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  • Olga Cabrera
  • Carolyn Cooper
  • Carlos Benedito Rodrigues da Silva
  • Maristane de Sousa Rosa
  • Leonardo Vidigal
  • Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo
  • Maria Bernadette Velloso Porto
  • Kátia Frazão Costa Rodrigues
  • Cristina de Cássia Pereira Moraes
  • Maria Lemke Loiola
  • Alberto Abello Vives
  • Os autores

Universidade Federal de Goiás - UFG Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB ISSN: 1518-6784

Revista Brasileira do Caribe
Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil

CECAB, Goiânia, vol. VIII, nº 15 - jul./dez., 2007

Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB
Diretora: Olga Cabrera Secretária: Leonardo de M. Rodrigues

Revista Brasileira do Caribe Editora Responsavel/Organizadora do Volume: Olga Cabrera
Indexada pela Library of Congress. Control number: 2004204431. www.catalog.loc.gov e pelo Directorio Latindex /UNAM/ México. www.latindex.unam.mx Conselho Editorial Olga Cabrera - Brígida M. Pastor - Danilo Rabelo Conselho Consultivo Juan J. Baldrich, Pedro L. San Miguel (Universidad de Río Piedras, Puerto Rico); Consuelo Naranjo (Consejo Superior de Investigaciones Científicas - CSIC-Madrid, Espanha); Ernest Pépin (Escritor, Guadaloupe); Olga Portuondo (Universidad de Santiago de Cuba, Cuba); Ileana Sanz (Universidad Habana, Cuba); Laura Muñoz (Instituto Mora, México); Maria Teresa Cortés Zavala, Universidad Michoacana de San Hidalgo, México); Miguel Suarez Bosa (Universidad de Las Palmas de Gran Canária, Espanha); Maria Therezinha F. Negrão de Melo, Eleonora Zicari, Jaime de Almeida (Universidade de Brasília, Brasil); Eugênio Rezende de Carvalho, Isabel Ibarra, Luis Sergio Duarte da Silva (Universidade Federal de Goiás, Brasil); Euridice Figuereido, Maria Bernadette Velloso Porto (Universidade Fluminense, R. de Janeiro, Brasil); Rohda Reddock, Susan Mains, Patsy Lewis (University of the West Indies,Jamaica); Rose Mary Allen (University of the Netherlands Antilles, Curaçao); Rawle Gibbons (Universisity of the West Indies, Trinidad), Diana Soto(Un. Bogotá Col.), Diana Lago e Alfonso Múnera (Un. Cartagena de Indias, Col.) Comissão Técnica (Projeto Gráfico/Editoração): Leonardo de Melo Rodrigues Capa: Adriana Mendonça Revista Brasileira do Caribe: Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil/Universidade Federal de Goiás, vol. VIII, nº 15, (jul./dez), Goiânia, Ed. CECAB, 2007. Semestral. Descrição baseada em: vol. VIII, nº 15 (jun./dez. 2007). ISSN:1518-6784 295 p. 1. Caribe - História - Periódicos.
CDU: 94 (1-928.9)

Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia - FCHF - Universidade Federal de Goiás-UFG Campus II - Goiânia - Goiás CEP: 74.001-970 Fone: 55-62-3521-1457 Fax: 55-62-3521-1013 E-mail: ocabrera@fchf.ufg.br

* Os dados e conceitos emitidos nos artigos, bem como a exatidão das referências bibliográficas são de responsabilidade dos autores. ** Os artigos recebidos para publicação são apreciados por no mínimo 2 (dois) revisores, escolhidos preferencialmente entre os membros dos Conselhos Editorial e consultores externos especializados. Data de Circulação: Dezembro/2007 Copyright
©

Tiragem Bruta: 600 exemplares

2007, Centro de Estudos do Caribe no Brasil

2

Sumário
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Carolyn Cooper ........................................................11 Os sons do Atlântico negro Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 O reggae na “Jamaica Brasileira” Cidadania e Política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa..........................................41 Enredando Brasil/Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrações de idéias, influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo..................85 Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto.................................109 A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à Antillanite Césaire e Glissant. Katia Frazão Costa Rodrigues...................................137

3

Plantation Legal: Trinidad século XIX Alexandre Martins.....................................................165 O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes............................197 A morte branca do escravo negro: Considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola.................................................245 Estudios del Caribe en Colombia: Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives.................................................267 Gaztambide-Geigel, Antonio. Tan lejos de Dios... Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos Leonardo de Melo Rodrigues...................................284 Os autores........................................................................289

4

Summary
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica Carolyn Cooper..........................................................11 The sounds of the black Athlantic Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 Reggae in the Brazilian Jamaica: Citizenship and politics in the lirics of Songs Maristani de Sousa Rosa...........................................41 Interlacing Brazil and Jamaica: An international connection through filmography and popular music Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrations of ideas, influences or reactivations? Cinematographic production in Brazil and Cuba as desterritorialized experiences Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo................85 A voice from the haitian diaspora in the migrant‘s literature of Quebec Maria Bernadette Velloso Porto...............................109

5

. Essays about relation between Caribbean and United States..............137 Legal plantation: Trinidad nineteenth century Alexandre Martins Araújo.........284 About the authors......245 Studies of the Caribbean in Colombia: Between diversity and adversity Alberto Abello Vives............ Katia Frazão Costa Rodrigues..................................267 Gaztambide Antonio....................................... Far of God.............................The construction of identity in francophone caribbean from negritude to antilleanness: Césaire e Glissant..... Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola............................165 The slave trade in Brazil in the eighteenth century Cristina de Cassia Pereira Moraes............ Leonardo de Melo Rodrigues......197 The black slave´s with death: Some considerations on slavery in Brazil......................................................................................................289 6 .

A presença de um número muito mais expressivo de colaboradores no Conselho Consultivo e o acréscimo de artigos para ser avaliados. Estas abrangem desde àquelas relacionadas ao conteúdo quanto às formais.luj . Quatro artigos com diferentes abordagens estudam essas relaciones. da destacada historiadora jamaicana Carolyn Cooper. Danilo Rabelo e desde o próximo número Orlinda Carrijo Melo. será dedicado à Cuba. O presente número da Revista Brasileira do Caribe apresenta vários temas que podem ser agrupados no eixo das Conexões Afro-Atlânticas: Jamaica/Brasil/Caribe. o número 17 ao Haiti e o 18 à literatura francófona.zed/. espanhol. a transcendência da Revista tem permitido o aumento de artigos de todo o mundo que chegam até a redação. e a arte utilizada nas capas das revistas são todas originais. Do ponto de vista formal a Revista tem uma artista responsável pelo seu projeto gráfico. O aumento do Conselho Consultivo da Revista tem dado um fluxo mais rápido à avaliação dos artigos para sua publicação. No que respeita ao conteúdo. autorizando a submissão dos mesmos a uma avaliação mais rigorosa. Brígida Pastor) e da aplicação das normas de publicação aos artigos. possibilita pensar na conversão dos próximos números em dossiês dedicados especialmente a um país do Caribe. ou em torno a um tema. 16. O primeiro deles. Olga Cabrera e inglês. é outro dos objetivos alcançados. A Revista Brasileira do Caribe alcança seu número 15 após algumas transformações que começaram no número 9. O próximo número. “Lick Samba: 7 7002 . O primeiro grupo de artigos da revista relaciona Brasil e Jamaica mediante a samba no solo jamaicano e o reggae no brasileiro. A reformulação do Conselho Editorial e de seu compromisso com a terminação bem sucedida da revista mediante uma revisão cuidadosa das línguas (português.Editorial Olga Cabrera Diretora da Revista Brasileira do Caribe. Adriana Mendonça.

Cidadania e política a partir de letras musicais” procura explicar mediante a música o processo identitário que transcende as fronteiras regionais e nacionais para conclamar objetivos sociais comuns dos negros da diáspora. Além do viés sexual utilizado nas interpretações sobre este tema. na visão de um poeta da diáspora caribenha (haitiana) no Canadá. Ainda o terceiro artigo de Maristane de Sousa Rosa “O Reggae na “Jamaica brasileira. no artigo “A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant”.Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica” num jogo de palavras que transcendem as distorções sobre Kingston como a capital do crime para capital como “primeiro valor” que exemplifica com o estudo sobre a samba que se recria na Jamaica. “Os Sons do Atlântico Negro” alerta das abordagens identitárias embasadas apenas nas análises sociais. O autor aborda o reggae e os vínculos inter-culturais entre Brasil e Jamaica mediante a utilização do cinema como fonte de análise. Katia Frazão de Costa Rodrigues. certamente. econômicas. O artigo de Leonardo Vidigal “Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular” se enlaça de maneira simultânea aos três artigos anteriores e ao seguinte de Maria Therezinha F. O artigo de Maria Terezinha Negrão de Melo “Migrações de idéias. uma expressão das conexões AfroAtlânticas que enlaçam Brasil a Jamaica. reclamados por Norbert Elias para compreender as mudanças na História. Negrão de Melo. VIII. O segundo artigo do reconhecido estudioso do reggae em Brasil. n° 15 . Carlos Benedito Rodrigues da Silva. vol. A interpretação da desterritorialização no Caribe reaparece no excelente artigo de Maria Bernadette Velloso Porto “Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec”. as emoções. e que deixam fora os sentimentos. a samba jamaicana é. por sua vez apresenta em uma perspectiva relacional 8 Revista Brasileira do Caribe. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas” revela a transcendência e as conexões que decorrem do cinema de Glauber Rocha para a compreensão do espaço latino-americano.

/dez. A presença de várias culturas africanas na formação social aparece refletida na pesquisa documentada de Cristina de Cássia Pereira de Moraes “O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII” e no artigo de Maria Lemke Loiolo “A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776)”. sobretudo. Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos A seção final da Revista Brasileira do Caribe oferece também os dados mais importantes sobre os autores que participaram neste número.. também documental. por Leonardo de Melo Rodrigues. destaca a relevância deste último livro do reconhecido historiador porto-riquenho e coloca a importância para o Brasil do estudo dos especialistas da região. Antonio. 9 jul. A revista contém outros dois artigos que relatam a experiência da escravidão no Goiás. O primeiro é um estudo sobre a escravidão em Goiás a partir da documentação dos arquivos e o segundo. Por último. “Estudios del Caribe en Colombia.os aportes teóricos na construção da idéia de antilhanité em Césaire e Glissant. Por último. Tan lejos de Dios. 2007 . a indefinida e nebulosa situação do Caribe colombiano não é diferente à de outros países do Caribe e o reclamo do autor para atentar contra as desigualdades sociais procedentes da racialização pode ser ampliado a toda Afro-América ou Caribe. Brasil. aborda o tema específico dos documentos de óbitos de negros tanto escravos como livres na região de Meya Ponte (Pirenópolis) Encerra a revista o artigo de Alberto Abello Vives. Os sete artigos se enlaçam a uma globalizada visão do Caribe nas suas múltiplas conexões e possibilidades de abordagens. Trinidad século XIX” aborda as experiências dos imigrantes indianos e dos negros em Trinidad. a resenha à obra de Antonio Gaztambide-Geigel. no século XIX. quer seja nas ilhas ou no continente. o artigo de Alexandre Martins de Araújo “Plantation legal. Entre la diversidad y la adversidad”.. A problemática e. os dois destacados literatos de Martinica. GAZTAMBIDE-GEIGEL. oferecendo um outro lado desse complexo mundo do Caribe.

10 .

vol. Goiânia. Jamaica Resumo Este artigo embrionário teve sua origem em maio de 2000 no Simpósio “Sinergias Culturais e oportunidades de negócios entre Brasil e Jamaica. n° 15. Spirit of the Crossroads) Carolyn Cooper Abstract This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing”. significando não somente o local geopolítico da cidade senão também algo coloquial do moderno sentido de “capital” significando “primeiro valor”. Há um jogo de palavras sobre o conceito “capital”. *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 11 Revista Brasileira do Caribe. I intend a pun on ‘capital. O caso da música e das publicações”. Jamaica. 11-20.’ meaning ‘first rate.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital. cidade de Kingston. Jamaica. Brazil. realizado na capital. held in the capital city of Kingston.’ This is an article that is based. VIII. iniciadas na Jamaica e que agora se estendem ao solo brasileiro. in conversations about samba from Jamaica to Brazil. Keywords: Samba.Lick Samba Cultural Synergies between Brazil and Jamaica (Dedicated to the memory of Lino de Almeida. 2007 . conversações sobre a samba. beyond investigation. mais que uma investigação. Este é um artigo que tem como base.

’ Here. deadly’ as in capital punishment.’ Kingston is a much under-rated city. Brasil.chave: Samba. más allá de la investigación. I intend a pun on ‘capital.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital.’ meaning ‘first rate. Este es un artículo que tiene como base. Jamaica. often excluded from the itinerary of most visitors to Jamaica who fear its vile reputation as a ‘murder capital. significando no sólo el local geopolítico de la ciudad sino también algo coloquial del moderno sentido de “capital” significando “primer valor”. vol. Jamaica. 12 Revista Brasileira do Caribe. Brasil. realizado en la ciudad de Kinsgton. VIII. yet another meaning of ‘capital’ resonates: ‘mortal.Carolyn Cooper Palavras. This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing. El caso de la música y de las publicaciones”. The 2000 “Cultural Synergies” symposium was hosted by the Jamaica Promotions Corporation (JAMPRO). I was invited to contribute to the deliberations. En este intento un juego de palabras sobre el concepto “capital”. Jamaica. now re-branded as Jamaica Trade and Invest. it is an intervention in a conversation.” held in the capital city of Kingston. But I wish to make it absolutely clear that what I offer here is not a scholarly article – the product of prolonged research and analysis. n° 15 . Instead. conversaciones iniciadas en Jamaica y que ahora se extienden al suelo brasileño. As a cultural critic specialising in Jamaican popular culture and literature. My intuitive reflections on that occasion have now been somewhat refined for presentation on this panel. initiated in Jamaica. Jamaica Resumen Este embrionario artículo tuvo su génesis en mayo de 2000 en el Simposio “Sinergías Culturales y oportunidades de negocios entre Brasil y Jamaica. Palabras Claves: Samba.

which are heightened by the seductive refrain. nevertheless. the man surrenders to the painful pleasures of love. ah lick i one time. it means 13 jul.” The singer is ready for action. lick samba Oh yeah I could not resist. lick samba. “lick samba. Bob Marley’s invocation to “lick samba. ooh. noon and night. Oh darling I’m not a preacher. lick samba Oh oh./dez. lick samba Ah say. apparent: “And it’s not that I am meek/ But it’s that I’m on a peak.” which I use to frame my remarks here. lick samba. morning. oh darling. oh nah And though I know you hurt me again I’ll go on.’ In slang usage in English. but I am calling Ooh. lick samba. oh darling Ah just a lick samba.” The primary meaning of ‘lick’ in English is to ‘tongue.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica that now continues on Brazilian soil. lick samba. I’ll feel the pain And it’s not that I am meek But it’s that I’m on a peak. lick samba If it’s morning time. lick samba Ah bring it up. oh nah Another like this. baby You can write it down in my name Morning time. I’m ready And if it’s late at night I’m steady Give it to you anytime. lick Samba1 Though somewhat enigmatically expressed. de 2007 . But there are claims to be settled. noon or night Ah just a lick samba. lick samba An mi seh. however “little.” Unable to resist the woman’s power. the sexual allusions are. right here I’ll settle the little I claim. is the pulsating refrain of a song which appears to emblematize samba in primarily sexual terms: Lick samba.

“Another like this”. the version of “Lick Samba” that is recorded by Gilbert Gil and Rita Marley (and the other I-Three. the percussive beats of global African music. the refrain ‘lick samba’ evokes. But the double English/Jamaican meanings appear to converge in this song. The line “Ah bring it up. But I would argue.” sung as a duet. vol. n° 15 . instead. Gilberto takes the lead. that here this ‘it.2 The song opens with titillating exclamations.” This is the primary sense in which the word is used in Jamaican. Indeed. thrash.’ conjoined to ‘lick. connoting the call and response structure of African oral discourse. This ameliorative meaning of “lick” that I attempt to recuperate here encodes the complexity of male/female relationships that are not always open to transparent. Widened beyond the immediate sexual context. I hit/lick it once. ah lick i one time. In the song “Trench Town Rock. heightened by percussive guitar beats: “ooh! hah! aiya! woyio!” After the opening refrain. right here.” Bob Marley deploys the trope of music as a ‘hit’ in precisely this way. sound and power. “I could not resist. Not just the conventional chart ‘hit’ but also the physical impact of megawattage sound systems licking the body: One good thing about music. The explosive hit/lick becomes a celebration of the potency of music as word. as well.’ is essentially a euphoric expression of a natural high. right here] ambiguously suggests the pleasurable hit of vigorous – not violent – oral/sexual contact. singular interpretation. When it hits you feel no pain 14 Revista Brasileira do Caribe.Carolyn Cooper as well “to beat. The generic ‘it’ that is licked/hit may be read as the objectified female body. Marcia Griffiths and Judy Mowatt) on the Kaya N’Gan Daya CD. oh. When it hits you feel no pain Wo wo I say One good thing about music.” to which Rita replies. “Lick Samba. VIII. The entire song becomes an amusing mating ritual. explicitly evokes playful sexual seduction. especially by those disposed to see misogyny at every turn in Jamaican popular music.” [I bring it up.

incorporating cultural meanings far beyond the intentions of its progenitors. Vianna declares that he valorises “the intellectual trajectory of anthropologist Gilberto 15 jul. was a featured text. samba is the music of Rio de Janeiro. working-class.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Hit me with music Hit me with music now This is Trench Town rock Don’t watch that Trench Town Rock Big fish or sprat You reap what you sow Trench Town Rock And only Jah Jah know Trench Town I’ll never turn my back Groovin it’s Kingston 12 Groovin It’s Kingston 12 No waan yu come galang so No waan yu fi galang so Ska ba dip. exemplifying the cultural synergies between Brazil and Jamaica in the field of book publishing. At that JAMPRO seminar. Reggae is “Trench Town rock”./dez. a Kingston 12 groove. But in both instances. de 2007 . African diasporic music is not only globalised but it becomes an iconic manifestation of national identity. Hermano Vianna’s book The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. The book was simultaneously published in 1998 by the Press University of the West Indies and the University of North Carolina Press in the series “Latin America in Translation/ en Traduccion/ em Traducao. Similarly.” sponsored by the Duke-University of North Carolina joint program in Latin American Studies. In his author’s preface to the US edition. samba is a popular music whose origins are decidedly urban and down market. ska ba dip You waan come cold I up I’m a groover an the world know it by now3 Like reggae. this localised.

That football connection is a whole other story of cultural synergies. the globalisation of reggae suggests that. legendary Jamaican footballer Allan ‘Skill’ Cole. Freyre was one the mediators. about back-and-forth flows of influence that connected Rio not only to Pernambuco. but that does not matter. gives an amusing rendering of the Jamaican psychology of ‘largeness’ in her poem “Independance. Given the scale of geographical difference between Jamaica and Brazil. affectionately known as Miss Lou. Jamaica’s international reach greatly exceeds our geographical size. speaks through the mouth of Miss Mattie. Jamaican cultural icon Louise Bennett-Coverley.Carolyn Cooper Freyre” as a “narrative and interpretive thread” for the book. as for samba. who loudly proclaims the benefits of the nation’s newly acquired state of independence. the ventriloquist. a self-aggrandizing character she creates. Nevertheless. vol. This book is about movement. In private conversation with me. and the rest of the Atlantic world as well. n° 15 . Various kinds of cultural mediation. as with athletics and football. it might appear hubristic to even attempt to delineate cultural synergies between the two. the United States. not Rio de Janeiro. but to France. Flag independence confirms an enlargened conception of both her own person and the landmass of the former colony: Jamaican She hope dem caution worl-map 16 Revista Brasileira do Caribe. trans/national cultural flows are an essential element of the formation and reproduction of the music. He elaborates the rationale: Freyre’s home was the Brazilian northeast. Marley’s long-time friend and producer of the song “Lick Samba. become crucial to the ‘nationalization’ of samba.4 For reggae. VIII.” Miss Lou. spanning geographical and social distances. Would Jamaica have made it to the World Cup without the technical input of the celebrated Professor Rene Simoes? Hardly likely.” disclosed that it was his own involvement with football in Brazil that sparked Bob Marley’s experimentation with samba.

Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica

Fi stop draw Jamaica small, For de lickle speck cyaan show We independantness at all! Moresomever we must tell map dat We don’t like we position Please kindly teck we out a sea An draw we in de ocean.5 English She hopes they’ve warned the mapmakers To stop representing Jamaica as tiny, For the little speck can’t show Our independence at all! Moreover we must tell the mapmakers That we don’t like our position – They must please take us out of the sea And put us in the ocean.6

Jamaicans do, indeed, have an oceanic consciousness. The landmass of the island (and ‘mass’ is a gross exaggeration in comparison to the expansive landscape of Brazil) does not contain us. Though seemingly bound on all sides by the sea, we are not insular. Psychologically free, many Jamaicans claim a much wider sphere of influence than the circumference of a small island, especially when the diaspora is taken into account – all those Jamaicans, with so many passports (legal and illegal), scattered across the globe. We constitute a formidable, transnational, constantly mobile nation-state. There is, obviously, another quite literal sense in which the Jamaican people are continental, like the Brazilians. The majority of Jamaicans are of African origin and we retain ancestral memories of a vast continent of mythic proportions. It is Rastafari who have most articulately propagated the philosophy of repatriation of the mind. Many Africans in the diaspora – in Brazil as in Jamaica – choose to keep genetic memory alive. In our language, music,

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Carolyn Cooper

food culture, religion we memorialize the past. And we keep our ancestors alive and available to dream us into waking consciousness; in the present. Africa is not the distant past; it is contemporary culture. But, like Jamaica, with our optimistic national motto, “out of many, one people”, Brazil privileges a model of multi-racial harmony that to outsiders often appears to repress the powerful African presence in this complex society. Brazil is home to the largest number of people of African origin outside the continent of Africa. John Chasteen, translator of Hermano Vianna’s The Mystery of Samba, defines the issue of racial identity in Brazil in this diplomatic way:
Scorn for the official platitudes about Brazilian ‘racial democracy’ has animated a number of recent U.S. multiculturalist views. They emphasize that, when racial and cultural mixing becomes a nationalist ideology, other racial identities (especially indigenous and African ones) remain marginalized and may be snuffed out altogether. In Brazil, the multiculturalist critique has circulated only in narrow intellectual circles and seems unlikely, for now, to diminish the popular appeal of mixed-race (mestico) nationalism. After all, it was not so long ago – in the 1930s – that mestico nationalism overthrew and replaced the official doctrines of white supremacy. Nor is white supremacy gone from Brazil, except officially. Therefore, the basic nationalist message – ‘It’s okay not to be white and European’ – retains its value in many people’s lives. The mestico category is so loose as to exclude almost nobody who seeks an ‘authentic Brazilian’ identity.7

A much less diplomatic reading of ‘authentic Brazilian identity’ recognizes that it is not only in ‘narrow intellectual circles’ that the critique of ‘mestico’ identity circulates. There is a popular Black nationalist movement alive and growing in Brazil. And this present African political struggle can be related to the long history of resistance to enslavement, both literal and mental – to cite Bob Marley and before him Marcus Garvey who truly exemplifies the

18 Revista Brasileira do Caribe, vol. VIII, n° 15

Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica

continental consciousness of African Jamaicans: “Emancipate yourselves from mental slavery/ None but ourselves can free our mind.”8 Like Jamaica, Brazil has a long history of maroonage: an intractable refusal to be enslaved on the plantation. And we must remember that Brazil is directly responsible for the development of the sugar plantation economy in the Caribbean. It was the expulsion of the Sephardic Jews from Brazil in the seventeenth century that forced them to seek refuge first in Suriname, then Barbados where they developed the sugar industry, which then spread to other islands and precipitated the enforced migration of Africans to work on the plantations in the Caribbean. Movement of Jah people. In The Mystery of Samba, Hermano Vianna asks a provocative question: “How and why did Brazilian ‘authenticity’ become essentially ‘Afro-Brazilian’?”9 The answer he provides is equally provocative, especially for us in Jamaica where the elite continue to disparage forms of popular culture (like dancehall) that have their origins in the consciousness of the masses – or, as we prefer the ‘massive’ with its connotations of power, not just faceless anonymity. It is these very despised cultural forms, like contemporary dancehall culture, that have come to be identified globally as the quintessential markers of Jamaican identity. Vianna argues that “[t]he invention of Brazil’s national essence, at least in the version symbolized by samba, turns on the importance of popular culture.”10 He foregrounds the distinction between ‘pop’ culture and ‘popular’ culture: ‘Samba, despite its long and intense association with the Brazilian mass media, is never thought to have originated (or even to belong) there. Pop culture has been viewed, to the contrary, as a corrupting, alienating influence: the worst enemy of “authentic” popular culture.”11 Just as Jamaicans have been hit by samba and feel no pain, Brazilians have been hit by reggae. I must honour Jimmy Cliff for the role he has played in the globalisation of reggae music, particularly in Brazil. I must also celebrate the work of Lino de Almeida, now numbered among our ancestors, who was so instrumental in

19 jul./dez. de 2007

establishing the musical connection between Jamaica and Brazil. It is my vision that we, at the University of the West Indies, can initiate with our colleagues in Brazil a multi-disciplinary, multi-sectoral research project focusing on intellectual property and related cultural productions – with practical industry applications – that will indeed strengthen strategic partnerships between Jamaica and Brazil.

Notas
1

Bob Marley, “Lick Samba,” Track 2, Disc 2, Songs of Freedom, Compilation, Tuff Gong/Island Records, LC0407, 1992.

2

Bob Marley and the Wailers, “Trench Town Rock,” Track 4, African Herbsman, Disc 1,Trojan Records, ASIN:B0000011DQ, 1973.

Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xvii.
3

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
4

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
5 6

John Charles Chasteen, “Translator’s Preface,” in Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xiv-xv.

Bob Marley, “Redemption Song,” Track 10, Uprising, Island Records, ILPS 9596, 1980 8 Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil, xvii.
7 9

Ibid.

20

Os Sons do Atlântico Negro
Carlos Benedito Rodrigues da Silva Abstract
Reggae was born in Jamaica in the mid sixties as a result of a musical and rhythmic evolution from the Black-African traditions to the rock-steady rhythm and blues, in addition to the notable influences of Rastafarianism. In São Luis de Maranhão, considered the “Portal of Amazônia”, including the States of Pará and Maranhão, there was always a musical predominance of Caribbean Rhythms, such as merengue, carimbó, bolero, among others, in the popular festivities. This study attempts to formulate some of the hypothesis that explains the phenomenon of the incorporation of reggae into São Luis´s culture. Keywords: Popular culture, Reggae, São Luis de Maranhão (Brazil)

Resumo
O artigo analisa a apropriação e a ressignificação do reggae jamaicano entre as camadas populares da cidade de São Luís, Maranhão, como forma identitária e de resistência à marginalização social a que estão submetidas desde o passado de escravidão. Busca-se também traçar as origens do reggae na Jamaica, bem como explicar as condições para a popularização do reggae no Maranhão, bem como os embates ideológicos com as elites locais que estigmatizam o reggae em nome da ‘tradição’ e da preservação de seus privilégios sociais, econômicos e políticos. Palavras-Chave: Cultura Popular – Reggae – São Luis de Maranhão (Brasil)

Resumen
El reggae nació en Jamaica, a mediados de los años 60 del siglo XX, como consecuencia de una evolución rítmica y musical, desde las tradiciones negroafricanas, pasando por el rock-steady, rhythm and blues, además de las influencias

*Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 21-39, 2007

desde as tradições negro-africanas. especialmente a partir da industrialização da Jamaica. O rastafarianismo se tornou. sempre hubo un predominio musical de ritmos caribeños. carimbó. o rastafarianismo constituiu-se numa alternativa de construção da nacionalidade para milhares de jovens jamaicanos.Carlos Benedito Rodrigues da Silva marcantes del rastafarianismo. pelo rock-steady. vol. Inspirado em interpretações bíblicas. El presente artículo intenta formular algunas hipótesis explicativas sobre el fenómeno de la incorporación del reggae a la cultura de San Luis. atribuindo-lhe uma característica de movimento messiânico. em meados dos anos sessenta. e ao longo dos anos setenta do século XX. como conseqüência de uma evolução rítmica e musical. Palabras Claves: Cultura Popular. por meio de compositores e cantores. Embora não professem um credo monolítico. além das influências marcantes do rastafarianismo. por isso tornou-se um amplo movimento popular na Jamaica. portanto. bolero. um dos principais articuladores do PanAfricanismo. refletindo uma identidade cultural de oprimidos que adotavam o reggae como o símbolo da expressão de suas angústias. n° 15 . Reggae. 22 Revista Brasileira do Caribe. En São Luis de Maranhão. Desde o seu início. um dos elementos fundamentais das mensagens político-filosóficas do reggae. de Marcus Garvey. o reggae concentrou todas as expressões sociais. considerada el “Portal de la Amazônia”. críticos sociais ou líderes espirituais. passando pelo mento. como merengue. adeptos do rastafarianismo. San Luis de Marañón (Brasil) O reggae surgiu na Jamaica. VIII. entre outros. os rastas acreditam que Ras Tafari é o “Deus Vivo” e que a salvação do homem negro passa pelo retorno à África. culturais e políticas da Jamaica. que se tornaram profetas. nos idos de 1950. entre otros. rhythm and blues. em las fiestas populares. que envuelve los Estados del Pará y Maranhão. impulsionado pelas pregações. que viviam no desemprego e na marginalidade.

Alguns a consideram originária das misturas de línguas afrocaribenha e inglesa. em 1967. vocalista do grupo. donominado “Do The Reggay”. Bob Marley foi o responsável pela explosão do reggae para além das fronteiras jamaicanas. 23 jul. Secundado por nomes não menos famosos hoje. Sem deixar. presentes na Jamaica. os guetos do Terceiro Mundo. de 2007 . Talvez por isso.Os sons do Atlântico negro Não existe um significado específico para a palavra reggae. sofridas e que não tem o que querem. Com um acentuado caráter de contestação política. Essa palavra apareceu pela primeira vez em um disco do grupo Toots and Maytals. Juntamente com a banda The Wailers. originando novas tendências e conquistando novos espaços. ou “desigualdade”. de beber sua essência na fonte básica que o originou. porém não se tem nenhuma conclusão definitiva sobre essa ligação. serviu para abrir as portas para vários cantores e compositores jamaicanos. porém. as mesmas bases culturais que impulsionaram o surgimento do reggae na Jamaica tenham contribuído para a explosão do ritmo jamaicano entre as populações negras e pobres das favelas e palafitas de São Luís do Maranhão. A expressão máxima do reggae jamaicano no mundo está em Robert Nesta Marley. saindo em busca de novos ritmos. resguardando as devidas proporções. coisa que se usa como comida. o reggae está em permanente evolução. Toots tenha definido o reggae. a expressão teria se derivado de “streggae”. Os ecos do grito jamaicano ressoam no Maranhão É possível que. que começaram a excursionar e editar seus discos fora do país. isto é. como algo que identifica o povo sofrido dos guetos./dez. como Jimmy Cliff e Peter Tosh. uma expressão para designar pessoas simples. marcando uma revolução na música negra em todo o mundo. significando “raiva”. palavra caribenha usada para designar prostituta. O próprio Toots Hibbert. definiu-a como “uma coisa que vem do povo dos guetos”. o sucesso internacional dos Wailers. em meados dos anos setenta.

através do Atlântico Negro. entre outros. têm uma familiaridade com os ritmos. vol. bolero. sempre houve uma predominância musical de ritmos caribenhos. atribuem ainda o gosto pelo reggae a uma possível identificação étnico-racial entre jamaicanos e maranhenses. especialmente da chamada Baixada Maranhense. Uma aproximação cultural pode ser encontrada ainda. Isto revela que raízes culturais africanas teriam sido transplantadas para as duas regiões pelo processo de escravização e permanecido ali com algumas ressignifições3. Nessa região. ou seja. transportados para regiões diversificadas das Américas e do Caribe. Embora permaneçam “invisíveis” por muito tempo. carimbó. como merengue. chamadas de “sotaque”. essa identificação. afirmam que sintonizam emissoras do Caribe em algumas horas da madrugada e. de caráter geográfico. tanto na Jamaica como em São Luís existe uma população predominantemente negra com algumas características culturais semelhantes. sendo que a maioria delas apresentam certo grau de veracidade. ainda que aparentemente inconsciente e imprecisa de se definir. nas festas populares1. considerada o “Portal da Amazônia”. algumas inclusive. VIII. herdadas dos africanos escravizados. várias explicações são apresentadas para justificar essa forte identificação. O reconhecimento de uma batida semelhante entre o reggae e o bumba é o que permite a circulação dos regueiros entre os salões de reggae 24 Revista Brasileira do Caribe.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Embora seja difícil precisar exatamente quais os caminhos percorridos pelo reggae até cair no gosto da população maranhense. acabam florescendo em situações específicas na diáspora. acionadas pela memória coletiva a partir de estímulos diversos. Moradores de áreas rurais do Maranhão. Algumas pessoas. que por isso. que envolve os Estados do Pará e Maranhão. Na verdade. n° 15 . que são também tocados nas festas dos povoados negros do interior do Estado. nas variações rítmicas do bumba–meu-boi. é resultante das raízes culturais africanas. como o comunicador Ademar Danilo2.

4 A gente sente o peso da trupiada do boi.. incitando o imaginário popular a respeito da inserção do reggae no espaço maranhense. Inclusive. aí quebra os preconceitos. Foi isso que chamou a atenção. mas escutei lá. entre as décadas de 60 e 70 e depois fomos vendo o reggae se expandindo nas festas da periferia e a periferia sendo muito mal tratada.. músico e atual secretário estadual de cultura do Maranhão. cantador do bumbameu boi do Maracanã. foi isso que chamou a atenção do pessoal. foi essa pancada semelhante. foi suburbana. o reggae se tornou um instrumento de exploração do próprio negro. Várias vozes e narrativas tecem os discursos. Não sei a origem. A partir que se torna mercadoria. o primeiro disco de reggae que escutei foi na zona. o reggae teve que superar muitos preconceitos para ser aceito como uma das maiores manifestações dentro da cultura maranhense. mas isso é a maneira como o reggae está sendo manipulado e 25 jul. Insistindo no relato de alguns depoimentos. de 2007 .) os marinheiros infestavam a zona. Segundo ele. Hoje. como afirma Humberto. podemos salientar as declarações de Joãozinho Ribeiro.Os sons do Atlântico negro e os terreiros de apresentação das “brincadeiras” da cultura regional no período junino. A caminhada do reggae foi popular. Morei mais da metade da minha vida na zona do baixo meretrício e ali era comum esses navios que vinham das Guianas (. ele se assemelha ao peso da pancada do reggae. geralmente eles pagavam as prostitutas com discos. Era comum eles aportarem todo mês. mas a origem foi de participação./dez. infelizmente. isso superou a barreira do preconceito pra depois entrar no mercado. não é outra coisa não. Agora vemos o reggae conseguindo uma grande identificação na cidade. que veio de baixo. agora a gente pode até ver com outros olhos.

em cujos bares e cabarés ouve-se diariamente o ritmo jamaicano entremeado de boleros e merengues. está relacionada “ao povo sofrido dos guetos. o que nos remete a situações semelhantes atribuídas ao reggae desde as suas origens na Jamaica. denunciando a exclusão que a escravidão impõe e os processos da modernidade sustentam. que se faça alguns cruzamentos com a definição atribuída ao cantor Toot Hiberts. assentada em uma semântica pejorativa. manifestando-se no lazer e no trabalho. Joãozinho Ribeiro revela que um dos caminhos de divulgação do reggae em São Luís foi pela zona do baixo meretrício possibilitando. pode ser relacionada com a moral burguesa. fundamentalmente. entre outras coisas. com prostitutas. com sua forma de dançar agarradinho reflete determinada sensualidade inscrita culturalmente em corpos. como uma atitude de rebeldia. nem o que precisam para assegurar respeito e dignidade numa sociedade de opressão. que sofrem e que não tem o que querem” Entre outras coisas. é possível identificar neste ponto uma das vias fortes de discriminação contra o reggae em São Luís. despossuídos. qual seja. Podemos ainda salientar que a construção do reggae. Conforme MartinBarbero (1997:240) 26 Revista Brasileira do Caribe. Curiosamente.Carlos Benedito Rodrigues da Silva assimilado por poucas pessoas que estão ganhando muito dinheiro. branca e cristã. de vigilância e punição às exibições do corpo como instrumento do prazer. ainda. para quem a expressão reggae. visto que no reggae o corpo é concebido. “mulheres vulgares” que sofrem a violência diária de comercializarem o corpo por não ter o que querem. pela sensualidade que enseja. pessoas simples. a sua identificação como uma música de negros marginalizados. vol. A zona do baixo meretrício é uma região localizada no Centro Histórico de São Luis. O ritmo do reggae em São Luís. em certo sentido. VIII. n° 15 . que povoam os guetos e palafitas da Jamaica ao Maranhão e.

de 2007 . como é o caso do reggae jamaicano em São Luís. como para nos dar pistas sobre as possibilidades de existência de raízes culturais semelhantes envolvendo povos das duas regiões. criando uma nova linguagem como canal de comunicação e identificação. embora também ‘carregada’ oniricamente. envolvidos num ritmo frenético. reforça os elementos de manutenção das desigualdades. tanto para mostrar que um dos fatores de aceitação do reggae pela população da ilha de São Luís foi a sua relação com os ritmos caribenhos. concentrando-se com algumas características marcantes. E não se trata de reduzir o sentido da dança ao do trabalho. Se por um lado.. precipitadas. Essas afirmações. 27 jul. a princípio. O consumo da cultura do negro como espetáculo midiático. E é a dialética dessa dupla indecência o que vai de fato escandalizar a ‘sociedade’ (. e sim de descobrir que a indecência do gesto negro não vem somente de sua atrevida relação com o sexo. onde o reggae é um dos atrativos para os boêmios freqüentadores das casas e bares da região. que o adotou como uma das mais importantes opções de lazer. Por sua vez. o negro enfrenta o trabalho extenuante e. duvidosas ou legítimas.. não é suficiente para atribuir-lhe qualificação social. de sua evocação do processo de trabalho no próprio coração da dança: no ritmo. todos os caminhos. Logo. Produzido originalmente em um idioma diferente. mas também./dez. são legítimos. o reggae se instalou na ilha e se espalhou por alguns outros municípios do estado. principalmente nos locais habitados pela população negra de baixa renda da periferia. inclusive a zona do baixo meretrício.Os sons do Atlântico negro Através de uma cadência quase hipnótica. ao mesmo tempo. possibilita visibilidade. o cansaço e o esforço doem menos. É uma embriaguez sem álcool.). a existência de várias versões explicativas indica que é muito difícil precisar qual o caminho de introdução de determinados elementos culturais em um novo contexto. são contribuições importantes.

adquiriu uma posição destacada no contexto das programações culturais de São Luís. De elemento identificador de negros marginalizados. tanto por parte da polícia. No próprio espaço das festas. de uma vigilância acirrada sobre os regueiros. as músicas são apelidadas de melô. habitantes da periferia e prostitutas do “baixo meretrício”. possibilitando ganhos econômicos e prestígio para quem o manipula. Os próprios Dj’s. como pelos grupos de segurança. que “aquecem” ou “esfriam” determinados ritmos de acordo com os interesses das gravadoras. pois isso remeteria São Luís a uma Jamaica negra e pobre. ostentado com tanto orgulho pelos intelectuais maranhenses desde o século XIX. dinamizadora dos eventos. pelos organizadores. já apresentam as músicas com o nome da melô conhecida. distanciando-se cada vez mais do título de Atenas Brasileira. mas principalmente pelos proprietários de clubes e radiolas. é possível encontrar diariamente crianças dançando reggae nas ruas ao som dos programas de rádio. Ainda que alguns preconceitos sejam quebrados.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Nessas áreas. cujos descendentes. constata-se a exigência. o reggae que não trilha por esse mesmo caminho. Mesmo que tenha se expandido atualmente para outros setores considerados “mais higienizados” da cidade. Um fator a ser ressaltado é que a exploração do reggae a que se refere o compositor Joãozinho Ribeiro se dá não tanto pelas elites. paradoxalmente. que concebem os eventos apenas como fonte de lucro. contratados especialmente para os eventos. de sangue ou de orientação 28 Revista Brasileira do Caribe. sem revelar nenhuma outra preocupação de caráter sócio-coletivo que possa beneficiar a chamada “massa regueira”. n° 15 . vol. VIII.5 Contrariando os movimentos midiáticos. mesmo que o ritmo esteja inserido em jingles e propagandas comerciais veiculados nas emissoras de TV. No universo regueiro de São Luís não se toca reggae nacional e na falta de entendimento das letras. o reggae ainda não é aceito por esses grupos como um símbolo da cultura maranhense. permanece no plano social a relação direta reggae/marginalidade. ele passa a ter uma aceitação como mercadoria de consumo.

Os sons do Atlântico negro ideológica branca. desconhecendo uma ou outra realidade. quando o trabalho escravo foi substituído pelo assalariado. que teima em permanecer com fortes raízes no cotidiano religioso. constroem seus próprios caminhos a partir das pluralizações culturais que vivenciam. pois o sonho de europeização precisa ser construído sob a concepção dominante de desqualificação da herança cultural africana. a identificação de São Luís com a Jamaica hoje. Portanto. de animalidade. a importância da presença da população negra. reivindica-se o título. de 2007 . São essas raízes que desafiam as imposições das “elites atenienses” de São Luís e trazem o reggae como uma força dinamizadora de identidades que. Deste modo. deixam transparecer uma atitude de repúdio à assimilação do reggae por amplos segmentos da população maranhense e. e o ex-escravo era definido como incapacitado para o desenvolvimento econômico e cultural da nação. “o belo e edificante epíteto” de 29 jul. como uma maneira de reforçar o desejo de ser menos negro em sua cultura. principalmente. O reggae é um dos elementos desse processo e ganha força na concepção popular. menos africano. construída na sociedade brasileira após a abolição da escravatura. remetê-la a um passado de inferioridade e distanciamento em relação à europeização pretendida e nega. “mais nobre”./dez. A presença do reggae estaria provocando uma atrocidade na cultura maranhense. significa para alguns. apesar de ainda não serem suficientes para transformar a cidade em uma nova Jamaica. a presença do negro era vista como sinônimo de atraso. contribuem para o estabelecimento de novos referenciais de identificação para segmentos populacionais que. ou menos jamaicano. de Atenas Brasileira. assim. em grande parte responsável pela construção da sociedade brasileira. Se nos períodos imediatamente após a abolição da escravatura. à denominação Jamaica Brasileira atribuída a São Luís pelos DJ’s. especialmente para aqueles que assimilaram a ideologia de europeização. do trabalho e do lazer de amplos segmentos da população maranhense.

Embora a predominância seja dançar aos pares. a propagação do reggae em São Luís esteve ligada muito mais a um comércio alternativo de gravação de fitas e ao aluguel de radiolas do que à industria cultural. algumas pessoas preferem dançar sozinhas próximas às caixas de som. tanto entre os diversos segmentos da população da capital. discotecário: julho/98). Há também as coreografias coletivas. As fitas eram gravadas de discos importados da Jamaica que somente alguns discotecários tinham acesso. este sim atroz. pois possibilitou que o ritmo alcançasse espaços cada vez mais distantes. porque as próprias emissoras não tinham os discos de reggae. A divulgação se fez com a promoção de festas e programas de rádio. pois violentador da dignidade humana. como nos municípios e povoados rurais do interior do estado. chegando a São Luís como raridades. eram feitos com material exclusivo dos DJs. pois desde meados dos anos oitenta. Os programas. Uma das diferenças marcantes em relação à Jamaica é que o reggae em São Luís é dançado aos pares. a gente não sabia separar o que era reggae.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Atenas Brasileira já não faz sentido. o que era música lenta. embora mantidos pelas emissoras. muitos desses discos já estavam fora de catálogo na própria Jamaica. a não ser para a satisfação de determinados segmentos sociais que se outorgam guardiões das tradições como retrato de um passado escravista. A dança adquiriu essa característica misturando passos do forró e do merengue. a programação de rádio teve um papel muito importante nesse processo. 30 Revista Brasileira do Caribe. vol. VIII. As pessoas gostavam porque era música lenta. (Riba Macedo. quando se deu a grande projeção do reggae na ilha. Além do comércio de fitas. Durante muitos anos. predominantes na região. Na época. A gente dançava sem fazer definição. com grupos de três ou cinco pessoas exibindo passos coordenados. n° 15 .

Carlos Alexandre.) antes de se conhecer a palavra reggae aqui. (. Altemar Dutra.Os sons do Atlântico negro A dinamização do ritmo jamaicano no Maranhão coincide com a explosão dos hits da “Discoteque” na região Sudeste do País. Enquanto nas regiões Sul e Sudeste a preferência musical para as festas da juventude recaía sobre os ritmos mais acelerados. a discoteca ou o funk. ou “Jimi Clife”. baião. O rei do merengue aqui era considerado Luiz Calaf. mas o merengue também estava no auge.. nas regiões Norte e Nordeste os ritmos predominantes eram: forró. maestro: 1998). A música internacional que se dançava aqui era o merengue... Tanto que os primeiros sons de reggae em São Luís foram pela música de Jimmy Clyff. como o rock. que agradava ao público. Seus discos estavam chegando ao Brasil no embalo desse novo som e já podiam ser comprados nas lojas locais. as pessoas chamavam balanço.. porque na época tinham os cantores brasileiros. Muitas pessoas afirmam que antes de se conhecer a palavra reggae no Maranhão. Evaldo Braga. A gente gostava muito de Lindomar Castilho. bolero etc. ‘ô que balanço bonito é o do Jimmy Clyff’. merengue. Depois chegou às lojas um LP de Johnny Nash. então chamava Jimi Clife e tal (. ou “agarradinho” que é uma expressão nordestina para as danças de salão. A música estrangeira não tinha muita penetração.. esse ritmo era identificado como “discoteca lenta”. de 2007 . com exceção do merengue que vinha da Guiana e era aceito porque se assemelhava aos passos do forró nordestino. As músicas de Jimmy Cliff eram muito solicitadas nas festas porque tinham um balanço diferente. que preferencialmente se dança solto. Era aquele estilo que a gente dançava. ritmos que se dançam aos pares. ‘I Can See 31 jul./dez.) (Chico Pinheiro. “balanço”.

elas já existiam anteriormente. promovendo festas com forró. n° 15 . em São Luís essa prática também foi adotada pelos produtores das festas de reggae. As radiolas tiveram também uma grande importância no processo de divulgação do reggae em São Luís.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Clearly Now’. contendo várias caixas de som formando paredões nos clubes. oferecendo lazer para uma grande faixa da população de baixa renda que não tinha condições de adquirir os discos. entre outros ritmos. Alguns proprietários de radiolas chegavam a comprar todos os exemplares de um mesmo disco e raspar os selos para que outros não pudessem identificá-lo. da mesma forma que os sound systems jamaicanos. eles contribuíram para que o ritmo se espalhasse praticamente por todos os bairros de São Luís. 32 Revista Brasileira do Caribe. Curiosamente. junto com outras de Jimmy Cliff. A disputa pela exclusividade de um disco sempre foi muito acirrada. possuindo semelhanças com os “sound systems” jamaicanos que popularizaram o Ska e depois o Rock Steady como alternativa ao controle excessivo exercido pelo governo à rádio jamaicana. Voltados quase exclusivamente para a festa de reggae. como havia uma competição intensa entre os discotecários ambulantes na Jamaica que chegavam a raspar a etiqueta ou o selo dos discos novos para dificultar a aquisição pelos concorrentes. Essa música. as radiolas são contratadas para animar festas em vários pontos da cidade. ‘You Can Get It If You Really Want’ e ‘I Love I Need’. Elas são sistemas montados com uma aparelhagem sofisticada. VIII. regravado no Brasil em l971. A partir do início dos anos oitenta houve uma proliferação desses equipamentos. (Riba Macedo: julho/98). faziam muito sucesso nas festas no início dos anos setenta. lambada. em festejos de santo na capital ou no interior do estado6. As radiolas maranhenses não nasceram com o reggae. Operadas por discotecários que nem sempre são os seus proprietários. merengue. criando rivalidades entre eles. vol.

Os sons do Atlântico negro Essa atitude. este fenômeno pode ser observado em regiões como Maranhão. nos locais de grande concentração de população negra. não é música dos brancos./dez. O reggae vem do negro. redefinindo seu território de atuação. Por tudo isso. Bahia. de 2007 . Segundo eles. Baixada Fluminense etc. a evolução musical na Jamaica é muito rápida. Ainda que não estejam ligados a nenhum movimento político organizado. onde tem sempre um 33 jul. é possível compreender a importância do reggae como conseqüência da dinâmica expansão midiática que ultrapassa as fronteiras nacionais com uma velocidade inusitada neste final de século. O reggae é música do negro. O contingente de negros aqui no Maranhão é muito grande. por isso a gente se identifica com ele (Ronaldinho. é uma música marginalizada. Por isso. criou também uma animosidade entre os radioleiros e discotecários que mantinham em segredo suas fontes de aquisição. especialmente. é imenso mesmo e tá sempre na periferia. No Brasil. se de alguma forma serviu para conquistar o público. quem conseguir mais raridades vai ter mais condições de assegurar o seu público e se manter em evidência junto à “comunidade regueira”. determinando a criação de novas linguagens e estéticas comunicativas em várias regiões. Para alguns regueiros maranhenses a herança negro-africana é responsável pela concepção pejorativa que se atribui ao reggae e também pelos atos de discriminação que vivenciam por serem relacionados a ela. muitos demonstram ter consciência de que a discriminação se dá pela sua condição social e racial. e as músicas preferidas dos regueiros maranhenses não são encontradas facilmente. Coisa de nego que mora ali Pelas ondas de rádio e pelos clips televisivos o ritmo se espalhou pelo planeta. dançarino).

ou até mesmo. para alguns. Para os que compõem o minoritário quadro das elites são ofertados espaços luxuosos. De fato. por alguns. dançarino). o reggae é. já que este é a 34 Revista Brasileira do Caribe. Agora que o reggae virou moda. no carnaval essa relação pode ser constatada em várias instâncias. Entretanto. nas cordas dos trios elétricos baianos. as alternativas de lazer são consideravelmente mais restritas. uma vez que o objetivo é estar entre seus iguais. pois mesmo que determinados grupos estejam participando de uma atividade comum. enquanto para os segmentos definidos como regueiros que sofrem as consequências da exclusão. n° 15 . como nos espaços escolhidos ou oferecidos para o lazer. Existe um caráter integrativo do ponto de vista sociológico nessas festas. Daí a presença do branco ser vista. como uma invasão. bem como para a maioria das festas populares. Analisando o desenvolvimento das escolas de samba cariocas. já que todos os participantes. não se pode perder de vista que esse caráter integrativo é momentâneo e não elimina as diferenças e nem as desigualdades. podemos dizer que ela se expressa tanto na exibição das fantasias. estão ali com o mesmo objetivo da busca do lazer. Nesse sentido. O mesmo argumento vale para as festas de reggae. enquanto para a grande maioria. como alternativa de auto-afirmação. a exclusão dos espaços de lazer. mais uma opção de lazer entre outras. Os brancos nem sabiam que o reggae existia. os brancos começam a invadir o salão e a gente não tem mais espaço pra dançar (Guiu Jamaica. essa participação não se dá em condições de igualdade para todos. o espaço para estes últimos. sabe? É um ritmo negro. a princípio. serve também. um ritmo que mexe com a gente. Clóvis Moura7 aponta para o papel integrativo do carnaval. geralmente incômoda.Carlos Benedito Rodrigues da Silva salão de reggae. VIII. resta o anonimato nas alas e baterias das escolas de samba. Dessa forma. vol. no tempo que a polícia vivia baixando o pau na negrada.

ele (o regueiro) se sente prestigiado frente à “comunidade” Sem dúvida. neste sentido./dez. de 2007 . 35 jul. de tal forma que causavam espanto nos fazendeiros.Os sons do Atlântico negro representação do grupo que caracteriza o reggae como uma atividade marginal. Para estes. é atingido também. levando-o a assumir essa condição como uma identificação positiva. dançar afasta as angústias do cotidiano. As reações de vigilância e controle exercidas. onde se concentram majoritariamente os grupos negros. Ao contrário. Na verdade. a presença cada vez maior de grupos não negros (jovens estudantes da classe média e até turistas nacionais e estrangeiros) em alguns “clubes de reggae” possibilita ao regueiro um auto-reconhecimento. pela desqualificação atribuída às atividades lúdicas construídas pelos grupos negros na cultura brasileira. Por outro lado. Além do que. ameaçadora. a exemplo de várias outras manifestações que recebem o mesmo tratamento. quando é reconhecido como um bom dançarino ou um bom DJ. é discriminado por sua identificação como “coisa de negro” e. por exemplo. mesmo em meio às agruras da escravidão. as festas do reggae atribuíram visibilidade a uma grande parcela da população de baixa renda em São Luís. pela polícia e pela imprensa local refletem a concepção das elites maranhenses sobre o reggae e seus freqüentadores. desde o século XVI. um dos raros momentos de livre exercício de seus costumes originais. passível de vigilância e controle. (1988:45). a discriminação contra o negro não se dá por conta do reggae. o reggae. Tinhorão mostra que desde o século XVI os batuques de escravos representavam momentos de expressão de alegria e felicidade. contribuindo para a construção de uma imagem estereotipada do regueiro. Ele considera que O fato de os batuques constituírem para os escravos africanos. ia garantir a esses encontros uma riqueza de expressões de que os colonizadores jamais poderiam imaginar a extensão.

portanto.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Essa diversidade de práticas rituais. escravos ou libertos. instrumento de trabalho. ultrapassa a compreensão das elites que. presas às orientações cristãs européias. Legitimada entre outras coisas. por uma moralidade cristã. torturado. religiosas ou de lazer manifestadas pelos segmentos negros. vol. inventando gingas e artimanhas que constantemente apontam para a ambigüidade da moral escravista. da ordem social ou da moral burguesa. Assim. O próprio corpo é depositário do pecado. mas também seus corpos e almas. controlando não apenas suas vidas. VIII. a dança sempre foi uma das mais fortes expressões dos grupos humanos em toda a história da 36 Revista Brasileira do Caribe. mas também apropriado a bel-prazer. n° 15 . o corpo-coisa do escravo propõe a experiência assustadora da ausência de limites: pode ser surrado. Sem dúvida. para satisfação dos apelos da carne. dilacerado e morto.. Assim. traz consigo a inscrição simbólica dos confrontos entre a civilização ocidental e as culturas profanadas pela diáspora. a escravidão impôs aos negros escravizados a imagem do pecado. em que pesem as várias e diversificadas tentativas de controle exercidas em nome da religião. sempre atribuíram às manifestações dos afrodescendentes. utiliza-se deste corpo para satisfação de desejos. desejo e sedução. o primitivo a ser domado — também o assinalam como objeto de repulsão. as marcas que designam esse corpo enquanto outro-mercadoria. a qual ao mesmo tempo em que proíbe sua exposição pública. ele se projeta como um elemento de desafio ao poder das elites. Ainda segundo Maria Lúcia Montes (2000: 65) Mesmo para o senhor. Maria Lúcia Montes mostra que esse mesmo corpo neutralizado pelos horrores da escravidão. um caráter de lascivosidade e desordem. tem de ser coberto e aprisionado para inibir seus anseios e transformá-lo em simples instrumento de trabalho.

maracatu. que esse ritmo é tocado também. instigava-lhe a sociabilidade. Notas 1 Pude constatar através de alguns relatos. A ginga. desde um passado no qual a sujeição à condição de escravo ao mesmo tempo em que bloqueava as condições de emancipação do indivíduo. representam a explicitação da rebeldia e expressam.Os sons do Atlântico negro humanidade: em busca da liberdade./dez. as angústias e as alegrias que não podem ser pronunciadas livremente. 2 Ademar Danilo foi um dos primeiros comunicadores a apresentar programa específico sobre reggae nas emissoras de rádio em São Luís e foi eleito vereador pelo PT. simplesmente pelo prazer de se sentir bem. entre tantos outros. Essas performances desenvolvidas pelos grupos negros que viveram a diáspora. a sensualidade. Assim. da Amazônia. de 2007 . a malícia. existem fortes aproximações culturais seja entre os povos do Caribe. num percurso de ida e volta tanto nas ondas midiáticas da indústria cultural como nas marés do Atlântico Negro. bumba-meu boi. ou da América Latina. merengue. Isto nos leva a afirmar que samba de roda. em algumas festas de grupos negros em Salvador na Bahia. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de religião afro-brasileira de São Luís é a Casa 37 jul. pelos ciclos de colheita nas sociedades agrárias e da fertilidade em sociedades tradicionais ou. estão relacionadas com as lembranças armazenadas. também. mesmo considerando as especificidades. são vertentes rítmicas produzidas na diáspora africana. tanto individual como coletivamente. que mobilizam segmentos das várias regiões estendendose até a África. 3 Uma curiosidade é que segundo historiadores. com votos da “comunidade regueira”. capoeira ou reggae. em agradecimento aos deuses pelas alegrias da vida. com a qual se produziu a ligação com o presente. mas são representadas por uma memória corporal que burla a vigilância das elites com uma linguagem simulada.

São Paulo: Studio. Lisboa: Centelha. Melô da formiga. & SIMON P. Bibliografia ALBUQUERQUE. Rasta and resistance: from Marcus Garvey to Walter Rodney. com seus respectivos melôs. vol. 1997. Reggae: Música e cultura da Jamaica. O Local da Cultura. 1988. onde acontece algumas festas importantes da cultura popular. os cds foram adotados posteriormente. O “melô” seria uma espécie de alcunha da música. que até o final da década de 80. CANEVACCI. Massimo. Melô da Guerreira. Belo Horizonte: Ed. p. São Paulo: Ática. e assim por diante. Sincretismos: uma exploração das hibridações culturais.Carlos Benedito Rodrigues da Silva de Fanti-Ashanti. In: Cultura Brasileira: Tradição e contradição. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 7 Sociologia do Negro Brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar/Funar. 1995. BHABHA. que já trazem junto ao título da música. o nome “melô” que é criado pelos regueiros. London: Fonthill Road. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. . Melô do Sapato. “O Conceito de Tradição”. n° 15 . 1997. São Paulo: Martin Claret Editores. 4 O Maracanã é um bairro rural do interior da Ilha de São Luis. VIII. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa. Pierre. DAVIS S. O Poder Simbólico.). Marco Antonio (org. A magia do reggae. CANCLINI. CARDOSO. 1985. tais como: o Melô do Morcego. Lisboa: DIFEL1989. 6 É importante ressaltar. 5 Existem atualmente gravações de coletâneas em CD’s piratas. 1996. Horace. 38 Revista Brasileira do Caribe.143. A radiola Diamante Negro lançou um CD com 20 músicas preferidas dos regueiros em São Luís e no encarte vinha impresso o nome das músicas. Melô do Gerente. Carlos. BOURDIEU. CAMPBELL. Nestor Garcia. Gerd A. São Paulo: Editora 34. Homi K. UFMG. 3. 1998 BORNHEIM. O eterno verão do reggae. 1997. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. 1983. as festas eram feitas com discos de vinil ou fitas cassete.

Os sons dos negros no Brasil. São Luis: EDUFMA. Rio de Janeiro: Record. Rio de Janeiro: DP&A. MONTEIRO. SANSONE. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo. Clóvis. Rio de Janeiro. A interpretação das culturas. 47-64. 1997. Jocélio Teles dos (org. São Paulo: ERT Editora. 1978. HOBSBAWN. Octávio. 1984. Renato. 1997. GUERREIRO. novembro. 1999. 1996. 1988. 1999. pp. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. MARTIN-BARBERO./dez. Cultura popular: uma introdução. Dominic. IANNI. Carlos Benedito Rodrigues da. STRINATI. 2000. Da Terra das Primaveras ‘a Ilha do Amor. São Paulo: Editora 34. ORTIZ. cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Zahar Editores. Sociologia do negro brasileiro. 1997. Dos meios às mediações: comunicação. Timothi.). Goli. de 2007 . Queimando tudo: a biografia definitiva de Bob Marley. 1997. Paula. Mundialização e cultura. SILVA. A trama dos tambores: a música afro-pop de Salvador. HALL. José Ramos. “Olhar o Corpo”. 2000. reggae. Rio de Janeiro: Paz e Terra. “Globalização. Maria Lúcia. 1988. São Paulo: Brasiliense. In: Negro de corpo e alma. Identidade e Diferença”. MONTES. São Paulo: Hedra. Clifford. Terence (organizadores) A invenção das tradições. Livio e SANTOS. TINHORÃO. São Paulo: Dynamics Editorial. MOURA.Os sons do Atlântico negro GEERTZ. Identidades culturais na pós-modernidade. WHITE. 39 jul. A Era do Globalismo. São Paulo: Ática. 1997. lazer e identidade cultural. In: Novos Estudos CEBRAP Nº 49. Civilização Brasileira. Ritmos em trânsito: socio-antropologia da música baiana. Jesús. Eric e RANGER. 1995. Stuart. Revista da Mostra o Redescobrimento.

40 .

Goiânia. seja nas festas. vol. n° 15. nos simbolismos. the phenomenon of reggae is not only linked to the cultural traditions. where there exists one of the most important multi-ethnic societies of the world. Culturas Afro-americanas. Keywords: Reggae. African diaspora Resumo Na cidade de São Luís do Maranhão. nas equipes de som. but also to the battle against social inequality. characterized by economic inequality with the hallmark of oligarchic politics.O Reggae na “Jamaica brasileira”:Cidadania e política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa Abstract The African Diaspora has contributed to the formation of artistic expressions in Brazil. Diáspora Africana. Esse artigo analisa letras musicais e depoimentos orais entre outros elementos como exemplos dessas relações de apropriação e resignificação. a apropriação do ritmo jamaicano do reggae pelas camadas populares constitui um movimento de resistência cultural. Trata-se também da ressignificação das letras e melodias das canções produzidas por músicos jamaicanos na formação identitária dessa população. *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 41 Revista Brasileira do Caribe. VIII. especially in Maranhão. Within this context. The Afrodescendent music was not just coincidence. 41-60. Afro-American cultures. In a social scenario. Palavras-Chave: Reggae. social e política contra a marginalização que elas sofrem em seu cotidiano. the population of São Luis incorporated Jamaican rhythm in its dance-rituals and drums. 2007 .

donde existe una de las más importantes sociedades pluriétnicas del mundo.Maristane de Sousa Rosa Resumen La diáspora africana ha contribuído para la formación de las manifestaciones artísticas en Brasil. especialmente en Maranhão. Diáspora Africana Em todas as regiões nacionais podem ser observadas a ‘olho nu’ elementos de africanidade reterritorializados. A música afro-descendente não se fixou por um simples passe de mágica. Ao contrário. 42 Revista Brasileira do Caribe. ressignificados e relidos. especialmente no Maranhão. Nesse contexto de significados o gosto artístico da população ludovicense. Goiânia. o fenômeno estudado forneceu visibilidade ao bluff1 de tradições conferidas a um restrito grupo social dominante no Maranhão e aos processos de ‘higienização’ cultural. Palabras Claves: Reggae. En un escenario social pleno de desigualdades económicas y en el cual reina la política oligárquica y ‘coronelista’. Embrionariamente veio da África durante a travessia do Atlântico. n° 15 . Culturas Afro-americanas. O mesmo aconteceu com o ritmo surgido na Jamaica que chegou a São Luis indo até a África. ‘coronelista’. vol. revelado tradicionalmente nas danças e nos tambores. La música afro-descendente no fue asumida por un simple pase de magia. ouvir e festejar. incorporaron el ritmo jamaicano. nem tampouco fora de propósito num cenário social infestado de desigualdades econômicas em que reina uma política oligárquica e. permitindo considerar o ciclo do reggae neste tripé. constituindo uma das mais importantes sociedades pluriétnicas do mundo e um dos maiores berços culturais transatlânticos. A diáspora africana em muito contribuiu para a formação das manifestações artísticas no Brasil. En ese contexto de significados la población de São Luis en sus danzas y tambores. VIII. vivenciados historicamente pelos africanos e descendentes. ainda. adotou o ritmo jamaicano para dançar. el fenômeno del reggae está vinculado no apenas a las tradiciones culturales sino también a la lucha contra las desigualdades sociales.

o de E. Em virtude das interpretações propostas se confirma o viés histórico-antropológico. Os efeitos desses escritos literários contribuíram para a ascensão da história cultural. transferindo-o para Londres nas figuras de Saxl e Wind. tambor-de-mina. na Grã-Bretanha. uma das figuras mais originais e influentes da história cultural no estilo alemão. Trata-se de uma abordagem inaugurada por Aby Warburg.. M. demonstrando a transição da ‘usança africana’ como instituição tão presente entre nós. tambor-decrioula. 43 jul. The Seventeenth-Century Background (1934). Entre as contribuições mais importantes dadas a essa tradição está o livro de Basil Willey./dez.. (BURKE. outra contribuição da Faculdade de Inglês de Cambridge. 2007 . Tillyard. da sociologia e de certos estilos de filosofia. Victorian England (1936). cacuriá. p. assim como para a história da arte. M. Assim.25). Warburg havia morrido quando Hitler chegou ao poder em 1933 e estudiosos alemães associados ao seu Instituto refugiaramse no exterior. escrito por um professor de inglês e apresentado como ‘panorama’ para a literatura. por abordar o reencontro de populações em um contexto de mudança social. De forma que a etnografia do ritmo jamaicano é uma importante ferramenta historiográfica para desconstruir estereótipos e preconceitos sociais. W. “estudos sobre o pensamento da época”. A cultura africana e de seus descendentes constitui importante legado para o Brasil pelas festas de bumba-meu-boi. adicionando ou integrando a si lembranças e sentimentos. culturais e educacionais estabelecidos por séculos. The Elizabethan World Picture (1943). Young. na Grã-Bretanha da década de 1930 estava se escrevendo uma história culturalista. lili. Do mesmo modo outras festas dos negros brasileiros tornaram-se equivalentes às de origem africana. evitando tradições acadêmicas fronteiriças e delimitadas temporalmente. que contribuiu para a construção da ciência cultural. 2005. e o livro de G.O reggae na “Jamica brasileira”.

foi cunhada a famosa expressão ‘estruturas do sentimento’ (BURKE. Assim como Yates diz que foi “iniciada na técnica warburguiana de usar aspectos visuais como evidências históricas”. livro que discutia a história social do teatro e em que. abordando o jazz como negócio e. é a História social do jazz escrita por ‘Francis Newton’. autor de The Great Tradition (1948). como fez Raymond Williams em The Long Revolution (1961). As emoções são realmente gritos tenazes contra a opressão e a favor de resistência. VIII. p. Como seria de se esperar de um famoso historiador econômico e social. também estava profundamente interessado na relação entre a cultura e seu ambiente.Maristane de Sousa Rosa Nesse episódio cabe estudar o exemplo da inglesa Frances Yates. também estudiosos marxistas foram incluídos na preocupação relacional entre cultura e sociedade. mas também seu público. como forma de protesto político e social. 44 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . mais ainda. Goiânia. F. funcionando como elemento de fortalecimento da auto-estima de grupos dominados economicamente. publicado em 1959. justamente pelo “aflorar de emoções incrivelmente poderosas e tenazes tanto entre os seus seguidores quanto entre os seus oponentes” (HOBSBAWM. além disso. Um outro exemplo e o alvo dessa contextualização. 2005. pelos textos e performances. especialista em Shakespere que encontrou no circuito da Escola de Warburg intelectuais instigantes e uma biblioteca inspiradora trazida por eles. No entanto não é difícil combinar uma abordagem ‘leavisita’ com a marxista. 1990:272).29). Sua ênfase na idéia de que a literatura dependia de “uma cultura social e de uma arte do viver” deve-se menos a Marx e mais à nostalgia pelas ‘comunidades orgânicas’ tradicionais. um dos pseudônimos de Eric Hobsbawm. Concordando com as características atribuídas ao jazz por Hobsbawm. também na música reggae adotada na Jamaica podemos sugerir. o autor discute não apenas a música. Leavis. R. vieses de contestação por direitos e justiça social. vol.

2007 . exemplifica um dos caminhos a ser percorrido pela pedagogia inclusiva. ilustra a relação de pertença socioétnica entre Jamaica.. de luta. São Luis e África.. no visível e no imaginário. quando diz: “Por que nos tornamos como cordeiros. cupid.O reggae na “Jamica brasileira”. A performance musical do jamaicano IJahman é uma ritualização do culto sagrado rasta. pois estamos numa guerra. stupid Let not your arrow From your bow. Essa canção Are We a Warrior (Nós Somos Guerreiros?) interpretada e composta por IJahman em álbum gravado no ano de 1978. simultaneamente proporcionando reações no audível. com sonoridade simbólica de persistência e contestação. Vejamos: The perfection is love And I give thanks For the fullness Within the full me nice Its cool mild these peace me nights Its gentleness Made I a man son of him Life was divided In sweet harmony Come it A woman until dream Are we a warrior? Are we a warrior.” O sucesso musical We Are a Warrior (Are We a Warrior) eleito na cidade de São Luis como o hino do reggae no Maranhão. Oh. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão. oh love 45 jul./dez. não confunda. ora prevendo que esse e outros enredos literários construídos pela cultura da diáspora sejam acessíveis como conteúdos educacionais que privilegiam a diversidade do conhecimento.

VIII. So silent and filled Fountains of waters For also all his lovely creatures He gave us wisdom And knowledge to understand its love Do us after a war Are we a warrior? Are we a warrior.Maristane de Sousa Rosa Faith is a mountain. Oh cupid. Are we a warrior. n° 15 . Goiânia. vol. stupid Let not you arrow From your bow So out low And never let it go What caused You have a pistol In your endless love Is it far? To shut the man down there Do we give in? After we have star lit Why can’t We become like a lamb Not look end It’s not humble when These is a small confusion It is a war They rather way as be and Sometimes being confused Within your own head Because at times How us get have down led Are we a warrior? Are we a warrior. 46 Revista Brasileira do Caribe.

Oh cupid. stupid Let not your arrow From your bow Prophecy is now revealed The son of man won’t take it The heart is giving up Why life is taking in the sudden shock The crying of the people Multiply in all over Jah will give an answer To have are stop cry our Are we a warrior? Are we a warrior. stupid Let now your arrow From your bow So out low And never let it go Take a look at certain dream And there are often true stories It would be On all our own glory How often I ask Still like it see no love its why For full close and shelter The cry of mamas and papas Are we a warrior? Are we a warrior. Are we a warrior. Oh cupid.O reggae na “Jamica brasileira”.. 2007 . Are we a warrior. stupid Let not your arrow 47 jul./dez. Oh cupid. Are we a warrior..

“Melô de Poliana” é Think twice da intérprete Donna Marie (apelido adotado segundo a preferência dos regueiros ou regueiras) e “Melô de Pinto” é uma homenagem a radiola6 Itamaraty. o vestuário. 1997:29). Ao cenário associativista bem se aplica o diálogo reflexivo da antropologia com a história. a figura do leão. ao francês ou ao inglês. Com referência aos fatores lingüísticos não por acaso o reggae cantado em ‘inglês jamaicano’ é ouvido em São Luís na forma de melôs5. vindo com seu idioma. as cores pan-africanas). estruturou sua língua ao português. as músicas são apelidadas pelo nome ressonante. serviu como instrumento para dar visibilidade às tradições milenares africanas do “Egito e Etiópia” (ALBUQUERQUE. Soam mais estranhas ainda expressões como Jah. Peter Burke e Eric Hobsbawm como exemplos que inseriram narrativas dinâmicas às festas carnavalescas. Goiânia.Maristane de Sousa Rosa From your bow And never let it go. seus costumes e valores. mesclando-lhes vocábulos ou sotaques. Nesse sentido. as cantorias. Desse modo. os reizados. associado ao contexto musical jamaicano do século XX. pelo sotaque que o ouvido capta e torna mais evidente: “Melô do Cachaceiro” representa a sonoridade do refrão “Jah.2 Tomando a canção como referência. os cultos jeje4 e nagô ilustram este processo de resistência do negro africano que atravessou o Atlântico e. o carnaval. vol. Lorand Motory. ou seja. cita-se o Rastafarismo3 que. Jah. as danças e mais ainda. say”. o ritmo da diáspora fez emergir sentimentos de orgulho negro quando elegeu fatos históricos e da Bíblia para serem recontados sob a luz de ideais pan-africanistas fortemente difundidos nos Estados Unidos e no Caribe. ressignificou a alimentação. VIII. 48 Revista Brasileira do Caribe. realizado por autores como J. Os regueiros maranhenses apreciam a melodia e desconhecem as letras das canções em língua inglesa que falam sobre os fundamentos filosóficos do movimento Rastafari e de elementos de simbologia afro (o cabelo. n° 15 .

Hailé Salassié I ou Ras Tafari. às vezes eu tava na igreja aí escutava uma batida de reggae não agüentava. disse: Começamos a dançar reggae no quintal. na Praia do Gaspar. pois os melôs romperam barreiras impostas pelo idioma dantes colonial. Na capital do Maranhão foram re-significadas pela emoção. o reggae roots7 mesclado com patois8 se mostrou incompreensível também também confrontado ao padrão lingüístico fonográfico de sotaque anglo. tenho 9 netos.. camisa branca. aí eu sou aposentado como peixeiro.. As letras musicais jamaicanas das décadas de 1970. 1980 e 1990. o reggae é uma maravilha. foram direcionadas como subsídio histórico para reescrever a História e Cultura Africana por meio do reggae. Sou viúvo. boina branca. Já fui evangélico. mesmo desconhecendo a língua inglesa. Ou seja. Eu gosto do reggae roots. Peixeiro. no Sá Viana. Marcus Garvey. Antonio Domingos Almeida Santos. com 77 anos de idade conhecido pelo apelido de Sapo. ninguém sabia as cores. cinturão preto. As melodias que envolvem fortes denúncias das desigualdades socioétnicas contra a população negra não tem como ponto de partida a versão jamaicana. Um assíduo freqüentador das festas de reggae roots. 6 filhos. não têm essa pegada. Embora a população ludovicense possua baixas taxas de escolaridade e tenha dificuldades para utilizar o português da gramática normativa não se descartam sinais de “parentesco” afrocultural entre jamaicanos e maranhenses. No tempo que nós aprendemos a dançar era calça preta. amplamente tocadas na cidade São Luis. radiolas grandes e pequenas. criando até descobrir 49 jul./dez. não agüentei. num cercado de palha. 2007 .O reggae na “Jamica brasileira”. aí fomos criando. Meu lazer é reggae. esse fenômeno foi estudado para compreender como a melodia produziu emoções no corpo e na ‘alma’ dos afro-ludovicenses em que sentimentos de êxtase são almejados pela audição do ritmo jamaicano e não outro. passei dois anos na igreja. pensado como elemento sócioeducacional para consolidar a cidadania na sociedade do Maranhão. eletrônico não. De outro lado. peixeiro aposentado.

2006). americano também. O reggae pra mim é uma cultura autônoma nossa. Nesse sentido. Os cultos de possessão desse tipo continuam entre os negros nas Américas. já nascemos com esse ritmo no corpo. pra Jah. pela política colonial escravista de São Luis e o decorrente preconceito racial estendido aos negros descendentes. (Sapo. dançamos tambor-de-crioula. abraça-me. Os jamaicanos eles faz muita mímica. respeito. trazendo muita paz. O reggae levanta a gente assim. pra uma árvore. Eles cantam pra uma criança. é uma beleza de lamento. Conforme Peter Burke (2000: 224). o reggae toca no corpo todo. uma cultura. n° 15 . todo mundo coleciona reggae. batemos tambor-de-mina. São Luis. tudo isso é cultura. que fez até a cidade de São Luís receber o codinome de “Jamaica Brasileira”9. É nossa música. mar. 50 Revista Brasileira do Caribe. toca no corpo todo. Por isso narrativas histórico-culturais são pertinentes à chegada do ritmo de matriz africana com sotaque inglês. Goiânia. dançamos bumba-boi. eles cantam pra Babilônia. ou seu equivalente no Maranhão. o tambor-de-mina. As simbologias musicais na década de 1970 entre Jamaica e Maranhão implicaram no fortalecimento cultural da diáspora que pela música percussiva dos tambores nyahbinghi e tambor-demina. é um bom lamento. é muita gente. integridade. até que apareceu a original.Maristane de Sousa Rosa uma origem. as cores originais. Ele saiu lá da Jamaica. fibra e cultura. japonês coleciona muito reggae. o reggae nasceu para o povo. eles cantam pra uma pedra. Nós maranhenses já trazemos esse ritmo no corpo. guardando as devidas proporções. vol. desde o vodu do Haiti à santería de Cuba e ao candomblé do Brasil (que tem ligações particularmente estreitas com as tradições iorubas). o reggae pra mim sempre foi uma cultura. alemão. cada uma associada a um ritmo característico. “Os tambores eram considerados as vozes das divindades. desde 1970. Sou regueiro antigo. você podes crê. quando ele faz assim (abre os braços) pedindo a Deus. VIII. nome que enfatiza a batida do tambor”. trazemos no coração. se imbricaram nos dois territórios pelo reggae roots. muita coreografia. dançamos tambor-de-mina. o reggae é um lamento.

os espaços. composição de arquivos do passado sob os quais ela se escora. 2007 .. gestos. compreendeu-se como autênticos os sentimentos desenvolvidos pelos regueiros em relação à melodia jamaicana. de certa forma. se aproximam por mecanismos de cognação nos quais os lugares da memória não são espontâneos mas.. como questiona o refrão: “Nós somos guerreiros? – É nós somos guerreiros”. 56) é por isso que. aqui considerados como instrumento de resistência para validar a historiografia africana frente aos conteúdos eurocêntricos. pelo trecho que diz: “Para possuir nossa cabeça como em outras épocas. onde há freqüentemente histórias verdadeiras”. composição é um termo adequadamente ambíguo papa descrever o processo de ‘construção de reminiscências’. conteúdos vocabulares em língua inglesa são posicionados como narrativas etnográficas do movimento panafricanista da Jamaica que rememorou os milenares costumes da África por meio de danças..O reggae na “Jamica brasileira”. Os territórios. p. sociais. políticas e históricas. gostos e atitudes musicais. quando nos conduziram sob seus pés [./dez. A partir da divulgação dos conteúdos musicais do reggae jamaicano das décadas de 1970. esta pensada como ferramenta pedagógica para construção de consciência política e reivindicação de cidadania. nós as compomos ou construímos utilizando as linguagens e os significados de nossa cultura. a música e as letras do reggae jamaicano foram utilizadas como meio de efetivação da historiografia africana e de seus descendentes à sociedade maranhense. aparentemente dissociados pela geografia ou por fatores lingüísticos. 1980 e 1990. mas ‘legitimados’ pela leitura social. Assim. Compomos nossas reminiscências para dar sentido à nossa vida passada e presente. carregados de mensagens religiosas. De acordo com Alistair Thompson (1981. 51 jul..] Examine e olhe determinados sonhos.

vol.119): Os escravos Akan (no Brasil conhecidos como fante-achanti) são comerciados na Costa do Ouro nas proximidades do Castelo da Mina e em Cape Coast. O franco diálogo entre a cultura musical da América do Norte e Caribe foi responsável pelo surgimento do reggae na Jamaica que se formou de elementos do rhythm and blues. para as colônias inglesas. ioruba e akan. todos da tribo dos coromanti. p.36) diz que. Carlos Albuquerque (1999. VIII.15) destaca os seguintes grupos étnicos vindos para a Jamaica: “escravos da África Ocidental. Aos grupos referenciados acima Nina Rodrigues (1982. em que agora as identidades revitalizam a própria historiografia de si. e neles se descobrem negros jejes ou daomeanos. Pelo que toca aos negros que Henrique Dias chama ardas. Não é difícil supor que algumas vezes essa divisão de mercado tenha sido rompida. Os escravos do Daomé (de língua fon) vão principalmente para as colônias francesas (Haiti e Louisiana). jazz. onde têm boa aceitação. fantis e outros. minas seriam os nagôs. Já Cuba e Brasil recebem dessa costa escravos de vários grupos étnicos de língua ioruba (na Bahia chamados de nagôs). a denominação genérica de angolas designa todos os bantos. n° 15 . e vão. p. O antigo reino de Ardra. em sua maioria.Maristane de Sousa Rosa Concordando que história é memória e vice-versa. por ingleses e holandeses. próximo de Abomey. quando o intangível se apóia nos traços exteriores e nas referências tangíveis de uma existência que se supõe existir por detrás deste estoque material. calipso e rumba. Goiânia. numa simbiose de etnicidade encontrada entre nações de procedência na travessia do Atlântico. 52 Revista Brasileira do Caribe. p. por ardras claramente se deve corrigir o nome. a maior parte formada por integrantes dos povos ashanti.” Para Mariza de Carvalho Soares (2000.

tratando-se da mesma língua de adoração dos deuses vodun. (MATORY. Caribe e Brasil (Casa Fanti-Ashanti e Casadas-Minas no Maranhão). aja e fon. De modo que para o Maranhão e Jamaica vieram grupos étnicos comuns (Minas). Fantis ou Minas. capital dos daomeanos. entre os grupos étnicos vindos da África Fanti. Akan ou Minas. mas seu registro na África depois de 1864 revela muito sobre a história da etnicidade e da nação. designando o ‘parentesco’ jeje pela religiosidade de tronco comum na América do Norte.. As descrições utilizadas situam os Akan ou Fante-Achanti. ou melhor. Lorand Matory. gen. pela tese de doutorado de Carlos Benedito Rodrigues da Silva. Essa associação deu-se também pelo cruzamento de informações coletadas nas abordagens de Carlos Albuquerque em O eterno verão do reggae. como grupos étnicos de travessia. Assim interpreta-se que os diálogos interrompidos por séculos entre maranhenses e jamaicanos.O reggae na “Jamica brasileira”./dez. 2007 .. Ashanti. onde os europeus haviam estabelecido importantes casas de comissão. um afamado empório do tráfico negreiro. Segundo Silva “uma curiosidade é que segundo historiadores. o termo jeje foi designado no Brasil em meados do século XVIII. em destaque para o primeiro caso os Fanti e para o segundo os Ashanti.63). foram retomados após a travessia transatlântica em meados da década de 1970. 1999. entendendo que as imagens e a discografia jamaicana interagiram com culturas que o passado escravista separou. referência encontrada pelos depoimentos colhidos no documentário “Atlântico Negro – na rota dos orixás”. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de 53 jul. regional e transatlanticamente. Também Nina Rodrigues em Os africanos no Brasil. concorda com a procedência ocidental dos africanos escravizados que vieram para as Américas e Caribe. constitui há séculos. evidências encontradas em São Luis pela formação vocabular do terreiro Fanti-Ashanti fundado por Pai Euclides no ano de 195410. para todos os falantes de ewe. Ashanti. Conforme J. p.

VIII. Assim. ora com possibilidades de percepção do passado. p. interpretada como responsável pela memória histórica e identitária que reveste de simbolismos a comunidade afrodescendente ouvinte de “música negra de raiz”. desenvolve-se uma reflexão sobre a existência mista de oralidade que ora se apresenta na forma de variabilidades textuais discursivas. p. ele próprio mais ou menos autônomo em relação a essas lutas. a propensão para a visão teológico-política que permite censurar ou louvar. Com efeito. depende do grau em que o passado das instituições em causa é considerado como algo que está em jogo e como instrumento de luta. não descarta a dialogicidade entre cá e lá a qual este estudo se ocupou em estabelecer partindo de fatores que ultrapassam barreiras fronteiriças.Maristane de Sousa Rosa religião afro-brasileira de São Luís é a Casa de Fanti-Ashanti. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. Essa reflexão depara-se então com a representação normativa do passado. Goiânia. condenar ou reabilitar imputando a vontades benéficas ou malignas as propriedades aprovadas ou reprovadas do passado.79): De facto. de idioma. No entanto o fato do referido pesquisador não ter encontrado evidências dessa associação. isto é. através dessas próprias instituições. 54 Revista Brasileira do Caribe. no espaço social em que se situa o historiador. vol. de espaço.113). são arquivos criados no presente. no campo das lutas sociais e no campo de produção cultural. De acordo com Pierre Bourdieu (2001. prontos para serem utilizados no momento em que são solicitados. mas ficam latentes. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa” (2001. n° 15 . mais uma vez concorda-se com os conceitos de memória latente e em potencial avaliando que os lugares da memória não devem ser julgados somente como espontâneos. desenhada nos ritos religiosos de origem africana.

. (Jz. que cortou a Sansão as sete tranças do seu cabelo. vídeos e na bandeira da Etiópia.5-6).34). estampas. pois. desceu com seu pai e sua mãe a Tamna. que despedaçou o leão como se fosse um cabrito. perderei a minha força e então serei como qualquer outro homem. chamou um homem. (Jz. Mas o espírito do Senhor entrou em Sansão. (GILBERT. o mito da força dos cabelos. reivindicações de orgulho negro da década de 1930 foram aproveitadas como viés teórico a partir da inspiração bíblica utilizada pelo movimento Rastafari. 2003. arremeteu contra ele. sem ter na mão qualquer arma.164-165). (Jz. fazendo-o adormecer sobre os seus joelhos. introduziram importantes referências aos negros subtraídas ou adulteradas pelo mundo Ocidental.. descrita no livro de Juízes: Sobre a minha cabeça. o uso de ‘terríveis tranças’ estava associado às “fotos de guerreiros somalis e suas 55 jul. Os costumes Masai caracterizaram não somente o visual dreadlocks11 mas também o totemismo entre homem e leão que o reggae jamaicano utiliza expressivamente em camisetas. principalmente as menções aos primeiros israelitas. A releitura da Bíblia proposta pelo movimento Rastafari consistiu numa revisão. Dalila.O reggae na “Jamica brasileira”. Se me for rapada a cabeça./dez. Segundo Carlos Albuquerque (1997. p. p.17). p. 16. As escrituras lidas nos moldes da colonização ocidental e nas pinturas da Europa renascentistas apresentaram de forma “branqueada” a lenda de Sansão. Sansão. daí advindo o não uso da navalha nos cabelos de forma que as tranças rastas pudessem crescer livremente. o uso de tranças e a força física para lutar com o leão. rugindo. Então. 2007 . disse ele. apareceu de repente um leão novo e feroz. 16:19). o qual. aos profetas e até mesmo ao Cristo como usuários de ‘tranças’. p. 14. nunca passou a navalha. porque sou nazareno de Deus desde o ventre de minha mãe. Quando chegaram às vinhas da cidade.

organizações militantes negras e a musica jamaicana reivindicaram oportunamente da cultura Ocidental. de suposições sobre os guerreiros somalis e o lendário Sansão. O filho do homem não fará exame do coração que está desistindo. tais narrativas apontaram na direção do grupo étnico Masai por adotarem o uso de dread e principalmente pelo ‘costume’12 de combater com leões nos rituais de passagem13. uma tradição milenar africana”. como o exemplo encontrado na referência de Diego Lezama (1999. vistas na Jamaica pela primeira vez nos anos 30. todos ornamentados. e os adultos. eram carecas. porque já haviam matado pelo menos um leão na vida e se tornaram autênticos guerreiros da tribo. VIII. tinham cerca de 20 anos. Contrariando a referência. ao descrever um trekking com os Masais: As 25 pessoas de nosso grupo. Os mais jovens. Conforme IJahman: “A profecia agora é revelada. mas Jah dará uma resposta para nosso choro”. Oxalá. cabelos compridos e trançados. repetiram as apresentações aos masais. De modo que partindo do título do hino do reggae no Maranhão (Nós somos guerreiros). vol. teriam dado aos rastas a certeza de que com as dreadlocks eles estavam seguindo. Prevendo ainda pela música.Maristane de Sousa Rosa carapinhas em estilo medusa. chamados de ilkelianis. membros de ‘uma das tribos mais selvagens da África’ [grifo nosso]. O choro do povo se multiplica em toda parte. estudantes europeus em sua maioria.61) na reportagem da revista “Os caminhos da Terra”. os moranis. o som onipresente do reggae que se tornou práxis política desalienadora e operante para romper a segregação visível 56 Revista Brasileira do Caribe. desconstruir ‘tradições inventadas’ e abordagens etnocêntricas. Goiânia. Estavam ali sete deles. p. e respeitando. n° 15 . pois a vida o levará num súbito choque. aspectos pioneiros do legado patrimonial negro da África à humanidade.

não atire a flecha de seu arco../Examine e olhe determinados sonhos onde há freqüentemente histórias verdadeiras. Notas 1 Palavra inglesa que deriva a forma aportuguesada blefe significando iludir./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. O choro do povo se multiplica em toda parte. como em outras épocas quando nos conduziram sob seus pés. mas Jah dará uma resposta para o nosso grito. mas para o fim haverá abrigos cheios com clamor de mães e pais. estúpido. por que a vida o levará num súbito choque./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. A vida foi dividida em doce harmonia fazendo uma mulher até sonhar. para possuir nossa cabeça. amor.O reggae na “Jamica brasileira”. Oh. como freqüentemente eu peço. enganar. deixe-a baixa e nunca a lance./ Nós somos guerreiros?/É nós somos guerreiros. não confunda.. pela mansidão que me fez filho do homem. 57 jul./dez./ Oh cupido. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão./São suaves e cheias de paz minhas noites. 2007 . sirva para consolidar ações afirmativas entre a comunidade afrodescendente do Maranhão. não atire a flecha de seu arco. estúpido. É nós somos guerreiros. É nós somos guerreiros. Ainda que não vejamos nenhum amor. 2 Título: Nós somos guerreiros (We Are a Warrior – tradução da autora) O amor é a perfeição e eu dou graças pela agradável plenitude presente dentro de mim./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. O filho do homem não examinará o coração que está desistindo. lograr./Oh cupido. não atire a flecha de seu arco e nunca a lance. estúpido. lá na Jamaica. pois estamos numa guerra./Fé é uma montanha tão silenciosa e cheia de fontes d’água para todas as adoráveis criaturas./Oh. estúpido. não atire a flecha de seu arco./O que te fez ter uma pistola? Seu amor infinito acabou para você atirar no homem ali? Nós desistimos depois que a estrela nos iluminou? Por que nos tornamos como cordeiros. deixe-a baixa e nunca a lance. estúpido./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. É nós somos guerreiros. É nós somos guerreiros. cupido./Oh cupido. não lance sua flecha de seu arco. Seria toda a nossa própria glória. Ele deu sabedoria e conhecimento para entender o amor após uma guerra. A profecia é revelada agora. Eles certamente querem o caminho às vezes mais confuso./Oh cupido.

como reencarnação divina na terra. Fanti. os Dj’s atribuíram esse ‘codinome’ à capital do Maranhão como forma de relacionar São Luis e Jamaica com o reggae. Nagôs. VIII. 3 4 Grupo étnico heterogêneo vindo da África durante a travessia transatlântica em meados do século XVII. ainda compostas por mesa de mixagem do som e pela presença de DJ’s. Goiânia. aquele originado no início dos anos de 1960. imperador da Etiópia. ou seja. Acessado em: 05/01/2006. particularmente no Maranhão são assim chamados os grandes paredões de som que animam os eventos de reggae. incluindo ainda o jamaicano Marcus Garvey como profeta afro-centrista que inspirou a visão do orgulho negro. Feitos de madeira compensada que medem por vezes 3 m de altura por 5 m de largura. Formou-se da mistura do inglês com termos creoles. n° 15 .culturapopular. sendo também usada para definir aspirações espirituais. Ashanti. por vezes também homenageiam a preferência do regueiro mais considerado. composto por Minas.php?id=28. 5 6 Ressignificação dada aos sound-systems jamaicanos.ma. vol. Título dado às músicas reggae pela sonoridade produzida em inglês ou patois jamaicano. chegando o novo nome aos outros redutos regueiros fora de São Luis.Maristane de Sousa Rosa Filosofia religiosa afro-caribenha surgida em meados dos anos 1930 que proclama Jah como Deus Supremo e Hailé Salassié I. Ioruba e Akan. 10 58 Revista Brasileira do Caribe. econômico. 7 As mudanças melódicas a partir de meados da década de 1990 adjetivaram o ritmo jamaicano atual de Dancehall ou batida eletrônica.gov. época do disco de vinil. então reggae roots ou somente roots representa o ritmo de raiz. Ardras. Língua religiosa adotada pelos rastas compondo a maneira ritualística de falar para definir o mundo político. em que grandes shows reúnem até cinco estruturas desse porte. de tronco lingüístico comum. Informação disponível em: http://www. devido a grande projeção do ritmo jamaicano entre a população maranhense.br/ artigos2. 8 9 Conforme Silva (2001:44). com amplificações de som de alta freqüência.

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“Jeje: repensando nações e transnacionalismo”. Tiago de Oliveira. 2ª ed. 2000. Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae. Tese de Doutorado em Ciências Sociais Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 1997. 1985. O que ler na Ciência Social Brasileira (1979-1995). MOURA. 1998. ano 4. 1999. PINTO.Maristane de Sousa Rosa MATORY. Sumaré/ ANPOCS. Porto Alegre. Sociologia do negro brasileiro. RODRIGUES. Goiânia. São Luís: EDUFMA. Carlos Benedito Rodrigues da. Rio de Janeiro: Paz e Terra. v. In: Revista de Antropologia. 60 Revista Brasileira do Caribe. n. Nina. Brasília. J. Porto Alegre. 1. Clovis. SILVA. Carlos Benedito Rodrigues da “Ritmos da identidade: mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão”. São Paulo. Moritz. “Som e música: questões de uma Antropologia Sonora”. vol. “Questão racial e etnicidade”. 2001. 221-286. THOMPSON. SOARES. Lília K. SCHWARCZ. In: Projeto História. São Paulo. 1982. Mariza de Carvalho. v. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. São Paulo: Ed. p. 1. abr. SILVA. PPGASUFGRS. Cardim Cavalcante). 1988. Os africanos no Brasil. Lorand. lazer e identidade cultural. mar. São Paulo. 2001. In: Sérgio Miceli. Devotos da cor. n. 9. São Paulo: Ática. 44. VIII . 1997. Brasília: Universidade de Brasília. In: Horizontes antropológicos. Alistair. DF: CAPES. “Recompondo a memória: questões sobre a relação entre história oral e as memórias”.

which emerge from the Jamaican filmography and other iconographic sources. Para tanto. n° 15. Reggae. Goiânia. Resumen Brasil y Jamaica. Reggae Resumo Este artigo analisa as relações interculturais entre Brasil e Jamaica por meio dos conceitos de contaminação e apropriação. Investigar los grados de intensidad y sobre todo las performances en la relación entre ambos *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 61 Revista Brasileira do Caribe. son estudiados em este artículo no como sistemas cerrados sino abiertos. Comunicação Audiovisual. considerados tanto en sus sujetos y practicas sociales. filmes jamaicanos e documentários brasileiros como representações e veículos dessa comunicação intercultural. The exploration of the audiovisual and musical performances in both countries contributes to deepen into its culture. Audiovisual. 2007 . Nessas relações a música popular e a produção audiovisual constituem veículos de reinterpretação e ressignificação das culturas de ambos os países que revelam semelhanças e especificidades. both from its subjects and its social practices. Reggae. recreated in Brazil. but open systems. Keywords: Jamaica-Brazil. em que o reggae jamaicano é apropriado e ressignificado em algumas regiões brasileiras.Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal Abstract This study attempts to look at Brazil and Jamaica not as closed. VIII. 61-84. conforms the vision of the spectator departing from a series of symbolic audiovisual references. são analisados em seu contexto. vol. Palavras-Chave: Jamaica/Brasil.

o que vem sendo desenvolvido por uma grande variedade de pensadores de diversos lugares e tradições de saber diferentes. seria preciso usar uma abordagem que procurasse ultrapassar os limites da rígida organização do conhecimento especializado. Goiânia. como todos os diferentes contextos culturais. Como os contatos entre esses dois contextos poderiam ser abordados de forma a trazer novas luzes para o debate sobre a comunicação intercultural1? Em primeiro lugar. meios e produtos que se encontram envelopados em subdivisões jurídicas e econômicas cada vez mais frágeis. “onde a 62 Revista Brasileira do Caribe. mas como sistemas abertos de sujeitos. Nesse sentido. entendidos não como unidades fechadas de características facilmente delimitáveis. em complexas gradações de intensidade e performatividade. VIII.Leonardo Vidigal países mediante la producción audiovisual y musical permite profundizar en la cultura. conforma la visión del espectador a partir de un conjunto de referenciales simbólicos audiovisuales procedentes de la filmografía jamaicana y otras fuentes iconográficas. Comunicación audiovisual. regionais ou nacionais. que estariam sujeitas a toda sorte de variações. que poderiam contar com uma “pluralidade de subtotalidades” (o que corresponderia aos contextos locais). envolvendo uma reinvenção de conceitos bastante utilizados. El reggae recreado colectivamente en Brasil. Para tentar incorporar esta visão relacional ao estudo dos contatos entre os sistemas culturais. como o de rede. práticas sociais. tais contatos foram a base da constituição recíproca dos contextos socioculturais planetários ao longo do tempo. longe de serem momentos excepcionais e fugazes. pode-se ter em conta que. n° 15 . vol. como algumas especulações e pesquisas no âmbito antropológico e filosófico parecem afirmar. Michel Serres apresenta as redes como espaços irregulares. sempre estiveram em contato. Palabras Clave: Brasil/Jamaica. Reggae Brasil e Jamaica. estabelecendo as condições para o auto-reconhecimento dos habitantes de tais contextos como “distintos” de seus congêneres. sejam eles locais. em sua concepção de comunicação.

. com grande e perceptível vitalidade. foram produzidos ao longo do tempo na Jamaica. Quando a articulação de imagem e som incorpora uma expressão igualmente mobilizadora como a música popular. na TV Bandeirantes (privada. quanto por equipes mistas e ainda por outras totalmente estrangeiras. Isso porque ela atualiza continuamente e torna explícitas as contaminações. por diferentes processos. aberta). aberta) e no canal GNT (privada. que fizeram pelo menos três incursões deste tipo naquela ilha do Caribe anglófono. de leitura complexa. negociada. filmes de ficção semi-documentais. Dessa forma. Tal disposição somente 63 jul. determinação é construída. Entre estas equipes de gravação estrangeiras estavam os brasileiros. estabelecendo assim uma necessidade de maior compreensão dos fenômenos envolvidos. veiculada na TV por assinatura). ela amplia o seu potencial de aglutinação e torna-se também um indicador. recorte que nesse caso destacou o audiovisual. apropriações e combinações possíveis entre os diferentes produtos e interpretantes. Tais audiovisuais foram realizados por equipes independentes que posteriormente tiveram seus programas veiculados na TV Cultura de São Paulo (pública. mas que pode revelar muito sobre as transformações culturais em curso na contemporaneidade. que circulam de forma cada vez mais rápida e acessível pelo mundo. ensaiada” e não deveria ser considerada como fixa (MORAES. um dos principais meios a organizar a expressão humana. Dessa forma. posto que os processos de tessitura continuam em plena atuação. o que acontece hoje entre as subtotalidades que compõem as subdivisões maiores denominadas Brasil e Jamaica pode ser chamado de enredamento. documentários e outros produtos audiovisuais (como videoclipes) realizados tanto por equipes locais. Em segundo lugar. 2007 . é preciso recortar um aspecto ou elemento deste processo./dez. para melhor focar e direcionar tal compreensão..Enredando Brasil/Jamaica. pertencente à mesma empresa mantenedora da Rede Globo. Se for assim. 2000). tornando-se parte da constituição de um tecido cultural aberto. pode-se concluir que o interesse de documentaristas e jornalistas televisivos do Brasil pela situação jamaicana é significativo.

talvez inconscientemente. mais do que considera.Leonardo Vidigal encontra paralelo entre os realizadores provenientes de países como Inglaterra e Estados Unidos. naturalmente complexo e plural. com nossos colegas de universidades situadas nos grandes centros. mas incorporadas nas perspectivas de análise. Sem entrar nos méritos dessa produção e partindo de um olhar que. vol. procura incorporar a extrema heterogeneidade de tais contextos culturais na sua análise. é preciso pesquisar caminhos para a abertura ou o melhor aproveitamento de circuitos alternativos de cultura entre os países à margem. mas hesita em investigar culturas consideradas exóticas pelo olhar condicionado por este mesmo cânone. elegendo assim aspectos específicos de um contexto cultural como representantes de toda a produção desse contexto. não podem ser ignoradas na tentativa de operar com essa percepção. em que os processos de integração do capitalismo contemporâneo estão generalizando uma lógica de mercado e de consumo que coopta determinados agentes dos países à margem. mais estreitamente ligados à Jamaica por abrigarem colônias numerosas de oriundos da ilha caribenha. Este tipo de mentalidade que partilhamos. Isso porque o pesquisador pertencente ao contexto brasileiro sente-se inteiramente à vontade para tratar de objetos referentes ao chamado cânone ocidental. reduz muito fácil e acriticamente as manifestações culturais menos conhecidas ao estereótipo exoticizado. 2002). até porque é neles que se concentra a maior parte da produção audiovisual hoje em dia. o Banco Mundial e a OMC (ANTELO. tornando-os sócios ou seguidores dos modelos hegemônicos. n° 15 . ao mesmo tempo em que os submetem a todos às decisões macroeconômicas tomadas pelos organismos internacionais como o FMI. podemos afirmar que um estudo 64 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. Neste sentido. A comparação e a análise de tais esforços não podem deixar de levar em conta a atual situação. No entanto isso não acontece sem problemas para quem deseja estudar as relações culturais entre os países à margem. VIII. As persistentes assimetrias de poder entre os estados-nações e no interior destes.

mas neste texto iremos restringir o uso de tal conceito aos suportes técnicos. em sua acepção contemporânea. podem ser descobertas também algumas soluções comuns que são ou podem ser adotadas para tais impasses.Enredando Brasil/Jamaica. pois é ao mesmo tempo próxima e distanciada. Culturas do audiovisual Mas antes é necessário compreender melhor o recorte usado para esse estudo. talvez até mais receptivos do que os mais cobiçados. 2007 . nesse caso sob o formato de produtos audiovisuais. Para uma compreensão dos produtos audiovisuais de acordo com as premissas desse estudo. 1996) que oferece novas perspectivas sobre nossa própria condição. Pesquisar outros circuitos por onde circula o audiovisual pode revelar impasses e questionamentos semelhantes aos nossos. podem ser analisadas como trazendo uma motivação diferenciada. menos hegemonizante e homogeneizante? O caso que se pretende analisar parece indicar que sim. mas sob certas premissas teóricas que este texto procura discutir. Nesse contexto. familiar e estranha.. com ou sem a mediação de meios tecnológicos (BETHÔNICO. derivados das ambigüidades socioeconômicas e outras características que compartilhamos. como o cinema./dez.. a televisão. tanto para o público em geral como para a esfera acadêmica em particular. O termo “audiovisual” é bastante abrangente e corresponde. o que poderia abrir espaço para novos reconhecimentos. É um esforço de reinterpretação e ressignificação (DHARESHWAR e NIRANJANA. a qualquer articulação possível entre signos visuais e sonoros. pelo fato do termo audiovisual estar consagrado como um coletivo para tais dispositivos. Esta é certamente uma definição que faz jus aos estudos mais atuais e rigorosos sobre o assunto. No entanto. ao norte. 2001). o celular e outros meios. as relações entre os contextos à margem. novas identificações e também novos mercados. estes não devem ser 65 jul. o computador. mais atento e menos eurocêntrico seria altamente proveitoso.

reinventando um novo arranjo de componentes que. mas como elementos que participariam tanto do estabelecimento das condições básicas de tessitura como do seu direcionamento. a produção audiovisual que emerge como resultado dessa dinâmica não é analisada como algo acrescentado por um sujeito totalmente separado de seu entorno. colaboram de modo significativo para formar comunidades imaginadas e sistemas culturais reconhecíveis. que seriam apropriados a partir de um processo recursivo e reflexivo. Trata-se de um processo de contaminação por parte de certos elementos. VIII. Neste. embora não seja o objetivo desse texto estabelecer uma conceituação “correta” para um termo tão complexo. Nesse ponto é necessário esclarecer com um pouco mais de precisão como este trabalho irá lidar com o conceito de “cultura”.Leonardo Vidigal encarados apenas como reflexos ou sintomas de fatores socioeconômicos e culturais externos aos fluxos de enredamento imaginário e concreto. o olhar construído pela experiência e pelos meios usados para se observar. ligado à produção material ou imaterial que expresse de alguma forma a ação criativa humana (considerando-se as camadas descritivas e normativas acumuladas sobre termos como “arte”) e que seja socialmente aceita como tal. Assim. molda e é moldado pela forma material. para a modalidade de pesquisa empreendida aqui. ao serem atualizados a cada exibição para os indivíduos. que também passou por diversos processos de produção e manipulação. n° 15 . também o modifica. mas como resultado de um certo encontro. Não é um significado fixo porque depende das relações e arranjos nos quais está inserido em um dado momento da observação. mas a necessidade de estabelecer limites faz com que uma visão totalizante da cultura. dessa vez vista como um conjunto de 66 Revista Brasileira do Caribe. que é muitas vezes tomado como dado. por sua vez. Goiânia. Seria preciso então recorrer a uma visão mais ampla. vol. Isso porque muitas vezes a cultura é citada apenas em seu sentido restrito. Esta. produzindo diversos sentidos potenciais. nem como uma emanação do objeto.

Ao longo do último século. a saber: Contaminação. Assim. conjugada a uma capilaridade social ao mesmo tempo verticalizada e horizontalizada. a televisão também começou a participar desse processo de produção e reinterpretação de elementos de identificação. por sua extensão em cadeia de dezenas de emissoras estrategicamente localizadas. Essas características são a sua extremamente prolífica e efêmera produção de conteúdo. processo que também pode passar pela atuação mediadora./dez. no qual referenciais simbólicos concebidos em um dado contexto se interpõem ativamente pelos meandros de outro. processo infindável. 67 jul. 2007 .. que gera produtos variados a partir de referenciais simbólicos oriundos de contextos diferentes do local onde são reinventados. A partir dos anos 1950. é preciso reiterar aqui que os sistemas culturais são encarados como relativamente autônomos em relação aos limites e condicionantes socioeconômicos e jurídicos que compõem os atuais estados-nação (CARVALHO.Enredando Brasil/Jamaica. reinventados e colocados em contato por intermediários culturais e/ou agentes individuais. bem como ideologicamente direcionada para a construção de uma unidade identitária nacional homogeneizante. São estratégias que poderiam se alternar em gradações ainda não estabelecidas precisamente. comportamentos e pontos de vista compartilhados tenda a enxergar cada contexto localizado de forma essencialista e fechada. tomando parte desse jogo com todas as suas características próprias. movimento ativo de recepção colaborativa. Esta última característica é especialmente importante porque toca no problema crucial da capacidade de tais combinações sígnicas favorecerem ou não processos de identificação através de diversas estratégias relacionais. o cinema tornou-se uma das principais portas de entrada para a tessitura da rede imaginária que participa do processo de construção e difusão dos produtos audiovisuais. já citadas. 1994). duas das quais. em contraste com a visão expressa desde o início deste trabalho.. serão mais detidamente examinadas. Apropriação.

A leitura de tais estudos e a observação vivenciada nestes vinte anos de envolvimento deste pesquisador com o gênero. sujeitos ou culturas como entidades que teriam um estado inegavelmente original ou “autêntico” de existência e não como percepções contingentes. 2001. “questão de relações e alianças em estado de fluxo” (FISHER. Nascido quando a sociedade de consumo começava a consolidar sua hegemonia pela difusão planetária de seus produtos (a primeira banda de ska.Leonardo Vidigal É importante apresentar uma definição mais precisa para estes conceitos por causa da conotação pejorativa que pode ser conferida aos termos “contaminação” e “apropriação”. o reggae teve pouco tempo de maturação antes de se consolidar em um estilo hoje chamado de roots. vol. que são ouvidos. que poderiam ser chamadas de moleculares (para usar terminologia de Deleuze). 2003)3. 1995. era conhecida como Skatalites. permitiu constatar que o reggae encontra-se atualmente fragmentado em diversos subgêneros construídos coletivamente ao longo de seus quarenta anos de história. 1995). principalmente pelas camadas mais jovens da população. Aqui se procura construir um ponto de vista teórico mais permeável do que a constituída por noções como a de hibridismo2. de contaminação e apropriação. Música popular e audiovisual Os produtos audiovisuais que possuem como tema a Jamaica geralmente dão grande ênfase ao gênero musical conhecido como reggae. captadas e compreendidas sempre parcialmente. o que não foi contestado por estudos anteriores (COOPER. n° 15 . tal interpretação acontece segundo concepções que tomam coisas. Para ambos. determinando a ilha caribenha como seu local de origem. no começo 68 Revista Brasileira do Caribe. sugerindo não haver diferenças absolutas entre um e outro sistema cultural. Goiânia. mas que eles estariam parcialmente contidos uns nos outros. em homenagem aos primeiros satélites). KATZ. VIII. consumidos e praticados nos cinco continentes. STOLZOFF. sempre por meio de ações. reconhecido como a primeira forma do reggae.

espanholas. em um contexto de anarquia litúrgica e antidogmática.. a instrumentação musical era muitas vezes baseada nos tambores nyabinghi. como vem sendo reivindicado por acadêmicos da ilha) que combina palavras inglesas.. que têm na adoração de um deus negro. oriundos das comunidades quilombolas (chamadas de maroons). depois como um elemento relativamente assimilado pela cultura praticada na Jamaica. As convicções dos rastas são professadas em variados graus. sendo considerado inicialmente como algo marginal. motivadas certamente pela revolução negra no vizinho Haiti. envolvendo-o com o rastafarianismo. como nas temáticas. O entrelaçamento entre a mensagem espiritual e 69 jul. porque ditas em um dialeto patois (ou na língua jamaicana. combinados com a tradição oral do canto falado (mais tarde apropriado pelos rappers americanos e jamericanos. que foi gradativamente sendo ressignificado. As origens desse sistema de crenças e valores datam das lutas políticas anti-coloniais que explodiram no Caribe no século XIX. indianas e africanas. mas que ganharam a forma atual a partir da década de 1930 e só se tornaram relativamente populares nos anos 1970. Este é um complexo sistema filosófico. um dos pontos em comum entre os diversos grupos de fiéis. dos anos 1970 e ser internacionalizado por filmes produzidos na mesma época e pelo carisma de Bob Marley.Enredando Brasil/Jamaica. discursivo e simbólico foi sendo composto. todo um denso arranjo ético. Como parte do processo de edificação do roots reggae. fundamentalistas. Além disso. religioso e moral que combina a política de valorização da herança africana com crenças milenaristas e. tanto formalmente. ou inglês jamaicano. encarnado na figura do antigo imperador etíope Haile Selassie I. isto é. até se tornar praticamente uma norma para a maioria dos músicos e cantores de reggae. Esse formato é o mais conhecido mundialmente e suas características formais são as mais facilmente reconhecidas e associadas ao reggae. descendentes de jamaicanos nascidos nos Estados Unidos). às vezes./dez. que existem até os dias de hoje no norte da ilha. 2007 . Todo esse ethos era claramente ou obscuramente exposto nas letras das canções.

vol. em 1981. juntamente com algumas cuícas compradas em sua única e breve passagem pelo Brasil. os grafiteiros e os DJs). depois do falecimento de Bob Marley. ao inspirar a concepção do hip-hop (graças ao canto falado – o toasting– que os imigrantes jamaicanos levaram dos bailes de rua da ilha para os bailes de clube em Nova York. Os contatos entre Brasil e Jamaica não aconteceram por meio de correntes migratórias diretas. A partir de então. os grandes intermediários culturais passariam a ter pouca influência sobre o desenvolvimento do reggae. hoje dominante nas paradas jamaicanas4. que Marley foi um dos primeiros a utilizar em seu mega-sucesso “Could you be loved”. e de Peter Tosh. cujos agentes passaram a priorizar o mercado interno e aquele composto pelas colônias jamaicanas em países de fala inglesa como Inglaterra. a música popular na Jamaica foi simultaneamente modificada pela adoção progressiva das baterias eletrônicas. Este é um caso de comunicação intercultural que também teria suas conseqüências no Brasil. VIII. no caso o mestre de cerimônias. mas outras modalidades de discurso ainda aconteciam.Leonardo Vidigal política se tornou uma marca do reggae. No entanto. 2006). contratos foram cancelados e os artistas foram forçados a se adaptar ou a emigrar. Canadá e Estados Unidos. o MC – os outros três elementos seriam os dançarinos. Nesse último. no então emergente subgênero chamado de dancehall (chamado assim por ter sido consagrado nos bailes). em março de 1980 (VIDIGAL. Os instrumentos eletrônicos foram tornados populares pelos rappers americanos. Por seu lado. onde o hip-hop é hoje uma das principais expressões da juventude (embora o dancehall jamaicano somente agora esteja começando a ser apreciado por aqui). em 1987. este contato proporcionado pelas correntes migratórias e pelo maior fluxo de bens simbólicos entre os países modificou decisivamente a música popular mundial no início dos anos 1980. que constituiria um dos “quatro elementos” do hip-hop. como entre 70 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. n° 15 . houve uma queda no interesse das gravadoras em continuar promovendo o reggae.

h) na maioria das vezes são imaginados pelo resto do mundo como lugares que combinam a natureza paradisíaca com um cotidiano violento e. 71 jul. contaminação e apropriação mediadas também pelo audiovisual. que podem ser resumidas nos seguintes elementos: a) carregam uma pesada herança do passado colonial e escravista. principalmente no período colonial. mas por mecanismos de identificação.. d) os contatos interculturais que forjaram os atuais sistemas foram muitas vezes violentos. não apenas em termos de extensão territorial e pujança econômica. inspirando táticas de apropriação e de posterior retomada de matrizes culturais (já em um ambiente onde o contato se processava de modo predominante como contaminação. Relações entre Brasil e Jamaica Brasil e Jamaica são duas nações que apresentam profundas diferenças. f) possuem uma cinematografia razoavelmente consolidada (a Jamaica tem hoje a cinematografia mais desenvolvida do Caribe depois de Cuba). c) a cultura negra é representada por quase todas as correntes ideológicas do espectro político como um emblema da identidade cultural imaginada./dez. mas também de ordem histórica. g) têm na música popular a expressão mundialmente mais conhecida de sua cultura. e) apresentam uma expressividade corporal elaborada. 2007 .. b) foram povoados à força. por uma variedade significativa de grupos étnicos africanos. além das relativas à composição social e cultural. alguns deles compartilhados. Jamaica e Estados Unidos. No entanto. tornada explícita em eventos públicos onde a dança é elemento central.Enredando Brasil/Jamaica. finalmente. compondo assim uma população atual de maioria negra ou mestiça. i) suas economias atuais estão amarradas por um alto grau de endividamento externo e pesados juros internos. com todas as suas implicações socioculturais. sem imposição forçada). possuem muitas similaridades. como os Yorubá e os Nagô. nos últimos séculos. relativas às diferentes formas de colonização empreendidas ao longo dos últimos séculos.

No Brasil os modelos de representação do reggae chegaram primeiramente de forma mercantilizada. que teve sua apresentação no Festival de Jazz de São Paulo transmitida pela TV Cultura daquele estado. Em um segundo momento. Ele também apareceu cantando na sala da personagem de Tônia Carrero. Tribo de Jah. que foi registrada pela TV. Mystical Roots. Em 1981. Cidade Negra. n° 15 . Outro artista de reggae que veio ao Brasil no mesmo ano foi Peter Tosh. como a Ariola (que.Leonardo Vidigal A partir de tais aproximações foi construída uma relação negociada de compartilhamento cultural entre estas duas subtotalidades. 2002). VIII. na época contratado da Columbia (hoje Sony). depois de se fundir com a BMG. O reggae desencadeou um movimento cultural significativo no Brasil. jogando futebol no campo de Chico Buarque e fazendo cooper em Copacabana (VIDIGAL. Titãs. que se materializaram primeiramente sob a forma musical. A partir de então. foram 72 Revista Brasileira do Caribe. da Rede Globo. mas ainda assim repercutem de forma significativa. Goiânia. entre muitas outras. expressada por certa atitude carnavalizante5 de ambas ante a expressão artística e pelas raízes comuns. Assim. 1997). do ponto de vista do senso comum. gravadora responsável pela breve visita de Bob Marley (cujo catálogo hoje pertence à Universal) ao Brasil em 1980. o “reggae-toada”. foi comprada recentemente pela Sony). Na maioria das vezes estas proximidades se encontram escamoteadas pela distância geográfica e pela falta de conhecimento histórico dos atores sociais. em trabalhos de bandas como Paralamas do Sucesso. é difícil perceber. vol. gerando apropriações como o “reggae-capoeira”. englobados pelos intermediários culturais multinacionais. ou o “forreggae” (VIDIGAL. exemplos concretos de influência direta dos representantes da cultura produzida no Brasil sobre os jamaicanos. a apropriação do reggae começou a gerar uma grande variedade de apropriações. de uma maneira pouco estudada. na novela “Água Viva”. Gilberto Gil percorreu o país em uma turnê com o cantor Jimmy Cliff (o mesmo de “The harder they come”) que apresentaria o reggae para um grande público. havendo a necessidade de uma pesquisa mais detalhada sobre esse aspecto6.

principalmente nas capitais e cidades médias. e que agora também começa a produzir suas apropriações. o local onde foi concebido o reggae-toada. para onde convergiu boa parte das bandas formadas em diversos contextos regionais. 2007 . Uma nova apropriação. documentários para TV e folhetins televisivos que abordaram o universo cultural do reggae no Brasil. sem obedecer aos ciclos de alta e baixa intensidade observados em outros estados (VIDIGAL. 2002). dessa vez sob o formato audiovisual. formando.. A cidade também conta com seus coletivos sonoros de dub. com destaque para a cena baiana./dez. em que se pode verificar outra apropriação sob a forma do forreggae. tratada como um gênero separado também emergiu na Bahia sob a forma do samba-reggae. o corpus a ser analisado e que será descrito adiante. o estado do Maranhão. Outro local onde o reggae tem uma forte capilaridade é a região metropolitana da grande São Paulo. de Cynthia Sims. além das atividades normais de consumo e fruição. como blocos de carnaval. estabeleceu uma relação intercultural continuada e estável com a ilha caribenha. Chamado popularmente de “Jamaica brasileira”. O Rio de Janeiro foi cenário de uma forte concentração em torno do reggae em meados dos anos 1990. Em terras paulistanas também existe um ativo circuito de DJs de dub (versão instrumental e experimental do reggae) e dancehall. apresentados em filmes. também elaborados outros produtos. juntamente com os produtos de matriz jamaicana. sincronizando as pistas de dança de lá com as jamaicanas e inglesas. é o contexto regional que mais aparece nos produtos audiovisuais que tratam do reggae no Brasil.Enredando Brasil/Jamaica. documentada no documentário de média-metragem Bonde do Rastafari. onde apreciadores do gênero podem ser encontrados em articulações com o movimento sindical e até com igrejas evangélicas.. e foi o local onde surgiram bandas hoje consagradas como Cidade Negra e O Rappa e que gerou expressões locais como o reggae-capoeira. Contudo. O interesse pelo reggae foi crescendo gradualmente até atingir um patamar de auto-sustentação entre a população de 73 jul. O reggae vem marcando presença em quase todo o Brasil nos últimos trinta anos.

em apresentações que contam com um público composto por pessoas de todas as idades e não apenas por jovens. Mystical Roots e Manu Bantu. ignorados pela maioria do público no resto do país. Outras bandas. como a prática de se dançar o reggae aos pares (como no forró). única no mundo. mas que não ficou imune à sua capacidade contaminante (como será visto adiante no exemplo dado pela série Música do Brasil). os radioleiros estão alugando os serviços de instrumentistas da Jamaica para produzir faixas “exclusivas” e assim poder ofuscar a concorrência. n° 15 . que não foi destruída pelo reggae. já tendo praticamente acabado com o estoque de compactos da década de 1970 de estilo roots. que tem as chamadas radiolas (equipes de som que tocam as músicas mais apreciadas. produzidas na Jamaica ou localmente). se especializaram em tocar versões de melôs. Os donos de radiola costumam ir para a ilha adquirir novos discos. Formas de “apropriação corporal”. vol. 1995). Gerações de músicos e instrumentistas do Maranhão se formaram ouvindo reggae desde crianças. como alguns temiam.Leonardo Vidigal menor poder aquisitivo. Festivais de música trazem artistas da Jamaica. Ultimamente. como principal fonte de lazer (SILVA. é um exemplo da reinvenção praticada nos bailes maranhenses. como Tribo de Jah. de Hermano Figueiredo). fazendo surgir algumas das principais bandas do gênero no Brasil. O Maranhão também apresenta uma rica cultura popular (como mostra o curta “São Luís Caleidoscópio”. Os atores sociais maranhenses também modificaram o contexto jamaicano. como no sudeste ou mesmo na Bahia (como foi observado in loco por este pesquisador). além de acompanharem os artistas jamaicanos. embora isso não tenha sido ainda pesquisado adequadamente. como Eric Donaldson e Owen Gray. VIII. Goiânia. que é tematizada em todos os documentários e programas que tratam daquele ambiente. o mais apreciado pelos maranhenses. como Legenda e cantores como Dub Brown. 74 Revista Brasileira do Caribe. os melôs7.

concebidas primeiramente no contexto jamaicano./dez.. além de fazer parte do comércio de ganja (maconha). questionados e. o que foi tornado visível e legível a todos pelo amálgama audiovisual. no caso jamaicano o de correntes protestantes como a batista. atualizando a percepção do que era vivido pela população de origem africana no Novo Mundo. Por ter sido o primeiro longa-metragem produzido na Jamaica. intuito que foi parcialmente atingido. facilitando a ascensão de uma nova geração do reggae. Tais filmes também foram financiados por intermediários culturais. único rastafari de “The harder they come”. assim. se limita a apoiar Ivan sem tomar a iniciativa de nenhum movimento mais conseqüente. 2007 . “The harder they come” apresenta temas e personagens que foram desenvolvidos. apresentado como financiador e beneficiário do crime organizado) e explicitado em “Rockers” (com seus personagens defendendo claramente os preceitos rastafari). Esse amálgama entre o discurso ético. religioso e político do rastafarianismo é preparado em “The harder they come” (que critica violentamente a hipocrisia da religião tradicional. nos produtos audiovisuais subseqüentes realizados naquele contexto. apenas a consomem. como as gravadoras locais e multinacionais. diretamente ou indiretamente. Pedro. Alguns desses filmes serão mais bem analisados a seguir. Por exemplo.Enredando Brasil/Jamaica.. e também o aparato estatal. Alguns dos produtos audiovisuais analisados As convenções que foram se cristalizando ao redor das mais diversas metáforas inventivas. são apresentadas e congeladas nos filmes “The harder they come” e “Rockers”. para inventar uma dada concepção do que se passava musicalmente na Jamaica naquela época. Conceitos bíblicos como o da “Terra Prometida” e a história do cativeiro dos hebreus na Babilônia foram metaforizados pelo sistema de crenças rastafari. Já em “Rockers”. os rastas apresentam um papel muito mais ativo na condução da trama e não comercializam a erva. Eles viriam a servir como referência para a formação de novos produtos audiovisuais por realizadores em todo o mundo acerca do reggae e o rastafarianismo. 75 jul. reinventados.

Os programas realizados no Brasil dividem-se basicamente em dois grupos: 1) os que foram realizados tendo como tema os agentes e elementos apropriadores do universo do reggae no Brasil. Quando tematiza o reggae (em um episódio que ainda trata do rap paulista e do funk carioca). privilegiando situações de apropriação. dedicado inteiramente 76 Revista Brasileira do Caribe. elementos e abordagens desse filme pode ser sentida primeiramente em “Rockers”. vol. Ela trata do contexto maranhense em dois episódios. n° 15 . pode ser vista como uma resposta ao individualismo e ao caminho do crime escolhido por Ivan em “The harder they come” (mesmo que este tenha sido quase justificado por um impulso revolucionário). e enfatiza a forma como os casais dançam aos pares. Leroy “Horsemouth” Wallace. VIII. na qual os créditos iniciais são projetados sobre um grupo de percussionistas nyabinghi8. em seqüências como as que mostram as gravações em um estúdio e a posterior volta de bicicleta do protagonista para distribuir seus discos. principalmente pela forma como apresenta o discurso rastafari.Leonardo Vidigal A movimentação de figuras. Ao grupo 1 pertencem as obras do documentarista Belisário França. Goiânia. associando-o aos tambores afros logo na primeira cena. tido como o primeiro a tocar o gênero regularmente. particularmente no Maranhão e 2) os que pretendem documentar alguns dos elementos contaminantes encontrados na Jamaica. em conjunto com outros rastas. entrevista Riba Macedo. A apresentação dos problemas enfrentados pelo rastafari que protagoniza “Rockers” (na realidade um baterista reconhecido no meio reggae. que ecoam claramente no filme “The harder they come”. Em outro episódio. que trabalhou em conjunto com o antropólogo Hermano Vianna na realização da série “Música do Brasil” (2001). fazendo inclusive que Macedo explique as origens de tal movimento (ele teria primeiramente substituído o bolero como “música lenta” na sua radiola e ao longo do tempo ele foi sendo adotado pelos bailantes como gênero principal). que jamais voltaria a fazer outro filme) e sua solução pela via da ação coletiva e solidária. “Rockers” também aparece como uma citação freqüente em outras unidades audiovisuais. sons.

mais recentes.. A série adota uma abordagem panorâmica. do outro. e. além de enfeitar o boi com um bordado que representa. “Netos do Amaral”. depois de ter sido “fundada por franceses. ao bumba-meu-boi. que se apropria do reggae tanto na batida da toada quanto nas letras. emblema do vídeo independente no Brasil vivido pelo diretor Marcelo Tas. de um lado. menção ao antigo “Amaral Neto. dá destaque a um grupo da cidade de Rosário. na primeira intervenção do personagem/apresentador. Tas e Santos vão montando com “Netos do Amaral” um painel que não parece ter a intenção de explicar ou de compreender aquele fenômeno e sim de apresentar uma reinvenção que enfatiza o lado caótico e exótico do que encontram. invadida por holandeses e colonizada por portugueses”. até então praticamente inéditos na TV brasileira. apenas alguns aspectos do reggae como foi apropriado no Maranhão. durante o ciclo militar. 2007 . Luís./dez. O principal objetivo nesse caso é parodiar e explicitar as táticas empregadas pelos programas de reportagem da TV convencional. que também traz uma edição sobre o Maranhão. o Repórter”. São Luís estaria agora sendo “ocupada por jamaicanos”. expoente da propaganda do “milagre brasileiro”. entre muitas outras manifestações pelo país afora. disfarçada de jornalismo. Tais manifestações são muitas vezes sublinhadas com legendas de grande proporção e com esse e outros elaborados recursos gráficos. situada a duas horas de S. Seguindo esta rota. apesar de não mostrar nenhum ao longo do programa. o repórter Ernesto Varela. Possui a singularidade de ser apresentado por um personagem fictício. recortando.. podem ser confrontadas com outras datadas do início dos anos 1990. que acreditava ser o Maranhão “uma Jamaica congelada nos anos 60”.Enredando Brasil/Jamaica. é uma série dos primórdios da MTV brasileira. programa de Éder Santos e Marcelo Tas. Mais uma vez a dança ganha 77 jul. o que já fica claro na denominação do programa. O programa apresenta seus personagens por meio de diálogos que apresentam frases como “o reggae fez a cabeça do mundo todo” ou pela fala de estudiosos como o jornalista Otávio Rodrigues. Jesus Cristo. Bob Marley. Tais atualizações. este afirma que.

expressão repetida por Tas quando conversou com o mesmo personagem. o radialista e cantor Fauzi Beydoun (que em “Netos do Amaral” aparece apenas como locutor de rádio) e o dono de radiola Serralheiro (falecido recentemente). n° 15 . quando o narrador Gilberto Gil anuncia o boi da cidade de Rosário como sendo “sotaque de orquestra”. devido à posição marginalizada ocupada pelo reggae. que foi veiculada na TV Manchete (e. Também é possível identificar um percurso intertextual entre este programa e o mais recente “Música do Brasil”. como o intermediário Enéas Motoca (que. mais tarde. com Varela confrontando a “maneira jamaicana” (expressão ressaltada com as legendas características) de se movimentar ao som da música (individualmente) e a “maneira brasileira” (aos pares). vol. A edição procura mostrar algumas situações de risco em que o público maranhense se envolve. O programa também destaca as radiolas. O fato de ter sido produzido apenas um ano antes de “Netos do Amaral” permite realizar algumas comparações específicas. lá todos os cantores moram numas casas pobrezinhas assim”. enquanto mostra o seu baú com mais de dois mil discos “trancado a sete chaves”. o radioleiro declara humildemente que não se mudou de sua antiga moradia porque queria “acompanhar o ritmo da Jamaica. sendo acompanhado até sua casa miserável pela equipe de “Documento Especial”. conta ele de modo ligeiramente diferente nos dois programas. Serralheiro foi entrevistado de forma algo jocosa por Marcelo Tas em “Netos do Amaral”. Goiânia. mostrada como uma mera emulação do universo country americano em outro bloco. VIII.Leonardo Vidigal destaque. leva jovens jogadores maranhenses para a Europa e traz discos). Lá. apresentando um retrato visivelmente mais simpático do que o da cidade de Barretos. no SBT) com a direção-geral de Nelson Hoineff. A premiada série “Documento Especial: Televisão Verdade”. pois este último retoma alguns personagens apresentados antes no “Documento Especial”. esclarecendo que nele são usados 78 Revista Brasileira do Caribe. apresenta o assunto de forma mais crua. que precedeu o dedicado ao Maranhão no mesmo programa.

comparando-as com as batidas do reggae (assim como seu colega da banda Guetos Tadeu de Obatalá fez com a boca para “Netos do Amaral”). ou riddims. banjo. De um modo geral. apresentando cenas raras de quarenta anos atrás. onde Bob Marley viveu por alguns anos. não se limitando a apenas uma linha de interpretação”. Tal passagem evoca a do Documento Especial em que o percussionista e baterista Paulinho Akomabu faz uma demonstração dos diversos “sotaques” (batidas. para usar a terminologia jamaicana) do bumbameu-boi. que reveza depoimentos de artistas e jornalistas da Jamaica com cenas de rua e videoclips de reggae. Ao grupo 2 pertence “Jamaica. 79 jul. entre outros. o programa é pautado pelo imaginário sobre o reggae construído também pelos filmes dos anos 1970 analisados na pesquisa. veiculada no final de 1992 na Rede Bandeirantes. “Documento Especial “é o programa que permite o afloramento das opiniões mais diversificadas sobre o assunto./dez. É visível o esforço de encontrar músicos que ainda pratiquem o chamado reggae roots. Os cantores também atestam a falta de condições de trabalho em seus depoimentos: “temos que ter um estúdio em Trenchtown”. que.Enredando Brasil/Jamaica. originando o chamado rocksteady (uma espécie de proto-reggae). a imagem dos dançarinos também desacelera. A narradora explica a dificuldade em encontrar músicos “de raiz”: “muitos dos melhores artistas ainda vêm do gueto. instrumentos de sopro. mas precisam gravar fora do país”. 2007 . A dança também ganha destaque quando o programa aborda o ska. oferece uma ótima amostra sobre o que seria considerado relevante na cultura praticada na Jamaica por aquela equipe de realização. É uma reportagem televisiva tradicional.. o paraíso do reggae”. em um interessante efeito sinestésico. fora os comerciais) e pela variedade de temas abordados. Quando a narradora explica que houve uma desaceleração no andamento musical. pela longa duração (60 minutos.. o que é finalmente logrado na favela de Trenchtown. uma produção de Ronaldo German e Ricardo Porto.

o paraíso do reggae” é o único dos programas produzidos no Brasil a mostrar a comunidade quilombola dos maroons. quando o dancehall é apresentado como a “tradição dos sistemas de som dos anos 50 remodelado por recursos eletrônicos. Goiânia. mas o rastafarianismo não é um movimento político. Narrado pelo onipresente Gilberto Gil. VIII. afirmando brevemente que seu governo “nunca discriminou os rastafaris”. nas quais. O excesso de efeitos de edição produz um efeito de “consciência do dispositivo” que ao mesmo tempo dificulta o entendimento do texto e promove certo nível de reflexividade. Um transeunte com longos “dreads” menciona querer trabalhar por um “governo rasta”. O uso da maconha é contextualizado. vol. ecoando o formalismo dinâmico do pioneiro “Netos do Amaral”. como os bobo dreads (que não foi chamada por este nome. outro que enverga as longas tranças emaranhadas.Leonardo Vidigal “Jamaica. traz nessa mediação por um artista reconhecidamente ligado ao reggae roots (pois havia gravado nos anos 1980 a canção “Vamos Fugir” com a banda de Bob Marley) um viés de estranhamento. o qual é parte de uma série realizada por Belisário França que aborda o universo da música caribenha por intermédio de depoimentos literalmente recortados e colados no fundo paradisíaco. garantindo que o “o que os rastas fazem é político. voltado para a louvação 80 Revista Brasileira do Caribe. mas é facilmente identificada pelos característicos turbantes cilíndricos). n° 15 . com uma temática social e sexual”. associando-a com Marcus Garvey e também as “imagens proibidas” das comunidades rastafaris mais radicais. com a narração vaticinando que “a erva faz parte da cultura e da economia”. O depoimento de um bobo dread que fala em “varrer o colonialismo e imperialismo” é contraposto ao da Ministra da Cultura da Jamaica. Outro representante desse grupo é “Baila Caribe: Jamaica”. mas espiritual”. O discurso por ele proferido. “os brancos são considerados inferiores”. segundo a narração. o que é confrontado com o produtor Stafford Ashanti. O tema da dança volta a aparecer no final do programa.

evocam recurso semelhante usado em “The harder they come”. 2007 . Com uma duração maior do que o antecessor e com uma abordagem que enfatiza mais o conteúdo do que a forma consegue reinventar o cenário jamaicano de maneira mais relaxada.. Outros procuram se desvencilhar de tais modelos e tentam eles mesmos estabeleceremse como referência.Enredando Brasil/Jamaica./dez. tem seu sentido deslocado e reinventado. no sentido de estudar os possíveis problemas interpessoais ou institucionais derivados da incompreensão ou falta de informação relativa a características culturais de cunho comportamental. chamada “Música Libre”. evocando cena semelhante em “Rockers”. que se refere na maioria das vezes a uma dimensão mais prática. como restrições de 81 jul. Desse modo espera-se que os pressupostos teóricos examinados neste trabalho. outra visão do universo jamaicano. recorrentes em todos os programas abordados. que mostrou.. O conceito da série “Baila Caribe” foi emulado nove anos depois em outra série. construídos a partir dos filmes jamaicanos e outras fontes iconográficas. e algumas de suas aplicações possam lançar uma luz diferente sobre os processos de comunicação intercultural. Em um dado momento mostra um pouco do processo de prensagem de um compacto. com apresentação e direção de Carolina Sá. Já os travellings pelas ruas de Kingston. da ascensão do dancehall e para o desvinculamento do reggae da filosofia rastafari. desta vez exibida no GNT (canal a cabo da Rede Globo). Notas 1 O conceito de comunicação intercultural trabalhado neste texto difere do que é normalmente utilizado na literatura disponível. Contribuir para a constituição de uma abordagem relacional sobre tais processos de contaminação e apropriação cultural é talvez o principal objetivo dessa investigação. A análise dos produtos audiovisuais produzidos no Brasil permite concluir que alguns deles procuram organizar o olhar no sentido de conformar a visão do espectador a certo conjunto de referenciais simbólicos audiovisuais. o que talvez seja mais condizente com a atmosfera local.

o que teve consequências diversas. gênero e outras. oferecendo em troca uma miscelânea de ofertas de consumo cultural para aplacar a sede de exotismo. culminando na discreta. No entanto. para usar a expressão de fundo escravista e colonialista que tal conceito visava combater. parte do corpus de análise. será construída ao longo do texto. e a indignação pelas injustiças sociais. Baila Caribe. mas altamente valorizada participação da Jamaica. Goiânia. Nas produções jamaicanas tal associação não é explicitada no título. por um lado. 3 4 Houve recentemente a chamada retomada dos “valores rastafari”. treinada pelo brasileiro Renê Simões na Copa de 1998. vol. entre outras (Nair-Venugopal. de outro (2001). Um exemplo claro está na área esportiva. ainda mantém as culturas à margem “em seu devido lugar”. VIII. o país não se classificou para as Copas de 2002 e 2006. n° 15 . apesar de valorizada e celebrada. tratamento dado a homens e mulheres. como Jamaica: Paraíso do Reggae. Músicas de sucesso. Música Libre. denominadas por títulos que evocam apropriações locais das letras em inglês. como um questionamento da representação de um produto ou manifestação cultural pela visão hegemônica. 5 6 7 82 Revista Brasileira do Caribe. particularmente a operada por Homi Bhabha. pois. Bonde do Rastafari.Leonardo Vidigal contato. movimento também conhecido como modern roots. O programa Netos do Amaral. de cunho relacional. que. a vitoriosa campanha brasileira na Copa do Mundo de 1970 popularizou enormemente o futebol no país. mas invariavelmente ocorre no conteúdo. Algumas das noções de hibridismo. A noção de comunicação entre culturas usada neste trabalho. como a ascensão de uma nova geração que voltou a assumir o discurso e o visual de tranças da época de Bob Marley. 2 Tal direcionamento é quase sempre expresso no título dos audiovisuais estudados que foram produzidas no Brasil. que classifica a cultura em “erudita” e “popular”. 2003). mas também possibilitou uma exposição exagerada de algumas características “fundamentalistas” e altamente questionáveis de alguns seguidores. Para Ahmad seria mais um meio de ignorar as diferenças de classe. No sentido dado por Bakhtin (1987). vêm sendo questionadas por erigir um novo estatuto da diferença. como contou Bob Marley em sua breve visita ao Brasil (em 1980). como a homofobia.

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Trata-se de um enfoque produtivo da obra do cineasta brasileiro e de seus diálogos com artistas cubanos Palavras-Chave: Cinema Novo. n° 15. em torno deste atributo. Glauber Rocha. nuances do seu nomadismo. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. Goiânia. a análise inclui o cineasta Glauber Rocha na categoria de pensadoresnômades. 85-107. Keywords: New cinema. vol.” Glauber Rocha Abstract This study addresses Glauber Rocha´s performance with the objective of offering insights on some of the aspects of his actions in the 1969s and 1970s. pois. nas representações que afloram do seu discurso. gravita o argumento norteador desta reflexão. Brazil/Cuba Resumo O artigo analisa as relações entre o Brasil e o Caribe. Glauber Rocha. VIII. 2007 . Inspirando-se em conceitos deleuzianos. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 85 Revista Brasileira do Caribe. It particularly focuses on the representations that emerge in his discourse revealing the idea of nomadism. de modo a destacar. Brasil/Cuba. tendo como objetivo principal.Migrações de idéias. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo “Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata.

n° 15 . faço-o não apenas estimulada pela profícua interdiscursividade que. em configuração metonímica. nomadismos e pontes imaginárias Neste ensaio enfoco a performance do cineasta Glauber Rocha tendo como objetivo principal. gravita o argumento norteador desta reflexão. pois. El interés está centrado en el destaque de las representaciones que afloran en su discurso. Glauber Rocha. não podemos negar que Deleuze tende a identificá-los pelo fato de ambos devotarem a vida à criação 86 Revista Brasileira do Caribe. nas representações que afloram do seu discurso. Com este propósito. igualmente nômades. Na esteira do pensamento deleuziano. a despeito das diferenças que existem entre eles.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Resumen El estudio enfoca la performance del cineasta Glauber Rocha con el objetivo de profundizar en algunos aspectos de sus acciones em los años 60 y 70 del siglo XX . ao selecionar Cuba como referência. nas “Terras do Sol”. Éstas son reveladoras de la idea del nomadismo. mas ademais. desde as lidas preliminares as fontes indiciavam. Shöpke (2004 p. nuances do seu nomadismo. uma nomeação possível para as formações do terceiro mundo. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. VIII. Tais sintonias não escaparam ao horizonte nômade de Glauber Rocha e ensejaram diálogos entre “pensadores – artistas”. 172) sublinha: É bom frisar que estamos tomando os termos pensador e artista quase como sinônimos. de modo a destacar. Palabras Claves: Cine nuevo. Brasil/Cuba Sintonias. vol. Afinal. em torno deste atributo. Goiânia. dentre outras formações que redesenham o cenário pós-colonial. Cuba se inscreve como um especial “lugar de sintonias”. concepto en torno al cual se va a nortear la reflexión de este artículo. movida pela convicção de que.

A carta. em constante movimento de ruptura com modelos préestabelecidos. o cinema novo e. se também é uma mentira (tal como a religião. em maio de 1971. especialmente os cubanos. que nos fazem crer na vida a ponto de afirmá-la e amá-la sob todas as circunstâncias. o “pensador-artista” nômade recusa a mera recognição e reivindica outro estatuto para as representações que constrói. é preciso escolher dentre estas ilusões aquelas que nos fazem mais fortes. o papel dos cineastas do terceiro mundo. é um sítio discursivo no qual o “pensador-artista” reflete sobre o Brasil. 411). 1997 p. Glauber Rocha escreveu: Meu querido Alfredo. 2007 . O fio condutor para tal performance convida a pensar na arte como a “feiticeira salvadora” (NIETZSCHE Apud SHÖPKE. p. 123). a voz de Glauber Rocha parece interagir com o enunciado filosófico acima transcrito. o cinema.. Exemplifica este encontro com a vida. Todo pensador e artista nômade é necessariamente um criador.Migrações de idéias. 2004. em Santiago do Chile. como que ungida pelo sopro da arte. neste. a moral e metafísica). o pedido de divulgação do que nomeia como “carta-documento”. Diferentemente do sedentário. “feiticeira salvadora”.. a carta que escreve do exílio. 87 jul. espero que este documento possa ser lido com tranqüilidade pelos companheiros latino-americanos. (no sentido mais estrito do termo). influências ou reativações?. Ao encarecer por mais de uma vez. ocasião em que metaforiza: “os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. pois é justamente em seu nomadismo que encontra o vetor que o impulsiona a agir e ousar. a seu colega e amigo cubano Alfredo Guevara. Para o filósofo: Se ela também é uma ilusão que nos faz viver. como ocorre em tantas outras. portanto. Muito embora em outro momento e em outro contexto./dez. na verdade. E somente a arte pode nos oferecer tal poder.

Como se verá. no item que se segue. n° 15 . Espero que seja divulgado em Cine Cubano e em muitas outras publicações. um nomadismo radical e vital e centenas de cartas escritas de quartos de hotel. suas muitas ausências do Brasil constituem “um périplo romanesco. Por isto os artistas são tão necessários quanto os engenheiros. Assim. Ao final. Quando Marx denunciou a escravidão econômica do homem. ‘Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. Em seguida. concluindo: Brasil e Cuba em 88 Revista Brasileira do Caribe. vol. a biografia de Glauber Rocha mostra que não apenas o nomadismo das “pontes abstratas” ensejou suas errâncias. apartamentos provisórios dos amigos. cujas performances. que a escolheu. lanço um olhar sobre as “pontes” estabelecidas entre Glauber Rocha e outros “pensadores-artistas” igualmente nômades. fornecem o suporte empírico para as incursões pretendidas. Aliás. em contexto recente. Inclusive literalmente. 1997. para falar sobre seu celebrado documentário “Rocha que voa”. VIII. “Glauber Rocha.’( grifos meus).Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo porque pouco me importa os europeus. 41). no item “Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças”. entre as contigências do exílio ou não mais que ditadas por um peculiar e irriquieto temperamento. tomando como contraponto o mesmo atributo de seus colegas cubanos. as “pontes” construídas se incumbem de situá-lo no conjunto de expressões culturais que fervilham na cena brasileira nos anos sessenta e setenta. também no presente ensaio valho-me de “pontes imaginárias” para construir articulações cujo conjunto logre evidenciar o nomadismo de Glauber Rocha. p. sua proposta foi a de “criar uma ponte entre o imaginário da época e a atualidade” (F. estava pregando uma sociedade onde o homem não existisse em função da economia. produtores ou mulheres” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. Goiânia. Segundo o filho de Glauber Rocha. É interessante observar que a força simbólica da imagem da ponte interpelou também o jovem cineasta Eryk Rocha.S.P 15/07/04). seu tempo e sua obra”. selecionadas sob a forma de alguns fragmentos discursivos.

rompeu fronteiras espaciais e fez da cultura. 38). um foro privilegiado. ou bem por isso. influências ou reativações?. é a força motriz do nomadismo glauberiano. No amplo leque das manifestações artísticas que povoam os anos sessenta e setenta. em sua abrangência. mas. contando com a interlocução de autores que se ocuparam com o recorte temporal aqui considerado e aí se detiveram no viés das artes. 89 jul. p. teimosas réstias de luz. a brecha possível para conscientizar./dez. de modo a destacar a argumentação que o presidiu. apesar de tudo. jovens universitários ou recém-formados. Caprichos da memória atualizam no presente “o chamado ao qual a lembrança responde” (BERGSON Apud BOSI.Migrações de idéias. cabendo enfatizar ao final destas anotações introdutórias. ver e rever a obra glauberiana significava para muitos de nós.. ainda assim. a própria história do país sinalizou etapas. o relato da efetiva estada do nosso cineasta entre os cubanos constitui uma variável secundária. Glauber Rocha. retomo alguns aspectos trabalhados no texto como um todo. como que incansavelmente ali encontrando o referendo para nossas utopias de um mundo melhor. movimento que mobilizou artistas e receptores. Era “a hora e a vez” da chamada arte engajada brasileira. Neste entendimento. cujas etapas são reconhecidas pela efervescência cultural. Naqueles já longínquos meados dos sessenta e primórdios dos setenta. em meio a um cenário sombrio. Conforme anunciado anteriormente. sintonia rizomática. mesmo em meio às discordâncias. um modo de exorcizar os fantasmas que nos rondavam. Assim. enfocando um momento da vida brasileira. Era a possibilidade de entrever. estratégias e táticas. denunciar e sonhar. seu tempo e sua obra Pertenço a uma geração que elegeu Glauber Rocha como uma espécie de porta-voz das nossas inquietações políticas. Cuba é tomada como referência metonímica do universo pós-colonial e este. ajustadas às condições de resistência política que encontravam na arte.. atendo ao “chamado da lembrança” e aos meus objetivos. 2007 .

composta e cantada por Sérgio Ricardo e “Quem quiser encontrar o amor” de Geraldo Vandré e Carlos Lyra. traziam alguns elementos de ruptura com o estilo consagrado por João Gilberto. p. E identificadas com o movimento estavam também variantes desta expressão musical engajada. Estas etapas. A realidade do teatro. mas mantinham a essência da sofisticação instrumental. depois da resistência. n° 15 . 341) considera que até o ano de 1964. Navas (2001. eram suportes de representações engajadas. “discursos musicados”. passa a fazer coro com a arte engajada. transfigura em resistência. elementos identificados com o movimento (NAPOLITANO. VIII. “Zelão”. p. ou na entronização do universo sertanejo. responderão pela atração à história. vai ser de violência. com suas especificidades permitiram ao estudioso resumir: “O caráter catequizador antes de 1964 e. cuja característica principal advém da elaboração harmônica. Goiânia. vol.1 90 Revista Brasileira do Caribe. a partir dali. prisão e exílio. 2004. ao pescador. enfim. aos homens e mulheres do campo. depois dessa data. 341). 33). celebrou e deu visibilidade. o talento de artistas e cantores brasileiros. pautar-se pela tônica da denúncia. Em suma.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Referindo-se ao mundo do teatro. que o emblemático ano de 1968. eram canções que escancaravam injustiças históricas em relação ao operário. que. 2001. o caráter ritualístico. aos beatos. isto já nos primeiros anos da década de sessenta. pois. “a catequese” e a conscientização davam o tom ao teatro engajado para. p. Nessa época os riscos de vida não serão literatura” (NAVAS. ao guri favelado e tantos outros atores anônimos cujo árduo cotidiano. As primeiras músicas consideradas de protesto. Entendo que neste mesmo percurso é possível inscrever também a música brasileira do período. complexidade harmônica e sutileza vocal. mesmo o movimento da chamada Bossa Nova. fosse nas férteis articulações entre as vozes do morro e as das cidades. aos herdeiros da nossa “democracia racial”.

arregimentadoras como “Pra não dizer que não falei das flores”. no ano de 1964 e “Roda Viva”.. não escapou à voracidade da indústria cultural. a apropriação de “discursos cantados” no teatro./dez. Líricas como “A Banda”. de Chico Buarque. estas peças musicais guardavam em comum o engajamento com o povo brasileiro2. com harmonias européias e ainda vencer festivais?” Não seria o 91 jul. p. À televisão. em janeiro de 1968. no binômio “qualidade-discurso engajado”. não logravam alcançar o mesmo sucesso comercial. Foi o que ocorreu.B. muito embora dialogassem com a música. cuja peça teatral de mesmo nome. que um público ávido decorava. instrumentos e. pelo menos no caso da música. sobretudo letras.. cabia divulgar tais eventos que mobilizavam torcidas e traziam para o palco diversos modos de comunicação musical. arranjos. estreou em São Paulo. comoventes como “Arrastão”. tais migrações foram menos efetivas. por exemplo. ou nas trilhas dos filmes obteve alguns sucessos no rádio e no mercado discográfico. Lembrando o festival de música da TV “Excelsior” no ano de 1965. Castro (1990.P. cuja qualidade foi reconhecida por muitos. vitrine privilegiada. Enquanto isso. se era possível produzir industrialmente este mesmo folclore. não estimulavam maiores incursões da indústria cultural. Tal cenário traz à lembrança os chamados festivais da M. 2007 .Migrações de idéias. cujo repertório se assentava. a chamada arte engajada. no conjunto das manifestações culturais da época. pinçada do espetáculo “Opinião”. É preciso lembrar que. além do mais para quê. apresentado no Rio de Janeiro. assim como ocorrera no filme “Deus e o diabo na Terra do Sol”: “Quem queria ouvir aquilo? E. Aos festivais seguiam-se os lançamentos dos discos.. Somente em algumas ocasiões. Já no caso do cinema. com faturamento assegurado. de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. sigla mágica que rotulou um filão da música popular brasileira. quase sempre longas. pois as trilhas sonoras dos filmes. com a “Marcha da Quarta feira de Cinzas”. influências ou reativações?. ritmos. 402) reproduz o discurso irônico sobre a perfomance do artista Sérgio Ricardo e sua apropriação dos cantores nordestinos. o teatro e o cinema.

entrevistas e um repertório de frases e slogans. Bem por isso. Goiânia. e reterritorialização. até porque “a autocrítica desenvolvida pelo cinema tinha um sentido muito mais radical e procurava repensar a difícil situação existencial do jovem intelectual de esquerda. VIII. n° 15 . reveladores do seu talento e do seu modo de representação da realidade. vol. A importância desse legado “radical” e alguns dos sentidos possíveis da sua movente tônica de desterritorialização. escapando ao consensual. a narrativa “pode ser contada até por um ginasiano” na segunda. 2004. Trazendo a imagem para o universo glauberiano. transbordantes. integravam um público consumidor de classe média e expressavam seu agrado conhecendo o repertório das trilhas sonoras. pois. pois é uma. tomando Hamlet como exemplo. assistiam aos filmes. escapa a estas anotações. são aspectos que pontuam a trajetória de Glauber Rocha e dão suporte ao seu nomadismo5. elas se consubstanciaram em filmes. Mas na verdade. Se no primeiro. manifestos. Referindo-se ao universo do teatro. Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças Idéias não faltaram a Glauber Rocha. mas não é unívoca” (ECO. p. não estava na preocupação do cinema novo4. 192). a plurivocidade das ações abre-se para um sem número de possibilidades interpretativas. pois a intenção deste item é não mais que desenhar um breve painel3. pretensão que. Eco contrasta as vertentes do enredo e da ação. festinhas e nos sempre povoados centros acadêmicos. projetos. correspondências. “a ação de Hamlet fez e fará correr rios de tinta. aliás. um tipo de sucesso alcançado pelas mãos da indústria cultural.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo caso de retomar a polêmica. Uma resposta breve convidaria a pensar nos mesmos estudantes que compareciam aos festivais. ela mantém a pertinência. seja na pluraridade 92 Revista Brasileira do Caribe. o público privilegiado do cinema novo” (NAPOLITANO. seja na leitura e releitura dos seus filmes. cantadas nas muitas reuniões. 54).1986 p. aliás.

sobre tudo aos estudiosos da Sétima Arte. desdobra-se da retomada das críticas coevas aos filmes. partilhando “uma deriva. 2004. já ao final dos anos cinqüenta. ao alastrar-se. para meus objetivos. tertúlias. claro. O “barco” dos precursores do chamado cinema novo. Deleuze. aos cuidados dos especialistas. Deixo o inventário compromissado com os rigores cronológicos./dez. p. Áfryca. começando a atuar desde 1959. 1997. pois. 175). a suspensão máxima imposta pela morte. literatura e. música. quase sempre. na esteira do pensamento nietzschiano. desde as primeiras incursões dedicadas à elaboração deste ensaio. para a “celebração da celebração”. interessada desde os tempos de estudante pelos filmes e pela trajetória de Glauber Rocha. para uma espécie de “crítica da crítica” ou. e América Latyna” (GLAUBER ROCHA Apud GOMES. influências ou reativações?. suas ações e seu legado ainda hoje interpelam a muitos. tinha como tripulantes um grupo de jovens cineastas que escolheu a cidade do Rio de Janeiro.Migrações de idéias.. política. Uma trajetória marcada por turbulências e inquietações é apanágio do “artista-nômade”. 2007 . Percebo que a chama viva da polêmica.S. é preciso que estejamos no mesmo barco. pondera sobre a audácia de um pensamento que. p.. de publicações centradas na obra de Glauber Rocha. U. impressionaram-me os “rios de tinta” que me chegaram. 93 jul.A. mas especificamente alguns bares do Rio de Janeiro. cuja obra logra transcender até mesmo. para entendermos. Ázya. 170). com a ortografia que se permitira cunhar: “o movimento do Kynema novo. cinema. será suficiente reter alguns pontos do movimento liderado pelo cineasta brasileiro que. materializadas em acalorados debates sobre teatro. capitaneadas por Glauber Rocha. como espaços de suas “derivas”. tomou o poder cinematográfico no Brazyl em 1962 (independente dos fluxos paralelos) fundando novas fronteyras criativas e comerciais em terras de Oropa. Não mais que “louca por cinema” e conforme anteriormente mencionado. um momento de deriva ou de desterritorialização” (DELEUZE Apud SHÖPKE. no ano 1980 afirmou.

de resto. que encontrou em Nelson Rodrigues. Afinal. pelo menos por ocasião do seu lançamento em 1967. no caso de Glauber Rocha. entre avanços e recuos e em meio a uma conjuntura política adversa. não obstante as tantas resistências que pontuam o cenário pós-colonial. vol. conheceu episódicas trocas de sinais. no que possa parecer um exagero. o cinema novo entra em declínio na segunda metade dos anos setenta. Nossa historicamente construída condição de receptores de idéias. Setores de esquerda criticaram o filme por sua liberdade narrativa. se pode falar em unanimidade. bastante persuasivo quanto à troca de sinais acima referida. a repercussão de “Terra em Transe”. Goiânia. conforme ironizou o jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. Se. Na verdade. seria impossível. p. No Brasil. VIII. um irônico e conciso sujeito-suporte. construíram discursos parafrásticos em relação à crítica de direita. trata-se de “um ideograma chinês de cabeça para baixo”. não contou com a mesma receptividade. Sobre “Terra em Transe”. Prima della Rivoluzione e ‘Terra em Transe tinham sido os filmes que mais influenciaram o movimento de maio de 1968’. “toda unanimidade é burra”. Da mesma carta-documento enviada ao cineasta cubano Alfredo Guevara e já citada em páginas anteriores. 1997. esta nova performance cinematográfica do terceiro mundo. 407) (grifos meus). quanto são reconhecidos seu talento e seu conservadorismo. 94 Revista Brasileira do Caribe. não apenas comercialmente transpunha fronteira. a unanimidade para além de “burra”. o rotularam de “confuso” e nisto. destaco outro fragmento discursivo. jamais por ele próprio negado. a revista direitista Fatos e Fotos publicou a notícia em tom de denúncia política” (GLAUBER Apud BENTES.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo De fato. o dramaturgo resumiu. Se não vejamos: “Quando os estudantes da Sorbonne apresentavam uma tese demonstrando que Weekend. sequer nos momentos em que Glauber se consagrou como gênio em algumas hostes. ao ensejo do cinema novo. se “Deus e o diabo na terra do sol” foi aplaudido quase unanimemente no ano de 1964. em blague hoje tão conhecida no Brasil. n° 15 .

influências ou reativações?. ao lado de certa intencionalidade. Glauber também precisara dissimular a denúncia com os ardis formais de uma linguagem extremamente elaborada. que provocou perplexidade. O filme “Terra em Transe” durante abril de 1967 foi proibido em todo o território nacional. ANDRÉ Apud GOMES. promovendo “uma reordenação e não uma submissão visual. a reiterar que a obra como um todo. 2007 . Sobretudo desde o barroco. 1997. Pensar na análise desses discursos nas vertentes do discurso do emissor (Glauber Rocha) e nos dos receptores (a crítica). seria necessário pensar nas condições do momento em que o filme foi produzido. 184). p. a quem venho recorrendo para a construção deste item. posto que pautadas na busca de sentidos e representações de “Terra em Transe”: Era uma interpretação brilhante e de grande beleza literária. que conseguiu captar seus sentidos. pois.. 95 jul. Gomes (1997. problematiza a realidade. E não poderia ser de outra forma. não contente com a abundância informacional com que brinda seus leitores. para escapar ao assédio da ditadura.Migrações de idéias. Ocorre que os equipamentos retóricos que não ficaram claros a muitos críticos. portanto. Cabe lembrar que a exibição em São Paulo organizada pelo T.U. Eldorado simplesmente era o Brasil injusto. Limito-me. 445).P. não escaparam aos olhos e ouvidos atentos da ditatura. (teatro universitário) recebeu aplausos ao longo da sessão. guarda em comum a característica de uma linguagem cinematográfica inovadora que.S. p. uma forma inclusive de fraturar o real com intenções artísticas” (BAZIN. Prosseguir rastreando a exuberante filmografia de Glauber Rocha seria extrapolar os limites disponibilizados para estas reflexões. para confundir a violência do poder. os poetas e os artistas aprenderam a dizer verdades duras sob o manto da forma requintada. ao se descolar da confortável reprodução mimética. mas que se ocultava nos jogos do pensamento. apesar dos ardis de linguagem. evidenciada no “discurso confuso”. sendo liberado no início de maio. desenvolve análise e crítica dignas de transcrição. sob a alegação de subversão e cunho ofensivo à igreja católica. dominado pelo latifúndio e pelos interesses das classes privilegiadas./dez..

já que. também estes ungidos pela arte“feiticeira salvadora”. vol. publicações ou filmes.A. Lá estava o Instituto Cubano de Artes Cinematográficas. e tripulantes do mesmo “barco”. para o nômade. não conseguem apagar sintonias na diversidade do cenário pós-colonial. desterritorializando-se e reterritorializando-se. Glauber Rocha reconhecia o cinema latinoamericano. o I.I. É neste afã de conhecer e de re-conhecer que Glauber Rocha reconhece a porosidade das fronteiras territoriais que. 184).C. Se. Goiânia. cineastas e intelectuais cubanos. algumas das respostas. onde o diverso e uno se imbricam. tanto conhecer como re-conhecer. Não por acaso. independentemente da precedência das ações. 2004. diferentemente sedentário. considero importante ressaltar que a sintonia observada entre as práticas e representações de Glauber Rocha e as dos cineastas cubanos. Neste reconhecimento. n° 15 . VIII. as “intenções artísticas” do pensador e cineasta. Cuba significou. sintonizados com a arte e com a “Ilha”. sem dúvida um importante ponto de inflexão na trajetória de Glauber Rocha. p. nas trilhas do cinema cubano e do cinema novo brasileiro (GOMES. não poderiam ser buscadas na perspectiva da mera “influência”.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo nômades. que floresceu nos anos sessenta e estruturou-se como movimento. Sequer seria o caso de estabelecer comparações entre iniciativas e posturas. 1997. uma correspondência intensa atesta as afinidades entre Glauber Rocha. Para os objetivos deste artigo e em consonância com os referenciais adotados. centro em torno do qual se mobilizavam artistas. o que este suporte enseja é a reflexão sobre as sintonias de uma experiência nômade e desterritorializada. são. intelectuais e cineastas. 96 Revista Brasileira do Caribe. recorte que desdobra das perguntas que faço ao tema. muito embora as articulações tenham sido muitas. este conjunto deve ser destacado. sempre se inscrevem no gesto criador. Ademais de sua estada. atos de criação e não de recognição (SHÖPKE.C. 256). pautadas no viés dos rigores cronológicos. ocupados com primazia das datas de veiculações de projetos. como exemplo empírico. p.

A opção por tematizar as repercussões de perfis nômades no cenário pós-colonial sugeriu a construção de um texto centrado em Glauber Rocha. 48-66) ao conceito de “diferença” em Platão. em grandes enunciações. matrizes de sentido que integram pensamentos. sobre a força do pensamento. se constituam como decalques. Parmênides. então. Saltando no tempo. tais sejam. Deleuze (1988. influências ou reativações?. conforme venho enfatizando. é provocar no pensamento forças que não são as das recognição”. esta complexa grade de idéias. ora questionada. 2007 . presentes. isto é a diferença. Aristóteles. matiza o pensamento deleuziano. o mesmo ocorre com os praticamente intermináveis diálogos nos quais Nietzsche comparece cumprindo a função do “discurso de outrem”. ora desdobrada em complexas ramificações. p. portanto. Ora o arquivo constituído pelas obras e ações dos “pensadores-artistas” aqui referidos. sem que por isto. 205) reflete: “O que se estabelece no novo não precisamente o novo. destaca-se. Inspiradora. Trata-se. Seria um esforço improfícuo. Deleuze por exemplo. elementos que remontam ao mundo grego. articulá-lo às pontes estabelecidas com os cubanos. expressão adotada por Deleuze ao lado das noções de “maquinação” e “reativação” que não incluem a idéia de 97 jul.. a partir daí. para ficarmos apenas com alguns dos interlocutores. pela inovação. Antes cabe falar em reativação de representações e ações. em modos de ver de sujeitos.. porém ele lhe infunde o seu tom. agrega ou entrelaça às suas reflexões. posto que falo em sintonias. uma postura que se aparta da mera recognição. Glauber Rocha e os cineastas cubanos. vale insistir tomar para tanto o rumo das “influências”. cujo nomadismo terá por certo lhe ensejado a reativação do conceito de diferença. Heráclito. pela provocação./dez. ora reelaborada. p.Migrações de idéias. enleada pela noção de diferença e que faz do reconhecimento. justamente. inspirando-se em Nietzsche. de uma “constelação de agenciamentos”. Em dado momento. pois o próprio do novo. Refiro-me aqui. intencionalmente invocado. para. assim como o faz Shöpke (2004.

Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo

“influência”, para o filósofo, um termo fraco e inapropriado para designar a circulação de idéias que anima os pensadores nômades (SHÖPKE, 2004, p.201). No caso da comunidade cubana e, na impossibilidade de todos mencionar e, mais que isto, comentar as respectivas ações, limitome a destacar algumas evidências empíricas, articulando-as a alguns nomes e propostas. Por exemplo, o “Tercer Cine” de Fernando Solanas assim como Júlio Garcia Espinosa, com seu “Cine Imperfecto”, desenvolveram ações que estão, para a renovação do cinema latino-americano, em sublinhada sintonia com a performance de Glauber Rocha, com o seu cinema novo. Seleciono em Espinosa (1996, p. 125) importantes reflexões sobre as motivações primeiras do “Nuevo Cine Latinoamericano” e as reativações promovidas pelo neo-realismo italiano, no caso, “ponte abstrata” das suas incursões preliminares:
Un primer puente fue el neorealismo italiano. El Nuevo Cine Latinoamericano daba sus primeros pasos cargados de una indiscutible autenticidad. No fueron actitudes miméticas las que nos motivaron. El neorealismo no era un estilo a copiar, era una actitud ante el cine que había de cambiar y ante la vida que había que transformar. Nada podía atizar mejor nuestras esperanzas y nuestras ilusiones. La relación resultó tan fecunda y consecuente que sus huellas vivirán siempre en cualquier obra del cine latinoamericano. No obstante, ya avanzados los años sesenta, la realidad de nuestros países poco tenía que ver con la de la postguerra italiana. En nuestras vidas el espíritu cambio crecía, se aceleraba y se materializaba en acciones de lucha concreta. ‘La identidad se buscaba rompiendo con la máscara de identidad que se nos ofrecía. Y nosotros, cineastas nos identificábamos buscando una identidad que sabíamos única y, a la vez, múltiple y diversa’. (grifos meus). 6

Encontro justificativa para tão longa transcrição por entender que, refraseada ou recortada em pequenos fragmentos, a seqüência

98 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

Migrações de idéias, influências ou reativações?...

assim obtida privaria o leitor de acompanhar o informacional e as argumentações do cineasta Espinosa, cuja clareza me libera de retomar os propósitos de um grupo, e as reativações face ao neorealismo italiano observo ademais, que a metáfora da “ponte” parece resultar de uma acordo tácito entre estes nômades. A Alfredo Guevara coube o estabelecimento da “ponte” inicial entre a arte cinematográfica brasileira e a cubana. Em cartaresposta a Glauber Rocha escrita em 4 de fevereiro de 1961, o cineasta cubano agradece pelo envio de fotografias do filme “Barravento” e também pelos interessantes artigos recebidos. Por sua parte, comunica o envio de fotografias e revistas, informando a disposição da Revista del Cine Cubano e da cinemateca de Cuba de enviar todas as publicações e notícias sobre o cinema cubano. No aguardo da exibição de “Barravento” em Cuba, Alfredo Guevara argumenta, na mesma carta: “Sabemos hasta qué punto tienen contacto nuestras realidades y culturas, cuán cercano, mucho más de lo que uno y otro saben – están nuestros pueblos, y como en la psicología, las costumbres, los problemas, los sueños, la música y el arte se encuentra una común raíz” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES, 1997, p. 36)7. Estas sintonias, estas “raízes comuns”, desde sempre percebidas por Glauber Rocha, se explicitam por ocasião do exílio, ao ensejo da experiência cotidiana. Nas representações de Glauber Rocha, África e Cuba significavam “duas Bahias”. É preciso reter, entretanto, que esta identificação que se patenteia na socialidade do dia-a-dia, ao longo do processo, passou por impasses. Em Cuba, Glauber Rocha viveu entre os anos de 1971 e 1972 e, na feliz expressão de Bentes (1997, p. 49), a Ilha foi para ele “uma espécie de laboratório político”. Neste aspecto, seu entusiasmo inicial experimentou frustrações e desencantamento. O ideal era o mesmo, assim como eram as mesmas, as sintonias promovidas pelas sempre lembradas “raízes”, os amigos eram muitos, mas, a cotidianidade da ambiência política, acabou por assustá-lo. “Admitia que permanecendo em

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Cuba oficializava seu rompimento com o Brasil e, isto é o que ele menos desejava. (GOMES, 1997, p. 163). Por outro lado, houve ruídos ao final de sua estada, provocados pelos questionamentos quanto à retirada dos créditos cubanos ao filme “História do Brasil”. Tais ruídos, porém, não foram maiores que o apreço cultivado entre os “hermanos” cubanos. Por ocasião da morte de Glauber, o amigo primeiro, Alfredo Guevara, homenageou-o com uma edição da revista Cine Cubano, com foto de capa e inclusão de algumas cartas (GOMES, 1997, p. 263 e 264). Nelas, como venho destacando, evidenciam-se os atributos nômades destes “pensadores-artistas”. Sintonias quanto às práticas e representações como as que venho, aqui e acolá, garimpando neste item, pela impossibilidade de detalhá-las neste espaço, foram também percebidas por Villaça (2004) em estudo igualmente centrado em Glauber Rocha8. A autora observa a repercussão da obra glauberiana em Cuba, na segunda metade da década de 60. De fato, “Terra em Transe” (1967) e “Memórias del subdesarrollo” (1968), do cineasta cubano Tomás Gutierréz Alea, guardam em comum vários elementos. Por exemplo, a construção das tramas em torno de personagens interpelados por crises existenciais e identitárias, os monólogos, as trilhas sonoras inovadoras e uma linguagem aberta que dista dos convencionalismos lineares. “Pensador-artista”, assim como foi Glauber Rocha, Alea discorre sobre seu fazer, em um conjunto de entrevistas publicadas no ano de 1989. Chamou minha atenção à imagem por ele adotada para refletir sobre a responsabilidade do cineasta que, ao mesmo tempo, deve preocupar-se com o plano ideológico e o estético.
Jamás he pensado que estoy libre de esa responsabilidad, vivo en una sociedad con la que quiero tener una relación productiva. Al mismo tiempo no puedo olvidar que lo que estoy haciendo es un producto muy particular. ‘No soy un ingeniero, un constructor de puentes, un economista. Soy un cineasta. Lo que hago es fundamentalmente un producto

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estético que cumple una función social’ (ALEA Apud OROZ 1989 p. 19)9 (grifos meus).

A julgar, pelo que veio, insistindo desde o ínicio, Glauber Rocha, sintonizado lhe devolveria a reflexão completando-a, pois o ‘pensador-artista’ é “engenheiro de uma ponte abstrata”. Ao construí-la, estes nômades guiadas pelas mãos da ‘feiticeira- salvadora’, se re-conhecem na mesma missão para a qual dedicam suas vidas. Bem por isso, o já lembrado Espinosa, mais uma vez participa do diálogo lembrando que: “... el arte, como la vida, está siempre en una búsqueda permanente de su identidad. De ahí su importancia y su grandeza. El arte, en este caso el cine, que dé por concluida la búsqueda de su identidad, es un cine” (ESPINOSA: 1996, 123) 10 . Esta busca de identidade e este compromisso com a vida, com a arte e com a estética, não poderiam ser procurados em linguagens cinematográficas alhures, pois, ainda que tecnicamente perfeitas, a estas faltaria a sintonia com a arte compromissada. Assim, no mesmo barco desterritorializado, os ‘pensadoresnômades’ reuniram os seus esforços em torno do melhor do seu fazer, já que: “não é um filme, mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim ao público, a consciência da sua própria existência”, conforme lembra Glauber Rocha nas palavras finais da sua Estética da Fome (GLAUBER ROCHA Apud GOMES, 1997, p.599). Prosseguir garimpando sintonias, entre os cineastas das ‘terras do sol’, seria lembrar muitos outros nomes de tripulantes do mesmo barco, já para não falar da curiosidade com que me peguei, ao saber que não apenas homens, o integravam. Nele estava, por exemplo, a documentarista Sara Gomes, cuja trajetória chamou a atenção do jovem cineasta Eryck Rocha (F.S.P. 15/07/04). Em Eryk encontro também, subsídios que corroboram o argumento norteador deste ensaio. Entrevistado pelo suplemento Domingo, do jornal peruano La Republica, em 4 de agosto de 2002, ele avalia: “Meu pai foi um nômade pós-moderno em plena

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década de 60. Imaginas? Adiantou-se à sua época, tinha um pensamento vanguardista e lutou por uma ideologia, autenticamente latino–americana. Muitas das coisas que defendia à época são vigentes agora. Creio que sua obra é um baú muito grande, que dia-a-dia, deveria ser redescoberta, reinterpretada”11. Neste nomadismo, a passagem de Glauber Rocha pela ‘ Ilha’ constitui, ao mesmo tempo, um porto seguro e uma ‘revolução dentro da revolução’, pois, “no auge das suas inquietações estéticas e políticas, o cineasta baiano filmou, agitou e polemizou como nunca em Cuba” (F.S.P. 15/07/04). Afinal, é atributo dos desterritorializados, este ‘sentir-se em casa’. De Havana, Glauber escreve para o cineasta Cacá Diegues: “estou em Recife muito feliz, estou na Bahia muito feliz, e todo caminho dá no mar [...] Soy feliz y tengo saudades” (GLAUBER
ROCHA Apud GOMES , 1997, p.432).

Bem sem vê, pelo fragmento discursivo acima, o que significou o cotidiano em Cuba, nas representações de Glauber Rocha. Especular sobre as condições de significação de tal sintonia, convida ao diálogo com pensadores cuja concepção do identitário se assenta no lugar de confluência do múltiplo aberto ao diverso e ao movente, onde o ‘reinado do ser é substituído pelo sendo’ (GLISSANT Apud BERND, 2004, p . 104 ). Algumas reflexões que desdobram deste modo de ver, aparecem a seguir, no próximo e último item.

Concluindo: Brasil e Cuba, em sintonia rizomática
Conforme lembra a acima citada Bernd (2004, p.101), os enfoques de Glissant e Chamoiseau quanto às questões identitárias, dialogam com as idéias de Deleuze e Guattari, pensadores que, como se viu, foram lembrados ao longo do presente texto. Glissant e Chamoiseau 12 se opõem aos integrismos e fundamentalismos dos discursos convencionais, quando a questão

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se entrecruzam e os territórios se desterritorializam. Desta percepção partilha o historiador e poeta: Suprimir diferenças entre o passado. Guattari explica a adoção dos termos ‘rizoma’ e ‘rizomático’. Ora. p.. Os sistemas em rizoma ou ‘ em treliça’. que. para ambos. bem como o fazem os ‘pensadores-nômades’. sem que se possa. secundarizando as construções das fronteiras espaciais e sua importância. influências ou reativações?. e dos cineastas cubanos sintonizados quanto às representações que construíram sobre o papel da arte cinematográfica para os povos do Terceiro Mundo. João Lopes reflete: “se há cineasta a que convenha a designação de nômade. 322 ). construir e destruir mitologias é viagem incessante. 1996. é possível se encontrar as raízes mais secretas do mistério dos homens e das sociedades que constroem e destroem: as suas mitologias. Dir-se-ia. é noção que remete à idéia de raízes múltiplas e abrangentes. transe histórico. 2007 ..Migrações de idéias. 246). onde ele define os sistemas de caules subterrâneos de plantas flexíveis que dão brotos e raízes adventícias em sua parte inferior (GUATTARI. sugeridos por ele e por Deleuze: Os diagramas arborescentes procedem por hierarquias sucessivas. Glauber é este cineasta [. ao contrário. se reterritorializam. estabelecer conexões transversais. Nestas ‘conexões transversais’ encontro os suportes do nomadismo de Glauber Rocha. a partir de um ponto central em relação ao qual remonta cada elemento local.. centrá-los ou cercálos./dez. Elas ressoam rizomaticamente dos ‘caules subterrâneos de plantas flexíveis’ cujas raízes multi-seculares se plantaram no solo fecundo dos territórios pós. mas sugerindo entrelaçamentos. p.coloniais. podem derivar infinitamente. é a identidade. ROLNIK..” (LOPES Apud GLAUBER ROCHA. O termo ‘rizoma’ foi tomado por empréstimo à Botânica. Em outro contexto e com outra conotação. presente e futuro 103 jul. 1983.]. que só na viagem e através dela. no qual as temporalidades.

Caetano Veloso. o fragmento acima sugere conexões e pontes com a trajetória de Glauber Rocha. Goiânia. pp 432 – 433 ) “ele gostava não apenas de música clássica – Villa-Lobos. 2003. tendo sido um pesquisador das fontes nordestinas da música interiorana. No espaço discursivo da poesia e na riqueza das imagens. Chico Buarque. Gilberto Gil. Elis Regina e Maria Betânia. lembrando que no filme. n° 15 . Paulo Perdigão dedicou todo um item de seu ensaio ‘Ficha Filmográgica’. VIII. ao repertório. Notas Refiro-me. dentre outros. suas viagens. Carlos Lyra. Vinícius de Morais. João do Vale. Geraldo Vandré. este breve ensaio se junta como gota atraída pelas sintonias de alguém que pertence a uma geração que desde logo aprendeu a admirar Glauber Rocha. 1 2 Os autores das músicas são respectivamente. Nestas águas. Nara Leão. ‘rios de tinta’.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo È uma forma de viajar: Saio de meu próprio nicho e participo da vida de outros. tanto em justaposição de som e imagem. vol. por certo. seu nomadismo. Chico Buarque. incluído no livro ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ de 1965 à importância da música para Glauber. Edu Lobo. Em seu afã de registrar a mensagem dos cantadores ou dos violeiros cegos. quanto na subseqüência da ação dramática e seu eco musical” 3 104 Revista Brasileira do Caribe. são portadoras de uma infra-estrutura despertada pela música. A qualidade das trilhas sonoras dos filmes de Glauber Rocha foi reconhecida por setores do Brasil e do exterior segundo Gomes (op cit. O valor de um homem é a sua palavra (LEONARDI. todas as seqüências enfáticas. por exemplo. Edu Lobo e Geraldo Vandré. Polêmica. nem sempre entendida. na polissemia de que se reveste tal expressão e sua palavra. p 12 ). a ‘palavra’ de Glauber Rocha e as representações que a ela subjazem motivou e motivará. mas sempre sintonizada com os que com ele partilharam e partilham ainda o mesmo barco. naturalmente à frente – mas também da popular e da folclórica.

2007 . abrir-se. toda uma série de comportamentos. quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente “em casa”. A relação resultou tão fecunda e conseqüente que suas marcas viveram sempre em qualquer obra do cinema latino americano. nos tempos e nos espaços sociais. a noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo. mútipla e diversa” (tradução livre). se acelerava e se materializava em ações de luta concreta./dez. dialoga com o presente ensaio. (tradução livre). a realidade de nossos países pouco tinha a ver com a da pósguerra italiana. Em nossas vidas. O neo-realismo não era um estilo a copiar. e como na psicologia. [. cineastas. estão nossos povos. O território pode se desterritorializar. quão perto. E nós. a música e na arte. pragmaticamente. cognitivos. Uma primeira ponte foi o neo-realismo italiano. de autoria da historiadora Mariana Martins Villaça. Buscava-se a identidade rompendo com a máscara de identidade que nos era oferecida..] A reterritorialização consistirá numa tentativa de recomposição de um território engajado num processo desterritorializante (Guattari. 4 O repertório dos filmes será enfocado mais adiante.] o território poder ser relativo tanto a um espaço vivido. Não fora atitudes miméticas que nos motivaram. Segundo Guattari.. era uma atitude perante o cinema que havia de mudar e perante a vida. isto é. nos identificávamos buscando uma identidade que sabíamos única e ao mesmo tempo. Rolunik op cit p. 5 Territorialidade/desterritorialização/reterritorialização são noções caras ao referencial proposto por Guattari e Deleuze em seus estudos voltados para a problemática das identidades. muito mais que alguns sabem. Não obstante já avançados nos anos sessenta.. os sonhos. culturais estéticos. de investimentos. 6 7 Sabemos até que ponto têm contacto nossas realidades e culturas.Migrações de idéias.. O novo cinema latino americano dava seus primeiros passos carregados de uma indiscutível autenticidade. que havia de se transformar. influências ou reativações?. 323). o espírito de mudança crescia. do ponto de 8 105 jul... os problemas. que ultrapassa o uso que dela fazem a etologia e a etnologia [. se encontra uma raiz comum.. O excelente artigo “América Nuestra e o cinema cubano”. engajar-se em linha de fuga [..] Ele é um conjunto dos projetos e de representações nos quais vai desembocar. Nada podia atiçar melhor nossas esperanças e nossas ilusões. os costumes.

Ruy. Galimard. Te imaginas se adelantó a su época.monde.) Margens da Cultura: mestiçagem. 1997 e ao de Glissant. 12 Bibliografia BENTES. SP: Boitempo. Goiânia. Abdala Jr (org. Ecléa. um economista. Paris. um construtor de pontes. A história e as histórias da bossa nova. Ao mesmo tempo não posso esquecer que o que estou fazendo é um produto muito particular. 2004. In. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. como a vida. SP: Companhia da Letras. Benjamim. pelo jornal peruano La Republica (suplemento Domingo. Paris. SP: Companhia das Letras.” Neste aspecto. Sou um cineasta. 7 Letras. Não sou um engenheiro. 1997 . vol. BERND.P. neste caso. Cinema brasileiro (anos 60-70): Dissimetria. 4/08/2002): “Mi padre fue un nómada posmoderno en plena década del 60. Muchas de las cosas que defendía en ese entonces ahora siguen vigentes. 11 Tradução livre do texto publicado. Luis Cláudio da. 1997. Édouard. o cinema. 9 10 “A arte. As abordagens. “Jamais pensei que estou livre dessa responsabilidade. O que faço é fundamentalmente um produto estético que cumpre uma função social.) Cartas ao Mundo/Glauber Rocha. Ivana (Org. (tradução livre). têm modos distintos quanto à construção do objeto e os referenciais teóricos adotados. 106 Revista Brasileira do Caribe. 2000. 2003. tenía un pensamiento vanguardista y luchó por una ideologia auténticamente latinoamericana. A arte.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo vista temático. R. vivo em uma sociedade com a qual quero manter uma relação produtiva. Bernd menciona pontualmente os estudos de Chamoiseau. Daí sua importância e sua grandeza. Creo que su obra es un baúl muy grande que día a día debería ser redescubierta. que dá por concluída a busca da identidade. Traité du tout. está sempre numa busca permanente da sua identidade.: Ateliê Editorial. Chega de saudades. CASTRO. Hibridismo & outras misturas. Écrire en pays dominé. Galimard.J: Ed. Oscilação e Simulacro. entretanto. reinterpretada. é um cinema morto” (tradução livre). VIII. S. n° 15 . 1990 COSTA. Zila: “O Elogio da Crioulidade: o conceito de Hibridação a partir dos autores francófonos do Caribe”. BOSI. Patrick.

Menezes de. Júlio Garcia. DELEUZE.scielo.: Ed 34. Félix e ROLNIK. GOMES. 22. o pensador nômade.. La doble moral Del cine.: Nova Fronteira.P: Boitempo.. Lynn Mário T. S.J. GUATARI. Petrópolis: Vozes.In: Revista Brasileira de História. ROCHA. NAPOLITANO. In: Benjamim. Conversações: 1972-1990. “Hibridismo e tradução cultural em BHABHA”. MESQUISTA. influências ou reativações?./dez. Território e Lugar: estas palavras ciganas. Suely: Micropolítica: Cartografias do Desejo. vol. J.2002. ESPINOSA.J.. 2007 .pe. In Revista do patrimônio histórico. Abdala Jr (org. Mariana Martins. S. Revista Domingo del diário de La República.com. R. RJ: Contraponto S. Zila. R. 4ª Ed.”. SP: Contexto. http://www3. 2003 MALDONATO. http/ :www. Rio de Janeiro: Instituto Diversidade Brasil. 1996. Hibridismo & outras misturas.R.. no.. NAVAS. 107 jul. 5. SCHÖPKE. IPHAN. 2004.: Ed 34. Adolfo Montejo: “Cinco notas sobre o teatro engajado no Brasil”.P/EDUSP. SOUZA. S.. LEONARDI. 1998. 2004.J. Madrid: Ollero & Ramos Editores. 2003. 2004. Subjetividade e Poder. 1983. O século do cinema. 2004. 5. “El legado Glauber Rocha”. 44. Carlos Teixeira: Glauber Rocha. Alhanbra/Embrafilme. no. 2ª Ed. Esse vulcão. Gilles. Victor Paes de Barros: A Arte de Viajar à Deriva e Ressurgir com Paixão. 1989. Regina: por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze.P.) Margens da Cultura: mestiçagem. “Espaço. Vol.Migrações de idéias. Mauro. “América Nuestra – Glauber Rocha e o cinema cubano”. nº 29. Glauber.P. Porto Alegre.In Revista Educação. La Habana: Ediciones Unión. Bsb. 2001. 4 de agosto del 2002. 1997.br/scielo. OROZ. Marcos: Cultura Brasileira: Utopia e Massificação (19501980). Silvia: Tomás Gutiérres Alea: Los filmes que no filme. VILLAÇA.larepublica. Raízes e Errantes.

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Goiânia. vol. Migrações Caribenhas. Palavras-Chave: Literatura. the representative figure of identities in transit of contemporaneity. Identity Resumo Apoiando-se na análise dos livros Passages (1994) e Repérages (2001). Caribbean Migrations. n° 15. nome representativo das identidades em trânsito da contemporaneidade. It is important to take into consideration the plurality of imaginaries of belonging and the paratopic situation of the author which award their writing a particular and significative character in the context of the migrant´s literature of Quebec.Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto Abstract This article focuses on the analysis of the books Passages (1994) and Reperages (2001) by the Haitian writer Émile Ollivier. até recentemente. Trata-se de levar em conta a pluralidade de imaginários do pertencimento (SIMON. 2001) que conferem à sua escrita um caráter particular e significativo no âmbito da chamada literatura migrante do Quebec. where until recently identity was seen by the elites as homogeneus. a identidade era vista pelas elites como homogeneidade (BOUCHARD. 109-135 . It offers a reflection on the inscription of on the inbetween productive place in the selected location. do escritor haitiano Émile Ollivier. VIII. Keywords: Literature. Identidade *Artigo recedido em Janeiro e aprovado para publicação em Março de 2007 109 Revista Brasileira do Caribe. onde. pretende-se refletir sobre a inscrição de um “entre-dois” produtivo no corpus escolhido. 2004) e a situação paratópica do autor (MAINGUENEAU. 2000).

construíram-se coletividades novas (BOUCHARD. reflexionando sobre la inscripción de un entre lugar productivo en el locus seleccionado. o escritor e teórico Amin Maalouf salienta a interferência de múltiplos pertencimentos em sua história de vida. vol. deslocamento e devir inacabado. como algo que se expressa como deslize. 2000) a partir de situações 110 Revista Brasileira do Caribe. Em contextos marcados pela diáspora. que constitui uma ilustração das elaborações das identidades em trânsito de nossa época. Migraciones caribeñas. as identidades são múltiplas. n° 15 . revisitada por teóricos como Stuart Hall (2003). ao longo de histórias plurais de deslocamentos e desterritorializações. sobretudo como questão conceitual e epistemológica e não como experiência empírica. Goiânia. Palabras Claves: Literatura. permitenos repensar os processos de construções identitárias de nosso tempo e as idéias atribuídas até recentemente à nação. à luz da “différance” derridiana. que sugere mais os movimentos do “tornar-se” do que as certezas do “ser”. Identidad Encarada. nombre representativo de las identidades en tránsito de la contemporaneidad. Se trata de llevar en cuenta la pluralidad de imaginarios de pertenencia y la situación paratópica del autor que otorgan a su escrita un carácter particular y significativo en el ámbito de la llamada literatura migrante de Quebec. considera-se a identidade não como um dado fixo e estável.Maria Bernadette Velloso Porto Resumen El artículo se apoya en el análisis de los libros Passages (1994) y Reperages (2001). Definindo-se no livro Les identités meurtrières (1998) como alguém situado em um entre-lugar que o leva a se ver como libanês e francês. Em se tratando das Américas. o local de origem não podendo ser associado a uma única fonte de identificação. Graças ao reconhecimento da perspectiva diaspórica da cultura. mas. que passou a ser vista na qualidade de comunidade imaginária. donde hasta recientemente la identidad era vista por las élites como homogénea. a noção de diáspora. del escritor haitiano Émile Ollivier. VIII.

o Caribe é fruto da crioulização. que é pela mistura que a novidade entra no mundo (RUSHDIE. um asiático. há mais ou menos tempo e sofreram a metamorfose que esta terra e sua história impunham. imprevisível e produtivo do contato entre culturas. Ásia e África). “movimento perpétuo de interpenetrabilidade cultural e lingüístico” (GLISSANT. e mesmo o primeiro habitante desta terra.75). 2003. no campo literário. Pois todos aqueles que moram hoje na América vieram de outro lugar. Resultante das relações enriquecedoras entre elementos culturais variados. encarada 111 jul. em especial. processo inacabado. do chamado Terceiro Mundo francófono (Antilhas. p. Segundo ele. Inserindo o Caribe no cenário da diáspora pós-colonial. o espaço caribenho é marcado por uma estética diaspórica. o crítico da cultura Stuart Hall (Jamaica) também reconhece o que é dito na citação anterior. 1993./dez. depreende-se. segundo as modalidades particulares de sua entrada neste Novo Mundo e segundo as peripécias de sua existência aqui (LAROCHE. deu-se a revisão da identidade quebequense.394). no Quebec. Nascido dentro da violência colonial e por meio dela. verdadeiro habitante de um Novo Mundo. p.30). exemplo maior da ruptura de modelos fechados e homogêneos de pertencimento cultural. 1993. Como pensa Maximilien Laroche. 2007 .Uma voz da diáspora haitiana.. neste homem novo. todos os que estão no espaço caribenho “pertenciam originalmente a um outro lugar” e sua relação com essa história “está marcada pelas rupturas mais aterradoras. a inegável contribuição caribenha na configuração das novas cartografias identitárias decorrentes das migrações pós-coloniais nas Américas. p. violentas e abruptas” (HALL. Nos últimos anos.92). Considerando-se. diaspóricas. híbrido. p. percebe-se o caráter inovador do Caribe. Como se sabe.. Salman. professor e crítico haitiano naturalizado canadense: Ser americano é ter conhecido a metamorfose que transforma um europeu. com Salman Rushdie. e em particular. com o aporte de vozes de imigrantes oriundos de diversos países não-europeus e. o que explica seu caráter impuro.1995.

vêem ameaçados seus valores identitários tradicionais – 112 Revista Brasileira do Caribe. o reconhecimento das vozes migrantes. uma certa abertura ou fragilidade no plano do domínio lingüístico ou do tecido de referências. Estes efeitos estéticos são o resultado da situação de fronteira vivida pelo escritor que. em certos casos. no panorama identitário do Quebec.13-14) Cabe lembrar que. ou seja. um despojamento desterritorializante. levando em conta um estado de dissonâncias e de interferências de várias formas. vol. Goiânia. VIII. Graças à inclusão do olhar de estrangeiros. mas que deixa traços do primeiro texto no novo. aculturado. segundo a expressão de Édouard Glissant. uma sintaxe não habitual. O texto híbrido é portanto um texto que manifesta “efeitos de tradução”. o imprevisível (SIMON. uma relação de transferência ou de passagem que não acaba em um produto naturalizado. 2004. pois seus textos misturam imagens e signos do Haiti e do Quebec. o que lhes permitia fugir dos horrores da ditadura de Duvalier. n° 15 . muitas vezes problemático para os “Québécois de souche” que. consciente da multiplicidade. opta por criar um texto crioulizado.Maria Bernadette Velloso Porto como homogênea pelas elites do século XIX e parte do século XX. Pode-se dizer que. um texto em que a confrontação dos elementos díspares produz o novo. Da fricção criativa de dois pertencimentos nasceram obras marcadas pelo híbrido. estes efeitos de dissonância são o resultado de um processo de tradução inacabada. interferências lingüísticas ou culturais. por um vocabulário díspar. p. ressalta-se a presença de autores haitianos que emigraram para o Quebec em decorrência da abertura do Canadá à política de imigração. tal identidade passou a ser considerada sob o prisma da multiplicidade de centros de referência. Nesse cenário de profundas transformações e questionamentos identitários. Cabe lembrar aqui a definição do texto híbrido proposta por Sherry Simon: O que se pode entender por um texto híbrido? Trata-se de um texto que interroga os imaginários do pertencimento. 1991). diante da presença de alofonias diversas. Tais escritores e poetas apresentam em suas obras o que Maximilien Laroche chama de o “duplo palco da representação” (LAROCHE.

o escritor iraquiano Naïm Kattan. os quais viam seu país como incerto. 2001. os romances haitianos de 1970 a 1980 foram escritos e/ou publicados na América do Norte. uma cultura que carrega as origens se enriquece com a contribuição múltipla e aceita modificar-se sem se trair. o imaginário migrante dialoga com a representação simbólica do exílio que afetou anteriormente muitos autores do Quebec. ao trazer para a cena coletiva a pluralidade de pontos de referência e de memórias culturais. les maux du pouvoir.43). que todo desenraizamento é ou pode ser fator de grande criatividade e que toda migração é útil ao país de origem e ao país de adoção. ilustra. um dos privilégios do autor migrante é o olhar novo que ele lança sobre o país em que se instala: O imigrante. mas que está aí para ficar. em sua maioria. torna-se um fator de revisão do implícito.. Buscando mostrar que o exílio pode ser fecundo. não ocorreu por acaso. Tratar da diáspora haitiana no Quebec nos remete ao livro de Jean Jonassaint intitulado Le pouvoir des mots. as ambigüidades 113 jul. inscrevendo no seio da cultura quebequense as marcas de sua diferença e os apelos do exílio. 2007 . Segundo Jonassaint.Uma voz da diáspora haitiana. Encarnação expressiva da situação paratópica (MAINGUENEAU. já que. ausente ou inacabado. Como pensa outro representante diaspórico da chamada literatura migrante do Quebec. 2001) de todo escritor que.. p. de modo exemplar. desabrochar ao se reinventar (KATTAN. autores migrantes colaboram de perto na reinvenção identitária do país que lhes deu abrigo. esse outro que não é um observador de passagem. em especial. Um dos representantes da presença do Haiti no Quebec contemplados na obra citada é Émile Ollivier. material importante para os estudos do romance haitiano contemporâneo./dez. ele reúne trechos e depoimentos valiosos de seres diaspóricos. já presente na memória coletiva dos quebequenses. Em outras palavras. na condição de migrante. Nessa revisão contínua das identidades.

Consciente de que se encontra diante de uma sensibilidade inusitada e de que vive. abrigo na França onde. Ao exercer sua atividade profissional no campo das letras. Ollivier acabou por aí criar um espaço de vida e de criação. se instalou no Quebec onde se tornou professor de sociologia na Universidade de Montreal. durante um ano. em 1965.27). que teria permanecido o mesmo jovem que rompera. tira partido da deslocalização que caracteriza toda produção literária “sem ‘deslocalização’. a princípio. vol. 2001. Como muitos imigrantes (autores e personagens romanescos). p. Ollivier decidiu se afastar do Haiti para escapar da violência da ditadura de François Duvalier. Após ter vivido seus primeiros vinte e cinco anos em PortoPríncipe. Como tantos outros haitianos que pensaram.Maria Bernadette Velloso Porto e contradições de quem não coincide necessariamente com um lugar no mundo. 37). VIII. como tantos outros indivíduos. com a exigüidade de sua ilha para partir em busca da conquista de vastos territórios. Em 1968. Émile Ollivier privilegia em textos teóricos e ficcionais reflexões sobre o trajeto identitário de seres deslocados de nosso tempo. morrendo no estrangeiro. p. E é na impossibilidade de se estabilizar em um lugar preciso que sua obra se constrói.28). estar de passagem no Canadá. esperava retornar à sua terra natal logo que essa situação política tivesse mudado. Goiânia. Buscou. Como todo escritor. Optando por um desvio provisório. não existe verdadeira literatura” (MAINGUENEAU. uma experiência inédita que 114 Revista Brasileira do Caribe. na sua obra teórica Repérages (2001). exerceu várias ocupações e obteve um certificado de estudos literários na Sorbonne. Ao declarar. no passado. 2001. “alimenta sua obra com o caráter radicalmente problemático de sua própria pertinência ao campo literário e à sociedade” (MAINGUENEAU. 2001. negociando incessantemente entre o lugar e o não-lugar. ele não chegou a empreender o retorno ao país natal. n° 15 . Ollivier salienta sua identidade móvel que o levou a adotar compromissos e a efetuar negociações a cada dia. um dia. A mesma pergunta que aflige seres migrantes em geral se coloca para o autor em questão: “Como é possível viver não sendo totalmente daqui nem mais totalmente de lá?”(OLLIVIER. p.

São elas que nos levam – da pobreza à riqueza ou a uma outra pobreza. 2005.69).38) . lá atrás. e quando nos enfiamos na terra.22). 2004. o autor do livro citado diz que é preciso desenvolver competências de “bricoleur” e aprender a viver nos interstícios.prefere as idéias de estrada.Uma voz da diáspora haitiana. p. já havia uma curva e mais uma. p. Como nós.. ao longo de trinta anos de vida no Quebec. ele parece dialogar com a visão de Amin Maalouf em seu livro Origines: As árvores devem se resignar. Vendo-se como um escritor das fronteiras (OLLIVIER. 2001.. da servidão à liberdade ou à morte violenta. antes da primeira curva. é para apodrecer.910). ao chegar ao Quebec. elas precisam de suas raízes. as estradas não emergem do solo ao acaso das sementes. Por isso mesmo. 20). a distância cria uma situação privilegiada (BAUMAN. p. já que uma estrada não tem nunca verdadeiro começo. que. nossos pés só servem para andar.. ao invés de valorizar a noção de raiz –associada às árvores . de caminho. 2001. Origem ilusória. empreendendo uma operação de descentramento (OLLIVIER. para se considerar como alguém deslocado que. os homens não. Sob esse prisma. p. pois a cada cruzamento se uniram outras estradas que vinham de outras origens (MAALOUF.. Exposto a outros modos de socialização como todos os migrantes. 2001.(. p. A seiva do solo natal não se eleva por nossos pés em direção à cabeça. Émile Ollivier passou da posição de exilado à de migrante. 2001. desejamos o céu. Respiramos a luz./dez. Para nós. Para evocarmos o sociólogo Zygmunt Bauman. faz de todos nós seres mutantes por excelência (OLLIVIER.) Ao contrário das árvores. assim como a intimidade. reconhece-se como um “ser feito da interferência de todos os lugares que atravessou” (OLLIVIER. após ter sonhado durante muito tempo com o retorno ao país natal. percebe que sua vida era pontuada por várias mortes 115 jul. elas têm uma origem. Desse modo. Ollivier se colocou à escuta da realidade cultural a sua volta. 2007 . podemos lembrar que. Origem inatingível. p.24). por sua vez. só importam as estradas. cita o escritor Juan Goytsolo.

o autor de Repérages afirma ter feito o luto de sua origem. falar uma outra língua equivale a assumir a posição do tradutor. a seu lado. para se tornar seu país de adoção (OLLIVIER. aos poucos. sabe que seus livros não são de fato consumidos pela comunidade haitiana. p. a língua francesa. o que remete à existência de “homens traduzidos” de nosso tempo. Situando-se numa encruzilhada entre dois idiomas – o crioulo e o francês – o autor leva em conta a questão de seu público. Com outros representantes de diferentes modos de ser e de ler o mundo. o Quebec mudou de estatuto a seus olhos. A maneira de continuar fiel à sua origem não seria falar continuamente dela na língua estrangeira que poderia lhe conferir maior visibilidade? E é no corpo a corpo com a diferença e com o francês. Ollivier participou das profundas modificações ocorridas no Quebec a partir da Revolução Tranqüila. vista como seu lugar de asilo (OLLIVIER. Ao ter perdido. pelo gesto de migrar.23). n° 15 . 2001. Embora trate de assuntos referentes à sua terra de origem. a presença de “estrangeiros do interior”: os quebequenses que acabavam de deixar o espaço rural para se instalarem no tecido urbano de uma cidade em expansão que recebia alteridades plurais.64). vol. Ao se fixar em Montreal. 116 Revista Brasileira do Caribe. 2001. tornado.Maria Bernadette Velloso Porto e renascimentos sucessivos (OLLIVIER. p. 2001. p. precisou conquistar um outro. dado o forte índice de analfabetismo de seu país. 28). Ciente de que a língua francesa se tornara cada vez mais indispensável em sua profissão. VIII. sua outra língua. seu espaço de enunciação. Para o autor de Repérages. Goiânia. conquistada a cada dia de sua própria reconstrução identitária no novo país. que trouxeram para o cenário das discussões identitárias o questionamento das certezas estabelecidas. a experiência lingüística constitui um domínio privilegiado para se refletir sobre a condição migrante por parte de seres cindidos sob o ponto de vista identitário. Aos olhos de Émile Ollivier. Por isso mesmo. como propôs Salman Rushdie (1993. deixando de ser simplesmente a terra que lhe ofereceu asilo. pois logo percebeu. que ele reforça seus vínculos com a realidade caribenha.37). p. o jovem haitiano compartilhou com outros a sensação de estranhamento.

minhas alegrias. presente nele como uma cripta. E penso de fato que é uma situação de esquizofrenia. assim. Estou desvinculado da realidade haitiana. Como no próprio Haiti ele já conhecera de perto a dualidade lingüística. 2001. E é no ir e vir entre duas culturas. p. de Pascale Casanova (1999.. Tenho o hábito de dizer que sou haitiano à noite e quebequense de dia. p.382). Além de sugerir travessia.Uma voz da diáspora haitiana.64) . vivenciada sob a forma de diglossia.. por uma dupla inscrição. transformação e um trabalho de recriação permanente. o próprio Ollivier se refere a esse dilaceramento de forma lúdica e criativa: Essa esquizofrenia vai ser encontrada provavelmente ao longo de toda a minha produção. nascida do roçar entre as diferenças. para evocarmos o capítulo “La tragédie des hommes traduits”. mas também da realidade quebequense. ritmos e imagens (OLLIVIER. Em entrevista a Jean Jonassaint. Apesar dessas duas realidades trabalharem meus desejos. Ollivier tenta evitar qualquer perspectiva reducionista que poderia tornar exótica sua escrita. aqui a realização do luto da origem supõe também a interferência constante. meus trabalhos e meus dias (JONASSAINT.. 1986. p. Ollivier vale-se de um duplo pertencimento. Marcada. optando pela procura de um equilíbrio na instabilidade: 117 jul.. dois universos e dois apelos lingüísticos que a obra desse autor se inscreve sob o signo da dualidade ou da digrafia. no ato da escrita. 2007 . isto é. um reservatório de sons. de uma memória impossível que aflora. a literatura migrante de Émile Ollivier coloca a questão lingüística como componente maior do capital literário. e a criação de uma terceira língua. mas como busca inacabada e rentável que supõe a fricção produtiva entre dois idiomas e memórias culturais../dez. exercitando a prática tradutória não como um exercício de simples transposição de uma língua a outra.. de alguém que está desvinculado da realidade.88) Como “esquizofrênico feliz”. na superfície do texto. apesar de tudo.

a refazer seu imaginário. destaque. isto é. mesmo em relações de dominação. pois. Goiânia. revestindo-se de um caráter eminentemente dinâmico. a gente se exprime. na maioria haitianos. Um romance em particular ilustra a complexidade do universo do autor: trata-se de Passages. os provérbios.89) No conjunto da obra de Émile Ollivier. em resumo. n° 15 . publicado em 1991. na própria escrita. e a encontrar. ao mesmo tempo. como 118 Revista Brasileira do Caribe. reinventada graças ao crioulo. ao invés de se deixar paralisar pela dor da ruptura e do dilaceramento. a desterritorialização da língua francesa. Trata-se de levar em conta esse fenômeno. 1986. 1997. liderados por Amédée Hosange. a negociar entre danos e perdas. o romance Passages apresenta vários personagens migrantes. trabalhar sobre as imagens. Considerado pela autora do ensaio La mémoire sans frontières como uma “deriva polifônica” (GAUTHIER. a experiência do exílio.Maria Bernadette Velloso Porto Tenho consciência de não trazer nenhuma resposta explícita à questão da diglossia. de preferência. vol. Minha principal preocupação é de expulsar toda folclorização. o escritor identifica na desterritorialização um espaço de liberdade que o leva a fazer escolhas. captar a substância da língua crioula e restituí-la diretamente em francês (JONASSAINT. em francês e em crioulo como ser haitiano. coabitaram. Como resolver esse problema no plano da criação? No que me diz respeito. p.62). as duas línguas foram vizinhas. não se trata de decidir entre o crioulo e o francês. fugir da relação de equivalência e. na formação social haitiana. e a caracterização do escritor migrante como um tradutor adquirem. as metáforas. p. evitar a tradução literal do crioulo em francês. Logo. cujos trajetos de vida se entrecruzam. cheiros e sabores de seu país. Numa narrativa de caráter polifônico. duas histórias principais estão vinculadas ao Haiti: de um lado. trata-se de andar sobre essas duas pernas. embarcando em um barco frágil que os levaria. a interiorizar cores. VIII. ressemantizados no contexto estrangeiro. um grupo de haitianos se organiza para fugir das misérias de sua terra natal. Historicamente. seu lugar por excelência no mundo.

Histórias do viver e do morrer se intercalam no tecido narrativo marcado pela poética dos encontros e (des)encontros ligados às movências identitárias. o jornalista Normand Malavy. a Miami. esse romance deixa provisoriamente o espaço geográfico haitiano para melhor encontrá-lo nas lembranças e no imaginário de indivíduos à procura de seu destino../dez. que há anos deixara o Haiti para viver em Montreal. Brigitte Kadmon Hosange. Cabe a outro personagem haitiano (Régis).. Outra referência importante à noção de passagem se destaca de versos de René Char: “Nous sommes des passants appliqués à passer. 2007 . o romance se abre com uma epígrafe significativa de Montaigne: “Je ne peins pas l’être. no plano da intriga e na própria construção do romance. Normand grava o depoimento de Brigitte em cassetes. Priorizando a idéia de passagem. mas não chega a divulgá-lo. a vida e a morte se conjugam na dinâmica do transitório. p.181). Como se atualizasse a mesma frase.7). sem realizar o desejo de retorno ao país natal. o livro em questão coloca em cena múltiplas passagens. Como afirma Lise Gauvin. acaba conhecendo.Uma voz da diáspora haitiana. à infliger notre chaleur. “história de migrações e de errâncias. 2000. clandestinos. enviado pela esposa do morto para buscar seu corpo. servir de intermediário entre as diversas vozes narrativas desse romance formado da reconstituição de diversas memórias. de outro. p. 1994. A narrativa referente à preparação da viagem dos boat people haitianos em direção a Miami se reveste de um sentido 119 jul. p. sua compatriota.” (GAUVIN. Voilà pourquoi nous intervenons ! Voilà pourquoi nous sommes intempestifs et insolites“ (OLLIVIER.1994. uma das poucas pessoas que sobreviveram ao naufrágio da embarcação e os sonhos dos que ousaram optar pelo exílio (ainda que visto como provisório). em Miami. viúva de Amédée. abaladas pela inclusão da diferença no âmbito de uma familiaridade construída a partir da ilusão e da pretensão da homogeneidade. donc à jeter le trouble. je peins le passage”(OLLIVIER. à dire notre exubérance. Vistas como trânsito. Destaca-se aí a figura perturbadora do estrangeiro aos olhos de quem se definia pelas certezas identitárias. pois morre de um ataque cardíaco.194).

feita por eles mesmos. passou a ser o espaço da improdutividade. de modo misterioso. Il tenait la terre de son grand-père. de la main même de l’Empereur. 120 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. 1994. 1994. como ocorre com a chegada de um ser inquietante que coincide. p. VIII. da desolação e da miséria absoluta: Port-à-L’Écu. disait-il.14). essas terras representam todo seu sopro vital (OLLIVIER. que os levaria a Miami. que corre o risco de se tornar “lata de lixo dos Brancos”: afastando-se da representação do lugar habitável que fora um dia. a morte repentina desse cadáver em vida (extremamente magro. p. O retorno desse habitante a Portà-L’Écu. conscientes de que. il n’y a guère de temps. de onde fora expulso um dia. Il y avait à Port-à-L’Écu dix carreaux de terre. un bien grand et riche domaine. a intervenção do sobrenatural se dá nas pequenas histórias do cotidiano marcadas pelo realismo mágico. p. des deuxmoitiés. c’était un village qui comptait tout près de trois mille chrétiens vivants. vol. les loup-garous y ont élu domicile et parfois volent en plein jour. lequel l’avait obtenue. mas também de desafio e de orgulho (OLLIVIER. com a crise da pequena cidade. ele parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos) acarreta um efetivo desequilíbrio ecológico que compromete a própria existência da coletividade.27). Em um mundo pleno de sinais. condenada ao abandono e ao silenciamento.25). Là vivait Amédée Hosange. é revestido de tragédia. pois.Maria Bernadette Velloso Porto mítico. Prisioneiros de um mutismo feito de medo. Nul besoin de chercher son nom sur une carte . Et pourtant. 1994. il ne figure sur aucune. Port-à-L’Écu n’existe nulle part. cinq maîtresses. belles cases. vaste grange. colocando em confronto dois tempos de um mesmo lugar. ce n’est plus le pays de la canne à sucre . augúrios e presságios. os habitantes da referida cidade escolhem uma forma particular de resistência: a fuga numa embarcação precária. n° 15 . Port-à-L’Écu n’existe plus. A abertura do romance aponta para a decadência que afeta a cidadezinha de Port-à-L’Écu. mesmo no estado em que se encontram. au lendemain des grandes tueries de l’indépendance (OLLIVIER.

dominando as artes do enraizamento e da errância: Amédée.65) equivale a um “détour” no sentido glissantiano.63). abre-se para a expansão dos limites identitários. “il avait foulé cette terre en nômade” (OLLIVIER.Uma voz da diáspora haitiana. connaissait la navigation en haute mer. 1997. 64). en reniflant. 1994. p. il associait les odeurs à la direction du vent. como o “passeur” que os levaria à salvação. en fixant le ciel. Amédée é escolhido por seus compatriotas como líder. Concebido como um recurso temporário./dez. p. novo Hermes responsável pela transmissão da nova boa nova: a possibilidade do recomeço em outro lugar e da reconstrução da identidade nas searas da diáspora. a prática do desvio constitui uma estratégia de sobrevivência eficaz para se enfrentar uma impossibilidade (GLISSANT. Il connaissait la position des étoiles fixes et des étoiles errantes.19) e dotado do sentido da orientação por ter uma bússola em suas narinas e por ser capaz de se valer do sol como seu compasso e seu cronômetro (OLLIVIER. Mestre da ciência dos ventos baseada no vivido. 1994. 1994. Il m’avait souvent parlé de ses voyages en haute mer. Em estreita sintonia com a natureza. Tendo em sua bagagem existencial a experiência do nomadismo (cf. dire combien le ciel avait marché au-dessus de la terre. 2007 .. Convencido de que lhe cabe a responsabilidade de assumir para si a resistência contra os riscos de desaparecimento de seu 121 jul. sabe ler os sinais inscritos na paisagem. Il n’avait pas besoin de montre pour déterminer quelle partie de la nuit ou du jour était passée (OLLIVIER. 1994. monsieur. o desvio é sinônimo de astúcia. il pouvait faire le décompte des milles marins parcourus.48).. Véritable pigeon voyageur. deslocando-se como um pombo correio. p. Segundo Édouard Glissant.Il m’avait souvent parlé de ses voyages au long cours. p. je vous l’ai déjà dit. p. La nuit. inteligência prática de seres oprimidos que a ela recorrem para contornar um problema de difícil solução. Tal viagem clandestina em direção a um “Eldorado de lenda” (OLLIVIER.

nous traversons le temps même si le sol semble se dérober sous nos pas. de se défaire. dilacerado entre o sentimento de impotência e o desejo de sobrevivência: Nous venons d’un pays qui n’en finit pas de se faire . vol. aponta para a consciência da fragilidade e dos riscos de invisibilidade e de desaparecimento de uma comunidade. Uma passagem em especial ilustra a consciência da fragilidade do ser exíguo. 2001). malgré ce présent en feu. no cerne dessa obra. Et pourtant. 1994. dégradable et pérenne. podemos dizer que. Notre histoire est celle d’une perpétuelle menace d’effacement. dans cette barque putride et imputrescible à la fois. está a consciência da exigüidade que. entre outras manifestações criativas). VIII. as danças. persévéré sur les flots du temps. Malgré vents et marées. nous franchissons la durée. não constituindo uma simples referência física que marcaria seres insulares. depuis la mort de l’Empereur. que remete não só à fuga de escravos. a capoeira. Na base da resistência coletiva à decadência de sua cidadezinha e de sua própria dignidade como povo. nous continuons à survivre en nous livrant à d’impossibles gymnastiques (OLLIVIER. nous avons franchi cinq siècles d’histoire.184-185). opiniâtres et inaltérables galériens. la grande transhumance. l’esclavage et. o candomblé. une interminable histoire de brigandage.Maria Bernadette Velloso Porto povo. Goiânia. Apoiando-nos em pistas oferecidas por Simon Harel e Jacques Mathieu-Alexandre (2003) em sua análise do romance Passages. Notre substance est tissée de défaites et de décompositions. ce temps de tourments. os habitantes de Port-à-L’Écu se mostram atingidos pela sensação incômoda de exigüidade (PARÉ. cette éternité dans le purgatoire. Ausentes dos estudos 122 Revista Brasileira do Caribe. de se refaire. Coureurs de fond. effacement d’un peuplement : le génocide des Indiens caraïbes. Nous avons subsisté. mas a todo gesto do resistir que se manifesta como prática cultural (como o vodu. effacement d’un paysage. n° 15 . p. Amédée atualiza o exercício do “marronnage” (termo criado a partir de “nègre marron”= “quilombola”).

66). Escrita do trânsito e das transferências culturais que se abrem para os diálogos sempre inacabados da crioulização. Espaço de convergência de inúmeras experiências diaspóricas. um sítio importante para se rever sob o ponto de vista identitário e para reler o próprio existir. 2001. mesmo sabendo disso. após certa hesitação e influenciado por uma visão mágica. Miami não seria. mas que encontram. p. p. a situação diaspórica favorece a atividade da escrita. 2003. as produções da exigüidade correspondem à “fabricação original e autônoma de bens simbólicos inéditos” (PARÉ. acadêmicos voltados para as chamadas grandes literaturas. na busca de um outro lugar no mundo. além de ser “um lugar de esperança e de miséria para os que conseguiram deixar sua terra de miséria” (GAUTHIER. Lutando contra o confinamento. uma possibilidade é vislumbrada pelo grupo liderado por Amédée como viável: Miami. 87). 1994. a função da escritura é a “de aumentar desmesuradamente nossa relação com o mundo de modo a nos proteger da pequenez da condição humana e da insegurança que a acompanha” (HAREL & JACQUES.Uma voz da diáspora haitiana. uma terra de errância. essa cidade se reveste também de um sentido negativo. p. Mas. p. Miami aparece na narrativa como um lugar de passagem. Apontada como a “América latina na América do Norte” (OLLIVIER.66). Escrita muitas vezes epistolar. p. 1997. oferecendo aos seres desterritorializados a oportunidade de inscrever seu lugar no mundo nas páginas da escrita. Amédée 123 jul. “a escrita e a prática da arte acarretam uma liberação do espaço” (PARÉ. Obra-refúgio ou obra-insular. no espaço das letras. É o que faz Ollivier no romance em pauta. Como experiência enriquecedora que leva indivíduos a ultrapassar limites.. pois. fragmentada em várias cidades onde há diversas solidões (OLLIVIER. uma solução definitiva para seres desterritorializados.206)./dez. o abafamento e o silêncio. sob a máscara do sol que esconde cóleras e violências. ao exercício criativo de práticas de sobrevivência adotadas pelos excluídos da História oficial. p. 1994. Como foi salientado. pois. 2007 .. pelo paralelismo estabelecido entre a casa e a escritura. 2001.65). capaz de preencher e de superar o hiato geográfico instalado entre seres distanciados fisicamente.97).

Amédée. Goiânia. p. quitter le pays où ils étaient nés. ele nos acompanha. qui se tissent un destin minéral dans un rêve de pierre et ceux qui se prennent pour le pollen. Normand était de cette race. sans but. interiorizado nas memórias e paisagens afetivas: Amédée ne comprit pas tout de suíte pourquoi ils devaient partir. como já foi visto. Ils sautent dans des voiliers de hasard . le monde est constitué de deux grandes races d’hommes : ceux qui prennent racine. de outro. Identificando. avait changé d’avis. Na base de sua decisão está a certeza de que mesmo quando deixamos o país natal. quelles que soient ses fins secrètes n’a jamais le temps de revenir. não corresponde ao ideal de vida valorizado pelo próprio Émile Ollivier.86-87). vol. 1994. 124 Revista Brasileira do Caribe.. Um dos trechos mais poéticos do romance Passages referese a uma reflexão da personagem Leyda a respeito de duas formas de se estar no mundo: de um lado. sans trajet préalablement déterminés. nessa segunda categoria. Il aimait ces déplacements à tâtons qui se jouent sur des surfaces illimitées où départs et retours finissent par se confondre (OLLIVIER. Adeptes de vastes chevauchées. Pourtant. ne l’emporte-t-on pas partout avec soi ? (OLLIVIER. il savait que souvent le crabe qui s’éloigne à une trop grande distance de la mer. 1994. les grands espaces.Maria Bernadette Velloso Porto responde afirmativamente à demanda dos que o procuraram como guia. a partir dos apelos da polinização. n° 15 . seu próprio marido Normand.. inspirando-se na fixidez do mineral ou no modelo da raiz que. haveria os seres sedentários. (. alguns homens se deixariam levar pelos movimentos do devir.) Mais déjà. ils traversent. influencé par sa vision. avec le vent. Leyda oferece ao leitor pistas valiosas para a compreensão da diáspora: Voyez-vous. ce jour-là.31). que acabara de morrer. empruntent d’aléatoires chemins. Sa part de territoire. VIII. p. devenir une race sans terre.

pois. Amédée e Brigitte encaram a ida para Miami como recurso temporário. Sinônimo de fecundação e de renovação. Segundo a perspectiva do exílio visto como “détour”. hedonista e místico das « nourritures terrestres » gozando do vento espalhando sementes. Gide. A vivência do exílio. 1997. pode-se morrer de tédio ou de desespero (MAFFESOLI. conforme foi apontado. já que. além de se morrer de fome. p.. p. Para Maffesoli. diferentes personagens conhecem de perto tal experiência. Daí se explica a razão que leva Maffesoli a acreditar na necessidade de se empurrar para longe as fronteiras (MAFFESOLI. Não se poderia falar melhor da força do desprendimento que cresce longe das raízes. No romance Passages. abrir-se para o outro” (MAFFESOLI. Por isso. segundo a lógica diaspórica. Apenas permanecerão vivas as plantas que jorrarão longe da árvore semeadora. palavra que recobre diversas situações. um enriquecimento cultural. atribuindo-lhe.28). tem um efeito mortífero (MAFFESOLI. Apenas as sementes que vão longe têm oportunidades de frutificar. p.Uma voz da diáspora haitiana. 141-142). da terra dos mortos (MAFFESOLI. a cultura não é somente enraizamento. Referindo-se à metáfora da raiz. da família. p. 1997. 2007 . 1997. já que a imobilização..39). o que corrobora o pensamento de Michel Maffesoli. portanto. p. As que caem bem perto do tronco não têm nenhuma chance de crescer e de desabrochar. opondo-o a Barrès que pedia aos homens para se enraizarem na terra e nos mortos. a diáspora é. um caráter não definitivo. mas também desprendimento. para quem existir significa “sair de si mesmo. p. Para eles./dez.19). 1997. 1997. permite. “só havia partida na perspectiva de um retorno 125 jul. segundo o autor citado. 1997. a passagem abaixo se aproxima da citação de Ollivier: Fazer uma leitura contemporânea de Gide. em geral. do ninho. quanto mais longe nos encontramos da “terra dos mortos”.22). mais temos acesso a riquezas imateriais (MAFFESOLI. como sinônimo de confinamento. convite para a novidade e para a aventura no campo dos sentidos – transitórios como a própria existência–.142).

Dividido entre duas forças – o quimérico ressurgimento de seu passado e o esquecimento de suas raízes (OLLIVIER. Cela avait suffi pour constater que la magie avait quitté sa ville. vol.42). 1994. um desejo de viver (OLLIVIER. Assim. Ora. diante do fracasso da empreitada chefiada pelo marido. p. mas ao empreender uma viagem ao seu país natal. ser dos trânsitos por excelência. Amparo fixa sur Leyda un regard mouillé : “ Jamais plus je ne pourrai vivre à La Havane” (OLLIVIER. le visage secret. 1994. peut-être auraitelle découvert. por mais que ela se esforce. preenchendo o vazio de sua vida de modo a parecer muito ocupada. p.113). Para reforçar a inviabilidade do retorno à origem. como já foi dito. 1994. Tendo contínuo contato com imigrantes latinoamericanos.112). Filha de sírios que emigraram para Cuba e depois se instalaram nos Estados Unidos. situa-se paradoxalmente entre a busca de um impossível acordo consigo mesmo e um movimento de felicidade. ela vive no Canadá há cerca de dez anos. o enorme hiato criado entre ela e sua terra de origem. derrière ce nouveau masque. P. Mas. ou à elaboração de petições pela Nicarágua. Goiânia. 45). n° 15 . descobre a impossibilidade do retorno.229). Também Normand. VIII. outro personagem migrante conhece a frustração ao fazer uma viagem a seu país. 1994.176). 1994.Maria Bernadette Velloso Porto enriquecido de mil perfumes. intime. Son séjour à la Havane. p. 126 Revista Brasileira do Caribe. p. une grande déchirure. Elle n’avait eu qu’une semaine. de mil odores do alhures” (OLLIVIER. p. não realiza seu sonho de voltar ao país de origem. Si elle était restée plus longtemps. Na verdade. viveu um tempo com um chileno e se dedica a manifestações contra o racismo e a utilização de armas nucleares. “anda em círculos” (OLLIVIER. seus atos se revelam incapazes de garantir uma mudança na ordem das coisas e de lhe assegurar uma nova meta de vida. Trata-se de Amparo. 1994. une douleur intense. Brigitte manifesta o desejo de voltar a Port-à-L’Écu para ser enterrada na sua língua (OLLIVIER. como se buscasse compensar a desorientação de seus dias. Durante muito tempo. tentando se enraizar em projetos de melhoria do mundo. préservé de la ville longtemps imaginée. alimentou o desejo de rever Cuba.

p. destaca-se a sensação familiar e moderna de “des-locamento”.Uma voz da diáspora haitiana. 1991. 27). Amar é desejar encontrar o ser que possa abalar sua memória inerte para lhe dar vida nova. até então inerte ou cansada de ser igual a ela mesma.55). o próprio presente nada lhe oferece de estável. 2007 . Tratase ainda da dificuldade de nos situarmos de fato em um lugar preciso e da consciência de que não nos é facultada a possibilidade de voltar para casa. No exemplo acima.34). a noção de pátria confundindo-se com uma construção provisória e inacabada. viajar para senti-la. p./dez. embora procure se fixar em projetos coletivos. Lido a partir dessa concepção de origem. aí está a própria procura do amor”. 1991.57) 127 jul. No nível cultural como na experiência subjetiva.. Assim como Amédée e Normand. sendo. que forçará sua identidade a efetuar a viagem que ela escamoteia. E a imagem de seu país natal não passa de uma das versões possíveis de sua terra. um convite para se ultrapassarem fronteiras e para se descobrir que é possível desejar (em) outros lugares. “Ora. o amor equivale a uma procura de renovação identitária e de revitalização da memória graças ao contato com a diferença e o alargamento de fronteiras. pois há sempre algo no meio. Amparo parece ilustrar o pensamento do autor do livro Entre-deux: l’origine en partage: “Ora. o exílio é freqüentemente uma viagem que não sabe encontrar seu retorno” (SIBONY. p. 2003. a reencontrar sua carência vital e sua distância em relação a ela mesma (SIBONY. já que. abalar seu suporte de ser idêntico a si mesmo. p. em nosso tempo. antes. experimentada. a origem nada tem de paralisante. encontra-se o valor da viagem como busca e requisição da memória. por todos nós. segundo Daniel Sibony. que não precisamos. Mas onde é o início de tudo? Não somos todos migrantes em trânsito permanente que nos leva a recomeçar sempre? No caso da personagem Amparo.. entre o presente e lá onde tudo começou (HALL. reconstruída sem cessar por sua memória. Como “impulso em direção a outros lugares” (SIBONY. necessariamente. 1991.

que é histórico e supõe a idéia de um vínculo. Embora não dominem um idioma em comum. Normand tinha “uma vida em suspenso” ao longo dos últimos dez anos durante os quais sofria de grave doença renal. Ao contrário do lugar. p. como se o amor fosse o ato inaugural de uma outra origem. o espaço para escreverem outras marcas de parcerias.69). “O importante é descobrir no corpo-texto do(a) amante. Conhecendo um duplo transplante (identitário e cirúrgico). do outro lado da vida” (OLLIVIER. p. no romance Passages. Goiânia. Seres 128 Revista Brasileira do Caribe. Normand se identifica a Montreal. mesmo efêmeras. VIII. A coincidência de trajetos existenciais parece reger o encontro dos dois amantes: vindo “de longe. Identificando.68). nos territórios da paixão e/ou da afetividade. em particular. já que suas relações são superficiais. os não-lugares de nossa época se associam ao trânsito. a oportunidade do encontro – encontro do outro e de um outro lugar de referência identitária. vol. p. os amantes exercitam o gesto de se enraizarem. e de identificarem. o encontro desse casal equivale a uma possibilidade de neutralizar sua situação diaspórica. seu cotidiano nada lhe reserva de concreto e de promissor. na experiência amorosa. para personagens desterritorializados. o exílio como ruptura é compensado pela vivência amorosa que constitui. Cabe-nos aqui aprofundar a leitura do amor em tempos de exílio. ainda que de modo fugaz. 1994.Maria Bernadette Velloso Porto Não é por um simples acaso que. Amparo e Normand se encontram em um aeroporto. 2004.86). a representação do amor no contexto diaspórico remete. não-lugar próprio da supermodernidade aos olhos de Marc Augé (1994). n° 15 . à história entre a cubana Amparo e o polonês Janush. Quanto a Amparo. corpo tatuado pelo já vivido. 1994. conseguem se comunicar pela criação de uma terceira língua. Associado às idéias de hiato. No romance Passages. Assim. ao efêmero e ao não-estabelecimento de relações efetivas. perda e fragmentação. o que contribuía para uma vida de recluso em uma cidade (Montreal) que se tornara uma prisão para ele (OLLIVIER. a disponibilidade para acolher outras histórias e outras memórias culturais” (PORTO. um modo especial de suprir o vazio. cidade de outros seres transplantados. na pele de outrem.

Feita de silêncios. de impossibilidades. bénéficiaire d’une bourse du gouvernement français. ou do outro lado do espelho. o exercício do diálogo. Como se exprimissem. como se exercitassem. baragouinait le français. Qu’importait ce manque! Une langue commune n’est pas absolument indispensable à la prise des langues et l’emmêlement de deux vies.. sob o modo metafórico./dez. Colocando em prática uma espécie de sacralização do amor. para além de suas opacidades culturais. a experiência maior da alteridade. Por isso. como na vivência da diáspora.128).. Aucun des deux ne parlait la langue de l’autre: typique dialogue Est-Ouest. onde assumem diferentes papéis. Il était polonais. inúmeros deslocamentos e trajetos inéditos. Il parlait polonais. o amor se mostra capaz de abalar as certezas identitárias. os dois personagens apontam para o exercício maior dos diálogos interculturais: Un jour à la cité des Arts. elle avait rencontré Janush. os amantes transformam o quarto do hotel em Paris em uma espécie de templo. experimentam. constituindo “a busca desvairada 129 jul. Mergulho vertiginoso no fundo de si mesmo. 2007 . por meio do jogo amoroso. Assim. os dois amantes vencem qualquer impedimento. dans l’affrontement désespéré de deux impuissantes paroles en quête de vérités (OLLIVIER. Ils avaient fini par créer une langue médiane mâtinée de gestes et surtout de silences. Le silence fondait leur relation... da fronteira. Leurs échanges se situaient en deçà ou par-delà les langues.Uma voz da diáspora haitiana. Janush était de ces êtres sensibles qui captaient intuitivement toutes les manifestations de la vie. atualizando. revisitado pela perspectiva de Pentecostes que assegura a comunicabilidade a despeito das diferenças. il pouvait se livrer sans restriction à ses activités de peintre. 1994. apesar de todos os desafios e riscos. Elle ne comprenait que l’espagnol et l’anglais. p. de não-dito. a possibilidade de entendimento entre dois mundos. eles tiram partido da capacidade tradutória. seguindo diversos roteiros em que adotam várias identidades. sua linguagem parece ilustrar a recuperação do episódio bíblico de Babel.

Abalando. visitions des pays de légendes et de merveilles : cratères éteints de la cordillière des Andes. de acordo com Daniel Sibony. Le ciel de notre lit figurait une carte du monde et chaque jour. Certains matins. pois. Nous revenions sur les ailes de midi. 1994. isto é. VIII. define-se como reinvenção permanente e experiência do heterogêneo. Por isso mesmo. com a unidade narcísica. lovés dans l’été de notre édredon (OLLIVIER. há muito esquecida” (OLLIVIER. Exprimindo-se criativamente em situação de fronteiras culturais. passagens. “não combina com o um-só. faisions escale dans des contrées prodigieuses. Janush et moi nous nous réveillions sur un point différent de la planète..129). mourir sous les toits de cette mansarde de l’avenue de Wagram à Paris.Maria Bernadette Velloso Porto de uma parte de si mesmo. como se o movimento de seus corpos os levasse a um outro continente. Goiânia. 1994. eles imaginam que viajam a cada noite.57). reinventando seu cotidiano. ‘viagens’(. nous prenions le petit-déjeuner à Sidney. n° 15 . nous traversions plusieurs fois le globe. descobrem-se em um lugar diferente da cama. o amor não poderia se manifestar em contexto marcado pela idéia de unidade: como falta e busca. o amor os leva a se despirem de qualquer sugestão de fixação. Oiseaux migrateurs.p. p. no deslocamento.131). Vivido. Trata-se ainda da vivência do imprevisível e da renovação cotidiana da disponibilidade para o gesto de partir: Avec Janush. há um grande mapa-mundi e a cada novo dia.1991. já que os parceiros investem na contínua renovação de papéis e de lugares 130 Revista Brasileira do Caribe. vol. o pacto amoroso aposta na estranheza.. da pluralidade e da hibridação. l’aventure commençait dès le petit matin. conforme foi visto na citação de Sibony o suporte identitário dos dois personagens. à New Delhi ou à Buenos Aires. le lendemain à Singapour.)”(SIBONY. Ele convoca o entredois. convidando-os para exercitarem o próprio simbólico que. p. Kilimandjaro aux neiges fumantes. à luz da experiência diaspórica. No teto do quarto de hotel parisiense. após uma noite de amor. Orient imaginaire.

Cabe agora ressaltar que o prazer da leitura do romance Passages está diretamente ligado à representação das movências: o leitor é chamado para se deslocar dos limites de seu mundo. a do personagem Régis – que tece as ligações entre diversas histórias. Se na narrativa da viúva de Amédée. como todo desejo – de “escreverem” suas histórias graças à travessia de línguas e de memórias corporais e culturais.Uma voz da diáspora haitiana. graças à inclusão da multiplicidade de cores. o que reforça a paratopia de seres desterritorializados. identificam-se a sabedoria ligada à experiência presente em provérbios haitianos e o ritmo próprio do conto e da oralidade. Espaço da polifonia e da pluralidade. surpresos diante da manifestação dionisíaca da diferença em seu território. na riqueza da não-coincidência.. identitários. Atenta aos excessos característicos do carnaval. 2007 .71). pertence a um domínio mais culto do francês. Hibridação de registros de língua. Como salienta Louise Gauthier (1997. um grande lirismo se destaca nessa obra. Na reconstituição de suas memórias elaboradas em Montreal. p. Isso explica a cenografia do ritual amoroso inventado por esses personagens que elegem a vivência amorosa (e aqui pouco importa se se trata de amor ou de paixão) como espaço significativo da condição diaspórica.. Valendo-se das promessas da diáspora. ela registra o 131 jul. de paisagens e de manifestações culturais que remetem a um “dépaysement” criativo que nada tem de exótico. Assim. engajando-se em uma escrita fundamentada na hibridação. Émile Ollivier imprimiu em seu romance as marcas da Poética da Relação proposta por Édouard Glissant (1990). odores. precisam levar adiante seu desejo – sempre movente. em que diversos níveis lingüísticos coabitam sem hierarquias. o personagem Leyda evoca esse momento expressivo do encontro de culturas e seus efeitos sobre os quebequenses. gostos e ritmos e à liberação do corpo grotesco próprio da carnavalização rabelaisiana. associada às expectativas de um ir além. para empreender uma viagem em um universo marcado pela riqueza de imagens e de metáforas inesperadas./dez. o livro em questão coloca na paisagem transcultural montrealense a explosão do orgiasmo carnavalesco caribenho.

de basilic. pulsions sauvages de la violence lascive des tropiques. sandwichs à l’avocat.Maria Bernadette Velloso Porto transbordamento de limites. femmes-tortues. femmes-lézards. échouaient là. pâtés relevés de poivre. serpentins qui deviennent cerceaux emmêlés. a transgressão ou a travessia das fronteiras da ordem cotidiana. démêlés. masques. vieux bidons d’essences. un coup pour moi. reggae. méringue. défilés de couples mimant des scénes d’accouplement. de fruits de la passion: irruption de la Caraïbe des origines . du bruit qui soudain devient rythmes. n’était la présence massive et rassurante de la flicaille prête à toute éventualité (OLLIVIER. rabordaille. de clou de girofle.. dans ce parc de Notre-Dame-de-Grâce. des assauts de fantaisie. de phallus aux proportions gigantesques. de piment. après avoir fait le tour du monde. incitant à des déhanchements. de trous. casseroles ébréchées. cercles de femmes. une horde de corps que des coulées de sueur font luire au soleil . vol. un coup pour toi. assoiffés de fentes. steelbands d’un jour. dá-se uma série de transformações: a revelação do mundo às avessas. VIII. Et les odeurs! Des matrones. renovada pela irrupção dos signos da alteridade: Leyda gardait en mémoire l’image de toutes les couleurs de peaux se côtoyant dans une débauche de costumes bigarrés. de muscade. rythmes célébres qui.. rubans de dentelles.38-39) Na lógica da carnavalização. Goiânia. Et l’on voit passer des bipèdes obscènes sur des plates-formes mobiles. des punchs exotiques. royaume de testicules. p. calypso. bouquets de canelle . plantes parvenues à maturité sans que l’on puisse en préciser l’âge. femmes-libellules. tout cela vibrait sous le regard médusé des archéo-Québécois qui auraient pris panique. a dessacralização da cultura oficial. a manifestação do corpo grotesco 132 Revista Brasileira do Caribe. distribuent victuailles et rafraîchissements . de vanille. 1994. cette partie de la ville devenue soudain folle (.) Et l’on tape sur tout ce qui peut résonner : bouteiilles vides. plantes plantureuses aux yeux rouges de plusieurs veilles de laborieuses préparations. n° 15 . une foule criant haut et fort. une cacophonie. d’ail. de fourreaux.

.83). mostra-se disponível para incluir em seus referenciais identitários valores e 133 jul. p. as mulheres conhecem. elas parecem brincar de outras possibilidades de ser e de estar no mundo.. em formas diferenciadas de identidade. insinuando que toda essa algazarra é apenas provisória. e da sexualidade desenfreada. No caso de Ollivier. na vela do barco que levaria alguns haitianos a Miami. atinge a todos. o carnaval caribenho reinventado em uma metrópole da América do Norte acena com as promessas de renovação e de metamorfose. Isso indica o caráter de duplicidade identitária do autor que. com seus excessos e transgressões de limites habituais. Por uma espécie de crescendo. a euforia contagiante da festa. abalada com a desmedida da festa carnavalesca. aprofundou sua experiência do entre-dois. recusando-se a reconhecer uma concepção simplista de pertencimento. a cerimônia vodu realizada a bordo do barco.. Todavia. Desse modo. mesmo que por momentos. nossa relação com o passado e com a origem é sempre passível de releitura e nos permite atestar a veracidade de uma afirmação do romance: “(. Seja como for.) o ser humano não pára de se inventar” (OLLIVIER. as referências a manifestações culturais do Haiti desempenham sempre um papel relevante na obra de Émile Ollivier. mantenedora da ordem. 2007 . por mais que a identidade esteja ligada aos movimentos do devir. os corpos individuais encontrando seu prolongamento no corpo social “contaminado” pelos apelos caribenhos.Uma voz da diáspora haitiana. todos nós nos originamos e falamos a partir de “algum lugar” (HALL. Sugerindo a dupla inscrição identitária do autor. mesmo localizados. 240). cultuados em seu país natal. comprova que. a polícia permanece de sobreaviso. ainda que debaixo de fantasias e disfarces. foram bordadas imagens do panteão católico e de divindades do vento e do mar. e a presença dos excessos associados à enumeração. p. no Quebec. Entretanto. No âmbito de jogos identitários característicos do carnaval. 2003. o devir animal: revestindo-se de atributos de libélula.. Assim. Longe de se fundamentarem numa visão folclorizante da diferença./dez. ao longo da qual o improviso é permitido. 1994. lagarto e tartaruga. a vivência da religiosidade por parte de personagens é marcada pelo sincretismo. investindo.

1986. É. Paris: Éditions de l’Arcantère . BAUMAN. GAUTHIER. Les pouvoirs des mots. GAUVIN. G. paisagens na literatura canadense. Introduction à une poétique du divers. In : Revue Internationale d’Études Canadiennes n° 27. Montréal : Presses de l’Université de Montréal. 2000. Por sua vez. Identidade. passagens. 1990. insuficiência e ausência que levam o ser humano a largar as amarras de um porto seguro das certezas para se deixar envolver pelos movimentos do devir e pela expansão diaspórica. L. Montréal : Les Presses de l’Université de Montréal. Langagement : l’écrivain et la langue au Québec. J. 1997. M. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Montréal : Boréal. 1997. S. É. M. & JACQUES. E se a idéia de identidade supõe limites. Poétique de la Relation. São Paulo: Papirus.). É . VIII. GLISSANT. La République Mondiale des Lettres. exclusão. CASANOVA. n° 15 . a despeito de alguma resistência. Paris : Seuil. 2003. HALL. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.. « Littérature et culture nationale du Québec : le clivage culture savante/culture populaire ». distinção e ruptura. numa via de mão dupla enriquecedora. esse se viu transformado com as vozes caribenhas. 1999. La mémoire sans frontières : Émile Ollivier. Da diáspora : identidades e mediações culturais. 134 Revista Brasileira do Caribe. M. 2003. 2005. Sainte-Foy (Québec) : Les Presses de l’Université Laval. GLISSANT. Paris : Seuil. 1994. Goiânia.In : PORTO. S. Z. Belo Horizonte: Editora da UFMG. “L’écrivain témoin : déplacement. Fronteiras. 1995. Niterói: EDUFF/ABECAN. ela também pode ser concebida como falta.(org. vol. L. P. transferts culturels et l’expérience de l’habitabilité dans les romans d’exil d’Émile Ollivier”. Naïm Kattan et les écrivains migrants au Québec. HAREL..Maria Bernadette Velloso Porto produtos culturais do país que o recebeu. 2000. Brasília: Representação da UNESCO no Brasil. JONASSAINT. Ottawa : Conseil International d’Études Canadiennes. Bibliografia AUGÉ. GLISSANT. BOUCHARD. Paris : Gallimard. Campinas. les maux du pouvoir : des romanciers haïtiens de l’exil. Le discours antillais.

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136 .

convite para se repensar conceitos como Negritude. Antilleanness. Literature. VIII. The acknowledgement of this subjectivity leads to a reformulation of the way of thinking and acting. n° 15. Na perspectiva de uma voz que inicialmente surge como expressão inconsciente do coletivo e ainda sobredeterminada pelo significante do colonizador. From the perspective of a voice which initially emerges as an expression of the unconscious of the collective and still over influenced by the legacy of the colonizer. a new perspective towards the future encourages to re-evaluate concepts such as Negritude.A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant Kátia Frazão Costa Rodrigues Abstract This study focuses on the exploration of the Antillean subjectivity as it is conveyed in the poetry by Aimé Césaire and Edouard Glissant. This analysis will draw on the theories of Jacques Lacan on Jean-Luc Nancy´s philosophy and the most contemporary conceptions of identity. vol. Negritude Resumo Este trabalho representa à subjetividade antilhana a partir das poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. Glissant. but on a different turn. interview with Brazilian poet Paula Glenadel. Goiânia. num movimento outro. Antilhanidade. mas que. se reedita e deixa mostrar a outra face da resistência. Identities. Crioulidade e Crioulização. allowing thus the dialogue between differences. sob um olhar mais paciente e também voltado para o futuro. da Filosofia de Jean-Luc Nancy e da concepção mais contemporânea de *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 137 Revista Brasileira do Caribe. Creoleness and creolization. O diálogo se dá pela via da Psicanálise de Jacques Lacan. a way of political and social compromise with the progress of humanity. 137-164. Keywords: Césaire. 2007 .

Kátia Frazão Costa Rodrigues identidade. El reconocimiento de esa subjetividad lleva sin duda a la reformulación del pensar y del actuar humanos. permitiendo así el diálogo entre las diferencias. Goiânia. particular ou que pertence unicamente ao pensamento humano e é suscetível de variar em função da personalidade de cada um1. O reconhecimento dessa subjetividade leva. El diálogo se da por la vía del psicoanálisis de Jacques Lacan. vol. Já a palavra sujeito. designa o substantivo feminino que concerne à qualidade ou caráter de subjetivo. Negritude Pretendo suscitar interrogações acerca de uma possível subjetividade antilhana a partir do diálogo entre as poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. forma de compromiso social y político con el efectivo progreso de la humanidad. Literatura. onde traços se repetem e. entrevista em Paula Glenadel. pois embora esses autores martinicanos se inscrevam na Literatura de forma particularizada. à reformulação do pensar e do agir humano. em duplo gesto. antillanidad. poetisa brasileira. conforme 138 Revista Brasileira do Caribe. A subjetividade. seus poemas parecem remeter a um espaço comum. assim. Glissant. sem dúvida. Literatura. Es la perspectiva de una voz que inicialmente nace como expresión del insconsciente colectivo y ainda sobredeterminada por el significante del colonizador pero que en un movimiento “otro” se reedita y deja mostrar la otra cara de la resistencia sobre una mirada más paciente y dirigida para el futuro. forma de engajamento social e político com o efetivo progresso da humanidade. n° 15 . pessoal. criollidad y criollización. Identidades. invitando para repensar los conceptos Negritud. aqui entrevista. de la filosofia de Jean-Luc Nancy y de la concepción más contemporánea de la identidad. individual. Negritude Resumen Este trabajo es una investigación sobre subjetividad antillana a partir de las poesías de Aimé Césaire y de Edouard Glissant. Glissant. entrevista en la poetisa brasileña Paula Glenadel. o diálogo entre as diferenças. adjetivo do latim subjectivu que significa: relativo ou existente no sujeito. possibilitando. Palavras-Chave: Cesáire. VIII. produzem movimentos de fechamento e de abertura próprios de uma existência híbrida e resultante do processo de ser singularmente plural. Palabras Claves Césaire.

mas à palavra exterminada dos indígenas e amordaçada dos escravos africanos. Les composantes sont diverses.. Cabe ressalvar. no ponto intersecional das poéticas de Césaire e de Glissant. o termo sujeito designa o indivíduo indeterminado ou cujo nome se quer omitir.A construção da identidade no Caribe. que. escritor nascido em Guadalupe: “Nous ne sommes pas que des descendants de l’Afrique. cativo. muitas vezes interrompida e consignada na memória crioula. Como substantivo. apostando na existência de um alguém. que 139 jul. àquele que se sujeita à vontade dos outros. muitas vezes ficaram sem registro. convocar à cena a voz que se apresenta poeticamente como “eu”. tamanha é a sua importância no processo de reconstrução sócio-cultural e histórica das Antilhas. escravizado. que toda essa literatura mestiça está presa não somente ao ocidente. ao redesenhar a trajetória de um devir sempre descontínuo. No entanto. antes de tudo. pela oralidade do conto e pelas práticas culturais. ainda que instantaneamente. assim. esbarra. este pode se legitimar como seu fiel representante. Cito Pépin. Pépin também nos dá pistas de que é pela palavra. Nous portons tous en nous ces parcelles d’identité qui nous constituent en tant qu’Antillais et Caribéens créoles2”.. como adjetivo. um alguém./dez. a escritura martinicana está diretamente ligada à questão identitária e esta ainda parece ser a grande problemática do antilhano em geral. Ademais. em outras vozes do plano da composição. Investigar a subjetividade antilhana é. refere-se ao súdito. O autor deixa entrever. A subjetividade é. vem do latim subjectu (posto debaixo) e. nesse caso. que a Literatura Antilhana possui uma dimensão muito maior do que o universo restrito da Martinica. ainda. materialização na escrita de uma potência que não cessa de se recarregar. As investidas em favor desse resgate identitário. entrevista a partir do encontro dessas potências em diferença ou. primeiramente. assim. 2007 . obrigado e constrangido ou. que deve ser redescoberta a qualidade desse eu enunciador. Não foi senão a partir dos primeiros cronistas. reconhecendo-se. como o padre Labat e o padre do Tertre. assim. iniciado pelo marronage3. pesquisa de mesma fonte.

A eles se segue a escrita duduísta. Desse cenário evolutivo nasce. a escrita regionalista. na busca de uma poética própria. deparando-se com algumas barreiras. a crioulidade acentua ainda mais as diferenças culturais e antropológicas. Mas. a crioulidade apela para a consciência de uma etnia plural. por isso. Era a escrita dos primeiros mulatos antilhanos assimilados. Surge. O conceito de “Crioulidade”. nos anos 80 do mesmo século. sobretudo. movimento que se inicia nos anos 30 do século passado e marca uma consciência mais desenvolvida em favor da dignidade negra. tão distante e estrangeira. Entretanto. que liderou essa empreitada identitária. conquistou rapidamente um grande número de adeptos. A “cria da Negritude”. dentre elas. assinado pelos martinicanos Raphaël Confiant. escreviam em francês e. igualmente presa aos padrões ocidentais. Jean Bernabé e Patrick Chamoiseau. esses “brancos da terra”. vol. Desde sempre atraído pela questão identitária e querendo ultrapassar as barreiras essencialistas criadas 140 Revista Brasileira do Caribe. ora os negros. Cheia de clichês. em seus anseios linguageiros pela cultura dominante. a então chamada “literatura assimilacionista” também não chegou a apresentar uma dimensão histórica e social. vista como eurocêntrica e dominadora.Kátia Frazão Costa Rodrigues se inaugurou timidamente uma sondagem. que também se revela como problemática. quem primeiro explorou mais profundamente a unidade. porque designa ora os brancos nascidos nas colônias. acusa Césaire de essencialista. a existência de uma matriz cultural fundamentada na plantação da cana e na escravidão faz persistir a idéia do “um” em relação ao sujeito antilhano. VIII. então. a “Negritude”. Ao denunciar o falso monolingüismo e a pureza das raças sem evidenciar. Goiânia. assim. ainda nos anos 60. n° 15 . foi Edouard Glissant. dentre outras razões por fazer uso da língua francesa. como é chamada por Pépin. é formulado em favor dessa contraposição. de fato. contudo. igualmente dicotômica e marcada pelo exotismo. a mestiçagem. Césaire. não conseguiram. como afirmou Pépin. Segundo Confiant. No projeto de uma concepção unificada do povo antilhano. a da própria língua. retratar a realidade antilhana. muitos deles seus futuros e acirrados críticos.

Chamoiseau chega mesmo a afirmar que não é possível falar em Literatura Antilhana antes de Glissant e que tudo que o antecede não passa de uma pré-literatura. Elabora. conceito articulador da “Poética da Relação”. o devir crioulo passaria por essa conscientização. na aceitação do outro e de suas diferenças. com o monolingüismo e com a identidade-raiz. longe de serem consideradas como movimentos isolados e. assim. apesar de diversa e sem consciência de si mesma. o autor desenvolve o conceito de “Identidade-rizoma”. as diferenças. A identidade não mais se concentraria no ser. mas como múltipla e decorrente da relação com o outro. que busca. provocados pela globalização. e também pela migração e maior contato entre os povos. possuiria uma identidade própria. a universalização do devir. confirmando a existência de uma cultura crioula que. Em 1995. onde interagem o cultural e o lingüístico.. fazendo ampliar as fronteiras não somente da Martinica. é o próprio Glissant quem atualiza a noção de antilhanidade. com o discurso hegemônico do ocidente. mas também das Antilhas e da América em geral. aí. a partir da observação dos traços comuns das várias culturas caribenhas. 2007 .A construção da identidade no Caribe. a obra de Césaire. Afetado pelas idéias de Deleuze e Guattari. mas no “ser com”. até contraditórios. assim. Por volta dos anos 1980-1990. A identidade passa a ser concebida não mais como regional. as tentativas de ressignificação do sujeito antilhano representam as muitas etapas da construção de uma subjetividade híbrida que se desenha no entre-lugar de algumas falas.. acerca da oposição raiz-rizoma. por 141 jul. Dessa forma. pela Negritude. o conceito de “Antilhanidade”. Segundo o autor. no mesmo. talvez seja mais interessante pensar que./dez. por vezes. Entretanto. incluindo-se. Glissant define as diferentes culturas como formas mestiças que se entrecruzam de maneira dinâmica num processo de “Crioulização”. que se fundamenta no diverso. o resgate da identidade antilhana só é possível pela ruptura com a tradição baseada na filiação. desrespeitando. o pensamento de Glissant se estende às problemáticas humanas. Glissant desenvolve a idéia de uma “identidade regional”. Para ele.

também. e por extensão.une vieille misère pourrissant sous le soleil. Cito: Cette argile à nouveau remue! Serait-ce que l’oiseau guide le ciel vers une source ? Serait-ce. Mas foi Césaire quem primeiro denunciou essa marca indelével da violência: “. invocando atenção para questões morais que colocam em jogo valores como dignidade. Cito Glissant: “Et parmi les chants de midi / Ravinés de sueurs triomphales / Sur un cheval vient à passer / La mort demain la Pitié” (GLISSANT. inicialmente. como também. honra e respeito. p. numa verdade exterior. A interpelação em Glissant tenta atingir a cristalização causada por um real que ainda resiste à palavra. do drama de todo negro da história da humanidade. 1994. de Aimé Césaire. silencieusement. “.24). Daí a abundância de interrogações. um cunho pedagógico.. feita por Glissant na sua obra Poèmes 4. buscando. le sang des épousailles véridiques” (CESAIRE. por exemplo. l’ 142 Revista Brasileira do Caribe. gestes imbéciles et fous pour faire revivre l’ éclaboussement d’ or des instants favorisés. 14). très lointaine. le cordon ombilical restitué à sa splendeur fragile. / l’affreuse inanité de notre raison d’être” (CESAIRE. 1965. Essa escrita marcada pela emoção apresenta. VIII. un vieux silence crevant de pustules tièdes. dá pistas de uma incontestável proximidade com aquela que se desenhou no Cahier d’ un retour au pays natal5.10). como diz o poeta da negritude. le pain. le vin. não somente em favor de uma maior consciência acerca do negro colonizado. et le vin de la complicité... le pain. A descrição do sofrimento causado pela escravidão. A escritura antilhana tem a marca de um apelo que se funda. 1994. vol. incitando à reflexão. Goiânia. p.Kátia Frazão Costa Rodrigues aproximação e distanciamento. caminho possível para uma atitude menos passiva diante dos acontecimentos que envolvem a própria vida. n° 15 .. sacudindo a consciência. p.

no poema “Palavras de ilhas. embarquement des rives de la neige vers une foule incendiée ? Ou le coeur. 1965.A construção da identidade no Caribe.. Césaire parece.1965.faites-le flamboyance de l’indécis.. Lui ne craint plus le sentiment (de dire « je » dans cette terre). ao mesmo tempo em que interroga./dez.. (GLISSANT. Faitesle feuille de vos mains. à peine devinant tout ce remous d’ étoiles et de lierres. agité comme une gare de populations végétales.. p. permanece “como uma baía!” (GLISSANT. mais l’ emblave et l’ ensemence. ausente de todo trabalho. ao traçar a estratégia para a resistência. nul ne peut. 13-14) Mas. Et vous. 1965. faites-le prose de l’obscur. et l’ébloui de vos brisures.. Cito: “Durant que vous dormez dans cette plaine. 2007 .15). indifférente et soudain calme dans le fruit. que cette enfance soit la vieille d’ un bivouac. et plus haut son sang.. Toute prose devient feuille et accumule dans l’obscur ses éblouies. qui fume sur la ville sa suée de terres. O uso dos verbos no modo imperativo já atesta o desejo de guiar impulsionando essa multidão que. da mesma forma.” (GLISSANT.. le souvenir encourt les tournoiements de l’ arbre. profuse en ce langage. son ressac tumultueux ? Nul n’ avoue. quando diz: Si nous voulons réappareiller l’ abeille dans les campêchiers du sang Si nous voulons désentraver les mares et les jacinthes d’ eau Si nous voulons réfuter les crabes escaladeurs d’ arbres et dévoreurs de feuilles Si nous voulons transformer la rouille et la poussière des rêves en avalanche d’ aube Qu’ es-tu. Glissant responde. faites mystère ainsi que lui de ce silence où bruit la ville.. para saudar Edouard Maunick”. ensaiar a instrução de um possível caminho para o resgate identitário. 15-16). p. Toi qui comprend ce qui disent les îles Et qu’ elles se communiquent dans la marge des mers et dans le dos des terres dans leur jargon secret d’ algues 143 jul. ocupando também o lugar do outro. est-ce le coeur.

completamente muda. quando. p. Glissant o faz pela pintura da sua inversa miséria. ao tentar desmistificar o exotismo das Antilhas. A escrita hesita entre o desejo de ser o seu próprio modelo e a missão de um testemunho coletivo acerca do passado traumático que seria esquecido sem ela. Seu referencial de verdade está no passado e aponta para a consciência de que algo precisa ser empreendido. de fato. Nos versos abaixo. E. A mesma ambigüidade se dá em relação à descrição da Martinica. deriva. o cenário do drama. que se deixa abater e. Goiânia. náufraga.Kátia Frazão Costa Rodrigues Et d’ oiseaux Qu’ es-tu comparse du feu et du flux et du soufle (CÉSAIRE. um novo traço dessa dura realidade se revela. pelo menos como tal. n° 15 . Glissant parece assumir a mesma fala que um dia proferiu o poeta “portavoz das bocas das desgraças que não têm boca nenhuma”7 ao dizer: L’ île entière est une pitié Qui sur soi-même se suicide Dans cet amas d’argiles tuées O la terre avance ses vierges Apitoyée cette île et pitoyable Elle vit de mots dérivés Comme un halo de naufragés A la rencontre des rochers (GLISSANT. expressa na passagem perversa do outro por essa ilha lastimável de uma gente passiva ou. VIII. 508). vol. 24) Essa expressão cheia de predicações compõe. pois esse tempo distante é constituído de matéria fictícia e remete a algo que não existe mais ou que nunca existiu. pouco a pouco. como diz Césaire. revelando uma escritura marcada pela antítese branconegro. a cada pincelada. deixando-se representar por cores sombrias que escrevem simbolicamente o desencanto: 144 Revista Brasileira do Caribe. 1994. 1965. “de uma multidão que não sabe fazer multidão”6. p.

/dez. a permanência. na obra dos dois autores. a sua própria condição humana. antigas antinomias. Ma mémoire a sa ceinture de cadavres! et mitraille de barils de rhum génialement arrosant nos révoltes ignobles. acheminant des rêveries. como um traço identitário que não se apaga. perde o contato com o mundo e. não por acaso.32). de roses sales. a escrita antilhana também é marcada pelo desastre. Nessa perspectiva. também no plano ficcional e como algo ainda passível de ser questionado. Sur leurs rives ne sont pas étendus des pagnes de femmes. Le soir est écuelle de broussailles. os dois poetas dão indícios de que. no imaginário antilhano. de um sentimento de incapacidade do negro diante da supremacia branca. além da memória. assim. 2007 . Sua recorrência atesta não só a não resolução como a fixação do drama. Dans ma mémoire sont des lagunes. Elles sont couvertes de têtes de morts. Essa dimensão psicológica encontrada. pâmoisons d’ yeux doux d’ avoir lampé la liberté féroce (CÉSAIRE. “na eterna fixação dos dias e dos gemidos”8: O tout ce lieu est mort. Que de sang dans ma mémoire! dans ma mémoire sont des lagunes. confirmando. 145 jul. assim. Ma mémoire est entourée de sang. Jamais plus n’ ira le vent par la parole. p.A construção da identidade no Caribe. se desajusta. É interessante destacar também que tanto Glissant quanto Césaire demonstram a especificidade do negro colonizado como alguém que. Ce vent n’ est plus l’arène où s’ ébattent les pluviers ! Jamais plus. pelo pessimismo. fazendo realçar. loin du vent. ô jamais n’ ira l’ aurore disant l’aurore. coisificado.. plus que l’ aurore dans les chambres. ao ser mantida. a posição privilegiada do ocidente. diante do sofrimento moral e material a que foi submetido.. 1994. ao mundo maniqueísta instaurado pela escravidão. Elles ne sont pas couvertes de nénuphars. entregando-se. perde a noção de si e da realidade. mostra que a poesia construída a partir da autofragmentação patológica do negro e da sua vitimização vai alimentar o plano das composições antilhanas em geral.

dans la voix fissurée.146).13). “je”.1965.Disaitil seulement. (GLISSANT. la solitude. et de cette couleur d’ amour.Après la traversée.. a partir de um comprometimento involuntário com o sistema simbólico pré-existente. A linguagem determina o sujeito porque a palavra não só precede a sua existência. p. rien à tirer vraiment de ce petit vaurien. E. O Soleil ! ô travail séculaire sourdement mêlé de mer. Na sua teoria sobre a constituição do sujeito. na falta de comunicação. / une faim ensevelie au plus profond de la Faim de ce morne famélique” (CESAIRE. cette naissance hivernale ? (GLISSANT. pleuré les rêveries.. n° 15 . se submete ao código do outro. Il a quitté les flamboyances. A morte é também da palavra que. et la colère des requins. na impossibilidade da troca com o outro. fazendo com que o homem perca a sua aurora e os seus devaneios. Goiânia.. dans cet effroi des promenades ? – nul ne sait. p. / qu’ une “faim qui ne sait plus grimper aux agrès de sa voix / une faim lourde et veule. 1965. como estrutura a dimensão inconsciente e. et de sang noir précipité.car sa voix s’ oublie dans les marais de la faim. Il est de la race des choses mûres de mûrir dans l’ été lourd et l’ encombre tumultueux. Peut-être êtes-vous là. O verbo se faz presente entre o 146 Revista Brasileira do Caribe. abandonné la rare bleuité de ceux qui aiment et sont aimés.Kátia Frazão Costa Rodrigues « je suis l’éveil des yeux et la clarté des profondeurs”. na impossibilidade de amar e de ser amado. escravizada. 31).. a resistência rumo à individuação. comme l’ aurore. paradoxalmente. o poeta do “Cahier”: “... Un homme chaque matin ouvre les yeux sur la solitude où il se garde. 1994. na mesma encruzilhada do pensamento. pois o eu se descobre no outro.. s’ouvre bientôt un champ de misère et d’ incendies. vol. / et il n’y a rien. VIII. p.. o psicanalista Jacques Lacan9 demonstra que o exterior tem importância decisiva.

p. da mesma forma que é impossível conceber a subjetividade sem essa presença fantasmática. Césaire já apontava para esse homem que. Tornar-se sujeito. que fez com que o homem se perdesse durante tanto tempo na obscuridade. como efeito da própria socialização. ao mesmo tempo.A construção da identidade no Caribe. verdadeiro instrumento de dominação. sujeito e a sua fala. 1965. pois não se trata apenas do assujeitamento primordial à língua do grupo. Entre sujeito e discurso. há sempre algo no meio. Neste sentido. diferente do eu. se escondia em si mesmo. o processo subjetivo só pode ser pensado na relação com o outro.. a dependência do outro se torna ainda mais traumática. implica também resistir a essa palavra escravizadora de consciências. sem ritmo e sem medida. 27) Na situação diaspórica./dez. sem enxergar a si mesmo: Qu’ était la mer et son écume ? Savait-on si sa parole ne se mourait En quelque gouffre. au loin des routes révélées ? Longtemps ainsi la voix de l’ homme se perdit aux temples Pour obscure qu’ était la route jusqu’ au temple ! et cette mer. estranho e ameaçador.. desengonçado. Cito Césaire: “Mais pourquoi brousse impénétrable encore cacher le vif / zéro de ma mendicité et par un souci de noblesse apprise/ Ne pas entonner l’ horrible bond de ma laideur pahouine ? / Voum rooh oh / Voum rooh oh “ (CESAIRE. (GLISSANT. P. 2007 . aprisionado pela brancura de uma vã assimilação à cultura ariana. tropeçando na língua do outro e. nesse caso. esboçando sorrisos pálidos. 85) Em Cahier d’un retour au pays natal. mas da subordinação à língua do estrangeiro colonizador. 1994. numa imaginada cumplicidade com o colonizador: Je me cachais derrière une vanité stupide le destin m’ appelait j’ étais caché derrière et voici l’ homme par 147 jul.

Pode-se supor.. então. des mots. ses maximes sacrées foulées aux pieds. traz a certeza de que é preciso buscar uma outra expressão. des mots! mais des mots de sang frais. 36). desejado ser como o outro. e. assim. E. Voici l’ homme par terre Et son âme est comme nue. 1965. decorrente do funcionamento da própria linguagem.. ou ainda.. mostrando que as repetições na fala seriam a representação sintomática do inconsciente. (CESAIRE. vol. que seja capaz de exprimir toda a angústia e o arrependimento por ter.Kátia Frazão Costa Rodrigues terre. um dia. ses déclamations pédantesques rendant du vent par chaque blessure.30). a cessão do eu. confirma o pensamento freudiano de que é pela linguagem que o homem se revela. citado por Bruce Fink10. resultante da sua relação com o mundo. A alteridade implicaria. des mots qui sont des raz-de-maré et des érésipèles et de paludismes et des laves et des feux de brousse. Essas fixações atestam não somente o conflito do eu. que a sua relação com o 148 Revista Brasileira do Caribe. p. e a alteridade. 1994. (CÉSAIRE. 39) A consciência de que a língua do outro é feita de “Brancuras! viscosidades da palavra que não interpela! Febre nevada. p. VIII. 1994. sa très fragile défense dispersée. p. Lacan. assim. mas também o exercício de um fazer-se sujeito ou a “cura”. quand nous forçons de fumantes portes.. fala o poeta da negritude: Des mots? quand nous manions des quartiers de monde Quand nous épousons des continents en délire. pensar que o sujeito é sempre definido em função do outro. do desejo do outro. A alienação seria. dessa forma. a “doença”. et des flambées de ville. ah oui. a partir daquilo que um significante representa para outro significante. em outras palavras. adornos!” (GLISSANT. Goiânia. et des flambées de chair. a extensão da estrutura que cessa para algo se opor a ela. n° 15 . por conseguinte. A concepção lacaniana do homem como ser sobredeterminado pela linguagem permite.

os laços que geram a dependência primordial ao significante do outro também fazem armazenar a energia que principia toda resistência e. tornando seu algo que antes era estranho e ameaçador. O discurso apresenta. dirige o seu olhar para um devir. fantasias se produzem e oferecem a sensação de um falso ser que tenta superar o conflito.. Entretanto. ora repulsa. assim./dez. O homem nasce. mundo é sempre ambígua. A letra mata o sujeito para lhe oferecer vida própria. fonte de toda comunicação. em paralelo. o fruto dessa ilha lamentável.A construção da identidade no Caribe. Declara Glissant: “Le soir à son tour germera / Dans le pays de la douleur/ Une main qui fuse le Soir/ A son tour doucement tombera” (GLISSANT. revela-se agora. na adoção da causa que perturba o funcionamento da estrutura. assim. 2007 . Nesse processo de aproximação e de distanciamento. investido de mais de um sentido. porque o outro se interpõe provocando ora admiração.. O desejo não é. o outro que habita em nós. de onde talvez sejam possíveis a consciência de si mesmo e uma relação menos traumática com o mundo. como linguagem. preenche vazios e transforma o desejo. mais de uma dimensão. é Césaire quem poetiza: les nuits de par ici sont des nuits sans façon elles sont toujours en papellotes elles ne sont pas sans force même si elles sont sans mains pour brandir le coutelas mais force reste à la loi – à l’ angoisse la nuit ici descend de grillons en grenouilles doucement les pieds nus en bas un gosier de coq patiente 149 jul. 22). aquele que apenas a ordem simbólica é capaz de captar. pois ao mesmo tempo em que permanece ligado de forma irremediável à língua do colonizador. de uma ficção quando toma para si a alteridade. porque inclui o outro que. E. p. 1965. que padece das palavras derivadas. senão. portanto.

nascido no país da dor. como um furo de significantes que nos chegam numa linguagem truncada e aparentemente sem sentido. em contrapartida. igualmente. de grilos em rãs”. 1965. se reinventa. 418). incita ao exercício de um olhar mais amadurecido e próprio de um eu que se confessa “laminar”11 em Césaire ou. irrompem no discurso. como uma paciência que “cresceu na ausência”.Kátia Frazão Costa Rodrigues pour cueillir la giclée ce n’ est pas toujours de la cellule de gestion de la catastofre que la journée téméraire fait part de sa propre naissance (CESAIRE. a história antilhana se retraça. se mexer e “gravitar em torno do seu próprio corpo” (GLISSANT. a exegese do eu e do desejo. próprio daquele que Glissant anuncia como nascido da poesia que ultrapassa o drama e faz reacender a chama da vida. A noite que cai “docemente e. reanima a existência. Desenham-se. através de duplos gestos. As imagens enunciam uma subjetividade que assume o comando e a responsabilidade por toda a expressão. desta vez. investidas de interesse e de valor libidinal. A ordem simbólica internaliza as imagens especulares que.11-12). do marronage à crioulização. na visão lacaniana. na busca da realização do eu reprimido e na assunção também de um papel. p. causado pela sua constituição como ser social e. entrevistas as duas poéticas. pois. como ser negro e escravizado. Uma anulação que é. A primeira refere-se a um duplo assujeitamento do homem antilhano. a existência de um alguém que. duas trajetórias para se pensar a subjetividade. 1994. embora “sem mãos para erguer o facão”. o primeiro passo para a constituição do sujeito. Assim. em decorrência da própria anulação. permitindo. É também dentro dessa perspectiva ética de sujeito que são. assim mesmo ou por isso. Tratar-se-ia. mas. n° 15 . Goiânia. p. ainda. de responsabilidade frente 150 Revista Brasileira do Caribe. O segundo movimento revelaria um percurso outro. vol. da alienação que dirige o homem para a assunção de um papel vazio a ser preenchido pelo outro. agora. deixando entrever. mais ainda. VIII. mas que faz uma argila resmungar novamente.

Nesse sentido. penso. que o sujeito se atesta. Segundo Glenadel. imprevisível. fruto de dor e de prazer. mas alguma coisa ou alguém entre os dois. É preciso pensar o trauma antilhano como bloqueio. “a ‘identidade’ está e não está onde se procura por ela”13. Paula Glenadel propõe pensar a identidade como identificação. único caminho para a fantasia que. ao ser atravessada. vivendo a sensação fantasmática da completude causada pela utopia de um preenchimento. chamando para si o sujeito. de 151 jul.A construção da identidade no Caribe. em fluxo constante. desarmado. 2007 . mas também como possibilidade de encontro com o desejo do outro. faria com que o sujeito se expusesse com toda a sua complexidade. A identidade seria. A subjetividade adviria. A separação implica a dupla falta e marca a possibilidade do sujeito vir a ser. alavanca o processo de subjetivação do drama. a subjetividade pode ser pensada como resultante do processo de carga e “des-carga” emocionada. Tal processo corresponderia ao conceito de separação e daria origem ao ser marcado pela hibridez. como uma herança inquietante que atravessa o discurso produzido pelo imaginário e pelo desejo das margens. provocando a ruptura da hipotética unidade anterior. Chico Science”. Essa unidade. em toda a sua diferença. assim./dez. que não é nem eu nem outro.. completamente nu. sustentado apenas pela ilusão de uma totalidade. a partir do reconhecimento da espectralidade que assombra a fala do sujeito12. É dessa forma. Em “Entre mangue e manguetown. provocando proximidade e distância. de um grande paradoxo que incluiria alienação e separação ou fechamento e abertura. fazendo com que ele assuma não só as responsabilidades. uma vez rompida. tenta fazer essas duas faltas coincidirem. um fantasma que reinventa o drama e se apropria do sentido. ao próprio futuro. A partir dessa concepção mais contemporânea acerca do sujeito e da identidade. na conformidade de uma contradição que.. assim. no firme propósito de ser como tal. mas o gozo de uma vida. talvez seja possível pensar que existe. pelo qual o sujeito se permitiria construir e “des-construir” fantasias.

a possibilidade de reformulação de um futuro. 1994. p. há tempo reprimida. confirmando a dependência em relação ao significante do outro. 457). Contraria. e abre-se ao desconhecido. mas que. pela “reabilitação de delírios muito antigos”16. provoca aporias. o devir se anuncia no espaço de um não-tempo. estabelecendo. não se funda 152 Revista Brasileira do Caribe. de uma promessa. por ser traço descontínuo sempre em movimento. VIII. então. como nomeia Glenadel. se libera “para reavivar o verso solar dos sonhos”18. Goiânia. os “mecanismos espectrais de permanência” e faz reavivar os de “transformação. vol. n° 15 . deixa lacunas. para que uma “nova bondade não deixe de crescer no horizonte”14. Sob essa perspectiva. a palavra. Essa palavra. um alguém que se expressa fantasmagoricamente nas duas poéticas.É quando. espaço que só se habita provisoriamente. produto arbitrário de uma consciência.Kátia Frazão Costa Rodrigues fato. assim. no “furor de dar vida a um desmoronamento de paisagens”15. como poetiza o fundador da Negritude. mas as mudanças de pele: quand les flèches de la mort atteignirent Miguel Angel on ne le vit point couché mais bien plutôt déplier sa grande taille au fond du lac qui s’ illumina Miguel Angel immergea sa peau d’ homme et revêtit sa peau de dauphin Miguel Angel dévêtit sa peau de dauphin et se changea en arc-en-ciel Miguel Angel rejetant sa peau d’ eau bleue revêtit sa peau de volcan Et s’ installa montagne toujours verte a l’ horizon de tous les hommes (CESAIRE. lançando-se para um devir que prevê não mais a fixidez do pensamento. de um por-vir”17. como presença em ausência que traz sempre à tona o passado como sintoma.

as escritas pela “mão que floresce a dor. a partir de um referencial interno e subversivo. em contínuo devir../dez. 2007 .. a continuação da vida. mas o resultado da íntima relação entre o ser e a realidade. mas fruto de uma escolha carregada de sentido que propõe. por extensão..A construção da identidade no Caribe. 1994. ultrapassar também o presente. Glissant também apela para as palavras que “fazem o céu e o horizonte”. 397) A autoridade fincada no presente pela expressão de uma vontade deliberada delimita o passado porque não se reconhece mais como histórica. que faz o pássaro. um je que não representa mais o coletivo. São elas. um reflexo instantâneo da verdade do eu. apesar de tudo. são as produzidas pela mão que faz igualmente “a riqueza 153 jul. mas na reivindicação de uma verdade nova que marca a passagem da ficção à efetiva presença de um eu. p. segundo o poeta.. na expressão do sujeito por ele mesmo. A poesia seria. assim. a espuma e a casa de lavas por vezes”. O subjetivo volta-se do passado para o presente e. então. ) (CESAIRE. por intermédio de um código interno e variado que coloca em questão a própria linguagem. expressa por uma sensibilidade que se coloca à margem de toda lei. hoje. mas à produção do seu efeito. mostrando que a escrita do desastre se constrói a partir das abstrações de uma consciência em enunciação: il y a aussi les capteurs solaires du désir de nuit je les braque: ce sont des mots que j’entasse dans mes réserves et dont l’ énergie est à dispenser aux temps froids des peuples (ni drèches ni bagasses. O dito coloca em cena. assim. como algo que lhe é pertinente e o identifica como tal. O imaginário desempenha o papel de imagem do eu. A existência agora se expõe não mais submetida ao tempo. para um futuro que guardará a sua qualidade na memória. Continuar a vida significaria viver o efeito de cada instante e. mais na intenção de transmitir uma verdade exterior.

. buscando uma completa harmonia com o Cosmos.24-25). vol. entre permanência e transformação. pour ce que l’ arbre dit ” (GLISSANT. “Toute parole est une terre/ Il est de fouiller son sous-sol/ Où un espace meuble est gardé/ Brûlant. Como poetiza Glissant.Kátia Frazão Costa Rodrigues dos fossos e a colheita do passado” (GLISSANT.. 1965. Os verbos no presente do indicativo reforçam a idéia de que tudo é modelado a partir de uma presencialidade e que todo esse passado “móvel” depende da atualidade de um ponto da vista. onde o céu dança porque “da dor se fez uma palavra / uma nova palavra que multiplica”19. p. 1965.26). delineando uma subjetividade que irrompe para renovar a existência e florir a dura realidade. p. estão as duas poéticas. Diz o poetarizoma: Celui qui parmi les neiges enfante Un paysage une ville des soifs Celui qui range ses tambours ses étoffes Dans la sablure des paroles Attendant l’ ouverture des Eaux Le grand éclat des vagues Midi Plus ardent que la morsure des givres Plus retenu que votre impatience d’ épine Celui qui prolonge l’ attente Et toutes les mains dans sa tête Toutes splendeurs dans sa nuit Pour que la terre s’ émerveille Il accepte le bruit des mots Plus égal que l’ effroi des sources Plus uni que la chair des plaines Dechirée ensemencée . VIII. Assim. Ecoutant ruisseler mes tambours Attendant l’ éclat brusque des lames 154 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . Goiânia.

1965. Para tanto. 28-30) A palavra.. é o produto de uma consciência particular que se autoriza a falar em nome de uma causa. é aquela capaz de preservar a oralidade. a escrita traz à tona materiais inconscientes que emergem da subjetividade inquieta. 1965. Dessa forma. A subjetividade literária. aos impasses que concernem à existência. “nada liberta mais do que a obscuridade de um dizer”21. por exemplo. agora se faz representar por imagens. das opiniões e dos sentimentos do autor. num discurso truncado que funciona como ponte também para o acesso ao totalmente outro. 2007 . p. sem qualquer preocupação com a erudição ou com a legitimidade do proferível. Em outras palavras. como aponta Michel Zink22. também para Césaire. é preciso “contornar os lugares escolhidos da gravidade histórica”20 e invadir a opacidade. É a expressão das contingências que. pois como o poeta mesmo diz. de onde a resistência ressuscita em torno de alguns fantasmas. Je me fais mer où l’enfant va rêver. O real. mas a marca de um ponto de vista frente. que resistiu a toda simbolização. muito menos a efusão espontânea e verdadeira da personalidade. L’ éveil sur l’ eau des danseurs Et des chiens qui entre les jambes regardent Dans ce bruit de fraternité La pierre et son lichen ma parole Juste mais vive demain pour vous Telle fureur dans la douceur marine. se presentificam por uma voz que ultrapassa o 155 jul. pela presença em ausência de um conflito identificatório que se renova e ruma em direção ao espaço onde “Toda palavra se confunde / Com o silêncio das águas”. como diz Glissant (GLISSANT. criando espaços.A construção da identidade no Caribe. não é a simples expressão do real pelo simbólico. 21). Aparece no discurso como a qualidade de algo que se desenha dentro dos contornos de um eu também nada preocupado com o tempo ou com a necessidade de fugir dele. (GLISSANT./dez. libertária e própria das duas poéticas. particularizadas. reivindicadora. tornar frágil a aparência e captar o segredo das raízes. p..

É. pois como diz Glenadel. ainda que assim seja. só se encontre no silêncio e na comunicação interrompida. Talvez seja exatamente isso que exprime Césaire.. para o outro. despojando-se da fixidez de um pensamento e voltando-se para o desconhecido. assim como não se associa jamais à língua./ . dos homens. muitas vezes inesperada.Cito ainda Glenadel. enfim.. o eu se dissocia de sua língua. Goiânia. apostando. na diáspora. de expressão inevitavelmente estrangeira. a identidade “constitui uma promessa fundamentalmente incerta. Derrida24 afirma que. p. mostrando que a palavra ferida. de um discurso truncado. à cultura e à memória do colonizador. por assim dizer. A palavra rejeita toda mediação de uma lógica que desautorizaria o habitar em vários lugares e a expressão de um tempo que remete tão somente à interioridade. liberto das cronologias e de toda sinopse. investindo no novo. 1994. vol. sugerir uma promessa de vida na diversidade. talvez. promovendo a comunhão momentânea do poeta e do leitor. sob a forma.. porque vai de encontro às aporias do outro. parece revelar a existência dessa subjetividade que. n° 15 . aparentemente sem consistência.385).Kátia Frazão Costa Rodrigues real e a materialidade da escrita. se diz habitando vários endereços ou o lugar mesmo da indefinição. estruturalmente aberta que pode a todo instante converter-se em ameaça de fechamento numa identidade ou em ameaça de perda de uma identidade”. em aporia. A palavra se multiplica no poema. está sempre em movimento.chaque minute je change d’ appartement“ (CESAIRE. na busca incessante de um espaço próprio que. VIII. mas que anima tanto quanto uma paixão. recebida ou atingida. Habitar vários lugares sem deles se apropriar também é se permitir outras impressões. ao dizer: “j’ habite une blessure sacrée/ j’ habite des ancêtres imaginaires/ j’ habite un vouloir obscur/ j’ habite un long silence. como numa espécie de amnésia. que cita Derrida25: “uma identidade não é jamais dada. ao se repetir em heterogeneidade pela via do sonho. não. de sua cultura e de sua memória. na incerteza de um devir. de Césaire. apenas se 156 Revista Brasileira do Caribe. O poema “Calendrier lagunaire”23.

1965. A poesia personifica forças fazendo emergir o presente de uma subjetividade que vive unicamente cada instante. pela palavra que.. p. efeito da constante relação do sujeito com o mundo. o sentido do real e. o convida para a cena. Despojar-se é tarefa inquietante. ao caminhar. Assim. então. 2007 . 2003. une caresse dévolue Le soleil ici revenu Beauté de l’ espace ou otage De l’ avenir tentaculaire Toute parole s’ y confond Avec le silence des Eaux Beauté des temps pour um mirage Le temps qui demeure est d’ attente Le temps qui vole est un cyclone Ou c’ est la route éparpillée (GLISSANT. retórica que opera os movimentos de uma vida interior. Diz Zink: “On a vu que la poésie du dit. recupera-se cada herança ou “apartamento”.A construção da identidade no Caribe. elementos que. a representação do inconsciente. montre celui-ci aux prises avec les contingences du réel. au lieu de construire une image idéale d’un moi. ao mesmo tempo. p.142). a ser metáfora contínua. por sua vez. Na interseção dessa perspectiva: Savoir ce qui dans vos yeux berce Une baie de ciel un oiseau La mer. 21). pelo sonho. se desenvolve na voz do poeta. p.. E. que força hesitante a passagem do mundo interior para o exterior. Como deixa entrever Michel Zink. indefinidamente fantasmático da identificação” (GLENADEL. qui le déterminent et qui le façonnent” (ZINK./dez. também constroem a singularidade de todo dito ou do que se encontra em seu lugar. carrega consigo a 157 jul. somados. passa pelo processo interminável. 1985. a poesia liberta. A poesia passa. na medida em que se tem a consciência de que marcas não se apagam totalmente.48). na sua obra já citada.

1994. Atravessar 158 Revista Brasileira do Caribe. para além do discurso que separa significante de significado. que tenta recuperar as suas sensibilidades estética. mas caminham atraindo e colhendo o seu efeito. VIII. Goiânia. por isso. que irrompe surpreendendo e desarmando discursos prontos sobre o bem e o mal. uma trajetória descompassada e diferente de toda linearidade. a mesma que nos ensina. É. Neste sentido. assim. recarregada pela energia dos versos solares que não retornam ao lugar do drama. É. sem dúvida.Kátia Frazão Costa Rodrigues força dessa subjetividade. como realça Glissant26. que o essencial é: nu l’ essentiel est de se sentir nu de penser nu la poussière d’ alizé la vertu de l’ écume et la force de la terre la relance ici se fait par l’ influx plus encore que par l’ afflux la relance ici se fait algue laminaire (CESAIRE. 415). p. A construção dessa subjetividade implica uma travessia. inscrita no entretempo “da espera e do ciclone”. Seria. vol. a força que resiste a todo fechamento e impulsiona a existência para frente ao mesmo tempo em que a autoriza a olhar para trás. quem sabe. em Césaire. na confecção do seu produto arbitrário: a poesia. mas como agente modelador de uma exterioridade. n° 15 . A palavra também irrompe no discurso sob a forma de fantasia. produzindo abertura e fazendo com que o sujeito não opere mais como testemunha. também é possível pensar a subjetividade antilhana como potência de uma existência marcada pelo conflito identificatório. É. perfazendo. a força maior. provavelmente. tornando o ser inevitavelmente refém e senhor de todo “futuro tentacular”. o pássaro e o mar”. ética e moral. a força que faz embalar nos olhos uma “baía de céu. ponto de vista do eu sobre o eu.

ser irredutível.64). de toda promessa que se apresenta. uma realidade se expressa. que implica a afirmação de uma subjetividade e prevê a busca do ser em si segundo Lacan. não um conceito formal que classifica indivíduos. marcado desde sempre pelo outro. a tradição ocidental acabou produzindo a cisão do sujeito. de toda possibilidade também nova de ser. Nesse caso. pois requer a manutenção. de passado e de presente. mas quando nos leva a descobrir os traços que estruturaram a alienação e a individuação. deslocamentos. compõem o esboço primeiro do subjetivo.. p. pois cada vez que algo ou alguém é suposto. subgrupos. Segundo o filósofo Jean-Luc Nancy. então 159 jul. Nancy deixa entrever que nem o ser.A construção da identidade no Caribe./dez. principalmente quando se trata de um povo nascido da diáspora. Ademais. 2000. tal como pensou Lacan ao descrever a entrada na fase do espelho. e pressupõe negociações. a tradução–transporte de significados relativos à subjetividade que se expressa no universo da escrita–pressupõe a necessidade de uma desconstrução do pensamento eurocêntrico. o mesmo já seria necessariamente outro. nem a sua suposição podem ser concebidos num único sentido. Na perspectiva derridiana de pensamento. é também uma tarefa angustiante. como mémoire reconquise (memória reconquistada) de um instante (GLENADEL. etnias ou nações.. 2007 . ao se expor. em hospitalidade. Supor e aceitar a existência dessa subjetividade. de agitação e de paciência. disposição nem sempre confortável. unidos por um duplo gesto. na sua busca insistente por definições estáticas do Homem. múltiplo e historicamente mutante. Glenadel27 também ressalta que essa promessa alimenta-se daquilo que fica como seu pano de fundo. manifestando a abertura ética para o outro. No seu texto Un sujet?28. como justiça por vir. deslizando pelos significados construídos. A busca por uma subjetividade – qualidade ou caráter do subjetivo – só é valiosa quando se espera como resposta. a passividade e a resistência. misto de individual e de coletivo. se a identificação. confrontando o real e o simbólico que. momento arriscado de busca em que o ser assume papéis imaginados. o discurso é se manifestar pela resistência.

de la ferveur et de la lucidité. p. dialogando com a sua própria negatividade. claudicant et binaire. et l’orient et l’ occident. l’ air est hostile . Assim. c’est un fil des saisons survolées. por conseguinte.. Il faut choisir. connue des martins-pêcheurs aux songes funèbres. p. “ (CESAIRE. quando diz: Le non-temps impose au temps la tyrannie de sa spacialité : dans toute vie il y a un nord et un sud .Kátia Frazão Costa Rodrigues essa procura só pode ser em favor de uma referência implícita heterogênea e. polifônica. soit dans la terre. 1994. Ainsi va toute vie. esboço também primeiro de uma subjetividade. cette entreprise de bâtir le paysage ? – parfois le coeur est écrasé. entre montagne et mangrove. parfois la main s’apaise – et la lumière monte des choses comme une parole d’ architecte (GLISSANT. no exercício de reconhecimento e aceitação das próprias diferenças. na tentativa de desmistificação do exotismo.. tronc noir et nu. 386). E. Césaire anuncia: “frère n’ insistez pas/ vrac de varech/ m’ accrochant en cuscute/ ou me déployant en porana/ c’ est tout un . 1994. vol. Ainsi va ce livre. E é Glissant quem diz que Maintenant les sables sont d’ autre clarté. il faut venir! soit par la mer. 35). p. n° 15 . alguém de Platão29. Au plus extrême.. l’ inégale lutte de la vie et de la mort. au carrefour.383) Essa nova perspectiva de ser também abre a possibilidade do Tis.. entre chien et loup. na escrita 160 Revista Brasileira do Caribe. VIII. la saviez-vous. la force aussi toujours de regarder demain. ou. Le temps aussi de régler leur compte à quelques fantasmes et à quelques fantômes (CÉSAIRE. fût-ce celle du désespoir et de la retombée. 1965. entre soleil et ombre. pour le moins. Césaire também parece revelar o segredo de toda a existência. ao atentar para a similaridade percebida na descrição do drama. numa espécie de experiência de si como outro e do outro como si. na ressonância de uma mesma voz. Goiânia. Et puis. se relacionar consigo mesmo.

marcada pela auto-fragmentação e vitimização do negro antilhano e. o sujeito só acontece quando e enquanto se expõe. ao comprometer exterioridade e interioridade. ao buscar o seu espaço próprio. Nesta perspectiva. além disso. sem dúvida. porém nem mesmo assim garantiria a sua essência./dez. A correspondência que se vislumbrou entre os fragmentos poéticos de Césaire e de Glissant vem marcar esses últimos tantos traços que apontam para um ser que caminha rumo à presença em si como mesmo e. no movimento de resistência voltado para um devir. faz irromper uma subjetividade como fantasma. como constante novidade do Cosmos. o sujeito pode ser aquilo que um significante representa para outro significante.A construção da identidade no Caribe. em toda a sua 161 jul. o que ela tem de mais próprio: o seu caráter de “re-nova-(a)ção”. mas também o que emerge deles no espaço de um instante. marcada pela presença do eu e do outro sempre em processo. seja entrevista pelo seu fechamento.. concluo acreditando que a escritura antilhana é.. 2007 . tornando frágil a aparência. As poéticas de Césaire e de Glissant traçam trajetórias que se entrelaçam em alguns pontos para mostrar que existe uma unidade na diversidade antilhana. a afirmação do eu antilhano inclui também a sua negatividade. Qualquer tentativa estática da sua definição descaracterizaria. portanto. o antilhano. da mesma forma que deve ser entendida a qualidade do que lhe é próprio. mas a qualidade do seu último traço. Tanto Césaire quanto Glissant são sujeitos dessa nova ordem simbólica. a marca de um apelo que. Voltando sempre como atualidade. entender a Crioulidade ou a Antilhanidade como um contraponto da Negritude e essa como essencialista e eurocêntrica é seccionar o movimento da história e não reconhecer o outro. renovando a existência pela libertação contida no ato de contornar a gravidade histórica e invadir a opacidade. no qual a palavra ferida se libera e traz à tona o inconsciente. ao mesmo tempo. Segundo Nancy. Sendo as várias vozes de uma suposição. que não se apaga por completo e reincide para atestar a exterioridade que a constituiu. seja reconhecida pela sua abertura em direção ao outro. O sujeito só é como possibilidade.

p. In: Afrik. publicada em 1939 pela Revue Volontés. VIII. talvez. 9 LACAN. É preciso repetir que “durante muito tempo a voz do homem se perdeu nos templos por obscuro que era o caminho até o templo! e esse mar. 4 GLISSANT. onde o autor utiliza pela 1ª vez o termo négritude. ainda sobredeterminado por uma lógica narcísica que nega parte do amplo processo que vem constituindo essa grande Crioulização. 1965. vol. 19-20). Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. porque a história tem mostrado que é na complexidade que o humano se afirma e pode ser afirmado. Notas 1 Le Petit Larousse. constante no site: http://www.Kátia Frazão Costa Rodrigues diferença.1991. É de lá que se ouve a voz de alguém dizendo eu. p. Paris: Seuil. 1994. 1ª obra de Césaire . A obra consta da coletânea intitulada La Poésie.11. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse. 10 FINK. p.171. Nova Fronteira. como diz Césaire. por um fogo e por um desmame”. É preciso fugir das armadilhas da síntese. entre a linguagem e o gozo. Ernest Pépin em entrevista concedida a David Cadasse. 2 Il ne faut pas opposer négritude et créolité. 1965. 1975. segundo o poeta-rizoma (GLISSANT.html. O sujeito lacaniano.afrik. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998. Séminaire. E. p. 1994. Paris: Seuil. porque “toda carne se ramifica. de presença e de ausência.. 85)..” (GLISSANT.com. sobretudo. le portail de l’Afrique. n° 15 . Poèmes. edição 2001 e no Novo Dicionário Aurélio. ed. 162 Revista Brasileira do Caribe. p. tender o olhar numa só direção e permanecer. em 03 de agosto de 2004. 6 La Poésie. 1965. edição escolhida aqui para essa e as demais referências sobre o autor. 5 Cahier d’ un retour au pays natal . J. entre cachorro e lobo. É na diversidade que caminha. 7 ibid. É.383). 3 Termo que designa a resistência dos mulatos fujões. 21. toda vida: “entre sol e sombra. entre montanha e pântano. Paris: Seuil.. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. 1965. 1994. p. Bruce. na aurora e na noite. 8 GLISSANT. Goiânia.com/article7507. claudicante e binária” (CESAIRE.

Tradução. p. p. Eloge de la créolité. 1975. La poésie. 89 GLISSANT. Paris: puf écriture. 56 Cf. 25 Ibid. Niterói: Eduff. 23 ibidem 24 DERRIDA. 1994. F. traduzível por Eu. Pour une littérature mineure. laminaire. 20 CESAIRE. 1994.In: La Poésie. p. CHAMOISEAU. 53. p. p.. p. Un sujet ? In: Homme et sujet.53... G. 521. n.21. p. 472. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia”. “Tradução. FINK. Bibliografia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 27 GLENADEL. CÉSAIRE. desconstrução../dez. 163 jul. 23 ibid. O sujeito lacaniano. p. 2007 . In: Revista Gragoatá. 26 GLISSANT. Chico science”. P.. DELEUZE. v. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima.1996. 1985. 28. 45 ibid ..8. 29 Ibid. p. 8. 29 Ibid. 48. R. 1994. GUATTARI. 1965. 12 GLENADEL.. 391. Niterói: Eduff. E. J. M. 11 Título da sua obra Moi. “Entre mangue e manguetown. 2 34 CESAIRE. p. Paris: Galilée. 397. 2 78 Cf 14. 1989. M. In: Revista de Letras. p. 2003.A construção da identidade no Caribe. São Paulo: Universidade Estadual Paulista. La subjectivité littéraire. P. p. BERNABÉ. La Poésie. Poèmes. A. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. P. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales. Le Monolinguisme de l’ autre. P. A. In Revista Gragoatá n8. Paris: Seuil.15 67 ibid. CONFIANT. 2000. J.53. laminar. Paris: Seuil. 1994. J.396. entre a linguagem e o gozo. Le monolingüisme de l’ autre. A. Paris: Minuit. 2000. La Poésie. 28 NANCY. Paris: Gallimard. GLENADEL. p. 43 (1). 22 ZINK.. J.. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia. 1994. 1965. desconstrução. 1998..L. DERRIDA. p. Paris: Galilée.. 1996c. Kafka.

Site: http://www. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse.1991. Paris: Seuil. 1965. Chico Science”. ________. 1985. 1966. E. In: Écrits.afrik. “Subversion du sujet et dialectique du désir dans l’ inconscient freudien”. LACAN. M. Paris: Seuil. “Un sujet ?” In: Homme et sujet. La subjectivité littéraire. GLISSANT. São Paulo: Universidade Estadual Paulista.___________. Séminaire. J.“Entre mangue e manguetown. 2003. J. Poemes. 1994. NANCY. 43 (1) 47-56. Paris: Puf écriture. In: Revista de Letras.com/article7507. Paris: Seuil.-L. ZINK.html 164 .

Trinidad século XIX Alexandre Martins de Araujo “O que você faria se não pudesse fazer nada? Até onde você iria se não pudesse sair? Quem você seria se não fosse ninguém?” 1 Abstract This essay looks at the historical process of settlement of the immigrants Indians community in Trinidad during the nineteen century. Indians Inmigrants Resumo Durante o século XIX. destinado a controlar o dia-a-dia dos trabalhadores nas fazendas. foi instituído um rigoroso conjunto de regras e normas destinado a controlar a qualidade. diferente daquele previsto no conjunto de leis.Plantation legal. n° 15. tanto para os fazendeiros como para as populações afro-descendentes recém emancipadas. Keywords: Indians Immigrants. vol. Assim. a substituição de trabalhadores negros livres por indianos causou grande atordoamento. adequado a natureza plural de sua paisagem humana. VIII. Thus. Goiânia. The main question that emerges from this process is exactly the phenom of cultural recreation and establishment of the Indians social institutions in face of so powerful policy of the westernization imposed upon all work population of that island by the British colonial government. 165-195. as circunstâncias históricas ali vividas possibilitaram a gestação de um sistema de convívio. 2007 165 . o convívio e o volume de trabalho dentro das fazendas. we’ll try to observe the historical conditions by which some vital social institutions of the Indian community amalgamated in that colonial social environment. nas Plantations de Trinidad. Tratava-se de um sistema aberto de relações. Contudo. porém. de difícil *Artigo recebido em fevereiro de 2007 e aprovado para a publicação em março de 2007 Revista Brasileira do Caribe. Trinidad.

Alexandre Martins visualização. pois para entrar e sair dessa outra Plantation – a que tomei a liberdade de chamar de Plantation Plural em oposição a uma Plantation Legal. A outra se identifica na etno-história. Palabras Claves: Plantación. No nosso caso. 166 Revista Brasileira do Caribe. o mais perto possível. duas diferentes correntes discutem a presença indiana nas Plantations. era necessário possuir as chaves simbólicas. onde se utilizou. Goiânia. sobretudo. VIII. nos dedicamos ao sistema Plantations de Trinidad pós-escravidão. a mão-de-obra indiana. n° 15 . nesse caso. vol. concentrando suas observações na perspectiva dos grupos sociais e das práticas culturais cujos esforços tentam identificar fenômenos de mudanças e adaptações. a pesar de la poderosa política de colonización impuesta por el gobierno británico. nenhuma dessas duas tendências se encontra consistente ou rigidamente definida. imigrantes indianos. durante o século XIX. Palavras-Chave: Plantations. em particular. Resumen Este ensayo analiza el proceso histórico del establecimiento de los inmigrantes de la India en Trinidad durante el siglo XIX. as ênfases vão à direção da experiência indiana no interior das Plantations. Em termos historiográficos. Inmigrantes indianos Muitos foram e são aqueles que se dedicam à tarefa de aproximar. somente eram apropriadas nos espaços intersticiais das relações. das experiências humanas vividas no interior das Plantations. Para o historiador indo-descendente de Trinidad. Haraksingh (1981). son los aspectos de más relieve en esta investigación. de suas condições de trabalho. Trinidad. Los fenómenos de la recreación cultural y la permanencia de las instituciones del país de procedencia. e essas. largamente. Essa primeira tendência se baseia em fontes oficiais do governo da colônia e registros particulares locais. Uma conduz as investigações tomando os indianos essencialmente como trabalhadores nas fazendas. Trinidad.

ai g u r F “Waiting for the Races”. nos aproximar da experiência indiana nas Plantations do século dezenove. afetados pelo sistema Plantation de Trinidad. At least a christmas in the West Indies. Charles. 1872. os fatores evidenciados tanto numa quanto noutra das tendências acima mencionadas. Fonte: KINGSLEY. esforçar-nos-emos para trazer a lume a maior porção possível da realidade histórica vivida por aqueles que um dia se sentiram. direta e indiretamente. 2007 ./dez. assim como outros historiadores fizeram antes. porém procurando valorizar. London. 167 jul. por igual. Em linhas gerais.Plantation Legal: Trinidad século XIX Neste estudo tentaremos.

local onde são produzidas. a nossa visita ao interior das Plantations de Trinidad pela seguinte pergunta: O que exatamente significava. tanto das estratégias metodológicas utilizadas por Ranajit Guha2 em seus estudos sobre a Índia colonial. instituídas pela administração colonial em conluio com os proprietários de terras. inibidores das vozes subalternas. balanços anuais. todavia. esteja sob a forma de contratos particulares ou de leis juramentadas. tratam-se de documentos cujos teores e formas foram moldados por mãos de pessoas ligadas às elites locais. comissões reais. relatos de viajantes europeus e diários de missionários religiosos. portanto. vol. tê-los. inquéritos. da enorme dificuldade encontrada pela maior parte dos historiadores em apreender as “vozes subalternas”. ou melhor. No entanto. reunimos um conjunto variado de fontes: relatórios oficiais. impregnadas com as crenças de quem as 168 Revista Brasileira do Caribe. a população indiana e sua presença naquele espaço e tempo? Tal questionamento nos lança diretamente para o ambiente histórico ao qual desejamos entrar. ao desconstruirmos tais políticas de controle. ganharemos acesso aos significados e sentidos atribuídos aos imigrantes indianos por aquelas pessoas interessadas em vê-los. entre outras coisas. Dito de outro modo. jornais de época. dentro das Plantations. Para empreendermos essa tarefa. estão sempre acompanhadas de práticas discursivas. leis de imigração.Alexandre Martins Sabemos. Em face disso. principalmente no interior de sistemas autoritários e fechados como era o caso das Plantations nas colônias inglesas. Acreditamos que. Começaremos. em suas análises sobre o discurso colonial britânico na Índia no século XIX. Goiânia. as políticas de controle dos trabalhadores. então. n° 15 . todos os sistemas coloniais de controle de trabalhadores. enfrentaremos o dilema da supressão dessas vozes lançando mão. como também da estratégia “desconstrutivista” valorizada por Bhabha3. sensos. para a elite local. ou seja. o centro de inteligência das Plantations. portanto. VIII.

Plantation Legal: Trinidad século XIX

produziu. Todo discurso, para Bhabha, é uma prática significatória, ou seja, “processo que postula a significação como uma produção sistêmica situada dentro de determinados sistemas e instituições de representação – ideológicos, históricos, estéticos, políticos” (JUNIOR, 2004, p.113-133). Mas antes de adentrarmos o espaço ao qual denominamos de o centro de inteligência das Plantations, faz-se necessário uma breve mirada para o contexto histórico, em torno do qual aportou em Trinidad, o famoso “Fatel Rozack”, o primeiro navio a transportar imigrantes indianos para Trinidad: “Em março de 1845 Thomas Caird anunciou em um despacho ao ministério do interior, ‘eu tenho a honra em informar... que enviei o Futtle Rozack para Trinidad” 4 (Tradução nossa). Inicialmente, podemos dizer que a Inglaterra chegou a Trinidad relativamente tarde, em relação à exploração do açúcar nas Antilhas, pois foi já no apagar das luzes do século dezoito (1797), que ela tomou de assalto aquela ilha das mãos da coroa espanhola e, nesse caso, é bom lembrar que a exploração do açúcar vivia aquela época o seu momento de maior esplendor entre as demais colônias americanas. Para o historiador sul africano Sookdeo (2000, p. 253), o propósito da ocupação de Trinidad foi de natureza menos econômica e mais militar. Seja como for, assim que a administração colonial britânica se instalou em Trinidad, não teve dúvidas quanto à necessidade de tomar parte nos negócios do açúcar. Já em 1799, o primeiro governador inglês de Trinidad, General Picton, escreveu à coroa britânica informando-a de seu posicionamento quanto às condições favoráveis de transformar Trinidad em uma colônia de produção de açúcar:
Trinidad será considerada como uma colônia açucareira, as terras sendo, em quase toda parte, mais favoráveis à produção de cana do que café ou algodão. A quantidade de terras a serem concedidas dependerá certamente dos meios de cultivo, mas tudo considerado à pequena classe de plantadores de

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cana não pode compreender menos do que 200 acres de boa terra, das quais 100 acres para cana, 50 para pasto e 50 para terrenos de negros, estabelecimento e eventualidades. Uma plantação dessa categoria, conduzida a um máximo de economia requererá um capital de aproximadamente £ 8,000 libras esterlinas 5 (tradução nossa).

A cana então substituiu o algodão devido a uma praga, porém, ele e outros gêneros continuaram sendo produzidos na ilha. Nessa época, Trinidad ainda estava longe de se tornar um modelo de monocultura e o negócio do açúcar se mantinha sob o domínio de mercadores e de intermediários ingleses donos de navios. Estes controlavam o fluxo de mercadorias e escravos na ilha negociando com o continente devido às vantagens oferecidas pela política fiscal de importação. Todo esse alvoroço atraiu para Trinidad um grande número de estrangeiros à procura de enriquecimento rápido. Conforme os registros da época, no ano de 1826, exatamente oito anos antes da emancipação dos escravos, Trinidad conheceu a sua maior safra de cana. Por esse motivo, quando os indianos chegaram à ilha, no ano de 1845, os ingleses ansiavam por uma produção ainda maior do que aquela obtida sob o regime de escravidão. Uma vez que a superação daquela safra significaria, entre outras coisas, a certeza do sucesso da utilização da mão-deobra indiana e, por conseguinte, o arrefecimento das oposições a tal sistema. Entretanto, assim que os indianos chegaram, foram vistos pelos proprietários de terras, tanto como um benefício, quanto como um dilema. Quer dizer, se por um lado eles representavam a esperança de superação da aludida escassez de braços adaptados às condições oferecidas nas Plantations, por outro, eram vistos como uma nova e incômoda realidade a qual esses proprietários teriam que se adaptar, pois se tratava de uma mão-de-obra remunerada e de permanência limitada, apenas cinco anos, conforme contratos firmados antes do embarque. Assim, a imagem que se forma, a partir desse quadro, é a de

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uma classe de plantadores completamente insegura quanto ao rumo de suas empresas, já que todas aquelas novas situações eram, de certa maneira, diametralmente opostas ao modelo escravista até então praticado. Em outros termos, o que lhes asseguraria o pleno sucesso da utilização da mão-de-obra indiana em face de, por um lado, os riscos sobre o capital investido no processo de contratação (transporte, alimentação, hospitais, roupas e pagamento de salários) e, por outro, a concorrência externa, sobretudo, devido os novos rumos que tomara o comercio internacional do açúcar por aquela época? Em razão disso, é natural aceitarmos a idéia de que todas as atenções dos plantadores estivessem voltadas para a relação custobenefício, atinente ao processo de contratação da mão-de-obra indiana. Portanto, não seria exagero de nossa parte pensar que os indianos contratados (Indentured Indians) 6, de início, não significassem para os plantadores nada além de músculos e ossos a serem aplicados nas lavouras de cana-de-açúcar. Nesse sentido, não nos restam dúvidas quanto ao fato das circunstâncias históricas terem apontado para os plantadores a necessidade de impor, aos imigrantes indianos, um regime autoritário de trabalho. E para garantir o controle dos trabalhadores indianos dentro das Plantations, foi elaborado um extenso conjunto de leis, difundido por meio de documentos ultramarinos denominados pela administração colonial britânica de Regulamentos de Imigração para Trinidad e Guiana Inglesa (Immigration Ordinances of Trinidad and British Guiana). Neles, os imigrantes indianos eram denominados simplesmente de Indianos Contratados (Indentured Immigrants). Dirigir-nos-emos, então, a partir daqui, para o ambiente ao qual denominamos de centro de inteligência das Plantations, olhando, primeiramente, na direção do conjunto de leis, constituídas para assegurar o cumprimento dos contratos e, por conseguinte, controlar a vida diária dos indianos no interior das Plantations. Em meio a tal conjunto de leis, somente algumas buscavam

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assegurar a efetivação de alguns direitos adquiridos pelos trabalhadores indianos, quando da assinatura dos contratos. Tratavase de normas que versavam sobre a condução das jornadas diárias de trabalho em termos, por exemplo, da quantidade de horas a serem cumpridas, do salário condizente às tarefas realizadas, do direito a assistência médica e do direito de denúncia por abusos sofridos no interior das Plantations. Neste caso, as denúncias deveriam ser feitas a oficiais designados pelo governo à proteção dos indianos contratados, os chamados Protetores de Imigrantes (Protector of Immigrants). Numa visão de conjunto, quase a totalidade das leis visavam assegurar uma política de contenção de imigrantes dentro das fazendas. Obviamente que, se o controle total sobre os trabalhadores indianos era o que mais importava a todos aqueles que dependiam, direta e indiretamente do sucesso da utilização da mão-de-obra indiana, é de se supor que as leis de regulamentação do Indenture System, tendessem para a satisfação das necessidades desses beneficiados. No entanto, do ponto de vista jurídico, o formato das leis não parece, à primeira vista, tendencioso, ou seja, na mesma medida que há punição destinada ao contratado, há, também, para o contratante, caso venham descumprir qualquer uma das cláusulas nele previstas. Todavia, nenhum sistema legal é auto-explicativo, por isso torna-se mister analisá-lo à luz de outras fontes do mesmo período. Começaremos, então, a sua análise por aquilo que nos pareceu mais recorrente em toda a sua extensão, ou seja, o aparentemente inocente termo, “Indentured Immigrants”, usado em todas as suas cláusulas para se referir ao trabalhador imigrante indiano. Se olharmos mais profundamente para a sua utilização, no âmbito das leis de regulamentação do Indenture System, ou, Sistema de Contratação, veremos que a naturalização do termo indenture, não somente nos documentos oficiais, como também nos discursos da elite, carregava uma intenção velada de eclipsar qualquer traço que pudesse ligar os indianos a alguma imagem de autonomia social. Pois quando se pronuncia o termo imigrante contratado, nota-se
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que na palavra que dá qualidade ao sujeito (contratado), não há nada que permite ligar o sujeito (indiano) à sua trajetória de vida ou mesmo ao lugar de onde veio, mas antes, a um acordo (um contrato). Isso faz com que o usuário da língua desvie o pensamento do substantivo (indiano) para as possibilidades de apreensão do significado da palavra contratado. E as imagens primeiras que afloram do signo Contrato são aquelas ligadas a alguma forma de prestação de contas; assim, a imagem do sujeito (o indiano), se funde aos referentes do signo Contratado, possibilitando ao usuário da língua um raciocínio lógico do tipo: se um contrato pressupõe algum benefício para o contratado, este deve prestar conta daquilo que contratou, logo, ele deve ressarcir o contratante (no caso o plantador), as despesas consoantes aos benefícios consumidos; no caso dos indianos contratados, a viagem, a alimentação, os cuidados médicos, as roupas etc., sob a forma de trabalho. Desse modo, podemos afirmar que o apelo mais forte atribuído ao uso do termo Imigrante Contratado era minar as possibilidades de o trabalhador indiano impor qualquer tipo de autonomia, uma vez que os sentidos construídos pelo uso constante de tal termo, funcionavam como uma espécie de “luz vermelha” sinalizando para o imigrante sua condição primeira de devedor perante o proprietário da fazenda. Em linhas muito gerais, nota-se uma tendência, entre as diversas leis desse conjunto, de precaver o lado do contratante, no que se refere a duas situações: por um lado, o risco de o trabalhador se ausentar da fazenda, durante a execução de uma dada tarefa e, por outro, é atribuído um excessivo peso a tudo aquilo que é considerado ofensa ou negligência por parte do contratado. No entanto, parece contraditório o fato de, se por um lado as leis tentavam, de toda forma, dificultar a saída do contratado, inclusive, descontando de seu salário o dia de trabalho em que ele se ausentava para se queixar ao protetor de imigrantes abusos sofridos ou descumprimento de seus direitos assegurados no contrato; por outro, vê-se um total relaxamento nas permissões para o trabalhador se ausentar, caso ele tivesse ganhado certa
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sem dúvida. ou outra pessoa empregada na plantação. tanto o uso do termo Imigrante Contratado. um possível acordo entre proprietários de fazendas e proprietários de comércio. vol. estão sujeitos a serem encontrados em desvantagem o que pode terminar em multas ou prisões 8 (tradução nossa). foram.Alexandre Martins quantia em dinheiro. objetivava funcionar tal qual o famoso “sistema de barracão”. VIII. pelo menos. n° 15 . Numa palavra. chamamos de “liberdade condicional”. porém. (. tampouco sobre tal fazenda ou ao alcance de cinco milhas dela” 7 (tradução nossa). capataz. as inúmeras condenações judiciais devido às acusações de descumprimento das leis que versavam sobre ofensas atribuídas ao patrão e negligências durante a execução de tarefas. independente do seu grau de dificuldade. arriscamo-nos em dizer que.) É perfeitamente possível que eles possam ser acusados diante de um juiz sob a denuncia de agressão. Goiânia. quanto as permissões de afastamento da fazenda. qualquer tarefa exigida pelo patrão. no primeiro caso. pois voltaria para a fazenda se sentindo constrangido a aceitar. incapazes de falarem a linguagem das classes inferiores aqui correntes. em termos das injustiças que sofreram durante a permanência nas fazendas. ou seja. Contudo. principalmente porque uma das leis previa que o trabalhador executasse qualquer trabalho desde que compatível com sua qualificação física. soldado.. no lugar de uma dívida material. moral. uma vez que “Nenhum comércio deve ser mantido por qualquer patrão. sem nenhuma resistência. 174 Revista Brasileira do Caribe. uma dívida simbólica. Tal contradição nos leva a supor a existência de. pois estar preso a um contrato é o mesmo que estar sob juízo de sentença.. próximo àquilo que no sistema judicial atual. Segundo. e. após o trabalhador ter juntado certa soma em dinheiro. era conveniente para o patrão que o trabalhador esgotasse as suas reservas financeiras na cidade. inspetor. o que consideramos ter sido “a pedra no sapato“ dos trabalhadores indianos. cocheiro. duas intenções subliminares: primeiro.

Isso por que. Bastava apenas que o capataz. declarasse o mal uso de algum equipamento da fazenda para se consumar 175 jul. o tradicional chicote. uma vez notificado sobre a execução imprópria de seu trabalho. sob a alegação de práticas indevidas. alegasse ter ouvido da boca de um indiano. o imigrante contratado deveria refazêlo. de forma extrajudicial. sob pena de sofrer condenações consoantes a tal alegação. usado contra os escravos. entre os coolies da fazenda e o corpo administrativo.. e as quais eles não somente recusaram fazer como também mostraram fortes sinais de hostilidade. foi substituído por uma outra arma igualmente eficaz em termos de alertar o trabalhador quanto a sua pequenez diante da força do patrão. 9 (tradução nossa). 2007 . Sob a veemência dessa informação dois policiais a cavalo foram mandados com a intenção de apaziguar a desafeição.) os outros escaparam ilesos somente por causa do instinto de seus cavalos que coicearam os agressores a distância. previstas no sistema de leis. porem eles foram recebidos por uma irada recepção dos coolies que os repulsaram e os injuriaram (. também a que causava maiores distúrbios era a acusação por má execução de uma dada tarefa. Na ultima quinta feira a polícia recebeu informações de que um sério distúrbio havia ocorrido na fazenda Cedar Hill. imediatamente. a mais freqüente e.Plantation Legal: Trinidad século XIX Entre as condenações por ofensas./dez. designada ao indiano por um superior da fazenda. Tratava-se da prática de descontar do salário do imigrante contratado certa quantia.. Num certo sentido. um dos proprietários da companhia Colonial. ou qualquer outro funcionário superior da fazenda. ou. surgido de um desentendimento causado por coolies terem executado impropriamente certas tarefas as quais eles foram requeridos para completar. uma palavra ameaçadora.

seõrtap so artnoc áj saferat ed otnemagap reuqlauq repmorretni ed rodagerpme .sairáid saferat saus ed mif oa oçemoc od . VIII.serodahlabart soa otnuj soirálas saditemoc etnematsopus sasnefo ed asuac rop .setnargimi lageli oãçneter ed acitárp a raicnuned ed méla siop .arodeceralcse sadasu mare oãn siel sa euq ed otaf o aicnedive mébmat .saicnêgilgen uo/e sasnefo ed seõçasuca oa .sodasuo siam ..( ed sadnezaf san sodagerpme .siacol sianroj snuglA .( edaditnauq amu .adived ale a socilbúp serfoc sod airgnas a meraicnuned soriednezaf so euq osu uam o mébmat raicnuned arap mavatievorpa .soirálas ed o aibiorp euq . n° 15 .911 .raicnedivorp omoc rebaS )..racúça-ed-anac mes adacitarp etnemetnetsisrep e otium a odis met . Goiânia.. vol.açitsuj/sodatartnoc .sadalortnoc oãs salum sa omoc oãçudart( 01 .ocilbúp oriehnid od atsuc à ..majes otnemidecorp lat ed açitsujni ad san .( .ºN ed iel a etnemlapicnirp .anaidni oãçargimi à soirártnoc .etnemetnedive otiuM .sodagerpme e seõrtap ertne ed etnaid ri euq meret ed seõçaloma e sotsag .Alexandre Martins .odagerpme olep sadazilaer so etnemadanimircsidni reted ed etnanimoderp emutsoc O ).)asson ..sianroj sortuO /oãrtap seõçaler sad laretalinu retárac o etnematreba mavaicnuned é oxiaba aton a .otnop oa oterid mai .ossid rasepa ..seilooC ralortnoc é .ossi a otnauQ ..sele rop .sotnemicerroba 176 Revista Brasileira do Caribe.acitárp an setnega oãs euq seleuqa sodot ed setnem o res ed amrof amu otsin agrexne euq oãçagela ariejnosil amu sadnetnoc recelebatse ed selpmis siam e otruc siam ohnimac so rative ed oiem mu e .serosivrepus e sezatapac sod odigixe é euq o odut .saus sad mif oa oçemoc od .rezid reuQ .sotisóporp so sodot arap sovres ed etneicifus lat .ahli atsen eicépse reuqlauq ed lagel aicnêrefretni uo odomôcni setneicsnoc etnemanelp saossep euq rarimda es ed é oãn euq o a sadavel .olpmexe osoicinrep o meriuges etsixe .setnargimi sessed maizaf me odidecus meb oãt odis met onrevog osson o sam )..

. a primeira da qual impôs ao plantador a manutenção de um livro de atividades para conter todos os dados para identificação de todos os imigrantes../dez. que provavelmente seria uma supervisão da parte de autoridades médicas. a uma exclusão de questões igualmente importantes que afetavam outras raças..Plantation Legal: Trinidad século XIX um juiz por causa de todas insignificantes ofensas cometidas por um trabalhador na fazenda. o jornal local. e inquestionavelmente mais conveniente para um capataz ou supervisor reter Cinco dólares do pagamento do trabalhador por motivo de roubar uma cana. dava sinais de desconfiança em relação ao comportamento dos encarregados da justiça de Trinidad. É infinitamente mais fácil. Kelvin Singh. durante a reorientação dos regulamentos de imigração. ou por qualquer outra suposta quebra das regras da fazenda. Segundo o historiador indo-descendente. que nos não podemos a não ser anotar as investigações que correm de tempo em tempo sobre os Coolies e os chineses pagãos 12 (tradução nossa).. qualquer sentença da corte fora alguma vez feita contra um patrão ou membro da equipe administrativa da fazenda”. No ano de 1876. de modo que a segunda clausula oferece recursos para o imigrante procurar residência industrial antes que a total conclusão de seu contrato fosse apresentada.. Na última reunião do conselho legislativo.. “existe pouca evidência para sugerir que antes dos inícios dos anos de 1880. propôs três novas cláusulas. Tão difundidos eram os sentimentos filantrópicos derramados sobre a imigração de Coolies. Possivelmente foi para convencer o governo que eles estavam de fato empenhados na doutrina de proteção do imigrante..13 177 jul. do que é correr o risco e aborrecimentos de ter que dar prova de tal acusação perante um magistrado 11 (tradução nossa).. ou semelhante soma em nome de maltratar uma mula. New Era. e a descrição das tarefas diárias executadas. A terceira sugestão era uma questão de rotina hospitalar. o honorável Sr. Smyth. 2007 .

Temos ouvido ultimamente uma considerável quantidade de notas ditatoriais de autoria do juiz de St. Mitchel. Joseph. É.. e ainda alguém que aparentemente não percebeu a direção e tendência desses endossos. caso nos podemos julgar pela passividade de seus atos em relação a eles. nesta parte da ilha. recorreremos a um aprofundado estudo levado a cabo por Sookdeo (2000. em oposição à discriminação dos coolies) fosse condenando coolies contratados a trabalhar na fazenda Paradise.. motivo de desapontamento que circunstâncias assim coincidissem de tal modo que aquele ato inadequado do juiz nesse respeito teria (num senso mundano) uma inclinação rumo ao benefício do oficial protetor e legal dos coolies 14 (tradução nossa). É alguma coisa estranhamente sugestiva que a maior parte dos endossos (que são relatados como sendo inadequados. Para ampliarmos a nossa visão sobre o grau de aplicação das leis sobre os trabalhadores nas fazendas. feito pelo juiz anteriormente aludido. executar meses extras de trabalho como dias perdidos.Alexandre Martins (tradução nossa). naturalmente supomos apoiado pelo chefe do departamento de imigração. não eram incomuns as denúncias sobre protetores de imigrantes envolvidos nos negócios da cana-de-açúcar. de qualquer modo. De fato. Goiânia. Esse Dr. embora não distante da linha seguida por outros semelhantes juizes. p. nos faz julgar o oficial distribuindo justiça. no qual foram levantadas as estatísticas sobre o volume de 178 Revista Brasileira do Caribe. como um homem particularmente perigoso. de propriedade do Dr. . 110-122). o Protetor de Imigrantes. ao término de seus contratos. Também. que. n° 15 . É a respeito de nada mais nada menos que um importante personagem. vol. e também como sendo uma vantagem desonesta em favor dos proprietários de fazenda. essas evidências nos levam a refletir acerca do grau de autonomia que os fazendeiros teriam alcançado junto ao sistema judiciário implantado naquela colônia. VIII. que nos refletiremos a dúvida sobre alguns endossos de dias perdidos de Coolies nas fazendas. Mitchell é Protetor de Imigrantes. e ainda.

257 endividamentos. nos anos de 1872 e 1873. Somente no ano de 1870 foram registradas 2.Plantation Legal: Trinidad século XIX condenações. Segundo os dados por ele reunidos. Desse total. Sookdeo reitera a opinião de conceituados historiadores. respectivamente. durante a execução de tarefas.9%. também uma nova carga de criminosos em potencial. 48 e 45 do sexo masculino. 154 condutas indecentes no uso da língua e 116 ofensas. eles foram freqüentemente culpados de quebras de leis de trabalho”. pois. Nesse ponto. diante da Corte de Trinidad. Numa nota. 213 agressões. 39. é constatada ao final da escravidão. um inspetor dá a sua receita de como os prisioneiros devem ser disciplinados: 179 jul. respectivamente. a que mais figurou foi a de imigrantes indianos capturados sem passes livres./dez.15 (tradução nossa). afro-descendentes. creoles. “após 1854. a média de condenações flutuou em torno de 53 prisões de homens por ano. para quem. a extração da força de trabalho era conseguida menos pelas condenações e mais pelo chicote. 154 jovens abaixo de quinze anos e 282 mulheres de idades variadas16. 1. O restante dos prisioneiros estava dividido entre indianos mulçumanos. Mas com a chegada dos imigrantes indianos. em 1835. sendo que os anos de 1832 e 1833. a exemplo de Eric Williams.059 eram hindus. extraída pelo autor. ou seja. quando as leis de imigração apertaram o nó em torno dos trabalhadores indianos. cujas principais acusações podem ser assim distribuídas: 727 furtos. 354 e 476. quanto na época em que se passou a utilizar da mãode-obra indiana. os documentos do conselho revelaram 2. entre as categorias de ofensas que culminavam em prisões.649 prisioneiros dentro das cadeias reais. Uma significativa elevação dessa média. a média alcançada foi de 54 prisões anuais. 2007 . Segundo Sookdeo. Para o ano de 1873.012 prisões. de 60 aprisionamentos anuais. tanto na época da escravidão. antes do advento dos imigrantes indianos. entre os anos de 1828 a 1835. os magistrados de Trinidad passariam a conviver com a idéia de que a cada nova carga de indianos contratados.

sobretudo nas estações em que as fazendas necessitavam de poucos trabalhadores. “uma reconhecida autoridade em matéria de castigo disciplinar em prisões”. acerca do recrudescimento das sanções penais em Trinidad. “os contratados prosseguiram em receber com alegria o repouso oferecido pelas prisões comparado à vida em algumas das severas fazendas” 18 (tradução nossa).. Sookdeo revela. corriam por conta do governo. destacam-se três interessantes posições: primeiro.363. pois. Para os anos de 1885 e 1886. sendo que a maior parte dessas condenações foram alegadamente por motivo de descumprimento das leis de contrato de trabalho por parte dos imigrantes indianos (Ibid. “os elementos intimidadores de punição são trabalhos forçados. As posições de Sookdeu corroboram as evidências. acima discutidas. Segundo.120). em certo período do ano. ele aponta algumas possíveis causas: frustração entre as classes trabalhadoras. dado ao fato de os imigrantes indianos se constituírem de uma classe de trabalhadores. Goiânia. n° 15 .411 e 4. e para as classes mais baixas de prisioneiros. p. 2000. do ponto de vista dos indianos. VIII. quanto às relações de poder que os fazendeiros mantinham 180 Revista Brasileira do Caribe. quem recomenda. comida ruim e cama ruim. o fato de que as duras sentenças aplicadas sobre os imigrantes contratados tornaram-se convenientes para a classe de plantadores. No balanço geral que fez Sookdeo. os números de aprisionamentos foram de 4. vol. predominantemente masculina. Por último. Sookdeo destaca ainda que. o lado positivo de se estar preso. competições nas esferas do trabalho e frustrações sexuais. Sentenças duras”.Alexandre Martins Sir Joshua Jebb. os crimes categorizados como agressões dobraram. Quanto a isso. que se encontravam presos. entre os anos de 1872 e 1873. respectivamente. incluindo conflitos inter-raciais. uma vez que os custos de subsistência dos imigrantes.. tais sanções penais se perfilaram numa excelente forma de se exercer o controle sobre os imigrantes contratados. as quais corresponderiam a “trabalhos nos moinhos ou abrir covas ou quebrar pedras ou alguma atividade semelhante” 17 (tradução nossa).

a qual ele não foi capaz de fazer enquanto estava na corte19 (tradução nossa). nos permitem afirmar a existência de uma ampla rede de relações entre fazendeiros. ambos para o empregador como para o trabalhador. magistrados e imigrantes contratados. porque ele deve cozinhar a sua comida. capatazes. extraímos um trecho que versa sobre o cumprimento das leis nas fazendas de Trinidad. Muitos capatazes tem uma forte e muito justa discriminação contra levar um homem diante da corte por causa de alguma insignificante negligência./dez. Nem muitos patrões reivindicarão e adicionarão ao tempo de contrato os dias em que o imigrante não tem trabalhado. perder respeito à autoridade de seu mestre. 181 jul. caso o coolie seja punido ou não. No total desses casos diante do juiz existe sempre uma grande perda de precioso tempo. Num documento ultramarino para assuntos da imigração indiana. Casos diante da Corte. “dias perdidos” como eles são chamados. fora da corte pela ação de multar o transgressor. 2007 . Todas as evidências. podem ser percebidos os “espaços de negociação” entre imigrantes indianos e seus capatazes. O dia posterior ao caso ele declara que não vai ao trabalho. o coolie é provável. quando se tratava de oficializar uma denuncia ao juiz local: 26. e. Então o capataz ou qualquer um em posição de gerência deve comparecer à corte com o livro da fazenda de modo que um dia é perdido. protetores de imigrantes. e ainda se mandado para prisão ele perde o respeito por si mesmo e torna-se um membro das classes criminosas. alguns dias antes que ele seja levado à corte. até aqui analisadas. o coolie leva algum tempo antes de se estabelecer dentro de seu regular costume de trabalho pacífico e constante. e geralmente decidem tal questão. especialmente se ele for absolvido ou meramente advertido. também não decidirão processar por deserção. trabalhar tão firme quanto é requerido pelo regulamento. o coolie se torna mal humorado e não trabalha devidamente. Pois.Plantation Legal: Trinidad século XIX junto ao sistema judiciário de Trinidad. Depois que o caso é terminado. Nele. além disso. e ainda. as boas relações entre mestre e servo são prejudicadas. supervisores.

na mesma medida. fazem uso da própria arma criada por seus patrões para oprimi-los.22 cuja permanência em Trinidad. VIII. embora carregados de boas intenções. tanto do imigrante acusado como de todo o restante do grupo a ele subordinado. um tipo de escravidão a vida dos imigrantes indianos nas Plantations. no sentido de educá-los e evangelizá-los. não faz parte das nossas intenções. como. a fim de não se afastarem das fazendas e não colocarem em risco o capital moral que construíam a partir de suas relações dentro das Plantations. em tal questionamento. o documento acima mostra os trabalhadores indianos desenvolvendo certo grau de autonomia diante de seus opressores no momento em que. ou minar à autoridade do capataz diante. as horas de trabalho que ambos os lados poderiam perder se ocupados com os inquéritos. é devido a alguns problemas teóricos. reascendermos o velho questionamento a respeito do fato de ter sido. ou. a partir do ano de 1860. particularmente. não somente as perdas financeiras estavam em jogo. quer dizer. Se alguns estudiosos insistiram. pois favorecia outras categorias de pessoas residentes na ilha. vol. Por essa razão. ou seja. 182 Revista Brasileira do Caribe. embora tenhamos dado um considerável relevo ao penoso processo de opressão por que passaram os indianos. por exemplo. desmoralizar o imigrante. Goiânia. sobretudo por meio do uso indiscriminado das leis de imigração. paradoxalmente. a máquina judiciária. Queremos salientar que. capatazes e imigrantes buscavam acordos diante das contendas. n° 15 . o processo de vitimização da população indiana de Trinidad colonial também fez parte dos jogos de cena. ou não. tendem a vitimizar as populações subalternizadas no Caribe colonial20. o reverendo Mr. a um estado de marginalização. ou ainda insistem. Também estavam em jogo certas perdas subjetivas que poderiam. De qualquer modo. Morton21 e o reverendo Mr. Observa-se que. se condenado fosse. alguns missionários presbiterianos canadenses. dependia dos trabalhos que desenvolviam junto aos indianos nas Plantations. ainda não superados entre aqueles que. Grant.Alexandre Martins De fato.

se converteram em instrumentos de opressão nas mãos dos proprietários. com quem eles apresentaram a informação ou acusação formal. e os colocou pra trabalhar. residente no distrito. Ele imediatamente iniciou uma ação contra o capataz. o capataz de uma fazenda de açúcar. perante os indianos. indubitavelmente. o melhor instrumento de atração seria. uma vez que os contratos assinados na Índia. segundo alguns trabalhadores foragidos. dizendo a ele: “Eu estou completamente consciente que o tratamento dado a esses homens não tem causado sofrimento físicos. os missionários procuravam justificar as suas ações por meio de alvissareiros objetivos que prometiam subtrair os indianos das condições degradantes que encontravam suas vidas espirituais./dez. amarrar uma corda em torno da cintura de um pequeno número de líderes. 2007 . e ao cair da noite eles foram liberados com algumas boas recomendações. na Plantation. o juiz virou-se para a defesa. era incorporada em seus diários. poderia fundamentar a suas posições diante das injustiças cometidas contra os imigrantes indianos. Desse modo. conforme mostramos. uma série de passagens que. 183 jul. Na conclusão do inquérito.Plantation Legal: Trinidad século XIX Os missionários deveriam assumir. porém. morais e intelectuais. na ótica dos missionários. Esses não são os dias de escravidão 23 (tradução nossa). Certa ocasião. Sob o manto da noite eles deixaram a fazenda e foram até a casa do subprotetor. para ganhar a sua confiança. nas vizinhanças de San Fernando. alguma forma de proteção contra as injustiças. marcada pelo despotismo. em uma mais ou menos jocosa forma. Já para os olhares do governo e da população local. principalmente. pois. violentamente tentou. conforme mostra o documento abaixo. pelo desencontro e. Sem resistência os homens trabalharam o dia todo. pela imprevisibilidade. tal ato sugere circunstâncias as quais as leis britânicas desaprovam”. um discurso protecionista.

Como parte das táticas de atração e negociação.Alexandre Martins Assim era nossa missão em Trinidad. testemunhos de sua baixa estima. por imputarem aos trabalhadores indianos uma condição de inferioridade. ou intitulado por alguns de nossos trabalhadores 184 Revista Brasileira do Caribe. dando. o reconhecimento e o apoio do governo e dos cidadãos em quase toda parte 24 (tradução nossa).) E até o momento nada é mais comum do que observar as desdenhosas maneiras pela qual o trabalhador indiano oriental é. vol. cuja denúncia se dirige tanto aos trabalhadores Creoles. assim como para os nativos da Índia. cumprido os propósitos para os quais eles foram. os missionários passaram a protestar contra o uso do termo Coolie. sendo mandados. VIII. que cresce rapidamente a cada ano pela imigração. Os missionários têm evitado usar esse termo. ou referido. n° 15 . The Palladium. nossos missionários têm. Embora “Coolie” seja o termo oficial e é usado durante o prazo do contrato.. (. usado para designar os indianos contratados nas Plantations. O termo “Kuli”. mas tem garantido por meio de seus trabalhos. tem na língua “Hindi” o significado de um faxineiro ou carregador. e o termo “Indianos Orientais” está agora em uso geral 25 (tradução nossa). não somente numa larga medida. pois viram nessa forma de clivagem um poderoso instrumento para causar ao indiano um sentimento de inferioridade diante da outras populações presentes na ilha. Goiânia. inclusive. e na tentativa de satisfazer necessidades espirituais. que tem sido aplicado a outras raças asiáticas. tem feito dele extremamente ofensivo para uma grande proporção de pessoas. quanto aos próprios indianos por aceitarem tal condição de inferioridade. morais e intelectuais de um povo. recorremos a uma nota extraída de um jornal local. o fato de ter sido originalmente a designação da mais baixa classe de trabalhadores. Para dar materialidade a essa questão. e estão.. como também pelo aumento natural.

Segundo ele. dizendo que esse estereótipo. e principalmente. Mas alguns historiadores. grande parte da resistência indiana deve ser vista em termos de quem teria o último riso./dez. talvez. Pergunte a um coolie de classe baixa (visto que o ideal de sua casta inerente permanece na mais alta norma para eles) se ele for um trabalhador contratado. Quanto à aparente submissão dos indianos.Plantation Legal: Trinidad século XIX Creoles. o que. quem parece reconhecê-los como a raça mais inferior de todas as outras por causa da degradação. não combina com a quantidade de distúrbios e violências cometidas por indianos em seus locais de trabalho. o que permitia aos seus patrões reunirem as condições necessárias para exercer um amplo controle sobre eles. a de docilidade. e ele revelará a você à baixa estima na qual ele encerra a si mesmo. Haraksingh interpreta como sendo uma espécie de comportamento estratégico para manter os patrões felizes até poderem escapar das Plantations: “pois. as noções de docilidade e o próprio sentimento de inferioridade. pelo fato de eles terem chegado aqui numa condição de quase escravos (. como por exemplo.155). Haraksingh contesta essa primeira noção. o que indubitavelmente manteria os plantadores felizes” 27 (tradução nossa). normalmente usado para acentuar a preferência dos fazendeiros por trabalhadores indianos. mostra-nos que certas imagens geradas durante o período colonial. em última análise. p. 2007 ..) Mas esses orientais freqüentemente reconhecem a si próprios como ocupando o mais baixo status. Eles seriam submissos e trabalhariam duro. 185 jul. Desta maneira eles têm a consciência de que eles ocupam a mais baixa condição nesta ilha 26 (tradução nossa).. ambos imputados aos imigrantes indianos. devem ser vistas por um outro prisma. consubstanciava a noção de docilidade era o fato de uma grande maioria de imigrantes viverem dentro das Plantations sob regime de contratos. no tempo em que chegaram aqui eles entraram em suas obrigações agrícolas como trabalhadores contratados. em especial o professor indodescendente Haraksingh (1981.

extrajudiciais. tanto o estereótipo de docilidade. Direção e texto: Danilo Alencar. as relações construídas entre as diversas categorias de pessoas. R. n° 15 . foram. Goiânia. Notas 1 “A CLARA do Ovo”. VIII. 186 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. formavam um complexo jogo de cena.Alexandre Martins Analisando. 2) obter benefícios financeiros a partir dos recursos do tesouro real. essa idéia de os indianos desenvolverem uma atitude de submissão. teatro da Universidade Católica de Goiás (Campos-V). vol. quanto o estereótipo de injustiçados. estrategicamente. com mais profundidade. aceitos pelos próprios indianos. London: Duke University Press. cujas principais intenções eram: 1) criar um teatro capaz de deixar as autoridades inglesas em Londres satisfeitas quanto ao perfeito cumprimento das leis de imigração em suas colônias. 3) constituir códigos. por aqueles setores da sociedade interessados em explorá-los. 2 GUHA. destinados à asseguração do sucesso da companhia colonial de imigração. como sendo um tipo de estratégia de preparação para uma vida melhor fora das Plantations. a fim de convertê-los ao cristianismo. desenvolvido pelos missionários. 1999. submetidas ao conjunto de leis de imigração. Elementary Aspects of Peasant Insurgency in Colonial India. Numa visão de conjunto. forjado pelos proprietários para fortalecer os mecanismos de contratação dos indianos. ver-se-á que mais uma vez os imigrantes estão tentando se beneficiar com as próprias imagens que deles eram construídas. uma vez que tais imagens ajudavam a confundir seus opressores quanto aos seus verdadeiros projetos. Dito de outro modo. Outubro de 2006. de relacionamentos capazes de assegurar a continuidade dos acordos estabelecidos entre todos os grupos envolvidos e 4) assegurar aos imigrantes indianos a construção de espaços de negociação para que aquela difícil existência nas Plantations pudesse ser transfigurada em algo mais próximo de seus horizontes de expectativa.

. 6 O termo Indenture se refere aos acordos sob a forma de contrato realizado entre trabalhadores e empregadores. one of the properties of the Colonial Company.) 9 “On Thursday last the police received information that a serious disturbance had taken place at Cedar Hill estate. apud PERRY. 29).M. driver. p. than Coffee or Cotton. “I have the honor to report… that I have despatched the Futtle Rozack to Trinidad”. but they were met by a warm reception from the coolies who 187 jul. either upon such plantation or within five miles thereof” (Coolie immigration. 165. May 15. A plantation of this class carried on with the greatest economy will require a capital of about £ 8. establishments and Casualties. unable to speak the language of the lower orders here fluently.Plantation Legal: Trinidad século XIX 3 BHABHA./dez. 2001. overseer. arising out of misunderstanding caused by the coolies having imperfectly performed certain work which they were requested to complete. sendo estes responsáveis por todos os custos de transporte e alimentação dos trabalhadores até aos seus locais de trabalho. vol. 74). 7 “No shop shall be kept by any employer. WILLIAMS. 1904. 8 (. K. 5 “Trinidad should be regarded as a sugar Colony. p. of which 100 acres for cane. 062117110523. 1880. On the strength of this information two policemen on horseback were sent out with a view to appease the disaffection.)It is just possible that they may be arraigned before the magistrate on the charge of assault. (Colonial Office 318. and. are liable to be found at a disadvantage. immigration ordinances of Trinidad and British Guiana.. but everything considered to the smallest class of sugar plantation cannot consist of less than 200 acres of good land. 4 In March of 1845 Thomas Caird announced in a despatch to the Home Office. and which they not only refused to do but showed strong signs of hostility. and 50 for Negro grounds. O local da cultura. UFMG. the lands being generally more favorable to the Production of Cane. which may end in fine_or_imprisonment (…) (The Palladium. p. Stationery Off. manage. 50 for pasture. Caird to Hope. 7 March 1845.59.. H.000 sterling”. Belo Horizonte: Ed. between the coolies of the estate and the managing body. 1969. ranger. or other person employed on the plantation. London : H. (cf. The quantity of land to be granted should certainly depend upon the means of cultivation. 2007 . 1962.

in the minds of all those who are agents in the practice.. February 4. 1871. vol. 10 (…) But our Government has been so successful in providing at the public expense a sufficiency of serfs for all purposes (…) To know how to drive coolies through their daily tasks. (San Fernando Gazette. . and the description of the daily work performed. It is infinitely easier.. on the recommital of the Immigration Ordinance. (San Fernando Gazette. the Hon. and unquestionably more convenient for a manager or overseer to check five dollars from a labourer’s pay for stealing a cane.. or for any other suppositious breach of estates’ discipline than it is to take the risk and trouble of proving such a charge before the Police magistrate”.. there is an unctuous excuse which views it in the shape of being a shorter and more summary way of settling disputes between master and servant.. Very evidently. Goiânia. to the exclusion of equally important questions which affect other races. Smyth. expense and annoyance of going before a magistrate for every trifling offence committed by a labourer on the estate. that we cannot but note the disquisitions which take place from time to 188 Revista Brasileira do Caribe. which probably was an oversight on the part of the medical authorities. injuring one (. proposed three new clauses the first of which imposed on the plantcr the keeping of a ‘Labour Book’ to contain all materials for identification of every Immigrant. .Alexandre Martins repulsed them. So diffuse are the philanthropic sentiments wasted on coolie immigration. is all that is required of managers and overseers (…) (San Fernando Gazette.) the other escaping unhurt only by the instinct of his horse which kicked the assailants away”. n° 15 .) 11 “The prevailing custom of indiscriminately checking the wages at labourers employed on sugar estates for offences alleged to be committed by them has been so long and persistently practiced without molestation or legal interference of any kind in this island that it is not to be wondered at that persons fully conscious of the iniquity of such proceedings should nevertheless he led to follow the pernicious example.. . VIII. The third suggestion was a matter of hospital routine.. September 30. 12 At the last meeting of the Legislative Council. Mr. August 31. Editorial. as the mules are driven through theirs. Possibly it was to convince the government that they were really in earnest in the immigrant protection doctrine that the second clause offering facilities to the immigrant to procure industrial residence before the full completion of his indenture was introduced. 1878. Editorial). 1882). or a similar sum for maltreating a mule. and a means of avoiding the trouble.

16 Dentre as principais fontes utilizadas por Sookdeo destacam-se os despachos do governador Longden. hard fare. Kelvin. This Dr. approved of by the Chief of the Immigration Department. 13 (…) “There is little evidenced to suggest that before the early 1880s any court decision was ever made against a planter or member of the estate’s managerial staff”. and to be an unfair advantage in favour of the proprietor of the estate. London: Macmillan. subject for regret that circumstances should so coincide that the improper act of the magistrate in this respect should have (in a worldly sense) a leaning towards the profit of the coolies’ legal and official Protector… (New Era. makes us regard the officer dispensing justice in this quarter of the island as a peculiarly hazardous man. 14 We have heard a good deal lately of magisterial not by the St. the property of Dr. “an admitted authority in matter of Prison discipline. 2000. 1880. It is with no less an important personage than the Protector of Immigrants that we would consider the question of some endorsations of coolies’ lost days on estates. we naturally suppose. It is somewhat strangely suggestive that most of the endorsations (which are reported to be improper. March 22. 1876. Editorial). 17 Sir. however. Joseph Magistrate. 114). 2000. when indenture laws tightened the lasso around Indian worker. Editorial). made by the magistrate first alluded to. to the prejudice of the coolie) should he endorsations condemning coolies indentured to labour on the Paradise Estate.111). 1988. (New Era./dez. SINGH. if we may judge by the passiveness of his acts with respect to them. It is. p. 10. at the expiration of the term of their indenture. 15 “After 1854. Hard sentences. In: Bloodstained tombs: the Muharram massacre 1884. and a hard bed. Mitchell is Protector of Immigrants and one who apparently did not see the leaning and tendency of these endorsations. o anuário Blue Books e relatos de inspetores de prisões. 2007 .. p. which.. SOOKDEO. (COUNCIL Paper (Trinidad) nº 39 of 1874 apud SOOKDEO.. p. Mitchell. they were frequently “guilty of breaches” of labor laws”.Plantation Legal: Trinidad século XIX time on the coolie and heathen Chinee. (cf. Cf. June 12. Joshua Jebb. and...” who advised. to work out extra months of labour as lost days.. “The deterring elements of punishment are hard labour.” Which amounted to “labour at the treadwheel or shot drill or stone breaking or some such work”. although not out ct the hue pursued by other like magistrates. and for the lowest class of prisoners. 189 jul.

—Many managers have a strong and very reasonable prejudice against haling a man before the Courts for some trifling negligence to work as hard as required by the ordinance. to lose respect for. tied a rope around the waist 190 Revista Brasileira do Caribe. VIII. the cooly is sulky and does not work properly. 42). 114). and the cooly is likely. Then the manager. letters and papers / edited by Sarah E. (COMINS. 2000. (ibid. 22 Grant. and if sent to jail he loses respect for himself and becomes the associate of the criminal classes. and generally settle such cases out of Court by fining the offender. 1989. vol.S. — “lost days” as they are called. For some days before he is taken to Court. 19 26. sorely tried by some absconding laborers. 21 Morton. Charlottesville. 1839-1923 My missionary memories. Morton. the good relations between master and servant are disturbed. or at all estates the overseer. which he was not able to do when he was at Court. Kenneth James. p. John Morton of Trinidad: pioneer missionary of the Presbyterian Church in Canada to the East Indians in the British West Indies: journals. N.Cases before Magistrate. University Press of Virginia. as he must cook his food. The day after the case he says he is not going to work. veja: GLISSANT É. Co. 1916. After the case is over. 23 “On one occasion the manager of a sugar estate in the neighborhood of San Fernando.. [c1923] 062117110523. Halifax. sobretudo das populações afro-descendentes do Caribe. especially if he is acquitted or merely warned. the cooly takes some little time before he settles down into his normal ‘habit of quiet and steady work. has to attend the Court with the estate books and a day is lost. Caribbean Discourse. Goiânia. In all these cases before the Magistrate there is always a great loss of valuable time both to the employer and to the labourer. nor will they prosecute for desertion. 1893.. whether the cooly is punished or not. Nor will many employers claim and add to the period of indenture the days the immigrant has not worked. 1839-1912. John. Toronto: Westminster Co. n° 15 . 20 Para uma melhor compreensão das críticas feitas a perspectiva de vitimização de populações coloniais.: Imperial Pub.Alexandre Martins 18 “The indenteds continued to welcome the respite offered by prisons compared to life on some of the harsher plantations. p. The authority of his master. and then.

Without resistance the men worked in the fields all day. has in the “Hindi” language the meaning of a porter or laborer. 25 “The term “Kuli”. but it does suggest conditions on which British law frown. (ibid. perhaps. While “Coolie” is the official word an is used during the term of indenture. which has been applied to other Asiatic peoples as well as to the natives of India.Plantation Legal: Trinidad século XIX of a few of the leaders. said to him: “I am fully aware that the treatment given these men has not caused physical suffering. 2007 . (GRANT. 191 jul./dez. and he will tell you the low esteem in which he holds himself.. p. turning to the defendant. But these Orientals do often regard themselves as occupying the lowest status. and the term “East Indians” is now in general use. who seem to regard them as a race far beneath every other for degradation.60). on arriving here they enter on their agricultural duties as indentured labourers. 1880). Ask a coolie of a low class (for the ideal of their inherent caste remains with the higher order of them) whether he is an indentured labourer. as well as by natural increase.. april 24.p. in a more or less jocular way. the fact that it was originally the designation of the very lowest class of laborers has made it extremely offensive to a large proportion of the people”. and chiefly. and in attempting to meet spiritual. 24 “Such was our mission in Trinidad. 63). (The Palladium. with whom they laid an information or charge.” (ibid. our missionaries have not only in a large measure fulfilled the purpose for which they were and are sent out. and towards evening they were dismissed with some good advice. moral e intellectual needs of a people growing rapidly each year by immigration. Thus they have the consciousness that they occupy the lowest condition in this island.p. At the conclusion of the trial the magistrate. He immediately entered an action against the manager. and put them to work. These are not the days of slavery”. 1923. when. 26 And yet nothing is more common than to observe the contemptuous manner in which the East Indian labourer is either referred to or addressed by some of our creole labourers. residing in the district.60). Under cover of the darkness they left the estate and went to the house of the Sub-Protector. but have secured for their work the recognition and support of the Government and the citizens generally. The missionaries have avoided using it. because they come here in a kind of quasislavery..

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196 .

viviam nas áreas aonde eram apresados. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina por onde os portugueses estrearam no comércio de escravos.O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes Abstract This article focuses on the slave trade in Goiás. Não nos parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que no século XVIII. Por isso. in Angola and Benguela and Costa de Mina—regions in which the Portuguese started the slavery trade. vol. ethnic groups Resumo Nossa análise se pauta em discutir o tráfico de escravos para a Capitania de Goiás com o objetivo de “rastrear” o lugar de procedência dos escravos. 2007 . mas também pode significar a variada presença deles numa mesma embarcação que aportou no Brasil. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 197 Revista Brasileira do Caribe. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. na época. It does not seem appropriate to adopt the criteria of African nations as a unifying concept for cultural and religious affinities and identities of Blacks that in the eighteenth century came to the rural areas of the Guayazes. facing the difficulty to locate the nation of the slaves brought to Goiás. 197-243. Firstly. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. some hypothesis can be established based on the different ethnic groups that in that period lived in those areas where they were captured. Therefore. Goias/Brazil. with the purpose to locate its origins. VIII. Goiânia. because such concept alludes to large African regions where slaves where shipped and secondly because there were various places where these shipments happened. Isto porque essa palavra em um primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos. Keywords: Slave trade. n° 15. vieram para o sertão dos Guayazes. a saber.

um forte sentido de pertencimento relativamente ao grupo associado a um território concreto considerado como sendo especificamente o seu. Goiás/Brasil. Goiânia. Goiás/Brasil. sociais 198 Revista Brasileira do Caribe. porque era variada la procedencia de los que eran violentamente arrojados en el barco negrero. as discussões recentes sobre o tema alertam para o movimento – historicamente construído – de uso do conceito de raça como forma de naturalização de opções e interesses engendrados na vida social. vol. Palabras Claves: Comercio de esclavos. grupos étnicos Os livros de registros de batismos e de óbitos no Brasil indicam em muitos casos o lugar de procedência dos escravos africanos. O conceito num primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos. frente a la dificultad de determinar la nación de los esclavos traidos a Goiás podemos establecer algunas hipótesis basadas en las etnias que en la época vivían en las áreas donde eran capturados. Por eso. grupos étnicos Resumen El análisis del artículo se pauta en la discusión del tráfico de esclavos para la Capitanía de Goiás con el objetivo de localizar el lugar de procedencia de éstos. Outrossim.Cristina Cássia Pereira Moraes Palavras chave: Comércio de escravos. regiones en las cuales los portugueses estrenaron el comercio de esclavos. hábitos comuns e um sentido de homogeneidade. movimento que tem sido levado a cabo de forma a construir explicações para diferenças pessoais. En primer lugar porque ese concepto alude a grandes regiones africanas de embarque de esclavos y en segundo. pensado como unidades de linhagens biológicas ou culturais. É oportuno lembrar também. que o conceito de nação envolve um grupo social que partilha um ideário. en el reino de Angola y de Benguela y en la Costa de Mina. No parece oportuno adoptar el criterio de naciones africanas como concepto aglutinador de afinidades o identidades culturales y religiosas de los negros que en el siglo XVIII vinieron para el sertão de los Guayazes. VIII. Parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que vieram para Brasil no século XVIII. n° 15 .

ovimbundos. o construto “raça” está vinculado a interesses e a circunstancias produzidas em determinado tempo e lugar. cabindas. Trata-se. ressaltar suas permanências e descontinuidades é entender que ele foi socialmente negociado. Ademais. ao contrario. foram respaldadas e alimentadas pela ciência no Brasil no final do século XIX (SCHWARCZ. Benin e Togo. quimbundos e xindongas que viviam nos atuais Congo. da mina e moçambique.3 Os sudaneses aglutinavam os povos da África ocidental e que habitavam as regiões hoje denominadas Gana. gentio da guiné. No caso dos sertões goianos. 1993). ao mundo social (GUIMARAES. bem como. entender a sua complexa tessitura informada pela escravidão indígena e africana.1 Para além. benguelas. é certo que sua ocupação foi efetuada por inúmeros grupos etno-linguísticos de origem bantos e sudaneses. hereros. Os primeiros podem ser reunidos em nove grupos. eram denominados por angolas.2 Nas matrículas de escravos encontradas no século XVIII em Goiás. no centro do país. As diferenças raciais. mas sim. Segundo Rodrigues é impossível calcular de que 199 jul. Entender o seu percurso. 81-96). Portanto. reinventado e re-significado. como algo indeterminado. portanto. entendidas dentro do marco da hierarquia. apropriado. acreditamos que não há raças. 2002. 2007 . ngangualas. de um conceito que denota tão somente uma forma de classificação social. p. Nigéria. modificado. nhanecas-humbes. Angola e Moçambique. é preciso ainda. p.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII e culturais como diferenças naturalmente dadas. bakongos. Gâmbia./dez. caçanjes. relações raciais. luandatchokues. representação historicamente construída entre diferenças pessoais e grupais. Raça é um conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural. a saber: ambós. pela imigração européia (PEREIRA. baseada numa atitude negativa frente a certos grupos sociais e informada por uma noção especifica de natureza. silenciado. A realidade das raças limita-se. 9). 2002.

reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina onde se encontrava o forte de “ElMina” ou da “Mina” por onde os portugueses estrearam no comercio de escravos. vinham convertidos ao catolicismo. pois essa conversão era vista como benéfica aos seus senhores. Na Capitania de Goiás os iorubás ou nagôs e jejês como eram5 denominados nas matriculas oficiais de escravos são introduzidos pelo tráfico na região desde meados do século XVIII. dado que a região era muito extensa. ainda que os registros possam camuflar a verdade. já que significava adesão aos valores religiosos e morais do mundo branco e propiciava grandemente a resignação à sua condição servil. na época.000. não atingia a cifra de 40. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. Um dado chama a atenção do estudioso: comparativamente. Desde 1633.Cristina Cássia Pereira Moraes data é a introdução dos nagôs no Brasil porque só no fim do século XVII se tornou conhecido dos europeus o poderoso reino de Ioruba (1977. era muito fácil fugir ou se locomover dum lugar para outro. 200 Revista Brasileira do Caribe. o número deles. não foi registrada. VIII. a saber. certamente. Lourenço de Mendonça. Por isso. um prelado do Rio de Janeiro. no auge da exploração aurífera documentada em 1792. havia determinado que todos os navios ou embarcações que chegassem ao porto de Santos fossem visitados.6 Quando aqui chegavam. passando pela do Ouro. a maioria deles. Essas regiões também apresentam um caráter vago. para saber sobre os escravos traficados. viviam nas áreas aonde eram apresados. Goiânia. n° 15 . de qual nação chegavam. se traziam livros proibidos ou se e vinham desobrigados7. se levarmos em conta centenas de milhares de escravos que trabalharam nas minas de Minas Gerais ou em plantações de açúcar no Nordeste. p. pois se estendiam desde a Costa do Marfim. vol. 98-120)4. Comissário do Santo Ofício. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. Sob o aspecto da quantidade de escravos africanos que vieram para Goiás no século XVIII. até a Costa dos escravos.

599.309.000 escravos. o que mostra uma ligeira tendência à diminuição da população escrava na Capitania./dez.777. com 4.000 cativos. o censo de 1789 registrou um aumento na população de escravos para 37. Em 1779. Seis anos depois. Traíras com 3.682.568.567 e Crixás com 1. p. Rio de Janeiro e. Salles (1992.207. de Traíras para 5. Desemboque e Carmo que. Este censo é particularmente valioso porque revela um novo descoberto aurífero na região do Rio das Velhas. São Luis do Maranhão. 276) aponta um montante de 10. os dados oficiais registram a presença de aproximadamente 35. o julgado de Vila Boa teve 9. A maioria dos arraiais que desenvolvia a exploração do ouro de aluvião listou 60 a 80% da população composta por pretos. o maior número de escravos já documentado na capitania de Goiás. de 1733 a 1750. e de São Félix para 2. chegaram à Capitania de Goiás desembarcaram em diferentes portos.027 escravos na região. foram incluídos no citado censo. Karasch9 observou que o censo de 1783 estava incompleto. faz parte de Minas Gerais e. O censo de 1804 confirma essa tendência descendente. a saber: Belém do Pará. seguido por Traíras com 6. pela primeira vez. também. excetuandose os julgados de Cavalcante. Pilar com 1. 2007 .245 e Meia Ponte. Meia Ponte com 1.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Com efeito. contudo. Salvador.000. Os demais arraiais possuíam menos de 1000 cativos. Neste censo de 1792.200 escravos. no entanto.533 escravos. Os outros tiveram menos que 3.000 a 17.713 cativos trabalhavam na Capitania. a população de cativos de Vila Boa tinha reduzido para 8. atualmente. indicando a existência de 20. pois demonstrou apenas que 17. Os africanos que. Em 1792. na época em apreço. como o de Meia Ponte e Natividade.689 escravos.8 Em 1783. Alguns julgados.328. Como demonstra o gráfico abaixo. por registrar aumento da atividade de mineração em Pilar. outro censo registrou a presença de 38.790. sofreram aumentos leves. futuro Julgado do Desemboque que. devido aos motivos acima apontados. 201 jul. o censo aponta os seguintes números de escravos para a Vila Boa e os arraiais mais ricos: Vila Boa com 4.

682 4.444 1.153 1.282 4.045 2. de de F. 660 Desemboque Das de Rio Velhas 2. Os Escravos na Capitania de Goiás. O certo é que as principais rotas de entradas de africanos na capitania de Goiás eram pelo Pará.432 8.261 277 299 634 2. de Parnaíba no Piauí e de Recife.575 3. 1783-1804.960 899 2.000 8. vol.839 1.567 997 1.000 4.855 4. Goiânia.207 1. Maranhão e Bahia.Cristina Cássia Pereira Moraes provavelmente. Economia e na de Escravidão da 202 Revista Brasileira do Caribe.000 6. Fontes: Gilka V.967 1.491 2.200 4. Karasch suspeita que muitos africanos recém-chegados ao Brasil ficaram algum tempo em outras capitanias. antes de serem trazidos para as minas de ouro de Goiás. SalIes.000 10.568 9. VIII. n° 15 .223 723 1. como Minas Gerais e Bahia.777 1.264 2.000 1783 1789 1792 1804 Gráfico 1 – Número de Escravos na Capitania de Goiás 1783-1804 (A cópia manuscrita do censo de 1783 dá o número como 364 em lugar de 363.689 Crixás Pilar Santa Cruz Santa Luzia Meia Ponte Vila Boa 0 2.

Como exemplo. traziam artigos e produtos importantes que por cá não havia. caixa 35. AHU. p. 19 de outubro 1790. (MOTT. até o prezente anno d’ 1789. Eram conduzidos por tropeiros que. tecidos finos.) Inúmeros comerciantes de Vila Boa organizavam grandes comboios para importarem cativos de São Luis do Maranhão e de Salvador. além de cativos. sal. entre 1794-1827 entre adultos e crianças foram batizados: 203 jul. como utensílios e objetos de ferro. começava no Rio de Janeiro e passava por Vila Rica e Paracatu em Minas Gerais. trouxe de Salvador. vinhos. 119. em 1765. levavam em média três meses de viagem para chegarem a Goiás. entre outros. óbitos. Biblioteca Nacional. e artigos de luxo. 170 escravos para Vila Boa.11 Como foi abordado anteriormente por nós. p. 1993. localizar e determinar especificamente a “nação” a que pertencia os cativos em Goiás é uma tarefa hercúlea. 170) Um outro exemplo.2. ibid. 2007 . KARASCH. Rio de janeiro. e Capitão da Geral da Capitania Goyaz Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério 29 julho 1792. Documento 2109 Reflexões Econômicas ficam sóbrio como Tabelas da de estatísticas da Capitania de Goyaz Pertencentes ao anuo de 1804 feitas de e nenhum de 1806. 1992. bacalhau. AHU. em geral.4. João de Botelho Cunha que. inventários e termos de assentos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos localizados em Vila Boa.10 Outra rota por onde os escravos chegavam à Capitania. Mapa em que Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério. encontramo-lo num recibo de compra. Optamos em utilizar alguns registros de batismos. Mapa em que o Governador. ./dez. perfumes. 1790-1798. Goiás. Seção Manuscrito. podemos citar o comerciante. Conforme os registros da Igreja Matriz de Santa Ana.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Capitania Goiás. de 1793:“ Michaela Xavier de Aguirre deu 230 oitavas de ouro para Capitão Gaspar José Lisboa para ir a Cidade de Salvador para comprar três “moleques Minas”. Esses comboios. p. 11. vestidos. Goiânia: CEGRAF/UFG. pagando por cada um aproximadamente 80$000”. 277. 2002.

Batizados. p. 132). vol. VIII. Goiânia. n° 15 . as 6 angola mina crioulo(a) 5 moçambique 4 nagô buçá 3 desconhecido 2 1 0 17 94 17 95 17 96 17 97 17 98 17 99 18 00 18 01 18 02 18 03 18 04 18 05 18 06 18 07 18 08 18 09 18 10 Gráfico 2– Batismo de crianças escravas em Vila Boa 1794-1810 (Orfanato São José. Arquivo Geral. 1794 -1810 e KARASCH.12 204 Revista Brasileira do Caribe.Cristina Cássia Pereira Moraes Batismos de crianças escrav em Vila Boa de Goiás 1794-1810. livro 3. Diocese Goiás. 2002.

Na coluna “desconhecido” pressupomos que seria o batismo do “gentio”. criança legítima de João 205 jul. Arquivo Geral. 132. embora a legislação proibisse a escravidão dos índios13. livro 3.) A maior parte dos registros de batismo e de óbito indicava o grupo étnico a que o escravo pertencia como podemos observar nos gráficos acima. elas ocorriam e estes eram incluídos nos registros. 2002. Cit. Batizados. pois. Como exemplo temos: “Maria./dez. p. 2007 .Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII : Gráfico 3– Batismos de escravos por gênero em Vila Boa de Goiás 1794-1827 (Orfanato São José.. Diocese Goiás. 1794 -18270 e KARASCH Op.

Meia Ponte. das ilhas. os registros de óbitos. a fim de evitar sua escravização no futuro” (2002. 135). nagô. denominando-os como mina. AFSD: Livro Óbitos. os párocos evitavam registrar uma criança indígena como escrava. vol. KARASCH. (IPHBC: Livro de Registro de Óbitos de Meia Pontes. gentio da guiné. No entanto. gentio. nada consta:15 Ó bitos1794-1834 800 700 600 500 400 300 200 100 0 total Gráfico 4– Óbitos 1794-1834. anota 834 escravos falecidos. apontam a origem étnica dos cativos falecidos na Capitania. o maior numero de registros.14. VIII. o Livro de Registro de Óbitos de Meya Ponte. n° 15 m pr in a et na os gô da co s at nã na g ge o ola nt c io ons da ta gu de i ca gné en st ad tio at daer s Ira l da has te r cig ra an o . p. muito superficialmente. A título de exemplo. segundo Karasch. pretos da costa. quando podiam. Goiânia. conquanto se restrinjam a Natividade. 206 Revista Brasileira do Caribe. cigano. da terra. foi batizada no dia 22 de fevereiro de 1818 em Santa Anna. Natividade e Porto Nacional. Infelizmente. 1803-1810.Cristina Cássia Pereira Moraes Angola e Eugênia Índia Chavante. Jaraguá e Corumbá e datem do início do século XIX. mas. relativo a 1803-1810. 1800-1827.

1794 -1834. op. p.) Um testamento de 1789 de Marcelino Baptista Silva cuja herdeira era N./dez.. página 48 v. m ina na g an ô go l re a b be olo ng u ca ela bi n m da un m oç j am olo bi q ile ue gi ve l 207 jul.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Mary. Goiás. (AFSD: Testamento de Marcelino Baptista Silva – Herdeiro: Manoel Teixeira dos Santos. Livro Letra K – 1789 – nº012.cit. 43-43v. Sra. 133. p. Orfanato São José: Arquivo Geral. livro 3.). Diocese de Goiás. Batizados. 2007 . da Boa Morte representada pelo procurador da Irmandade Manoel Teixeira dos Santos nos indica que aos fins do século XVIII a maioria de seus cativos eram mina como podemos observar no gráfico abaixo: T estam Vila Boa 1789 ento 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 H omens Gráfico 5 – Predominância de escravos mina.

com certeza. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1810). posto que essa Irmandade apenas aceitava cativos como 208 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia.S. VIII. n° 15 . entre 1755 e 1784. o número de escravos pretos era bem maior que o dos brancos. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. No entanto. através dos censos efetuados na Vila e nos arraiais. Do Rosário dos Pretos de Vila Boa. Sra. pardos e pretos livres. que durante o século XVIII. Ora. nos termos de assento e anuidades dos membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Vila Boa. do Rosário dos Pretos 1736-1810 60 50 40 Homens 30 Mulheres 20 10 0 17 17 35 36 17 39 40 17 44 45 17 49 50 17 54 55 -5 17 9 60 17 64 65 -6 17 9 70 17 74 75 17 79 80 17 84 85 -8 17 9 90 17 94 95 -9 18 9 00 18 04 05 18 09 10 -1 4 Gráfico 6 – Número de Irmãos e Irmãs na Irmandade de N. vol.Cristina Cássia Pereira Moraes Sabe-se. o número de escravos que fazia parte da associação era relativamente pequeno: Irmãos e Irmãs da Irmandade de N. Sra.

apenas na década de 1770. só produziam o suficiente para si e para os seus. escravo do Capitão Dantas. o que geralmente acontecia com as mulheres . escrava do Coronel Pacifico. não tendo nenhuma chance de ajuntar algum dinheiro. os demais negros podiam ser apenas irmãos de devoção. devido às quantias que eram cobradas pela entrada e por anuidade. Outrossim. curiosamente. para além de trabalhar para seus donos. declarava ter quatrocentas oitavas de ouro e pedia que o tesoureiro da Irmandade indicasse um fiador para avalizar o restante da quantia a ser paga ao seu senhor por sua carta alforria. Para mais. os escravos urbanos da Capitania viviam melhor que os do campo. o irmão Francisco. rogava aos oficiais que obtivessem sua liberdade. da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. embora a Irmandade. não aceitasse libertos como membros. em Vila Boa. Em outro termo. declarando que possuía um pecúlio de trezentas oitavas. devido às leis portuguesas de proibição à escravidão onde a maioria dos senhores de escravos os venderam para o Brasil. a irmã Zeferina. podemos inferir de tal registro que bem poucos puderam nela ingressar como irmãos. 2007 . ela não media esforços com vista a alforriar escravos: Havendo algum Irmão captivo que sequeira libertar a Irmandade lhe assistirá com oprecizo para se libertar. de modo que.16 Dois casos ilustram bem o que reza esse documento. e não de compromisso. do ano de 1764. dando primeiro hum fiador a irmandade que se obrigues pelo tempo que sejustarem satisfazer à dita Irmandade o que desembolçar e será este fiador eleito pela Meza e passará obrigação à mesma. nem a oportunidade de ingressar na Irmandade e se beneficiar da ajuda da mesma. de 1775. podemos observar que o numero de irmãos aumentou significativamente. Aqueles ainda tinham a ocasião de fazer serviços extras para outrem e 209 jul. conforme o gráfico acima. Estes.17 Apesar da terrível condição em que se encontravam./dez.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII associados. quando tinham família. Em termo de mesa.

mas não registrado. cor. O documento ficava em posse do liberto. vendiam-nos a terceiros e de preferência. vol. n° 15 . A fim de evitar contestações. pelos bons serviços prestados a si e à sua família. quando registrados em cartório. 659-695) No segundo caso. à situação de homem livre. bafejados pela sorte. Goiânia. ou. sua origem. em caso de eventuais dúvidas. As cartas de alforria eram instrumento legal. para garantir seu direito. caracterizavam-se por ser um acordo firmado “inter vivos”. No primeiro caso.Cristina Cássia Pereira Moraes acumular um certo pecúlio para comprar a sua alforria18 e tal era o caso dos que exerciam ofícios específicos como os alfaiates. ou um documento particular. Todos esses dados reproduzem a vida dos alforriados. redigido por um tabelião. mediante o qual. p. cujo anseio principal fora alcançar a liberdade. VIII. podiam ser a “expressão da última vontade do dono”. gratuita ou onerosa. comerciavam-nos em outros lugares”. p. após sua morte. filiação. de outro. sua moradia na cidade ou no campo. aos escravos pelos senhores era sempre tida na conta duma dádiva de sua parte. os pedreiros e até mesmo os simples jornaleiros. Isso os 210 Revista Brasileira do Caribe. o escravo passava ou simplesmente sub conditionibus. para assegurarem suas vantagens. de um lado. isto é. As cartas de alforria nos fornecem vários dados interessantes: o nome do escravo que estava sendo libertado. porque estavam a buscar uma “graça divina”. a concessão da carta de liberdade ou de alforria. a idade e o ofício do liberto. herdeiros não respeitavam as decisões. as modalidades e as condições dessa libertação. vir a obter a manumissão de seus senhores ou a coortação. Mattoso20 observa que “se tornou hábito que o documento seja registrado em cartório em presença de testemunhas” (1992.19 (MORAES. tal ou tais escravos deviam ser libertados. os nomes das testemunhas e a data do registro em cartório.. Eram as tais Cartas. entre o senhor e ele. motivada. Mas “os. por sua generosidade e. isto é. Raramente encontramse dados sobre a profissão do senhor. 1973. No período em apreço. ou eram públicos. os motivos pelos quais era alforriado. apossando-se dos escravos e. o senhor estipulava em testamento que. ou “a conquista de um favor no céu”.burlavam a lei... 177)..

nas suas qualificações./dez. eram subjetivos. em idade produtiva. herdeiros ou um procurador do falecido proprietário. ou seja. Na Capitania. na idade. certa segurança quanto à percepção da quantia acordada. porquanto. ou de uma só vez ou em várias prestações. as condições do contrato eram cumpridas tal como foram originalmente acordadas. quando se tratava de cartas de alforria onerosas. poderia ser revogada. A coartação era um tipo de alforria onerosa. o pagamento pela liberdade era feito a prazo. Poderia consistir na autocompra da liberdade. oscilavam entre dois e cinco anos. e os motivos dos proprietários. 2007 . isto é. porquanto. p. No entanto. em alguns casos. Entretanto. Parece provável que parte das alforrias gratuitas tivesse relação com ligações afetivas” (1999. No entanto. determinar as condições para o pagamento. no entanto. Um outro tipo de alforria. o escravo devia pagar por sua liberdade. Observa Aguiar que “as relações familiares representavam importante elemento neste processo. assegurando desse modo. a maior parte deles estipulava o valor fixo das parcelas e sua regularidade. ao que tudo indica. gratuita ou onerosa. Essa revogação poderia ser feita por terceiros. as cartas de liberdade trazem prazos que vão de dois a cinco anos e o escravo vivia uma fase de transição entre a liberdade e a escravidão. 16) . no sexo. porém. na maioria das vezes.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII levou a denominar esse ato de “boa ação pela fé”. aquela sob condições. 211 jul. o pagamento da alforria era efetuado por outrem. No caso de retaliação posterior. raramente. consistia em o escravo obter uma semi-liberdade. os prazos constantes dos documentos desse tipo. Muitos senhores estipulavam o valor a ser pago. O pagamento das parcelas e a definição do tempo de vigência dos contratos variavam e eram acertados entre as partes. proibiam-lhes reger sua própria pessoa e gerir seus bens. se o senhor morresse.Mas a alforria. O valor pecuniário do escravo e sua alforria. sem. particularmente para as crianças. referido no contrato. a situação do coartado se tornava particularmente delicada e. o senhor do escravo registrava esta observação na própria carta de alforria. era baseado na saúde do escravo. Em Goiás. Concernia a escravos adultos e.

22-25) . como a preparação da comida dos proprietários pelas escravas. portanto.. eles souberam aproveitar das oportunidades. de afeto e de intimidade entre senhores e escravos que não apenas contemplaram “os bons serviços prestados pelos escravos”. ou por causa dos serviços regulares que prestavam. a convivência estreita na mesma casa e até no mesmo quarto. 1988. igualmente. estes protagonistas. obrigando-o. p. “serviços especiais” em seus leitos: Na realidade de jogos singulares de poder e sedução. que ocupavam lugares institucionais tão diferentes. Muitas cartas de alforria. então. em geral. 1999. esmerando-se no cumprimento de suas tarefas. às rebeliões. diretamente os corpos do senhor e do escravo. às fugas. tendo investigado a situação dos escravos na Capitania de Minas Gerais. VIII. (BELLINI. com vista ou a obter a alforria ou a tornar sua vida mais suportável. n° 15 . o senhor não efetivava a sua libertação. p. 75). especialmente as gratuitas. dessas relações de cumplicidade. de acordo com o que consta do seguinte documento: “Concedo a liberdade do escravo Terthulianno Crioulo de 70 anos gratuitamente 212 Revista Brasileira do Caribe. Mas. ainda surgiam outros problemas entre o escravo e os sucessores daquele. cozinheiras. 21-22). Goiânia. as relações sexuais e filhos. a entrar na justiça para reivindicar o seu direito (AGUIAR. por exemplo. decorrentes dum relacionamento mais próximo com os seus senhores. se o senhor falecia antes que o mesmo se completasse. vol. ou prestando-lhes e aos seus filhos. tiveram um com o outro.Cristina Cássia Pereira Moraes ainda que as parcelas fossem pagas pelo coartado. como amas-deleite. favorecidos por situações que envolvem. Aguiar ressalta que a flexibilidade era a regra no pagamento das parcelas da coartação e na definição do tempo de vigência dos contratos. De fato. p. os escravos utilizaram diversas formas de resistência. a revogação unilateral do contrato (1999. lavadeiras e etc. Como sabemos. o cuidado e a amamentação das crianças brancas pelas amas. muitas vezes. recorrendo às sabotagens. entretanto. decorreram.

pelo valor da primeira parcela de cento e noventa e oitava de ouro. 2007 . embora a maioria dos senhores de cativos usasse a palavra “gratuitamente” nas cartas de alforria. tudo leva a crer que. durante certo período de tempo. se estenderam para além do mero ato de obtenção da liberdade. Por outro lado. ficando o restante a ser pago pelo dito escravo. nascera em casa dele e. embora possa parecer paradoxal conceder liberdade a um escravo em plena idade produtiva. ele era estimado pelo seu dono. no tocante a ex-escravos. ainda convém observar que. p.22 O documento abaixo comprova o que afirmamos: Eu. Capitão Felipe Rodrigues Lisboa. havendo a Encommendação do costume. e extremaunção João Mina esravo coartado da heransa do falescido Jeronimo Gomes: seu corpo foi amortalhado em pano branco. sendo o pagamento à vista pela minha livre e espontânea vontade. Em alguns registros de óbitos. Na verdade. devia prestar algum tipo de serviço ao seu ex-dono quem não era tão magnânimo quanto aparentava ser. ainda iria continuar a trabalhar para seu antigo dono. as mesmas aludem a pagamentos e às obrigações da parte dos escravos. o liberto. pelo amor que lhe tenho e por ele ser cria da casa.)23. que concedo a liberdade pelos bons serviços prestados. recebendo sua liberdade após o pagamento de sua dívida (. abaixo assignado. consta a sua condição de coartado: Aos dez de Dezembro de mil oito centos e quatro falesceu com os Sacramentos da penitencia..69) mas. ou os nascidos nas casas senhorias (LEITE. e sepultado no Adro da Capella de Nossa Senhora da Penha de Jaragua. do 213 jul. Todavia. neste caso como em muitos outros semelhantes./dez..Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII pelo valor de uma oytava e meya. um escravo de nome Ignácio Crioulo. após sua liberdade. pelos bons serviços que me tem prestado”21. em troca de alguma remuneração. devido a essas circunstâncias. que entre os bens que possuo. importa ressaltar que. 2000.

enfim. possuir quaisquer bens etc. muito comum no Brasil do século XVIII. caso conseguissem recursos para obter a alforria. com a qual nos deparamos ao fazer esta pesquisa. relativa ao escravo ou ao liberto. 17551798) Uma outra situação. o que se passava era o seguinte: face à predita segunda hipótese. os senhores consentiam naquela situação de facto 214 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. Na verdade. ao escravo era proibido ser testemunha26. n° 15 Co Re m un Co ar ta . não sendo reconhecido como pessoa. no mínimo contraditória. vol.O Coadj or Joaquim Glz´ Dias Goulão. de acordo com a legislação em vigor.Cristina Cássia Pereira Moraes que fiz este assento”. diz respeito a eles poderem ter escravos para os ajudar nos serviços que faziam ou vir a substituí-lo.25 Alforrias 1794-1810 70 60 50 40 30 20 10 0 as da as as s total ui t at ad ul us Gr er c la m Gráfico 7– Tipos de Alforrias (AFSD: Documentos avulsos: Cartório do 1º Oficio: Testamentos. Ora. VIII. herdar28. fazer testamento27. bem como para burlar o imposto de capitação. ser tutor29. sujeita de direitos.

30 Por conseguinte. José da Silva Porto.Sra. 1993. Por mais que a Igreja Católica tenha se preocupado em registrar os acontecimentos. pouco foi preservado. pelo prazo de cinco anos. Não perdendo de vista as observações de Aguiar (1999. tendo condições de associar-se à Irmandade de N. arrematamo-las apresentando um documento bastante ilustrativo sobre isso. 215 jul. se comprometia. a qual. Trata-se dum Termo de Mesa da predita Irmandade. de 1792. ao serem trazidos do continente africano. camufladamente. em que os irmãos decidiram assumir e pagar a coartação da irmã Maria Benguela. p. p. em troca de sua liberdade e da de seus filhos. de jure. Infelizmente. a pagar ao seu senhor. fazendo valer seus direitos em pendências judiciais (ARAUJO. 28) a propósito. As condições sócio-econômicas e religiosas do escravo na Capitania de Goiás e a perspectiva de libertação que se lhe abria. os escravos negros encontraram nelas um importante espaço de reorganização e reconstrução duma solidariedade étnica que se perdera. meia libra de ouro: Aos 25 do mez de 7bro de 1792 – neste consistório de N. conservavam a propriedade sobre tal escravo de escravo. do Rosário e cumprir com suas obrigações pecuniárias é o sinal concreto de solidariedade e caridade cristã entre todos os membros.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII mas. indicando o irmão Antonio de Melo e Vasconcellos como seu fiador.S. do Rozario estando prezente o nosso Juiz e Escrivam e mais irmãos da meza concordaram q a irmã Maria Banguella posuia o direicto a quartação acertada em cinco annos com o fiador Antonio M Vasconcellos por meia libra de oiro o erão taobem a sua moleca de 5 annos mais ou menos. ao se associarem às irmandades. em nossos arquivos a documentação sobre os cativos – quando a encontramos – aparece mutilada. Raríssimas vezes conseguimos encontrar os documentos em séries completas. desfigurada por causa de muito tempo de descuido e por incursões de traças. 95). 2007 ./dez. inclusive os nascituros.

É importante destacar que a maneira do preto manifestar a sua devoção causava temor e incomodava aos brancos pelo apego às “exterioridades das celebrações”. VIII. o politeísmo africano se identificou com o politeísmo indígena e com o culto aos santos católicos. os africanos depois de trazidos à força de sua terra natal e inseridos na sociedade luso-brasileira. mas de forma alguma sua religiosidade podia ser considerada como superficial e de aparência. ao mesmo tempo. que os brancos é que não sabiam exteriorizar a sua fé. para os de fora de sua cultura. no tocante à religiosidade original dos negros. mas. por outro. 216 Revista Brasileira do Caribe. Não pudemos perceber obrigação. p. 115-116). de se tornarem pseudo-católicos31 fervorosos e convictos dos dogmas da fé cristã. vol. (JULIA. faz-se pertinente analisarmos a força da religiosidade dos pretos cativos. a identificação se dava inclusive pela divinização de elementos da natureza como a mata. tais como o de São Jorge. os quais. do ponto de vista deles. 3-4). por exemplo. recusando sua situação de inferioridade. concomitantemente. No primeiro caso. parecem contraditórias e inconciliáveis. possibilitaram-lhes tomar consciência de sua unidade étnica e proporcionaram-lhes expectativas transcendentes que minimizavam seu sofrimento interior e exterior. tendo presente o contato que estabeleceram com as tradições dos índios e a dos luso-brasileiros. Goiânia. algumas semelhanças entre elas possibilitou um estreito diálogo32 e a circularidade cultural33. No segundo. conveniência ou compartimentação entre o catolicismo e a sua africanidade. O certo é que. cultuada tanto pelos índios como pelos africanos. é provável. reconhecido como o orixá Ogum. por um lado. de praticarem suas crenças e. os pretos eram capazes de conciliar coisas que. pois mesmos os recém-chegados da África não eram impedidos. formularam e atribuíram novos significados à sua religião e ao catolicismo.Cristina Cássia Pereira Moraes Ademais. tendo em vista a total impossibilidade de regressar às suas origens e. 1994. p. o culto aos santos se relacionava de modo coerente com muitos mitos religiosos africanos. Com efeito. pois conforme observou Quintão (1997. n° 15 .

p. Deus envia a terra doze apóstolos. admirado com a fervorosa religiosidade dos cativos. os manda para a Guiné. só muito dificilmente se distingue do Deus do catolicismo à medida que este sempre foi representado na pregação. pois faz com a sua devoção se alegrem tanto os pretinhos. os favores e mercês da Maria Santíssima. se entrega a feitiçaria e se transforma em Lúcifer. De fato. frei Agostinho de Santa Maria ressaltava a generosidade dos mesmos nas celebrações das festas. em geral. com exceção de um que. dos anjos e dos santos dados aos homens como seus guardiões e protetores. o mundo religioso dos escravos africanos era avesso ao profano e sua crença apoiava-se na simbologia do sagrado. os senhores não tinham interesse em saber nada a respeito de tais crenças. Apesar disso. Ele é o criador dos espíritos e dos santos católicos correspondentes e. 1987. 1996. em 1722. Deus envia doze apóstolos que se comportam melhor. Em seu orgulho eles se rebelam contra Deus que. essa lacuna documental prejudica. Infelizmente. pregam o evangelho e se tornam santos (HURBON. o agostiniano. fornecem dados preciosos. porém.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Outrossim. como os católicos. com muita perspicácia. quanto à maneira como veneravam Nossa Senhora do Rosário. se recusando a partir. 2007 . como castigo. Eles se multiplicam e se transformam nos loas. 102-107) Para mais. p. hoje. e como. grupos como os iorubás ou gegês acreditavam. Mais tarde. deixados pelos religiosos. alem disso. nos cânticos e nas orações como o criador do universo. no catecismo. efetivada nos vaticínios. que Deus é a chave da abóbada que sustém todo o sistema dos espíritos e de todas as práticas desse culto. comentando: “as maravilhas de Deos./dez. 47). os registros que alcançaram nosso tempo. o trabalho dos investigadores (MUNANGA. eles também preferiram guardar silêncio e continuar praticando seus rituais misturados ao Catolicismo. que parece huns doudos de contentes”: 217 jul. sortilégios e magias.

Mais recentemente. as concepções de acordo com as quais Maria era a mãe de todos os desvalidos bem como de Jesus Cristo e a intercessora.34 Outrossim. & festejarem à Senhora. uma outra constituída 218 Revista Brasileira do Caribe. 86). que possuam. esmerando-se muyto em levar a vantagem a todos os mais (. em Portugal e depois para o sertão dos Guayazes. VIII.. e como um meio de enraizamento da comunidade negra nos domínios ultramarinos. 1947. “a integração do homem de cor” – o que podemos chamar de estratégia de convivência harmoniosa ou de “auxílio mútuo”. perante a maioria branca.) (SANTA MARIA. vol. e propiciar aos seus membros um lenitivo religioso. que em tudo excedem aos brancos. Segundo o referido frade. n° 15 . & não tendo nada.. os estudos sobre esse assunto apontam para os fatos de que tais irmandades surgiram face às necessidades de se aliviar as pressões advindas duma sociedade competitiva. em Lisboa. pois sendo pobres.Cristina Cássia Pereira Moraes He muyto para admirar a fervorosa generosidade. com que aquelles pretinhos servem à sua Senhora. os escravos negros provenientes da África erigiram na igreja de São Domingos. & captivos. por excelência junto de Seu Filho Divino. meramente. A partir de 1520. Outros julgam que elas foram concebidas e organizadas visando a inserção dos cativos naquela sociedade. Goiânia. não sendo vistas como que estimuladas. faz-se pertinente buscar a origem da maior devoção dos cativos dedicada a Nossa Senhora do Rosário primeiramente. no âmbito da sociedade escravocrata que acentuava a divisão social. dominada pelos brancos. Alguns deles asseveram que elas surgiram com os fitos de difundir uma “falsa igualdade”. isto é. para servirem. ao lado da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de brancos. p. por motivos profanos ou seculares. o fazem com tanta grandeza. Estudiosos do tema em apreço não estão em acordo quanto à explicação das possíveis origens das irmandades religiosas das pessoas de cor. faziam com que as festividades em louvor à Virgem fossem quase uma epifania do transcendente que lhes causava imensa alegria.

a nova devoção mariana. essa devoção encontrou guarida em igrejas e conventos de cidades e vilas e. 1961. “Sua recitação está intimamente ligada aos mistérios da Vida. que pode ser classificada como sincrética. 2007 . p. dada a impossibilidade de os mesmos participarem da Irmandade de seus senhores. as irmandades. se revestiu com uma roupagem nova. que he com que hoje ao presente he buscada e servida dos seus devotos pretinhos”. como ocorreu no Porto. ao contrário. dizendo que tal devoção surgiu quando os escravos foram “fazendo hum ajuntamento e pondo hua mezinha a porta da igreja e depois outra maior e mais dentro a maneira de confraria por onde se vieram alevantar”36. “lhe deram o titulo do Rosario. isto é. 39-40) 35 Seus associados portugueses tinham como obrigação “remirem cativos. surgindo assim. Entretanto. Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e as quinze dezenas que se he 219 jul. quando os negros cativos adotaram a devoção a Nossa Senhora do Rosário. e consistia na recitação do terço ou do rosário. mesclada com o popular e afetivo. de cento e cinqüenta ave-marias. entre grupos sociais populares.Sra. (ENES. aonde a milagrosa Virgem do Rosário era cultuada pelos marinheiros. os brancos a abandonaram completamente e passaram a menosprezá-la. à época da batalha de Lepanto.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII somente por eles./dez. A devoção a N. Sacramento.37 Não obstante a sua origem medieval. presos e casarem orfaons”. face à ameaça islâmico-turca perante uma Cristandade dividida por causa da Reforma Protestante Rapidamente. também passaram a criticar os frades Dominicanos por lhes terem permitido organizar uma confraria inteira exclusivamente com sua gente. Os negros. na Península Ibérica. os frades Pregadores ou Dominicanos. divididos em quinze dezenas. nela incluída a recitação do Terço. 261) Ela quase se igualou em importância à prestada ao Ssmo. nessa época. ligada a São Domingos e aos seus filhos. 1976. em Portugal. p. cada uma precedida do Pai-Nosso. do Rosário. Alem disso. então. (SCARANO. Tridentina e institucional. se intensificou sobremaneira graças ação religiosa dos Dominicanos.

de leurs associations. 448). a 220 Revista Brasileira do Caribe. p. p. VIII. jamais ce dernier objectif n’atteindra au Brésil les mêmes proportions qu’au Portugal (2001. se consagram e se dedicam a Nossa Senhora” (AMARAL. cette attitude provoque le dédoublement de l’association et la création officielle d’une confrérie noire sanctionnée par des statuts ratifiés en 1565(…) Ces statuts sont le prélude à la création d’autres associations organisées sur le même modèle.au moins théorique . Sra.38 O pesquisador francês Lahon ao estudar a origem das irmandades de N. Goiânia. 1953. a Igreja não poupou esforços para integrar o africano. do Rosário de homens “brancos”: Comme nous l’avons observé. em coroa se oferecem. recém-chegado. No seu esforço de enquadramento religioso. do Rosário dos Pretos de Lisboa observa que eles foram os primeiros a elaborarem – em 1565 .Cristina Cássia Pereira Moraes devotam constituem rosas que. conforme o primeiro levantamento populacional de Lisboa realizado por Cristóvão Rodrigues de Oliveira em seu Sumario em que brevemente se contam algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa em 1551: Há neste mosteiro de São Domingos sete confrarias. où les noirs auront le contrôle .um estatuto próprio que diferia do Compromisso da irmandade de N. n° 15 . Sra. 18). affirmeront leur identité. mas. Segundo o autor acima a ereção dessa irmandade é a primeira do gênero e seu Compromisso data de 1565. Do Rosário”. atraindo-o para as irmandades mais capazes de interessá-lo. numa sociedade católica e branca. assisteront et défendront légalement les intérêts des captifs contre les maîtres. Or. un peu partout sur le territoire. vol. S. Esses observam a vantagem de se congregarem em irmandades por “ser notoriamente o grande proveyto q resultara a conversão das almas q até os Reis Gentios mandavam esmolas para a confraria e pedião retabolos de nossa Sra.

41 Geralmente. começavam com uma exortação. São nagôs. no Recife do período do reinado de Afonso VI. ou seja. são bantus.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII confraria de Jesus regida por pessoas nobres E principais cidadões. reforçando o compromisso de adesão. podemos analisá-la a partir do estudo de seus “Termos de Compromissos”. Sra do Rosário no Brasil. Cabinda e Moçambique. do Rosário. a saber. Assim.39 No Brasil. E outra de pretos forros e escravos de Lixboa. ao seu ingresso na mesma. especificamente. atirando ao chão. pois o critério de união não é a nação e sim a procedência dos cativos que faziam parte da irmandade de N. são mandingas. Sra. são fulas. sobre o próprio destino ou sobre a sorte no amor. Quanto à devoção à Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos que nos Guayazes. Angola. Segundo Tinhorão. cujos sacerdotes desse orixá usavam o “rosário de Ifá” à volta do pescoço. 2007 . em Pernambuco. p. soltas ou unidas em forma de rosário as nozes duma palmeira africana chamada OKpê-lifá. O mesmo não podemos afirmar para a Capitania de Goiás. período do reinado de Afonso VI (1643-1683) de Portugal. as contas dos rosários não eram constituídas por esferas polidas e iguais. 126-127) . recitado pelos irmãos. De acordo com esse estudioso. era composta por africanos e crioulos e certamente tomaram como modelo a já centenária irmandade congênere de Lisboa./dez. dentre outros. são haussás. do Rosário entre os cativos surgiu à volta de 1662 a 1668. eles a associaram ao culto anteriormente prestado ao orixá40 Ifá. cuja devoção visava. a devoção a N. são jejes. hua de pessoas honrradas. Para essa irmandade de Recife em Pernambuco o critério de nação entre os irmãos fica muito claro na documentação. como se fosse um colar. são minas. Benquela. são bornus. E a confraria de nossa Senhora do Rosário repartida em duas. O de Vila Boa é diferente dos “Termos” 221 jul. são tapas. durante a Idade Média. Sra. mas por pequenas rosas esculpidas em madeira (1988. somente aceitavam negros cativos. o mais provável é que a primeira irmandade de N.

(. della senão lembrão e a mesma Senhora para os favoresser e amparar de tudo se esquece.como May de mizericordia a todos os seus filhos e dovotos.Cristina Cássia Pereira Moraes dos arraiais de Pilar. reformulou o seu “Termo”. Crixás.. VIII.Sra. n° 15 . o que denota uma condição sócio-cultural melhor dos pretos escravos da Vila43. vol. embora admitisse que brancos pudessem ser devotos de N. a de Vila Boa. Conforme os dados registrados nos “Termos de Mesa” que pesquisamos.) o modo mais concernente para conduzir novos devotos a esta pia congregação e que pela intercessão da Virgem Mãe e Senhora do Rosário na vida eterna. Goiânia.. está escrito que confraria e irmandade é a congregação de muitas pessoas que se sujeitam voluntariamente ao serviço de Deus e de Sua Mãe Santíssima. só aceitava pessoas de cor e escravos como membros.) e depois de terem também nesta irmandade participado os copiozos prantos e incomprehensiveis benefícios. todos os irmãos e irmãs colherão o fruto da Bem-aventurança”. São Jose do Tocantins e Trairas. após. e ainda a aquelles que pela sua desgraçada conducta.. são as mais eficazes para a conservação dos Louvores dos Santos aos quais se consagram “e(. os quais “desde o primeiro dia em que nella se assentarem por serviço da mesma Senhora... passando a aceitar brancos como irmãos. ao contrário das confrarias. mercês e favores que cada instante esta. entre 1748-92. Entretanto.42 Nos outros. e só se lembra deque todos forão remidos com o infinito preço de sangue de seu unigênito Filho. 1803.. do Rosário. se comparada com a dos que viviam no interior da Capitania: Ao primeiro de Mayo de mil e sete centos e setenta e cuatro na Igreja de Nossa Snra do Rozario dos pretos da Vila Boa dos Guayazes estando congregado o escrivam que prezidia pelo 222 Revista Brasileira do Caribe. Essa Irmandade em geral. ficão sugeitos atoda a Ley deste compromisso”. 11 irmãos escrivãos e 8 tesoureiros letrados se revezaram no exercício dessas incumbências. ao especificar que as irmandades.

tanto por motivos administrativos e financeiros. em caso de empate na votação sobre alguma determinação. p. grassava entre os escravos que aí viviam (GAETA. um tesoureiro. 48 Todos os irmãos escolhidos para desempenhar os mencionados cargos. um escrivão. tinham de obter “o seu beneplácito e consentimento da Eleição e cargo que os seus servos forao nomeados. doze irmãos e doze irmãs de mesa. um andador. porque rejeitando o que a mesma Senhora não hade permitir.44. Os irmãos pagavam duas oitavas de entrada e uma de anual.46 Essas irmandades construíram suas próprias capelas com as esmolas arrecadas com os irmãos./dez. o seu voto decidiria a celeuma. um procurador. as Irmandades dos mencionados arraiais. sirvão dous homens brancos debom nome e inteligência para o governo e direcção da Irmandade em quanto não houverem homens pretos com sufficiencia para os referidos cargos. No caso da Irmandade de Crixás está explicitamente escrito: Como nosso estado e condição dificulta haverem pessoas capazes e inteligentes para servirem as occupaçoens de escrivão e thezoureiro. mas assim mesmo se a Irmandade não quisesse aceitá-los serão “nomeados homens pretos para exercerem os ditos cargos” 45. de Trairas e de Pilar um rei e uma rainha. quanto por causa do analfabetismo que. De fato. acentuadamente. aceitavam brancos apenas como oficiais escrivão e tesoureiro “por não dominarem as letras”.. se procederá 223 jul. 1995. dos seus senhores..Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Irmão juiz. encontrando-se todas com “a devida dessencia e ornato que se precisa” sem ajuda da fábrica da matriz... O Reverendo Capelão podia assistir às reuniões e.se propoz que o dito escrivam permanessese no cargo posto ser o mior para a função q exerce juntoa Seu Senhor de caixeiro de fazendas secas dominando as letras e contas. 102). um juiz e uma juíza.47 Compunham a mesa da Irmandade do Rosário de Vila Boa. 2007 . no ano em que estivessem ocupando cargos não pagavam anuais. um zelador.

Constatou-se na documentação examinada. vol. Embora a reeleição para tais cargos fosse proibida. expirado o prazo. aquele que tivesse obtido mais indicações para cada posto. que muitos dos demais irmãos de compromisso não pagavam “religiosamente”. O rei e a rainha pagavam a anuidade de vinte oitavas cada um. Em caso de empate. seriam convocados perante a mesa para acertarem a quantia devida no próximo ano. designados por irmãos rasos pagavam uma oitava de ouro. dois procuradores e doze irmãos de mesa entre homens e mulheres.52 224 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . Irmãos e irmãs votavam secretamente e. O escrivão. o procurador e o andador nada pagavam. seriam expulsos. O rei apresentava à mesa três pretos capazes de exercerem o ofício de rei e demais cargos.Cristina Cássia Pereira Moraes a nova eleição”49. um escrivão. o tesoureiro e o procurador nada pagavam “pelo grande trabalho que tem nas referidas occupações”. continuassem devedores. geralmente. Goiânia. por exemplo. o juiz e a juíza pagavam dezesseis oitavas. era o eleito. prevendo-se até um interstício de 3 anos. bem como pela dedicação da pessoa ao exercê-lo. O procedimento em todas as Irmandades era bem simples. era justo que “selhe facão todos os suffragios por sua morte”. exceto se o procurador justificasse que o devedor vinha passando por algum infortúnio e a mesa deliberasse postergar a quitação da dívida por mais um ano. o tesoureiro. VIII. se não quitassem seu débito em três anos. o rei decidia com o seu voto. Aos escravos que obtivessem a alforria e fossem devedores “deva cobrar executivamente”. As eleições para os citados cargos eram realizadas na véspera da festa de Nossa Senhora do Rosário. sua anuidade. face ao motivo supra-citado.51 Aos fiéis pagadores. um juiz e uma juíza. abriam-se exceções. o escrivão. apurados os votos. A anuidade cobrada para se exercer os 4 principais cargos era de 24 oitavas de ouro. a qual. Os 24 irmãos e irmãs de Mesa pagavam três oitavas cada um e os demais irmãos. o que obrigava as Irmandades a tomarem algumas providências. Se.50 Compunham a mesa da Irmandade de Crixás e de São José do Tocantins um rei e uma rainha. ocorria na oitava de Pentecostes. um tesoureiro.

Constam de todos os “Termos de Compromisso”. a ponto de. apesar de se vestirem à maneira do branco. Era-lhe proibido modificar o “Termo” da Irmandade. posto que é o dia consagrado em seu louvor. por auto-iniciativa. sem a autorização da mesma e. como o ritual da coroação de seus reis e rainhas. foi nas festas dessa Irmandade que os escravos mantiveram um bom número de seus antigos costumes e tradições. entregava-os ao sacerdote pregador da festa que os proclamaria após o sermão em louvor a Sra. nas celebrações religiosas. arregimentar um número maior de associados e convocar as 225 jul./dez. à de Crixás. Somente na de Vila Boa. no dia seguinte. Ademais. o juiz também tinha os encargos relevantes de cuidar da boa paz e sossego entre os irmãos. rezar pelos benfeitores da Irmandade e acompanhar à sepultura os irmãos falecidos. vestiam-se com as opas brancas. 2007 . na continuação das festividades. No outro dia. começo do ano novo. os demais oficiais. com o pagamento de uma multa pecuniária. cujo valor era de “hua oitava do que tudo se ajustar”54. os juízes e juízas tinham de “tirar esmola com a Bacia”. dançavam suas próprias danças próprias e cantam suas músicas ancestrais misturadas com as letras de cantos católicos (SCARANO. em 1 de janeiro. no que concerne à de Vila Boa. se tributavam homenagem e respeito. rezar a Ladainha de N. todos os sábados. por isso mesmo. tinha as seguintes obrigações: rezar missas pelos irmãos falecidos. sempre estarem junto ao altar-mor. o juiz e a juíza vestiam-se com opa e portavam a vara e. 1976. seria penalizado. o rei e a rainha. 44-46) . que o capelão da Irmandade. à de Trairas e à de Pilar. à de São José do Tocantins. do Rosário. se viesse a fazer isso. Quanto aos deveres dos dirigentes dessa Irmandade. Sra. na Vila e arredores e nos arraiais e adjacências. delas já participavam revestidos com todas as insígnias de Majestade53.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII O capelão guardava os resultados consigo e. rezar o terço aos domingos. no tocante à sua remuneração pelos serviços religiosos que tinha de prestar. Aliás. eleito pela mesa. os reis e rainhas. no interior de suas comunidades ocupavam posição eminente e. os quais. p.

da lavagem das alfaias utilizadas na celebração da missa e das opas dos demais irmãos. consta a proibição de o tesoureiro não poder emprestar a ninguém nem ouro nem os bens pertencentes às mesmas. Goiânia. cujas incumbências eram guardar e anotar nos livros apropriados. apresenta algumas peculiaridades em relação ao da Vila e as outras. O terceiro cargo em importância nas Irmandades do Rosário era o de tesoureiro. o tesoureiro exercia suas atribuições. bem como. o irmão escrivão era o responsável pela guarda e conservação dos livros de registros da irmandade. Do “Termo de Compromisso” da irmandade. Ele ocupava o segundo cargo mais importante da mesma e. inclusive.Cristina Cássia Pereira Moraes reuniões necessárias ao bem da irmandade. radicada nos arraiais analisados. Entretanto. Em todas as Irmandades. defendellas. em caso de falecimento ou ausência de algum irmão. o escrivão registrava as eleições e “accordaons” ou termos de mesa. Num terceiro livro. uma espécie de ata do que havia sido discutido e decidido em reunião. fazer procurações e segullas até mayor 226 Revista Brasileira do Caribe. VIII. por exemplo. Num desses livros. administrar as obras de construção ou de restauração sob encargo da mesma. vistas nos capítulos anteriores. firmavam o “Compromisso”. primeiro ao tesoureiro e. depois. os ornamentos e as alfaias pertencentes à mesma. cuidar. ao procurador.55 Noutro. “declarava por cota ao pé do mesmo assento todos os annuais” devidamente registrados. Livro da Fábrica . ao seu ingresso. o cargo de irmão procurador dessa Irmandade. inclusive. o escrivão anotava o nome dos irmãos que. prática essa comum entre demais irmandades. no seu impedimento. n° 15 . Estavam obrigados a cuidar do asseio da capela e. aqueles provenientes das “esmolas de bacia” e outras mais. anotava as receitas e despesas da irmandade. os rendimentos da irmandade. os bens. Apenas a de Crixás delegava poderes de “fato e direito”. conforme orientação do tesoureiro. limpar e inventariar em livro apropriado. vol. com a ajuda do escrivão.“ E concede ao thezoureiro e Procurador os poderes em direito necessarios para todas as dependencias da irmandade em Juizo e fora delle e para intentar cauzas. radicadas nos arraiais.

bem como “passará recibo do dinheiro q receber dos alugadores das cazas e apresentar em Meza o q se fizer preciso”.59 Um outro fato. aggravar. determinou que o procurador não consentisse que tal fato continuasse a ocorrer na “irmandade irmã porque os envolvidos seriam remetidos aos seus Prelados para que este os corrigissem como mereciam”. dansão com diversos movimentos do corpo”. diz respeito à condição dum pretinho escravo oferecido à Nossa Senhora do Rosário: Aos trinta dias do mes de setembro de 1759. face ao motivo que aludimos antes. registrado no Livro de Termos de 1791. como nos arraiais homens brancos “ornados e de bons costumes” ocupavam os cargos de escrivão e de tesoureiro./dez.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII alçada”. No entanto. 2007 . estando o escrivão 227 jul.56 Ora.57 Pode-se notar a ligação e a ascendência da Irmandade do Rosário da Vila sobre as demais congêneres.58Outrossim. embargar e seguir a sua justiça ate mayor alçada”. que ressalta a importância do cargo de procurador da Irmandade do Rosário da Vila. Os irmãos deliberaram e decidiram em reunião. bem como ajudar o irmão escrivão. por razão análoga. conforme tivemos a ocasião de ver. tratando de outras Irmandades. a partir dum acontecimento estreitamente vinculado às práticas religiosas sincréticas dos pretos. que o procurador Manuel Gomes Alvarez admoestasse os irmãos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Crixás a respeito de um ofício emitido pelo Padre José Maria Santana Fernandes sobre as “dansas supersticiosas que os ditos pretos divididos em Nasçoens e com instrumentos proprios de cada hum. no mínimo curioso. com idêntica devoção. no “Juízo de Órfãos e Auzentes”. Também devia cobrar a anuidade dos irmãos devedores. o procurador da Irmandade de Vila Boa a representava junto ao Tribunal da Real Fazenda. para que no Livro dos Assentos para não só anotar o falecimento de algum irmão. equivalia às incumbências dos zeladores. no tocante às demais. as responsabilidades do procurador. tendo os direitos de “appellar.

tentar fugir. se propoz o que faser com hum cabrinha dado a Nossa Sra do arraial de S.63 Devia.60 De fato. eleitos para a mesma. se prometia ao prezente. tinham as obrigações de zelar por tudo o que condissesse ao bem e ao aumento da irmandade. concernentes à legislação e ao compromisso. ainda. por maioria dos votos dos irmãos. somente o procurador podia ser incumbido desse ônus. n° 15 . VIII. não há um capítulo sobre como proceder. nos relativos às dos arraiais. de acordo com a qual. vol. E tomados os votos assentarão q. Quanto aos demais irmãos de “mesa” das irmandades em apreço. Jozé. para além desse 228 Revista Brasileira do Caribe. ser um homem probo. pois. a saber.64 Finalmente. existentes nos arraiais. igualmente. em caso de eventuais modificações que. ainda constatamos algumas particularidades que convém destacar. ou pertencer a algum espólio de herança ou. 62 Só na Irmandade da Vila havia o cargo de zelador. como tivemos a ocasião de verificar. de usarem a opa branca em todas as cerimônias que a mesma tivesse de estar presente. Goiânia. Era um assalariado da irmandade e escolhido em mesa. por ventura se fizessem necessárias. da leitura e análise de todos os “Termos de Compromisso” das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. de bons costumes e bastante devoto. Ambos os documentos reforçam nossa tese. as Irmandades devotas dum mesmo orago. tratando de outras Irmandades. antes. de onde partiam as normas e resoluções pertinentes aos interesses comuns de todas elas.Cristina Cássia Pereira Moraes e mais irmaons da meza do anno nesta Igreja de Nossa Sra do Rdo de Villa Boa dos Guayazes. porquanto apenas ele tinha competência para fazer “o mais em que se precisa especial e geral mandado de representação”61 e o moleque ou podia ser reivindicado por algum suposto dono. estavam ligadas à da Vila. se não vendesse e só o deixassem tomar carne para depois o vender por mayor quantia q. No concernente à Irmandade da vila. cujas incumbências principais consistiam em guardar as chaves da capela e cuidar do seu asseio bem como de seus ornamentos e guisamentos.

terão à celebração de duas missas por suas almas. como a igreja Matriz continuava a ruir aos poucos e era necessário encontrar um outro lugar para a celebração do culto. quando vierem a falecer. sobre a Irmandade do Senhor dos Passos de Vila Boa. às leis da Irmandade. Quais os motivos que levaram os brancos a ingressarem nessa Irmandade após 1805? Como observa Scarano. ao menos teoricamente. 2007 . conforme vimos no capítulo anterior.65 Posteriormente.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII capítulo. parece inegável que a sua presença representava uma forma de controle sobre os escravos. o 21º. embora não deixassem de invocar para tanto razões piedosas. igualmente. esse fato contribuiu para que. aquela Irmandade passasse a usar a capela do Rosário dos Pretos. certamente. se sujeitavam. a Irmandade da Vila passou a aceitar irmãos de qualquer idade. tendo em vista a devassa aberta contra os mulatos da Irmandade de São Benedito. Entretanto. No entanto. pensamos que. o que pode ser aceito como hipótese. por esse motivo. tendo sido apenas irmãos de devoção que. em determinadas ocasiões. sexo ou condição. o que./dez. por “estado de pobreza”. terá contribuído para aumentar o número de devotos de Nossa Senhora do Rosário. como os outros.66 229 jul. Em seu Livro de Receitas e Despesas. os irmãos observam: “que as vaidades do tempo são impessptiveis (sic) ao entendimento humano e pode acontesser a estas minas cresserem ou deminuirem as riquezas em que seja necessario deminuir ou agmentar as Leys do compromisso”. deixaram de pagar suas mesadas. o texto frisa que os negligentes com seus deveres pecuniários não gozarão desse favor. já no início do século XIX. conquanto isso não tenha implicado em que eles tivessem passado a ocupar os cargos de direção da mesma. a presença de brancos passa a ser preponderante. Há ainda um outro capítulo sobre os sufrágios pelos irmãos que. os quais.

“Das diferenças raciais passa-se pouco a pouco a uma acentuação maior das distâncias sociais independentes da cor da pele e ao aumento de pretos e pardos livres”. VIII. Goiânia. Do Rosário no início do século XIX. a Irmandade já não conservava a antiga rigidez e. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1816).(SCARANO. doRosáriodosPretos deVilaBoanoiniciodoséculoXIX 30 25 20 Pretos liv res 15 10 5 0 1800-04 1805-09 1810-14 Pardos liv res Brancos Gráfico 8 – Devotos de N.S. 1975. Sra.Cristina Cássia Pereira Moraes DevotosdaIrm andadedeN. O fato é que. foi adquirindo novas características. vol. Sra. n° 15 . gradualmente. 129-142) 230 Revista Brasileira do Caribe. no século XIX. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N.

1999. 1994. 1996. a de Nossa Senhora das Mercês e a de Santa Efigênia. mantinham suas capelas em grande ordem e limpeza. muito pelo contrario: cor e raça na intimidade. 2007 . ciência e sociedade. Rio de janeiro: FIOCRUZ/CCBB. a de São Benedito. Os irmãos cativos que não conseguiam obter a liberdade.4. MAGGIE./dez. L O espetáculo das raças: cientistas. Guerra e paz: Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30.as questões historicamente construídas entre mestiçagem e branqueamento: SCHWARCZ. 4. Helio. In: MAIO.) Raça. Yvonne. SILVA JR. passaram a pertencer às Irmandades que aceitavam os forros. 1993. Roberto. 3. Antiracismo: coletâneas de leis brasileiras (federais. Por isso. Rio de janeiro: Rocco. Kabengele. Rio de Janeiro: Editora 34. Racismo e anti-racismo no Brasil.a questão da democracia racial: ARAUJO. estaduais e municipais).A questão da cor: SCHWARCZ. (Org. 1998. São Paulo: Editora Oliveira Mendes. São Paulo: Companhia das Letras. 1998.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Enfim. Antonio Sergio Alfredo. São Paulo: Companhia das Letras. sempre foram elogiados pelos Visitadores eclesiásticos que reconheciam que. Ricardo Benzaquén de. Lilia. 173-244. 1996. VALE E SILVA. Nem preto nem branco. bem como os seus Livros. Nelson 231 jul. Fernando (Coord. 5. SANTOS. 6. (Org) Estratégias e políticas de combate à discriminação social. pp. por exemplo. competiam em igualdade de condições com pessoas mais bem aquinhoadas pela sorte. São Paulo: EDUSP. Aqueles a quem foi negada a cor do dia: as categorias cor e raça na cultura brasileira. quanto de um relativo otium cum dignitate Notas 1 Para entender as relações raciais historicamente construídas no Brasil consultar os descritores que analisam: 1. 1987. tanto do ponto de vista dos recursos econômicos.) História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo/ Editora 34. pp. 225-234. Ricardo Ventura. v.a questão da invisibilidade do negro em espaços sócioculturais e políticos: MUNANGA. apesar de desfavorecidos. Relativizando: uma introdução à antropologia social. In: NOVAIS.a questão de anti-racismo: GUIMARAES. Marcos Chor. 2. demonstrando um desejo de se igualarem aos forros. instituições e questão racial no Brasil 1870-1930.a questão do mito fundador das três raças: DA MATTA. quanto aos ex-escravos alforriados pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário.

Rio de Janeiro: s. pp. o maior era formado pelos ovimbundos.e. devido a uma desestruturação interna na região tais como observa HERNANDES. 2005. São Paulo: Companhia Editora Nacional. rolos 10. Estudos Afro-asiáticos. Nancy.437 escravos e apenas 10% são nagôs. Raimundo Nina. Arquivo do Museu das Bandeiras doravante AMB: Impostos e Dízimos. nº 26. p. v.D. A África na sala de aula. da USP. Arquivo Histórico de Goiás doravante AHG: Documentos avulsos: códice 1129.. 4 RODRIGUES. Livro 329. novas invasões de povos do interior do continente e o aumento do tráfico internacional de escravos para o Brasil. 2 Dos grupos acima citados. O segundo maior grupo era formado pelos quimbundos e o terceiro era formado pelos bancongos que ocupavam os territórios de Cabinda e as províncias do norte do país. 588: grave seca que ocasionou além de fome. 1994. In: Microfilmes do C. London: MacMillan University Press. STEPAN. Florentino (1997) observa que entre 1701 e 1800 foram exportados mais de dois milhões de cativos para as Américas. bem como. Os africanos no Brasil. n° 15 . pp.11 e 12. 5 Nas matrículas oficiais de escravos pesquisadas por nós.567. Cuba e os Estados Unidos. 98-120. Goiânia. 2005. Leila L. Em 1783 registrou-se 17613 escravos e 40% são nagôs.5. HERNANDES. Em 1750 a Capitania possuía 14. Na maior parte dos registros há um acentuado número de escravos de Moçambique nas primeiras décadas do oitocentos para Goiás. The Idea of race in science: Great Britain 1800-1960. registros de batismos e inventários encontramos entre os anos de 1750 e 1783 um aumento substancial no tráfico de escravos nagôs para Goiás. Visita à História Contemporânea. 1803-1810. 67-80. Uma nota sobre raça social no Brasil. vol. v.H. avulsos: Termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos 17381792.Cristina Cássia Pereira Moraes do. 1982. 1977. epidemias e grande número de mortos. VIII. 5º ed. São Paulo: Selo negro. nos termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. 6 A respeito do tráfico. 232 Revista Brasileira do Caribe. p.1-13. 3 Instituto de Pesquisas Históricas do Brasil Central doravante lPEHBC: Livro do Registro de Óbitos. falavam a lingua umbundo e ocupavam principalmente a província de Benguela no planalto central de Angola. Arquivo Frei Simão Dorvi doravante AFSD: Doc.

Mary Karasch.208: Mary C. Outrossim. 10 (KARASCH. História dos quilombos no Brasil. nº 13. 12 Os registros de batismos e óbitos se encontram no Orfanato São José. 24 junho 1768. posteriormente. Princeton. p. 2007 . 162.117151. Transformations in the American Diáspora. 233 jul. Slave Life in Rio de Janeiro. Flávio dos Santos. 1996. GOMES. de seu livro intitulado Central Africans and Cultural. 100-101. eram conduzidos a São Félix e. 53. João José.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 7 Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do tombo doravante IANTT: Mesa de Consciência e Ordens: Secretaria do Mestrado da Ordem de Cristo: Papeis do Brasil: Jurisdição Eclesiástica no Brasil. e p. NJ. documento 1518. Mary C. Depois. 1767. 1792-1799. 127). p. 8 Censos de 1779: “Tabela 1: População da Capitania Goiás em 1779. Gilka SALLES.123 e entre 1791 e 1799 foram de 1. Cit. p. Mappa de Contagens de Escravos.. (Org) Liberdade por um fio. 1780-1835”. nota 13. p. p. AFSD: Documentos avulsos: Cartório do Primeiro Ofício. A rota percorrida pelos cativos de Salvador para Vila Boa passava Cachoeira. 1808 -1850. Karasch. 336. 2002. In: REIS. England. Karasch. Cambridge University Press. 2002. Princeton University Press. 9 Agradecemos à professora Mary Karasch que gentilmente nos propiciou todos os dados sobre os escravos na Capitania de Goiás. “Os quilombos do ouro na Capitania de Goiás”. na Cidade de Goiás e foram compilados por nós e pela Dra. Códice 15: Capítulo 16. Uma segunda rota para os comerciantes da Bahia passava pelos registros de São Domingos ou Lagôa Feia a Meia Ponte e. chegava a Vila Boa. finalmente. a Vila Boa ou a Natividade. foi de primordial importância para nossa pesquisa o capítulo “Central Africans Central Brasil. Cruzava o Rio São Francisco em Barreiras. op. 11 O número de cativos advindos para a Capitania de Goiás por essa rota em 1767 foram 1. 1987. e AHU: caixa 24. 1992. 22 de Ju1ho 1793. 242. aonde eram contados e registrados. São Paulo: Companhia das Letras. prosseguia até o registro do Duro. p. no interior de sertão da Bahia. Capítulos da Visita: “Por ser obrigação nossa e do Officio Ecclesiastico Ordinário mandamos ao Vigário Ouvidor da Vara q hé e ao diante for nesta Vila q chegando aqui algum Navio ou barco de qualquer parte q venha o vá visitar como se faz em todos os portos de mar do reyno e saiba a gente q traz e de q religião e Nação são e q livros trasem e sendo depois da quaresma se se hão desobrigar no lugar donde vem”./dez.

mas até os mesmos que já se acham batizados e habitão nos Sertoens do mesmo Brasil. Goiânia. levallos para outras terras. despojallos de seus bens. livro 3. vendellos. vol.Cristina Cássia Pereira Moraes 13 Biblioteca Nacional de Lisboa doravante BNL: Reservados 1972 5v: Breve do Papa Benedito XIV sobre escravidão dos índios do Brasil. que os sujeitassem a escravidões e que lhes maquinasse ou fosse dada a morte. folha 17v e 1775.134 e 134v.. 1748..(. ou dallos separallos de suas mulheres e filhos. 20 de dez 1741. PIBIC-UFG – 2001-2003. 1764. se achão agora principalente nessas regiões do Brasil homens que fazendo profissão da Fé Católica vivem tão inteiramente esquecidos da Caridade insufa pelo Espirito Santo nos nossos coraçoens e sentidos que reduzem a cativeiro vendem como escravos e privão de todos os seus bens não só aos miseraveis indios que ainda não allumiou a luz do Evangelho..169v.. trocallos.1792: Termo de concentimento da Irmandade sobre a quartação do irmão Francisco. Parágrafo 6º. VIII. (. 1794 -1834. 234 Revista Brasileira do Caribe.) mandeis afixar Edictos publicos pelos quaes apertadamente se prohiba debaixo de Excomunhão late sentente (. 17 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa.. Orfanato São José. n° 15 . e fazendas. Goiás. p.. 16 Arquivo Histórico Ultramarino doravante AHU::Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. que fossem metidos em cárcere. tudo o referido não obstante. p. 1777: códice 1814: Capítulo 3. (.) se atreva.. Batizados. nem attente daqui em diante fazer escravo os referidos indios. 15 Todos os dados referentes ao Livro de Óbitos de Meya Ponte foram transcritos pela estudante do curso de Historia da Universidade Federal de Goiás Maria Lemke Loiola.. transportallos ou por qualquer modo privallos da sua liberdade e retellos em escravidão.) e depois das constituições em que ordenarão que se devião socorrer os infieis no melhor modo.) 14 Arquivo Geral Diocese de Goiás. comprallos. prohibindo debaixo de severissimas penas e censuras ecclesiásticas que se lhes fizessem injurias que se lhes dessem açoites.

19 MORAES . que têm posses. (BELLINI. 24 A historiadora MATTOSO. muitas foram beneficiadas pela fidelidade da mãe aos proprietários. 113. Os escravos alforriados por terem sido criados pelos donos. já adultos. O ex-cativo passava a ter capacidade jurídica e passava a exercer diversos direitos anteriormente inexistentes.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII folha 32. Maria Augusta de S. autorizando a liberdade dos “escravos de nação”.” In: Anais do VI Simpósio Nacional da ANPUH. os escravos que pertenciam a toda nação por haverem chegado ilegalmente após a abolição do trafico em 1850. se um dos membros do casal é livre.observa que pai. (LEITE. 18 O termo alforria é uma palavra oriunda do árabe ah-horria que significa liberdade do cativeiro. Exemplo: José Antonio da Silva abaixo assignado declara possuir entre os seus 235 jul. acorram em auxílio do parente incapaz de juntar o dinheiro necessário à sua libertação. Cartório do 1º ofício de Vila Boa de Goiás. irmãs. ou ainda eram crianças ou obtiveram a liberdade. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. madrinha./dez. 64. isto é. libertando também o cônjuge legal de um casamento. já adultos. a legislação definiu algumas normas que influenciavam na aquisição das alforrias. para ele. liberta a criança “achada” pois presumidamente é livre.. 1988: 80). mãe. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. liberta o escravo que encontra um diamante de grande valor e a mesma graça é concedida ao escravo que denuncia seu senhor contrabandista ou fraudador 21 AFSD: Documentos avulsos: Inventário do Capitão Francizco Pr ª Mendez .659-695. “ O Abolicionismo em Goiás. São Paulo: Marco Zero/ANPUH. marido. avós. A alforria era um ato jurídico pelo qual o senhor por sua vontade concedia liberdade ao escravo. 23 Livro de notas. 1988: 80). p. 1973. 2000: 15). irmãos. (BELLINI. páginas 112b.113b: 22 O fato de um escravo ser criança deve ter favorecido a conquista de afeto e atenção especial dos senhores. mas cujo senhor parece disposto a alforriálo. Além disso. eram crianças ou obtiveram a liberdade. pp. 20 Somente no século XIX. 2007 .

1996. e por desejar manifestar o reconhecimento pela dedicação prestada e reconhece a escrava como legitima filha. 18 de março de 1793. libertinos e ateus que apenas por conveniência e camuflagem. que aceitavam convictamente os dogmas e ensinamentos impostos pela hierarquia eclesiástica. que cumpriam apenas os rituais e deveres religiosos obrigatórios. concedendo sua liberdade de hoje para sempre. tít. do Rosário de Villa Boa. Ensaios sobre a Cultura e Escravidão no Brasil. 25 IPHBC: Livro do Registro de Óbitos. Goiânia. “católicos displicentes”. muitas vezes incluindo em seu cotidiano “sincretismos” heterodoxos. KARASCH. 4. 28 Ibidem. parag. para evitar a repressão inquisitorial. lhe concedo a liberdade pelo amor que lhe tenho. 3 e livro 4. 29. 92.195-210. “Símbolos da herança africana. introdução do tít. fl. 146. 81. liv. livro 4. 102. tít. n° 15 . p. 102 e 102 v. Luis MOTT. Maria Banguela. 4. parag. 56. Letícia V. livro 4. 2002. 1. tít. boa parte dos cristãos-novos. fl. 29 Ibidem. 26 Ordenações. p. mais como encenação social do que com convicção interior. Vagner G. (Org. mas por indiferença e descaso espiritual. freqüentavam os rituais impostos e controlados pela hierarquia eclesiástica mas que mantinham secretamente crenças heterodoxas ou sincréticas. Cf: SILVA.S. 1748-1792. (1997: 175). 85. 1803-1810. Lilia Moritz e REIS.Cristina Cássia Pereira Moraes bens uma escrava de nome Felicidade de 20 annos. de S. “pseudocatólicos”. VIII. 31 QUINTÃO Apud. que evitavam os sacramentos e demais cerimônias sacras não por convicção ideológica. Rita de Cássia. da e AMARAL. 27 Ibidem. faz referência a esse documento. livro 4. Por que o candomblé ?” In: SCHWARCZ. 32 Sobre o tema. vol. 81. 236 Revista Brasileira do Caribe. p. classificou os colonos da seguinte maneira. 30 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de N.) Negras Imagens. introdução do tít. São Paulo: EDUSP. referindo-se ao “panorama” religioso do Brasil. parag. (1995: 191). “católicos praticantes autênticos”. filha de sua escrava Delfina. animistas. os católicos praticantes superficiais”.

“Black and mulatto brotherhoods in Colonial Brasil: A study in collective behavior. 37 Frei AGOSTINHO DE SANTA MARIA. 237 jul. O contexto de François Rabelais. nº 6-7. J. O Sumário foi publicado também em 1755. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Germão Galhardo. 2001. 143. Paris: Ecole Des Hautes Etudes En Sciences Sociales. A paz nas senzalas. 1987. L. KARACH. p. 160. v. Carta dos Mordomos e irmãos da antigua confraria da madre de Deos. OTT. 54. nº 2. 1707 a 1721. Cambridge: Cambridge U. Lisboa: Pedrozo Galvão. 38 IANTT: Livro de São Domingos. Caio C. Patrícia A. 1976. In: Luso-Brazilian Review. s/d (Feito Creca de 1551 segundo cardeal Cerejeira. MS. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1971.145. Mary. Carlos. In: Revista Afro-Asia.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 33 Entendemos a circularidade como uma interpenetração de diferentes elementos culturais a partir dos estudos de Mikail Backitin. FLORENTINO. 1986. 1980. 1974. 36 Ibid. também em 1939 pela editora Casa do Livro e em 1987 pela editora Livros Horizonte. MS. p. Julia. BOSCHI. R. In: Clenardo e a sociedade portuguesa do seu tempo. 1997. 34 Sobre essas análises ver: LAHON. P. Didier. RUSSELL-WOOD. MULVEY. Brasília: EDUNB.30. Sumario em que brevemente se contem algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa. São Paulo: Pioneira. E. p. Devoção e Escravidão. São Paulo: Companhia Editora Nacional. Os leigos e o Poder. São Paulo: Huicitec. Esclavage et Confréries Noires au Portugal durant l’Ancien Régime (1441-1830). SCARANO. L.” In: Hispanic America Historical Review. São Paulo: Ática. BASTIDE. Slave in Rio de Janeiro 1807-1850. 17. As Religiões Africanas no Brasil.147. p. MS. Roger.30: Petição dos confrades e irmãos da antiga irmandade de confraria da madre de deos. “Black brothers and sisters: Membership in the black lay brotherhoods of Colonial Brasil”. Christovão Ruiz Rodrigues de. (Tese de Doutoramento). A. nº 4. 35 IANTT: Livro de São Domingos. 2007 . 1968./dez. 39 OLIVEIRA. Santuário Mariano. winter. “A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Pelourinho”. de Lisboa. 1987. Manolo e GOES. José Roberto. v..

Cristina Cássia Pereira Moraes 40 Orixá entre os iorubas e nos ritos religiosos afro-brasileiros significa a personificação ou deificação das forças da natureza ou ancestral divinizado que. seu Senhor Vicentinho. que serviu por seis vezes. VIII. Termo sem titulo legível: página 16. escravo do Alferes Jose Manoel. Goiânia. João. como tesoureiro: Francisco. pois arrematava obras e possuía dois escravos e serviu por sete vezes. n° 15 . por ocasião da entrada de algum membro. obteve controle sobre essas forças. escravo do Capitão Dantas. Gregorio da Costa serviu por quatro vezes e não aparece sua profissão e somente em um termo de mesa há referência ao seu senhor. 1762: Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. 1796. 1762:Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. 1748. era o caixeiro da loja de fazendas secas. escravo do Tenente. Leonardo. Theodosio. que serviu por nove vezes de escrivão e tesoureiro. 1748: Capítulo 1: Composição da Irmandade. temos como escrivãos. em vida. serviu três vezes. 1777: Parágrafo 2º. o qual também era Alferes. 46 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Era um pedreiro empreendedor. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. (a data de ereção é de 1734) 43 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. é reconhecido como um guia. ou seja. era um compromisso moral e ético assumido por todos os que eram aceitos para participarem da irmandade. de São José do Tocantins.1792: como exemplo. Coronel Joze Boiz. 238 Revista Brasileira do Caribe. o qual serviu por quatro vezes. vol. 41 Documento lido pela irmandade em reunião fechada com os irmãos. AFSD: Documentos avulsos Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. escravo de Anna Paes. 44 Ibid. sem especificar o nome dele. Luiz. 42 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. escravo do Vicentinho. 45 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

passaram a englobar sob o nome de Angola tudo o que antes se sujeitara ao poder africano vencido no Manicongo. Crixás. sob responsabilidade da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário aparecem nos livros de despesa e receita. thesoureiro./dez. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. não temos todos os dados dos termos de assento das irmandades dos arraiais de Pilar. Documentos avulsos Termo de 239 jul. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. 1777: Capítulo 4º. 53 No Brasil. 1777. 52 Ibid. 1762. procurador. (TINHORÃO. Capítulo 5.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 47 Infelizmente. à volta de 1674 a 1675. Capítulo 2º: Da mesa e suas atribuições. Trairas e São José do Tocantins para sabermos o número de irmãos que participavam das associações de pretos. no Recife. Capítulo 15. AFSD. 50 Ibid. 2007 . Capítulo 4: Das obrigações dos officiaes escrivão. referindo-se ao Rei dos Angolas: os portugueses. Documentos avulsos. após duas guerras contra os reis do Congo em 1656 e 1666. 2000:88) 54 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 1796. 51 AHU: códice 1814:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. AFSD. 1796. 49 Ibid. 48 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. Capítulo 4º: Das mezadas e sua aplicação. 55 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás.: Parágrafo 4º e 5º. 1777: Capítulo 4º. Capítulo 3º: Da nova eleição dos officiaes. as mais antigas referências documentadas sobre as solenidades de coroação de Rei do Congo. parágrafo 5º.

n° 15 . 61 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 240 Revista Brasileira do Caribe. Capítulo 5: atribuiçoens do escrivão. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. AFSD: Documentos avulsos. Goiânia. Capítulo 10. 56 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Capítulo 14. 1777. fl. 62 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 1796. parágrafo 2º.Cristina Cássia Pereira Moraes Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. Villa Boa. ao serviço divino 64 AFSD. fl. 1796. 1762. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. 1762. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos de Pilar. Documentos avulsos. 58 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos. 60 Ibidem. parágrafo 3º. Capítulo 2º. Capítulo 10. 57 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. VIII.1762. 42. 1748. parágrafo 1. Capítulo 4: funçoens dos officiaes. Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. 1796. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. 71v. vol. AFSD. 1748-1792. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. 59 Ibidem. 63 Guisamentos são utensílios e alfaias necessários ao culto. 1777: Capítulo 4º. 1748. Capítulo 5: Das obrigações dos irmãos.

nenhuma irmandade composta por homens pretos construiu um lugar de culto. nem mesmo uma capela pequena. (Org) Escravidão e Liberdade: estudos sobre o negro no Brasil. de uma paróquia. 2007 . São Paulo: Brasiliense. AGUIAR. Capítulo 20. Subsídios Históricos. O Teatro dos Vícios. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. C. Port-au-Prince. Os pretos do Rosário de São Paulo. O contexto de François Rabelais. São Paulo: USP. (Org) Festa. São Paulo: HUCITEC/FAPESP: Imprensa Oficial.. 1999. “O Culto da cruz e do sangue na afirmação da Humanidade de Cristo no Portugal de seiscentos e setecentos. Emanuel. BELLINI.18.” In: KANTOR. p. 447-512. Marcos Magalhães de Negras Minas Gerais: Uma História da Diáspora Africana no Brasil Colonial. “Por amor e por interesse a relação senhor-escravo em cartas de alforria. São Paulo: Huicitec. ENES. 1993. “Le Vandou est-il une réligion polythéiste u monothéiste?” In: Bulletin du Bureau d’Etnologie. Transgressão e transigência na sociedade urbana colonial. ARAUJO. abril. T. T. Lisboa: Centro de História da Cultura. Marcos Magalhães de. de um eremitério. João J. p. “Festas e rituais de inversão hierárquica nas irmandades negras de Minas colonial. (Tese de Doutorado) AMARAL. L. LAHON. Mikail.75. 1961 e HURBON. p. 102-104. Íris. Cf. Laennec. perto do coro e muito longe do altar principal. 1987. 2001. São Paulo: Edições Alarico. Brasília: EDUNB.I e II. 66 Um dado interessante sobre as nossas congêneres portuguesas: Em Portugal.” In: REIS. Cf. 1988. p.” Actas del II 241 jul./dez. op. Cit.95. Idéias Religiosas em História das Idéias. Bibliografia AGUIAR. Maria Fernanda D. BACKITIN. 2001. Vol. Aproximação à matriz civilizacional do ocidente cristão. p. Brasília: EDUNB. Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa. Paul E. JANCSÓ.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 65 Ibidem. O deus da Resistência Negra. 361-396. István. 1987. 1953. ENES. 2002. sempre cercada por outras associações religiosas de branços e localizadas no espaço interior das igrejas geralmente no primeiro altar da esquerda ou direita da entrada. Todas as irmandades de pretos foram instaladas nas Igrejas de um monastério. nº 5. ou seja. Raul Joviano do. São Paulo: Paulinas. Maria Fernanda D.

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244

A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (17601776)
Maria Lemke Loiola Abstract
The orbital books in churches are sources little explored in the study of slavery. However, these sources contain relevant informations about the life of slaves: origin, cause of death, place of burial, links to religious groups and interpersonal relations. The analysis of these sources can help to understand some of the gaps that historiography of Colonial Goias regarding slavery. The access to eclesiastical sources, orbital books and ecclesiastical visits allow my study to address some issues about the slaves in Meya Ponte (under the name of Pirenolopolis today , Goias , Brazil) between 1760 and 1776. Keywords: Slavery, Social relations, XVIII Century, Dead

Resumo
Os livros de registro de óbitos são fontes pouco pesquisadas para os estudos da escravidão. Entretanto, eles trazem informações importantes sobre as vivências escravas: seu grupo de procedência (SOARES, 2002), causa mortis, lugar de enterramento, associação, ou não, às irmandades, bem como suas relações interpessoais. A análise dessas informações pode contribuir para minimizar as lacunas na historiografia de Goiás colonial referente à escravidão. Dialogando com fontes eclesiásticas, registros de óbitos e visitações eclesiásticas, o presente estudo aborda algumas questões acerca das vivências escravas em Meya Ponte (atual Pirenópolis) entre 1760 e 1776. Palavras-Chave: Escravidão, Relações Sociais, Século XVIII, Morte.

*Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 245-265, 2007

Maria Lemke Loiola

Resumen
Los libros de óbitos de las iglesias son fuentes poco investigadas en los estúdios de la esclavitud. Sin embargo, ellos traen informaciones relevantes sobre la vida de los esclavos: procedencia, causa de muerte, lugar de enterramiento, si estaban o no asociados a hermandades así como sobre relaciones interpersonales. El análisis de esas informaciones puede minimizar las lagunas en la historiografía de Goiás colonial referentes a la esclavitud. El diálogo con fuentes eclesiástticas, libros de óbitos y visitas eclesiásticas, utilizadas en el presente estudio, permite abordar algunas cuestiones sobre la vida de los esclavos en Meya Ponte, actual Pirinópolis, Goiás Brasil, entre 1760 y 1776. Palabras clave: Esclavitud, relaciones sociales, Siglo XVIII, Muerte

Há algum tempo assistimos o revigorar dos estudos sobre a escravidão colonial em suas múltiplas faces, em perspectivas regionais e menos totalizantes como sugeriu Britto (2002). Contudo, nos deparamos com alguns aspectos que podem dificultar nossa “aproximação” a um passado mais dinâmico, mais rico em sua cotidianidade. É o caso das fontes que, para análise de Goiás colonial, estão espalhadas em vários arquivos, além de muitas terem desaparecido nas brumas do tempo pela ação dos homens e dos “papirófagos” vorazes. Entretanto, nem tudo está perdido. A documentação eclesiástica tem sido bastante profícua aos historiadores interessados na vida dos atores sociais de um período mais recuado no tempo. Várias pesquisas têm renovado os olhares sobre a escravidão e nessa temática tem se destacado a religiosidade escrava. Termos de compromissos de irmandades têm trazido contribuições importantes sobre a organização dessas redes de solidariedade.1 Mas, se por um lado os compromissos podem nos ajudar a apreender os fundamentos e preceitos das irmandades, a ênfase na morte e a ajuda mútua ou empréstimo a juros; por outro, não nos dizem muito sobre a quantidade de homens e mulheres que nelas congregavam. Para a região de Meya Ponte2 até o presente não
246 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

A morte branca do escravo negro...

nos deparamos com registros que atestem o número de seus confrades. A preparação para a morte foi algo bastante enfatizado nos compromissos. Boa parte dos trinta e seis capítulos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte dispõe sobre o assunto. Por isso, neste ensaio, proponho os livros de assento de obituários como fonte a ser utilizada para verificar a abrangência e inserção das irmandades de pretos no contexto da escravidão. Assim, pode-se supor que houvesse muitos homens e mulheres preocupados com o bem morrer, buscando essas associações. Entretanto, o livro de assentos de óbitos de 1760 a 1776 nos mostra que do total de quase oitocentos óbitos, apenas 39 foram acompanhados ou enterrados por essas confrarias.3 É certo que os párocos freqüentemente omitiram informações e é possível que o número de acompanhamentos por irmandades aumente, mas seria um aumento pouco expressivo, da ordem de 2% do total.4 Quando compararmos estes assentos com o período de 1803 a 1810, percebemos que seu número dobra. De 1760 e 1776 temos uma proporção bastante próxima entre enterros feitos pela Irmandade do Rosário dos Pretos (17), destes, a metade era de escravos, e irmandades de brancos, como Almas e Santíssimo Sacramento (22); no período de 1803-1810, tivemos um total de cinqüenta e oito acompanhamentos/enterros feitos por irmandades. Nestes sete anos, o número de forros enterrados na capela do Rosário é significativamente superior ao de escravos, somente 10% do total de trinta e quatro enterros feitos na capela do Rosário foi de escravos.
Desse modo, não se pode dizer que para os escravos de Meya Ponte e adjacências fazer parte de uma irmandade fosse questão de vida ou morte. Mas, isto poderia evitar que abusos cometidos por “[...] alguas pessoas esquecidas de toda a humanidade christãa, [que] não escrupulizão em mandar enterrar no campo, e mato, os escravos, q’ lhes morrem, como se fossem animaes brutos, contra o antigo, pio, e Louvavel costume da Igreja

247 jul./dez. 2007

Maria Lemke Loiola

Catholica [...].”.5

Talvez, por isso, as irmandades enfatizassem tanto nos preparativos para a morte. Mas, enquanto uns enterravam escravos no mato, seja por incúria, seja pela situação de pobreza, havia ainda os que recorriam a mentiras para conseguir enterrar um escravo. Henríquez Ferreira Pinto manifestou ao padre Jozé Pires que gostaria de ter seu escravo João Angola enterrado na capela dos pretos por ser este irmão da mesma “[...] o que constou-me depois de ser ter dado a sepultura tal não ser, de que para constar fiz este assento.”6 Teria enganado o padre apenas por ser pobre ou por, mesmo na situação precária, manter relações de afeto com seu escravo? Se existiram brancos pobres, sem recursos que usavam de insólitas estratégias para enterrar seus escravos, também temos notícias de pretos “mina” que superaram a condição escrava e chegaram a fazer testamento e ser enterrado com toda a pompa fúnebre. Tal é o caso de Gaspar,
[...] homem preto forro de nação minna,[...], e Fez seu Testamento, em que declarou que o acompanhasse o seu Reverendo Parocho, e lhe disse no dia do seu falescimento, se podesse ser, missa de corpo prezente, e deixou mais ao alvidrio de seu testamenteiro, lhe mandasse dizer aonde lhe parecer, vinte missas, pela sua alma; e era cazado com Domingas Machado, crioula forra [...]7

Gaspar certamente teve vínculos com a irmandade do Rosário dos pretos. A proximidade de sua cova do altar-mor sinaliza um cargo importante na Mesa administrativa, o que lhe conferia certas prerrogativas. O preço pago para ser enterrado em lugar tão importante na capela do Rosário dos Pretos de Meya Ponte era alto. Gaspar deveria desembolsar vinte oitavas de ouro, caso não tivesse sido irmão “comum”, ou seja, nunca ter tido cargo administrativo.

248 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

Mas as moléstias que ceifavam muitas vidas em poucos dias continuam na obscuridade pretérita. mas pela aparente condição alcançada por Gaspar é quase certo que também possuísse seus próprios escravos. Chamava-se Nicolao do Rozário e foi enterrado dentro da capela. Como irmão comum teria direito a cinco missas. Não podemos afirmar seguramente. teria direito. o visitador Alexandre Marques do Valle determinava que no segundo dia após haver notícia de doença ou se a enfermidade se mostrasse grave. 2007 .. É mais provável que o reconhecimento na sociedade estava relacionado não somente à cor. escravoz.. raios e “acidentes de trabalho” são sempre descritos. a oito missas. Provavelmente Gaspar viveu no núcleo urbano de Meya Ponte. Não seria o único a tê-los.. picada de animais peçonhentos. Embora não saibamos o que levou boa parte dos homens e mulheres da região de Meya Ponte ao óbito. o que lhe deu mais mobilidade e liberdade para conseguir juntar pecúlio e transcender a condição escrava. Na primeira visitação eclesiástica (1734). os párocos deveriam imediatamente administrar os sacramentos: “Porquanto pellas grandes enfermidades q’ cotidiannamente estão dando nos 249 jul.. Casos de mortes violentas por armas de fogo.A morte branca do escravo negro.. Como ocorria com a maioria dos escravos.. que aceitava “todos os fieis aque sua noção incita (. Houve senhores que perderam dois ou três escravos num pequeno período de tempo. supomos que eventualmente ocorriam epidemias. Pretoz.) se exceptua Pessoa algua’ dequalq.r qualide [. se tivesse sido “juiz de mesa”. Mesmo a Irmandade do Rosário dos Pretos.)”8 tinha seu próprio escravo. O fato de ter morrido com todos os sacramentos reforça a hipótese. De igual modo não podemos chamar estes homens e mulheres libertos de coniventes com a escravidão por conservarem cativos seus semelhantes../dez. recebera o sobrenome do dono. pois muitos deixavam de receber sacramentos pela demora dos padres em percorrer a distância até o moribundo. dois a cinco dias. mas também às posses. e Forroz (. Seu testamenteiro teria que providenciar vinte. A maioria desses escravos morreu sem sacramentos.] assim serão admitidos aella Brancoz.. no máximo.

digo.]”.] nação Mina escravo de Manoel Moreira de Carvalho.. deve acodir com promptidão. como se de justiça fosse a isso obrigado. segundo informação do padre que andou dezobrigando aquelle destricto [.. se por um lado 250 Revista Brasileira do Caribe.. A situação dos escravos não parece ter mudado ao longo do tempo. ou Capellão de capella filial.. e caminhando toda noite para chegar ao citio aonde se achava o infermo. Para se eximir de multas e reprimendas. O visitador recriminava ainda as práticas comuns de enterrar no campo. Jozé. [. não só por preceito de charidade. e foi sepultado em hum lugar distado na tal paragem. que fica distante desta freguezia seis legoaz. “morreu sem sacramento algum.10 Talvez pela possibilidade de pagar multas por omissão encontramos frequentemente assentos como o de Gregório [.. n° 15 .13 Mas. ou em qualquer outro lugar onde serviam de comida aos cães9. Goiânia. estando distante. que for chamado para confessar algum infermo. [. destinado na tal paragem.]11 Justificações como estas são ainda presentes em vários registros: “por morrer de repente”. como porque se por sua culpa morrer o infermo sem confissão..] o qual morreu sem sacramentos. na forma das Comstituiçoens tit. VIII... vol. escravo adulto do referido Basto. o visitador João de Almeyda Cardozo volta a ameaçar: “Qualquer Sacerdote.. “pela grande distância”. ou impedido o parocho..]”. poiz do assento não consta [ilegível] o senhor tinha dado só para lhe não pedir o Estipendio dos sufragios por ser acostumado a isto [.Maria Lemke Loiola escravos. o vigário Joze Pires dos Santos Souza explicou no assento de Viscencia que “faleceu sem sacramentos por incúria de seu senhor. no mato ou jogar os corpos dos escravos no rio.]”12 O dito vigário foi mais longe e não hesitou denunciar Luis Antonio Basto. por que sendo chamado pelas seis horas da tarde. Segundo o padre. quando cheguei o achei já morto. será castigado.. Decorridos quase cinqüenta anos das palavras do reverendo Valle. e ainda naquelles q’ o não São [.. 48 no 204”.

de uma só vez o reverendo José Pinto Braga16 perdeu três escravos enquanto mineravam numa cata.es da Irmand. esta informação remete às recorrentes recriminações feitas aos senhores negligentes. decorrente de acidente de trabalho... esses escravos morreram quando trabalhavam por conta própria. A taxa tanatológica.17 Apesar de não sabermos se Antonio. levou até mesmo os oficiais da Câmara de Vila Boa a denunciarem que...]”18 Jozé mina “estava andando a minerar em huma mina. por vezes.] acompanhara os Irmãos deffuntos com Sobrepelliz asistira as feztas e solenid..] Jeronymo nação minna escravo (.] qualquer Religioso de qualq. podemos imaginar que os padres estiveram entre os que não estavam muito preocupados com as condições de trabalho dos seus escravos. os padres chegavam a enriquecer tal era o abuso com que cobravam os emolumentos. que o cobriu [. buscando o próprio sustento ou mesmo tentando encontrar a pepita que lhes daria a liberdade.. também perdiam seus investimentos. Miguel e Thomé eram escravos africanos. por assim dizer. p. [...) que andando a minerar./dez..”19 Se os óbitos ocorreram no domingo.. conforme lembra Hoornaert (1992. em hum corrego lhe cahio na cabeça hum pao. Vários deles possuíam escravos empregados na extração aurífera e.14 Talvez por isso.. 2007 ..”15 Mas nem só de emolumentos e benesses cobradas exageradamente viviam os padres das minas de Meya Ponte. em época de epidemias..e tudo pago pella porção em q’ Se ajustar com a Meza [. leva ao alto preço cobrado pelos párocos por serviços funerários. não foi muito incomum “[.. que para logo o matou.] quando lhe cahio em cima uma pouca de terra. Em 1762..].r Religião [.. e não houve Lugar para Se lhe acodir com os Sacramentos [.] e faltando a sua obrigação Sem cauza Se lhe dezcontara hua 8a por cada vez.. Essa subordinação também pode ser vista no capítulo do compromisso da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte que compreendia as obrigações do eclesiástico “[. 282).. as irmandades manifestavam o desejo de manter os párocos como seus subordinados para celebrar festejos e missas.A morte branca do escravo negro. O mesmo tipo de morte. por outro. Os senhores deixavam livres apenas os domingos 251 jul.

restaria pouco tempo para atividades relacionadas à religião. podermos chamá-los de relapsos e pouco cuidadosos. sem querer. quem eram esses homens que extraíam o ouro? De onde foram trazidos? Tal pergunta pode. p. Talvez. Pohl tenha nos dado um indício de como trabalhavam e morreram os escravos do padre Jozé Pinto Braga. redes de conchavos e conspirações. casamentos e óbitos. o capítulo 7º da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte determinava que. ainda assim nos informam sobre a diversidade das nações d’África que constituíam a escravaria da região de Meya Ponte e adjacências 252 Revista Brasileira do Caribe. por respeito aos irmãos cativos. Quiçá.]”20. acabaria por alagar a mina” (1976. nem guardão o preceito da ley de Deos. ser respondida com as informações deixadas pelos párocos que registravam os batismos.21 Se o tempo “livre” deveria ser empregado para o sustento próprio. apesar de. que prohibe trabalharse naquelles dias [. 176). Acrescentar-se-ia que não haveria somente alagamentos. n° 15 . Goiânia. Por isso. “Donde provem q’ os mizeraveis escravos não ouvem missa. aberto por cima. esta afirmação já carregue a resposta para o motivo de haver tão poucos escravos presentes nas irmandades. o que forçosamente.. em parte.Maria Lemke Loiola e dias santos. O tempo livre para pensar nas coisas de Deus também poderia ser usado para criar laços de solidariedade e. São eles ainda que nos relatam algumas formas de extração do ouro: “o poço era inteiramente desprotegido. enfatizavam que a falta de princípios mineralógicos e interesse dos mineiros em melhorar as técnicas de extração levava ao abandono prematuro das lavras. vol. no rastro dos visitadores eclesiásticos. as reuniões de mesa ocorressem aos domingos. de modo que penetravam desimpedidas não só as águas do solo como as águas pluviais. Mas. Acidentes de trabalho aconteceram e acontecem em todas as épocas e lugares. VIII. Naturalistas como Pohl. mas também desmoronamentos. No compromisso confirmado em 1782. Mas os soterramentos nos sugerem que o sistema de prospecção empregado não fosse o mais indicado para o tipo de solo local. mais perigosamente ainda. como sugere o trecho acima..

22). no século XVIII. ainda pouco investigada. está no casamento entre o castelhano Francisco Gonçalves e uma preta mina anônima. mas 253 jul. 26).. entre os africanos encontramos os “mina” em maior número. por incrível que pareça. ainda é aceita atualmente. apesar de serem os precursores desses estudos. os “cobu. seguidos de “angolas”. não temos nenhum registro.. os escravos “mina” eram maioria./dez. os “caboverde”. será difícil aproximarmo-nos de suas histórias. 23 Sabemos que “perpetuaram sua espécie”. Quem sabe os registros de seus filhos possam. no trato com a questão racial e a miscigenação. Será que este padrão também pode ser empregado em Goiás? A questão sobre as identidades étnicas africanas é bem recente na historiografia brasileira. Muito mais não sabemos deste casal.A morte branca do escravo negro. foram também os responsáveis por disseminar a idéia do que se poderia chamar de “homogeneidade da e na diversidade” que. Ronaldo Vainfas também alerta para os “equívocos e tabus da historiografia brasileira”. de gentio da Guiné”. dificultam sobremaneira a compreensão de aspectos da “estratificação social e suas representações nos primeiros séculos de nossa história” (1999. algum dia. a complexidade da pergunta.22 Para Soares os estudiosos sobre o Brasil colônia se preocupam mais com a expansão dos povos europeus do que com a diversidade racial e cultural africana (2000. os “benguela”. Por ter morrido sem testamento. Paiva (2002) constatou que nas regiões de Minas Gerais onde prevalecia a mineração. É de se considerar que o número maior de trabalhadores “mina” esteja relacionado aos conhecimentos técnicos de mineração que possuíam. No período analisado (1760-1776).. Na esteira desta afirmação podemos refletir como seria o cotidiano de uma família construída pelos laços entre dois continentes distintos? Uma pista para esta resposta ou. Designação genérica que encobre não somente o lugar de onde veio. p. mais provavelmente. p. 2007 . Os “angola” predominavam na região de economia agropastoril. mais próxima ao litoral. Da mulher de Francisco Gonçalves sabemos apenas que era mina. Nina Rodrigues e Silvio Romero. nos contar algo mais..

Por sua vez. VIII. e crenças religiosas” (1992. a língua.. 77). se considerarmos que provavelmente Goiás recebeu vários grupos em diferentes épocas com objetivos específicos. Entretanto. as artes. pautando-se em estudiosos como Arthur Ramos. no entanto. em grupo. o que era interpretado pelos senhores como mostra de sua “resignação à condição servil” (2005). Salientando sempre a violência que. os costumes. 230). Goiânia. se espraiou nas relações sociais. p.]” (SILVA. nos mostram os óbitos que sempre havia exceção. assevera a predominância dos bantus no Brasil central. assim. A bem dizer. modo de vida. 2002. Moraes alerta que a grande maioria dos escravos africanos não foi registrada ao entrar na capitania de Goiás dada sua grande extensão. Alguns receberem o sacramento do batismo na hora da morte por 254 Revista Brasileira do Caribe. a seu ver. perdendo. vol. suas características psico-somáticas se destacam. Salles nos lembra que: “Conhecidos apenas pela desdenhosa designação de negros. A afirmação parece demasiado generalizante. Martiniano deixa entrever claramente sua postura em relação à escravidão e sua vinculação a uma historiografia tradicional que privilegia mais a violência da escravidão per se do que propriamente os saberes escravos e as múltiplas formas de sobrevivência empregadas no cotidiano. a religião. “[o escravo] já chegava da África desestruturado de sua tribo. o autor recrimina o suposto “racismo ideológico” existente na academia responsável pela falta de estudos sobre a procedência escrava. Em sua análise sobre a escravidão no Brasil Central. Neste trecho a historiadora goiana nos alerta sobre a importância de se desvendar as especificidades étnicas dos vários grupos que constituíam a população negra da capitania de Goiás. destribalizado. isso dificulta a identificação dos grupos africanos. Lembra que os escravos já chegavam aos Guayazes convertidos ao catolicismo.Maria Lemke Loiola principalmente sua carga cultural e religiosa. Para Moraes.. inclusive a alma e o nome na infeliz travessia [. Martiniano José Silva. Mais recentemente. daí a discrepância entre os censos e números dispostos ao longo do período colonial. p. dando tonalidade própria ao comportamento. n° 15 .

ou pela diversidade de línguas.A morte branca do escravo negro. a recriação de suas identidades a partir dos novos laços tecidos no cativeiro. Pedro. também mina. por outro. o reverendo José de Frias e Vasconcellos durante uma visita eclesiástica. não devemos esquecer que essa diversidade nem sempre significava incomunicabilidade.”25 Outros ainda. Gestos e olhares certamente diziam tanto quanto palavras./dez. Acreditamos que uma pesquisa pautada em diferentes tipologias documentais possa. Em 1742. como Domingos. e ignorante do que havia de receber”26 ou “alienado do entendimento.. Da mesma forma. porém não se furtou de incluir entre eles alguns 255 jul. se queixou do pouco entendimento que os escravos tinham dos ensinamentos cristãos que recebiam.”27 Designá-los apenas por seu lugar de origem/porto de embarque esconde a diversidade cultural que os caracterizou. Nesse processo de recriação de identidades a língua era de fato um elemento fundamental. mas certamente não foi o único. tanto em sua terra natal quanto na recriação sociocultural na terra brasilis. “ser ainda boçal e novato nesta freguezia Joze mina”24 É possível que Jozé tenha permanecido ignorante dos preceitos cristãos devido à distância que o separava de alguma igreja.”28 solicitando aos párocos fornecer instrumentos para catequização dos escravos. seja pela “rudeza. também mina. Mas. Frota possuía escravos mina e angola. se pensarmos que realmente houve uma diversidade de línguas. mas clarear as especificidades e identidades étnicas e como foram reconstituídas no longo processo de reinvenção dos saberes e. não significava que os mina desconhecessem a língua dos angola e vice versa. A diversidade das falas africanas pode ter sido empregada como estratégia para evitar conchavos e conluios entre os cativos. 2007 . senão responder.. Água Limpa ficava no termo da freguesia de Meya Ponte e Antonio Dias Ribeiro pode ter se beneficiado disso para manter Joze irregularmente. Provavelmente o sargento mor Antonio Rodrigues Frota usou o estratagema de misturar várias etnias. não recebiam sacramentos por “rude. mais importante. morreu “sem o sacramento da eucaristia pois era ainda boçal.

Essa hipótese poderá. n° 15 . faleceu com seu solene testamento. do qual já falamos. contando também os que faleceram após a morte do sargento. Foi acompanhado por todas as irmandades do arraial de Meia Ponte. mas houve épocas em que o sargento Frota perdeu até três escravos por mês. Contudo. foi alferes da Companhia e Guarda-mor das Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. Mas a “mistura de minas. Um deles foi Jeronymo mina. Após sua morte. conforme informa Pinheiro (2002. Do total de vinte e nove escravos. Goiânia. O sargento. ou seja. VIII. angolas. Não sabemos como eram as relações com seus escravos. De modo semelhante ao ocorrido com os escravos do sargento Frota.Maria Lemke Loiola índios cayapó como “administrados”. os de Gregório Baylão foram enterrados no adro da igreja e também não tiveram vínculo com irmandades. ser corroborada cruzando estas informações com os assentos de matrimônio ou batismo. Esse pequeno número de óbitos infantis em relação ao de adultos sugere que os Frota talvez não tivessem o hábito de manter famílias escravas. temos apenas três escravos “inocentes”. É certo que com informações fragmentárias como as que temos. natural do Arcebispado de Braga. cobus e crioulos. sua mulher. recebendo sacramentos na medida do possível. p. natural da freguesia de São Miguel de Alfama. angolas. ou não. vol. encontramos minas. mas nunca acompanhados por irmandade. é significativo que estes dados estejam em 256 Revista Brasileira do Caribe. 311). O lusitano. seja precipitado identificar a prevalência de africanos “Mina”. dona Antonia Ignacia Maria de Jesus passou a administrar os bens do falecido. Outro oficial que também tinha escravos de procedência diversa foi Gregório da Silva Bailão. Não houve mudança no padrão de enterramento dos escravos: continuaram a ser enterrados no mesmo lugar: na capela de Nossa Senhora do Carmo. Entre seus escravos. crianças. crioulos e caiapós” reforça a idéia de que a diversidade de grupos foi uma estratégia utilizada para tentar evitar o surgimento de afetos e laços de solidariedade. É do mesmo autor a informação de que Gregório Bailão foi um eminente escravocrata de Meya Ponte.

é possível que os “angola” daqui também tenham sido empregados em atividades agropastoris. 2007 . são sempre mais completos que os de Goiás. consonância com o período no qual a atividade aurífera foi a mais representativa para a economia. os africanos. De modo geral. pode ter contribuído para mudar a configuração étnica da população da região de Meya Ponte.. o número de escravos “angola” supera aquele dos “mina”. Contudo. correspondentes a diferentes sistemas de classificação” (SOARES. O aumento do número de pardos e crioulos no início do século XIX nos dá uma pista de que a mestiçagem aumentou com o decorrer do tempo. a julgar pelos dados apresentados. Os termos gentio e nação se referem a “universos semânticos distintos. Desta forma. p. para a valorização da pecuária e agricultura. ao passo que “nação” é consoante às mudanças nas relações que os portugueses estabeleceram com os africanos. veremos que neste último. 75). são qualificados como nações. na documentação pesquisada. e a transplantarmos para Meya Ponte. p. O primeiro caracteriza os povos a serem convertidos. 2000. 91). à medida que o aumento do tráfico reconfigura as rotas e portos de embarque há uma resemantização e re-significação da África (SOARES. Ou seja. se aceitarmos a constatação de Paiva. Soares tem como fonte principal os assentos de batizados que. Talvez a distância de Goiás dos centros de poder favorecesse os hábitos relapsos dos párocos no momento de registrar óbitos.A morte branca do escravo negro./dez. batismos e casamentos como podemos perceber nos documentos coloniais da capitania 257 jul. Ao compararmos as informações deste período com o posterior (1803-1810). 1998.. Os dados ora apresentados são ainda parciais e necessitam de estudos mais aprofundados. o direcionamento de uma economia anteriormente voltada à extração aurífera. E isso tanto para os casos de grupos africanos quanto dos nascidos na sociedade colonial. Poder-se-ia dizer que a ponte estabelecida por Soares entre a África e o Rio de Janeiro enriquece significativamente a interpretação sobre as identidades étnicas africanas estabelecidas no interior da sociedade colonial.

. os livros de assentos de óbitos apresentam informações cada vez mais completas à medida que recuamos no tempo. selvagens e desumanos”.. eram conhecidos pelo nome de seu antigo senhor.. Apesar disso.32 Não só os autóctones causavam mortes. nação mina. Os escravos autóctones. só muito raramente. gentio da terra.]”.. prejuízos e distúrbios. Pedro Angolla foi um dos que teve a vida abreviada “[. receberam denominações que variaram ao longo do tempo. não mais como “nação”.] por ser morto pellos calhambollas com hum tiro que logo o matou [. dado o grande número de ataques que promoviam a arraiais deixando a população aflita pelos grandes prejuízos e mortes que causavam. em alguns casos. Mesmo depois de livres. eles quase sempre são descritos como “gentios brabos. Nesta última.. 33 Segundo o capitão geral Jozé de Almeida e Vasconcelos.Maria Lemke Loiola dos Guayazes. Jozé foi lembrado como escravo do defunto Francisco João Ribeiro!31 Mas a qualificação grupal não marcou somente os africanos. comumente tratados com o eufemismo de “administrado”. vol. são sempre referenciados como “gentios da terra”. na hora da morte. VIII. quartada escrava do Sargento Mor Carlos de Assupçam Ferraz [. também pode ser empregada para aqueles que viviam em Meya Ponte. nas notícias que deu nos idos de 1774 ao secretário da Marinha e Ultramar.] com 258 Revista Brasileira do Caribe. mesmo os libertos. De modo mais emblemático. como lembra Salles (1992) . No início do XIX.]”30. preta forra de nação mina29 Acrescentese que. eles conservavam agregado ao nome o grupo ao qual pertenciam: Maria Dias. e tenha sido mais lenta na escrita da documentação eclesiástica em relação à administrativa.. Martinho de Mello e Castro. n° 15 . A assertiva de Soares de que a nação/procedência acompanhava o escravo/liberto até o fim da vida. “nação xicriabá” e. No século XVIII eram conhecidos como “nação cayapó”... Talvez essa mudança esteja relacionada com os conflitos entre os “naturais da terra” e os portugueses. Os autóctones aparecem nos assentos eclesiásticos com maior freqüência no século XVIII do que em período posterior. como “Thereza. “[. Goiânia.

35 Nas palavras preconceituosas do naturalista Pohl. porem da maior parte dos insultos. também existiram mulheres: mães livres. tiveram a vida ceifada por morte súbita e repentina. forras que possuíam seus próprios escravos. estão promptos pello mais pequenno premio.A morte branca do escravo negro.. que registra os óbitos de 1760 a 1776. que sem a menor duvida. encontramos um indício de que a mandioca mortífera comida por Jozé não foi um acidente: a diferença entre a mandioca mortífera e o aipim é reconhecida imediatamente “por qualquer selvagem” (POHL. o que tudo pode afirmar o mesmo seu senhor [./dez. não previo com a cautella ao menos sequer para ser confessado por amanhecer morto na cama.. Mas nesse universo. são agressores os negros fugidos e calhambolas... às vezes ela poderia ser preparada. 2007 . mães escravas. não trocassem informações e know-how acerca do poder das plantas do cerrado. 259 jul.] de nação Mina escravo do Furriel João de Campos Cardozo o qual morreo de repente sem sacramentos porque o mesmo seu senhor me disse. Muitos perderam a vida dentro dos poços. que a sua morte fora originada.. de descaso de senhores negligentes. 110). Paiva (2002). ou lhe sobreviera de ter no dia antecedente comido húa pouca de mandioca mortífera como ao depois da sua morte soube. que mantinham relação estreita com a natureza. encontramos vários registros de mortes violentas... p. mulheres de oficiais. exceção de alguns vadios. Foi esse ouro lavado nas bateias e extraído de poços que garantia a riqueza dos homens vindos de longínquas paragens. solteiras que viviam sozinhas.]. 1976. como os escravos.”34 Neste livro de assentos. em satisfazer com hum tiro á paixão alheia. a autóctone e a africana. quiçá premeditada. e que sem saber a cauza da sua morte.. nos lembra que em Minas Gerais os escravos africanos utilizavam ervas para separar ouro e diamantes do cascalho nas bateias. como parece ter sido a morte de José: [. outros. de tiros por vingança. apoiado em relatos de viajantes. indicando que nem tudo estava na maior tranqüilidade. Para além de mortes consideradas apressadas. É difícil imaginar que duas culturas.

as relações entre os dois não cessaram depois da libertação. A jovem de pouco mais de vinte anos recebeu todos os sacramentos. Maria morreu na casa do referido vigário. Provavelmente os vínculos que a ligavam ao padre. Maria parece ter vivido a aventura insólita da peregrinação para as bandas do sertão. elas foram muito bem 260 Revista Brasileira do Caribe. VIII. como registrou o pároco Joze Pires dos Santos Souza. os africanos sempre foram enterrados de acordo com os preceitos católicos. Outras não tiveram a mesma sorte. que o mundo das bateias e das lavras. Mostranos seu assento.37 Uma história das mulheres do sertão dos Guayazes no período setecentista poderia nos mostrar que nem sempre foram submissas. Aparentemente teve uma vida longa. Felipa e tantas outras puderam contar com as amizades e afetos construídos ao longo de suas vidas. imagina-se que foi um laço mais estreito. Embora não saibamos o que a uniu ao vigário de Santa Cruz. e não somente a esmola por amor a Deus. possibilitaram a esta “pobre mulher” um enterro dentro da capela.Maria Lemke Loiola Maria Cordeiro de Jezus teve uma história diferente se comparada à maioria das mulheres. duas missas de corpo presente e mais quatro pela sua alma que o dito Francisco “se obrigou” a pagar. o leitor questione o título desta apresentação. Maria. 36 Felipa. como enfatizou o coadjutor Carlos Francisco Torre quando o registrou. morreu na idade que “parecia se de perto de cetenta annos”. onde recebeu todos os sacramentos. vol. não era prerrogativa masculina. Mas.. moradora no sertão. Se houve manifestações de pesar e rituais africanos. de incertezas e de possíveis dissabores. depois dessas breves notícias sobre os mortos e os vivos de Meya Ponte. Francisco Alves Mota. Do registro da paulista sabemos que teve relações com pessoas influentes. reescrevia sua história. em algum momento do passado que não nos foi dado saber.. depois de liberta. possivelmente se estreitaram com a liberdade. Cada uma. parda. morreu na casa de seu antigo senhor. Bem ou mal e na medida do possível. Goiânia. à sua maneira. Provavelmente. Dizem ter sido muito pobre. A viandante Maria veio das partes de São Paulo. n° 15 ..

Notas 1 É considerável a produção bibliográfica sobre o tema. (Edição em CdRom). Scarano. 2002. 2000. a partir de diferentes escalas. sem hierarquias. este título quis lembrar um pouco da mistura cultural ocorrida nas Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. Sobre as irmandades de pretos ver especificamente o capítulo 5º: As irmandades de homens pretos. 2002. 2 Neste livro constam os registros dos arraiais de Santana do Rio do Peixe. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 17361808. pardos e negros. Neste ensaio. fazer uma escala na África e outra em Portugal para novamente nos embrenharmos no caminho que leva ao passado do sertão dos Guayazes. Para a compreensão da complexa relação e interação de diferentes culturas será preciso olhar para cada um desses lugares de onde vieram nossos atores sociais. destaca-se a tese de doutoramento da professora Cristina de Cássia Pereira Moraes na qual analisa as especificidades das 34 irmandades encontradas: brancos. Jaraguá. Mas a história dos padres do sertão dos Guayazes merece ser contada em outro momento. não pretendemos exaurir as discussões sobre a escravidão em Goiás. os trabalhos de Soares. P. 2005. o objetivo é levantar mais questionamentos e reflexões com vistas a fomentar os debates sobre as identidades étnicas e experiências escravas. destacam-se entre outros.. 1975.A morte branca do escravo negro. Boschi. 1997.. MORAES. 1986. Experiências que não podem apenas ser apreendidas se permanecermos no pequeno arraial de Meya Ponte. Em Goiás. pelo contrário.. resguardadas dos olhares dos visitadores eclesiásticos e padres. Será necessário atravessar o mar oceano. Da mesma forma./dez. Cristina C. Estes últimos muitas vezes estavam mais preocupados com a forma de angariar pecúlio em proveito próprio que necessariamente com o cumprimento das leis às quais estavam sujeitos. Corumbá e Lavrinhas. 2007 . 261 jul. Quintão. Lisboa: UNL.. 1998. Mott.

Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte. p. O padre Braga foi um dos vários padres “convidados” a se retirar da capitania de Goiás em 1764. p. 12 Idem. livro.. idem. Teria se retirado ou permanecido recluso? Se ele optou por ficar. visitador que foi das Minas de Goyaz. 5 Idem: Cópia da Primeira e última visita do Doutor Alexandre Marques do Valle. Reis. 7 de Outubro de 1778. Livro de registro de óbitos 1760-1776. idem. Cd-rom Projeto Resgate Barão do Rio Branco). 4 verso 10 Idem. Consulta do Conselho Ultramarino. 9 Idem. Scarano. p. Capítulo 2º. n° 15 . 14 Idem. 1995. VIII. p.. mas não há alusão a irmandades. idem. 54 verso. perdeu a faculdade de rezar missas e quaisquer outras 262 Revista Brasileira do Caribe. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte 1758. p. à Rainha Maria I. 4 Esses 2% aos quais me refiro são portugueses e paulistas acompanhados por “todos os padres do arraial”. 7 Idem. 15 Idem. 6 Idem. (A representação está entre os anexos existentes do documento nº 1939 e data de 16 de dezembro de 1773. Subordinar o capelão parece ter sido um elemento comum de diversas irmandades e implicava sempre em relações de poder. 29. idem. 23. 16 Idem. também: Hoornaert. 1758. sobre a representação dos oficiais da Câmara de Vila Boa de Goiás. 56. vol. Gaeta. (1734-1824) p. Goiânia. 1975. 1999. 86. p. p. 11 Idem. 38. p. 1992.. 86 verso. 5 verso. cf. p. 13 Idem. cópia.. 8 Idem. cópia. 72. 7 verso. p.Maria Lemke Loiola 3 Aqui uso confraria e irmandade como sinônimos. Estes portugueses e paulistas quase sempre morreram com seu solene testamento.

36. 8. 23 Idem. p.39 verso. livro de óbitos 1760-1776. 8 verso. 17 Idem. têm trazido reflexões importantes sobre a diversidade étnica dos africanos no Brasil e como cada etnia estampou suas especificidades na sociedade colonial. atividades religiosas.. 4 verso. idem. p. p. p.. p. 25 Idem. p. chama a atenção para a necessidade de se repensar os conceitos e categorias subjacentes à questão.. Livro de registro de óbitos 1760-1776.. 2007 .. Livro de registro de óbitos 1760-1776. 85 verso 21 AHEGO: Cópia do compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos das Minas de Meya Ponte 1782. 31 Idem. 27 Idem. 25 verso. idem. p. 40 verso. em Minas Gerais e Mariza de Carvalho Soares. p.. p. 27 verso. Cada qual. 24 Idem. no Rio de Janeiro. p../dez. 32 A partir de meados de 1750 as chamadas guerras justas fizeram muitas mortes 263 jul. 85. idem. 30 Idem. idem. com olhares diferentes. idem. idem. p.. 19 Idem. cópia. p. 20 Idem. 2 22 Autores como Eduardo França Paiva. idem. 13 verso.A morte branca do escravo negro. 26 Idem. Mas esta já é uma outra história.. 18 Idem. p. idem. 46 verso. 28 Idem. 22 verso. cópia. p. 29 IPEHBC. 20.

. & ANASTÁCIA. vol. São Paulo: Ática. “Bateias. C. C. São Paulo/ Belo Horizonte: AnnaBlume/PPGH-UFMG. p. Goiânia. temas e desafios 1990-2001. Ensaio de interpretação a partir do povo. (orgs). Franca. C. E. “Redes de sociabilidade e de solidariedade no Brasil Colonial: as irmandades e confrarias religiosas”. 66 34 Idem. In: Revista de Estudos de História. p. In: PAIVA.M. 1986. A. p. tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo”. Lisboa: UNL. barão de Mossâmedes. História da vida privada na América portuguesa. P. São Paulo. Laura de Mello e (org).. J. História da Igreja no Brasil. 2002. Ê. 2005 (Tese). 33 Idem. 23 36 Idem. Goiás 1722-1822. F. Estrutura e conjuntura numa capitania de 264 Revista Brasileira do Caribe.. carumbés. GAETA. 1754. 2002 (mimeo).F. ofício do governador e capitão general de Goiás. José de Almeida e Vasconcelos [. A historiografia da escravidão: tendências. et al. 1997. Petrópolis: Vozes. p. E. O “Livro para servir do caminho de Paraty” está repleto de informações sobre o assunto. pp. MOTT.. “Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu”. idem. O trabalho mestiço: maneiras de pensar e formas de viver – séculos XVI a XIX. J. 2. In: SOUZA. idem. 187-207. PAIVA. 67 verso. C. São Paulo: Companhia das Letras. 22 verso. VIII. J. L. V. nº 2. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 1736-1808. Bibliografia BRITO. BOSCHI. PALACIN.] sobre a administração civil e eclesiástica da capitania de Goiás [. 155-220. 35 Idem. HOORNAERT. Os leigos e o poder. M. idem. MORAES. 11-36.Maria Lemke Loiola de ambos os lados. n° 15 . Luis.] In: Catálogo de verbetes dos documentos manuscritos avulsos da capitania de Goiás existentes no Arquivo Histórico Ultramarino (1731-1822). 37 Idem. Documento n. C. 4ª Ed. 1992. idem. da C. E. São Paulo: 1995. 72. da V. p. pp.

século XVIII. abr/jun 2000. M. Tempo. 1976. Mina. Lá vem meu parente: as irmandades de pretos e pardos no Rio de Janeiro e em Pernambuco no século XVIII. J. M. nº 8. Goiânia: Oriente. F. G V.C. Tronco e vergônteas. Viagem ao interior do Brasil. de C. São Paulo: Itatiaia. miscigenação e questão racial: notas sobre equívocos e tabus da historiografia brasleira”. 3. dezembro 1998. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. J. Goiânia: CEGRAF/UFG. São Paulo: FAPESP. Goiânia: Kelps.C. M. p. São Paulo: Cia das Letras. M. 73-93. SOARES. João J. de G. & PINHEIRO. de C. Identidade étnica. Trad. 2002. de C. 3ª Reimpressão. Devotos da cor. SOARES. 7-22. 2000. nº 6. 265 jul. Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava. 161 (407). J. 2007 . A morte é uma festa. 4./dez. QUINTÃO. v. SOARES. v. “Descobrindo a África no Brasil colonial”. de. Milton Amado e Eugenio Amado. Ronaldo. A. A. Rio de Janeiro. In: RIHGB. 1999. A. 1992. 1975. PINHEIRO. Angola e Guiné: nomes d’África no Rio de Janeiro setecentista. POHL. SCARANO. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura. Economia e escravidão na Capitania de Goiás. 1999. “Colonização. . Minas. 2003.A morte branca do escravo negro. 1972. 71-94.. Anna Blume. SILVA. 2002. Devoção e escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século XVIII. REIS. p. In: Tempo. E. religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro. VAINFAS. Goiânia: Bandeirante.. Z. SALLES.

266 .

267-281. um atraso das condições de vida de sua população. A inserção em um mundo globalizado e as políticas públicas orientadas para uma maior descentralização não logram mostrar os resultados esperados. a região mais estudada da Colômbia. n° 15. adversidade *Artigo recebido em janeiro e aprovado para a publicação em abril de 2007 267 Revista Brasileira do Caribe. diversidade. Keywords: Caribbean. Today the Caribbean region is undoubtedly the more studied region of Colombia. Colombia. no meio desta situação surge como um dos desafios dos estudos do Caribe sua contribuição ao estudo de políticas para o desenvolvimento regional. Hoje a região do Caribe é. adversity Resumo Desde a publicação da Biografia del Caribe escrita por Germán Arciniegas até a recente publicação de Respirando el Caribe. se passaram mais de sessenta anos. Within this context. 2007 . but it offers an expression of the regional inequalities that exist in the country. uma exaustiva compilação do estado da arte dos estudos sobre o Caribe colombiano. Colômbia. como manifestação das desigualdades regionais que existem neste país. this study emerges like one of the most challenging explorations of the Caribbean and its contribution to the study of the politics that support the regional development. there has elapsed more that sixty years in order to have an exhaustive compilation on the state of art of the studies on the Colombian Caribbean. mas apresenta. Palavras chave: Caribe. an underdevelopment of the life conditions of its population. Its insertion in a globalized world and the public politics towards a greater decentralization do not succeeds in showing the expected results. vol. sem dúvida. diversity.Estudios del Caribe en Colombia Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives Abstract Since the publication of the Biografía del Caribe written by Germán Arciniegas until the recent publication Respirando el Caribe. VIII.

pero presenta. n° 15 . Colombia. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. tres veces. En efecto.Alberto Abello Vives Resumen Desde la publicación de la Biografía del Caribe escrita por Germán Arciniegas hasta la reciente publicación de Respirando el Caribe.444 km² de territorio continental = 12% del territorio nacional). un rezago en las condiciones de vida de su población. 268 Revista Brasileira do Caribe. 22% de la población colombiana. en medio de esta situación surge como uno de los retos de los estudios del Caribe su contribución al estudio de políticas que contribuyan al desarrollo regional. han transcurrido más de 60 años. Hoy la región Caribe es sin lugar a dudas la región más estudiada de Colombia. un territorio marítimo en el Caribe de más 570. El Caribe colombiano lo conforma un territorio (70 km² de territorio insular y 132. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. una exhaustiva compilación sobre el estado del arte de los estudios sobre el Caribe colombiano. diversidad. buena parte de las prioridades investigativas son producto de las particularidades de este caso particular: el Caribe colombiano es una región subnacional de Colombia. al tamaño de un país como República Dominicana. Palabras clave: Caribe. Porcentaje de la población creciente. el cual es un páis de regiones geográficas y culturales con profundas disparidades en lo económico y el desarrollo social entre ellas. Es compartativamente más grande. pasó del 10% al 22% entre el comienzo y el fin del siglo XX. con una población similar. vol. VIII.000 km² y una población cercana a 9 millones de habitantes. adversidad Preámbulo Es muy importante en este escenario recordar algunas características del Caribe colombiano que sirven de marco para entender la evolución de los estudios del Caribe en Colombia.

Entre los naturales se encuentran un desierto. Brasil y Venezuela. una gran depresión. al verse como país andino. Tiene hoy en día una economía dinamizada por el sector servicios (principal región turística de Colombia. hispana e indígena. sabanas.. Es el mar Caribe el que le da la vecindad a Colombia con Venezuela. ambas comunidades binacionales. los Cuna en el golfo de Urabá. a diferencia del resto del Caribe. 6 % de la población se reconoció como indígena en el Censo de 2005 y 14% como afrodescendiente. tres puertos) y la minería (carbón. Una región que aun se nombra como Costa Atlántica (Colombia es un país de dos costas. Jamaica. Perú. Es una región diferenciada y diferenciable del conjunto nacional por sus atributos naturales y culturales. áreas inundables. Cuba) pero que se pierden en gran medida con la independencia de Panamá. Costa Rica y Panamá. Honduras. con vínculos históricos con las islas del Caribe (Santo Domingo. es la región donde se inicia el poblamiento de la hoy Colombia (conectada con Santo Domingo). Jamaica. gas).. Curazao.Estudios del Caribe en Colômbia. pero cuando se habla de la Costa. el archipiélago en el Caribe occidental. el macizo montañoso nevado a orillas del mar. podría decirse que es un Caribe “atípico” (donde no hubo plantaciones). Tradicionalmente. El Caribe de Colombia posee una población mestiza en la que se conjugan la herencia africana. Haití. Ecuador. y de manera particular. una población indígena importante (ver caso wayuus en la Guajira./jul. Con una alta población afrodescendiente. se hace referencia a la Caribe). valles. Nicaragua. que tuvo el primer puerto esclavista durante el período colonial habiendo dejado profundas huellas en el patrimonio cultural (tangible e intangible). El Caribe en Colombia tiene una economía que con las reformas neoliberales de los noventa perdieron participación nacional el agro y la industria manufacturera. la región por donde entra la modernidad 269 jan. se enseñan en la escuela los límites terrestres Panamá. los indígenas de la Sierra Nevada. República Dominicana. de los distintos resguardos). Entre los aspectos históricos. 2007 . es la región donde muere el Libertador.

mayor concentración económica) y esta región. las tensiones entre la Nación (centralista. el atraso. el rezago relativo. históricos y culturales. Mantiene una viva cultura popular. precisamente. Sus rasgos culturales derivados de procesos de poblamiento intervenido por las ocupaciones hispanas y puritanos ingleses arroja hoy en día la existencia de 11 lenguas vivas (español. Con ingreso per cápita por debajo del promedio nacional. con un profundo atraso relativo. literatura y plástica que han sido aceptadas como expresiones nacionales y hacen parte del panorama artístico reconocido de Colombia en el exterior. Es un región con grandes retos: el reto de la superación de pobreza. dos lenguas criollas y 8 lenguas indígenas de familias lingüisticas caribe. así como los procesos identitarios y el reencuentro con el Caribe al que pertenece por sus rasgos geográficos. arawak y chocó). una región que a la vez reclama su pertenencia al Caribe y promueve su redenominación: Caribe colombiano y no Costa Atlántica. por debajo de los promedios nacionales y una inmensa porción de la población por debajo de la línea de pobreza (cerca del 60% de sus habitantes). En una brecha creciente a pesar de las reformas que anunciaba que sería la región más favorecida con los cambios. Una tasa de desempleo del 15% en las ciudades como Cartagena. vol. n° 15 . andina. Es una región con una profunda desigualdad social. porro). Tiene indicadores sociales de educación y salud deficientes. con una creciente informalidad. con manifestaciones musicales (cumbia. con una caída de los empleos calificados. Los estudios del Caribe en Colombia tienen como marco. VIII. chibcha. 270 Revista Brasileira do Caribe. El Caribe es en Colombia una región rezagada del conjunto nacional. más avanzada.Alberto Abello Vives al interior del país con el auge de Barranquilla (finales del XIX y principios del XX). En una ciudad como Cartagena de Indias el 10% más rico de la población percibe el 50% del ingreso generado en la ciudad y el 10% más pobre solo recibe el 1% del ingreso (año 2000). vallenato.

Voces como las de Manuel Zapata Olivella. Gabriel García Márquez no fueron nunca aficionados superciales henchidos de tropicalismo. Allí está tal vez la génesis del pensamiento sobre la región. sino todo un esfuerzo integral 271 jan. De Colón a Castro (1969 y 1970 respectivamente). con la globalización esta región no ha sido favorecida. Los primeros intentos los encontramos en ensayos y artículos de prensa de líderes de la independencia que se preguntaban por las características del hombre y la vida de la región. esta gran obra incorpora a la academia colombiana el estudio del Caribe y se convierte en el referente obligado de la comunidad científica de la segunda mitad del siglo XX que ha salido al reencuentro de ese “charco violento por donde se han paseado todos los huracanes”. seguía jugando a enmascararse en el ámbito europeo./jul. ese extraño.Estudios del Caribe en Colômbia. Álvaro Cepeda Samudio.. austero y formidable bizco de las letras cartageneras. 2007 . Son la literatura y el arte de mediados del siglo XX los que salen al encuentro de la realidad de esta región. De Cristobal Colón a Fidel Castro. Por otro lado. El conocimiento del Caribe colombiano La Biografía del Caribe de Germán Arciniegas no sólo fue el libro colombiano más leído en el exterior antes de Cien años de Soledad. de espaldas a la realidad atroz. Pero no fueron las ciencias sociales en el Caribe colombiano las encargadas de indagar por la tierra que habitamos. Héctor Rojas Herazo. no hace parte de las regiones ganadoras en el proceso de inserción nacional en esta economía contemporánea. situación que marca no sólo ciertas líneas y tendencias en el campo de la investigación sino que compromete el desarrollo de la educación superior. cuya elite. como llamara el mismo Arciniégas a nuestro mar Caribe. La modernidad de la indagación provino con la obra poética de Luis Carlos López. quien retrata un ambiente aldeano y decimonónico. Esta Biografía (1945) antecedió a los libros casi homónimos de Juan Bosch y Eric Williams..

Estaban vigentes aun las políticas keynesianas que daban importancia a la planeación regional (aparecen los organismos de planeación regional. Entre los pioneros en el campo de las ciencias sociales encontramos a Luis Eduardo Nieto Arteta. Ocurre una dinámica que convierte a la región en la más estudiada de Colombia: desde la historia. bajo el empuje brindado por un organismo regional de planificación cuando comienza con entusiasmo la siguiente etapa de estudios sobre la región. Son sin lugar a dudas. vol. apoyo financiero a los estudios del Caribe. entre otros. Fundesarrollo en Barranquilla. la reedición de textos históricos. Es durante la década de los ochenta. los rasgos. El nuevo conocimiento. las demás ciencias sociales. el Instituto de Estudios Económicos de la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. el Instituto Internacional de Estudios del Caribe de la Universidad de Cartagena que realiza cada dos años el Seminario Internacional de Estudios del Caribe. contribuyeron en la búsqueda por ilustrar las culturas populares y la naturaleza caribe los artistas plásticos Alejandro Obregón y Enrique Grau. la aparición de centros y grupos de investigación son las características de esta nueva etapa. la economía. Es la Universidad Nacional de Colombia la que buscando construir una nación con miradas desde los territorios de frontera la que crea la sede Caribe en la isla de 272 Revista Brasileira do Caribe. en distintas etapas y con mucha fragilidad. Hoy la región cuenta con seis centros regionales de investigación especializados en el estudio de la región: el Instituto de Estudios Caribeños de la Universidad Nacional en la isla de San Andrés que cuenta con el programa de maestría en estudios del Caribe. el Centro de Estudios Económicos Regionales del Banco de la República en Cartagena de Indias.Alberto Abello Vives de la inteligencia. el Caribe colombiano contó con un esquema que sirvió de base para el resto del país) y de la intervención estatal. Gerardo ReichelDolmatoff y Orlando Fals Borda. las universidades las que han brindado. n° 15 . A todo ello. de manera dispar. la sensibilidad y la información por desentrañar los rumbos. VIII. los desencantos y las esperanzas de una región.

la plástica. Los investigadores universitarios vienen siendo empujados a un mayor número de horas de clase y de actividad burocrática. 2007 . respaldada igualmente por dos cámaras de comercio. la economía y la sociología. así como a la obligatoriedad de vender servicios para complementar sus ingresos. el organismo rector de la ciencia y la tecnológia en Colombia. nacido después de una década de planteamientos provenientes de distintas instancias sobre la necesidad de dotar a la región de un centro de estudios regionales independiente y vinculado a los procesos de desarrollo regional.. la antropología. A su vez son muy pocos los investigadores que pueden dedicar 100% de su trabajo a esta labor. Me refiero a grupos que indagan por la historia. El Observatorio fue creado como una entidad que articula el desarrollo y la cultura regionales. privilegian también otras áreas de estudio y otro tipo de proyectos (aquellos considerados como estratégicos y el Caribe no es un sector estratégico). Los investigadores de los centros de investigación independientes. En las principales universidades hay. la dota del instituto y abre la maestría arriba señalada. la literatura. una entidad autónoma. trabajan por proyecto y sin estabilidad 273 jan. Muchos de estos grupos surgen como tal ante la política nacional de ciencia y tecnología. en los que lo “nacional” se coloca por encima de los interéses regionales. a una iniciativa regional como fue la creación del Observatorio del Caribe Colombiano. el medio ambiente. sin embargo. las convocatorias para la financiación de proyectos privilegian otras regiones (el mismo sistema lesiona a regiones con baja capacidad como el Caribe beneficiando a las de mayor desarrollo).Estudios del Caribe en Colômbia. igualmente grupos de investigación e investigadores con amplia trayectoria y reconocimiento en diversas disciplinas cuya región objeto de estudio es el Caribe colombiano. las lenguas. los fondos públicos son insuficientes. Quiero resaltar el apoyo nacional a través de recursos financieros de Colciencias. Son las siete universidades públicas asociadas al Sistema Universitario Estatal del Caribe las que asumen a partir de 2003 el soporte financiero al Observatorio del Caribe./jul. San Andrés.. salvo contadas excepciones. la música.

empresariales y políticos. en dos universidades existen cátedras del Caribe dirigidas a estudiantes de pregrado (Universidad del Magdalena y Universidad Tecnológica de Bolívar). Francia. una reflexión nacional que sirvió de base para una exposición en el Museo Nacional de Colombia en Bogotá. España. periodistas. promotores del desarrollo regional). la Universidad de los Andes y la Universidad de Antioquia. en los que de manera particular he estado involucrado. tienen líneas de publicaciones y revistas (de las de nueva generación hay que destacar a Huellas de la Universidad del Norte). cultuales. VIII. los estudios del Caribe interactuan con sectores sociales. Quiero resaltar 274 Revista Brasileira do Caribe. que fue llamada Caribe Espléndido y el desarrollo de la primera cátedra virtual sobre el Caribe que dio pie a la publicación Un Caribe sin plantación. Igualmente. Inglaterra.Alberto Abello Vives laboral y participan en la gestión de los recursos para financiar sus líneas de investigación. De esta red forman parte investigadores colombianos no oriundos ni residentes en la región pero que se han dedicado al estudio del Caribe colombiano (investigadores de la Universidad Nacional de Colombia. La mayor parte de las instituciones que arriba se mencionan. Hoy el Caribe colombiano cuenta con varias redes (investigadores. vol. en esta última se realiza anualmente un diplomado durante la Escuela de Verano sobre Cartagena y el conocimiento vital del Caribe. además de programas de divulgación científica. Estados Unidos) con los que hay rico intercambio. La región cuenta con una Cátedra del Caribe itinerante por las principales ciudades que divulga el conocimiento nuevo. así como la Universidad del Norte en Baranquilla que lideró la nueva generación de publicaciones y estudios. n° 15 . valora la producción intelectual de la región y facilita la discusión. hay que resaltar para el análisis de este panel la Red Ocaribe a la que pertenecen decenas de investigadores y que en los últimos años ha permitido el desarrollo de proyectos interdisciplinarios. En este ejercicio. Se nombran aquí como parte de la reseña: se trata de El Caribe en la Nación Colombiana. principalmente). también investigadores extranjeros (Suiza.

así como la articulación entre el sector empresarial de Barranquilla con Fundesarrollo. por lo menos una decena de grandes compilaciones que bien podrían entenderse 275 jan. En Barranquilla. Hoy la Cinemateca del Caribe. en Barranquilla. Hay que destacar en esta interacción.Estudios del Caribe en Colômbia.. Hay. Así como la interacción con programas radiales (Concierto caribe en Uninorte FM Estéreo) y de la televisión regional. educación. geografía. economía. que recoge las memorias del II Encuentro de la Red Ocaribe realizado en 2005.. también existen archivos fotográficos y fototecas históricas en las ciudades de Cartagena. la asociación que existe entre el Observatorio del Caribe y la Cámara de Comercio de Cartagena alrededor de una línea de estudios sobre la competitividad de Cartagena. publicado en 2006. Historia. diseño. del Área Cultural del Banco de la República de Cartagena de Indias. En Respirando el Caribe (volumen II) editado por Aarón Espinosa. en este momento. si así pudiera llamarse. construcción y montaje del Museo del Caribe en Barranquilla que ha convocado igualmente a investigadores de distintas disciplinas a lo largo de los últimos seis años. antropología. que realiza de manera bienal el Simposio sobre la Historiografía de Cartagena. Hay que resaltar igualmente la labor. se encuentran los avances en 10 áreas centrales del conocimiento. diez ensayos sobre el estado del arte de la investigación. que lleva una década./jul. Hoy existe una extensa y rica bibliografía nacional derivada de los estudios del Caribe colombiano codiciada por investigadores extranjeros. ambiente. Una “nueva” historia de Cartagena. ciudades. Santa Marta y Cartagena existen arhivos históricos y eclesiásticos (caso de Santa Marta). 2007 . cuenta con un archivo que conserva la memoria audiovisual de la región. ha sido publicada con las memorias de estos eventos académicos internacionales. lingüística. literatura y música. la conceptualización. Santa Marta y Sincelejo. Con el la ciudad y parte de la región Caribe se han nutrido de los adelantos en el conocimiento derivados de la producción de destacados investigadores mundiales.

hasta que lo cuartean y lo desbaratan. Quiero recordar una frase de Gabriel García Márquez que podría utilizarse para entender los estudios del Caribe colombiano: “Mi profesor Juan Bosch. La Ciencia Política es una de las disicplinas de análisis con mayores debilidades. Mayores fortalezas en este campo permitirían en las actuales circunstancias de auge de un conflicto armado. de Estudios del Caribe colombiano.Alberto Abello Vives como un Manual General. ya hay una primera fase de los estudios del Caribe en la era digital. de publicaciones virtuales en sitios de buena parte de las instituciones arriba mencionadas. 276 Revista Brasileira do Caribe. la formación y la divulgación en el campo de los estudios del Caribe colombiano. Después de este corto recorrido sobre la investigación. paralelo a todo esto. entre otras muchas cosas. Fundesarrollo. se encontrarán datos. dijo alguna vez en privado que nuestro mundo mágico es como esas plantas invencibles que renacen debajo del cemento. Mirada en perspectiva. y vuelven a florecer en el mismo sitio”. así como el accionar de redes lo demuestran. económico) por el narcoparamilitarismo de derecha. entre otras. en el que la región ha sido una de las regiones colombianas capturadas (en lo político. autor. Y la utilización de ellos es alta. militar. sino que avanza. vol. a pesar de las dificultades. aun fragmentado. estudios. n° 15 . No pueden estar ausentes de este análisis la aparición. cátedras. de una historia monumental del Caribe. Si se examinan los sitios de Internet de entidades como el Banco de la República. Cada vez más el desciframiento del Caribe supera las individualidades y avanza por el camino de la cooperación y las redes. la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. museos y foros. mayores herramientas de análisis por parte de la ciudadanía1. agendas. La producción audiovisual se ha enriquecido con los estudios y la virtualidad vive su primera generación. VIII. La existencia de centros especializados y grupos de investigación. no se detiene. Así es también en Colombia la búsqueda del conocimiento del Caribe. se puede anotar que éstos se encuentran vivos y su ejercicio es un continuo que no se detiene.

la era de las primeras obras que durante cierto tiempo generaron una mirada unánime. un nuevo ejercicio. precisamente por la diversidad. y como parte de ella. Gracias a todo ello. Los estudios del Caribe han contribuido al igual que la cultura regional. Se destacan igualmente la pluralidad no sólo en el campo de las disciplinas. músicos. a deconstruir estereotipos y falsas concepciones sobre la “costeñidad” existentes en el imaginario nacional. Es más. en la que 277 jan. La región ha avanzado en el conocimiento de las causas de su atraso. en la producción de diagnósticos y análisis sobre su economía y el grado de desarrollo social. hoy ya existe controversia académica sobre fenómenos históricos. Asímismo. de promover una mayor integración regional y de reivindicar el desarrollo social y económico. y en los que la academia hace cada vez mayores aportes. aunque con altibajos.. promovido por tres de los centros de investigación arriba señalados adelantan una disusión. artistas. La academia ha dado continuidad a una tradición regional de pensarse. sino en cuanto a visiones y enfoques sobre la historia y el desarrollo regional. mantiene la discusión sobre el desarrollo regional. el Taller del Caribe Colombiano.Estudios del Caribe en Colômbia.. económicos y culturales que. en el manejo de información y estadísticas sobre su situación. Una serie de publicaciones y eventos en los que se encuentran la nación y la región. el país se ha “caribeñizado”. Durante casi veinte años (desde finales de los setenta hasta la desaparición del organismo regional de planificación –Corpes) la región ha adelantado grandes foros y simposios regionales. un mayor conocimiento nacional sobre el Caribe se debe a la labor de investigadores. viva. la espontaneidad y le emotividad que habían caracterizado al Caribe colombiano en sus esfuerzos por pensarse. enriquece y enaltece el ejercicio académico./jul. ya ha sido superada. por supuesto. 2007 . En el momento de escribir este ensayo. así como diversos estamentos. escritores. como no ha ocurrido en otra región de Colombia. la falta de sistematicidad. en la discusión de las políticas públicas nacionales que la afectan. Todo esto ha contribuído a reducir la dispersión.

La Costa Caribe no se convirtió. persistentes y se han acentuado. igualmente. Las disparidades regionales en Colombia son reales y persistentes. indagando por los obstáculos al desarrollo y por las políticas públicas que Colombia requiere para superar las disparidades económicas regionales. n° 15 . no han generado una recomposición económica. Las brechas entre los niveles de ingreso per cápita son. Muy a pesar de que el Caribe estaba llamado a convertirse en la región más favorecida con la inserción al nuevo modelo económico los resultados sobre los que hoy debaten sus centros de investigación no son favorables. La propuesta de los centros de investigación del Caribe colocando en la agenda pública la búsqueda de políticas regionales diferenciadas que contribuyan efectivamente a disminuir las 278 Revista Brasileira do Caribe. Los nuevos sectores. en un modelo supuestamente pensado para la inserción a la economía internacional. vol. especialmente. mientras la economía nacional se consolida en el centro andino. en la región exportadora de Colombia. es sin lugar a dudas la región más estudiadas de Colombia. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. en regiones como el Caribe colombiano la divergencia ha crecido. Por el contrario hemos visto un acentuado proceso de desindustrialización que ha acompañado a la disminución del producto bruto agropecuario. Entre 1998 y 2003. En el Caribe la pobreza por ingreso de sus habitantes es aun sumamente alta. en las principales ciudades. tampoco hubo aquí una expansión industrial. fundamentalmente de enclave. Mientras el centro del país se ha consolidado aun más. VIII. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. y muy a pesar de tener tres puertos de primer orden. la región a la que no le ha ido bien con uno u otro modelo de desarrollo vio aparecer casi dos millones de nuevos pobres. un rezago en las condiciones de vida de su población.Alberto Abello Vives participan distintos estamentos. pero presenta. Hoy la región Caribe. los sectores mineros. debemos recalcar.

./jul. como parte del Gran Caribe. visiones) y la adversidad (financiera). Retos de los estudios del Caribe Los siguientes son los principales retos de los estudios del Caribe en Colombia2: a. áreas de estudio. Aproximarse a una mayor escala y a los estudios comparativos ayudará a enriquecer esa búsqueda de identidades y a llenar de argumentos las 279 jan.. 2007 . por ejemplo). no contribuyen al fortalecimiento de los estudios del Caribe. b. las dificultades financieras de amplios sectores del empresariado local y la centralización a escala global de las decisiones financieras de apoyo a la cultura y la investigación por parte de empresas multinacionales con inversiones en la región. Los estudios del Caribe en Colombia se caracterizan por sus miradas locales. La reducción de fuentes de financiación. En Colombia. en vista de que se han estudiado en espacios geográficos separados (Caribe continental y caribe insular. Pero es innegable el impacto del modelo económico vigente en los estudios del Caribe. Profundizar una visión internacional. modelo caracterizado por la disminución del tamaño del estado y la consecuente fragilidad financiera de las universidades públicas. hay zonas menos estudiadas –Caribe chocoano y antioqueño). Realizar estudios que dialoguen con las otras regiones de Colombia.Estudios del Caribe en Colômbia. disparidades regionales le da a los estudios del Caribe en Colombia una singular particularidad. d. c. Un mayor entendimiento de Colombia saldría de esa urdimbre resultado del cruce de esos hilos que conectan el país a lo largo de su historia. los estudios del Caribe avanzan en medio de la diversidad (institucional. Buscar entender procesos sincrónicos. Completar la visión regional de conjunto (hay disciplinas con mayores aportes y predominios (historia y economía).

sino hacer parte de redes y la organización de proyectos científicos de la gran área del Caribe. el intercambio de métodos y el trabajo colectivo. los dos últimos retos de los estudios del Caribe en Colombia son sin lugar a dudas de aquellos que caracterizan en general a los estudios del Caribe: la falta de visiones regionales de Gran Caribe y la debilidad aún de la interdisciplinariedad. un historiador se preguntaba porqué se estaba haciendo ese encuentro por fuera del Caribe. generación e intercambio contínuo de 280 Revista Brasileira do Caribe. VIII. de la vinculación a la conceptualización de la maestría virtual en estudios del Caribe coordinada por West Indies University y apoyada por la Unesco. actividades permanentemente.Alberto Abello Vives propuestas de integración política y relaciones comerciales. particularidades propias. como una múltiple institucionalidad. está llamado a facilitar la organización de grupos de investigación internacionales. En ello. construcción de redes. vol. del Centro de Estudios del Caribe en Brasil. el ejercicio virtual. Recordemos que en mayo de 2005 cuando se realizó en Cartagena de Indias la 37ª Conferencia Anual de Historiadores del Caribe. contando con sectores de la academia para ello. igualmente. y multilingüe. aunque más dispendioso y costoso. los estudios colombianos del Caribe requieren no sólo una mayor visibilidad internacional. Hoy más allá de la asistencia a congresos de la Asociación de Estudios del Caribe (CSA en su sigla en inglés).3 e. durante el cuatrienio 19982002. Si bien las particularidades colombianas dan a los estudios del Caribe. El entendimiento de la realidad y la construcción de conocimiento complejo está exigiendo el rompimiento de las visiones disciplinarias. n° 15 . de los vínculos con el Centro de Estudios del Caribe de la Universidad Metropolitana de Londres. Se ha dado un paso en aumentar las relaciones de los investigadores y universidades con el Gran Caribe. Colombia desarrolló una iniciativa gubernamental de acercarse a este mundo. Creo que la experiencia colombiana arroja elementos. de la Asociación Mexicana de Estudios del Caribe (AMEC). Promover aun más el encuentro de las disciplinas.

comunicación. se organizan./jul. por la gestión de recursos para programas de impacto regional. Bogotá: Museo Nacional de la Colombia. 2007 . p. 3 Ibidem. que promueven la interdisciplinariedad. p. por la promoción del trabajo en grupo entre investigadores de distintos países.Estudios del Caribe en Colômbia. 21 1 281 jan. que se convierten en factores positivos para la supervivencia de los estudios del Caribe en medio de las dificultades. del profesor Jario Parada en el sexto taller del Caribe. Una verdadera red de estudios del Caribe. publicado por Planeta en 2006 y el ensayo. se les valora y reconoce. investigativa o de posgrados. Repensar los estudios del Caribe significa repensar la forma como hasta ahora se actúa para su desarrollo. Barranquilla. por ejemplo. Ver El Caribe en la Nación colombiana (2006). debería de ir más allá de convocar a un evento internacional periódico y preocuparse por un mayor flujo de información y de contenidos. 16 de mayo de 20072 Estos comentarios fueron planteados por el autor anteriormente y publicados. 2006. la organización de grupos de trabajo.. NOTAS Se destacan Los señores de la Guerra de Gustavo Duncan. desde la economía política.93. con amplia convocatoria. por una mayor dinámica virtual.. Un esfuerzo adicional es necesario hacer para alcanzar una mayor comprensión de los profesionales de distintas disciplinas que acceden a maestrías en estudios del Caribe. y las disciplinas de los pregrados se encuentra aún por conocerse mejor. Las mejores experiencias son aquellas incluyentes. La relación entre los estudios del Caribe como especialidad. interacción con el resto de la sociedad.

282 .

na qual se elevara ao avatar de maior poderio atual. San Ruan: Edicines Callejón. como Gaztambide-Geigel faz questão de ressaltar. 2006. 2007 .. 242 p. E a novidade deste trabalho é justamente se adentrar no conjunto de relações que presidiram o processo de emergência da potência norte americana em relação aos vizinhos do sul.. n° 15. dela decorre um sentido que expressa a novidade deste trabalho. Tan lejos de Dios.. Mesmo o dito sendo de origem mexicana. Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos. A atualidade do dito faz-se clara. Antonio. VIII. vol. Além levar este paradoxo acerca da política americana com 283 Revista Brasileira do Caribe.Resenha GAZTAMBIDE-GEIGEL. e tão perto dos Estados Unidos”. 283-287. Porto Rico. ainda mais estando este incompleto. A invocação de um dito popular não se dá de forma gratuita. particularmente os antilhanos. potência esta que teve uma sobressalente mudança hierárquica no cenário econômico mundial. uma idéia de unidade se entrelaça com o omitido e suspenso pelas reticências: “. Leonardo de Melo Rodrigues Ao nomear ensaios aparentemente dispersos sob o título de um dito popular.. Seu sentido coloca em xeque o paradoxo implicado na bandeira política norte americana: um imperialismo salvífico quase natural que na prática é muito distante disso—a recente investida democrática em terras iraquianas é exemplo atual de peso. este dito expressa uma condição de existência comum a países do continente meso e sul americano: a proximidade física em relação aos Estados Unidos.

se se pode falar de um tema central coordenador dos setes ensaios constituintes da presente coletânea. tomado como invenção. vol. oriundos de outros campos de saber. Gaztambide-Geigel abordou tal temática numa dimensão bem delimitada. E ao inquirir quanto às relações políticas embutidas no momento de sua construção. que consuma ainda mais o seu valor analítico. Desse modo. “La invención del Caribe a partir de 1898”. que bastaria ao historiador expor suas formas e conteúdos. em geral. VIII. radicados no Brasil ou não. história. n° 15 .Leonardo de Melo Rodrigues meticulosidade. a filosofia. Seu problema foi como se construiu o termo Caribe em relação à política internacional norteamericana para os vizinhos antilhanos. Entretanto. De modo que tal temática fora incorporada nas ciências humanas. ou melhor. Hoje oferece tal diversidade. É certo que as discussões identitárias provêem de pesquisas inscritas metodicamente no campo dos estudos culturais. o conceito de identidade não deixou de se atravessar por objetos os mais distintos. a apresentação do presente trabalho se releva não só entre os pesquisadores caribenhos. e sim um objeto inventado. se formam as identidades postas em jogo ao evocar os Caribes. como também para interessados no tema da “identidade” na contemporaneidade. Situa seu caráter enquanto invenção. O que atesta seu estatuto de relevante acontecimento no pensamento das ditas “ciências humanas”. as contingências e encontros que marcaram sua emergência. que não cessa de se recriar e reiterar-se. submete o termo Caribe à sua análise historiográfica. No primeiro ensaio. 284 Revista Brasileira do Caribe. busca-se ver justamente as circunstâncias em jogo no momento de sua criação. este sem dúvida é o jogo implícito em vista das circunstâncias pelas quais se forma o conceito Caribe. E. geografia e mesmo. Desse modo. o Caribe não é um objeto fixo e estático. e se servir de um avantajado corpo material. Todavia. antropologia. São muitas as perspectivas de utilização. sociologia. apoiado em uma massa documentária de fôlego e decorrente de vários anos de pesquisa. seria uma ingenuidade supor que seus métodos permaneceriam os mesmos submetidos a objetos tão singulares.

Porto Rico e República Dominicana. Mesmo que uma primeira onda de independência arrebatara o continente décadas antes. o Gran Caribe ou Cuenca del Caribe e o caribe cultural. sob as luzes antilhanas. o caribe geopolítico. procura-se destacar as forças motrizes do latinoamericanismo. 2007 . começa-se a convergir às idéias de hispanoamericanismo e de latinoamericanismo.Resenha O que o jogo em torno da criação do termo Caribe revela é que não há um Caribe. Gaztambide cunhou quatro momentos que são decisivos para a significação do termo caribe. No segundo ensaio. do final do século XIX aos dias atuais: o caribe insular. as Antilhas espanholas. E a emancipação devia ser alçada nem tanto em 285 jan. “La geopolítica del antillanismo de fines del siglo XIX”. pronto e acabado. e há. Por conseguinte. vários Caribes de maneira que. o autor propôs uma historicização do termo. encabeçariam o sonho da “nuestra América”. foram decorridas enunciações bem diversas para o conceito “caribe”. já na década de 90 deste mesmo século. Hostos e Betonces. em cada situação histórica em que é invocado./jul. Mostra como. o termo não se refere às mesmas coisas. Em vista disso. Situação que muda. e pôde ver suas diversas usagens mediante as situações próprias e específicas à história antilhana: de um arquipélago atlântico fragmentado submisso à metrópoles coloniais ao “Gran Caribe” em vias de emancipação cultural. dado sua localização estratégica em relação ao mercado mundial internacional. Cuba. O papel deles expressam um movimento. não falam dos mesmos objetos. Personagens que dedicaram à luta emancipatória dos territórios coloniais da metrópole espanhola. numa engrenagem à qual as Antilhas estariam em função otimizada. diante da ameaça imperial norteamericana. por volta da metade do século XIX. e sim como houve. Assim. cujo sentido atravessaria a história latinoamericana. Gaztambide avalia as idéias antilhanas a partir de figuras históricas inseridas no redemoinho hispanoamericano e antilhano: Marti. persistia uma colonialidade já dita como “cultural” e combatida pelos libertários antilhanos.

vol. posta em prática no terço inicial do século XX e alterada com o término da Segunda Guerra Mundial. Em “La Buena vencidad y populismo”.Leonardo de Melo Rodrigues relação aos velhos impérios europeus. continentais e antilhanos. como atributo qualitativo da política externa norte americana. São ambigüidades deste tipo que se alocam no cerne da campanha norte americana rumo à ascensão econômica e que foi aplicada aos vizinhos do Sul. O conceito de ambigüidade. trata das relações da política internacional norte americana. como defende Gaztambide. Essa transição é o tema dos ensaios “Hacia uma historia social de las relaciones interamericanas: 286 Revista Brasileira do Caribe. Entretanto. bem como devia ser buscada em vista da potência emergente: a República norte americana. estava constituída às voltas de ambigüidades visíveis. este ensaio propõe a hipótese de como os efeitos da política de boa vizinhança fizeram valer no modo de organização interno dos países atingidos por tal postura ambígua. Pois ao mesmo tempo em que o final do século XIX foi marcado por projetos políticos de cunho expansionista. como o título mesmo diz. marca de maneira decisiva a postura específica de seu imperialismo. foi fator de grande determinação no caso de invenção do Caribe. Ressaltando a particularidade do populismo caribenho. n° 15 . A política imperial desta potência emergente aos fins do século XIX. com a práxis política do populismo. E a emergência dos Estados Unidos. seguindo assim o exemplo do populismo de Porto Rico. passada a Segunda Guerra Mundial e com a efetivação do poderio norte americano. E explorar as ambigüidades por detrás das políticas internacionais norte americana é o tema central do terceiro ensaio: “El imperio ‘bueno’ del 98”. defendida como verdadeira representante do ideal republicano. a política da boa vizinhança cede lugar à política do bom sócio. já que é das ambigüidades geradas no interior da política imperial americana a razão das variações acerca deste processo de invenção. que a partir da compra da Lousiana começou a deferir ações com finalidade de expandir sua soberania. encontrava-se também mostras de uma ação não imperialista. VIII.

e sim o que se dá é um complexo jogo no qual relações de forças heterogêneas se interagem incessantemente. é o modo como a política do bom sócio criou um imaginário internacional que abaixo suas variações locais possibilitou a criação de identidades multiculturais. ajustando de forma a assegurar ainda mais a supremacia americana. A política do bom sócio nada mais é que a adaptação da política externa norte americana no momento em que esta nação acede ao topo econômico da economia mundial. 287 jan.Resenha El camino del desarrollismo: 1946-1960” e “Estados Unidos./jul. E também que não é simplesmente a modulação dos estratos interiores de uma sociedade por um fora. la idea del desarrolismo y el Caribe: Los orígenes”. O projeto desenvolvimentista que esta política visa suplantar nos sócios do sul adapta-os aos moldes do capitalismo mundial integrado sob a égide do desenvolvimento econômico. o Gran Caribe e o latinoamericano. “Identidades internacionales y cooperación regional en el Caribe”. O tema do ultimo ensaio. e sim são efeitos da historicidade que perpassam as formações históricas. Desse modo o que o trajeto destes ensaios evidenciam é como as políticas internacionais não são exercidas de forma aleatória. 2007 .

VIII.288 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . vol.

São Luis:SEIR/FAPEMA/EDUFMA.co Doutor Alexandre Martins de Araújo Doutor pela UFG possui várias obras publicadas. Atualmente é decano da Faculdade de Ciencias Econômicas e Administrativas da Universidade Tecnológica de Bolívar en Cartagena de IndiasColombia.Os autores Doctor Alberto Abello Vives é economista. Universidade Federal do Maranhão. 2004. 2007.Mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão. Relações Culturais Século XIX: Negros e Coolies em Trinidad (1845-1870). Recientemente duas compilações suas foram publicadas na Colombia: El Caribe en la nación colombiana e Un Caribe sin plantación. Correio eletrônico: carlosbene@terra. Goiânia: GEV. Caribe. Expeirências e Memórias. Tem publicado vários livros sobre o Caribe colombiano.br Doutor Carlos Benedito Rodrigues da Silva Programa de PósGraduação de.com. Co-fundador e primeiro diretor do Observatório do Caribe Colombiano.alexandre@uol. dentre elas: “Memórias que curam” In Olga Cabrera. 2002. a revista Aguaita e a Cátedra do Caribe colombiano. Goiânia. Núcleo de Estudos AfroBrasileiros. Dentre suas obras destacamos: Ritmos da identidade.edu. Ciências Sociais./jul.br 289 jan. Correo electrônico: aabello@unitecnologica. 2007 .com. Corréio eletrônico:araujo.

onde colabora como professora convidada da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. pela mesma instituição. dentre suas principais publicações destacam: Livros: Sound clash. Jamaica. Goiânia. rpt 2005. Durham: Duke University Press. 2003. n° 15 . intitulado A escrita de uma subjetividade sem sujeito em Aimé Césaire e Edouard Glissant. London: Macmillan Caribbean. Gender and the ‘Vulgar’ Body of Jamaican Popular Culture. Realiza. Cristianismo em Goiás.cooper@uwimona. trabalhos na área social com 154 crianças 290 Revista Brasileira do Caribe. “Enslaved in Stereotipes Race and representationin Post Independence Jamaica”. Jamaican Dancehal Culture at large. Correio eletrônico: cristinadecassiapmoraes@hotmail.com Kátia Frazão Costa Rodrigues é psicóloga clínica.jm Doutora Cristina de Cassia Pereira Moraes. rpt 2000. Correio eletrónico: Carolyn. Dentre alguns artigos: “Noises in the blood:Orality. 2004. além de colaborar com a União dos Escritores Angolanos. na revisão de textos de jovens autores. VIII. também. Gender and the vulgar body of Jamaican Popular Culture”. Reside em Luanda.Os autores Doutora Carolyn Cooper. desde abril de 2007. Entre suas publicações mais recentes destacam-se “Deus e o diabo no sertão dos Guayazes Abusos e desmandos do vigário da Vara de Vilan. mestre em Letras pela Universidade Federal Fluminense e doutoranda. Ed. 1993. vol. 2007. MBA em Gestão de Recursos Humanos pela FGV-RJ. Reconhecida pela sua trajetória. rpt 1994. New York: Palgrave MacMillan. 1995. com pósgraduação em Psicoterapia e Psicologia Centrada na Pessoa. na área de Literatura Comparada. em março de 2007. Professora de Literary and Cultural Studies e Diretora do Institute of Caribbean Studies University of the West Indies.edu. Um balanço historiográfico.UCG. In sociedade e Cultura. Qualificou o seu projeto. Mona.Noises in the Blood: Orality. 2006 e Religiosidade e Sociabilidade entre os confrades do Patriarca São Jose In Quadros Eduardo. na cadeira de Metodologia Científica.

vagabundos e mendigos: desvios. EdUFF/ ABECAN. 2007). 1997. É coordenadora do Núcleo de Estudos Canadenses da UFF. estimulando o contato com a Literatura.2006). 2004) e Figurações da alteridade (em colaboração com a Profa Eurídice Figueiredo. Correio eletrônico: mbvporto@hotmail. Organizou o número 12. perspectivas do Ártico ao Antártico”. UFMG. Identidades em trânsito (EdUFF/ABECAN. ABECAN/FURG. Nubia.com Leonardo Vidigal doutorando da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 2005).bhz@terra. Los angeles.Correio eletrônico: leovid. Organizou as seguintes obras coletivas: Mulher e Literatura./jul. Eurídice e PORTO. no atendimento psicoterápico e em oficinas de leitura. 2000).Os autores órfãs da guerra. capítulos de livros. Textos apresentados no VIII Simpósio Nacional (em colaboração com Lucia Helena Vianna e Lívia Reis(1999). devires e lugares da alteridade” (In: FIGUEIREDO. Maria Bernadette. Publicou artigos. Perspectivas transnacionais. passagens. 2007). Correio eletrônico: mbvporto@hotmail. possui várias publicações.com. “Habitabilidade e cartografias do virtual no universo de Régine Robin” (In: HANCIAU. Brasil/Canadá: visões. In: The Beat Magaziine. dentre elas destacam-se: “Bob Marley in Brazil”. Faz parte de dois grupos de pesquisa do CNPq: Identidades em trânsito:estéticas transnacionais (coordenadora ao lado da Profa Vera Lúcia Soares da UFF) e Estudos do Caribe no Brasil (coordenado pela Profa Olga Cabrera).br Doutora Maria Bernadette Velloso Porto. paisagens na literatura canadense (EdUFF/ABECAN. pesquisa sobre a temática do reggae há vários anos. EdUFF/ABECAN. “Andarilhos. ensaios em revistas especializadas . Fronteiras. 2007 . Sandra Regina Goulart de. Algumas publicações: “Lieux de la mémoire et de l’oubli dans des textes migrants” (In: ALMEIDA.com 291 jan. volume VI da Revista Brasileira do Caribe.

Estudante da Pós Graduação da Universidade Federal de Maranhão.141 . “Coração das trevas”. Dentre suas publicações destacam-se: “Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava”. 2007.com Maristani de Sousa Rosa Universidade Estadual do Maranhão. v. v. Departamento de História e Geografia. “História e Cultura Africana e Afro-americana”. Correio eletrônico: maristanerosa@terra.383. In: História Revista.com. Boletim Goiano de Geografia.2. p. Centro de Estudos Superiores de Imperatriz. Boletim Goiano de Geografia. p. Brasília:Paralelo 15 e “Nas terras do sol. territorialidade e corporalidade”.22. .166. Goiânia: UCG. E “Ritmos de Identidade: música. Pinta e Nina: a redescoberta dos Caribes em espaços discursivos brasileiros” In: Cenários Caribenhos. v. Goiânia. Goiânia: Ed. é mestranda da pós-graduação em História pela UFG. autora de “Santa Maria.23. Dentre suas publicações: “Cultura jeje na diáspora: Maranhão e Jamaica”. Correio eletrônico: tnegrão@gmail. 2005.b 292 . 2002.143. 2004. “Quatro Tempos de Ideologia em Goiás”. Brasil e cuba nas representações de Glauber rocha” In: Caribe sintonias e dissonancias. 2003. Goiânia.165 . “O reggae na Jamaica Brasileira: interlocução jurídica com cidadania e política a partir de letras musicais” In: 25a Reunião Brasileira de Antropologia. p. CECAB.377 . In: III Simpósio Internacional Cultura e Identidades.com. 2007. Goiânia: Universidade Católica de Goiás.br Doutora Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo possui uma rica trajetória como professora da Universidade de Brasília.Maria Lemke Loiola . 2007. Correio eletrônico: marialemke@pop. .

que tratem de estudos relacionados com o Caribe.para apresentação de trabalhos científicos. inventários etc. cujo conteúdo se relacione com a história do Caribe. Uma citação dentro de 293 .Normas Editoriais para Publicação de Artigos 1. incluindo endereço. Resenhas Críticas. versão 2000 ou 2003. 4. em corpo 10 normal.5 cm. parágrafo justificado. repertórios. também no idioma original e em inglês e espanhol. Entrevistas com personalidades de grande expressão na historiografia caribenha. sendo neste caso uma cópia em disquete e outra impressa. sobre obra bibliográfica publicada nos últimos dois anos. bem como de três palavras-chave. inéditos. o segundo idioma do resumo e das palavras-chave deverá ser o português e o espanhol. 6. sobretudo e-mail para contato. EXTENSÃO DOS TEXTOS: a extensão dos artigos deverá ter entre 15 e 20 páginas. referências e notas. No caso do idioma original ser o inglês. sendo que diferentes títulos de um mesmo autor no mesmo ano. e a das resenhas entre 3 e 7 páginas. francês ou inglês. bibliotecas. e Instrumentos de Trabalho. fonte Times New Roman em corpo nº 11. Os artigos deverão ainda ser acompanhados de dois resumos. que reproduzam documentos históricos importantes relacionados com o Caribe. FORMA DE APRESENTAÇÃO: os trabalhos deverão ser encaminhados no formato Microsoft Word for Windows. que deverão ser colocadas logo abaixo dos resumos. sobretudo no que se refere às citações. que possam interessar aos pesquisadores caribenhos. com menos de cinco linhas. 5. sendo um no idioma original e outro em inglês (abstract) ou espanhol. via e-mail ou via correio convencional. NORMATIZAÇÃO: todos os textos deverão obedecer ao padrão normativo da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas . com o mesmo tipo e tamanho da letra do texto. deverão ser diferenciados com uma letra após a data. Já os dois resumos dos artigos deverão conter em torno de 10 (dez) linhas. com recuo à esquerda e sem aspas. Deverão ser acompanhados de um breve currículo do autor. TIPOS DE TRABALHOS PUBLICADOS: Artigos. acompanhadas da indicação entre parêntesis do sobrenome do(s) autor(es). 1940. devem vir transcritas entre aspas duplas. sem deslocamento da primeira linha. 18-19). espanhol. ou que informem comentadamente sobre arquivos. a partir da letra a. Exemplo: (CASTILLO. CITAÇÕES: No corpo do texto. Com mais de cinco linhas devem ser transcritas em parágrafo distinto. margens de 2. IDIOMAS: A Revista Brasileira do Caribe publica colaborações em português. data da publicação e página(s) citada(s). 2. espaçamento entre linhas simples. todas no formato acima especificado. 3. p. telefone/fax e.

Local: Editora. Local: Editora. Modernidad razón e identidad en América Latina. bem como apresentar indicações completas. Título do artigo ou capítulo. O Conselho Editorial se reserva o direito de sugerir ao autor modificações de forma com o objetivo de adequar o texto às dimensões da revista e a seu padrão editorial e gráfico. a mesma deve vir com citação de autor. (org. página inicial-final do artigo. ano de publicação. : SOBRENOME. Letra inicial do nome do Autor. em ordem crescente de numeração. data. 53-72. p. a quem cabe a decisão referente à oportunidade da publicação das contribuições recebidas. Estas citações abreviadas enviam à bibliografia no final do artigo. jul. Letra incial do nome do Autor. La Habana: Editorial Academia. E. número do fascículo. usadas para a apresentação de comentários. Reflejos y antinomias de la problematica de la identidad en el discurso narrativo latinoamericano. BIBLIOGRAFIA: deve vir ao final do trabalho e contemplar as obras efetivamente citadas e referenciadas ao longo do texto e nas notas de rodapé. ARTIGO DE REVISTAS OU PERIÓDICOS: SOBRENOME.outra é indicado por aspas simples.) Título da Coletânea. N. número do volume. Devem vir em corpo 8. (org. 10. Revista Mexicana del Caribe. Enfoques filosóficos literarios. F. página inicial-página final do artigo ou capítulo. 1999. NOTAS DE RODAPÉ: breves.) Identidad cultural latinoamericana. N. V. p. Os demais tipos de textos. 1994. ou ainda recomendá-la com modificações. 8./dec. 6-34. 9. CRITÉRIOS DE REVISÃO: os artigos enviados à Revista Brasileira do Caribe serão remetidos a pelo menos dois pareceristas escolhidos entre os membros dos Conselhos Editorial e Consultivo que poderão recomendar ou não a publicação. que não os artigos. sucintas e claras. Letra inicial do nome do organizador. ano e página como a anterior. 4. ARTIGO OU CAPÍTULO DE COLETÂNEA: SOBRENOME. Santiago. 1996. explanações ou traduções que não caberiam no texto. UBIETA GOMEZ. ano. Título do livro: sub-título. 7. podem ser de esclarecimento ou explicativas. conforme os modelos abaixo: Livro: SOBRENOME. Título do periódico. Reinterpretar el Caribe. Letra inicial do nome do Autor. serão apreciados pelo Conselho Editorial. Exemplo: GIRVAN. J. Título do artigo. Local de publicação. Chile: Editorial Andrés Bello. Exemplo: LARRAÍN IBÁÑEZ. ENDEREÇO PARA ENVIO DAS CONTRIBUIÇÕES: 294 . 7. Exemplo: AINSA.

001-970 Fone: 55-62.Goiás CEP: 74.ufg.br 295 .Revista Brasileira do Caribe Universidade Federal de Goiás Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia Campus II .sala 42 Goiânia .3521-1457 Fax: 55-62-3292-1118 E-mail: ocabrera@fchf.

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