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Sumário

Evolução Histórica do Direito do Consumidor Autores: Flávio Barbosa Quinaud Pedron e Viviane Machado Caffarate..........4 Proteção constitucional do consumidor Autor: Cristian de Sales Von Rondow...............................................................15 Princípios nucleares do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor e sua extensão como princípio constitucional Autor: Henrique Alves Pinto..............................................................................26 O princípio da vulnerabilidade e a defesa do consumidor no direito brasileiro: origem e conseqüências nas regras regulamentadoras dos contratos e da publicidade Autores: Alírio Maciel Lima de Brito e Haroldo Augusto da Silva Teixeira Duarte..........................................................................................................................57 O princípio da boa-fé no Código de Defesa do Consumidor Autor: Francisco José Soller de Mattos..............................................................74 A relação jurídica de consumo: conceito e interpretação Autor: Marcelo Azevedo Chamone....................................................................76 Pessoa jurídica consumidora Autor: Alex Sandro Ribeiro..............................................................................105 Aspectos da responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor e excludentes Autoras: Michele Oliveira Teixeira e Simone Stabel Daudt............................109

Vícios no Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor: diferenças Autor: Ricardo Canguçu Barroso de Queiroz...................................................127

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A responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos no Código de Defesa do Consumidor Autor: Fabrício Castagna Lunardi....................................................................129 A prescrição e a decadência no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner.....................................................................145 Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner.....................................................................157 Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção e Defesa do Consumidor Autor: João Bosco Pastor Gonçalves................................................................175 As cláusulas abusivas à luz da doutrina e da jurisprudência Autores: Carlos Cavalcante e Karla Karênina Andrade...................................184 Inversão do ônus da prova no CDC e no CPC Autor: Ranieri Eich...........................................................................................206 Alguns aspectos da dogmática processual para a defesa dos direitos do consumidor Autora: Viviane Mandato Teixeira Ribeiro da Silva........................................230 Litisconsórcio, assistência e intervenção de terceiros nas ações coletivas para tutela do consumidor Autora: Gláucia Kohlhase Marques..................................................................248 A competência nas ações coletivas do CDC Autor: Renato Franco de Almeida....................................................................274

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A Evolução Histórica do Direito do Consumidor Autores: Flavio Barbosa Quinaud Pedron e Viviane Machado Caffarate

I. A Evolução do Direito do Consumidor

O Direito do Consumidor é obra relativamente recente na Doutrina e na Legislação. Tem seu surgimento como ramo do Direito, principalmente, na metade deste século. Porém, indiretamente encontramos contornos deste segmento do Direito presente, de forma esparsa, em normas das mais diversas, em várias jurisprudências e, acima de tudo, nos costumes dos mais variados países. Porém, não era concebido como uma categoria jurídica distinta e, também, não recebia a denominação que hoje apresenta. Altamiro José dos Santos destaca o Código de Hamurabi (2300 a.C.). Este já em seu tempo regulamentava o comércio, de modo que o controle e a supervisão se encontravam a cargo do palácio. O que demonstrava que se existia preocupação com o lucro abusivo é porque o consumidor já estava tendo seus interesses resguardados. Santos lembra que: "consoante a" lei "235 do Código de Hamurabi, o construtor de barcos estava obrigado a refazê-lo em caso de defeito estrutural, dentro do prazo de até um ano (...)" (Santos, 1987. p. 78-79). Desta norma podemos supor uma noção dos vícios redibitórios. Havia também regras contra o enriquecimento em detrimento de outrem ("lei" 48), bem assim a modificabilidade unilateral dos desajustes por desequilíbrio nas prestações, em razão de forças da natureza. Os interesses dos consumidores já estavam resguardados na Mesopotâmia, no Egito Antigo e na Índia do Século XVIII a.C., onde o Código de Massú previa pena de multa e punição, além de ressarcimento de danos, aos que adulterassem gêneros ("lei" 967) ou entregassem coisa de espécie inferior à acertada ou, ainda, vendessem bens de igual natureza por preços diferentes ("lei" 968). No Direito Romano Clássico, o vendedor era responsável pelos vícios da coisa, a não ser que estes fossem por ele ignorados. Porém, no Período Justinianeo, a responsabilidade era atribuída ao vendedor, mesmo que desconhecesse do defeito. As ações redibitórias e quanti minoris eram instrumentos, que amparadas à Boa-Fé do consumidor, ressarciam este em casos de vícios ocultos na coisa vendida. Se o

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vendedor tivesse ciência do vício, deveria, então, devolver o que recebeu em dobro. "no período romano, de forma indireta, diversas leis também atingiam o consumidor, tais como: a Lei Sempcônia de 123 a.C., encarregando o Estado da distribuição de cereais abaixo do preço de mercado; a Lei Clódia do ano 58 a.C., reservando o benefício de tal distribuição aos indigentes e; a Lei Aureliana, do ano 270 da nossa era, determinando fosse feita a distribuição do pão diretamente pelo Estado. Eram leis ditadas pela intervenção do Estado no mercado ante as dificuldades de abastecimento havidas nessa época em Roma" (Prux, 1998. p. 79). De acordo com os estudos de Waldírio Bulgarelli, "pode-se encontrar antecedentes os mais antigos: Aristóteles já se referia a manobras de especuladores na Grécia Antiga, e em Roma atestam-no a Lex Julia de cemnoma, o Édito de Diocleciano e a Constituição de Zenon" (Bulgarelli, apud Prux, 1998. p. 79). Há estudos que apontam depoimentos de Cícero (Século I a.C.) assegurando a garantia sobre vícios ocultos na compra-venda no caso do vendedor prometer que a mercadoria era dotada de determinadas qualidades e estas serem inexistentes. "Pirenne, no comentário de sua obra cobrindo o século XIII, é bastante elucidativo no subtítulo - Proteção ao consumidor - ao escrever que a disciplina imposta ao artesão tinha naturalmente por objeto assegurar a qualidade dos produtos fabricados. Neste sentido – acrescenta textualmente o mestre gaulês - também favorecia o consumidor" (SIDOU, apud PRUX, 1998. p. 781). A França de Luiz XI (1481) punia com banho escaldante aquele que vendesse manteiga com pedra no interior para aumentar o peso, ou leite com água para aumentar o volume. O jurista português Carlos Ferreira Almeida afirma que no Direito Português: "os códigos penais de 1852 e o vigente de 1886 (...), reprimindo certas práticas comerciais desonestas, protegiam indiretamente interesses dos comerciantes: sob o título genérico de crimes contra a saúde pública, punem-se certos actos de venda de substâncias venenosas e abortivas (art. 248º) e fabrico e venda de gêneros alimentícios nocivos à saúde pública (art. 251º); consideram-se criminosas certas fraudes nas vendas (engano sobre a natureza e sobre a quantidade das coisas – art. 456); tipificava-se ainda como crime a prática do monopólio, consistente na recusa de venda de gêneros para uso público (art. 275º) e alteração dos preços que resultariam da natural e livre concorrência, designadamente através de coligações com outros indivíduos, disposições revogadas por legislação da época corporativista, que regrediu em relação ao liberalismo consagrado no código penal" (ALMEIDA,1982. p. 40).

4/62. que apresenta a defesa do consumidor como princípio da ordem econômica (art. Pois nas palavras de Miriam de Almeida Souza. apontando sua assinatura na lei que proibia qualquer adulteração de alimentos no estado de Massachusetts" (SOUZA. 51). criou-se a Federal Trade Commission. Pode-se notar que esta lei representa um marco histórico na luta pelo respeito aos direitos do consumidor.6 Na Suécia. um dos principais pensadores do liberalismo. O Surgimento do Direito do Consumidor do Prisma da Evolução do Estado Liberal O Estado Liberal surgiu no século XVIII em contraposição ao Estado absoluto e veio assegurar o indivíduo em face do Estado. pelos tipos e preços estabelecidos pela metrópole. a Lei Delegada n. II. já em 1785 na República. da antiga metrópole. que consagrou a defesa do consumidor. Também nos EUA. 170) e no artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). em 1773. a defesa da livre incitava e livre concorrência e a não intervenção do Estado na esfera privada.. quando foram sancionados diversas leis e decretos federais legislando sobre saúde. a primeira legislação protetora do consumidor foi em 1910.. denominada Lei de Economia Popular. foi uma revolução "contra o sistema mercantilista de comércio britânico colonial da época. a Constituição de 1967 com a emenda n. o Direito do Consumidor surgiu entre as décadas de 40 e 60. que tinha o objetivo de aplicar a lei antitruste e proteger os interesses do consumidor. uma figura marcante no episódio do chá no porto de Boston. Adam Smith. que. Dentre todas. reforçou as seculares "assizes" (Leis do Pão). 1221/51. (. em 1914. o episódio contra o imposto do chá no porto de Boston (Boston Tea Party) é um registro de uma manifestação de reação dos consumidores contra as exigências exorbitantes do produtor inglês. 1996. O interesse privado é o . que exercia o seu monopólio. No Brasil. A Revolução americana de 1776 foi uma revolução do consumidor. afirmava: "É suficiente que deixemos o homem abandonado em sua iniciativa para que ao perseguir seu próprio interesse promova o dos demais. Já nos EUA. proteção econômica e comunicações. 1/69. p. pode-se citar: a Lei n. que expressamente determinou a criação do Código de Defesa do consumidor. os direitos individuais e políticos. e a Constituição Federal de 1988. O Estado Liberal tem como características o poder limitado. no qual os consumidores americanos eram obrigados a comprar produtos manufaturados na Inglaterra. em seu período de colônia.) Samuel Adams.

Assim acorreu com a Constituição brasileira de 1988 que dispõe que "o Estado promoverá na forma da lei. materiais ou imateriais. os direitos individuais eram mais importantes que os direitos sociais. com o advento da Revolução Industrial. Por sua vez o Código de Proteção e Defesa do Consumidor . gerando uma concentração econômica. então. Assim. Logo. as pessoas deixaram de trabalhar em casa e foram trabalhar nas fábricas e ao redor destas surgiram os centros urbanos. o Estado passou a intervir na Economia para promover justiça social.7 motor da vida econômica" (SMITH. Com isso. fazia com que as pessoas. aqui. Já o Código de Proteção e Defesa do Consumidor fala em produtos. Portanto. no entanto. dependendo. a Constituição Federal de 1988 exigiu que o Estado abandonasse a sua posição de mero espectador da sorte do consumidor. Esse meio. se submetessem à exploração. p. pois a concorrência não se iniciava em condições iguais e as regras do jogo não eram respeitadas. houve uma substituição da maquinofatura pela máquina. para adotar um modelo jurídico e uma política de consumo que efetivamente protegesse o consumidor. A grande procura por empregos gerou a desvalorização da mão-de-obra. instituída na Revolução Francesa. O Código de Proteção e Defesa do Consumidor. em muito inovou em comparação com o Código Civil. uma comparação exemplificativa entre as regras deste e as do Código de Proteção e Defesa do Consumidor. algumas empresas que se enriqueceram. gerando o desemprego e a conseqüente a exclusão social daqueles que estavam desempregados. mostrou-se ineficaz para a proteção do consumidor. acrescentando a estes os direitos sociais e econômicos. Outro ponto é que o Código Civil fala em defeitos ocultos que tornem a coisa imprópria para o uso ou diminuam o seu valor. as leis eram feitas para dar sustentação ao liberalismo econômico.32). trouxe o vício redibitório como meio de proteção do consumidor. neste período. No século XIX. aliada a grande oferta de trabalho. Façamos. O Estado Social tem como características o poder limitado. duráveis e não duráveis e em serviços. Estes foram regulados como normas pragmáticas. do Consensualismo e da Obrigatoriedade Contratual. de regulamentação. formulado segundo o pensamento liberal. devido à automação incipiente das máquinas. editado segundo os Princípios de um Estado Democrático de Direito. a defesa do consumidor". Nas Constituições promulgadas adotando esse modelo de Estado. A liberdade contratual. apud DERANI. a garantia os direitos individuais e políticos. O Direito regia-se pelos Princípios da Autonomia da Vontade. a livre incitava e livre concorrência defendida pelos liberais não se concretizou. O Estado Social surge no século XX como resposta à miséria e a exploração de grande parte da população. As fábricas. Isso porque. Concomitante a estes fatos. para se manterem empregadas. que seriam quaisquer bens móveis ou imóveis. o Código Civil. objeto de contratos comutativos e em bens e imóveis. O Código Civil fala em coisas. não empregaram a grande parte da população.

já que passaram a haver outros intermediários entre a produção e o consumo. às vezes. entendeu ser necessária a promulgação de leis para controlar o produtor-fabricante e proteger o consumidor-comprador" (SOUZA. Além disso. III. a produção perdeu seu toque "pessoal" e o intercâmbio do comércio ganhou proporções ainda mais despersonalizadas. 48). do rótulo. 1996. O crescimento e contínuos avanços das tecnologias fizeram com que fossem inseridas na mente do consumidor as idéias de que ele estava precisando de mais objetos que até o momento nunca sentira necessidade de adquirir em sua vida cotidiana. a produção aumentou e a responsabilidade se concentrou no fabricante. atos fraudulentos. que passou a responder por todo o grupo" (SOUZA. etc. 48). Acrescenta-se. O advento da Revolução Industrial foi responsável pelo crescimento da chamada produção em massa. o prazo decadencial para substituir.8 acrescenta que o defeito pode até mesmo ser de fácil constatação e que a coisa poderá ser enjeitada por não conferir com as especificações da embalagem. para manter o processo produtivo em funcionamento. sempre se interessou mais pela parte monetária do que com o produto. devolver ou pedir abatimento do preço da coisa também foi ampliado no Código de Proteção e Defesa do Consumidor. abusivos. p. formam-se grupos maiores. na Bélgica. O produtor estava sempre interessado em formas para escoar sua produção e manter o fluxo de produção-consumo. ainda. que "o produtor. Em conseqüência disto. o produtor-fabricante era simplesmente uma ou algumas pessoas que se juntavam para confeccionar peças e depois trocar os objetos (bartering). Devido a este movimento. o que o professor Thierry Bourgoignie.48). "o produtor precisava dar escoamento à produção. 1996. via de regra. por isso mesmo. ainda que artificial. Criou-se. da propaganda. praticando. ou mesmo em satisfazer o consumidor" (SOUZA. 1996. que: . denomina de "norma social do consumo". Com o crescimento da população e o movimento do campo para as cidades. A Revolução Industrial e O Direito do Consumidor O período da Revolução Industrial é de grande importância para o desenvolvimento do Direito do Consumidor. A justiça social. desta forma. da Faculdade de Direito da Universidade Católica de Louvain. p. então. sentiu necessidade de estimular o consumidor a uma necessidade. Logo. p. enganosos. "Antes da era industrial.

p. consistentes de melhorias de salário e de condições de trabalho. também. que logo sofreu traduções para 17 idiomas. O romance acabou. moídos juntamente com os enchimentos das lingüiças vendidas em Chicago.9 "faz com que o consumidor perca o controle individual das decisões de consumo e passe a ser parte de uma classe. "a guerra intensificou a produção industrial em massa. embora proibidas no comércio exterior" (SINCLAIR. 52). Sinclair era um jovem jornalista. de 1906. Mas curiosamente. apud SOUZA. "Os principais personagens eram de uma família de camponeses lituanos que vieram trabalhar pelos contos e fantasias de liberdade e pujança na América" (Souza. IV. p. no intuito de justificar e fundamentar suas reivindicações proletárias. a Meat Inspection Act e a Pure Food and Drug Act. escreveu um romance chamado The Jungle (A Selva). e contribuiu para as . 1996. 48). 1996. apud SOUZA. Este serviu para despertar no povo do seu país o mais vivo interesse pela problemática do consumidor. A Selva O norte-americano Upton Sinclair. 52). V. Sinclair demonstra os abusos cometidos pela industria da carne. Um exemplo é o seguinte trecho de sua obra: "a carne misturada com pedaços de tecidos esfarrapados e sujos. ele retrata em cores ousadas e dramáticas o impacto social do capitalismo industrial no começo do século XX. que fortaleceram a fiscalização da pureza da carne. disfarçouse em operário para realizar suas observações na cidade de Chicago. ao descrever de forma bem realística os alimentos deteriorados. em 1906. O impacto da novela The Jungle foi de um modo tão avassalador. conferindo claramente uma dimensão social ao consumidor e ao ato de consumir" (BOURGOIGNIE. dotado de idéias socialistas. pães mofados. que . por inspirar a elaboração de duas leis federais nos EUA. quando a produção estava a serviço e controle do Estado. que se despontava na América Keynesiasna o movimento em prol dos direitos do consumidor. a "consommariat". 1996. Em seu romance. foram o surgimento da mídia e as conquistas tecnológicas que deram causa ao ressurgimento da defesa do consumidor. p. O Direito do Consumidor na Segunda Guerra Mundial e no Cenário do Pós-Guerra Foi em plena Segunda Guerra Mundial.

então um crescimento em vários segmentos industriais. Todo o esforço da guerra resultou. na década de 60. Com isso. o que sem dúvida. para a satisfação de certos interesses coletivos privados" (GOMES. Após o período do pós-guerra acontece o ressurgimento da cláusula rebus sic stantibus. aumentaram os problemas relacionados à produção e ao consumo. Podemos perceber que esses problemas influenciaram sensivelmente a vida dos consumidores. 1996. em . colaborou. que se fundamentava a partir da responsabilidade civil objetiva e do reconhecimento dos interesses e direitos difusos. entendia-se que os seus efeitos não deveriam atingir a terceiros. está abalado. para o agravamento dos problemas sociais e conflitivos urbanos em decorrência da concentração de renda" (Souza. trustes e oligopólios. inevitavelmente. O know-how gerado para a guerra provocou. desse princípio da relatividade dos efeitos do contrato. ainda que excepcional. queda na qualidade de vida ou aumento da poluição. pelo qual o juiz estava obrigado a fazer cumprir os efeitos do contrato. o que enfraquece o princípio da força obrigatória dos contratos. houve a consolidação do Direito do Consumidor nos Estados Unidos. na economia dos contratos. Passou-se então a praticar uma concorrência desleal. Com o advento da televisão. alteram os efeitos dos contratos anteriormente praticados. a cada instante. fortalecendo a tendência da formação dos cartéis. ou de exonerar o devedor do seu cumprimento. em face de uma competitividade altamente sofisticada por causa das novas mídias e das próprias complexidades dos mercados surgidos no pós-guerra. Por fim. em aumento substancial de produção no posterior tempo de paz. quaisquer que fossem as circunstâncias ou as conseqüências. com o objetivo de escoar a produção no mercado. Esta quebra possibilitou o surgimento do Direito do Consumidor. desde que os contratos são fonte de obrigações e estas importam limitação da liberdade individual. quer seja pela alta dos preços. dentre outros motivos. 54). se ocorrer imprevisão. Dirigindo-se por meio de uma mensagem especial ao Congresso Americano. O legislador intervém. 1979. 105-106). Mas as necessidades sociais impuseram a quebra.10 grandes invenções e o aprofundamento da produção em série. resultou da propaganda informativa o marketing (desenvolvido em forma de propaganda de guerra). Esta restauração se deu sob o nome de "teoria da imprevisão" e visava a quebra do princípio do pacta sunt servanda. e do advento do marketing científico. Orlando Gomes afirma que: "o princípio da força obrigatória das convenções. tendo aplicação imediata. e vai se admitindo o poder do juiz de adaptar seus efeitos às novas circunstâncias (cláusula rebus sic stantibus). O contrato era res inter alios acta. em um mercado antes restrito somente ao essencial. p. ditando medidas que. p. A partir das iniciativas do presidente americano John Fitzgerald Kennedy. gerando um arsenal de produtos surpérfulos e diversificados.

a qualidade e o preço de bens e serviços colocados no mercado. 56). Esta foi. 1996. claramente. a Comissão de Direitos Humanos das nações Unidas. promovidos e apresentados de uma maneira que permita ao consumidor fazer uma escolha satisfatória. Em 1985. (2) proteção dos interesses econômicos. as Nações Unidas. 56). na sua 29ª Sessão em 1973. . também reconheceu os princípios e chamou-os de Direitos Fundamentais do Consumidor. (4) e ainda o direito a preços justos" (SOUZA. Seguindo o exemplo de Kennedy. (d) educar o consumidor. Kennedy identificou os pontos mais importantes em torno da questão: "(1) os bens e serviços colocados no mercado devem ser sadios e seguros para os uso. (3) reparação dos prejuízos. de acordo com as necessidades e desejos individuais. (4) informação e educação. em Genebra. p. Por sua vez. 1996. estabelece objetivos. (c) fornecer aos consumidores informações adequadas para capacita-los a fazer escolhas acertadas. em nível mundial. a primeira vez que. princípios e normas para que os governos membros desenvolvam ou reforcem políticas firmes de proteção ao consumidor.º 39/248. houve o reconhecimento e aceitação dos direitos básicos do consumidor. p. (3) tenha o consumidor o direito de ser informado sobre as condições e serviços. (5) representação (ou direito de ser ouvido)" (SOUZA.11 1962. o programa Preliminar da Comunidade Européia para uma Política de Proteção e Informação dos Consumidores dividia os direitos fundamentais em cinco categorias: "(1) proteção da saúde e da segurança. (2) que a voz do consumidor seja ouvida no processo de tomada de decisão governamental que detenha o tipo. por meio da Resolução n. O Anexo 3 da Resolução mostra quais são os princípios gerais que serão tomados como padrões mínimos pelos governos: "(a) proteger o consumidor quanto a prejuízos à sua saúde e segurança. (b) fomentar e proteger os interesses econômicos dos consumidores.

p. VI. p. 57). já consagram. 1996. (7) ambiente saudável – ambiente físico apto a proporcionar melhor qualidade de vida agora e no futuro" (SOUZA. acolhendo a Resolução da ONU. E sobre os direitos do consumidor enumera: "(1) segurança – proteção contra produtos. ponto de vista compartilhado pela Organização Internacional das Associações de Consumidores (International Organization of Consumers Unions – IOCU). 58). A proteção do Direito do Consumidor é de tamanha relevância. (f) garantir a liberdade para formar grupos de consumidores e outros grupos e organizações de relevância e oportunidade para que estas organizações possam apresentar seus enfoques nos processos decisórios a elas referentes" (SOUZA. ainda. (4) a ser ouvido – exposição e consideração das perspectivas dos consumidores na formação das políticas nacionais. que: "as Nações Unidas também entendem como medida para a proteção dos consumidores o Código de Conduta para as Firmas Transnacionais. (3) escolha – acesso a uma variedade de produtos e serviços com qualidade e preços competitivos. (6) educação – aquisição dos conhecimentos e das habilidades necessárias para ser um consumidor informado ao longo da vida.12 (e) criar possibilidade de real ressarcimento ao consumidor. com sede em Haia" (Souza. O IOCU é amplamente respeitado entre as associações de consumidores no mundo. (5) indenização – solução justa de queixas justas. Miriam Souza lembra. processos e serviços nocivos à saúde ou à vida. (2) informação – conhecimento dos dados necessários para fazer escolhas e decisões informadas. p. projeto de ONU desde meados dos anos 60. inclusive o brasileiro. que muitos dos ordenamentos jurídicos. 1996. pela Constituição Federal de 1988.57). 1996. A Constituição Brasileira e O Direito do Consumidor A questão dos Direitos do Consumidor é tão importante que em três .

à informação. determina que o Congresso Nacional elabore o Código de Defesa do Consumidor. o artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). à indenização.) Entidades de Defesa Do Consumidor. à escolha. apud SOUZA. à educação para o consumo e a um meio ambiental saudável). Estes três dispositivos constitucionais são mencionados no artigo 1º do Código de Defesa do Consumidor. 1982. a dialética produtor x consumidor é bem mais complexa e delicada do que a dialética capital x trabalho" (grifo nosso) (COMPARATO. Mas. foi obtida por unanimidade na oportunidade do encerramento do VII Encontro Nacional das (.º 2. no calor das discussões da Assembléia Nacional Constituinte. inclusive aos então artigos 36 e 74 da Comissão "Afonso Arinos". à segurança. Os direitos dos consumidores. de acordo com o que estiver estabelecido nas leis. na forma da lei. A primeira vez. José Geraldo Brito Filomeno lembra que a sensibilização dos "constituintes de 1887/88.. desta feita realizado em Brasília. 59).13 oportunidades distintas é tratada na Constituição Federal vigente. a defesa do consumidor" o que quer dizer. que trata dos direitos e deveres individuais e coletivos estabelece a Carta magna..875. trazendo sugestões de redação. por razões óbvias. que o Governo Federal tem a obrigação de defender o consumidor. p. . p. V. É o que alerta o jurista Fábio Konder Comparato: "na verdade. citando em seu artigo 170. a ser ouvido. já em seu Capítulo I do Título II. que a defesa do consumidor é um dos princípios que devem ser observados no exercício de qualquer atividade econômica. Bibliografia ALMEIDA. Finalmente. o Código do Consumidor é só o início. com especial destaque para a contemplação dos direitos fundamentais do consumidor (ao próprio consumo. e que acabou sendo devidamente protocolada e registrada sob n. Carlos Ferreira. em 8-5-87. 1996. A segunda vez que a Constituição menciona a defesa do consumidor é quando trata dos princípios gerais da atividade econômica no Brasil. em outras palavras." (FILOMENO. 21-22). XXXII que "o Estado promoverá. no artigo 5º. 1991. Coimbra: Almeida.

GOMES. Introdução ao direito civil. Revista do IAP. Miriam de Almeida. PRUX. n. Oscar Ivan. SANTOS. José Geraldo Brito. Manual de Direitos do Consumidor. FILOMENO. 10. Responsabilidade Civil do Profissional Liberal no Código de Defesa do Consumidor. Direitos Do Consumidor. Cristiane.14 DERANI. Política Nacional das Relações de Consumo e o Código de Defesa do Consumidor. Altamiro José dos. 1991. A Política legislativa do Consumidor no Direito Comparado. 1979. 6 ed. Belo Horizonte: Edições Ciência Jurídica. n. Orlando. 1998. Curitiba. 1996. Souza. Revista de Direito do Consumidor. Instituto dos Advogados do Paraná. Belo Horizonte:Del Rey. São Paulo: Atlas. 1987. . Rio de Janeiro:Forense. 29.

4. A proteção no direito alienígena (Direito Comparado e Internacional). As relações de consumo e o surgimento da tutela do consumidor. necessário se faz explicitar como foi o caminho trilhado do "movimento consumerista" que teve nuanças . A evolução legislativa brasileira. 3.15 Proteção constitucional do consumidor Autor: Cristian de Sales Von Rondow Sumário: 1. Terminologia. 6. 2. O por quê da tutela? 5. A tutela do consumidor a nível constitucional As relações de consumo e o surgimento da tutela do consumidor Antes de adentrarmos ao tema propriamente dito.

E o fez. mas também que punisse aqueles que o desrespeitassem. o consumo pelo consumo". estas alterações foram introduzidas pelo liberalismo emergente do século XIX.(3) Não há dúvidas de que as relações de consumo ao longo do tempo evoluíram drasticamente. político. consumimos desde o nascimento e em todos os períodos de nossa existência. Hodiernamente as chamadas relações de consumo. A afirmação de que todos nós somos consumidores é verdadeira. dado as alterações substanciais no panorama mundial. de modo que o consumo faz parte do dia-a-dia do ser humano. Após a transformação do panorama econômico. Os bens de consumo passaram a ser produzidos em série. Mas esta nova forma de vender e comprar trouxe em seu bojo o poderio econômico das macro-empresas de impor seus produtos e mercadorias àquele . qual seja. a sociedade de consumo (mass consumption society) ou sociedade de massa. econômico e jurídico que permeavam época pretérita transportando-se para o cenário atual.16 próprias. que infiltrou-se no Direito operando sua transformação. Não ficamos um só dia sem consumir algo. para dar lugar à "operações impessoais e indiretas. Temos que a origem protecionista do consumidor se deu com as modificações nas relações de consumo. gerou a sociedade de consumo ou sociedade de massa. sendo esta.(2) Para Maria Antonieta Zanardo Donato. Instaura-se um novo processo econômico. em que não se dá importância ao fato de não se ver ou conhecer o fornecedor. erigindo um novo modelo social. diante do avanço tecnológico dos meios de produção passara a ser a parte fraca da relação de consumo necessitando de uma legislação que resguardasse não apenas os direitos básicos. Por motivos variados. João Batista de Almeida(1) aduz que "independentemente da classe social e da faixa de renda. outrora campo exclusivo do estudo da ciência econômica passou a fazer parte do rol da linguagem jurídica. Do primitivo escambo e das minúsculas operações mercantis tem-se hoje complexas operações de compra e venda. Os serviços se ampliaram em grande medida". embates acirrados e por fim uma difusão mundial da consciência de que o consumidor. causando profundas e inesperadas alterações sociais. nasce um capitalismo agressivo que impôs um ritmo elevado na produção. que vão desde a necessidade e da sobrevivência até o consumo por simples desejo. por seu turno difícil de precisar seu início. Para trás ficou aquelas relações de consumo que estavam intimamente ligadas às pessoas que negociavam entre si. (4) E essa produção em massa aliada ao consumo em massa. para um número cada vez maior de consumidores. que envolvem milhões de reais ou de dólares.

significa acabar.17 (consumidor) que ao que parecia seria "monarca do mercado"(5) ou o "rei do sistema". O caminho natural da evolução nas relações de consumo certamente acabaria por refletir nas relações sociais. e os debates em torno da matéria iniciaram-se face às novas situações decorrentes do desenvolvimento. econômicas e jurídicas do mundo. e. por sua vez oriundo do latim consumere. com a produção e consumo de massa. Como . com eles. o nascimento dos cartéis. corroer. a revolução industrial. multinacionais e das atividades monopolísticas. vários ordenamentos jurídicos do mundo todo passaram a reconhecer a figura do consumidor e. que se precipitaram num espaço de tempo relativamente pequeno. passando a fazer parte quando da promulgação do Código de Defesa do Consumidor. entre outras coisas. do verbo consumir. Terminologia Ponto interessante se mostra a terminologia jurídica de "consumidor". das metrópoles. absorver. gastar. repercutindo de forma negativa sobre a qualidade de vida e atingindo inevitavelmente os interesses difusos. o aparecimento dos meios de comunicação de massa. sobretudo a sua vulnerabilidade outorgando-lhes direitos específicos. uma vez que vários autores advertem não ser tarefa fácil definir consumidor no sentido jurídico.(6) Dado a esta imposição. muitas vezes voltaram-se contra ele próprio. trouxeram a lume à própria realidade dos interesses coletivos. seria o ato pelo qual se completa a última etapa do processo econômico. até então existentes de forma latente despercebidos’. o fenômeno da propaganda maciça. Esse entendimento é corroborado por João Batista de Almeida(7) que citando Camargo Ferraz. O vocábulo consumidor. a explosão demográfica. Milaré e Nelson Nery Júnior aduzem que a tutela dos interesses difusos em geral e do consumidor em particular deriva das modificações das relações de consumo e evidenciam que: ‘o surgimento dos grandes conglomerados urbanos. a hipertrofia da intervenção do Estado na esfera social e econômica. bem como estavam desprotegidos e vulneráveis às práticas abusivas das empresas e para tanto necessitavam de proteção legal. consumo. A partir deste evento. despender. o desmesurado desenvolvimento das relações econômicas. Todos esses fenômenos. holdings. a tutela do consumidor ganhou espaço no seio jurídico. por terem escapado do controle do homem. Na linguagem dos economistas. os consumidores começaram a enxergar que estavam mais para súditos do que para monarcas.(8) Tal linguagem não se verificava no Direito Privado Brasileiro. A partir dessa fundamental constatação.

em 1969. Longe disso.18 mencionado eram expressões voltadas à ciência econômica. nos EUA: Consumer Credit Protection Act. mas que passaram a fazer parte do universo jurídico e no Brasil. . Direito Comparado .A iniciativa de cinco países (Estados Unidos. que haja intervindo nas relações de consumo" (art. A proteção do consumidor no direito alienígena (Comparado e Internacional) O resguardo jurídico do consumidor não é tema exclusivo de um único país.A comissão das Nações Unidas sobre Direitos do Homem. ainda que indetermináveis.Lei de caráter geral ou específica no seguintes países: Inglaterra. no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE. México. . é tema supranacional abrangendo a totalidade dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento. § único).Lei sobre documentos contratuais uniformes de Israel (1964).Discurso do presidente Kennedy ao Congresso Americano (março/62). Uniform Consumer Credit Code. "a coletividade de pessoas. uma "Comissão para a política dos consumidores". Portugal e Espanha. considerou serem 4 os direitos de todo o consumidor: . Bélgica. Safety Act. 2º. Alemanha. no sentido de criar. Direito Internacional . a conceituação legal ou o conceito standart de consumidor é dado pelo Código de Defesa do Consumidor em seu Artigo 2º aduzindo que "consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final". Noruega. Truth in Lending Act. também. Finlândia. . Dinamarca. . França.Lei fundamental de proteção aos consumidores no Japão (1968). Uniform Consumer Sales Act. É de Newton De Lucca a apresentação de quadro sintético desta proteção: No Direito Comparado (antecedentes legislativos) e no Direito Internacional. Suécia. França. por equiparação. Bélgica e Holanda). incluindo-se. Fair Credit Reporting Act e Fair Debt Collection Act. Alemanha.Numerosos textos legais. . a partir da década de 60.

o direito de escolher sobre bens alternativos de qualidade satisfatória a preços razoáveis. que o mesmo tema fora debatido em praticamente todos os países da Europa. que já não mais tutelavam novos interesses identificados como coletivos e difusos.(13) Está assentado doutrinariamente que a vulnerabilidade do consumidor.85. "não surgiu aleatória e espontaneamente". enfim. originando a hipossuficiência deste. que para alguns é um princípio(14) foi a pedra de mote para o surgimento da tutela do consumidor.(10) Para João Batista de Almeida. vejamos: o da isonomia ou da vulnerabilidade. de modo a influenciar grandemente diversos países com esta doutrina.7. de 24. esta tutela.4. o da hipossuficiência.o direito à segurança. 3.19 1. reconhecendo-se ser este a parte fraca. no tocante aos países membros do CEE. 4. . surgiu "de uma reação a um quadro social. reconhecidamente concreto. é que esta nasceu fruto dos mais variados problemas sociais "surgidos da complexidade da sociedade moderna e os reclamos de indivíduos e grupos". 2.85. O por quê da tutela? A justificativa que se tem para o surgimento da tutela do consumidor. pela busca do equilíbrio entre as partes envolvidas".o de ser adequadamente informado sobre os produtos e os serviços. bem como sobre as condições de venda. (11) Ao contrário. Destaca-se. também. vulnerável nas relações de consumo. . . apontada como a verdadeira origem dos direitos básicos do consumidor.No Âmbito da ONU – Resolução 39/248. Para João Batista de Almeida.(9) Conforme denota-se. alguns são os princípios orientadores desta tutela protetiva. Luiz Antonio Rizzatto Nunes e Cláudio Bonatto/Paulo Valério Dal Pai Moraes. em que se vislumbrou a posição de inferioridade do consumidor em face do poder econômico do fornecedor. os EUA foram o grande propulsor da mensagem protecionista do consumidor. de 9. bem como a insuficiência dos esquemas tradicionais do direito substancial e processual. (12) E termina o festejado autor: "a tutela surge e se justifica.o direito de ser ouvido no processo de decisão governamental.A aprovação de vários documentos pela Assembléia do Conselho da Europa – Diretiva 85/374.

903. o primeiro órgão de defesa do consumidor. Todavia. o desenvolvimento do crédito e a nacionalização progressiva dos bancos de depósito." . "Art. é garantida a liberdade econômica".626. pois. embora essa não fosse a intenção principal do legislador. de 7 de abril de 1933 (Lei da usura) a primeira norma nesta seara que visava reprimir a usura. 115 e 117).(15) Cumpre esclarecer que não trataremos dos princípios acima mencionados. mas apenas trazê-los à colação com o fito de demonstrar ser esta tutela orientada por princípio basilares do direito constitucional que se espraiaram para o direito do consumidor.20 o do equilíbrio e da boa-fé objetiva. João Batista de Almeida(16) aduz ser de 1971 a 1973 os discursos proferidos pelo então Deputado Nina Ribeiro. e para a necessidade de uma atuação mais enérgica no setor. de modo que possibilite a todos exist~encia digna. devendo constituir-se em sociedade brasileira as estrangeiras que actualmente operam no paiz. 115 – A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça e as necessidades da vida nacional. verifica-se a existência de referida defesa como tema "inespecífico"(17) em legislações esparsas que indiretamente protegia o consumidor. que passamos a transcrever. embora não fosse a defesa do consumidor tratada como tema específico como é hoje. alertando para a gravidade do problema. só em 1985 foi criado o Conselho Nacional de Defesa do Consumidor. Igualmente providenciará sobre a nacionalização das empresas de seguros em todas as sua modalidades. Somente em 1978 surgiu em nível estadual. do dever de informar. Na esfera federal. com a proteção à economia popular. o evoluir não parou. A evolução legislativa brasileira A defesa do consumidor como tema específico é entre nós algo recente. Foi o Decreto nº 22. Parágrafo único: É proibida a usura. o da revisão das cláusulas contrárias ou da repressão eficiente aos abusos. E assim. de 1978. 117 – A lei promoverá o fomento da economia popular. A matéria ganhou status constitucional (Constituição de 1934. que será punida na fórma da lei. por meio do Decreto nº 91. criado pela Lei nº 1. esta não fora a intenção. verbis: "Art. o da conservação do contrato.469 que posteriormente foi extinto e substituído pela atual Secretaria Nacional de Direito Econômico (SNDE). o Procon de São Paulo. o da transparência e o da solidariedade. o do da equivalência. arts. Dentro desses limites. densamente de natureza social.

denominado "crimes de colarinho branco". autorizando os Estados a instituírem os Juizados de Pequenas Causas. 115 e 117). por razões óbvias.492 de 16 de junho de 1986. inclusive aos então artigos 36 e 74 da "Comissão Afonso Arinos". trazendo sugestões de redação. além de outros bens tutelados. ainda existente. que de maneira reflexa beneficiava o consumidor. em 8-5-87. é atribuída a competência concorrente para legislar sobre . realizado em Brasília. além de haver criado o Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE. que cuidaram dos crimes contra a economia popular. com especial destaque para contemplação dos direitos fundamentais do consumidor. O primeiro deles e o mais importante por refletir toda a concepção do movimento está grafado no artigo 5º. Em 1984 editou-se a Lei nº 7.244. Todavia. está o de promover. na estrutura do Ministério da Justiça. mas não como elemento contundente para a prática do Estado. atualmente Juizados Especiais Cíveis (Lei 9. mas apenas cuidou de forma indireta. sobrevindo. e depois o de nº 9. A tutela do consumidor a nível constitucional Como já mencionado. à tutela jurisdicional dos interesses difusos em nosso país. na inserção de quatro dispositivos específicos e objetivos sobre o tema.347 que disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao consumidor. dando início desta forma. Surge a Lei de Repressão ao Abuso do Poder Econômico (nº 4. Noutra passagem. na forma da lei. inciso XXXII. onde diz que dentre os deveres impostos ao Estado brasileiro.875. Mas os passos mais significativos neste campo foram dados a partir de 1985. de 18 de novembro de 1938.099/95). no calor das discussões da Assembléia Nacional Constituinte. Com a Lei nº 7. foi promulgada a Lei nº 7. com ênfase ao VII Encontro Nacional das referidas Entidades de Defesa do Consumidor. passaram a ser punidos os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. em 1951 a chamada Lei de Economia Popular que vige até hoje. de 11 de setembro de 1946. a defesa do consumidor. a constituinte de 1988 curvou-se ante aos anseios da sociedade e ao enorme trabalho dos órgãos e entidades de defesa do consumidor.137 de 1962). e que acabou sendo devidamente protocolada e registrada sob o nº 2. quando em 24 de julho daquele ano. no capítulo relativo aos "direitos e deveres individuais e coletivos". Mas sem dúvida ou medo de errar.840. culminando assim. num evoluir ascendente. a tutela do consumidor a nível constitucional foi posta na Constituição de 1934 (arts. esta inserção não deixa de demonstrar ares de preocupação do constituinte com o tema. posto que brotava na nação a consciência da necessidade de proteção ao consumidor.21 Posteriormente veio o Decreto-Lei nº 869.

la ley regulará el comercio interior y el régimen de autorización de productos comerciales". Já o art. um tipo de princípio-programa. 170. aduz: "pelo que sei. diz o artigo 48 do ato de suas disposições transitórias que "o Congresso Nacional. encerraremos com a "questão para debate" proposta pelo Doutor Newton De Lucca. 3. a saber: O advento da Lei nº 8. a defesa do consumidor é apresentada como um dos motivos justificadores da intervenção do Estado na economia (art.22 danos ao consumidor (art. No capítulo da Ordem Econômica. Fábio Konder Comparato (RDM nº 80.078. 24. fomentaran sus organizaciones y oirán a éstas en las cuestiones que puedan afectar a aquéllos. apenas Portugal e Espanha possuem em suas Constituições dispositivos em favor da proteção aos consumidores. mas o comando constitucional foi respeitado com a promulgação da Lei 8. no art. finalmente. 66 a 75. la seguridad. VIII). elaborará código de defesa do consumidor". tendo por objeto uma ampla política pública (public policy). la salud y los legítimos intereses económicos de los mismos. de 11 de setembro de 1990 o chamado Código de Defesa do Consumidor. artigo intitulado "A Proteção ao Consumidor na Constituição Brasileira de 1988"): ‘Por outro lado. ainda no bojo da Constituição de 1988.9. Los poderes públicos promoverán la información y la educación de los consumidores y usuarios. a Constituição de 2 de abril de 1976. En el marco de lo dispuesto en los apartados anteriores. O mestre Newton De Lucca assevera que "não apenas o Código de Defesa do Consumidor tem base constitucional (art. todos os princípios da proteção acham-se constitucionalmente assegurados". estabeleceu.(19) Finalizando o estudo em apreço. mediante procedimientos eficaces. en los términos que la ley establezca. 81. prazo não respeitado.(18) O citado autor faz observação interessante ao afirmar que ‘a consagração constitucional dos direitos dos consumidores não constitui a regra em termos de direito comparado’. de 11. A expressão designa um programa de ação de interesse público. caber prioritariamente ao Estado ‘proteger o consumidor especialmente mediante o apoio e a criação de cooperativas e associações de consumidores’. indubitavelmente. No primeiro deles. dentro de cento e vinte dias da data da promulgação da Constituição. pp.078. E em nota. 48 do ADCT) como.90 (Código de Defesa do Consumidor) terá representado o integral cumprimento da proteção constitucionalmente estabelecida em favor desse mesmo consumidor?(20) Como resposta à questão o conceituado autor traz a lume a opinião do Prof. 51 da Constituição espanhola de 1978 declara que: "1. mais amplamente. V). Como todo programa . E. 2. Los poderes públicos garantizaran la defensa de los consumidores y usuarios protegiendo. a defesa do consumidor é.

A Constituição jurídica logra converter-se. apenas a proteção efetiva.(21) Notas 1. ambos previstos e dimensionados no orçamento-programa’. a política pública desenvolve uma atividade. faltando-lhe. 3. imposta na lei ou na Constituição. 2. realizar nada. em absoluto. na consciência dos principais responsáveis pela ordem constitucional -..23 de ação.e. ela mesma. cujo conteúdo. cit. que se assenta na natureza singular do presente (individuelle Beschaffenheit der Gegenwart). mas essa atividade normativa não exaure. Quer isso dizer que os Poderes Públicos detêm um certo grau de liberdade para montar os meios adequados à consecução desse objetivo obrigatório. por si só. em força ativa. se. Insta asseverar que o consumidor brasileiro está legislativamente equipado à altura. se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem nela estabelecida. a despeito de todos os questionamentos e reservas provenientes dos juízos de conveniência.Almeida.Donato. ou programa de ação pública. na consciência geral – particularmente. 01. Proteção ao Consumidor. São Paulo. não só a vontade de poder (Wille zur Macht). RT1993. Proteção ao Consumidor. 7. portanto. É preciso não esquecer de que esta só se realiza mediante a organização de recursos materiais e humanos. i. Maria Antonieta Zanardo. Embora a Constituição não possa. porém. na adaptação inteligente a uma dada realidade. ela pode impor tarefas. mas há que se ressaltar que diante das nações mais avançadas do mundo. Ed. Maria Antonieta Zanardo. Concluindo. Konrad Hesse. P 15. 85 e ss). Vol. mas também a vontade de Constituição (Wille zur Verfassung)". p. Ed. A imposição constitucional ou legal de políticas é feita. João Batista.Donato. quanto regulamentos de Administração Pública. é um "Zweckprogramm" ou "Finalprogramm" (Cfr. por meio das chamadas "normas-objetivo". Ed. É claro que a implementação desses meios exige a edição de normas – tanto leis. tão-somente. 2ª Edição. A Constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem efetivamente realizadas. Saraiva-2000. como já se disse. não ficamos aquém nesta seara. para a consecução de uma finalidade. se puder identificar a vontade de concretizar essa ordem. o conteúdo da policy. uma série organizada de ações. RT- . pode-se afirmar que a Constituição converter-se-á em força ativa se fizerem-se presentes. em sua célebre obra "A Força Normativa da Constituição" aduz que "a força normativa da Constituição não reside. A Proteção Jurídica do Consumidor. vezes por falta de vontade política e outras por falta de recursos técnicos e materiais. 7. Vol.

Livraria do Advogado-1999. 2ª Edição.54-5. p. Saraiva-2000.Almeida. 12. 1986. Porto Alegre. Antonio Augusto Camargo Ferraz. 17.Lucca. Saraiva-2000. Direito do Consumidor. contratos. RT1993. Edipro. João Batista. 10. Saraiva.. p. p. 2ª Edição. São Paulo. 6. cit. São Paulo-2000. 2ª ed. Bonatto. 13. Dalloz. A Proteção Jurídica do Consumidor.Almeida. 30-56. 18. cit.Almeida. Direito do Consumidor. p. Saraiva-2000. p. João Batista.Almeida. A Proteção Jurídica do Consumidor. cit. Direito do Consumidor. 03. São Paulo. 45-6. P. 1984. Proteção ao Consumidor. conceitos.Almeida. . A Proteção Jurídica do Consumidor. Ed. Jean Calais-Auloy. P. 14. João Batista. cit. Saraiva-2000. cit. Ed.Almeida. Paria. São Paulo-2000. 2ª edição. Newton De. 2ª edição. 19. p. 8. p. Maria Antonieta Zanardo. Apud. 2ª Edição. 22. P. Ed. Ed. cit. A Proteção Jurídica do Consumidor. cit. São Paulo. p. cit. Saraiva-2000. Ed. Ed.Lucca. Vol. 2ª Edição. 2ª Edição. João Batista.Bonatto. São Paulo-2000. Ed. 2ª Edição. Ed. 9. Saraiva-2000. São Paulo. Droit de la Consommation. 2ª Edição. Ed. São Paulo. A Proteção Jurídica do Consumidor. 7. 7. Édiz Milaré e Nelson Nery Júnior. A ação civil pública e a tutela jurisdicional dos interesses difusos. 20. 21.Donato. Apud. 25/30. Cláudio. Porto Alegre. Livraria do Advogado-1999. Ed. Edipro. Questões controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: principiologia. Newton De. São Paulo. A Proteção Jurídica do Consumidor. São Paulo. 2ª Edição.42. p. Ed. 15. A Proteção Jurídica do Consumidor. p. Saraiva-2000. 02. 2ª Edição. Cláudio. 6. p. conceitos.Almeida. 2ª Edição. Ed. 4. 22. Ed. João Batista. 5. Questões controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: principiologia. 11. contratos. cit. p. João Batista. São Paulo. 22. p. Newton De. Edipro.24 1993. João Batista.Lucca.

2ª Edição. São Paulo-2000. Saraiva-2000. 2ª Edição. Newton De. Edipro. São Paulo-2000. 2ª Edição. Saraiva-2000. cit.Lucca. São Paulo. Direito do Consumidor. p. 19.Lucca.Almeida. Konrad. 34. Ed.Almeida. Direito do Consumidor. Direito do Consumidor. Apud nota nº 20 21. A Força Normativa da Constituição. Editor Sergio Antonio Fabris. p. Ed. Newton De. João Batista. Ed. São Paulo-2000. 17. Edipro. Ed. 10. João Batista. cit. 2ª Edição. 19. São Paulo.25 16. p. A Proteção Jurídica do Consumidor. 34. 20. 2ª Edição. 34. 18. p. 10. . Newton De. p. Apud nota nº 20. Porto Alegre-1991. p. A Proteção Jurídica do Consumidor. cit.Lucca. Ed. Edipro.Hesse.

Direitos do Consumidor .26 Princípios nucleares do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor e sua extensão como princípio constitucional Autor: Henrique Alves Pinto Sumário: Resumo. 2. Consumo sustentável e o princípio da integração. 4°.3. "D" e V. Legislação infraconstitucional: o momento da parturição do Código de proteção e defesa do consumidor. contida de mandamentos nucleares tais como. 1. 2. 4°. As diretrizes gerais da política e do direito do consumidor. Livre concorrência. 2. O princípio do dever governamental art. 4°. em que demonstra os caminhos por eles percorridos sob a ótica da Teoria Geral do Direito. III e VI. o sistema de proteção e defesa do consumidor brasileiro. princípios gerais de direito. o princípio da proibição do abuso do direito e a função social dos contratos.4. desde a sua constitucionalização até a sua irradiação por entre outros ramos do Direito.7. chama-se a atenção do leitor para um dos mais importantes. 2. 3.art. Abuso do Poder Econômico e Consumidor.078/90. 1. I. Princípio da informação . 2. o Código de Defesa do Consumidor.4. RESUMO O presente trabalho retrata a enorme importância do estudo a cerca do tem. Boa-fé. A defesa do consumidor e sua extensão como princípio constitucional. Bibliografia. 1.8. Princípio da boa fé nas relações de consumo art.2. Princípio do acesso à justiça.2. VI e VII.5. o princípio da vulnerabilidade do consumidor. 4°. Teoria Geral do Direito RESUMÉ . que é o da vulnerabilidade do consumidor. 2.3. II.1. e em particular. senão o mais importante dos princípios do sistema de proteção consumerista. A análise com maior grau de aprofundamento recai sobre a principiologia criada com a elaboração da Lei 8. Princípios fundamentais da política nacional das relações de consumo. PALAVRAS-CHAVE Consumidor. o princípio da eqüidade e a cláusula geral de boa-fé. IV e VIII.6. Princípio da vulnerabilidade do consumidor art. Da constitucionalização dos princípios gerais. Conclusão. 1. 4°. Introdução. 1. O princípio da garantia da adequação art. 2. Dos Princípios Gerais de Direito. II. Princípio da Vulnerabilidade. 2. 2. A Política Nacional das Relações de Consumo e sua abrangência. 2. Dentre estes.1.previsão constitucional.9.

mesmo que tenham seguido o processo correto da dedução. falta de coerência entre as partes.le principe de la prohibition de l'' abus de droit et la fonction sociale des contrats. Parmi ceux-là. uma das propostas de desenvolvimento deste trabalho. Bonne-foi. depuis as constitution jusqu'' à sa penetration dans les autres branches du Droit et.27 Ce travail veut présenter l'' enorme importance de l'' etude concernant les principes généraux du droit dans le cadre des chemins parcouris par lui sous le sceau de la Théorie générale du Droit. O homem equipado de sabedoria percebe facilmente a fragilidade dessa estrutura. celui de da vulnérabilité.078/90. e de evidência no todo. no ato de sua criação. le code de defense du consommateur. de se ter evidentes premissas para se erguer um concreto sistema à base de um forte princípio. L'' analyse plus approfondie retombe sur les principes créés par la loi 8. le système de protection et de défense du consommateur brésilien. não podem dar conhecimento certo de alguma coisa. on attire l'' attention du lecteur sur l'' un des plus importants ou peut-être le plus important des principes du système de protection du consomateur. en particulier. . DOS PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO Sobre os princípios gerais de direito importa citarmos Miguel Reale (1999. celui de l'' égalité et la rubrique générale de bonne foi . Théorie générale du Droit. Principe de la Vulnérabilité. INTRODUÇÃO Todas as conclusões advindas de um princípio que não é evidente. também não podem ser evidentes. danificam o sistema podendo até mesmo levá-lo a sua ruína. destituídos de um conteúdo científico. sendo este. totalmente dotado de uma carga manifestamente principiológica em suas normas. 1. p. inclusive nos sistemas mais bem aceitos e com as maiores pretensões de conter raciocínios mais elaborados. où il y a des points fondamentaux tels que le principe de la vulnérabilité du consummateur. Princípios acolhidos com base na confiança. Daí que todos os raciocínios assentes sobre tais princípios. c'' est-à-dire. MOT-CLÉ Consommateur. Será essa necessidade. além do estudo das ingressões destes princípios no Código de Defesa do Consumidor de 1990.

2002). a resolução para o eventual problema da aplicação dos aludidos princípios gerais.28 305): deve começar pela observação fundamental de que toda forma de conhecimento filosófico ou científico implica a existência de princípios. p." (REALE. ou seja. p. Dessa abordagem lógica da palavra "princípio". 305) Nesse sentido. aqui. os princípios se dividem em três categorias: a) PRINCÍPIOS OMNIVALENTES: quando são válidos para todas as formas de saber. como tais admitidas. não especificados pelo legislador. inexoravelmente. 1999. como é o caso dos princípios gerais de direito. àqueles princípios que "baseados na observação sociológica e tendo como objetivo regular os interesses conflitantes. A expressão princípios gerais de direito é por demais ampla e um autor de grande autoridade como Rubens Limongi França (apud RODRIGUES. encontrada pelo direito suíço . a dos monovalentes." (RODRIGUES. 306). 42). que a aplicação dos princípios gerais de direito. de certos enunciados lógicos admitidos como condição ou base de validade das demais asserções que compõem todo campo do saber. como se dá com o princípio de causalidade. c) PRINCÍPIOS MONOVALENTES: quando só valem como âmbito de determinada ciência. que a presente monografia irá demonstrar: a incidência deles no âmbito das relações consumeristas devido à alta carga principiológica contida no texto da lei de defesa do consumidor. há de se atribuir um sentido diferente a eles. p. p. essencial às ciências naturais. 2002. mas não extensivo a todos os campos do conhecimento. Será essa categoria de princípios. entende que é aos princípios de direito natural que o legislador manda recorrer na lacuna da normatividade. uma vez que o legislador quer referir-se àquelas normas que o orientam na elaboração da sistemática jurídica. impõem-se. como uma necessidade na vida do homem em sociedade. 25) A esse respeito reportemo-nos a Washington de Barros Monteiro (1997. pode-se dizer que "os princípios são ''verdades fundantes'' de um sistema de conhecimento. de acordo com Miguel Reale (1999. como é o caso dos princípios de identidade e de razão suficiente. ressaltemos. Todavia. b) PRINCÍPIOS PLURIVALENTES: quando aplicáveis a vários campos de conhecimento. "Nada existe de mais tormentoso para o intérprete. isto é." Com base nessa posição. por serem evidentes ou por terem sido comprovadas.

Note-se. mas é necessário advertir que a estes não cabe apenas essa tarefa de preencher ou suprir as lacunas da legislação. ao se examinar o direito positivo pátrio. 306). por mais complicadas que estas sejam no interior de um sistema de normas. que para vários juristas essas lacunas não podem e nem verdadeiramente poderão existir. 232): Todo discurso normativo tem que colocar. deve estar . isto significa que: O legislador. Diante desta exposição. é evidente. algo que era impossível ser vislumbrado sequer pelo legislador no momento da futura lei. que condicionam e orientam a compreensão do ordenamento jurídico. citando as palavras do constitucionalista Paulo Bonavides (2002. quer para a sua aplicação e integração. portanto. Para essas lacunas há a possibilidade do recurso aos princípios gerais de direito.29 que dispõe no art. Daí infere-se que todo sistema se quiser adquirir a qualidade de um sistema que se completa e se relaciona por toda a extensão de seu corpo normativo. Nas precisas palavras de Miguel Reale (1999. não merecendo acolhimento esse entendimento. quando a norma jurídica for omissa. p. o certo é que tais elementos constituem uma breve resolução do problema. posto que na própria há elementos para suprir essas lacunas. deve o juiz decidir ''segundo as regras que ele estabeleceria se tivesse de agir como legislador''. sejam eles previstos ou imprevistos. portanto em seu raio de abrangência os princípios aos quais as regras se vinculam. mas não a solução definitiva e concreta dele. Os princípios espargem claridade sobre o entendimento das questões jurídicas. Concluamos este tópico. temos a célebre noção atribuída por Miguel Reale (1999. 25) Assim. por conseguinte. 306). Ora. porém. uma vez que o ordenamento jurídico oferece ferramentas para regular todos os casos possíveis. os costumes e os princípios gerais de direito. quer para a elaboração de novas normas". o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia. Mas de maneira alguma se colocará em dúvida que as lacunas de fato existem no direito positivo. acerca do entendimento deste autor sobre os princípios gerais de direito em que ele nos revela o seguinte: "princípios gerais de direito são enunciações normativas de valor genérico." (RODRIGUES. no art. p. por força do qual. p. p. que tais princípios gerais são imprescindíveis ao direito. restando sempre grande número de situações imprevistas. encontra-se. presentes ou futuros. é o primeiro a reconhecer que o sistema das leis não é suscetível de cobrir todo o campo da experiência humana. 1° do Código Civil deste país que "no silêncio da lei e não havendo um costume a regular uma relação jurídica. 4° da Lei de Introdução ao Código Civil a orientação a seguir. 2002.

mas. p. 97) E para se chegar ao conteúdo intelectual dos textos do Direito através da exegese. nos países com estabilidade política e que se encontram num verdadeiro Estado Democrático de Direito. Neste sentido será a interpretação um ato de vontade e um ato de conhecimento e como ato de conhecimento não caberá à "Ciência do Direito dizer qual é o sentido mais justo ou mais correto. formados de postulados que seguem os preceitos do princípio da identidade que é comum a todos os campos do saber. p. já que nossas constituições não eram respeitadas. pelo menos até pouco tempo atrás. simplesmente. aquele que diz respeito ao modo de referência à realidade. 2002. porque envolve os três planos fundamentais. aquele "tecido pelas formas segundo as quais os utentes da linguagem a empregam na comunidade do discurso e na comunidade social para motivar comportamento. Em vista disso percebe-se "porque não se vinha dando grande importância ao Direito Constitucional. p. de estabilidade política que possam contribuir com o fortalecimento do Estado Democrático de Direito. possui . semântico e pragmático da linguagem jurídica. ao realizar reiteradas incursões nos níveis sintático. 19) Isso acontece devido à falta de um forte regime democrático. 99) 1." (BARROS CARVALHO. Além disso. 2002. 19). Por plano semântico. deverá o intérprete adotar o critério sistemático de interpretação. sempre foi muito comum. Por plano pragmático. sem qualquer menção ao mundo exterior do sistema. Por plano sintático entende-se aquele formado pelo relacionamento que os signos lingüísticos mantêm entre si. p. ou seja. Assim se fixarmos o pressuposto de que o direito positivo é uma camada lingüística de termos prescritivos dirigidos ao comportamento social das relações de intersubjetividade. a qualificação dos fatos para alterar normativamente a conduta. tampouco aplicadas efetivamente"(NERY JÚNIOR. apontar as interpretações possíveis.1 Da Constitucionalização dos Princípios Gerais Em decorrência da alta instabilidade política percebida ao longo dos tempos na história do Brasil." (NERY JÚNIOR. nos seus três planos fundamentais: a sintaxe. Daí a alegação de que a ofensa à Constituição. a semântica e a pragmática." (BARROS CARVALHO. a interpretação e aplicação dos mais variados ramos do direito tomando-se por base "a lei ordinária principal que o regulamentava.30 armado de princípios que emanam de um núcleo central. 2002. percebe-se também que dado esse rigor necessário do corpo principiológico central. nada mais justo que apresentarmos a proposta de interpretação do direito como um sistema de linguagem. 2002. todo e qualquer princípio que daí se irradiar por outros sistemas periféricos estará sendo amparado pela base.

p. Revela também. por ser concreta e completa. Já a fase não programática é uma fase dotada de objetividade. 246). o da função interpretativa e da aplicabilidade da Constituição. No Brasil. através dos princípios contidos em seu corpo. quando este problema é declarado. o que podemos perceber dos ensinamentos deste jurista é que será na Constituição de determinado país que se encontrarão os mais altos valores do Direito Positivo." (apud. (2002. é que podemos chegar. Ressalta ainda Paulo Bonavides (2002. ao grau mais alto a que eles já subiram na própria esfera do Direito Positivo: o grau constitucional". p. a fase programática e a fase não programática". apresentando-se "como mais uma defesa que o interessado opõe à contraparte. Simonius tem razão quando afirma que "o Direito vigente está impregnado de princípios até suas últimas ramificações. p. este constitucionalista. 19) Entretanto. 2002. (2002. ao declarar que o Direito Constitucional é a base fundamental do direito para o país. quando há ofensa à Constituição. suscetível de imediata aplicação. em virtude do aumento significativo de trabalhos e pesquisas jurídicas que abordam o tema da interpretação e aplicação da Constituição Federal. ou seja. "a alegação não é levada a sério na medida e na extensão que deveria". De acordo com Nelson Nery Jr. 246) Por fase programática deve-se entender que é uma fase de concreção. e ao contrário do que se pode perceber na fase programática. p. é dotada de incontrastável juridicidade. posto serem preservados pelos cidadãos orientados por uma carga principiológica que reside na base deste sistema. É da Constituição que se irradiam os princípios que irão se dispersar pelas mais variadas leis infraconstitucionais. p. Partindo desse pressuposto. 20): "O intérprete deve buscar a aplicação do direito ao caso concreto."(NERY JÚNIOR. deve ser consultada a legislação infraconstitucional a respeito do tema." Na verdade. que demandam de operações integrativas em que se percebe a ausência de juridicidade. 1999. dotada de um alto teor de abstração e de perfeição. "numa escala de densidade normativa. p. que "a constitucionalização dos princípios compreende dessas fases distintas. segundo Paulo Bonavides (2002. a normatividade constitucional dos princípios é mínima. 246) o seguinte: Na primeira. na . sempre tendo como pressuposto o exame da Constituição Federal. 306) Deste ponto de partida. Depois.31 conseqüências catastróficas. REALE. essa situação vem apresentando uma grande mudança. sim.

1. já que aqueles possuem maior ou menor incidência nos mais variados ramos do direito. na forma da lei. isto é. salvo o empenho da Filosofia e da Teoria Geral do Direito ao construírem a doutrina da normatividade dos princípios em que se busca uma neutralidade na qual se possa superar antinomia Direito Natural/Direito Positivo. chega-se à seguinte conclusão: O perigo do que se chama aequitas cerebrina. em termos de identidade. para possibilitar uma maior objetividade e aplicabilidade no escopo de suprir as diversas lacunas encontradas entre as leis." (BONAVIDES.Previsão Constitucional A Constituição Federal Brasileira de 1988 considerou como fundamental o direito do consumidor. a defesa do consumidor. 5°. nada mais imprescindível na história contemporânea do Direito Constitucional do que a solidificação dos princípios contidos em seus textos de leis. em nossos dias. o que se pode perceber deste tópico é que. a fase não programática. Fala-se em conteúdo programático neste inciso porque antes da Lei 8. o arbítrio do juiz em sentido contrário ao da lei. no art. Percebe-se. não é necessário entrarmos em maiores detalhes aqui. Assim. entre outras categorias de princípios. deve ser repelida por se opor ao mencionado princípio e às próprias bases racionais do sistema atualmente em vigor. que não foi sem razão que o Constituinte inseriu o direito do consumidor no rol dos direitos fundamentais. certa doutrina pretende restabelecer este arbítrio sob o pretexto especioso da liberdade do juiz ou da jurisprudência. Como já comentamos a respeito da fase programática das normas. estabeleceu em "norma de notório conteúdo programático" (CARVALHO FILHO. que se fará exeqüível "colocar no mesmo plano discursivo.078/90 . o respeito ao Direito Constitucional como lei basilar de todo o ordenamento jurídico dos Estados para a estabilização política e fortalecimento do Estado Democrático de Direito e. pairam ainda numa região abstrata e têm aplicabilidade diferida. p. pois. 2001. Apenas nesta última fase. 19): o Estado promoverá. E se. desapareceu com o nascimento do moderno Estado de direito. p. inc. 275).2 Direitos do Consumidor . Ali. os princípios gerais e os princípios constitucionais. XXXII. tema que não é o propósito desse trabalho. Tanto é que. 246) Portanto. a conversão dos princípios gerais em princípios constitucionais. doutrina é esta que. 2002. retrógada em sua substância e contrária à liberdade apesar de seu nome.32 segunda máxima. p. Ao se estudar a teoria dos princípios gerais de direito proposto por Del Vecchio nas lições de Vicente Ráo (1999. a positividade de sua aplicação direta e imediata. por fim. aqui ocupam um espaço onde releva de imediato a sua dimensão objetiva e concretizadora.

XXXII da Constituição Federal. preestabelecia em si mesmo apenas um programa de ação. 170. como se viu. p. 75): As normas constitucionais programáticas.33 de 11/09/1990. com respeito ao próprio objeto por se tratar de uma norma constitucional programática até então. aquelas determinadas matérias. p.. A. 24. § 1° e 2° da Constituição Federal)." Além de caracterizada como direito fundamental.. mas regulam propriamente a atividade estatal concernente a ditas matérias: têm por objeto imediato os comportamentos estatais e só imediatamente e por assim dizer. Acrescenta ainda Paulo Bonavides (2002. 222). ALVIM." Por se tratar de uma sociedade capitalista. 5°. inc. O produto legislativo da União deverá ater-se à edição de normas gerais. fundada na livre iniciativa na qual se verificam inúmeras formas de abuso de poder econômico. p. J. os Estados e o Distrito Federal para legislar concorrentemente sobre responsabilidade por dano ao consumidor. 1995. VIII da Constituição Federal. E. sendo que os Estados e Distrito Federal possuirão competência suplementar (art. No que diz respeito à competência normativa sobre a matéria. não regulam diretamente as matérias a que se referem. em sua Seção II. Protege-se ainda.. que se refere às limitações ao poder de tributar. em clara preocupação com o grau de informação que deve . como é a brasileira. "ostentam por igual uma dupla eficácia na medida em que servem de regra vinculativa de uma legislação futura sobre o mesmo objeto. o art. nada mais oportuno e justo do que se considerar o direito do consumidor como um direito fundamental. em segundo grau. ALVIM. a defesa do consumidor "se qualifica também como um dos princípios da ordem econômica e financeira (art. 14): No Título IV da Constituição Federal. 24.. Constituição Federal). T. serem competentes a União. determinando que se ofereça o devido esclarecimento acerca dos tributos incidentes sobre bens objeto de relações de consumo. que criou o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. o direito do consumidor (ALVIM. SOUZA. é da inteligência do art. através da normatividade constitucional. o § 5° do art. destinado à tributação e ao orçamento. 150 dispõe que ''a lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços''. inc. Sobre as normas constitucionais programáticas postula Crisafulli (1976. V.

177-178) será: princípio político constitucionalmente conformador. a de estar no ápice do nosso ordenamento jurídico. necessariamente. sobretudo ao legislador. a partir do momento em que buscam introduzir uma nova forma de pensar nos postulados da consciência jurídica. princípio garantia. é mais do que uma mera necessidade. Como será discutido mais adiante o princípio da transparência. é a tônica deste Código de Consumidor. a realização de uma tarefa e um fim a ser atingido e. da sua constitucionalização e irradiação por entre outros ramos do Direito. uma série de direitos ao cidadão. disposições imediatas e emergentes. e de acordo com os dizeres de José Joaquim Gomes Canotilho (1992.078/90 (reitere-se o Código de Defesa do Consumidor). Além disso nota-se também que o dever de bem informar os consumidores. que é o da carga principiológica contida na Lei 8. visto que garante. que é o princípio da boa-fé. nada mais é do que uma irradiação de um princípio basilar residente no corpo principiológico nuclear da Lei 8. como veremos mais detalhadamente no tópico específico destinado à elucidação de sua aplicabilidade. p. vale adiantar brevemente. entre fornecedor e consumidor que a partir do ano de 1990 devem estar. chega-se ao assunto fundamental do presente trabalho. nos declara a importância do tema na órbita da economia brasileira. 1.3 A Defesa do Consumidor e sua Extensão como Princípio Constitucional Após todo este levantamento da trajetória dos princípios gerais de direito. difundido de seu estado de . ou seja. ainda que indiretamente. Dada esta destacada posição de defesa do consumidor. na medida em que indica opção valorativa do constituinte.078/90. antes de abordarmos os princípios específicos desta lei. mas sim um dever que se impõe a todos os fornecedores que oferecem produtos ou serviços no mercado consumerista. o que. que possui grande parte de suas atividades baseadas nas relações de consumo. Todavia. que a necessidade da devida informação acerca do produto que o consumidor venha adquirir. como se percebe pelo fragmento supra citado.34 receber o consumidor. Daí percebe-se que os princípios que envolvem a defesa do consumidor são princípios jurídicos basilares. é princípio constitucional impositivo. pois que impõe aos órgãos do Estado. aliás. Diante disso fica declarada a magnitude de sua garantia constitucional que possui no mínimo. subordinadas aos ditames do Código de Proteção e Defesa do Consumidor no que chama a atenção pela necessidade de sua correta interpretação nos quadros normativos. apontaremos ainda a extensão da defesa do consumidor como princípio constitucional.

no prazo de cento e vinte dias da promulgação da Constituição. Percebe-se portanto que. É preciso. De outro. de acordo com a determinação do art. ou à sua importância estrutural dentro do sistema jurídico. erigido por nossa Lei Maior. mais do que declarado. "Direitos que envolvem a obrigação positiva de atuar. editar norma conflitante com o objetivo do programa constitucional. o legislador. na lei e na justiça. na busca da solução das antinomias que são encontradas nos conflitos entre as normas do sistema. p. Após todas essas exposições. que é o consumidor. na política. identificar tais princípios. Este impôs aos órgãos estatais. p. ou a administração pública.078/90 de 11/09/1990. posto que são mais do que normas dado o seu caráter de fundamentalidade no sistema das fontes de direito. pois. por meio de uma ação coordenada." (TEMER. 1990. ao se tratar de interpretação constitucional dever-se-á identificar quais foram as normas que receberam do legislador constitucional a categoria de princípios orquestradores do sistema de valoração. sobretudo ao legislador. será do núcleo sistêmico de onde emanará toda orientação no intuito de se atingir a devida interpretação normativa. Assim. 2001. p. 187). Entretanto. pela defesa do consumidor" (ZAPATER. que criou o código brasileiro das relações consumeristas. Por fim. nota-se que ele atribui ser papel do legislador apontar quais normas este erigiu à categoria de princípios. está comprovado que a defesa do consumidor é uma garantia constitucional que engloba uma vasta gama de direitos que estão envolvidos em toda a Carta Constitucional ou em outros regimes e princípios colhidos por ela. o Código de Defesa do Consumidor. ao revelar certa pressa para que fosse promulgada a lei de proteção do consumidor. ao buscar uma legislação mais eficiente e específica para tratar de tais situações jurídicas. legislar e decidir. "a realização de uma tarefa e um fim a ser atingido" (ZAPATER. p. mais uma vez. 2001. enquanto o que se . a virtude de corromper de inconstitucionalidade qualquer norma que possa ser um obstáculo à defesa desta figura das relações intersubjetivas de consumo.35 princípio geral da atividade econômica do país.4 Legislação Infraconstitucional . quando consignou que o Congresso Nacional deveria elaborar. uma vez que irão servir "como vetores para soluções interpretativas. após quase dois anos da promulgação da Carta Magna é que foi instituída a Lei 8. 37) Da posição do constitucionalista acima citado. 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). 1. lembra ainda Fábio Konder Comparato (1990. 185). 69): De um lado.O Momento da Parturição do Código de Proteção e Defesa do Consumidor Brasileiro Apesar do amplo otimismo do Constituinte. os Poderes Públicos têm o dever de desenvolver esse programa. não pode.

todavia com objetivo mais restrito. uma nova abordagem é postulada "em que se exige a integração das considerações da política de consumo a outras políticas econômicas e sociais" (BOURGOIGNIE. 2. Numa fase mais recente. buscando um alcance substancialmente mais longo. e seus dados se tornam cada mais significativos à medida que ele vão se estendendo a outros ramos políticos. ajudando-o a exercer um papel atuante no mercado. a política e o direito do consumidor desenvolveramse de forma cada vez mais autônoma.36 tinha antes era a adaptação interpretativa pelos juristas do Código Civil de 1916. 4° do Código de Defesa do Consumidor. do executivo ou do judiciário. ao estabelecer parâmetros que nortearão todo e qualquer ato do governo. sendo esta uma importante faceta daquela. deve-se perceber que uma e outra não são a mesma figura. busca torná-lo mais consciente de suas responsabilidades. À política de defesa do consumidor é dado um objetivo mais amplo de aplicação. protegendo-o dos enganos e . Com o decorrer dos anos. coerente e separada. 2002. uma vez que. Apesar de se confundirem os objetivos expressos da Política Nacional de Relações de Consumo com a defesa do consumidor.1As Diretrizes Gerais da Política e do Direito do Consumidor Antes de dissertarmos sobre a principiologia inserta no art. apontaremos abaixo os aspectos mais comuns de interesse da política tradicional de proteção ao consumidor: a)Educação: uma importantíssima ferramenta de auxílio ao consumidor. direitos e obrigações. nos mais variados casos em que eram envolvidos os sujeitos do consumo. 4°. p. a partir do instante em que se trata das "relações consumeristas" que é uma expressão declaradamente mais ampla do que a "defesa do consumidor". A POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO E SUA ABRANGÊNCIA Estabelece o caput do art. 34). traçam também os objetivos e princípios de toda a Política Nacional de Relações de Consumo. 4° do Código de Defesa do Consumidor Brasileiro. 2. seja na esfera do legislativo. a definição dos objetivos que norteiam a política das relações de consumo. correspondem apenas aos princípios da defesa do consumidor. Daí percebe-se o equívoco em se considerar que os incisos do art. no que quase sempre acabava numa decisão menos favorável aos consumidores.

que são perigosos ou sem segurança. transporte. propaganda e métodos de venda desleais. aumentando a participação de representantes de consumidores no processo de tomada de decisões. Imprescindível que se destaque. acesso a planos de compensação adequados e facilmente acessíveis. cláusulas contratuais. ao possibilitar o acesso efetivo à lei e aos mecanismos de reparação. drogas. instituição de padrões de qualidade. água. brinquedos. o efetivo acesso a mercadorias e serviços básicos. . saúde. dentre eles. regulamentação da especulação de preços. do crédito. revelação das cláusulas contratuais. avisos e instruções de uso. ao criar para os grupos de consumidores. leis e regulamentos entre outros. criminais e administrativas mais adequadas. e)Compensação ao consumidor: tem como objetivo armar o consumidor de meios rápidos e acessíveis de assegurar seus direitos. obrigações de garantia pós-venda. dos empréstimos e de outras transações financeiras do consumidor. comida.37 fraudes. f)Representação dos interesses coletivos dos consumidores: para promover e dar suporte aos grupos de consumidores. planos de garantia de qualidade. intercâmbio de sistemas de informações e supervisão das reservas de mercado. concessão de períodos de controle. entre outros. educação. cosméticos. a realização de recalls. d)Segurança: proteção aos consumidores de produtos ou serviços. preços e tarifas. rotulagem e empacotamento dos produtos. particularmente por meio de específicas regras de responsabilidade. personalidade jurídica ou o direito de ingressarem ações coletivas em cortes e tribunais quando se sentirem lesados. riscos e acidentes relacionados a eles. retirada de produtos quando nocivos aos consumidores e a terceiros. telecomunicações. obrigações de controle sobre processos de produção e distribuição. energia. proibição de propaganda enganosa. b)Informação e conselhos: detalhar cada vez mais as informações e formas de uso sobre produtos e serviços. automóveis. promovendo informações de consumo por meio de fontes independentes. atividades esportivas etc. g)Satisfação de necessidades básicas: como possibilitar a todos. lazer. assim como corretivas que dão aos consumidores. que o objetivo de segurança sobre produto e serviços tais como. saúde etc. desenvolvimento de campanhas públicas de conscientização etc. através de medidas preventivas. estabelecimento de uma rede de Centros de Conselhos para Consumidores. definindo reparações civis. impedimento de cláusulas abusivas em contratos de consumo. tais como exigências de informações. c)Proteção dos interesses econômicos dos consumidores: prevenção de comércio. além de desenvolverem sistemas alternativos para solução de conflitos que sejam eficientes e independentes.

de maneira que os recursos naturais não se esgotem de forma irreversível. Assim percebe-se que o consumo sustentável. tais como: . Todavia.38 2. sobretudo sustentável. a preocupação em proceder ao consumo responsável e. uma vez que da escolha dos consumidores por determinados produtos é que recairão os efeitos sobre os produtores. e para que a criação desta consciência de preservação ao meio ambiente possa vir a colher bons resultados. desde a infância. "enquanto as necessidades do homem são. in verbis: "Sustainable consumption includes meeting the needs of present and future generation for goods and services in ways that are economically. Se o consumidor. quanto no aspecto social. sobretudo se se tiver em conta a ciência de marketing e a publicidade. 2003. Os preceitos desse artigo. aponta a resolução acima citada. esta tarefa não é nada fácil. através do documento "United Nations Guidelines for Consumer Protection". o que poderá trazer drásticas conseqüências. ele estará incentivando cada vez mais a atividade comercial dessa empresa que depreda o meio ambiente no que implicará um forte desequilíbrio. como bem observa José Geraldo Brito Filomeno (2003. 67).Consumo Sustentável e o Princípio da Integração Conforme a resolução da ONU. 42. socially. tanto no aspecto econômico. por governantes e empresários. no intuito de se buscar uma redução dos impactos causados por essas atividades. p. por consumidores informados. consome determinada marca de papel de uma empresa que não pratica o reflorestamento.2. devem ser observadas. ampliado no ano de 1999. de produtos e serviços" (FILOMENO. por exemplo. no seu art.). além das associações de proteção aos consumidores e ao meio ambiente que irão desempenhar importante papel na divulgação da mais adequada informação. ilimitadas. referem-se a uma variedade de políticas. foi eleito como um dos direitos do consumidor universalmente considerado e será um objetivo comum a todos os governos a sua promoção. como se pode perceber. É desse problema que surge "a necessidade de incutir no homem. nada mais é do que um grande cuidado que os homens devem ter no instante que exploram o meio ambiente através de suas atividades econômicas. and environmentally sustainable. por organizações do trabalho. em princípio. são limitados os recursos naturais disponíveis". entre os recursos naturais disponíveis e a atividade industrial. 68). o chamado "consumo sustentável". Tradução nossa. p. A responsabilidade pelo consumo sustentável deve ser compartilhada por todos os membros e organizações da sociedade." (O consumo sustentável deverá satisfazer às necessidades das presentes e futuras gerações por meio de benefícios e empreendimentos que contribuam pela higidez do meio ambiente.

. 43. como bem observa Thierry Bourgoignie (2002. É desta atividade que trabalha com a inter-relação que temos o princípio da integração.3. Diante disso. mas também aos consumidores. saúde. não recairá apenas aos produtores. p.39 telecomunicações. 37).° A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores. Portanto conclui-se que o consumo sustentável." (Os governantes devem promover a implementação e o desenvolvimento de políticas que tenham como objetivo o consumo sustentável além da integração dessas políticas a outras políticas públicas. 36). aos fornecedores. o qual se encontra consubstanciado no texto do art. da diretriz geral de proteção ao consumidor editada pela ONU. de 21 de março de 1995. a proteção de seus interesses econômicos. ao fazer com que todos tomem consciência da dimensão ecológica do processo consumerista em geral e de seu comportamento individual particular. deverá ser limitada em prol do meio ambiente e que os interesses da coletividade e benefícios individuais a curto prazo. 4. daí observa-se que o processo de integração é extremamente complexo.° 9. o respeito a sua dignidade. 2. saúde e segurança. sociedade de informação. proteção ambiental e agrícolas. A responsabilidade pela proteção ao meio ambiente. bem como a transparência e harmonia das relações de consumo. A livre escolha dos consumidores. in verbis: "Governments should promote the development and implementation of policies for sustainable consumption and the integration of those policies with other public policies. 2002.reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo. que devem procurar consumir produtos menos nocivos ao meio ambiente. atendidos os seguintes princípios: I . 4° do Código de Defesa do Consumidor de acordo com a nova redação dada ao artigo pela Lei n. in verbis: Art. "colocará sua marca na política e no direito do consumidor". entre outros entes da cadeia empresarial. o que não é nada fácil já que implica numa mudança nos seus hábitos. p. infere-se que "a qualidade de vida ou direito de viver num ambiente saudável tornou-se um dos direitos fundamentais dos consumidores" (BOURGOIGNIE. a melhoria da sua qualidade de vida. nutrição. que devem ser desenvolvidas numa estratégia rumo à integração dos dados de consumo.Princípios Fundamentais da Política Nacional de Relações de Consumo Para melhor se compreender o corpo principiológico do art.).008. Tradução nossa.

170. p. quanto aos seus direitos e deveres. de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art.estudo constante das modificações do mercado de consumo. V . I . assim como de mecanismos alternativos de solução de conflitos de consumo. Eduardo Arruda Alvim e Jaime Marins (1995. que possam causar prejuízos aos consumidores. II .incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços.Princípio do Acesso à Justiça . da Constituição Federal).ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor: a) por iniciativa direta. com vistas à melhoria do mercado de consumo.Princípio da Garantia de Adequação IV. III.Princípio do Dever governamental III. c) pela presença do Estado no mercado de consumo.harmonização dos interesses dos particulares dos participantes das relações de consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico. citados abaixo: I-Princípio da Vulnerabilidade II. IV . b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas. d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade.Princípio da Informação VI. Thereza Alvim.educação e informação de fornecedores e consumidores. sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores. VI.coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo. 44).racionalização e melhoria dos serviços públicos.40 II . inclusive a concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciais e signos distintivos. De acordo com Arruda Alvim.Princípio da Boa-fé nas relações de consumo V. pode-se dizer serem seis os princípios fundamentais da Política Nacional das Relações de Consumo.

e é tido como o núcleo base de onde se irradia todos os outros princípios informadores do sistema consubstanciado no Código de Defesa do Consumidor. crédulos ou espertos. consequentemente acaba se submetendo ao poder dos detentores destes. atua como elemento informador da Política Nacional das Relações de Consumo. como por exemplo. ou então. os analfabetos quando se encontram diante de uma situação em que podem assinar um contrato de plano de saúde sem os devidos esclarecimentos a respeito de suas cláusulas contratuais contidas no corpo contratual. no que surge à necessidade da criação de uma política jurídica que busque a minimização dessa disparidade na dinâmica das relações de consumo. por estarem desprovidas de outros indispensáveis alimentos em sua dieta. por não dispor do controle sobre a produção dos produtos. que é uma característica restrita a determinados consumidores. Já a hipossuficiência é marca pessoal. qualidade ontológica (essencial. p. ricos ou pobres.4 Princípio da Vulnerabilidade do Consumidor . cultural ou econômica. Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin (1991. 2. seja ele consumidor-pessoa jurídica ou consumidorpessoa física. a partir do momento em que se examina a cadeia consumerista. Isto acontece. Deve-se notar também que. 224225) demonstra a diferença entre a vulnerabilidade e hipossuficiência: A vulnerabilidade é um traço universal de todos os consumidores. ao levar um automóvel seu numa . intrínseca) e indissociável do consumidor numa relação de consumo. em sua situação individual carentes de condições culturais ou materiais. que além de presumivelmente vulneráveis são também. limitada a alguns . de acordo com o conceito legal preceituado pelo art. entre outros alimentos supérfluos em que o exagero no consumo destes podem levá-las a ter vários problemas no seu desenvolvimento natural. 2° da Lei 8.até mesmo a uma coletividade . nuclear. A vulnerabilidade.078/90. a vulnerabilidade do consumidor não se confunde com a hipossuficiência. dado o propósito desse trabalho.mas nunca a todos os consumidores. educadores ou ignorantes. crianças que são expostas diariamente aos diversos anúncios de chocolates.Art. numa hipotética situação. Com precisão. Diante disso temos que. independentemente da sua condição social. 4°. determinado médico neurocirurgião de grandes títulos durante a carreira. Este princípio. I.41 Todos estes princípios supra citados. ao perceber que o consumidor é o elemento mais fraco dela. serão devidamente analisados nos subtópicos que se seguem.

segundo Celso Antônio Bandeira de Melo (2002. para armá-lo de certos instrumentos para que ele possa melhor defender-se. esta expressão "tratamento desigual aos desiguais" de Aristóteles. garantida pela Constituição. como. mas também sob o aspecto econômico. 207) têm-se as seguintes condições: A igualdade dos sujeitos na ordenação jurídica. entre crianças e adultos.5 O Princípio do Dever Governamental . 320) que "permeia as relações de consumo está em verdade a dar realce específico. . A igualdade assim entendida não é concebível: seria absurdo impor a todos os indivíduos exatamente as mesmas obrigações ou lhes conferir exatamente os mesmos direito sem fazer distinção entre eles. II. Além destas constatações. por exemplo. 4°. Sob esta ótica. Daí o porquê se parte do princípio da fraqueza manifesta do consumidor no mercado. além de deter o processo tecnológico da fabricação de seus produtos. indivíduos mentalmente sadios e alienados. dispensando-se tratamento desigual aos desiguais". Sem fazer contestação ao teor do que nela se contém e reconhecendo. ao prover o consumidor. VI e VII Este princípio. homens e mulheres. ao princípio constitucional da isonomia. se percebe que é mister da Lei 8. a oficina mecânica prestadora do serviço). dever ser compreendido sob dois principais aspectos. observa-se também que o princípio da vulnerabilidade de acordo com Nelson Nery Júnior (1991. não apenas sobre o aspecto técnico. VI e VII do art. pois entre um e outro extremo serpeia um fosso de incertezas cavado sobre a intuitiva pergunta que aflora ao espírito: Quem são os iguais e quem são os desiguais?" E de acordo com Hans Kelsen (1998. p. 4° do Código de Defesa do Consumidor. ao consumo tanto básico quanto exagerado. 2. sua validade como ponto de partida. por não conhecer nada a respeito de mecânica de motores automotivos. elencado nos incisos II. dos mecanismos suficientes que proporcionam a sua efetiva proteção. 11): "deve-se negar-lhe o caráter de termo de chegada. pode ser considerado vulnerável frente ao fornecedor (neste caso. p. p. é insuficiente para desate do problema. II. Todavia. não significa que estes devam ser tratados de maneira idêntica nas normas e em particular nas leis expedidas com base na Constituição.42 oficina mecânica para a realização de reparos no veículo.Art. seja ele pessoa jurídica ou pessoa física. "b") ou até mesmo de fornecedores. 4°. já que este é a parte detentora dos mecanismos que induzem aquele. dos mais diversos setores e interesses nas relações consumeristas. enquanto sujeito máximo organizador da sociedade.078/90 colocar em equilíbrio jurídico o consumidor e fornecedor. O primeiro é o da responsabilidade atribuída ao Estado. ao colocá-lo sob um intenso bombardeamento de anúncios. seja através da iniciativa direta do Estado (art.

demarcando o Código que as empresas deverão ser incentivadas para a criação de mecanismos eficazes de controle de qualidade de produtos e serviços. têm criado os conhecidos "departamentos de atendimento ao consumidor". em qualquer hipótese. II. A concretização desse princípio. §2° e § 3° do mesmo diploma. II. Preocupadas com tais aspectos.10° §1°. a proteção de seus interesses econômicos e a melhoria da sua qualidade de vida. ao surgir aqui a figura do Estadofornecedor além de suas eventuais responsabilidades. atendendo completamente aos objetivos da Polícia Nacional das Relações de Consumo. VIII). que é o fim perseguido pelo sistema de proteção e defesa do consumidor. a quem está incumbido o dever de fiscalização. fala-se muito na chamada "qualidade total".ao mesmo tempo que recebem reclamações de determinados produtos ou serviços. obrigando-se os fornecedores. não irá se discuti-lo aqui). qualidade/segurança. a dar informações necessárias e adequadas a seu respeito.6 Princípio da Garantia da Adequação . indica que a prevenção de danos é a política que deve ser prioritariamente buscada pelas empresas. o que contribui de maneira inteligente para o desenvolvimento das próprias atividades empresariais.43 O segundo aspecto é o enfoque sob o "princípio do dever governamental". in verbis. qualidade/segurança. no que diz respeito à sua dignidade. vale ressaltar também que o princípio da garantia de adequação contido no art. 8° Os produtos e serviços no mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores. . também recebem valiosas sugestões de consumidores. que demonstram uma dupla atribuição: . 4°. 8° parágrafo único e art. "D" e V É o princípio que emana a necessidade da adequação dos produtos e serviços ao binômio. uma vez que o Código do Consumidor é adepto do princípio da "responsabilidade objetiva". elencado no caput do art. Atualmente. Por fim. 4°. 4°. 4°. em que é dever do próprio Estado de promover continuadamente a "racionalização e melhoria dos serviços públicos" (art. aliada à inversão do ônus da prova (como este assunto não é a proposta de discussão do presente trabalho. diz respeito ao binômio. saúde e segurança. 2. "d" e V do Código do Consumidor encontra-se amparado pela inteligência dos art. consistente no atendimento dos eventuais problemas dos consumidores. respectivamente: Art. instruindo-os em como melhor servi-los. que é uma outra atribuição do "princípio de dever governamental" o qual já se expôs. várias empresas. exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição.Art. fica a cargo do fornecedor que será oficialmente auxiliado pelo Estado.

nos dizeres de Silvio Rodrigues (2002. e a proteção contratual. merecedora de especial destaque de acordo com o inciso IV do art. III e VI Este princípio nas relações de consumo. 4°. 60): "um conceito . mesmo que ocupem posições antagônicas frente ao conflito de seus interesses. ao fabricante cabe prestar as informações a que se refere este artigo. 6°).44 Parágrafo único.Art. está expressamente referido no inciso III. deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores mediante anúncios publicitários. os Estados. a publicidade. às expensas do fornecedor do produto ou serviço. encontra-se difundido em grande parte dos dispositivos do Código do Consumidor. § 3° Sempre que tiverem conhecimento de periculosidade de produtos ou serviços à saúde ou segurança dos consumidores. Art. 51 do Código do Consumidor. que considera nulas de pleno direito cláusulas contratuais que "sejam incompatíveis com a boa-fé e eqüidade". e. os componentes da relação consumerista devem buscar o objetivo comum de melhor e com mais eficiência. orientando basicamente os capítulos referentes às práticas comerciais. que traz uma carga significativa de regra geral de comportamento. percorrendo pelo capitulo referente à reparação por danos pelo fato do produto. de certa maneira. tiver conhecimento da periculosidade que apresentem. posteriormente à sua introdução no mercado de consumo. através de impressos apropriados que devam acompanhar o produto. o Distrito Federal e os Municípios deverão informá-los a respeito. p. do art. 2. § 1° O fornecedor de produtos e serviços que. indicadas no caput do art. que deve ser buscada pelos dois pólos componentes das relações de consumo: consumidor e fornecedor. rádio e televisão. serão o resultado da conduta geral da boa-fé. fazer circular produtos e serviços com objetivo da geração de riquezas e benefícios a todos os integrantes do mercado de consumo. Será a boa-fé. A harmonia das relações de consumo e a transparência. 4°. a União. 4° como um dos escopos da Política Nacional das Relações de Consumo. desde a instituição de seus direitos básicos (art. e. 10° O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança. § 2° Os anúncios publicitários a que se refere o parágrafo anterior serão veiculados na imprensa.7 Princípio da Boa-Fé nas Relações de Consumo . Nesse sentido. Em se tratando de produto industrial.

A história do homem é a história da luta entre idéias. o primado básico da boa-fé será "o princípio máximo orientador do CDC" (MARQUES. o elemento regente da Lei 8. com o objetivo de coibir que os cidadãos sejam levados a consumir pela ilusão. é o caminhar dos pensamentos. 256). percebe-se que a informação circula com maior velocidade por estar difundida nos mais variados meios de comunicação que a massificam com muito mais intensidade. em que o fornecedor deve sempre prestar informações sobre produtos ou serviços de quaisquer natureza que ele ofereça no mercado. divulgação. 4°. 256). 2002. p. p. publicidade. são objetivos em parte do Código do Consumidor." (MARQUES.45 ético. O pensar e o transmitir o pensamento são tão vitais para o homem como a liberdade física". em que este revela um importante pensamento a respeito da informação: "Não há sociedade sem comunicação de informação. e não através da realidade. 671). com várias normas dispostas a destacar a extrema cautela com que tais temas devam ser encarados. como por exemplo. Por um dos princípios adotados pelo Código de caráter acessório. "o princípio da transparência (art. 4°.8 Princípio da Informação . caput) que não deixa de ser um reflexo da boa-fé exigida aos agentes contratuais. moldado nas idéias de proceder com correção. p. o "princípio da veracidade". p. constata-se a presença . com dignidade. o de saber melhor no ato da decisão." Como se pode perceber. p.Art. "para que o homem não seja levado a assumir comportamentos que não correspondam a uma perfeita compreensão da realidade" (DE CARVALHO. Desse modo será a informação. necessário é citar a importância da informação de acordo com o jurista Luis Gustavo Grandinetti Castanho de Carvalho (2002. e é através deste princípio nuclear que não apenas os pólos atuantes da relação de consumo. mas até a própria legislação consumerista sofre reflexos dele. 2002. que o direito de informação existirá expressamente no Código de Defesa do Consumidor Brasileiro. Será deste interesse jurídico. pautando sua atitude pelos princípios da honestidade. informação dentre outros.078/90 ao ter como corolário a educação. Matérias que se referem a educação. 2002. 2002. 671) 2. fazendo com que a informação passe "a ter uma relevância jurídica antes não reconhecida" (DE CARVALHO. Como se vive num mundo globalizado em que a tecnologia a cada dia que passa caminha a passos cada vez mais largos. 255). da boa intenção e no propósito de a ninguém prejudicar. devem se localizar no momento do ato de consumo. IV E VIII Antes de se iniciar este tópico.

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deste princípio em inúmeros artigos do código, além do art. 4°, tais como; o art. 6° (dos direito básicos do consumidor); arts. 8° e 10° (citados no tópico referente ao princípio da garantia de adequação); arts. 18, 19 e 20 (vício do produto); arts. 30, 31 e 35 (oferta); arts. 36, 37 e 38 (publicidade e marketing); 43 e 44 (bancos de dados e cadastros); art. 56 (sanções administrativas); por fim, os arts. 60, 63, 64, 66, 67 e 72 (infrações penais). Todavia há de ressaltar-se que, independentemente da preocupação que os redatores da lei consumerista brasileira tiveram com a informação, esta só poderá ser estendida aos cidadãos de maneira mais eficiente, se as autoridades derem mais atenção a educação básica, que é uma condição indispensável para o completo exercício da cidadania. Uma proposta a esta problemática, seria a introdução, ou melhor dizendo, reintrodução da disciplina de educação moral e cívica nos currículos escolares de 1° e 2° graus, com o objetivo de fazer com que crianças e adolescentes comecem a criar uma cultura para melhor consumirem e orientarem seus pais, durante o ato de consumo, como por exemplo, saber avaliar a qualidade do produto além de suas condições de higiene, suas condições de exposição para venda, dos componentes artificiais, do valor calórico dos alimentos que devem estar dispostos numa tabela nutricional impressa no rótulo das embalagens, o prazo de validade para consumo dos produtos, dentre outros aspectos de cunho sócio-econômico. Todavia Hélio Jaguaribe (apud, ALVIM, A.; ALVIM, T.; ALVIM, E.; SOUZA, J. 1995, p. 48-49) chama atenção desta questão social da seguinte maneira: O Brasil tem demonstrado capacidade para mobilizar forças e enfrentar problemas sociais. Em tempos recentes, as comunicações, o programa do álcool, as hidrelétricas, a industrialização diversificada, a produção de grãos e a ampliação do comércio exterior, em diferentes setores, constituíram provas eloqüentes dessa afirmação. A educação do povo, entretanto, sendo questão da mais transcendente magnitude - pois dela também o equacionamento de todos os problemas, incluindo os políticos, sociais e econômicos - não tem acompanhado sequer as exigências mínimas do país, apesar de ser dever imperioso da nação para com seus filhos e garantia de seu próprio bem-estar. Concluindo, independentemente do instrumento jurídico que se tenha, por mais avançado que seja, acabará sempre se esbarrando nos problemas sociais, ou seja, na carência cultural que acompanha a população brasileira. Daí que várias empresas, sejam elas multinacionais ou nacionais acabam, na maioria das vezes, se aproveitando da ignorância alheia ao construir seus mega impérios econômicos centralizadores de preços e extintores de quaisquer modalidades de concorrência nos mercados. 2.9 Princípio do Acesso à Justiça

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Primeiramente, far-se-á um breve relato deste princípio no campo constitucional do qual ele emana através do art. 5°, inc. XXXV da Constituição Federal de 1988 in verbis: "a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito", e segundo Nelson Nery Jr. (2002, p. 98) tem-se: "Embora o destinatário principal desta norma seja o legislador, o comando constitucional atinge a todos indistintamente, vale dizer, não pode o legislador e ninguém mais impedir que o jurisdicionado vá a juízo deduzir pretensão". Isto significa que todos têm direito do acesso à justiça para pleitear a tutela jurisdicional reparatória ou preventiva, no que diz respeito a um direito. Contemplando-se aqui tanto direitos individuais quanto coletivos. Todavia, este princípio não está expresso nos incisos do art. 4° do CDC, mas ele se reveste de suma importância, a partir do momento em que o legislador do diploma consumerista, teve como uma de suas grandes preocupações a busca pela criação de novos mecanismos, que pudessem facilitar ainda mais o acesso dos cidadãos à justiça, como um meio de defesa de seus direitos, daí se observarão consubstanciados em vários artigos do código alguns desses caminhos. E para que o consumidor se atenha desta efetividade, conforme Arruda Alvim (1990, p. 31) ensina em termos processuais: a palavra ''efetividade'' alcança uma conotação principalmente sociológica e não meramente jurídico-formal, mas no sentido de que o que conta, em última análise, não é tanto a existência de uma normatividade completa e lógica, em que todos os direito são protegidos pela letra da lei e pelo sistema, mas tão somente aparentemente funcional, pois na verdade, normatividade jurídica, ainda que exaustiva, não é suficiente para satisfazer às aspirações sociais dos segmentos numericamente predominantes e desprotegidos da sociedade. Antes de se prosseguir com o estudo deste princípio, vale a pena diferenciar o que são as concepções jurídico-formais, das concepções jurídico-materiais, apresentadas pelos autores, Antônio Carlos de Araújo Cintra; Ada Pellegrini Grinover e Cândido Rangel Dinamarco (1999, p. 40), em que a primeira é "o exercício conjugado da jurisdição pelo Estado-juiz, ou seja, o complexo de normas e princípios que regem tal método de trabalho", já a segunda, é "o corpo de normas que disciplinam as relações jurídicas referentes a bens e utilidades da vida (direito civil, penal, administrativo, comercial, tributário, etc.)". A necessidade de se dar efetividade ao processo, e facilitação ao acesso à justiça, demandou que se fortalecesse o consumidor, ao inseri-lo numa ordem mais ampla a partir do instante em que se construiu mecanismos processuais que davam tratamento coletivo de pretensões individuais, que se agissem isoladamente pouquíssimas condições teriam de obterem um resultado mais satisfatório.

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E por mencionar o "tratamento coletivo", destaca-se brevemente as ações coletivas de modo geral, que visam a tutela dos interesses difusos (art. 81, parágrafo único, I do CDC), interesses coletivos (art. 81, parágrafo único, II do CDC) e os interesses individuais homogêneos de origem comum (art. 81, parágrafo único, III do CDC). Como dissertado um pouco atrás, em que o princípio do acesso à justiça não se encontra expresso na redação do art. 4° do Código do Consumidor, mas sim exposto por outras normas do mesmo diploma, exemplo deste caso é o que acontece com o art. 6° inc. VII, in verbis: "Art. 6°, inc. VII: o acesso aos órgãos judiciários e administrativo com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção jurídica, administrativa e técnica aos necessitados;" do Título III do CDC que cuida da defesa do consumidor em juízo, ao oferecer a oportunidade de fazer valer seus interesses, inclusive, como já se observou no inc. VII supra citado, de natureza coletiva, e "mediante a ação de órgãos e entidades com legitimidade processual para tanto, sem prejuízo dos pleitos de cunho nitidamente individuais" (FILOMENO, 2001, p. 127). Por fim, com a criação de instrumentos adequados para a proteção do consumidor, nascem dois planos distintos de incidência. O primeiro, se relaciona às possibilidades que se criam para a efetivação da proteção do consumo em juízo, ao contribuir para que se extraia resultados claros e objetivos pertinente ao direito de consumo. A segunda incidência não decorre do uso destes mecanismos em juízo, mas simplesmente de sua potencialidade de uso, ao clamar pela importância da mudança de mentalidade do consumidor, a partir do momento em que ele irá pressionar cada vez mais o Estado, no intuito de conseguir a tutela específica exigidas pelas relações de consumo, que demandam maior agilidade por parte dos órgãos públicos, armando o consumidor do seguinte slogan de que "quem reclama sempre alcança".

3. LIVRE CONCORRÊNCIA, ABUSO DO PODER ECONÔMICO E CONSUMIDOR Conforme a posição de José Geraldo Brito Filomeno (2003, p. 69), diante sua exposição acerca da defesa da ordem econômica, será esta a razão final proteção dos interesses e direito dos consumidores, eis que destinatários finais tudo o que é produzido no mercado, seja em matéria de produtos, seja na serviços". de "a de de

Assim, diante de toda essa principiologia apresentada pelo texto do art. 4° do Código de Consumidor, tema deste trabalho, percebe-se que o diploma consumerista nada mais fez do que colocar na prática, durante o relacionamento entre consumidor e fornecedor, os preceitos constitucionais do Título VII (Da Ordem Econômica e

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Financeira), como um dos princípios que regem a atividade econômica (Capítulo I), ao destacar a importância da proteção ao consumidor, como sujeito mais fraco (vulnerável) da cadeia que compõe as relações de consumo. De acordo com o art. 170 da C.F/88, expressamente referido pelo art. 4° do CDC, diz ele que "a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa tem por fim assegurar a todos, existência digna, conforme ditames da justiça social", observados princípios bem delineados, dentre os quais figuram a livre concorrência e a defesa do consumidor (cf. incisos I e IV, respectivamente, ainda do citado art. 170 da CF/88.) Mais adiante, o art. 173 da Carta de 1988, nos seus § 4° e 5° declaram o seguinte, in verbis: Art. 173, § 4°. A lei presumirá o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados, à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros. § 5°. A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica, estabelecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular. Daí percebe-se, conforme foi observado pelos textos desses dispositivos constitucionais supra citados, a definição do que vem a ser abuso do poder econômico, ou seja, "qualquer forma de manobra, ação, acerto de vontades, que vise à eliminação da concorrência, à dominação de mercados e ao aumento arbitrário de lucros" (FILOMENO, 2003, p. 70). Não obstante, está claro que a proteção e o incentivo às práticas leias de mercado, não interessam apenas aos consumidores, assim como aos fornecedores, que necessitam de uma livre concorrência entre os setores empresariais para que se obtenha uma melhoria da qualidade de produtos e serviços com o aprimoramento da tecnologia, além de melhores opções aos consumidores. Assim observa-se que, se a livre concorrência não é garantida pelo Estado, o mercado será dominado por poucos, o que gera conseqüências drásticas aos cidadãos, tais como, o aumento de preços de produtos e serviços, a queda de sua qualidade, a falta de opções de compra e a obsolência tecnológica. E para que se evite tais abusos, vários mecanismos jurídicos foram instituídos para protegerem os cidadãos, dentre eles a Lei 8.884 de 11 de junho de 1994, que transformou o Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE - em autarquia, dispondo sobre prevenção e repressão às infrações contra a ordem econômica, através do que reza o seu parágrafo único do art. 21, incs. I, II, III, IV, in

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verbis: Parágrafo único. Na caracterização da imposição de preços excessivos ou do aumento injustificado de preços, além de outras circunstâncias econômicas e mercadológicas relevantes, considerar-se-á: I - o preço do produto ou serviço, ou sua elevação, não justificados pelo comportamento do custo dos respectivos insumos, ou pela introdução de melhorias de qualidade; II - o preço do produto anteriormente produzido, quanto se tratar de sucedâneo resultante de alterações não substanciais; III - o preço de produtos e serviços similares, ou sua evolução, em mercados competitivos comparáveis; IV - a existência de ajuste ou acordo, sob qualquer forma, que resulte em majoração de bem ou serviço ou dos respectivos custos. Deve-se lembrar que para se caracterizar o aumento arbitrário dos lucros, há de se observar também o grau de concentração econômica do setor acusado de tal prática. Diante disso, examine-se o que preceitua o § 2° do art. 20 da Lei 8.884/94, in verbis: Art. 20 § 2°. Ocorre posição dominante quando uma empresa ou grupo de empresas controla parcela substancial de mercado relevante, como fornecedor, intermediário, adquirente ou financiador de um produto, serviço ou tecnologia a ele relativa. "E o § 3° arremata essa ordem de idéias acrescentando que ''a parcela de mercado requerida no parágrafo anterior é presumido como sendo da ordem de 20% (vinte por cento)''" (FILOMENO, 2003, p. 71). Ainda de acordo com José Geraldo Brito Filomeno (2003, p. 71), tem-se: A infração de que ora se cuida, portanto, é tipificada pelo inc. III do art. 20 da Lei n° 8.884/94, complementada pelos seus três parágrafos, sobretudo os ora colacionados e suplementada, em termos de metodologia, pelos incisos também ditados do art. 21, no tocante à sua apuração. Portanto, pode-se se conceituar o termo "aumento arbitrário de lucros" como aquele que exceder o limite razoável, levando em conta o teor da concentração de determinado setor da economia, diante o disposto da inteligência do art. 21 da Lei 8.884/94, além de outros dados socioeconômicos e a política das relações de

as especulações no mercado.158/91 e a Lei 4. sem mencionar os textos jurídicos que tipificaram os delitos contra a ordem econômica e as relações de consumo. não apenas a Lei 8. 72). fica vedado ao fornecedor. V do referido art. in verbis: "exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva". pois além dele. in verbis: Art. que modificou o art. 2003. FILOMENO. sem prejuízo da ação popular.884/94. em sua privacidade e em seu patrimônio. Por fim. através de leque diversificado de medidas protetivas e sancionamento (preventivos ou repressivos). diversas prescrições previstas no art. em sua seção IV. as ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados: . Um outro comportamento abusivo que merece destaque é o disposto no inc. por Filomeno desenvolvido. Bittar prossegue nesse raciocínio. Assim serão destas leis. p. (FILOMENO.078/90. inc. 1° Regem-se pelas disposições desta Lei. tais como. em indefinição de preços ou condições. "Essas práticas". 2003. a Lei n° 8. em investidas. 71). elevar sem justa causa o preço de produtos e serviços. em detrimento do consumidor de produtos e serviços ao revelar que: Residindo. que excedem os limites normais da prática comercial e. de acordo com Carlos Alberto Bittar (apud. ensejam sanções pela Secretaria Nacional de Direito Econômico (SNDE) e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) quando declarado estiver o aumento abusivo dos lucros dos detentores da cadeia de produção. p.137/62. avançam em correspondência com uma necessidade real. Com relação ao Capítulo V do Título I. X ao dispor que. V. outro aspecto que merece ser destacado é o art. mas também a Lei 8. ou ao realizado.51 consumeristas. merecem rigoroso regime repressivo no Código. 71): ao turbarem a livre possibilidade de escolha do consumidor. 1° da Lei 7. acrescendo-lhe ônus injustificados que em uma negociação normal não estariam presentes. 2003. 39 se relacionam intimamente com algumas outras disposições legais. quanto a caracterizarem os abusos do poder econômico "prática abusiva manifesta". no seu inc. 39 do CDC. que diz o seguinte. p. ou em cobrança de valores excedentes ao ajustado.347/85 (Ação Civil Pública). no plano negocial. os acordos entre concorrentes dentre outros tipos de articulações os "exemplos típicos de abuso nesse campo de lesão aos consumidores" (FILOMENO. ou em recusas. "Das Práticas Comerciais" do CDC. 39 do CDC. no âmbito de serviços.

constante do art. Além disso.] é crime contra a ordem econômica aquela conduta. o que revela uma infração à ordem econômica.. de 24 de julho de 1985. . 73) CONCLUSÃO 1. por força do art. e a dominação do mercado. dado ao fato desta categoria de princípios serem comuns a todas as formas de saber. diz o art. p. os preços de seus produtos ou serviços. a proteção ao meio ambiente.347. José Geraldo Brito Filomeno (2003. consequentemente aumentará sua margem de lucro.]. previstos nesta Lei as disposições do Código de Processo Civil e das Leis 7. à ordem econômica. valendo-se de posição dominante no mercado". 88 da Lei 8. ao consumidor.Apesar dos princípios gerais de direito estarem enquadrados na categoria dos princípios monovalentes. in verbis: II . 2003.inclua. II do art. in verbis: "Aplicam-se subsidiariamente aos processos. 73): [. não se pode deixar de levar em conta que eles também são princípios omnivalentes. [. 5° modificado no que diz respeito às condições para a legitimação de entidades com vistas à propositura de ações coletivas.134/90 estatuiu que se considera consistente a conduta que "elevar. No que se refere à tutela penal a Lei 8. o inc.884/94. à livre concorrência. sem justa causa. turístico e paisagístico. em que só valem no âmbito de determinada ciência.. que. e 8. Com relação aos aspectos processuais e procedimentais.por infração da ordem econômica e da economia popular. 83 da Lei 8.. (FILOMENO. o preço de bem ou serviço.078/90 de 11 de setembro de 1990".. por exemplo". e não uma mera elevação de preços de seus produtos e serviços. o delito será de mera conduta ou formal..] se verifica com a simples constatação de que houve a elevação de preços sem justificativa plausível... 21 da Lei 8. por óbvio. esta lei teve. estético.. entre suas finalidades institucionais. exigindo-se do acusado que demonstre que houve justa causa para a elevação do preço. administrativos e judicial. histórico. sempre tendo-se em vista. p.884/94. e em setor econômico no qual o infrator desfruta de posição dominante em virtude de monopólio ou oligopólios. Por conseguinte.52 [.884/94. Assim conclui. Se o agente aumenta sem quaisquer fundamentos. ou ao patrimônio artistíco.] V. pois: "[.

informação e conselhos.078/90 foi uma extensão do princípio constitucional elencado pelo art. 4° do Código de Defesa do Consumidor. na forma da lei. num primeiro momento. inc. está prevista legalmente no caput do art.53 2. XXXII da Carta Magna do Brasil. deve se buscar a compreensão de seu princípios. 9. que busca a união de vários setores políticos quanto econômicos. 6. para uma melhor aplicação e integração de seus textos. mais fraco será o respeito aos valores postulados pelo sistema constitucional do mesmo.O art.A criação da Lei 8. 5°. 12. se encontrava na sua fase programática. XXXII da Constituição Federal da República Federativa do Brasil. O consumo sustentável é a necessidade de que o homem deve se policiar cada vez mais no hábito de seus consumos.São aspectos mais comuns de interesse da política tradicional ao consumidor. ou melhor. 4. antes do ano de 1990. 3. 8. na ação .Os princípios gerais de direito atingem o seu apogeu. que buscam uma melhor forma de atender às necessidades básicas do homem aliada à proteção ao meio ambiente. 48 da ADCT (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias). 5°. que preceitua que o Estado promoverá.Para melhor análise do corpo normativo de um sistema jurídico. representação dos interesses coletivos dos consumidores e satisfação das necessidades. a filosofia de ação da defesa do consumidor está esculpida no texto do art. ao fundamentarse no reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado. 11. para depois examinar as leis infraconstitucionais. a defesa do consumidor. segurança. compensação ao consumidor.A Política Nacional das Relações de Consumo. para que este não se degrade de forma irreversível ao atender às suas necessidades básicas através do consumo exagerado. os seguintes tópicos: educação.O princípio da integração é uma estratégia política.É tarefa do intérprete buscar o exame dos ditames constitucionais na busca de soluções aos fatos que se apresentam no seio da sociedade. de caráter interdisciplinar. inc.Os princípios basilares. ou durante o ato da criação de novas normas.Quanto maior a instabilidade política de um país. proteção dos interesses econômicos dos consumidores. 4° e seus incisos do CDC. no intuito de preservar o meio ambiente. 10. que foi o momento da criação do Código de Defesa do Consumidor através do art. 7. a partir do momento em que alcançam a mais alta posição do Direito Positivo que é o grau constitucional. 5.

15. Curso de Direito Constitucional. Código de Defesa do Processual Civil. Antônio Herman de Vasconcelos. Vol. Paulo de.137/62.54 governamental no sentido de protegê-lo efetivamente. 1990..- .Apesar da grande falta de resultados mais concretos efetivos. 2002. na educação e informação de fornecedores e consumidores. BOURGOIGNIE. BENJAMIN.A informação é uma das maiores armas das quais os consumidores. 12. James Marins de. assim como de mecanismos alternativos de solução de conflitos de consumo. quanto aos seus direitos e deveres com vistas à melhoria do mercado. a concorrência desleal e dos crimes contra a ordem tributária. Vol. a própria Lei 8. Curso de Direito Tributário. RT.078/90 e a Lei 7. incentivos à criação. e SOUZA.347/85 que disciplina a Ação Civil Pública que viabiliza a proteção dos interesses difusos e coletivos. 2002. Consumidor Comentado. RT. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor. o Brasil possui várias legislações esparsas que têm como objetivo a proteção contra tais atrocidades. Paulo. 14.884/94. tais como. ainda pelos fornecedores. de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços. _______. Thierry. Malheiros. a Lei 8.158/91. São Paulo: Ed. contratos. São Paulo: Ed. marketing. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. Tratado de Direito BARROS CARVALHO. Eduardo Arruda. ed. a Lei 8. 13. A política de Proteção do Consumidor: Desafios à frente. propagandas. 41. Thereza. São Paulo: Saraiva. São Paulo: Forense Universitária. 1991. São Paulo: Ed. ALVIM. podem se utilizar no intuito de se proteger contra os potenciais abusos de anúncios. Arruda. 1995. do mercado fornecedor. Arruda.A boa-fé é um princípio basilar que está consubstanciado por todo corpo normativo do Código do Consumidor. pelos quais os cidadãos podem se beneficiar contra os abusos do poder econômico. BONAVIDES. jan. ALVIM. BIBLIOGRAFIA ALVIM. dentre outros meios de difusão da informação. 1. a Lei 4.

1998. Hans. Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade. 66 . 3. V. Vol. 253 . O Direito e a Vida dos Direitos. Malheiros. São Paulo: Ed. Padova. RÁO. out. 1. Revista de Direito Mercantil. 30 . Malheiros. José Geraldo Brito. 7. p. CANOTILHO. RT. p. José dos Santos Carvalho. ed. CARVALHO. São Paulo: Ed. Vol.75. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Teoria Pura do Direito. MONTEIRO. ed. Ada Pellegrini. 15. 1992. 2001./1990. ed. Nelson. A proteção do consumidor na Constituição brasileira de 1988. Joaquim José Gomes. Celso Antônio Bandeira de. NERY JÚNIOR. São Paulo: Saraiva. 2002. 1 FILHO. MARQUES. ed. MELLO. [s. José Geraldo Brito. CINTRA. 24. 2002.38. Cândido Rangel. jan. Fábio Konder. Rio de Janeiro: Ed. Antônio Carlos de Araújo. 1999. 6. tradução João Baptista Machado. São Paulo: Ed. São Paulo: Ed. Coimbra: Almedina. p.55 mar. 6. 5.e. DINAMARCO. ______. São Paulo: Ed. 3. ed. Contratos no Código de Defesa do Consumidor. 1999. Martins Fontes. 41.263. 2002. KELSEN./2002. CRISAFULLI. Direito Constitucional. 1997. GRINOVER. 5. São Paulo: Atlas. Lezioni di Diritto Costituzionalle. Manual de Direitos do Consumidor. ed./2002. RT. Washington de Barros. ed. 80.-mar. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor. Vicente. Vol. Teoria Geral do Processo.-dez. . 7. ed.]1976. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. A informação como bem de consumo. Princípios do Processo Civil na Constituição Federal. ed. COMPARATO. RT. 2001 FILOMENO. 2003. ed. Ação Civil Pública. Cláudia Lima. São Paulo: Ed. Curso de Direito Civil. Luis Gustavo Grandinetti Castanho de. Vol. Lumen Juris.

ed. 170 .. ZAPATER. 24. Vol. Miguel./2001. Vol. ed. São Paulo: Saraiva. 40. . 7. São Paulo: Saraiva. RODRIGUES. 28.-dez. RT. 3 TEMER. Tiago Cardoso. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor. Direito Civil.56 REALE. Ed. 2002. São Paulo. A Interpretação Constitucional do Código de Defesa do Consumidor e a Pessoa Jurídica como Consumidor. Michel. 1990. 1999. ed.198. Silvio. p. Elementos de Direito Constitucional. out. Lições Preliminares de Direito.

Vulnerabilidade nos contratos. Introdução. Regras que vinculam a publicidade no CDC.2. 5. tendo em vista a sua utilização como fundamento filosófico de todo o movimento de Defesa do Consumidor. 3.078/1990.1. Do contrato de adesão.591.2. Por imperativo de sistematização. 6. b) é realizada uma . 3. 5. Vulnerabilidade Técnica. Efeitos da vulnerabilidade do consumidor na tutela legal da publicidade.1 Conceito de Publicidade.3.3.3. 3. Vulnerabilidade Ambiental. Nesta desigualdade social. Vulnerabilidade Política ou Legislativa.6. Vulnerabilidade X Hipossuficiência. A Vulnerabilidade e suas espécies. SUMÁRIO: 1.1. 6. 2.57 O princípio da vulnerabilidade e a defesa do consumidor no direito brasileiro: origem e conseqüências nas regras regulamentadoras dos contratos e da publicidade Autores Alírio Maciel Lima de Brito Haroldo Augusto da Silva Teixeira Duarte "A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais. pormenorizadamente. 4. 6. é que se acha a verdadeira lei da igualdade" (Rui Barbosa). 3. 3. 7.Conclusão.4 Controvérsia acerca da aplicação do CDC nos contratos bancários: ADI 2. Introdução O presente trabalho visa analisar. A tutela do consumidor como decorrência da sua vulnerabilidade nas relações de consumo. Regra da interpretação mais favorável ao pólo vulnerável da relação e integração contratual. inciso I: "reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo"). artigo 4º. 5. Vulnerabilidade Econômica e Social. Algumas formas de tornar o consumidor vulnerável nos contratos. na medida em que se desigualam. proporcionada à desigualdade natural. 5. a abordagem. o princípio da vulnerabilidade no ordenamento jurídico brasileiro (Lei 8.4.5. 1. 3. Vulnerabilidade Jurídica. será disposta da seguinte maneira: a) faz-se um estudo dos fatos sociais que ocasionaram as disparidades nas relações entre fornecedor e consumidor. 6. Vulnerabilidade Psíquica ou Biológica.2 Natureza Jurídica: seria a publicidade compatível com o clássico conceito de oferta?. 6. 3.

XXXII: "o Estado promoverá. p. p. principalmente. 5º.) reconhecendo expressamente ‘ que os consumidores se deparam com desequilíbrios em termos econômicos. É lícito até dizer . com a revolução tecnológica (fenômeno decorrente do grande desenvolvimento técnico alcançado no pós 2. 2002. 2. dessa maneira. além de prever no artigo 48 do ato das disposições constitucionais transitórias a elaboração de um Código de Defesa do Consumidor (CDC).58 abordagem sistemática do princípio da vulnerabilidade. níveis educacionais e poder aquisitivo’" (Almeida. bem como a princípio da ordem econômica. A tutela do consumidor como decorrência da sua vulnerabilidade nas relações de consumo As transformações havidas no processo produtivo desde a revolução industrial (segunda metade do século XVIII) e. pois é utópica a possibilidade de autocomposição entre os integrantes das relações de consumo sem a intervenção estatal. c) finaliza-se com um estudo sobre a publicidade e os contratos. fulminando com o relativo equilíbrio existente entre as partes. Segundo Antônio Herman V. Essa nova configuração do mercado baseada na produção em massa. a produção caracterizada pela elaboração artesanal de produtos e restrita ao âmbito familiar.. pelo domínio do crédito. Baseado nessa vulnerabilidade do consumidor. na forma da lei. foi iniciado um movimento no âmbito internacional com o intuito de reequilibrar as relações entre consumidores e produtores. No caso brasileiro a constituição de 1988 alçou a defesa do consumidor ao patamar de direito fundamental (art. a defesa do consumidor"). e Benjamin ao prefaciar o livro de Moraes (1999.05). Assim visualiza-se a importância do princípio da vulnerabilidade como fundamento dessa nova disciplina jurídica.ª Guerra Mundial) ocasionaram uma profunda alteração nas relações de consumo. uma transformação ou amenização deste sistema predatório. As relações de consumo deixaram de ser pessoais e diretas. marketing. necessitava de uma proteção legal.10): O princípio da vulnerabilidade representa a peça fundamental no mosaico jurídico que denominamos Direito do Consumidor. e por isso. e práticas comerciais abusivas colocou o consumidor numa situação de extrema precariedade frente aos agentes econômicos. tendo em vista que estes são uns dos principais focos de vulnerabilidade do consumidor. A partir de então. passou a ser uma exceção. requerendo.. Diante dessa conjuntura percebeu-se que o consumidor estava desassistido. No ano de 1985 a ONU pela resolução 39/248 "baixou norma sobre a proteção do consumidor (.

Em sentido contrário encontramos a posição de Marques (2002. de qualquer lei. A Vulnerabilidade e suas espécies Vulnerabilidade. a sua incolumidade física e patrimonial [03]. 120) que.59 que a vulnerabilidade é o ponto de partida de toda a Teoria Geral dessa nova disciplina jurídica (. biológica ou psíquica.2. vulnerabilidade é o princípio segundo o qual o sistema jurídico brasileiro reconhece a qualidade do agente(s) mais fraco(s) na(s) relação (ões) de consumo. quer na esfera administrativa ou judicial. assim. Vulnerabilidade Técnica A vulnerabilidade técnica decorre do fato de o consumidor não possuir conhecimentos específicos sobre os produtos e/ou serviços que está adquirindo. . é pressuposto para o correto conhecimento do Direito do consumidor e para a aplicação da lei.. jurídica.1. literalmente. o consumidor encontra-se totalmente desprotegido. a sofrer ataques. colocando em perigo. malefícios. Dessa forma. ficando sujeito aos imperativos do mercado. conhecimentos de contabilidade ou de economia". que é ilimitada. Logo podemos afirmar que a presunção da vulnerabilidade do consumidor é absoluta. Esta vulnerabilidade concretiza-se pelo fenômeno da complexidade do mundo moderno. já que não consegue visualizar quando determinado produto ou serviço apresenta defeito ou vício.115 e ss): técnica. p. por sua natureza. utilizaremos a divisão dada por Moraes (1999. p. assim. econômica e social [01]. Vulnerabilidade jurídica Esta espécie de vulnerabilidade manifesta-se na avaliação das dificuldades que o consumidor enfrenta na luta para a defesa de seus direitos.. que se ponha a salvaguardar o consumidor. tendo como único aparato a confiança na boa-fé da outra parte. 3. e benefícios dos produtos e/ou serviços adquiridos diuturnamente [02]. Para tanto. independente da classe social a que pertença. impossibilitando o consumidor de possuir conhecimentos das propriedades. No Direito. se manifesta: "é a falta de conhecimentos jurídicos específicos. 3. isto é. política ou legislativa. daquele que está suscetível. 3. assim. Iniciaremos agora o estudo dos tipos de vulnerabilidade para torná-lo mais aprofundado.) A compreensão do princípio. ambiental. significa o estado daquele que é vulnerável.

120) discordamos da conceituação oferecida pela ilustre jurista.) que devido a sua própria constituição orgânica influenciam na tomada da decisão de comprar determinado produto. prevendo sua derrota nos plenários das duas casas. químicos. auditivos.4. capaz de criar desejos. pois da maneira por Ela exposta estamos diante da vulnerabilidade técnica. dos consórcios e dos supermercados. Por isso nos dias atuais percebemos a importância desta motivação. possuindo. o lobby dos empresários. necessário era respeitar um iter legislativo extremamente formal. 3.3. necessidades e manipular manifestações de vontade como uma forma de influenciar o consumidor. através de uma manobra procedimental. as associações de fornecedores possuem força no cenário político nacional. 3. inclusive. inexistem associações ou órgãos "capazes de influenciar decisivamente na contenção de mecanismos legais maléficos para as relações de consumo e que acabam gerando verdadeiros ‘monstrengos’ jurídicos" (Moraes. p.. um grande lobby junto ao Congresso Nacional. olfativos.151) "essa motivação pode ser produzida pelos mais variados e eficazes apelos de marketing possíveis à imaginação e à criatividade orientada pelos profissionais desta área" [04]. Aqueles detêm condições objetivas de impor sua vontade através de diversos mecanismos. p. 2001. A dissimulação daquilo que era Código em lei foi meramente cosmética e circunstancial. (Pellegrini. p. Ao contrário. . Vulnerabilidade Psíquica ou Biológica O consumidor é atingido por uma infinidade de estímulos (visuais. Essa situação foi presenciada quando da tramitação do atual Código de Defesa do Consumidor: . p. Vulnerabilidade Econômica e Social A vulnerabilidade econômica e social é resultado das disparidades de força entre os agentes econômicos e os consumidores.5.. Segundo Moraes (1999. por se tratar de Código. buscou.09). sob o argumento de que. Podemos destacar como uma dessas formas a introdução dos contratos de adesão e os submetidos às condições gerais (ou condições gerais dos contratos – CONDGs) [05]..132). 3. Vulnerabilidade política ou legislativa A vulnerabilidade política ou legislativa decorre da falta de organização do consumidor brasileiro. notadamente o da construção civil. 1999. etc..60 Consoante os ensinamentos de Moraes (1999. na tramitação do Código. tratada anteriormente. É que. impedir a votação do texto naquela legislatura.

o ‘consumerismo’ destrutivo do meio ambiente é inerente ao modelo vigente da indústria e agricultura. 3. Uma visão sistêmica do direito do consumidor. Como parte do meio ambiente o homem fica sujeito a uma gama de alterações havidas neste. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. inclusive com a inversão do ônus da prova. em que todos habitam o mesmo planeta. Ou seja.61 Assim. faz deste direito o reverso da moeda do direito ambiental. todo consumidor teria direito à inversão do ônus da prova. Já a hipossuficiência [07] é uma marca pessoal de cada consumidor que deve ser auferida pelo juiz no caso concreto.. é errônea a utilização dos termos como sinônimos. Vulnerabilidade Ambiental Esta espécie de vulnerabilidade é decorrência direta do consumo em massa da nossa sociedade. a seu favor. no processo civil. bem como conseqüências jurídicas diversas. 6º. quando. Segundo Mirian de Almeida Souza apud Moraes (1999. já que os conceitos apresentam realidades jurídicas distintas.6. já que se assim o fosse. 4º. Embora haja essas diferenças é comum a utilização desses termos como sinônimos [06].a facilitação da defesa de seus direitos. inciso VIII do CDC que assim dispõe: São direitos básicos do consumidor: VIII . e todos sofrem prejuízos biológicos em diversos graus por causa do abuso do meio ambiente. surge a cada dia a necessidade de uma maior presença do Estado no âmbito econômico para harmonizar essas relações de consumo.162): . a critério do juiz. 5. segundo as regras ordinárias de experiência (grifamos). inciso I do CDC. Efeitos da vulnerabilidade do consumidor na tutela legal da . tendo em vista o art. Conforme afirmado anteriormente o princípio da vulnerabilidade é um traço inerente a todo consumidor de acordo com o art. ocasionado pelo uso irracional dos recursos naturais de nosso planeta. 4. p.. Portanto. Vulnerabilidade X Hipossuficiência Para finalizar essa parte do trabalho iremos traçar os elementos distintivos entre a vulnerabilidade do consumidor e sua hipossuficiência no mercado de consumo. em que todos têm participação em diversos graus através da sociedade de consumo.

tendo por . e que acabam.66). cit. através de meios impessoais (impressos e eletrônicos). não há de se falar na existência de publicidade se não se fizer notar o mínimo de informação a respeito do produto/serviço que se quer vender ou divulgação dessa informação. Já a publicidade tem muitas vezes apenas o afã de mostrar que o anunciante está propenso a contratar. Eis qual a diferença principal entre os dois institutos: Com a proposta basta que se dê a aceitação do policitado para que se aperfeiçoe o contrato. À conclusão muito semelhante chegou o doutrinador mencionado [10].) se põe a diferenciar o conceito de publicidade do de propaganda. nos lançaremos ao problema de sua natureza jurídica. existe uma seção dedicada à oferta e outra à publicidade. respectivamente a II e III. Morais (1999. ob. há uma distinção quanto ao uso desses termos: quando se objetiva a venda de um produto. destinada a informar. se usa a expressão publicidade. E de fato. o legislador. 5. Lembraríamos ao leitor que não há no Código Brasileiro de Defesa do Consumidor um conceito para o objeto de nossa análise. Deteremo-nos inicialmente com a publicidade. Limitou-se. invariavelmente. assinalando quais são as condutas ilícitas e os meios através dos quais o direito assegura a proteção dos consumidores. vez que no seu capítulo V. divulgar e promover a oferta de idéias. Na realidade. distinção alguma. p. 5. Ao passo que quando se tem por objeto a propagação de idéias políticas ou religiosas se utiliza do termo propaganda. Tentadora é a hipótese de considerarmos como sendo proposta [11]. 1985. bens e/ou serviços por parte de um patrocinador identificado (Richers. Para a economista Raimar Richers publicidade é: A comunicação. bastaria uma rápida leitura do CDC para concluirmos que tal possibilidade é com ele incompatível. agora. apenas a esboçar conceituação de publicidade enganosa e abusiva [08]. uma vez que em ambos os casos o que há é a divulgação de determinada informação. Não vislumbramos quanto à sua essência. Existem conceitos dos mais diversos para a atividade que visamos descrever. No entanto.62 publicidade Passaremos. que trata das práticas comerciais. a tratar das repercussões da incontroversa vulnerabilidade do consumidor no âmbito da publicidade e do contrato. a fazer referência a dois elementos que reputamos serem essenciais: a informação e a divulgação [09].2 Natureza Jurídica: seria a publicidade compatível com o clássico conceito de oferta? Conceituado o objeto de nosso estudo.1 Conceito de Publicidade Compete-nos conceituar publicidade. Mas não seria meramente o fato do CDC distinguir tais conceitos que nos daria base para não aceitar a classificação da publicidade como espécie de oferta.

revistas e jornais seja uma notícia. a identifique como tal. ou 3. o problema que anunciamos o qual será elucidado por Lôbo com o qual concluímos esse tópico: "Assim. Não infundadamente se diz até que se trata de um quarto poder. apresentação ou publicidade. no sentido tradicional do termo. Exemplo de publicidade é o anúncio corrente em jornais e revistas nos quais apenas se veicula o logotipo do estabelecimento. Tal é a razão pela qual o Estado interveio. Resolver o contrato em perdas e danos [15] obtendo o ressarcimento das parcelas então empenhadas. não se pode considerar a publicidade como oferta. 5. nos casos em que exista incongruência entre as cláusulas ou condições gerais presentes na publicidade e no contrato. ainda. como também a oferta [14] integram compulsoriamente o contrato que venha a ser firmado. descartamos de antemão a possibilidade de um ser gênero do outro [12].63 objetivo atrair o consumidor. não de estabelecer todas as condições de um futuro contrato. É exemplo de oferta ad incertam persona a exposição em vitrine de produto com seu respectivo preço. Aquilo que é veiculado na televisão. estabelecendo normas que possuem por objeto regular a publicidade e proteger o consumidor. melhor se concebendo como modo de integração compulsória aos contratos de consumo" [13] (2000). B) Vinculação contratual: por força dos artigos 30 e 35 do CDC não só a publicidade. citaremos tais normas. 2. acaba por entrar na esfera das convicções do indivíduo sem que haja uma valoração crítica e analítica dos fatos. rádio. a área de atuação e outras informações básicas tendo a intenção de atrair clientes e. A) A identificação da publicidade: Em consonância com o artigo 36 do CDC a publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor. os elementos essenciais do contrato a ser celebrado (de compra e venda) já estão determinados: a coisa e o preço. Nesse caso. Diferenciados os dois institutos. Exigir o cumprimento da oferta. que para se aperfeiçoar necessitaria apenas da adesão por parte do policitado. é dada ao consumidor faculdade de proceder de três diferentes formas: 1. por meio do CDC.3. mas não solucionamos. fácil e imediatamente. Aceitar outra prestação equivalente àquela difundida. Em decorrência disso. A seguir. posto que este se encontra em posição de vulnerabilidade psíquica frente àquela. . O que se objetiva aqui é evitar que informes publicitários passem por jornalísticos ou educativos. Regras que vinculam a publicidade no CDC É do conhecimento de todos o tamanho poder que os meios de comunicação em massa (mass media) detêm. seja uma campanha publicitária.

o fornecedor. que incite à violência. mesmo que por omissão [16]. nos seguintes termos: É abusiva. como a interpretação contra o mesmo. tão bem quanto o fornecedor. Razão pela qual o CDC fez duas previsões de inversão do ônus da prova: uma ope legis (ao artigo 38) e outra ope judicis (ao artigo 6º. do caput do artigo 37 se tem por proibida toda publicidade abusiva. inciso XII do CDC. a publicidade discriminatória. que se aproveite da deficiência de julgamento da criança. desfazendo os erros de anúncio . na doutrina. informa corretamente ao consumidor. a parte que alega a ocorrência de determinado fato é que suporta a carga de prová-lo. in casu. Saliente-se que a inobservância desse dever por parte do fornecedor enseja a caracterização da já referida propaganda enganosa por omissão. possuidores de bons direitos. impondo-se. E) Inversão obrigatória do onus probandi: Como é do conhecimento do leitor. G) Correção do desvio publicitário: Por imperativo do art. explore o medo ou superstição. parágrafo único da lei em tela. assim. que o abuso é o uso irregular de uma faculdade que a princípio se apresentava como regular e legítima [17]. às suas expensas. Naquela. 56. de caráter explicativo. um compromisso de veracidade daquilo que é divulgado em campanha publicitária. o desvio da publicidade possuirá não só efeitos civis e penais como também publicitários. da presunção legal de vulnerabilidade do consumidor [18]. em última análise. dessa forma. também. Enquanto que esta se opera mediante uma valoração. dentre outras.64 C) Regra da veracidade: Na cabeça do artigo 37 do CDC existe a proibição de toda publicidade enganosa. veriam seu pedido julgado improcedente por falta de provas graças a sua vulnerabilidade que o impede de produzi-las. no processo. Ao tentar delimitar o que viria a ser abusividade o referido codex listou rol não taxativo. teríamos que consumidores. etc. F) Transparência da fundamentação publicitária: O fornecedor deve ter consigo os dados fáticos que fundamentem a informação veiculada. Leva-se em conta que para corrigir os malefícios causados aos consumidores o único meio eficaz é fazendo uso da própria publicidade sob o nome de contrapropaganda: Trata-se de veiculação de outra publicidade para sanar os malefícios causados pela publicidade originária. Eis a segunda modalidade de publicidade ilícita. é o que impõe o artigo 36. da existência de verossimilhança daquilo que é alegado ou de hipossuficiência do autor. Entende-se. É definida por enganosa qualquer modalidade de informação publicitária inteira ou parcialmente falsa. Acontece que se tal preceito fosse cruamente aplicado nas relações de consumo. aqueloutra se dá independentemente de qualquer análise por parte do magistrado pelo fato de derivar. D) Regra da não-abusividade da publicidade: Por força. De tal inversão decorre que a prova da veracidade daquilo que é anunciado cabe ao fornecedor. VIII).

agora. que se trata de instrumento que confere ao fornecedor pujantes meios de abusar da boa-fé ou do estado de necessidade do consumidor. Podemos extrair do que foi exposto. a respeito dos contratos de adesão (muito usados nas relações de consumo). Algumas formas de tornar o consumidor vulnerável nos contratos Podemos notar. alguns dos quais passaremos a comentar infra [20]: A) Tecnismo dos termos contratuais: Os instrumentos contratuais em geral devem ser escritos de modo a possibilitar a compreensão de seu conteúdo sob pena de comprometer a validade da vontade que ali se expressa e. então em voga (pelo advento da Ação Direta de Inconstitucionalidade . (Gonçalves. via de regra. estudando o instituto do contrato de adesão. 2. que envolve toda uma cadeia de ajustamentos. É de se frisar que a simples adoção da espécie contratual em comento não constitui.65 original.ADI 2. os elementos essenciais dos contratos de adesão: 1. 6. difusão do modo de vida ocidental e (conseqüência que mais nos interessa) uniformização dos vínculos jurídicos entre fornecedor e consumidor. a obrigatoriedade do pacto. Do contrato de adesão Desde a revolução industrial o mundo vem assistindo a uma gradual massificação da produção dos bens da vida. razão pela qual merece (sim) uma especial fiscalização e especial tutela legal (inserida no nosso ordenamento com o CDC) que sejam capazes de compensar a vulnerabilidade do consumidor e refrear os abusos contratuais que. tópico 10). 6. que usando de termos técnicos do meio econômico ou . ao passo que é instrumento útil ao atual estágio de desenvolvimento capitalista. uma vez que com instrumentos pré-formulados se vencia. Daí. 6. surge naturalmente a necessidade de uso de contratos-tipo. com um único passo. um ato abusivo que mereça ser coibido. vindo a possibilitar uma dinâmica circulação de riquezas. das regras interpretativas das cláusulas contratuais e da questão.2. ocorrem em sede de contratos standart. toda a etapa pré-negócial.1. Textos préconstituídos unilateralmente e 3. de alguns meios utilizados pelo fornecedor que tornam vulnerável o consumidor. Uso em massa: no sentido em que regem as interações econômicas entre um fornecedor e seus distintos consumidores. Formação dos contratos com a adesão (que só poderá se dá em bloco) do consumidor [19]. Acontece que tal imperativo comumente é inobservado pelo elaborador do contrato.591 -). Tal processo trouxe-nos algumas conseqüências das quais destacaríamos: massificação das necessidades de consumo. conseqüentemente. Vulnerabilidade nos contratos Discorreremos. per si. da aplicação do CDC aos contratos bancários. 2002.

ao contrato. decorrer ônus excessivo a qualquer das partes" (destacamos). assim como entendimentos dos Ministérios Públicos e decisões administrativas dos Procon’s. 51 traz lista. Tal rol é na realidade. ele pode ser complementado pela jurisprudência. como tais. não muito distante.591. Estaria incompleto o presente estudo se não fizéssemos referência. as quais serão consolidadas (através de portarias) pela Secretária de Direito Econômico. Moraes (1999. Acreditamos que tal possibilidade (de integração contratual pelo Judiciário) é legítima e prevista no artigo 51 §2º do CDC.66 jurídico.4 Controvérsia acerca da aplicação do CDC nos contratos bancários: ADI 2. Sendo que o entendimento em contrário nada mais é que o resquício de um tempo. B) Complexidade e extensão do contrato: Tanto o tecnismo como o uso constante de remissões a outras cláusulas do instrumento contribuem para torná-lo mais complexo. verbis: "a nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato. que pelo Decreto 2181 de 1997 recebeu essa atribuição. O que não ocorre. em seu art. é o da interpretação que lhe seja mais favorável (artigo 47 do CDC). o fato de decorrer dessa norma a possibilidade do magistrado declarar nulidade de cláusulas contratuais. novas disposições. p. deixa o texto nebuloso aos olhos do consumidor. 6. apesar dos esforços de integração. no qual sob a alegação de proteção ao princípio da autonomia da vontade se impedia que o Estado interferisse nas relações privadas a fim de promover os ajustamentos necessários a colocar em igualdade de condições os naturalmente desiguais. são nulas de plenos direito. Fazendo de sua leitura e interpretação uma tarefa árdua mesmo para profissionais do meio. extenso e cláusulas abusivas. vir o juiz a acrescentar. É inconteste. de cláusulas consideradas abusivas e que. dentro de um contexto de disseminação do uso de contratos padronizados com texto nebuloso. por mais . E por essa razão. em um único texto vários contratos distintos. [22] 6. na verdade. C) Cláusulas abusivas: O CDC. no entanto. na doutrina. 227) relata que de certa feita precisou de mais de cinco horas ininterruptas para analisar contrato que além de complexo era deveras extenso pelo fato de conjugar. tornando-o ainda mais suscetível a sofrer lesões. não exaustiva.3. com a possibilidade de. no afã de buscar a solução mais favorável ao consumidor. exceto quando de sua ausência. uma consignação de entendimentos que foram consagrados em nossos tribunais ao longo das décadas que antecederam ao referido codex [21]. Regra da interpretação mais favorável ao pólo vulnerável da relação e integração contratual Preceito fundamental para uma eficaz proteção do consumidor.

e estas. etc) seria aplicável normalmente aos contratos bancários [25]. financeira. e com a constatação de que tais contratos estão de tal forma disseminados que é difícil encontrar quem nunca os celebrou [24]. o sistema financeiro nacional só pode ser regulado por Lei Complementar e não por Lei Ordinária como o CDC. Segue afirmando que a premissa na qual se fundamentou o CONSIF para propor a ação.595/64 que legitima a taxa de juros superior a 12% ao ano. adoção do in dubio pro consumidor. contratos de mútuo.67 pontual que seja. por força do dispositivo constitucional. à controvérsia muito recentemente suscitada (ou ressuscitada) a respeito da consideração (ou não) das cadernetas de poupança. a jurista. feitos em série e muitas vezes elaborados de modo a lesionar o consumidor [23]. Justifica-se a assertiva anterior com a constatação de que são nos contratos bancários. de crédito e securitária" em face do artigo 192 da CF. Razão pela qual não vê. por deixar clara a clássica distinção entre "normas de conduta" e "normas de organização". é falsa. na parte que se refere à limitação dos juros reais em 12% ao ano. em 17 de abril de 2002 graças a pedido de vista do Min. por exemplo. destinadas de forma imediata a reger o comportamento dos indivíduos considerados isoladamente ou coletivamente. Não o sendo. de Direito Financeiro. cartões de crédito. §2o do CDC. o STJ firmou sólido entendimento no sentido de que o CDC. Sobre o tema. Nelson Jobim. Deixando claro que o CDC se aplica aos contratos bancários. voltou à baila com o advento da ADI. mediante consulta do Instituo Brasileiro de Política e direito do Consumidor – BRASILCON. de seguros. destinadas a regular a constituição e funcionamento de institutos publicamente relevantes como o sistema financeiro nacional. (imposição da boa fé. qual seja: a de que o CDC é uma norma de organização que regulamenta o sistema financeiro nacional. posto que tal matéria. aquelas. incompatibilidade entre o referido dispositivo constitucional e a norma do artigo 3º. que parecia então pacificada. Essa é . que esses deixam mostrar de forma mais proeminente a sua vulnerabilidade. §3º). em sua parte propriamente consumerista. 192. e logo interrompido. pela douta jurista Cláudia Lima Marques existe farta e elaborada contra-argumentação que leva à conclusão da improcedência do pedido. muito embora possua previsão constitucional (art. com a devida ressalva do campo de atuação da lei 4.591 proposta pelo CONSIF – Confederação Nacional do Sistema Financeiro – cujo julgamento junto ao STF foi iniciado. A pretendida inconstitucionalidade formal residiria no fato de que. abertura de crédito e todas as operações bancárias ativas e passivas como relação de consumo. 2. posto que o CDC traz em seu seio normas de conduta destinadas a reger relações de consumo. a doutrinadora. depósitos bancários. regras sobre responsabilidade por fato e vício do produto e do serviço. Inicia. no entanto. precisa de lei complementar que a regulamente. Em parecer elaborado. A controvérsia. O objeto dessa ação é o de declarar a inconstitucionalidade da expressão "inclusive as de natureza bancária.

o Min. pois a sua violação é a tentativa de negação. no concernente às normas de conduta. dos pilares de onde brotam. por meio de inserção de novas cláusulas pelo magistrado.591. inclusive. Conclusão Os princípios em qualquer ramo do conhecimento são os pilares que alicerçam todas as vertentes do seu saber. E de fato. restará por fulminado todo o sistema de proteção ao consumidor. Néri da Silveira que julgou improcedente o pedido. Assim. que deverá ser buscada. Dessa maneira. e hoje a afirmação ganha cada vez mais relevo. é mais grave do que infringir um dispositivo legal. ao vedar determinadas práticas comerciais. Carlos Velloso. Tendo em vista que a vulnerabilidade é o alicerce (matriz) da defesa do consumidor. No âmbito da publicidade e da contração em massa. trilhou esse caminho (aberto pelo STJ) ao julga-lo procedente em parte para emprestar ao §2º. do art. para um perfeito entendimento do Sistema de Proteção do Consumidor. No decorrer do trabalho. objetivando a observância da cláusula geral da boa-fé. os princípios são a base da Ciência Jurídica. Bibliografia . de onde se inspiram. 3º do CDC. percebemos a importância do princípio da vulnerabilidade como base de toda a Ciência Consumerista. Estas implicam inúmeras situações fáticas de exploração. Em logrando êxito a tese levantada na ADI 2. Já se tem dito. 8. configurando esta como uma conquista histórica em favor do consumidor. Relator da ADI.68 a posição que nos parece mais acertada até porque se coaduna com o entendimento ao longo do tempo construído pelo STJ. que violar um princípio. No Direito não poderia ser diferente. de descumprimento. como decorrência dos tempos modernos. 7. que demonstram a importância dessa tutela legal. impende a necessidade da análise do referido princípio para uma conseqüente aplicação equânime da lei. que visem ludibriar o pólo vulnerável da relação de consumo. filiamo-nos à corrente de que não há vedação alguma. as regras jurídicas. constatamos a relevância dessa proteção. visualizamos as várias espécies de vulnerabilidade inerentes ao consumidor. diferentemente do Min. interpretação conforme a Constituição para excluir da incidência a taxa dos juros reais nas operações bancárias ou sua fixação em 12% ao ano pelos argumentos já mencionados. A assertiva é verdadeira em todos os sentidos. Quanto à aplicabilidade do CDC aos contratos bancários.

. São Paulo: RT. na publicidade. 2002. 2001.br/doutrina/texto. 14. Atualizador: Humberto Theodoro Júnior. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Maria Helena. Paulo Valério Dal Pai. São Paulo: Atlas.Set. 122 P. A proteção jurídica do consumidor. n. Orlando. Curso de Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral das Obrigações. 12. 2002. 51. Teoria Geral dos Contratos no novo Código Civil. n.asp?id=2216 [ Capturado 15. FILOMENO. nas demais práticas . IN: Jus Navigandi. 5. 1998.jus. 7.com. GRINOVER. rev.jus. 264. LOUREIRO.set. DINIZ. LÔBO. Rio de Janeiro: Forense. A publicidade ilícita e a responsabilidade civil das celebridades que dela participam. G. A informação como direito fundamental do consumidor.69 1. ALMEIDA. 58 [Internet] http:// www1. 4. 3ª ed. 2002. Conceitos e Contratos atuais. Contratos. 8. 2. Paulo Jorge Scartezzini. A influência do CDC nos contratos bancários. João Bosco Pastos. 6. GOMES.br/doutrina/texto.2002. José Geraldo. 13 MENESES. Cláudia Lima. MORAES. [et al]. 2001. GONÇALVES. 15 a 19 de abril de 2002. n. Paulo Luiz Netto. Brasília. 7ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado. GUIMARÃES. Ada Pellegrini. Daniel M. João Batista de. ano VI – n. 11. Questões Controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: Principiologia.com. e ampl. Código de defesa do consumidor: o princípio da vulnerabilidade no contrato. 4ª ed. Cláudio [et al]. 2001. 1999. atual. 10. Manual de Direitos do Consumidor. 34-38 de 15 de fevereiro de 2002. 2001. 9. Marques. BONATTO. Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção do Consumidor. IN Revista Jurídica Consulex. São Paulo: Saraiva. São Paulo: Editora Método.2002 ]. São Paulo: RT. Contratos no código de defesa do consumidor. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. Luiz Guilherme. 3. INFORMATIVO DE JURISPRUDÊNCIA DO STF. [Internet] http://www1.asp?id=3181. In: Jus Navigandi. Capturado 15. São Paulo: Saraiva.

Uma trintena de empresas multinacionais sugeriam. 19. por acreditar que todos devem ter e usar.. caso não adquira tais produtos prestigiados. andar na moda. sendo nutricionalmente menos valioso transformou-se em causa corrente de desnutrição.. pelo fato do consumidor comum não possuir conhecimento técnico. 18-25. 16. 02... A inversão do ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor in Revista Jurídica IN VERBIS n. São Paulo: Abril Cultural.. as empresas. O princípio constitucional da igualdade e o direito do consumidor. 2002. passaram despercebidos dos mesmos. 1999.. Raimar. Sílvio Luís Ferreira da. especialmente em países do Terceiro Mundo. Elaine Cardoso de Matos. O leite em pó. Essa situação também pode ser constatada nos inúmeros recalls ocorridos nos últimos anos na indústria automobilística em decorrência do desgaste ou defeito de fabricação em peças que colocam em risco a vida de inúmeros consumidores. a jurídica e a fática ou sócio-econômica. NOVAES. Princípios básicos de defesa do consumidor. p.154) ". o efeito demonstração a toda prova". Agosto/setembro de 1995. 33) "a questão do leite infantil ficou como um marco na luta contra os desvios da publicidade. Dessa maneira percebe-se mais uma vez o subjugamento do consumidor no mercado de consumo. Responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro. 17. p. 1992. ROCHA. 2001. Belo Horizonte: Melhoramentos. 04 03 02 01 . a substituição da amamentação materna pela mamadeira. Notas Para Marques (2002. era mais caro e. Mexiam com a vaidade feminina e com o conforto da mãe. 270) existem apenas três tipos de vulnerabilidade: a técnica. RICHERS. A título exemplificativo Miriam de Almeida Souza apud Moraes (1999. Leme: LED. Paulo Brasil Dill. dessa forma. Exemplo esclarecedor sobre a vulnerabilidade técnica do consumidor nos é dado por Pasqualoto (1997. a necessidade intolerável de manter-se em dia. VIEIRA. e criam. investem conjuntamente em comercias.". os apelos publicitários levam o indivíduo a considerar-se numa situação psicológica e social inferior. O que é Marketing. p. SOARES. 1985. p. ou seja. Porto Alegre: Síntese. São Paulo: RT. no consumidor. e assim por diante. Adriana Carvalho Pinto. que substituiria o aleitamento materno.70 comerciais. Vícios esses que. 18. .. 15.

direta ou indiretamente. Dúbel Cosme do TJRN. 3a Vara Cível – Mossoró/RN. limitada a alguns – até mesmo a uma coletividade – mas nunca a todos os consumidores" (2001. uma atividade econômica" (Gonçalves. não merece guarida referida alegação. inciso I do CDC (que se refere à possibilidade do consumidor ajuizar ação de responsabilidade civil do fornecedor no seu próprio domicílio) deve ser aplicada in casu como conseqüência da presunção de hipossuficiência da consumidora. 99. que também faz referência às noções de informação e de divulgação.71 Segundo Marques "entende-se como contratos submetidos a condições gerais aqueles contratos. que citamos infra. A vulnerabilidade é um traço universal de todos os consumidores. em que o comprador aceita. dado que o objetivo da publicidade é vender. Cf. p. na verdade. a hipossuficiência a que alude o Código de Defesa do Consumidor é afirmada pela sua qualidade de consumidora frente ao fornecedor de serviço (sic). São pacíficas a doutrina e jurisprudência pátrias. 2002.002927-1. 101.325). Nesse sentido a referida obra à página 250 na qual escreve o autor: "não fala o código em contra publicidade. citado por João Bosco Pastos Gonçalves: "Publicidade é toda informação dirigida a público com o objetivo de promover. crédulos ou espertos. quando definem como competente o foro do lugar do dano ou do domicílio do consumidor. enquanto o objetivo da propaganda é a implantação de idéias. VIII do Código de Defesa do Consumidor que elenca dentre os direitos básicos do consumidor.66).. com o desvio (publicidade ilícita) e não com o padrão. Já a hipossuficiência é uma marca pessoal. Quando. tópico 2). que cláusulas pré-elaboradas pelo fornecedor. unilateral e uniformemente para um número indeterminado de relações contratuais. Relator: Des. ricos ou pobres. De acordo com os ensinamentos de Antônio Benjamin ". para as ações de indenização. Portanto. p. a facilitação da defesa de seus direitos". Para corroborar o supra afirmado. 08 07 06 05 Preocupou-se. no qual se argumenta que a norma do Art. diante do cargo de juíza de direito ocupado pela mesma. na forma já vista". ante o disposto no artigo 6º. n. disponibilizamos ao estudioso do assunto o conceito de Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin. tácita ou expressamente. Verbis: "Embora a Agravante insista em desconsiderar a condição de hipossuficiente da Agravada. Exemplo de confusão entre os dois conceitos existe no trecho do agravo de instrumento. escritos ou não escritos. 11 10 09 Já que tanto a proposta (ou oferta) como a publicidade poderiam ser . tal norma decorre da presunção juris et de jure de vulnerabilidade.. educados ou ignorantes. venham a disciplinar o seu conteúdo específico" (2002. o legislador.

379).72 aprioristicamente definidos como atos pré-negociais. a necessidade de comprovação de culpa por parte do fornecedor para responsabilizá-lo (regra que possui como exceção o caso dos profissionais liberais) de modo que para que haja a condenação em perdas e danos basta que se apresentem os demais requisitos: 1. constatar isso. 5 da Lei Portuguesa de defesa dos consumidores. 3ª Turma Cível. e (Loureiro. 2002). cit). em regra. norma repetida no Código ora em vacatio legis ao artigo 427). 251). Um estudo desses requisitos pode ser encontrado em (Diniz. Maiores apontamentos sobre o tema poderão ser encontrados em: Elaine Cardoso de Matos Novaes (1995. A nossa lei de proteção não vedou expressamente o uso de cláusula de retratabilidade na proposta. 2001. sendo totalmente aplicável a regra do artigo 7o. que se identificam com os mencionados supra. tendo-se por não escritas as cláusulas contratuais em contrário". p. Cf em sentido contrário. o que bem caracteriza o informe como obscuro" (TJDFT. 1999). 13 14 12 Compulsoriedade essa dada pela norma do artigo 30 do CDC. Cf nesse sentido: (Gomes. Já se considerou como enganosa por omissão publicidade que dizia: "Hoje promoção inédita de Santana e Parati" posto que "basta um simples raciocínio para. 2000). a ausência de qualquer esclarecimento acerca do que o fornecedor pretendeu com a expressão ‘inédito’. 18 e ss). Grifamos. 19 . defendendo que a publicidade é espécie de oferta: (Filomeno. op. Em sentido contrário. in fine: "As informações concretas e objetivas contidas nas mensagens publicitárias de determinado bem.080 do Código de 1916. considerando a proposta como negócio jurídico unilateral: (Lôbo. 17 18 16 15 Cf nesse sentido: (Moraes. p. Genovese apud Orlando Gomes ( 1999. Apelação Cível e Remessa ex officio n º 8114/2000 e 7912/2000). inexiste. de pronto. p118 ) coloca os seguintes elementos. Saliente-se que pelo fato do direito consumerista ser um direito de proteção ao consumidor e não de repressão ao fornecedor negligente. 1998. Ocorrência de dano patrimonial positivo (dano emergente) ou negativo (lucros cessantes) e 2 – Nexo causal entre o dano e o inadimplemento daquilo que fora prometido em publicidade. 1. como características do contrato de adesão: 1) A uniformidade. serviço ou direito consideram-se integradas no conteúdo dos contratos que se venham a celebrar após a sua emissão. 2) A predeterminação e 3) A rigidez. Ao contrário do que ocorre no seio das relações regidas pelo Código Civil (vide art. p. nas relações de consumo a proposta sempre obrigará o fornecedor promitente. mas entendemos que tal vedação está subentendida.

do art. que o uso de cláusula que permita ao fornecedor.. p. financeira. 3º T: AG 448061 MG. AG 438114 RS. Não há de se falar. Meneses (2002. AG 445314 RS. Sobre o assunto. definindo serviço. 25 . como: depósito bancário. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista" (grifamos). AG 424767 RS. 226 e ss.) os contratos bancários alcançaram a tal nível de popularidade que mesmo o cidadão mais humilde não costuma escapar da ação (muitas vezes nefasta) dos tipos mais comuns. Já que o CDC. Dentre tantos outros julgados.). RESP 325620 RS. complexidade ou cláusulas abusivas. AG 430435 RS. 193 e ss. inclusive as de natureza bancária. de crédito e securitária. 3º §2º. etc. RESP 293778 RS e RESP 213825 RS. 23 24 22 21 20 Seja através do uso de tecnismo. p. STJ. G. AG 420203 RS. diz Daniel M. faz expressa referência ao de natureza bancária. ao nosso ver.". AG 425643 RS. uma vez que tal prática sempre foi considerada leonina vindo.). apenas a se formalizar tal entendimento. nesse sentido. descarta a necessidade de realizar maiores divagações teóricas sobre o assunto. 4º T: AG 444223 RS. o depósito em conta corrente. p. verbis: "Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. 37): "(. variação de preço de maneira unilateral não era procedimento abusivo antes do advento da Lei de proteção ao consumidor. AG 430458 RS.. com o CDC. Corroborando a posição colocada a respeito da possibilidade de integração contratual por parte do Judiciário: Bonatto (2001. Previsão legal que de tão explícita. AG 445664RS.73 Lista pormenorizada contendo esses e outros meios pode ser encontrada em Moraes (1999. mediante remuneração.

por seus sistemas de leis. Itália. estabelecendo um elo de cooperação. . na legislação pátria não se traduz como regra geral. como princípio. com artigo expresso. não foi contemplado. Nesse sentido. Assim. aduzindo: "O devedor é obrigado a realizar a prestação do modo como o exige a boa-fé levando em conta os usos de tráfico". no Código Civil Brasileiro. verifica-se o fenômeno de que. este princípio. mais especificamente a letra do § 242. mesmo em face da não existência. ou seja. apresenta-se como pilar dos mais importantes na sustentação da teoria contratual moderna. vale trazer à colação o BGB . expressamente. Estados Unidos e Alemanha. Portugal. o princípio da boa-fé. o princípio em tela mantém vigência imperativa.74 O princípio da boa-fé no Código de Defesa do Consumidor Autor: Francisco José Soller de Mattos A boa-fé. de artigo de teor próximo ao § 242 do BGB. contemplam.Bürgerliches Gesetzbuch (Código Civil Alemão). muitos países. atrelados ao "comportement réflechi à l’égard d’autrui. Suíça. para ilustrar. Pois bem. Porém. ante a importância do regramento de conduta nas relações obrigacionais. dando o norte ético para todos os partícipes do vínculo jurídico. consignando que os contratos devem ter interpretação e também execução. Espanha. em face do objetivo comum avençado. ao contrário de sistemas legais alienígenas como os da França. no Código Civil. que positiva o princípio em comento. feixe de deveres que induzem a um mandamento bilateral de conduta.

deixou de coadjuvar no plano legislativo para. 4º do CDC consagre a autonomia do "Princípio da Transparência". 4º. de onde depreende-se a vontade Estatal que: " o literal da linguagem não deve prevalecer sobre a intenção manifestada na declaração de vontade. segundo Larentz. dentro desse conjunto legislativo. 85 do Código Civil. com o advento do Código de Defesa do Consumidor. em sendo positivada no art. de tão abrangente.078. quase que isoladamente consignada. a prevalência da boa-fé como seu princípio de orientação máxima. que. Atualmente. inciso III do indigitado sistema legal. Ocorre que. E. a boa-fé. deixa escapar o seu sentido para uma conceituação aberta. de 11 de setembro de 1990. após plena consolidação do CDC como um instrumento positivo e que efetivamente mudou o panorama contratual moderno do Brasil. verificamos. instituído pela Lei nº 8. indutora de uma nova postura no ambiente contratual. ou dela inferível" (Orlando Gomes). muito embora o próprio caput do art. a sua importância de princípio supremo do direito civil. galgar.75 A inspiração legislativa brasileira para a consideração do princípio da boa-fé nas relações obrigacionais achava-se. . na letra do art. não há como se negar que este nada mais é do que uma das mil faces da boa-fé.

Com a edição do Código Civil de 2002 tal discussão perdeu um pouco de sua relevância. em 1866. O jurisconsulto baiano já visualizara a artificialidade dessa divisão – não havia qualquer diferença de essência entre as obrigações civis e as comerciais. sob o argumento de ampliar ao máximo a proteção às partes vulneráveis – seja sob o aspecto técnico ou econômico – nas relações obrigacionais. Mais uma vez surgiram acalorados debates sobre os limites dessa nova categoria. Uns buscam ampliar a área de incidência da legislação consumerista. INTRODUÇÃO A dicotomia entre relações jurídico-obrigacionais civis e comerciais já era ancestral quando. Tal proposta unificadora somente veio finalmente a se tornar direito positivo com a aprovação do Código Civil de 2002. para abranger o maior número de relações no mercado. Desde então se debate onde estaria a marca divisória entre as relações civis e as trabalhistas. pretendendo valorizar a proteção às situações em que o consumidor "seja realmente" a parte mais fraca da relação. Em 1943 a repartição dicotômica se tornou tricotômica com a edição da Consolidação das Leis do Trabalho – às duas modalidades de relações obrigacionais acresceu-se a relação de emprego. Hahnemann Guimarães e Philadelpho Azevedo). enquanto outros querem restringir-la.76 A relação jurídica de consumo: conceito e interpretação Autor: Marcelo Azevedo Chamone 1. resultado de um projeto de 1975. surgiu uma nova modalidade de relação obrigacional. o que só foi acentuado com a expansão da competência da Justiça do Trabalho – talvez esteja aí o germe de uma futura reunificação. e de 1963 (de Caio Mário da Silva Pereira). tal como os anteprojetos de Código das Obrigações de 1941 (redigido por Orozimbo Nonato. a de consumo. Teixeira de Freitas propôs a sua unificação enquanto abandonava a elaboração do projeto de um Código Civil onde o Governo insistia em manter o cisma. uma vez que a responsabilidade objetiva (carro-chefe da lei consumerista) . sobre o que seria relação de consumo e o que seguia sendo relação civil ou (até 2003) comercial. muito embora outros anteprojetos já tivessem trilhado a mesma linha. Já em 1990 essa divisão foi acentuada com a edição do Código de Defesa do Consumidor.

2. a ampliação das hipóteses de revisão contratual trazidas pelo novo Código Civil aproximou muito as relações civis das de consumo. parágrafo único. onde vertentes da jurisprudência trabalhista defendem que todos os tipos de prestação de serviços.77 foi elevada a padrão juntamente com a responsabilidade subjetiva. ora para o outro. buscando identificar o estado-da-arte do tema. num sistema que vem sendo apelidado de "dúplice". inclusive os regidos pelo CDC. RELAÇÃO DE CONSUMO Por relação de consumo é de se entender toda relação jurídico-obrigacional que liga um consumidor a um fornecedor. Esse breve panorama do tratamento legislativo dado às relações obrigacionais serve para mostrar a artificialidade e instabilidade de qualquer tentativa de compartimentalização. Tratando-se daquela. Na verdade. estariam sob a competência da Justiça do Trabalho. Do mesmo modo. como veremos abaixo. decorrentes de atos e fatos jurídicos. Sempre que o tratamento não for unificado haverá debates doutrinários e jurisprudenciais sobre a delimitação de cada um. Em geral há uma cumulação de prestação de serviço com fornecimento de produto. . deixando ainda mais embaçada a linha divisória entre elas." [01] Nem sempre a relação de consumo será um negócio jurídico. é preciso "averiguar qual é o elemento nuclear do vínculo obrigacional: uma obrigação de dar ou uma obrigação de fazer. o objeto é um serviço. o momento jurisprudencial indica que o pêndulo tende para a restrição da aplicação do CDC. a regra da responsabilidade subjetiva ficou praticamente reduzida às relações entre particulares. a hipótese é de produto. como veremos abaixo. limitando. Assim. ora tendendo para um lado. 927. A fragilidade dos conceitos se mostra aparente com a recente e ainda incipiente discussão surgida com a EC nº 45. atentando para as principais correntes doutrinárias. para se determinar qual o regime jurídico a ser aplicado ao caso. Assim. em decorrência do art. no outro caso. tendo como objeto o fornecimento de um produto ou da prestação de um serviço. No que concerne às relações de consumo. o conceito de consumidor. passaremos a definir o conceito de cada um dos elementos da chamada "relação de consumo". a lei coloca sob a mesma denominação relações contratuais (negócios jurídicos) e não-contratuais.

quando uma parte tão pequena do Código é dedicada exclusivamente a ele. 2º. Como veremos mais detalhadamente abaixo. 3. familiar. Àquela época e ainda hoje o tema é tormentoso: "Embora o vocábulo consumidor não esteja assentado com um conceito claro. I a IV. das práticas comerciais (arts. a princípio. não . a outra (art. tanto no pré-contratual como no pós-contratual. nos termos dos conceitos dados pelo próprio Código. Destarte. Herman Benjamin. então. o CDC trata sobre os seguintes temas: da responsabilidade civil (arts. 29 a 45).78 Deste modo. 2º. Essa conclusão leva à interessante reflexão sobre a quantidade de folhas que já foram escritas sobre a definição do conceito standard de consumidor. No plano do direito privado material. temos que o Código irá atuar de forma preventiva e repressiva nas relações de consumo tanto no âmbito contratual como no extracontratual. 17) as regras sobre responsabilidade civil extracontratual. parágrafo único) somente nas situações de responsabilidade civil contratual (vícios do produto ou serviço). caput) e aos "intervenientes" nas relações de consumo (art. já se podem identificar algumas áreas de disputa conceitual: a) quanto à natureza do sujeito protegido: pessoal natural ou jurídica. 6º. delimitar o conceito de consumidor. com o auxílio de textos de legislação e doutrina estrangeira. 29) as regras sobre proteção contratual e práticas abusivas. CONSUMIDOR Em 1988 foi publicado pelo então promotor de justiça de São Paulo. Não obstante. a fim de identificar claramente os limites de cada uma dessas esferas de proteção. V e X. 2º. b) quanto à necessidade de vínculo contratual: só quando há contrato ou também nos casos de relações jurídicas extracontratuais. VI. caput e parágrafo único) são aplicadas todas as disposições do Código. 6º. 8º a 28). 6º. artigo já clássico onde o autor buscava. delimitaremos a seguir os elementos básicos das relações de consumo. pessoal. 46-54). o CDC traz quatro definições diferentes de consumidor: a duas delas (art. todas as demais disposições do CDC se aplicariam quase que irrestritamente à coletividade em geral face a redação genérica dos artigos que ampliam o conceito de consumidor. que a proteção do CDC recairá exclusivamente ao consumidor standard (art. e da proteção contratual (art. e para a última categoria (art. c) quanto à finalidade da aquisição do bem ou produto: para uso privado. Temos.

consumidor é "toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final" (art. discordando apenas da inclusão da . [04] nos demais.79 profissional e comercial. caput). citando como exemplo a entidade familiar. palavras de Roberto Senise Lisboa. cada país adota um conceito diferente. d) quanto à qualidade do objeto da relação de consumo: apenas bens ou também serviços. ficando a cargo da doutrina e jurisprudência fazê-lo – nesses casos. f) quanto ao tipo de serviço: só serviços privados ou também serviços públicos." [02] Na legislação estrangeira não é possível encontrar uma definição uniforme. A existência de diversos conceitos no direito positivo se mostra necessária. e outras três de ‘consumidor equiparado’. possibilitando a proteção de terceiro estranho ao contrato – há uma prevalência da "relação de consumo" sobre o "contrato de consumo". e) quanto ao tipo de bens: só bens móveis ou também imóveis. mesmo codificada. não o tendo adquirido. um aplicável para cada situação específica regulada por aquela lei. bem como pré e pós-contratuais. 2º. pois não são somente aqueles participando efetivamente das relações de consumo que estão sujeitos a sofrer danos em decorrência dessas relações. tende-se para uma conceituação mais restrita. 3. é consumidor "qualquer pessoa física ou jurídica que. contrate para consumo final. trás quatro definições diferentes de consumidor: uma chamada de ‘consumidor standard’. em benefício próprio ou de outrem. Apesar de não haver disposição expressa. Onde não há uma legislação consumerista codificada chega a haver diversos conceitos de consumidor.1 O consumidor standard Inicialmente. [03] Em alguns sistemas simplesmente não há definição legal de consumidor. de acordo com as suas peculiaridades sociais e econômicas. resulta em "substancial modificação do princípio geral da relatividade dos efeitos" [07]. a aquisição ou a locação de bens." [05] Rizzatto Nunes acrescenta que "a norma define como consumidor tanto quem efetivamente adquire (obtém) o produto ou o serviço como aquele que. A que se mostra mais espinhosa é sem dúvida a primeira. há uma série de situações extracontratuais. bem como a prestação de um serviço. na delimitação do âmbito de proteção oferecido pela lei. ao contrário do que ocorre em relação ao fornecedor. utiliza-o ou o consome" [06]. Maria Antonieta Donato [09] o acompanha em parte. isolada ou coletivamente. James Marins [08] entende que também o ente despersonalizado pode ser tomado como consumidor. em outros termos. de modo que não seria justo nem eqüitativo dar-lhes tratamento legislativo diferenciado. ao que. onde sujeitos a princípio não classificados como consumidores são colocados numa posição semelhante. A nossa legislação. de modo geral.

com a lei veio a superação desses conceitos baseados nas lições européia e norte-americana. aquele que se submete ao poder de controle dos titulares de bens de produção. buscando apoio na doutrina estrangeira. Roberto Senise Lisboa [11] vê na expressão destinatário final a adoção pelo CDC da teoria da causa na relação jurídica de consumo. buscou delimitar o conceito de consumidor. defendendo a sua incidência sobre o maior número de relações jurídico-obrigacionais. de modo geral. como fornecedores de insumos ou financiadores. Porém. sem ligação com a sua atividade empresarial própria. nesse sentido. por exemplo.1 O conceito objetivo de consumidor Para os juristas que vêem no CDC uma regulamentação para o mercado de consumo em geral. se apresentam no mercado como simples adquirentes ou usuários de serviços. pois. depende por sua vez de outros empresários. Muito antes da edição do CDC. e. sem que outra destinação seja objetivada pelo beneficiado (adquirente ou usuário)". Quando se fala. enquanto a outra trata de dar maior aplicabilidade à lei.80 família nessa situação.1. em maior ou menor medida. buscando aproximá-lo o mais possível da doutrina européia. principalmente porque a própria lei não as faz. e antagônicas. com reflexos na jurisprudência. "tornando necessária a análise da causa da aquisição ou da utilização do produto ou do serviço". a legislação brasileira veio com uma proposta muito mais ousada. em proteção do consumidor quer-se referir ao indivíduo ou grupo de indivíduos. e cita como exemplos o condomínio edilício e o espólio – para a autora. formaram-se: uma restringindo o conceito de consumidor. Duas correntes principais. buscando uma proteção mais ampla e generalizada. dissenso sobre quem poderia ser classificado como destinatário final do produto ou serviço. É claro que todo produtor. no entanto. cada um dos membros da família deveria pleitear seus interesses individualmente. a causa da formação da relação de consumo deverá estar relacionada "à transmissão definitiva ou provisória de produto ou de atividade humana remunerada. os quais. isto é. para exercer a sua atividade produtiva. . é também consumidor. surgiu na doutrina. os empresários. muito mais preocupada com a proteção do consumidor pessoa física." [10] Antes da edição do CDC era comum encontrar esse tipo de definição. ainda que empresários. o conceito de destinatário final não pode sofrer restrições. Fábio Konder Comparato. 3. dando especial atenção à finalidade da aquisição do produto ou serviço: "O consumidor é. Apesar da disposição inequívoca da lei.

é o que nos é dado pela lei. não pode estar adquirindo para revenda ou uso profissional.e. portanto. Rizzatto Nunes. mas como de produção. possam ser considerados consumidores – note-se que essa definição é intimamente ligada às qualidades econômicas do adquirente.e.. também quando há a finalidade de produção. Roberto Senise Lisboa. Assim. Assim. 3. Porém. não havendo qualquer necessidade de inquirir sobre aspectos subjetivos. "pois o bem seria novamente um instrumento de produção cujo preço será incluído no preço final do profissional que o adquiriu" [19]. e Roberto Senise Lisboa [16] excluem do conceito de consumidor apenas o adquirente de produto que será objeto de transformação ou implementação com reinserção na cadeia produtiva-distributiva. se a implementação ou transformação é feita para o uso próprio do adquirente. Assim. Admite. aquele que não o revende nem o incorpora na produção de um novo.81 Não obstante. É certo que dessa conceituação estaremos trazendo para a relação de consumo situações que vão contra o senso comum. para a definição do conceito de consumidor deve-se tão somente analisar os critérios objetivos dados pela própria lei. Mais. . não caberia ao intérprete/aplicador fazê-lo.. i. o consumidor comum não o adquire". consumidor [17] – não se discute se o bem é de produção (utilizado para implementar a produção) ou não. sem o intuito de obter lucro com a sua futura negociação. que o profissional pessoa física ou pequena empresa que tenha adquirido um produto fora de seu campo de especialidade. além do "destinatário final" que adquire o produto ou serviço para uso próprio (sem finalidade de produção).. i.2 O conceito subjetivo de consumidor Cláudia Lima Marques [18]. i. ou simplesmente com o intuito de revendê-lo. com variações.. Podem ser citados como defensores dessa interpretação. independentemente do uso e destino que o adquirente lhes vai dar". "desde que o produto ou serviço (.e.. como a lei não faz qualquer restrição quando utiliza o termo pessoa jurídica. Nery Jr.1. Exclui as situações em que o produto ou serviço "é entregue com a finalidade específica de servir como ‘bem de produção’ para outro produto ou serviço e via de regra não está colocado no mercado de consumo como bem de consumo. o destinatário fático e econômico do bem ou serviço. João Batista de Almeida e James Marins. dá um conceito restritivo de destinatário final: ela o identifica com a pessoa física que retira o bem de mercado. ele será o destinatário do produto ou serviço e.. adepta da dita "corrente finalista". Rizzatto Nunes [12] define como consumidor. [13] James Marins [14]. João Batista de Almeida [15]. não cabendo ao intérprete/aplicador impor suas opiniões sobre a norma. porém. consumidor é todo aquele que retira o produto ou serviço do ciclo produtivo-distributivo. bom ou mal.) sejam oferecidos regularmente no mercado de consumo.

[21] De acordo com Filomeno [22]. possa ser considerada consumidora. "É imperativo lembrar que a vulnerabilidade não se constitui. que surge como conseqüência do reconhecimento da existência da relação de consumo. Assim. que subscrevemos integralmente: "A vulnerabilidade do consumidor é presunção absoluta no mercado de consumo. no critério legal para a definição do consumidor e da relação de consumo. é dizer: o personagem que no mercado de consumo adquire bens ou contrata serviços.82 Para Maria Antonieta Donato [20] o consumidor deve ser conceituado dentro do âmbito da relação de consumo. Não basta que retire o produto do mercado. somente se justificaria a inclusão da pessoa jurídica como consumidora na medida em que houver efetiva vulnerabilidade econômica em face do fornecedor a ser protegida. E. mas sim. Assim. necessariamente. em outras palavras "a finalidade prática do ato e não o ato em si". porém. em benefício próprio ou de terceiro. agindo com vistas ao atendimento de uma necessidade própria e não para o desenvolvimento de uma outra atividade negocial.e. i. de que a aquisição do produto ou do serviço foi realizada por um sujeito de direito que se enquadra na definição legal de consumidor.. não se caracterizando a aquisição para o uso profissional". deve-se mesclar a qualidade do adquirente do produto com a finalidade para que o adquiriu. "retirando-o da cadeia produtiva e. pois somente essas seriam "vulneráveis". o que o citado autor identifica com as pessoas jurídicas que não tenham finalidade lucrativa. em face do fornecimento dos produtos e serviços e do domínio da tecnologia e da informação que o fornecedor possui sobre eles. haveria três fatores de discrímen: o primeiro estaria na aquisição de produto. Assim. e por fim. em função da qualidade subjetiva daquele que pratica a relação de consumo e em função da destinação que ele dará ao produto". para que a pessoa jurídica. por decorrência. Roberto Senise Lisboa [23] tece as seguintes considerações. como destinatário final. o Código teria adotado o conceito econômico de consumidor. não sendo possível fazê-lo sobre o ato de consumo. presunção de vulnerabilidade em seu favor. havendo. "Aquele que vier a ser considerado consumidor é quem se beneficiará . o segundo estaria na configuração no caso concreto da vulnerabilidade. Quanto à "vulnerabilidade" utilizada como elemento do conceito de consumidor. sua utilização para implementar o processo produtivo. pois é ela um posterius. "não se analisa o consumidor unicamente em relação à prática do ato. deve haver comprovação de que a contratação se deu fora do seu campo de atuação usual. ou a pessoa física em atuação profissional (‘consumidor-profissional’).

Do reconhecimento da situação de consumidor do sujeito em dada relação jurídica é que se impõe o princípio geral da vulnerabilidade. 2º aqui objeto do nosso . Tipicamente. os bens adquiridos devem ser bens de consumo e não de capital (que integram a cadeia produtiva). mas. ou seja. os defensores desta corrente interpretativa usualmente fundamentam suas posições não tanto nas disposições do CDC. como premissa para este estudo. desvirtuando a finalidade do Direito do Consumidor de "proteger a parte mais fraca ou inexperiente na relação de consumo" [27]. iria terminar por dar tratamento igual para todos. além dos requisitos acima. na prática. o consumidor é entendido como um indivíduo. passando muitas vezes ao largo do texto legal. estendendo o rol dos beneficiados por essa proteção. mas tão somente aquele que "retira o bem do mercado ao adquirir ou simplesmente utilizá-lo (Endverbraucher). na teoria econômica. E essa presunção é iure et de iure. de modo que. nosso entendimento de que havendo no direito positivo conceito preciso de consumidor – como em verdade ocorre com o art. não admite prova em sentido contrário. distribuição. Como já notado acima. Mas a vulnerabilidade não é pressuposto do reconhecimento de que um sujeito adquiriu determinado produto ou serviço como consumidor. apenas. "aquele que utiliza o bem para continuar a produzir ou na cadeia de serviço" não pode ser considerado consumidor. Pelo contrário. e a generalização da aplicação da legislação de proteção ao consumidor. Herman Benjamin afirma que o conceito de consumo final e intermediário estão unidos. e de doutrina e legislação estrangeira." É interessante notar que com base no mesmo "conceito econômico de consumidor". consumidor "seria toda pessoa situada no término da cadeia de consumo e que encerra a circulação econômica de um produto ou serviço em vez de sobre ele atuar com vistas a sua transformação. consumidor é: "qualquer agente econômico responsável pelo ato de consumo de bens finais e serviços. aquele que coloca um fim na cadeia de produção".83 da presunção de vulnerabilidade diante do fornecedor. Sobre esse ponto é relevante o pensamento de James Marins: "Esclareça-se." [24] Destarte. indivíduos e grupos de indivíduos. para que a pessoa jurídica possa ser considerada consumidora." [26] A justificativa dessa posição mais restritiva é feita com base no argumento de que o consumidor deve receber tratamento especial e diferenciado. consumidores serão instituições. mas mais presos às definições elaboradas antes da publicação da lei. fabricação ou prestação. [25] Em outras palavras. não obstante essas considerações.

não se pode pretender submetê-lo às teorias jurídicas informadoras de sistemas alienígenas. o bem ou serviço. no processo produtivo. outrora ardente defensora da corrente contrária: não basta que o consumidor (adquirente de produto ou serviço. mas pela presença de uma parte vulnerável de um lado (consumidor). enfraquecer o sistema protetivo inaugurado pelo CDC.3 As posições do STJ e STF O STJ sempre buscou evitar a aplicação indiscriminada do CDC. Neste sentido é o atual posicionamento da Min. recentemente. um "desvirtuamento do sistema protetivo eleito pelo Código". a utilização deve romper a atividade econômica para o atendimento de necessidade privada. e que albergue conceito próprio induvidoso. deve ser também o seu destinatário final econômico. [31] Porém. não podendo ser reutilizado. pessoal." Mais uma vez. ainda que de forma indireta. jurídica ou técnica. Todos esses elementos podem estar presentes . do contrato celebrado entre as partes. para excluir a incidência do CDC em situações em que fosse verificado o expressivo porte financeiro ou econômico: da pessoa jurídica tida por consumidora. em verdade. teorias essas ora textualmente recebidas pelo legislador. admitindo exceções: "Em relação a esse componente informador do subsistema das relações de consumo. praticamente excluindo as pessoas jurídicas consumidoras do âmbito de proteção do Código. houve uma virada de entendimento." [28] "Condicionar-se o conceito de consumidor à constatação de sua hipossuficiência seria.84 estudo –. evitando assim. a jurisprudência tempera a posição doutrinária. com leves temperamentos. não se pode olvidar que a vulnerabilidade não se define tão-somente pela capacidade econômica.1. ou utente do serviço público) seja "destinatário final fático do bem ou serviço. inclusive." [29] 3. ora textualmente afastadas em prol da elaboração de um sistema próprio. pacificando-se o conceito subjetivo de consumidor. é claramente e intencionalmente informado pela objetividade. e de um fornecedor. Isso não impediu que de início houvesse uma interpretação objetiva do conceito de consumidor. deslocando para o movediço critério subjetivo conceito que." E mais adiante afirma que a relação de consumo "não se caracteriza pela presença de pessoa física ou jurídica em seus pólos. de outra circunstância capaz de afastar a hipossuficiência [30] econômica. Nancy Andrighi [32]. no nosso sistema. nível de informação/cultura ou valor do contrato em exame. de outro. isto é. segundo entendiam os ministros.

financeira e de crédito. mais ligada à definição objetiva de consumidor.85 e o comprador ainda ser vulnerável pela dependência do produto. Eros Grau sobre a questão: Como observei também em outra oportunidade [34]. agora somente a demonstração da vulnerabilidade convencerá os julgadores de que a pessoa jurídica é consumidora. 3. como destinatário final. como efetivamente é. Por certo que as instituições financeiras estão. como consumidor ou fornecedor. financeira. 2º e no seu art. Cuide apenas de pesquisar os significados dos vocábulos e expressões que compõem a definição e de apurar da sua coerência com o ordenamento constitucional. Isso não apenas me parece. [35] Apesar de não haver um aprofundamento na definição de o que seria "destinatário final"." [33] Se antes a demonstração da inexistência de vulnerabilidade fazia excluir a aplicação do CDC. que tal ente ou entidade não pode ser entendido. por a + b.2 O consumidor por equiparação . O art. O jurista. 3º e §§1º e 2º. toda pessoa física ou jurídica que utiliza. o profissional do direito não perde tempo em cogitações como tais. Entende-se como "consumidor". pelas exigências da modernidade atinentes à atividade. é "consumidor". ficou claro o dissídio entre a posição sufragada pelo STF. Não importa seja possível comprovar. o que descrito está no seu art. inclusive as de natureza bancária. como "fornecedor". Assim temos que. pela extremada necessidade do bem ou serviço. o Código define "consumidor". inquestionável. todas elas. atividade bancária. 3º define como serviço "qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. Inútil. pela natureza adesiva do contrato imposto. Eis o trecho do voto condutor do Min. Diante da definição legal. diante disso. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista". 2º do Código diz que "consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final". E o § 2º do art. força é acatá-la. economicamente. para os efeitos do Código do Consumidor. para os efeitos do Código de Defesa do Consumidor. dentre outros fatores. de crédito e securitária. o STF incidentalmente manifestou-se sobre o conceito de consumidor. "fornecedor". como "produto" e como "serviço". sujeitas ao cumprimento das normas estatuídas pelo Código de Defesa do Consumidor. Chamado a decidir questão sobre o campo de incidência do CDC. "produto" e "serviço". pelo monopólio da produção do bem ou sua qualidade insuperável. e aquela que vem sendo adotada pelo STJ. qualquer esforço retórico desenvolvido com base no senso comum ou em disciplinas científicas para negar os enunciados desses preceitos normativos. mediante remuneração. inquestionavelmente.

o que não diz muito. mais preocupados com o caput deste artigo.1 O interveniente nas relações de consumo "Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas. atribuindo-lhe conteúdo e significado próprios. podem vir a ser atingidas ou prejudicadas pelas atividades dos fornecedores no mercado. parece-nos que essas pessoas estão mais bem colocadas nas demais definições trazidas pelo Código: quando forem consumidoras efetivas. Rizzatto Nunes [38] afirma que "a hipótese dessa norma diz respeito apenas ao atingimento da coletividade.86 Diversas pessoas. que haja intervindo nas relações de consumo" (art. 2º. ou quando forem vítimas de acidente de consumo. Esse parágrafo é de difícil interpretação. anda que não possam ser consideradas consumidores stricto sensu. 17 enquadra a questão". vindo a intervir nas relações de consumo de outra forma a ocupar uma posição de vulnerabilidade. que já têm previsão nos art. indeterminável ou não. 2º. ainda que não possam ser consideradas consumidoras no sentido estrito. do art. 2º (consumidores). VI e 81. Mirella Caldeira [40] conclui que a função deste dispositivo é "reforçar a idéia da tutela dos interesses difusos e coletivos". A dificuldade está principalmente em construir uma interpretação desta norma de modo que não se confunda com as demais regras de abertura do Código. Porém. 6º. a posição preponderante do fornecedor a posição de vulnerabilidade dessas pessoas justificam a equiparação feita pelo legislador. mas também com a sua potencial aquisição – assim. ainda que indetermináveis. . Eliminando aqueles definidos no caput do art. 3º (fornecedores) e no caput do art. parágrafo único).2. também estão protegidos os potenciais consumidores. não sobra ninguém! Seguindo raciocínio semelhante. [37] 3. mas sem sofrer danos. Fábio Ulhoa [39] define as pessoas abrangidas por essa norma não como integrantes do grupo de consumidores em potencial. ou será fornecedor ou será consumidor. [36] A conceituação legal não se ocupa apenas da aquisição efetiva de produtos e serviços. não se aprofundam no tema. mas "as pessoas do relacionamento social do consumidor que podem sofrer eventuais efeitos indiretos da relação de consumo". e os comentadores. fica difícil enxergar um campo de incidência para o parágrafo único. Se a pessoa interveio na relação de consumo. Pela leitura dos demais artigos. ou ainda estiverem expostas às práticas comerciais ou contratuais. já que neste caso o art.

expostas às práticas nele previstas" (art. pois a tutela nessas áreas "não se pode restringir ao momento posterior ao acordo entre o consumidor e o fornecedor". pequena ou grande empresa. não se exigindo que a vítima seja consumidor final. equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento" (art. com ou sem intuito de lucro. independente de haver qualquer relação prévia entre fornecedor e vítima. 2º garante a proteção individual do consumidor. aplicando-se integralmente as normas sobre responsabilidade objetiva pelo fato do produto [41]. 2º. "não há dispositivo que autorize o intermediário que não adquira ou utilize o produto ou serviço como destinatário final a agir com base no Código do Consumidor". inclusive aquele que adquiriu o produto para revenda.2. [43] Tal argumentação permite concluir que até mesmo a pessoa jurídica de forma geral.2. equiparam-se aos consumidores todas as pessoas determináveis ou não.3 A pessoa exposta às práticas comerciais e contratuais "Para os fins deste capítulo [das práticas comerciais] e do seguinte [da proteção contratual]. para que tenha . 29). Assim. estão protegidos todos os potenciais consumidores. pouco importando que seja pessoa física ou jurídica. 3. está acobertado por esta disposição legal.2 A vítima de acidente de consumo "Para os efeitos desta Seção [da responsabilidade pelo fato do produto e do serviço. Nesse ponto o silêncio da doutrina confirma que distinção alguma há entre as vítimas do acidente de consumo. 3. 29.. i. entretanto. Assim. tal equiparação somente é valida na responsabilidade civil decorrente de fato do produto ou serviço. o parágrafo único do mesmo artigo garante a sua proteção coletiva. lançar mão das normas do Código do Consumidor referentes à proteção contratual e às práticas comerciais" [44] . qualquer vítima de um produto ou serviço receberá a proteção do CDC como se consumidor fosse.87 É dizer. [42] Mesmo o adquirente intermediário poderá se valer das regras do CDC para buscar a recomposição de seus danos. quando houver vício no produto ou serviço. privada ou pública. de modo que o "intermediário que adquirir produto sem que o faça na condição de adquirente ou usuário final" deverá se valer das disposições do Código Civil. 17). mesmo que não possa ser assim considerado com base na definição do art. devendo antecedê-lo. "podendo. Outrossim. responsabilidade extracontratual. com base no art. "sujeitos à mesma proteção que a lei reconhece aos consumidores no tocante às práticas comerciais e contratuais". enquanto o caput do art.e.

transformação. sua ética de responsabilidade social no mercado. [49] 4. o art. criação. ao contrário do que ocorre no art. não se exige que o fornecedor tenha personalidade jurídica. do CDC). ao revés. 966. para combater as práticas comerciais abusivas". do CC. Também o Estado. ainda que mereça tratamento diferenciado (art. As sociedades simples (CC 981 e 982) não são empresárias. etc. de pessoas jurídicas e de pessoas físicas. fundações públicas ou privadas. mas não há dúvidas de que ele é tratado como fornecedor pelo CDC. exportação. Em suma. construção. seja sociedade empresarial. ainda que em nenhum momento se possa identificar um único consumidor real que pretenda insurgir-se contra tal prática. parágrafo único. bem como os entes despersonalizados. 14. sociedades de economia mista. 2º. montagem. FORNECEDOR Fornecedor. mas isso não lhes afasta da incidência do CDC. empresas públicas." [47] Cláudia Lima Marques [48] inclui entre as pessoas expostas às práticas abusivas também os agentes econômicos. exclui o profissional liberal do conceito de empresário. O único requisito é que estejam expostas às práticas comerciais e contratuais abrangidas pelo Código. sendo-lhes facultado o manejo "[d]as normas especiais do CDC. Assim. 4º. [45] "Uma vez existindo qualquer prática comercial. "é toda pessoa física ou jurídica. e nem mesmo capacidade civil. caput. onde há referência expressa ao ‘destinatário final’. nacional ou estrangeira. [51] Atente-se que nem todo fornecedor é empresário." [46] Herman Benjamin esclarece ser "indiferente estejam essas pessoas identificadas individualmente ou. [50] A definição que nos é dada pela lei não exclui nenhum tipo de pessoa jurídica. com ou sem fins lucrativos. até. órgãos da Administração direta. segundo a definição legal (CDC 3º).88 um caráter preventivo e mais amplo". que desenvolvem atividades de produção. sua nova ordem pública. pública ou privada. direto ou indireto. façam parte de uma coletividade indeterminada composta só de pessoas físicas ou só de pessoas jurídicas. para os consumidores diante da prática comercial abusiva. distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços". toda a coletividade de pessoas já está exposta a ela. ostensivamente quando atua como agente econômico ou prestando serviços . importação. Assim. 29. ou.. Esse entendimento se faz possível pela não inclusão de qualquer tipo de limitação na definição do art. apontando como único limite a idéia de prejuízo. fornecedor é todo e qualquer participante do ciclo produtivo-distributivo. seus princípios.

está abrangido pelo conceito de fornecedor.. ou então mediante participação direta em assembléias gerais que. tal atividade econômica deve ser desenvolvida com profissionalismo. [59] A regularidade consiste no exercício constante e estável da atividade.2 Profissionalismo Outrossim. Porém.). objetivo de satisfação de necessidade alheia. o que caracteriza o fornecedor de produtos é o desenvolvimento de atividades tipicamente profissionais. pela análise do dispositivo legal que define quem pode ser considerado fornecedor. mas sim de uma atividade econômica. 4. [57] [56] 4. Já quanto ao prestador de serviços. Já as entidades associativas e os condomínios em edificações. com regularidade. i.89 públicos mediante remuneração direta [52]. não se exigindo que o prestador seja "profissional" da área. pois "seu fim ou objetivo social é deliberado pelos próprios interessados. e o propósito de obter um ganho. de modo que. como ressalta Flávia Püschel [60]. são os órgãos deliberativos soberanos nas chamadas ‘sociedades contingentes’". não são considerados profissionais . em última análise. não podem ser considerados fornecedores em face de seus associados e condôminos.1 Elementos característicos do fornecedor 4.1. se a entidade associativa tiver como fim precípuo a prestação de serviços." [54] Para Cláudia Lima Marques [55]. basta que a atividade seja habitual ou reiterada. deve ser considerada fornecedora desses serviços. "Qualquer ato singular deve poder ser reconduzido a uma atividade para ser considerado ato de fornecimento e submeter-se às normas do CDC". de maneira a atender às necessidades dos consumidores. cobrando mensalidade ou algum outro tipo de contribuição.1.1 Atividade econômica Por atividade se entende o "conjunto de atos ordenados em função de um determinado objetivo (. sejam representados ou não por intermédio de conselhos deliberativos. de onde se concluí não bastar a prática de atos isolados para que se caracterize a figura do fornecedor. devendo ser avaliada de forma autônoma em relação aos atos singulares de que é composta". como se sabe.. temos que não bastará o exercício de qualquer atividade. [58] Ainda.. diz Filomeno . [53] Filomeno enquadra na definição de fornecedor todos que "propiciem a oferta de produtos e serviços no mercado de consumo. sendo despiciendo indagar-se a que título.e.

O fornecedor é responsável. à princípio. pouco importando se para poucos ou para muitos. aquele que exerce . e ressalvada a aplicação dos arts. a obtenção de ganho. [64] "Além disso. basta para que se configure a relação de consumo.1. não conseguiria competir com os preços da primeira. 927. não há necessidade de que cada ato singular seja praticado com o objetivo de obter ganho. a atividade que ocorra com certa regularidade." [63] Entender de outro modo poderia fomentar a concorrência desleal entre entidades sem fins lucrativos – sujeitas. prevalece que basta ter "por objetivo buscar o reembolso dos fatores de produção empregados ou evitar perdas e gastos. com o objetivo de auferir lucros. Quanto ao último elemento. de modo que as entidades que desenvolvem atividades sem fins lucrativos não seriam consideradas fornecedoras.e.. por produtos distribuídos gratuitamente como amostra. Porém. a atividade comercial sazonal ou eventual não obsta a incidência das regras do CDC. tendo que incluir no custo de sua operação o ônus de responder objetivamente aos danos que der causa. à responsabilidade subjetiva. embora não haja remuneração por tais amostras. ainda que não de forma contínua. e não aos atos singulares. o objetivo de ganho deve referir-se à atividade em si. tal distribuição gratuita faz parte do exercício da atividade econômica profissional do fornecedor. [66] Assim. pois.e. Porém. é preciso que exerça sua atividade econômica de forma autônoma. não sendo possível a caracterização de profissionalismo na pessoa que produz exclusivamente para a satisfação de necessidade pessoal.3 Autonomia Por fim. não-subordinada. Para alguns – como Giuseppe Ferri e Tullio Ascarelli [62] – deverá haver finalidade de obtenção de lucro. i. de incremento no patrimônio. para que se caracterize determinado ente como fornecedor. ou seja. sem procurar o incremento patrimonial propriamente dito.. A definição de atividade autônoma é obtida como contraposição de atividade subordinada: desenvolvida na dependência de outrem e cujos resultados se referem a bens alheios ou a serviços depois fornecidos por outrem. por exemplo. De acordo com Rizzatto Nunes. do CC – e as com finalidade lucrativa. que. [61] É indispensável que o desenvolvimento da atividade econômica seja voltado para a satisfação de necessidade alheia." [65] 4.90 aqueles que exercem atividade econômica "acidentalmente e cuja organização exaure sua função no cumprimento do próprio ato para o qual foi criada". que seja ininterrupta – para que se configure uma relação de consumo. é importante ressaltar que não se exige a habitualidade da atividade – i. parágrafo único e 931. há divergência doutrinária.

de acordo com Flavia Püschel [69]. mas está inserido na cadeia produtiva. e. [68] Um mesmo produto pode. uma vez que. a parte componente (que se destina à incorporação a um produto final).91 atividade na qualidade de empregado de outrem. dependendo das circunstâncias. seja de uma parte componente.2 Produtor real. Há uma exceção.2. aquele que desenvolve suas atividades 4. 18).2 Espécies de fornecedor Estabelecida a amplitude do conceito de fornecedor (art. 12-14). é possível identificar três espécies de produto: a matéria-prima (materiais e substâncias destinados à fabricação de produtos). não é fornecedor. porém: na seção que trata da ‘responsabilidade por fato do produto ou serviço’ (arts. sobretudo." [70] Produtor presumido é o importador. e o prestador de serviços. assim como por aqueles resultantes diretamente de sua própria atividade. Mas quando adentramos no tema da responsabilidade pelo fato do produto mostra-se de grande importância. contribuindo em qualquer medida "para a confecção de um produto apto para a distribuição. estar enquadrado em qualquer uma dessas categorias. de uma análise da função do produto e do modo como é oferecido no mercado.. A princípio.2. Perante o consumidor tal distinção não apresenta relevância prática nas questões relativas ao vício do produto. bem como pelos defeitos da matériaprima empregada na produção da parte componente (." 4. 3º). presumido e aparente Produtor real é aquele que participa de maneira autônoma no processo de produção de um bem. e referidos sob a denominação comum de fornecedor. .). portanto. dependendo. art. o comerciante. evitando que ele tenha que buscar a reparação em face do produtor real estrangeiro.. seja de uma matéria-prima. Tal ficção legal existe como concretização do postulado que determinada a facilitação da defesa do consumidor em juízo. a lei dá tratamento específico e diferenciado para o produtor [67]. de modo que o "produtor final responde pelos defeitos da parte componente. todos são tratados de forma uniforme ao longo do Código. é fornecedor.1 Produtor final e produtor de matéria prima ou parte componente De acordo com as etapas da produção. 4. "cada produtor responde pelos defeitos surgidos durante o seu próprio processo de produção ou em fases anteriores". e o produto final (pronto para servir ao uso a que se destina). cabe agora traçar eventuais diferenças entre os diversos participantes da cadeia produtiva-distributiva. seja de um produto final. em razão da responsabilidade solidária imposta pela lei (CDC.

3 Comerciante Comerciante. o comerciante somente é responsabilizado pelo fato do produto direta e isoladamente quando houver máconservação do produto.2. trata-se de atividade de simples distribuição" [73]. Atente-se. deve ser levada em conta "a influência da atividade em questão sobre a configuração e qualidades essenciais do produto". de forma subsidiária. 3º. Em face da redação explícita da lei.2. na definição de Flavia Püschel [72]. se há "influência sobre a estrutura ou qualidades essenciais do bem. é todo sujeito que distribui produtos no âmbito de sua atividade profissional. Existindo. ou ainda as concessionárias de serviços públicos" [75]. deverá ser analisada qual a atividade preponderante para que se possa dar o tratamento legislativo adequado à relação de consumo. de modo a ocultar a indicação do produtor real do produto. Para diferenciar a atividade produtiva da mera distribuição. inclui-se no conceito de fornecedor o próprio Poder Público. ao contrário. Quando houve fornecimento de produto juntamente com a prestação de serviços.92 Produtor aparente é aquele que simplesmente apõe ao produto o seu nome ou marca. em seu art. porém. sem exercer ele próprio atividade de produção. envolvendo ou não o concomitante fornecimento de produto. i..3 O Poder Público como fornecedor O Código. O tratamento dado pelo CDC ao comerciante é diferente dos demais fornecedores. que não fica excluída a eventual responsabilidade do produtor real. ou ainda. diz que o fornecedor pode ser ente público ou privado.4 Prestador de serviços Prestador de serviços é aquele ator da cadeia produtiva-distributiva que presta qualquer tipo de atividade no mercado de consumo. o produtor aparente é tratado como se tivesse em razão da situação de aparência criada para o consumidor. Enquanto a responsabilidade pelo vício do produto é solidária de todos os participantes da cadeia produtivo-distributiva.e. criando a aparência de ter ele mesmo produzido o bem. apenas uma manipulação insignificante. quando o produtor final [74] do produto não for suficientemente identificado. [71] 4. Assim. 4. não há como negar a sua incidência em . 4. "por si ou então por suas empresas públicas que desenvolvam atividade de produção. Ainda que não tenha efetivamente participado da produção. impedindo que o consumidor acione diretamente o produtor real. trata-se de atividade de produção.

são coisas úteis aos homens. é aquele "utilizado para fins de transformação e posterior transmissão". [77] É de relevância a classificação dos bens com base em sua taxa de consumo (CDC 26): bens duráveis (bens tangíveis que normalmente sobrevivem a muitos usos). na econômica definição do CDC. uma vez que a lei não faz qualquer ressalva. conceituando produto como "qualquer objeto de interesse em dada relação de consumo. material ou imaterial" (art. e como o produto não-durável tem características diversas. e bem de custeio. Bem de insumo. Rizzatto Nunes [80] defende que. sempre que configurados os elementos acima expostos. PRODUTO Produto. de modo que "o bem transformado para uso posterior próprio não retira do adquirente ou utente a situação jurídica de consumidor". ou de consumo. a limitação deve ser feita somente com base na finalidade (motivo) da aquisição do produto (consumo como destinatário final). como instrumento hábil para a consecução dos fins objetivados. [81] Roberto Senise Lisboa [82] entende não ser razoável a exclusão pura e simples do bem de insumo da proteção do CDC. Surge a dúvida de onde classificar os produtos descartáveis. ou de produção. [78] O simples fato de o produto não se extinguir numa única utilização não lhe retira o status de não durável – "o que caracteriza essa qualificação é sua maneira de extinção ‘enquanto’ é utilizado" [79]. o descartável deve receber o tratamento dispensado ao durável. não havendo tratamento legislativo específico. por sua vez. sendo objeto de apropriação privada. bens não duráveis (bens tangíveis que normalmente são consumidos em um ou em alguns poucos usos). enquanto bem de custeio. como destinatário final". que têm essência de duráveis. Rizzatto Nunes [83] defende que o CDC é aplicado nos casos em que os produtos e serviços são oferecidos no mercado de consumo para a aquisição por qualquer pessoa como destinatária final. que provocam a sua cupidez. suscetíveis de apropriação. Já quanto ao enquadramento ou não de todas as atividades exercidas pelo Poder Público veremos mais adiante quando for debatida delimitação legal do serviço. 3º. Bens. 5. e destinado a satisfazer uma necessidade do adquirente. móvel ou imóvel. independente . sem qualquer transferência para a clientela". é "a coisa adquirida para desenvolvimento da própria atividade. mas vida útil de não-duráveis. [76] Filomeno resume. §1º). bens econômicos são as coisas úteis e raras.93 relação ao Poder Público. assim. No mesmo sentido. "é qualquer bem. Uma outra classificação se mostra relevante para fins de se determinar a incidência ou não da legislação consumerista: bem de insumo.

mesmo quando firmada entre pessoas jurídicas. parágrafo único).94 do uso que o adquirente faça. aplicado CDC em relação à administradora de imóveis [88]. sob pena de comprometer a sua substância. também está regulado pelo CDC (art. ao invés de "oneroso". comercial ou administrativa. 4º). Tal posição se coaduna. [86] Outrossim. a adoção das outras soluções propugnadas pelo legislador (redibição." Por outro lado. segundo Filomeno . mediante remuneração. seja de natureza civil. é relevante ressaltar que o produto (assim como o serviço) gratuito. SERVIÇO Serviço "é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. outrossim. [84] Por fim. Este "não pode ser reparado no caso de existência de vício intrínseco. porém. e nenhum outro mais. haverá relação de consumo sempre que preenchidos os requisitos legais. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista" (CDC3º. para a produção ou não de outros produtos ou serviços. §2º). "amostra grátis". 6. Produto compósito "é aquele resultante do justaposicionamento de peças e componentes que podem ser substituídos sem que se proporcione a sua inadequação". Assim. que contém ainda dispositivo contra prática abusiva (denúncia vazia na vigência de contrato por prazo determinado. cabendo ao consumidor. inclusive as de natureza bancária. estariam excluídos da aplicação do CDC. neste caso. a utilização da expressão "mediante remuneração". justifica tal posição na existência de legislação própria (Lei nº 8245/91). como atividade remunerada. "os contratos unilaterais de prestação de serviços e os contratos . ao fornecedor será aberto o prazo legal para realizar os reparos necessários. pouco importando "que o serviço. de modo que seus elementos são insuscetíveis de dissociação. as relações locatícias de imóveis. enquanto o produto compósito. [89] Assim. estimação ou troca)". financeira. significaria abranger também os serviços remunerados de forma indireta – a lei se refere à remuneração do serviço e não à sua gratuidade. Roberto Senise Lisboa [85] ressalta que a lei somente excepciona os serviços prestados em relações trabalhistas. apresentando vício em alguma peça. de crédito e securitária. art. Outra classificação extremamente útil nos é trazida por Roberto Senise Lisboa quanto à substituição das peças: entre produto compósito e produto essencial (não compósito). que tem.". 39. com o posicionamento reiterado do STJ [87]. enquanto produto essencial "é aquele que não pode ter qualquer de seus componentes retirados ou substituídos. estando sujeito a todas as suas regras.

enquanto que nas relações de consumo não haveria responsabilidade estatal. 79. as concessionárias e permissionárias ou qualquer outra forma de empreendimento" – i. art. não há que se falar em aplicação do CDC. Já para Regina Helena Costa [96].95 gratuitos puros" [90] não são regidos pelo CDC. Assim. Já para Cintra do Amaral [94]. mas fruível singularmente pelos administrados. "todas as atividades oferecidas pelos órgãos públicos diretamente ou por suas empresas públicas ou de economia mista. estes são os que se esgotam uma vez prestados. Filomeno [93] entende que "serviços" são atividades. . Por outro lado. [91] 6. aqueles são os que têm continuidade no tempo em decorrência de estipulação contratual. sob um regime de Direito Público – portanto consagrador de prerrogativas de supremacia e de restrições especiais – instituído em favor dos interesses que houver definidos como próprios no sistema normativo" [92]. sempre que se tratar de serviço público. e os que deixam como resultado um produto. seja ele prestado diretamente pelo Estado ou por concessionária. taxas ou contribuições de melhoria. benefícios ou satisfações que são oferecidas à venda. remunerados por taxa ou tarifa. e que "mediante remuneração" não se refere a tributos. Classificam-se os serviços em "duráveis" e "não-duráveis". II e III). nos serviços públicos o Estado sempre figura como responsável pelos eventuais danos decorrentes do serviço. além da atividade privada.e. sem ressalvas. todos os serviços públicos. pois aí haveria relação jurídica de natureza tributária.. mas tão somente a sua intervenção como regulador das relações privadas. pois não haverá a necessária onerosidade da relação obrigacional. e não de consumo – "contribuinte não se confunde com consumidor". Admite apenas a inclusão dos serviços remunerados por tarifas em sua definição. estariam sujeitos à disciplina do CDC. de modo que somente a "prestação de serviços públicos. para Rizzatto Nunes [95] estão incluídas no conceito de serviço. não seria possível confundir o consumidor com o contribuinte. mesmo que prestados por sujeito que normalmente atua como fornecedor no mercado de consumo.1 Serviços públicos "Serviço público é toda atividade de oferecimento de utilidade ou comodidade material destinada à satisfação da coletividade em geral. específicos e divisíveis" (CTN. com a exclusão de todos os demais. que o Estado assume como pertinente a seus deveres e presta por si mesmo ou por quem lhe faça as vezes. "é a exigência de remuneração específica pela prestação de determinado serviço público que vai determinar sua sujeição à disciplina legal das relações de consumo".

sem exceção. Mais. não teriam a especificidade nem a divisibilidade necessárias para a caracterização de relação de consumo. direta ou indireta. seja por que regime for. "uma vez que o pagamento de impostos e taxas é dirigido para o cofre público. Roberto Senise Lisboa [100] ainda defende que os serviços tipicamente estatais. Por outro lado. de modo que a prestação de serviço público típico. os serviços públicos impróprios. o referido autor passou a defender ser necessária a análise da forma de pagamento da remuneração e a natureza do serviço público desempenhado a fim de se aferir a incidência ou não da legislação de consumo. . afirma ser indiscutível a aplicabilidade do CDC aos serviços remunerados por tarifa. de acordo com o orçamento previamente elaborado pela Administração". e saúde pública). porque o destinatário final se utiliza da atividade estatal a ele fornecida em razão do pagamento da prestação diretamente vinculada a essa atividade" [99]. seguindo essa orientação. inclusive as de natureza administrativa. Isso exclui "praticamente todas as relações jurídicas tributárias" da regulação do CDC. mesmo as taxas. Ainda. Para o autor.96 Num primeiro momento Roberto Senise Lisboa [97] defendeu que quando a lei excluiu expressamente as relações trabalhistas do rol das prestações de serviço por si reguladas. para fins da lei. somente quando os serviços e produtos são oferecidos no "mercado de consumo" poderia haver relação de consumo. Por outro lado. é de que a prestação de serviço público não configura relação de consumo. mediante o pagamento diretamente efetuado pelo consumidor a título de prestação correspondente. E resume: "a Administração Pública. somente haverá relação de consumo com a administração pública (direta ou indireta) quando a aquisição ou utilização do serviço se der mediante pagamento direito. deve se submeter às normas do Código de Defesa do Consumidor sempre que fornecer um serviço público uti singuli. "toda a atividade remunerada lançada no mercado de consumo pelo órgão público". os impostos. seriam invariavelmente submetidos ao regime do CDC. que por natureza são uti universi (tais como segurança. Segundo esse entendimento. sendo as verbas obtidas pelo Poder Público repassadas para cada setor da atividade pública. justiça. que é "genuína remuneração pelo serviço prestado pelo órgão público ou pela entidade da Administração indireta." O entendimento do STJ [101]. não estariam jamais sujeitos à regulação do CDC. o Estado está isento de responsabilidade. prestadas pela administração pública direta ou indireta. Revendo sua posição [98]. pois considera-se serviço. em ralação aos atos de império e pelo exercício do poder de polícia. que podem ser prestados uti singuli. Destarte. incluiu todas as demais.

conforme se extrai de definição de fornecedor adotada neste trabalho. Acessado em 26/03/2007. 2006. João Batista. do seu campo de aplicação "a definição do custo das operações ativas e da remuneração das operações passivas praticadas por instituições financeiras no desempenho da intermediação de dinheiro na economia. São Paulo: RT. financeiras e de crédito.br. o STF pacificou a questão – ADI 2591 – determinando a sujeição de tais atividades às regras do CDC. O conceito de consumidor direto e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. onerosidade excessiva ou outras distorções na composição contratual da taxa de juros". 2ª ed. de eventual abusividade. esta posição se encontra em perfeita harmonia com a legislação consumerista. pelo Banco Central do Brasil. ALMEIDA. limitando-se a defini-lo. BANDEIRA DE MELLO. 192. Outrossim. negando de forma peremptória que não há relação de consumo entre o poder público e contribuinte.. sobre as quais se discutia a possibilidade de regulamentação através de lei ordinária. uma vez que não há como considerar que o serviço público típico esteja colocado no mercado de consumo. remunerado por tarifa). . porém. In: http://bdjur. Fátima Nancy. art. James et alii. 1995. nos termos do disposto no Código Civil. pelo Poder Judiciário. como sendo o destinatário final dos serviços. São Paulo: Saraiva. tal decisão pouco contribuiu para a definição do conceito de consumidor. 6. Manual de direito do consumidor. Ademais. José Manoel de Arruda. afastando. 7. ANDRIGHI. Celso Antônio. sem prejuízo do controle.2 Atividades bancárias.stj. MARINS.. financeiras e de crédito Quanto às atividades bancárias.97 aquele remunerado por tributo (em oposição ao atípico. Curso de direito administrativo. e do controle e revisão. 2ª ed. Afirmou-se ainda que somente é necessária a edição de lei complementar para a regulamentação da estrutura do sistema financeiro – CF. BIBLIOGRAFIA ALVIM NETTO. ficaria excluída da incidência do CDC. como a lei. Semelhante é o entendimento do STF [102] sobre o tema. Código do consumidor comentado. em cada caso.gov.

___________. O conceito de consumidor no parágrafo único do art. Relação de consumo e proteção jurídica do consumidor no direito brasileiro. CALDEIRA. Proteção ao consumidor: conceito e extensão. p. 42-41. Eros Roberto. p. Acessado em 26/03/2007. O código brasileiro de proteção do consumidor. A tributação e o consumidor. 80. São Paulo: RT. Acessado em 11/06/2007. ___________.. GRAU. Regina Helena. Disponível em: http://www. In: Revista de direito mercantil. Definição jurídica de consumidor – Evolução da . In: Revista dos tribunais. GRINOVER. Fábio Konder. p. Código brasileiro de defesa do consumidor comentado pelos autores do anteprojeto. 89-105. 1974. n. ___________. A proteção ao consumidor na constituição brasileira de 1988. In: Revista de direito mercantil. Maria Antonieta Zanardo.gov. n. 2005. n.com.br. BEJAMIN. 2003. In: www. Acessado em 04/06/2007. 2ª ed. COMPARATO. n. ___________.br. Out-Dez/1990. n.direitodoestado. In: Revista eletrônica de Direito Administrativo Econômico. Distinção entre usuário de serviço público e consumidor.com. São Paulo: Juarez de Oliveira. COSTA. Herman. O conceito de consumidor padrão. São Paulo: RT. In: Revista CEJ.br. Ada Pellegrini et alii. 69-79. Fev/1988.saraivajur. 2º do Código de Defesa do Consumidor. Antônio Carlos. 2/91. Mai-Jul/2006. O conceito jurídico de consumidor. 628. In: Repertório IOB de jurisprudência. Sérgio Pinheiro.br.saraivajur. DONATO. p.. A proteção do consumidor: importante capítulo do direito econômico. Definição legal de consumidor. Acessado em 26/03/2007. Disponível em: www. Roberto Senise. 15/16.. CINTRA DO AMARAL. n.com. 6.stj. LISBOA.98 16ª ed. MARÇAL. Disponível em: http://bdjur. Jan/1991. Mirella D’Angelo. Responsabilidade civil nas relações de consumo. 1999. 1994. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 66-75. 8ª ed. São Paulo: Malheiros. Ago/1997. 02. 2006.

99 jurisprudência do STJ.. p. 159. 21. Proteção ao consumidor. p. Comentários. 90-91. Comentários ao código de defesa do consumidor. in: Código comentado. James Marins. 2004. Relação de consumo. considerando consumidora . Herman Benjamin. Em sentido semelhante: "A lei é clara ao classificar como consumidor a pessoa jurídica. 2006. 2ª ed. p. p. MARQUES. Responsabilidade. Há polêmica no Brasil acerca do tema. p. Filomeno. Comentários. p. p. São Paulo: Saraiva. 19-20 e notas. A responsabilidade por fato do produto no CDC. Roberto Senise Lisboa. Dez/2006. ‘O conceito jurídico de consumidor’. p. Comentários ao código de proteção ao consumidor. 1977. Proteção ao consumidor. p. James Marins. 89. p. 88. Rio de Janeiro: Forense. SIDOU. Maria Antonieta Donato. Responsabilidade civil. 71-78. p. Fábio Konder Comparato. 78-80. n. in: Código comentado. p. Juarez de (coord. In: Revista do advogado. 1991. São Paulo: Saraiva. Roberto Senise Lisboa. Herman Benjamin. Notas 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 Roberto Senise Lisboa. OLIVEIRA. Luiz Antônio Rizzatto. 6 e 29-32. 189. 107-113. 2005. Comentários ao código de defesa do consumidor. 71. Flavia Portella. Cláudia Lima et alii.). PÜSCHEL. ‘O conceito jurídico de consumidor’. São Paulo: Quartier Latin. Othon. Cf. Rizzatto Nunes. Rizzatto Nunes. São Paulo: RT. havendo quem queira distinguir onde a lei não o faz. 87-98. ‘A proteção do consumidor’. p. NUNES. 31. V. desde que possa subsumir-se no enquadramento normativo dos conceitos de consumidor que o CDC estabelece. in: Código comentado.

80 apud Herman Benjamin.100 a pessoa jurídica apenas quando adquira produto ou se utilize de serviço que não seja considerado insumo para sua atividade empresarial. p. p. David W. Proteção ao consumidor. Proteção ao consumidor. p. indústria de automóveis que adquire computadores para seu escritório não seria consumidora.." (Thierry Bougoignie apud Maria Antonieta Donato. 32. 2º. a tese restritiva nega vigência ao art. Comentários. in: Código comentado. p. 68 e 108. É o que Roberto Senise Lisboa chama de ‘teoria da causa final’. isto é. para os que a defendem. 165. p. 71. 31-37. 29. p. 18 19 17 Cláudia Lima Marques. Roberto Senise Lisboa. pois. caput. p. Comentários. Relação de consumo. p. e os bens ou serviço que são objeto de sua especialidade comercial ou profissional’. Para essa corrente restritiva. ‘O conceito jurídico de consumidor’. 494. 166-167. ou alguém duvida sinceramente que o cafezinho do diretor da montadora de carros não esteja embutido no preço final dos veículos vendidos aos consumidores? 20 21 Maria Antonieta Donato. 14 15 16 James Marins. The dictionary of modern economics. . Pearce. p. Uma nota se faz imprescindível sobre esse argumento: todo e qualquer bem adquirido pela empresa está incluído no preço final ao adquirente de seus produtos. p. in: Código comentado. in: Código comentado. praticamente nunca a pessoa jurídica seria consumidora. p. 25 26 Cf." Nery Jr. nessa condução. pois os computadores melhoram a sua produtividade e. p. pouco importando que faça ou não parte da cadeia produtiva. 22 23 24 Filomeno. não tendo nenhuma relação com o seu ‘porquê’ (Responsabilidade civil. e Responsabilidade civil. "[P]oderá ser conferida a tutela protecionista dos consumidores às pessoas jurídicas ou aos consumidores-profissionais desde que fundada ‘na ausência de similitude entre o bem e o serviço que são objeto do ato para o qual o profissional reclama a sua qualidade de consumidor. p. João Batista de Almeida. Responsabilidade civil. 35-40. 108). 27. p. Roberto Senise Lisboa. 169-183). p. 71. Cf. são considerados insumos. o ‘para que’ o fato ocorreu. Cláudia Lima Marques. do CDC. Herman Benjamin. Manual. Levada à sua última conseqüência. ‘O conceito jurídico de consumidor’. 71-74. 72.

2º Cf. p. Comentários. Nancy Andrighi. p. in: Código comentado. in: Código comentado.056-SP Nancy Andrighi. p. ainda que o Código tampouco o eleja como elemento definidor de consumidor – a vulnerabilidade é conseqüência de ser consumidor. p. p. ‘O conceito de consumidor no parágrafo único do art. 140. 23. voto in: ADI nº 2591. 99. p. p. 42-41. 80-81. p. p. 100. p. . o termo mais apropriado seria "vulnerabilidade". p. in: Conflito de Competência nº 41. Comentários. 77. ‘O conceito jurídico de consumidor’. Rizzatto Nunes. uma vez que o CDC somente faz referência à hipossuficiência para fins processuais. p. Comentários. Note-se a utilização pouco técnica desse termo. p. in: Comentários. Cláudia Lima Marques. Cláudia Lima Marques. Mirella Caldeira. in: Código comentado. 41 42 Herman Benjamin. Herman Benjamin. in: REsp 476. 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 Cf. 253. in: Código comentado. Fábio Ulhoa. por Juarez de Oliveira. coord. 43 44 45 46 47 V. James Marins. p. Loc. cit. James Marins. Maria Antonieta Donato. Rizzatto Nunes. p. 277.101 27 28 29 30 Herman Benjamin. in: Código comentado. Eros Grau. 148-149. In: ‘Definição legal de consumidor’. p. in: Comentários. 74-75. Fábio Ulhoa. 148. por Juarez de Oliveira. 195.428-SC. in: Código comentado. coord. James Marins. 27. Proteção ao consumidor. 38. por Juarez de Oliveira. do CDC’. 20. coord. Comentários. James Marins. Filomeno. in: Comentários.

Flávia Püschel. Cf. in: Código comentado. p. nota 77. Mas também quando há remuneração indireta: Rizzatto Nunes. Responsabilidade. utilizando o termo produtor para referir a todos aqueles enumerados no art. 101-102. Utilizamos aqui a terminologia sugerida por Flávia Püschel (Responsabilidade. 62. 50 51 52 Cf. caput. Responsabilidade. p." 68 Flávia Püschel. uma vez que todos recebem indistintamente o mesmo tratamento legal. Apud Flávia Püschel. 66. 57-58). p. 59-61.102 48 49 Cláudia Lima Marques. Filomeno. Responsabilidade. p. 63. p. 46. Flávia Püschel. Rizzatto Nunes. Flávia Püschel. Flávia Püschel. in: Código comentado. Comentários. 63. ‘O código brasileiro de proteção ao consumidor’. 12. nota 102. 67. Comentários. p. 65. Responsabilidade. Responsabilidade. Flávia Püschel. Responsabilidade. 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 Cf. Responsabilidade. Denari. 101. 397. p. No mesmo sentido: Herman Benjamin. Filomeno. Responsabilidade. p. Comentários. Flávia Püschel. in: Código comentado. nota 47. 65. 174. Responsabilidade. p. Comentários. além de "remeter à idéia de produção. p. p. p. 43. de poder para influir sobre as características do produto. p. p. 71-72. 65. 19. p. 45. p. Filomeno. Cf. p. criação. Comentários. 93. . Rizzatto Nunes. p. 112-113. Cláudia Lima Marques. in: Código comentado. Tullio Ascarelli apud Flávia Püschel. p. Flávia Püschel. p. p. isto é. Responsabilidade.

Comentários. p. 199. 82. 119 apud Filomeno. Filomeno. Relação de consumo. 1. Roberto Senise Lisboa. p. 48. Cf. 101. Responsabilidade. 107-108. 47. p. 25. Flávia Püschel. 9-10. p. Relação de consumo. ex. Cf. 47. Comentários. Rizzatto Nunes. Flávia Püschel. 83. p. 92. Flávia Püschel. Responsabilidade. 86. Rizzatto Nunes. e 575020.: REsp nº 689266. 198 e ss. p. 111. Rizzatto Nunes.103 69 70 71 72 73 74 75 Flávia Püschel. p. 82. in: Código comentado. James Marins. in: Código comentado. p. p. Roberto Senise Lisboa. P. AgRg no Ag nº 363679. 25-26. Sílvio Rodrigues. p. Relação de consumo.. Comentários. p. Responsabilidade civil. Rizzatto Nunes. Comentários. Flávia Püschel. Comentários. 37-38. p. v. Filomeno. 196-197. No mesmo sentido: Rizzatto Nunes. 108. p. 110-111. Cf. 79 80 81 82 83 84 85 86 87 88 89 Cf. Relação de consumo. p. Cf. Responsabilidade. e 636897. p. Roberto Senise Lisboa. Roberto Senise Lisboa. p. p. p. Responsabilidade. p. p. 57. Filomeno. . 77. in: Código comentado. Comentários. Rizzatto Nunes. 94. Direito civil. p. 43. Responsabilidade. 90 91 Roberto Senise Lisboa. p. p. nota 20. Cf. p. p. 73-74. in: Código comentado. Comentários. p. Responsabilidade. 107-108. Rizzatto Nunes. in: Código comentado. Responsabilidade civil. REsp nº 614981. Comentários. Roberto Senise Lisboa. in: Código comentado. Cláudia Lima Marques. 77 78 76 Cf. Flávia Püschel. Filomeno. p.

122-123.298-2/RS. 48-49. STF. Nesse mesmo sentido: Maria Antonieta Donato. 214-217. Divergiram da fundamentação da maioria. Relação de consumo. Rel. 213-214.. os demais julgados lá referenciados. e Castro Filho. 102 . Carlos Velloso. Min. entendendo que na prestação de serviço público típico há relação de consumo: Nancy Andrighi. Roberto Senise Lisboa. 211-213. V. p. Cintra do Amaral. 6. Proteção ao consumidor. p. ‘Distinção entre usuário de serviço público e consumidor’.104 92 93 94 Celso Antônio. 612. Comentários. 112-113. 95 96 Rizzatto Nunes. p. Nancy Andrighi. p. p. Roberto Senise Lisboa. 3ª T. Regina Helena Costa. AgRegAI 282.144-SP. Min. Filomeno. 2ª T. 97 98 99 Roberto Senise Lisboa. ‘A tributação e o consumidor’. Roberto Senise Lisboa. Curso.. Relação de consumo. Rel. REsp 625. p. ainda.. in: Código comentado. p. p. 28. n. Responsabilidade civil. Responsabilidade civil. 100 101 STJ.

isto é. anota que "a relação jurídica consiste num vínculo entre pessoas. Afigura-se não haver a menor dúvida. O texto legal choca-se com o cotidiano. em razão do qual uma pode pretender um bem a que outra é obrigada. São Paulo. Diversa não é a relação de consumo. Pois muito bem. de início. de ordem objetiva. compõem-na de forma a demonstrar sua extensão e seu conteúdo. Donde vê-se necessário.078. em nossa obra Ofensa à Honra da Pessoa Jurídica (Ed. de 1990. de 1990. 8. 7ª ed. Estes. mesmo porque.078. Mas não é bem assim. em apertada e perigosa síntese. Mas a questão permanece suscitando controvérsia e nos aguçou a tecer considerações a respeito. Quanto aos elementos da relação de consumo.105 Pessoa jurídica consumidora Autor: Alex Sandro Ribeiro O enfrentamento da problemática envolvendo a pessoa jurídica qualificada com consumidora deu-se alhures. todas as relações jurídicas exigem a presença de alguns elementos. consumidor será o não profissional que de algum modo encontra-se vinculado com o fornecedor de produtos ou serviços. e elementos objetivos o produto e o serviço. Tal relação só existirá quando certas ações dos sujeitos. Evidentemente. regulado por norma jurídica" (Compêndio de Introdução à Ciência do Direito. citando Del Vecchio. São elementos subjetivos o consumidor e o fornecedor. que constituem o âmbito pessoal de determinadas normas. faltante um único deles sequer. . a dicção legal do Código de Defesa do Consumidor é de clareza mediana. somados. São Paulo: Saraiva. concluir-se-á pela inaplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor. outros. Verbera ele que toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final é considerada diretamente como consumidora. dada a incompatibilidade do preceito com a teleologia e a axiologia da norma.. forem relevantes no que atina ao caráter deôntico das normas aplicáveis à situação. pois. 1995. O artigo 2º da Lei n. devemos definir a relação jurídica de consumo. Vejamos. 2004). 8. Considerou consumidor toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final. Antes de qualquer coisa. atentar para o significado de relação jurídica. Exige-se a presença de elementos de órbita subjetiva e. amplamente. Só haverá relação jurídica se o vínculo entre duas pessoas estiver normado. Em regra. 459). Os atos ordinários da vida se orientam para caminho diametralmente oposto. desta feita cingindo-nos à definição. vêm eles arrolados nos artigos 2º e 3º da Lei n. os elementos que constituem a relação jurídica subsumível ao Código de Defesa do Consumidor. p. LEUD. De efeito. Maria Helena Diniz. esboçou a pretensão legislativa de fornecer os elementos necessários à definição das pessoas envolvidas na relação de consumo.

No item 2 vê-se que a utilização é quantum satis. (Código de processo civil comentado. há de sofrer um abrandamento. pois. porque a disjuntiva ou assim especifica e afasta a necessidade de aquisição para perpetuar a relação de consumo. Aqui. Nesse passo. 1999. Rio de Janeiro: Forense Universitária. reside o maior óbice à aplicabilidade irrestrita da do Código do Consumidor em favor da pessoa jurídica. 2001. Algumas decisões. também merece especial atenção quando se tenta localizar a pessoa do consumidor em eventual interpretação do artigo 2º da Lei Consumerista. em suas necessidades básicas empresariais.106 A exata definição. ainda que as partes não sejam. por extensão. O item 3 refere-se à contratação ou usufruição de um serviço e à aquisição ou utilização de um produto. simples se mostra o estudo e pouco significa para qualificar um ente abstrato como consumidor. p.. 33. amortização etc. Até aqui. encontrando-se aqui um dos fundamentos principiológicos da figura do consumidor por equiparação. Exigiu a Lei que a pessoa fosse destinatária final do produto ou do serviço. já a partir do seu art. 3) produto ou serviço. p. assim. quando observam que: "Dado que a ilicitude das cláusulas abusivas é matéria que não fica restrita às relações de consumo. 4) destinação final. observando-o por quatro ângulos: 1) pessoa natural ou fictícia. lembra-o José Geraldo Brito Filomeno. a segurança e. São Paulo: RT. Até a teoria finalista. pois pertence à teoria geral do direito contratual. É o item 4 o essencial. Quando houver aquisição para a soma de todas as despesas (matéria-prima. 7ª ed.). Basta que sua posição na aquisição do produto ou do serviço não o seja para fins de insumo. tais como a comodidade. o sistema do CDC 51 deve ser aplicado.. a rigor. "apegam-se às condições gerais dos contratos estabelecidos pelo Código de Defesa do Consumidor. haja intervindo na relação jurídica. 4ª ed. aos contratos de direito privado (civil e comercial). e também das vítimas de eventos danosos por fato ou vício do produto ou do serviço.. será consumidor se obter ou usufruir real ou potencialmente o produto ou o serviço. O item 1 estampa a intenção de aceitar a pessoa jurídica como consumidora. 2) aquisição ou utilização. A pessoa jurídica pode ser considerada consumidora. horas trabalhadas. enfim. consumidoras . de algum modo. que a vulnerabilidade. protegendo o mais fraco na relação de consumo. pois. e mais marcadamente no que tange às práticas e cláusulas contratuais abusivas. 30. o "elo final da cadeia produtiva". 1841)". o conforto. ainda que a inferência destes na relação de consumo seja simplesmente de exposição às práticas comerciais e contratuais. sendo que tal posicionamento já vem esboçado por Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery.) que . Anote-se. enfim. para uma posição mais teleológica.. a manutenção ilesa da pessoa vinculada ao negócio e de todos aqueles que. econômica e institucional." (CDC Comentado pelos autores do anteprojeto. exige um desmembramento do artigo.

liberar-se-iam os abusos e o comprometimento da legitimidade jurídica. Mas também os métodos lógico e literal dão guarida à aplicação do Código de Defesa do Consumidor às pessoas jurídicas. porquanto a Constituição manda proteger o consumidor. Afora isso. na linguagem do Código de Proteção e Defesa do Consumidor). É para ele que se destina a publicidade. à vontade . é quem adquire ou utiliza bens (produtos. favorabilia sunt restringenda (restrinja-se o odioso. e. semanticamente dissecando. Nessa senda. será bem de insumo e não de consumo. Mas também. nos direitos sociais. Uma interpretação de norma jurídica deve guardar correspondência mínima com o texto legal. coisa que não foi determinada pela Norma Maior. axiológicos e sistemáticos. É para ele que são destinados os produtos e os serviços. inegavelmente. Sem ambos. Aqui pode limitar o campo de proteção. Ambos têm imediata aplicabilidade nas relações econômicas e. Se não os houvesse no sistema jurídico posto. não é difícil localizar um ente abstrato destinatário final de certo produto ou serviço. ainda. para a satisfação de necessidades ligadas à sua sobrevivência – lógica. mais ainda. da sociedade livre. via de conseqüência. impossível a manutenção incólume da dignidade da pessoa humana. em maior ou menor prazo. Sem o consumidor. ou serviços. e afastar-se-ia a sapiência dos aforismos: odiosa sunt amplianda. em se concluir que há muitas pessoas jurídicas técnica e institucionalmente inferiores ao fornecedor e. ou de consumidor. ubi eaden legis dispositio (onde existe a mesma razão fundamental prevalece a mesma regra de direito). Esta a definição de consumo. Eis a aplicação dos métodos teleológicos. psicológica ou social. dos valores sociais do trabalho e da iniciativa privada. do desenvolvimento nacional. Todos esses fundamentos do Estado Democrático de Direito e da República Federativa do Brasil esvair-se-iam céleres com o vento. justa e solidária. Consumidor. que de forma léxica caminha junto como texto constitucional. que. assim como a redução das desigualdades sociais e regionais. aos fins sociais que se destina a lei. não há giro da economia. enfim. uma das células mais importantes da economia nacional é a pessoa do consumidor.107 ocorrem na obtenção de um produto industrializado ou semi-industrializado. prioritários aos métodos lógico e literal. não se pode olvidar que o Código de Proteção e Defesa do Consumidor sobreveio com o escopo de dar plena e irrestrita eficácia à norma ápice. Todos. deve-se ater ao bem comum. consumidor e economia. sob pena de esvair a pretensão da lei e obstar que ela cumpra sua verdadeira finalidade. e não o consumidor de produtos ou serviços. Não parece haver muita dificuldade. difícil se mostra a erradicação da pobreza e da marginalização. A defesa do consumidor e a função social da pessoa jurídica espelham fundamentais princípios erigidos a dogma de calibre constitucional. acabam sendo destruídos pelo ato de consumo. amplie-se o favorável) e ubi eaden ratio legis.

Ademais.108 da norma. enfim.. a todo o sistema normativo e. máxime as garantias fundamentais.g. Enfim. todas as vezes que a interpretação for conduzida no sentido de excluir direitos. anote-se que são exemplificativas as hipóteses de aplicação do Código Consumerista. relações trabalhistas). tem ela de ser feita de maneira restrita. outorgando-se elastério ao intérprete. apenas a incompatibilidade manifesta afasta a incidência do Código de Proteção e Defesa do Consumidor às pessoas jurídicas. a questões históricas. quando então deverão prevalecer as regras do Código Civil. de vez que apenas a exceção esteve expressamente mencionada (v. se em compasso com os preceitos virtuais consagrados na Constituição Federal de 1988. . Ao fim e ao cabo.

Introdução O presente artigo aborda a responsabilidade civil prevista no Código de Defesa do consumidor e analisa as excludentes previstas em referido diploma legal.2.1 Caso Fortuito e Força Maior.1. além da ação ou omissão que causa um dano.2. e.2. 1.3 Responsabilidade pelo vício do produto e do serviço. baseada na doutrina subjetiva ou teoria da culpa. 2.1 Previstas no CDC. O Código Civil.3 Exercício regular de direito. 186 e 187. adota como regra a responsabilidade subjetiva. 2. ligados pelo vínculo denominado nexo de causalidade. 1. 2. RESPONSABILIDADE CIVIL NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR 1. 1. 1. Referências Bibliográficas. 2. bem como outras existentes no ordenamento jurídico brasileiro e aplicáveis às relações de consumo. deve restar comprovada a culpa em sentido lato. fundamentado pela doutrina objetiva ou teoria do risco.2 Outras Excludentes. Responsabilidade civil no código de defesa do consumidor. Mário A essência da responsabilidade subjetiva como enuncia o insigne jurista Caio [01] assenta-se fundamentalmente na pesquisa ou indagação de como o . 1 Responsabilidade subjetiva e objetiva. em seus arts. 2.109 Aspectos da responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor e excludentes Autoras: Michele Oliveira Teixeira Simone Stabel Daudt Sumário:Introdução.2 Riscos do desenvolvimento.2 Responsabilidade pelo fato do produto e do serviço. 1 Responsabilidade subjetiva e objetiva Dois são os fundamentos da responsabilização do agente: de um lado. de outro lado o risco. 2. EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE.Conclusões. a culpa. ou seja.

a responsabilidade objetiva. pois. Segundo a teoria objetiva quem cria um risco deve responder por suas conseqüências. bem como. É preciso que este fato seja jurídico [02] e que seja ilícito. assim. a responsabilidade civil surge pela prática de um ato ilícito [03]. dispensando. que acaba. em alguns casos. injustamente suportando os respectivos ônus". O fato danoso é que engendra a responsabilidade. Carlos Alberto Bittar [06] entende que: "Na teoria da culpa (ou "teoria subjetiva"). como por exemplo nas hipóteses previstas nos artigos 931 e 936. ao contrário do Código Civil. que é o conjunto de pressupostos da responsabilidade civil [04]. Para a teoria objetiva interessa somente o dano para que surja o dever de reparação. Basta a demonstração da existência de nexo causal entre o dano experimentado pelo consumidor e o vício ou defeito no serviço ou produto. segundo a qual aquele que explora atividade econômica deve arcar com os danos causados por essa exploração. Assim. de difícil realização. referido diploma adota a responsabilidade objetiva imprópria. Com isso. a comprovação da culpa para atribuir ao fornecedor a responsabilidade pelo dano. basta que seja danoso. para a ação da vítima. cabe perfazer-se a perquirição da subjetividade do causador. o principal pressuposto dessa responsabilidade é a culpa. criando óbices. Porém. A prova é. como regra. a fim de demonstrar-se. a responsabilidade objetiva. em concreto. ou se atuou com imprudência. Não é apto a gerar o efeito ressarcitório um fato humano qualquer. Não se perquire se o fato é culposo ou doloso. ainda que não tenha concorrido voluntariamente para a produção dos danos [07]. A vítima deverá provar somente o dano e o fato que o gerou. Tratando-se de responsabilidade subjetiva a culpa integra esses pressupostos e a vítima só obterá a reparação do dano se comprovar a culpa [05] do agente. A opção legislativa reflete a adoção feita pelo legislador da teoria do risco do negócio. .110 comportamento contribui para o prejuízo sofrido pela vítima. também chamada da culpa presumida. muitas vezes. O Código de Defesa do Consumidor. se quis o resultado (dolo). imperícia ou negligência (culpa em sentido estrito).

respondendo pela qualidade e segurança dos mesmos. inclusive a de inversão do ônus da prova [13]. § 4º [12] trata da responsabilidade dos profissionais liberais. quer perante os bens e serviços ofertados. O autor do dano indenizaria pelo só fato do dano mesmo sem se indagar da sua culpabilidade. A responsabilidade decore do simples fato de dispor-se alguém a realizar atividade de produzir. É importante ressaltar que o tratamento diferenciado dado aos profissionais liberais se limita ao fundamento da responsabilidade. há uma exceção à responsabilidade objetiva. condição esta que. O fornecedor passa a ser o garante dos produtos e serviços que oferece no mercado de consumo. Sérgio Cavalieri ressalta [11]: "Este dever é imanente ao dever de obediência às normas técnicas e de segurança. o artigo 14. distribuir e comercializar produtos ou executar determinados serviços. quer perante os destinatários dessas ofertas. Como restam especificados no caput do art. b) o dano efetivo moral e/ou patrimonial. o fator culpa seria de nula relevância. 3º.111 Claudia Lima Marques [08] ensina que para ser caracterizada a responsabilidade prevista no art. estocar. os remete à responsabilidade objetiva. como é denominada por muitos. 12 que os danos indenizáveis são somente aqueles causados aos consumidores por defeitos de seus produtos observa-se ser necessária a existência de um defeito no produto e um nexo causal entre este defeito e o dano sofrido pelo consumidor. Bastaria que se demonstrasse apenas a relação de causalidade entre o dano e seu autor para que daí decorresse para o agente a obrigação de reparar". no caso. bem como aos critérios de lealdade. ou não." Contudo. se verificada. Nesse sentido salienta Paulo Lobo [14] que caso o legislador pretendesse a exclusão da incidência do CDC aos profissionais liberais os mesmos não deveriam estar englobados no art. c) o nexo de causalidade entre o defeito do produto e a lesão.12 é necessária a ocorrência comprovada e concorrente de três elementos: a) existência do defeito. . em suas atuações não ligadas a "obrigação de resultado". Wilson Melo da Silva responsabilidade objetiva: [10] esclarece com propriedade a definição da "Pela teoria da responsabilidade objetiva ou sem culpa. e não só entre o dano e o produto [09]. inexistindo incompatibilidade entre a norma e as demais regras protecionistas.

) um acontecimento externo. aquele que sofrer acidente de consumo decorrente de defeito de concepção. sendo obrigado o fornecedor a dar informações necessárias e adequadas a seu respeito. mas que decorre de um defeito do produto. tem o direito de ser indenizado por todos os danos decorrentes [16]. por fim. O art. o construtor. 10º impede a colocação no mercado produto ou serviço com alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança. Seu fato gerador será sempre um defeito do produto. fabricação. que ocorre no mundo exterior. uma vez colocados no mercado. Outrossim. interessa verificar se há possibilidade de transmitir ao consumidor informações que capacitem o consumidor do fornecimento em questão ao seguro consumo do produto ou serviço [17]." Ou seja. inadequações no produto que ocasionam uma lesão no consumidor. o produtor. independentemente da existência de culpa.. construção. Ressalte-se.. que o art. que causa dano material ou moral ao consumidor (ou ambos). bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos(. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto. Importante destacar que existe responsabilidade inclusive se o produto foi distribuído gratuitamente. Assim. e o importador respondem. apresentação ou acondicionamento de seus produtos. isto é. manipulação.112 1.)" Sérgio Cavalieri [15] define fato do produto como: "(. o fornecedor será responsável também por produtos .. montagem.. 12 trata dos defeitos dos produtos. daí termos enfatizado que a palavra-chave é defeito. execução ou comercialização de produto. alegando que o produto ainda não foi colocado no mercado. fórmulas. conforme ensina Silvio Luíz Ferreira da Rocha [18]: "O fornecedor que entrega seus produtos para exame ou prova não poderá subtrair-se da responsabilidade civil prevista. O artigo 8º do CDC estabelece que os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos á saúde ou segurança dos consumidores. nacional ou estrangeiro.2 Responsabilidade pelo fato do produto e do serviço Dispõe o artigo 12: " O fabricante. exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição.

Para Rizzatto os vícios são aqueles problemas que: a) fazem com que o produto não funcione adequadamente. mas com eficiência reduzida] ao consumo a que se destinam e também que lhes diminuam o valor. .3 Responsabilidade pelo vício do produto e do serviço A responsabilidade por vício do produto ou serviço não está relacionada com aquela tratada pelos arts." Portanto. 12 a 14. ou. do defeito e do nexo de causalidade entre este e o dano sofrido pelo consumidor. d) não estejam de acordo com informações. para haver a responsabilidade do fornecedor é necessário.12 e ss. que o produto entre no mercado de consumo de forma voluntária e consciente. 18 elenca as hipóteses em que há vício no produto. não elide a responsabilidade do fornecedor. c) diminuam o valor do produto. b) fazem com que o produto funcione mal. a título de donativo para instituições filantrópicas ou com objetivos publicitários. como a entrega de bens a seus empregados. Coaduna de tal entendimento Zelmo Denari [19]: "A circunstância de o produto ter sido introduzido no mercado de consumo gratuitamente. ainda. sem causar dano à saúde/integridade física do consumidor. vícios de diminuição do valor e vícios de disparidade informativa [22]. Apresentando um vício existe a responsabilidade do fornecedor. A falta de qualidade no fornecimento nem sempre é causa de danos à saúde. oferta ou mensagem publicitária. promoçõe publicitárias. O art.113 distribuídos a título gratuito. além é claro. Acentua Luiz Rizzatto Nunes: "São consideradas vícios as características de qualidade ou quantidade que tornem os produtos ou serviços impróprios [característica que impede seu uso ou consumo] ou inadequados [pode ser utilizado.) [20]. rotulagem. embalagem. 1. e) os serviços apresentem funcionamento insuficiente ou inadequado [23]. integridade física e interesse patrimonial do consumidor. 18 e ss) e os vícios por insegurança (art. Os "vícios" no CDC são os vícios por inadequação (art. doação de bens destinados a vítimas de catástrofes". Da mesma forma são considerados vícios os decorrentes da disparidade havida em relação às indicações constantes do recipiente." [21] O CDC prevê três tipos de vícios por inadequação dos produtos: vícios de impropriedade.

segundo Zelmo Denari [25]. o nexo causal entre o prejuízo sofrido pelo consumidor e a atividade do fornecedor. Refere o autor: "Os exemplos mais nítidos da causa excludente prevista no inc. Isso vale especialmente para os produtos falsificados que trazem a marca do responsável legal ou. por ato ilícito (roubo ou furto. nesta última hipótese da falsificação do produto. trazem como excludente da responsabilidade do fornecedor a inexistência de defeito. em função do vício de qualidade.1 Previstas no CDC O Código de Defesa do Consumidor estipula as causas excludentes. mas inexiste nexo de causalidade entre ele e quaisquer das atividades do agente. § 3° do artigo 12. § 3° e no artigo 14. A primeira eximente. as hipóteses que mitigam a responsabilidade do fornecedor pelo fato do produto e do serviço. arrolada no inciso III. tenha sido introduzido no mercado de consumo. o produto defeituoso tenha sido apreendido pela administração e. causado pelo produto. diz respeito à introdução do produto no ciclo produtivo-distributivo de forma voluntária e consciente. à revelia do fornecedor. O dano foi. de forma que se não ostentar vício de qualidade ocorre a quebra da relação causal ficando elidida a responsabilidade do fornecedor." O inciso II do mencionado dispositivo legal. EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE 2. ou com a usurpação do nome. pode ocorrer que. cuidando-se. sem dúvida. I seriam aqueles relacionados com o furto ou roubo de produto defeituoso estocado no estabelecimento. § 3° do Código de Defesa do Consumidor [24]. Tais hipóteses estão elencadas no artigo 12. ou seja. marca ou signo distintivo. Zelmo Denari [27] afirma que o defeito do produto ou serviço é um dos pressupostos da responsabilidade. forma lanaçados no mercado. Nesse sentido manifesta-se Antonio Herman de Vasconcelos Benjamin [26]: "É até supérfulo dizer que inexiste responsabilidade quando os responsáveis legais não colocaram o produto no mercado. posteriormente. Ressalta-se que a inexistência de qualquer dos defeitos elencados no caput do . para os produtos que. § 3° do artigo 14. Nega-se aí. circunstância esta eximente da sua responsabilidade. Da mesma sorte. ainda. bem como o inciso I. por exemplo).114 2.

Antônio Herman Vasconcelos Benjamin e Bruno Miragem: [28] "O sistema do CDC prevê a exoneração na hipótese do inciso III do § 3° do artigo 12. a responsabilidade se atenua em razão da concorrência de culpa e os aplicadores da norma costumam condenar o agente causador do dano a reparar pela metade do prejuízo. o inciso III. tratam da culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. em caso de culpa concorrente. hipótese esta que no sistema da Directiva européia ficaria submetida ao ju´zio de valor do judiciário. por fim. ficando afastada tal responsabilidade no caso de culpa exclusiva do consumidor: "Se for caso de culpa concorrente do consumidor (por exemplo. cabendo à vítima arcar com a outra metade" Sustenta Luiz Antonio Rizzatto Nunes [30] que a responsabilidade do fornecedor permanece integral.115 artigo 12. nos termos do artigo 6º. inciso III. Esclarece Zelmo Denari [29] que culpa exclusiva não se confunde com culpa concorrente: "no primeiro caso. § 3° do artigo 14. como o caput do artigo 12 dispõe que a responsabilidade é pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos. Entretanto. quando o juiz considera verossímeis as alegações do consumidor. E. Dessa forma. embora permaneça integral a responsabilidade do fornecedor. inexistindo estes não há que se falar em dever de indenizar. deverá ser demonstrada pelo fornecedor. No entender de Cláudia Lima Marques. pois mesmo existindo no caso um defeito no produto. desaparece a relação de causalidade entre o defeito do produto e o evento danoso. § 3° do artigo 12 e o inciso II. disolvendo-se a própria relação de causalidade. em caso de culpa concorrente. ainda assim a responsabilidade do agente produtor permanece integral. haverá redução do montante indenizatório. aplicável. mas que no sistema do CDC exonera os fornecedores. as informações do produto são insuficientes e também o consumidor agiu com culpa). segundo as regras de experiência. não haveria nexo causal entre o defeito e o evento danoso (cupla da vítima)". Apenas se provar que o acidente de consumo se deu por culpa exclusiva do consumidor é que ele não responde". como conseqüência. no segundo. a redução do montante a ser pago a título de . em havendo a inversão do ônus da prova. Alberto do Amaral Junior [31] salienta que "o concurso de culpa do consumidor lesado produz. de culpa exclusiva da vítima ou de terceiro.

1 Caso Fortuito e Força Maior Pela análise das eximentes expressamente previstas nos artigos 12. verifica-se que este diploma legala silencia quanto o caso fortuito e a força maior. devendo se ater a sua forma declarativa ou estrita. não é possível aplicar as normas do Código Civil nas relações consumeiristas. apesar do Código de Defesa do Consumidor não fazer menção à culpa concorrente do ofendido. tradicionais excludentes da responsabilidade. em havendo a inversão do ônus da prova. Para Roberto Senise Lisboa [34] se na interpretação das normas restritivas de direito não pode o interprete querer alargar a aplicação da norma. prevê a exclusão da responsabilidade do fornecedor nos artigos 12.2 Outras Excludentes O Código de Defesa do Consumidor. tais como o caso fortuito ou força maior. Ressalta-se que a conduta culposa do consumidor. a doutrina aponta outras eventuais hipóteses de exclusão de responsabilidade.116 ressarcimento". O Código. conforme mencionado. capaz de afastar a responsabilidade do fornecedor. deve ser considerada como atenuante no momento da fixação do montante indenizatório. § 3° do Código de Defesa do Consumidor. Nessa mesma linha Carlos Alberto Bittar [32]: "havendo culpas concorrentes. poderão forrar-se à reparação na proporção em que provarem a culpa do consumidor". riscos de desenvolvimento e exercício regular de direito. seria o mesmo que permitir o beneficío da integralidade indenizatória aquele que veio a concorrer para o evento lesivo. Contudo. o rol ali indicado é taxativo. Assim. § 3°. Luiz Antônio Rizzatto Nunes [33] entende que por ter o § 3º do artigo 12 utilizado o advérbio "só". 2. deve por este ser provada. 2. e não autoriza a inclusão dessas excludentes: "o risco do fornecedor é mesmo integral. Por essa razão discute-se na doutrina se o caso fortuito e a força maior podem ser considerados como excludentes para as relações jurídicas de consumo. Não admiti-la. Antonio Herman de Vasconcelos Benjamin [35] afirma que a questão deve ser tratada de forma diversa: "A regra no nosso direito é que o caso fortuito e a força maior excluem a responsabilidade civil. tanto que a lei não prevê como excludentes do dever de indenizar o caso fortuito e a força maior". entre as causas excludentes de . descritas no artigo 393 do Código Civil. § 3° e 14. entende a doutrina que. § 3° e 14.2. apesar de não ser excludente de responsabilidade.

Branco [37] muito embora o artigo 12 especifique que o fornecedor apenas não será responsabilizado quando provar que não colocou o produto no mercado. posteriores ao fornecimento: "O fornecedor também é liberado do dever de indenizar em demonstrando a presença. Exemplifica o autor: "Não teria sentido. causa incêndio e danos aos moradores: inexistiria nexo de causalidade a ligar eventual defeito do aparelho ao evento danoso". pois. há a ruptura do nexo de causalidade. mantendo-se. mesmo que o fato causador do defeito seja a força maior". o fornecedor responderá pelos danos: "Isto porque até o momento em que o produto ingressa formalmente no mercado de consumo tem o fornecedor o dever de garantir que não sofre qualquer tipo de alteração que possa torná-lo defeituoso. ambas as hipóteses possuem força liberatória e excluem a responsabilidade.117 responsabilidade. se o caso fortuito ou a força maior ocorrerem após a introdução do produto no mercado de consumo. se um raio faz explodir o aparelho. Contudo. José Eduardo Duarte Saad e Ana Maria Saad C. porque quebram a relação de causalidade entre o defeito do produto e o dano causado ao consumidor". desde que posteriores ao fornecimento. oferecendo riscos à saúde e segurança do consumidor. por exemplo. James Marins [38]sustenta que o caso fortuito ou a força maior poderão afastar a responsabilidade do fornecedor ou não dependendo do momento em que ocorreram. afastada a responsabilidade do fornecedor. quer me parecer que o sistema tradicional. No entender de Eduardo Gabriel Saad. ficando. em conseqüência. trata-se de uma impropriedade de redação: "O Código não pode obrigar o fornecedor a indenizar se sua inadimplência contratual ou responsabilidade aquiliana originaramse de caso fortuito ou de força maior". e. neste ponto. Caso se manifestem antes da inserção do produto no mercado de trabalho. Nesse sentido sustenta Fábio Ulhoa Coelho [39] que fica afastada a responsabilidade do fornecedor se demonstrar a presença de caso fortuito ou força maior. A força . Também não os nega. da força maior ou do caso fortuito. entre as causas do acidente de consumo. não os elenca." João Batista de Almeida [36] salienta que "Apesar de não prevista expressamente na Lei de proteção. Logo. então. que inexiste defeito ou que houve culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. a capacidade do caso fortuito e da força maior para impedir o dever de indenizar. responsabilizar-se o fornecedor de um eletrodoméstico. não foi afastado.

. a maioria da doutrina parece consolidar o entendimento de que ocorrendo o caso fortuito ou a força maior. por acidente de consumo. não se responsabiliza o empresário pelos prejuízos do consumidor. 2. . Antônio Herman de Vasconcellos Benjamim [41] conceitua os riscos do desenvolvimento como: "aquele risco que não podem ser cientificamente conhecidos ao momento do lançamento do produto no mercado. nesse ponto. se o eletrodoméstico é inutilizado por um raio. O centro dessa divergência é. se encontra exatamente na constatação da relativa inevitablidade dos defeitos no processo produtivo. capaz de causar danos aos consumidores". o defeito. nem tinha como prever ou evitar." Percebe-se que a doutrina. divide-se entre defensores e oposicionistas. Por exemplo. desconstitui qualquer liame causal entre o ato de fornecer produtos ao mercado e os danos experimentados pelo consumidor.2. (.118 maior ou o caso fortuito anteriores ao fornecimento não configuram excludente de responsabilização. afastada a responsabilidade. Há divergência doutrinária quanto a caracterização dos riscos do desenvolvimento como hipótese de defeito dos produtos. pois.. ou seja. posteriormente ao fornecimento. dano e nexo causal. uma vez que o fundamento racional da responsabilidade objetiva do empresário. consistem: "(. restando. se discute na doutrina a adoção pelo CDC dos riscos de desenvolvimento como eximentes da responsabilidade do fornecedor. posteriormente. que. vindo a ser descoberto somente após um certo período de uso do produto e do serviço. por isso.2 Riscos do desenvolvimento Os riscos do desenvolvimento. ocorrendo todavia. somente identificável ante a evolução dos meios técnicos e científicos... segundo James Marins [40].. ante o grau de conhecimento científico disponível à época de sua introdução. haverá a quebra do nexo causal. quais sejam defeito. venha a se detectar defeito. a interpretação acerca do disposto no inciso III do §1º do art. decorrido determinado período do início de sua circulação no mercado de consumo. 12 do Código de Defesa do Consumidor.) Com efeito a manifestação de tais fatores.) na possibilidade de que um determinado produto venha a ser introduzido no mercado sem que possua defeito cognoscível. ainda que exaustivamente testado. Contudo. Dessa forma. não se podendo responsabilizar o fornecedor por aquilo que não deu causa. enquanto outros afirmam inexistir um desses pressupostos. parte dos autores entendem que estão pressupostos da responsabilidade do fornecedor.

conforme sustenta João Calvão da Silva [45]. 12 representa a adoção da teoria dos riscos de desenvolvimento. em nível legislativo. diz respeito ao critério para avaliação do estado da ciência e da técnica. é lícito ao fornecedor inserir no mercado de consumo produtos que não saiba nem deveria saber resultarem perigosos porque o grau de conhecimento científico à época da introdução do produto no mercado de consumo não permitia tal conhecimento." Nesse mesmo sentido. enquadramento este que é indispensável para que se possa falar em responsabilidade do fornecedor". prevista como regra. Caso contrário. então. Diante disso não se pode dizer ser o risco de desenvolvimento defeito de criação. está muito distante de significar adoção da teoria dos riscos de desenvolvimento. seria responsabilizado o fornecedor por um defeito que não tinha como perceber no momento em que colocou o produto em circulação: "teríamos uma aplicação retroativa do padrão ou de medida de ... James Marins requisito temporal afirma: [44] . a necessidade de se compatibilizar a excludente. §1º. afirmando que o inciso III do § 1º do art. b) o segundo. como propôs a Comunidade Econômica Européia" Marcelo Junqueira Calixto [43] adota posicionamento contrário. Para essa compatibilização devemos considerar dois requisitos: a) o primeiro. diz respeito ao momento que deve ser tomado em consideração para a verificação do estado dos conhecimentos científicos e técnicos. III do artigo 12. com a responsabilidade objetiva imposta ao fornecedor. não era possível ser descoberto pelo estado dos conhecimentos técnicos e científicos contemporâneo à introdução do produto no mercado de consumo. que podemos chamar de "requisito temporal". do Código de Defesa do Consumidor. entretanto.119 Zelmo Denari [42] coloca-se entre os que defendem a não adoção da eximente dos riscos de desenvolvimento sutentando que "a dicção normativa do inc. Surge. por nós chamado de "requisito técnico". sendo o momento a ser considerado para a verificação dos estado dos conhecimentos científicos e técnicos e o segundo o critério para avaliação do estado da ciência e da técnica: "De início deve ser lembrado que a Diretiva 85/374/CEE expressamente faz referência à existência de um defeito que. ao manifestar-se sobre o referido ". produção ou informação. Ensina o mencionado autor que para compatibilizar a os riscos do desenvolvimento com a responsabilidade do fornecedor devem ser analisados dois aspectos. os quais chama de requisito temporal e requisito técnico.

Verifica-se que a doutrina entende ter o Código de Defesa do Consumidor adotado a teoria dos riscos de desenvolvimento e ressalta a necessidade de avaliação do grau de conhecimento científico. No tocante ao requisito técnico. de atos lícitos. Conforme o entendimento de Luiz Antônio Rizzatto Nunes [48]. o credor remete carta ao devedor dizendo (ameaçando) que irá ingressar com ação judicial para cobrar . aquilo que sabe a comunidade científica em determinado momento histórico. à época da introdução do produto ou serviço no mercado de consumo. 2. o credor tem o direito de cobrar seu crédito do consumidor inadimplente. enviar um título vencido e não para cartório de protesto.120 responsabilidade. entende a doutrina que por ser ele ato lícito. por exemplo. salienta Antônio Herman de Vasconcelos Benjamin [47] que a análise do grau de conhecimento científico não é feita tomando por base um fornecedor em particular. também." Posiciona-se. afastada estará a responsabilidade do fornecedor. nem na defeituosidade (porque cumpriu o dever de pesquisar)". apresenta riscos cuja potencialidade não pôde ser antevista pela ciência ou tecnologia. o empresário não deve ser responsabilizado com fundamento nem na periculosidade (pois prestou informações sobre os riscos adequados e suficientes). somente não podendo fazêlo de forma abusiva. portanto. Contudo. de acordo com a comunidade científica. Muito embora o Código de Defesa do Consumidor silencie quanto ao exercício regular de direito. posteriormente. o momento da distribuição do produto. com a conseqüente inclusão do nome do devedor em banco de dados.2. Realizar cobrança. "desde que tal ameaça decorra daquele regular exercício de cobrar. mesmo que provoquem transtornos ao consumidor. pois à luz do novo conhecimento e tecnologia responsabilizar-se-ia o fabricante por um defeito existente mais indetectável no estado da ciência e da técnica em momento anterior. afastando a responsabilidade civil.3 Exercício regular de direito O inciso I do artigo 188 do Código Civil prevê que o exercício regular de um direito reconhecido não constitui ato ilícito. nesse sentido Fábio Ulhoa Coelho [46]. vale ressaltar que. são exemplos de exercício regular de direito do fornecedor e. ao referir: "ao fornecer no mercado consumidor produto ou serviço que. Tem a possibilidade até mesmo de ameaçar. tais direitos devem ser exercidos pelo fornecedor atendendo aos ditames dos artigos 42 e 43 do Código de Defesa do Consumidor.

1993. al. 9. Direitos do Consumidor.} – 8ª ed. Alberto do. São Paulo: Saraiva. Zelmo e outros. Somente haverá responsabilização caso o fornecedor viole os dispositivos que disciplinam a ação regular de cobrança e o cadastro de consumidores em bancos de dados. Porém. Antonio Herman de Vasconcelos. Fabio Ulhoa. 1994. como o caso fortuito. 2004. por ser ato lícito. . 30. 1993. Conclusões A responsabilidade civil prevista no Código consumeirista é objetiva. A responsabilidade civil do fornecedor de produtos pelos riscos do desenvolvimento. 1991. CALIXTO. entende a doutrina existirem outras aplicáveis. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Proteção do consumidor no contrato de compra e venda. Referências Bibliográficas ALMEIDA. São Paulo: RT. A proteção jurídica do consumidor. BITTAR. nas relações de consumo. o exercício regular de um direito. Comentários ao código de proteção do consumidor – coordenador: Juarez de Oliveira. I. 2005. agindo de forma abusiva. COELHO. São Paulo: Saraiva.. Carlos Alberto. Forense Universitária.ed. BITTAR. também. O Empresário e os direitos do consumidor. ________. BENJAMIN. João Batista de. 2005 . O dever indenizatório decorrente da responsabilidade comporta exceções. São Paulo: Saraiva. Macelo Junqueira. bastando ao lesado comprovar o dano e o nexo causal. Rio de Janeiro: Renovar. não dará ensejo a responsabilização do fornecedor. São Paulo: Saraiva. Tais excludentes são aquelas expressas no próprio CDC.121 o débito" Assim. p. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. Curso de direito comercial. Rio de Janeiro. vol. a força maior e o exercício regular de direito. {et. DENARI. 1990. Responsabilidade Civil – Teoria e Prática. AMARAL JUNIOR. Carlos Alberto.

1993. p. Luiz Antonio Rizzatto.078/90/ Eduardo Gabriel Saad. Responsabilidade da empresa pelo fato do produto.122 FILHO. James. MARINS. LISBOA. José Eduardo Saad e Ana Maria Saad C. Paulo Luiz Netto. São Paulo: Revista dos Tribunais. Eduardo Gabriel. ROCHA. 2000 SAAD. Notas 01 02 PEREIRA. MARQUES.. Os voluntários se dividem em: lícitos (fato praticado em harmonia com a lei) e ilícitos (fato que viola o dever imposto pela norma jurídica). Os fatos jurídicos são aqueles que têm relevância jurídica e dividem-se em: naturais (decorrem de acontecimentos da própria natureza) e voluntários (têm origem em condutas humanas capazes de produzir efeitos jurídicos). Branco. ver. 2 tiragem. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. Responsabilidade Civil. Responsabilidade sem culpa. São Paulo: LTr. 1990. Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. Caio Mário da Silva. 8. São Paulo: RT. Caio Mário da Silva. ª NUNES. Coimbra: Livraria Almedina. 29. Silvio Luís Ferreira da. Revista de direito do consumidor. Assim. Programa de Responsabilidade Civil. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2003. 2005. Antônio Herman V. 2001. LOBO. 2000. a responsabilidade civil surge pela prática de um ato ilícito. 2000. p. Responsabilidade civil do produtor. A responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro. Bruno Miragem. São Paulo: Malheiros. PEREIRA. São Paulo: RT. 1999. Claudia Lima. 1º a 54). Wilson Melo da. João Clavão da. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor e sua jurisprudência anotada: Lei n. E ampl. Responsabilidade civil nas relações de consumo. Cláudia Lima. Sérgio Cavalieri. São Paulo: Saraiva. 6ª ed.34. N. Responsabilidade Civil. São Paulo: Saraiva. Roberto Senise. 2006. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Benjamin. MARQUES. . Contratos no Código de Defesa do Consumidor 3 ª ed. 29. SILVA. SILVA. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor:direito material (arts. abril-junho.

Comentários ao código de defesa do consumidor. 279.34. p. dolosa e culposa.100. " §4º A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante verificação da culpa. Curso de direito comercial. 263. 498. Fábio Ulhoa. 06 07 BITTAR. LOBO. 15 16 14 13 FILHO. Ob cit. 2005. Sérgio Cavalieri. 2 tiragem. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Revista de direito do consumidor. p. FILHO.. NUNES. Responsabilidade Civil – Teoria e Prática. . p.. 188. p. Bruno Miragem. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover.123 03 04 05 Ressalte-se que há casos em que o ato lícito gera o dever de indenizar. Contratos no Código de Defesa do Consumidor 3 ed. Antônio Herman V. FILHO. Programa de Responsabilidade Civil. 2000. Luiz Antônio Rizzatto.. Sérgio Cavalieri. 28. ª ª 08 Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. 150-51. Carlos Alberto. Ob. p. São Paulo: RT. {et. Programa de Responsabilidade Civil. Cit. 9. 225. I. 104. p..} – 8ª ed. Responsabilidade sem culpa. 2003. abriljunho. Paulo Luiz Netto. vol. COELHO. 2000. deve ser entendida como latu sensu. São Paulo: Saraiva.ed. 17 18 COELHO. MARQUES..p. p. 2ª ed. 2005. no presente trabalho. Sérgio Cavalieri. Claudia Lima. N. Wilson Melo da. 30." Nesse sentido: " Cirurgião – dentista – Direito do consumidor – Facilitação de defesa – ônus da prova – Inversão – Possibilidade – Profissional liberal – Responsabilidade Civil" (RSTJ 115/271). p. isto é. 1999. al. 2000. 10 11 12 09 SILVA. São Paulo: Saraiva. A responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. p. A culpa. 19 . São Paulo: Revista dos Tribunais. Fabio Ulhoa. 497. 2005. p. Benjamin. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques.

. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. o defeito inexiste. o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar: I ....) 3° O fabricante. Benjamin. 14. 188. o defeito inexiste.. 2003. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços. O fabricante. Luiz Antônio Rizzatto. independentemente da existência de culpa. ..que não colocou o produto no mercado. Rio de Janeiro: Forense Universitária. o produtor. ob.} – 8ª ed.124 Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto. construção.que. o construtor. independentemente da existência de culpa. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. nacional ou estrangeiro. II . 25 . São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Antônio Herman V. 21 22 20 NUNES. Bruno Miragem. 286. p. 2005. Art.a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. p. Cit. Art. Benjamin.) 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar: I . O fornecedor de serviços responde. 23 24 NUNES. montagem. Bruno Miragem. al. 2003. Ob. 213-4. tendo prestado o serviço. fórmulas. e o importador respondem. (..a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. 12. p.p. III . 286. (. apresentação ou acondicionamento de seus produtos. Cit. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. o construtor. manipulação. Antônio Herman V. fabricação. 278. p. embora haja colocado o produto no mercado. {et. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor: arts. Luiz Antônio Rizzatto.que. II . São Paulo: Editora Revista dos Tribunais.

. São Paulo: Saraiva. . p. 288. p.125 Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. São Paulo: Saraiva. São Paulo: LTr. 8. 169. p.078/90/ Eduardo Gabriel Saad. 2006. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. 1991. ver. 67. p. 1993. Rio de Janeiro: Forense universitária. 2005. São Paulo: Saraiva. Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. Rio de Janeiro: Forense Universitária. vol I. p. 41 . 32 33 31 30 29 28 27 26 Direitos do consumidor. p. p. 2001. 1993. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor – Coordenador Juarez de Oliveira. José Eduardo Saad e Ana Maria Saad C... Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. 1993. Responsabilidade civil nas relações de consumo. p. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. p. 39 40 128. {et. São Paulo: RT. 1990. 227. 65. 36 37 35 34 A proteção jurídica do consumidor. p. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: RT. 6ª ed. – Coordenador Juarez 153. 278. 35. 2000. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. 69. 2005. {et.} – 8ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. 38 Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. p. 2003. Curso de Direito Comercial. E ampl. 189. p. 2000. São Paulo: Saraiva. p. São Paulo: Saraiva. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor e sua jurisprudência anotada: Lei n. São Paulo: Saraiva. 1993. Benjamin.} – 8ª ed. 188. al. 271. 2005. p. Antônio Herman V. 1991. Proteção do consumidor no contrato de compra e venda. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Branco. São Paulo: Revista dos Tribunais. Bruno Miragem. al. p. São Paulo: RT. 170. 281.

São Paulo: Saraiva. São Paulo: RT. p. 1991. Responsabilidade civil do produtor. . 46 47 Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor – Coordenador Juarez de Oliveira.. O empresário e os direitos do consumidor. 2000. Coimbra: Livraria Almedina. Rio de Janeiro: Forense Universitária. p. São Paulo: Saraiva. 48 Vícios no Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor: diferenças Autor: Ricardo Canguçu Barroso de Queiroz Em consequência da revolução tecnológica.126 de Oliveira. A responsabilidade civil do fornecedor de produtos pelos riscos do desenvolvimento. a produção e a comercialização se . 67 Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. 1993. al. 200. 1991. 186-187. p. 2005. 1990.} – 8ª ed. 44 43 42 Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. p. São Paulo: Saraiva. 1994. 45 509. 67 Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. 2004. p. 84. 135. Rio de Janeiro: Renovar. São Paulo: Saraiva. p. p. 506. {et. p.

a não mais corresponder às expectativas do mercado de consumo e do progresso tecnológico da produção em massa. no CDC a responsabilidade pelos vícios é subjetivo com presunção de culpa do fornecedor. resultando na evolução da produção em pequena escala para a produção em série. seja o comerciante. f)O CC não prevê proteção aos vícios ocorridos na prestação de serviços. baseada na culpa do fornecedor. a noção de vício no CDC é bem mais eficiente do que a estabelecida pelo direito tradicional. os ocultos. ou todos eles conjuntamente. não há necessidade de haver relação contratual entre o consumidor e o sujeito passivo demandado pelo vício do produto ou serviço. o fabricante. afinal como já falamos. o distribuidor. Assim. abrangendo. Além disso tais devem ser preexistentes ou contemporâneos à entrega da coisa. e)O CC não prevê responsabilização pelos vícios aparentes ou de fácil constatação. por sua vez. Já no CDC o consumidor poderá acionar quaisquer dos componentes da cadeia de produção e comercialização. assim. estando associado. em que o mais importante era a preservação do contrato. b)Enquanto no CC vigora a responsabilidade subjetiva pura. além da inversão do ônus da prova em favor do consumidor. com berço no individualismo negocial. enquanto que no sistema do CDC "defeito" é vício mais dano à saúde ou segurança. mas . com quem contratou diretamente. sendo que tais problemas só foram suprimidos com o advento do Código de Defesa do Consumidor. aumentaram os riscos ao público consumidor. há solidariedade entre os componentes da cadeia de fornecedores . d)Pelo CC. assim. desde que dentro dos prazos decadenciais. passou. e com o objetivo de estabelecer-se o equilíbrio contratual. a responsabilização pelos vícios da coisa. apenas. considera-se irrelevante que o consumidor tenha ou não conhecimento do vício e tenha ele surgido antes ou depois da tradição do produto. senão vejamos: a)Para o CC as expressões "vício" e "defeito" são equivalentes. como vigora a vulnerabilidade do consumidor. c)O CC não prevê a solidariedade entre os fornecedores componentes da cadeia de produção e comercialização. dada a grande diversidade de produtos no mercado. portanto aos fatos do produto ou serviço e "vício" está associado à deficiência de qualidade ou quantidade do produto ou serviço. No CDC. Ante a necessidade de uma proteção mais ampla do consumidor na relação de consumo. o consumidor só pode acionar o fornecedor direito.127 dissociaram. provenientes de erros técnicos e falhas no processo produtivo. O sistema do Código Civil. No CDC. só é permitida se esta tiver sido recebido em virtude de relação contratual (contratos comutativos ou doação com encargo).

. a possibilidade da troca do produto por outro de espécie. Ed. Roberto Senise . Odete Novais . pouco importa o comprovação ou não de má-fé do fornecedor. 1992. assim como. 1999. BIBLIOGRAFIA 1 . mediante complementação ou restituição de eventual diferença de preço. Alberto do Amaral . RT. a restituição da quantia paga ou abatimento do preço. Já no CDC havendo relação de consumo. 05 . a culpa não enseja a responsabilização pelos danos materiais (lucro cessante + dano emergente) ou pessoais (morais). ou seja.LISBOA. o CDC tais prazos se iniciam a partir do momento em que o consumidor toma conhecimento do vício ou do dano (a prescrição é de 5 anos). marca ou modelo diverso. 1993.JÚNIOR. 3 .Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto .Da Responsabilidade por Vício do Produto e do Serviço .São Paulo: Ed. estabelecendo dentre as hipóteses a substituição do produto. 1998 2 .Revista de Direito do Consumidor n. enquanto que o CDC contempla ao consumidor as possibilidades de exigir a reexecução do serviço. i)No CC os prazos de prescrição e decadência são contados à partir da entrega da coisa (a prescrição é de 15 dias para bem móvel e 6 meses para bem imóvel). 03. Zelmo . de maneira que somente quando comprovada a má-fé aquele será responsabilizados por perdas e danos. g)No CC caso comprovada a boa-fé (ignorância) do alienante será obrigado a restituir apenas a coisa viciada.Vício do Produto e a exoneração da responsabilidade. 4 – DENARI. No CDC as possibilidades estão ampliadas.CARNEIRO.São Paulo: Editora RT. a restituição da quantia paga ou o abatimento do serviço caso encontre-se responsabilidade do fornecedor de serviços pelos vício de adequação (quantidade e qualidade). RT: São Paulo. para obter-se a reparação integral (danos materiais + danos pessoais).128 tão somente do produto. Revista de Direito do Consumidor n.A responsabilidade pelos vícios dos Produtos no Código de Defesa do Consumidor . h)O CC só prevê duas possibilidades de reparação: a ação redibitória (o contrato é levado a termo e o comprador é restituído integralmente pelo pagamento) ou a ação estimatória (o comprador obtém a redução do valor pago).Rio de Janeiro: Forense Universitária. Por sua vez.

proporcionando-lhe as informações necessárias para tal. um novo modelo de responsabilidade. [01] Para proteger a legítima expectativa que tem o consumidor na qualidade e utilidade do produto. [04] que informa que o . O fornecedor deve assegurar ao consumidor a correta utilização do produto. simultaneamente. a responsabilidade civil legal. sob pena de responsabilização. 1. Fornecedor. uma vez que impõe aos fornecedores o dever de colocar no mercado produtos indenes de vícios. [02] segundo o qual o produto deve proporcionar ao consumidor exatamente aquilo que ele esperava ou deveria esperar quando o adquiriu. a responsabilidade civil por vícios de inadequação ou por vícios de insegurança. ofereçam segurança aos seus usuários. Introdução O produto adquirido pelo consumidor deve corresponder a exatamente aquilo que dele se espera. que é assentado na solidariedade social e na efetiva reparação dos danos aos consumidores. assim. A justa expectativa dos consumidores e do público em geral frente aos produtos lançados no mercado é a de que eles funcionem regularmente. de acordo com a finalidade para a qual foram desenvolvidos e que. Palavras-chave: Responsabilidade. que recebem tratamento jurídico diferenciado pelo Código de Defesa do Consumidor. Ao fim. um novo conceito. Haverá. a responsabilidade civil do fornecedor pode emergir em decorrência de diversas espécies de vícios dos produtos. a fim de evitar que eventuais danos venham a ocorrer pela imperícia natural dos consumidores. com isso. Consumidor.078/90) adotou o Princípio da Confiança. No âmbito das relações de consumo. tendo-se. o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor (Lei n.129 A responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos no Código de Defesa do Consumidor Autor: Fabrício Castagna Lunardi Resumo O instituto da responsabilidade civil evoluiu rapidamente nas duas últimas décadas. [03] É o que a doutrina uruguaia chama de Principio de Autoresponsabilidad. observa-se claramente que o regramento que é dispensado à matéria tem reflexo imediato na segurança dos consumidores. Cria-se.º 8. hodiernamente.

por exemplo. a fim de prevenir a ocorrência de danos. a classificação dessa espécie de vícios em vícios de inadequação na qualidade e vícios de inadequação na quantidade. ainda. de qualquer forma. quando o peso ou a medida informada não corresponder à prestada pelo fornecedor ou à indicada na embalagem. existem diferentes instrumentos jurídicos para reparar os danos e prejuízos causados aos consumidores. Os produtos defeituosos acabam sendo um resultado marginal e inexorável da produção industrial. Dos vícios de inadequação e dos vícios de insegurança Os vícios de inadequação são aqueles que afetam a prestabilidade do produto. Dessa sorte. o que varia de acordo com a espécie de vício (ou defeito) que apresenta o produto. à medida que não há um controle individual da adequação e segurança de cada unidade que é lançada no mercado.130 fornecedor deve prestar informações de forma clara. como adiantes se demonstrará. . Outrossim. A constatação desses vícios se faz por um critério objetivo. pois é responsável por aquilo que informa na oferta. tem o fabricante o dever de controlar o processo de produção e de conhecer todas as inovações tecnológicas. impróprio para o fim a que se destina e desatendendo a legítima expectativa do consumidor. baseado na inexistência de produtos com avarias. e não colocar no mercado produtos que ofereçam riscos. prejudicando seu uso e fruição ou diminuindo o seu valor. mantendo o produto sempre atualizado em matéria de segurança. [05] No entanto. do refrigerador que não mantém os produtos em baixa temperatura. Por isso. é utópico. bastando a verificação de que a informação sobre a qualidade ou quantidade não corresponde verdadeiramente ao que o produto proporciona. Ocorrem. além dos que lhe são ínsitos e de conhecimento geral. 2. que tem como característica principal a produção em série. Com o surgimento e alargamento do processo de industrialização. cresceu a incidência de vícios e defeitos nos produtos. da televisão que não tem boa imagem. o modelo ideal de produção. de modo a não induzir o consumidor em erro. ou na sua quantidade. quando afetem sua prestabilidade e utilização. [06] A par disso. portanto. quando a informação prestada não corresponde verdadeiramente ao produto. surge para o produtor uma dupla obrigação: fornecer produtos adequados às suas próprias finalidades. pode ocorrer na qualidade do produto. mostrando-se. A inadequação. precisa e sem ambigüidades. É o caso. da lata de extrato de tomate que não contém a quantidade informada na embalagem etc.

para haver responsabilidade civil. o elemento sanção ou retribuição foi mitigado. a época em que foi colocado em circulação.078/90. levando-se em consideração a sua apresentação. Obrigação é sempre um dever jurídico originário. entretanto. defeitos de desenvolvimento e defeitos de informação. o uso e os riscos normais. contraprestação. do qual exsurge o dever de reparação. defeitos de construção (ou execução). dentre outras circunstâncias. Os vícios de insegurança são tratados nos arts. Na nova definição de responsabilidade. Responsabilidade civil no âmbito das relações de consumo Na dogmática. encargo. Os vícios de insegurança.078/90. [10] ou com supedâneo no inadimplemento contratual. enquanto a . Em um conceito sintético e geral." [12] Esse conceito. em face de defeitos de projeto (ou concepção). A doutrina de direito civil costuma definir a responsabilidade civil com base numa conduta causadora de um dano. é verdadeira a premissa de que. Podem ocorrer. deverá sempre haver o dano jurídico. [07] 3. por sua vez. são os vícios de inadequação tratados nos arts. [09] com fundamento na obrigação de indenizar. De outro lado. De qualquer sorte. no entanto. com a ofensa a um bem jurídico. 12 a 17 da Lei n.131 No Brasil. mas em decorrência de ato lícito. [08] exprimindo a idéia de obrigação.º 8. são aqueles defeitos que fazem com que o produto seja potencialmente danoso à integridade física ou ao patrimônio do consumidor. não se pode confundir as noções de obrigação e de responsabilidade civil. Ocorrem quando o produto não apresenta a segurança que dele legitimamente se espera." [11] O elemento central passa a ser a reparação ou prevenção do dano ou prejuízo. dizer-se que não existe um conceito unitário que abranja todas as modalidades de responsabilidade civil. Por razões como essa.º 8. da Lei n. a noção de responsabilidade implica sempre a violação de um dever. 18 e segs. pode-se definir a responsabilidade civil como "um dever jurídico sucessivo que surge para recompor o dano decorrente da violação de um dever jurídico originário. não se pode mais dizer que a responsabilidade jurídica está "essencialmente ligada à retribuição. Com o passar do tempo. não abrange todas as modalidades de responsabilidade civil. segundo a doutrina brasileira. e não mais a punição do responsável. Tem ínsito um perigo de dano patrimonial ou extrapatrimonial. pois haverá casos em que surge a responsabilização sem a violação a um dever jurídico.

resta superada. cujo valor do prêmio se incorporará ao preço de venda. em vista de situações que demandam regulamentação jurídica específica. de uma obrigação contratual originária. de um ato ilícito. e não do contrato. deu-se entrada. também chamada de aquiliana. [14] A responsabilidade civil. vale dizer. ainda que o consumidor seja diligente. geralmente.132 responsabilidade é um dever jurídico sucessivo. previdência e garantia. Essa distinção. [15] de modo que o prejuízo causado a um consumidor seja suportado por toda a sociedade. [16] Esse novo modelo de responsabilidade não se centra mais em apenas punir o autor de uma conduta antijurídica. O verdadeiro escopo dessa evolução é a preocupação de assegurar melhor justiça distributiva. à consciência da necessidade de proteção das vítimas e das partes mais fracas nas relações sociais. patrimonial ou extrapatrimonial. em relação à matéria de proteção do consumidor. deriva. por exemplo. a responsabilidade civil objetiva do fornecedor é o sistema de reparação de danos mais adequado aos tempos modernos. corolário da violação do primeiro. causado ao consumidor pela existência de vícios de inadequação e de insegurança do produto. na sistemática do direito do consumidor. [13] Na dogmática. paulatinamente. porque. base de uma responsabilidade sem culpa. Responsabilidade contratual é aquela que decorre diretamente e em função de um contrato. porque oferece maiores garantias de proteção às vítimas. de modo que será responsabilizado civilmente aquele que inadimplir essa obrigação. [17] Com efeito. mediante. na necessidade de reparação ou prevenção do dano. por fim. A responsabilidade civil é tema de permanente atualidade e vem ganhando importância e mutação à medida que a evolução industrial produz novas tecnologias. encontrando supedâneo na solidariedade social. o que determinou um redirecionamento dos princípios que regiam a matéria. ou seja. de uma obrigação jurídica que decorre de uma norma legal. porque os custos de ressarcimento devem recair sobre o fabricante e o fornecedor. a quem cabe controlar a qualidade e a segurança dos produtos. encontra-se que a responsabilidade civil pode ser classificada em contratual e extracontratual. distribuindo-se o custo entre os próprios . ultrapassa as fronteiras da culpa. entretanto. senão no interesse em restabelecer o equilíbrio econômico-jurídico alternado pelo dano. Em face das transformações sociais ocorridas pela constante evolução industrial e dos riscos gerados aos consumidores. seguro de responsabilidade. o fornecedor tem melhores condições de suportar o risco do produto. O fundamento social da reparação do dano está arraigado nas noções de assistência. além disso. desafiando soluções jurídicas inéditas. Em primeiro lugar. A responsabilidade extracontratual.

as dificuldades que tinham os consumidores na busca da prova. Tendo em vista que a imputação decorre estritamente da lei. razão pela qual lhe é transferido o ônus de provar uma das causas excludentes de sua responsabilidade para que se exima de reparar o dano ou os prejuízos. prescindindo da existência de culpa. a doutrina brasileira tem chamado esse novo modelo de responsabilidade civil de responsabilidade legal. a ser uma relação entre a atividade empresarial e um sujeito. A doutrina brasileira. A responsabilidade decorre do simples fato de realizar a atividade de produzir. e que a responsabilidade civil não deriva do contrato ou de ato ilícito. [21] Se o fornecedor introduz um risco para a sociedade. de uma imputação que decorre estritamente da lei. se facilita a la víctima el acceso a la reparación. O acolhimento da teoria do risco e da responsabilidade objetiva é a tendência moderna nos países que possuem legislação específica sobre direito do consumidor. "al no exigirse la prueba diabólica de la culpa. sim. criando uma nova modalidade de responsabilidade civil. muitas vezes. por motivos de política-econômica. a imputação de responsabilidade conjunta entre os fornecedores vinculados ou não por laços contratuais com o consumidor. a responsabilidade civil não deriva do contrato ou de um dano que alguém gera a outrem fora do contrato. decorrentes principalmente do desconhecimento do processo industrial e da crescente automação. todo aquele que exerce atividade no mercado de consumo tem o dever de responder pelos eventuais vícios ou defeitos dos bens e serviços fornecidos. De acordo com a Teoria do Risco. acabavam por dificultar a imputação do fato lesivo ao seu autor. mantém-se fiéis ao dogma da responsabilidade civil baseada na culpa. [22] Com efeito. no entanto. o que . segundo a qual a lei imporia a toda a cadeia de fornecedores um dever de qualidade dos produtos que são colocados no mercado e dos serviços que são prestados. como a daquele fornecedor que tem vínculo contratual apenas com a cadeia de fornecedores. na chamada responsabilidade por risco da empresa. abrangendo nesse conceito tanto a responsabilidade do fornecedor que celebra o contrato com o consumidor. distribuir e comercializar produtos ou executar determinado serviço. por influência das grandes empresas. [23] De outro lado. então. [20] A responsabilidade civil passa. Alguns países." [19] Efetivamente. e também. há.133 consumidores. estocar. foi além. mas. independentemente de culpa. no Brasil. deve responder pelos prejuízos que causar. [18] Acrescente-se que o fornecedor está em melhores condições de produzir a prova sobre o ocorrido. Essa responsabilidade legal dos fornecedores tem como fundamento a Teoria da Qualidade. todavia. Assim.

como o dever jurídico que surge para o fornecedor em conseqüência de um vício de inadequação ou de insegurança do produto ou serviço.134 demonstra a tendência moderna de ir além da responsabilidade contratual e extracontratual. 18. pode-se conceituar a responsabilidade civil. incumbindo ao fornecedor a prova de alguma das excludentes de sua responsabilidade. ao menos direta. o consumidor somente precisa demonstrar a verossimilhança da existência desses três elementos. b) a restituição imediata da quantia paga.º ao 6. Por ser o comerciante com quem contratou o responsável mais próximo. sem prejuízo de . 18. 19. geralmente ele será o demandado. o vício (ou defeito) no produto. 3. no art. dispõe sobre os vícios de inadequação na quantidade. já que a relação contratual se estabelece somente entre o consumidor e o fornecedor direto.1. a responsabilidade está in re ipsa. ocorrendo o vício de inadequação na qualidade do produto. no direito consumerista brasileiro. surgirá a responsabilidade civil do fornecedor por vícios de inadequação. enquanto. De acordo com a lei consumerista brasileira. com os demais integrantes da cadeia de fornecedores. o dano ou prejuízo ao consumidor e o nexo de causalidade. monetariamente atualizada. Prevê. trata da responsabilidade civil por vícios de inadequação na qualidade. Para obter a indenização. A responsabilidade civil por vícios de inadequação dos produtos Quando o produto não proporcionar a utilização que dele legitimamente se esperava. em perfeitas condições de uso. pois a reparação diz respeito ao produto. à integridade física ou à vida do consumidor. pois não há relação contratual. Nos §§ 1.º do art. caput. uma solidariedade [24] entre todos os fornecedores da cadeia de produção em relação à reparação dos prejuízos causados ao consumidor em razão da inadequação do produto ao fim que se destinava. constata-se que a responsabilidade civil é extracontratual. e não sendo sanado esse vício num prazo máximo de 30 (trinta) dias. surgem para o consumidor as seguintes alternativas: a) a substituição do produto por outro da mesma espécie. Destarte. Com isso. poderá o consumidor demandar qualquer um dos integrantes da cadeia de fornecedores. Com base nesses delineamentos. no art. Os elementos identificadores e que geram a responsabilidade civil do fornecedor são. portanto. que cause um dano efetivo ao patrimônio. Nesse caso. centrando o dever de reparar na solidariedade social e na Teoria do Risco. 18 e seguintes. O Código Brasileiro de Defesa do Consumidor trata da responsabilidade civil por vícios de inadequação do produto em seus arts.

Caso o consumidor tenha optado pela substituição do produto por outro de mesma espécie e isso não seja possível. 19. não podendo. ou d) restituição imediata da quantia paga. Esse prazo para o conserto do produto pode ser ampliado ou reduzido pelas partes. sem prejuízo de ressarcimento por eventuais perdas e danos (art.º). sendo que a garantia legal do produto independe de termo expresso (arts. é vedada a pactuação de cláusula que impossibilite. contudo. incs. Se. Assim. Os efeitos da responsabilidade civil por vícios de inadequação na quantidade do produto.2. marca ou modelo diversos. em face da extensão do vício. A responsabilidade civil por vícios de insegurança dos produtos A responsabilidade civil do fabricante por vícios de insegurança é efeito lógico de um acidente de consumo. que ocorre quando o produto não apresenta a . no art. Do mesmo modo do que ocorre na responsabilidade civil por vício de inadequação na qualidade. quando optar pela substituição do produto por outro de mesma espécie e esta não for possível. 18. sem prejuízo da eventual complementação ou restituição de valores (§ 1. 3. b) complementação do peso ou medida. sendo que. estão previstos. por sua vez.º). como referido. 19 do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. surge para a cadeia de fornecedores o dever de reparar. 24 e 25). mediante eventual restituição de valores ou complementação da diferença de preços (§ 4. I a IV). antes mencionadas.º). pode o consumidor. em qualquer contrato de consumo. sem precisar obedecer a qualquer prazo.º). O fornecedor imediato será responsabilizado quando fizer a pesagem ou medição e o instrumento utilizado não estiver regulado segundo os padrões oficiais (§ 2. sem os aludidos vícios. monetariamente atualizada.º do art. atenue ou exonere o fornecedor da responsabilidade de indenizar em face da ocorrência de vícios de inadequação ou de insegurança. essa cláusula deve ser convencionada em separado (§ 2. poderá optar pela substituição por outro de espécie. 18.º). poderá o consumidor optar por uma das seguintes alternativas: a) abatimento proporcional do preço. Constatados os vícios de inadequação na quantidade do produto. marca ou modelo diversos. Cabe ressalvar que. o consumidor poderá imediatamente se utilizar das alternativas referidas no § 1. no caso de contrato de adesão. c) substituição do produto por outro da mesma espécie. requerer a troca do produto por outro de espécie. marca ou modelo. diminuir-lhe o valor ou no caso de se tratar de produto essencial. ser inferior a 7 (sete) nem superior a 120 (cento e vinte) dias.135 eventuais perdas e danos. e c) o abatimento proporcional do preço (art. a substituição das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou as características do produto. caput e § 1.

são pressupostos para a responsabilidade civil do fabricante por defeitos nos produto: a) falha na segurança do produto. b) a colocação do produto no mercado. capaz de causar lesões aos consumidores. a pedido da rede varejista. acompanhando o produto por onde ele estiver durante a sua existência útil. [26] Levando em conta a sistemática moderna de proteção ao consumidor. quando não conservar adequadamente os produtos. no rol de responsáveis estabelecido no art. controle sobre a segurança e qualidade das mercadorias. aquele que celebrou o contrato com o fornecedor. O dever de segurança tem natureza ambulatorial. na forma do art. Por produto inseguro. o CBDC prevê uma solidariedade entre fabricante. [27] de modo que a garantia inerente ao produto obriga o fornecedor em relação ao último consumidor e a todos aqueles que tenham alguma . quando. todavia. produtor. Falta. nas relações de consumo em massa. terá o comerciante responsabilidade direta. Tratam os arts. Como se observa. o produto é fabricado por um terceiro oculto. contudo. 12. ou seja. deve-se entender aquele que é potencialmente danoso. um novo conceito de responsabilidade civil. 12 a 17 do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor da responsabilidade civil por fato do produto. a simples fabricação de um produto com um defeito não enseja. que. a responsabilidade civil. Segundo a lei consumerista brasileira. construtor e importador (art. De outro lado. Assim. ou seja. o comerciante é excluído em via principal. e d) a relação de causalidade (ou nexo causal). "independe da existência de culpa". respondendo subsidiariamente quando não puderem ser identificados os demais sujeitos da cadeia de produção ou quando o produto fornecido não apresentar identificação clara daqueles. regra geral. como se fabricantes fossem. àquelas redes de varejo que oferecem diversificada linha de produtos com sua própria marca. Essa distinção em benefício do comerciante se faz necessária porque ele não tem. essa responsabilidade não beneficia somente o consumidor imediato. sendo necessária a sua colocação no mercado. ou seja. pela sua utilização. menção expressa ao fabricante aparente. o que facilita ao consumidor a busca por uma justa indenização. como fora referido. 12). c) o dano. que possui um defeito capaz de. a responsabilidade civil legal. lesionar o consumidor. A colocação do produto no mercado é ato humano de fazer ingressar em circulação um produto potencialmente danoso. 12. por si só.136 segurança que dele legitimamente se espera e acaba por causar dano ao consumidor. é introduzido no Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. [25] Para melhor defender os interesses do consumidor. na verdade.

embora tenha colocado o produto no mercado. b) que. permitindo um juízo de probabilidade ao julgador. sendo que a própria lei admite excludentes de responsabilidade do fornecedor. mas proveniente de fatos humanos. quando o produto está sob a guarda do comerciante. A não colocação do produto no mercado pressupõe que o fornecedor-produtor prove que não é sua a autoria da fabricação do produto ou que o fornecedor não foi responsável pela sua circulação. O que distingue basicamente os dois institutos é que a força maior resulta de situações independentes da vontade do homem. deve ser analisado o momento de sua ocorrência. malgrado se trate de responsabilidade objetiva. para a configuração de responsabilidade. que as vítimas sejam parte da cadeia de circulação jurídica do produto. essa regra não é absoluta. É irrelevante. o furto e o roubo. Nesses casos. nos casos em que o produto é posto no mercado por ato de preposto ou em decorrência da falta de diligência na guarda do produto. um terremoto. na hipótese de ser o infrator quem colocou o produto em circulação. enquanto o caso fortuito é uma situação que decorre de fato alheio à vontade da parte. O caso fortuito e a força maior constituem-se em um fato necessário. é imperioso fazer a distinção. uma guerra. que mantenham com este mera relação de fato decorrente de uso ou consumo. 12 do CBDC que o fornecedor não será responsabilizado se provar: a) que não colocou o produto no mercado. a demonstração de que já ocorreu outro acidente de consumo em relação a idêntico produto. ou. excluirá a responsabilidade do fornecedor a sabotagem. uma tempestade. o que gera indagações a respeito. por exemplo. Ao lesado. como. [29] Embora surtam idênticos efeitos jurídicos. A prova de que o vício de insegurança inexiste incumbe ao fornecedor.137 relação de fato com o produto. cabe tão-somente demonstrar a verossimilhança do que alega. ainda. o caso fortuito e a força maior não devem funcionar como . que importam no rompimento do nexo de causalidade e acabam afastando a responsabilidade civil. o defeito inexiste. um incêndio criminoso provocado por terceiros. como uma greve. [30] Para verificar se o caso fortuito e a força maior atuarão como excludentes de responsabilidade do fornecedor. São as causas de exoneração. Assim. cabe salientar que o CBDC não prevê como causas de exclusão de responsabilidade o caso fortuito e a força maior. caberá ao fornecedor a prova de tal fato. Caso ocorram na concepção ou na produção. ou que simplesmente tenham se exposto aos efeitos do seu campo de periculosidade. De outro lado. A excludente não beneficia o fornecedor. [28] De outro lado. ou c) a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.º do art. À guisa de exemplo. todavia. dispõe o § 3. cujos efeitos não se pode evitar ou impedir. como um ciclone.

Considerações finais Com o surgimento e alargamento do processo de industrialização. assim. então. cria um novo conceito de responsabilidade civil. baseado na inexistência de produtos com avarias. Surgiu. Dessume-se. A par disso. Os produtos defeituosos acabam sendo um resultado marginal e inexorável da produção industrial. o que pode é possível com uma legislação rigorosa. dando tratamento jurídico bastante proguessista em relação à efetiva reparação dos danos ao consumidor. principalmente. cresceu a incidência de vícios e defeitos nos produtos. culminando em modificar o tratamento jurídico de vários institutos. 4.138 eximentes de responsabilidade do fornecedor. se o caso fortuito e a força maior sobrevierem depois da tradição (entrega) do produto ao consumidor. microssistemas protetivos ao consumidor. Entretanto. que imponha a toda a classe de fornecedores normas imperativas no processo de produção e a obrigação de reparar eventuais danos decorrentes dos acidentes de consumo. dentre os quais o da responsabilidade civil e o dos vícios dos produtos. portanto. Impõe. é utópico. O Brasil codificou a matéria na Lei n. que tem como característica principal a produção em série. assim. um dever de qualidade dos produtos colocados no mercado. a chamada responsabilidade legal. houve uma preocupação mundial em reduzir ao máximo os acidentes de consumo e os vícios dos produtos. sobretudo nos países mais desenvolvidos.º 8. não haverá responsabilidade civil daquele. tendo sido produzido após o consumidor ter adquirido o produto. na efetiva reparação do consumidor. à medida que não há um controle individual da adequação e segurança de cada unidade que é lançada no mercado. decorre da violação do dever de colocar no mercado produtos isentos de vícios de insegurança. calcados. na solidariedade social e na responsabilidade civil objetiva.078/90. não terão os fornecedores qualquer responsabilidade. que a responsabilidade do fornecedor. pois. e que decorre estritamente da lei. no direito brasileiro. . O modelo ideal de produção. que prescinde de elemento contratual ou da ocorrência de ilícito. se o defeito não está relacionado ao fornecedor. Esses dois elementos atuam como fatores de ruptura do nexo causal entre o defeito e o dano. Criou-se novos modelos de reparação de danos que sobrepujaram a clássica teoria da responsabilidade civil. Além disso. mormente em relação à responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos.

José de Aguiar. Porto Alegre. ed. ed. La protección de los consumidores y el MERCOSUR. RS. 127-197. Derechos del consumidor em el marco de la legislación nacional y la integración regional. (trad. GHERSI. CAVALIERI FILHO. 124-136. In: GRINOVER. Antônio Herman de Vasconcellos e. 2. In: Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. São Paulo : Saraiva. Hans. 1987. GARAY. Teoria pura do direito. (coord. 2000. A proteção do consumidor e o MERCOSUL. maio 1997. Ada Pellegrini et. SP. Gustavo Ordoqui. Revista Jurídica da Associação dos Defensores Públicos do Estado do Rio Grande do Sul.). Newton. Revista de Direito do Consumidor. 1. Montevidéu : Ingranusi. São Paulo. Referências Bibliográficas ARRIGHI. 4. ed. DIAS. Da qualidade de produtos e serviços. Da responsabilidade civil. ano 1. da prevenção e reparação de danos. atual. DE LUCCA. Carlos. aum. ed. Rio de Janeiro : Forense Universitária. Programa de responsabilidade civil. out. Sergio. 1998. SP. 6. 12. rev. ed. Luiz Gastão Paes de Barros. João Baptista Machado). Código brasileiro de defesa do consumidor. rev. Rio de Janeiro : Forense. DENARI. n. 1991. Teoría general de la reparación de daños. v. servindo de modelo e paradigma para vários outros países. 5. 1. p. CASTILHA. atual. São Paulo. aum. 29-36. LEÃES. p. 2. 5. Buenos Aires : Astrea. BENJAMIN. . 1997. e ampl. 1999. n. o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor é considerado uma das legislações consumeristas mais protetivas do mundo. 5. São Paulo : Saraiva. n. KELSEN. rev. Revista de Direito do Consumidor. 2003. ampl. São Paulo : Martins Fontes. A responsabilidade do fabricante pelo fato do produto. São Paulo : Malheiros. 1998. p. Jean Michel. 1994. al. 19-24.-dez. e atual. p. Carlos Alberto.139 Por essa principiologia inovadora e moderna. O Direito do Consumidor no Mercosul. Zelmo Da qualidade de produtos e serviços. 1992. da prevenção e da reparação dos danos.

Arnaldo. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos: a teoria da ação social e o direito do consumidor. São Paulo : Saraiva. 1998. La relación de consumo: conceptualización dogmática en base al Derecho del MERCOSUR. Ricardo. 364-365. p. SANSEVERINO. Estudos sobre a proteção do consumidor no Brasil e no MERCOSUL. 110 p. p. ed. NORRIS. STIGLITZ. 7. Direito das Obrigações. Buenos Aires : .-jun. LUNARDI. São Paulo : Saraiva. de 11. SP. Revista de Direito do Consumidor. Cláudia Lima. ______. In: MARQUES. ed. 2000. p. Roberto. n. 2002. Revista de Direito do Consumidor. A proteção jurídica do consumidor contra vícios dos produtos no âmbito dos países do MERCOSUL. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. 21. São Paulo : Revista dos Tribunais. RS. PASQUALOTTO. 2004. Protección jurídica del consumidor. 73-94. Odete Novais Carneiro. 1996. (Org.140 LORENZETTI. jan. n. Da responsabilidade por vício do produto e do serviço: Código de Defesa do Consumidor Lei 8. Santa Maria. rev. 49-85. atual. 42. Adalberto de Souza. Rio de Janeiro : Forense. SIMÃO. Agostinho Oli Koppe. Monografia (Graduação em Direito) – Curso de Direito. 4.). José Fernando. RIZZARDO. 2003. São Paulo. São Paulo : Atlas. Washington de Barros. Porto Alegre : Livraria do Advogado. Paulo de Tarso. Responsabilidade civil do fabricante pelo fato do produto.1990. rev. QUEIROZ. 1997. São Paulo. Gabriel. 2002. 2002. 2004. 2003. p. Curso de direito civil: direito das obrigações: 1. PEREIRA.078. MONTEIRO. 1994.09. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. 09-31. São Paulo : Revista dos Tribunais.-mar.ª parte. Rio de Janeiro : Forense. MARQUES. 1971. aum. e ampl. Porto Alegre : Livraria do Advogado. Responsabilidade civil no código do consumidor e a defesa do fornecedor. ano 11. Universidade Federal de Santa Maria. SP. abr. Vícios do Produto no Novo Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor. Cláudia Lima. Fabrício Castagna. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais.

135. 3. que se encontra no Código Civil brasileiro. (Org. 75). 73-94. Direito Civil: responsabilidade civil. Adalberto de Souza Pasqualotto. 115-128.250. São Paulo. abr. p. Estudos sobre a proteção do consumidor no Brasil e no MERCOSUL. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. 1999. atual. jul. Sílvio de Salvo. Cláudia Lima. WEINGARTEN. 31. O princípio da confiança está intimamente ligado ao princípio da boa-fé subjetiva. ed. 2. 1986. SP. Dora. 1. n. 1994. atual. conforme as instruções por ele mesmo expedidas e dando atenção às advertências cabíveis que também por ele devem ser feitas. São Paulo : Atlas.-set.).-jun. ano 11. Responsabilidade civil no código do . 07 06 05 04 03 02 01 Paulo de Tarso Sanseverino. Revista de Direito do Consumidor. Dora Szafir. 689) ou com herdeiro excluído da sucessão (art.817). p.250. 49. "O fabricante deve assegurar para o consumidor que o produto. Op. 2. Exemplo disso é a proteção aos contratantes de boa-fé quando celebram negócio jurídico com mandatário aparente (art. Porto Alegre : Livraria do Advogado. In: MARQUES. 2002. 2003.141 Depalma. Célia. ed. p. São Paulo. Montevidéu : Fundación de Cultura Universitaria. cit. ed. p. não será um instrumento maligno nas mãos dos usuários desprevenidos. SZAFIR. n. 2002. Ley 27. Adalberto de Souza Pasqualotto. SP. Consumidores: análisis exegético de la Ley 17. Consumidores: análisis exegético de la Ley 17. vulnerando sua integridade física ou de qualquer modo colocando em risco a sua segurança ou a dos circunstantes. 42." (Adalberto de Souza Pasqualotto. 74. Graciela. adequadamente utilizado. 49-85. p. p. Notas As normas do CDC brasileiro são imperativas no sentido de proteger a confiança que o consumidor depositou no produto que adquiriu. p. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. circulacón. Montevidéu : Fundación de Cultura Universitaria. Revista de Direito do Consumidor. VENOSA. distribuición y comercialización de bienes y servicios.999: responsabilidad de los sujetos y/o empresas que intervienen em la cadena de fabricación. 2002. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. LOVECE.

1998. ed. Op. p. porquanto a responsabilidade civil tradicional revelara-se insuficiente para proteger o consumidor. 1999. Rio de Janeiro : Forense. p. 2002. p. 2003. 77. aum. ampl." (CAVALIERI FILHO. cit. 19 18 Carlos Alberto Ghersi.). de productos elaborados. Op. 1. 134. "Para enfrentar a nova realidade decorrente da Revolução Industrial e do desenvolvimento tecnológico e científico. 16 17 15 Ibidem. 5. etc. ed. Op. ed. 157) José de Aguiar Dias. Teoria pura do direito. 24. Sílvio de Salvo Venosa. 2003. p. 242. p. 2003. Direito Civil: responsabilidade civil. João Baptista Machado. São Paulo : Saraiva. e atual. 6. p. Porto Alegre : Livraria do Advogado. . São Paulo : Malheiros. São Paulo : Martins Fontes. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. p. ed. p. Buenos Aires : Astrea. ha revelado la insuficiencia e injusticia del principio tradicional e atribuición subjetiva basado en la culpa del autor del daño. Programa de Responsabilidade Civil. 12. De acordo com o bem jurídico tutelado e a gravidade da lesão. 158. 1997. que exponen a la persona humana a mayores riesgos. 103. 473) Adalberto de Souza Pasqualotto. em determinados casos. surgirá a responsabilidade civil ou penal." (Carlos Alberto Ghersi. p. Agotinho Oli Koppe Pereira. v. aum. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos: a teoria da ação social e o direito do consumidor.142 consumidor e a defesa do fornecedor. "El aumento de las causas de dañosidad producidas por el industrialismo (accidentes de trabajo. 3. 13 14 12 11 10 09 08 Ibidem. Embora seja prevista a responsabilidade penal dos fornecedores. rev. p. cit. 15. Trad. 16. ed. de utilización de cosas. Da Responsabilidade Civil. riesgos derivados de actviades. 24. rev. atual. com fundamentos e princípios novos. Teoría general de la reparación de daños. cit. o Código do Consumidor engendrou um novo sistema de responsabilidade civil para as relações de consumo. Sergio. p. 4. tal questão não será tratada no presente trabalho. São Paulo : Atlas. p. 2. Sergio Cavalieri Filho. Hans Kelsen.

In: Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. Isso porque "fato" é acontecimento alheio à ação humana. 2000. Assim. e. Portanto. São Paulo : Saraiva. tanto daquele que possui um vínculo contratual com o consumidor.) Adalberto de Souza Pasqualotto. cit. p. cit. no sistema do CDC.)" (In: Da responsabilidade por vício do produto e do serviço: Código de Defesa do Consumidor Lei 8. São Paulo : Revista dos Tribunais. O novo regime de vícios no CDC caracteriza-se como um regime de responsabilidade legal do fornecedor. que o legislador tivesse se utilizado. 43-44. Odete Novais Carneiro Queiroz: "Não se faz necessária uma efetiva relação contratual. atual. p. da expressão "responsabilidade pelos acidentes de consumo". por exemplo. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. 50. sendo alvo de severas críticas pela doutrina. 111) Pragmaticamente." (Cláudia Lima Marques. cit.. Também nesse sentido. da tradicional responsabilidade assente na culpa passa-se a presunção geral desta e conclui-se com a imposição de uma responsabilidade legal." (Arnaldo Rizzardo. é sempre a atividade humana. 4. p. Op. "Assim. o intermediário e o comerciante (distribuidor) (. ed. o CBDC impõe aos fornecedores a obrigação de colocar no mercado somente produtos isentos de vícios ou defeitos. 475. São Paulo : Revista dos Tribunais. 205) Tal expressão. que é gerenciada pelo homem. 1998. o dever de qualidade é um dever anexo à atividade dos fornecedores. cit. não goza de um tecnicismo apurado. como refere Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin (In: Da qualidade de produtos e serviços.143 Adalberto de Souza Pasqualotto. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. Op. de forma direta ou indireta. p. Rio de Janeiro : Forense. Direito das Obrigações. 1991. Por solidariedade deve-se entender "um vínculo que conduz a impor o cumprimento de uma obrigação a várias pessoas. 80. portanto. mesmo porque existe uma responsabilidade solidária entre o fabricante. contudo. Op.1990.078. que causa o dano. rev. no caso dos vícios de insegurança. p. p. de 11. Luiz Gastão Paes de Barros Leães. quanto daquele cujo vínculo contratual é apenas com a cadeia de fornecedores. tem-se um dano decorrente da atividade de produção ou de comercialização. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. 2002. 27 28 26 25 24 23 Sergio Cavalieri Filho. 984). p. p. Melhor teria sido. A responsabilidade do fabricante pelo .09. podendo a vítima reclamar face a quem com ela certamente não contratou. 21 22 20 Sergio Cavalieri Filho.. e ampl. Op. da prevenção e da reparação dos danos. 478.

" Washington de Barros Monteiro. equipara o caso fortuito à força maior: "Art.) Parágrafo único. 1987. cujos efeitos não era possível evitar ou impedir. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário. São Paulo : Saraiva. ed. em seu art. (. aum. p. 7. Curso de direito civil: direito das obrigações: 1.ª parte. 393.144 fato do produto. 1971. 393. 3.. p. parágrafo único. São Paulo : Saraiva.. 30 29 . 364-365. rev. O Código Civil brasileiro.

. 26 e 27 da Lei 8. tendo por base a previsão normativa do art. a análise dos institutos jurídicos da prescrição e da decadência no que se refere ao Direito do Consumidor. o presente trabalho. o Código de Proteção e Defesa do Consumidor.078/90.145 A prescrição e a decadência no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner Visa.

30 (trinta) dias.146 1. que deve ser transmitida de forma inequívoca. Parágrafo único .90 (noventa) dias.(Vetado. §1º . A Relevância Jurídica do Decurso do Tempo: . Assim ocorre que no Código de Proteção e Defesa do Consumidor. até seu encerramento. o prazo decadencial inicia-se no momento em que ficar evidenciado o defeito. 27 . temos a disciplina dos mesmos no que tange à relação de consumo. §2º . possuem sua disciplina geral disposta no Código Civil. a depender do campo específico do Direito em que se pretende sejam aplicadas. Art. Iniciemos com a transcrição dos artigos sob estudo. iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria.) 2.Prescreve em 5 (cinco) anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo. comportam regras específicas. §3º . Introdução As normas referentes à prescrição e decadência.) III .Obstam a decadência: I .(Vetado. SEÇÃO DA DECADÊNCIA E DA PRESCRIÇÃO IV Art.O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em: I .a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente. tratando-se de fornecimento de serviço e de produto duráveis. II .Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do produto ou do término da execução dos serviços. tratando-se de fornecimento de serviço e de produto não duráveis.Tratando-se de vício oculto. Tais institutos. no entanto. arts. II . 161 a 179.a instauração de inquérito civil. 26 .

Constitui fato jurídico ordinário.") e da prescrição no art. caduca. Segundo Serpa Lopes (Curso de Direito Civil. O Direito caduca. cujo implemento vem a constituir o fato jurídico. de maior interesse no que adiante vamos discutir. 26 ("O direito . os principais institutos dessa esta forma extintiva de operar o decurso temporal. in casu. a pretensão prescreve. Freitas Bastos. 1996). No aspecto extintivo. ante o fornecedor. Tratou da decadência no art. temos a "pretensão liberatória" no dizer de Orlando Gomes ("Introdução ao Direito Civil"12ª ed. dando origem à violação daquele direito. e atual. período fixado na lei entre o termo inicial (dies a quo) e o termo final (dies ad quem). a prescrição requer um direito já exercido pelo titular. Ed. mas que tenha sofrido algum obstáculo. decadencial ou prescricional. 27 ("Prescreve . A decadência supõe um direito em potência. e também inúmeras distinções entre um e outro.. a decadência atinge o direito de reclamar. Rio de Janeiro. a pretensão") 4. fiquemos com algumas. teremos a base da decadência e prescrição. é abundante. extintivo de direito. portanto. No caso específico do CDC.. inalteráveis pela vontade das partes. 1989). A prescrição não fere o direito em si mesmo. No entanto. a prescrição afeta a pretensão à reparação pelos danos causados pelo fato do produto ou do serviço. vol. Convém salientar que os prazos decadenciais e prescricionais do CDC são de ordem pública e. "o que se perde com a prescrição é o direito subjetivo de deduzir a pretensão em juízo. 1. Editora Forense. 3. Neste sentido.. A decadência afeta o direito de reclamar.. rev." O CDC separou as duas realidades. constitui causa aquisitiva ou extintiva de direitos. uma vez que a prescrição atinge a ação e não o direito... O fluir do tempo... Prazos para Reclamar e Pretender a Reparação de Danos Prazo é o lapso de tempo. neste particular.147 O Fluir do tempo gera efeitos jurídicos relevantes para o direito. . Decadência e Prescrição Poderíamos citar um diverso número de características peculiares a cada instituto. ao passo que a prescrição atinge a pretensão de deduzir em juízo o direito de ressarcir-se dos prejuízos oriundos do fato do produto ou do serviço. 7ª ed. quanto ao defeito do produto ou serviço. aliado a inatividade do seu titular constitui fato jurisformizado pelo direito com vistas à estabilidade e segurança das relações jurídicas. mas sim a pretensão à reparação. Rio de Janeiro. já que a doutrina.

serviço de limpeza). 211. e pelo Código Comercial. A Classificação difere da do CC. 5.148 Há prazos gerais fixados no Código Civil e prazos especiais fixados nesse mesmo Código e na legislação extravagante em relação a ele. bens (produto ou serviço) se exaurem no primeiro uso ou em pouco tempo. objetivando seja sanado o vício. ao passo que no Código Civil e Comercial o prazo se inicia com a mera tradição. imóvel 6 meses. Suas Especificidades O CDC nos apresenta alguns prazos. 15 dias art. IV). junto ao fornecedor ou ao Poder Judiciário. como é o caso do CDC. art. também adiante. cujo consumo não importa destruição. 5. Produtos e Serviços Duráveis e Não Duráveis: O critério aqui utilizado para assinalar diferentes prazos decadenciais é mais consentâneo com o Direito do Consumidor do que o critério da mobilidade utilizado pelo CC (móvel. 51. § 2º. ocorre uma sensível ampliação em relação ao prazo para reclamar dos vícios redibitórios na forma como disciplinado pelo CC. 178. 5. ou término da execução dos serviços. CC). Não durável é aquele cujo uso ou consumo importa imediata destruição da sua própria substância. o qual estabelece o prazo de 15 dias no art. 26. (art. 178. art. como. 178. Prazos Decadenciais no CDC. § 2º. Ao passo que duráveis são aqueles produtos. § 5º. Vejamos: O início da contagem do prazo decadencial se dá com a entrega efetiva do produto. .2. serviços que persistem após sua execução. I) •90 dias: na mesma hipótese para serviços e produtos duráveis. como: •30 dias: para reclamar de vícios aparentes e de fácil constatação no fornecimento de serviços e produtos não duráveis. (art. O prazo decadencial que estudamos é o prazo para que o consumidor reclame. Analisaremos adiante o conceito de "entrega efetiva". Serviço não durável é aquele que se extingue com sua própria execução (Ex. II) Aqui. Aqui durável guarda certa analogia com consumível (art. 10 dias..1. Entrega Efetiva A tradição efetiva se opera no momento em que o consumidor tenha recebido o produto e tenha condições de verificar a ocorrência do possível vício.. veremos. 26. O tratamento também é diverso no que se refere ao dies a quo.

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Pode ainda restar dubiedade neste termo, no caso, por exemplo, do preposto receber na residência do consumidor impossibilitado de fazê-lo pessoalmente e só posteriormente ao decurso do prazo decadencial venha efetivamente receber o produto. São entretanto, casos para que a doutrina e a jurisprudência no caso concreto, possa deslindar. Para nós importa compreender a mens legis, do dispositivo legal, ao utilizar a expressão "entrega efetiva", a qual parece-nos ser a de fornecer o contraponto entre a possibilidade do consumidor constatar o vício eventualmente existente versus a passividade do consumidor, sua inércia frente à constatação do vício. Uma ou outra hipótese só fica perfeitamente delineada, na prática, analisando-se o caso concreto. 5.3 Vício Vícios de qualidade são aquelas características que tornam o produto ou serviço impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam, ou lhes diminuem o valor. Também constitui vício a disparidade entre produto e as indicações do recipiente, embalagem, mensagem publicitária ou do que deles normalmente se espera. Não esqueçamos que o vício de quantidade, via de regra mais facilmente constatável, também enseja a reclamação. 5.4. Vício Aparente É o vício visível, perceptível sem maior dificuldade, assimilável pela percepção exterior do produto ou serviço, aquele em que o consumidor não encontra obstáculos em reconhecer. Não requer teste. Deve se ter em conta no caso concreto o grau de conhecimento do consumidor, ou da possibilidade de verificação de que o mesmo dispõe. 5.5. Vício Oculto É o vício que não oferece facilidade de constatação. Pode ser o defeito que está, quando da aquisição do produto ou execução do serviço, em germe, em potência, e vem a se manifestar posteriormente. Não basta ser de fácil evidenciação o efeito do vício, mas sim o vício em si, isto é, é necessário ser fácil a identificação do vício como a causa sensível de seus efeitos. Por exemplo, não basta que seja fácil a identificação de um odor estranho de dado produto, é necessário que seja facilmente assimilável a relação de causa e efeito, isto é, o odor, como o fato do produto encontrar-se estragado. O prazo decadencial se inicia quando da evidenciação do defeito. Defeito aparentemente sanado pelo fornecedor, equivale a ter o vício ficado novamente oculto, "sustando" o prazo decadencial até o momento em que venha novamente a se

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manifestar. Para operacionalizar o acima exposto há a necessidade de se estabelecer uma presunção da anterioridade do vício nos produtos ou serviços novos. Nesse caso, a probalidade física favorece a presunção, um produto novo implica em menor oportunidade de que o defeito decorra de sua utilização anormal. Esta presunção funciona "a moda" de uma específica inversão do ônus da prova. Cabe ao fornecedor provar que o vício não estava presente ou ínsito ao produto ou serviço, quando do fornecimento ao consumidor. A reclamação efetuada quanto a um dos fornecedores é plenamente válida para os demais responsáveis. Este é um dos efeitos da solidariedade de acordo com o art. 176, § 1º, CC, solidariedade esta, legal, por decorrer do art. 25, § 1º, CDC. 5.6. Óbices à Decadência De acordo com o CDC, obstam a decadência: A reclamação comprovadamente formulada. (da qual se tenha prova), até resposta negativa correspondente, a ser transmitida de forma inequívoca. Instauração de Inquérito Civil até seu encerramento. Caso 1: A decadência é obstada, no primeiro caso, desde a data da entrega da reclamação, comprovada mediante recibo, cartório de títulos e documentos, ou mesmo judicialmente. Volta a seguir desde o dia seguinte ao da entrega da resposta negativa transmitida de forma inequívoca. Negado o vício, resta ao consumidor, no prazo decadencial, ir a juízo propor a ação condenatória para que o fornecedor satisfaça as obrigações decorrentes do vício (art. 18), podendo ser o pedido cumulado com o de indenização, se houve dano. "O prazo é de trinta dias para reclamar e não para ajuizar a ação. Isto é, não se exige que o consumidor, impreterivelmente, proponha a ação cabível em trinta dias ..." (Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin in Comentário ao Código de Proteção do Consumidor, coordenação de Juarez de Oliveira, Ed. Saraiva, 1991) No caso da reclamação judicial, passam a concorrer as regras processuais que disciplinam a matéria. Proposta a ação, o despacho que ordenar a citação impede que se consume a decadência, sendo a citação realizada no prazo estabelecido no art. 219 do CPC, que se refere à prescrição, mas é válido para a decadência à luz do art. 220. A decadência,

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em regra, não se interrompe, nem se suspende, portanto, extinto o processo, sem julgamento de mérito e já tendo escoado o prazo legal de decadência, o consumidor não poderá se valer da reclamação ou de ação que lhe seja correspondente. Este é, ao menos, um dos entendimentos sobre o assunto. Note que, se a resposta do fornecedor não negou o vício, a decadência continua obstada, de forma que se não houver sanação, o consumidor continuará com direito de recorrer a outras instâncias, sem que haja perecimento do mesmo pela decadência. Caso 2: Instauração de Inquérito Civil até seu encerramento: A decadência fica obstada a contar do dia da instauração do inquérito e persiste assim até o dia do seu encerramento, inclusive, voltando a contar do dia seguinte ao mesmo. O objetivo do Inquérito Civil, como de qualquer inquérito, é o de servir como instrumento legal para obtenção de dados, clarear um fato, determinar se um direito foi ofendido e em que grau ou extensão, qual o ofensor, etc. Natural, portanto, que suspenda a decadência, pois que os resultados advindos do inquérito, poderão servir ao consumidor subsídios para deduzir sua pretensão específica, em juízo. 6. O Debate Doutrinário sobre a Interrupção ou Suspensão da Decadência O Brasil, de acordo com Serpa Lopes (Curso de Direito Civil, vol. 1, 7ª ed. rev. e atual., Ed. Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 1989), seguindo tradicionalmente a orientação francesa e italiana, só admitia a interrupção aos prazos prescricionais, negando-a aos prazos decadenciais. O que podemos entender, então, pela expressão "obsta a decadência" inserta no art. 26 § 2º ? Interrupção, suspensão, Impedimento ao fluir... ? Vejamos algumas posições na doutrina: Luiz Edson Fachin (Da prescrição e da decadência no Código do Consumidor, Revista da Procuradoria Geral do Estado- RPGE, Fortaleza, 10(12): 2940, 1993) apesar de admitir que a "obstação", possa constituir uma realidade apartada do Código Civil, e que, sendo especial, sui generis, não requer mais explicações, defende, no entanto, a tese de que se trata de causa interruptiva da decadência, ainda que em descompasso com a sistemática geralmente aceita. Assim postula observando que as hipótese dos incisos I e III sob análise não se fundam no status da pessoa nem na situação especial dos sujeitos envolvidos. "... a reclamação comprovadamente formulada e a instauração do inquérito civil paralisam temporariamente o curso da decadência. Superado o fato interruptivo, quer pela resposta negativa, quer pelo

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encerramento do inquérito, o prazo flui novamente, mas é inutilizado por completo o lapso de tempo já iniciado. O prazo recomeça a contar." (grifo nosso) Zelmo Denari (Código de Defesa do Consumidor, comentado pelos autores do Anteprojeto, Forense Universitária, São Paulo, 1991), considerando as expressões "até a resposta negativa", "até seu encerramento", pondera: "Resta saber se esses dois eventos (reclamação e inquérito civil), que o Código qualifica como obstativos da decadência, têm efeitos suspensivos ou interruptivos do seu curso. ... parece intuitivo que o propósito do legislador não foi interromper, mas suspender o curso decadencial. Do contrário, não teria estabelecido um hiato, com previsão de um termo final (dies ad quem) mas, simplesmente, um ato interruptivo." Não obstante, e dada, máxima venia, não conseguimos atinar com a relação de causa e efeito entre o fato de haver previsão de um hiato e a conclusão de ser o prazo suspensivo. O dies ad quem, esta simplesmente a indicar o momento em que volta a correr a decadência anteriormente interrompida ou suspensa, não podendo-se desse fato apenas se concluir por um ou outro caso. A explicação, a nosso entender mais convincente é a de William Santos Ferreira (Prescrição e Decadência no Código de Defesa do Consumidor, Revista de Direito do Consumidor, n 10, p 77 a 96, abril/junho, 1994), para quem efetuada a reclamação, "não há mais que falar em transcurso de prazo (suspensão ou interrupção), não é necessário tratar-se do prazo, o direito foi exercido." Cita Câmara Leal "A decadência tem um curso fatal, não se suspendendo, nem se interrompendo, pelas causas suspensivas ou interruptivas da prescrição, só podendo ser obstada a sua consumação pelo efetivo exercício do direito ou da ação, quando esta constitui o meio pelo qual deve ser exercitado o direito." O que ocorre no CDC (e isso justifica o que Ferreira chama de "dies a quo", "até resposta negativa..." e "até seu encerramento" §2º, I e III), é que o CDC reconheceu duas formas de exercício: extrajudicial e judicial do direito de reclamar. Sendo que a segunda forma de exercê-lo, se não exercido antes, inicia-se nos termos supra-citados. Verificados tais termos, novo prazo decadencial se inicia, agora, através da exteriorização da pretensão por uma ação judicial. Releva a discussão acima exposta, inclusive pelas conseqüências práticas que decorrerão forçosamente de um e outro entendimento. Ao consideramos a suspensão ou interrupção ou ao admitirmos dois direitos sujeitos a distintos prazos decadenciais, resultará, obviamente, em lapso maior ou menor de tempo para que o consumidor exerça seu direito, resultará em maior ou menor oportunidade de fazer respeitar estes mesmos direitos. A última, a de William Santos Ferreira, parece-nos ser a explicação mais consentânea, ainda que não de todo convincente, face aos termos utilizados na redação do dispositivo legal. Além de mais consentânea, vem a ser a que melhor protege o consumidor, portanto, a que mais se afina com o princípio da

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hipossuficiência do consumidor, princípio que norteia todo o código. 7. Prazos Prescricionais no CDC Os prazos prescricionais referem-se à pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista no mesmo CDC. Esclarece Arruda Alvim (Código Do Consumidor Comentado; 2. ED. rev. e ampl.; Revista dos Tribunais; 1995): "O objeto da reclamação é substancialmente diferente do pedido de reparação de danos." A reclamação é exclusiva do vício, a reparação se prende as perdas e danos, fato do produto ou do serviço. Fato do produto é todo e qualquer dano, podendo este ser oriundo de um vício, que, por sua vez traz em si, intrínseco, uma potencialidade para produzir dano. Assim, caso o vício não cause dano, correrá para o consumidor o prazo decadencial, para que proceda a reclamação, vindo a causar dano (hipóteses do art. 12), deve se ter em mente o prazo qüinqüenal, sempre que se quiser pleitear indenização. A posição de alguns doutrinadores estudados é no sentido de que se o consumidor tiver sido prejudicado, poderá haver perdas e danos (além da reclamação pelo vício) e estas, apesar de originadas no próprio vício do produto ou do serviço, não necessitam integrar a reclamação, ficando sujeitas o prazo prescricional fixado, em lei para estas, pois se constituem as perdas e os danos, em sentido lato, o fato do produto ou serviço, abrangendo o que o consumidor perdeu e o que deixou de ganhar em razão do vício Arruda Alvim (Código Do Consumidor Comentado; 2. ED. rev. e ampl.; Revista dos Tribunais; 1995) esclarece, no entanto, que: não há diferença entre os danos advindos de vício do produto e o fato do produto. A interpretação diversa, ainda segundo ele, levaria a entender que a indenização pelo vício, restaria à margem das leis de consumo, e que sua prescrição se regeria pelo direito comum (15 dias CC, 10 dias Ccom havendo rescisão, ou 20 por ação pessoal, no caso de não se dar a rescisão contratual). Continua: "O vício do produto ou do serviço e sua sanação recebe um tratamento jurídico que não é dispensado ao dano; este importa em fato do produto ou do serviço. Nada obsta a que um produto ou serviço seja viciado e que, este vício ocasione prejuízo, devendo este ser considerado como fato." Entendemos a propósito dessa discussão que fazer esta distinção entre fato do produto ou serviço e dano decorrente do vício é supérflua até mesmo para negá-la. Qualquer perda ou dano implica em fato do produto ou do serviço, que vem a ser precisamente o dano resultante do vício. William Santos Ferreira (Prescrição e Decadência no Código de Defesa do Consumidor, Revista de Direito do Consumidor, n 10, p 77 a 96, abril/junho, 1994), faz observação relevante ao observar que quando falamos do direito à incolumidade

3. a partir do momento em que se conheça o dano e possa-se relacioná-lo com o defeito do produto ou do serviço. 8. estabelece regras também especiais no que tange aos . 12 e ss. esta interrupção aproveita ao consumidor individualmente no ajuizamento da ação singular. saúde nunca deixaram de existir. ao haver o dano. bem como quando o fato se deve exclusivamente ao comerciante. Quanto à identificação do autor. constituindo diploma especial. Inexistindo informação sobre fabricante. venha ajuizar ação já que só a contar deste conhecimento individualizado terá início o prazo prescricional. 13. 7. Conclusão Pudemos verificar que o Código De Proteção e Defesa do Consumidor. Termo Inicial A partir do momento do conhecimento do dano ou de sua autoria. de fato. não é conhecimento do dano. Regerá portanto a matéria a disciplina do art. Nada impede que o consumidor descobrindo demais fornecedores. o comerciante é responsável subsidiário. fonte subsidiária do Direito do Consumidor. construtor. 7. que correrá novamente apenas da intimação da sentença condenatória. já que tal ilação pode não ser imediata em todos os casos. Da lesão ou violação de um direito faz nascer a ação. Temos então que a prescrição tem início com o nascimento da pretensão. este implica em direito resistido. Ora. No ajuizamento de ações coletivas: a citação válida interrompe a prescrição. do Código Civil. produtor ou importador.1. A propositura de ação contra um não libera os demais. Conhecimento dos efeitos do dano. Danos Reparáveis Os danos aos quais a pretensão se dirige a reparar atém-se a regulação jurídica da responsabilidade objetiva pelo fato do produto ou do serviço. necessário que o consumidor tenha consciência de que aquilo que observa é. 172 e ss.2. matéria disciplinada pelo Código no art. Isto é. segurança. um dano. Suspensivas e Interruptivas O parágrafo único prevendo interrupção foi vetado.154 física-psíquica do consumidor falamos de direito não sujeito à decadência. Poderá o consumidor demandar um ou mais dentre os responsáveis (solidariedade legal). Causas Impeditivas. 7. será diretamente responsável nos casos previstos no art. o direito a vida. enseja ação e enseja também a prescrição decorrente. Liberação que só ocorre se houver o pagamento integral.

etc. oriundo ou não do vício. Arruda.RPGE. Prescrição e Decadência no Código de Defesa . sob este ângulo devem ser interpretadas. 10(12): 2940. Código de Defesa do Consumidor. qual seja. inclusive no que concerne à responsabilidade objetiva. Tais regras são atinentes aos prazos. Código Do Consumidor Comentado. a favor da identificação de dois direitos exercitáveis pelo consumidor. William Santos. considerando todos abraçados em uma mesma hipótese. Um exercitável extrajudicialmente. e conforme exposto neste trabalho nos itens 6 e 7. pelo tão só fato de ter sido exercitado. Da prescrição e da decadência no Código do Consumidor. sistematicamente mais lógica e teleologicamente mais adequada ao espírito que preside o Código Protetivo. A segunda polêmica. São Paulo. inserta no parágrafo segundo do artigo 26 do CDC. nos posicionamos pela não distinção entre um e outro dano. Revista dos Tribunais. após exercitado. 1993 FERREIRA. Cada um. e ampl. Em assim fazendo. 1991. FACHIN. No segundo caso. ED. Todas elas partindo do pressuposto fundamental da hipossuficiência do Consumidor nesta classe de relações. Revista da Procuradoria Geral do Estado. 27. A cada direito corresponde um dies a quo para o prazo decadencial. 1995 DENARI. rev. Pudemos verificar que existe alguma controvérsia doutrinária. versa sobre como deve ser entendido o dano sujeito à disciplina do CDC e por via de conseqüência. Prescrição quando aplicados às relações de consumo. Luiz Edson. todo e qualquer dano que decorra do produto ou serviço. da "obstação" da decadência. Fortaleza. pelo menos em dois pontos principais. impede se volte a falar em decadência. 2. comentado pelos autores do Anteprojeto. sujeitando-se às regras do CDC.155 institutos da Decadência. Portanto. resultará em fato do produto ou serviço. Forense Universitária. e conseqüente forma de aplicação. judicialmente. Primeiro. quando da ocorrência do vício. se o derivado do vício ou o derivado do fato do produto ou serviço. Com base nos autores estudados. BIBLIOGRAFIA ALVIM.. no primeiro caso. outro. sujeito ao prazo prescricional do art.. ao termo inicial e ao termo final. hipóteses de interrupção e suspensão. e também jurisprudencial. nos posicionamos. Zelmo. mais dilatados. et al. quanto a natureza jurídica. cremos que interpretamos a lei da forma.

Orlando. Rio de Janeiro. 1996. Saraiva. vol. VASCONCELOS E BENJAMIN Antônio Herman de. Ed. Introdução ao Direito Civil. rev. abril/junho. coordenação de Juarez de Oliveira. Miguel Maria de Serpa. 1994. 7ª ed. LOPES. 12ª ed. Ed. p 77 a 96.. 1989. Comentário ao Código de Proteção do Consumidor. Rio de Janeiro. n 10. Curso de Direito Civil. 1. Editora Forense.156 do Consumidor. 1991 . e atual. Revista de Direito do Consumidor. GOMES.. Freitas Bastos.

157 Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner 1 .INTRODUÇÃO Visa o presente trabalho a discussão do instituto da Desconsideração da .

Por razões de política econômica. no entanto. tendo por base a previsão legal insculpida no artigo 28 do Código de Proteção e Defesa do Consumidor. SEU CARÁTER INSTRUMENTAL Abstraindo-nos no. a autonomia da pessoa jurídica não tem.. daí poderem se precaver. a pessoa jurídica somente pode ser entendida sob o prisma de uma instrumentalidade jurídico – formal para a consecução de interesses e fins aceitos e valorizados pela ordem jurídica. poderíamos alinhar alguns desses fins colimados e aceitos pela ordem jurídica: Conveniência ou viabilização de empreendimento econômico.158 Pessoa Jurídica no que tange à sua aplicação ao Direito do Consumidor. 2 . fazermos menção ao elemento teleológico do instituto da personalização de entes abstratos. por exemplo. a exigirem conjugação de esforços. de modo que o patrimônio titulado pela pessoa jurídica responda pelas obrigações sociais. necessidade de elevados investimentos. o condão . só se chamando à responsabilidade. sabe que a responsabilidade dos sócios se limita ao capital subscrito. A limitação da responsabilidade dos sócios como instrumento de viabilização de empreendimentos. Lei 8078/90. econômico ou ainda patrimonial do tema. Consoante tal linha de raciocínio.A PESSOA JURÍDICA. Situações há em que a constituição de pessoa jurídica é imperativo legal. de seguros. é o caso. Por outro lado. de. Dado que o destaque patrimonial seja a principal característica nas sociedades comerciais. preliminarmente. de transforma-la em ente totalmente alheio às pessoas dos sócios. há certas atividades que a lei só autoriza às pessoas jurídicas. Cooperação que a ordem jurídica jurisformiza através da personalização. presente trabalho. por exemplo da atividade financeira. gostaríamos. etc. e se nos ativermos ao aspecto comercial. A necessidade técnica dos grandes empreendimentos. No direito moderno. a personalização representa instrumento legítimo de destaque patrimonial para a exploração de certos fins econômicos. Senão vejamos: O patrimônio da pessoa jurídica é através da ação ou quota de capital.. o lado credor que contrata com tais sociedades. os sócios. além de geralmente impor a espécie societária. do aprofundamento sobre a questão da sua natureza jurídica. entretanto. expressão . Sob esse prisma. em hipóteses restritas. exigindo garantias adicionais.

se possa evitar seja a mesma utilizada para fins abusivos.RELATIVIDADE DA AUTONOMIA DA PESSOA JURÍDICA O caráter de instrumentalidade implica em que a validade do instituto fique condicionada ao pressuposto do cumprimento ou do atingimento do fim jurídico a que este se destina. fique condicionada a que não se desvie a pessoa jurídica desse mesmo fim. A desconsideração da pessoa jurídica. . e sua vontade é. p.159 também do patrimônio dos sócios. Em síntese. 96). citada por Marçal Justen Filho (in "Desconsideração da Personalidade Societária no Direito Brasileiro". terceiros que com ela se relacionem ou que de qualquer forma sofram os efeitos de seu atuar. porém. fortemente direcionada. de forma a que. a limitação de responsabilidade que propicia. 3 . Visa tal instituto à suplantação da barreira legal imposta pela instituição da pessoa jurídica. Podemos aqui invocar a construção de Tércio Sampaio Ferraz Junior e Maria Helena Diniz. podemos afirmar: a pessoa jurídica exerce uma função legítima. fazê-lo. trata-se da "Lacuna Axiológica". que adiante estudaremos. não obstante o balizamento dos estatutos e dos órgãos de administração neles previstos. é o instituto que se encaixa como uma luva a construção teórica acima mencionada. Na aplicação da desconsideração da pessoa jurídica. contornando-a de forma a manter íntegro os valores que inspiraram sua criação. Há situações em que a utilização da pessoa jurídica é feita ao arrepio dos fins para o qual o direito albergou o instituto. temos então o desvio de função. que a solução dada fere valores que o sistema jurídico tutela. Contudo. pois o direito posto fornece a solução em seus estritos termos. seu patrimônio a eles pertence. pois indiretamente. sua autonomia em relação as pessoas dos sócios é relativa. ou deixar de aplicá-la. quanto a proteção dos demais sócios. A vontade da pessoa jurídica é. O problema que então se apresenta em relação à lei é o de integrá-la. Quando o reconhecimento da autonomia leva à negação de ideais de justiça ou à frustração de valores por ela albergados. isto é. não representando abuso. descrita como a situação em que não há propriamente lacuna da lei. em grande medida. defraudando-o. Ocorrendo a incompatibilidade entre o comportamento da pessoa jurídica e os valores que informam a ordem jurídica. sem que se destrua sua validade. pela vontade deles. ocorre. o reflexo da vontade de seus sócios. ao aplicá-la. no aspecto axiológico. se visará tanto a proteção da própria pessoa jurídica da ação de seus sócios gerentes.

6º.. Vejamos. e nisto protegendo o própria existência da pessoa jurídica. 34). 233. 242). preservando a validade e existência de todos os demais atos que não se relacionam com o desvio de finalidade. 7. solidária ou subsidiária de terceiros.MECANISMOS LEGAIS DE CORREÇÃO DOS DESVIOS DE FUNÇÃO DA PESSOA JURÍDICA Assim como o direito reconhece a autonomia da pessoa jurídica e a conseqüente limitação da responsabilidade dos sócios. enfim. ao mercado imobiliário. dos prejuízos decorrentes da utilização dervirtuadora de seus fins. 115 a 117. (arts. sem deixar de reconhecer a autonomia. dispõe de forma semelhante. ora a responsabilidade subsidiária. A Lei de Repressão ao Abuso do Poder Econômico (Lei 4. em seu art. pois determina a ineficácia episódica de seu ato constitutivo.137/62). § 2º) A Lei das Sociedades Anônimas (Lei 6404/76). . ainda em uma preliminar. ou relativizar a autonomia da pessoa jurídica. no entanto. Pode o direito limitá-la. como o direito posto trata do assunto. o próprio direito pode cercear os possíveis abusos.. veda determinadas operações com seus administradores e pessoas jurídicas de cujo capital estes participem. ora a responsabilidade pessoal de terceiros: Na CLT.595/64. A teoria ou doutrina da desconsideração assegura a finalidade da pessoa jurídica ao tempo em que protege os demais. Também a Lei. pode regular seu exercício.160 E mais do que o acima exposto. temos a responsabilidade solidária das sociedades integrantes de um conglomerado econômico (art. como. contempla situações de responsabilidade pessoal. etc. restringi-la. responsabiliza civil e criminalmente diretores e gerentes de pessoas jurídicas pelos abusos caracterizados na supradita lei.492/86 no art. art. mencionando alguns mecanismos legais. 17. excepcioná-la e condiciona-la. deixa expresso ora a responsabilidade solidária. restringindo a autonomia de um lado e a limitação de outro. 2º. para evitar prejuízos aos sócios minoritários. devemos. A Lei do Sistema Financeiro (Lei 4. a desconsideração destina-se ao aperfeiçoamento do próprio instituto da personalização. analisar os instrumentos que o direito posto oferece para limitar. 4 . Antes de adentrarmos no assunto específico da desconsideração.

a teoria da aparência. no artigo 13. Não há que confundir hipóteses legais de responsabilidade dos sócios ou administradores com a desconsideração da personalidade jurídica. O art. 135) e a responsabilidade subsidiária (art. embora relacionadas no elemento teleológico. mesmo considerada. cumprindo-se o fim ou valor juridicamente tutelado. O Direito fornece o meio legal que previne o abuso ou a fraude." A Lei de usura (Decreto. também trata da responsabilidade penal: "Serão responsáveis como coautores . 133. 6º da Lei da Sonegação Fiscal (Lei 4. A lei prevê as conseqüências jurídicas. em se tratando de pessoa jurídica. fora dos limites impostos à sociedade pela cláusula do objeto social. 22. 134).. tenham praticado ou concorrido para a prática da sonegação fiscal. a responsabilidade do sócio emerge por força do preceito legal. Não há lacuna jurídica. isto é. Trata-se que a solução equânime. porque. são teorias que tangenciam o instituto da desconsideração. o objetivo de preservação da boa fé. diferentes fundamentos e . Não há nenhuma forma jurídica que deva ser desprezada pelo juiz. ou vice-versa. nem lacuna axiológica. direta ou indiretamente ligados à mesma. parágrafo único. Possuem tais teorias ou doutrinas.. vedações à pessoa jurídica. vedações de não fazer às pessoas contratantes. por exemplo. II.626/33). quando estendidas também as pessoas jurídicas de que elas participem.161 No Código Tributário Nacional o abuso do representante legal induz a responsabilidade pessoal (art.. que se estendam a pessoas físicas a ela relacionadas. os que tiverem qualidade para representá-la" Além das restrições legais ao princípio da autonomia da pessoa jurídica. . axiologicamente adequada corresponde ao ditame do preceito legal ou à convenção das partes. justa. São distintas umas das outras. nulos os atos praticados ultra vires. de modo permanente ou eventual. A teoria do ultra vires. há também as limitações oriundas das obrigações convencionais. a doutrina dos atos próprios. passemos a conceituação do que podemos entender como Desconsideração da Pessoa Jurídica. sem necessidade de desconsideração. em comum. Não é preciso desconsiderar a pessoa jurídica.729/65) trata da responsabilização penal de "todos os que. Posto isto. A Desconsideração independe do tipo de estrutura societária e de suas regras particulares de responsabilização patrimonial. Nas situações acima não se cogita da desconsideração da pessoa jurídica.

por sua especialidade. atribuindo-se ao sócio ou sociedade condutas que. a obtenção de um regime jurídico distinto do preconizado no direito posto. p. sintetizando a doutrina dominante: "A desconsideração da pessoa jurídica significa tornar ineficaz. resultaria indesejável ou pernicioso aos olhos da sociedade. Estados Unidos e Inglaterra. sistematicamente considerado. 21). 75).. a solução decorrente da aplicação do preceito legal expresso. abre-se a oportunidade para a desconsideração. um certo raciocínio que afasta a incidência das regras gerais aplicáveis a matéria. Afasta a regra geral não por inexistir determinação legal. se não fosse a superação. seriam imputadas à sociedade ou ao sócio respectivamente. no dizer de Luciano Amaro (in "Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor". Desta forma quando o interesse ameaçado é valorado pelo ordenamento jurídico como mais desejável ou menos sacrificável do que o interesse colimado através da personificação societária.. Resulta a aplicação de tal técnica da ocorrência de situações concretas em que prestigiar a autonomia e a limitação de responsabilidade implicaria sacrificar interesse legítimo." De forma que podemos dizer que o instituto visa. p. Trata-se de aplicar em casos concretos.162 5 . atos societários são declarados ineficazes." (Luciano Amaro in "Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor". . de construção pretoriana) de solução de desvios de função da pessoa jurídica. Há situações em que a pessoa jurídica deixou de ser sujeito e passou a ser mero objeto. para a pratica de certos atos. previsto em lei. Seria injusta. manobrado à consecução de fins fraudulentos ou ilegítimos.. em tais casos.. para o caso concreto. mas porque a subsunção do concreto ao abstrato. não encontra resposta satisfatória no sistema positivo do direito.A DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA É. uma técnica casuística (e.. ficando esta em segundo plano. portanto. 74) : ". sob pena de alteração da escala de valores. e a importância da pessoa do sócio sobressai em relação à da sociedade. p. "Sintomaticamente tal solução se desenvolveu nos países de Direito não escrito (common law). Através da Desconsideração. Domingos Afonso Kriger Filho (in "Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor". albergado pelo Direito.". Isto porque o problema da personificação. a personificação societária.

Nos setores onde vige a reserva absoluta da lei. mas que não devem ser confundidos com a mesma. como: Desconsideração. a solução jurisprudencial da desconsideração deve buscar apoio. Cabe falar da desconsideração quando não haja uma solução legislada específica para os eventuais desvios de função da pessoa jurídica. dentro de uma visão sistemática e fundamentalmente teleológica do Direito. o direito oferece remédios análogos a desconsideração. Nada correspondendo aos assuntos da validade de constituição.163 Sintomaticamente. no direito Norte Americano. A grande dificuldade está em construir um modelo teórico que possa enfeixar. desconsideração da entidade legal. Penetração. para estes. Intenção de evitar o perecimento do interesse legitimo. legalidade dos atos. certamente. entre eles o Brasil. em relação a um ato concreto e específico. fraude. por muito tempo. A desconsideração é um conceito ligado ao funcionamento da pessoa jurídica. onde cabível. na Argentina. a implantação da solução encontrou resistência nos países da tradição do direito escrito. disregard of legal entity. Superação. estrutura. recebendo diferentes designações. Ignorância para o caso concreto e período determinado. teoría de la penatración. Desta forma. O instituto. Ainda nos demais setores. superação da personalidade jurídica. responsabilizando-o como se a sociedade não existisse. nulidade. na Itália. na Alemanha. algo de axiológico. teoria da penetração. por exemplo. associados a defeitos tais como simulação. . Dificuldade mais séria nos países de direito escrito. as várias situações em que essa técnica possa ou deva ser aplicada. se não na letra expressa da lei. não há lugar para a desconsideração. Manutenção da validade dos demais atos jurídicos praticados. no setor tributário. que ainda podemos conceituar em palavras diversas como: o afastamento momentâneo da personalidade jurídica da sociedade. podemos sintetizar enumerando os elementos que compõem a figura da desconsideração da pessoa jurídica: Ignorância dos efeitos da personificação. tal fato deixa pouca margem para definições apriorísticas de casos. numa formulação abrangente. na Inglaterra. durghgriff der juristischen Person. O cabimento da desconsideração envolve sempre algo de ideológico e. superamento della personalitá giuridica. Levantamento. quando de sua aplicação. para destacar ou alcançar diretamente a pessoa do sócio. ao menos nos princípios que a informam. levantamento do véu corporativo. se desenvolveu ao redor do mundo. também. lifting the corporate veil. de vez que haverá sempre. penetração da pessoa jurídica .

50. de previsão legal. Desconsideração não se confunde nem acarreta a nulidade dos atos que propiciaram a atuação judicial. bem como a possibilidade de sua previsão normativo-positiva. então. responderão. a Desconsideração surge pioneiramente no Código de Defesa do Consumidor (art. desfazer o que de fraudulento houver sido praticado em nome da pessoa jurídica.A DESCONSIDERAÇÃO NO CÓDIGO DE PROTEÇÃO E DEFESA DO CONSUMIDOR Vejamos o que diz a redação do art. ao menos no que tange ao reconhecimento da possibilidade de sua aplicação. "dis-torcer" as conseqüências do ato praticado. quanto do Direito Processual. os bens pessoais do administrador ou representante que dela se houver utilizado de maneira fraudulenta ou abusiva. não afasta do instituto a possibilidade. salvo se norma especial determinar a responsabilidade solidária de todos os membros da administração. as hipóteses que ensejem sua aplicação. ou mesmo a necessidade. à outorga aos Órgãos Judiciários da capacidade de praticá-lo. ou. a dissolução da entidade. tanto do Direito Material. apenas outras medidas são tomadas para corrigir e compensar. 7 . Os atos praticados não são anulados. ou abusivos. caso em que poderá o juiz. decretar a exclusão do sócio responsável. A pessoa jurídica não pode ser desviada dos fins estabelecidos no ato constitutivo. sem prejuízo de outras sanções cabíveis. a requerimento de qualquer dos sócios ou do Ministério Público. até e ainda." Em nosso ordenamento jurídico positivo.DISPOSITIVOS LEGAIS O ser construção pretoriana. "Art. 28 do CDC: . tais sejam as circunstâncias. ou. conjuntamente com os da pessoa jurídica. para servir de instrumento ou cobertura à prática de atos ilícitos.164 uma opção entre um valor ou um interesse específico. a título de melhor ilustrar a natureza do instituto. ao Código. 28). prevendo. Passemos. Parágrafo único. Neste caso. genericamente. 6 . Devemos citar a previsão legal inserta no projeto de Código Civil em tramitação no Senado. de resto diploma amplamente inovador. diante de outros valores ou outros interesses específicos.

infração da lei. dividir em três grupos as hipóteses legais de incidência da desconsideração contidas no art. houver abuso de direito.As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código. 28 do CDC. § 1º . Podemos. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores.As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas são subsidiariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código. violação de estatutos ou contrato social. excesso de poder. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. estado de insolvência. estado de insolvência. pois os §§ 2º a 4º. que a própria lei determina. 28. a despeito da rubrica aposta à Seção V. § 3º . § 4º . (caput. 2ª parte). Esta não se faz necessária par o fim de fazer atuar aquela responsabilidade. 28 . excesso de poder. em detrimento do consumidor. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. fato ou ato ilícito. de alguma forma. para fins de análise. a luz do quanto já acima discutido afirmar categoricamente: a Desconsideração da Pessoa Jurídica é objeto do caput e do § 5º do art. Qualquer hipótese em que a personalidade da pessoa jurídica seja.O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando. sendo desnecessária intervenção judicial no sentido de proclamar desconsideração. (§ 5º) Algumas considerações . de alguma forma. versam sobre a matéria da responsabilidade subsidiária ou solidária. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores." Podemos. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocadas por má administração.165 "SEÇÃO JURÍDICA V- DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE Art. infração da lei. 1ª parte). Falência.Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for. § 5º . Vejamos: Abuso de direito. (caput.As sociedades coligadas só responderão por culpa.(Vetado) § 2º . fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social.

a busca do responsável. como de resto toda a disciplina de defesa do consumidor abraça as duas fontes da responsabilidade a da responsabilidade objetiva. nas palavras de Domingos Afonso Kriger Filho (in "Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor".. Tais fatos. objetivando. tratamento excepcional e. portanto. Na realidade é o elemento integrante de todas as hipóteses que requerem. etc. que a pratica abusiva ou ilícita o seja em virtude da preterição do direito do consumidor.166 Primeira: o pressuposto de todas as hipóteses acima arroladas é o da lesão de interesses do consumidor." Caracteriza-se o abuso de direito. a desconsideração. poderão servir de embasamento a desconsideração a fim de alcançar o patrimônio dos sócios. ou os da personalidade societária. para sua efetividade. 23) ". prejuízo ao consumidor. 12 a 14 do CDC). Não caberia. p. A desconsideração visa em tais casos a que os bens dos sócios infratores sejam também garantia do ressarcimento do prejuízo causado ao consumidor. por dolo ou má-fé. em razão disto. 181): "O dano indenizável. prima facie o tratamento excepcional da desconsideração. Segundo Pedro Batista Martins (apud Rubens Requião in "Abuso de Direito e Fraude através da Personalidade Jurídica"): . por responsável e. não há razão para aplicar. temos a prática de atos que implicam infração da lei. Conforme Arruda Alvim (in "Código do Consumidor Comentado". (fato que emerge claramente dos arts. como os dos demais sócios. dos estatutos ou utilização de direitos além de sua órbita. Segunda: a desconsideração há de supor a incapacidade da pessoa jurídica para reparar o dano. quando por si não acarretem a responsabilidade pessoal do agente. auferir vantagem ilícita ou indevida". Deve haver inafastável nexo de causalidade entre a conduta inadequada e o prejuízo causado ao consumidor. com o uso anormal das prerrogativas conferidas à pessoa pelo ordenamento jurídico. fundada na teoria do risco.. Terceira. Grupo 1 No primeiro grupo de hipóteses. de uso parcimonioso. Quando tratamos de empresa com capacidade financeira para ressarcir o consumidor. só podem ocorrer se e quando tiver havido desrespeito ao sistema jurídico. p.. e a da responsabilidade subjetiva fundada em culpa. por motivos óbvios na aplicação em defesa de interesses outros. Analisemos separadamente cada um dos grupos acima nominados.

de desconsideração da pessoa jurídica. que é a responsabilidade do sócio ou do representante legal da sociedade por ato ilícito próprio. Vejamos: "No que se refere ao excesso de poder. diretores. por lei ou embasado no sistema jurídico. demais casos. as hipóteses do parágrafo anterior. violação dos estatutos ou contrato social. Consideram a teoria inaplicável in casu.. Lamartine Corrêa de. ou por força dos estatutos ou contrato social. Qual. infração da lei. Aspectos Processuais". ato ilícito. Fábio Ulhoa in "Comentários ao Código de Proteção do Consumidor". Frise-se que determinados autores não consideram.. o não cumprimento das obrigações impostas às pessoas pela lei. J.. a excepcionalidade. Pag. embora não se referindo especificamente ao CDC: "Não podem ser entendidos como verdadeiros casos de desconsideração todos aqueles casos de mera imputação de ato. 610) "Em determinadas circunstâncias.. In " A Dupla crise da Pessoa Jurídica"." (Coelho. ou gerentes podem responder por dívidas da sociedade. 10. art. 115. p. age contra a lei ou. fato ou ato ilícito ou violação do contrato social. . Já há previsão legal: no caso da sociedade de responsabilidade limitada (art. p. 3. 117 e 158. no caso da sociedade anônima (arts.167 "sempre que um titular de direito escolhe o que é mais danoso para outrem. ou pelo contrato social. mas o faça de molde a prejudicar terceiro. pois aquele que excede o que lhe é permitido por lei. Infração de lei. Genacéia da Silva in "A desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor. CC. Apenas há um ponto comum . fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social dizem respeito a um tema societário diverso. infração da lei. sócios. então a . Esta situação decorrente da lei e as conseqüências." (Oliveira. 168 e 169) "Excesso de poder. representam. 16). a lesá-lo (consumidor)". comete um ato abusivo" Arruda Alvim (in "Código do Consumidor Comentado". No excesso de poder a pessoa pratica ato ou contrai negócio fora do limite da outorga ou autoridade conferida. 182): "Ocorre abuso de direito quando o fornecedor. responde por ato próprio. sempre. não há desconsideração.. e art. no caso de desconsideração da pessoa jurídica são idênticas? Quer nos parecer que não. fato. não sendo mais útil para si ou adequado ao espírito da instituição. Decreto. 159.. 142) Sobre o assunto. dolosamente contra o estatuto ou contrato. puder praticar determinado ato." (Alberton. p.708. Lei 6404). embora relacionado com a pessoa jurídica.

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diferença ?.... Quando a lei brasileira ...impõe ao sócio, gerente ou administrador a responsabilidade por dívidas da sociedade, faz porque uma dessas pessoas agiu de maneira contrária à lei ou contrato, mas como pessoa integrante da pessoa jurídica. Não foi a pessoa jurídica que teve a sua finalidade desvirtuada, não foi a pessoa jurídica como ser que foi manipulada mas, sim, o diretor, o gerente ou o sócio que, na sua atividade ligada à empresa, andou mal. Quando se fala, por outro lado, em desconsideração da pessoa jurídica, é porque a própria entidade é que foi desviada da rota traçada pela lei e pelo contrato.... Assim, acreditamos que devemo separar bem estas duas hipóteses por não serem idênticas" (Casillo, João in "Desconsideração da Pessoa Jurídica") Acatando o ponto de vista dos autores citados, restaria apenas a hipótese do abuso de poder, como ensejador da aplicação da doutrina da Desconsideração, ficando as demais hipóteses ainda no campo da previsão legal, externa à doutrina. O abuso do poder, por sua própria natureza, conforme acima referido, se amolda a hipótese de utilização da Desconsideração, vez que constitui, não violação clara da lei, caracterizando um "fato típico", previsto legalmente, mas antes, um uso abusivo da lei. Não havendo tal "tipicidade", impossível prévia previsão legal, imperativa então a atuação criadora judicial, através do instituto sob análise. Parece-nos, entretanto, que há um certo excesso de rigor formal em tal posição. Nem sempre ao ilícito legal ou contratual corresponderá uma expressa cominacão de responsabilidade pessoal, civil ou penal. Ainda que ressalvadas as previsões genéricas da lei, como a do art. 159 do CC, citada por Genacéia, parece-me que o instituto da Desconsideração melhor cobriria esses casos de lacuna da lei no que tange a previsão expressa da responsabilidade, lacuna que poderia ao final acobertar o infrator. A ausência de tal expressa previsão legal, poderia ser agitada com o propósito de elidir a responsabilidade, em sendo o caso, o art. 28, sob comento, forneceria o respaldo legal para a atuação jurisdicional no sentido de alcançá-la. Separar o ato do responsável pela pessoa jurídica do ato da pessoa jurídica, operação mental a que podemos ser induzidos pelo raciocínio de Casillo, pode resultar ser tarefa árdua, considerando as sutilezas que quase sempre cercam a situação concreta. Mais uma vez, o afastamento da figura da Desconsideração, poderia ser utilizada no sentido do acobertamento do infrator. De forma que, a despeito do rigor formal que caracteriza o exposto pelos autores acima citados, considero mais prudente, estender o manto protetor do instituto que ora analisamos também aos fatos aos quais o autores negam sua incidência, como faz o diploma legal protetivo do consumidor. Grupo 2 No segundo grupo o texto legal introduz um elemento não especificamente

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ligado ao interesse do consumidor: a má administração. É questionável esta inserção. Não há que se confundir a má administração com a prática abusiva citada na parte inicial do caput. A má administração poderia, isto sim, ensejar o uso do instituto para responsabilizar a gerência incompetente frente a própria pessoa jurídica ou frente aos demais sócios. É de se questionar, no entanto, a relevância deste fato frente ao direito do consumidor. É de se questionar se alguém administraria mal uma empresa com o fito exclusivo de fraudar os direitos do consumidor. E quanto à empresa bem administrada, que desativada, tenha lesionado consumidores. Ficariam imunes à regra? Concluindo, parece mal posta a hipótese legal no que se refere a má administração, quer pela falta de nexo entre qualidade da administração e eventuais prejuízos ao consumidor, quer pela falta de isonomia entre o tratamento dado ao consumidor da empresa encerrada por má administração e o dado ao cliente de uma empresa bem administrada que encerrou suas atividades. Certo é, em todos os casos, que o consumidor deve ser protegido na hipótese em a pessoa jurídica tenha cessado a atividade ou esteja extinta, e isto independentemente dos motivos que ensejaram tal encerramento de atividade. Grupo 3 Finalmente no terceiro grupo, a hipótese contemplada no §5º, parece inconciliável com o caput. Expressões demasiadamente genéricas ("sempre", "de qualquer forma"), parecem inutilizar as hipóteses do caput. Tão genérico, abrangente e ilimitado é o parágrafo, que aplicado literalmente, dispensaria o caput, tornaria inócua a própria construção teórica do instituto da desconsideração, implicando derrogar a limitação da responsabilidade de toda e qualquer empresa no que diz respeito às relações de consumo. Frente a tal, pelo menos aparente, incongruência, posicionam-se os doutrinadores: Zelmo Denari (in "Código de Defesa do Consumidor, Comentários pelos autores do Anteprojeto", p. 132), com a autoridade de ser um dos autores do anteprojeto da Lei 8.078/90, postula mesmo o "aberratio ictus da caneta presidencial". O parágrafo a ser vetado teria sido o 5º, e não o 1º, como apareceu no diário oficial, que segundo Denari é essencial para a aplicação do artigo. Para que se coteje com o texto do §5 e, à luz da razão do veto, aprecie-se assim a procedência da tese de Zelmo, transcrevemos abaixo o parágrafo vetado e as razões do veto: "§ 1º. A pedido da parte interessada, o juiz determinará que a efetivação da responsabilidade da pessoa jurídica recaia sobre o acionista controlador, o sócio majoritário, os sócios-gerentes, os administradores societários e, no caso de grupo societário, as sociedades que a integram."

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Razão do veto: "O caput do art. 28 já contém todos os elementos necessários à aplicação da desconsideração da personalidade jurídica, que constitui, conforme doutrina amplamente dominante no direito pátrio e alienígena, técnica excepcional de repressão a práticas abusivas." Como claramente se vê, fortíssima pode parecer a evidência do equivocado fato pelo qual, propugna Zelmo Denari, se explicaria a aparente ininteligência do parágrafo que ora analisamos frente ao sistema em que se insere. Entretanto, é também óbvio que, para albergarmos tal tese, teríamos antes que admitir a ininteligência do legislador a exigir atuação da sancionadora caneta presidencial. Esta última parece-nos bem menos provável, dada a qualidade que pautou a produção legislativa do diploma que ora analisamos. Vejamos, entretanto, outros posicionamentos: Fábio Ulhoa Coelho (in "Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor", p. 143 e 144): censura o preceito no § 5º, concedendo apenas sua aplicação em matéria de sanções não pecuniárias (proibições de fabricação, suspensão temporária de atividade, etc...), apesar do contrário defluir do texto da lei: "ressarcimento de prejuízo do consumidor". Por fim salienta que no embate entre o caput e o § 5º, se um tiver que ceder será o parágrafo, não o caput. A interpretação meramente literal, no entanto não pode prevalecer e isto por três razões: Em primeiro lugar, porque contraria os fundamentos teóricos da desconsideração. ... Em segundo lugar, porque uma tal exegese tornaria letra morta o caput do art. 28. ... Em terceiro lugar, porque esta interpretação equivaleria à revogação do art. 20 do CC ("As pessoas jurídicas tem existência distinta da dos seus membros") em matéria de defesa do consumidor. E se esta fosse a intenção do legislador, a norma jurídica que a operacionalizasse poderia ser direta, sem apelo à teoria da desconsideração. Rachel Sztajn (in "Desconsideração da Personalidade Jurídica", p. 72): O parágrafo 5º deveria encimar o artigo: "Se o art. 28 tivesse por caput o § 5º, além dos §§ 2º e 3º, o consumidor estaria tutelado (apenas) em face da separação patrimonial utilizada de forma iníqua ou inadequada." A autora condiciona a aplicação do citado parágrafo aos pressupostos da teoria da desconsideração. Américo Führer (in "Resumo de Direito Comercial", p. 74): "A teoria pode ser aplicada diretamente pela lei,...,independentemente de qualquer abuso ou má fé", parece que nestas palavras o autor admite o utilização literal do § 5º. Genacéia da Silva (in "A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor): "No que ser refere ao § 5º do art. 28, é necessário interpretá-lo com cautela. A

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mera existência de prejuízo patrimonial do consumidor não é suficiente para a desconsideração. O texto deixou o significado em aberto na medida em que assevera que a pessoa jurídica poderá também ser desconsiderada quando sua personalidade ‘De alguma forma’ for obstáculo ao ressarcimento, ..., leia-se, quando a personalidade jurídica for óbice ao ressarcimento justo do consumidor." (grifo nosso) A interpretação mais consentânea parece ser a de que o § 5º, constitui uma abertura ao rol de hipóteses do caput, sem prejuízo dos pressupostos teóricos da doutrina que o dispositivo visou consagrar. A aplicação do § 5º deve restringir-se às situações em que o fornecedor do produto ou serviço ao consumidor constitui a pessoa jurídica, ou a utiliza, especificamente para livrar-se da responsabilização de prejuízos causados ao consumidor. Aí justamente reside a carga axiológica do instituto, na análise judiciária da forma como a pessoa jurídica foi constituída ou utilizada relativamente à relação de consumo.

8 - A RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA E SUBSIDIÁRIA PREVISTA NO ARTIGO 28 DO CDC No presente trabalho pretendemos, no âmbito do Código de Defesa do consumidor, tratar apenas da Desconsideração da Pessoa Jurídica. Não obstante, por se encontrarem enfeixados sob tal rubrica no texto normativo, trataremos também do responsabilidade disciplinada pelos parágrafos 2º a 4º do art. 28 do CDC, que a nosso ver, como já exposto, não compõem o instituto da Desconsideração. Assim tratemos da: Responsabilidade de Grupos societários e sociedade controladas O § 2º, estatui responsabilidade subsidiária das sociedades integrantes de grupos societários e sociedades controladas. Aqui, como já dito, não se cuida de desconsideração, mas de hipótese legal de responsabilização de terceiro. A própria redação indica uma responsabilidade objetiva, não sujeita a análise de elementos outros, presentes no caso concreto. Basta o liame a unir as entidades societárias, para dele decorrer a responsabilização. Tal dispositivo previne que as obrigações sob estudo sejam concentradas na sociedade que tenha menor respaldo patrimonial. Para Genacéia da Silva Alberton (in "A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor), em seu trabalho já várias vezes citado, o Código foi tímido em estabelecer apenas responsabilidade subsidiária, concedendo o benefício de ordem e, consequentemente, impedindo que o consumidor ajuíze a ação desde logo contra as demais empresas. Para outros doutrinadores, no entanto, basta a prova da impossibilidade de ressarcimento pela empresa principal obrigada, para, já inicialmente, demandar a sociedade com responsabilidade subsidiária.

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No que se refere a sociedades controladas, o preceito parece conter alguma impropriedade. Obviamente a responsabilização subentende-se seja por obrigações da controladora (o texto não é explícito) que incidiria em caráter subsidiário sob o patrimônio da controlada. Temos a considerar que seria lógico que as ações ou quotas representativas do capital da controladora respondessem pelas obrigações da mesma, não o sendo, entretanto, que o patrimônio da controlada, que envolve o de terceiros (que podem deter até cerca de 83% do capital social, totalidade das ações preferenciais + 49% das ordinárias) o fossem, já que nada tem a ver com a conduta da controladora. Só podemos entender o dispositivo legal em sua literalidade, se o considerarmos conseqüência de prevalência especial do interesse de ordem pública da relação de consumo sobre os interesses de ordem privada; ou por outro, que sua aplicação dependa do pressuposto da concorrência da controlada na lesão ao consumidor., ou por outra de sua utilização pela controladora nesse intento. Responsabilidade das Sociedades consorciadas O § 3º, constitui também, em favor do consumidor, uma exceção a regra geral, já que a lei das Sociedades Anônimas, que rege esta esfera da ordem jurídica, não preconiza a solidariedade das sociedades consorciadas (art. 278, § 1º, Lei 6.404/76). Sabemos que a solidariedade não se presume, mas decorre da lei ou do contrato, aqui temos a hipótese legal, a proteger o consumidor. Convém salientar, por ser lógica, a ressalva que faz Fabio Ulhoa: "... a solidariedade existe apenas no tocante as obrigações relativas ao objeto do consórcio. Quanto às demais não há qualquer vínculo dessa natureza..." (Coelho, Fábio Ulhoa, in "Comentários ao Código De Proteção do Consumidor", p. 145) Responsabilidade das Sociedades coligadas O § 4º, estabelece a responsabilidade das coligadas, apenas na hipótese de culpa. Não poderia ser diferente, já que a mera participação da empresa no capital de outra (10% ou mais), sem controlá-la, não induziria, em si mesma, tal responsabilidade. A sociedade coligada é simplesmente sócia de outra e, como sócia, não tem responsabilidade pelos atos dessa outra a não ser que tenha participado do ato, caso em que será solidariamente responsável. Para alguns, supérfluo tal dispositivo, já que a responsabilidade seria deduzida de qualquer forma, sendo suficiente o art. 159 do CC. - CONCLUSÃO O CDC é diploma largamente inovador tanto no que se refere ao Direito Material, quanto no que se refere ao Direito Processual. Insere-se no contexto da evolução do Direito Moderno ao voltar-se à proteção e tutela de direitos

1991. Genacéia da Silva. o art. 2. A despeito de alguma impropriedade da redação. do hipossuficiente. São Paulo. Julho. P 69 A 84. apesar de conformarem-se ao figurino do estrito modelo legal. São Paulo. Ed. Resumo de Direito Comercial. Ajuris. Ajuris. Coordenação de Juarez de Oliveira. 28 desse Estatuto representa o estendimento da longa manus do Estado. seus valores e seus princípios asseguradores da paz. Zelmo. 1995 AMARO. Comentários pelos Autores do Anteprojeto. ED. FÜHRER. no ordenamento jurídico pátrio. 28 do CDC representa um grande avanço não só no campo específico do Direito Tutelar do Consumidor como também de todo o Direito Posto Nacional. Vol 19. difusos. 1987. Nesse contexto inovador. Domingos Afonso. Américo. N 205. rev. Vol 42. Novembro . da Doutrina da Desconsideração da Pessoa Jurídica. etc. et al.. P 17 A 27. Marçal.. Revista Jurídica. Fábio Ulhoa. ALVIM. DENARI. Malheiros Editores. e ampl. tem relevância a introdução pioneira. Código de Defesa do Consumidor. . 1992. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. da boa fé. individuais. coletivos. N 58. Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor. N 54. São Paulo. Arruda. Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor. A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código do Consumidor. P 146 A 180. Luciano. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBERTON. Março. 1991. Ed. Desconsideração da Personalidade Societária no Direito Brasileiro. Desconsideração da Pessoa Jurídica. sob o aspecto dogmático ou doutrinário. 1993.. Ed. CASILLO. Forense Universitária. KRIGER FILHO. O art.. COELHO. do convívio social harmonioso e da justiça. Aspectos Processuais.1994. Código Do Consumidor Comentado.173 personalísticos. Porto Alegre. conforme discutido neste trabalho. JUSTEN FILHO. Rio de Janeiro. para alcançar aqueles atos que. representam violação do ordenamento jurídico naquilo que possui de mais caro. João. RT 528/24. 1996. Revista dos Tribunais. Saraiva. Vol 20. Revista dos Tribunais.

174 OLIVEIRA. Rubens. . P 67 A 75. Editora Saraiva. SZTAJN. N 2. Lamartine Corrêa. RT. Abuso de Direito e Fraude através da Personalidade Jurídica. Junho. Revista de Direito do Consumidor. J. 1992. Desconsideração da Personalidade Jurídica. REQUIÃO. 1979. 528:16. Rachel. A Dupla Crise da Pessoa Jurídica. São Paulo.

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Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção e Defesa do Consumidor

Autor: João Bosco Pastor Gonçalves

Sumário: 1 – Introdução; 2 – Publicidade: Conceito e elementos essenciais; 3 – Princípios Gerais da Publicidade no CDC; 4 – Princípio da Identificação da Publicidade; 5 – Princípio da Vinculação Contratual da Publicidade; 6 – Princípio da Veracidade da Publicidade; 7 – Princípio da Não Abusividade da Publicidade; 8 – Princípio da Inversão do Ônus da Prova; 9 – Princípio da Transparência da Fundamentação; 10 – Princípio da Correção do Desvio Publicitário; 11 – Conclusão

1. Introdução Com o objetivo de desenvolverem as suas atividades empresariais, o comércio e a industria necessitam divulgar os produtos e serviços por eles produzidos e prestados, a fim de que desperte interesse nos consumidores. Em geral, produtos de primeira necessidade, (feijão, arroz, carne, leite, etc.), dispensam maior divulgação, entretanto, produtos mais caros (de luxo), como automóveis, equipamentos de áudio e vídeo sofisticados, telefones celulares ou uma casa de veraneio, não dispensam uma boa estratégia de marketing, e aí inclui-se a publicidade. As pessoas compram coisas por dois motivos essenciais: necessidades e impulsos. As necessidades nem sempre são reais, elas são criadas pela publicidade, sem a qual não haveria como colocar no mercado cada vez mais produtos que, a rigor, ninguém precisa. 1 As mensagens publicitárias induzem as pessoas a comprarem por impulso. Quem resiste a um anuncio para comprar um presente em um shopping no dia das mães ou no dia dos namorados?. Nosso ordenamento jurídico não obriga a ninguém a anunciar os seus produtos ou serviços, porém, se o fizer, a sua publicidade está sujeita a uma série de deveres impostos pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor, Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, (CDC). O objetivo do presente trabalho é a análise do conceito de publicidade e dos princípios que a regem, á luz do referido diploma legal.

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2. Publicidade: Conceito e elementos essenciais Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin2, citando o jurista português Carlos Ferreira Almeida, diz que publicidade ‘é toda informação dirigida ao público com o objectivo de promover, directa ou indirectamente, uma actividade económica’. Prossegue afirmando que tal como acontece com o conceito de marketing, não é tarefa fácil definir o que seja publicidade em virtude do caráter complexo de suas múltiplas funções e das relações mútuas entre elas, e fornece a noção do Comitê de Definições da American Association of Advertising Agencies ( AAAA): ‘ publicidade é qualquer forma paga de apresentação impessoal e promoção tanto de idéias, como de bens e serviços, por um patrocinador indentificado’. Trata-se sem dúvida, de uma forma de comunicação social, em toda publicidade há uma mensagem, um emissor que tem como objetivo alcançar um conjunto de receptores, transmitir-lhes uma idéia, incentiva-los a um determinado comportamento – comprar um bem ou, utilizar-se de certo serviço. Porém, nem toda forma de comunicação integra o conceito de publicidade: fora desse campo ficam a informação cientifica, política, didática, lúdica ou humanitária, porque alheia á atividade econômica, mesmo quando seja produzida com a intenção de gerar certa convicção nos seus destinatários 3. Dois elementos são essenciais em qualquer publicidade: a difusão e a informação. Um é o elemento material da publicidade, seu meio de expressão. O outro é o seu elemento finalistico4. Sem difusão não há publicidade, vez que a mesma precisa ser levada ao conhecimento de terceiros, da mesma forma sem um conteúdo mínimo de informação inexiste a publicidade. Convém ainda esclarecer, que embora sejam usados indistintamente no dia-adia, os termos publicidade e propaganda não se confundem. Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin 5 afirma que a publicidade tem objetivo comercial, enquanto que a propaganda visa a um fim ideológico, religioso, político, econômico ou social, e que além de ser paga, na publicidade sempre identifica-se o seu patrocinador, o que nem sempre ocorre com a propaganda. Na propaganda difunde-se uma idéia, ao passo que na publicidade divulga-se uma mercadoria ou serviço. Estabelecidos o conceito de publicidade e seus elementos essenciais, bem como a necessária distinção entre os termos propaganda e publicidade, passamos a análise dos princípios que norteiam a elaboração da mensagem publicitária, á luz do Código Brasileiro de Proteção e Defesa do Consumidor (CDC) e da Constituição

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Federal.

3. Princípios Gerais da Publicidade no CDC Princípio, conforme o excelente ministério do Professor Celso Antônio Bandeira de Mello6 " [...] é por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico". [...] Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma qualquer. A desatenção ao principio implica ofensa não apenas a um especifico mandamento obrigatório, mas a todo sistema de comandos". Alguns princípios foram adotados pelo CDC para a elaboração da publicidade, com vistas á proteção do consumidor, parte mais fraca nas relações consumeristas. Em função da tutela fornecida aos consumidores eles encontram-se assim distribuídos no Código de Proteção e Defesa do Consumidor: princípio da identificação da publicidade ( art. 36); princípio da vinculação contratual da publicidade ( arts. 30 e 35); princípio da veracidade ( art. 37 § 1º ); princípio da nãoabusividade da publicidade ( art. 37 § 2º); princípio da inversão do ônus da prova ( art. 38); princípio da transparência da fundamentação publicitária ( art. 36, parágrafo único); princípio da correção do desvio publicitário ( art. 56, XII). Observa-se7 que o Código optou por definir publicidade enganosa e publicidade abusiva, sem conceituar o que seja publicidade, preocupando-se com a definição do desvio ( abusividade e enganosidade), mas não com a do padrão. Entretanto, o legislador preocupou-se com a tutela penal da publicidade, considerando crimes contra as relações de consumo a prática de publicidade enganosa ou abusiva, bem como a promoção de publicidade que induza o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa a sua saúde ou segurança, apenando ainda o fornecedor que não mantenha em seu poder os dados fáticos, técnicos e científicos que embasaram a sua mensagem publicitária, cominando pena de detenção e multa (arts. 67, 68 e 69).

4. Princípio da Identificação da Publicidade O artigo 36 do CDC está assim redigido: Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil

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e imediatamente, a identifique como tal. Parágrafo Único. O fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, em seu poder, para informação dos legítimos interessados, os dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação á mensagem. Analisando a "cabeça" do artigo, vemos que o fornecedor ao veicular a publicidade de seus produtos e serviços, deve fazer de modo claro, inteligível, o consumidor deve compreender que está diante de um anúncio publicitário. Previne-se8 assim contra as chamadas "publicidades ocultas" e "subliminares", através da técnica do Merchandising, de freqüente utilização em espetáculos, novelas, teatros, ou seja, a aparição dos produtos no vídeo, no áudio ou nos artigos impressos, em sua situação normal de consumo, sem declaração ostensiva da marca. Um bom exemplo de comunicação subliminar é o uso constante de determinada marca de carros em uma novela, ou ainda, as aparições de produto, serviço ou marca, de forma aparentemente casual, em programas de televisão, filme cinematográfico, jogos de futebol televisionados, etc. Pasqualotto9 observa que quando a publicidade não é de fácil e imediata identificação, "não é só o consumidor que pode estar sendo enganado. Também pode haver fraude á lei, pois a falta de identificação possibilita a transgressão de regras como a advertência necessária de restrição ao uso de alguns produtos (cigarros), o horário ou o local de exposição do anúncio (bebidas alcoólicas) ou a proporção de publicidade em relação á programação (rádio e televisão) ou o noticiário e reportagens (jornais e revistas)".

5. Princípio da Vinculação Contratual da Publicidade Tal princípio decorre da inteligência dos arts. 30 e 35 do CDC : Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado. Portanto, no plano contratual, o Código consagra o princípio da vinculação da publicidade. O consumidor pode exigir do fornecedor o cumprimento do conteúdo da comunicação publicitária. A publicidade é um verdadeiro negócio jurídico unilateral, na medida em que obriga o fornecedor a cumprir com a promessa, desde a sua difusão. Confira-se a jurisprudência a seguir:

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COMPRA E VENDA – Erro – Entrega recusada sob alegação de erro na especificação do preço, no orçamento – Não pode a teoria do erro escusável favorecer o fornecedor – Negócio perfeito e acabado – análise das disposições do Código Civil e do Código de Defesa do Consumidor – Exame da doutrina – Ação para entrega da coisa – Procedência – Decisão mantida. ( AC. Um. Da 5ª Cam. Esp. Do 1º TAC, Ap. 562.425-3, Rel. Juiz Sílvio Venosa, j.6-7-1994) ( O Código de Defesa do Consumidor e sua Interpretação Jurisprudencial, Luiz Antonio Rizzatto Nunes, Saraiva, 1997, p. 90).

6. Princípio da Veracidade da Publicidade Aqui, (art. 37 § 1º), o legislador preocupou-se em coibir a publicidade enganosa, que pode ser apresentada de duas formas: por comissão ou por omissão. Na publicidade enganosa por comissão, o fornecedor afirma alguma coisa capaz de induzir o consumidor a erro, dizendo alguma coisa que não é verdadeira. Na forma omissiva o patrocinador deixa de afirmar o que é relevante, também induzindo o consumidor a erro. Possível, também, que quanto á sua extensão a publicidade seja parcialmente enganosa, ou seja, contendo algumas informações falsas e outras verdadeiras, o que não a descaracteriza como publicidade enganosa. Quanto ao seu aspecto subjetivo10 não se exige por parte do anunciante a intenção (dolo ou culpa), sendo irrelevante a sua boa ou má-fé. Portanto, sempre que o anúncio for capaz de induzir o consumidor a erro, independentemente da vontade do fornecedor, está caracterizada a enganosidade da publicidade, o que justifica-se porque o objetivo é a proteção do consumidor, e não a repressão do comportamento enganoso do fornecedor.

7. Princípio da Não Abusividade da Publicidade Está consagrado no art. 37, § 2º, do CDC, que proíbe de qualquer forma, dentre outras, a publicidade discriminatória, que incite á violência, que desperte o medo ou a superstição, que se aproveite da deficiência de julgamento e inexperiência da criança, atinja valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa á sua saúde ou segurança. A locução "dentre outras", deixa transparecer que o elenco da publicidade abusiva é apenas exemplificativo, podendo existir outras formas de abusividade, cabendo aos aplicadores da lei – juízes e administradores adaptarem o texto da lei ás práticas do mercado.

o consumidor. condicionando o seu comportamento para a respectiva aquisição ou fruição.180 A publicidade é discriminatória quando distingue entre raça. bastando que o anuncio faça uso desses recursos para que seja considerado ilegal. Quanto á publicidade exploradora do medo ou da superstição11. pois a publicidade constitui-se em verdadeira oferta (princípio da vinculação . profissão. realmente os consumidores. 8. Não se admite a publicidade que mostre a violência. daí por que se desloca para o patrocinador o ônus da prova da veracidade e da correção da informação ou da comunicação publicitária (art. responde em regra. bem como do reconhecimento opis legi. considerando que qualquer publicidade dirigida a infantes não deixa de ter um grande potencial abusivo. ilegitimamente. como direito fundamental dos seres humanos foi também motivo de proteção pelo legislador. nacionalidade. Quanto ás crianças. não se exige que a mensagem aterrorize. razão pela qual o legislador dedicou-lhes especial proteção. Princípio da Transparência da Fundamentação Trata-se de verdadeiro dever. por serem muito jovens não possuem o necessário entendimento para a compreensão do que é ou não verdadeiro nas mensagens publicitárias. 38). da vulnerabilidade do consumidor. nas palavras de Carlos Alberto Bittar12: trata-se. 9. porém. o anunciante ou a quem o anúncio aproveita. ou. a respeito de bens ou serviços oferecidos. que não admitiu nenhuma veiculação publicitária que fosse contra a proteção e conservação do mesmo. ou até contra bens públicos ou privados. Trata-se de princípio básico para a facilitação da defesa do consumidor em juízo. O meio ambiente. cabendo ao fornecedor demonstrar que sua publicidade foi veiculada dentro dos princípios que estamos expondo. pois. decorre dos princípios da veracidade e da não abusividade da publicidade. (art. convicções políticas ou religiosas. seja entre homens. Princípio da Inversão do Ônus da Prova Tal princípio.38). não se excluindo. etc. seja entre homens e animais. sexo. condição social. anexo ao princípio da boa-fé como norma de conduta. a responsabilidade da agência e do próprio veículo de comunicação. de ação tendente a instruir. Quanto à responsabilidade pelo desvio publicitário.

de 11 de setembro de 1990.181 contratual da publicidade). claras. deve conter informações suficientes para esclarecer ao consumidor os elementos básicos que irão fundamentar a eventual formação segura e satisfatória de um contrato que atenda a seus interesses econômicos. de caráter explicativo. desfazendo os erros do anúncio original. pois é este que tem o dever legal de informar de modo preciso.( melhor seria contrapublicidade). não se limitou apenas ao regramento das . prazos de validade e origem. qualidades. garantia. do CDC: Art. 31. Lei nº 8.078. claro. O artigo estabelece os requisitos da oferta. 31. precisas. Trata-se de veiculação de outra publicidade para sanar os malefícios causados pela publicidade originária. e repressão administrativa e penal. restaurando dessa forma. 10. Conclusão O legislador ao elaborar o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. 56. ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características. Princípio da Correção do Desvio Publicitário Ocorrido o desvio publicitário. o que se faz através da contrapropaganda. de maneira que o consumidor tenha uma idéia precisa do que lhe está sendo oferecido. A publicidade. A ausência de informação essencial será sempre interpretada contra o fornecedor. tendo como objetivo apagar a informação inadequada da percepção do consumidor. o fornecedor. necessário que sejam desfeitos o seu impacto sobre os consumidores. preço. no que se refere à duração. quantidade. ostensivo e em língua portuguesa13. por esta óptica. sic. acolhida pelo Código em seu art. bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores. A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas. Naquela. XII. e vem expresso no art. às suas expensas. 11. espaço. É divulgada no mesmo veiculo de comunicação utilizado e com as mesmas características empregadas. além da sua reparação civil. composição. informa corretamente ao consumidor. a realidade dos fatos14. local e horário. entre outros dados. Nada mais é que uma publicidade obrigatória e adequada que se segue a uma publicidade enganosa ou abusiva.

pp. p. 6ª ed. referendou o principio da vinculação contratual que permite ao consumidor exigir do fornecedor o cumprimento do conteúdo da mensagem publicitária.). Curso de Direito Administrativo.. 2000. 2. Cit. 7. Idem. Reconheceu que a proteção do consumidor deve iniciar-se mesmo em momento anterior ao da celebração do contrato de consumo – na fase da oferta. p. 6ª ed. exigiu a transparência da fundamentação da publicidade e determinou a correção do desvio publicitário através da imposição da contrapropaganda. 4. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Instituiu para tal (proteção do consumidor). Sônia Maria Vieira de Mello. Ibidem. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Notas 1.. Márcio Mello Casado. Princípios Gerais da Publicidade na Constituição Federal e no Código de Defesa do Consumidor. 6.182 relações contratuais de consumo. 82. 274. 3. Revista Jurídica. p. São Paulo: Malheiros Editores. coibindo todas as modalidades de anúncios enganosos ou abusivos. 264. 747. inverteu o ônus da prova em favor do consumidor facilitando o seu acesso à Justiça. 266. que surge através das técnicas de estimulação do consumo – a publicidade. (op. Rio de Janeiro: Renovar. pp. novembro de 1999. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover. 1998. 265.. p. uma serie de normas e princípios para o controle da publicidade. acolhendo o princípio da identificação da publicidade. p. nº 265. . 265. p. 8. Proibiu a propaganda clandestina e a subliminar. 12ª ed.. Celso Antônio Bandeira de Mello. 748. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor.. 5. 66. para resguardar a boa-fé dos consumidores.67. 2000. O Direito do Consumidor na Era da Globalização: a descoberta da cidadania.[ et al ].[ et al ].

nº 265. Os Efeitos Obrigacionais da Publicidade. Forense Universitária. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Princípios Gerais da Publicidade na Constituição Federal e no Código de Defesa do Consumidor. Os Efeitos Obrigacionais da Publicidade. Márcio Mello. 2000.. José Luiz Toro da Silva. 1ª ed. 1998. MELLO. 13. São Paulo : Revista dos Tribunais. 82 e 83. op. 298. 12. Adalberto Pasqualotto. 11. 14. GRINOVER. Porto Alegre: Síntese. 1997. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Celso Antonio Bandeira. Adalberto. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor.... 4ª ed. 303. Noções de Direito do Consumidor.. CASADO. Cit. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2000. MELLO. 286. 1995.. Direitos do Consumidor. novembro de 1999. 1999. Curso de Direito Administrativo. Sônia Maria Vieira de. 4ª ed. Carlos Alberto Bittar. Rio de Janeiro: Forense Universitária.183 9. 10. 51. Revista Jurídica. 46. op.. Referências bibliográficas BITTAR. Rio de Janeiro: Renovar. pp. 12ª ed. Carlos Alberto. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 2000. Cit. O Direito do Consumidor na Era da Globalização: a descoberta da cidadania. Direitos do Consumidor.. p. Noções de Direito do Consumidor.. 6ª ed. . Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover. SILVA. Ada Pellegrini. José Luiz Toro da.. São Paulo: Malheiros Editores.. 1999. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. 1997. [ et al]. PASQUALOTTO. p. p. p. p. Porto Alegre: Síntese. 6ª ed.[ et al].

Da Aplicação das Portarias da SDE aos Contratos Utilizados no Âmbito do Sistema Financeiro Nacional. como o Direito não é subsistema normativo ético isolado dos demais. há contratos e contratos e estamos longe da realidade desta unidade de tipo contratual que supõe o Direito. 4.3. que dita sua lei não mais a um indivíduo mas a uma coletividade indeterminada. 2. recebe essas influências que o tornam apto a regular as novas relações que emergem do desenvolvimento da sociedade. sem dúvidas.Contratos de Adesão. agindo como vontade individual. 2.Notas. A cobrança extrajudicial de honorários advocatícios como cláusula abusiva. admitindo-se apenas a adesão daqueles que desejarem aceitar a lei do contrato".1.184 As cláusulas abusivas à luz da doutrina e da jurisprudência Autores: Andrade Carlos Cavalcante Karla Karênina "Sem dúvidas. 5.O Controle das Cláusulas abusivas. Anexo. mormente as relações de consumo.Sentença proferida em sede de ação de rescisão contratual.6. 2.2. 2.A Competência da Secretaria de Direito Econômico. 7. para os quais em todo caso. 1. Cláusulas abusivas. 6. Há supostos contratos que tem do contrato apenas o nome. Paris. vê-se que economia é uma das maiores influenciadoras no . 2.4.2.2. poderiam ser chamados. reflexo do processo de globalização no qual se insere toda a sociedade contemporânea. e cuja construção jurídica esta por fazer. 1901 Sumário:1.A recepção do princípio da predominância da ordem pública pelo CDC como meio de afastamento das cláusulas abusivas nos contratos de adesão. trecho de Raymond Saleilles em De la déclaration de volonté. Conclusão. 3.5.Referências Bibliograficas.Efeitos nos contratos. nos quais a predominância exclusiva de uma única vontade. nesse quadro. Será necessário.Introdução.Introdução As relações contratuais em curso na atualidade. são fortemente influenciadas pela economia de mercado. a importantes modificações. de contratos de adesão. cedo ou tarde. que o Direito se incline diante das nuanças e divergências que as relações sociais fizeram surgir. obrigando antecipada e unilateralmente. na ausência de termo melhor. as regras de interpretação judicial deveriam se submeter.

popularmente difundido como leasing. surgiram os chamados contratos de adesão. depois de adquirir vida. valendo-se do direito comparado e atendendo aos fins sociais e às exigências do bem comum. encerra uma centelha de criação. largamente utilizados para a aquisição ou utilização de bens. 85 . como o pacta sunt servanda. e onde vem sendo a praxe a inserção de cláusula abusiva onde se elege o foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor. Antes do Código de Defesa do Consumidor. O aumento das relações entre fornecedores e consumidores advindo da nova economia de mercado tornou perceptível uma situação. de desequilíbrio entre as partes contratantes. ao atrasar qualquer das prestações avençadas é o consumidor surpreendido com ação judicial promovida pelo estipulante no foro deste. o instituto da pacta sunt servanda "stricto sensu" não existe mais. O art."(Orlando Gomes) (2) Com a crescente evolução de uma sociedade que prima pelo consumismo. há juristas. não vislumbrada até então. 4. Trata-se de um contrato estandardizado. embora fosse para isso preciso afrontar o posicionamento tradicional dos mestres civilistas a respeito da força obrigatória dos contratos: "O princípio da força obrigatória no contrato contém ínsita uma idéia que reflete o máximo de subjetivismo que a ordem legal oferece: a palavra individual. é tão imperiosa que."(Caio Mário da Silva Pereira) (1) "Essa força obrigatória atribuída pela lei aos contratos é a pedra angular da segurança do comércio jurídico.185 desenvolvimento jurídico. Outros diplomas . 85 do mesmo diploma legal era também aplicado (Art. tão forte e tão profunda. fez-se indispensável a criação de aparatos jurídicos capazes de repor equilíbrio entre os pólos contratuais. em um contexto atual de nosso direito. as cláusulas abusivas eram disciplinadas de maneira esparsa no direito positivo pátrio. como Nelson Nery Junior. Praticamente. com o propósito de mudar o curso de seus efeitos. destacando-se os de alienação fiduciária e o arrendamento mercantil. enunciada em conformidade com a lei. a qual atualmente se admitem restrições. a não ser excepcionalmente. pode intervir. o que acabou por franquear o questionamento de institutos outrora inabaláveis. o princípio da intangibilidade do conteúdo dos contratos significa a impossibilidade de revisão pelo juiz.nas declarações de vondade se atenderá mais à sua intenção que ao sentido literal da linguagem). que entendem não existir mais. que dispensa a prévia discussão das bases do negócio instrumento. o que significa uma verdadeira negação de acesso à justiça. que não comporta retratação.º e 5. o Poder Judiciário recorria às regras gerais contidas nos arts.º da Lei de Introdução ao Código Civil para suprir essa lacuna: decidindo de acordo com a analogia. Em se reconhecendo a vulnerabilidade do consumidor no mercado de massa. nem o Estado mesmo. de forma que.

em seu artigo 51. redigido em português. frente as exigências da boa-fé. apresenta. causam em detrimento do consumidor um desequilíbrio importante entre os direitos e obrigações das partes. no caso de dúvida as cláusulas contratuais gerais devem ser interpretadas em favor do aderente. 24.Cláusulas Abusivas Dispõe o artigo 51 do Código de Defesa do Consumidor: "Art. entre outras. as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: . tendo direito à devolução imediata das quantias que eventualmente pagou. dentro do período de reflexão de sete dias. é inegável a importância da devida compreensão acerca do que sejam cláusulas abusivas. o Decreto n. assim como as implicações decorrentes. não é exaustiva. no caso de o contrato de consumo ter sido concluído fora do estabelecimento comercial. tais como o Decreto n. 59. pelo art. 115 e o art. o Decreto-Lei n. e do tratamento dado pela doutrina e jurisprudência a este assunto. em linguagem clara e acessível.372. portanto.195/1966 e outros.186 legislativos também tratavam do assunto. tais como: os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores se não lhes foi dada a possibilidade de tomar conhecimento prévio de seu conteúdo ou se os respectivos instrumentos foram redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance.181/97 (regula o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor). é possível a inversão do ônus da prova em favor do consumidor. uma lista exemplificativa das chamadas cláusulas abusivas. que são aquelas cláusulas contratuais não negociadas individualmente e que. corrigidas monetariamente pelos índices oficiais. há penalização se o termo de garantia não for adequadamente preenchido e entregue ao consumidor. 58 do Decreto nº2. Há apenas dois artigos no Código Civil brasileiro que proíbem o uso das cláusulas leoninas (3): o art. pode o aderente exercer o direito de arrependimento. e sua conseqüente declaração de nulidade. como se pode depreender da observância dos fatos acima expostos. todo produto ou serviço deve ser obrigatoriamente acompanhado do manual de instalação e instrução sobre sua adequada utilização. sendo o Secretário Nacional de Direito Econômico autorizado. 857/1969. posto que. autorizado a editar anualmente um rol exemplificativo do que são tidas por cláusulas abusivas É objetivo do estudo ora encetado a análise da posição doutrinária e jurisprudencial no que concerne às cláusulas abusivas.51º "São nulas de pleno direito. Com o advento do CDC (4) foram trazidos avanços ao tratamento da proteção contratual do consumidor. 1. como regra básica. A previsão de cláusulas abusivas pelo CDC.038/1934. 2.

". Cláusula de eleição de foro. exceto quando sua ausência acarretar ônus excessivo a qualquer das partes. excessivas. assim. 6º. (STJ. e subsiste o contrato. acarretando desequilíbrio contratual entre as partes e ferindo os princípios da boa-fé e da eqüidade. .699 –MG (97/0088907-6) (Anexo II) "Conflito de Competência.. (6) Assim. há que se entender cláusulas abusivas como sendo aquelas que estabelecem obrigações iníquas.. Cláusula de eleição de foro. (STJ – AG Nº 170. ou sejam incompatíveis com a boa fé ou a equidade. Contrato de adesão. desde que se averigúe o justo equilíbrio entre as partes. somente a cláusula abusiva é nula: as demais cláusulas permanecem válidas.". Conforme disposto no artigo supramencionado. VIII. abusivas. "Assim. Tratando-se de ação derivada de relação de consumo. têm decidido em casos tais que. (5) Segundo Hélio Zagheto Gama: "As cláusulas abusivas são aquelas que..187 (. a mais abalizada doutrina e atual jurisprudência. onerosas. sendo que a nulidade de qualquer cláusula considerada abusiva não invalida o contrato. inseridas num contrato. Órgão: Segunda Seção. no conceito de Nelson Nery Junior: "são aquelas notoriamente desfavoráveis à parte mais fraca na relação contratual de consumo. em que deve ser facilitada a defesa do direito do consumidor (Art. se utilizadas. Cláusula Abusiva O juiz do foro escolhido em contrato de adesão pode declarar de ofício a nulidade da cláusula e declinar da sua competência para o juízo do foro do domicílio do réu. Ruy Rosado de Aguiar. e não operam efeitos.. possam contaminar o necessário equilíbrio ou possam. Foro de Eleição.) IV – estabeleçam obrigações consideradas iníquas. Competência Territorial.. Cláusulas abusivas. em contrato de adesão. Processo N°: 21540. que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada. ainda. tais cláusulas são nulas de pleno direito. cláusulas como essa do instrumento havido entre as partes ostentam-se indisfarçavelmente ineficazes e sequer possível o seu aproveitamento". Código de Defesa do Consumidor. com os olhos postos no presente. DJ-24/08/1998) "Competência. São sinônimas de cláusulas abusivas as expressões cláusulas opressivas. vexatórias ou. causar uma lesão contratual à parte a quem desfavoreçam". Relator: Min. de que resulta dificuldade para a defesa do réu. Prevalência da norma de ordem pública que define o consumidor como hipossuficiente e garante sua defesa em juízo".

a coordenação geral da política do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor.98 ) O CDC apresenta dois momentos distintos de proteção contratual ao consumidor: no primeiro momento.188 do Código de Defesa do Consumidor). cria novos direitos para o consumidor e deveres para o fornecedor. compete ao Secretário Nacional de Direito Econômico editar anualmente um rol exemplificativo de cláusulas abusivas. Assim. O DPDC deverá. Juízes) e de advertência. elenco complementar de cláusulas contratuais consideradas abusivas. impende considerar como absoluta a competência do foro do domicílio do réu.11. através do DPDC. . 2. inserir.J. conforme especificado no artigo 3o do Decreto 2. exceção de incompetência.181/97. são editadas em cumprimento ao disposto no citado artigo 56 do Decreto 2.1998. no momento posterior. dentre outras atividades. cabendo aplicação de multa ao fornecedor de produtos ou serviços que. Conflito conhecido. a fim de orientar o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. compreendido até a efetiva formação do vínculo contratual (fase pré-contratual). garantindo. direta ou indiretamente.05. aplicando-se o disposto no inciso IV do artigo 22 do Decreto 2. através de um efetivo controle judicial do conteúdo dos contratos.181/97 estabelece que. sendo órgão do Ministério da Justiça. de 20 de março de 1997 e atua por meio de seu Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC). qualquer que seja a modalidade do contrato de consumo. São atos de natureza administrativa. Compete à SDE. a previsão de cláusulas abusivas pelo CDC não exaure as hipóteses com o elenco ali exposto. em caráter exemplificativo. fizer circular ou utilizar-se de cláusula abusiva." ( S.T.181/97.A Competência da Secretaria de Direito Econômico A Secretaria de Direito Econômico (SDE) foi criada pelo Decreto nº 2. prestar aos consumidores orientação permanente sobre seus direitos. para os comerciantes. anualmente. elencando as cláusulas abusivas.1. fiscalizar e aplicar as sanções administrativas previstas no CDC e solicitar a instauração de inquérito para apuração de delito contra o consumidor. não se exigindo. assim. que integra o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor.2ª Seção . uma proteção a posteriori do consumidor.181/97. a SDE divulgará. pois. as portarias publicadas pela Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça. que não têm força de lei. Conforme anteriormente exposto.j. em 13. promotores.181. DJU de 16. são criadas normas proibindo expressamente as cláusulas abusivas nesses contratos. O artigo 56 do Decreto 2. . mas servem de roteiro para os operadores do Direito (advogados.

art. aflorando casuisticamente na construção do caso concreto. de forma inequívoca. pré-excluindo-se a contrariedade (Pontes de Miranda).Da Aplicação das Portarias da SDE aos Contratos Utilizados no Âmbito do Sistema Financeiro Nacional Ante o exposto. a existência de cláusulas obscuras ou abusivas. O princípio da boa fé pode encontrar amparo legal inserindo-se como conceito indeterminado numa cláusula geral. alegando que determinadas cláusulas tidas como abusivas pela SDE. em complemento à listagem constante do artigo 51 do CDC. por conseguinte.3. Nesta feição é que o princípio da boa . se pode depreender que o abuso estaria incluído. a anulação dos referidos contratos ou das cláusulas abusivas contidas no bojo destes. pelo uso anormal do direito. ainda que indiretamente.189 2. uma especialização do fenômeno do abuso. Sendo caracterizada a relação como de consumo ou demonstrada. na realidade não o são. se pode concluir que o fundamento do repúdio às cláusulas abusivas assenta no princípio da boa fé. as instituições financeiras não podem ser impedidas de recorrer ao Poder Judiciário para solucionar os conflitos gerados em razão da aplicação ou não de regras referentes às relações de consumo. ou ainda configurada a excessiva onerosidade das obrigações assumidas livremente pelos clientes. não se aplicam a determinados tipos de contratos utilizados no Sistema Financeiro Nacional (caso em concreto). e/ou alegar que o CDC. I. e. não há que se discutir a não aplicação do CDC aos contratos bancários. 160. há instituições financeiras que pretendem questionar a validade/aplicação das portarias da SDE. duas alegações possíveis de serem articuladas por tais instituições seriam: questionar o conteúdo das portarias editadas pela SDE. ou vigorar como um princípio subjacente ao ordenamento jurídico. contemplado pelo direito brasileiro de forma genérica. pois o cliente não é destinatário final dos serviços e/ou produtos oferecidos. 2. portanto. na classe dos atos ilícitos. se pode concluir que a SDE tem competência e legitimidade para orientar o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor e uma das formas por que se realiza esta orientação é a divulgação anual de cláusulas contratuais consideradas abusivas. uma vez que a figura do cliente da instituição financeira não pode ser equiparada à figura do consumidor. Não obstante as penalidades administrativas que a SDE ou qualquer outro órgão integrante do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor possam vir a aplicar. Do cotejo desta disposição. e conseqüentemente as portarias da SDE.Destarte.2. As cláusulas abusivas seriam. quando não considerou como ilícito o uso regular de um direito (Código Civil. Contudo.Meios de Controle das Cláusulas abusivas O fundamento jurídico em que sedimenta a doutrina brasileira o posicionamento acerca das cláusulas abusivas é o abuso de direito. segunda parte).

. métodos comerciais coercitivos ou desleais. que teve como relator o eminente Ministro Ruy Rosado de Aguiar. Sem o comando dessa nova diretriz. Segundo Arruda Alvim. art. o sistema de invalidade no direito civil comum é dúplice: os autores tratam das nulidades absolutas e das relativas."(grifo que não consta do original) A lei fala em nulidade de pleno direito.. caput. ou relativa ou anulabilidade. Veja-se o RESP nº 90. 4º. dizendo ainda que Código Civil versa a figura da nulidade e da anulabilidade. O juiz decidirá a lide nos limites em que foi proposta.. O fato de ter o CDC estabelecido a nulidade de pleno direito das cláusulas. cujo voto é a seguir transcrito.) IV – a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva. cuja diferença seria o grau de intensidade do defeito que macula o ato. aquela é sempre ipso jure. sem necessidade de ação judicial. bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços. enquanto esta depende sempre da manifestação judicial. gera discussões acerca da natureza deste vício. e III.162-RS. à luz do disposto no art. Tanto que está presente no rol das cláusulas abusivas. sendo-lhe defeso conhecer de questões. uma cláusula geral que autoriza o repúdio das disposições que ". Pontes de Miranda discorda dessa terminologia. se de nulidade absoluta. A proteção contra cláusulas abusivas é direito básico. e a inovação trazida ao tratamento desta questão pelo CDC. 128. estabelecendo que o vício é meramente parcial.6º São direitos básicos do consumidor: (. com ressalva de meu posicionamento. 4ª Turma tem reiteradamente decidido. antes e depois da vigência do CDC. para os contratos formulado anteriormente ao CDC. a seguir transcritos: "Art. 6º. não suscitadas. que veda ao juiz conhecer de questões a cujo respeito a lei exige (exigia) a iniciativa da parte". a cujo respeito a lei exige a iniciativa da . sejam incompatíveis com a boa-fé e equidade". Cumpre destacar por oportuno a questão da decretação judicial de nulidade da cláusula abusiva não suscitadas pelas partes. sobre a inaplicabilidade das regras do Codecon às relações de consumo celebrados antes de sua vigência. como regra cardeal (arts. IV do CDC: "Art.IV).. in verbis: "Esta Eg. 51.. era aplicado a inteligência dos artigos 128 e 460 do CPC.190 fé se faz largamente presente no sistema brasileiro. o Código de Proteção e Defesa do Consumidor é explícito a respeito da boa fé. É patente a diferença de tratamento por esta turma do STJ. prevalece a norma geral do artigo do Código de Processo Civil.

DJ. em homenagem ao princípio da congruência. Sobre o princípio da congruência e o princípio da adstrição do juiz. ensina Moacyr Amaral Santos: "A sentença deverá ser a resposta jurisdicional ao pedido do autor. dado o seu cunho de ordem pública. 128 e 460 do CPC. violando os dispostos nos arts. seção. (7) Conforme esse entendimento. Objetivando a desconstituição de cláusulas. chamada de "Sentença Determinativa". ainda quando se trata de foro de eleição estabelecido em clausula de contrato de adesão. conflito conhecido e declarada a competencia do juizo suscitado. posto que é decretável de ofício. Cív. 29/10/1996) Contudo. não podendo a sentença extrapolar os limites da litiscontestatio. quando observado o vício. Proteção Contratual.(STJ. deve a sentença ater-se ao pedido" (TARGS – APC Nº 193051216.7ª Câm. devem ser declaradas nulas. 460. admitindo assim a decretação ex officio. Cláusulas abusivas. Constatada a cláusula abusiva. Ruy Rosado de Aguiar. Órgão: Segunda Seção. sendo sujeito ativo. Clausula abusiva. independentemente de provocação das partes. Ele sugere uma nova hipótese de classificação de sentença. criando uma nova realidade. o juiz não pode declarar nulidade de cláusulas ex officio. A causa deve ser julgada como proposta e contestada. as cláusulas consideradas absolutamente nulas. onde o magistrado não somente muda um estado. Neste sentido: "Código de Defesa do Consumidor. de natureza diversa da pedida. Foro de eleição. a favor do autor. Processo n°16253. O juiz constrói. Competência territorial.191 parte". Segundo a orientação predominante na 2a. ressalva da posição do relator. por ser de natureza relativa. – Relator Juiz Antonio Janyr Dall’Agnol Junior) "Conflito de competência. integrando e construindo as cláusulas no contrato de modo que se possa dar execução ao mesmo. criando uma nova relação. . adequando o contrato. impõe-se ao juiz a sua decretação. para não ocorrer julgamento extra petita. ele revê as cláusulas. independentemente de provocação das partes. a incompetência em razão do lugar. Assim também manifestou sua posição Nelson Nery Jr. nos limites em que este o formulou. bem como condenar o réu em quantidade superior ou em objeto diverso do que lhe foi demandado". "Art. É defeso ao juiz proferir sentença. deve ser suscitada pelo reu (sumula 033). a sentença decide extra ou ultra petita". participando. realizado no hotel Bourbon em Curitiba. a maior parte da doutrina diverge dessa orientação. Afastando-se desses limites. Destinatário. Relator: Min. mas é também sujeito ativo. Para ele. durante o Congresso Paranaense de Direito Processual Civil.

. prevendo a norma geral a proibição de cláusulas contra a boa-fé. Aqui. prevendo a ineficácia de uma cláusula abusiva e não simplesmente sua nulidade absoluta. eficiência e dinamismo às relações de consumo. cláusulas como essa do instrumento havido entre as partes ostentam-se indisfarçavelmente ineficazes e sequer possível o seu aproveitamento". rapidez. a mais abalizada doutrina e atual jurisprudência. 2. e que é na mais das vezes resultado direto da fragilidade econômica do consumidor. a nulidade de qualquer cláusula considerada abusiva não invalida o contrato. têm decidido em casos tais que. exceto quando sua ausência. sem que tenha havido oportunidade de discussão do mesmo. o legislador baseou-se na chamada "redução de eficácia" da doutrina alemã. o consumidor poderá solicitar ao juiz de direito que altere o conteúdo negocial de uma cláusula considerada abusiva. Destarte. apesar dos esforços de integração.5. desde que se averigúe o justo equilíbrio entre as partes.Contratos de Adesão Os contratos de adesão surgem como forma de proporcionar maior uniformidade. subsistindo o contrato.192 assim que o vício é detectado. (STJ – AG Nº 170. não sendo isto defeso ao juiz. permanecendo válidas as demais cláusulas contratuais. e vice versa. 2. acarretar ônus excessivo a qualquer das partes. Além do previsto no artigo 51. o CDC. e os efeitos dela decorrentes. o CDC adotou o princípio da conservação dos contratos ao determinar que somente a cláusula abusiva é nula. e sua importância em parte deriva da constatação que os contratos de consumo guardam intrínseca relação com a economia.4. com o fim maior de não se permitir a execução da onerosidade constatada em seu bojo. Há inúmeros exemplos de jurisprudência que convergem com esta doutrina: "Assim.699 –MG (97/0088907-6) Resta inconteste que coaduna com a busca de equilíbrio na relação contratual a admissibilidade da intervenção judicial na base do contrato. em seu artigo 6º. A teor do disposto no parágrafo 2º do multicitado artigo 51 do CDC. tendo em vista que os contratos são instrumentos de circulação de riquezas. institui como um direito do consumidor a possibilidade de modificação de cláusulas contratuais no sentido de restabelecer o equilíbrio da relação com o fornecedor. que concorda com todos os termos do contrato que lhe é apresentado. são aplicáveis tanto aos contratos de adesão quanto aos contratos paritários e são sempre consideradas nulas. com os olhos postos no presente.Efeitos nos contratos A definição de cláusulas abusivas. o consumo depende do desenrolar da economia de mercado.

(10) Os contratos de adesão são unilaterais. próprias dos contratos paritários. via de regra. 54 – Contrato de Adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor de produtos ou serviços. não obstante existam antes do processo de globalização. aquele que está propondo a aderência a toda a proposta. "As grandes instituições utilizam-se dos contratos de adesão para praticarem abusos contra os consumidores. o contrato de adesão.193 Assim. formado pelo concurso de vontades (embora restrito). (8) Segundo Orlando Gomes: "O contrato de adesão caracteriza-se por permitir que seu conteúdo seja preconstruído por uma das partes. uma das cláusulas mais comuns é a de eleição do foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor. nas quais apenas uma das partes. 54 definiu o contrato de adesão: "Art. inexistindo as negociações preliminares e modificação de cláusulas. o que gera grande desigualdade nas relações de consumo entre as partes contratantes. O Código do Consumidor em seu art. sem que o consumidor possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo. esse tipo de contrato apresenta-se como a adesão alternativa de uma das partes ao esquema contratual traçado pela outra. conforme exposto. Caracteriza-se por ser um negócio jurídico bilateral. isto é. de modo geral e abstrato. traz. e devido à necessidade de adquirir o bem ou o serviço o indivíduo acaba por aceitar as condições que lhe são impostas. Entretanto. (9) Em sua formação. por suprimir a prévia discussão do conteúdo entre fornecedor e consumidor. e que na maioria das vezes não são esclarecidas ou informadas pelo funcionário da instituição responsável pela realização do contrato"." Nos contratos de adesão. deve o juiz reconhecer de ofício a . como anteriormente salientado. mormente na Itália. Define-se o contrato de adesão como o negócio jurídico no qual a participação de um dos sujeitos da relação sucede pela aceitação em bloco de uma série de cláusulas formuladas antecipadamente. para constituir o conteúdo normativo e obrigacional de futuras relações concretas. isto por que neste tipo de contrato não há oportunidade de negociações. os contratos de adesão podem ser tidos como uma necessidade do mundo globalizado. Uma das mais comuns cláusulas abusivas em contratos de adesão é a de eleição do foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor. cláusulas abusivas. e segundo corrente dominante na doutrina. Segundo Ana Maria Zauhy Garms. eliminada a livre discussão que precede normalmente à formação dos contratos". sai beneficiado em relação ao aderente. pela outra parte.

(grifo que não consta do original) Isto posto. e conseqüente afastamento desta. A única hipótese em que a ação pode ser proposta em qualquer foro do Brasil está estandardizada no artigo 94. Cumpre salientar a lição do Professor Celso Antônio Bandeira de Mello. (In NORMA CONSTITUCIONAL E SEUS EFEITOS. visto que devem submeter-se aos mandamentos insertos no Código de Processo Civil e nas leis de organização judiciária dos Estados. porque a nulidade da cláusula faz desaparecer a razão pela qual a ação foi proposta no juízo que se dá por incompetente. 1989. À luz desse dispositivo. Se este também residir fora do Brasil. subversão de seus valores fundamentais. as partes não podem escolher livremente o foro onde querem propor a ação. contido no comando do artigo 5º. conforme o escalão do princípio violado. 86 do aludido diploma legal: "As causas cíveis serão processadas e decididas. pág. o consumidor. assim como declinar da competência para o juízo do domicílio do réu. O Código de Processo Civil e as normas de organização judiciária dos Estados estipulam as diretrizes básicas para a definição dos limites da competência a serem observadas na prestação jurisdicional. mas a todo o sistema de comando.São . da Constituição Federal: "Ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente". 116. enquanto que a exigência de que a parte suscite a incompetência do foro está inviabilizada pelas mesmas circunstância que levaram ao reconhecimento da abusividade da eleição do foro.194 nulidade da cláusula abusiva. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório. É a mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade. a ação será proposta no foro do domicílio do autor. citado por Maria Helena Diniz: "Violar um princípio é muito mais grave do que transgredir uma norma. LIII. torna o juízo absolutamente incompetente ante à flagrante violação ao "princípio do juiz natural". nos limites de sua competência. pelos órgãos jurisdicionais. como imperativo de ordem pública. § 3º "in fine" do CPC: "Quando o réu não tiver domicílio nem residência no Brasil. ou simplesmente decididas. Essa decisão não conflita com a Súmula 33 do STJ. Saraiva . a propositura da ação no foro do domicílio do estipulante ou em qualquer outro que não seja a do domicílio do consumidor. contumácia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra". porque representa insurgência contra todo o sistema. Dispõe o art. a ação será proposta em qualquer o foro". in casu. ressalvadas às partes a faculdade de instituírem juízo arbitral".

122. esteja sendo sobremaneira dificultada a defesa do réu. é nula de pleno direito por Ter sido editada por Juízo agora tido como absolutamente incompetente. Embargante: Suy Mey C. incisos VII e VIII da Lei nº 8. prejudicial à defesa do consumidor. Inaplicabilidade da súmula 33/STJ. emerge dos autos ser completamente incompetente o Juízo "a quo" e. Nigro Conceição. especialmente quando há possibilidade de deferimento de medida liminar. A divisão da competência estabelecida por lei de organização judiciária. Decisão unânime. Nesse sentido: "Foro Regional e Declaração ex officio de incompetência. por essa razão. m vista todo o exposto. Des. ambos do Código de Processo Civil vigente. através de seu cumprimento. não se pode afirmar tratar-se o caso de competência territorial relativa. 113. ADMISSIBILIDADE. Gonçalves.Hipótese que não se trata de declinação de ofício de incompetência relativa. combinado com o art. Julgado em 23 de abril de 1998) "CONSUMIDOR. ganhando por isso contornos de competência absoluta.Artigo 6º. à luz do que fora exposto. nula de pleno direito a decisão objurgada. a teor do estabelecido no art.1995.000181-3. a validade da cláusula de foro de eleição deve ser de logo examinada. que se destaca pela superioridade da vontade do estipulante e reduzido âmbito de escolha do aderente. Abusividade da cláusula de eleição de foro. Rel. sem sombra de qualquer dúvida tem cunho decisório. "EX OFFICIO". CONTRATO DE ADESÃO. dentro da cidade de São Paulo.u. j. confere a cada um parcela de competência funcional dentro do foro de São Paulo. mas sim de reconhecimento de normas de ordem pública a exigir a remessa dos autos à Comarca do domicílio do consumidor. 1ª Câmara Cível. o que impõe sua revogação". A decisão objurgada. COMPETÊNCIA. Esp.Consórcio .Foro de Eleição . Ainda que se reconheça que na divisão do foro de São Paulo em diversos Juízos há forte componente territorial que marca a delimitação da competência de cada um entre si.(Embargos de declaração nº 98. Ao receber a petição inicial ao juiz cumpre examinar a validade e eficácia de tal cláusula e impedir que. v. porquanto. Câm.)" "COMPETÊNCIA . DECLINAÇÃO. Ccomp 24495-0. declinável ex officio (TJSP.Contrato de Adesão _ Prevalecimento do Código de Defesa do Consumidor para que o devedor tenha acesso aos órgãos judiciários e facilitação de sua defesa . Embargado: Banco Fiat S/A. para que não sirva de invencível acesso à justiça.078/90 . 265. rel..10. em determinada área da cidade. a propositura da demanda perante foro diverso do domicílio do consorciado dificulta . determinou e ocasionou a apreensão do veículo pertencente a agravante e. Assim.M. em se tratando de ação que tenha por objeto contrato de adesão.195 Paulo). Marcos Antônio Souto Maior. Com o devido respeito àqueles que se filiam a outro entendimento.

Ag. impor ônus e gravames indevidos a um dos sujeitos processuais. de Inst. É essa a posição que vem prevalecendo na melhor jurisprudência. revela-se abusiva se e quando impuser. à luz do CDC (Lei nº 8078/90). Direito do consumidor em ser demandado em seu domicílio. Ag de Inst. Julg. Linbs. 5º. Competência absoluta. 32959-4. à evidência. Julg. Também no mesmo sentido o voto do magistrado Antônio Carlos Marcato. mormente quando não impõe ao réu maiores dificuldades para o pleno. caso a caso. de acesso à justiça. é justa e razoável a conclusão de que o reconhecimento e a proclamação afronta a preceitos constitucionais demandam exame. Itú. da 79 Câmara do Segundo Tribunal de Alçada Civil de São Paulo: "A cláusula eletiva de foro. a pura e simples generalização de que toda e qualquer cláusula eletiva do foro seja. (TJSP. art." Os princípios constitucionais do juiz natural. todas elas. (TJSP. COMPETÊNCIA.078/90 (CDC). 29240. estabelecida em contrato de adesão.: Des. não sendo lícita. da ampla defesa e da supremacia do interesse público hão de ser preservados e aplicados em todas as situações processuais. nem estabelece obrigação que possa ser considerada iníqua ou abusiva. pela parte economicamente mais forte. XXXV). o que configura a abusividade da cláusula e a sua nulidade de pleno direito. decretável de ofício. não obstante esse direito seja garantido constitucionalmente (CF/88. atender. No entanto. ao contratante mais fraco sérios (e por vezes insuperáveis) óbices ao pleno acesso à jurisdição e à sua defesa no processo. quando não o impossibilita. Rel. na medida em que a existência e o exercício da técnica processual têm por objetivo. colocando-o em desvantagem exagerada. e assim caracterizada a abusividade da cláusula. Rel. É caso de nulidade de pleno direito. podem . sejam quais forem. Lei 8. em se tratando de foro de eleição favorável ao estipulante de contrato de adesão. Daí porque. e essa afronta. em 30/10/96). seria suficiente. assim afrontando as correspondentes garantias constitucionais.406-2. precipuamente aos desígnos constitucionais e não.. das circunstâncias que envolvem o contrato. em Agravo de Instrumento nº 477. exercício de seu direito de resposta. quando desde logo evidenciado que o demandando terá extrema dificuldade para exercitar sua defesa. VIII". em 30/10/96). art. Juiz Cesar.196 seu acesso à Justiça. por si só. Júlio Vidal. "CONSÓRCIO. ainda quando está a decidir sobre a competência de foro. incumbe ao juiz impedir que ela tenha eficácia. abstraídos outros aspectos processuais (de menor ou nenhuma importância em confronto com ditas garantias). declinando da sua competência para o foro de domicilio do réu. para justificar a pronta remessa dos autos ao foro do domicílio da parte hipossuficiente. nem jurídica. A eleição de foro é tão somente a mais comum dentre as cláusulas abusivas comumente contidas nos contratos de adesão. CONTRATO DE ADESÃO. 6º.

3. "No que tange aos contratos de adesão o Código de Defesa do Consumidor é bem claro ao especificar que todos os contratos devem ser revistos quando tornarem-se excessivamente onerosos. na sede da empresa estipulante. quando a propositura da ação no foro de eleição. não ofende a Súmula 33 do STJ. cumpre salientar que nem toda regulamentação contratual préformulada pode ser entendida como abusiva. A decisão judicial que reconhece a nulidade de cláusula abusiva e declara a incompetência de ofício. se o consumidor ou o fornecedor contratante.6. em razão de débitos em atraso com o fornecedor. o juiz deve ainda de ofício reconhecer a nulidade de cláusula abusiva. ou outra qualquer. (11) Por fim. sob o argumento de que o escritório que faz a cobrança só recebe o pagamento se houver o acréscimo dos encargos (juros de mora e multa) além de honorários advocatícios. da supremacia da ordem pública e da magnitude da defesa do consumidor. derrogando as cláusulas abusivas. (12) 2. pelo que pode e deve o juiz declarar de ofício sua competência para processar as ações de busca e apreensão. De início cumpre . tal como a que elege. As cláusulas negociadas destes contratos deverão subordinar-se à interpretação comum dos contratos. em contrato de adesão. quando o seu cumprimento significar verdadeira negação de acesso à justiça. e ainda. cabendo ao julgador verificar a abusividade ou não das cláusulas pré-elaboradas. porque a nulidade da cláusula faz desaparecer a razão pela qual a ação foi proposta no juízo que se dá por incompetente. que variam de 10 a 20% do valor devido. enquanto a exigência de que a parte suscite a incompetência do foro está inviabilizada pelas mesmas circunstâncias que levaram ao reconhecimento da abusividade da eleição de foro. que as cláusulas abusivas devem ser desconsideradas pelo consumidor".197 ser questionadas. Assim.A recepção do princípio da predominância da ordem pública pelo CDC como meio de afastamento das cláusulas abusivas nos contratos de adesão Os princípios do juiz natural. reintegração de posse decorrente de contrato de leasing.A cobrança extrajudicial de honorários advocatícios como cláusula abusiva A questão ora analisada concerne à cobrança de honorários advocatícios por escritórios de advocacia do consumidor. dificultará sobremaneira a defesa do réu em juízo. conforme exposto no presente estudo. por força dos dispositivos pertinentes à espécie contidos no CDC. 51 do CDC. o foro do domicílio do estipulante. são amplamente aplicados aos contratos de adesão. uma vez que se amoldem ao disposto no art. O cerne da questão é a quem cabe arcar com o pagamento dos honorários devidos ao advogado.

prescrevendo a Súmula nº 60 do STJ: "É nula a obrigação cambial assumida por procurador do mutuário vinculado ao mutuante no exclusivo interesse deste". de 12/05/98 (13).198 observar que o consumidor não celebrou nenhum contrato com o escritório de advocacia. arcar com o pagamento dos honorários advocatícios. que. A Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça editou a Portaria nº4/98 que tipificou como abusiva a cláusula contratual que obriga o consumidor ao pagamento de honorários advocatícios. sem que igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor". sem ajuizamento de ação. outras cláusulas abusivas. consumidor. (item 9 da Portaria nº 4/98). XII do CDC que é nula a cláusula contratual que "obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua obrigação. estatui o art. ao recorrer aos préstimos do advogado. que autoriza a emissão de título cambial por procurador. 22 do Decreto 2. 51.078/90 e do art. cumpre perguntar se seria cabível aplicar-se o art. 22 do Estatuto da advocacia (convenção entre as partes). expressou nota explicativa a respeito dos motivos da edição da Portaria nº 04 de 13. pelo que resta óbvio que quem deve pagar os honorários é o fornecedor. acima transcrito que "O consumidor não está obrigado ao pagamento de honorários ao advogado do fornecedor. deverá ele. objetivando declarar a nulidade absoluta da cláusula. . arbitramento judicial ou sucumbência" Vê-se que nenhuma destas hipóteses legitima a cobrança de honorários da parte que não contratou. deixa de aceitar receber a parcela vencida. O artigo 22 do Estatuto da Advocacia (lei 8. em conformidade com a decisão unânime extraída da 19ª Reunião do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor.03. O STJ já pronunciou a respeito da nulidade de cláusula contratual no caso da denominada cláusula mandato. Os serviços jurídicos contratados diretamente entre o advogado e o consumidor não se enquadram neste item". um ônus imputado ao consumidor em desvantagem exagerada.98. esta Portaria adita ao elenco do art. em caso de inadimplemento. O Despacho nº 132 do Secretário de Direito Econômico. esclarecendo em relação ao item 9. prescrevendo como nula de pleno direito a cláusula contratual que obriguem o consumidor ao pagamento de honorários advocatícios sem que haja ajuizamento de ação correspondente. ver-se-á que o caso em tela enseja a aplicação da Teoria da Abusividade na Relação de Consumo em prol do consumidor. entretanto. a qual deve então ser paga diretamente ao advogado contratado.906/94) dispõe que há três possibilidades de cobrança dos honorários advocatícios: "quando há convenção entre as partes. Ora. 51 da lei 8. indubitavelmente. se nos reportarmos à definição de cláusula abusiva. como é o caso do consumidor.181/97. realizada em Brasília. E caso haja o consumidor assinado contrato que contenha cláusula prevendo que. o que corrobora a tese da abusividade da cobrança. Além disso. Arcar com os honorários de advogado para agir contrário aos seus próprios direitos/interesses é.

Hélio Zaghetto. assim como a compreensão e percepção desse instituo pelos juristas.V. Revista de Direito do Consumidor nº 20.Conclusão Do presente estudo se pôde com propriedade depreender que atualmente é grande. as cláusulas abusivas merecem um tratamento metodológico como tentativa de conter tais procedimentos. já não se aplica mais indistintamente o pacta sunt servanda. por meio de leis específicas de proteção. Maria Helena. Arruda. Cláusulas Abusivas e seu Controle no Direito Brasileiro. e igualmente quando se igualam. como bem pontifica Ana Maria Zauhy Garms (14): "A proteção do consumidor surge pela determinação de se cumprir a igualdade contratual. Retirado de . ditando o tom do regime jurídico e legal das condições gerais dos contratos.. Assim. (24/70) DINIZ. Cláusulas Abusivas nos Contratos de Adesão à do Código de Defesa do Consumidor. É o tratar de forma desigual as partes no momento em que elas se desigualam. 5. Curso de Direito Civil Brasileiro. a crise do liberalismo refletiu no declínio do individualismo característico daquela realidade sócio-econômico. pelo que passou o Direito do Consumidor a ser um dos principais elementos de afirmação da cidadania. legislativo. cumpre ao Estado tutelar a parte hipossuficiente da relação contratual. dentro da proteção contratual estabelecida com o advento do Código de Defesa do Consumidor. por vezes maciça. com a instituição de órgãos próprios estatais. tratar de forma desigual os desiguais a fim de que se tornem iguais. com a fixação de jurisprudência. É objetivo do Código de Defesa do Consumidor assegurar ao consumidor igualdade em face do fornecedor. a presença dos contratos de adesão nas relações de consumo. fls.199 4. 3. 12 Ed. diante da configuração contratual. Da preocupação do Estado com os problemas da defesa do consumidor advieram grandes mudanças na elaboração dos contratos. Rio de Janeiro: Forense. Ana Maria Zauhy.Teoria das obrigações contratuais e extracontratuais. Curso de Direito do Consumidor. Em virtude da importância conferida assim às relações de consumo. independentemente da posição ou condição de cada parte envolvida". ou seja. São Paulo: Saraiva. tutela esta que é feita no plano administrativo. Referências bibliográficas ALVIM. e judicial. 1997 GAMA. 2001 luz GARMS. o que denota o reflexo no âmbito jurídico do processo de evolução por que passou a economia.

. Retirado de www.1999 SANTOS. participaram de um coquetel e tiveram conhecimento de um .nov. III. Orlando. In: Jus Navigandi.Engenharia e Construções Ltda.2º Juizado Comarca de Porto Alegre Autores: Luís Fernando Klippert Ré: Goettert . A questão das cláusulas abusivas nos planos de saúde. Marco Aurélio Ventura.. Cobrança extrajudicial de honorários advocatícios: cláusula abusiva.nov. Nelson.nov. 26a ed. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão.infojus. para comparecerem no dia seguinte..jus. Ed.com.com. pelo telefone.br/doutrina/clabusi.htm em 20.asp?id=788 em 24.200 www. no dia 03. Moacyr Amaral. na Rua Luzitana nº597.2001 GOMES.2001 MARTINS. Luís Fernando Klippert e S/M. GRINBERG. Rosana.Engenharia e Construções Ltda.htm em 24..2001 NERY JUNIOR.com. Michelline Oliveira Klippert ingressaram com ação de rescisão contratual contra Goettert . n. Contratos. tendo em vista um projeto turístico. 1995. às 21h. 47. IV 6.br/doutrina/texto. 1997 PEIXOTO. 49.. Retirado de http://www1.jus. n. foram convidados. etc.nov. V.2001 PEREIRA. 2a.0795. Lá comparecendo. In: Jus Navigandi. Rio de Janeiro: Forense. Caio Mário da Silva. Vistos. São Paulo: Saraiva.jus. Anexo Sentença proferida em sede de ação de rescisão contratual Processo nº0119539789 8ª Vara Cível . narrando que.São Paulo: Revista dos Tribunais. Código do Consumidor. 16. Plínio Lacerda. Direito Civil. Código de Processo Civil Comentado. Instituições de Direito Civil. Retirado de http://www1.3 – Dos Contratos e das Declarações Unilaterais de Vontade. Vol.br/doutrina/texto. Rio de Janeiro: Forense. Comentários ao Código de Processo Civil. Ed. Silvio.asp?id=708 em 24.com. 1966 RODRIGUES.br/area7/rosana2.v.

49 do CDC não se aplica. Não ficou demonstrada esta alegação dos requerentes. para tanto. É possível rescindir o contrato. Pretendem os requerentes a rescisão do contrato. pois o contrato não foi firmado fora do estabelecimento comercial. Os autores não concordaram e enviaram correspondência. Ao retornarem para casa. Realizada audiência. para rescindir o contrato. na preparação de armadilhas. as únicas pessoas presentes na ocasião eram os autores e funcionários da ré. até porque seria muito difícil. proferindo-se os debates orais. prestando todas as informações a respeito do empreendimento. desrespeitosa e inaceitável de comércio. sendo que a requerente é advogada. Aduz que o contrato deve ser respeitado. verificaram divergências entre o que foi dito na ocasião e o que constava no contrato. que corresponde ao ressarcimento de despesas. a possibilidade de ser feita a cumulação de semanas não aproveitadas em um ano para o ano seguinte. seduzidos pelo "marketing" da requerida. . Contesta a ré. O comércio não pode estar baseado no aliciamento. para coibir tais práticas. por exemplo. aproveitando-se de menor reflexão. foram ouvidas as partes e testemunhas. Assim. deveriam pagar multa no valor de 35% do valor do imóvel. Preocuparam-se os autores em demonstrar que o contrato e o regulamento para uso do empreendimento turístico estava em desacordo com o que havia sido dito na exposição da ré. ocasião em que foram informados de que. a fim de atrair o consumidor e. o qual foi analisado pelos requerentes. sendo condenada a ré no pagamento dos encargos de sucumbência. impondo-se a firme atuação dos órgãos encarregados de defender o consumidor. Foi informado que o preço estava em promoção e que o contrato deveria ser assinado naquela mesma noite. Sustenta ter agido corretamente. Os autores responderam. invocando normas do Código de Defesa do Consumidor.201 projeto de construção com vendas de cotas para serem utilizadas em condomínio por diversos proprietários. Requer a condenação dos autores no pagamento das despesas relacionadas com o contrato. eis que firmado de forma livre pelos autores. Versam os presentes autos a respeito de uma forma totalmente abusiva. ou arapucas. bem como as parcelas vencidas. Retornaram no dia seguinte. analisando melhor o negócio. Relatados. fechar um negócio que não era de interesse do comprador. Não havia. firmaram o contrato. uma vez paga a multa estipulada. manifestando o interesse em desfazer a avença. decido. O art.

202 Tenho. Primeiro. sub-reptícia. avaliar criticamente o que está sendo dito. onde lhes é dito que. o cliente fica totalmente incapacitado de refletir sobre o que está comprando. para ler e refletir. a necessidade de processar todas essas informações acaba reduzindo a capacidade de raciocinar. no qual o consumidor será convencido a comprar tal empreendimento. para servir de atrativo para o cliente. antes de ser assinado o contrato. primeiro. e também os salgadinhos e bebidas servidos aos participantes. ou qualquer outra forma de obter os dados pessoais e informações quanto ao patrimônio do comprador em potencial. Do início ao fim da exposição o casal é acompanhado de pessoa encarregada de afogar os incautos em informações excelentes sobre o empreendimento. sabe-se que os vendedores ou recepcionistas. vem o convite para o coquetel. existindo todo um cenário montado. o convite para um coquetel configura nova forma de seduzir o comprador por via indireta. no entanto. O fundamental é que toda a atuação da ré é inaceitável. ou pesquisa. como absolutamente irrelevante eventual divergência entre o que foi tratado inicialmente e o contrato firmado. com apresentação de filme. em tais empreendimentos. maquete. são cuidadosamente treinado para falar continuamente e não deixar qualquer dúvida no espírito do cliente. é de referir o procedimento já aludido. com as mesmas "promoções". Ao fim de duas horas de aranzel monocórdio sobre as maravilhas do prédio. naquela noite. a ré faz os tais coquetéis todas as noites. depois. Por outro lado. o aliciamento do consumidor começa com uma pretensa entrevista. para ajudar a distrair e criar . Conforme ficou claro pela prova colhida. com todos os sentidos ocupados em transmitir ao cérebro informações novas. Conforme restou perfeitamente esclarecido pelos documentos e testemunhas ouvidas. apresentando solução para todas as eventuais objeções. restaurantes. Identificado um cliente em potencial. que. portanto. existe uma promoção "imperdível". Conforme relataram as pessoas ouvidas. Não é difícil perceber que. etc. acaba tendo várias funções. As irregularidades são tantas que o contrato não tem como subsistir. termina enredado em uma enfadonha reunião comercial. acreditando que vai para uma festa. apartamento decorado. Além disto. Ao cliente não é permitido levar o contrato para casa. À exposição oral soma-se o cenário cuidadosamente montado. os clientes são encaminhados para as mesas dos vendedores. O que parece um inocente coquetel. que nem existe. nem é apresentado o regulamento. É do conhecimento de todos que existem equipes de "recepcionistas" atacando as pessoas em lugares públicos. de aliciar clientes sem que estes tenham pleno conhecimento da finalidade para a qual estão fornecendo os seus dados.

tendo em vista tudo o que já foi referido. O negócio teria sido livremente estabelecido. Ademais. o desrespeito de impedir o cliente de levar o contrato para ler na sua casa. ou a capacidade reduzida. etc. não se admite a coação.203 um vínculo. que o preço está em promoção "só naquela noite". a coação"moderna". Não na forma de violência.. Não creio que algum comprador pare para ler uma por uma das cláusulas. duvido firmemente que. devolvido assinado. um débito do convidado. depois de duas horas de agradável explanação. após algum tempo. o contrato está impresso em letras minúsculas. uma mentira. por leve que seja. a explanação de duas horas apresenta-se como um exagero com o visível intuito de cansar os clientes e vencer suas últimas resistências. pode até ser bom o empreendimento oferecido pela ré. utilizando a empresa ré de dois artifícios. Discorreu eruditamente a ré a respeito dos contratos e da coação. Ora. Ao final deste bombardeio arrasador. se os autores tivessem levado o contrato para casa e. Agora imagina-se ao fim de um dia de trabalho. o cliente é encaminhado ao vendedor. Não se discute este aspecto. de ameaça. na obtenção da vontade do consumidor. ao fim de toda a maratona. mesmo lendo o contrato. a coação existiu. velada. Tem-se. sustentando a inexistência desta no presente caso. quando é instado a fechar o negócio. sociologia. Primeiro. No caso em tela. daí ser "norma" da empresa que o contrato seja assinadona mesma noite. tendo mais um vendedor à frente. teve gastos com o coquetel oferecido aos autores. que causa dificuldade para qualquer pessoa de visão normal ler na totalidade. Na verdade. Mas de forma sutil. não há dúvida quanto à falta de capacidade. como a ré fez questão de lembrar. Acontece que. Mas isto a ré não aceita que seus clientes façam. Se o que foi referido não bastasse. portanto. Fica evidenciado que todo o esquema está montado para induzir as pessoas a efetuarem o negócio sem a devida reflexão. por parte do comprador. ao efetuar a compra. todo um esquema montado para induzir o comprador a fazer um negócio que pode até não ser ruim. para decidir. o comprador consiga atentar para o sentido de cada cláusula. aliados às técnicas de vendas. Resulta em um aparato de procedimentos mercadológicos que impõe sérias dúvidas a respeito da vontade livre e espontânea do consumidor. Segundo. independentemente das maravilhas de determinado produto ou serviço. Muitas superproduções de Hollywood fracassam por não conseguirem manter a atenção do público por duas horas. fazer uma avaliação crítica e decidir pela aceitação da mesma. Por outro lado. preparada por profissionais de marketing com aprofundados conhecimentos de psicologia. a cláusula que estabelece a multa de 35% é . convencendo sobre o insuperável empreendimento.

que diz: "São direitos básicos do consumidor: IV) a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva. sem que igual direito seja conferido ao consumidor. pois o consumidor teve reduzida a sua capacidade de decisão livre e conscientemente. que estabelece mandato cambial em favor da vendedora. 54. de forma que estaria ela buscando enriquecimento sem causa. a desistência dos autores foi comunicada de imediato." Por fim. ainda. mas a cláusula 4ª. não permanecendo no empreendimento. a ré irá embolsar este valor. a começar ela aludida semana na Praia dos Ingleses. e 12ª. Aliás. No entanto. Publique-se e intimem-se. o contrato é um amontoado de ilegalidades. § 6º. Trata-se de cláusula abusiva. XI: "autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente. 49 do CDC. pois tinha conhecimento da pretendida rescisão. não serão associados da RCI. § 5º. do Código do Consumidor. Alega a ré que a venda não ocorreu fora do estabelecimento comercial. por todas as circunstâncias que envolveram o negócio. permite à vendedora. a requerida beira a má-fé. Ademais. § 6º. pois se trata de contrato abusivo. métodos comerciais coercitivos ou desleais. julgo procedente a ação. que "elege" o foro de Florianópolis para conhecer o contrato. apesar de as partes serem domiciliadas nesta Capital. . teria aplicação o rt. como nos casos referidos nos casos referidos no aludido dispositivo. caracteriza-se a necessidade de uma especial proteção. tenho como razoável. e o contrato aqui ter sido firmado. acrescentando-se. pois não está redigida em destaque. 6º. considerar rescindido. para 4 pessoas. Isto posto. do contrato. como determina o art. na medida em que o espírito que norteia o citado diploma legal deve ser preservado. quanto às despesas alegadas pela ré. mesmo que fosse afastado o art. logo. de execução obrigatória. De qualquer forma. decretando a rescisão contratual. obtido de forma coercitiva. De qualquer forma. para declarar nulas as cláusulas 4ª. as taxas de associação ao tal de RCI. de foma que nenhuma despesa poderia ter efetuado a ré para prejudicar os autores. art. "em qualquer tempo. mesmo que eventualmente a situação concreta não se amolde perfeitamente à previsão legal. pois nenhum comprovante trouxe de que tenha realmente pago os valores referidos. o presente compromisso". já que os autores não foram até a referida praia? Além disto. que esta mesma cláusula estabelece que o contrato é irrevogável e irretratável.204 totalmente nula. nenhum direito tem ao ressarcimento. Quem aproveitou esta semana. 51. além de o contrato ser abusivo. § 4º. conforme previsão do CDC. não foram comprovadamente pagas pela ré. bem como outras despesas. Arcará a vencida com as custas processuais e honorários advocatícios de cinco salários mínimos. 49." Quanto à aplicação do art. pois os autores. facilitando a sua compreensão. e também a cláusula 12ª. bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos ou serviços. de pleno direito. como a cláusula 4ª.

Cláusulas abusivas nos contratos de adesão 9. mesmo que moralmente condenável. idem. 1. Publicado no Diário Oficial da União.109 10. antes de servir à ufania dos legisladores.Vol. Caio Mário da Silva Pereira. 37/38 3. Essa constatação. Código de Processo Civil Comentado. o que não é vedado em lei. 13. Nelson Nery Junior. passa a ser automaticamente permitido.205 Porto Alegre.Vol. Comentários ao Código de Processo Civil .379 6. Contratos. Curso de Direito do Consumidor.078/90) é dos mais avançados sistemas legais dessa natureza. p. IV. Moacyr Amaral Santos. p. "São elas chamadas de leoninas porque são impostas nos contratos com o objetivo de prejudicar as partes mais fracas. Ana Maria Zauhy Garms. 441.108 7. 5. p.Notas 1. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor. p. idem. Marco Aurélio Ventura Peixoto. p. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor 11.Hélio Zaghetto Gama. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor 12. Orlando Gomes. aqui. Hélio Zaghetto Gama. deve provocar reflexão: é tão avançado talvez porque.108 4. Orlando Gomes. III. Instituições de Direito Civil . Diz-se que a Lei de Defesa do Consumidor (Lei n° 8. . em 18/0598 14. Ana Maria Zauhy Garms. Contratos. Ana Maria Zauhy Garms. 15 de abril de 1996. Bayard de Freitas Barcellos Juiz de Direito 7. p. 11 2. 8. p. Ana Maria Zauhy Garms. que ficam sujeitas ao bote do leão quando de suas aplicações".

em que se funda a ação ou a defesa. da prova. portanto. não dependem. transitado em julgado a sentença. a tem. O texto legal determina que as provas têm a finalidade de obter a verdade dos fatos. Os fatos aceitos. e por isso. sobre a limitação na necessidade social de que o processo tenha um termo. ao revés da prova puramente lógica e científica. a partir desse momento. com algumas variáveis.206 Inversão do ônus da prova no CDC e no CPC Autor: Ranieri Eich 1. . pois. sem que influência nenhuma exerça sobre o seu valor o elemento lógico de que se extraiu. a prova é. (2) O próprio Código de Processo Civil Brasileiro induz a essa conceituação à medida que coloca a prova como instrumento de obtenção da verdade dos fatos. Conforme os ensinamentos de CHIOVENDA.1 – Conceito de Prova O conceito tradicional de prova adotado. Nesse sentido. o direito não cogita mais da correspondência dos fatos apurados pelo juiz à realidade das coisas. ou. provar significa formar a convicção do juiz sobre a existência ou não de fatos relevantes no processo. a investigação dos fatos da causa preclude-se definitivamente e. a prova seria o instrumento pelo qual o juiz se utilizaria para definir a verdade dos fatos que efetivamente ensejaram a lide. Para COUTURE. ativa ou passivamente pelas partes. e a sentença permanece como afirmação da vontade do Estado. reconhecido como o meio de obtenção da verdade dos fatos no processo. Observe-se que esses fatos somente dependem do procedimento probatório na exata medida em que sejam tidos como controversos. Por si mesma. estão aptos a receber a avaliação judicial como suportes de sua decisão. Resta saber o que significa a palavra "verdade" sobretudo tendo em vista a finalidade e limitações do processo civil enquanto manifestação humana e cultural.NOÇÕES PRELIMINARES 1. por boa parte da doutrina jurídica. considerada em seu sentido processual. um meio de controle das proposições que os litigantes formulam em juízo (1). e sobre os quais concluirá sua atividade cognitiva. a prova em geral da verdade dos fatos não pode ter limites. pelo menos repetido. mas a prova no processo.

o princípio dispositivo. propostos pelos litigantes.2 – Princípios da Teoria da Prova Dentre os princípios que informam a Teoria da Prova. no ramo da ciência jurídica. se é possível formular um conceito que explicite o que realmente contém o conceito da prova. na sua apreciação do feito. Para além da definição legal que parte do pressuposto de ser possível o alcance da verdade fática no processo. podemos destacar dentre eles. . a qualquer momento. as provas já produzidas. OVÍDIO BAPTISTA DA SILVA ressalta que. caso entender necessário. um teste de coerência entre a formulação e o provável suporte fático da demanda.207 Exatamente. assim. é preciso verificar a priori se a verdade pode ser obtida pelo processo em si e mais. tendendo essa representação a equivalência limitada e não à perfeita identificação entre o objeto representado e o objeto representante. fatos que não foram alegados pelas partes. não se produziram com observância das regras legais (4). 1. necessariamente. Nesse sentido. 132. parágrafo único. nem formar sua convicção com os meios que. é preciso tentar sistematizar uma resignificação que efetivamente reconheça a complexidade do instituto. Sendo. observa-se que a prova não é apresentada como meio de obtenção da verdade (e veremos que não há como pensar diferente) e sim como instrumento de formação de um raciocínio jurídico dotado de força em decorrência de seu proferimento por uma autoridade judiciária. conceituamos essencialmente a prova como a tentativa de demonstração objetiva dos fatos controvertidos com a intenção de facultar ao juiz a formação de uma hipótese razoável que possa ser adotada como suporte fático para a formulação de uma decisão. Conforme o art. a veracidade de sua existência (3). nem sempre a prova de um fato demonstrará. A prova pode ser conceituada como o meio de representação dos fatos que geraram a lide no processo. o princípio da oralidade e o princípio da prova livre. A prova também pode ser conceituada como todos meio de confirmação ou não de uma hipótese ou de um juízo produzido no curso do processo.1 – Princípio dispositivo Para PONTES DE MIRANDA. para introduzir o problema. 130 e art. foi atribuído ao juiz determinar as provas necessárias à instrução do processo e ao mandar repetir. por isso. O princípio do ônus da prova será estudado posteriormente com maior ênfase. ambos do Código de Processo Civil. o juiz não pode levar em conta. 1.2. Em qualquer dos conceitos por nós antes apontados.

pondo termo aos abusos e rodeios do processo escrito. (5) No sistema brasileiro.2 – Princípio da oralidade Pela determinação do art.2. mas lhe basta firmar um juízo de probabilidade que permita afastar as dúvidas razoáveis. (6) 1. existindo legalidade e moralidade. Complementam esta disposição legal e o referido princípio. os incisos LVI (inadmissibilidade de provas obtidas por meios ilícitos).208 1. em que se funda a ação ou defesa. o meio tido como hábil para o encaminhamento da verdade real e processual. 336 do Código de Processo Civil. 332 do Código de Processo Civil. concentração. uma vez que essas situações seriam incompatíveis com a seriedade e segurança da justiça. dizendo que o processo oral influi inclusive na moral processual. permanecendo em momentos culminantes do processo como em quando da produção da prova oral. pelo uso de meios moralmente ilegítimos. da honra. reflete que a justiça rápida e barata só pode ser conseguida pelos princípios da oralidade. O que se vê na transição dos estados intelectuais do Juiz no processo é que ele parte de uma ignorância completa acerca dos fatos e à medida que o trâmite vai se desenvolvendo ele passa a forma juízos provisórios. o princípio da oralidade conduz à predominância da palavra. bem como os moralmente legítimos. Em vista disso. porém sem excluir a escrita. não permitindo a utilização da ilicitude. da imagem.2. O que se busca e dar celeridade ao processo e produzir. ainda que não especificados no Código. as provas necessárias na audiência de instrução e julgamento. imediatidade e autoridade judicial. X a XII (inviolabilidade da intimidade. principalmente por causa da disparidade entre as despesas do processo rápido e o proveito eventual oriundo da morosidade processual. prevê que todos os meios legais. e das comunicações telegráficas e telefônicas). Desses juízos provisórios será extraído o mais conforme com o que foi . 1. tratando da oralidade do processo civil austríaco. são hábeis para provar a verdade dos fatos. do domicílio. vimos que o Juiz não precisa formular uma certeza acerca dos fatos controvertidos.3 – Destinatário da prova e motivação Pois bem. quando necessário. da vida privada. da correspondência. as provas devem ser produzidas em audiência. SIEGMUND HEELMANN. salvo disposição em contrário.3 – Princípio da prova livre O disposto no art. E complementa.

assim. diante do que foi demonstrado pelas partes e pela própria ação instrutória autônoma do Juiz. expor o seu raciocínio. o juiz deverá julgar conforme a desincumbência de cada parte de seu ônus. o raciocínio judicial está sob avaliação conforme o exposto na sua motivação. Em todo o caso. inclusive. econômico. A motivação permite aos indivíduos avaliar o conteúdo moral. Determinar o ônus probatório a cada uma das partes assegura ao juiz um modo de decidir quando enfrentando uma dúvida consistente. caberá a ele motivar racionalmente a sua decisão. É evidente que. Isto é. mas. que aponte a coerência de suas conclusões com os dados que foram obtidos no processo.209 produzido em termos probatórios. de o juiz não ter condições objetivas de formular sequer uma hipótese que considere razoavelmente provável. Pode ocorrer. determinar porque selecionou racionalmente sua hipótese como a mais provável. que. ético. A motivação atende a necessidade das partes de entenderem os motivos pelos quais o Juiz foi levado a concluir desta ou daquela maneira. É de se observar que a exigência de motivação é outro dos conceitos cujo reducionismo tem levado a um grave efeito social. e nesse caso surge a importância da atribuição do ônus da prova. isto é. caberá a este formar uma decisão que adote a hipótese mais provável como suporte fático. em última instância deve seguir um procedimento de coerência racional. e principalmente. A atribuição do ônus da prova se constitui como instrumento de exteriorização de dois valores: o de facilitar a atividade jurisdicional e o da eqüidade. Isso porque a motivação da decisão expõe o raciocínio judicial à validação social. em dúvida. mas também. após a instrução probatória. da decisão e formar o refluxo no senso comum do que é e o que não é justo. em se tratando de sistema processual regido pelo princípio do convencimento racional do juiz. um meio de permitir o Juiz o cumprimento de seu dever legal de decidir a lide. impõe-se ao juiz não somente que exponha suas razões para julgar do modo como julgou. Com isto. Sem essa argumentação não se pode ter como cumprida a exigência constitucional e legal de motivação. É a partir da motivação que se pode avaliar em termos extrajurídicos se a sociedade concorda com o conteúdo axiológico da decisão. Como estamos no campo das probabilidades. isto é. entre outros aspectos. sempre. . isto é. É. se posta como efetivo meio de controle jurisdicional e social. o juiz deverá motivar sua escolha.

peso. no que tange aos fatos alegados (7). Uma vez que todos têm de provar não há discriminação subjetiva do ônus da prova. tema que passamos a melhor analisar no item seguinte. ainda que seja em sociedade. Pode dizer-se que o direito subjetivo é um interesse protegido mediante um poder de vontade ou um poder da vontade concedido para a tutela de um interesse.5 – Distinção entre Ônus e Obrigação É imprescindível a distinção entre ônus e obrigação. ARRUDA ALVIM coloca outra distinção importante entre o ônus e obrigação. um vínculo de vontade imposto pela subordinação de um interesse". mas aos efeitos que a passividade e a inércia resultarão. não subjetivo. inclusive quanto a negações. Já o ônus é uma faculdade que a parte tem. o que não ocorre no que tange ao ônus". Em regra a obrigação está ligada ao direito material. ao passo que (b) o ônus é em relação a si mesmo. "obrigação é o lado passivo a que corresponde do lado ativo um direito subjetivo. É a obrigação um interesse subordinado mediante um vínculo. não há relação entre sujeitos. Ao decidir. ser convertida em pecúnia. um dos quais é o que deve. objetiva. (8) Com precisão CARNELUTTI estabeleceu a distinção entre ônus e direito de provar. há relação entre dois sujeitos. a satisfação é do interesse do sujeito ativo. O ônus da prova. Obtém-se a noção de obrigação invertendo simplesmente a de direito subjetivo. satisfazer é do interesse do próprio onerado". 1. onde. coerente e justificável de raciocínio que adentra ao campo da argumentação jurídica. "a diferença entre dever e ônus está em que (a) o dever é em relação a alguém. no aspecto de necessidade de provar. ou em outros termos. que "é a circunstância de esta última ter um valor e poder. E complementa "o ônus da prova é objetivo. não sujeitando-se à coerção. (9) Para PONTES DE MIRANDA. todos os figurantes hão de prova. sujeitos da relação jurídica processual.210 Isso significa que a motivação judicial mais que tudo exige uma forma ordenada. assim. Ônus probandi tem como tradução o encargo de provar. certo que a omissão do devedor poderá resultar na sua coerção para que cumpra a obrigação.4 – Ônus da Prova: Etimologia da Palavra Ônus deriva do latim ônus. Como partes. Leia-se encargo no sentido de interesse de fornecer a prova destinada à formação da convicção do magistrado. 1. assim. para ele. onde requer uma conduta de adimplemento ou cumprimento. valorar a prova. e. o juiz constrói um raciocínio que deve se apresentar correto sob o ponto de vista dos meios de avaliação do pensamento jurídico. significando carga. regula conseqüência de se não haver .

isto. ou. seja o outro interessado. sem sujeição nem coerção e sem que exista outro sujeito que tenha o direito de exigir seu cumprimento. Em verdade. da exceção. o de determinar a quem vão as conseqüências de se não provado. Se falta a prova é que se tem de pensar em determinar a quem se carrega a prova. o autor). mas cuja inobservância acarreta conseqüências desfavoráveis. no caso concreto. para seu convencimento.6 – Inversão do ônus da prova O ônus da prova. sem excluir o fato provado pelo autor. portanto. b) ou o réu. independentemente de quem vai produzi-lo. somente como já foi dito. necessidade de esclarecimento para decidir a demanda. ou a quem contraafirmou (= negou ou afirmou algo que exclui a validade ou eficácia do ato jurídico afirmado). a prova da exceção". A questão do ônus da prova reduz-se. ao que afirmou a existência do fato jurídico (e foi. 1. De modo mais simples. Mas. O problema da carga ou ônus da prova é. algum fato ou prova que foi apresentado pelo autor ou pelo réu. De acordo com esse sistema. para benefício e interesse próprios. sempre se levando em consideração as possibilidades que as partes possuem para produzir tais provas. a seu turno.. as regras sobre conseqüência da falta dd prova exaurem a teoria do ônus da prova.078/90. a provar fatos que provam a inexistência do fato provado pelo autor. a sua prova. a favor do demandante adverso. de seu lado. tem o réu de diligenciar. na demanda. cada parte tem a faculdade de produzir prova favorável às suas alegações. pode ocorrer em dois propósitos: a) ou o réu tende. Em sede de responsabilidade civil. (12) O princípio distributivo atinente ao ônus da prova tem base legal no Código de Processo Civil. o denominado ônus da afirmação. incumbe ao Autor a prova da ação e ao réu. Já GIUSEPPE CHIOVENDA ensina que "(. o réu" (10). no dizer de ECHANDIA é o poder ou faculdade de executar livremente certos atos ou adotar certa conduta prevista na norma. na demanda. ficando o tema restrito à seara da prova negativa quanto ao fato constitutivo. atual Código de Defesa do .) somente quando o autor trouxe provas idôneas para demonstrar a existência do fato constitutivo de seu direito. Conclui-se que a inversão do ônus da prova deve ser deferido pelo juiz sempre que houver. afirma e prova a inexistência do fato que lhe elide os efeitos jurídicos.211 produzido prova. e aí temos a verdadeira prova do réu. de modo direto ou indireto (e dizem-se motivos) e temos daí a simples prova contrária ou contraprova.. portanto. a estabelecer quais os fatos considerados existentes pelo juiz devem bastar para induzi-lo a acolher a demanda (constitutivos)" (11). a Lei 8. Resulta óbvio que nenhuma das partes será obrigada a (ou terá interesse em) fazer prova contrária às suas alegações.

essa modificação. utilizar-se-á das regras de experiência a favor do consumidor. há o despacho saneador. logo depois da contestação à ação. no despacho saneador – escreve Pedro Batista Martins – para evitar o cerceamento da defesa daquele a quem os mesmos fatos se opõem. Será neste despacho. IV). nos artigos 117 e 294. se o fato afirmado é destituído de um mínimo de racionalidade. uma vez considere algum ou alguns fatos provados prima facie. art. sempre atento. art. no qual o juiz. determinar as diligências necessárias à instrução do processo. 112)". por então já ter conhecimento dos fatos alegados na inicial e na defesa. ANTONIO GIDI a respeito adverte que verossímel a alegação sempre tem que ser. (1968. o momento próprio para decretar a inversão do ônus probatório. de ofício. a simples condição de hipossuficiência não autoriza. É dispensável caso forme sua convicção. cit. tendo-os dada a sua natureza. os quais autorizam o juiz. A hipossuficiência do consumidor. por si só.1 – Momento processual da inversão do ônus da prova O doutrinador Moacyr Amaral Santos assinala qual o momento processual que considera o mais adequado para a aplicação da inversão do ônus da prova. ordena o processo. Conhecidos os fatos alegados e havendo-os como verossímeis. saneando o processo. A respeito. 515 e 516)". (14) A inversão do ônus da prova é direito de facilitação da defesa e não pode ser determinada senão após o oferecimento e valoração da prova. devendo atentar-se que o doutrinador refere-se ao velho Código de 1939. convém ressaltar que. uma vez em dúvida. ´anulando-lhe pela surpresa a possibilidade de produção de prova contrária’. 294. determinando providências de natureza probatória (Código Processo Civil." O emérito doutrinador complementa: "Tal deliberação se escora não só nos princípios que governam a prova prima facie como também nos que regem o sistema processual brasileiro. pois a total ausência de evidências do indispensável nexo de causalidade redundaria em esdrúxulas situações. de per se não respaldaria uma atitude tão drástica como a inversão do ônus da prova. de maneira a prosseguir isento de vícios ou de questões que possam obstar ao conhecimento do mérito da causa. à regra que lhe impõe não sacrificar a defesa dos interessados (Cód. contém dispositivo que permite a inversão do ônus da prova. págs.6. cumpre ao juiz. do Código de Processo Civil. todavia. ao contrário da opinião de alguns doutrinadores. nada impedindo que o juiz alerte. (13) 1. se e quanto o julgador estiver em dúvida. por provados prima facie.212 Consumidor (artigo 6º. decretar a inversão do ônus probatório. conforme segue: "Na sistemática do Código. Cada parte deverá nortear sua atividade . na decisão saneadora que. vale dizer. desde que verificadas a verossimilhança do direito e a condição de hipossuficiência do demandante.VIII).

(17) A jurisprudência vem entendendo que o momento da inversão do ônus da prova deve ser antes de prolatada a sentença.Inteligência do artigo 6º. assegurada a qualquer custo. 5º. Logicamente. a inversão no momento do julgamento. por força da inversão determinada na sentença. (18) Também em julgamento da Quarta Câmara Cível do Tribunal de Alçada de Minas Gerais.213 probatória de acordo com o interesse em oferecer as provas que embasam seu direito. (16) A posição de LUIZ EDUARDO BOAVENTURA PACÍFICO. a inversão do ônus da prova igualmente pode ser prevista. art. este pode merecer incidência. prolatada no Acórdão n. A partir do conteúdo da petição inicial – com a exposição de causa de pedir e do pedido – às partes envolvidas no processo é perfeitamente possível avaliar se há a possibilidade de aplicação das normas do Código do Consumidor ao caso concreto.º 0301800-0 Apelação Cível de 01/03/2000. protagonizada por consumidor e fornecedor. do Código de Defesa do Consumidor. Se não agir assim. caso efetivada". também. regras de comportamento dirigidas aos litigantes. Contudo. Se lhe foi transferido um ônus – que. explicitar quais serão objeto de inversão. ao avaliar a necessidade de provas e deferir a produção daquelas que entenda pertinentes.078/90). Por isso. atentaria contra os princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa (CF. não implicando surpresa ou afronta aos citados princípios. conforme jurisprudência a seguir: INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . (15) CARLOS ROBERTO BARBOSA MOREIRA argumenta que as normas sobre a repartição do ônus probatório consubstanciam. citando inclusive KAZUO WATANABE é de que "a garantia do devido processo legal deve ser. com um provimento desfavorável decorrente da inexistência ou da insuficiência da prova que. decidiram por unanimidade.RELAÇÃO DE CONSUMO OPORTUNIDADE . LV). VIII. sem dúvida. conforme segue: INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . parece mais justa e condizente com as garantias do devido processo legal a orientação segundo a qual o juiz deva.RESPEITO AOS PRINCÍPIOS DO CONTRADITÓRIO E DA . expressamente conceituados pelo Código (artigos 2º e 3º da Lei 8. Se a pretensão estiver fundada em relação de consumo. ao final. mudando a regra até então vigente. não nos parece constituir ofensa aos cânones constitucionais a inversão no momento da decisão. assumirá o risco de sofrer a desvantagem de sua própria inércia. não existia antes da adoção da medida -. tendo como relator o Juiz Alvimar de Ávila. com a incidência das regras de experiência a favor do consumidor. Considerando que as partes não podem ser surpreendidas. estaria a seu cargo. para ele. obviamente deve o órgão jurisdicional assegurarlhe a efetiva oportunidade de dele se desimcumbir.

que tratam do ônus financeiro da produção dos atos processuais. após especificação das provas. . podendo. no momento do saneador. de preferência. resta impossibilitado examinarse em grau de recurso matéria sobre a qual não houve manifestação da primeira instância. Conforme ensinam doutrina e jurisprudência. levando-se em conta a doutrina e a jurisprudência. e não das normas do art. como exceção à regra geral do art. Desta forma. pois. A inversão do ônus da prova. suportar as despesas dos atos que realizem ou requerem dentro do processo. 333 do Código de Processo Civil. cujo descumprimento implicará em não ser realizado o ato requerido.078/90. o que incorreria em cerceio de defesa. antecipando os pagamentos durante o curso processual. podendo advir daí possíveis conseqüências desagradáveis para quem o requereu e não adiantou as despesas. na audiência de conciliação ou em qualquer momento que se fizer necessária. constituem exceção ao art. em regra. sob pena de supressão desta. A aplicação do art. sob pena de não poder ser adotada na sentença. do CPC. determinadas de ofício pelo juiz ou requeridas por ambas as partes? Nestas hipóteses.2 – Inversão do ônus da prova e despesas processuais Conforme imposição legal do art. pois a sua finalidade é formar a convicção do julgador. Recurso a que se nega provimento.214 AMPLA DEFESA . depende de decisão fundamentada do magistrado antes do término da instrução processual. não há qualquer exceção às regras gerais estabelecidas no Código de Processo Civil. desde que assegurados os princípios do contraditório e ampla defesa. a quem cabe o ônus de antecipação de despesas nos casos de atos probatórios requeridos pelo consumidor. 19 do Código de Processo Civil (19).º 8. Surge daí a questão: invertido o ônus da prova nas lides de consumo. o magistrado escolherá a o momento para determinar a inversão do ônus da prova. 19 e seguintes. é que sua aplicação deve submeter-se ao poder discricionário do juiz. devendo ser decidida.MATÉRIA VENTILADA NAS RAZÕES RECURSAIS IMPOSSIBILIDADE DE CONHECIMENTO PELO TRIBUNAL. que trata do ônus subjetivo da prova. pelo simples fato de não se poder identificar o ônus de provar com o ônus financeiro de realização dos atos probatórios. VIII.6. As normas consumeristas. 333. 1. 6º. cabe às partes. todavia. Podemos classificar essa imposição legal como um verdadeiro ônus processual. ser decretada no despacho inicial. da Lei n.

à parte incumbe o ônus da prova a respeito da ilicitude do ato. também como fatos constitutivos do direito reclamado.CPC) ou com as despesas de perícia requerida por si ou por ambos os litigantes (art. que o Estado tem presunção de legitimidade. provar o que alegou. cabendo a quem alegar contra o Estado. A jurisprudência vem entendendo.3 – Responsabilidade do Estado e o ônus da prova Quanto ao ônus probatório. ao Autor. se for o autor da demanda. além do nexo de causalidade e do dano verificado. nesse caso. (20) Também não se pode modificar o regime de apuração quando se discuta a responsabilidade do Estado com base em relação protegida pelo Código de Defesa do Consumidor. seja porque a natureza do ato não guarde equivalência com o risco da atividade pública. Em se tratando de atos administrativos a respeito dos quais o reconhecimento da indenizabilidade tenha como pressuposto a culpa indireta da Administração. na sua grande maioria. como nos casos de conduta omissiva e de atos praticados sem caráter administrativo. Incumbe ainda ao demandante provar o dano e sua extensão. como antes demonstrado. É que a culpa. a teoria do risco administrativo não submete o Estado a nenhum tipo de inversão apenas porque a vítima é dispensada da prova de culpa da Administração Pública. seja na hipótese de culpa. porque. 33 CPC). seja na de risco. 19. §2o. cabe ao consumidor arcar com os ônus financeiros de atos probatórios por ele requeridos.215 Assim. a regra de inversão do ônus da prova a favor do consumidor não implica na revogação do sistema probatório do Código de Processo Civil. devendo arcar ainda.6. sendo de todo irrelevante qualquer exigência de prova a respeito. especialmente o nexo de causalidade entre a atuação estatal e o resultado apontado. não se revela como pressuposto do reconhecimento da responsabilidade do Estado. Mas há julgado em sentido diferente como o que abaixo descreve-se: . dispõe o mesmo da possibilidade de requerer a assistência judiciária prevista em nosso ordenamento pela já mencionada Lei 1. 1. Caso seja o consumidor economicamente hipossuficiente.060/50. seja porque esse tenha sido o móvel da demanda. Resta todavia. muito menos das regras atinentes ao Estado em juízo. com as despesas prévias de atos ordenados de ofício pelo juiz ou pelo Ministério Público (art. o ônus da prova quanto ao fato constitutivo de seu direito. bem como a anormalidade e especificidade da exigência pessoal decorrente da imposição administrativa. garantidoras do interesse público.

do Código de Processo Civil.PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL . o pedido formulado pelo autor".Unânime . Parágrafo único. no todo ou em parte.) Como fato extintivo temos a alegação de prescrição do direito . inverteu-se..09. (. expondo-se conseqüentemente à nulidade. . seja produzida e os embargos decididos como de direito.INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA NO PROCESSO CIVIL O núcleo da regulamentação do ônus da prova está inserido no art. 459. II – tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito.216 TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL . modificativo ou extintivo do direito do autor. Juiz Jamil Rosa de Jesus .A sentença. temos a prova da culpa nas ações de ressarcimento dos danos contratuais e extracontratuais. nos termos do art. II – ao réu. por exemplo. desprezou o fundamento do pedido de nulidade da execução. 29)(Grifo nosso) 2. (TRF 1ª R.1999. IV . 1ª parte. Precedentes deste Tribunal: ausência de notificação alegada pela embargante e não desmentida pela Fazenda. a fim de que a prova da notificação. 333 do Código de Processo Civil.afastamento da presunção juris tantum de certeza e liquidez do título executório'' (Apelação Cível 96. nesse ponto. quanto à existência de fato impeditivo. ficando a Fazenda Nacional com o encargo da prova de ter realizado a notificação.3ª T. através da prova .ALEGAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DE NOTIFICAÇÃO DO CONTRIBUINTE POR OCASIÃO DA LAVRATURA DO AUTO DE INFRAÇÃO INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . II . .NULIDADE DA SENTENÇA .01.15745-0 /AP. A distribuição do ônus da prova é casuística.11165-2 .I . III . 333 – O ônus da prova incumbe: I – ao autor.01.. Como fato constitutivo da pretensão do autor.DJU 17. acolhendo ou rejeitando.AC 95.PA . positiva ou negativamente. Relatora Juíza Eliana Calmon). É nula a convenção que distribui de maneira diversa o ônus da prova quando: I – recair sobre direito indisponível da parte.Rel. o ônus da prova.Apelação provida. ao julgar improcedentes os embargos sem a produção dessa prova. quanto ao fato constitutivo de seu direito.Tendo os embargos se fundamentado na inexistência de notificação do contribuinte por ocasião da lavratura do auto de infração. pois "o juiz proferirá a sentença. estando sempre em estreita correlação com o que se alega. como segue: Art.Anulação do processo. p.

de prova complementar. (22) Para SÉRGIO SAHIONE FADEL.. c) ou. outro lhe opõem.) Desse modo. A segunda opção implica: a) o adiamento do problema através da prolação de uma decisão provisória (no estado do processo). o juiz mesmo tendo diante de si duas partes. se forem os atos constitutivos produzidos com prova insuficiente. Onde se tivesse um processo puramente inquisitivo. não teria significação a repartição do ônus da prova. está desvinculado. distinção de figuras afins. se ele mesmo alega e o réu não contesta. Num sistema que admitisse a pesquisa de ofício da veracidade dos fatos. simplesmente por que ao juiz incumbiria a busca da verdade dos fatos e a cooperação das partes seria pelo menos dispensável e sequer haveria como sanciona-las pela omissão de provar. sua conceituação. servindo para esclarecer muitos pontos de dúvida e ditar o correto direcionamento e justa medida das conseqüências dos possíveis comportamentos comissivos ou omissivos das partes". e. da iniciativa e dos acordos entre elas (25). ou em decidi-la de maneira tal que não exigisse a resolução daquela questão de fato (de que seriam exemplos o julgamento por sorteio e o julgamento salomônico). o fato se presume verídico. modificativo ou extintivo do direito do autor. desde que especificamente contestados. e prova.217 do autor. b) ou insiste em resolve-la. inserção no sistema do processo. dependerão. nem das conseqüências de seu descumprimento. impeditivo. abre-se tecnicamente para o juiz o seguinte leque de alternativas: a) ou ele prescinde de resolver aquela questão de fato. (23) As regras sobre o ônus da prova e sua distribuição constituem uma inerência do princípio dispositivo. o emprego das regras da distribuição do ônus da prova. (24) No processo civil inquisitório. se o autor alega. o ônus da prova é do autor. passível de discussão e de dúvidas. se o autor alegar o fato e o réu contestar. (21) CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO nos ensina que "a teoria dos ônus processuais. não se cogitaria em ônus probandi. constitui uma das mais lúcidas e preciosas contribuições que se aportaram à sua ciência no século XX. (26) A intensidade do ônus da prova é problema relacionado com o modo como o .. A primeira opção importaria ao juiz de decidir a causa. b) ou o uso de um meio mecânico de prova. pronunciando o non liquet (que não é admissível no direito moderno). necessariamente decisório (como o duelo e o juramento). (. o réu admite. para a busca da verdade. que conseqüentemente deve ser provada pelo réu. de sua certeza definitiva. Quando uma questão de fato se apresenta como irredutivelmente incerta dentro do processo. admitindo o fato. enfim. ou não o provando. o ônus probatório é do réu.

sendo importante apenas verificar se os fatos relevantes foram cumpridamente provados (princípio da aquisição). a racionalidade dos critérios de julgamentos pela aceitação da probabilidade suficiente em vez da certeza absoluta nem se coloca em termos da tensão entre os princípios que apontam para soluções diferentes. não pode ser aceito. por exemplo. o juiz pode determinar a produção da prova (art. Quanto segunda absurda conseqüência. prova do não-uso. da servidão. 946). basta lembrar que o Código Civil exige. segundo o disposto no art. quem afirma um fato positivo tem de o provar. pois seria tolhida ao juiz a liberdade na avaliação da prova. é possível fazer prova dos chamados fatos negativos. em que se encontra cada uma das partes. III). ver-se-á que não é impossível. vale dizer. que afirma que "Não é exato afirmar que a negativa não é prova. 710. 130 do CPC) ainda que as partes tenham pactuado de maneira diversa". torna-se irrelevante indagar quem a produziu. O ônus da prova consiste na necessidade de provar.218 processo se insere na vida dos direitos e no modo de ser da vida em sociedade. prova de inexistência da dívida para a repetição de indébito (art. 159). por 10 anos. para que se considere extinto esse direito real (art. seja para a fidelidade na declaração e atuação da lei. ao réu. o ônus da prova incumbe ao autor. (27) Quanto à distribuição do ônus da prova se admitir que as partes convencionem. 333 do Código de Processo Civil. "O princípio dos poderes instrutórios do juiz prevalece obre a faculdade dispositiva dos contratantes. porque há duas negativas na primeira proposição". Para SANDRA APARECIDA SÁ DOS SANTOS. Assim. que o ônus da prova é sempre de quem afirma. prova de omissão culposa para a indenização por ato ilícito (art. uma vez produzida a prova. O princípio da liberação do ônus da prova levaria (a) ou a uma direta oposição a textos legais ou (b) à conseqüência absurda de um julgamento sem prova". vale dizer. com preferência a quem afirma um fato negativo. Note-se: não é impossível equivale à é possível. E continua: "Quanto à primeira conclusão. é importante ressaltar os ensinamentos de JONATAS MILHOMENS. O fato . quanto à existência de fato impeditivo. Seja para a pacificação dos conflitos com justiça.1 – Da prova negativa Para analisarmos este aspecto. é preciso dispor a técnica processual (em sede legislativa ou na prática da jurisdição) de modo a não figurar como impedimento à fruição ou defesa de direitos. (28) 2. Objetivamente. para possivelmente vencer a causa. O ônus da prova recai sobre aquele a quem aproveita o reconhecimento do ato. quanto ao fato constitutivo do seu direito. (29) Na colisão de um fato negativo e de um fato positivo. contudo. Aqui. modificativo ou extintivo do direito do autor.

VIII. constante e seu art. inc. O emprego da conjunção alternativa e não da aditiva ‘e’. tal se compreende fora da atividade própria do juiz. A facilitação de defesa não pode ser entendida como interpretação das regras . ou seja. (31) DOS SANTOS "a norma estabelecida no necessária a presença de apenas um dos o legislador. (32) A igualdade formal entre as partes é regra básica do processo civil. indicará a ocorrência de um dentre essas duas situações: a) a alegação do consumidor é verossímil. É princípio basilar não é permitido ao intérprete ampliar".). quando. Esse mesmo posicionamento é corroborado por CARLOS ROBERTO BARBOSA MOREIRA. é necessária a presença de um dos requisitos ali encontrados e não a presença de ambos. Fica clara e evidente a regra processual. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. Para SANDRA APARECIDA SÁ inciso III do art. fixar o objeto da demanda." (30) 3. conjunção aditiva ‘e’. inclusive com a inversão do ônus da prova.. JOÃO BATISTA LOPES afirma que "a admissão do princípio dispositivo não significa. 6º é clara. é requisitos. segundo as regras ordinárias de experiência. porém. que afirma que "o ato judicial. a seu favor. Constatando-se a presença de verossimilhança das alegações ou a hipossuficiência do consumidor. porque.. que as partes possam orientar o processo a seu talante. se assim não o fosse. ou b) o consumidor é hipossuficiente. significa que o juiz não haverá de exigir a configuração simultânea de ambas as situações. não sendo este obrigado. a critério do juiz. o juiz deverá inverter o ônus da prova. no processo civil. Dono do processo (dominus processi) é o juiz e. 6º . bastando que ocorra a primeira ou a segunda". aceitar a convenção das partes.São direitos básicos do consumidor: (. na formação das bases da sentença. Art.) VIII – a facilitação da defesa de seus direitos. etc. devidamente motivado. teria utilizado a do direito que onde o legislador restringe. 6º.219 negativo pode ser provado através de provas indiretas. à evidência. Para tanto. O ÔNUS DA PROVA E O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR O Código de Proteção e Defesa do Consumidor tem norma expressa a respeito da inversão do ônus da prova. se às partes se conferem certos poderes de disposição (indicar os meios de prova.

é o da sentença. nestas incluídas as relativas às perícias e à obtenção de certidões. entendo que tal preceito "transferiu" a obrigação do Estado de assistir aos necessitados para as empresas. tem sentido de desconhecimento técnico e informativo do produto e do serviço. estabelece: "Salvo disposições concernentes à justiça gratuita cabe às partes prover as despesas dos atos que realizam ou requerem no processo. Importante frisar que o simples fato da inversão não tem o condão de pré-julgamento de mérito desfavorável ao demandado. no tocante à inversão do ônus da prova em função de hipossuficiência do consumidor. defendido pelos autores do anteprojeto do Código de Brasileiro de Defesa ao Consumidor. antecipando-lhe o pagamento. Não pode haver "facilitação" por interpretação. despesas processuais. somente de um ônus processual. alega-se que esta não poderia servir de base para a alegação de inversão do ônus da prova. é outra norma de natureza processual civil com o fito de. em seu artigo 19. Contra . No entender de ARRUDA ALVIM. pois este princípio é de direito "material". juntamente com o jurista CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO. pois a parte poderia pedir assistência judiciária gratuita. a critério do juiz. reside na circunstância do consumidor ser hipossuficiente. cuida-se. com isenção de custas. dos modos especiais de controle. uma vez que o diploma afeto ao consumidor é composto de normas de ordem pública.220 processuais em favor do consumidor. O Código de Processo Civil. fundamentando para tal que os dispositivos sobre o ônus da prova constituem regras de julgamento. em virtude do reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor. (36) A inversão do ônus da prova poderá ser requerida pela parte. etc (34). O momento da inversão do ônus da prova. de suas propriedades. para fins da possibilidade da inversão do ônus da prova. dos aspectos que podem ter gerado o acidente de consumo e o dano. O hipossuficiente tem dificuldade ou impossibilidade na produção da prova. aquela só pode decorrer de expressa previsão legal. (35) Quanto à insuficiência econômica. desde o início até a sentença final". Para LUIZ ANTONIO RIZZATTO NUNES ensina que a hipossuficiência. procurar equilibrar a posição das partes. no que pode ser atendida ou determinada ex officio pelo juiz. ao contrário. Para FRANCISCO CAVALCANTI. (33) Quanto à segunda hipótese onde é possível a inversão do ônus da prova. seja porque não é acessível à parte ou estas informações estão em mãos da outra parte. de seu funcionamento vital ou intrínseco. Entenda-se por hipossuficiência os aspectos que abrangem o aspecto técnico e o aspecto econômico. afastaria a hipossuficiência econômica como autorizadora da inversão do ônus da prova. das características do vício. o que de certa forma. atendendo critérios da existência da verossimilhança do alegado pelo consumidor.

Não é necessário para tanto que ambas atuem juntas. declara. de maneira absoluta. É forçoso reconhecer que alguns sistemas jurídicos não admitem essa inversão do ônus da prova. necessariamente. O consumidor não está obrigado a comprovar antecipadamente o seu direito. são necessários os requisitos normativos da verossimilhança das alegações feitas pelo consumidor e a sua hipossuficiência. deve ter um tratamento diferenciado. isto é. em respeito às características estabelecidas pela lei. deverá ele proceder no sentido de . Nos ensina FRANCISCO CAVALCANTI que a igualdade formal entre as partes é regra básica do processo civil. do qual se consegue formar opinião de ser provavelmente verdadeira a versão do consumidor. aquela só pode decorrer de expressa previsão legal. os princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa. pois este princípio é de direito material.1 – Aplicação do art. entre outros. cada rito. 3. planilhas. a finalidade do instituto do ônus da prova é de facilitar a defesa dos direitos do consumidor. usam-se dois motivos para caracterizar o equívoco: a) ofende.221 este entendimento. a seu favor. cálculos..) VIII – a facilitação da defesa de seus direitos. sendo necessário a presença de pelo menos uma delas. 6º: São direitos básicos do consumidor: (. o art. tem obrigação de manter em seu poder todos os dados. sobretudo quando se tratar de hipossuficiente. a critério do juiz. Para HUMBERTO THEODORO JUNIOR a verossimilhança é juízo de probabilidade extraída de material probatório de feitio indiciário. acerca de seus produtos e serviços. E complementa: o fornecedor. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. A facilitação de defesa não pode ser entendida como interpretação das regras processuais a favor do consumidor. inclusive com a inversão do ônus da prova. etc. (37) Para tanto. qual seria um direito básico do consumidor: Art. segundo as regras ordinárias de experiências. Não pode haver facilitação por interpretação. 6º do Código de Defesa do Consumidor em seu inciso VIII. quando.. (38) Parecendo ao Magistrado presentes os requisitos constantes do inciso VIII do art. 6º do Código de Defesa do Consumidor. no processo civil. sendo bem mais fácil a comprovação de fatos referentes a esses bens e serviços pelo fornecedor que pelo consumidor. informações. por força de obrigações impostas pelas normas protetoras do consumidor. b) as regras. 6º. de distribuição do ônus da prova são de procedimento. Tudo dependerá do procedimento adotado. fórmulas. Assim. VIII do Código de Defesa do Consumidor Como já vimos.

entretanto. CDC.2ª C. 2. 939 e seguintes do Código Civil. Apenas alegações desprovidas de qualquer prova não são o suficiente para que seja concedido a inversão do ônus da prova em favor do consumidor. 3. mantendo-se íntegra a r.03. Sidney Mora . 38: O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou . e licita a inversão do ônus da prova. com o seu improvimento. 1. estão submetidos as disposições do código de defesa do consumidor. bem como a verossímilhanca de suas alegações. para que possa ser invertido o ônus da prova a seu favor. 38 do Código de Proteção e Defesa do Consumidor trata da inversão do ônus da prova frente à publicidade enganosa. Seu silêncio remeterá à preclusão a matéria impedindo novo pronunciamento. CONTRATO DE ABERTURA DE CRÉDITO . que a aplicação da inversão do ônus da prova no despacho saneador poderá ser objeto de agravo de instrumento por parte do fornecedor. PROVA DO PAGAMENTO INEXISTENTE.Julg. AUSÊNCIA DE VEROSIMILHANÇA NA VERSÃO AUTORAL. inaplica-se a inversão do ônus da prova em favor do consumidor. 3.INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . A prova do pagamento se faz consoante previsto nos arts. assim evidênciada a hipossuficiência do agravado em virtude do poderio técnico-econômico do banco agravante. Recurso conhecido. sentença recorrida.Cível . para que se proceda no contexto da facilitação da defesa dos direitos do consumidor e subordinado ao critério de prudente arbitrio do juiz. inadmindo-se unicamente a mera assertiva verbal.08.2 – Aplicação do art. Improvimento do Agravo de Instrumento (TJPR . Os estabelecimentos bancários como prestadores de serviços.AÇÃO REVISIONAL DE CONTRTO BANCÁRIO. Des. incrível e desprovida de qualquer prova a lhe dar algum suporte.2ª T . conforme segue: Art.2002)(Grifo nosso).2002)(Grifo nosso).222 inverter o ônus da prova ao fornecedor. Embora incidentes as regras do CDC. 13. 38 do Código de Defesa do Consumidor O art. Neste sentido o aresto que segue: CIVIL. Benito Augusto Tiezzi DJU 14.AC Nº 20020710013023 .AC 18947500 .Rel.Rel. o que justifica a improcedência da postulação inicial.(TJDF . SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA MANTIDA. por força do contido na Súmula 424 do STF (39) e a jurisprudência a seguir: AGRAVO DE INSTRUMENTO.Des. É importante e imprescindível que o Autor prove através de fatos e alegações subsistentes o seu direito. É importante observar. quando sua versão é por demais insubsistente.PRESSUPOSTOS PRESENTES . REPETIÇÃO DE INDÉBITO.AGRAVO DESPROVIDO.

38 do CDC difere daquela ínsita no art. caberá ao fornecedor a obrigação de comprovar que a informação publicitária de seu produto chegou ao consumidor. (40) Participa da mesma opinião FRANCISCO CAVALCANTI que afirma que a previsão resulta. onde a facilitação da defesa do direito do consumidor com a inversão do ônus da prova depende do exclusivo critério do magistrado que. como no caso da propaganda enganosa. 333) quanto ao ônus da prova. por norma legal cogente. OFERTA EM ANÚNCIO DE JORNAL INTEGRA AS CONDIÇÕES DO CONTRATO. 38. Nesse mister. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. na prática. segundo as regras de experiência.078/90. 6º. dados. atende pela teoria do risco onde deverá responder por ato ilícito independentemente da apuração de culpa. Como nos ensina STEPHAN KLAUS RADLOFF o ônus da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a quem as patrocina. REVELIA. aquele. FORNECEDOR QUE APENAS ALEGA. deve-se levar em conta que a forma de aplicação do art. antes de tudo. pelo fato de ser.223 comunicação publicitária cabe a quem as patrocina. . deverá verificar a verossimilhança das alegações e/ou a hipossuficiência do mesmo.m está o fornecedor obrigado a provar a obrigação contida no art.º 8. know-know. 1. No aspecto processual propriamente dito. sem qualquer vício de origem ou distorção nas características apresentadas. na hipótese contemplada no art. (42) Esse mesmo raciocínio utiliza-se STEPHAN KLAUS RADLOFF que nos ensina que seria desnecessária a declaração taxativa no despacho saneador de que caberá ao fornecedor o ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária. 38 da Lei n. em inversão do princípio previsto no Código de Processo Civil (art. PROCEDÊNCIA DO PEDIDO INICIAL. a inversão do ônus da prova opera-se automaticamente. 6º do CDC. (43) o julgado do Tribunal de Justiça do Paraná abaixo transcrito: CIVIL PROCESSO CIVIL. e justifica-se como meio para alcançar a verdade real. tem intenção de auferir lucro. pois havendo estabelecimento da lide processual. referentes ao produto e serviço objeto da comunicação ou da informação publicitária o mais habilitado para comprovar. (41) O fornecedor de serviços. O Tribunal de Justiça de São Paulo tem julgado no sentido de que ao contrário do previsto no inciso VII do art. DEFEITO DE REPRESENTAÇÃO NÃO SANADO. detentor de fórmulas. do mesmo pergaminho legal. CDC. SEM NADA COMPROVAR. antecipadamente e independentemente de qualquer pronunciamento jurisdicional interlocutório ou definitivo. VEROSSIMILHANÇA DAS ALEGAÇÕES. sem que haja necessidade de uma fase pré-cognitiva de critério subjetivo por parte do juiz. Portanto. podendo para tanto distribuir tal responsabilidade.

1º a 443 7ª Edição. 1996. Sendo nula. I. DINAMARCO. 51. no grau recursal.Rel.DJU 06. 51. empresa fornecedora de produtos e serviços.09. 2. tratar-se-á em hipótese de cláusula absolutamente nula. onde prevê que as condições da oferta integram o contrato a ser celebrado. não produz qualquer efeito no campo jurídico. condições de venda de determinado automóvel.. 1977.(TJDF . recurso conhecido e provido. Ada Pellegrini. FERREIRA. aplicando-se-lhe os seus efeitos para que sejam presumidos como verdadeiros os fatos alegados pelo autor em sua inicial. Art. DINAMARCO. que anuncia. Cândido Rangel Teoria Geral do Processo12ª Edição. GRINOVER. 1988.e.o que passou desapercebido ao juiz sentenciante . novos e usados. Antônio C.2ª T. João Carlos Pestana de Comentários ao Código de Processo Civil 2ª Edição. São Paulo: Revista dos Tribunais. FADEL. 4. A. 1988. São Paulo: Revista dos Tribunais. Francisco Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor Belo Horizonte: Del Rey. Sérgio Sahione Código de Processo Civil Comentado. declarável de ofício pelo magistrado. São Paulo: Malheiros. sem nada comprovar. VI do Código de Defesa do Consumidor. 1977. Benito Augusto Tiezzi .224 constatado. para sanar este defeito de representação.2002)(Grifo nosso). não o faz. intimada a ré.3 – Aplicação do art. segundo impõe a lei consumerista. 1991.ACJ nº 20010111219733 . do ramo de compra e venda de automóveis. por sua própria natureza. nos classificados de jornal. para reformar a sentença monocrática. julgando procedente o pedido inicial. constatada a verossimilhança das alegações do consumidor. VI do Código de Defesa do Consumidor A inversão do ônus da prova nos moldes estabelecidos no art. que quem firmou a contestação foi outro advogado e não aquele constituído nos autos . 30. Des. Rio de Janeiro: Forense. Instituições de Direito Processual Civil CINTRA. limitando-se a alegar. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR. . Pinto Código de Processo Civil Comentado – Volume 2 São . Cândido Rangel A Instrumentalidade do Processo 4ª Edição. em seu art. como se jamais tivesse existido. 3. 3. CHIOVENDA. Giuseppe Campinas/SP: Bookseller. CAVALCANTI. está obrigada a vender o bem nas condições do anúncio. Vol. mormente quando a fornecedora não contesta articuladamente os fatos da inicial. inverte-se o ônus da prova. torna-se revel.

Humberto Curso de Direito Processual Civil . Apreciação Probatória no Processo Civil. pág. José Carlos Barbosa Temas de Direito Processual: Sétima Série São Paulo: Saraiva. Instituições de Direito Processual Civil. Anelise Coelho Apreciação Probatória no Processo Civil Porto Alegre. 1998. I 27ª Edição. 2001. Giuseppe.225 Paulo: Saraiva. SANTOS. SILVA. Campinas/SP: Bookseller. Theotônio Código de Processo Civil e Legislação Processual em Vigor 33ª Edição. Apreciação Probatória no Processo Civil. pág. RADLOFF. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. Porto Alegre: Fabris. Pedro Augusto Normas Técnicas para Trabalhos Científicos 11ª Edição. São Paulo: Saraiva. 2002. Notas COUTURE apud NUNES. NEGRÃO.Vol. Ovídio Baptista apud NUNES. 2002. Verbo Jurídico. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. s. Stephan Klaus A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor Rio de Janeiro: Forense. Anelise Coelho. Rio de Janeiro: Forense. n. Apreciação . Anelise Coelho. Sandra Aparecida Sá dos A Inversão do Ônus da Prova como Garantia do Devido Processo Legal São Paulo. 15. Porto Alegre. THEODORO JUNIOR. 109. 1986.Vol. 2002. NUNES. 14. MILHOMENS. São Paulo: Saraiva. Revista dos Tribunais. 1996. DA SILVA. Juarez de Código de Proteção e Defesa do Consumidor 9ª Edição. pág. OLIVEIRA. 2001. Anelise Coelho. 1999. 2002.. CHIOVENDA. Ovídio Araújo Baptista da Curso de Processo Civil . MOREIRA. 2001. 1996. 2001. FURASTÉ. 1996. 4 3 2 1 PONTES DE MIRANDA apud NUNES. Jônatas A Prova no Processo Rio de Janeiro: Forense. I 3ª Edição.

449. p. out. Momento processual da inversão do ônus da prova.br/doutrina/texto. 2000. Anelise Coelho.jus. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico.com. Vol V. pág. 1929 Apud A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. Mirna. correta e atual. Rio de Janeiro. 18.jus. Sandra Aparecida Sá dos. 3ª ed.com. 51.com.asp?id=2159> ECHANDIA.jus. a. 1995. Págs. 8 7 6 5 ALVIM./jun. Artigo in Justitia. p. Jus Navigandi. MIRANDA. 65. Luiz Carlos. n. 51. 2001. a. 51. Tratado de Direito Privado.asp?id=2160>. Mirna. A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo. Jus Navigandi. <http://www1. Apreciação Probatória no Processo Civil. n. apud FERRAZ.br/doutrina/texto. MATOS.br/doutrina/texto. 2001. III. 2001. O ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor. SIEGMUND HELLMANN apud NUNES. Diritto e Processo. abr. São Paulo. 5. 51. out. out. p. Moacyr Amaral.jus. Padova. Pontes de. 5. II. Anelise Coelho. 1954. NUNES. CARNELUTTI. 2ª Ed. Jus Navigandi. Cecília. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. 15 14 13 12 11 10 9 . Apreciação Probatória no Processo Civil. Hernando Devis apud CIANCI.br/doutrina/texto. pág. Instituições de Direito Processual Civil.asp?id=2159> SANTOS. pág. 2001. 2001. 501 a 521 apud FERRAZ.. Teresina. Disponível em: <http://www1. Momento processual da inversão do ônus da prova. a. out. Vol. Manual de Direito Processual Civil. 2002. 17. São Paulo: RT. p.226 Probatória no Processo Civil. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2001. <http://www1. n. Teresina. 5. Vol. 5. Luiz Carlos. 1968. a.com. <http://www1. Teresina. A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo. Francesco. ECHANDIA. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. 2001. 2002. Prova judiciária no civil e comercial. 66. São Paulo: Revista dos Tribunais. SANTOS.asp?id=2160>. 16. São Paulo: Max Limonad. Arruda. 476. Hernando Devis apud CIANCI. (REPETIR NOME DO AUTOR). Teresina. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. Jus Navigandi. n. 57 (170).

a... PACÍFICO. CALAMANDREI apud DINAMARCO. São Paulo: Malheiros. cabe às partes prover as despesas dos atos que realizam ou requerem no processo. CINTRA. antecipando-lhe o pagamento desde o início até a sentença final. 562.Relator: Antonio Carlos Marcato . p. 4ª edição rev. 86 e 87. Teoria Geral do Processo. 2001. Ada Pellegrini. e atual.. Antônio Carlos de Araújo. 4ª edição rev.com. A instrumentalidade do processo. 354. out.jus. § 2º Compete ao autor adiantar as despesas relativas a atos. João Carlos Pestana de. 2ª Edição. DINAMARCO.227 Apud PACÍFICO. São Paulo: Revista dos Tribunais. e bem ainda. e atual. p. até a plena satisfação do direito declarado pela sentença. AGUIAR.07. CPC: Salvo as disposições concernentes à justiça gratuita. São Paulo: Malheiros. e atual. 1994. 1977. n. cuja realização o juiz determinar de ofício ou a requerimento do Ministério Público. 51. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais. p. A instrumentalidade do processo. rev. Agravo de Instrumento n. 1988. Código de Processo Civil Comentado. 248. Cândido Rangel. p. GRINOVER. O ônus da prova no Direito Processual Civil. 1994. na execução.br/doutrina/texto. São Paulo: Malheiros. 1996. Teresina. Luiz Eduardo Boaventura. CIANCI. 7ª Edição. Sergio Sahione.asp?id=2159>.979-4 Itápolis . A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo. BUZAID apud DINAMARCO. 5.V. U. Cândido Rangel. DINAMARCO. p. 248. Cândido Rangel. 2000. 4ª edição rev. 19.6ª Câmara de Direito Privado .) Art. Luiz Eduardo Boaventura. 26 25 24 23 22 21 20 19 18 17 16 . p.10. 2000.99 . São Paulo: Revista dos Tribunais. Comentários ao Código de Processo Civil. São Paulo: Malheiros. (Tribunal de Justiça de São Paulo. Cândido Rangel. 121. Forense. Jus Navigandi. § 1º O pagamento de que trata este artigo será feito por ocasião de cada ato processual. 1994. A instrumentalidade do processo. Rio de Janeiro: Ed. 12ª Edição. O ônus da prova no Direito Processual Civil. Disponível em: <http://www1. 201 FADEL. Mirna.

THEODORO JUNIOR. São Paulo: Revista dos Tribunais. SANTOS. 75. Código do Consumidor Comentado. RePro. 2002. 1986.º 86. Comentário ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor." 39 38 37 36 35 34 33 32 31 30 29 28 27 . p. p. São Paulo: Revista dos Tribunais. Francisco. 42. Francisco. Belo Horizonte: 1991. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. p. 2002. 71. Sandra Aparecida Sá dos. Humberto. Carlos Roberto. São Paulo: RT. CAVALCANTI. 37. A prova no direito processual civil. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor apud SANTOS. DINAMARCO. p. São Paulo: Revista dos Tribunais. Direitos do Consumidor. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. 1991. p. São Paulo: Revista dos Tribunais. junho: 1996.228 CINTRA. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. 2. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. 2002. para a sentença. 32 apud SANTOS. 2ª Edição. explícitas ou implicitamente. São Paulo: Malheiros. BARBOSA MOREIRA. p. Nova Fronteira. "Dicionário Aurélio Eletrônico – V. p. 80. excluídas as questões deixadas. 71. Cândido Rangel. Antônio Carlos de Araújo. p. Sandra Aparecida Sá dos. Sandra Aparecida Sá dos. Comentário ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. SANTOS. CAVALCANTI. p. A prova no processo. Belo Horizonte: Livraria Del Rey. 39. 2002. Ed. Jonatas. 12ª Edição. CAVALCANTI. 71. MILHOMENS. Notas sobre a inversão do ônus da prova em benefício do consumidor. Francisco. 1991. Liv. p. 1996. 2002. Súmula 424 do STF: "Transitada em julgado o despacho saneador de que não houve recurso.0". p. n. p. GRINOVER. 355. 123. Ada Pellegrini. Rio de Janeiro: Forense. Belo Horizonte: Livraria Del Rey. apud SANTOS. Sandra Aparecida Sá dos. Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. 31-38. Del Rey. Sandra Aparecida Sá dos. Teoria Geral do Processo.

Cível n. Del Rey. Liv. CAVALCANTI. Stephan Klaus. Rio de Janeiro: Forense. 2002. Belo Horizonte: 1991. de 06. A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor. Aldo Magalhães. 90 Tribunal de Justiça de São Paulo – Ap. Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. p. Rio de Janeiro: Forense.º 255. RADLOFF. 70. 75.1995 – Rel. p. 2002. 43 42 41 40 Alguns aspectos da dogmática processual para a defesa dos direitos do consumidor Autora: Viviane Mandato Teixeira Ribeiro da Silva .461-2. Francisco. A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor. p. Stephan Klaus.04.229 RADLOFF.

7 . Nesse contexto. Por tal razão. são as que patenteiam. a reformulação de institutos de direito substancial não se mostrava suficiente. O parceiro comercial transforma-se em um ente.230 Sumário: 1 – Introdução. como é o de consumo. traduzidos na impossibilidade de exercer algum controle sobre a qualidade. 4 .Do regime jurídico da coisa julgada para as ações coletivas. Não havia mais espaço para a produção artesanal.Da legitimação ad causam. como. colocando o consumidor numa posição de franca vulnerabilidade e hipossuficiência. a difusão e a vulnerabilidade de seus titulares.5 . 6 .A sentença genérica como regra nas ações coletivas. A perfeita intelecção da linha principiológica norteadora das normas processuais para a tutela de interesses categorizados como direitos metaindividuais demanda considerar alguns aspectos. 2 . partindo da necessidade de atender a um mercado cada mais pujante e abrangente em sua feição quantitativa. exsurgiu a necessidade de uma mudança drástica nos meios de produção e comercialização de produtos e serviços. por titulares não-identificáveis. 8 Bibliografia 1. Essa nova forma de produção e comercialização gerou desequilíbrio nas relações jurídicas de consumo.Introdução. revelou-se inviável o contato personalizado e individualizado entre os agentes da cadeia consumerista. Com efeito. Contudo. inferiu-se que seria mister criar um arcabouço legislativo a fim de preservar a esfera jurídica dos consumidores. só para citar alguns. pois os cristalizados no Código de Processo Civil evidenciavam-se inoperantes para a tutela eficaz de direitos designados. 3 – Da inversão do onus probandi.Da imposição de multa coercitiva ex officio. com extrema clareza. Na comercialização. no mais das vezes. tais peculiaridades. Impunha-se um sistema mecanizado e seriado para fomentar o consumo em massa. por exemplo. ante o imenso contingente de utentes. Impendia criar instrumentos apropriados. um número. espécie dessa categoria de interesses. As relações jurídicas de consumo.A adoção do non liquet e do efeito secundum eventum litis. como o da liberdade para fixar o conteúdo contratual. segurança e quantidade dos produtos e serviços disponibilizados pelo fornecedor no mercado de consumo. o do regime da responsabilização civil. analisaremos a sistemática processual considerando-se tais relações. . o rompimento com vários dogmas de direito substancial. Adveio daí.

Situação essa que certamente induziria ao desestímulo na busca da tutela jurisdicional. a presteza e a eficácia necessárias para a solução de conflitos em massa. como determina o inciso XXXII. do artigo 5º. reside na feição do Estado social. exceção no Código de Processo. de uma só vez e por intermédio de uma só lide. Na Lei 8078/90.não se adstringe apenas às relações jurídicas de consumo. por via oblíqua. a qual. apenas o titular do direito material lesado ou ameaçado de lesão está autorizado a defendê-lo em juízo. funcionando. tornou despiciendo legitimá-lo. Encerra verdadeira fonte normativa processual geral que. o regramento da legitimação para agir experimentou uma importante mudança. segundo a qual. idealizada sob a filosofia liberal. e. A terceira. A segunda. é a de que o fato de o resultado benéfico da lide coletiva atingir.231 Nessa esteira. por via transversa. em seu artigo 82. alguns institutos processuais foram adaptados para imprimir à tutela jurisdicional a adequação. e o risco de soluções judiciais antagônicas para o mesmo conflito. subtraindo do indivíduo a possibilidade de defender em juízo interesses titularizados pela coletividade. Da legitimação ad causam A legitimação ad causam é a autorização legal para defender em juízo um direito material lesado ou ameaçado de lesão.Código de Defesa do Consumidor . a lei processual civil admite. A primeira. a esfera jurídica do indivíduo. inobstante a denominação . todo o grupo do qual o indivíduo integra. A legitimação extraordinária [01]. A opção legislativa em não investir o indivíduo da legitimação ad causam pode ser analisada sob três vertentes. Assim. solucionar-se-iam conflitos que envolvessem. ao mesmo tempo e do mesmo modo. cujo substrato era o de . é regra na Lei 8078/90. como salvaguarda para a produção sistemática de lesão a direito. é o de evitar a proliferação de ações individuais com pretensões idênticas. abordaremos. dessarte. legitimou entes públicos e privados. em conjunto com a Lei 7347/85. defender o consumidor. Não mais se prestigia a visão liberal. do texto constitucional. Excepcionando essa regra. cujo desiderato é a busca do bem-estar social. alguns aspectos da sistemática procedimental introduzida pela Lei 8078/90. a qual. regulamenta a tutela de todo e qualquer direito metaindividual. 2. A sistemática sufragada pelo Código de Processo Civil. É a denominada legitimação extraordinária. de modo sucinto. nos casos por ela enunciados. é a da legitimação ordinária. que alguém defenda em juízo em nome próprio um interesse alheio. No presente trabalho.

o dano pode ser inexpressivo.) O problema básico que eles apresentam – a razão de sua natureza difusa – é que. entretanto não o será numa perspectiva global.. sufraga-se a ideologia da preservação do interesse coletivo.. que a possibilidade de a produção massificada gerar lesão em escala difusa é expressiva. o dano pecuniário de inexpressiva monta funciona como elemento desestimulante para o indivíduo ajuizar qualquer demanda. destarte.. evitando-se a perpetuação da lesão. segundo o entendimento doutrinário. no mundo empírico. repise-se. Daí o entrelaçamento da efetividade com o princípio constitucional do acesso à justiça e deste com o da legitimação ad causam. seja para cominar ao fornecedor a sanção cabível. e reprimindo-se a conduta lesiva do fornecedor. notadamente para o Ministério Público que. elucida que essa gama de direitos "(. no mais das vezes. (. .) Essa situação cria barreiras ao acesso". detentor de forte poder político e/ou econômico. O Prof. mas não para os entes privados ou públicos ao defenderem todo o grupo. a tutela jurisdicional obtida por meio do processo coletivo. A partir da Carta de 1988. como é o caso do Ministério Público. o legislador infraconstitucional concretizou dois princípios constitucionais: o acesso à justiça e a isonomia. Cappelletti. Seja para reprimir condutas nocivas em nível difuso. ou o prêmio para qualquer indivíduo buscar essa correção é pequeno demais para induzilo a tentar uma ação. Essa situação não se repete para os entes públicos. a ideologia do Estado social protetor dos mais fracos.232 atender aos interesses individuais. e aproveita. Por meio da ação coletiva. ou ninguém tem direito a corrigir a lesão a um interesse coletivo. E este. E tal circunstância denota a relevância e a imperiosidade do sistema processual coletivo introduzido pela Lei 8078/90. dentre as quais. encetando estudo acerca da defesa efetiva dos direitos coletivos.) são interesses fragmentados ou coletivos (. Sob a perspectiva do consumidor individualmente considerado. com o Prof. podemos considerar que o fato de o consumidor ser vulnerável e hipossuficiente frente ao fornecedor. é que o legislador introduziu tantas inovações no sistema processual. [02] Se considerarmos as relações de consumo sob o aspecto pecuniário. Sob a ótica do princípio constitucional da isonomia. pode litigar com causador do dano com igual força política. Diga-se a propósito. resulta em franca desigualdade no campo processual. pelo dever constitucional de defender os interesses da sociedade.. legitimar entes públicos e civis para a defesa judicial dos interesses transindividuais. ainda que incipiente sob o ponto de vista individual. Pois. Cappelletti.. Concretiza-se.. De fato. é melhor defendido em juízo por associações ou órgãos do próprio Estado. o indivíduo tem sua esfera jurídica tutelada contra a prepotência do poder econômico. que ao legitimar entes coletivos. concluiremos.

4 . carreando-o ao fornecedor. inciso VIII. do Código de Processo Civil. corretamente.Da imposição de multa coercitiva ex officio Vários institutos materiais e processuais foram matizados na construção da nova sistemática a fim de conferir efetividade à tutela jurisdicional na defesa dos direitos transindividuais e dar concretude a vários princípios constitucionais. que presente um dos requisitos elencados no artigo 6º. e como consectário lógico do reconhecimento da vulnerabilidade e da hipossuficiência do consumidor. . a lei 8078/90 erigiu no inciso VIII. O legislador entendeu. por conseguinte. qual seja. porquanto se o consumidor tivesse a desincumbência de fazer prova do nexo causal. em seu artigo 389. certamente sucumbiria. como o da isonomia. no mais das vezes.Da inversão do onus probandi Desdobramento dos princípios constitucionais da isonomia e da dignidade da pessoa humana. a inversão do onus probandi [03] como um direito básico. Depreende-se. a inversão do ônus probatório revela-se prestante. o reconhecimento da hipossuficiência ou da verossimilhança da alegação do consumidor. do acesso à justiça. impõe ao inadimplente o dever de arcar com as perdas e danos. em que é prescindível o exame da conduta do fornecedor para imputar-lhe o dever de reparar o dano. A lei consumerista. No tema das obrigações. não sufragou a tônica civilista. ao tratar do direito material das relações de consumo. Se fosse mantida a sistemática preconizada pelo artigo 333. do artigo 6º. a Lei Civil em vigor. Vislumbramos o aspecto pragmático dessa regra no campo da responsabilidade civil. que a pecúnia. o consumidor dificilmente obteria qualquer ressarcimento em razão de sua hipossuficiência em obter os elementos necessários para provar o nexo de causalidade. dentre outros. em que o ônus da prova do fato constitutivo do direito cabe ao autor da demanda. por exemplo. deve o julgador inverter os ônus da prova. Malgrado a adoção do regime objetivo. logo só ele tem a possibilidade de produzir a prova necessária a fim de demonstrar se o produto é ou não defeituoso. não tem o condão de reparar a atividade nociva do fornecedor nem o de atender aos interesses econômicos do consumidor. aliás. Isto porque é o fornecedor quem detém a mais completa informação acerca do produto.233 3 .

consistente em cominar ao devedor recalcitrante uma penalidade pelo descumprimento da obrigação. uma inovação legislativa por romper com o sistema processual tradicional. ou. se o órgão julgador só pode conhecer ex officio matéria de ordem pública. do artigo 84. a Lei 8078/90 incorporou a multa coercitiva. tem natureza jurídica de medida de coerção e não de ressarcimento. ambos do Estatuto Procedimental. Desse modo. Seu objetivo é o de constranger. vale dizer. em que tal matéria era dispositiva. Tal prescrição representou. as quais impõem ao juiz dar interpretação restritiva ao pedido. a melhor doutrina sustenta inexistir conflito normativo e esclarece que a imposição da multa coercitiva em nada ofende o princípio da adstrição. pois influindo no aspecto anímico do fornecedor. se o Estado-juiz não pode conceder à parte além. . egressa do direito francês denominada astreinte. todos do Estatuto Procedimental. outorgou ao Estado-juiz maior campo de discricionariedade. aquém ou diferente do que foi pedido. e a regra do parágrafo 4º. ao incorporar a multa coercitiva no parágrafo 4º. Melhor explicitando. darse-ia à parte o direito in natura. ensejou o questionamento em face do princípio da adstrição. forçando o fornecedor cumprir o pactuado. Isto porque a multa. evitando-se remeter à parte inocente o recebimento de indenização. Para essa indagação. e. em que o julgador está autorizado a cominar de ofício a multa coercitiva e outras medidas que se fizerem necessárias à execução da obrigação. Para concretizar essa ideologia. consubstanciada no artigo 460 combinado com os artigos 128 e 293. o consumidor obtém o objeto da prestação e satisfaz a expectativa gerada por conta do negócio jurídico firmado. o de esmaecer a resistência devedor em cumprir espontaneamente o contrato ou o comando emergente da sentença. a Lei 8078/90 preconiza que se deva envidar todos os esforços para realizar concretamente o que fora contratado pelos litigantes. quando da promulgação da lei consumerista. Sob o prisma da efetividade. indaga-se se haveria conflito entre a norma geral.234 Nesse diapasão e partindo da premissa de que o processo desempenha um papel instrumental para conferir à tutela jurisdicional efetividade. àquilo que fora determinado na sentença. consagrado no artigo 128 combinado com o 293. A adoção da astreinte mostra-se consentânea com a realidade social e com o objetivo legal de prevenir a lesão à esfera jurídica do consumidor. autorizando-o a cominação da multa ex oficio. de sorte que não repugna às normas procedimentais outorgar ao Estado-juiz o poder de impor a multa sem provocação do interessado. segundo os quais os limites da atuação jurisdicional vêm traçados no pedido formulado pela parte. de seu artigo 84. a Lei 8078/90. da Lei 8078/90. dependia de provocação do interessado.

por grupos. O exercício da função jurisdicional nos tempos modernos exige. Por derradeiro. ao mesmo tempo. Portanto. por titulares indetermináveis. etc. a toda coletividade. são direitos que transcendem a esfera individual. concomitantemente. pois ao interpretar e dar corpo à vontade abstrata da lei estará. classes ou categorias de pessoas. Com efeito. se é a própria lei quem permite ao julgador abandonar o papel passivo de "boca da lei" para desempenhar um papel mais ativo. do que resulta que a aplicação do Código só tem lugar em caráter subsidiário e naquilo que não contrariar a lei especial.a 8078/90 -. o legislador partiu de um enfoque publicista do processo. Dessa forma. São interesses incindíveis por pertencerem. como o direito à educação. do Código de Processo. em dadas circunstâncias. à saúde. em última análise. a aplicação da multa coercitiva deve observar o regramento instituído pelo parágrafo 4º. insta trazer à colação a definição dos direitos metaindividuais e de suas espécies para melhor intelecção do tema. do artigo 84.235 Neste ponto cabe uma observação. não só para melhor análise dos fatos que formarão o convencimento do julgador acerca da verdade. fazendo valer a vontade popular. forçoso é concluir que a imposição da multa coercitiva é simples reflexo da coadunação da atuação jurisdicional aos reclamos da sociedade moderna. também prevê a multa coercitiva. matérias de primeira plana para a manutenção do próprio Estado. fruto da democracia. é normada pela lei especial . cabe destacar que o Código de Processo Civil. Representa também a manutenção da paz social e da própria ordem jurídica. ou. a tutela dos direitos metaindividuais. da Lei 8078/90 e não a do artigo 461. meio ambiente saudável. em seu artigo 461. por intermédio do método dialético.Adoção do non liquet e o do efeito secundum eventum litis Antes de adentramos à abordagem da possibilidade do non liquet e da extensão subjetiva dos efeitos da coisa julgada com o temperamento do secundum eventum litis albergados pela Lei 8078/90. Essa nova categoria de direitos é classificada pela Lei 8078/90 em três . envolvendo ou não relações jurídicas de consumo. evidentemente. sem. mas também para o desempenho da função política. 5. olvidar os princípios da imparcialidade e da preservação dos direitos fundamentais. a participação do julgador na dinâmica processual. Direitos metaindividuais. Entretanto. Nesse diapasão. a função do juiz também resvala para o aspecto político. embora seja eminentemente jurisdicional. Conferindo ao juiz o poder de fixar a multa coercitiva de ofício. São direitos titularizados. como o prefixo grego indica. a função jurisdicional de pôr termo à controvérsia não interessa apenas a pacificação dos litigantes.

os efeitos são idênticos ao adotado pelo Código de . Para exemplificar. Ainda. do artigo 81. Quando estes interesses são afetados. unindo determinado grupo de pessoas entre si ou com a parte causadora do dano. Cite-se à título de exemplo. ao mesmo tempo. mas tratados coletivamente. não há entre os prejudicados qualquer relação jurídica que os una. conceitua como difuso o direito indivisível por pertencer. a titulares indetermináveis. da Lei 8078/90. vejamos a mudança legislativa no que tange aos efeitos da sentença. o legislador consumerista introduziu um sistema totalmente diferenciado do vigente no Código de Processo Civil no que tange aos efeitos da sentença. Visto o conceito e a classificação dos direitos metaindividuais. ao tratar da matéria.que é a possibilidade de o julgador rejeitar a pretensão ante a insuficiência probatória sem que tal sentença produza a coisa julgada material . toda coletividade sujeita-se aos efeitos prejudiciais. nada obstante inexistir entre eles qualquer relação jurídica. e é por isso que os titulares podem ser identificáveis. Finalmente. do artigo 81. Com efeito. do artigo 81. o artigo 103. São direitos individuais. Exemplo notório é o contrato de adesão. quando o processo for extinto sem julgamento do mérito. Nesta espécie. porque é possível identificar cada titular. Pela dicção da lei. produtos defeituosos.236 espécies: difusos. pelo grupo ou classe de pessoas determináveis. coletivos e individuais homogêneos. define os direitos individuais homogêneos como direitos individuais na essência. adotou a possibilidade do non liquet . ao mesmo tempo. são direitos titularizados por todos e por ninguém em particular. porquanto tanto o meio ambiente como a saúde são direito de todos os integrantes da sociedade. todas as pessoas que aderiram àquele contrato experimentarão idêntica lesão. Se houver alguma cláusula nula. os titulares são identificáveis por haver uma relação jurídica base preexistente à lesão. o inciso III. O inciso I. conceitua como coletivo o direito incindível por ser titularizado. Todos os adquirentes daquele produto sofrerão a mesma lesão. O inciso II. anotando-se que a incidência desses regramentos dependem da natureza da sentença. A vinculação com a parte contrária decorre do fato de todos terem sofrido a mesma lesão. ou seja. vale dizer. do direito litigioso e do resultado da lide coletiva. incisos I a III. nota-se que o traço distintivo entre os direitos difusos e os coletivos consiste no fato de que nos direitos coletivos a relação jurídica foi a deflagradora da lesão. a saúde. Partindo da premissa de que os interesses e as dimensões dos danos derivativos do consumo não se restringem apenas a consumidores perfeitamente determinados e identificados. Se a sentença ser meramente formal. podemos mencionar o meio ambiente.e do julgado secundum eventum litis .é a possibilidade de estender subjetivamente os efeitos da sentença -.

Todavia. que toda a diligência probatória foi realizada e que. Assim. Destarte. a sentença que acolher a pretensão produzirá a coisa julgada material e seus efeitos benéficos alcançarão a todos os titulares individualmente considerados. Nesta hipótese. os efeitos da sentença ficam submetidos ao tratamento estabelecido pela Lei 8078/90. Com efeito. ainda que não tenham participado do processo. Elucida o prof. impedidos de ajuizarem ações individuais para renovar a mesma pretensão. Forma-se a coisa julgada formal e seus efeitos ficam adstritos ao processo extinto. Incidirá. ficando. os efeitos da decisão interditam os legitimados coletivos de ajuizarem nova demanda coletiva. apesar disso. infere-se que o resultado negativo da ação individual homogênea só não prejudicará quem dela não houver participado. Isto por serem direitos essencialmente individuais. se não houver prova bastante da lesão. o que faculta à parte interessada o ajuizamento de nova ação. permanecendo a controvérsia incólume à apreciação judicial. Neste caso. ao revés do que ocorre nas lides difusas e coletivas stricto sensu. Se a sentença for definitiva. mas que pela gravidade e repercussão social da lesão foram inseridos na categoria de direitos transindividuais. não existiu a lesão ao bem jurídico que se pretendia proteger". com o temperamento do chamado efeito secundum eventum litis do julgado. formar-se-á a coisa julgada material. ou seja. porém. quando o processo for extinto com julgamento do mérito. infere-se que o tratamento . se o conflito versar sobre direitos individuais homogêneos não será aplicado o non liquet e só incidirá o secundum eventum litis se a lide for acolhida. porquanto tal julgamento não beneficia os titulares individuais. aos olhos do juiz. Em vista do que prescreve a lei 8078/90. mas não impedem o ajuizamento de lides individuais. entretanto. o órgão julgador rejeitará a pretensão e a sentença produzirá coisa julgada material. se a natureza do objeto da lide for direito difuso ou coletivo. alcançando todos os partícipes da ação. Quer isto significar que os efeitos da coisa julgada material oriunda da sentença que julgou improcedente a ação em razão da ausência de lesão. Arruda Alvim [04] que "se ficar claro. o regramento da extensão subjetiva dos limites da coisa julgada material secundum eventum litis. portanto.237 Processo Civil. Se. dependendo da natureza do direito litigioso e do resultado da lide coletiva. cujo objeto seja direito difuso ou coletivo. por corolário. Idêntico efeito se produzirá se o julgador entender que não houve lesão ao direito individual homogêneo. não haverá extensão dos limites subjetivos da coisa julgada. não alcançarão os titulares individualmente considerados. ressalvando-se a possibilidade de ajuizarem suas ações individuais arrimados na mesma causa de pedir veiculada na coletiva que fora julgada improcedente. em razão de terem integrado o pólo ativo da lide coletiva na qualidade de litisconsortes. rejeitará o pedido. o juiz entender que não houve lesão.

Admite-se a repropositura da ação coletiva e o ajuizamento da ação individual b) Ausência de lesão = Opera coisa julgada material apenas entre os legitimados coletivos. não produzindo a coisa julgada material. temos: DIREITO DIFUSO: Procedência: Faz coisa julgada material. Quer nos parecer que a razão de a Lei 8078/90 ter repetido o tratamento trazido pelo Código de Processo reside no fato de o direito controvertido ter natureza individual e. Seus efeitos são extensíveis a todos titulares individuais (erga omnes) Improcedência: a) Por falta de provas = Incide o non liquet. admitindo-se a propositura da ação individual Direito COLETIVO Procedência: Faz coisa julgada material e seus efeitos são extensíveis aos titulares determináveis do grupo ou classe (ultra partes) Improcedência: a) Por falta de provas = Incide o non liquet. Admite-se a propositura da ação individual Direito INDIVIDUAL HOMOGÊNEO Procedência: Faz coisa julgada material e seus efeitos são extensíveis a todos os titulares individuais (erga omnes) Improcedência: . mas não produz a coisa julgada material.238 dispensado para as ações de direito individual homogêneo é idêntico ao constante do Código de 73. Admite-se a repropositura da ação coletiva e nada interfere no ajuizamento da ação individual b) Ausência de lesão = Produz coisa julgada material apenas entre os legitimados coletivos. a sentença proferida produzirá coisa julgada material inter alios. Para melhor visualização do que dissemos. vigorariam os mesmos efeitos produzidos para as hipóteses de formação litisconsorcial ativa facultativa unitária. nesse passo. sinopticamente. Não há extensão subjetiva. seja pela insuficiência de prova. seja pela inexistência de lesão. Não há extensão subjetiva. Vale dizer.

) No pedido se contém a suscitação de uma provisão jurisdicional (pedido imediato). [05] O pedido de prestação da tutela jurisdicional. Só quem não participou da lide coletiva poderá ajuizar a ação individual. Quem não participou da lide coletiva poderá ajuizar ação individual. o tratamento dispensado pela Lei 8078/90 para os efeitos do julgado tinha que diferir da sistemática sufragada pelo Código de Processo Civil. economizando tempo e recursos financeiros. Há que se ter presente que ao conferir tratamento coletivo às ações que tenham por objeto o direito individual homogêneo. a inversão do ônus da prova. 6. pelo fato de o legislador ter subtraído do titular individual a legitimação para agir. mediante uma única relação processual. se a sistemática do Código de Processo fosse repetida pela Lei 8078/90 redundaria em flagrante inconstitucionalidade ante a negativa de acesso à justiça. Não há extensão subjetiva. que a possibilidade do non liquet impõe ao julgador a necessidade de explicitar que a improcedência se deu em razão da insuficiência probatória. Não apenas. b) Ausência de lesão = Produz coisa julgada material vedando-se a repropositura da lide coletiva. a solução de um conflito de grave e expressiva repercussão social. mas. Não há extensão subjetiva. sobretudo. da lei procedimental. Faz coisa julgada material.. deve receber interpretação restritiva à luz do princípio albergado no .239 a) Por falta de provas = Não incide o non liquet. Já analisamos a legitimação para agir. cujo traço característico é a difusão dos titulares. segundo a qual o pedido deve ser certo e determinado.A sentença genérica como regra nas ações coletivas Destacamos que alguns princípios e regras processuais tradicionais foram moldados de modo a garantir a tutela eficaz dos direitos transindividuais. do art. na tutela de um bem jurídico (pedido mediato)". por encerrar uma manifestação da vontade. da Lei de Rito. neste tópico. É a dedução da pretensão em juízo (. Nesse sentido. Em linhas gerais e pelas especificidades dos direitos metaindividuais.. sob pena de viciar a sentença de nulidade e dar azo à rescisória. para encerrarmos esse tópico. É o que se pede em juízo. ante a determinação constitucional de proteger essa nova categoria de direitos. 485. É oportuno destacar. à lume do que preceitua o inciso V. vedando-se a repropositura da ação coletiva. a mens legis foi o de obter. Pedido "é a expressão da pretensão. Verificaremos. os efeitos da sentença judicial à luz de seu resultado. a flexibilização da regra constante do artigo 286.

no entanto. do CPC). A profa. ou seja. Daí o porquê de a exceção no Código de 73 ser a regra na Lei 8078/90. nem conferir ao autor citra. Desde o início da lide as partes são perfeitamente identificadas. é que a sentença deva ser certa quanto ao tipo de provimento jurisdicional pretendido. para viabilizar aos lesados individuais a identificação e a apuração do quantum indenizativo. da lei do Rito. Nessa linha. a controvérsia fica adstrita entre o fornecedor . De fato. Já no caso das lides metaindividuais.240 artigo 293. Não por outra razão. em linha de princípio. mas genérica ou ilíquida quanto à extensão quantitativa da pretensão. é excepcionada por seus incisos. Por essa razão. ultra ou extra petita. a sentença deve ser genérica. máxime em razão de a decisão proferida nas ações coletivas tutelar um bem jurídico ainda indivisível. o ônus de demonstrar o dano e o nexo causal. Vê-se a completa distinção entre a ação coletiva e a que envolve direitos individuais regidos pelo Código de Processo e o porquê de o legislador. da Lei 8078/90. A regra constante do caput do artigo 286. não podendo proferir sentença ilíquida quando o pedido for certo. Pensemos na relação jurídica de consumo. o direito em conflito pertence a titulares determinados (direito coletivo stricto sensu) ou indetermináveis (direito difuso). por absoluta incompatibilidade com os objetivos da Lei 8078/90. vale dizer. sob pena de nulidade da sentença (parágrafo único.e o consumidor lesado. não seria possível repetir a regra prescrita no artigo 286. A regra consubstanciada no artigo 95. entendendo-se por esta locução: delimitado quanto aos direitos e extensão quantitativa. Ada Pellegrini Grinover [06] assevera que o aspecto teleológico da sistemática processual traçada pela Lei 8078/90 para a tutela dos direitos transindividuais é obter.causador do dano . Na lide individual. o juiz fica vinculado àquilo que foi pedido. a condenação se dá pelo prejuízo provocado e não pelo dano experimentado pelos titulares individualmente considerados. tendo o autor. ao enunciar hipóteses em que o pedido possa ser genericamente formulado. é exigência legal que o pedido deva ser certo e determinado. da Lei Procedimental Civil. se pensarmos que os legitimados ativos estão defendendo os . por meio das ações coletivas. E assim é. do Código de Processo. Por essa regra. o reconhecimento judicial do dever reparatório e da condenação do agente causador do dano ao ressarcimento pelos prejuízos produzidos. admite-se que o autor decline o que quer sem deduzir o quantum quer. artigo 459. de acordo com a extensão do dano individualmente experimentado. Nas ações coletivas. ter rompido com a tradição. para a tutela dos direitos coletivos.

em segundo. prescrevendo que a sentença deva ser certa e determinada. porque será na fase liquidatória que será aferida a extensão do dano causado por determinado produto ou serviço. da Lei 8078/90. ainda. dentre outras medidas. cumprindo o ditame constitucional de elaborar mecanismos instrumentais que garantissem a defesa efetiva dos direitos metaindividuais. Falar de efeitos da sentença remete à coisa julgada. 7 . A extensão dos limites subjetivos da coisa julgada. O artigo 16. O legislador infraconstitucional. se fosse aplicada a regra do Código de 73. o que faria cair por terra todo o arcabouço da lei 8078/90. porquanto as regras do Código de Processo se revelaram inaptas para equacionar satisfatoriamente as exigências da nova ordem social. Pelo teor do dispositivo legal supra colacionado combinado com o artigo 103. fácil é intuir que a sentença não poderia ser especificar o quantum debeatur. tema que nos interessa neste tópico. Esses dois diplomas cristalizam normas que destoam da processualística tradicional. recebeu tratamento especial. da lição trazida pela doutrina. sofreram tantas inovações.241 interesses daqueles que efetivamente experimentaram o dano e que não participam da relação processual.Do regime jurídico da coisa julgada nas ações coletivas Fizemos remissão às alterações legislativas que influíram nos efeitos emanados da sentença. neste tema. concebeu a Lei 8078/90 e aperfeiçoou a Lei 7347/85.A sentença civil fará coisa julgada erga omnes. as inovações foram substanciais. que o fato de a condenação ser genérica não significa dizer que a sentença seja incerta. portanto o decisum é certo por definir o direito. Como se nota. restaria impossível a indenização dos lesados. Não foi por outra razão que as regras da legitimação para agir. da Lei 7347/85 assim dispunha. mas ilíquido por não precisar o quantum. Há certeza quanto ao dever de reparar o dano. hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento. exceto se a ação for julgada improcedente por deficiência de provas. in verbis: "Art. Colhemos. valendo-se de nova prova". observa-se que todos os titulares individuais do interesse coletivo . porque os lesados só serão identificados no momento da liquidação de sentença. Em primeiro. e. 16 .

Por tal razão. criando-se um sistema legislativo material e processual próprio e adaptado para concretizar a proteção constitucional. diferentemente do que sucede perante o Código de Processo. daí ter sido criado um mecanismo que garantisse a todos os titulares do direito controvertido os benefícios decorrentes do acolhimento da pretensão. demandar individualmente o agente ofensor para obter a reparação da lesão. direta ou indiretamente. valendo-se de nova prova". Isto porque as ações coletivas buscam tutelar direitos fundamentais expressamente reconhecidos em nosso ordenamento jurídico. encampamos a corrente que propugna pela inconstitucionalidade da alteração legislativa. A Lei 9494/97. a autoridade da coisa julgada não poderia cingir-se aos litigantes. hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento. nos limites da competência territorial do órgão prolator. exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas. Destarte. por não ter recebido legitimação para agir em juízo. Com efeito. no âmbito dos direitos coletivos a sentença produz efeitos para além dos litigantes. só sofrerá influência do julgado em sua esfera jurídica se a decisão for benéfica. contudo. in verbis: "Art. o titular individual nenhum prejuízo jurídico experimentaria.242 (lato sensu) seriam alcançados pelo resultado benéfico do julgado. Como se nota. Disso resultou a implementação de uma série de inovações por meio das Leis 8078/90 e 7347/85. é que a doutrina assevera que os efeitos erga omnes da autoridade da coisa julgada se opera somente em relação ao legitimados ativos para a ação coletiva. Subsumindo o dispositivo legal supra às disposições constitucionais que determinam a efetiva proteção aos direitos transindividuais. limitou os efeitos subjetivos da coisa julgada ao determinar que. a razão de ser das mudanças introduzidas no sistema . O fundamento jurídico para que o legislador tenha adotado o efeito secundum eventus litis reside no fato de ter conferido legitimação a quem não seja o titular exclusivo do direito lesado. inclusive. ou.A sentença civil fará coisa julgada ‘erga omnes’. podendo. Em última análise. E o fato de a Constituição ter tutelado os direitos metaindividuais quer significar que se tornou inadmissível ao legislador infraconstitucional restringir ou alterar. Caso a sentença rejeite a pretensão por entender que não houve lesão. (grifo nosso). uma vez que a improcedência da demanda em face da inexistência da lesão a direito impedirá tão-somente o ajuizamento de outra lide coletiva. alterando a redação do artigo 16. 16 . da Lei 7347/85. as Leis 7347/85 e 8078/90 prescrevem que o titular individual do direito. porque do conjunto probatório existente nos autos não se demonstrou a lesão. à natureza dessa categoria de direitos e à posição doutrinária. essa proteção.

como se verifica das ementas infra colacionadas. relegando a um plano secundário não apenas a linha teleológica do sistema protetivo sufragado pela Lei 8078/90. os tribunais. logo não pode ficar adstrito à competência jurisdicional do órgão prolator da decisão. por exemplo. destaca que pelo fato de a restrição ter sido imposta apenas na Lei 7347/85. a isonomia. da Lei 7347/85. nos limites da competência territorial do órgão prolator". como o acesso à justiça. o direito coletivo stricto sensu tem eficácia ultra partes e não erga omnes. que restringir a eficácia da coisa julgada nos moldes traçados pela Lei 9494/97. 2. A verificação da existência de litispendência enseja indagação antecedente e que diz respeito ao alcance da coisa julgada. ainda que não uniformemente.LIMITES DA COISA JULGADA. mas a reunião deve observar o limite da competência territorial da jurisdição do magistrado que proferiu a sentença. " PROCESSO CIVIL – AÇÃO CIVIL LITISPENDÊNCIA . embasando seu entendimento no fato de que os efeitos da decisão estão vinculados aos limites ínsitos ao pedido. da Lei 7347/85.g a ação popular. Ada Pellegrini Grinover segue a mesma linha quanto à ineficácia da restrição territorial dos efeitos da decisão.494/97. "a sentença civil fará coisa julgada erga omnes. mormente porque é a Lei 8078/90 que cuida do regime da coisa julgada.243 jurídico prendeu-se à natureza dos direitos e da repercussão social dos conflitos em massa. qualquer outra ação. Não obstante o repúdio doutrinário à alteração do artigo 16. v. Hipótese em que se nega a litispendência porque a primeira . têm conferido à lei interpretação literal. inclusive quando houver uma demanda coletiva e diversas ações individuais. A doutrina mais autorizada vem repudiando essa alteração legislativa sustentando sua inoperância. As ações que têm objeto idêntico devem ser reunidas. dentre outros. de modo que as ações que versarem sobre tais direitos estariam fora do alcance da Lei 9494/97. 3. de modo que seria mister alterar a ambos. como também as prescrições constitucionais. Hugo Nigro Mazzilli. Ainda. porque as ações coletivas são reguladas por dois subsistemas que atuam em conjunto .as Leis 8078/90 e 7347/85 -. alterando-se a redação do artigo 16. que busque a tutela a direito coletivo estará fora do alcance restritivo trazido pela Lei 9494/97. Conforme os ditames da Lei 9. Nesse diapasão. quer nos parecer. PÚBLICA – 1. acaba por desnaturar a tutela efetiva do direito coletivo e ferir outros mandamentos constitucionais.

n. Notas Sobre A Coisa Julgada Coletiva. Celso. Revista de Processo n.12. j. Recurso especial parcialmente conhecido.2004) BIBLIOGRAFIA Armelim.494/97. ____________. Manual de Direito Processual Civil. ILEGITIMIDADE DAS PARTES EXEQÜENTES. 22ª ed. em razão de que em seu dispositivo se encontra expressa a delimitação territorial adrede mencionada. e nesse ponto. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. EXECUÇÃO DE SENTENÇA. 2ª TURMA. j. ambos no Estado do Paraná. litteris : "A sentença civil prolatada em ação de caráter coletivo proposta por entidade associativa. ARRUDA ALVIM. domicílio no âmbito da competência territorial do órgão prolator".947-SC. A abrangência da ação de execução se restringe a pessoas domiciliadas no Estado do Paraná. 08/03/2005) "PROCESSUAL CIVIL. abrangerá apenas os substituídos que tenham. BASTOS.. 37. Revista do Advogado da AASP. na data da propositura da ação.288/86). na defesa dos interesses e direitos dos seus associados. VIOLAÇÃO DO ART.244 ação está limitada ao Município de Londrina e a segunda ao Município de Cascavel. 3. caso contrário geraria violação ao art. 2º-A DA LEI Nº 9. Tutela Jurisdicional do Meio Ambiente. Impossibilidade de ajuizamento de ação de execução em outros estados da Federação com base na sentença prolatada pelo Juízo Federal do Paraná nos autos da Ação Civil Pública nº 93. São Paulo: .494/97. Curso de Direito Constitucional. 1. 88. EFICÁCIA DA SENTENÇA DELIMITADA AO ESTADO DO PARANÁ. 665. 1ª TURMA." (REsp n. 2. São Paulo: RT. desprovido.0013933-9 pleiteando a restituição de valores recolhidos a título de empréstimo compulsório cobrado sobre a aquisição de álcool e gasolina no período de jul/87 a out/88. APADECO. 642462/PR. 02. 2º-A da Lei nº 9." (REsp n. EMPRÉSTIMO COMPULSÓRIO DE COMBUSTÍVEIS (DL 2. Donaldo. José Manuel.

Rizzatto Nunes.. Curso de Direito Processual Civil. Kelsen. Coimbra: Almedina. 1991. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. Luiz Antonio.. Hugo.245 Saraiva. Forense. Vol. Mauro. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. A defesa dos interesses difusos em juízo. ª . Silva Pereira.. 2001. SANTOS. Editora Martins Fontes. 3ª ed. Nigro Mazzilli.. Vol. José Joaquim.. Editora: Forense. Vol II. 2001. III. 2º Vol. Editora Forense. Curso de Direito Constitucional Positivo. Editora Forense. Acesso à Justiça. São Paulo: Saraiva. Moacyr Amaral.. 6ª ed. Ada Pellegrini. São Paulo: Saraiva. Silva. ____________. 10ª ed. 23ª ed. O problema da Justiça. II. Ovídio Araújo Baptista da. ____________. Grinover. Humberto.. Forense. I. São Paulo: Saraiva. THEODORO JUNIOR. Instituições de Direito Civil. Editora Forense. SILVA. Nelson. Hans. Instituições de Direito Civil. Gomes Canotilho. ____________. 6ª ed. José Afonso. Cappelletti. Princípios do Processo Civil na Constituição Federal. 13ª ed. Editora Malheiros. Vol.. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. 6ª ed. 5ª ed. 2000. ____________.Forense. São Paulo: Saraiva. Editora: Forense. Instituições de Direito Civil.. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor comentado pelo autores do anteprojeto. Nery Junior. 3 ed. São Paulo: RT. Sergio Antonio Fabris Editor. Editora Forense. 2002. O Princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana. 2003. Caio Mário. Do Processo Cautelar. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelo autores do Anteprojeto.

Acesso à Justiça. . E a terceira. os interesses do consumidor. propugna pela inversão no momento do julgamento da causa. 05. Mauro Cappelletti e Bryan Garth. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelo autores do Anteprojeto. Kazuo. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. Editora: Forense. A Lei 8078/90 não estabelece o momento processual da inversão. a defesa do réu. à coletividade e ao autor da ação. não é o titular do interesse. de algum modo. perfilha o argumento de que o momento da inversão deve ocorrer no saneador ou durante a fase probatória.784. p. Outra corrente perfilha a tese de que a legitimação não é extraordinária. p. A primeira. portanto. Notas Há dissenso doutrinário acerca da natureza da legitimação para a defesa de interesses coletivos. Isto porque. cit. e que. que a legitimação é extraordinária. op.p. 31.150.. Entendemos que a terceira corrente é a mais compatível com o regramento constitucional do direito de defesa e as diretrizes protetivas da lei 8078/90. o que deu azo a três exegeses doutrinárias. o contraditório e ampla defesa desdobramentos do princípio do devido processo legal. O fundamento seria o de que as regras de distribuição do ônus da prova são regras de juízo. porquanto quem figura como autor da demanda. ao mesmo tempo. Há quem sustente. 04 01 José Manuel de Arruda Alvim. 02. sustenta que a inversão deve ocorrer na petição inicial. 06. a inversão dar-se-ia quando do sentenciamento. pois os interesses defendidos pertencem. e. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor (Comentado pelo autores do Anteprojeto). Ada Pellegrini Grinover.. Passim. 03 . mas autônoma para conduzir o processo. Moacyr Amaral dos Santos. 6ª ed. porque não dizer. pensamos que o julgador deva prevenir as partes sobre a possibilidade da inversão na fase instrutória. 2º vol. a fim de não cercear. A segunda.246 Watanabe.

apenas com a vontade das partes.Pressupostos para a formação do litisconsórcio O litisconsórcio não se forma livremente. quanto no pólo passivo (réus). É necessário que haja uma ligação que os una para sua formação válida. isto é.Definição Litisconsórcio é a pluralidade de partes litigando no processo. Gabriel de Rezende Filho define litisconsórcio como "o laço que prende no processo dois ou mais litigantes.3 Espécies . 1. São pressupostos estabelecidos pelo artigo 46 do Código de Processo Civil: I – entre elas houver comunhão de direitos e obrigações relativamente à lide. na posição de autores ou de réus" [01].247 Litisconsórcio.2. IV – ocorrer afinidade de questões por um ponto comum de fato ou de direito. assistência e intervenção de terceiros nas ações coletivas para tutela do consumidor Autora: Gláucia Kohlhase Marques 1. II – os direitos e obrigações derivarem do mesmo fundamento de fato ou de direito. 1.1. quando houver a cumulação de vários sujeitos . Litisconsórcio 1. III – entre as causas houver conexão pelo objeto ou pela causa de pedir.tanto no pólo ativo (autores).

em que serão citados ambos os cônjuges. será assistente litisconsorcial. Entretanto. a maioria dos casos não é expressamente prevista pela lei processual. A lei. o litisconsórcio pode ser ativo quando existirem vários autores. a lei determina a formação do litisconsórcio tendo em vista a relação jurídica material existente. a vontade das partes não é arbitrária. Para isso. impõe a formação de litisconsórcio. CPC). Se aquele que poderia ser litisconsórcio facultativo não integrar a relação jurídica inicialmente e deixa para ingressar no processo posteriormente. por fim. sendo necessário que os demais condôminos sejam citados como litisconsortes (art. o direito material deve ser analisado para que se possa identificar a necessidade da formação do litisconsórcio. em que todos os quinhoeiros deverão ser citados. Alguns exemplos podem ser citados como ações que versem sobre direitos reais imobiliários. Por outro lado. 10. ações de divisão de terras.248 Quanto à pluralidade de partes. O litisconsórcio facultativo pode ser limitado pelo juiz sempre que houver um número excessivo podendo acarretar o comprometimento da rápida solução do litígio . CPC). bem como a dos confinantes do imóvel (art. em que o autor deverá pedir a citação dos interessados certos ou incertos. Quanto à obrigatoriedade de formação do litisconsórcio. § 1º. CPC). em que todos os condôminos deverão ser citados (art. ação de demarcação promovida por um dos condôminos. devendo ser formado no momento da propositura da ação. pela natureza da relação jurídica. ação de usucapião. O litisconsórcio será necessário sempre que a lei assim exigir ou. figura que será examinada mais adiante. Em todas as hipóteses relacionadas. 946. em que serão citadas as partes do contrato. neste caso. sua formação é obrigatória. será facultativo quando a existência do litisconsórcio ficar a critério das partes. CPC). em que marido e mulher terão que se litisconsorciar como autores (art. 10. ações em que marido e mulher deverão ser citados como réus (art. 942. mas sua formação também é necessária sempre que a comunhão de direitos e obrigações for una e incindível. o juiz tiver que decidir a lide de modo uniforme para todas as partes. ação pauliana. passivo quando existirem vários réus ou misto quando no processo litigarem vários autores e vários réus. em que serão citados todos os sócios e. De acordo com o artigo 47 do Código de Processo Civil. condicionando-se aos pressupostos elencados no artigo 46 do Código de Processo Civil já mencionados alhures. proposta pelo Ministério Público. II e 949. ação de dissolução de sociedade. 952. CPC). Entretanto. em muitos casos. Alguns exemplos podem ser mencionados como nas ações de partilha. este pode ser necessário ou facultativo. ação de nulidade de casamento.

O litisconsórcio será ulterior quando surgir no curso do processo. comporta algumas exceções. Quanto à eficácia da sentença. sendo os fatos alegados pelo autor comuns a todos. trata-se não só de citação para formação do pólo passivo como também do ativo. deve ser formado no início da relação processual. a autonomia dos litigantes não é absoluta. recorrer e falar nos autos serão contados em dobro. o litisconsórcio poderá ser unitário ou simples. tornando-se revel. parágrafo único. Assim. Como regra. em consonância com a regra instada no artigo 191 do Código de Processo Civil. não sendo possível que a decisão da lide seja de forma diferenciada para cada um dos colitigantes. Já o litisconsórcio simples se dá quando a lide puder ser decidida de forma diversa para cada litisconsorte. Entretanto. Pode ocorrer que um dos litisconsortes. 46 do Código de Processo Civil. não conteste a ação. assistência litisconsorcial que será examinada mais adiante. Quanto ao momento de formação. Neste caso. Nas demais hipóteses em que aquele que poderia formar litisconsórcio inicialmente não o fez e ingressa posteriormente. os prazos para contestar. basta que um dos litisconsortes conteste para que a revelia não acarrete o efeito . 1. isto é. Da mesma forma poderá ser feita a transação e a conciliação. do Código de Processo Civil. o juiz deverá ordenar ao autor que promova a citação de todos os litisconsórcios sob pena de extinção do processo. Neste caso. obrigatoriamente. podendo praticar todos os atos processuais. não constitui caso de litisconsórcio ulterior e. Os atos e omissões não prejudicam os demais litisconsortes. sim. a situação jurídica litigiosa deve receber tratamento uniforme.249 ou dificultar a defesa. sendo considerado como parte distinta. Neste caso. A confissão e o reconhecimento são possíveis sem que prejudiquem os demais litisconsortes. regra esta consubstanciada no parágrafo único do art. conforme determina o artigo 47. os litisconsortes podem constituir procuradores diferentes.O litisconsórcio unitário ocorre sempre que a lide. cada litisconsorte tem autonomia dentro do processo. Autonomia dos colitigantes Conforme se depreende do artigo 48 do Código de Processo Civil. depois de constituída a relação processual ou pela junção de duas ou mais distintas relações processuais. A única hipótese de litisconsórcio ulterior ocorre no caso de litisconsórcio necessário que não se formou no início da relação processual de forma que. o litisconsórcio deve sempre ser inicial. na posição de réu. Embora a disposição legal não deixe claro. tiver que ser decidida de maneira uniforme para todos os litisconsortes.4. o litisconsórcio pode ser inicial ou ulterior.

E ainda. e sim de assistência. De acordo com o que disciplina o artigo 509 do Código de Processo Civil. § 2º. independentemente dos demais.250 previsto no artigo 319 do Código de Processo Civil. Em decorrência disso os legitimados podem propor a ação coletiva conjuntamente. 5º. 320. É o que ocorre nos casos de litisconsórcio unitário. A prova produzida por um dos litisconsortes também poderá aproveitar ou prejudicar os demais. Neste sentido leciona Calmon de Passos : " O art. em decorrência do princípio da comunhão da prova e do artigo 131 do Código de Processo Civil. com pedido mais abrangente ou conexo. Hugo Nigro Mazzilli entende que a regra do artigo acima citado é caso de litisconsórcio ulterior. mesmo esta redação não se livrou da incorreção de mencionar assistentes litisconsorciais em vez de litisconsortes" [02]. o recurso interposto por um dos litisconsortes aproveitará aos demais quando os interesses não forem distintos ou opostos. I. eliminada a possibilidade de prova contrária do réu quanto aos mesmos". é concorrente e disjuntiva. Relativamente aos demais fatos. menos imperfeita foi a redação dada na Lei n.853/89. Nesse passo. O recurso também poderá ser interposto pelo litisconsorte. 1. O artigo 5º. caso se entendesse que inexista possibilidade de litisconsórcio ulterior. Mas. formando litisconsórcio inicial no pólo ativo. ou comum ao réu atuante e ao revel litisconsorte. "procurando disciplinar o chamado litisconsórcio ulterior. "por absurdo. § 2º.5 Litisconsórcio nas ações coletivas A legitimação nas ações coletivas. Segundo ele. tem que ser entendido como restrito à impugnação de fatos comum a todos os litisconsortes. Trata-se não de litisconsórcio. o litisconsórcio será unitário. Com relação à eficácia da sentença. conforme se depreende do artigo 82 do Código de Defesa do Consumidor. pois a . da Lei da Ação Civil Pública traz a possibilidade de o Poder Público e outras associações legitimadas habilitarem-se como litisconsortes. o art. 7. 319 incide: eles serão reputados verdadeiros pelo juiz. a sanção do art. pois o nosso ordenamento não admite a constituição superveniente de litisconsórcio facultativo. ao tratar do mesmo problema: "Fica facultado aos demais legitimados ativos habilitarem-se como litisconsortes nas ações propostas por qualquer deles". e então ambos os co-legitimados acabariam sendo tratados como litisconsortes. bastaria que o segundo co-legitimado propusesse em separado outra ação civil pública ou coletiva. e isso provocaria a reunião de processos. portanto. da LACP admite que "o Poder Público e outras associações legitimadas" se habilitem como litisconsortes em ação já proposta".

1 O indivíduo na posição de litisconsorte A legitimação extraordinária tem como escopo possibilitar que os indivíduos lesados pela violação de seus direitos sejam substituídos no pólo ativo. 1.5. Tanto o CDC quanto a LACP não trazem regras processuais específicas quanto ao assunto do litisconsórcio. O seu § 5º incluiu o § 5º ao artigo 5º da LACP. o indivíduo não pode ser autor de ação que tutele interesses transindividuais. Entretanto. Neste caso. assim. surgiu a discussão se teria ou não havido veto ao litisconsórcio inserido no CDC. Para que alguém figure como litisconsórcio é necessário que tenha a legitimidade para ser autor. De acordo com o parágrafo único do artigo 46 do referido diploma legal. poderá habilitar-se como assistente litisconsorcial na ação civil pública na defesa de interesses individuais homogêneos. beneficiando. O entendimento majoritário da . todo o grupo de pessoas lesadas. Assim. tendo processo individual em andamento com pedido idêntico ou conexo. inclusive ao meio ambiente. Face o artigo 5º. de acordo com a previsão do artigo 94 do Código de Defesa do Consumidor. a ação popular pode ser proposta pelo cidadão para anular ato ilegal ou ilegítimo lesivo ao patrimônio público. O indivíduo lesado. pelos legitimados ativos elencados no artigo 5º da Lei da Ação Civil Pública e do artigo 82 do Código de Defesa do Consumidor. em um único processo coletivo. tendo em vista que os legitimados para a propositura da ação estão expressamente determinados pela lei. inciso LXXIII da Constituição Federal.251 decisão deverá ser idêntica para todos os litisconsortes. somos pelo entendimento de que se deve fazer a aplicação subsidiária do Código de Processo Civil. Isto ocorre para que a prestação jurisdicional seja prestada de uma só vez. seja de forma isolada ou em litisconsórcio unitário facultativo. é possível a limitação pelo juiz quando houver excessivo número de litisconsortes podendo acarretar o comprometimento da rápida solução do litígio ou dificultar a defesa. após requerer a suspensão. embora não possa ser autor. surgiu a idéia do litisconsórcio entre Ministérios Públicos que acabou se concretizando no artigo 113 do CDC. Com o veto ao § 2º do artigo 82 do CDC. conforme já exposto.5. Pelo sistema vigente na legislação brasileira. 1.2 Litisconsórcio entre Ministérios Públicos Em decorrência de melhor defesa do meio ambiente. há uma exceção que ocorre no caso de ação popular. questiona-se se existiria limites com relação à quantidade de indivíduos que queiram ingressar na ação coletiva como assistente litisconsorcial.

o órgão Ministerial é uno.1 Assistência simples ou adesiva A assistência simples tem origem no processo extraordinário romano. certa improbidade técnica em se falar em litisconsórcio entre os vários órgão de uma mesma instituição. Esta autonomia é apenas administrativa. Para Kazuo Watanabe " haveria. prevalecendo a possibilidade do litisconsórcio entre Ministérios Públicos por força do artigo 113 do CDC. . 2. Ocorre que a própria necessidade de divisão do trabalho que levou à criação de vários órgãos do Ministério Público. falar-se em representação da instituição. certamente. assim. indivisibilidade e independência funcional estabelecidos pelo § 1º do artigo 127 da Constituição Federal. com atribuição específica de tarefas diferenciadas a cada um deles. esses órgãos atuassem com a indicação do setor que lhe compete. Entretanto. de âmbito nacional. o Ministério Público do Trabalho. seja por razão territorial. O Ministério Público é uma instituição informada pelos princípios da unidade. mais apropriado seria. A doutrina insere a assistência nas modalidades de intervenção de terceiros apesar de o Código de Processo Civil vigente a tratar separadamente. Suas regras estão disciplinadas nos artigos 50 a 55 do Código de Processo Civil. as argumentações invocadas para o veto não procedem já que o artigo 128 da Constituição Federal não impede que os Ministérios Públicos da União. do Distrito Federal e dos Estados atuem em conjunto. 2. e assim por diante" [03]. Assim. as quais serão examinadas adiante. fez com que. o Ministério Público do Estado de São Paulo tem agido com a indicação da unidade da federação a que pertence. o Ministério Público pode atuar em qualquer das justiças e até em conjunto com outro órgão do Ministério Público quando a defesa dos interesses e direitos difusos e coletivos esteja dentro das atribuições que a lei lhe confere. ou adesiva e a litisconsorcial ou autônoma. Tecnicamente. Assim. A doutrina classifica a assistências em duas espécies: simples. No que se refere à instituição. com a menção à área que lhe toca. tradicionalmente. seja por razão de matéria. O Código de Processo Civil italiano conceitua a assistência simples como sendo a intervenção de terceiro no processo entre as partes visando sustentar as razões de uma delas contra a outra. ASSISTÊNCIA A assistência é uma forma de intervenção espontânea que ocorre com o ingresso do terceiro na relação processual já existente. Outra polêmica diz respeito à constitucionalidade do dispositivo em questão.252 doutrina é que o veto foi ineficaz.

Segundo Nelson Nery Júnior. Segundo Liebman. há interesse jurídico do terceiro "quando a relação jurídica da qual seja titular possa ser reflexamente atingida pela sentença que vier a ser proferida entre assistido e a parte contrária" [05]. mesmo em contradição. podendo produzir provas e praticar atos processuais desde que sejam benéficos ao assistido. isto é. não se converte em litisconsorte. defender a posição da parte assistida. como terceiro. não formula pedido em prol de direito próprio. pois a lide discutida não lhe pertence. o assistente aturará como gestor de negócios. alterar. lhe é vedado formular pedido próprio. Mas não poderá praticar atos relativos à disposição de direitos. recorrer. restringir ou ampliar o objeto da causa. A assistência pode se dar a qualquer tempo e graus de jurisdição. a assistência ocorre quando o terceiro. Por outro lado. o terceiro "não se torna parte. Vincula-se aos efeitos da imutabilidade da justiça da decisão. recebendo o processo no estado em que se encontra. ao intervir no processo. Também estará sujeito aos mesmos ônus processuais. Entretanto. com interesse jurídico em que a sentença seja favorável à parte por ele assistida. reconvir. atuando com maior liberdade no processo. podendo formular pedido. o artigo 55 do CPC traz algumas exceções. de modo que se torna sujeito no processo e não parte. A última hipótese somente se aplica ao assistente litisconsorcial. Sendo o assistido revel. sempre em benefício do assistido. reconhecer pedido ou transigir. desistir da ação ou transigir sobre direitos controvertidos. a coisa julgada não atinge o assistente simples. o assistente encontra-se subordinado ao assistido que poderá reconhecer a procedência do pedido. com a conduta que esta assume no processo" [04]. ex vi artigo 53 do CPC. como confessar. Entretanto. intervém no processo. O assistente age como auxiliar da parte. O assistente não estará vinculado à justiça da decisão se alegar e provar que. ou reconvir. o assistente não poderá discutir os fundamentos de fato e de direito em que se assentou aquela decisão em outro processo que venha a ser autor ou réu. sua relação jurídica não é deduzida em juízo e a sentença não pode decidi-la nem conter disposições que lhes sejam diretamente pertinentes (exceto quanto às custas da intervenção). pelo estado em que recebera o . Como regra. se necessário. impugnar perito aceito pelo assistido ou testemunha por este apresentada etc. conforme dispõe o artigo 50 do Código de Processo Civil. e permanecendo nesse caráter. contudo.253 O assistente. exercendo os mesmos poderes. ele pode. quando o assistido haja desistido do recurso ou a ele renunciado. Atua com a finalidade de auxiliar o assistido tendo em vista ter interesse em que a sentença seja favorável ao litigante a quem assiste. Assim.

faz coisa julgada material. b) essa relação ser normada pela sentença. o assistente não se subordina aos atos do assistido. poderão ingressar na qualidade de assistente litisconsorcial tendo em vista que o litisconsórcio inicial é facultativo. de que o assistido. já que o indivíduo sempre conserva o direito de acionar .254 processo. poderá ingressar como assistente litisconsorcial na ação coletiva. Para Hugo Nigro Mazzilli. É o caso daquele que poderia ter sido litisconsórcio facultativo mas não o foi. Em consonância com o art. O particular lesado que tenha processo individual em andamento com pedido idêntico ou conexo. 48 do CPC. pois o lesado. não se valeu. isto é. 2. Os atos e omissões do assistido não prejudicarão nem beneficiarão o assistente bem como os atos e omissões deste não influirão naquele. por dolo ou culpa. na assistência litisconsorcial são extraídos do artigo 54 do CPC dois requisitos necessários para a sua formação: a) relação jurídica entre o interveniente e a parte contrária ao assistido. fora impedido de produzir provas suscetíveis de influir na sentença ou desconhecia a existência de alegações ou de provas. se tem direito próprio a ser zelado. atuando como parte distinta deste em suas relações com a parte adversa.2 Assistência litisconsorcial ou autônoma A assistência litisconsorcial ou autônoma ocorre sempre que o terceiro for titular de uma relação jurídica idêntica ou dependente da deduzida em juízo que será atingida diretamente pela sentença. Diversamente da assistência simples. b) não seria a rigor nem mesmo caso de assistência litisconsorcial em sentido estrito. tendo sido deixado fora da relação processual. ou pelas declarações e atos do assistido. não poderia ser terceiro. compreendido no pedido coletivo. 2. pois a sentença não influirá necessariamente na relação jurídica entre ele e o adversário do assistido. em benefício do qual se move a ação coletiva. nos casos de danos a interesses transindividuais. a intervenção do lesado a título de assistência processual não se parece adequar perfeitamente às figuras processuais conhecidas: a) não seria caso de assistência simples. após ter requerido a suspensão.3 Assistência nas ações coletivas Caso os demais legitimados queiram participar do processo posteriormente à propositura da ação. podendo agir com total independência e autonomia relativamente à parte assistida. Seus poderes são de verdadeiro litisconsorte.

Como regra. não pode assumir diretamente a promoção da ação. não restando prejudicado pela decisão da ação coletiva. ou seja. nela intervenham em determinados casos. do CPC. produz coisa julgada. Entendemos no sentido de que. em tese. recebendo o processo no estado em que se encontra. INTERVENÇÃO DE TERCEIROS Transitando em julgado a sentença. a sentença atinge aos que foram partes na demanda e não terceiros. Com relação ao limite temporal para que o lesado habilite-se como assistente litisconsorcial nas ações coletivas. É o que chamamos de "extensão subjetiva da sentença". é possível que os efeitos da sentença recaia indiretamente sobre terceiros. Entretanto. Entretanto. são os que não são partes no processo pendente [07]. parágrafo único. sujeitando-se. em ação individual. Dessa forma. Com o objetivo de reduzir os perigos da extensão dos efeitos da sentença a terceiros não participantes da relação processual. uma vez não disciplinada a questão no CDC nem na LACP. tornando-se imutável e fazendo lei entre as partes. o assistente poderá ingressar a qualquer momento. tendo em vista a complexidade da relação jurídica. exercendo os mesmos poderes e sujeitando-se aos mesmos ônus processuais. para que possam fazer a defesa de seus direitos. em razão do interesse que tenham na lide. deve-se aplicar as regras processuais contidas no CPC. pois lhe falta legitimação autônoma. Embora o assistente atue como auxiliar da parte. Parte dela entende que o lesado poderá ingressar na ação coletiva a qualquer tempo. esta seria a melhor opção [06]. em caso de desistência ou abandono pelo assistido. 50. à sentença proferida. São pessoas estranhas à relação processual de direito material deduzida em juízo e estranhas à relação processual já constituída. pois o indivíduo na poderia ter participado de um litisconsórcio ativo unitário facultativo para propor ação coletiva. São sujeitos de uma outra relação de direito material que se liga intimamente àquela já constituída. o assistente não poderá assumir a ação. Os terceiros que intervêm não são partes na relação processual originária. face o art.255 diretamente o causador do dano. há divergência na doutrina. Assim. Outra parte defende o ingresso do assistente até o saneamento para que não cause tumulto processual. c) também. seria problemático admitir sua intervenção a título de assistência litisconsorcial qualificada. . É a chamada intervenção de terceiros. o direito admite que terceiras pessoas. 3. assim.

buscando sempre que possível. pois o procedimento adotado orienta-se pelos critérios da oralidade. em praça pública. no qual a intervenção se dá no processo principal. não se admite a intervenção de terceiros e a assistência. total ou parcialmente. Em razão desse procedimento é que se dizia que a sentença produzia efeitos em relação a todos que dela participavam e conheciam. . Diversamente do direito romano. os litígios eram decididos pela assembléia do povo. deveria intervir no processo para exclui-las.256 São modalidades de intervenção de terceiros a oposição. a conciliação ou transação. total ou parcialmente. o pedido de tutela jurisdicional. no processo germano barbárico. senhor do direito ou da coisa disputada entre as partes numa demanda pendente. a denunciação da lide e o chamamento ao processo. a oposição pode ser conceituada como sendo a intervenção de terceiro que pretende. Da mesma forma o procedimento comum sumário não autoriza a intervenção de terceiro. das de ambas. o juízo era universal. nos Juizados Especiais (Lei n. Ou.1. formulando pretensão excludente. ainda. A França e a Itália seguem o modelo germânico primitivo. Dessa forma. salvo a assistência e o recurso de terceiro prejudicado por se tratar de um rito mais célere. Pela influência do direito canônico. no todo ou em parte. a oposição acabou se tornando ação autônoma. em que a sentença produzia efeitos apenas entre as partes. O instituto acabou sendo incorporado pelo direito canônico e pelo direito italiano medieval com a denominação de intervenção no processo das partes. simplicidade. a nomeação à autoria. as sanções impostas pelo Código de Processo Civil para os casos em que a parte se omita no dever de provocar a intervenção de terceiro no processo não se aplicam nesta hipótese. 9. face o disposto no art. Moacyr Amaral Santos conceitua oposição "como a ação intentada por terceiro que se julgar. deduzindo pretensão própria excludente. que terceiro formula na demanda entre as partes. ou ação. total ou parcialmente. Se terceira pessoa pretendesse a coisa ou o direito sobre a qual litigavam as partes. economia processual e celeridade. São disciplinadas pelo CPC nos artigos 56 a 80. Entretanto. informalidade. das dos demais litigante" [08]. a coisa ou o direito sobre que controvertem autor e réu. e não só entre as partes.099/95). Como conseqüência disto. 3.1 Conceito A oposição tem origem germânica. 10.1 Oposição 3. Com esta roupagem a oposição foi adotada pelo direito brasileiro. português e alemão.

O limite temporal para o oferecimento da oposição é até a prolação da sentença (juízo de 1º grau) por ser uma questão prejudicial à ação principal. Moacyr Amaral Santos entende que "a oposição. O opoente apresentará a petição inicial observando sempre os requisitos exigidos pelos artigos 282 e 283 do CPC.2 Procedimento O procedimento da oposição encontra-se previsto nos artigos 56 a 61 do CPC. poderá fazê-lo por prazo nunca superior a noventa dias para que não retarde demasiadamente a marcha do processo principal. seguindo o procedimento ordinário. A oposição em processo autônomo será julgada sem prejuízo da causa principal. ou ambos. o interessado no objeto da lide entre o autor e o réu. no mesmo juízo da causa principal. Se um dos opostos reconhecer o pedido. na forma dos arts. deverá ajuizar demanda que entender necessária contra o autor ou o réu. 213 a 233 do CPC. a oposição somente poderá ser proposta em ação autônoma. se o processo principal correr à revelia do réu. nos termos do art. Nesta modalidade de intervenção de terceiros forma-se uma outra relação processual. Após a audiência de instrução e julgamento da lide pendente. Sendo advogados diferentes. embora o Código de Processo Civil não faça referência à questão. 191 do referido diploma legal. Diversamente. este será citado por edital. como demanda autônoma. pode ser proposta entre dois termos: desde já iniciada a audiência . e correrá simultaneamente com a ação. Se a oposição for oferecida antes da audiência de instrução e julgamento. Mas se o juiz entender necessário o sobrestamento do processo principal a fim de julgá-los conjuntamente. esta será apensada aos autos principais. o prazo será contado em dobro. Os opostos serão citados na pessoa dos seus respectivos advogados para oferecer contestação no prazo comum de quinze dias. correrá em apenso aos autos principais ou em apartado como demanda autônoma. não se esquecendo que a oposição deve ser apreciada antes da principal. Serão réus em litisconsórcio necessário autor e o réu da ação principal [09]. Neste caso.1. sendo ambas julgadas pela mesma sentença. somos pelo entendimento de que a citação deve ser pessoal.257 3. Se a sentença já foi proferida não é mais cabível a oposição. contra o outro prosseguirá o opoente. Trata-se de uma exceção à regra de que a citação deve ser pessoal [10] [11]. com prazo de quinze dias para contestar. De acordo com o momento em que ocorrer sua propositura. Entretanto.

substitui-se o réu parte ilegítima para a causa por um réu parte legítima.258 de instrução e julgamento da lide pendente (termo a quo). Da sentença que julgar a oposição. Assim. ainda nesse caso. ou seja. toda vez que o responsável pelos prejuízos alegar que praticou o ato por ordem. Pontes de Miranda entende que a oposição pode ser ajuizada tanto antes da audiência. intentada pelo proprietário ou pelo titular de um direito sobre a coisa. nos termos do art. No mesmo sentido. 3. sujeita às normas que disciplinam o duplo grau de jurisdição" [12] . nenhum óbice existe ao seu ajuizamento depois de proferida a sentença de primeiro grau de jurisdição. isto é.2. ou . a oposição pode ser proposta mesmo quando a causa entre autor e réu estiver em segunda instância. como depois dela e da prolação da sentença. em grau de recurso. visando livrar-se de demanda que lhe foi intentada. É. deverá proceder a nomeação à autoria o proprietário ou o possuidor. Se o Código permite expressamente que a oposição tenha curso autônomo. Transitada em julgado a sentença proferida na ação. a oposição deverá ser oferecida e processada em primeira instância. até o momento em que essa lide tiver sido decidida definitivamente (termo ad quem). o recurso oponível será o de apelação. Duas são as situações em que deverá ocorrer a nomeação à autoria: a) quando aquele que detiver a coisa em nome alheio. A sentença que julgar procedente a oposição será declaratória com relação ao autor da ação principal. portanto. Mas.1 Conceito A nomeação à autoria consiste na correção da legitimação passiva. A oposição não será cabível em processo de execução.2. 62 a 69 do Código de Processo Civil. e possa ser julgada "sem prejuízo da causa principal". devendo entregá-la ao opoente ou responder perante ele. b) na ação de indenização. nos Juizados Especiais e nas demandas sob procedimento sumário [14].2 Nomeação à autoria 3. for demandado em nome próprio. não mais se admite a oposição. mas antes do seu trânsito em julgado [13]. pois declara não ter ele direito ao objeto da causa. e será condenatória com relação ao réu que possui a coisa. 3.2 Procedimento O procedimento da nomeação à autoria encontra-se disciplinado nos arts. até o momento em que a sentença nessa lide se torne irrecorrível. 513 do CPC. ato exclusivo do réu.

posteriormente. propor nova demanda contra o terceiro indicado pelo nomeante. mas sim um dever. se o juiz não estipular o prazo. O nomeante poderá continuar na relação processual como assistente caso tenha interesse em que a sentença seja favorável ao nomeado. Deixando o autor de se manifestar no prazo que lhe foi conferido. 267. § 4º. se a recusar. 3. em relação ao adquirente do direito. Citado o nomeado.3 Denunciação da lide 3. a palavra auctor assume várias acepções. A nomeação deve ser requerida no prazo para a defesa. . presumir-se-á aceita a nomeação [15]. se nomear pessoa diversa daquela em cujo nome detém a coisa demandada. A sua inobservância resulta na responsabilidade por perdas e danos. este poderá reconhecer a qualidade que lhe é atribuída. pois estará dando prosseguimento a um processo inútil ao fim visado. A nomeação à autoria não é uma mera faculdade do réu. O Código nada fala de qual será o prazo para o nomeado falar sobre a nomeação. o juiz suspenderá o processo e mandará ouvir o autor no prazo de cinco dias. expressa ou tacitamente. o causam habens). 185 do CPC. ou se este negar a qualidade que lhe é atribuída. Da mesma forma. Se o nomeado negar a condição. Neste caso. ficará sem efeito a nomeação. nada alegou.259 em cumprimento de instruções de terceiro. É neste último sentido que foi usada a palavra autoria. a ele incumbirá a citação. conforme preceitua o art. o processo continuará contra o nomeante. que se afirma parte ilegítima. observando a regra contida no art. ou se compareceu. o transmitente do direito (o causam dans. Aceita a nomeação pelo autor. para. correndo a demanda contra ele. Assim. acarretando dano ao autor e para a Justiça. O reconhecimento tácito se dá por presunção. o nomeante terá novo prazo para contestar [16]. havendo recusa do autor com relação ao nomeado. deverá aplicar o prazo de cinco dias.3. e uma vez deferido o pedido. ou desistir da ação contra o nomeante.1 Conceito No direito romano. no chamamento à autoria instituído pelo Código de Processo Civil de 1939. É tanto aquele que propõe ação quanto o antecessor na sucessão da coisa. Dessa forma. o autor terá duas opções: assumir o risco de continuar litigando com o nomeante. tendo em vista que o nomeado não compareceu.

este deve . É uma ação secundária. chiamata in garantia. denominando o instituto de exception de garantie. II – ao proprietário ou ao possuidor indireto quando. mas não perde a pretensão de direito material. no mesmo processo. exerça a posse direita da coisa demandada. art. São os seguintes: I – ao alienante. 3. a fim de que esta possa exercer o direito que da evicção lhe resulta. em ação regressiva. podendo ajuizar a ação regressiva em processo autônomo. pois se não fizer a denunciação perderá o direito de regresso contra aquele que é o garante do seu direito discutido em juízo. acompanhando o direito tradicional português. 70. o conceito de denunciação à autoria foi alargada. Haverá duas lides que serão processadas simultaneamente. a indenizar. então.260 O direito brasileiro. pela lei ou pelo contrato. por força de obrigação ou direito. O CPC traz em seu art. regressiva. citado em nome próprio. a parte que não promover a denunciação da lide perderá apenas as vantagens processuais dela decorrentes. Já o direito francês e o italiano preferiram o vocábulo de origem germânica. a denunciação da lide pode ser feita tanto pelo autor quanto pelo réu. Denunciação da lide é o instituto pelo qual autor ou réu chamam a juízo terceira pessoa. do locatário.3. No direito alemão e austríaco tem como correspondente a litisdenunciação. a fim de resguardá-lo no caso de ser vencido na demanda em que se encontram. III – àquele que estiver obrigado. o prejuízo do que perder a demanda [19]. Quando o titular da eventual pretensão regressiva for o autor. utilizando-se do vocábulo latino. o réu.2 Procedimento Como já foi dito alhures. Já na hipótese dos incisos II e III. sendo citado como denunciado o terceiro contra quem o denunciante terá pretensão indenizatória caso seja sucumbente na ação principal. passando. adotou a denominação "chamamento à autoria". na ação em que terceiro reivindica a coisa. a ser chamado de denunciação da lide. 70 os casos em que tem cabimento a denunciação da lide. em casos como o do usufrutuário. do credor pignoratício. Trata-se de ato obrigatório [20] [21] apenas nos casos de evicção e transmissão de direitos. julgadas pela mesma sentença [17] [18]. Mais tarde. cujo domínio foi transferido à parte. que seja garante do seu direito.

e de trinta para o residente em outra Comarca. A revelia do denunciado não desobriga o réu de sua defesa sob pena de perder o direito de regresso. Se o denunciado confessar os fatos alegados pelo autor. ou lugar incerto. sendo sua impugnação feita por meio do recurso de agravo. 297). ficando suspenso o processo.261 requerer a denunciação juntamente com a petição inicial. pedindo a citação do denunciado. a ação prosseguirá unicamente em relação ao denunciante [22]. Neste caso. comparecer apenas para negar a qualidade que lhe foi atribuída. Se a citação não ocorrer dentro do prazo estipulado pela lei. sendo. ou confessar os fatos alegados pelo autor. A diligência para a citação do denunciado deve ser feita no prazo de dez dias para o residente na Comarca. poderá o denunciante prosseguir ou não na defesa. não pode argüir fato novo. Citado o denunciado. Entretanto. A denunciação da lide feita pelo réu deve ser oferecida no mesmo prazo para a contestação da ação principal. Neste caso. prosseguindo o processo contra o denunciante e denunciado em litisconsórcio. pois o denunciado precisa conhecer o posicionamento do réu com a inicial para poder apresentar sua defesa [24]. cumprindo ao denunciante prosseguir na defesa até o final. poderá o réu e denunciante apresentar contestação. contrariando a defesa do autor [23]. a qual será feito primeiro. apresenta apenas a denunciação. depois de reiniciado o andamento da ação principal ? Isso não nos parece correto. não há dúvidas quanto a essa possibilidade já que a lei é expressa. Da mesma forma se dará se o denunciado for revel. O denunciado também poderá aceitar a denunciação e assumir a posição de litisconsorte. Ordenada a citação. Questão que surge é se o réu. Uma vez citado o denunciado. O prazo e as regras para a citação do denunciado serão as mesmas da denunciação feita pelo autor. e do réu. como acima explicitado. deixando de contestar o pedido do autor. este poderá aceitar e contestar o pedido. sendo o denunciado citado dentro do prazo para a contestação. suspende-se o processo. Cabe ao denunciado coadjuvar o autor uma vez que tem interesse na procedência da ação. Embora haja na doutrina divergência quanto ao aditamento da petição inicial pelo denunciado. considerado revel. uma vez citado. a demanda prosseguirá entre autor e réu. A decisão de rejeição liminar da denunciação é decisão interlocutória. . podendo aditar a petição inicial no prazo de quinze dias (art. 241 c/c art. podendo o denunciante prosseguir na defesa. este poderá defender-se da denunciação negando a qualidade que lhe é atribuída.

acarretando a perda da ação [26]. pois. sucessivamente. previstas no artigo 73 do CPC. 72 e 73) e "responsabilidade por perdas e danos" (art. esta será declaratória. somente após a última denunciação é que o processo retornará ao seu curso. 70. 75) [25]. É o que dispõe o art. de modo que a denunciação somente será possível quando. observando-se. Moniz de Aragão sustenta a possibilidade de denunciação da lide não somente ao alienante mas também de todos os antecessores na cadeia dominial. 70. no caso de insolvência ou ausência de algum dos anteriores proprietários na cadeia dominial" [28]. posiciona-se Athos Gusmão Carneiro. Assim. 76 do CPC. No mesmo sentido. Entretanto. quanto aos prazos. já prevendo tal situação. Na verdade. 70).I) [29] [30]. 73 : " Para os fins do disposto no art. se assim não fosse. . pondo fim à suspensão preconizada pelo art. ou o responsável pela indenização e. esta assertiva não coaduna com a parte final do artigo que diz "valendo como título executivo". Todas essas discussões ocorrem principalmente no temor de que as denunciações sucessivas se eternizem no processo. "responsável pela indenização" (art. requeridas ‘em conjunto’ pelo denunciante. poderão ser feitas ‘coletivamente’. Isto ocorre quando o denunciado tem com relação a outrem a mesma posição jurídica do denunciante perante ele. o denunciado. não haveria possibilidade de considerá-la como título executivo (584. o efeito da sentença é condenatório. assim. Mas o próprio Código. As hipóteses de intervenção são excepcionais face o princípio da singularidade da jurisdição e da ação. não se tornando réus na ação. determina a "intimação" e não a "citação". Outra parte posiciona-se no sentido de que a interpretação dos dispositivos deve ser restritiva. o disposto no artigo antecedente". por sua vez. o possuidor indireto.262 O Código de Processo Civil também permite a chamada denunciação "sucessiva". Isto porque constam do próprio texto legal as expressões "obrigação de indenizar em ação regressiva" (art. o procedimento servirá apenas como forma de cientificar os eventuais denunciados. na mesma oportunidade [27]. Parte da doutrina tem entendido que a denunciação da lide sucessiva é cabível em todos os casos de ação regressiva. assim abreviando o processo e melhor se assegurando o êxito da demanda indenizatória de regresso. No que tange aos efeitos da sentença que julga a denunciação da lide. realizado em Curitiba. conforme o art. ou seja. em tese apresentada no Ciclo de Estudos de Processo Civil. por força de lei ou contrato. intimará do litígio o alienante. Dessa forma. o denunciado está obrigado a garantir o resultado da demanda. o proprietário. (em agosto de 1983) : "As denunciações sucessivas.

reconhecer. 584. A possibilidade de execução é. Tem como finalidade alargar o campo de defesa dos fiadores e dos devedores solidários.099/95 respectivamente. a virem responder pelas suas respectivas obrigações de modo a "favorecer o devedor que está sendo acionado.1 Conceito O chamamento ao processo é uma das modalidades de intervenção de terceiro no processo pelo qual o devedor demandado chama os demais coobrigados pela dívida para integrar o mesmo processo daquele que o autor poderia ter trazido como litisconsorte. denominada de chamamento à demanda. título executivo judicial para cobrar deles aquilo que pagar" [36]. pareceria que a segunda decisão do juiz seria meramente declaratória. ou os co-responsáveis ou coobrigados. tendo em vista ser um procedimento mais célere. com as últimas palavras da própria norma em exame: valendo como título executivo. a vantagem do instituto. 10. não ensejaria execução. o que não é coerente. 3. Por outro lado. em definitivo. com força de coisa julgada material. Também não é cabível no processo de execução [35]. se a sentença fosse tão somente declaratória. Lei n. todavia. porque amplia a demanda. em um só processo. para permitir a condenação também dos demais devedores. A denunciação acabaria introduzindo fundamentos novos na relação processual acabando por procrastinar o feito [34]. I. possibilitando duplo título executivo" [31]. resolverem-se. A denunciação da lide não é cabível no procedimento sumário bem como nos Juizados Especiais por força da vedação do art. além de lhe fornecer. duas lides conexas. e quer dizer condenar. 280 do CPC e art. A palavra declarar no texto foi usada em seu sentido estrito de definir. chamar o responsável principal. pois o texto legal diz que "é admissível".4 Chamamento ao processo 3.263 Da mesma forma. no mesmo processo. Arruda Alvim leciona : "Outra observação que cabe fazer é a de que. aliás. coloca como título judicial apenas a sentença condenatória. possibilitando-lhes. A sentença que julga a denunciação da lide pode ser atacada por meio da apelação [32] [33]. sem uma maior análise. diretamente no processo em que um ou alguns deles forem demandados. Aquele que chama terceiro ao processo não tem pretensão a fazer valer em . É uma faculdade do réu em fazer o chamamento ao processo do terceiro e não uma obrigação. 9. O chamamento ao processo foi trazido ao Código de Processo Civil por influência do Código de Processo Civil de Portugal que possui essa forma de intervenção de terceiros.4. dado que o art.

o fiador também será principal devedor e. como responsável pela dívida. E. tendo sido demandado apenas um deles. decorrente de não pagamento de dívida pelo afiançado. poderá valer-se do já referido benefício de ordem. 595 do CPC.2 Procedimento O procedimento do chamamento ao processo encontra-se disciplinado nos arts. chamante e chamado. a dívida comum – esta é a hipótese de solidariedade passiva em que o credor esteja exigindo apenas de um dos devedores solidários a dívida comum. face o art. Ambos. isto é. Sendo a sentença procedente.264 relação ao chamado. II – dos outros fiadores. quando para a ação for citado apenas um deles – consiste na hipótese de haver vários fiadores garantes da dívida. o afiançado chamado ao processo será abrangido pelos efeitos da decisão.4. 568. somente poderá ser executado o devedor reconhecido como tal no título executivo. Confere-se ao fiador o direito de não sofrer execução. 77 a 80 do Código de Processo Civil. uma vez citado. Neste caso. nos termos do art. nos termos do art. poderá chamar ao processo o afiançado. Dessa forma. Apenas entende que este tem a mesma obrigação de responder perante o autor. 80 do CPC [38]. 827 do Código Civil [37]. torna-se litisconsórcio. O réu deverá requerer o chamamento ao processo na mesma oportunidade da contestação. instaurado o processo de execução. sendo o caso. Mesmo que o fiador não tenha benefício de ordem a seu favor. será condenado da mesma forma que o fiador. Isto porque. parcial ou totalmente. na ação em que o fiador for réu – visa garantir a possibilidade de o fiador utilizar-se do chamado benefício de ordem consubstanciado no art. até que exausto o patrimônio deste. solidários. III – de todos os devedores. O chamamento ao processo é admitido nos seguintes casos: I – do devedor. ocupam a posição de litisconsórcio facultativo no pólo passivo. poderá exigi-la do afiançado. quando o credor exigir de um ou de alguns deles. O fiador chamado ao processo. tendo satisfeito o credor. 3. facultando ao demandado trazer os demais fiadores ao processo.I do CPC. serão trazidos ao processo os demais devedores solidários passando a figurar como litisconsortes no pólo passivo. .

coletivos e individuais homogêneos. Já no processo de execução não é possível o réu lançar mão do chamamento ao processo já que inexiste sentença sobre a pretensão executiva. em geral. ainda que . 72 e 74. 3.265 Deferido o pedido do devedor e ordenada a citação. Os direitos metaindividuais têm a primeira referência na Lei da Ação Popular. ocorreu com a promulgação da Constituição Federal de 1988. para que o fiador se utilize do benefício de ordem é necessário que tenha requerido o chamamento ao processo do afiançado no processo de conhecimento. do devedor principal. CPC) e nos Juizados Especiais (art.078/90. O termo difuso tem sua origem doutrinária romanística tendo como titular cada um dos integrantes da comunidade. Lei n.º 7. em favor daquele que satisfizer a dívida. indeterminados.347/85 houve uma sistematização na defesa dos direitos difusos e coletivos ao meio ambiente e ao consumidor. A construção doutrinária em torno da noção conceitual é recente em nossa legislação pátria.513/77 e com a Lei da Ação Civil Pública. Os sujeitos são. ou de cada um dos co-devedores a sua cota. chamados de direitos fundamentais de terceira geração. O indeferimento do chamamento somente poderá ocorrer se o juiz verificar que o requerimento não se enquadra nas hipóteses elencadas pelo art. Dessa decisão cabe agravo. Lei n.5 Intervenção de terceiros nas ações coletivas As ações coletivas são aquelas destinadas a defesa dos interesses difusos. Com a alteração dada pela Lei n. A positivação dos direitos difusos e coletivos.º 6. Lei n. na proporção que lhes tocar. 9.º 8. Os interesses metaindividuias têm sua origem em regras previstas como garantias do tecido social. tornando-se litisconsorte do chamante. para exigi-la por inteiro. o processo será suspenso. No procedimento sumário (art. este terá prazo para resposta. O chamamento ao processo é cabível tanto em processo de conhecimento quanto no cautelar.099/95) não é cabível o chamamento do processo por se tratar de procedimentos mais céleres. observando as regras contidas nos arts. Assim. Após a citação do chamado. O perfil histórico do processo civil romano menciona as actiones populares como instrumento de proteção a esses interesses. quanto à citação e aos prazos [39]. A sentença de procedência proferida no processo de conhecimento condenará os devedores e valerá como título executivo. 10. 77. consumando-se com o advento do Código de Defesa do Consumidor. 280.

consubstanciado no art. seja através de demanda individual. São difusos os direitos cujos titulares são indetermináveis. Neste aspecto é que os institutos processuais devem ser analisados. buscando o equilíbrio processual entre as partes. por relação jurídica base preexistente à lesão ou ameaça de lesão. Assim. buscando a facilitação e a rápida entrega da prestação jurisdicional. ligados entre si. São coletivos quando os titulares são indeterminados. Dividem-se em interesses difusos. I do CDC. fossem garantidos. mas determináveis. seja por meio de habilitação por ocasião da liquidação da sentença na demanda coletiva. Daí se conclui que em lides de consumo as figuras de intervenção de terceiros serão possíveis desde que não traga dificuldades na defesa e procrastinação no feito. ampla defesa. parágrafo único e seus incisos. Os individuais homogêneos são aqueles direitos individuais cujo titular é identificável e o objeto é divisível.078/90 que trouxe o conceito. A tutela jurisdicional dos interesses difusos deve ser feita em benefício de todos os consumidores atingidos. em decorrência do desequilíbrio das forças econômicas e negocias nas relações de consumo. em noção tripartite dos interesses metaindividuais.º 8. acarretando ofensa diferente na esfera jurídica de cada um de modo a permitir a identificação das pessoas atingidas. O Código de Defesa do Consumidor deixou de tratar muitas questões processuais. o legislador se deparou com a necessidade de criar regras de proteção para que os princípios constitucionais de igualdade. ou com a parte contrária. 103. de forma que. que acabou por deixar o consumidor em situação de vulnerabilidade e hipossuficiência. Não há entre eles relação jurídica base. Não é necessário que exista entre as pessoas uma relação jurídica base anterior. entre outros. Essa relação jurídica é diversa daquela que se origina da lesão. É caracterizado pela sua origem comum podendo ser defendidos coletivamente. Com esses princípios em mente é que o legislador trouxe a vedação da . A ligação entre os titulares se dá por circunstâncias de fato e o objeto é indivisível. e o seu objeto e a forma de tutela possuem uma mutabilidade no tempo e espaço como característica. Desse modo. há necessidade de se fazer uma interpretação sistemática entre o CDC. Seu objeto também é indivisível. o CPC e a LACP. sendo suficiente uma única demanda.266 determináveis. cuja sentença fará coisa julgada erga omnes face o disposto no art. A efetiva identificação se dá no momento em que o prejudicado exerce o seu direito. sempre à luz da vulnerabilidade do consumidor. o Código de Defesa do Consumidor trouxe uma sistemática peculiar. coletivos e individuais homogêneos. A relação jurídica que nasce da lesão é individualizada na pessoa de cada prejudicado. 81. Foi a Lei n.

Código de Processo Civil Comentado. tendo em vista que o segurador foi chamado como responsável em face do consumidor. 88 do CDC. Outra questão polêmica é quanto ao cabimento do chamamento ao processo em sede de lide de consumo. v. propor ação autônoma de regresso nos mesmos autos da ação originária" [40]. Uma vez julgada procedente a demanda. 1. cap. 04 05 06 07 Libman. Nota às Instituições de Chiovenda. GIOVANNI NENCIO NI (L´intervento voluntário litisconsorziale nel processo civile) refere que " única è la definizione di terzo. port. Por se tratar de ação condenatória em que se discute dolo e culpa acaba por afrontar o direito do consumidor de ser indenizado em face da responsabilidade objetiva. 2. Nelson Nery Júnior. ed è negativa: terzo di um . em caso de procedência da ação. para evitar que a tutela jurídica processual dos consumidores pudesse ser retardada e também porque. p. 256. Com isso. não há violação aos princípios básicos do microssistema do CDC já que o chamamento da segurado só amplia as garantias para o consumidor [41]. 78 do CPC. Hugo Nigro Mazzilli. por via de regra. foi vedada para o direito de regresso de que trata o art. A defesa dos interesses difusos em juízo.267 denunciação da lide no art. face o disposto no art. que poderá. A defesa dos interesses difusos em juízo. p. 101. P. Hugo Nigro Mazzilli. o juiz poderá julgá-la não só contra o réu. não ficará prejudicado o comerciante. do Código. parágrafo único. Curso de Direito Processual. 763. em seguida ao pagamento da indenização. XXIX. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. 328. a sentença condenará o réu nos termos do art. como também contra o seu segurador. Kazuo Watanabe. Nestes casos deve ser proposta ação autônoma para a discussão da questão. 226. 79 do CPC. a dedução dessa lide incidental será feita com a invocação de uma causa de pedir distinta. 13. Neste sentido. Kzauo Watanabe entende que "a denunciação da lide. face o art. Esse chamamento deverá ocorrer no prazo para contestação. entretanto. todavia. Notas 01 02 03 Rezende Filho. Neste caso. Nesta hipótese. II do CDC traz expressamente a possibilidade do chamamento ao processo da seguradora quando existir relação de seguro. v. P. trad. O art. 80 do CPC.

para a eventualidade da sucumbência do denunciante" (BARBOSA 18 17 16 . mas é perfeitamente válida a citação feita na pessoa dos referidos interessados" (1ª Câm. de 7. GOMES DA CRUZ. Sálvio de Figueiredo. 34:50). "O prazo começa a correr novamente. deram provimento. 27. 74. Pontes de Miranda. devendo os nomeados serem citados para manifestar-se sobre o pedido. ". deve o interessado propor ação autônoma" (TRF . mas obedecerá ao disposto nos arts. 49. não pode ser feita mediante simples publicação na imprensa oficial.85. rel.96. v.08. embora na pessoa dos advogados. 15:137). rel. 213 e 233" (RJTJSP. 549/75.10.598. 1991.75. Costa Lima. ac. tem o réu 15 dias para responder à ação" (TRPR – Apel.. v.285). presume-se aceita aquela. podendo.295).u. Revista dos Tribunais. RT 486/160). 08 09 Moacyr Amaral Santos. j. AC 83. v. p. Rev. "O art. Primeiras linhas do direito processual civil. Moacyr Amaral Santos. "Ante o silêncio do autor sobre o pedido de nomeação à autoria feito pelo réu. V. do TRF n. discutir sobre possível ilegitimidade passiva ‘ad causam’" (STJ – 4ª Turma. Sidney Sanches alude que a expressão "denunciação à lide" dá a idéia de simples notícia de existência do litígio. 10 e CPC. 2. 57 do CPC manda citar os advogados dos opostos para apresentação de defesa. v. mas no Código de Processo Civil vigente. 2. além de impugnar a nomeação propriamente dita.96. art. RP.12. consubstancia uma ação incidental com pretensão de garantia e/ou indenização. p.206-SP. 107:247 e 115:168). 15. REsp 104. neste caso. "apud" Em. 1953).. v. Des. Do TJPA. p. Belém.. Rel.77. DJU 9. Comentários ao Código de Processo Civil. Turim.São Paulo: Saraiva. Pluralidade de partes e intervenção de terceiros.se converte na verdadeira propositura de uma ação de regresso antecipada.2ª Turma.. art. 95 (nº 2) e 100 (nº 1). 14 15 13 12 11 10 Lei 9.06.433-MS. 280. 1974. Do TJPA. Lídia Dias Fernandes. isto é.268 giudizio è colui Che non è parte". 3. do denunciante em face do denunciado (Denunciação da lide. " A citação.II. DJU 29. Min. ed. Min.u. Assim também SÉRGIO COSTA: " Il concetto di terzo può essei determinato solo per esclusione: è terzo chi non è parte" (L’ intervento in causa. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. 18.099/95. da Jur. AC. "A oposição não pode ter objeto mais amplo que a coisa ou o direito controvertidos entre autor e réu. 12.11. em 1. 1997.

04. por exemplo. Min. nem teria interesse algum nisso. O § 2º. poderá logo pedir a retomada do curso do processo. quando. porque não é o dominus litis.02. I. em acrescentar o denunciado. Se. p.Tornar facultativa a denunciação da lide importa no descumprimento explícito da lei (art.761). "Segundo entendimento doutrinário predominante. j. uma vez que o eventual direito regressivo do autor contra o denunciado exercer-se-á nos 23 22 21 20 19 . p. Estudos sobre o novo Código de Processo Civil. 22. V. não haverá motivo para negarlhe efeito. documentalmente. somente nos casos de evicção e transmissão de direitos (garantia própria) é que a denunciação da lide se faz obrigatória" (STJ – 4ª Turma. DJU 24. "Esse prazo é estipulado em favor da parte contrária à que requereu. Curso de Direito Processual Civil. rel. somente deve ser admitida quando o denunciante logre comprovar de plano. por exemplo. não haja necessidade de dilação probatória pertinente exclusiva e especificamente à denunciação" (Max Guerra Kopper. por força da própria necessidade instrutória do feito principal. ressalvados. do art. serão de qualquer modo produzidas. Não poderá. Humberto. insista-se.99. "A denunciação da lide. o denunciado argüir a intempestividade como motivo para exonerar-se da responsabilidade de garantia ou do direito regressivo do denunciante. DJU 26. REsp 43. a denunciação.367-SP. ou em trazer mais elementos e argumentos de fato ou de direito à petição inicial. 87). em outras palavras. 70. a citação for realizada além do prazo. os casos de denunciação obrigatória.96. onde se estipula a suspensão do processo. Rio de Janeiro. Demócrito Reinaldo. e não do terceiro denunciado" (THEODORO JÚNIOR.321-PR – STJ – 1ª Turma. ou quiçá em expungi-la de irregularidades que poderiam torná-la inepta. "Em face de preceito expresso de lei. Ed. Sálvio de Figueiredo. já agora como "litisconsorte" do autor. ou cumular pedidos outros. Del Rey. Rio de Janeiro: Editora Forense. para evitar seu prejuízo de ficar com o processo suspenso indefinidamente. 1997). cap. Líber Juris. por via de regresso.269 MOREIRA. rel. in casu. p. 72 deve ser interpretado em harmonia com o respectivo caput. o prejuízo do que perder a demanda.06. Min. alterar substancialmente o próprio pedido formulado pelo denunciante. 21. v. 23. "Pode consistir. 1974. 61). sem a consumação da diligência. mas ainda com o processo paralisado. III. ed. 87-8). p. o seu direito de regresso ou quando tal comprovação dependa unicamente da realização de provas que.99. Da denunciação da lide. do CPC) e na afronta ao princípio da economia processual" (REsp 196. em prejuízo das partes do processo principal. Mas não pode o denunciado. a denunciação da lide é obrigatória a todo aquele que estiver forçado pela lei ou por cláusula contratual a indenizar. uma nova causa petendi. porém. Por isso sendo ultrapassado.

Todavia. "O art. t. 8. 92. Barbosa Moreira. ed. para habilitar-se à sua própria defesa. do Código de Processo Civil. necessita conhecer a posição de denunciante relativamente aos fatos e pretensões apresentados na petição inicial. 121. o aparelhamento deste independe do andamento da execução da sentença proferida na ação principal. art. 7. o réu implicitamente aceitou os fatos postos na inicial e permitiu a preclusão de seu direito de contestar. 87). Arruda Alvim. 1978. Ag 247.. na ação principal (pois nesta torna-se litisconsorte passivo). 76). Moniz Aragão. ante o disposto no art. São Paulo: Saraiva. rel. 1. 2001. Artigo publicado na Revista do Instituto dos Advogados do Paraná. cit. n. 1996). ed. Ari Pargendler. 320. 1979. Intervenção de Terceiros.v. I. inciso I. Min. Ajuris.761-DF-AgRg. 1996. Athos Gusmão. 85/86. Manual de Direito Processual Civil. Estudos sobre o novo Código de Processo Civil. 25:22. "A sentença que julga procedente a denunciação da lide vale como título executivo (CPC. São Paulo: Revista dos Tribunais. podendo o denunciado à lide ser obrigado a cumprir sua obrigação. artigo cit. 1984. Athos Gusmão Carneiro. com redação da Lei 9. Intervenção de Terceiros.270 limites da sucumbência. 08/02/00). Sidney Sanches. ed. "Pode ser rescindida a sentença que deixa de julgar a lide secundária objeto da denunciação" (RT 724/408). do Código de Processo Civil" (Intervenção de Terceiros. Justitia 94/13. 2.245/95. 8. Na opinião de Athos Gusmão Carneiro " O denunciado. porque o processo continua" (RT574/150). se o denunciado vier a contestar não só a ação regressiva. Sobre chamamento à autoria. p. antes que o réu o faça" (STJ – 3ª Turma. "A expressão "valendo como título executivo" evidencia o conteúdo condenatório da sentença que julga procedente a denunciação da lide" ( RSTJ 85/197). antes da sentença. p. então não se produzirá o efeito da revelia. certamente pautado em preocupação maior com a concentração de atos 34 33 32 31 30 29 28 27 26 25 24 . Ao limitar-se ao pedido de intervenção do terceiro. 280. p. litisdenunciado é agravável de instrumento. Denunciação da Lide no Processo Civil Brasileiro. "Decisão que exclui. São Paulo: Saraiva. Vicente Greco Filho.. como também o pedido formulado. que não pode ultrapassar o pedido" (CARNEIRO. p. I.

n. cit. Ordenada a citação. salvo assistência e recurso de terceiro prejudicado".. " Art. 2º Não se procedendo à citação no prazo marcado. O sistema do CDC veda a utilização da denunciação da lide e do chamamento ao processo.922 – Rel. b) quando residir em outra comarca. a ação prosseguirá unicamente em relação ao denunciante. até a contestação da lide. p. 41 40 . do proprietário. a denunciação é forma de intervenção de terceiro (o Capítulo VI em que o instituto está inserido tem esta denunciação). 434. livres e desembargados. dentro de trinta (30) dias. 74. quantos bastem para solver a dívida".271 processuais e. O fiador que alegar o benefício de ordem. O tema. 521/197 e 562/112. "Art. Celso Barbi. certamente dará ensejo a profundas controvérsias" (Arruda Alvim. p. v. o denunciado. Como no sistema do Código de Processo Civil. Arruda Alvim. com a economia processual. t. nem a intervenção de terceiro. dentro de dez (10) dias. Feita a denunciação pelo autor. assumirá a posição de litisconsorte do denunciante e poderá aditar a petição inicial. 359. que sejam primeiro executados os bens do devedor. Comentários ao Código de Processo Civil. ed. 7. P. 197). dispõe que "não será admissível ação declaratória incidental. 1. com o advento deste dispositivo restou. ambas ações condenatórias. "Vedação da denunciação da lide. ficará suspenso o processo. 262. 1º A citação do alienante. 38 39 37 36 35 "Não se admite chamamento ao processo em execução" (JTA 103/354). entretanto. reflexamente. ou em lugar incerto. Art. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. procedendo-se em seguida à citação do réu". do possuidor indireto ou do responsável pela indenização far-se-á: a) quando residir na mesma comarca. a que se refere este artigo. I. 782/783. pela literalidade de seu texto. ed. II. sitos no mesmo município. 1º TACSP – 3ª Câm – Ap. Parágrafo único. RT 504/173. 827 – O fiador demandado pelo pagamento da dívida tem o direito a exigir. deve nomear bens do devedor. 72.. vedada a denunciação da lide no procedimento sumário. comparecendo.

isto é. a conduta do fornecedor ou de terceiro (dolo ou culpa). ún. p. Embora esteja mencionada como vedada apenas a denunciação da lide na hipótese do CDC 13 par. sem que se discuta dolo ou culpa" (Código de Processo Civil Comentado. que é elemento de responsabilidade subjetiva. 1402).. Seria injusto discutir-se. . em detrimento do consumidor que tem o direito de ser ressarcido em face da responsabilidade objetiva do fornecedor. na verdade o sistema do CDC não admite a denunciação da lide na s ações versando lides de consumo.272 porque o direito de indenização do consumidor é fundado na responsabilidade objetiva. por denunciação da lide ou chamamento ao processo.

Ação Civil Pública e Ação Coletiva – 3. Introdução – 2.273 A competência nas ações coletivas do CDC Autores: Renato Franco de Almeida Paulo Calmon Nogueira da Gama Aline Bayerl Coelho SUMÁRIO: 1. .

Neste sentido. que previram a defesa de alguns direitos coletivos lato sensu. seja da jurisprudência. bem como a resposta firme e. Porém. INTRODUÇÃO A defesa dos interesses/direitos transindividuais ou metaindividuais (1).180. com a chegada – verdadeira necessidade – do Estado Democrático de Direito. Atualmente. ao longo dos anos. seja da doutrina. II. como se tentará demonstrar na seqüência. Não obstante a inegável importância que esses diplomas legais possuem hoje no cenário jurídico nacional – como verdadeiras concretizações do Estado Democrático de Direito no aspecto processual – muita celeuma foi criada durante os anos das respectivas aplicações. 1. mormente no tocante ao redimensionamento de velhos institutos processuais que tiveram que ser readaptados à nova realidade das demandas coletivas. deu maior desenvolvimento à defesa dos interesses coletivos em sentido amplo. que. sendo incumbência da Ciência Processual adequar os institutos do Direito processual clássico – inspirado ainda em princípios e institutos surgidos no século XVIII – para a defesa desses direitos coletivos.274 Competência na Ação Civil Pública – 4. Com a aparição de novos interesses/direitos. merece melhor reflexão. Para tanto. ganhou foros de cidadania. obviamente. Dentre as muitas divergências que ainda causam os textos legislativos mencionados. Conclusão – 9. foram editadas algumas leis. há bem pouco tempo. a competência para apreciação e julgamento das demandas propostas pelo rito processual instituído no Cap. III do CDC. da natureza dos novos interesses/direitos perseguidos no bojo da relação jurídica processual.347/85 – que instituiu a Ação Civil Pública – e 8. é de se colocar em evidência a aparição das Leis nº 7. Bibliografia. portanto. era impensável no Direito brasileiro.078/90 – que instituiu o Código de Defesa do Consumidor – que. além dos aspectos materiais. fez-se mister o surgimento de novas formas de proteção. .347/85. em razão. possui semelhanças com aquela tratada pela Lei nº 7. de seu turno. acertada da jurisprudência na defesa de interesses que. o presente trabalho tem por escopo precípuo a análise da competência instituída para as chamadas ações coletivas para a defesa de interesses individuais homogêneos. na maioria das vezes. entendemos. Competência na Ação Coletiva – 5. do Tít. é fecunda a doutrina pátria. a nosso sentir e apesar da dicção legal. mormente após o advento da Medida Provisória nº 2.

117 do CDC). parece ser entendimento sedimentado doutrinariamente o fato de que a Ação Coletiva somente poderá servir de instrumento à defesa de interesses consumeristas. coletivo ou individual homogêneo. com o procedimento previsto no Cap. daí a aparição de diversos ritos processuais especiais que instrumentalizam a efetivação dos direitos de fundo. a nosso aviso. art. no momento em que aquela serve como instrumento à satisfação não só de condenação à determinada quantia. à defesa dos interesses individuais homogêneos. vislumbram-se. afinal. o que. Mesmo que perfunctoriamente. que dão ensejo a tratamento diverso. processo é meio de realização material da função jurisdicional do Estado. 3º – a ação coletiva prevista no CDC tem por objeto imediato do pedido tão-somente a condenação do Réu – única providência jurisdicional admitida nesta seara – ao pagamento de quantia – objeto mediato – que deverá ser apurada em seu quantum no respectivo processo de liquidação (arts. Ademais. ao passo que a ACP. é cediço que os procedimentos são criados ante a necessidade de concretização dos direitos materiais. (2) Não obstante o acerto da afirmação. consistia clara impossibilidade jurídica da demanda (cf. que o âmbito de abrangência da primeira (ACP) é maior que o da segunda. também. somente após o advento do Código de Defesa do Consumidor. (3) . ensejará diverso tratamento interpretativo. III do CDC (arts.275 2. posteriormente alterado pelo art. segundo o qual para cada direito existe uma ação específica (legis actiones). Ao contrário do que ocorre na Lei de Ação Civil Pública (LACP) – art. a Ação Civil Pública tornou-se instrumento eficaz. Tem-se. 21 LACP. 91 usque 100) que prevê as ações coletivas para a defesa de interesses individuais homogêneos. a denominação dada às ações é reminiscência do período imanentista da teoria do processo. 91 e 95 CDC). Por outro lado. cabalmente. as ações sob comento – civil pública e coletiva – possuem particularidades que as distinguem. à de qualquer interesse difuso. É o que ocorre. no particular. Consoante melhor doutrina. diferenças intrínsecas entre uma e outra. pois. o que. II do Tít. à condenação referente a obrigações de fazer ou não fazer. porém e ainda. AÇÃO CIVIL PÚBLICA E AÇÃO COLETIVA Sem embargo da ocorrência de semelhança no que toca à competência. somente por este ponto. por corolário. antes do Código consumerista.

Temos. para o conhecimento e julgamento da demanda. o fattispecie que ensejou o surgimento do objeto litigioso: o dano. ex. desde que se dê interpretação consentânea aos seus objetivos. sobrepujam os meramente individuais. diferenças ontológicas entre as ações em cotejo.276 "A condenação em ação civil pública ou coletiva por lesão ao consumidor só poderá ter como objeto o dano global e diretamente considerado (p. ao determinar a competência do juízo do local do dano. o que. a nosso ver. as Ações Civis Públicas serão proposta no foro onde ocorrer ou deva ocorrer o dano. a definição do local do dano como determinação da competência do juízo tem por fim. nos processos coletivos. danos emergentes e lucros cessantes). 2º da LACP. sob o aspecto prático. ex. visto que o Juiz estará mais perto – e por conseqüência terá maior facilidade na sua captação e entendimento – dos indícios oriundos da probabilidade da ocorrência do dano e dos vestígios deixados pelo dano efetivamente causado. de interesses que não dizem respeito ao indivíduo. COMPETÊNCIA NA AÇÃO CIVIL PÚBLICA Consoante dispõe o art. ou sua substituição ou a respectiva indenização). que os objetivos da norma jurídica.." (4) À guisa de ilustração.180 – dispõe a lei que a propositura da ação prevenirá a jurisdição (rectius: competência) do juízo para as demais demandas que sejam idênticas.. Por outro lado. cujo juízo terá competência funcional. as diferenças sumariamente comentadas ensejam. absoluta. de indivíduo para indivíduo (p. (7) . Já em seu parágrafo único – introduzido pela MP 2. são claros: a prevalência da importância da res iudicium deducta sobre as partes em lide. como ser atomizado (6). Ocorre o primeiro em razão de se cogitar. (5) Da assertiva pode-se inferir que definir-se-á o juízo competente para o conhecimento e julgamento das Ações Civis Públicas não pelos elementos subjetivos da demanda – domicílio do autor ou do réu – todavia por seu elemento objetivo. A tutela coletiva não poderá alcançar danos individuais diferenciados e variáveis caso a caso. cujos interesses – interesses sociais – em um Estado Democrático de Direito. em regra. a facilidade na colheita de provas. o dano decorrente da aquisição em si do produto defeituoso ou impróprio para os fins a que se destina. traduzir-se-á em ponto de aproximação. qual seja. 3. portanto. mas como membro de uma sociedade. surgentes da conduta delitiva. no concernente à competência do juízo. a facilitação na colheita de provas. assim.

independentemente do Estado a que pertença tal comarca. ao contrário do que ocorre com o CDC. 219). não importando a dimensão que os efeitos do dano possam alcançar. 93. acolhendo a assertiva do jurista paulistano.180. Entretanto. caso não esteja envolvida pelos efeitos do dano. se os danos se estenderem ao território estadual. onde resta clara a determinação legal da competência do foro da Capital do Estado ou do Distrito Federal em casos de dano cujo âmbito seja regional ou nacional. o inquérito civil deverá ser instaurado e a ação civil pública proposta seguindo os critérios da prevenção." (8) (g. um dano ambiental que envolva os Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro – como recentemente de fato ocorreu – competente será o juízo da comarca que primeiro realizou a citação válida para o conhecimento e julgamento da Ação Civil Pública eventualmente proposta. também. com a introdução do parágrafo único ao art. respectivamente. pensamos que tal raciocínio não possui supedâneo legal. ao lançar escólios sobre a matéria. em seu art. mormente após a inserção do parágrafo único ao art.277 Daí que. será competente o foro da Capital do Estado ou o Distrito Federal. Isto porque. Ademais. ou até mesmo de um Estado-membro. se os efeitos do dano (potencial ou efetivo) transbordarem dos limites de uma comarca. competente será – nas Ações Civis Públicas. E mesmo neste caso – de ser a Comarca da Capital de um dos Estados ou de ambos atingida pelos efeitos danosos – esta somente será sede do juízo competente se .) Com a vênia devida ao ilustrado Mestre. que primeiro realizar citação válida. haver comando legal que assim o determine. e. não pode ser interpretado. Frise-se que. é explícita a determinação da competência pela prevenção – que deverá subsidiar-se nas normas processuais gerais previstas no CPC sobre tal instituto – entre as comarcas envolvidas no evento danoso.n. o inquérito civil deverá ser instaurado e a ação civil pública proposta na respectiva Capital. como dito. e sim. simplesmente por inexistir norma jurídica que de forma diversa o preveja. ou nacional. em se tratando de Ação Civil Pública. afirma Hugo Nigro Mazzilli que: "Se os danos se estenderem a mais de um foro mas não chegarem a ter caráter estadual ou nacional. em hipótese alguma.347/85. o juízo. Desta forma. de forma estritamente literal. não existe texto legal expresso que determine a competência de outro juízo – que não o prevento – em casos de dano cujo âmbito seja regional ou nacional (nem mesmo há previsão de dano de âmbito regional ou nacional). dentre somente as comarcas envolvidas. segundo as regras insertas no Código de Processo Civil sobre prevenção (art. na lei (LACP) não há norma jurídica que franqueie tal entendimento. 2º da Lei nº 7. o que. se demonstrará. 2º pela MP 2. repise-se – aquele juízo onde ocorrer a primeira citação válida. ao revés. De efeito. não havendo que se falar em competência da Comarca da Capital de uma das entidades federadas.

mais especificamente o seu art. Insta frisar. porque na LACP há norma. que a inaplicabilidade da LACP somente ocorrerá quando se pleitear a condenação do Réu ao pagamento de determinada quantia. lei posterior – acrescentamos.278 citação válida foi realizada antes de qualquer outro. de mesma ou superior hierarquia – derrogará anterior quando regule inteiramente a matéria de que tratava esta. ressalvado o que dissemos supra. sendo o Código de Defesa do Consumidor lei posterior e especial no cotejo com a norma que instituiu a Ação Civil Pública. em se tratando de Ação Civil Pública. aplicável. não sendo lícito argumentar. De qualquer forma. 2º da Lei de Introdução ao Código Civil (LICC). aí sim. determinar-se-á aquela pela prevenção em quaisquer casos. devidamente subsidiado pela LACP e pelo CPC – nesta ordem – naquilo em que for omisso. haja vista que a incidência deste somente ocorrerá no que for cabível. pois. Assim. tratando-se de relação jurídica material de consumo. como afirmado. com o artigo 21 da mesma LACP. Tal raciocínio ficará mais patente no que diz respeito à competência. determinação daquela em razão do âmbito alcançado pelos efeitos do dano. De efeito. o CDC. que trata expressamente da competência nestas ações. Isto porquanto. quando o pedido imediato da demanda for a condenação em obrigação de fazer ou não fazer será perfeitamente viável a utilização da Ação Civil Pública. coletivos e individuais homogêneos nas relações jurídicas de consumo. fazendo uma pequena digressão. como visto. Desta forma. o que a tornará preventa. A contrario sensu. em se tratando de relações jurídicas de consumo cujo objeto imediato do pedido seja a condenação ao pagamento de determinada quantia. entretanto. como dissemos. inapropriada a utilização de Ação Civil Pública quando se tratar de violação a direito consumerista. ficando afastada a incidência da Lei de Ação Civil Pública. Em suma. não há na LACP. 93 do Codex consumerista somente poderá ser aplicado em se tratando de relações jurídicas materiais de consumo. segundo os ditames do parágrafo 1º do art. forçoso admitir que. em razão do princípio da especialidade. . a duas. ao contrário do que ocorre no CDC. 93 no que concerne à competência. consoante determina o artigo 83 do CDC. portanto. aplicável sempre o CDC. nos casos de competência concorrente entre dois ou mais juízos. a uma. pensamos que aquela derrogou esta no que diz respeito à defesa dos interesses difusos. porquanto o disposto no art. não havendo de se cogitar da amplitude dos efeitos do dano perpetrado. Não calha a argumentação segundo a qual a norma aplicável à espécie seria o CDC.

com vistas ao melhor tratamento hermenêutico que. COMPETÊNCIA NAS AÇÕES COLETIVAS Sem embargo. aplicando-se as regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concorrente Divergindo do entendimento amplamente majoritário.1. como em jurisprudência. Ada Pellegrini Grinover: "Quando de âmbito local. ressalvada a competência da Justiça Federal. 93 do CDC poderá levar o intérprete à conclusão de que. 93 – Ressalvada a competência da Justiça Federal." (9) Sem embargo. em razão da circulação limitada de produtos ou da prestação de serviços circunscritos. COMPETÊNCIA EM CASO DE DANO EM ÂMBITO LOCAL Consoante o dispositivo transcrito. porém com algumas nuanças. I do art. 93 do CDC. o dispositivo exige. II – no foro da Capital do Estado ou no do Distrito Federal. De efeito. a competência territorial é do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano (inc. repete o legislador ser o dano causado o critério legitimador da competência do juízo. assevera a Profª. os quais atingirão pessoas residentes num determinado local. a nosso sentir. Não obstante. é competente para a causa a justiça local: I – no foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano. será competente para o conhecimento e julgamento da Ação Coletiva a Justiça local do foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano. para os danos de âmbito nacional ou regional. 4. verbis: Art. transbordando os efeitos do dano dos limites de determinada comarca e alcançando outra. Será o caso de danos mais restritos.279 4. tendo em vista que a eleição pela lei do local da ocorrência ou . a interpretação literal do preceptivo insculpido no inciso I do art. algumas observações buscaremos fazer sobre o preceito legal transcrito. Tecendo comentários ao inciso I do art. tanto em doutrina. algumas ressalvas se impõem. quando de âmbito local. nas Ações Coletivas previstas no CDC. nos parece que. competente será o foro da Capital do Estado. 93). mesmo nos casos de dano em âmbito local.

"Assim. seguindo o disposto no inciso I do art. transbordaram dos limites de uma única comarca. resolvendo-se. evidentemente. o dano deverá ganhar foro de regionalidade e. neste caso. nas ações civis públicas ou coletivas. Consequentemente. para que seja determinada a competência da Capital do Estado. poderemos imaginar um dano consumerista cujos efeitos restrinjam-se a duas comarcas contíguas. a prevenção será o critério de determinação da competência. maior aproximação do Juiz aos vestígios do dano causado. quando o dano ou a ameaça de dano ocorra ou deva ocorrer em mais de uma comarca. bem como a facilidade na colheita de sua prova. alcançando outra ou outras. Hugo Nigro Mazzilli asseverar que não será qualquer dano que ultrapasse os limites da comarca que ensejará a competência do juízo da Capital do Estado para conhecer e julgar ações coletivas. 93 do CDC. cuja localização diste quilômetros da Capital do Estado. 2º da LACP. aqui. sem que possuam dimensão de regionalidade. por subsidiariedade. 2º. a determinação da competência será realizada pela prevenção. ocorrido o dano consumerista cujos efeitos ultrapassem as fronteiras de determinada comarca. pelas regras da Lei de Ação Civil Pública (art. com acerto no tocante à Ação Coletiva. na linha do raciocínio acima exposto. a norma insculpida no parágrafo único do art. Em outras palavras. competente será o juízo que primeiro realizou a citação válida para o processamento e julgamento da demanda. duas ou três comarcas não caracterizará tal aspecto. ou seja. Assim. Em um caso concreto." (10) Com efeito. não estamos tratando de dano onde os respectivos efeitos ganharam foros de regionalidade ou nacionalidade. em compêndio. parágrafo único) combinada com Código de Processo Civil (art. alcançando outras. competente será o juízo que primeiro realizar citação válida no processo (art. 4. Assim. Urge ressaltar. mas sem que tenha o caráter estadual ou nacional. 219) a competência concorrente.280 da possibilidade de ocorrência do dano tem por escopo. COMPETÊNCIA EM CASO DE DANO EM ÂMBITO REGIONAL OU NACIONAL . que. o fato de serem atingidas uma. com a subsidiariedade da LACP e do CPC. estamos tratando de dano de âmbito local cujos efeitos.2. não obstante. pensamos que será aplicável. entretanto. dentre outros. as regras que prevêem a prevenção. para o dano de âmbito local cujos efeitos atinjam mais de uma localidade (comarca). que. Daí. hipóteses expressamente previstas no inciso II do artigo sob comento. 219 CPC). pensamos. a determinação da competência restará condicionada à prevenção do juízo que primeiro realizou a citação válida no processo. quais sejam.

uma observação: o dispositivo tem que ser entendido no sentido de que. primeiramente. Com efeito. aplicável o que foi dito quanto ao dano de âmbito local. somente será competente para conhecimento e julgamento da demanda coletiva a Capital do Estado quando os efeitos produzidos pelo dano consumerista ganharem foros de regionalidade. independentemente se a comarca da Capital do Estado sofreu ou não tais efeitos. aplicando-se as regras do Código de Processo Civil nos casos de competência concorrente. 93 do CDC – competência em caso de dano em âmbito local – a grande celeuma reside efetivamente no inciso II do mesmo preceptivo consumerista. longínquo talvez de sua sede. e ressalvada a competência da Justiça Federal. assevera Ada Pellegrini Grinover na 4ª edição do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor.281 Em verdade. sendo o dano de âmbito nacional.1." (12) Sem embargo. se nacionais. a ilustre Professora paulistana ratifica seu posicionamento. não tendo sentido que seja ele obrigado a litigar na Capital de um Estado. a despeito de sua mais alta autoridade. 4. no foro do Distrito Federal. COMPETÊNCIA EM REGIONAL CASO DE DANO EM ÂMBITO No particular. a existência de alguns arestos em divergência às suas lições doutrinárias. porém." (11) Na 7ª edição da referida obra. daí tentarmos nos deter mais profundamente neste particular. os danos de âmbito nacional ou regional em matéria de interesses difusos. ante o número . ousando divergir do entendimento majoritário. deve ser dispensado tratamento diverso quanto ao dano de âmbito regional e o de âmbito nacional. aqui. visto que. Com efeito. em ação proposta no foro do local do dano. nesta hipótese. se os danos forem regionais. tratando-se de dano cujos efeitos sejam de âmbito regional. sendo de âmbito regional o dano. coletivos ou individuais homogêneos serão apurados perante a Justiça estadual. competente será o foro da Capital do Estado ou do Distrito Federal. portanto. pela mera opção do autor coletivo. Hugo Nigro Mazzilli adere à posição majoritária quando ensina que: "Nos termos dessa disciplina. Mas. no foro da Capital do Estado. a competência territorial será sempre do Distrito Federal: isso para facilitar o acesso à Justiça e o próprio exercício do direito de defesa por parte do réu.2. reconhecendo. As regras de competência devem ser interpretadas de modo a não vulnerar a plenitude da defesa e o devido processo legal. a par das observações que fizemos quanto ao inciso I do art. estamos que. De seu turno. sobre o inciso ora estudado: "Cabe.

cujos efeitos ficaram restritos aos limites dos mesmos. COMPETÊNCIA EM NACIONAL CASO DE DANO EM ÂMBITO Em se tratando de dano cujos efeitos sejam de âmbito nacional. De efeito. Inexiste. Capital do Estado. Assim.282 razoável de comarcas atingidas por aqueles efeitos.2. para o conhecimento e julgamento de eventual demanda coletiva. a simetria vislumbrada pela maioria dos autores. . a nosso sentir. 4. sendo que. (13) Com este raciocínio. não dará ensejo. o fato de efeitos danosos ultrapassarem os limites territoriais de um Estado-membro alcançando outro ou outros. 93 do CDC. independe o número de localidades atingidas – desde que o dano não ganhe interesse estadual – a competência será definida pela prevenção.2. à competência do foro do Distrito Federal para o conhecimento e julgamento da demanda coletiva. mister se faz que o dano (rectius: os seus efeitos) seja de tal grandeza que interesse à maioria significativa da população do Estado-membro. não tenha sido atingido pelos efeitos do dano –. é possível forjarmos exemplos para melhor elucidação: a) determinados produtos comercializados ou serviços prestados no chamado eixo RioSão Paulo que venham causar danos às populações destes Estados. já para que ocorra a hipótese do inciso II (dano de âmbito regional). explanada no tópico anterior. E mais. como Capital da República. a solução para a concorrência de competências não será a mesma das hipóteses de dano de dimensão regional. importando que a Capital seja sede da demanda face à relevância configurada pelo vulto do dano. consoante as lições doutrinárias acima transcritas. o escopo legal de facilitação naquela colheita não restará prejudicado. lícito afirmar que a grandeza do dano fará a distinção entre a incidência do inciso I ou do II (âmbito regional) do art. em um segundo exemplo: b) os mesmos produtos ou serviços foram comercializados ou prestados em todo território nacional. para que ocorra a primeira hipótese (dano de âmbito local). cremos que resta evidente que o Juiz da Capital – em caso de interesse regional – não terá dificuldades na colheita de provas – mesmo que o Município. contíguos ou não. Nem mesmo quando os efeitos do dano tiverem amplitude tal que atinja todos ou quase todos os Estados da Federação – incluindo o Distrito Federal – a competência será deste. com tal exegese. in casu. havendo juízos concorrentes. Dessa forma. sendo que. traduzir-se-á em interesse da sociedade do Estado a resolução do conflito.

qual seja. cada qual. 1º e 19. loci.) dos Juízos Estaduais são de mesma equivalência aos do Juízo Distrital. entendemos que. não atingindo os efeitos do dano âmbito nacional (exemplo "a"). havendo dano de âmbito nacional. Em conseqüência. não sendo hipótese prevista dentro na competência da Justiça federal. determina o CDC – havendo diversas demandas coletivas propostas – a concentração em um. deterá competência para as causas não previstas na Constituição Federal como de competência da Justiça federal. personae. Para o desate da questão. de competência da Justiça local. agora por todo país. apta(o) a conhecer e julgar a causa. Tal raciocínio tem por fundamento a inexistência de hierarquia entre as entidades federadas – Estados. caberá à Justiça local do foro da Capital de cada Estado ou do Distrito Federal que tenha sido atingido pelo evento danoso o processamento e julgamento da demanda coletiva. cuja decisão proferida terá efeitos em todo território nacional. comum ou especializada (art. Distrito Federal e Municípios (art. qual seja.283 causando os mesmos danos antes mencionados. haja vista não ocorrer relação hierárquica entre as Justiças locais dos Estados e a do Distrito Federal. a prevenção. por exclusão. da Justiça local. em igualdade de condições. Na hipótese extraordinária de dano nacional. Daí que. Explicamos. mesmo que tal amplitude seja alcançada por tais efeitos (exemplo "b"). A competência nas Ações Coletivas será. III da CF/88). sendo que. e. definir-se-á a competência . e tão-somente um. qualquer capital de Estado ou o Distrito Federal estará. existindo diversas demandas já propostas. Pois bem. ressalvada a da Justiça Federal. Ora. para não dificultar a defesa do Réu. também neste caso. o primeiro a realizar citação válida no processo coletivo (art. ou. etc. Ou seja. tem seu âmbito ordinário de incidência coincidente com os seus próprios limites territoriais. Em ambas hipóteses. que poderá ser o da Capital estadual ou o do Distrito Federal. a solução para a concorrência entre juízos competentes será a mesma: definir-se-á o juízo competente pelo critério da prevenção. 219 CPC). os critérios de determinação de competência (ratione materiae. 109 CF/88). foro. Por tal expressão entende-se a justiça estadual comum que. a própria lei determina a utilização das regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concorrente.

como produto da competência legislativa da União. fosse definida a competência do Distrito Federal em quaisquer casos. ao Distrito Federal e aos Municípios criar preferências entre si. malferindo-o.. sob o aspecto prático. 219 CPC). sendo sua assessoria jurídica situada na sede da empresa. ao Distrito Federal. g. Em comentário ao referido inciso. [. 19 da Constituição Federal ser vedado à União. sendo a federação uma associação de Estados. aos Estados. sendo a concorrência de competências definida pela prevenção. dispõe o inciso III do art. Com efeito.. Como seria possível facilitar a colheita de prova pelo Magistrado se. seja de que espécie for. de poder reciprocamente. concretizando. não poderá criar distinções entre as entidades federadas. sendo dever do exegeta optar por uma interpretação que mais aproveite o texto da lei. pois que em regra acontece do Réu não ter representação jurídica na Capital da República. a tese majoritária pode nos levar a determinados absurdos como aquele em que haja demandas propostas em todos ou quase todos . eis que sua comarca – da Capital – estará sofrendo os efeitos da conduta danosa. A outro giro. Alexandre de Moraes assevera que: "Criar preferências entre si – como corolário desse princípio. mesmos naqueles em que a Capital da República não tenha sofrido os efeitos da conduta danosa? Em últimas conseqüências. impõe-se uma exegese da norma infraconstitucional que não implique violação do texto maior." (14) Dessarte. pois. ademais. a lei federal (CDC). ensejará maior facilidade na colheita de prova pelo Juiz. o objetivo precípuo da lei quando determina ser competente para a demanda o foro do local do dano. v. que se encontram no mesmo plano. Raciocínio diverso – como o esposado pela doutrina majoritária – levará à uma hierarquia entre as entidades federadas inexistente no texto constitucional.]. não convence o argumento segundo o qual a competência será sempre do foro do Distrito Federal em casos de dano de âmbito nacional para facilitar a plenitude de defesa. não há que se falar em relação de súdito para soberano. eis que a sua concordância com as cláusulas constitucionais deve ser presumida. Lado outro. assim. Via de conseqüência.284 da Justiça local no foro da Capital do Estado – ou no do Distrito Federal. se este for atingido pelos efeitos do dano e houver demanda coletiva aí proposta – em que tenha havido a primeira citação válida (art.. dando preferência.

bem como da parte final do inciso II do artigo 93 do CDC. sobrepuja a importância dos interesses sociais em detrimento . viceja a necessidade de preenchimento axiológico da expressão Estado Democrático de Direito no sentido de que as normas legais produzidas deverão ter como limite os fatos que lhes ensejam a existência. que necessita ser constante. III CF/88). amiúde. 18 CF/88). pois que somente assim poderemos almejar a realização efetiva de uma democracia material com o preenchimento. ademais. na satisfação dos interesses sociais postos em litígios nas demandas coletivas. aquelas entidades federadas pela competência para conhecimento e julgamento das demandas coletivas. onde a determinação da competência do foro da Capital do Estado e do Distrito Federal não ficará em divergência com a aplicabilidade de dispositivo constitucional (art. poder-se-á chegar ao equilíbrio exigido pelo texto legal. bem como pela necessidade de se adequar os princípios e normas do processo civil liberal-burguês às demandas coletivas lato sensu – verdadeiras ações sociais dirimentes de desigualdades – devemos. em tom de igualdade.285 Estados. seja sob o prático da facilitação na colheita de prova – seria aquela segundo a qual. exsurgindo como critério técnico definidor a prevenção. direcionadas pelos valores predominantes à época de sua produção. não obstante entidades federadas (art. para uma interpretação consentânea com os princípios da Nova Hermenêutica. 19. (15) Somente assim. o que lhes poderá cambiar o comando. do princípio do acesso à Justiça. posto concorrerem. e não hierarquizar. Destarte. Ademais. 5. traduzir-se-á em concretização do Estado Democrático de Direito sob o aspecto processual a preocupação. Com efeito. a se seguir o raciocínio da maioria. à exceção do Distrito Federal. entendemos. A nosso aviso. CONCLUSÃO À guisa de conclusão ousamos asseverar que. sobrepor o interesse social como primeiro critério definidor da competência em litígios desse jaez. assim como de sua interpretação. portanto. muito mais que uma defesa plena – que na realidade em nada será prejudicada –. a interpretação mais viável – seja sob o aspecto teórico da inconstitucionalidade. porém. pela primeira citação válida realizada. ao se referir aos Estados e ao Distrito Federal. a norma legal quis tão-somente discriminar. este – o foro do Distrito Federal – seria o competente para a apreciação e julgamento da demanda. em todas as suas dimensões. as entidades federadas que possuem Justiça local – o que não ocorre com os Municípios que. não possuem Poder Judiciário – como. ocorre no texto constitucional e em leis infraconstitucionais.

1109p. 13ª ed. Luiz Abezia e Sandra Drina Fernandez Barbiery].462p. Brasília: Editora Universidade de Brasília. [trad. Ana Prata]. Ricardo de Barros. NUNES. 2001. Campinas: Bookseller. MORAES. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor: direito material (arts. s/ed. São Paulo: Saraiva. Norberto. 330p. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 1999. Luiz Antonio Rizzatto. Manual do Processo Coletivo. 836p. Ada Pellegrini et al. 1 v. Assim. Michel. MARQUES. 1995. 1994. MILARÉ. Introdução Crítica ao Direito. 240p. A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo. GRINOVER. LEONEL. Piero. 2000. 2002. CALAMANDREI. NOTAS 01. assim entendemos que as normas jurídicas devem ser interpretadas. Alexandre de. 576p. São Paulo: Atlas. 2ª ed. . s/ed. seriam transindividuais os interesses individuais homogêneos. 846 p. João Ferreira] 4ª ed. 1 v. MAZZILI. São Paulo: Saraiva. 1999. e.) s/ed. s/ed. Édis (org. Lisboa: Editorial Estampa. 13ª ed. 2002. e esta a que representa interesses fora dos individualmente considerados. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. [trad. Direito Constitucional. As Ideologias e o Poder em Crise. Direito Processual Civil. BOBBIO. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2003. 2001. MIAILLE. Para o presente estudo utilizar-se-á as expressões transindividuais e metaindividuais em sentidos distintos. 1º a 54). 730p. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto.347/85 – 15 anos. 4ª ed. 4ª ed. BIBLIOGRAFIA Ação Civil Pública: lei 7. [trad.286 daqueles individuais ou públicos hodiernamente. Cláudia Lima. São Paulo: Revista dos Tribunais. Hugo Nigro. São Paulo: Revista dos Tribunais. significando aquela a que ultrapassa os interesses dos indivíduos. 6.

ob. 129. 06. p. Hugo Nigro MAZZILLI. . Op. p. In Ação Civil Pública: Lei 7. que amputou a expressão "a qualquer outro interesse difuso ou coletivo". entendemos que a MP 2. p. 1º da Lei 7. 221. Ob. em razão de sua indivisibilidade. passim 07. 10. A fixação da competência no local do dano tem por escopo facilitar a instrução.O requisito da préconstituição pode ser dispensado pelo juiz. falaremos. 09. 82 do CDC: § 1º . III. 808. Cit. quando haja manifesto interesse social evidenciado pela dimensão ou característica do dano. 5º. Cf. diferentemente do que ocorre com as ações individuais. Alexandre de MORAES. 211 11. 14. Hugo Nigro MAZZILLI. Cf. "As peculiaridades dos interesses metaindividuais dificultam a produção de provas no curso da demanda judicial. os difusos e coletivos. A identidade das ações coletivas lato sensu sofre mitigação nos seus elementos. visto que não há de se falar em identidade de partes. 150. Manual do Processo Coletivo.. pois a proximidade do juízo com relação à prova milita em favor de sua elaboração. Cit. No particular. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. p. Direito Constitucional. Ob. Hugo Nigro MAZZILLI. 551-2. p. Cit. coord. 12.: José Marcelo Menezes VIGLIAR. cit. 05.. 13. Introdução Crítica ao Direito. 211-2. p. 400/416. Édis Milaré. Cit. 286. em outro estudo. p. XXXV. todos da CF/88. Trata-se de um redimensionamento da matéria para adaptação à Teoria Geral do Processo Coletivo que. ou pela relevância do bem jurídico a ser protegido. Hugo Nigro MAZZILLI. op. p.. 04. p. 03.287 enquanto metaindividuais. 211." 08. 91 e seguintes. Ada Pellegrini GRINOVER.180. A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo. nas ações previstas nos arts. No mesmo sentido: Ricardo de Barros LEONEL. p. Ada Pellegrini GRINOVER. Para a definição do que seja dano cujos efeitos possuam âmbito regional poderá ser aplicada a norma do § 1º do art. Michel MIAILLE. é inconstitucional por malferir o art.: Ricardo de Barros LEONEL. 220.347/85 – 15 anos. 02. bem como o art.347/85. do inciso IV do art.

Entretanto." ************************************************************** ****************** . ou seja. As Ideologias e o Poder em Crise. Cf. p.: Norberto BOBBIO. ao aspecto negativo do pluralismo que consiste não na impotência do Estado.288 15. 33: "Constato. mas na prepotência do grupo sobre o indivíduo. não podemos esquecer o efeito contrário. que não foi retomada a referência que fiz à sociedade policrática. entretanto.

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