalha devidamente. Todas as evidências. Nem muitos patrões reivindicarão e adicionarão ao tempo de contrato os dias em que o imigrante não tem trabalhado. alguns dias antes que ele seja levado à corte. e. Casos diante da Corte. O dia posterior ao caso ele declara que não vai ao trabalho. também não decidirão processar por deserção. protetores de imigrantes. e ainda se mandado para prisão ele perde o respeito por si mesmo e torna-se um membro das classes criminosas. as boas relações entre mestre e servo são prejudicadas. Num documento ultramarino para assuntos da imigração indiana. extraímos um trecho que versa sobre o cumprimento das leis nas fazendas de Trinidad. 2007 . porque ele deve cozinhar a sua comida. Muitos capatazes tem uma forte e muito justa discriminação contra levar um homem diante da corte por causa de alguma insignificante negligência. quando se tratava de oficializar uma denuncia ao juiz local: 26. Então o capataz ou qualquer um em posição de gerência deve comparecer à corte com o livro da fazenda de modo que um dia é perdido./dez. magistrados e imigrantes contratados. “dias perdidos” como eles são chamados. nos permitem afirmar a existência de uma ampla rede de relações entre fazendeiros. Nele.Plantation Legal: Trinidad século XIX junto ao sistema judiciário de Trinidad. até aqui analisadas. a qual ele não foi capaz de fazer enquanto estava na corte19 (tradução nossa). podem ser percebidos os “espaços de negociação” entre imigrantes indianos e seus capatazes. caso o coolie seja punido ou não. No total desses casos diante do juiz existe sempre uma grande perda de precioso tempo. o coolie é provável. supervisores. Depois que o caso é terminado. capatazes. e geralmente decidem tal questão. ambos para o empregador como para o trabalhador. o coolie leva algum tempo antes de se estabelecer dentro de seu regular costume de trabalho pacífico e constante. e ainda. especialmente se ele for absolvido ou meramente advertido. perder respeito à autoridade de seu mestre. 181 jul. trabalhar tão firme quanto é requerido pelo regulamento. além disso. fora da corte pela ação de multar o transgressor.

no sentido de educá-los e evangelizá-los. Se alguns estudiosos insistiram. particularmente. dependia dos trabalhos que desenvolviam junto aos indianos nas Plantations. reascendermos o velho questionamento a respeito do fato de ter sido. as horas de trabalho que ambos os lados poderiam perder se ocupados com os inquéritos. ou não. desmoralizar o imigrante. Morton21 e o reverendo Mr. a máquina judiciária. o processo de vitimização da população indiana de Trinidad colonial também fez parte dos jogos de cena. a um estado de marginalização. embora tenhamos dado um considerável relevo ao penoso processo de opressão por que passaram os indianos. sobretudo por meio do uso indiscriminado das leis de imigração. paradoxalmente. se condenado fosse. capatazes e imigrantes buscavam acordos diante das contendas. como. VIII. o documento acima mostra os trabalhadores indianos desenvolvendo certo grau de autonomia diante de seus opressores no momento em que. pois favorecia outras categorias de pessoas residentes na ilha. n° 15 . fazem uso da própria arma criada por seus patrões para oprimi-los. ou minar à autoridade do capataz diante. ou ainda insistem. em tal questionamento. ainda não superados entre aqueles que. vol. é devido a alguns problemas teóricos. Também estavam em jogo certas perdas subjetivas que poderiam. a fim de não se afastarem das fazendas e não colocarem em risco o capital moral que construíam a partir de suas relações dentro das Plantations.22 cuja permanência em Trinidad. Observa-se que. ou seja. Goiânia. ou. quer dizer. 182 Revista Brasileira do Caribe. tendem a vitimizar as populações subalternizadas no Caribe colonial20. embora carregados de boas intenções. a partir do ano de 1860. na mesma medida. por exemplo. um tipo de escravidão a vida dos imigrantes indianos nas Plantations. alguns missionários presbiterianos canadenses. Por essa razão. Grant. Queremos salientar que. tanto do imigrante acusado como de todo o restante do grupo a ele subordinado. não faz parte das nossas intenções.Alexandre Martins De fato. não somente as perdas financeiras estavam em jogo. o reverendo Mr. De qualquer modo.

o capataz de uma fazenda de açúcar. o juiz virou-se para a defesa. conforme mostramos.Plantation Legal: Trinidad século XIX Os missionários deveriam assumir. poderia fundamentar a suas posições diante das injustiças cometidas contra os imigrantes indianos. era incorporada em seus diários. Sem resistência os homens trabalharam o dia todo. com quem eles apresentaram a informação ou acusação formal. pois. e os colocou pra trabalhar. morais e intelectuais. tal ato sugere circunstâncias as quais as leis britânicas desaprovam”. Esses não são os dias de escravidão 23 (tradução nossa). indubitavelmente. Já para os olhares do governo e da população local. em uma mais ou menos jocosa forma. perante os indianos. 183 jul. conforme mostra o documento abaixo. uma série de passagens que. o melhor instrumento de atração seria. dizendo a ele: “Eu estou completamente consciente que o tratamento dado a esses homens não tem causado sofrimento físicos. Certa ocasião. alguma forma de proteção contra as injustiças./dez. Sob o manto da noite eles deixaram a fazenda e foram até a casa do subprotetor. porém. marcada pelo despotismo. os missionários procuravam justificar as suas ações por meio de alvissareiros objetivos que prometiam subtrair os indianos das condições degradantes que encontravam suas vidas espirituais. segundo alguns trabalhadores foragidos. para ganhar a sua confiança. violentamente tentou. nas vizinhanças de San Fernando. se converteram em instrumentos de opressão nas mãos dos proprietários. Na conclusão do inquérito. uma vez que os contratos assinados na Índia. principalmente. amarrar uma corda em torno da cintura de um pequeno número de líderes. na Plantation. pela imprevisibilidade. pelo desencontro e. e ao cair da noite eles foram liberados com algumas boas recomendações. Ele imediatamente iniciou uma ação contra o capataz. um discurso protecionista. 2007 . residente no distrito. na ótica dos missionários. Desse modo.

que cresce rapidamente a cada ano pela imigração. Goiânia. nossos missionários têm. não somente numa larga medida. ou intitulado por alguns de nossos trabalhadores 184 Revista Brasileira do Caribe. VIII. Como parte das táticas de atração e negociação. por imputarem aos trabalhadores indianos uma condição de inferioridade. mas tem garantido por meio de seus trabalhos. pois viram nessa forma de clivagem um poderoso instrumento para causar ao indiano um sentimento de inferioridade diante da outras populações presentes na ilha. (. tem feito dele extremamente ofensivo para uma grande proporção de pessoas. tem na língua “Hindi” o significado de um faxineiro ou carregador. que tem sido aplicado a outras raças asiáticas. e estão.. ou referido. Os missionários têm evitado usar esse termo. dando.. cumprido os propósitos para os quais eles foram. o reconhecimento e o apoio do governo e dos cidadãos em quase toda parte 24 (tradução nossa). sendo mandados. o fato de ter sido originalmente a designação da mais baixa classe de trabalhadores. assim como para os nativos da Índia. cuja denúncia se dirige tanto aos trabalhadores Creoles. os missionários passaram a protestar contra o uso do termo Coolie. testemunhos de sua baixa estima. como também pelo aumento natural. e o termo “Indianos Orientais” está agora em uso geral 25 (tradução nossa). usado para designar os indianos contratados nas Plantations. recorremos a uma nota extraída de um jornal local. quanto aos próprios indianos por aceitarem tal condição de inferioridade. The Palladium. morais e intelectuais de um povo. Embora “Coolie” seja o termo oficial e é usado durante o prazo do contrato. n° 15 . vol. e na tentativa de satisfazer necessidades espirituais. Para dar materialidade a essa questão.Alexandre Martins Assim era nossa missão em Trinidad.) E até o momento nada é mais comum do que observar as desdenhosas maneiras pela qual o trabalhador indiano oriental é. inclusive. O termo “Kuli”.

em especial o professor indodescendente Haraksingh (1981. e principalmente.) Mas esses orientais freqüentemente reconhecem a si próprios como ocupando o mais baixo status. no tempo em que chegaram aqui eles entraram em suas obrigações agrícolas como trabalhadores contratados. o que. pelo fato de eles terem chegado aqui numa condição de quase escravos (. a de docilidade. em última análise. Haraksingh interpreta como sendo uma espécie de comportamento estratégico para manter os patrões felizes até poderem escapar das Plantations: “pois. Quanto à aparente submissão dos indianos.. normalmente usado para acentuar a preferência dos fazendeiros por trabalhadores indianos. e ele revelará a você à baixa estima na qual ele encerra a si mesmo.155). dizendo que esse estereótipo. consubstanciava a noção de docilidade era o fato de uma grande maioria de imigrantes viverem dentro das Plantations sob regime de contratos. Haraksingh contesta essa primeira noção. Pergunte a um coolie de classe baixa (visto que o ideal de sua casta inerente permanece na mais alta norma para eles) se ele for um trabalhador contratado. Eles seriam submissos e trabalhariam duro. não combina com a quantidade de distúrbios e violências cometidas por indianos em seus locais de trabalho.. devem ser vistas por um outro prisma. quem parece reconhecê-los como a raça mais inferior de todas as outras por causa da degradação. o que indubitavelmente manteria os plantadores felizes” 27 (tradução nossa). ambos imputados aos imigrantes indianos. o que permitia aos seus patrões reunirem as condições necessárias para exercer um amplo controle sobre eles. 185 jul. talvez. mostra-nos que certas imagens geradas durante o período colonial. 2007 . as noções de docilidade e o próprio sentimento de inferioridade. como por exemplo.Plantation Legal: Trinidad século XIX Creoles./dez. Segundo ele. p. Mas alguns historiadores. grande parte da resistência indiana deve ser vista em termos de quem teria o último riso. Desta maneira eles têm a consciência de que eles ocupam a mais baixa condição nesta ilha 26 (tradução nossa).

Outubro de 2006. como sendo um tipo de estratégia de preparação para uma vida melhor fora das Plantations. 3) constituir códigos. Numa visão de conjunto. uma vez que tais imagens ajudavam a confundir seus opressores quanto aos seus verdadeiros projetos. teatro da Universidade Católica de Goiás (Campos-V). estrategicamente. Dito de outro modo. VIII. London: Duke University Press. por aqueles setores da sociedade interessados em explorá-los. Goiânia. de relacionamentos capazes de assegurar a continuidade dos acordos estabelecidos entre todos os grupos envolvidos e 4) assegurar aos imigrantes indianos a construção de espaços de negociação para que aquela difícil existência nas Plantations pudesse ser transfigurada em algo mais próximo de seus horizontes de expectativa. 2 GUHA. formavam um complexo jogo de cena. extrajudiciais. foram. aceitos pelos próprios indianos. Direção e texto: Danilo Alencar. com mais profundidade. forjado pelos proprietários para fortalecer os mecanismos de contratação dos indianos. tanto o estereótipo de docilidade. n° 15 . Notas 1 “A CLARA do Ovo”. quanto o estereótipo de injustiçados. vol. Goiânia.Alexandre Martins Analisando. Elementary Aspects of Peasant Insurgency in Colonial India. 186 Revista Brasileira do Caribe. desenvolvido pelos missionários. as relações construídas entre as diversas categorias de pessoas. cujas principais intenções eram: 1) criar um teatro capaz de deixar as autoridades inglesas em Londres satisfeitas quanto ao perfeito cumprimento das leis de imigração em suas colônias. ver-se-á que mais uma vez os imigrantes estão tentando se beneficiar com as próprias imagens que deles eram construídas. destinados à asseguração do sucesso da companhia colonial de imigração. R. 2) obter benefícios financeiros a partir dos recursos do tesouro real. submetidas ao conjunto de leis de imigração. 1999. essa idéia de os indianos desenvolverem uma atitude de submissão. a fim de convertê-los ao cristianismo.

6 O termo Indenture se refere aos acordos sob a forma de contrato realizado entre trabalhadores e empregadores./dez. or other person employed on the plantation. May 15. London : H.. and. 2001. immigration ordinances of Trinidad and British Guiana. WILLIAMS. ranger. between the coolies of the estate and the managing body. of which 100 acres for cane.M. 062117110523. (cf. unable to speak the language of the lower orders here fluently. 7 “No shop shall be kept by any employer. 5 “Trinidad should be regarded as a sugar Colony. K. arising out of misunderstanding caused by the coolies having imperfectly performed certain work which they were requested to complete.) 9 “On Thursday last the police received information that a serious disturbance had taken place at Cedar Hill estate. which may end in fine_or_imprisonment (…) (The Palladium. overseer. p. 1880. UFMG. 1904.)It is just possible that they may be arraigned before the magistrate on the charge of assault. “I have the honor to report… that I have despatched the Futtle Rozack to Trinidad”. 1969. sendo estes responsáveis por todos os custos de transporte e alimentação dos trabalhadores até aos seus locais de trabalho. manage. 165. 2007 . but they were met by a warm reception from the coolies who 187 jul. 50 for pasture. Belo Horizonte: Ed. (Colonial Office 318.000 sterling”. but everything considered to the smallest class of sugar plantation cannot consist of less than 200 acres of good land. 4 In March of 1845 Thomas Caird announced in a despatch to the Home Office. establishments and Casualties. O local da cultura. are liable to be found at a disadvantage. and 50 for Negro grounds. than Coffee or Cotton. H. the lands being generally more favorable to the Production of Cane. either upon such plantation or within five miles thereof” (Coolie immigration. apud PERRY.59. 1962.. 7 March 1845. On the strength of this information two policemen on horseback were sent out with a view to appease the disaffection. one of the properties of the Colonial Company. driver. 8 (. and which they not only refused to do but showed strong signs of hostility. 74). Caird to Hope. 29). The quantity of land to be granted should certainly depend upon the means of cultivation.. Stationery Off. p.Plantation Legal: Trinidad século XIX 3 BHABHA. A plantation of this class carried on with the greatest economy will require a capital of about £ 8. vol. p.

. expense and annoyance of going before a magistrate for every trifling offence committed by a labourer on the estate. proposed three new clauses the first of which imposed on the plantcr the keeping of a ‘Labour Book’ to contain all materials for identification of every Immigrant. So diffuse are the philanthropic sentiments wasted on coolie immigration. which probably was an oversight on the part of the medical authorities. Goiânia. . vol. the Hon.. August 31. that we cannot but note the disquisitions which take place from time to 188 Revista Brasileira do Caribe. 1878. Smyth. or a similar sum for maltreating a mule. and a means of avoiding the trouble. on the recommital of the Immigration Ordinance.) 11 “The prevailing custom of indiscriminately checking the wages at labourers employed on sugar estates for offences alleged to be committed by them has been so long and persistently practiced without molestation or legal interference of any kind in this island that it is not to be wondered at that persons fully conscious of the iniquity of such proceedings should nevertheless he led to follow the pernicious example. is all that is required of managers and overseers (…) (San Fernando Gazette. 12 At the last meeting of the Legislative Council. in the minds of all those who are agents in the practice.. February 4. and unquestionably more convenient for a manager or overseer to check five dollars from a labourer’s pay for stealing a cane.) the other escaping unhurt only by the instinct of his horse which kicked the assailants away”. 1871. . injuring one (. to the exclusion of equally important questions which affect other races. or for any other suppositious breach of estates’ discipline than it is to take the risk and trouble of proving such a charge before the Police magistrate”. VIII.Alexandre Martins repulsed them. and the description of the daily work performed. Mr. as the mules are driven through theirs.. there is an unctuous excuse which views it in the shape of being a shorter and more summary way of settling disputes between master and servant. It is infinitely easier. 1882). The third suggestion was a matter of hospital routine. Editorial). Very evidently. (San Fernando Gazette. September 30.. 10 (…) But our Government has been so successful in providing at the public expense a sufficiency of serfs for all purposes (…) To know how to drive coolies through their daily tasks. n° 15 .. (San Fernando Gazette. Possibly it was to convince the government that they were really in earnest in the immigrant protection doctrine that the second clause offering facilities to the immigrant to procure industrial residence before the full completion of his indenture was introduced. .. Editorial.

2000. we naturally suppose..Plantation Legal: Trinidad século XIX time on the coolie and heathen Chinee. 114). 1880.” who advised. 189 jul. Mitchell. and a hard bed. p. “an admitted authority in matter of Prison discipline. London: Macmillan. however. 17 Sir. Hard sentences./dez. 1876. It is with no less an important personage than the Protector of Immigrants that we would consider the question of some endorsations of coolies’ lost days on estates. which. and for the lowest class of prisoners. SOOKDEO. they were frequently “guilty of breaches” of labor laws”. 10. and. to the prejudice of the coolie) should he endorsations condemning coolies indentured to labour on the Paradise Estate.. although not out ct the hue pursued by other like magistrates. hard fare. made by the magistrate first alluded to. when indenture laws tightened the lasso around Indian worker. Cf. and to be an unfair advantage in favour of the proprietor of the estate.” Which amounted to “labour at the treadwheel or shot drill or stone breaking or some such work”. SINGH. Kelvin. This Dr. 2000. (cf. Editorial). 16 Dentre as principais fontes utilizadas por Sookdeo destacam-se os despachos do governador Longden. 15 “After 1854. (COUNCIL Paper (Trinidad) nº 39 of 1874 apud SOOKDEO. to work out extra months of labour as lost days. 1988. Joseph Magistrate. Editorial). 13 (…) “There is little evidenced to suggest that before the early 1880s any court decision was ever made against a planter or member of the estate’s managerial staff”. (New Era. approved of by the Chief of the Immigration Department. makes us regard the officer dispensing justice in this quarter of the island as a peculiarly hazardous man. p.. March 22. o anuário Blue Books e relatos de inspetores de prisões. June 12. In: Bloodstained tombs: the Muharram massacre 1884. subject for regret that circumstances should so coincide that the improper act of the magistrate in this respect should have (in a worldly sense) a leaning towards the profit of the coolies’ legal and official Protector… (New Era. “The deterring elements of punishment are hard labour. Mitchell is Protector of Immigrants and one who apparently did not see the leaning and tendency of these endorsations. p.111). Joshua Jebb. 14 We have heard a good deal lately of magisterial not by the St. the property of Dr... at the expiration of the term of their indenture. 2007 . It is somewhat strangely suggestive that most of the endorsations (which are reported to be improper. It is.. if we may judge by the passiveness of his acts with respect to them.

— “lost days” as they are called.Cases before Magistrate. and if sent to jail he loses respect for himself and becomes the associate of the criminal classes. nor will they prosecute for desertion. Co. Morton. sobretudo das populações afro-descendentes do Caribe. to lose respect for. the cooly is sulky and does not work properly. letters and papers / edited by Sarah E. 114). has to attend the Court with the estate books and a day is lost. and then. n° 15 . Toronto: Westminster Co. 1916. or at all estates the overseer. p. Halifax.. 20 Para uma melhor compreensão das críticas feitas a perspectiva de vitimização de populações coloniais. 1989. the good relations between master and servant are disturbed. N. Kenneth James. 22 Grant. The authority of his master. 21 Morton. —Many managers have a strong and very reasonable prejudice against haling a man before the Courts for some trifling negligence to work as hard as required by the ordinance. whether the cooly is punished or not. vol. 1839-1912.: Imperial Pub. 19 26. veja: GLISSANT É. In all these cases before the Magistrate there is always a great loss of valuable time both to the employer and to the labourer. John Morton of Trinidad: pioneer missionary of the Presbyterian Church in Canada to the East Indians in the British West Indies: journals. the cooly takes some little time before he settles down into his normal ‘habit of quiet and steady work. Caribbean Discourse. especially if he is acquitted or merely warned.S. [c1923] 062117110523. sorely tried by some absconding laborers. (COMINS. The day after the case he says he is not going to work.. After the case is over. Nor will many employers claim and add to the period of indenture the days the immigrant has not worked. as he must cook his food. which he was not able to do when he was at Court. and the cooly is likely. Then the manager. 1839-1923 My missionary memories. VIII. Charlottesville. 2000. and generally settle such cases out of Court by fining the offender. p.Alexandre Martins 18 “The indenteds continued to welcome the respite offered by prisons compared to life on some of the harsher plantations. University Press of Virginia. (ibid. John. For some days before he is taken to Court. 1893. 42). tied a rope around the waist 190 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. 23 “On one occasion the manager of a sugar estate in the neighborhood of San Fernando.

1880).. (The Palladium. 25 “The term “Kuli”. These are not the days of slavery”.. Without resistance the men worked in the fields all day. 1923. 24 “Such was our mission in Trinidad. Under cover of the darkness they left the estate and went to the house of the Sub-Protector.Plantation Legal: Trinidad século XIX of a few of the leaders. april 24. 191 jul. but have secured for their work the recognition and support of the Government and the citizens generally. He immediately entered an action against the manager. (GRANT. At the conclusion of the trial the magistrate. which has been applied to other Asiatic peoples as well as to the natives of India. While “Coolie” is the official word an is used during the term of indenture. on arriving here they enter on their agricultural duties as indentured labourers.. our missionaries have not only in a large measure fulfilled the purpose for which they were and are sent out. but it does suggest conditions on which British law frown. in a more or less jocular way. 26 And yet nothing is more common than to observe the contemptuous manner in which the East Indian labourer is either referred to or addressed by some of our creole labourers. perhaps. who seem to regard them as a race far beneath every other for degradation. and the term “East Indians” is now in general use. But these Orientals do often regard themselves as occupying the lowest status.60).” (ibid. turning to the defendant. residing in the district. has in the “Hindi” language the meaning of a porter or laborer. The missionaries have avoided using it. when. with whom they laid an information or charge./dez. Thus they have the consciousness that they occupy the lowest condition in this island. and chiefly. 63). and in attempting to meet spiritual. 2007 . and put them to work. said to him: “I am fully aware that the treatment given these men has not caused physical suffering. and towards evening they were dismissed with some good advice. as well as by natural increase. (ibid. Ask a coolie of a low class (for the ideal of their inherent caste remains with the higher order of them) whether he is an indentured labourer.p.60). and he will tell you the low esteem in which he holds himself.p. moral e intellectual needs of a people growing rapidly each year by immigration. because they come here in a kind of quasislavery. p. the fact that it was originally the designation of the very lowest class of laborers has made it extremely offensive to a large proportion of the people”.

1979. Caribe. Coimbra: Almedina. Imprensa Nacional. CHATURVEDI. Relações Culturais Século XIX: Negros e Coolies em Trinidad (1845-1870).Alexandre Martins 27“For many of the Indians resistance has to be seen in terms of who would have the last laugh.Y. Alexandre Martins de. sociedad y cultura”. Chartier. La Habana: Editorial academia. J. “Social Stratification and Cultural Pluralism”. East Indians in a West Indian Town. 43. R. Brasiliense. BACZO. A. 1998. 1976. London: Heinemann. A nova história. 14ª edição. 53-72. 2004. (org. 1986. Micharel M. In: UBIETA GOMEZ. Casa da Moeda. Goiânia: GEV. In: Enciclopédia Einaudi. Garden City. p.75). 2.). 5. 1933. In: Peoples and Cultures of the Caribbean: An Anthropological Reader. Porto. p. 1996. New York: Verso. B. (org. UFMG. A. Enfoques filosóficos literarios. (HARAKSINGH. 1990. Economía. 1967. A History of Modern Trinidad. V. El poder de la identidad. O que é Cultura Popular. CASTELLS. São Paulo: Ática. “Paraísos comunales: identidad y sentido en la sociedad red. Cidade do México: Fondo de Cultura Económica.) Identidad Cultural latinoamericana. Goiânia.). In: Le Goff. (Org. A. Cambridge: Cambridge University Press. A Race Relations in Colonial Trinidad. T. New York. 1870-1900.: The American Museum of Natural. “Reflejos y antinomias de la problemática de la identidad en el discurso narrativo latinoamericano”. BRERETON. B. B. which undoubtedly kept the planters happy”. 192 Revista Brasileira do Caribe. 1994. Vol. n° 15 . Belo Horizonte: Ed. BRERETON. F. 2001. en la era de la informacion. BARTH. vol. R. BRAITHWAITE. F. ARANTES. ARAÚJO. p. VIII. Revel. Bibliografia AÍNSA.). (Dir. BONAPARTE. Analysis of the racial and cultural influences on the business system of Trinidad. West Indian: Univ. N. Madrid: Alianza. O local da cultura. They would be compliant and would work hard. 1989. BHABHA. K. B. 1981. ANDERSON. Los grupos étnicos y sus fronteras. Horowitz (Org. H. 1990. Mapping Subaltern Studies and the Postcolonial. CLARK. São Paulo. London: Allen & Unwin (Publishers) Ltda. Nação e Consciência Nacional. J. BURGUIRE.). 2000. Colin G. E. Vol. Lloyd. “A antropologia histórica”. 1981. 1783-1962. “Imaginação Social”. M.

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Por isso. because such concept alludes to large African regions where slaves where shipped and secondly because there were various places where these shipments happened. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. vol. ethnic groups Resumo Nossa análise se pauta em discutir o tráfico de escravos para a Capitania de Goiás com o objetivo de “rastrear” o lugar de procedência dos escravos. na época. Não nos parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que no século XVIII. Isto porque essa palavra em um primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos. Keywords: Slave trade. vieram para o sertão dos Guayazes. Goias/Brazil. viviam nas áreas aonde eram apresados. 197-243. a saber. mas também pode significar a variada presença deles numa mesma embarcação que aportou no Brasil. with the purpose to locate its origins. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 197 Revista Brasileira do Caribe. in Angola and Benguela and Costa de Mina—regions in which the Portuguese started the slavery trade. 2007 . facing the difficulty to locate the nation of the slaves brought to Goiás. It does not seem appropriate to adopt the criteria of African nations as a unifying concept for cultural and religious affinities and identities of Blacks that in the eighteenth century came to the rural areas of the Guayazes. VIII. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás.O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes Abstract This article focuses on the slave trade in Goiás. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina por onde os portugueses estrearam no comércio de escravos. n° 15. Therefore. Firstly. some hypothesis can be established based on the different ethnic groups that in that period lived in those areas where they were captured. Goiânia.

Por eso. sociais 198 Revista Brasileira do Caribe. que o conceito de nação envolve um grupo social que partilha um ideário. movimento que tem sido levado a cabo de forma a construir explicações para diferenças pessoais. No parece oportuno adoptar el criterio de naciones africanas como concepto aglutinador de afinidades o identidades culturales y religiosas de los negros que en el siglo XVIII vinieron para el sertão de los Guayazes. En primer lugar porque ese concepto alude a grandes regiones africanas de embarque de esclavos y en segundo. VIII. Goiás/Brasil. O conceito num primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos. n° 15 . as discussões recentes sobre o tema alertam para o movimento – historicamente construído – de uso do conceito de raça como forma de naturalização de opções e interesses engendrados na vida social. regiones en las cuales los portugueses estrenaron el comercio de esclavos. Goiânia. Palabras Claves: Comercio de esclavos. grupos étnicos Resumen El análisis del artículo se pauta en la discusión del tráfico de esclavos para la Capitanía de Goiás con el objetivo de localizar el lugar de procedencia de éstos. vol. pensado como unidades de linhagens biológicas ou culturais. en el reino de Angola y de Benguela y en la Costa de Mina. um forte sentido de pertencimento relativamente ao grupo associado a um território concreto considerado como sendo especificamente o seu. É oportuno lembrar também. hábitos comuns e um sentido de homogeneidade. Outrossim. Parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que vieram para Brasil no século XVIII. Goiás/Brasil. grupos étnicos Os livros de registros de batismos e de óbitos no Brasil indicam em muitos casos o lugar de procedência dos escravos africanos. frente a la dificultad de determinar la nación de los esclavos traidos a Goiás podemos establecer algunas hipótesis basadas en las etnias que en la época vivían en las áreas donde eran capturados.Cristina Cássia Pereira Moraes Palavras chave: Comércio de escravos. porque era variada la procedencia de los que eran violentamente arrojados en el barco negrero.

entendidas dentro do marco da hierarquia. quimbundos e xindongas que viviam nos atuais Congo. ao mundo social (GUIMARAES. hereros. No caso dos sertões goianos. reinventado e re-significado. Segundo Rodrigues é impossível calcular de que 199 jul.3 Os sudaneses aglutinavam os povos da África ocidental e que habitavam as regiões hoje denominadas Gana. ao contrario. p. baseada numa atitude negativa frente a certos grupos sociais e informada por uma noção especifica de natureza. como algo indeterminado. Entender o seu percurso. da mina e moçambique. 81-96). o construto “raça” está vinculado a interesses e a circunstancias produzidas em determinado tempo e lugar. Angola e Moçambique./dez. Portanto. pela imigração européia (PEREIRA. Trata-se. ovimbundos. representação historicamente construída entre diferenças pessoais e grupais. bem como. de um conceito que denota tão somente uma forma de classificação social. gentio da guiné. A realidade das raças limita-se. As diferenças raciais. 9). entender a sua complexa tessitura informada pela escravidão indígena e africana. relações raciais. caçanjes. acreditamos que não há raças.2 Nas matrículas de escravos encontradas no século XVIII em Goiás. modificado. Gâmbia. ngangualas. Nigéria. bakongos. ressaltar suas permanências e descontinuidades é entender que ele foi socialmente negociado. 2007 . nhanecas-humbes. a saber: ambós. p. silenciado. foram respaldadas e alimentadas pela ciência no Brasil no final do século XIX (SCHWARCZ. Os primeiros podem ser reunidos em nove grupos.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII e culturais como diferenças naturalmente dadas. 1993). luandatchokues. 2002. cabindas. 2002. mas sim. eram denominados por angolas. no centro do país.1 Para além. é preciso ainda. apropriado. benguelas. Raça é um conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural. Ademais. portanto. Benin e Togo. é certo que sua ocupação foi efetuada por inúmeros grupos etno-linguísticos de origem bantos e sudaneses.

ainda que os registros possam camuflar a verdade. certamente. Comissário do Santo Ofício. a maioria deles. vol. já que significava adesão aos valores religiosos e morais do mundo branco e propiciava grandemente a resignação à sua condição servil. não atingia a cifra de 40. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que.6 Quando aqui chegavam. n° 15 . Um dado chama a atenção do estudioso: comparativamente. vinham convertidos ao catolicismo. Sob o aspecto da quantidade de escravos africanos que vieram para Goiás no século XVIII. 98-120)4. pois se estendiam desde a Costa do Marfim. Desde 1633. o número deles. Essas regiões também apresentam um caráter vago. a saber. de qual nação chegavam. viviam nas áreas aonde eram apresados. no auge da exploração aurífera documentada em 1792. Por isso. pois essa conversão era vista como benéfica aos seus senhores. para saber sobre os escravos traficados. Na Capitania de Goiás os iorubás ou nagôs e jejês como eram5 denominados nas matriculas oficiais de escravos são introduzidos pelo tráfico na região desde meados do século XVIII. não foi registrada. na época. p. Lourenço de Mendonça. VIII. Goiânia. 200 Revista Brasileira do Caribe. se levarmos em conta centenas de milhares de escravos que trabalharam nas minas de Minas Gerais ou em plantações de açúcar no Nordeste.Cristina Cássia Pereira Moraes data é a introdução dos nagôs no Brasil porque só no fim do século XVII se tornou conhecido dos europeus o poderoso reino de Ioruba (1977.000. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina onde se encontrava o forte de “ElMina” ou da “Mina” por onde os portugueses estrearam no comercio de escravos. se traziam livros proibidos ou se e vinham desobrigados7. um prelado do Rio de Janeiro. dado que a região era muito extensa. havia determinado que todos os navios ou embarcações que chegassem ao porto de Santos fossem visitados. era muito fácil fugir ou se locomover dum lugar para outro. passando pela do Ouro. até a Costa dos escravos.

atualmente.682. seguido por Traíras com 6.000. a população de cativos de Vila Boa tinha reduzido para 8. Neste censo de 1792. o julgado de Vila Boa teve 9. Os demais arraiais possuíam menos de 1000 cativos. com 4. Em 1779. o censo de 1789 registrou um aumento na população de escravos para 37. e de São Félix para 2. excetuandose os julgados de Cavalcante.309. como o de Meia Ponte e Natividade./dez.568. A maioria dos arraiais que desenvolvia a exploração do ouro de aluvião listou 60 a 80% da população composta por pretos. O censo de 1804 confirma essa tendência descendente. Alguns julgados. outro censo registrou a presença de 38. Seis anos depois. 2007 . Desemboque e Carmo que. de Traíras para 5. na época em apreço.000 cativos. Como demonstra o gráfico abaixo. Em 1792.207.8 Em 1783.790. indicando a existência de 20. pois demonstrou apenas que 17. São Luis do Maranhão. foram incluídos no citado censo. faz parte de Minas Gerais e. Salvador. devido aos motivos acima apontados.777. 201 jul.689 escravos.567 e Crixás com 1. Os outros tiveram menos que 3.245 e Meia Ponte. de 1733 a 1750.713 cativos trabalhavam na Capitania. Este censo é particularmente valioso porque revela um novo descoberto aurífero na região do Rio das Velhas. contudo. no entanto. o maior número de escravos já documentado na capitania de Goiás. por registrar aumento da atividade de mineração em Pilar. a saber: Belém do Pará. Rio de Janeiro e. Karasch9 observou que o censo de 1783 estava incompleto.599. p.328.027 escravos na região. também. sofreram aumentos leves. o censo aponta os seguintes números de escravos para a Vila Boa e os arraiais mais ricos: Vila Boa com 4. 276) aponta um montante de 10.200 escravos. pela primeira vez. os dados oficiais registram a presença de aproximadamente 35. Traíras com 3. chegaram à Capitania de Goiás desembarcaram em diferentes portos.000 a 17.000 escravos. Pilar com 1.533 escravos. Meia Ponte com 1.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Com efeito. Salles (1992. Os africanos que. futuro Julgado do Desemboque que. o que mostra uma ligeira tendência à diminuição da população escrava na Capitania.

491 2.960 899 2.432 8.Cristina Cássia Pereira Moraes provavelmente.000 1783 1789 1792 1804 Gráfico 1 – Número de Escravos na Capitania de Goiás 1783-1804 (A cópia manuscrita do censo de 1783 dá o número como 364 em lugar de 363. SalIes. Karasch suspeita que muitos africanos recém-chegados ao Brasil ficaram algum tempo em outras capitanias. Os Escravos na Capitania de Goiás.223 723 1.568 9.000 10. 1783-1804. de de F. vol. O certo é que as principais rotas de entradas de africanos na capitania de Goiás eram pelo Pará.000 4. Goiânia.575 3. 660 Desemboque Das de Rio Velhas 2.261 277 299 634 2. Economia e na de Escravidão da 202 Revista Brasileira do Caribe. Maranhão e Bahia.855 4. VIII.045 2.839 1. antes de serem trazidos para as minas de ouro de Goiás.264 2.567 997 1. Fontes: Gilka V.207 1.200 4. de Parnaíba no Piauí e de Recife. como Minas Gerais e Bahia.682 4.000 8.689 Crixás Pilar Santa Cruz Santa Luzia Meia Ponte Vila Boa 0 2.153 1.967 1.282 4. n° 15 .777 1.000 6.444 1.

2002. AHU. localizar e determinar especificamente a “nação” a que pertencia os cativos em Goiás é uma tarefa hercúlea. até o prezente anno d’ 1789. 11. vestidos. Conforme os registros da Igreja Matriz de Santa Ana. João de Botelho Cunha que./dez. Optamos em utilizar alguns registros de batismos. Esses comboios. bacalhau. entre 1794-1827 entre adultos e crianças foram batizados: 203 jul.2. Documento 2109 Reflexões Econômicas ficam sóbrio como Tabelas da de estatísticas da Capitania de Goyaz Pertencentes ao anuo de 1804 feitas de e nenhum de 1806. 1993. Biblioteca Nacional. em 1765. encontramo-lo num recibo de compra. . 1790-1798. Eram conduzidos por tropeiros que. entre outros. p. como utensílios e objetos de ferro. (MOTT. 2007 . p. tecidos finos. 1992. Goiás. de 1793:“ Michaela Xavier de Aguirre deu 230 oitavas de ouro para Capitão Gaspar José Lisboa para ir a Cidade de Salvador para comprar três “moleques Minas”. p. 119. inventários e termos de assentos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos localizados em Vila Boa. e artigos de luxo. levavam em média três meses de viagem para chegarem a Goiás. além de cativos. 170 escravos para Vila Boa. Rio de janeiro. pagando por cada um aproximadamente 80$000”. caixa 35. Mapa em que Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério. Goiânia: CEGRAF/UFG. Seção Manuscrito. sal. vinhos. trouxe de Salvador. 277. em geral. 170) Um outro exemplo. Como exemplo. AHU. 19 de outubro 1790. ibid.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Capitania Goiás.10 Outra rota por onde os escravos chegavam à Capitania. podemos citar o comerciante.4.11 Como foi abordado anteriormente por nós. perfumes.) Inúmeros comerciantes de Vila Boa organizavam grandes comboios para importarem cativos de São Luis do Maranhão e de Salvador. começava no Rio de Janeiro e passava por Vila Rica e Paracatu em Minas Gerais. e Capitão da Geral da Capitania Goyaz Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério 29 julho 1792. óbitos. KARASCH. traziam artigos e produtos importantes que por cá não havia. Mapa em que o Governador.

12 204 Revista Brasileira do Caribe. 1794 -1810 e KARASCH. Batizados. p. vol. 2002. Arquivo Geral. 132). Diocese Goiás. livro 3. as 6 angola mina crioulo(a) 5 moçambique 4 nagô buçá 3 desconhecido 2 1 0 17 94 17 95 17 96 17 97 17 98 17 99 18 00 18 01 18 02 18 03 18 04 18 05 18 06 18 07 18 08 18 09 18 10 Gráfico 2– Batismo de crianças escravas em Vila Boa 1794-1810 (Orfanato São José. n° 15 .Cristina Cássia Pereira Moraes Batismos de crianças escrav em Vila Boa de Goiás 1794-1810. Goiânia. VIII.

Cit. 2002. Batizados.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII : Gráfico 3– Batismos de escravos por gênero em Vila Boa de Goiás 1794-1827 (Orfanato São José. criança legítima de João 205 jul. Arquivo Geral. 2007 . embora a legislação proibisse a escravidão dos índios13. livro 3. 1794 -18270 e KARASCH Op. Na coluna “desconhecido” pressupomos que seria o batismo do “gentio”. 132. pois.) A maior parte dos registros de batismo e de óbito indicava o grupo étnico a que o escravo pertencia como podemos observar nos gráficos acima. p../dez. Como exemplo temos: “Maria. elas ocorriam e estes eram incluídos nos registros. Diocese Goiás.

das ilhas. A título de exemplo. nada consta:15 Ó bitos1794-1834 800 700 600 500 400 300 200 100 0 total Gráfico 4– Óbitos 1794-1834. os párocos evitavam registrar uma criança indígena como escrava. cigano. o maior numero de registros. pretos da costa. mas.14. Natividade e Porto Nacional. foi batizada no dia 22 de fevereiro de 1818 em Santa Anna. 206 Revista Brasileira do Caribe. VIII. p. vol. Meia Ponte. 1800-1827. os registros de óbitos. AFSD: Livro Óbitos. Jaraguá e Corumbá e datem do início do século XIX. quando podiam. gentio. muito superficialmente. denominando-os como mina. relativo a 1803-1810. Infelizmente.Cristina Cássia Pereira Moraes Angola e Eugênia Índia Chavante. No entanto. conquanto se restrinjam a Natividade. apontam a origem étnica dos cativos falecidos na Capitania. o Livro de Registro de Óbitos de Meya Ponte. (IPHBC: Livro de Registro de Óbitos de Meia Pontes. 135). KARASCH. 1803-1810. anota 834 escravos falecidos. Goiânia. da terra. segundo Karasch. a fim de evitar sua escravização no futuro” (2002. n° 15 m pr in a et na os gô da co s at nã na g ge o ola nt c io ons da ta gu de i ca gné en st ad tio at daer s Ira l da has te r cig ra an o . nagô. gentio da guiné.

op. m ina na g an ô go l re a b be olo ng u ca ela bi n m da un m oç j am olo bi q ile ue gi ve l 207 jul. Diocese de Goiás. Sra. Livro Letra K – 1789 – nº012. 1794 -1834. 43-43v. livro 3. Orfanato São José: Arquivo Geral. p.cit. Batizados.). página 48 v.) Um testamento de 1789 de Marcelino Baptista Silva cuja herdeira era N. (AFSD: Testamento de Marcelino Baptista Silva – Herdeiro: Manoel Teixeira dos Santos. da Boa Morte representada pelo procurador da Irmandade Manoel Teixeira dos Santos nos indica que aos fins do século XVIII a maioria de seus cativos eram mina como podemos observar no gráfico abaixo: T estam Vila Boa 1789 ento 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 H omens Gráfico 5 – Predominância de escravos mina. 2007 ./dez. p. 133. Goiás.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Mary..

Do Rosário dos Pretos de Vila Boa. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. através dos censos efetuados na Vila e nos arraiais. vol.S. que durante o século XVIII. o número de escravos pretos era bem maior que o dos brancos. Sra. entre 1755 e 1784. nos termos de assento e anuidades dos membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Vila Boa.Cristina Cássia Pereira Moraes Sabe-se. Sra. com certeza. Ora. pardos e pretos livres. o número de escravos que fazia parte da associação era relativamente pequeno: Irmãos e Irmãs da Irmandade de N. VIII. n° 15 . No entanto. posto que essa Irmandade apenas aceitava cativos como 208 Revista Brasileira do Caribe. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1810). do Rosário dos Pretos 1736-1810 60 50 40 Homens 30 Mulheres 20 10 0 17 17 35 36 17 39 40 17 44 45 17 49 50 17 54 55 -5 17 9 60 17 64 65 -6 17 9 70 17 74 75 17 79 80 17 84 85 -8 17 9 90 17 94 95 -9 18 9 00 18 04 05 18 09 10 -1 4 Gráfico 6 – Número de Irmãos e Irmãs na Irmandade de N. Goiânia.

conforme o gráfico acima. Outrossim. Em termo de mesa. rogava aos oficiais que obtivessem sua liberdade. nem a oportunidade de ingressar na Irmandade e se beneficiar da ajuda da mesma. declarando que possuía um pecúlio de trezentas oitavas. os escravos urbanos da Capitania viviam melhor que os do campo. Estes. do ano de 1764. o irmão Francisco. não tendo nenhuma chance de ajuntar algum dinheiro. não aceitasse libertos como membros. Aqueles ainda tinham a ocasião de fazer serviços extras para outrem e 209 jul. da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Para mais. podemos inferir de tal registro que bem poucos puderam nela ingressar como irmãos. curiosamente.16 Dois casos ilustram bem o que reza esse documento. devido às leis portuguesas de proibição à escravidão onde a maioria dos senhores de escravos os venderam para o Brasil. e não de compromisso. declarava ter quatrocentas oitavas de ouro e pedia que o tesoureiro da Irmandade indicasse um fiador para avalizar o restante da quantia a ser paga ao seu senhor por sua carta alforria. escrava do Coronel Pacifico. Em outro termo. escravo do Capitão Dantas.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII associados. apenas na década de 1770. dando primeiro hum fiador a irmandade que se obrigues pelo tempo que sejustarem satisfazer à dita Irmandade o que desembolçar e será este fiador eleito pela Meza e passará obrigação à mesma. devido às quantias que eram cobradas pela entrada e por anuidade. em Vila Boa.17 Apesar da terrível condição em que se encontravam. embora a Irmandade. podemos observar que o numero de irmãos aumentou significativamente. o que geralmente acontecia com as mulheres . de 1775. só produziam o suficiente para si e para os seus. de modo que. para além de trabalhar para seus donos. quando tinham família. os demais negros podiam ser apenas irmãos de devoção./dez. a irmã Zeferina. ela não media esforços com vista a alforriar escravos: Havendo algum Irmão captivo que sequeira libertar a Irmandade lhe assistirá com oprecizo para se libertar. 2007 .

As cartas de alforria nos fornecem vários dados interessantes: o nome do escravo que estava sendo libertado. n° 15 . a concessão da carta de liberdade ou de alforria. ou eram públicos. em caso de eventuais dúvidas.. à situação de homem livre.. A fim de evitar contestações. isto é. filiação. bafejados pela sorte. ou. entre o senhor e ele. vendiam-nos a terceiros e de preferência. a idade e o ofício do liberto.. No período em apreço. apossando-se dos escravos e. mas não registrado. por sua generosidade e. As cartas de alforria eram instrumento legal. ou um documento particular. gratuita ou onerosa. Mattoso20 observa que “se tornou hábito que o documento seja registrado em cartório em presença de testemunhas” (1992. após sua morte. tal ou tais escravos deviam ser libertados.burlavam a lei. o escravo passava ou simplesmente sub conditionibus. redigido por um tabelião. motivada. os nomes das testemunhas e a data do registro em cartório. No primeiro caso. Mas “os. vir a obter a manumissão de seus senhores ou a coortação. Raramente encontramse dados sobre a profissão do senhor.. as modalidades e as condições dessa libertação. para assegurarem suas vantagens. Goiânia. cor. os motivos pelos quais era alforriado. sua moradia na cidade ou no campo. p. quando registrados em cartório.19 (MORAES. VIII. mediante o qual. aos escravos pelos senhores era sempre tida na conta duma dádiva de sua parte. 1973. herdeiros não respeitavam as decisões. O documento ficava em posse do liberto. Eram as tais Cartas. ou “a conquista de um favor no céu”. caracterizavam-se por ser um acordo firmado “inter vivos”.Cristina Cássia Pereira Moraes acumular um certo pecúlio para comprar a sua alforria18 e tal era o caso dos que exerciam ofícios específicos como os alfaiates. Isso os 210 Revista Brasileira do Caribe. os pedreiros e até mesmo os simples jornaleiros. de outro. 177). de um lado. pelos bons serviços prestados a si e à sua família. 659-695) No segundo caso. Todos esses dados reproduzem a vida dos alforriados. o senhor estipulava em testamento que. cujo anseio principal fora alcançar a liberdade. podiam ser a “expressão da última vontade do dono”. sua origem. p. para garantir seu direito. porque estavam a buscar uma “graça divina”. vol. isto é. comerciavam-nos em outros lugares”.

a maior parte deles estipulava o valor fixo das parcelas e sua regularidade. era baseado na saúde do escravo. herdeiros ou um procurador do falecido proprietário. o pagamento pela liberdade era feito a prazo. Na Capitania./dez. 2007 . consistia em o escravo obter uma semi-liberdade. Muitos senhores estipulavam o valor a ser pago. ou seja. os prazos constantes dos documentos desse tipo. eram subjetivos. as condições do contrato eram cumpridas tal como foram originalmente acordadas. poderia ser revogada. assegurando desse modo. particularmente para as crianças. A coartação era um tipo de alforria onerosa. certa segurança quanto à percepção da quantia acordada. No caso de retaliação posterior. Entretanto. raramente. referido no contrato. proibiam-lhes reger sua própria pessoa e gerir seus bens. oscilavam entre dois e cinco anos. p. Um outro tipo de alforria. No entanto. as cartas de liberdade trazem prazos que vão de dois a cinco anos e o escravo vivia uma fase de transição entre a liberdade e a escravidão.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII levou a denominar esse ato de “boa ação pela fé”. Essa revogação poderia ser feita por terceiros. aquela sob condições. e os motivos dos proprietários. em idade produtiva. o pagamento da alforria era efetuado por outrem. porquanto. sem. No entanto. O valor pecuniário do escravo e sua alforria. ou de uma só vez ou em várias prestações. Concernia a escravos adultos e. Em Goiás. na maioria das vezes. determinar as condições para o pagamento.Mas a alforria. isto é. em alguns casos. Poderia consistir na autocompra da liberdade. 16) . Observa Aguiar que “as relações familiares representavam importante elemento neste processo. O pagamento das parcelas e a definição do tempo de vigência dos contratos variavam e eram acertados entre as partes. gratuita ou onerosa. Parece provável que parte das alforrias gratuitas tivesse relação com ligações afetivas” (1999. porém. ao que tudo indica. nas suas qualificações. o escravo devia pagar por sua liberdade. 211 jul. na idade. o senhor do escravo registrava esta observação na própria carta de alforria. a situação do coartado se tornava particularmente delicada e. no sexo. no entanto. porquanto. se o senhor morresse. quando se tratava de cartas de alforria onerosas.

igualmente. às fugas. com vista ou a obter a alforria ou a tornar sua vida mais suportável. a convivência estreita na mesma casa e até no mesmo quarto. Mas.. de afeto e de intimidade entre senhores e escravos que não apenas contemplaram “os bons serviços prestados pelos escravos”. (BELLINI. Aguiar ressalta que a flexibilidade era a regra no pagamento das parcelas da coartação e na definição do tempo de vigência dos contratos. 1988.Cristina Cássia Pereira Moraes ainda que as parcelas fossem pagas pelo coartado. favorecidos por situações que envolvem. eles souberam aproveitar das oportunidades. 21-22). o senhor não efetivava a sua libertação. n° 15 . p. se o senhor falecia antes que o mesmo se completasse. “serviços especiais” em seus leitos: Na realidade de jogos singulares de poder e sedução. vol. esmerando-se no cumprimento de suas tarefas. especialmente as gratuitas. Goiânia. portanto. em geral. p. p. ou prestando-lhes e aos seus filhos. tendo investigado a situação dos escravos na Capitania de Minas Gerais. De fato. às rebeliões. Muitas cartas de alforria. entretanto. como amas-deleite. 75). muitas vezes. por exemplo. os escravos utilizaram diversas formas de resistência. decorrentes dum relacionamento mais próximo com os seus senhores. como a preparação da comida dos proprietários pelas escravas. 1999. de acordo com o que consta do seguinte documento: “Concedo a liberdade do escravo Terthulianno Crioulo de 70 anos gratuitamente 212 Revista Brasileira do Caribe. que ocupavam lugares institucionais tão diferentes. recorrendo às sabotagens. a entrar na justiça para reivindicar o seu direito (AGUIAR. tiveram um com o outro. decorreram. dessas relações de cumplicidade. cozinheiras. diretamente os corpos do senhor e do escravo. então. as relações sexuais e filhos. obrigando-o. estes protagonistas. 22-25) . a revogação unilateral do contrato (1999. VIII. ou por causa dos serviços regulares que prestavam. o cuidado e a amamentação das crianças brancas pelas amas. lavadeiras e etc. Como sabemos. ainda surgiam outros problemas entre o escravo e os sucessores daquele.

ficando o restante a ser pago pelo dito escravo. que concedo a liberdade pelos bons serviços prestados. pelo amor que lhe tenho e por ele ser cria da casa. as mesmas aludem a pagamentos e às obrigações da parte dos escravos. p. pelos bons serviços que me tem prestado”21. um escravo de nome Ignácio Crioulo. durante certo período de tempo. 2000.22 O documento abaixo comprova o que afirmamos: Eu. pelo valor da primeira parcela de cento e noventa e oitava de ouro. havendo a Encommendação do costume. abaixo assignado. e extremaunção João Mina esravo coartado da heransa do falescido Jeronimo Gomes: seu corpo foi amortalhado em pano branco. ainda iria continuar a trabalhar para seu antigo dono. ainda convém observar que. 2007 . neste caso como em muitos outros semelhantes.. ou os nascidos nas casas senhorias (LEITE. Todavia. sendo o pagamento à vista pela minha livre e espontânea vontade. recebendo sua liberdade após o pagamento de sua dívida (. tudo leva a crer que.. em troca de alguma remuneração. ele era estimado pelo seu dono. embora a maioria dos senhores de cativos usasse a palavra “gratuitamente” nas cartas de alforria. o liberto. Em alguns registros de óbitos./dez. do 213 jul. e sepultado no Adro da Capella de Nossa Senhora da Penha de Jaragua. que entre os bens que possuo. Na verdade. embora possa parecer paradoxal conceder liberdade a um escravo em plena idade produtiva. se estenderam para além do mero ato de obtenção da liberdade. consta a sua condição de coartado: Aos dez de Dezembro de mil oito centos e quatro falesceu com os Sacramentos da penitencia. importa ressaltar que. Por outro lado. Capitão Felipe Rodrigues Lisboa. no tocante a ex-escravos. devia prestar algum tipo de serviço ao seu ex-dono quem não era tão magnânimo quanto aparentava ser. após sua liberdade.)23. nascera em casa dele e.69) mas.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII pelo valor de uma oytava e meya. devido a essas circunstâncias.

Ora. 17551798) Uma outra situação. diz respeito a eles poderem ter escravos para os ajudar nos serviços que faziam ou vir a substituí-lo. sujeita de direitos. Na verdade.Cristina Cássia Pereira Moraes que fiz este assento”. bem como para burlar o imposto de capitação. o que se passava era o seguinte: face à predita segunda hipótese. herdar28. possuir quaisquer bens etc. no mínimo contraditória. enfim. muito comum no Brasil do século XVIII. Goiânia.25 Alforrias 1794-1810 70 60 50 40 30 20 10 0 as da as as s total ui t at ad ul us Gr er c la m Gráfico 7– Tipos de Alforrias (AFSD: Documentos avulsos: Cartório do 1º Oficio: Testamentos.O Coadj or Joaquim Glz´ Dias Goulão. vol. ser tutor29. não sendo reconhecido como pessoa. VIII. caso conseguissem recursos para obter a alforria. os senhores consentiam naquela situação de facto 214 Revista Brasileira do Caribe. ao escravo era proibido ser testemunha26. relativa ao escravo ou ao liberto. n° 15 Co Re m un Co ar ta . de acordo com a legislação em vigor. com a qual nos deparamos ao fazer esta pesquisa. fazer testamento27.

camufladamente. do Rozario estando prezente o nosso Juiz e Escrivam e mais irmãos da meza concordaram q a irmã Maria Banguella posuia o direicto a quartação acertada em cinco annos com o fiador Antonio M Vasconcellos por meia libra de oiro o erão taobem a sua moleca de 5 annos mais ou menos. ao se associarem às irmandades. em que os irmãos decidiram assumir e pagar a coartação da irmã Maria Benguela.Sra. Trata-se dum Termo de Mesa da predita Irmandade. de jure. do Rosário e cumprir com suas obrigações pecuniárias é o sinal concreto de solidariedade e caridade cristã entre todos os membros. 95). pelo prazo de cinco anos. os escravos negros encontraram nelas um importante espaço de reorganização e reconstrução duma solidariedade étnica que se perdera. José da Silva Porto. Não perdendo de vista as observações de Aguiar (1999. em troca de sua liberdade e da de seus filhos. ao serem trazidos do continente africano. p. em nossos arquivos a documentação sobre os cativos – quando a encontramos – aparece mutilada. de 1792. Infelizmente. 1993.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII mas. a pagar ao seu senhor. tendo condições de associar-se à Irmandade de N. se comprometia./dez. arrematamo-las apresentando um documento bastante ilustrativo sobre isso. p. Raríssimas vezes conseguimos encontrar os documentos em séries completas. inclusive os nascituros. 215 jul. 2007 .S. 28) a propósito. Por mais que a Igreja Católica tenha se preocupado em registrar os acontecimentos. As condições sócio-econômicas e religiosas do escravo na Capitania de Goiás e a perspectiva de libertação que se lhe abria. conservavam a propriedade sobre tal escravo de escravo. pouco foi preservado. meia libra de ouro: Aos 25 do mez de 7bro de 1792 – neste consistório de N. a qual.30 Por conseguinte. fazendo valer seus direitos em pendências judiciais (ARAUJO. desfigurada por causa de muito tempo de descuido e por incursões de traças. indicando o irmão Antonio de Melo e Vasconcellos como seu fiador.

os quais. a identificação se dava inclusive pela divinização de elementos da natureza como a mata. do ponto de vista deles. concomitantemente. cultuada tanto pelos índios como pelos africanos. p. O certo é que. tendo em vista a total impossibilidade de regressar às suas origens e. o politeísmo africano se identificou com o politeísmo indígena e com o culto aos santos católicos. conveniência ou compartimentação entre o catolicismo e a sua africanidade. tendo presente o contato que estabeleceram com as tradições dos índios e a dos luso-brasileiros. para os de fora de sua cultura. 1994. vol. recusando sua situação de inferioridade. formularam e atribuíram novos significados à sua religião e ao catolicismo. possibilitaram-lhes tomar consciência de sua unidade étnica e proporcionaram-lhes expectativas transcendentes que minimizavam seu sofrimento interior e exterior. os africanos depois de trazidos à força de sua terra natal e inseridos na sociedade luso-brasileira. o culto aos santos se relacionava de modo coerente com muitos mitos religiosos africanos. n° 15 . Com efeito. VIII.Cristina Cássia Pereira Moraes Ademais. algumas semelhanças entre elas possibilitou um estreito diálogo32 e a circularidade cultural33. por um lado. que os brancos é que não sabiam exteriorizar a sua fé. No segundo. de praticarem suas crenças e. No primeiro caso. parecem contraditórias e inconciliáveis. ao mesmo tempo. no tocante à religiosidade original dos negros. mas de forma alguma sua religiosidade podia ser considerada como superficial e de aparência. reconhecido como o orixá Ogum. mas. faz-se pertinente analisarmos a força da religiosidade dos pretos cativos. por exemplo. pois conforme observou Quintão (1997. de se tornarem pseudo-católicos31 fervorosos e convictos dos dogmas da fé cristã. Não pudemos perceber obrigação. tais como o de São Jorge. 216 Revista Brasileira do Caribe. os pretos eram capazes de conciliar coisas que. 3-4). por outro. 115-116). É importante destacar que a maneira do preto manifestar a sua devoção causava temor e incomodava aos brancos pelo apego às “exterioridades das celebrações”. (JULIA. Goiânia. é provável. pois mesmos os recém-chegados da África não eram impedidos. p.

frei Agostinho de Santa Maria ressaltava a generosidade dos mesmos nas celebrações das festas. alem disso. Eles se multiplicam e se transformam nos loas. os registros que alcançaram nosso tempo. em geral. com muita perspicácia. Ele é o criador dos espíritos e dos santos católicos correspondentes e. fornecem dados preciosos. e como. p. só muito dificilmente se distingue do Deus do catolicismo à medida que este sempre foi representado na pregação. se entrega a feitiçaria e se transforma em Lúcifer. 47). eles também preferiram guardar silêncio e continuar praticando seus rituais misturados ao Catolicismo. o mundo religioso dos escravos africanos era avesso ao profano e sua crença apoiava-se na simbologia do sagrado.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Outrossim. em 1722. Infelizmente. o trabalho dos investigadores (MUNANGA. pois faz com a sua devoção se alegrem tanto os pretinhos. 1996. pregam o evangelho e se tornam santos (HURBON. 1987. porém. 102-107) Para mais. Deus envia doze apóstolos que se comportam melhor. p. 2007 . com exceção de um que. Em seu orgulho eles se rebelam contra Deus que. essa lacuna documental prejudica. dos anjos e dos santos dados aos homens como seus guardiões e protetores. se recusando a partir. os manda para a Guiné./dez. Mais tarde. Deus envia a terra doze apóstolos. comentando: “as maravilhas de Deos. os favores e mercês da Maria Santíssima. deixados pelos religiosos. Apesar disso. quanto à maneira como veneravam Nossa Senhora do Rosário. que Deus é a chave da abóbada que sustém todo o sistema dos espíritos e de todas as práticas desse culto. efetivada nos vaticínios. De fato. grupos como os iorubás ou gegês acreditavam. admirado com a fervorosa religiosidade dos cativos. como castigo. que parece huns doudos de contentes”: 217 jul. o agostiniano. hoje. nos cânticos e nas orações como o criador do universo. os senhores não tinham interesse em saber nada a respeito de tais crenças. sortilégios e magias. como os católicos. no catecismo.

em Lisboa. esmerando-se muyto em levar a vantagem a todos os mais (. “a integração do homem de cor” – o que podemos chamar de estratégia de convivência harmoniosa ou de “auxílio mútuo”. o fazem com tanta grandeza. que em tudo excedem aos brancos. perante a maioria branca. uma outra constituída 218 Revista Brasileira do Caribe. Mais recentemente. Alguns deles asseveram que elas surgiram com os fitos de difundir uma “falsa igualdade”. por excelência junto de Seu Filho Divino. A partir de 1520. n° 15 .Cristina Cássia Pereira Moraes He muyto para admirar a fervorosa generosidade. por motivos profanos ou seculares. VIII. as concepções de acordo com as quais Maria era a mãe de todos os desvalidos bem como de Jesus Cristo e a intercessora. 1947. Outros julgam que elas foram concebidas e organizadas visando a inserção dos cativos naquela sociedade. pois sendo pobres. Segundo o referido frade. que possuam. os escravos negros provenientes da África erigiram na igreja de São Domingos. & não tendo nada. Estudiosos do tema em apreço não estão em acordo quanto à explicação das possíveis origens das irmandades religiosas das pessoas de cor. não sendo vistas como que estimuladas. isto é. & captivos. faz-se pertinente buscar a origem da maior devoção dos cativos dedicada a Nossa Senhora do Rosário primeiramente. p. 86). com que aquelles pretinhos servem à sua Senhora. e propiciar aos seus membros um lenitivo religioso.. Goiânia. & festejarem à Senhora.34 Outrossim. para servirem. no âmbito da sociedade escravocrata que acentuava a divisão social. e como um meio de enraizamento da comunidade negra nos domínios ultramarinos. vol. em Portugal e depois para o sertão dos Guayazes. meramente. ao lado da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de brancos. faziam com que as festividades em louvor à Virgem fossem quase uma epifania do transcendente que lhes causava imensa alegria.) (SANTA MARIA.. os estudos sobre esse assunto apontam para os fatos de que tais irmandades surgiram face às necessidades de se aliviar as pressões advindas duma sociedade competitiva. dominada pelos brancos.

mesclada com o popular e afetivo. à época da batalha de Lepanto./dez. (SCARANO. cada uma precedida do Pai-Nosso. Os negros. “lhe deram o titulo do Rosario.37 Não obstante a sua origem medieval. também passaram a criticar os frades Dominicanos por lhes terem permitido organizar uma confraria inteira exclusivamente com sua gente. que he com que hoje ao presente he buscada e servida dos seus devotos pretinhos”. surgindo assim. 1961. aonde a milagrosa Virgem do Rosário era cultuada pelos marinheiros. Sacramento. Alem disso. do Rosário. na Península Ibérica. ao contrário. se revestiu com uma roupagem nova. Tridentina e institucional. os frades Pregadores ou Dominicanos.Sra. Entretanto. face à ameaça islâmico-turca perante uma Cristandade dividida por causa da Reforma Protestante Rapidamente. dada a impossibilidade de os mesmos participarem da Irmandade de seus senhores. 2007 . dizendo que tal devoção surgiu quando os escravos foram “fazendo hum ajuntamento e pondo hua mezinha a porta da igreja e depois outra maior e mais dentro a maneira de confraria por onde se vieram alevantar”36. a nova devoção mariana. em Portugal. os brancos a abandonaram completamente e passaram a menosprezá-la. Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e as quinze dezenas que se he 219 jul. essa devoção encontrou guarida em igrejas e conventos de cidades e vilas e. p. de cento e cinqüenta ave-marias. A devoção a N.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII somente por eles. divididos em quinze dezenas. e consistia na recitação do terço ou do rosário. nessa época. isto é. 1976. p. que pode ser classificada como sincrética. “Sua recitação está intimamente ligada aos mistérios da Vida. se intensificou sobremaneira graças ação religiosa dos Dominicanos. presos e casarem orfaons”. nela incluída a recitação do Terço. como ocorreu no Porto. entre grupos sociais populares. 261) Ela quase se igualou em importância à prestada ao Ssmo. as irmandades. (ENES. ligada a São Domingos e aos seus filhos. então. quando os negros cativos adotaram a devoção a Nossa Senhora do Rosário. 39-40) 35 Seus associados portugueses tinham como obrigação “remirem cativos.

vol. Sra. conforme o primeiro levantamento populacional de Lisboa realizado por Cristóvão Rodrigues de Oliveira em seu Sumario em que brevemente se contam algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa em 1551: Há neste mosteiro de São Domingos sete confrarias. où les noirs auront le contrôle . No seu esforço de enquadramento religioso. S.de leurs associations. n° 15 . atraindo-o para as irmandades mais capazes de interessá-lo. un peu partout sur le territoire.um estatuto próprio que diferia do Compromisso da irmandade de N. Do Rosário”. se consagram e se dedicam a Nossa Senhora” (AMARAL. cette attitude provoque le dédoublement de l’association et la création officielle d’une confrérie noire sanctionnée par des statuts ratifiés en 1565(…) Ces statuts sont le prélude à la création d’autres associations organisées sur le même modèle. Or. em coroa se oferecem. Esses observam a vantagem de se congregarem em irmandades por “ser notoriamente o grande proveyto q resultara a conversão das almas q até os Reis Gentios mandavam esmolas para a confraria e pedião retabolos de nossa Sra. jamais ce dernier objectif n’atteindra au Brésil les mêmes proportions qu’au Portugal (2001.Cristina Cássia Pereira Moraes devotam constituem rosas que. do Rosário de homens “brancos”: Comme nous l’avons observé.38 O pesquisador francês Lahon ao estudar a origem das irmandades de N. mas. p. Segundo o autor acima a ereção dessa irmandade é a primeira do gênero e seu Compromisso data de 1565. VIII. do Rosário dos Pretos de Lisboa observa que eles foram os primeiros a elaborarem – em 1565 .au moins théorique . p. numa sociedade católica e branca. Sra. affirmeront leur identité. 448). Goiânia. a Igreja não poupou esforços para integrar o africano. 1953. 18). recém-chegado. assisteront et défendront légalement les intérêts des captifs contre les maîtres. a 220 Revista Brasileira do Caribe.

durante a Idade Média./dez. recitado pelos irmãos. atirando ao chão. são bornus. De acordo com esse estudioso. cujos sacerdotes desse orixá usavam o “rosário de Ifá” à volta do pescoço. são minas. do Rosário. ou seja. sobre o próprio destino ou sobre a sorte no amor. somente aceitavam negros cativos. ao seu ingresso na mesma. Benquela. Sra. reforçando o compromisso de adesão. são bantus. eles a associaram ao culto anteriormente prestado ao orixá40 Ifá. Sra do Rosário no Brasil. E outra de pretos forros e escravos de Lixboa. as contas dos rosários não eram constituídas por esferas polidas e iguais. 2007 . E a confraria de nossa Senhora do Rosário repartida em duas. em Pernambuco. Cabinda e Moçambique. p.39 No Brasil.41 Geralmente. são mandingas. Para essa irmandade de Recife em Pernambuco o critério de nação entre os irmãos fica muito claro na documentação. o mais provável é que a primeira irmandade de N.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII confraria de Jesus regida por pessoas nobres E principais cidadões. Quanto à devoção à Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos que nos Guayazes. especificamente. a devoção a N. são haussás. começavam com uma exortação. 126-127) . a saber. são jejes. no Recife do período do reinado de Afonso VI. São nagôs. são tapas. hua de pessoas honrradas. são fulas. era composta por africanos e crioulos e certamente tomaram como modelo a já centenária irmandade congênere de Lisboa. período do reinado de Afonso VI (1643-1683) de Portugal. pois o critério de união não é a nação e sim a procedência dos cativos que faziam parte da irmandade de N. como se fosse um colar. Assim. do Rosário entre os cativos surgiu à volta de 1662 a 1668. soltas ou unidas em forma de rosário as nozes duma palmeira africana chamada OKpê-lifá. Angola. dentre outros. Segundo Tinhorão. cuja devoção visava. mas por pequenas rosas esculpidas em madeira (1988. O de Vila Boa é diferente dos “Termos” 221 jul. O mesmo não podemos afirmar para a Capitania de Goiás. Sra. podemos analisá-la a partir do estudo de seus “Termos de Compromissos”.

(. do Rosário. 11 irmãos escrivãos e 8 tesoureiros letrados se revezaram no exercício dessas incumbências. os quais “desde o primeiro dia em que nella se assentarem por serviço da mesma Senhora. está escrito que confraria e irmandade é a congregação de muitas pessoas que se sujeitam voluntariamente ao serviço de Deus e de Sua Mãe Santíssima.. Entretanto. e ainda a aquelles que pela sua desgraçada conducta. São Jose do Tocantins e Trairas.. VIII. Crixás. ao especificar que as irmandades. ao contrário das confrarias. são as mais eficazes para a conservação dos Louvores dos Santos aos quais se consagram “e(. vol.42 Nos outros.) o modo mais concernente para conduzir novos devotos a esta pia congregação e que pela intercessão da Virgem Mãe e Senhora do Rosário na vida eterna.. embora admitisse que brancos pudessem ser devotos de N. só aceitava pessoas de cor e escravos como membros. Essa Irmandade em geral.como May de mizericordia a todos os seus filhos e dovotos. passando a aceitar brancos como irmãos. após.Cristina Cássia Pereira Moraes dos arraiais de Pilar. ficão sugeitos atoda a Ley deste compromisso”.. reformulou o seu “Termo”. todos os irmãos e irmãs colherão o fruto da Bem-aventurança”. o que denota uma condição sócio-cultural melhor dos pretos escravos da Vila43. 1803. mercês e favores que cada instante esta.. Goiânia. a de Vila Boa.) e depois de terem também nesta irmandade participado os copiozos prantos e incomprehensiveis benefícios. n° 15 . della senão lembrão e a mesma Senhora para os favoresser e amparar de tudo se esquece. se comparada com a dos que viviam no interior da Capitania: Ao primeiro de Mayo de mil e sete centos e setenta e cuatro na Igreja de Nossa Snra do Rozario dos pretos da Vila Boa dos Guayazes estando congregado o escrivam que prezidia pelo 222 Revista Brasileira do Caribe. e só se lembra deque todos forão remidos com o infinito preço de sangue de seu unigênito Filho. Conforme os dados registrados nos “Termos de Mesa” que pesquisamos. entre 1748-92.Sra..

um escrivão. o seu voto decidiria a celeuma..44. No caso da Irmandade de Crixás está explicitamente escrito: Como nosso estado e condição dificulta haverem pessoas capazes e inteligentes para servirem as occupaçoens de escrivão e thezoureiro.46 Essas irmandades construíram suas próprias capelas com as esmolas arrecadas com os irmãos./dez. um juiz e uma juíza. mas assim mesmo se a Irmandade não quisesse aceitá-los serão “nomeados homens pretos para exercerem os ditos cargos” 45. O Reverendo Capelão podia assistir às reuniões e. um procurador. um tesoureiro. dos seus senhores. 102). grassava entre os escravos que aí viviam (GAETA. acentuadamente. 48 Todos os irmãos escolhidos para desempenhar os mencionados cargos. 2007 .Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Irmão juiz. tanto por motivos administrativos e financeiros. tinham de obter “o seu beneplácito e consentimento da Eleição e cargo que os seus servos forao nomeados. um andador. porque rejeitando o que a mesma Senhora não hade permitir. doze irmãos e doze irmãs de mesa. se procederá 223 jul.se propoz que o dito escrivam permanessese no cargo posto ser o mior para a função q exerce juntoa Seu Senhor de caixeiro de fazendas secas dominando as letras e contas. no ano em que estivessem ocupando cargos não pagavam anuais. em caso de empate na votação sobre alguma determinação. encontrando-se todas com “a devida dessencia e ornato que se precisa” sem ajuda da fábrica da matriz. sirvão dous homens brancos debom nome e inteligência para o governo e direcção da Irmandade em quanto não houverem homens pretos com sufficiencia para os referidos cargos. p... de Trairas e de Pilar um rei e uma rainha. 1995.47 Compunham a mesa da Irmandade do Rosário de Vila Boa. Os irmãos pagavam duas oitavas de entrada e uma de anual.. um zelador. as Irmandades dos mencionados arraiais. quanto por causa do analfabetismo que. De fato. aceitavam brancos apenas como oficiais escrivão e tesoureiro “por não dominarem as letras”.

se não quitassem seu débito em três anos. o tesoureiro e o procurador nada pagavam “pelo grande trabalho que tem nas referidas occupações”. face ao motivo supra-citado. sua anuidade. O rei e a rainha pagavam a anuidade de vinte oitavas cada um. Irmãos e irmãs votavam secretamente e. Em caso de empate. geralmente. por exemplo. um tesoureiro. a qual.51 Aos fiéis pagadores. expirado o prazo. aquele que tivesse obtido mais indicações para cada posto. abriam-se exceções. apurados os votos. o tesoureiro. bem como pela dedicação da pessoa ao exercê-lo.50 Compunham a mesa da Irmandade de Crixás e de São José do Tocantins um rei e uma rainha.Cristina Cássia Pereira Moraes a nova eleição”49. um escrivão. seriam convocados perante a mesa para acertarem a quantia devida no próximo ano. Os 24 irmãos e irmãs de Mesa pagavam três oitavas cada um e os demais irmãos. era o eleito. o juiz e a juíza pagavam dezesseis oitavas. ocorria na oitava de Pentecostes. o escrivão. continuassem devedores. Embora a reeleição para tais cargos fosse proibida. o procurador e o andador nada pagavam. As eleições para os citados cargos eram realizadas na véspera da festa de Nossa Senhora do Rosário. exceto se o procurador justificasse que o devedor vinha passando por algum infortúnio e a mesa deliberasse postergar a quitação da dívida por mais um ano. O escrivão. designados por irmãos rasos pagavam uma oitava de ouro. VIII. n° 15 .52 224 Revista Brasileira do Caribe. o que obrigava as Irmandades a tomarem algumas providências. O procedimento em todas as Irmandades era bem simples. era justo que “selhe facão todos os suffragios por sua morte”. Aos escravos que obtivessem a alforria e fossem devedores “deva cobrar executivamente”. que muitos dos demais irmãos de compromisso não pagavam “religiosamente”. Se. vol. O rei apresentava à mesa três pretos capazes de exercerem o ofício de rei e demais cargos. A anuidade cobrada para se exercer os 4 principais cargos era de 24 oitavas de ouro. Goiânia. dois procuradores e doze irmãos de mesa entre homens e mulheres. Constatou-se na documentação examinada. o rei decidia com o seu voto. um juiz e uma juíza. seriam expulsos. prevendo-se até um interstício de 3 anos.

dançavam suas próprias danças próprias e cantam suas músicas ancestrais misturadas com as letras de cantos católicos (SCARANO. Sra. rezar pelos benfeitores da Irmandade e acompanhar à sepultura os irmãos falecidos. por auto-iniciativa. à de São José do Tocantins. à de Crixás. Constam de todos os “Termos de Compromisso”. cujo valor era de “hua oitava do que tudo se ajustar”54. no que concerne à de Vila Boa. eleito pela mesa. Aliás. delas já participavam revestidos com todas as insígnias de Majestade53. arregimentar um número maior de associados e convocar as 225 jul. tinha as seguintes obrigações: rezar missas pelos irmãos falecidos. em 1 de janeiro. sempre estarem junto ao altar-mor. com o pagamento de uma multa pecuniária. se viesse a fazer isso. 44-46) . sem a autorização da mesma e. 2007 . seria penalizado./dez. do Rosário. o juiz também tinha os encargos relevantes de cuidar da boa paz e sossego entre os irmãos. Era-lhe proibido modificar o “Termo” da Irmandade. como o ritual da coroação de seus reis e rainhas. na continuação das festividades. todos os sábados. que o capelão da Irmandade. apesar de se vestirem à maneira do branco. vestiam-se com as opas brancas. entregava-os ao sacerdote pregador da festa que os proclamaria após o sermão em louvor a Sra. os quais. a ponto de. p. se tributavam homenagem e respeito. no tocante à sua remuneração pelos serviços religiosos que tinha de prestar. Quanto aos deveres dos dirigentes dessa Irmandade. rezar o terço aos domingos. Somente na de Vila Boa. os reis e rainhas. por isso mesmo. no dia seguinte. rezar a Ladainha de N. no interior de suas comunidades ocupavam posição eminente e. foi nas festas dessa Irmandade que os escravos mantiveram um bom número de seus antigos costumes e tradições. 1976. à de Trairas e à de Pilar. posto que é o dia consagrado em seu louvor. nas celebrações religiosas. o juiz e a juíza vestiam-se com opa e portavam a vara e. os juízes e juízas tinham de “tirar esmola com a Bacia”. na Vila e arredores e nos arraiais e adjacências. começo do ano novo. Ademais. o rei e a rainha. No outro dia.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII O capelão guardava os resultados consigo e. os demais oficiais.

Num desses livros. radicada nos arraiais analisados. os ornamentos e as alfaias pertencentes à mesma. Livro da Fábrica . cujas incumbências eram guardar e anotar nos livros apropriados. o tesoureiro exercia suas atribuições. prática essa comum entre demais irmandades. Estavam obrigados a cuidar do asseio da capela e. defendellas. depois. Entretanto.“ E concede ao thezoureiro e Procurador os poderes em direito necessarios para todas as dependencias da irmandade em Juizo e fora delle e para intentar cauzas. com a ajuda do escrivão. firmavam o “Compromisso”. no seu impedimento. Do “Termo de Compromisso” da irmandade. ao procurador. ao seu ingresso. em caso de falecimento ou ausência de algum irmão. consta a proibição de o tesoureiro não poder emprestar a ninguém nem ouro nem os bens pertencentes às mesmas. da lavagem das alfaias utilizadas na celebração da missa e das opas dos demais irmãos. conforme orientação do tesoureiro. inclusive. aqueles provenientes das “esmolas de bacia” e outras mais. Goiânia. radicadas nos arraiais. “declarava por cota ao pé do mesmo assento todos os annuais” devidamente registrados. n° 15 . vol. cuidar. o escrivão registrava as eleições e “accordaons” ou termos de mesa. apresenta algumas peculiaridades em relação ao da Vila e as outras. limpar e inventariar em livro apropriado. uma espécie de ata do que havia sido discutido e decidido em reunião. Apenas a de Crixás delegava poderes de “fato e direito”. os bens. fazer procurações e segullas até mayor 226 Revista Brasileira do Caribe. os rendimentos da irmandade. Em todas as Irmandades. por exemplo. primeiro ao tesoureiro e. vistas nos capítulos anteriores. Num terceiro livro.Cristina Cássia Pereira Moraes reuniões necessárias ao bem da irmandade.55 Noutro. O terceiro cargo em importância nas Irmandades do Rosário era o de tesoureiro. o irmão escrivão era o responsável pela guarda e conservação dos livros de registros da irmandade. bem como. administrar as obras de construção ou de restauração sob encargo da mesma. inclusive. anotava as receitas e despesas da irmandade. o cargo de irmão procurador dessa Irmandade. o escrivão anotava o nome dos irmãos que. Ele ocupava o segundo cargo mais importante da mesma e. VIII.

bem como “passará recibo do dinheiro q receber dos alugadores das cazas e apresentar em Meza o q se fizer preciso”. 2007 . estando o escrivão 227 jul. aggravar. a partir dum acontecimento estreitamente vinculado às práticas religiosas sincréticas dos pretos. determinou que o procurador não consentisse que tal fato continuasse a ocorrer na “irmandade irmã porque os envolvidos seriam remetidos aos seus Prelados para que este os corrigissem como mereciam”. que ressalta a importância do cargo de procurador da Irmandade do Rosário da Vila. o procurador da Irmandade de Vila Boa a representava junto ao Tribunal da Real Fazenda. registrado no Livro de Termos de 1791. que o procurador Manuel Gomes Alvarez admoestasse os irmãos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Crixás a respeito de um ofício emitido pelo Padre José Maria Santana Fernandes sobre as “dansas supersticiosas que os ditos pretos divididos em Nasçoens e com instrumentos proprios de cada hum. no tocante às demais. no mínimo curioso. as responsabilidades do procurador. diz respeito à condição dum pretinho escravo oferecido à Nossa Senhora do Rosário: Aos trinta dias do mes de setembro de 1759. tendo os direitos de “appellar. Os irmãos deliberaram e decidiram em reunião. embargar e seguir a sua justiça ate mayor alçada”. equivalia às incumbências dos zeladores. no “Juízo de Órfãos e Auzentes”. Também devia cobrar a anuidade dos irmãos devedores. conforme tivemos a ocasião de ver. face ao motivo que aludimos antes.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII alçada”.56 Ora.58Outrossim. por razão análoga. tratando de outras Irmandades. para que no Livro dos Assentos para não só anotar o falecimento de algum irmão.57 Pode-se notar a ligação e a ascendência da Irmandade do Rosário da Vila sobre as demais congêneres. dansão com diversos movimentos do corpo”.59 Um outro fato. No entanto. com idêntica devoção. bem como ajudar o irmão escrivão./dez. como nos arraiais homens brancos “ornados e de bons costumes” ocupavam os cargos de escrivão e de tesoureiro.

Quanto aos demais irmãos de “mesa” das irmandades em apreço. as Irmandades devotas dum mesmo orago.Cristina Cássia Pereira Moraes e mais irmaons da meza do anno nesta Igreja de Nossa Sra do Rdo de Villa Boa dos Guayazes. porquanto apenas ele tinha competência para fazer “o mais em que se precisa especial e geral mandado de representação”61 e o moleque ou podia ser reivindicado por algum suposto dono. por ventura se fizessem necessárias. tinham as obrigações de zelar por tudo o que condissesse ao bem e ao aumento da irmandade. ainda constatamos algumas particularidades que convém destacar. E tomados os votos assentarão q. a saber. 62 Só na Irmandade da Vila havia o cargo de zelador. antes. Goiânia. Ambos os documentos reforçam nossa tese.64 Finalmente. para além desse 228 Revista Brasileira do Caribe. igualmente. de acordo com a qual. em caso de eventuais modificações que. n° 15 . se propoz o que faser com hum cabrinha dado a Nossa Sra do arraial de S. eleitos para a mesma. Jozé. de bons costumes e bastante devoto. somente o procurador podia ser incumbido desse ônus. pois. estavam ligadas à da Vila. por maioria dos votos dos irmãos. como tivemos a ocasião de verificar. nos relativos às dos arraiais. da leitura e análise de todos os “Termos de Compromisso” das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. existentes nos arraiais. se prometia ao prezente. de usarem a opa branca em todas as cerimônias que a mesma tivesse de estar presente. tentar fugir. concernentes à legislação e ao compromisso.63 Devia. VIII. No concernente à Irmandade da vila. Era um assalariado da irmandade e escolhido em mesa. cujas incumbências principais consistiam em guardar as chaves da capela e cuidar do seu asseio bem como de seus ornamentos e guisamentos. ou pertencer a algum espólio de herança ou. tratando de outras Irmandades. se não vendesse e só o deixassem tomar carne para depois o vender por mayor quantia q. ser um homem probo.60 De fato. vol. de onde partiam as normas e resoluções pertinentes aos interesses comuns de todas elas. não há um capítulo sobre como proceder. ainda.

Entretanto. tendo sido apenas irmãos de devoção que. a Irmandade da Vila passou a aceitar irmãos de qualquer idade. igualmente. ao menos teoricamente./dez. por esse motivo. sobre a Irmandade do Senhor dos Passos de Vila Boa. Em seu Livro de Receitas e Despesas.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII capítulo. conforme vimos no capítulo anterior. se sujeitavam.65 Posteriormente. parece inegável que a sua presença representava uma forma de controle sobre os escravos. por “estado de pobreza”. terão à celebração de duas missas por suas almas. sexo ou condição. pensamos que. o texto frisa que os negligentes com seus deveres pecuniários não gozarão desse favor. tendo em vista a devassa aberta contra os mulatos da Irmandade de São Benedito. 2007 . No entanto. Quais os motivos que levaram os brancos a ingressarem nessa Irmandade após 1805? Como observa Scarano. o que pode ser aceito como hipótese. aquela Irmandade passasse a usar a capela do Rosário dos Pretos. a presença de brancos passa a ser preponderante. terá contribuído para aumentar o número de devotos de Nossa Senhora do Rosário. esse fato contribuiu para que. Há ainda um outro capítulo sobre os sufrágios pelos irmãos que. como a igreja Matriz continuava a ruir aos poucos e era necessário encontrar um outro lugar para a celebração do culto. quando vierem a falecer. em determinadas ocasiões. os quais. às leis da Irmandade. os irmãos observam: “que as vaidades do tempo são impessptiveis (sic) ao entendimento humano e pode acontesser a estas minas cresserem ou deminuirem as riquezas em que seja necessario deminuir ou agmentar as Leys do compromisso”. o 21º. embora não deixassem de invocar para tanto razões piedosas. já no início do século XIX. o que. certamente. deixaram de pagar suas mesadas.66 229 jul. conquanto isso não tenha implicado em que eles tivessem passado a ocupar os cargos de direção da mesma. como os outros.

no século XIX. Do Rosário no início do século XIX. Sra. vol. “Das diferenças raciais passa-se pouco a pouco a uma acentuação maior das distâncias sociais independentes da cor da pele e ao aumento de pretos e pardos livres”. Goiânia. VIII. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N.S. Sra. doRosáriodosPretos deVilaBoanoiniciodoséculoXIX 30 25 20 Pretos liv res 15 10 5 0 1800-04 1805-09 1810-14 Pardos liv res Brancos Gráfico 8 – Devotos de N. foi adquirindo novas características.Cristina Cássia Pereira Moraes DevotosdaIrm andadedeN. 129-142) 230 Revista Brasileira do Caribe. a Irmandade já não conservava a antiga rigidez e. gradualmente. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1816). n° 15 .(SCARANO. 1975. O fato é que.

MAGGIE. 5./dez. 1998. In: MAIO. Os irmãos cativos que não conseguiam obter a liberdade. v. Helio. Yvonne. passaram a pertencer às Irmandades que aceitavam os forros. Ricardo Benzaquén de. Roberto. Racismo e anti-racismo no Brasil. apesar de desfavorecidos. In: NOVAIS. SANTOS. quanto de um relativo otium cum dignitate Notas 1 Para entender as relações raciais historicamente construídas no Brasil consultar os descritores que analisam: 1. bem como os seus Livros. VALE E SILVA. 4. sempre foram elogiados pelos Visitadores eclesiásticos que reconheciam que. instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. Antiracismo: coletâneas de leis brasileiras (federais.a questão de anti-racismo: GUIMARAES. Aqueles a quem foi negada a cor do dia: as categorias cor e raça na cultura brasileira. Relativizando: uma introdução à antropologia social. 1994. demonstrando um desejo de se igualarem aos forros. (Org) Estratégias e políticas de combate à discriminação social. Marcos Chor. Antonio Sergio Alfredo. por exemplo. quanto aos ex-escravos alforriados pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. L O espetáculo das raças: cientistas. Nelson 231 jul. 6. Rio de janeiro: FIOCRUZ/CCBB.as questões historicamente construídas entre mestiçagem e branqueamento: SCHWARCZ. Por isso. pp. Fernando (Coord. mantinham suas capelas em grande ordem e limpeza. Guerra e paz: Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo/ Editora 34. 1993. 1999. São Paulo: Editora Oliveira Mendes. 225-234. pp. 1996. (Org. Lilia. São Paulo: EDUSP. tanto do ponto de vista dos recursos econômicos.A questão da cor: SCHWARCZ. 173-244. Nem preto nem branco. 1996. Kabengele.a questão do mito fundador das três raças: DA MATTA. a de Nossa Senhora das Mercês e a de Santa Efigênia.) Raça. 2007 . Ricardo Ventura.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Enfim. SILVA JR.a questão da democracia racial: ARAUJO. a de São Benedito. São Paulo: Companhia das Letras. competiam em igualdade de condições com pessoas mais bem aquinhoadas pela sorte. 2. muito pelo contrario: cor e raça na intimidade.) História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea.a questão da invisibilidade do negro em espaços sócioculturais e políticos: MUNANGA. ciência e sociedade. Rio de janeiro: Rocco. 1998. Rio de Janeiro: Editora 34. 3. estaduais e municipais). 1987.4. São Paulo: Companhia das Letras.

vol. London: MacMillan University Press. p. Visita à História Contemporânea. o maior era formado pelos ovimbundos. n° 15 . São Paulo: Companhia Editora Nacional. The Idea of race in science: Great Britain 1800-1960. Rio de Janeiro: s. Na maior parte dos registros há um acentuado número de escravos de Moçambique nas primeiras décadas do oitocentos para Goiás. Florentino (1997) observa que entre 1701 e 1800 foram exportados mais de dois milhões de cativos para as Américas. O segundo maior grupo era formado pelos quimbundos e o terceiro era formado pelos bancongos que ocupavam os territórios de Cabinda e as províncias do norte do país. 6 A respeito do tráfico. 1982.567. 3 Instituto de Pesquisas Históricas do Brasil Central doravante lPEHBC: Livro do Registro de Óbitos. 67-80. 2005. nos termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Raimundo Nina. STEPAN. Cuba e os Estados Unidos. v. 588: grave seca que ocasionou além de fome. rolos 10.1-13.Cristina Cássia Pereira Moraes do. v.. Arquivo do Museu das Bandeiras doravante AMB: Impostos e Dízimos. HERNANDES.H. 4 RODRIGUES. 5 Nas matrículas oficiais de escravos pesquisadas por nós. 1977. novas invasões de povos do interior do continente e o aumento do tráfico internacional de escravos para o Brasil. A África na sala de aula. pp. Uma nota sobre raça social no Brasil. Nancy. p. 5º ed. Em 1783 registrou-se 17613 escravos e 40% são nagôs. Estudos Afro-asiáticos. devido a uma desestruturação interna na região tais como observa HERNANDES. Os africanos no Brasil. pp. 232 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. registros de batismos e inventários encontramos entre os anos de 1750 e 1783 um aumento substancial no tráfico de escravos nagôs para Goiás. epidemias e grande número de mortos. Leila L. falavam a lingua umbundo e ocupavam principalmente a província de Benguela no planalto central de Angola. VIII. nº 26. 2005.11 e 12. bem como. São Paulo: Selo negro. Em 1750 a Capitania possuía 14.e. Livro 329.437 escravos e apenas 10% são nagôs. Arquivo Histórico de Goiás doravante AHG: Documentos avulsos: códice 1129.5. da USP. In: Microfilmes do C. avulsos: Termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos 17381792.D. 1803-1810. Arquivo Frei Simão Dorvi doravante AFSD: Doc. 2 Dos grupos acima citados. 98-120. 1994.

Transformations in the American Diáspora. Uma segunda rota para os comerciantes da Bahia passava pelos registros de São Domingos ou Lagôa Feia a Meia Ponte e. 1780-1835”. 53. 10 (KARASCH. a Vila Boa ou a Natividade. 127). 1808 -1850. Princeton University Press. Princeton. São Paulo: Companhia das Letras. p. p. 1792-1799. 24 junho 1768. 1992. de seu livro intitulado Central Africans and Cultural. Mary C. Mappa de Contagens de Escravos. Outrossim. op. 1767. Códice 15: Capítulo 16. Mary Karasch. Flávio dos Santos. no interior de sertão da Bahia. 162. p. Cit.117151. foi de primordial importância para nossa pesquisa o capítulo “Central Africans Central Brasil. Capítulos da Visita: “Por ser obrigação nossa e do Officio Ecclesiastico Ordinário mandamos ao Vigário Ouvidor da Vara q hé e ao diante for nesta Vila q chegando aqui algum Navio ou barco de qualquer parte q venha o vá visitar como se faz em todos os portos de mar do reyno e saiba a gente q traz e de q religião e Nação são e q livros trasem e sendo depois da quaresma se se hão desobrigar no lugar donde vem”. finalmente. Depois. nota 13. In: REIS. na Cidade de Goiás e foram compilados por nós e pela Dra. 1987. 9 Agradecemos à professora Mary Karasch que gentilmente nos propiciou todos os dados sobre os escravos na Capitania de Goiás. aonde eram contados e registrados. e AHU: caixa 24. 2002. 242. Slave Life in Rio de Janeiro. p. Cruzava o Rio São Francisco em Barreiras. eram conduzidos a São Félix e. “Os quilombos do ouro na Capitania de Goiás”. 11 O número de cativos advindos para a Capitania de Goiás por essa rota em 1767 foram 1. Karasch. A rota percorrida pelos cativos de Salvador para Vila Boa passava Cachoeira. prosseguia até o registro do Duro. 2002. posteriormente. (Org) Liberdade por um fio. 12 Os registros de batismos e óbitos se encontram no Orfanato São José. 336. Karasch. nº 13. AFSD: Documentos avulsos: Cartório do Primeiro Ofício. p. 22 de Ju1ho 1793. Cambridge University Press. NJ. p.. 100-101.208: Mary C. História dos quilombos no Brasil. 8 Censos de 1779: “Tabela 1: População da Capitania Goiás em 1779./dez. GOMES. 1996. 233 jul. 2007 . England.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 7 Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do tombo doravante IANTT: Mesa de Consciência e Ordens: Secretaria do Mestrado da Ordem de Cristo: Papeis do Brasil: Jurisdição Eclesiástica no Brasil.123 e entre 1791 e 1799 foram de 1. chegava a Vila Boa. documento 1518. e p. João José. Gilka SALLES.

Goiás.Cristina Cássia Pereira Moraes 13 Biblioteca Nacional de Lisboa doravante BNL: Reservados 1972 5v: Breve do Papa Benedito XIV sobre escravidão dos índios do Brasil. livro 3. despojallos de seus bens. ou dallos separallos de suas mulheres e filhos. se achão agora principalente nessas regiões do Brasil homens que fazendo profissão da Fé Católica vivem tão inteiramente esquecidos da Caridade insufa pelo Espirito Santo nos nossos coraçoens e sentidos que reduzem a cativeiro vendem como escravos e privão de todos os seus bens não só aos miseraveis indios que ainda não allumiou a luz do Evangelho.. Goiânia. folha 17v e 1775.(. 1764. (.. vol.... 234 Revista Brasileira do Caribe.) mandeis afixar Edictos publicos pelos quaes apertadamente se prohiba debaixo de Excomunhão late sentente (. 1777: códice 1814: Capítulo 3. 17 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. (.) 14 Arquivo Geral Diocese de Goiás. 16 Arquivo Histórico Ultramarino doravante AHU::Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás.169v. comprallos. p. mas até os mesmos que já se acham batizados e habitão nos Sertoens do mesmo Brasil. tudo o referido não obstante.1792: Termo de concentimento da Irmandade sobre a quartação do irmão Francisco. que os sujeitassem a escravidões e que lhes maquinasse ou fosse dada a morte. n° 15 ..) se atreva. nem attente daqui em diante fazer escravo os referidos indios. PIBIC-UFG – 2001-2003.. que fossem metidos em cárcere. p. Orfanato São José. Batizados. Parágrafo 6º. VIII. levallos para outras terras. prohibindo debaixo de severissimas penas e censuras ecclesiásticas que se lhes fizessem injurias que se lhes dessem açoites. e fazendas.) e depois das constituições em que ordenarão que se devião socorrer os infieis no melhor modo. trocallos.134 e 134v. transportallos ou por qualquer modo privallos da sua liberdade e retellos em escravidão. 1794 -1834. vendellos. 1748. 20 de dez 1741.. 15 Todos os dados referentes ao Livro de Óbitos de Meya Ponte foram transcritos pela estudante do curso de Historia da Universidade Federal de Goiás Maria Lemke Loiola.

mãe. (BELLINI. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. 113. que têm posses. 1988: 80). páginas 112b. pp. A alforria era um ato jurídico pelo qual o senhor por sua vontade concedia liberdade ao escravo. liberta a criança “achada” pois presumidamente é livre. 23 Livro de notas. Maria Augusta de S. autorizando a liberdade dos “escravos de nação”. 19 MORAES . 24 A historiadora MATTOSO. eram crianças ou obtiveram a liberdade. isto é. 64.113b: 22 O fato de um escravo ser criança deve ter favorecido a conquista de afeto e atenção especial dos senhores.. “ O Abolicionismo em Goiás. madrinha.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII folha 32. marido. O ex-cativo passava a ter capacidade jurídica e passava a exercer diversos direitos anteriormente inexistentes. acorram em auxílio do parente incapaz de juntar o dinheiro necessário à sua libertação. 1988: 80). 20 Somente no século XIX. 18 O termo alforria é uma palavra oriunda do árabe ah-horria que significa liberdade do cativeiro. p. 2000: 15). em nome dos cuidados que receberam desde pequenos.659-695. irmãs. já adultos. irmãos. (BELLINI. se um dos membros do casal é livre. a legislação definiu algumas normas que influenciavam na aquisição das alforrias. libertando também o cônjuge legal de um casamento./dez. 2007 . liberta o escravo que encontra um diamante de grande valor e a mesma graça é concedida ao escravo que denuncia seu senhor contrabandista ou fraudador 21 AFSD: Documentos avulsos: Inventário do Capitão Francizco Pr ª Mendez . avós. Os escravos alforriados por terem sido criados pelos donos. os escravos que pertenciam a toda nação por haverem chegado ilegalmente após a abolição do trafico em 1850. ou ainda eram crianças ou obtiveram a liberdade. muitas foram beneficiadas pela fidelidade da mãe aos proprietários.observa que pai.” In: Anais do VI Simpósio Nacional da ANPUH. (LEITE. Além disso. Exemplo: José Antonio da Silva abaixo assignado declara possuir entre os seus 235 jul. mas cujo senhor parece disposto a alforriálo. já adultos. para ele. Cartório do 1º ofício de Vila Boa de Goiás. 1973. São Paulo: Marco Zero/ANPUH.

p. Cf: SILVA. tít. que evitavam os sacramentos e demais cerimônias sacras não por convicção ideológica. parag. muitas vezes incluindo em seu cotidiano “sincretismos” heterodoxos. Letícia V. vol. livro 4. mas por indiferença e descaso espiritual. Goiânia. introdução do tít. tít. referindo-se ao “panorama” religioso do Brasil. 81. Maria Banguela. Vagner G. p. “católicos praticantes autênticos”.Cristina Cássia Pereira Moraes bens uma escrava de nome Felicidade de 20 annos. lhe concedo a liberdade pelo amor que lhe tenho. e por desejar manifestar o reconhecimento pela dedicação prestada e reconhece a escrava como legitima filha. livro 4. (1997: 175). 28 Ibidem. libertinos e ateus que apenas por conveniência e camuflagem. parag. 56. p. 25 IPHBC: Livro do Registro de Óbitos. “Símbolos da herança africana.195-210. Ensaios sobre a Cultura e Escravidão no Brasil.) Negras Imagens. 18 de março de 1793. para evitar a repressão inquisitorial. 4. classificou os colonos da seguinte maneira. liv. livro 4. Rita de Cássia. boa parte dos cristãos-novos. concedendo sua liberdade de hoje para sempre. 30 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de N. animistas. introdução do tít. 81. São Paulo: EDUSP. faz referência a esse documento. parag. 29. “pseudocatólicos”. do Rosário de Villa Boa. que cumpriam apenas os rituais e deveres religiosos obrigatórios. 2002. fl. 236 Revista Brasileira do Caribe. (Org. 3 e livro 4. 92. 102. 32 Sobre o tema. Lilia Moritz e REIS. mais como encenação social do que com convicção interior. 85. 1748-1792. (1995: 191). n° 15 . fl. 1. freqüentavam os rituais impostos e controlados pela hierarquia eclesiástica mas que mantinham secretamente crenças heterodoxas ou sincréticas. da e AMARAL. que aceitavam convictamente os dogmas e ensinamentos impostos pela hierarquia eclesiástica. 31 QUINTÃO Apud. 102 e 102 v. “católicos displicentes”. KARASCH. VIII. 1996. Por que o candomblé ?” In: SCHWARCZ. 4. de S. 146. os católicos praticantes superficiais”. Luis MOTT. 27 Ibidem. 1803-1810. 26 Ordenações. tít. filha de sua escrava Delfina. 29 Ibidem.S.

A. MS. 17. 1986.145. R. São Paulo: Huicitec. s/d (Feito Creca de 1551 segundo cardeal Cerejeira.30: Petição dos confrades e irmãos da antiga irmandade de confraria da madre de deos. 34 Sobre essas análises ver: LAHON. A paz nas senzalas. OTT. 38 IANTT: Livro de São Domingos.147. L. São Paulo: Ática. 36 Ibid. Brasília: EDUNB. “A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Pelourinho”. In: Clenardo e a sociedade portuguesa do seu tempo. nº 4./dez. RUSSELL-WOOD. São Paulo: Companhia Editora Nacional. Germão Galhardo. Manolo e GOES. 160. 1987. L. São Paulo: Pioneira. 1968. Devoção e Escravidão. 1980. 35 IANTT: Livro de São Domingos. Roger. Esclavage et Confréries Noires au Portugal durant l’Ancien Régime (1441-1830). In: Revista Afro-Asia. As Religiões Africanas no Brasil. 39 OLIVEIRA. Slave in Rio de Janeiro 1807-1850. Mary. 237 jul. “Black brothers and sisters: Membership in the black lay brotherhoods of Colonial Brasil”. 1974. nº 6-7. Caio C. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Santuário Mariano. 1971.. 1707 a 1721. 37 Frei AGOSTINHO DE SANTA MARIA. Carta dos Mordomos e irmãos da antigua confraria da madre de Deos. SCARANO. O Sumário foi publicado também em 1755. 143. MS.” In: Hispanic America Historical Review. (Tese de Doutoramento). Os leigos e o Poder. nº 2. In: Luso-Brazilian Review. MULVEY. E. J. Christovão Ruiz Rodrigues de. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.30. 1997. BASTIDE. 2001. P. p. v. Didier. “Black and mulatto brotherhoods in Colonial Brasil: A study in collective behavior. Lisboa: Pedrozo Galvão. Patrícia A. Julia. também em 1939 pela editora Casa do Livro e em 1987 pela editora Livros Horizonte.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 33 Entendemos a circularidade como uma interpenetração de diferentes elementos culturais a partir dos estudos de Mikail Backitin. 2007 . José Roberto. de Lisboa. p. 54. p. FLORENTINO. Paris: Ecole Des Hautes Etudes En Sciences Sociales. v. winter. MS. BOSCHI. 1976. KARACH. 1987. Sumario em que brevemente se contem algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa. O contexto de François Rabelais. Cambridge: Cambridge U. p. Carlos.

pois arrematava obras e possuía dois escravos e serviu por sete vezes. João. Goiânia. escravo do Vicentinho. temos como escrivãos.1792: como exemplo. ou seja. é reconhecido como um guia. de São José do Tocantins. era o caixeiro da loja de fazendas secas. escravo do Capitão Dantas. vol. AFSD: Documentos avulsos Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. 45 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. 1748. Era um pedreiro empreendedor. seu Senhor Vicentinho. o qual também era Alferes. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. por ocasião da entrada de algum membro. 1748: Capítulo 1: Composição da Irmandade. Theodosio. era um compromisso moral e ético assumido por todos os que eram aceitos para participarem da irmandade. como tesoureiro: Francisco. 1777: Parágrafo 2º. 238 Revista Brasileira do Caribe. Termo sem titulo legível: página 16. em vida. o qual serviu por quatro vezes. que serviu por seis vezes. 41 Documento lido pela irmandade em reunião fechada com os irmãos. n° 15 . 46 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. escravo de Anna Paes. escravo do Tenente. escravo do Alferes Jose Manoel. Leonardo. sem especificar o nome dele.Cristina Cássia Pereira Moraes 40 Orixá entre os iorubas e nos ritos religiosos afro-brasileiros significa a personificação ou deificação das forças da natureza ou ancestral divinizado que. Luiz. 1762:Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. que serviu por nove vezes de escrivão e tesoureiro. obteve controle sobre essas forças. VIII. 1796. serviu três vezes. 44 Ibid. 1762: Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. Gregorio da Costa serviu por quatro vezes e não aparece sua profissão e somente em um termo de mesa há referência ao seu senhor. Coronel Joze Boiz. (a data de ereção é de 1734) 43 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. 42 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa.

AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. thesoureiro. as mais antigas referências documentadas sobre as solenidades de coroação de Rei do Congo. 53 No Brasil. (TINHORÃO. sob responsabilidade da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário aparecem nos livros de despesa e receita. 1777: Capítulo 4º. 1777. referindo-se ao Rei dos Angolas: os portugueses. 1762. no Recife. 1796. procurador. Crixás. 49 Ibid./dez. 2000:88) 54 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Capítulo 2º: Da mesa e suas atribuições. passaram a englobar sob o nome de Angola tudo o que antes se sujeitara ao poder africano vencido no Manicongo. Capítulo 4: Das obrigações dos officiaes escrivão. à volta de 1674 a 1675.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 47 Infelizmente. 48 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. Trairas e São José do Tocantins para sabermos o número de irmãos que participavam das associações de pretos. AFSD. Documentos avulsos Termo de 239 jul. Capítulo 5. 1796. AFSD. não temos todos os dados dos termos de assento das irmandades dos arraiais de Pilar. 50 Ibid. após duas guerras contra os reis do Congo em 1656 e 1666. 1777: Capítulo 4º. Capítulo 3º: Da nova eleição dos officiaes. Capítulo 15. 52 Ibid. parágrafo 5º. 2007 . Capítulo 4º: Das mezadas e sua aplicação.: Parágrafo 4º e 5º. 55 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 51 AHU: códice 1814:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. Documentos avulsos.

AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. 62 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 1748. Villa Boa. 61 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. Capítulo 14. 1748-1792. Capítulo 10. 1796. Capítulo 10. n° 15 . 1777: Capítulo 4º. fl. 42. 1796. 1762. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas.1762. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. Capítulo 5: atribuiçoens do escrivão. Capítulo 5: Das obrigações dos irmãos. Documentos avulsos. 58 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos. 56 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. ao serviço divino 64 AFSD. Goiânia. 63 Guisamentos são utensílios e alfaias necessários ao culto. parágrafo 1. parágrafo 3º. fl. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos de Pilar. 1748. AFSD. Capítulo 2º. 1777. 240 Revista Brasileira do Caribe. 1796. parágrafo 2º. vol.Cristina Cássia Pereira Moraes Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. AFSD: Documentos avulsos. Capítulo 4: funçoens dos officiaes. VIII. Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. 71v. 1762. 57 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 59 Ibidem. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 60 Ibidem.

Marcos Magalhães de Negras Minas Gerais: Uma História da Diáspora Africana no Brasil Colonial. 361-396. 2001. São Paulo: Edições Alarico. Bibliografia AGUIAR./dez.I e II. São Paulo: Brasiliense. 1987.18.95. Cf. ARAUJO. LAHON. Vol. p. abril. 1953. São Paulo: Paulinas. Íris. p. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. JANCSÓ. 2007 . Transgressão e transigência na sociedade urbana colonial. Raul Joviano do. Cit. Port-au-Prince. ENES. Todas as irmandades de pretos foram instaladas nas Igrejas de um monastério. de um eremitério. T. Emanuel. (Org) Festa. 66 Um dado interessante sobre as nossas congêneres portuguesas: Em Portugal.” In: REIS. Aproximação à matriz civilizacional do ocidente cristão.” In: KANTOR. Lisboa: Centro de História da Cultura. O Teatro dos Vícios. T. op. Paul E. BELLINI.” Actas del II 241 jul. O contexto de François Rabelais. (Org) Escravidão e Liberdade: estudos sobre o negro no Brasil. AGUIAR. C.. BACKITIN. 1993. Maria Fernanda D. ou seja. p. Cf. “Le Vandou est-il une réligion polythéiste u monothéiste?” In: Bulletin du Bureau d’Etnologie.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 65 Ibidem. Idéias Religiosas em História das Idéias. “Por amor e por interesse a relação senhor-escravo em cartas de alforria. 1961 e HURBON. nº 5. Brasília: EDUNB. 1988. L. 2001. 447-512. ENES. Laennec. 1987. São Paulo: Huicitec. sempre cercada por outras associações religiosas de branços e localizadas no espaço interior das igrejas geralmente no primeiro altar da esquerda ou direita da entrada. (Tese de Doutorado) AMARAL. Maria Fernanda D. Brasília: EDUNB. Mikail.75. István. “Festas e rituais de inversão hierárquica nas irmandades negras de Minas colonial. Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa. Marcos Magalhães de. “O Culto da cruz e do sangue na afirmação da Humanidade de Cristo no Portugal de seiscentos e setecentos. nem mesmo uma capela pequena. p. Os pretos do Rosário de São Paulo. 1999. 102-104. São Paulo: HUCITEC/FAPESP: Imprensa Oficial. O deus da Resistência Negra. Capítulo 20. João J. Subsídios Históricos. nenhuma irmandade composta por homens pretos construiu um lugar de culto. p. de uma paróquia. perto do coro e muito longe do altar principal. 2002. São Paulo: USP.

In: Central Africans and Cultural. ENES. T. Ponta Delgada.” In: Actas do Colóquio: Pombal e a sua Época. T. T. 1991. Transformations in the American Diáspora. Classes. 2002.“A vida conventual nos Açores: Regalismo e Secularização (1759-1832)”. 1780-1835”. 1994. Braga : Universitas Catholica Lusitana. T. ENES. Antonio Sergio Alfredo. LEITE. Filipe I sobre o Clero das ilhas dos Açores de 1590. Lusitana Sacra. GUIMARAES. 2. 1998. Maria Fernanda D. Maria Fernanda D. T. ENES. “As polémicas missões dos anos sessenta de oitocentos em São Miguel. ENES. Maria Fernanda D.69 (Dissertação de Mestrado) 242 Revista Brasileira do Caribe. Maria Fernanda D. vol. Reforma Tridentina e a religião Vivida. p.Cristina Cássia Pereira Moraes Congresso Internacional de la Vera Cruz. Maria Aparecida Junqueira da Veiga. raça e democracia. Clara D. História: Novas Abordagens. Ponta Delgada: Signo.” In: Actas Congresso Internacional de História: Missionação Portuguesa e Encontro de Culturas. T. Pierre. “Clero Secular: do século XVI ao século XVIII. Ponta Delgada: Universidade dos Açores. José Roberto. “A Proclamação de 1789. Tecendo a Liberdade: Alforria em Goiás no século XIX. 2000. “ Uma Carta de D. T. 115-116. 1993. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo.” In: Actas do Colóquio: O Cinquentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem.ª (11). Maria Fernanda D. Momento Fundacional dos Direitos do Homem e do Cidadão. 1999. Manolo e GOES. 2000. FLORENTINO. In: LE GOFF. São Paulo: Francisco Alves Editora.. 1997. Pombal. Lisboa: Círculo de Leitores. Franca 2 (1995): 11-36. Maria Fernanda D. Cambridge University Press. Goiânia: UFG. ENES. “A Reforma Pombalina nos Açores. ENES. ENES. ENES. England.” In : Revista Arquipélago. Goiânia. Mary. Múrcia: 2000. n° 15 . “Redes de Sociabilidade e de Solidariedade no Brasil Colonial: As Irmandades e confrarias religiosas. A paz nas senzalas. 61-95. Jacques e NORA. “A religião: História religiosa”. Lisboa: Círculo de Leitores. JULIA. ” In : Dicionário de História Religiosa em Portugal.” In: Revista Estudos de História. 67-81. Central Africans Central Brasil. I vol. VIII.. 1983. Maria Fernanda D.. GAETA. KARASCH. Maria Fernanda D. “A Diocese de Angra e Ilhas dos Açores. 2002. p. 2000. I vol. T.” In: Dicionário de História Religiosa em Portugal. Dominique. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. p. 1999. p.

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244

A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (17601776)
Maria Lemke Loiola Abstract
The orbital books in churches are sources little explored in the study of slavery. However, these sources contain relevant informations about the life of slaves: origin, cause of death, place of burial, links to religious groups and interpersonal relations. The analysis of these sources can help to understand some of the gaps that historiography of Colonial Goias regarding slavery. The access to eclesiastical sources, orbital books and ecclesiastical visits allow my study to address some issues about the slaves in Meya Ponte (under the name of Pirenolopolis today , Goias , Brazil) between 1760 and 1776. Keywords: Slavery, Social relations, XVIII Century, Dead

Resumo
Os livros de registro de óbitos são fontes pouco pesquisadas para os estudos da escravidão. Entretanto, eles trazem informações importantes sobre as vivências escravas: seu grupo de procedência (SOARES, 2002), causa mortis, lugar de enterramento, associação, ou não, às irmandades, bem como suas relações interpessoais. A análise dessas informações pode contribuir para minimizar as lacunas na historiografia de Goiás colonial referente à escravidão. Dialogando com fontes eclesiásticas, registros de óbitos e visitações eclesiásticas, o presente estudo aborda algumas questões acerca das vivências escravas em Meya Ponte (atual Pirenópolis) entre 1760 e 1776. Palavras-Chave: Escravidão, Relações Sociais, Século XVIII, Morte.

*Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 245-265, 2007

Maria Lemke Loiola

Resumen
Los libros de óbitos de las iglesias son fuentes poco investigadas en los estúdios de la esclavitud. Sin embargo, ellos traen informaciones relevantes sobre la vida de los esclavos: procedencia, causa de muerte, lugar de enterramiento, si estaban o no asociados a hermandades así como sobre relaciones interpersonales. El análisis de esas informaciones puede minimizar las lagunas en la historiografía de Goiás colonial referentes a la esclavitud. El diálogo con fuentes eclesiástticas, libros de óbitos y visitas eclesiásticas, utilizadas en el presente estudio, permite abordar algunas cuestiones sobre la vida de los esclavos en Meya Ponte, actual Pirinópolis, Goiás Brasil, entre 1760 y 1776. Palabras clave: Esclavitud, relaciones sociales, Siglo XVIII, Muerte

Há algum tempo assistimos o revigorar dos estudos sobre a escravidão colonial em suas múltiplas faces, em perspectivas regionais e menos totalizantes como sugeriu Britto (2002). Contudo, nos deparamos com alguns aspectos que podem dificultar nossa “aproximação” a um passado mais dinâmico, mais rico em sua cotidianidade. É o caso das fontes que, para análise de Goiás colonial, estão espalhadas em vários arquivos, além de muitas terem desaparecido nas brumas do tempo pela ação dos homens e dos “papirófagos” vorazes. Entretanto, nem tudo está perdido. A documentação eclesiástica tem sido bastante profícua aos historiadores interessados na vida dos atores sociais de um período mais recuado no tempo. Várias pesquisas têm renovado os olhares sobre a escravidão e nessa temática tem se destacado a religiosidade escrava. Termos de compromissos de irmandades têm trazido contribuições importantes sobre a organização dessas redes de solidariedade.1 Mas, se por um lado os compromissos podem nos ajudar a apreender os fundamentos e preceitos das irmandades, a ênfase na morte e a ajuda mútua ou empréstimo a juros; por outro, não nos dizem muito sobre a quantidade de homens e mulheres que nelas congregavam. Para a região de Meya Ponte2 até o presente não
246 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

A morte branca do escravo negro...

nos deparamos com registros que atestem o número de seus confrades. A preparação para a morte foi algo bastante enfatizado nos compromissos. Boa parte dos trinta e seis capítulos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte dispõe sobre o assunto. Por isso, neste ensaio, proponho os livros de assento de obituários como fonte a ser utilizada para verificar a abrangência e inserção das irmandades de pretos no contexto da escravidão. Assim, pode-se supor que houvesse muitos homens e mulheres preocupados com o bem morrer, buscando essas associações. Entretanto, o livro de assentos de óbitos de 1760 a 1776 nos mostra que do total de quase oitocentos óbitos, apenas 39 foram acompanhados ou enterrados por essas confrarias.3 É certo que os párocos freqüentemente omitiram informações e é possível que o número de acompanhamentos por irmandades aumente, mas seria um aumento pouco expressivo, da ordem de 2% do total.4 Quando compararmos estes assentos com o período de 1803 a 1810, percebemos que seu número dobra. De 1760 e 1776 temos uma proporção bastante próxima entre enterros feitos pela Irmandade do Rosário dos Pretos (17), destes, a metade era de escravos, e irmandades de brancos, como Almas e Santíssimo Sacramento (22); no período de 1803-1810, tivemos um total de cinqüenta e oito acompanhamentos/enterros feitos por irmandades. Nestes sete anos, o número de forros enterrados na capela do Rosário é significativamente superior ao de escravos, somente 10% do total de trinta e quatro enterros feitos na capela do Rosário foi de escravos.
Desse modo, não se pode dizer que para os escravos de Meya Ponte e adjacências fazer parte de uma irmandade fosse questão de vida ou morte. Mas, isto poderia evitar que abusos cometidos por “[...] alguas pessoas esquecidas de toda a humanidade christãa, [que] não escrupulizão em mandar enterrar no campo, e mato, os escravos, q’ lhes morrem, como se fossem animaes brutos, contra o antigo, pio, e Louvavel costume da Igreja

247 jul./dez. 2007

Maria Lemke Loiola

Catholica [...].”.5

Talvez, por isso, as irmandades enfatizassem tanto nos preparativos para a morte. Mas, enquanto uns enterravam escravos no mato, seja por incúria, seja pela situação de pobreza, havia ainda os que recorriam a mentiras para conseguir enterrar um escravo. Henríquez Ferreira Pinto manifestou ao padre Jozé Pires que gostaria de ter seu escravo João Angola enterrado na capela dos pretos por ser este irmão da mesma “[...] o que constou-me depois de ser ter dado a sepultura tal não ser, de que para constar fiz este assento.”6 Teria enganado o padre apenas por ser pobre ou por, mesmo na situação precária, manter relações de afeto com seu escravo? Se existiram brancos pobres, sem recursos que usavam de insólitas estratégias para enterrar seus escravos, também temos notícias de pretos “mina” que superaram a condição escrava e chegaram a fazer testamento e ser enterrado com toda a pompa fúnebre. Tal é o caso de Gaspar,
[...] homem preto forro de nação minna,[...], e Fez seu Testamento, em que declarou que o acompanhasse o seu Reverendo Parocho, e lhe disse no dia do seu falescimento, se podesse ser, missa de corpo prezente, e deixou mais ao alvidrio de seu testamenteiro, lhe mandasse dizer aonde lhe parecer, vinte missas, pela sua alma; e era cazado com Domingas Machado, crioula forra [...]7

Gaspar certamente teve vínculos com a irmandade do Rosário dos pretos. A proximidade de sua cova do altar-mor sinaliza um cargo importante na Mesa administrativa, o que lhe conferia certas prerrogativas. O preço pago para ser enterrado em lugar tão importante na capela do Rosário dos Pretos de Meya Ponte era alto. Gaspar deveria desembolsar vinte oitavas de ouro, caso não tivesse sido irmão “comum”, ou seja, nunca ter tido cargo administrativo.

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se tivesse sido “juiz de mesa”.)”8 tinha seu próprio escravo.] assim serão admitidos aella Brancoz. É mais provável que o reconhecimento na sociedade estava relacionado não somente à cor. Na primeira visitação eclesiástica (1734). escravoz.. Embora não saibamos o que levou boa parte dos homens e mulheres da região de Meya Ponte ao óbito. picada de animais peçonhentos. supomos que eventualmente ocorriam epidemias. Não seria o único a tê-los. Chamava-se Nicolao do Rozário e foi enterrado dentro da capela.. pois muitos deixavam de receber sacramentos pela demora dos padres em percorrer a distância até o moribundo. Houve senhores que perderam dois ou três escravos num pequeno período de tempo. Provavelmente Gaspar viveu no núcleo urbano de Meya Ponte. Mesmo a Irmandade do Rosário dos Pretos. Como irmão comum teria direito a cinco missas. que aceitava “todos os fieis aque sua noção incita (.. Pretoz. e Forroz (. Casos de mortes violentas por armas de fogo.) se exceptua Pessoa algua’ dequalq. recebera o sobrenome do dono. 2007 . A maioria desses escravos morreu sem sacramentos./dez..r qualide [.A morte branca do escravo negro. raios e “acidentes de trabalho” são sempre descritos. dois a cinco dias. mas também às posses. os párocos deveriam imediatamente administrar os sacramentos: “Porquanto pellas grandes enfermidades q’ cotidiannamente estão dando nos 249 jul. Seu testamenteiro teria que providenciar vinte. mas pela aparente condição alcançada por Gaspar é quase certo que também possuísse seus próprios escravos. o visitador Alexandre Marques do Valle determinava que no segundo dia após haver notícia de doença ou se a enfermidade se mostrasse grave. De igual modo não podemos chamar estes homens e mulheres libertos de coniventes com a escravidão por conservarem cativos seus semelhantes... a oito missas. no máximo. Como ocorria com a maioria dos escravos. O fato de ter morrido com todos os sacramentos reforça a hipótese... o que lhe deu mais mobilidade e liberdade para conseguir juntar pecúlio e transcender a condição escrava. teria direito. Mas as moléstias que ceifavam muitas vidas em poucos dias continuam na obscuridade pretérita. Não podemos afirmar seguramente.

]11 Justificações como estas são ainda presentes em vários registros: “por morrer de repente”. digo.. como se de justiça fosse a isso obrigado.10 Talvez pela possibilidade de pagar multas por omissão encontramos frequentemente assentos como o de Gregório [. será castigado. ou Capellão de capella filial. que fica distante desta freguezia seis legoaz. Segundo o padre. A situação dos escravos não parece ter mudado ao longo do tempo. vol.. n° 15 . o vigário Joze Pires dos Santos Souza explicou no assento de Viscencia que “faleceu sem sacramentos por incúria de seu senhor. “pela grande distância”. [. se por um lado 250 Revista Brasileira do Caribe. na forma das Comstituiçoens tit.. poiz do assento não consta [ilegível] o senhor tinha dado só para lhe não pedir o Estipendio dos sufragios por ser acostumado a isto [. estando distante.. quando cheguei o achei já morto. o visitador João de Almeyda Cardozo volta a ameaçar: “Qualquer Sacerdote.] o qual morreu sem sacramentos..]”. Goiânia. e caminhando toda noite para chegar ao citio aonde se achava o infermo. no mato ou jogar os corpos dos escravos no rio. ou em qualquer outro lugar onde serviam de comida aos cães9. e foi sepultado em hum lugar distado na tal paragem. Jozé.Maria Lemke Loiola escravos. por que sendo chamado pelas seis horas da tarde.]”... “morreu sem sacramento algum. segundo informação do padre que andou dezobrigando aquelle destricto [. Para se eximir de multas e reprimendas. deve acodir com promptidão. e ainda naquelles q’ o não São [. ou impedido o parocho.. que for chamado para confessar algum infermo. 48 no 204”.. [. como porque se por sua culpa morrer o infermo sem confissão. VIII. escravo adulto do referido Basto.13 Mas..] nação Mina escravo de Manoel Moreira de Carvalho.. não só por preceito de charidade.. destinado na tal paragem. Decorridos quase cinqüenta anos das palavras do reverendo Valle.]”12 O dito vigário foi mais longe e não hesitou denunciar Luis Antonio Basto. O visitador recriminava ainda as práticas comuns de enterrar no campo.

. podemos imaginar que os padres estiveram entre os que não estavam muito preocupados com as condições de trabalho dos seus escravos.. não foi muito incomum “[.) que andando a minerar.. levou até mesmo os oficiais da Câmara de Vila Boa a denunciarem que. leva ao alto preço cobrado pelos párocos por serviços funerários. esses escravos morreram quando trabalhavam por conta própria. decorrente de acidente de trabalho. conforme lembra Hoornaert (1992.. 282). Os senhores deixavam livres apenas os domingos 251 jul. que o cobriu [..14 Talvez por isso.... 2007 .. as irmandades manifestavam o desejo de manter os párocos como seus subordinados para celebrar festejos e missas.. p..] Jeronymo nação minna escravo (.es da Irmand. por assim dizer. esta informação remete às recorrentes recriminações feitas aos senhores negligentes.. em hum corrego lhe cahio na cabeça hum pao. de uma só vez o reverendo José Pinto Braga16 perdeu três escravos enquanto mineravam numa cata.”15 Mas nem só de emolumentos e benesses cobradas exageradamente viviam os padres das minas de Meya Ponte.] e faltando a sua obrigação Sem cauza Se lhe dezcontara hua 8a por cada vez.”19 Se os óbitos ocorreram no domingo. buscando o próprio sustento ou mesmo tentando encontrar a pepita que lhes daria a liberdade.r Religião [./dez. A taxa tanatológica.] acompanhara os Irmãos deffuntos com Sobrepelliz asistira as feztas e solenid.].e tudo pago pella porção em q’ Se ajustar com a Meza [. Essa subordinação também pode ser vista no capítulo do compromisso da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte que compreendia as obrigações do eclesiástico “[..]”18 Jozé mina “estava andando a minerar em huma mina. e não houve Lugar para Se lhe acodir com os Sacramentos [.... Miguel e Thomé eram escravos africanos. por vezes. por outro. que para logo o matou. O mesmo tipo de morte. os padres chegavam a enriquecer tal era o abuso com que cobravam os emolumentos. Em 1762.] quando lhe cahio em cima uma pouca de terra.A morte branca do escravo negro. Vários deles possuíam escravos empregados na extração aurífera e.. [. em época de epidemias.] qualquer Religioso de qualq.17 Apesar de não sabermos se Antonio.. também perdiam seus investimentos.

redes de conchavos e conspirações. “Donde provem q’ os mizeraveis escravos não ouvem missa. como sugere o trecho acima. ainda assim nos informam sobre a diversidade das nações d’África que constituíam a escravaria da região de Meya Ponte e adjacências 252 Revista Brasileira do Caribe.]”20. Talvez. vol. esta afirmação já carregue a resposta para o motivo de haver tão poucos escravos presentes nas irmandades. 176). No compromisso confirmado em 1782. Pohl tenha nos dado um indício de como trabalhavam e morreram os escravos do padre Jozé Pinto Braga. mais perigosamente ainda. Quiçá. mas também desmoronamentos. ser respondida com as informações deixadas pelos párocos que registravam os batismos. São eles ainda que nos relatam algumas formas de extração do ouro: “o poço era inteiramente desprotegido. Mas os soterramentos nos sugerem que o sistema de prospecção empregado não fosse o mais indicado para o tipo de solo local.. Naturalistas como Pohl. por respeito aos irmãos cativos. restaria pouco tempo para atividades relacionadas à religião. o que forçosamente. Por isso. aberto por cima. apesar de. Mas. Acidentes de trabalho aconteceram e acontecem em todas as épocas e lugares. acabaria por alagar a mina” (1976. as reuniões de mesa ocorressem aos domingos. VIII. p. que prohibe trabalharse naquelles dias [. em parte. Goiânia. O tempo livre para pensar nas coisas de Deus também poderia ser usado para criar laços de solidariedade e. casamentos e óbitos. nem guardão o preceito da ley de Deos. quem eram esses homens que extraíam o ouro? De onde foram trazidos? Tal pergunta pode. no rastro dos visitadores eclesiásticos. enfatizavam que a falta de princípios mineralógicos e interesse dos mineiros em melhorar as técnicas de extração levava ao abandono prematuro das lavras.Maria Lemke Loiola e dias santos. n° 15 . de modo que penetravam desimpedidas não só as águas do solo como as águas pluviais. podermos chamá-los de relapsos e pouco cuidadosos.. sem querer. o capítulo 7º da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte determinava que.21 Se o tempo “livre” deveria ser empregado para o sustento próprio. Acrescentar-se-ia que não haveria somente alagamentos.

os “caboverde”../dez. Muito mais não sabemos deste casal. os escravos “mina” eram maioria. será difícil aproximarmo-nos de suas histórias. Na esteira desta afirmação podemos refletir como seria o cotidiano de uma família construída pelos laços entre dois continentes distintos? Uma pista para esta resposta ou. foram também os responsáveis por disseminar a idéia do que se poderia chamar de “homogeneidade da e na diversidade” que.. Será que este padrão também pode ser empregado em Goiás? A questão sobre as identidades étnicas africanas é bem recente na historiografia brasileira. Nina Rodrigues e Silvio Romero. Por ter morrido sem testamento. no século XVIII. os “cobu. p. 26). ainda pouco investigada. Paiva (2002) constatou que nas regiões de Minas Gerais onde prevalecia a mineração. entre os africanos encontramos os “mina” em maior número. Da mulher de Francisco Gonçalves sabemos apenas que era mina. não temos nenhum registro. p.. está no casamento entre o castelhano Francisco Gonçalves e uma preta mina anônima. no trato com a questão racial e a miscigenação. mais provavelmente. É de se considerar que o número maior de trabalhadores “mina” esteja relacionado aos conhecimentos técnicos de mineração que possuíam. de gentio da Guiné”. por incrível que pareça. Os “angola” predominavam na região de economia agropastoril. seguidos de “angolas”. Quem sabe os registros de seus filhos possam. apesar de serem os precursores desses estudos. 2007 . os “benguela”.22 Para Soares os estudiosos sobre o Brasil colônia se preocupam mais com a expansão dos povos europeus do que com a diversidade racial e cultural africana (2000. ainda é aceita atualmente. dificultam sobremaneira a compreensão de aspectos da “estratificação social e suas representações nos primeiros séculos de nossa história” (1999. nos contar algo mais. No período analisado (1760-1776). mas 253 jul. Ronaldo Vainfas também alerta para os “equívocos e tabus da historiografia brasileira”. a complexidade da pergunta. mais próxima ao litoral. 23 Sabemos que “perpetuaram sua espécie”..A morte branca do escravo negro. Designação genérica que encobre não somente o lugar de onde veio. algum dia. 22).

vol. Em sua análise sobre a escravidão no Brasil Central. Salles nos lembra que: “Conhecidos apenas pela desdenhosa designação de negros. assevera a predominância dos bantus no Brasil central. em grupo. Goiânia. inclusive a alma e o nome na infeliz travessia [. Neste trecho a historiadora goiana nos alerta sobre a importância de se desvendar as especificidades étnicas dos vários grupos que constituíam a população negra da capitania de Goiás.. A afirmação parece demasiado generalizante. destribalizado. nos mostram os óbitos que sempre havia exceção. Entretanto. 77). Para Moraes. pautando-se em estudiosos como Arthur Ramos. se considerarmos que provavelmente Goiás recebeu vários grupos em diferentes épocas com objetivos específicos. p. 230). assim.. no entanto. isso dificulta a identificação dos grupos africanos. suas características psico-somáticas se destacam. “[o escravo] já chegava da África desestruturado de sua tribo. dando tonalidade própria ao comportamento. modo de vida. os costumes. e crenças religiosas” (1992. a seu ver. Por sua vez. daí a discrepância entre os censos e números dispostos ao longo do período colonial.Maria Lemke Loiola principalmente sua carga cultural e religiosa. Salientando sempre a violência que. VIII.]” (SILVA. A bem dizer. Martiniano José Silva. Alguns receberem o sacramento do batismo na hora da morte por 254 Revista Brasileira do Caribe. Martiniano deixa entrever claramente sua postura em relação à escravidão e sua vinculação a uma historiografia tradicional que privilegia mais a violência da escravidão per se do que propriamente os saberes escravos e as múltiplas formas de sobrevivência empregadas no cotidiano. o que era interpretado pelos senhores como mostra de sua “resignação à condição servil” (2005). Lembra que os escravos já chegavam aos Guayazes convertidos ao catolicismo. Mais recentemente. a religião. p. 2002. Moraes alerta que a grande maioria dos escravos africanos não foi registrada ao entrar na capitania de Goiás dada sua grande extensão. as artes. o autor recrimina o suposto “racismo ideológico” existente na academia responsável pela falta de estudos sobre a procedência escrava. a língua. perdendo. se espraiou nas relações sociais. n° 15 .

senão responder. tanto em sua terra natal quanto na recriação sociocultural na terra brasilis. Pedro.”25 Outros ainda. e ignorante do que havia de receber”26 ou “alienado do entendimento. a recriação de suas identidades a partir dos novos laços tecidos no cativeiro. por outro. seja pela “rudeza. morreu “sem o sacramento da eucaristia pois era ainda boçal. mais importante. se queixou do pouco entendimento que os escravos tinham dos ensinamentos cristãos que recebiam. o reverendo José de Frias e Vasconcellos durante uma visita eclesiástica. também mina. Da mesma forma. se pensarmos que realmente houve uma diversidade de línguas.”27 Designá-los apenas por seu lugar de origem/porto de embarque esconde a diversidade cultural que os caracterizou. Mas.”28 solicitando aos párocos fornecer instrumentos para catequização dos escravos. Água Limpa ficava no termo da freguesia de Meya Ponte e Antonio Dias Ribeiro pode ter se beneficiado disso para manter Joze irregularmente. mas clarear as especificidades e identidades étnicas e como foram reconstituídas no longo processo de reinvenção dos saberes e. não recebiam sacramentos por “rude. Frota possuía escravos mina e angola. Gestos e olhares certamente diziam tanto quanto palavras. também mina. ou pela diversidade de línguas. mas certamente não foi o único. não devemos esquecer que essa diversidade nem sempre significava incomunicabilidade.. Acreditamos que uma pesquisa pautada em diferentes tipologias documentais possa. “ser ainda boçal e novato nesta freguezia Joze mina”24 É possível que Jozé tenha permanecido ignorante dos preceitos cristãos devido à distância que o separava de alguma igreja./dez. como Domingos. A diversidade das falas africanas pode ter sido empregada como estratégia para evitar conchavos e conluios entre os cativos.A morte branca do escravo negro. porém não se furtou de incluir entre eles alguns 255 jul. Em 1742.. Nesse processo de recriação de identidades a língua era de fato um elemento fundamental. não significava que os mina desconhecessem a língua dos angola e vice versa. 2007 . Provavelmente o sargento mor Antonio Rodrigues Frota usou o estratagema de misturar várias etnias.

ou não. temos apenas três escravos “inocentes”. contando também os que faleceram após a morte do sargento. Mas a “mistura de minas. Entre seus escravos. Não houve mudança no padrão de enterramento dos escravos: continuaram a ser enterrados no mesmo lugar: na capela de Nossa Senhora do Carmo. Do total de vinte e nove escravos. Outro oficial que também tinha escravos de procedência diversa foi Gregório da Silva Bailão. do qual já falamos. n° 15 . sua mulher. De modo semelhante ao ocorrido com os escravos do sargento Frota. ser corroborada cruzando estas informações com os assentos de matrimônio ou batismo. mas nunca acompanhados por irmandade. Um deles foi Jeronymo mina. ou seja. Esse pequeno número de óbitos infantis em relação ao de adultos sugere que os Frota talvez não tivessem o hábito de manter famílias escravas. os de Gregório Baylão foram enterrados no adro da igreja e também não tiveram vínculo com irmandades. 311). p. Não sabemos como eram as relações com seus escravos. É certo que com informações fragmentárias como as que temos. encontramos minas. angolas. Após sua morte. vol. crianças. natural da freguesia de São Miguel de Alfama. Foi acompanhado por todas as irmandades do arraial de Meia Ponte. faleceu com seu solene testamento. crioulos e caiapós” reforça a idéia de que a diversidade de grupos foi uma estratégia utilizada para tentar evitar o surgimento de afetos e laços de solidariedade. seja precipitado identificar a prevalência de africanos “Mina”. É do mesmo autor a informação de que Gregório Bailão foi um eminente escravocrata de Meya Ponte. recebendo sacramentos na medida do possível. O sargento. Contudo. conforme informa Pinheiro (2002. foi alferes da Companhia e Guarda-mor das Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. VIII. mas houve épocas em que o sargento Frota perdeu até três escravos por mês. cobus e crioulos. Goiânia. dona Antonia Ignacia Maria de Jesus passou a administrar os bens do falecido. angolas. Essa hipótese poderá. O lusitano. natural do Arcebispado de Braga.Maria Lemke Loiola índios cayapó como “administrados”. é significativo que estes dados estejam em 256 Revista Brasileira do Caribe.

na documentação pesquisada. De modo geral. 1998. o número de escravos “angola” supera aquele dos “mina”. são sempre mais completos que os de Goiás.. batismos e casamentos como podemos perceber nos documentos coloniais da capitania 257 jul. p. Os dados ora apresentados são ainda parciais e necessitam de estudos mais aprofundados. é possível que os “angola” daqui também tenham sido empregados em atividades agropastoris. Desta forma. Ao compararmos as informações deste período com o posterior (1803-1810). veremos que neste último. o direcionamento de uma economia anteriormente voltada à extração aurífera. pode ter contribuído para mudar a configuração étnica da população da região de Meya Ponte. 91). Soares tem como fonte principal os assentos de batizados que. Ou seja. 2000. à medida que o aumento do tráfico reconfigura as rotas e portos de embarque há uma resemantização e re-significação da África (SOARES. consonância com o período no qual a atividade aurífera foi a mais representativa para a economia. e a transplantarmos para Meya Ponte. os africanos. Contudo. a julgar pelos dados apresentados. 75)./dez. E isso tanto para os casos de grupos africanos quanto dos nascidos na sociedade colonial. ao passo que “nação” é consoante às mudanças nas relações que os portugueses estabeleceram com os africanos. O aumento do número de pardos e crioulos no início do século XIX nos dá uma pista de que a mestiçagem aumentou com o decorrer do tempo. Os termos gentio e nação se referem a “universos semânticos distintos.. correspondentes a diferentes sistemas de classificação” (SOARES. p. Poder-se-ia dizer que a ponte estabelecida por Soares entre a África e o Rio de Janeiro enriquece significativamente a interpretação sobre as identidades étnicas africanas estabelecidas no interior da sociedade colonial. se aceitarmos a constatação de Paiva.A morte branca do escravo negro. para a valorização da pecuária e agricultura. Talvez a distância de Goiás dos centros de poder favorecesse os hábitos relapsos dos párocos no momento de registrar óbitos. são qualificados como nações. O primeiro caracteriza os povos a serem convertidos. 2007 .

. e tenha sido mais lenta na escrita da documentação eclesiástica em relação à administrativa. Goiânia.] com 258 Revista Brasileira do Caribe. Apesar disso. A assertiva de Soares de que a nação/procedência acompanhava o escravo/liberto até o fim da vida. Os escravos autóctones. quartada escrava do Sargento Mor Carlos de Assupçam Ferraz [. “[. comumente tratados com o eufemismo de “administrado”. na hora da morte. 33 Segundo o capitão geral Jozé de Almeida e Vasconcelos. No século XVIII eram conhecidos como “nação cayapó”. nas notícias que deu nos idos de 1774 ao secretário da Marinha e Ultramar.]”.. dado o grande número de ataques que promoviam a arraiais deixando a população aflita pelos grandes prejuízos e mortes que causavam. só muito raramente.] por ser morto pellos calhambollas com hum tiro que logo o matou [. VIII. como lembra Salles (1992) . prejuízos e distúrbios. também pode ser empregada para aqueles que viviam em Meya Ponte.. eles conservavam agregado ao nome o grupo ao qual pertenciam: Maria Dias.32 Não só os autóctones causavam mortes... Pedro Angolla foi um dos que teve a vida abreviada “[.. os livros de assentos de óbitos apresentam informações cada vez mais completas à medida que recuamos no tempo. Os autóctones aparecem nos assentos eclesiásticos com maior freqüência no século XVIII do que em período posterior. De modo mais emblemático.. Talvez essa mudança esteja relacionada com os conflitos entre os “naturais da terra” e os portugueses. gentio da terra. Jozé foi lembrado como escravo do defunto Francisco João Ribeiro!31 Mas a qualificação grupal não marcou somente os africanos. em alguns casos. Nesta última. eles quase sempre são descritos como “gentios brabos. não mais como “nação”.. No início do XIX. receberam denominações que variaram ao longo do tempo. mesmo os libertos. Mesmo depois de livres. Martinho de Mello e Castro. selvagens e desumanos”. “nação xicriabá” e. vol. preta forra de nação mina29 Acrescentese que. como “Thereza. n° 15 . nação mina. eram conhecidos pelo nome de seu antigo senhor.Maria Lemke Loiola dos Guayazes. são sempre referenciados como “gentios da terra”.]”30.

p.. nos lembra que em Minas Gerais os escravos africanos utilizavam ervas para separar ouro e diamantes do cascalho nas bateias. indicando que nem tudo estava na maior tranqüilidade.35 Nas palavras preconceituosas do naturalista Pohl. encontramos um indício de que a mandioca mortífera comida por Jozé não foi um acidente: a diferença entre a mandioca mortífera e o aipim é reconhecida imediatamente “por qualquer selvagem” (POHL.. ou lhe sobreviera de ter no dia antecedente comido húa pouca de mandioca mortífera como ao depois da sua morte soube. Para além de mortes consideradas apressadas. também existiram mulheres: mães livres../dez.. 2007 . às vezes ela poderia ser preparada. o que tudo pode afirmar o mesmo seu senhor [. em satisfazer com hum tiro á paixão alheia. não previo com a cautella ao menos sequer para ser confessado por amanhecer morto na cama. como os escravos. Foi esse ouro lavado nas bateias e extraído de poços que garantia a riqueza dos homens vindos de longínquas paragens. que mantinham relação estreita com a natureza. forras que possuíam seus próprios escravos. 259 jul. a autóctone e a africana. de tiros por vingança.. É difícil imaginar que duas culturas. que registra os óbitos de 1760 a 1776.A morte branca do escravo negro. apoiado em relatos de viajantes. 1976. são agressores os negros fugidos e calhambolas. estão promptos pello mais pequenno premio. Mas nesse universo.. solteiras que viviam sozinhas.”34 Neste livro de assentos. não trocassem informações e know-how acerca do poder das plantas do cerrado.] de nação Mina escravo do Furriel João de Campos Cardozo o qual morreo de repente sem sacramentos porque o mesmo seu senhor me disse. tiveram a vida ceifada por morte súbita e repentina.. Muitos perderam a vida dentro dos poços. de descaso de senhores negligentes.]. e que sem saber a cauza da sua morte. quiçá premeditada. porem da maior parte dos insultos. exceção de alguns vadios. Paiva (2002). que sem a menor duvida. outros. que a sua morte fora originada. mães escravas. mulheres de oficiais. encontramos vários registros de mortes violentas. 110).. como parece ter sido a morte de José: [.

elas foram muito bem 260 Revista Brasileira do Caribe. parda. Outras não tiveram a mesma sorte. Maria. os africanos sempre foram enterrados de acordo com os preceitos católicos. o leitor questione o título desta apresentação. imagina-se que foi um laço mais estreito. Bem ou mal e na medida do possível. Francisco Alves Mota. de incertezas e de possíveis dissabores. possivelmente se estreitaram com a liberdade. Aparentemente teve uma vida longa. possibilitaram a esta “pobre mulher” um enterro dentro da capela.. Maria morreu na casa do referido vigário. como enfatizou o coadjutor Carlos Francisco Torre quando o registrou. Cada uma. Provavelmente os vínculos que a ligavam ao padre. Mas. A jovem de pouco mais de vinte anos recebeu todos os sacramentos. e não somente a esmola por amor a Deus.37 Uma história das mulheres do sertão dos Guayazes no período setecentista poderia nos mostrar que nem sempre foram submissas. Dizem ter sido muito pobre. n° 15 . que o mundo das bateias e das lavras. moradora no sertão. depois dessas breves notícias sobre os mortos e os vivos de Meya Ponte.. como registrou o pároco Joze Pires dos Santos Souza. 36 Felipa.Maria Lemke Loiola Maria Cordeiro de Jezus teve uma história diferente se comparada à maioria das mulheres. Maria parece ter vivido a aventura insólita da peregrinação para as bandas do sertão. em algum momento do passado que não nos foi dado saber.. Felipa e tantas outras puderam contar com as amizades e afetos construídos ao longo de suas vidas. duas missas de corpo presente e mais quatro pela sua alma que o dito Francisco “se obrigou” a pagar. Se houve manifestações de pesar e rituais africanos. VIII. as relações entre os dois não cessaram depois da libertação. morreu na casa de seu antigo senhor. depois de liberta. Embora não saibamos o que a uniu ao vigário de Santa Cruz. Provavelmente. Goiânia. Do registro da paulista sabemos que teve relações com pessoas influentes. Mostranos seu assento. à sua maneira. onde recebeu todos os sacramentos. morreu na idade que “parecia se de perto de cetenta annos”. não era prerrogativa masculina. A viandante Maria veio das partes de São Paulo. reescrevia sua história. vol.

1975. 1998. Mas a história dos padres do sertão dos Guayazes merece ser contada em outro momento. Mott. resguardadas dos olhares dos visitadores eclesiásticos e padres. 261 jul. os trabalhos de Soares. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 17361808. pelo contrário. fazer uma escala na África e outra em Portugal para novamente nos embrenharmos no caminho que leva ao passado do sertão dos Guayazes. destacam-se entre outros. o objetivo é levantar mais questionamentos e reflexões com vistas a fomentar os debates sobre as identidades étnicas e experiências escravas. Quintão.. 2002. Boschi. 1986. MORAES. Scarano./dez. Experiências que não podem apenas ser apreendidas se permanecermos no pequeno arraial de Meya Ponte. Será necessário atravessar o mar oceano. 2 Neste livro constam os registros dos arraiais de Santana do Rio do Peixe. Da mesma forma. P. 2002... sem hierarquias. 2000. Em Goiás. não pretendemos exaurir as discussões sobre a escravidão em Goiás. Corumbá e Lavrinhas. Sobre as irmandades de pretos ver especificamente o capítulo 5º: As irmandades de homens pretos.A morte branca do escravo negro. Notas 1 É considerável a produção bibliográfica sobre o tema. 1997. Cristina C. (Edição em CdRom). 2005. Estes últimos muitas vezes estavam mais preocupados com a forma de angariar pecúlio em proveito próprio que necessariamente com o cumprimento das leis às quais estavam sujeitos. Neste ensaio.. este título quis lembrar um pouco da mistura cultural ocorrida nas Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. pardos e negros. destaca-se a tese de doutoramento da professora Cristina de Cássia Pereira Moraes na qual analisa as especificidades das 34 irmandades encontradas: brancos. Lisboa: UNL. Jaraguá. Para a compreensão da complexa relação e interação de diferentes culturas será preciso olhar para cada um desses lugares de onde vieram nossos atores sociais. a partir de diferentes escalas. 2007 .

p. Capítulo 2º. 1758. Goiânia. p. sobre a representação dos oficiais da Câmara de Vila Boa de Goiás. 4 verso 10 Idem. p. 5 Idem: Cópia da Primeira e última visita do Doutor Alexandre Marques do Valle. idem. livro. idem. cópia. 1995. Estes portugueses e paulistas quase sempre morreram com seu solene testamento. 7 Idem. Livro de registro de óbitos 1760-1776. vol. 11 Idem. 7 de Outubro de 1778. 12 Idem. 4 Esses 2% aos quais me refiro são portugueses e paulistas acompanhados por “todos os padres do arraial”. 7 verso. Cd-rom Projeto Resgate Barão do Rio Branco). Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte. mas não há alusão a irmandades. 14 Idem. 13 Idem. n° 15 . Teria se retirado ou permanecido recluso? Se ele optou por ficar. VIII. Gaeta. O padre Braga foi um dos vários padres “convidados” a se retirar da capitania de Goiás em 1764. 6 Idem.. 56. 16 Idem. 86.. Reis. p. idem. 54 verso. p. 38.. 5 verso. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte 1758. 1999. 29.Maria Lemke Loiola 3 Aqui uso confraria e irmandade como sinônimos. 8 Idem. p. Subordinar o capelão parece ter sido um elemento comum de diversas irmandades e implicava sempre em relações de poder. 86 verso. p. Consulta do Conselho Ultramarino. perdeu a faculdade de rezar missas e quaisquer outras 262 Revista Brasileira do Caribe. (A representação está entre os anexos existentes do documento nº 1939 e data de 16 de dezembro de 1773. cf. p. 1975. p. 15 Idem. 1992. p. Scarano. também: Hoornaert.. à Rainha Maria I. (1734-1824) p. visitador que foi das Minas de Goyaz. cópia. 23. idem. 72. 9 Idem.

têm trazido reflexões importantes sobre a diversidade étnica dos africanos no Brasil e como cada etnia estampou suas especificidades na sociedade colonial. idem. 27 Idem.. 20 Idem./dez. 19 Idem. 40 verso. 30 Idem. em Minas Gerais e Mariza de Carvalho Soares. p. Livro de registro de óbitos 1760-1776. no Rio de Janeiro. 36. idem. 13 verso. p. idem. cópia.. idem.A morte branca do escravo negro. idem. 18 Idem. 26 Idem. p. p. 8 verso. atividades religiosas. 31 Idem... 8. 85 verso 21 AHEGO: Cópia do compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos das Minas de Meya Ponte 1782. 22 verso. 27 verso. idem. 25 Idem. 2007 . chama a atenção para a necessidade de se repensar os conceitos e categorias subjacentes à questão. Mas esta já é uma outra história. p. p.. 85.39 verso. 23 Idem. 25 verso. 32 A partir de meados de 1750 as chamadas guerras justas fizeram muitas mortes 263 jul. p. com olhares diferentes. idem.. 20. idem.. p. 46 verso. p. p. 28 Idem.. 29 IPEHBC. 4 verso.. Livro de registro de óbitos 1760-1776. 2 22 Autores como Eduardo França Paiva. p. 24 Idem. Cada qual. p. cópia. p. 17 Idem. p. livro de óbitos 1760-1776.

1986. São Paulo/ Belo Horizonte: AnnaBlume/PPGH-UFMG. 1997. PALACIN. Estrutura e conjuntura numa capitania de 264 Revista Brasileira do Caribe. 2005 (Tese). et al. 37 Idem.] sobre a administração civil e eclesiástica da capitania de Goiás [. Franca. 2002. História da vida privada na América portuguesa. 4ª Ed. “Redes de sociabilidade e de solidariedade no Brasil Colonial: as irmandades e confrarias religiosas”. O “Livro para servir do caminho de Paraty” está repleto de informações sobre o assunto. 2. vol. 1754. J. Documento n. São Paulo: Companhia das Letras.. V. Luis. In: SOUZA. 35 Idem. 187-207. (orgs). 23 36 Idem. tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo”. BOSCHI. E. MOTT. 67 verso. J. C. 72.. carumbés. 155-220. Goiânia. C. p. 2002 (mimeo).Maria Lemke Loiola de ambos os lados.M. In: PAIVA. Ê. idem. Lisboa: UNL. VIII. HOORNAERT. ofício do governador e capitão general de Goiás. 33 Idem. Os leigos e o poder. idem. José de Almeida e Vasconcelos [. São Paulo: Ática. 1992. nº 2. P. L. São Paulo: 1995. Ensaio de interpretação a partir do povo. PAIVA. Laura de Mello e (org). da C. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 1736-1808.] In: Catálogo de verbetes dos documentos manuscritos avulsos da capitania de Goiás existentes no Arquivo Histórico Ultramarino (1731-1822). barão de Mossâmedes. p. J. F. 11-36. In: Revista de Estudos de História. p. MORAES. “Bateias. pp. A. p. Goiás 1722-1822. 22 verso. p. A historiografia da escravidão: tendências.F. Petrópolis: Vozes. 66 34 Idem. idem.. M. E.. História da Igreja no Brasil. temas e desafios 1990-2001. pp. GAETA. da V. n° 15 . Bibliografia BRITO. & ANASTÁCIA. idem. O trabalho mestiço: maneiras de pensar e formas de viver – séculos XVI a XIX. São Paulo. C. E. C. C. “Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu”.

Viagem ao interior do Brasil. v. 2007 . F. J. Goiânia: Kelps. 73-93. 1972. de G. Identidade étnica. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura. 1975. G V. SILVA. miscigenação e questão racial: notas sobre equívocos e tabus da historiografia brasleira”. 1976./dez. SOARES. 1999. 265 jul. A. E. 3. Anna Blume. Devotos da cor.A morte branca do escravo negro. Z. São Paulo: Cia das Letras. VAINFAS. 1999. Mina. 71-94. de. “Colonização. Rio de Janeiro. Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava. 3ª Reimpressão. A morte é uma festa. & PINHEIRO. Devoção e escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século XVIII. Tronco e vergônteas. M. nº 6.C. REIS. Goiânia: Oriente. Lá vem meu parente: as irmandades de pretos e pardos no Rio de Janeiro e em Pernambuco no século XVIII. J. Goiânia: Bandeirante. de C. SALLES. Ronaldo. M. SOARES. Goiânia: CEGRAF/UFG. dezembro 1998. 1992. In: Tempo. POHL. 2000. de C. nº 8. QUINTÃO. p. religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro. Trad. M. São Paulo: Itatiaia. 161 (407). J. v. PINHEIRO. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. A. Tempo. 2003. de C. 2002.. Minas. M. 7-22. A. século XVIII. SCARANO. Milton Amado e Eugenio Amado. São Paulo: FAPESP. 4.C. Economia e escravidão na Capitania de Goiás. 2002. p. Angola e Guiné: nomes d’África no Rio de Janeiro setecentista. SOARES. abr/jun 2000. “Descobrindo a África no Brasil colonial”. . João J. In: RIHGB..

266 .

vol. Within this context.Estudios del Caribe en Colombia Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives Abstract Since the publication of the Biografía del Caribe written by Germán Arciniegas until the recent publication Respirando el Caribe. adversity Resumo Desde a publicação da Biografia del Caribe escrita por Germán Arciniegas até a recente publicação de Respirando el Caribe. um atraso das condições de vida de sua população. 2007 . sem dúvida. Today the Caribbean region is undoubtedly the more studied region of Colombia. an underdevelopment of the life conditions of its population. diversidade. Its insertion in a globalized world and the public politics towards a greater decentralization do not succeeds in showing the expected results. A inserção em um mundo globalizado e as políticas públicas orientadas para uma maior descentralização não logram mostrar os resultados esperados. VIII. Hoje a região do Caribe é. no meio desta situação surge como um dos desafios dos estudos do Caribe sua contribuição ao estudo de políticas para o desenvolvimento regional. but it offers an expression of the regional inequalities that exist in the country. se passaram mais de sessenta anos. uma exaustiva compilação do estado da arte dos estudos sobre o Caribe colombiano. Colombia. there has elapsed more that sixty years in order to have an exhaustive compilation on the state of art of the studies on the Colombian Caribbean. a região mais estudada da Colômbia. this study emerges like one of the most challenging explorations of the Caribbean and its contribution to the study of the politics that support the regional development. adversidade *Artigo recebido em janeiro e aprovado para a publicação em abril de 2007 267 Revista Brasileira do Caribe. 267-281. mas apresenta. Keywords: Caribbean. como manifestação das desigualdades regionais que existem neste país. Palavras chave: Caribe. Colômbia. n° 15. diversity.

Palabras clave: Caribe. un rezago en las condiciones de vida de su población. Hoy la región Caribe es sin lugar a dudas la región más estudiada de Colombia. 22% de la población colombiana. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. pasó del 10% al 22% entre el comienzo y el fin del siglo XX. el cual es un páis de regiones geográficas y culturales con profundas disparidades en lo económico y el desarrollo social entre ellas. diversidad. una exhaustiva compilación sobre el estado del arte de los estudios sobre el Caribe colombiano. tres veces. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. Porcentaje de la población creciente. 268 Revista Brasileira do Caribe. con una población similar. Colombia. n° 15 .444 km² de territorio continental = 12% del territorio nacional). Es compartativamente más grande. un territorio marítimo en el Caribe de más 570. en medio de esta situación surge como uno de los retos de los estudios del Caribe su contribución al estudio de políticas que contribuyan al desarrollo regional. vol.Alberto Abello Vives Resumen Desde la publicación de la Biografía del Caribe escrita por Germán Arciniegas hasta la reciente publicación de Respirando el Caribe. VIII. El Caribe colombiano lo conforma un territorio (70 km² de territorio insular y 132. pero presenta. buena parte de las prioridades investigativas son producto de las particularidades de este caso particular: el Caribe colombiano es una región subnacional de Colombia. han transcurrido más de 60 años. En efecto. al tamaño de un país como República Dominicana.000 km² y una población cercana a 9 millones de habitantes. adversidad Preámbulo Es muy importante en este escenario recordar algunas características del Caribe colombiano que sirven de marco para entender la evolución de los estudios del Caribe en Colombia.

una gran depresión. de los distintos resguardos).Estudios del Caribe en Colômbia. hispana e indígena. El Caribe de Colombia posee una población mestiza en la que se conjugan la herencia africana. es la región donde se inicia el poblamiento de la hoy Colombia (conectada con Santo Domingo). Cuba) pero que se pierden en gran medida con la independencia de Panamá. Es el mar Caribe el que le da la vecindad a Colombia con Venezuela. Ecuador. es la región donde muere el Libertador. que tuvo el primer puerto esclavista durante el período colonial habiendo dejado profundas huellas en el patrimonio cultural (tangible e intangible). 6 % de la población se reconoció como indígena en el Censo de 2005 y 14% como afrodescendiente. Costa Rica y Panamá. Entre los aspectos históricos. Tradicionalmente. Con una alta población afrodescendiente. pero cuando se habla de la Costa. gas). Entre los naturales se encuentran un desierto. el macizo montañoso nevado a orillas del mar. podría decirse que es un Caribe “atípico” (donde no hubo plantaciones). Perú. Brasil y Venezuela.. Jamaica. tres puertos) y la minería (carbón. Honduras. se hace referencia a la Caribe). una población indígena importante (ver caso wayuus en la Guajira. valles. El Caribe en Colombia tiene una economía que con las reformas neoliberales de los noventa perdieron participación nacional el agro y la industria manufacturera. el archipiélago en el Caribe occidental. Haití. Jamaica. Curazao. los Cuna en el golfo de Urabá. Es una región diferenciada y diferenciable del conjunto nacional por sus atributos naturales y culturales. Una región que aun se nombra como Costa Atlántica (Colombia es un país de dos costas.. sabanas. a diferencia del resto del Caribe. ambas comunidades binacionales. 2007 . se enseñan en la escuela los límites terrestres Panamá. y de manera particular. los indígenas de la Sierra Nevada. República Dominicana. Nicaragua. al verse como país andino. la región por donde entra la modernidad 269 jan. con vínculos históricos con las islas del Caribe (Santo Domingo. áreas inundables. Tiene hoy en día una economía dinamizada por el sector servicios (principal región turística de Colombia./jul.

por debajo de los promedios nacionales y una inmensa porción de la población por debajo de la línea de pobreza (cerca del 60% de sus habitantes). mayor concentración económica) y esta región. Es un región con grandes retos: el reto de la superación de pobreza. arawak y chocó). dos lenguas criollas y 8 lenguas indígenas de familias lingüisticas caribe. andina. Mantiene una viva cultura popular. Con ingreso per cápita por debajo del promedio nacional. VIII. el rezago relativo. literatura y plástica que han sido aceptadas como expresiones nacionales y hacen parte del panorama artístico reconocido de Colombia en el exterior. Sus rasgos culturales derivados de procesos de poblamiento intervenido por las ocupaciones hispanas y puritanos ingleses arroja hoy en día la existencia de 11 lenguas vivas (español. 270 Revista Brasileira do Caribe. El Caribe es en Colombia una región rezagada del conjunto nacional. más avanzada. n° 15 . históricos y culturales. Tiene indicadores sociales de educación y salud deficientes. Los estudios del Caribe en Colombia tienen como marco. una región que a la vez reclama su pertenencia al Caribe y promueve su redenominación: Caribe colombiano y no Costa Atlántica. Una tasa de desempleo del 15% en las ciudades como Cartagena. con un profundo atraso relativo. con manifestaciones musicales (cumbia. porro). así como los procesos identitarios y el reencuentro con el Caribe al que pertenece por sus rasgos geográficos. el atraso. las tensiones entre la Nación (centralista. vol. chibcha.Alberto Abello Vives al interior del país con el auge de Barranquilla (finales del XIX y principios del XX). con una creciente informalidad. vallenato. En una brecha creciente a pesar de las reformas que anunciaba que sería la región más favorecida con los cambios. precisamente. En una ciudad como Cartagena de Indias el 10% más rico de la población percibe el 50% del ingreso generado en la ciudad y el 10% más pobre solo recibe el 1% del ingreso (año 2000). con una caída de los empleos calificados. Es una región con una profunda desigualdad social.

Pero no fueron las ciencias sociales en el Caribe colombiano las encargadas de indagar por la tierra que habitamos. La modernidad de la indagación provino con la obra poética de Luis Carlos López. Por otro lado. quien retrata un ambiente aldeano y decimonónico. Voces como las de Manuel Zapata Olivella. esta gran obra incorpora a la academia colombiana el estudio del Caribe y se convierte en el referente obligado de la comunidad científica de la segunda mitad del siglo XX que ha salido al reencuentro de ese “charco violento por donde se han paseado todos los huracanes”. Gabriel García Márquez no fueron nunca aficionados superciales henchidos de tropicalismo. de espaldas a la realidad atroz. ese extraño. situación que marca no sólo ciertas líneas y tendencias en el campo de la investigación sino que compromete el desarrollo de la educación superior. De Cristobal Colón a Fidel Castro. austero y formidable bizco de las letras cartageneras. De Colón a Castro (1969 y 1970 respectivamente). no hace parte de las regiones ganadoras en el proceso de inserción nacional en esta economía contemporánea. como llamara el mismo Arciniégas a nuestro mar Caribe.Estudios del Caribe en Colômbia. cuya elite. Álvaro Cepeda Samudio.. El conocimiento del Caribe colombiano La Biografía del Caribe de Germán Arciniegas no sólo fue el libro colombiano más leído en el exterior antes de Cien años de Soledad. Son la literatura y el arte de mediados del siglo XX los que salen al encuentro de la realidad de esta región. Los primeros intentos los encontramos en ensayos y artículos de prensa de líderes de la independencia que se preguntaban por las características del hombre y la vida de la región. seguía jugando a enmascararse en el ámbito europeo. Esta Biografía (1945) antecedió a los libros casi homónimos de Juan Bosch y Eric Williams. Héctor Rojas Herazo. 2007 ./jul.. Allí está tal vez la génesis del pensamiento sobre la región. con la globalización esta región no ha sido favorecida. sino todo un esfuerzo integral 271 jan.

Ocurre una dinámica que convierte a la región en la más estudiada de Colombia: desde la historia. El nuevo conocimiento. vol. VIII. las demás ciencias sociales. la aparición de centros y grupos de investigación son las características de esta nueva etapa.Alberto Abello Vives de la inteligencia. A todo ello. apoyo financiero a los estudios del Caribe. bajo el empuje brindado por un organismo regional de planificación cuando comienza con entusiasmo la siguiente etapa de estudios sobre la región. la sensibilidad y la información por desentrañar los rumbos. de manera dispar. Son sin lugar a dudas. en distintas etapas y con mucha fragilidad. Entre los pioneros en el campo de las ciencias sociales encontramos a Luis Eduardo Nieto Arteta. las universidades las que han brindado. la economía. Gerardo ReichelDolmatoff y Orlando Fals Borda. Estaban vigentes aun las políticas keynesianas que daban importancia a la planeación regional (aparecen los organismos de planeación regional. Fundesarrollo en Barranquilla. n° 15 . el Caribe colombiano contó con un esquema que sirvió de base para el resto del país) y de la intervención estatal. contribuyeron en la búsqueda por ilustrar las culturas populares y la naturaleza caribe los artistas plásticos Alejandro Obregón y Enrique Grau. el Centro de Estudios Económicos Regionales del Banco de la República en Cartagena de Indias. el Instituto de Estudios Económicos de la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. Hoy la región cuenta con seis centros regionales de investigación especializados en el estudio de la región: el Instituto de Estudios Caribeños de la Universidad Nacional en la isla de San Andrés que cuenta con el programa de maestría en estudios del Caribe. entre otros. los rasgos. los desencantos y las esperanzas de una región. el Instituto Internacional de Estudios del Caribe de la Universidad de Cartagena que realiza cada dos años el Seminario Internacional de Estudios del Caribe. Es la Universidad Nacional de Colombia la que buscando construir una nación con miradas desde los territorios de frontera la que crea la sede Caribe en la isla de 272 Revista Brasileira do Caribe. la reedición de textos históricos. Es durante la década de los ochenta.

igualmente grupos de investigación e investigadores con amplia trayectoria y reconocimiento en diversas disciplinas cuya región objeto de estudio es el Caribe colombiano. una entidad autónoma. la antropología. Muchos de estos grupos surgen como tal ante la política nacional de ciencia y tecnología. la plástica. A su vez son muy pocos los investigadores que pueden dedicar 100% de su trabajo a esta labor. el organismo rector de la ciencia y la tecnológia en Colombia. Son las siete universidades públicas asociadas al Sistema Universitario Estatal del Caribe las que asumen a partir de 2003 el soporte financiero al Observatorio del Caribe. el medio ambiente. privilegian también otras áreas de estudio y otro tipo de proyectos (aquellos considerados como estratégicos y el Caribe no es un sector estratégico).Estudios del Caribe en Colômbia./jul. las lenguas. las convocatorias para la financiación de proyectos privilegian otras regiones (el mismo sistema lesiona a regiones con baja capacidad como el Caribe beneficiando a las de mayor desarrollo). Quiero resaltar el apoyo nacional a través de recursos financieros de Colciencias. salvo contadas excepciones. En las principales universidades hay. 2007 . respaldada igualmente por dos cámaras de comercio. nacido después de una década de planteamientos provenientes de distintas instancias sobre la necesidad de dotar a la región de un centro de estudios regionales independiente y vinculado a los procesos de desarrollo regional. Me refiero a grupos que indagan por la historia. trabajan por proyecto y sin estabilidad 273 jan. así como a la obligatoriedad de vender servicios para complementar sus ingresos. a una iniciativa regional como fue la creación del Observatorio del Caribe Colombiano. la dota del instituto y abre la maestría arriba señalada. Los investigadores universitarios vienen siendo empujados a un mayor número de horas de clase y de actividad burocrática.. sin embargo. los fondos públicos son insuficientes. en los que lo “nacional” se coloca por encima de los interéses regionales. El Observatorio fue creado como una entidad que articula el desarrollo y la cultura regionales. la literatura. la música. San Andrés. la economía y la sociología. Los investigadores de los centros de investigación independientes..

en dos universidades existen cátedras del Caribe dirigidas a estudiantes de pregrado (Universidad del Magdalena y Universidad Tecnológica de Bolívar). España. La región cuenta con una Cátedra del Caribe itinerante por las principales ciudades que divulga el conocimiento nuevo. De esta red forman parte investigadores colombianos no oriundos ni residentes en la región pero que se han dedicado al estudio del Caribe colombiano (investigadores de la Universidad Nacional de Colombia. los estudios del Caribe interactuan con sectores sociales. La mayor parte de las instituciones que arriba se mencionan. Hoy el Caribe colombiano cuenta con varias redes (investigadores. hay que resaltar para el análisis de este panel la Red Ocaribe a la que pertenecen decenas de investigadores y que en los últimos años ha permitido el desarrollo de proyectos interdisciplinarios. que fue llamada Caribe Espléndido y el desarrollo de la primera cátedra virtual sobre el Caribe que dio pie a la publicación Un Caribe sin plantación. En este ejercicio. la Universidad de los Andes y la Universidad de Antioquia. valora la producción intelectual de la región y facilita la discusión. Francia.Alberto Abello Vives laboral y participan en la gestión de los recursos para financiar sus líneas de investigación. Quiero resaltar 274 Revista Brasileira do Caribe. empresariales y políticos. Estados Unidos) con los que hay rico intercambio. cultuales. principalmente). n° 15 . Inglaterra. también investigadores extranjeros (Suiza. en esta última se realiza anualmente un diplomado durante la Escuela de Verano sobre Cartagena y el conocimiento vital del Caribe. una reflexión nacional que sirvió de base para una exposición en el Museo Nacional de Colombia en Bogotá. además de programas de divulgación científica. vol. promotores del desarrollo regional). tienen líneas de publicaciones y revistas (de las de nueva generación hay que destacar a Huellas de la Universidad del Norte). en los que de manera particular he estado involucrado. periodistas. Igualmente. así como la Universidad del Norte en Baranquilla que lideró la nueva generación de publicaciones y estudios. VIII. Se nombran aquí como parte de la reseña: se trata de El Caribe en la Nación Colombiana.

Santa Marta y Cartagena existen arhivos históricos y eclesiásticos (caso de Santa Marta). educación. literatura y música. Santa Marta y Sincelejo. En Respirando el Caribe (volumen II) editado por Aarón Espinosa. si así pudiera llamarse. que lleva una década. geografía. que realiza de manera bienal el Simposio sobre la Historiografía de Cartagena.. en este momento. diseño. lingüística. se encuentran los avances en 10 áreas centrales del conocimiento. En Barranquilla. Hoy existe una extensa y rica bibliografía nacional derivada de los estudios del Caribe colombiano codiciada por investigadores extranjeros. ambiente. economía. Hoy la Cinemateca del Caribe. Hay que destacar en esta interacción. Hay. cuenta con un archivo que conserva la memoria audiovisual de la región.Estudios del Caribe en Colômbia. ciudades. 2007 ./jul.. por lo menos una decena de grandes compilaciones que bien podrían entenderse 275 jan. Así como la interacción con programas radiales (Concierto caribe en Uninorte FM Estéreo) y de la televisión regional. del Área Cultural del Banco de la República de Cartagena de Indias. la conceptualización. Hay que resaltar igualmente la labor. publicado en 2006. Historia. diez ensayos sobre el estado del arte de la investigación. en Barranquilla. que recoge las memorias del II Encuentro de la Red Ocaribe realizado en 2005. la asociación que existe entre el Observatorio del Caribe y la Cámara de Comercio de Cartagena alrededor de una línea de estudios sobre la competitividad de Cartagena. así como la articulación entre el sector empresarial de Barranquilla con Fundesarrollo. también existen archivos fotográficos y fototecas históricas en las ciudades de Cartagena. antropología. construcción y montaje del Museo del Caribe en Barranquilla que ha convocado igualmente a investigadores de distintas disciplinas a lo largo de los últimos seis años. ha sido publicada con las memorias de estos eventos académicos internacionales. Una “nueva” historia de Cartagena. Con el la ciudad y parte de la región Caribe se han nutrido de los adelantos en el conocimiento derivados de la producción de destacados investigadores mundiales.

No pueden estar ausentes de este análisis la aparición. La existencia de centros especializados y grupos de investigación. entre otras muchas cosas. la formación y la divulgación en el campo de los estudios del Caribe colombiano. n° 15 . Cada vez más el desciframiento del Caribe supera las individualidades y avanza por el camino de la cooperación y las redes. agendas. ya hay una primera fase de los estudios del Caribe en la era digital. paralelo a todo esto. cátedras. Así es también en Colombia la búsqueda del conocimiento del Caribe. VIII. la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. militar. a pesar de las dificultades. entre otras. en el que la región ha sido una de las regiones colombianas capturadas (en lo político. Si se examinan los sitios de Internet de entidades como el Banco de la República. de Estudios del Caribe colombiano. Quiero recordar una frase de Gabriel García Márquez que podría utilizarse para entender los estudios del Caribe colombiano: “Mi profesor Juan Bosch. dijo alguna vez en privado que nuestro mundo mágico es como esas plantas invencibles que renacen debajo del cemento. de publicaciones virtuales en sitios de buena parte de las instituciones arriba mencionadas. Y la utilización de ellos es alta. así como el accionar de redes lo demuestran. museos y foros. sino que avanza. aun fragmentado. se puede anotar que éstos se encuentran vivos y su ejercicio es un continuo que no se detiene. de una historia monumental del Caribe. no se detiene.Alberto Abello Vives como un Manual General. Después de este corto recorrido sobre la investigación. se encontrarán datos. estudios. y vuelven a florecer en el mismo sitio”. Fundesarrollo. autor. vol. Mirada en perspectiva. Mayores fortalezas en este campo permitirían en las actuales circunstancias de auge de un conflicto armado. hasta que lo cuartean y lo desbaratan. mayores herramientas de análisis por parte de la ciudadanía1. 276 Revista Brasileira do Caribe. La producción audiovisual se ha enriquecido con los estudios y la virtualidad vive su primera generación. La Ciencia Política es una de las disicplinas de análisis con mayores debilidades. económico) por el narcoparamilitarismo de derecha.

. En el momento de escribir este ensayo. Una serie de publicaciones y eventos en los que se encuentran la nación y la región. hoy ya existe controversia académica sobre fenómenos históricos. aunque con altibajos. viva. artistas. La academia ha dado continuidad a una tradición regional de pensarse. el país se ha “caribeñizado”. el Taller del Caribe Colombiano. la falta de sistematicidad. Durante casi veinte años (desde finales de los setenta hasta la desaparición del organismo regional de planificación –Corpes) la región ha adelantado grandes foros y simposios regionales. enriquece y enaltece el ejercicio académico. Asímismo. a deconstruir estereotipos y falsas concepciones sobre la “costeñidad” existentes en el imaginario nacional. por supuesto.. precisamente por la diversidad. Es más. económicos y culturales que. y en los que la academia hace cada vez mayores aportes. ya ha sido superada.Estudios del Caribe en Colômbia. en la producción de diagnósticos y análisis sobre su economía y el grado de desarrollo social. Todo esto ha contribuído a reducir la dispersión. así como diversos estamentos. mantiene la discusión sobre el desarrollo regional. escritores. de promover una mayor integración regional y de reivindicar el desarrollo social y económico. un nuevo ejercicio. la espontaneidad y le emotividad que habían caracterizado al Caribe colombiano en sus esfuerzos por pensarse. Gracias a todo ello. en el manejo de información y estadísticas sobre su situación. y como parte de ella. promovido por tres de los centros de investigación arriba señalados adelantan una disusión. en la que 277 jan. Los estudios del Caribe han contribuido al igual que la cultura regional. como no ha ocurrido en otra región de Colombia. músicos. en la discusión de las políticas públicas nacionales que la afectan. un mayor conocimiento nacional sobre el Caribe se debe a la labor de investigadores. 2007 . La región ha avanzado en el conocimiento de las causas de su atraso./jul. Se destacan igualmente la pluralidad no sólo en el campo de las disciplinas. sino en cuanto a visiones y enfoques sobre la historia y el desarrollo regional. la era de las primeras obras que durante cierto tiempo generaron una mirada unánime.

VIII. en la región exportadora de Colombia. Muy a pesar de que el Caribe estaba llamado a convertirse en la región más favorecida con la inserción al nuevo modelo económico los resultados sobre los que hoy debaten sus centros de investigación no son favorables. Entre 1998 y 2003. fundamentalmente de enclave. Las disparidades regionales en Colombia son reales y persistentes. no han generado una recomposición económica. igualmente. en un modelo supuestamente pensado para la inserción a la economía internacional. en regiones como el Caribe colombiano la divergencia ha crecido.Alberto Abello Vives participan distintos estamentos. y muy a pesar de tener tres puertos de primer orden. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. la región a la que no le ha ido bien con uno u otro modelo de desarrollo vio aparecer casi dos millones de nuevos pobres. tampoco hubo aquí una expansión industrial. En el Caribe la pobreza por ingreso de sus habitantes es aun sumamente alta. indagando por los obstáculos al desarrollo y por las políticas públicas que Colombia requiere para superar las disparidades económicas regionales. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. La propuesta de los centros de investigación del Caribe colocando en la agenda pública la búsqueda de políticas regionales diferenciadas que contribuyan efectivamente a disminuir las 278 Revista Brasileira do Caribe. La Costa Caribe no se convirtió. Las brechas entre los niveles de ingreso per cápita son. los sectores mineros. n° 15 . debemos recalcar. mientras la economía nacional se consolida en el centro andino. especialmente. Por el contrario hemos visto un acentuado proceso de desindustrialización que ha acompañado a la disminución del producto bruto agropecuario. Mientras el centro del país se ha consolidado aun más. vol. Los nuevos sectores. persistentes y se han acentuado. un rezago en las condiciones de vida de su población. Hoy la región Caribe. pero presenta. en las principales ciudades. es sin lugar a dudas la región más estudiadas de Colombia.

áreas de estudio. b.. modelo caracterizado por la disminución del tamaño del estado y la consecuente fragilidad financiera de las universidades públicas. Retos de los estudios del Caribe Los siguientes son los principales retos de los estudios del Caribe en Colombia2: a. c. Un mayor entendimiento de Colombia saldría de esa urdimbre resultado del cruce de esos hilos que conectan el país a lo largo de su historia./jul. hay zonas menos estudiadas –Caribe chocoano y antioqueño). Pero es innegable el impacto del modelo económico vigente en los estudios del Caribe. d. no contribuyen al fortalecimiento de los estudios del Caribe. Los estudios del Caribe en Colombia se caracterizan por sus miradas locales. Profundizar una visión internacional. Realizar estudios que dialoguen con las otras regiones de Colombia.. En Colombia. los estudios del Caribe avanzan en medio de la diversidad (institucional. visiones) y la adversidad (financiera). La reducción de fuentes de financiación. por ejemplo). disparidades regionales le da a los estudios del Caribe en Colombia una singular particularidad. Buscar entender procesos sincrónicos. como parte del Gran Caribe. Completar la visión regional de conjunto (hay disciplinas con mayores aportes y predominios (historia y economía). Aproximarse a una mayor escala y a los estudios comparativos ayudará a enriquecer esa búsqueda de identidades y a llenar de argumentos las 279 jan. las dificultades financieras de amplios sectores del empresariado local y la centralización a escala global de las decisiones financieras de apoyo a la cultura y la investigación por parte de empresas multinacionales con inversiones en la región. 2007 .Estudios del Caribe en Colômbia. en vista de que se han estudiado en espacios geográficos separados (Caribe continental y caribe insular.

Recordemos que en mayo de 2005 cuando se realizó en Cartagena de Indias la 37ª Conferencia Anual de Historiadores del Caribe. El entendimiento de la realidad y la construcción de conocimiento complejo está exigiendo el rompimiento de las visiones disciplinarias. Creo que la experiencia colombiana arroja elementos. del Centro de Estudios del Caribe en Brasil. como una múltiple institucionalidad. y multilingüe. aunque más dispendioso y costoso. vol. el ejercicio virtual. construcción de redes. durante el cuatrienio 19982002. los estudios colombianos del Caribe requieren no sólo una mayor visibilidad internacional.3 e. igualmente. sino hacer parte de redes y la organización de proyectos científicos de la gran área del Caribe. Promover aun más el encuentro de las disciplinas. el intercambio de métodos y el trabajo colectivo. Hoy más allá de la asistencia a congresos de la Asociación de Estudios del Caribe (CSA en su sigla en inglés). generación e intercambio contínuo de 280 Revista Brasileira do Caribe. de los vínculos con el Centro de Estudios del Caribe de la Universidad Metropolitana de Londres. está llamado a facilitar la organización de grupos de investigación internacionales. de la Asociación Mexicana de Estudios del Caribe (AMEC). particularidades propias. de la vinculación a la conceptualización de la maestría virtual en estudios del Caribe coordinada por West Indies University y apoyada por la Unesco. Colombia desarrolló una iniciativa gubernamental de acercarse a este mundo. En ello.Alberto Abello Vives propuestas de integración política y relaciones comerciales. los dos últimos retos de los estudios del Caribe en Colombia son sin lugar a dudas de aquellos que caracterizan en general a los estudios del Caribe: la falta de visiones regionales de Gran Caribe y la debilidad aún de la interdisciplinariedad. contando con sectores de la academia para ello. Se ha dado un paso en aumentar las relaciones de los investigadores y universidades con el Gran Caribe. actividades permanentemente. n° 15 . VIII. un historiador se preguntaba porqué se estaba haciendo ese encuentro por fuera del Caribe. Si bien las particularidades colombianas dan a los estudios del Caribe.

debería de ir más allá de convocar a un evento internacional periódico y preocuparse por un mayor flujo de información y de contenidos. se organizan. se les valora y reconoce. NOTAS Se destacan Los señores de la Guerra de Gustavo Duncan. 16 de mayo de 20072 Estos comentarios fueron planteados por el autor anteriormente y publicados.. p. Las mejores experiencias son aquellas incluyentes. desde la economía política./jul. del profesor Jario Parada en el sexto taller del Caribe. Ver El Caribe en la Nación colombiana (2006). por la promoción del trabajo en grupo entre investigadores de distintos países. que promueven la interdisciplinariedad. por una mayor dinámica virtual.. por ejemplo. Un esfuerzo adicional es necesario hacer para alcanzar una mayor comprensión de los profesionales de distintas disciplinas que acceden a maestrías en estudios del Caribe.93. la organización de grupos de trabajo. 21 1 281 jan. con amplia convocatoria. publicado por Planeta en 2006 y el ensayo. que se convierten en factores positivos para la supervivencia de los estudios del Caribe en medio de las dificultades. Barranquilla. 2007 . comunicación. La relación entre los estudios del Caribe como especialidad. p. y las disciplinas de los pregrados se encuentra aún por conocerse mejor. Bogotá: Museo Nacional de la Colombia. 3 Ibidem. investigativa o de posgrados.Estudios del Caribe en Colômbia. 2006. Una verdadera red de estudios del Caribe. Repensar los estudios del Caribe significa repensar la forma como hasta ahora se actúa para su desarrollo. por la gestión de recursos para programas de impacto regional. interacción con el resto de la sociedad.

282 .

este dito expressa uma condição de existência comum a países do continente meso e sul americano: a proximidade física em relação aos Estados Unidos. Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos. 242 p... uma idéia de unidade se entrelaça com o omitido e suspenso pelas reticências: “. potência esta que teve uma sobressalente mudança hierárquica no cenário econômico mundial. como Gaztambide-Geigel faz questão de ressaltar. A invocação de um dito popular não se dá de forma gratuita. San Ruan: Edicines Callejón... dela decorre um sentido que expressa a novidade deste trabalho.Resenha GAZTAMBIDE-GEIGEL. Mesmo o dito sendo de origem mexicana. Porto Rico. A atualidade do dito faz-se clara. na qual se elevara ao avatar de maior poderio atual. e tão perto dos Estados Unidos”. Leonardo de Melo Rodrigues Ao nomear ensaios aparentemente dispersos sob o título de um dito popular. 283-287. Seu sentido coloca em xeque o paradoxo implicado na bandeira política norte americana: um imperialismo salvífico quase natural que na prática é muito distante disso—a recente investida democrática em terras iraquianas é exemplo atual de peso. Além levar este paradoxo acerca da política americana com 283 Revista Brasileira do Caribe. Antonio. vol. 2007 . ainda mais estando este incompleto. particularmente os antilhanos. 2006. n° 15. VIII. E a novidade deste trabalho é justamente se adentrar no conjunto de relações que presidiram o processo de emergência da potência norte americana em relação aos vizinhos do sul. Tan lejos de Dios.

sociologia. De modo que tal temática fora incorporada nas ciências humanas. No primeiro ensaio. história. VIII. O que atesta seu estatuto de relevante acontecimento no pensamento das ditas “ciências humanas”. Gaztambide-Geigel abordou tal temática numa dimensão bem delimitada. apoiado em uma massa documentária de fôlego e decorrente de vários anos de pesquisa. que bastaria ao historiador expor suas formas e conteúdos. seria uma ingenuidade supor que seus métodos permaneceriam os mesmos submetidos a objetos tão singulares. este sem dúvida é o jogo implícito em vista das circunstâncias pelas quais se forma o conceito Caribe. e sim um objeto inventado. ou melhor. Situa seu caráter enquanto invenção. Desse modo. que não cessa de se recriar e reiterar-se. a apresentação do presente trabalho se releva não só entre os pesquisadores caribenhos. E. as contingências e encontros que marcaram sua emergência. vol. se se pode falar de um tema central coordenador dos setes ensaios constituintes da presente coletânea. se formam as identidades postas em jogo ao evocar os Caribes. “La invención del Caribe a partir de 1898”. em geral. Hoje oferece tal diversidade. 284 Revista Brasileira do Caribe. tomado como invenção. geografia e mesmo. Entretanto. o conceito de identidade não deixou de se atravessar por objetos os mais distintos. oriundos de outros campos de saber. antropologia. o Caribe não é um objeto fixo e estático. Todavia.Leonardo de Melo Rodrigues meticulosidade. Seu problema foi como se construiu o termo Caribe em relação à política internacional norteamericana para os vizinhos antilhanos. submete o termo Caribe à sua análise historiográfica. que consuma ainda mais o seu valor analítico. E ao inquirir quanto às relações políticas embutidas no momento de sua construção. Desse modo. São muitas as perspectivas de utilização. como também para interessados no tema da “identidade” na contemporaneidade. a filosofia. busca-se ver justamente as circunstâncias em jogo no momento de sua criação. É certo que as discussões identitárias provêem de pesquisas inscritas metodicamente no campo dos estudos culturais. n° 15 . e se servir de um avantajado corpo material. radicados no Brasil ou não.

o autor propôs uma historicização do termo. cujo sentido atravessaria a história latinoamericana. Porto Rico e República Dominicana. começa-se a convergir às idéias de hispanoamericanismo e de latinoamericanismo. do final do século XIX aos dias atuais: o caribe insular. já na década de 90 deste mesmo século. Cuba. No segundo ensaio. em cada situação histórica em que é invocado. pronto e acabado. encabeçariam o sonho da “nuestra América”. e há. O papel deles expressam um movimento. e pôde ver suas diversas usagens mediante as situações próprias e específicas à história antilhana: de um arquipélago atlântico fragmentado submisso à metrópoles coloniais ao “Gran Caribe” em vias de emancipação cultural. por volta da metade do século XIX. Personagens que dedicaram à luta emancipatória dos territórios coloniais da metrópole espanhola. Assim. sob as luzes antilhanas. Gaztambide avalia as idéias antilhanas a partir de figuras históricas inseridas no redemoinho hispanoamericano e antilhano: Marti. Em vista disso. procura-se destacar as forças motrizes do latinoamericanismo. Situação que muda. e sim como houve./jul. foram decorridas enunciações bem diversas para o conceito “caribe”. não falam dos mesmos objetos. o Gran Caribe ou Cuenca del Caribe e o caribe cultural. Mostra como. Mesmo que uma primeira onda de independência arrebatara o continente décadas antes. vários Caribes de maneira que. Hostos e Betonces. o caribe geopolítico. persistia uma colonialidade já dita como “cultural” e combatida pelos libertários antilhanos. diante da ameaça imperial norteamericana. Gaztambide cunhou quatro momentos que são decisivos para a significação do termo caribe. o termo não se refere às mesmas coisas. 2007 . dado sua localização estratégica em relação ao mercado mundial internacional. Por conseguinte. numa engrenagem à qual as Antilhas estariam em função otimizada. “La geopolítica del antillanismo de fines del siglo XIX”. as Antilhas espanholas. E a emancipação devia ser alçada nem tanto em 285 jan.Resenha O que o jogo em torno da criação do termo Caribe revela é que não há um Caribe.

Entretanto. já que é das ambigüidades geradas no interior da política imperial americana a razão das variações acerca deste processo de invenção. VIII. São ambigüidades deste tipo que se alocam no cerne da campanha norte americana rumo à ascensão econômica e que foi aplicada aos vizinhos do Sul. Pois ao mesmo tempo em que o final do século XIX foi marcado por projetos políticos de cunho expansionista. A política imperial desta potência emergente aos fins do século XIX. como atributo qualitativo da política externa norte americana. trata das relações da política internacional norte americana. como o título mesmo diz. Em “La Buena vencidad y populismo”. bem como devia ser buscada em vista da potência emergente: a República norte americana.Leonardo de Melo Rodrigues relação aos velhos impérios europeus. O conceito de ambigüidade. foi fator de grande determinação no caso de invenção do Caribe. com a práxis política do populismo. encontrava-se também mostras de uma ação não imperialista. que a partir da compra da Lousiana começou a deferir ações com finalidade de expandir sua soberania. Ressaltando a particularidade do populismo caribenho. posta em prática no terço inicial do século XX e alterada com o término da Segunda Guerra Mundial. seguindo assim o exemplo do populismo de Porto Rico. estava constituída às voltas de ambigüidades visíveis. este ensaio propõe a hipótese de como os efeitos da política de boa vizinhança fizeram valer no modo de organização interno dos países atingidos por tal postura ambígua. a política da boa vizinhança cede lugar à política do bom sócio. vol. E a emergência dos Estados Unidos. defendida como verdadeira representante do ideal republicano. continentais e antilhanos. Essa transição é o tema dos ensaios “Hacia uma historia social de las relaciones interamericanas: 286 Revista Brasileira do Caribe. marca de maneira decisiva a postura específica de seu imperialismo. como defende Gaztambide. passada a Segunda Guerra Mundial e com a efetivação do poderio norte americano. n° 15 . E explorar as ambigüidades por detrás das políticas internacionais norte americana é o tema central do terceiro ensaio: “El imperio ‘bueno’ del 98”.

O tema do ultimo ensaio. ajustando de forma a assegurar ainda mais a supremacia americana./jul. A política do bom sócio nada mais é que a adaptação da política externa norte americana no momento em que esta nação acede ao topo econômico da economia mundial.Resenha El camino del desarrollismo: 1946-1960” e “Estados Unidos. é o modo como a política do bom sócio criou um imaginário internacional que abaixo suas variações locais possibilitou a criação de identidades multiculturais. E também que não é simplesmente a modulação dos estratos interiores de uma sociedade por um fora. e sim são efeitos da historicidade que perpassam as formações históricas. 2007 . o Gran Caribe e o latinoamericano. “Identidades internacionales y cooperación regional en el Caribe”. Desse modo o que o trajeto destes ensaios evidenciam é como as políticas internacionais não são exercidas de forma aleatória. 287 jan. la idea del desarrolismo y el Caribe: Los orígenes”. O projeto desenvolvimentista que esta política visa suplantar nos sócios do sul adapta-os aos moldes do capitalismo mundial integrado sob a égide do desenvolvimento econômico. e sim o que se dá é um complexo jogo no qual relações de forças heterogêneas se interagem incessantemente.

vol. VIII.288 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 .

2004.Os autores Doctor Alberto Abello Vives é economista.São Luis:SEIR/FAPEMA/EDUFMA.com. Núcleo de Estudos AfroBrasileiros. Goiânia. Co-fundador e primeiro diretor do Observatório do Caribe Colombiano. Recientemente duas compilações suas foram publicadas na Colombia: El Caribe en la nación colombiana e Un Caribe sin plantación. Ciências Sociais. 2007 . Caribe. Dentre suas obras destacamos: Ritmos da identidade. Correio eletrônico: carlosbene@terra. Correo electrônico: aabello@unitecnologica. Atualmente é decano da Faculdade de Ciencias Econômicas e Administrativas da Universidade Tecnológica de Bolívar en Cartagena de IndiasColombia. Corréio eletrônico:araujo. 2002.alexandre@uol. Expeirências e Memórias. Goiânia: GEV. Tem publicado vários livros sobre o Caribe colombiano.Mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão. Relações Culturais Século XIX: Negros e Coolies em Trinidad (1845-1870)./jul.com.br 289 jan. 2007.br Doutor Carlos Benedito Rodrigues da Silva Programa de PósGraduação de. dentre elas: “Memórias que curam” In Olga Cabrera. Universidade Federal do Maranhão. a revista Aguaita e a Cátedra do Caribe colombiano.edu.co Doutor Alexandre Martins de Araújo Doutor pela UFG possui várias obras publicadas.

Gender and the ‘Vulgar’ Body of Jamaican Popular Culture.UCG. onde colabora como professora convidada da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. New York: Palgrave MacMillan. VIII. Dentre alguns artigos: “Noises in the blood:Orality. London: Macmillan Caribbean. Gender and the vulgar body of Jamaican Popular Culture”. rpt 2000. rpt 2005. Entre suas publicações mais recentes destacam-se “Deus e o diabo no sertão dos Guayazes Abusos e desmandos do vigário da Vara de Vilan. em março de 2007.com Kátia Frazão Costa Rodrigues é psicóloga clínica. além de colaborar com a União dos Escritores Angolanos. na cadeira de Metodologia Científica. desde abril de 2007. Professora de Literary and Cultural Studies e Diretora do Institute of Caribbean Studies University of the West Indies. também. 1993. Cristianismo em Goiás. 2004.cooper@uwimona. mestre em Letras pela Universidade Federal Fluminense e doutoranda. trabalhos na área social com 154 crianças 290 Revista Brasileira do Caribe.Noises in the Blood: Orality. n° 15 . Ed. Jamaican Dancehal Culture at large. dentre suas principais publicações destacam: Livros: Sound clash. 2006 e Religiosidade e Sociabilidade entre os confrades do Patriarca São Jose In Quadros Eduardo. Qualificou o seu projeto. intitulado A escrita de uma subjetividade sem sujeito em Aimé Césaire e Edouard Glissant. MBA em Gestão de Recursos Humanos pela FGV-RJ. 2007.jm Doutora Cristina de Cassia Pereira Moraes. Reside em Luanda. Um balanço historiográfico. Realiza.edu.Os autores Doutora Carolyn Cooper. Durham: Duke University Press. pela mesma instituição. Correio eletrônico: cristinadecassiapmoraes@hotmail. Reconhecida pela sua trajetória. na revisão de textos de jovens autores. Jamaica. vol. 2003. Mona. Correio eletrónico: Carolyn. “Enslaved in Stereotipes Race and representationin Post Independence Jamaica”. com pósgraduação em Psicoterapia e Psicologia Centrada na Pessoa. Goiânia. 1995. rpt 1994. na área de Literatura Comparada. In sociedade e Cultura.

Os autores órfãs da guerra. vagabundos e mendigos: desvios. Faz parte de dois grupos de pesquisa do CNPq: Identidades em trânsito:estéticas transnacionais (coordenadora ao lado da Profa Vera Lúcia Soares da UFF) e Estudos do Caribe no Brasil (coordenado pela Profa Olga Cabrera).com Leonardo Vidigal doutorando da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 2005). Brasil/Canadá: visões. Nubia. 2007). Organizou as seguintes obras coletivas: Mulher e Literatura. pesquisa sobre a temática do reggae há vários anos. devires e lugares da alteridade” (In: FIGUEIREDO. Publicou artigos.com 291 jan. 2007).com. volume VI da Revista Brasileira do Caribe.br Doutora Maria Bernadette Velloso Porto.bhz@terra. Textos apresentados no VIII Simpósio Nacional (em colaboração com Lucia Helena Vianna e Lívia Reis(1999). 2000). possui várias publicações. EdUFF/ABECAN. ensaios em revistas especializadas . Los angeles. Perspectivas transnacionais. perspectivas do Ártico ao Antártico”. “Andarilhos. Identidades em trânsito (EdUFF/ABECAN. Fronteiras. Algumas publicações: “Lieux de la mémoire et de l’oubli dans des textes migrants” (In: ALMEIDA. É coordenadora do Núcleo de Estudos Canadenses da UFF./jul. Maria Bernadette. Correio eletrônico: mbvporto@hotmail. estimulando o contato com a Literatura. EdUFF/ ABECAN. Sandra Regina Goulart de. Organizou o número 12. no atendimento psicoterápico e em oficinas de leitura. paisagens na literatura canadense (EdUFF/ABECAN. passagens. Eurídice e PORTO.2006). UFMG. 2004) e Figurações da alteridade (em colaboração com a Profa Eurídice Figueiredo. “Habitabilidade e cartografias do virtual no universo de Régine Robin” (In: HANCIAU. Correio eletrônico: mbvporto@hotmail.Correio eletrônico: leovid. In: The Beat Magaziine. 2007 . dentre elas destacam-se: “Bob Marley in Brazil”. ABECAN/FURG. 1997. capítulos de livros.

166. Centro de Estudos Superiores de Imperatriz. Goiânia: Ed.com. 2004. E “Ritmos de Identidade: música. Goiânia. Boletim Goiano de Geografia. Goiânia: Universidade Católica de Goiás. v. Estudante da Pós Graduação da Universidade Federal de Maranhão. p. Brasília:Paralelo 15 e “Nas terras do sol. “O reggae na Jamaica Brasileira: interlocução jurídica com cidadania e política a partir de letras musicais” In: 25a Reunião Brasileira de Antropologia. Goiânia: UCG. p. 2007. 2002. é mestranda da pós-graduação em História pela UFG. Correio eletrônico: tnegrão@gmail.22.com. Dentre suas publicações: “Cultura jeje na diáspora: Maranhão e Jamaica”. . Departamento de História e Geografia. 2007. territorialidade e corporalidade”. “Coração das trevas”.com Maristani de Sousa Rosa Universidade Estadual do Maranhão. In: III Simpósio Internacional Cultura e Identidades. CECAB.23. .br Doutora Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo possui uma rica trajetória como professora da Universidade de Brasília. “Quatro Tempos de Ideologia em Goiás”. 2007.383. In: História Revista.377 . v.143.165 .Maria Lemke Loiola . 2003. autora de “Santa Maria. Goiânia.141 . Correio eletrônico: maristanerosa@terra. Brasil e cuba nas representações de Glauber rocha” In: Caribe sintonias e dissonancias.b 292 . Correio eletrônico: marialemke@pop.2. Boletim Goiano de Geografia. “História e Cultura Africana e Afro-americana”. p. Dentre suas publicações destacam-se: “Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava”. 2005. v. Pinta e Nina: a redescoberta dos Caribes em espaços discursivos brasileiros” In: Cenários Caribenhos.

3. 1940. sendo neste caso uma cópia em disquete e outra impressa. francês ou inglês. Com mais de cinco linhas devem ser transcritas em parágrafo distinto. sobretudo e-mail para contato. com recuo à esquerda e sem aspas. e Instrumentos de Trabalho. telefone/fax e. data da publicação e página(s) citada(s). cujo conteúdo se relacione com a história do Caribe. sobretudo no que se refere às citações. sendo um no idioma original e outro em inglês (abstract) ou espanhol. que tratem de estudos relacionados com o Caribe. repertórios. Deverão ser acompanhados de um breve currículo do autor. ou que informem comentadamente sobre arquivos. também no idioma original e em inglês e espanhol. Uma citação dentro de 293 . CITAÇÕES: No corpo do texto. 2. o segundo idioma do resumo e das palavras-chave deverá ser o português e o espanhol. bibliotecas. espaçamento entre linhas simples. Os artigos deverão ainda ser acompanhados de dois resumos. referências e notas. incluindo endereço. IDIOMAS: A Revista Brasileira do Caribe publica colaborações em português. todas no formato acima especificado. No caso do idioma original ser o inglês. que possam interessar aos pesquisadores caribenhos. 18-19). que deverão ser colocadas logo abaixo dos resumos. devem vir transcritas entre aspas duplas. com menos de cinco linhas. sem deslocamento da primeira linha. via e-mail ou via correio convencional. TIPOS DE TRABALHOS PUBLICADOS: Artigos. Resenhas Críticas. parágrafo justificado. p. Entrevistas com personalidades de grande expressão na historiografia caribenha.para apresentação de trabalhos científicos. NORMATIZAÇÃO: todos os textos deverão obedecer ao padrão normativo da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas . em corpo 10 normal. 5. sendo que diferentes títulos de um mesmo autor no mesmo ano. FORMA DE APRESENTAÇÃO: os trabalhos deverão ser encaminhados no formato Microsoft Word for Windows. inventários etc. deverão ser diferenciados com uma letra após a data. a partir da letra a. acompanhadas da indicação entre parêntesis do sobrenome do(s) autor(es). versão 2000 ou 2003. Já os dois resumos dos artigos deverão conter em torno de 10 (dez) linhas. 6. com o mesmo tipo e tamanho da letra do texto.Normas Editoriais para Publicação de Artigos 1. bem como de três palavras-chave. EXTENSÃO DOS TEXTOS: a extensão dos artigos deverá ter entre 15 e 20 páginas. espanhol. fonte Times New Roman em corpo nº 11. 4. sobre obra bibliográfica publicada nos últimos dois anos. margens de 2. Exemplo: (CASTILLO. e a das resenhas entre 3 e 7 páginas. que reproduzam documentos históricos importantes relacionados com o Caribe.5 cm. inéditos.

Letra inicial do nome do organizador. Local: Editora. conforme os modelos abaixo: Livro: SOBRENOME. Local: Editora. 4. serão apreciados pelo Conselho Editorial. ano de publicação. p. 10. 53-72. Exemplo: LARRAÍN IBÁÑEZ. 1996. 9. usadas para a apresentação de comentários. Enfoques filosóficos literarios. Modernidad razón e identidad en América Latina. a quem cabe a decisão referente à oportunidade da publicação das contribuições recebidas. 1999. Título do artigo ou capítulo. ARTIGO OU CAPÍTULO DE COLETÂNEA: SOBRENOME. V. 1994. jul. p. Reflejos y antinomias de la problematica de la identidad en el discurso narrativo latinoamericano. 6-34. 7. 8. Letra inicial do nome do Autor. Local de publicação. O Conselho Editorial se reserva o direito de sugerir ao autor modificações de forma com o objetivo de adequar o texto às dimensões da revista e a seu padrão editorial e gráfico. bem como apresentar indicações completas./dec. ENDEREÇO PARA ENVIO DAS CONTRIBUIÇÕES: 294 . Chile: Editorial Andrés Bello. BIBLIOGRAFIA: deve vir ao final do trabalho e contemplar as obras efetivamente citadas e referenciadas ao longo do texto e nas notas de rodapé. ano. Os demais tipos de textos. : SOBRENOME. Título do artigo. N. F. sucintas e claras. página inicial-final do artigo. ano e página como a anterior. Reinterpretar el Caribe. ARTIGO DE REVISTAS OU PERIÓDICOS: SOBRENOME. (org. Revista Mexicana del Caribe. explanações ou traduções que não caberiam no texto. UBIETA GOMEZ. a mesma deve vir com citação de autor. Título do periódico. La Habana: Editorial Academia. em ordem crescente de numeração. data.) Identidad cultural latinoamericana.outra é indicado por aspas simples. número do fascículo. página inicial-página final do artigo ou capítulo. (org. Letra inicial do nome do Autor. 7. Devem vir em corpo 8. que não os artigos. E. Exemplo: AINSA. Letra incial do nome do Autor. CRITÉRIOS DE REVISÃO: os artigos enviados à Revista Brasileira do Caribe serão remetidos a pelo menos dois pareceristas escolhidos entre os membros dos Conselhos Editorial e Consultivo que poderão recomendar ou não a publicação.) Título da Coletânea. N. Estas citações abreviadas enviam à bibliografia no final do artigo. Exemplo: GIRVAN. NOTAS DE RODAPÉ: breves. número do volume. Título do livro: sub-título. podem ser de esclarecimento ou explicativas. J. ou ainda recomendá-la com modificações. Santiago.

sala 42 Goiânia .br 295 .ufg.001-970 Fone: 55-62.3521-1457 Fax: 55-62-3292-1118 E-mail: ocabrera@fchf.Goiás CEP: 74.Revista Brasileira do Caribe Universidade Federal de Goiás Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia Campus II .