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Sumário

Evolução Histórica do Direito do Consumidor Autores: Flávio Barbosa Quinaud Pedron e Viviane Machado Caffarate..........4 Proteção constitucional do consumidor Autor: Cristian de Sales Von Rondow...............................................................15 Princípios nucleares do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor e sua extensão como princípio constitucional Autor: Henrique Alves Pinto..............................................................................26 O princípio da vulnerabilidade e a defesa do consumidor no direito brasileiro: origem e conseqüências nas regras regulamentadoras dos contratos e da publicidade Autores: Alírio Maciel Lima de Brito e Haroldo Augusto da Silva Teixeira Duarte..........................................................................................................................57 O princípio da boa-fé no Código de Defesa do Consumidor Autor: Francisco José Soller de Mattos..............................................................74 A relação jurídica de consumo: conceito e interpretação Autor: Marcelo Azevedo Chamone....................................................................76 Pessoa jurídica consumidora Autor: Alex Sandro Ribeiro..............................................................................105 Aspectos da responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor e excludentes Autoras: Michele Oliveira Teixeira e Simone Stabel Daudt............................109

Vícios no Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor: diferenças Autor: Ricardo Canguçu Barroso de Queiroz...................................................127

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A responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos no Código de Defesa do Consumidor Autor: Fabrício Castagna Lunardi....................................................................129 A prescrição e a decadência no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner.....................................................................145 Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner.....................................................................157 Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção e Defesa do Consumidor Autor: João Bosco Pastor Gonçalves................................................................175 As cláusulas abusivas à luz da doutrina e da jurisprudência Autores: Carlos Cavalcante e Karla Karênina Andrade...................................184 Inversão do ônus da prova no CDC e no CPC Autor: Ranieri Eich...........................................................................................206 Alguns aspectos da dogmática processual para a defesa dos direitos do consumidor Autora: Viviane Mandato Teixeira Ribeiro da Silva........................................230 Litisconsórcio, assistência e intervenção de terceiros nas ações coletivas para tutela do consumidor Autora: Gláucia Kohlhase Marques..................................................................248 A competência nas ações coletivas do CDC Autor: Renato Franco de Almeida....................................................................274

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A Evolução Histórica do Direito do Consumidor Autores: Flavio Barbosa Quinaud Pedron e Viviane Machado Caffarate

I. A Evolução do Direito do Consumidor

O Direito do Consumidor é obra relativamente recente na Doutrina e na Legislação. Tem seu surgimento como ramo do Direito, principalmente, na metade deste século. Porém, indiretamente encontramos contornos deste segmento do Direito presente, de forma esparsa, em normas das mais diversas, em várias jurisprudências e, acima de tudo, nos costumes dos mais variados países. Porém, não era concebido como uma categoria jurídica distinta e, também, não recebia a denominação que hoje apresenta. Altamiro José dos Santos destaca o Código de Hamurabi (2300 a.C.). Este já em seu tempo regulamentava o comércio, de modo que o controle e a supervisão se encontravam a cargo do palácio. O que demonstrava que se existia preocupação com o lucro abusivo é porque o consumidor já estava tendo seus interesses resguardados. Santos lembra que: "consoante a" lei "235 do Código de Hamurabi, o construtor de barcos estava obrigado a refazê-lo em caso de defeito estrutural, dentro do prazo de até um ano (...)" (Santos, 1987. p. 78-79). Desta norma podemos supor uma noção dos vícios redibitórios. Havia também regras contra o enriquecimento em detrimento de outrem ("lei" 48), bem assim a modificabilidade unilateral dos desajustes por desequilíbrio nas prestações, em razão de forças da natureza. Os interesses dos consumidores já estavam resguardados na Mesopotâmia, no Egito Antigo e na Índia do Século XVIII a.C., onde o Código de Massú previa pena de multa e punição, além de ressarcimento de danos, aos que adulterassem gêneros ("lei" 967) ou entregassem coisa de espécie inferior à acertada ou, ainda, vendessem bens de igual natureza por preços diferentes ("lei" 968). No Direito Romano Clássico, o vendedor era responsável pelos vícios da coisa, a não ser que estes fossem por ele ignorados. Porém, no Período Justinianeo, a responsabilidade era atribuída ao vendedor, mesmo que desconhecesse do defeito. As ações redibitórias e quanti minoris eram instrumentos, que amparadas à Boa-Fé do consumidor, ressarciam este em casos de vícios ocultos na coisa vendida. Se o

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vendedor tivesse ciência do vício, deveria, então, devolver o que recebeu em dobro. "no período romano, de forma indireta, diversas leis também atingiam o consumidor, tais como: a Lei Sempcônia de 123 a.C., encarregando o Estado da distribuição de cereais abaixo do preço de mercado; a Lei Clódia do ano 58 a.C., reservando o benefício de tal distribuição aos indigentes e; a Lei Aureliana, do ano 270 da nossa era, determinando fosse feita a distribuição do pão diretamente pelo Estado. Eram leis ditadas pela intervenção do Estado no mercado ante as dificuldades de abastecimento havidas nessa época em Roma" (Prux, 1998. p. 79). De acordo com os estudos de Waldírio Bulgarelli, "pode-se encontrar antecedentes os mais antigos: Aristóteles já se referia a manobras de especuladores na Grécia Antiga, e em Roma atestam-no a Lex Julia de cemnoma, o Édito de Diocleciano e a Constituição de Zenon" (Bulgarelli, apud Prux, 1998. p. 79). Há estudos que apontam depoimentos de Cícero (Século I a.C.) assegurando a garantia sobre vícios ocultos na compra-venda no caso do vendedor prometer que a mercadoria era dotada de determinadas qualidades e estas serem inexistentes. "Pirenne, no comentário de sua obra cobrindo o século XIII, é bastante elucidativo no subtítulo - Proteção ao consumidor - ao escrever que a disciplina imposta ao artesão tinha naturalmente por objeto assegurar a qualidade dos produtos fabricados. Neste sentido – acrescenta textualmente o mestre gaulês - também favorecia o consumidor" (SIDOU, apud PRUX, 1998. p. 781). A França de Luiz XI (1481) punia com banho escaldante aquele que vendesse manteiga com pedra no interior para aumentar o peso, ou leite com água para aumentar o volume. O jurista português Carlos Ferreira Almeida afirma que no Direito Português: "os códigos penais de 1852 e o vigente de 1886 (...), reprimindo certas práticas comerciais desonestas, protegiam indiretamente interesses dos comerciantes: sob o título genérico de crimes contra a saúde pública, punem-se certos actos de venda de substâncias venenosas e abortivas (art. 248º) e fabrico e venda de gêneros alimentícios nocivos à saúde pública (art. 251º); consideram-se criminosas certas fraudes nas vendas (engano sobre a natureza e sobre a quantidade das coisas – art. 456); tipificava-se ainda como crime a prática do monopólio, consistente na recusa de venda de gêneros para uso público (art. 275º) e alteração dos preços que resultariam da natural e livre concorrência, designadamente através de coligações com outros indivíduos, disposições revogadas por legislação da época corporativista, que regrediu em relação ao liberalismo consagrado no código penal" (ALMEIDA,1982. p. 40).

1/69. em 1773. o episódio contra o imposto do chá no porto de Boston (Boston Tea Party) é um registro de uma manifestação de reação dos consumidores contra as exigências exorbitantes do produtor inglês. apontando sua assinatura na lei que proibia qualquer adulteração de alimentos no estado de Massachusetts" (SOUZA. a primeira legislação protetora do consumidor foi em 1910. II. em 1914. a Lei Delegada n. proteção econômica e comunicações. que expressamente determinou a criação do Código de Defesa do consumidor. 170) e no artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). pelos tipos e preços estabelecidos pela metrópole. o Direito do Consumidor surgiu entre as décadas de 40 e 60. que consagrou a defesa do consumidor. O interesse privado é o . Pois nas palavras de Miriam de Almeida Souza. que tinha o objetivo de aplicar a lei antitruste e proteger os interesses do consumidor. criou-se a Federal Trade Commission. e a Constituição Federal de 1988.6 Na Suécia. 4/62. denominada Lei de Economia Popular. O Surgimento do Direito do Consumidor do Prisma da Evolução do Estado Liberal O Estado Liberal surgiu no século XVIII em contraposição ao Estado absoluto e veio assegurar o indivíduo em face do Estado. afirmava: "É suficiente que deixemos o homem abandonado em sua iniciativa para que ao perseguir seu próprio interesse promova o dos demais. 1996. Pode-se notar que esta lei representa um marco histórico na luta pelo respeito aos direitos do consumidor. em seu período de colônia.) Samuel Adams. No Brasil. Dentre todas. O Estado Liberal tem como características o poder limitado. Adam Smith. A Revolução americana de 1776 foi uma revolução do consumidor. (.. da antiga metrópole. 1221/51. reforçou as seculares "assizes" (Leis do Pão). p. a Constituição de 1967 com a emenda n. a defesa da livre incitava e livre concorrência e a não intervenção do Estado na esfera privada. quando foram sancionados diversas leis e decretos federais legislando sobre saúde. que exercia o seu monopólio. já em 1785 na República. que. Já nos EUA. pode-se citar: a Lei n.. os direitos individuais e políticos. foi uma revolução "contra o sistema mercantilista de comércio britânico colonial da época. que apresenta a defesa do consumidor como princípio da ordem econômica (art. no qual os consumidores americanos eram obrigados a comprar produtos manufaturados na Inglaterra. um dos principais pensadores do liberalismo. uma figura marcante no episódio do chá no porto de Boston. Também nos EUA. 51).

pois a concorrência não se iniciava em condições iguais e as regras do jogo não eram respeitadas. A liberdade contratual. Nas Constituições promulgadas adotando esse modelo de Estado. as leis eram feitas para dar sustentação ao liberalismo econômico. Concomitante a estes fatos. gerando o desemprego e a conseqüente a exclusão social daqueles que estavam desempregados. o Código Civil. com o advento da Revolução Industrial. editado segundo os Princípios de um Estado Democrático de Direito.7 motor da vida econômica" (SMITH. não empregaram a grande parte da população. formulado segundo o pensamento liberal.32). que seriam quaisquer bens móveis ou imóveis. objeto de contratos comutativos e em bens e imóveis. mostrou-se ineficaz para a proteção do consumidor. Esse meio. Assim acorreu com a Constituição brasileira de 1988 que dispõe que "o Estado promoverá na forma da lei. Assim. p. houve uma substituição da maquinofatura pela máquina. a defesa do consumidor". O Direito regia-se pelos Princípios da Autonomia da Vontade. O Estado Social tem como características o poder limitado. em muito inovou em comparação com o Código Civil. aliada a grande oferta de trabalho. no entanto. Já o Código de Proteção e Defesa do Consumidor fala em produtos. trouxe o vício redibitório como meio de proteção do consumidor. a garantia os direitos individuais e políticos. Por sua vez o Código de Proteção e Defesa do Consumidor . Outro ponto é que o Código Civil fala em defeitos ocultos que tornem a coisa imprópria para o uso ou diminuam o seu valor. se submetessem à exploração. devido à automação incipiente das máquinas. apud DERANI. O Código de Proteção e Defesa do Consumidor. O Estado Social surge no século XX como resposta à miséria e a exploração de grande parte da população. a livre incitava e livre concorrência defendida pelos liberais não se concretizou. acrescentando a estes os direitos sociais e econômicos. Isso porque. então. Com isso. fazia com que as pessoas. o Estado passou a intervir na Economia para promover justiça social. instituída na Revolução Francesa. para se manterem empregadas. materiais ou imateriais. algumas empresas que se enriqueceram. Façamos. para adotar um modelo jurídico e uma política de consumo que efetivamente protegesse o consumidor. A grande procura por empregos gerou a desvalorização da mão-de-obra. As fábricas. Portanto. O Código Civil fala em coisas. de regulamentação. Estes foram regulados como normas pragmáticas. duráveis e não duráveis e em serviços. No século XIX. uma comparação exemplificativa entre as regras deste e as do Código de Proteção e Defesa do Consumidor. as pessoas deixaram de trabalhar em casa e foram trabalhar nas fábricas e ao redor destas surgiram os centros urbanos. Logo. gerando uma concentração econômica. aqui. do Consensualismo e da Obrigatoriedade Contratual. dependendo. neste período. os direitos individuais eram mais importantes que os direitos sociais. a Constituição Federal de 1988 exigiu que o Estado abandonasse a sua posição de mero espectador da sorte do consumidor.

Com o crescimento da população e o movimento do campo para as cidades. Criou-se. que: . ainda. Devido a este movimento. 48). devolver ou pedir abatimento do preço da coisa também foi ampliado no Código de Proteção e Defesa do Consumidor. O advento da Revolução Industrial foi responsável pelo crescimento da chamada produção em massa. O produtor estava sempre interessado em formas para escoar sua produção e manter o fluxo de produção-consumo. Acrescenta-se. via de regra. para manter o processo produtivo em funcionamento. sentiu necessidade de estimular o consumidor a uma necessidade. que "o produtor. "Antes da era industrial. da propaganda. Em conseqüência disto. denomina de "norma social do consumo". O crescimento e contínuos avanços das tecnologias fizeram com que fossem inseridas na mente do consumidor as idéias de que ele estava precisando de mais objetos que até o momento nunca sentira necessidade de adquirir em sua vida cotidiana. Além disso. que passou a responder por todo o grupo" (SOUZA. III. p. já que passaram a haver outros intermediários entre a produção e o consumo. A Revolução Industrial e O Direito do Consumidor O período da Revolução Industrial é de grande importância para o desenvolvimento do Direito do Consumidor. o prazo decadencial para substituir. formam-se grupos maiores. enganosos. o produtor-fabricante era simplesmente uma ou algumas pessoas que se juntavam para confeccionar peças e depois trocar os objetos (bartering). entendeu ser necessária a promulgação de leis para controlar o produtor-fabricante e proteger o consumidor-comprador" (SOUZA. da Faculdade de Direito da Universidade Católica de Louvain. etc. o que o professor Thierry Bourgoignie. 1996. praticando. "o produtor precisava dar escoamento à produção. p. 48). então. ou mesmo em satisfazer o consumidor" (SOUZA. desta forma. por isso mesmo.8 acrescenta que o defeito pode até mesmo ser de fácil constatação e que a coisa poderá ser enjeitada por não conferir com as especificações da embalagem. Logo. atos fraudulentos. na Bélgica. A justiça social. ainda que artificial. 1996. do rótulo. a produção perdeu seu toque "pessoal" e o intercâmbio do comércio ganhou proporções ainda mais despersonalizadas. 1996. sempre se interessou mais pela parte monetária do que com o produto. às vezes. p. abusivos.48). a produção aumentou e a responsabilidade se concentrou no fabricante.

que . por inspirar a elaboração de duas leis federais nos EUA. 1996. embora proibidas no comércio exterior" (SINCLAIR. dotado de idéias socialistas. de 1906. Sinclair era um jovem jornalista. 1996. Este serviu para despertar no povo do seu país o mais vivo interesse pela problemática do consumidor. O Direito do Consumidor na Segunda Guerra Mundial e no Cenário do Pós-Guerra Foi em plena Segunda Guerra Mundial. ele retrata em cores ousadas e dramáticas o impacto social do capitalismo industrial no começo do século XX. V. que logo sofreu traduções para 17 idiomas. que se despontava na América Keynesiasna o movimento em prol dos direitos do consumidor. A Selva O norte-americano Upton Sinclair. foram o surgimento da mídia e as conquistas tecnológicas que deram causa ao ressurgimento da defesa do consumidor. IV. a "consommariat". 52). disfarçouse em operário para realizar suas observações na cidade de Chicago. O impacto da novela The Jungle foi de um modo tão avassalador. Um exemplo é o seguinte trecho de sua obra: "a carne misturada com pedaços de tecidos esfarrapados e sujos. Sinclair demonstra os abusos cometidos pela industria da carne. quando a produção estava a serviço e controle do Estado. moídos juntamente com os enchimentos das lingüiças vendidas em Chicago. escreveu um romance chamado The Jungle (A Selva). O romance acabou.9 "faz com que o consumidor perca o controle individual das decisões de consumo e passe a ser parte de uma classe. conferindo claramente uma dimensão social ao consumidor e ao ato de consumir" (BOURGOIGNIE. p. também. 52). a Meat Inspection Act e a Pure Food and Drug Act. p. "a guerra intensificou a produção industrial em massa. apud SOUZA. "Os principais personagens eram de uma família de camponeses lituanos que vieram trabalhar pelos contos e fantasias de liberdade e pujança na América" (Souza. 1996. apud SOUZA. que fortaleceram a fiscalização da pureza da carne. consistentes de melhorias de salário e de condições de trabalho. pães mofados. ao descrever de forma bem realística os alimentos deteriorados. Mas curiosamente. 48). Em seu romance. em 1906. no intuito de justificar e fundamentar suas reivindicações proletárias. e contribuiu para as . p.

colaborou. na década de 60. O contrato era res inter alios acta. queda na qualidade de vida ou aumento da poluição. com o objetivo de escoar a produção no mercado. 105-106). gerando um arsenal de produtos surpérfulos e diversificados. então um crescimento em vários segmentos industriais. o que sem dúvida. ditando medidas que. a cada instante. tendo aplicação imediata. aumentaram os problemas relacionados à produção e ao consumo. 1979. Passou-se então a praticar uma concorrência desleal. alteram os efeitos dos contratos anteriormente praticados. Orlando Gomes afirma que: "o princípio da força obrigatória das convenções. em um mercado antes restrito somente ao essencial. Mas as necessidades sociais impuseram a quebra. e do advento do marketing científico. quer seja pela alta dos preços. 1996. Podemos perceber que esses problemas influenciaram sensivelmente a vida dos consumidores. desde que os contratos são fonte de obrigações e estas importam limitação da liberdade individual. para a satisfação de certos interesses coletivos privados" (GOMES. 54). dentre outros motivos. o que enfraquece o princípio da força obrigatória dos contratos. fortalecendo a tendência da formação dos cartéis. Por fim. Dirigindo-se por meio de uma mensagem especial ao Congresso Americano. Com isso. inevitavelmente. resultou da propaganda informativa o marketing (desenvolvido em forma de propaganda de guerra). em . em face de uma competitividade altamente sofisticada por causa das novas mídias e das próprias complexidades dos mercados surgidos no pós-guerra. O know-how gerado para a guerra provocou. entendia-se que os seus efeitos não deveriam atingir a terceiros. ainda que excepcional. quaisquer que fossem as circunstâncias ou as conseqüências. que se fundamentava a partir da responsabilidade civil objetiva e do reconhecimento dos interesses e direitos difusos. Após o período do pós-guerra acontece o ressurgimento da cláusula rebus sic stantibus. Todo o esforço da guerra resultou. ou de exonerar o devedor do seu cumprimento. e vai se admitindo o poder do juiz de adaptar seus efeitos às novas circunstâncias (cláusula rebus sic stantibus). para o agravamento dos problemas sociais e conflitivos urbanos em decorrência da concentração de renda" (Souza. pelo qual o juiz estava obrigado a fazer cumprir os efeitos do contrato. em aumento substancial de produção no posterior tempo de paz. se ocorrer imprevisão. houve a consolidação do Direito do Consumidor nos Estados Unidos. Esta quebra possibilitou o surgimento do Direito do Consumidor. na economia dos contratos. trustes e oligopólios. Com o advento da televisão. está abalado. p. desse princípio da relatividade dos efeitos do contrato. Esta restauração se deu sob o nome de "teoria da imprevisão" e visava a quebra do princípio do pacta sunt servanda. A partir das iniciativas do presidente americano John Fitzgerald Kennedy. p. O legislador intervém.10 grandes invenções e o aprofundamento da produção em série.

promovidos e apresentados de uma maneira que permita ao consumidor fazer uma escolha satisfatória. (b) fomentar e proteger os interesses econômicos dos consumidores. Seguindo o exemplo de Kennedy. Por sua vez. 56). .11 1962. (5) representação (ou direito de ser ouvido)" (SOUZA. 1996. o programa Preliminar da Comunidade Européia para uma Política de Proteção e Informação dos Consumidores dividia os direitos fundamentais em cinco categorias: "(1) proteção da saúde e da segurança. 56). as Nações Unidas. a Comissão de Direitos Humanos das nações Unidas. (4) e ainda o direito a preços justos" (SOUZA. a primeira vez que. em nível mundial. 1996. (c) fornecer aos consumidores informações adequadas para capacita-los a fazer escolhas acertadas. na sua 29ª Sessão em 1973. em Genebra. (3) reparação dos prejuízos. também reconheceu os princípios e chamou-os de Direitos Fundamentais do Consumidor. Esta foi. O Anexo 3 da Resolução mostra quais são os princípios gerais que serão tomados como padrões mínimos pelos governos: "(a) proteger o consumidor quanto a prejuízos à sua saúde e segurança. (2) proteção dos interesses econômicos. de acordo com as necessidades e desejos individuais. claramente. houve o reconhecimento e aceitação dos direitos básicos do consumidor. (d) educar o consumidor. (3) tenha o consumidor o direito de ser informado sobre as condições e serviços.º 39/248. (4) informação e educação. estabelece objetivos. p. Em 1985. a qualidade e o preço de bens e serviços colocados no mercado. por meio da Resolução n. princípios e normas para que os governos membros desenvolvam ou reforcem políticas firmes de proteção ao consumidor. Kennedy identificou os pontos mais importantes em torno da questão: "(1) os bens e serviços colocados no mercado devem ser sadios e seguros para os uso. p. (2) que a voz do consumidor seja ouvida no processo de tomada de decisão governamental que detenha o tipo.

pela Constituição Federal de 1988. 58). que: "as Nações Unidas também entendem como medida para a proteção dos consumidores o Código de Conduta para as Firmas Transnacionais. projeto de ONU desde meados dos anos 60. (2) informação – conhecimento dos dados necessários para fazer escolhas e decisões informadas.57). VI. 1996. 57). já consagram. (4) a ser ouvido – exposição e consideração das perspectivas dos consumidores na formação das políticas nacionais. com sede em Haia" (Souza. (5) indenização – solução justa de queixas justas. p. (6) educação – aquisição dos conhecimentos e das habilidades necessárias para ser um consumidor informado ao longo da vida. que muitos dos ordenamentos jurídicos. (3) escolha – acesso a uma variedade de produtos e serviços com qualidade e preços competitivos. processos e serviços nocivos à saúde ou à vida. E sobre os direitos do consumidor enumera: "(1) segurança – proteção contra produtos. (f) garantir a liberdade para formar grupos de consumidores e outros grupos e organizações de relevância e oportunidade para que estas organizações possam apresentar seus enfoques nos processos decisórios a elas referentes" (SOUZA. acolhendo a Resolução da ONU. O IOCU é amplamente respeitado entre as associações de consumidores no mundo. 1996. (7) ambiente saudável – ambiente físico apto a proporcionar melhor qualidade de vida agora e no futuro" (SOUZA. ainda. A Constituição Brasileira e O Direito do Consumidor A questão dos Direitos do Consumidor é tão importante que em três . 1996. A proteção do Direito do Consumidor é de tamanha relevância. p. inclusive o brasileiro. Miriam Souza lembra. ponto de vista compartilhado pela Organização Internacional das Associações de Consumidores (International Organization of Consumers Unions – IOCU).12 (e) criar possibilidade de real ressarcimento ao consumidor. p.

a dialética produtor x consumidor é bem mais complexa e delicada do que a dialética capital x trabalho" (grifo nosso) (COMPARATO. à indenização. 1982. a ser ouvido.875.13 oportunidades distintas é tratada na Constituição Federal vigente. 1991. Carlos Ferreira..." (FILOMENO. A segunda vez que a Constituição menciona a defesa do consumidor é quando trata dos princípios gerais da atividade econômica no Brasil.) Entidades de Defesa Do Consumidor. A primeira vez. o artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). p. de acordo com o que estiver estabelecido nas leis. e que acabou sendo devidamente protocolada e registrada sob n. que trata dos direitos e deveres individuais e coletivos estabelece a Carta magna. apud SOUZA. 59). com especial destaque para a contemplação dos direitos fundamentais do consumidor (ao próprio consumo. 1996. que o Governo Federal tem a obrigação de defender o consumidor. à escolha. XXXII que "o Estado promoverá. citando em seu artigo 170. José Geraldo Brito Filomeno lembra que a sensibilização dos "constituintes de 1887/88. à educação para o consumo e a um meio ambiental saudável). Mas. no artigo 5º. V. à informação. Os direitos dos consumidores. inclusive aos então artigos 36 e 74 da Comissão "Afonso Arinos". Bibliografia ALMEIDA. . foi obtida por unanimidade na oportunidade do encerramento do VII Encontro Nacional das (. Estes três dispositivos constitucionais são mencionados no artigo 1º do Código de Defesa do Consumidor. já em seu Capítulo I do Título II. em outras palavras. determina que o Congresso Nacional elabore o Código de Defesa do Consumidor. desta feita realizado em Brasília. à segurança. na forma da lei. em 8-5-87. É o que alerta o jurista Fábio Konder Comparato: "na verdade. no calor das discussões da Assembléia Nacional Constituinte. a defesa do consumidor" o que quer dizer. p.º 2. Finalmente. 21-22). o Código do Consumidor é só o início. Coimbra: Almeida. por razões óbvias. trazendo sugestões de redação. que a defesa do consumidor é um dos princípios que devem ser observados no exercício de qualquer atividade econômica.

1979. 1998. Rio de Janeiro:Forense. Orlando. José Geraldo Brito. . PRUX. SANTOS.14 DERANI. Instituto dos Advogados do Paraná. Altamiro José dos. 10. Política Nacional das Relações de Consumo e o Código de Defesa do Consumidor. 1991. Oscar Ivan. São Paulo: Atlas. Introdução ao direito civil. Manual de Direitos do Consumidor. GOMES. Revista de Direito do Consumidor. FILOMENO. Cristiane. A Política legislativa do Consumidor no Direito Comparado. Miriam de Almeida. Souza. Curitiba. n. Revista do IAP. Direitos Do Consumidor. Responsabilidade Civil do Profissional Liberal no Código de Defesa do Consumidor. 6 ed. 29. n. 1996. Belo Horizonte: Edições Ciência Jurídica. Belo Horizonte:Del Rey. 1987.

As relações de consumo e o surgimento da tutela do consumidor.15 Proteção constitucional do consumidor Autor: Cristian de Sales Von Rondow Sumário: 1. O por quê da tutela? 5. 2. Terminologia. 3. necessário se faz explicitar como foi o caminho trilhado do "movimento consumerista" que teve nuanças . A proteção no direito alienígena (Direito Comparado e Internacional). A tutela do consumidor a nível constitucional As relações de consumo e o surgimento da tutela do consumidor Antes de adentrarmos ao tema propriamente dito. 4. A evolução legislativa brasileira. 6.

16 próprias. Não ficamos um só dia sem consumir algo.(2) Para Maria Antonieta Zanardo Donato. qual seja. que envolvem milhões de reais ou de dólares. diante do avanço tecnológico dos meios de produção passara a ser a parte fraca da relação de consumo necessitando de uma legislação que resguardasse não apenas os direitos básicos. embates acirrados e por fim uma difusão mundial da consciência de que o consumidor. E o fez. Mas esta nova forma de vender e comprar trouxe em seu bojo o poderio econômico das macro-empresas de impor seus produtos e mercadorias àquele . sendo esta. Os serviços se ampliaram em grande medida". Por motivos variados. de modo que o consumo faz parte do dia-a-dia do ser humano. dado as alterações substanciais no panorama mundial. para um número cada vez maior de consumidores. estas alterações foram introduzidas pelo liberalismo emergente do século XIX. para dar lugar à "operações impessoais e indiretas. Os bens de consumo passaram a ser produzidos em série. gerou a sociedade de consumo ou sociedade de massa. outrora campo exclusivo do estudo da ciência econômica passou a fazer parte do rol da linguagem jurídica. econômico e jurídico que permeavam época pretérita transportando-se para o cenário atual. que vão desde a necessidade e da sobrevivência até o consumo por simples desejo. (4) E essa produção em massa aliada ao consumo em massa. mas também que punisse aqueles que o desrespeitassem. João Batista de Almeida(1) aduz que "independentemente da classe social e da faixa de renda. Instaura-se um novo processo econômico. erigindo um novo modelo social. o consumo pelo consumo". Hodiernamente as chamadas relações de consumo. por seu turno difícil de precisar seu início. causando profundas e inesperadas alterações sociais. consumimos desde o nascimento e em todos os períodos de nossa existência. nasce um capitalismo agressivo que impôs um ritmo elevado na produção. que infiltrou-se no Direito operando sua transformação. político. em que não se dá importância ao fato de não se ver ou conhecer o fornecedor. Temos que a origem protecionista do consumidor se deu com as modificações nas relações de consumo.(3) Não há dúvidas de que as relações de consumo ao longo do tempo evoluíram drasticamente. a sociedade de consumo (mass consumption society) ou sociedade de massa. Do primitivo escambo e das minúsculas operações mercantis tem-se hoje complexas operações de compra e venda. A afirmação de que todos nós somos consumidores é verdadeira. Para trás ficou aquelas relações de consumo que estavam intimamente ligadas às pessoas que negociavam entre si. Após a transformação do panorama econômico.

sobretudo a sua vulnerabilidade outorgando-lhes direitos específicos. Terminologia Ponto interessante se mostra a terminologia jurídica de "consumidor". vários ordenamentos jurídicos do mundo todo passaram a reconhecer a figura do consumidor e. A partir deste evento. uma vez que vários autores advertem não ser tarefa fácil definir consumidor no sentido jurídico. holdings. entre outras coisas. a revolução industrial. o desmesurado desenvolvimento das relações econômicas. Milaré e Nelson Nery Júnior aduzem que a tutela dos interesses difusos em geral e do consumidor em particular deriva das modificações das relações de consumo e evidenciam que: ‘o surgimento dos grandes conglomerados urbanos. Na linguagem dos economistas.(8) Tal linguagem não se verificava no Direito Privado Brasileiro. absorver. a hipertrofia da intervenção do Estado na esfera social e econômica. das metrópoles. o nascimento dos cartéis. Esse entendimento é corroborado por João Batista de Almeida(7) que citando Camargo Ferraz. corroer. bem como estavam desprotegidos e vulneráveis às práticas abusivas das empresas e para tanto necessitavam de proteção legal. seria o ato pelo qual se completa a última etapa do processo econômico. e. os consumidores começaram a enxergar que estavam mais para súditos do que para monarcas. despender. o aparecimento dos meios de comunicação de massa. passando a fazer parte quando da promulgação do Código de Defesa do Consumidor. do verbo consumir. por terem escapado do controle do homem. Como . muitas vezes voltaram-se contra ele próprio. repercutindo de forma negativa sobre a qualidade de vida e atingindo inevitavelmente os interesses difusos. trouxeram a lume à própria realidade dos interesses coletivos. Todos esses fenômenos. o fenômeno da propaganda maciça. consumo.17 (consumidor) que ao que parecia seria "monarca do mercado"(5) ou o "rei do sistema". até então existentes de forma latente despercebidos’. O vocábulo consumidor. A partir dessa fundamental constatação. que se precipitaram num espaço de tempo relativamente pequeno. O caminho natural da evolução nas relações de consumo certamente acabaria por refletir nas relações sociais. com a produção e consumo de massa. significa acabar. econômicas e jurídicas do mundo. a explosão demográfica. gastar. por sua vez oriundo do latim consumere.(6) Dado a esta imposição. multinacionais e das atividades monopolísticas. a tutela do consumidor ganhou espaço no seio jurídico. com eles. e os debates em torno da matéria iniciaram-se face às novas situações decorrentes do desenvolvimento.

França. Direito Comparado . Dinamarca. A proteção do consumidor no direito alienígena (Comparado e Internacional) O resguardo jurídico do consumidor não é tema exclusivo de um único país. Uniform Consumer Sales Act.A comissão das Nações Unidas sobre Direitos do Homem. Longe disso. que haja intervindo nas relações de consumo" (art.A iniciativa de cinco países (Estados Unidos. "a coletividade de pessoas. uma "Comissão para a política dos consumidores". Suécia. Finlândia. em 1969.Lei fundamental de proteção aos consumidores no Japão (1968). incluindo-se. . 2º. no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE. . Noruega. Direito Internacional . . considerou serem 4 os direitos de todo o consumidor: . também. Truth in Lending Act. é tema supranacional abrangendo a totalidade dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Bélgica e Holanda). França. a partir da década de 60. México. . Fair Credit Reporting Act e Fair Debt Collection Act. Portugal e Espanha. É de Newton De Lucca a apresentação de quadro sintético desta proteção: No Direito Comparado (antecedentes legislativos) e no Direito Internacional. Safety Act. a conceituação legal ou o conceito standart de consumidor é dado pelo Código de Defesa do Consumidor em seu Artigo 2º aduzindo que "consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final". por equiparação. § único). no sentido de criar.Discurso do presidente Kennedy ao Congresso Americano (março/62). nos EUA: Consumer Credit Protection Act.18 mencionado eram expressões voltadas à ciência econômica.Lei sobre documentos contratuais uniformes de Israel (1964). .Lei de caráter geral ou específica no seguintes países: Inglaterra. Bélgica. Alemanha. mas que passaram a fazer parte do universo jurídico e no Brasil. ainda que indetermináveis. Uniform Consumer Credit Code.Numerosos textos legais. Alemanha.

85. que já não mais tutelavam novos interesses identificados como coletivos e difusos. Destaca-se. Luiz Antonio Rizzatto Nunes e Cláudio Bonatto/Paulo Valério Dal Pai Moraes.o direito à segurança. também. é que esta nasceu fruto dos mais variados problemas sociais "surgidos da complexidade da sociedade moderna e os reclamos de indivíduos e grupos". 3. (11) Ao contrário.(13) Está assentado doutrinariamente que a vulnerabilidade do consumidor.No Âmbito da ONU – Resolução 39/248. reconhecidamente concreto.o direito de ser ouvido no processo de decisão governamental.19 1. os EUA foram o grande propulsor da mensagem protecionista do consumidor.A aprovação de vários documentos pela Assembléia do Conselho da Europa – Diretiva 85/374. O por quê da tutela? A justificativa que se tem para o surgimento da tutela do consumidor. . originando a hipossuficiência deste. 4. alguns são os princípios orientadores desta tutela protetiva.o direito de escolher sobre bens alternativos de qualidade satisfatória a preços razoáveis. esta tutela.(9) Conforme denota-se. vulnerável nas relações de consumo.(10) Para João Batista de Almeida. de 9. (12) E termina o festejado autor: "a tutela surge e se justifica. que para alguns é um princípio(14) foi a pedra de mote para o surgimento da tutela do consumidor. . em que se vislumbrou a posição de inferioridade do consumidor em face do poder econômico do fornecedor.4.7. de modo a influenciar grandemente diversos países com esta doutrina. de 24. no tocante aos países membros do CEE. 2. vejamos: o da isonomia ou da vulnerabilidade. pela busca do equilíbrio entre as partes envolvidas". enfim.85. bem como sobre as condições de venda. o da hipossuficiência. "não surgiu aleatória e espontaneamente". . apontada como a verdadeira origem dos direitos básicos do consumidor.o de ser adequadamente informado sobre os produtos e os serviços. Para João Batista de Almeida. surgiu "de uma reação a um quadro social. que o mesmo tema fora debatido em praticamente todos os países da Europa. bem como a insuficiência dos esquemas tradicionais do direito substancial e processual. reconhecendo-se ser este a parte fraca.

o da revisão das cláusulas contrárias ou da repressão eficiente aos abusos. que passamos a transcrever. o do da equivalência. Parágrafo único: É proibida a usura. de 1978. 115 – A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça e as necessidades da vida nacional. pois. embora essa não fosse a intenção principal do legislador. verbis: "Art. densamente de natureza social. Foi o Decreto nº 22. o da conservação do contrato.469 que posteriormente foi extinto e substituído pela atual Secretaria Nacional de Direito Econômico (SNDE). o da transparência e o da solidariedade. e para a necessidade de uma atuação mais enérgica no setor. com a proteção à economia popular. A evolução legislativa brasileira A defesa do consumidor como tema específico é entre nós algo recente. o primeiro órgão de defesa do consumidor. só em 1985 foi criado o Conselho Nacional de Defesa do Consumidor. verifica-se a existência de referida defesa como tema "inespecífico"(17) em legislações esparsas que indiretamente protegia o consumidor. João Batista de Almeida(16) aduz ser de 1971 a 1973 os discursos proferidos pelo então Deputado Nina Ribeiro. criado pela Lei nº 1. Todavia.20 o do equilíbrio e da boa-fé objetiva. que será punida na fórma da lei. é garantida a liberdade econômica". A matéria ganhou status constitucional (Constituição de 1934.(15) Cumpre esclarecer que não trataremos dos princípios acima mencionados. Somente em 1978 surgiu em nível estadual. devendo constituir-se em sociedade brasileira as estrangeiras que actualmente operam no paiz.626. esta não fora a intenção. Dentro desses limites. E assim. 115 e 117). de 7 de abril de 1933 (Lei da usura) a primeira norma nesta seara que visava reprimir a usura. o Procon de São Paulo. o evoluir não parou. do dever de informar. 117 – A lei promoverá o fomento da economia popular. alertando para a gravidade do problema. de modo que possibilite a todos exist~encia digna. Igualmente providenciará sobre a nacionalização das empresas de seguros em todas as sua modalidades. mas apenas trazê-los à colação com o fito de demonstrar ser esta tutela orientada por princípio basilares do direito constitucional que se espraiaram para o direito do consumidor. embora não fosse a defesa do consumidor tratada como tema específico como é hoje. "Art. Na esfera federal.903. arts." . por meio do Decreto nº 91. o desenvolvimento do crédito e a nacionalização progressiva dos bancos de depósito.

Todavia. mas não como elemento contundente para a prática do Estado. foi promulgada a Lei nº 7. Noutra passagem. que cuidaram dos crimes contra a economia popular. O primeiro deles e o mais importante por refletir toda a concepção do movimento está grafado no artigo 5º.137 de 1962). Mas os passos mais significativos neste campo foram dados a partir de 1985. culminando assim. sobrevindo.347 que disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao consumidor.099/95). Com a Lei nº 7. inclusive aos então artigos 36 e 74 da "Comissão Afonso Arinos". denominado "crimes de colarinho branco".21 Posteriormente veio o Decreto-Lei nº 869. e depois o de nº 9. com especial destaque para contemplação dos direitos fundamentais do consumidor. na forma da lei. inciso XXXII. atualmente Juizados Especiais Cíveis (Lei 9. quando em 24 de julho daquele ano. é atribuída a competência concorrente para legislar sobre . posto que brotava na nação a consciência da necessidade de proteção ao consumidor. trazendo sugestões de redação. à tutela jurisdicional dos interesses difusos em nosso país. além de outros bens tutelados.875. 115 e 117). com ênfase ao VII Encontro Nacional das referidas Entidades de Defesa do Consumidor. ainda existente. a constituinte de 1988 curvou-se ante aos anseios da sociedade e ao enorme trabalho dos órgãos e entidades de defesa do consumidor. autorizando os Estados a instituírem os Juizados de Pequenas Causas. em 8-5-87.840.492 de 16 de junho de 1986. realizado em Brasília.244. mas apenas cuidou de forma indireta. passaram a ser punidos os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. a defesa do consumidor. além de haver criado o Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE. no capítulo relativo aos "direitos e deveres individuais e coletivos". Mas sem dúvida ou medo de errar. de 11 de setembro de 1946. onde diz que dentre os deveres impostos ao Estado brasileiro. esta inserção não deixa de demonstrar ares de preocupação do constituinte com o tema. Surge a Lei de Repressão ao Abuso do Poder Econômico (nº 4. que de maneira reflexa beneficiava o consumidor. de 18 de novembro de 1938. e que acabou sendo devidamente protocolada e registrada sob o nº 2. dando início desta forma. por razões óbvias. em 1951 a chamada Lei de Economia Popular que vige até hoje. num evoluir ascendente. na inserção de quatro dispositivos específicos e objetivos sobre o tema. Em 1984 editou-se a Lei nº 7. no calor das discussões da Assembléia Nacional Constituinte. A tutela do consumidor a nível constitucional Como já mencionado. a tutela do consumidor a nível constitucional foi posta na Constituição de 1934 (arts. está o de promover. na estrutura do Ministério da Justiça.

dentro de cento e vinte dias da data da promulgação da Constituição. Fábio Konder Comparato (RDM nº 80. O mestre Newton De Lucca assevera que "não apenas o Código de Defesa do Consumidor tem base constitucional (art. finalmente. mais amplamente. Já o art. 66 a 75. tendo por objeto uma ampla política pública (public policy). mas o comando constitucional foi respeitado com a promulgação da Lei 8. um tipo de princípio-programa. V). prazo não respeitado. a Constituição de 2 de abril de 1976. En el marco de lo dispuesto en los apartados anteriores. ainda no bojo da Constituição de 1988.(19) Finalizando o estudo em apreço. A expressão designa um programa de ação de interesse público. No capítulo da Ordem Econômica. 51 da Constituição espanhola de 1978 declara que: "1. E em nota. caber prioritariamente ao Estado ‘proteger o consumidor especialmente mediante o apoio e a criação de cooperativas e associações de consumidores’. 3. encerraremos com a "questão para debate" proposta pelo Doutor Newton De Lucca. 24. la ley regulará el comercio interior y el régimen de autorización de productos comerciales". mediante procedimientos eficaces. la salud y los legítimos intereses económicos de los mismos. aduz: "pelo que sei. artigo intitulado "A Proteção ao Consumidor na Constituição Brasileira de 1988"): ‘Por outro lado. Los poderes públicos garantizaran la defensa de los consumidores y usuarios protegiendo. apenas Portugal e Espanha possuem em suas Constituições dispositivos em favor da proteção aos consumidores.(18) O citado autor faz observação interessante ao afirmar que ‘a consagração constitucional dos direitos dos consumidores não constitui a regra em termos de direito comparado’. estabeleceu. 48 do ADCT) como. 81. fomentaran sus organizaciones y oirán a éstas en las cuestiones que puedan afectar a aquéllos. la seguridad.078. diz o artigo 48 do ato de suas disposições transitórias que "o Congresso Nacional.9. VIII). pp. E. indubitavelmente.90 (Código de Defesa do Consumidor) terá representado o integral cumprimento da proteção constitucionalmente estabelecida em favor desse mesmo consumidor?(20) Como resposta à questão o conceituado autor traz a lume a opinião do Prof. a defesa do consumidor é. de 11. elaborará código de defesa do consumidor".078. Como todo programa . a saber: O advento da Lei nº 8. en los términos que la ley establezca. 2. No primeiro deles.22 danos ao consumidor (art. de 11 de setembro de 1990 o chamado Código de Defesa do Consumidor. 170. todos os princípios da proteção acham-se constitucionalmente assegurados". a defesa do consumidor é apresentada como um dos motivos justificadores da intervenção do Estado na economia (art. Los poderes públicos promoverán la información y la educación de los consumidores y usuarios. no art.

É preciso não esquecer de que esta só se realiza mediante a organização de recursos materiais e humanos. Saraiva-2000. A Constituição jurídica logra converter-se. P 15. São Paulo. i. se. Maria Antonieta Zanardo. se puder identificar a vontade de concretizar essa ordem. Embora a Constituição não possa. Proteção ao Consumidor. imposta na lei ou na Constituição. 01. 7. A Constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem efetivamente realizadas. A imposição constitucional ou legal de políticas é feita. João Batista.Donato. por meio das chamadas "normas-objetivo". em força ativa. 2. Vol. Ed. em sua célebre obra "A Força Normativa da Constituição" aduz que "a força normativa da Constituição não reside.23 de ação. p.Almeida. pode-se afirmar que a Constituição converter-se-á em força ativa se fizerem-se presentes. ambos previstos e dimensionados no orçamento-programa’. ou programa de ação pública. para a consecução de uma finalidade. mas também a vontade de Constituição (Wille zur Verfassung)". 2ª Edição. Vol. na consciência geral – particularmente. mas essa atividade normativa não exaure. o conteúdo da policy. Konrad Hesse. 3.e. vezes por falta de vontade política e outras por falta de recursos técnicos e materiais. na adaptação inteligente a uma dada realidade. cit..(21) Notas 1. quanto regulamentos de Administração Pública. tão-somente. 85 e ss). Quer isso dizer que os Poderes Públicos detêm um certo grau de liberdade para montar os meios adequados à consecução desse objetivo obrigatório. a política pública desenvolve uma atividade. por si só. ela pode impor tarefas. Ed. É claro que a implementação desses meios exige a edição de normas – tanto leis. uma série organizada de ações. Maria Antonieta Zanardo. não só a vontade de poder (Wille zur Macht). que se assenta na natureza singular do presente (individuelle Beschaffenheit der Gegenwart). Concluindo. em absoluto. cujo conteúdo. RT1993. ela mesma. na consciência dos principais responsáveis pela ordem constitucional -. faltando-lhe. como já se disse. é um "Zweckprogramm" ou "Finalprogramm" (Cfr. Insta asseverar que o consumidor brasileiro está legislativamente equipado à altura. apenas a proteção efetiva. se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem nela estabelecida. portanto.Donato. mas há que se ressaltar que diante das nações mais avançadas do mundo. a despeito de todos os questionamentos e reservas provenientes dos juízos de conveniência. Proteção ao Consumidor. não ficamos aquém nesta seara. realizar nada. 7. RT- . porém. Ed. A Proteção Jurídica do Consumidor.

Ed. A Proteção Jurídica do Consumidor. João Batista.Lucca. 30-56. 2ª Edição. Proteção ao Consumidor. 2ª ed. 9. 03. 2ª Edição. Saraiva-2000. A Proteção Jurídica do Consumidor. João Batista. A Proteção Jurídica do Consumidor. 6. Vol.Almeida. A Proteção Jurídica do Consumidor. Saraiva-2000. João Batista. Questões controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: principiologia. p. p. Saraiva.Almeida.. Livraria do Advogado-1999. RT1993. cit. p. São Paulo-2000. 2ª Edição. Livraria do Advogado-1999. 7. P. 13. Cláudio. p. contratos. 02. São Paulo. 1986. João Batista. São Paulo. 20. p. 10. Ed. 18. A Proteção Jurídica do Consumidor. Saraiva-2000. 2ª Edição. Paria. Dalloz. 6. p. São Paulo. Ed. Porto Alegre. São Paulo. 1984. 2ª edição. Ed. conceitos. Cláudio. João Batista.Lucca. 17. cit. Saraiva-2000. João Batista. p. Ed. Edipro. 2ª Edição.Almeida. cit. Edipro. Edipro. P. São Paulo-2000. Direito do Consumidor. Porto Alegre. Jean Calais-Auloy. cit. Ed. A Proteção Jurídica do Consumidor. Direito do Consumidor. Saraiva-2000. Bonatto. Newton De. São Paulo. São Paulo. 22. São Paulo-2000. p. Droit de la Consommation. Ed.Almeida. Direito do Consumidor. 7. A ação civil pública e a tutela jurisdicional dos interesses difusos. P. p. conceitos. Newton De. p. São Paulo. 2ª edição. 2ª Edição. São Paulo. p.54-5. 19.Almeida. Ed. Newton De. 2ª Edição. Ed. 45-6. contratos. cit. A Proteção Jurídica do Consumidor. cit. cit. João Batista. 22.Lucca.42. 2ª Edição. p. 21. Antonio Augusto Camargo Ferraz. 2ª Edição. cit. . Apud. Apud.Donato. Ed. p. Ed. 11.Bonatto. Édiz Milaré e Nelson Nery Júnior. 8. 15. 5. 25/30. 14. cit. Saraiva-2000.24 1993.Almeida. 12. Questões controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: principiologia. 4. 22. Ed. Saraiva-2000.Almeida. 2ª Edição. Maria Antonieta Zanardo. Ed.

Konrad.Lucca. p. 2ª Edição. cit. cit. A Força Normativa da Constituição. p. cit. João Batista. Newton De. 2ª Edição. 2ª Edição. Edipro. Saraiva-2000. 19. Apud nota nº 20 21. Saraiva-2000. 2ª Edição. Apud nota nº 20. 10. São Paulo. Ed. Ed.Almeida. . Direito do Consumidor. São Paulo-2000. p. 20. A Proteção Jurídica do Consumidor. São Paulo-2000. Ed. p. Newton De. 19. Edipro. p.25 16. 34. São Paulo. Ed.Hesse. João Batista.Lucca.Almeida. Direito do Consumidor. Edipro. Ed. São Paulo-2000. Porto Alegre-1991. 34.Lucca. 10. 17. Editor Sergio Antonio Fabris. Newton De. 34. A Proteção Jurídica do Consumidor. 18. p. 2ª Edição. Direito do Consumidor.

5. 1. princípios gerais de direito. Consumo sustentável e o princípio da integração. o princípio da eqüidade e a cláusula geral de boa-fé. o princípio da vulnerabilidade do consumidor. o sistema de proteção e defesa do consumidor brasileiro. o Código de Defesa do Consumidor. 4°. Teoria Geral do Direito RESUMÉ . Da constitucionalização dos princípios gerais. A defesa do consumidor e sua extensão como princípio constitucional. Introdução. Princípio do acesso à justiça. 2. O princípio da garantia da adequação art. em que demonstra os caminhos por eles percorridos sob a ótica da Teoria Geral do Direito. Boa-fé.078/90. e em particular. 1. 4°. Princípio da vulnerabilidade do consumidor art.4. Dos Princípios Gerais de Direito. 2. Princípio da boa fé nas relações de consumo art. 3.1.4. contida de mandamentos nucleares tais como. III e VI. Bibliografia. que é o da vulnerabilidade do consumidor. Livre concorrência. o princípio da proibição do abuso do direito e a função social dos contratos. A análise com maior grau de aprofundamento recai sobre a principiologia criada com a elaboração da Lei 8.2.3. 1.1. 2. Princípios fundamentais da política nacional das relações de consumo. Direitos do Consumidor . Dentre estes. 4°.26 Princípios nucleares do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor e sua extensão como princípio constitucional Autor: Henrique Alves Pinto Sumário: Resumo. Princípio da Vulnerabilidade. "D" e V.previsão constitucional. Legislação infraconstitucional: o momento da parturição do Código de proteção e defesa do consumidor. 4°. 2. Abuso do Poder Econômico e Consumidor. PALAVRAS-CHAVE Consumidor. 2. 2. chama-se a atenção do leitor para um dos mais importantes. IV e VIII.9. O princípio do dever governamental art.6. I. 2.2.8. 2. VI e VII. II.3. 1. 4°. Princípio da informação . II. Conclusão. 2. desde a sua constitucionalização até a sua irradiação por entre outros ramos do Direito.7. senão o mais importante dos princípios do sistema de proteção consumerista. As diretrizes gerais da política e do direito do consumidor. 1. RESUMO O presente trabalho retrata a enorme importância do estudo a cerca do tem. 2.art. A Política Nacional das Relações de Consumo e sua abrangência.

também não podem ser evidentes. além do estudo das ingressões destes princípios no Código de Defesa do Consumidor de 1990. não podem dar conhecimento certo de alguma coisa. celui de da vulnérabilité. où il y a des points fondamentaux tels que le principe de la vulnérabilité du consummateur. MOT-CLÉ Consommateur. destituídos de um conteúdo científico. Daí que todos os raciocínios assentes sobre tais princípios. INTRODUÇÃO Todas as conclusões advindas de um princípio que não é evidente. p. Será essa necessidade. le système de protection et de défense du consommateur brésilien. Théorie générale du Droit.078/90. O homem equipado de sabedoria percebe facilmente a fragilidade dessa estrutura. mesmo que tenham seguido o processo correto da dedução. inclusive nos sistemas mais bem aceitos e com as maiores pretensões de conter raciocínios mais elaborados. DOS PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO Sobre os princípios gerais de direito importa citarmos Miguel Reale (1999. on attire l'' attention du lecteur sur l'' un des plus importants ou peut-être le plus important des principes du système de protection du consomateur. en particulier. no ato de sua criação. depuis as constitution jusqu'' à sa penetration dans les autres branches du Droit et.le principe de la prohibition de l'' abus de droit et la fonction sociale des contrats. Parmi ceux-là. e de evidência no todo. sendo este. .27 Ce travail veut présenter l'' enorme importance de l'' etude concernant les principes généraux du droit dans le cadre des chemins parcouris par lui sous le sceau de la Théorie générale du Droit. Princípios acolhidos com base na confiança. Principe de la Vulnérabilité. uma das propostas de desenvolvimento deste trabalho. c'' est-à-dire. 1. falta de coerência entre as partes. danificam o sistema podendo até mesmo levá-lo a sua ruína. L'' analyse plus approfondie retombe sur les principes créés par la loi 8. le code de defense du consommateur. Bonne-foi. celui de l'' égalité et la rubrique générale de bonne foi . de se ter evidentes premissas para se erguer um concreto sistema à base de um forte princípio. totalmente dotado de uma carga manifestamente principiológica em suas normas.

A expressão princípios gerais de direito é por demais ampla e um autor de grande autoridade como Rubens Limongi França (apud RODRIGUES. como uma necessidade na vida do homem em sociedade. c) PRINCÍPIOS MONOVALENTES: quando só valem como âmbito de determinada ciência. encontrada pelo direito suíço . que a aplicação dos princípios gerais de direito. há de se atribuir um sentido diferente a eles. entende que é aos princípios de direito natural que o legislador manda recorrer na lacuna da normatividade. por serem evidentes ou por terem sido comprovadas. 1999. p. uma vez que o legislador quer referir-se àquelas normas que o orientam na elaboração da sistemática jurídica. Será essa categoria de princípios. mas não extensivo a todos os campos do conhecimento. b) PRINCÍPIOS PLURIVALENTES: quando aplicáveis a vários campos de conhecimento.28 305): deve começar pela observação fundamental de que toda forma de conhecimento filosófico ou científico implica a existência de princípios. como se dá com o princípio de causalidade. como é o caso dos princípios de identidade e de razão suficiente. não especificados pelo legislador." Com base nessa posição. 2002. ou seja." (RODRIGUES. p. pode-se dizer que "os princípios são ''verdades fundantes'' de um sistema de conhecimento. ressaltemos. 305) Nesse sentido. como é o caso dos princípios gerais de direito. àqueles princípios que "baseados na observação sociológica e tendo como objetivo regular os interesses conflitantes. de certos enunciados lógicos admitidos como condição ou base de validade das demais asserções que compõem todo campo do saber. a dos monovalentes. p. impõem-se. Dessa abordagem lógica da palavra "princípio". de acordo com Miguel Reale (1999. inexoravelmente. como tais admitidas. 306)." (REALE. 42). aqui. "Nada existe de mais tormentoso para o intérprete. isto é. os princípios se dividem em três categorias: a) PRINCÍPIOS OMNIVALENTES: quando são válidos para todas as formas de saber. 25) A esse respeito reportemo-nos a Washington de Barros Monteiro (1997. Todavia. essencial às ciências naturais. p. que a presente monografia irá demonstrar: a incidência deles no âmbito das relações consumeristas devido à alta carga principiológica contida no texto da lei de defesa do consumidor. 2002). a resolução para o eventual problema da aplicação dos aludidos princípios gerais.

Daí infere-se que todo sistema se quiser adquirir a qualidade de um sistema que se completa e se relaciona por toda a extensão de seu corpo normativo.29 que dispõe no art. ao se examinar o direito positivo pátrio. deve o juiz decidir ''segundo as regras que ele estabeleceria se tivesse de agir como legislador''. encontra-se. 4° da Lei de Introdução ao Código Civil a orientação a seguir. presentes ou futuros. Os princípios espargem claridade sobre o entendimento das questões jurídicas. Note-se. não merecendo acolhimento esse entendimento. 1° do Código Civil deste país que "no silêncio da lei e não havendo um costume a regular uma relação jurídica. uma vez que o ordenamento jurídico oferece ferramentas para regular todos os casos possíveis. Concluamos este tópico. Ora. Diante desta exposição. por conseguinte. Para essas lacunas há a possibilidade do recurso aos princípios gerais de direito. 2002. 306). portanto. Nas precisas palavras de Miguel Reale (1999." (RODRIGUES. portanto em seu raio de abrangência os princípios aos quais as regras se vinculam. o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia. algo que era impossível ser vislumbrado sequer pelo legislador no momento da futura lei. deve estar . quando a norma jurídica for omissa. que tais princípios gerais são imprescindíveis ao direito. Mas de maneira alguma se colocará em dúvida que as lacunas de fato existem no direito positivo. p. que para vários juristas essas lacunas não podem e nem verdadeiramente poderão existir. sejam eles previstos ou imprevistos. quer para a sua aplicação e integração. 306). no art. o certo é que tais elementos constituem uma breve resolução do problema. que condicionam e orientam a compreensão do ordenamento jurídico. restando sempre grande número de situações imprevistas. 25) Assim. isto significa que: O legislador. p. p. os costumes e os princípios gerais de direito. p. temos a célebre noção atribuída por Miguel Reale (1999. 232): Todo discurso normativo tem que colocar. mas não a solução definitiva e concreta dele. porém. mas é necessário advertir que a estes não cabe apenas essa tarefa de preencher ou suprir as lacunas da legislação. acerca do entendimento deste autor sobre os princípios gerais de direito em que ele nos revela o seguinte: "princípios gerais de direito são enunciações normativas de valor genérico. é evidente. quer para a elaboração de novas normas". é o primeiro a reconhecer que o sistema das leis não é suscetível de cobrir todo o campo da experiência humana. por força do qual. citando as palavras do constitucionalista Paulo Bonavides (2002. posto que na própria há elementos para suprir essas lacunas. por mais complicadas que estas sejam no interior de um sistema de normas.

2002. p. sem qualquer menção ao mundo exterior do sistema. p. nos países com estabilidade política e que se encontram num verdadeiro Estado Democrático de Direito. tampouco aplicadas efetivamente"(NERY JÚNIOR. possui . ou seja. pelo menos até pouco tempo atrás. Assim se fixarmos o pressuposto de que o direito positivo é uma camada lingüística de termos prescritivos dirigidos ao comportamento social das relações de intersubjetividade. Daí a alegação de que a ofensa à Constituição. 2002. a semântica e a pragmática. de estabilidade política que possam contribuir com o fortalecimento do Estado Democrático de Direito. apontar as interpretações possíveis. semântico e pragmático da linguagem jurídica. aquele que diz respeito ao modo de referência à realidade. formados de postulados que seguem os preceitos do princípio da identidade que é comum a todos os campos do saber. Neste sentido será a interpretação um ato de vontade e um ato de conhecimento e como ato de conhecimento não caberá à "Ciência do Direito dizer qual é o sentido mais justo ou mais correto. a qualificação dos fatos para alterar normativamente a conduta. 19). porque envolve os três planos fundamentais." (BARROS CARVALHO. simplesmente." (BARROS CARVALHO. Por plano semântico. nada mais justo que apresentarmos a proposta de interpretação do direito como um sistema de linguagem. percebe-se também que dado esse rigor necessário do corpo principiológico central. deverá o intérprete adotar o critério sistemático de interpretação. todo e qualquer princípio que daí se irradiar por outros sistemas periféricos estará sendo amparado pela base. Em vista disso percebe-se "porque não se vinha dando grande importância ao Direito Constitucional. 19) Isso acontece devido à falta de um forte regime democrático. já que nossas constituições não eram respeitadas. mas. a interpretação e aplicação dos mais variados ramos do direito tomando-se por base "a lei ordinária principal que o regulamentava. 97) E para se chegar ao conteúdo intelectual dos textos do Direito através da exegese. nos seus três planos fundamentais: a sintaxe." (NERY JÚNIOR.1 Da Constitucionalização dos Princípios Gerais Em decorrência da alta instabilidade política percebida ao longo dos tempos na história do Brasil.30 armado de princípios que emanam de um núcleo central. Por plano pragmático. 99) 1. ao realizar reiteradas incursões nos níveis sintático. 2002. Além disso. p. aquele "tecido pelas formas segundo as quais os utentes da linguagem a empregam na comunidade do discurso e na comunidade social para motivar comportamento. Por plano sintático entende-se aquele formado pelo relacionamento que os signos lingüísticos mantêm entre si. sempre foi muito comum. 2002. p.

"numa escala de densidade normativa."(NERY JÚNIOR. na . sempre tendo como pressuposto o exame da Constituição Federal. segundo Paulo Bonavides (2002. p. através dos princípios contidos em seu corpo. p. que demandam de operações integrativas em que se percebe a ausência de juridicidade. essa situação vem apresentando uma grande mudança. quando há ofensa à Constituição. 20): "O intérprete deve buscar a aplicação do direito ao caso concreto. Revela também. Simonius tem razão quando afirma que "o Direito vigente está impregnado de princípios até suas últimas ramificações. p. De acordo com Nelson Nery Jr. Já a fase não programática é uma fase dotada de objetividade. posto serem preservados pelos cidadãos orientados por uma carga principiológica que reside na base deste sistema. é dotada de incontrastável juridicidade. que "a constitucionalização dos princípios compreende dessas fases distintas. 246). por ser concreta e completa. (2002. ou seja. Depois. o que podemos perceber dos ensinamentos deste jurista é que será na Constituição de determinado país que se encontrarão os mais altos valores do Direito Positivo. ao declarar que o Direito Constitucional é a base fundamental do direito para o país. 306) Deste ponto de partida. 246) Por fase programática deve-se entender que é uma fase de concreção. É da Constituição que se irradiam os princípios que irão se dispersar pelas mais variadas leis infraconstitucionais." (apud. 1999. ao grau mais alto a que eles já subiram na própria esfera do Direito Positivo: o grau constitucional". p. "a alegação não é levada a sério na medida e na extensão que deveria". a fase programática e a fase não programática". apresentando-se "como mais uma defesa que o interessado opõe à contraparte. 246) o seguinte: Na primeira. sim. suscetível de imediata aplicação. o da função interpretativa e da aplicabilidade da Constituição. (2002." Na verdade. dotada de um alto teor de abstração e de perfeição. 2002. 19) Entretanto. e ao contrário do que se pode perceber na fase programática. quando este problema é declarado. Partindo desse pressuposto. p. Ressalta ainda Paulo Bonavides (2002. é que podemos chegar. deve ser consultada a legislação infraconstitucional a respeito do tema.31 conseqüências catastróficas. em virtude do aumento significativo de trabalhos e pesquisas jurídicas que abordam o tema da interpretação e aplicação da Constituição Federal. No Brasil. p. REALE. este constitucionalista. a normatividade constitucional dos princípios é mínima.

que não foi sem razão que o Constituinte inseriu o direito do consumidor no rol dos direitos fundamentais. em nossos dias. 2002. os princípios gerais e os princípios constitucionais. não é necessário entrarmos em maiores detalhes aqui. na forma da lei. o respeito ao Direito Constitucional como lei basilar de todo o ordenamento jurídico dos Estados para a estabilização política e fortalecimento do Estado Democrático de Direito e. Percebe-se. chega-se à seguinte conclusão: O perigo do que se chama aequitas cerebrina. desapareceu com o nascimento do moderno Estado de direito. no art. p. 2001.2 Direitos do Consumidor . E se. isto é. a fase não programática. inc. já que aqueles possuem maior ou menor incidência nos mais variados ramos do direito.Previsão Constitucional A Constituição Federal Brasileira de 1988 considerou como fundamental o direito do consumidor.078/90 . estabeleceu em "norma de notório conteúdo programático" (CARVALHO FILHO.32 segunda máxima. 246) Portanto. retrógada em sua substância e contrária à liberdade apesar de seu nome. Ali. nada mais imprescindível na história contemporânea do Direito Constitucional do que a solidificação dos princípios contidos em seus textos de leis. para possibilitar uma maior objetividade e aplicabilidade no escopo de suprir as diversas lacunas encontradas entre as leis. 5°. XXXII. Apenas nesta última fase. 275). p. entre outras categorias de princípios. Ao se estudar a teoria dos princípios gerais de direito proposto por Del Vecchio nas lições de Vicente Ráo (1999. o arbítrio do juiz em sentido contrário ao da lei. 19): o Estado promoverá." (BONAVIDES. a defesa do consumidor. salvo o empenho da Filosofia e da Teoria Geral do Direito ao construírem a doutrina da normatividade dos princípios em que se busca uma neutralidade na qual se possa superar antinomia Direito Natural/Direito Positivo. aqui ocupam um espaço onde releva de imediato a sua dimensão objetiva e concretizadora. que se fará exeqüível "colocar no mesmo plano discursivo. tema que não é o propósito desse trabalho. 1. o que se pode perceber deste tópico é que. Tanto é que. Assim. doutrina é esta que. certa doutrina pretende restabelecer este arbítrio sob o pretexto especioso da liberdade do juiz ou da jurisprudência. em termos de identidade. pairam ainda numa região abstrata e têm aplicabilidade diferida. pois. Fala-se em conteúdo programático neste inciso porque antes da Lei 8. p. Como já comentamos a respeito da fase programática das normas. a positividade de sua aplicação direta e imediata. deve ser repelida por se opor ao mencionado princípio e às próprias bases racionais do sistema atualmente em vigor. a conversão dos princípios gerais em princípios constitucionais. por fim.

em segundo grau. Constituição Federal). com respeito ao próprio objeto por se tratar de uma norma constitucional programática até então. p. ALVIM. preestabelecia em si mesmo apenas um programa de ação. 222). Protege-se ainda. V. através da normatividade constitucional. sendo que os Estados e Distrito Federal possuirão competência suplementar (art. 24. como se viu.. § 1° e 2° da Constituição Federal). E. que se refere às limitações ao poder de tributar. p. o art. 24. p.. XXXII da Constituição Federal. inc. nada mais oportuno e justo do que se considerar o direito do consumidor como um direito fundamental. 170. 5°. é da inteligência do art. Acrescenta ainda Paulo Bonavides (2002." Por se tratar de uma sociedade capitalista. serem competentes a União. que criou o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. 14): No Título IV da Constituição Federal. não regulam diretamente as matérias a que se referem. fundada na livre iniciativa na qual se verificam inúmeras formas de abuso de poder econômico. VIII da Constituição Federal. em clara preocupação com o grau de informação que deve . destinado à tributação e ao orçamento. 1995. Sobre as normas constitucionais programáticas postula Crisafulli (1976." Além de caracterizada como direito fundamental. A. ALVIM. No que diz respeito à competência normativa sobre a matéria. O produto legislativo da União deverá ater-se à edição de normas gerais. T. aquelas determinadas matérias. 75): As normas constitucionais programáticas. a defesa do consumidor "se qualifica também como um dos princípios da ordem econômica e financeira (art. os Estados e o Distrito Federal para legislar concorrentemente sobre responsabilidade por dano ao consumidor. J. como é a brasileira. mas regulam propriamente a atividade estatal concernente a ditas matérias: têm por objeto imediato os comportamentos estatais e só imediatamente e por assim dizer... em sua Seção II. 150 dispõe que ''a lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços''. o direito do consumidor (ALVIM. SOUZA. "ostentam por igual uma dupla eficácia na medida em que servem de regra vinculativa de uma legislação futura sobre o mesmo objeto. inc.33 de 11/09/1990. o § 5° do art. determinando que se ofereça o devido esclarecimento acerca dos tributos incidentes sobre bens objeto de relações de consumo.

078/90. vale adiantar brevemente. como veremos mais detalhadamente no tópico específico destinado à elucidação de sua aplicabilidade. 177-178) será: princípio político constitucionalmente conformador. pois que impõe aos órgãos do Estado. mas sim um dever que se impõe a todos os fornecedores que oferecem produtos ou serviços no mercado consumerista.34 receber o consumidor. é a tônica deste Código de Consumidor. Daí percebe-se que os princípios que envolvem a defesa do consumidor são princípios jurídicos basilares. que é o da carga principiológica contida na Lei 8. que é o princípio da boa-fé. p.3 A Defesa do Consumidor e sua Extensão como Princípio Constitucional Após todo este levantamento da trajetória dos princípios gerais de direito. sobretudo ao legislador. da sua constitucionalização e irradiação por entre outros ramos do Direito. Dada esta destacada posição de defesa do consumidor. ou seja. que a necessidade da devida informação acerca do produto que o consumidor venha adquirir. a partir do momento em que buscam introduzir uma nova forma de pensar nos postulados da consciência jurídica. nada mais é do que uma irradiação de um princípio basilar residente no corpo principiológico nuclear da Lei 8. e de acordo com os dizeres de José Joaquim Gomes Canotilho (1992. chega-se ao assunto fundamental do presente trabalho. é princípio constitucional impositivo. uma série de direitos ao cidadão. antes de abordarmos os princípios específicos desta lei. visto que garante. difundido de seu estado de . subordinadas aos ditames do Código de Proteção e Defesa do Consumidor no que chama a atenção pela necessidade de sua correta interpretação nos quadros normativos. necessariamente. aliás. o que.078/90 (reitere-se o Código de Defesa do Consumidor). entre fornecedor e consumidor que a partir do ano de 1990 devem estar. que possui grande parte de suas atividades baseadas nas relações de consumo. ainda que indiretamente. Como será discutido mais adiante o princípio da transparência. como se percebe pelo fragmento supra citado. apontaremos ainda a extensão da defesa do consumidor como princípio constitucional. a realização de uma tarefa e um fim a ser atingido e. a de estar no ápice do nosso ordenamento jurídico. princípio garantia. disposições imediatas e emergentes. 1. Todavia. é mais do que uma mera necessidade. Além disso nota-se também que o dever de bem informar os consumidores. nos declara a importância do tema na órbita da economia brasileira. na medida em que indica opção valorativa do constituinte. Diante disso fica declarada a magnitude de sua garantia constitucional que possui no mínimo.

o Código de Defesa do Consumidor. 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). p. está comprovado que a defesa do consumidor é uma garantia constitucional que engloba uma vasta gama de direitos que estão envolvidos em toda a Carta Constitucional ou em outros regimes e princípios colhidos por ela. na política.4 Legislação Infraconstitucional . ou à sua importância estrutural dentro do sistema jurídico. ao se tratar de interpretação constitucional dever-se-á identificar quais foram as normas que receberam do legislador constitucional a categoria de princípios orquestradores do sistema de valoração. posto que são mais do que normas dado o seu caráter de fundamentalidade no sistema das fontes de direito. De outro. por meio de uma ação coordenada. p. no prazo de cento e vinte dias da promulgação da Constituição. 2001. É preciso. uma vez que irão servir "como vetores para soluções interpretativas. legislar e decidir. não pode. mais do que declarado. Por fim. "Direitos que envolvem a obrigação positiva de atuar. Este impôs aos órgãos estatais. na lei e na justiça. 2001. "a realização de uma tarefa e um fim a ser atingido" (ZAPATER. será do núcleo sistêmico de onde emanará toda orientação no intuito de se atingir a devida interpretação normativa. erigido por nossa Lei Maior. que criou o código brasileiro das relações consumeristas. 1990. ao revelar certa pressa para que fosse promulgada a lei de proteção do consumidor. editar norma conflitante com o objetivo do programa constitucional. de acordo com a determinação do art. na busca da solução das antinomias que são encontradas nos conflitos entre as normas do sistema." (TEMER. que é o consumidor. enquanto o que se . pois. 69): De um lado. o legislador.O Momento da Parturição do Código de Proteção e Defesa do Consumidor Brasileiro Apesar do amplo otimismo do Constituinte. p. lembra ainda Fábio Konder Comparato (1990. após quase dois anos da promulgação da Carta Magna é que foi instituída a Lei 8. identificar tais princípios. nota-se que ele atribui ser papel do legislador apontar quais normas este erigiu à categoria de princípios. os Poderes Públicos têm o dever de desenvolver esse programa. pela defesa do consumidor" (ZAPATER.35 princípio geral da atividade econômica do país. 187). ou a administração pública. a virtude de corromper de inconstitucionalidade qualquer norma que possa ser um obstáculo à defesa desta figura das relações intersubjetivas de consumo. 185). Assim. p. 37) Da posição do constitucionalista acima citado. quando consignou que o Congresso Nacional deveria elaborar. Após todas essas exposições. Entretanto. mais uma vez. ao buscar uma legislação mais eficiente e específica para tratar de tais situações jurídicas.078/90 de 11/09/1990. sobretudo ao legislador. 1. Percebe-se portanto que.

protegendo-o dos enganos e . Numa fase mais recente. deve-se perceber que uma e outra não são a mesma figura. A POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO E SUA ABRANGÊNCIA Estabelece o caput do art. ao estabelecer parâmetros que nortearão todo e qualquer ato do governo. 2002. nos mais variados casos em que eram envolvidos os sujeitos do consumo. 4° do Código de Defesa do Consumidor. 2.36 tinha antes era a adaptação interpretativa pelos juristas do Código Civil de 1916. p. no que quase sempre acabava numa decisão menos favorável aos consumidores. 2. traçam também os objetivos e princípios de toda a Política Nacional de Relações de Consumo. ajudando-o a exercer um papel atuante no mercado. seja na esfera do legislativo. a partir do instante em que se trata das "relações consumeristas" que é uma expressão declaradamente mais ampla do que a "defesa do consumidor". uma vez que. 4° do Código de Defesa do Consumidor Brasileiro. e seus dados se tornam cada mais significativos à medida que ele vão se estendendo a outros ramos políticos. À política de defesa do consumidor é dado um objetivo mais amplo de aplicação. correspondem apenas aos princípios da defesa do consumidor. todavia com objetivo mais restrito. do executivo ou do judiciário. Com o decorrer dos anos. Apesar de se confundirem os objetivos expressos da Política Nacional de Relações de Consumo com a defesa do consumidor. Daí percebe-se o equívoco em se considerar que os incisos do art. direitos e obrigações. apontaremos abaixo os aspectos mais comuns de interesse da política tradicional de proteção ao consumidor: a)Educação: uma importantíssima ferramenta de auxílio ao consumidor. a política e o direito do consumidor desenvolveramse de forma cada vez mais autônoma. busca torná-lo mais consciente de suas responsabilidades. buscando um alcance substancialmente mais longo.1As Diretrizes Gerais da Política e do Direito do Consumidor Antes de dissertarmos sobre a principiologia inserta no art. uma nova abordagem é postulada "em que se exige a integração das considerações da política de consumo a outras políticas econômicas e sociais" (BOURGOIGNIE. coerente e separada. sendo esta uma importante faceta daquela. 4°. 34). a definição dos objetivos que norteiam a política das relações de consumo.

cláusulas contratuais. estabelecimento de uma rede de Centros de Conselhos para Consumidores. f)Representação dos interesses coletivos dos consumidores: para promover e dar suporte aos grupos de consumidores. ao possibilitar o acesso efetivo à lei e aos mecanismos de reparação. desenvolvimento de campanhas públicas de conscientização etc.37 fraudes. educação. regulamentação da especulação de preços. a realização de recalls. preços e tarifas. dos empréstimos e de outras transações financeiras do consumidor. propaganda e métodos de venda desleais. obrigações de controle sobre processos de produção e distribuição. atividades esportivas etc. que o objetivo de segurança sobre produto e serviços tais como. o efetivo acesso a mercadorias e serviços básicos. rotulagem e empacotamento dos produtos. d)Segurança: proteção aos consumidores de produtos ou serviços. particularmente por meio de específicas regras de responsabilidade. que são perigosos ou sem segurança. lazer. brinquedos. retirada de produtos quando nocivos aos consumidores e a terceiros. saúde etc. impedimento de cláusulas abusivas em contratos de consumo. instituição de padrões de qualidade. tais como exigências de informações. e)Compensação ao consumidor: tem como objetivo armar o consumidor de meios rápidos e acessíveis de assegurar seus direitos. automóveis. acesso a planos de compensação adequados e facilmente acessíveis. comida. definindo reparações civis. energia. aumentando a participação de representantes de consumidores no processo de tomada de decisões. c)Proteção dos interesses econômicos dos consumidores: prevenção de comércio. promovendo informações de consumo por meio de fontes independentes. b)Informação e conselhos: detalhar cada vez mais as informações e formas de uso sobre produtos e serviços. além de desenvolverem sistemas alternativos para solução de conflitos que sejam eficientes e independentes. concessão de períodos de controle. do crédito. Imprescindível que se destaque. riscos e acidentes relacionados a eles. água. através de medidas preventivas. . leis e regulamentos entre outros. avisos e instruções de uso. drogas. intercâmbio de sistemas de informações e supervisão das reservas de mercado. ao criar para os grupos de consumidores. obrigações de garantia pós-venda. transporte. entre outros. planos de garantia de qualidade. proibição de propaganda enganosa. dentre eles. revelação das cláusulas contratuais. g)Satisfação de necessidades básicas: como possibilitar a todos. personalidade jurídica ou o direito de ingressarem ações coletivas em cortes e tribunais quando se sentirem lesados. telecomunicações. cosméticos. criminais e administrativas mais adequadas. assim como corretivas que dão aos consumidores. saúde.

sobretudo se se tiver em conta a ciência de marketing e a publicidade. de produtos e serviços" (FILOMENO. a preocupação em proceder ao consumo responsável e. quanto no aspecto social. no intuito de se buscar uma redução dos impactos causados por essas atividades. A responsabilidade pelo consumo sustentável deve ser compartilhada por todos os membros e organizações da sociedade. no seu art. Tradução nossa. Todavia.38 2. e para que a criação desta consciência de preservação ao meio ambiente possa vir a colher bons resultados. tanto no aspecto econômico. socially. 68). sobretudo sustentável. além das associações de proteção aos consumidores e ao meio ambiente que irão desempenhar importante papel na divulgação da mais adequada informação. É desse problema que surge "a necessidade de incutir no homem. como bem observa José Geraldo Brito Filomeno (2003. por governantes e empresários. por exemplo. através do documento "United Nations Guidelines for Consumer Protection".Consumo Sustentável e o Princípio da Integração Conforme a resolução da ONU. p.2. aponta a resolução acima citada. p. ampliado no ano de 1999. Se o consumidor. consome determinada marca de papel de uma empresa que não pratica o reflorestamento. por organizações do trabalho. de maneira que os recursos naturais não se esgotem de forma irreversível. 67). como se pode perceber. foi eleito como um dos direitos do consumidor universalmente considerado e será um objetivo comum a todos os governos a sua promoção. o chamado "consumo sustentável". 2003. esta tarefa não é nada fácil. nada mais é do que um grande cuidado que os homens devem ter no instante que exploram o meio ambiente através de suas atividades econômicas. devem ser observadas. ilimitadas. são limitados os recursos naturais disponíveis". o que poderá trazer drásticas conseqüências. entre os recursos naturais disponíveis e a atividade industrial. Os preceitos desse artigo.). em princípio. in verbis: "Sustainable consumption includes meeting the needs of present and future generation for goods and services in ways that are economically. tais como: . uma vez que da escolha dos consumidores por determinados produtos é que recairão os efeitos sobre os produtores. 42. ele estará incentivando cada vez mais a atividade comercial dessa empresa que depreda o meio ambiente no que implicará um forte desequilíbrio. and environmentally sustainable." (O consumo sustentável deverá satisfazer às necessidades das presentes e futuras gerações por meio de benefícios e empreendimentos que contribuam pela higidez do meio ambiente. "enquanto as necessidades do homem são. referem-se a uma variedade de políticas. desde a infância. por consumidores informados. Assim percebe-se que o consumo sustentável.

2002. a proteção de seus interesses econômicos. mas também aos consumidores. Portanto conclui-se que o consumo sustentável. saúde e segurança.° A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores. o que não é nada fácil já que implica numa mudança nos seus hábitos. 43. infere-se que "a qualidade de vida ou direito de viver num ambiente saudável tornou-se um dos direitos fundamentais dos consumidores" (BOURGOIGNIE.). o respeito a sua dignidade. como bem observa Thierry Bourgoignie (2002. de 21 de março de 1995. bem como a transparência e harmonia das relações de consumo. que devem procurar consumir produtos menos nocivos ao meio ambiente.3. 2. p. 36).Princípios Fundamentais da Política Nacional de Relações de Consumo Para melhor se compreender o corpo principiológico do art. "colocará sua marca na política e no direito do consumidor". a melhoria da sua qualidade de vida.reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo." (Os governantes devem promover a implementação e o desenvolvimento de políticas que tenham como objetivo o consumo sustentável além da integração dessas políticas a outras políticas públicas. A responsabilidade pela proteção ao meio ambiente. aos fornecedores. . Diante disso. sociedade de informação. 37). deverá ser limitada em prol do meio ambiente e que os interesses da coletividade e benefícios individuais a curto prazo. nutrição. o qual se encontra consubstanciado no texto do art.39 telecomunicações. atendidos os seguintes princípios: I . não recairá apenas aos produtores. da diretriz geral de proteção ao consumidor editada pela ONU. proteção ambiental e agrícolas. Tradução nossa. p. daí observa-se que o processo de integração é extremamente complexo. É desta atividade que trabalha com a inter-relação que temos o princípio da integração. entre outros entes da cadeia empresarial. 4° do Código de Defesa do Consumidor de acordo com a nova redação dada ao artigo pela Lei n. A livre escolha dos consumidores. saúde.008. 4. que devem ser desenvolvidas numa estratégia rumo à integração dos dados de consumo. in verbis: "Governments should promote the development and implementation of policies for sustainable consumption and the integration of those policies with other public policies. in verbis: Art. ao fazer com que todos tomem consciência da dimensão ecológica do processo consumerista em geral e de seu comportamento individual particular.° 9.

com vistas à melhoria do mercado de consumo. da Constituição Federal).racionalização e melhoria dos serviços públicos. c) pela presença do Estado no mercado de consumo. VI. b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas. Eduardo Arruda Alvim e Jaime Marins (1995. assim como de mecanismos alternativos de solução de conflitos de consumo. p. de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 44).40 II . que possam causar prejuízos aos consumidores. 170.ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor: a) por iniciativa direta. III. II .coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo. Thereza Alvim. V .Princípio da Informação VI. d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade. pode-se dizer serem seis os princípios fundamentais da Política Nacional das Relações de Consumo.harmonização dos interesses dos particulares dos participantes das relações de consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico.Princípio da Boa-fé nas relações de consumo V. De acordo com Arruda Alvim.incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços. quanto aos seus direitos e deveres. sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores.educação e informação de fornecedores e consumidores.Princípio do Acesso à Justiça . inclusive a concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciais e signos distintivos.estudo constante das modificações do mercado de consumo. IV .Princípio da Garantia de Adequação IV. citados abaixo: I-Princípio da Vulnerabilidade II.Princípio do Dever governamental III. I .

nuclear.Art. numa hipotética situação. atua como elemento informador da Política Nacional das Relações de Consumo. 2° da Lei 8. Com precisão. crédulos ou espertos. determinado médico neurocirurgião de grandes títulos durante a carreira. crianças que são expostas diariamente aos diversos anúncios de chocolates. a vulnerabilidade do consumidor não se confunde com a hipossuficiência. educadores ou ignorantes. ao perceber que o consumidor é o elemento mais fraco dela. A vulnerabilidade.41 Todos estes princípios supra citados. entre outros alimentos supérfluos em que o exagero no consumo destes podem levá-las a ter vários problemas no seu desenvolvimento natural. I. p. no que surge à necessidade da criação de uma política jurídica que busque a minimização dessa disparidade na dinâmica das relações de consumo. dado o propósito desse trabalho. Deve-se notar também que. que além de presumivelmente vulneráveis são também.até mesmo a uma coletividade . a partir do momento em que se examina a cadeia consumerista.4 Princípio da Vulnerabilidade do Consumidor . ricos ou pobres. serão devidamente analisados nos subtópicos que se seguem. ou então. Já a hipossuficiência é marca pessoal. 2. seja ele consumidor-pessoa jurídica ou consumidorpessoa física. qualidade ontológica (essencial. Diante disso temos que. cultural ou econômica. por não dispor do controle sobre a produção dos produtos. limitada a alguns . 224225) demonstra a diferença entre a vulnerabilidade e hipossuficiência: A vulnerabilidade é um traço universal de todos os consumidores. 4°.078/90. independentemente da sua condição social. intrínseca) e indissociável do consumidor numa relação de consumo. por estarem desprovidas de outros indispensáveis alimentos em sua dieta. consequentemente acaba se submetendo ao poder dos detentores destes. de acordo com o conceito legal preceituado pelo art. e é tido como o núcleo base de onde se irradia todos os outros princípios informadores do sistema consubstanciado no Código de Defesa do Consumidor. Isto acontece. em sua situação individual carentes de condições culturais ou materiais. Este princípio. como por exemplo. os analfabetos quando se encontram diante de uma situação em que podem assinar um contrato de plano de saúde sem os devidos esclarecimentos a respeito de suas cláusulas contratuais contidas no corpo contratual.mas nunca a todos os consumidores. ao levar um automóvel seu numa . Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin (1991. que é uma característica restrita a determinados consumidores.

garantida pela Constituição. não apenas sobre o aspecto técnico. 320) que "permeia as relações de consumo está em verdade a dar realce específico. a oficina mecânica prestadora do serviço). Além destas constatações. II. dispensando-se tratamento desigual aos desiguais". é insuficiente para desate do problema. segundo Celso Antônio Bandeira de Melo (2002. seja através da iniciativa direta do Estado (art. esta expressão "tratamento desigual aos desiguais" de Aristóteles. II. "b") ou até mesmo de fornecedores. além de deter o processo tecnológico da fabricação de seus produtos. pois entre um e outro extremo serpeia um fosso de incertezas cavado sobre a intuitiva pergunta que aflora ao espírito: Quem são os iguais e quem são os desiguais?" E de acordo com Hans Kelsen (1998. 4° do Código de Defesa do Consumidor. Sob esta ótica. A igualdade assim entendida não é concebível: seria absurdo impor a todos os indivíduos exatamente as mesmas obrigações ou lhes conferir exatamente os mesmos direito sem fazer distinção entre eles. homens e mulheres. por não conhecer nada a respeito de mecânica de motores automotivos. p. ao princípio constitucional da isonomia. . O primeiro é o da responsabilidade atribuída ao Estado. ao prover o consumidor. já que este é a parte detentora dos mecanismos que induzem aquele. 4°. VI e VII Este princípio. ao colocá-lo sob um intenso bombardeamento de anúncios. dever ser compreendido sob dois principais aspectos. Sem fazer contestação ao teor do que nela se contém e reconhecendo.078/90 colocar em equilíbrio jurídico o consumidor e fornecedor. para armá-lo de certos instrumentos para que ele possa melhor defender-se. entre crianças e adultos. ao consumo tanto básico quanto exagerado. não significa que estes devam ser tratados de maneira idêntica nas normas e em particular nas leis expedidas com base na Constituição. Todavia. se percebe que é mister da Lei 8. como. 207) têm-se as seguintes condições: A igualdade dos sujeitos na ordenação jurídica. p. Daí o porquê se parte do princípio da fraqueza manifesta do consumidor no mercado. seja ele pessoa jurídica ou pessoa física.Art. indivíduos mentalmente sadios e alienados. mas também sob o aspecto econômico.5 O Princípio do Dever Governamental . observa-se também que o princípio da vulnerabilidade de acordo com Nelson Nery Júnior (1991. dos mecanismos suficientes que proporcionam a sua efetiva proteção. p. 4°. 2. enquanto sujeito máximo organizador da sociedade. dos mais diversos setores e interesses nas relações consumeristas. pode ser considerado vulnerável frente ao fornecedor (neste caso. VI e VII do art. por exemplo. elencado nos incisos II.42 oficina mecânica para a realização de reparos no veículo. sua validade como ponto de partida. 11): "deve-se negar-lhe o caráter de termo de chegada.

uma vez que o Código do Consumidor é adepto do princípio da "responsabilidade objetiva". elencado no caput do art. exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição. consistente no atendimento dos eventuais problemas dos consumidores. "D" e V É o princípio que emana a necessidade da adequação dos produtos e serviços ao binômio. a proteção de seus interesses econômicos e a melhoria da sua qualidade de vida.10° §1°. que demonstram uma dupla atribuição: . 4°. . 4°. que é uma outra atribuição do "princípio de dever governamental" o qual já se expôs. saúde e segurança. vale ressaltar também que o princípio da garantia de adequação contido no art. a dar informações necessárias e adequadas a seu respeito. a quem está incumbido o dever de fiscalização.6 Princípio da Garantia da Adequação . 8° Os produtos e serviços no mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores. no que diz respeito à sua dignidade. o que contribui de maneira inteligente para o desenvolvimento das próprias atividades empresariais. A concretização desse princípio. várias empresas.ao mesmo tempo que recebem reclamações de determinados produtos ou serviços. Preocupadas com tais aspectos. ao surgir aqui a figura do Estadofornecedor além de suas eventuais responsabilidades. instruindo-os em como melhor servi-los. também recebem valiosas sugestões de consumidores. atendendo completamente aos objetivos da Polícia Nacional das Relações de Consumo. II. indica que a prevenção de danos é a política que deve ser prioritariamente buscada pelas empresas. VIII). têm criado os conhecidos "departamentos de atendimento ao consumidor". respectivamente: Art. 4°. qualidade/segurança. 8° parágrafo único e art. fica a cargo do fornecedor que será oficialmente auxiliado pelo Estado.Art. que é o fim perseguido pelo sistema de proteção e defesa do consumidor. aliada à inversão do ônus da prova (como este assunto não é a proposta de discussão do presente trabalho. Por fim. em qualquer hipótese. Atualmente. II.43 O segundo aspecto é o enfoque sob o "princípio do dever governamental". 2. fala-se muito na chamada "qualidade total". em que é dever do próprio Estado de promover continuadamente a "racionalização e melhoria dos serviços públicos" (art. in verbis. obrigando-se os fornecedores. diz respeito ao binômio. "d" e V do Código do Consumidor encontra-se amparado pela inteligência dos art. §2° e § 3° do mesmo diploma. demarcando o Código que as empresas deverão ser incentivadas para a criação de mecanismos eficazes de controle de qualidade de produtos e serviços. não irá se discuti-lo aqui). 4°. qualidade/segurança.

percorrendo pelo capitulo referente à reparação por danos pelo fato do produto. orientando basicamente os capítulos referentes às práticas comerciais. § 3° Sempre que tiverem conhecimento de periculosidade de produtos ou serviços à saúde ou segurança dos consumidores. desde a instituição de seus direitos básicos (art. está expressamente referido no inciso III. merecedora de especial destaque de acordo com o inciso IV do art. tiver conhecimento da periculosidade que apresentem. rádio e televisão. e. § 1° O fornecedor de produtos e serviços que. que traz uma carga significativa de regra geral de comportamento. Nesse sentido. 4°. 6°). III e VI Este princípio nas relações de consumo. e. A harmonia das relações de consumo e a transparência. nos dizeres de Silvio Rodrigues (2002. 4°. fazer circular produtos e serviços com objetivo da geração de riquezas e benefícios a todos os integrantes do mercado de consumo. encontra-se difundido em grande parte dos dispositivos do Código do Consumidor. mesmo que ocupem posições antagônicas frente ao conflito de seus interesses. ao fabricante cabe prestar as informações a que se refere este artigo. o Distrito Federal e os Municípios deverão informá-los a respeito. p. indicadas no caput do art. serão o resultado da conduta geral da boa-fé. 4° como um dos escopos da Política Nacional das Relações de Consumo. 51 do Código do Consumidor. Em se tratando de produto industrial. Será a boa-fé. 60): "um conceito . 2. que considera nulas de pleno direito cláusulas contratuais que "sejam incompatíveis com a boa-fé e eqüidade". § 2° Os anúncios publicitários a que se refere o parágrafo anterior serão veiculados na imprensa. que deve ser buscada pelos dois pólos componentes das relações de consumo: consumidor e fornecedor. de certa maneira. a publicidade. do art. os Estados. às expensas do fornecedor do produto ou serviço.Art. Art. 10° O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança. a União. e a proteção contratual.44 Parágrafo único. através de impressos apropriados que devam acompanhar o produto. posteriormente à sua introdução no mercado de consumo. deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores mediante anúncios publicitários. os componentes da relação consumerista devem buscar o objetivo comum de melhor e com mais eficiência.7 Princípio da Boa-Fé nas Relações de Consumo .

Será deste interesse jurídico. publicidade. 671) 2.Art. "o princípio da transparência (art. o de saber melhor no ato da decisão. o "princípio da veracidade". necessário é citar a importância da informação de acordo com o jurista Luis Gustavo Grandinetti Castanho de Carvalho (2002. 4°. 2002.078/90 ao ter como corolário a educação. O pensar e o transmitir o pensamento são tão vitais para o homem como a liberdade física".45 ético. Desse modo será a informação. mas até a própria legislação consumerista sofre reflexos dele. 671). p. 255). divulgação. 2002.8 Princípio da Informação . constata-se a presença . 2002. e é através deste princípio nuclear que não apenas os pólos atuantes da relação de consumo. 4°. Matérias que se referem a educação. Como se vive num mundo globalizado em que a tecnologia a cada dia que passa caminha a passos cada vez mais largos. percebe-se que a informação circula com maior velocidade por estar difundida nos mais variados meios de comunicação que a massificam com muito mais intensidade. p. o elemento regente da Lei 8. com dignidade. p. 256). caput) que não deixa de ser um reflexo da boa-fé exigida aos agentes contratuais." Como se pode perceber. Por um dos princípios adotados pelo Código de caráter acessório. IV E VIII Antes de se iniciar este tópico. 2002. em que o fornecedor deve sempre prestar informações sobre produtos ou serviços de quaisquer natureza que ele ofereça no mercado. A história do homem é a história da luta entre idéias. são objetivos em parte do Código do Consumidor. com várias normas dispostas a destacar a extrema cautela com que tais temas devam ser encarados. em que este revela um importante pensamento a respeito da informação: "Não há sociedade sem comunicação de informação. com o objetivo de coibir que os cidadãos sejam levados a consumir pela ilusão." (MARQUES. "para que o homem não seja levado a assumir comportamentos que não correspondam a uma perfeita compreensão da realidade" (DE CARVALHO. é o caminhar dos pensamentos. pautando sua atitude pelos princípios da honestidade. e não através da realidade. 256). fazendo com que a informação passe "a ter uma relevância jurídica antes não reconhecida" (DE CARVALHO. que o direito de informação existirá expressamente no Código de Defesa do Consumidor Brasileiro. p. da boa intenção e no propósito de a ninguém prejudicar. devem se localizar no momento do ato de consumo. informação dentre outros. moldado nas idéias de proceder com correção. como por exemplo. p. o primado básico da boa-fé será "o princípio máximo orientador do CDC" (MARQUES.

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deste princípio em inúmeros artigos do código, além do art. 4°, tais como; o art. 6° (dos direito básicos do consumidor); arts. 8° e 10° (citados no tópico referente ao princípio da garantia de adequação); arts. 18, 19 e 20 (vício do produto); arts. 30, 31 e 35 (oferta); arts. 36, 37 e 38 (publicidade e marketing); 43 e 44 (bancos de dados e cadastros); art. 56 (sanções administrativas); por fim, os arts. 60, 63, 64, 66, 67 e 72 (infrações penais). Todavia há de ressaltar-se que, independentemente da preocupação que os redatores da lei consumerista brasileira tiveram com a informação, esta só poderá ser estendida aos cidadãos de maneira mais eficiente, se as autoridades derem mais atenção a educação básica, que é uma condição indispensável para o completo exercício da cidadania. Uma proposta a esta problemática, seria a introdução, ou melhor dizendo, reintrodução da disciplina de educação moral e cívica nos currículos escolares de 1° e 2° graus, com o objetivo de fazer com que crianças e adolescentes comecem a criar uma cultura para melhor consumirem e orientarem seus pais, durante o ato de consumo, como por exemplo, saber avaliar a qualidade do produto além de suas condições de higiene, suas condições de exposição para venda, dos componentes artificiais, do valor calórico dos alimentos que devem estar dispostos numa tabela nutricional impressa no rótulo das embalagens, o prazo de validade para consumo dos produtos, dentre outros aspectos de cunho sócio-econômico. Todavia Hélio Jaguaribe (apud, ALVIM, A.; ALVIM, T.; ALVIM, E.; SOUZA, J. 1995, p. 48-49) chama atenção desta questão social da seguinte maneira: O Brasil tem demonstrado capacidade para mobilizar forças e enfrentar problemas sociais. Em tempos recentes, as comunicações, o programa do álcool, as hidrelétricas, a industrialização diversificada, a produção de grãos e a ampliação do comércio exterior, em diferentes setores, constituíram provas eloqüentes dessa afirmação. A educação do povo, entretanto, sendo questão da mais transcendente magnitude - pois dela também o equacionamento de todos os problemas, incluindo os políticos, sociais e econômicos - não tem acompanhado sequer as exigências mínimas do país, apesar de ser dever imperioso da nação para com seus filhos e garantia de seu próprio bem-estar. Concluindo, independentemente do instrumento jurídico que se tenha, por mais avançado que seja, acabará sempre se esbarrando nos problemas sociais, ou seja, na carência cultural que acompanha a população brasileira. Daí que várias empresas, sejam elas multinacionais ou nacionais acabam, na maioria das vezes, se aproveitando da ignorância alheia ao construir seus mega impérios econômicos centralizadores de preços e extintores de quaisquer modalidades de concorrência nos mercados. 2.9 Princípio do Acesso à Justiça

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Primeiramente, far-se-á um breve relato deste princípio no campo constitucional do qual ele emana através do art. 5°, inc. XXXV da Constituição Federal de 1988 in verbis: "a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito", e segundo Nelson Nery Jr. (2002, p. 98) tem-se: "Embora o destinatário principal desta norma seja o legislador, o comando constitucional atinge a todos indistintamente, vale dizer, não pode o legislador e ninguém mais impedir que o jurisdicionado vá a juízo deduzir pretensão". Isto significa que todos têm direito do acesso à justiça para pleitear a tutela jurisdicional reparatória ou preventiva, no que diz respeito a um direito. Contemplando-se aqui tanto direitos individuais quanto coletivos. Todavia, este princípio não está expresso nos incisos do art. 4° do CDC, mas ele se reveste de suma importância, a partir do momento em que o legislador do diploma consumerista, teve como uma de suas grandes preocupações a busca pela criação de novos mecanismos, que pudessem facilitar ainda mais o acesso dos cidadãos à justiça, como um meio de defesa de seus direitos, daí se observarão consubstanciados em vários artigos do código alguns desses caminhos. E para que o consumidor se atenha desta efetividade, conforme Arruda Alvim (1990, p. 31) ensina em termos processuais: a palavra ''efetividade'' alcança uma conotação principalmente sociológica e não meramente jurídico-formal, mas no sentido de que o que conta, em última análise, não é tanto a existência de uma normatividade completa e lógica, em que todos os direito são protegidos pela letra da lei e pelo sistema, mas tão somente aparentemente funcional, pois na verdade, normatividade jurídica, ainda que exaustiva, não é suficiente para satisfazer às aspirações sociais dos segmentos numericamente predominantes e desprotegidos da sociedade. Antes de se prosseguir com o estudo deste princípio, vale a pena diferenciar o que são as concepções jurídico-formais, das concepções jurídico-materiais, apresentadas pelos autores, Antônio Carlos de Araújo Cintra; Ada Pellegrini Grinover e Cândido Rangel Dinamarco (1999, p. 40), em que a primeira é "o exercício conjugado da jurisdição pelo Estado-juiz, ou seja, o complexo de normas e princípios que regem tal método de trabalho", já a segunda, é "o corpo de normas que disciplinam as relações jurídicas referentes a bens e utilidades da vida (direito civil, penal, administrativo, comercial, tributário, etc.)". A necessidade de se dar efetividade ao processo, e facilitação ao acesso à justiça, demandou que se fortalecesse o consumidor, ao inseri-lo numa ordem mais ampla a partir do instante em que se construiu mecanismos processuais que davam tratamento coletivo de pretensões individuais, que se agissem isoladamente pouquíssimas condições teriam de obterem um resultado mais satisfatório.

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E por mencionar o "tratamento coletivo", destaca-se brevemente as ações coletivas de modo geral, que visam a tutela dos interesses difusos (art. 81, parágrafo único, I do CDC), interesses coletivos (art. 81, parágrafo único, II do CDC) e os interesses individuais homogêneos de origem comum (art. 81, parágrafo único, III do CDC). Como dissertado um pouco atrás, em que o princípio do acesso à justiça não se encontra expresso na redação do art. 4° do Código do Consumidor, mas sim exposto por outras normas do mesmo diploma, exemplo deste caso é o que acontece com o art. 6° inc. VII, in verbis: "Art. 6°, inc. VII: o acesso aos órgãos judiciários e administrativo com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção jurídica, administrativa e técnica aos necessitados;" do Título III do CDC que cuida da defesa do consumidor em juízo, ao oferecer a oportunidade de fazer valer seus interesses, inclusive, como já se observou no inc. VII supra citado, de natureza coletiva, e "mediante a ação de órgãos e entidades com legitimidade processual para tanto, sem prejuízo dos pleitos de cunho nitidamente individuais" (FILOMENO, 2001, p. 127). Por fim, com a criação de instrumentos adequados para a proteção do consumidor, nascem dois planos distintos de incidência. O primeiro, se relaciona às possibilidades que se criam para a efetivação da proteção do consumo em juízo, ao contribuir para que se extraia resultados claros e objetivos pertinente ao direito de consumo. A segunda incidência não decorre do uso destes mecanismos em juízo, mas simplesmente de sua potencialidade de uso, ao clamar pela importância da mudança de mentalidade do consumidor, a partir do momento em que ele irá pressionar cada vez mais o Estado, no intuito de conseguir a tutela específica exigidas pelas relações de consumo, que demandam maior agilidade por parte dos órgãos públicos, armando o consumidor do seguinte slogan de que "quem reclama sempre alcança".

3. LIVRE CONCORRÊNCIA, ABUSO DO PODER ECONÔMICO E CONSUMIDOR Conforme a posição de José Geraldo Brito Filomeno (2003, p. 69), diante sua exposição acerca da defesa da ordem econômica, será esta a razão final proteção dos interesses e direito dos consumidores, eis que destinatários finais tudo o que é produzido no mercado, seja em matéria de produtos, seja na serviços". de "a de de

Assim, diante de toda essa principiologia apresentada pelo texto do art. 4° do Código de Consumidor, tema deste trabalho, percebe-se que o diploma consumerista nada mais fez do que colocar na prática, durante o relacionamento entre consumidor e fornecedor, os preceitos constitucionais do Título VII (Da Ordem Econômica e

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Financeira), como um dos princípios que regem a atividade econômica (Capítulo I), ao destacar a importância da proteção ao consumidor, como sujeito mais fraco (vulnerável) da cadeia que compõe as relações de consumo. De acordo com o art. 170 da C.F/88, expressamente referido pelo art. 4° do CDC, diz ele que "a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa tem por fim assegurar a todos, existência digna, conforme ditames da justiça social", observados princípios bem delineados, dentre os quais figuram a livre concorrência e a defesa do consumidor (cf. incisos I e IV, respectivamente, ainda do citado art. 170 da CF/88.) Mais adiante, o art. 173 da Carta de 1988, nos seus § 4° e 5° declaram o seguinte, in verbis: Art. 173, § 4°. A lei presumirá o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados, à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros. § 5°. A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica, estabelecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular. Daí percebe-se, conforme foi observado pelos textos desses dispositivos constitucionais supra citados, a definição do que vem a ser abuso do poder econômico, ou seja, "qualquer forma de manobra, ação, acerto de vontades, que vise à eliminação da concorrência, à dominação de mercados e ao aumento arbitrário de lucros" (FILOMENO, 2003, p. 70). Não obstante, está claro que a proteção e o incentivo às práticas leias de mercado, não interessam apenas aos consumidores, assim como aos fornecedores, que necessitam de uma livre concorrência entre os setores empresariais para que se obtenha uma melhoria da qualidade de produtos e serviços com o aprimoramento da tecnologia, além de melhores opções aos consumidores. Assim observa-se que, se a livre concorrência não é garantida pelo Estado, o mercado será dominado por poucos, o que gera conseqüências drásticas aos cidadãos, tais como, o aumento de preços de produtos e serviços, a queda de sua qualidade, a falta de opções de compra e a obsolência tecnológica. E para que se evite tais abusos, vários mecanismos jurídicos foram instituídos para protegerem os cidadãos, dentre eles a Lei 8.884 de 11 de junho de 1994, que transformou o Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE - em autarquia, dispondo sobre prevenção e repressão às infrações contra a ordem econômica, através do que reza o seu parágrafo único do art. 21, incs. I, II, III, IV, in

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verbis: Parágrafo único. Na caracterização da imposição de preços excessivos ou do aumento injustificado de preços, além de outras circunstâncias econômicas e mercadológicas relevantes, considerar-se-á: I - o preço do produto ou serviço, ou sua elevação, não justificados pelo comportamento do custo dos respectivos insumos, ou pela introdução de melhorias de qualidade; II - o preço do produto anteriormente produzido, quanto se tratar de sucedâneo resultante de alterações não substanciais; III - o preço de produtos e serviços similares, ou sua evolução, em mercados competitivos comparáveis; IV - a existência de ajuste ou acordo, sob qualquer forma, que resulte em majoração de bem ou serviço ou dos respectivos custos. Deve-se lembrar que para se caracterizar o aumento arbitrário dos lucros, há de se observar também o grau de concentração econômica do setor acusado de tal prática. Diante disso, examine-se o que preceitua o § 2° do art. 20 da Lei 8.884/94, in verbis: Art. 20 § 2°. Ocorre posição dominante quando uma empresa ou grupo de empresas controla parcela substancial de mercado relevante, como fornecedor, intermediário, adquirente ou financiador de um produto, serviço ou tecnologia a ele relativa. "E o § 3° arremata essa ordem de idéias acrescentando que ''a parcela de mercado requerida no parágrafo anterior é presumido como sendo da ordem de 20% (vinte por cento)''" (FILOMENO, 2003, p. 71). Ainda de acordo com José Geraldo Brito Filomeno (2003, p. 71), tem-se: A infração de que ora se cuida, portanto, é tipificada pelo inc. III do art. 20 da Lei n° 8.884/94, complementada pelos seus três parágrafos, sobretudo os ora colacionados e suplementada, em termos de metodologia, pelos incisos também ditados do art. 21, no tocante à sua apuração. Portanto, pode-se se conceituar o termo "aumento arbitrário de lucros" como aquele que exceder o limite razoável, levando em conta o teor da concentração de determinado setor da economia, diante o disposto da inteligência do art. 21 da Lei 8.884/94, além de outros dados socioeconômicos e a política das relações de

2003. mas também a Lei 8. (FILOMENO. Por fim. FILOMENO. Assim serão destas leis. "Essas práticas". em investidas. quanto a caracterizarem os abusos do poder econômico "prática abusiva manifesta". p. sem prejuízo da ação popular. que excedem os limites normais da prática comercial e. ou ao realizado. ou em recusas. "Das Práticas Comerciais" do CDC. merecem rigoroso regime repressivo no Código.884/94. as especulações no mercado. em sua privacidade e em seu patrimônio. de acordo com Carlos Alberto Bittar (apud.51 consumeristas. através de leque diversificado de medidas protetivas e sancionamento (preventivos ou repressivos). Bittar prossegue nesse raciocínio. 39 do CDC. V do referido art.137/62. 71): ao turbarem a livre possibilidade de escolha do consumidor. 39 do CDC. diversas prescrições previstas no art. 1° da Lei 7. elevar sem justa causa o preço de produtos e serviços. acrescendo-lhe ônus injustificados que em uma negociação normal não estariam presentes.078/90. 1° Regem-se pelas disposições desta Lei. p.347/85 (Ação Civil Pública). X ao dispor que. in verbis: "exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva". no seu inc. fica vedado ao fornecedor. outro aspecto que merece ser destacado é o art. p. ensejam sanções pela Secretaria Nacional de Direito Econômico (SNDE) e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) quando declarado estiver o aumento abusivo dos lucros dos detentores da cadeia de produção. sem mencionar os textos jurídicos que tipificaram os delitos contra a ordem econômica e as relações de consumo. em sua seção IV. tais como. por Filomeno desenvolvido. em indefinição de preços ou condições. a Lei n° 8. 71). 2003. avançam em correspondência com uma necessidade real. os acordos entre concorrentes dentre outros tipos de articulações os "exemplos típicos de abuso nesse campo de lesão aos consumidores" (FILOMENO. que diz o seguinte. pois além dele. 72). inc. não apenas a Lei 8. as ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados: . in verbis: Art. Um outro comportamento abusivo que merece destaque é o disposto no inc.158/91 e a Lei 4. no plano negocial. que modificou o art. 2003. ou em cobrança de valores excedentes ao ajustado. 39 se relacionam intimamente com algumas outras disposições legais. em detrimento do consumidor de produtos e serviços ao revelar que: Residindo. no âmbito de serviços. V. Com relação ao Capítulo V do Título I.

sempre tendo-se em vista. II do art..Apesar dos princípios gerais de direito estarem enquadrados na categoria dos princípios monovalentes.inclua. por exemplo". o preço de bem ou serviço. in verbis: II . 2003. por força do art. administrativos e judicial.134/90 estatuiu que se considera consistente a conduta que "elevar. em que só valem no âmbito de determinada ciência. . diz o art.por infração da ordem econômica e da economia popular. previstos nesta Lei as disposições do Código de Processo Civil e das Leis 7.884/94.884/94.884/94. sem justa causa. 83 da Lei 8. e não uma mera elevação de preços de seus produtos e serviços. de 24 de julho de 1985. 21 da Lei 8. por óbvio. valendo-se de posição dominante no mercado".] V. estético. o delito será de mera conduta ou formal. exigindo-se do acusado que demonstre que houve justa causa para a elevação do preço. p.078/90 de 11 de setembro de 1990".. Com relação aos aspectos processuais e procedimentais.. os preços de seus produtos ou serviços. 73) CONCLUSÃO 1. Por conseguinte. dado ao fato desta categoria de princípios serem comuns a todas as formas de saber.52 [. in verbis: "Aplicam-se subsidiariamente aos processos. p. Assim conclui.] se verifica com a simples constatação de que houve a elevação de preços sem justificativa plausível.347. ou ao patrimônio artistíco. 88 da Lei 8. 5° modificado no que diz respeito às condições para a legitimação de entidades com vistas à propositura de ações coletivas. que.. turístico e paisagístico. consequentemente aumentará sua margem de lucro. entre suas finalidades institucionais.] é crime contra a ordem econômica aquela conduta.. esta lei teve.. e em setor econômico no qual o infrator desfruta de posição dominante em virtude de monopólio ou oligopólios. histórico. Se o agente aumenta sem quaisquer fundamentos.. pois: "[. à ordem econômica. a proteção ao meio ambiente.]. e 8. 73): [.. [. ao consumidor. e a dominação do mercado. não se pode deixar de levar em conta que eles também são princípios omnivalentes. (FILOMENO. à livre concorrência. constante do art. Além disso. No que se refere à tutela penal a Lei 8. o inc. o que revela uma infração à ordem econômica. José Geraldo Brito Filomeno (2003.

11. 5°. num primeiro momento.O princípio da integração é uma estratégia política. 5°. inc. mais fraco será o respeito aos valores postulados pelo sistema constitucional do mesmo. ou durante o ato da criação de novas normas. 4° e seus incisos do CDC. 4. 5. para uma melhor aplicação e integração de seus textos.A Política Nacional das Relações de Consumo. está prevista legalmente no caput do art.É tarefa do intérprete buscar o exame dos ditames constitucionais na busca de soluções aos fatos que se apresentam no seio da sociedade. segurança. ou melhor. para depois examinar as leis infraconstitucionais. 8. no intuito de preservar o meio ambiente. proteção dos interesses econômicos dos consumidores.078/90 foi uma extensão do princípio constitucional elencado pelo art. XXXII da Constituição Federal da República Federativa do Brasil. os seguintes tópicos: educação.O art. antes do ano de 1990.Os princípios gerais de direito atingem o seu apogeu.São aspectos mais comuns de interesse da política tradicional ao consumidor. XXXII da Carta Magna do Brasil.Os princípios basilares.Para melhor análise do corpo normativo de um sistema jurídico.53 2.Quanto maior a instabilidade política de um país. 12. O consumo sustentável é a necessidade de que o homem deve se policiar cada vez mais no hábito de seus consumos. para que este não se degrade de forma irreversível ao atender às suas necessidades básicas através do consumo exagerado. 7. na forma da lei. 3. representação dos interesses coletivos dos consumidores e satisfação das necessidades. a filosofia de ação da defesa do consumidor está esculpida no texto do art. que foi o momento da criação do Código de Defesa do Consumidor através do art. de caráter interdisciplinar. 48 da ADCT (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias). informação e conselhos. 10. deve se buscar a compreensão de seu princípios. que busca a união de vários setores políticos quanto econômicos. ao fundamentarse no reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado.A criação da Lei 8. 6. compensação ao consumidor. a defesa do consumidor. que buscam uma melhor forma de atender às necessidades básicas do homem aliada à proteção ao meio ambiente. 4° do Código de Defesa do Consumidor. 9. inc. se encontrava na sua fase programática. a partir do momento em que alcançam a mais alta posição do Direito Positivo que é o grau constitucional. na ação . que preceitua que o Estado promoverá.

Eduardo Arruda. ALVIM. BENJAMIN. A política de Proteção do Consumidor: Desafios à frente. pelos quais os cidadãos podem se beneficiar contra os abusos do poder econômico. Malheiros.. ALVIM. São Paulo: Ed. a Lei 8. São Paulo: Forense Universitária. RT. 2002. São Paulo: Ed. tais como. Thierry. a própria Lei 8. ainda pelos fornecedores. de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços. BOURGOIGNIE.884/94. Tratado de Direito BARROS CARVALHO. Curso de Direito Constitucional. Curso de Direito Tributário. São Paulo: Saraiva. 1991. Paulo. propagandas.Apesar da grande falta de resultados mais concretos efetivos. BIBLIOGRAFIA ALVIM. a concorrência desleal e dos crimes contra a ordem tributária. 2002. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. Antônio Herman de Vasconcelos. o Brasil possui várias legislações esparsas que têm como objetivo a proteção contra tais atrocidades. Vol. dentre outros meios de difusão da informação. _______. BONAVIDES. marketing.A boa-fé é um princípio basilar que está consubstanciado por todo corpo normativo do Código do Consumidor. 12. Paulo de. 13. Arruda. jan. assim como de mecanismos alternativos de solução de conflitos de consumo.137/62. 1. a Lei 8. Código de Defesa do Processual Civil. Vol. Arruda. do mercado fornecedor. incentivos à criação. Thereza.- . a Lei 4. ed.078/90 e a Lei 7.158/91. 14. São Paulo: Ed. podem se utilizar no intuito de se proteger contra os potenciais abusos de anúncios. 15.A informação é uma das maiores armas das quais os consumidores. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor.54 governamental no sentido de protegê-lo efetivamente. 41. e SOUZA. quanto aos seus direitos e deveres com vistas à melhoria do mercado. 1995. 1990.347/85 que disciplina a Ação Civil Pública que viabiliza a proteção dos interesses difusos e coletivos. Consumidor Comentado. na educação e informação de fornecedores e consumidores. contratos. James Marins de. RT.

Malheiros. São Paulo: Saraiva. ed. 2003. Vol. ______. 1999. Celso Antônio Bandeira de. 41. Vol. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. Manual de Direitos do Consumidor. Vol. ed. São Paulo: Ed. 1999. GRINOVER.75. Fábio Konder. Teoria Pura do Direito. São Paulo: Ed. p. Antônio Carlos de Araújo. Hans. CINTRA. Cláudia Lima. Rio de Janeiro: Forense Universitária. CANOTILHO. São Paulo: Ed. RÁO. Princípios do Processo Civil na Constituição Federal. 7./2002. Ada Pellegrini.-dez. KELSEN. 2002. CRISAFULLI.38.55 mar. 1.]1976. jan. MELLO. São Paulo: Ed. 2001. 24. 1992. 66 . 6.e. ed. Direito Constitucional. Teoria Geral do Processo. José dos Santos Carvalho. ed. ed. 2002. José Geraldo Brito. COMPARATO. p. 5. José Geraldo Brito. 30 ./2002. Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade. ed. 3. Nelson. O Direito e a Vida dos Direitos. 80. Revista de Direito Mercantil.263. V. Curso de Direito Civil. 253 . Malheiros. Martins Fontes. ed. NERY JÚNIOR. 2002. DINAMARCO.-mar. 5. ed. ed. tradução João Baptista Machado. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor. 1997. A proteção do consumidor na Constituição brasileira de 1988. RT. RT. A informação como bem de consumo. 15. Rio de Janeiro: Ed. Lumen Juris. MARQUES. 1998./1990. CARVALHO. Washington de Barros. Vol. MONTEIRO. 7. 2001 FILOMENO. RT. São Paulo: Ed. Coimbra: Almedina. Vicente. Contratos no Código de Defesa do Consumidor. 1 FILHO. ed. Cândido Rangel. Lezioni di Diritto Costituzionalle. Ação Civil Pública. Padova. [s. Joaquim José Gomes. out. p. Luis Gustavo Grandinetti Castanho de. . São Paulo: Ed. São Paulo: Atlas. 3. 6.

24. ed. São Paulo. São Paulo: Saraiva. Tiago Cardoso. ZAPATER..198. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor.-dez. 3 TEMER. Ed. 170 . ed. A Interpretação Constitucional do Código de Defesa do Consumidor e a Pessoa Jurídica como Consumidor. 7. Miguel.56 REALE. ed. 1990. São Paulo: Saraiva. Elementos de Direito Constitucional. 1999. RODRIGUES. Direito Civil. ./2001. Michel. RT. 40. Silvio. 28. Lições Preliminares de Direito. Vol. p. 2002. out. Vol.

tendo em vista a sua utilização como fundamento filosófico de todo o movimento de Defesa do Consumidor. Regras que vinculam a publicidade no CDC. Vulnerabilidade Ambiental. Vulnerabilidade Política ou Legislativa. 3. Vulnerabilidade nos contratos. proporcionada à desigualdade natural. Efeitos da vulnerabilidade do consumidor na tutela legal da publicidade. 5.4 Controvérsia acerca da aplicação do CDC nos contratos bancários: ADI 2. 6. 6.2 Natureza Jurídica: seria a publicidade compatível com o clássico conceito de oferta?. 5. Introdução. na medida em que se desigualam. 3. é que se acha a verdadeira lei da igualdade" (Rui Barbosa). 6. 2. inciso I: "reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo").3. 3.078/1990. Do contrato de adesão.3. o princípio da vulnerabilidade no ordenamento jurídico brasileiro (Lei 8. 4. 7.1 Conceito de Publicidade. a abordagem.591. 5. Vulnerabilidade Econômica e Social.1.1. 3. 3. 3. Algumas formas de tornar o consumidor vulnerável nos contratos. 6. A tutela do consumidor como decorrência da sua vulnerabilidade nas relações de consumo. Nesta desigualdade social.4. 5. Regra da interpretação mais favorável ao pólo vulnerável da relação e integração contratual. Por imperativo de sistematização. será disposta da seguinte maneira: a) faz-se um estudo dos fatos sociais que ocasionaram as disparidades nas relações entre fornecedor e consumidor.5. Vulnerabilidade Jurídica. 6. A Vulnerabilidade e suas espécies. Vulnerabilidade X Hipossuficiência. pormenorizadamente. Vulnerabilidade Técnica.2.Conclusão. artigo 4º.6.3. Vulnerabilidade Psíquica ou Biológica.2. 1.57 O princípio da vulnerabilidade e a defesa do consumidor no direito brasileiro: origem e conseqüências nas regras regulamentadoras dos contratos e da publicidade Autores Alírio Maciel Lima de Brito Haroldo Augusto da Silva Teixeira Duarte "A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais. 3. b) é realizada uma . SUMÁRIO: 1. Introdução O presente trabalho visa analisar.

ª Guerra Mundial) ocasionaram uma profunda alteração nas relações de consumo. necessitava de uma proteção legal.) reconhecendo expressamente ‘ que os consumidores se deparam com desequilíbrios em termos econômicos. Essa nova configuração do mercado baseada na produção em massa. pois é utópica a possibilidade de autocomposição entre os integrantes das relações de consumo sem a intervenção estatal. XXXII: "o Estado promoverá. passou a ser uma exceção. 2002. e por isso. tendo em vista que estes são uns dos principais focos de vulnerabilidade do consumidor. além de prever no artigo 48 do ato das disposições constitucionais transitórias a elaboração de um Código de Defesa do Consumidor (CDC). dessa maneira. marketing.. No ano de 1985 a ONU pela resolução 39/248 "baixou norma sobre a proteção do consumidor (. a defesa do consumidor"). e Benjamin ao prefaciar o livro de Moraes (1999. a produção caracterizada pela elaboração artesanal de produtos e restrita ao âmbito familiar. p. c) finaliza-se com um estudo sobre a publicidade e os contratos.58 abordagem sistemática do princípio da vulnerabilidade. As relações de consumo deixaram de ser pessoais e diretas. foi iniciado um movimento no âmbito internacional com o intuito de reequilibrar as relações entre consumidores e produtores. Diante dessa conjuntura percebeu-se que o consumidor estava desassistido. 5º. pelo domínio do crédito. A partir de então. requerendo.10): O princípio da vulnerabilidade representa a peça fundamental no mosaico jurídico que denominamos Direito do Consumidor. 2. níveis educacionais e poder aquisitivo’" (Almeida. e práticas comerciais abusivas colocou o consumidor numa situação de extrema precariedade frente aos agentes econômicos. uma transformação ou amenização deste sistema predatório. Baseado nessa vulnerabilidade do consumidor. bem como a princípio da ordem econômica. com a revolução tecnológica (fenômeno decorrente do grande desenvolvimento técnico alcançado no pós 2. A tutela do consumidor como decorrência da sua vulnerabilidade nas relações de consumo As transformações havidas no processo produtivo desde a revolução industrial (segunda metade do século XVIII) e. p.. na forma da lei. Assim visualiza-se a importância do princípio da vulnerabilidade como fundamento dessa nova disciplina jurídica. No caso brasileiro a constituição de 1988 alçou a defesa do consumidor ao patamar de direito fundamental (art. Segundo Antônio Herman V.05). principalmente. fulminando com o relativo equilíbrio existente entre as partes. É lícito até dizer .

que se ponha a salvaguardar o consumidor. assim. 3. Para tanto. e benefícios dos produtos e/ou serviços adquiridos diuturnamente [02]. isto é. ambiental. p. literalmente. econômica e social [01]. Logo podemos afirmar que a presunção da vulnerabilidade do consumidor é absoluta. se manifesta: "é a falta de conhecimentos jurídicos específicos. jurídica.. já que não consegue visualizar quando determinado produto ou serviço apresenta defeito ou vício. vulnerabilidade é o princípio segundo o qual o sistema jurídico brasileiro reconhece a qualidade do agente(s) mais fraco(s) na(s) relação (ões) de consumo. assim.115 e ss): técnica. utilizaremos a divisão dada por Moraes (1999. por sua natureza. colocando em perigo. No Direito. p. conhecimentos de contabilidade ou de economia". biológica ou psíquica. de qualquer lei. quer na esfera administrativa ou judicial. impossibilitando o consumidor de possuir conhecimentos das propriedades.59 que a vulnerabilidade é o ponto de partida de toda a Teoria Geral dessa nova disciplina jurídica (. a sua incolumidade física e patrimonial [03]. a sofrer ataques.2. Vulnerabilidade Técnica A vulnerabilidade técnica decorre do fato de o consumidor não possuir conhecimentos específicos sobre os produtos e/ou serviços que está adquirindo.. daquele que está suscetível. 3.) A compreensão do princípio. Esta vulnerabilidade concretiza-se pelo fenômeno da complexidade do mundo moderno. assim. tendo como único aparato a confiança na boa-fé da outra parte. Em sentido contrário encontramos a posição de Marques (2002. que é ilimitada. 3. A Vulnerabilidade e suas espécies Vulnerabilidade. política ou legislativa. 120) que. malefícios. Vulnerabilidade jurídica Esta espécie de vulnerabilidade manifesta-se na avaliação das dificuldades que o consumidor enfrenta na luta para a defesa de seus direitos. ficando sujeito aos imperativos do mercado. é pressuposto para o correto conhecimento do Direito do consumidor e para a aplicação da lei.1. . independente da classe social a que pertença. significa o estado daquele que é vulnerável. Iniciaremos agora o estudo dos tipos de vulnerabilidade para torná-lo mais aprofundado. o consumidor encontra-se totalmente desprotegido. Dessa forma.

. 3. 3. auditivos. necessário era respeitar um iter legislativo extremamente formal. buscou. Vulnerabilidade Psíquica ou Biológica O consumidor é atingido por uma infinidade de estímulos (visuais.. A dissimulação daquilo que era Código em lei foi meramente cosmética e circunstancial. dos consórcios e dos supermercados. 1999. etc. Vulnerabilidade política ou legislativa A vulnerabilidade política ou legislativa decorre da falta de organização do consumidor brasileiro.60 Consoante os ensinamentos de Moraes (1999. 2001. impedir a votação do texto naquela legislatura. Vulnerabilidade Econômica e Social A vulnerabilidade econômica e social é resultado das disparidades de força entre os agentes econômicos e os consumidores. através de uma manobra procedimental. químicos. Aqueles detêm condições objetivas de impor sua vontade através de diversos mecanismos.151) "essa motivação pode ser produzida pelos mais variados e eficazes apelos de marketing possíveis à imaginação e à criatividade orientada pelos profissionais desta área" [04].. notadamente o da construção civil.) que devido a sua própria constituição orgânica influenciam na tomada da decisão de comprar determinado produto.120) discordamos da conceituação oferecida pela ilustre jurista. inexistem associações ou órgãos "capazes de influenciar decisivamente na contenção de mecanismos legais maléficos para as relações de consumo e que acabam gerando verdadeiros ‘monstrengos’ jurídicos" (Moraes. sob o argumento de que. Podemos destacar como uma dessas formas a introdução dos contratos de adesão e os submetidos às condições gerais (ou condições gerais dos contratos – CONDGs) [05]. o lobby dos empresários. Essa situação foi presenciada quando da tramitação do atual Código de Defesa do Consumidor: .132). (Pellegrini.3. inclusive. Por isso nos dias atuais percebemos a importância desta motivação. p. p. necessidades e manipular manifestações de vontade como uma forma de influenciar o consumidor. olfativos. p. prevendo sua derrota nos plenários das duas casas.4. por se tratar de Código. Segundo Moraes (1999. p. 3.09). na tramitação do Código.. Ao contrário. as associações de fornecedores possuem força no cenário político nacional. possuindo. pois da maneira por Ela exposta estamos diante da vulnerabilidade técnica. capaz de criar desejos. . É que. um grande lobby junto ao Congresso Nacional. tratada anteriormente.5.

Segundo Mirian de Almeida Souza apud Moraes (1999. 5. inciso VIII do CDC que assim dispõe: São direitos básicos do consumidor: VIII . tendo em vista o art. ocasionado pelo uso irracional dos recursos naturais de nosso planeta. surge a cada dia a necessidade de uma maior presença do Estado no âmbito econômico para harmonizar essas relações de consumo. e todos sofrem prejuízos biológicos em diversos graus por causa do abuso do meio ambiente. Embora haja essas diferenças é comum a utilização desses termos como sinônimos [06].. segundo as regras ordinárias de experiência (grifamos). 6º. é errônea a utilização dos termos como sinônimos. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. já que os conceitos apresentam realidades jurídicas distintas. 4º.61 Assim. 4. a seu favor. Uma visão sistêmica do direito do consumidor. em que todos têm participação em diversos graus através da sociedade de consumo. o ‘consumerismo’ destrutivo do meio ambiente é inerente ao modelo vigente da indústria e agricultura. quando. a critério do juiz. Ou seja.. Efeitos da vulnerabilidade do consumidor na tutela legal da . faz deste direito o reverso da moeda do direito ambiental. bem como conseqüências jurídicas diversas. Vulnerabilidade X Hipossuficiência Para finalizar essa parte do trabalho iremos traçar os elementos distintivos entre a vulnerabilidade do consumidor e sua hipossuficiência no mercado de consumo. no processo civil. em que todos habitam o mesmo planeta.a facilitação da defesa de seus direitos. Já a hipossuficiência [07] é uma marca pessoal de cada consumidor que deve ser auferida pelo juiz no caso concreto. p. já que se assim o fosse. 3.162): . Conforme afirmado anteriormente o princípio da vulnerabilidade é um traço inerente a todo consumidor de acordo com o art. inciso I do CDC. inclusive com a inversão do ônus da prova. Como parte do meio ambiente o homem fica sujeito a uma gama de alterações havidas neste. todo consumidor teria direito à inversão do ônus da prova. Portanto.6. Vulnerabilidade Ambiental Esta espécie de vulnerabilidade é decorrência direta do consumo em massa da nossa sociedade.

Tentadora é a hipótese de considerarmos como sendo proposta [11]. Ao passo que quando se tem por objeto a propagação de idéias políticas ou religiosas se utiliza do termo propaganda.1 Conceito de Publicidade Compete-nos conceituar publicidade. À conclusão muito semelhante chegou o doutrinador mencionado [10]. a tratar das repercussões da incontroversa vulnerabilidade do consumidor no âmbito da publicidade e do contrato. que trata das práticas comerciais. o legislador. uma vez que em ambos os casos o que há é a divulgação de determinada informação. existe uma seção dedicada à oferta e outra à publicidade. ob. invariavelmente. bens e/ou serviços por parte de um patrocinador identificado (Richers. Deteremo-nos inicialmente com a publicidade. e que acabam. 5. distinção alguma. E de fato. tendo por . 5. se usa a expressão publicidade. há uma distinção quanto ao uso desses termos: quando se objetiva a venda de um produto. assinalando quais são as condutas ilícitas e os meios através dos quais o direito assegura a proteção dos consumidores. divulgar e promover a oferta de idéias. Limitou-se. não há de se falar na existência de publicidade se não se fizer notar o mínimo de informação a respeito do produto/serviço que se quer vender ou divulgação dessa informação. Morais (1999. destinada a informar. cit. agora. Na realidade. bastaria uma rápida leitura do CDC para concluirmos que tal possibilidade é com ele incompatível. Já a publicidade tem muitas vezes apenas o afã de mostrar que o anunciante está propenso a contratar. Não vislumbramos quanto à sua essência. através de meios impessoais (impressos e eletrônicos). Eis qual a diferença principal entre os dois institutos: Com a proposta basta que se dê a aceitação do policitado para que se aperfeiçoe o contrato. Lembraríamos ao leitor que não há no Código Brasileiro de Defesa do Consumidor um conceito para o objeto de nossa análise. apenas a esboçar conceituação de publicidade enganosa e abusiva [08]. 1985.62 publicidade Passaremos.2 Natureza Jurídica: seria a publicidade compatível com o clássico conceito de oferta? Conceituado o objeto de nosso estudo. vez que no seu capítulo V. respectivamente a II e III. Para a economista Raimar Richers publicidade é: A comunicação. Mas não seria meramente o fato do CDC distinguir tais conceitos que nos daria base para não aceitar a classificação da publicidade como espécie de oferta. Existem conceitos dos mais diversos para a atividade que visamos descrever. No entanto. p. nos lançaremos ao problema de sua natureza jurídica.) se põe a diferenciar o conceito de publicidade do de propaganda.66). a fazer referência a dois elementos que reputamos serem essenciais: a informação e a divulgação [09].

posto que este se encontra em posição de vulnerabilidade psíquica frente àquela. Tal é a razão pela qual o Estado interveio. Exemplo de publicidade é o anúncio corrente em jornais e revistas nos quais apenas se veicula o logotipo do estabelecimento. é dada ao consumidor faculdade de proceder de três diferentes formas: 1. Exigir o cumprimento da oferta. Em decorrência disso. ou 3. por meio do CDC. B) Vinculação contratual: por força dos artigos 30 e 35 do CDC não só a publicidade. Diferenciados os dois institutos. 2. Regras que vinculam a publicidade no CDC É do conhecimento de todos o tamanho poder que os meios de comunicação em massa (mass media) detêm. ainda. citaremos tais normas. fácil e imediatamente. rádio. Não infundadamente se diz até que se trata de um quarto poder. a identifique como tal. revistas e jornais seja uma notícia. descartamos de antemão a possibilidade de um ser gênero do outro [12]. não se pode considerar a publicidade como oferta. A) A identificação da publicidade: Em consonância com o artigo 36 do CDC a publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor.3. o problema que anunciamos o qual será elucidado por Lôbo com o qual concluímos esse tópico: "Assim. Resolver o contrato em perdas e danos [15] obtendo o ressarcimento das parcelas então empenhadas. estabelecendo normas que possuem por objeto regular a publicidade e proteger o consumidor. nos casos em que exista incongruência entre as cláusulas ou condições gerais presentes na publicidade e no contrato. melhor se concebendo como modo de integração compulsória aos contratos de consumo" [13] (2000). os elementos essenciais do contrato a ser celebrado (de compra e venda) já estão determinados: a coisa e o preço. O que se objetiva aqui é evitar que informes publicitários passem por jornalísticos ou educativos. 5. no sentido tradicional do termo. . a área de atuação e outras informações básicas tendo a intenção de atrair clientes e. É exemplo de oferta ad incertam persona a exposição em vitrine de produto com seu respectivo preço.63 objetivo atrair o consumidor. mas não solucionamos. Nesse caso. apresentação ou publicidade. que para se aperfeiçoar necessitaria apenas da adesão por parte do policitado. seja uma campanha publicitária. não de estabelecer todas as condições de um futuro contrato. como também a oferta [14] integram compulsoriamente o contrato que venha a ser firmado. acaba por entrar na esfera das convicções do indivíduo sem que haja uma valoração crítica e analítica dos fatos. Aquilo que é veiculado na televisão. A seguir. Aceitar outra prestação equivalente àquela difundida.

Entende-se. possuidores de bons direitos. a parte que alega a ocorrência de determinado fato é que suporta a carga de prová-lo.64 C) Regra da veracidade: Na cabeça do artigo 37 do CDC existe a proibição de toda publicidade enganosa. inciso XII do CDC. Saliente-se que a inobservância desse dever por parte do fornecedor enseja a caracterização da já referida propaganda enganosa por omissão. Enquanto que esta se opera mediante uma valoração. G) Correção do desvio publicitário: Por imperativo do art. De tal inversão decorre que a prova da veracidade daquilo que é anunciado cabe ao fornecedor. F) Transparência da fundamentação publicitária: O fornecedor deve ter consigo os dados fáticos que fundamentem a informação veiculada. como a interpretação contra o mesmo. que o abuso é o uso irregular de uma faculdade que a princípio se apresentava como regular e legítima [17]. dessa forma. assim. também. tão bem quanto o fornecedor. veriam seu pedido julgado improcedente por falta de provas graças a sua vulnerabilidade que o impede de produzi-las. Razão pela qual o CDC fez duas previsões de inversão do ônus da prova: uma ope legis (ao artigo 38) e outra ope judicis (ao artigo 6º. o desvio da publicidade possuirá não só efeitos civis e penais como também publicitários. parágrafo único da lei em tela. que incite à violência. a publicidade discriminatória. que se aproveite da deficiência de julgamento da criança. Leva-se em conta que para corrigir os malefícios causados aos consumidores o único meio eficaz é fazendo uso da própria publicidade sob o nome de contrapropaganda: Trata-se de veiculação de outra publicidade para sanar os malefícios causados pela publicidade originária. o fornecedor. aqueloutra se dá independentemente de qualquer análise por parte do magistrado pelo fato de derivar. teríamos que consumidores. na doutrina. um compromisso de veracidade daquilo que é divulgado em campanha publicitária. no processo. da presunção legal de vulnerabilidade do consumidor [18]. 56. Eis a segunda modalidade de publicidade ilícita. do caput do artigo 37 se tem por proibida toda publicidade abusiva. mesmo que por omissão [16]. É definida por enganosa qualquer modalidade de informação publicitária inteira ou parcialmente falsa. explore o medo ou superstição. às suas expensas. D) Regra da não-abusividade da publicidade: Por força. Ao tentar delimitar o que viria a ser abusividade o referido codex listou rol não taxativo. é o que impõe o artigo 36. nos seguintes termos: É abusiva. etc. VIII). em última análise. impondo-se. dentre outras. de caráter explicativo. desfazendo os erros de anúncio . in casu. E) Inversão obrigatória do onus probandi: Como é do conhecimento do leitor. Naquela. da existência de verossimilhança daquilo que é alegado ou de hipossuficiência do autor. Acontece que se tal preceito fosse cruamente aplicado nas relações de consumo. informa corretamente ao consumidor.

ocorrem em sede de contratos standart. que se trata de instrumento que confere ao fornecedor pujantes meios de abusar da boa-fé ou do estado de necessidade do consumidor. 2002. via de regra. Vulnerabilidade nos contratos Discorreremos. toda a etapa pré-negócial. 6. então em voga (pelo advento da Ação Direta de Inconstitucionalidade . 2. uma vez que com instrumentos pré-formulados se vencia.591 -). a obrigatoriedade do pacto. difusão do modo de vida ocidental e (conseqüência que mais nos interessa) uniformização dos vínculos jurídicos entre fornecedor e consumidor.2. Formação dos contratos com a adesão (que só poderá se dá em bloco) do consumidor [19].ADI 2. um ato abusivo que mereça ser coibido. de alguns meios utilizados pelo fornecedor que tornam vulnerável o consumidor. Do contrato de adesão Desde a revolução industrial o mundo vem assistindo a uma gradual massificação da produção dos bens da vida. que usando de termos técnicos do meio econômico ou . Textos préconstituídos unilateralmente e 3. conseqüentemente. que envolve toda uma cadeia de ajustamentos. estudando o instituto do contrato de adesão. 6. (Gonçalves. tópico 10). a respeito dos contratos de adesão (muito usados nas relações de consumo). das regras interpretativas das cláusulas contratuais e da questão. ao passo que é instrumento útil ao atual estágio de desenvolvimento capitalista. 6.1. Acontece que tal imperativo comumente é inobservado pelo elaborador do contrato. Algumas formas de tornar o consumidor vulnerável nos contratos Podemos notar. vindo a possibilitar uma dinâmica circulação de riquezas. surge naturalmente a necessidade de uso de contratos-tipo. É de se frisar que a simples adoção da espécie contratual em comento não constitui. com um único passo.65 original. razão pela qual merece (sim) uma especial fiscalização e especial tutela legal (inserida no nosso ordenamento com o CDC) que sejam capazes de compensar a vulnerabilidade do consumidor e refrear os abusos contratuais que. os elementos essenciais dos contratos de adesão: 1. Daí. Tal processo trouxe-nos algumas conseqüências das quais destacaríamos: massificação das necessidades de consumo. per si. Podemos extrair do que foi exposto. alguns dos quais passaremos a comentar infra [20]: A) Tecnismo dos termos contratuais: Os instrumentos contratuais em geral devem ser escritos de modo a possibilitar a compreensão de seu conteúdo sob pena de comprometer a validade da vontade que ali se expressa e. Uso em massa: no sentido em que regem as interações econômicas entre um fornecedor e seus distintos consumidores. agora. da aplicação do CDC aos contratos bancários.

uma consignação de entendimentos que foram consagrados em nossos tribunais ao longo das décadas que antecederam ao referido codex [21].66 jurídico. exceto quando de sua ausência. Moraes (1999. não exaustiva. novas disposições. 51 traz lista. não muito distante. Fazendo de sua leitura e interpretação uma tarefa árdua mesmo para profissionais do meio. no qual sob a alegação de proteção ao princípio da autonomia da vontade se impedia que o Estado interferisse nas relações privadas a fim de promover os ajustamentos necessários a colocar em igualdade de condições os naturalmente desiguais. de cláusulas consideradas abusivas e que. assim como entendimentos dos Ministérios Públicos e decisões administrativas dos Procon’s. na verdade. o fato de decorrer dessa norma a possibilidade do magistrado declarar nulidade de cláusulas contratuais. em seu art. tornando-o ainda mais suscetível a sofrer lesões.591.4 Controvérsia acerca da aplicação do CDC nos contratos bancários: ADI 2. Sendo que o entendimento em contrário nada mais é que o resquício de um tempo. dentro de um contexto de disseminação do uso de contratos padronizados com texto nebuloso. C) Cláusulas abusivas: O CDC. É inconteste.3. Tal rol é na realidade. é o da interpretação que lhe seja mais favorável (artigo 47 do CDC). Acreditamos que tal possibilidade (de integração contratual pelo Judiciário) é legítima e prevista no artigo 51 §2º do CDC. com a possibilidade de. Regra da interpretação mais favorável ao pólo vulnerável da relação e integração contratual Preceito fundamental para uma eficaz proteção do consumidor. p. as quais serão consolidadas (através de portarias) pela Secretária de Direito Econômico. como tais. 227) relata que de certa feita precisou de mais de cinco horas ininterruptas para analisar contrato que além de complexo era deveras extenso pelo fato de conjugar. ao contrato. ele pode ser complementado pela jurisprudência. por mais . apesar dos esforços de integração. extenso e cláusulas abusivas. verbis: "a nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato. B) Complexidade e extensão do contrato: Tanto o tecnismo como o uso constante de remissões a outras cláusulas do instrumento contribuem para torná-lo mais complexo. 6. Estaria incompleto o presente estudo se não fizéssemos referência. E por essa razão. são nulas de plenos direito. em um único texto vários contratos distintos. que pelo Decreto 2181 de 1997 recebeu essa atribuição. decorrer ônus excessivo a qualquer das partes" (destacamos). [22] 6. na doutrina. vir o juiz a acrescentar. deixa o texto nebuloso aos olhos do consumidor. no afã de buscar a solução mais favorável ao consumidor. no entanto. O que não ocorre.

à controvérsia muito recentemente suscitada (ou ressuscitada) a respeito da consideração (ou não) das cadernetas de poupança. o sistema financeiro nacional só pode ser regulado por Lei Complementar e não por Lei Ordinária como o CDC. que parecia então pacificada. precisa de lei complementar que a regulamente. Não o sendo. por força do dispositivo constitucional. regras sobre responsabilidade por fato e vício do produto e do serviço. destinadas de forma imediata a reger o comportamento dos indivíduos considerados isoladamente ou coletivamente. a jurista. Segue afirmando que a premissa na qual se fundamentou o CONSIF para propor a ação. Deixando claro que o CDC se aplica aos contratos bancários. Essa é . qual seja: a de que o CDC é uma norma de organização que regulamenta o sistema financeiro nacional. A pretendida inconstitucionalidade formal residiria no fato de que. adoção do in dubio pro consumidor. que esses deixam mostrar de forma mais proeminente a sua vulnerabilidade. financeira. com a devida ressalva do campo de atuação da lei 4. 2. destinadas a regular a constituição e funcionamento de institutos publicamente relevantes como o sistema financeiro nacional. posto que o CDC traz em seu seio normas de conduta destinadas a reger relações de consumo. §2o do CDC. muito embora possua previsão constitucional (art. Justifica-se a assertiva anterior com a constatação de que são nos contratos bancários. cartões de crédito. de crédito e securitária" em face do artigo 192 da CF. Em parecer elaborado. etc) seria aplicável normalmente aos contratos bancários [25]. em 17 de abril de 2002 graças a pedido de vista do Min. Razão pela qual não vê. Sobre o tema. Nelson Jobim. (imposição da boa fé. em sua parte propriamente consumerista. depósitos bancários. e com a constatação de que tais contratos estão de tal forma disseminados que é difícil encontrar quem nunca os celebrou [24].595/64 que legitima a taxa de juros superior a 12% ao ano. de seguros. contratos de mútuo. por exemplo. O objeto dessa ação é o de declarar a inconstitucionalidade da expressão "inclusive as de natureza bancária. a doutrinadora. o STJ firmou sólido entendimento no sentido de que o CDC. 192. feitos em série e muitas vezes elaborados de modo a lesionar o consumidor [23].591 proposta pelo CONSIF – Confederação Nacional do Sistema Financeiro – cujo julgamento junto ao STF foi iniciado. incompatibilidade entre o referido dispositivo constitucional e a norma do artigo 3º. é falsa. no entanto. de Direito Financeiro. mediante consulta do Instituo Brasileiro de Política e direito do Consumidor – BRASILCON. Inicia. e estas. abertura de crédito e todas as operações bancárias ativas e passivas como relação de consumo. por deixar clara a clássica distinção entre "normas de conduta" e "normas de organização". posto que tal matéria.67 pontual que seja. voltou à baila com o advento da ADI. aquelas. na parte que se refere à limitação dos juros reais em 12% ao ano. §3º). pela douta jurista Cláudia Lima Marques existe farta e elaborada contra-argumentação que leva à conclusão da improcedência do pedido. e logo interrompido. A controvérsia.

para um perfeito entendimento do Sistema de Proteção do Consumidor. no concernente às normas de conduta. A assertiva é verdadeira em todos os sentidos. Conclusão Os princípios em qualquer ramo do conhecimento são os pilares que alicerçam todas as vertentes do seu saber. que visem ludibriar o pólo vulnerável da relação de consumo. percebemos a importância do princípio da vulnerabilidade como base de toda a Ciência Consumerista. E de fato. interpretação conforme a Constituição para excluir da incidência a taxa dos juros reais nas operações bancárias ou sua fixação em 12% ao ano pelos argumentos já mencionados. de onde se inspiram. 8. Dessa maneira. e hoje a afirmação ganha cada vez mais relevo. é mais grave do que infringir um dispositivo legal. Néri da Silveira que julgou improcedente o pedido. visualizamos as várias espécies de vulnerabilidade inerentes ao consumidor.591. Assim. o Min. Carlos Velloso. os princípios são a base da Ciência Jurídica. Estas implicam inúmeras situações fáticas de exploração. No âmbito da publicidade e da contração em massa. objetivando a observância da cláusula geral da boa-fé. impende a necessidade da análise do referido princípio para uma conseqüente aplicação equânime da lei. filiamo-nos à corrente de que não há vedação alguma. Em logrando êxito a tese levantada na ADI 2. do art. por meio de inserção de novas cláusulas pelo magistrado. Bibliografia . 3º do CDC. as regras jurídicas. de descumprimento. que deverá ser buscada. No Direito não poderia ser diferente. pois a sua violação é a tentativa de negação. que demonstram a importância dessa tutela legal. diferentemente do Min. constatamos a relevância dessa proteção. como decorrência dos tempos modernos.68 a posição que nos parece mais acertada até porque se coaduna com o entendimento ao longo do tempo construído pelo STJ. No decorrer do trabalho. 7. Relator da ADI. dos pilares de onde brotam. restará por fulminado todo o sistema de proteção ao consumidor. configurando esta como uma conquista histórica em favor do consumidor. Já se tem dito. trilhou esse caminho (aberto pelo STJ) ao julga-lo procedente em parte para emprestar ao §2º. que violar um princípio. Quanto à aplicabilidade do CDC aos contratos bancários. inclusive. Tendo em vista que a vulnerabilidade é o alicerce (matriz) da defesa do consumidor. ao vedar determinadas práticas comerciais.

15 a 19 de abril de 2002. 2001. Atualizador: Humberto Theodoro Júnior. Orlando. 51.set. rev. MORAES.asp?id=2216 [ Capturado 15. Capturado 15. Curso de Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral das Obrigações. Cláudia Lima. ALMEIDA. 4ª ed. 2002. Paulo Luiz Netto. Rio de Janeiro: Forense. nas demais práticas .2002 ].com. A informação como direito fundamental do consumidor. Rio de Janeiro: Forense Universitária. A publicidade ilícita e a responsabilidade civil das celebridades que dela participam. 2001. 8. G. Cláudio [et al]. e ampl. In: Jus Navigandi. GONÇALVES. 264. 34-38 de 15 de fevereiro de 2002. 2002.2002. Contratos. 7. A influência do CDC nos contratos bancários. A proteção jurídica do consumidor. Brasília. 2001. Manual de Direitos do Consumidor. São Paulo: RT. 1998. Ada Pellegrini. [Internet] http://www1. n. Paulo Jorge Scartezzini.Set. atual. IN Revista Jurídica Consulex. 1999. São Paulo: Saraiva. São Paulo: Saraiva. Conceitos e Contratos atuais. 122 P. [et al]. Marques. Luiz Guilherme. João Bosco Pastos. Questões Controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: Principiologia. 11. GOMES.jus. 7ª ed. Teoria Geral dos Contratos no novo Código Civil. ano VI – n.69 1. Daniel M. GRINOVER. GUIMARÃES. na publicidade.. 5. São Paulo: Editora Método. LÔBO. FILOMENO. INFORMATIVO DE JURISPRUDÊNCIA DO STF. DINIZ. 12.jus. 14. 3ª ed. São Paulo: RT.com. 2002. José Geraldo. LOUREIRO. 4. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Maria Helena. IN: Jus Navigandi.br/doutrina/texto.asp?id=3181. Código de defesa do consumidor: o princípio da vulnerabilidade no contrato. 10. Paulo Valério Dal Pai. João Batista de. Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção do Consumidor. BONATTO. 13 MENESES. 3. 2001. São Paulo: Atlas. n. 2. 6.br/doutrina/texto. Contratos no código de defesa do consumidor. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 9. 58 [Internet] http:// www1. n.

2002. no consumidor. p. caso não adquira tais produtos prestigiados. os apelos publicitários levam o indivíduo a considerar-se numa situação psicológica e social inferior. ou seja. Adriana Carvalho Pinto. passaram despercebidos dos mesmos. São Paulo: Abril Cultural. Responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro... O que é Marketing. 16.. . pelo fato do consumidor comum não possuir conhecimento técnico. 17. 1985.. ROCHA. investem conjuntamente em comercias. A inversão do ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor in Revista Jurídica IN VERBIS n. 15. Vícios esses que. Porto Alegre: Síntese. Elaine Cardoso de Matos. 270) existem apenas três tipos de vulnerabilidade: a técnica. Leme: LED. sendo nutricionalmente menos valioso transformou-se em causa corrente de desnutrição. especialmente em países do Terceiro Mundo. 18. Sílvio Luís Ferreira da. dessa forma. 1992. Essa situação também pode ser constatada nos inúmeros recalls ocorridos nos últimos anos na indústria automobilística em decorrência do desgaste ou defeito de fabricação em peças que colocam em risco a vida de inúmeros consumidores. O princípio constitucional da igualdade e o direito do consumidor. p. NOVAES. que substituiria o aleitamento materno..70 comerciais. VIEIRA. a necessidade intolerável de manter-se em dia. Uma trintena de empresas multinacionais sugeriam. as empresas. RICHERS. e assim por diante. Exemplo esclarecedor sobre a vulnerabilidade técnica do consumidor nos é dado por Pasqualoto (1997. A título exemplificativo Miriam de Almeida Souza apud Moraes (1999.154) ". 04 03 02 01 . Agosto/setembro de 1995. Princípios básicos de defesa do consumidor. 1999. p. a substituição da amamentação materna pela mamadeira. Dessa maneira percebe-se mais uma vez o subjugamento do consumidor no mercado de consumo. e criam. Mexiam com a vaidade feminina e com o conforto da mãe. Notas Para Marques (2002. andar na moda. era mais caro e.". 02. 18-25. Paulo Brasil Dill. 33) "a questão do leite infantil ficou como um marco na luta contra os desvios da publicidade. São Paulo: RT. 19.. a jurídica e a fática ou sócio-econômica. o efeito demonstração a toda prova". por acreditar que todos devem ter e usar. p. 2001. SOARES. Belo Horizonte: Melhoramentos. O leite em pó.. Raimar.

que também faz referência às noções de informação e de divulgação. Dúbel Cosme do TJRN. para as ações de indenização. n. tal norma decorre da presunção juris et de jure de vulnerabilidade. tácita ou expressamente. na forma já vista". Para corroborar o supra afirmado. A vulnerabilidade é um traço universal de todos os consumidores. São pacíficas a doutrina e jurisprudência pátrias. venham a disciplinar o seu conteúdo específico" (2002. educados ou ignorantes. a hipossuficiência a que alude o Código de Defesa do Consumidor é afirmada pela sua qualidade de consumidora frente ao fornecedor de serviço (sic). De acordo com os ensinamentos de Antônio Benjamin ". com o desvio (publicidade ilícita) e não com o padrão. crédulos ou espertos. ricos ou pobres. 11 10 09 Já que tanto a proposta (ou oferta) como a publicidade poderiam ser . escritos ou não escritos..325). quando definem como competente o foro do lugar do dano ou do domicílio do consumidor. o legislador. dado que o objetivo da publicidade é vender. inciso I do CDC (que se refere à possibilidade do consumidor ajuizar ação de responsabilidade civil do fornecedor no seu próprio domicílio) deve ser aplicada in casu como conseqüência da presunção de hipossuficiência da consumidora. Cf. Verbis: "Embora a Agravante insista em desconsiderar a condição de hipossuficiente da Agravada. em que o comprador aceita. a facilitação da defesa de seus direitos". 3a Vara Cível – Mossoró/RN. não merece guarida referida alegação. 101. unilateral e uniformemente para um número indeterminado de relações contratuais. que citamos infra..71 Segundo Marques "entende-se como contratos submetidos a condições gerais aqueles contratos. citado por João Bosco Pastos Gonçalves: "Publicidade é toda informação dirigida a público com o objetivo de promover. disponibilizamos ao estudioso do assunto o conceito de Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin. Exemplo de confusão entre os dois conceitos existe no trecho do agravo de instrumento. 99. ante o disposto no artigo 6º.66). diante do cargo de juíza de direito ocupado pela mesma. Já a hipossuficiência é uma marca pessoal. Quando. p. no qual se argumenta que a norma do Art. enquanto o objetivo da propaganda é a implantação de idéias. p. uma atividade econômica" (Gonçalves. Portanto. VIII do Código de Defesa do Consumidor que elenca dentre os direitos básicos do consumidor. 2002. Nesse sentido a referida obra à página 250 na qual escreve o autor: "não fala o código em contra publicidade. que cláusulas pré-elaboradas pelo fornecedor.002927-1. 08 07 06 05 Preocupou-se. tópico 2). direta ou indiretamente. Relator: Des. na verdade. limitada a alguns – até mesmo a uma coletividade – mas nunca a todos os consumidores" (2001.

defendendo que a publicidade é espécie de oferta: (Filomeno. a ausência de qualquer esclarecimento acerca do que o fornecedor pretendeu com a expressão ‘inédito’. como características do contrato de adesão: 1) A uniformidade. 3ª Turma Cível. em regra. que se identificam com os mencionados supra. Apelação Cível e Remessa ex officio n º 8114/2000 e 7912/2000). A nossa lei de proteção não vedou expressamente o uso de cláusula de retratabilidade na proposta. Ocorrência de dano patrimonial positivo (dano emergente) ou negativo (lucros cessantes) e 2 – Nexo causal entre o dano e o inadimplemento daquilo que fora prometido em publicidade. Já se considerou como enganosa por omissão publicidade que dizia: "Hoje promoção inédita de Santana e Parati" posto que "basta um simples raciocínio para. 17 18 16 15 Cf nesse sentido: (Moraes. 2) A predeterminação e 3) A rigidez. 1. p. Genovese apud Orlando Gomes ( 1999. 1999). p. e (Loureiro. Cf em sentido contrário. considerando a proposta como negócio jurídico unilateral: (Lôbo. o que bem caracteriza o informe como obscuro" (TJDFT. serviço ou direito consideram-se integradas no conteúdo dos contratos que se venham a celebrar após a sua emissão. Em sentido contrário. 251). 13 14 12 Compulsoriedade essa dada pela norma do artigo 30 do CDC. tendo-se por não escritas as cláusulas contratuais em contrário". 1998. mas entendemos que tal vedação está subentendida.080 do Código de 1916. 2002). nas relações de consumo a proposta sempre obrigará o fornecedor promitente. 18 e ss). p. 5 da Lei Portuguesa de defesa dos consumidores. norma repetida no Código ora em vacatio legis ao artigo 427). Saliente-se que pelo fato do direito consumerista ser um direito de proteção ao consumidor e não de repressão ao fornecedor negligente. Maiores apontamentos sobre o tema poderão ser encontrados em: Elaine Cardoso de Matos Novaes (1995. Cf nesse sentido: (Gomes. in fine: "As informações concretas e objetivas contidas nas mensagens publicitárias de determinado bem. 19 . 2000). constatar isso.72 aprioristicamente definidos como atos pré-negociais. p118 ) coloca os seguintes elementos. Grifamos. cit). sendo totalmente aplicável a regra do artigo 7o. inexiste. de pronto. Ao contrário do que ocorre no seio das relações regidas pelo Código Civil (vide art. 2001. Um estudo desses requisitos pode ser encontrado em (Diniz. 379). op. a necessidade de comprovação de culpa por parte do fornecedor para responsabilizá-lo (regra que possui como exceção o caso dos profissionais liberais) de modo que para que haja a condenação em perdas e danos basta que se apresentem os demais requisitos: 1.

. 193 e ss. de crédito e securitária. 37): "(. AG 425643 RS. nesse sentido. 23 24 22 21 20 Seja através do uso de tecnismo. Previsão legal que de tão explícita. RESP 325620 RS. variação de preço de maneira unilateral não era procedimento abusivo antes do advento da Lei de proteção ao consumidor. Dentre tantos outros julgados. com o CDC. financeira. AG 445314 RS. AG 430435 RS. AG 420203 RS.). Já que o CDC.73 Lista pormenorizada contendo esses e outros meios pode ser encontrada em Moraes (1999. como: depósito bancário. Corroborando a posição colocada a respeito da possibilidade de integração contratual por parte do Judiciário: Bonatto (2001. RESP 293778 RS e RESP 213825 RS. Meneses (2002. do art.) os contratos bancários alcançaram a tal nível de popularidade que mesmo o cidadão mais humilde não costuma escapar da ação (muitas vezes nefasta) dos tipos mais comuns.". faz expressa referência ao de natureza bancária. o depósito em conta corrente. mediante remuneração. AG 430458 RS. Não há de se falar. complexidade ou cláusulas abusivas. Sobre o assunto. 4º T: AG 444223 RS. AG 424767 RS. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista" (grifamos).). 3º §2º. definindo serviço. apenas a se formalizar tal entendimento. 3º T: AG 448061 MG. G. uma vez que tal prática sempre foi considerada leonina vindo. STJ. verbis: "Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. AG 445664RS. ao nosso ver. que o uso de cláusula que permita ao fornecedor. inclusive as de natureza bancária. 226 e ss. diz Daniel M. etc.. p. AG 438114 RS. descarta a necessidade de realizar maiores divagações teóricas sobre o assunto. p. p. 25 .

o princípio em tela mantém vigência imperativa. de artigo de teor próximo ao § 242 do BGB. mesmo em face da não existência. Nesse sentido. muitos países. aduzindo: "O devedor é obrigado a realizar a prestação do modo como o exige a boa-fé levando em conta os usos de tráfico". Porém. Espanha. consignando que os contratos devem ter interpretação e também execução. como princípio. em face do objetivo comum avençado. mais especificamente a letra do § 242. vale trazer à colação o BGB . não foi contemplado. Suíça. ante a importância do regramento de conduta nas relações obrigacionais. Estados Unidos e Alemanha. atrelados ao "comportement réflechi à l’égard d’autrui. por seus sistemas de leis. expressamente. na legislação pátria não se traduz como regra geral.74 O princípio da boa-fé no Código de Defesa do Consumidor Autor: Francisco José Soller de Mattos A boa-fé. no Código Civil Brasileiro. este princípio. para ilustrar. apresenta-se como pilar dos mais importantes na sustentação da teoria contratual moderna. Portugal. no Código Civil. . que positiva o princípio em comento. Assim. feixe de deveres que induzem a um mandamento bilateral de conduta. Pois bem.Bürgerliches Gesetzbuch (Código Civil Alemão). verifica-se o fenômeno de que. o princípio da boa-fé. dando o norte ético para todos os partícipes do vínculo jurídico. contemplam. estabelecendo um elo de cooperação. Itália. ou seja. com artigo expresso. ao contrário de sistemas legais alienígenas como os da França.

E. instituído pela Lei nº 8. deixa escapar o seu sentido para uma conceituação aberta. dentro desse conjunto legislativo. de 11 de setembro de 1990. que. segundo Larentz. ou dela inferível" (Orlando Gomes). a prevalência da boa-fé como seu princípio de orientação máxima. . 4º. 4º do CDC consagre a autonomia do "Princípio da Transparência". Atualmente. 85 do Código Civil.75 A inspiração legislativa brasileira para a consideração do princípio da boa-fé nas relações obrigacionais achava-se. verificamos. a boa-fé. após plena consolidação do CDC como um instrumento positivo e que efetivamente mudou o panorama contratual moderno do Brasil. de onde depreende-se a vontade Estatal que: " o literal da linguagem não deve prevalecer sobre a intenção manifestada na declaração de vontade. em sendo positivada no art. galgar. não há como se negar que este nada mais é do que uma das mil faces da boa-fé.078. indutora de uma nova postura no ambiente contratual. com o advento do Código de Defesa do Consumidor. Ocorre que. quase que isoladamente consignada. muito embora o próprio caput do art. de tão abrangente. na letra do art. inciso III do indigitado sistema legal. deixou de coadjuvar no plano legislativo para. a sua importância de princípio supremo do direito civil.

Hahnemann Guimarães e Philadelpho Azevedo). uma vez que a responsabilidade objetiva (carro-chefe da lei consumerista) . em 1866. Uns buscam ampliar a área de incidência da legislação consumerista. tal como os anteprojetos de Código das Obrigações de 1941 (redigido por Orozimbo Nonato. Já em 1990 essa divisão foi acentuada com a edição do Código de Defesa do Consumidor. e de 1963 (de Caio Mário da Silva Pereira). surgiu uma nova modalidade de relação obrigacional. sobre o que seria relação de consumo e o que seguia sendo relação civil ou (até 2003) comercial. muito embora outros anteprojetos já tivessem trilhado a mesma linha. Tal proposta unificadora somente veio finalmente a se tornar direito positivo com a aprovação do Código Civil de 2002. Mais uma vez surgiram acalorados debates sobre os limites dessa nova categoria. pretendendo valorizar a proteção às situações em que o consumidor "seja realmente" a parte mais fraca da relação. Com a edição do Código Civil de 2002 tal discussão perdeu um pouco de sua relevância. INTRODUÇÃO A dicotomia entre relações jurídico-obrigacionais civis e comerciais já era ancestral quando. resultado de um projeto de 1975. Teixeira de Freitas propôs a sua unificação enquanto abandonava a elaboração do projeto de um Código Civil onde o Governo insistia em manter o cisma. enquanto outros querem restringir-la. Desde então se debate onde estaria a marca divisória entre as relações civis e as trabalhistas.76 A relação jurídica de consumo: conceito e interpretação Autor: Marcelo Azevedo Chamone 1. O jurisconsulto baiano já visualizara a artificialidade dessa divisão – não havia qualquer diferença de essência entre as obrigações civis e as comerciais. a de consumo. para abranger o maior número de relações no mercado. sob o argumento de ampliar ao máximo a proteção às partes vulneráveis – seja sob o aspecto técnico ou econômico – nas relações obrigacionais. o que só foi acentuado com a expansão da competência da Justiça do Trabalho – talvez esteja aí o germe de uma futura reunificação. Em 1943 a repartição dicotômica se tornou tricotômica com a edição da Consolidação das Leis do Trabalho – às duas modalidades de relações obrigacionais acresceu-se a relação de emprego.

Tratando-se daquela. como veremos abaixo. é preciso "averiguar qual é o elemento nuclear do vínculo obrigacional: uma obrigação de dar ou uma obrigação de fazer." [01] Nem sempre a relação de consumo será um negócio jurídico. para se determinar qual o regime jurídico a ser aplicado ao caso. no outro caso. o objeto é um serviço. o conceito de consumidor. ora para o outro. Assim. deixando ainda mais embaçada a linha divisória entre elas. ora tendendo para um lado. 2. como veremos abaixo. a lei coloca sob a mesma denominação relações contratuais (negócios jurídicos) e não-contratuais. o momento jurisprudencial indica que o pêndulo tende para a restrição da aplicação do CDC.77 foi elevada a padrão juntamente com a responsabilidade subjetiva. . No que concerne às relações de consumo. estariam sob a competência da Justiça do Trabalho. 927. atentando para as principais correntes doutrinárias. em decorrência do art. RELAÇÃO DE CONSUMO Por relação de consumo é de se entender toda relação jurídico-obrigacional que liga um consumidor a um fornecedor. Assim. Do mesmo modo. A fragilidade dos conceitos se mostra aparente com a recente e ainda incipiente discussão surgida com a EC nº 45. Na verdade. a regra da responsabilidade subjetiva ficou praticamente reduzida às relações entre particulares. Esse breve panorama do tratamento legislativo dado às relações obrigacionais serve para mostrar a artificialidade e instabilidade de qualquer tentativa de compartimentalização. limitando. buscando identificar o estado-da-arte do tema. Em geral há uma cumulação de prestação de serviço com fornecimento de produto. a ampliação das hipóteses de revisão contratual trazidas pelo novo Código Civil aproximou muito as relações civis das de consumo. inclusive os regidos pelo CDC. Sempre que o tratamento não for unificado haverá debates doutrinários e jurisprudenciais sobre a delimitação de cada um. parágrafo único. onde vertentes da jurisprudência trabalhista defendem que todos os tipos de prestação de serviços. a hipótese é de produto. decorrentes de atos e fatos jurídicos. num sistema que vem sendo apelidado de "dúplice". tendo como objeto o fornecimento de um produto ou da prestação de um serviço. passaremos a definir o conceito de cada um dos elementos da chamada "relação de consumo".

2º. 46-54). parágrafo único) somente nas situações de responsabilidade civil contratual (vícios do produto ou serviço). CONSUMIDOR Em 1988 foi publicado pelo então promotor de justiça de São Paulo. 2º. o CDC traz quatro definições diferentes de consumidor: a duas delas (art. Herman Benjamin. VI. artigo já clássico onde o autor buscava. 3. a outra (art. Como veremos mais detalhadamente abaixo. e da proteção contratual (art. o CDC trata sobre os seguintes temas: da responsabilidade civil (arts. com o auxílio de textos de legislação e doutrina estrangeira. 6º. e para a última categoria (art. 8º a 28). Àquela época e ainda hoje o tema é tormentoso: "Embora o vocábulo consumidor não esteja assentado com um conceito claro. Não obstante. então. não . nos termos dos conceitos dados pelo próprio Código. já se podem identificar algumas áreas de disputa conceitual: a) quanto à natureza do sujeito protegido: pessoal natural ou jurídica. caput) e aos "intervenientes" nas relações de consumo (art.78 Deste modo. 29 a 45). a princípio. Destarte. delimitaremos a seguir os elementos básicos das relações de consumo. que a proteção do CDC recairá exclusivamente ao consumidor standard (art. temos que o Código irá atuar de forma preventiva e repressiva nas relações de consumo tanto no âmbito contratual como no extracontratual. delimitar o conceito de consumidor. b) quanto à necessidade de vínculo contratual: só quando há contrato ou também nos casos de relações jurídicas extracontratuais. V e X. a fim de identificar claramente os limites de cada uma dessas esferas de proteção. 17) as regras sobre responsabilidade civil extracontratual. quando uma parte tão pequena do Código é dedicada exclusivamente a ele. 6º. caput e parágrafo único) são aplicadas todas as disposições do Código. pessoal. I a IV. tanto no pré-contratual como no pós-contratual. No plano do direito privado material. Temos. 2º. c) quanto à finalidade da aquisição do bem ou produto: para uso privado. das práticas comerciais (arts. familiar. 6º. Essa conclusão leva à interessante reflexão sobre a quantidade de folhas que já foram escritas sobre a definição do conceito standard de consumidor. todas as demais disposições do CDC se aplicariam quase que irrestritamente à coletividade em geral face a redação genérica dos artigos que ampliam o conceito de consumidor. 29) as regras sobre proteção contratual e práticas abusivas.

discordando apenas da inclusão da . possibilitando a proteção de terceiro estranho ao contrato – há uma prevalência da "relação de consumo" sobre o "contrato de consumo". ao que. é consumidor "qualquer pessoa física ou jurídica que. de modo que não seria justo nem eqüitativo dar-lhes tratamento legislativo diferenciado. de modo geral. onde sujeitos a princípio não classificados como consumidores são colocados numa posição semelhante.79 profissional e comercial. consumidor é "toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final" (art. utiliza-o ou o consome" [06]. cada país adota um conceito diferente. Maria Antonieta Donato [09] o acompanha em parte. 3. e) quanto ao tipo de bens: só bens móveis ou também imóveis. e outras três de ‘consumidor equiparado’. citando como exemplo a entidade familiar." [05] Rizzatto Nunes acrescenta que "a norma define como consumidor tanto quem efetivamente adquire (obtém) o produto ou o serviço como aquele que. tende-se para uma conceituação mais restrita. [04] nos demais. 2º. há uma série de situações extracontratuais. pois não são somente aqueles participando efetivamente das relações de consumo que estão sujeitos a sofrer danos em decorrência dessas relações. caput). d) quanto à qualidade do objeto da relação de consumo: apenas bens ou também serviços. A que se mostra mais espinhosa é sem dúvida a primeira. A existência de diversos conceitos no direito positivo se mostra necessária. de acordo com as suas peculiaridades sociais e econômicas. mesmo codificada.1 O consumidor standard Inicialmente. bem como pré e pós-contratuais. James Marins [08] entende que também o ente despersonalizado pode ser tomado como consumidor. resulta em "substancial modificação do princípio geral da relatividade dos efeitos" [07]. A nossa legislação. Onde não há uma legislação consumerista codificada chega a haver diversos conceitos de consumidor. um aplicável para cada situação específica regulada por aquela lei." [02] Na legislação estrangeira não é possível encontrar uma definição uniforme. bem como a prestação de um serviço. [03] Em alguns sistemas simplesmente não há definição legal de consumidor. trás quatro definições diferentes de consumidor: uma chamada de ‘consumidor standard’. em benefício próprio ou de outrem. palavras de Roberto Senise Lisboa. Apesar de não haver disposição expressa. isolada ou coletivamente. não o tendo adquirido. ficando a cargo da doutrina e jurisprudência fazê-lo – nesses casos. f) quanto ao tipo de serviço: só serviços privados ou também serviços públicos. a aquisição ou a locação de bens. na delimitação do âmbito de proteção oferecido pela lei. ao contrário do que ocorre em relação ao fornecedor. em outros termos. contrate para consumo final.

o conceito de destinatário final não pode sofrer restrições. "tornando necessária a análise da causa da aquisição ou da utilização do produto ou do serviço". sem ligação com a sua atividade empresarial própria. no entanto. sem que outra destinação seja objetivada pelo beneficiado (adquirente ou usuário)". isto é. como fornecedores de insumos ou financiadores.80 família nessa situação. buscando aproximá-lo o mais possível da doutrina européia. os empresários. Apesar da disposição inequívoca da lei." [10] Antes da edição do CDC era comum encontrar esse tipo de definição. depende por sua vez de outros empresários. em maior ou menor medida. Muito antes da edição do CDC. para exercer a sua atividade produtiva. 3. e antagônicas. e cita como exemplos o condomínio edilício e o espólio – para a autora. Roberto Senise Lisboa [11] vê na expressão destinatário final a adoção pelo CDC da teoria da causa na relação jurídica de consumo. Fábio Konder Comparato. em proteção do consumidor quer-se referir ao indivíduo ou grupo de indivíduos. Porém. Quando se fala. a legislação brasileira veio com uma proposta muito mais ousada. ainda que empresários. e. por exemplo. nesse sentido. se apresentam no mercado como simples adquirentes ou usuários de serviços. buscou delimitar o conceito de consumidor. pois. aquele que se submete ao poder de controle dos titulares de bens de produção. defendendo a sua incidência sobre o maior número de relações jurídico-obrigacionais. a causa da formação da relação de consumo deverá estar relacionada "à transmissão definitiva ou provisória de produto ou de atividade humana remunerada. com reflexos na jurisprudência. Duas correntes principais. formaram-se: uma restringindo o conceito de consumidor.1 O conceito objetivo de consumidor Para os juristas que vêem no CDC uma regulamentação para o mercado de consumo em geral. principalmente porque a própria lei não as faz. enquanto a outra trata de dar maior aplicabilidade à lei. com a lei veio a superação desses conceitos baseados nas lições européia e norte-americana. buscando uma proteção mais ampla e generalizada. dissenso sobre quem poderia ser classificado como destinatário final do produto ou serviço. surgiu na doutrina. dando especial atenção à finalidade da aquisição do produto ou serviço: "O consumidor é. os quais. buscando apoio na doutrina estrangeira. de modo geral. muito mais preocupada com a proteção do consumidor pessoa física. . é também consumidor.1. É claro que todo produtor. cada um dos membros da família deveria pleitear seus interesses individualmente.

[13] James Marins [14]. com variações. adepta da dita "corrente finalista". o consumidor comum não o adquire".. não caberia ao intérprete/aplicador fazê-lo. sem o intuito de obter lucro com a sua futura negociação.. e Roberto Senise Lisboa [16] excluem do conceito de consumidor apenas o adquirente de produto que será objeto de transformação ou implementação com reinserção na cadeia produtiva-distributiva. que o profissional pessoa física ou pequena empresa que tenha adquirido um produto fora de seu campo de especialidade. João Batista de Almeida e James Marins. Assim. porém. Nery Jr. portanto. não havendo qualquer necessidade de inquirir sobre aspectos subjetivos. Admite.2 O conceito subjetivo de consumidor Cláudia Lima Marques [18]. não cabendo ao intérprete/aplicador impor suas opiniões sobre a norma.. ele será o destinatário do produto ou serviço e.. não pode estar adquirindo para revenda ou uso profissional. "pois o bem seria novamente um instrumento de produção cujo preço será incluído no preço final do profissional que o adquiriu" [19]. i. "desde que o produto ou serviço (. Exclui as situações em que o produto ou serviço "é entregue com a finalidade específica de servir como ‘bem de produção’ para outro produto ou serviço e via de regra não está colocado no mercado de consumo como bem de consumo. mas como de produção. Mais. i. Podem ser citados como defensores dessa interpretação. possam ser considerados consumidores – note-se que essa definição é intimamente ligada às qualidades econômicas do adquirente. Porém. além do "destinatário final" que adquire o produto ou serviço para uso próprio (sem finalidade de produção). Assim. para a definição do conceito de consumidor deve-se tão somente analisar os critérios objetivos dados pela própria lei. ou simplesmente com o intuito de revendê-lo. se a implementação ou transformação é feita para o uso próprio do adquirente. Assim...) sejam oferecidos regularmente no mercado de consumo. É certo que dessa conceituação estaremos trazendo para a relação de consumo situações que vão contra o senso comum. Roberto Senise Lisboa. i. dá um conceito restritivo de destinatário final: ela o identifica com a pessoa física que retira o bem de mercado. Rizzatto Nunes [12] define como consumidor.81 Não obstante.e.e. 3. o destinatário fático e econômico do bem ou serviço. João Batista de Almeida [15]. independentemente do uso e destino que o adquirente lhes vai dar". bom ou mal. aquele que não o revende nem o incorpora na produção de um novo. consumidor [17] – não se discute se o bem é de produção (utilizado para implementar a produção) ou não. como a lei não faz qualquer restrição quando utiliza o termo pessoa jurídica. Rizzatto Nunes. também quando há a finalidade de produção.e. é o que nos é dado pela lei. .1. consumidor é todo aquele que retira o produto ou serviço do ciclo produtivo-distributivo.

possa ser considerada consumidora. sua utilização para implementar o processo produtivo. havendo. i. não se caracterizando a aquisição para o uso profissional". em face do fornecimento dos produtos e serviços e do domínio da tecnologia e da informação que o fornecedor possui sobre eles. o Código teria adotado o conceito econômico de consumidor. pois somente essas seriam "vulneráveis". em benefício próprio ou de terceiro. Quanto à "vulnerabilidade" utilizada como elemento do conceito de consumidor.82 Para Maria Antonieta Donato [20] o consumidor deve ser conceituado dentro do âmbito da relação de consumo. e por fim. no critério legal para a definição do consumidor e da relação de consumo. que surge como conseqüência do reconhecimento da existência da relação de consumo. porém. haveria três fatores de discrímen: o primeiro estaria na aquisição de produto. o segundo estaria na configuração no caso concreto da vulnerabilidade. pois é ela um posterius. presunção de vulnerabilidade em seu favor. [21] De acordo com Filomeno [22]. agindo com vistas ao atendimento de uma necessidade própria e não para o desenvolvimento de uma outra atividade negocial. E. "É imperativo lembrar que a vulnerabilidade não se constitui. como destinatário final. o que o citado autor identifica com as pessoas jurídicas que não tenham finalidade lucrativa. Não basta que retire o produto do mercado.e. mas sim. ou a pessoa física em atuação profissional (‘consumidor-profissional’). "retirando-o da cadeia produtiva e. Assim. deve haver comprovação de que a contratação se deu fora do seu campo de atuação usual. somente se justificaria a inclusão da pessoa jurídica como consumidora na medida em que houver efetiva vulnerabilidade econômica em face do fornecedor a ser protegida. por decorrência. em função da qualidade subjetiva daquele que pratica a relação de consumo e em função da destinação que ele dará ao produto". para que a pessoa jurídica. é dizer: o personagem que no mercado de consumo adquire bens ou contrata serviços. que subscrevemos integralmente: "A vulnerabilidade do consumidor é presunção absoluta no mercado de consumo. Assim. de que a aquisição do produto ou do serviço foi realizada por um sujeito de direito que se enquadra na definição legal de consumidor. "não se analisa o consumidor unicamente em relação à prática do ato. "Aquele que vier a ser considerado consumidor é quem se beneficiará . deve-se mesclar a qualidade do adquirente do produto com a finalidade para que o adquiriu.. em outras palavras "a finalidade prática do ato e não o ato em si". Assim. necessariamente. não sendo possível fazê-lo sobre o ato de consumo. Roberto Senise Lisboa [23] tece as seguintes considerações.

como premissa para este estudo. passando muitas vezes ao largo do texto legal. fabricação ou prestação. Do reconhecimento da situação de consumidor do sujeito em dada relação jurídica é que se impõe o princípio geral da vulnerabilidade. desvirtuando a finalidade do Direito do Consumidor de "proteger a parte mais fraca ou inexperiente na relação de consumo" [27]. consumidor é: "qualquer agente econômico responsável pelo ato de consumo de bens finais e serviços. mas mais presos às definições elaboradas antes da publicação da lei. nosso entendimento de que havendo no direito positivo conceito preciso de consumidor – como em verdade ocorre com o art. na prática. estendendo o rol dos beneficiados por essa proteção. na teoria econômica. Sobre esse ponto é relevante o pensamento de James Marins: "Esclareça-se. apenas. Herman Benjamin afirma que o conceito de consumo final e intermediário estão unidos. não obstante essas considerações. distribuição. 2º aqui objeto do nosso . o consumidor é entendido como um indivíduo. Tipicamente. E essa presunção é iure et de iure. ou seja. consumidores serão instituições. Como já notado acima." [24] Destarte. além dos requisitos acima. Pelo contrário. aquele que coloca um fim na cadeia de produção". de modo que." [26] A justificativa dessa posição mais restritiva é feita com base no argumento de que o consumidor deve receber tratamento especial e diferenciado. e a generalização da aplicação da legislação de proteção ao consumidor. e de doutrina e legislação estrangeira. indivíduos e grupos de indivíduos. os bens adquiridos devem ser bens de consumo e não de capital (que integram a cadeia produtiva). iria terminar por dar tratamento igual para todos. consumidor "seria toda pessoa situada no término da cadeia de consumo e que encerra a circulação econômica de um produto ou serviço em vez de sobre ele atuar com vistas a sua transformação. Mas a vulnerabilidade não é pressuposto do reconhecimento de que um sujeito adquiriu determinado produto ou serviço como consumidor. para que a pessoa jurídica possa ser considerada consumidora. não admite prova em sentido contrário. mas." É interessante notar que com base no mesmo "conceito econômico de consumidor". mas tão somente aquele que "retira o bem do mercado ao adquirir ou simplesmente utilizá-lo (Endverbraucher). "aquele que utiliza o bem para continuar a produzir ou na cadeia de serviço" não pode ser considerado consumidor. [25] Em outras palavras. os defensores desta corrente interpretativa usualmente fundamentam suas posições não tanto nas disposições do CDC.83 da presunção de vulnerabilidade diante do fornecedor.

e de um fornecedor." Mais uma vez. inclusive." [28] "Condicionar-se o conceito de consumidor à constatação de sua hipossuficiência seria. do contrato celebrado entre as partes. admitindo exceções: "Em relação a esse componente informador do subsistema das relações de consumo. não podendo ser reutilizado. para excluir a incidência do CDC em situações em que fosse verificado o expressivo porte financeiro ou econômico: da pessoa jurídica tida por consumidora. Isso não impediu que de início houvesse uma interpretação objetiva do conceito de consumidor. no nosso sistema. de outra circunstância capaz de afastar a hipossuficiência [30] econômica. enfraquecer o sistema protetivo inaugurado pelo CDC. teorias essas ora textualmente recebidas pelo legislador. ainda que de forma indireta. nível de informação/cultura ou valor do contrato em exame. a jurisprudência tempera a posição doutrinária. isto é. segundo entendiam os ministros. pacificando-se o conceito subjetivo de consumidor. não se pode olvidar que a vulnerabilidade não se define tão-somente pela capacidade econômica." [29] 3." E mais adiante afirma que a relação de consumo "não se caracteriza pela presença de pessoa física ou jurídica em seus pólos. jurídica ou técnica. é claramente e intencionalmente informado pela objetividade.84 estudo –. a utilização deve romper a atividade econômica para o atendimento de necessidade privada. evitando assim.3 As posições do STJ e STF O STJ sempre buscou evitar a aplicação indiscriminada do CDC. deslocando para o movediço critério subjetivo conceito que. pessoal. outrora ardente defensora da corrente contrária: não basta que o consumidor (adquirente de produto ou serviço. com leves temperamentos. ou utente do serviço público) seja "destinatário final fático do bem ou serviço. mas pela presença de uma parte vulnerável de um lado (consumidor). um "desvirtuamento do sistema protetivo eleito pelo Código". em verdade. ora textualmente afastadas em prol da elaboração de um sistema próprio. não se pode pretender submetê-lo às teorias jurídicas informadoras de sistemas alienígenas. praticamente excluindo as pessoas jurídicas consumidoras do âmbito de proteção do Código. de outro. e que albergue conceito próprio induvidoso. Todos esses elementos podem estar presentes . houve uma virada de entendimento. Neste sentido é o atual posicionamento da Min. o bem ou serviço. recentemente. no processo produtivo.1. deve ser também o seu destinatário final econômico. Nancy Andrighi [32]. [31] Porém.

3º define como serviço "qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. Inútil. financeira. por a + b. Eros Grau sobre a questão: Como observei também em outra oportunidade [34]. Eis o trecho do voto condutor do Min. E o § 2º do art. "produto" e "serviço". pela extremada necessidade do bem ou serviço. Chamado a decidir questão sobre o campo de incidência do CDC. financeira e de crédito." [33] Se antes a demonstração da inexistência de vulnerabilidade fazia excluir a aplicação do CDC. todas elas. pelo monopólio da produção do bem ou sua qualidade insuperável. mediante remuneração. que tal ente ou entidade não pode ser entendido. 2º e no seu art. é "consumidor". atividade bancária. [35] Apesar de não haver um aprofundamento na definição de o que seria "destinatário final". "fornecedor". pela natureza adesiva do contrato imposto. 2º do Código diz que "consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final". inquestionavelmente. o Código define "consumidor". como "fornecedor". de crédito e securitária. agora somente a demonstração da vulnerabilidade convencerá os julgadores de que a pessoa jurídica é consumidora. Assim temos que. Cuide apenas de pesquisar os significados dos vocábulos e expressões que compõem a definição e de apurar da sua coerência com o ordenamento constitucional. para os efeitos do Código de Defesa do Consumidor. Entende-se como "consumidor". como consumidor ou fornecedor.85 e o comprador ainda ser vulnerável pela dependência do produto. o profissional do direito não perde tempo em cogitações como tais. como "produto" e como "serviço". Por certo que as instituições financeiras estão. O art. diante disso. dentre outros fatores. força é acatá-la. inquestionável. o STF incidentalmente manifestou-se sobre o conceito de consumidor. sujeitas ao cumprimento das normas estatuídas pelo Código de Defesa do Consumidor. economicamente. pelas exigências da modernidade atinentes à atividade. Isso não apenas me parece. 3. Diante da definição legal. como efetivamente é. como destinatário final. 3º e §§1º e 2º. mais ligada à definição objetiva de consumidor. toda pessoa física ou jurídica que utiliza. O jurista. e aquela que vem sendo adotada pelo STJ. inclusive as de natureza bancária. ficou claro o dissídio entre a posição sufragada pelo STF. qualquer esforço retórico desenvolvido com base no senso comum ou em disciplinas científicas para negar os enunciados desses preceitos normativos. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista". para os efeitos do Código do Consumidor. o que descrito está no seu art.2 O consumidor por equiparação . Não importa seja possível comprovar.

1 O interveniente nas relações de consumo "Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas. fica difícil enxergar um campo de incidência para o parágrafo único. Se a pessoa interveio na relação de consumo. 2º. parágrafo único).86 Diversas pessoas. mais preocupados com o caput deste artigo. ou será fornecedor ou será consumidor.2. 3º (fornecedores) e no caput do art. Pela leitura dos demais artigos. mas também com a sua potencial aquisição – assim. . vindo a intervir nas relações de consumo de outra forma a ocupar uma posição de vulnerabilidade. Mirella Caldeira [40] conclui que a função deste dispositivo é "reforçar a idéia da tutela dos interesses difusos e coletivos". o que não diz muito. Fábio Ulhoa [39] define as pessoas abrangidas por essa norma não como integrantes do grupo de consumidores em potencial. do art. que haja intervindo nas relações de consumo" (art. já que neste caso o art. parece-nos que essas pessoas estão mais bem colocadas nas demais definições trazidas pelo Código: quando forem consumidoras efetivas. 17 enquadra a questão". 2º (consumidores). 6º. também estão protegidos os potenciais consumidores. ainda que indetermináveis. não se aprofundam no tema. [37] 3. a posição preponderante do fornecedor a posição de vulnerabilidade dessas pessoas justificam a equiparação feita pelo legislador. Eliminando aqueles definidos no caput do art. 2º. mas sem sofrer danos. VI e 81. Rizzatto Nunes [38] afirma que "a hipótese dessa norma diz respeito apenas ao atingimento da coletividade. ou ainda estiverem expostas às práticas comerciais ou contratuais. que já têm previsão nos art. Porém. A dificuldade está principalmente em construir uma interpretação desta norma de modo que não se confunda com as demais regras de abertura do Código. ainda que não possam ser consideradas consumidoras no sentido estrito. anda que não possam ser consideradas consumidores stricto sensu. e os comentadores. Esse parágrafo é de difícil interpretação. não sobra ninguém! Seguindo raciocínio semelhante. ou quando forem vítimas de acidente de consumo. mas "as pessoas do relacionamento social do consumidor que podem sofrer eventuais efeitos indiretos da relação de consumo". [36] A conceituação legal não se ocupa apenas da aquisição efetiva de produtos e serviços. atribuindo-lhe conteúdo e significado próprios. indeterminável ou não. podem vir a ser atingidas ou prejudicadas pelas atividades dos fornecedores no mercado.

privada ou pública. entretanto. estão protegidos todos os potenciais consumidores.3 A pessoa exposta às práticas comerciais e contratuais "Para os fins deste capítulo [das práticas comerciais] e do seguinte [da proteção contratual]. para que tenha . qualquer vítima de um produto ou serviço receberá a proteção do CDC como se consumidor fosse. [43] Tal argumentação permite concluir que até mesmo a pessoa jurídica de forma geral. enquanto o caput do art. 29.2. 2º garante a proteção individual do consumidor. "podendo. equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento" (art.2 A vítima de acidente de consumo "Para os efeitos desta Seção [da responsabilidade pelo fato do produto e do serviço. independente de haver qualquer relação prévia entre fornecedor e vítima. responsabilidade extracontratual. aplicando-se integralmente as normas sobre responsabilidade objetiva pelo fato do produto [41].87 É dizer. mesmo que não possa ser assim considerado com base na definição do art. o parágrafo único do mesmo artigo garante a sua proteção coletiva. está acobertado por esta disposição legal. com base no art. quando houver vício no produto ou serviço. Nesse ponto o silêncio da doutrina confirma que distinção alguma há entre as vítimas do acidente de consumo. pequena ou grande empresa. com ou sem intuito de lucro. lançar mão das normas do Código do Consumidor referentes à proteção contratual e às práticas comerciais" [44] .. i. 29). expostas às práticas nele previstas" (art. de modo que o "intermediário que adquirir produto sem que o faça na condição de adquirente ou usuário final" deverá se valer das disposições do Código Civil. pouco importando que seja pessoa física ou jurídica. 2º. 17). Assim. inclusive aquele que adquiriu o produto para revenda. equiparam-se aos consumidores todas as pessoas determináveis ou não.e. Assim. 3. não se exigindo que a vítima seja consumidor final. [42] Mesmo o adquirente intermediário poderá se valer das regras do CDC para buscar a recomposição de seus danos. pois a tutela nessas áreas "não se pode restringir ao momento posterior ao acordo entre o consumidor e o fornecedor". "sujeitos à mesma proteção que a lei reconhece aos consumidores no tocante às práticas comerciais e contratuais". devendo antecedê-lo. Outrossim. "não há dispositivo que autorize o intermediário que não adquira ou utilize o produto ou serviço como destinatário final a agir com base no Código do Consumidor".2. tal equiparação somente é valida na responsabilidade civil decorrente de fato do produto ou serviço. 3.

. ao revés. fornecedor é todo e qualquer participante do ciclo produtivo-distributivo. ao contrário do que ocorre no art. [49] 4. para os consumidores diante da prática comercial abusiva. montagem. empresas públicas. [50] A definição que nos é dada pela lei não exclui nenhum tipo de pessoa jurídica. que desenvolvem atividades de produção. exportação. importação. sua ética de responsabilidade social no mercado. órgãos da Administração direta. mas não há dúvidas de que ele é tratado como fornecedor pelo CDC. seus princípios. sua nova ordem pública. parágrafo único. Assim." [46] Herman Benjamin esclarece ser "indiferente estejam essas pessoas identificadas individualmente ou. mas isso não lhes afasta da incidência do CDC. de pessoas jurídicas e de pessoas físicas. segundo a definição legal (CDC 3º). sendo-lhes facultado o manejo "[d]as normas especiais do CDC. As sociedades simples (CC 981 e 982) não são empresárias. 14. com ou sem fins lucrativos. 29. do CDC). nacional ou estrangeira. o art. fundações públicas ou privadas. até. toda a coletividade de pessoas já está exposta a ela. para combater as práticas comerciais abusivas". onde há referência expressa ao ‘destinatário final’. etc. ou. façam parte de uma coletividade indeterminada composta só de pessoas físicas ou só de pessoas jurídicas. Em suma. ainda que em nenhum momento se possa identificar um único consumidor real que pretenda insurgir-se contra tal prática. construção. bem como os entes despersonalizados. 4º. pública ou privada. caput. 2º. O único requisito é que estejam expostas às práticas comerciais e contratuais abrangidas pelo Código. sociedades de economia mista. [45] "Uma vez existindo qualquer prática comercial. ostensivamente quando atua como agente econômico ou prestando serviços . Esse entendimento se faz possível pela não inclusão de qualquer tipo de limitação na definição do art. "é toda pessoa física ou jurídica. do CC. FORNECEDOR Fornecedor. Assim. [51] Atente-se que nem todo fornecedor é empresário. criação. 966. transformação. Também o Estado. distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços". apontando como único limite a idéia de prejuízo.88 um caráter preventivo e mais amplo". ainda que mereça tratamento diferenciado (art. não se exige que o fornecedor tenha personalidade jurídica." [47] Cláudia Lima Marques [48] inclui entre as pessoas expostas às práticas abusivas também os agentes econômicos. exclui o profissional liberal do conceito de empresário. direto ou indireto. seja sociedade empresarial. e nem mesmo capacidade civil.

Porém. objetivo de satisfação de necessidade alheia. ou então mediante participação direta em assembléias gerais que.2 Profissionalismo Outrossim.e.1 Atividade econômica Por atividade se entende o "conjunto de atos ordenados em função de um determinado objetivo (. temos que não bastará o exercício de qualquer atividade. Já quanto ao prestador de serviços. i. como ressalta Flávia Püschel [60]. não se exigindo que o prestador seja "profissional" da área. tal atividade econômica deve ser desenvolvida com profissionalismo. se a entidade associativa tiver como fim precípuo a prestação de serviços.1. está abrangido pelo conceito de fornecedor. de maneira a atender às necessidades dos consumidores.). basta que a atividade seja habitual ou reiterada.. de modo que. "Qualquer ato singular deve poder ser reconduzido a uma atividade para ser considerado ato de fornecimento e submeter-se às normas do CDC". sendo despiciendo indagar-se a que título. deve ser considerada fornecedora desses serviços." [54] Para Cláudia Lima Marques [55]. são os órgãos deliberativos soberanos nas chamadas ‘sociedades contingentes’". não podem ser considerados fornecedores em face de seus associados e condôminos. pela análise do dispositivo legal que define quem pode ser considerado fornecedor. diz Filomeno . sejam representados ou não por intermédio de conselhos deliberativos. devendo ser avaliada de forma autônoma em relação aos atos singulares de que é composta". e o propósito de obter um ganho. Já as entidades associativas e os condomínios em edificações. pois "seu fim ou objetivo social é deliberado pelos próprios interessados. em última análise. cobrando mensalidade ou algum outro tipo de contribuição.. [59] A regularidade consiste no exercício constante e estável da atividade. [53] Filomeno enquadra na definição de fornecedor todos que "propiciem a oferta de produtos e serviços no mercado de consumo. de onde se concluí não bastar a prática de atos isolados para que se caracterize a figura do fornecedor. não são considerados profissionais .89 públicos mediante remuneração direta [52]. o que caracteriza o fornecedor de produtos é o desenvolvimento de atividades tipicamente profissionais. como se sabe. mas sim de uma atividade econômica. [57] [56] 4. [58] Ainda.1 Elementos característicos do fornecedor 4. 4.1.. com regularidade.

3 Autonomia Por fim. 927. não-subordinada. é preciso que exerça sua atividade econômica de forma autônoma.1. Porém. sem procurar o incremento patrimonial propriamente dito. parágrafo único e 931. à princípio.. de incremento no patrimônio. Porém. por exemplo. A definição de atividade autônoma é obtida como contraposição de atividade subordinada: desenvolvida na dependência de outrem e cujos resultados se referem a bens alheios ou a serviços depois fornecidos por outrem. [66] Assim. ainda que não de forma contínua. i. do CC – e as com finalidade lucrativa. ou seja. O fornecedor é responsável. prevalece que basta ter "por objetivo buscar o reembolso dos fatores de produção empregados ou evitar perdas e gastos.e. de modo que as entidades que desenvolvem atividades sem fins lucrativos não seriam consideradas fornecedoras. basta para que se configure a relação de consumo. não sendo possível a caracterização de profissionalismo na pessoa que produz exclusivamente para a satisfação de necessidade pessoal. [61] É indispensável que o desenvolvimento da atividade econômica seja voltado para a satisfação de necessidade alheia. a atividade que ocorra com certa regularidade. há divergência doutrinária. não conseguiria competir com os preços da primeira. tal distribuição gratuita faz parte do exercício da atividade econômica profissional do fornecedor. por produtos distribuídos gratuitamente como amostra. pouco importando se para poucos ou para muitos. a obtenção de ganho. e não aos atos singulares. pois. que. Quanto ao último elemento. a atividade comercial sazonal ou eventual não obsta a incidência das regras do CDC.90 aqueles que exercem atividade econômica "acidentalmente e cuja organização exaure sua função no cumprimento do próprio ato para o qual foi criada". para que se caracterize determinado ente como fornecedor. que seja ininterrupta – para que se configure uma relação de consumo. aquele que exerce ." [65] 4. e ressalvada a aplicação dos arts. à responsabilidade subjetiva. Para alguns – como Giuseppe Ferri e Tullio Ascarelli [62] – deverá haver finalidade de obtenção de lucro. é importante ressaltar que não se exige a habitualidade da atividade – i. com o objetivo de auferir lucros. não há necessidade de que cada ato singular seja praticado com o objetivo de obter ganho. De acordo com Rizzatto Nunes." [63] Entender de outro modo poderia fomentar a concorrência desleal entre entidades sem fins lucrativos – sujeitas.e. [64] "Além disso. tendo que incluir no custo de sua operação o ônus de responder objetivamente aos danos que der causa. o objetivo de ganho deve referir-se à atividade em si.. embora não haja remuneração por tais amostras.

4. seja de uma parte componente. a parte componente (que se destina à incorporação a um produto final).. dependendo. uma vez que. mas está inserido na cadeia produtiva. "cada produtor responde pelos defeitos surgidos durante o seu próprio processo de produção ou em fases anteriores".2 Produtor real. a lei dá tratamento específico e diferenciado para o produtor [67]. Tal ficção legal existe como concretização do postulado que determinada a facilitação da defesa do consumidor em juízo. assim como por aqueles resultantes diretamente de sua própria atividade.1 Produtor final e produtor de matéria prima ou parte componente De acordo com as etapas da produção. bem como pelos defeitos da matériaprima empregada na produção da parte componente (. [68] Um mesmo produto pode. de acordo com Flavia Püschel [69].2 Espécies de fornecedor Estabelecida a amplitude do conceito de fornecedor (art. A princípio. o comerciante. portanto. . 3º). em razão da responsabilidade solidária imposta pela lei (CDC.. é possível identificar três espécies de produto: a matéria-prima (materiais e substâncias destinados à fabricação de produtos). e.91 atividade na qualidade de empregado de outrem. não é fornecedor. e o prestador de serviços.2. Perante o consumidor tal distinção não apresenta relevância prática nas questões relativas ao vício do produto." [70] Produtor presumido é o importador. 18). aquele que desenvolve suas atividades 4. e referidos sob a denominação comum de fornecedor. estar enquadrado em qualquer uma dessas categorias. todos são tratados de forma uniforme ao longo do Código. Há uma exceção. e o produto final (pronto para servir ao uso a que se destina). de uma análise da função do produto e do modo como é oferecido no mercado. contribuindo em qualquer medida "para a confecção de um produto apto para a distribuição. sobretudo. seja de um produto final.). é fornecedor." 4. cabe agora traçar eventuais diferenças entre os diversos participantes da cadeia produtiva-distributiva. 12-14). dependendo das circunstâncias. Mas quando adentramos no tema da responsabilidade pelo fato do produto mostra-se de grande importância. de modo que o "produtor final responde pelos defeitos da parte componente.2. art. presumido e aparente Produtor real é aquele que participa de maneira autônoma no processo de produção de um bem. porém: na seção que trata da ‘responsabilidade por fato do produto ou serviço’ (arts. seja de uma matéria-prima. evitando que ele tenha que buscar a reparação em face do produtor real estrangeiro.

i. trata-se de atividade de produção. inclui-se no conceito de fornecedor o próprio Poder Público. O tratamento dado pelo CDC ao comerciante é diferente dos demais fornecedores.3 O Poder Público como fornecedor O Código. o comerciante somente é responsabilizado pelo fato do produto direta e isoladamente quando houver máconservação do produto. quando o produtor final [74] do produto não for suficientemente identificado. trata-se de atividade de simples distribuição" [73]. 4. deve ser levada em conta "a influência da atividade em questão sobre a configuração e qualidades essenciais do produto". Para diferenciar a atividade produtiva da mera distribuição. porém. ou ainda as concessionárias de serviços públicos" [75]. Atente-se. de modo a ocultar a indicação do produtor real do produto. que não fica excluída a eventual responsabilidade do produtor real. diz que o fornecedor pode ser ente público ou privado. é todo sujeito que distribui produtos no âmbito de sua atividade profissional.3 Comerciante Comerciante. ou ainda.4 Prestador de serviços Prestador de serviços é aquele ator da cadeia produtiva-distributiva que presta qualquer tipo de atividade no mercado de consumo. Enquanto a responsabilidade pelo vício do produto é solidária de todos os participantes da cadeia produtivo-distributiva.e.2. não há como negar a sua incidência em .2. o produtor aparente é tratado como se tivesse em razão da situação de aparência criada para o consumidor.92 Produtor aparente é aquele que simplesmente apõe ao produto o seu nome ou marca. em seu art. Assim. na definição de Flavia Püschel [72]. de forma subsidiária.. sem exercer ele próprio atividade de produção. Ainda que não tenha efetivamente participado da produção. "por si ou então por suas empresas públicas que desenvolvam atividade de produção. Existindo. [71] 4. 3º. criando a aparência de ter ele mesmo produzido o bem. Quando houve fornecimento de produto juntamente com a prestação de serviços. Em face da redação explícita da lei. apenas uma manipulação insignificante. ao contrário. impedindo que o consumidor acione diretamente o produtor real. deverá ser analisada qual a atividade preponderante para que se possa dar o tratamento legislativo adequado à relação de consumo. envolvendo ou não o concomitante fornecimento de produto. se há "influência sobre a estrutura ou qualidades essenciais do bem. 4.

assim. como instrumento hábil para a consecução dos fins objetivados. material ou imaterial" (art. é "a coisa adquirida para desenvolvimento da própria atividade. é aquele "utilizado para fins de transformação e posterior transmissão". Surge a dúvida de onde classificar os produtos descartáveis. mas vida útil de não-duráveis. enquanto bem de custeio. sempre que configurados os elementos acima expostos. Rizzatto Nunes [83] defende que o CDC é aplicado nos casos em que os produtos e serviços são oferecidos no mercado de consumo para a aquisição por qualquer pessoa como destinatária final. Bem de insumo. bens não duráveis (bens tangíveis que normalmente são consumidos em um ou em alguns poucos usos). Bens. [77] É de relevância a classificação dos bens com base em sua taxa de consumo (CDC 26): bens duráveis (bens tangíveis que normalmente sobrevivem a muitos usos). "é qualquer bem. sem qualquer transferência para a clientela". o descartável deve receber o tratamento dispensado ao durável. bens econômicos são as coisas úteis e raras. a limitação deve ser feita somente com base na finalidade (motivo) da aquisição do produto (consumo como destinatário final). que têm essência de duráveis. 3º. e destinado a satisfazer uma necessidade do adquirente. uma vez que a lei não faz qualquer ressalva. Uma outra classificação se mostra relevante para fins de se determinar a incidência ou não da legislação consumerista: bem de insumo. Rizzatto Nunes [80] defende que. por sua vez. não havendo tratamento legislativo específico. No mesmo sentido. são coisas úteis aos homens. e bem de custeio. móvel ou imóvel. ou de consumo. independente . conceituando produto como "qualquer objeto de interesse em dada relação de consumo. que provocam a sua cupidez. ou de produção. PRODUTO Produto. 5. e como o produto não-durável tem características diversas. de modo que "o bem transformado para uso posterior próprio não retira do adquirente ou utente a situação jurídica de consumidor". na econômica definição do CDC. §1º). suscetíveis de apropriação. como destinatário final". sendo objeto de apropriação privada. [78] O simples fato de o produto não se extinguir numa única utilização não lhe retira o status de não durável – "o que caracteriza essa qualificação é sua maneira de extinção ‘enquanto’ é utilizado" [79]. [81] Roberto Senise Lisboa [82] entende não ser razoável a exclusão pura e simples do bem de insumo da proteção do CDC. [76] Filomeno resume. Já quanto ao enquadramento ou não de todas as atividades exercidas pelo Poder Público veremos mais adiante quando for debatida delimitação legal do serviço.93 relação ao Poder Público.

estimação ou troca)". Outra classificação extremamente útil nos é trazida por Roberto Senise Lisboa quanto à substituição das peças: entre produto compósito e produto essencial (não compósito). pouco importando "que o serviço. "amostra grátis". a adoção das outras soluções propugnadas pelo legislador (redibição. é relevante ressaltar que o produto (assim como o serviço) gratuito. como atividade remunerada. art. seja de natureza civil. 6. que tem. e nenhum outro mais. de crédito e securitária. significaria abranger também os serviços remunerados de forma indireta – a lei se refere à remuneração do serviço e não à sua gratuidade. mediante remuneração. outrossim. segundo Filomeno . SERVIÇO Serviço "é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. Assim. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista" (CDC3º." Por outro lado. também está regulado pelo CDC (art. financeira. §2º). "os contratos unilaterais de prestação de serviços e os contratos . apresentando vício em alguma peça. Roberto Senise Lisboa [85] ressalta que a lei somente excepciona os serviços prestados em relações trabalhistas. estariam excluídos da aplicação do CDC. inclusive as de natureza bancária. parágrafo único). justifica tal posição na existência de legislação própria (Lei nº 8245/91). mesmo quando firmada entre pessoas jurídicas. a utilização da expressão "mediante remuneração". [84] Por fim. sob pena de comprometer a sua substância. [86] Outrossim. enquanto produto essencial "é aquele que não pode ter qualquer de seus componentes retirados ou substituídos. as relações locatícias de imóveis. Este "não pode ser reparado no caso de existência de vício intrínseco. ao invés de "oneroso". haverá relação de consumo sempre que preenchidos os requisitos legais. cabendo ao consumidor. aplicado CDC em relação à administradora de imóveis [88]. 39. porém.94 do uso que o adquirente faça. [89] Assim. com o posicionamento reiterado do STJ [87]. que contém ainda dispositivo contra prática abusiva (denúncia vazia na vigência de contrato por prazo determinado. enquanto o produto compósito. Produto compósito "é aquele resultante do justaposicionamento de peças e componentes que podem ser substituídos sem que se proporcione a sua inadequação". para a produção ou não de outros produtos ou serviços. neste caso.". 4º). comercial ou administrativa. estando sujeito a todas as suas regras. ao fornecedor será aberto o prazo legal para realizar os reparos necessários. Tal posição se coaduna. de modo que seus elementos são insuscetíveis de dissociação.

Filomeno [93] entende que "serviços" são atividades. mas tão somente a sua intervenção como regulador das relações privadas. Assim. sem ressalvas. todos os serviços públicos. 79. estariam sujeitos à disciplina do CDC. e que "mediante remuneração" não se refere a tributos. além da atividade privada. Já para Regina Helena Costa [96]. de modo que somente a "prestação de serviços públicos. II e III). e não de consumo – "contribuinte não se confunde com consumidor". seja ele prestado diretamente pelo Estado ou por concessionária. sempre que se tratar de serviço público. não seria possível confundir o consumidor com o contribuinte. [91] 6. mas fruível singularmente pelos administrados. para Rizzatto Nunes [95] estão incluídas no conceito de serviço. remunerados por taxa ou tarifa.e. Admite apenas a inclusão dos serviços remunerados por tarifas em sua definição. enquanto que nas relações de consumo não haveria responsabilidade estatal. pois não haverá a necessária onerosidade da relação obrigacional. .95 gratuitos puros" [90] não são regidos pelo CDC. aqueles são os que têm continuidade no tempo em decorrência de estipulação contratual. "é a exigência de remuneração específica pela prestação de determinado serviço público que vai determinar sua sujeição à disciplina legal das relações de consumo". taxas ou contribuições de melhoria. mesmo que prestados por sujeito que normalmente atua como fornecedor no mercado de consumo. e os que deixam como resultado um produto. benefícios ou satisfações que são oferecidas à venda. Por outro lado. "todas as atividades oferecidas pelos órgãos públicos diretamente ou por suas empresas públicas ou de economia mista. pois aí haveria relação jurídica de natureza tributária. não há que se falar em aplicação do CDC. as concessionárias e permissionárias ou qualquer outra forma de empreendimento" – i. art.. que o Estado assume como pertinente a seus deveres e presta por si mesmo ou por quem lhe faça as vezes. Já para Cintra do Amaral [94].1 Serviços públicos "Serviço público é toda atividade de oferecimento de utilidade ou comodidade material destinada à satisfação da coletividade em geral. Classificam-se os serviços em "duráveis" e "não-duráveis". nos serviços públicos o Estado sempre figura como responsável pelos eventuais danos decorrentes do serviço. com a exclusão de todos os demais. específicos e divisíveis" (CTN. estes são os que se esgotam uma vez prestados. sob um regime de Direito Público – portanto consagrador de prerrogativas de supremacia e de restrições especiais – instituído em favor dos interesses que houver definidos como próprios no sistema normativo" [92].

somente haverá relação de consumo com a administração pública (direta ou indireta) quando a aquisição ou utilização do serviço se der mediante pagamento direito. Revendo sua posição [98]. Para o autor. porque o destinatário final se utiliza da atividade estatal a ele fornecida em razão do pagamento da prestação diretamente vinculada a essa atividade" [99]. de modo que a prestação de serviço público típico. Mais. incluiu todas as demais. Isso exclui "praticamente todas as relações jurídicas tributárias" da regulação do CDC.96 Num primeiro momento Roberto Senise Lisboa [97] defendeu que quando a lei excluiu expressamente as relações trabalhistas do rol das prestações de serviço por si reguladas. seriam invariavelmente submetidos ao regime do CDC." O entendimento do STJ [101]. justiça. deve se submeter às normas do Código de Defesa do Consumidor sempre que fornecer um serviço público uti singuli. os impostos. mesmo as taxas. não estariam jamais sujeitos à regulação do CDC. E resume: "a Administração Pública. prestadas pela administração pública direta ou indireta. Por outro lado. em ralação aos atos de império e pelo exercício do poder de polícia. Roberto Senise Lisboa [100] ainda defende que os serviços tipicamente estatais. "uma vez que o pagamento de impostos e taxas é dirigido para o cofre público. para fins da lei. seguindo essa orientação. afirma ser indiscutível a aplicabilidade do CDC aos serviços remunerados por tarifa. Destarte. Ainda. e saúde pública). os serviços públicos impróprios. Por outro lado. sem exceção. que podem ser prestados uti singuli. inclusive as de natureza administrativa. mediante o pagamento diretamente efetuado pelo consumidor a título de prestação correspondente. Segundo esse entendimento. seja por que regime for. o Estado está isento de responsabilidade. que é "genuína remuneração pelo serviço prestado pelo órgão público ou pela entidade da Administração indireta. . de acordo com o orçamento previamente elaborado pela Administração". direta ou indireta. "toda a atividade remunerada lançada no mercado de consumo pelo órgão público". é de que a prestação de serviço público não configura relação de consumo. o referido autor passou a defender ser necessária a análise da forma de pagamento da remuneração e a natureza do serviço público desempenhado a fim de se aferir a incidência ou não da legislação de consumo. que por natureza são uti universi (tais como segurança. pois considera-se serviço. somente quando os serviços e produtos são oferecidos no "mercado de consumo" poderia haver relação de consumo. não teriam a especificidade nem a divisibilidade necessárias para a caracterização de relação de consumo. sendo as verbas obtidas pelo Poder Público repassadas para cada setor da atividade pública.

pelo Banco Central do Brasil. pelo Poder Judiciário. Afirmou-se ainda que somente é necessária a edição de lei complementar para a regulamentação da estrutura do sistema financeiro – CF. uma vez que não há como considerar que o serviço público típico esteja colocado no mercado de consumo. 2ª ed.stj. ANDRIGHI. Código do consumidor comentado. José Manoel de Arruda. nos termos do disposto no Código Civil. negando de forma peremptória que não há relação de consumo entre o poder público e contribuinte. financeiras e de crédito Quanto às atividades bancárias. porém.2 Atividades bancárias. Fátima Nancy. São Paulo: Saraiva. Ademais. 6. O conceito de consumidor direto e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. 2006. 192. In: http://bdjur. como sendo o destinatário final dos serviços. conforme se extrai de definição de fornecedor adotada neste trabalho.br. como a lei. Celso Antônio. 7. financeiras e de crédito. MARINS. Acessado em 26/03/2007. art.gov. BANDEIRA DE MELLO. ALMEIDA. 1995.. onerosidade excessiva ou outras distorções na composição contratual da taxa de juros". em cada caso. 2ª ed. .. afastando. João Batista. e do controle e revisão. o STF pacificou a questão – ADI 2591 – determinando a sujeição de tais atividades às regras do CDC. tal decisão pouco contribuiu para a definição do conceito de consumidor. Outrossim. BIBLIOGRAFIA ALVIM NETTO. Semelhante é o entendimento do STF [102] sobre o tema. São Paulo: RT. sobre as quais se discutia a possibilidade de regulamentação através de lei ordinária.97 aquele remunerado por tributo (em oposição ao atípico. limitando-se a defini-lo. do seu campo de aplicação "a definição do custo das operações ativas e da remuneração das operações passivas praticadas por instituições financeiras no desempenho da intermediação de dinheiro na economia. James et alii. esta posição se encontra em perfeita harmonia com a legislação consumerista. Curso de direito administrativo. ficaria excluída da incidência do CDC. sem prejuízo do controle. Manual de direito do consumidor. remunerado por tarifa). de eventual abusividade.

CALDEIRA. Acessado em 26/03/2007. Acessado em 04/06/2007. 42-41.. BEJAMIN.gov. In: Revista de direito mercantil. Mirella D’Angelo. Disponível em: http://www. Fev/1988. p. São Paulo: Juarez de Oliveira. DONATO.direitodoestado. Antônio Carlos.. Herman. A tributação e o consumidor. 66-75. Proteção ao consumidor: conceito e extensão. 2006. 6. Jan/1991. São Paulo: RT. 15/16. Rio de Janeiro: Forense Universitária. In: Revista de direito mercantil. In: Revista CEJ. Ada Pellegrini et alii. In: Repertório IOB de jurisprudência. CINTRA DO AMARAL. n. 2ª ed. 02. Roberto Senise. GRAU. Definição legal de consumidor. A proteção ao consumidor na constituição brasileira de 1988. ___________. 69-79. ___________.saraivajur. In: www.com.com. Eros Roberto. 80. A proteção do consumidor: importante capítulo do direito econômico. Regina Helena. 628. Sérgio Pinheiro. Definição jurídica de consumidor – Evolução da . n. 2º do Código de Defesa do Consumidor.br. Out-Dez/1990. In: Revista dos tribunais..saraivajur. Mai-Jul/2006. Ago/1997. O conceito jurídico de consumidor. n. n. Relação de consumo e proteção jurídica do consumidor no direito brasileiro. Fábio Konder. n. São Paulo: Malheiros. São Paulo: RT. LISBOA. Maria Antonieta Zanardo. 1974. 2003. 2005. p. MARÇAL.br. O conceito de consumidor no parágrafo único do art. 1999. 8ª ed. O conceito de consumidor padrão. ___________.com. p.br. ___________. 89-105. In: Revista eletrônica de Direito Administrativo Econômico. Distinção entre usuário de serviço público e consumidor.98 16ª ed. Código brasileiro de defesa do consumidor comentado pelos autores do anteprojeto.br. Disponível em: www. O código brasileiro de proteção do consumidor. Acessado em 26/03/2007. n. Acessado em 11/06/2007.stj. GRINOVER. COSTA. COMPARATO. p. Responsabilidade civil nas relações de consumo. 2/91. Disponível em: http://bdjur. 1994.

6 e 29-32. Comentários ao código de defesa do consumidor. Maria Antonieta Donato. Cf. ‘O conceito jurídico de consumidor’. Fábio Konder Comparato. considerando consumidora . Notas 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 Roberto Senise Lisboa. 189. 159. desde que possa subsumir-se no enquadramento normativo dos conceitos de consumidor que o CDC estabelece. Filomeno. Proteção ao consumidor. 2004. 19-20 e notas. James Marins. Comentários. in: Código comentado. 21. p. havendo quem queira distinguir onde a lei não o faz. 2ª ed. p. Em sentido semelhante: "A lei é clara ao classificar como consumidor a pessoa jurídica. p. 71. p. PÜSCHEL. Rizzatto Nunes. Juarez de (coord. 2006. Proteção ao consumidor. p. p. 90-91. Comentários. Roberto Senise Lisboa. p.. ‘A proteção do consumidor’. Luiz Antônio Rizzatto. Othon. São Paulo: Quartier Latin. SIDOU. in: Código comentado. 71-78. 31. 78-80. A responsabilidade por fato do produto no CDC. p. São Paulo: Saraiva. n. Rio de Janeiro: Forense. MARQUES.). Herman Benjamin. Flavia Portella. Cláudia Lima et alii. Há polêmica no Brasil acerca do tema. São Paulo: RT. Relação de consumo.99 jurisprudência do STJ. 107-113. V. 1991. Roberto Senise Lisboa. p. 88. 1977. Rizzatto Nunes. Herman Benjamin. NUNES. p. p. In: Revista do advogado. p. 89. in: Código comentado. Responsabilidade civil. 2005. p. São Paulo: Saraiva. 87-98. OLIVEIRA. James Marins. Comentários ao código de defesa do consumidor. Comentários ao código de proteção ao consumidor. Responsabilidade. ‘O conceito jurídico de consumidor’. Dez/2006.

169-183). 25 26 Cf. 22 23 24 Filomeno. indústria de automóveis que adquire computadores para seu escritório não seria consumidora. Relação de consumo. praticamente nunca a pessoa jurídica seria consumidora. in: Código comentado. pois. Comentários. David W. 71-74. 31-37. 108). pouco importando que faça ou não parte da cadeia produtiva. Cláudia Lima Marques. p. p. 494. 14 15 16 James Marins.. João Batista de Almeida. 165. Proteção ao consumidor. são considerados insumos. p. "[P]oderá ser conferida a tutela protecionista dos consumidores às pessoas jurídicas ou aos consumidores-profissionais desde que fundada ‘na ausência de similitude entre o bem e o serviço que são objeto do ato para o qual o profissional reclama a sua qualidade de consumidor. p. Manual. 72. nessa condução. Herman Benjamin. p. p. Responsabilidade civil. 32. ou alguém duvida sinceramente que o cafezinho do diretor da montadora de carros não esteja embutido no preço final dos veículos vendidos aos consumidores? 20 21 Maria Antonieta Donato. p. Para essa corrente restritiva. 166-167. Proteção ao consumidor. The dictionary of modern economics. p. e Responsabilidade civil. Pearce. É o que Roberto Senise Lisboa chama de ‘teoria da causa final’. ." (Thierry Bougoignie apud Maria Antonieta Donato. p. do CDC. caput. 71. Roberto Senise Lisboa. Roberto Senise Lisboa. 80 apud Herman Benjamin. a tese restritiva nega vigência ao art. p. 71. 29. o ‘para que’ o fato ocorreu. 68 e 108. in: Código comentado. p. 35-40. p. ‘O conceito jurídico de consumidor’. pois os computadores melhoram a sua produtividade e. não tendo nenhuma relação com o seu ‘porquê’ (Responsabilidade civil. e os bens ou serviço que são objeto de sua especialidade comercial ou profissional’.100 a pessoa jurídica apenas quando adquira produto ou se utilize de serviço que não seja considerado insumo para sua atividade empresarial. p. Cf. 2º. in: Código comentado. 18 19 17 Cláudia Lima Marques. para os que a defendem. p. 27. Uma nota se faz imprescindível sobre esse argumento: todo e qualquer bem adquirido pela empresa está incluído no preço final ao adquirente de seus produtos. Comentários. p. ‘O conceito jurídico de consumidor’. Levada à sua última conseqüência." Nery Jr. isto é.

Herman Benjamin. in: Código comentado. James Marins. p. voto in: ADI nº 2591. p. Eros Grau. 41 42 Herman Benjamin. p. 43 44 45 46 47 V. 100. 20. p. 148-149. p. in: REsp 476. por Juarez de Oliveira. in: Comentários. Proteção ao consumidor. coord. Cláudia Lima Marques. Mirella Caldeira. ainda que o Código tampouco o eleja como elemento definidor de consumidor – a vulnerabilidade é conseqüência de ser consumidor. Cláudia Lima Marques. in: Código comentado. 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 Cf. 74-75. 140. cit. p. in: Código comentado. James Marins. in: Comentários. p. James Marins. p. ‘O conceito jurídico de consumidor’. uma vez que o CDC somente faz referência à hipossuficiência para fins processuais. p. por Juarez de Oliveira. por Juarez de Oliveira. p. p. coord. Comentários. 2º Cf. Loc. 77. 42-41.428-SC. Comentários. Rizzatto Nunes. p. . 99. 23. 27. James Marins. 195. Nancy Andrighi. Filomeno. in: Código comentado. in: Conflito de Competência nº 41. In: ‘Definição legal de consumidor’. ‘O conceito de consumidor no parágrafo único do art. p. in: Código comentado. p. in: Código comentado. Note-se a utilização pouco técnica desse termo. Comentários. Comentários. Maria Antonieta Donato. o termo mais apropriado seria "vulnerabilidade". Rizzatto Nunes. Fábio Ulhoa. do CDC’. 148. 253. coord. p. in: Comentários.056-SP Nancy Andrighi. 80-81. Fábio Ulhoa. p. 277.101 27 28 29 30 Herman Benjamin. 38.

63. Responsabilidade. p. Flávia Püschel. Responsabilidade. p. p. p. 65. utilizando o termo produtor para referir a todos aqueles enumerados no art. p. Cf. in: Código comentado. 50 51 52 Cf. p. 174. Filomeno. in: Código comentado. No mesmo sentido: Herman Benjamin. 57-58). nota 102. p. p. Responsabilidade. isto é. Rizzatto Nunes. 65. 43. 66. p. p. Comentários. p. criação. 71-72. Responsabilidade. 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 Cf. 93. p. in: Código comentado. Filomeno. Flávia Püschel. p. uma vez que todos recebem indistintamente o mesmo tratamento legal. Responsabilidade. 101. Comentários. caput. de poder para influir sobre as características do produto. 63. in: Código comentado." 68 Flávia Püschel. Comentários. Denari. p. Flávia Püschel. 65. p. nota 47. Comentários. além de "remeter à idéia de produção. 112-113. 62. p. 59-61. Responsabilidade. ‘O código brasileiro de proteção ao consumidor’. nota 77. Cf. Cláudia Lima Marques. Comentários. Tullio Ascarelli apud Flávia Püschel. p. Responsabilidade. Filomeno. 19. 101-102. Responsabilidade. p. Flávia Püschel. Utilizamos aqui a terminologia sugerida por Flávia Püschel (Responsabilidade. 45. p. . 46. Flávia Püschel. 397. Responsabilidade. Responsabilidade. Flávia Püschel. Rizzatto Nunes. 12.102 48 49 Cláudia Lima Marques. Apud Flávia Püschel. p. Mas também quando há remuneração indireta: Rizzatto Nunes. Flávia Püschel. p. 67.

Responsabilidade. p. p. p. 198 e ss. Flávia Püschel. Responsabilidade. P. p. Relação de consumo. Comentários. . Responsabilidade civil. Responsabilidade civil. 119 apud Filomeno. 110-111. 107-108. p. 90 91 Roberto Senise Lisboa. 25-26. Relação de consumo. p. 77. p. p. 47.103 69 70 71 72 73 74 75 Flávia Püschel. Cf. p. No mesmo sentido: Rizzatto Nunes. p. 57. Flávia Püschel. Roberto Senise Lisboa. p.: REsp nº 689266. Filomeno. 86. 92. Cf. e 575020. Flávia Püschel. in: Código comentado. 77 78 76 Cf. 73-74. p. p. Comentários. Comentários. Responsabilidade. Cf. Rizzatto Nunes. p. Roberto Senise Lisboa. Relação de consumo. Filomeno. Comentários. Flávia Püschel. Rizzatto Nunes. p. Cf. 9-10. AgRg no Ag nº 363679. p. ex. p. 1. Rizzatto Nunes. 48. Rizzatto Nunes. Comentários. 107-108. 108. Filomeno. Responsabilidade. p. Comentários. Rizzatto Nunes. p. Roberto Senise Lisboa. 111. 43. Roberto Senise Lisboa. p. 94. p. Cf. Responsabilidade. p. Direito civil. 79 80 81 82 83 84 85 86 87 88 89 Cf. Roberto Senise Lisboa. Flávia Püschel. 101. p. Comentários. in: Código comentado. James Marins. 82. in: Código comentado. Cláudia Lima Marques. 37-38. in: Código comentado. REsp nº 614981.. p. v. Comentários. Relação de consumo. p. 83. e 636897. 199. in: Código comentado. 47. in: Código comentado. Sílvio Rodrigues. Rizzatto Nunes. Responsabilidade. nota 20. 82. 25. p. p. Filomeno. 196-197.

n. entendendo que na prestação de serviço público típico há relação de consumo: Nancy Andrighi. Nancy Andrighi. 2ª T. p. in: Código comentado. Carlos Velloso. ‘A tributação e o consumidor’.144-SP. Proteção ao consumidor. V. Filomeno. 95 96 Rizzatto Nunes. Roberto Senise Lisboa. p. p. Rel.298-2/RS. 214-217. Responsabilidade civil. 213-214. 211-213. ‘Distinção entre usuário de serviço público e consumidor’. 612. Divergiram da fundamentação da maioria. Min. e Castro Filho. Comentários. 48-49. Responsabilidade civil. 102 .. 122-123. REsp 625. p... Relação de consumo. p. Curso. Rel. AgRegAI 282. Nesse mesmo sentido: Maria Antonieta Donato. STF. Roberto Senise Lisboa. 28. 100 101 STJ. 112-113.104 92 93 94 Celso Antônio. Roberto Senise Lisboa. p. Cintra do Amaral. ainda. p. Min. Regina Helena Costa. Relação de consumo. os demais julgados lá referenciados. 97 98 99 Roberto Senise Lisboa. 6. 3ª T. p.

de início. atentar para o significado de relação jurídica. 8. compõem-na de forma a demonstrar sua extensão e seu conteúdo. LEUD. Mas não é bem assim. Os atos ordinários da vida se orientam para caminho diametralmente oposto. em apertada e perigosa síntese. p. mesmo porque. Diversa não é a relação de consumo. em nossa obra Ofensa à Honra da Pessoa Jurídica (Ed. que constituem o âmbito pessoal de determinadas normas. 459). Donde vê-se necessário. dada a incompatibilidade do preceito com a teleologia e a axiologia da norma. devemos definir a relação jurídica de consumo. 1995. 8. pois. São elementos subjetivos o consumidor e o fornecedor. em razão do qual uma pode pretender um bem a que outra é obrigada. regulado por norma jurídica" (Compêndio de Introdução à Ciência do Direito. os elementos que constituem a relação jurídica subsumível ao Código de Defesa do Consumidor. Afigura-se não haver a menor dúvida. concluir-se-á pela inaplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor. desta feita cingindo-nos à definição. Maria Helena Diniz.105 Pessoa jurídica consumidora Autor: Alex Sandro Ribeiro O enfrentamento da problemática envolvendo a pessoa jurídica qualificada com consumidora deu-se alhures. consumidor será o não profissional que de algum modo encontra-se vinculado com o fornecedor de produtos ou serviços. anota que "a relação jurídica consiste num vínculo entre pessoas. Vejamos. e elementos objetivos o produto e o serviço. forem relevantes no que atina ao caráter deôntico das normas aplicáveis à situação. O texto legal choca-se com o cotidiano. de ordem objetiva. faltante um único deles sequer. outros. a dicção legal do Código de Defesa do Consumidor é de clareza mediana. Em regra. . Tal relação só existirá quando certas ações dos sujeitos. de 1990.078. citando Del Vecchio. Verbera ele que toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final é considerada diretamente como consumidora. esboçou a pretensão legislativa de fornecer os elementos necessários à definição das pessoas envolvidas na relação de consumo. São Paulo. Mas a questão permanece suscitando controvérsia e nos aguçou a tecer considerações a respeito. 7ª ed.. Antes de qualquer coisa. somados. 2004). Pois muito bem.078. Exige-se a presença de elementos de órbita subjetiva e. São Paulo: Saraiva. isto é. vêm eles arrolados nos artigos 2º e 3º da Lei n. amplamente. todas as relações jurídicas exigem a presença de alguns elementos. Quanto aos elementos da relação de consumo. De efeito. Estes. Evidentemente. de 1990. O artigo 2º da Lei n. Só haverá relação jurídica se o vínculo entre duas pessoas estiver normado. Considerou consumidor toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final.

amortização etc. lembra-o José Geraldo Brito Filomeno. 4ª ed. p. quando observam que: "Dado que a ilicitude das cláusulas abusivas é matéria que não fica restrita às relações de consumo. aos contratos de direito privado (civil e comercial). A pessoa jurídica pode ser considerada consumidora. 1841)".. 7ª ed. Quando houver aquisição para a soma de todas as despesas (matéria-prima. "apegam-se às condições gerais dos contratos estabelecidos pelo Código de Defesa do Consumidor. Até a teoria finalista. 2001." (CDC Comentado pelos autores do anteprojeto. Algumas decisões. encontrando-se aqui um dos fundamentos principiológicos da figura do consumidor por equiparação. pois.. porque a disjuntiva ou assim especifica e afasta a necessidade de aquisição para perpetuar a relação de consumo. Basta que sua posição na aquisição do produto ou do serviço não o seja para fins de insumo. será consumidor se obter ou usufruir real ou potencialmente o produto ou o serviço. a rigor. tais como a comodidade. 2) aquisição ou utilização. e mais marcadamente no que tange às práticas e cláusulas contratuais abusivas. econômica e institucional. pois pertence à teoria geral do direito contratual.106 A exata definição. há de sofrer um abrandamento. simples se mostra o estudo e pouco significa para qualificar um ente abstrato como consumidor. haja intervindo na relação jurídica. que a vulnerabilidade. em suas necessidades básicas empresariais. Nesse passo. já a partir do seu art. de algum modo. O item 1 estampa a intenção de aceitar a pessoa jurídica como consumidora. No item 2 vê-se que a utilização é quantum satis. ainda que a inferência destes na relação de consumo seja simplesmente de exposição às práticas comerciais e contratuais. Anote-se.) que . para uma posição mais teleológica. horas trabalhadas. p. e também das vítimas de eventos danosos por fato ou vício do produto ou do serviço. enfim.. o "elo final da cadeia produtiva". consumidoras . exige um desmembramento do artigo. 1999. por extensão. Até aqui. Rio de Janeiro: Forense Universitária. ainda que as partes não sejam. também merece especial atenção quando se tenta localizar a pessoa do consumidor em eventual interpretação do artigo 2º da Lei Consumerista. sendo que tal posicionamento já vem esboçado por Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery. o sistema do CDC 51 deve ser aplicado. Aqui. 30. O item 3 refere-se à contratação ou usufruição de um serviço e à aquisição ou utilização de um produto.). protegendo o mais fraco na relação de consumo. a segurança e. enfim. assim.. pois. 3) produto ou serviço. reside o maior óbice à aplicabilidade irrestrita da do Código do Consumidor em favor da pessoa jurídica. Exigiu a Lei que a pessoa fosse destinatária final do produto ou do serviço. São Paulo: RT. 4) destinação final. (Código de processo civil comentado. o conforto. observando-o por quatro ângulos: 1) pessoa natural ou fictícia. a manutenção ilesa da pessoa vinculada ao negócio e de todos aqueles que. É o item 4 o essencial. 33.

ubi eaden legis dispositio (onde existe a mesma razão fundamental prevalece a mesma regra de direito). Se não os houvesse no sistema jurídico posto. deve-se ater ao bem comum. semanticamente dissecando. Sem ambos. porquanto a Constituição manda proteger o consumidor. dos valores sociais do trabalho e da iniciativa privada. não se pode olvidar que o Código de Proteção e Defesa do Consumidor sobreveio com o escopo de dar plena e irrestrita eficácia à norma ápice. ou serviços. e afastar-se-ia a sapiência dos aforismos: odiosa sunt amplianda. à vontade . axiológicos e sistemáticos. Mas também os métodos lógico e literal dão guarida à aplicação do Código de Defesa do Consumidor às pessoas jurídicas. justa e solidária. impossível a manutenção incólume da dignidade da pessoa humana. inegavelmente. uma das células mais importantes da economia nacional é a pessoa do consumidor. nos direitos sociais. difícil se mostra a erradicação da pobreza e da marginalização. Mas também. acabam sendo destruídos pelo ato de consumo. sob pena de esvair a pretensão da lei e obstar que ela cumpra sua verdadeira finalidade. liberar-se-iam os abusos e o comprometimento da legitimidade jurídica. na linguagem do Código de Proteção e Defesa do Consumidor). é quem adquire ou utiliza bens (produtos. Aqui pode limitar o campo de proteção. Todos. Sem o consumidor. e não o consumidor de produtos ou serviços.107 ocorrem na obtenção de um produto industrializado ou semi-industrializado. coisa que não foi determinada pela Norma Maior. do desenvolvimento nacional. será bem de insumo e não de consumo. enfim. A defesa do consumidor e a função social da pessoa jurídica espelham fundamentais princípios erigidos a dogma de calibre constitucional. Eis a aplicação dos métodos teleológicos. assim como a redução das desigualdades sociais e regionais. É para ele que são destinados os produtos e os serviços. aos fins sociais que se destina a lei. Uma interpretação de norma jurídica deve guardar correspondência mínima com o texto legal. para a satisfação de necessidades ligadas à sua sobrevivência – lógica. via de conseqüência. psicológica ou social. não há giro da economia. mais ainda. Não parece haver muita dificuldade. que de forma léxica caminha junto como texto constitucional. da sociedade livre. favorabilia sunt restringenda (restrinja-se o odioso. ainda. Consumidor. que. Ambos têm imediata aplicabilidade nas relações econômicas e. Afora isso. Nessa senda. em se concluir que há muitas pessoas jurídicas técnica e institucionalmente inferiores ao fornecedor e. prioritários aos métodos lógico e literal. É para ele que se destina a publicidade. Todos esses fundamentos do Estado Democrático de Direito e da República Federativa do Brasil esvair-se-iam céleres com o vento. consumidor e economia. em maior ou menor prazo. não é difícil localizar um ente abstrato destinatário final de certo produto ou serviço. e. amplie-se o favorável) e ubi eaden ratio legis. Esta a definição de consumo. ou de consumidor.

a todo o sistema normativo e. relações trabalhistas). de vez que apenas a exceção esteve expressamente mencionada (v. a questões históricas. máxime as garantias fundamentais. quando então deverão prevalecer as regras do Código Civil. todas as vezes que a interpretação for conduzida no sentido de excluir direitos. apenas a incompatibilidade manifesta afasta a incidência do Código de Proteção e Defesa do Consumidor às pessoas jurídicas. Ademais. Enfim. anote-se que são exemplificativas as hipóteses de aplicação do Código Consumerista. enfim.. outorgando-se elastério ao intérprete.108 da norma. tem ela de ser feita de maneira restrita. se em compasso com os preceitos virtuais consagrados na Constituição Federal de 1988.g. . Ao fim e ao cabo.

3 Responsabilidade pelo vício do produto e do serviço. 186 e 187. 1.2 Responsabilidade pelo fato do produto e do serviço. além da ação ou omissão que causa um dano.3 Exercício regular de direito.2. Responsabilidade civil no código de defesa do consumidor.1 Previstas no CDC. 2. 1 Responsabilidade subjetiva e objetiva. 1. em seus arts. Introdução O presente artigo aborda a responsabilidade civil prevista no Código de Defesa do consumidor e analisa as excludentes previstas em referido diploma legal. O Código Civil. ou seja.Conclusões. de outro lado o risco. 1 Responsabilidade subjetiva e objetiva Dois são os fundamentos da responsabilização do agente: de um lado.1.2. 2.2. 2. 1. Mário A essência da responsabilidade subjetiva como enuncia o insigne jurista Caio [01] assenta-se fundamentalmente na pesquisa ou indagação de como o . bem como outras existentes no ordenamento jurídico brasileiro e aplicáveis às relações de consumo.2 Outras Excludentes. 2. deve restar comprovada a culpa em sentido lato.1 Caso Fortuito e Força Maior.2 Riscos do desenvolvimento. ligados pelo vínculo denominado nexo de causalidade. RESPONSABILIDADE CIVIL NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR 1. fundamentado pela doutrina objetiva ou teoria do risco. 1. adota como regra a responsabilidade subjetiva. e. 2. EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE. a culpa.109 Aspectos da responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor e excludentes Autoras: Michele Oliveira Teixeira Simone Stabel Daudt Sumário:Introdução. baseada na doutrina subjetiva ou teoria da culpa. 2. Referências Bibliográficas.

a fim de demonstrar-se. Com isso. Tratando-se de responsabilidade subjetiva a culpa integra esses pressupostos e a vítima só obterá a reparação do dano se comprovar a culpa [05] do agente. criando óbices. a responsabilidade objetiva. o principal pressuposto dessa responsabilidade é a culpa. Segundo a teoria objetiva quem cria um risco deve responder por suas conseqüências. que acaba. também chamada da culpa presumida. Não é apto a gerar o efeito ressarcitório um fato humano qualquer. . O fato danoso é que engendra a responsabilidade. se quis o resultado (dolo). a responsabilidade civil surge pela prática de um ato ilícito [03]. que é o conjunto de pressupostos da responsabilidade civil [04]. a comprovação da culpa para atribuir ao fornecedor a responsabilidade pelo dano. como por exemplo nas hipóteses previstas nos artigos 931 e 936.110 comportamento contribui para o prejuízo sofrido pela vítima. A opção legislativa reflete a adoção feita pelo legislador da teoria do risco do negócio. A prova é. muitas vezes. em concreto. Não se perquire se o fato é culposo ou doloso. Porém. como regra. Assim. Basta a demonstração da existência de nexo causal entre o dano experimentado pelo consumidor e o vício ou defeito no serviço ou produto. ao contrário do Código Civil. Carlos Alberto Bittar [06] entende que: "Na teoria da culpa (ou "teoria subjetiva"). cabe perfazer-se a perquirição da subjetividade do causador. imperícia ou negligência (culpa em sentido estrito). pois. de difícil realização. bem como. a responsabilidade objetiva. Para a teoria objetiva interessa somente o dano para que surja o dever de reparação. O Código de Defesa do Consumidor. basta que seja danoso. segundo a qual aquele que explora atividade econômica deve arcar com os danos causados por essa exploração. dispensando. em alguns casos. ou se atuou com imprudência. A vítima deverá provar somente o dano e o fato que o gerou. assim. É preciso que este fato seja jurídico [02] e que seja ilícito. injustamente suportando os respectivos ônus". referido diploma adota a responsabilidade objetiva imprópria. ainda que não tenha concorrido voluntariamente para a produção dos danos [07]. para a ação da vítima.

12 é necessária a ocorrência comprovada e concorrente de três elementos: a) existência do defeito. . 12 que os danos indenizáveis são somente aqueles causados aos consumidores por defeitos de seus produtos observa-se ser necessária a existência de um defeito no produto e um nexo causal entre este defeito e o dano sofrido pelo consumidor. Nesse sentido salienta Paulo Lobo [14] que caso o legislador pretendesse a exclusão da incidência do CDC aos profissionais liberais os mesmos não deveriam estar englobados no art. respondendo pela qualidade e segurança dos mesmos. e não só entre o dano e o produto [09]. quer perante os bens e serviços ofertados. Bastaria que se demonstrasse apenas a relação de causalidade entre o dano e seu autor para que daí decorresse para o agente a obrigação de reparar". A responsabilidade decore do simples fato de dispor-se alguém a realizar atividade de produzir. Como restam especificados no caput do art. distribuir e comercializar produtos ou executar determinados serviços. os remete à responsabilidade objetiva. ou não. 3º. o artigo 14. Sérgio Cavalieri ressalta [11]: "Este dever é imanente ao dever de obediência às normas técnicas e de segurança." Contudo. b) o dano efetivo moral e/ou patrimonial. no caso. Wilson Melo da Silva responsabilidade objetiva: [10] esclarece com propriedade a definição da "Pela teoria da responsabilidade objetiva ou sem culpa. bem como aos critérios de lealdade.111 Claudia Lima Marques [08] ensina que para ser caracterizada a responsabilidade prevista no art. inclusive a de inversão do ônus da prova [13]. inexistindo incompatibilidade entre a norma e as demais regras protecionistas. como é denominada por muitos. c) o nexo de causalidade entre o defeito do produto e a lesão. condição esta que. há uma exceção à responsabilidade objetiva. se verificada. em suas atuações não ligadas a "obrigação de resultado". O fornecedor passa a ser o garante dos produtos e serviços que oferece no mercado de consumo. O autor do dano indenizaria pelo só fato do dano mesmo sem se indagar da sua culpabilidade. É importante ressaltar que o tratamento diferenciado dado aos profissionais liberais se limita ao fundamento da responsabilidade. § 4º [12] trata da responsabilidade dos profissionais liberais. o fator culpa seria de nula relevância. estocar. quer perante os destinatários dessas ofertas.

bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos(. apresentação ou acondicionamento de seus produtos. fabricação.)" Sérgio Cavalieri [15] define fato do produto como: "(.. conforme ensina Silvio Luíz Ferreira da Rocha [18]: "O fornecedor que entrega seus produtos para exame ou prova não poderá subtrair-se da responsabilidade civil prevista. que causa dano material ou moral ao consumidor (ou ambos). o construtor. execução ou comercialização de produto." Ou seja. isto é. tem o direito de ser indenizado por todos os danos decorrentes [16]. nacional ou estrangeiro. O art... inadequações no produto que ocasionam uma lesão no consumidor. Seu fato gerador será sempre um defeito do produto. independentemente da existência de culpa. o fornecedor será responsável também por produtos . Importante destacar que existe responsabilidade inclusive se o produto foi distribuído gratuitamente. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto. construção. Assim. que o art. mas que decorre de um defeito do produto. manipulação.) um acontecimento externo.2 Responsabilidade pelo fato do produto e do serviço Dispõe o artigo 12: " O fabricante. sendo obrigado o fornecedor a dar informações necessárias e adequadas a seu respeito.112 1. 10º impede a colocação no mercado produto ou serviço com alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança. o produtor. Ressalte-se. 12 trata dos defeitos dos produtos. fórmulas. alegando que o produto ainda não foi colocado no mercado. uma vez colocados no mercado. Outrossim. O artigo 8º do CDC estabelece que os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos á saúde ou segurança dos consumidores. daí termos enfatizado que a palavra-chave é defeito. aquele que sofrer acidente de consumo decorrente de defeito de concepção. por fim. que ocorre no mundo exterior. exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição. e o importador respondem. montagem.. interessa verificar se há possibilidade de transmitir ao consumidor informações que capacitem o consumidor do fornecimento em questão ao seguro consumo do produto ou serviço [17].

18 elenca as hipóteses em que há vício no produto. . além é claro. A falta de qualidade no fornecimento nem sempre é causa de danos à saúde.113 distribuídos a título gratuito. e) os serviços apresentem funcionamento insuficiente ou inadequado [23]. O art. a título de donativo para instituições filantrópicas ou com objetivos publicitários.) [20]. b) fazem com que o produto funcione mal. embalagem. integridade física e interesse patrimonial do consumidor.3 Responsabilidade pelo vício do produto e do serviço A responsabilidade por vício do produto ou serviço não está relacionada com aquela tratada pelos arts. sem causar dano à saúde/integridade física do consumidor. Da mesma forma são considerados vícios os decorrentes da disparidade havida em relação às indicações constantes do recipiente. rotulagem." Portanto.12 e ss. oferta ou mensagem publicitária. Para Rizzatto os vícios são aqueles problemas que: a) fazem com que o produto não funcione adequadamente. ou. como a entrega de bens a seus empregados. Os "vícios" no CDC são os vícios por inadequação (art. mas com eficiência reduzida] ao consumo a que se destinam e também que lhes diminuam o valor. ainda." [21] O CDC prevê três tipos de vícios por inadequação dos produtos: vícios de impropriedade. Coaduna de tal entendimento Zelmo Denari [19]: "A circunstância de o produto ter sido introduzido no mercado de consumo gratuitamente. 12 a 14. do defeito e do nexo de causalidade entre este e o dano sofrido pelo consumidor. doação de bens destinados a vítimas de catástrofes". d) não estejam de acordo com informações. vícios de diminuição do valor e vícios de disparidade informativa [22]. promoçõe publicitárias. Acentua Luiz Rizzatto Nunes: "São consideradas vícios as características de qualidade ou quantidade que tornem os produtos ou serviços impróprios [característica que impede seu uso ou consumo] ou inadequados [pode ser utilizado. c) diminuam o valor do produto. 18 e ss) e os vícios por insegurança (art. para haver a responsabilidade do fornecedor é necessário. Apresentando um vício existe a responsabilidade do fornecedor. não elide a responsabilidade do fornecedor. 1. que o produto entre no mercado de consumo de forma voluntária e consciente.

circunstância esta eximente da sua responsabilidade. por ato ilícito (roubo ou furto. Zelmo Denari [27] afirma que o defeito do produto ou serviço é um dos pressupostos da responsabilidade. de forma que se não ostentar vício de qualidade ocorre a quebra da relação causal ficando elidida a responsabilidade do fornecedor. posteriormente. para os produtos que. forma lanaçados no mercado. EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE 2." O inciso II do mencionado dispositivo legal. O dano foi. Nesse sentido manifesta-se Antonio Herman de Vasconcelos Benjamin [26]: "É até supérfulo dizer que inexiste responsabilidade quando os responsáveis legais não colocaram o produto no mercado. arrolada no inciso III. Isso vale especialmente para os produtos falsificados que trazem a marca do responsável legal ou. Da mesma sorte. ainda. ou com a usurpação do nome. § 3° e no artigo 14. Tais hipóteses estão elencadas no artigo 12. o nexo causal entre o prejuízo sofrido pelo consumidor e a atividade do fornecedor. mas inexiste nexo de causalidade entre ele e quaisquer das atividades do agente. I seriam aqueles relacionados com o furto ou roubo de produto defeituoso estocado no estabelecimento. § 3° do Código de Defesa do Consumidor [24]. Refere o autor: "Os exemplos mais nítidos da causa excludente prevista no inc. bem como o inciso I. trazem como excludente da responsabilidade do fornecedor a inexistência de defeito. Nega-se aí. § 3° do artigo 14. ou seja. em função do vício de qualidade. segundo Zelmo Denari [25].1 Previstas no CDC O Código de Defesa do Consumidor estipula as causas excludentes. as hipóteses que mitigam a responsabilidade do fornecedor pelo fato do produto e do serviço. Ressalta-se que a inexistência de qualquer dos defeitos elencados no caput do . causado pelo produto. cuidando-se. A primeira eximente. sem dúvida. o produto defeituoso tenha sido apreendido pela administração e. nesta última hipótese da falsificação do produto.114 2. por exemplo). § 3° do artigo 12. marca ou signo distintivo. diz respeito à introdução do produto no ciclo produtivo-distributivo de forma voluntária e consciente. pode ocorrer que. à revelia do fornecedor. tenha sido introduzido no mercado de consumo.

segundo as regras de experiência. E. No entender de Cláudia Lima Marques. quando o juiz considera verossímeis as alegações do consumidor. tratam da culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. Antônio Herman Vasconcelos Benjamin e Bruno Miragem: [28] "O sistema do CDC prevê a exoneração na hipótese do inciso III do § 3° do artigo 12. Entretanto. pois mesmo existindo no caso um defeito no produto. deverá ser demonstrada pelo fornecedor. como conseqüência. aplicável. de culpa exclusiva da vítima ou de terceiro. hipótese esta que no sistema da Directiva européia ficaria submetida ao ju´zio de valor do judiciário. embora permaneça integral a responsabilidade do fornecedor. ficando afastada tal responsabilidade no caso de culpa exclusiva do consumidor: "Se for caso de culpa concorrente do consumidor (por exemplo. inciso III. haverá redução do montante indenizatório. as informações do produto são insuficientes e também o consumidor agiu com culpa). no segundo. a redução do montante a ser pago a título de . Apenas se provar que o acidente de consumo se deu por culpa exclusiva do consumidor é que ele não responde". em caso de culpa concorrente. disolvendo-se a própria relação de causalidade. por fim. mas que no sistema do CDC exonera os fornecedores. Alberto do Amaral Junior [31] salienta que "o concurso de culpa do consumidor lesado produz. nos termos do artigo 6º. não haveria nexo causal entre o defeito e o evento danoso (cupla da vítima)". como o caput do artigo 12 dispõe que a responsabilidade é pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos. Dessa forma. ainda assim a responsabilidade do agente produtor permanece integral. em caso de culpa concorrente. inexistindo estes não há que se falar em dever de indenizar.115 artigo 12. a responsabilidade se atenua em razão da concorrência de culpa e os aplicadores da norma costumam condenar o agente causador do dano a reparar pela metade do prejuízo. Esclarece Zelmo Denari [29] que culpa exclusiva não se confunde com culpa concorrente: "no primeiro caso. cabendo à vítima arcar com a outra metade" Sustenta Luiz Antonio Rizzatto Nunes [30] que a responsabilidade do fornecedor permanece integral. o inciso III. em havendo a inversão do ônus da prova. § 3° do artigo 14. desaparece a relação de causalidade entre o defeito do produto e o evento danoso. § 3° do artigo 12 e o inciso II.

capaz de afastar a responsabilidade do fornecedor. Não admiti-la. entende a doutrina que. § 3° e 14. Assim. tanto que a lei não prevê como excludentes do dever de indenizar o caso fortuito e a força maior". prevê a exclusão da responsabilidade do fornecedor nos artigos 12. Nessa mesma linha Carlos Alberto Bittar [32]: "havendo culpas concorrentes. § 3°. descritas no artigo 393 do Código Civil. tais como o caso fortuito ou força maior. poderão forrar-se à reparação na proporção em que provarem a culpa do consumidor". o rol ali indicado é taxativo. 2. O Código. § 3° e 14. a doutrina aponta outras eventuais hipóteses de exclusão de responsabilidade. apesar de não ser excludente de responsabilidade. seria o mesmo que permitir o beneficío da integralidade indenizatória aquele que veio a concorrer para o evento lesivo. deve por este ser provada. tradicionais excludentes da responsabilidade. devendo se ater a sua forma declarativa ou estrita. Contudo. conforme mencionado. Antonio Herman de Vasconcelos Benjamin [35] afirma que a questão deve ser tratada de forma diversa: "A regra no nosso direito é que o caso fortuito e a força maior excluem a responsabilidade civil.1 Caso Fortuito e Força Maior Pela análise das eximentes expressamente previstas nos artigos 12. e não autoriza a inclusão dessas excludentes: "o risco do fornecedor é mesmo integral. Por essa razão discute-se na doutrina se o caso fortuito e a força maior podem ser considerados como excludentes para as relações jurídicas de consumo. § 3° do Código de Defesa do Consumidor. Para Roberto Senise Lisboa [34] se na interpretação das normas restritivas de direito não pode o interprete querer alargar a aplicação da norma. apesar do Código de Defesa do Consumidor não fazer menção à culpa concorrente do ofendido. riscos de desenvolvimento e exercício regular de direito. entre as causas excludentes de . verifica-se que este diploma legala silencia quanto o caso fortuito e a força maior.2.2 Outras Excludentes O Código de Defesa do Consumidor. Luiz Antônio Rizzatto Nunes [33] entende que por ter o § 3º do artigo 12 utilizado o advérbio "só".116 ressarcimento". deve ser considerada como atenuante no momento da fixação do montante indenizatório. Ressalta-se que a conduta culposa do consumidor. em havendo a inversão do ônus da prova. 2. não é possível aplicar as normas do Código Civil nas relações consumeiristas.

A força . Nesse sentido sustenta Fábio Ulhoa Coelho [39] que fica afastada a responsabilidade do fornecedor se demonstrar a presença de caso fortuito ou força maior. James Marins [38]sustenta que o caso fortuito ou a força maior poderão afastar a responsabilidade do fornecedor ou não dependendo do momento em que ocorreram. há a ruptura do nexo de causalidade. porque quebram a relação de causalidade entre o defeito do produto e o dano causado ao consumidor". da força maior ou do caso fortuito. que inexiste defeito ou que houve culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. em conseqüência. não os elenca. desde que posteriores ao fornecimento. e. ficando.117 responsabilidade. mesmo que o fato causador do defeito seja a força maior". mantendo-se. neste ponto. trata-se de uma impropriedade de redação: "O Código não pode obrigar o fornecedor a indenizar se sua inadimplência contratual ou responsabilidade aquiliana originaramse de caso fortuito ou de força maior". No entender de Eduardo Gabriel Saad. Também não os nega. responsabilizar-se o fornecedor de um eletrodoméstico. pois. posteriores ao fornecimento: "O fornecedor também é liberado do dever de indenizar em demonstrando a presença." João Batista de Almeida [36] salienta que "Apesar de não prevista expressamente na Lei de proteção. se o caso fortuito ou a força maior ocorrerem após a introdução do produto no mercado de consumo. Contudo. oferecendo riscos à saúde e segurança do consumidor. entre as causas do acidente de consumo. não foi afastado. por exemplo. causa incêndio e danos aos moradores: inexistiria nexo de causalidade a ligar eventual defeito do aparelho ao evento danoso". então. Caso se manifestem antes da inserção do produto no mercado de trabalho. o fornecedor responderá pelos danos: "Isto porque até o momento em que o produto ingressa formalmente no mercado de consumo tem o fornecedor o dever de garantir que não sofre qualquer tipo de alteração que possa torná-lo defeituoso. a capacidade do caso fortuito e da força maior para impedir o dever de indenizar. Exemplifica o autor: "Não teria sentido. afastada a responsabilidade do fornecedor. se um raio faz explodir o aparelho. ambas as hipóteses possuem força liberatória e excluem a responsabilidade. Logo. quer me parecer que o sistema tradicional. Branco [37] muito embora o artigo 12 especifique que o fornecedor apenas não será responsabilizado quando provar que não colocou o produto no mercado. José Eduardo Duarte Saad e Ana Maria Saad C.

quais sejam defeito. decorrido determinado período do início de sua circulação no mercado de consumo. haverá a quebra do nexo causal. ou seja. Dessa forma. a maioria da doutrina parece consolidar o entendimento de que ocorrendo o caso fortuito ou a força maior. (.. consistem: "(. se discute na doutrina a adoção pelo CDC dos riscos de desenvolvimento como eximentes da responsabilidade do fornecedor. parte dos autores entendem que estão pressupostos da responsabilidade do fornecedor. uma vez que o fundamento racional da responsabilidade objetiva do empresário. vindo a ser descoberto somente após um certo período de uso do produto e do serviço. Por exemplo. a interpretação acerca do disposto no inciso III do §1º do art. ocorrendo todavia.. 12 do Código de Defesa do Consumidor. dano e nexo causal.118 maior ou o caso fortuito anteriores ao fornecimento não configuram excludente de responsabilização.2 Riscos do desenvolvimento Os riscos do desenvolvimento. se o eletrodoméstico é inutilizado por um raio. se encontra exatamente na constatação da relativa inevitablidade dos defeitos no processo produtivo.. por acidente de consumo." Percebe-se que a doutrina. ante o grau de conhecimento científico disponível à época de sua introdução.2. Contudo. 2.) Com efeito a manifestação de tais fatores. nesse ponto. pois. venha a se detectar defeito. Antônio Herman de Vasconcellos Benjamim [41] conceitua os riscos do desenvolvimento como: "aquele risco que não podem ser cientificamente conhecidos ao momento do lançamento do produto no mercado. por isso. restando. não se responsabiliza o empresário pelos prejuízos do consumidor.. o defeito. enquanto outros afirmam inexistir um desses pressupostos. divide-se entre defensores e oposicionistas. ainda que exaustivamente testado. desconstitui qualquer liame causal entre o ato de fornecer produtos ao mercado e os danos experimentados pelo consumidor. não se podendo responsabilizar o fornecedor por aquilo que não deu causa. O centro dessa divergência é. posteriormente ao fornecimento. Há divergência doutrinária quanto a caracterização dos riscos do desenvolvimento como hipótese de defeito dos produtos. .. somente identificável ante a evolução dos meios técnicos e científicos. capaz de causar danos aos consumidores". afastada a responsabilidade. segundo James Marins [40]. que. posteriormente. nem tinha como prever ou evitar.) na possibilidade de que um determinado produto venha a ser introduzido no mercado sem que possua defeito cognoscível.

.119 Zelmo Denari [42] coloca-se entre os que defendem a não adoção da eximente dos riscos de desenvolvimento sutentando que "a dicção normativa do inc. entretanto. James Marins requisito temporal afirma: [44] .. conforme sustenta João Calvão da Silva [45]. 12 representa a adoção da teoria dos riscos de desenvolvimento. Para essa compatibilização devemos considerar dois requisitos: a) o primeiro. afirmando que o inciso III do § 1º do art. Diante disso não se pode dizer ser o risco de desenvolvimento defeito de criação. b) o segundo. Surge. Caso contrário. do Código de Defesa do Consumidor. produção ou informação. com a responsabilidade objetiva imposta ao fornecedor. como propôs a Comunidade Econômica Européia" Marcelo Junqueira Calixto [43] adota posicionamento contrário. ao manifestar-se sobre o referido "." Nesse mesmo sentido. que podemos chamar de "requisito temporal". §1º. enquadramento este que é indispensável para que se possa falar em responsabilidade do fornecedor". os quais chama de requisito temporal e requisito técnico. em nível legislativo. é lícito ao fornecedor inserir no mercado de consumo produtos que não saiba nem deveria saber resultarem perigosos porque o grau de conhecimento científico à época da introdução do produto no mercado de consumo não permitia tal conhecimento. seria responsabilizado o fornecedor por um defeito que não tinha como perceber no momento em que colocou o produto em circulação: "teríamos uma aplicação retroativa do padrão ou de medida de . não era possível ser descoberto pelo estado dos conhecimentos técnicos e científicos contemporâneo à introdução do produto no mercado de consumo. prevista como regra. diz respeito ao critério para avaliação do estado da ciência e da técnica. sendo o momento a ser considerado para a verificação dos estado dos conhecimentos científicos e técnicos e o segundo o critério para avaliação do estado da ciência e da técnica: "De início deve ser lembrado que a Diretiva 85/374/CEE expressamente faz referência à existência de um defeito que. por nós chamado de "requisito técnico". a necessidade de se compatibilizar a excludente. III do artigo 12. está muito distante de significar adoção da teoria dos riscos de desenvolvimento. então. Ensina o mencionado autor que para compatibilizar a os riscos do desenvolvimento com a responsabilidade do fornecedor devem ser analisados dois aspectos. diz respeito ao momento que deve ser tomado em consideração para a verificação do estado dos conhecimentos científicos e técnicos.

o credor remete carta ao devedor dizendo (ameaçando) que irá ingressar com ação judicial para cobrar . nesse sentido Fábio Ulhoa Coelho [46]. por exemplo. também. entende a doutrina que por ser ele ato lícito. o momento da distribuição do produto. Conforme o entendimento de Luiz Antônio Rizzatto Nunes [48]. são exemplos de exercício regular de direito do fornecedor e. Tem a possibilidade até mesmo de ameaçar. "desde que tal ameaça decorra daquele regular exercício de cobrar. No tocante ao requisito técnico.3 Exercício regular de direito O inciso I do artigo 188 do Código Civil prevê que o exercício regular de um direito reconhecido não constitui ato ilícito. à época da introdução do produto ou serviço no mercado de consumo." Posiciona-se. 2. com a conseqüente inclusão do nome do devedor em banco de dados. Verifica-se que a doutrina entende ter o Código de Defesa do Consumidor adotado a teoria dos riscos de desenvolvimento e ressalta a necessidade de avaliação do grau de conhecimento científico. Muito embora o Código de Defesa do Consumidor silencie quanto ao exercício regular de direito. mesmo que provoquem transtornos ao consumidor. Realizar cobrança.120 responsabilidade. portanto. de atos lícitos. Contudo. o empresário não deve ser responsabilizado com fundamento nem na periculosidade (pois prestou informações sobre os riscos adequados e suficientes). salienta Antônio Herman de Vasconcelos Benjamin [47] que a análise do grau de conhecimento científico não é feita tomando por base um fornecedor em particular. aquilo que sabe a comunidade científica em determinado momento histórico. de acordo com a comunidade científica. vale ressaltar que. enviar um título vencido e não para cartório de protesto. tais direitos devem ser exercidos pelo fornecedor atendendo aos ditames dos artigos 42 e 43 do Código de Defesa do Consumidor. ao referir: "ao fornecer no mercado consumidor produto ou serviço que. apresenta riscos cuja potencialidade não pôde ser antevista pela ciência ou tecnologia. afastada estará a responsabilidade do fornecedor. o credor tem o direito de cobrar seu crédito do consumidor inadimplente.2. posteriormente. somente não podendo fazêlo de forma abusiva. nem na defeituosidade (porque cumpriu o dever de pesquisar)". afastando a responsabilidade civil. pois à luz do novo conhecimento e tecnologia responsabilizar-se-ia o fabricante por um defeito existente mais indetectável no estado da ciência e da técnica em momento anterior.

2005 . 1990. . Curso de direito comercial. 1993. Carlos Alberto. A proteção jurídica do consumidor. Alberto do. Carlos Alberto. também. Macelo Junqueira. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. 2005. Rio de Janeiro: Renovar. O dever indenizatório decorrente da responsabilidade comporta exceções. BENJAMIN. São Paulo: Saraiva. Fabio Ulhoa. São Paulo: Saraiva. 9. AMARAL JUNIOR. nas relações de consumo. entende a doutrina existirem outras aplicáveis. Tais excludentes são aquelas expressas no próprio CDC. Antonio Herman de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Conclusões A responsabilidade civil prevista no Código consumeirista é objetiva. 1991. BITTAR. {et. 1993. João Batista de. São Paulo: RT. por ser ato lícito. a força maior e o exercício regular de direito. não dará ensejo a responsabilização do fornecedor. como o caso fortuito. COELHO. Proteção do consumidor no contrato de compra e venda. p. 30. Zelmo e outros. Comentários ao código de proteção do consumidor – coordenador: Juarez de Oliveira. al. O Empresário e os direitos do consumidor. I. Direitos do Consumidor. Porém. São Paulo: Saraiva.. 2004. o exercício regular de um direito.ed. agindo de forma abusiva. BITTAR. São Paulo: Saraiva. Responsabilidade Civil – Teoria e Prática. CALIXTO. A responsabilidade civil do fornecedor de produtos pelos riscos do desenvolvimento.} – 8ª ed. Rio de Janeiro. DENARI. ________. Forense Universitária. 1994. Somente haverá responsabilização caso o fornecedor viole os dispositivos que disciplinam a ação regular de cobrança e o cadastro de consumidores em bancos de dados.121 o débito" Assim. bastando ao lesado comprovar o dano e o nexo causal. vol. Referências Bibliográficas ALMEIDA.

ROCHA. Bruno Miragem. São Paulo: RT. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Caio Mário da Silva. Assim. Os fatos jurídicos são aqueles que têm relevância jurídica e dividem-se em: naturais (decorrem de acontecimentos da própria natureza) e voluntários (têm origem em condutas humanas capazes de produzir efeitos jurídicos). Coimbra: Livraria Almedina. Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts.34. LOBO. SILVA. A responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro. Luiz Antonio Rizzatto. Roberto Senise. 8. Antônio Herman V. Branco. LISBOA. MARQUES. 2001. 2 tiragem. MARINS. São Paulo: RT. 2000 SAAD. Responsabilidade Civil. 2003. São Paulo: Revista dos Tribunais. E ampl. 1993. São Paulo: Malheiros. p. 2000. abril-junho. Benjamin. 2006. 1º a 54). São Paulo: Saraiva. Contratos no Código de Defesa do Consumidor 3 ª ed.. . ª NUNES. 1999. p. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor e sua jurisprudência anotada: Lei n. 29. Revista de direito do consumidor. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor:direito material (arts. 2000. SILVA. Responsabilidade civil do produtor. ver. 2005. São Paulo: LTr.122 FILHO. Responsabilidade civil nas relações de consumo. Paulo Luiz Netto. Wilson Melo da. N. Caio Mário da Silva. Claudia Lima. Notas 01 02 PEREIRA. Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. 1990. José Eduardo Saad e Ana Maria Saad C. PEREIRA. Os voluntários se dividem em: lícitos (fato praticado em harmonia com a lei) e ilícitos (fato que viola o dever imposto pela norma jurídica). Eduardo Gabriel. Cláudia Lima.078/90/ Eduardo Gabriel Saad. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. Responsabilidade sem culpa. 6ª ed. São Paulo: Saraiva. Programa de Responsabilidade Civil. João Clavão da. MARQUES. Sérgio Cavalieri. James. Silvio Luís Ferreira da. a responsabilidade civil surge pela prática de um ato ilícito. São Paulo: Revista dos Tribunais. 29. Responsabilidade Civil.

N. 263. 225. Luiz Antônio Rizzatto. 497. dolosa e culposa. 10 11 12 09 SILVA.. 2005. Responsabilidade Civil – Teoria e Prática. 2 tiragem. 2000. FILHO. p. abriljunho.} – 8ª ed. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover.34. FILHO.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Sérgio Cavalieri. p. Paulo Luiz Netto. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. Carlos Alberto. 28. p. Revista de direito do consumidor. 2ª ed. 188.. 498. 150-51.. Benjamin. 104. São Paulo: RT. p. isto é. p. A culpa. ª ª 08 Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. al. Sérgio Cavalieri. 2005. COELHO. Curso de direito comercial.. Antônio Herman V. Contratos no Código de Defesa do Consumidor 3 ed. 06 07 BITTAR. p. São Paulo: Revista dos Tribunais. Claudia Lima. Fábio Ulhoa. Bruno Miragem. São Paulo: Saraiva. no presente trabalho. MARQUES. A responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro. p.p. p. 2003. 2000. Responsabilidade sem culpa. Sérgio Cavalieri. " §4º A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante verificação da culpa. LOBO. 15 16 14 13 FILHO. 1999. 2005. 30. Comentários ao código de defesa do consumidor. 279. Programa de Responsabilidade Civil.100. São Paulo: Saraiva. Ob.123 03 04 05 Ressalte-se que há casos em que o ato lícito gera o dever de indenizar." Nesse sentido: " Cirurgião – dentista – Direito do consumidor – Facilitação de defesa – ônus da prova – Inversão – Possibilidade – Profissional liberal – Responsabilidade Civil" (RSTJ 115/271). Ob cit. I. deve ser entendida como latu sensu. p. Programa de Responsabilidade Civil.. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. vol. Cit. {et. NUNES. Fabio Ulhoa. . 19 . Wilson Melo da. 17 18 COELHO. 9. 2000. p.

p. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais.. o construtor.124 Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts.que.) 3° O fabricante. o construtor. II . 286. 213-4. III . Cit.. 2005... montagem.) 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar: I . Rio de Janeiro: Forense Universitária. 25 . tendo prestado o serviço.a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. (.que não colocou o produto no mercado. Benjamin. ob. 286. 14. Bruno Miragem.} – 8ª ed. 2003. embora haja colocado o produto no mercado. p. 278... Luiz Antônio Rizzatto. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar: I . Ob. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto. Bruno Miragem. 21 22 20 NUNES. nacional ou estrangeiro. 188. p.a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. manipulação. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços. O fabricante. 2003. p. Antônio Herman V. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor: arts. apresentação ou acondicionamento de seus produtos. o produtor. 23 24 NUNES. Antônio Herman V. O fornecedor de serviços responde. e o importador respondem. Luiz Antônio Rizzatto. Art. Benjamin. (. Art. 12. al. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. o defeito inexiste. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. II . construção.. {et. independentemente da existência de culpa. independentemente da existência de culpa.que. p. fabricação. o defeito inexiste. . fórmulas. Cit.

69. 1993. 1993. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. Responsabilidade civil nas relações de consumo. São Paulo: LTr. 32 33 31 30 29 28 27 26 Direitos do consumidor.078/90/ Eduardo Gabriel Saad. {et. Rio de Janeiro: Forense Universitária. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. . José Eduardo Saad e Ana Maria Saad C.. 1993. 67. p. São Paulo: RT. 2005. 65. p. 227. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. al. ver. São Paulo: Saraiva. p. p. São Paulo: RT. 2001. 1990. Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. 271. São Paulo: Revista dos Tribunais. {et. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor e sua jurisprudência anotada: Lei n. p. Curso de Direito Comercial. 278.} – 8ª ed. vol I. São Paulo: Saraiva. Antônio Herman V. 2000. Rio de Janeiro: Forense universitária. – Coordenador Juarez 153. 1991. 36 37 35 34 A proteção jurídica do consumidor. Proteção do consumidor no contrato de compra e venda.125 Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. p. p. 288. 6ª ed. p. 41 . 1991. 2006. 170. Bruno Miragem. São Paulo: Saraiva. 8. 281. Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. p. p. al. p. 2003. 188. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. p. 35. 38 Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. 1993.} – 8ª ed. . 39 40 128. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2000. São Paulo: RT. E ampl. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. Benjamin. 2005. São Paulo: Saraiva.. São Paulo: Saraiva. São Paulo: Saraiva. p. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor – Coordenador Juarez de Oliveira. 169. p. 189. 2005. p. Branco.

p. 67 Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. p. p. p. São Paulo: Saraiva. p. 84. 2000. São Paulo: Saraiva. O empresário e os direitos do consumidor. {et. . p. 46 47 Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor – Coordenador Juarez de Oliveira. 2005. 1990. 506.126 de Oliveira. al. 186-187. Responsabilidade civil do produtor. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Coimbra: Livraria Almedina. 44 43 42 Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. A responsabilidade civil do fornecedor de produtos pelos riscos do desenvolvimento. 1994.} – 8ª ed. p. 200. 45 509. 1991. 135. São Paulo: Saraiva. 1991. São Paulo: Saraiva. 48 Vícios no Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor: diferenças Autor: Ricardo Canguçu Barroso de Queiroz Em consequência da revolução tecnológica. 2004. a produção e a comercialização se . 67 Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. Rio de Janeiro: Renovar. 1993. p. São Paulo: RT..

enquanto que no sistema do CDC "defeito" é vício mais dano à saúde ou segurança. estando associado. a noção de vício no CDC é bem mais eficiente do que a estabelecida pelo direito tradicional. considera-se irrelevante que o consumidor tenha ou não conhecimento do vício e tenha ele surgido antes ou depois da tradição do produto. resultando na evolução da produção em pequena escala para a produção em série. seja o comerciante. mas . O sistema do Código Civil. os ocultos. não há necessidade de haver relação contratual entre o consumidor e o sujeito passivo demandado pelo vício do produto ou serviço. senão vejamos: a)Para o CC as expressões "vício" e "defeito" são equivalentes. portanto aos fatos do produto ou serviço e "vício" está associado à deficiência de qualidade ou quantidade do produto ou serviço. o distribuidor. desde que dentro dos prazos decadenciais.127 dissociaram. No CDC. como vigora a vulnerabilidade do consumidor. apenas. com berço no individualismo negocial. com quem contratou diretamente. ou todos eles conjuntamente. a responsabilização pelos vícios da coisa. provenientes de erros técnicos e falhas no processo produtivo. o fabricante. assim. sendo que tais problemas só foram suprimidos com o advento do Código de Defesa do Consumidor. a não mais corresponder às expectativas do mercado de consumo e do progresso tecnológico da produção em massa. Assim. abrangendo. Ante a necessidade de uma proteção mais ampla do consumidor na relação de consumo. além da inversão do ônus da prova em favor do consumidor. e com o objetivo de estabelecer-se o equilíbrio contratual. dada a grande diversidade de produtos no mercado. c)O CC não prevê a solidariedade entre os fornecedores componentes da cadeia de produção e comercialização. por sua vez. há solidariedade entre os componentes da cadeia de fornecedores . afinal como já falamos. No CDC. Já no CDC o consumidor poderá acionar quaisquer dos componentes da cadeia de produção e comercialização. só é permitida se esta tiver sido recebido em virtude de relação contratual (contratos comutativos ou doação com encargo). assim. o consumidor só pode acionar o fornecedor direito. passou. em que o mais importante era a preservação do contrato. baseada na culpa do fornecedor. aumentaram os riscos ao público consumidor. d)Pelo CC. no CDC a responsabilidade pelos vícios é subjetivo com presunção de culpa do fornecedor. f)O CC não prevê proteção aos vícios ocorridos na prestação de serviços. Além disso tais devem ser preexistentes ou contemporâneos à entrega da coisa. e)O CC não prevê responsabilização pelos vícios aparentes ou de fácil constatação. b)Enquanto no CC vigora a responsabilidade subjetiva pura.

No CDC as possibilidades estão ampliadas. Já no CDC havendo relação de consumo. RT: São Paulo. Revista de Direito do Consumidor n. estabelecendo dentre as hipóteses a substituição do produto. g)No CC caso comprovada a boa-fé (ignorância) do alienante será obrigado a restituir apenas a coisa viciada. o CDC tais prazos se iniciam a partir do momento em que o consumidor toma conhecimento do vício ou do dano (a prescrição é de 5 anos).Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto .Revista de Direito do Consumidor n. assim como. a restituição da quantia paga ou abatimento do preço. 4 – DENARI.São Paulo: Ed. 3 . a possibilidade da troca do produto por outro de espécie.Rio de Janeiro: Forense Universitária.LISBOA. Por sua vez. de maneira que somente quando comprovada a má-fé aquele será responsabilizados por perdas e danos. . BIBLIOGRAFIA 1 .128 tão somente do produto.Vício do Produto e a exoneração da responsabilidade. para obter-se a reparação integral (danos materiais + danos pessoais). mediante complementação ou restituição de eventual diferença de preço. 05 . h)O CC só prevê duas possibilidades de reparação: a ação redibitória (o contrato é levado a termo e o comprador é restituído integralmente pelo pagamento) ou a ação estimatória (o comprador obtém a redução do valor pago). i)No CC os prazos de prescrição e decadência são contados à partir da entrega da coisa (a prescrição é de 15 dias para bem móvel e 6 meses para bem imóvel).A responsabilidade pelos vícios dos Produtos no Código de Defesa do Consumidor . pouco importa o comprovação ou não de má-fé do fornecedor.CARNEIRO. Zelmo .JÚNIOR. marca ou modelo diverso. 1999.São Paulo: Editora RT. ou seja. enquanto que o CDC contempla ao consumidor as possibilidades de exigir a reexecução do serviço. Ed. a restituição da quantia paga ou o abatimento do serviço caso encontre-se responsabilidade do fornecedor de serviços pelos vício de adequação (quantidade e qualidade). a culpa não enseja a responsabilização pelos danos materiais (lucro cessante + dano emergente) ou pessoais (morais). 1998 2 . 03. RT. 1993. Alberto do Amaral . Odete Novais .Da Responsabilidade por Vício do Produto e do Serviço . 1992. Roberto Senise .

Fornecedor. que recebem tratamento jurídico diferenciado pelo Código de Defesa do Consumidor.º 8. de acordo com a finalidade para a qual foram desenvolvidos e que. Haverá. observa-se claramente que o regramento que é dispensado à matéria tem reflexo imediato na segurança dos consumidores. tendo-se. um novo conceito. o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor (Lei n. Ao fim. a responsabilidade civil do fornecedor pode emergir em decorrência de diversas espécies de vícios dos produtos. uma vez que impõe aos fornecedores o dever de colocar no mercado produtos indenes de vícios. a fim de evitar que eventuais danos venham a ocorrer pela imperícia natural dos consumidores. Consumidor. [03] É o que a doutrina uruguaia chama de Principio de Autoresponsabilidad. hodiernamente. O fornecedor deve assegurar ao consumidor a correta utilização do produto.129 A responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos no Código de Defesa do Consumidor Autor: Fabrício Castagna Lunardi Resumo O instituto da responsabilidade civil evoluiu rapidamente nas duas últimas décadas. proporcionando-lhe as informações necessárias para tal. 1. que é assentado na solidariedade social e na efetiva reparação dos danos aos consumidores. a responsabilidade civil legal. Introdução O produto adquirido pelo consumidor deve corresponder a exatamente aquilo que dele se espera. assim.078/90) adotou o Princípio da Confiança. simultaneamente. sob pena de responsabilização. [01] Para proteger a legítima expectativa que tem o consumidor na qualidade e utilidade do produto. a responsabilidade civil por vícios de inadequação ou por vícios de insegurança. Cria-se. ofereçam segurança aos seus usuários. [02] segundo o qual o produto deve proporcionar ao consumidor exatamente aquilo que ele esperava ou deveria esperar quando o adquiriu. um novo modelo de responsabilidade. No âmbito das relações de consumo. A justa expectativa dos consumidores e do público em geral frente aos produtos lançados no mercado é a de que eles funcionem regularmente. Palavras-chave: Responsabilidade. [04] que informa que o . com isso.

à medida que não há um controle individual da adequação e segurança de cada unidade que é lançada no mercado. impróprio para o fim a que se destina e desatendendo a legítima expectativa do consumidor. Os produtos defeituosos acabam sendo um resultado marginal e inexorável da produção industrial. Por isso. ou na sua quantidade. portanto. bastando a verificação de que a informação sobre a qualidade ou quantidade não corresponde verdadeiramente ao que o produto proporciona. tem o fabricante o dever de controlar o processo de produção e de conhecer todas as inovações tecnológicas. além dos que lhe são ínsitos e de conhecimento geral. prejudicando seu uso e fruição ou diminuindo o seu valor. do refrigerador que não mantém os produtos em baixa temperatura. Outrossim. a classificação dessa espécie de vícios em vícios de inadequação na qualidade e vícios de inadequação na quantidade. pode ocorrer na qualidade do produto. é utópico. . mostrando-se. quando afetem sua prestabilidade e utilização. como adiantes se demonstrará. a fim de prevenir a ocorrência de danos. A inadequação. e não colocar no mercado produtos que ofereçam riscos. de modo a não induzir o consumidor em erro. É o caso. 2. Ocorrem. pois é responsável por aquilo que informa na oferta. surge para o produtor uma dupla obrigação: fornecer produtos adequados às suas próprias finalidades. o que varia de acordo com a espécie de vício (ou defeito) que apresenta o produto. por exemplo. ainda. cresceu a incidência de vícios e defeitos nos produtos. quando o peso ou a medida informada não corresponder à prestada pelo fornecedor ou à indicada na embalagem. Dessa sorte. [06] A par disso. mantendo o produto sempre atualizado em matéria de segurança. baseado na inexistência de produtos com avarias.130 fornecedor deve prestar informações de forma clara. A constatação desses vícios se faz por um critério objetivo. quando a informação prestada não corresponde verdadeiramente ao produto. que tem como característica principal a produção em série. precisa e sem ambigüidades. Dos vícios de inadequação e dos vícios de insegurança Os vícios de inadequação são aqueles que afetam a prestabilidade do produto. [05] No entanto. de qualquer forma. existem diferentes instrumentos jurídicos para reparar os danos e prejuízos causados aos consumidores. Com o surgimento e alargamento do processo de industrialização. da lata de extrato de tomate que não contém a quantidade informada na embalagem etc. da televisão que não tem boa imagem. o modelo ideal de produção.

e não mais a punição do responsável.º 8." [11] O elemento central passa a ser a reparação ou prevenção do dano ou prejuízo.078/90. Com o passar do tempo." [12] Esse conceito. é verdadeira a premissa de que. Obrigação é sempre um dever jurídico originário. Na nova definição de responsabilidade. Tem ínsito um perigo de dano patrimonial ou extrapatrimonial. Por razões como essa. da Lei n. contraprestação. encargo. Em um conceito sintético e geral. o elemento sanção ou retribuição foi mitigado. [07] 3. Podem ocorrer. não se pode confundir as noções de obrigação e de responsabilidade civil. entretanto. a época em que foi colocado em circulação. com a ofensa a um bem jurídico. [08] exprimindo a idéia de obrigação. mas em decorrência de ato lícito. defeitos de construção (ou execução). 12 a 17 da Lei n.078/90. no entanto. em face de defeitos de projeto (ou concepção). por sua vez. dizer-se que não existe um conceito unitário que abranja todas as modalidades de responsabilidade civil. enquanto a . para haver responsabilidade civil. levando-se em consideração a sua apresentação. Os vícios de insegurança são tratados nos arts. A doutrina de direito civil costuma definir a responsabilidade civil com base numa conduta causadora de um dano. [09] com fundamento na obrigação de indenizar. dentre outras circunstâncias. são aqueles defeitos que fazem com que o produto seja potencialmente danoso à integridade física ou ao patrimônio do consumidor. [10] ou com supedâneo no inadimplemento contratual.º 8.131 No Brasil. segundo a doutrina brasileira. o uso e os riscos normais. são os vícios de inadequação tratados nos arts. Os vícios de insegurança. Ocorrem quando o produto não apresenta a segurança que dele legitimamente se espera. a noção de responsabilidade implica sempre a violação de um dever. não se pode mais dizer que a responsabilidade jurídica está "essencialmente ligada à retribuição. deverá sempre haver o dano jurídico. não abrange todas as modalidades de responsabilidade civil. Responsabilidade civil no âmbito das relações de consumo Na dogmática. De outro lado. De qualquer sorte. pode-se definir a responsabilidade civil como "um dever jurídico sucessivo que surge para recompor o dano decorrente da violação de um dever jurídico originário. pois haverá casos em que surge a responsabilização sem a violação a um dever jurídico. defeitos de desenvolvimento e defeitos de informação. do qual exsurge o dever de reparação. 18 e segs.

porque os custos de ressarcimento devem recair sobre o fabricante e o fornecedor. a responsabilidade civil objetiva do fornecedor é o sistema de reparação de danos mais adequado aos tempos modernos. A responsabilidade extracontratual. encontra-se que a responsabilidade civil pode ser classificada em contratual e extracontratual. deriva. patrimonial ou extrapatrimonial. ultrapassa as fronteiras da culpa. desafiando soluções jurídicas inéditas. e não do contrato. porque. A responsabilidade civil é tema de permanente atualidade e vem ganhando importância e mutação à medida que a evolução industrial produz novas tecnologias. por exemplo. [15] de modo que o prejuízo causado a um consumidor seja suportado por toda a sociedade. O fundamento social da reparação do dano está arraigado nas noções de assistência. o que determinou um redirecionamento dos princípios que regiam a matéria. deu-se entrada. causado ao consumidor pela existência de vícios de inadequação e de insegurança do produto. na sistemática do direito do consumidor. O verdadeiro escopo dessa evolução é a preocupação de assegurar melhor justiça distributiva. cujo valor do prêmio se incorporará ao preço de venda. encontrando supedâneo na solidariedade social.132 responsabilidade é um dever jurídico sucessivo. a quem cabe controlar a qualidade e a segurança dos produtos. mediante. [17] Com efeito. geralmente. vale dizer. de um ato ilícito. base de uma responsabilidade sem culpa. de modo que será responsabilizado civilmente aquele que inadimplir essa obrigação. além disso. à consciência da necessidade de proteção das vítimas e das partes mais fracas nas relações sociais. [16] Esse novo modelo de responsabilidade não se centra mais em apenas punir o autor de uma conduta antijurídica. porque oferece maiores garantias de proteção às vítimas. ou seja. em vista de situações que demandam regulamentação jurídica específica. Responsabilidade contratual é aquela que decorre diretamente e em função de um contrato. na necessidade de reparação ou prevenção do dano. de uma obrigação contratual originária. o fornecedor tem melhores condições de suportar o risco do produto. em relação à matéria de proteção do consumidor. de uma obrigação jurídica que decorre de uma norma legal. ainda que o consumidor seja diligente. Em face das transformações sociais ocorridas pela constante evolução industrial e dos riscos gerados aos consumidores. paulatinamente. também chamada de aquiliana. resta superada. por fim. [14] A responsabilidade civil. Em primeiro lugar. Essa distinção. seguro de responsabilidade. corolário da violação do primeiro. senão no interesse em restabelecer o equilíbrio econômico-jurídico alternado pelo dano. entretanto. previdência e garantia. [13] Na dogmática. distribuindo-se o custo entre os próprios .

decorrentes principalmente do desconhecimento do processo industrial e da crescente automação." [19] Efetivamente. estocar. de uma imputação que decorre estritamente da lei. distribuir e comercializar produtos ou executar determinado serviço. como a daquele fornecedor que tem vínculo contratual apenas com a cadeia de fornecedores. [23] De outro lado. por motivos de política-econômica. por influência das grandes empresas. Alguns países. a doutrina brasileira tem chamado esse novo modelo de responsabilidade civil de responsabilidade legal. o que . e que a responsabilidade civil não deriva do contrato ou de ato ilícito. a ser uma relação entre a atividade empresarial e um sujeito. deve responder pelos prejuízos que causar. sim. [21] Se o fornecedor introduz um risco para a sociedade. foi além. [22] Com efeito. A responsabilidade decorre do simples fato de realizar a atividade de produzir. então. razão pela qual lhe é transferido o ônus de provar uma das causas excludentes de sua responsabilidade para que se exima de reparar o dano ou os prejuízos. Assim. todavia. acabavam por dificultar a imputação do fato lesivo ao seu autor. e também. independentemente de culpa. [18] Acrescente-se que o fornecedor está em melhores condições de produzir a prova sobre o ocorrido. há. Tendo em vista que a imputação decorre estritamente da lei. a imputação de responsabilidade conjunta entre os fornecedores vinculados ou não por laços contratuais com o consumidor. se facilita a la víctima el acceso a la reparación. muitas vezes. A doutrina brasileira. O acolhimento da teoria do risco e da responsabilidade objetiva é a tendência moderna nos países que possuem legislação específica sobre direito do consumidor. as dificuldades que tinham os consumidores na busca da prova. mantém-se fiéis ao dogma da responsabilidade civil baseada na culpa. Essa responsabilidade legal dos fornecedores tem como fundamento a Teoria da Qualidade. De acordo com a Teoria do Risco. a responsabilidade civil não deriva do contrato ou de um dano que alguém gera a outrem fora do contrato. criando uma nova modalidade de responsabilidade civil. no Brasil. mas. segundo a qual a lei imporia a toda a cadeia de fornecedores um dever de qualidade dos produtos que são colocados no mercado e dos serviços que são prestados.133 consumidores. todo aquele que exerce atividade no mercado de consumo tem o dever de responder pelos eventuais vícios ou defeitos dos bens e serviços fornecidos. abrangendo nesse conceito tanto a responsabilidade do fornecedor que celebra o contrato com o consumidor. "al no exigirse la prueba diabólica de la culpa. [20] A responsabilidade civil passa. prescindindo da existência de culpa. na chamada responsabilidade por risco da empresa. no entanto.

dispõe sobre os vícios de inadequação na quantidade. geralmente ele será o demandado. 18 e seguintes. enquanto. caput. que cause um dano efetivo ao patrimônio. b) a restituição imediata da quantia paga. como o dever jurídico que surge para o fornecedor em conseqüência de um vício de inadequação ou de insegurança do produto ou serviço. Com base nesses delineamentos. sem prejuízo de . pode-se conceituar a responsabilidade civil.º ao 6. surgem para o consumidor as seguintes alternativas: a) a substituição do produto por outro da mesma espécie. 19. Destarte. portanto. 18. à integridade física ou à vida do consumidor. o dano ou prejuízo ao consumidor e o nexo de causalidade. Os elementos identificadores e que geram a responsabilidade civil do fornecedor são. e não sendo sanado esse vício num prazo máximo de 30 (trinta) dias. De acordo com a lei consumerista brasileira.134 demonstra a tendência moderna de ir além da responsabilidade contratual e extracontratual. Nos §§ 1. Com isso. pois a reparação diz respeito ao produto. surgirá a responsabilidade civil do fornecedor por vícios de inadequação. ao menos direta. poderá o consumidor demandar qualquer um dos integrantes da cadeia de fornecedores. monetariamente atualizada. pois não há relação contratual. a responsabilidade está in re ipsa. Por ser o comerciante com quem contratou o responsável mais próximo. constata-se que a responsabilidade civil é extracontratual. 3. no direito consumerista brasileiro. já que a relação contratual se estabelece somente entre o consumidor e o fornecedor direto. no art. no art. trata da responsabilidade civil por vícios de inadequação na qualidade. uma solidariedade [24] entre todos os fornecedores da cadeia de produção em relação à reparação dos prejuízos causados ao consumidor em razão da inadequação do produto ao fim que se destinava. o vício (ou defeito) no produto. O Código Brasileiro de Defesa do Consumidor trata da responsabilidade civil por vícios de inadequação do produto em seus arts.1. A responsabilidade civil por vícios de inadequação dos produtos Quando o produto não proporcionar a utilização que dele legitimamente se esperava. 18. o consumidor somente precisa demonstrar a verossimilhança da existência desses três elementos. com os demais integrantes da cadeia de fornecedores.º do art. Para obter a indenização. Prevê. Nesse caso. incumbindo ao fornecedor a prova de alguma das excludentes de sua responsabilidade. centrando o dever de reparar na solidariedade social e na Teoria do Risco. ocorrendo o vício de inadequação na qualidade do produto. em perfeitas condições de uso.

em face da extensão do vício.º do art. 18. sem prejuízo da eventual complementação ou restituição de valores (§ 1. no art. sem precisar obedecer a qualquer prazo. não podendo. surge para a cadeia de fornecedores o dever de reparar. poderá o consumidor optar por uma das seguintes alternativas: a) abatimento proporcional do preço. Constatados os vícios de inadequação na quantidade do produto. 3.2. quando optar pela substituição do produto por outro de mesma espécie e esta não for possível. O fornecedor imediato será responsabilizado quando fizer a pesagem ou medição e o instrumento utilizado não estiver regulado segundo os padrões oficiais (§ 2. sem prejuízo de ressarcimento por eventuais perdas e danos (art. Cabe ressalvar que. Esse prazo para o conserto do produto pode ser ampliado ou reduzido pelas partes. marca ou modelo. incs. ser inferior a 7 (sete) nem superior a 120 (cento e vinte) dias. no caso de contrato de adesão.º). que ocorre quando o produto não apresenta a . monetariamente atualizada. atenue ou exonere o fornecedor da responsabilidade de indenizar em face da ocorrência de vícios de inadequação ou de insegurança. a substituição das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou as características do produto. ou d) restituição imediata da quantia paga. em qualquer contrato de consumo. A responsabilidade civil por vícios de insegurança dos produtos A responsabilidade civil do fabricante por vícios de insegurança é efeito lógico de um acidente de consumo. requerer a troca do produto por outro de espécie. Assim. Os efeitos da responsabilidade civil por vícios de inadequação na quantidade do produto. I a IV).º). antes mencionadas.º).º). 19 do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor.º). Do mesmo modo do que ocorre na responsabilidade civil por vício de inadequação na qualidade. como referido. Se. estão previstos. por sua vez. b) complementação do peso ou medida. mediante eventual restituição de valores ou complementação da diferença de preços (§ 4. diminuir-lhe o valor ou no caso de se tratar de produto essencial. 24 e 25). marca ou modelo diversos. Caso o consumidor tenha optado pela substituição do produto por outro de mesma espécie e isso não seja possível. marca ou modelo diversos. sem os aludidos vícios. poderá optar pela substituição por outro de espécie. contudo. o consumidor poderá imediatamente se utilizar das alternativas referidas no § 1.135 eventuais perdas e danos. pode o consumidor. 19. essa cláusula deve ser convencionada em separado (§ 2. c) substituição do produto por outro da mesma espécie. e c) o abatimento proporcional do preço (art. é vedada a pactuação de cláusula que impossibilite. caput e § 1. 18. sendo que a garantia legal do produto independe de termo expresso (arts. sendo que.

o produto é fabricado por um terceiro oculto. menção expressa ao fabricante aparente. b) a colocação do produto no mercado. ou seja. Como se observa. que. deve-se entender aquele que é potencialmente danoso. Assim. Tratam os arts. àquelas redes de varejo que oferecem diversificada linha de produtos com sua própria marca. "independe da existência de culpa". ou seja. regra geral. é introduzido no Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. como fora referido. 12 a 17 do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor da responsabilidade civil por fato do produto. o comerciante é excluído em via principal. um novo conceito de responsabilidade civil. respondendo subsidiariamente quando não puderem ser identificados os demais sujeitos da cadeia de produção ou quando o produto fornecido não apresentar identificação clara daqueles. aquele que celebrou o contrato com o fornecedor. pela sua utilização. o que facilita ao consumidor a busca por uma justa indenização. por si só. construtor e importador (art. que possui um defeito capaz de. acompanhando o produto por onde ele estiver durante a sua existência útil. 12. no rol de responsáveis estabelecido no art. e d) a relação de causalidade (ou nexo causal). ou seja. a pedido da rede varejista. controle sobre a segurança e qualidade das mercadorias. o CBDC prevê uma solidariedade entre fabricante. Essa distinção em benefício do comerciante se faz necessária porque ele não tem. a responsabilidade civil legal. sendo necessária a sua colocação no mercado. a simples fabricação de um produto com um defeito não enseja. essa responsabilidade não beneficia somente o consumidor imediato. A colocação do produto no mercado é ato humano de fazer ingressar em circulação um produto potencialmente danoso. quando não conservar adequadamente os produtos. quando. terá o comerciante responsabilidade direta. na forma do art. contudo. [26] Levando em conta a sistemática moderna de proteção ao consumidor. De outro lado. [25] Para melhor defender os interesses do consumidor. 12). a responsabilidade civil. nas relações de consumo em massa. [27] de modo que a garantia inerente ao produto obriga o fornecedor em relação ao último consumidor e a todos aqueles que tenham alguma . todavia. como se fabricantes fossem. Por produto inseguro. na verdade. Falta. Segundo a lei consumerista brasileira. c) o dano.136 segurança que dele legitimamente se espera e acaba por causar dano ao consumidor. 12. capaz de causar lesões aos consumidores. são pressupostos para a responsabilidade civil do fabricante por defeitos nos produto: a) falha na segurança do produto. O dever de segurança tem natureza ambulatorial. lesionar o consumidor. produtor.

nos casos em que o produto é posto no mercado por ato de preposto ou em decorrência da falta de diligência na guarda do produto. sendo que a própria lei admite excludentes de responsabilidade do fornecedor. que mantenham com este mera relação de fato decorrente de uso ou consumo. O caso fortuito e a força maior constituem-se em um fato necessário. Ao lesado. na hipótese de ser o infrator quem colocou o produto em circulação. cabe tão-somente demonstrar a verossimilhança do que alega. todavia. b) que. [29] Embora surtam idênticos efeitos jurídicos. que importam no rompimento do nexo de causalidade e acabam afastando a responsabilidade civil. cabe salientar que o CBDC não prevê como causas de exclusão de responsabilidade o caso fortuito e a força maior. Nesses casos. para a configuração de responsabilidade. A não colocação do produto no mercado pressupõe que o fornecedor-produtor prove que não é sua a autoria da fabricação do produto ou que o fornecedor não foi responsável pela sua circulação. De outro lado. ou que simplesmente tenham se exposto aos efeitos do seu campo de periculosidade.º do art. [30] Para verificar se o caso fortuito e a força maior atuarão como excludentes de responsabilidade do fornecedor. como. ainda. permitindo um juízo de probabilidade ao julgador. ou c) a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. É irrelevante. um incêndio criminoso provocado por terceiros. que as vítimas sejam parte da cadeia de circulação jurídica do produto. deve ser analisado o momento de sua ocorrência. uma guerra.137 relação de fato com o produto. quando o produto está sob a guarda do comerciante. o caso fortuito e a força maior não devem funcionar como . o furto e o roubo. excluirá a responsabilidade do fornecedor a sabotagem. cujos efeitos não se pode evitar ou impedir. o que gera indagações a respeito. À guisa de exemplo. enquanto o caso fortuito é uma situação que decorre de fato alheio à vontade da parte. como uma greve. dispõe o § 3. um terremoto. embora tenha colocado o produto no mercado. o defeito inexiste. a demonstração de que já ocorreu outro acidente de consumo em relação a idêntico produto. [28] De outro lado. ou. O que distingue basicamente os dois institutos é que a força maior resulta de situações independentes da vontade do homem. A excludente não beneficia o fornecedor. Caso ocorram na concepção ou na produção. caberá ao fornecedor a prova de tal fato. São as causas de exoneração. A prova de que o vício de insegurança inexiste incumbe ao fornecedor. 12 do CBDC que o fornecedor não será responsabilizado se provar: a) que não colocou o produto no mercado. essa regra não é absoluta. mas proveniente de fatos humanos. malgrado se trate de responsabilidade objetiva. uma tempestade. por exemplo. é imperioso fazer a distinção. Assim. como um ciclone.

não terão os fornecedores qualquer responsabilidade. assim. houve uma preocupação mundial em reduzir ao máximo os acidentes de consumo e os vícios dos produtos. a chamada responsabilidade legal. cresceu a incidência de vícios e defeitos nos produtos. Criou-se novos modelos de reparação de danos que sobrepujaram a clássica teoria da responsabilidade civil. dando tratamento jurídico bastante proguessista em relação à efetiva reparação dos danos ao consumidor. pois. que prescinde de elemento contratual ou da ocorrência de ilícito. Os produtos defeituosos acabam sendo um resultado marginal e inexorável da produção industrial. tendo sido produzido após o consumidor ter adquirido o produto. que tem como característica principal a produção em série.078/90. mormente em relação à responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos. Considerações finais Com o surgimento e alargamento do processo de industrialização. à medida que não há um controle individual da adequação e segurança de cada unidade que é lançada no mercado. Esses dois elementos atuam como fatores de ruptura do nexo causal entre o defeito e o dano. e que decorre estritamente da lei. então. sobretudo nos países mais desenvolvidos.º 8. que imponha a toda a classe de fornecedores normas imperativas no processo de produção e a obrigação de reparar eventuais danos decorrentes dos acidentes de consumo. microssistemas protetivos ao consumidor. . culminando em modificar o tratamento jurídico de vários institutos. não haverá responsabilidade civil daquele. cria um novo conceito de responsabilidade civil. na efetiva reparação do consumidor. na solidariedade social e na responsabilidade civil objetiva. se o caso fortuito e a força maior sobrevierem depois da tradição (entrega) do produto ao consumidor. se o defeito não está relacionado ao fornecedor. Impõe. O Brasil codificou a matéria na Lei n. Além disso. Entretanto. calcados. principalmente.138 eximentes de responsabilidade do fornecedor. A par disso. um dever de qualidade dos produtos colocados no mercado. o que pode é possível com uma legislação rigorosa. portanto. Surgiu. assim. é utópico. no direito brasileiro. baseado na inexistência de produtos com avarias. 4. que a responsabilidade do fornecedor. Dessume-se. dentre os quais o da responsabilidade civil e o dos vícios dos produtos. O modelo ideal de produção. decorre da violação do dever de colocar no mercado produtos isentos de vícios de insegurança.

. 1. 5. Referências Bibliográficas ARRIGHI.-dez. 1998. Rio de Janeiro : Forense. e ampl. Teoria pura do direito. Ada Pellegrini et. João Baptista Machado). Luiz Gastão Paes de Barros.). São Paulo. Zelmo Da qualidade de produtos e serviços. 1987. 4. Derechos del consumidor em el marco de la legislación nacional y la integración regional. CAVALIERI FILHO. 2000. ed. Buenos Aires : Astrea. ed. rev. In: GRINOVER.139 Por essa principiologia inovadora e moderna. n. A proteção do consumidor e o MERCOSUL. 1997. ampl. São Paulo : Saraiva. Revista Jurídica da Associação dos Defensores Públicos do Estado do Rio Grande do Sul. 1999. p. atual. 1. 2. La protección de los consumidores y el MERCOSUR. SP. São Paulo : Martins Fontes. Sergio. DIAS. Jean Michel. rev. Rio de Janeiro : Forense Universitária. Carlos. ed. 1998. 2. CASTILHA. 5. 5. ano 1. DENARI. São Paulo : Malheiros. al. da prevenção e reparação de danos. 1994. 19-24. atual. Revista de Direito do Consumidor. Código brasileiro de defesa do consumidor. Gustavo Ordoqui. GARAY. o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor é considerado uma das legislações consumeristas mais protetivas do mundo. ed. Montevidéu : Ingranusi. Revista de Direito do Consumidor. aum. A responsabilidade do fabricante pelo fato do produto. 2003. ed. p. LEÃES. servindo de modelo e paradigma para vários outros países. rev. São Paulo. O Direito do Consumidor no Mercosul. 6. Newton. Teoría general de la reparación de daños. BENJAMIN. e atual. (trad. KELSEN. p. Antônio Herman de Vasconcellos e. SP. DE LUCCA. Porto Alegre. 29-36. (coord. In: Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. maio 1997. RS. 1992. Da responsabilidade civil. p. 124-136. 127-197. v. São Paulo : Saraiva. José de Aguiar. Carlos Alberto. n. 1991. Programa de responsabilidade civil. Da qualidade de produtos e serviços. n. da prevenção e da reparação dos danos. GHERSI. aum. out. 12. Hans.

MONTEIRO. Porto Alegre : Livraria do Advogado.140 LORENZETTI. Responsabilidade civil do fabricante pelo fato do produto. e ampl. 2002. 2002.ª parte. p. 1994. Rio de Janeiro : Forense. 42. Direito das Obrigações. Estudos sobre a proteção do consumidor no Brasil e no MERCOSUL. STIGLITZ. NORRIS. Curso de direito civil: direito das obrigações: 1. A proteção jurídica do consumidor contra vícios dos produtos no âmbito dos países do MERCOSUL. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. 21. 2002. QUEIROZ. Responsabilidade civil no código do consumidor e a defesa do fornecedor. São Paulo : Revista dos Tribunais. rev. abr. 2004. RIZZARDO. SP. Porto Alegre : Livraria do Advogado. Rio de Janeiro : Forense. LUNARDI. ______.-mar. Monografia (Graduação em Direito) – Curso de Direito. Agostinho Oli Koppe. Odete Novais Carneiro. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos: a teoria da ação social e o direito do consumidor. São Paulo : Saraiva. Washington de Barros. Da responsabilidade por vício do produto e do serviço: Código de Defesa do Consumidor Lei 8. 1998. 1971. Paulo de Tarso. PASQUALOTTO.078. Ricardo. p. p. p. Protección jurídica del consumidor. MARQUES. São Paulo : Revista dos Tribunais.-jun. São Paulo. Universidade Federal de Santa Maria. Arnaldo.09. Gabriel. Fabrício Castagna. atual. La relación de consumo: conceptualización dogmática en base al Derecho del MERCOSUR. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. In: MARQUES. 49-85. Revista de Direito do Consumidor. 4. aum. 2003. SP. n. 7. 2003.1990. jan. Cláudia Lima. 09-31. São Paulo. 1996. Adalberto de Souza. rev. RS. José Fernando. de 11. Roberto. PEREIRA. 364-365. Revista de Direito do Consumidor. Cláudia Lima. Vícios do Produto no Novo Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. ed. Buenos Aires : . São Paulo : Atlas. SIMÃO. ano 11. São Paulo : Saraiva. Santa Maria.). 1997. 73-94. (Org. 110 p. ed. 2004. 2000. SANSEVERINO. n.

p. O princípio da confiança está intimamente ligado ao princípio da boa-fé subjetiva.-jun. Revista de Direito do Consumidor. Notas As normas do CDC brasileiro são imperativas no sentido de proteger a confiança que o consumidor depositou no produto que adquiriu. p. 31. 49-85. 2003.817)." (Adalberto de Souza Pasqualotto. p. Adalberto de Souza Pasqualotto. (Org. SP. Direito Civil: responsabilidade civil. p. p. Graciela. 689) ou com herdeiro excluído da sucessão (art. n. 75). 2002. 1. 2. 42. Op. 07 06 05 04 03 02 01 Paulo de Tarso Sanseverino. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. 2002. WEINGARTEN. Consumidores: análisis exegético de la Ley 17. Porto Alegre : Livraria do Advogado. Montevidéu : Fundación de Cultura Universitaria. ed. 74. LOVECE. Adalberto de Souza Pasqualotto. atual. vulnerando sua integridade física ou de qualquer modo colocando em risco a sua segurança ou a dos circunstantes. São Paulo. Estudos sobre a proteção do consumidor no Brasil e no MERCOSUL. Responsabilidade civil no código do . Célia. SZAFIR.999: responsabilidad de los sujetos y/o empresas que intervienen em la cadena de fabricación. Sílvio de Salvo. ed. In: MARQUES.250. Dora Szafir. jul. distribuición y comercialización de bienes y servicios.141 Depalma. circulacón. abr. 1986.-set. cit. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. Cláudia Lima. ano 11. adequadamente utilizado. atual. 2002. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. Ley 27. Exemplo disso é a proteção aos contratantes de boa-fé quando celebram negócio jurídico com mandatário aparente (art. conforme as instruções por ele mesmo expedidas e dando atenção às advertências cabíveis que também por ele devem ser feitas. SP. Consumidores: análisis exegético de la Ley 17. ed. 2. p. 1999. VENOSA.250. 135. p. Revista de Direito do Consumidor. 73-94. "O fabricante deve assegurar para o consumidor que o produto. São Paulo : Atlas. São Paulo. 49.). n. que se encontra no Código Civil brasileiro. 1994. 3. não será um instrumento maligno nas mãos dos usuários desprevenidos. Dora. Montevidéu : Fundación de Cultura Universitaria. 115-128.

ampl. Teoría general de la reparación de daños. cit. porquanto a responsabilidade civil tradicional revelara-se insuficiente para proteger o consumidor. 12. De acordo com o bem jurídico tutelado e a gravidade da lesão. 2. p. v. ed. São Paulo : Martins Fontes. 242. 24. aum. p. riesgos derivados de actviades. aum. Sergio Cavalieri Filho. com fundamentos e princípios novos. 1999. rev. 6. 13 14 12 11 10 09 08 Ibidem. 158. 4. 2002. etc. o Código do Consumidor engendrou um novo sistema de responsabilidade civil para as relações de consumo. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. 5. 1998. Op." (Carlos Alberto Ghersi. Rio de Janeiro : Forense. 19 18 Carlos Alberto Ghersi. 2003. rev. Embora seja prevista a responsabilidade penal dos fornecedores. p. Trad. 1. . p. 24. que exponen a la persona humana a mayores riesgos. p. Op. ed. 16. Programa de Responsabilidade Civil. São Paulo : Atlas. cit. 15. de productos elaborados. de utilización de cosas. ed. 16 17 15 Ibidem. Porto Alegre : Livraria do Advogado. 77. Sílvio de Salvo Venosa. p. Sergio. cit. Hans Kelsen. João Baptista Machado. 473) Adalberto de Souza Pasqualotto. surgirá a responsabilidade civil ou penal. atual. 3. 2003. Teoria pura do direito. Buenos Aires : Astrea." (CAVALIERI FILHO. ed. p. São Paulo : Saraiva. p. 1997. tal questão não será tratada no presente trabalho. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos: a teoria da ação social e o direito do consumidor. 103. Agotinho Oli Koppe Pereira. Direito Civil: responsabilidade civil. "Para enfrentar a nova realidade decorrente da Revolução Industrial e do desenvolvimento tecnológico e científico. 2003. 157) José de Aguiar Dias. Da Responsabilidade Civil. p.). São Paulo : Malheiros. e atual. Op. "El aumento de las causas de dañosidad producidas por el industrialismo (accidentes de trabajo. p. p. ed. em determinados casos.142 consumidor e a defesa do fornecedor. ha revelado la insuficiencia e injusticia del principio tradicional e atribuición subjetiva basado en la culpa del autor del daño. 134. p.

" (Arnaldo Rizzardo. Portanto. 205) Tal expressão.)" (In: Da responsabilidade por vício do produto e do serviço: Código de Defesa do Consumidor Lei 8. Op. Op. rev.) Adalberto de Souza Pasqualotto. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. 478. ed. 80. da prevenção e da reparação dos danos.078. In: Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. 4. portanto. o dever de qualidade é um dever anexo à atividade dos fornecedores. da tradicional responsabilidade assente na culpa passa-se a presunção geral desta e conclui-se com a imposição de uma responsabilidade legal. 1998. Melhor teria sido. cit. p. tem-se um dano decorrente da atividade de produção ou de comercialização. São Paulo : Saraiva. da expressão "responsabilidade pelos acidentes de consumo"." (Cláudia Lima Marques. p. contudo. p. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. 2000. o intermediário e o comerciante (distribuidor) (. 475. Também nesse sentido. "Assim. o CBDC impõe aos fornecedores a obrigação de colocar no mercado somente produtos isentos de vícios ou defeitos.09. 50. 27 28 26 25 24 23 Sergio Cavalieri Filho. no caso dos vícios de insegurança. que o legislador tivesse se utilizado. não goza de um tecnicismo apurado. é sempre a atividade humana. Op. cit. Isso porque "fato" é acontecimento alheio à ação humana. atual. Direito das Obrigações. 21 22 20 Sergio Cavalieri Filho. no sistema do CDC. que é gerenciada pelo homem. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. Rio de Janeiro : Forense. 984). A responsabilidade do fabricante pelo . de forma direta ou indireta. Assim. e ampl. p. que causa o dano. como refere Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin (In: Da qualidade de produtos e serviços. São Paulo : Revista dos Tribunais. Luiz Gastão Paes de Barros Leães. Por solidariedade deve-se entender "um vínculo que conduz a impor o cumprimento de uma obrigação a várias pessoas. Odete Novais Carneiro Queiroz: "Não se faz necessária uma efetiva relação contratual. O novo regime de vícios no CDC caracteriza-se como um regime de responsabilidade legal do fornecedor.. cit.. e. São Paulo : Revista dos Tribunais. mesmo porque existe uma responsabilidade solidária entre o fabricante. p. p. Op. quanto daquele cujo vínculo contratual é apenas com a cadeia de fornecedores. p.143 Adalberto de Souza Pasqualotto. 2002. tanto daquele que possui um vínculo contratual com o consumidor. cit. 1991. 111) Pragmaticamente. p. por exemplo. sendo alvo de severas críticas pela doutrina. 43-44. podendo a vítima reclamar face a quem com ela certamente não contratou.1990. de 11.

São Paulo : Saraiva. Curso de direito civil: direito das obrigações: 1. p. São Paulo : Saraiva. 30 29 . equipara o caso fortuito à força maior: "Art. aum. 3. 393. 1971. parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário.. O Código Civil brasileiro. (. rev. 364-365. 393. 1987. 7.144 fato do produto. em seu art." Washington de Barros Monteiro.) Parágrafo único. p. cujos efeitos não era possível evitar ou impedir..ª parte. ed.

145 A prescrição e a decadência no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner Visa. . 26 e 27 da Lei 8.078/90. a análise dos institutos jurídicos da prescrição e da decadência no que se refere ao Direito do Consumidor. o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. o presente trabalho. tendo por base a previsão normativa do art.

) 2. o prazo decadencial inicia-se no momento em que ficar evidenciado o defeito.a instauração de inquérito civil.Obstam a decadência: I .30 (trinta) dias. tratando-se de fornecimento de serviço e de produto duráveis. iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria. §1º . A Relevância Jurídica do Decurso do Tempo: . Iniciemos com a transcrição dos artigos sob estudo. II . 161 a 179.(Vetado.(Vetado. temos a disciplina dos mesmos no que tange à relação de consumo. Art. 26 . Parágrafo único .O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em: I . no entanto.Prescreve em 5 (cinco) anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo. arts. comportam regras específicas. 27 . SEÇÃO DA DECADÊNCIA E DA PRESCRIÇÃO IV Art.146 1. tratando-se de fornecimento de serviço e de produto não duráveis.90 (noventa) dias. Introdução As normas referentes à prescrição e decadência.) III .a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente. que deve ser transmitida de forma inequívoca. §3º . Assim ocorre que no Código de Proteção e Defesa do Consumidor. até seu encerramento. a depender do campo específico do Direito em que se pretende sejam aplicadas.Tratando-se de vício oculto. II . §2º . Tais institutos. possuem sua disciplina geral disposta no Código Civil.Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do produto ou do término da execução dos serviços.

Tratou da decadência no art. in casu.") e da prescrição no art. O Direito caduca. inalteráveis pela vontade das partes. a pretensão") 4. A prescrição não fere o direito em si mesmo. e atual. Constitui fato jurídico ordinário. decadencial ou prescricional." O CDC separou as duas realidades. Segundo Serpa Lopes (Curso de Direito Civil.. Rio de Janeiro. a prescrição afeta a pretensão à reparação pelos danos causados pelo fato do produto ou do serviço. constitui causa aquisitiva ou extintiva de direitos. O fluir do tempo. No entanto. a pretensão prescreve. 7ª ed. ao passo que a prescrição atinge a pretensão de deduzir em juízo o direito de ressarcir-se dos prejuízos oriundos do fato do produto ou do serviço.. já que a doutrina. . "o que se perde com a prescrição é o direito subjetivo de deduzir a pretensão em juízo. mas que tenha sofrido algum obstáculo. No caso específico do CDC. 1996).. teremos a base da decadência e prescrição. fiquemos com algumas. 1. a prescrição requer um direito já exercido pelo titular. período fixado na lei entre o termo inicial (dies a quo) e o termo final (dies ad quem). No aspecto extintivo. uma vez que a prescrição atinge a ação e não o direito. 3. Decadência e Prescrição Poderíamos citar um diverso número de características peculiares a cada instituto. portanto. ante o fornecedor. os principais institutos dessa esta forma extintiva de operar o decurso temporal. dando origem à violação daquele direito. Editora Forense.. aliado a inatividade do seu titular constitui fato jurisformizado pelo direito com vistas à estabilidade e segurança das relações jurídicas. 27 ("Prescreve . neste particular. e também inúmeras distinções entre um e outro. de maior interesse no que adiante vamos discutir. rev. é abundante. Convém salientar que os prazos decadenciais e prescricionais do CDC são de ordem pública e. Rio de Janeiro. Neste sentido. 26 ("O direito . Prazos para Reclamar e Pretender a Reparação de Danos Prazo é o lapso de tempo.. Freitas Bastos. cujo implemento vem a constituir o fato jurídico. A decadência supõe um direito em potência.. quanto ao defeito do produto ou serviço. caduca. Ed. temos a "pretensão liberatória" no dizer de Orlando Gomes ("Introdução ao Direito Civil"12ª ed.. mas sim a pretensão à reparação. a decadência atinge o direito de reclamar.147 O Fluir do tempo gera efeitos jurídicos relevantes para o direito.. A decadência afeta o direito de reclamar. vol. extintivo de direito. 1989).

5. § 2º.2. ao passo que no Código Civil e Comercial o prazo se inicia com a mera tradição. bens (produto ou serviço) se exaurem no primeiro uso ou em pouco tempo. Suas Especificidades O CDC nos apresenta alguns prazos.148 Há prazos gerais fixados no Código Civil e prazos especiais fixados nesse mesmo Código e na legislação extravagante em relação a ele. A Classificação difere da do CC. (art. ou término da execução dos serviços. como é o caso do CDC. O prazo decadencial que estudamos é o prazo para que o consumidor reclame. (art. Entrega Efetiva A tradição efetiva se opera no momento em que o consumidor tenha recebido o produto e tenha condições de verificar a ocorrência do possível vício. também adiante. 26. Prazos Decadenciais no CDC. 10 dias. I) •90 dias: na mesma hipótese para serviços e produtos duráveis. Serviço não durável é aquele que se extingue com sua própria execução (Ex.. 15 dias art. art. imóvel 6 meses. § 5º. ocorre uma sensível ampliação em relação ao prazo para reclamar dos vícios redibitórios na forma como disciplinado pelo CC. junto ao fornecedor ou ao Poder Judiciário.1. veremos. 211. Não durável é aquele cujo uso ou consumo importa imediata destruição da sua própria substância. II) Aqui. Vejamos: O início da contagem do prazo decadencial se dá com a entrega efetiva do produto. Produtos e Serviços Duráveis e Não Duráveis: O critério aqui utilizado para assinalar diferentes prazos decadenciais é mais consentâneo com o Direito do Consumidor do que o critério da mobilidade utilizado pelo CC (móvel. § 2º. O tratamento também é diverso no que se refere ao dies a quo. 178. 5. o qual estabelece o prazo de 15 dias no art. serviço de limpeza). serviços que persistem após sua execução. objetivando seja sanado o vício. . CC). 26. IV).. Analisaremos adiante o conceito de "entrega efetiva". 51. Aqui durável guarda certa analogia com consumível (art. cujo consumo não importa destruição. como: •30 dias: para reclamar de vícios aparentes e de fácil constatação no fornecimento de serviços e produtos não duráveis. e pelo Código Comercial. Ao passo que duráveis são aqueles produtos. art. 178. como. 178. 5.

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Pode ainda restar dubiedade neste termo, no caso, por exemplo, do preposto receber na residência do consumidor impossibilitado de fazê-lo pessoalmente e só posteriormente ao decurso do prazo decadencial venha efetivamente receber o produto. São entretanto, casos para que a doutrina e a jurisprudência no caso concreto, possa deslindar. Para nós importa compreender a mens legis, do dispositivo legal, ao utilizar a expressão "entrega efetiva", a qual parece-nos ser a de fornecer o contraponto entre a possibilidade do consumidor constatar o vício eventualmente existente versus a passividade do consumidor, sua inércia frente à constatação do vício. Uma ou outra hipótese só fica perfeitamente delineada, na prática, analisando-se o caso concreto. 5.3 Vício Vícios de qualidade são aquelas características que tornam o produto ou serviço impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam, ou lhes diminuem o valor. Também constitui vício a disparidade entre produto e as indicações do recipiente, embalagem, mensagem publicitária ou do que deles normalmente se espera. Não esqueçamos que o vício de quantidade, via de regra mais facilmente constatável, também enseja a reclamação. 5.4. Vício Aparente É o vício visível, perceptível sem maior dificuldade, assimilável pela percepção exterior do produto ou serviço, aquele em que o consumidor não encontra obstáculos em reconhecer. Não requer teste. Deve se ter em conta no caso concreto o grau de conhecimento do consumidor, ou da possibilidade de verificação de que o mesmo dispõe. 5.5. Vício Oculto É o vício que não oferece facilidade de constatação. Pode ser o defeito que está, quando da aquisição do produto ou execução do serviço, em germe, em potência, e vem a se manifestar posteriormente. Não basta ser de fácil evidenciação o efeito do vício, mas sim o vício em si, isto é, é necessário ser fácil a identificação do vício como a causa sensível de seus efeitos. Por exemplo, não basta que seja fácil a identificação de um odor estranho de dado produto, é necessário que seja facilmente assimilável a relação de causa e efeito, isto é, o odor, como o fato do produto encontrar-se estragado. O prazo decadencial se inicia quando da evidenciação do defeito. Defeito aparentemente sanado pelo fornecedor, equivale a ter o vício ficado novamente oculto, "sustando" o prazo decadencial até o momento em que venha novamente a se

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manifestar. Para operacionalizar o acima exposto há a necessidade de se estabelecer uma presunção da anterioridade do vício nos produtos ou serviços novos. Nesse caso, a probalidade física favorece a presunção, um produto novo implica em menor oportunidade de que o defeito decorra de sua utilização anormal. Esta presunção funciona "a moda" de uma específica inversão do ônus da prova. Cabe ao fornecedor provar que o vício não estava presente ou ínsito ao produto ou serviço, quando do fornecimento ao consumidor. A reclamação efetuada quanto a um dos fornecedores é plenamente válida para os demais responsáveis. Este é um dos efeitos da solidariedade de acordo com o art. 176, § 1º, CC, solidariedade esta, legal, por decorrer do art. 25, § 1º, CDC. 5.6. Óbices à Decadência De acordo com o CDC, obstam a decadência: A reclamação comprovadamente formulada. (da qual se tenha prova), até resposta negativa correspondente, a ser transmitida de forma inequívoca. Instauração de Inquérito Civil até seu encerramento. Caso 1: A decadência é obstada, no primeiro caso, desde a data da entrega da reclamação, comprovada mediante recibo, cartório de títulos e documentos, ou mesmo judicialmente. Volta a seguir desde o dia seguinte ao da entrega da resposta negativa transmitida de forma inequívoca. Negado o vício, resta ao consumidor, no prazo decadencial, ir a juízo propor a ação condenatória para que o fornecedor satisfaça as obrigações decorrentes do vício (art. 18), podendo ser o pedido cumulado com o de indenização, se houve dano. "O prazo é de trinta dias para reclamar e não para ajuizar a ação. Isto é, não se exige que o consumidor, impreterivelmente, proponha a ação cabível em trinta dias ..." (Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin in Comentário ao Código de Proteção do Consumidor, coordenação de Juarez de Oliveira, Ed. Saraiva, 1991) No caso da reclamação judicial, passam a concorrer as regras processuais que disciplinam a matéria. Proposta a ação, o despacho que ordenar a citação impede que se consume a decadência, sendo a citação realizada no prazo estabelecido no art. 219 do CPC, que se refere à prescrição, mas é válido para a decadência à luz do art. 220. A decadência,

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em regra, não se interrompe, nem se suspende, portanto, extinto o processo, sem julgamento de mérito e já tendo escoado o prazo legal de decadência, o consumidor não poderá se valer da reclamação ou de ação que lhe seja correspondente. Este é, ao menos, um dos entendimentos sobre o assunto. Note que, se a resposta do fornecedor não negou o vício, a decadência continua obstada, de forma que se não houver sanação, o consumidor continuará com direito de recorrer a outras instâncias, sem que haja perecimento do mesmo pela decadência. Caso 2: Instauração de Inquérito Civil até seu encerramento: A decadência fica obstada a contar do dia da instauração do inquérito e persiste assim até o dia do seu encerramento, inclusive, voltando a contar do dia seguinte ao mesmo. O objetivo do Inquérito Civil, como de qualquer inquérito, é o de servir como instrumento legal para obtenção de dados, clarear um fato, determinar se um direito foi ofendido e em que grau ou extensão, qual o ofensor, etc. Natural, portanto, que suspenda a decadência, pois que os resultados advindos do inquérito, poderão servir ao consumidor subsídios para deduzir sua pretensão específica, em juízo. 6. O Debate Doutrinário sobre a Interrupção ou Suspensão da Decadência O Brasil, de acordo com Serpa Lopes (Curso de Direito Civil, vol. 1, 7ª ed. rev. e atual., Ed. Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 1989), seguindo tradicionalmente a orientação francesa e italiana, só admitia a interrupção aos prazos prescricionais, negando-a aos prazos decadenciais. O que podemos entender, então, pela expressão "obsta a decadência" inserta no art. 26 § 2º ? Interrupção, suspensão, Impedimento ao fluir... ? Vejamos algumas posições na doutrina: Luiz Edson Fachin (Da prescrição e da decadência no Código do Consumidor, Revista da Procuradoria Geral do Estado- RPGE, Fortaleza, 10(12): 2940, 1993) apesar de admitir que a "obstação", possa constituir uma realidade apartada do Código Civil, e que, sendo especial, sui generis, não requer mais explicações, defende, no entanto, a tese de que se trata de causa interruptiva da decadência, ainda que em descompasso com a sistemática geralmente aceita. Assim postula observando que as hipótese dos incisos I e III sob análise não se fundam no status da pessoa nem na situação especial dos sujeitos envolvidos. "... a reclamação comprovadamente formulada e a instauração do inquérito civil paralisam temporariamente o curso da decadência. Superado o fato interruptivo, quer pela resposta negativa, quer pelo

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encerramento do inquérito, o prazo flui novamente, mas é inutilizado por completo o lapso de tempo já iniciado. O prazo recomeça a contar." (grifo nosso) Zelmo Denari (Código de Defesa do Consumidor, comentado pelos autores do Anteprojeto, Forense Universitária, São Paulo, 1991), considerando as expressões "até a resposta negativa", "até seu encerramento", pondera: "Resta saber se esses dois eventos (reclamação e inquérito civil), que o Código qualifica como obstativos da decadência, têm efeitos suspensivos ou interruptivos do seu curso. ... parece intuitivo que o propósito do legislador não foi interromper, mas suspender o curso decadencial. Do contrário, não teria estabelecido um hiato, com previsão de um termo final (dies ad quem) mas, simplesmente, um ato interruptivo." Não obstante, e dada, máxima venia, não conseguimos atinar com a relação de causa e efeito entre o fato de haver previsão de um hiato e a conclusão de ser o prazo suspensivo. O dies ad quem, esta simplesmente a indicar o momento em que volta a correr a decadência anteriormente interrompida ou suspensa, não podendo-se desse fato apenas se concluir por um ou outro caso. A explicação, a nosso entender mais convincente é a de William Santos Ferreira (Prescrição e Decadência no Código de Defesa do Consumidor, Revista de Direito do Consumidor, n 10, p 77 a 96, abril/junho, 1994), para quem efetuada a reclamação, "não há mais que falar em transcurso de prazo (suspensão ou interrupção), não é necessário tratar-se do prazo, o direito foi exercido." Cita Câmara Leal "A decadência tem um curso fatal, não se suspendendo, nem se interrompendo, pelas causas suspensivas ou interruptivas da prescrição, só podendo ser obstada a sua consumação pelo efetivo exercício do direito ou da ação, quando esta constitui o meio pelo qual deve ser exercitado o direito." O que ocorre no CDC (e isso justifica o que Ferreira chama de "dies a quo", "até resposta negativa..." e "até seu encerramento" §2º, I e III), é que o CDC reconheceu duas formas de exercício: extrajudicial e judicial do direito de reclamar. Sendo que a segunda forma de exercê-lo, se não exercido antes, inicia-se nos termos supra-citados. Verificados tais termos, novo prazo decadencial se inicia, agora, através da exteriorização da pretensão por uma ação judicial. Releva a discussão acima exposta, inclusive pelas conseqüências práticas que decorrerão forçosamente de um e outro entendimento. Ao consideramos a suspensão ou interrupção ou ao admitirmos dois direitos sujeitos a distintos prazos decadenciais, resultará, obviamente, em lapso maior ou menor de tempo para que o consumidor exerça seu direito, resultará em maior ou menor oportunidade de fazer respeitar estes mesmos direitos. A última, a de William Santos Ferreira, parece-nos ser a explicação mais consentânea, ainda que não de todo convincente, face aos termos utilizados na redação do dispositivo legal. Além de mais consentânea, vem a ser a que melhor protege o consumidor, portanto, a que mais se afina com o princípio da

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hipossuficiência do consumidor, princípio que norteia todo o código. 7. Prazos Prescricionais no CDC Os prazos prescricionais referem-se à pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista no mesmo CDC. Esclarece Arruda Alvim (Código Do Consumidor Comentado; 2. ED. rev. e ampl.; Revista dos Tribunais; 1995): "O objeto da reclamação é substancialmente diferente do pedido de reparação de danos." A reclamação é exclusiva do vício, a reparação se prende as perdas e danos, fato do produto ou do serviço. Fato do produto é todo e qualquer dano, podendo este ser oriundo de um vício, que, por sua vez traz em si, intrínseco, uma potencialidade para produzir dano. Assim, caso o vício não cause dano, correrá para o consumidor o prazo decadencial, para que proceda a reclamação, vindo a causar dano (hipóteses do art. 12), deve se ter em mente o prazo qüinqüenal, sempre que se quiser pleitear indenização. A posição de alguns doutrinadores estudados é no sentido de que se o consumidor tiver sido prejudicado, poderá haver perdas e danos (além da reclamação pelo vício) e estas, apesar de originadas no próprio vício do produto ou do serviço, não necessitam integrar a reclamação, ficando sujeitas o prazo prescricional fixado, em lei para estas, pois se constituem as perdas e os danos, em sentido lato, o fato do produto ou serviço, abrangendo o que o consumidor perdeu e o que deixou de ganhar em razão do vício Arruda Alvim (Código Do Consumidor Comentado; 2. ED. rev. e ampl.; Revista dos Tribunais; 1995) esclarece, no entanto, que: não há diferença entre os danos advindos de vício do produto e o fato do produto. A interpretação diversa, ainda segundo ele, levaria a entender que a indenização pelo vício, restaria à margem das leis de consumo, e que sua prescrição se regeria pelo direito comum (15 dias CC, 10 dias Ccom havendo rescisão, ou 20 por ação pessoal, no caso de não se dar a rescisão contratual). Continua: "O vício do produto ou do serviço e sua sanação recebe um tratamento jurídico que não é dispensado ao dano; este importa em fato do produto ou do serviço. Nada obsta a que um produto ou serviço seja viciado e que, este vício ocasione prejuízo, devendo este ser considerado como fato." Entendemos a propósito dessa discussão que fazer esta distinção entre fato do produto ou serviço e dano decorrente do vício é supérflua até mesmo para negá-la. Qualquer perda ou dano implica em fato do produto ou do serviço, que vem a ser precisamente o dano resultante do vício. William Santos Ferreira (Prescrição e Decadência no Código de Defesa do Consumidor, Revista de Direito do Consumidor, n 10, p 77 a 96, abril/junho, 1994), faz observação relevante ao observar que quando falamos do direito à incolumidade

7. 13. Termo Inicial A partir do momento do conhecimento do dano ou de sua autoria. matéria disciplinada pelo Código no art. já que tal ilação pode não ser imediata em todos os casos. A propositura de ação contra um não libera os demais. esta interrupção aproveita ao consumidor individualmente no ajuizamento da ação singular. Danos Reparáveis Os danos aos quais a pretensão se dirige a reparar atém-se a regulação jurídica da responsabilidade objetiva pelo fato do produto ou do serviço. não é conhecimento do dano.3. o direito a vida. 7. Da lesão ou violação de um direito faz nascer a ação. 12 e ss. Quanto à identificação do autor. Temos então que a prescrição tem início com o nascimento da pretensão. Ora.1. Isto é. do Código Civil. 172 e ss. estabelece regras também especiais no que tange aos . Conclusão Pudemos verificar que o Código De Proteção e Defesa do Consumidor. venha ajuizar ação já que só a contar deste conhecimento individualizado terá início o prazo prescricional. 7. Causas Impeditivas. a partir do momento em que se conheça o dano e possa-se relacioná-lo com o defeito do produto ou do serviço. bem como quando o fato se deve exclusivamente ao comerciante. Conhecimento dos efeitos do dano. um dano. será diretamente responsável nos casos previstos no art. fonte subsidiária do Direito do Consumidor. Liberação que só ocorre se houver o pagamento integral. o comerciante é responsável subsidiário. este implica em direito resistido.2. Regerá portanto a matéria a disciplina do art. segurança. de fato. produtor ou importador. Inexistindo informação sobre fabricante. Suspensivas e Interruptivas O parágrafo único prevendo interrupção foi vetado. saúde nunca deixaram de existir. que correrá novamente apenas da intimação da sentença condenatória. enseja ação e enseja também a prescrição decorrente. ao haver o dano. construtor. No ajuizamento de ações coletivas: a citação válida interrompe a prescrição. necessário que o consumidor tenha consciência de que aquilo que observa é. constituindo diploma especial. Poderá o consumidor demandar um ou mais dentre os responsáveis (solidariedade legal). Nada impede que o consumidor descobrindo demais fornecedores.154 física-psíquica do consumidor falamos de direito não sujeito à decadência. 8.

Em assim fazendo. São Paulo. 1991. e conseqüente forma de aplicação. Tais regras são atinentes aos prazos. BIBLIOGRAFIA ALVIM.. sujeito ao prazo prescricional do art. Pudemos verificar que existe alguma controvérsia doutrinária. No segundo caso.RPGE.155 institutos da Decadência. Código Do Consumidor Comentado. a favor da identificação de dois direitos exercitáveis pelo consumidor. impede se volte a falar em decadência. Todas elas partindo do pressuposto fundamental da hipossuficiência do Consumidor nesta classe de relações. Portanto. et al. qual seja.. sob este ângulo devem ser interpretadas. pelo tão só fato de ter sido exercitado. Código de Defesa do Consumidor. William Santos. Cada um. Da prescrição e da decadência no Código do Consumidor. Zelmo. FACHIN. ao termo inicial e ao termo final. da "obstação" da decadência. sujeitando-se às regras do CDC. Com base nos autores estudados. Prescrição quando aplicados às relações de consumo. sistematicamente mais lógica e teleologicamente mais adequada ao espírito que preside o Código Protetivo. Primeiro. etc. Arruda. inserta no parágrafo segundo do artigo 26 do CDC. hipóteses de interrupção e suspensão. considerando todos abraçados em uma mesma hipótese. nos posicionamos pela não distinção entre um e outro dano. após exercitado. 27. no primeiro caso. Revista dos Tribunais. pelo menos em dois pontos principais. ED. mais dilatados. e conforme exposto neste trabalho nos itens 6 e 7. outro. e ampl. resultará em fato do produto ou serviço. Revista da Procuradoria Geral do Estado. 10(12): 2940. Forense Universitária. judicialmente. versa sobre como deve ser entendido o dano sujeito à disciplina do CDC e por via de conseqüência. 2. 1993 FERREIRA. A cada direito corresponde um dies a quo para o prazo decadencial. Um exercitável extrajudicialmente. rev. Prescrição e Decadência no Código de Defesa . e também jurisprudencial. comentado pelos autores do Anteprojeto. Luiz Edson. Fortaleza. nos posicionamos. 1995 DENARI. inclusive no que concerne à responsabilidade objetiva. A segunda polêmica. quanto a natureza jurídica. quando da ocorrência do vício. se o derivado do vício ou o derivado do fato do produto ou serviço. cremos que interpretamos a lei da forma. oriundo ou não do vício. todo e qualquer dano que decorra do produto ou serviço.

Miguel Maria de Serpa. rev. n 10. 7ª ed. Rio de Janeiro. coordenação de Juarez de Oliveira. LOPES. Rio de Janeiro. 1996. Ed. abril/junho. Saraiva. VASCONCELOS E BENJAMIN Antônio Herman de. 1991 . e atual. Editora Forense. p 77 a 96. 12ª ed. GOMES. Orlando. Ed. Introdução ao Direito Civil. Revista de Direito do Consumidor. Curso de Direito Civil. 1989. Freitas Bastos.156 do Consumidor. 1. 1994. Comentário ao Código de Proteção do Consumidor. vol...

157 Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner 1 .INTRODUÇÃO Visa o presente trabalho a discussão do instituto da Desconsideração da .

de transforma-la em ente totalmente alheio às pessoas dos sócios. há certas atividades que a lei só autoriza às pessoas jurídicas. de modo que o patrimônio titulado pela pessoa jurídica responda pelas obrigações sociais. preliminarmente. a pessoa jurídica somente pode ser entendida sob o prisma de uma instrumentalidade jurídico – formal para a consecução de interesses e fins aceitos e valorizados pela ordem jurídica. poderíamos alinhar alguns desses fins colimados e aceitos pela ordem jurídica: Conveniência ou viabilização de empreendimento econômico. Dado que o destaque patrimonial seja a principal característica nas sociedades comerciais. daí poderem se precaver. A necessidade técnica dos grandes empreendimentos. de. presente trabalho. etc. fazermos menção ao elemento teleológico do instituto da personalização de entes abstratos. de seguros. em hipóteses restritas. só se chamando à responsabilidade. os sócios.. Senão vejamos: O patrimônio da pessoa jurídica é através da ação ou quota de capital. 2 . e se nos ativermos ao aspecto comercial. A limitação da responsabilidade dos sócios como instrumento de viabilização de empreendimentos. tendo por base a previsão legal insculpida no artigo 28 do Código de Proteção e Defesa do Consumidor.. necessidade de elevados investimentos. o condão . exigindo garantias adicionais. Situações há em que a constituição de pessoa jurídica é imperativo legal. econômico ou ainda patrimonial do tema. é o caso. por exemplo da atividade financeira. Consoante tal linha de raciocínio. expressão . a personalização representa instrumento legítimo de destaque patrimonial para a exploração de certos fins econômicos. a autonomia da pessoa jurídica não tem.A PESSOA JURÍDICA. Cooperação que a ordem jurídica jurisformiza através da personalização. no entanto. entretanto. Sob esse prisma.158 Pessoa Jurídica no que tange à sua aplicação ao Direito do Consumidor. o lado credor que contrata com tais sociedades. No direito moderno. a exigirem conjugação de esforços. gostaríamos. além de geralmente impor a espécie societária. sabe que a responsabilidade dos sócios se limita ao capital subscrito. do aprofundamento sobre a questão da sua natureza jurídica. Por razões de política econômica. por exemplo. SEU CARÁTER INSTRUMENTAL Abstraindo-nos no. Lei 8078/90. Por outro lado.

Contudo.159 também do patrimônio dos sócios. sua autonomia em relação as pessoas dos sócios é relativa. se possa evitar seja a mesma utilizada para fins abusivos. Na aplicação da desconsideração da pessoa jurídica. A desconsideração da pessoa jurídica. se visará tanto a proteção da própria pessoa jurídica da ação de seus sócios gerentes. 3 . Podemos aqui invocar a construção de Tércio Sampaio Ferraz Junior e Maria Helena Diniz. de forma a que. temos então o desvio de função. A vontade da pessoa jurídica é. trata-se da "Lacuna Axiológica". citada por Marçal Justen Filho (in "Desconsideração da Personalidade Societária no Direito Brasileiro". Visa tal instituto à suplantação da barreira legal imposta pela instituição da pessoa jurídica. não representando abuso. p. ao aplicá-la. que adiante estudaremos. terceiros que com ela se relacionem ou que de qualquer forma sofram os efeitos de seu atuar. fortemente direcionada. ocorre. . é o instituto que se encaixa como uma luva a construção teórica acima mencionada. podemos afirmar: a pessoa jurídica exerce uma função legítima. descrita como a situação em que não há propriamente lacuna da lei. 96). pela vontade deles. isto é. a limitação de responsabilidade que propicia.RELATIVIDADE DA AUTONOMIA DA PESSOA JURÍDICA O caráter de instrumentalidade implica em que a validade do instituto fique condicionada ao pressuposto do cumprimento ou do atingimento do fim jurídico a que este se destina. pois indiretamente. e sua vontade é. pois o direito posto fornece a solução em seus estritos termos. que a solução dada fere valores que o sistema jurídico tutela. Ocorrendo a incompatibilidade entre o comportamento da pessoa jurídica e os valores que informam a ordem jurídica. fique condicionada a que não se desvie a pessoa jurídica desse mesmo fim. contornando-a de forma a manter íntegro os valores que inspiraram sua criação. defraudando-o. não obstante o balizamento dos estatutos e dos órgãos de administração neles previstos. em grande medida. quanto a proteção dos demais sócios. Há situações em que a utilização da pessoa jurídica é feita ao arrepio dos fins para o qual o direito albergou o instituto. O problema que então se apresenta em relação à lei é o de integrá-la. fazê-lo. ou deixar de aplicá-la. sem que se destrua sua validade. seu patrimônio a eles pertence. o reflexo da vontade de seus sócios. no aspecto axiológico. Quando o reconhecimento da autonomia leva à negação de ideais de justiça ou à frustração de valores por ela albergados. Em síntese. porém.

ou relativizar a autonomia da pessoa jurídica.595/64. deixa expresso ora a responsabilidade solidária. sem deixar de reconhecer a autonomia. 7. . como. ora a responsabilidade pessoal de terceiros: Na CLT. (arts. dispõe de forma semelhante. para evitar prejuízos aos sócios minoritários.. 4 .137/62). Pode o direito limitá-la. o próprio direito pode cercear os possíveis abusos. 233. enfim. no entanto.160 E mais do que o acima exposto. temos a responsabilidade solidária das sociedades integrantes de um conglomerado econômico (art. ao mercado imobiliário. contempla situações de responsabilidade pessoal. A teoria ou doutrina da desconsideração assegura a finalidade da pessoa jurídica ao tempo em que protege os demais. ora a responsabilidade subsidiária. Também a Lei. 17. pode regular seu exercício. 6º. A Lei de Repressão ao Abuso do Poder Econômico (Lei 4. 2º. e nisto protegendo o própria existência da pessoa jurídica. 242). excepcioná-la e condiciona-la. a desconsideração destina-se ao aperfeiçoamento do próprio instituto da personalização. devemos. restringi-la.. solidária ou subsidiária de terceiros. Vejamos. pois determina a ineficácia episódica de seu ato constitutivo. A Lei do Sistema Financeiro (Lei 4. dos prejuízos decorrentes da utilização dervirtuadora de seus fins. preservando a validade e existência de todos os demais atos que não se relacionam com o desvio de finalidade.MECANISMOS LEGAIS DE CORREÇÃO DOS DESVIOS DE FUNÇÃO DA PESSOA JURÍDICA Assim como o direito reconhece a autonomia da pessoa jurídica e a conseqüente limitação da responsabilidade dos sócios. etc. responsabiliza civil e criminalmente diretores e gerentes de pessoas jurídicas pelos abusos caracterizados na supradita lei. veda determinadas operações com seus administradores e pessoas jurídicas de cujo capital estes participem. Antes de adentrarmos no assunto específico da desconsideração. 115 a 117. como o direito posto trata do assunto. 34). § 2º) A Lei das Sociedades Anônimas (Lei 6404/76). ainda em uma preliminar. mencionando alguns mecanismos legais. art. restringindo a autonomia de um lado e a limitação de outro. em seu art. analisar os instrumentos que o direito posto oferece para limitar.492/86 no art.

135) e a responsabilidade subsidiária (art. quando estendidas também as pessoas jurídicas de que elas participem. são teorias que tangenciam o instituto da desconsideração. Não há que confundir hipóteses legais de responsabilidade dos sócios ou administradores com a desconsideração da personalidade jurídica. mesmo considerada. isto é. justa. em se tratando de pessoa jurídica. O art. O Direito fornece o meio legal que previne o abuso ou a fraude. 133. .161 No Código Tributário Nacional o abuso do representante legal induz a responsabilidade pessoal (art. Não há nenhuma forma jurídica que deva ser desprezada pelo juiz. de modo permanente ou eventual. Trata-se que a solução equânime. no artigo 13. axiologicamente adequada corresponde ao ditame do preceito legal ou à convenção das partes.729/65) trata da responsabilização penal de "todos os que. São distintas umas das outras. II. há também as limitações oriundas das obrigações convencionais. por exemplo. a responsabilidade do sócio emerge por força do preceito legal. 134). 6º da Lei da Sonegação Fiscal (Lei 4. o objetivo de preservação da boa fé. porque. Posto isto. em comum. a teoria da aparência. A Desconsideração independe do tipo de estrutura societária e de suas regras particulares de responsabilização patrimonial.." A Lei de usura (Decreto. também trata da responsabilidade penal: "Serão responsáveis como coautores . Não é preciso desconsiderar a pessoa jurídica. fora dos limites impostos à sociedade pela cláusula do objeto social. passemos a conceituação do que podemos entender como Desconsideração da Pessoa Jurídica. Nas situações acima não se cogita da desconsideração da pessoa jurídica. que se estendam a pessoas físicas a ela relacionadas. Não há lacuna jurídica. cumprindo-se o fim ou valor juridicamente tutelado. vedações à pessoa jurídica. vedações de não fazer às pessoas contratantes. ou vice-versa. A lei prevê as conseqüências jurídicas. Possuem tais teorias ou doutrinas. nem lacuna axiológica.. direta ou indiretamente ligados à mesma. a doutrina dos atos próprios. sem necessidade de desconsideração. parágrafo único. A teoria do ultra vires.. embora relacionadas no elemento teleológico. os que tiverem qualidade para representá-la" Além das restrições legais ao princípio da autonomia da pessoa jurídica. tenham praticado ou concorrido para a prática da sonegação fiscal. 22. nulos os atos praticados ultra vires.626/33). diferentes fundamentos e .

um certo raciocínio que afasta a incidência das regras gerais aplicáveis a matéria. previsto em lei. atos societários são declarados ineficazes. Trata-se de aplicar em casos concretos.. "Sintomaticamente tal solução se desenvolveu nos países de Direito não escrito (common law). Isto porque o problema da personificação. para o caso concreto. sintetizando a doutrina dominante: "A desconsideração da pessoa jurídica significa tornar ineficaz..". p. Estados Unidos e Inglaterra." (Luciano Amaro in "Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor". ficando esta em segundo plano. sistematicamente considerado.. seriam imputadas à sociedade ou ao sócio respectivamente. uma técnica casuística (e. a personificação societária. se não fosse a superação. resultaria indesejável ou pernicioso aos olhos da sociedade. p. Através da Desconsideração. 74) : ". sob pena de alteração da escala de valores. Domingos Afonso Kriger Filho (in "Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor". Desta forma quando o interesse ameaçado é valorado pelo ordenamento jurídico como mais desejável ou menos sacrificável do que o interesse colimado através da personificação societária. portanto. mas porque a subsunção do concreto ao abstrato.. Afasta a regra geral não por inexistir determinação legal.162 5 .A DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA É. a obtenção de um regime jurídico distinto do preconizado no direito posto. . e a importância da pessoa do sócio sobressai em relação à da sociedade.. por sua especialidade. 75). em tais casos. Seria injusta. de construção pretoriana) de solução de desvios de função da pessoa jurídica. p. Há situações em que a pessoa jurídica deixou de ser sujeito e passou a ser mero objeto." De forma que podemos dizer que o instituto visa. atribuindo-se ao sócio ou sociedade condutas que. a solução decorrente da aplicação do preceito legal expresso. para a pratica de certos atos. abre-se a oportunidade para a desconsideração. manobrado à consecução de fins fraudulentos ou ilegítimos. no dizer de Luciano Amaro (in "Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor". não encontra resposta satisfatória no sistema positivo do direito. Resulta a aplicação de tal técnica da ocorrência de situações concretas em que prestigiar a autonomia e a limitação de responsabilidade implicaria sacrificar interesse legítimo. 21). albergado pelo Direito.

Intenção de evitar o perecimento do interesse legitimo. algo de axiológico. legalidade dos atos. Ignorância para o caso concreto e período determinado. na Argentina. por exemplo. O instituto. dentro de uma visão sistemática e fundamentalmente teleológica do Direito. superação da personalidade jurídica. O cabimento da desconsideração envolve sempre algo de ideológico e. levantamento do véu corporativo. como: Desconsideração. fraude. por muito tempo. se não na letra expressa da lei. no direito Norte Americano. no setor tributário. mas que não devem ser confundidos com a mesma. Nos setores onde vige a reserva absoluta da lei. se desenvolveu ao redor do mundo. recebendo diferentes designações. não há lugar para a desconsideração. em relação a um ato concreto e específico. quando de sua aplicação. na Alemanha. a implantação da solução encontrou resistência nos países da tradição do direito escrito. superamento della personalitá giuridica. Desta forma. Ainda nos demais setores. Cabe falar da desconsideração quando não haja uma solução legislada específica para os eventuais desvios de função da pessoa jurídica.163 Sintomaticamente. durghgriff der juristischen Person. também. teoria da penetração. entre eles o Brasil. A grande dificuldade está em construir um modelo teórico que possa enfeixar. certamente. A desconsideração é um conceito ligado ao funcionamento da pessoa jurídica. estrutura. penetração da pessoa jurídica . na Inglaterra. desconsideração da entidade legal. disregard of legal entity. de vez que haverá sempre. Levantamento. teoría de la penatración. ao menos nos princípios que a informam. onde cabível. . nulidade. Superação. Penetração. numa formulação abrangente. a solução jurisprudencial da desconsideração deve buscar apoio. responsabilizando-o como se a sociedade não existisse. podemos sintetizar enumerando os elementos que compõem a figura da desconsideração da pessoa jurídica: Ignorância dos efeitos da personificação. associados a defeitos tais como simulação. Manutenção da validade dos demais atos jurídicos praticados. que ainda podemos conceituar em palavras diversas como: o afastamento momentâneo da personalidade jurídica da sociedade. tal fato deixa pouca margem para definições apriorísticas de casos. Dificuldade mais séria nos países de direito escrito. o direito oferece remédios análogos a desconsideração. as várias situações em que essa técnica possa ou deva ser aplicada. Nada correspondendo aos assuntos da validade de constituição. na Itália. para estes. para destacar ou alcançar diretamente a pessoa do sócio. lifting the corporate veil.

quanto do Direito Processual.DISPOSITIVOS LEGAIS O ser construção pretoriana." Em nosso ordenamento jurídico positivo. Parágrafo único. caso em que poderá o juiz. ou mesmo a necessidade. responderão. de previsão legal. Os atos praticados não são anulados. Passemos. os bens pessoais do administrador ou representante que dela se houver utilizado de maneira fraudulenta ou abusiva. 28 do CDC: . conjuntamente com os da pessoa jurídica. tanto do Direito Material. prevendo. a título de melhor ilustrar a natureza do instituto. "Art. ou abusivos. então. as hipóteses que ensejem sua aplicação.164 uma opção entre um valor ou um interesse específico. diante de outros valores ou outros interesses específicos. Neste caso. 50. a requerimento de qualquer dos sócios ou do Ministério Público. a dissolução da entidade. até e ainda. "dis-torcer" as conseqüências do ato praticado. A pessoa jurídica não pode ser desviada dos fins estabelecidos no ato constitutivo. de resto diploma amplamente inovador. genericamente. 28).A DESCONSIDERAÇÃO NO CÓDIGO DE PROTEÇÃO E DEFESA DO CONSUMIDOR Vejamos o que diz a redação do art. ao menos no que tange ao reconhecimento da possibilidade de sua aplicação. ou. 7 . decretar a exclusão do sócio responsável. salvo se norma especial determinar a responsabilidade solidária de todos os membros da administração. bem como a possibilidade de sua previsão normativo-positiva. desfazer o que de fraudulento houver sido praticado em nome da pessoa jurídica. ao Código. sem prejuízo de outras sanções cabíveis. a Desconsideração surge pioneiramente no Código de Defesa do Consumidor (art. à outorga aos Órgãos Judiciários da capacidade de praticá-lo. 6 . tais sejam as circunstâncias. para servir de instrumento ou cobertura à prática de atos ilícitos. Desconsideração não se confunde nem acarreta a nulidade dos atos que propiciaram a atuação judicial. não afasta do instituto a possibilidade. Devemos citar a previsão legal inserta no projeto de Código Civil em tramitação no Senado. apenas outras medidas são tomadas para corrigir e compensar. ou.

houver abuso de direito. Falência. Vejamos: Abuso de direito. excesso de poder. 28. infração da lei.O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando. estado de insolvência. fato ou ato ilícito.(Vetado) § 2º . em detrimento do consumidor. versam sobre a matéria da responsabilidade subsidiária ou solidária.165 "SEÇÃO JURÍDICA V- DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE Art. infração da lei. 28 . fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. pois os §§ 2º a 4º. 28 do CDC. estado de insolvência. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. Esta não se faz necessária par o fim de fazer atuar aquela responsabilidade. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. a luz do quanto já acima discutido afirmar categoricamente: a Desconsideração da Pessoa Jurídica é objeto do caput e do § 5º do art. § 3º . (caput. dividir em três grupos as hipóteses legais de incidência da desconsideração contidas no art. 2ª parte). de alguma forma.Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for.As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código. para fins de análise. (caput. (§ 5º) Algumas considerações . § 4º . de alguma forma.As sociedades coligadas só responderão por culpa. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. § 5º ." Podemos. sendo desnecessária intervenção judicial no sentido de proclamar desconsideração. violação de estatutos ou contrato social. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocadas por má administração.As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas são subsidiariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código. Qualquer hipótese em que a personalidade da pessoa jurídica seja. que a própria lei determina. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. a despeito da rubrica aposta à Seção V. Podemos. 1ª parte). § 1º . excesso de poder.

181): "O dano indenizável. Tais fatos. não há razão para aplicar. como de resto toda a disciplina de defesa do consumidor abraça as duas fontes da responsabilidade a da responsabilidade objetiva. temos a prática de atos que implicam infração da lei. Analisemos separadamente cada um dos grupos acima nominados. ou os da personalidade societária. fundada na teoria do risco. dos estatutos ou utilização de direitos além de sua órbita. a desconsideração. Quando tratamos de empresa com capacidade financeira para ressarcir o consumidor.. e a da responsabilidade subjetiva fundada em culpa. em razão disto. de uso parcimonioso. p. poderão servir de embasamento a desconsideração a fim de alcançar o patrimônio dos sócios. a busca do responsável. com o uso anormal das prerrogativas conferidas à pessoa pelo ordenamento jurídico. prejuízo ao consumidor. Na realidade é o elemento integrante de todas as hipóteses que requerem. Grupo 1 No primeiro grupo de hipóteses. Segundo Pedro Batista Martins (apud Rubens Requião in "Abuso de Direito e Fraude através da Personalidade Jurídica"): . como os dos demais sócios. objetivando. A desconsideração visa em tais casos a que os bens dos sócios infratores sejam também garantia do ressarcimento do prejuízo causado ao consumidor. auferir vantagem ilícita ou indevida". 12 a 14 do CDC). que a pratica abusiva ou ilícita o seja em virtude da preterição do direito do consumidor. p. por dolo ou má-fé. quando por si não acarretem a responsabilidade pessoal do agente. por motivos óbvios na aplicação em defesa de interesses outros. Não caberia. (fato que emerge claramente dos arts." Caracteriza-se o abuso de direito. Segunda: a desconsideração há de supor a incapacidade da pessoa jurídica para reparar o dano.166 Primeira: o pressuposto de todas as hipóteses acima arroladas é o da lesão de interesses do consumidor. prima facie o tratamento excepcional da desconsideração.. só podem ocorrer se e quando tiver havido desrespeito ao sistema jurídico. por responsável e. Terceira. portanto.. tratamento excepcional e. etc. Conforme Arruda Alvim (in "Código do Consumidor Comentado". 23) ". Deve haver inafastável nexo de causalidade entre a conduta inadequada e o prejuízo causado ao consumidor. nas palavras de Domingos Afonso Kriger Filho (in "Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor". para sua efetividade.

demais casos.708. 182): "Ocorre abuso de direito quando o fornecedor. a excepcionalidade. sócios. 3.. In " A Dupla crise da Pessoa Jurídica". ou por força dos estatutos ou contrato social. embora relacionado com a pessoa jurídica. puder praticar determinado ato. no caso da sociedade anônima (arts. Frise-se que determinados autores não consideram. de desconsideração da pessoa jurídica. Vejamos: "No que se refere ao excesso de poder. 115.. 159. sempre. p. então a . infração da lei. Pag." (Oliveira. representam. Já há previsão legal: no caso da sociedade de responsabilidade limitada (art. Aspectos Processuais". pois aquele que excede o que lhe é permitido por lei. que é a responsabilidade do sócio ou do representante legal da sociedade por ato ilícito próprio. p.167 "sempre que um titular de direito escolhe o que é mais danoso para outrem. 16). 142) Sobre o assunto. fato. as hipóteses do parágrafo anterior. 10." (Alberton.. e art. 610) "Em determinadas circunstâncias. violação dos estatutos ou contrato social. Infração de lei. 117 e 158. Apenas há um ponto comum . art. diretores. no caso de desconsideração da pessoa jurídica são idênticas? Quer nos parecer que não. Decreto. 168 e 169) "Excesso de poder. ou pelo contrato social. comete um ato abusivo" Arruda Alvim (in "Código do Consumidor Comentado". responde por ato próprio. não sendo mais útil para si ou adequado ao espírito da instituição. o não cumprimento das obrigações impostas às pessoas pela lei. mas o faça de molde a prejudicar terceiro.. não há desconsideração. Lamartine Corrêa de. Fábio Ulhoa in "Comentários ao Código de Proteção do Consumidor". age contra a lei ou. a lesá-lo (consumidor)". J." (Coelho. infração da lei. Genacéia da Silva in "A desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor. Consideram a teoria inaplicável in casu. No excesso de poder a pessoa pratica ato ou contrai negócio fora do limite da outorga ou autoridade conferida. . Esta situação decorrente da lei e as conseqüências.. ou gerentes podem responder por dívidas da sociedade. Qual. Lei 6404). fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social dizem respeito a um tema societário diverso. embora não se referindo especificamente ao CDC: "Não podem ser entendidos como verdadeiros casos de desconsideração todos aqueles casos de mera imputação de ato. dolosamente contra o estatuto ou contrato.. fato ou ato ilícito ou violação do contrato social. ato ilícito. por lei ou embasado no sistema jurídico. CC. p.

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diferença ?.... Quando a lei brasileira ...impõe ao sócio, gerente ou administrador a responsabilidade por dívidas da sociedade, faz porque uma dessas pessoas agiu de maneira contrária à lei ou contrato, mas como pessoa integrante da pessoa jurídica. Não foi a pessoa jurídica que teve a sua finalidade desvirtuada, não foi a pessoa jurídica como ser que foi manipulada mas, sim, o diretor, o gerente ou o sócio que, na sua atividade ligada à empresa, andou mal. Quando se fala, por outro lado, em desconsideração da pessoa jurídica, é porque a própria entidade é que foi desviada da rota traçada pela lei e pelo contrato.... Assim, acreditamos que devemo separar bem estas duas hipóteses por não serem idênticas" (Casillo, João in "Desconsideração da Pessoa Jurídica") Acatando o ponto de vista dos autores citados, restaria apenas a hipótese do abuso de poder, como ensejador da aplicação da doutrina da Desconsideração, ficando as demais hipóteses ainda no campo da previsão legal, externa à doutrina. O abuso do poder, por sua própria natureza, conforme acima referido, se amolda a hipótese de utilização da Desconsideração, vez que constitui, não violação clara da lei, caracterizando um "fato típico", previsto legalmente, mas antes, um uso abusivo da lei. Não havendo tal "tipicidade", impossível prévia previsão legal, imperativa então a atuação criadora judicial, através do instituto sob análise. Parece-nos, entretanto, que há um certo excesso de rigor formal em tal posição. Nem sempre ao ilícito legal ou contratual corresponderá uma expressa cominacão de responsabilidade pessoal, civil ou penal. Ainda que ressalvadas as previsões genéricas da lei, como a do art. 159 do CC, citada por Genacéia, parece-me que o instituto da Desconsideração melhor cobriria esses casos de lacuna da lei no que tange a previsão expressa da responsabilidade, lacuna que poderia ao final acobertar o infrator. A ausência de tal expressa previsão legal, poderia ser agitada com o propósito de elidir a responsabilidade, em sendo o caso, o art. 28, sob comento, forneceria o respaldo legal para a atuação jurisdicional no sentido de alcançá-la. Separar o ato do responsável pela pessoa jurídica do ato da pessoa jurídica, operação mental a que podemos ser induzidos pelo raciocínio de Casillo, pode resultar ser tarefa árdua, considerando as sutilezas que quase sempre cercam a situação concreta. Mais uma vez, o afastamento da figura da Desconsideração, poderia ser utilizada no sentido do acobertamento do infrator. De forma que, a despeito do rigor formal que caracteriza o exposto pelos autores acima citados, considero mais prudente, estender o manto protetor do instituto que ora analisamos também aos fatos aos quais o autores negam sua incidência, como faz o diploma legal protetivo do consumidor. Grupo 2 No segundo grupo o texto legal introduz um elemento não especificamente

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ligado ao interesse do consumidor: a má administração. É questionável esta inserção. Não há que se confundir a má administração com a prática abusiva citada na parte inicial do caput. A má administração poderia, isto sim, ensejar o uso do instituto para responsabilizar a gerência incompetente frente a própria pessoa jurídica ou frente aos demais sócios. É de se questionar, no entanto, a relevância deste fato frente ao direito do consumidor. É de se questionar se alguém administraria mal uma empresa com o fito exclusivo de fraudar os direitos do consumidor. E quanto à empresa bem administrada, que desativada, tenha lesionado consumidores. Ficariam imunes à regra? Concluindo, parece mal posta a hipótese legal no que se refere a má administração, quer pela falta de nexo entre qualidade da administração e eventuais prejuízos ao consumidor, quer pela falta de isonomia entre o tratamento dado ao consumidor da empresa encerrada por má administração e o dado ao cliente de uma empresa bem administrada que encerrou suas atividades. Certo é, em todos os casos, que o consumidor deve ser protegido na hipótese em a pessoa jurídica tenha cessado a atividade ou esteja extinta, e isto independentemente dos motivos que ensejaram tal encerramento de atividade. Grupo 3 Finalmente no terceiro grupo, a hipótese contemplada no §5º, parece inconciliável com o caput. Expressões demasiadamente genéricas ("sempre", "de qualquer forma"), parecem inutilizar as hipóteses do caput. Tão genérico, abrangente e ilimitado é o parágrafo, que aplicado literalmente, dispensaria o caput, tornaria inócua a própria construção teórica do instituto da desconsideração, implicando derrogar a limitação da responsabilidade de toda e qualquer empresa no que diz respeito às relações de consumo. Frente a tal, pelo menos aparente, incongruência, posicionam-se os doutrinadores: Zelmo Denari (in "Código de Defesa do Consumidor, Comentários pelos autores do Anteprojeto", p. 132), com a autoridade de ser um dos autores do anteprojeto da Lei 8.078/90, postula mesmo o "aberratio ictus da caneta presidencial". O parágrafo a ser vetado teria sido o 5º, e não o 1º, como apareceu no diário oficial, que segundo Denari é essencial para a aplicação do artigo. Para que se coteje com o texto do §5 e, à luz da razão do veto, aprecie-se assim a procedência da tese de Zelmo, transcrevemos abaixo o parágrafo vetado e as razões do veto: "§ 1º. A pedido da parte interessada, o juiz determinará que a efetivação da responsabilidade da pessoa jurídica recaia sobre o acionista controlador, o sócio majoritário, os sócios-gerentes, os administradores societários e, no caso de grupo societário, as sociedades que a integram."

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Razão do veto: "O caput do art. 28 já contém todos os elementos necessários à aplicação da desconsideração da personalidade jurídica, que constitui, conforme doutrina amplamente dominante no direito pátrio e alienígena, técnica excepcional de repressão a práticas abusivas." Como claramente se vê, fortíssima pode parecer a evidência do equivocado fato pelo qual, propugna Zelmo Denari, se explicaria a aparente ininteligência do parágrafo que ora analisamos frente ao sistema em que se insere. Entretanto, é também óbvio que, para albergarmos tal tese, teríamos antes que admitir a ininteligência do legislador a exigir atuação da sancionadora caneta presidencial. Esta última parece-nos bem menos provável, dada a qualidade que pautou a produção legislativa do diploma que ora analisamos. Vejamos, entretanto, outros posicionamentos: Fábio Ulhoa Coelho (in "Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor", p. 143 e 144): censura o preceito no § 5º, concedendo apenas sua aplicação em matéria de sanções não pecuniárias (proibições de fabricação, suspensão temporária de atividade, etc...), apesar do contrário defluir do texto da lei: "ressarcimento de prejuízo do consumidor". Por fim salienta que no embate entre o caput e o § 5º, se um tiver que ceder será o parágrafo, não o caput. A interpretação meramente literal, no entanto não pode prevalecer e isto por três razões: Em primeiro lugar, porque contraria os fundamentos teóricos da desconsideração. ... Em segundo lugar, porque uma tal exegese tornaria letra morta o caput do art. 28. ... Em terceiro lugar, porque esta interpretação equivaleria à revogação do art. 20 do CC ("As pessoas jurídicas tem existência distinta da dos seus membros") em matéria de defesa do consumidor. E se esta fosse a intenção do legislador, a norma jurídica que a operacionalizasse poderia ser direta, sem apelo à teoria da desconsideração. Rachel Sztajn (in "Desconsideração da Personalidade Jurídica", p. 72): O parágrafo 5º deveria encimar o artigo: "Se o art. 28 tivesse por caput o § 5º, além dos §§ 2º e 3º, o consumidor estaria tutelado (apenas) em face da separação patrimonial utilizada de forma iníqua ou inadequada." A autora condiciona a aplicação do citado parágrafo aos pressupostos da teoria da desconsideração. Américo Führer (in "Resumo de Direito Comercial", p. 74): "A teoria pode ser aplicada diretamente pela lei,...,independentemente de qualquer abuso ou má fé", parece que nestas palavras o autor admite o utilização literal do § 5º. Genacéia da Silva (in "A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor): "No que ser refere ao § 5º do art. 28, é necessário interpretá-lo com cautela. A

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mera existência de prejuízo patrimonial do consumidor não é suficiente para a desconsideração. O texto deixou o significado em aberto na medida em que assevera que a pessoa jurídica poderá também ser desconsiderada quando sua personalidade ‘De alguma forma’ for obstáculo ao ressarcimento, ..., leia-se, quando a personalidade jurídica for óbice ao ressarcimento justo do consumidor." (grifo nosso) A interpretação mais consentânea parece ser a de que o § 5º, constitui uma abertura ao rol de hipóteses do caput, sem prejuízo dos pressupostos teóricos da doutrina que o dispositivo visou consagrar. A aplicação do § 5º deve restringir-se às situações em que o fornecedor do produto ou serviço ao consumidor constitui a pessoa jurídica, ou a utiliza, especificamente para livrar-se da responsabilização de prejuízos causados ao consumidor. Aí justamente reside a carga axiológica do instituto, na análise judiciária da forma como a pessoa jurídica foi constituída ou utilizada relativamente à relação de consumo.

8 - A RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA E SUBSIDIÁRIA PREVISTA NO ARTIGO 28 DO CDC No presente trabalho pretendemos, no âmbito do Código de Defesa do consumidor, tratar apenas da Desconsideração da Pessoa Jurídica. Não obstante, por se encontrarem enfeixados sob tal rubrica no texto normativo, trataremos também do responsabilidade disciplinada pelos parágrafos 2º a 4º do art. 28 do CDC, que a nosso ver, como já exposto, não compõem o instituto da Desconsideração. Assim tratemos da: Responsabilidade de Grupos societários e sociedade controladas O § 2º, estatui responsabilidade subsidiária das sociedades integrantes de grupos societários e sociedades controladas. Aqui, como já dito, não se cuida de desconsideração, mas de hipótese legal de responsabilização de terceiro. A própria redação indica uma responsabilidade objetiva, não sujeita a análise de elementos outros, presentes no caso concreto. Basta o liame a unir as entidades societárias, para dele decorrer a responsabilização. Tal dispositivo previne que as obrigações sob estudo sejam concentradas na sociedade que tenha menor respaldo patrimonial. Para Genacéia da Silva Alberton (in "A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor), em seu trabalho já várias vezes citado, o Código foi tímido em estabelecer apenas responsabilidade subsidiária, concedendo o benefício de ordem e, consequentemente, impedindo que o consumidor ajuíze a ação desde logo contra as demais empresas. Para outros doutrinadores, no entanto, basta a prova da impossibilidade de ressarcimento pela empresa principal obrigada, para, já inicialmente, demandar a sociedade com responsabilidade subsidiária.

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No que se refere a sociedades controladas, o preceito parece conter alguma impropriedade. Obviamente a responsabilização subentende-se seja por obrigações da controladora (o texto não é explícito) que incidiria em caráter subsidiário sob o patrimônio da controlada. Temos a considerar que seria lógico que as ações ou quotas representativas do capital da controladora respondessem pelas obrigações da mesma, não o sendo, entretanto, que o patrimônio da controlada, que envolve o de terceiros (que podem deter até cerca de 83% do capital social, totalidade das ações preferenciais + 49% das ordinárias) o fossem, já que nada tem a ver com a conduta da controladora. Só podemos entender o dispositivo legal em sua literalidade, se o considerarmos conseqüência de prevalência especial do interesse de ordem pública da relação de consumo sobre os interesses de ordem privada; ou por outro, que sua aplicação dependa do pressuposto da concorrência da controlada na lesão ao consumidor., ou por outra de sua utilização pela controladora nesse intento. Responsabilidade das Sociedades consorciadas O § 3º, constitui também, em favor do consumidor, uma exceção a regra geral, já que a lei das Sociedades Anônimas, que rege esta esfera da ordem jurídica, não preconiza a solidariedade das sociedades consorciadas (art. 278, § 1º, Lei 6.404/76). Sabemos que a solidariedade não se presume, mas decorre da lei ou do contrato, aqui temos a hipótese legal, a proteger o consumidor. Convém salientar, por ser lógica, a ressalva que faz Fabio Ulhoa: "... a solidariedade existe apenas no tocante as obrigações relativas ao objeto do consórcio. Quanto às demais não há qualquer vínculo dessa natureza..." (Coelho, Fábio Ulhoa, in "Comentários ao Código De Proteção do Consumidor", p. 145) Responsabilidade das Sociedades coligadas O § 4º, estabelece a responsabilidade das coligadas, apenas na hipótese de culpa. Não poderia ser diferente, já que a mera participação da empresa no capital de outra (10% ou mais), sem controlá-la, não induziria, em si mesma, tal responsabilidade. A sociedade coligada é simplesmente sócia de outra e, como sócia, não tem responsabilidade pelos atos dessa outra a não ser que tenha participado do ato, caso em que será solidariamente responsável. Para alguns, supérfluo tal dispositivo, já que a responsabilidade seria deduzida de qualquer forma, sendo suficiente o art. 159 do CC. - CONCLUSÃO O CDC é diploma largamente inovador tanto no que se refere ao Direito Material, quanto no que se refere ao Direito Processual. Insere-se no contexto da evolução do Direito Moderno ao voltar-se à proteção e tutela de direitos

Novembro . CASILLO. N 205. N 58. Ed. Genacéia da Silva. Nesse contexto inovador. Ajuris. 1996. Código Do Consumidor Comentado. Vol 42. Forense Universitária. Código de Defesa do Consumidor. seus valores e seus princípios asseguradores da paz. 1987. P 17 A 27. COELHO. Ed. tem relevância a introdução pioneira.. Comentários pelos Autores do Anteprojeto. et al. Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor. Vol 20. Porto Alegre. ED. A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código do Consumidor. Julho.. do convívio social harmonioso e da justiça. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. Março. Coordenação de Juarez de Oliveira. São Paulo. DENARI. Américo. 1991. representam violação do ordenamento jurídico naquilo que possui de mais caro.. individuais. sob o aspecto dogmático ou doutrinário. Ajuris. Fábio Ulhoa.173 personalísticos. 28 desse Estatuto representa o estendimento da longa manus do Estado. da boa fé. Arruda. etc. Desconsideração da Personalidade Societária no Direito Brasileiro.1994. 1995 AMARO. Saraiva. .. coletivos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBERTON. Luciano. Revista dos Tribunais. apesar de conformarem-se ao figurino do estrito modelo legal. RT 528/24. 1991. Domingos Afonso. conforme discutido neste trabalho. Revista Jurídica. Revista dos Tribunais. N 54. Resumo de Direito Comercial. ALVIM. Ed. JUSTEN FILHO. Aspectos Processuais. rev. e ampl. Desconsideração da Pessoa Jurídica. Marçal. o art. da Doutrina da Desconsideração da Pessoa Jurídica. no ordenamento jurídico pátrio. do hipossuficiente. São Paulo. KRIGER FILHO. 1992. A despeito de alguma impropriedade da redação. P 69 A 84. Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor. P 146 A 180. São Paulo. difusos. 1993. João. Rio de Janeiro. 28 do CDC representa um grande avanço não só no campo específico do Direito Tutelar do Consumidor como também de todo o Direito Posto Nacional. Zelmo. Malheiros Editores. O art. FÜHRER. 2. Vol 19. para alcançar aqueles atos que.

Rachel. A Dupla Crise da Pessoa Jurídica. Abuso de Direito e Fraude através da Personalidade Jurídica. 1992.174 OLIVEIRA. Revista de Direito do Consumidor. SZTAJN. 1979. REQUIÃO. São Paulo. . J. Junho. Rubens. Editora Saraiva. 528:16. P 67 A 75. Desconsideração da Personalidade Jurídica. RT. N 2. Lamartine Corrêa.

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Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção e Defesa do Consumidor

Autor: João Bosco Pastor Gonçalves

Sumário: 1 – Introdução; 2 – Publicidade: Conceito e elementos essenciais; 3 – Princípios Gerais da Publicidade no CDC; 4 – Princípio da Identificação da Publicidade; 5 – Princípio da Vinculação Contratual da Publicidade; 6 – Princípio da Veracidade da Publicidade; 7 – Princípio da Não Abusividade da Publicidade; 8 – Princípio da Inversão do Ônus da Prova; 9 – Princípio da Transparência da Fundamentação; 10 – Princípio da Correção do Desvio Publicitário; 11 – Conclusão

1. Introdução Com o objetivo de desenvolverem as suas atividades empresariais, o comércio e a industria necessitam divulgar os produtos e serviços por eles produzidos e prestados, a fim de que desperte interesse nos consumidores. Em geral, produtos de primeira necessidade, (feijão, arroz, carne, leite, etc.), dispensam maior divulgação, entretanto, produtos mais caros (de luxo), como automóveis, equipamentos de áudio e vídeo sofisticados, telefones celulares ou uma casa de veraneio, não dispensam uma boa estratégia de marketing, e aí inclui-se a publicidade. As pessoas compram coisas por dois motivos essenciais: necessidades e impulsos. As necessidades nem sempre são reais, elas são criadas pela publicidade, sem a qual não haveria como colocar no mercado cada vez mais produtos que, a rigor, ninguém precisa. 1 As mensagens publicitárias induzem as pessoas a comprarem por impulso. Quem resiste a um anuncio para comprar um presente em um shopping no dia das mães ou no dia dos namorados?. Nosso ordenamento jurídico não obriga a ninguém a anunciar os seus produtos ou serviços, porém, se o fizer, a sua publicidade está sujeita a uma série de deveres impostos pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor, Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, (CDC). O objetivo do presente trabalho é a análise do conceito de publicidade e dos princípios que a regem, á luz do referido diploma legal.

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2. Publicidade: Conceito e elementos essenciais Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin2, citando o jurista português Carlos Ferreira Almeida, diz que publicidade ‘é toda informação dirigida ao público com o objectivo de promover, directa ou indirectamente, uma actividade económica’. Prossegue afirmando que tal como acontece com o conceito de marketing, não é tarefa fácil definir o que seja publicidade em virtude do caráter complexo de suas múltiplas funções e das relações mútuas entre elas, e fornece a noção do Comitê de Definições da American Association of Advertising Agencies ( AAAA): ‘ publicidade é qualquer forma paga de apresentação impessoal e promoção tanto de idéias, como de bens e serviços, por um patrocinador indentificado’. Trata-se sem dúvida, de uma forma de comunicação social, em toda publicidade há uma mensagem, um emissor que tem como objetivo alcançar um conjunto de receptores, transmitir-lhes uma idéia, incentiva-los a um determinado comportamento – comprar um bem ou, utilizar-se de certo serviço. Porém, nem toda forma de comunicação integra o conceito de publicidade: fora desse campo ficam a informação cientifica, política, didática, lúdica ou humanitária, porque alheia á atividade econômica, mesmo quando seja produzida com a intenção de gerar certa convicção nos seus destinatários 3. Dois elementos são essenciais em qualquer publicidade: a difusão e a informação. Um é o elemento material da publicidade, seu meio de expressão. O outro é o seu elemento finalistico4. Sem difusão não há publicidade, vez que a mesma precisa ser levada ao conhecimento de terceiros, da mesma forma sem um conteúdo mínimo de informação inexiste a publicidade. Convém ainda esclarecer, que embora sejam usados indistintamente no dia-adia, os termos publicidade e propaganda não se confundem. Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin 5 afirma que a publicidade tem objetivo comercial, enquanto que a propaganda visa a um fim ideológico, religioso, político, econômico ou social, e que além de ser paga, na publicidade sempre identifica-se o seu patrocinador, o que nem sempre ocorre com a propaganda. Na propaganda difunde-se uma idéia, ao passo que na publicidade divulga-se uma mercadoria ou serviço. Estabelecidos o conceito de publicidade e seus elementos essenciais, bem como a necessária distinção entre os termos propaganda e publicidade, passamos a análise dos princípios que norteiam a elaboração da mensagem publicitária, á luz do Código Brasileiro de Proteção e Defesa do Consumidor (CDC) e da Constituição

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Federal.

3. Princípios Gerais da Publicidade no CDC Princípio, conforme o excelente ministério do Professor Celso Antônio Bandeira de Mello6 " [...] é por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico". [...] Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma qualquer. A desatenção ao principio implica ofensa não apenas a um especifico mandamento obrigatório, mas a todo sistema de comandos". Alguns princípios foram adotados pelo CDC para a elaboração da publicidade, com vistas á proteção do consumidor, parte mais fraca nas relações consumeristas. Em função da tutela fornecida aos consumidores eles encontram-se assim distribuídos no Código de Proteção e Defesa do Consumidor: princípio da identificação da publicidade ( art. 36); princípio da vinculação contratual da publicidade ( arts. 30 e 35); princípio da veracidade ( art. 37 § 1º ); princípio da nãoabusividade da publicidade ( art. 37 § 2º); princípio da inversão do ônus da prova ( art. 38); princípio da transparência da fundamentação publicitária ( art. 36, parágrafo único); princípio da correção do desvio publicitário ( art. 56, XII). Observa-se7 que o Código optou por definir publicidade enganosa e publicidade abusiva, sem conceituar o que seja publicidade, preocupando-se com a definição do desvio ( abusividade e enganosidade), mas não com a do padrão. Entretanto, o legislador preocupou-se com a tutela penal da publicidade, considerando crimes contra as relações de consumo a prática de publicidade enganosa ou abusiva, bem como a promoção de publicidade que induza o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa a sua saúde ou segurança, apenando ainda o fornecedor que não mantenha em seu poder os dados fáticos, técnicos e científicos que embasaram a sua mensagem publicitária, cominando pena de detenção e multa (arts. 67, 68 e 69).

4. Princípio da Identificação da Publicidade O artigo 36 do CDC está assim redigido: Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil

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e imediatamente, a identifique como tal. Parágrafo Único. O fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, em seu poder, para informação dos legítimos interessados, os dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação á mensagem. Analisando a "cabeça" do artigo, vemos que o fornecedor ao veicular a publicidade de seus produtos e serviços, deve fazer de modo claro, inteligível, o consumidor deve compreender que está diante de um anúncio publicitário. Previne-se8 assim contra as chamadas "publicidades ocultas" e "subliminares", através da técnica do Merchandising, de freqüente utilização em espetáculos, novelas, teatros, ou seja, a aparição dos produtos no vídeo, no áudio ou nos artigos impressos, em sua situação normal de consumo, sem declaração ostensiva da marca. Um bom exemplo de comunicação subliminar é o uso constante de determinada marca de carros em uma novela, ou ainda, as aparições de produto, serviço ou marca, de forma aparentemente casual, em programas de televisão, filme cinematográfico, jogos de futebol televisionados, etc. Pasqualotto9 observa que quando a publicidade não é de fácil e imediata identificação, "não é só o consumidor que pode estar sendo enganado. Também pode haver fraude á lei, pois a falta de identificação possibilita a transgressão de regras como a advertência necessária de restrição ao uso de alguns produtos (cigarros), o horário ou o local de exposição do anúncio (bebidas alcoólicas) ou a proporção de publicidade em relação á programação (rádio e televisão) ou o noticiário e reportagens (jornais e revistas)".

5. Princípio da Vinculação Contratual da Publicidade Tal princípio decorre da inteligência dos arts. 30 e 35 do CDC : Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado. Portanto, no plano contratual, o Código consagra o princípio da vinculação da publicidade. O consumidor pode exigir do fornecedor o cumprimento do conteúdo da comunicação publicitária. A publicidade é um verdadeiro negócio jurídico unilateral, na medida em que obriga o fornecedor a cumprir com a promessa, desde a sua difusão. Confira-se a jurisprudência a seguir:

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COMPRA E VENDA – Erro – Entrega recusada sob alegação de erro na especificação do preço, no orçamento – Não pode a teoria do erro escusável favorecer o fornecedor – Negócio perfeito e acabado – análise das disposições do Código Civil e do Código de Defesa do Consumidor – Exame da doutrina – Ação para entrega da coisa – Procedência – Decisão mantida. ( AC. Um. Da 5ª Cam. Esp. Do 1º TAC, Ap. 562.425-3, Rel. Juiz Sílvio Venosa, j.6-7-1994) ( O Código de Defesa do Consumidor e sua Interpretação Jurisprudencial, Luiz Antonio Rizzatto Nunes, Saraiva, 1997, p. 90).

6. Princípio da Veracidade da Publicidade Aqui, (art. 37 § 1º), o legislador preocupou-se em coibir a publicidade enganosa, que pode ser apresentada de duas formas: por comissão ou por omissão. Na publicidade enganosa por comissão, o fornecedor afirma alguma coisa capaz de induzir o consumidor a erro, dizendo alguma coisa que não é verdadeira. Na forma omissiva o patrocinador deixa de afirmar o que é relevante, também induzindo o consumidor a erro. Possível, também, que quanto á sua extensão a publicidade seja parcialmente enganosa, ou seja, contendo algumas informações falsas e outras verdadeiras, o que não a descaracteriza como publicidade enganosa. Quanto ao seu aspecto subjetivo10 não se exige por parte do anunciante a intenção (dolo ou culpa), sendo irrelevante a sua boa ou má-fé. Portanto, sempre que o anúncio for capaz de induzir o consumidor a erro, independentemente da vontade do fornecedor, está caracterizada a enganosidade da publicidade, o que justifica-se porque o objetivo é a proteção do consumidor, e não a repressão do comportamento enganoso do fornecedor.

7. Princípio da Não Abusividade da Publicidade Está consagrado no art. 37, § 2º, do CDC, que proíbe de qualquer forma, dentre outras, a publicidade discriminatória, que incite á violência, que desperte o medo ou a superstição, que se aproveite da deficiência de julgamento e inexperiência da criança, atinja valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa á sua saúde ou segurança. A locução "dentre outras", deixa transparecer que o elenco da publicidade abusiva é apenas exemplificativo, podendo existir outras formas de abusividade, cabendo aos aplicadores da lei – juízes e administradores adaptarem o texto da lei ás práticas do mercado.

porém. razão pela qual o legislador dedicou-lhes especial proteção. nas palavras de Carlos Alberto Bittar12: trata-se. seja entre homens. não se excluindo. profissão. da vulnerabilidade do consumidor. de ação tendente a instruir. condição social.38). 8. daí por que se desloca para o patrocinador o ônus da prova da veracidade e da correção da informação ou da comunicação publicitária (art. bem como do reconhecimento opis legi. 9. nacionalidade. o anunciante ou a quem o anúncio aproveita. cabendo ao fornecedor demonstrar que sua publicidade foi veiculada dentro dos princípios que estamos expondo. ou até contra bens públicos ou privados. etc. bastando que o anuncio faça uso desses recursos para que seja considerado ilegal. como direito fundamental dos seres humanos foi também motivo de proteção pelo legislador.180 A publicidade é discriminatória quando distingue entre raça. responde em regra. O meio ambiente. pois. considerando que qualquer publicidade dirigida a infantes não deixa de ter um grande potencial abusivo. por serem muito jovens não possuem o necessário entendimento para a compreensão do que é ou não verdadeiro nas mensagens publicitárias. convicções políticas ou religiosas. anexo ao princípio da boa-fé como norma de conduta. ou. (art. Trata-se de princípio básico para a facilitação da defesa do consumidor em juízo. a respeito de bens ou serviços oferecidos. 38). Princípio da Transparência da Fundamentação Trata-se de verdadeiro dever. pois a publicidade constitui-se em verdadeira oferta (princípio da vinculação . Princípio da Inversão do Ônus da Prova Tal princípio. condicionando o seu comportamento para a respectiva aquisição ou fruição. não se exige que a mensagem aterrorize. a responsabilidade da agência e do próprio veículo de comunicação. Quanto á publicidade exploradora do medo ou da superstição11. realmente os consumidores. Não se admite a publicidade que mostre a violência. seja entre homens e animais. Quanto à responsabilidade pelo desvio publicitário. que não admitiu nenhuma veiculação publicitária que fosse contra a proteção e conservação do mesmo. o consumidor. decorre dos princípios da veracidade e da não abusividade da publicidade. sexo. Quanto ás crianças. ilegitimamente.

garantia. às suas expensas. de caráter explicativo. A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas. a realidade dos fatos14.078. deve conter informações suficientes para esclarecer ao consumidor os elementos básicos que irão fundamentar a eventual formação segura e satisfatória de um contrato que atenda a seus interesses econômicos. claras. qualidades. Lei nº 8. A ausência de informação essencial será sempre interpretada contra o fornecedor. tendo como objetivo apagar a informação inadequada da percepção do consumidor. O artigo estabelece os requisitos da oferta. local e horário. pois é este que tem o dever legal de informar de modo preciso. o que se faz através da contrapropaganda. Nada mais é que uma publicidade obrigatória e adequada que se segue a uma publicidade enganosa ou abusiva. prazos de validade e origem. por esta óptica. quantidade. e vem expresso no art. precisas. do CDC: Art. preço. necessário que sejam desfeitos o seu impacto sobre os consumidores. claro. restaurando dessa forma. entre outros dados. o fornecedor. acolhida pelo Código em seu art. sic. Princípio da Correção do Desvio Publicitário Ocorrido o desvio publicitário. 10. 56. A publicidade. bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores. não se limitou apenas ao regramento das . 11. espaço. 31. Conclusão O legislador ao elaborar o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. ostensivo e em língua portuguesa13. Naquela. informa corretamente ao consumidor. além da sua reparação civil. composição. de 11 de setembro de 1990. de maneira que o consumidor tenha uma idéia precisa do que lhe está sendo oferecido. e repressão administrativa e penal. no que se refere à duração. É divulgada no mesmo veiculo de comunicação utilizado e com as mesmas características empregadas.( melhor seria contrapublicidade).181 contratual da publicidade). desfazendo os erros do anúncio original. XII. 31. Trata-se de veiculação de outra publicidade para sanar os malefícios causados pela publicidade originária. ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características.

12ª ed. 2000. 82. Curso de Direito Administrativo. p. Notas 1. p.[ et al ]. exigiu a transparência da fundamentação da publicidade e determinou a correção do desvio publicitário através da imposição da contrapropaganda. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Princípios Gerais da Publicidade na Constituição Federal e no Código de Defesa do Consumidor. 747.. São Paulo: Malheiros Editores.). 2. O Direito do Consumidor na Era da Globalização: a descoberta da cidadania. 265. Márcio Mello Casado. Ibidem. referendou o principio da vinculação contratual que permite ao consumidor exigir do fornecedor o cumprimento do conteúdo da mensagem publicitária. 3. coibindo todas as modalidades de anúncios enganosos ou abusivos. Instituiu para tal (proteção do consumidor). 748.. Rio de Janeiro: Forense Universitária. (op. Idem. 8. .. acolhendo o princípio da identificação da publicidade. uma serie de normas e princípios para o controle da publicidade. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. 66. Reconheceu que a proteção do consumidor deve iniciar-se mesmo em momento anterior ao da celebração do contrato de consumo – na fase da oferta. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover. p. Celso Antônio Bandeira de Mello. novembro de 1999. pp. 6. Proibiu a propaganda clandestina e a subliminar. 4. 7. p. 5.67. p.[ et al ].. que surge através das técnicas de estimulação do consumo – a publicidade.. nº 265. 2000. 264. inverteu o ônus da prova em favor do consumidor facilitando o seu acesso à Justiça. Cit. 265. 274. para resguardar a boa-fé dos consumidores. Sônia Maria Vieira de Mello. Revista Jurídica. Rio de Janeiro: Renovar. 6ª ed.182 relações contratuais de consumo. pp. 1998. 266. 6ª ed. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover. p.

Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover. 51. 12ª ed. 4ª ed. 1995. Cit.. Carlos Alberto Bittar. Carlos Alberto. 2000. São Paulo: Malheiros Editores. Noções de Direito do Consumidor. Márcio Mello. José Luiz Toro da Silva. Rio de Janeiro: Renovar. 1997. op. Referências bibliográficas BITTAR. Forense Universitária. novembro de 1999. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 13. O Direito do Consumidor na Era da Globalização: a descoberta da cidadania. 298. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor.. GRINOVER.. p. pp. 2000. 6ª ed. 14. Porto Alegre: Síntese.. Ada Pellegrini. p. Adalberto. 1999. Adalberto Pasqualotto. Revista Jurídica. 82 e 83. p.. CASADO. Princípios Gerais da Publicidade na Constituição Federal e no Código de Defesa do Consumidor.... MELLO. 1997. op. São Paulo : Revista dos Tribunais. Porto Alegre: Síntese. São Paulo: Revista dos Tribunais. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. Curso de Direito Administrativo. 4ª ed. Os Efeitos Obrigacionais da Publicidade. Noções de Direito do Consumidor. 286. 11. 10.183 9. Direitos do Consumidor. Sônia Maria Vieira de. 1998. Cit. 6ª ed. Direitos do Consumidor. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 12. 2000. 1999. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 303. p. MELLO. Os Efeitos Obrigacionais da Publicidade.. Celso Antonio Bandeira.. [ et al]. nº 265.[ et al]. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. PASQUALOTTO. . José Luiz Toro da. 1ª ed. SILVA. p.. 46.

184 As cláusulas abusivas à luz da doutrina e da jurisprudência Autores: Andrade Carlos Cavalcante Karla Karênina "Sem dúvidas. cedo ou tarde. nesse quadro. que o Direito se incline diante das nuanças e divergências que as relações sociais fizeram surgir. Cláusulas abusivas. que dita sua lei não mais a um indivíduo mas a uma coletividade indeterminada.Introdução As relações contratuais em curso na atualidade. 2.A Competência da Secretaria de Direito Econômico.Notas. 1.1. vê-se que economia é uma das maiores influenciadoras no . 2.A recepção do princípio da predominância da ordem pública pelo CDC como meio de afastamento das cláusulas abusivas nos contratos de adesão. há contratos e contratos e estamos longe da realidade desta unidade de tipo contratual que supõe o Direito. Conclusão.2. nos quais a predominância exclusiva de uma única vontade. trecho de Raymond Saleilles em De la déclaration de volonté. admitindo-se apenas a adesão daqueles que desejarem aceitar a lei do contrato". 2. na ausência de termo melhor.6.Sentença proferida em sede de ação de rescisão contratual. as regras de interpretação judicial deveriam se submeter. agindo como vontade individual. A cobrança extrajudicial de honorários advocatícios como cláusula abusiva. a importantes modificações.2. 5. 2. Há supostos contratos que tem do contrato apenas o nome. reflexo do processo de globalização no qual se insere toda a sociedade contemporânea. 6.5. poderiam ser chamados.Introdução.Referências Bibliograficas. Anexo. como o Direito não é subsistema normativo ético isolado dos demais. 2. Será necessário.Da Aplicação das Portarias da SDE aos Contratos Utilizados no Âmbito do Sistema Financeiro Nacional. 1901 Sumário:1.3.Efeitos nos contratos. Paris. para os quais em todo caso.O Controle das Cláusulas abusivas. de contratos de adesão.4. sem dúvidas. mormente as relações de consumo.Contratos de Adesão.2. são fortemente influenciadas pela economia de mercado. e cuja construção jurídica esta por fazer. recebe essas influências que o tornam apto a regular as novas relações que emergem do desenvolvimento da sociedade. obrigando antecipada e unilateralmente. 4. 3. 7.

que entendem não existir mais. o Poder Judiciário recorria às regras gerais contidas nos arts. o princípio da intangibilidade do conteúdo dos contratos significa a impossibilidade de revisão pelo juiz. a não ser excepcionalmente."(Caio Mário da Silva Pereira) (1) "Essa força obrigatória atribuída pela lei aos contratos é a pedra angular da segurança do comércio jurídico. ao atrasar qualquer das prestações avençadas é o consumidor surpreendido com ação judicial promovida pelo estipulante no foro deste. de desequilíbrio entre as partes contratantes. O art. que dispensa a prévia discussão das bases do negócio instrumento. as cláusulas abusivas eram disciplinadas de maneira esparsa no direito positivo pátrio. 85 . o instituto da pacta sunt servanda "stricto sensu" não existe mais. popularmente difundido como leasing. há juristas. depois de adquirir vida. Antes do Código de Defesa do Consumidor. como Nelson Nery Junior. Trata-se de um contrato estandardizado. como o pacta sunt servanda. encerra uma centelha de criação. pode intervir. é tão imperiosa que. que não comporta retratação. 4. e onde vem sendo a praxe a inserção de cláusula abusiva onde se elege o foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor. com o propósito de mudar o curso de seus efeitos. Outros diplomas ."(Orlando Gomes) (2) Com a crescente evolução de uma sociedade que prima pelo consumismo. Em se reconhecendo a vulnerabilidade do consumidor no mercado de massa. em um contexto atual de nosso direito.º da Lei de Introdução ao Código Civil para suprir essa lacuna: decidindo de acordo com a analogia. destacando-se os de alienação fiduciária e o arrendamento mercantil. não vislumbrada até então. surgiram os chamados contratos de adesão. nem o Estado mesmo.185 desenvolvimento jurídico. fez-se indispensável a criação de aparatos jurídicos capazes de repor equilíbrio entre os pólos contratuais. 85 do mesmo diploma legal era também aplicado (Art. tão forte e tão profunda. largamente utilizados para a aquisição ou utilização de bens. a qual atualmente se admitem restrições.nas declarações de vondade se atenderá mais à sua intenção que ao sentido literal da linguagem). enunciada em conformidade com a lei. O aumento das relações entre fornecedores e consumidores advindo da nova economia de mercado tornou perceptível uma situação. embora fosse para isso preciso afrontar o posicionamento tradicional dos mestres civilistas a respeito da força obrigatória dos contratos: "O princípio da força obrigatória no contrato contém ínsita uma idéia que reflete o máximo de subjetivismo que a ordem legal oferece: a palavra individual. Praticamente. o que significa uma verdadeira negação de acesso à justiça. de forma que.º e 5. o que acabou por franquear o questionamento de institutos outrora inabaláveis. valendo-se do direito comparado e atendendo aos fins sociais e às exigências do bem comum.

59. sendo o Secretário Nacional de Direito Econômico autorizado. e sua conseqüente declaração de nulidade.186 legislativos também tratavam do assunto. no caso de o contrato de consumo ter sido concluído fora do estabelecimento comercial. redigido em português. o Decreto n. Com o advento do CDC (4) foram trazidos avanços ao tratamento da proteção contratual do consumidor. posto que.181/97 (regula o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor). 115 e o art.372. como se pode depreender da observância dos fatos acima expostos. portanto. A previsão de cláusulas abusivas pelo CDC. 857/1969. pelo art. em linguagem clara e acessível.Cláusulas Abusivas Dispõe o artigo 51 do Código de Defesa do Consumidor: "Art.038/1934. pode o aderente exercer o direito de arrependimento. todo produto ou serviço deve ser obrigatoriamente acompanhado do manual de instalação e instrução sobre sua adequada utilização. que são aquelas cláusulas contratuais não negociadas individualmente e que. é possível a inversão do ônus da prova em favor do consumidor. dentro do período de reflexão de sete dias. causam em detrimento do consumidor um desequilíbrio importante entre os direitos e obrigações das partes. no caso de dúvida as cláusulas contratuais gerais devem ser interpretadas em favor do aderente. como regra básica. 24. as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: . autorizado a editar anualmente um rol exemplificativo do que são tidas por cláusulas abusivas É objetivo do estudo ora encetado a análise da posição doutrinária e jurisprudencial no que concerne às cláusulas abusivas. tendo direito à devolução imediata das quantias que eventualmente pagou. tais como o Decreto n. corrigidas monetariamente pelos índices oficiais. em seu artigo 51. não é exaustiva. 58 do Decreto nº2. o Decreto-Lei n.51º "São nulas de pleno direito. e do tratamento dado pela doutrina e jurisprudência a este assunto. tais como: os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores se não lhes foi dada a possibilidade de tomar conhecimento prévio de seu conteúdo ou se os respectivos instrumentos foram redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance. há penalização se o termo de garantia não for adequadamente preenchido e entregue ao consumidor. é inegável a importância da devida compreensão acerca do que sejam cláusulas abusivas. 2. uma lista exemplificativa das chamadas cláusulas abusivas.195/1966 e outros. frente as exigências da boa-fé. Há apenas dois artigos no Código Civil brasileiro que proíbem o uso das cláusulas leoninas (3): o art. 1. apresenta. assim como as implicações decorrentes. entre outras.

(STJ. Cláusula Abusiva O juiz do foro escolhido em contrato de adesão pode declarar de ofício a nulidade da cláusula e declinar da sua competência para o juízo do foro do domicílio do réu. em contrato de adesão. . "Assim. de que resulta dificuldade para a defesa do réu. vexatórias ou. que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada. Cláusula de eleição de foro. Conforme disposto no artigo supramencionado. Tratando-se de ação derivada de relação de consumo. possam contaminar o necessário equilíbrio ou possam. Relator: Min.". em que deve ser facilitada a defesa do direito do consumidor (Art. desde que se averigúe o justo equilíbrio entre as partes. Cláusulas abusivas. tais cláusulas são nulas de pleno direito. (6) Assim. com os olhos postos no presente. Código de Defesa do Consumidor.". Ruy Rosado de Aguiar. Competência Territorial. ainda. onerosas. há que se entender cláusulas abusivas como sendo aquelas que estabelecem obrigações iníquas. DJ-24/08/1998) "Competência. São sinônimas de cláusulas abusivas as expressões cláusulas opressivas. causar uma lesão contratual à parte a quem desfavoreçam". exceto quando sua ausência acarretar ônus excessivo a qualquer das partes. 6º. acarretando desequilíbrio contratual entre as partes e ferindo os princípios da boa-fé e da eqüidade. excessivas. Prevalência da norma de ordem pública que define o consumidor como hipossuficiente e garante sua defesa em juízo". Foro de Eleição. somente a cláusula abusiva é nula: as demais cláusulas permanecem válidas.. Órgão: Segunda Seção. e subsiste o contrato. (5) Segundo Hélio Zagheto Gama: "As cláusulas abusivas são aquelas que.699 –MG (97/0088907-6) (Anexo II) "Conflito de Competência.. ou sejam incompatíveis com a boa fé ou a equidade. a mais abalizada doutrina e atual jurisprudência. Cláusula de eleição de foro. se utilizadas... Contrato de adesão. sendo que a nulidade de qualquer cláusula considerada abusiva não invalida o contrato. assim. têm decidido em casos tais que. (STJ – AG Nº 170. no conceito de Nelson Nery Junior: "são aquelas notoriamente desfavoráveis à parte mais fraca na relação contratual de consumo. inseridas num contrato. cláusulas como essa do instrumento havido entre as partes ostentam-se indisfarçavelmente ineficazes e sequer possível o seu aproveitamento".) IV – estabeleçam obrigações consideradas iníquas. VIII.. e não operam efeitos. Processo N°: 21540. abusivas.187 (.

Conforme anteriormente exposto. São atos de natureza administrativa. são editadas em cumprimento ao disposto no citado artigo 56 do Decreto 2. a previsão de cláusulas abusivas pelo CDC não exaure as hipóteses com o elenco ali exposto.181/97.A Competência da Secretaria de Direito Econômico A Secretaria de Direito Econômico (SDE) foi criada pelo Decreto nº 2. garantindo. cabendo aplicação de multa ao fornecedor de produtos ou serviços que.11. aplicando-se o disposto no inciso IV do artigo 22 do Decreto 2. fizer circular ou utilizar-se de cláusula abusiva. Conflito conhecido. sendo órgão do Ministério da Justiça. compete ao Secretário Nacional de Direito Econômico editar anualmente um rol exemplificativo de cláusulas abusivas. inserir. fiscalizar e aplicar as sanções administrativas previstas no CDC e solicitar a instauração de inquérito para apuração de delito contra o consumidor. Assim. a SDE divulgará. promotores. dentre outras atividades.2ª Seção . assim.181. DJU de 16.j. Compete à SDE. não se exigindo. O artigo 56 do Decreto 2.181/97 estabelece que. cria novos direitos para o consumidor e deveres para o fornecedor. Juízes) e de advertência. a fim de orientar o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. O DPDC deverá. direta ou indiretamente. . em caráter exemplificativo.05. pois. qualquer que seja a modalidade do contrato de consumo. 2. que integra o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. no momento posterior. elencando as cláusulas abusivas.181/97. prestar aos consumidores orientação permanente sobre seus direitos.J. .181/97. compreendido até a efetiva formação do vínculo contratual (fase pré-contratual).188 do Código de Defesa do Consumidor). através do DPDC. são criadas normas proibindo expressamente as cláusulas abusivas nesses contratos. para os comerciantes.1998. a coordenação geral da política do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. exceção de incompetência. através de um efetivo controle judicial do conteúdo dos contratos. mas servem de roteiro para os operadores do Direito (advogados. anualmente. elenco complementar de cláusulas contratuais consideradas abusivas. as portarias publicadas pela Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça. em 13. de 20 de março de 1997 e atua por meio de seu Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC)." ( S. conforme especificado no artigo 3o do Decreto 2.T. que não têm força de lei. uma proteção a posteriori do consumidor.98 ) O CDC apresenta dois momentos distintos de proteção contratual ao consumidor: no primeiro momento.1. impende considerar como absoluta a competência do foro do domicílio do réu.

Sendo caracterizada a relação como de consumo ou demonstrada. e. Contudo. e conseqüentemente as portarias da SDE. As cláusulas abusivas seriam. aflorando casuisticamente na construção do caso concreto. ou vigorar como um princípio subjacente ao ordenamento jurídico. na classe dos atos ilícitos. contemplado pelo direito brasileiro de forma genérica. se pode concluir que a SDE tem competência e legitimidade para orientar o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor e uma das formas por que se realiza esta orientação é a divulgação anual de cláusulas contratuais consideradas abusivas. uma especialização do fenômeno do abuso.189 2.Meios de Controle das Cláusulas abusivas O fundamento jurídico em que sedimenta a doutrina brasileira o posicionamento acerca das cláusulas abusivas é o abuso de direito. e/ou alegar que o CDC.Da Aplicação das Portarias da SDE aos Contratos Utilizados no Âmbito do Sistema Financeiro Nacional Ante o exposto. art. ainda que indiretamente. se pode depreender que o abuso estaria incluído.3. pré-excluindo-se a contrariedade (Pontes de Miranda). 2. Nesta feição é que o princípio da boa . a anulação dos referidos contratos ou das cláusulas abusivas contidas no bojo destes. em complemento à listagem constante do artigo 51 do CDC. alegando que determinadas cláusulas tidas como abusivas pela SDE. há instituições financeiras que pretendem questionar a validade/aplicação das portarias da SDE. Não obstante as penalidades administrativas que a SDE ou qualquer outro órgão integrante do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor possam vir a aplicar. duas alegações possíveis de serem articuladas por tais instituições seriam: questionar o conteúdo das portarias editadas pela SDE. pelo uso anormal do direito. uma vez que a figura do cliente da instituição financeira não pode ser equiparada à figura do consumidor. se pode concluir que o fundamento do repúdio às cláusulas abusivas assenta no princípio da boa fé. por conseguinte. não há que se discutir a não aplicação do CDC aos contratos bancários. na realidade não o são. O princípio da boa fé pode encontrar amparo legal inserindo-se como conceito indeterminado numa cláusula geral. ou ainda configurada a excessiva onerosidade das obrigações assumidas livremente pelos clientes. I. a existência de cláusulas obscuras ou abusivas. Do cotejo desta disposição. segunda parte). as instituições financeiras não podem ser impedidas de recorrer ao Poder Judiciário para solucionar os conflitos gerados em razão da aplicação ou não de regras referentes às relações de consumo. de forma inequívoca. pois o cliente não é destinatário final dos serviços e/ou produtos oferecidos. não se aplicam a determinados tipos de contratos utilizados no Sistema Financeiro Nacional (caso em concreto).Destarte. quando não considerou como ilícito o uso regular de um direito (Código Civil. 160. portanto.2.

190 fé se faz largamente presente no sistema brasileiro.. sendo-lhe defeso conhecer de questões. o Código de Proteção e Defesa do Consumidor é explícito a respeito da boa fé.IV). e III.) IV – a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva. ou relativa ou anulabilidade. IV do CDC: "Art. sobre a inaplicabilidade das regras do Codecon às relações de consumo celebrados antes de sua vigência. estabelecendo que o vício é meramente parcial. cujo voto é a seguir transcrito. Pontes de Miranda discorda dessa terminologia. era aplicado a inteligência dos artigos 128 e 460 do CPC. dizendo ainda que Código Civil versa a figura da nulidade e da anulabilidade. cuja diferença seria o grau de intensidade do defeito que macula o ato. como regra cardeal (arts. Veja-se o RESP nº 90. métodos comerciais coercitivos ou desleais. caput. bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços. e a inovação trazida ao tratamento desta questão pelo CDC. Tanto que está presente no rol das cláusulas abusivas. uma cláusula geral que autoriza o repúdio das disposições que ".. sejam incompatíveis com a boa-fé e equidade". 128. a seguir transcritos: "Art. sem necessidade de ação judicial. que teve como relator o eminente Ministro Ruy Rosado de Aguiar. A proteção contra cláusulas abusivas é direito básico. O juiz decidirá a lide nos limites em que foi proposta. o sistema de invalidade no direito civil comum é dúplice: os autores tratam das nulidades absolutas e das relativas. Segundo Arruda Alvim. não suscitadas. se de nulidade absoluta.162-RS. art. à luz do disposto no art. antes e depois da vigência do CDC. Sem o comando dessa nova diretriz. 4ª Turma tem reiteradamente decidido. O fato de ter o CDC estabelecido a nulidade de pleno direito das cláusulas. aquela é sempre ipso jure. enquanto esta depende sempre da manifestação judicial. É patente a diferença de tratamento por esta turma do STJ. gera discussões acerca da natureza deste vício. 6º. para os contratos formulado anteriormente ao CDC. com ressalva de meu posicionamento.. in verbis: "Esta Eg. a cujo respeito a lei exige a iniciativa da . 4º. prevalece a norma geral do artigo do Código de Processo Civil.6º São direitos básicos do consumidor: (. Cumpre destacar por oportuno a questão da decretação judicial de nulidade da cláusula abusiva não suscitadas pelas partes.. 51."(grifo que não consta do original) A lei fala em nulidade de pleno direito.. que veda ao juiz conhecer de questões a cujo respeito a lei exige (exigia) a iniciativa da parte".

Cláusulas abusivas. para não ocorrer julgamento extra petita. independentemente de provocação das partes. 29/10/1996) Contudo. por ser de natureza relativa. Foro de eleição. 128 e 460 do CPC.(STJ. Objetivando a desconstituição de cláusulas. admitindo assim a decretação ex officio. Clausula abusiva. onde o magistrado não somente muda um estado. a maior parte da doutrina diverge dessa orientação. não podendo a sentença extrapolar os limites da litiscontestatio. ainda quando se trata de foro de eleição estabelecido em clausula de contrato de adesão. mas é também sujeito ativo. Competência territorial. Neste sentido: "Código de Defesa do Consumidor. quando observado o vício. Proteção Contratual. A causa deve ser julgada como proposta e contestada. durante o Congresso Paranaense de Direito Processual Civil. dado o seu cunho de ordem pública. nos limites em que este o formulou. 460. as cláusulas consideradas absolutamente nulas. ensina Moacyr Amaral Santos: "A sentença deverá ser a resposta jurisdicional ao pedido do autor. "Art. seção. – Relator Juiz Antonio Janyr Dall’Agnol Junior) "Conflito de competência. É defeso ao juiz proferir sentença. criando uma nova relação. bem como condenar o réu em quantidade superior ou em objeto diverso do que lhe foi demandado". . ele revê as cláusulas. a incompetência em razão do lugar. conflito conhecido e declarada a competencia do juizo suscitado. a favor do autor. o juiz não pode declarar nulidade de cláusulas ex officio. de natureza diversa da pedida. Cív. realizado no hotel Bourbon em Curitiba. adequando o contrato. posto que é decretável de ofício. devem ser declaradas nulas.7ª Câm. integrando e construindo as cláusulas no contrato de modo que se possa dar execução ao mesmo. a sentença decide extra ou ultra petita". Para ele. criando uma nova realidade. em homenagem ao princípio da congruência. deve a sentença ater-se ao pedido" (TARGS – APC Nº 193051216. Destinatário. Sobre o princípio da congruência e o princípio da adstrição do juiz. Órgão: Segunda Seção. sendo sujeito ativo. independentemente de provocação das partes. chamada de "Sentença Determinativa". DJ. Assim também manifestou sua posição Nelson Nery Jr. participando.191 parte". (7) Conforme esse entendimento. Segundo a orientação predominante na 2a. Ruy Rosado de Aguiar. violando os dispostos nos arts. Relator: Min. Afastando-se desses limites. ressalva da posição do relator. Processo n°16253. impõe-se ao juiz a sua decretação. O juiz constrói. deve ser suscitada pelo reu (sumula 033). Constatada a cláusula abusiva. Ele sugere uma nova hipótese de classificação de sentença.

a nulidade de qualquer cláusula considerada abusiva não invalida o contrato. têm decidido em casos tais que. o legislador baseou-se na chamada "redução de eficácia" da doutrina alemã. apesar dos esforços de integração. A teor do disposto no parágrafo 2º do multicitado artigo 51 do CDC. que concorda com todos os termos do contrato que lhe é apresentado. . acarretar ônus excessivo a qualquer das partes.192 assim que o vício é detectado. institui como um direito do consumidor a possibilidade de modificação de cláusulas contratuais no sentido de restabelecer o equilíbrio da relação com o fornecedor. o CDC. são aplicáveis tanto aos contratos de adesão quanto aos contratos paritários e são sempre consideradas nulas. e os efeitos dela decorrentes. tendo em vista que os contratos são instrumentos de circulação de riquezas. e vice versa. rapidez. 2.Efeitos nos contratos A definição de cláusulas abusivas.699 –MG (97/0088907-6) Resta inconteste que coaduna com a busca de equilíbrio na relação contratual a admissibilidade da intervenção judicial na base do contrato. Destarte. o CDC adotou o princípio da conservação dos contratos ao determinar que somente a cláusula abusiva é nula. 2. Aqui. com os olhos postos no presente. em seu artigo 6º. exceto quando sua ausência. não sendo isto defeso ao juiz. cláusulas como essa do instrumento havido entre as partes ostentam-se indisfarçavelmente ineficazes e sequer possível o seu aproveitamento". e que é na mais das vezes resultado direto da fragilidade econômica do consumidor. prevendo a ineficácia de uma cláusula abusiva e não simplesmente sua nulidade absoluta. Há inúmeros exemplos de jurisprudência que convergem com esta doutrina: "Assim. desde que se averigúe o justo equilíbrio entre as partes. prevendo a norma geral a proibição de cláusulas contra a boa-fé. sem que tenha havido oportunidade de discussão do mesmo. e sua importância em parte deriva da constatação que os contratos de consumo guardam intrínseca relação com a economia. a mais abalizada doutrina e atual jurisprudência. o consumidor poderá solicitar ao juiz de direito que altere o conteúdo negocial de uma cláusula considerada abusiva. com o fim maior de não se permitir a execução da onerosidade constatada em seu bojo. o consumo depende do desenrolar da economia de mercado. Além do previsto no artigo 51. eficiência e dinamismo às relações de consumo.Contratos de Adesão Os contratos de adesão surgem como forma de proporcionar maior uniformidade.5.4. permanecendo válidas as demais cláusulas contratuais. subsistindo o contrato. (STJ – AG Nº 170.

"As grandes instituições utilizam-se dos contratos de adesão para praticarem abusos contra os consumidores. (10) Os contratos de adesão são unilaterais. e segundo corrente dominante na doutrina. pela outra parte. deve o juiz reconhecer de ofício a . e devido à necessidade de adquirir o bem ou o serviço o indivíduo acaba por aceitar as condições que lhe são impostas. por suprimir a prévia discussão do conteúdo entre fornecedor e consumidor. traz. o contrato de adesão. Uma das mais comuns cláusulas abusivas em contratos de adesão é a de eleição do foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor. (9) Em sua formação. O Código do Consumidor em seu art. e que na maioria das vezes não são esclarecidas ou informadas pelo funcionário da instituição responsável pela realização do contrato". de modo geral e abstrato." Nos contratos de adesão. inexistindo as negociações preliminares e modificação de cláusulas. conforme exposto. sem que o consumidor possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo.193 Assim. (8) Segundo Orlando Gomes: "O contrato de adesão caracteriza-se por permitir que seu conteúdo seja preconstruído por uma das partes. formado pelo concurso de vontades (embora restrito). aquele que está propondo a aderência a toda a proposta. esse tipo de contrato apresenta-se como a adesão alternativa de uma das partes ao esquema contratual traçado pela outra. Entretanto. cláusulas abusivas. Define-se o contrato de adesão como o negócio jurídico no qual a participação de um dos sujeitos da relação sucede pela aceitação em bloco de uma série de cláusulas formuladas antecipadamente. como anteriormente salientado. sai beneficiado em relação ao aderente. não obstante existam antes do processo de globalização. Caracteriza-se por ser um negócio jurídico bilateral. isto é. via de regra. para constituir o conteúdo normativo e obrigacional de futuras relações concretas. isto por que neste tipo de contrato não há oportunidade de negociações. eliminada a livre discussão que precede normalmente à formação dos contratos". 54 – Contrato de Adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor de produtos ou serviços. Segundo Ana Maria Zauhy Garms. próprias dos contratos paritários. o que gera grande desigualdade nas relações de consumo entre as partes contratantes. mormente na Itália. 54 definiu o contrato de adesão: "Art. uma das cláusulas mais comuns é a de eleição do foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor. os contratos de adesão podem ser tidos como uma necessidade do mundo globalizado. nas quais apenas uma das partes.

conforme o escalão do princípio violado. subversão de seus valores fundamentais. a ação será proposta no foro do domicílio do autor. 116. Dispõe o art. 86 do aludido diploma legal: "As causas cíveis serão processadas e decididas. § 3º "in fine" do CPC: "Quando o réu não tiver domicílio nem residência no Brasil. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório. da Constituição Federal: "Ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente". nos limites de sua competência. Se este também residir fora do Brasil. pelos órgãos jurisdicionais. citado por Maria Helena Diniz: "Violar um princípio é muito mais grave do que transgredir uma norma. O Código de Processo Civil e as normas de organização judiciária dos Estados estipulam as diretrizes básicas para a definição dos limites da competência a serem observadas na prestação jurisdicional. torna o juízo absolutamente incompetente ante à flagrante violação ao "princípio do juiz natural".194 nulidade da cláusula abusiva. Saraiva . in casu. a ação será proposta em qualquer o foro". 1989. contido no comando do artigo 5º. (In NORMA CONSTITUCIONAL E SEUS EFEITOS. assim como declinar da competência para o juízo do domicílio do réu.São .(grifo que não consta do original) Isto posto. porque representa insurgência contra todo o sistema. e conseqüente afastamento desta. contumácia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra". visto que devem submeter-se aos mandamentos insertos no Código de Processo Civil e nas leis de organização judiciária dos Estados. mas a todo o sistema de comando. À luz desse dispositivo. ou simplesmente decididas. LIII. o consumidor. a propositura da ação no foro do domicílio do estipulante ou em qualquer outro que não seja a do domicílio do consumidor. Cumpre salientar a lição do Professor Celso Antônio Bandeira de Mello. as partes não podem escolher livremente o foro onde querem propor a ação. porque a nulidade da cláusula faz desaparecer a razão pela qual a ação foi proposta no juízo que se dá por incompetente. É a mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade. pág. enquanto que a exigência de que a parte suscite a incompetência do foro está inviabilizada pelas mesmas circunstância que levaram ao reconhecimento da abusividade da eleição do foro. ressalvadas às partes a faculdade de instituírem juízo arbitral". A única hipótese em que a ação pode ser proposta em qualquer foro do Brasil está estandardizada no artigo 94. como imperativo de ordem pública. Essa decisão não conflita com a Súmula 33 do STJ.

em se tratando de ação que tenha por objeto contrato de adesão. sem sombra de qualquer dúvida tem cunho decisório. Nigro Conceição. Ao receber a petição inicial ao juiz cumpre examinar a validade e eficácia de tal cláusula e impedir que. Inaplicabilidade da súmula 33/STJ. Julgado em 23 de abril de 1998) "CONSUMIDOR.Artigo 6º.1995. COMPETÊNCIA. Rel.Consórcio . j.195 Paulo). prejudicial à defesa do consumidor. Com o devido respeito àqueles que se filiam a outro entendimento.)" "COMPETÊNCIA .10.000181-3. é nula de pleno direito por Ter sido editada por Juízo agora tido como absolutamente incompetente.M. CONTRATO DE ADESÃO. Nesse sentido: "Foro Regional e Declaração ex officio de incompetência. mas sim de reconhecimento de normas de ordem pública a exigir a remessa dos autos à Comarca do domicílio do consumidor.Hipótese que não se trata de declinação de ofício de incompetência relativa. Embargado: Banco Fiat S/A. declinável ex officio (TJSP. Des.Foro de Eleição . a validade da cláusula de foro de eleição deve ser de logo examinada. esteja sendo sobremaneira dificultada a defesa do réu.(Embargos de declaração nº 98. a teor do estabelecido no art. A divisão da competência estabelecida por lei de organização judiciária. 1ª Câmara Cível. rel. Abusividade da cláusula de eleição de foro. para que não sirva de invencível acesso à justiça.u. o que impõe sua revogação". A decisão objurgada. "EX OFFICIO".. 265. 122. Ainda que se reconheça que na divisão do foro de São Paulo em diversos Juízos há forte componente territorial que marca a delimitação da competência de cada um entre si. Gonçalves. m vista todo o exposto. nula de pleno direito a decisão objurgada. dentro da cidade de São Paulo. ganhando por isso contornos de competência absoluta. combinado com o art. v. 113. Ccomp 24495-0. Embargante: Suy Mey C. em determinada área da cidade. ambos do Código de Processo Civil vigente. a propositura da demanda perante foro diverso do domicílio do consorciado dificulta . ADMISSIBILIDADE. à luz do que fora exposto. Decisão unânime. DECLINAÇÃO. Esp. não se pode afirmar tratar-se o caso de competência territorial relativa. porquanto. Câm. através de seu cumprimento.078/90 . emerge dos autos ser completamente incompetente o Juízo "a quo" e.Contrato de Adesão _ Prevalecimento do Código de Defesa do Consumidor para que o devedor tenha acesso aos órgãos judiciários e facilitação de sua defesa . especialmente quando há possibilidade de deferimento de medida liminar. que se destaca pela superioridade da vontade do estipulante e reduzido âmbito de escolha do aderente. incisos VII e VIII da Lei nº 8. Marcos Antônio Souto Maior. por essa razão. Assim. determinou e ocasionou a apreensão do veículo pertencente a agravante e. confere a cada um parcela de competência funcional dentro do foro de São Paulo.

Linbs. precipuamente aos desígnos constitucionais e não. Rel. Itú. na medida em que a existência e o exercício da técnica processual têm por objetivo. atender. a pura e simples generalização de que toda e qualquer cláusula eletiva do foro seja. 32959-4. nem estabelece obrigação que possa ser considerada iníqua ou abusiva. da 79 Câmara do Segundo Tribunal de Alçada Civil de São Paulo: "A cláusula eletiva de foro. e essa afronta.078/90 (CDC). por si só. (TJSP. sejam quais forem. nem jurídica.: Des. caso a caso. impor ônus e gravames indevidos a um dos sujeitos processuais. É caso de nulidade de pleno direito. em se tratando de foro de eleição favorável ao estipulante de contrato de adesão. Lei 8. mormente quando não impõe ao réu maiores dificuldades para o pleno. CONTRATO DE ADESÃO. à evidência. Júlio Vidal. revela-se abusiva se e quando impuser. Ag. 5º. É essa a posição que vem prevalecendo na melhor jurisprudência." Os princípios constitucionais do juiz natural. (TJSP. em 30/10/96). de acesso à justiça. podem . à luz do CDC (Lei nº 8078/90). quando desde logo evidenciado que o demandando terá extrema dificuldade para exercitar sua defesa. 29240. assim afrontando as correspondentes garantias constitucionais. art. estabelecida em contrato de adesão. ao contratante mais fraco sérios (e por vezes insuperáveis) óbices ao pleno acesso à jurisdição e à sua defesa no processo.. de Inst. declinando da sua competência para o foro de domicilio do réu. não obstante esse direito seja garantido constitucionalmente (CF/88. pela parte economicamente mais forte. seria suficiente. Julg. Rel. todas elas. Daí porque.196 seu acesso à Justiça. A eleição de foro é tão somente a mais comum dentre as cláusulas abusivas comumente contidas nos contratos de adesão. 6º. Competência absoluta. em 30/10/96). VIII". quando não o impossibilita. decretável de ofício. e assim caracterizada a abusividade da cláusula. Juiz Cesar. incumbe ao juiz impedir que ela tenha eficácia. não sendo lícita. o que configura a abusividade da cláusula e a sua nulidade de pleno direito. Julg. das circunstâncias que envolvem o contrato. colocando-o em desvantagem exagerada. da ampla defesa e da supremacia do interesse público hão de ser preservados e aplicados em todas as situações processuais. abstraídos outros aspectos processuais (de menor ou nenhuma importância em confronto com ditas garantias). No entanto. COMPETÊNCIA. Direito do consumidor em ser demandado em seu domicílio.406-2. em Agravo de Instrumento nº 477. XXXV). ainda quando está a decidir sobre a competência de foro. é justa e razoável a conclusão de que o reconhecimento e a proclamação afronta a preceitos constitucionais demandam exame. exercício de seu direito de resposta. para justificar a pronta remessa dos autos ao foro do domicílio da parte hipossuficiente. "CONSÓRCIO. Também no mesmo sentido o voto do magistrado Antônio Carlos Marcato. Ag de Inst. art.

197 ser questionadas.6. (11) Por fim. que as cláusulas abusivas devem ser desconsideradas pelo consumidor". em razão de débitos em atraso com o fornecedor. em contrato de adesão. da supremacia da ordem pública e da magnitude da defesa do consumidor. As cláusulas negociadas destes contratos deverão subordinar-se à interpretação comum dos contratos. reintegração de posse decorrente de contrato de leasing. porque a nulidade da cláusula faz desaparecer a razão pela qual a ação foi proposta no juízo que se dá por incompetente. De início cumpre . dificultará sobremaneira a defesa do réu em juízo. se o consumidor ou o fornecedor contratante. o juiz deve ainda de ofício reconhecer a nulidade de cláusula abusiva. não ofende a Súmula 33 do STJ. quando a propositura da ação no foro de eleição. tal como a que elege. e ainda. enquanto a exigência de que a parte suscite a incompetência do foro está inviabilizada pelas mesmas circunstâncias que levaram ao reconhecimento da abusividade da eleição de foro.A recepção do princípio da predominância da ordem pública pelo CDC como meio de afastamento das cláusulas abusivas nos contratos de adesão Os princípios do juiz natural. quando o seu cumprimento significar verdadeira negação de acesso à justiça.A cobrança extrajudicial de honorários advocatícios como cláusula abusiva A questão ora analisada concerne à cobrança de honorários advocatícios por escritórios de advocacia do consumidor. na sede da empresa estipulante. Assim. pelo que pode e deve o juiz declarar de ofício sua competência para processar as ações de busca e apreensão. (12) 2. por força dos dispositivos pertinentes à espécie contidos no CDC. 3. o foro do domicílio do estipulante. que variam de 10 a 20% do valor devido. ou outra qualquer. cabendo ao julgador verificar a abusividade ou não das cláusulas pré-elaboradas. conforme exposto no presente estudo. A decisão judicial que reconhece a nulidade de cláusula abusiva e declara a incompetência de ofício. são amplamente aplicados aos contratos de adesão. derrogando as cláusulas abusivas. O cerne da questão é a quem cabe arcar com o pagamento dos honorários devidos ao advogado. cumpre salientar que nem toda regulamentação contratual préformulada pode ser entendida como abusiva. sob o argumento de que o escritório que faz a cobrança só recebe o pagamento se houver o acréscimo dos encargos (juros de mora e multa) além de honorários advocatícios. uma vez que se amoldem ao disposto no art. 51 do CDC. "No que tange aos contratos de adesão o Código de Defesa do Consumidor é bem claro ao especificar que todos os contratos devem ser revistos quando tornarem-se excessivamente onerosos.

A Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça editou a Portaria nº4/98 que tipificou como abusiva a cláusula contratual que obriga o consumidor ao pagamento de honorários advocatícios. um ônus imputado ao consumidor em desvantagem exagerada.98. se nos reportarmos à definição de cláusula abusiva. cumpre perguntar se seria cabível aplicar-se o art. de 12/05/98 (13). realizada em Brasília. 22 do Decreto 2. objetivando declarar a nulidade absoluta da cláusula. indubitavelmente. acima transcrito que "O consumidor não está obrigado ao pagamento de honorários ao advogado do fornecedor. XII do CDC que é nula a cláusula contratual que "obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua obrigação. que autoriza a emissão de título cambial por procurador.03. sem ajuizamento de ação. em conformidade com a decisão unânime extraída da 19ª Reunião do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. arcar com o pagamento dos honorários advocatícios. em caso de inadimplemento.078/90 e do art. que. deixa de aceitar receber a parcela vencida. expressou nota explicativa a respeito dos motivos da edição da Portaria nº 04 de 13.906/94) dispõe que há três possibilidades de cobrança dos honorários advocatícios: "quando há convenção entre as partes. consumidor. esta Portaria adita ao elenco do art. 22 do Estatuto da advocacia (convenção entre as partes). E caso haja o consumidor assinado contrato que contenha cláusula prevendo que. ver-se-á que o caso em tela enseja a aplicação da Teoria da Abusividade na Relação de Consumo em prol do consumidor. entretanto. (item 9 da Portaria nº 4/98). O Despacho nº 132 do Secretário de Direito Econômico. O STJ já pronunciou a respeito da nulidade de cláusula contratual no caso da denominada cláusula mandato. Arcar com os honorários de advogado para agir contrário aos seus próprios direitos/interesses é. Além disso. esclarecendo em relação ao item 9. outras cláusulas abusivas. o que corrobora a tese da abusividade da cobrança. estatui o art. Ora. como é o caso do consumidor. deverá ele. arbitramento judicial ou sucumbência" Vê-se que nenhuma destas hipóteses legitima a cobrança de honorários da parte que não contratou.198 observar que o consumidor não celebrou nenhum contrato com o escritório de advocacia. Os serviços jurídicos contratados diretamente entre o advogado e o consumidor não se enquadram neste item". prescrevendo como nula de pleno direito a cláusula contratual que obriguem o consumidor ao pagamento de honorários advocatícios sem que haja ajuizamento de ação correspondente. 51. pelo que resta óbvio que quem deve pagar os honorários é o fornecedor. sem que igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor". . O artigo 22 do Estatuto da Advocacia (lei 8.181/97. 51 da lei 8. prescrevendo a Súmula nº 60 do STJ: "É nula a obrigação cambial assumida por procurador do mutuário vinculado ao mutuante no exclusivo interesse deste". a qual deve então ser paga diretamente ao advogado contratado. ao recorrer aos préstimos do advogado.

Cláusulas Abusivas nos Contratos de Adesão à do Código de Defesa do Consumidor. Curso de Direito Civil Brasileiro.Teoria das obrigações contratuais e extracontratuais. 5. Cláusulas Abusivas e seu Controle no Direito Brasileiro. tutela esta que é feita no plano administrativo. Curso de Direito do Consumidor. e judicial. 2001 luz GARMS. legislativo.Conclusão Do presente estudo se pôde com propriedade depreender que atualmente é grande. dentro da proteção contratual estabelecida com o advento do Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Saraiva. independentemente da posição ou condição de cada parte envolvida". a crise do liberalismo refletiu no declínio do individualismo característico daquela realidade sócio-econômico. por meio de leis específicas de proteção. Revista de Direito do Consumidor nº 20. Ana Maria Zauhy. pelo que passou o Direito do Consumidor a ser um dos principais elementos de afirmação da cidadania. já não se aplica mais indistintamente o pacta sunt servanda. ditando o tom do regime jurídico e legal das condições gerais dos contratos. o que denota o reflexo no âmbito jurídico do processo de evolução por que passou a economia. 3. fls. 1997 GAMA. Retirado de . ou seja. com a fixação de jurisprudência. Assim. (24/70) DINIZ.V. Maria Helena.199 4. Arruda. Rio de Janeiro: Forense. É objetivo do Código de Defesa do Consumidor assegurar ao consumidor igualdade em face do fornecedor. Da preocupação do Estado com os problemas da defesa do consumidor advieram grandes mudanças na elaboração dos contratos. por vezes maciça. assim como a compreensão e percepção desse instituo pelos juristas. como bem pontifica Ana Maria Zauhy Garms (14): "A proteção do consumidor surge pela determinação de se cumprir a igualdade contratual. com a instituição de órgãos próprios estatais. É o tratar de forma desigual as partes no momento em que elas se desigualam. cumpre ao Estado tutelar a parte hipossuficiente da relação contratual. Em virtude da importância conferida assim às relações de consumo. 12 Ed. a presença dos contratos de adesão nas relações de consumo. as cláusulas abusivas merecem um tratamento metodológico como tentativa de conter tais procedimentos.. Hélio Zaghetto. Referências bibliográficas ALVIM. tratar de forma desigual os desiguais a fim de que se tornem iguais. e igualmente quando se igualam. diante da configuração contratual.

Cobrança extrajudicial de honorários advocatícios: cláusula abusiva. n.0795.com. 47. no dia 03.com.br/area7/rosana2. na Rua Luzitana nº597. Rio de Janeiro: Forense.v.com. Ed. n. Moacyr Amaral. narrando que. etc. Comentários ao Código de Processo Civil.2001 GOMES. Plínio Lacerda.nov. para comparecerem no dia seguinte. 1966 RODRIGUES. Nelson.htm em 24.jus. IV 6. In: Jus Navigandi. Lá comparecendo..jus.2001 MARTINS. 1997 PEIXOTO..htm em 20. GRINBERG. foram convidados. Ed. às 21h.nov..2001 NERY JUNIOR. Rosana. Direito Civil.br/doutrina/texto.3 – Dos Contratos e das Declarações Unilaterais de Vontade.jus.São Paulo: Revista dos Tribunais. Michelline Oliveira Klippert ingressaram com ação de rescisão contratual contra Goettert . 16. Vistos. Retirado de www. tendo em vista um projeto turístico. Caio Mário da Silva. Código de Processo Civil Comentado. São Paulo: Saraiva.br/doutrina/texto.com.. Instituições de Direito Civil.1999 SANTOS. pelo telefone. Luís Fernando Klippert e S/M. Vol. Rio de Janeiro: Forense. III. 2a.2001 PEREIRA.. participaram de um coquetel e tiveram conhecimento de um .asp?id=708 em 24.2º Juizado Comarca de Porto Alegre Autores: Luís Fernando Klippert Ré: Goettert . Cláusulas abusivas nos contratos de adesão. V.asp?id=788 em 24. In: Jus Navigandi. Orlando.200 www. Silvio. Retirado de http://www1. 26a ed. 49. 1995. Retirado de http://www1. Contratos. Marco Aurélio Ventura.Engenharia e Construções Ltda.nov.nov. Código do Consumidor. A questão das cláusulas abusivas nos planos de saúde. Anexo Sentença proferida em sede de ação de rescisão contratual Processo nº0119539789 8ª Vara Cível .br/doutrina/clabusi.Engenharia e Construções Ltda.infojus.

as únicas pessoas presentes na ocasião eram os autores e funcionários da ré. Aduz que o contrato deve ser respeitado. prestando todas as informações a respeito do empreendimento. proferindo-se os debates orais. Assim. Não havia. na preparação de armadilhas. a possibilidade de ser feita a cumulação de semanas não aproveitadas em um ano para o ano seguinte. para rescindir o contrato. Sustenta ter agido corretamente. decido. Não ficou demonstrada esta alegação dos requerentes. impondo-se a firme atuação dos órgãos encarregados de defender o consumidor. Os autores não concordaram e enviaram correspondência. eis que firmado de forma livre pelos autores.201 projeto de construção com vendas de cotas para serem utilizadas em condomínio por diversos proprietários. o qual foi analisado pelos requerentes. invocando normas do Código de Defesa do Consumidor. . sendo condenada a ré no pagamento dos encargos de sucumbência. O comércio não pode estar baseado no aliciamento. Os autores responderam. Versam os presentes autos a respeito de uma forma totalmente abusiva. foram ouvidas as partes e testemunhas. Retornaram no dia seguinte. Foi informado que o preço estava em promoção e que o contrato deveria ser assinado naquela mesma noite. manifestando o interesse em desfazer a avença. para coibir tais práticas. para tanto. aproveitando-se de menor reflexão. Pretendem os requerentes a rescisão do contrato. bem como as parcelas vencidas. Contesta a ré. Realizada audiência. Preocuparam-se os autores em demonstrar que o contrato e o regulamento para uso do empreendimento turístico estava em desacordo com o que havia sido dito na exposição da ré. É possível rescindir o contrato. desrespeitosa e inaceitável de comércio. ocasião em que foram informados de que. Requer a condenação dos autores no pagamento das despesas relacionadas com o contrato. a fim de atrair o consumidor e. ou arapucas. fechar um negócio que não era de interesse do comprador. até porque seria muito difícil. Relatados. firmaram o contrato. deveriam pagar multa no valor de 35% do valor do imóvel. uma vez paga a multa estipulada. sendo que a requerente é advogada. O art. analisando melhor o negócio. 49 do CDC não se aplica. verificaram divergências entre o que foi dito na ocasião e o que constava no contrato. pois o contrato não foi firmado fora do estabelecimento comercial. Ao retornarem para casa. que corresponde ao ressarcimento de despesas. seduzidos pelo "marketing" da requerida. por exemplo.

restaurantes. com todos os sentidos ocupados em transmitir ao cérebro informações novas. apartamento decorado. antes de ser assinado o contrato. Identificado um cliente em potencial. o cliente fica totalmente incapacitado de refletir sobre o que está comprando. no entanto. sabe-se que os vendedores ou recepcionistas. etc. Conforme ficou claro pela prova colhida. Ao cliente não é permitido levar o contrato para casa. Primeiro. Conforme restou perfeitamente esclarecido pelos documentos e testemunhas ouvidas. o convite para um coquetel configura nova forma de seduzir o comprador por via indireta. para ajudar a distrair e criar . maquete. os clientes são encaminhados para as mesas dos vendedores. Não é difícil perceber que. apresentando solução para todas as eventuais objeções. ou pesquisa. existe uma promoção "imperdível". com as mesmas "promoções". depois. naquela noite. Conforme relataram as pessoas ouvidas. é de referir o procedimento já aludido. É do conhecimento de todos que existem equipes de "recepcionistas" atacando as pessoas em lugares públicos. como absolutamente irrelevante eventual divergência entre o que foi tratado inicialmente e o contrato firmado. para ler e refletir. À exposição oral soma-se o cenário cuidadosamente montado. O que parece um inocente coquetel. acaba tendo várias funções. termina enredado em uma enfadonha reunião comercial. no qual o consumidor será convencido a comprar tal empreendimento. O fundamental é que toda a atuação da ré é inaceitável. em tais empreendimentos. sub-reptícia. ou qualquer outra forma de obter os dados pessoais e informações quanto ao patrimônio do comprador em potencial. são cuidadosamente treinado para falar continuamente e não deixar qualquer dúvida no espírito do cliente. de aliciar clientes sem que estes tenham pleno conhecimento da finalidade para a qual estão fornecendo os seus dados. com apresentação de filme. que nem existe. onde lhes é dito que. nem é apresentado o regulamento. existindo todo um cenário montado. e também os salgadinhos e bebidas servidos aos participantes. a ré faz os tais coquetéis todas as noites. Ao fim de duas horas de aranzel monocórdio sobre as maravilhas do prédio. Do início ao fim da exposição o casal é acompanhado de pessoa encarregada de afogar os incautos em informações excelentes sobre o empreendimento. o aliciamento do consumidor começa com uma pretensa entrevista. portanto.202 Tenho. acreditando que vai para uma festa. Por outro lado. Além disto. para servir de atrativo para o cliente. a necessidade de processar todas essas informações acaba reduzindo a capacidade de raciocinar. primeiro. As irregularidades são tantas que o contrato não tem como subsistir. vem o convite para o coquetel. que. avaliar criticamente o que está sendo dito.

fazer uma avaliação crítica e decidir pela aceitação da mesma. Tem-se. ao fim de toda a maratona. um débito do convidado. Ademais. Mas isto a ré não aceita que seus clientes façam. a coação existiu. portanto. a explanação de duas horas apresenta-se como um exagero com o visível intuito de cansar os clientes e vencer suas últimas resistências. a cláusula que estabelece a multa de 35% é . o cliente é encaminhado ao vendedor. após algum tempo. não há dúvida quanto à falta de capacidade. se os autores tivessem levado o contrato para casa e. Acontece que. ou a capacidade reduzida. Na verdade. Discorreu eruditamente a ré a respeito dos contratos e da coação. aliados às técnicas de vendas. que o preço está em promoção "só naquela noite". Agora imagina-se ao fim de um dia de trabalho. Não creio que algum comprador pare para ler uma por uma das cláusulas. de ameaça. independentemente das maravilhas de determinado produto ou serviço. Ora. daí ser "norma" da empresa que o contrato seja assinadona mesma noite. O negócio teria sido livremente estabelecido. para decidir. Não na forma de violência. No caso em tela. mesmo lendo o contrato. velada. não se admite a coação. a coação"moderna". pode até ser bom o empreendimento oferecido pela ré. uma mentira. Por outro lado. tendo em vista tudo o que já foi referido. devolvido assinado. Segundo. sustentando a inexistência desta no presente caso. o desrespeito de impedir o cliente de levar o contrato para ler na sua casa.203 um vínculo. Mas de forma sutil.. na obtenção da vontade do consumidor. duvido firmemente que. o comprador consiga atentar para o sentido de cada cláusula. ao efetuar a compra. preparada por profissionais de marketing com aprofundados conhecimentos de psicologia. como a ré fez questão de lembrar. depois de duas horas de agradável explanação. o contrato está impresso em letras minúsculas. Ao final deste bombardeio arrasador. etc. sociologia. por leve que seja. convencendo sobre o insuperável empreendimento. teve gastos com o coquetel oferecido aos autores. quando é instado a fechar o negócio. utilizando a empresa ré de dois artifícios. Muitas superproduções de Hollywood fracassam por não conseguirem manter a atenção do público por duas horas. que causa dificuldade para qualquer pessoa de visão normal ler na totalidade. Não se discute este aspecto. por parte do comprador. tendo mais um vendedor à frente. todo um esquema montado para induzir o comprador a fazer um negócio que pode até não ser ruim. Fica evidenciado que todo o esquema está montado para induzir as pessoas a efetuarem o negócio sem a devida reflexão. Se o que foi referido não bastasse. Resulta em um aparato de procedimentos mercadológicos que impõe sérias dúvidas a respeito da vontade livre e espontânea do consumidor. Primeiro.

como a cláusula 4ª. de forma que estaria ela buscando enriquecimento sem causa. que diz: "São direitos básicos do consumidor: IV) a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva. a requerida beira a má-fé. logo. a ré irá embolsar este valor. teria aplicação o rt. bem como outras despesas. 54. não serão associados da RCI. Quem aproveitou esta semana. e 12ª. pois se trata de contrato abusivo. nenhum direito tem ao ressarcimento. Aliás. permite à vendedora. caracteriza-se a necessidade de uma especial proteção. na medida em que o espírito que norteia o citado diploma legal deve ser preservado. como determina o art. por todas as circunstâncias que envolveram o negócio. XI: "autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente. de foma que nenhuma despesa poderia ter efetuado a ré para prejudicar os autores. do contrato. tenho como razoável. para 4 pessoas. pois não está redigida em destaque. não permanecendo no empreendimento. considerar rescindido. 51. como nos casos referidos nos casos referidos no aludido dispositivo. pois o consumidor teve reduzida a sua capacidade de decisão livre e conscientemente. § 4º. Trata-se de cláusula abusiva. "em qualquer tempo.204 totalmente nula. apesar de as partes serem domiciliadas nesta Capital." Por fim. a começar ela aludida semana na Praia dos Ingleses. o contrato é um amontoado de ilegalidades. e o contrato aqui ter sido firmado. ainda. que esta mesma cláusula estabelece que o contrato é irrevogável e irretratável. quanto às despesas alegadas pela ré. métodos comerciais coercitivos ou desleais." Quanto à aplicação do art. para declarar nulas as cláusulas 4ª. 6º. e também a cláusula 12ª. não foram comprovadamente pagas pela ré. mesmo que fosse afastado o art. de execução obrigatória. . 49 do CDC. De qualquer forma. sem que igual direito seja conferido ao consumidor. 49. Publique-se e intimem-se. Isto posto. De qualquer forma. No entanto. julgo procedente a ação. o presente compromisso". as taxas de associação ao tal de RCI. conforme previsão do CDC. bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos ou serviços. a desistência dos autores foi comunicada de imediato. mesmo que eventualmente a situação concreta não se amolde perfeitamente à previsão legal. § 5º. que "elege" o foro de Florianópolis para conhecer o contrato. Ademais. de pleno direito. Alega a ré que a venda não ocorreu fora do estabelecimento comercial. já que os autores não foram até a referida praia? Além disto. pois os autores. Arcará a vencida com as custas processuais e honorários advocatícios de cinco salários mínimos. mas a cláusula 4ª. § 6º. pois nenhum comprovante trouxe de que tenha realmente pago os valores referidos. § 6º. que estabelece mandato cambial em favor da vendedora. art. acrescentando-se. obtido de forma coercitiva. facilitando a sua compreensão. além de o contrato ser abusivo. decretando a rescisão contratual. pois tinha conhecimento da pretendida rescisão. do Código do Consumidor.

Curso de Direito do Consumidor. Moacyr Amaral Santos. Marco Aurélio Ventura Peixoto. Código de Processo Civil Comentado. Ana Maria Zauhy Garms. aqui. Diz-se que a Lei de Defesa do Consumidor (Lei n° 8.Notas 1. 11 2. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor 11. 37/38 3. antes de servir à ufania dos legisladores. Instituições de Direito Civil . Orlando Gomes. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão 9. 1. III. em 18/0598 14. Comentários ao Código de Processo Civil .379 6. 15 de abril de 1996. Contratos. p. idem. "São elas chamadas de leoninas porque são impostas nos contratos com o objetivo de prejudicar as partes mais fracas. p. Bayard de Freitas Barcellos Juiz de Direito 7.Vol.108 7. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor 12. Ana Maria Zauhy Garms. 441. Orlando Gomes. Ana Maria Zauhy Garms. deve provocar reflexão: é tão avançado talvez porque. Hélio Zaghetto Gama. idem.109 10. 8. Caio Mário da Silva Pereira. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor. IV. Nelson Nery Junior. mesmo que moralmente condenável.205 Porto Alegre. que ficam sujeitas ao bote do leão quando de suas aplicações". p.Vol.078/90) é dos mais avançados sistemas legais dessa natureza. p. Ana Maria Zauhy Garms. Publicado no Diário Oficial da União. passa a ser automaticamente permitido. o que não é vedado em lei. 5. p. p.Hélio Zaghetto Gama. Contratos.108 4. Essa constatação. . 13. p.

Conforme os ensinamentos de CHIOVENDA. da prova.1 – Conceito de Prova O conceito tradicional de prova adotado. pelo menos repetido. por boa parte da doutrina jurídica. em que se funda a ação ou a defesa. ou. a prova seria o instrumento pelo qual o juiz se utilizaria para definir a verdade dos fatos que efetivamente ensejaram a lide. a prova é. reconhecido como o meio de obtenção da verdade dos fatos no processo. estão aptos a receber a avaliação judicial como suportes de sua decisão. com algumas variáveis. portanto. Observe-se que esses fatos somente dependem do procedimento probatório na exata medida em que sejam tidos como controversos. a prova em geral da verdade dos fatos não pode ter limites. transitado em julgado a sentença. e sobre os quais concluirá sua atividade cognitiva. considerada em seu sentido processual. e por isso. Por si mesma. pois. Resta saber o que significa a palavra "verdade" sobretudo tendo em vista a finalidade e limitações do processo civil enquanto manifestação humana e cultural. provar significa formar a convicção do juiz sobre a existência ou não de fatos relevantes no processo. a investigação dos fatos da causa preclude-se definitivamente e. Para COUTURE. Os fatos aceitos. o direito não cogita mais da correspondência dos fatos apurados pelo juiz à realidade das coisas. a tem. (2) O próprio Código de Processo Civil Brasileiro induz a essa conceituação à medida que coloca a prova como instrumento de obtenção da verdade dos fatos. Nesse sentido. sobre a limitação na necessidade social de que o processo tenha um termo. e a sentença permanece como afirmação da vontade do Estado. ao revés da prova puramente lógica e científica. um meio de controle das proposições que os litigantes formulam em juízo (1). a partir desse momento.NOÇÕES PRELIMINARES 1. O texto legal determina que as provas têm a finalidade de obter a verdade dos fatos. mas a prova no processo.206 Inversão do ônus da prova no CDC e no CPC Autor: Ranieri Eich 1. não dependem. . sem que influência nenhuma exerça sobre o seu valor o elemento lógico de que se extraiu. ativa ou passivamente pelas partes.

O princípio do ônus da prova será estudado posteriormente com maior ênfase. OVÍDIO BAPTISTA DA SILVA ressalta que. se é possível formular um conceito que explicite o que realmente contém o conceito da prova. Nesse sentido. podemos destacar dentre eles.207 Exatamente. Para além da definição legal que parte do pressuposto de ser possível o alcance da verdade fática no processo. fatos que não foram alegados pelas partes.2. A prova também pode ser conceituada como todos meio de confirmação ou não de uma hipótese ou de um juízo produzido no curso do processo. não se produziram com observância das regras legais (4). as provas já produzidas. A prova pode ser conceituada como o meio de representação dos fatos que geraram a lide no processo. o juiz não pode levar em conta. a qualquer momento. nem sempre a prova de um fato demonstrará. o princípio dispositivo. o princípio da oralidade e o princípio da prova livre. foi atribuído ao juiz determinar as provas necessárias à instrução do processo e ao mandar repetir. caso entender necessário. 1. um teste de coerência entre a formulação e o provável suporte fático da demanda. no ramo da ciência jurídica. propostos pelos litigantes. é preciso verificar a priori se a verdade pode ser obtida pelo processo em si e mais.1 – Princípio dispositivo Para PONTES DE MIRANDA. Conforme o art. é preciso tentar sistematizar uma resignificação que efetivamente reconheça a complexidade do instituto. Sendo. necessariamente. conceituamos essencialmente a prova como a tentativa de demonstração objetiva dos fatos controvertidos com a intenção de facultar ao juiz a formação de uma hipótese razoável que possa ser adotada como suporte fático para a formulação de uma decisão. por isso. Em qualquer dos conceitos por nós antes apontados.2 – Princípios da Teoria da Prova Dentre os princípios que informam a Teoria da Prova. 132. para introduzir o problema. ambos do Código de Processo Civil. na sua apreciação do feito. . nem formar sua convicção com os meios que. a veracidade de sua existência (3). observa-se que a prova não é apresentada como meio de obtenção da verdade (e veremos que não há como pensar diferente) e sim como instrumento de formação de um raciocínio jurídico dotado de força em decorrência de seu proferimento por uma autoridade judiciária. 1. parágrafo único. tendendo essa representação a equivalência limitada e não à perfeita identificação entre o objeto representado e o objeto representante. 130 e art. assim.

(5) No sistema brasileiro.2. 332 do Código de Processo Civil. e das comunicações telegráficas e telefônicas). Desses juízos provisórios será extraído o mais conforme com o que foi . dizendo que o processo oral influi inclusive na moral processual. X a XII (inviolabilidade da intimidade.2 – Princípio da oralidade Pela determinação do art. não permitindo a utilização da ilicitude. o meio tido como hábil para o encaminhamento da verdade real e processual. vimos que o Juiz não precisa formular uma certeza acerca dos fatos controvertidos. pondo termo aos abusos e rodeios do processo escrito. salvo disposição em contrário. uma vez que essas situações seriam incompatíveis com a seriedade e segurança da justiça. O que se vê na transição dos estados intelectuais do Juiz no processo é que ele parte de uma ignorância completa acerca dos fatos e à medida que o trâmite vai se desenvolvendo ele passa a forma juízos provisórios. (6) 1. as provas necessárias na audiência de instrução e julgamento. Complementam esta disposição legal e o referido princípio. SIEGMUND HEELMANN. existindo legalidade e moralidade. do domicílio. O que se busca e dar celeridade ao processo e produzir. permanecendo em momentos culminantes do processo como em quando da produção da prova oral. as provas devem ser produzidas em audiência.2. quando necessário. bem como os moralmente legítimos. da imagem. 336 do Código de Processo Civil. porém sem excluir a escrita. o princípio da oralidade conduz à predominância da palavra. reflete que a justiça rápida e barata só pode ser conseguida pelos princípios da oralidade. 1. Em vista disso. em que se funda a ação ou defesa. os incisos LVI (inadmissibilidade de provas obtidas por meios ilícitos). imediatidade e autoridade judicial. da honra. são hábeis para provar a verdade dos fatos. concentração. E complementa. ainda que não especificados no Código. tratando da oralidade do processo civil austríaco.3 – Destinatário da prova e motivação Pois bem.208 1.3 – Princípio da prova livre O disposto no art. da vida privada. prevê que todos os meios legais. mas lhe basta firmar um juízo de probabilidade que permita afastar as dúvidas razoáveis. pelo uso de meios moralmente ilegítimos. da correspondência. principalmente por causa da disparidade entre as despesas do processo rápido e o proveito eventual oriundo da morosidade processual.

É evidente que. Com isto. diante do que foi demonstrado pelas partes e pela própria ação instrutória autônoma do Juiz. mas também. que. Isto é. caberá a este formar uma decisão que adote a hipótese mais provável como suporte fático. expor o seu raciocínio. e nesse caso surge a importância da atribuição do ônus da prova. inclusive. um meio de permitir o Juiz o cumprimento de seu dever legal de decidir a lide. o raciocínio judicial está sob avaliação conforme o exposto na sua motivação. sempre. que aponte a coerência de suas conclusões com os dados que foram obtidos no processo. A motivação atende a necessidade das partes de entenderem os motivos pelos quais o Juiz foi levado a concluir desta ou daquela maneira. se posta como efetivo meio de controle jurisdicional e social.209 produzido em termos probatórios. É de se observar que a exigência de motivação é outro dos conceitos cujo reducionismo tem levado a um grave efeito social. determinar porque selecionou racionalmente sua hipótese como a mais provável. da decisão e formar o refluxo no senso comum do que é e o que não é justo. caberá a ele motivar racionalmente a sua decisão. isto é. Em todo o caso. isto é. e principalmente. A atribuição do ônus da prova se constitui como instrumento de exteriorização de dois valores: o de facilitar a atividade jurisdicional e o da eqüidade. assim. em última instância deve seguir um procedimento de coerência racional. Pode ocorrer. o juiz deverá julgar conforme a desincumbência de cada parte de seu ônus. É a partir da motivação que se pode avaliar em termos extrajurídicos se a sociedade concorda com o conteúdo axiológico da decisão. A motivação permite aos indivíduos avaliar o conteúdo moral. Sem essa argumentação não se pode ter como cumprida a exigência constitucional e legal de motivação. impõe-se ao juiz não somente que exponha suas razões para julgar do modo como julgou. isto é. Determinar o ônus probatório a cada uma das partes assegura ao juiz um modo de decidir quando enfrentando uma dúvida consistente. após a instrução probatória. É. . entre outros aspectos. em se tratando de sistema processual regido pelo princípio do convencimento racional do juiz. Como estamos no campo das probabilidades. mas. em dúvida. de o juiz não ter condições objetivas de formular sequer uma hipótese que considere razoavelmente provável. o juiz deverá motivar sua escolha. econômico. ético. Isso porque a motivação da decisão expõe o raciocínio judicial à validação social.

no aspecto de necessidade de provar. coerente e justificável de raciocínio que adentra ao campo da argumentação jurídica. um vínculo de vontade imposto pela subordinação de um interesse". assim. onde. "a diferença entre dever e ônus está em que (a) o dever é em relação a alguém. tema que passamos a melhor analisar no item seguinte. significando carga. sujeitos da relação jurídica processual.210 Isso significa que a motivação judicial mais que tudo exige uma forma ordenada. Em regra a obrigação está ligada ao direito material. É a obrigação um interesse subordinado mediante um vínculo.5 – Distinção entre Ônus e Obrigação É imprescindível a distinção entre ônus e obrigação. e. no que tange aos fatos alegados (7). ao passo que (b) o ônus é em relação a si mesmo. ARRUDA ALVIM coloca outra distinção importante entre o ônus e obrigação. o juiz constrói um raciocínio que deve se apresentar correto sob o ponto de vista dos meios de avaliação do pensamento jurídico. ainda que seja em sociedade. Ao decidir. um dos quais é o que deve. assim. Obtém-se a noção de obrigação invertendo simplesmente a de direito subjetivo.4 – Ônus da Prova: Etimologia da Palavra Ônus deriva do latim ônus. há relação entre dois sujeitos. E complementa "o ônus da prova é objetivo. regula conseqüência de se não haver . não sujeitando-se à coerção. Uma vez que todos têm de provar não há discriminação subjetiva do ônus da prova. O ônus da prova. todos os figurantes hão de prova. objetiva. não há relação entre sujeitos. inclusive quanto a negações. satisfazer é do interesse do próprio onerado". Leia-se encargo no sentido de interesse de fornecer a prova destinada à formação da convicção do magistrado. a satisfação é do interesse do sujeito ativo. onde requer uma conduta de adimplemento ou cumprimento. não subjetivo. peso. "obrigação é o lado passivo a que corresponde do lado ativo um direito subjetivo. ou em outros termos. valorar a prova. 1. Pode dizer-se que o direito subjetivo é um interesse protegido mediante um poder de vontade ou um poder da vontade concedido para a tutela de um interesse. o que não ocorre no que tange ao ônus". ser convertida em pecúnia. que "é a circunstância de esta última ter um valor e poder. mas aos efeitos que a passividade e a inércia resultarão. Como partes. Já o ônus é uma faculdade que a parte tem. (8) Com precisão CARNELUTTI estabeleceu a distinção entre ônus e direito de provar. (9) Para PONTES DE MIRANDA. certo que a omissão do devedor poderá resultar na sua coerção para que cumpra a obrigação. 1. Ônus probandi tem como tradução o encargo de provar. para ele.

da exceção. no caso concreto. cada parte tem a faculdade de produzir prova favorável às suas alegações. independentemente de quem vai produzi-lo. na demanda. pode ocorrer em dois propósitos: a) ou o réu tende. Já GIUSEPPE CHIOVENDA ensina que "(. sem excluir o fato provado pelo autor. a seu turno. as regras sobre conseqüência da falta dd prova exaurem a teoria do ônus da prova. portanto. 1. de modo direto ou indireto (e dizem-se motivos) e temos daí a simples prova contrária ou contraprova. atual Código de Defesa do . para benefício e interesse próprios. ficando o tema restrito à seara da prova negativa quanto ao fato constitutivo. necessidade de esclarecimento para decidir a demanda. a prova da exceção". Em sede de responsabilidade civil. portanto. seja o outro interessado. no dizer de ECHANDIA é o poder ou faculdade de executar livremente certos atos ou adotar certa conduta prevista na norma. a estabelecer quais os fatos considerados existentes pelo juiz devem bastar para induzi-lo a acolher a demanda (constitutivos)" (11). O problema da carga ou ônus da prova é.. De acordo com esse sistema.6 – Inversão do ônus da prova O ônus da prova. o réu" (10).) somente quando o autor trouxe provas idôneas para demonstrar a existência do fato constitutivo de seu direito. para seu convencimento.078/90. a sua prova.211 produzido prova. a Lei 8. A questão do ônus da prova reduz-se. na demanda. a provar fatos que provam a inexistência do fato provado pelo autor. tem o réu de diligenciar. incumbe ao Autor a prova da ação e ao réu. a favor do demandante adverso. Se falta a prova é que se tem de pensar em determinar a quem se carrega a prova. Mas. De modo mais simples. Conclui-se que a inversão do ônus da prova deve ser deferido pelo juiz sempre que houver. de seu lado. sem sujeição nem coerção e sem que exista outro sujeito que tenha o direito de exigir seu cumprimento. sempre se levando em consideração as possibilidades que as partes possuem para produzir tais provas. ao que afirmou a existência do fato jurídico (e foi. o autor). isto. mas cuja inobservância acarreta conseqüências desfavoráveis. o de determinar a quem vão as conseqüências de se não provado. b) ou o réu. o denominado ônus da afirmação. (12) O princípio distributivo atinente ao ônus da prova tem base legal no Código de Processo Civil. somente como já foi dito. ou. ou a quem contraafirmou (= negou ou afirmou algo que exclui a validade ou eficácia do ato jurídico afirmado).. algum fato ou prova que foi apresentado pelo autor ou pelo réu. afirma e prova a inexistência do fato que lhe elide os efeitos jurídicos. e aí temos a verdadeira prova do réu. Em verdade. Resulta óbvio que nenhuma das partes será obrigada a (ou terá interesse em) fazer prova contrária às suas alegações.

IV). de maneira a prosseguir isento de vícios ou de questões que possam obstar ao conhecimento do mérito da causa. A respeito. no despacho saneador – escreve Pedro Batista Martins – para evitar o cerceamento da defesa daquele a quem os mesmos fatos se opõem. por si só. os quais autorizam o juiz. à regra que lhe impõe não sacrificar a defesa dos interessados (Cód." O emérito doutrinador complementa: "Tal deliberação se escora não só nos princípios que governam a prova prima facie como também nos que regem o sistema processual brasileiro. A hipossuficiência do consumidor. (13) 1. de per se não respaldaria uma atitude tão drástica como a inversão do ônus da prova. o momento próprio para decretar a inversão do ônus probatório. ´anulando-lhe pela surpresa a possibilidade de produção de prova contrária’. art. pois a total ausência de evidências do indispensável nexo de causalidade redundaria em esdrúxulas situações. uma vez em dúvida. 112)". Será neste despacho. há o despacho saneador. tendo-os dada a sua natureza. vale dizer. cumpre ao juiz. essa modificação. de ofício. art. se o fato afirmado é destituído de um mínimo de racionalidade. por provados prima facie. nos artigos 117 e 294. conforme segue: "Na sistemática do Código. se e quanto o julgador estiver em dúvida. 515 e 516)". uma vez considere algum ou alguns fatos provados prima facie. págs. (14) A inversão do ônus da prova é direito de facilitação da defesa e não pode ser determinada senão após o oferecimento e valoração da prova. todavia. ANTONIO GIDI a respeito adverte que verossímel a alegação sempre tem que ser.1 – Momento processual da inversão do ônus da prova O doutrinador Moacyr Amaral Santos assinala qual o momento processual que considera o mais adequado para a aplicação da inversão do ônus da prova. devendo atentar-se que o doutrinador refere-se ao velho Código de 1939. (1968. sempre atento. contém dispositivo que permite a inversão do ônus da prova. ordena o processo. logo depois da contestação à ação. Cada parte deverá nortear sua atividade . determinando providências de natureza probatória (Código Processo Civil. na decisão saneadora que. desde que verificadas a verossimilhança do direito e a condição de hipossuficiência do demandante. Conhecidos os fatos alegados e havendo-os como verossímeis. por então já ter conhecimento dos fatos alegados na inicial e na defesa. nada impedindo que o juiz alerte. decretar a inversão do ônus probatório. ao contrário da opinião de alguns doutrinadores. do Código de Processo Civil. cit. no qual o juiz. saneando o processo. É dispensável caso forme sua convicção. determinar as diligências necessárias à instrução do processo. utilizar-se-á das regras de experiência a favor do consumidor.6.VIII). a simples condição de hipossuficiência não autoriza. convém ressaltar que.212 Consumidor (artigo 6º. 294.

Se não agir assim. (16) A posição de LUIZ EDUARDO BOAVENTURA PACÍFICO. conforme segue: INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . mudando a regra até então vigente. não nos parece constituir ofensa aos cânones constitucionais a inversão no momento da decisão. obviamente deve o órgão jurisdicional assegurarlhe a efetiva oportunidade de dele se desimcumbir. não implicando surpresa ou afronta aos citados princípios. Considerando que as partes não podem ser surpreendidas.078/90). caso efetivada". (18) Também em julgamento da Quarta Câmara Cível do Tribunal de Alçada de Minas Gerais. 5º. a inversão do ônus da prova igualmente pode ser prevista. VIII. Se lhe foi transferido um ônus – que. com a incidência das regras de experiência a favor do consumidor. assumirá o risco de sofrer a desvantagem de sua própria inércia. este pode merecer incidência. ao avaliar a necessidade de provas e deferir a produção daquelas que entenda pertinentes. prolatada no Acórdão n. assegurada a qualquer custo.RELAÇÃO DE CONSUMO OPORTUNIDADE . com um provimento desfavorável decorrente da inexistência ou da insuficiência da prova que. (17) A jurisprudência vem entendendo que o momento da inversão do ônus da prova deve ser antes de prolatada a sentença. regras de comportamento dirigidas aos litigantes. Se a pretensão estiver fundada em relação de consumo. atentaria contra os princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa (CF. Contudo.º 0301800-0 Apelação Cível de 01/03/2000. decidiram por unanimidade. do Código de Defesa do Consumidor. a inversão no momento do julgamento. (15) CARLOS ROBERTO BARBOSA MOREIRA argumenta que as normas sobre a repartição do ônus probatório consubstanciam. tendo como relator o Juiz Alvimar de Ávila. A partir do conteúdo da petição inicial – com a exposição de causa de pedir e do pedido – às partes envolvidas no processo é perfeitamente possível avaliar se há a possibilidade de aplicação das normas do Código do Consumidor ao caso concreto. estaria a seu cargo. sem dúvida. expressamente conceituados pelo Código (artigos 2º e 3º da Lei 8. parece mais justa e condizente com as garantias do devido processo legal a orientação segundo a qual o juiz deva. citando inclusive KAZUO WATANABE é de que "a garantia do devido processo legal deve ser.213 probatória de acordo com o interesse em oferecer as provas que embasam seu direito. não existia antes da adoção da medida -. Por isso.RESPEITO AOS PRINCÍPIOS DO CONTRADITÓRIO E DA . ao final. conforme jurisprudência a seguir: INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . por força da inversão determinada na sentença. também. explicitar quais serão objeto de inversão. art. para ele. LV). Logicamente. protagonizada por consumidor e fornecedor.Inteligência do artigo 6º.

Podemos classificar essa imposição legal como um verdadeiro ônus processual. cabe às partes. pois a sua finalidade é formar a convicção do julgador. de preferência. levando-se em conta a doutrina e a jurisprudência. A aplicação do art. e não das normas do art. todavia. A inversão do ônus da prova. 333 do Código de Processo Civil. antecipando os pagamentos durante o curso processual. 1. Surge daí a questão: invertido o ônus da prova nas lides de consumo. após especificação das provas. 333. sob pena de supressão desta. determinadas de ofício pelo juiz ou requeridas por ambas as partes? Nestas hipóteses. no momento do saneador. ser decretada no despacho inicial. Recurso a que se nega provimento. não há qualquer exceção às regras gerais estabelecidas no Código de Processo Civil.214 AMPLA DEFESA . que tratam do ônus financeiro da produção dos atos processuais. devendo ser decidida. Desta forma. cujo descumprimento implicará em não ser realizado o ato requerido. constituem exceção ao art. 6º. . como exceção à regra geral do art. em regra. 19 do Código de Processo Civil (19). resta impossibilitado examinarse em grau de recurso matéria sobre a qual não houve manifestação da primeira instância. que trata do ônus subjetivo da prova. depende de decisão fundamentada do magistrado antes do término da instrução processual. sob pena de não poder ser adotada na sentença. do CPC. pelo simples fato de não se poder identificar o ônus de provar com o ônus financeiro de realização dos atos probatórios. As normas consumeristas. da Lei n. é que sua aplicação deve submeter-se ao poder discricionário do juiz. podendo.MATÉRIA VENTILADA NAS RAZÕES RECURSAIS IMPOSSIBILIDADE DE CONHECIMENTO PELO TRIBUNAL. o magistrado escolherá a o momento para determinar a inversão do ônus da prova. VIII. na audiência de conciliação ou em qualquer momento que se fizer necessária. Conforme ensinam doutrina e jurisprudência.078/90. podendo advir daí possíveis conseqüências desagradáveis para quem o requereu e não adiantou as despesas. desde que assegurados os princípios do contraditório e ampla defesa. pois.2 – Inversão do ônus da prova e despesas processuais Conforme imposição legal do art. suportar as despesas dos atos que realizem ou requerem dentro do processo.º 8. o que incorreria em cerceio de defesa. 19 e seguintes. a quem cabe o ônus de antecipação de despesas nos casos de atos probatórios requeridos pelo consumidor.6.

seja porque a natureza do ato não guarde equivalência com o risco da atividade pública. ao Autor. Incumbe ainda ao demandante provar o dano e sua extensão. como antes demonstrado. sendo de todo irrelevante qualquer exigência de prova a respeito.6. nesse caso. especialmente o nexo de causalidade entre a atuação estatal e o resultado apontado.215 Assim. dispõe o mesmo da possibilidade de requerer a assistência judiciária prevista em nosso ordenamento pela já mencionada Lei 1. seja na hipótese de culpa. bem como a anormalidade e especificidade da exigência pessoal decorrente da imposição administrativa. É que a culpa. seja porque esse tenha sido o móvel da demanda. seja na de risco. a teoria do risco administrativo não submete o Estado a nenhum tipo de inversão apenas porque a vítima é dispensada da prova de culpa da Administração Pública. provar o que alegou.3 – Responsabilidade do Estado e o ônus da prova Quanto ao ônus probatório. Em se tratando de atos administrativos a respeito dos quais o reconhecimento da indenizabilidade tenha como pressuposto a culpa indireta da Administração. à parte incumbe o ônus da prova a respeito da ilicitude do ato. garantidoras do interesse público. se for o autor da demanda. o ônus da prova quanto ao fato constitutivo de seu direito. cabendo a quem alegar contra o Estado.CPC) ou com as despesas de perícia requerida por si ou por ambos os litigantes (art. além do nexo de causalidade e do dano verificado. muito menos das regras atinentes ao Estado em juízo. 1. Resta todavia. (20) Também não se pode modificar o regime de apuração quando se discuta a responsabilidade do Estado com base em relação protegida pelo Código de Defesa do Consumidor. não se revela como pressuposto do reconhecimento da responsabilidade do Estado. §2o. com as despesas prévias de atos ordenados de ofício pelo juiz ou pelo Ministério Público (art. na sua grande maioria. Caso seja o consumidor economicamente hipossuficiente. como nos casos de conduta omissiva e de atos praticados sem caráter administrativo. porque. A jurisprudência vem entendendo. também como fatos constitutivos do direito reclamado.060/50. cabe ao consumidor arcar com os ônus financeiros de atos probatórios por ele requeridos. a regra de inversão do ônus da prova a favor do consumidor não implica na revogação do sistema probatório do Código de Processo Civil. 33 CPC). Mas há julgado em sentido diferente como o que abaixo descreve-se: . que o Estado tem presunção de legitimidade. devendo arcar ainda. 19.

1ª parte. do Código de Processo Civil.Tendo os embargos se fundamentado na inexistência de notificação do contribuinte por ocasião da lavratura do auto de infração.. o ônus da prova. Relatora Juíza Eliana Calmon). ficando a Fazenda Nacional com o encargo da prova de ter realizado a notificação.afastamento da presunção juris tantum de certeza e liquidez do título executório'' (Apelação Cível 96.AC 95. desprezou o fundamento do pedido de nulidade da execução. Como fato constitutivo da pretensão do autor.Apelação provida. IV .. II – tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito. temos a prova da culpa nas ações de ressarcimento dos danos contratuais e extracontratuais.Rel.A sentença. o pedido formulado pelo autor". expondo-se conseqüentemente à nulidade. seja produzida e os embargos decididos como de direito. acolhendo ou rejeitando. p. quanto à existência de fato impeditivo.Unânime .NULIDADE DA SENTENÇA . nesse ponto. III . ao julgar improcedentes os embargos sem a produção dessa prova.3ª T. a fim de que a prova da notificação. Juiz Jamil Rosa de Jesus . É nula a convenção que distribui de maneira diversa o ônus da prova quando: I – recair sobre direito indisponível da parte.INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA NO PROCESSO CIVIL O núcleo da regulamentação do ônus da prova está inserido no art. através da prova . 29)(Grifo nosso) 2.01.DJU 17. nos termos do art. positiva ou negativamente. A distribuição do ônus da prova é casuística. Parágrafo único.) Como fato extintivo temos a alegação de prescrição do direito .PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL .09. II – ao réu.216 TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL .01.11165-2 . Precedentes deste Tribunal: ausência de notificação alegada pela embargante e não desmentida pela Fazenda. 333 – O ônus da prova incumbe: I – ao autor.I .1999. (. pois "o juiz proferirá a sentença. no todo ou em parte. . estando sempre em estreita correlação com o que se alega.PA . 333 do Código de Processo Civil. por exemplo. 459. .ALEGAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DE NOTIFICAÇÃO DO CONTRIBUINTE POR OCASIÃO DA LAVRATURA DO AUTO DE INFRAÇÃO INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA .15745-0 /AP. II . quanto ao fato constitutivo de seu direito. modificativo ou extintivo do direito do autor.Anulação do processo. (TRF 1ª R. como segue: Art. inverteu-se.

se ele mesmo alega e o réu não contesta. o réu admite. outro lhe opõem. impeditivo. ou não o provando. (23) As regras sobre o ônus da prova e sua distribuição constituem uma inerência do princípio dispositivo. (21) CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO nos ensina que "a teoria dos ônus processuais. servindo para esclarecer muitos pontos de dúvida e ditar o correto direcionamento e justa medida das conseqüências dos possíveis comportamentos comissivos ou omissivos das partes". Quando uma questão de fato se apresenta como irredutivelmente incerta dentro do processo. se forem os atos constitutivos produzidos com prova insuficiente. está desvinculado. b) ou o uso de um meio mecânico de prova. (. que conseqüentemente deve ser provada pelo réu. A segunda opção implica: a) o adiamento do problema através da prolação de uma decisão provisória (no estado do processo). não teria significação a repartição do ônus da prova.) Desse modo. sua conceituação. o juiz mesmo tendo diante de si duas partes. enfim. inserção no sistema do processo. e prova. se o autor alegar o fato e o réu contestar. passível de discussão e de dúvidas. constitui uma das mais lúcidas e preciosas contribuições que se aportaram à sua ciência no século XX. o ônus probatório é do réu.. modificativo ou extintivo do direito do autor. ou em decidi-la de maneira tal que não exigisse a resolução daquela questão de fato (de que seriam exemplos o julgamento por sorteio e o julgamento salomônico). de sua certeza definitiva. de prova complementar. (26) A intensidade do ônus da prova é problema relacionado com o modo como o . nem das conseqüências de seu descumprimento. não se cogitaria em ônus probandi. o ônus da prova é do autor. o fato se presume verídico. Onde se tivesse um processo puramente inquisitivo. abre-se tecnicamente para o juiz o seguinte leque de alternativas: a) ou ele prescinde de resolver aquela questão de fato. distinção de figuras afins. e. admitindo o fato. c) ou. b) ou insiste em resolve-la. para a busca da verdade. se o autor alega. necessariamente decisório (como o duelo e o juramento). dependerão.217 do autor. pronunciando o non liquet (que não é admissível no direito moderno). o emprego das regras da distribuição do ônus da prova. (24) No processo civil inquisitório.. desde que especificamente contestados. simplesmente por que ao juiz incumbiria a busca da verdade dos fatos e a cooperação das partes seria pelo menos dispensável e sequer haveria como sanciona-las pela omissão de provar. da iniciativa e dos acordos entre elas (25). (22) Para SÉRGIO SAHIONE FADEL. Num sistema que admitisse a pesquisa de ofício da veracidade dos fatos. A primeira opção importaria ao juiz de decidir a causa.

Quanto segunda absurda conseqüência. vale dizer. O ônus da prova recai sobre aquele a quem aproveita o reconhecimento do ato.218 processo se insere na vida dos direitos e no modo de ser da vida em sociedade. a racionalidade dos critérios de julgamentos pela aceitação da probabilidade suficiente em vez da certeza absoluta nem se coloca em termos da tensão entre os princípios que apontam para soluções diferentes. é possível fazer prova dos chamados fatos negativos. quanto ao fato constitutivo do seu direito. é importante ressaltar os ensinamentos de JONATAS MILHOMENS. seja para a fidelidade na declaração e atuação da lei. O fato . basta lembrar que o Código Civil exige. 159). em que se encontra cada uma das partes. E continua: "Quanto à primeira conclusão. (27) Quanto à distribuição do ônus da prova se admitir que as partes convencionem. uma vez produzida a prova. ver-se-á que não é impossível. "O princípio dos poderes instrutórios do juiz prevalece obre a faculdade dispositiva dos contratantes. modificativo ou extintivo do direito do autor. prova do não-uso. contudo. segundo o disposto no art. 333 do Código de Processo Civil. 130 do CPC) ainda que as partes tenham pactuado de maneira diversa". por 10 anos. o ônus da prova incumbe ao autor. Para SANDRA APARECIDA SÁ DOS SANTOS. com preferência a quem afirma um fato negativo. vale dizer. prova de inexistência da dívida para a repetição de indébito (art. porque há duas negativas na primeira proposição". Seja para a pacificação dos conflitos com justiça. para que se considere extinto esse direito real (art. Note-se: não é impossível equivale à é possível. prova de omissão culposa para a indenização por ato ilícito (art. quem afirma um fato positivo tem de o provar. Assim. Aqui. (28) 2. o juiz pode determinar a produção da prova (art. para possivelmente vencer a causa. 710. quanto à existência de fato impeditivo. ao réu. é preciso dispor a técnica processual (em sede legislativa ou na prática da jurisdição) de modo a não figurar como impedimento à fruição ou defesa de direitos. da servidão.1 – Da prova negativa Para analisarmos este aspecto. que afirma que "Não é exato afirmar que a negativa não é prova. O ônus da prova consiste na necessidade de provar. sendo importante apenas verificar se os fatos relevantes foram cumpridamente provados (princípio da aquisição). (29) Na colisão de um fato negativo e de um fato positivo. que o ônus da prova é sempre de quem afirma. 946). O princípio da liberação do ônus da prova levaria (a) ou a uma direta oposição a textos legais ou (b) à conseqüência absurda de um julgamento sem prova". Objetivamente. III). pois seria tolhida ao juiz a liberdade na avaliação da prova. torna-se irrelevante indagar quem a produziu. por exemplo. não pode ser aceito.

6º . a seu favor. significa que o juiz não haverá de exigir a configuração simultânea de ambas as situações. teria utilizado a do direito que onde o legislador restringe. Constatando-se a presença de verossimilhança das alegações ou a hipossuficiência do consumidor. fixar o objeto da demanda. bastando que ocorra a primeira ou a segunda". se às partes se conferem certos poderes de disposição (indicar os meios de prova. é requisitos. Dono do processo (dominus processi) é o juiz e. inc. ou b) o consumidor é hipossuficiente.São direitos básicos do consumidor: (. etc. 6º é clara. Art.) VIII – a facilitação da defesa de seus direitos. não sendo este obrigado. (32) A igualdade formal entre as partes é regra básica do processo civil. tal se compreende fora da atividade própria do juiz. se assim não o fosse. que afirma que "o ato judicial.219 negativo pode ser provado através de provas indiretas. VIII. Esse mesmo posicionamento é corroborado por CARLOS ROBERTO BARBOSA MOREIRA.. (31) DOS SANTOS "a norma estabelecida no necessária a presença de apenas um dos o legislador. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. a critério do juiz. conjunção aditiva ‘e’. JOÃO BATISTA LOPES afirma que "a admissão do princípio dispositivo não significa.).. porque. porém. Para SANDRA APARECIDA SÁ inciso III do art. o juiz deverá inverter o ônus da prova. inclusive com a inversão do ônus da prova. aceitar a convenção das partes. na formação das bases da sentença. à evidência. ou seja. O emprego da conjunção alternativa e não da aditiva ‘e’. constante e seu art. devidamente motivado. segundo as regras ordinárias de experiência. 6º. no processo civil. indicará a ocorrência de um dentre essas duas situações: a) a alegação do consumidor é verossímil." (30) 3. Fica clara e evidente a regra processual. A facilitação de defesa não pode ser entendida como interpretação das regras . O ÔNUS DA PROVA E O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR O Código de Proteção e Defesa do Consumidor tem norma expressa a respeito da inversão do ônus da prova. É princípio basilar não é permitido ao intérprete ampliar". quando. é necessária a presença de um dos requisitos ali encontrados e não a presença de ambos. que as partes possam orientar o processo a seu talante. Para tanto.

O Código de Processo Civil. Entenda-se por hipossuficiência os aspectos que abrangem o aspecto técnico e o aspecto econômico. cuida-se. procurar equilibrar a posição das partes. No entender de ARRUDA ALVIM. no tocante à inversão do ônus da prova em função de hipossuficiência do consumidor. a critério do juiz. defendido pelos autores do anteprojeto do Código de Brasileiro de Defesa ao Consumidor. das características do vício. Não pode haver "facilitação" por interpretação. Contra . O hipossuficiente tem dificuldade ou impossibilidade na produção da prova. estabelece: "Salvo disposições concernentes à justiça gratuita cabe às partes prover as despesas dos atos que realizam ou requerem no processo. pois este princípio é de direito "material". dos modos especiais de controle. o que de certa forma. (35) Quanto à insuficiência econômica. em seu artigo 19. desde o início até a sentença final". nestas incluídas as relativas às perícias e à obtenção de certidões. (33) Quanto à segunda hipótese onde é possível a inversão do ônus da prova. em virtude do reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor. com isenção de custas. ao contrário. alega-se que esta não poderia servir de base para a alegação de inversão do ônus da prova. para fins da possibilidade da inversão do ônus da prova. Para FRANCISCO CAVALCANTI. dos aspectos que podem ter gerado o acidente de consumo e o dano. fundamentando para tal que os dispositivos sobre o ônus da prova constituem regras de julgamento. no que pode ser atendida ou determinada ex officio pelo juiz. atendendo critérios da existência da verossimilhança do alegado pelo consumidor. pois a parte poderia pedir assistência judiciária gratuita. tem sentido de desconhecimento técnico e informativo do produto e do serviço. despesas processuais. seja porque não é acessível à parte ou estas informações estão em mãos da outra parte. é outra norma de natureza processual civil com o fito de. de seu funcionamento vital ou intrínseco. (36) A inversão do ônus da prova poderá ser requerida pela parte. é o da sentença. juntamente com o jurista CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO. O momento da inversão do ônus da prova. entendo que tal preceito "transferiu" a obrigação do Estado de assistir aos necessitados para as empresas. Para LUIZ ANTONIO RIZZATTO NUNES ensina que a hipossuficiência. reside na circunstância do consumidor ser hipossuficiente. somente de um ônus processual. de suas propriedades. antecipando-lhe o pagamento. aquela só pode decorrer de expressa previsão legal. etc (34).220 processuais em favor do consumidor. Importante frisar que o simples fato da inversão não tem o condão de pré-julgamento de mérito desfavorável ao demandado. afastaria a hipossuficiência econômica como autorizadora da inversão do ônus da prova. uma vez que o diploma afeto ao consumidor é composto de normas de ordem pública.

E complementa: o fornecedor. são necessários os requisitos normativos da verossimilhança das alegações feitas pelo consumidor e a sua hipossuficiência. em respeito às características estabelecidas pela lei. (37) Para tanto. Assim. É forçoso reconhecer que alguns sistemas jurídicos não admitem essa inversão do ônus da prova. necessariamente. 3. 6º do Código de Defesa do Consumidor. O consumidor não está obrigado a comprovar antecipadamente o seu direito. por força de obrigações impostas pelas normas protetoras do consumidor. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. qual seria um direito básico do consumidor: Art. a finalidade do instituto do ônus da prova é de facilitar a defesa dos direitos do consumidor. quando. fórmulas. a critério do juiz. sendo necessário a presença de pelo menos uma delas. sendo bem mais fácil a comprovação de fatos referentes a esses bens e serviços pelo fornecedor que pelo consumidor. b) as regras. informações. do qual se consegue formar opinião de ser provavelmente verdadeira a versão do consumidor. inclusive com a inversão do ônus da prova. o art. de maneira absoluta. A facilitação de defesa não pode ser entendida como interpretação das regras processuais a favor do consumidor. isto é.) VIII – a facilitação da defesa de seus direitos. 6º. entre outros. 6º: São direitos básicos do consumidor: (. acerca de seus produtos e serviços. planilhas. Para HUMBERTO THEODORO JUNIOR a verossimilhança é juízo de probabilidade extraída de material probatório de feitio indiciário. segundo as regras ordinárias de experiências.. Não é necessário para tanto que ambas atuem juntas.221 este entendimento. os princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa. a seu favor. Nos ensina FRANCISCO CAVALCANTI que a igualdade formal entre as partes é regra básica do processo civil. cálculos. VIII do Código de Defesa do Consumidor Como já vimos. etc. tem obrigação de manter em seu poder todos os dados.. aquela só pode decorrer de expressa previsão legal. Não pode haver facilitação por interpretação. Tudo dependerá do procedimento adotado.1 – Aplicação do art. cada rito. deverá ele proceder no sentido de . 6º do Código de Defesa do Consumidor em seu inciso VIII. (38) Parecendo ao Magistrado presentes os requisitos constantes do inciso VIII do art. no processo civil. de distribuição do ônus da prova são de procedimento. pois este princípio é de direito material. declara. deve ter um tratamento diferenciado. sobretudo quando se tratar de hipossuficiente. usam-se dois motivos para caracterizar o equívoco: a) ofende.

38: O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou .Rel. mantendo-se íntegra a r.PRESSUPOSTOS PRESENTES . assim evidênciada a hipossuficiência do agravado em virtude do poderio técnico-econômico do banco agravante. 38 do Código de Defesa do Consumidor O art. para que possa ser invertido o ônus da prova a seu favor.2002)(Grifo nosso). sentença recorrida. que a aplicação da inversão do ônus da prova no despacho saneador poderá ser objeto de agravo de instrumento por parte do fornecedor.Rel. 939 e seguintes do Código Civil. Seu silêncio remeterá à preclusão a matéria impedindo novo pronunciamento. bem como a verossímilhanca de suas alegações.AÇÃO REVISIONAL DE CONTRTO BANCÁRIO.2ª C. por força do contido na Súmula 424 do STF (39) e a jurisprudência a seguir: AGRAVO DE INSTRUMENTO. CDC. Benito Augusto Tiezzi DJU 14. incrível e desprovida de qualquer prova a lhe dar algum suporte. 1.INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA .AC 18947500 .Des. Apenas alegações desprovidas de qualquer prova não são o suficiente para que seja concedido a inversão do ônus da prova em favor do consumidor.(TJDF . PROVA DO PAGAMENTO INEXISTENTE.03. com o seu improvimento.2ª T . quando sua versão é por demais insubsistente.222 inverter o ônus da prova ao fornecedor. estão submetidos as disposições do código de defesa do consumidor. Recurso conhecido. 38 do Código de Proteção e Defesa do Consumidor trata da inversão do ônus da prova frente à publicidade enganosa. É importante e imprescindível que o Autor prove através de fatos e alegações subsistentes o seu direito.2 – Aplicação do art. Neste sentido o aresto que segue: CIVIL. É importante observar.Cível . para que se proceda no contexto da facilitação da defesa dos direitos do consumidor e subordinado ao critério de prudente arbitrio do juiz. inaplica-se a inversão do ônus da prova em favor do consumidor. 2. Improvimento do Agravo de Instrumento (TJPR . Des. A prova do pagamento se faz consoante previsto nos arts. o que justifica a improcedência da postulação inicial. 3. CONTRATO DE ABERTURA DE CRÉDITO . entretanto. Embora incidentes as regras do CDC.AC Nº 20020710013023 . AUSÊNCIA DE VEROSIMILHANÇA NA VERSÃO AUTORAL.08.AGRAVO DESPROVIDO. 13. inadmindo-se unicamente a mera assertiva verbal. e licita a inversão do ônus da prova. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. Sidney Mora . Os estabelecimentos bancários como prestadores de serviços. conforme segue: Art.2002)(Grifo nosso). 3. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA MANTIDA.Julg.

sem qualquer vício de origem ou distorção nas características apresentadas. 38 do CDC difere daquela ínsita no art. do mesmo pergaminho legal. PROCEDÊNCIA DO PEDIDO INICIAL. em inversão do princípio previsto no Código de Processo Civil (art. detentor de fórmulas. 6º. referentes ao produto e serviço objeto da comunicação ou da informação publicitária o mais habilitado para comprovar. a inversão do ônus da prova opera-se automaticamente. FORNECEDOR QUE APENAS ALEGA. tem intenção de auferir lucro. Portanto. deve-se levar em conta que a forma de aplicação do art. aquele. 38. 1. pelo fato de ser. OFERTA EM ANÚNCIO DE JORNAL INTEGRA AS CONDIÇÕES DO CONTRATO. know-know. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. caberá ao fornecedor a obrigação de comprovar que a informação publicitária de seu produto chegou ao consumidor. na prática. DEFEITO DE REPRESENTAÇÃO NÃO SANADO. e justifica-se como meio para alcançar a verdade real. (40) Participa da mesma opinião FRANCISCO CAVALCANTI que afirma que a previsão resulta. CDC. deverá verificar a verossimilhança das alegações e/ou a hipossuficiência do mesmo.078/90. . (42) Esse mesmo raciocínio utiliza-se STEPHAN KLAUS RADLOFF que nos ensina que seria desnecessária a declaração taxativa no despacho saneador de que caberá ao fornecedor o ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária. atende pela teoria do risco onde deverá responder por ato ilícito independentemente da apuração de culpa. antecipadamente e independentemente de qualquer pronunciamento jurisdicional interlocutório ou definitivo. (43) o julgado do Tribunal de Justiça do Paraná abaixo transcrito: CIVIL PROCESSO CIVIL. No aspecto processual propriamente dito. pois havendo estabelecimento da lide processual. onde a facilitação da defesa do direito do consumidor com a inversão do ônus da prova depende do exclusivo critério do magistrado que. SEM NADA COMPROVAR.223 comunicação publicitária cabe a quem as patrocina. O Tribunal de Justiça de São Paulo tem julgado no sentido de que ao contrário do previsto no inciso VII do art. Nesse mister. antes de tudo. dados. REVELIA. na hipótese contemplada no art. 6º do CDC. VEROSSIMILHANÇA DAS ALEGAÇÕES. segundo as regras de experiência. 333) quanto ao ônus da prova. (41) O fornecedor de serviços. sem que haja necessidade de uma fase pré-cognitiva de critério subjetivo por parte do juiz. por norma legal cogente.º 8.m está o fornecedor obrigado a provar a obrigação contida no art. podendo para tanto distribuir tal responsabilidade. Como nos ensina STEPHAN KLAUS RADLOFF o ônus da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a quem as patrocina. 38 da Lei n. como no caso da propaganda enganosa.

torna-se revel. Antônio C. Francisco Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor Belo Horizonte: Del Rey. recurso conhecido e provido.o que passou desapercebido ao juiz sentenciante . 2. Vol. do ramo de compra e venda de automóveis. tratar-se-á em hipótese de cláusula absolutamente nula. sem nada comprovar. novos e usados. Rio de Janeiro: Forense. Des. não produz qualquer efeito no campo jurídico. 4.Rel. CAVALCANTI. 1991. VI do Código de Defesa do Consumidor A inversão do ônus da prova nos moldes estabelecidos no art. Art. 51. como se jamais tivesse existido. VI do Código de Defesa do Consumidor. 3. João Carlos Pestana de Comentários ao Código de Processo Civil 2ª Edição. FERREIRA. condições de venda de determinado automóvel. 1977. CHIOVENDA.e. Instituições de Direito Processual Civil CINTRA. Benito Augusto Tiezzi . 1º a 443 7ª Edição.2ª T.ACJ nº 20010111219733 .(TJDF . aplicando-se-lhe os seus efeitos para que sejam presumidos como verdadeiros os fatos alegados pelo autor em sua inicial. Ada Pellegrini.DJU 06. por sua própria natureza. Cândido Rangel A Instrumentalidade do Processo 4ª Edição. nos classificados de jornal. julgando procedente o pedido inicial. A. 1988. que quem firmou a contestação foi outro advogado e não aquele constituído nos autos . empresa fornecedora de produtos e serviços.09. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR. em seu art. constatada a verossimilhança das alegações do consumidor. 1988. está obrigada a vender o bem nas condições do anúncio. limitando-se a alegar. Sendo nula. não o faz.. declarável de ofício pelo magistrado. segundo impõe a lei consumerista. São Paulo: Malheiros. . GRINOVER. para reformar a sentença monocrática. no grau recursal. para sanar este defeito de representação. que anuncia. Sérgio Sahione Código de Processo Civil Comentado. 3. Cândido Rangel Teoria Geral do Processo12ª Edição. FADEL. São Paulo: Revista dos Tribunais. São Paulo: Revista dos Tribunais. 1977.3 – Aplicação do art. DINAMARCO. Pinto Código de Processo Civil Comentado – Volume 2 São . Giuseppe Campinas/SP: Bookseller. inverte-se o ônus da prova.2002)(Grifo nosso). I. onde prevê que as condições da oferta integram o contrato a ser celebrado. 30. 1996. intimada a ré.224 constatado. mormente quando a fornecedora não contesta articuladamente os fatos da inicial. 51. DINAMARCO.

2001. Apreciação Probatória no Processo Civil. Porto Alegre. SILVA. Apreciação . 2001. Verbo Jurídico. Porto Alegre: Fabris. 1996.. Ovídio Baptista apud NUNES. SANTOS. Instituições de Direito Processual Civil. MOREIRA. OLIVEIRA. I 27ª Edição. RADLOFF. Apreciação Probatória no Processo Civil. 1998. 1996. MILHOMENS. 4 3 2 1 PONTES DE MIRANDA apud NUNES. CHIOVENDA. 109. 1986. Humberto Curso de Direito Processual Civil . Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. 2002. THEODORO JUNIOR. 15.225 Paulo: Saraiva. 1996. Theotônio Código de Processo Civil e Legislação Processual em Vigor 33ª Edição. DA SILVA. Giuseppe.Vol. Anelise Coelho. 2001. 2002. s. NEGRÃO. 2001. 2002. n.Vol. FURASTÉ. 1999. pág. Anelise Coelho. São Paulo: Saraiva. Rio de Janeiro: Forense. pág. Ovídio Araújo Baptista da Curso de Processo Civil . Pedro Augusto Normas Técnicas para Trabalhos Científicos 11ª Edição. pág. 14. Anelise Coelho Apreciação Probatória no Processo Civil Porto Alegre. Anelise Coelho. NUNES. Revista dos Tribunais. I 3ª Edição. Juarez de Código de Proteção e Defesa do Consumidor 9ª Edição. Notas COUTURE apud NUNES. Stephan Klaus A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor Rio de Janeiro: Forense. José Carlos Barbosa Temas de Direito Processual: Sétima Série São Paulo: Saraiva. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. 2002. Jônatas A Prova no Processo Rio de Janeiro: Forense. São Paulo: Saraiva. Sandra Aparecida Sá dos A Inversão do Ônus da Prova como Garantia do Devido Processo Legal São Paulo. Campinas/SP: Bookseller.

Hernando Devis apud CIANCI.br/doutrina/texto. O ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor. Pontes de. 18. out. p. <http://www1. Págs. apud FERRAZ. 1929 Apud A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. pág. 2001. <http://www1.com. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. Apreciação Probatória no Processo Civil./jun. III. pág. 15 14 13 12 11 10 9 . out.com.asp?id=2160>.226 Probatória no Processo Civil.br/doutrina/texto. NUNES. ECHANDIA. 501 a 521 apud FERRAZ. p. 2001. p. n.jus. Instituições de Direito Processual Civil. 2001. Hernando Devis apud CIANCI. 3ª ed. 2ª Ed. 2000. 66. a. Jus Navigandi. 1995. <http://www1. São Paulo: RT. MATOS. Jus Navigandi.jus. a.com. A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo. a. 65. Artigo in Justitia. SANTOS. Teresina. pág. Padova.asp?id=2160>. Francesco. n. a. Apreciação Probatória no Processo Civil. Jus Navigandi. abr. Manual de Direito Processual Civil. 5. 2001. Jus Navigandi. Mirna. São Paulo: Revista dos Tribunais. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. Cecília. Vol. 51. Tratado de Direito Privado. Luiz Carlos. 476. 16. 2001. Anelise Coelho. SIEGMUND HELLMANN apud NUNES.. Momento processual da inversão do ônus da prova. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. 51. II. CARNELUTTI. Mirna. n. Prova judiciária no civil e comercial. São Paulo: Revista dos Tribunais. Arruda. Vol V. correta e atual. 449.jus.br/doutrina/texto. São Paulo: Max Limonad. 8 7 6 5 ALVIM.jus. out. n. A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo.asp?id=2159> ECHANDIA. Momento processual da inversão do ônus da prova.br/doutrina/texto. 1968. out. Vol. Teresina. Teresina. Rio de Janeiro. 17. Anelise Coelho. 2001. (REPETIR NOME DO AUTOR).asp?id=2159> SANTOS. 5. 2001. 51. Disponível em: <http://www1. Diritto e Processo. 51. Teresina. 5. 2002. 1954. Luiz Carlos. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. Moacyr Amaral. Sandra Aparecida Sá dos. 2002. 57 (170). São Paulo.com. 5. MIRANDA. p.

CPC: Salvo as disposições concernentes à justiça gratuita.10. O ônus da prova no Direito Processual Civil. cabe às partes prover as despesas dos atos que realizam ou requerem no processo. CINTRA. São Paulo: Revista dos Tribunais. e atual. cuja realização o juiz determinar de ofício ou a requerimento do Ministério Público. São Paulo: Malheiros. BUZAID apud DINAMARCO. p. DINAMARCO. 1988. Agravo de Instrumento n. (Tribunal de Justiça de São Paulo. Luiz Eduardo Boaventura. 248. Código de Processo Civil Comentado. 26 25 24 23 22 21 20 19 18 17 16 . São Paulo: Revista dos Tribunais. 1994. § 2º Compete ao autor adiantar as despesas relativas a atos.br/doutrina/texto.) Art. 2001. rev. Luiz Eduardo Boaventura.jus. antecipando-lhe o pagamento desde o início até a sentença final. 12ª Edição. 2ª Edição. Ada Pellegrini. São Paulo: Malheiros. Forense. Cândido Rangel. AGUIAR.Relator: Antonio Carlos Marcato .asp?id=2159>. 248. Teresina. São Paulo: Revista dos Tribunais.V. 201 FADEL. Mirna. p. 5. até a plena satisfação do direito declarado pela sentença. 562. 4ª edição rev. out. p. CALAMANDREI apud DINAMARCO. CIANCI. 2000. 354. 1994.com. 2000. São Paulo: Malheiros. Comentários ao Código de Processo Civil. 51. Cândido Rangel. GRINOVER.. A instrumentalidade do processo.. 4ª edição rev. Cândido Rangel. 4ª edição rev. 86 e 87. Disponível em: <http://www1. e atual. Rio de Janeiro: Ed.. A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo. p. 1994. e atual. a. e bem ainda. 121. 1977. p. n. São Paulo: Malheiros. Cândido Rangel.979-4 Itápolis . Jus Navigandi. Sergio Sahione. 1996. Antônio Carlos de Araújo.6ª Câmara de Direito Privado . A instrumentalidade do processo. DINAMARCO. 7ª Edição. O ônus da prova no Direito Processual Civil. PACÍFICO. § 1º O pagamento de que trata este artigo será feito por ocasião de cada ato processual.07. Teoria Geral do Processo. na execução. e atual.227 Apud PACÍFICO. p. 19. U. A instrumentalidade do processo.99 . João Carlos Pestana de.

Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. Rio de Janeiro: Forense. CAVALCANTI. 71. A prova no direito processual civil. p. BARBOSA MOREIRA. 2ª Edição. Sandra Aparecida Sá dos. São Paulo: Revista dos Tribunais. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. Francisco.228 CINTRA. para a sentença. Direitos do Consumidor. 2002. RePro. Sandra Aparecida Sá dos. Liv. apud SANTOS. Notas sobre a inversão do ônus da prova em benefício do consumidor. 2002. MILHOMENS. DINAMARCO. CAVALCANTI. Sandra Aparecida Sá dos. A prova no processo. p. São Paulo: Malheiros. CAVALCANTI. 2002. p. p. p. Francisco. São Paulo: Revista dos Tribunais. "Dicionário Aurélio Eletrônico – V. Sandra Aparecida Sá dos. p. 31-38. Del Rey. Nova Fronteira. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. 12ª Edição. 1991.0". A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. São Paulo: Revista dos Tribunais. Francisco. Teoria Geral do Processo. São Paulo: RT. Belo Horizonte: Livraria Del Rey. São Paulo: Revista dos Tribunais. Ada Pellegrini. 37. 2. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor apud SANTOS. p. junho: 1996." 39 38 37 36 35 34 33 32 31 30 29 28 27 . SANTOS. 1986. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. p. GRINOVER.º 86. 32 apud SANTOS. explícitas ou implicitamente. SANTOS. Comentário ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. Belo Horizonte: 1991. 75. Humberto. 80. n. THEODORO JUNIOR. Sandra Aparecida Sá dos. Cândido Rangel. 1991. Belo Horizonte: Livraria Del Rey. 71. Antônio Carlos de Araújo. 123. 39. excluídas as questões deixadas. Súmula 424 do STF: "Transitada em julgado o despacho saneador de que não houve recurso. p. Comentário ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. 1996. Jonatas. Ed. 2002. 2002. 71. p. p. 355. p. Código do Consumidor Comentado. Carlos Roberto. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. 42.

p.04. 2002. 90 Tribunal de Justiça de São Paulo – Ap. Cível n. RADLOFF. 43 42 41 40 Alguns aspectos da dogmática processual para a defesa dos direitos do consumidor Autora: Viviane Mandato Teixeira Ribeiro da Silva . Rio de Janeiro: Forense.1995 – Rel. A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor. Del Rey. p. 75. CAVALCANTI. Rio de Janeiro: Forense. Liv. Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. p.461-2. de 06. Stephan Klaus. Belo Horizonte: 1991. Francisco. 2002. Aldo Magalhães.229 RADLOFF. Stephan Klaus. 70. A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor.º 255.

O parceiro comercial transforma-se em um ente.Da imposição de multa coercitiva ex officio. 4 . traduzidos na impossibilidade de exercer algum controle sobre a qualidade. a difusão e a vulnerabilidade de seus titulares. colocando o consumidor numa posição de franca vulnerabilidade e hipossuficiência. As relações jurídicas de consumo.230 Sumário: 1 – Introdução. como é o de consumo.Do regime jurídico da coisa julgada para as ações coletivas. 2 . por exemplo. revelou-se inviável o contato personalizado e individualizado entre os agentes da cadeia consumerista. Essa nova forma de produção e comercialização gerou desequilíbrio nas relações jurídicas de consumo. o rompimento com vários dogmas de direito substancial.A sentença genérica como regra nas ações coletivas. um número. pois os cristalizados no Código de Processo Civil evidenciavam-se inoperantes para a tutela eficaz de direitos designados. Com efeito. a reformulação de institutos de direito substancial não se mostrava suficiente. inferiu-se que seria mister criar um arcabouço legislativo a fim de preservar a esfera jurídica dos consumidores. Impendia criar instrumentos apropriados. Por tal razão. por titulares não-identificáveis. são as que patenteiam. A perfeita intelecção da linha principiológica norteadora das normas processuais para a tutela de interesses categorizados como direitos metaindividuais demanda considerar alguns aspectos. Não havia mais espaço para a produção artesanal. partindo da necessidade de atender a um mercado cada mais pujante e abrangente em sua feição quantitativa. o do regime da responsabilização civil.A adoção do non liquet e do efeito secundum eventum litis. exsurgiu a necessidade de uma mudança drástica nos meios de produção e comercialização de produtos e serviços. . espécie dessa categoria de interesses. 7 . com extrema clareza. no mais das vezes. 8 Bibliografia 1. 3 – Da inversão do onus probandi. tais peculiaridades. Impunha-se um sistema mecanizado e seriado para fomentar o consumo em massa. analisaremos a sistemática processual considerando-se tais relações. Adveio daí.5 . como.Introdução. como o da liberdade para fixar o conteúdo contratual. Nesse contexto. só para citar alguns.Da legitimação ad causam. segurança e quantidade dos produtos e serviços disponibilizados pelo fornecedor no mercado de consumo. Na comercialização. 6 . Contudo. ante o imenso contingente de utentes.

defender o consumidor. ao mesmo tempo e do mesmo modo. em conjunto com a Lei 7347/85. segundo a qual. alguns institutos processuais foram adaptados para imprimir à tutela jurisdicional a adequação. É a denominada legitimação extraordinária. 2. é a da legitimação ordinária. No presente trabalho. A opção legislativa em não investir o indivíduo da legitimação ad causam pode ser analisada sob três vertentes. por via oblíqua. em seu artigo 82. solucionar-se-iam conflitos que envolvessem. a lei processual civil admite.Código de Defesa do Consumidor . Encerra verdadeira fonte normativa processual geral que. funcionando. Na Lei 8078/90. legitimou entes públicos e privados. por via transversa. A primeira. reside na feição do Estado social. do artigo 5º. como salvaguarda para a produção sistemática de lesão a direito. todo o grupo do qual o indivíduo integra. inobstante a denominação . é regra na Lei 8078/90. dessarte. e o risco de soluções judiciais antagônicas para o mesmo conflito. Assim. como determina o inciso XXXII. é a de que o fato de o resultado benéfico da lide coletiva atingir. regulamenta a tutela de todo e qualquer direito metaindividual. subtraindo do indivíduo a possibilidade de defender em juízo interesses titularizados pela coletividade. apenas o titular do direito material lesado ou ameaçado de lesão está autorizado a defendê-lo em juízo. cujo desiderato é a busca do bem-estar social. do texto constitucional. A segunda. é o de evitar a proliferação de ações individuais com pretensões idênticas. A legitimação extraordinária [01].231 Nessa esteira. Excepcionando essa regra. abordaremos. que alguém defenda em juízo em nome próprio um interesse alheio. tornou despiciendo legitimá-lo. a qual. de uma só vez e por intermédio de uma só lide. cujo substrato era o de . de modo sucinto. exceção no Código de Processo.não se adstringe apenas às relações jurídicas de consumo. nos casos por ela enunciados. idealizada sob a filosofia liberal. e. o regramento da legitimação para agir experimentou uma importante mudança. Situação essa que certamente induziria ao desestímulo na busca da tutela jurisdicional. a esfera jurídica do indivíduo. A terceira. Não mais se prestigia a visão liberal. a qual. Da legitimação ad causam A legitimação ad causam é a autorização legal para defender em juízo um direito material lesado ou ameaçado de lesão. alguns aspectos da sistemática procedimental introduzida pela Lei 8078/90. a presteza e a eficácia necessárias para a solução de conflitos em massa. A sistemática sufragada pelo Código de Processo Civil.

) Essa situação cria barreiras ao acesso".) são interesses fragmentados ou coletivos (. detentor de forte poder político e/ou econômico. seja para cominar ao fornecedor a sanção cabível. a tutela jurisdicional obtida por meio do processo coletivo.. dentre as quais. e aproveita. Sob a ótica do princípio constitucional da isonomia. Cappelletti. e reprimindo-se a conduta lesiva do fornecedor. Diga-se a propósito. o dano pode ser inexpressivo. Sob a perspectiva do consumidor individualmente considerado. sufraga-se a ideologia da preservação do interesse coletivo. Daí o entrelaçamento da efetividade com o princípio constitucional do acesso à justiça e deste com o da legitimação ad causam... De fato. . evitando-se a perpetuação da lesão. segundo o entendimento doutrinário. resulta em franca desigualdade no campo processual. O Prof. concluiremos. que a possibilidade de a produção massificada gerar lesão em escala difusa é expressiva. Cappelletti. o dano pecuniário de inexpressiva monta funciona como elemento desestimulante para o indivíduo ajuizar qualquer demanda. ou ninguém tem direito a corrigir a lesão a um interesse coletivo. é melhor defendido em juízo por associações ou órgãos do próprio Estado.232 atender aos interesses individuais. Por meio da ação coletiva. E tal circunstância denota a relevância e a imperiosidade do sistema processual coletivo introduzido pela Lei 8078/90. com o Prof. E este. o indivíduo tem sua esfera jurídica tutelada contra a prepotência do poder econômico. pelo dever constitucional de defender os interesses da sociedade.. no mundo empírico. legitimar entes públicos e civis para a defesa judicial dos interesses transindividuais. como é o caso do Ministério Público.) O problema básico que eles apresentam – a razão de sua natureza difusa – é que. o legislador infraconstitucional concretizou dois princípios constitucionais: o acesso à justiça e a isonomia. notadamente para o Ministério Público que. [02] Se considerarmos as relações de consumo sob o aspecto pecuniário.. ou o prêmio para qualquer indivíduo buscar essa correção é pequeno demais para induzilo a tentar uma ação. Seja para reprimir condutas nocivas em nível difuso. ainda que incipiente sob o ponto de vista individual. A partir da Carta de 1988. Concretiza-se. no mais das vezes. que ao legitimar entes coletivos. entretanto não o será numa perspectiva global. encetando estudo acerca da defesa efetiva dos direitos coletivos. Essa situação não se repete para os entes públicos. mas não para os entes privados ou públicos ao defenderem todo o grupo. pode litigar com causador do dano com igual força política. é que o legislador introduziu tantas inovações no sistema processual. repise-se. a ideologia do Estado social protetor dos mais fracos. podemos considerar que o fato de o consumidor ser vulnerável e hipossuficiente frente ao fornecedor. elucida que essa gama de direitos "(.. destarte. (. Pois.

no mais das vezes. em seu artigo 389.233 3 . A lei consumerista. impõe ao inadimplente o dever de arcar com as perdas e danos. O legislador entendeu. como o da isonomia. do artigo 6º. aliás. que presente um dos requisitos elencados no artigo 6º. deve o julgador inverter os ônus da prova. e como consectário lógico do reconhecimento da vulnerabilidade e da hipossuficiência do consumidor. em que o ônus da prova do fato constitutivo do direito cabe ao autor da demanda. por exemplo. não sufragou a tônica civilista. o consumidor dificilmente obteria qualquer ressarcimento em razão de sua hipossuficiência em obter os elementos necessários para provar o nexo de causalidade. Vislumbramos o aspecto pragmático dessa regra no campo da responsabilidade civil. em que é prescindível o exame da conduta do fornecedor para imputar-lhe o dever de reparar o dano. inciso VIII. a lei 8078/90 erigiu no inciso VIII. No tema das obrigações. qual seja. o reconhecimento da hipossuficiência ou da verossimilhança da alegação do consumidor. não tem o condão de reparar a atividade nociva do fornecedor nem o de atender aos interesses econômicos do consumidor. corretamente. Se fosse mantida a sistemática preconizada pelo artigo 333. Malgrado a adoção do regime objetivo. por conseguinte. dentre outros. a inversão do ônus probatório revela-se prestante. certamente sucumbiria. carreando-o ao fornecedor.Da imposição de multa coercitiva ex officio Vários institutos materiais e processuais foram matizados na construção da nova sistemática a fim de conferir efetividade à tutela jurisdicional na defesa dos direitos transindividuais e dar concretude a vários princípios constitucionais. a Lei Civil em vigor. do Código de Processo Civil. que a pecúnia. ao tratar do direito material das relações de consumo. porquanto se o consumidor tivesse a desincumbência de fazer prova do nexo causal. 4 .Da inversão do onus probandi Desdobramento dos princípios constitucionais da isonomia e da dignidade da pessoa humana. Depreende-se. a inversão do onus probandi [03] como um direito básico. logo só ele tem a possibilidade de produzir a prova necessária a fim de demonstrar se o produto é ou não defeituoso. Isto porque é o fornecedor quem detém a mais completa informação acerca do produto. do acesso à justiça. .

em que tal matéria era dispositiva. vale dizer. ensejou o questionamento em face do princípio da adstrição. consistente em cominar ao devedor recalcitrante uma penalidade pelo descumprimento da obrigação. outorgou ao Estado-juiz maior campo de discricionariedade. Melhor explicitando. consagrado no artigo 128 combinado com o 293. e a regra do parágrafo 4º. A adoção da astreinte mostra-se consentânea com a realidade social e com o objetivo legal de prevenir a lesão à esfera jurídica do consumidor. o de esmaecer a resistência devedor em cumprir espontaneamente o contrato ou o comando emergente da sentença. evitando-se remeter à parte inocente o recebimento de indenização. Isto porque a multa. . forçando o fornecedor cumprir o pactuado. a melhor doutrina sustenta inexistir conflito normativo e esclarece que a imposição da multa coercitiva em nada ofende o princípio da adstrição. pois influindo no aspecto anímico do fornecedor. darse-ia à parte o direito in natura. se o órgão julgador só pode conhecer ex officio matéria de ordem pública. Tal prescrição representou. a Lei 8078/90 preconiza que se deva envidar todos os esforços para realizar concretamente o que fora contratado pelos litigantes. as quais impõem ao juiz dar interpretação restritiva ao pedido. segundo os quais os limites da atuação jurisdicional vêm traçados no pedido formulado pela parte. ambos do Estatuto Procedimental. todos do Estatuto Procedimental. ao incorporar a multa coercitiva no parágrafo 4º. àquilo que fora determinado na sentença. quando da promulgação da lei consumerista. da Lei 8078/90. o consumidor obtém o objeto da prestação e satisfaz a expectativa gerada por conta do negócio jurídico firmado. a Lei 8078/90. e. uma inovação legislativa por romper com o sistema processual tradicional. Desse modo. autorizando-o a cominação da multa ex oficio. em que o julgador está autorizado a cominar de ofício a multa coercitiva e outras medidas que se fizerem necessárias à execução da obrigação.234 Nesse diapasão e partindo da premissa de que o processo desempenha um papel instrumental para conferir à tutela jurisdicional efetividade. Para concretizar essa ideologia. dependia de provocação do interessado. Para essa indagação. se o Estado-juiz não pode conceder à parte além. de seu artigo 84. indaga-se se haveria conflito entre a norma geral. Sob o prisma da efetividade. consubstanciada no artigo 460 combinado com os artigos 128 e 293. Seu objetivo é o de constranger. de sorte que não repugna às normas procedimentais outorgar ao Estado-juiz o poder de impor a multa sem provocação do interessado. tem natureza jurídica de medida de coerção e não de ressarcimento. aquém ou diferente do que foi pedido. egressa do direito francês denominada astreinte. ou. a Lei 8078/90 incorporou a multa coercitiva. do artigo 84.

em última análise. a função jurisdicional de pôr termo à controvérsia não interessa apenas a pacificação dos litigantes. se é a própria lei quem permite ao julgador abandonar o papel passivo de "boca da lei" para desempenhar um papel mais ativo. fruto da democracia.235 Neste ponto cabe uma observação. como o prefixo grego indica. do que resulta que a aplicação do Código só tem lugar em caráter subsidiário e naquilo que não contrariar a lei especial. Portanto. por grupos. concomitantemente. à saúde.a 8078/90 -. evidentemente. é normada pela lei especial . Entretanto. Conferindo ao juiz o poder de fixar a multa coercitiva de ofício. em seu artigo 461. O exercício da função jurisdicional nos tempos modernos exige. ou. do artigo 84. Dessa forma. Representa também a manutenção da paz social e da própria ordem jurídica.Adoção do non liquet e o do efeito secundum eventum litis Antes de adentramos à abordagem da possibilidade do non liquet e da extensão subjetiva dos efeitos da coisa julgada com o temperamento do secundum eventum litis albergados pela Lei 8078/90. a participação do julgador na dinâmica processual. por titulares indetermináveis. o legislador partiu de um enfoque publicista do processo. classes ou categorias de pessoas. Por derradeiro. 5. embora seja eminentemente jurisdicional. São direitos titularizados. também prevê a multa coercitiva. Com efeito. como o direito à educação. forçoso é concluir que a imposição da multa coercitiva é simples reflexo da coadunação da atuação jurisdicional aos reclamos da sociedade moderna. a tutela dos direitos metaindividuais. matérias de primeira plana para a manutenção do próprio Estado. a aplicação da multa coercitiva deve observar o regramento instituído pelo parágrafo 4º. Essa nova categoria de direitos é classificada pela Lei 8078/90 em três . ao mesmo tempo. do Código de Processo. da Lei 8078/90 e não a do artigo 461. cabe destacar que o Código de Processo Civil. não só para melhor análise dos fatos que formarão o convencimento do julgador acerca da verdade. envolvendo ou não relações jurídicas de consumo. São interesses incindíveis por pertencerem. Direitos metaindividuais. a função do juiz também resvala para o aspecto político. são direitos que transcendem a esfera individual. meio ambiente saudável. olvidar os princípios da imparcialidade e da preservação dos direitos fundamentais. fazendo valer a vontade popular. insta trazer à colação a definição dos direitos metaindividuais e de suas espécies para melhor intelecção do tema. mas também para o desempenho da função política. Nesse diapasão. a toda coletividade. etc. pois ao interpretar e dar corpo à vontade abstrata da lei estará. sem. em dadas circunstâncias. por intermédio do método dialético.

e é por isso que os titulares podem ser identificáveis. ao tratar da matéria. nada obstante inexistir entre eles qualquer relação jurídica. nota-se que o traço distintivo entre os direitos difusos e os coletivos consiste no fato de que nos direitos coletivos a relação jurídica foi a deflagradora da lesão. a titulares indetermináveis. conceitua como coletivo o direito incindível por ser titularizado. do artigo 81. Nesta espécie.é a possibilidade de estender subjetivamente os efeitos da sentença -. Todos os adquirentes daquele produto sofrerão a mesma lesão. ou seja.que é a possibilidade de o julgador rejeitar a pretensão ante a insuficiência probatória sem que tal sentença produza a coisa julgada material . A vinculação com a parte contrária decorre do fato de todos terem sofrido a mesma lesão. Exemplo notório é o contrato de adesão. conceitua como difuso o direito indivisível por pertencer. não há entre os prejudicados qualquer relação jurídica que os una. Pela dicção da lei. mas tratados coletivamente. Quando estes interesses são afetados. do direito litigioso e do resultado da lide coletiva. da Lei 8078/90. vejamos a mudança legislativa no que tange aos efeitos da sentença. a saúde. podemos mencionar o meio ambiente.236 espécies: difusos. São direitos individuais.e do julgado secundum eventum litis . Finalmente. Partindo da premissa de que os interesses e as dimensões dos danos derivativos do consumo não se restringem apenas a consumidores perfeitamente determinados e identificados. quando o processo for extinto sem julgamento do mérito. ao mesmo tempo. adotou a possibilidade do non liquet . vale dizer. o inciso III. O inciso II. Cite-se à título de exemplo. do artigo 81. Visto o conceito e a classificação dos direitos metaindividuais. do artigo 81. anotando-se que a incidência desses regramentos dependem da natureza da sentença. toda coletividade sujeita-se aos efeitos prejudiciais. porque é possível identificar cada titular. unindo determinado grupo de pessoas entre si ou com a parte causadora do dano. coletivos e individuais homogêneos. O inciso I. todas as pessoas que aderiram àquele contrato experimentarão idêntica lesão. o legislador consumerista introduziu um sistema totalmente diferenciado do vigente no Código de Processo Civil no que tange aos efeitos da sentença. porquanto tanto o meio ambiente como a saúde são direito de todos os integrantes da sociedade. são direitos titularizados por todos e por ninguém em particular. o artigo 103. Para exemplificar. Se houver alguma cláusula nula. incisos I a III. os titulares são identificáveis por haver uma relação jurídica base preexistente à lesão. define os direitos individuais homogêneos como direitos individuais na essência. ao mesmo tempo. Se a sentença ser meramente formal. pelo grupo ou classe de pessoas determináveis. Ainda. os efeitos são idênticos ao adotado pelo Código de . produtos defeituosos. Com efeito.

porém. não existiu a lesão ao bem jurídico que se pretendia proteger". entretanto. Elucida o prof. ou seja. Forma-se a coisa julgada formal e seus efeitos ficam adstritos ao processo extinto. mas não impedem o ajuizamento de lides individuais. cujo objeto seja direito difuso ou coletivo. que toda a diligência probatória foi realizada e que. não alcançarão os titulares individualmente considerados. rejeitará o pedido. formar-se-á a coisa julgada material. Idêntico efeito se produzirá se o julgador entender que não houve lesão ao direito individual homogêneo. ressalvando-se a possibilidade de ajuizarem suas ações individuais arrimados na mesma causa de pedir veiculada na coletiva que fora julgada improcedente. com o temperamento do chamado efeito secundum eventum litis do julgado. Assim. por corolário. alcançando todos os partícipes da ação. infere-se que o resultado negativo da ação individual homogênea só não prejudicará quem dela não houver participado. porquanto tal julgamento não beneficia os titulares individuais. Se a sentença for definitiva. se o conflito versar sobre direitos individuais homogêneos não será aplicado o non liquet e só incidirá o secundum eventum litis se a lide for acolhida. a sentença que acolher a pretensão produzirá a coisa julgada material e seus efeitos benéficos alcançarão a todos os titulares individualmente considerados. não haverá extensão dos limites subjetivos da coisa julgada. os efeitos da sentença ficam submetidos ao tratamento estabelecido pela Lei 8078/90. infere-se que o tratamento . Todavia. se não houver prova bastante da lesão. Incidirá. o órgão julgador rejeitará a pretensão e a sentença produzirá coisa julgada material. o que faculta à parte interessada o ajuizamento de nova ação. o juiz entender que não houve lesão. o regramento da extensão subjetiva dos limites da coisa julgada material secundum eventum litis. ainda que não tenham participado do processo. ao revés do que ocorre nas lides difusas e coletivas stricto sensu. os efeitos da decisão interditam os legitimados coletivos de ajuizarem nova demanda coletiva. Com efeito. quando o processo for extinto com julgamento do mérito. Neste caso. portanto. em razão de terem integrado o pólo ativo da lide coletiva na qualidade de litisconsortes.237 Processo Civil. dependendo da natureza do direito litigioso e do resultado da lide coletiva. aos olhos do juiz. se a natureza do objeto da lide for direito difuso ou coletivo. mas que pela gravidade e repercussão social da lesão foram inseridos na categoria de direitos transindividuais. Quer isto significar que os efeitos da coisa julgada material oriunda da sentença que julgou improcedente a ação em razão da ausência de lesão. Arruda Alvim [04] que "se ficar claro. Isto por serem direitos essencialmente individuais. apesar disso. ficando. Se. Destarte. Em vista do que prescreve a lei 8078/90. Nesta hipótese. permanecendo a controvérsia incólume à apreciação judicial. impedidos de ajuizarem ações individuais para renovar a mesma pretensão.

seja pela insuficiência de prova. Seus efeitos são extensíveis a todos titulares individuais (erga omnes) Improcedência: a) Por falta de provas = Incide o non liquet.238 dispensado para as ações de direito individual homogêneo é idêntico ao constante do Código de 73. Admite-se a propositura da ação individual Direito INDIVIDUAL HOMOGÊNEO Procedência: Faz coisa julgada material e seus efeitos são extensíveis a todos os titulares individuais (erga omnes) Improcedência: . Vale dizer. Não há extensão subjetiva. admitindo-se a propositura da ação individual Direito COLETIVO Procedência: Faz coisa julgada material e seus efeitos são extensíveis aos titulares determináveis do grupo ou classe (ultra partes) Improcedência: a) Por falta de provas = Incide o non liquet. não produzindo a coisa julgada material. seja pela inexistência de lesão. Admite-se a repropositura da ação coletiva e o ajuizamento da ação individual b) Ausência de lesão = Opera coisa julgada material apenas entre os legitimados coletivos. Quer nos parecer que a razão de a Lei 8078/90 ter repetido o tratamento trazido pelo Código de Processo reside no fato de o direito controvertido ter natureza individual e. Para melhor visualização do que dissemos. vigorariam os mesmos efeitos produzidos para as hipóteses de formação litisconsorcial ativa facultativa unitária. Admite-se a repropositura da ação coletiva e nada interfere no ajuizamento da ação individual b) Ausência de lesão = Produz coisa julgada material apenas entre os legitimados coletivos. Não há extensão subjetiva. a sentença proferida produzirá coisa julgada material inter alios. sinopticamente. mas não produz a coisa julgada material. temos: DIREITO DIFUSO: Procedência: Faz coisa julgada material. nesse passo.

) No pedido se contém a suscitação de uma provisão jurisdicional (pedido imediato).. que a possibilidade do non liquet impõe ao julgador a necessidade de explicitar que a improcedência se deu em razão da insuficiência probatória. vedando-se a repropositura da ação coletiva. Quem não participou da lide coletiva poderá ajuizar ação individual. Não há extensão subjetiva. sob pena de viciar a sentença de nulidade e dar azo à rescisória. economizando tempo e recursos financeiros. Não apenas. pelo fato de o legislador ter subtraído do titular individual a legitimação para agir. É o que se pede em juízo. à lume do que preceitua o inciso V. 6. deve receber interpretação restritiva à luz do princípio albergado no . na tutela de um bem jurídico (pedido mediato)". do art. cujo traço característico é a difusão dos titulares.239 a) Por falta de provas = Não incide o non liquet. Nesse sentido.. Há que se ter presente que ao conferir tratamento coletivo às ações que tenham por objeto o direito individual homogêneo. segundo a qual o pedido deve ser certo e determinado. É a dedução da pretensão em juízo (. os efeitos da sentença judicial à luz de seu resultado. neste tópico. a flexibilização da regra constante do artigo 286. da lei procedimental. a inversão do ônus da prova. Já analisamos a legitimação para agir. Verificaremos. Faz coisa julgada material. o tratamento dispensado pela Lei 8078/90 para os efeitos do julgado tinha que diferir da sistemática sufragada pelo Código de Processo Civil. a solução de um conflito de grave e expressiva repercussão social. para encerrarmos esse tópico. mediante uma única relação processual. a mens legis foi o de obter. por encerrar uma manifestação da vontade. b) Ausência de lesão = Produz coisa julgada material vedando-se a repropositura da lide coletiva.A sentença genérica como regra nas ações coletivas Destacamos que alguns princípios e regras processuais tradicionais foram moldados de modo a garantir a tutela eficaz dos direitos transindividuais. sobretudo. mas. Em linhas gerais e pelas especificidades dos direitos metaindividuais. ante a determinação constitucional de proteger essa nova categoria de direitos. [05] O pedido de prestação da tutela jurisdicional. Pedido "é a expressão da pretensão. É oportuno destacar. 485. Não há extensão subjetiva. da Lei de Rito. se a sistemática do Código de Processo fosse repetida pela Lei 8078/90 redundaria em flagrante inconstitucionalidade ante a negativa de acesso à justiça. Só quem não participou da lide coletiva poderá ajuizar a ação individual.

Nas ações coletivas. de acordo com a extensão do dano individualmente experimentado. Por essa regra. Nessa linha. por absoluta incompatibilidade com os objetivos da Lei 8078/90. em linha de princípio. Daí o porquê de a exceção no Código de 73 ser a regra na Lei 8078/90. ter rompido com a tradição. nem conferir ao autor citra. tendo o autor. Não por outra razão. Desde o início da lide as partes são perfeitamente identificadas. é que a sentença deva ser certa quanto ao tipo de provimento jurisdicional pretendido. é excepcionada por seus incisos. sob pena de nulidade da sentença (parágrafo único. artigo 459. vale dizer. Ada Pellegrini Grinover [06] assevera que o aspecto teleológico da sistemática processual traçada pela Lei 8078/90 para a tutela dos direitos transindividuais é obter. se pensarmos que os legitimados ativos estão defendendo os . Vê-se a completa distinção entre a ação coletiva e a que envolve direitos individuais regidos pelo Código de Processo e o porquê de o legislador. no entanto. ultra ou extra petita. não podendo proferir sentença ilíquida quando o pedido for certo. Por essa razão.240 artigo 293. do Código de Processo. a controvérsia fica adstrita entre o fornecedor . E assim é. a sentença deve ser genérica. o ônus de demonstrar o dano e o nexo causal. entendendo-se por esta locução: delimitado quanto aos direitos e extensão quantitativa. De fato. por meio das ações coletivas.e o consumidor lesado. da Lei Procedimental Civil. o direito em conflito pertence a titulares determinados (direito coletivo stricto sensu) ou indetermináveis (direito difuso). do CPC). Na lide individual.causador do dano . Pensemos na relação jurídica de consumo. máxime em razão de a decisão proferida nas ações coletivas tutelar um bem jurídico ainda indivisível. a condenação se dá pelo prejuízo provocado e não pelo dano experimentado pelos titulares individualmente considerados. o juiz fica vinculado àquilo que foi pedido. não seria possível repetir a regra prescrita no artigo 286. o reconhecimento judicial do dever reparatório e da condenação do agente causador do dano ao ressarcimento pelos prejuízos produzidos. é exigência legal que o pedido deva ser certo e determinado. A profa. ou seja. da lei do Rito. A regra constante do caput do artigo 286. para viabilizar aos lesados individuais a identificação e a apuração do quantum indenizativo. Já no caso das lides metaindividuais. mas genérica ou ilíquida quanto à extensão quantitativa da pretensão. ao enunciar hipóteses em que o pedido possa ser genericamente formulado. A regra consubstanciada no artigo 95. admite-se que o autor decline o que quer sem deduzir o quantum quer. para a tutela dos direitos coletivos. da Lei 8078/90.

Em primeiro. Esses dois diplomas cristalizam normas que destoam da processualística tradicional. da Lei 7347/85 assim dispunha. in verbis: "Art. as inovações foram substanciais.A sentença civil fará coisa julgada erga omnes. porque será na fase liquidatória que será aferida a extensão do dano causado por determinado produto ou serviço. se fosse aplicada a regra do Código de 73.Do regime jurídico da coisa julgada nas ações coletivas Fizemos remissão às alterações legislativas que influíram nos efeitos emanados da sentença. Há certeza quanto ao dever de reparar o dano.241 interesses daqueles que efetivamente experimentaram o dano e que não participam da relação processual. da Lei 8078/90. portanto o decisum é certo por definir o direito. o que faria cair por terra todo o arcabouço da lei 8078/90. fácil é intuir que a sentença não poderia ser especificar o quantum debeatur. cumprindo o ditame constitucional de elaborar mecanismos instrumentais que garantissem a defesa efetiva dos direitos metaindividuais. Não foi por outra razão que as regras da legitimação para agir. Falar de efeitos da sentença remete à coisa julgada. concebeu a Lei 8078/90 e aperfeiçoou a Lei 7347/85. 16 . porquanto as regras do Código de Processo se revelaram inaptas para equacionar satisfatoriamente as exigências da nova ordem social. dentre outras medidas. ainda. prescrevendo que a sentença deva ser certa e determinada. hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento. 7 . neste tema. restaria impossível a indenização dos lesados. exceto se a ação for julgada improcedente por deficiência de provas. que o fato de a condenação ser genérica não significa dizer que a sentença seja incerta. tema que nos interessa neste tópico. O legislador infraconstitucional. em segundo. observa-se que todos os titulares individuais do interesse coletivo . Como se nota. O artigo 16. sofreram tantas inovações. Pelo teor do dispositivo legal supra colacionado combinado com o artigo 103. Colhemos. A extensão dos limites subjetivos da coisa julgada. porque os lesados só serão identificados no momento da liquidação de sentença. mas ilíquido por não precisar o quantum. da lição trazida pela doutrina. e. valendo-se de nova prova". recebeu tratamento especial.

porque do conjunto probatório existente nos autos não se demonstrou a lesão. (grifo nosso). encampamos a corrente que propugna pela inconstitucionalidade da alteração legislativa. Caso a sentença rejeite a pretensão por entender que não houve lesão. no âmbito dos direitos coletivos a sentença produz efeitos para além dos litigantes. Por tal razão. a autoridade da coisa julgada não poderia cingir-se aos litigantes. criando-se um sistema legislativo material e processual próprio e adaptado para concretizar a proteção constitucional. inclusive. ou. essa proteção. nos limites da competência territorial do órgão prolator. é que a doutrina assevera que os efeitos erga omnes da autoridade da coisa julgada se opera somente em relação ao legitimados ativos para a ação coletiva. à natureza dessa categoria de direitos e à posição doutrinária.A sentença civil fará coisa julgada ‘erga omnes’. alterando a redação do artigo 16. direta ou indiretamente. Subsumindo o dispositivo legal supra às disposições constitucionais que determinam a efetiva proteção aos direitos transindividuais. E o fato de a Constituição ter tutelado os direitos metaindividuais quer significar que se tornou inadmissível ao legislador infraconstitucional restringir ou alterar. limitou os efeitos subjetivos da coisa julgada ao determinar que. O fundamento jurídico para que o legislador tenha adotado o efeito secundum eventus litis reside no fato de ter conferido legitimação a quem não seja o titular exclusivo do direito lesado. diferentemente do que sucede perante o Código de Processo. Em última análise. uma vez que a improcedência da demanda em face da inexistência da lesão a direito impedirá tão-somente o ajuizamento de outra lide coletiva. A Lei 9494/97. Destarte. exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas. as Leis 7347/85 e 8078/90 prescrevem que o titular individual do direito. contudo. Com efeito. podendo. hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento. 16 . Isto porque as ações coletivas buscam tutelar direitos fundamentais expressamente reconhecidos em nosso ordenamento jurídico. Como se nota. in verbis: "Art. a razão de ser das mudanças introduzidas no sistema . o titular individual nenhum prejuízo jurídico experimentaria.242 (lato sensu) seriam alcançados pelo resultado benéfico do julgado. Disso resultou a implementação de uma série de inovações por meio das Leis 8078/90 e 7347/85. só sofrerá influência do julgado em sua esfera jurídica se a decisão for benéfica. por não ter recebido legitimação para agir em juízo. demandar individualmente o agente ofensor para obter a reparação da lesão. daí ter sido criado um mecanismo que garantisse a todos os titulares do direito controvertido os benefícios decorrentes do acolhimento da pretensão. da Lei 7347/85. valendo-se de nova prova".

mas a reunião deve observar o limite da competência territorial da jurisdição do magistrado que proferiu a sentença. porque as ações coletivas são reguladas por dois subsistemas que atuam em conjunto . mormente porque é a Lei 8078/90 que cuida do regime da coisa julgada. de modo que seria mister alterar a ambos. relegando a um plano secundário não apenas a linha teleológica do sistema protetivo sufragado pela Lei 8078/90. de modo que as ações que versarem sobre tais direitos estariam fora do alcance da Lei 9494/97. alterando-se a redação do artigo 16. inclusive quando houver uma demanda coletiva e diversas ações individuais. As ações que têm objeto idêntico devem ser reunidas. logo não pode ficar adstrito à competência jurisdicional do órgão prolator da decisão. PÚBLICA – 1. v. Nesse diapasão. Ainda. que restringir a eficácia da coisa julgada nos moldes traçados pela Lei 9494/97. Ada Pellegrini Grinover segue a mesma linha quanto à ineficácia da restrição territorial dos efeitos da decisão. da Lei 7347/85. "a sentença civil fará coisa julgada erga omnes. dentre outros. ainda que não uniformemente. embasando seu entendimento no fato de que os efeitos da decisão estão vinculados aos limites ínsitos ao pedido. acaba por desnaturar a tutela efetiva do direito coletivo e ferir outros mandamentos constitucionais. por exemplo. nos limites da competência territorial do órgão prolator". 3. têm conferido à lei interpretação literal.LIMITES DA COISA JULGADA. que busque a tutela a direito coletivo estará fora do alcance restritivo trazido pela Lei 9494/97. destaca que pelo fato de a restrição ter sido imposta apenas na Lei 7347/85. da Lei 7347/85. Hipótese em que se nega a litispendência porque a primeira .243 jurídico prendeu-se à natureza dos direitos e da repercussão social dos conflitos em massa. como também as prescrições constitucionais. Não obstante o repúdio doutrinário à alteração do artigo 16. o direito coletivo stricto sensu tem eficácia ultra partes e não erga omnes.494/97. Hugo Nigro Mazzilli. Conforme os ditames da Lei 9. A doutrina mais autorizada vem repudiando essa alteração legislativa sustentando sua inoperância. como o acesso à justiça. A verificação da existência de litispendência enseja indagação antecedente e que diz respeito ao alcance da coisa julgada. quer nos parecer. " PROCESSO CIVIL – AÇÃO CIVIL LITISPENDÊNCIA . a isonomia.g a ação popular. como se verifica das ementas infra colacionadas.as Leis 8078/90 e 7347/85 -. qualquer outra ação. os tribunais. 2.

Manual de Direito Processual Civil.2004) BIBLIOGRAFIA Armelim. Curso de Direito Constitucional. 642462/PR. Notas Sobre A Coisa Julgada Coletiva.494/97.12. EXECUÇÃO DE SENTENÇA. Tutela Jurisdicional do Meio Ambiente. e nesse ponto. 665. São Paulo: . 2º-A da Lei nº 9. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. ARRUDA ALVIM. Donaldo. EFICÁCIA DA SENTENÇA DELIMITADA AO ESTADO DO PARANÁ. 2. 02. j.947-SC." (REsp n. 2º-A DA LEI Nº 9. Recurso especial parcialmente conhecido.. ambos no Estado do Paraná. Celso. BASTOS. Revista de Processo n. na defesa dos interesses e direitos dos seus associados. j. na data da propositura da ação. José Manuel. 1. EMPRÉSTIMO COMPULSÓRIO DE COMBUSTÍVEIS (DL 2. 22ª ed. VIOLAÇÃO DO ART. litteris : "A sentença civil prolatada em ação de caráter coletivo proposta por entidade associativa. domicílio no âmbito da competência territorial do órgão prolator". São Paulo: RT. caso contrário geraria violação ao art.288/86).0013933-9 pleiteando a restituição de valores recolhidos a título de empréstimo compulsório cobrado sobre a aquisição de álcool e gasolina no período de jul/87 a out/88. 88. Impossibilidade de ajuizamento de ação de execução em outros estados da Federação com base na sentença prolatada pelo Juízo Federal do Paraná nos autos da Ação Civil Pública nº 93. A abrangência da ação de execução se restringe a pessoas domiciliadas no Estado do Paraná. 1ª TURMA. desprovido. ____________. Revista do Advogado da AASP. APADECO.244 ação está limitada ao Município de Londrina e a segunda ao Município de Cascavel. ILEGITIMIDADE DAS PARTES EXEQÜENTES." (REsp n. n. 2ª TURMA. 08/03/2005) "PROCESSUAL CIVIL. abrangerá apenas os substituídos que tenham.494/97. 3. 37. em razão de que em seu dispositivo se encontra expressa a delimitação territorial adrede mencionada.

José Afonso. José Joaquim. Luiz Antonio. São Paulo: Saraiva. Editora Forense.. ____________. 1991. Moacyr Amaral. 2003. Silva. Coimbra: Almedina. 2º Vol. Editora: Forense. Editora Forense. Editora Martins Fontes. Princípios do Processo Civil na Constituição Federal. Vol. Nelson. Acesso à Justiça. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor comentado pelo autores do anteprojeto. Silva Pereira.. São Paulo: Saraiva.. 6ª ed.Forense. Ovídio Araújo Baptista da.. Instituições de Direito Civil. ____________. Editora Forense. Sergio Antonio Fabris Editor. Forense. I. O problema da Justiça. SANTOS. 10ª ed. 5ª ed. Gomes Canotilho. ª .. 23ª ed. São Paulo: Saraiva. ____________. 2000. Do Processo Cautelar. Caio Mário. Vol II. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelo autores do Anteprojeto. II. Nigro Mazzilli. Hans. 2001. Kelsen.. 2002. Curso de Direito Constitucional Positivo.245 Saraiva.. São Paulo: RT. Editora Forense. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Editora Malheiros. A defesa dos interesses difusos em juízo. Curso de Direito Processual Civil. Instituições de Direito Civil. 3ª ed. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. Humberto. 6ª ed. Rizzatto Nunes. Forense. 2001. Vol. III. Grinover.. ____________. Instituições de Direito Civil. Mauro. São Paulo: Saraiva.. SILVA. 13ª ed. Vol. Nery Junior. Editora: Forense. Cappelletti. O Princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana. 6ª ed. 3 ed. Ada Pellegrini. Hugo. THEODORO JUNIOR.

Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelo autores do Anteprojeto. o contraditório e ampla defesa desdobramentos do princípio do devido processo legal. 04 01 José Manuel de Arruda Alvim. A Lei 8078/90 não estabelece o momento processual da inversão. 03 . a inversão dar-se-ia quando do sentenciamento. Há quem sustente. Kazuo. cit. ao mesmo tempo. o que deu azo a três exegeses doutrinárias.150. perfilha o argumento de que o momento da inversão deve ocorrer no saneador ou durante a fase probatória. Ada Pellegrini Grinover. 6ª ed. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor (Comentado pelo autores do Anteprojeto). Notas Há dissenso doutrinário acerca da natureza da legitimação para a defesa de interesses coletivos. 05. p. p. Acesso à Justiça. Outra corrente perfilha a tese de que a legitimação não é extraordinária. E a terceira. Moacyr Amaral dos Santos. op. 31. que a legitimação é extraordinária. à coletividade e ao autor da ação. mas autônoma para conduzir o processo. porque não dizer. a defesa do réu.. Editora: Forense. pois os interesses defendidos pertencem. . de algum modo. A segunda. 02. 2º vol. Passim..784.p. Isto porque. não é o titular do interesse. A primeira. pensamos que o julgador deva prevenir as partes sobre a possibilidade da inversão na fase instrutória. e. 06. Mauro Cappelletti e Bryan Garth. a fim de não cercear. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. Entendemos que a terceira corrente é a mais compatível com o regramento constitucional do direito de defesa e as diretrizes protetivas da lei 8078/90. O fundamento seria o de que as regras de distribuição do ônus da prova são regras de juízo. propugna pela inversão no momento do julgamento da causa. sustenta que a inversão deve ocorrer na petição inicial. portanto. e que. os interesses do consumidor.246 Watanabe. porquanto quem figura como autor da demanda.

É necessário que haja uma ligação que os una para sua formação válida.Definição Litisconsórcio é a pluralidade de partes litigando no processo.2. IV – ocorrer afinidade de questões por um ponto comum de fato ou de direito.tanto no pólo ativo (autores). na posição de autores ou de réus" [01].3 Espécies .Pressupostos para a formação do litisconsórcio O litisconsórcio não se forma livremente. III – entre as causas houver conexão pelo objeto ou pela causa de pedir. isto é.1.247 Litisconsórcio. quanto no pólo passivo (réus). apenas com a vontade das partes. assistência e intervenção de terceiros nas ações coletivas para tutela do consumidor Autora: Gláucia Kohlhase Marques 1. São pressupostos estabelecidos pelo artigo 46 do Código de Processo Civil: I – entre elas houver comunhão de direitos e obrigações relativamente à lide. 1. 1. quando houver a cumulação de vários sujeitos . II – os direitos e obrigações derivarem do mesmo fundamento de fato ou de direito. Litisconsórcio 1. Gabriel de Rezende Filho define litisconsórcio como "o laço que prende no processo dois ou mais litigantes.

§ 1º. em que todos os condôminos deverão ser citados (art. o litisconsórcio pode ser ativo quando existirem vários autores. A lei. II e 949. ação de demarcação promovida por um dos condôminos. devendo ser formado no momento da propositura da ação. a maioria dos casos não é expressamente prevista pela lei processual. bem como a dos confinantes do imóvel (art. condicionando-se aos pressupostos elencados no artigo 46 do Código de Processo Civil já mencionados alhures. ações de divisão de terras. proposta pelo Ministério Público. 10. em que marido e mulher terão que se litisconsorciar como autores (art. em que serão citados ambos os cônjuges. CPC). será assistente litisconsorcial.248 Quanto à pluralidade de partes. em muitos casos. ação de nulidade de casamento. por fim. ações em que marido e mulher deverão ser citados como réus (art. a vontade das partes não é arbitrária. Quanto à obrigatoriedade de formação do litisconsórcio. De acordo com o artigo 47 do Código de Processo Civil. este pode ser necessário ou facultativo. a lei determina a formação do litisconsórcio tendo em vista a relação jurídica material existente. 942. pela natureza da relação jurídica. Em todas as hipóteses relacionadas. CPC). Se aquele que poderia ser litisconsórcio facultativo não integrar a relação jurídica inicialmente e deixa para ingressar no processo posteriormente. impõe a formação de litisconsórcio. Para isso. Alguns exemplos podem ser citados como ações que versem sobre direitos reais imobiliários. Entretanto. em que todos os quinhoeiros deverão ser citados. figura que será examinada mais adiante. ação pauliana. O litisconsórcio facultativo pode ser limitado pelo juiz sempre que houver um número excessivo podendo acarretar o comprometimento da rápida solução do litígio . Por outro lado. em que o autor deverá pedir a citação dos interessados certos ou incertos. 946. o direito material deve ser analisado para que se possa identificar a necessidade da formação do litisconsórcio. 952. O litisconsórcio será necessário sempre que a lei assim exigir ou. em que serão citados todos os sócios e. neste caso. CPC). o juiz tiver que decidir a lide de modo uniforme para todas as partes. mas sua formação também é necessária sempre que a comunhão de direitos e obrigações for una e incindível. CPC). será facultativo quando a existência do litisconsórcio ficar a critério das partes. Alguns exemplos podem ser mencionados como nas ações de partilha. sendo necessário que os demais condôminos sejam citados como litisconsortes (art. passivo quando existirem vários réus ou misto quando no processo litigarem vários autores e vários réus. ação de usucapião. em que serão citadas as partes do contrato. CPC). Entretanto. sua formação é obrigatória. ação de dissolução de sociedade. 10.

Neste caso. não sendo possível que a decisão da lide seja de forma diferenciada para cada um dos colitigantes. assistência litisconsorcial que será examinada mais adiante. recorrer e falar nos autos serão contados em dobro. basta que um dos litisconsortes conteste para que a revelia não acarrete o efeito . deve ser formado no início da relação processual. A confissão e o reconhecimento são possíveis sem que prejudiquem os demais litisconsortes. regra esta consubstanciada no parágrafo único do art. a situação jurídica litigiosa deve receber tratamento uniforme. sendo considerado como parte distinta. o juiz deverá ordenar ao autor que promova a citação de todos os litisconsórcios sob pena de extinção do processo. 46 do Código de Processo Civil. sim.O litisconsórcio unitário ocorre sempre que a lide. Neste caso. Autonomia dos colitigantes Conforme se depreende do artigo 48 do Código de Processo Civil. Da mesma forma poderá ser feita a transação e a conciliação. 1. Neste caso. cada litisconsorte tem autonomia dentro do processo. Quanto à eficácia da sentença. Quanto ao momento de formação. obrigatoriamente. os prazos para contestar. trata-se não só de citação para formação do pólo passivo como também do ativo. depois de constituída a relação processual ou pela junção de duas ou mais distintas relações processuais. Assim. comporta algumas exceções. a autonomia dos litigantes não é absoluta. o litisconsórcio pode ser inicial ou ulterior. não constitui caso de litisconsórcio ulterior e. Os atos e omissões não prejudicam os demais litisconsortes.249 ou dificultar a defesa. Embora a disposição legal não deixe claro. A única hipótese de litisconsórcio ulterior ocorre no caso de litisconsórcio necessário que não se formou no início da relação processual de forma que. Nas demais hipóteses em que aquele que poderia formar litisconsórcio inicialmente não o fez e ingressa posteriormente. o litisconsórcio poderá ser unitário ou simples. não conteste a ação. Entretanto. Como regra. os litisconsortes podem constituir procuradores diferentes. O litisconsórcio será ulterior quando surgir no curso do processo. tornando-se revel. sendo os fatos alegados pelo autor comuns a todos. isto é. do Código de Processo Civil. na posição de réu. conforme determina o artigo 47.4. o litisconsórcio deve sempre ser inicial. Já o litisconsórcio simples se dá quando a lide puder ser decidida de forma diversa para cada litisconsorte. tiver que ser decidida de maneira uniforme para todos os litisconsortes. em consonância com a regra instada no artigo 191 do Código de Processo Civil. parágrafo único. Pode ocorrer que um dos litisconsortes. podendo praticar todos os atos processuais.

Relativamente aos demais fatos. 7.853/89. e então ambos os co-legitimados acabariam sendo tratados como litisconsortes. em decorrência do princípio da comunhão da prova e do artigo 131 do Código de Processo Civil. Segundo ele. pois o nosso ordenamento não admite a constituição superveniente de litisconsórcio facultativo. 319 incide: eles serão reputados verdadeiros pelo juiz. Hugo Nigro Mazzilli entende que a regra do artigo acima citado é caso de litisconsórcio ulterior. a sanção do art. A prova produzida por um dos litisconsortes também poderá aproveitar ou prejudicar os demais. caso se entendesse que inexista possibilidade de litisconsórcio ulterior. menos imperfeita foi a redação dada na Lei n.250 previsto no artigo 319 do Código de Processo Civil. é concorrente e disjuntiva. da LACP admite que "o Poder Público e outras associações legitimadas" se habilitem como litisconsortes em ação já proposta". independentemente dos demais. formando litisconsórcio inicial no pólo ativo. Mas. I. da Lei da Ação Civil Pública traz a possibilidade de o Poder Público e outras associações legitimadas habilitarem-se como litisconsortes. ao tratar do mesmo problema: "Fica facultado aos demais legitimados ativos habilitarem-se como litisconsortes nas ações propostas por qualquer deles". 320. com pedido mais abrangente ou conexo. E ainda. e sim de assistência. O artigo 5º. É o que ocorre nos casos de litisconsórcio unitário. conforme se depreende do artigo 82 do Código de Defesa do Consumidor. bastaria que o segundo co-legitimado propusesse em separado outra ação civil pública ou coletiva. pois a . eliminada a possibilidade de prova contrária do réu quanto aos mesmos". tem que ser entendido como restrito à impugnação de fatos comum a todos os litisconsortes. Neste sentido leciona Calmon de Passos : " O art. "procurando disciplinar o chamado litisconsórcio ulterior. Com relação à eficácia da sentença. O recurso também poderá ser interposto pelo litisconsorte. Em decorrência disso os legitimados podem propor a ação coletiva conjuntamente. Nesse passo. "por absurdo. mesmo esta redação não se livrou da incorreção de mencionar assistentes litisconsorciais em vez de litisconsortes" [02]. o art. portanto. ou comum ao réu atuante e ao revel litisconsorte. e isso provocaria a reunião de processos. o recurso interposto por um dos litisconsortes aproveitará aos demais quando os interesses não forem distintos ou opostos. De acordo com o que disciplina o artigo 509 do Código de Processo Civil.5 Litisconsórcio nas ações coletivas A legitimação nas ações coletivas. 1. 5º. § 2º. Trata-se não de litisconsórcio. § 2º. o litisconsórcio será unitário.

1. Isto ocorre para que a prestação jurisdicional seja prestada de uma só vez. em um único processo coletivo. somos pelo entendimento de que se deve fazer a aplicação subsidiária do Código de Processo Civil. Tanto o CDC quanto a LACP não trazem regras processuais específicas quanto ao assunto do litisconsórcio. O indivíduo lesado. após requerer a suspensão. surgiu a idéia do litisconsórcio entre Ministérios Públicos que acabou se concretizando no artigo 113 do CDC. o indivíduo não pode ser autor de ação que tutele interesses transindividuais. Assim. de acordo com a previsão do artigo 94 do Código de Defesa do Consumidor. beneficiando. Entretanto. todo o grupo de pessoas lesadas. questiona-se se existiria limites com relação à quantidade de indivíduos que queiram ingressar na ação coletiva como assistente litisconsorcial. a ação popular pode ser proposta pelo cidadão para anular ato ilegal ou ilegítimo lesivo ao patrimônio público.251 decisão deverá ser idêntica para todos os litisconsortes. Face o artigo 5º. O seu § 5º incluiu o § 5º ao artigo 5º da LACP. pelos legitimados ativos elencados no artigo 5º da Lei da Ação Civil Pública e do artigo 82 do Código de Defesa do Consumidor. O entendimento majoritário da . assim. seja de forma isolada ou em litisconsórcio unitário facultativo. inclusive ao meio ambiente. Neste caso. tendo processo individual em andamento com pedido idêntico ou conexo. surgiu a discussão se teria ou não havido veto ao litisconsórcio inserido no CDC. Para que alguém figure como litisconsórcio é necessário que tenha a legitimidade para ser autor. De acordo com o parágrafo único do artigo 46 do referido diploma legal. embora não possa ser autor.2 Litisconsórcio entre Ministérios Públicos Em decorrência de melhor defesa do meio ambiente. há uma exceção que ocorre no caso de ação popular.5. 1. Com o veto ao § 2º do artigo 82 do CDC. tendo em vista que os legitimados para a propositura da ação estão expressamente determinados pela lei.5. Pelo sistema vigente na legislação brasileira. é possível a limitação pelo juiz quando houver excessivo número de litisconsortes podendo acarretar o comprometimento da rápida solução do litígio ou dificultar a defesa.1 O indivíduo na posição de litisconsorte A legitimação extraordinária tem como escopo possibilitar que os indivíduos lesados pela violação de seus direitos sejam substituídos no pólo ativo. poderá habilitar-se como assistente litisconsorcial na ação civil pública na defesa de interesses individuais homogêneos. inciso LXXIII da Constituição Federal. conforme já exposto.

o órgão Ministerial é uno. Esta autonomia é apenas administrativa. No que se refere à instituição. O Código de Processo Civil italiano conceitua a assistência simples como sendo a intervenção de terceiro no processo entre as partes visando sustentar as razões de uma delas contra a outra. Ocorre que a própria necessidade de divisão do trabalho que levou à criação de vários órgãos do Ministério Público. o Ministério Público do Estado de São Paulo tem agido com a indicação da unidade da federação a que pertence.252 doutrina é que o veto foi ineficaz. e assim por diante" [03]. as argumentações invocadas para o veto não procedem já que o artigo 128 da Constituição Federal não impede que os Ministérios Públicos da União. certa improbidade técnica em se falar em litisconsórcio entre os vários órgão de uma mesma instituição. 2. do Distrito Federal e dos Estados atuem em conjunto. indivisibilidade e independência funcional estabelecidos pelo § 1º do artigo 127 da Constituição Federal. Assim. o Ministério Público do Trabalho. 2. tradicionalmente. de âmbito nacional. ASSISTÊNCIA A assistência é uma forma de intervenção espontânea que ocorre com o ingresso do terceiro na relação processual já existente. Entretanto. . Outra polêmica diz respeito à constitucionalidade do dispositivo em questão. O Ministério Público é uma instituição informada pelos princípios da unidade. A doutrina insere a assistência nas modalidades de intervenção de terceiros apesar de o Código de Processo Civil vigente a tratar separadamente. prevalecendo a possibilidade do litisconsórcio entre Ministérios Públicos por força do artigo 113 do CDC.1 Assistência simples ou adesiva A assistência simples tem origem no processo extraordinário romano. mais apropriado seria. as quais serão examinadas adiante. Assim. seja por razão de matéria. assim. Suas regras estão disciplinadas nos artigos 50 a 55 do Código de Processo Civil. com atribuição específica de tarefas diferenciadas a cada um deles. fez com que. A doutrina classifica a assistências em duas espécies: simples. seja por razão territorial. esses órgãos atuassem com a indicação do setor que lhe compete. com a menção à área que lhe toca. o Ministério Público pode atuar em qualquer das justiças e até em conjunto com outro órgão do Ministério Público quando a defesa dos interesses e direitos difusos e coletivos esteja dentro das atribuições que a lei lhe confere. certamente. ou adesiva e a litisconsorcial ou autônoma. falar-se em representação da instituição. Tecnicamente. Para Kazuo Watanabe " haveria.

a coisa julgada não atinge o assistente simples. isto é. Por outro lado. impugnar perito aceito pelo assistido ou testemunha por este apresentada etc. pois a lide discutida não lhe pertence. O assistente age como auxiliar da parte. Assim. restringir ou ampliar o objeto da causa. o assistente aturará como gestor de negócios. O assistente não estará vinculado à justiça da decisão se alegar e provar que. Segundo Liebman. Mas não poderá praticar atos relativos à disposição de direitos. o artigo 55 do CPC traz algumas exceções. como terceiro.253 O assistente. com interesse jurídico em que a sentença seja favorável à parte por ele assistida. Como regra. A assistência pode se dar a qualquer tempo e graus de jurisdição. Sendo o assistido revel. Atua com a finalidade de auxiliar o assistido tendo em vista ter interesse em que a sentença seja favorável ao litigante a quem assiste. ele pode. o assistente não poderá discutir os fundamentos de fato e de direito em que se assentou aquela decisão em outro processo que venha a ser autor ou réu. se necessário. podendo produzir provas e praticar atos processuais desde que sejam benéficos ao assistido. reconhecer pedido ou transigir. desistir da ação ou transigir sobre direitos controvertidos. o assistente encontra-se subordinado ao assistido que poderá reconhecer a procedência do pedido. ou reconvir. e permanecendo nesse caráter. Entretanto. intervém no processo. não formula pedido em prol de direito próprio. de modo que se torna sujeito no processo e não parte. defender a posição da parte assistida. o terceiro "não se torna parte. com a conduta que esta assume no processo" [04]. mesmo em contradição. exercendo os mesmos poderes. podendo formular pedido. atuando com maior liberdade no processo. ex vi artigo 53 do CPC. contudo. quando o assistido haja desistido do recurso ou a ele renunciado. pelo estado em que recebera o . a assistência ocorre quando o terceiro. reconvir. Entretanto. sua relação jurídica não é deduzida em juízo e a sentença não pode decidi-la nem conter disposições que lhes sejam diretamente pertinentes (exceto quanto às custas da intervenção). sempre em benefício do assistido. Também estará sujeito aos mesmos ônus processuais. não se converte em litisconsorte. recorrer. há interesse jurídico do terceiro "quando a relação jurídica da qual seja titular possa ser reflexamente atingida pela sentença que vier a ser proferida entre assistido e a parte contrária" [05]. como confessar. Vincula-se aos efeitos da imutabilidade da justiça da decisão. lhe é vedado formular pedido próprio. Segundo Nelson Nery Júnior. ao intervir no processo. conforme dispõe o artigo 50 do Código de Processo Civil. recebendo o processo no estado em que se encontra. alterar. A última hipótese somente se aplica ao assistente litisconsorcial.

não poderia ser terceiro. O particular lesado que tenha processo individual em andamento com pedido idêntico ou conexo. pois o lesado. 2. compreendido no pedido coletivo. Seus poderes são de verdadeiro litisconsorte. se tem direito próprio a ser zelado. de que o assistido. poderá ingressar como assistente litisconsorcial na ação coletiva. poderão ingressar na qualidade de assistente litisconsorcial tendo em vista que o litisconsórcio inicial é facultativo. atuando como parte distinta deste em suas relações com a parte adversa. tendo sido deixado fora da relação processual. após ter requerido a suspensão. a intervenção do lesado a título de assistência processual não se parece adequar perfeitamente às figuras processuais conhecidas: a) não seria caso de assistência simples. nos casos de danos a interesses transindividuais. o assistente não se subordina aos atos do assistido. b) essa relação ser normada pela sentença. por dolo ou culpa. não se valeu. já que o indivíduo sempre conserva o direito de acionar .3 Assistência nas ações coletivas Caso os demais legitimados queiram participar do processo posteriormente à propositura da ação. É o caso daquele que poderia ter sido litisconsórcio facultativo mas não o foi.2 Assistência litisconsorcial ou autônoma A assistência litisconsorcial ou autônoma ocorre sempre que o terceiro for titular de uma relação jurídica idêntica ou dependente da deduzida em juízo que será atingida diretamente pela sentença. faz coisa julgada material. podendo agir com total independência e autonomia relativamente à parte assistida. isto é.254 processo. em benefício do qual se move a ação coletiva. Em consonância com o art. Para Hugo Nigro Mazzilli. 48 do CPC. ou pelas declarações e atos do assistido. Os atos e omissões do assistido não prejudicarão nem beneficiarão o assistente bem como os atos e omissões deste não influirão naquele. Diversamente da assistência simples. pois a sentença não influirá necessariamente na relação jurídica entre ele e o adversário do assistido. na assistência litisconsorcial são extraídos do artigo 54 do CPC dois requisitos necessários para a sua formação: a) relação jurídica entre o interveniente e a parte contrária ao assistido. 2. b) não seria a rigor nem mesmo caso de assistência litisconsorcial em sentido estrito. fora impedido de produzir provas suscetíveis de influir na sentença ou desconhecia a existência de alegações ou de provas.

São sujeitos de uma outra relação de direito material que se liga intimamente àquela já constituída. Com relação ao limite temporal para que o lesado habilite-se como assistente litisconsorcial nas ações coletivas. são os que não são partes no processo pendente [07]. esta seria a melhor opção [06]. do CPC. nela intervenham em determinados casos. Outra parte defende o ingresso do assistente até o saneamento para que não cause tumulto processual. parágrafo único. a sentença atinge aos que foram partes na demanda e não terceiros. recebendo o processo no estado em que se encontra. É o que chamamos de "extensão subjetiva da sentença". deve-se aplicar as regras processuais contidas no CPC. o assistente não poderá assumir a ação. o direito admite que terceiras pessoas. ou seja. Entretanto. Com o objetivo de reduzir os perigos da extensão dos efeitos da sentença a terceiros não participantes da relação processual. tornando-se imutável e fazendo lei entre as partes. Embora o assistente atue como auxiliar da parte. é possível que os efeitos da sentença recaia indiretamente sobre terceiros. à sentença proferida. 3. São pessoas estranhas à relação processual de direito material deduzida em juízo e estranhas à relação processual já constituída. não pode assumir diretamente a promoção da ação. INTERVENÇÃO DE TERCEIROS Transitando em julgado a sentença. em tese. Parte dela entende que o lesado poderá ingressar na ação coletiva a qualquer tempo. o assistente poderá ingressar a qualquer momento. Assim. pois lhe falta legitimação autônoma. pois o indivíduo na poderia ter participado de um litisconsórcio ativo unitário facultativo para propor ação coletiva. não restando prejudicado pela decisão da ação coletiva. produz coisa julgada. para que possam fazer a defesa de seus direitos. tendo em vista a complexidade da relação jurídica. É a chamada intervenção de terceiros.255 diretamente o causador do dano. Entretanto. em razão do interesse que tenham na lide. Os terceiros que intervêm não são partes na relação processual originária. Entendemos no sentido de que. Como regra. Dessa forma. em ação individual. exercendo os mesmos poderes e sujeitando-se aos mesmos ônus processuais. há divergência na doutrina. face o art. uma vez não disciplinada a questão no CDC nem na LACP. assim. seria problemático admitir sua intervenção a título de assistência litisconsorcial qualificada. . sujeitando-se. em caso de desistência ou abandono pelo assistido. c) também. 50.

Diversamente do direito romano. total ou parcialmente.1 Oposição 3. economia processual e celeridade. O instituto acabou sendo incorporado pelo direito canônico e pelo direito italiano medieval com a denominação de intervenção no processo das partes. no qual a intervenção se dá no processo principal. a coisa ou o direito sobre que controvertem autor e réu. A França e a Itália seguem o modelo germânico primitivo. 10. total ou parcialmente. total ou parcialmente. Ou. em que a sentença produzia efeitos apenas entre as partes.256 São modalidades de intervenção de terceiros a oposição. Se terceira pessoa pretendesse a coisa ou o direito sobre a qual litigavam as partes. os litígios eram decididos pela assembléia do povo. a oposição acabou se tornando ação autônoma. ou ação. a denunciação da lide e o chamamento ao processo. buscando sempre que possível. deveria intervir no processo para exclui-las. ainda.1. no todo ou em parte. Como conseqüência disto. não se admite a intervenção de terceiros e a assistência. 3. Pela influência do direito canônico. que terceiro formula na demanda entre as partes. Da mesma forma o procedimento comum sumário não autoriza a intervenção de terceiro. São disciplinadas pelo CPC nos artigos 56 a 80. informalidade.1 Conceito A oposição tem origem germânica. Em razão desse procedimento é que se dizia que a sentença produzia efeitos em relação a todos que dela participavam e conheciam. Com esta roupagem a oposição foi adotada pelo direito brasileiro. as sanções impostas pelo Código de Processo Civil para os casos em que a parte se omita no dever de provocar a intervenção de terceiro no processo não se aplicam nesta hipótese. e não só entre as partes. em praça pública. a conciliação ou transação. português e alemão. Dessa forma. face o disposto no art. simplicidade. senhor do direito ou da coisa disputada entre as partes numa demanda pendente. das de ambas. das dos demais litigante" [08]. a oposição pode ser conceituada como sendo a intervenção de terceiro que pretende. Entretanto. o juízo era universal. o pedido de tutela jurisdicional. no processo germano barbárico. deduzindo pretensão própria excludente. a nomeação à autoria. 9.099/95). pois o procedimento adotado orienta-se pelos critérios da oralidade. . salvo a assistência e o recurso de terceiro prejudicado por se tratar de um rito mais célere. formulando pretensão excludente. nos Juizados Especiais (Lei n. Moacyr Amaral Santos conceitua oposição "como a ação intentada por terceiro que se julgar.

2 Procedimento O procedimento da oposição encontra-se previsto nos artigos 56 a 61 do CPC. se o processo principal correr à revelia do réu. pode ser proposta entre dois termos: desde já iniciada a audiência . O limite temporal para o oferecimento da oposição é até a prolação da sentença (juízo de 1º grau) por ser uma questão prejudicial à ação principal. Mas se o juiz entender necessário o sobrestamento do processo principal a fim de julgá-los conjuntamente. Se a oposição for oferecida antes da audiência de instrução e julgamento.1. e correrá simultaneamente com a ação. contra o outro prosseguirá o opoente. De acordo com o momento em que ocorrer sua propositura. 213 a 233 do CPC. como demanda autônoma. somos pelo entendimento de que a citação deve ser pessoal. o interessado no objeto da lide entre o autor e o réu. o prazo será contado em dobro. correrá em apenso aos autos principais ou em apartado como demanda autônoma. esta será apensada aos autos principais. com prazo de quinze dias para contestar.257 3. poderá fazê-lo por prazo nunca superior a noventa dias para que não retarde demasiadamente a marcha do processo principal. Após a audiência de instrução e julgamento da lide pendente. no mesmo juízo da causa principal. Trata-se de uma exceção à regra de que a citação deve ser pessoal [10] [11]. deverá ajuizar demanda que entender necessária contra o autor ou o réu. sendo ambas julgadas pela mesma sentença. a oposição somente poderá ser proposta em ação autônoma. não se esquecendo que a oposição deve ser apreciada antes da principal. Se um dos opostos reconhecer o pedido. Moacyr Amaral Santos entende que "a oposição. Nesta modalidade de intervenção de terceiros forma-se uma outra relação processual. na forma dos arts. Se a sentença já foi proferida não é mais cabível a oposição. embora o Código de Processo Civil não faça referência à questão. A oposição em processo autônomo será julgada sem prejuízo da causa principal. O opoente apresentará a petição inicial observando sempre os requisitos exigidos pelos artigos 282 e 283 do CPC. seguindo o procedimento ordinário. este será citado por edital. Diversamente. Neste caso. Os opostos serão citados na pessoa dos seus respectivos advogados para oferecer contestação no prazo comum de quinze dias. nos termos do art. Sendo advogados diferentes. Entretanto. ou ambos. Serão réus em litisconsórcio necessário autor e o réu da ação principal [09]. 191 do referido diploma legal.

deverá proceder a nomeação à autoria o proprietário ou o possuidor. ou . Da sentença que julgar a oposição. Duas são as situações em que deverá ocorrer a nomeação à autoria: a) quando aquele que detiver a coisa em nome alheio.258 de instrução e julgamento da lide pendente (termo a quo).2. não mais se admite a oposição.2 Procedimento O procedimento da nomeação à autoria encontra-se disciplinado nos arts. No mesmo sentido. ato exclusivo do réu. nos Juizados Especiais e nas demandas sob procedimento sumário [14]. É. a oposição pode ser proposta mesmo quando a causa entre autor e réu estiver em segunda instância. mas antes do seu trânsito em julgado [13]. até o momento em que a sentença nessa lide se torne irrecorrível.2.1 Conceito A nomeação à autoria consiste na correção da legitimação passiva. visando livrar-se de demanda que lhe foi intentada. e será condenatória com relação ao réu que possui a coisa. b) na ação de indenização. 3. ou seja. em grau de recurso.2 Nomeação à autoria 3. e possa ser julgada "sem prejuízo da causa principal". intentada pelo proprietário ou pelo titular de um direito sobre a coisa. Se o Código permite expressamente que a oposição tenha curso autônomo. isto é. 513 do CPC. pois declara não ter ele direito ao objeto da causa. A sentença que julgar procedente a oposição será declaratória com relação ao autor da ação principal. Mas. devendo entregá-la ao opoente ou responder perante ele. Pontes de Miranda entende que a oposição pode ser ajuizada tanto antes da audiência. substitui-se o réu parte ilegítima para a causa por um réu parte legítima. for demandado em nome próprio. nenhum óbice existe ao seu ajuizamento depois de proferida a sentença de primeiro grau de jurisdição. nos termos do art. toda vez que o responsável pelos prejuízos alegar que praticou o ato por ordem. sujeita às normas que disciplinam o duplo grau de jurisdição" [12] . A oposição não será cabível em processo de execução. 3. Assim. 62 a 69 do Código de Processo Civil. o recurso oponível será o de apelação. a oposição deverá ser oferecida e processada em primeira instância. como depois dela e da prolação da sentença. Transitada em julgado a sentença proferida na ação. ainda nesse caso. portanto. até o momento em que essa lide tiver sido decidida definitivamente (termo ad quem).

tendo em vista que o nomeado não compareceu. conforme preceitua o art. ou se compareceu. Dessa forma. propor nova demanda contra o terceiro indicado pelo nomeante. o causam habens). se o juiz não estipular o prazo. O Código nada fala de qual será o prazo para o nomeado falar sobre a nomeação. correndo a demanda contra ele.3. pois estará dando prosseguimento a um processo inútil ao fim visado. se nomear pessoa diversa daquela em cujo nome detém a coisa demandada. este poderá reconhecer a qualidade que lhe é atribuída. A sua inobservância resulta na responsabilidade por perdas e danos. a palavra auctor assume várias acepções. Citado o nomeado. nada alegou. . É neste último sentido que foi usada a palavra autoria. deverá aplicar o prazo de cinco dias.259 em cumprimento de instruções de terceiro. o juiz suspenderá o processo e mandará ouvir o autor no prazo de cinco dias. se a recusar. para. A nomeação deve ser requerida no prazo para a defesa. Deixando o autor de se manifestar no prazo que lhe foi conferido. no chamamento à autoria instituído pelo Código de Processo Civil de 1939. o processo continuará contra o nomeante. Da mesma forma. expressa ou tacitamente. 3. 185 do CPC. Neste caso. acarretando dano ao autor e para a Justiça. Assim.1 Conceito No direito romano. 267. mas sim um dever. O nomeante poderá continuar na relação processual como assistente caso tenha interesse em que a sentença seja favorável ao nomeado.3 Denunciação da lide 3. o nomeante terá novo prazo para contestar [16]. havendo recusa do autor com relação ao nomeado. presumir-se-á aceita a nomeação [15]. a ele incumbirá a citação. É tanto aquele que propõe ação quanto o antecessor na sucessão da coisa. o transmitente do direito (o causam dans. e uma vez deferido o pedido. que se afirma parte ilegítima. Aceita a nomeação pelo autor. Se o nomeado negar a condição. A nomeação à autoria não é uma mera faculdade do réu. ficará sem efeito a nomeação. ou se este negar a qualidade que lhe é atribuída. o autor terá duas opções: assumir o risco de continuar litigando com o nomeante. posteriormente. § 4º. em relação ao adquirente do direito. O reconhecimento tácito se dá por presunção. ou desistir da ação contra o nomeante. observando a regra contida no art.

o réu. no mesmo processo. citado em nome próprio. a ser chamado de denunciação da lide. em casos como o do usufrutuário. 70. regressiva. utilizando-se do vocábulo latino. adotou a denominação "chamamento à autoria". 70 os casos em que tem cabimento a denunciação da lide. por força de obrigação ou direito.260 O direito brasileiro. Haverá duas lides que serão processadas simultaneamente. O CPC traz em seu art. então. a fim de resguardá-lo no caso de ser vencido na demanda em que se encontram. Quando o titular da eventual pretensão regressiva for o autor. o prejuízo do que perder a demanda [19]. em ação regressiva. do credor pignoratício. Denunciação da lide é o instituto pelo qual autor ou réu chamam a juízo terceira pessoa. passando. na ação em que terceiro reivindica a coisa. este deve . chiamata in garantia. o conceito de denunciação à autoria foi alargada. a denunciação da lide pode ser feita tanto pelo autor quanto pelo réu. É uma ação secundária. a indenizar. que seja garante do seu direito. exerça a posse direita da coisa demandada. art. Já o direito francês e o italiano preferiram o vocábulo de origem germânica. mas não perde a pretensão de direito material.3. II – ao proprietário ou ao possuidor indireto quando. No direito alemão e austríaco tem como correspondente a litisdenunciação. Mais tarde. denominando o instituto de exception de garantie. Trata-se de ato obrigatório [20] [21] apenas nos casos de evicção e transmissão de direitos. a fim de que esta possa exercer o direito que da evicção lhe resulta.2 Procedimento Como já foi dito alhures. do locatário. acompanhando o direito tradicional português. julgadas pela mesma sentença [17] [18]. pela lei ou pelo contrato. cujo domínio foi transferido à parte. III – àquele que estiver obrigado. a parte que não promover a denunciação da lide perderá apenas as vantagens processuais dela decorrentes. pois se não fizer a denunciação perderá o direito de regresso contra aquele que é o garante do seu direito discutido em juízo. sendo citado como denunciado o terceiro contra quem o denunciante terá pretensão indenizatória caso seja sucumbente na ação principal. Já na hipótese dos incisos II e III. podendo ajuizar a ação regressiva em processo autônomo. 3. São os seguintes: I – ao alienante.

a demanda prosseguirá entre autor e réu. Se a citação não ocorrer dentro do prazo estipulado pela lei. este poderá aceitar e contestar o pedido. pedindo a citação do denunciado. cumprindo ao denunciante prosseguir na defesa até o final. A revelia do denunciado não desobriga o réu de sua defesa sob pena de perder o direito de regresso. uma vez citado. sendo sua impugnação feita por meio do recurso de agravo. como acima explicitado. Da mesma forma se dará se o denunciado for revel. não há dúvidas quanto a essa possibilidade já que a lei é expressa. ou lugar incerto. apresenta apenas a denunciação. este poderá defender-se da denunciação negando a qualidade que lhe é atribuída. Neste caso. Citado o denunciado. A denunciação da lide feita pelo réu deve ser oferecida no mesmo prazo para a contestação da ação principal. e de trinta para o residente em outra Comarca. A decisão de rejeição liminar da denunciação é decisão interlocutória. podendo aditar a petição inicial no prazo de quinze dias (art. prosseguindo o processo contra o denunciante e denunciado em litisconsórcio. Cabe ao denunciado coadjuvar o autor uma vez que tem interesse na procedência da ação. podendo o denunciante prosseguir na defesa. depois de reiniciado o andamento da ação principal ? Isso não nos parece correto. pois o denunciado precisa conhecer o posicionamento do réu com a inicial para poder apresentar sua defesa [24]. comparecer apenas para negar a qualidade que lhe foi atribuída. deixando de contestar o pedido do autor. ou confessar os fatos alegados pelo autor. Uma vez citado o denunciado. 241 c/c art. sendo. 297). poderá o denunciante prosseguir ou não na defesa. O denunciado também poderá aceitar a denunciação e assumir a posição de litisconsorte. considerado revel. Entretanto. Se o denunciado confessar os fatos alegados pelo autor. a qual será feito primeiro. ficando suspenso o processo. Ordenada a citação.261 requerer a denunciação juntamente com a petição inicial. Embora haja na doutrina divergência quanto ao aditamento da petição inicial pelo denunciado. e do réu. sendo o denunciado citado dentro do prazo para a contestação. A diligência para a citação do denunciado deve ser feita no prazo de dez dias para o residente na Comarca. a ação prosseguirá unicamente em relação ao denunciante [22]. Questão que surge é se o réu. contrariando a defesa do autor [23]. não pode argüir fato novo. Neste caso. O prazo e as regras para a citação do denunciado serão as mesmas da denunciação feita pelo autor. . poderá o réu e denunciante apresentar contestação. suspende-se o processo.

Parte da doutrina tem entendido que a denunciação da lide sucessiva é cabível em todos os casos de ação regressiva. 76 do CPC. No mesmo sentido. Dessa forma. esta será declaratória. por força de lei ou contrato. 75) [25]. 72 e 73) e "responsabilidade por perdas e danos" (art. no caso de insolvência ou ausência de algum dos anteriores proprietários na cadeia dominial" [28]. 70. em tese apresentada no Ciclo de Estudos de Processo Civil. de modo que a denunciação somente será possível quando. somente após a última denunciação é que o processo retornará ao seu curso.262 O Código de Processo Civil também permite a chamada denunciação "sucessiva". Moniz de Aragão sustenta a possibilidade de denunciação da lide não somente ao alienante mas também de todos os antecessores na cadeia dominial. Isto ocorre quando o denunciado tem com relação a outrem a mesma posição jurídica do denunciante perante ele. Todas essas discussões ocorrem principalmente no temor de que as denunciações sucessivas se eternizem no processo. o denunciado está obrigado a garantir o resultado da demanda. na mesma oportunidade [27]. . acarretando a perda da ação [26]. quanto aos prazos. pondo fim à suspensão preconizada pelo art.I) [29] [30]. observando-se. esta assertiva não coaduna com a parte final do artigo que diz "valendo como título executivo". sucessivamente. Outra parte posiciona-se no sentido de que a interpretação dos dispositivos deve ser restritiva. o possuidor indireto. ou o responsável pela indenização e. o disposto no artigo antecedente". não se tornando réus na ação. 70). conforme o art. o efeito da sentença é condenatório. pois. determina a "intimação" e não a "citação". requeridas ‘em conjunto’ pelo denunciante. assim abreviando o processo e melhor se assegurando o êxito da demanda indenizatória de regresso. Assim. Isto porque constam do próprio texto legal as expressões "obrigação de indenizar em ação regressiva" (art. Mas o próprio Código. não haveria possibilidade de considerá-la como título executivo (584. As hipóteses de intervenção são excepcionais face o princípio da singularidade da jurisdição e da ação. o proprietário. poderão ser feitas ‘coletivamente’. se assim não fosse. Entretanto. realizado em Curitiba. 73 : " Para os fins do disposto no art. já prevendo tal situação. o procedimento servirá apenas como forma de cientificar os eventuais denunciados. o denunciado. posiciona-se Athos Gusmão Carneiro. No que tange aos efeitos da sentença que julga a denunciação da lide. "responsável pela indenização" (art. (em agosto de 1983) : "As denunciações sucessivas. ou seja. 70. Na verdade. É o que dispõe o art. assim. por sua vez. intimará do litígio o alienante. previstas no artigo 73 do CPC.

diretamente no processo em que um ou alguns deles forem demandados. Lei n. Por outro lado. no mesmo processo. e quer dizer condenar. ou os co-responsáveis ou coobrigados. 9. A palavra declarar no texto foi usada em seu sentido estrito de definir. tendo em vista ser um procedimento mais célere. A denunciação da lide não é cabível no procedimento sumário bem como nos Juizados Especiais por força da vedação do art. denominada de chamamento à demanda. Também não é cabível no processo de execução [35]. Tem como finalidade alargar o campo de defesa dos fiadores e dos devedores solidários. A possibilidade de execução é. 280 do CPC e art. coloca como título judicial apenas a sentença condenatória. 584.4. dado que o art. A denunciação acabaria introduzindo fundamentos novos na relação processual acabando por procrastinar o feito [34]. aliás. se a sentença fosse tão somente declaratória. título executivo judicial para cobrar deles aquilo que pagar" [36]. porque amplia a demanda. 10. A sentença que julga a denunciação da lide pode ser atacada por meio da apelação [32] [33]. com força de coisa julgada material. em um só processo. Aquele que chama terceiro ao processo não tem pretensão a fazer valer em . pareceria que a segunda decisão do juiz seria meramente declaratória.099/95 respectivamente.263 Da mesma forma. É uma faculdade do réu em fazer o chamamento ao processo do terceiro e não uma obrigação. sem uma maior análise. possibilitando duplo título executivo" [31]. o que não é coerente. em definitivo. chamar o responsável principal. todavia. pois o texto legal diz que "é admissível". reconhecer. O chamamento ao processo foi trazido ao Código de Processo Civil por influência do Código de Processo Civil de Portugal que possui essa forma de intervenção de terceiros. para permitir a condenação também dos demais devedores.1 Conceito O chamamento ao processo é uma das modalidades de intervenção de terceiro no processo pelo qual o devedor demandado chama os demais coobrigados pela dívida para integrar o mesmo processo daquele que o autor poderia ter trazido como litisconsorte. 3. a virem responder pelas suas respectivas obrigações de modo a "favorecer o devedor que está sendo acionado. a vantagem do instituto. com as últimas palavras da própria norma em exame: valendo como título executivo. Arruda Alvim leciona : "Outra observação que cabe fazer é a de que. não ensejaria execução. duas lides conexas. possibilitando-lhes. I.4 Chamamento ao processo 3. resolverem-se. além de lhe fornecer.

solidários. II – dos outros fiadores.4.264 relação ao chamado. Isto porque. serão trazidos ao processo os demais devedores solidários passando a figurar como litisconsortes no pólo passivo. 80 do CPC [38]. Neste caso. na ação em que o fiador for réu – visa garantir a possibilidade de o fiador utilizar-se do chamado benefício de ordem consubstanciado no art. será condenado da mesma forma que o fiador. tendo sido demandado apenas um deles. torna-se litisconsórcio. 568. Mesmo que o fiador não tenha benefício de ordem a seu favor. parcial ou totalmente. facultando ao demandado trazer os demais fiadores ao processo. Sendo a sentença procedente. até que exausto o patrimônio deste. 827 do Código Civil [37]. o afiançado chamado ao processo será abrangido pelos efeitos da decisão. uma vez citado. 77 a 80 do Código de Processo Civil. O chamamento ao processo é admitido nos seguintes casos: I – do devedor. poderá valer-se do já referido benefício de ordem. Ambos. . poderá exigi-la do afiançado. como responsável pela dívida. nos termos do art. ocupam a posição de litisconsórcio facultativo no pólo passivo. III – de todos os devedores. 595 do CPC. 3.2 Procedimento O procedimento do chamamento ao processo encontra-se disciplinado nos arts. nos termos do art. isto é. o fiador também será principal devedor e. quando para a ação for citado apenas um deles – consiste na hipótese de haver vários fiadores garantes da dívida. tendo satisfeito o credor. Dessa forma. O réu deverá requerer o chamamento ao processo na mesma oportunidade da contestação. Apenas entende que este tem a mesma obrigação de responder perante o autor. sendo o caso. Confere-se ao fiador o direito de não sofrer execução. somente poderá ser executado o devedor reconhecido como tal no título executivo. instaurado o processo de execução. chamante e chamado. decorrente de não pagamento de dívida pelo afiançado. quando o credor exigir de um ou de alguns deles. E.I do CPC. O fiador chamado ao processo. poderá chamar ao processo o afiançado. face o art. a dívida comum – esta é a hipótese de solidariedade passiva em que o credor esteja exigindo apenas de um dos devedores solidários a dívida comum.

este terá prazo para resposta. A construção doutrinária em torno da noção conceitual é recente em nossa legislação pátria.078/90.347/85 houve uma sistematização na defesa dos direitos difusos e coletivos ao meio ambiente e ao consumidor. 77. 3.099/95) não é cabível o chamamento do processo por se tratar de procedimentos mais céleres.º 7. Os direitos metaindividuais têm a primeira referência na Lei da Ação Popular. Após a citação do chamado. O indeferimento do chamamento somente poderá ocorrer se o juiz verificar que o requerimento não se enquadra nas hipóteses elencadas pelo art. Lei n. em geral. No procedimento sumário (art.5 Intervenção de terceiros nas ações coletivas As ações coletivas são aquelas destinadas a defesa dos interesses difusos. Os sujeitos são. A sentença de procedência proferida no processo de conhecimento condenará os devedores e valerá como título executivo. Lei n. chamados de direitos fundamentais de terceira geração. A positivação dos direitos difusos e coletivos.º 6. Já no processo de execução não é possível o réu lançar mão do chamamento ao processo já que inexiste sentença sobre a pretensão executiva. tornando-se litisconsorte do chamante. 9. consumando-se com o advento do Código de Defesa do Consumidor. 280. Os interesses metaindividuias têm sua origem em regras previstas como garantias do tecido social. Dessa decisão cabe agravo. ou de cada um dos co-devedores a sua cota. Assim. na proporção que lhes tocar.º 8. observando as regras contidas nos arts. Lei n.513/77 e com a Lei da Ação Civil Pública. CPC) e nos Juizados Especiais (art. ainda que . para exigi-la por inteiro. indeterminados. O perfil histórico do processo civil romano menciona as actiones populares como instrumento de proteção a esses interesses. 10. coletivos e individuais homogêneos. do devedor principal.265 Deferido o pedido do devedor e ordenada a citação. Com a alteração dada pela Lei n. 72 e 74. em favor daquele que satisfizer a dívida. O chamamento ao processo é cabível tanto em processo de conhecimento quanto no cautelar. ocorreu com a promulgação da Constituição Federal de 1988. o processo será suspenso. O termo difuso tem sua origem doutrinária romanística tendo como titular cada um dos integrantes da comunidade. quanto à citação e aos prazos [39]. para que o fiador se utilize do benefício de ordem é necessário que tenha requerido o chamamento ao processo do afiançado no processo de conhecimento.

o Código de Defesa do Consumidor trouxe uma sistemática peculiar. Seu objeto também é indivisível. por relação jurídica base preexistente à lesão ou ameaça de lesão. Os individuais homogêneos são aqueles direitos individuais cujo titular é identificável e o objeto é divisível. Essa relação jurídica é diversa daquela que se origina da lesão. Com esses princípios em mente é que o legislador trouxe a vedação da .º 8. O Código de Defesa do Consumidor deixou de tratar muitas questões processuais. coletivos e individuais homogêneos. há necessidade de se fazer uma interpretação sistemática entre o CDC. fossem garantidos. 81. acarretando ofensa diferente na esfera jurídica de cada um de modo a permitir a identificação das pessoas atingidas. Daí se conclui que em lides de consumo as figuras de intervenção de terceiros serão possíveis desde que não traga dificuldades na defesa e procrastinação no feito. seja através de demanda individual.266 determináveis. São coletivos quando os titulares são indeterminados. Foi a Lei n. I do CDC. seja por meio de habilitação por ocasião da liquidação da sentença na demanda coletiva. ligados entre si. Não há entre eles relação jurídica base. Dividem-se em interesses difusos. em decorrência do desequilíbrio das forças econômicas e negocias nas relações de consumo. ou com a parte contrária. Neste aspecto é que os institutos processuais devem ser analisados. consubstanciado no art.078/90 que trouxe o conceito. Não é necessário que exista entre as pessoas uma relação jurídica base anterior. entre outros. o legislador se deparou com a necessidade de criar regras de proteção para que os princípios constitucionais de igualdade. em noção tripartite dos interesses metaindividuais. É caracterizado pela sua origem comum podendo ser defendidos coletivamente. 103. cuja sentença fará coisa julgada erga omnes face o disposto no art. buscando a facilitação e a rápida entrega da prestação jurisdicional. sempre à luz da vulnerabilidade do consumidor. A efetiva identificação se dá no momento em que o prejudicado exerce o seu direito. e o seu objeto e a forma de tutela possuem uma mutabilidade no tempo e espaço como característica. de forma que. A relação jurídica que nasce da lesão é individualizada na pessoa de cada prejudicado. o CPC e a LACP. mas determináveis. Desse modo. parágrafo único e seus incisos. São difusos os direitos cujos titulares são indetermináveis. buscando o equilíbrio processual entre as partes. A ligação entre os titulares se dá por circunstâncias de fato e o objeto é indivisível. A tutela jurisdicional dos interesses difusos deve ser feita em benefício de todos os consumidores atingidos. que acabou por deixar o consumidor em situação de vulnerabilidade e hipossuficiência. ampla defesa. Assim. sendo suficiente uma única demanda.

79 do CPC. A defesa dos interesses difusos em juízo. Notas 01 02 03 Rezende Filho. Outra questão polêmica é quanto ao cabimento do chamamento ao processo em sede de lide de consumo. Com isso. O art. P. II do CDC traz expressamente a possibilidade do chamamento ao processo da seguradora quando existir relação de seguro. que poderá. 04 05 06 07 Libman. por via de regra. 2. parágrafo único. P. Nota às Instituições de Chiovenda. face o art. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. do Código. Nelson Nery Júnior. port. Curso de Direito Processual. 256. 88 do CDC. o juiz poderá julgá-la não só contra o réu. 13. Código de Processo Civil Comentado. Kazuo Watanabe. A defesa dos interesses difusos em juízo. Uma vez julgada procedente a demanda. Nesta hipótese. tendo em vista que o segurador foi chamado como responsável em face do consumidor. 1. Neste caso. Esse chamamento deverá ocorrer no prazo para contestação. Hugo Nigro Mazzilli. Kzauo Watanabe entende que "a denunciação da lide. face o disposto no art. Hugo Nigro Mazzilli. propor ação autônoma de regresso nos mesmos autos da ação originária" [40]. Por se tratar de ação condenatória em que se discute dolo e culpa acaba por afrontar o direito do consumidor de ser indenizado em face da responsabilidade objetiva. 80 do CPC. Neste sentido. GIOVANNI NENCIO NI (L´intervento voluntário litisconsorziale nel processo civile) refere que " única è la definizione di terzo. p. 78 do CPC. como também contra o seu segurador. Nestes casos deve ser proposta ação autônoma para a discussão da questão. todavia. para evitar que a tutela jurídica processual dos consumidores pudesse ser retardada e também porque. entretanto. não ficará prejudicado o comerciante. não há violação aos princípios básicos do microssistema do CDC já que o chamamento da segurado só amplia as garantias para o consumidor [41]. trad. v. p. 763. 101. a sentença condenará o réu nos termos do art. XXIX. 226. a dedução dessa lide incidental será feita com a invocação de uma causa de pedir distinta. cap.267 denunciação da lide no art. em caso de procedência da ação. v. ed è negativa: terzo di um . 328. em seguida ao pagamento da indenização. foi vedada para o direito de regresso de que trata o art.

p. Primeiras linhas do direito processual civil. p.206-SP. GOMES DA CRUZ. art. 280. do denunciante em face do denunciado (Denunciação da lide. art. 1991. "A oposição não pode ter objeto mais amplo que a coisa ou o direito controvertidos entre autor e réu. 213 e 233" (RJTJSP. deram provimento. v.. do TRF n. isto é. 10 e CPC.11. 3.São Paulo: Saraiva. Assim também SÉRGIO COSTA: " Il concetto di terzo può essei determinato solo per esclusione: è terzo chi non è parte" (L’ intervento in causa. Sidney Sanches alude que a expressão "denunciação à lide" dá a idéia de simples notícia de existência do litígio. Min. DJU 29. 34:50). 1997. 74.06.08. Pluralidade de partes e intervenção de terceiros. "O art. deve o interessado propor ação autônoma" (TRF . Turim.295). RT 486/160). Do TJPA. 18. 15:137). Revista dos Tribunais. V. além de impugnar a nomeação propriamente dita. AC. 14 15 13 12 11 10 Lei 9. Min. " A citação. v. v. "O prazo começa a correr novamente. tem o réu 15 dias para responder à ação" (TRPR – Apel.II. Des.099/95. p. 57 do CPC manda citar os advogados dos opostos para apresentação de defesa. mas no Código de Processo Civil vigente. mas obedecerá ao disposto nos arts. Do TJPA. Lídia Dias Fernandes. v.. 2. 12.. neste caso. Moacyr Amaral Santos. "apud" Em.u. ". podendo. REsp 104.96. 15. Rev. Comentários ao Código de Processo Civil. embora na pessoa dos advogados.598. 549/75. consubstancia uma ação incidental com pretensão de garantia e/ou indenização.96. Costa Lima. Rel.75. RP. rel. presume-se aceita aquela. 2. 95 (nº 2) e 100 (nº 1). de 7. 107:247 e 115:168).10.285). 08 09 Moacyr Amaral Santos. da Jur.u. para a eventualidade da sucumbência do denunciante" (BARBOSA 18 17 16 .85.433-MS. DJU 9. 49. não pode ser feita mediante simples publicação na imprensa oficial. j. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. "Ante o silêncio do autor sobre o pedido de nomeação à autoria feito pelo réu. rel. ac. v. 27.. Belém. em 1.268 giudizio è colui Che non è parte".12. 1974. ed.2ª Turma. AC 83.se converte na verdadeira propositura de uma ação de regresso antecipada. Sálvio de Figueiredo. 1953). Pontes de Miranda. discutir sobre possível ilegitimidade passiva ‘ad causam’" (STJ – 4ª Turma.77. devendo os nomeados serem citados para manifestar-se sobre o pedido. mas é perfeitamente válida a citação feita na pessoa dos referidos interessados" (1ª Câm.

REsp 43. Min. "A denunciação da lide. quando. Sálvio de Figueiredo. o seu direito de regresso ou quando tal comprovação dependa unicamente da realização de provas que. e não do terceiro denunciado" (THEODORO JÚNIOR. em outras palavras. p. ou cumular pedidos outros. 87-8). "Segundo entendimento doutrinário predominante. 22. por força da própria necessidade instrutória do feito principal. Não poderá. DJU 26. 87). "Em face de preceito expresso de lei. do CPC) e na afronta ao princípio da economia processual" (REsp 196. V. 21. Demócrito Reinaldo. o prejuízo do que perder a demanda.367-SP. os casos de denunciação obrigatória. O § 2º.761). por exemplo.02. p. Por isso sendo ultrapassado. Líber Juris. in casu. Rio de Janeiro. 70. I. a denunciação. para evitar seu prejuízo de ficar com o processo suspenso indefinidamente. Humberto. 1997). insista-se. ed. em acrescentar o denunciado. em prejuízo das partes do processo principal. por exemplo. por via de regresso. não haverá motivo para negarlhe efeito.06. ou em trazer mais elementos e argumentos de fato ou de direito à petição inicial. 61). alterar substancialmente o próprio pedido formulado pelo denunciante. mas ainda com o processo paralisado.Tornar facultativa a denunciação da lide importa no descumprimento explícito da lei (art.269 MOREIRA. v. Estudos sobre o novo Código de Processo Civil. somente nos casos de evicção e transmissão de direitos (garantia própria) é que a denunciação da lide se faz obrigatória" (STJ – 4ª Turma. serão de qualquer modo produzidas. onde se estipula a suspensão do processo. somente deve ser admitida quando o denunciante logre comprovar de plano. Del Rey. uma vez que o eventual direito regressivo do autor contra o denunciado exercer-se-á nos 23 22 21 20 19 .96.321-PR – STJ – 1ª Turma. Rio de Janeiro: Editora Forense. j. p. uma nova causa petendi. 1974. Min. "Esse prazo é estipulado em favor da parte contrária à que requereu. p. rel. a citação for realizada além do prazo. 72 deve ser interpretado em harmonia com o respectivo caput. III. já agora como "litisconsorte" do autor. não haja necessidade de dilação probatória pertinente exclusiva e especificamente à denunciação" (Max Guerra Kopper. Curso de Direito Processual Civil. DJU 24. "Pode consistir. Se. porém.99. a denunciação da lide é obrigatória a todo aquele que estiver forçado pela lei ou por cláusula contratual a indenizar. poderá logo pedir a retomada do curso do processo. porque não é o dominus litis.99. Ed. o denunciado argüir a intempestividade como motivo para exonerar-se da responsabilidade de garantia ou do direito regressivo do denunciante. ou quiçá em expungi-la de irregularidades que poderiam torná-la inepta. Da denunciação da lide. ressalvados. rel. nem teria interesse algum nisso. Mas não pode o denunciado. cap. documentalmente. sem a consumação da diligência. do art.04. 23.

Min. Ajuris. Intervenção de Terceiros. 121. 320. artigo cit. 87). antes que o réu o faça" (STJ – 3ª Turma. 8. ante o disposto no art. o aparelhamento deste independe do andamento da execução da sentença proferida na ação principal.270 limites da sucumbência. 280. Na opinião de Athos Gusmão Carneiro " O denunciado. ed. art. p. p. 2001. necessita conhecer a posição de denunciante relativamente aos fatos e pretensões apresentados na petição inicial. "Decisão que exclui. do Código de Processo Civil" (Intervenção de Terceiros. Barbosa Moreira. Todavia. ed. se o denunciado vier a contestar não só a ação regressiva. 7. Manual de Direito Processual Civil. Moniz Aragão. como também o pedido formulado. "O art. rel. Athos Gusmão. 1996. 1984. antes da sentença. "Pode ser rescindida a sentença que deixa de julgar a lide secundária objeto da denunciação" (RT 724/408). Vicente Greco Filho. cit. Intervenção de Terceiros. com redação da Lei 9. certamente pautado em preocupação maior com a concentração de atos 34 33 32 31 30 29 28 27 26 25 24 . 1978. 1. Sidney Sanches.761-DF-AgRg. podendo o denunciado à lide ser obrigado a cumprir sua obrigação. do Código de Processo Civil. que não pode ultrapassar o pedido" (CARNEIRO. Artigo publicado na Revista do Instituto dos Advogados do Paraná.. 08/02/00). São Paulo: Revista dos Tribunais.v. 1979. "A sentença que julga procedente a denunciação da lide vale como título executivo (CPC. 25:22. Arruda Alvim. Ari Pargendler. ed. Ag 247. Estudos sobre o novo Código de Processo Civil. p. Ao limitar-se ao pedido de intervenção do terceiro. Sobre chamamento à autoria. 8. n. inciso I. São Paulo: Saraiva. porque o processo continua" (RT574/150). Athos Gusmão Carneiro. litisdenunciado é agravável de instrumento. 1996). Denunciação da Lide no Processo Civil Brasileiro. Justitia 94/13. São Paulo: Saraiva.. para habilitar-se à sua própria defesa. 92. p. então não se produzirá o efeito da revelia. o réu implicitamente aceitou os fatos postos na inicial e permitiu a preclusão de seu direito de contestar. "A expressão "valendo como título executivo" evidencia o conteúdo condenatório da sentença que julga procedente a denunciação da lide" ( RSTJ 85/197). t. I. na ação principal (pois nesta torna-se litisconsorte passivo). 76). 2.245/95. 85/86. I.

359. II. ed. P. reflexamente. assumirá a posição de litisconsorte do denunciante e poderá aditar a petição inicial. v. 1. 7. sitos no mesmo município. dentro de trinta (30) dias. 1º TACSP – 3ª Câm – Ap. "Art. com a economia processual. " Art.271 processuais e.922 – Rel.. nem a intervenção de terceiro. entretanto. salvo assistência e recurso de terceiro prejudicado". I. ambas ações condenatórias. 434. RT 504/173. quantos bastem para solver a dívida". a ação prosseguirá unicamente em relação ao denunciante. 38 39 37 36 35 "Não se admite chamamento ao processo em execução" (JTA 103/354). Feita a denunciação pelo autor. "Vedação da denunciação da lide. com o advento deste dispositivo restou. do proprietário. Art. ed. 74. 2º Não se procedendo à citação no prazo marcado. Como no sistema do Código de Processo Civil. 72. cit. 827 – O fiador demandado pelo pagamento da dívida tem o direito a exigir. Ordenada a citação. 41 40 . deve nomear bens do devedor. Parágrafo único. livres e desembargados. do possuidor indireto ou do responsável pela indenização far-se-á: a) quando residir na mesma comarca. Celso Barbi. que sejam primeiro executados os bens do devedor. dentro de dez (10) dias. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. 1º A citação do alienante. dispõe que "não será admissível ação declaratória incidental. n. 521/197 e 562/112. O fiador que alegar o benefício de ordem. até a contestação da lide. a denunciação é forma de intervenção de terceiro (o Capítulo VI em que o instituto está inserido tem esta denunciação). b) quando residir em outra comarca. p. procedendo-se em seguida à citação do réu". ou em lugar incerto. ficará suspenso o processo. o denunciado. vedada a denunciação da lide no procedimento sumário. Comentários ao Código de Processo Civil. O tema. O sistema do CDC veda a utilização da denunciação da lide e do chamamento ao processo. t. comparecendo. 262. 782/783.. pela literalidade de seu texto. 197). p. a que se refere este artigo. Arruda Alvim. certamente dará ensejo a profundas controvérsias" (Arruda Alvim.

Embora esteja mencionada como vedada apenas a denunciação da lide na hipótese do CDC 13 par. na verdade o sistema do CDC não admite a denunciação da lide na s ações versando lides de consumo.. . ún. a conduta do fornecedor ou de terceiro (dolo ou culpa). p.272 porque o direito de indenização do consumidor é fundado na responsabilidade objetiva. Seria injusto discutir-se. sem que se discuta dolo ou culpa" (Código de Processo Civil Comentado. que é elemento de responsabilidade subjetiva. 1402). isto é. em detrimento do consumidor que tem o direito de ser ressarcido em face da responsabilidade objetiva do fornecedor. por denunciação da lide ou chamamento ao processo.

. Introdução – 2.273 A competência nas ações coletivas do CDC Autores: Renato Franco de Almeida Paulo Calmon Nogueira da Gama Aline Bayerl Coelho SUMÁRIO: 1. Ação Civil Pública e Ação Coletiva – 3.

merece melhor reflexão. sendo incumbência da Ciência Processual adequar os institutos do Direito processual clássico – inspirado ainda em princípios e institutos surgidos no século XVIII – para a defesa desses direitos coletivos. fez-se mister o surgimento de novas formas de proteção. além dos aspectos materiais. Neste sentido. em razão. da natureza dos novos interesses/direitos perseguidos no bojo da relação jurídica processual. o presente trabalho tem por escopo precípuo a análise da competência instituída para as chamadas ações coletivas para a defesa de interesses individuais homogêneos. Conclusão – 9.078/90 – que instituiu o Código de Defesa do Consumidor – que. na maioria das vezes. Para tanto.347/85 – que instituiu a Ação Civil Pública – e 8. Não obstante a inegável importância que esses diplomas legais possuem hoje no cenário jurídico nacional – como verdadeiras concretizações do Estado Democrático de Direito no aspecto processual – muita celeuma foi criada durante os anos das respectivas aplicações. Bibliografia. seja da doutrina. possui semelhanças com aquela tratada pela Lei nº 7. 1. entendemos. acertada da jurisprudência na defesa de interesses que. . III do CDC. Atualmente. foram editadas algumas leis. a competência para apreciação e julgamento das demandas propostas pelo rito processual instituído no Cap. é fecunda a doutrina pátria. mormente após o advento da Medida Provisória nº 2.180. com a chegada – verdadeira necessidade – do Estado Democrático de Direito. portanto. que previram a defesa de alguns direitos coletivos lato sensu. deu maior desenvolvimento à defesa dos interesses coletivos em sentido amplo. era impensável no Direito brasileiro. Porém. obviamente. é de se colocar em evidência a aparição das Leis nº 7. Dentre as muitas divergências que ainda causam os textos legislativos mencionados. de seu turno. ao longo dos anos. seja da jurisprudência. há bem pouco tempo. a nosso sentir e apesar da dicção legal. que. como se tentará demonstrar na seqüência.347/85. mormente no tocante ao redimensionamento de velhos institutos processuais que tiveram que ser readaptados à nova realidade das demandas coletivas. INTRODUÇÃO A defesa dos interesses/direitos transindividuais ou metaindividuais (1).274 Competência na Ação Civil Pública – 4. Com a aparição de novos interesses/direitos. Competência na Ação Coletiva – 5. bem como a resposta firme e. ganhou foros de cidadania. do Tít. II.

antes do Código consumerista. à defesa dos interesses individuais homogêneos. III do CDC (arts. (3) . por corolário. no particular. as ações sob comento – civil pública e coletiva – possuem particularidades que as distinguem. afinal. também. É o que ocorre. a denominação dada às ações é reminiscência do período imanentista da teoria do processo. à condenação referente a obrigações de fazer ou não fazer. cabalmente. posteriormente alterado pelo art. 21 LACP. vislumbram-se. a Ação Civil Pública tornou-se instrumento eficaz. o que. processo é meio de realização material da função jurisdicional do Estado. 3º – a ação coletiva prevista no CDC tem por objeto imediato do pedido tão-somente a condenação do Réu – única providência jurisdicional admitida nesta seara – ao pagamento de quantia – objeto mediato – que deverá ser apurada em seu quantum no respectivo processo de liquidação (arts. que dão ensejo a tratamento diverso. à de qualquer interesse difuso. AÇÃO CIVIL PÚBLICA E AÇÃO COLETIVA Sem embargo da ocorrência de semelhança no que toca à competência. Consoante melhor doutrina. parece ser entendimento sedimentado doutrinariamente o fato de que a Ação Coletiva somente poderá servir de instrumento à defesa de interesses consumeristas. Tem-se. somente após o advento do Código de Defesa do Consumidor. daí a aparição de diversos ritos processuais especiais que instrumentalizam a efetivação dos direitos de fundo. porém e ainda. art. Por outro lado. o que. 91 usque 100) que prevê as ações coletivas para a defesa de interesses individuais homogêneos. Ao contrário do que ocorre na Lei de Ação Civil Pública (LACP) – art. Ademais. ao passo que a ACP. somente por este ponto. 117 do CDC). ensejará diverso tratamento interpretativo. coletivo ou individual homogêneo. com o procedimento previsto no Cap. diferenças intrínsecas entre uma e outra. (2) Não obstante o acerto da afirmação. consistia clara impossibilidade jurídica da demanda (cf. II do Tít. Mesmo que perfunctoriamente. segundo o qual para cada direito existe uma ação específica (legis actiones). 91 e 95 CDC). é cediço que os procedimentos são criados ante a necessidade de concretização dos direitos materiais.275 2. a nosso aviso. que o âmbito de abrangência da primeira (ACP) é maior que o da segunda. pois. no momento em que aquela serve como instrumento à satisfação não só de condenação à determinada quantia.

para o conhecimento e julgamento da demanda. Temos. qual seja.. danos emergentes e lucros cessantes). nos processos coletivos. desde que se dê interpretação consentânea aos seus objetivos. Por outro lado. sob o aspecto prático. 2º da LACP. diferenças ontológicas entre as ações em cotejo. ou sua substituição ou a respectiva indenização). são claros: a prevalência da importância da res iudicium deducta sobre as partes em lide. (5) Da assertiva pode-se inferir que definir-se-á o juízo competente para o conhecimento e julgamento das Ações Civis Públicas não pelos elementos subjetivos da demanda – domicílio do autor ou do réu – todavia por seu elemento objetivo.276 "A condenação em ação civil pública ou coletiva por lesão ao consumidor só poderá ter como objeto o dano global e diretamente considerado (p. a facilitação na colheita de provas.. surgentes da conduta delitiva. visto que o Juiz estará mais perto – e por conseqüência terá maior facilidade na sua captação e entendimento – dos indícios oriundos da probabilidade da ocorrência do dano e dos vestígios deixados pelo dano efetivamente causado." (4) À guisa de ilustração. que os objetivos da norma jurídica.180 – dispõe a lei que a propositura da ação prevenirá a jurisdição (rectius: competência) do juízo para as demais demandas que sejam idênticas. a facilidade na colheita de provas. mas como membro de uma sociedade. as diferenças sumariamente comentadas ensejam. as Ações Civis Públicas serão proposta no foro onde ocorrer ou deva ocorrer o dano. como ser atomizado (6). Já em seu parágrafo único – introduzido pela MP 2. cujos interesses – interesses sociais – em um Estado Democrático de Direito. A tutela coletiva não poderá alcançar danos individuais diferenciados e variáveis caso a caso. ao determinar a competência do juízo do local do dano. a definição do local do dano como determinação da competência do juízo tem por fim. ex. em regra. de indivíduo para indivíduo (p. Ocorre o primeiro em razão de se cogitar. de interesses que não dizem respeito ao indivíduo. o dano decorrente da aquisição em si do produto defeituoso ou impróprio para os fins a que se destina. traduzir-se-á em ponto de aproximação. o que. cujo juízo terá competência funcional. assim. (7) . ex. no concernente à competência do juízo. COMPETÊNCIA NA AÇÃO CIVIL PÚBLICA Consoante dispõe o art. o fattispecie que ensejou o surgimento do objeto litigioso: o dano. 3. sobrepujam os meramente individuais. absoluta. portanto. a nosso ver.

segundo as regras insertas no Código de Processo Civil sobre prevenção (art. na lei (LACP) não há norma jurídica que franqueie tal entendimento. ao revés. se os danos se estenderem ao território estadual. que primeiro realizar citação válida. também. se demonstrará. caso não esteja envolvida pelos efeitos do dano. ou nacional.n. dentre somente as comarcas envolvidas. competente será – nas Ações Civis Públicas. pensamos que tal raciocínio não possui supedâneo legal. acolhendo a assertiva do jurista paulistano. ao contrário do que ocorre com o CDC. E mesmo neste caso – de ser a Comarca da Capital de um dos Estados ou de ambos atingida pelos efeitos danosos – esta somente será sede do juízo competente se . 2º pela MP 2.180. não havendo que se falar em competência da Comarca da Capital de uma das entidades federadas. simplesmente por inexistir norma jurídica que de forma diversa o preveja. não existe texto legal expresso que determine a competência de outro juízo – que não o prevento – em casos de dano cujo âmbito seja regional ou nacional (nem mesmo há previsão de dano de âmbito regional ou nacional). 219).347/85. é explícita a determinação da competência pela prevenção – que deverá subsidiar-se nas normas processuais gerais previstas no CPC sobre tal instituto – entre as comarcas envolvidas no evento danoso. o inquérito civil deverá ser instaurado e a ação civil pública proposta seguindo os critérios da prevenção. Entretanto. e sim. ou até mesmo de um Estado-membro. se os efeitos do dano (potencial ou efetivo) transbordarem dos limites de uma comarca. um dano ambiental que envolva os Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro – como recentemente de fato ocorreu – competente será o juízo da comarca que primeiro realizou a citação válida para o conhecimento e julgamento da Ação Civil Pública eventualmente proposta. o inquérito civil deverá ser instaurado e a ação civil pública proposta na respectiva Capital. Frise-se que. onde resta clara a determinação legal da competência do foro da Capital do Estado ou do Distrito Federal em casos de dano cujo âmbito seja regional ou nacional. repise-se – aquele juízo onde ocorrer a primeira citação válida. não pode ser interpretado. 2º da Lei nº 7. Isto porque. Ademais. De efeito. independentemente do Estado a que pertença tal comarca. mormente após a inserção do parágrafo único ao art. em hipótese alguma. com a introdução do parágrafo único ao art. ao lançar escólios sobre a matéria. como dito. afirma Hugo Nigro Mazzilli que: "Se os danos se estenderem a mais de um foro mas não chegarem a ter caráter estadual ou nacional. 93. será competente o foro da Capital do Estado ou o Distrito Federal. o que. haver comando legal que assim o determine.277 Daí que. em se tratando de Ação Civil Pública. Desta forma. de forma estritamente literal. em seu art." (8) (g. e. respectivamente. o juízo. não importando a dimensão que os efeitos do dano possam alcançar.) Com a vênia devida ao ilustrado Mestre.

entretanto. consoante determina o artigo 83 do CDC. Não calha a argumentação segundo a qual a norma aplicável à espécie seria o CDC. Insta frisar. De efeito. devidamente subsidiado pela LACP e pelo CPC – nesta ordem – naquilo em que for omisso. 93 no que concerne à competência. com o artigo 21 da mesma LACP. não sendo lícito argumentar. pensamos que aquela derrogou esta no que diz respeito à defesa dos interesses difusos. que trata expressamente da competência nestas ações. em se tratando de relações jurídicas de consumo cujo objeto imediato do pedido seja a condenação ao pagamento de determinada quantia. o que a tornará preventa.278 citação válida foi realizada antes de qualquer outro. em razão do princípio da especialidade. aplicável. Isto porquanto. ressalvado o que dissemos supra. haja vista que a incidência deste somente ocorrerá no que for cabível. inapropriada a utilização de Ação Civil Pública quando se tratar de violação a direito consumerista. não há na LACP. pois. 93 do Codex consumerista somente poderá ser aplicado em se tratando de relações jurídicas materiais de consumo. ao contrário do que ocorre no CDC. De qualquer forma. sendo o Código de Defesa do Consumidor lei posterior e especial no cotejo com a norma que instituiu a Ação Civil Pública. como afirmado. de mesma ou superior hierarquia – derrogará anterior quando regule inteiramente a matéria de que tratava esta. Assim. não havendo de se cogitar da amplitude dos efeitos do dano perpetrado. A contrario sensu. 2º da Lei de Introdução ao Código Civil (LICC). forçoso admitir que. Desta forma. em se tratando de Ação Civil Pública. portanto. quando o pedido imediato da demanda for a condenação em obrigação de fazer ou não fazer será perfeitamente viável a utilização da Ação Civil Pública. porque na LACP há norma. a duas. lei posterior – acrescentamos. a uma. como dissemos. ficando afastada a incidência da Lei de Ação Civil Pública. . aí sim. aplicável sempre o CDC. tratando-se de relação jurídica material de consumo. Em suma. nos casos de competência concorrente entre dois ou mais juízos. como visto. que a inaplicabilidade da LACP somente ocorrerá quando se pleitear a condenação do Réu ao pagamento de determinada quantia. coletivos e individuais homogêneos nas relações jurídicas de consumo. porquanto o disposto no art. mais especificamente o seu art. fazendo uma pequena digressão. Tal raciocínio ficará mais patente no que diz respeito à competência. segundo os ditames do parágrafo 1º do art. o CDC. determinação daquela em razão do âmbito alcançado pelos efeitos do dano. determinar-se-á aquela pela prevenção em quaisquer casos.

competente será o foro da Capital do Estado. Será o caso de danos mais restritos. é competente para a causa a justiça local: I – no foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano. em razão da circulação limitada de produtos ou da prestação de serviços circunscritos. com vistas ao melhor tratamento hermenêutico que. os quais atingirão pessoas residentes num determinado local. como em jurisprudência. ressalvada a competência da Justiça Federal. a nosso sentir. I do art. 93 – Ressalvada a competência da Justiça Federal." (9) Sem embargo. quando de âmbito local. Ada Pellegrini Grinover: "Quando de âmbito local. 4. COMPETÊNCIA NAS AÇÕES COLETIVAS Sem embargo. a competência territorial é do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano (inc.279 4. porém com algumas nuanças. nos parece que. a interpretação literal do preceptivo insculpido no inciso I do art. Tecendo comentários ao inciso I do art. tendo em vista que a eleição pela lei do local da ocorrência ou . 93 do CDC poderá levar o intérprete à conclusão de que. De efeito. tanto em doutrina. 93). será competente para o conhecimento e julgamento da Ação Coletiva a Justiça local do foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano. transbordando os efeitos do dano dos limites de determinada comarca e alcançando outra. nas Ações Coletivas previstas no CDC. o dispositivo exige. Não obstante. repete o legislador ser o dano causado o critério legitimador da competência do juízo. algumas ressalvas se impõem. assevera a Profª. aplicando-se as regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concorrente Divergindo do entendimento amplamente majoritário. para os danos de âmbito nacional ou regional. verbis: Art. COMPETÊNCIA EM CASO DE DANO EM ÂMBITO LOCAL Consoante o dispositivo transcrito. mesmo nos casos de dano em âmbito local. II – no foro da Capital do Estado ou no do Distrito Federal. algumas observações buscaremos fazer sobre o preceito legal transcrito. 93 do CDC.1.

seguindo o disposto no inciso I do art. "Assim. entretanto. pensamos que será aplicável. a determinação da competência será realizada pela prevenção. Consequentemente. ou seja. 4. 2º. 219) a competência concorrente. quais sejam. Em outras palavras. o dano deverá ganhar foro de regionalidade e. Assim. Em um caso concreto. na linha do raciocínio acima exposto. a determinação da competência restará condicionada à prevenção do juízo que primeiro realizou a citação válida no processo. hipóteses expressamente previstas no inciso II do artigo sob comento. transbordaram dos limites de uma única comarca. não obstante. alcançando outras.280 da possibilidade de ocorrência do dano tem por escopo. em compêndio. mas sem que tenha o caráter estadual ou nacional. duas ou três comarcas não caracterizará tal aspecto." (10) Com efeito. para o dano de âmbito local cujos efeitos atinjam mais de uma localidade (comarca). Hugo Nigro Mazzilli asseverar que não será qualquer dano que ultrapasse os limites da comarca que ensejará a competência do juízo da Capital do Estado para conhecer e julgar ações coletivas. 2º da LACP. sem que possuam dimensão de regionalidade. pelas regras da Lei de Ação Civil Pública (art. maior aproximação do Juiz aos vestígios do dano causado. competente será o juízo que primeiro realizou a citação válida para o processamento e julgamento da demanda. o fato de serem atingidas uma. evidentemente. estamos tratando de dano de âmbito local cujos efeitos. pensamos. a prevenção será o critério de determinação da competência. cuja localização diste quilômetros da Capital do Estado. dentre outros. para que seja determinada a competência da Capital do Estado. parágrafo único) combinada com Código de Processo Civil (art. competente será o juízo que primeiro realizar citação válida no processo (art. que. neste caso. bem como a facilidade na colheita de sua prova. quando o dano ou a ameaça de dano ocorra ou deva ocorrer em mais de uma comarca. não estamos tratando de dano onde os respectivos efeitos ganharam foros de regionalidade ou nacionalidade. a norma insculpida no parágrafo único do art. alcançando outra ou outras. que. ocorrido o dano consumerista cujos efeitos ultrapassem as fronteiras de determinada comarca. aqui. Urge ressaltar. as regras que prevêem a prevenção.2. com acerto no tocante à Ação Coletiva. por subsidiariedade. Daí. nas ações civis públicas ou coletivas. 93 do CDC. poderemos imaginar um dano consumerista cujos efeitos restrinjam-se a duas comarcas contíguas. Assim. resolvendo-se. COMPETÊNCIA EM CASO DE DANO EM ÂMBITO REGIONAL OU NACIONAL . 219 CPC). com a subsidiariedade da LACP e do CPC.

93 do CDC – competência em caso de dano em âmbito local – a grande celeuma reside efetivamente no inciso II do mesmo preceptivo consumerista. em ação proposta no foro do local do dano. e ressalvada a competência da Justiça Federal. se nacionais. reconhecendo. somente será competente para conhecimento e julgamento da demanda coletiva a Capital do Estado quando os efeitos produzidos pelo dano consumerista ganharem foros de regionalidade. assevera Ada Pellegrini Grinover na 4ª edição do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. a existência de alguns arestos em divergência às suas lições doutrinárias. As regras de competência devem ser interpretadas de modo a não vulnerar a plenitude da defesa e o devido processo legal. aplicável o que foi dito quanto ao dano de âmbito local. visto que. no foro do Distrito Federal.2. estamos que. COMPETÊNCIA EM REGIONAL CASO DE DANO EM ÂMBITO No particular. uma observação: o dispositivo tem que ser entendido no sentido de que.1. nesta hipótese. os danos de âmbito nacional ou regional em matéria de interesses difusos. aplicando-se as regras do Código de Processo Civil nos casos de competência concorrente. ousando divergir do entendimento majoritário. a ilustre Professora paulistana ratifica seu posicionamento. sobre o inciso ora estudado: "Cabe. a par das observações que fizemos quanto ao inciso I do art. Mas." (12) Sem embargo. daí tentarmos nos deter mais profundamente neste particular. 4. coletivos ou individuais homogêneos serão apurados perante a Justiça estadual. longínquo talvez de sua sede. a competência territorial será sempre do Distrito Federal: isso para facilitar o acesso à Justiça e o próprio exercício do direito de defesa por parte do réu. De seu turno. competente será o foro da Capital do Estado ou do Distrito Federal. no foro da Capital do Estado. sendo o dano de âmbito nacional. independentemente se a comarca da Capital do Estado sofreu ou não tais efeitos. tratando-se de dano cujos efeitos sejam de âmbito regional. pela mera opção do autor coletivo. deve ser dispensado tratamento diverso quanto ao dano de âmbito regional e o de âmbito nacional. primeiramente.281 Em verdade. Com efeito. sendo de âmbito regional o dano. se os danos forem regionais. Com efeito. aqui. porém. não tendo sentido que seja ele obrigado a litigar na Capital de um Estado. ante o número . portanto. Hugo Nigro Mazzilli adere à posição majoritária quando ensina que: "Nos termos dessa disciplina. a despeito de sua mais alta autoridade." (11) Na 7ª edição da referida obra.

Nem mesmo quando os efeitos do dano tiverem amplitude tal que atinja todos ou quase todos os Estados da Federação – incluindo o Distrito Federal – a competência será deste. cremos que resta evidente que o Juiz da Capital – em caso de interesse regional – não terá dificuldades na colheita de provas – mesmo que o Município. traduzir-se-á em interesse da sociedade do Estado a resolução do conflito.2. (13) Com este raciocínio. . independe o número de localidades atingidas – desde que o dano não ganhe interesse estadual – a competência será definida pela prevenção. explanada no tópico anterior. sendo que. COMPETÊNCIA EM NACIONAL CASO DE DANO EM ÂMBITO Em se tratando de dano cujos efeitos sejam de âmbito nacional. 93 do CDC. Inexiste. E mais. Dessa forma. a simetria vislumbrada pela maioria dos autores. com tal exegese. lícito afirmar que a grandeza do dano fará a distinção entre a incidência do inciso I ou do II (âmbito regional) do art. in casu.282 razoável de comarcas atingidas por aqueles efeitos. 4.2. Capital do Estado. o fato de efeitos danosos ultrapassarem os limites territoriais de um Estado-membro alcançando outro ou outros. para o conhecimento e julgamento de eventual demanda coletiva. a nosso sentir. é possível forjarmos exemplos para melhor elucidação: a) determinados produtos comercializados ou serviços prestados no chamado eixo RioSão Paulo que venham causar danos às populações destes Estados. De efeito. cujos efeitos ficaram restritos aos limites dos mesmos. contíguos ou não. a solução para a concorrência de competências não será a mesma das hipóteses de dano de dimensão regional. consoante as lições doutrinárias acima transcritas. importando que a Capital seja sede da demanda face à relevância configurada pelo vulto do dano. sendo que. Assim. à competência do foro do Distrito Federal para o conhecimento e julgamento da demanda coletiva. não dará ensejo. o escopo legal de facilitação naquela colheita não restará prejudicado. mister se faz que o dano (rectius: os seus efeitos) seja de tal grandeza que interesse à maioria significativa da população do Estado-membro. em um segundo exemplo: b) os mesmos produtos ou serviços foram comercializados ou prestados em todo território nacional. não tenha sido atingido pelos efeitos do dano –. para que ocorra a primeira hipótese (dano de âmbito local). como Capital da República. havendo juízos concorrentes. já para que ocorra a hipótese do inciso II (dano de âmbito regional).

existindo diversas demandas já propostas. agora por todo país. 219 CPC). Para o desate da questão. comum ou especializada (art. determina o CDC – havendo diversas demandas coletivas propostas – a concentração em um. cuja decisão proferida terá efeitos em todo território nacional. qual seja. III da CF/88). havendo dano de âmbito nacional. não sendo hipótese prevista dentro na competência da Justiça federal. para não dificultar a defesa do Réu. a solução para a concorrência entre juízos competentes será a mesma: definir-se-á o juízo competente pelo critério da prevenção. qual seja. os critérios de determinação de competência (ratione materiae. deterá competência para as causas não previstas na Constituição Federal como de competência da Justiça federal. caberá à Justiça local do foro da Capital de cada Estado ou do Distrito Federal que tenha sido atingido pelo evento danoso o processamento e julgamento da demanda coletiva. Distrito Federal e Municípios (art. Na hipótese extraordinária de dano nacional. Ou seja. Em ambas hipóteses. foro. e tão-somente um. Tal raciocínio tem por fundamento a inexistência de hierarquia entre as entidades federadas – Estados. ou. apta(o) a conhecer e julgar a causa. sendo que.) dos Juízos Estaduais são de mesma equivalência aos do Juízo Distrital. Em conseqüência. 1º e 19. Por tal expressão entende-se a justiça estadual comum que. haja vista não ocorrer relação hierárquica entre as Justiças locais dos Estados e a do Distrito Federal. qualquer capital de Estado ou o Distrito Federal estará. ressalvada a da Justiça Federal. não atingindo os efeitos do dano âmbito nacional (exemplo "a"). etc. Ora. entendemos que. cada qual. em igualdade de condições. tem seu âmbito ordinário de incidência coincidente com os seus próprios limites territoriais. Pois bem. da Justiça local. e. a própria lei determina a utilização das regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concorrente. mesmo que tal amplitude seja alcançada por tais efeitos (exemplo "b"). Explicamos. de competência da Justiça local. também neste caso. por exclusão.283 causando os mesmos danos antes mencionados. loci. A competência nas Ações Coletivas será. o primeiro a realizar citação válida no processo coletivo (art. 109 CF/88). Daí que. definir-se-á a competência . a prevenção. personae. que poderá ser o da Capital estadual ou o do Distrito Federal.

Lado outro. seja de que espécie for. 219 CPC).284 da Justiça local no foro da Capital do Estado – ou no do Distrito Federal. 19 da Constituição Federal ser vedado à União. malferindo-o. [. a tese majoritária pode nos levar a determinados absurdos como aquele em que haja demandas propostas em todos ou quase todos . se este for atingido pelos efeitos do dano e houver demanda coletiva aí proposta – em que tenha havido a primeira citação válida (art. que se encontram no mesmo plano. Como seria possível facilitar a colheita de prova pelo Magistrado se. não poderá criar distinções entre as entidades federadas. v. Com efeito. ao Distrito Federal e aos Municípios criar preferências entre si. sendo sua assessoria jurídica situada na sede da empresa. sendo a concorrência de competências definida pela prevenção. como produto da competência legislativa da União. concretizando. ensejará maior facilidade na colheita de prova pelo Juiz. sendo a federação uma associação de Estados. ao Distrito Federal. pois que em regra acontece do Réu não ter representação jurídica na Capital da República. eis que sua comarca – da Capital – estará sofrendo os efeitos da conduta danosa. mesmos naqueles em que a Capital da República não tenha sofrido os efeitos da conduta danosa? Em últimas conseqüências. assim. eis que a sua concordância com as cláusulas constitucionais deve ser presumida. Raciocínio diverso – como o esposado pela doutrina majoritária – levará à uma hierarquia entre as entidades federadas inexistente no texto constitucional. Alexandre de Moraes assevera que: "Criar preferências entre si – como corolário desse princípio. g.. sendo dever do exegeta optar por uma interpretação que mais aproveite o texto da lei. não há que se falar em relação de súdito para soberano. não convence o argumento segundo o qual a competência será sempre do foro do Distrito Federal em casos de dano de âmbito nacional para facilitar a plenitude de defesa. Em comentário ao referido inciso. aos Estados. dando preferência. o objetivo precípuo da lei quando determina ser competente para a demanda o foro do local do dano. ademais. fosse definida a competência do Distrito Federal em quaisquer casos. Via de conseqüência. sob o aspecto prático. dispõe o inciso III do art.." (14) Dessarte. impõe-se uma exegese da norma infraconstitucional que não implique violação do texto maior. de poder reciprocamente.]. pois.. A outro giro. a lei federal (CDC).

Ademais. sobrepuja a importância dos interesses sociais em detrimento . sobrepor o interesse social como primeiro critério definidor da competência em litígios desse jaez. este – o foro do Distrito Federal – seria o competente para a apreciação e julgamento da demanda. aquelas entidades federadas pela competência para conhecimento e julgamento das demandas coletivas. amiúde. a interpretação mais viável – seja sob o aspecto teórico da inconstitucionalidade. (15) Somente assim. que necessita ser constante. não possuem Poder Judiciário – como. na satisfação dos interesses sociais postos em litígios nas demandas coletivas. bem como da parte final do inciso II do artigo 93 do CDC. porém. em tom de igualdade. a se seguir o raciocínio da maioria.285 Estados. em todas as suas dimensões. entendemos. Com efeito. poder-se-á chegar ao equilíbrio exigido pelo texto legal. 5. à exceção do Distrito Federal. 19. III CF/88). as entidades federadas que possuem Justiça local – o que não ocorre com os Municípios que. CONCLUSÃO À guisa de conclusão ousamos asseverar que. assim como de sua interpretação. traduzir-se-á em concretização do Estado Democrático de Direito sob o aspecto processual a preocupação. A nosso aviso. o que lhes poderá cambiar o comando. a norma legal quis tão-somente discriminar. ao se referir aos Estados e ao Distrito Federal. direcionadas pelos valores predominantes à época de sua produção. muito mais que uma defesa plena – que na realidade em nada será prejudicada –. pois que somente assim poderemos almejar a realização efetiva de uma democracia material com o preenchimento. para uma interpretação consentânea com os princípios da Nova Hermenêutica. ocorre no texto constitucional e em leis infraconstitucionais. pela primeira citação válida realizada. 18 CF/88). seja sob o prático da facilitação na colheita de prova – seria aquela segundo a qual. e não hierarquizar. bem como pela necessidade de se adequar os princípios e normas do processo civil liberal-burguês às demandas coletivas lato sensu – verdadeiras ações sociais dirimentes de desigualdades – devemos. viceja a necessidade de preenchimento axiológico da expressão Estado Democrático de Direito no sentido de que as normas legais produzidas deverão ter como limite os fatos que lhes ensejam a existência. exsurgindo como critério técnico definidor a prevenção. portanto. posto concorrerem. do princípio do acesso à Justiça. não obstante entidades federadas (art. ademais. Destarte. onde a determinação da competência do foro da Capital do Estado e do Distrito Federal não ficará em divergência com a aplicabilidade de dispositivo constitucional (art.

A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo. LEONEL. 846 p. MORAES.) s/ed. 13ª ed.462p. 330p. BIBLIOGRAFIA Ação Civil Pública: lei 7. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. 4ª ed. Direito Constitucional. 2001. Michel. 13ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília. 2002. e esta a que representa interesses fora dos individualmente considerados. Hugo Nigro.286 daqueles individuais ou públicos hodiernamente. 836p. s/ed. Assim. 2000. s/ed. 1 v. s/ed. 2ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. Ricardo de Barros. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 1994. BOBBIO. GRINOVER. Manual do Processo Coletivo. 1109p. 1999. Ana Prata]. MIAILLE. Luiz Abezia e Sandra Drina Fernandez Barbiery]. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor: direito material (arts. 4ª ed. Lisboa: Editorial Estampa. seriam transindividuais os interesses individuais homogêneos. 1999. NOTAS 01. Para o presente estudo utilizar-se-á as expressões transindividuais e metaindividuais em sentidos distintos. [trad. São Paulo: Saraiva. Ada Pellegrini et al. 1º a 54). e. assim entendemos que as normas jurídicas devem ser interpretadas. Introdução Crítica ao Direito.347/85 – 15 anos. Campinas: Bookseller. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2003. 6. CALAMANDREI. [trad. Cláudia Lima. . 240p. São Paulo: Revista dos Tribunais. São Paulo: Atlas. 1995. NUNES. MILARÉ. São Paulo: Revista dos Tribunais. [trad. As Ideologias e o Poder em Crise. Direito Processual Civil. 1 v. Norberto. MARQUES. Édis (org. Luiz Antonio Rizzatto. Alexandre de. 730p. 2002. 2001. São Paulo: Saraiva. 576p. João Ferreira] 4ª ed. MAZZILI. Piero. significando aquela a que ultrapassa os interesses dos indivíduos.

05. visto que não há de se falar em identidade de partes.. passim 07.347/85 – 15 anos.O requisito da préconstituição pode ser dispensado pelo juiz.: Ricardo de Barros LEONEL. p.: José Marcelo Menezes VIGLIAR. bem como o art. 150. A identidade das ações coletivas lato sensu sofre mitigação nos seus elementos. em outro estudo. ou pela relevância do bem jurídico a ser protegido.347/85. p. 02. Direito Constitucional. é inconstitucional por malferir o art. op. coord.. 10. 400/416. quando haja manifesto interesse social evidenciado pela dimensão ou característica do dano. p. 211. 551-2. 09. 221. 06. 129. No mesmo sentido: Ricardo de Barros LEONEL. p.. cit." 08. Ada Pellegrini GRINOVER. 04. diferentemente do que ocorre com as ações individuais. p. Cit.287 enquanto metaindividuais. nas ações previstas nos arts. Hugo Nigro MAZZILLI. p. pois a proximidade do juízo com relação à prova milita em favor de sua elaboração. p. Hugo Nigro MAZZILLI. A fixação da competência no local do dano tem por escopo facilitar a instrução. III. entendemos que a MP 2. 808. Cf. falaremos. 13. Trata-se de um redimensionamento da matéria para adaptação à Teoria Geral do Processo Coletivo que. 12. In Ação Civil Pública: Lei 7. 14. . XXXV. Ob. que amputou a expressão "a qualquer outro interesse difuso ou coletivo". Manual do Processo Coletivo. em razão de sua indivisibilidade. os difusos e coletivos. 220. Op. Ada Pellegrini GRINOVER. 91 e seguintes. 82 do CDC: § 1º . ob. 03. 211 11. A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo. 286. Cit. 5º. Cit. todos da CF/88.180. p. "As peculiaridades dos interesses metaindividuais dificultam a produção de provas no curso da demanda judicial. p. No particular. Hugo Nigro MAZZILLI. Michel MIAILLE. Édis Milaré. Para a definição do que seja dano cujos efeitos possuam âmbito regional poderá ser aplicada a norma do § 1º do art. Cit. Cf. Ob. p. 211-2. do inciso IV do art. Alexandre de MORAES. 1º da Lei 7. Introdução Crítica ao Direito. Hugo Nigro MAZZILLI. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto.

mas na prepotência do grupo sobre o indivíduo. ou seja. Cf." ************************************************************** ****************** . que não foi retomada a referência que fiz à sociedade policrática. entretanto. ao aspecto negativo do pluralismo que consiste não na impotência do Estado. Entretanto. 33: "Constato.: Norberto BOBBIO.288 15. não podemos esquecer o efeito contrário. As Ideologias e o Poder em Crise. p.

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