Universidade Federal de Goiás - UFG Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB ISSN: 1518-6784

Revista Brasileira do Caribe
Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil

CECAB, Goiânia, vol. VIII, nº 15 - jul./dez., 2007

Centro de Estudos do Caribe no Brasil - CECAB
Diretora: Olga Cabrera Secretária: Leonardo de M. Rodrigues

Revista Brasileira do Caribe Editora Responsavel/Organizadora do Volume: Olga Cabrera
Indexada pela Library of Congress. Control number: 2004204431. www.catalog.loc.gov e pelo Directorio Latindex /UNAM/ México. www.latindex.unam.mx Conselho Editorial Olga Cabrera - Brígida M. Pastor - Danilo Rabelo Conselho Consultivo Juan J. Baldrich, Pedro L. San Miguel (Universidad de Río Piedras, Puerto Rico); Consuelo Naranjo (Consejo Superior de Investigaciones Científicas - CSIC-Madrid, Espanha); Ernest Pépin (Escritor, Guadaloupe); Olga Portuondo (Universidad de Santiago de Cuba, Cuba); Ileana Sanz (Universidad Habana, Cuba); Laura Muñoz (Instituto Mora, México); Maria Teresa Cortés Zavala, Universidad Michoacana de San Hidalgo, México); Miguel Suarez Bosa (Universidad de Las Palmas de Gran Canária, Espanha); Maria Therezinha F. Negrão de Melo, Eleonora Zicari, Jaime de Almeida (Universidade de Brasília, Brasil); Eugênio Rezende de Carvalho, Isabel Ibarra, Luis Sergio Duarte da Silva (Universidade Federal de Goiás, Brasil); Euridice Figuereido, Maria Bernadette Velloso Porto (Universidade Fluminense, R. de Janeiro, Brasil); Rohda Reddock, Susan Mains, Patsy Lewis (University of the West Indies,Jamaica); Rose Mary Allen (University of the Netherlands Antilles, Curaçao); Rawle Gibbons (Universisity of the West Indies, Trinidad), Diana Soto(Un. Bogotá Col.), Diana Lago e Alfonso Múnera (Un. Cartagena de Indias, Col.) Comissão Técnica (Projeto Gráfico/Editoração): Leonardo de Melo Rodrigues Capa: Adriana Mendonça Revista Brasileira do Caribe: Revista do Centro de Estudos do Caribe no Brasil/Universidade Federal de Goiás, vol. VIII, nº 15, (jul./dez), Goiânia, Ed. CECAB, 2007. Semestral. Descrição baseada em: vol. VIII, nº 15 (jun./dez. 2007). ISSN:1518-6784 295 p. 1. Caribe - História - Periódicos.
CDU: 94 (1-928.9)

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* Os dados e conceitos emitidos nos artigos, bem como a exatidão das referências bibliográficas são de responsabilidade dos autores. ** Os artigos recebidos para publicação são apreciados por no mínimo 2 (dois) revisores, escolhidos preferencialmente entre os membros dos Conselhos Editorial e consultores externos especializados. Data de Circulação: Dezembro/2007 Copyright
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Tiragem Bruta: 600 exemplares

2007, Centro de Estudos do Caribe no Brasil

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Sumário
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Carolyn Cooper ........................................................11 Os sons do Atlântico negro Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 O reggae na “Jamaica Brasileira” Cidadania e Política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa..........................................41 Enredando Brasil/Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrações de idéias, influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo..................85 Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto.................................109 A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à Antillanite Césaire e Glissant. Katia Frazão Costa Rodrigues...................................137

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Plantation Legal: Trinidad século XIX Alexandre Martins.....................................................165 O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes............................197 A morte branca do escravo negro: Considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola.................................................245 Estudios del Caribe en Colombia: Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives.................................................267 Gaztambide-Geigel, Antonio. Tan lejos de Dios... Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos Leonardo de Melo Rodrigues...................................284 Os autores........................................................................289

4

Summary
Editorial Olga Cabrera..............................................................7 Lick Samba: Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica Carolyn Cooper..........................................................11 The sounds of the black Athlantic Carlos Benedito Rodrigues da Silva..........................21 Reggae in the Brazilian Jamaica: Citizenship and politics in the lirics of Songs Maristani de Sousa Rosa...........................................41 Interlacing Brazil and Jamaica: An international connection through filmography and popular music Leonardo Vidigal.......................................................61 Migrations of ideas, influences or reactivations? Cinematographic production in Brazil and Cuba as desterritorialized experiences Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo................85 A voice from the haitian diaspora in the migrant‘s literature of Quebec Maria Bernadette Velloso Porto...............................109

5

.................. Meya Ponte (1760-1776) Maria Lemke Loiola........................289 6 ................165 The slave trade in Brazil in the eighteenth century Cristina de Cassia Pereira Moraes.........267 Gaztambide Antonio............. Essays about relation between Caribbean and United States... Leonardo de Melo Rodrigues..............................137 Legal plantation: Trinidad nineteenth century Alexandre Martins Araújo..........................................The construction of identity in francophone caribbean from negritude to antilleanness: Césaire e Glissant.................... Far of God............284 About the authors..... Katia Frazão Costa Rodrigues..................................................197 The black slave´s with death: Some considerations on slavery in Brazil.......................245 Studies of the Caribbean in Colombia: Between diversity and adversity Alberto Abello Vives.................................

Brígida Pastor) e da aplicação das normas de publicação aos artigos. Estas abrangem desde àquelas relacionadas ao conteúdo quanto às formais. Olga Cabrera e inglês. Adriana Mendonça. A presença de um número muito mais expressivo de colaboradores no Conselho Consultivo e o acréscimo de artigos para ser avaliados. 16. e a arte utilizada nas capas das revistas são todas originais.luj . será dedicado à Cuba. O primeiro grupo de artigos da revista relaciona Brasil e Jamaica mediante a samba no solo jamaicano e o reggae no brasileiro.Editorial Olga Cabrera Diretora da Revista Brasileira do Caribe. possibilita pensar na conversão dos próximos números em dossiês dedicados especialmente a um país do Caribe. a transcendência da Revista tem permitido o aumento de artigos de todo o mundo que chegam até a redação. é outro dos objetivos alcançados. No que respeita ao conteúdo.zed/. autorizando a submissão dos mesmos a uma avaliação mais rigorosa. A Revista Brasileira do Caribe alcança seu número 15 após algumas transformações que começaram no número 9. Quatro artigos com diferentes abordagens estudam essas relaciones. O aumento do Conselho Consultivo da Revista tem dado um fluxo mais rápido à avaliação dos artigos para sua publicação. O próximo número. “Lick Samba: 7 7002 . espanhol. O primeiro deles. ou em torno a um tema. o número 17 ao Haiti e o 18 à literatura francófona. O presente número da Revista Brasileira do Caribe apresenta vários temas que podem ser agrupados no eixo das Conexões Afro-Atlânticas: Jamaica/Brasil/Caribe. A reformulação do Conselho Editorial e de seu compromisso com a terminação bem sucedida da revista mediante uma revisão cuidadosa das línguas (português. Do ponto de vista formal a Revista tem uma artista responsável pelo seu projeto gráfico. da destacada historiadora jamaicana Carolyn Cooper. Danilo Rabelo e desde o próximo número Orlinda Carrijo Melo.

VIII. A interpretação da desterritorialização no Caribe reaparece no excelente artigo de Maria Bernadette Velloso Porto “Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec”. Além do viés sexual utilizado nas interpretações sobre este tema. Carlos Benedito Rodrigues da Silva. Katia Frazão de Costa Rodrigues.Cultural Synergies Between Brazil and Jamaica” num jogo de palavras que transcendem as distorções sobre Kingston como a capital do crime para capital como “primeiro valor” que exemplifica com o estudo sobre a samba que se recria na Jamaica. n° 15 . Negrão de Melo. reclamados por Norbert Elias para compreender as mudanças na História. a samba jamaicana é. na visão de um poeta da diáspora caribenha (haitiana) no Canadá. vol. O artigo de Maria Terezinha Negrão de Melo “Migrações de idéias. uma expressão das conexões AfroAtlânticas que enlaçam Brasil a Jamaica. O autor aborda o reggae e os vínculos inter-culturais entre Brasil e Jamaica mediante a utilização do cinema como fonte de análise. e que deixam fora os sentimentos. econômicas. as emoções. O segundo artigo do reconhecido estudioso do reggae em Brasil. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas” revela a transcendência e as conexões que decorrem do cinema de Glauber Rocha para a compreensão do espaço latino-americano. por sua vez apresenta em uma perspectiva relacional 8 Revista Brasileira do Caribe. Ainda o terceiro artigo de Maristane de Sousa Rosa “O Reggae na “Jamaica brasileira. “Os Sons do Atlântico Negro” alerta das abordagens identitárias embasadas apenas nas análises sociais. O artigo de Leonardo Vidigal “Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular” se enlaça de maneira simultânea aos três artigos anteriores e ao seguinte de Maria Therezinha F. Cidadania e política a partir de letras musicais” procura explicar mediante a música o processo identitário que transcende as fronteiras regionais e nacionais para conclamar objetivos sociais comuns dos negros da diáspora. certamente. no artigo “A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant”.

2007 . a resenha à obra de Antonio Gaztambide-Geigel. também documental. por Leonardo de Melo Rodrigues.. Trinidad século XIX” aborda as experiências dos imigrantes indianos e dos negros em Trinidad. A problemática e. Tan lejos de Dios. Por último. a indefinida e nebulosa situação do Caribe colombiano não é diferente à de outros países do Caribe e o reclamo do autor para atentar contra as desigualdades sociais procedentes da racialização pode ser ampliado a toda Afro-América ou Caribe. o artigo de Alexandre Martins de Araújo “Plantation legal. A revista contém outros dois artigos que relatam a experiência da escravidão no Goiás. Por último. O primeiro é um estudo sobre a escravidão em Goiás a partir da documentação dos arquivos e o segundo. 9 jul./dez. GAZTAMBIDE-GEIGEL. Ensayos sobre las relaciones del Caribe com Estados Unidos A seção final da Revista Brasileira do Caribe oferece também os dados mais importantes sobre os autores que participaram neste número.os aportes teóricos na construção da idéia de antilhanité em Césaire e Glissant. os dois destacados literatos de Martinica. no século XIX.. quer seja nas ilhas ou no continente. Antonio. destaca a relevância deste último livro do reconhecido historiador porto-riquenho e coloca a importância para o Brasil do estudo dos especialistas da região. oferecendo um outro lado desse complexo mundo do Caribe. “Estudios del Caribe en Colombia. A presença de várias culturas africanas na formação social aparece refletida na pesquisa documentada de Cristina de Cássia Pereira de Moraes “O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII” e no artigo de Maria Lemke Loiolo “A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (1760-1776)”. sobretudo. Entre la diversidad y la adversidad”. Brasil. aborda o tema específico dos documentos de óbitos de negros tanto escravos como livres na região de Meya Ponte (Pirenópolis) Encerra a revista o artigo de Alberto Abello Vives. Os sete artigos se enlaçam a uma globalizada visão do Caribe nas suas múltiplas conexões e possibilidades de abordagens.

10 .

Jamaica Resumo Este artigo embrionário teve sua origem em maio de 2000 no Simpósio “Sinergias Culturais e oportunidades de negócios entre Brasil e Jamaica. *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 11 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. Jamaica. I intend a pun on ‘capital.’ meaning ‘first rate. Brazil. Há um jogo de palavras sobre o conceito “capital”. n° 15.Lick Samba Cultural Synergies between Brazil and Jamaica (Dedicated to the memory of Lino de Almeida. mais que uma investigação. cidade de Kingston. O caso da música e das publicações”. vol. Keywords: Samba.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital. iniciadas na Jamaica e que agora se estendem ao solo brasileiro. in conversations about samba from Jamaica to Brazil. 11-20. realizado na capital. conversações sobre a samba. VIII. 2007 . held in the capital city of Kingston. beyond investigation.’ This is an article that is based. Spirit of the Crossroads) Carolyn Cooper Abstract This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing”. Este é um artigo que tem como base. significando não somente o local geopolítico da cidade senão também algo coloquial do moderno sentido de “capital” significando “primeiro valor”. Jamaica.

As a cultural critic specialising in Jamaican popular culture and literature. But I wish to make it absolutely clear that what I offer here is not a scholarly article – the product of prolonged research and analysis. The 2000 “Cultural Synergies” symposium was hosted by the Jamaica Promotions Corporation (JAMPRO). Jamaica. Brasil. En este intento un juego de palabras sobre el concepto “capital”. El caso de la música y de las publicaciones”. vol. conversaciones iniciadas en Jamaica y que ahora se extienden al suelo brasileño. deadly’ as in capital punishment. VIII.chave: Samba.” held in the capital city of Kingston. más allá de la investigación.’ Kingston is a much under-rated city. My intuitive reflections on that occasion have now been somewhat refined for presentation on this panel. Este es un artículo que tiene como base. Instead. it is an intervention in a conversation.’ Here.’ signifying not only the geopolitical placement of the city but also the somewhat colloquial modern sense of ‘capital. I was invited to contribute to the deliberations. Jamaica Resumen Este embrionario artículo tuvo su génesis en mayo de 2000 en el Simposio “Sinergías Culturales y oportunidades de negocios entre Brasil y Jamaica. This decidedly embryonic article has its genesis in a May 2000 symposium on “Cultural Synergies and Business Opportunities between Brazil and Jamaica: The Case of Music and Book Publishing. Brasil. often excluded from the itinerary of most visitors to Jamaica who fear its vile reputation as a ‘murder capital.Carolyn Cooper Palavras. significando no sólo el local geopolítico de la ciudad sino también algo coloquial del moderno sentido de “capital” significando “primer valor”. now re-branded as Jamaica Trade and Invest.’ meaning ‘first rate. yet another meaning of ‘capital’ resonates: ‘mortal. Palabras Claves: Samba. 12 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 . realizado en la ciudad de Kinsgton. I intend a pun on ‘capital. initiated in Jamaica. Jamaica. Jamaica.

which are heightened by the seductive refrain./dez. oh darling. oh darling Ah just a lick samba. ah lick i one time. lick Samba1 Though somewhat enigmatically expressed. lick samba If it’s morning time.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica that now continues on Brazilian soil. ooh. Bob Marley’s invocation to “lick samba. is the pulsating refrain of a song which appears to emblematize samba in primarily sexual terms: Lick samba. lick samba. lick samba. baby You can write it down in my name Morning time. lick samba Ah bring it up. oh nah And though I know you hurt me again I’ll go on. apparent: “And it’s not that I am meek/ But it’s that I’m on a peak. but I am calling Ooh. the sexual allusions are. however “little. lick samba Oh oh. it means 13 jul. lick samba Oh yeah I could not resist. right here I’ll settle the little I claim. de 2007 . morning. noon or night Ah just a lick samba. Oh darling I’m not a preacher. I’ll feel the pain And it’s not that I am meek But it’s that I’m on a peak. oh nah Another like this.” The singer is ready for action.’ In slang usage in English. But there are claims to be settled. lick samba. the man surrenders to the painful pleasures of love. I’m ready And if it’s late at night I’m steady Give it to you anytime.” which I use to frame my remarks here. lick samba An mi seh. nevertheless. noon and night. lick samba.” Unable to resist the woman’s power. “lick samba.” The primary meaning of ‘lick’ in English is to ‘tongue. lick samba Ah say.

Marcia Griffiths and Judy Mowatt) on the Kaya N’Gan Daya CD. instead. Gilberto takes the lead. I hit/lick it once. right here] ambiguously suggests the pleasurable hit of vigorous – not violent – oral/sexual contact.” to which Rita replies. the refrain ‘lick samba’ evokes. Indeed. When it hits you feel no pain Wo wo I say One good thing about music. vol. connoting the call and response structure of African oral discourse. that here this ‘it.” [I bring it up.’ is essentially a euphoric expression of a natural high. right here. ah lick i one time. the version of “Lick Samba” that is recorded by Gilbert Gil and Rita Marley (and the other I-Three. explicitly evokes playful sexual seduction. the percussive beats of global African music. In the song “Trench Town Rock.Carolyn Cooper as well “to beat. heightened by percussive guitar beats: “ooh! hah! aiya! woyio!” After the opening refrain. oh. When it hits you feel no pain 14 Revista Brasileira do Caribe. VIII. “I could not resist. This ameliorative meaning of “lick” that I attempt to recuperate here encodes the complexity of male/female relationships that are not always open to transparent.” sung as a duet. especially by those disposed to see misogyny at every turn in Jamaican popular music. singular interpretation. as well. But the double English/Jamaican meanings appear to converge in this song. Widened beyond the immediate sexual context.” This is the primary sense in which the word is used in Jamaican.2 The song opens with titillating exclamations. thrash.” Bob Marley deploys the trope of music as a ‘hit’ in precisely this way. The generic ‘it’ that is licked/hit may be read as the objectified female body. sound and power. “Another like this”. But I would argue. The explosive hit/lick becomes a celebration of the potency of music as word. n° 15 . The line “Ah bring it up.’ conjoined to ‘lick. The entire song becomes an amusing mating ritual. “Lick Samba. Not just the conventional chart ‘hit’ but also the physical impact of megawattage sound systems licking the body: One good thing about music.

Reggae is “Trench Town rock”. In his author’s preface to the US edition.Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica Hit me with music Hit me with music now This is Trench Town rock Don’t watch that Trench Town Rock Big fish or sprat You reap what you sow Trench Town Rock And only Jah Jah know Trench Town I’ll never turn my back Groovin it’s Kingston 12 Groovin It’s Kingston 12 No waan yu come galang so No waan yu fi galang so Ska ba dip. ska ba dip You waan come cold I up I’m a groover an the world know it by now3 Like reggae. Similarly. incorporating cultural meanings far beyond the intentions of its progenitors. samba is the music of Rio de Janeiro. Hermano Vianna’s book The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. exemplifying the cultural synergies between Brazil and Jamaica in the field of book publishing. At that JAMPRO seminar. samba is a popular music whose origins are decidedly urban and down market.” sponsored by the Duke-University of North Carolina joint program in Latin American Studies. this localised. The book was simultaneously published in 1998 by the Press University of the West Indies and the University of North Carolina Press in the series “Latin America in Translation/ en Traduccion/ em Traducao. working-class./dez. a Kingston 12 groove. was a featured text. Vianna declares that he valorises “the intellectual trajectory of anthropologist Gilberto 15 jul. But in both instances. de 2007 . African diasporic music is not only globalised but it becomes an iconic manifestation of national identity.

Various kinds of cultural mediation. In private conversation with me. gives an amusing rendering of the Jamaican psychology of ‘largeness’ in her poem “Independance. it might appear hubristic to even attempt to delineate cultural synergies between the two. n° 15 . a self-aggrandizing character she creates. Jamaica’s international reach greatly exceeds our geographical size. This book is about movement. Freyre was one the mediators. the globalisation of reggae suggests that. as with athletics and football. who loudly proclaims the benefits of the nation’s newly acquired state of independence. VIII. and the rest of the Atlantic world as well. about back-and-forth flows of influence that connected Rio not only to Pernambuco.4 For reggae. become crucial to the ‘nationalization’ of samba. Would Jamaica have made it to the World Cup without the technical input of the celebrated Professor Rene Simoes? Hardly likely. speaks through the mouth of Miss Mattie. Given the scale of geographical difference between Jamaica and Brazil. but that does not matter. Nevertheless. trans/national cultural flows are an essential element of the formation and reproduction of the music. vol. legendary Jamaican footballer Allan ‘Skill’ Cole. spanning geographical and social distances. Marley’s long-time friend and producer of the song “Lick Samba. as for samba.” Miss Lou. the United States. Flag independence confirms an enlargened conception of both her own person and the landmass of the former colony: Jamaican She hope dem caution worl-map 16 Revista Brasileira do Caribe.” disclosed that it was his own involvement with football in Brazil that sparked Bob Marley’s experimentation with samba. That football connection is a whole other story of cultural synergies. Jamaican cultural icon Louise Bennett-Coverley. but to France. affectionately known as Miss Lou.Carolyn Cooper Freyre” as a “narrative and interpretive thread” for the book. the ventriloquist. not Rio de Janeiro. He elaborates the rationale: Freyre’s home was the Brazilian northeast.

Lick Samba: Sinergias culturais entre Brasil e Jamaica

Fi stop draw Jamaica small, For de lickle speck cyaan show We independantness at all! Moresomever we must tell map dat We don’t like we position Please kindly teck we out a sea An draw we in de ocean.5 English She hopes they’ve warned the mapmakers To stop representing Jamaica as tiny, For the little speck can’t show Our independence at all! Moreover we must tell the mapmakers That we don’t like our position – They must please take us out of the sea And put us in the ocean.6

Jamaicans do, indeed, have an oceanic consciousness. The landmass of the island (and ‘mass’ is a gross exaggeration in comparison to the expansive landscape of Brazil) does not contain us. Though seemingly bound on all sides by the sea, we are not insular. Psychologically free, many Jamaicans claim a much wider sphere of influence than the circumference of a small island, especially when the diaspora is taken into account – all those Jamaicans, with so many passports (legal and illegal), scattered across the globe. We constitute a formidable, transnational, constantly mobile nation-state. There is, obviously, another quite literal sense in which the Jamaican people are continental, like the Brazilians. The majority of Jamaicans are of African origin and we retain ancestral memories of a vast continent of mythic proportions. It is Rastafari who have most articulately propagated the philosophy of repatriation of the mind. Many Africans in the diaspora – in Brazil as in Jamaica – choose to keep genetic memory alive. In our language, music,

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Carolyn Cooper

food culture, religion we memorialize the past. And we keep our ancestors alive and available to dream us into waking consciousness; in the present. Africa is not the distant past; it is contemporary culture. But, like Jamaica, with our optimistic national motto, “out of many, one people”, Brazil privileges a model of multi-racial harmony that to outsiders often appears to repress the powerful African presence in this complex society. Brazil is home to the largest number of people of African origin outside the continent of Africa. John Chasteen, translator of Hermano Vianna’s The Mystery of Samba, defines the issue of racial identity in Brazil in this diplomatic way:
Scorn for the official platitudes about Brazilian ‘racial democracy’ has animated a number of recent U.S. multiculturalist views. They emphasize that, when racial and cultural mixing becomes a nationalist ideology, other racial identities (especially indigenous and African ones) remain marginalized and may be snuffed out altogether. In Brazil, the multiculturalist critique has circulated only in narrow intellectual circles and seems unlikely, for now, to diminish the popular appeal of mixed-race (mestico) nationalism. After all, it was not so long ago – in the 1930s – that mestico nationalism overthrew and replaced the official doctrines of white supremacy. Nor is white supremacy gone from Brazil, except officially. Therefore, the basic nationalist message – ‘It’s okay not to be white and European’ – retains its value in many people’s lives. The mestico category is so loose as to exclude almost nobody who seeks an ‘authentic Brazilian’ identity.7

A much less diplomatic reading of ‘authentic Brazilian identity’ recognizes that it is not only in ‘narrow intellectual circles’ that the critique of ‘mestico’ identity circulates. There is a popular Black nationalist movement alive and growing in Brazil. And this present African political struggle can be related to the long history of resistance to enslavement, both literal and mental – to cite Bob Marley and before him Marcus Garvey who truly exemplifies the

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continental consciousness of African Jamaicans: “Emancipate yourselves from mental slavery/ None but ourselves can free our mind.”8 Like Jamaica, Brazil has a long history of maroonage: an intractable refusal to be enslaved on the plantation. And we must remember that Brazil is directly responsible for the development of the sugar plantation economy in the Caribbean. It was the expulsion of the Sephardic Jews from Brazil in the seventeenth century that forced them to seek refuge first in Suriname, then Barbados where they developed the sugar industry, which then spread to other islands and precipitated the enforced migration of Africans to work on the plantations in the Caribbean. Movement of Jah people. In The Mystery of Samba, Hermano Vianna asks a provocative question: “How and why did Brazilian ‘authenticity’ become essentially ‘Afro-Brazilian’?”9 The answer he provides is equally provocative, especially for us in Jamaica where the elite continue to disparage forms of popular culture (like dancehall) that have their origins in the consciousness of the masses – or, as we prefer the ‘massive’ with its connotations of power, not just faceless anonymity. It is these very despised cultural forms, like contemporary dancehall culture, that have come to be identified globally as the quintessential markers of Jamaican identity. Vianna argues that “[t]he invention of Brazil’s national essence, at least in the version symbolized by samba, turns on the importance of popular culture.”10 He foregrounds the distinction between ‘pop’ culture and ‘popular’ culture: ‘Samba, despite its long and intense association with the Brazilian mass media, is never thought to have originated (or even to belong) there. Pop culture has been viewed, to the contrary, as a corrupting, alienating influence: the worst enemy of “authentic” popular culture.”11 Just as Jamaicans have been hit by samba and feel no pain, Brazilians have been hit by reggae. I must honour Jimmy Cliff for the role he has played in the globalisation of reggae music, particularly in Brazil. I must also celebrate the work of Lino de Almeida, now numbered among our ancestors, who was so instrumental in

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establishing the musical connection between Jamaica and Brazil. It is my vision that we, at the University of the West Indies, can initiate with our colleagues in Brazil a multi-disciplinary, multi-sectoral research project focusing on intellectual property and related cultural productions – with practical industry applications – that will indeed strengthen strategic partnerships between Jamaica and Brazil.

Notas
1

Bob Marley, “Lick Samba,” Track 2, Disc 2, Songs of Freedom, Compilation, Tuff Gong/Island Records, LC0407, 1992.

2

Bob Marley and the Wailers, “Trench Town Rock,” Track 4, African Herbsman, Disc 1,Trojan Records, ASIN:B0000011DQ, 1973.

Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xvii.
3

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
4

Mervyn Morris, ed. Louise Bennett Selected Poems, Kingston, Jamaica: Sangster’s, 1982; rpt 1993, 118. (Subsequent references cited in text)
5 6

John Charles Chasteen, “Translator’s Preface,” in Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil. Barbados Jamaican Trinidad and Tobago: The Press University of the West Indies & Chapel Hill & London: The University of North Carolina Press, 1998, xiv-xv.

Bob Marley, “Redemption Song,” Track 10, Uprising, Island Records, ILPS 9596, 1980 8 Hermano Vianna, The Mystery of Samba: Popular Music and National Identity in Brazil, xvii.
7 9

Ibid.

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Os Sons do Atlântico Negro
Carlos Benedito Rodrigues da Silva Abstract
Reggae was born in Jamaica in the mid sixties as a result of a musical and rhythmic evolution from the Black-African traditions to the rock-steady rhythm and blues, in addition to the notable influences of Rastafarianism. In São Luis de Maranhão, considered the “Portal of Amazônia”, including the States of Pará and Maranhão, there was always a musical predominance of Caribbean Rhythms, such as merengue, carimbó, bolero, among others, in the popular festivities. This study attempts to formulate some of the hypothesis that explains the phenomenon of the incorporation of reggae into São Luis´s culture. Keywords: Popular culture, Reggae, São Luis de Maranhão (Brazil)

Resumo
O artigo analisa a apropriação e a ressignificação do reggae jamaicano entre as camadas populares da cidade de São Luís, Maranhão, como forma identitária e de resistência à marginalização social a que estão submetidas desde o passado de escravidão. Busca-se também traçar as origens do reggae na Jamaica, bem como explicar as condições para a popularização do reggae no Maranhão, bem como os embates ideológicos com as elites locais que estigmatizam o reggae em nome da ‘tradição’ e da preservação de seus privilégios sociais, econômicos e políticos. Palavras-Chave: Cultura Popular – Reggae – São Luis de Maranhão (Brasil)

Resumen
El reggae nació en Jamaica, a mediados de los años 60 del siglo XX, como consecuencia de una evolución rítmica y musical, desde las tradiciones negroafricanas, pasando por el rock-steady, rhythm and blues, además de las influencias

*Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 21-39, 2007

passando pelo mento. o reggae concentrou todas as expressões sociais. especialmente a partir da industrialização da Jamaica. refletindo uma identidade cultural de oprimidos que adotavam o reggae como o símbolo da expressão de suas angústias. impulsionado pelas pregações. entre otros. como conseqüência de uma evolução rítmica e musical. um dos principais articuladores do PanAfricanismo. que envuelve los Estados del Pará y Maranhão. críticos sociais ou líderes espirituais. por meio de compositores e cantores. que viviam no desemprego e na marginalidade. Embora não professem um credo monolítico. atribuindo-lhe uma característica de movimento messiânico. portanto. vol. culturais e políticas da Jamaica. em las fiestas populares. VIII. n° 15 . que se tornaram profetas. em meados dos anos sessenta. além das influências marcantes do rastafarianismo. Inspirado em interpretações bíblicas. En São Luis de Maranhão. carimbó. nos idos de 1950. Palabras Claves: Cultura Popular. por isso tornou-se um amplo movimento popular na Jamaica. desde as tradições negro-africanas. San Luis de Marañón (Brasil) O reggae surgiu na Jamaica. bolero. os rastas acreditam que Ras Tafari é o “Deus Vivo” e que a salvação do homem negro passa pelo retorno à África. El presente artículo intenta formular algunas hipótesis explicativas sobre el fenómeno de la incorporación del reggae a la cultura de San Luis. 22 Revista Brasileira do Caribe. considerada el “Portal de la Amazônia”. Desde o seu início. adeptos do rastafarianismo.Carlos Benedito Rodrigues da Silva marcantes del rastafarianismo. pelo rock-steady. o rastafarianismo constituiu-se numa alternativa de construção da nacionalidade para milhares de jovens jamaicanos. rhythm and blues. um dos elementos fundamentais das mensagens político-filosóficas do reggae. sempre hubo un predominio musical de ritmos caribeños. Reggae. e ao longo dos anos setenta do século XX. O rastafarianismo se tornou. entre outros. como merengue. de Marcus Garvey.

Secundado por nomes não menos famosos hoje. Juntamente com a banda The Wailers. como Jimmy Cliff e Peter Tosh. definiu-a como “uma coisa que vem do povo dos guetos”. originando novas tendências e conquistando novos espaços. palavra caribenha usada para designar prostituta. significando “raiva”. vocalista do grupo. Com um acentuado caráter de contestação política. Toots tenha definido o reggae. as mesmas bases culturais que impulsionaram o surgimento do reggae na Jamaica tenham contribuído para a explosão do ritmo jamaicano entre as populações negras e pobres das favelas e palafitas de São Luís do Maranhão. Os ecos do grito jamaicano ressoam no Maranhão É possível que./dez. os guetos do Terceiro Mundo. resguardando as devidas proporções. porém. de 2007 . Bob Marley foi o responsável pela explosão do reggae para além das fronteiras jamaicanas. de beber sua essência na fonte básica que o originou. o reggae está em permanente evolução. marcando uma revolução na música negra em todo o mundo. em 1967. a expressão teria se derivado de “streggae”. coisa que se usa como comida. que começaram a excursionar e editar seus discos fora do país. 23 jul. porém não se tem nenhuma conclusão definitiva sobre essa ligação. em meados dos anos setenta. O próprio Toots Hibbert. o sucesso internacional dos Wailers. como algo que identifica o povo sofrido dos guetos.Os sons do Atlântico negro Não existe um significado específico para a palavra reggae. A expressão máxima do reggae jamaicano no mundo está em Robert Nesta Marley. serviu para abrir as portas para vários cantores e compositores jamaicanos. Talvez por isso. ou “desigualdade”. uma expressão para designar pessoas simples. donominado “Do The Reggay”. isto é. Alguns a consideram originária das misturas de línguas afrocaribenha e inglesa. sofridas e que não tem o que querem. Sem deixar. Essa palavra apareceu pela primeira vez em um disco do grupo Toots and Maytals. saindo em busca de novos ritmos. presentes na Jamaica.

VIII. de caráter geográfico. Isto revela que raízes culturais africanas teriam sido transplantadas para as duas regiões pelo processo de escravização e permanecido ali com algumas ressignifições3. como merengue. Nessa região. várias explicações são apresentadas para justificar essa forte identificação. O reconhecimento de uma batida semelhante entre o reggae e o bumba é o que permite a circulação dos regueiros entre os salões de reggae 24 Revista Brasileira do Caribe. sempre houve uma predominância musical de ritmos caribenhos. Na verdade. chamadas de “sotaque”. que envolve os Estados do Pará e Maranhão. transportados para regiões diversificadas das Américas e do Caribe. Embora permaneçam “invisíveis” por muito tempo. vol. através do Atlântico Negro. especialmente da chamada Baixada Maranhense. afirmam que sintonizam emissoras do Caribe em algumas horas da madrugada e. considerada o “Portal da Amazônia”. Uma aproximação cultural pode ser encontrada ainda. algumas inclusive. sendo que a maioria delas apresentam certo grau de veracidade. acionadas pela memória coletiva a partir de estímulos diversos. carimbó. bolero. acabam florescendo em situações específicas na diáspora. ainda que aparentemente inconsciente e imprecisa de se definir. atribuem ainda o gosto pelo reggae a uma possível identificação étnico-racial entre jamaicanos e maranhenses. que por isso. n° 15 . Moradores de áreas rurais do Maranhão. essa identificação. ou seja. entre outros. que são também tocados nas festas dos povoados negros do interior do Estado. tanto na Jamaica como em São Luís existe uma população predominantemente negra com algumas características culturais semelhantes. nas variações rítmicas do bumba–meu-boi. herdadas dos africanos escravizados.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Embora seja difícil precisar exatamente quais os caminhos percorridos pelo reggae até cair no gosto da população maranhense. como o comunicador Ademar Danilo2. é resultante das raízes culturais africanas. Algumas pessoas. têm uma familiaridade com os ritmos. nas festas populares1.

. foi isso que chamou a atenção do pessoal. mas isso é a maneira como o reggae está sendo manipulado e 25 jul. foi essa pancada semelhante.4 A gente sente o peso da trupiada do boi. como afirma Humberto. Segundo ele. mas a origem foi de participação. o reggae se tornou um instrumento de exploração do próprio negro. de 2007 . incitando o imaginário popular a respeito da inserção do reggae no espaço maranhense.) os marinheiros infestavam a zona. infelizmente. Várias vozes e narrativas tecem os discursos. A partir que se torna mercadoria./dez. que veio de baixo. isso superou a barreira do preconceito pra depois entrar no mercado. Não sei a origem. o reggae teve que superar muitos preconceitos para ser aceito como uma das maiores manifestações dentro da cultura maranhense.Os sons do Atlântico negro e os terreiros de apresentação das “brincadeiras” da cultura regional no período junino. não é outra coisa não. Foi isso que chamou a atenção. entre as décadas de 60 e 70 e depois fomos vendo o reggae se expandindo nas festas da periferia e a periferia sendo muito mal tratada. Hoje. aí quebra os preconceitos. ele se assemelha ao peso da pancada do reggae. A caminhada do reggae foi popular. músico e atual secretário estadual de cultura do Maranhão. podemos salientar as declarações de Joãozinho Ribeiro. mas escutei lá. Inclusive. Morei mais da metade da minha vida na zona do baixo meretrício e ali era comum esses navios que vinham das Guianas (. geralmente eles pagavam as prostitutas com discos.. Era comum eles aportarem todo mês. agora a gente pode até ver com outros olhos. cantador do bumbameu boi do Maracanã. foi suburbana. Insistindo no relato de alguns depoimentos. o primeiro disco de reggae que escutei foi na zona. Agora vemos o reggae conseguindo uma grande identificação na cidade.

VIII. assentada em uma semântica pejorativa. n° 15 . “mulheres vulgares” que sofrem a violência diária de comercializarem o corpo por não ter o que querem. vol. Joãozinho Ribeiro revela que um dos caminhos de divulgação do reggae em São Luís foi pela zona do baixo meretrício possibilitando. fundamentalmente. como uma atitude de rebeldia. ainda. o que nos remete a situações semelhantes atribuídas ao reggae desde as suas origens na Jamaica. Conforme MartinBarbero (1997:240) 26 Revista Brasileira do Caribe. branca e cristã. nem o que precisam para assegurar respeito e dignidade numa sociedade de opressão. em certo sentido. pessoas simples. Curiosamente. com sua forma de dançar agarradinho reflete determinada sensualidade inscrita culturalmente em corpos. denunciando a exclusão que a escravidão impõe e os processos da modernidade sustentam. qual seja. A zona do baixo meretrício é uma região localizada no Centro Histórico de São Luis. despossuídos. a sua identificação como uma música de negros marginalizados. é possível identificar neste ponto uma das vias fortes de discriminação contra o reggae em São Luís. pela sensualidade que enseja. para quem a expressão reggae. O ritmo do reggae em São Luís. em cujos bares e cabarés ouve-se diariamente o ritmo jamaicano entremeado de boleros e merengues. entre outras coisas. visto que no reggae o corpo é concebido. Podemos ainda salientar que a construção do reggae.Carlos Benedito Rodrigues da Silva assimilado por poucas pessoas que estão ganhando muito dinheiro. está relacionada “ao povo sofrido dos guetos. com prostitutas. pode ser relacionada com a moral burguesa. que povoam os guetos e palafitas da Jamaica ao Maranhão e. manifestando-se no lazer e no trabalho. que se faça alguns cruzamentos com a definição atribuída ao cantor Toot Hiberts. que sofrem e que não tem o que querem” Entre outras coisas. de vigilância e punição às exibições do corpo como instrumento do prazer.

duvidosas ou legítimas. onde o reggae é um dos atrativos para os boêmios freqüentadores das casas e bares da região.. E é a dialética dessa dupla indecência o que vai de fato escandalizar a ‘sociedade’ (. que o adotou como uma das mais importantes opções de lazer. não é suficiente para atribuir-lhe qualificação social. o cansaço e o esforço doem menos./dez. O consumo da cultura do negro como espetáculo midiático. e sim de descobrir que a indecência do gesto negro não vem somente de sua atrevida relação com o sexo. o negro enfrenta o trabalho extenuante e. são contribuições importantes. a princípio. como é o caso do reggae jamaicano em São Luís. a existência de várias versões explicativas indica que é muito difícil precisar qual o caminho de introdução de determinados elementos culturais em um novo contexto. embora também ‘carregada’ oniricamente. Produzido originalmente em um idioma diferente. como para nos dar pistas sobre as possibilidades de existência de raízes culturais semelhantes envolvendo povos das duas regiões.Os sons do Atlântico negro Através de uma cadência quase hipnótica. inclusive a zona do baixo meretrício. 27 jul. são legítimos. É uma embriaguez sem álcool. o reggae se instalou na ilha e se espalhou por alguns outros municípios do estado. precipitadas. concentrando-se com algumas características marcantes. mas também. Logo. Essas afirmações. possibilita visibilidade. ao mesmo tempo. tanto para mostrar que um dos fatores de aceitação do reggae pela população da ilha de São Luís foi a sua relação com os ritmos caribenhos. de sua evocação do processo de trabalho no próprio coração da dança: no ritmo.). reforça os elementos de manutenção das desigualdades. de 2007 . envolvidos num ritmo frenético. todos os caminhos. criando uma nova linguagem como canal de comunicação e identificação.. Se por um lado. Por sua vez. E não se trata de reduzir o sentido da dança ao do trabalho. principalmente nos locais habitados pela população negra de baixa renda da periferia.

habitantes da periferia e prostitutas do “baixo meretrício”. as músicas são apelidadas de melô. contratados especialmente para os eventos. mas principalmente pelos proprietários de clubes e radiolas. vol. de uma vigilância acirrada sobre os regueiros.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Nessas áreas. é possível encontrar diariamente crianças dançando reggae nas ruas ao som dos programas de rádio. Mesmo que tenha se expandido atualmente para outros setores considerados “mais higienizados” da cidade. VIII. pelos organizadores. adquiriu uma posição destacada no contexto das programações culturais de São Luís. Um fator a ser ressaltado é que a exploração do reggae a que se refere o compositor Joãozinho Ribeiro se dá não tanto pelas elites. No universo regueiro de São Luís não se toca reggae nacional e na falta de entendimento das letras. o reggae que não trilha por esse mesmo caminho. No próprio espaço das festas. que concebem os eventos apenas como fonte de lucro. tanto por parte da polícia. mesmo que o ritmo esteja inserido em jingles e propagandas comerciais veiculados nas emissoras de TV. que “aquecem” ou “esfriam” determinados ritmos de acordo com os interesses das gravadoras. permanece no plano social a relação direta reggae/marginalidade. ostentado com tanto orgulho pelos intelectuais maranhenses desde o século XIX. constata-se a exigência. possibilitando ganhos econômicos e prestígio para quem o manipula. cujos descendentes. o reggae ainda não é aceito por esses grupos como um símbolo da cultura maranhense. ele passa a ter uma aceitação como mercadoria de consumo. De elemento identificador de negros marginalizados. distanciando-se cada vez mais do título de Atenas Brasileira. n° 15 . Os próprios Dj’s. Ainda que alguns preconceitos sejam quebrados. já apresentam as músicas com o nome da melô conhecida. paradoxalmente. pois isso remeteria São Luís a uma Jamaica negra e pobre. dinamizadora dos eventos. sem revelar nenhuma outra preocupação de caráter sócio-coletivo que possa beneficiar a chamada “massa regueira”. de sangue ou de orientação 28 Revista Brasileira do Caribe. como pelos grupos de segurança.5 Contrariando os movimentos midiáticos.

construída na sociedade brasileira após a abolição da escravatura. de 2007 . A presença do reggae estaria provocando uma atrocidade na cultura maranhense. especialmente para aqueles que assimilaram a ideologia de europeização. contribuem para o estabelecimento de novos referenciais de identificação para segmentos populacionais que. em grande parte responsável pela construção da sociedade brasileira. que teima em permanecer com fortes raízes no cotidiano religioso. Deste modo. menos africano. assim. pois o sonho de europeização precisa ser construído sob a concepção dominante de desqualificação da herança cultural africana. “o belo e edificante epíteto” de 29 jul.Os sons do Atlântico negro ideológica branca. a presença do negro era vista como sinônimo de atraso. Portanto. remetê-la a um passado de inferioridade e distanciamento em relação à europeização pretendida e nega. do trabalho e do lazer de amplos segmentos da população maranhense. reivindica-se o título. quando o trabalho escravo foi substituído pelo assalariado. deixam transparecer uma atitude de repúdio à assimilação do reggae por amplos segmentos da população maranhense e. a importância da presença da população negra. “mais nobre”./dez. e o ex-escravo era definido como incapacitado para o desenvolvimento econômico e cultural da nação. desconhecendo uma ou outra realidade. principalmente. de animalidade. significa para alguns. como uma maneira de reforçar o desejo de ser menos negro em sua cultura. à denominação Jamaica Brasileira atribuída a São Luís pelos DJ’s. O reggae é um dos elementos desse processo e ganha força na concepção popular. constroem seus próprios caminhos a partir das pluralizações culturais que vivenciam. de Atenas Brasileira. a identificação de São Luís com a Jamaica hoje. Se nos períodos imediatamente após a abolição da escravatura. São essas raízes que desafiam as imposições das “elites atenienses” de São Luís e trazem o reggae como uma força dinamizadora de identidades que. apesar de ainda não serem suficientes para transformar a cidade em uma nova Jamaica. ou menos jamaicano.

pois desde meados dos anos oitenta. a não ser para a satisfação de determinados segmentos sociais que se outorgam guardiões das tradições como retrato de um passado escravista. (Riba Macedo. pois possibilitou que o ritmo alcançasse espaços cada vez mais distantes. Os programas. a gente não sabia separar o que era reggae. a programação de rádio teve um papel muito importante nesse processo. Na época. como nos municípios e povoados rurais do interior do estado. vol. o que era música lenta.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Atenas Brasileira já não faz sentido. As fitas eram gravadas de discos importados da Jamaica que somente alguns discotecários tinham acesso. muitos desses discos já estavam fora de catálogo na própria Jamaica. n° 15 . predominantes na região. chegando a São Luís como raridades. tanto entre os diversos segmentos da população da capital. Além do comércio de fitas. Embora a predominância seja dançar aos pares. algumas pessoas preferem dançar sozinhas próximas às caixas de som. Uma das diferenças marcantes em relação à Jamaica é que o reggae em São Luís é dançado aos pares. Há também as coreografias coletivas. porque as próprias emissoras não tinham os discos de reggae. 30 Revista Brasileira do Caribe. eram feitos com material exclusivo dos DJs. Durante muitos anos. A divulgação se fez com a promoção de festas e programas de rádio. VIII. com grupos de três ou cinco pessoas exibindo passos coordenados. As pessoas gostavam porque era música lenta. embora mantidos pelas emissoras. pois violentador da dignidade humana. discotecário: julho/98). este sim atroz. quando se deu a grande projeção do reggae na ilha. a propagação do reggae em São Luís esteve ligada muito mais a um comércio alternativo de gravação de fitas e ao aluguel de radiolas do que à industria cultural. A dança adquiriu essa característica misturando passos do forró e do merengue. A gente dançava sem fazer definição.

Era aquele estilo que a gente dançava. ritmos que se dançam aos pares.. como o rock. de 2007 . que preferencialmente se dança solto. A gente gostava muito de Lindomar Castilho. Depois chegou às lojas um LP de Johnny Nash. merengue. ou “agarradinho” que é uma expressão nordestina para as danças de salão. A música internacional que se dançava aqui era o merengue. O rei do merengue aqui era considerado Luiz Calaf. ‘ô que balanço bonito é o do Jimmy Clyff’. Tanto que os primeiros sons de reggae em São Luís foram pela música de Jimmy Clyff.. que agradava ao público. com exceção do merengue que vinha da Guiana e era aceito porque se assemelhava aos passos do forró nordestino. baião. Muitas pessoas afirmam que antes de se conhecer a palavra reggae no Maranhão. nas regiões Norte e Nordeste os ritmos predominantes eram: forró.Os sons do Atlântico negro A dinamização do ritmo jamaicano no Maranhão coincide com a explosão dos hits da “Discoteque” na região Sudeste do País./dez. mas o merengue também estava no auge.) antes de se conhecer a palavra reggae aqui. esse ritmo era identificado como “discoteca lenta”. Evaldo Braga. porque na época tinham os cantores brasileiros. bolero etc. Altemar Dutra. as pessoas chamavam balanço. então chamava Jimi Clife e tal (. As músicas de Jimmy Cliff eram muito solicitadas nas festas porque tinham um balanço diferente. A música estrangeira não tinha muita penetração. Seus discos estavam chegando ao Brasil no embalo desse novo som e já podiam ser comprados nas lojas locais. Carlos Alexandre. (. Enquanto nas regiões Sul e Sudeste a preferência musical para as festas da juventude recaía sobre os ritmos mais acelerados. “balanço”.. a discoteca ou o funk.) (Chico Pinheiro.. maestro: 1998). ‘I Can See 31 jul. ou “Jimi Clife”..

As radiolas tiveram também uma grande importância no processo de divulgação do reggae em São Luís. Operadas por discotecários que nem sempre são os seus proprietários. faziam muito sucesso nas festas no início dos anos setenta. lambada. da mesma forma que os sound systems jamaicanos.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Clearly Now’. ‘You Can Get It If You Really Want’ e ‘I Love I Need’. possuindo semelhanças com os “sound systems” jamaicanos que popularizaram o Ska e depois o Rock Steady como alternativa ao controle excessivo exercido pelo governo à rádio jamaicana. junto com outras de Jimmy Cliff. as radiolas são contratadas para animar festas em vários pontos da cidade. em festejos de santo na capital ou no interior do estado6. como havia uma competição intensa entre os discotecários ambulantes na Jamaica que chegavam a raspar a etiqueta ou o selo dos discos novos para dificultar a aquisição pelos concorrentes. 32 Revista Brasileira do Caribe. (Riba Macedo: julho/98). promovendo festas com forró. oferecendo lazer para uma grande faixa da população de baixa renda que não tinha condições de adquirir os discos. A partir do início dos anos oitenta houve uma proliferação desses equipamentos. entre outros ritmos. regravado no Brasil em l971. VIII. elas já existiam anteriormente. A disputa pela exclusividade de um disco sempre foi muito acirrada. eles contribuíram para que o ritmo se espalhasse praticamente por todos os bairros de São Luís. Alguns proprietários de radiolas chegavam a comprar todos os exemplares de um mesmo disco e raspar os selos para que outros não pudessem identificá-lo. contendo várias caixas de som formando paredões nos clubes. vol. Elas são sistemas montados com uma aparelhagem sofisticada. em São Luís essa prática também foi adotada pelos produtores das festas de reggae. Essa música. n° 15 . criando rivalidades entre eles. As radiolas maranhenses não nasceram com o reggae. merengue. Curiosamente. Voltados quase exclusivamente para a festa de reggae.

é imenso mesmo e tá sempre na periferia. muitos demonstram ter consciência de que a discriminação se dá pela sua condição social e racial. por isso a gente se identifica com ele (Ronaldinho. se de alguma forma serviu para conquistar o público. redefinindo seu território de atuação. Baixada Fluminense etc. No Brasil. O contingente de negros aqui no Maranhão é muito grande. Para alguns regueiros maranhenses a herança negro-africana é responsável pela concepção pejorativa que se atribui ao reggae e também pelos atos de discriminação que vivenciam por serem relacionados a ela. este fenômeno pode ser observado em regiões como Maranhão. determinando a criação de novas linguagens e estéticas comunicativas em várias regiões.Os sons do Atlântico negro Essa atitude. não é música dos brancos. Coisa de nego que mora ali Pelas ondas de rádio e pelos clips televisivos o ritmo se espalhou pelo planeta. O reggae vem do negro. onde tem sempre um 33 jul. e as músicas preferidas dos regueiros maranhenses não são encontradas facilmente. dançarino). quem conseguir mais raridades vai ter mais condições de assegurar o seu público e se manter em evidência junto à “comunidade regueira”./dez. especialmente. é uma música marginalizada. Por isso. Bahia. O reggae é música do negro. criou também uma animosidade entre os radioleiros e discotecários que mantinham em segredo suas fontes de aquisição. de 2007 . é possível compreender a importância do reggae como conseqüência da dinâmica expansão midiática que ultrapassa as fronteiras nacionais com uma velocidade inusitada neste final de século. a evolução musical na Jamaica é muito rápida. Por tudo isso. nos locais de grande concentração de população negra. Ainda que não estejam ligados a nenhum movimento político organizado. Segundo eles.

a princípio. não se pode perder de vista que esse caráter integrativo é momentâneo e não elimina as diferenças e nem as desigualdades. dançarino).Carlos Benedito Rodrigues da Silva salão de reggae. como nos espaços escolhidos ou oferecidos para o lazer. um ritmo que mexe com a gente. enquanto para a grande maioria. ou até mesmo. já que este é a 34 Revista Brasileira do Caribe. pois mesmo que determinados grupos estejam participando de uma atividade comum. os brancos começam a invadir o salão e a gente não tem mais espaço pra dançar (Guiu Jamaica. por alguns. como alternativa de auto-afirmação. o reggae é. nas cordas dos trios elétricos baianos. estão ali com o mesmo objetivo da busca do lazer. podemos dizer que ela se expressa tanto na exibição das fantasias. De fato. as alternativas de lazer são consideravelmente mais restritas. Daí a presença do branco ser vista. Existe um caráter integrativo do ponto de vista sociológico nessas festas. para alguns. uma vez que o objetivo é estar entre seus iguais. Os brancos nem sabiam que o reggae existia. Clóvis Moura7 aponta para o papel integrativo do carnaval. serve também. n° 15 . como uma invasão. geralmente incômoda. Analisando o desenvolvimento das escolas de samba cariocas. Para os que compõem o minoritário quadro das elites são ofertados espaços luxuosos. resta o anonimato nas alas e baterias das escolas de samba. Agora que o reggae virou moda. a exclusão dos espaços de lazer. vol. essa participação não se dá em condições de igualdade para todos. Nesse sentido. bem como para a maioria das festas populares. no tempo que a polícia vivia baixando o pau na negrada. Entretanto. enquanto para os segmentos definidos como regueiros que sofrem as consequências da exclusão. Dessa forma. mais uma opção de lazer entre outras. já que todos os participantes. sabe? É um ritmo negro. no carnaval essa relação pode ser constatada em várias instâncias. O mesmo argumento vale para as festas de reggae. VIII. o espaço para estes últimos.

Por outro lado. contribuindo para a construção de uma imagem estereotipada do regueiro. pela desqualificação atribuída às atividades lúdicas construídas pelos grupos negros na cultura brasileira. desde o século XVI. ele (o regueiro) se sente prestigiado frente à “comunidade” Sem dúvida. Para estes. mesmo em meio às agruras da escravidão. Ao contrário. neste sentido. onde se concentram majoritariamente os grupos negros. a presença cada vez maior de grupos não negros (jovens estudantes da classe média e até turistas nacionais e estrangeiros) em alguns “clubes de reggae” possibilita ao regueiro um auto-reconhecimento. por exemplo.Os sons do Atlântico negro representação do grupo que caracteriza o reggae como uma atividade marginal. Tinhorão mostra que desde o século XVI os batuques de escravos representavam momentos de expressão de alegria e felicidade. (1988:45). a discriminação contra o negro não se dá por conta do reggae. é atingido também. ia garantir a esses encontros uma riqueza de expressões de que os colonizadores jamais poderiam imaginar a extensão. as festas do reggae atribuíram visibilidade a uma grande parcela da população de baixa renda em São Luís. 35 jul. o reggae. Na verdade. As reações de vigilância e controle exercidas./dez. é discriminado por sua identificação como “coisa de negro” e. de tal forma que causavam espanto nos fazendeiros. um dos raros momentos de livre exercício de seus costumes originais. quando é reconhecido como um bom dançarino ou um bom DJ. Além do que. de 2007 . pela polícia e pela imprensa local refletem a concepção das elites maranhenses sobre o reggae e seus freqüentadores. ameaçadora. Ele considera que O fato de os batuques constituírem para os escravos africanos. a exemplo de várias outras manifestações que recebem o mesmo tratamento. passível de vigilância e controle. dançar afasta as angústias do cotidiano. levando-o a assumir essa condição como uma identificação positiva.

Assim. inventando gingas e artimanhas que constantemente apontam para a ambigüidade da moral escravista. sempre atribuíram às manifestações dos afrodescendentes. por uma moralidade cristã. n° 15 . Maria Lúcia Montes mostra que esse mesmo corpo neutralizado pelos horrores da escravidão. tem de ser coberto e aprisionado para inibir seus anseios e transformá-lo em simples instrumento de trabalho. Sem dúvida. o corpo-coisa do escravo propõe a experiência assustadora da ausência de limites: pode ser surrado. a dança sempre foi uma das mais fortes expressões dos grupos humanos em toda a história da 36 Revista Brasileira do Caribe. o primitivo a ser domado — também o assinalam como objeto de repulsão. mas também apropriado a bel-prazer. para satisfação dos apelos da carne. mas também seus corpos e almas. controlando não apenas suas vidas. O próprio corpo é depositário do pecado. traz consigo a inscrição simbólica dos confrontos entre a civilização ocidental e as culturas profanadas pela diáspora. dilacerado e morto. Ainda segundo Maria Lúcia Montes (2000: 65) Mesmo para o senhor. escravos ou libertos. da ordem social ou da moral burguesa. instrumento de trabalho. ultrapassa a compreensão das elites que. em que pesem as várias e diversificadas tentativas de controle exercidas em nome da religião. desejo e sedução. um caráter de lascivosidade e desordem. portanto.Carlos Benedito Rodrigues da Silva Essa diversidade de práticas rituais. a escravidão impôs aos negros escravizados a imagem do pecado. Legitimada entre outras coisas. torturado. VIII. vol. a qual ao mesmo tempo em que proíbe sua exposição pública. as marcas que designam esse corpo enquanto outro-mercadoria. presas às orientações cristãs européias. religiosas ou de lazer manifestadas pelos segmentos negros. utiliza-se deste corpo para satisfação de desejos.. Assim. ele se projeta como um elemento de desafio ao poder das elites.

as angústias e as alegrias que não podem ser pronunciadas livremente. com a qual se produziu a ligação com o presente. entre tantos outros. que mobilizam segmentos das várias regiões estendendose até a África./dez. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de religião afro-brasileira de São Luís é a Casa 37 jul. com votos da “comunidade regueira”.Os sons do Atlântico negro humanidade: em busca da liberdade. Notas 1 Pude constatar através de alguns relatos. a sensualidade. em algumas festas de grupos negros em Salvador na Bahia. Isto nos leva a afirmar que samba de roda. simplesmente pelo prazer de se sentir bem. da Amazônia. capoeira ou reggae. 3 Uma curiosidade é que segundo historiadores. de 2007 . bumba-meu boi. ou da América Latina. estão relacionadas com as lembranças armazenadas. são vertentes rítmicas produzidas na diáspora africana. instigava-lhe a sociabilidade. merengue. maracatu. que esse ritmo é tocado também. a malícia. mas são representadas por uma memória corporal que burla a vigilância das elites com uma linguagem simulada. Essas performances desenvolvidas pelos grupos negros que viveram a diáspora. existem fortes aproximações culturais seja entre os povos do Caribe. pelos ciclos de colheita nas sociedades agrárias e da fertilidade em sociedades tradicionais ou. também. A ginga. mesmo considerando as especificidades. tanto individual como coletivamente. em agradecimento aos deuses pelas alegrias da vida. 2 Ademar Danilo foi um dos primeiros comunicadores a apresentar programa específico sobre reggae nas emissoras de rádio em São Luís e foi eleito vereador pelo PT. Assim. representam a explicitação da rebeldia e expressam. desde um passado no qual a sujeição à condição de escravo ao mesmo tempo em que bloqueava as condições de emancipação do indivíduo. num percurso de ida e volta tanto nas ondas midiáticas da indústria cultural como nas marés do Atlântico Negro.

1985. Marco Antonio (org. CARDOSO. CANEVACCI.Carlos Benedito Rodrigues da Silva de Fanti-Ashanti. Melô do Sapato. Massimo. n° 15 . Rio de Janeiro: Zahar/Funar. 5 Existem atualmente gravações de coletâneas em CD’s piratas. 7 Sociologia do Negro Brasileiro. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa. BOURDIEU. O Poder Simbólico. Gerd A. CANCLINI. 1997. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. “O Conceito de Tradição”. São Paulo: Martin Claret Editores. Lisboa: DIFEL1989. Pierre. Sincretismos: uma exploração das hibridações culturais. O eterno verão do reggae. p. 1998 BORNHEIM. Melô da Guerreira. O “melô” seria uma espécie de alcunha da música. O Local da Cultura.). vol. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. 38 Revista Brasileira do Caribe. 1996. 1995. onde acontece algumas festas importantes da cultura popular. London: Fonthill Road. Lisboa: Centelha. Reggae: Música e cultura da Jamaica. que até o final da década de 80.143. São Paulo: Editora 34. tais como: o Melô do Morcego. Nestor Garcia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 3. o nome “melô” que é criado pelos regueiros. 1997. A radiola Diamante Negro lançou um CD com 20 músicas preferidas dos regueiros em São Luís e no encarte vinha impresso o nome das músicas. Carlos. Melô do Gerente. com seus respectivos melôs. In: Cultura Brasileira: Tradição e contradição. BHABHA. UFMG. VIII. 1997. 1988. 4 O Maracanã é um bairro rural do interior da Ilha de São Luis. A magia do reggae. DAVIS S. Homi K. Belo Horizonte: Ed. que já trazem junto ao título da música. Bibliografia ALBUQUERQUE. & SIMON P. 6 É importante ressaltar. 1983. . CAMPBELL. e assim por diante. São Paulo: Ática. São Paulo: Studio. as festas eram feitas com discos de vinil ou fitas cassete. Horace. Melô da formiga. os cds foram adotados posteriormente. Rasta and resistance: from Marcus Garvey to Walter Rodney.

MONTEIRO. Ritmos em trânsito: socio-antropologia da música baiana. TINHORÃO. 1984. 1995. Da Terra das Primaveras ‘a Ilha do Amor. 1997. Carlos Benedito Rodrigues da. 2000. In: Novos Estudos CEBRAP Nº 49. Identidades culturais na pós-modernidade. Cultura popular: uma introdução. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo. HALL. SANSONE. São Paulo: Editora 34. Maria Lúcia. José Ramos. Dos meios às mediações: comunicação. Sociologia do negro brasileiro. reggae. “Globalização. MONTES. 39 jul. Jocélio Teles dos (org. MOURA. Timothi. São Paulo: Dynamics Editorial. A trama dos tambores: a música afro-pop de Salvador. Stuart. Livio e SANTOS. Dominic. Goli. de 2007 . Terence (organizadores) A invenção das tradições. Octávio.). A Era do Globalismo. Civilização Brasileira. lazer e identidade cultural. Mundialização e cultura. HOBSBAWN. 1999. A interpretação das culturas. Renato. Queimando tudo: a biografia definitiva de Bob Marley. Eric e RANGER. 1988. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Rio de Janeiro: DP&A. Os sons dos negros no Brasil. novembro. São Paulo: Brasiliense. 1988. GUERREIRO. STRINATI. 1996. Revista da Mostra o Redescobrimento. 1978. 1997. MARTIN-BARBERO. IANNI. “Olhar o Corpo”. pp. In: Negro de corpo e alma. São Luis: EDUFMA. 1997. cultura e hegemonia. São Paulo: Ática. Rio de Janeiro: Zahar Editores. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Identidade e Diferença”. 2000. 1997. Rio de Janeiro. 47-64. São Paulo: Hedra. 1997. WHITE. Clóvis. Paula. ORTIZ. Rio de Janeiro: Record. São Paulo: ERT Editora. SILVA. Clifford.Os sons do Atlântico negro GEERTZ. 1999./dez. Jesús.

40 .

characterized by economic inequality with the hallmark of oligarchic politics. 41-60. nas equipes de som. especially in Maranhão. a apropriação do ritmo jamaicano do reggae pelas camadas populares constitui um movimento de resistência cultural. Diáspora Africana. VIII. n° 15. social e política contra a marginalização que elas sofrem em seu cotidiano. vol. Esse artigo analisa letras musicais e depoimentos orais entre outros elementos como exemplos dessas relações de apropriação e resignificação. The Afrodescendent music was not just coincidence. Culturas Afro-americanas. the phenomenon of reggae is not only linked to the cultural traditions. Afro-American cultures. Keywords: Reggae. Within this context. *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 41 Revista Brasileira do Caribe. where there exists one of the most important multi-ethnic societies of the world. Trata-se também da ressignificação das letras e melodias das canções produzidas por músicos jamaicanos na formação identitária dessa população. the population of São Luis incorporated Jamaican rhythm in its dance-rituals and drums. Palavras-Chave: Reggae. In a social scenario. nos simbolismos. 2007 . African diaspora Resumo Na cidade de São Luís do Maranhão. but also to the battle against social inequality.O Reggae na “Jamaica brasileira”:Cidadania e política a partir de letras musicais Maristane de Sousa Rosa Abstract The African Diaspora has contributed to the formation of artistic expressions in Brazil. Goiânia. seja nas festas.

especialmente en Maranhão. Ao contrário. constituindo uma das mais importantes sociedades pluriétnicas do mundo e um dos maiores berços culturais transatlânticos. especialmente no Maranhão. ainda. Goiânia.Maristane de Sousa Rosa Resumen La diáspora africana ha contribuído para la formación de las manifestaciones artísticas en Brasil. Culturas Afro-americanas. A música afro-descendente não se fixou por um simples passe de mágica. ‘coronelista’. Diáspora Africana Em todas as regiões nacionais podem ser observadas a ‘olho nu’ elementos de africanidade reterritorializados. En un escenario social pleno de desigualdades económicas y en el cual reina la política oligárquica y ‘coronelista’. Palabras Claves: Reggae. La música afro-descendente no fue asumida por un simple pase de magia. o fenômeno estudado forneceu visibilidade ao bluff1 de tradições conferidas a um restrito grupo social dominante no Maranhão e aos processos de ‘higienização’ cultural. ressignificados e relidos. el fenômeno del reggae está vinculado no apenas a las tradiciones culturales sino también a la lucha contra las desigualdades sociales. O mesmo aconteceu com o ritmo surgido na Jamaica que chegou a São Luis indo até a África. vivenciados historicamente pelos africanos e descendentes. revelado tradicionalmente nas danças e nos tambores. A diáspora africana em muito contribuiu para a formação das manifestações artísticas no Brasil. donde existe una de las más importantes sociedades pluriétnicas del mundo. VIII. incorporaron el ritmo jamaicano. Nesse contexto de significados o gosto artístico da população ludovicense. n° 15 . permitindo considerar o ciclo do reggae neste tripé. adotou o ritmo jamaicano para dançar. Embrionariamente veio da África durante a travessia do Atlântico. En ese contexto de significados la población de São Luis en sus danzas y tambores. vol. 42 Revista Brasileira do Caribe. nem tampouco fora de propósito num cenário social infestado de desigualdades econômicas em que reina uma política oligárquica e. ouvir e festejar.

Entre as contribuições mais importantes dadas a essa tradição está o livro de Basil Willey. Os efeitos desses escritos literários contribuíram para a ascensão da história cultural.. tambor-decrioula. uma das figuras mais originais e influentes da história cultural no estilo alemão. demonstrando a transição da ‘usança africana’ como instituição tão presente entre nós. na Grã-Bretanha da década de 1930 estava se escrevendo uma história culturalista. assim como para a história da arte. culturais e educacionais estabelecidos por séculos.. Warburg havia morrido quando Hitler chegou ao poder em 1933 e estudiosos alemães associados ao seu Instituto refugiaramse no exterior. (BURKE. e o livro de G. The Seventeenth-Century Background (1934). Tillyard. 2005.25). p. M. cacuriá. adicionando ou integrando a si lembranças e sentimentos. Do mesmo modo outras festas dos negros brasileiros tornaram-se equivalentes às de origem africana. da sociologia e de certos estilos de filosofia.O reggae na “Jamica brasileira”. W. na Grã-Bretanha. “estudos sobre o pensamento da época”. Trata-se de uma abordagem inaugurada por Aby Warburg. 43 jul. A cultura africana e de seus descendentes constitui importante legado para o Brasil pelas festas de bumba-meu-boi. Victorian England (1936). transferindo-o para Londres nas figuras de Saxl e Wind. por abordar o reencontro de populações em um contexto de mudança social. Em virtude das interpretações propostas se confirma o viés histórico-antropológico. Assim./dez. que contribuiu para a construção da ciência cultural. Young. M. o de E. escrito por um professor de inglês e apresentado como ‘panorama’ para a literatura. De forma que a etnografia do ritmo jamaicano é uma importante ferramenta historiográfica para desconstruir estereótipos e preconceitos sociais. The Elizabethan World Picture (1943). evitando tradições acadêmicas fronteiriças e delimitadas temporalmente. lili. tambor-de-mina. outra contribuição da Faculdade de Inglês de Cambridge. 2007 .

F. 1990:272). n° 15 . mais ainda. VIII. também estudiosos marxistas foram incluídos na preocupação relacional entre cultura e sociedade. livro que discutia a história social do teatro e em que. As emoções são realmente gritos tenazes contra a opressão e a favor de resistência. é a História social do jazz escrita por ‘Francis Newton’. também na música reggae adotada na Jamaica podemos sugerir. além disso. Sua ênfase na idéia de que a literatura dependia de “uma cultura social e de uma arte do viver” deve-se menos a Marx e mais à nostalgia pelas ‘comunidades orgânicas’ tradicionais. R. também estava profundamente interessado na relação entre a cultura e seu ambiente. vieses de contestação por direitos e justiça social. Concordando com as características atribuídas ao jazz por Hobsbawm. especialista em Shakespere que encontrou no circuito da Escola de Warburg intelectuais instigantes e uma biblioteca inspiradora trazida por eles. 44 Revista Brasileira do Caribe. No entanto não é difícil combinar uma abordagem ‘leavisita’ com a marxista. mas também seu público.Maristane de Sousa Rosa Nesse episódio cabe estudar o exemplo da inglesa Frances Yates. Um outro exemplo e o alvo dessa contextualização. Leavis. publicado em 1959. um dos pseudônimos de Eric Hobsbawm. como fez Raymond Williams em The Long Revolution (1961). funcionando como elemento de fortalecimento da auto-estima de grupos dominados economicamente. justamente pelo “aflorar de emoções incrivelmente poderosas e tenazes tanto entre os seus seguidores quanto entre os seus oponentes” (HOBSBAWM. Como seria de se esperar de um famoso historiador econômico e social. o autor discute não apenas a música. abordando o jazz como negócio e. 2005. pelos textos e performances. vol. Goiânia. Assim como Yates diz que foi “iniciada na técnica warburguiana de usar aspectos visuais como evidências históricas”. foi cunhada a famosa expressão ‘estruturas do sentimento’ (BURKE. p.29). como forma de protesto político e social. autor de The Great Tradition (1948).

ilustra a relação de pertença socioétnica entre Jamaica. Vejamos: The perfection is love And I give thanks For the fullness Within the full me nice Its cool mild these peace me nights Its gentleness Made I a man son of him Life was divided In sweet harmony Come it A woman until dream Are we a warrior? Are we a warrior.O reggae na “Jamica brasileira”. pois estamos numa guerra.” O sucesso musical We Are a Warrior (Are We a Warrior) eleito na cidade de São Luis como o hino do reggae no Maranhão./dez. A performance musical do jamaicano IJahman é uma ritualização do culto sagrado rasta. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão.. exemplifica um dos caminhos a ser percorrido pela pedagogia inclusiva. com sonoridade simbólica de persistência e contestação. oh love 45 jul. cupid. de luta. ora prevendo que esse e outros enredos literários construídos pela cultura da diáspora sejam acessíveis como conteúdos educacionais que privilegiam a diversidade do conhecimento.. 2007 . não confunda. no visível e no imaginário. Essa canção Are We a Warrior (Nós Somos Guerreiros?) interpretada e composta por IJahman em álbum gravado no ano de 1978. quando diz: “Por que nos tornamos como cordeiros. Oh. stupid Let not your arrow From your bow. simultaneamente proporcionando reações no audível. São Luis e África.

Maristane de Sousa Rosa Faith is a mountain. n° 15 . VIII. Oh cupid. vol. Are we a warrior. So silent and filled Fountains of waters For also all his lovely creatures He gave us wisdom And knowledge to understand its love Do us after a war Are we a warrior? Are we a warrior. stupid Let not you arrow From your bow So out low And never let it go What caused You have a pistol In your endless love Is it far? To shut the man down there Do we give in? After we have star lit Why can’t We become like a lamb Not look end It’s not humble when These is a small confusion It is a war They rather way as be and Sometimes being confused Within your own head Because at times How us get have down led Are we a warrior? Are we a warrior. 46 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia.

.O reggae na “Jamica brasileira”../dez. Are we a warrior. stupid Let not your arrow From your bow Prophecy is now revealed The son of man won’t take it The heart is giving up Why life is taking in the sudden shock The crying of the people Multiply in all over Jah will give an answer To have are stop cry our Are we a warrior? Are we a warrior. Oh cupid. Are we a warrior. 2007 . Oh cupid. Oh cupid. Are we a warrior. stupid Let now your arrow From your bow So out low And never let it go Take a look at certain dream And there are often true stories It would be On all our own glory How often I ask Still like it see no love its why For full close and shelter The cry of mamas and papas Are we a warrior? Are we a warrior. stupid Let not your arrow 47 jul.

seus costumes e valores. vol. ou seja. as danças e mais ainda. 48 Revista Brasileira do Caribe. “Melô de Poliana” é Think twice da intérprete Donna Marie (apelido adotado segundo a preferência dos regueiros ou regueiras) e “Melô de Pinto” é uma homenagem a radiola6 Itamaraty. as cores pan-africanas). vindo com seu idioma. Peter Burke e Eric Hobsbawm como exemplos que inseriram narrativas dinâmicas às festas carnavalescas. ressignificou a alimentação. VIII. Com referência aos fatores lingüísticos não por acaso o reggae cantado em ‘inglês jamaicano’ é ouvido em São Luís na forma de melôs5. Os regueiros maranhenses apreciam a melodia e desconhecem as letras das canções em língua inglesa que falam sobre os fundamentos filosóficos do movimento Rastafari e de elementos de simbologia afro (o cabelo. Lorand Motory. o vestuário. as músicas são apelidadas pelo nome ressonante. as cantorias. cita-se o Rastafarismo3 que. ao francês ou ao inglês. estruturou sua língua ao português. Jah.2 Tomando a canção como referência. Goiânia. os cultos jeje4 e nagô ilustram este processo de resistência do negro africano que atravessou o Atlântico e. n° 15 . os reizados. o carnaval. pelo sotaque que o ouvido capta e torna mais evidente: “Melô do Cachaceiro” representa a sonoridade do refrão “Jah. 1997:29). Desse modo. a figura do leão. associado ao contexto musical jamaicano do século XX. Soam mais estranhas ainda expressões como Jah. Nesse sentido. realizado por autores como J. say”. o ritmo da diáspora fez emergir sentimentos de orgulho negro quando elegeu fatos históricos e da Bíblia para serem recontados sob a luz de ideais pan-africanistas fortemente difundidos nos Estados Unidos e no Caribe.Maristane de Sousa Rosa From your bow And never let it go. Ao cenário associativista bem se aplica o diálogo reflexivo da antropologia com a história. mesclando-lhes vocábulos ou sotaques. serviu como instrumento para dar visibilidade às tradições milenares africanas do “Egito e Etiópia” (ALBUQUERQUE.

Um assíduo freqüentador das festas de reggae roots. passei dois anos na igreja. camisa branca. 2007 . esse fenômeno foi estudado para compreender como a melodia produziu emoções no corpo e na ‘alma’ dos afro-ludovicenses em que sentimentos de êxtase são almejados pela audição do ritmo jamaicano e não outro. Embora a população ludovicense possua baixas taxas de escolaridade e tenha dificuldades para utilizar o português da gramática normativa não se descartam sinais de “parentesco” afrocultural entre jamaicanos e maranhenses. às vezes eu tava na igreja aí escutava uma batida de reggae não agüentava. Sou viúvo. De outro lado. não agüentei. eletrônico não. Antonio Domingos Almeida Santos. Peixeiro.O reggae na “Jamica brasileira”./dez.. boina branca. cinturão preto. As melodias que envolvem fortes denúncias das desigualdades socioétnicas contra a população negra não tem como ponto de partida a versão jamaicana. com 77 anos de idade conhecido pelo apelido de Sapo. criando até descobrir 49 jul. As letras musicais jamaicanas das décadas de 1970. amplamente tocadas na cidade São Luis. aí eu sou aposentado como peixeiro. Marcus Garvey. não têm essa pegada. peixeiro aposentado. Eu gosto do reggae roots. radiolas grandes e pequenas. pois os melôs romperam barreiras impostas pelo idioma dantes colonial.. Na capital do Maranhão foram re-significadas pela emoção. o reggae roots7 mesclado com patois8 se mostrou incompreensível também também confrontado ao padrão lingüístico fonográfico de sotaque anglo. 1980 e 1990. no Sá Viana. num cercado de palha. Já fui evangélico. pensado como elemento sócioeducacional para consolidar a cidadania na sociedade do Maranhão. foram direcionadas como subsídio histórico para reescrever a História e Cultura Africana por meio do reggae. Hailé Salassié I ou Ras Tafari. aí fomos criando. mesmo desconhecendo a língua inglesa. Meu lazer é reggae. o reggae é uma maravilha. disse: Começamos a dançar reggae no quintal. ninguém sabia as cores. na Praia do Gaspar. 6 filhos. tenho 9 netos. No tempo que nós aprendemos a dançar era calça preta. Ou seja.

o reggae toca no corpo todo. integridade. Por isso narrativas histórico-culturais são pertinentes à chegada do ritmo de matriz africana com sotaque inglês. é uma beleza de lamento. uma cultura. guardando as devidas proporções. pela política colonial escravista de São Luis e o decorrente preconceito racial estendido aos negros descendentes. vol. (Sapo. cada uma associada a um ritmo característico. muita coreografia. O reggae levanta a gente assim. dançamos tambor-de-mina. abraça-me. nome que enfatiza a batida do tambor”. pra Jah. respeito. desde 1970. você podes crê. eles cantam pra Babilônia. 50 Revista Brasileira do Caribe. as cores originais. batemos tambor-de-mina.Maristane de Sousa Rosa uma origem. “Os tambores eram considerados as vozes das divindades. Eles cantam pra uma criança. dançamos tambor-de-crioula. desde o vodu do Haiti à santería de Cuba e ao candomblé do Brasil (que tem ligações particularmente estreitas com as tradições iorubas). até que apareceu a original. Nós maranhenses já trazemos esse ritmo no corpo. pra uma árvore. todo mundo coleciona reggae. dançamos bumba-boi. Ele saiu lá da Jamaica. VIII. alemão. o tambor-de-mina. que fez até a cidade de São Luís receber o codinome de “Jamaica Brasileira”9. toca no corpo todo. quando ele faz assim (abre os braços) pedindo a Deus. ou seu equivalente no Maranhão. Nesse sentido. É nossa música. já nascemos com esse ritmo no corpo. O reggae pra mim é uma cultura autônoma nossa. 2006). Conforme Peter Burke (2000: 224). é um bom lamento. tudo isso é cultura. Goiânia. o reggae nasceu para o povo. o reggae pra mim sempre foi uma cultura. Os jamaicanos eles faz muita mímica. n° 15 . japonês coleciona muito reggae. Sou regueiro antigo. mar. São Luis. fibra e cultura. americano também. trazemos no coração. eles cantam pra uma pedra. se imbricaram nos dois territórios pelo reggae roots. Os cultos de possessão desse tipo continuam entre os negros nas Américas. o reggae é um lamento. é muita gente. As simbologias musicais na década de 1970 entre Jamaica e Maranhão implicaram no fortalecimento cultural da diáspora que pela música percussiva dos tambores nyahbinghi e tambor-demina. trazendo muita paz.

1980 e 1990.] Examine e olhe determinados sonhos. quando nos conduziram sob seus pés [.O reggae na “Jamica brasileira”. Os territórios. Compomos nossas reminiscências para dar sentido à nossa vida passada e presente. 51 jul. composição é um termo adequadamente ambíguo papa descrever o processo de ‘construção de reminiscências’. como questiona o refrão: “Nós somos guerreiros? – É nós somos guerreiros”.. carregados de mensagens religiosas. De acordo com Alistair Thompson (1981. A partir da divulgação dos conteúdos musicais do reggae jamaicano das décadas de 1970. aparentemente dissociados pela geografia ou por fatores lingüísticos. 2007 ../dez. p. Assim. gestos.. onde há freqüentemente histórias verdadeiras”. os espaços. sociais. esta pensada como ferramenta pedagógica para construção de consciência política e reivindicação de cidadania.. aqui considerados como instrumento de resistência para validar a historiografia africana frente aos conteúdos eurocêntricos. gostos e atitudes musicais. políticas e históricas. se aproximam por mecanismos de cognação nos quais os lugares da memória não são espontâneos mas. mas ‘legitimados’ pela leitura social. composição de arquivos do passado sob os quais ela se escora. a música e as letras do reggae jamaicano foram utilizadas como meio de efetivação da historiografia africana e de seus descendentes à sociedade maranhense. conteúdos vocabulares em língua inglesa são posicionados como narrativas etnográficas do movimento panafricanista da Jamaica que rememorou os milenares costumes da África por meio de danças. de certa forma. 56) é por isso que. pelo trecho que diz: “Para possuir nossa cabeça como em outras épocas. compreendeu-se como autênticos os sentimentos desenvolvidos pelos regueiros em relação à melodia jamaicana. nós as compomos ou construímos utilizando as linguagens e os significados de nossa cultura.

Já Cuba e Brasil recebem dessa costa escravos de vários grupos étnicos de língua ioruba (na Bahia chamados de nagôs).119): Os escravos Akan (no Brasil conhecidos como fante-achanti) são comerciados na Costa do Ouro nas proximidades do Castelo da Mina e em Cape Coast. O franco diálogo entre a cultura musical da América do Norte e Caribe foi responsável pelo surgimento do reggae na Jamaica que se formou de elementos do rhythm and blues. a denominação genérica de angolas designa todos os bantos. para as colônias inglesas. fantis e outros.36) diz que. por ingleses e holandeses. Aos grupos referenciados acima Nina Rodrigues (1982. Pelo que toca aos negros que Henrique Dias chama ardas. ioruba e akan. O antigo reino de Ardra. 52 Revista Brasileira do Caribe. VIII. n° 15 . p. em que agora as identidades revitalizam a própria historiografia de si.15) destaca os seguintes grupos étnicos vindos para a Jamaica: “escravos da África Ocidental. em sua maioria. onde têm boa aceitação. vol. Os escravos do Daomé (de língua fon) vão principalmente para as colônias francesas (Haiti e Louisiana). Não é difícil supor que algumas vezes essa divisão de mercado tenha sido rompida. por ardras claramente se deve corrigir o nome. próximo de Abomey. p. a maior parte formada por integrantes dos povos ashanti. quando o intangível se apóia nos traços exteriores e nas referências tangíveis de uma existência que se supõe existir por detrás deste estoque material. p. calipso e rumba. jazz. e vão. todos da tribo dos coromanti.” Para Mariza de Carvalho Soares (2000. Goiânia. numa simbiose de etnicidade encontrada entre nações de procedência na travessia do Atlântico.Maristane de Sousa Rosa Concordando que história é memória e vice-versa. Carlos Albuquerque (1999. e neles se descobrem negros jejes ou daomeanos. minas seriam os nagôs.

. Ashanti. um afamado empório do tráfico negreiro. Caribe e Brasil (Casa Fanti-Ashanti e Casadas-Minas no Maranhão). Também Nina Rodrigues em Os africanos no Brasil. Lorand Matory. Akan ou Minas. onde os europeus haviam estabelecido importantes casas de comissão. Fantis ou Minas. concorda com a procedência ocidental dos africanos escravizados que vieram para as Américas e Caribe. entre os grupos étnicos vindos da África Fanti. pela tese de doutorado de Carlos Benedito Rodrigues da Silva.O reggae na “Jamica brasileira”. foram retomados após a travessia transatlântica em meados da década de 1970. o termo jeje foi designado no Brasil em meados do século XVIII. 2007 . entendendo que as imagens e a discografia jamaicana interagiram com culturas que o passado escravista separou. (MATORY. constitui há séculos.. povos Ashanti foram levados para a Jamaica e um dos terreiros de 53 jul. regional e transatlanticamente. mas seu registro na África depois de 1864 revela muito sobre a história da etnicidade e da nação. Conforme J. como grupos étnicos de travessia. aja e fon. gen. capital dos daomeanos.63)./dez. Assim interpreta-se que os diálogos interrompidos por séculos entre maranhenses e jamaicanos. As descrições utilizadas situam os Akan ou Fante-Achanti. em destaque para o primeiro caso os Fanti e para o segundo os Ashanti. Ashanti. designando o ‘parentesco’ jeje pela religiosidade de tronco comum na América do Norte. 1999. p. para todos os falantes de ewe. referência encontrada pelos depoimentos colhidos no documentário “Atlântico Negro – na rota dos orixás”. evidências encontradas em São Luis pela formação vocabular do terreiro Fanti-Ashanti fundado por Pai Euclides no ano de 195410. Segundo Silva “uma curiosidade é que segundo historiadores. Essa associação deu-se também pelo cruzamento de informações coletadas nas abordagens de Carlos Albuquerque em O eterno verão do reggae. tratando-se da mesma língua de adoração dos deuses vodun. De modo que para o Maranhão e Jamaica vieram grupos étnicos comuns (Minas). ou melhor.

Maristane de Sousa Rosa religião afro-brasileira de São Luís é a Casa de Fanti-Ashanti. Infelizmente não pude encontrar documentos comprobatórios dessa relação. A informação que obtive de um estudioso foi que o próprio pai de santo teria inventado o nome para a casa” (2001. de espaço. a propensão para a visão teológico-política que permite censurar ou louvar. depende do grau em que o passado das instituições em causa é considerado como algo que está em jogo e como instrumento de luta. mais uma vez concorda-se com os conceitos de memória latente e em potencial avaliando que os lugares da memória não devem ser julgados somente como espontâneos. Com efeito. no campo das lutas sociais e no campo de produção cultural. No entanto o fato do referido pesquisador não ter encontrado evidências dessa associação. de idioma. são arquivos criados no presente. p. De acordo com Pierre Bourdieu (2001. condenar ou reabilitar imputando a vontades benéficas ou malignas as propriedades aprovadas ou reprovadas do passado. VIII. Essa reflexão depara-se então com a representação normativa do passado. desenhada nos ritos religiosos de origem africana. isto é. ora com possibilidades de percepção do passado. p. através dessas próprias instituições.79): De facto. interpretada como responsável pela memória histórica e identitária que reveste de simbolismos a comunidade afrodescendente ouvinte de “música negra de raiz”. no espaço social em que se situa o historiador. Assim. vol. desenvolve-se uma reflexão sobre a existência mista de oralidade que ora se apresenta na forma de variabilidades textuais discursivas. n° 15 . 54 Revista Brasileira do Caribe. mas ficam latentes.113). prontos para serem utilizados no momento em que são solicitados. não descarta a dialogicidade entre cá e lá a qual este estudo se ocupou em estabelecer partindo de fatores que ultrapassam barreiras fronteiriças. Goiânia. ele próprio mais ou menos autônomo em relação a essas lutas.

fazendo-o adormecer sobre os seus joelhos. 16.. Os costumes Masai caracterizaram não somente o visual dreadlocks11 mas também o totemismo entre homem e leão que o reggae jamaicano utiliza expressivamente em camisetas. que despedaçou o leão como se fosse um cabrito. p. pois. descrita no livro de Juízes: Sobre a minha cabeça. Dalila. 2007 . o uso de tranças e a força física para lutar com o leão.34). aos profetas e até mesmo ao Cristo como usuários de ‘tranças’. nunca passou a navalha. 2003. Mas o espírito do Senhor entrou em Sansão. que cortou a Sansão as sete tranças do seu cabelo. introduziram importantes referências aos negros subtraídas ou adulteradas pelo mundo Ocidental. p. Sansão. p. perderei a minha força e então serei como qualquer outro homem.17). o qual. principalmente as menções aos primeiros israelitas. (Jz. (Jz. A releitura da Bíblia proposta pelo movimento Rastafari consistiu numa revisão. Se me for rapada a cabeça. porque sou nazareno de Deus desde o ventre de minha mãe. chamou um homem. desceu com seu pai e sua mãe a Tamna. daí advindo o não uso da navalha nos cabelos de forma que as tranças rastas pudessem crescer livremente. rugindo. Segundo Carlos Albuquerque (1997. disse ele. o uso de ‘terríveis tranças’ estava associado às “fotos de guerreiros somalis e suas 55 jul. (Jz./dez. p. apareceu de repente um leão novo e feroz.5-6). Então. Quando chegaram às vinhas da cidade. arremeteu contra ele. reivindicações de orgulho negro da década de 1930 foram aproveitadas como viés teórico a partir da inspiração bíblica utilizada pelo movimento Rastafari. estampas. As escrituras lidas nos moldes da colonização ocidental e nas pinturas da Europa renascentistas apresentaram de forma “branqueada” a lenda de Sansão.164-165).. 14. o mito da força dos cabelos. vídeos e na bandeira da Etiópia. sem ter na mão qualquer arma. (GILBERT.O reggae na “Jamica brasileira”. 16:19).

uma tradição milenar africana”. e os adultos. tais narrativas apontaram na direção do grupo étnico Masai por adotarem o uso de dread e principalmente pelo ‘costume’12 de combater com leões nos rituais de passagem13. Estavam ali sete deles. desconstruir ‘tradições inventadas’ e abordagens etnocêntricas. VIII. organizações militantes negras e a musica jamaicana reivindicaram oportunamente da cultura Ocidental. mas Jah dará uma resposta para nosso choro”. tinham cerca de 20 anos. Goiânia. vistas na Jamaica pela primeira vez nos anos 30. o som onipresente do reggae que se tornou práxis política desalienadora e operante para romper a segregação visível 56 Revista Brasileira do Caribe. aspectos pioneiros do legado patrimonial negro da África à humanidade. p. eram carecas. O filho do homem não fará exame do coração que está desistindo. todos ornamentados. vol. Conforme IJahman: “A profecia agora é revelada. estudantes europeus em sua maioria. n° 15 . pois a vida o levará num súbito choque. Os mais jovens. teriam dado aos rastas a certeza de que com as dreadlocks eles estavam seguindo. repetiram as apresentações aos masais. porque já haviam matado pelo menos um leão na vida e se tornaram autênticos guerreiros da tribo. Prevendo ainda pela música.61) na reportagem da revista “Os caminhos da Terra”. O choro do povo se multiplica em toda parte. De modo que partindo do título do hino do reggae no Maranhão (Nós somos guerreiros). de suposições sobre os guerreiros somalis e o lendário Sansão. e respeitando. como o exemplo encontrado na referência de Diego Lezama (1999. membros de ‘uma das tribos mais selvagens da África’ [grifo nosso]. Oxalá. chamados de ilkelianis. ao descrever um trekking com os Masais: As 25 pessoas de nosso grupo. os moranis. Contrariando a referência.Maristane de Sousa Rosa carapinhas em estilo medusa. cabelos compridos e trançados.

como em outras épocas quando nos conduziram sob seus pés. pela mansidão que me fez filho do homem. Eles certamente querem o caminho às vezes mais confuso. Seria toda a nossa própria glória. não confunda. por que a vida o levará num súbito choque. estúpido. não atire a flecha de seu arco. pois estamos numa guerra. deixe-a baixa e nunca a lance./Oh cupido. Notas 1 Palavra inglesa que deriva a forma aportuguesada blefe significando iludir. Oh./São suaves e cheias de paz minhas noites./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. A profecia é revelada agora.. 2 Título: Nós somos guerreiros (We Are a Warrior – tradução da autora) O amor é a perfeição e eu dou graças pela agradável plenitude presente dentro de mim. não atire a flecha de seu arco. mas Jah dará uma resposta para o nosso grito. não atire a flecha de seu arco. lá na Jamaica. Ele deu sabedoria e conhecimento para entender o amor após uma guerra./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. sirva para consolidar ações afirmativas entre a comunidade afrodescendente do Maranhão. 57 jul. mas para o fim haverá abrigos cheios com clamor de mães e pais. É nós somos guerreiros. estúpido. cupido./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. para possuir nossa cabeça. amor./ Nós somos guerreiros?/É nós somos guerreiros. não lance sua flecha de seu arco. Ainda que não vejamos nenhum amor./Nós somos guerreiros? É nós somos guerreiros. É nós somos guerreiros./Oh cupido./Oh cupido.. para não olhar a extremidade? Isto não é submissão. como freqüentemente eu peço. O choro do povo se multiplica em toda parte. enganar. A vida foi dividida em doce harmonia fazendo uma mulher até sonhar. não atire a flecha de seu arco e nunca a lance.O reggae na “Jamica brasileira”. lograr./dez./O que te fez ter uma pistola? Seu amor infinito acabou para você atirar no homem ali? Nós desistimos depois que a estrela nos iluminou? Por que nos tornamos como cordeiros./Fé é uma montanha tão silenciosa e cheia de fontes d’água para todas as adoráveis criaturas./Examine e olhe determinados sonhos onde há freqüentemente histórias verdadeiras./ Oh cupido. estúpido./Oh. 2007 . É nós somos guerreiros. deixe-a baixa e nunca a lance. estúpido. O filho do homem não examinará o coração que está desistindo. É nós somos guerreiros. estúpido.

Informação disponível em: http://www. Formou-se da mistura do inglês com termos creoles.culturapopular. n° 15 . Nagôs. como reencarnação divina na terra. 5 6 Ressignificação dada aos sound-systems jamaicanos. devido a grande projeção do ritmo jamaicano entre a população maranhense.Maristane de Sousa Rosa Filosofia religiosa afro-caribenha surgida em meados dos anos 1930 que proclama Jah como Deus Supremo e Hailé Salassié I. 7 As mudanças melódicas a partir de meados da década de 1990 adjetivaram o ritmo jamaicano atual de Dancehall ou batida eletrônica. VIII. composto por Minas. ou seja. de tronco lingüístico comum. por vezes também homenageiam a preferência do regueiro mais considerado. os Dj’s atribuíram esse ‘codinome’ à capital do Maranhão como forma de relacionar São Luis e Jamaica com o reggae. então reggae roots ou somente roots representa o ritmo de raiz. particularmente no Maranhão são assim chamados os grandes paredões de som que animam os eventos de reggae. 8 9 Conforme Silva (2001:44). Fanti.ma. imperador da Etiópia. vol. incluindo ainda o jamaicano Marcus Garvey como profeta afro-centrista que inspirou a visão do orgulho negro. época do disco de vinil. Ashanti. 3 4 Grupo étnico heterogêneo vindo da África durante a travessia transatlântica em meados do século XVII. Ardras. econômico. Goiânia. em que grandes shows reúnem até cinco estruturas desse porte.php?id=28. chegando o novo nome aos outros redutos regueiros fora de São Luis. Feitos de madeira compensada que medem por vezes 3 m de altura por 5 m de largura. 10 58 Revista Brasileira do Caribe. Título dado às músicas reggae pela sonoridade produzida em inglês ou patois jamaicano. com amplificações de som de alta freqüência. aquele originado no início dos anos de 1960. Ioruba e Akan. ainda compostas por mesa de mixagem do som e pela presença de DJ’s.gov. Língua religiosa adotada pelos rastas compondo a maneira ritualística de falar para definir o mundo político. Acessado em: 05/01/2006. sendo também usada para definir aspirações espirituais.br/ artigos2.

9. In: La (indi)gestión cultural: uma cartografia de los processos culturales contemporâneos. A invenção das tradições. 1986. SP: Papirus. A cultura no plural. Marcelo Álverez (Comp. 2002.O reggae na “Jamica brasileira”. O que é história cultural. (Coleção Ouvido Musical).com. Antonio Augusto. Negros estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. “Cultura. Rio de Janeiro: DIFEL. (Trad. 2007 . Manuela Carneiro. 3ª ed. 2005. ciudadanía y patrimônio em América Latina”. Enid Abreu Dobránszky). São Paulo: Brasiliense. Acessado em: 07/09/2006. São Paulo: Stampley Publicações. Eric. formando grossas tranças. continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história. 1995.. Visual do cabelo enrolado em forma de pavio. por vezes com cera de abelha. 34.). BÍBLIA SAGRADA. São Paulo: Ed. História social do jazz. O eterno verão do reggae. CUNHA. 2000. Ecléa. ARANTES. BURKE. Pedagogia do oprimido. O poder simbólico. set. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. “Um trekking com os masais”. v. 11 De acordo com Eric Hobsbawm (2006:10) que toma costume no sentido de possibilitar inovações./dez. BOURDIEU. BURKE. 32ª ed. Rio de Janeiro: Zahar. 2002. podendo mudar até certo ponto. Sua função é dar a qualquer mudança desejada (ou resistência à inovação) a sanção precedente. Peter. Carlos. Paulo. Peter Variedades de história cultural. Argentina: CICCUS/LaCrujía. 1999. 8. Mônica Lacarrieu. Campinas. Pierre..asp>. Michel de. Diego. 13 Bibliografia ALBUQUERQUE. (Trad. In: Revista Os Caminhos da Terra. Terence. HOBSBAWM. Das Letras.br/4x4/ed08/masai. n. CERTEAU. Memória e sociedade: lembranças de velhos. HOBSBAWM. 12 Disponível em: < www. FREIRE. RANGER. Celina LEZAMA. 1997. São Paulo: Paz e Terra. Tradução Missionários Capuchinhos de Lisboa. 1994. São Paulo: Cia. [1971?]. 59 jul. Rio de Janeiro: Paz e Terra. embora por vezes seja tolhido pela exigência de que dever parecer compatível ou idêntico ao precendente. Eric. BOSI. 1990. 1989.tribooffroad.

Porto Alegre. Porto Alegre. n. In: Revista de Antropologia. Carlos Benedito Rodrigues da. vol. VIII . Lorand. 1988. Brasília. São Paulo: Ática. 1. 60 Revista Brasileira do Caribe. Tese de Doutorado em Ciências Sociais Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Alistair. In: Horizontes antropológicos. São Paulo. PPGASUFGRS. THOMPSON. Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae. “Som e música: questões de uma Antropologia Sonora”. 1. Sumaré/ ANPOCS. In: Projeto História. Devotos da cor. Cardim Cavalcante). 2ª ed. lazer e identidade cultural. p. v. “Questão racial e etnicidade”. 9. “Recompondo a memória: questões sobre a relação entre história oral e as memórias”. Brasília: Universidade de Brasília. J. “Jeje: repensando nações e transnacionalismo”. In: Sérgio Miceli. DF: CAPES. PINTO. v. O que ler na Ciência Social Brasileira (1979-1995). Goiânia. São Paulo. São Luís: EDUFMA. Moritz. 221-286. 1982. MOURA. Rio de Janeiro: Paz e Terra.Maristane de Sousa Rosa MATORY. Os africanos no Brasil. 2001. Sociologia do negro brasileiro. 1997. SILVA. São Paulo: Ed. 1985. Mariza de Carvalho. SOARES. SCHWARCZ. n. 1997. 2000. abr. mar. Lília K. Clovis. SILVA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Tiago de Oliveira. Carlos Benedito Rodrigues da “Ritmos da identidade: mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão”. 44. ano 4. 2001. Nina. 1998. São Paulo. 1999. RODRIGUES.

61-84. Comunicação Audiovisual. conforms the vision of the spectator departing from a series of symbolic audiovisual references. são analisados em seu contexto. em que o reggae jamaicano é apropriado e ressignificado em algumas regiões brasileiras. Nessas relações a música popular e a produção audiovisual constituem veículos de reinterpretação e ressignificação das culturas de ambos os países que revelam semelhanças e especificidades. n° 15. Reggae. considerados tanto en sus sujetos y practicas sociales. Goiânia. filmes jamaicanos e documentários brasileiros como representações e veículos dessa comunicação intercultural. VIII. Palavras-Chave: Jamaica/Brasil. son estudiados em este artículo no como sistemas cerrados sino abiertos. 2007 . Reggae. both from its subjects and its social practices. but open systems.Enredando Brasil e Jamaica: Um caso de comunicação intercultural pelo audiovisual e a música popular Leonardo Vidigal Abstract This study attempts to look at Brazil and Jamaica not as closed. Resumen Brasil y Jamaica. Audiovisual. recreated in Brazil. Investigar los grados de intensidad y sobre todo las performances en la relación entre ambos *Artigo recedido em janeiro e aprovado para publicação em março de 2007 61 Revista Brasileira do Caribe. The exploration of the audiovisual and musical performances in both countries contributes to deepen into its culture. Reggae Resumo Este artigo analisa as relações interculturais entre Brasil e Jamaica por meio dos conceitos de contaminação e apropriação. Para tanto. Keywords: Jamaica-Brazil. which emerge from the Jamaican filmography and other iconographic sources. vol.

pode-se ter em conta que. envolvendo uma reinvenção de conceitos bastante utilizados. longe de serem momentos excepcionais e fugazes. Como os contatos entre esses dois contextos poderiam ser abordados de forma a trazer novas luzes para o debate sobre a comunicação intercultural1? Em primeiro lugar. Michel Serres apresenta as redes como espaços irregulares. como algumas especulações e pesquisas no âmbito antropológico e filosófico parecem afirmar. Nesse sentido. Palabras Clave: Brasil/Jamaica. Comunicación audiovisual.Leonardo Vidigal países mediante la producción audiovisual y musical permite profundizar en la cultura. entendidos não como unidades fechadas de características facilmente delimitáveis. meios e produtos que se encontram envelopados em subdivisões jurídicas e econômicas cada vez mais frágeis. Reggae Brasil e Jamaica. sejam eles locais. como todos os diferentes contextos culturais. n° 15 . conforma la visión del espectador a partir de un conjunto de referenciales simbólicos audiovisuales procedentes de la filmografía jamaicana y otras fuentes iconográficas. Goiânia. práticas sociais. que estariam sujeitas a toda sorte de variações. Para tentar incorporar esta visão relacional ao estudo dos contatos entre os sistemas culturais. sempre estiveram em contato. como o de rede. em sua concepção de comunicação. estabelecendo as condições para o auto-reconhecimento dos habitantes de tais contextos como “distintos” de seus congêneres. tais contatos foram a base da constituição recíproca dos contextos socioculturais planetários ao longo do tempo. mas como sistemas abertos de sujeitos. “onde a 62 Revista Brasileira do Caribe. regionais ou nacionais. que poderiam contar com uma “pluralidade de subtotalidades” (o que corresponderia aos contextos locais). em complexas gradações de intensidade e performatividade. vol. El reggae recreado colectivamente en Brasil. o que vem sendo desenvolvido por uma grande variedade de pensadores de diversos lugares e tradições de saber diferentes. seria preciso usar uma abordagem que procurasse ultrapassar os limites da rígida organização do conhecimento especializado. VIII.

. determinação é construída. na TV Bandeirantes (privada. aberta) e no canal GNT (privada. Quando a articulação de imagem e som incorpora uma expressão igualmente mobilizadora como a música popular. Em segundo lugar. de leitura complexa. Tal disposição somente 63 jul. que fizeram pelo menos três incursões deste tipo naquela ilha do Caribe anglófono. apropriações e combinações possíveis entre os diferentes produtos e interpretantes. foram produzidos ao longo do tempo na Jamaica. estabelecendo assim uma necessidade de maior compreensão dos fenômenos envolvidos. pertencente à mesma empresa mantenedora da Rede Globo.Enredando Brasil/Jamaica. Entre estas equipes de gravação estrangeiras estavam os brasileiros. é preciso recortar um aspecto ou elemento deste processo. Isso porque ela atualiza continuamente e torna explícitas as contaminações. 2007 . 2000). mas que pode revelar muito sobre as transformações culturais em curso na contemporaneidade. Se for assim. o que acontece hoje entre as subtotalidades que compõem as subdivisões maiores denominadas Brasil e Jamaica pode ser chamado de enredamento. veiculada na TV por assinatura). Dessa forma. negociada. com grande e perceptível vitalidade. que circulam de forma cada vez mais rápida e acessível pelo mundo. filmes de ficção semi-documentais. posto que os processos de tessitura continuam em plena atuação. por diferentes processos. ela amplia o seu potencial de aglutinação e torna-se também um indicador. documentários e outros produtos audiovisuais (como videoclipes) realizados tanto por equipes locais.. Tais audiovisuais foram realizados por equipes independentes que posteriormente tiveram seus programas veiculados na TV Cultura de São Paulo (pública. aberta). ensaiada” e não deveria ser considerada como fixa (MORAES. tornando-se parte da constituição de um tecido cultural aberto. recorte que nesse caso destacou o audiovisual./dez. quanto por equipes mistas e ainda por outras totalmente estrangeiras. Dessa forma. pode-se concluir que o interesse de documentaristas e jornalistas televisivos do Brasil pela situação jamaicana é significativo. para melhor focar e direcionar tal compreensão. um dos principais meios a organizar a expressão humana.

mais do que considera. com nossos colegas de universidades situadas nos grandes centros. mas incorporadas nas perspectivas de análise. naturalmente complexo e plural. 2002). reduz muito fácil e acriticamente as manifestações culturais menos conhecidas ao estereótipo exoticizado. As persistentes assimetrias de poder entre os estados-nações e no interior destes.Leonardo Vidigal encontra paralelo entre os realizadores provenientes de países como Inglaterra e Estados Unidos. n° 15 . procura incorporar a extrema heterogeneidade de tais contextos culturais na sua análise. Goiânia. Neste sentido. VIII. No entanto isso não acontece sem problemas para quem deseja estudar as relações culturais entre os países à margem. elegendo assim aspectos específicos de um contexto cultural como representantes de toda a produção desse contexto. é preciso pesquisar caminhos para a abertura ou o melhor aproveitamento de circuitos alternativos de cultura entre os países à margem. o Banco Mundial e a OMC (ANTELO. Este tipo de mentalidade que partilhamos. em que os processos de integração do capitalismo contemporâneo estão generalizando uma lógica de mercado e de consumo que coopta determinados agentes dos países à margem. ao mesmo tempo em que os submetem a todos às decisões macroeconômicas tomadas pelos organismos internacionais como o FMI. mas hesita em investigar culturas consideradas exóticas pelo olhar condicionado por este mesmo cânone. podemos afirmar que um estudo 64 Revista Brasileira do Caribe. tornando-os sócios ou seguidores dos modelos hegemônicos. A comparação e a análise de tais esforços não podem deixar de levar em conta a atual situação. Sem entrar nos méritos dessa produção e partindo de um olhar que. Isso porque o pesquisador pertencente ao contexto brasileiro sente-se inteiramente à vontade para tratar de objetos referentes ao chamado cânone ocidental. até porque é neles que se concentra a maior parte da produção audiovisual hoje em dia. vol. não podem ser ignoradas na tentativa de operar com essa percepção. mais estreitamente ligados à Jamaica por abrigarem colônias numerosas de oriundos da ilha caribenha. talvez inconscientemente.

novas identificações e também novos mercados. mais atento e menos eurocêntrico seria altamente proveitoso. a qualquer articulação possível entre signos visuais e sonoros. em sua acepção contemporânea.. derivados das ambigüidades socioeconômicas e outras características que compartilhamos. Culturas do audiovisual Mas antes é necessário compreender melhor o recorte usado para esse estudo. as relações entre os contextos à margem. É um esforço de reinterpretação e ressignificação (DHARESHWAR e NIRANJANA. talvez até mais receptivos do que os mais cobiçados. tanto para o público em geral como para a esfera acadêmica em particular. 1996) que oferece novas perspectivas sobre nossa própria condição. mas neste texto iremos restringir o uso de tal conceito aos suportes técnicos. Para uma compreensão dos produtos audiovisuais de acordo com as premissas desse estudo. pelo fato do termo audiovisual estar consagrado como um coletivo para tais dispositivos. Pesquisar outros circuitos por onde circula o audiovisual pode revelar impasses e questionamentos semelhantes aos nossos. Esta é certamente uma definição que faz jus aos estudos mais atuais e rigorosos sobre o assunto. o computador. estes não devem ser 65 jul. familiar e estranha. nesse caso sob o formato de produtos audiovisuais. 2001).. a televisão./dez. o que poderia abrir espaço para novos reconhecimentos. podem ser analisadas como trazendo uma motivação diferenciada. O termo “audiovisual” é bastante abrangente e corresponde. menos hegemonizante e homogeneizante? O caso que se pretende analisar parece indicar que sim. pois é ao mesmo tempo próxima e distanciada. Nesse contexto. como o cinema. mas sob certas premissas teóricas que este texto procura discutir. o celular e outros meios. podem ser descobertas também algumas soluções comuns que são ou podem ser adotadas para tais impasses. 2007 . com ou sem a mediação de meios tecnológicos (BETHÔNICO. ao norte.Enredando Brasil/Jamaica. No entanto.

Nesse ponto é necessário esclarecer com um pouco mais de precisão como este trabalho irá lidar com o conceito de “cultura”. reinventando um novo arranjo de componentes que. que também passou por diversos processos de produção e manipulação. Goiânia. Esta. Isso porque muitas vezes a cultura é citada apenas em seu sentido restrito. Não é um significado fixo porque depende das relações e arranjos nos quais está inserido em um dado momento da observação. vol. molda e é moldado pela forma material. mas como elementos que participariam tanto do estabelecimento das condições básicas de tessitura como do seu direcionamento. VIII.Leonardo Vidigal encarados apenas como reflexos ou sintomas de fatores socioeconômicos e culturais externos aos fluxos de enredamento imaginário e concreto. ao serem atualizados a cada exibição para os indivíduos. colaboram de modo significativo para formar comunidades imaginadas e sistemas culturais reconhecíveis. mas a necessidade de estabelecer limites faz com que uma visão totalizante da cultura. que seriam apropriados a partir de um processo recursivo e reflexivo. produzindo diversos sentidos potenciais. por sua vez. ligado à produção material ou imaterial que expresse de alguma forma a ação criativa humana (considerando-se as camadas descritivas e normativas acumuladas sobre termos como “arte”) e que seja socialmente aceita como tal. Neste. nem como uma emanação do objeto. Seria preciso então recorrer a uma visão mais ampla. para a modalidade de pesquisa empreendida aqui. que é muitas vezes tomado como dado. a produção audiovisual que emerge como resultado dessa dinâmica não é analisada como algo acrescentado por um sujeito totalmente separado de seu entorno. Assim. n° 15 . Trata-se de um processo de contaminação por parte de certos elementos. o olhar construído pela experiência e pelos meios usados para se observar. embora não seja o objetivo desse texto estabelecer uma conceituação “correta” para um termo tão complexo. também o modifica. mas como resultado de um certo encontro. dessa vez vista como um conjunto de 66 Revista Brasileira do Caribe.

reinventados e colocados em contato por intermediários culturais e/ou agentes individuais.. é preciso reiterar aqui que os sistemas culturais são encarados como relativamente autônomos em relação aos limites e condicionantes socioeconômicos e jurídicos que compõem os atuais estados-nação (CARVALHO. processo infindável.. 67 jul./dez. 1994). o cinema tornou-se uma das principais portas de entrada para a tessitura da rede imaginária que participa do processo de construção e difusão dos produtos audiovisuais. que gera produtos variados a partir de referenciais simbólicos oriundos de contextos diferentes do local onde são reinventados. serão mais detidamente examinadas. já citadas. bem como ideologicamente direcionada para a construção de uma unidade identitária nacional homogeneizante. processo que também pode passar pela atuação mediadora. 2007 . tomando parte desse jogo com todas as suas características próprias. conjugada a uma capilaridade social ao mesmo tempo verticalizada e horizontalizada. a saber: Contaminação. por sua extensão em cadeia de dezenas de emissoras estrategicamente localizadas. em contraste com a visão expressa desde o início deste trabalho. Assim.Enredando Brasil/Jamaica. A partir dos anos 1950. movimento ativo de recepção colaborativa. comportamentos e pontos de vista compartilhados tenda a enxergar cada contexto localizado de forma essencialista e fechada. Ao longo do último século. São estratégias que poderiam se alternar em gradações ainda não estabelecidas precisamente. no qual referenciais simbólicos concebidos em um dado contexto se interpõem ativamente pelos meandros de outro. Essas características são a sua extremamente prolífica e efêmera produção de conteúdo. a televisão também começou a participar desse processo de produção e reinterpretação de elementos de identificação. Apropriação. Esta última característica é especialmente importante porque toca no problema crucial da capacidade de tais combinações sígnicas favorecerem ou não processos de identificação através de diversas estratégias relacionais. duas das quais.

STOLZOFF. que poderiam ser chamadas de moleculares (para usar terminologia de Deleuze). 1995). sugerindo não haver diferenças absolutas entre um e outro sistema cultural. 2003)3. Música popular e audiovisual Os produtos audiovisuais que possuem como tema a Jamaica geralmente dão grande ênfase ao gênero musical conhecido como reggae. de contaminação e apropriação. 2001. tal interpretação acontece segundo concepções que tomam coisas. consumidos e praticados nos cinco continentes. VIII. Nascido quando a sociedade de consumo começava a consolidar sua hegemonia pela difusão planetária de seus produtos (a primeira banda de ska. sempre por meio de ações. sujeitos ou culturas como entidades que teriam um estado inegavelmente original ou “autêntico” de existência e não como percepções contingentes. em homenagem aos primeiros satélites). A leitura de tais estudos e a observação vivenciada nestes vinte anos de envolvimento deste pesquisador com o gênero. Goiânia. Para ambos. principalmente pelas camadas mais jovens da população.Leonardo Vidigal É importante apresentar uma definição mais precisa para estes conceitos por causa da conotação pejorativa que pode ser conferida aos termos “contaminação” e “apropriação”. KATZ. captadas e compreendidas sempre parcialmente. n° 15 . o que não foi contestado por estudos anteriores (COOPER. o reggae teve pouco tempo de maturação antes de se consolidar em um estilo hoje chamado de roots. reconhecido como a primeira forma do reggae. era conhecida como Skatalites. vol. “questão de relações e alianças em estado de fluxo” (FISHER. 1995. mas que eles estariam parcialmente contidos uns nos outros. no começo 68 Revista Brasileira do Caribe. que são ouvidos. Aqui se procura construir um ponto de vista teórico mais permeável do que a constituída por noções como a de hibridismo2. determinando a ilha caribenha como seu local de origem. permitiu constatar que o reggae encontra-se atualmente fragmentado em diversos subgêneros construídos coletivamente ao longo de seus quarenta anos de história.

tanto formalmente. fundamentalistas.Enredando Brasil/Jamaica. dos anos 1970 e ser internacionalizado por filmes produzidos na mesma época e pelo carisma de Bob Marley. Além disso. envolvendo-o com o rastafarianismo. As origens desse sistema de crenças e valores datam das lutas políticas anti-coloniais que explodiram no Caribe no século XIX. um dos pontos em comum entre os diversos grupos de fiéis. como vem sendo reivindicado por acadêmicos da ilha) que combina palavras inglesas. Todo esse ethos era claramente ou obscuramente exposto nas letras das canções. descendentes de jamaicanos nascidos nos Estados Unidos). discursivo e simbólico foi sendo composto. todo um denso arranjo ético. sendo considerado inicialmente como algo marginal. depois como um elemento relativamente assimilado pela cultura praticada na Jamaica. até se tornar praticamente uma norma para a maioria dos músicos e cantores de reggae. a instrumentação musical era muitas vezes baseada nos tambores nyabinghi.. que existem até os dias de hoje no norte da ilha. oriundos das comunidades quilombolas (chamadas de maroons). combinados com a tradição oral do canto falado (mais tarde apropriado pelos rappers americanos e jamericanos. O entrelaçamento entre a mensagem espiritual e 69 jul. ou inglês jamaicano. como nas temáticas. encarnado na figura do antigo imperador etíope Haile Selassie I. Esse formato é o mais conhecido mundialmente e suas características formais são as mais facilmente reconhecidas e associadas ao reggae. que foi gradativamente sendo ressignificado. religioso e moral que combina a política de valorização da herança africana com crenças milenaristas e. motivadas certamente pela revolução negra no vizinho Haiti. Este é um complexo sistema filosófico./dez. As convicções dos rastas são professadas em variados graus. indianas e africanas.. isto é. em um contexto de anarquia litúrgica e antidogmática. mas que ganharam a forma atual a partir da década de 1930 e só se tornaram relativamente populares nos anos 1970. às vezes. porque ditas em um dialeto patois (ou na língua jamaicana. espanholas. que têm na adoração de um deus negro. 2007 . Como parte do processo de edificação do roots reggae.

contratos foram cancelados e os artistas foram forçados a se adaptar ou a emigrar. Os contatos entre Brasil e Jamaica não aconteceram por meio de correntes migratórias diretas. que Marley foi um dos primeiros a utilizar em seu mega-sucesso “Could you be loved”. que constituiria um dos “quatro elementos” do hip-hop. 2006). em 1981. cujos agentes passaram a priorizar o mercado interno e aquele composto pelas colônias jamaicanas em países de fala inglesa como Inglaterra. mas outras modalidades de discurso ainda aconteciam. ao inspirar a concepção do hip-hop (graças ao canto falado – o toasting– que os imigrantes jamaicanos levaram dos bailes de rua da ilha para os bailes de clube em Nova York. n° 15 . houve uma queda no interesse das gravadoras em continuar promovendo o reggae. os grandes intermediários culturais passariam a ter pouca influência sobre o desenvolvimento do reggae. os grafiteiros e os DJs). a música popular na Jamaica foi simultaneamente modificada pela adoção progressiva das baterias eletrônicas. hoje dominante nas paradas jamaicanas4. em março de 1980 (VIDIGAL. no caso o mestre de cerimônias.Leonardo Vidigal política se tornou uma marca do reggae. este contato proporcionado pelas correntes migratórias e pelo maior fluxo de bens simbólicos entre os países modificou decisivamente a música popular mundial no início dos anos 1980. vol. no então emergente subgênero chamado de dancehall (chamado assim por ter sido consagrado nos bailes). onde o hip-hop é hoje uma das principais expressões da juventude (embora o dancehall jamaicano somente agora esteja começando a ser apreciado por aqui). Por seu lado. e de Peter Tosh. Os instrumentos eletrônicos foram tornados populares pelos rappers americanos. VIII. depois do falecimento de Bob Marley. Canadá e Estados Unidos. A partir de então. Nesse último. o MC – os outros três elementos seriam os dançarinos. No entanto. Este é um caso de comunicação intercultural que também teria suas conseqüências no Brasil. em 1987. como entre 70 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia. juntamente com algumas cuícas compradas em sua única e breve passagem pelo Brasil.

Jamaica e Estados Unidos.Enredando Brasil/Jamaica. não apenas em termos de extensão territorial e pujança econômica. principalmente no período colonial. relativas às diferentes formas de colonização empreendidas ao longo dos últimos séculos.. 71 jul. Relações entre Brasil e Jamaica Brasil e Jamaica são duas nações que apresentam profundas diferenças. tornada explícita em eventos públicos onde a dança é elemento central. com todas as suas implicações socioculturais../dez. alguns deles compartilhados. h) na maioria das vezes são imaginados pelo resto do mundo como lugares que combinam a natureza paradisíaca com um cotidiano violento e. e) apresentam uma expressividade corporal elaborada. 2007 . possuem muitas similaridades. mas também de ordem histórica. g) têm na música popular a expressão mundialmente mais conhecida de sua cultura. c) a cultura negra é representada por quase todas as correntes ideológicas do espectro político como um emblema da identidade cultural imaginada. inspirando táticas de apropriação e de posterior retomada de matrizes culturais (já em um ambiente onde o contato se processava de modo predominante como contaminação. sem imposição forçada). como os Yorubá e os Nagô. contaminação e apropriação mediadas também pelo audiovisual. d) os contatos interculturais que forjaram os atuais sistemas foram muitas vezes violentos. f) possuem uma cinematografia razoavelmente consolidada (a Jamaica tem hoje a cinematografia mais desenvolvida do Caribe depois de Cuba). finalmente. além das relativas à composição social e cultural. b) foram povoados à força. compondo assim uma população atual de maioria negra ou mestiça. mas por mecanismos de identificação. i) suas economias atuais estão amarradas por um alto grau de endividamento externo e pesados juros internos. por uma variedade significativa de grupos étnicos africanos. que podem ser resumidas nos seguintes elementos: a) carregam uma pesada herança do passado colonial e escravista. No entanto. nos últimos séculos.

entre muitas outras. Cidade Negra. ou o “forreggae” (VIDIGAL. Tribo de Jah. depois de se fundir com a BMG. Em 1981. o “reggae-toada”. vol. mas ainda assim repercutem de forma significativa. é difícil perceber. expressada por certa atitude carnavalizante5 de ambas ante a expressão artística e pelas raízes comuns. Na maioria das vezes estas proximidades se encontram escamoteadas pela distância geográfica e pela falta de conhecimento histórico dos atores sociais.Leonardo Vidigal A partir de tais aproximações foi construída uma relação negociada de compartilhamento cultural entre estas duas subtotalidades. O reggae desencadeou um movimento cultural significativo no Brasil. a apropriação do reggae começou a gerar uma grande variedade de apropriações. Em um segundo momento. jogando futebol no campo de Chico Buarque e fazendo cooper em Copacabana (VIDIGAL. Ele também apareceu cantando na sala da personagem de Tônia Carrero. gerando apropriações como o “reggae-capoeira”. A partir de então. 1997). Gilberto Gil percorreu o país em uma turnê com o cantor Jimmy Cliff (o mesmo de “The harder they come”) que apresentaria o reggae para um grande público. Assim. 2002). de uma maneira pouco estudada. englobados pelos intermediários culturais multinacionais. havendo a necessidade de uma pesquisa mais detalhada sobre esse aspecto6. que foi registrada pela TV. Mystical Roots. foram 72 Revista Brasileira do Caribe. na novela “Água Viva”. que se materializaram primeiramente sob a forma musical. que teve sua apresentação no Festival de Jazz de São Paulo transmitida pela TV Cultura daquele estado. como a Ariola (que. gravadora responsável pela breve visita de Bob Marley (cujo catálogo hoje pertence à Universal) ao Brasil em 1980. VIII. exemplos concretos de influência direta dos representantes da cultura produzida no Brasil sobre os jamaicanos. do ponto de vista do senso comum. n° 15 . na época contratado da Columbia (hoje Sony). Goiânia. da Rede Globo. foi comprada recentemente pela Sony). No Brasil os modelos de representação do reggae chegaram primeiramente de forma mercantilizada. em trabalhos de bandas como Paralamas do Sucesso. Titãs. Outro artista de reggae que veio ao Brasil no mesmo ano foi Peter Tosh.

e que agora também começa a produzir suas apropriações. o local onde foi concebido o reggae-toada. sincronizando as pistas de dança de lá com as jamaicanas e inglesas. também elaborados outros produtos. 2007 . formando. e foi o local onde surgiram bandas hoje consagradas como Cidade Negra e O Rappa e que gerou expressões locais como o reggae-capoeira. Chamado popularmente de “Jamaica brasileira”.. O interesse pelo reggae foi crescendo gradualmente até atingir um patamar de auto-sustentação entre a população de 73 jul. documentários para TV e folhetins televisivos que abordaram o universo cultural do reggae no Brasil. A cidade também conta com seus coletivos sonoros de dub. onde apreciadores do gênero podem ser encontrados em articulações com o movimento sindical e até com igrejas evangélicas. como blocos de carnaval. em que se pode verificar outra apropriação sob a forma do forreggae. Outro local onde o reggae tem uma forte capilaridade é a região metropolitana da grande São Paulo. o estado do Maranhão. principalmente nas capitais e cidades médias. dessa vez sob o formato audiovisual. tratada como um gênero separado também emergiu na Bahia sob a forma do samba-reggae. O Rio de Janeiro foi cenário de uma forte concentração em torno do reggae em meados dos anos 1990.Enredando Brasil/Jamaica. 2002). estabeleceu uma relação intercultural continuada e estável com a ilha caribenha. apresentados em filmes. Contudo. O reggae vem marcando presença em quase todo o Brasil nos últimos trinta anos. além das atividades normais de consumo e fruição. sem obedecer aos ciclos de alta e baixa intensidade observados em outros estados (VIDIGAL. juntamente com os produtos de matriz jamaicana. Uma nova apropriação. documentada no documentário de média-metragem Bonde do Rastafari. Em terras paulistanas também existe um ativo circuito de DJs de dub (versão instrumental e experimental do reggae) e dancehall./dez. de Cynthia Sims.. com destaque para a cena baiana. para onde convergiu boa parte das bandas formadas em diversos contextos regionais. o corpus a ser analisado e que será descrito adiante. é o contexto regional que mais aparece nos produtos audiovisuais que tratam do reggae no Brasil.

em apresentações que contam com um público composto por pessoas de todas as idades e não apenas por jovens. como Legenda e cantores como Dub Brown. 74 Revista Brasileira do Caribe. Gerações de músicos e instrumentistas do Maranhão se formaram ouvindo reggae desde crianças. como Tribo de Jah. Ultimamente. os radioleiros estão alugando os serviços de instrumentistas da Jamaica para produzir faixas “exclusivas” e assim poder ofuscar a concorrência. se especializaram em tocar versões de melôs. como a prática de se dançar o reggae aos pares (como no forró). Goiânia. o mais apreciado pelos maranhenses.Leonardo Vidigal menor poder aquisitivo. Outras bandas. além de acompanharem os artistas jamaicanos. mas que não ficou imune à sua capacidade contaminante (como será visto adiante no exemplo dado pela série Música do Brasil). é um exemplo da reinvenção praticada nos bailes maranhenses. O Maranhão também apresenta uma rica cultura popular (como mostra o curta “São Luís Caleidoscópio”. como no sudeste ou mesmo na Bahia (como foi observado in loco por este pesquisador). ignorados pela maioria do público no resto do país. Formas de “apropriação corporal”. Os donos de radiola costumam ir para a ilha adquirir novos discos. n° 15 . Mystical Roots e Manu Bantu. única no mundo. fazendo surgir algumas das principais bandas do gênero no Brasil. como alguns temiam. que é tematizada em todos os documentários e programas que tratam daquele ambiente. já tendo praticamente acabado com o estoque de compactos da década de 1970 de estilo roots. Os atores sociais maranhenses também modificaram o contexto jamaicano. embora isso não tenha sido ainda pesquisado adequadamente. como principal fonte de lazer (SILVA. Festivais de música trazem artistas da Jamaica. VIII. que tem as chamadas radiolas (equipes de som que tocam as músicas mais apreciadas. vol. os melôs7. produzidas na Jamaica ou localmente). 1995). como Eric Donaldson e Owen Gray. de Hermano Figueiredo). que não foi destruída pelo reggae.

apenas a consomem. como as gravadoras locais e multinacionais. Por ter sido o primeiro longa-metragem produzido na Jamaica. reinventados. Eles viriam a servir como referência para a formação de novos produtos audiovisuais por realizadores em todo o mundo acerca do reggae e o rastafarianismo. 75 jul.. religioso e político do rastafarianismo é preparado em “The harder they come” (que critica violentamente a hipocrisia da religião tradicional.Enredando Brasil/Jamaica. único rastafari de “The harder they come”. atualizando a percepção do que era vivido pela população de origem africana no Novo Mundo. o que foi tornado visível e legível a todos pelo amálgama audiovisual./dez. Esse amálgama entre o discurso ético. os rastas apresentam um papel muito mais ativo na condução da trama e não comercializam a erva. se limita a apoiar Ivan sem tomar a iniciativa de nenhum movimento mais conseqüente. Tais filmes também foram financiados por intermediários culturais. concebidas primeiramente no contexto jamaicano. nos produtos audiovisuais subseqüentes realizados naquele contexto. Já em “Rockers”. e também o aparato estatal. são apresentadas e congeladas nos filmes “The harder they come” e “Rockers”. intuito que foi parcialmente atingido. questionados e. Por exemplo. apresentado como financiador e beneficiário do crime organizado) e explicitado em “Rockers” (com seus personagens defendendo claramente os preceitos rastafari).. Conceitos bíblicos como o da “Terra Prometida” e a história do cativeiro dos hebreus na Babilônia foram metaforizados pelo sistema de crenças rastafari. “The harder they come” apresenta temas e personagens que foram desenvolvidos. diretamente ou indiretamente. Alguns desses filmes serão mais bem analisados a seguir. além de fazer parte do comércio de ganja (maconha). para inventar uma dada concepção do que se passava musicalmente na Jamaica naquela época. no caso jamaicano o de correntes protestantes como a batista. facilitando a ascensão de uma nova geração do reggae. 2007 . Alguns dos produtos audiovisuais analisados As convenções que foram se cristalizando ao redor das mais diversas metáforas inventivas. Pedro. assim.

Leroy “Horsemouth” Wallace. entrevista Riba Macedo. Em outro episódio. elementos e abordagens desse filme pode ser sentida primeiramente em “Rockers”. sons. que jamais voltaria a fazer outro filme) e sua solução pela via da ação coletiva e solidária. VIII. associando-o aos tambores afros logo na primeira cena. Quando tematiza o reggae (em um episódio que ainda trata do rap paulista e do funk carioca). que ecoam claramente no filme “The harder they come”. Ela trata do contexto maranhense em dois episódios. privilegiando situações de apropriação. Ao grupo 1 pertencem as obras do documentarista Belisário França. vol. na qual os créditos iniciais são projetados sobre um grupo de percussionistas nyabinghi8. fazendo inclusive que Macedo explique as origens de tal movimento (ele teria primeiramente substituído o bolero como “música lenta” na sua radiola e ao longo do tempo ele foi sendo adotado pelos bailantes como gênero principal). “Rockers” também aparece como uma citação freqüente em outras unidades audiovisuais. que trabalhou em conjunto com o antropólogo Hermano Vianna na realização da série “Música do Brasil” (2001). pode ser vista como uma resposta ao individualismo e ao caminho do crime escolhido por Ivan em “The harder they come” (mesmo que este tenha sido quase justificado por um impulso revolucionário). e enfatiza a forma como os casais dançam aos pares. em seqüências como as que mostram as gravações em um estúdio e a posterior volta de bicicleta do protagonista para distribuir seus discos.Leonardo Vidigal A movimentação de figuras. em conjunto com outros rastas. A apresentação dos problemas enfrentados pelo rastafari que protagoniza “Rockers” (na realidade um baterista reconhecido no meio reggae. n° 15 . dedicado inteiramente 76 Revista Brasileira do Caribe. principalmente pela forma como apresenta o discurso rastafari. particularmente no Maranhão e 2) os que pretendem documentar alguns dos elementos contaminantes encontrados na Jamaica. tido como o primeiro a tocar o gênero regularmente. Goiânia. Os programas realizados no Brasil dividem-se basicamente em dois grupos: 1) os que foram realizados tendo como tema os agentes e elementos apropriadores do universo do reggae no Brasil.

Tais manifestações são muitas vezes sublinhadas com legendas de grande proporção e com esse e outros elaborados recursos gráficos. ao bumba-meu-boi. que acreditava ser o Maranhão “uma Jamaica congelada nos anos 60”. programa de Éder Santos e Marcelo Tas.. 2007 . dá destaque a um grupo da cidade de Rosário. apenas alguns aspectos do reggae como foi apropriado no Maranhão. Mais uma vez a dança ganha 77 jul. disfarçada de jornalismo. do outro. Tais atualizações. São Luís estaria agora sendo “ocupada por jamaicanos”. mais recentes. emblema do vídeo independente no Brasil vivido pelo diretor Marcelo Tas. e. o Repórter”. durante o ciclo militar. apesar de não mostrar nenhum ao longo do programa. entre muitas outras manifestações pelo país afora. Seguindo esta rota. situada a duas horas de S.. Possui a singularidade de ser apresentado por um personagem fictício. que também traz uma edição sobre o Maranhão./dez.Enredando Brasil/Jamaica. A série adota uma abordagem panorâmica. é uma série dos primórdios da MTV brasileira. de um lado. podem ser confrontadas com outras datadas do início dos anos 1990. Bob Marley. O programa apresenta seus personagens por meio de diálogos que apresentam frases como “o reggae fez a cabeça do mundo todo” ou pela fala de estudiosos como o jornalista Otávio Rodrigues. recortando. até então praticamente inéditos na TV brasileira. o repórter Ernesto Varela. invadida por holandeses e colonizada por portugueses”. na primeira intervenção do personagem/apresentador. que se apropria do reggae tanto na batida da toada quanto nas letras. além de enfeitar o boi com um bordado que representa. menção ao antigo “Amaral Neto. O principal objetivo nesse caso é parodiar e explicitar as táticas empregadas pelos programas de reportagem da TV convencional. Jesus Cristo. “Netos do Amaral”. este afirma que. o que já fica claro na denominação do programa. Luís. Tas e Santos vão montando com “Netos do Amaral” um painel que não parece ter a intenção de explicar ou de compreender aquele fenômeno e sim de apresentar uma reinvenção que enfatiza o lado caótico e exótico do que encontram. depois de ter sido “fundada por franceses. expoente da propaganda do “milagre brasileiro”.

Goiânia. A edição procura mostrar algumas situações de risco em que o público maranhense se envolve.Leonardo Vidigal destaque. mostrada como uma mera emulação do universo country americano em outro bloco. pois este último retoma alguns personagens apresentados antes no “Documento Especial”. no SBT) com a direção-geral de Nelson Hoineff. conta ele de modo ligeiramente diferente nos dois programas. expressão repetida por Tas quando conversou com o mesmo personagem. com Varela confrontando a “maneira jamaicana” (expressão ressaltada com as legendas características) de se movimentar ao som da música (individualmente) e a “maneira brasileira” (aos pares). vol. apresentando um retrato visivelmente mais simpático do que o da cidade de Barretos. n° 15 . leva jovens jogadores maranhenses para a Europa e traz discos). A premiada série “Documento Especial: Televisão Verdade”. que foi veiculada na TV Manchete (e. quando o narrador Gilberto Gil anuncia o boi da cidade de Rosário como sendo “sotaque de orquestra”. lá todos os cantores moram numas casas pobrezinhas assim”. O programa também destaca as radiolas. O fato de ter sido produzido apenas um ano antes de “Netos do Amaral” permite realizar algumas comparações específicas. devido à posição marginalizada ocupada pelo reggae. apresenta o assunto de forma mais crua. esclarecendo que nele são usados 78 Revista Brasileira do Caribe. mais tarde. sendo acompanhado até sua casa miserável pela equipe de “Documento Especial”. que precedeu o dedicado ao Maranhão no mesmo programa. como o intermediário Enéas Motoca (que. enquanto mostra o seu baú com mais de dois mil discos “trancado a sete chaves”. VIII. o radialista e cantor Fauzi Beydoun (que em “Netos do Amaral” aparece apenas como locutor de rádio) e o dono de radiola Serralheiro (falecido recentemente). o radioleiro declara humildemente que não se mudou de sua antiga moradia porque queria “acompanhar o ritmo da Jamaica. Serralheiro foi entrevistado de forma algo jocosa por Marcelo Tas em “Netos do Amaral”. Também é possível identificar um percurso intertextual entre este programa e o mais recente “Música do Brasil”. Lá.

79 jul. o paraíso do reggae”.. originando o chamado rocksteady (uma espécie de proto-reggae). pela longa duração (60 minutos. A dança também ganha destaque quando o programa aborda o ska. a imagem dos dançarinos também desacelera. para usar a terminologia jamaicana) do bumbameu-boi. mas precisam gravar fora do país”. uma produção de Ronaldo German e Ricardo Porto. banjo. Ao grupo 2 pertence “Jamaica. Tal passagem evoca a do Documento Especial em que o percussionista e baterista Paulinho Akomabu faz uma demonstração dos diversos “sotaques” (batidas. Quando a narradora explica que houve uma desaceleração no andamento musical. instrumentos de sopro.Enredando Brasil/Jamaica. Os cantores também atestam a falta de condições de trabalho em seus depoimentos: “temos que ter um estúdio em Trenchtown”. É visível o esforço de encontrar músicos que ainda pratiquem o chamado reggae roots. 2007 . oferece uma ótima amostra sobre o que seria considerado relevante na cultura praticada na Jamaica por aquela equipe de realização. não se limitando a apenas uma linha de interpretação”. comparando-as com as batidas do reggae (assim como seu colega da banda Guetos Tadeu de Obatalá fez com a boca para “Netos do Amaral”). que. De um modo geral. fora os comerciais) e pela variedade de temas abordados. o que é finalmente logrado na favela de Trenchtown. o programa é pautado pelo imaginário sobre o reggae construído também pelos filmes dos anos 1970 analisados na pesquisa. ou riddims./dez. onde Bob Marley viveu por alguns anos. É uma reportagem televisiva tradicional.. apresentando cenas raras de quarenta anos atrás. em um interessante efeito sinestésico. A narradora explica a dificuldade em encontrar músicos “de raiz”: “muitos dos melhores artistas ainda vêm do gueto. “Documento Especial “é o programa que permite o afloramento das opiniões mais diversificadas sobre o assunto. entre outros. que reveza depoimentos de artistas e jornalistas da Jamaica com cenas de rua e videoclips de reggae. veiculada no final de 1992 na Rede Bandeirantes.

associando-a com Marcus Garvey e também as “imagens proibidas” das comunidades rastafaris mais radicais. n° 15 . traz nessa mediação por um artista reconhecidamente ligado ao reggae roots (pois havia gravado nos anos 1980 a canção “Vamos Fugir” com a banda de Bob Marley) um viés de estranhamento. Outro representante desse grupo é “Baila Caribe: Jamaica”. voltado para a louvação 80 Revista Brasileira do Caribe. o qual é parte de uma série realizada por Belisário França que aborda o universo da música caribenha por intermédio de depoimentos literalmente recortados e colados no fundo paradisíaco. segundo a narração. mas é facilmente identificada pelos característicos turbantes cilíndricos). O uso da maconha é contextualizado. Goiânia. com a narração vaticinando que “a erva faz parte da cultura e da economia”. com uma temática social e sexual”. ecoando o formalismo dinâmico do pioneiro “Netos do Amaral”. O excesso de efeitos de edição produz um efeito de “consciência do dispositivo” que ao mesmo tempo dificulta o entendimento do texto e promove certo nível de reflexividade. Um transeunte com longos “dreads” menciona querer trabalhar por um “governo rasta”. Narrado pelo onipresente Gilberto Gil.Leonardo Vidigal “Jamaica. “os brancos são considerados inferiores”. O depoimento de um bobo dread que fala em “varrer o colonialismo e imperialismo” é contraposto ao da Ministra da Cultura da Jamaica. como os bobo dreads (que não foi chamada por este nome. vol. mas o rastafarianismo não é um movimento político. VIII. O tema da dança volta a aparecer no final do programa. garantindo que o “o que os rastas fazem é político. O discurso por ele proferido. quando o dancehall é apresentado como a “tradição dos sistemas de som dos anos 50 remodelado por recursos eletrônicos. outro que enverga as longas tranças emaranhadas. afirmando brevemente que seu governo “nunca discriminou os rastafaris”. o que é confrontado com o produtor Stafford Ashanti. mas espiritual”. nas quais. o paraíso do reggae” é o único dos programas produzidos no Brasil a mostrar a comunidade quilombola dos maroons.

Em um dado momento mostra um pouco do processo de prensagem de um compacto. Desse modo espera-se que os pressupostos teóricos examinados neste trabalho. Outros procuram se desvencilhar de tais modelos e tentam eles mesmos estabeleceremse como referência.. evocam recurso semelhante usado em “The harder they come”. chamada “Música Libre”. no sentido de estudar os possíveis problemas interpessoais ou institucionais derivados da incompreensão ou falta de informação relativa a características culturais de cunho comportamental. Notas 1 O conceito de comunicação intercultural trabalhado neste texto difere do que é normalmente utilizado na literatura disponível. e algumas de suas aplicações possam lançar uma luz diferente sobre os processos de comunicação intercultural. outra visão do universo jamaicano. com apresentação e direção de Carolina Sá. Já os travellings pelas ruas de Kingston./dez. recorrentes em todos os programas abordados. da ascensão do dancehall e para o desvinculamento do reggae da filosofia rastafari. tem seu sentido deslocado e reinventado. construídos a partir dos filmes jamaicanos e outras fontes iconográficas. desta vez exibida no GNT (canal a cabo da Rede Globo). evocando cena semelhante em “Rockers”.. A análise dos produtos audiovisuais produzidos no Brasil permite concluir que alguns deles procuram organizar o olhar no sentido de conformar a visão do espectador a certo conjunto de referenciais simbólicos audiovisuais. como restrições de 81 jul. O conceito da série “Baila Caribe” foi emulado nove anos depois em outra série. 2007 . que se refere na maioria das vezes a uma dimensão mais prática. Contribuir para a constituição de uma abordagem relacional sobre tais processos de contaminação e apropriação cultural é talvez o principal objetivo dessa investigação. Com uma duração maior do que o antecessor e com uma abordagem que enfatiza mais o conteúdo do que a forma consegue reinventar o cenário jamaicano de maneira mais relaxada. o que talvez seja mais condizente com a atmosfera local. que mostrou.Enredando Brasil/Jamaica.

de outro (2001). a vitoriosa campanha brasileira na Copa do Mundo de 1970 popularizou enormemente o futebol no país. Para Ahmad seria mais um meio de ignorar as diferenças de classe. denominadas por títulos que evocam apropriações locais das letras em inglês. Música Libre. 2 Tal direcionamento é quase sempre expresso no título dos audiovisuais estudados que foram produzidas no Brasil. ainda mantém as culturas à margem “em seu devido lugar”. como a homofobia. culminando na discreta. mas também possibilitou uma exposição exagerada de algumas características “fundamentalistas” e altamente questionáveis de alguns seguidores. como a ascensão de uma nova geração que voltou a assumir o discurso e o visual de tranças da época de Bob Marley. 2003). será construída ao longo do texto. mas invariavelmente ocorre no conteúdo. como contou Bob Marley em sua breve visita ao Brasil (em 1980). que classifica a cultura em “erudita” e “popular”. 3 4 Houve recentemente a chamada retomada dos “valores rastafari”. treinada pelo brasileiro Renê Simões na Copa de 1998. e a indignação pelas injustiças sociais. No sentido dado por Bakhtin (1987). por um lado. oferecendo em troca uma miscelânea de ofertas de consumo cultural para aplacar a sede de exotismo. mas altamente valorizada participação da Jamaica. Um exemplo claro está na área esportiva. tratamento dado a homens e mulheres. entre outras (Nair-Venugopal. Bonde do Rastafari. 5 6 7 82 Revista Brasileira do Caribe. A noção de comunicação entre culturas usada neste trabalho. apesar de valorizada e celebrada. n° 15 . pois. como Jamaica: Paraíso do Reggae. gênero e outras. Goiânia. O programa Netos do Amaral. particularmente a operada por Homi Bhabha. o país não se classificou para as Copas de 2002 e 2006. vêm sendo questionadas por erigir um novo estatuto da diferença. Algumas das noções de hibridismo. para usar a expressão de fundo escravista e colonialista que tal conceito visava combater. parte do corpus de análise. Nas produções jamaicanas tal associação não é explicitada no título. No entanto. movimento também conhecido como modern roots. Músicas de sucesso. VIII. o que teve consequências diversas. que. como um questionamento da representação de um produto ou manifestação cultural pela visão hegemônica. de cunho relacional. Baila Caribe.Leonardo Vidigal contato. vol.

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Brasil/Cuba. tendo como objetivo principal. Glauber Rocha. Goiânia. vol. nuances do seu nomadismo. Inspirando-se em conceitos deleuzianos. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 85 Revista Brasileira do Caribe. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. n° 15. gravita o argumento norteador desta reflexão. Brazil/Cuba Resumo O artigo analisa as relações entre o Brasil e o Caribe. VIII. influências ou reativações? Produção cinematográfica no Brasil e em Cuba como experiências desterritorializadas Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo “Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. 2007 . Trata-se de um enfoque produtivo da obra do cineasta brasileiro e de seus diálogos com artistas cubanos Palavras-Chave: Cinema Novo. pois.Migrações de idéias. de modo a destacar. a análise inclui o cineasta Glauber Rocha na categoria de pensadoresnômades. 85-107.” Glauber Rocha Abstract This study addresses Glauber Rocha´s performance with the objective of offering insights on some of the aspects of his actions in the 1969s and 1970s. It particularly focuses on the representations that emerge in his discourse revealing the idea of nomadism. nas representações que afloram do seu discurso. Keywords: New cinema. Glauber Rocha. em torno deste atributo.

igualmente nômades. concepto en torno al cual se va a nortear la reflexión de este artículo. Com este propósito. rastrear aspectos de suas ações nos anos sessenta e setenta. nuances do seu nomadismo. Na esteira do pensamento deleuziano. n° 15 . movida pela convicção de que. dentre outras formações que redesenham o cenário pós-colonial. Cuba se inscreve como um especial “lugar de sintonias”. vol. gravita o argumento norteador desta reflexão. desde as lidas preliminares as fontes indiciavam. Afinal. em configuração metonímica. 172) sublinha: É bom frisar que estamos tomando os termos pensador e artista quase como sinônimos. Glauber Rocha. Brasil/Cuba Sintonias. ao selecionar Cuba como referência. uma nomeação possível para as formações do terceiro mundo. VIII. não podemos negar que Deleuze tende a identificá-los pelo fato de ambos devotarem a vida à criação 86 Revista Brasileira do Caribe. El interés está centrado en el destaque de las representaciones que afloran en su discurso. de modo a destacar. pois. Shöpke (2004 p. faço-o não apenas estimulada pela profícua interdiscursividade que. mas ademais. nomadismos e pontes imaginárias Neste ensaio enfoco a performance do cineasta Glauber Rocha tendo como objetivo principal. Éstas son reveladoras de la idea del nomadismo. Goiânia. nas representações que afloram do seu discurso. Palabras Claves: Cine nuevo.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Resumen El estudio enfoca la performance del cineasta Glauber Rocha con el objetivo de profundizar en algunos aspectos de sus acciones em los años 60 y 70 del siglo XX . a despeito das diferenças que existem entre eles. nas “Terras do Sol”. Tais sintonias não escaparam ao horizonte nômade de Glauber Rocha e ensejaram diálogos entre “pensadores – artistas”. em torno deste atributo.

A carta. O fio condutor para tal performance convida a pensar na arte como a “feiticeira salvadora” (NIETZSCHE Apud SHÖPKE. que nos fazem crer na vida a ponto de afirmá-la e amá-la sob todas as circunstâncias. o cinema. “feiticeira salvadora”.Migrações de idéias. influências ou reativações?. o papel dos cineastas do terceiro mundo. o cinema novo e. em Santiago do Chile. a moral e metafísica). a seu colega e amigo cubano Alfredo Guevara. 2004. portanto. Ao encarecer por mais de uma vez. o pedido de divulgação do que nomeia como “carta-documento”. Todo pensador e artista nômade é necessariamente um criador. é preciso escolher dentre estas ilusões aquelas que nos fazem mais fortes. como que ungida pelo sopro da arte. Muito embora em outro momento e em outro contexto. a carta que escreve do exílio. em maio de 1971.. a voz de Glauber Rocha parece interagir com o enunciado filosófico acima transcrito. Para o filósofo: Se ela também é uma ilusão que nos faz viver./dez. 87 jul. em constante movimento de ruptura com modelos préestabelecidos. neste. p. 2007 . Exemplifica este encontro com a vida.. é um sítio discursivo no qual o “pensador-artista” reflete sobre o Brasil. Glauber Rocha escreveu: Meu querido Alfredo. na verdade. 123). 411). E somente a arte pode nos oferecer tal poder. como ocorre em tantas outras. ocasião em que metaforiza: “os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. pois é justamente em seu nomadismo que encontra o vetor que o impulsiona a agir e ousar. (no sentido mais estrito do termo). 1997 p. Diferentemente do sedentário. o “pensador-artista” nômade recusa a mera recognição e reivindica outro estatuto para as representações que constrói. especialmente os cubanos. se também é uma mentira (tal como a religião. espero que este documento possa ser lido com tranqüilidade pelos companheiros latino-americanos.

produtores ou mulheres” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES. no item que se segue. Por isto os artistas são tão necessários quanto os engenheiros. Em seguida. fornecem o suporte empírico para as incursões pretendidas. ‘Os artistas são engenheiros de uma ponte abstrata. lanço um olhar sobre as “pontes” estabelecidas entre Glauber Rocha e outros “pensadores-artistas” igualmente nômades. VIII. a biografia de Glauber Rocha mostra que não apenas o nomadismo das “pontes abstratas” ensejou suas errâncias. também no presente ensaio valho-me de “pontes imaginárias” para construir articulações cujo conjunto logre evidenciar o nomadismo de Glauber Rocha. concluindo: Brasil e Cuba em 88 Revista Brasileira do Caribe. vol. tomando como contraponto o mesmo atributo de seus colegas cubanos. Inclusive literalmente. Quando Marx denunciou a escravidão econômica do homem. selecionadas sob a forma de alguns fragmentos discursivos. É interessante observar que a força simbólica da imagem da ponte interpelou também o jovem cineasta Eryk Rocha.S. Segundo o filho de Glauber Rocha. sua proposta foi a de “criar uma ponte entre o imaginário da época e a atualidade” (F. estava pregando uma sociedade onde o homem não existisse em função da economia. seu tempo e sua obra”. n° 15 . no item “Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças”. Goiânia. Como se verá. para falar sobre seu celebrado documentário “Rocha que voa”. 41). “Glauber Rocha. p. em contexto recente. suas muitas ausências do Brasil constituem “um périplo romanesco.’( grifos meus). Ao final. 1997. Aliás. que a escolheu.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo porque pouco me importa os europeus. Espero que seja divulgado em Cine Cubano e em muitas outras publicações. Assim. um nomadismo radical e vital e centenas de cartas escritas de quartos de hotel. cujas performances. as “pontes” construídas se incumbem de situá-lo no conjunto de expressões culturais que fervilham na cena brasileira nos anos sessenta e setenta. entre as contigências do exílio ou não mais que ditadas por um peculiar e irriquieto temperamento. apartamentos provisórios dos amigos.P 15/07/04).

Naqueles já longínquos meados dos sessenta e primórdios dos setenta. sintonia rizomática. o relato da efetiva estada do nosso cineasta entre os cubanos constitui uma variável secundária. em meio a um cenário sombrio. em sua abrangência. mas. apesar de tudo. mesmo em meio às discordâncias. cujas etapas são reconhecidas pela efervescência cultural. No amplo leque das manifestações artísticas que povoam os anos sessenta e setenta. p. contando com a interlocução de autores que se ocuparam com o recorte temporal aqui considerado e aí se detiveram no viés das artes. cabendo enfatizar ao final destas anotações introdutórias. influências ou reativações?. 89 jul. rompeu fronteiras espaciais e fez da cultura. como que incansavelmente ali encontrando o referendo para nossas utopias de um mundo melhor.Migrações de idéias. ainda assim.. Conforme anunciado anteriormente./dez. a própria história do país sinalizou etapas. 38).. estratégias e táticas. denunciar e sonhar. Era “a hora e a vez” da chamada arte engajada brasileira. um modo de exorcizar os fantasmas que nos rondavam. Assim. Glauber Rocha. Era a possibilidade de entrever. um foro privilegiado. jovens universitários ou recém-formados. atendo ao “chamado da lembrança” e aos meus objetivos. seu tempo e sua obra Pertenço a uma geração que elegeu Glauber Rocha como uma espécie de porta-voz das nossas inquietações políticas. movimento que mobilizou artistas e receptores. 2007 . Cuba é tomada como referência metonímica do universo pós-colonial e este. Neste entendimento. a brecha possível para conscientizar. ajustadas às condições de resistência política que encontravam na arte. ver e rever a obra glauberiana significava para muitos de nós. de modo a destacar a argumentação que o presidiu. teimosas réstias de luz. é a força motriz do nomadismo glauberiano. enfocando um momento da vida brasileira. Caprichos da memória atualizam no presente “o chamado ao qual a lembrança responde” (BERGSON Apud BOSI. retomo alguns aspectos trabalhados no texto como um todo. ou bem por isso.

que. ao guri favelado e tantos outros atores anônimos cujo árduo cotidiano. As primeiras músicas consideradas de protesto. p. Navas (2001. Entendo que neste mesmo percurso é possível inscrever também a música brasileira do período. o talento de artistas e cantores brasileiros. enfim. A realidade do teatro. transfigura em resistência. n° 15 . aos herdeiros da nossa “democracia racial”. traziam alguns elementos de ruptura com o estilo consagrado por João Gilberto. celebrou e deu visibilidade. 2004. eram canções que escancaravam injustiças históricas em relação ao operário. 33). ao pescador. eram suportes de representações engajadas. o caráter ritualístico. cuja característica principal advém da elaboração harmônica. passa a fazer coro com a arte engajada. p. 341) considera que até o ano de 1964. “a catequese” e a conscientização davam o tom ao teatro engajado para. 341). depois da resistência. Nessa época os riscos de vida não serão literatura” (NAVAS. composta e cantada por Sérgio Ricardo e “Quem quiser encontrar o amor” de Geraldo Vandré e Carlos Lyra. Estas etapas. isto já nos primeiros anos da década de sessenta. que o emblemático ano de 1968. vai ser de violência. Goiânia. prisão e exílio. “discursos musicados”. aos beatos. elementos identificados com o movimento (NAPOLITANO. pautar-se pela tônica da denúncia.1 90 Revista Brasileira do Caribe. a partir dali. com suas especificidades permitiram ao estudioso resumir: “O caráter catequizador antes de 1964 e. mesmo o movimento da chamada Bossa Nova. “Zelão”. mas mantinham a essência da sofisticação instrumental.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo Referindo-se ao mundo do teatro. ou na entronização do universo sertanejo. Em suma. fosse nas férteis articulações entre as vozes do morro e as das cidades. VIII. depois dessa data. pois. E identificadas com o movimento estavam também variantes desta expressão musical engajada. aos homens e mulheres do campo. complexidade harmônica e sutileza vocal. 2001. responderão pela atração à história. vol. p.

com a “Marcha da Quarta feira de Cinzas”. se era possível produzir industrialmente este mesmo folclore. sobretudo letras. cuja peça teatral de mesmo nome. de Chico Buarque.B. Já no caso do cinema.. a chamada arte engajada. 402) reproduz o discurso irônico sobre a perfomance do artista Sérgio Ricardo e sua apropriação dos cantores nordestinos. estreou em São Paulo. pelo menos no caso da música. quase sempre longas.Migrações de idéias. no conjunto das manifestações culturais da época. pinçada do espetáculo “Opinião”. É preciso lembrar que. Líricas como “A Banda”. À televisão. Lembrando o festival de música da TV “Excelsior” no ano de 1965. não estimulavam maiores incursões da indústria cultural. cabia divulgar tais eventos que mobilizavam torcidas e traziam para o palco diversos modos de comunicação musical. 2007 . que um público ávido decorava. no binômio “qualidade-discurso engajado”. Foi o que ocorreu. arregimentadoras como “Pra não dizer que não falei das flores”. a apropriação de “discursos cantados” no teatro. cuja qualidade foi reconhecida por muitos. comoventes como “Arrastão”. de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. cujo repertório se assentava.. pois as trilhas sonoras dos filmes. além do mais para quê.P.. ritmos. não escapou à voracidade da indústria cultural. Aos festivais seguiam-se os lançamentos dos discos. ou nas trilhas dos filmes obteve alguns sucessos no rádio e no mercado discográfico. o teatro e o cinema. assim como ocorrera no filme “Deus e o diabo na Terra do Sol”: “Quem queria ouvir aquilo? E. muito embora dialogassem com a música. p. com faturamento assegurado. no ano de 1964 e “Roda Viva”. sigla mágica que rotulou um filão da música popular brasileira. instrumentos e. Castro (1990. influências ou reativações?. em janeiro de 1968. Enquanto isso. não logravam alcançar o mesmo sucesso comercial./dez. com harmonias européias e ainda vencer festivais?” Não seria o 91 jul. tais migrações foram menos efetivas. arranjos. apresentado no Rio de Janeiro. estas peças musicais guardavam em comum o engajamento com o povo brasileiro2. por exemplo. Tal cenário traz à lembrança os chamados festivais da M. Somente em algumas ocasiões. vitrine privilegiada.

festinhas e nos sempre povoados centros acadêmicos. Referindo-se ao universo do teatro. cantadas nas muitas reuniões. pois é uma. vol. n° 15 . aliás. escapando ao consensual. e reterritorialização. manifestos. A importância desse legado “radical” e alguns dos sentidos possíveis da sua movente tônica de desterritorialização. transbordantes. a narrativa “pode ser contada até por um ginasiano” na segunda. escapa a estas anotações. p. até porque “a autocrítica desenvolvida pelo cinema tinha um sentido muito mais radical e procurava repensar a difícil situação existencial do jovem intelectual de esquerda. Uma resposta breve convidaria a pensar nos mesmos estudantes que compareciam aos festivais. projetos. Trazendo a imagem para o universo glauberiano. pretensão que. reveladores do seu talento e do seu modo de representação da realidade. Se no primeiro. correspondências.1986 p. são aspectos que pontuam a trajetória de Glauber Rocha e dão suporte ao seu nomadismo5. Bem por isso. entrevistas e um repertório de frases e slogans. não estava na preocupação do cinema novo4. ela mantém a pertinência. pois. a plurivocidade das ações abre-se para um sem número de possibilidades interpretativas. elas se consubstanciaram em filmes. 54). Goiânia. Desterritorializações: câmeras nas mãos e idéias nas cabeças Idéias não faltaram a Glauber Rocha. 2004. seja na leitura e releitura dos seus filmes. aliás. pois a intenção deste item é não mais que desenhar um breve painel3. integravam um público consumidor de classe média e expressavam seu agrado conhecendo o repertório das trilhas sonoras. assistiam aos filmes.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo caso de retomar a polêmica. 192). seja na pluraridade 92 Revista Brasileira do Caribe. o público privilegiado do cinema novo” (NAPOLITANO. mas não é unívoca” (ECO. um tipo de sucesso alcançado pelas mãos da indústria cultural. “a ação de Hamlet fez e fará correr rios de tinta. VIII. tomando Hamlet como exemplo. Mas na verdade. Eco contrasta as vertentes do enredo e da ação.

e América Latyna” (GLAUBER ROCHA Apud GOMES.. suas ações e seu legado ainda hoje interpelam a muitos. música. impressionaram-me os “rios de tinta” que me chegaram. no ano 1980 afirmou. para a “celebração da celebração”. U. a suspensão máxima imposta pela morte. desde as primeiras incursões dedicadas à elaboração deste ensaio. já ao final dos anos cinqüenta. claro. Ázya. 93 jul.Migrações de idéias. Áfryca. 1997. política. 175). p. com a ortografia que se permitira cunhar: “o movimento do Kynema novo. 170). é preciso que estejamos no mesmo barco. cuja obra logra transcender até mesmo. de publicações centradas na obra de Glauber Rocha. ao alastrar-se. pois. tomou o poder cinematográfico no Brazyl em 1962 (independente dos fluxos paralelos) fundando novas fronteyras criativas e comerciais em terras de Oropa. cinema. interessada desde os tempos de estudante pelos filmes e pela trajetória de Glauber Rocha.A. Deleuze. partilhando “uma deriva. 2004. para meus objetivos. literatura e. p. capitaneadas por Glauber Rocha. aos cuidados dos especialistas. como espaços de suas “derivas”. tertúlias. Uma trajetória marcada por turbulências e inquietações é apanágio do “artista-nômade”. para uma espécie de “crítica da crítica” ou. Não mais que “louca por cinema” e conforme anteriormente mencionado. Percebo que a chama viva da polêmica. O “barco” dos precursores do chamado cinema novo. na esteira do pensamento nietzschiano. materializadas em acalorados debates sobre teatro. será suficiente reter alguns pontos do movimento liderado pelo cineasta brasileiro que. pondera sobre a audácia de um pensamento que.. sobre tudo aos estudiosos da Sétima Arte. influências ou reativações?. Deixo o inventário compromissado com os rigores cronológicos. 2007 . mas especificamente alguns bares do Rio de Janeiro. desdobra-se da retomada das críticas coevas aos filmes. um momento de deriva ou de desterritorialização” (DELEUZE Apud SHÖPKE. começando a atuar desde 1959. para entendermos. quase sempre. tinha como tripulantes um grupo de jovens cineastas que escolheu a cidade do Rio de Janeiro.S./dez.

o dramaturgo resumiu. a revista direitista Fatos e Fotos publicou a notícia em tom de denúncia política” (GLAUBER Apud BENTES. o cinema novo entra em declínio na segunda metade dos anos setenta. Goiânia. não apenas comercialmente transpunha fronteira. se pode falar em unanimidade. p. o rotularam de “confuso” e nisto. “toda unanimidade é burra”. pelo menos por ocasião do seu lançamento em 1967. vol. sequer nos momentos em que Glauber se consagrou como gênio em algumas hostes. Se. quanto são reconhecidos seu talento e seu conservadorismo. Nossa historicamente construída condição de receptores de idéias. Afinal. no caso de Glauber Rocha. Da mesma carta-documento enviada ao cineasta cubano Alfredo Guevara e já citada em páginas anteriores. ao ensejo do cinema novo. n° 15 . trata-se de “um ideograma chinês de cabeça para baixo”. Setores de esquerda criticaram o filme por sua liberdade narrativa. Na verdade. bastante persuasivo quanto à troca de sinais acima referida. em blague hoje tão conhecida no Brasil. a repercussão de “Terra em Transe”. esta nova performance cinematográfica do terceiro mundo. conforme ironizou o jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. não obstante as tantas resistências que pontuam o cenário pós-colonial. seria impossível. 1997. destaco outro fragmento discursivo. de resto. No Brasil. Se não vejamos: “Quando os estudantes da Sorbonne apresentavam uma tese demonstrando que Weekend. jamais por ele próprio negado. conheceu episódicas trocas de sinais.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo De fato. no que possa parecer um exagero. 407) (grifos meus). Prima della Rivoluzione e ‘Terra em Transe tinham sido os filmes que mais influenciaram o movimento de maio de 1968’. VIII. Sobre “Terra em Transe”. entre avanços e recuos e em meio a uma conjuntura política adversa. a unanimidade para além de “burra”. que encontrou em Nelson Rodrigues. um irônico e conciso sujeito-suporte. se “Deus e o diabo na terra do sol” foi aplaudido quase unanimemente no ano de 1964. 94 Revista Brasileira do Caribe. construíram discursos parafrásticos em relação à crítica de direita. não contou com a mesma receptividade.

apesar dos ardis de linguagem. guarda em comum a característica de uma linguagem cinematográfica inovadora que./dez.U. a reiterar que a obra como um todo. ao lado de certa intencionalidade. E não poderia ser de outra forma. 445). Limito-me. sendo liberado no início de maio. influências ou reativações?.. 95 jul. evidenciada no “discurso confuso”. Pensar na análise desses discursos nas vertentes do discurso do emissor (Glauber Rocha) e nos dos receptores (a crítica). uma forma inclusive de fraturar o real com intenções artísticas” (BAZIN. pois. 184). mas que se ocultava nos jogos do pensamento.P.Migrações de idéias. O filme “Terra em Transe” durante abril de 1967 foi proibido em todo o território nacional. não escaparam aos olhos e ouvidos atentos da ditatura.. Gomes (1997. os poetas e os artistas aprenderam a dizer verdades duras sob o manto da forma requintada. p. posto que pautadas na busca de sentidos e representações de “Terra em Transe”: Era uma interpretação brilhante e de grande beleza literária. ao se descolar da confortável reprodução mimética. Sobretudo desde o barroco. Prosseguir rastreando a exuberante filmografia de Glauber Rocha seria extrapolar os limites disponibilizados para estas reflexões. (teatro universitário) recebeu aplausos ao longo da sessão. que provocou perplexidade. dominado pelo latifúndio e pelos interesses das classes privilegiadas. seria necessário pensar nas condições do momento em que o filme foi produzido. que conseguiu captar seus sentidos. sob a alegação de subversão e cunho ofensivo à igreja católica. 2007 . 1997. portanto. para confundir a violência do poder. problematiza a realidade. promovendo “uma reordenação e não uma submissão visual. não contente com a abundância informacional com que brinda seus leitores. p. desenvolve análise e crítica dignas de transcrição. Cabe lembrar que a exibição em São Paulo organizada pelo T. Glauber também precisara dissimular a denúncia com os ardis formais de uma linguagem extremamente elaborada. Ocorre que os equipamentos retóricos que não ficaram claros a muitos críticos. ANDRÉ Apud GOMES.S. para escapar ao assédio da ditadura. a quem venho recorrendo para a construção deste item. Eldorado simplesmente era o Brasil injusto.

Para os objetivos deste artigo e em consonância com os referenciais adotados. Cuba significou. recorte que desdobra das perguntas que faço ao tema. são. Se. Neste reconhecimento. Goiânia. onde o diverso e uno se imbricam. algumas das respostas. Glauber Rocha reconhecia o cinema latinoamericano. também estes ungidos pela arte“feiticeira salvadora”. considero importante ressaltar que a sintonia observada entre as práticas e representações de Glauber Rocha e as dos cineastas cubanos. tanto conhecer como re-conhecer. 256). nas trilhas do cinema cubano e do cinema novo brasileiro (GOMES. e tripulantes do mesmo “barco”. n° 15 . não poderiam ser buscadas na perspectiva da mera “influência”.A. atos de criação e não de recognição (SHÖPKE. já que. Sequer seria o caso de estabelecer comparações entre iniciativas e posturas. sem dúvida um importante ponto de inflexão na trajetória de Glauber Rocha. cineastas e intelectuais cubanos.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo nômades. muito embora as articulações tenham sido muitas. vol. centro em torno do qual se mobilizavam artistas. VIII. 96 Revista Brasileira do Caribe. este conjunto deve ser destacado. intelectuais e cineastas. independentemente da precedência das ações. p.I. as “intenções artísticas” do pensador e cineasta.C. publicações ou filmes. Ademais de sua estada. É neste afã de conhecer e de re-conhecer que Glauber Rocha reconhece a porosidade das fronteiras territoriais que. uma correspondência intensa atesta as afinidades entre Glauber Rocha. que floresceu nos anos sessenta e estruturou-se como movimento.C. ocupados com primazia das datas de veiculações de projetos. como exemplo empírico. 184). diferentemente sedentário. o que este suporte enseja é a reflexão sobre as sintonias de uma experiência nômade e desterritorializada. Não por acaso. Lá estava o Instituto Cubano de Artes Cinematográficas. não conseguem apagar sintonias na diversidade do cenário pós-colonial. 1997. pautadas no viés dos rigores cronológicos. sintonizados com a arte e com a “Ilha”. para o nômade. desterritorializando-se e reterritorializando-se. o I. 2004. sempre se inscrevem no gesto criador. p.

intencionalmente invocado. cujo nomadismo terá por certo lhe ensejado a reativação do conceito de diferença. o mesmo ocorre com os praticamente intermináveis diálogos nos quais Nietzsche comparece cumprindo a função do “discurso de outrem”. para. tais sejam. posto que falo em sintonias. uma postura que se aparta da mera recognição. 2007 . inspirando-se em Nietzsche. A opção por tematizar as repercussões de perfis nômades no cenário pós-colonial sugeriu a construção de um texto centrado em Glauber Rocha. em modos de ver de sujeitos.. pois o próprio do novo. influências ou reativações?. Trata-se. sem que por isto. a partir daí. matiza o pensamento deleuziano. elementos que remontam ao mundo grego. de uma “constelação de agenciamentos”. Refiro-me aqui. esta complexa grade de idéias. é provocar no pensamento forças que não são as das recognição”.. Glauber Rocha e os cineastas cubanos. assim como o faz Shöpke (2004. Deleuze por exemplo. Antes cabe falar em reativação de representações e ações. pela inovação. justamente. portanto. matrizes de sentido que integram pensamentos. Aristóteles. Heráclito. Deleuze (1988. agrega ou entrelaça às suas reflexões. conforme venho enfatizando. ora reelaborada. presentes. Ora o arquivo constituído pelas obras e ações dos “pensadores-artistas” aqui referidos. Seria um esforço improfícuo. pela provocação. p.Migrações de idéias. Inspiradora. porém ele lhe infunde o seu tom./dez. para ficarmos apenas com alguns dos interlocutores. em grandes enunciações. 48-66) ao conceito de “diferença” em Platão. Parmênides. destaca-se. expressão adotada por Deleuze ao lado das noções de “maquinação” e “reativação” que não incluem a idéia de 97 jul. ora questionada. enleada pela noção de diferença e que faz do reconhecimento. p. ora desdobrada em complexas ramificações. 205) reflete: “O que se estabelece no novo não precisamente o novo. isto é a diferença. então. se constituam como decalques. Em dado momento. Saltando no tempo. articulá-lo às pontes estabelecidas com os cubanos. vale insistir tomar para tanto o rumo das “influências”. sobre a força do pensamento.

Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo

“influência”, para o filósofo, um termo fraco e inapropriado para designar a circulação de idéias que anima os pensadores nômades (SHÖPKE, 2004, p.201). No caso da comunidade cubana e, na impossibilidade de todos mencionar e, mais que isto, comentar as respectivas ações, limitome a destacar algumas evidências empíricas, articulando-as a alguns nomes e propostas. Por exemplo, o “Tercer Cine” de Fernando Solanas assim como Júlio Garcia Espinosa, com seu “Cine Imperfecto”, desenvolveram ações que estão, para a renovação do cinema latino-americano, em sublinhada sintonia com a performance de Glauber Rocha, com o seu cinema novo. Seleciono em Espinosa (1996, p. 125) importantes reflexões sobre as motivações primeiras do “Nuevo Cine Latinoamericano” e as reativações promovidas pelo neo-realismo italiano, no caso, “ponte abstrata” das suas incursões preliminares:
Un primer puente fue el neorealismo italiano. El Nuevo Cine Latinoamericano daba sus primeros pasos cargados de una indiscutible autenticidad. No fueron actitudes miméticas las que nos motivaron. El neorealismo no era un estilo a copiar, era una actitud ante el cine que había de cambiar y ante la vida que había que transformar. Nada podía atizar mejor nuestras esperanzas y nuestras ilusiones. La relación resultó tan fecunda y consecuente que sus huellas vivirán siempre en cualquier obra del cine latinoamericano. No obstante, ya avanzados los años sesenta, la realidad de nuestros países poco tenía que ver con la de la postguerra italiana. En nuestras vidas el espíritu cambio crecía, se aceleraba y se materializaba en acciones de lucha concreta. ‘La identidad se buscaba rompiendo con la máscara de identidad que se nos ofrecía. Y nosotros, cineastas nos identificábamos buscando una identidad que sabíamos única y, a la vez, múltiple y diversa’. (grifos meus). 6

Encontro justificativa para tão longa transcrição por entender que, refraseada ou recortada em pequenos fragmentos, a seqüência

98 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

Migrações de idéias, influências ou reativações?...

assim obtida privaria o leitor de acompanhar o informacional e as argumentações do cineasta Espinosa, cuja clareza me libera de retomar os propósitos de um grupo, e as reativações face ao neorealismo italiano observo ademais, que a metáfora da “ponte” parece resultar de uma acordo tácito entre estes nômades. A Alfredo Guevara coube o estabelecimento da “ponte” inicial entre a arte cinematográfica brasileira e a cubana. Em cartaresposta a Glauber Rocha escrita em 4 de fevereiro de 1961, o cineasta cubano agradece pelo envio de fotografias do filme “Barravento” e também pelos interessantes artigos recebidos. Por sua parte, comunica o envio de fotografias e revistas, informando a disposição da Revista del Cine Cubano e da cinemateca de Cuba de enviar todas as publicações e notícias sobre o cinema cubano. No aguardo da exibição de “Barravento” em Cuba, Alfredo Guevara argumenta, na mesma carta: “Sabemos hasta qué punto tienen contacto nuestras realidades y culturas, cuán cercano, mucho más de lo que uno y otro saben – están nuestros pueblos, y como en la psicología, las costumbres, los problemas, los sueños, la música y el arte se encuentra una común raíz” (GLAUBER ROCHA Apud BENTES, 1997, p. 36)7. Estas sintonias, estas “raízes comuns”, desde sempre percebidas por Glauber Rocha, se explicitam por ocasião do exílio, ao ensejo da experiência cotidiana. Nas representações de Glauber Rocha, África e Cuba significavam “duas Bahias”. É preciso reter, entretanto, que esta identificação que se patenteia na socialidade do dia-a-dia, ao longo do processo, passou por impasses. Em Cuba, Glauber Rocha viveu entre os anos de 1971 e 1972 e, na feliz expressão de Bentes (1997, p. 49), a Ilha foi para ele “uma espécie de laboratório político”. Neste aspecto, seu entusiasmo inicial experimentou frustrações e desencantamento. O ideal era o mesmo, assim como eram as mesmas, as sintonias promovidas pelas sempre lembradas “raízes”, os amigos eram muitos, mas, a cotidianidade da ambiência política, acabou por assustá-lo. “Admitia que permanecendo em

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Cuba oficializava seu rompimento com o Brasil e, isto é o que ele menos desejava. (GOMES, 1997, p. 163). Por outro lado, houve ruídos ao final de sua estada, provocados pelos questionamentos quanto à retirada dos créditos cubanos ao filme “História do Brasil”. Tais ruídos, porém, não foram maiores que o apreço cultivado entre os “hermanos” cubanos. Por ocasião da morte de Glauber, o amigo primeiro, Alfredo Guevara, homenageou-o com uma edição da revista Cine Cubano, com foto de capa e inclusão de algumas cartas (GOMES, 1997, p. 263 e 264). Nelas, como venho destacando, evidenciam-se os atributos nômades destes “pensadores-artistas”. Sintonias quanto às práticas e representações como as que venho, aqui e acolá, garimpando neste item, pela impossibilidade de detalhá-las neste espaço, foram também percebidas por Villaça (2004) em estudo igualmente centrado em Glauber Rocha8. A autora observa a repercussão da obra glauberiana em Cuba, na segunda metade da década de 60. De fato, “Terra em Transe” (1967) e “Memórias del subdesarrollo” (1968), do cineasta cubano Tomás Gutierréz Alea, guardam em comum vários elementos. Por exemplo, a construção das tramas em torno de personagens interpelados por crises existenciais e identitárias, os monólogos, as trilhas sonoras inovadoras e uma linguagem aberta que dista dos convencionalismos lineares. “Pensador-artista”, assim como foi Glauber Rocha, Alea discorre sobre seu fazer, em um conjunto de entrevistas publicadas no ano de 1989. Chamou minha atenção à imagem por ele adotada para refletir sobre a responsabilidade do cineasta que, ao mesmo tempo, deve preocupar-se com o plano ideológico e o estético.
Jamás he pensado que estoy libre de esa responsabilidad, vivo en una sociedad con la que quiero tener una relación productiva. Al mismo tiempo no puedo olvidar que lo que estoy haciendo es un producto muy particular. ‘No soy un ingeniero, un constructor de puentes, un economista. Soy un cineasta. Lo que hago es fundamentalmente un producto

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estético que cumple una función social’ (ALEA Apud OROZ 1989 p. 19)9 (grifos meus).

A julgar, pelo que veio, insistindo desde o ínicio, Glauber Rocha, sintonizado lhe devolveria a reflexão completando-a, pois o ‘pensador-artista’ é “engenheiro de uma ponte abstrata”. Ao construí-la, estes nômades guiadas pelas mãos da ‘feiticeira- salvadora’, se re-conhecem na mesma missão para a qual dedicam suas vidas. Bem por isso, o já lembrado Espinosa, mais uma vez participa do diálogo lembrando que: “... el arte, como la vida, está siempre en una búsqueda permanente de su identidad. De ahí su importancia y su grandeza. El arte, en este caso el cine, que dé por concluida la búsqueda de su identidad, es un cine” (ESPINOSA: 1996, 123) 10 . Esta busca de identidade e este compromisso com a vida, com a arte e com a estética, não poderiam ser procurados em linguagens cinematográficas alhures, pois, ainda que tecnicamente perfeitas, a estas faltaria a sintonia com a arte compromissada. Assim, no mesmo barco desterritorializado, os ‘pensadoresnômades’ reuniram os seus esforços em torno do melhor do seu fazer, já que: “não é um filme, mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim ao público, a consciência da sua própria existência”, conforme lembra Glauber Rocha nas palavras finais da sua Estética da Fome (GLAUBER ROCHA Apud GOMES, 1997, p.599). Prosseguir garimpando sintonias, entre os cineastas das ‘terras do sol’, seria lembrar muitos outros nomes de tripulantes do mesmo barco, já para não falar da curiosidade com que me peguei, ao saber que não apenas homens, o integravam. Nele estava, por exemplo, a documentarista Sara Gomes, cuja trajetória chamou a atenção do jovem cineasta Eryck Rocha (F.S.P. 15/07/04). Em Eryk encontro também, subsídios que corroboram o argumento norteador deste ensaio. Entrevistado pelo suplemento Domingo, do jornal peruano La Republica, em 4 de agosto de 2002, ele avalia: “Meu pai foi um nômade pós-moderno em plena

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década de 60. Imaginas? Adiantou-se à sua época, tinha um pensamento vanguardista e lutou por uma ideologia, autenticamente latino–americana. Muitas das coisas que defendia à época são vigentes agora. Creio que sua obra é um baú muito grande, que dia-a-dia, deveria ser redescoberta, reinterpretada”11. Neste nomadismo, a passagem de Glauber Rocha pela ‘ Ilha’ constitui, ao mesmo tempo, um porto seguro e uma ‘revolução dentro da revolução’, pois, “no auge das suas inquietações estéticas e políticas, o cineasta baiano filmou, agitou e polemizou como nunca em Cuba” (F.S.P. 15/07/04). Afinal, é atributo dos desterritorializados, este ‘sentir-se em casa’. De Havana, Glauber escreve para o cineasta Cacá Diegues: “estou em Recife muito feliz, estou na Bahia muito feliz, e todo caminho dá no mar [...] Soy feliz y tengo saudades” (GLAUBER
ROCHA Apud GOMES , 1997, p.432).

Bem sem vê, pelo fragmento discursivo acima, o que significou o cotidiano em Cuba, nas representações de Glauber Rocha. Especular sobre as condições de significação de tal sintonia, convida ao diálogo com pensadores cuja concepção do identitário se assenta no lugar de confluência do múltiplo aberto ao diverso e ao movente, onde o ‘reinado do ser é substituído pelo sendo’ (GLISSANT Apud BERND, 2004, p . 104 ). Algumas reflexões que desdobram deste modo de ver, aparecem a seguir, no próximo e último item.

Concluindo: Brasil e Cuba, em sintonia rizomática
Conforme lembra a acima citada Bernd (2004, p.101), os enfoques de Glissant e Chamoiseau quanto às questões identitárias, dialogam com as idéias de Deleuze e Guattari, pensadores que, como se viu, foram lembrados ao longo do presente texto. Glissant e Chamoiseau 12 se opõem aos integrismos e fundamentalismos dos discursos convencionais, quando a questão

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a partir de um ponto central em relação ao qual remonta cada elemento local. mas sugerindo entrelaçamentos./dez.. transe histórico. 322 ). que só na viagem e através dela. é possível se encontrar as raízes mais secretas do mistério dos homens e das sociedades que constroem e destroem: as suas mitologias. Dir-se-ia. construir e destruir mitologias é viagem incessante. Glauber é este cineasta [.Migrações de idéias. influências ou reativações?. é noção que remete à idéia de raízes múltiplas e abrangentes. Em outro contexto e com outra conotação. onde ele define os sistemas de caules subterrâneos de plantas flexíveis que dão brotos e raízes adventícias em sua parte inferior (GUATTARI. bem como o fazem os ‘pensadores-nômades’. é a identidade. p. Desta percepção partilha o historiador e poeta: Suprimir diferenças entre o passado. 2007 . p. Nestas ‘conexões transversais’ encontro os suportes do nomadismo de Glauber Rocha. centrá-los ou cercálos.” (LOPES Apud GLAUBER ROCHA. ao contrário.. se reterritorializam.. O termo ‘rizoma’ foi tomado por empréstimo à Botânica.coloniais. estabelecer conexões transversais. que. 246). no qual as temporalidades. sem que se possa. Elas ressoam rizomaticamente dos ‘caules subterrâneos de plantas flexíveis’ cujas raízes multi-seculares se plantaram no solo fecundo dos territórios pós. 1983. ROLNIK. para ambos. 1996.].. sugeridos por ele e por Deleuze: Os diagramas arborescentes procedem por hierarquias sucessivas. podem derivar infinitamente. Ora. Guattari explica a adoção dos termos ‘rizoma’ e ‘rizomático’. e dos cineastas cubanos sintonizados quanto às representações que construíram sobre o papel da arte cinematográfica para os povos do Terceiro Mundo. presente e futuro 103 jul. secundarizando as construções das fronteiras espaciais e sua importância. se entrecruzam e os territórios se desterritorializam. João Lopes reflete: “se há cineasta a que convenha a designação de nômade. Os sistemas em rizoma ou ‘ em treliça’.

Nestas águas. ‘rios de tinta’. dentre outros. Notas Refiro-me. naturalmente à frente – mas também da popular e da folclórica. Vinícius de Morais. o fragmento acima sugere conexões e pontes com a trajetória de Glauber Rocha. tendo sido um pesquisador das fontes nordestinas da música interiorana. na polissemia de que se reveste tal expressão e sua palavra. Edu Lobo e Geraldo Vandré. p 12 ). Geraldo Vandré. Elis Regina e Maria Betânia. 2003. tanto em justaposição de som e imagem. suas viagens. A qualidade das trilhas sonoras dos filmes de Glauber Rocha foi reconhecida por setores do Brasil e do exterior segundo Gomes (op cit. Edu Lobo. VIII. Nara Leão. O valor de um homem é a sua palavra (LEONARDI. nem sempre entendida. Paulo Perdigão dedicou todo um item de seu ensaio ‘Ficha Filmográgica’. Caetano Veloso. por exemplo. todas as seqüências enfáticas. n° 15 . Gilberto Gil. Carlos Lyra. Chico Buarque. No espaço discursivo da poesia e na riqueza das imagens. são portadoras de uma infra-estrutura despertada pela música. Goiânia. vol.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo È uma forma de viajar: Saio de meu próprio nicho e participo da vida de outros. lembrando que no filme. quanto na subseqüência da ação dramática e seu eco musical” 3 104 Revista Brasileira do Caribe. incluído no livro ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ de 1965 à importância da música para Glauber. este breve ensaio se junta como gota atraída pelas sintonias de alguém que pertence a uma geração que desde logo aprendeu a admirar Glauber Rocha. 1 2 Os autores das músicas são respectivamente. Polêmica. a ‘palavra’ de Glauber Rocha e as representações que a ela subjazem motivou e motivará. seu nomadismo. por certo. pp 432 – 433 ) “ele gostava não apenas de música clássica – Villa-Lobos. Em seu afã de registrar a mensagem dos cantadores ou dos violeiros cegos. João do Vale. ao repertório. mas sempre sintonizada com os que com ele partilharam e partilham ainda o mesmo barco. Chico Buarque.

2007 . Nada podia atiçar melhor nossas esperanças e nossas ilusões. Rolunik op cit p. se acelerava e se materializava em ações de luta concreta.. cineastas. do ponto de 8 105 jul. Em nossas vidas..Migrações de idéias. quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente “em casa”. muito mais que alguns sabem. (tradução livre). Uma primeira ponte foi o neo-realismo italiano. os sonhos.] Ele é um conjunto dos projetos e de representações nos quais vai desembocar.. a realidade de nossos países pouco tinha a ver com a da pósguerra italiana. A relação resultou tão fecunda e conseqüente que suas marcas viveram sempre em qualquer obra do cinema latino americano. pragmaticamente. de investimentos. Buscava-se a identidade rompendo com a máscara de identidade que nos era oferecida. se encontra uma raiz comum. O território pode se desterritorializar. O neo-realismo não era um estilo a copiar. engajar-se em linha de fuga [. quão perto. abrir-se. 6 7 Sabemos até que ponto têm contacto nossas realidades e culturas. culturais estéticos. [. E nós. O novo cinema latino americano dava seus primeiros passos carregados de uma indiscutível autenticidade. era uma atitude perante o cinema que havia de mudar e perante a vida. que ultrapassa o uso que dela fazem a etologia e a etnologia [./dez.] o território poder ser relativo tanto a um espaço vivido. os problemas. mútipla e diversa” (tradução livre). isto é. Não fora atitudes miméticas que nos motivaram. 4 O repertório dos filmes será enfocado mais adiante. toda uma série de comportamentos.] A reterritorialização consistirá numa tentativa de recomposição de um território engajado num processo desterritorializante (Guattari... a noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo. de autoria da historiadora Mariana Martins Villaça. a música e na arte.. 323). Não obstante já avançados nos anos sessenta. nos identificávamos buscando uma identidade que sabíamos única e ao mesmo tempo. nos tempos e nos espaços sociais. os costumes.. e como na psicologia. O excelente artigo “América Nuestra e o cinema cubano”.. dialoga com o presente ensaio. que havia de se transformar. o espírito de mudança crescia. influências ou reativações?. estão nossos povos. 5 Territorialidade/desterritorialização/reterritorialização são noções caras ao referencial proposto por Guattari e Deleuze em seus estudos voltados para a problemática das identidades. Segundo Guattari. cognitivos.

11 Tradução livre do texto publicado. SP: Boitempo. S. Écrire en pays dominé. 1997.J: Ed. CASTRO. SP: Companhia das Letras. 1997 . 4/08/2002): “Mi padre fue un nómada posmoderno en plena década del 60. Traité du tout.Maria Terezinha Ferraz Negrão de Melo vista temático. 106 Revista Brasileira do Caribe. tenía un pensamiento vanguardista y luchó por una ideologia auténticamente latinoamericana. entretanto. Te imaginas se adelantó a su época. que dá por concluída a busca da identidade.” Neste aspecto. Sou um cineasta. (tradução livre). está sempre numa busca permanente da sua identidade. um construtor de pontes. 7 Letras. Zila: “O Elogio da Crioulidade: o conceito de Hibridação a partir dos autores francófonos do Caribe”. reinterpretada. neste caso. Galimard. As abordagens. 9 10 “A arte. Oscilação e Simulacro. Não sou um engenheiro.) Cartas ao Mundo/Glauber Rocha. A história e as histórias da bossa nova. 2003. 2004. In. Bernd menciona pontualmente os estudos de Chamoiseau. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. Hibridismo & outras misturas. Creo que su obra es un baúl muy grande que día a día debería ser redescubierta. Paris. Cinema brasileiro (anos 60-70): Dissimetria. é um cinema morto” (tradução livre). vivo em uma sociedade com a qual quero manter uma relação produtiva. VIII. SP: Companhia da Letras.) Margens da Cultura: mestiçagem.monde. vol. o cinema. Luis Cláudio da. Édouard. O que faço é fundamentalmente um produto estético que cumpre uma função social. Chega de saudades. BOSI.: Ateliê Editorial. Ecléa. Benjamim.P. Paris. Ao mesmo tempo não posso esquecer que o que estou fazendo é um produto muito particular. pelo jornal peruano La Republica (suplemento Domingo. Daí sua importância e sua grandeza. Goiânia. Galimard. têm modos distintos quanto à construção do objeto e os referenciais teóricos adotados. BERND. Muchas de las cosas que defendía en ese entonces ahora siguen vigentes. R. Ivana (Org. 12 Bibliografia BENTES. 2000. Patrick. 1990 COSTA. um economista. Ruy. A arte. como a vida. “Jamais pensei que estou livre dessa responsabilidade. 1997 e ao de Glissant. Abdala Jr (org. n° 15 .

GOMES.R. R. Glauber. “El legado Glauber Rocha”. 2ª Ed. 5. Alhanbra/Embrafilme. Gilles. NAPOLITANO.: Ed 34. 107 jul. GUATARI.In: Revista Brasileira de História.. Conversações: 1972-1990. VILLAÇA.. DELEUZE. Menezes de.2002. LEONARDI./dez.: Ed 34. Mauro.. ROCHA. 4 de agosto del 2002. O século do cinema.J.br/scielo. nº 29. Suely: Micropolítica: Cartografias do Desejo. Rio de Janeiro: Instituto Diversidade Brasil. RJ: Contraponto S. 2003. Mariana Martins. R. Félix e ROLNIK. SOUZA. J. Hibridismo & outras misturas. no. Carlos Teixeira: Glauber Rocha.P. Raízes e Errantes.. “América Nuestra – Glauber Rocha e o cinema cubano”. Júlio Garcia. http/ :www..com. 2007 .larepublica. Victor Paes de Barros: A Arte de Viajar à Deriva e Ressurgir com Paixão. 1989. In Revista do patrimônio histórico.P/EDUSP. 2004.J. 2004.Migrações de idéias. 2004. vol. Adolfo Montejo: “Cinco notas sobre o teatro engajado no Brasil”. SP: Contexto. 5. Madrid: Ollero & Ramos Editores. La Habana: Ediciones Unión. S. “Espaço. o pensador nômade. Petrópolis: Vozes. influências ou reativações?. 1983. 2004.. IPHAN. La doble moral Del cine. In: Benjamim. 1998. NAVAS. no. Abdala Jr (org.P: Boitempo.In Revista Educação. SCHÖPKE. Zila. ESPINOSA. Lynn Mário T. Regina: por uma filosofia da diferença: Gilles Deleuze. 44. Esse vulcão. Território e Lugar: estas palavras ciganas. 1996. Marcos: Cultura Brasileira: Utopia e Massificação (19501980).”. Porto Alegre. MESQUISTA. Vol. OROZ. Subjetividade e Poder. 2001. Revista Domingo del diário de La República.J. http://www3. 1997. 22.P. S. S. Bsb.: Nova Fronteira.pe.) Margens da Cultura: mestiçagem. 2003 MALDONATO. Silvia: Tomás Gutiérres Alea: Los filmes que no filme. 4ª Ed. “Hibridismo e tradução cultural em BHABHA”.scielo.

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VIII.Uma voz da diáspora haitiana na literatura migrante do Quebec Maria Bernadette Velloso Porto Abstract This article focuses on the analysis of the books Passages (1994) and Reperages (2001) by the Haitian writer Émile Ollivier. n° 15. 2000). até recentemente. Caribbean Migrations. nome representativo das identidades em trânsito da contemporaneidade. Palavras-Chave: Literatura. Trata-se de levar em conta a pluralidade de imaginários do pertencimento (SIMON. Identidade *Artigo recedido em Janeiro e aprovado para publicação em Março de 2007 109 Revista Brasileira do Caribe. Keywords: Literature. pretende-se refletir sobre a inscrição de um “entre-dois” produtivo no corpus escolhido. vol. do escritor haitiano Émile Ollivier. onde. Identity Resumo Apoiando-se na análise dos livros Passages (1994) e Repérages (2001). It offers a reflection on the inscription of on the inbetween productive place in the selected location. where until recently identity was seen by the elites as homogeneus. Migrações Caribenhas. the representative figure of identities in transit of contemporaneity. 109-135 . Goiânia. 2001) que conferem à sua escrita um caráter particular e significativo no âmbito da chamada literatura migrante do Quebec. a identidade era vista pelas elites como homogeneidade (BOUCHARD. 2004) e a situação paratópica do autor (MAINGUENEAU. It is important to take into consideration the plurality of imaginaries of belonging and the paratopic situation of the author which award their writing a particular and significative character in the context of the migrant´s literature of Quebec.

construíram-se coletividades novas (BOUCHARD. Definindo-se no livro Les identités meurtrières (1998) como alguém situado em um entre-lugar que o leva a se ver como libanês e francês. vol. sobretudo como questão conceitual e epistemológica e não como experiência empírica. que constitui uma ilustração das elaborações das identidades em trânsito de nossa época. Migraciones caribeñas. deslocamento e devir inacabado. reflexionando sobre la inscripción de un entre lugar productivo en el locus seleccionado. Identidad Encarada. ao longo de histórias plurais de deslocamentos e desterritorializações. como algo que se expressa como deslize. permitenos repensar os processos de construções identitárias de nosso tempo e as idéias atribuídas até recentemente à nação. VIII. considera-se a identidade não como um dado fixo e estável. Goiânia. Graças ao reconhecimento da perspectiva diaspórica da cultura. a noção de diáspora. o escritor e teórico Amin Maalouf salienta a interferência de múltiplos pertencimentos em sua história de vida. Se trata de llevar en cuenta la pluralidad de imaginarios de pertenencia y la situación paratópica del autor que otorgan a su escrita un carácter particular y significativo en el ámbito de la llamada literatura migrante de Quebec. Palabras Claves: Literatura. que passou a ser vista na qualidade de comunidade imaginária.Maria Bernadette Velloso Porto Resumen El artículo se apoya en el análisis de los libros Passages (1994) y Reperages (2001). que sugere mais os movimentos do “tornar-se” do que as certezas do “ser”. Em contextos marcados pela diáspora. o local de origem não podendo ser associado a uma única fonte de identificação. nombre representativo de las identidades en tránsito de la contemporaneidad. mas. à luz da “différance” derridiana. revisitada por teóricos como Stuart Hall (2003). Em se tratando das Américas. as identidades são múltiplas. donde hasta recientemente la identidad era vista por las élites como homogénea. n° 15 . del escritor haitiano Émile Ollivier. 2000) a partir de situações 110 Revista Brasileira do Caribe.

verdadeiro habitante de um Novo Mundo. Nascido dentro da violência colonial e por meio dela. diaspóricas. Inserindo o Caribe no cenário da diáspora pós-colonial. p. no Quebec. p. Ásia e África).1995. híbrido..394). p.30).75). “movimento perpétuo de interpenetrabilidade cultural e lingüístico” (GLISSANT.92). Nos últimos anos. o que explica seu caráter impuro. que é pela mistura que a novidade entra no mundo (RUSHDIE. Salman.. a inegável contribuição caribenha na configuração das novas cartografias identitárias decorrentes das migrações pós-coloniais nas Américas. do chamado Terceiro Mundo francófono (Antilhas. há mais ou menos tempo e sofreram a metamorfose que esta terra e sua história impunham. 2007 . no campo literário. Resultante das relações enriquecedoras entre elementos culturais variados. p. com Salman Rushdie. deu-se a revisão da identidade quebequense./dez. um asiático. todos os que estão no espaço caribenho “pertenciam originalmente a um outro lugar” e sua relação com essa história “está marcada pelas rupturas mais aterradoras. professor e crítico haitiano naturalizado canadense: Ser americano é ter conhecido a metamorfose que transforma um europeu. violentas e abruptas” (HALL. o Caribe é fruto da crioulização. em especial. 1993. com o aporte de vozes de imigrantes oriundos de diversos países não-europeus e. Como pensa Maximilien Laroche. e em particular. Considerando-se. segundo as modalidades particulares de sua entrada neste Novo Mundo e segundo as peripécias de sua existência aqui (LAROCHE. Segundo ele. Pois todos aqueles que moram hoje na América vieram de outro lugar. e mesmo o primeiro habitante desta terra. exemplo maior da ruptura de modelos fechados e homogêneos de pertencimento cultural. encarada 111 jul. Como se sabe. 1993. o crítico da cultura Stuart Hall (Jamaica) também reconhece o que é dito na citação anterior. percebe-se o caráter inovador do Caribe. o espaço caribenho é marcado por uma estética diaspórica. 2003.Uma voz da diáspora haitiana. depreende-se. imprevisível e produtivo do contato entre culturas. neste homem novo. processo inacabado.

em certos casos. 1991). uma certa abertura ou fragilidade no plano do domínio lingüístico ou do tecido de referências.13-14) Cabe lembrar que. mas que deixa traços do primeiro texto no novo. ou seja. Pode-se dizer que. p. n° 15 . o que lhes permitia fugir dos horrores da ditadura de Duvalier. vol. vêem ameaçados seus valores identitários tradicionais – 112 Revista Brasileira do Caribe. interferências lingüísticas ou culturais. pois seus textos misturam imagens e signos do Haiti e do Quebec. uma relação de transferência ou de passagem que não acaba em um produto naturalizado. aculturado. consciente da multiplicidade. VIII. Goiânia. 2004. levando em conta um estado de dissonâncias e de interferências de várias formas. por um vocabulário díspar. uma sintaxe não habitual. um despojamento desterritorializante. muitas vezes problemático para os “Québécois de souche” que. estes efeitos de dissonância são o resultado de um processo de tradução inacabada. um texto em que a confrontação dos elementos díspares produz o novo. Estes efeitos estéticos são o resultado da situação de fronteira vivida pelo escritor que. Tais escritores e poetas apresentam em suas obras o que Maximilien Laroche chama de o “duplo palco da representação” (LAROCHE. ressalta-se a presença de autores haitianos que emigraram para o Quebec em decorrência da abertura do Canadá à política de imigração. Da fricção criativa de dois pertencimentos nasceram obras marcadas pelo híbrido. opta por criar um texto crioulizado. o imprevisível (SIMON. Nesse cenário de profundas transformações e questionamentos identitários. tal identidade passou a ser considerada sob o prisma da multiplicidade de centros de referência. no panorama identitário do Quebec. diante da presença de alofonias diversas. segundo a expressão de Édouard Glissant. O texto híbrido é portanto um texto que manifesta “efeitos de tradução”.Maria Bernadette Velloso Porto como homogênea pelas elites do século XIX e parte do século XX. Cabe lembrar aqui a definição do texto híbrido proposta por Sherry Simon: O que se pode entender por um texto híbrido? Trata-se de um texto que interroga os imaginários do pertencimento. Graças à inclusão do olhar de estrangeiros. o reconhecimento das vozes migrantes.

ilustra. já presente na memória coletiva dos quebequenses. 2007 . autores migrantes colaboram de perto na reinvenção identitária do país que lhes deu abrigo. um dos privilégios do autor migrante é o olhar novo que ele lança sobre o país em que se instala: O imigrante.. Nessa revisão contínua das identidades. torna-se um fator de revisão do implícito. os quais viam seu país como incerto. 2001. o escritor iraquiano Naïm Kattan. ao trazer para a cena coletiva a pluralidade de pontos de referência e de memórias culturais. Segundo Jonassaint. o imaginário migrante dialoga com a representação simbólica do exílio que afetou anteriormente muitos autores do Quebec. Em outras palavras. as ambigüidades 113 jul. Um dos representantes da presença do Haiti no Quebec contemplados na obra citada é Émile Ollivier. Tratar da diáspora haitiana no Quebec nos remete ao livro de Jean Jonassaint intitulado Le pouvoir des mots. ele reúne trechos e depoimentos valiosos de seres diaspóricos. ausente ou inacabado. uma cultura que carrega as origens se enriquece com a contribuição múltipla e aceita modificar-se sem se trair. desabrochar ao se reinventar (KATTAN. Como pensa outro representante diaspórico da chamada literatura migrante do Quebec. esse outro que não é um observador de passagem. 2001) de todo escritor que.Uma voz da diáspora haitiana. já que. em especial. inscrevendo no seio da cultura quebequense as marcas de sua diferença e os apelos do exílio. em sua maioria. material importante para os estudos do romance haitiano contemporâneo. p. Encarnação expressiva da situação paratópica (MAINGUENEAU. de modo exemplar.. les maux du pouvoir. que todo desenraizamento é ou pode ser fator de grande criatividade e que toda migração é útil ao país de origem e ao país de adoção. Buscando mostrar que o exílio pode ser fecundo. mas que está aí para ficar./dez. na condição de migrante.43). os romances haitianos de 1970 a 1980 foram escritos e/ou publicados na América do Norte. não ocorreu por acaso.

27).28). p. tira partido da deslocalização que caracteriza toda produção literária “sem ‘deslocalização’. na sua obra teórica Repérages (2001). como tantos outros indivíduos. esperava retornar à sua terra natal logo que essa situação política tivesse mudado. exerceu várias ocupações e obteve um certificado de estudos literários na Sorbonne. a princípio. 2001. Consciente de que se encontra diante de uma sensibilidade inusitada e de que vive. Ao exercer sua atividade profissional no campo das letras. se instalou no Quebec onde se tornou professor de sociologia na Universidade de Montreal. Émile Ollivier privilegia em textos teóricos e ficcionais reflexões sobre o trajeto identitário de seres deslocados de nosso tempo. com a exigüidade de sua ilha para partir em busca da conquista de vastos territórios. em 1965. E é na impossibilidade de se estabilizar em um lugar preciso que sua obra se constrói. não existe verdadeira literatura” (MAINGUENEAU. VIII. Ollivier decidiu se afastar do Haiti para escapar da violência da ditadura de François Duvalier. uma experiência inédita que 114 Revista Brasileira do Caribe. Ollivier salienta sua identidade móvel que o levou a adotar compromissos e a efetuar negociações a cada dia. A mesma pergunta que aflige seres migrantes em geral se coloca para o autor em questão: “Como é possível viver não sendo totalmente daqui nem mais totalmente de lá?”(OLLIVIER.Maria Bernadette Velloso Porto e contradições de quem não coincide necessariamente com um lugar no mundo. p. estar de passagem no Canadá. Após ter vivido seus primeiros vinte e cinco anos em PortoPríncipe. 2001. Ollivier acabou por aí criar um espaço de vida e de criação. abrigo na França onde. Optando por um desvio provisório. negociando incessantemente entre o lugar e o não-lugar. vol. Ao declarar. 2001. Como todo escritor. durante um ano. “alimenta sua obra com o caráter radicalmente problemático de sua própria pertinência ao campo literário e à sociedade” (MAINGUENEAU. Buscou. Goiânia. p. que teria permanecido o mesmo jovem que rompera. 37). morrendo no estrangeiro. n° 15 . Como tantos outros haitianos que pensaram. Como muitos imigrantes (autores e personagens romanescos). um dia. Em 1968. no passado. ele não chegou a empreender o retorno ao país natal.

nossos pés só servem para andar. para se considerar como alguém deslocado que. elas têm uma origem. faz de todos nós seres mutantes por excelência (OLLIVIER. p. 2007 . Como nós. empreendendo uma operação de descentramento (OLLIVIER. e quando nos enfiamos na terra. cita o escritor Juan Goytsolo.) Ao contrário das árvores. Para nós. A seiva do solo natal não se eleva por nossos pés em direção à cabeça. p. Desse modo. 2001. p. Por isso mesmo.24). após ter sonhado durante muito tempo com o retorno ao país natal.Uma voz da diáspora haitiana. já que uma estrada não tem nunca verdadeiro começo.prefere as idéias de estrada. Ollivier se colocou à escuta da realidade cultural a sua volta. Origem ilusória. Exposto a outros modos de socialização como todos os migrantes. o autor do livro citado diz que é preciso desenvolver competências de “bricoleur” e aprender a viver nos interstícios.. pois a cada cruzamento se uniram outras estradas que vinham de outras origens (MAALOUF. 2001. desejamos o céu. ao chegar ao Quebec./dez. as estradas não emergem do solo ao acaso das sementes. ao longo de trinta anos de vida no Quebec. os homens não. que.69).22). a distância cria uma situação privilegiada (BAUMAN. 2004. percebe que sua vida era pontuada por várias mortes 115 jul. é para apodrecer. ao invés de valorizar a noção de raiz –associada às árvores . da servidão à liberdade ou à morte violenta. Sob esse prisma. podemos lembrar que. 2001. lá atrás. p. ele parece dialogar com a visão de Amin Maalouf em seu livro Origines: As árvores devem se resignar. só importam as estradas.38) . p. 20). Émile Ollivier passou da posição de exilado à de migrante. São elas que nos levam – da pobreza à riqueza ou a uma outra pobreza. Vendo-se como um escritor das fronteiras (OLLIVIER.(. assim como a intimidade. 2001. antes da primeira curva.910). Origem inatingível. 2005. p. reconhece-se como um “ser feito da interferência de todos os lugares que atravessou” (OLLIVIER. por sua vez.. já havia uma curva e mais uma. Para evocarmos o sociólogo Zygmunt Bauman. elas precisam de suas raízes. Respiramos a luz. de caminho...

n° 15 . 116 Revista Brasileira do Caribe. Embora trate de assuntos referentes à sua terra de origem. Ollivier participou das profundas modificações ocorridas no Quebec a partir da Revolução Tranqüila. falar uma outra língua equivale a assumir a posição do tradutor. Para o autor de Repérages. sabe que seus livros não são de fato consumidos pela comunidade haitiana. a seu lado.Maria Bernadette Velloso Porto e renascimentos sucessivos (OLLIVIER. Ciente de que a língua francesa se tornara cada vez mais indispensável em sua profissão. pois logo percebeu. Por isso mesmo. seu espaço de enunciação. dado o forte índice de analfabetismo de seu país. deixando de ser simplesmente a terra que lhe ofereceu asilo. 28). Aos olhos de Émile Ollivier. vol. VIII. 2001. como propôs Salman Rushdie (1993. conquistada a cada dia de sua própria reconstrução identitária no novo país. p. vista como seu lugar de asilo (OLLIVIER. p. 2001. a presença de “estrangeiros do interior”: os quebequenses que acabavam de deixar o espaço rural para se instalarem no tecido urbano de uma cidade em expansão que recebia alteridades plurais. tornado. Goiânia.64). que trouxeram para o cenário das discussões identitárias o questionamento das certezas estabelecidas. pelo gesto de migrar. para se tornar seu país de adoção (OLLIVIER. o Quebec mudou de estatuto a seus olhos.23). 2001. que ele reforça seus vínculos com a realidade caribenha. o jovem haitiano compartilhou com outros a sensação de estranhamento. Situando-se numa encruzilhada entre dois idiomas – o crioulo e o francês – o autor leva em conta a questão de seu público. a língua francesa. precisou conquistar um outro. p. A maneira de continuar fiel à sua origem não seria falar continuamente dela na língua estrangeira que poderia lhe conferir maior visibilidade? E é no corpo a corpo com a diferença e com o francês. p. o autor de Repérages afirma ter feito o luto de sua origem.37). aos poucos. Com outros representantes de diferentes modos de ser e de ler o mundo. sua outra língua. Ao se fixar em Montreal. Ao ter perdido. o que remete à existência de “homens traduzidos” de nosso tempo. a experiência lingüística constitui um domínio privilegiado para se refletir sobre a condição migrante por parte de seres cindidos sob o ponto de vista identitário.

Apesar dessas duas realidades trabalharem meus desejos.. transformação e um trabalho de recriação permanente. Ollivier tenta evitar qualquer perspectiva reducionista que poderia tornar exótica sua escrita. 1986. por uma dupla inscrição.Uma voz da diáspora haitiana. de Pascale Casanova (1999.64) . p. dois universos e dois apelos lingüísticos que a obra desse autor se inscreve sob o signo da dualidade ou da digrafia. mas também da realidade quebequense. Tenho o hábito de dizer que sou haitiano à noite e quebequense de dia. Além de sugerir travessia. no ato da escrita. p. mas como busca inacabada e rentável que supõe a fricção produtiva entre dois idiomas e memórias culturais.. minhas alegrias..382). E penso de fato que é uma situação de esquizofrenia.. presente nele como uma cripta.. vivenciada sob a forma de diglossia. Estou desvinculado da realidade haitiana. e a criação de uma terceira língua. o próprio Ollivier se refere a esse dilaceramento de forma lúdica e criativa: Essa esquizofrenia vai ser encontrada provavelmente ao longo de toda a minha produção. 2007 . Marcada./dez. exercitando a prática tradutória não como um exercício de simples transposição de uma língua a outra. Ollivier vale-se de um duplo pertencimento. E é no ir e vir entre duas culturas. ritmos e imagens (OLLIVIER. para evocarmos o capítulo “La tragédie des hommes traduits”. Como no próprio Haiti ele já conhecera de perto a dualidade lingüística. apesar de tudo. p.88) Como “esquizofrênico feliz”. Em entrevista a Jean Jonassaint.. aqui a realização do luto da origem supõe também a interferência constante. meus trabalhos e meus dias (JONASSAINT. de uma memória impossível que aflora. a literatura migrante de Émile Ollivier coloca a questão lingüística como componente maior do capital literário. na superfície do texto. nascida do roçar entre as diferenças. 2001. de alguém que está desvinculado da realidade. assim. optando pela procura de um equilíbrio na instabilidade: 117 jul. um reservatório de sons. isto é.

isto é. o romance Passages apresenta vários personagens migrantes. não se trata de decidir entre o crioulo e o francês. na própria escrita. trata-se de andar sobre essas duas pernas. Como resolver esse problema no plano da criação? No que me diz respeito. e a encontrar. Historicamente. embarcando em um barco frágil que os levaria. os provérbios. destaque. cujos trajetos de vida se entrecruzam. a desterritorialização da língua francesa. vol. pois. na maioria haitianos. como 118 Revista Brasileira do Caribe. p. reinventada graças ao crioulo.62). fugir da relação de equivalência e. p. em francês e em crioulo como ser haitiano. as duas línguas foram vizinhas. a negociar entre danos e perdas. Trata-se de levar em conta esse fenômeno. ao invés de se deixar paralisar pela dor da ruptura e do dilaceramento. a gente se exprime. publicado em 1991. Minha principal preocupação é de expulsar toda folclorização. mesmo em relações de dominação. Um romance em particular ilustra a complexidade do universo do autor: trata-se de Passages. ao mesmo tempo. e a caracterização do escritor migrante como um tradutor adquirem. em resumo. Considerado pela autora do ensaio La mémoire sans frontières como uma “deriva polifônica” (GAUTHIER. na formação social haitiana. um grupo de haitianos se organiza para fugir das misérias de sua terra natal. o escritor identifica na desterritorialização um espaço de liberdade que o leva a fazer escolhas.89) No conjunto da obra de Émile Ollivier. duas histórias principais estão vinculadas ao Haiti: de um lado. n° 15 . cheiros e sabores de seu país. Numa narrativa de caráter polifônico. Logo.Maria Bernadette Velloso Porto Tenho consciência de não trazer nenhuma resposta explícita à questão da diglossia. ressemantizados no contexto estrangeiro. liderados por Amédée Hosange. seu lugar por excelência no mundo. revestindo-se de um caráter eminentemente dinâmico. 1997. a experiência do exílio. de preferência. trabalhar sobre as imagens. 1986. as metáforas. captar a substância da língua crioula e restituí-la diretamente em francês (JONASSAINT. a interiorizar cores. VIII. a refazer seu imaginário. coabitaram. evitar a tradução literal do crioulo em francês. Goiânia.

em Miami. p. “história de migrações e de errâncias. à infliger notre chaleur. Cabe a outro personagem haitiano (Régis). esse romance deixa provisoriamente o espaço geográfico haitiano para melhor encontrá-lo nas lembranças e no imaginário de indivíduos à procura de seu destino. 2007 . no plano da intriga e na própria construção do romance. a vida e a morte se conjugam na dinâmica do transitório. servir de intermediário entre as diversas vozes narrativas desse romance formado da reconstituição de diversas memórias. je peins le passage”(OLLIVIER. Normand grava o depoimento de Brigitte em cassetes..” (GAUVIN. o romance se abre com uma epígrafe significativa de Montaigne: “Je ne peins pas l’être. Destaca-se aí a figura perturbadora do estrangeiro aos olhos de quem se definia pelas certezas identitárias. Como afirma Lise Gauvin./dez. p.Uma voz da diáspora haitiana. 1994. Outra referência importante à noção de passagem se destaca de versos de René Char: “Nous sommes des passants appliqués à passer. Histórias do viver e do morrer se intercalam no tecido narrativo marcado pela poética dos encontros e (des)encontros ligados às movências identitárias. que há anos deixara o Haiti para viver em Montreal. mas não chega a divulgá-lo. abaladas pela inclusão da diferença no âmbito de uma familiaridade construída a partir da ilusão e da pretensão da homogeneidade. sem realizar o desejo de retorno ao país natal. acaba conhecendo.181). donc à jeter le trouble. enviado pela esposa do morto para buscar seu corpo.1994. Voilà pourquoi nous intervenons ! Voilà pourquoi nous sommes intempestifs et insolites“ (OLLIVIER. p. sua compatriota. viúva de Amédée. 2000. Brigitte Kadmon Hosange. Priorizando a idéia de passagem. pois morre de um ataque cardíaco. de outro. A narrativa referente à preparação da viagem dos boat people haitianos em direção a Miami se reveste de um sentido 119 jul. o livro em questão coloca em cena múltiplas passagens. uma das poucas pessoas que sobreviveram ao naufrágio da embarcação e os sonhos dos que ousaram optar pelo exílio (ainda que visto como provisório). clandestinos. à dire notre exubérance.194). a Miami. Como se atualizasse a mesma frase. o jornalista Normand Malavy..7). Vistas como trânsito.

Port-à-L’Écu n’existe plus.27). p. a intervenção do sobrenatural se dá nas pequenas histórias do cotidiano marcadas pelo realismo mágico. condenada ao abandono e ao silenciamento. 120 Revista Brasileira do Caribe. com a crise da pequena cidade. vol. de la main même de l’Empereur. au lendemain des grandes tueries de l’indépendance (OLLIVIER. des deuxmoitiés. un bien grand et riche domaine. il ne figure sur aucune. que os levaria a Miami. conscientes de que. Là vivait Amédée Hosange. colocando em confronto dois tempos de um mesmo lugar. como ocorre com a chegada de um ser inquietante que coincide. de modo misterioso. da desolação e da miséria absoluta: Port-à-L’Écu. pois. A abertura do romance aponta para a decadência que afeta a cidadezinha de Port-à-L’Écu. essas terras representam todo seu sopro vital (OLLIVIER. ce n’est plus le pays de la canne à sucre . que corre o risco de se tornar “lata de lixo dos Brancos”: afastando-se da representação do lugar habitável que fora um dia. Il y avait à Port-à-L’Écu dix carreaux de terre. 1994. 1994. a morte repentina desse cadáver em vida (extremamente magro.25). belles cases. p. cinq maîtresses. Nul besoin de chercher son nom sur une carte . n° 15 .14). os habitantes da referida cidade escolhem uma forma particular de resistência: a fuga numa embarcação precária. lequel l’avait obtenue. Prisioneiros de um mutismo feito de medo. passou a ser o espaço da improdutividade. mesmo no estado em que se encontram. 1994. disait-il. Il tenait la terre de son grand-père. de onde fora expulso um dia. les loup-garous y ont élu domicile et parfois volent en plein jour. feita por eles mesmos.Maria Bernadette Velloso Porto mítico. il n’y a guère de temps. ele parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos) acarreta um efetivo desequilíbrio ecológico que compromete a própria existência da coletividade. augúrios e presságios. Goiânia. p. Et pourtant. mas também de desafio e de orgulho (OLLIVIER. VIII. é revestido de tragédia. vaste grange. Em um mundo pleno de sinais. c’était un village qui comptait tout près de trois mille chrétiens vivants. O retorno desse habitante a Portà-L’Écu. Port-à-L’Écu n’existe nulle part.

48). abre-se para a expansão dos limites identitários. il pouvait faire le décompte des milles marins parcourus.. 1994. dominando as artes do enraizamento e da errância: Amédée./dez. p. en reniflant.65) equivale a um “détour” no sentido glissantiano. Em estreita sintonia com a natureza. dire combien le ciel avait marché au-dessus de la terre. Convencido de que lhe cabe a responsabilidade de assumir para si a resistência contra os riscos de desaparecimento de seu 121 jul. monsieur. inteligência prática de seres oprimidos que a ela recorrem para contornar um problema de difícil solução. je vous l’ai déjà dit. Segundo Édouard Glissant. Tal viagem clandestina em direção a um “Eldorado de lenda” (OLLIVIER. a prática do desvio constitui uma estratégia de sobrevivência eficaz para se enfrentar uma impossibilidade (GLISSANT.19) e dotado do sentido da orientação por ter uma bússola em suas narinas e por ser capaz de se valer do sol como seu compasso e seu cronômetro (OLLIVIER. Il m’avait souvent parlé de ses voyages en haute mer. 2007 . Il n’avait pas besoin de montre pour déterminer quelle partie de la nuit ou du jour était passée (OLLIVIER. “il avait foulé cette terre en nômade” (OLLIVIER. Mestre da ciência dos ventos baseada no vivido. Amédée é escolhido por seus compatriotas como líder. como o “passeur” que os levaria à salvação. sabe ler os sinais inscritos na paisagem. Il connaissait la position des étoiles fixes et des étoiles errantes. La nuit. p. connaissait la navigation en haute mer.Il m’avait souvent parlé de ses voyages au long cours. 1997. 1994.Uma voz da diáspora haitiana. 1994. Concebido como um recurso temporário.. Tendo em sua bagagem existencial a experiência do nomadismo (cf. Véritable pigeon voyageur. o desvio é sinônimo de astúcia. novo Hermes responsável pela transmissão da nova boa nova: a possibilidade do recomeço em outro lugar e da reconstrução da identidade nas searas da diáspora. 1994. p. p. p. 64). deslocando-se como um pombo correio.63). il associait les odeurs à la direction du vent. en fixant le ciel.

de se refaire. Et pourtant. que remete não só à fuga de escravos. dans cette barque putride et imputrescible à la fois. persévéré sur les flots du temps. a capoeira. opiniâtres et inaltérables galériens. effacement d’un paysage. Notre histoire est celle d’une perpétuelle menace d’effacement. nous avons franchi cinq siècles d’histoire. nous continuons à survivre en nous livrant à d’impossibles gymnastiques (OLLIVIER. dilacerado entre o sentimento de impotência e o desejo de sobrevivência: Nous venons d’un pays qui n’en finit pas de se faire . la grande transhumance. 2001). podemos dizer que. o candomblé. depuis la mort de l’Empereur. une interminable histoire de brigandage. de se défaire. no cerne dessa obra. mas a todo gesto do resistir que se manifesta como prática cultural (como o vodu. p. VIII. effacement d’un peuplement : le génocide des Indiens caraïbes. n° 15 . dégradable et pérenne. nous franchissons la durée. Nous avons subsisté. está a consciência da exigüidade que. Apoiando-nos em pistas oferecidas por Simon Harel e Jacques Mathieu-Alexandre (2003) em sua análise do romance Passages. as danças. cette éternité dans le purgatoire. os habitantes de Port-à-L’Écu se mostram atingidos pela sensação incômoda de exigüidade (PARÉ. 1994. Malgré vents et marées. vol. Amédée atualiza o exercício do “marronnage” (termo criado a partir de “nègre marron”= “quilombola”). Na base da resistência coletiva à decadência de sua cidadezinha e de sua própria dignidade como povo. malgré ce présent en feu. não constituindo uma simples referência física que marcaria seres insulares. ce temps de tourments. Uma passagem em especial ilustra a consciência da fragilidade do ser exíguo. Goiânia. nous traversons le temps même si le sol semble se dérober sous nos pas.184-185). Ausentes dos estudos 122 Revista Brasileira do Caribe.Maria Bernadette Velloso Porto povo. l’esclavage et. aponta para a consciência da fragilidade e dos riscos de invisibilidade e de desaparecimento de uma comunidade. entre outras manifestações criativas). Notre substance est tissée de défaites et de décompositions. Coureurs de fond.

uma solução definitiva para seres desterritorializados. as produções da exigüidade correspondem à “fabricação original e autônoma de bens simbólicos inéditos” (PARÉ.65). pois. a função da escritura é a “de aumentar desmesuradamente nossa relação com o mundo de modo a nos proteger da pequenez da condição humana e da insegurança que a acompanha” (HAREL & JACQUES. mas que encontram. Mas. além de ser “um lugar de esperança e de miséria para os que conseguiram deixar sua terra de miséria” (GAUTHIER. uma possibilidade é vislumbrada pelo grupo liderado por Amédée como viável: Miami. p. sob a máscara do sol que esconde cóleras e violências. a situação diaspórica favorece a atividade da escrita.97). na busca de um outro lugar no mundo. 1994.Uma voz da diáspora haitiana. Miami aparece na narrativa como um lugar de passagem. p. pelo paralelismo estabelecido entre a casa e a escritura. o abafamento e o silêncio.. É o que faz Ollivier no romance em pauta. “a escrita e a prática da arte acarretam uma liberação do espaço” (PARÉ. uma terra de errância. no espaço das letras. Obra-refúgio ou obra-insular. fragmentada em várias cidades onde há diversas solidões (OLLIVIER.. Lutando contra o confinamento. Miami não seria.206). após certa hesitação e influenciado por uma visão mágica. 1994. 2001. p./dez. 1997. 2001. p. capaz de preencher e de superar o hiato geográfico instalado entre seres distanciados fisicamente. pois. oferecendo aos seres desterritorializados a oportunidade de inscrever seu lugar no mundo nas páginas da escrita. p. Espaço de convergência de inúmeras experiências diaspóricas. Escrita do trânsito e das transferências culturais que se abrem para os diálogos sempre inacabados da crioulização.66). Escrita muitas vezes epistolar. 87). Como foi salientado. ao exercício criativo de práticas de sobrevivência adotadas pelos excluídos da História oficial. Como experiência enriquecedora que leva indivíduos a ultrapassar limites. 2007 . Apontada como a “América latina na América do Norte” (OLLIVIER. 2003.66). essa cidade se reveste também de um sentido negativo. p. mesmo sabendo disso. Amédée 123 jul. acadêmicos voltados para as chamadas grandes literaturas. um sítio importante para se rever sob o ponto de vista identitário e para reler o próprio existir.

interiorizado nas memórias e paisagens afetivas: Amédée ne comprit pas tout de suíte pourquoi ils devaient partir. devenir une race sans terre. Leyda oferece ao leitor pistas valiosas para a compreensão da diáspora: Voyez-vous. avait changé d’avis. Pourtant. como já foi visto. vol. alguns homens se deixariam levar pelos movimentos do devir. quelles que soient ses fins secrètes n’a jamais le temps de revenir. les grands espaces. ne l’emporte-t-on pas partout avec soi ? (OLLIVIER. Um dos trechos mais poéticos do romance Passages referese a uma reflexão da personagem Leyda a respeito de duas formas de se estar no mundo: de um lado.Maria Bernadette Velloso Porto responde afirmativamente à demanda dos que o procuraram como guia. haveria os seres sedentários. quitter le pays où ils étaient nés. Amédée. qui se tissent un destin minéral dans un rêve de pierre et ceux qui se prennent pour le pollen. nessa segunda categoria. n° 15 . Sa part de territoire. de outro. 1994. Goiânia. seu próprio marido Normand.86-87). avec le vent. 1994.31). ele nos acompanha. 124 Revista Brasileira do Caribe. Il aimait ces déplacements à tâtons qui se jouent sur des surfaces illimitées où départs et retours finissent par se confondre (OLLIVIER. p. que acabara de morrer. (. ce jour-là. sans trajet préalablement déterminés.. le monde est constitué de deux grandes races d’hommes : ceux qui prennent racine.. Ils sautent dans des voiliers de hasard . Na base de sua decisão está a certeza de que mesmo quando deixamos o país natal. Normand était de cette race. il savait que souvent le crabe qui s’éloigne à une trop grande distance de la mer. ils traversent. Identificando. não corresponde ao ideal de vida valorizado pelo próprio Émile Ollivier.) Mais déjà. a partir dos apelos da polinização. empruntent d’aléatoires chemins. p. VIII. influencé par sa vision. sans but. inspirando-se na fixidez do mineral ou no modelo da raiz que. Adeptes de vastes chevauchées.

um enriquecimento cultural. Não se poderia falar melhor da força do desprendimento que cresce longe das raízes. opondo-o a Barrès que pedia aos homens para se enraizarem na terra e nos mortos. p.28). p. como sinônimo de confinamento. abrir-se para o outro” (MAFFESOLI. mais temos acesso a riquezas imateriais (MAFFESOLI.22).19). hedonista e místico das « nourritures terrestres » gozando do vento espalhando sementes. p. portanto. Para Maffesoli. da terra dos mortos (MAFFESOLI.. 2007 . segundo o autor citado. quanto mais longe nos encontramos da “terra dos mortos”. Para eles. “só havia partida na perspectiva de um retorno 125 jul. já que a imobilização. a cultura não é somente enraizamento. Referindo-se à metáfora da raiz. A vivência do exílio. a diáspora é.142). p. pois. 141-142). para quem existir significa “sair de si mesmo. a passagem abaixo se aproxima da citação de Ollivier: Fazer uma leitura contemporânea de Gide. Daí se explica a razão que leva Maffesoli a acreditar na necessidade de se empurrar para longe as fronteiras (MAFFESOLI. Gide. um caráter não definitivo. conforme foi apontado. No romance Passages. Sinônimo de fecundação e de renovação. segundo a lógica diaspórica. além de se morrer de fome. 1997. da família. Amédée e Brigitte encaram a ida para Miami como recurso temporário.Uma voz da diáspora haitiana. atribuindo-lhe.. em geral. pode-se morrer de tédio ou de desespero (MAFFESOLI.39). o que corrobora o pensamento de Michel Maffesoli. 1997. Por isso. Apenas permanecerão vivas as plantas que jorrarão longe da árvore semeadora. As que caem bem perto do tronco não têm nenhuma chance de crescer e de desabrochar. 1997. mas também desprendimento. p. do ninho. permite. palavra que recobre diversas situações./dez. já que. 1997. tem um efeito mortífero (MAFFESOLI. diferentes personagens conhecem de perto tal experiência. Segundo a perspectiva do exílio visto como “détour”. convite para a novidade e para a aventura no campo dos sentidos – transitórios como a própria existência–. 1997. Apenas as sementes que vão longe têm oportunidades de frutificar. 1997. p.

Son séjour à la Havane. p. Brigitte manifesta o desejo de voltar a Port-à-L’Écu para ser enterrada na sua língua (OLLIVIER. p. P. ela vive no Canadá há cerca de dez anos. Tendo contínuo contato com imigrantes latinoamericanos.112). o enorme hiato criado entre ela e sua terra de origem. “anda em círculos” (OLLIVIER. 1994. de mil odores do alhures” (OLLIVIER.113). p. diante do fracasso da empreitada chefiada pelo marido. Durante muito tempo. Assim. Filha de sírios que emigraram para Cuba e depois se instalaram nos Estados Unidos. tentando se enraizar em projetos de melhoria do mundo. ou à elaboração de petições pela Nicarágua. le visage secret. Na verdade. derrière ce nouveau masque. p. préservé de la ville longtemps imaginée. n° 15 . outro personagem migrante conhece a frustração ao fazer uma viagem a seu país. descobre a impossibilidade do retorno. seus atos se revelam incapazes de garantir uma mudança na ordem das coisas e de lhe assegurar uma nova meta de vida.176). 1994. Para reforçar a inviabilidade do retorno à origem. um desejo de viver (OLLIVIER. Goiânia. ser dos trânsitos por excelência. Elle n’avait eu qu’une semaine. intime.229). une douleur intense. 1994. 45). Também Normand. situa-se paradoxalmente entre a busca de um impossível acordo consigo mesmo e um movimento de felicidade. Si elle était restée plus longtemps. Cela avait suffi pour constater que la magie avait quitté sa ville. Mas. 1994.Maria Bernadette Velloso Porto enriquecido de mil perfumes. vol. 1994. VIII. Trata-se de Amparo. alimentou o desejo de rever Cuba.42). 1994. preenchendo o vazio de sua vida de modo a parecer muito ocupada. viveu um tempo com um chileno e se dedica a manifestações contra o racismo e a utilização de armas nucleares. 126 Revista Brasileira do Caribe. p. não realiza seu sonho de voltar ao país de origem. como já foi dito. Ora. como se buscasse compensar a desorientação de seus dias. peut-être auraitelle découvert. une grande déchirure. por mais que ela se esforce. Dividido entre duas forças – o quimérico ressurgimento de seu passado e o esquecimento de suas raízes (OLLIVIER. mas ao empreender uma viagem ao seu país natal. Amparo fixa sur Leyda un regard mouillé : “ Jamais plus je ne pourrai vivre à La Havane” (OLLIVIER.

34). um convite para se ultrapassarem fronteiras e para se descobrir que é possível desejar (em) outros lugares.55). 1991. embora procure se fixar em projetos coletivos. “Ora. a reencontrar sua carência vital e sua distância em relação a ela mesma (SIBONY. p. p. 2003.57) 127 jul. necessariamente. o próprio presente nada lhe oferece de estável. Tratase ainda da dificuldade de nos situarmos de fato em um lugar preciso e da consciência de que não nos é facultada a possibilidade de voltar para casa. a origem nada tem de paralisante. por todos nós. o amor equivale a uma procura de renovação identitária e de revitalização da memória graças ao contato com a diferença e o alargamento de fronteiras. Como “impulso em direção a outros lugares” (SIBONY. em nosso tempo. Lido a partir dessa concepção de origem. pois há sempre algo no meio. sendo. Amparo parece ilustrar o pensamento do autor do livro Entre-deux: l’origine en partage: “Ora. No exemplo acima. 1991. já que. E a imagem de seu país natal não passa de uma das versões possíveis de sua terra. o exílio é freqüentemente uma viagem que não sabe encontrar seu retorno” (SIBONY./dez. aí está a própria procura do amor”.Uma voz da diáspora haitiana. encontra-se o valor da viagem como busca e requisição da memória. reconstruída sem cessar por sua memória. abalar seu suporte de ser idêntico a si mesmo. p. antes. que forçará sua identidade a efetuar a viagem que ela escamoteia. que não precisamos. Assim como Amédée e Normand. 27). p. destaca-se a sensação familiar e moderna de “des-locamento”. Amar é desejar encontrar o ser que possa abalar sua memória inerte para lhe dar vida nova. experimentada.. entre o presente e lá onde tudo começou (HALL. Mas onde é o início de tudo? Não somos todos migrantes em trânsito permanente que nos leva a recomeçar sempre? No caso da personagem Amparo. a noção de pátria confundindo-se com uma construção provisória e inacabada. 2007 . viajar para senti-la. segundo Daniel Sibony. até então inerte ou cansada de ser igual a ela mesma.. No nível cultural como na experiência subjetiva. 1991.

n° 15 . a representação do amor no contexto diaspórico remete. Cabe-nos aqui aprofundar a leitura do amor em tempos de exílio. os não-lugares de nossa época se associam ao trânsito. o exílio como ruptura é compensado pela vivência amorosa que constitui. o que contribuía para uma vida de recluso em uma cidade (Montreal) que se tornara uma prisão para ele (OLLIVIER. já que suas relações são superficiais. e de identificarem.69). A coincidência de trajetos existenciais parece reger o encontro dos dois amantes: vindo “de longe. corpo tatuado pelo já vivido. a disponibilidade para acolher outras histórias e outras memórias culturais” (PORTO. “O importante é descobrir no corpo-texto do(a) amante. seu cotidiano nada lhe reserva de concreto e de promissor. Assim. Goiânia. No romance Passages. à história entre a cubana Amparo e o polonês Janush. conseguem se comunicar pela criação de uma terceira língua. Seres 128 Revista Brasileira do Caribe. 1994. ao efêmero e ao não-estabelecimento de relações efetivas. na pele de outrem. p. na experiência amorosa. Associado às idéias de hiato. vol. Amparo e Normand se encontram em um aeroporto. cidade de outros seres transplantados. não-lugar próprio da supermodernidade aos olhos de Marc Augé (1994). como se o amor fosse o ato inaugural de uma outra origem. o encontro desse casal equivale a uma possibilidade de neutralizar sua situação diaspórica. Identificando. Normand se identifica a Montreal. VIII. Embora não dominem um idioma em comum. Quanto a Amparo. Normand tinha “uma vida em suspenso” ao longo dos últimos dez anos durante os quais sofria de grave doença renal. Ao contrário do lugar.68). perda e fragmentação. mesmo efêmeras. os amantes exercitam o gesto de se enraizarem. nos territórios da paixão e/ou da afetividade. 1994. p. Conhecendo um duplo transplante (identitário e cirúrgico). do outro lado da vida” (OLLIVIER. a oportunidade do encontro – encontro do outro e de um outro lugar de referência identitária. para personagens desterritorializados. p.86). ainda que de modo fugaz.Maria Bernadette Velloso Porto Não é por um simples acaso que. no romance Passages. 2004. um modo especial de suprir o vazio. em particular. o espaço para escreverem outras marcas de parcerias. que é histórico e supõe a idéia de um vínculo.

2007 .. eles tiram partido da capacidade tradutória. Qu’importait ce manque! Une langue commune n’est pas absolument indispensable à la prise des langues et l’emmêlement de deux vies. Elle ne comprenait que l’espagnol et l’anglais. ou do outro lado do espelho. Mergulho vertiginoso no fundo de si mesmo. a possibilidade de entendimento entre dois mundos. Le silence fondait leur relation. baragouinait le français. dans l’affrontement désespéré de deux impuissantes paroles en quête de vérités (OLLIVIER.. inúmeros deslocamentos e trajetos inéditos. 1994. seguindo diversos roteiros em que adotam várias identidades. Janush était de ces êtres sensibles qui captaient intuitivement toutes les manifestations de la vie. sob o modo metafórico. Ils avaient fini par créer une langue médiane mâtinée de gestes et surtout de silences. revisitado pela perspectiva de Pentecostes que assegura a comunicabilidade a despeito das diferenças. de não-dito. da fronteira. por meio do jogo amoroso. Assim. experimentam. Colocando em prática uma espécie de sacralização do amor. atualizando. para além de suas opacidades culturais. Aucun des deux ne parlait la langue de l’autre: typique dialogue Est-Ouest. Il parlait polonais. p. sua linguagem parece ilustrar a recuperação do episódio bíblico de Babel. elle avait rencontré Janush. o exercício do diálogo. constituindo “a busca desvairada 129 jul. os dois amantes vencem qualquer impedimento. os amantes transformam o quarto do hotel em Paris em uma espécie de templo. Il était polonais. apesar de todos os desafios e riscos. o amor se mostra capaz de abalar as certezas identitárias. Por isso. como na vivência da diáspora. os dois personagens apontam para o exercício maior dos diálogos interculturais: Un jour à la cité des Arts. de impossibilidades... como se exercitassem. il pouvait se livrer sans restriction à ses activités de peintre. a experiência maior da alteridade. Leurs échanges se situaient en deçà ou par-delà les langues. Como se exprimissem.Uma voz da diáspora haitiana./dez.128). bénéficiaire d’une bourse du gouvernement français. onde assumem diferentes papéis. Feita de silêncios.

le lendemain à Singapour. Orient imaginaire. Trata-se ainda da vivência do imprevisível e da renovação cotidiana da disponibilidade para o gesto de partir: Avec Janush. mourir sous les toits de cette mansarde de l’avenue de Wagram à Paris. após uma noite de amor. o pacto amoroso aposta na estranheza. descobrem-se em um lugar diferente da cama.129). VIII.. Vivido. Kilimandjaro aux neiges fumantes. o amor os leva a se despirem de qualquer sugestão de fixação. define-se como reinvenção permanente e experiência do heterogêneo. ‘viagens’(.)”(SIBONY. Goiânia. Oiseaux migrateurs. Por isso mesmo. nous traversions plusieurs fois le globe. isto é. lovés dans l’été de notre édredon (OLLIVIER. o amor não poderia se manifestar em contexto marcado pela idéia de unidade: como falta e busca.p. já que os parceiros investem na contínua renovação de papéis e de lugares 130 Revista Brasileira do Caribe.. Janush et moi nous nous réveillions sur un point différent de la planète.57). conforme foi visto na citação de Sibony o suporte identitário dos dois personagens. no deslocamento. há um grande mapa-mundi e a cada novo dia. 1994. Ele convoca o entredois. vol. eles imaginam que viajam a cada noite. visitions des pays de légendes et de merveilles : cratères éteints de la cordillière des Andes. n° 15 . faisions escale dans des contrées prodigieuses. “não combina com o um-só.Maria Bernadette Velloso Porto de uma parte de si mesmo. à luz da experiência diaspórica. Exprimindo-se criativamente em situação de fronteiras culturais. de acordo com Daniel Sibony. Le ciel de notre lit figurait une carte du monde et chaque jour. nous prenions le petit-déjeuner à Sidney. p. como se o movimento de seus corpos os levasse a um outro continente. da pluralidade e da hibridação. convidando-os para exercitarem o próprio simbólico que. No teto do quarto de hotel parisiense. à New Delhi ou à Buenos Aires.1991. Abalando. passagens. Nous revenions sur les ailes de midi. Certains matins. p. 1994. l’aventure commençait dès le petit matin.131). há muito esquecida” (OLLIVIER. com a unidade narcísica. pois. reinventando seu cotidiano.

/dez. ela registra o 131 jul. Espaço da polifonia e da pluralidade. engajando-se em uma escrita fundamentada na hibridação. Na reconstituição de suas memórias elaboradas em Montreal. o que reforça a paratopia de seres desterritorializados. Atenta aos excessos característicos do carnaval. associada às expectativas de um ir além. identificam-se a sabedoria ligada à experiência presente em provérbios haitianos e o ritmo próprio do conto e da oralidade. como todo desejo – de “escreverem” suas histórias graças à travessia de línguas e de memórias corporais e culturais. p.. odores. em que diversos níveis lingüísticos coabitam sem hierarquias. Como salienta Louise Gauthier (1997. identitários. Se na narrativa da viúva de Amédée.. um grande lirismo se destaca nessa obra. Cabe agora ressaltar que o prazer da leitura do romance Passages está diretamente ligado à representação das movências: o leitor é chamado para se deslocar dos limites de seu mundo. 2007 . Assim. a do personagem Régis – que tece as ligações entre diversas histórias. o livro em questão coloca na paisagem transcultural montrealense a explosão do orgiasmo carnavalesco caribenho. para empreender uma viagem em um universo marcado pela riqueza de imagens e de metáforas inesperadas. Isso explica a cenografia do ritual amoroso inventado por esses personagens que elegem a vivência amorosa (e aqui pouco importa se se trata de amor ou de paixão) como espaço significativo da condição diaspórica. pertence a um domínio mais culto do francês. Hibridação de registros de língua. o personagem Leyda evoca esse momento expressivo do encontro de culturas e seus efeitos sobre os quebequenses. graças à inclusão da multiplicidade de cores. Valendo-se das promessas da diáspora.Uma voz da diáspora haitiana.71). precisam levar adiante seu desejo – sempre movente. Émile Ollivier imprimiu em seu romance as marcas da Poética da Relação proposta por Édouard Glissant (1990). gostos e ritmos e à liberação do corpo grotesco próprio da carnavalização rabelaisiana. na riqueza da não-coincidência. surpresos diante da manifestação dionisíaca da diferença em seu território. de paisagens e de manifestações culturais que remetem a um “dépaysement” criativo que nada tem de exótico.

de fourreaux. dá-se uma série de transformações: a revelação do mundo às avessas. pulsions sauvages de la violence lascive des tropiques. de clou de girofle. dans ce parc de Notre-Dame-de-Grâce. rabordaille. une foule criant haut et fort. rubans de dentelles. tout cela vibrait sous le regard médusé des archéo-Québécois qui auraient pris panique.38-39) Na lógica da carnavalização. de muscade.Maria Bernadette Velloso Porto transbordamento de limites. vieux bidons d’essences. plantes plantureuses aux yeux rouges de plusieurs veilles de laborieuses préparations. cercles de femmes. de vanille.. une cacophonie. après avoir fait le tour du monde. Et l’on voit passer des bipèdes obscènes sur des plates-formes mobiles. une horde de corps que des coulées de sueur font luire au soleil . casseroles ébréchées. un coup pour moi. vol. d’ail. n° 15 . défilés de couples mimant des scénes d’accouplement. de basilic. du bruit qui soudain devient rythmes. 1994. Goiânia. incitant à des déhanchements. démêlés. plantes parvenues à maturité sans que l’on puisse en préciser l’âge. assoiffés de fentes. un coup pour toi.) Et l’on tape sur tout ce qui peut résonner : bouteiilles vides. a transgressão ou a travessia das fronteiras da ordem cotidiana. distribuent victuailles et rafraîchissements . reggae. masques. échouaient là. femmes-tortues. renovada pela irrupção dos signos da alteridade: Leyda gardait en mémoire l’image de toutes les couleurs de peaux se côtoyant dans une débauche de costumes bigarrés. des punchs exotiques. sandwichs à l’avocat. de fruits de la passion: irruption de la Caraïbe des origines . de phallus aux proportions gigantesques. Et les odeurs! Des matrones. de trous. VIII. méringue. pâtés relevés de poivre.. rythmes célébres qui. p. femmes-lézards. n’était la présence massive et rassurante de la flicaille prête à toute éventualité (OLLIVIER. de piment. royaume de testicules. des assauts de fantaisie. serpentins qui deviennent cerceaux emmêlés. a dessacralização da cultura oficial. bouquets de canelle . calypso. femmes-libellules. cette partie de la ville devenue soudain folle (. a manifestação do corpo grotesco 132 Revista Brasileira do Caribe. steelbands d’un jour.

elas parecem brincar de outras possibilidades de ser e de estar no mundo. o carnaval caribenho reinventado em uma metrópole da América do Norte acena com as promessas de renovação e de metamorfose. mostra-se disponível para incluir em seus referenciais identitários valores e 133 jul. cultuados em seu país natal. a cerimônia vodu realizada a bordo do barco. atinge a todos. No caso de Ollivier. recusando-se a reconhecer uma concepção simplista de pertencimento. com seus excessos e transgressões de limites habituais. na vela do barco que levaria alguns haitianos a Miami. nossa relação com o passado e com a origem é sempre passível de releitura e nos permite atestar a veracidade de uma afirmação do romance: “(. mesmo localizados. 240). 2007 ... p. no Quebec.. as referências a manifestações culturais do Haiti desempenham sempre um papel relevante na obra de Émile Ollivier. No âmbito de jogos identitários característicos do carnaval. Por uma espécie de crescendo. Entretanto. mesmo que por momentos.Uma voz da diáspora haitiana. Isso indica o caráter de duplicidade identitária do autor que.83). insinuando que toda essa algazarra é apenas provisória. Seja como for. os corpos individuais encontrando seu prolongamento no corpo social “contaminado” pelos apelos caribenhos. p. por mais que a identidade esteja ligada aos movimentos do devir./dez. a vivência da religiosidade por parte de personagens é marcada pelo sincretismo. e da sexualidade desenfreada. 2003. abalada com a desmedida da festa carnavalesca. ao longo da qual o improviso é permitido. lagarto e tartaruga. foram bordadas imagens do panteão católico e de divindades do vento e do mar. Assim. as mulheres conhecem. mantenedora da ordem. investindo. Sugerindo a dupla inscrição identitária do autor. comprova que. em formas diferenciadas de identidade. o devir animal: revestindo-se de atributos de libélula. Todavia. Longe de se fundamentarem numa visão folclorizante da diferença. Desse modo. todos nós nos originamos e falamos a partir de “algum lugar” (HALL. a polícia permanece de sobreaviso.) o ser humano não pára de se inventar” (OLLIVIER. a euforia contagiante da festa. ainda que debaixo de fantasias e disfarces. e a presença dos excessos associados à enumeração. 1994. aprofundou sua experiência do entre-dois..

distinção e ruptura. 1990. Montréal : Boréal. vol. exclusão. Paris: Éditions de l’Arcantère . 2000. passagens. Da diáspora : identidades e mediações culturais. S. L. esse se viu transformado com as vozes caribenhas. GLISSANT. BOUCHARD. Le discours antillais. 2005. Z.). GAUTHIER. n° 15 . Bibliografia AUGÉ. Niterói: EDUFF/ABECAN. GLISSANT. Langagement : l’écrivain et la langue au Québec. insuficiência e ausência que levam o ser humano a largar as amarras de um porto seguro das certezas para se deixar envolver pelos movimentos do devir e pela expansão diaspórica. 1999. Paris : Seuil. Por sua vez. M. Sainte-Foy (Québec) : Les Presses de l’Université Laval. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. a despeito de alguma resistência. Identidade. BAUMAN. É. Introduction à une poétique du divers. J.. Paris : Seuil. Les pouvoirs des mots. Ottawa : Conseil International d’Études Canadiennes. E se a idéia de identidade supõe limites. M. 1994. G. S. GLISSANT. Montréal : Les Presses de l’Université de Montréal. Poétique de la Relation. « Littérature et culture nationale du Québec : le clivage culture savante/culture populaire ».(org. ela também pode ser concebida como falta. É. 1995.In : PORTO. JONASSAINT. & JACQUES. HAREL. Goiânia. 2003. São Paulo: Papirus. P. Fronteiras. 2000. Brasília: Representação da UNESCO no Brasil. les maux du pouvoir : des romanciers haïtiens de l’exil. HALL.. CASANOVA. La mémoire sans frontières : Émile Ollivier. 1997. La République Mondiale des Lettres. Paris : Gallimard. numa via de mão dupla enriquecedora. M. L.Maria Bernadette Velloso Porto produtos culturais do país que o recebeu. Montréal : Presses de l’Université de Montréal. 1997. VIII. “L’écrivain témoin : déplacement. É . 2003. 1986. Naïm Kattan et les écrivains migrants au Québec. Campinas. Belo Horizonte: Editora da UFMG. 134 Revista Brasileira do Caribe. transferts culturels et l’expérience de l’habitabilité dans les romans d’exil d’Émile Ollivier”. paisagens na literatura canadense. In : Revue Internationale d’Études Canadiennes n° 27. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. GAUVIN.

paisagens na literatura canadense. Dialectique de l’américanisation. Identidades em trânsito. escritor e sociedade. 2001. 2004. PORTO. In: PORTO. MAINGUENEAU. M. Montréal : Hurtubise HMH.Paris: Bernard Grasset.. 2001. M.Paris:Librairie Générale Française. LAROCHE.. F. : essais sur des cités et des hommes. 2001. M. Niterói: EDUFF/ABECAN. (org. 135 jul. S. SIMON. M. N. “Hibridações culturais. Identidades em trânsito. É. PORTO. PARÉ. 2004 MAFFESOLI. 2004. L’écrivain migrant. Niterói: EDUFF/ABECAN. 1991. 2007 . M. La double scène de la représentation : oraliture et littérature dans la Caraïbe. 2004. Les littératures de l’exigüité. 1998. MAALOUF. 1993. Repérages. 1993. M. (org. Passages. Paris : Le Serpent à Plumes. Niterói: EDUFF/ABECAN. O contexto da obra literária: enunciação. passagens.). MAALOUF. Du nomadisme: vagabondages initiatiques. 1991. OLLIVIER. S.Ottawa : Leméac. (org. LAROCHE. OLLIVIER. (org.. . D. hibridações textuais”. 2001.. Québec : Presses de l’Université Laval. M. D. PORTO.. Paris: Grasset & Fasquelle. Origines.) Fronteiras. Identidades em trânsito. PORTO. Les identités meurtrières. KATTAN. São Paulo: Martins Fontes. Entre-deux: l’origine en partage.Uma voz da diáspora haitiana. A.. A./dez. 1994. M. Québec : GRELCA. 1997. Niterói: EDUFF/ABECAN. “Pátrias imaginárias na poética das migrações”.). SIBONY.Paris: Seuil. Ottawa : Le Nordir. RUSHDIE. É. Patries imaginaires: essais et critiques 1981/1991.). 2000. Paris : Christian Bourgois.

136 .

VIII. Creoleness and creolization. 2007 . 137-164. Keywords: Césaire. Antilleanness. Goiânia. Negritude Resumo Este trabalho representa à subjetividade antilhana a partir das poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. da Filosofia de Jean-Luc Nancy e da concepção mais contemporânea de *Artigo recebido em dezembro de 2006 a aprovado para publicação em março de 2007 137 Revista Brasileira do Caribe.A construção da identidade no Caribe de língua francesa: Da Negritude à antillanidade: Césaire e Glissant Kátia Frazão Costa Rodrigues Abstract This study focuses on the exploration of the Antillean subjectivity as it is conveyed in the poetry by Aimé Césaire and Edouard Glissant. The acknowledgement of this subjectivity leads to a reformulation of the way of thinking and acting. but on a different turn. num movimento outro. Glissant. Antilhanidade. n° 15. sob um olhar mais paciente e também voltado para o futuro. vol. interview with Brazilian poet Paula Glenadel. O diálogo se dá pela via da Psicanálise de Jacques Lacan. Crioulidade e Crioulização. From the perspective of a voice which initially emerges as an expression of the unconscious of the collective and still over influenced by the legacy of the colonizer. This analysis will draw on the theories of Jacques Lacan on Jean-Luc Nancy´s philosophy and the most contemporary conceptions of identity. convite para se repensar conceitos como Negritude. se reedita e deixa mostrar a outra face da resistência. a way of political and social compromise with the progress of humanity. Literature. mas que. Na perspectiva de uma voz que inicialmente surge como expressão inconsciente do coletivo e ainda sobredeterminada pelo significante do colonizador. Identities. a new perspective towards the future encourages to re-evaluate concepts such as Negritude. allowing thus the dialogue between differences.

de la filosofia de Jean-Luc Nancy y de la concepción más contemporánea de la identidad. A subjetividade. Negritude Pretendo suscitar interrogações acerca de uma possível subjetividade antilhana a partir do diálogo entre as poesias de Aimé Césaire e de Edouard Glissant. Já a palavra sujeito. criollidad y criollización. o diálogo entre as diferenças. pessoal. individual. Palabras Claves Césaire. n° 15 . El diálogo se da por la vía del psicoanálisis de Jacques Lacan. entrevista en la poetisa brasileña Paula Glenadel. possibilitando. adjetivo do latim subjectivu que significa: relativo ou existente no sujeito.Kátia Frazão Costa Rodrigues identidade. Literatura. forma de engajamento social e político com o efetivo progresso da humanidade. em duplo gesto. designa o substantivo feminino que concerne à qualidade ou caráter de subjetivo. permitiendo así el diálogo entre las diferencias. El reconocimiento de esa subjetividad lleva sin duda a la reformulación del pensar y del actuar humanos. invitando para repensar los conceptos Negritud. Glissant. aqui entrevista. Glissant. sem dúvida. onde traços se repetem e. Literatura. Negritude Resumen Este trabajo es una investigación sobre subjetividad antillana a partir de las poesías de Aimé Césaire y de Edouard Glissant. vol. Es la perspectiva de una voz que inicialmente nace como expresión del insconsciente colectivo y ainda sobredeterminada por el significante del colonizador pero que en un movimiento “otro” se reedita y deja mostrar la otra cara de la resistencia sobre una mirada más paciente y dirigida para el futuro. seus poemas parecem remeter a um espaço comum. entrevista em Paula Glenadel. Goiânia. poetisa brasileira. forma de compromiso social y político con el efectivo progreso de la humanidad. à reformulação do pensar e do agir humano. conforme 138 Revista Brasileira do Caribe. VIII. O reconhecimento dessa subjetividade leva. particular ou que pertence unicamente ao pensamento humano e é suscetível de variar em função da personalidade de cada um1. Palavras-Chave: Cesáire. assim. pois embora esses autores martinicanos se inscrevam na Literatura de forma particularizada. produzem movimentos de fechamento e de abertura próprios de uma existência híbrida e resultante do processo de ser singularmente plural. antillanidad. Identidades.

que deve ser redescoberta a qualidade desse eu enunciador. Les composantes sont diverses. 2007 ..A construção da identidade no Caribe. assim. mas à palavra exterminada dos indígenas e amordaçada dos escravos africanos. entrevista a partir do encontro dessas potências em diferença ou. que toda essa literatura mestiça está presa não somente ao ocidente. ainda que instantaneamente.. escritor nascido em Guadalupe: “Nous ne sommes pas que des descendants de l’Afrique. ainda. iniciado pelo marronage3. muitas vezes interrompida e consignada na memória crioula. primeiramente. no ponto intersecional das poéticas de Césaire e de Glissant. que a Literatura Antilhana possui uma dimensão muito maior do que o universo restrito da Martinica. Ademais. em outras vozes do plano da composição. que 139 jul. que. convocar à cena a voz que se apresenta poeticamente como “eu”. No entanto. Pépin também nos dá pistas de que é pela palavra. um alguém. assim. antes de tudo. As investidas em favor desse resgate identitário. reconhecendo-se. materialização na escrita de uma potência que não cessa de se recarregar./dez. Cito Pépin. vem do latim subjectu (posto debaixo) e. este pode se legitimar como seu fiel representante. muitas vezes ficaram sem registro. pela oralidade do conto e pelas práticas culturais. como o padre Labat e o padre do Tertre. cativo. refere-se ao súdito. Cabe ressalvar. ao redesenhar a trajetória de um devir sempre descontínuo. esbarra. escravizado. tamanha é a sua importância no processo de reconstrução sócio-cultural e histórica das Antilhas. Investigar a subjetividade antilhana é. Não foi senão a partir dos primeiros cronistas. como adjetivo. nesse caso. àquele que se sujeita à vontade dos outros. apostando na existência de um alguém. assim. a escritura martinicana está diretamente ligada à questão identitária e esta ainda parece ser a grande problemática do antilhano em geral. o termo sujeito designa o indivíduo indeterminado ou cujo nome se quer omitir. pesquisa de mesma fonte. O autor deixa entrever. Nous portons tous en nous ces parcelles d’identité qui nous constituent en tant qu’Antillais et Caribéens créoles2”. obrigado e constrangido ou. Como substantivo. A subjetividade é.

retratar a realidade antilhana. muitos deles seus futuros e acirrados críticos. assinado pelos martinicanos Raphaël Confiant. VIII. conquistou rapidamente um grande número de adeptos. Segundo Confiant. a “Negritude”. Cheia de clichês. esses “brancos da terra”. assim. como afirmou Pépin. O conceito de “Crioulidade”. No projeto de uma concepção unificada do povo antilhano. nos anos 80 do mesmo século. acusa Césaire de essencialista. a crioulidade apela para a consciência de uma etnia plural. igualmente presa aos padrões ocidentais. Césaire. dentre outras razões por fazer uso da língua francesa. Surge. que também se revela como problemática. vol. sobretudo. Ao denunciar o falso monolingüismo e a pureza das raças sem evidenciar. Jean Bernabé e Patrick Chamoiseau. porque designa ora os brancos nascidos nas colônias. Desde sempre atraído pela questão identitária e querendo ultrapassar as barreiras essencialistas criadas 140 Revista Brasileira do Caribe. A eles se segue a escrita duduísta. a existência de uma matriz cultural fundamentada na plantação da cana e na escravidão faz persistir a idéia do “um” em relação ao sujeito antilhano. movimento que se inicia nos anos 30 do século passado e marca uma consciência mais desenvolvida em favor da dignidade negra. quem primeiro explorou mais profundamente a unidade. Entretanto. por isso. que liderou essa empreitada identitária. tão distante e estrangeira. dentre elas. na busca de uma poética própria. a mestiçagem. vista como eurocêntrica e dominadora. deparando-se com algumas barreiras. em seus anseios linguageiros pela cultura dominante. Goiânia. não conseguiram. foi Edouard Glissant. a crioulidade acentua ainda mais as diferenças culturais e antropológicas.Kátia Frazão Costa Rodrigues se inaugurou timidamente uma sondagem. ora os negros. então. igualmente dicotômica e marcada pelo exotismo. Desse cenário evolutivo nasce. ainda nos anos 60. Mas. a da própria língua. a escrita regionalista. de fato. contudo. é formulado em favor dessa contraposição. escreviam em francês e. a então chamada “literatura assimilacionista” também não chegou a apresentar uma dimensão histórica e social. como é chamada por Pépin. n° 15 . A “cria da Negritude”. Era a escrita dos primeiros mulatos antilhanos assimilados.

A identidade passa a ser concebida não mais como regional. Para ele. o autor desenvolve o conceito de “Identidade-rizoma”. o resgate da identidade antilhana só é possível pela ruptura com a tradição baseada na filiação. Em 1995./dez. Entretanto. Afetado pelas idéias de Deleuze e Guattari. o pensamento de Glissant se estende às problemáticas humanas. as diferenças.. até contraditórios. no mesmo. e também pela migração e maior contato entre os povos. Elabora. que busca. 2007 . o devir crioulo passaria por essa conscientização. fazendo ampliar as fronteiras não somente da Martinica. talvez seja mais interessante pensar que. Por volta dos anos 1980-1990. apesar de diversa e sem consciência de si mesma. as tentativas de ressignificação do sujeito antilhano representam as muitas etapas da construção de uma subjetividade híbrida que se desenha no entre-lugar de algumas falas. assim. incluindo-se. Dessa forma. mas no “ser com”.. assim. que se fundamenta no diverso. a partir da observação dos traços comuns das várias culturas caribenhas. onde interagem o cultural e o lingüístico. pela Negritude. com o monolingüismo e com a identidade-raiz. com o discurso hegemônico do ocidente. aí. por vezes. na aceitação do outro e de suas diferenças. confirmando a existência de uma cultura crioula que. A identidade não mais se concentraria no ser. Glissant define as diferentes culturas como formas mestiças que se entrecruzam de maneira dinâmica num processo de “Crioulização”. possuiria uma identidade própria. é o próprio Glissant quem atualiza a noção de antilhanidade. conceito articulador da “Poética da Relação”. acerca da oposição raiz-rizoma. Segundo o autor. por 141 jul. o conceito de “Antilhanidade”. a universalização do devir. Glissant desenvolve a idéia de uma “identidade regional”.A construção da identidade no Caribe. longe de serem consideradas como movimentos isolados e. mas como múltipla e decorrente da relação com o outro. desrespeitando. a obra de Césaire. provocados pela globalização. Chamoiseau chega mesmo a afirmar que não é possível falar em Literatura Antilhana antes de Glissant e que tudo que o antecede não passa de uma pré-literatura. mas também das Antilhas e da América em geral.

Essa escrita marcada pela emoção apresenta.. “. incitando à reflexão. numa verdade exterior. Cito Glissant: “Et parmi les chants de midi / Ravinés de sueurs triomphales / Sur un cheval vient à passer / La mort demain la Pitié” (GLISSANT. 1994. como diz o poeta da negritude. l’ 142 Revista Brasileira do Caribe. do drama de todo negro da história da humanidade..10). le pain. 14). e por extensão. le sang des épousailles véridiques” (CESAIRE. le cordon ombilical restitué à sa splendeur fragile. p.. p. gestes imbéciles et fous pour faire revivre l’ éclaboussement d’ or des instants favorisés. de Aimé Césaire. também. Mas foi Césaire quem primeiro denunciou essa marca indelével da violência: “. 1994. un vieux silence crevant de pustules tièdes. Cito: Cette argile à nouveau remue! Serait-ce que l’oiseau guide le ciel vers une source ? Serait-ce.. A descrição do sofrimento causado pela escravidão. vol. como também. très lointaine. silencieusement.une vieille misère pourrissant sous le soleil. et le vin de la complicité. le vin. invocando atenção para questões morais que colocam em jogo valores como dignidade. A interpelação em Glissant tenta atingir a cristalização causada por um real que ainda resiste à palavra. caminho possível para uma atitude menos passiva diante dos acontecimentos que envolvem a própria vida. um cunho pedagógico. buscando. p. honra e respeito. feita por Glissant na sua obra Poèmes 4.24).Kátia Frazão Costa Rodrigues aproximação e distanciamento. 1965. sacudindo a consciência. Daí a abundância de interrogações. Goiânia. / l’affreuse inanité de notre raison d’être” (CESAIRE. inicialmente. A escritura antilhana tem a marca de um apelo que se funda. n° 15 . por exemplo. VIII. não somente em favor de uma maior consciência acerca do negro colonizado. le pain. dá pistas de uma incontestável proximidade com aquela que se desenhou no Cahier d’ un retour au pays natal5.

Toute prose devient feuille et accumule dans l’obscur ses éblouies. Glissant responde.1965.. faites-le prose de l’obscur. embarquement des rives de la neige vers une foule incendiée ? Ou le coeur. 1965. nul ne peut. Cito: “Durant que vous dormez dans cette plaine. mais l’ emblave et l’ ensemence.. le souvenir encourt les tournoiements de l’ arbre. permanece “como uma baía!” (GLISSANT.15). O uso dos verbos no modo imperativo já atesta o desejo de guiar impulsionando essa multidão que. no poema “Palavras de ilhas. et plus haut son sang. Faitesle feuille de vos mains. Lui ne craint plus le sentiment (de dire « je » dans cette terre).. à peine devinant tout ce remous d’ étoiles et de lierres.. ao mesmo tempo em que interroga. ensaiar a instrução de um possível caminho para o resgate identitário. que cette enfance soit la vieille d’ un bivouac.A construção da identidade no Caribe. p. da mesma forma. faites mystère ainsi que lui de ce silence où bruit la ville. (GLISSANT.” (GLISSANT. quando diz: Si nous voulons réappareiller l’ abeille dans les campêchiers du sang Si nous voulons désentraver les mares et les jacinthes d’ eau Si nous voulons réfuter les crabes escaladeurs d’ arbres et dévoreurs de feuilles Si nous voulons transformer la rouille et la poussière des rêves en avalanche d’ aube Qu’ es-tu. ausente de todo trabalho. ocupando também o lugar do outro. profuse en ce langage.faites-le flamboyance de l’indécis.. 1965. para saudar Edouard Maunick”. 15-16). indifférente et soudain calme dans le fruit.... Césaire parece./dez. 2007 . est-ce le coeur. ao traçar a estratégia para a resistência. qui fume sur la ville sa suée de terres. et l’ébloui de vos brisures. son ressac tumultueux ? Nul n’ avoue. agité comme une gare de populations végétales. p. 13-14) Mas. Et vous. Toi qui comprend ce qui disent les îles Et qu’ elles se communiquent dans la marge des mers et dans le dos des terres dans leur jargon secret d’ algues 143 jul.

p. revelando uma escritura marcada pela antítese branconegro. expressa na passagem perversa do outro por essa ilha lastimável de uma gente passiva ou. Nos versos abaixo. Goiânia. vol. pois esse tempo distante é constituído de matéria fictícia e remete a algo que não existe mais ou que nunca existiu. Seu referencial de verdade está no passado e aponta para a consciência de que algo precisa ser empreendido. um novo traço dessa dura realidade se revela. A escrita hesita entre o desejo de ser o seu próprio modelo e a missão de um testemunho coletivo acerca do passado traumático que seria esquecido sem ela. completamente muda. quando. de fato. Glissant o faz pela pintura da sua inversa miséria. pelo menos como tal. ao tentar desmistificar o exotismo das Antilhas. náufraga.Kátia Frazão Costa Rodrigues Et d’ oiseaux Qu’ es-tu comparse du feu et du flux et du soufle (CÉSAIRE. 1965. n° 15 . Glissant parece assumir a mesma fala que um dia proferiu o poeta “portavoz das bocas das desgraças que não têm boca nenhuma”7 ao dizer: L’ île entière est une pitié Qui sur soi-même se suicide Dans cet amas d’argiles tuées O la terre avance ses vierges Apitoyée cette île et pitoyable Elle vit de mots dérivés Comme un halo de naufragés A la rencontre des rochers (GLISSANT. pouco a pouco. “de uma multidão que não sabe fazer multidão”6. 508). que se deixa abater e. deriva. 24) Essa expressão cheia de predicações compõe. A mesma ambigüidade se dá em relação à descrição da Martinica. deixando-se representar por cores sombrias que escrevem simbolicamente o desencanto: 144 Revista Brasileira do Caribe. 1994. p. o cenário do drama. E. a cada pincelada. VIII. como diz Césaire.

antigas antinomias. ao ser mantida. perde o contato com o mundo e.A construção da identidade no Caribe. assim. 2007 . além da memória. Le soir est écuelle de broussailles. Que de sang dans ma mémoire! dans ma mémoire sont des lagunes. Nessa perspectiva. assim. Essa dimensão psicológica encontrada. de um sentimento de incapacidade do negro diante da supremacia branca. mostra que a poesia construída a partir da autofragmentação patológica do negro e da sua vitimização vai alimentar o plano das composições antilhanas em geral. entregando-se. não por acaso. 1994. Sua recorrência atesta não só a não resolução como a fixação do drama. ao mundo maniqueísta instaurado pela escravidão. loin du vent. de roses sales. perde a noção de si e da realidade. Ma mémoire a sa ceinture de cadavres! et mitraille de barils de rhum génialement arrosant nos révoltes ignobles. fazendo realçar. É interessante destacar também que tanto Glissant quanto Césaire demonstram a especificidade do negro colonizado como alguém que. plus que l’ aurore dans les chambres. 145 jul.. pelo pessimismo. “na eterna fixação dos dias e dos gemidos”8: O tout ce lieu est mort. a posição privilegiada do ocidente. pâmoisons d’ yeux doux d’ avoir lampé la liberté féroce (CÉSAIRE./dez. também no plano ficcional e como algo ainda passível de ser questionado. a permanência.32). acheminant des rêveries. os dois poetas dão indícios de que. ô jamais n’ ira l’ aurore disant l’aurore. Elles sont couvertes de têtes de morts. se desajusta. Sur leurs rives ne sont pas étendus des pagnes de femmes. Jamais plus n’ ira le vent par la parole. Ce vent n’ est plus l’arène où s’ ébattent les pluviers ! Jamais plus. Ma mémoire est entourée de sang. a sua própria condição humana. na obra dos dois autores. como um traço identitário que não se apaga. a escrita antilhana também é marcada pelo desastre. diante do sofrimento moral e material a que foi submetido. confirmando. p. Dans ma mémoire sont des lagunes. coisificado. no imaginário antilhano.. Elles ne sont pas couvertes de nénuphars.

car sa voix s’ oublie dans les marais de la faim. n° 15 .Après la traversée. et de sang noir précipité. (GLISSANT. 31).. escravizada. dans la voix fissurée. na impossibilidade da troca com o outro.. Un homme chaque matin ouvre les yeux sur la solitude où il se garde. abandonné la rare bleuité de ceux qui aiment et sont aimés. O verbo se faz presente entre o 146 Revista Brasileira do Caribe. / une faim ensevelie au plus profond de la Faim de ce morne famélique” (CESAIRE. et la colère des requins.146). Il est de la race des choses mûres de mûrir dans l’ été lourd et l’ encombre tumultueux. na falta de comunicação. Il a quitté les flamboyances. pleuré les rêveries. Na sua teoria sobre a constituição do sujeito. rien à tirer vraiment de ce petit vaurien. A linguagem determina o sujeito porque a palavra não só precede a sua existência. la solitude. cette naissance hivernale ? (GLISSANT. a resistência rumo à individuação. “je”. o poeta do “Cahier”: “. o psicanalista Jacques Lacan9 demonstra que o exterior tem importância decisiva. na mesma encruzilhada do pensamento. dans cet effroi des promenades ? – nul ne sait. fazendo com que o homem perca a sua aurora e os seus devaneios. na impossibilidade de amar e de ser amado.. p. Peut-être êtes-vous là. se submete ao código do outro. O Soleil ! ô travail séculaire sourdement mêlé de mer. como estrutura a dimensão inconsciente e. / qu’ une “faim qui ne sait plus grimper aux agrès de sa voix / une faim lourde et veule. E. p. p. / et il n’y a rien. pois o eu se descobre no outro..13). 1965.1965. a partir de um comprometimento involuntário com o sistema simbólico pré-existente. VIII. Goiânia.. et de cette couleur d’ amour.. s’ouvre bientôt un champ de misère et d’ incendies. 1994.Disaitil seulement.. A morte é também da palavra que. comme l’ aurore.. vol.Kátia Frazão Costa Rodrigues « je suis l’éveil des yeux et la clarté des profondeurs”. paradoxalmente.

aprisionado pela brancura de uma vã assimilação à cultura ariana. 1965. diferente do eu. numa imaginada cumplicidade com o colonizador: Je me cachais derrière une vanité stupide le destin m’ appelait j’ étais caché derrière et voici l’ homme par 147 jul.A construção da identidade no Caribe. que fez com que o homem se perdesse durante tanto tempo na obscuridade. esboçando sorrisos pálidos. da mesma forma que é impossível conceber a subjetividade sem essa presença fantasmática. P. nesse caso. há sempre algo no meio. estranho e ameaçador. 27) Na situação diaspórica. verdadeiro instrumento de dominação. (GLISSANT. pois não se trata apenas do assujeitamento primordial à língua do grupo. desengonçado. Césaire já apontava para esse homem que. sem enxergar a si mesmo: Qu’ était la mer et son écume ? Savait-on si sa parole ne se mourait En quelque gouffre. implica também resistir a essa palavra escravizadora de consciências. Neste sentido. como efeito da própria socialização.. p. se escondia em si mesmo. sem ritmo e sem medida. Entre sujeito e discurso. tropeçando na língua do outro e. au loin des routes révélées ? Longtemps ainsi la voix de l’ homme se perdit aux temples Pour obscure qu’ était la route jusqu’ au temple ! et cette mer. Tornar-se sujeito. 2007 . 85) Em Cahier d’un retour au pays natal. Cito Césaire: “Mais pourquoi brousse impénétrable encore cacher le vif / zéro de ma mendicité et par un souci de noblesse apprise/ Ne pas entonner l’ horrible bond de ma laideur pahouine ? / Voum rooh oh / Voum rooh oh “ (CESAIRE. a dependência do outro se torna ainda mais traumática. 1994. sujeito e a sua fala. mas da subordinação à língua do estrangeiro colonizador. o processo subjetivo só pode ser pensado na relação com o outro. ao mesmo tempo../dez.

citado por Bruce Fink10. pensar que o sujeito é sempre definido em função do outro. Essas fixações atestam não somente o conflito do eu. des mots. (CESAIRE. e. ah oui. ses déclamations pédantesques rendant du vent par chaque blessure. e a alteridade. Lacan. et des flambées de chair.Kátia Frazão Costa Rodrigues terre. des mots qui sont des raz-de-maré et des érésipèles et de paludismes et des laves et des feux de brousse. 1994. por conseguinte. p. traz a certeza de que é preciso buscar uma outra expressão. sa très fragile défense dispersée. mas também o exercício de um fazer-se sujeito ou a “cura”. Voici l’ homme par terre Et son âme est comme nue. então. 1965.. A alienação seria. (CÉSAIRE. quand nous forçons de fumantes portes.. E. vol. A concepção lacaniana do homem como ser sobredeterminado pela linguagem permite. fala o poeta da negritude: Des mots? quand nous manions des quartiers de monde Quand nous épousons des continents en délire. A alteridade implicaria.30). em outras palavras. ses maximes sacrées foulées aux pieds. mostrando que as repetições na fala seriam a representação sintomática do inconsciente. adornos!” (GLISSANT. et des flambées de ville.. decorrente do funcionamento da própria linguagem. 36). VIII. p. assim. 39) A consciência de que a língua do outro é feita de “Brancuras! viscosidades da palavra que não interpela! Febre nevada. Goiânia. a cessão do eu. que seja capaz de exprimir toda a angústia e o arrependimento por ter. Pode-se supor. n° 15 . confirma o pensamento freudiano de que é pela linguagem que o homem se revela. resultante da sua relação com o mundo. um dia.. desejado ser como o outro. des mots! mais des mots de sang frais. do desejo do outro. assim. a partir daquilo que um significante representa para outro significante. dessa forma. 1994. p. ou ainda. a extensão da estrutura que cessa para algo se opor a ela. a “doença”. que a sua relação com o 148 Revista Brasileira do Caribe.

de onde talvez sejam possíveis a consciência de si mesmo e uma relação menos traumática com o mundo. O discurso apresenta. em paralelo. portanto. senão. é Césaire quem poetiza: les nuits de par ici sont des nuits sans façon elles sont toujours en papellotes elles ne sont pas sans force même si elles sont sans mains pour brandir le coutelas mais force reste à la loi – à l’ angoisse la nuit ici descend de grillons en grenouilles doucement les pieds nus en bas un gosier de coq patiente 149 jul. p./dez. preenche vazios e transforma o desejo. como linguagem.A construção da identidade no Caribe. Declara Glissant: “Le soir à son tour germera / Dans le pays de la douleur/ Une main qui fuse le Soir/ A son tour doucement tombera” (GLISSANT. 22). 1965. que padece das palavras derivadas. assim. Entretanto. na adoção da causa que perturba o funcionamento da estrutura. dirige o seu olhar para um devir. E. investido de mais de um sentido. porque o outro se interpõe provocando ora admiração. A letra mata o sujeito para lhe oferecer vida própria. assim. o outro que habita em nós. porque inclui o outro que. 2007 . aquele que apenas a ordem simbólica é capaz de captar. tornando seu algo que antes era estranho e ameaçador. fonte de toda comunicação. ora repulsa. revela-se agora. de uma ficção quando toma para si a alteridade. O desejo não é. fantasias se produzem e oferecem a sensação de um falso ser que tenta superar o conflito. o fruto dessa ilha lamentável. mundo é sempre ambígua. mais de uma dimensão.. os laços que geram a dependência primordial ao significante do outro também fazem armazenar a energia que principia toda resistência e.. Nesse processo de aproximação e de distanciamento. O homem nasce. pois ao mesmo tempo em que permanece ligado de forma irremediável à língua do colonizador.

Assim. a existência de um alguém que. A noite que cai “docemente e. Goiânia. incita ao exercício de um olhar mais amadurecido e próprio de um eu que se confessa “laminar”11 em Césaire ou. na visão lacaniana. A primeira refere-se a um duplo assujeitamento do homem antilhano. o primeiro passo para a constituição do sujeito. em decorrência da própria anulação. 418). permitindo. entrevistas as duas poéticas. como um furo de significantes que nos chegam numa linguagem truncada e aparentemente sem sentido. É também dentro dessa perspectiva ética de sujeito que são. de grilos em rãs”. deixando entrever. p. reanima a existência. se mexer e “gravitar em torno do seu próprio corpo” (GLISSANT. investidas de interesse e de valor libidinal. n° 15 . duas trajetórias para se pensar a subjetividade. de responsabilidade frente 150 Revista Brasileira do Caribe. vol. desta vez. igualmente. embora “sem mãos para erguer o facão”. como uma paciência que “cresceu na ausência”. da alienação que dirige o homem para a assunção de um papel vazio a ser preenchido pelo outro. irrompem no discurso. em contrapartida. pois. a exegese do eu e do desejo. se reinventa. ainda. A ordem simbólica internaliza as imagens especulares que. mais ainda. 1994. como ser negro e escravizado. As imagens enunciam uma subjetividade que assume o comando e a responsabilidade por toda a expressão. através de duplos gestos. nascido no país da dor. na busca da realização do eu reprimido e na assunção também de um papel.11-12). mas que faz uma argila resmungar novamente. p. 1965. próprio daquele que Glissant anuncia como nascido da poesia que ultrapassa o drama e faz reacender a chama da vida. Uma anulação que é. agora. do marronage à crioulização. Tratar-se-ia. VIII. O segundo movimento revelaria um percurso outro.Kátia Frazão Costa Rodrigues pour cueillir la giclée ce n’ est pas toujours de la cellule de gestion de la catastofre que la journée téméraire fait part de sa propre naissance (CESAIRE. assim mesmo ou por isso. a história antilhana se retraça. mas. Desenham-se. causado pela sua constituição como ser social e.

uma vez rompida. ao próprio futuro. Chico Science”. chamando para si o sujeito./dez.. A subjetividade adviria. como uma herança inquietante que atravessa o discurso produzido pelo imaginário e pelo desejo das margens. provocando a ruptura da hipotética unidade anterior. ao ser atravessada. desarmado. faria com que o sujeito se expusesse com toda a sua complexidade. pelo qual o sujeito se permitiria construir e “des-construir” fantasias. único caminho para a fantasia que. assim. sustentado apenas pela ilusão de uma totalidade. A separação implica a dupla falta e marca a possibilidade do sujeito vir a ser. vivendo a sensação fantasmática da completude causada pela utopia de um preenchimento. a partir do reconhecimento da espectralidade que assombra a fala do sujeito12. É dessa forma. no firme propósito de ser como tal. “a ‘identidade’ está e não está onde se procura por ela”13. A partir dessa concepção mais contemporânea acerca do sujeito e da identidade. Segundo Glenadel. um fantasma que reinventa o drama e se apropria do sentido. Paula Glenadel propõe pensar a identidade como identificação. penso. mas também como possibilidade de encontro com o desejo do outro. completamente nu. 2007 . alavanca o processo de subjetivação do drama.. em fluxo constante. assim. Essa unidade. de 151 jul. que não é nem eu nem outro. Nesse sentido. Em “Entre mangue e manguetown. É preciso pensar o trauma antilhano como bloqueio. A identidade seria. tenta fazer essas duas faltas coincidirem. imprevisível. talvez seja possível pensar que existe. fruto de dor e de prazer. na conformidade de uma contradição que. que o sujeito se atesta. mas o gozo de uma vida. provocando proximidade e distância. Tal processo corresponderia ao conceito de separação e daria origem ao ser marcado pela hibridez. em toda a sua diferença. a subjetividade pode ser pensada como resultante do processo de carga e “des-carga” emocionada. de um grande paradoxo que incluiria alienação e separação ou fechamento e abertura. fazendo com que ele assuma não só as responsabilidades. mas alguma coisa ou alguém entre os dois.A construção da identidade no Caribe.

1994. por ser traço descontínuo sempre em movimento. e abre-se ao desconhecido. n° 15 . estabelecendo. como poetiza o fundador da Negritude. então. mas que. há tempo reprimida. os “mecanismos espectrais de permanência” e faz reavivar os de “transformação. Essa palavra. p.É quando. Goiânia. 457). vol. VIII. confirmando a dependência em relação ao significante do outro. a possibilidade de reformulação de um futuro. se libera “para reavivar o verso solar dos sonhos”18. para que uma “nova bondade não deixe de crescer no horizonte”14. como nomeia Glenadel. assim. não se funda 152 Revista Brasileira do Caribe. deixa lacunas. de uma promessa. no “furor de dar vida a um desmoronamento de paisagens”15. pela “reabilitação de delírios muito antigos”16.Kátia Frazão Costa Rodrigues fato. um alguém que se expressa fantasmagoricamente nas duas poéticas. como presença em ausência que traz sempre à tona o passado como sintoma. a palavra. produto arbitrário de uma consciência. mas as mudanças de pele: quand les flèches de la mort atteignirent Miguel Angel on ne le vit point couché mais bien plutôt déplier sa grande taille au fond du lac qui s’ illumina Miguel Angel immergea sa peau d’ homme et revêtit sa peau de dauphin Miguel Angel dévêtit sa peau de dauphin et se changea en arc-en-ciel Miguel Angel rejetant sa peau d’ eau bleue revêtit sa peau de volcan Et s’ installa montagne toujours verte a l’ horizon de tous les hommes (CESAIRE. Sob essa perspectiva. Contraria. de um por-vir”17. provoca aporias. lançando-se para um devir que prevê não mais a fixidez do pensamento. espaço que só se habita provisoriamente. o devir se anuncia no espaço de um não-tempo.

ultrapassar também o presente. mostrando que a escrita do desastre se constrói a partir das abstrações de uma consciência em enunciação: il y a aussi les capteurs solaires du désir de nuit je les braque: ce sont des mots que j’entasse dans mes réserves et dont l’ énergie est à dispenser aux temps froids des peuples (ni drèches ni bagasses.. expressa por uma sensibilidade que se coloca à margem de toda lei. em contínuo devir. Continuar a vida significaria viver o efeito de cada instante e. a continuação da vida. apesar de tudo.. as escritas pela “mão que floresce a dor. A poesia seria. na expressão do sujeito por ele mesmo. então. hoje. um je que não representa mais o coletivo. são as produzidas pela mão que faz igualmente “a riqueza 153 jul. para um futuro que guardará a sua qualidade na memória. assim.. ) (CESAIRE. Glissant também apela para as palavras que “fazem o céu e o horizonte”. que faz o pássaro. O subjetivo volta-se do passado para o presente e. O imaginário desempenha o papel de imagem do eu. 1994. 2007 . A existência agora se expõe não mais submetida ao tempo. mas à produção do seu efeito.A construção da identidade no Caribe. São elas. a partir de um referencial interno e subversivo. segundo o poeta. por intermédio de um código interno e variado que coloca em questão a própria linguagem. assim. 397) A autoridade fincada no presente pela expressão de uma vontade deliberada delimita o passado porque não se reconhece mais como histórica. mas fruto de uma escolha carregada de sentido que propõe. p. mas na reivindicação de uma verdade nova que marca a passagem da ficção à efetiva presença de um eu. por extensão. mas o resultado da íntima relação entre o ser e a realidade./dez. a espuma e a casa de lavas por vezes”. um reflexo instantâneo da verdade do eu. O dito coloca em cena. mais na intenção de transmitir uma verdade exterior.. como algo que lhe é pertinente e o identifica como tal.

Os verbos no presente do indicativo reforçam a idéia de que tudo é modelado a partir de uma presencialidade e que todo esse passado “móvel” depende da atualidade de um ponto da vista. p. n° 15 . delineando uma subjetividade que irrompe para renovar a existência e florir a dura realidade.24-25). estão as duas poéticas. buscando uma completa harmonia com o Cosmos. Ecoutant ruisseler mes tambours Attendant l’ éclat brusque des lames 154 Revista Brasileira do Caribe.. vol. onde o céu dança porque “da dor se fez uma palavra / uma nova palavra que multiplica”19. 1965. Diz o poetarizoma: Celui qui parmi les neiges enfante Un paysage une ville des soifs Celui qui range ses tambours ses étoffes Dans la sablure des paroles Attendant l’ ouverture des Eaux Le grand éclat des vagues Midi Plus ardent que la morsure des givres Plus retenu que votre impatience d’ épine Celui qui prolonge l’ attente Et toutes les mains dans sa tête Toutes splendeurs dans sa nuit Pour que la terre s’ émerveille Il accepte le bruit des mots Plus égal que l’ effroi des sources Plus uni que la chair des plaines Dechirée ensemencée . VIII. pour ce que l’ arbre dit ” (GLISSANT. Assim. “Toute parole est une terre/ Il est de fouiller son sous-sol/ Où un espace meuble est gardé/ Brûlant.Kátia Frazão Costa Rodrigues dos fossos e a colheita do passado” (GLISSANT. Como poetiza Glissant.. 1965. Goiânia. p. entre permanência e transformação.26).

“nada liberta mais do que a obscuridade de um dizer”21. particularizadas. é preciso “contornar os lugares escolhidos da gravidade histórica”20 e invadir a opacidade. L’ éveil sur l’ eau des danseurs Et des chiens qui entre les jambes regardent Dans ce bruit de fraternité La pierre et son lichen ma parole Juste mais vive demain pour vous Telle fureur dans la douceur marine.A construção da identidade no Caribe. 1965. Para tanto. sem qualquer preocupação com a erudição ou com a legitimidade do proferível. É a expressão das contingências que. por exemplo. muito menos a efusão espontânea e verdadeira da personalidade.. das opiniões e dos sentimentos do autor. pela presença em ausência de um conflito identificatório que se renova e ruma em direção ao espaço onde “Toda palavra se confunde / Com o silêncio das águas”. p.. reivindicadora. mas a marca de um ponto de vista frente. 1965. O real./dez. p. é o produto de uma consciência particular que se autoriza a falar em nome de uma causa. num discurso truncado que funciona como ponte também para o acesso ao totalmente outro. como diz Glissant (GLISSANT. libertária e própria das duas poéticas. (GLISSANT. A subjetividade literária. 21). Je me fais mer où l’enfant va rêver. aos impasses que concernem à existência. 2007 . criando espaços. agora se faz representar por imagens. Aparece no discurso como a qualidade de algo que se desenha dentro dos contornos de um eu também nada preocupado com o tempo ou com a necessidade de fugir dele. também para Césaire. é aquela capaz de preservar a oralidade. se presentificam por uma voz que ultrapassa o 155 jul. Dessa forma. a escrita traz à tona materiais inconscientes que emergem da subjetividade inquieta. 28-30) A palavra. como aponta Michel Zink22. que resistiu a toda simbolização. tornar frágil a aparência e captar o segredo das raízes. pois como o poeta mesmo diz. de onde a resistência ressuscita em torno de alguns fantasmas. não é a simples expressão do real pelo simbólico. Em outras palavras.

Habitar vários lugares sem deles se apropriar também é se permitir outras impressões. como numa espécie de amnésia. O poema “Calendrier lagunaire”23. muitas vezes inesperada. porque vai de encontro às aporias do outro. sugerir uma promessa de vida na diversidade.. em aporia.Cito ainda Glenadel. só se encontre no silêncio e na comunicação interrompida.. apostando. que cita Derrida25: “uma identidade não é jamais dada. vol. a identidade “constitui uma promessa fundamentalmente incerta. à cultura e à memória do colonizador. A palavra rejeita toda mediação de uma lógica que desautorizaria o habitar em vários lugares e a expressão de um tempo que remete tão somente à interioridade. investindo no novo. de expressão inevitavelmente estrangeira. de sua cultura e de sua memória. está sempre em movimento.chaque minute je change d’ appartement“ (CESAIRE. n° 15 . assim como não se associa jamais à língua. para o outro. se diz habitando vários endereços ou o lugar mesmo da indefinição. 1994. dos homens.385). sob a forma. na busca incessante de um espaço próprio que. É. Derrida24 afirma que. na diáspora. VIII. pois como diz Glenadel. A palavra se multiplica no poema. estruturalmente aberta que pode a todo instante converter-se em ameaça de fechamento numa identidade ou em ameaça de perda de uma identidade”. enfim. aparentemente sem consistência. na incerteza de um devir. liberto das cronologias e de toda sinopse. por assim dizer. mas que anima tanto quanto uma paixão. recebida ou atingida. ainda que assim seja. o eu se dissocia de sua língua. despojando-se da fixidez de um pensamento e voltando-se para o desconhecido.Kátia Frazão Costa Rodrigues real e a materialidade da escrita. de Césaire.. ao dizer: “j’ habite une blessure sacrée/ j’ habite des ancêtres imaginaires/ j’ habite un vouloir obscur/ j’ habite un long silence. apenas se 156 Revista Brasileira do Caribe. promovendo a comunhão momentânea do poeta e do leitor. talvez. mostrando que a palavra ferida. ao se repetir em heterogeneidade pela via do sonho. não. Goiânia./ . parece revelar a existência dessa subjetividade que. de um discurso truncado. p. Talvez seja exatamente isso que exprime Césaire.

a representação do inconsciente. carrega consigo a 157 jul. efeito da constante relação do sujeito com o mundo. p. passa pelo processo interminável. qui le déterminent et qui le façonnent” (ZINK./dez.. ao caminhar. pela palavra que. Despojar-se é tarefa inquietante. montre celui-ci aux prises avec les contingences du réel. a poesia liberta. a ser metáfora contínua. o convida para a cena. une caresse dévolue Le soleil ici revenu Beauté de l’ espace ou otage De l’ avenir tentaculaire Toute parole s’ y confond Avec le silence des Eaux Beauté des temps pour um mirage Le temps qui demeure est d’ attente Le temps qui vole est un cyclone Ou c’ est la route éparpillée (GLISSANT. então. Na interseção dessa perspectiva: Savoir ce qui dans vos yeux berce Une baie de ciel un oiseau La mer. se desenvolve na voz do poeta.48). o sentido do real e. ao mesmo tempo.. somados. 21). Diz Zink: “On a vu que la poésie du dit. por sua vez. retórica que opera os movimentos de uma vida interior. Assim. au lieu de construire une image idéale d’un moi. 2003. elementos que. 1965. Como deixa entrever Michel Zink. indefinidamente fantasmático da identificação” (GLENADEL. A poesia personifica forças fazendo emergir o presente de uma subjetividade que vive unicamente cada instante. na medida em que se tem a consciência de que marcas não se apagam totalmente.A construção da identidade no Caribe. A poesia passa. p. E. pelo sonho. 1985. também constroem a singularidade de todo dito ou do que se encontra em seu lugar. p. que força hesitante a passagem do mundo interior para o exterior. recupera-se cada herança ou “apartamento”. 2007 .142). na sua obra já citada.

Atravessar 158 Revista Brasileira do Caribe. mas como agente modelador de uma exterioridade. uma trajetória descompassada e diferente de toda linearidade. A palavra também irrompe no discurso sob a forma de fantasia. também é possível pensar a subjetividade antilhana como potência de uma existência marcada pelo conflito identificatório. em Césaire. ética e moral. na confecção do seu produto arbitrário: a poesia. como realça Glissant26. É. ponto de vista do eu sobre o eu. para além do discurso que separa significante de significado. o pássaro e o mar”. que tenta recuperar as suas sensibilidades estética. assim. produzindo abertura e fazendo com que o sujeito não opere mais como testemunha. provavelmente.Kátia Frazão Costa Rodrigues força dessa subjetividade. Seria. Goiânia. n° 15 . a força maior. a mesma que nos ensina. perfazendo. por isso. a força que resiste a todo fechamento e impulsiona a existência para frente ao mesmo tempo em que a autoriza a olhar para trás. É. vol. recarregada pela energia dos versos solares que não retornam ao lugar do drama. tornando o ser inevitavelmente refém e senhor de todo “futuro tentacular”. quem sabe. Neste sentido. que irrompe surpreendendo e desarmando discursos prontos sobre o bem e o mal. a força que faz embalar nos olhos uma “baía de céu. VIII. que o essencial é: nu l’ essentiel est de se sentir nu de penser nu la poussière d’ alizé la vertu de l’ écume et la force de la terre la relance ici se fait par l’ influx plus encore que par l’ afflux la relance ici se fait algue laminaire (CESAIRE. É. mas caminham atraindo e colhendo o seu efeito. 1994. 415). p. inscrita no entretempo “da espera e do ciclone”. A construção dessa subjetividade implica uma travessia. sem dúvida.

. e pressupõe negociações. pois cada vez que algo ou alguém é suposto. a tradição ocidental acabou produzindo a cisão do sujeito. etnias ou nações. No seu texto Un sujet?28. uma realidade se expressa. o discurso é se manifestar pela resistência. p. A busca por uma subjetividade – qualidade ou caráter do subjetivo – só é valiosa quando se espera como resposta. a passividade e a resistência. subgrupos.64). pois requer a manutenção. que implica a afirmação de uma subjetividade e prevê a busca do ser em si segundo Lacan. na sua busca insistente por definições estáticas do Homem. tal como pensou Lacan ao descrever a entrada na fase do espelho. principalmente quando se trata de um povo nascido da diáspora. não um conceito formal que classifica indivíduos.. então 159 jul. ao se expor. Nancy deixa entrever que nem o ser. confrontando o real e o simbólico que. misto de individual e de coletivo. Nesse caso. de passado e de presente. manifestando a abertura ética para o outro. se a identificação. compõem o esboço primeiro do subjetivo. Supor e aceitar a existência dessa subjetividade. de agitação e de paciência. unidos por um duplo gesto. como justiça por vir. o mesmo já seria necessariamente outro. 2007 ./dez. nem a sua suposição podem ser concebidos num único sentido. mas quando nos leva a descobrir os traços que estruturaram a alienação e a individuação. deslocamentos. Ademais. disposição nem sempre confortável. múltiplo e historicamente mutante. Segundo o filósofo Jean-Luc Nancy. Na perspectiva derridiana de pensamento. 2000. em hospitalidade. como mémoire reconquise (memória reconquistada) de um instante (GLENADEL. de toda possibilidade também nova de ser. a tradução–transporte de significados relativos à subjetividade que se expressa no universo da escrita–pressupõe a necessidade de uma desconstrução do pensamento eurocêntrico. deslizando pelos significados construídos. marcado desde sempre pelo outro.A construção da identidade no Caribe. Glenadel27 também ressalta que essa promessa alimenta-se daquilo que fica como seu pano de fundo. ser irredutível. momento arriscado de busca em que o ser assume papéis imaginados. é também uma tarefa angustiante. de toda promessa que se apresenta.

l’ air est hostile . soit dans la terre. 35). vol. la saviez-vous. ou. p. la force aussi toujours de regarder demain. Ainsi va toute vie. 1965. Au plus extrême. entre montagne et mangrove. na ressonância de uma mesma voz. 1994. Assim. n° 15 . fût-ce celle du désespoir et de la retombée. Et puis. Il faut choisir. Césaire também parece revelar o segredo de toda a existência. E é Glissant quem diz que Maintenant les sables sont d’ autre clarté. no exercício de reconhecimento e aceitação das próprias diferenças. l’ inégale lutte de la vie et de la mort. Goiânia. Césaire anuncia: “frère n’ insistez pas/ vrac de varech/ m’ accrochant en cuscute/ ou me déployant en porana/ c’ est tout un . 1994. connue des martins-pêcheurs aux songes funèbres. pour le moins. polifônica. ao atentar para a similaridade percebida na descrição do drama. por conseguinte. 386). claudicant et binaire. entre chien et loup. alguém de Platão29. na escrita 160 Revista Brasileira do Caribe. c’est un fil des saisons survolées. il faut venir! soit par la mer. de la ferveur et de la lucidité. p.. cette entreprise de bâtir le paysage ? – parfois le coeur est écrasé. au carrefour. Ainsi va ce livre. “ (CESAIRE. se relacionar consigo mesmo.. VIII. Le temps aussi de régler leur compte à quelques fantasmes et à quelques fantômes (CÉSAIRE.383) Essa nova perspectiva de ser também abre a possibilidade do Tis.. parfois la main s’apaise – et la lumière monte des choses comme une parole d’ architecte (GLISSANT. na tentativa de desmistificação do exotismo. quando diz: Le non-temps impose au temps la tyrannie de sa spacialité : dans toute vie il y a un nord et un sud . p.Kátia Frazão Costa Rodrigues essa procura só pode ser em favor de uma referência implícita heterogênea e. numa espécie de experiência de si como outro e do outro como si. entre soleil et ombre. et l’orient et l’ occident. esboço também primeiro de uma subjetividade. dialogando com a sua própria negatividade. tronc noir et nu. E..

seja entrevista pelo seu fechamento. como constante novidade do Cosmos. da mesma forma que deve ser entendida a qualidade do que lhe é próprio. A correspondência que se vislumbrou entre os fragmentos poéticos de Césaire e de Glissant vem marcar esses últimos tantos traços que apontam para um ser que caminha rumo à presença em si como mesmo e. o sujeito só acontece quando e enquanto se expõe. seja reconhecida pela sua abertura em direção ao outro. o que ela tem de mais próprio: o seu caráter de “re-nova-(a)ção”. mas a qualidade do seu último traço. porém nem mesmo assim garantiria a sua essência. Segundo Nancy. mas também o que emerge deles no espaço de um instante. portanto. marcada pela auto-fragmentação e vitimização do negro antilhano e. Qualquer tentativa estática da sua definição descaracterizaria. no movimento de resistência voltado para um devir. que não se apaga por completo e reincide para atestar a exterioridade que a constituiu. ao mesmo tempo. Tanto Césaire quanto Glissant são sujeitos dessa nova ordem simbólica. além disso. O sujeito só é como possibilidade. faz irromper uma subjetividade como fantasma. sem dúvida. As poéticas de Césaire e de Glissant traçam trajetórias que se entrelaçam em alguns pontos para mostrar que existe uma unidade na diversidade antilhana./dez. a marca de um apelo que. a afirmação do eu antilhano inclui também a sua negatividade. marcada pela presença do eu e do outro sempre em processo.A construção da identidade no Caribe. 2007 . Sendo as várias vozes de uma suposição. ao comprometer exterioridade e interioridade... o sujeito pode ser aquilo que um significante representa para outro significante. ao buscar o seu espaço próprio. Nesta perspectiva. no qual a palavra ferida se libera e traz à tona o inconsciente. em toda a sua 161 jul. entender a Crioulidade ou a Antilhanidade como um contraponto da Negritude e essa como essencialista e eurocêntrica é seccionar o movimento da história e não reconhecer o outro. o antilhano. tornando frágil a aparência. concluo acreditando que a escritura antilhana é. Voltando sempre como atualidade. renovando a existência pela libertação contida no ato de contornar a gravidade histórica e invadir a opacidade.

entre cachorro e lobo.com/article7507. É de lá que se ouve a voz de alguém dizendo eu. É. como diz Césaire. 85).171. 1994. 1965. constante no site: http://www. 1965. edição 2001 e no Novo Dicionário Aurélio. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. 1965. 1965. É preciso repetir que “durante muito tempo a voz do homem se perdeu nos templos por obscuro que era o caminho até o templo! e esse mar. Paris: Seuil.. 1994. 6 La Poésie. Goiânia. 3 Termo que designa a resistência dos mulatos fujões. A obra consta da coletânea intitulada La Poésie. Paris: Seuil. 19-20). segundo o poeta-rizoma (GLISSANT.11. 7 ibid.afrik.com. talvez. onde o autor utiliza pela 1ª vez o termo négritude. 9 LACAN. n° 15 . 2 Il ne faut pas opposer négritude et créolité. In: Afrik. VIII. 10 FINK. E. p.Kátia Frazão Costa Rodrigues diferença. 4 GLISSANT. É preciso fugir das armadilhas da síntese. Notas 1 Le Petit Larousse. le portail de l’Afrique. 5 Cahier d’ un retour au pays natal . ed. na aurora e na noite. 21. Bruce. de presença e de ausência. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. toda vida: “entre sol e sombra.html. Ernest Pépin em entrevista concedida a David Cadasse. claudicante e binária” (CESAIRE. 162 Revista Brasileira do Caribe. publicada em 1939 pela Revue Volontés. É na diversidade que caminha. p. Poèmes. Paris: Seuil. p. Nova Fronteira. ainda sobredeterminado por uma lógica narcísica que nega parte do amplo processo que vem constituindo essa grande Crioulização. p. por um fogo e por um desmame”. entre montanha e pântano. porque a história tem mostrado que é na complexidade que o humano se afirma e pode ser afirmado. J. tender o olhar numa só direção e permanecer. 1ª obra de Césaire . O sujeito lacaniano. 1975.. vol. edição escolhida aqui para essa e as demais referências sobre o autor. porque “toda carne se ramifica. sobretudo. 1994. p. entre a linguagem e o gozo.” (GLISSANT. em 03 de agosto de 2004.383). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse.1991.. 8 GLISSANT. p. Séminaire.

396..L. J. p. La subjectivité littéraire. Paris: Seuil. Paris: Minuit. 472. P. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia. CHAMOISEAU.53. La Poésie. 397. n. J. 2 34 CESAIRE. v. CÉSAIRE.1996. FINK. 29 Ibid. entre a linguagem e o gozo. 1994. Tradução de Maria de Lourdes Sette Câmara. In Revista Gragoatá n8. 45 ibid . 1994.. p. F. p. 89 GLISSANT. 391. 2003. traduzível por Eu. A. 1994. 29 Ibid. p. 43 (1). laminaire. p. Tradução. M.A construção da identidade no Caribe. 25 Ibid. Kafka. Le monolingüisme de l’ autre.. Paris: puf écriture. R... Un sujet ? In: Homme et sujet. Niterói: Eduff. In: Revista de Letras. DELEUZE. La poésie. 53.15 67 ibid. Paris: Gallimard. 1985. 1996c. 56 Cf. In: Revista Gragoatá.In: La Poésie. BERNABÉ. 23 ibid.. p. GLENADEL. 27 GLENADEL. 2 78 Cf 14. 12 GLENADEL. 1998.. p.8. 1994. laminar. P.21. 2007 . Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales.53. poesia: esboço para a ruminação de uma aporia”. G. 1965.. “Tradução. 1975. A.. M. 1994. desconstrução. p. P. 48. 2000. 28. O sujeito lacaniano. Paris: Galilée. Bibliografia. p. Niterói: Eduff. CONFIANT. A. 22 ZINK. J. p. São Paulo: Universidade Estadual Paulista. 1989. “Entre mangue e manguetown.. p. 163 jul. 20 CESAIRE. Chico science”. GUATTARI. 2000. P. Pour une littérature mineure. 11 Título da sua obra Moi./dez.. Eloge de la créolité. 8. Le Monolinguisme de l’ autre. p. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 26 GLISSANT. consultoria Mirian Aparecida Nogueira Lima. 521. J. E. DERRIDA. 28 NANCY. Poèmes. p. desconstrução. Paris: Seuil. p. La Poésie. 1965. Paris: Galilée. 23 ibidem 24 DERRIDA.

___________. 43 (1) 47-56. E. 1994. La subjectivité littéraire. Paris: L’ Harmattan Logiques Sociales. ZINK. Livre XVII: L’ Envers de la psychanalyse. São Paulo: Universidade Estadual Paulista. NANCY. ________. Site: http://www. In: Écrits. 2003. 1985. GLISSANT.“Entre mangue e manguetown. J. Séminaire. “Un sujet ?” In: Homme et sujet. In: Revista de Letras. “Subversion du sujet et dialectique du désir dans l’ inconscient freudien”. LACAN. 1965. J. Paris: Seuil.1991. M. Paris: Seuil. 1966.html 164 .com/article7507.afrik.-L. Paris: Seuil. Chico Science”. Poemes. Paris: Puf écriture.

a substituição de trabalhadores negros livres por indianos causou grande atordoamento. as circunstâncias históricas ali vividas possibilitaram a gestação de um sistema de convívio. 2007 165 . Indians Inmigrants Resumo Durante o século XIX. 165-195. Keywords: Indians Immigrants.Plantation legal. Assim. destinado a controlar o dia-a-dia dos trabalhadores nas fazendas. tanto para os fazendeiros como para as populações afro-descendentes recém emancipadas. we’ll try to observe the historical conditions by which some vital social institutions of the Indian community amalgamated in that colonial social environment. o convívio e o volume de trabalho dentro das fazendas. diferente daquele previsto no conjunto de leis. nas Plantations de Trinidad. adequado a natureza plural de sua paisagem humana. VIII. Thus. de difícil *Artigo recebido em fevereiro de 2007 e aprovado para a publicação em março de 2007 Revista Brasileira do Caribe. porém. Tratava-se de um sistema aberto de relações. Goiânia. vol. foi instituído um rigoroso conjunto de regras e normas destinado a controlar a qualidade. The main question that emerges from this process is exactly the phenom of cultural recreation and establishment of the Indians social institutions in face of so powerful policy of the westernization imposed upon all work population of that island by the British colonial government. Trinidad século XIX Alexandre Martins de Araujo “O que você faria se não pudesse fazer nada? Até onde você iria se não pudesse sair? Quem você seria se não fosse ninguém?” 1 Abstract This essay looks at the historical process of settlement of the immigrants Indians community in Trinidad during the nineteen century. Contudo. n° 15. Trinidad.

Resumen Este ensayo analiza el proceso histórico del establecimiento de los inmigrantes de la India en Trinidad durante el siglo XIX. das experiências humanas vividas no interior das Plantations. n° 15 . son los aspectos de más relieve en esta investigación. 166 Revista Brasileira do Caribe. Los fenómenos de la recreación cultural y la permanencia de las instituciones del país de procedencia. Trinidad. onde se utilizou. Haraksingh (1981). imigrantes indianos. Palavras-Chave: Plantations. Para o historiador indo-descendente de Trinidad. VIII. concentrando suas observações na perspectiva dos grupos sociais e das práticas culturais cujos esforços tentam identificar fenômenos de mudanças e adaptações. as ênfases vão à direção da experiência indiana no interior das Plantations. A outra se identifica na etno-história. nesse caso. em particular. duas diferentes correntes discutem a presença indiana nas Plantations. Uma conduz as investigações tomando os indianos essencialmente como trabalhadores nas fazendas. pois para entrar e sair dessa outra Plantation – a que tomei a liberdade de chamar de Plantation Plural em oposição a uma Plantation Legal. Essa primeira tendência se baseia em fontes oficiais do governo da colônia e registros particulares locais. Inmigrantes indianos Muitos foram e são aqueles que se dedicam à tarefa de aproximar. Em termos historiográficos. largamente. sobretudo. e essas. Goiânia. de suas condições de trabalho. No nosso caso. somente eram apropriadas nos espaços intersticiais das relações. durante o século XIX. a pesar de la poderosa política de colonización impuesta por el gobierno británico. Trinidad. nos dedicamos ao sistema Plantations de Trinidad pós-escravidão. Palabras Claves: Plantación. a mão-de-obra indiana. era necessário possuir as chaves simbólicas. vol. o mais perto possível.Alexandre Martins visualização. nenhuma dessas duas tendências se encontra consistente ou rigidamente definida.

1872. afetados pelo sistema Plantation de Trinidad.Plantation Legal: Trinidad século XIX Neste estudo tentaremos. 167 jul. Em linhas gerais. esforçar-nos-emos para trazer a lume a maior porção possível da realidade histórica vivida por aqueles que um dia se sentiram. London. ai g u r F “Waiting for the Races”. assim como outros historiadores fizeram antes. Charles. os fatores evidenciados tanto numa quanto noutra das tendências acima mencionadas. direta e indiretamente. por igual. Fonte: KINGSLEY. nos aproximar da experiência indiana nas Plantations do século dezenove. At least a christmas in the West Indies./dez. porém procurando valorizar. 2007 .

todos os sistemas coloniais de controle de trabalhadores. ou melhor. em suas análises sobre o discurso colonial britânico na Índia no século XIX. No entanto. como também da estratégia “desconstrutivista” valorizada por Bhabha3. estão sempre acompanhadas de práticas discursivas. Goiânia. jornais de época. ganharemos acesso aos significados e sentidos atribuídos aos imigrantes indianos por aquelas pessoas interessadas em vê-los. reunimos um conjunto variado de fontes: relatórios oficiais. então. tê-los. a população indiana e sua presença naquele espaço e tempo? Tal questionamento nos lança diretamente para o ambiente histórico ao qual desejamos entrar. Dito de outro modo. ou seja. Para empreendermos essa tarefa. inquéritos. entre outras coisas. todavia. portanto. a nossa visita ao interior das Plantations de Trinidad pela seguinte pergunta: O que exatamente significava. inibidores das vozes subalternas. balanços anuais. as políticas de controle dos trabalhadores. vol. impregnadas com as crenças de quem as 168 Revista Brasileira do Caribe. tratam-se de documentos cujos teores e formas foram moldados por mãos de pessoas ligadas às elites locais. Acreditamos que. n° 15 . ao desconstruirmos tais políticas de controle. o centro de inteligência das Plantations. Em face disso.Alexandre Martins Sabemos. sensos. dentro das Plantations. portanto. Começaremos. da enorme dificuldade encontrada pela maior parte dos historiadores em apreender as “vozes subalternas”. VIII. esteja sob a forma de contratos particulares ou de leis juramentadas. leis de imigração. instituídas pela administração colonial em conluio com os proprietários de terras. relatos de viajantes europeus e diários de missionários religiosos. tanto das estratégias metodológicas utilizadas por Ranajit Guha2 em seus estudos sobre a Índia colonial. local onde são produzidas. enfrentaremos o dilema da supressão dessas vozes lançando mão. comissões reais. principalmente no interior de sistemas autoritários e fechados como era o caso das Plantations nas colônias inglesas. para a elite local.

Plantation Legal: Trinidad século XIX

produziu. Todo discurso, para Bhabha, é uma prática significatória, ou seja, “processo que postula a significação como uma produção sistêmica situada dentro de determinados sistemas e instituições de representação – ideológicos, históricos, estéticos, políticos” (JUNIOR, 2004, p.113-133). Mas antes de adentrarmos o espaço ao qual denominamos de o centro de inteligência das Plantations, faz-se necessário uma breve mirada para o contexto histórico, em torno do qual aportou em Trinidad, o famoso “Fatel Rozack”, o primeiro navio a transportar imigrantes indianos para Trinidad: “Em março de 1845 Thomas Caird anunciou em um despacho ao ministério do interior, ‘eu tenho a honra em informar... que enviei o Futtle Rozack para Trinidad” 4 (Tradução nossa). Inicialmente, podemos dizer que a Inglaterra chegou a Trinidad relativamente tarde, em relação à exploração do açúcar nas Antilhas, pois foi já no apagar das luzes do século dezoito (1797), que ela tomou de assalto aquela ilha das mãos da coroa espanhola e, nesse caso, é bom lembrar que a exploração do açúcar vivia aquela época o seu momento de maior esplendor entre as demais colônias americanas. Para o historiador sul africano Sookdeo (2000, p. 253), o propósito da ocupação de Trinidad foi de natureza menos econômica e mais militar. Seja como for, assim que a administração colonial britânica se instalou em Trinidad, não teve dúvidas quanto à necessidade de tomar parte nos negócios do açúcar. Já em 1799, o primeiro governador inglês de Trinidad, General Picton, escreveu à coroa britânica informando-a de seu posicionamento quanto às condições favoráveis de transformar Trinidad em uma colônia de produção de açúcar:
Trinidad será considerada como uma colônia açucareira, as terras sendo, em quase toda parte, mais favoráveis à produção de cana do que café ou algodão. A quantidade de terras a serem concedidas dependerá certamente dos meios de cultivo, mas tudo considerado à pequena classe de plantadores de

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cana não pode compreender menos do que 200 acres de boa terra, das quais 100 acres para cana, 50 para pasto e 50 para terrenos de negros, estabelecimento e eventualidades. Uma plantação dessa categoria, conduzida a um máximo de economia requererá um capital de aproximadamente £ 8,000 libras esterlinas 5 (tradução nossa).

A cana então substituiu o algodão devido a uma praga, porém, ele e outros gêneros continuaram sendo produzidos na ilha. Nessa época, Trinidad ainda estava longe de se tornar um modelo de monocultura e o negócio do açúcar se mantinha sob o domínio de mercadores e de intermediários ingleses donos de navios. Estes controlavam o fluxo de mercadorias e escravos na ilha negociando com o continente devido às vantagens oferecidas pela política fiscal de importação. Todo esse alvoroço atraiu para Trinidad um grande número de estrangeiros à procura de enriquecimento rápido. Conforme os registros da época, no ano de 1826, exatamente oito anos antes da emancipação dos escravos, Trinidad conheceu a sua maior safra de cana. Por esse motivo, quando os indianos chegaram à ilha, no ano de 1845, os ingleses ansiavam por uma produção ainda maior do que aquela obtida sob o regime de escravidão. Uma vez que a superação daquela safra significaria, entre outras coisas, a certeza do sucesso da utilização da mão-deobra indiana e, por conseguinte, o arrefecimento das oposições a tal sistema. Entretanto, assim que os indianos chegaram, foram vistos pelos proprietários de terras, tanto como um benefício, quanto como um dilema. Quer dizer, se por um lado eles representavam a esperança de superação da aludida escassez de braços adaptados às condições oferecidas nas Plantations, por outro, eram vistos como uma nova e incômoda realidade a qual esses proprietários teriam que se adaptar, pois se tratava de uma mão-de-obra remunerada e de permanência limitada, apenas cinco anos, conforme contratos firmados antes do embarque. Assim, a imagem que se forma, a partir desse quadro, é a de

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uma classe de plantadores completamente insegura quanto ao rumo de suas empresas, já que todas aquelas novas situações eram, de certa maneira, diametralmente opostas ao modelo escravista até então praticado. Em outros termos, o que lhes asseguraria o pleno sucesso da utilização da mão-de-obra indiana em face de, por um lado, os riscos sobre o capital investido no processo de contratação (transporte, alimentação, hospitais, roupas e pagamento de salários) e, por outro, a concorrência externa, sobretudo, devido os novos rumos que tomara o comercio internacional do açúcar por aquela época? Em razão disso, é natural aceitarmos a idéia de que todas as atenções dos plantadores estivessem voltadas para a relação custobenefício, atinente ao processo de contratação da mão-de-obra indiana. Portanto, não seria exagero de nossa parte pensar que os indianos contratados (Indentured Indians) 6, de início, não significassem para os plantadores nada além de músculos e ossos a serem aplicados nas lavouras de cana-de-açúcar. Nesse sentido, não nos restam dúvidas quanto ao fato das circunstâncias históricas terem apontado para os plantadores a necessidade de impor, aos imigrantes indianos, um regime autoritário de trabalho. E para garantir o controle dos trabalhadores indianos dentro das Plantations, foi elaborado um extenso conjunto de leis, difundido por meio de documentos ultramarinos denominados pela administração colonial britânica de Regulamentos de Imigração para Trinidad e Guiana Inglesa (Immigration Ordinances of Trinidad and British Guiana). Neles, os imigrantes indianos eram denominados simplesmente de Indianos Contratados (Indentured Immigrants). Dirigir-nos-emos, então, a partir daqui, para o ambiente ao qual denominamos de centro de inteligência das Plantations, olhando, primeiramente, na direção do conjunto de leis, constituídas para assegurar o cumprimento dos contratos e, por conseguinte, controlar a vida diária dos indianos no interior das Plantations. Em meio a tal conjunto de leis, somente algumas buscavam

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assegurar a efetivação de alguns direitos adquiridos pelos trabalhadores indianos, quando da assinatura dos contratos. Tratavase de normas que versavam sobre a condução das jornadas diárias de trabalho em termos, por exemplo, da quantidade de horas a serem cumpridas, do salário condizente às tarefas realizadas, do direito a assistência médica e do direito de denúncia por abusos sofridos no interior das Plantations. Neste caso, as denúncias deveriam ser feitas a oficiais designados pelo governo à proteção dos indianos contratados, os chamados Protetores de Imigrantes (Protector of Immigrants). Numa visão de conjunto, quase a totalidade das leis visavam assegurar uma política de contenção de imigrantes dentro das fazendas. Obviamente que, se o controle total sobre os trabalhadores indianos era o que mais importava a todos aqueles que dependiam, direta e indiretamente do sucesso da utilização da mão-de-obra indiana, é de se supor que as leis de regulamentação do Indenture System, tendessem para a satisfação das necessidades desses beneficiados. No entanto, do ponto de vista jurídico, o formato das leis não parece, à primeira vista, tendencioso, ou seja, na mesma medida que há punição destinada ao contratado, há, também, para o contratante, caso venham descumprir qualquer uma das cláusulas nele previstas. Todavia, nenhum sistema legal é auto-explicativo, por isso torna-se mister analisá-lo à luz de outras fontes do mesmo período. Começaremos, então, a sua análise por aquilo que nos pareceu mais recorrente em toda a sua extensão, ou seja, o aparentemente inocente termo, “Indentured Immigrants”, usado em todas as suas cláusulas para se referir ao trabalhador imigrante indiano. Se olharmos mais profundamente para a sua utilização, no âmbito das leis de regulamentação do Indenture System, ou, Sistema de Contratação, veremos que a naturalização do termo indenture, não somente nos documentos oficiais, como também nos discursos da elite, carregava uma intenção velada de eclipsar qualquer traço que pudesse ligar os indianos a alguma imagem de autonomia social. Pois quando se pronuncia o termo imigrante contratado, nota-se
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que na palavra que dá qualidade ao sujeito (contratado), não há nada que permite ligar o sujeito (indiano) à sua trajetória de vida ou mesmo ao lugar de onde veio, mas antes, a um acordo (um contrato). Isso faz com que o usuário da língua desvie o pensamento do substantivo (indiano) para as possibilidades de apreensão do significado da palavra contratado. E as imagens primeiras que afloram do signo Contrato são aquelas ligadas a alguma forma de prestação de contas; assim, a imagem do sujeito (o indiano), se funde aos referentes do signo Contratado, possibilitando ao usuário da língua um raciocínio lógico do tipo: se um contrato pressupõe algum benefício para o contratado, este deve prestar conta daquilo que contratou, logo, ele deve ressarcir o contratante (no caso o plantador), as despesas consoantes aos benefícios consumidos; no caso dos indianos contratados, a viagem, a alimentação, os cuidados médicos, as roupas etc., sob a forma de trabalho. Desse modo, podemos afirmar que o apelo mais forte atribuído ao uso do termo Imigrante Contratado era minar as possibilidades de o trabalhador indiano impor qualquer tipo de autonomia, uma vez que os sentidos construídos pelo uso constante de tal termo, funcionavam como uma espécie de “luz vermelha” sinalizando para o imigrante sua condição primeira de devedor perante o proprietário da fazenda. Em linhas muito gerais, nota-se uma tendência, entre as diversas leis desse conjunto, de precaver o lado do contratante, no que se refere a duas situações: por um lado, o risco de o trabalhador se ausentar da fazenda, durante a execução de uma dada tarefa e, por outro, é atribuído um excessivo peso a tudo aquilo que é considerado ofensa ou negligência por parte do contratado. No entanto, parece contraditório o fato de, se por um lado as leis tentavam, de toda forma, dificultar a saída do contratado, inclusive, descontando de seu salário o dia de trabalho em que ele se ausentava para se queixar ao protetor de imigrantes abusos sofridos ou descumprimento de seus direitos assegurados no contrato; por outro, vê-se um total relaxamento nas permissões para o trabalhador se ausentar, caso ele tivesse ganhado certa
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uma dívida simbólica. qualquer tarefa exigida pelo patrão. ou outra pessoa empregada na plantação. 174 Revista Brasileira do Caribe. quanto as permissões de afastamento da fazenda. inspetor. soldado. objetivava funcionar tal qual o famoso “sistema de barracão”.. principalmente porque uma das leis previa que o trabalhador executasse qualquer trabalho desde que compatível com sua qualificação física. uma vez que “Nenhum comércio deve ser mantido por qualquer patrão. após o trabalhador ter juntado certa soma em dinheiro. Numa palavra. sem nenhuma resistência. arriscamo-nos em dizer que. pelo menos. VIII. Segundo. pois estar preso a um contrato é o mesmo que estar sob juízo de sentença. e. o que consideramos ter sido “a pedra no sapato“ dos trabalhadores indianos. moral. vol. tampouco sobre tal fazenda ou ao alcance de cinco milhas dela” 7 (tradução nossa). cocheiro. Goiânia. chamamos de “liberdade condicional”.. um possível acordo entre proprietários de fazendas e proprietários de comércio. as inúmeras condenações judiciais devido às acusações de descumprimento das leis que versavam sobre ofensas atribuídas ao patrão e negligências durante a execução de tarefas. capataz. ou seja. n° 15 . independente do seu grau de dificuldade. no primeiro caso. tanto o uso do termo Imigrante Contratado. pois voltaria para a fazenda se sentindo constrangido a aceitar. no lugar de uma dívida material.Alexandre Martins quantia em dinheiro. Contudo. duas intenções subliminares: primeiro. próximo àquilo que no sistema judicial atual. sem dúvida. Tal contradição nos leva a supor a existência de. foram. incapazes de falarem a linguagem das classes inferiores aqui correntes. estão sujeitos a serem encontrados em desvantagem o que pode terminar em multas ou prisões 8 (tradução nossa).) É perfeitamente possível que eles possam ser acusados diante de um juiz sob a denuncia de agressão. em termos das injustiças que sofreram durante a permanência nas fazendas. (. porém. era conveniente para o patrão que o trabalhador esgotasse as suas reservas financeiras na cidade.

/dez. sob a alegação de práticas indevidas. ou qualquer outro funcionário superior da fazenda. Num certo sentido. porem eles foram recebidos por uma irada recepção dos coolies que os repulsaram e os injuriaram (.Plantation Legal: Trinidad século XIX Entre as condenações por ofensas.. alegasse ter ouvido da boca de um indiano. a mais freqüente e. Tratava-se da prática de descontar do salário do imigrante contratado certa quantia. declarasse o mal uso de algum equipamento da fazenda para se consumar 175 jul. Na ultima quinta feira a polícia recebeu informações de que um sério distúrbio havia ocorrido na fazenda Cedar Hill. entre os coolies da fazenda e o corpo administrativo. Bastava apenas que o capataz. 9 (tradução nossa). o tradicional chicote. imediatamente. também a que causava maiores distúrbios era a acusação por má execução de uma dada tarefa. Sob a veemência dessa informação dois policiais a cavalo foram mandados com a intenção de apaziguar a desafeição. Isso por que. previstas no sistema de leis. uma vez notificado sobre a execução imprópria de seu trabalho. o imigrante contratado deveria refazêlo. designada ao indiano por um superior da fazenda. usado contra os escravos. um dos proprietários da companhia Colonial. uma palavra ameaçadora. surgido de um desentendimento causado por coolies terem executado impropriamente certas tarefas as quais eles foram requeridos para completar. foi substituído por uma outra arma igualmente eficaz em termos de alertar o trabalhador quanto a sua pequenez diante da força do patrão. 2007 . de forma extrajudicial.) os outros escaparam ilesos somente por causa do instinto de seus cavalos que coicearam os agressores a distância. e as quais eles não somente recusaram fazer como também mostraram fortes sinais de hostilidade. sob pena de sofrer condenações consoantes a tal alegação. ou..

seõrtap so artnoc áj saferat ed otnemagap reuqlauq repmorretni ed rodagerpme .ocilbúp oriehnid od atsuc à .seilooC ralortnoc é .. VIII.sairáid saferat saus ed mif oa oçemoc od .soirálas ed o aibiorp euq .sadalortnoc oãs salum sa omoc oãçudart( 01 .sotnemicerroba 176 Revista Brasileira do Caribe.racúça-ed-anac mes adacitarp etnemetnetsisrep e otium a odis met .saus sad mif oa oçemoc od .otnop oa oterid mai ..sodasuo siam .acitárp an setnega oãs euq seleuqa sodot ed setnem o res ed amrof amu otsin agrexne euq oãçagela ariejnosil amu sadnetnoc recelebatse ed selpmis siam e otruc siam ohnimac so rative ed oiem mu e .sodagerpme e seõrtap ertne ed etnaid ri euq meret ed seõçaloma e sotsag .odagerpme olep sadazilaer so etnemadanimircsidni reted ed etnanimoderp emutsoc O )..açitsuj/sodatartnoc .adived ale a socilbúp serfoc sod airgnas a meraicnuned soriednezaf so euq osu uam o mébmat raicnuned arap mavatievorpa .siacol sianroj snuglA . n° 15 .( edaditnauq amu .olpmexe osoicinrep o meriuges etsixe . vol.ossi a otnauQ .( .arodeceralcse sadasu mare oãn siel sa euq ed otaf o aicnedive mébmat .rezid reuQ .setnargimi sessed maizaf me odidecus meb oãt odis met onrevog osson o sam ).ossid rasepa .etnemetnedive otiuM .sotisóporp so sodot arap sovres ed etneicifus lat ...911 .serosivrepus e sezatapac sod odigixe é euq o odut .saicnêgilgen uo/e sasnefo ed seõçasuca oa .( ed sadnezaf san sodagerpme . Goiânia.anaidni oãçargimi à soirártnoc .raicnedivorp omoc rebaS )..sianroj sortuO /oãrtap seõçaler sad laretalinu retárac o etnematreba mavaicnuned é oxiaba aton a ..ºN ed iel a etnemlapicnirp .sele rop .Alexandre Martins ..setnargimi lageli oãçneter ed acitárp a raicnuned ed méla siop .majes otnemidecorp lat ed açitsujni ad san .serodahlabart soa otnuj soirálas saditemoc etnematsopus sasnefo ed asuac rop .)asson .ahli atsen eicépse reuqlauq ed lagel aicnêrefretni uo odomôcni setneicsnoc etnemanelp saossep euq rarimda es ed é oãn euq o a sadavel .

Smyth. dava sinais de desconfiança em relação ao comportamento dos encarregados da justiça de Trinidad. Kelvin Singh. durante a reorientação dos regulamentos de imigração. e inquestionavelmente mais conveniente para um capataz ou supervisor reter Cinco dólares do pagamento do trabalhador por motivo de roubar uma cana. a primeira da qual impôs ao plantador a manutenção de um livro de atividades para conter todos os dados para identificação de todos os imigrantes.Plantation Legal: Trinidad século XIX um juiz por causa de todas insignificantes ofensas cometidas por um trabalhador na fazenda.13 177 jul. Tão difundidos eram os sentimentos filantrópicos derramados sobre a imigração de Coolies. 2007 . que nos não podemos a não ser anotar as investigações que correm de tempo em tempo sobre os Coolies e os chineses pagãos 12 (tradução nossa). Possivelmente foi para convencer o governo que eles estavam de fato empenhados na doutrina de proteção do imigrante. New Era.. de modo que a segunda clausula oferece recursos para o imigrante procurar residência industrial antes que a total conclusão de seu contrato fosse apresentada... É infinitamente mais fácil.. a uma exclusão de questões igualmente importantes que afetavam outras raças... o honorável Sr. e a descrição das tarefas diárias executadas./dez.. que provavelmente seria uma supervisão da parte de autoridades médicas.. qualquer sentença da corte fora alguma vez feita contra um patrão ou membro da equipe administrativa da fazenda”. propôs três novas cláusulas. No ano de 1876. Segundo o historiador indo-descendente. Na última reunião do conselho legislativo. “existe pouca evidência para sugerir que antes dos inícios dos anos de 1880. A terceira sugestão era uma questão de rotina hospitalar. o jornal local. do que é correr o risco e aborrecimentos de ter que dar prova de tal acusação perante um magistrado 11 (tradução nossa). ou semelhante soma em nome de maltratar uma mula. ou por qualquer outra suposta quebra das regras da fazenda.

ao término de seus contratos. VIII. nesta parte da ilha... e também como sendo uma vantagem desonesta em favor dos proprietários de fazenda. Também. . como um homem particularmente perigoso.Alexandre Martins (tradução nossa). feito pelo juiz anteriormente aludido. nos faz julgar o oficial distribuindo justiça. motivo de desapontamento que circunstâncias assim coincidissem de tal modo que aquele ato inadequado do juiz nesse respeito teria (num senso mundano) uma inclinação rumo ao benefício do oficial protetor e legal dos coolies 14 (tradução nossa). e ainda alguém que aparentemente não percebeu a direção e tendência desses endossos. Goiânia. n° 15 . p. essas evidências nos levam a refletir acerca do grau de autonomia que os fazendeiros teriam alcançado junto ao sistema judiciário implantado naquela colônia. caso nos podemos julgar pela passividade de seus atos em relação a eles. executar meses extras de trabalho como dias perdidos. Mitchell é Protetor de Imigrantes. Esse Dr. de propriedade do Dr. De fato. de qualquer modo. que. Temos ouvido ultimamente uma considerável quantidade de notas ditatoriais de autoria do juiz de St. É alguma coisa estranhamente sugestiva que a maior parte dos endossos (que são relatados como sendo inadequados. É a respeito de nada mais nada menos que um importante personagem. naturalmente supomos apoiado pelo chefe do departamento de imigração. embora não distante da linha seguida por outros semelhantes juizes. em oposição à discriminação dos coolies) fosse condenando coolies contratados a trabalhar na fazenda Paradise. Para ampliarmos a nossa visão sobre o grau de aplicação das leis sobre os trabalhadores nas fazendas. recorreremos a um aprofundado estudo levado a cabo por Sookdeo (2000. Joseph. É. e ainda. não eram incomuns as denúncias sobre protetores de imigrantes envolvidos nos negócios da cana-de-açúcar. o Protetor de Imigrantes. Mitchel. 110-122). no qual foram levantadas as estatísticas sobre o volume de 178 Revista Brasileira do Caribe. que nos refletiremos a dúvida sobre alguns endossos de dias perdidos de Coolies nas fazendas. vol.

quando as leis de imigração apertaram o nó em torno dos trabalhadores indianos. eles foram freqüentemente culpados de quebras de leis de trabalho”./dez. sendo que os anos de 1832 e 1833. Mas com a chegada dos imigrantes indianos.9%. Para o ano de 1873. para quem. creoles. Somente no ano de 1870 foram registradas 2. Desse total.649 prisioneiros dentro das cadeias reais. tanto na época da escravidão. antes do advento dos imigrantes indianos. Sookdeo reitera a opinião de conceituados historiadores. nos anos de 1872 e 1873.15 (tradução nossa). a média de condenações flutuou em torno de 53 prisões de homens por ano. quanto na época em que se passou a utilizar da mãode-obra indiana. de 60 aprisionamentos anuais. entre as categorias de ofensas que culminavam em prisões. cujas principais acusações podem ser assim distribuídas: 727 furtos. 354 e 476. Nesse ponto. 154 condutas indecentes no uso da língua e 116 ofensas. 154 jovens abaixo de quinze anos e 282 mulheres de idades variadas16. Segundo os dados por ele reunidos. 48 e 45 do sexo masculino. 2007 . ou seja. 39. Uma significativa elevação dessa média. a exemplo de Eric Williams. O restante dos prisioneiros estava dividido entre indianos mulçumanos. 1. respectivamente. afro-descendentes. Segundo Sookdeo. a que mais figurou foi a de imigrantes indianos capturados sem passes livres. a média alcançada foi de 54 prisões anuais.012 prisões. é constatada ao final da escravidão. extraída pelo autor. os documentos do conselho revelaram 2. 213 agressões. pois. respectivamente. Numa nota. durante a execução de tarefas. também uma nova carga de criminosos em potencial. os magistrados de Trinidad passariam a conviver com a idéia de que a cada nova carga de indianos contratados. “após 1854.Plantation Legal: Trinidad século XIX condenações. diante da Corte de Trinidad. a extração da força de trabalho era conseguida menos pelas condenações e mais pelo chicote. em 1835. entre os anos de 1828 a 1835. um inspetor dá a sua receita de como os prisioneiros devem ser disciplinados: 179 jul. 257 endividamentos.059 eram hindus.

VIII. entre os anos de 1872 e 1873. corriam por conta do governo. tais sanções penais se perfilaram numa excelente forma de se exercer o controle sobre os imigrantes contratados. respectivamente. dado ao fato de os imigrantes indianos se constituírem de uma classe de trabalhadores. 2000. Sookdeo destaca ainda que.Alexandre Martins Sir Joshua Jebb. Sookdeo revela. acima discutidas. Para os anos de 1885 e 1886. do ponto de vista dos indianos. os crimes categorizados como agressões dobraram.120). Goiânia. o lado positivo de se estar preso.363. As posições de Sookdeu corroboram as evidências. Quanto a isso. p. “os elementos intimidadores de punição são trabalhos forçados. competições nas esferas do trabalho e frustrações sexuais. os números de aprisionamentos foram de 4. Por último.. uma vez que os custos de subsistência dos imigrantes. “os contratados prosseguiram em receber com alegria o repouso oferecido pelas prisões comparado à vida em algumas das severas fazendas” 18 (tradução nossa). Segundo. predominantemente masculina. sendo que a maior parte dessas condenações foram alegadamente por motivo de descumprimento das leis de contrato de trabalho por parte dos imigrantes indianos (Ibid. vol..411 e 4. e para as classes mais baixas de prisioneiros. sobretudo nas estações em que as fazendas necessitavam de poucos trabalhadores. Sentenças duras”. “uma reconhecida autoridade em matéria de castigo disciplinar em prisões”. comida ruim e cama ruim. acerca do recrudescimento das sanções penais em Trinidad. destacam-se três interessantes posições: primeiro. No balanço geral que fez Sookdeo. quem recomenda. as quais corresponderiam a “trabalhos nos moinhos ou abrir covas ou quebrar pedras ou alguma atividade semelhante” 17 (tradução nossa). ele aponta algumas possíveis causas: frustração entre as classes trabalhadoras. incluindo conflitos inter-raciais. pois. o fato de que as duras sentenças aplicadas sobre os imigrantes contratados tornaram-se convenientes para a classe de plantadores. n° 15 . em certo período do ano. quanto às relações de poder que os fazendeiros mantinham 180 Revista Brasileira do Caribe. que se encontravam presos.

o coolie é provável. Todas as evidências. Depois que o caso é terminado. porque ele deve cozinhar a sua comida. especialmente se ele for absolvido ou meramente advertido. quando se tratava de oficializar uma denuncia ao juiz local: 26. Casos diante da Corte. extraímos um trecho que versa sobre o cumprimento das leis nas fazendas de Trinidad. a qual ele não foi capaz de fazer enquanto estava na corte19 (tradução nossa). trabalhar tão firme quanto é requerido pelo regulamento. 181 jul. fora da corte pela ação de multar o transgressor. capatazes. magistrados e imigrantes contratados. o coolie se torna mal humorado e não trabalha devidamente. Nem muitos patrões reivindicarão e adicionarão ao tempo de contrato os dias em que o imigrante não tem trabalhado. ambos para o empregador como para o trabalhador. o coolie leva algum tempo antes de se estabelecer dentro de seu regular costume de trabalho pacífico e constante. podem ser percebidos os “espaços de negociação” entre imigrantes indianos e seus capatazes. protetores de imigrantes. Nele. e ainda se mandado para prisão ele perde o respeito por si mesmo e torna-se um membro das classes criminosas. também não decidirão processar por deserção. O dia posterior ao caso ele declara que não vai ao trabalho. No total desses casos diante do juiz existe sempre uma grande perda de precioso tempo. além disso. as boas relações entre mestre e servo são prejudicadas. e ainda. “dias perdidos” como eles são chamados. 2007 . caso o coolie seja punido ou não. Então o capataz ou qualquer um em posição de gerência deve comparecer à corte com o livro da fazenda de modo que um dia é perdido. e geralmente decidem tal questão./dez. supervisores. nos permitem afirmar a existência de uma ampla rede de relações entre fazendeiros. até aqui analisadas. Muitos capatazes tem uma forte e muito justa discriminação contra levar um homem diante da corte por causa de alguma insignificante negligência. e. perder respeito à autoridade de seu mestre. alguns dias antes que ele seja levado à corte. Num documento ultramarino para assuntos da imigração indiana.Plantation Legal: Trinidad século XIX junto ao sistema judiciário de Trinidad. Pois.

um tipo de escravidão a vida dos imigrantes indianos nas Plantations. embora tenhamos dado um considerável relevo ao penoso processo de opressão por que passaram os indianos. alguns missionários presbiterianos canadenses. na mesma medida. sobretudo por meio do uso indiscriminado das leis de imigração. ou minar à autoridade do capataz diante. ou não. desmoralizar o imigrante. em tal questionamento. Grant. ou seja. De qualquer modo. pois favorecia outras categorias de pessoas residentes na ilha. embora carregados de boas intenções. Queremos salientar que. não somente as perdas financeiras estavam em jogo. as horas de trabalho que ambos os lados poderiam perder se ocupados com os inquéritos. a partir do ano de 1860. o documento acima mostra os trabalhadores indianos desenvolvendo certo grau de autonomia diante de seus opressores no momento em que. como. ainda não superados entre aqueles que. é devido a alguns problemas teóricos. VIII. tanto do imigrante acusado como de todo o restante do grupo a ele subordinado. reascendermos o velho questionamento a respeito do fato de ter sido. a fim de não se afastarem das fazendas e não colocarem em risco o capital moral que construíam a partir de suas relações dentro das Plantations. n° 15 . não faz parte das nossas intenções. vol. Também estavam em jogo certas perdas subjetivas que poderiam. o reverendo Mr.22 cuja permanência em Trinidad. Goiânia. tendem a vitimizar as populações subalternizadas no Caribe colonial20. por exemplo. Por essa razão. capatazes e imigrantes buscavam acordos diante das contendas. ou ainda insistem.Alexandre Martins De fato. Observa-se que. o processo de vitimização da população indiana de Trinidad colonial também fez parte dos jogos de cena. no sentido de educá-los e evangelizá-los. ou. a um estado de marginalização. 182 Revista Brasileira do Caribe. particularmente. Se alguns estudiosos insistiram. dependia dos trabalhos que desenvolviam junto aos indianos nas Plantations. a máquina judiciária. fazem uso da própria arma criada por seus patrões para oprimi-los. paradoxalmente. se condenado fosse. Morton21 e o reverendo Mr. quer dizer.

o capataz de uma fazenda de açúcar. era incorporada em seus diários. conforme mostramos. marcada pelo despotismo. com quem eles apresentaram a informação ou acusação formal. Sob o manto da noite eles deixaram a fazenda e foram até a casa do subprotetor. poderia fundamentar a suas posições diante das injustiças cometidas contra os imigrantes indianos. pois. pelo desencontro e. na Plantation. porém. conforme mostra o documento abaixo. Ele imediatamente iniciou uma ação contra o capataz. Desse modo. morais e intelectuais. Esses não são os dias de escravidão 23 (tradução nossa). Sem resistência os homens trabalharam o dia todo. 183 jul. para ganhar a sua confiança. e os colocou pra trabalhar. o juiz virou-se para a defesa. principalmente./dez. na ótica dos missionários. 2007 . uma série de passagens que. amarrar uma corda em torno da cintura de um pequeno número de líderes. o melhor instrumento de atração seria. Certa ocasião. Na conclusão do inquérito. nas vizinhanças de San Fernando. e ao cair da noite eles foram liberados com algumas boas recomendações. em uma mais ou menos jocosa forma. dizendo a ele: “Eu estou completamente consciente que o tratamento dado a esses homens não tem causado sofrimento físicos. segundo alguns trabalhadores foragidos. alguma forma de proteção contra as injustiças. os missionários procuravam justificar as suas ações por meio de alvissareiros objetivos que prometiam subtrair os indianos das condições degradantes que encontravam suas vidas espirituais. violentamente tentou. pela imprevisibilidade. tal ato sugere circunstâncias as quais as leis britânicas desaprovam”. se converteram em instrumentos de opressão nas mãos dos proprietários. um discurso protecionista. Já para os olhares do governo e da população local. perante os indianos. residente no distrito. uma vez que os contratos assinados na Índia. indubitavelmente.Plantation Legal: Trinidad século XIX Os missionários deveriam assumir.

n° 15 .. (. Goiânia. Os missionários têm evitado usar esse termo. pois viram nessa forma de clivagem um poderoso instrumento para causar ao indiano um sentimento de inferioridade diante da outras populações presentes na ilha. VIII. morais e intelectuais de um povo.. cumprido os propósitos para os quais eles foram. ou intitulado por alguns de nossos trabalhadores 184 Revista Brasileira do Caribe. que tem sido aplicado a outras raças asiáticas. recorremos a uma nota extraída de um jornal local. mas tem garantido por meio de seus trabalhos. assim como para os nativos da Índia. os missionários passaram a protestar contra o uso do termo Coolie. O termo “Kuli”. o reconhecimento e o apoio do governo e dos cidadãos em quase toda parte 24 (tradução nossa). como também pelo aumento natural.) E até o momento nada é mais comum do que observar as desdenhosas maneiras pela qual o trabalhador indiano oriental é. não somente numa larga medida. nossos missionários têm. Como parte das táticas de atração e negociação. que cresce rapidamente a cada ano pela imigração. por imputarem aos trabalhadores indianos uma condição de inferioridade. dando. Embora “Coolie” seja o termo oficial e é usado durante o prazo do contrato. usado para designar os indianos contratados nas Plantations. tem na língua “Hindi” o significado de um faxineiro ou carregador. e estão. vol. o fato de ter sido originalmente a designação da mais baixa classe de trabalhadores. inclusive. testemunhos de sua baixa estima.Alexandre Martins Assim era nossa missão em Trinidad. ou referido. tem feito dele extremamente ofensivo para uma grande proporção de pessoas. e o termo “Indianos Orientais” está agora em uso geral 25 (tradução nossa). The Palladium. cuja denúncia se dirige tanto aos trabalhadores Creoles. quanto aos próprios indianos por aceitarem tal condição de inferioridade. e na tentativa de satisfazer necessidades espirituais. sendo mandados. Para dar materialidade a essa questão.

o que indubitavelmente manteria os plantadores felizes” 27 (tradução nossa). consubstanciava a noção de docilidade era o fato de uma grande maioria de imigrantes viverem dentro das Plantations sob regime de contratos. 185 jul.) Mas esses orientais freqüentemente reconhecem a si próprios como ocupando o mais baixo status. Segundo ele. a de docilidade. não combina com a quantidade de distúrbios e violências cometidas por indianos em seus locais de trabalho./dez. Mas alguns historiadores. no tempo em que chegaram aqui eles entraram em suas obrigações agrícolas como trabalhadores contratados. talvez. Pergunte a um coolie de classe baixa (visto que o ideal de sua casta inerente permanece na mais alta norma para eles) se ele for um trabalhador contratado. p. o que. pelo fato de eles terem chegado aqui numa condição de quase escravos (. Haraksingh contesta essa primeira noção.. o que permitia aos seus patrões reunirem as condições necessárias para exercer um amplo controle sobre eles. em última análise.Plantation Legal: Trinidad século XIX Creoles. Haraksingh interpreta como sendo uma espécie de comportamento estratégico para manter os patrões felizes até poderem escapar das Plantations: “pois. Quanto à aparente submissão dos indianos. as noções de docilidade e o próprio sentimento de inferioridade.155). e principalmente. mostra-nos que certas imagens geradas durante o período colonial. e ele revelará a você à baixa estima na qual ele encerra a si mesmo. ambos imputados aos imigrantes indianos. normalmente usado para acentuar a preferência dos fazendeiros por trabalhadores indianos. em especial o professor indodescendente Haraksingh (1981. grande parte da resistência indiana deve ser vista em termos de quem teria o último riso. quem parece reconhecê-los como a raça mais inferior de todas as outras por causa da degradação.. dizendo que esse estereótipo. Eles seriam submissos e trabalhariam duro. 2007 . devem ser vistas por um outro prisma. Desta maneira eles têm a consciência de que eles ocupam a mais baixa condição nesta ilha 26 (tradução nossa). como por exemplo.

forjado pelos proprietários para fortalecer os mecanismos de contratação dos indianos. desenvolvido pelos missionários. cujas principais intenções eram: 1) criar um teatro capaz de deixar as autoridades inglesas em Londres satisfeitas quanto ao perfeito cumprimento das leis de imigração em suas colônias. teatro da Universidade Católica de Goiás (Campos-V). a fim de convertê-los ao cristianismo. essa idéia de os indianos desenvolverem uma atitude de submissão. 1999. n° 15 . R. Numa visão de conjunto. Notas 1 “A CLARA do Ovo”. VIII. 186 Revista Brasileira do Caribe. destinados à asseguração do sucesso da companhia colonial de imigração. como sendo um tipo de estratégia de preparação para uma vida melhor fora das Plantations. Elementary Aspects of Peasant Insurgency in Colonial India. 3) constituir códigos. ver-se-á que mais uma vez os imigrantes estão tentando se beneficiar com as próprias imagens que deles eram construídas.Alexandre Martins Analisando. foram. com mais profundidade. vol. estrategicamente. submetidas ao conjunto de leis de imigração. Direção e texto: Danilo Alencar. extrajudiciais. uma vez que tais imagens ajudavam a confundir seus opressores quanto aos seus verdadeiros projetos. 2) obter benefícios financeiros a partir dos recursos do tesouro real. 2 GUHA. formavam um complexo jogo de cena. quanto o estereótipo de injustiçados. as relações construídas entre as diversas categorias de pessoas. tanto o estereótipo de docilidade. de relacionamentos capazes de assegurar a continuidade dos acordos estabelecidos entre todos os grupos envolvidos e 4) assegurar aos imigrantes indianos a construção de espaços de negociação para que aquela difícil existência nas Plantations pudesse ser transfigurada em algo mais próximo de seus horizontes de expectativa. Goiânia. Outubro de 2006. Goiânia. London: Duke University Press. aceitos pelos próprios indianos. Dito de outro modo. por aqueles setores da sociedade interessados em explorá-los.

arising out of misunderstanding caused by the coolies having imperfectly performed certain work which they were requested to complete. p. p. 1904. 74). Stationery Off. sendo estes responsáveis por todos os custos de transporte e alimentação dos trabalhadores até aos seus locais de trabalho. but they were met by a warm reception from the coolies who 187 jul. H. O local da cultura. May 15. (cf. but everything considered to the smallest class of sugar plantation cannot consist of less than 200 acres of good land. one of the properties of the Colonial Company.M. either upon such plantation or within five miles thereof” (Coolie immigration. “I have the honor to report… that I have despatched the Futtle Rozack to Trinidad”. and 50 for Negro grounds. UFMG. Caird to Hope. 8 (.. apud PERRY.. p. 1969. 6 O termo Indenture se refere aos acordos sob a forma de contrato realizado entre trabalhadores e empregadores.) 9 “On Thursday last the police received information that a serious disturbance had taken place at Cedar Hill estate.. than Coffee or Cotton. and. On the strength of this information two policemen on horseback were sent out with a view to appease the disaffection. (Colonial Office 318. 2007 . K./dez. immigration ordinances of Trinidad and British Guiana. 165. A plantation of this class carried on with the greatest economy will require a capital of about £ 8. driver. 50 for pasture.)It is just possible that they may be arraigned before the magistrate on the charge of assault. which may end in fine_or_imprisonment (…) (The Palladium. 29). vol. 4 In March of 1845 Thomas Caird announced in a despatch to the Home Office. The quantity of land to be granted should certainly depend upon the means of cultivation. overseer. 062117110523. 2001. manage. of which 100 acres for cane. the lands being generally more favorable to the Production of Cane. establishments and Casualties. or other person employed on the plantation. 7 “No shop shall be kept by any employer. London : H. WILLIAMS. are liable to be found at a disadvantage.Plantation Legal: Trinidad século XIX 3 BHABHA.59. ranger. Belo Horizonte: Ed. and which they not only refused to do but showed strong signs of hostility.000 sterling”. between the coolies of the estate and the managing body. 1962. unable to speak the language of the lower orders here fluently. 1880. 5 “Trinidad should be regarded as a sugar Colony. 7 March 1845.

(San Fernando Gazette. Very evidently. n° 15 . injuring one (. . February 4. The third suggestion was a matter of hospital routine. 1871. 10 (…) But our Government has been so successful in providing at the public expense a sufficiency of serfs for all purposes (…) To know how to drive coolies through their daily tasks. 1878.) 11 “The prevailing custom of indiscriminately checking the wages at labourers employed on sugar estates for offences alleged to be committed by them has been so long and persistently practiced without molestation or legal interference of any kind in this island that it is not to be wondered at that persons fully conscious of the iniquity of such proceedings should nevertheless he led to follow the pernicious example. Editorial. VIII. there is an unctuous excuse which views it in the shape of being a shorter and more summary way of settling disputes between master and servant. expense and annoyance of going before a magistrate for every trifling offence committed by a labourer on the estate.. in the minds of all those who are agents in the practice. vol. August 31.Alexandre Martins repulsed them.. to the exclusion of equally important questions which affect other races. Editorial). September 30. . on the recommital of the Immigration Ordinance. or a similar sum for maltreating a mule... . and a means of avoiding the trouble.. Mr.. 1882). as the mules are driven through theirs. 12 At the last meeting of the Legislative Council. or for any other suppositious breach of estates’ discipline than it is to take the risk and trouble of proving such a charge before the Police magistrate”.) the other escaping unhurt only by the instinct of his horse which kicked the assailants away”.. So diffuse are the philanthropic sentiments wasted on coolie immigration. which probably was an oversight on the part of the medical authorities. is all that is required of managers and overseers (…) (San Fernando Gazette. proposed three new clauses the first of which imposed on the plantcr the keeping of a ‘Labour Book’ to contain all materials for identification of every Immigrant. Smyth. and the description of the daily work performed. the Hon. Goiânia. that we cannot but note the disquisitions which take place from time to 188 Revista Brasileira do Caribe. and unquestionably more convenient for a manager or overseer to check five dollars from a labourer’s pay for stealing a cane. (San Fernando Gazette. It is infinitely easier. Possibly it was to convince the government that they were really in earnest in the immigrant protection doctrine that the second clause offering facilities to the immigrant to procure industrial residence before the full completion of his indenture was introduced.

It is somewhat strangely suggestive that most of the endorsations (which are reported to be improper.. 114). SINGH. o anuário Blue Books e relatos de inspetores de prisões. 16 Dentre as principais fontes utilizadas por Sookdeo destacam-se os despachos do governador Longden. subject for regret that circumstances should so coincide that the improper act of the magistrate in this respect should have (in a worldly sense) a leaning towards the profit of the coolies’ legal and official Protector… (New Era. 189 jul. and for the lowest class of prisoners. Cf. although not out ct the hue pursued by other like magistrates. (COUNCIL Paper (Trinidad) nº 39 of 1874 apud SOOKDEO. 17 Sir. makes us regard the officer dispensing justice in this quarter of the island as a peculiarly hazardous man. Joseph Magistrate. approved of by the Chief of the Immigration Department. we naturally suppose. however.. if we may judge by the passiveness of his acts with respect to them. It is with no less an important personage than the Protector of Immigrants that we would consider the question of some endorsations of coolies’ lost days on estates.” Which amounted to “labour at the treadwheel or shot drill or stone breaking or some such work”. 15 “After 1854. 13 (…) “There is little evidenced to suggest that before the early 1880s any court decision was ever made against a planter or member of the estate’s managerial staff”.. p. (New Era. “an admitted authority in matter of Prison discipline. Mitchell.. to work out extra months of labour as lost days. (cf. and. and to be an unfair advantage in favour of the proprietor of the estate. March 22. p. June 12. 10. Editorial). 1988.111). they were frequently “guilty of breaches” of labor laws”. and a hard bed./dez.Plantation Legal: Trinidad século XIX time on the coolie and heathen Chinee. 2000. at the expiration of the term of their indenture. “The deterring elements of punishment are hard labour. which. 1880. 14 We have heard a good deal lately of magisterial not by the St. the property of Dr. when indenture laws tightened the lasso around Indian worker. This Dr. Joshua Jebb. p. SOOKDEO.” who advised. Editorial). Hard sentences. It is.. 2007 . Mitchell is Protector of Immigrants and one who apparently did not see the leaning and tendency of these endorsations. London: Macmillan.. 1876. hard fare. Kelvin. In: Bloodstained tombs: the Muharram massacre 1884. made by the magistrate first alluded to. to the prejudice of the coolie) should he endorsations condemning coolies indentured to labour on the Paradise Estate. 2000.

S. and then. sobretudo das populações afro-descendentes do Caribe. John Morton of Trinidad: pioneer missionary of the Presbyterian Church in Canada to the East Indians in the British West Indies: journals. veja: GLISSANT É. Then the manager. or at all estates the overseer. the cooly is sulky and does not work properly. vol. n° 15 . Kenneth James. has to attend the Court with the estate books and a day is lost. (COMINS. letters and papers / edited by Sarah E. N. p. tied a rope around the waist 190 Revista Brasileira do Caribe. 22 Grant. For some days before he is taken to Court. 2000. Toronto: Westminster Co. 20 Para uma melhor compreensão das críticas feitas a perspectiva de vitimização de populações coloniais. which he was not able to do when he was at Court. as he must cook his food. University Press of Virginia. 42). The authority of his master. Caribbean Discourse. (ibid. the good relations between master and servant are disturbed. and the cooly is likely. Charlottesville. 23 “On one occasion the manager of a sugar estate in the neighborhood of San Fernando. Morton.Alexandre Martins 18 “The indenteds continued to welcome the respite offered by prisons compared to life on some of the harsher plantations. In all these cases before the Magistrate there is always a great loss of valuable time both to the employer and to the labourer. After the case is over. 1989. [c1923] 062117110523. Nor will many employers claim and add to the period of indenture the days the immigrant has not worked.. 19 26. Co. p. 1893. whether the cooly is punished or not. especially if he is acquitted or merely warned. 21 Morton. The day after the case he says he is not going to work. VIII. 114). to lose respect for. John. Halifax. the cooly takes some little time before he settles down into his normal ‘habit of quiet and steady work.. Goiânia. 1839-1912. 1916. sorely tried by some absconding laborers.Cases before Magistrate. —Many managers have a strong and very reasonable prejudice against haling a man before the Courts for some trifling negligence to work as hard as required by the ordinance. and if sent to jail he loses respect for himself and becomes the associate of the criminal classes. 1839-1923 My missionary memories.: Imperial Pub. — “lost days” as they are called. nor will they prosecute for desertion. and generally settle such cases out of Court by fining the offender.

with whom they laid an information or charge. He immediately entered an action against the manager.Plantation Legal: Trinidad século XIX of a few of the leaders. as well as by natural increase. residing in the district. These are not the days of slavery”. (ibid. At the conclusion of the trial the magistrate. Under cover of the darkness they left the estate and went to the house of the Sub-Protector. turning to the defendant. (The Palladium. and chiefly. in a more or less jocular way. which has been applied to other Asiatic peoples as well as to the natives of India. The missionaries have avoided using it. 63). and in attempting to meet spiritual./dez. but it does suggest conditions on which British law frown. our missionaries have not only in a large measure fulfilled the purpose for which they were and are sent out. Ask a coolie of a low class (for the ideal of their inherent caste remains with the higher order of them) whether he is an indentured labourer.p. and he will tell you the low esteem in which he holds himself... who seem to regard them as a race far beneath every other for degradation. 191 jul. and put them to work.60). has in the “Hindi” language the meaning of a porter or laborer. While “Coolie” is the official word an is used during the term of indenture. but have secured for their work the recognition and support of the Government and the citizens generally. p. april 24. the fact that it was originally the designation of the very lowest class of laborers has made it extremely offensive to a large proportion of the people”.” (ibid. But these Orientals do often regard themselves as occupying the lowest status. said to him: “I am fully aware that the treatment given these men has not caused physical suffering. (GRANT.. 1880).60). on arriving here they enter on their agricultural duties as indentured labourers. and towards evening they were dismissed with some good advice. 25 “The term “Kuli”. 24 “Such was our mission in Trinidad. 1923. when. Thus they have the consciousness that they occupy the lowest condition in this island. because they come here in a kind of quasislavery.p. and the term “East Indians” is now in general use. moral e intellectual needs of a people growing rapidly each year by immigration. perhaps. Without resistance the men worked in the fields all day. 26 And yet nothing is more common than to observe the contemptuous manner in which the East Indian labourer is either referred to or addressed by some of our creole labourers. 2007 .

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196 .

mas também pode significar a variada presença deles numa mesma embarcação que aportou no Brasil. Firstly. *Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007 197 Revista Brasileira do Caribe. viviam nas áreas aonde eram apresados. Keywords: Slave trade. some hypothesis can be established based on the different ethnic groups that in that period lived in those areas where they were captured. n° 15. podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. because such concept alludes to large African regions where slaves where shipped and secondly because there were various places where these shipments happened. a saber. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina por onde os portugueses estrearam no comércio de escravos. 2007 . facing the difficulty to locate the nation of the slaves brought to Goiás. Goiânia. vol. 197-243. Por isso. Goias/Brazil. with the purpose to locate its origins. VIII. vieram para o sertão dos Guayazes. It does not seem appropriate to adopt the criteria of African nations as a unifying concept for cultural and religious affinities and identities of Blacks that in the eighteenth century came to the rural areas of the Guayazes. Isto porque essa palavra em um primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos. na época. Therefore. Não nos parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que no século XVIII.O Tráfico de escravos para o Brasil no século XVIII Cristina de Cássia Pereira Moraes Abstract This article focuses on the slave trade in Goiás. in Angola and Benguela and Costa de Mina—regions in which the Portuguese started the slavery trade. ethnic groups Resumo Nossa análise se pauta em discutir o tráfico de escravos para a Capitania de Goiás com o objetivo de “rastrear” o lugar de procedência dos escravos.

en el reino de Angola y de Benguela y en la Costa de Mina. regiones en las cuales los portugueses estrenaron el comercio de esclavos. pensado como unidades de linhagens biológicas ou culturais. sociais 198 Revista Brasileira do Caribe. um forte sentido de pertencimento relativamente ao grupo associado a um território concreto considerado como sendo especificamente o seu. porque era variada la procedencia de los que eran violentamente arrojados en el barco negrero. frente a la dificultad de determinar la nación de los esclavos traidos a Goiás podemos establecer algunas hipótesis basadas en las etnias que en la época vivían en las áreas donde eran capturados. Outrossim. hábitos comuns e um sentido de homogeneidade. que o conceito de nação envolve um grupo social que partilha um ideário. É oportuno lembrar também. Goiás/Brasil. vol. En primer lugar porque ese concepto alude a grandes regiones africanas de embarque de esclavos y en segundo. O conceito num primeiro sentido se refere às grandes regiões africanas de embarque de escravos.Cristina Cássia Pereira Moraes Palavras chave: Comércio de escravos. Parece lógico adotar o critério “nações africanas” como acepção aglutinadora de afinidades ou identidades culturais e religiosas dos negros que vieram para Brasil no século XVIII. n° 15 . Por eso. VIII. No parece oportuno adoptar el criterio de naciones africanas como concepto aglutinador de afinidades o identidades culturales y religiosas de los negros que en el siglo XVIII vinieron para el sertão de los Guayazes. Goiânia. movimento que tem sido levado a cabo de forma a construir explicações para diferenças pessoais. grupos étnicos Os livros de registros de batismos e de óbitos no Brasil indicam em muitos casos o lugar de procedência dos escravos africanos. Palabras Claves: Comercio de esclavos. Goiás/Brasil. grupos étnicos Resumen El análisis del artículo se pauta en la discusión del tráfico de esclavos para la Capitanía de Goiás con el objetivo de localizar el lugar de procedencia de éstos. as discussões recentes sobre o tema alertam para o movimento – historicamente construído – de uso do conceito de raça como forma de naturalização de opções e interesses engendrados na vida social.

Gâmbia. Ademais. apropriado. As diferenças raciais. ao mundo social (GUIMARAES.2 Nas matrículas de escravos encontradas no século XVIII em Goiás. gentio da guiné. entendidas dentro do marco da hierarquia. Segundo Rodrigues é impossível calcular de que 199 jul./dez. bem como. 9). benguelas. quimbundos e xindongas que viviam nos atuais Congo. a saber: ambós. Portanto. mas sim. Nigéria. como algo indeterminado. no centro do país. 2007 . modificado.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII e culturais como diferenças naturalmente dadas. Raça é um conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural. pela imigração européia (PEREIRA. ressaltar suas permanências e descontinuidades é entender que ele foi socialmente negociado. ovimbundos. hereros. portanto. ao contrario. foram respaldadas e alimentadas pela ciência no Brasil no final do século XIX (SCHWARCZ. cabindas. 2002. é preciso ainda. da mina e moçambique. nhanecas-humbes. bakongos. 2002. representação historicamente construída entre diferenças pessoais e grupais. Benin e Togo. Angola e Moçambique. ngangualas.1 Para além. eram denominados por angolas. 81-96). reinventado e re-significado. relações raciais. caçanjes. No caso dos sertões goianos. A realidade das raças limita-se. entender a sua complexa tessitura informada pela escravidão indígena e africana. 1993).3 Os sudaneses aglutinavam os povos da África ocidental e que habitavam as regiões hoje denominadas Gana. acreditamos que não há raças. silenciado. Trata-se. p. p. é certo que sua ocupação foi efetuada por inúmeros grupos etno-linguísticos de origem bantos e sudaneses. luandatchokues. de um conceito que denota tão somente uma forma de classificação social. o construto “raça” está vinculado a interesses e a circunstancias produzidas em determinado tempo e lugar. Os primeiros podem ser reunidos em nove grupos. Entender o seu percurso. baseada numa atitude negativa frente a certos grupos sociais e informada por uma noção especifica de natureza.

98-120)4. 200 Revista Brasileira do Caribe. Por isso. vol. viviam nas áreas aonde eram apresados. havia determinado que todos os navios ou embarcações que chegassem ao porto de Santos fossem visitados. na época. se levarmos em conta centenas de milhares de escravos que trabalharam nas minas de Minas Gerais ou em plantações de açúcar no Nordeste. Lourenço de Mendonça. certamente. n° 15 . podemos apenas estabelecer hipóteses baseadas nas etnias que. de qual nação chegavam. a saber.000. ainda que os registros possam camuflar a verdade. um prelado do Rio de Janeiro. Na Capitania de Goiás os iorubás ou nagôs e jejês como eram5 denominados nas matriculas oficiais de escravos são introduzidos pelo tráfico na região desde meados do século XVIII. VIII.Cristina Cássia Pereira Moraes data é a introdução dos nagôs no Brasil porque só no fim do século XVII se tornou conhecido dos europeus o poderoso reino de Ioruba (1977. no auge da exploração aurífera documentada em 1792. pois essa conversão era vista como benéfica aos seus senhores. pois se estendiam desde a Costa do Marfim. não foi registrada. já que significava adesão aos valores religiosos e morais do mundo branco e propiciava grandemente a resignação à sua condição servil. reino de Angola e de Benguela e a Costa da Mina onde se encontrava o forte de “ElMina” ou da “Mina” por onde os portugueses estrearam no comercio de escravos. vinham convertidos ao catolicismo. dado que a região era muito extensa. até a Costa dos escravos. face à dificuldade de se determinar especificamente a nação da maioria dos escravos trazidos para Goiás. era muito fácil fugir ou se locomover dum lugar para outro. Goiânia. Sob o aspecto da quantidade de escravos africanos que vieram para Goiás no século XVIII.6 Quando aqui chegavam. para saber sobre os escravos traficados. o número deles. p. Desde 1633. passando pela do Ouro. a maioria deles. Um dado chama a atenção do estudioso: comparativamente. não atingia a cifra de 40. Essas regiões também apresentam um caráter vago. Comissário do Santo Ofício. se traziam livros proibidos ou se e vinham desobrigados7.

/dez. no entanto.8 Em 1783. contudo. sofreram aumentos leves. também. o censo de 1789 registrou um aumento na população de escravos para 37. pela primeira vez. Seis anos depois. O censo de 1804 confirma essa tendência descendente.328. seguido por Traíras com 6. Rio de Janeiro e.568. 276) aponta um montante de 10. os dados oficiais registram a presença de aproximadamente 35. Meia Ponte com 1.245 e Meia Ponte. Desemboque e Carmo que. Os outros tiveram menos que 3.682. São Luis do Maranhão. o maior número de escravos já documentado na capitania de Goiás. de 1733 a 1750. Karasch9 observou que o censo de 1783 estava incompleto. Em 1779. o julgado de Vila Boa teve 9.599. Este censo é particularmente valioso porque revela um novo descoberto aurífero na região do Rio das Velhas. pois demonstrou apenas que 17. como o de Meia Ponte e Natividade.000 escravos. a população de cativos de Vila Boa tinha reduzido para 8. Pilar com 1.000 a 17.200 escravos. atualmente. 2007 . com 4. devido aos motivos acima apontados. chegaram à Capitania de Goiás desembarcaram em diferentes portos. Os africanos que. foram incluídos no citado censo. a saber: Belém do Pará.777. Como demonstra o gráfico abaixo.689 escravos. futuro Julgado do Desemboque que.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Com efeito. por registrar aumento da atividade de mineração em Pilar. p. Neste censo de 1792. faz parte de Minas Gerais e.207.000. Salles (1992. de Traíras para 5. 201 jul. excetuandose os julgados de Cavalcante. o que mostra uma ligeira tendência à diminuição da população escrava na Capitania. e de São Félix para 2.533 escravos. indicando a existência de 20.027 escravos na região. Salvador. o censo aponta os seguintes números de escravos para a Vila Boa e os arraiais mais ricos: Vila Boa com 4.000 cativos. Os demais arraiais possuíam menos de 1000 cativos. Em 1792. Alguns julgados.713 cativos trabalhavam na Capitania. A maioria dos arraiais que desenvolvia a exploração do ouro de aluvião listou 60 a 80% da população composta por pretos. na época em apreço.567 e Crixás com 1.309.790. outro censo registrou a presença de 38. Traíras com 3.

153 1.839 1. SalIes.444 1. O certo é que as principais rotas de entradas de africanos na capitania de Goiás eram pelo Pará. como Minas Gerais e Bahia. de Parnaíba no Piauí e de Recife. VIII.432 8.045 2.261 277 299 634 2.000 8. Economia e na de Escravidão da 202 Revista Brasileira do Caribe. Goiânia.207 1. de de F.000 4.000 1783 1789 1792 1804 Gráfico 1 – Número de Escravos na Capitania de Goiás 1783-1804 (A cópia manuscrita do censo de 1783 dá o número como 364 em lugar de 363.967 1.682 4.567 997 1.777 1.282 4. Maranhão e Bahia.000 6.Cristina Cássia Pereira Moraes provavelmente.960 899 2. Karasch suspeita que muitos africanos recém-chegados ao Brasil ficaram algum tempo em outras capitanias.568 9. Os Escravos na Capitania de Goiás. 660 Desemboque Das de Rio Velhas 2. vol.223 723 1. 1783-1804.689 Crixás Pilar Santa Cruz Santa Luzia Meia Ponte Vila Boa 0 2. n° 15 .264 2.575 3. antes de serem trazidos para as minas de ouro de Goiás.855 4.200 4.000 10. Fontes: Gilka V.491 2.

2002. Eram conduzidos por tropeiros que. 1790-1798. e Capitão da Geral da Capitania Goyaz Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério 29 julho 1792. Biblioteca Nacional. p. além de cativos.10 Outra rota por onde os escravos chegavam à Capitania. Seção Manuscrito. começava no Rio de Janeiro e passava por Vila Rica e Paracatu em Minas Gerais. entre 1794-1827 entre adultos e crianças foram batizados: 203 jul. Mapa em que Tristão da Cunha Menezes apresenta ao Real Ministério. Rio de janeiro. encontramo-lo num recibo de compra. traziam artigos e produtos importantes que por cá não havia.) Inúmeros comerciantes de Vila Boa organizavam grandes comboios para importarem cativos de São Luis do Maranhão e de Salvador./dez. 277. levavam em média três meses de viagem para chegarem a Goiás. (MOTT. 11.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Capitania Goiás.11 Como foi abordado anteriormente por nós. 1993. de 1793:“ Michaela Xavier de Aguirre deu 230 oitavas de ouro para Capitão Gaspar José Lisboa para ir a Cidade de Salvador para comprar três “moleques Minas”. p. tecidos finos. Goiânia: CEGRAF/UFG. em 1765. AHU. Documento 2109 Reflexões Econômicas ficam sóbrio como Tabelas da de estatísticas da Capitania de Goyaz Pertencentes ao anuo de 1804 feitas de e nenhum de 1806. 170 escravos para Vila Boa. sal. 2007 . caixa 35. KARASCH. vestidos. vinhos. . Goiás. como utensílios e objetos de ferro. pagando por cada um aproximadamente 80$000”. inventários e termos de assentos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos localizados em Vila Boa. Optamos em utilizar alguns registros de batismos. em geral. João de Botelho Cunha que. localizar e determinar especificamente a “nação” a que pertencia os cativos em Goiás é uma tarefa hercúlea. trouxe de Salvador. p. perfumes.4. ibid. AHU. e artigos de luxo.2. até o prezente anno d’ 1789. 1992. 170) Um outro exemplo. Mapa em que o Governador. bacalhau. podemos citar o comerciante. 19 de outubro 1790. óbitos. 119. Conforme os registros da Igreja Matriz de Santa Ana. entre outros. Esses comboios. Como exemplo.

n° 15 . vol. as 6 angola mina crioulo(a) 5 moçambique 4 nagô buçá 3 desconhecido 2 1 0 17 94 17 95 17 96 17 97 17 98 17 99 18 00 18 01 18 02 18 03 18 04 18 05 18 06 18 07 18 08 18 09 18 10 Gráfico 2– Batismo de crianças escravas em Vila Boa 1794-1810 (Orfanato São José. Arquivo Geral. Goiânia. livro 3.Cristina Cássia Pereira Moraes Batismos de crianças escrav em Vila Boa de Goiás 1794-1810. Diocese Goiás. 132). 1794 -1810 e KARASCH.12 204 Revista Brasileira do Caribe. 2002. VIII. p. Batizados.

criança legítima de João 205 jul. livro 3. 1794 -18270 e KARASCH Op..) A maior parte dos registros de batismo e de óbito indicava o grupo étnico a que o escravo pertencia como podemos observar nos gráficos acima. Arquivo Geral. 132. elas ocorriam e estes eram incluídos nos registros. Como exemplo temos: “Maria. Diocese Goiás. 2007 ./dez. 2002. p. Batizados. pois. Na coluna “desconhecido” pressupomos que seria o batismo do “gentio”. Cit. embora a legislação proibisse a escravidão dos índios13.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII : Gráfico 3– Batismos de escravos por gênero em Vila Boa de Goiás 1794-1827 (Orfanato São José.

VIII.14. Jaraguá e Corumbá e datem do início do século XIX. quando podiam. pretos da costa. AFSD: Livro Óbitos. os registros de óbitos. foi batizada no dia 22 de fevereiro de 1818 em Santa Anna. o maior numero de registros. n° 15 m pr in a et na os gô da co s at nã na g ge o ola nt c io ons da ta gu de i ca gné en st ad tio at daer s Ira l da has te r cig ra an o . (IPHBC: Livro de Registro de Óbitos de Meia Pontes. relativo a 1803-1810. 135). anota 834 escravos falecidos. o Livro de Registro de Óbitos de Meya Ponte. vol. A título de exemplo. denominando-os como mina. p. KARASCH. gentio. Natividade e Porto Nacional. 206 Revista Brasileira do Caribe. 1800-1827. das ilhas. segundo Karasch. 1803-1810. Goiânia. No entanto. conquanto se restrinjam a Natividade. cigano.Cristina Cássia Pereira Moraes Angola e Eugênia Índia Chavante. Meia Ponte. Infelizmente. da terra. nada consta:15 Ó bitos1794-1834 800 700 600 500 400 300 200 100 0 total Gráfico 4– Óbitos 1794-1834. mas. muito superficialmente. a fim de evitar sua escravização no futuro” (2002. apontam a origem étnica dos cativos falecidos na Capitania. nagô. gentio da guiné. os párocos evitavam registrar uma criança indígena como escrava.

p./dez. m ina na g an ô go l re a b be olo ng u ca ela bi n m da un m oç j am olo bi q ile ue gi ve l 207 jul.. Livro Letra K – 1789 – nº012. 1794 -1834. livro 3.cit. op. Sra. (AFSD: Testamento de Marcelino Baptista Silva – Herdeiro: Manoel Teixeira dos Santos. Diocese de Goiás. 133.). Orfanato São José: Arquivo Geral.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Mary. p. Batizados. 2007 . da Boa Morte representada pelo procurador da Irmandade Manoel Teixeira dos Santos nos indica que aos fins do século XVIII a maioria de seus cativos eram mina como podemos observar no gráfico abaixo: T estam Vila Boa 1789 ento 18 16 14 12 10 8 6 4 2 0 H omens Gráfico 5 – Predominância de escravos mina. 43-43v. Goiás.) Um testamento de 1789 de Marcelino Baptista Silva cuja herdeira era N. página 48 v.

o número de escravos que fazia parte da associação era relativamente pequeno: Irmãos e Irmãs da Irmandade de N. com certeza. n° 15 . o número de escravos pretos era bem maior que o dos brancos.S. pardos e pretos livres. Do Rosário dos Pretos de Vila Boa. vol. VIII. No entanto.Cristina Cássia Pereira Moraes Sabe-se. Sra. do Rosário dos Pretos 1736-1810 60 50 40 Homens 30 Mulheres 20 10 0 17 17 35 36 17 39 40 17 44 45 17 49 50 17 54 55 -5 17 9 60 17 64 65 -6 17 9 70 17 74 75 17 79 80 17 84 85 -8 17 9 90 17 94 95 -9 18 9 00 18 04 05 18 09 10 -1 4 Gráfico 6 – Número de Irmãos e Irmãs na Irmandade de N. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. Goiânia. entre 1755 e 1784. através dos censos efetuados na Vila e nos arraiais. posto que essa Irmandade apenas aceitava cativos como 208 Revista Brasileira do Caribe. Ora. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1810). nos termos de assento e anuidades dos membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Vila Boa. Sra. que durante o século XVIII.

devido às quantias que eram cobradas pela entrada e por anuidade. declarava ter quatrocentas oitavas de ouro e pedia que o tesoureiro da Irmandade indicasse um fiador para avalizar o restante da quantia a ser paga ao seu senhor por sua carta alforria. conforme o gráfico acima. curiosamente. podemos observar que o numero de irmãos aumentou significativamente. os demais negros podiam ser apenas irmãos de devoção. apenas na década de 1770. Aqueles ainda tinham a ocasião de fazer serviços extras para outrem e 209 jul.16 Dois casos ilustram bem o que reza esse documento. escrava do Coronel Pacifico. Em outro termo. embora a Irmandade. de modo que. quando tinham família. em Vila Boa. declarando que possuía um pecúlio de trezentas oitavas. da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. o que geralmente acontecia com as mulheres . os escravos urbanos da Capitania viviam melhor que os do campo. Para mais. ela não media esforços com vista a alforriar escravos: Havendo algum Irmão captivo que sequeira libertar a Irmandade lhe assistirá com oprecizo para se libertar. Estes. nem a oportunidade de ingressar na Irmandade e se beneficiar da ajuda da mesma. Em termo de mesa. devido às leis portuguesas de proibição à escravidão onde a maioria dos senhores de escravos os venderam para o Brasil. escravo do Capitão Dantas. Outrossim.17 Apesar da terrível condição em que se encontravam. do ano de 1764. podemos inferir de tal registro que bem poucos puderam nela ingressar como irmãos. a irmã Zeferina. 2007 . o irmão Francisco. rogava aos oficiais que obtivessem sua liberdade. não aceitasse libertos como membros.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII associados. dando primeiro hum fiador a irmandade que se obrigues pelo tempo que sejustarem satisfazer à dita Irmandade o que desembolçar e será este fiador eleito pela Meza e passará obrigação à mesma. para além de trabalhar para seus donos. e não de compromisso. só produziam o suficiente para si e para os seus./dez. de 1775. não tendo nenhuma chance de ajuntar algum dinheiro.

de outro. sua moradia na cidade ou no campo. em caso de eventuais dúvidas. Mattoso20 observa que “se tornou hábito que o documento seja registrado em cartório em presença de testemunhas” (1992.. As cartas de alforria eram instrumento legal. caracterizavam-se por ser um acordo firmado “inter vivos”. Raramente encontramse dados sobre a profissão do senhor.Cristina Cássia Pereira Moraes acumular um certo pecúlio para comprar a sua alforria18 e tal era o caso dos que exerciam ofícios específicos como os alfaiates. No primeiro caso. VIII. o senhor estipulava em testamento que. p. herdeiros não respeitavam as decisões. comerciavam-nos em outros lugares”. ou “a conquista de um favor no céu”. vir a obter a manumissão de seus senhores ou a coortação. Goiânia. 1973. cujo anseio principal fora alcançar a liberdade. de um lado. entre o senhor e ele. sua origem. porque estavam a buscar uma “graça divina”. isto é. por sua generosidade e. 659-695) No segundo caso. redigido por um tabelião. podiam ser a “expressão da última vontade do dono”. As cartas de alforria nos fornecem vários dados interessantes: o nome do escravo que estava sendo libertado. à situação de homem livre.. o escravo passava ou simplesmente sub conditionibus. cor. gratuita ou onerosa. Eram as tais Cartas. ou eram públicos. Todos esses dados reproduzem a vida dos alforriados. apossando-se dos escravos e. quando registrados em cartório. aos escravos pelos senhores era sempre tida na conta duma dádiva de sua parte. para assegurarem suas vantagens. No período em apreço. mediante o qual.19 (MORAES. filiação. Mas “os. vendiam-nos a terceiros e de preferência. ou. vol. isto é. os nomes das testemunhas e a data do registro em cartório. 177). p. ou um documento particular. a concessão da carta de liberdade ou de alforria. Isso os 210 Revista Brasileira do Caribe. mas não registrado. após sua morte. pelos bons serviços prestados a si e à sua família. as modalidades e as condições dessa libertação. n° 15 . bafejados pela sorte. os motivos pelos quais era alforriado. para garantir seu direito. motivada. a idade e o ofício do liberto.. os pedreiros e até mesmo os simples jornaleiros. O documento ficava em posse do liberto. tal ou tais escravos deviam ser libertados.. A fim de evitar contestações.burlavam a lei.

p. eram subjetivos. na maioria das vezes. proibiam-lhes reger sua própria pessoa e gerir seus bens. No entanto. oscilavam entre dois e cinco anos. Parece provável que parte das alforrias gratuitas tivesse relação com ligações afetivas” (1999. a situação do coartado se tornava particularmente delicada e. na idade. O pagamento das parcelas e a definição do tempo de vigência dos contratos variavam e eram acertados entre as partes. isto é. Concernia a escravos adultos e. gratuita ou onerosa. o pagamento pela liberdade era feito a prazo. poderia ser revogada. aquela sob condições. as condições do contrato eram cumpridas tal como foram originalmente acordadas. certa segurança quanto à percepção da quantia acordada. Muitos senhores estipulavam o valor a ser pago. a maior parte deles estipulava o valor fixo das parcelas e sua regularidade. e os motivos dos proprietários. referido no contrato.Mas a alforria. quando se tratava de cartas de alforria onerosas. ou de uma só vez ou em várias prestações. No caso de retaliação posterior./dez. 211 jul. sem.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII levou a denominar esse ato de “boa ação pela fé”. Essa revogação poderia ser feita por terceiros. as cartas de liberdade trazem prazos que vão de dois a cinco anos e o escravo vivia uma fase de transição entre a liberdade e a escravidão. No entanto. consistia em o escravo obter uma semi-liberdade. A coartação era um tipo de alforria onerosa. era baseado na saúde do escravo. o escravo devia pagar por sua liberdade. assegurando desse modo. em alguns casos. os prazos constantes dos documentos desse tipo. em idade produtiva. no sexo. Entretanto. ao que tudo indica. determinar as condições para o pagamento. Um outro tipo de alforria. 16) . Na Capitania. o pagamento da alforria era efetuado por outrem. Observa Aguiar que “as relações familiares representavam importante elemento neste processo. nas suas qualificações. Em Goiás. particularmente para as crianças. Poderia consistir na autocompra da liberdade. porém. porquanto. o senhor do escravo registrava esta observação na própria carta de alforria. ou seja. 2007 . herdeiros ou um procurador do falecido proprietário. O valor pecuniário do escravo e sua alforria. raramente. no entanto. se o senhor morresse. porquanto.

(BELLINI.Cristina Cássia Pereira Moraes ainda que as parcelas fossem pagas pelo coartado. muitas vezes. ou prestando-lhes e aos seus filhos. de afeto e de intimidade entre senhores e escravos que não apenas contemplaram “os bons serviços prestados pelos escravos”. tiveram um com o outro. igualmente. às rebeliões. entretanto. a convivência estreita na mesma casa e até no mesmo quarto. obrigando-o. 75). esmerando-se no cumprimento de suas tarefas. Goiânia. como a preparação da comida dos proprietários pelas escravas. o cuidado e a amamentação das crianças brancas pelas amas. a revogação unilateral do contrato (1999. a entrar na justiça para reivindicar o seu direito (AGUIAR. o senhor não efetivava a sua libertação. cozinheiras. diretamente os corpos do senhor e do escravo. com vista ou a obter a alforria ou a tornar sua vida mais suportável. Muitas cartas de alforria. 1999. n° 15 . portanto. De fato. eles souberam aproveitar das oportunidades. Como sabemos. que ocupavam lugares institucionais tão diferentes. como amas-deleite. se o senhor falecia antes que o mesmo se completasse. lavadeiras e etc. ainda surgiam outros problemas entre o escravo e os sucessores daquele. 22-25) . tendo investigado a situação dos escravos na Capitania de Minas Gerais. p. favorecidos por situações que envolvem. Aguiar ressalta que a flexibilidade era a regra no pagamento das parcelas da coartação e na definição do tempo de vigência dos contratos. “serviços especiais” em seus leitos: Na realidade de jogos singulares de poder e sedução. 21-22). especialmente as gratuitas. dessas relações de cumplicidade. em geral. recorrendo às sabotagens. por exemplo. as relações sexuais e filhos. às fugas. estes protagonistas. os escravos utilizaram diversas formas de resistência. de acordo com o que consta do seguinte documento: “Concedo a liberdade do escravo Terthulianno Crioulo de 70 anos gratuitamente 212 Revista Brasileira do Caribe.. ou por causa dos serviços regulares que prestavam. p. vol. decorrentes dum relacionamento mais próximo com os seus senhores. Mas. p. 1988. VIII. decorreram. então.

69) mas. o liberto. p. 2000. Todavia. após sua liberdade. que entre os bens que possuo.. e sepultado no Adro da Capella de Nossa Senhora da Penha de Jaragua. no tocante a ex-escravos. que concedo a liberdade pelos bons serviços prestados. consta a sua condição de coartado: Aos dez de Dezembro de mil oito centos e quatro falesceu com os Sacramentos da penitencia. importa ressaltar que. Por outro lado. Na verdade. embora a maioria dos senhores de cativos usasse a palavra “gratuitamente” nas cartas de alforria. e extremaunção João Mina esravo coartado da heransa do falescido Jeronimo Gomes: seu corpo foi amortalhado em pano branco. havendo a Encommendação do costume. tudo leva a crer que. devia prestar algum tipo de serviço ao seu ex-dono quem não era tão magnânimo quanto aparentava ser. ele era estimado pelo seu dono. durante certo período de tempo. Em alguns registros de óbitos. 2007 . nascera em casa dele e. as mesmas aludem a pagamentos e às obrigações da parte dos escravos. pelo amor que lhe tenho e por ele ser cria da casa. ainda iria continuar a trabalhar para seu antigo dono. pelo valor da primeira parcela de cento e noventa e oitava de ouro. do 213 jul..)23. pelos bons serviços que me tem prestado”21. ainda convém observar que. ou os nascidos nas casas senhorias (LEITE. em troca de alguma remuneração. neste caso como em muitos outros semelhantes. sendo o pagamento à vista pela minha livre e espontânea vontade. Capitão Felipe Rodrigues Lisboa.22 O documento abaixo comprova o que afirmamos: Eu. se estenderam para além do mero ato de obtenção da liberdade. um escravo de nome Ignácio Crioulo.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII pelo valor de uma oytava e meya. recebendo sua liberdade após o pagamento de sua dívida (. abaixo assignado. devido a essas circunstâncias. embora possa parecer paradoxal conceder liberdade a um escravo em plena idade produtiva. ficando o restante a ser pago pelo dito escravo./dez.

não sendo reconhecido como pessoa. no mínimo contraditória. enfim.O Coadj or Joaquim Glz´ Dias Goulão. relativa ao escravo ou ao liberto. sujeita de direitos. Na verdade. Goiânia. Ora. de acordo com a legislação em vigor. com a qual nos deparamos ao fazer esta pesquisa. fazer testamento27. ser tutor29. herdar28.25 Alforrias 1794-1810 70 60 50 40 30 20 10 0 as da as as s total ui t at ad ul us Gr er c la m Gráfico 7– Tipos de Alforrias (AFSD: Documentos avulsos: Cartório do 1º Oficio: Testamentos. 17551798) Uma outra situação. diz respeito a eles poderem ter escravos para os ajudar nos serviços que faziam ou vir a substituí-lo. o que se passava era o seguinte: face à predita segunda hipótese. muito comum no Brasil do século XVIII. caso conseguissem recursos para obter a alforria. ao escravo era proibido ser testemunha26. bem como para burlar o imposto de capitação. os senhores consentiam naquela situação de facto 214 Revista Brasileira do Caribe. n° 15 Co Re m un Co ar ta . VIII. possuir quaisquer bens etc.Cristina Cássia Pereira Moraes que fiz este assento”. vol.

1993./dez. ao serem trazidos do continente africano. indicando o irmão Antonio de Melo e Vasconcellos como seu fiador. em troca de sua liberdade e da de seus filhos. pouco foi preservado. Não perdendo de vista as observações de Aguiar (1999. 2007 . de 1792. Infelizmente. Por mais que a Igreja Católica tenha se preocupado em registrar os acontecimentos. em que os irmãos decidiram assumir e pagar a coartação da irmã Maria Benguela. 215 jul. p. José da Silva Porto. pelo prazo de cinco anos. a qual. 28) a propósito. a pagar ao seu senhor. do Rozario estando prezente o nosso Juiz e Escrivam e mais irmãos da meza concordaram q a irmã Maria Banguella posuia o direicto a quartação acertada em cinco annos com o fiador Antonio M Vasconcellos por meia libra de oiro o erão taobem a sua moleca de 5 annos mais ou menos.30 Por conseguinte. As condições sócio-econômicas e religiosas do escravo na Capitania de Goiás e a perspectiva de libertação que se lhe abria. inclusive os nascituros. arrematamo-las apresentando um documento bastante ilustrativo sobre isso. ao se associarem às irmandades. 95). os escravos negros encontraram nelas um importante espaço de reorganização e reconstrução duma solidariedade étnica que se perdera. se comprometia. camufladamente. Trata-se dum Termo de Mesa da predita Irmandade. em nossos arquivos a documentação sobre os cativos – quando a encontramos – aparece mutilada.S.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII mas. tendo condições de associar-se à Irmandade de N.Sra. p. desfigurada por causa de muito tempo de descuido e por incursões de traças. Raríssimas vezes conseguimos encontrar os documentos em séries completas. conservavam a propriedade sobre tal escravo de escravo. fazendo valer seus direitos em pendências judiciais (ARAUJO. do Rosário e cumprir com suas obrigações pecuniárias é o sinal concreto de solidariedade e caridade cristã entre todos os membros. de jure. meia libra de ouro: Aos 25 do mez de 7bro de 1792 – neste consistório de N.

n° 15 . cultuada tanto pelos índios como pelos africanos. de praticarem suas crenças e. pois conforme observou Quintão (1997. para os de fora de sua cultura. algumas semelhanças entre elas possibilitou um estreito diálogo32 e a circularidade cultural33. tendo em vista a total impossibilidade de regressar às suas origens e. p. (JULIA. formularam e atribuíram novos significados à sua religião e ao catolicismo. 216 Revista Brasileira do Caribe. conveniência ou compartimentação entre o catolicismo e a sua africanidade. vol. por exemplo. o culto aos santos se relacionava de modo coerente com muitos mitos religiosos africanos. possibilitaram-lhes tomar consciência de sua unidade étnica e proporcionaram-lhes expectativas transcendentes que minimizavam seu sofrimento interior e exterior. a identificação se dava inclusive pela divinização de elementos da natureza como a mata. 115-116). VIII. recusando sua situação de inferioridade. mas de forma alguma sua religiosidade podia ser considerada como superficial e de aparência. pois mesmos os recém-chegados da África não eram impedidos. é provável. faz-se pertinente analisarmos a força da religiosidade dos pretos cativos. do ponto de vista deles. p. os africanos depois de trazidos à força de sua terra natal e inseridos na sociedade luso-brasileira. Com efeito. os quais. de se tornarem pseudo-católicos31 fervorosos e convictos dos dogmas da fé cristã. tendo presente o contato que estabeleceram com as tradições dos índios e a dos luso-brasileiros. parecem contraditórias e inconciliáveis. No primeiro caso. No segundo. Não pudemos perceber obrigação. reconhecido como o orixá Ogum. o politeísmo africano se identificou com o politeísmo indígena e com o culto aos santos católicos. É importante destacar que a maneira do preto manifestar a sua devoção causava temor e incomodava aos brancos pelo apego às “exterioridades das celebrações”. que os brancos é que não sabiam exteriorizar a sua fé. os pretos eram capazes de conciliar coisas que. Goiânia. 3-4). mas.Cristina Cássia Pereira Moraes Ademais. por outro. 1994. no tocante à religiosidade original dos negros. concomitantemente. tais como o de São Jorge. O certo é que. ao mesmo tempo. por um lado.

grupos como os iorubás ou gegês acreditavam. Infelizmente. com muita perspicácia. dos anjos e dos santos dados aos homens como seus guardiões e protetores. Eles se multiplicam e se transformam nos loas. fornecem dados preciosos. 1987. só muito dificilmente se distingue do Deus do catolicismo à medida que este sempre foi representado na pregação. os senhores não tinham interesse em saber nada a respeito de tais crenças. em 1722. os manda para a Guiné. p. em geral. se recusando a partir. pregam o evangelho e se tornam santos (HURBON. 102-107) Para mais. como os católicos. 47). o trabalho dos investigadores (MUNANGA. o mundo religioso dos escravos africanos era avesso ao profano e sua crença apoiava-se na simbologia do sagrado. deixados pelos religiosos. os favores e mercês da Maria Santíssima. e como. comentando: “as maravilhas de Deos. que parece huns doudos de contentes”: 217 jul.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Outrossim. 1996. Deus envia doze apóstolos que se comportam melhor. Apesar disso. o agostiniano. p. os registros que alcançaram nosso tempo. com exceção de um que. como castigo. nos cânticos e nas orações como o criador do universo. Mais tarde. sortilégios e magias. se entrega a feitiçaria e se transforma em Lúcifer. que Deus é a chave da abóbada que sustém todo o sistema dos espíritos e de todas as práticas desse culto. 2007 . Em seu orgulho eles se rebelam contra Deus que. admirado com a fervorosa religiosidade dos cativos. essa lacuna documental prejudica. quanto à maneira como veneravam Nossa Senhora do Rosário. porém. frei Agostinho de Santa Maria ressaltava a generosidade dos mesmos nas celebrações das festas. Deus envia a terra doze apóstolos. De fato. eles também preferiram guardar silêncio e continuar praticando seus rituais misturados ao Catolicismo. no catecismo. hoje. pois faz com a sua devoção se alegrem tanto os pretinhos. alem disso. efetivada nos vaticínios. Ele é o criador dos espíritos e dos santos católicos correspondentes e./dez.

isto é.Cristina Cássia Pereira Moraes He muyto para admirar a fervorosa generosidade. Estudiosos do tema em apreço não estão em acordo quanto à explicação das possíveis origens das irmandades religiosas das pessoas de cor. dominada pelos brancos. n° 15 . & festejarem à Senhora. o fazem com tanta grandeza. os estudos sobre esse assunto apontam para os fatos de que tais irmandades surgiram face às necessidades de se aliviar as pressões advindas duma sociedade competitiva. os escravos negros provenientes da África erigiram na igreja de São Domingos. em Lisboa. com que aquelles pretinhos servem à sua Senhora. p. Outros julgam que elas foram concebidas e organizadas visando a inserção dos cativos naquela sociedade.. no âmbito da sociedade escravocrata que acentuava a divisão social. pois sendo pobres. 86). que possuam. Mais recentemente. meramente. Goiânia. VIII.) (SANTA MARIA. perante a maioria branca. esmerando-se muyto em levar a vantagem a todos os mais (. 1947. e propiciar aos seus membros um lenitivo religioso. Alguns deles asseveram que elas surgiram com os fitos de difundir uma “falsa igualdade”. “a integração do homem de cor” – o que podemos chamar de estratégia de convivência harmoniosa ou de “auxílio mútuo”. & não tendo nada. as concepções de acordo com as quais Maria era a mãe de todos os desvalidos bem como de Jesus Cristo e a intercessora. em Portugal e depois para o sertão dos Guayazes. faz-se pertinente buscar a origem da maior devoção dos cativos dedicada a Nossa Senhora do Rosário primeiramente. ao lado da Confraria de Nossa Senhora do Rosário de brancos. por motivos profanos ou seculares. Segundo o referido frade. e como um meio de enraizamento da comunidade negra nos domínios ultramarinos.34 Outrossim. uma outra constituída 218 Revista Brasileira do Caribe. que em tudo excedem aos brancos.. vol. faziam com que as festividades em louvor à Virgem fossem quase uma epifania do transcendente que lhes causava imensa alegria. não sendo vistas como que estimuladas. para servirem. & captivos. A partir de 1520. por excelência junto de Seu Filho Divino.

“Sua recitação está intimamente ligada aos mistérios da Vida. os frades Pregadores ou Dominicanos. essa devoção encontrou guarida em igrejas e conventos de cidades e vilas e. (ENES. nela incluída a recitação do Terço. que pode ser classificada como sincrética. entre grupos sociais populares. dada a impossibilidade de os mesmos participarem da Irmandade de seus senhores. e consistia na recitação do terço ou do rosário. os brancos a abandonaram completamente e passaram a menosprezá-la. “lhe deram o titulo do Rosario. também passaram a criticar os frades Dominicanos por lhes terem permitido organizar uma confraria inteira exclusivamente com sua gente. a nova devoção mariana. aonde a milagrosa Virgem do Rosário era cultuada pelos marinheiros. divididos em quinze dezenas. presos e casarem orfaons”. p. p. 261) Ela quase se igualou em importância à prestada ao Ssmo. então. à época da batalha de Lepanto.Sra. quando os negros cativos adotaram a devoção a Nossa Senhora do Rosário. na Península Ibérica. 2007 . Alem disso. as irmandades. Entretanto. dizendo que tal devoção surgiu quando os escravos foram “fazendo hum ajuntamento e pondo hua mezinha a porta da igreja e depois outra maior e mais dentro a maneira de confraria por onde se vieram alevantar”36. do Rosário. que he com que hoje ao presente he buscada e servida dos seus devotos pretinhos”. ligada a São Domingos e aos seus filhos. cada uma precedida do Pai-Nosso. face à ameaça islâmico-turca perante uma Cristandade dividida por causa da Reforma Protestante Rapidamente. nessa época. isto é. mesclada com o popular e afetivo. ao contrário./dez. (SCARANO. surgindo assim. Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e as quinze dezenas que se he 219 jul. Os negros. Tridentina e institucional. Sacramento.37 Não obstante a sua origem medieval. 1961. A devoção a N. de cento e cinqüenta ave-marias. como ocorreu no Porto.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII somente por eles. se intensificou sobremaneira graças ação religiosa dos Dominicanos. 39-40) 35 Seus associados portugueses tinham como obrigação “remirem cativos. se revestiu com uma roupagem nova. 1976. em Portugal.

mas.au moins théorique . 448). recém-chegado. assisteront et défendront légalement les intérêts des captifs contre les maîtres. a Igreja não poupou esforços para integrar o africano. Or. 18). Goiânia. Sra. n° 15 . numa sociedade católica e branca. où les noirs auront le contrôle . un peu partout sur le territoire. p. atraindo-o para as irmandades mais capazes de interessá-lo. jamais ce dernier objectif n’atteindra au Brésil les mêmes proportions qu’au Portugal (2001. affirmeront leur identité.38 O pesquisador francês Lahon ao estudar a origem das irmandades de N. Esses observam a vantagem de se congregarem em irmandades por “ser notoriamente o grande proveyto q resultara a conversão das almas q até os Reis Gentios mandavam esmolas para a confraria e pedião retabolos de nossa Sra. em coroa se oferecem. S. a 220 Revista Brasileira do Caribe.de leurs associations. do Rosário dos Pretos de Lisboa observa que eles foram os primeiros a elaborarem – em 1565 . conforme o primeiro levantamento populacional de Lisboa realizado por Cristóvão Rodrigues de Oliveira em seu Sumario em que brevemente se contam algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa em 1551: Há neste mosteiro de São Domingos sete confrarias.Cristina Cássia Pereira Moraes devotam constituem rosas que. 1953. cette attitude provoque le dédoublement de l’association et la création officielle d’une confrérie noire sanctionnée par des statuts ratifiés en 1565(…) Ces statuts sont le prélude à la création d’autres associations organisées sur le même modèle. No seu esforço de enquadramento religioso. do Rosário de homens “brancos”: Comme nous l’avons observé. se consagram e se dedicam a Nossa Senhora” (AMARAL. Do Rosário”.um estatuto próprio que diferia do Compromisso da irmandade de N. p. Segundo o autor acima a ereção dessa irmandade é a primeira do gênero e seu Compromisso data de 1565. vol. VIII. Sra.

126-127) . do Rosário entre os cativos surgiu à volta de 1662 a 1668. cuja devoção visava. recitado pelos irmãos. E outra de pretos forros e escravos de Lixboa. Benquela. Assim. Sra. são tapas. no Recife do período do reinado de Afonso VI. atirando ao chão. Cabinda e Moçambique. hua de pessoas honrradas. são mandingas.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII confraria de Jesus regida por pessoas nobres E principais cidadões. O mesmo não podemos afirmar para a Capitania de Goiás. E a confraria de nossa Senhora do Rosário repartida em duas. do Rosário. soltas ou unidas em forma de rosário as nozes duma palmeira africana chamada OKpê-lifá. podemos analisá-la a partir do estudo de seus “Termos de Compromissos”. 2007 . Para essa irmandade de Recife em Pernambuco o critério de nação entre os irmãos fica muito claro na documentação. ou seja. em Pernambuco. a devoção a N. Segundo Tinhorão. De acordo com esse estudioso. como se fosse um colar. mas por pequenas rosas esculpidas em madeira (1988. as contas dos rosários não eram constituídas por esferas polidas e iguais. a saber. começavam com uma exortação. Sra do Rosário no Brasil. são minas. O de Vila Boa é diferente dos “Termos” 221 jul. São nagôs.39 No Brasil. p. período do reinado de Afonso VI (1643-1683) de Portugal. sobre o próprio destino ou sobre a sorte no amor. são fulas. Angola. dentre outros. são jejes. pois o critério de união não é a nação e sim a procedência dos cativos que faziam parte da irmandade de N. Quanto à devoção à Nossa Senhora do Rosário dos homens pretos que nos Guayazes. especificamente. era composta por africanos e crioulos e certamente tomaram como modelo a já centenária irmandade congênere de Lisboa./dez. ao seu ingresso na mesma. o mais provável é que a primeira irmandade de N.41 Geralmente. reforçando o compromisso de adesão. durante a Idade Média. são bornus. são bantus. eles a associaram ao culto anteriormente prestado ao orixá40 Ifá. cujos sacerdotes desse orixá usavam o “rosário de Ifá” à volta do pescoço. somente aceitavam negros cativos. Sra. são haussás.

Sra. está escrito que confraria e irmandade é a congregação de muitas pessoas que se sujeitam voluntariamente ao serviço de Deus e de Sua Mãe Santíssima. são as mais eficazes para a conservação dos Louvores dos Santos aos quais se consagram “e(.. Crixás.42 Nos outros. ao contrário das confrarias. ao especificar que as irmandades. se comparada com a dos que viviam no interior da Capitania: Ao primeiro de Mayo de mil e sete centos e setenta e cuatro na Igreja de Nossa Snra do Rozario dos pretos da Vila Boa dos Guayazes estando congregado o escrivam que prezidia pelo 222 Revista Brasileira do Caribe. ficão sugeitos atoda a Ley deste compromisso”. entre 1748-92. São Jose do Tocantins e Trairas. só aceitava pessoas de cor e escravos como membros. os quais “desde o primeiro dia em que nella se assentarem por serviço da mesma Senhora. Goiânia. e só se lembra deque todos forão remidos com o infinito preço de sangue de seu unigênito Filho. a de Vila Boa. Conforme os dados registrados nos “Termos de Mesa” que pesquisamos.. VIII. (. 11 irmãos escrivãos e 8 tesoureiros letrados se revezaram no exercício dessas incumbências. após. o que denota uma condição sócio-cultural melhor dos pretos escravos da Vila43. do Rosário. Entretanto. 1803. vol. embora admitisse que brancos pudessem ser devotos de N...) e depois de terem também nesta irmandade participado os copiozos prantos e incomprehensiveis benefícios. todos os irmãos e irmãs colherão o fruto da Bem-aventurança”. e ainda a aquelles que pela sua desgraçada conducta. n° 15 . della senão lembrão e a mesma Senhora para os favoresser e amparar de tudo se esquece. passando a aceitar brancos como irmãos. mercês e favores que cada instante esta.) o modo mais concernente para conduzir novos devotos a esta pia congregação e que pela intercessão da Virgem Mãe e Senhora do Rosário na vida eterna.Cristina Cássia Pereira Moraes dos arraiais de Pilar.. Essa Irmandade em geral. reformulou o seu “Termo”..como May de mizericordia a todos os seus filhos e dovotos.

.46 Essas irmandades construíram suas próprias capelas com as esmolas arrecadas com os irmãos. tanto por motivos administrativos e financeiros. aceitavam brancos apenas como oficiais escrivão e tesoureiro “por não dominarem as letras”. doze irmãos e doze irmãs de mesa. acentuadamente. Os irmãos pagavam duas oitavas de entrada e uma de anual. 102). grassava entre os escravos que aí viviam (GAETA. 1995. um andador.47 Compunham a mesa da Irmandade do Rosário de Vila Boa. o seu voto decidiria a celeuma./dez. quanto por causa do analfabetismo que.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Irmão juiz. 48 Todos os irmãos escolhidos para desempenhar os mencionados cargos.. as Irmandades dos mencionados arraiais. O Reverendo Capelão podia assistir às reuniões e. 2007 . de Trairas e de Pilar um rei e uma rainha. um zelador. um tesoureiro.. No caso da Irmandade de Crixás está explicitamente escrito: Como nosso estado e condição dificulta haverem pessoas capazes e inteligentes para servirem as occupaçoens de escrivão e thezoureiro. p. mas assim mesmo se a Irmandade não quisesse aceitá-los serão “nomeados homens pretos para exercerem os ditos cargos” 45. no ano em que estivessem ocupando cargos não pagavam anuais. dos seus senhores.se propoz que o dito escrivam permanessese no cargo posto ser o mior para a função q exerce juntoa Seu Senhor de caixeiro de fazendas secas dominando as letras e contas. em caso de empate na votação sobre alguma determinação. encontrando-se todas com “a devida dessencia e ornato que se precisa” sem ajuda da fábrica da matriz. sirvão dous homens brancos debom nome e inteligência para o governo e direcção da Irmandade em quanto não houverem homens pretos com sufficiencia para os referidos cargos. um escrivão. um juiz e uma juíza. um procurador. se procederá 223 jul.. tinham de obter “o seu beneplácito e consentimento da Eleição e cargo que os seus servos forao nomeados. porque rejeitando o que a mesma Senhora não hade permitir. De fato.44.

aquele que tivesse obtido mais indicações para cada posto. seriam expulsos.Cristina Cássia Pereira Moraes a nova eleição”49. exceto se o procurador justificasse que o devedor vinha passando por algum infortúnio e a mesa deliberasse postergar a quitação da dívida por mais um ano. abriam-se exceções. apurados os votos. um tesoureiro. prevendo-se até um interstício de 3 anos. Goiânia. seriam convocados perante a mesa para acertarem a quantia devida no próximo ano. dois procuradores e doze irmãos de mesa entre homens e mulheres. Irmãos e irmãs votavam secretamente e. O escrivão. um escrivão. era justo que “selhe facão todos os suffragios por sua morte”. Embora a reeleição para tais cargos fosse proibida. um juiz e uma juíza. o tesoureiro. a qual. que muitos dos demais irmãos de compromisso não pagavam “religiosamente”. o escrivão. se não quitassem seu débito em três anos. VIII. o que obrigava as Irmandades a tomarem algumas providências. sua anuidade. bem como pela dedicação da pessoa ao exercê-lo. o juiz e a juíza pagavam dezesseis oitavas. ocorria na oitava de Pentecostes. continuassem devedores. expirado o prazo. Constatou-se na documentação examinada. O procedimento em todas as Irmandades era bem simples. As eleições para os citados cargos eram realizadas na véspera da festa de Nossa Senhora do Rosário. O rei e a rainha pagavam a anuidade de vinte oitavas cada um.50 Compunham a mesa da Irmandade de Crixás e de São José do Tocantins um rei e uma rainha. Se. Aos escravos que obtivessem a alforria e fossem devedores “deva cobrar executivamente”. A anuidade cobrada para se exercer os 4 principais cargos era de 24 oitavas de ouro. Em caso de empate. o procurador e o andador nada pagavam.51 Aos fiéis pagadores. geralmente. designados por irmãos rasos pagavam uma oitava de ouro. n° 15 .52 224 Revista Brasileira do Caribe. por exemplo. era o eleito. o tesoureiro e o procurador nada pagavam “pelo grande trabalho que tem nas referidas occupações”. o rei decidia com o seu voto. face ao motivo supra-citado. Os 24 irmãos e irmãs de Mesa pagavam três oitavas cada um e os demais irmãos. O rei apresentava à mesa três pretos capazes de exercerem o ofício de rei e demais cargos. vol.

2007 . seria penalizado. eleito pela mesa. cujo valor era de “hua oitava do que tudo se ajustar”54. Sra. na continuação das festividades. no interior de suas comunidades ocupavam posição eminente e. p. Aliás. se tributavam homenagem e respeito. por auto-iniciativa. o juiz também tinha os encargos relevantes de cuidar da boa paz e sossego entre os irmãos. tinha as seguintes obrigações: rezar missas pelos irmãos falecidos. rezar o terço aos domingos. os reis e rainhas. do Rosário. no tocante à sua remuneração pelos serviços religiosos que tinha de prestar. arregimentar um número maior de associados e convocar as 225 jul. no que concerne à de Vila Boa. os juízes e juízas tinham de “tirar esmola com a Bacia”. que o capelão da Irmandade. foi nas festas dessa Irmandade que os escravos mantiveram um bom número de seus antigos costumes e tradições. se viesse a fazer isso. sem a autorização da mesma e. No outro dia. com o pagamento de uma multa pecuniária./dez. os quais. Ademais. rezar a Ladainha de N. na Vila e arredores e nos arraiais e adjacências. todos os sábados. à de Crixás. a ponto de. começo do ano novo. em 1 de janeiro. 44-46) . rezar pelos benfeitores da Irmandade e acompanhar à sepultura os irmãos falecidos. delas já participavam revestidos com todas as insígnias de Majestade53. entregava-os ao sacerdote pregador da festa que os proclamaria após o sermão em louvor a Sra. à de Trairas e à de Pilar. nas celebrações religiosas. no dia seguinte. sempre estarem junto ao altar-mor. Era-lhe proibido modificar o “Termo” da Irmandade. Quanto aos deveres dos dirigentes dessa Irmandade. os demais oficiais. apesar de se vestirem à maneira do branco. dançavam suas próprias danças próprias e cantam suas músicas ancestrais misturadas com as letras de cantos católicos (SCARANO. 1976. à de São José do Tocantins. Constam de todos os “Termos de Compromisso”. por isso mesmo. como o ritual da coroação de seus reis e rainhas. o rei e a rainha. o juiz e a juíza vestiam-se com opa e portavam a vara e. vestiam-se com as opas brancas. posto que é o dia consagrado em seu louvor. Somente na de Vila Boa.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII O capelão guardava os resultados consigo e.

o irmão escrivão era o responsável pela guarda e conservação dos livros de registros da irmandade. cujas incumbências eram guardar e anotar nos livros apropriados. Num desses livros. Num terceiro livro. os bens. anotava as receitas e despesas da irmandade. limpar e inventariar em livro apropriado. em caso de falecimento ou ausência de algum irmão. por exemplo. administrar as obras de construção ou de restauração sob encargo da mesma. ao procurador. consta a proibição de o tesoureiro não poder emprestar a ninguém nem ouro nem os bens pertencentes às mesmas. Entretanto. Estavam obrigados a cuidar do asseio da capela e.Cristina Cássia Pereira Moraes reuniões necessárias ao bem da irmandade. o escrivão anotava o nome dos irmãos que. inclusive.“ E concede ao thezoureiro e Procurador os poderes em direito necessarios para todas as dependencias da irmandade em Juizo e fora delle e para intentar cauzas. no seu impedimento. o escrivão registrava as eleições e “accordaons” ou termos de mesa. firmavam o “Compromisso”. da lavagem das alfaias utilizadas na celebração da missa e das opas dos demais irmãos. apresenta algumas peculiaridades em relação ao da Vila e as outras. vistas nos capítulos anteriores. ao seu ingresso. bem como. uma espécie de ata do que havia sido discutido e decidido em reunião. vol. “declarava por cota ao pé do mesmo assento todos os annuais” devidamente registrados. com a ajuda do escrivão. conforme orientação do tesoureiro. Em todas as Irmandades. fazer procurações e segullas até mayor 226 Revista Brasileira do Caribe. o cargo de irmão procurador dessa Irmandade. O terceiro cargo em importância nas Irmandades do Rosário era o de tesoureiro. n° 15 . cuidar. radicada nos arraiais analisados. Ele ocupava o segundo cargo mais importante da mesma e. aqueles provenientes das “esmolas de bacia” e outras mais.55 Noutro. o tesoureiro exercia suas atribuições. os ornamentos e as alfaias pertencentes à mesma. os rendimentos da irmandade. Goiânia. Apenas a de Crixás delegava poderes de “fato e direito”. inclusive. prática essa comum entre demais irmandades. Livro da Fábrica . defendellas. primeiro ao tesoureiro e. radicadas nos arraiais. Do “Termo de Compromisso” da irmandade. VIII. depois.

embargar e seguir a sua justiça ate mayor alçada”. no tocante às demais./dez. tratando de outras Irmandades. estando o escrivão 227 jul. Os irmãos deliberaram e decidiram em reunião.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII alçada”. bem como “passará recibo do dinheiro q receber dos alugadores das cazas e apresentar em Meza o q se fizer preciso”. No entanto. bem como ajudar o irmão escrivão. no “Juízo de Órfãos e Auzentes”. diz respeito à condição dum pretinho escravo oferecido à Nossa Senhora do Rosário: Aos trinta dias do mes de setembro de 1759. a partir dum acontecimento estreitamente vinculado às práticas religiosas sincréticas dos pretos. as responsabilidades do procurador. 2007 . para que no Livro dos Assentos para não só anotar o falecimento de algum irmão. equivalia às incumbências dos zeladores. o procurador da Irmandade de Vila Boa a representava junto ao Tribunal da Real Fazenda. que o procurador Manuel Gomes Alvarez admoestasse os irmãos da irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Crixás a respeito de um ofício emitido pelo Padre José Maria Santana Fernandes sobre as “dansas supersticiosas que os ditos pretos divididos em Nasçoens e com instrumentos proprios de cada hum. como nos arraiais homens brancos “ornados e de bons costumes” ocupavam os cargos de escrivão e de tesoureiro. com idêntica devoção. registrado no Livro de Termos de 1791.56 Ora. face ao motivo que aludimos antes. no mínimo curioso. aggravar. Também devia cobrar a anuidade dos irmãos devedores.57 Pode-se notar a ligação e a ascendência da Irmandade do Rosário da Vila sobre as demais congêneres. conforme tivemos a ocasião de ver. dansão com diversos movimentos do corpo”. determinou que o procurador não consentisse que tal fato continuasse a ocorrer na “irmandade irmã porque os envolvidos seriam remetidos aos seus Prelados para que este os corrigissem como mereciam”. por razão análoga. que ressalta a importância do cargo de procurador da Irmandade do Rosário da Vila.59 Um outro fato. tendo os direitos de “appellar.58Outrossim.

as Irmandades devotas dum mesmo orago. eleitos para a mesma. não há um capítulo sobre como proceder. tentar fugir. porquanto apenas ele tinha competência para fazer “o mais em que se precisa especial e geral mandado de representação”61 e o moleque ou podia ser reivindicado por algum suposto dono. 62 Só na Irmandade da Vila havia o cargo de zelador. pois. vol. de onde partiam as normas e resoluções pertinentes aos interesses comuns de todas elas. de usarem a opa branca em todas as cerimônias que a mesma tivesse de estar presente. da leitura e análise de todos os “Termos de Compromisso” das Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. por maioria dos votos dos irmãos. tinham as obrigações de zelar por tudo o que condissesse ao bem e ao aumento da irmandade. Jozé.63 Devia.Cristina Cássia Pereira Moraes e mais irmaons da meza do anno nesta Igreja de Nossa Sra do Rdo de Villa Boa dos Guayazes. existentes nos arraiais. se não vendesse e só o deixassem tomar carne para depois o vender por mayor quantia q. por ventura se fizessem necessárias. ainda constatamos algumas particularidades que convém destacar. concernentes à legislação e ao compromisso. VIII.64 Finalmente. Quanto aos demais irmãos de “mesa” das irmandades em apreço. igualmente. Ambos os documentos reforçam nossa tese. tratando de outras Irmandades. como tivemos a ocasião de verificar. de acordo com a qual. para além desse 228 Revista Brasileira do Caribe. ainda.60 De fato. No concernente à Irmandade da vila. antes. em caso de eventuais modificações que. de bons costumes e bastante devoto. Goiânia. se propoz o que faser com hum cabrinha dado a Nossa Sra do arraial de S. n° 15 . somente o procurador podia ser incumbido desse ônus. E tomados os votos assentarão q. ou pertencer a algum espólio de herança ou. Era um assalariado da irmandade e escolhido em mesa. nos relativos às dos arraiais. a saber. ser um homem probo. cujas incumbências principais consistiam em guardar as chaves da capela e cuidar do seu asseio bem como de seus ornamentos e guisamentos. estavam ligadas à da Vila. se prometia ao prezente.

ao menos teoricamente. se sujeitavam. o que pode ser aceito como hipótese. tendo em vista a devassa aberta contra os mulatos da Irmandade de São Benedito. 2007 . certamente. o 21º. No entanto. em determinadas ocasiões. por “estado de pobreza”. aquela Irmandade passasse a usar a capela do Rosário dos Pretos. o texto frisa que os negligentes com seus deveres pecuniários não gozarão desse favor. Entretanto. a Irmandade da Vila passou a aceitar irmãos de qualquer idade. igualmente. esse fato contribuiu para que. pensamos que. deixaram de pagar suas mesadas. o que. como os outros. conforme vimos no capítulo anterior. embora não deixassem de invocar para tanto razões piedosas. às leis da Irmandade. terão à celebração de duas missas por suas almas. parece inegável que a sua presença representava uma forma de controle sobre os escravos. Há ainda um outro capítulo sobre os sufrágios pelos irmãos que. Quais os motivos que levaram os brancos a ingressarem nessa Irmandade após 1805? Como observa Scarano.66 229 jul. conquanto isso não tenha implicado em que eles tivessem passado a ocupar os cargos de direção da mesma./dez. sexo ou condição. terá contribuído para aumentar o número de devotos de Nossa Senhora do Rosário. como a igreja Matriz continuava a ruir aos poucos e era necessário encontrar um outro lugar para a celebração do culto. já no início do século XIX. quando vierem a falecer. sobre a Irmandade do Senhor dos Passos de Vila Boa. a presença de brancos passa a ser preponderante.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII capítulo. Em seu Livro de Receitas e Despesas.65 Posteriormente. por esse motivo. os quais. os irmãos observam: “que as vaidades do tempo são impessptiveis (sic) ao entendimento humano e pode acontesser a estas minas cresserem ou deminuirem as riquezas em que seja necessario deminuir ou agmentar as Leys do compromisso”. tendo sido apenas irmãos de devoção que.

(SCARANO.Cristina Cássia Pereira Moraes DevotosdaIrm andadedeN. Goiânia. a Irmandade já não conservava a antiga rigidez e. no século XIX. doRosáriodosPretos deVilaBoanoiniciodoséculoXIX 30 25 20 Pretos liv res 15 10 5 0 1800-04 1805-09 1810-14 Pardos liv res Brancos Gráfico 8 – Devotos de N. do Rosário de Vila Boa 1736 a 1816). foi adquirindo novas características.S. O fato é que. vol. “Das diferenças raciais passa-se pouco a pouco a uma acentuação maior das distâncias sociais independentes da cor da pele e ao aumento de pretos e pardos livres”. n° 15 . 1975. 129-142) 230 Revista Brasileira do Caribe. Do Rosário no início do século XIX. VIII. (AFSD: Documentos Avulsos: Termo de Assentos e anuais da Irmandade de N. gradualmente. Sra. Sra.

v. 3. Marcos Chor. São Paulo: Editora Oliveira Mendes. a de São Benedito.4. Roberto. 1994. Helio. In: NOVAIS. L O espetáculo das raças: cientistas.a questão do mito fundador das três raças: DA MATTA. 5. bem como os seus Livros. apesar de desfavorecidos. São Paulo: Companhia das Letras. Nelson 231 jul. Rio de janeiro: Rocco./dez.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII Enfim. 4. 1993. quanto aos ex-escravos alforriados pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. mantinham suas capelas em grande ordem e limpeza. 6. pp. pp. São Paulo: EDUSP.A questão da cor: SCHWARCZ. competiam em igualdade de condições com pessoas mais bem aquinhoadas pela sorte. passaram a pertencer às Irmandades que aceitavam os forros. 1998. estaduais e municipais). MAGGIE. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Antonio Sergio Alfredo. 1996.as questões historicamente construídas entre mestiçagem e branqueamento: SCHWARCZ.a questão da invisibilidade do negro em espaços sócioculturais e políticos: MUNANGA. Fernando (Coord. VALE E SILVA. (Org. ciência e sociedade.) História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. SANTOS. demonstrando um desejo de se igualarem aos forros. quanto de um relativo otium cum dignitate Notas 1 Para entender as relações raciais historicamente construídas no Brasil consultar os descritores que analisam: 1. Rio de janeiro: FIOCRUZ/CCBB. SILVA JR. 2007 . Yvonne.) Raça. Ricardo Ventura. 225-234. sempre foram elogiados pelos Visitadores eclesiásticos que reconheciam que. Nem preto nem branco. 173-244. 1996. instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. 1999. Guerra e paz: Casa Grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. Antiracismo: coletâneas de leis brasileiras (federais. Kabengele.a questão da democracia racial: ARAUJO. muito pelo contrario: cor e raça na intimidade. Os irmãos cativos que não conseguiam obter a liberdade. por exemplo. In: MAIO. Racismo e anti-racismo no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras. 1998. 2.a questão de anti-racismo: GUIMARAES. Aqueles a quem foi negada a cor do dia: as categorias cor e raça na cultura brasileira. Lilia. Rio de Janeiro: Editora 34. a de Nossa Senhora das Mercês e a de Santa Efigênia. Ricardo Benzaquén de. tanto do ponto de vista dos recursos econômicos. Por isso. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo/ Editora 34. (Org) Estratégias e políticas de combate à discriminação social. 1987.

D. 1803-1810. vol. avulsos: Termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos 17381792. 5º ed. p. Raimundo Nina. Visita à História Contemporânea.567. o maior era formado pelos ovimbundos. Goiânia. The Idea of race in science: Great Britain 1800-1960. HERNANDES. In: Microfilmes do C. registros de batismos e inventários encontramos entre os anos de 1750 e 1783 um aumento substancial no tráfico de escravos nagôs para Goiás.Cristina Cássia Pereira Moraes do. da USP. Na maior parte dos registros há um acentuado número de escravos de Moçambique nas primeiras décadas do oitocentos para Goiás. 2005. Em 1783 registrou-se 17613 escravos e 40% são nagôs. 67-80. Nancy. O segundo maior grupo era formado pelos quimbundos e o terceiro era formado pelos bancongos que ocupavam os territórios de Cabinda e as províncias do norte do país. 2005. 232 Revista Brasileira do Caribe. bem como. nº 26. Livro 329. Arquivo do Museu das Bandeiras doravante AMB: Impostos e Dízimos. 3 Instituto de Pesquisas Históricas do Brasil Central doravante lPEHBC: Livro do Registro de Óbitos. Os africanos no Brasil. novas invasões de povos do interior do continente e o aumento do tráfico internacional de escravos para o Brasil. Arquivo Histórico de Goiás doravante AHG: Documentos avulsos: códice 1129.e. p. devido a uma desestruturação interna na região tais como observa HERNANDES. 1977. epidemias e grande número de mortos. pp. nos termos de assentamentos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Florentino (1997) observa que entre 1701 e 1800 foram exportados mais de dois milhões de cativos para as Américas. Rio de Janeiro: s. n° 15 . VIII. v. Cuba e os Estados Unidos. v. falavam a lingua umbundo e ocupavam principalmente a província de Benguela no planalto central de Angola. rolos 10. 6 A respeito do tráfico. 1982. London: MacMillan University Press. STEPAN. São Paulo: Selo negro. 2 Dos grupos acima citados.11 e 12. São Paulo: Companhia Editora Nacional.5. pp. 98-120. 588: grave seca que ocasionou além de fome. Arquivo Frei Simão Dorvi doravante AFSD: Doc. 1994. Uma nota sobre raça social no Brasil. Estudos Afro-asiáticos.H.437 escravos e apenas 10% são nagôs. 5 Nas matrículas oficiais de escravos pesquisadas por nós. Leila L. A África na sala de aula.1-13. 4 RODRIGUES.. Em 1750 a Capitania possuía 14.

2002.. 1792-1799. 242. In: REIS. 2007 . Depois.123 e entre 1791 e 1799 foram de 1. Códice 15: Capítulo 16. 127). prosseguia até o registro do Duro. Capítulos da Visita: “Por ser obrigação nossa e do Officio Ecclesiastico Ordinário mandamos ao Vigário Ouvidor da Vara q hé e ao diante for nesta Vila q chegando aqui algum Navio ou barco de qualquer parte q venha o vá visitar como se faz em todos os portos de mar do reyno e saiba a gente q traz e de q religião e Nação são e q livros trasem e sendo depois da quaresma se se hão desobrigar no lugar donde vem”. Cruzava o Rio São Francisco em Barreiras. de seu livro intitulado Central Africans and Cultural. 336. 1780-1835”. p. 100-101. 1996. chegava a Vila Boa. no interior de sertão da Bahia. aonde eram contados e registrados. Uma segunda rota para os comerciantes da Bahia passava pelos registros de São Domingos ou Lagôa Feia a Meia Ponte e. A rota percorrida pelos cativos de Salvador para Vila Boa passava Cachoeira. 1992. p. 9 Agradecemos à professora Mary Karasch que gentilmente nos propiciou todos os dados sobre os escravos na Capitania de Goiás. 233 jul. eram conduzidos a São Félix e. documento 1518. Mappa de Contagens de Escravos. nota 13./dez. Outrossim. Cambridge University Press.208: Mary C. p. 162. Cit. São Paulo: Companhia das Letras. Karasch. Flávio dos Santos. Gilka SALLES. Princeton. 1987.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 7 Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do tombo doravante IANTT: Mesa de Consciência e Ordens: Secretaria do Mestrado da Ordem de Cristo: Papeis do Brasil: Jurisdição Eclesiástica no Brasil. nº 13. 24 junho 1768. 8 Censos de 1779: “Tabela 1: População da Capitania Goiás em 1779. GOMES. 12 Os registros de batismos e óbitos se encontram no Orfanato São José. Mary Karasch. a Vila Boa ou a Natividade. Mary C. p. Karasch. “Os quilombos do ouro na Capitania de Goiás”. finalmente. 53. op. 1808 -1850. foi de primordial importância para nossa pesquisa o capítulo “Central Africans Central Brasil. 10 (KARASCH. João José. 22 de Ju1ho 1793. e AHU: caixa 24. AFSD: Documentos avulsos: Cartório do Primeiro Ofício. (Org) Liberdade por um fio. 2002. 11 O número de cativos advindos para a Capitania de Goiás por essa rota em 1767 foram 1. p. posteriormente. England. Transformations in the American Diáspora. e p. p. História dos quilombos no Brasil. Slave Life in Rio de Janeiro. na Cidade de Goiás e foram compilados por nós e pela Dra. NJ. Princeton University Press.117151. 1767.

) 14 Arquivo Geral Diocese de Goiás.. levallos para outras terras.. mas até os mesmos que já se acham batizados e habitão nos Sertoens do mesmo Brasil. trocallos.(.. 15 Todos os dados referentes ao Livro de Óbitos de Meya Ponte foram transcritos pela estudante do curso de Historia da Universidade Federal de Goiás Maria Lemke Loiola. n° 15 . ou dallos separallos de suas mulheres e filhos. Goiânia. prohibindo debaixo de severissimas penas e censuras ecclesiásticas que se lhes fizessem injurias que se lhes dessem açoites.) mandeis afixar Edictos publicos pelos quaes apertadamente se prohiba debaixo de Excomunhão late sentente (.134 e 134v. livro 3. 20 de dez 1741. 17 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. que fossem metidos em cárcere..) e depois das constituições em que ordenarão que se devião socorrer os infieis no melhor modo. 1748. Orfanato São José. 1794 -1834. (.1792: Termo de concentimento da Irmandade sobre a quartação do irmão Francisco..) se atreva.Cristina Cássia Pereira Moraes 13 Biblioteca Nacional de Lisboa doravante BNL: Reservados 1972 5v: Breve do Papa Benedito XIV sobre escravidão dos índios do Brasil. e fazendas.. Goiás.. VIII. p. p. vol. comprallos. PIBIC-UFG – 2001-2003. 234 Revista Brasileira do Caribe. (. tudo o referido não obstante. nem attente daqui em diante fazer escravo os referidos indios. 1777: códice 1814: Capítulo 3. Parágrafo 6º.. 1764. transportallos ou por qualquer modo privallos da sua liberdade e retellos em escravidão. folha 17v e 1775. 16 Arquivo Histórico Ultramarino doravante AHU::Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Batizados. vendellos. que os sujeitassem a escravidões e que lhes maquinasse ou fosse dada a morte. despojallos de seus bens.169v. se achão agora principalente nessas regiões do Brasil homens que fazendo profissão da Fé Católica vivem tão inteiramente esquecidos da Caridade insufa pelo Espirito Santo nos nossos coraçoens e sentidos que reduzem a cativeiro vendem como escravos e privão de todos os seus bens não só aos miseraveis indios que ainda não allumiou a luz do Evangelho.

a legislação definiu algumas normas que influenciavam na aquisição das alforrias.113b: 22 O fato de um escravo ser criança deve ter favorecido a conquista de afeto e atenção especial dos senhores. liberta o escravo que encontra um diamante de grande valor e a mesma graça é concedida ao escravo que denuncia seu senhor contrabandista ou fraudador 21 AFSD: Documentos avulsos: Inventário do Capitão Francizco Pr ª Mendez . 113. já adultos. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos. (BELLINI. irmãs. em nome dos cuidados que receberam desde pequenos.659-695. muitas foram beneficiadas pela fidelidade da mãe aos proprietários. Os escravos alforriados por terem sido criados pelos donos. libertando também o cônjuge legal de um casamento. (BELLINI. autorizando a liberdade dos “escravos de nação”. madrinha. O ex-cativo passava a ter capacidade jurídica e passava a exercer diversos direitos anteriormente inexistentes. que têm posses. mãe. 23 Livro de notas. Maria Augusta de S. isto é. os escravos que pertenciam a toda nação por haverem chegado ilegalmente após a abolição do trafico em 1850. 1988: 80). (LEITE. 24 A historiadora MATTOSO. Além disso. 1988: 80). 18 O termo alforria é uma palavra oriunda do árabe ah-horria que significa liberdade do cativeiro. São Paulo: Marco Zero/ANPUH. se um dos membros do casal é livre. para ele. mas cujo senhor parece disposto a alforriálo. “ O Abolicionismo em Goiás. acorram em auxílio do parente incapaz de juntar o dinheiro necessário à sua libertação. A alforria era um ato jurídico pelo qual o senhor por sua vontade concedia liberdade ao escravo..observa que pai. 64. já adultos. p.” In: Anais do VI Simpósio Nacional da ANPUH. avós. pp. 19 MORAES . ou ainda eram crianças ou obtiveram a liberdade. irmãos. marido./dez. 20 Somente no século XIX. 2000: 15). liberta a criança “achada” pois presumidamente é livre. Exemplo: José Antonio da Silva abaixo assignado declara possuir entre os seus 235 jul.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII folha 32. 2007 . Cartório do 1º ofício de Vila Boa de Goiás. 1973. eram crianças ou obtiveram a liberdade. páginas 112b.

Ensaios sobre a Cultura e Escravidão no Brasil. p. livro 4. 2002. parag. 3 e livro 4. 1748-1792. para evitar a repressão inquisitorial. os católicos praticantes superficiais”. VIII. “católicos displicentes”. e por desejar manifestar o reconhecimento pela dedicação prestada e reconhece a escrava como legitima filha. 81. mas por indiferença e descaso espiritual. introdução do tít. São Paulo: EDUSP. Por que o candomblé ?” In: SCHWARCZ. parag. 29 Ibidem.195-210. 146. “católicos praticantes autênticos”. concedendo sua liberdade de hoje para sempre. muitas vezes incluindo em seu cotidiano “sincretismos” heterodoxos. fl. 31 QUINTÃO Apud. (1997: 175). referindo-se ao “panorama” religioso do Brasil. libertinos e ateus que apenas por conveniência e camuflagem. n° 15 . Luis MOTT.S. Lilia Moritz e REIS. 26 Ordenações. Cf: SILVA. 27 Ibidem. 92.) Negras Imagens. Maria Banguela. 25 IPHBC: Livro do Registro de Óbitos. 29. animistas. 81. introdução do tít. 4. tít. (Org. Vagner G. 28 Ibidem. filha de sua escrava Delfina. 18 de março de 1793. que evitavam os sacramentos e demais cerimônias sacras não por convicção ideológica. Letícia V. tít. 1996. que cumpriam apenas os rituais e deveres religiosos obrigatórios. 56. “Símbolos da herança africana. 236 Revista Brasileira do Caribe. 4. parag. livro 4. classificou os colonos da seguinte maneira. que aceitavam convictamente os dogmas e ensinamentos impostos pela hierarquia eclesiástica. boa parte dos cristãos-novos. 30 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de N. de S. vol.Cristina Cássia Pereira Moraes bens uma escrava de nome Felicidade de 20 annos. do Rosário de Villa Boa. (1995: 191). fl. 32 Sobre o tema. da e AMARAL. faz referência a esse documento. freqüentavam os rituais impostos e controlados pela hierarquia eclesiástica mas que mantinham secretamente crenças heterodoxas ou sincréticas. p. KARASCH. livro 4. tít. 102. 1. liv. “pseudocatólicos”. 102 e 102 v. 85. lhe concedo a liberdade pelo amor que lhe tenho. p. mais como encenação social do que com convicção interior. Goiânia. Rita de Cássia. 1803-1810.

São Paulo: Ática. 1707 a 1721.. 237 jul. A. 38 IANTT: Livro de São Domingos. (Tese de Doutoramento). Paris: Ecole Des Hautes Etudes En Sciences Sociales. 35 IANTT: Livro de São Domingos. 1980. 160. Os leigos e o Poder. 37 Frei AGOSTINHO DE SANTA MARIA. BOSCHI.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 33 Entendemos a circularidade como uma interpenetração de diferentes elementos culturais a partir dos estudos de Mikail Backitin. In: Clenardo e a sociedade portuguesa do seu tempo. nº 4. Roger. 2001. Carlos. São Paulo: Pioneira. de Lisboa. Cambridge: Cambridge U. José Roberto.” In: Hispanic America Historical Review. v. Slave in Rio de Janeiro 1807-1850. MS. p. nº 2. Julia. 1997. Manolo e GOES. São Paulo: Companhia Editora Nacional. SCARANO. 2007 .145. v. 17. OTT. In: Revista Afro-Asia. “Black brothers and sisters: Membership in the black lay brotherhoods of Colonial Brasil”. Caio C. p. 36 Ibid. 143. Germão Galhardo. p. winter. “Black and mulatto brotherhoods in Colonial Brasil: A study in collective behavior. BASTIDE. 1987. As Religiões Africanas no Brasil. L. também em 1939 pela editora Casa do Livro e em 1987 pela editora Livros Horizonte. O contexto de François Rabelais. 1971. Brasília: EDUNB. R. E.147. L. In: Luso-Brazilian Review. s/d (Feito Creca de 1551 segundo cardeal Cerejeira. Didier. Esclavage et Confréries Noires au Portugal durant l’Ancien Régime (1441-1830). A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. “A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Pelourinho”. J. p. O Sumário foi publicado também em 1755. MS. Patrícia A. RUSSELL-WOOD. KARACH. MS. Sumario em que brevemente se contem algumas cousas (assi eclesiásticas como seculares) que há na cidade de Lisboa. FLORENTINO.30: Petição dos confrades e irmãos da antiga irmandade de confraria da madre de deos. 1968. A paz nas senzalas. Lisboa: Pedrozo Galvão. Christovão Ruiz Rodrigues de. 1974. Santuário Mariano. 34 Sobre essas análises ver: LAHON. P. Carta dos Mordomos e irmãos da antigua confraria da madre de Deos.30. nº 6-7. 1986./dez. Mary. 54. Devoção e Escravidão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1987. MULVEY. 39 OLIVEIRA. São Paulo: Huicitec. 1976.

seu Senhor Vicentinho. sem especificar o nome dele. ou seja. 1748: Capítulo 1: Composição da Irmandade. Goiânia. 1796. escravo de Anna Paes. obteve controle sobre essas forças. Termo sem titulo legível: página 16. 41 Documento lido pela irmandade em reunião fechada com os irmãos.Cristina Cássia Pereira Moraes 40 Orixá entre os iorubas e nos ritos religiosos afro-brasileiros significa a personificação ou deificação das forças da natureza ou ancestral divinizado que. o qual também era Alferes. João. 238 Revista Brasileira do Caribe. 1777: Parágrafo 2º. por ocasião da entrada de algum membro. 45 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Coronel Joze Boiz. escravo do Capitão Dantas. era um compromisso moral e ético assumido por todos os que eram aceitos para participarem da irmandade. 1748. 1762:Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. 42 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. o qual serviu por quatro vezes. como tesoureiro: Francisco. Era um pedreiro empreendedor. Gregorio da Costa serviu por quatro vezes e não aparece sua profissão e somente em um termo de mesa há referência ao seu senhor. pois arrematava obras e possuía dois escravos e serviu por sete vezes. serviu três vezes. (a data de ereção é de 1734) 43 AFSD: Documentos avulsos: Termos de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rozário dos Homens Pretos de Vila Boa. VIII. escravo do Tenente. Leonardo. 44 Ibid. em vida. era o caixeiro da loja de fazendas secas. 1762: Capítulo 2: Da mesa e suas atribuições. 46 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Theodosio. escravo do Vicentinho. que serviu por nove vezes de escrivão e tesoureiro. de São José do Tocantins. que serviu por seis vezes. escravo do Alferes Jose Manoel. vol.1792: como exemplo. n° 15 . Luiz. temos como escrivãos. é reconhecido como um guia. AFSD: Documentos avulsos Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas.

Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 1777. 1777: Capítulo 4º. AFSD. Capítulo 15. 48 AFSD: Documentos avulsos:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 49 Ibid. Crixás. sob responsabilidade da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário aparecem nos livros de despesa e receita. thesoureiro. (TINHORÃO. 51 AHU: códice 1814:Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 52 Ibid. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. referindo-se ao Rei dos Angolas: os portugueses. 55 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 2000:88) 54 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. 1762. Capítulo 2º: Da mesa e suas atribuições. 1796.: Parágrafo 4º e 5º.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 47 Infelizmente. 1777: Capítulo 4º. parágrafo 5º. AFSD. Documentos avulsos Termo de 239 jul. 2007 . Capítulo 3º: Da nova eleição dos officiaes. Documentos avulsos. Capítulo 4º: Das mezadas e sua aplicação. após duas guerras contra os reis do Congo em 1656 e 1666. as mais antigas referências documentadas sobre as solenidades de coroação de Rei do Congo. no Recife. à volta de 1674 a 1675. não temos todos os dados dos termos de assento das irmandades dos arraiais de Pilar. 50 Ibid. 1796. Trairas e São José do Tocantins para sabermos o número de irmãos que participavam das associações de pretos. passaram a englobar sob o nome de Angola tudo o que antes se sujeitara ao poder africano vencido no Manicongo. Capítulo 5./dez. 53 No Brasil. Capítulo 4: Das obrigações dos officiaes escrivão. procurador.

Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São José do Tocantins. Capítulo 5: Das obrigações dos irmãos. 61 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 1748-1792. parágrafo 2º. 1762.1762. fl. 1777. Capítulo 10. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. AFSD: Documentos avulsos. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos de Pilar. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. Goiânia. 62 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. Villa Boa. 71v. 60 Ibidem. 240 Revista Brasileira do Caribe. 1796. 58 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Mesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos. fl. Capítulo 4: funçoens dos officiaes. Capítulo 14. 1796. Documentos avulsos. 1748. Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 63 Guisamentos são utensílios e alfaias necessários ao culto. 57 AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Villa Boa. 42. Capítulo 5: atribuiçoens do escrivão. n° 15 . parágrafo 3º. Capítulo 6: obrigaçoens dos irmãos. Capítulo 2º. 1796. Capítulo 10. 1777: Capítulo 4º. VIII. 59 Ibidem. ao serviço divino 64 AFSD. 56 AHU: códice 1814: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Arrayal de Nossa Senhora da Conceição de Crixás.Cristina Cássia Pereira Moraes Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Nossa Senhora da Conceição de Trairas. vol. 1748. 1762. parágrafo 1. AFSD: Documentos avulsos: Termo de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Pilar. AFSD.

Cit. nem mesmo uma capela pequena. “Le Vandou est-il une réligion polythéiste u monothéiste?” In: Bulletin du Bureau d’Etnologie. São Paulo: Huicitec. Subsídios Históricos. Maria Fernanda D. 1999. Mikail. Cf. 2001. ARAUJO. Transgressão e transigência na sociedade urbana colonial.” Actas del II 241 jul. Laennec. Todas as irmandades de pretos foram instaladas nas Igrejas de um monastério. p. 1993. Cf. ENES. Port-au-Prince. Capítulo 20. 2007 . O Teatro dos Vícios. op. 102-104. T. 361-396. p. de um eremitério./dez. nenhuma irmandade composta por homens pretos construiu um lugar de culto. LAHON.” In: REIS. abril. Raul Joviano do. Íris.75. sempre cercada por outras associações religiosas de branços e localizadas no espaço interior das igrejas geralmente no primeiro altar da esquerda ou direita da entrada.Tráfico de escravos para o Brasil no século XVII 65 Ibidem. Brasília: EDUNB. São Paulo: Paulinas. JANCSÓ. István. 447-512. ENES. BACKITIN. de uma paróquia. São Paulo: Brasiliense. Os pretos do Rosário de São Paulo. Marcos Magalhães de. AGUIAR. Marcos Magalhães de Negras Minas Gerais: Uma História da Diáspora Africana no Brasil Colonial. Bibliografia AGUIAR. nº 5. O deus da Resistência Negra. perto do coro e muito longe do altar principal. A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento. p. Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa. Emanuel. 1987. 1988. “Por amor e por interesse a relação senhor-escravo em cartas de alforria.. C.I e II. Aproximação à matriz civilizacional do ocidente cristão. (Tese de Doutorado) AMARAL. 2001.18. p. “Festas e rituais de inversão hierárquica nas irmandades negras de Minas colonial. Vol. T. 1987. BELLINI. Maria Fernanda D. p. L. O contexto de François Rabelais. 66 Um dado interessante sobre as nossas congêneres portuguesas: Em Portugal.95. São Paulo: HUCITEC/FAPESP: Imprensa Oficial. Idéias Religiosas em História das Idéias. ou seja. 2002. (Org) Escravidão e Liberdade: estudos sobre o negro no Brasil. 1953. João J. Lisboa: Centro de História da Cultura. 1961 e HURBON.” In: KANTOR. (Org) Festa. São Paulo: Edições Alarico. Brasília: EDUNB. São Paulo: USP. “O Culto da cruz e do sangue na afirmação da Humanidade de Cristo no Portugal de seiscentos e setecentos. Paul E.

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244

A morte branca do escravo negro: considerações sobre escravidão no Brasil: Meya Ponte (17601776)
Maria Lemke Loiola Abstract
The orbital books in churches are sources little explored in the study of slavery. However, these sources contain relevant informations about the life of slaves: origin, cause of death, place of burial, links to religious groups and interpersonal relations. The analysis of these sources can help to understand some of the gaps that historiography of Colonial Goias regarding slavery. The access to eclesiastical sources, orbital books and ecclesiastical visits allow my study to address some issues about the slaves in Meya Ponte (under the name of Pirenolopolis today , Goias , Brazil) between 1760 and 1776. Keywords: Slavery, Social relations, XVIII Century, Dead

Resumo
Os livros de registro de óbitos são fontes pouco pesquisadas para os estudos da escravidão. Entretanto, eles trazem informações importantes sobre as vivências escravas: seu grupo de procedência (SOARES, 2002), causa mortis, lugar de enterramento, associação, ou não, às irmandades, bem como suas relações interpessoais. A análise dessas informações pode contribuir para minimizar as lacunas na historiografia de Goiás colonial referente à escravidão. Dialogando com fontes eclesiásticas, registros de óbitos e visitações eclesiásticas, o presente estudo aborda algumas questões acerca das vivências escravas em Meya Ponte (atual Pirenópolis) entre 1760 e 1776. Palavras-Chave: Escravidão, Relações Sociais, Século XVIII, Morte.

*Artigo recebido em Janeiro e aprovado para publicação em Maio de 2007

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Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15, 245-265, 2007

Maria Lemke Loiola

Resumen
Los libros de óbitos de las iglesias son fuentes poco investigadas en los estúdios de la esclavitud. Sin embargo, ellos traen informaciones relevantes sobre la vida de los esclavos: procedencia, causa de muerte, lugar de enterramiento, si estaban o no asociados a hermandades así como sobre relaciones interpersonales. El análisis de esas informaciones puede minimizar las lagunas en la historiografía de Goiás colonial referentes a la esclavitud. El diálogo con fuentes eclesiástticas, libros de óbitos y visitas eclesiásticas, utilizadas en el presente estudio, permite abordar algunas cuestiones sobre la vida de los esclavos en Meya Ponte, actual Pirinópolis, Goiás Brasil, entre 1760 y 1776. Palabras clave: Esclavitud, relaciones sociales, Siglo XVIII, Muerte

Há algum tempo assistimos o revigorar dos estudos sobre a escravidão colonial em suas múltiplas faces, em perspectivas regionais e menos totalizantes como sugeriu Britto (2002). Contudo, nos deparamos com alguns aspectos que podem dificultar nossa “aproximação” a um passado mais dinâmico, mais rico em sua cotidianidade. É o caso das fontes que, para análise de Goiás colonial, estão espalhadas em vários arquivos, além de muitas terem desaparecido nas brumas do tempo pela ação dos homens e dos “papirófagos” vorazes. Entretanto, nem tudo está perdido. A documentação eclesiástica tem sido bastante profícua aos historiadores interessados na vida dos atores sociais de um período mais recuado no tempo. Várias pesquisas têm renovado os olhares sobre a escravidão e nessa temática tem se destacado a religiosidade escrava. Termos de compromissos de irmandades têm trazido contribuições importantes sobre a organização dessas redes de solidariedade.1 Mas, se por um lado os compromissos podem nos ajudar a apreender os fundamentos e preceitos das irmandades, a ênfase na morte e a ajuda mútua ou empréstimo a juros; por outro, não nos dizem muito sobre a quantidade de homens e mulheres que nelas congregavam. Para a região de Meya Ponte2 até o presente não
246 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

A morte branca do escravo negro...

nos deparamos com registros que atestem o número de seus confrades. A preparação para a morte foi algo bastante enfatizado nos compromissos. Boa parte dos trinta e seis capítulos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte dispõe sobre o assunto. Por isso, neste ensaio, proponho os livros de assento de obituários como fonte a ser utilizada para verificar a abrangência e inserção das irmandades de pretos no contexto da escravidão. Assim, pode-se supor que houvesse muitos homens e mulheres preocupados com o bem morrer, buscando essas associações. Entretanto, o livro de assentos de óbitos de 1760 a 1776 nos mostra que do total de quase oitocentos óbitos, apenas 39 foram acompanhados ou enterrados por essas confrarias.3 É certo que os párocos freqüentemente omitiram informações e é possível que o número de acompanhamentos por irmandades aumente, mas seria um aumento pouco expressivo, da ordem de 2% do total.4 Quando compararmos estes assentos com o período de 1803 a 1810, percebemos que seu número dobra. De 1760 e 1776 temos uma proporção bastante próxima entre enterros feitos pela Irmandade do Rosário dos Pretos (17), destes, a metade era de escravos, e irmandades de brancos, como Almas e Santíssimo Sacramento (22); no período de 1803-1810, tivemos um total de cinqüenta e oito acompanhamentos/enterros feitos por irmandades. Nestes sete anos, o número de forros enterrados na capela do Rosário é significativamente superior ao de escravos, somente 10% do total de trinta e quatro enterros feitos na capela do Rosário foi de escravos.
Desse modo, não se pode dizer que para os escravos de Meya Ponte e adjacências fazer parte de uma irmandade fosse questão de vida ou morte. Mas, isto poderia evitar que abusos cometidos por “[...] alguas pessoas esquecidas de toda a humanidade christãa, [que] não escrupulizão em mandar enterrar no campo, e mato, os escravos, q’ lhes morrem, como se fossem animaes brutos, contra o antigo, pio, e Louvavel costume da Igreja

247 jul./dez. 2007

Maria Lemke Loiola

Catholica [...].”.5

Talvez, por isso, as irmandades enfatizassem tanto nos preparativos para a morte. Mas, enquanto uns enterravam escravos no mato, seja por incúria, seja pela situação de pobreza, havia ainda os que recorriam a mentiras para conseguir enterrar um escravo. Henríquez Ferreira Pinto manifestou ao padre Jozé Pires que gostaria de ter seu escravo João Angola enterrado na capela dos pretos por ser este irmão da mesma “[...] o que constou-me depois de ser ter dado a sepultura tal não ser, de que para constar fiz este assento.”6 Teria enganado o padre apenas por ser pobre ou por, mesmo na situação precária, manter relações de afeto com seu escravo? Se existiram brancos pobres, sem recursos que usavam de insólitas estratégias para enterrar seus escravos, também temos notícias de pretos “mina” que superaram a condição escrava e chegaram a fazer testamento e ser enterrado com toda a pompa fúnebre. Tal é o caso de Gaspar,
[...] homem preto forro de nação minna,[...], e Fez seu Testamento, em que declarou que o acompanhasse o seu Reverendo Parocho, e lhe disse no dia do seu falescimento, se podesse ser, missa de corpo prezente, e deixou mais ao alvidrio de seu testamenteiro, lhe mandasse dizer aonde lhe parecer, vinte missas, pela sua alma; e era cazado com Domingas Machado, crioula forra [...]7

Gaspar certamente teve vínculos com a irmandade do Rosário dos pretos. A proximidade de sua cova do altar-mor sinaliza um cargo importante na Mesa administrativa, o que lhe conferia certas prerrogativas. O preço pago para ser enterrado em lugar tão importante na capela do Rosário dos Pretos de Meya Ponte era alto. Gaspar deveria desembolsar vinte oitavas de ouro, caso não tivesse sido irmão “comum”, ou seja, nunca ter tido cargo administrativo.

248 Revista Brasileira do Caribe, Goiânia, vol. VIII, n° 15

. a oito missas. É mais provável que o reconhecimento na sociedade estava relacionado não somente à cor.r qualide [. Não podemos afirmar seguramente. Pretoz. mas também às posses.] assim serão admitidos aella Brancoz. mas pela aparente condição alcançada por Gaspar é quase certo que também possuísse seus próprios escravos. Chamava-se Nicolao do Rozário e foi enterrado dentro da capela. e Forroz (./dez. Embora não saibamos o que levou boa parte dos homens e mulheres da região de Meya Ponte ao óbito.. 2007 . A maioria desses escravos morreu sem sacramentos. se tivesse sido “juiz de mesa”. o visitador Alexandre Marques do Valle determinava que no segundo dia após haver notícia de doença ou se a enfermidade se mostrasse grave..) se exceptua Pessoa algua’ dequalq. no máximo. Casos de mortes violentas por armas de fogo. dois a cinco dias. escravoz. Mas as moléstias que ceifavam muitas vidas em poucos dias continuam na obscuridade pretérita.)”8 tinha seu próprio escravo. que aceitava “todos os fieis aque sua noção incita (. Como irmão comum teria direito a cinco missas. supomos que eventualmente ocorriam epidemias.. os párocos deveriam imediatamente administrar os sacramentos: “Porquanto pellas grandes enfermidades q’ cotidiannamente estão dando nos 249 jul. Não seria o único a tê-los.. O fato de ter morrido com todos os sacramentos reforça a hipótese. pois muitos deixavam de receber sacramentos pela demora dos padres em percorrer a distância até o moribundo.. De igual modo não podemos chamar estes homens e mulheres libertos de coniventes com a escravidão por conservarem cativos seus semelhantes. Como ocorria com a maioria dos escravos.. raios e “acidentes de trabalho” são sempre descritos.A morte branca do escravo negro. picada de animais peçonhentos. recebera o sobrenome do dono. Mesmo a Irmandade do Rosário dos Pretos. teria direito.. Na primeira visitação eclesiástica (1734). Provavelmente Gaspar viveu no núcleo urbano de Meya Ponte. o que lhe deu mais mobilidade e liberdade para conseguir juntar pecúlio e transcender a condição escrava. Houve senhores que perderam dois ou três escravos num pequeno período de tempo. Seu testamenteiro teria que providenciar vinte.

48 no 204”. o visitador João de Almeyda Cardozo volta a ameaçar: “Qualquer Sacerdote.. Goiânia.. A situação dos escravos não parece ter mudado ao longo do tempo.. ou em qualquer outro lugar onde serviam de comida aos cães9. n° 15 . [. Segundo o padre.10 Talvez pela possibilidade de pagar multas por omissão encontramos frequentemente assentos como o de Gregório [.... vol. e caminhando toda noite para chegar ao citio aonde se achava o infermo. estando distante. como se de justiça fosse a isso obrigado. Para se eximir de multas e reprimendas. deve acodir com promptidão.]”.. e foi sepultado em hum lugar distado na tal paragem. VIII.13 Mas. ou impedido o parocho. poiz do assento não consta [ilegível] o senhor tinha dado só para lhe não pedir o Estipendio dos sufragios por ser acostumado a isto [. “morreu sem sacramento algum. “pela grande distância”.]”.]11 Justificações como estas são ainda presentes em vários registros: “por morrer de repente”. no mato ou jogar os corpos dos escravos no rio. ou Capellão de capella filial.. segundo informação do padre que andou dezobrigando aquelle destricto [.. na forma das Comstituiçoens tit.] nação Mina escravo de Manoel Moreira de Carvalho. não só por preceito de charidade. Jozé. se por um lado 250 Revista Brasileira do Caribe.. digo. destinado na tal paragem. escravo adulto do referido Basto. O visitador recriminava ainda as práticas comuns de enterrar no campo. e ainda naquelles q’ o não São [. que for chamado para confessar algum infermo. [. como porque se por sua culpa morrer o infermo sem confissão.] o qual morreu sem sacramentos. quando cheguei o achei já morto. que fica distante desta freguezia seis legoaz. Decorridos quase cinqüenta anos das palavras do reverendo Valle.. por que sendo chamado pelas seis horas da tarde.. o vigário Joze Pires dos Santos Souza explicou no assento de Viscencia que “faleceu sem sacramentos por incúria de seu senhor.]”12 O dito vigário foi mais longe e não hesitou denunciar Luis Antonio Basto. será castigado.Maria Lemke Loiola escravos.

... Em 1762.] e faltando a sua obrigação Sem cauza Se lhe dezcontara hua 8a por cada vez...] quando lhe cahio em cima uma pouca de terra.) que andando a minerar. esses escravos morreram quando trabalhavam por conta própria.. que para logo o matou.] qualquer Religioso de qualq.. de uma só vez o reverendo José Pinto Braga16 perdeu três escravos enquanto mineravam numa cata. Os senhores deixavam livres apenas os domingos 251 jul. buscando o próprio sustento ou mesmo tentando encontrar a pepita que lhes daria a liberdade.r Religião [.. levou até mesmo os oficiais da Câmara de Vila Boa a denunciarem que.. decorrente de acidente de trabalho.. e não houve Lugar para Se lhe acodir com os Sacramentos [.. Vários deles possuíam escravos empregados na extração aurífera e./dez.. não foi muito incomum “[..es da Irmand... p. por assim dizer. esta informação remete às recorrentes recriminações feitas aos senhores negligentes.]. que o cobriu [.. Miguel e Thomé eram escravos africanos. por vezes. Essa subordinação também pode ser vista no capítulo do compromisso da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte que compreendia as obrigações do eclesiástico “[. podemos imaginar que os padres estiveram entre os que não estavam muito preocupados com as condições de trabalho dos seus escravos. leva ao alto preço cobrado pelos párocos por serviços funerários.]”18 Jozé mina “estava andando a minerar em huma mina. as irmandades manifestavam o desejo de manter os párocos como seus subordinados para celebrar festejos e missas. também perdiam seus investimentos. por outro.A morte branca do escravo negro.] Jeronymo nação minna escravo (.e tudo pago pella porção em q’ Se ajustar com a Meza [..”19 Se os óbitos ocorreram no domingo.”15 Mas nem só de emolumentos e benesses cobradas exageradamente viviam os padres das minas de Meya Ponte. conforme lembra Hoornaert (1992. 2007 . A taxa tanatológica. os padres chegavam a enriquecer tal era o abuso com que cobravam os emolumentos. [.17 Apesar de não sabermos se Antonio.14 Talvez por isso. em época de epidemias. em hum corrego lhe cahio na cabeça hum pao.. O mesmo tipo de morte.] acompanhara os Irmãos deffuntos com Sobrepelliz asistira as feztas e solenid. 282).

Acrescentar-se-ia que não haveria somente alagamentos. enfatizavam que a falta de princípios mineralógicos e interesse dos mineiros em melhorar as técnicas de extração levava ao abandono prematuro das lavras. Quiçá. 176). mais perigosamente ainda. as reuniões de mesa ocorressem aos domingos.Maria Lemke Loiola e dias santos. casamentos e óbitos.. ser respondida com as informações deixadas pelos párocos que registravam os batismos. como sugere o trecho acima. o que forçosamente. o capítulo 7º da Irmandade do Rosário dos Pretos de Meya Ponte determinava que. vol. podermos chamá-los de relapsos e pouco cuidadosos. aberto por cima. de modo que penetravam desimpedidas não só as águas do solo como as águas pluviais. por respeito aos irmãos cativos.]”20. Naturalistas como Pohl. Acidentes de trabalho aconteceram e acontecem em todas as épocas e lugares. Por isso. mas também desmoronamentos. Talvez. p. apesar de.. restaria pouco tempo para atividades relacionadas à religião. VIII. no rastro dos visitadores eclesiásticos. O tempo livre para pensar nas coisas de Deus também poderia ser usado para criar laços de solidariedade e. n° 15 . Goiânia. ainda assim nos informam sobre a diversidade das nações d’África que constituíam a escravaria da região de Meya Ponte e adjacências 252 Revista Brasileira do Caribe. redes de conchavos e conspirações. quem eram esses homens que extraíam o ouro? De onde foram trazidos? Tal pergunta pode. que prohibe trabalharse naquelles dias [. São eles ainda que nos relatam algumas formas de extração do ouro: “o poço era inteiramente desprotegido. Mas. No compromisso confirmado em 1782. sem querer. Mas os soterramentos nos sugerem que o sistema de prospecção empregado não fosse o mais indicado para o tipo de solo local. em parte. “Donde provem q’ os mizeraveis escravos não ouvem missa. nem guardão o preceito da ley de Deos.21 Se o tempo “livre” deveria ser empregado para o sustento próprio. acabaria por alagar a mina” (1976. Pohl tenha nos dado um indício de como trabalhavam e morreram os escravos do padre Jozé Pinto Braga. esta afirmação já carregue a resposta para o motivo de haver tão poucos escravos presentes nas irmandades.

. Paiva (2002) constatou que nas regiões de Minas Gerais onde prevalecia a mineração.A morte branca do escravo negro. No período analisado (1760-1776). de gentio da Guiné”. mais provavelmente.22 Para Soares os estudiosos sobre o Brasil colônia se preocupam mais com a expansão dos povos europeus do que com a diversidade racial e cultural africana (2000. será difícil aproximarmo-nos de suas histórias.. 23 Sabemos que “perpetuaram sua espécie”. está no casamento entre o castelhano Francisco Gonçalves e uma preta mina anônima. os “benguela”. Quem sabe os registros de seus filhos possam. mas 253 jul. por incrível que pareça. nos contar algo mais. Por ter morrido sem testamento. foram também os responsáveis por disseminar a idéia do que se poderia chamar de “homogeneidade da e na diversidade” que. Ronaldo Vainfas também alerta para os “equívocos e tabus da historiografia brasileira”. algum dia. seguidos de “angolas”. ainda pouco investigada. os “cobu. 22). Será que este padrão também pode ser empregado em Goiás? A questão sobre as identidades étnicas africanas é bem recente na historiografia brasileira. Muito mais não sabemos deste casal. p. Na esteira desta afirmação podemos refletir como seria o cotidiano de uma família construída pelos laços entre dois continentes distintos? Uma pista para esta resposta ou. os escravos “mina” eram maioria. os “caboverde”. 2007 . entre os africanos encontramos os “mina” em maior número.. apesar de serem os precursores desses estudos. Nina Rodrigues e Silvio Romero. Da mulher de Francisco Gonçalves sabemos apenas que era mina. no trato com a questão racial e a miscigenação./dez.. É de se considerar que o número maior de trabalhadores “mina” esteja relacionado aos conhecimentos técnicos de mineração que possuíam. dificultam sobremaneira a compreensão de aspectos da “estratificação social e suas representações nos primeiros séculos de nossa história” (1999. Designação genérica que encobre não somente o lugar de onde veio. Os “angola” predominavam na região de economia agropastoril. ainda é aceita atualmente. 26). no século XVIII. p. não temos nenhum registro. a complexidade da pergunta. mais próxima ao litoral.

Maria Lemke Loiola principalmente sua carga cultural e religiosa. p. em grupo.]” (SILVA. Entretanto. se espraiou nas relações sociais. Em sua análise sobre a escravidão no Brasil Central. Goiânia. suas características psico-somáticas se destacam. Alguns receberem o sacramento do batismo na hora da morte por 254 Revista Brasileira do Caribe. os costumes. inclusive a alma e o nome na infeliz travessia [. assim. o autor recrimina o suposto “racismo ideológico” existente na academia responsável pela falta de estudos sobre a procedência escrava. Salientando sempre a violência que. pautando-se em estudiosos como Arthur Ramos. Neste trecho a historiadora goiana nos alerta sobre a importância de se desvendar as especificidades étnicas dos vários grupos que constituíam a população negra da capitania de Goiás. 230).. 77). Martiniano deixa entrever claramente sua postura em relação à escravidão e sua vinculação a uma historiografia tradicional que privilegia mais a violência da escravidão per se do que propriamente os saberes escravos e as múltiplas formas de sobrevivência empregadas no cotidiano. VIII. se considerarmos que provavelmente Goiás recebeu vários grupos em diferentes épocas com objetivos específicos. daí a discrepância entre os censos e números dispostos ao longo do período colonial. assevera a predominância dos bantus no Brasil central. Por sua vez. a seu ver. 2002. A bem dizer. o que era interpretado pelos senhores como mostra de sua “resignação à condição servil” (2005). Lembra que os escravos já chegavam aos Guayazes convertidos ao catolicismo. vol. e crenças religiosas” (1992. a religião. Martiniano José Silva. modo de vida. n° 15 . dando tonalidade própria ao comportamento. “[o escravo] já chegava da África desestruturado de sua tribo. nos mostram os óbitos que sempre havia exceção. A afirmação parece demasiado generalizante. p. no entanto. as artes. perdendo. a língua. Mais recentemente. destribalizado.. Salles nos lembra que: “Conhecidos apenas pela desdenhosa designação de negros. Para Moraes. isso dificulta a identificação dos grupos africanos. Moraes alerta que a grande maioria dos escravos africanos não foi registrada ao entrar na capitania de Goiás dada sua grande extensão.

Da mesma forma.”27 Designá-los apenas por seu lugar de origem/porto de embarque esconde a diversidade cultural que os caracterizou. mais importante. seja pela “rudeza. tanto em sua terra natal quanto na recriação sociocultural na terra brasilis. não significava que os mina desconhecessem a língua dos angola e vice versa. e ignorante do que havia de receber”26 ou “alienado do entendimento./dez.. senão responder. a recriação de suas identidades a partir dos novos laços tecidos no cativeiro. também mina. por outro. mas certamente não foi o único. também mina. mas clarear as especificidades e identidades étnicas e como foram reconstituídas no longo processo de reinvenção dos saberes e. não recebiam sacramentos por “rude. Água Limpa ficava no termo da freguesia de Meya Ponte e Antonio Dias Ribeiro pode ter se beneficiado disso para manter Joze irregularmente.”25 Outros ainda. se pensarmos que realmente houve uma diversidade de línguas.. “ser ainda boçal e novato nesta freguezia Joze mina”24 É possível que Jozé tenha permanecido ignorante dos preceitos cristãos devido à distância que o separava de alguma igreja. o reverendo José de Frias e Vasconcellos durante uma visita eclesiástica. porém não se furtou de incluir entre eles alguns 255 jul. Acreditamos que uma pesquisa pautada em diferentes tipologias documentais possa. 2007 . Gestos e olhares certamente diziam tanto quanto palavras. Em 1742. Pedro. Provavelmente o sargento mor Antonio Rodrigues Frota usou o estratagema de misturar várias etnias. como Domingos. Mas. ou pela diversidade de línguas. Frota possuía escravos mina e angola. se queixou do pouco entendimento que os escravos tinham dos ensinamentos cristãos que recebiam. morreu “sem o sacramento da eucaristia pois era ainda boçal. A diversidade das falas africanas pode ter sido empregada como estratégia para evitar conchavos e conluios entre os cativos.A morte branca do escravo negro. Nesse processo de recriação de identidades a língua era de fato um elemento fundamental.”28 solicitando aos párocos fornecer instrumentos para catequização dos escravos. não devemos esquecer que essa diversidade nem sempre significava incomunicabilidade.

natural do Arcebispado de Braga. ser corroborada cruzando estas informações com os assentos de matrimônio ou batismo. recebendo sacramentos na medida do possível. vol. temos apenas três escravos “inocentes”. Essa hipótese poderá. é significativo que estes dados estejam em 256 Revista Brasileira do Caribe. Contudo.Maria Lemke Loiola índios cayapó como “administrados”. Mas a “mistura de minas. VIII. Foi acompanhado por todas as irmandades do arraial de Meia Ponte. Outro oficial que também tinha escravos de procedência diversa foi Gregório da Silva Bailão. É certo que com informações fragmentárias como as que temos. faleceu com seu solene testamento. É do mesmo autor a informação de que Gregório Bailão foi um eminente escravocrata de Meya Ponte. encontramos minas. O sargento. Do total de vinte e nove escravos. Não houve mudança no padrão de enterramento dos escravos: continuaram a ser enterrados no mesmo lugar: na capela de Nossa Senhora do Carmo. p. crioulos e caiapós” reforça a idéia de que a diversidade de grupos foi uma estratégia utilizada para tentar evitar o surgimento de afetos e laços de solidariedade. foi alferes da Companhia e Guarda-mor das Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. sua mulher. seja precipitado identificar a prevalência de africanos “Mina”. mas houve épocas em que o sargento Frota perdeu até três escravos por mês. crianças. angolas. Um deles foi Jeronymo mina. mas nunca acompanhados por irmandade. Entre seus escravos. 311). O lusitano. Após sua morte. natural da freguesia de São Miguel de Alfama. contando também os que faleceram após a morte do sargento. n° 15 . Não sabemos como eram as relações com seus escravos. Esse pequeno número de óbitos infantis em relação ao de adultos sugere que os Frota talvez não tivessem o hábito de manter famílias escravas. os de Gregório Baylão foram enterrados no adro da igreja e também não tiveram vínculo com irmandades. angolas. De modo semelhante ao ocorrido com os escravos do sargento Frota. dona Antonia Ignacia Maria de Jesus passou a administrar os bens do falecido. Goiânia. ou seja. ou não. cobus e crioulos. conforme informa Pinheiro (2002. do qual já falamos.

2007 . p. De modo geral. 1998. 2000. batismos e casamentos como podemos perceber nos documentos coloniais da capitania 257 jul. Talvez a distância de Goiás dos centros de poder favorecesse os hábitos relapsos dos párocos no momento de registrar óbitos. veremos que neste último. ao passo que “nação” é consoante às mudanças nas relações que os portugueses estabeleceram com os africanos. o número de escravos “angola” supera aquele dos “mina”. 91). consonância com o período no qual a atividade aurífera foi a mais representativa para a economia. correspondentes a diferentes sistemas de classificação” (SOARES./dez.A morte branca do escravo negro.. E isso tanto para os casos de grupos africanos quanto dos nascidos na sociedade colonial. se aceitarmos a constatação de Paiva. Os dados ora apresentados são ainda parciais e necessitam de estudos mais aprofundados. e a transplantarmos para Meya Ponte. para a valorização da pecuária e agricultura. 75). o direcionamento de uma economia anteriormente voltada à extração aurífera. é possível que os “angola” daqui também tenham sido empregados em atividades agropastoris. O aumento do número de pardos e crioulos no início do século XIX nos dá uma pista de que a mestiçagem aumentou com o decorrer do tempo. Poder-se-ia dizer que a ponte estabelecida por Soares entre a África e o Rio de Janeiro enriquece significativamente a interpretação sobre as identidades étnicas africanas estabelecidas no interior da sociedade colonial. O primeiro caracteriza os povos a serem convertidos. Ao compararmos as informações deste período com o posterior (1803-1810). são qualificados como nações. são sempre mais completos que os de Goiás. pode ter contribuído para mudar a configuração étnica da população da região de Meya Ponte. a julgar pelos dados apresentados. p. à medida que o aumento do tráfico reconfigura as rotas e portos de embarque há uma resemantização e re-significação da África (SOARES. Ou seja. os africanos. Os termos gentio e nação se referem a “universos semânticos distintos. Contudo. na documentação pesquisada.. Desta forma. Soares tem como fonte principal os assentos de batizados que.

os livros de assentos de óbitos apresentam informações cada vez mais completas à medida que recuamos no tempo. na hora da morte. Jozé foi lembrado como escravo do defunto Francisco João Ribeiro!31 Mas a qualificação grupal não marcou somente os africanos...]”30. Talvez essa mudança esteja relacionada com os conflitos entre os “naturais da terra” e os portugueses. A assertiva de Soares de que a nação/procedência acompanhava o escravo/liberto até o fim da vida. e tenha sido mais lenta na escrita da documentação eclesiástica em relação à administrativa. eles quase sempre são descritos como “gentios brabos. Nesta última. como lembra Salles (1992) . “nação xicriabá” e. também pode ser empregada para aqueles que viviam em Meya Ponte. vol. preta forra de nação mina29 Acrescentese que. eram conhecidos pelo nome de seu antigo senhor. gentio da terra. 33 Segundo o capitão geral Jozé de Almeida e Vasconcelos. como “Thereza. não mais como “nação”. VIII.] com 258 Revista Brasileira do Caribe. só muito raramente. nas notícias que deu nos idos de 1774 ao secretário da Marinha e Ultramar.] por ser morto pellos calhambollas com hum tiro que logo o matou [. comumente tratados com o eufemismo de “administrado”. n° 15 . mesmo os libertos. No início do XIX. receberam denominações que variaram ao longo do tempo. nação mina.. selvagens e desumanos”. quartada escrava do Sargento Mor Carlos de Assupçam Ferraz [. Martinho de Mello e Castro.. prejuízos e distúrbios.32 Não só os autóctones causavam mortes. são sempre referenciados como “gentios da terra”. Apesar disso. Os escravos autóctones. De modo mais emblemático. dado o grande número de ataques que promoviam a arraiais deixando a população aflita pelos grandes prejuízos e mortes que causavam.. Goiânia. eles conservavam agregado ao nome o grupo ao qual pertenciam: Maria Dias. “[. Mesmo depois de livres. em alguns casos. No século XVIII eram conhecidos como “nação cayapó”.. Os autóctones aparecem nos assentos eclesiásticos com maior freqüência no século XVIII do que em período posterior.Maria Lemke Loiola dos Guayazes. Pedro Angolla foi um dos que teve a vida abreviada “[..]”..

como parece ter sido a morte de José: [.] de nação Mina escravo do Furriel João de Campos Cardozo o qual morreo de repente sem sacramentos porque o mesmo seu senhor me disse. exceção de alguns vadios.. mulheres de oficiais. 1976. ou lhe sobreviera de ter no dia antecedente comido húa pouca de mandioca mortífera como ao depois da sua morte soube. não trocassem informações e know-how acerca do poder das plantas do cerrado. forras que possuíam seus próprios escravos. Mas nesse universo. que registra os óbitos de 1760 a 1776. de tiros por vingança. É difícil imaginar que duas culturas. quiçá premeditada. Foi esse ouro lavado nas bateias e extraído de poços que garantia a riqueza dos homens vindos de longínquas paragens. solteiras que viviam sozinhas. indicando que nem tudo estava na maior tranqüilidade. estão promptos pello mais pequenno premio. porem da maior parte dos insultos.. p. apoiado em relatos de viajantes.A morte branca do escravo negro. também existiram mulheres: mães livres. Paiva (2002). encontramos um indício de que a mandioca mortífera comida por Jozé não foi um acidente: a diferença entre a mandioca mortífera e o aipim é reconhecida imediatamente “por qualquer selvagem” (POHL. como os escravos.. Muitos perderam a vida dentro dos poços. 2007 .]. outros. às vezes ela poderia ser preparada. que a sua morte fora originada. que sem a menor duvida. a autóctone e a africana. não previo com a cautella ao menos sequer para ser confessado por amanhecer morto na cama. mães escravas.... 110). tiveram a vida ceifada por morte súbita e repentina. 259 jul.”34 Neste livro de assentos.35 Nas palavras preconceituosas do naturalista Pohl. nos lembra que em Minas Gerais os escravos africanos utilizavam ervas para separar ouro e diamantes do cascalho nas bateias. em satisfazer com hum tiro á paixão alheia. o que tudo pode afirmar o mesmo seu senhor [.. e que sem saber a cauza da sua morte. são agressores os negros fugidos e calhambolas. que mantinham relação estreita com a natureza. Para além de mortes consideradas apressadas. de descaso de senhores negligentes. encontramos vários registros de mortes violentas../dez.

à sua maneira.Maria Lemke Loiola Maria Cordeiro de Jezus teve uma história diferente se comparada à maioria das mulheres. Se houve manifestações de pesar e rituais africanos. reescrevia sua história. como enfatizou o coadjutor Carlos Francisco Torre quando o registrou. como registrou o pároco Joze Pires dos Santos Souza. Outras não tiveram a mesma sorte. VIII. elas foram muito bem 260 Revista Brasileira do Caribe. e não somente a esmola por amor a Deus. Francisco Alves Mota. depois dessas breves notícias sobre os mortos e os vivos de Meya Ponte. Goiânia. n° 15 .. de incertezas e de possíveis dissabores. Provavelmente. Aparentemente teve uma vida longa. morreu na casa de seu antigo senhor. possibilitaram a esta “pobre mulher” um enterro dentro da capela. Maria parece ter vivido a aventura insólita da peregrinação para as bandas do sertão. Mas. Maria. 36 Felipa.37 Uma história das mulheres do sertão dos Guayazes no período setecentista poderia nos mostrar que nem sempre foram submissas. duas missas de corpo presente e mais quatro pela sua alma que o dito Francisco “se obrigou” a pagar. as relações entre os dois não cessaram depois da libertação. depois de liberta. Dizem ter sido muito pobre.. o leitor questione o título desta apresentação. em algum momento do passado que não nos foi dado saber. A viandante Maria veio das partes de São Paulo. A jovem de pouco mais de vinte anos recebeu todos os sacramentos. moradora no sertão. parda. Cada uma. Bem ou mal e na medida do possível. que o mundo das bateias e das lavras. Provavelmente os vínculos que a ligavam ao padre. morreu na idade que “parecia se de perto de cetenta annos”. vol. Mostranos seu assento. Embora não saibamos o que a uniu ao vigário de Santa Cruz. não era prerrogativa masculina. os africanos sempre foram enterrados de acordo com os preceitos católicos. Maria morreu na casa do referido vigário. Felipa e tantas outras puderam contar com as amizades e afetos construídos ao longo de suas vidas.. onde recebeu todos os sacramentos. possivelmente se estreitaram com a liberdade. Do registro da paulista sabemos que teve relações com pessoas influentes. imagina-se que foi um laço mais estreito.

2002. 1998. Sobre as irmandades de pretos ver especificamente o capítulo 5º: As irmandades de homens pretos.. Jaraguá. resguardadas dos olhares dos visitadores eclesiásticos e padres. Será necessário atravessar o mar oceano. pardos e negros. este título quis lembrar um pouco da mistura cultural ocorrida nas Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. a partir de diferentes escalas. 2000. MORAES. Boschi. Estes últimos muitas vezes estavam mais preocupados com a forma de angariar pecúlio em proveito próprio que necessariamente com o cumprimento das leis às quais estavam sujeitos. P. Em Goiás. 1997. os trabalhos de Soares. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 17361808. Mott. Neste ensaio. o objetivo é levantar mais questionamentos e reflexões com vistas a fomentar os debates sobre as identidades étnicas e experiências escravas. 2002. sem hierarquias. fazer uma escala na África e outra em Portugal para novamente nos embrenharmos no caminho que leva ao passado do sertão dos Guayazes. Cristina C.. 1986.. Scarano. não pretendemos exaurir as discussões sobre a escravidão em Goiás. 261 jul. 2 Neste livro constam os registros dos arraiais de Santana do Rio do Peixe. 2007 . Mas a história dos padres do sertão dos Guayazes merece ser contada em outro momento. Corumbá e Lavrinhas. Quintão. Notas 1 É considerável a produção bibliográfica sobre o tema./dez. Experiências que não podem apenas ser apreendidas se permanecermos no pequeno arraial de Meya Ponte. destaca-se a tese de doutoramento da professora Cristina de Cássia Pereira Moraes na qual analisa as especificidades das 34 irmandades encontradas: brancos.A morte branca do escravo negro. Para a compreensão da complexa relação e interação de diferentes culturas será preciso olhar para cada um desses lugares de onde vieram nossos atores sociais. Lisboa: UNL. 2005. (Edição em CdRom). Da mesma forma. pelo contrário. 1975.. destacam-se entre outros.

1992. p. p. p. 1758. 1975. p. VIII. (1734-1824) p. idem. 12 Idem. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte. p. 23. 54 verso. p. Livro de registro de óbitos 1760-1776. O padre Braga foi um dos vários padres “convidados” a se retirar da capitania de Goiás em 1764. Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Meya Ponte 1758. 38. idem.. 5 verso. idem. 6 Idem. 72. à Rainha Maria I. 5 Idem: Cópia da Primeira e última visita do Doutor Alexandre Marques do Valle. Scarano.. visitador que foi das Minas de Goyaz. cópia. 8 Idem. p. 4 verso 10 Idem. Subordinar o capelão parece ter sido um elemento comum de diversas irmandades e implicava sempre em relações de poder. 7 Idem. 56. 11 Idem. 15 Idem. 7 verso. 13 Idem. 1995. Goiânia. cf. p. 7 de Outubro de 1778. 14 Idem. 4 Esses 2% aos quais me refiro são portugueses e paulistas acompanhados por “todos os padres do arraial”. Reis. 29. idem. p.. cópia. 9 Idem. vol. 1999.Maria Lemke Loiola 3 Aqui uso confraria e irmandade como sinônimos. Consulta do Conselho Ultramarino. (A representação está entre os anexos existentes do documento nº 1939 e data de 16 de dezembro de 1773. sobre a representação dos oficiais da Câmara de Vila Boa de Goiás. 86. Teria se retirado ou permanecido recluso? Se ele optou por ficar. perdeu a faculdade de rezar missas e quaisquer outras 262 Revista Brasileira do Caribe. Cd-rom Projeto Resgate Barão do Rio Branco). p. 16 Idem. livro. Capítulo 2º.. 86 verso. também: Hoornaert. mas não há alusão a irmandades. Gaeta. Estes portugueses e paulistas quase sempre morreram com seu solene testamento. n° 15 .

40 verso. p. p. idem. idem. atividades religiosas. idem. idem. têm trazido reflexões importantes sobre a diversidade étnica dos africanos no Brasil e como cada etnia estampou suas especificidades na sociedade colonial. cópia. 20. 24 Idem... chama a atenção para a necessidade de se repensar os conceitos e categorias subjacentes à questão. p. p.. 8. 32 A partir de meados de 1750 as chamadas guerras justas fizeram muitas mortes 263 jul.. p. 8 verso. 46 verso. 85. 18 Idem. livro de óbitos 1760-1776... 17 Idem. 25 Idem. 30 Idem. idem. idem. 36. em Minas Gerais e Mariza de Carvalho Soares.. idem. idem. p. 26 Idem..39 verso. cópia. 23 Idem. 27 verso. Livro de registro de óbitos 1760-1776. Mas esta já é uma outra história. 20 Idem. 25 verso. 2 22 Autores como Eduardo França Paiva. p. p. 22 verso. Livro de registro de óbitos 1760-1776. 19 Idem. Cada qual. 13 verso. 2007 . no Rio de Janeiro. p. 29 IPEHBC. p. p. p. p. 27 Idem./dez. 4 verso. p.A morte branca do escravo negro. com olhares diferentes.. 85 verso 21 AHEGO: Cópia do compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos das Minas de Meya Ponte 1782. 31 Idem. 28 Idem.

C. 4ª Ed. O trabalho mestiço: maneiras de pensar e formas de viver – séculos XVI a XIX. C. 2002 (mimeo). p. nº 2. MORAES. p. idem. História da vida privada na América portuguesa. BOSCHI. São Paulo: Companhia das Letras. Ê.. p. temas e desafios 1990-2001. 72. HOORNAERT. In: SOUZA. idem. A historiografia da escravidão: tendências. F.] In: Catálogo de verbetes dos documentos manuscritos avulsos da capitania de Goiás existentes no Arquivo Histórico Ultramarino (1731-1822). pp. São Paulo/ Belo Horizonte: AnnaBlume/PPGH-UFMG. 2002. J. Ensaio de interpretação a partir do povo. & ANASTÁCIA. 1997. M. tabuleiros: mineração africana e mestiçagem no Novo Mundo”. pp.. E. 22 verso. “Redes de sociabilidade e de solidariedade no Brasil Colonial: as irmandades e confrarias religiosas”. Lisboa: UNL. J. Do corpo místico de Cristo: irmandades e confrarias na capitania de Goiás – 1736-1808.. Os leigos e o poder. 23 36 Idem.M. da V. São Paulo: Ática.F. ofício do governador e capitão general de Goiás. Petrópolis: Vozes. L. “Bateias. 35 Idem. José de Almeida e Vasconcelos [. Bibliografia BRITO. PAIVA. Estrutura e conjuntura numa capitania de 264 Revista Brasileira do Caribe. MOTT. 1986. E. São Paulo. 1992. O “Livro para servir do caminho de Paraty” está repleto de informações sobre o assunto. Franca. p. “Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu”. In: Revista de Estudos de História. PALACIN. 187-207. J. P. Documento n. 1754. VIII. Laura de Mello e (org). (orgs). C. n° 15 . 11-36. História da Igreja no Brasil. 2005 (Tese). A.Maria Lemke Loiola de ambos os lados. da C. idem. vol. et al. C.. V. p. C. 155-220. idem. Luis. In: PAIVA. 37 Idem. 66 34 Idem. Goiânia. 2. barão de Mossâmedes. 33 Idem. GAETA. Goiás 1722-1822. São Paulo: 1995.] sobre a administração civil e eclesiástica da capitania de Goiás [. carumbés. 67 verso. E.

São Paulo: FAPESP. Economia e escravidão na Capitania de Goiás. Angola e Guiné: nomes d’África no Rio de Janeiro setecentista. v. In: Tempo. SOARES. Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava. POHL. Goiânia: Kelps. Mina. 2002. João J. Devotos da cor. SALLES. SOARES.C. Ronaldo. abr/jun 2000. SOARES. p. v. 73-93. M. nº 8. Lá vem meu parente: as irmandades de pretos e pardos no Rio de Janeiro e em Pernambuco no século XVIII. p.. VAINFAS. 265 jul. Trad. de C. 3. J. “Colonização. nº 6. & PINHEIRO. de C. M. Goiânia: Oriente. M. religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro. SCARANO. 1975. São Paulo: Itatiaia. 1976. F. 4./dez. 1999. século XVIII. In: RIHGB. de G. 2000. Milton Amado e Eugenio Amado. QUINTÃO. Minas. 1972.A morte branca do escravo negro. PINHEIRO. G V. J. Tempo. 161 (407). 2002. M. 2003. Goiânia: Bandeirante. REIS. SILVA. Z. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura.C. A morte é uma festa. A. de C. 1992. Devoção e escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século XVIII. Viagem ao interior do Brasil. 2007 . 7-22. 71-94. São Paulo: Cia das Letras. de. A. 1999. “Descobrindo a África no Brasil colonial”. miscigenação e questão racial: notas sobre equívocos e tabus da historiografia brasleira”. J. Goiânia: CEGRAF/UFG. Identidade étnica. Anna Blume. . E. 3ª Reimpressão. A. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.. Rio de Janeiro. dezembro 1998. Tronco e vergônteas.

266 .

adversidade *Artigo recebido em janeiro e aprovado para a publicação em abril de 2007 267 Revista Brasileira do Caribe. n° 15. adversity Resumo Desde a publicação da Biografia del Caribe escrita por Germán Arciniegas até a recente publicação de Respirando el Caribe. but it offers an expression of the regional inequalities that exist in the country. uma exaustiva compilação do estado da arte dos estudos sobre o Caribe colombiano. Its insertion in a globalized world and the public politics towards a greater decentralization do not succeeds in showing the expected results. Within this context. A inserção em um mundo globalizado e as políticas públicas orientadas para uma maior descentralização não logram mostrar os resultados esperados. VIII. como manifestação das desigualdades regionais que existem neste país. mas apresenta. an underdevelopment of the life conditions of its population.Estudios del Caribe en Colombia Entre la diversidad y la adversidad Alberto Abello Vives Abstract Since the publication of the Biografía del Caribe written by Germán Arciniegas until the recent publication Respirando el Caribe. Today the Caribbean region is undoubtedly the more studied region of Colombia. no meio desta situação surge como um dos desafios dos estudos do Caribe sua contribuição ao estudo de políticas para o desenvolvimento regional. se passaram mais de sessenta anos. diversidade. diversity. um atraso das condições de vida de sua população. Hoje a região do Caribe é. Keywords: Caribbean. 267-281. this study emerges like one of the most challenging explorations of the Caribbean and its contribution to the study of the politics that support the regional development. sem dúvida. vol. there has elapsed more that sixty years in order to have an exhaustive compilation on the state of art of the studies on the Colombian Caribbean. Colombia. 2007 . Colômbia. Palavras chave: Caribe. a região mais estudada da Colômbia.

444 km² de territorio continental = 12% del territorio nacional). Hoy la región Caribe es sin lugar a dudas la región más estudiada de Colombia. Colombia. al tamaño de un país como República Dominicana. En efecto. pero presenta. adversidad Preámbulo Es muy importante en este escenario recordar algunas características del Caribe colombiano que sirven de marco para entender la evolución de los estudios del Caribe en Colombia. en medio de esta situación surge como uno de los retos de los estudios del Caribe su contribución al estudio de políticas que contribuyan al desarrollo regional. 22% de la población colombiana. vol. un rezago en las condiciones de vida de su población. n° 15 . Es compartativamente más grande. tres veces. una exhaustiva compilación sobre el estado del arte de los estudios sobre el Caribe colombiano. Porcentaje de la población creciente. diversidad. El Caribe colombiano lo conforma un territorio (70 km² de territorio insular y 132. un territorio marítimo en el Caribe de más 570. han transcurrido más de 60 años.Alberto Abello Vives Resumen Desde la publicación de la Biografía del Caribe escrita por Germán Arciniegas hasta la reciente publicación de Respirando el Caribe. 268 Revista Brasileira do Caribe. el cual es un páis de regiones geográficas y culturales con profundas disparidades en lo económico y el desarrollo social entre ellas. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. VIII. pasó del 10% al 22% entre el comienzo y el fin del siglo XX.000 km² y una población cercana a 9 millones de habitantes. buena parte de las prioridades investigativas son producto de las particularidades de este caso particular: el Caribe colombiano es una región subnacional de Colombia. con una población similar. Palabras clave: Caribe. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país.

ambas comunidades binacionales. tres puertos) y la minería (carbón. con vínculos históricos con las islas del Caribe (Santo Domingo. de los distintos resguardos). una población indígena importante (ver caso wayuus en la Guajira. Honduras. Nicaragua.. Entre los naturales se encuentran un desierto. Entre los aspectos históricos. Costa Rica y Panamá. al verse como país andino. es la región donde se inicia el poblamiento de la hoy Colombia (conectada con Santo Domingo). podría decirse que es un Caribe “atípico” (donde no hubo plantaciones). 2007 . gas). es la región donde muere el Libertador. El Caribe en Colombia tiene una economía que con las reformas neoliberales de los noventa perdieron participación nacional el agro y la industria manufacturera. pero cuando se habla de la Costa.Estudios del Caribe en Colômbia. 6 % de la población se reconoció como indígena en el Censo de 2005 y 14% como afrodescendiente. Perú. el archipiélago en el Caribe occidental. se enseñan en la escuela los límites terrestres Panamá. Brasil y Venezuela. una gran depresión. Ecuador. Tradicionalmente. El Caribe de Colombia posee una población mestiza en la que se conjugan la herencia africana. los indígenas de la Sierra Nevada. la región por donde entra la modernidad 269 jan. Jamaica. Cuba) pero que se pierden en gran medida con la independencia de Panamá. se hace referencia a la Caribe).. a diferencia del resto del Caribe. que tuvo el primer puerto esclavista durante el período colonial habiendo dejado profundas huellas en el patrimonio cultural (tangible e intangible). República Dominicana. Una región que aun se nombra como Costa Atlántica (Colombia es un país de dos costas. Curazao. hispana e indígena. Haití. Es una región diferenciada y diferenciable del conjunto nacional por sus atributos naturales y culturales. Con una alta población afrodescendiente. áreas inundables. Jamaica. Es el mar Caribe el que le da la vecindad a Colombia con Venezuela. los Cuna en el golfo de Urabá. y de manera particular. el macizo montañoso nevado a orillas del mar. valles. Tiene hoy en día una economía dinamizada por el sector servicios (principal región turística de Colombia. sabanas./jul.

con una caída de los empleos calificados. así como los procesos identitarios y el reencuentro con el Caribe al que pertenece por sus rasgos geográficos. precisamente. las tensiones entre la Nación (centralista. Sus rasgos culturales derivados de procesos de poblamiento intervenido por las ocupaciones hispanas y puritanos ingleses arroja hoy en día la existencia de 11 lenguas vivas (español. andina. el atraso. chibcha. arawak y chocó). dos lenguas criollas y 8 lenguas indígenas de familias lingüisticas caribe. mayor concentración económica) y esta región. Los estudios del Caribe en Colombia tienen como marco. con manifestaciones musicales (cumbia. más avanzada. En una ciudad como Cartagena de Indias el 10% más rico de la población percibe el 50% del ingreso generado en la ciudad y el 10% más pobre solo recibe el 1% del ingreso (año 2000). Es un región con grandes retos: el reto de la superación de pobreza. con un profundo atraso relativo. por debajo de los promedios nacionales y una inmensa porción de la población por debajo de la línea de pobreza (cerca del 60% de sus habitantes). Tiene indicadores sociales de educación y salud deficientes. literatura y plástica que han sido aceptadas como expresiones nacionales y hacen parte del panorama artístico reconocido de Colombia en el exterior. Mantiene una viva cultura popular. vol. vallenato. una región que a la vez reclama su pertenencia al Caribe y promueve su redenominación: Caribe colombiano y no Costa Atlántica. Con ingreso per cápita por debajo del promedio nacional. históricos y culturales. porro). 270 Revista Brasileira do Caribe. El Caribe es en Colombia una región rezagada del conjunto nacional. VIII. En una brecha creciente a pesar de las reformas que anunciaba que sería la región más favorecida con los cambios.Alberto Abello Vives al interior del país con el auge de Barranquilla (finales del XIX y principios del XX). con una creciente informalidad. Es una región con una profunda desigualdad social. n° 15 . Una tasa de desempleo del 15% en las ciudades como Cartagena. el rezago relativo.

cuya elite. Pero no fueron las ciencias sociales en el Caribe colombiano las encargadas de indagar por la tierra que habitamos. austero y formidable bizco de las letras cartageneras. El conocimiento del Caribe colombiano La Biografía del Caribe de Germán Arciniegas no sólo fue el libro colombiano más leído en el exterior antes de Cien años de Soledad. seguía jugando a enmascararse en el ámbito europeo. Por otro lado. con la globalización esta región no ha sido favorecida. Héctor Rojas Herazo. ese extraño.. sino todo un esfuerzo integral 271 jan. 2007 . De Colón a Castro (1969 y 1970 respectivamente). Los primeros intentos los encontramos en ensayos y artículos de prensa de líderes de la independencia que se preguntaban por las características del hombre y la vida de la región.Estudios del Caribe en Colômbia. La modernidad de la indagación provino con la obra poética de Luis Carlos López. esta gran obra incorpora a la academia colombiana el estudio del Caribe y se convierte en el referente obligado de la comunidad científica de la segunda mitad del siglo XX que ha salido al reencuentro de ese “charco violento por donde se han paseado todos los huracanes”. Voces como las de Manuel Zapata Olivella. Gabriel García Márquez no fueron nunca aficionados superciales henchidos de tropicalismo. Son la literatura y el arte de mediados del siglo XX los que salen al encuentro de la realidad de esta región. De Cristobal Colón a Fidel Castro. quien retrata un ambiente aldeano y decimonónico. Esta Biografía (1945) antecedió a los libros casi homónimos de Juan Bosch y Eric Williams.. de espaldas a la realidad atroz. Álvaro Cepeda Samudio. no hace parte de las regiones ganadoras en el proceso de inserción nacional en esta economía contemporánea. situación que marca no sólo ciertas líneas y tendencias en el campo de la investigación sino que compromete el desarrollo de la educación superior. como llamara el mismo Arciniégas a nuestro mar Caribe. Allí está tal vez la génesis del pensamiento sobre la región./jul.

VIII. las demás ciencias sociales. Es la Universidad Nacional de Colombia la que buscando construir una nación con miradas desde los territorios de frontera la que crea la sede Caribe en la isla de 272 Revista Brasileira do Caribe. el Instituto de Estudios Económicos de la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. Estaban vigentes aun las políticas keynesianas que daban importancia a la planeación regional (aparecen los organismos de planeación regional. en distintas etapas y con mucha fragilidad. la aparición de centros y grupos de investigación son las características de esta nueva etapa. el Instituto Internacional de Estudios del Caribe de la Universidad de Cartagena que realiza cada dos años el Seminario Internacional de Estudios del Caribe. los desencantos y las esperanzas de una región. la economía. vol. Hoy la región cuenta con seis centros regionales de investigación especializados en el estudio de la región: el Instituto de Estudios Caribeños de la Universidad Nacional en la isla de San Andrés que cuenta con el programa de maestría en estudios del Caribe. Entre los pioneros en el campo de las ciencias sociales encontramos a Luis Eduardo Nieto Arteta. contribuyeron en la búsqueda por ilustrar las culturas populares y la naturaleza caribe los artistas plásticos Alejandro Obregón y Enrique Grau. Es durante la década de los ochenta.Alberto Abello Vives de la inteligencia. El nuevo conocimiento. Gerardo ReichelDolmatoff y Orlando Fals Borda. A todo ello. el Centro de Estudios Económicos Regionales del Banco de la República en Cartagena de Indias. de manera dispar. el Caribe colombiano contó con un esquema que sirvió de base para el resto del país) y de la intervención estatal. n° 15 . Son sin lugar a dudas. la reedición de textos históricos. los rasgos. Ocurre una dinámica que convierte a la región en la más estudiada de Colombia: desde la historia. entre otros. la sensibilidad y la información por desentrañar los rumbos. las universidades las que han brindado. Fundesarrollo en Barranquilla. bajo el empuje brindado por un organismo regional de planificación cuando comienza con entusiasmo la siguiente etapa de estudios sobre la región. apoyo financiero a los estudios del Caribe.

sin embargo. Los investigadores universitarios vienen siendo empujados a un mayor número de horas de clase y de actividad burocrática. Los investigadores de los centros de investigación independientes. privilegian también otras áreas de estudio y otro tipo de proyectos (aquellos considerados como estratégicos y el Caribe no es un sector estratégico). igualmente grupos de investigación e investigadores con amplia trayectoria y reconocimiento en diversas disciplinas cuya región objeto de estudio es el Caribe colombiano. 2007 . Me refiero a grupos que indagan por la historia. en los que lo “nacional” se coloca por encima de los interéses regionales.Estudios del Caribe en Colômbia. la dota del instituto y abre la maestría arriba señalada. A su vez son muy pocos los investigadores que pueden dedicar 100% de su trabajo a esta labor. la literatura. Son las siete universidades públicas asociadas al Sistema Universitario Estatal del Caribe las que asumen a partir de 2003 el soporte financiero al Observatorio del Caribe. salvo contadas excepciones. la economía y la sociología. la música./jul. la antropología. El Observatorio fue creado como una entidad que articula el desarrollo y la cultura regionales. trabajan por proyecto y sin estabilidad 273 jan. nacido después de una década de planteamientos provenientes de distintas instancias sobre la necesidad de dotar a la región de un centro de estudios regionales independiente y vinculado a los procesos de desarrollo regional. En las principales universidades hay. las lenguas. los fondos públicos son insuficientes. así como a la obligatoriedad de vender servicios para complementar sus ingresos. una entidad autónoma. las convocatorias para la financiación de proyectos privilegian otras regiones (el mismo sistema lesiona a regiones con baja capacidad como el Caribe beneficiando a las de mayor desarrollo).. el organismo rector de la ciencia y la tecnológia en Colombia. a una iniciativa regional como fue la creación del Observatorio del Caribe Colombiano. Quiero resaltar el apoyo nacional a través de recursos financieros de Colciencias.. respaldada igualmente por dos cámaras de comercio. el medio ambiente. Muchos de estos grupos surgen como tal ante la política nacional de ciencia y tecnología. la plástica. San Andrés.

hay que resaltar para el análisis de este panel la Red Ocaribe a la que pertenecen decenas de investigadores y que en los últimos años ha permitido el desarrollo de proyectos interdisciplinarios. así como la Universidad del Norte en Baranquilla que lideró la nueva generación de publicaciones y estudios. tienen líneas de publicaciones y revistas (de las de nueva generación hay que destacar a Huellas de la Universidad del Norte). una reflexión nacional que sirvió de base para una exposición en el Museo Nacional de Colombia en Bogotá. empresariales y políticos. n° 15 . VIII. Quiero resaltar 274 Revista Brasileira do Caribe. en dos universidades existen cátedras del Caribe dirigidas a estudiantes de pregrado (Universidad del Magdalena y Universidad Tecnológica de Bolívar). la Universidad de los Andes y la Universidad de Antioquia. Inglaterra.Alberto Abello Vives laboral y participan en la gestión de los recursos para financiar sus líneas de investigación. Hoy el Caribe colombiano cuenta con varias redes (investigadores. también investigadores extranjeros (Suiza. En este ejercicio. cultuales. La mayor parte de las instituciones que arriba se mencionan. en esta última se realiza anualmente un diplomado durante la Escuela de Verano sobre Cartagena y el conocimiento vital del Caribe. promotores del desarrollo regional). periodistas. La región cuenta con una Cátedra del Caribe itinerante por las principales ciudades que divulga el conocimiento nuevo. Igualmente. en los que de manera particular he estado involucrado. valora la producción intelectual de la región y facilita la discusión. vol. que fue llamada Caribe Espléndido y el desarrollo de la primera cátedra virtual sobre el Caribe que dio pie a la publicación Un Caribe sin plantación. además de programas de divulgación científica. Francia. principalmente). España. los estudios del Caribe interactuan con sectores sociales. Estados Unidos) con los que hay rico intercambio. Se nombran aquí como parte de la reseña: se trata de El Caribe en la Nación Colombiana. De esta red forman parte investigadores colombianos no oriundos ni residentes en la región pero que se han dedicado al estudio del Caribe colombiano (investigadores de la Universidad Nacional de Colombia.

Una “nueva” historia de Cartagena. En Respirando el Caribe (volumen II) editado por Aarón Espinosa. ha sido publicada con las memorias de estos eventos académicos internacionales. economía. que realiza de manera bienal el Simposio sobre la Historiografía de Cartagena. por lo menos una decena de grandes compilaciones que bien podrían entenderse 275 jan. Hoy la Cinemateca del Caribe. que lleva una década. ambiente. Así como la interacción con programas radiales (Concierto caribe en Uninorte FM Estéreo) y de la televisión regional. que recoge las memorias del II Encuentro de la Red Ocaribe realizado en 2005. si así pudiera llamarse. Historia. publicado en 2006.. así como la articulación entre el sector empresarial de Barranquilla con Fundesarrollo. también existen archivos fotográficos y fototecas históricas en las ciudades de Cartagena. 2007 . construcción y montaje del Museo del Caribe en Barranquilla que ha convocado igualmente a investigadores de distintas disciplinas a lo largo de los últimos seis años.Estudios del Caribe en Colômbia. diez ensayos sobre el estado del arte de la investigación. en este momento. Hay que destacar en esta interacción. Hoy existe una extensa y rica bibliografía nacional derivada de los estudios del Caribe colombiano codiciada por investigadores extranjeros. en Barranquilla. ciudades. se encuentran los avances en 10 áreas centrales del conocimiento. En Barranquilla. la conceptualización. educación. la asociación que existe entre el Observatorio del Caribe y la Cámara de Comercio de Cartagena alrededor de una línea de estudios sobre la competitividad de Cartagena. Con el la ciudad y parte de la región Caribe se han nutrido de los adelantos en el conocimiento derivados de la producción de destacados investigadores mundiales. Hay que resaltar igualmente la labor. geografía. Santa Marta y Cartagena existen arhivos históricos y eclesiásticos (caso de Santa Marta). cuenta con un archivo que conserva la memoria audiovisual de la región. Hay. Santa Marta y Sincelejo.. diseño. literatura y música. lingüística. antropología. del Área Cultural del Banco de la República de Cartagena de Indias./jul.

entre otras muchas cosas. paralelo a todo esto. Fundesarrollo. la formación y la divulgación en el campo de los estudios del Caribe colombiano. Quiero recordar una frase de Gabriel García Márquez que podría utilizarse para entender los estudios del Caribe colombiano: “Mi profesor Juan Bosch. y vuelven a florecer en el mismo sitio”. Mirada en perspectiva. agendas. en el que la región ha sido una de las regiones colombianas capturadas (en lo político. de Estudios del Caribe colombiano. estudios. de publicaciones virtuales en sitios de buena parte de las instituciones arriba mencionadas. autor. 276 Revista Brasileira do Caribe. económico) por el narcoparamilitarismo de derecha. no se detiene. Después de este corto recorrido sobre la investigación. museos y foros. ya hay una primera fase de los estudios del Caribe en la era digital. Así es también en Colombia la búsqueda del conocimiento del Caribe.Alberto Abello Vives como un Manual General. La Ciencia Política es una de las disicplinas de análisis con mayores debilidades. militar. entre otras. Cada vez más el desciframiento del Caribe supera las individualidades y avanza por el camino de la cooperación y las redes. aun fragmentado. La existencia de centros especializados y grupos de investigación. La producción audiovisual se ha enriquecido con los estudios y la virtualidad vive su primera generación. vol. a pesar de las dificultades. sino que avanza. Si se examinan los sitios de Internet de entidades como el Banco de la República. VIII. cátedras. dijo alguna vez en privado que nuestro mundo mágico es como esas plantas invencibles que renacen debajo del cemento. se puede anotar que éstos se encuentran vivos y su ejercicio es un continuo que no se detiene. No pueden estar ausentes de este análisis la aparición. la Universidad del Norte y el Observatorio del Caribe Colombiano. se encontrarán datos. hasta que lo cuartean y lo desbaratan. n° 15 . Mayores fortalezas en este campo permitirían en las actuales circunstancias de auge de un conflicto armado. de una historia monumental del Caribe. Y la utilización de ellos es alta. mayores herramientas de análisis por parte de la ciudadanía1. así como el accionar de redes lo demuestran.

un mayor conocimiento nacional sobre el Caribe se debe a la labor de investigadores. La región ha avanzado en el conocimiento de las causas de su atraso. ya ha sido superada. Se destacan igualmente la pluralidad no sólo en el campo de las disciplinas. Una serie de publicaciones y eventos en los que se encuentran la nación y la región. músicos. así como diversos estamentos. Asímismo.Estudios del Caribe en Colômbia. La academia ha dado continuidad a una tradición regional de pensarse. precisamente por la diversidad./jul. en la que 277 jan. aunque con altibajos.. la era de las primeras obras que durante cierto tiempo generaron una mirada unánime. hoy ya existe controversia académica sobre fenómenos históricos. Gracias a todo ello. 2007 . promovido por tres de los centros de investigación arriba señalados adelantan una disusión. en el manejo de información y estadísticas sobre su situación. y en los que la academia hace cada vez mayores aportes.. escritores. económicos y culturales que. a deconstruir estereotipos y falsas concepciones sobre la “costeñidad” existentes en el imaginario nacional. viva. el país se ha “caribeñizado”. un nuevo ejercicio. mantiene la discusión sobre el desarrollo regional. sino en cuanto a visiones y enfoques sobre la historia y el desarrollo regional. artistas. la falta de sistematicidad. por supuesto. Los estudios del Caribe han contribuido al igual que la cultura regional. el Taller del Caribe Colombiano. de promover una mayor integración regional y de reivindicar el desarrollo social y económico. la espontaneidad y le emotividad que habían caracterizado al Caribe colombiano en sus esfuerzos por pensarse. en la discusión de las políticas públicas nacionales que la afectan. Durante casi veinte años (desde finales de los setenta hasta la desaparición del organismo regional de planificación –Corpes) la región ha adelantado grandes foros y simposios regionales. en la producción de diagnósticos y análisis sobre su economía y el grado de desarrollo social. Es más. En el momento de escribir este ensayo. y como parte de ella. Todo esto ha contribuído a reducir la dispersión. como no ha ocurrido en otra región de Colombia. enriquece y enaltece el ejercicio académico.

En el Caribe la pobreza por ingreso de sus habitantes es aun sumamente alta. La propuesta de los centros de investigación del Caribe colocando en la agenda pública la búsqueda de políticas regionales diferenciadas que contribuyan efectivamente a disminuir las 278 Revista Brasileira do Caribe. como manifestación de las desigualdades regionales que existen en este país. Por el contrario hemos visto un acentuado proceso de desindustrialización que ha acompañado a la disminución del producto bruto agropecuario. no han generado una recomposición económica. Las brechas entre los niveles de ingreso per cápita son. especialmente. La inserción en un mundo globalizado y las políticas públicas orientadas hacia una mayor descentralización no logran mostrar los resultados esperados. indagando por los obstáculos al desarrollo y por las políticas públicas que Colombia requiere para superar las disparidades económicas regionales. Las disparidades regionales en Colombia son reales y persistentes. fundamentalmente de enclave. Mientras el centro del país se ha consolidado aun más. tampoco hubo aquí una expansión industrial. persistentes y se han acentuado. en un modelo supuestamente pensado para la inserción a la economía internacional. VIII. igualmente. Hoy la región Caribe. mientras la economía nacional se consolida en el centro andino. en las principales ciudades. un rezago en las condiciones de vida de su población. debemos recalcar. Entre 1998 y 2003. y muy a pesar de tener tres puertos de primer orden.Alberto Abello Vives participan distintos estamentos. en regiones como el Caribe colombiano la divergencia ha crecido. n° 15 . es sin lugar a dudas la región más estudiadas de Colombia. los sectores mineros. pero presenta. La Costa Caribe no se convirtió. Los nuevos sectores. la región a la que no le ha ido bien con uno u otro modelo de desarrollo vio aparecer casi dos millones de nuevos pobres. en la región exportadora de Colombia. Muy a pesar de que el Caribe estaba llamado a convertirse en la región más favorecida con la inserción al nuevo modelo económico los resultados sobre los que hoy debaten sus centros de investigación no son favorables. vol.

no contribuyen al fortalecimiento de los estudios del Caribe. hay zonas menos estudiadas –Caribe chocoano y antioqueño). Realizar estudios que dialoguen con las otras regiones de Colombia. Aproximarse a una mayor escala y a los estudios comparativos ayudará a enriquecer esa búsqueda de identidades y a llenar de argumentos las 279 jan. modelo caracterizado por la disminución del tamaño del estado y la consecuente fragilidad financiera de las universidades públicas. Buscar entender procesos sincrónicos. disparidades regionales le da a los estudios del Caribe en Colombia una singular particularidad. las dificultades financieras de amplios sectores del empresariado local y la centralización a escala global de las decisiones financieras de apoyo a la cultura y la investigación por parte de empresas multinacionales con inversiones en la región.. áreas de estudio.Estudios del Caribe en Colômbia. Los estudios del Caribe en Colombia se caracterizan por sus miradas locales. 2007 . Retos de los estudios del Caribe Los siguientes son los principales retos de los estudios del Caribe en Colombia2: a.. b. d. En Colombia. Un mayor entendimiento de Colombia saldría de esa urdimbre resultado del cruce de esos hilos que conectan el país a lo largo de su historia. visiones) y la adversidad (financiera). Pero es innegable el impacto del modelo económico vigente en los estudios del Caribe./jul. Profundizar una visión internacional. c. por ejemplo). como parte del Gran Caribe. La reducción de fuentes de financiación. en vista de que se han estudiado en espacios geográficos separados (Caribe continental y caribe insular. los estudios del Caribe avanzan en medio de la diversidad (institucional. Completar la visión regional de conjunto (hay disciplinas con mayores aportes y predominios (historia y economía).

actividades permanentemente. VIII. el ejercicio virtual. sino hacer parte de redes y la organización de proyectos científicos de la gran área del Caribe. particularidades propias. Promover aun más el encuentro de las disciplinas. vol. como una múltiple institucionalidad. los dos últimos retos de los estudios del Caribe en Colombia son sin lugar a dudas de aquellos que caracterizan en general a los estudios del Caribe: la falta de visiones regionales de Gran Caribe y la debilidad aún de la interdisciplinariedad. de la Asociación Mexicana de Estudios del Caribe (AMEC). los estudios colombianos del Caribe requieren no sólo una mayor visibilidad internacional. n° 15 . Se ha dado un paso en aumentar las relaciones de los investigadores y universidades con el Gran Caribe. generación e intercambio contínuo de 280 Revista Brasileira do Caribe. está llamado a facilitar la organización de grupos de investigación internacionales. Colombia desarrolló una iniciativa gubernamental de acercarse a este mundo. el intercambio de métodos y el trabajo colectivo. Recordemos que en mayo de 2005 cuando se realizó en Cartagena de Indias la 37ª Conferencia Anual de Historiadores del Caribe. construcción de redes. del Centro de Estudios del Caribe en Brasil. un historiador se preguntaba porqué se estaba haciendo ese encuentro por fuera del Caribe. contando con sectores de la academia para ello. de la vinculación a la conceptualización de la maestría virtual en estudios del Caribe coordinada por West Indies University y apoyada por la Unesco. igualmente. aunque más dispendioso y costoso. de los vínculos con el Centro de Estudios del Caribe de la Universidad Metropolitana de Londres. El entendimiento de la realidad y la construcción de conocimiento complejo está exigiendo el rompimiento de las visiones disciplinarias.3 e.Alberto Abello Vives propuestas de integración política y relaciones comerciales. durante el cuatrienio 19982002. Creo que la experiencia colombiana arroja elementos. Si bien las particularidades colombianas dan a los estudios del Caribe. En ello. y multilingüe. Hoy más allá de la asistencia a congresos de la Asociación de Estudios del Caribe (CSA en su sigla en inglés).

se les valora y reconoce. del profesor Jario Parada en el sexto taller del Caribe. con amplia convocatoria. por una mayor dinámica virtual. debería de ir más allá de convocar a un evento internacional periódico y preocuparse por un mayor flujo de información y de contenidos. y las disciplinas de los pregrados se encuentra aún por conocerse mejor.Estudios del Caribe en Colômbia.. Ver El Caribe en la Nación colombiana (2006). Repensar los estudios del Caribe significa repensar la forma como hasta ahora se actúa para su desarrollo. la organización de grupos de trabajo./jul. que se convierten en factores positivos para la supervivencia de los estudios del Caribe en medio de las dificultades. NOTAS Se destacan Los señores de la Guerra de Gustavo Duncan. desde la economía política. 21 1 281 jan. Un esfuerzo adicional es necesario hacer para alcanzar una mayor comprensión de los profesionales de distintas disciplinas que acceden a maestrías en estudios del Caribe. se organizan. por ejemplo. interacción con el resto de la sociedad.. 2007 . por la gestión de recursos para programas de impacto regional. Bogotá: Museo Nacional de la Colombia. Barranquilla. comunicación. 16 de mayo de 20072 Estos comentarios fueron planteados por el autor anteriormente y publicados. La relación entre los estudios del Caribe como especialidad. publicado por Planeta en 2006 y el ensayo. 2006. 3 Ibidem. que promueven la interdisciplinariedad. investigativa o de posgrados.93. Las mejores experiencias son aquellas incluyentes. p. por la promoción del trabajo en grupo entre investigadores de distintos países. p. Una verdadera red de estudios del Caribe.

282 .

e tão perto dos Estados Unidos”. 242 p. uma idéia de unidade se entrelaça com o omitido e suspenso pelas reticências: “.. ainda mais estando este incompleto.. Leonardo de Melo Rodrigues Ao nomear ensaios aparentemente dispersos sob o título de um dito popular. particularmente os antilhanos. San Ruan: Edicines Callejón. Além levar este paradoxo acerca da política americana com 283 Revista Brasileira do Caribe. E a novidade deste trabalho é justamente se adentrar no conjunto de relações que presidiram o processo de emergência da potência norte americana em relação aos vizinhos do sul. vol.. A invocação de um dito popular não se dá de forma gratuita. Mesmo o dito sendo de origem mexicana.Resenha GAZTAMBIDE-GEIGEL. Tan lejos de Dios. potência esta que teve uma sobressalente mudança hierárquica no cenário econômico mundial. como Gaztambide-Geigel faz questão de ressaltar. Porto Rico. Antonio. n° 15. 2007 . Seu sentido coloca em xeque o paradoxo implicado na bandeira política norte americana: um imperialismo salvífico quase natural que na prática é muito distante disso—a recente investida democrática em terras iraquianas é exemplo atual de peso. 283-287. este dito expressa uma condição de existência comum a países do continente meso e sul americano: a proximidade física em relação aos Estados Unidos.. 2006. Ensayos sobre las relaciones del Caribe con Estados Unidos. dela decorre um sentido que expressa a novidade deste trabalho. na qual se elevara ao avatar de maior poderio atual. VIII. A atualidade do dito faz-se clara.

Hoje oferece tal diversidade. “La invención del Caribe a partir de 1898”. Gaztambide-Geigel abordou tal temática numa dimensão bem delimitada. Situa seu caráter enquanto invenção. É certo que as discussões identitárias provêem de pesquisas inscritas metodicamente no campo dos estudos culturais. o conceito de identidade não deixou de se atravessar por objetos os mais distintos. as contingências e encontros que marcaram sua emergência. E ao inquirir quanto às relações políticas embutidas no momento de sua construção. o Caribe não é um objeto fixo e estático. Desse modo. ou melhor. que bastaria ao historiador expor suas formas e conteúdos. seria uma ingenuidade supor que seus métodos permaneceriam os mesmos submetidos a objetos tão singulares. a filosofia. como também para interessados no tema da “identidade” na contemporaneidade. tomado como invenção. radicados no Brasil ou não. De modo que tal temática fora incorporada nas ciências humanas. O que atesta seu estatuto de relevante acontecimento no pensamento das ditas “ciências humanas”. No primeiro ensaio. que não cessa de se recriar e reiterar-se. se formam as identidades postas em jogo ao evocar os Caribes. a apresentação do presente trabalho se releva não só entre os pesquisadores caribenhos. Desse modo. vol. geografia e mesmo. em geral. n° 15 . submete o termo Caribe à sua análise historiográfica. oriundos de outros campos de saber. se se pode falar de um tema central coordenador dos setes ensaios constituintes da presente coletânea. E. Seu problema foi como se construiu o termo Caribe em relação à política internacional norteamericana para os vizinhos antilhanos. sociologia. busca-se ver justamente as circunstâncias em jogo no momento de sua criação. VIII. este sem dúvida é o jogo implícito em vista das circunstâncias pelas quais se forma o conceito Caribe.Leonardo de Melo Rodrigues meticulosidade. apoiado em uma massa documentária de fôlego e decorrente de vários anos de pesquisa. e sim um objeto inventado. história. antropologia. e se servir de um avantajado corpo material. São muitas as perspectivas de utilização. Todavia. Entretanto. 284 Revista Brasileira do Caribe. que consuma ainda mais o seu valor analítico.

numa engrenagem à qual as Antilhas estariam em função otimizada. Situação que muda. Em vista disso. Mostra como. Mesmo que uma primeira onda de independência arrebatara o continente décadas antes. o termo não se refere às mesmas coisas. Porto Rico e República Dominicana. e sim como houve. Cuba. diante da ameaça imperial norteamericana. em cada situação histórica em que é invocado. O papel deles expressam um movimento. vários Caribes de maneira que. E a emancipação devia ser alçada nem tanto em 285 jan. já na década de 90 deste mesmo século. foram decorridas enunciações bem diversas para o conceito “caribe”. Por conseguinte. sob as luzes antilhanas./jul. Assim.Resenha O que o jogo em torno da criação do termo Caribe revela é que não há um Caribe. Personagens que dedicaram à luta emancipatória dos territórios coloniais da metrópole espanhola. Hostos e Betonces. não falam dos mesmos objetos. por volta da metade do século XIX. cujo sentido atravessaria a história latinoamericana. começa-se a convergir às idéias de hispanoamericanismo e de latinoamericanismo. Gaztambide avalia as idéias antilhanas a partir de figuras históricas inseridas no redemoinho hispanoamericano e antilhano: Marti. Gaztambide cunhou quatro momentos que são decisivos para a significação do termo caribe. o caribe geopolítico. 2007 . o Gran Caribe ou Cuenca del Caribe e o caribe cultural. persistia uma colonialidade já dita como “cultural” e combatida pelos libertários antilhanos. o autor propôs uma historicização do termo. procura-se destacar as forças motrizes do latinoamericanismo. e há. encabeçariam o sonho da “nuestra América”. as Antilhas espanholas. “La geopolítica del antillanismo de fines del siglo XIX”. do final do século XIX aos dias atuais: o caribe insular. pronto e acabado. dado sua localização estratégica em relação ao mercado mundial internacional. No segundo ensaio. e pôde ver suas diversas usagens mediante as situações próprias e específicas à história antilhana: de um arquipélago atlântico fragmentado submisso à metrópoles coloniais ao “Gran Caribe” em vias de emancipação cultural.

São ambigüidades deste tipo que se alocam no cerne da campanha norte americana rumo à ascensão econômica e que foi aplicada aos vizinhos do Sul. O conceito de ambigüidade. foi fator de grande determinação no caso de invenção do Caribe. encontrava-se também mostras de uma ação não imperialista. Entretanto. estava constituída às voltas de ambigüidades visíveis. passada a Segunda Guerra Mundial e com a efetivação do poderio norte americano. E explorar as ambigüidades por detrás das políticas internacionais norte americana é o tema central do terceiro ensaio: “El imperio ‘bueno’ del 98”. Em “La Buena vencidad y populismo”. como o título mesmo diz. a política da boa vizinhança cede lugar à política do bom sócio. bem como devia ser buscada em vista da potência emergente: a República norte americana. posta em prática no terço inicial do século XX e alterada com o término da Segunda Guerra Mundial. defendida como verdadeira representante do ideal republicano. já que é das ambigüidades geradas no interior da política imperial americana a razão das variações acerca deste processo de invenção. VIII. E a emergência dos Estados Unidos. que a partir da compra da Lousiana começou a deferir ações com finalidade de expandir sua soberania. A política imperial desta potência emergente aos fins do século XIX. este ensaio propõe a hipótese de como os efeitos da política de boa vizinhança fizeram valer no modo de organização interno dos países atingidos por tal postura ambígua. marca de maneira decisiva a postura específica de seu imperialismo. n° 15 . Ressaltando a particularidade do populismo caribenho. Essa transição é o tema dos ensaios “Hacia uma historia social de las relaciones interamericanas: 286 Revista Brasileira do Caribe. como defende Gaztambide. como atributo qualitativo da política externa norte americana. trata das relações da política internacional norte americana. seguindo assim o exemplo do populismo de Porto Rico. continentais e antilhanos.Leonardo de Melo Rodrigues relação aos velhos impérios europeus. vol. Pois ao mesmo tempo em que o final do século XIX foi marcado por projetos políticos de cunho expansionista. com a práxis política do populismo.

e sim o que se dá é um complexo jogo no qual relações de forças heterogêneas se interagem incessantemente. 2007 . o Gran Caribe e o latinoamericano. Desse modo o que o trajeto destes ensaios evidenciam é como as políticas internacionais não são exercidas de forma aleatória. A política do bom sócio nada mais é que a adaptação da política externa norte americana no momento em que esta nação acede ao topo econômico da economia mundial. la idea del desarrolismo y el Caribe: Los orígenes”. e sim são efeitos da historicidade que perpassam as formações históricas. 287 jan. O tema do ultimo ensaio. “Identidades internacionales y cooperación regional en el Caribe”. é o modo como a política do bom sócio criou um imaginário internacional que abaixo suas variações locais possibilitou a criação de identidades multiculturais. E também que não é simplesmente a modulação dos estratos interiores de uma sociedade por um fora.Resenha El camino del desarrollismo: 1946-1960” e “Estados Unidos./jul. O projeto desenvolvimentista que esta política visa suplantar nos sócios do sul adapta-os aos moldes do capitalismo mundial integrado sob a égide do desenvolvimento econômico. ajustando de forma a assegurar ainda mais a supremacia americana.

n° 15 .288 Revista Brasileira do Caribe. vol. VIII.

Corréio eletrônico:araujo. Atualmente é decano da Faculdade de Ciencias Econômicas e Administrativas da Universidade Tecnológica de Bolívar en Cartagena de IndiasColombia.Mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão.com.São Luis:SEIR/FAPEMA/EDUFMA.br Doutor Carlos Benedito Rodrigues da Silva Programa de PósGraduação de. Universidade Federal do Maranhão. Goiânia. Dentre suas obras destacamos: Ritmos da identidade. 2007 . 2007.co Doutor Alexandre Martins de Araújo Doutor pela UFG possui várias obras publicadas. Co-fundador e primeiro diretor do Observatório do Caribe Colombiano. Correio eletrônico: carlosbene@terra. Núcleo de Estudos AfroBrasileiros.Os autores Doctor Alberto Abello Vives é economista.edu.br 289 jan. Correo electrônico: aabello@unitecnologica. 2002.com. Recientemente duas compilações suas foram publicadas na Colombia: El Caribe en la nación colombiana e Un Caribe sin plantación.alexandre@uol. Caribe. Tem publicado vários livros sobre o Caribe colombiano. Goiânia: GEV./jul. Ciências Sociais. a revista Aguaita e a Cátedra do Caribe colombiano. Relações Culturais Século XIX: Negros e Coolies em Trinidad (1845-1870). Expeirências e Memórias. 2004. dentre elas: “Memórias que curam” In Olga Cabrera.

Realiza.Os autores Doutora Carolyn Cooper. 2007. Cristianismo em Goiás. intitulado A escrita de uma subjetividade sem sujeito em Aimé Césaire e Edouard Glissant. em março de 2007. 2004. New York: Palgrave MacMillan. pela mesma instituição. Goiânia. na revisão de textos de jovens autores. com pósgraduação em Psicoterapia e Psicologia Centrada na Pessoa. Qualificou o seu projeto. Durham: Duke University Press. Reconhecida pela sua trajetória. In sociedade e Cultura. 2003. Correio eletrónico: Carolyn. Um balanço historiográfico. mestre em Letras pela Universidade Federal Fluminense e doutoranda. além de colaborar com a União dos Escritores Angolanos.Noises in the Blood: Orality.edu. rpt 2005. trabalhos na área social com 154 crianças 290 Revista Brasileira do Caribe.jm Doutora Cristina de Cassia Pereira Moraes. Gender and the vulgar body of Jamaican Popular Culture”. vol. 1993. Mona. 2006 e Religiosidade e Sociabilidade entre os confrades do Patriarca São Jose In Quadros Eduardo. onde colabora como professora convidada da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. London: Macmillan Caribbean. Reside em Luanda. rpt 1994. desde abril de 2007. Ed. Professora de Literary and Cultural Studies e Diretora do Institute of Caribbean Studies University of the West Indies. “Enslaved in Stereotipes Race and representationin Post Independence Jamaica”. dentre suas principais publicações destacam: Livros: Sound clash.com Kátia Frazão Costa Rodrigues é psicóloga clínica. VIII. Jamaica. Dentre alguns artigos: “Noises in the blood:Orality. rpt 2000. Correio eletrônico: cristinadecassiapmoraes@hotmail. n° 15 . Entre suas publicações mais recentes destacam-se “Deus e o diabo no sertão dos Guayazes Abusos e desmandos do vigário da Vara de Vilan. MBA em Gestão de Recursos Humanos pela FGV-RJ. 1995. na área de Literatura Comparada.cooper@uwimona. Gender and the ‘Vulgar’ Body of Jamaican Popular Culture. na cadeira de Metodologia Científica.UCG. Jamaican Dancehal Culture at large. também.

vagabundos e mendigos: desvios. possui várias publicações. 1997.2006). no atendimento psicoterápico e em oficinas de leitura. Algumas publicações: “Lieux de la mémoire et de l’oubli dans des textes migrants” (In: ALMEIDA.com 291 jan. Los angeles. Identidades em trânsito (EdUFF/ABECAN. 2007). 2007 .Correio eletrônico: leovid. 2007). Correio eletrônico: mbvporto@hotmail. Eurídice e PORTO. paisagens na literatura canadense (EdUFF/ABECAN.com Leonardo Vidigal doutorando da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). dentre elas destacam-se: “Bob Marley in Brazil”. Correio eletrônico: mbvporto@hotmail. Organizou as seguintes obras coletivas: Mulher e Literatura./jul. capítulos de livros. 2000). “Habitabilidade e cartografias do virtual no universo de Régine Robin” (In: HANCIAU. Perspectivas transnacionais. perspectivas do Ártico ao Antártico”. ensaios em revistas especializadas . Nubia. In: The Beat Magaziine. pesquisa sobre a temática do reggae há vários anos.br Doutora Maria Bernadette Velloso Porto. EdUFF/ABECAN. É coordenadora do Núcleo de Estudos Canadenses da UFF. 2004) e Figurações da alteridade (em colaboração com a Profa Eurídice Figueiredo. Publicou artigos.bhz@terra. “Andarilhos. Fronteiras. Textos apresentados no VIII Simpósio Nacional (em colaboração com Lucia Helena Vianna e Lívia Reis(1999). devires e lugares da alteridade” (In: FIGUEIREDO. 2005). Brasil/Canadá: visões. ABECAN/FURG. Organizou o número 12. volume VI da Revista Brasileira do Caribe. passagens. UFMG. estimulando o contato com a Literatura. Faz parte de dois grupos de pesquisa do CNPq: Identidades em trânsito:estéticas transnacionais (coordenadora ao lado da Profa Vera Lúcia Soares da UFF) e Estudos do Caribe no Brasil (coordenado pela Profa Olga Cabrera). Maria Bernadette. EdUFF/ ABECAN.com.Os autores órfãs da guerra. Sandra Regina Goulart de.

p. Goiânia: Universidade Católica de Goiás.br Doutora Maria Therezinha Ferraz Negrão de Melo possui uma rica trajetória como professora da Universidade de Brasília. Goiânia.23. Correio eletrônico: maristanerosa@terra.143.377 . é mestranda da pós-graduação em História pela UFG.b 292 . 2007.2. autora de “Santa Maria. Correio eletrônico: marialemke@pop. territorialidade e corporalidade”. v. In: História Revista.383. Goiânia: Ed. v.com. 2003.Maria Lemke Loiola . 2007.166. Goiânia: UCG. CECAB. Pinta e Nina: a redescoberta dos Caribes em espaços discursivos brasileiros” In: Cenários Caribenhos. “O reggae na Jamaica Brasileira: interlocução jurídica com cidadania e política a partir de letras musicais” In: 25a Reunião Brasileira de Antropologia. v. “Coração das trevas”. Centro de Estudos Superiores de Imperatriz. “História e Cultura Africana e Afro-americana”. Brasil e cuba nas representações de Glauber rocha” In: Caribe sintonias e dissonancias. . “Quatro Tempos de Ideologia em Goiás”. Departamento de História e Geografia.165 . 2002.com. p. Dentre suas publicações destacam-se: “Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava”. p. In: III Simpósio Internacional Cultura e Identidades.141 . 2004. Boletim Goiano de Geografia. Brasília:Paralelo 15 e “Nas terras do sol. 2005.com Maristani de Sousa Rosa Universidade Estadual do Maranhão. Estudante da Pós Graduação da Universidade Federal de Maranhão. Goiânia. E “Ritmos de Identidade: música. 2007. . Boletim Goiano de Geografia. Correio eletrônico: tnegrão@gmail.22. Dentre suas publicações: “Cultura jeje na diáspora: Maranhão e Jamaica”.

3. espanhol. 5. 2. EXTENSÃO DOS TEXTOS: a extensão dos artigos deverá ter entre 15 e 20 páginas. com menos de cinco linhas. a partir da letra a. todas no formato acima especificado. parágrafo justificado. p. margens de 2. que deverão ser colocadas logo abaixo dos resumos. via e-mail ou via correio convencional. sobre obra bibliográfica publicada nos últimos dois anos. cujo conteúdo se relacione com a história do Caribe. francês ou inglês. incluindo endereço. Exemplo: (CASTILLO.Normas Editoriais para Publicação de Artigos 1. e a das resenhas entre 3 e 7 páginas. sendo que diferentes títulos de um mesmo autor no mesmo ano. 18-19). com o mesmo tipo e tamanho da letra do texto. inéditos. 1940. sem deslocamento da primeira linha. deverão ser diferenciados com uma letra após a data. Uma citação dentro de 293 . Deverão ser acompanhados de um breve currículo do autor. sendo neste caso uma cópia em disquete e outra impressa. sobretudo e-mail para contato. referências e notas. que reproduzam documentos históricos importantes relacionados com o Caribe. CITAÇÕES: No corpo do texto. espaçamento entre linhas simples. 4. Os artigos deverão ainda ser acompanhados de dois resumos. e Instrumentos de Trabalho. data da publicação e página(s) citada(s). fonte Times New Roman em corpo nº 11.para apresentação de trabalhos científicos. devem vir transcritas entre aspas duplas. com recuo à esquerda e sem aspas. 6. também no idioma original e em inglês e espanhol.5 cm. em corpo 10 normal. repertórios. No caso do idioma original ser o inglês. Com mais de cinco linhas devem ser transcritas em parágrafo distinto. FORMA DE APRESENTAÇÃO: os trabalhos deverão ser encaminhados no formato Microsoft Word for Windows. IDIOMAS: A Revista Brasileira do Caribe publica colaborações em português. Entrevistas com personalidades de grande expressão na historiografia caribenha. acompanhadas da indicação entre parêntesis do sobrenome do(s) autor(es). sobretudo no que se refere às citações. NORMATIZAÇÃO: todos os textos deverão obedecer ao padrão normativo da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas . que tratem de estudos relacionados com o Caribe. Já os dois resumos dos artigos deverão conter em torno de 10 (dez) linhas. bem como de três palavras-chave. inventários etc. telefone/fax e. Resenhas Críticas. bibliotecas. o segundo idioma do resumo e das palavras-chave deverá ser o português e o espanhol. versão 2000 ou 2003. sendo um no idioma original e outro em inglês (abstract) ou espanhol. que possam interessar aos pesquisadores caribenhos. ou que informem comentadamente sobre arquivos. TIPOS DE TRABALHOS PUBLICADOS: Artigos.

sucintas e claras. Devem vir em corpo 8./dec. J. ENDEREÇO PARA ENVIO DAS CONTRIBUIÇÕES: 294 . ano. Local: Editora. ano e página como a anterior. 7.) Identidad cultural latinoamericana. E. usadas para a apresentação de comentários. Reflejos y antinomias de la problematica de la identidad en el discurso narrativo latinoamericano. Revista Mexicana del Caribe. 1996. explanações ou traduções que não caberiam no texto. F. NOTAS DE RODAPÉ: breves. La Habana: Editorial Academia. Reinterpretar el Caribe. BIBLIOGRAFIA: deve vir ao final do trabalho e contemplar as obras efetivamente citadas e referenciadas ao longo do texto e nas notas de rodapé. Local de publicação. CRITÉRIOS DE REVISÃO: os artigos enviados à Revista Brasileira do Caribe serão remetidos a pelo menos dois pareceristas escolhidos entre os membros dos Conselhos Editorial e Consultivo que poderão recomendar ou não a publicação. a quem cabe a decisão referente à oportunidade da publicação das contribuições recebidas. (org. data. 10. Exemplo: GIRVAN. O Conselho Editorial se reserva o direito de sugerir ao autor modificações de forma com o objetivo de adequar o texto às dimensões da revista e a seu padrão editorial e gráfico. Título do artigo. página inicial-página final do artigo ou capítulo. 7.outra é indicado por aspas simples. ARTIGO OU CAPÍTULO DE COLETÂNEA: SOBRENOME. Letra incial do nome do Autor. Letra inicial do nome do organizador. Local: Editora. Chile: Editorial Andrés Bello. Modernidad razón e identidad en América Latina. número do volume. N. 4.) Título da Coletânea. p. podem ser de esclarecimento ou explicativas. p. Letra inicial do nome do Autor. : SOBRENOME. 8. que não os artigos. 9. 1994. Os demais tipos de textos. Estas citações abreviadas enviam à bibliografia no final do artigo. número do fascículo. jul. conforme os modelos abaixo: Livro: SOBRENOME. UBIETA GOMEZ. Enfoques filosóficos literarios. Santiago. página inicial-final do artigo. N. em ordem crescente de numeração. Título do artigo ou capítulo. V. Título do livro: sub-título. Letra inicial do nome do Autor. serão apreciados pelo Conselho Editorial. ano de publicação. Exemplo: AINSA. bem como apresentar indicações completas. ou ainda recomendá-la com modificações. ARTIGO DE REVISTAS OU PERIÓDICOS: SOBRENOME. a mesma deve vir com citação de autor. (org. Exemplo: LARRAÍN IBÁÑEZ. 6-34. Título do periódico. 1999. 53-72.

ufg.Revista Brasileira do Caribe Universidade Federal de Goiás Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia Campus II .Goiás CEP: 74.sala 42 Goiânia .3521-1457 Fax: 55-62-3292-1118 E-mail: ocabrera@fchf.br 295 .001-970 Fone: 55-62.

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