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Sumário

Evolução Histórica do Direito do Consumidor Autores: Flávio Barbosa Quinaud Pedron e Viviane Machado Caffarate..........4 Proteção constitucional do consumidor Autor: Cristian de Sales Von Rondow...............................................................15 Princípios nucleares do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor e sua extensão como princípio constitucional Autor: Henrique Alves Pinto..............................................................................26 O princípio da vulnerabilidade e a defesa do consumidor no direito brasileiro: origem e conseqüências nas regras regulamentadoras dos contratos e da publicidade Autores: Alírio Maciel Lima de Brito e Haroldo Augusto da Silva Teixeira Duarte..........................................................................................................................57 O princípio da boa-fé no Código de Defesa do Consumidor Autor: Francisco José Soller de Mattos..............................................................74 A relação jurídica de consumo: conceito e interpretação Autor: Marcelo Azevedo Chamone....................................................................76 Pessoa jurídica consumidora Autor: Alex Sandro Ribeiro..............................................................................105 Aspectos da responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor e excludentes Autoras: Michele Oliveira Teixeira e Simone Stabel Daudt............................109

Vícios no Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor: diferenças Autor: Ricardo Canguçu Barroso de Queiroz...................................................127

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A responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos no Código de Defesa do Consumidor Autor: Fabrício Castagna Lunardi....................................................................129 A prescrição e a decadência no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner.....................................................................145 Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner.....................................................................157 Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção e Defesa do Consumidor Autor: João Bosco Pastor Gonçalves................................................................175 As cláusulas abusivas à luz da doutrina e da jurisprudência Autores: Carlos Cavalcante e Karla Karênina Andrade...................................184 Inversão do ônus da prova no CDC e no CPC Autor: Ranieri Eich...........................................................................................206 Alguns aspectos da dogmática processual para a defesa dos direitos do consumidor Autora: Viviane Mandato Teixeira Ribeiro da Silva........................................230 Litisconsórcio, assistência e intervenção de terceiros nas ações coletivas para tutela do consumidor Autora: Gláucia Kohlhase Marques..................................................................248 A competência nas ações coletivas do CDC Autor: Renato Franco de Almeida....................................................................274

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A Evolução Histórica do Direito do Consumidor Autores: Flavio Barbosa Quinaud Pedron e Viviane Machado Caffarate

I. A Evolução do Direito do Consumidor

O Direito do Consumidor é obra relativamente recente na Doutrina e na Legislação. Tem seu surgimento como ramo do Direito, principalmente, na metade deste século. Porém, indiretamente encontramos contornos deste segmento do Direito presente, de forma esparsa, em normas das mais diversas, em várias jurisprudências e, acima de tudo, nos costumes dos mais variados países. Porém, não era concebido como uma categoria jurídica distinta e, também, não recebia a denominação que hoje apresenta. Altamiro José dos Santos destaca o Código de Hamurabi (2300 a.C.). Este já em seu tempo regulamentava o comércio, de modo que o controle e a supervisão se encontravam a cargo do palácio. O que demonstrava que se existia preocupação com o lucro abusivo é porque o consumidor já estava tendo seus interesses resguardados. Santos lembra que: "consoante a" lei "235 do Código de Hamurabi, o construtor de barcos estava obrigado a refazê-lo em caso de defeito estrutural, dentro do prazo de até um ano (...)" (Santos, 1987. p. 78-79). Desta norma podemos supor uma noção dos vícios redibitórios. Havia também regras contra o enriquecimento em detrimento de outrem ("lei" 48), bem assim a modificabilidade unilateral dos desajustes por desequilíbrio nas prestações, em razão de forças da natureza. Os interesses dos consumidores já estavam resguardados na Mesopotâmia, no Egito Antigo e na Índia do Século XVIII a.C., onde o Código de Massú previa pena de multa e punição, além de ressarcimento de danos, aos que adulterassem gêneros ("lei" 967) ou entregassem coisa de espécie inferior à acertada ou, ainda, vendessem bens de igual natureza por preços diferentes ("lei" 968). No Direito Romano Clássico, o vendedor era responsável pelos vícios da coisa, a não ser que estes fossem por ele ignorados. Porém, no Período Justinianeo, a responsabilidade era atribuída ao vendedor, mesmo que desconhecesse do defeito. As ações redibitórias e quanti minoris eram instrumentos, que amparadas à Boa-Fé do consumidor, ressarciam este em casos de vícios ocultos na coisa vendida. Se o

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vendedor tivesse ciência do vício, deveria, então, devolver o que recebeu em dobro. "no período romano, de forma indireta, diversas leis também atingiam o consumidor, tais como: a Lei Sempcônia de 123 a.C., encarregando o Estado da distribuição de cereais abaixo do preço de mercado; a Lei Clódia do ano 58 a.C., reservando o benefício de tal distribuição aos indigentes e; a Lei Aureliana, do ano 270 da nossa era, determinando fosse feita a distribuição do pão diretamente pelo Estado. Eram leis ditadas pela intervenção do Estado no mercado ante as dificuldades de abastecimento havidas nessa época em Roma" (Prux, 1998. p. 79). De acordo com os estudos de Waldírio Bulgarelli, "pode-se encontrar antecedentes os mais antigos: Aristóteles já se referia a manobras de especuladores na Grécia Antiga, e em Roma atestam-no a Lex Julia de cemnoma, o Édito de Diocleciano e a Constituição de Zenon" (Bulgarelli, apud Prux, 1998. p. 79). Há estudos que apontam depoimentos de Cícero (Século I a.C.) assegurando a garantia sobre vícios ocultos na compra-venda no caso do vendedor prometer que a mercadoria era dotada de determinadas qualidades e estas serem inexistentes. "Pirenne, no comentário de sua obra cobrindo o século XIII, é bastante elucidativo no subtítulo - Proteção ao consumidor - ao escrever que a disciplina imposta ao artesão tinha naturalmente por objeto assegurar a qualidade dos produtos fabricados. Neste sentido – acrescenta textualmente o mestre gaulês - também favorecia o consumidor" (SIDOU, apud PRUX, 1998. p. 781). A França de Luiz XI (1481) punia com banho escaldante aquele que vendesse manteiga com pedra no interior para aumentar o peso, ou leite com água para aumentar o volume. O jurista português Carlos Ferreira Almeida afirma que no Direito Português: "os códigos penais de 1852 e o vigente de 1886 (...), reprimindo certas práticas comerciais desonestas, protegiam indiretamente interesses dos comerciantes: sob o título genérico de crimes contra a saúde pública, punem-se certos actos de venda de substâncias venenosas e abortivas (art. 248º) e fabrico e venda de gêneros alimentícios nocivos à saúde pública (art. 251º); consideram-se criminosas certas fraudes nas vendas (engano sobre a natureza e sobre a quantidade das coisas – art. 456); tipificava-se ainda como crime a prática do monopólio, consistente na recusa de venda de gêneros para uso público (art. 275º) e alteração dos preços que resultariam da natural e livre concorrência, designadamente através de coligações com outros indivíduos, disposições revogadas por legislação da época corporativista, que regrediu em relação ao liberalismo consagrado no código penal" (ALMEIDA,1982. p. 40).

1/69. proteção econômica e comunicações. Pois nas palavras de Miriam de Almeida Souza. II. a Constituição de 1967 com a emenda n. 51). Pode-se notar que esta lei representa um marco histórico na luta pelo respeito aos direitos do consumidor. já em 1785 na República. p. 1996. que exercia o seu monopólio. criou-se a Federal Trade Commission. denominada Lei de Economia Popular. no qual os consumidores americanos eram obrigados a comprar produtos manufaturados na Inglaterra. foi uma revolução "contra o sistema mercantilista de comércio britânico colonial da época. em 1914. em 1773.) Samuel Adams. reforçou as seculares "assizes" (Leis do Pão). Também nos EUA. O Estado Liberal tem como características o poder limitado. quando foram sancionados diversas leis e decretos federais legislando sobre saúde. que tinha o objetivo de aplicar a lei antitruste e proteger os interesses do consumidor. a defesa da livre incitava e livre concorrência e a não intervenção do Estado na esfera privada. que. pode-se citar: a Lei n. apontando sua assinatura na lei que proibia qualquer adulteração de alimentos no estado de Massachusetts" (SOUZA. a Lei Delegada n. O Surgimento do Direito do Consumidor do Prisma da Evolução do Estado Liberal O Estado Liberal surgiu no século XVIII em contraposição ao Estado absoluto e veio assegurar o indivíduo em face do Estado. Adam Smith. Já nos EUA. Dentre todas.. e a Constituição Federal de 1988. da antiga metrópole.. 1221/51. um dos principais pensadores do liberalismo. No Brasil. 170) e no artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). que consagrou a defesa do consumidor. a primeira legislação protetora do consumidor foi em 1910. que apresenta a defesa do consumidor como princípio da ordem econômica (art. A Revolução americana de 1776 foi uma revolução do consumidor. o Direito do Consumidor surgiu entre as décadas de 40 e 60. O interesse privado é o .6 Na Suécia. em seu período de colônia. pelos tipos e preços estabelecidos pela metrópole. (. que expressamente determinou a criação do Código de Defesa do consumidor. uma figura marcante no episódio do chá no porto de Boston. os direitos individuais e políticos. 4/62. o episódio contra o imposto do chá no porto de Boston (Boston Tea Party) é um registro de uma manifestação de reação dos consumidores contra as exigências exorbitantes do produtor inglês. afirmava: "É suficiente que deixemos o homem abandonado em sua iniciativa para que ao perseguir seu próprio interesse promova o dos demais.

Nas Constituições promulgadas adotando esse modelo de Estado. dependendo. se submetessem à exploração. A liberdade contratual. fazia com que as pessoas. no entanto. gerando o desemprego e a conseqüente a exclusão social daqueles que estavam desempregados.32). devido à automação incipiente das máquinas. O Código Civil fala em coisas. Já o Código de Proteção e Defesa do Consumidor fala em produtos. gerando uma concentração econômica. houve uma substituição da maquinofatura pela máquina. apud DERANI. Por sua vez o Código de Proteção e Defesa do Consumidor . editado segundo os Princípios de um Estado Democrático de Direito. a Constituição Federal de 1988 exigiu que o Estado abandonasse a sua posição de mero espectador da sorte do consumidor. Logo. Concomitante a estes fatos. as pessoas deixaram de trabalhar em casa e foram trabalhar nas fábricas e ao redor destas surgiram os centros urbanos. O Estado Social surge no século XX como resposta à miséria e a exploração de grande parte da população. objeto de contratos comutativos e em bens e imóveis. a livre incitava e livre concorrência defendida pelos liberais não se concretizou. aqui. o Código Civil. Estes foram regulados como normas pragmáticas. Portanto. a defesa do consumidor". a garantia os direitos individuais e políticos. com o advento da Revolução Industrial. para se manterem empregadas. então. Isso porque. as leis eram feitas para dar sustentação ao liberalismo econômico. em muito inovou em comparação com o Código Civil. aliada a grande oferta de trabalho. O Código de Proteção e Defesa do Consumidor. neste período. Assim acorreu com a Constituição brasileira de 1988 que dispõe que "o Estado promoverá na forma da lei. os direitos individuais eram mais importantes que os direitos sociais. A grande procura por empregos gerou a desvalorização da mão-de-obra. o Estado passou a intervir na Economia para promover justiça social. instituída na Revolução Francesa. O Direito regia-se pelos Princípios da Autonomia da Vontade. trouxe o vício redibitório como meio de proteção do consumidor. Façamos. de regulamentação. duráveis e não duráveis e em serviços. formulado segundo o pensamento liberal. materiais ou imateriais. As fábricas. Com isso.7 motor da vida econômica" (SMITH. que seriam quaisquer bens móveis ou imóveis. algumas empresas que se enriqueceram. O Estado Social tem como características o poder limitado. p. No século XIX. Esse meio. não empregaram a grande parte da população. uma comparação exemplificativa entre as regras deste e as do Código de Proteção e Defesa do Consumidor. para adotar um modelo jurídico e uma política de consumo que efetivamente protegesse o consumidor. pois a concorrência não se iniciava em condições iguais e as regras do jogo não eram respeitadas. Outro ponto é que o Código Civil fala em defeitos ocultos que tornem a coisa imprópria para o uso ou diminuam o seu valor. Assim. mostrou-se ineficaz para a proteção do consumidor. acrescentando a estes os direitos sociais e econômicos. do Consensualismo e da Obrigatoriedade Contratual.

A Revolução Industrial e O Direito do Consumidor O período da Revolução Industrial é de grande importância para o desenvolvimento do Direito do Consumidor. "Antes da era industrial. Acrescenta-se. p. sempre se interessou mais pela parte monetária do que com o produto. o prazo decadencial para substituir. p. Em conseqüência disto. ainda. desta forma. então. Com o crescimento da população e o movimento do campo para as cidades. 48). Criou-se. O advento da Revolução Industrial foi responsável pelo crescimento da chamada produção em massa. III. da Faculdade de Direito da Universidade Católica de Louvain. ainda que artificial. via de regra. por isso mesmo. que passou a responder por todo o grupo" (SOUZA. O crescimento e contínuos avanços das tecnologias fizeram com que fossem inseridas na mente do consumidor as idéias de que ele estava precisando de mais objetos que até o momento nunca sentira necessidade de adquirir em sua vida cotidiana. que "o produtor. para manter o processo produtivo em funcionamento. 48). entendeu ser necessária a promulgação de leis para controlar o produtor-fabricante e proteger o consumidor-comprador" (SOUZA. p. "o produtor precisava dar escoamento à produção. sentiu necessidade de estimular o consumidor a uma necessidade. formam-se grupos maiores. Devido a este movimento. enganosos. praticando. devolver ou pedir abatimento do preço da coisa também foi ampliado no Código de Proteção e Defesa do Consumidor. Logo. Além disso. 1996. 1996. denomina de "norma social do consumo". A justiça social. a produção aumentou e a responsabilidade se concentrou no fabricante. o produtor-fabricante era simplesmente uma ou algumas pessoas que se juntavam para confeccionar peças e depois trocar os objetos (bartering). O produtor estava sempre interessado em formas para escoar sua produção e manter o fluxo de produção-consumo. na Bélgica.8 acrescenta que o defeito pode até mesmo ser de fácil constatação e que a coisa poderá ser enjeitada por não conferir com as especificações da embalagem. às vezes.48). que: . da propaganda. do rótulo. o que o professor Thierry Bourgoignie. 1996. a produção perdeu seu toque "pessoal" e o intercâmbio do comércio ganhou proporções ainda mais despersonalizadas. já que passaram a haver outros intermediários entre a produção e o consumo. etc. ou mesmo em satisfazer o consumidor" (SOUZA. abusivos. atos fraudulentos.

1996. também. Este serviu para despertar no povo do seu país o mais vivo interesse pela problemática do consumidor. moídos juntamente com os enchimentos das lingüiças vendidas em Chicago. a "consommariat". O romance acabou. 52). Em seu romance. O Direito do Consumidor na Segunda Guerra Mundial e no Cenário do Pós-Guerra Foi em plena Segunda Guerra Mundial. de 1906. apud SOUZA. ele retrata em cores ousadas e dramáticas o impacto social do capitalismo industrial no começo do século XX. 48). Sinclair demonstra os abusos cometidos pela industria da carne. apud SOUZA. a Meat Inspection Act e a Pure Food and Drug Act. p. "Os principais personagens eram de uma família de camponeses lituanos que vieram trabalhar pelos contos e fantasias de liberdade e pujança na América" (Souza. que fortaleceram a fiscalização da pureza da carne. 52). por inspirar a elaboração de duas leis federais nos EUA. Mas curiosamente. quando a produção estava a serviço e controle do Estado.9 "faz com que o consumidor perca o controle individual das decisões de consumo e passe a ser parte de uma classe. embora proibidas no comércio exterior" (SINCLAIR. que logo sofreu traduções para 17 idiomas. O impacto da novela The Jungle foi de um modo tão avassalador. Sinclair era um jovem jornalista. conferindo claramente uma dimensão social ao consumidor e ao ato de consumir" (BOURGOIGNIE. dotado de idéias socialistas. consistentes de melhorias de salário e de condições de trabalho. V. "a guerra intensificou a produção industrial em massa. foram o surgimento da mídia e as conquistas tecnológicas que deram causa ao ressurgimento da defesa do consumidor. em 1906. pães mofados. disfarçouse em operário para realizar suas observações na cidade de Chicago. IV. 1996. escreveu um romance chamado The Jungle (A Selva). 1996. Um exemplo é o seguinte trecho de sua obra: "a carne misturada com pedaços de tecidos esfarrapados e sujos. p. p. e contribuiu para as . ao descrever de forma bem realística os alimentos deteriorados. no intuito de justificar e fundamentar suas reivindicações proletárias. que . que se despontava na América Keynesiasna o movimento em prol dos direitos do consumidor. A Selva O norte-americano Upton Sinclair.

Por fim. houve a consolidação do Direito do Consumidor nos Estados Unidos. p. Após o período do pós-guerra acontece o ressurgimento da cláusula rebus sic stantibus. pelo qual o juiz estava obrigado a fazer cumprir os efeitos do contrato. alteram os efeitos dos contratos anteriormente praticados. aumentaram os problemas relacionados à produção e ao consumo. 1996. a cada instante. e vai se admitindo o poder do juiz de adaptar seus efeitos às novas circunstâncias (cláusula rebus sic stantibus). O know-how gerado para a guerra provocou. Mas as necessidades sociais impuseram a quebra. o que sem dúvida. para o agravamento dos problemas sociais e conflitivos urbanos em decorrência da concentração de renda" (Souza. Esta quebra possibilitou o surgimento do Direito do Consumidor. queda na qualidade de vida ou aumento da poluição. Orlando Gomes afirma que: "o princípio da força obrigatória das convenções. em . Com isso. então um crescimento em vários segmentos industriais. O contrato era res inter alios acta. gerando um arsenal de produtos surpérfulos e diversificados. quer seja pela alta dos preços. O legislador intervém. que se fundamentava a partir da responsabilidade civil objetiva e do reconhecimento dos interesses e direitos difusos. desde que os contratos são fonte de obrigações e estas importam limitação da liberdade individual. dentre outros motivos. Passou-se então a praticar uma concorrência desleal. na economia dos contratos. para a satisfação de certos interesses coletivos privados" (GOMES. Com o advento da televisão. com o objetivo de escoar a produção no mercado. fortalecendo a tendência da formação dos cartéis. Todo o esforço da guerra resultou. colaborou. está abalado. trustes e oligopólios. tendo aplicação imediata. ditando medidas que. Dirigindo-se por meio de uma mensagem especial ao Congresso Americano. em face de uma competitividade altamente sofisticada por causa das novas mídias e das próprias complexidades dos mercados surgidos no pós-guerra. ou de exonerar o devedor do seu cumprimento. inevitavelmente. e do advento do marketing científico. em um mercado antes restrito somente ao essencial. 54). A partir das iniciativas do presidente americano John Fitzgerald Kennedy. entendia-se que os seus efeitos não deveriam atingir a terceiros. Podemos perceber que esses problemas influenciaram sensivelmente a vida dos consumidores. resultou da propaganda informativa o marketing (desenvolvido em forma de propaganda de guerra). ainda que excepcional. 1979. 105-106). na década de 60. quaisquer que fossem as circunstâncias ou as conseqüências. o que enfraquece o princípio da força obrigatória dos contratos. p. desse princípio da relatividade dos efeitos do contrato.10 grandes invenções e o aprofundamento da produção em série. em aumento substancial de produção no posterior tempo de paz. se ocorrer imprevisão. Esta restauração se deu sob o nome de "teoria da imprevisão" e visava a quebra do princípio do pacta sunt servanda.

p. (3) reparação dos prejuízos.11 1962. 56). (2) proteção dos interesses econômicos. 1996. na sua 29ª Sessão em 1973. Seguindo o exemplo de Kennedy. a primeira vez que. Kennedy identificou os pontos mais importantes em torno da questão: "(1) os bens e serviços colocados no mercado devem ser sadios e seguros para os uso. em Genebra. 56). em nível mundial. (2) que a voz do consumidor seja ouvida no processo de tomada de decisão governamental que detenha o tipo. 1996. Por sua vez. O Anexo 3 da Resolução mostra quais são os princípios gerais que serão tomados como padrões mínimos pelos governos: "(a) proteger o consumidor quanto a prejuízos à sua saúde e segurança. por meio da Resolução n. p. . (4) e ainda o direito a preços justos" (SOUZA. (4) informação e educação. a qualidade e o preço de bens e serviços colocados no mercado. houve o reconhecimento e aceitação dos direitos básicos do consumidor. (5) representação (ou direito de ser ouvido)" (SOUZA. (b) fomentar e proteger os interesses econômicos dos consumidores. também reconheceu os princípios e chamou-os de Direitos Fundamentais do Consumidor. princípios e normas para que os governos membros desenvolvam ou reforcem políticas firmes de proteção ao consumidor. (c) fornecer aos consumidores informações adequadas para capacita-los a fazer escolhas acertadas. estabelece objetivos. (3) tenha o consumidor o direito de ser informado sobre as condições e serviços. o programa Preliminar da Comunidade Européia para uma Política de Proteção e Informação dos Consumidores dividia os direitos fundamentais em cinco categorias: "(1) proteção da saúde e da segurança.º 39/248. promovidos e apresentados de uma maneira que permita ao consumidor fazer uma escolha satisfatória. a Comissão de Direitos Humanos das nações Unidas. claramente. Esta foi. de acordo com as necessidades e desejos individuais. Em 1985. as Nações Unidas. (d) educar o consumidor.

com sede em Haia" (Souza. ainda. 1996. p. A proteção do Direito do Consumidor é de tamanha relevância. p. 1996. 1996. (f) garantir a liberdade para formar grupos de consumidores e outros grupos e organizações de relevância e oportunidade para que estas organizações possam apresentar seus enfoques nos processos decisórios a elas referentes" (SOUZA. acolhendo a Resolução da ONU. processos e serviços nocivos à saúde ou à vida.57).12 (e) criar possibilidade de real ressarcimento ao consumidor. (3) escolha – acesso a uma variedade de produtos e serviços com qualidade e preços competitivos. A Constituição Brasileira e O Direito do Consumidor A questão dos Direitos do Consumidor é tão importante que em três . E sobre os direitos do consumidor enumera: "(1) segurança – proteção contra produtos. 58). Miriam Souza lembra. ponto de vista compartilhado pela Organização Internacional das Associações de Consumidores (International Organization of Consumers Unions – IOCU). que muitos dos ordenamentos jurídicos. (2) informação – conhecimento dos dados necessários para fazer escolhas e decisões informadas. que: "as Nações Unidas também entendem como medida para a proteção dos consumidores o Código de Conduta para as Firmas Transnacionais. pela Constituição Federal de 1988. (6) educação – aquisição dos conhecimentos e das habilidades necessárias para ser um consumidor informado ao longo da vida. 57). (7) ambiente saudável – ambiente físico apto a proporcionar melhor qualidade de vida agora e no futuro" (SOUZA. inclusive o brasileiro. p. (4) a ser ouvido – exposição e consideração das perspectivas dos consumidores na formação das políticas nacionais. O IOCU é amplamente respeitado entre as associações de consumidores no mundo. VI. projeto de ONU desde meados dos anos 60. já consagram. (5) indenização – solução justa de queixas justas.

1991. foi obtida por unanimidade na oportunidade do encerramento do VII Encontro Nacional das (. p. 21-22). 1996. 1982. na forma da lei. o artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). à segurança. A segunda vez que a Constituição menciona a defesa do consumidor é quando trata dos princípios gerais da atividade econômica no Brasil. citando em seu artigo 170. em outras palavras. 59).875. Os direitos dos consumidores. . apud SOUZA.º 2. a defesa do consumidor" o que quer dizer. p. no calor das discussões da Assembléia Nacional Constituinte.13 oportunidades distintas é tratada na Constituição Federal vigente. Carlos Ferreira. Bibliografia ALMEIDA. no artigo 5º. a dialética produtor x consumidor é bem mais complexa e delicada do que a dialética capital x trabalho" (grifo nosso) (COMPARATO. trazendo sugestões de redação.. e que acabou sendo devidamente protocolada e registrada sob n. que a defesa do consumidor é um dos princípios que devem ser observados no exercício de qualquer atividade econômica. É o que alerta o jurista Fábio Konder Comparato: "na verdade. determina que o Congresso Nacional elabore o Código de Defesa do Consumidor. Finalmente. José Geraldo Brito Filomeno lembra que a sensibilização dos "constituintes de 1887/88. A primeira vez. de acordo com o que estiver estabelecido nas leis. já em seu Capítulo I do Título II. Mas.) Entidades de Defesa Do Consumidor." (FILOMENO. em 8-5-87. à escolha. V. desta feita realizado em Brasília. a ser ouvido. que trata dos direitos e deveres individuais e coletivos estabelece a Carta magna. que o Governo Federal tem a obrigação de defender o consumidor. inclusive aos então artigos 36 e 74 da Comissão "Afonso Arinos". à informação. por razões óbvias. XXXII que "o Estado promoverá. o Código do Consumidor é só o início. com especial destaque para a contemplação dos direitos fundamentais do consumidor (ao próprio consumo. Estes três dispositivos constitucionais são mencionados no artigo 1º do Código de Defesa do Consumidor. à educação para o consumo e a um meio ambiental saudável). Coimbra: Almeida. à indenização..

Souza. 10. Miriam de Almeida. Curitiba. n. 1998. Oscar Ivan. José Geraldo Brito. 1996. Revista de Direito do Consumidor. Rio de Janeiro:Forense. Belo Horizonte:Del Rey. Altamiro José dos. 1991. 1987. Orlando. Revista do IAP. Belo Horizonte: Edições Ciência Jurídica. PRUX. SANTOS. Instituto dos Advogados do Paraná. Cristiane. São Paulo: Atlas. Introdução ao direito civil. GOMES. Manual de Direitos do Consumidor. 6 ed. FILOMENO. 29. 1979. Política Nacional das Relações de Consumo e o Código de Defesa do Consumidor. Responsabilidade Civil do Profissional Liberal no Código de Defesa do Consumidor. A Política legislativa do Consumidor no Direito Comparado. Direitos Do Consumidor. n. .14 DERANI.

4.15 Proteção constitucional do consumidor Autor: Cristian de Sales Von Rondow Sumário: 1. 6. necessário se faz explicitar como foi o caminho trilhado do "movimento consumerista" que teve nuanças . O por quê da tutela? 5. A proteção no direito alienígena (Direito Comparado e Internacional). 3. A evolução legislativa brasileira. 2. As relações de consumo e o surgimento da tutela do consumidor. Terminologia. A tutela do consumidor a nível constitucional As relações de consumo e o surgimento da tutela do consumidor Antes de adentrarmos ao tema propriamente dito.

16 próprias. Não ficamos um só dia sem consumir algo. mas também que punisse aqueles que o desrespeitassem. João Batista de Almeida(1) aduz que "independentemente da classe social e da faixa de renda. outrora campo exclusivo do estudo da ciência econômica passou a fazer parte do rol da linguagem jurídica. Mas esta nova forma de vender e comprar trouxe em seu bojo o poderio econômico das macro-empresas de impor seus produtos e mercadorias àquele . nasce um capitalismo agressivo que impôs um ritmo elevado na produção. E o fez. para um número cada vez maior de consumidores. erigindo um novo modelo social. Temos que a origem protecionista do consumidor se deu com as modificações nas relações de consumo. dado as alterações substanciais no panorama mundial. embates acirrados e por fim uma difusão mundial da consciência de que o consumidor. o consumo pelo consumo". Os bens de consumo passaram a ser produzidos em série. consumimos desde o nascimento e em todos os períodos de nossa existência. que infiltrou-se no Direito operando sua transformação. estas alterações foram introduzidas pelo liberalismo emergente do século XIX.(3) Não há dúvidas de que as relações de consumo ao longo do tempo evoluíram drasticamente. a sociedade de consumo (mass consumption society) ou sociedade de massa.(2) Para Maria Antonieta Zanardo Donato. Os serviços se ampliaram em grande medida". qual seja. que envolvem milhões de reais ou de dólares. Após a transformação do panorama econômico. Hodiernamente as chamadas relações de consumo. que vão desde a necessidade e da sobrevivência até o consumo por simples desejo. político. para dar lugar à "operações impessoais e indiretas. diante do avanço tecnológico dos meios de produção passara a ser a parte fraca da relação de consumo necessitando de uma legislação que resguardasse não apenas os direitos básicos. por seu turno difícil de precisar seu início. causando profundas e inesperadas alterações sociais. econômico e jurídico que permeavam época pretérita transportando-se para o cenário atual. gerou a sociedade de consumo ou sociedade de massa. em que não se dá importância ao fato de não se ver ou conhecer o fornecedor. (4) E essa produção em massa aliada ao consumo em massa. sendo esta. Do primitivo escambo e das minúsculas operações mercantis tem-se hoje complexas operações de compra e venda. Por motivos variados. Instaura-se um novo processo econômico. A afirmação de que todos nós somos consumidores é verdadeira. de modo que o consumo faz parte do dia-a-dia do ser humano. Para trás ficou aquelas relações de consumo que estavam intimamente ligadas às pessoas que negociavam entre si.

absorver. a hipertrofia da intervenção do Estado na esfera social e econômica. A partir deste evento. a tutela do consumidor ganhou espaço no seio jurídico. até então existentes de forma latente despercebidos’.(6) Dado a esta imposição. Milaré e Nelson Nery Júnior aduzem que a tutela dos interesses difusos em geral e do consumidor em particular deriva das modificações das relações de consumo e evidenciam que: ‘o surgimento dos grandes conglomerados urbanos. vários ordenamentos jurídicos do mundo todo passaram a reconhecer a figura do consumidor e. o aparecimento dos meios de comunicação de massa. o nascimento dos cartéis. o desmesurado desenvolvimento das relações econômicas. Como . por terem escapado do controle do homem. O caminho natural da evolução nas relações de consumo certamente acabaria por refletir nas relações sociais. Na linguagem dos economistas. significa acabar. consumo. seria o ato pelo qual se completa a última etapa do processo econômico. econômicas e jurídicas do mundo. entre outras coisas. com a produção e consumo de massa. os consumidores começaram a enxergar que estavam mais para súditos do que para monarcas. Todos esses fenômenos. A partir dessa fundamental constatação. a explosão demográfica. holdings. O vocábulo consumidor. e os debates em torno da matéria iniciaram-se face às novas situações decorrentes do desenvolvimento. por sua vez oriundo do latim consumere. com eles.(8) Tal linguagem não se verificava no Direito Privado Brasileiro. Terminologia Ponto interessante se mostra a terminologia jurídica de "consumidor". e. das metrópoles.17 (consumidor) que ao que parecia seria "monarca do mercado"(5) ou o "rei do sistema". multinacionais e das atividades monopolísticas. passando a fazer parte quando da promulgação do Código de Defesa do Consumidor. despender. uma vez que vários autores advertem não ser tarefa fácil definir consumidor no sentido jurídico. repercutindo de forma negativa sobre a qualidade de vida e atingindo inevitavelmente os interesses difusos. muitas vezes voltaram-se contra ele próprio. corroer. sobretudo a sua vulnerabilidade outorgando-lhes direitos específicos. Esse entendimento é corroborado por João Batista de Almeida(7) que citando Camargo Ferraz. do verbo consumir. trouxeram a lume à própria realidade dos interesses coletivos. que se precipitaram num espaço de tempo relativamente pequeno. a revolução industrial. gastar. o fenômeno da propaganda maciça. bem como estavam desprotegidos e vulneráveis às práticas abusivas das empresas e para tanto necessitavam de proteção legal.

Direito Internacional . 2º. no sentido de criar. Finlândia. Bélgica e Holanda). . Fair Credit Reporting Act e Fair Debt Collection Act. É de Newton De Lucca a apresentação de quadro sintético desta proteção: No Direito Comparado (antecedentes legislativos) e no Direito Internacional. México. Dinamarca. . § único). . "a coletividade de pessoas. incluindo-se.A comissão das Nações Unidas sobre Direitos do Homem.Lei de caráter geral ou específica no seguintes países: Inglaterra. Alemanha. França. Longe disso. é tema supranacional abrangendo a totalidade dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Direito Comparado . nos EUA: Consumer Credit Protection Act. a partir da década de 60.A iniciativa de cinco países (Estados Unidos. considerou serem 4 os direitos de todo o consumidor: . Uniform Consumer Sales Act. .Lei fundamental de proteção aos consumidores no Japão (1968). A proteção do consumidor no direito alienígena (Comparado e Internacional) O resguardo jurídico do consumidor não é tema exclusivo de um único país. França. Truth in Lending Act. uma "Comissão para a política dos consumidores". a conceituação legal ou o conceito standart de consumidor é dado pelo Código de Defesa do Consumidor em seu Artigo 2º aduzindo que "consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final". Portugal e Espanha. mas que passaram a fazer parte do universo jurídico e no Brasil.18 mencionado eram expressões voltadas à ciência econômica. Safety Act.Discurso do presidente Kennedy ao Congresso Americano (março/62). Bélgica. Uniform Consumer Credit Code. Alemanha. Suécia. . Noruega. também.Lei sobre documentos contratuais uniformes de Israel (1964). que haja intervindo nas relações de consumo" (art. ainda que indetermináveis. por equiparação. em 1969. no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE.Numerosos textos legais.

pela busca do equilíbrio entre as partes envolvidas". apontada como a verdadeira origem dos direitos básicos do consumidor. originando a hipossuficiência deste. O por quê da tutela? A justificativa que se tem para o surgimento da tutela do consumidor.4.85. Para João Batista de Almeida. reconhecendo-se ser este a parte fraca. (12) E termina o festejado autor: "a tutela surge e se justifica. que já não mais tutelavam novos interesses identificados como coletivos e difusos. no tocante aos países membros do CEE.o direito de ser ouvido no processo de decisão governamental. . enfim. vejamos: o da isonomia ou da vulnerabilidade.o de ser adequadamente informado sobre os produtos e os serviços.(9) Conforme denota-se.(10) Para João Batista de Almeida. também. .(13) Está assentado doutrinariamente que a vulnerabilidade do consumidor.o direito à segurança. vulnerável nas relações de consumo. Destaca-se. alguns são os princípios orientadores desta tutela protetiva. que o mesmo tema fora debatido em praticamente todos os países da Europa. os EUA foram o grande propulsor da mensagem protecionista do consumidor.No Âmbito da ONU – Resolução 39/248. o da hipossuficiência. de modo a influenciar grandemente diversos países com esta doutrina. "não surgiu aleatória e espontaneamente". 2. esta tutela. . (11) Ao contrário. bem como sobre as condições de venda. de 24. em que se vislumbrou a posição de inferioridade do consumidor em face do poder econômico do fornecedor.19 1. bem como a insuficiência dos esquemas tradicionais do direito substancial e processual. 4. reconhecidamente concreto.A aprovação de vários documentos pela Assembléia do Conselho da Europa – Diretiva 85/374.7. é que esta nasceu fruto dos mais variados problemas sociais "surgidos da complexidade da sociedade moderna e os reclamos de indivíduos e grupos". Luiz Antonio Rizzatto Nunes e Cláudio Bonatto/Paulo Valério Dal Pai Moraes. que para alguns é um princípio(14) foi a pedra de mote para o surgimento da tutela do consumidor.85. surgiu "de uma reação a um quadro social. 3. de 9.o direito de escolher sobre bens alternativos de qualidade satisfatória a preços razoáveis.

e para a necessidade de uma atuação mais enérgica no setor. embora não fosse a defesa do consumidor tratada como tema específico como é hoje. o desenvolvimento do crédito e a nacionalização progressiva dos bancos de depósito. Somente em 1978 surgiu em nível estadual. que será punida na fórma da lei. do dever de informar. "Art. só em 1985 foi criado o Conselho Nacional de Defesa do Consumidor.626. mas apenas trazê-los à colação com o fito de demonstrar ser esta tutela orientada por princípio basilares do direito constitucional que se espraiaram para o direito do consumidor. o do da equivalência. com a proteção à economia popular. densamente de natureza social. Igualmente providenciará sobre a nacionalização das empresas de seguros em todas as sua modalidades." . por meio do Decreto nº 91. o da revisão das cláusulas contrárias ou da repressão eficiente aos abusos. A evolução legislativa brasileira A defesa do consumidor como tema específico é entre nós algo recente. verifica-se a existência de referida defesa como tema "inespecífico"(17) em legislações esparsas que indiretamente protegia o consumidor. verbis: "Art. o primeiro órgão de defesa do consumidor. E assim. de 7 de abril de 1933 (Lei da usura) a primeira norma nesta seara que visava reprimir a usura. de 1978. o da conservação do contrato. que passamos a transcrever. Foi o Decreto nº 22. é garantida a liberdade econômica". arts. Dentro desses limites. criado pela Lei nº 1.(15) Cumpre esclarecer que não trataremos dos princípios acima mencionados. Parágrafo único: É proibida a usura. 115 e 117).469 que posteriormente foi extinto e substituído pela atual Secretaria Nacional de Direito Econômico (SNDE). o Procon de São Paulo. Na esfera federal. A matéria ganhou status constitucional (Constituição de 1934. alertando para a gravidade do problema. Todavia.903. pois. embora essa não fosse a intenção principal do legislador. 115 – A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça e as necessidades da vida nacional.20 o do equilíbrio e da boa-fé objetiva. João Batista de Almeida(16) aduz ser de 1971 a 1973 os discursos proferidos pelo então Deputado Nina Ribeiro. devendo constituir-se em sociedade brasileira as estrangeiras que actualmente operam no paiz. 117 – A lei promoverá o fomento da economia popular. esta não fora a intenção. o evoluir não parou. o da transparência e o da solidariedade. de modo que possibilite a todos exist~encia digna.

além de outros bens tutelados. autorizando os Estados a instituírem os Juizados de Pequenas Causas. passaram a ser punidos os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. de 11 de setembro de 1946. foi promulgada a Lei nº 7. no calor das discussões da Assembléia Nacional Constituinte. realizado em Brasília. denominado "crimes de colarinho branco". Mas sem dúvida ou medo de errar. em 8-5-87. na inserção de quatro dispositivos específicos e objetivos sobre o tema. ainda existente. A tutela do consumidor a nível constitucional Como já mencionado. O primeiro deles e o mais importante por refletir toda a concepção do movimento está grafado no artigo 5º.492 de 16 de junho de 1986. Com a Lei nº 7. Em 1984 editou-se a Lei nº 7. por razões óbvias. a defesa do consumidor. quando em 24 de julho daquele ano. é atribuída a competência concorrente para legislar sobre . e que acabou sendo devidamente protocolada e registrada sob o nº 2. Todavia.099/95).875. Noutra passagem. à tutela jurisdicional dos interesses difusos em nosso país.137 de 1962). atualmente Juizados Especiais Cíveis (Lei 9. num evoluir ascendente. que de maneira reflexa beneficiava o consumidor. está o de promover. com ênfase ao VII Encontro Nacional das referidas Entidades de Defesa do Consumidor. mas não como elemento contundente para a prática do Estado. a constituinte de 1988 curvou-se ante aos anseios da sociedade e ao enorme trabalho dos órgãos e entidades de defesa do consumidor. e depois o de nº 9.244. no capítulo relativo aos "direitos e deveres individuais e coletivos". com especial destaque para contemplação dos direitos fundamentais do consumidor. na estrutura do Ministério da Justiça. 115 e 117). que cuidaram dos crimes contra a economia popular.21 Posteriormente veio o Decreto-Lei nº 869. além de haver criado o Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE. posto que brotava na nação a consciência da necessidade de proteção ao consumidor. esta inserção não deixa de demonstrar ares de preocupação do constituinte com o tema. Mas os passos mais significativos neste campo foram dados a partir de 1985. dando início desta forma. trazendo sugestões de redação. de 18 de novembro de 1938. onde diz que dentre os deveres impostos ao Estado brasileiro.840. inclusive aos então artigos 36 e 74 da "Comissão Afonso Arinos". mas apenas cuidou de forma indireta. sobrevindo.347 que disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao consumidor. na forma da lei. inciso XXXII. a tutela do consumidor a nível constitucional foi posta na Constituição de 1934 (arts. Surge a Lei de Repressão ao Abuso do Poder Econômico (nº 4. culminando assim. em 1951 a chamada Lei de Economia Popular que vige até hoje.

170. ainda no bojo da Constituição de 1988. VIII). artigo intitulado "A Proteção ao Consumidor na Constituição Brasileira de 1988"): ‘Por outro lado. la ley regulará el comercio interior y el régimen de autorización de productos comerciales". Los poderes públicos garantizaran la defensa de los consumidores y usuarios protegiendo. a defesa do consumidor é apresentada como um dos motivos justificadores da intervenção do Estado na economia (art. Já o art. la salud y los legítimos intereses económicos de los mismos. Los poderes públicos promoverán la información y la educación de los consumidores y usuarios. 51 da Constituição espanhola de 1978 declara que: "1. indubitavelmente. de 11. A expressão designa um programa de ação de interesse público. mediante procedimientos eficaces. No capítulo da Ordem Econômica.(18) O citado autor faz observação interessante ao afirmar que ‘a consagração constitucional dos direitos dos consumidores não constitui a regra em termos de direito comparado’. todos os princípios da proteção acham-se constitucionalmente assegurados". pp. mas o comando constitucional foi respeitado com a promulgação da Lei 8. mais amplamente. O mestre Newton De Lucca assevera que "não apenas o Código de Defesa do Consumidor tem base constitucional (art. finalmente. 2. E.90 (Código de Defesa do Consumidor) terá representado o integral cumprimento da proteção constitucionalmente estabelecida em favor desse mesmo consumidor?(20) Como resposta à questão o conceituado autor traz a lume a opinião do Prof. um tipo de princípio-programa. no art. fomentaran sus organizaciones y oirán a éstas en las cuestiones que puedan afectar a aquéllos.(19) Finalizando o estudo em apreço.22 danos ao consumidor (art. 66 a 75. Como todo programa . 81. 24.9. en los términos que la ley establezca. prazo não respeitado. a Constituição de 2 de abril de 1976. No primeiro deles. V). aduz: "pelo que sei. caber prioritariamente ao Estado ‘proteger o consumidor especialmente mediante o apoio e a criação de cooperativas e associações de consumidores’. a defesa do consumidor é. 48 do ADCT) como. estabeleceu. elaborará código de defesa do consumidor". a saber: O advento da Lei nº 8. E em nota. de 11 de setembro de 1990 o chamado Código de Defesa do Consumidor. Fábio Konder Comparato (RDM nº 80. dentro de cento e vinte dias da data da promulgação da Constituição.078. tendo por objeto uma ampla política pública (public policy). diz o artigo 48 do ato de suas disposições transitórias que "o Congresso Nacional. En el marco de lo dispuesto en los apartados anteriores. encerraremos com a "questão para debate" proposta pelo Doutor Newton De Lucca. la seguridad. 3.078. apenas Portugal e Espanha possuem em suas Constituições dispositivos em favor da proteção aos consumidores.

cujo conteúdo. é um "Zweckprogramm" ou "Finalprogramm" (Cfr. Konrad Hesse. 2. ou programa de ação pública. em absoluto.Donato. 7. porém. na adaptação inteligente a uma dada realidade. pode-se afirmar que a Constituição converter-se-á em força ativa se fizerem-se presentes. tão-somente. não só a vontade de poder (Wille zur Macht). para a consecução de uma finalidade. se puder identificar a vontade de concretizar essa ordem.e. que se assenta na natureza singular do presente (individuelle Beschaffenheit der Gegenwart).23 de ação. 7.(21) Notas 1. Ed. se. A Constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem efetivamente realizadas. por meio das chamadas "normas-objetivo". Proteção ao Consumidor. RT1993. em sua célebre obra "A Força Normativa da Constituição" aduz que "a força normativa da Constituição não reside. ambos previstos e dimensionados no orçamento-programa’. P 15. cit. A Proteção Jurídica do Consumidor. 85 e ss). Concluindo. na consciência dos principais responsáveis pela ordem constitucional -. mas também a vontade de Constituição (Wille zur Verfassung)". A Constituição jurídica logra converter-se. a despeito de todos os questionamentos e reservas provenientes dos juízos de conveniência. 2ª Edição.Donato. 01. Vol. mas essa atividade normativa não exaure. o conteúdo da policy. ela mesma. Maria Antonieta Zanardo. ela pode impor tarefas.. Embora a Constituição não possa. faltando-lhe.Almeida. São Paulo. i. vezes por falta de vontade política e outras por falta de recursos técnicos e materiais. Proteção ao Consumidor. É claro que a implementação desses meios exige a edição de normas – tanto leis. como já se disse. 3. mas há que se ressaltar que diante das nações mais avançadas do mundo. por si só. não ficamos aquém nesta seara. apenas a proteção efetiva. Vol. Quer isso dizer que os Poderes Públicos detêm um certo grau de liberdade para montar os meios adequados à consecução desse objetivo obrigatório. A imposição constitucional ou legal de políticas é feita. RT- . realizar nada. Insta asseverar que o consumidor brasileiro está legislativamente equipado à altura. uma série organizada de ações. na consciência geral – particularmente. portanto. João Batista. a política pública desenvolve uma atividade. em força ativa. Ed. p. Saraiva-2000. É preciso não esquecer de que esta só se realiza mediante a organização de recursos materiais e humanos. imposta na lei ou na Constituição. Ed. Maria Antonieta Zanardo. quanto regulamentos de Administração Pública. se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem nela estabelecida.

1984. Ed. 2ª Edição. Ed.Almeida. Ed. Ed. p. cit. João Batista. p. 2ª Edição. São Paulo. 5. 2ª Edição.Almeida. contratos. Saraiva-2000. A Proteção Jurídica do Consumidor. Proteção ao Consumidor.Almeida. RT1993. João Batista. 19. Edipro. 1986. Dalloz. A ação civil pública e a tutela jurisdicional dos interesses difusos. 2ª Edição. Livraria do Advogado-1999. Direito do Consumidor. Direito do Consumidor. Ed. Questões controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: principiologia. p. 17. Cláudio. Edipro. 8. p. conceitos. São Paulo-2000.. p. A Proteção Jurídica do Consumidor. 18.54-5. São Paulo-2000. 7. São Paulo. A Proteção Jurídica do Consumidor. Jean Calais-Auloy. contratos. A Proteção Jurídica do Consumidor. 25/30.Almeida. Ed. Ed. cit. P. cit. 2ª Edição. 11. 22. .42. 20. Edipro. Paria. 2ª edição. 2ª ed. Édiz Milaré e Nelson Nery Júnior. 6. Saraiva-2000.Bonatto. São Paulo.Lucca. Saraiva-2000. Questões controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: principiologia. cit. 6. A Proteção Jurídica do Consumidor. 22. Livraria do Advogado-1999. p. 14. Newton De.24 1993. 03. A Proteção Jurídica do Consumidor. Ed. 2ª Edição. Direito do Consumidor. p. 2ª Edição. 9. 15. 2ª Edição. Saraiva-2000. 02. São Paulo. Saraiva-2000. Newton De. Porto Alegre.Almeida. Saraiva-2000. 2ª Edição. p.Almeida. João Batista. Apud. 4. 21. 45-6. 12. 2ª Edição. P. P. cit. Ed. 7. São Paulo. Vol. p. João Batista. A Proteção Jurídica do Consumidor. Ed. cit. conceitos. São Paulo-2000. São Paulo. p. Saraiva-2000. Antonio Augusto Camargo Ferraz. Saraiva. Apud. 2ª edição.Lucca. Newton De. 22. 13. p.Lucca. João Batista. p. cit. cit. Porto Alegre.Donato. São Paulo. Ed. 10. São Paulo. Ed. cit. 30-56. Bonatto. João Batista. Cláudio. Droit de la Consommation. João Batista.Almeida. Ed. Maria Antonieta Zanardo. p.

19. 18. Porto Alegre-1991. p.Hesse.Lucca. Direito do Consumidor. A Proteção Jurídica do Consumidor. A Força Normativa da Constituição. 34. São Paulo-2000. Apud nota nº 20 21. Edipro. . p.25 16. cit. Edipro. João Batista. Apud nota nº 20. Ed. Newton De. Ed. 19. Ed. Konrad. p. Saraiva-2000.Almeida. 2ª Edição. p. Direito do Consumidor. Edipro. 2ª Edição. Ed. 34. p. Saraiva-2000. 10. 34. São Paulo. 17. 20. São Paulo-2000. Ed. cit.Lucca. 2ª Edição. 2ª Edição. Direito do Consumidor. p. Newton De. 10. Newton De. São Paulo-2000.Almeida. João Batista. São Paulo. 2ª Edição. cit. A Proteção Jurídica do Consumidor. Editor Sergio Antonio Fabris.Lucca.

4. "D" e V. 2. 1.7.1. 1. senão o mais importante dos princípios do sistema de proteção consumerista.1.3. 2. A Política Nacional das Relações de Consumo e sua abrangência.078/90.previsão constitucional. o Código de Defesa do Consumidor. 3. o princípio da proibição do abuso do direito e a função social dos contratos. que é o da vulnerabilidade do consumidor. 2. Bibliografia. II.art. 4°. 4°. Princípios fundamentais da política nacional das relações de consumo. Princípio da informação . Direitos do Consumidor . 2. 4°. 2. VI e VII. A análise com maior grau de aprofundamento recai sobre a principiologia criada com a elaboração da Lei 8. Legislação infraconstitucional: o momento da parturição do Código de proteção e defesa do consumidor. Conclusão. Princípio da Vulnerabilidade. Introdução. RESUMO O presente trabalho retrata a enorme importância do estudo a cerca do tem. desde a sua constitucionalização até a sua irradiação por entre outros ramos do Direito.3. III e VI. contida de mandamentos nucleares tais como. 1. A defesa do consumidor e sua extensão como princípio constitucional. o sistema de proteção e defesa do consumidor brasileiro. Princípio da vulnerabilidade do consumidor art. 2. PALAVRAS-CHAVE Consumidor. 1. Dentre estes. 2. 2. 1.6. Dos Princípios Gerais de Direito. em que demonstra os caminhos por eles percorridos sob a ótica da Teoria Geral do Direito. I.5. 4°. chama-se a atenção do leitor para um dos mais importantes.2. As diretrizes gerais da política e do direito do consumidor. Consumo sustentável e o princípio da integração. O princípio da garantia da adequação art.26 Princípios nucleares do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor e sua extensão como princípio constitucional Autor: Henrique Alves Pinto Sumário: Resumo. e em particular. Abuso do Poder Econômico e Consumidor. Princípio do acesso à justiça. o princípio da eqüidade e a cláusula geral de boa-fé. o princípio da vulnerabilidade do consumidor. Livre concorrência. Princípio da boa fé nas relações de consumo art. Teoria Geral do Direito RESUMÉ . 2.4. Boa-fé. O princípio do dever governamental art. II. 4°. Da constitucionalização dos princípios gerais.9.2. princípios gerais de direito. IV e VIII.8. 2.

sendo este. Princípios acolhidos com base na confiança. en particulier. além do estudo das ingressões destes princípios no Código de Defesa do Consumidor de 1990. DOS PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO Sobre os princípios gerais de direito importa citarmos Miguel Reale (1999. e de evidência no todo. L'' analyse plus approfondie retombe sur les principes créés par la loi 8. Será essa necessidade. de se ter evidentes premissas para se erguer um concreto sistema à base de um forte princípio. danificam o sistema podendo até mesmo levá-lo a sua ruína. Daí que todos os raciocínios assentes sobre tais princípios. c'' est-à-dire. Bonne-foi. INTRODUÇÃO Todas as conclusões advindas de um princípio que não é evidente. O homem equipado de sabedoria percebe facilmente a fragilidade dessa estrutura. Théorie générale du Droit. MOT-CLÉ Consommateur. Parmi ceux-là. celui de l'' égalité et la rubrique générale de bonne foi . le code de defense du consommateur. uma das propostas de desenvolvimento deste trabalho. inclusive nos sistemas mais bem aceitos e com as maiores pretensões de conter raciocínios mais elaborados. também não podem ser evidentes. no ato de sua criação. Principe de la Vulnérabilité. le système de protection et de défense du consommateur brésilien. depuis as constitution jusqu'' à sa penetration dans les autres branches du Droit et. não podem dar conhecimento certo de alguma coisa. p. mesmo que tenham seguido o processo correto da dedução.le principe de la prohibition de l'' abus de droit et la fonction sociale des contrats. celui de da vulnérabilité. totalmente dotado de uma carga manifestamente principiológica em suas normas.27 Ce travail veut présenter l'' enorme importance de l'' etude concernant les principes généraux du droit dans le cadre des chemins parcouris par lui sous le sceau de la Théorie générale du Droit.078/90. où il y a des points fondamentaux tels que le principe de la vulnérabilité du consummateur. on attire l'' attention du lecteur sur l'' un des plus importants ou peut-être le plus important des principes du système de protection du consomateur. . destituídos de um conteúdo científico. 1. falta de coerência entre as partes.

que a presente monografia irá demonstrar: a incidência deles no âmbito das relações consumeristas devido à alta carga principiológica contida no texto da lei de defesa do consumidor. c) PRINCÍPIOS MONOVALENTES: quando só valem como âmbito de determinada ciência. como tais admitidas. isto é. por serem evidentes ou por terem sido comprovadas. mas não extensivo a todos os campos do conhecimento. 25) A esse respeito reportemo-nos a Washington de Barros Monteiro (1997. como é o caso dos princípios gerais de direito. encontrada pelo direito suíço . A expressão princípios gerais de direito é por demais ampla e um autor de grande autoridade como Rubens Limongi França (apud RODRIGUES." (RODRIGUES. p. ressaltemos. 306). àqueles princípios que "baseados na observação sociológica e tendo como objetivo regular os interesses conflitantes. 305) Nesse sentido." (REALE. ou seja. como é o caso dos princípios de identidade e de razão suficiente. 1999. a dos monovalentes.28 305): deve começar pela observação fundamental de que toda forma de conhecimento filosófico ou científico implica a existência de princípios. de acordo com Miguel Reale (1999. p. há de se atribuir um sentido diferente a eles. essencial às ciências naturais. de certos enunciados lógicos admitidos como condição ou base de validade das demais asserções que compõem todo campo do saber. 2002. impõem-se. como se dá com o princípio de causalidade. Dessa abordagem lógica da palavra "princípio". aqui. 42). não especificados pelo legislador. Será essa categoria de princípios. os princípios se dividem em três categorias: a) PRINCÍPIOS OMNIVALENTES: quando são válidos para todas as formas de saber. que a aplicação dos princípios gerais de direito. 2002). p. Todavia. "Nada existe de mais tormentoso para o intérprete. b) PRINCÍPIOS PLURIVALENTES: quando aplicáveis a vários campos de conhecimento. inexoravelmente." Com base nessa posição. p. entende que é aos princípios de direito natural que o legislador manda recorrer na lacuna da normatividade. uma vez que o legislador quer referir-se àquelas normas que o orientam na elaboração da sistemática jurídica. pode-se dizer que "os princípios são ''verdades fundantes'' de um sistema de conhecimento. como uma necessidade na vida do homem em sociedade. a resolução para o eventual problema da aplicação dos aludidos princípios gerais.

" (RODRIGUES. 4° da Lei de Introdução ao Código Civil a orientação a seguir. temos a célebre noção atribuída por Miguel Reale (1999. que condicionam e orientam a compreensão do ordenamento jurídico. encontra-se. 25) Assim. Nas precisas palavras de Miguel Reale (1999. p. por conseguinte. uma vez que o ordenamento jurídico oferece ferramentas para regular todos os casos possíveis. Concluamos este tópico. quer para a elaboração de novas normas". Os princípios espargem claridade sobre o entendimento das questões jurídicas. mas é necessário advertir que a estes não cabe apenas essa tarefa de preencher ou suprir as lacunas da legislação. restando sempre grande número de situações imprevistas. deve estar . por mais complicadas que estas sejam no interior de um sistema de normas.29 que dispõe no art. portanto. Ora. Diante desta exposição. ao se examinar o direito positivo pátrio. não merecendo acolhimento esse entendimento. porém. posto que na própria há elementos para suprir essas lacunas. o certo é que tais elementos constituem uma breve resolução do problema. p. Daí infere-se que todo sistema se quiser adquirir a qualidade de um sistema que se completa e se relaciona por toda a extensão de seu corpo normativo. é o primeiro a reconhecer que o sistema das leis não é suscetível de cobrir todo o campo da experiência humana. no art. portanto em seu raio de abrangência os princípios aos quais as regras se vinculam. Note-se. p. 1° do Código Civil deste país que "no silêncio da lei e não havendo um costume a regular uma relação jurídica. p. quer para a sua aplicação e integração. 2002. quando a norma jurídica for omissa. 306). sejam eles previstos ou imprevistos. algo que era impossível ser vislumbrado sequer pelo legislador no momento da futura lei. isto significa que: O legislador. o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia. 306). Mas de maneira alguma se colocará em dúvida que as lacunas de fato existem no direito positivo. é evidente. presentes ou futuros. Para essas lacunas há a possibilidade do recurso aos princípios gerais de direito. deve o juiz decidir ''segundo as regras que ele estabeleceria se tivesse de agir como legislador''. que para vários juristas essas lacunas não podem e nem verdadeiramente poderão existir. citando as palavras do constitucionalista Paulo Bonavides (2002. os costumes e os princípios gerais de direito. mas não a solução definitiva e concreta dele. 232): Todo discurso normativo tem que colocar. acerca do entendimento deste autor sobre os princípios gerais de direito em que ele nos revela o seguinte: "princípios gerais de direito são enunciações normativas de valor genérico. por força do qual. que tais princípios gerais são imprescindíveis ao direito.

deverá o intérprete adotar o critério sistemático de interpretação. já que nossas constituições não eram respeitadas. 19)." (NERY JÚNIOR. p. Assim se fixarmos o pressuposto de que o direito positivo é uma camada lingüística de termos prescritivos dirigidos ao comportamento social das relações de intersubjetividade. simplesmente. Por plano pragmático. 2002. Por plano semântico. mas. Neste sentido será a interpretação um ato de vontade e um ato de conhecimento e como ato de conhecimento não caberá à "Ciência do Direito dizer qual é o sentido mais justo ou mais correto. apontar as interpretações possíveis. Além disso. p. nada mais justo que apresentarmos a proposta de interpretação do direito como um sistema de linguagem. a semântica e a pragmática.30 armado de princípios que emanam de um núcleo central. a interpretação e aplicação dos mais variados ramos do direito tomando-se por base "a lei ordinária principal que o regulamentava.1 Da Constitucionalização dos Princípios Gerais Em decorrência da alta instabilidade política percebida ao longo dos tempos na história do Brasil. porque envolve os três planos fundamentais. 2002. sem qualquer menção ao mundo exterior do sistema. formados de postulados que seguem os preceitos do princípio da identidade que é comum a todos os campos do saber. tampouco aplicadas efetivamente"(NERY JÚNIOR. p. Em vista disso percebe-se "porque não se vinha dando grande importância ao Direito Constitucional. ao realizar reiteradas incursões nos níveis sintático. nos seus três planos fundamentais: a sintaxe. nos países com estabilidade política e que se encontram num verdadeiro Estado Democrático de Direito. todo e qualquer princípio que daí se irradiar por outros sistemas periféricos estará sendo amparado pela base. semântico e pragmático da linguagem jurídica. pelo menos até pouco tempo atrás. 97) E para se chegar ao conteúdo intelectual dos textos do Direito através da exegese." (BARROS CARVALHO. Daí a alegação de que a ofensa à Constituição. possui . ou seja. 2002. 19) Isso acontece devido à falta de um forte regime democrático. a qualificação dos fatos para alterar normativamente a conduta. 2002. p. 99) 1. de estabilidade política que possam contribuir com o fortalecimento do Estado Democrático de Direito. percebe-se também que dado esse rigor necessário do corpo principiológico central. aquele que diz respeito ao modo de referência à realidade." (BARROS CARVALHO. aquele "tecido pelas formas segundo as quais os utentes da linguagem a empregam na comunidade do discurso e na comunidade social para motivar comportamento. Por plano sintático entende-se aquele formado pelo relacionamento que os signos lingüísticos mantêm entre si. sempre foi muito comum.

dotada de um alto teor de abstração e de perfeição. p. p. é dotada de incontrastável juridicidade. Depois. Ressalta ainda Paulo Bonavides (2002. 19) Entretanto. ou seja. 246) o seguinte: Na primeira. o da função interpretativa e da aplicabilidade da Constituição. na . a fase programática e a fase não programática". e ao contrário do que se pode perceber na fase programática. De acordo com Nelson Nery Jr."(NERY JÚNIOR. "numa escala de densidade normativa. é que podemos chegar. sempre tendo como pressuposto o exame da Constituição Federal. sim. quando este problema é declarado. essa situação vem apresentando uma grande mudança. Revela também. através dos princípios contidos em seu corpo. em virtude do aumento significativo de trabalhos e pesquisas jurídicas que abordam o tema da interpretação e aplicação da Constituição Federal. "a alegação não é levada a sério na medida e na extensão que deveria". ao declarar que o Direito Constitucional é a base fundamental do direito para o país. p. 2002. o que podemos perceber dos ensinamentos deste jurista é que será na Constituição de determinado país que se encontrarão os mais altos valores do Direito Positivo. (2002. este constitucionalista." (apud. apresentando-se "como mais uma defesa que o interessado opõe à contraparte. 1999. suscetível de imediata aplicação. p. que "a constitucionalização dos princípios compreende dessas fases distintas. 246). quando há ofensa à Constituição. REALE. 306) Deste ponto de partida. p. Simonius tem razão quando afirma que "o Direito vigente está impregnado de princípios até suas últimas ramificações. No Brasil. 246) Por fase programática deve-se entender que é uma fase de concreção. p. ao grau mais alto a que eles já subiram na própria esfera do Direito Positivo: o grau constitucional". segundo Paulo Bonavides (2002. posto serem preservados pelos cidadãos orientados por uma carga principiológica que reside na base deste sistema. (2002. por ser concreta e completa. 20): "O intérprete deve buscar a aplicação do direito ao caso concreto. deve ser consultada a legislação infraconstitucional a respeito do tema. Partindo desse pressuposto. É da Constituição que se irradiam os princípios que irão se dispersar pelas mais variadas leis infraconstitucionais." Na verdade. Já a fase não programática é uma fase dotada de objetividade.31 conseqüências catastróficas. a normatividade constitucional dos princípios é mínima. que demandam de operações integrativas em que se percebe a ausência de juridicidade.

entre outras categorias de princípios. a fase não programática. 2002. pairam ainda numa região abstrata e têm aplicabilidade diferida. estabeleceu em "norma de notório conteúdo programático" (CARVALHO FILHO.32 segunda máxima." (BONAVIDES. o respeito ao Direito Constitucional como lei basilar de todo o ordenamento jurídico dos Estados para a estabilização política e fortalecimento do Estado Democrático de Direito e. para possibilitar uma maior objetividade e aplicabilidade no escopo de suprir as diversas lacunas encontradas entre as leis. p. o arbítrio do juiz em sentido contrário ao da lei. XXXII. 246) Portanto. a defesa do consumidor. pois. não é necessário entrarmos em maiores detalhes aqui. 1. Assim. já que aqueles possuem maior ou menor incidência nos mais variados ramos do direito. que não foi sem razão que o Constituinte inseriu o direito do consumidor no rol dos direitos fundamentais. doutrina é esta que. retrógada em sua substância e contrária à liberdade apesar de seu nome. E se. 19): o Estado promoverá. na forma da lei. nada mais imprescindível na história contemporânea do Direito Constitucional do que a solidificação dos princípios contidos em seus textos de leis.Previsão Constitucional A Constituição Federal Brasileira de 1988 considerou como fundamental o direito do consumidor. desapareceu com o nascimento do moderno Estado de direito. a positividade de sua aplicação direta e imediata. p. certa doutrina pretende restabelecer este arbítrio sob o pretexto especioso da liberdade do juiz ou da jurisprudência. os princípios gerais e os princípios constitucionais. Apenas nesta última fase. Percebe-se. salvo o empenho da Filosofia e da Teoria Geral do Direito ao construírem a doutrina da normatividade dos princípios em que se busca uma neutralidade na qual se possa superar antinomia Direito Natural/Direito Positivo. 2001. Fala-se em conteúdo programático neste inciso porque antes da Lei 8. chega-se à seguinte conclusão: O perigo do que se chama aequitas cerebrina. o que se pode perceber deste tópico é que. tema que não é o propósito desse trabalho. em nossos dias.078/90 . por fim. que se fará exeqüível "colocar no mesmo plano discursivo. Ali. isto é. deve ser repelida por se opor ao mencionado princípio e às próprias bases racionais do sistema atualmente em vigor. p. Ao se estudar a teoria dos princípios gerais de direito proposto por Del Vecchio nas lições de Vicente Ráo (1999. a conversão dos princípios gerais em princípios constitucionais. aqui ocupam um espaço onde releva de imediato a sua dimensão objetiva e concretizadora. 275). Tanto é que. Como já comentamos a respeito da fase programática das normas. em termos de identidade. no art.2 Direitos do Consumidor . 5°. inc.

em clara preocupação com o grau de informação que deve . ALVIM. inc. determinando que se ofereça o devido esclarecimento acerca dos tributos incidentes sobre bens objeto de relações de consumo. p. em sua Seção II.. ALVIM. como se viu. sendo que os Estados e Distrito Federal possuirão competência suplementar (art. é da inteligência do art. § 1° e 2° da Constituição Federal). p." Por se tratar de uma sociedade capitalista. mas regulam propriamente a atividade estatal concernente a ditas matérias: têm por objeto imediato os comportamentos estatais e só imediatamente e por assim dizer. 24. como é a brasileira. serem competentes a União. SOUZA." Além de caracterizada como direito fundamental. 5°. aquelas determinadas matérias. os Estados e o Distrito Federal para legislar concorrentemente sobre responsabilidade por dano ao consumidor. T. que criou o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. p. o direito do consumidor (ALVIM. destinado à tributação e ao orçamento. inc. V. 1995. 222). Sobre as normas constitucionais programáticas postula Crisafulli (1976. 75): As normas constitucionais programáticas. a defesa do consumidor "se qualifica também como um dos princípios da ordem econômica e financeira (art. O produto legislativo da União deverá ater-se à edição de normas gerais. VIII da Constituição Federal. 150 dispõe que ''a lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços''. em segundo grau. 14): No Título IV da Constituição Federal.. através da normatividade constitucional.. com respeito ao próprio objeto por se tratar de uma norma constitucional programática até então.33 de 11/09/1990. No que diz respeito à competência normativa sobre a matéria. preestabelecia em si mesmo apenas um programa de ação. não regulam diretamente as matérias a que se referem. Acrescenta ainda Paulo Bonavides (2002. E. que se refere às limitações ao poder de tributar. 170. o § 5° do art. Constituição Federal). Protege-se ainda. XXXII da Constituição Federal. nada mais oportuno e justo do que se considerar o direito do consumidor como um direito fundamental. 24. "ostentam por igual uma dupla eficácia na medida em que servem de regra vinculativa de uma legislação futura sobre o mesmo objeto. A. o art.. J. fundada na livre iniciativa na qual se verificam inúmeras formas de abuso de poder econômico.

chega-se ao assunto fundamental do presente trabalho. p. que a necessidade da devida informação acerca do produto que o consumidor venha adquirir. da sua constitucionalização e irradiação por entre outros ramos do Direito. vale adiantar brevemente. na medida em que indica opção valorativa do constituinte.078/90. subordinadas aos ditames do Código de Proteção e Defesa do Consumidor no que chama a atenção pela necessidade de sua correta interpretação nos quadros normativos. Além disso nota-se também que o dever de bem informar os consumidores.078/90 (reitere-se o Código de Defesa do Consumidor). difundido de seu estado de . disposições imediatas e emergentes. ainda que indiretamente. nos declara a importância do tema na órbita da economia brasileira. como veremos mais detalhadamente no tópico específico destinado à elucidação de sua aplicabilidade. a partir do momento em que buscam introduzir uma nova forma de pensar nos postulados da consciência jurídica. é mais do que uma mera necessidade. aliás. uma série de direitos ao cidadão. apontaremos ainda a extensão da defesa do consumidor como princípio constitucional. que é o princípio da boa-fé.34 receber o consumidor. e de acordo com os dizeres de José Joaquim Gomes Canotilho (1992. Como será discutido mais adiante o princípio da transparência. 1. que é o da carga principiológica contida na Lei 8. princípio garantia. é a tônica deste Código de Consumidor. o que. é princípio constitucional impositivo. sobretudo ao legislador. entre fornecedor e consumidor que a partir do ano de 1990 devem estar. Dada esta destacada posição de defesa do consumidor. 177-178) será: princípio político constitucionalmente conformador. pois que impõe aos órgãos do Estado. que possui grande parte de suas atividades baseadas nas relações de consumo. antes de abordarmos os princípios específicos desta lei. ou seja. Daí percebe-se que os princípios que envolvem a defesa do consumidor são princípios jurídicos basilares. a realização de uma tarefa e um fim a ser atingido e. Diante disso fica declarada a magnitude de sua garantia constitucional que possui no mínimo. a de estar no ápice do nosso ordenamento jurídico. como se percebe pelo fragmento supra citado. Todavia. nada mais é do que uma irradiação de um princípio basilar residente no corpo principiológico nuclear da Lei 8. mas sim um dever que se impõe a todos os fornecedores que oferecem produtos ou serviços no mercado consumerista.3 A Defesa do Consumidor e sua Extensão como Princípio Constitucional Após todo este levantamento da trajetória dos princípios gerais de direito. visto que garante. necessariamente.

o Código de Defesa do Consumidor. De outro. 2001. legislar e decidir. a virtude de corromper de inconstitucionalidade qualquer norma que possa ser um obstáculo à defesa desta figura das relações intersubjetivas de consumo. 37) Da posição do constitucionalista acima citado. ao revelar certa pressa para que fosse promulgada a lei de proteção do consumidor. Este impôs aos órgãos estatais. 1. p. de acordo com a determinação do art. que criou o código brasileiro das relações consumeristas. na busca da solução das antinomias que são encontradas nos conflitos entre as normas do sistema. pela defesa do consumidor" (ZAPATER. posto que são mais do que normas dado o seu caráter de fundamentalidade no sistema das fontes de direito. 1990." (TEMER. editar norma conflitante com o objetivo do programa constitucional. 187).35 princípio geral da atividade econômica do país. na lei e na justiça. ao buscar uma legislação mais eficiente e específica para tratar de tais situações jurídicas. sobretudo ao legislador. está comprovado que a defesa do consumidor é uma garantia constitucional que engloba uma vasta gama de direitos que estão envolvidos em toda a Carta Constitucional ou em outros regimes e princípios colhidos por ela. p. mais do que declarado. será do núcleo sistêmico de onde emanará toda orientação no intuito de se atingir a devida interpretação normativa. lembra ainda Fábio Konder Comparato (1990. não pode. 69): De um lado. 2001. Por fim. Assim. na política. enquanto o que se . ao se tratar de interpretação constitucional dever-se-á identificar quais foram as normas que receberam do legislador constitucional a categoria de princípios orquestradores do sistema de valoração.4 Legislação Infraconstitucional . "a realização de uma tarefa e um fim a ser atingido" (ZAPATER. no prazo de cento e vinte dias da promulgação da Constituição. Percebe-se portanto que. os Poderes Públicos têm o dever de desenvolver esse programa. p.078/90 de 11/09/1990. Entretanto. ou a administração pública. 185). após quase dois anos da promulgação da Carta Magna é que foi instituída a Lei 8. identificar tais princípios. Após todas essas exposições. É preciso. que é o consumidor.O Momento da Parturição do Código de Proteção e Defesa do Consumidor Brasileiro Apesar do amplo otimismo do Constituinte. nota-se que ele atribui ser papel do legislador apontar quais normas este erigiu à categoria de princípios. uma vez que irão servir "como vetores para soluções interpretativas. pois. ou à sua importância estrutural dentro do sistema jurídico. por meio de uma ação coordenada. "Direitos que envolvem a obrigação positiva de atuar. p. o legislador. quando consignou que o Congresso Nacional deveria elaborar. mais uma vez. 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). erigido por nossa Lei Maior.

2002. coerente e separada. p. À política de defesa do consumidor é dado um objetivo mais amplo de aplicação. deve-se perceber que uma e outra não são a mesma figura. Numa fase mais recente. traçam também os objetivos e princípios de toda a Política Nacional de Relações de Consumo. ao estabelecer parâmetros que nortearão todo e qualquer ato do governo. no que quase sempre acabava numa decisão menos favorável aos consumidores. ajudando-o a exercer um papel atuante no mercado. Apesar de se confundirem os objetivos expressos da Política Nacional de Relações de Consumo com a defesa do consumidor. 2. 34). 2. A POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO E SUA ABRANGÊNCIA Estabelece o caput do art. busca torná-lo mais consciente de suas responsabilidades. nos mais variados casos em que eram envolvidos os sujeitos do consumo. Daí percebe-se o equívoco em se considerar que os incisos do art. protegendo-o dos enganos e . a definição dos objetivos que norteiam a política das relações de consumo. a política e o direito do consumidor desenvolveramse de forma cada vez mais autônoma. e seus dados se tornam cada mais significativos à medida que ele vão se estendendo a outros ramos políticos. Com o decorrer dos anos. do executivo ou do judiciário. a partir do instante em que se trata das "relações consumeristas" que é uma expressão declaradamente mais ampla do que a "defesa do consumidor". sendo esta uma importante faceta daquela. buscando um alcance substancialmente mais longo. todavia com objetivo mais restrito.1As Diretrizes Gerais da Política e do Direito do Consumidor Antes de dissertarmos sobre a principiologia inserta no art. direitos e obrigações. 4°. 4° do Código de Defesa do Consumidor.36 tinha antes era a adaptação interpretativa pelos juristas do Código Civil de 1916. uma vez que. seja na esfera do legislativo. correspondem apenas aos princípios da defesa do consumidor. uma nova abordagem é postulada "em que se exige a integração das considerações da política de consumo a outras políticas econômicas e sociais" (BOURGOIGNIE. apontaremos abaixo os aspectos mais comuns de interesse da política tradicional de proteção ao consumidor: a)Educação: uma importantíssima ferramenta de auxílio ao consumidor. 4° do Código de Defesa do Consumidor Brasileiro.

saúde etc. dos empréstimos e de outras transações financeiras do consumidor. cosméticos. f)Representação dos interesses coletivos dos consumidores: para promover e dar suporte aos grupos de consumidores. assim como corretivas que dão aos consumidores. cláusulas contratuais. revelação das cláusulas contratuais. instituição de padrões de qualidade. preços e tarifas. aumentando a participação de representantes de consumidores no processo de tomada de decisões. a realização de recalls. ao possibilitar o acesso efetivo à lei e aos mecanismos de reparação. definindo reparações civis. g)Satisfação de necessidades básicas: como possibilitar a todos. rotulagem e empacotamento dos produtos. particularmente por meio de específicas regras de responsabilidade. d)Segurança: proteção aos consumidores de produtos ou serviços. concessão de períodos de controle. retirada de produtos quando nocivos aos consumidores e a terceiros. regulamentação da especulação de preços. comida. que o objetivo de segurança sobre produto e serviços tais como. planos de garantia de qualidade. acesso a planos de compensação adequados e facilmente acessíveis. entre outros. propaganda e métodos de venda desleais. riscos e acidentes relacionados a eles. além de desenvolverem sistemas alternativos para solução de conflitos que sejam eficientes e independentes. ao criar para os grupos de consumidores. c)Proteção dos interesses econômicos dos consumidores: prevenção de comércio. telecomunicações. dentre eles. educação.37 fraudes. avisos e instruções de uso. através de medidas preventivas. personalidade jurídica ou o direito de ingressarem ações coletivas em cortes e tribunais quando se sentirem lesados. lazer. saúde. automóveis. e)Compensação ao consumidor: tem como objetivo armar o consumidor de meios rápidos e acessíveis de assegurar seus direitos. tais como exigências de informações. obrigações de garantia pós-venda. promovendo informações de consumo por meio de fontes independentes. estabelecimento de uma rede de Centros de Conselhos para Consumidores. o efetivo acesso a mercadorias e serviços básicos. atividades esportivas etc. do crédito. leis e regulamentos entre outros. energia. água. brinquedos. intercâmbio de sistemas de informações e supervisão das reservas de mercado. que são perigosos ou sem segurança. desenvolvimento de campanhas públicas de conscientização etc. criminais e administrativas mais adequadas. b)Informação e conselhos: detalhar cada vez mais as informações e formas de uso sobre produtos e serviços. impedimento de cláusulas abusivas em contratos de consumo. . proibição de propaganda enganosa. drogas. Imprescindível que se destaque. obrigações de controle sobre processos de produção e distribuição. transporte.

Tradução nossa. a preocupação em proceder ao consumo responsável e. Todavia. como se pode perceber. de maneira que os recursos naturais não se esgotem de forma irreversível. 42. in verbis: "Sustainable consumption includes meeting the needs of present and future generation for goods and services in ways that are economically. ele estará incentivando cada vez mais a atividade comercial dessa empresa que depreda o meio ambiente no que implicará um forte desequilíbrio. ampliado no ano de 1999. p. por governantes e empresários. esta tarefa não é nada fácil. aponta a resolução acima citada. p. como bem observa José Geraldo Brito Filomeno (2003.Consumo Sustentável e o Princípio da Integração Conforme a resolução da ONU. o que poderá trazer drásticas conseqüências. A responsabilidade pelo consumo sustentável deve ser compartilhada por todos os membros e organizações da sociedade. 67). quanto no aspecto social." (O consumo sustentável deverá satisfazer às necessidades das presentes e futuras gerações por meio de benefícios e empreendimentos que contribuam pela higidez do meio ambiente. Os preceitos desse artigo. nada mais é do que um grande cuidado que os homens devem ter no instante que exploram o meio ambiente através de suas atividades econômicas. e para que a criação desta consciência de preservação ao meio ambiente possa vir a colher bons resultados. foi eleito como um dos direitos do consumidor universalmente considerado e será um objetivo comum a todos os governos a sua promoção. consome determinada marca de papel de uma empresa que não pratica o reflorestamento.). ilimitadas. em princípio. através do documento "United Nations Guidelines for Consumer Protection". por consumidores informados. É desse problema que surge "a necessidade de incutir no homem. sobretudo se se tiver em conta a ciência de marketing e a publicidade. uma vez que da escolha dos consumidores por determinados produtos é que recairão os efeitos sobre os produtores. no seu art. desde a infância. 68). de produtos e serviços" (FILOMENO. Se o consumidor. and environmentally sustainable. no intuito de se buscar uma redução dos impactos causados por essas atividades. por exemplo.2. tanto no aspecto econômico. Assim percebe-se que o consumo sustentável. são limitados os recursos naturais disponíveis". 2003.38 2. tais como: . "enquanto as necessidades do homem são. entre os recursos naturais disponíveis e a atividade industrial. referem-se a uma variedade de políticas. o chamado "consumo sustentável". sobretudo sustentável. além das associações de proteção aos consumidores e ao meio ambiente que irão desempenhar importante papel na divulgação da mais adequada informação. por organizações do trabalho. devem ser observadas. socially.

43.° 9. da diretriz geral de proteção ao consumidor editada pela ONU. A responsabilidade pela proteção ao meio ambiente. o que não é nada fácil já que implica numa mudança nos seus hábitos. entre outros entes da cadeia empresarial. A livre escolha dos consumidores. 37). o respeito a sua dignidade. ao fazer com que todos tomem consciência da dimensão ecológica do processo consumerista em geral e de seu comportamento individual particular. infere-se que "a qualidade de vida ou direito de viver num ambiente saudável tornou-se um dos direitos fundamentais dos consumidores" (BOURGOIGNIE. 2002. "colocará sua marca na política e no direito do consumidor". in verbis: "Governments should promote the development and implementation of policies for sustainable consumption and the integration of those policies with other public policies. p. Diante disso.008. a proteção de seus interesses econômicos. nutrição. de 21 de março de 1995.). daí observa-se que o processo de integração é extremamente complexo. bem como a transparência e harmonia das relações de consumo. 4. in verbis: Art. saúde e segurança. mas também aos consumidores.reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo. Tradução nossa. saúde. atendidos os seguintes princípios: I . 4° do Código de Defesa do Consumidor de acordo com a nova redação dada ao artigo pela Lei n. deverá ser limitada em prol do meio ambiente e que os interesses da coletividade e benefícios individuais a curto prazo. Portanto conclui-se que o consumo sustentável. proteção ambiental e agrícolas. o qual se encontra consubstanciado no texto do art.39 telecomunicações. .° A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores.Princípios Fundamentais da Política Nacional de Relações de Consumo Para melhor se compreender o corpo principiológico do art. que devem procurar consumir produtos menos nocivos ao meio ambiente. que devem ser desenvolvidas numa estratégia rumo à integração dos dados de consumo. 36). 2. a melhoria da sua qualidade de vida. É desta atividade que trabalha com a inter-relação que temos o princípio da integração.3. como bem observa Thierry Bourgoignie (2002. p. não recairá apenas aos produtores." (Os governantes devem promover a implementação e o desenvolvimento de políticas que tenham como objetivo o consumo sustentável além da integração dessas políticas a outras políticas públicas. sociedade de informação. aos fornecedores.

da Constituição Federal). que possam causar prejuízos aos consumidores. pode-se dizer serem seis os princípios fundamentais da Política Nacional das Relações de Consumo.coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo. I .harmonização dos interesses dos particulares dos participantes das relações de consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico.racionalização e melhoria dos serviços públicos. IV .incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços. 44).Princípio da Garantia de Adequação IV.Princípio do Dever governamental III. inclusive a concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciais e signos distintivos. assim como de mecanismos alternativos de solução de conflitos de consumo. citados abaixo: I-Princípio da Vulnerabilidade II. II . p. VI. V .Princípio da Informação VI. III. com vistas à melhoria do mercado de consumo.educação e informação de fornecedores e consumidores. d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade. b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas. Thereza Alvim. c) pela presença do Estado no mercado de consumo.ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor: a) por iniciativa direta.Princípio da Boa-fé nas relações de consumo V. 170.Princípio do Acesso à Justiça . De acordo com Arruda Alvim.estudo constante das modificações do mercado de consumo. Eduardo Arruda Alvim e Jaime Marins (1995. quanto aos seus direitos e deveres. sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores. de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art.40 II .

a partir do momento em que se examina a cadeia consumerista. ao perceber que o consumidor é o elemento mais fraco dela. Diante disso temos que.mas nunca a todos os consumidores.078/90.até mesmo a uma coletividade . por não dispor do controle sobre a produção dos produtos. atua como elemento informador da Política Nacional das Relações de Consumo. independentemente da sua condição social.4 Princípio da Vulnerabilidade do Consumidor . ou então. que é uma característica restrita a determinados consumidores. Deve-se notar também que.41 Todos estes princípios supra citados. cultural ou econômica. como por exemplo. A vulnerabilidade. 2° da Lei 8. por estarem desprovidas de outros indispensáveis alimentos em sua dieta. ao levar um automóvel seu numa . numa hipotética situação. 2. I. Com precisão. ricos ou pobres. no que surge à necessidade da criação de uma política jurídica que busque a minimização dessa disparidade na dinâmica das relações de consumo. nuclear. a vulnerabilidade do consumidor não se confunde com a hipossuficiência. 224225) demonstra a diferença entre a vulnerabilidade e hipossuficiência: A vulnerabilidade é um traço universal de todos os consumidores. 4°. os analfabetos quando se encontram diante de uma situação em que podem assinar um contrato de plano de saúde sem os devidos esclarecimentos a respeito de suas cláusulas contratuais contidas no corpo contratual. educadores ou ignorantes. qualidade ontológica (essencial. Já a hipossuficiência é marca pessoal. limitada a alguns . Este princípio. crianças que são expostas diariamente aos diversos anúncios de chocolates. Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin (1991.Art. determinado médico neurocirurgião de grandes títulos durante a carreira. de acordo com o conceito legal preceituado pelo art. intrínseca) e indissociável do consumidor numa relação de consumo. crédulos ou espertos. p. em sua situação individual carentes de condições culturais ou materiais. seja ele consumidor-pessoa jurídica ou consumidorpessoa física. e é tido como o núcleo base de onde se irradia todos os outros princípios informadores do sistema consubstanciado no Código de Defesa do Consumidor. serão devidamente analisados nos subtópicos que se seguem. consequentemente acaba se submetendo ao poder dos detentores destes. que além de presumivelmente vulneráveis são também. dado o propósito desse trabalho. Isto acontece. entre outros alimentos supérfluos em que o exagero no consumo destes podem levá-las a ter vários problemas no seu desenvolvimento natural.

a oficina mecânica prestadora do serviço). pois entre um e outro extremo serpeia um fosso de incertezas cavado sobre a intuitiva pergunta que aflora ao espírito: Quem são os iguais e quem são os desiguais?" E de acordo com Hans Kelsen (1998. seja ele pessoa jurídica ou pessoa física. sua validade como ponto de partida. mas também sob o aspecto econômico.42 oficina mecânica para a realização de reparos no veículo. 4°. ao colocá-lo sob um intenso bombardeamento de anúncios. ao princípio constitucional da isonomia.078/90 colocar em equilíbrio jurídico o consumidor e fornecedor. por exemplo. ao consumo tanto básico quanto exagerado. Sem fazer contestação ao teor do que nela se contém e reconhecendo. para armá-lo de certos instrumentos para que ele possa melhor defender-se. 320) que "permeia as relações de consumo está em verdade a dar realce específico. não apenas sobre o aspecto técnico. por não conhecer nada a respeito de mecânica de motores automotivos. II. dos mais diversos setores e interesses nas relações consumeristas.5 O Princípio do Dever Governamental . . não significa que estes devam ser tratados de maneira idêntica nas normas e em particular nas leis expedidas com base na Constituição. pode ser considerado vulnerável frente ao fornecedor (neste caso. 2. p. 4°. dever ser compreendido sob dois principais aspectos. Daí o porquê se parte do princípio da fraqueza manifesta do consumidor no mercado. é insuficiente para desate do problema. já que este é a parte detentora dos mecanismos que induzem aquele. "b") ou até mesmo de fornecedores. observa-se também que o princípio da vulnerabilidade de acordo com Nelson Nery Júnior (1991. dos mecanismos suficientes que proporcionam a sua efetiva proteção. 4° do Código de Defesa do Consumidor. Sob esta ótica. esta expressão "tratamento desigual aos desiguais" de Aristóteles. entre crianças e adultos. ao prover o consumidor. 11): "deve-se negar-lhe o caráter de termo de chegada. p. como. Além destas constatações. garantida pela Constituição. segundo Celso Antônio Bandeira de Melo (2002. dispensando-se tratamento desigual aos desiguais". p. elencado nos incisos II. além de deter o processo tecnológico da fabricação de seus produtos. Todavia. 207) têm-se as seguintes condições: A igualdade dos sujeitos na ordenação jurídica. homens e mulheres. O primeiro é o da responsabilidade atribuída ao Estado.Art. indivíduos mentalmente sadios e alienados. seja através da iniciativa direta do Estado (art. VI e VII Este princípio. enquanto sujeito máximo organizador da sociedade. A igualdade assim entendida não é concebível: seria absurdo impor a todos os indivíduos exatamente as mesmas obrigações ou lhes conferir exatamente os mesmos direito sem fazer distinção entre eles. II. VI e VII do art. se percebe que é mister da Lei 8.

in verbis. qualidade/segurança. no que diz respeito à sua dignidade. 4°. saúde e segurança. elencado no caput do art.ao mesmo tempo que recebem reclamações de determinados produtos ou serviços. II. exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição. a proteção de seus interesses econômicos e a melhoria da sua qualidade de vida. a quem está incumbido o dever de fiscalização. 4°.10° §1°. vale ressaltar também que o princípio da garantia de adequação contido no art. indica que a prevenção de danos é a política que deve ser prioritariamente buscada pelas empresas.43 O segundo aspecto é o enfoque sob o "princípio do dever governamental". atendendo completamente aos objetivos da Polícia Nacional das Relações de Consumo. Por fim.6 Princípio da Garantia da Adequação . "D" e V É o princípio que emana a necessidade da adequação dos produtos e serviços ao binômio. 4°. uma vez que o Código do Consumidor é adepto do princípio da "responsabilidade objetiva". 2. A concretização desse princípio. várias empresas.Art. fica a cargo do fornecedor que será oficialmente auxiliado pelo Estado. VIII). que demonstram uma dupla atribuição: . que é uma outra atribuição do "princípio de dever governamental" o qual já se expôs. §2° e § 3° do mesmo diploma. não irá se discuti-lo aqui). demarcando o Código que as empresas deverão ser incentivadas para a criação de mecanismos eficazes de controle de qualidade de produtos e serviços. também recebem valiosas sugestões de consumidores. fala-se muito na chamada "qualidade total". II. o que contribui de maneira inteligente para o desenvolvimento das próprias atividades empresariais. em que é dever do próprio Estado de promover continuadamente a "racionalização e melhoria dos serviços públicos" (art. aliada à inversão do ônus da prova (como este assunto não é a proposta de discussão do presente trabalho. em qualquer hipótese. instruindo-os em como melhor servi-los. 8° parágrafo único e art. 8° Os produtos e serviços no mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores. 4°. qualidade/segurança. que é o fim perseguido pelo sistema de proteção e defesa do consumidor. diz respeito ao binômio. . Atualmente. obrigando-se os fornecedores. têm criado os conhecidos "departamentos de atendimento ao consumidor". a dar informações necessárias e adequadas a seu respeito. Preocupadas com tais aspectos. ao surgir aqui a figura do Estadofornecedor além de suas eventuais responsabilidades. respectivamente: Art. consistente no atendimento dos eventuais problemas dos consumidores. "d" e V do Código do Consumidor encontra-se amparado pela inteligência dos art.

às expensas do fornecedor do produto ou serviço. os componentes da relação consumerista devem buscar o objetivo comum de melhor e com mais eficiência. 51 do Código do Consumidor. mesmo que ocupem posições antagônicas frente ao conflito de seus interesses. e. deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores mediante anúncios publicitários. Será a boa-fé. que considera nulas de pleno direito cláusulas contratuais que "sejam incompatíveis com a boa-fé e eqüidade". que deve ser buscada pelos dois pólos componentes das relações de consumo: consumidor e fornecedor. e. do art. 2. 60): "um conceito . orientando basicamente os capítulos referentes às práticas comerciais. 10° O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança. serão o resultado da conduta geral da boa-fé. Nesse sentido. § 1° O fornecedor de produtos e serviços que. Em se tratando de produto industrial. indicadas no caput do art. p. desde a instituição de seus direitos básicos (art. percorrendo pelo capitulo referente à reparação por danos pelo fato do produto. § 3° Sempre que tiverem conhecimento de periculosidade de produtos ou serviços à saúde ou segurança dos consumidores. merecedora de especial destaque de acordo com o inciso IV do art. de certa maneira.Art. a União. o Distrito Federal e os Municípios deverão informá-los a respeito. A harmonia das relações de consumo e a transparência. através de impressos apropriados que devam acompanhar o produto. encontra-se difundido em grande parte dos dispositivos do Código do Consumidor. ao fabricante cabe prestar as informações a que se refere este artigo. 4°. a publicidade. III e VI Este princípio nas relações de consumo.7 Princípio da Boa-Fé nas Relações de Consumo . nos dizeres de Silvio Rodrigues (2002.44 Parágrafo único. e a proteção contratual. § 2° Os anúncios publicitários a que se refere o parágrafo anterior serão veiculados na imprensa. que traz uma carga significativa de regra geral de comportamento. fazer circular produtos e serviços com objetivo da geração de riquezas e benefícios a todos os integrantes do mercado de consumo. posteriormente à sua introdução no mercado de consumo. está expressamente referido no inciso III. os Estados. rádio e televisão. 6°). 4°. tiver conhecimento da periculosidade que apresentem. 4° como um dos escopos da Política Nacional das Relações de Consumo. Art.

"para que o homem não seja levado a assumir comportamentos que não correspondam a uma perfeita compreensão da realidade" (DE CARVALHO. o de saber melhor no ato da decisão.Art. e é através deste princípio nuclear que não apenas os pólos atuantes da relação de consumo. 256). como por exemplo. em que o fornecedor deve sempre prestar informações sobre produtos ou serviços de quaisquer natureza que ele ofereça no mercado. 2002. da boa intenção e no propósito de a ninguém prejudicar. informação dentre outros. p. Matérias que se referem a educação. 671) 2. "o princípio da transparência (art. devem se localizar no momento do ato de consumo. que o direito de informação existirá expressamente no Código de Defesa do Consumidor Brasileiro." (MARQUES. 2002. Como se vive num mundo globalizado em que a tecnologia a cada dia que passa caminha a passos cada vez mais largos. O pensar e o transmitir o pensamento são tão vitais para o homem como a liberdade física".45 ético. é o caminhar dos pensamentos. e não através da realidade. 256). o primado básico da boa-fé será "o princípio máximo orientador do CDC" (MARQUES. p. 2002. Por um dos princípios adotados pelo Código de caráter acessório. A história do homem é a história da luta entre idéias. Desse modo será a informação. fazendo com que a informação passe "a ter uma relevância jurídica antes não reconhecida" (DE CARVALHO. moldado nas idéias de proceder com correção. com o objetivo de coibir que os cidadãos sejam levados a consumir pela ilusão. publicidade. 4°. com dignidade. o elemento regente da Lei 8. necessário é citar a importância da informação de acordo com o jurista Luis Gustavo Grandinetti Castanho de Carvalho (2002. IV E VIII Antes de se iniciar este tópico. pautando sua atitude pelos princípios da honestidade. divulgação. o "princípio da veracidade". percebe-se que a informação circula com maior velocidade por estar difundida nos mais variados meios de comunicação que a massificam com muito mais intensidade. são objetivos em parte do Código do Consumidor. constata-se a presença . 4°. 2002. 255). em que este revela um importante pensamento a respeito da informação: "Não há sociedade sem comunicação de informação." Como se pode perceber. 671). mas até a própria legislação consumerista sofre reflexos dele. com várias normas dispostas a destacar a extrema cautela com que tais temas devam ser encarados. p.078/90 ao ter como corolário a educação.8 Princípio da Informação . Será deste interesse jurídico. caput) que não deixa de ser um reflexo da boa-fé exigida aos agentes contratuais. p. p.

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deste princípio em inúmeros artigos do código, além do art. 4°, tais como; o art. 6° (dos direito básicos do consumidor); arts. 8° e 10° (citados no tópico referente ao princípio da garantia de adequação); arts. 18, 19 e 20 (vício do produto); arts. 30, 31 e 35 (oferta); arts. 36, 37 e 38 (publicidade e marketing); 43 e 44 (bancos de dados e cadastros); art. 56 (sanções administrativas); por fim, os arts. 60, 63, 64, 66, 67 e 72 (infrações penais). Todavia há de ressaltar-se que, independentemente da preocupação que os redatores da lei consumerista brasileira tiveram com a informação, esta só poderá ser estendida aos cidadãos de maneira mais eficiente, se as autoridades derem mais atenção a educação básica, que é uma condição indispensável para o completo exercício da cidadania. Uma proposta a esta problemática, seria a introdução, ou melhor dizendo, reintrodução da disciplina de educação moral e cívica nos currículos escolares de 1° e 2° graus, com o objetivo de fazer com que crianças e adolescentes comecem a criar uma cultura para melhor consumirem e orientarem seus pais, durante o ato de consumo, como por exemplo, saber avaliar a qualidade do produto além de suas condições de higiene, suas condições de exposição para venda, dos componentes artificiais, do valor calórico dos alimentos que devem estar dispostos numa tabela nutricional impressa no rótulo das embalagens, o prazo de validade para consumo dos produtos, dentre outros aspectos de cunho sócio-econômico. Todavia Hélio Jaguaribe (apud, ALVIM, A.; ALVIM, T.; ALVIM, E.; SOUZA, J. 1995, p. 48-49) chama atenção desta questão social da seguinte maneira: O Brasil tem demonstrado capacidade para mobilizar forças e enfrentar problemas sociais. Em tempos recentes, as comunicações, o programa do álcool, as hidrelétricas, a industrialização diversificada, a produção de grãos e a ampliação do comércio exterior, em diferentes setores, constituíram provas eloqüentes dessa afirmação. A educação do povo, entretanto, sendo questão da mais transcendente magnitude - pois dela também o equacionamento de todos os problemas, incluindo os políticos, sociais e econômicos - não tem acompanhado sequer as exigências mínimas do país, apesar de ser dever imperioso da nação para com seus filhos e garantia de seu próprio bem-estar. Concluindo, independentemente do instrumento jurídico que se tenha, por mais avançado que seja, acabará sempre se esbarrando nos problemas sociais, ou seja, na carência cultural que acompanha a população brasileira. Daí que várias empresas, sejam elas multinacionais ou nacionais acabam, na maioria das vezes, se aproveitando da ignorância alheia ao construir seus mega impérios econômicos centralizadores de preços e extintores de quaisquer modalidades de concorrência nos mercados. 2.9 Princípio do Acesso à Justiça

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Primeiramente, far-se-á um breve relato deste princípio no campo constitucional do qual ele emana através do art. 5°, inc. XXXV da Constituição Federal de 1988 in verbis: "a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito", e segundo Nelson Nery Jr. (2002, p. 98) tem-se: "Embora o destinatário principal desta norma seja o legislador, o comando constitucional atinge a todos indistintamente, vale dizer, não pode o legislador e ninguém mais impedir que o jurisdicionado vá a juízo deduzir pretensão". Isto significa que todos têm direito do acesso à justiça para pleitear a tutela jurisdicional reparatória ou preventiva, no que diz respeito a um direito. Contemplando-se aqui tanto direitos individuais quanto coletivos. Todavia, este princípio não está expresso nos incisos do art. 4° do CDC, mas ele se reveste de suma importância, a partir do momento em que o legislador do diploma consumerista, teve como uma de suas grandes preocupações a busca pela criação de novos mecanismos, que pudessem facilitar ainda mais o acesso dos cidadãos à justiça, como um meio de defesa de seus direitos, daí se observarão consubstanciados em vários artigos do código alguns desses caminhos. E para que o consumidor se atenha desta efetividade, conforme Arruda Alvim (1990, p. 31) ensina em termos processuais: a palavra ''efetividade'' alcança uma conotação principalmente sociológica e não meramente jurídico-formal, mas no sentido de que o que conta, em última análise, não é tanto a existência de uma normatividade completa e lógica, em que todos os direito são protegidos pela letra da lei e pelo sistema, mas tão somente aparentemente funcional, pois na verdade, normatividade jurídica, ainda que exaustiva, não é suficiente para satisfazer às aspirações sociais dos segmentos numericamente predominantes e desprotegidos da sociedade. Antes de se prosseguir com o estudo deste princípio, vale a pena diferenciar o que são as concepções jurídico-formais, das concepções jurídico-materiais, apresentadas pelos autores, Antônio Carlos de Araújo Cintra; Ada Pellegrini Grinover e Cândido Rangel Dinamarco (1999, p. 40), em que a primeira é "o exercício conjugado da jurisdição pelo Estado-juiz, ou seja, o complexo de normas e princípios que regem tal método de trabalho", já a segunda, é "o corpo de normas que disciplinam as relações jurídicas referentes a bens e utilidades da vida (direito civil, penal, administrativo, comercial, tributário, etc.)". A necessidade de se dar efetividade ao processo, e facilitação ao acesso à justiça, demandou que se fortalecesse o consumidor, ao inseri-lo numa ordem mais ampla a partir do instante em que se construiu mecanismos processuais que davam tratamento coletivo de pretensões individuais, que se agissem isoladamente pouquíssimas condições teriam de obterem um resultado mais satisfatório.

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E por mencionar o "tratamento coletivo", destaca-se brevemente as ações coletivas de modo geral, que visam a tutela dos interesses difusos (art. 81, parágrafo único, I do CDC), interesses coletivos (art. 81, parágrafo único, II do CDC) e os interesses individuais homogêneos de origem comum (art. 81, parágrafo único, III do CDC). Como dissertado um pouco atrás, em que o princípio do acesso à justiça não se encontra expresso na redação do art. 4° do Código do Consumidor, mas sim exposto por outras normas do mesmo diploma, exemplo deste caso é o que acontece com o art. 6° inc. VII, in verbis: "Art. 6°, inc. VII: o acesso aos órgãos judiciários e administrativo com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção jurídica, administrativa e técnica aos necessitados;" do Título III do CDC que cuida da defesa do consumidor em juízo, ao oferecer a oportunidade de fazer valer seus interesses, inclusive, como já se observou no inc. VII supra citado, de natureza coletiva, e "mediante a ação de órgãos e entidades com legitimidade processual para tanto, sem prejuízo dos pleitos de cunho nitidamente individuais" (FILOMENO, 2001, p. 127). Por fim, com a criação de instrumentos adequados para a proteção do consumidor, nascem dois planos distintos de incidência. O primeiro, se relaciona às possibilidades que se criam para a efetivação da proteção do consumo em juízo, ao contribuir para que se extraia resultados claros e objetivos pertinente ao direito de consumo. A segunda incidência não decorre do uso destes mecanismos em juízo, mas simplesmente de sua potencialidade de uso, ao clamar pela importância da mudança de mentalidade do consumidor, a partir do momento em que ele irá pressionar cada vez mais o Estado, no intuito de conseguir a tutela específica exigidas pelas relações de consumo, que demandam maior agilidade por parte dos órgãos públicos, armando o consumidor do seguinte slogan de que "quem reclama sempre alcança".

3. LIVRE CONCORRÊNCIA, ABUSO DO PODER ECONÔMICO E CONSUMIDOR Conforme a posição de José Geraldo Brito Filomeno (2003, p. 69), diante sua exposição acerca da defesa da ordem econômica, será esta a razão final proteção dos interesses e direito dos consumidores, eis que destinatários finais tudo o que é produzido no mercado, seja em matéria de produtos, seja na serviços". de "a de de

Assim, diante de toda essa principiologia apresentada pelo texto do art. 4° do Código de Consumidor, tema deste trabalho, percebe-se que o diploma consumerista nada mais fez do que colocar na prática, durante o relacionamento entre consumidor e fornecedor, os preceitos constitucionais do Título VII (Da Ordem Econômica e

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Financeira), como um dos princípios que regem a atividade econômica (Capítulo I), ao destacar a importância da proteção ao consumidor, como sujeito mais fraco (vulnerável) da cadeia que compõe as relações de consumo. De acordo com o art. 170 da C.F/88, expressamente referido pelo art. 4° do CDC, diz ele que "a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa tem por fim assegurar a todos, existência digna, conforme ditames da justiça social", observados princípios bem delineados, dentre os quais figuram a livre concorrência e a defesa do consumidor (cf. incisos I e IV, respectivamente, ainda do citado art. 170 da CF/88.) Mais adiante, o art. 173 da Carta de 1988, nos seus § 4° e 5° declaram o seguinte, in verbis: Art. 173, § 4°. A lei presumirá o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados, à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros. § 5°. A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica, estabelecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular. Daí percebe-se, conforme foi observado pelos textos desses dispositivos constitucionais supra citados, a definição do que vem a ser abuso do poder econômico, ou seja, "qualquer forma de manobra, ação, acerto de vontades, que vise à eliminação da concorrência, à dominação de mercados e ao aumento arbitrário de lucros" (FILOMENO, 2003, p. 70). Não obstante, está claro que a proteção e o incentivo às práticas leias de mercado, não interessam apenas aos consumidores, assim como aos fornecedores, que necessitam de uma livre concorrência entre os setores empresariais para que se obtenha uma melhoria da qualidade de produtos e serviços com o aprimoramento da tecnologia, além de melhores opções aos consumidores. Assim observa-se que, se a livre concorrência não é garantida pelo Estado, o mercado será dominado por poucos, o que gera conseqüências drásticas aos cidadãos, tais como, o aumento de preços de produtos e serviços, a queda de sua qualidade, a falta de opções de compra e a obsolência tecnológica. E para que se evite tais abusos, vários mecanismos jurídicos foram instituídos para protegerem os cidadãos, dentre eles a Lei 8.884 de 11 de junho de 1994, que transformou o Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE - em autarquia, dispondo sobre prevenção e repressão às infrações contra a ordem econômica, através do que reza o seu parágrafo único do art. 21, incs. I, II, III, IV, in

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verbis: Parágrafo único. Na caracterização da imposição de preços excessivos ou do aumento injustificado de preços, além de outras circunstâncias econômicas e mercadológicas relevantes, considerar-se-á: I - o preço do produto ou serviço, ou sua elevação, não justificados pelo comportamento do custo dos respectivos insumos, ou pela introdução de melhorias de qualidade; II - o preço do produto anteriormente produzido, quanto se tratar de sucedâneo resultante de alterações não substanciais; III - o preço de produtos e serviços similares, ou sua evolução, em mercados competitivos comparáveis; IV - a existência de ajuste ou acordo, sob qualquer forma, que resulte em majoração de bem ou serviço ou dos respectivos custos. Deve-se lembrar que para se caracterizar o aumento arbitrário dos lucros, há de se observar também o grau de concentração econômica do setor acusado de tal prática. Diante disso, examine-se o que preceitua o § 2° do art. 20 da Lei 8.884/94, in verbis: Art. 20 § 2°. Ocorre posição dominante quando uma empresa ou grupo de empresas controla parcela substancial de mercado relevante, como fornecedor, intermediário, adquirente ou financiador de um produto, serviço ou tecnologia a ele relativa. "E o § 3° arremata essa ordem de idéias acrescentando que ''a parcela de mercado requerida no parágrafo anterior é presumido como sendo da ordem de 20% (vinte por cento)''" (FILOMENO, 2003, p. 71). Ainda de acordo com José Geraldo Brito Filomeno (2003, p. 71), tem-se: A infração de que ora se cuida, portanto, é tipificada pelo inc. III do art. 20 da Lei n° 8.884/94, complementada pelos seus três parágrafos, sobretudo os ora colacionados e suplementada, em termos de metodologia, pelos incisos também ditados do art. 21, no tocante à sua apuração. Portanto, pode-se se conceituar o termo "aumento arbitrário de lucros" como aquele que exceder o limite razoável, levando em conta o teor da concentração de determinado setor da economia, diante o disposto da inteligência do art. 21 da Lei 8.884/94, além de outros dados socioeconômicos e a política das relações de

merecem rigoroso regime repressivo no Código. "Das Práticas Comerciais" do CDC. ensejam sanções pela Secretaria Nacional de Direito Econômico (SNDE) e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) quando declarado estiver o aumento abusivo dos lucros dos detentores da cadeia de produção. em indefinição de preços ou condições. 39 se relacionam intimamente com algumas outras disposições legais. 39 do CDC. mas também a Lei 8. (FILOMENO. Por fim. em sua privacidade e em seu patrimônio. 2003. V do referido art. diversas prescrições previstas no art. 72). "Essas práticas". ou ao realizado. 71). p. 1° da Lei 7. 39 do CDC. em investidas. ou em cobrança de valores excedentes ao ajustado. X ao dispor que. no plano negocial. in verbis: "exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva". Bittar prossegue nesse raciocínio. p. inc. 1° Regem-se pelas disposições desta Lei. Um outro comportamento abusivo que merece destaque é o disposto no inc. de acordo com Carlos Alberto Bittar (apud. quanto a caracterizarem os abusos do poder econômico "prática abusiva manifesta".158/91 e a Lei 4. avançam em correspondência com uma necessidade real. sem mencionar os textos jurídicos que tipificaram os delitos contra a ordem econômica e as relações de consumo. por Filomeno desenvolvido.137/62. 71): ao turbarem a livre possibilidade de escolha do consumidor. em sua seção IV.51 consumeristas. Assim serão destas leis. elevar sem justa causa o preço de produtos e serviços. que modificou o art. Com relação ao Capítulo V do Título I.347/85 (Ação Civil Pública). outro aspecto que merece ser destacado é o art. em detrimento do consumidor de produtos e serviços ao revelar que: Residindo. a Lei n° 8. no âmbito de serviços. p. não apenas a Lei 8. 2003. 2003. que diz o seguinte. acrescendo-lhe ônus injustificados que em uma negociação normal não estariam presentes. ou em recusas. fica vedado ao fornecedor. os acordos entre concorrentes dentre outros tipos de articulações os "exemplos típicos de abuso nesse campo de lesão aos consumidores" (FILOMENO. através de leque diversificado de medidas protetivas e sancionamento (preventivos ou repressivos). pois além dele. sem prejuízo da ação popular. as ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados: . in verbis: Art.078/90. tais como. no seu inc.884/94. FILOMENO. as especulações no mercado. que excedem os limites normais da prática comercial e. V.

administrativos e judicial. a proteção ao meio ambiente. 21 da Lei 8. o que revela uma infração à ordem econômica. Com relação aos aspectos processuais e procedimentais. à livre concorrência. de 24 de julho de 1985. 88 da Lei 8. sem justa causa. exigindo-se do acusado que demonstre que houve justa causa para a elevação do preço. II do art.. por exemplo". Além disso. ou ao patrimônio artistíco. in verbis: II . o preço de bem ou serviço. em que só valem no âmbito de determinada ciência. esta lei teve.Apesar dos princípios gerais de direito estarem enquadrados na categoria dos princípios monovalentes.. Por conseguinte.134/90 estatuiu que se considera consistente a conduta que "elevar. os preços de seus produtos ou serviços. No que se refere à tutela penal a Lei 8. por força do art.] se verifica com a simples constatação de que houve a elevação de preços sem justificativa plausível.884/94. sempre tendo-se em vista. turístico e paisagístico. p. e 8. previstos nesta Lei as disposições do Código de Processo Civil e das Leis 7.. não se pode deixar de levar em conta que eles também são princípios omnivalentes. Assim conclui. pois: "[.884/94. valendo-se de posição dominante no mercado".. à ordem econômica. p. 73) CONCLUSÃO 1. entre suas finalidades institucionais. estético. 83 da Lei 8. ao consumidor. José Geraldo Brito Filomeno (2003. . in verbis: "Aplicam-se subsidiariamente aos processos..]. constante do art.. 5° modificado no que diz respeito às condições para a legitimação de entidades com vistas à propositura de ações coletivas. o inc. e em setor econômico no qual o infrator desfruta de posição dominante em virtude de monopólio ou oligopólios. por óbvio.] V.52 [. 2003. dado ao fato desta categoria de princípios serem comuns a todas as formas de saber.. (FILOMENO. e a dominação do mercado.] é crime contra a ordem econômica aquela conduta.884/94.. 73): [.347. histórico. que.078/90 de 11 de setembro de 1990". [. e não uma mera elevação de preços de seus produtos e serviços.por infração da ordem econômica e da economia popular. diz o art.inclua. Se o agente aumenta sem quaisquer fundamentos. o delito será de mera conduta ou formal. consequentemente aumentará sua margem de lucro.

representação dos interesses coletivos dos consumidores e satisfação das necessidades. mais fraco será o respeito aos valores postulados pelo sistema constitucional do mesmo. 3. para uma melhor aplicação e integração de seus textos.Para melhor análise do corpo normativo de um sistema jurídico.A criação da Lei 8. compensação ao consumidor.Os princípios gerais de direito atingem o seu apogeu. 11. 5. a filosofia de ação da defesa do consumidor está esculpida no texto do art. que preceitua que o Estado promoverá. 7.O princípio da integração é uma estratégia política. XXXII da Constituição Federal da República Federativa do Brasil. 4° do Código de Defesa do Consumidor.A Política Nacional das Relações de Consumo. deve se buscar a compreensão de seu princípios. informação e conselhos.O art.É tarefa do intérprete buscar o exame dos ditames constitucionais na busca de soluções aos fatos que se apresentam no seio da sociedade. 5°. 4. num primeiro momento. 8. na ação . antes do ano de 1990. os seguintes tópicos: educação. 9. está prevista legalmente no caput do art. inc. O consumo sustentável é a necessidade de que o homem deve se policiar cada vez mais no hábito de seus consumos.São aspectos mais comuns de interesse da política tradicional ao consumidor. XXXII da Carta Magna do Brasil.Quanto maior a instabilidade política de um país. ou durante o ato da criação de novas normas. que foi o momento da criação do Código de Defesa do Consumidor através do art. a partir do momento em que alcançam a mais alta posição do Direito Positivo que é o grau constitucional. para que este não se degrade de forma irreversível ao atender às suas necessidades básicas através do consumo exagerado. na forma da lei.53 2. que busca a união de vários setores políticos quanto econômicos. inc. que buscam uma melhor forma de atender às necessidades básicas do homem aliada à proteção ao meio ambiente. proteção dos interesses econômicos dos consumidores. segurança. 5°. ao fundamentarse no reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado.Os princípios basilares. no intuito de preservar o meio ambiente. 4° e seus incisos do CDC. 12. a defesa do consumidor. se encontrava na sua fase programática. ou melhor. 48 da ADCT (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias).078/90 foi uma extensão do princípio constitucional elencado pelo art. 10. de caráter interdisciplinar. para depois examinar as leis infraconstitucionais. 6.

na educação e informação de fornecedores e consumidores. dentre outros meios de difusão da informação. São Paulo: Ed.137/62. Vol. 12.158/91.884/94. contratos. 2002. BIBLIOGRAFIA ALVIM. a Lei 8. tais como. 2002. 41. o Brasil possui várias legislações esparsas que têm como objetivo a proteção contra tais atrocidades. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. ainda pelos fornecedores. RT. propagandas. de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços. A política de Proteção do Consumidor: Desafios à frente. São Paulo: Ed. ALVIM. Arruda. Paulo.A informação é uma das maiores armas das quais os consumidores. 1. do mercado fornecedor. Vol. Curso de Direito Tributário. jan. Malheiros. a Lei 8.Apesar da grande falta de resultados mais concretos efetivos. BOURGOIGNIE. Código de Defesa do Processual Civil. a Lei 4. quanto aos seus direitos e deveres com vistas à melhoria do mercado. 1990. marketing. 15. Consumidor Comentado. São Paulo: Forense Universitária. podem se utilizar no intuito de se proteger contra os potenciais abusos de anúncios. 14. BONAVIDES. a própria Lei 8. Thereza.54 governamental no sentido de protegê-lo efetivamente. Eduardo Arruda. _______. pelos quais os cidadãos podem se beneficiar contra os abusos do poder econômico. 13. São Paulo: Saraiva. Tratado de Direito BARROS CARVALHO. Curso de Direito Constitucional. ed. BENJAMIN. 1991. ALVIM. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor. incentivos à criação.347/85 que disciplina a Ação Civil Pública que viabiliza a proteção dos interesses difusos e coletivos. Paulo de. 1995.- . São Paulo: Ed.A boa-fé é um princípio basilar que está consubstanciado por todo corpo normativo do Código do Consumidor. Arruda. e SOUZA. Thierry..078/90 e a Lei 7. James Marins de. assim como de mecanismos alternativos de solução de conflitos de consumo. Antônio Herman de Vasconcelos. a concorrência desleal e dos crimes contra a ordem tributária. RT.

Teoria Geral do Processo. ed. Luis Gustavo Grandinetti Castanho de. Malheiros. 66 ./1990. 2001 FILOMENO. São Paulo: Saraiva. 41. 7. . p. José Geraldo Brito. 5.-mar.-dez. São Paulo: Ed. São Paulo: Ed. 5. São Paulo: Ed. ed. Malheiros. CRISAFULLI./2002. Nelson. CINTRA. 1999. Martins Fontes. DINAMARCO. p. Celso Antônio Bandeira de. Direito Constitucional. Manual de Direitos do Consumidor. Revista de Direito Mercantil. 24. Vol. out. MONTEIRO. ed. 2001. RÁO. GRINOVER. RT. 1. 1992. Vicente. V. ed. 15. Rio de Janeiro: Ed. 1 FILHO. Cláudia Lima./2002. COMPARATO.]1976.263.75. 3. 2002. 1998. 1999. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor. Teoria Pura do Direito. ed. ______. O Direito e a Vida dos Direitos. 253 . Coimbra: Almedina. [s. ed. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. 2002. Lumen Juris. Lezioni di Diritto Costituzionalle. MELLO.55 mar. 1997. CANOTILHO. Ação Civil Pública. Washington de Barros. Joaquim José Gomes. 6. NERY JÚNIOR. Padova. Princípios do Processo Civil na Constituição Federal. Cândido Rangel. ed. A proteção do consumidor na Constituição brasileira de 1988. São Paulo: Ed. 6. Vol. São Paulo: Ed. Vol. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 30 . jan. 2003. ed. ed. José dos Santos Carvalho. Curso de Direito Civil.38. José Geraldo Brito. A informação como bem de consumo. São Paulo: Atlas. p. São Paulo: Ed.e. 80. CARVALHO. RT. KELSEN. 3. 7. MARQUES. 2002. Antônio Carlos de Araújo. Contratos no Código de Defesa do Consumidor. Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade. Vol. Hans. tradução João Baptista Machado. Fábio Konder. Ada Pellegrini. RT.

56 REALE. 3 TEMER. 2002. 24. São Paulo: Saraiva. São Paulo. Ed./2001. Tiago Cardoso. Lições Preliminares de Direito. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor. 40. 1999. Vol.-dez. São Paulo: Saraiva. RT. ed. Direito Civil. p. Vol. . 7. 28. 170 .198. Silvio. RODRIGUES. Miguel. out. 1990.. ed. Elementos de Direito Constitucional. A Interpretação Constitucional do Código de Defesa do Consumidor e a Pessoa Jurídica como Consumidor. Michel. ed. ZAPATER.

será disposta da seguinte maneira: a) faz-se um estudo dos fatos sociais que ocasionaram as disparidades nas relações entre fornecedor e consumidor. 1.4.1.1. pormenorizadamente.6. Nesta desigualdade social. 5. 7. Vulnerabilidade Econômica e Social.2. Vulnerabilidade Ambiental. Algumas formas de tornar o consumidor vulnerável nos contratos. A tutela do consumidor como decorrência da sua vulnerabilidade nas relações de consumo. Vulnerabilidade Política ou Legislativa.57 O princípio da vulnerabilidade e a defesa do consumidor no direito brasileiro: origem e conseqüências nas regras regulamentadoras dos contratos e da publicidade Autores Alírio Maciel Lima de Brito Haroldo Augusto da Silva Teixeira Duarte "A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais. o princípio da vulnerabilidade no ordenamento jurídico brasileiro (Lei 8. 5. 6. Do contrato de adesão. Regra da interpretação mais favorável ao pólo vulnerável da relação e integração contratual. A Vulnerabilidade e suas espécies. 6.2. inciso I: "reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo").4 Controvérsia acerca da aplicação do CDC nos contratos bancários: ADI 2.Conclusão. Efeitos da vulnerabilidade do consumidor na tutela legal da publicidade.3. Regras que vinculam a publicidade no CDC.591. 6. 6. Vulnerabilidade Jurídica. tendo em vista a sua utilização como fundamento filosófico de todo o movimento de Defesa do Consumidor. Vulnerabilidade Psíquica ou Biológica. 3. b) é realizada uma . 3. Introdução. 3. Por imperativo de sistematização. 3.078/1990. 6. Introdução O presente trabalho visa analisar.1 Conceito de Publicidade. na medida em que se desigualam. Vulnerabilidade Técnica.3. é que se acha a verdadeira lei da igualdade" (Rui Barbosa).3. 3. artigo 4º. Vulnerabilidade nos contratos.5. 3.2 Natureza Jurídica: seria a publicidade compatível com o clássico conceito de oferta?. 4. proporcionada à desigualdade natural. 2. 3. 5. a abordagem. 5. Vulnerabilidade X Hipossuficiência. SUMÁRIO: 1.

Baseado nessa vulnerabilidade do consumidor. 5º. e Benjamin ao prefaciar o livro de Moraes (1999. As relações de consumo deixaram de ser pessoais e diretas. bem como a princípio da ordem econômica. a defesa do consumidor"). além de prever no artigo 48 do ato das disposições constitucionais transitórias a elaboração de um Código de Defesa do Consumidor (CDC). com a revolução tecnológica (fenômeno decorrente do grande desenvolvimento técnico alcançado no pós 2. No caso brasileiro a constituição de 1988 alçou a defesa do consumidor ao patamar de direito fundamental (art. A tutela do consumidor como decorrência da sua vulnerabilidade nas relações de consumo As transformações havidas no processo produtivo desde a revolução industrial (segunda metade do século XVIII) e..10): O princípio da vulnerabilidade representa a peça fundamental no mosaico jurídico que denominamos Direito do Consumidor. p.05). Essa nova configuração do mercado baseada na produção em massa. níveis educacionais e poder aquisitivo’" (Almeida. c) finaliza-se com um estudo sobre a publicidade e os contratos. Assim visualiza-se a importância do princípio da vulnerabilidade como fundamento dessa nova disciplina jurídica.58 abordagem sistemática do princípio da vulnerabilidade.ª Guerra Mundial) ocasionaram uma profunda alteração nas relações de consumo. uma transformação ou amenização deste sistema predatório. 2. passou a ser uma exceção. A partir de então.. foi iniciado um movimento no âmbito internacional com o intuito de reequilibrar as relações entre consumidores e produtores. É lícito até dizer . XXXII: "o Estado promoverá. pelo domínio do crédito. na forma da lei. e por isso. principalmente. No ano de 1985 a ONU pela resolução 39/248 "baixou norma sobre a proteção do consumidor (. pois é utópica a possibilidade de autocomposição entre os integrantes das relações de consumo sem a intervenção estatal. requerendo. Diante dessa conjuntura percebeu-se que o consumidor estava desassistido. a produção caracterizada pela elaboração artesanal de produtos e restrita ao âmbito familiar. tendo em vista que estes são uns dos principais focos de vulnerabilidade do consumidor. Segundo Antônio Herman V. dessa maneira. necessitava de uma proteção legal. e práticas comerciais abusivas colocou o consumidor numa situação de extrema precariedade frente aos agentes econômicos. marketing. 2002. fulminando com o relativo equilíbrio existente entre as partes. p.) reconhecendo expressamente ‘ que os consumidores se deparam com desequilíbrios em termos econômicos.

Para tanto. Logo podemos afirmar que a presunção da vulnerabilidade do consumidor é absoluta. vulnerabilidade é o princípio segundo o qual o sistema jurídico brasileiro reconhece a qualidade do agente(s) mais fraco(s) na(s) relação (ões) de consumo. independente da classe social a que pertença. 3. utilizaremos a divisão dada por Moraes (1999. que é ilimitada. ambiental. isto é. Dessa forma.2. econômica e social [01]. conhecimentos de contabilidade ou de economia".. Em sentido contrário encontramos a posição de Marques (2002. Vulnerabilidade Técnica A vulnerabilidade técnica decorre do fato de o consumidor não possuir conhecimentos específicos sobre os produtos e/ou serviços que está adquirindo.1. assim. Esta vulnerabilidade concretiza-se pelo fenômeno da complexidade do mundo moderno.. e benefícios dos produtos e/ou serviços adquiridos diuturnamente [02]. quer na esfera administrativa ou judicial.115 e ss): técnica. ficando sujeito aos imperativos do mercado. impossibilitando o consumidor de possuir conhecimentos das propriedades. literalmente. biológica ou psíquica. por sua natureza. A Vulnerabilidade e suas espécies Vulnerabilidade. se manifesta: "é a falta de conhecimentos jurídicos específicos. jurídica. a sofrer ataques. No Direito. Vulnerabilidade jurídica Esta espécie de vulnerabilidade manifesta-se na avaliação das dificuldades que o consumidor enfrenta na luta para a defesa de seus direitos. Iniciaremos agora o estudo dos tipos de vulnerabilidade para torná-lo mais aprofundado. é pressuposto para o correto conhecimento do Direito do consumidor e para a aplicação da lei.) A compreensão do princípio. malefícios. . 120) que. tendo como único aparato a confiança na boa-fé da outra parte. p. 3. daquele que está suscetível. de qualquer lei. assim. 3. que se ponha a salvaguardar o consumidor. significa o estado daquele que é vulnerável.59 que a vulnerabilidade é o ponto de partida de toda a Teoria Geral dessa nova disciplina jurídica (. o consumidor encontra-se totalmente desprotegido. p. assim. já que não consegue visualizar quando determinado produto ou serviço apresenta defeito ou vício. a sua incolumidade física e patrimonial [03]. política ou legislativa. colocando em perigo.

na tramitação do Código. as associações de fornecedores possuem força no cenário político nacional. etc. p.151) "essa motivação pode ser produzida pelos mais variados e eficazes apelos de marketing possíveis à imaginação e à criatividade orientada pelos profissionais desta área" [04].60 Consoante os ensinamentos de Moraes (1999.. prevendo sua derrota nos plenários das duas casas. 3. . Segundo Moraes (1999. inclusive. Vulnerabilidade Psíquica ou Biológica O consumidor é atingido por uma infinidade de estímulos (visuais. olfativos. Por isso nos dias atuais percebemos a importância desta motivação.. p. por se tratar de Código. É que. capaz de criar desejos.) que devido a sua própria constituição orgânica influenciam na tomada da decisão de comprar determinado produto. inexistem associações ou órgãos "capazes de influenciar decisivamente na contenção de mecanismos legais maléficos para as relações de consumo e que acabam gerando verdadeiros ‘monstrengos’ jurídicos" (Moraes.5.09).3. p. Ao contrário. A dissimulação daquilo que era Código em lei foi meramente cosmética e circunstancial.120) discordamos da conceituação oferecida pela ilustre jurista. necessidades e manipular manifestações de vontade como uma forma de influenciar o consumidor. auditivos.. Podemos destacar como uma dessas formas a introdução dos contratos de adesão e os submetidos às condições gerais (ou condições gerais dos contratos – CONDGs) [05]. Aqueles detêm condições objetivas de impor sua vontade através de diversos mecanismos. p..132). através de uma manobra procedimental.4. um grande lobby junto ao Congresso Nacional. pois da maneira por Ela exposta estamos diante da vulnerabilidade técnica. Vulnerabilidade política ou legislativa A vulnerabilidade política ou legislativa decorre da falta de organização do consumidor brasileiro. o lobby dos empresários. 1999. Vulnerabilidade Econômica e Social A vulnerabilidade econômica e social é resultado das disparidades de força entre os agentes econômicos e os consumidores. (Pellegrini. tratada anteriormente. notadamente o da construção civil. 3. 2001. impedir a votação do texto naquela legislatura. necessário era respeitar um iter legislativo extremamente formal. sob o argumento de que. possuindo. químicos. buscou. Essa situação foi presenciada quando da tramitação do atual Código de Defesa do Consumidor: . dos consórcios e dos supermercados. 3.

a facilitação da defesa de seus direitos. em que todos habitam o mesmo planeta. a critério do juiz. Segundo Mirian de Almeida Souza apud Moraes (1999. já que os conceitos apresentam realidades jurídicas distintas. todo consumidor teria direito à inversão do ônus da prova.. inclusive com a inversão do ônus da prova. no processo civil. quando.162): . Vulnerabilidade Ambiental Esta espécie de vulnerabilidade é decorrência direta do consumo em massa da nossa sociedade. Uma visão sistêmica do direito do consumidor. 4º. Portanto. Ou seja. 3. 5. Já a hipossuficiência [07] é uma marca pessoal de cada consumidor que deve ser auferida pelo juiz no caso concreto. Embora haja essas diferenças é comum a utilização desses termos como sinônimos [06]. ocasionado pelo uso irracional dos recursos naturais de nosso planeta. faz deste direito o reverso da moeda do direito ambiental. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. o ‘consumerismo’ destrutivo do meio ambiente é inerente ao modelo vigente da indústria e agricultura. inciso I do CDC. tendo em vista o art. bem como conseqüências jurídicas diversas.6. a seu favor. é errônea a utilização dos termos como sinônimos. segundo as regras ordinárias de experiência (grifamos). Vulnerabilidade X Hipossuficiência Para finalizar essa parte do trabalho iremos traçar os elementos distintivos entre a vulnerabilidade do consumidor e sua hipossuficiência no mercado de consumo. surge a cada dia a necessidade de uma maior presença do Estado no âmbito econômico para harmonizar essas relações de consumo. Conforme afirmado anteriormente o princípio da vulnerabilidade é um traço inerente a todo consumidor de acordo com o art. p. Como parte do meio ambiente o homem fica sujeito a uma gama de alterações havidas neste. Efeitos da vulnerabilidade do consumidor na tutela legal da . e todos sofrem prejuízos biológicos em diversos graus por causa do abuso do meio ambiente. 6º.. inciso VIII do CDC que assim dispõe: São direitos básicos do consumidor: VIII . 4. em que todos têm participação em diversos graus através da sociedade de consumo. já que se assim o fosse.61 Assim.

2 Natureza Jurídica: seria a publicidade compatível com o clássico conceito de oferta? Conceituado o objeto de nosso estudo. vez que no seu capítulo V. assinalando quais são as condutas ilícitas e os meios através dos quais o direito assegura a proteção dos consumidores.62 publicidade Passaremos. 5. Deteremo-nos inicialmente com a publicidade. se usa a expressão publicidade. Não vislumbramos quanto à sua essência. cit. respectivamente a II e III. Existem conceitos dos mais diversos para a atividade que visamos descrever. destinada a informar. divulgar e promover a oferta de idéias. bastaria uma rápida leitura do CDC para concluirmos que tal possibilidade é com ele incompatível. Limitou-se. não há de se falar na existência de publicidade se não se fizer notar o mínimo de informação a respeito do produto/serviço que se quer vender ou divulgação dessa informação.1 Conceito de Publicidade Compete-nos conceituar publicidade. há uma distinção quanto ao uso desses termos: quando se objetiva a venda de um produto. e que acabam. Já a publicidade tem muitas vezes apenas o afã de mostrar que o anunciante está propenso a contratar. À conclusão muito semelhante chegou o doutrinador mencionado [10]. existe uma seção dedicada à oferta e outra à publicidade.66). Eis qual a diferença principal entre os dois institutos: Com a proposta basta que se dê a aceitação do policitado para que se aperfeiçoe o contrato. 5. Mas não seria meramente o fato do CDC distinguir tais conceitos que nos daria base para não aceitar a classificação da publicidade como espécie de oferta. distinção alguma. uma vez que em ambos os casos o que há é a divulgação de determinada informação.) se põe a diferenciar o conceito de publicidade do de propaganda. nos lançaremos ao problema de sua natureza jurídica. 1985. a tratar das repercussões da incontroversa vulnerabilidade do consumidor no âmbito da publicidade e do contrato. p. que trata das práticas comerciais. a fazer referência a dois elementos que reputamos serem essenciais: a informação e a divulgação [09]. Para a economista Raimar Richers publicidade é: A comunicação. Tentadora é a hipótese de considerarmos como sendo proposta [11]. No entanto. Na realidade. Lembraríamos ao leitor que não há no Código Brasileiro de Defesa do Consumidor um conceito para o objeto de nossa análise. Ao passo que quando se tem por objeto a propagação de idéias políticas ou religiosas se utiliza do termo propaganda. apenas a esboçar conceituação de publicidade enganosa e abusiva [08]. ob. Morais (1999. tendo por . bens e/ou serviços por parte de um patrocinador identificado (Richers. agora. o legislador. através de meios impessoais (impressos e eletrônicos). E de fato. invariavelmente.

mas não solucionamos. a área de atuação e outras informações básicas tendo a intenção de atrair clientes e. 2. seja uma campanha publicitária. Regras que vinculam a publicidade no CDC É do conhecimento de todos o tamanho poder que os meios de comunicação em massa (mass media) detêm. B) Vinculação contratual: por força dos artigos 30 e 35 do CDC não só a publicidade. que para se aperfeiçoar necessitaria apenas da adesão por parte do policitado. descartamos de antemão a possibilidade de um ser gênero do outro [12]. não de estabelecer todas as condições de um futuro contrato. O que se objetiva aqui é evitar que informes publicitários passem por jornalísticos ou educativos. Nesse caso. Resolver o contrato em perdas e danos [15] obtendo o ressarcimento das parcelas então empenhadas. posto que este se encontra em posição de vulnerabilidade psíquica frente àquela. nos casos em que exista incongruência entre as cláusulas ou condições gerais presentes na publicidade e no contrato. o problema que anunciamos o qual será elucidado por Lôbo com o qual concluímos esse tópico: "Assim. citaremos tais normas. fácil e imediatamente. estabelecendo normas que possuem por objeto regular a publicidade e proteger o consumidor. A) A identificação da publicidade: Em consonância com o artigo 36 do CDC a publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor. Aquilo que é veiculado na televisão. acaba por entrar na esfera das convicções do indivíduo sem que haja uma valoração crítica e analítica dos fatos. ou 3. Não infundadamente se diz até que se trata de um quarto poder. não se pode considerar a publicidade como oferta.3.63 objetivo atrair o consumidor. os elementos essenciais do contrato a ser celebrado (de compra e venda) já estão determinados: a coisa e o preço. a identifique como tal. Diferenciados os dois institutos. 5. Exigir o cumprimento da oferta. como também a oferta [14] integram compulsoriamente o contrato que venha a ser firmado. é dada ao consumidor faculdade de proceder de três diferentes formas: 1. Exemplo de publicidade é o anúncio corrente em jornais e revistas nos quais apenas se veicula o logotipo do estabelecimento. ainda. Aceitar outra prestação equivalente àquela difundida. revistas e jornais seja uma notícia. melhor se concebendo como modo de integração compulsória aos contratos de consumo" [13] (2000). no sentido tradicional do termo. . A seguir. apresentação ou publicidade. Tal é a razão pela qual o Estado interveio. Em decorrência disso. rádio. por meio do CDC. É exemplo de oferta ad incertam persona a exposição em vitrine de produto com seu respectivo preço.

veriam seu pedido julgado improcedente por falta de provas graças a sua vulnerabilidade que o impede de produzi-las. possuidores de bons direitos. um compromisso de veracidade daquilo que é divulgado em campanha publicitária. G) Correção do desvio publicitário: Por imperativo do art. inciso XII do CDC. parágrafo único da lei em tela. F) Transparência da fundamentação publicitária: O fornecedor deve ter consigo os dados fáticos que fundamentem a informação veiculada. na doutrina. a publicidade discriminatória. a parte que alega a ocorrência de determinado fato é que suporta a carga de prová-lo. da existência de verossimilhança daquilo que é alegado ou de hipossuficiência do autor. 56. aqueloutra se dá independentemente de qualquer análise por parte do magistrado pelo fato de derivar. Saliente-se que a inobservância desse dever por parte do fornecedor enseja a caracterização da já referida propaganda enganosa por omissão. Naquela. in casu. teríamos que consumidores. Razão pela qual o CDC fez duas previsões de inversão do ônus da prova: uma ope legis (ao artigo 38) e outra ope judicis (ao artigo 6º. do caput do artigo 37 se tem por proibida toda publicidade abusiva. É definida por enganosa qualquer modalidade de informação publicitária inteira ou parcialmente falsa. dentre outras. assim. de caráter explicativo.64 C) Regra da veracidade: Na cabeça do artigo 37 do CDC existe a proibição de toda publicidade enganosa. tão bem quanto o fornecedor. em última análise. etc. mesmo que por omissão [16]. como a interpretação contra o mesmo. Entende-se. Acontece que se tal preceito fosse cruamente aplicado nas relações de consumo. impondo-se. Leva-se em conta que para corrigir os malefícios causados aos consumidores o único meio eficaz é fazendo uso da própria publicidade sob o nome de contrapropaganda: Trata-se de veiculação de outra publicidade para sanar os malefícios causados pela publicidade originária. que se aproveite da deficiência de julgamento da criança. que o abuso é o uso irregular de uma faculdade que a princípio se apresentava como regular e legítima [17]. é o que impõe o artigo 36. nos seguintes termos: É abusiva. da presunção legal de vulnerabilidade do consumidor [18]. o desvio da publicidade possuirá não só efeitos civis e penais como também publicitários. Eis a segunda modalidade de publicidade ilícita. De tal inversão decorre que a prova da veracidade daquilo que é anunciado cabe ao fornecedor. D) Regra da não-abusividade da publicidade: Por força. dessa forma. às suas expensas. o fornecedor. explore o medo ou superstição. E) Inversão obrigatória do onus probandi: Como é do conhecimento do leitor. Enquanto que esta se opera mediante uma valoração. VIII). informa corretamente ao consumidor. no processo. desfazendo os erros de anúncio . que incite à violência. também. Ao tentar delimitar o que viria a ser abusividade o referido codex listou rol não taxativo.

Textos préconstituídos unilateralmente e 3. que se trata de instrumento que confere ao fornecedor pujantes meios de abusar da boa-fé ou do estado de necessidade do consumidor.ADI 2. Daí. razão pela qual merece (sim) uma especial fiscalização e especial tutela legal (inserida no nosso ordenamento com o CDC) que sejam capazes de compensar a vulnerabilidade do consumidor e refrear os abusos contratuais que. que usando de termos técnicos do meio econômico ou . um ato abusivo que mereça ser coibido. Uso em massa: no sentido em que regem as interações econômicas entre um fornecedor e seus distintos consumidores. toda a etapa pré-negócial. Vulnerabilidade nos contratos Discorreremos. 6.2. 6.591 -). É de se frisar que a simples adoção da espécie contratual em comento não constitui. os elementos essenciais dos contratos de adesão: 1. das regras interpretativas das cláusulas contratuais e da questão. 6. alguns dos quais passaremos a comentar infra [20]: A) Tecnismo dos termos contratuais: Os instrumentos contratuais em geral devem ser escritos de modo a possibilitar a compreensão de seu conteúdo sob pena de comprometer a validade da vontade que ali se expressa e. vindo a possibilitar uma dinâmica circulação de riquezas. então em voga (pelo advento da Ação Direta de Inconstitucionalidade . da aplicação do CDC aos contratos bancários. difusão do modo de vida ocidental e (conseqüência que mais nos interessa) uniformização dos vínculos jurídicos entre fornecedor e consumidor. Acontece que tal imperativo comumente é inobservado pelo elaborador do contrato. agora. Algumas formas de tornar o consumidor vulnerável nos contratos Podemos notar. tópico 10).65 original. de alguns meios utilizados pelo fornecedor que tornam vulnerável o consumidor. estudando o instituto do contrato de adesão. conseqüentemente. Podemos extrair do que foi exposto. uma vez que com instrumentos pré-formulados se vencia. Tal processo trouxe-nos algumas conseqüências das quais destacaríamos: massificação das necessidades de consumo. ao passo que é instrumento útil ao atual estágio de desenvolvimento capitalista. com um único passo. (Gonçalves.1. 2. 2002. Do contrato de adesão Desde a revolução industrial o mundo vem assistindo a uma gradual massificação da produção dos bens da vida. surge naturalmente a necessidade de uso de contratos-tipo. Formação dos contratos com a adesão (que só poderá se dá em bloco) do consumidor [19]. que envolve toda uma cadeia de ajustamentos. via de regra. per si. a respeito dos contratos de adesão (muito usados nas relações de consumo). ocorrem em sede de contratos standart. a obrigatoriedade do pacto.

66 jurídico. assim como entendimentos dos Ministérios Públicos e decisões administrativas dos Procon’s. no qual sob a alegação de proteção ao princípio da autonomia da vontade se impedia que o Estado interferisse nas relações privadas a fim de promover os ajustamentos necessários a colocar em igualdade de condições os naturalmente desiguais.4 Controvérsia acerca da aplicação do CDC nos contratos bancários: ADI 2. Fazendo de sua leitura e interpretação uma tarefa árdua mesmo para profissionais do meio. extenso e cláusulas abusivas. 51 traz lista. verbis: "a nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato. decorrer ônus excessivo a qualquer das partes" (destacamos). em um único texto vários contratos distintos. que pelo Decreto 2181 de 1997 recebeu essa atribuição. Moraes (1999. uma consignação de entendimentos que foram consagrados em nossos tribunais ao longo das décadas que antecederam ao referido codex [21]. as quais serão consolidadas (através de portarias) pela Secretária de Direito Econômico. o fato de decorrer dessa norma a possibilidade do magistrado declarar nulidade de cláusulas contratuais. de cláusulas consideradas abusivas e que. O que não ocorre. 6. com a possibilidade de. B) Complexidade e extensão do contrato: Tanto o tecnismo como o uso constante de remissões a outras cláusulas do instrumento contribuem para torná-lo mais complexo. apesar dos esforços de integração. deixa o texto nebuloso aos olhos do consumidor. Acreditamos que tal possibilidade (de integração contratual pelo Judiciário) é legítima e prevista no artigo 51 §2º do CDC. C) Cláusulas abusivas: O CDC. no afã de buscar a solução mais favorável ao consumidor. Tal rol é na realidade. exceto quando de sua ausência. em seu art. Estaria incompleto o presente estudo se não fizéssemos referência. por mais . na verdade. E por essa razão. [22] 6. ao contrato. dentro de um contexto de disseminação do uso de contratos padronizados com texto nebuloso. como tais. Sendo que o entendimento em contrário nada mais é que o resquício de um tempo. 227) relata que de certa feita precisou de mais de cinco horas ininterruptas para analisar contrato que além de complexo era deveras extenso pelo fato de conjugar. no entanto. É inconteste. na doutrina. são nulas de plenos direito. p. não exaustiva. é o da interpretação que lhe seja mais favorável (artigo 47 do CDC). tornando-o ainda mais suscetível a sofrer lesões. novas disposições. ele pode ser complementado pela jurisprudência. vir o juiz a acrescentar.591. Regra da interpretação mais favorável ao pólo vulnerável da relação e integração contratual Preceito fundamental para uma eficaz proteção do consumidor. não muito distante.3.

é falsa. Essa é . posto que tal matéria. (imposição da boa fé. §3º). 2. destinadas de forma imediata a reger o comportamento dos indivíduos considerados isoladamente ou coletivamente. depósitos bancários. por exemplo. destinadas a regular a constituição e funcionamento de institutos publicamente relevantes como o sistema financeiro nacional. por deixar clara a clássica distinção entre "normas de conduta" e "normas de organização".595/64 que legitima a taxa de juros superior a 12% ao ano. aquelas. abertura de crédito e todas as operações bancárias ativas e passivas como relação de consumo. qual seja: a de que o CDC é uma norma de organização que regulamenta o sistema financeiro nacional. que esses deixam mostrar de forma mais proeminente a sua vulnerabilidade. A pretendida inconstitucionalidade formal residiria no fato de que. posto que o CDC traz em seu seio normas de conduta destinadas a reger relações de consumo.67 pontual que seja. Em parecer elaborado. incompatibilidade entre o referido dispositivo constitucional e a norma do artigo 3º. o sistema financeiro nacional só pode ser regulado por Lei Complementar e não por Lei Ordinária como o CDC. etc) seria aplicável normalmente aos contratos bancários [25]. na parte que se refere à limitação dos juros reais em 12% ao ano. por força do dispositivo constitucional. 192. cartões de crédito. voltou à baila com o advento da ADI. o STJ firmou sólido entendimento no sentido de que o CDC. Inicia. muito embora possua previsão constitucional (art. de seguros. a doutrinadora. Segue afirmando que a premissa na qual se fundamentou o CONSIF para propor a ação. financeira. A controvérsia. regras sobre responsabilidade por fato e vício do produto e do serviço. Justifica-se a assertiva anterior com a constatação de que são nos contratos bancários. Razão pela qual não vê. que parecia então pacificada. mediante consulta do Instituo Brasileiro de Política e direito do Consumidor – BRASILCON. à controvérsia muito recentemente suscitada (ou ressuscitada) a respeito da consideração (ou não) das cadernetas de poupança. a jurista.591 proposta pelo CONSIF – Confederação Nacional do Sistema Financeiro – cujo julgamento junto ao STF foi iniciado. em 17 de abril de 2002 graças a pedido de vista do Min. de crédito e securitária" em face do artigo 192 da CF. O objeto dessa ação é o de declarar a inconstitucionalidade da expressão "inclusive as de natureza bancária. Nelson Jobim. em sua parte propriamente consumerista. contratos de mútuo. e com a constatação de que tais contratos estão de tal forma disseminados que é difícil encontrar quem nunca os celebrou [24]. precisa de lei complementar que a regulamente. e estas. Sobre o tema. feitos em série e muitas vezes elaborados de modo a lesionar o consumidor [23]. Deixando claro que o CDC se aplica aos contratos bancários. com a devida ressalva do campo de atuação da lei 4. pela douta jurista Cláudia Lima Marques existe farta e elaborada contra-argumentação que leva à conclusão da improcedência do pedido. §2o do CDC. adoção do in dubio pro consumidor. de Direito Financeiro. e logo interrompido. no entanto. Não o sendo.

Em logrando êxito a tese levantada na ADI 2. que violar um princípio. Relator da ADI. Carlos Velloso. trilhou esse caminho (aberto pelo STJ) ao julga-lo procedente em parte para emprestar ao §2º. Conclusão Os princípios em qualquer ramo do conhecimento são os pilares que alicerçam todas as vertentes do seu saber. No decorrer do trabalho. que visem ludibriar o pólo vulnerável da relação de consumo. Dessa maneira. Assim. restará por fulminado todo o sistema de proteção ao consumidor. 7. diferentemente do Min. é mais grave do que infringir um dispositivo legal. 8. constatamos a relevância dessa proteção. A assertiva é verdadeira em todos os sentidos. Estas implicam inúmeras situações fáticas de exploração. configurando esta como uma conquista histórica em favor do consumidor. de onde se inspiram. as regras jurídicas. de descumprimento. 3º do CDC. e hoje a afirmação ganha cada vez mais relevo. por meio de inserção de novas cláusulas pelo magistrado. os princípios são a base da Ciência Jurídica. E de fato. No Direito não poderia ser diferente. como decorrência dos tempos modernos. pois a sua violação é a tentativa de negação. Já se tem dito. que deverá ser buscada. do art.68 a posição que nos parece mais acertada até porque se coaduna com o entendimento ao longo do tempo construído pelo STJ. o Min. que demonstram a importância dessa tutela legal. Quanto à aplicabilidade do CDC aos contratos bancários. Néri da Silveira que julgou improcedente o pedido. filiamo-nos à corrente de que não há vedação alguma. inclusive. Bibliografia . no concernente às normas de conduta. interpretação conforme a Constituição para excluir da incidência a taxa dos juros reais nas operações bancárias ou sua fixação em 12% ao ano pelos argumentos já mencionados. dos pilares de onde brotam. percebemos a importância do princípio da vulnerabilidade como base de toda a Ciência Consumerista. objetivando a observância da cláusula geral da boa-fé. impende a necessidade da análise do referido princípio para uma conseqüente aplicação equânime da lei. para um perfeito entendimento do Sistema de Proteção do Consumidor.591. Tendo em vista que a vulnerabilidade é o alicerce (matriz) da defesa do consumidor. ao vedar determinadas práticas comerciais. No âmbito da publicidade e da contração em massa. visualizamos as várias espécies de vulnerabilidade inerentes ao consumidor.

Conceitos e Contratos atuais. Rio de Janeiro: Forense. atual. Luiz Guilherme. GOMES. 15 a 19 de abril de 2002. São Paulo: Editora Método. 11. Paulo Jorge Scartezzini. 12. FILOMENO. e ampl. [et al]. MORAES.set. 10. 3ª ed. 1999.2002 ]. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. São Paulo: RT. 5. Teoria Geral dos Contratos no novo Código Civil. 1998. 2001. DINIZ. 51. 122 P. 9. 4ª ed. rev. Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção do Consumidor. Questões Controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: Principiologia. Paulo Luiz Netto.asp?id=3181. IN: Jus Navigandi. São Paulo: Saraiva. Cláudia Lima. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2001. [Internet] http://www1. 14. A proteção jurídica do consumidor. Contratos no código de defesa do consumidor. Orlando. 34-38 de 15 de fevereiro de 2002.. João Bosco Pastos. 8. A informação como direito fundamental do consumidor. Paulo Valério Dal Pai. 7ª ed. Ada Pellegrini. nas demais práticas . 13 MENESES. São Paulo: Saraiva. Manual de Direitos do Consumidor.jus. São Paulo: Atlas.com.asp?id=2216 [ Capturado 15. Capturado 15. G. 6. n. Atualizador: Humberto Theodoro Júnior. 7. LOUREIRO. Curso de Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral das Obrigações. 2002. BONATTO. João Batista de. Maria Helena. Daniel M. Brasília. Marques. 2002. Contratos. In: Jus Navigandi. INFORMATIVO DE JURISPRUDÊNCIA DO STF. 3.com. São Paulo: RT.br/doutrina/texto. A influência do CDC nos contratos bancários. Cláudio [et al]. ALMEIDA. 58 [Internet] http:// www1. 2002. GRINOVER. Código de defesa do consumidor: o princípio da vulnerabilidade no contrato. José Geraldo. n. LÔBO.2002. 2001. IN Revista Jurídica Consulex. 264. Porto Alegre: Livraria do Advogado. GUIMARÃES. 2.Set.69 1. 2001. na publicidade. A publicidade ilícita e a responsabilidade civil das celebridades que dela participam. n. 4. GONÇALVES.jus.br/doutrina/texto. ano VI – n.

São Paulo: Abril Cultural. 33) "a questão do leite infantil ficou como um marco na luta contra os desvios da publicidade. A inversão do ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor in Revista Jurídica IN VERBIS n. Mexiam com a vaidade feminina e com o conforto da mãe. no consumidor. Agosto/setembro de 1995. 17. Responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro. O princípio constitucional da igualdade e o direito do consumidor. Essa situação também pode ser constatada nos inúmeros recalls ocorridos nos últimos anos na indústria automobilística em decorrência do desgaste ou defeito de fabricação em peças que colocam em risco a vida de inúmeros consumidores. dessa forma. 1999. 1985. 02. . Raimar. p.154) ". RICHERS. o efeito demonstração a toda prova".. 15. ROCHA. p. Adriana Carvalho Pinto. Sílvio Luís Ferreira da. Notas Para Marques (2002. 1992. Belo Horizonte: Melhoramentos. p. 19. 18.". Dessa maneira percebe-se mais uma vez o subjugamento do consumidor no mercado de consumo. por acreditar que todos devem ter e usar.. p. 2001.70 comerciais. as empresas. 16. especialmente em países do Terceiro Mundo. a substituição da amamentação materna pela mamadeira. Uma trintena de empresas multinacionais sugeriam. São Paulo: RT. O que é Marketing. Exemplo esclarecedor sobre a vulnerabilidade técnica do consumidor nos é dado por Pasqualoto (1997. 2002. e criam. 04 03 02 01 . O leite em pó... a necessidade intolerável de manter-se em dia. VIEIRA. andar na moda. os apelos publicitários levam o indivíduo a considerar-se numa situação psicológica e social inferior. a jurídica e a fática ou sócio-econômica. ou seja.. Elaine Cardoso de Matos. e assim por diante. NOVAES. sendo nutricionalmente menos valioso transformou-se em causa corrente de desnutrição.. passaram despercebidos dos mesmos. 18-25. SOARES. 270) existem apenas três tipos de vulnerabilidade: a técnica. Leme: LED. Paulo Brasil Dill. caso não adquira tais produtos prestigiados.. Vícios esses que. Princípios básicos de defesa do consumidor. pelo fato do consumidor comum não possuir conhecimento técnico. Porto Alegre: Síntese. era mais caro e. que substituiria o aleitamento materno. A título exemplificativo Miriam de Almeida Souza apud Moraes (1999. investem conjuntamente em comercias.

em que o comprador aceita.. Já a hipossuficiência é uma marca pessoal. educados ou ignorantes. no qual se argumenta que a norma do Art. De acordo com os ensinamentos de Antônio Benjamin ". Quando. 2002. tópico 2). uma atividade econômica" (Gonçalves. crédulos ou espertos. p. 08 07 06 05 Preocupou-se. não merece guarida referida alegação. quando definem como competente o foro do lugar do dano ou do domicílio do consumidor. Verbis: "Embora a Agravante insista em desconsiderar a condição de hipossuficiente da Agravada.66). Para corroborar o supra afirmado. enquanto o objetivo da propaganda é a implantação de idéias. inciso I do CDC (que se refere à possibilidade do consumidor ajuizar ação de responsabilidade civil do fornecedor no seu próprio domicílio) deve ser aplicada in casu como conseqüência da presunção de hipossuficiência da consumidora. diante do cargo de juíza de direito ocupado pela mesma. escritos ou não escritos. a facilitação da defesa de seus direitos". Exemplo de confusão entre os dois conceitos existe no trecho do agravo de instrumento.71 Segundo Marques "entende-se como contratos submetidos a condições gerais aqueles contratos. 11 10 09 Já que tanto a proposta (ou oferta) como a publicidade poderiam ser .. limitada a alguns – até mesmo a uma coletividade – mas nunca a todos os consumidores" (2001. que citamos infra. ante o disposto no artigo 6º. tal norma decorre da presunção juris et de jure de vulnerabilidade. São pacíficas a doutrina e jurisprudência pátrias. Dúbel Cosme do TJRN. ricos ou pobres. a hipossuficiência a que alude o Código de Defesa do Consumidor é afirmada pela sua qualidade de consumidora frente ao fornecedor de serviço (sic). Nesse sentido a referida obra à página 250 na qual escreve o autor: "não fala o código em contra publicidade. dado que o objetivo da publicidade é vender. Cf. tácita ou expressamente. o legislador. citado por João Bosco Pastos Gonçalves: "Publicidade é toda informação dirigida a público com o objetivo de promover. Relator: Des. A vulnerabilidade é um traço universal de todos os consumidores. 3a Vara Cível – Mossoró/RN. que cláusulas pré-elaboradas pelo fornecedor. venham a disciplinar o seu conteúdo específico" (2002. n. na forma já vista". direta ou indiretamente. na verdade. disponibilizamos ao estudioso do assunto o conceito de Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin. 101. Portanto.325). com o desvio (publicidade ilícita) e não com o padrão. que também faz referência às noções de informação e de divulgação. p. unilateral e uniformemente para um número indeterminado de relações contratuais.002927-1. para as ações de indenização. 99. VIII do Código de Defesa do Consumidor que elenca dentre os direitos básicos do consumidor.

2001. a ausência de qualquer esclarecimento acerca do que o fornecedor pretendeu com a expressão ‘inédito’. sendo totalmente aplicável a regra do artigo 7o. Grifamos. norma repetida no Código ora em vacatio legis ao artigo 427). p. 2002).080 do Código de 1916. 251). de pronto. cit). op. como características do contrato de adesão: 1) A uniformidade. o que bem caracteriza o informe como obscuro" (TJDFT. considerando a proposta como negócio jurídico unilateral: (Lôbo. p. constatar isso. Ocorrência de dano patrimonial positivo (dano emergente) ou negativo (lucros cessantes) e 2 – Nexo causal entre o dano e o inadimplemento daquilo que fora prometido em publicidade. inexiste. p. e (Loureiro. defendendo que a publicidade é espécie de oferta: (Filomeno. Um estudo desses requisitos pode ser encontrado em (Diniz. Em sentido contrário. 2000). Já se considerou como enganosa por omissão publicidade que dizia: "Hoje promoção inédita de Santana e Parati" posto que "basta um simples raciocínio para. 5 da Lei Portuguesa de defesa dos consumidores. nas relações de consumo a proposta sempre obrigará o fornecedor promitente. a necessidade de comprovação de culpa por parte do fornecedor para responsabilizá-lo (regra que possui como exceção o caso dos profissionais liberais) de modo que para que haja a condenação em perdas e danos basta que se apresentem os demais requisitos: 1. mas entendemos que tal vedação está subentendida. 13 14 12 Compulsoriedade essa dada pela norma do artigo 30 do CDC. Cf em sentido contrário. p118 ) coloca os seguintes elementos. 17 18 16 15 Cf nesse sentido: (Moraes. 1998. 2) A predeterminação e 3) A rigidez. Genovese apud Orlando Gomes ( 1999. 1999). Apelação Cível e Remessa ex officio n º 8114/2000 e 7912/2000). Maiores apontamentos sobre o tema poderão ser encontrados em: Elaine Cardoso de Matos Novaes (1995.72 aprioristicamente definidos como atos pré-negociais. Cf nesse sentido: (Gomes. Ao contrário do que ocorre no seio das relações regidas pelo Código Civil (vide art. A nossa lei de proteção não vedou expressamente o uso de cláusula de retratabilidade na proposta. 1. serviço ou direito consideram-se integradas no conteúdo dos contratos que se venham a celebrar após a sua emissão. 379). 19 . que se identificam com os mencionados supra. em regra. Saliente-se que pelo fato do direito consumerista ser um direito de proteção ao consumidor e não de repressão ao fornecedor negligente. 18 e ss). in fine: "As informações concretas e objetivas contidas nas mensagens publicitárias de determinado bem. 3ª Turma Cível. tendo-se por não escritas as cláusulas contratuais em contrário".

23 24 22 21 20 Seja através do uso de tecnismo. financeira. Previsão legal que de tão explícita.. 25 . ao nosso ver. AG 425643 RS. AG 430458 RS. definindo serviço. Dentre tantos outros julgados.) os contratos bancários alcançaram a tal nível de popularidade que mesmo o cidadão mais humilde não costuma escapar da ação (muitas vezes nefasta) dos tipos mais comuns.". 226 e ss. Já que o CDC.). p. Meneses (2002. AG 445664RS. mediante remuneração. do art. com o CDC. AG 424767 RS. etc. o depósito em conta corrente.). apenas a se formalizar tal entendimento. AG 438114 RS. AG 420203 RS. faz expressa referência ao de natureza bancária. 3º T: AG 448061 MG. Corroborando a posição colocada a respeito da possibilidade de integração contratual por parte do Judiciário: Bonatto (2001.73 Lista pormenorizada contendo esses e outros meios pode ser encontrada em Moraes (1999. 4º T: AG 444223 RS. p.. diz Daniel M. uma vez que tal prática sempre foi considerada leonina vindo. verbis: "Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. complexidade ou cláusulas abusivas. AG 430435 RS. 3º §2º. 37): "(. que o uso de cláusula que permita ao fornecedor. p. AG 445314 RS. descarta a necessidade de realizar maiores divagações teóricas sobre o assunto. Sobre o assunto. variação de preço de maneira unilateral não era procedimento abusivo antes do advento da Lei de proteção ao consumidor. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista" (grifamos). Não há de se falar. nesse sentido. como: depósito bancário. RESP 325620 RS. de crédito e securitária. G. inclusive as de natureza bancária. RESP 293778 RS e RESP 213825 RS. STJ. 193 e ss.

mais especificamente a letra do § 242. Suíça. Itália. Pois bem. verifica-se o fenômeno de que.Bürgerliches Gesetzbuch (Código Civil Alemão). Portugal. na legislação pátria não se traduz como regra geral. este princípio. Assim. consignando que os contratos devem ter interpretação e também execução. com artigo expresso. contemplam. ou seja. em face do objetivo comum avençado. vale trazer à colação o BGB . feixe de deveres que induzem a um mandamento bilateral de conduta. expressamente. dando o norte ético para todos os partícipes do vínculo jurídico. Espanha. Nesse sentido. o princípio da boa-fé. para ilustrar. aduzindo: "O devedor é obrigado a realizar a prestação do modo como o exige a boa-fé levando em conta os usos de tráfico". no Código Civil. ante a importância do regramento de conduta nas relações obrigacionais. .74 O princípio da boa-fé no Código de Defesa do Consumidor Autor: Francisco José Soller de Mattos A boa-fé. como princípio. ao contrário de sistemas legais alienígenas como os da França. mesmo em face da não existência. que positiva o princípio em comento. o princípio em tela mantém vigência imperativa. Porém. não foi contemplado. por seus sistemas de leis. Estados Unidos e Alemanha. de artigo de teor próximo ao § 242 do BGB. apresenta-se como pilar dos mais importantes na sustentação da teoria contratual moderna. estabelecendo um elo de cooperação. muitos países. atrelados ao "comportement réflechi à l’égard d’autrui. no Código Civil Brasileiro.

que. Ocorre que. após plena consolidação do CDC como um instrumento positivo e que efetivamente mudou o panorama contratual moderno do Brasil. deixa escapar o seu sentido para uma conceituação aberta. muito embora o próprio caput do art. deixou de coadjuvar no plano legislativo para. verificamos. de tão abrangente.75 A inspiração legislativa brasileira para a consideração do princípio da boa-fé nas relações obrigacionais achava-se. indutora de uma nova postura no ambiente contratual.078. a sua importância de princípio supremo do direito civil. na letra do art. a boa-fé. . inciso III do indigitado sistema legal. não há como se negar que este nada mais é do que uma das mil faces da boa-fé. dentro desse conjunto legislativo. segundo Larentz. de onde depreende-se a vontade Estatal que: " o literal da linguagem não deve prevalecer sobre a intenção manifestada na declaração de vontade. de 11 de setembro de 1990. 85 do Código Civil. ou dela inferível" (Orlando Gomes). 4º do CDC consagre a autonomia do "Princípio da Transparência". quase que isoladamente consignada. E. Atualmente. em sendo positivada no art. 4º. com o advento do Código de Defesa do Consumidor. galgar. a prevalência da boa-fé como seu princípio de orientação máxima. instituído pela Lei nº 8.

Tal proposta unificadora somente veio finalmente a se tornar direito positivo com a aprovação do Código Civil de 2002. muito embora outros anteprojetos já tivessem trilhado a mesma linha. sob o argumento de ampliar ao máximo a proteção às partes vulneráveis – seja sob o aspecto técnico ou econômico – nas relações obrigacionais.76 A relação jurídica de consumo: conceito e interpretação Autor: Marcelo Azevedo Chamone 1. resultado de um projeto de 1975. Uns buscam ampliar a área de incidência da legislação consumerista. surgiu uma nova modalidade de relação obrigacional. e de 1963 (de Caio Mário da Silva Pereira). Em 1943 a repartição dicotômica se tornou tricotômica com a edição da Consolidação das Leis do Trabalho – às duas modalidades de relações obrigacionais acresceu-se a relação de emprego. Mais uma vez surgiram acalorados debates sobre os limites dessa nova categoria. o que só foi acentuado com a expansão da competência da Justiça do Trabalho – talvez esteja aí o germe de uma futura reunificação. a de consumo. uma vez que a responsabilidade objetiva (carro-chefe da lei consumerista) . sobre o que seria relação de consumo e o que seguia sendo relação civil ou (até 2003) comercial. tal como os anteprojetos de Código das Obrigações de 1941 (redigido por Orozimbo Nonato. Com a edição do Código Civil de 2002 tal discussão perdeu um pouco de sua relevância. enquanto outros querem restringir-la. Desde então se debate onde estaria a marca divisória entre as relações civis e as trabalhistas. pretendendo valorizar a proteção às situações em que o consumidor "seja realmente" a parte mais fraca da relação. em 1866. Já em 1990 essa divisão foi acentuada com a edição do Código de Defesa do Consumidor. INTRODUÇÃO A dicotomia entre relações jurídico-obrigacionais civis e comerciais já era ancestral quando. para abranger o maior número de relações no mercado. O jurisconsulto baiano já visualizara a artificialidade dessa divisão – não havia qualquer diferença de essência entre as obrigações civis e as comerciais. Teixeira de Freitas propôs a sua unificação enquanto abandonava a elaboração do projeto de um Código Civil onde o Governo insistia em manter o cisma. Hahnemann Guimarães e Philadelpho Azevedo).

onde vertentes da jurisprudência trabalhista defendem que todos os tipos de prestação de serviços. RELAÇÃO DE CONSUMO Por relação de consumo é de se entender toda relação jurídico-obrigacional que liga um consumidor a um fornecedor. Assim. deixando ainda mais embaçada a linha divisória entre elas.77 foi elevada a padrão juntamente com a responsabilidade subjetiva. limitando. parágrafo único. 927. Sempre que o tratamento não for unificado haverá debates doutrinários e jurisprudenciais sobre a delimitação de cada um. é preciso "averiguar qual é o elemento nuclear do vínculo obrigacional: uma obrigação de dar ou uma obrigação de fazer. Em geral há uma cumulação de prestação de serviço com fornecimento de produto." [01] Nem sempre a relação de consumo será um negócio jurídico. inclusive os regidos pelo CDC. estariam sob a competência da Justiça do Trabalho. Assim. o conceito de consumidor. a regra da responsabilidade subjetiva ficou praticamente reduzida às relações entre particulares. Do mesmo modo. no outro caso. como veremos abaixo. No que concerne às relações de consumo. atentando para as principais correntes doutrinárias. buscando identificar o estado-da-arte do tema. ora tendendo para um lado. a ampliação das hipóteses de revisão contratual trazidas pelo novo Código Civil aproximou muito as relações civis das de consumo. . para se determinar qual o regime jurídico a ser aplicado ao caso. num sistema que vem sendo apelidado de "dúplice". a lei coloca sob a mesma denominação relações contratuais (negócios jurídicos) e não-contratuais. decorrentes de atos e fatos jurídicos. passaremos a definir o conceito de cada um dos elementos da chamada "relação de consumo". Esse breve panorama do tratamento legislativo dado às relações obrigacionais serve para mostrar a artificialidade e instabilidade de qualquer tentativa de compartimentalização. o momento jurisprudencial indica que o pêndulo tende para a restrição da aplicação do CDC. como veremos abaixo. a hipótese é de produto. Tratando-se daquela. em decorrência do art. ora para o outro. 2. Na verdade. o objeto é um serviço. tendo como objeto o fornecimento de um produto ou da prestação de um serviço. A fragilidade dos conceitos se mostra aparente com a recente e ainda incipiente discussão surgida com a EC nº 45.

artigo já clássico onde o autor buscava. 6º. V e X. tanto no pré-contratual como no pós-contratual. a princípio. delimitaremos a seguir os elementos básicos das relações de consumo. Destarte. 6º. 3. pessoal. então. e para a última categoria (art. caput e parágrafo único) são aplicadas todas as disposições do Código. VI. 2º. com o auxílio de textos de legislação e doutrina estrangeira. o CDC trata sobre os seguintes temas: da responsabilidade civil (arts. Temos. a outra (art. 2º. caput) e aos "intervenientes" nas relações de consumo (art. b) quanto à necessidade de vínculo contratual: só quando há contrato ou também nos casos de relações jurídicas extracontratuais. 29) as regras sobre proteção contratual e práticas abusivas. nos termos dos conceitos dados pelo próprio Código. I a IV. já se podem identificar algumas áreas de disputa conceitual: a) quanto à natureza do sujeito protegido: pessoal natural ou jurídica. Herman Benjamin. Não obstante. não . Essa conclusão leva à interessante reflexão sobre a quantidade de folhas que já foram escritas sobre a definição do conceito standard de consumidor. 2º. temos que o Código irá atuar de forma preventiva e repressiva nas relações de consumo tanto no âmbito contratual como no extracontratual. 8º a 28). Como veremos mais detalhadamente abaixo. familiar. o CDC traz quatro definições diferentes de consumidor: a duas delas (art. Àquela época e ainda hoje o tema é tormentoso: "Embora o vocábulo consumidor não esteja assentado com um conceito claro. parágrafo único) somente nas situações de responsabilidade civil contratual (vícios do produto ou serviço). CONSUMIDOR Em 1988 foi publicado pelo então promotor de justiça de São Paulo. e da proteção contratual (art. todas as demais disposições do CDC se aplicariam quase que irrestritamente à coletividade em geral face a redação genérica dos artigos que ampliam o conceito de consumidor. No plano do direito privado material. 17) as regras sobre responsabilidade civil extracontratual. das práticas comerciais (arts. 6º. quando uma parte tão pequena do Código é dedicada exclusivamente a ele. a fim de identificar claramente os limites de cada uma dessas esferas de proteção. c) quanto à finalidade da aquisição do bem ou produto: para uso privado. 46-54). delimitar o conceito de consumidor. 29 a 45).78 Deste modo. que a proteção do CDC recairá exclusivamente ao consumidor standard (art.

2º. contrate para consumo final. ao que. [03] Em alguns sistemas simplesmente não há definição legal de consumidor. de modo que não seria justo nem eqüitativo dar-lhes tratamento legislativo diferenciado. utiliza-o ou o consome" [06]. A existência de diversos conceitos no direito positivo se mostra necessária. ao contrário do que ocorre em relação ao fornecedor." [02] Na legislação estrangeira não é possível encontrar uma definição uniforme. Onde não há uma legislação consumerista codificada chega a haver diversos conceitos de consumidor. onde sujeitos a princípio não classificados como consumidores são colocados numa posição semelhante. palavras de Roberto Senise Lisboa. isolada ou coletivamente. cada país adota um conceito diferente. tende-se para uma conceituação mais restrita. mesmo codificada. A que se mostra mais espinhosa é sem dúvida a primeira. citando como exemplo a entidade familiar. um aplicável para cada situação específica regulada por aquela lei. há uma série de situações extracontratuais. e outras três de ‘consumidor equiparado’. consumidor é "toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final" (art. ficando a cargo da doutrina e jurisprudência fazê-lo – nesses casos. e) quanto ao tipo de bens: só bens móveis ou também imóveis. Apesar de não haver disposição expressa. caput). d) quanto à qualidade do objeto da relação de consumo: apenas bens ou também serviços. trás quatro definições diferentes de consumidor: uma chamada de ‘consumidor standard’. é consumidor "qualquer pessoa física ou jurídica que. 3. a aquisição ou a locação de bens. bem como a prestação de um serviço. A nossa legislação. em benefício próprio ou de outrem." [05] Rizzatto Nunes acrescenta que "a norma define como consumidor tanto quem efetivamente adquire (obtém) o produto ou o serviço como aquele que. de modo geral. em outros termos. discordando apenas da inclusão da . de acordo com as suas peculiaridades sociais e econômicas. pois não são somente aqueles participando efetivamente das relações de consumo que estão sujeitos a sofrer danos em decorrência dessas relações.1 O consumidor standard Inicialmente. James Marins [08] entende que também o ente despersonalizado pode ser tomado como consumidor. resulta em "substancial modificação do princípio geral da relatividade dos efeitos" [07]. [04] nos demais. não o tendo adquirido.79 profissional e comercial. possibilitando a proteção de terceiro estranho ao contrato – há uma prevalência da "relação de consumo" sobre o "contrato de consumo". na delimitação do âmbito de proteção oferecido pela lei. f) quanto ao tipo de serviço: só serviços privados ou também serviços públicos. bem como pré e pós-contratuais. Maria Antonieta Donato [09] o acompanha em parte.

o conceito de destinatário final não pode sofrer restrições.1 O conceito objetivo de consumidor Para os juristas que vêem no CDC uma regulamentação para o mercado de consumo em geral. ainda que empresários. dando especial atenção à finalidade da aquisição do produto ou serviço: "O consumidor é. por exemplo. em maior ou menor medida. Porém. em proteção do consumidor quer-se referir ao indivíduo ou grupo de indivíduos. depende por sua vez de outros empresários. com a lei veio a superação desses conceitos baseados nas lições européia e norte-americana.80 família nessa situação. "tornando necessária a análise da causa da aquisição ou da utilização do produto ou do serviço". buscou delimitar o conceito de consumidor. se apresentam no mercado como simples adquirentes ou usuários de serviços. Fábio Konder Comparato. sem que outra destinação seja objetivada pelo beneficiado (adquirente ou usuário)". buscando aproximá-lo o mais possível da doutrina européia. surgiu na doutrina. . para exercer a sua atividade produtiva. dissenso sobre quem poderia ser classificado como destinatário final do produto ou serviço. enquanto a outra trata de dar maior aplicabilidade à lei. Apesar da disposição inequívoca da lei. é também consumidor. defendendo a sua incidência sobre o maior número de relações jurídico-obrigacionais. de modo geral. buscando uma proteção mais ampla e generalizada. Quando se fala. nesse sentido. pois. e. a legislação brasileira veio com uma proposta muito mais ousada. aquele que se submete ao poder de controle dos titulares de bens de produção. Duas correntes principais.1. como fornecedores de insumos ou financiadores. no entanto. os quais. Roberto Senise Lisboa [11] vê na expressão destinatário final a adoção pelo CDC da teoria da causa na relação jurídica de consumo. É claro que todo produtor. Muito antes da edição do CDC. os empresários. e antagônicas. a causa da formação da relação de consumo deverá estar relacionada "à transmissão definitiva ou provisória de produto ou de atividade humana remunerada. principalmente porque a própria lei não as faz. 3. formaram-se: uma restringindo o conceito de consumidor. sem ligação com a sua atividade empresarial própria. com reflexos na jurisprudência. buscando apoio na doutrina estrangeira. muito mais preocupada com a proteção do consumidor pessoa física." [10] Antes da edição do CDC era comum encontrar esse tipo de definição. cada um dos membros da família deveria pleitear seus interesses individualmente. e cita como exemplos o condomínio edilício e o espólio – para a autora. isto é.

Rizzatto Nunes [12] define como consumidor. não havendo qualquer necessidade de inquirir sobre aspectos subjetivos. Assim. 3. "desde que o produto ou serviço (. que o profissional pessoa física ou pequena empresa que tenha adquirido um produto fora de seu campo de especialidade.. porém. i. Assim. . não cabendo ao intérprete/aplicador impor suas opiniões sobre a norma. não caberia ao intérprete/aplicador fazê-lo. possam ser considerados consumidores – note-se que essa definição é intimamente ligada às qualidades econômicas do adquirente. Mais. João Batista de Almeida e James Marins. o consumidor comum não o adquire". consumidor é todo aquele que retira o produto ou serviço do ciclo produtivo-distributivo.) sejam oferecidos regularmente no mercado de consumo.81 Não obstante. É certo que dessa conceituação estaremos trazendo para a relação de consumo situações que vão contra o senso comum. Exclui as situações em que o produto ou serviço "é entregue com a finalidade específica de servir como ‘bem de produção’ para outro produto ou serviço e via de regra não está colocado no mercado de consumo como bem de consumo. consumidor [17] – não se discute se o bem é de produção (utilizado para implementar a produção) ou não. i.. Admite. portanto.. ou simplesmente com o intuito de revendê-lo. além do "destinatário final" que adquire o produto ou serviço para uso próprio (sem finalidade de produção). se a implementação ou transformação é feita para o uso próprio do adquirente. Porém. ele será o destinatário do produto ou serviço e. dá um conceito restritivo de destinatário final: ela o identifica com a pessoa física que retira o bem de mercado. como a lei não faz qualquer restrição quando utiliza o termo pessoa jurídica. i. não pode estar adquirindo para revenda ou uso profissional. João Batista de Almeida [15]. e Roberto Senise Lisboa [16] excluem do conceito de consumidor apenas o adquirente de produto que será objeto de transformação ou implementação com reinserção na cadeia produtiva-distributiva. Podem ser citados como defensores dessa interpretação... sem o intuito de obter lucro com a sua futura negociação. bom ou mal. o destinatário fático e econômico do bem ou serviço.e. Assim. Roberto Senise Lisboa. independentemente do uso e destino que o adquirente lhes vai dar". [13] James Marins [14]. também quando há a finalidade de produção.e.1. com variações. aquele que não o revende nem o incorpora na produção de um novo. para a definição do conceito de consumidor deve-se tão somente analisar os critérios objetivos dados pela própria lei.e. adepta da dita "corrente finalista".. Rizzatto Nunes. "pois o bem seria novamente um instrumento de produção cujo preço será incluído no preço final do profissional que o adquiriu" [19]. Nery Jr. mas como de produção. é o que nos é dado pela lei.2 O conceito subjetivo de consumidor Cláudia Lima Marques [18].

que surge como conseqüência do reconhecimento da existência da relação de consumo. i. pois somente essas seriam "vulneráveis".e. porém. em função da qualidade subjetiva daquele que pratica a relação de consumo e em função da destinação que ele dará ao produto". deve haver comprovação de que a contratação se deu fora do seu campo de atuação usual. de que a aquisição do produto ou do serviço foi realizada por um sujeito de direito que se enquadra na definição legal de consumidor. ou a pessoa física em atuação profissional (‘consumidor-profissional’). como destinatário final. havendo.82 Para Maria Antonieta Donato [20] o consumidor deve ser conceituado dentro do âmbito da relação de consumo. para que a pessoa jurídica. o segundo estaria na configuração no caso concreto da vulnerabilidade. não se caracterizando a aquisição para o uso profissional". em benefício próprio ou de terceiro. Roberto Senise Lisboa [23] tece as seguintes considerações.. no critério legal para a definição do consumidor e da relação de consumo. por decorrência. em outras palavras "a finalidade prática do ato e não o ato em si". E. Assim. é dizer: o personagem que no mercado de consumo adquire bens ou contrata serviços. Assim. possa ser considerada consumidora. o que o citado autor identifica com as pessoas jurídicas que não tenham finalidade lucrativa. mas sim. necessariamente. Assim. sua utilização para implementar o processo produtivo. que subscrevemos integralmente: "A vulnerabilidade do consumidor é presunção absoluta no mercado de consumo. agindo com vistas ao atendimento de uma necessidade própria e não para o desenvolvimento de uma outra atividade negocial. o Código teria adotado o conceito econômico de consumidor. "É imperativo lembrar que a vulnerabilidade não se constitui. Quanto à "vulnerabilidade" utilizada como elemento do conceito de consumidor. "Aquele que vier a ser considerado consumidor é quem se beneficiará . somente se justificaria a inclusão da pessoa jurídica como consumidora na medida em que houver efetiva vulnerabilidade econômica em face do fornecedor a ser protegida. [21] De acordo com Filomeno [22]. deve-se mesclar a qualidade do adquirente do produto com a finalidade para que o adquiriu. presunção de vulnerabilidade em seu favor. "não se analisa o consumidor unicamente em relação à prática do ato. Não basta que retire o produto do mercado. haveria três fatores de discrímen: o primeiro estaria na aquisição de produto. e por fim. pois é ela um posterius. não sendo possível fazê-lo sobre o ato de consumo. "retirando-o da cadeia produtiva e. em face do fornecimento dos produtos e serviços e do domínio da tecnologia e da informação que o fornecedor possui sobre eles.

iria terminar por dar tratamento igual para todos. na prática. Herman Benjamin afirma que o conceito de consumo final e intermediário estão unidos. indivíduos e grupos de indivíduos. Do reconhecimento da situação de consumidor do sujeito em dada relação jurídica é que se impõe o princípio geral da vulnerabilidade. o consumidor é entendido como um indivíduo. consumidor é: "qualquer agente econômico responsável pelo ato de consumo de bens finais e serviços. Tipicamente. passando muitas vezes ao largo do texto legal. [25] Em outras palavras. de modo que. não obstante essas considerações. fabricação ou prestação. Mas a vulnerabilidade não é pressuposto do reconhecimento de que um sujeito adquiriu determinado produto ou serviço como consumidor. aquele que coloca um fim na cadeia de produção". como premissa para este estudo. E essa presunção é iure et de iure.83 da presunção de vulnerabilidade diante do fornecedor. e a generalização da aplicação da legislação de proteção ao consumidor. distribuição." [26] A justificativa dessa posição mais restritiva é feita com base no argumento de que o consumidor deve receber tratamento especial e diferenciado. não admite prova em sentido contrário." [24] Destarte. "aquele que utiliza o bem para continuar a produzir ou na cadeia de serviço" não pode ser considerado consumidor. Como já notado acima. mas. além dos requisitos acima. estendendo o rol dos beneficiados por essa proteção. mas mais presos às definições elaboradas antes da publicação da lei. nosso entendimento de que havendo no direito positivo conceito preciso de consumidor – como em verdade ocorre com o art. mas tão somente aquele que "retira o bem do mercado ao adquirir ou simplesmente utilizá-lo (Endverbraucher). Sobre esse ponto é relevante o pensamento de James Marins: "Esclareça-se. na teoria econômica. os bens adquiridos devem ser bens de consumo e não de capital (que integram a cadeia produtiva). apenas. os defensores desta corrente interpretativa usualmente fundamentam suas posições não tanto nas disposições do CDC. Pelo contrário. e de doutrina e legislação estrangeira." É interessante notar que com base no mesmo "conceito econômico de consumidor". consumidor "seria toda pessoa situada no término da cadeia de consumo e que encerra a circulação econômica de um produto ou serviço em vez de sobre ele atuar com vistas a sua transformação. para que a pessoa jurídica possa ser considerada consumidora. consumidores serão instituições. ou seja. 2º aqui objeto do nosso . desvirtuando a finalidade do Direito do Consumidor de "proteger a parte mais fraca ou inexperiente na relação de consumo" [27].

evitando assim. o bem ou serviço. deve ser também o seu destinatário final econômico. não se pode pretender submetê-lo às teorias jurídicas informadoras de sistemas alienígenas. e que albergue conceito próprio induvidoso. de outro. um "desvirtuamento do sistema protetivo eleito pelo Código"." [29] 3. de outra circunstância capaz de afastar a hipossuficiência [30] econômica. ou utente do serviço público) seja "destinatário final fático do bem ou serviço. jurídica ou técnica. a jurisprudência tempera a posição doutrinária. não se pode olvidar que a vulnerabilidade não se define tão-somente pela capacidade econômica. ainda que de forma indireta. para excluir a incidência do CDC em situações em que fosse verificado o expressivo porte financeiro ou econômico: da pessoa jurídica tida por consumidora. Isso não impediu que de início houvesse uma interpretação objetiva do conceito de consumidor. admitindo exceções: "Em relação a esse componente informador do subsistema das relações de consumo. a utilização deve romper a atividade econômica para o atendimento de necessidade privada. do contrato celebrado entre as partes. houve uma virada de entendimento. no processo produtivo." Mais uma vez. [31] Porém. nível de informação/cultura ou valor do contrato em exame. mas pela presença de uma parte vulnerável de um lado (consumidor)." [28] "Condicionar-se o conceito de consumidor à constatação de sua hipossuficiência seria. com leves temperamentos." E mais adiante afirma que a relação de consumo "não se caracteriza pela presença de pessoa física ou jurídica em seus pólos. teorias essas ora textualmente recebidas pelo legislador. não podendo ser reutilizado. ora textualmente afastadas em prol da elaboração de um sistema próprio.1. no nosso sistema. pessoal. recentemente. Nancy Andrighi [32].84 estudo –. Todos esses elementos podem estar presentes . praticamente excluindo as pessoas jurídicas consumidoras do âmbito de proteção do Código. outrora ardente defensora da corrente contrária: não basta que o consumidor (adquirente de produto ou serviço. e de um fornecedor. inclusive. enfraquecer o sistema protetivo inaugurado pelo CDC. é claramente e intencionalmente informado pela objetividade. Neste sentido é o atual posicionamento da Min. segundo entendiam os ministros. isto é.3 As posições do STJ e STF O STJ sempre buscou evitar a aplicação indiscriminada do CDC. deslocando para o movediço critério subjetivo conceito que. pacificando-se o conceito subjetivo de consumidor. em verdade.

mediante remuneração.85 e o comprador ainda ser vulnerável pela dependência do produto. Inútil. qualquer esforço retórico desenvolvido com base no senso comum ou em disciplinas científicas para negar os enunciados desses preceitos normativos. economicamente. 2º do Código diz que "consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final". para os efeitos do Código de Defesa do Consumidor. Por certo que as instituições financeiras estão. "fornecedor". todas elas. que tal ente ou entidade não pode ser entendido. o que descrito está no seu art. pelas exigências da modernidade atinentes à atividade. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista". pelo monopólio da produção do bem ou sua qualidade insuperável. 2º e no seu art. pela extremada necessidade do bem ou serviço. "produto" e "serviço". por a + b. Cuide apenas de pesquisar os significados dos vocábulos e expressões que compõem a definição e de apurar da sua coerência com o ordenamento constitucional. e aquela que vem sendo adotada pelo STJ. Eros Grau sobre a questão: Como observei também em outra oportunidade [34]. inquestionável. Eis o trecho do voto condutor do Min. como efetivamente é. o profissional do direito não perde tempo em cogitações como tais. como destinatário final. como "produto" e como "serviço". diante disso. para os efeitos do Código do Consumidor. agora somente a demonstração da vulnerabilidade convencerá os julgadores de que a pessoa jurídica é consumidora. Diante da definição legal. como consumidor ou fornecedor. inclusive as de natureza bancária. Chamado a decidir questão sobre o campo de incidência do CDC. dentre outros fatores. O jurista. é "consumidor". Isso não apenas me parece. O art. ficou claro o dissídio entre a posição sufragada pelo STF. o STF incidentalmente manifestou-se sobre o conceito de consumidor. 3. E o § 2º do art. atividade bancária. força é acatá-la. como "fornecedor".2 O consumidor por equiparação . financeira. mais ligada à definição objetiva de consumidor. sujeitas ao cumprimento das normas estatuídas pelo Código de Defesa do Consumidor. Não importa seja possível comprovar. toda pessoa física ou jurídica que utiliza. inquestionavelmente. pela natureza adesiva do contrato imposto. 3º define como serviço "qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. Entende-se como "consumidor". Assim temos que. financeira e de crédito. de crédito e securitária." [33] Se antes a demonstração da inexistência de vulnerabilidade fazia excluir a aplicação do CDC. 3º e §§1º e 2º. [35] Apesar de não haver um aprofundamento na definição de o que seria "destinatário final". o Código define "consumidor".

A dificuldade está principalmente em construir uma interpretação desta norma de modo que não se confunda com as demais regras de abertura do Código. vindo a intervir nas relações de consumo de outra forma a ocupar uma posição de vulnerabilidade. 17 enquadra a questão". Rizzatto Nunes [38] afirma que "a hipótese dessa norma diz respeito apenas ao atingimento da coletividade. Se a pessoa interveio na relação de consumo. Pela leitura dos demais artigos. indeterminável ou não. podem vir a ser atingidas ou prejudicadas pelas atividades dos fornecedores no mercado. [36] A conceituação legal não se ocupa apenas da aquisição efetiva de produtos e serviços. mais preocupados com o caput deste artigo. ou ainda estiverem expostas às práticas comerciais ou contratuais. mas também com a sua potencial aquisição – assim. não sobra ninguém! Seguindo raciocínio semelhante. Porém. 2º. que já têm previsão nos art. 3º (fornecedores) e no caput do art. também estão protegidos os potenciais consumidores. Eliminando aqueles definidos no caput do art. ainda que indetermináveis. ainda que não possam ser consideradas consumidoras no sentido estrito. atribuindo-lhe conteúdo e significado próprios. VI e 81.2. anda que não possam ser consideradas consumidores stricto sensu. [37] 3. fica difícil enxergar um campo de incidência para o parágrafo único. ou será fornecedor ou será consumidor. .1 O interveniente nas relações de consumo "Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas. Mirella Caldeira [40] conclui que a função deste dispositivo é "reforçar a idéia da tutela dos interesses difusos e coletivos". que haja intervindo nas relações de consumo" (art. mas sem sofrer danos. mas "as pessoas do relacionamento social do consumidor que podem sofrer eventuais efeitos indiretos da relação de consumo". ou quando forem vítimas de acidente de consumo. do art. o que não diz muito. 2º. a posição preponderante do fornecedor a posição de vulnerabilidade dessas pessoas justificam a equiparação feita pelo legislador.86 Diversas pessoas. e os comentadores. 6º. parágrafo único). Fábio Ulhoa [39] define as pessoas abrangidas por essa norma não como integrantes do grupo de consumidores em potencial. já que neste caso o art. Esse parágrafo é de difícil interpretação. não se aprofundam no tema. parece-nos que essas pessoas estão mais bem colocadas nas demais definições trazidas pelo Código: quando forem consumidoras efetivas. 2º (consumidores).

aplicando-se integralmente as normas sobre responsabilidade objetiva pelo fato do produto [41]. "podendo. Assim. lançar mão das normas do Código do Consumidor referentes à proteção contratual e às práticas comerciais" [44] . Nesse ponto o silêncio da doutrina confirma que distinção alguma há entre as vítimas do acidente de consumo. tal equiparação somente é valida na responsabilidade civil decorrente de fato do produto ou serviço. 2º garante a proteção individual do consumidor. com base no art. "sujeitos à mesma proteção que a lei reconhece aos consumidores no tocante às práticas comerciais e contratuais". devendo antecedê-lo. não se exigindo que a vítima seja consumidor final. [42] Mesmo o adquirente intermediário poderá se valer das regras do CDC para buscar a recomposição de seus danos. "não há dispositivo que autorize o intermediário que não adquira ou utilize o produto ou serviço como destinatário final a agir com base no Código do Consumidor". está acobertado por esta disposição legal. 3. com ou sem intuito de lucro. 3. pouco importando que seja pessoa física ou jurídica. 29. independente de haver qualquer relação prévia entre fornecedor e vítima. equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento" (art. enquanto o caput do art. Outrossim. 2º.2 A vítima de acidente de consumo "Para os efeitos desta Seção [da responsabilidade pelo fato do produto e do serviço.e. responsabilidade extracontratual. quando houver vício no produto ou serviço. equiparam-se aos consumidores todas as pessoas determináveis ou não. mesmo que não possa ser assim considerado com base na definição do art. entretanto. [43] Tal argumentação permite concluir que até mesmo a pessoa jurídica de forma geral. pois a tutela nessas áreas "não se pode restringir ao momento posterior ao acordo entre o consumidor e o fornecedor". Assim.87 É dizer. estão protegidos todos os potenciais consumidores.3 A pessoa exposta às práticas comerciais e contratuais "Para os fins deste capítulo [das práticas comerciais] e do seguinte [da proteção contratual]. i. 29).2. de modo que o "intermediário que adquirir produto sem que o faça na condição de adquirente ou usuário final" deverá se valer das disposições do Código Civil. 17). qualquer vítima de um produto ou serviço receberá a proteção do CDC como se consumidor fosse. inclusive aquele que adquiriu o produto para revenda. pequena ou grande empresa.. para que tenha . expostas às práticas nele previstas" (art. o parágrafo único do mesmo artigo garante a sua proteção coletiva. privada ou pública.2.

nacional ou estrangeira. mas isso não lhes afasta da incidência do CDC. ao contrário do que ocorre no art. ainda que em nenhum momento se possa identificar um único consumidor real que pretenda insurgir-se contra tal prática. parágrafo único. Esse entendimento se faz possível pela não inclusão de qualquer tipo de limitação na definição do art. ostensivamente quando atua como agente econômico ou prestando serviços . empresas públicas. sua ética de responsabilidade social no mercado. 29. pública ou privada. 14. importação. órgãos da Administração direta. mas não há dúvidas de que ele é tratado como fornecedor pelo CDC. 4º. ao revés. bem como os entes despersonalizados. o art. construção. FORNECEDOR Fornecedor. sociedades de economia mista. façam parte de uma coletividade indeterminada composta só de pessoas físicas ou só de pessoas jurídicas. distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços". de pessoas jurídicas e de pessoas físicas.88 um caráter preventivo e mais amplo". onde há referência expressa ao ‘destinatário final’. [45] "Uma vez existindo qualquer prática comercial. para os consumidores diante da prática comercial abusiva. ou. 966. montagem. Assim. sua nova ordem pública. do CDC). criação. [49] 4. [51] Atente-se que nem todo fornecedor é empresário." [46] Herman Benjamin esclarece ser "indiferente estejam essas pessoas identificadas individualmente ou. Também o Estado. direto ou indireto. do CC. seja sociedade empresarial. As sociedades simples (CC 981 e 982) não são empresárias. transformação. até.. caput. O único requisito é que estejam expostas às práticas comerciais e contratuais abrangidas pelo Código. 2º. apontando como único limite a idéia de prejuízo. exclui o profissional liberal do conceito de empresário. segundo a definição legal (CDC 3º). e nem mesmo capacidade civil. [50] A definição que nos é dada pela lei não exclui nenhum tipo de pessoa jurídica. fornecedor é todo e qualquer participante do ciclo produtivo-distributivo." [47] Cláudia Lima Marques [48] inclui entre as pessoas expostas às práticas abusivas também os agentes econômicos. ainda que mereça tratamento diferenciado (art. Em suma. fundações públicas ou privadas. com ou sem fins lucrativos. toda a coletividade de pessoas já está exposta a ela. para combater as práticas comerciais abusivas". Assim. etc. "é toda pessoa física ou jurídica. sendo-lhes facultado o manejo "[d]as normas especiais do CDC. que desenvolvem atividades de produção. exportação. não se exige que o fornecedor tenha personalidade jurídica. seus princípios.

com regularidade. não se exigindo que o prestador seja "profissional" da área. não são considerados profissionais . em última análise. cobrando mensalidade ou algum outro tipo de contribuição. [53] Filomeno enquadra na definição de fornecedor todos que "propiciem a oferta de produtos e serviços no mercado de consumo.. se a entidade associativa tiver como fim precípuo a prestação de serviços. 4. sejam representados ou não por intermédio de conselhos deliberativos. como se sabe. [58] Ainda. i. diz Filomeno .1 Atividade econômica Por atividade se entende o "conjunto de atos ordenados em função de um determinado objetivo (. devendo ser avaliada de forma autônoma em relação aos atos singulares de que é composta". "Qualquer ato singular deve poder ser reconduzido a uma atividade para ser considerado ato de fornecimento e submeter-se às normas do CDC".1 Elementos característicos do fornecedor 4.1. [57] [56] 4. de modo que." [54] Para Cláudia Lima Marques [55].2 Profissionalismo Outrossim. o que caracteriza o fornecedor de produtos é o desenvolvimento de atividades tipicamente profissionais. mas sim de uma atividade econômica. Já quanto ao prestador de serviços. não podem ser considerados fornecedores em face de seus associados e condôminos. como ressalta Flávia Püschel [60]. pela análise do dispositivo legal que define quem pode ser considerado fornecedor. sendo despiciendo indagar-se a que título. são os órgãos deliberativos soberanos nas chamadas ‘sociedades contingentes’".e. Já as entidades associativas e os condomínios em edificações. de maneira a atender às necessidades dos consumidores. ou então mediante participação direta em assembléias gerais que. pois "seu fim ou objetivo social é deliberado pelos próprios interessados.). Porém. e o propósito de obter um ganho.1.89 públicos mediante remuneração direta [52]. de onde se concluí não bastar a prática de atos isolados para que se caracterize a figura do fornecedor. deve ser considerada fornecedora desses serviços.. [59] A regularidade consiste no exercício constante e estável da atividade. basta que a atividade seja habitual ou reiterada.. objetivo de satisfação de necessidade alheia. está abrangido pelo conceito de fornecedor. temos que não bastará o exercício de qualquer atividade. tal atividade econômica deve ser desenvolvida com profissionalismo.

sem procurar o incremento patrimonial propriamente dito. basta para que se configure a relação de consumo.1. aquele que exerce . prevalece que basta ter "por objetivo buscar o reembolso dos fatores de produção empregados ou evitar perdas e gastos. não-subordinada. parágrafo único e 931. para que se caracterize determinado ente como fornecedor. embora não haja remuneração por tais amostras. 927. com o objetivo de auferir lucros. de modo que as entidades que desenvolvem atividades sem fins lucrativos não seriam consideradas fornecedoras. i. e não aos atos singulares. [61] É indispensável que o desenvolvimento da atividade econômica seja voltado para a satisfação de necessidade alheia.. não conseguiria competir com os preços da primeira. tendo que incluir no custo de sua operação o ônus de responder objetivamente aos danos que der causa. De acordo com Rizzatto Nunes. a atividade comercial sazonal ou eventual não obsta a incidência das regras do CDC.e. [66] Assim. há divergência doutrinária. pois. que seja ininterrupta – para que se configure uma relação de consumo. A definição de atividade autônoma é obtida como contraposição de atividade subordinada: desenvolvida na dependência de outrem e cujos resultados se referem a bens alheios ou a serviços depois fornecidos por outrem. ou seja. que. Porém. por produtos distribuídos gratuitamente como amostra. à responsabilidade subjetiva. não sendo possível a caracterização de profissionalismo na pessoa que produz exclusivamente para a satisfação de necessidade pessoal. e ressalvada a aplicação dos arts. Porém. Para alguns – como Giuseppe Ferri e Tullio Ascarelli [62] – deverá haver finalidade de obtenção de lucro. o objetivo de ganho deve referir-se à atividade em si. pouco importando se para poucos ou para muitos. por exemplo. ainda que não de forma contínua. à princípio.. é preciso que exerça sua atividade econômica de forma autônoma.90 aqueles que exercem atividade econômica "acidentalmente e cuja organização exaure sua função no cumprimento do próprio ato para o qual foi criada". O fornecedor é responsável.e. a obtenção de ganho." [63] Entender de outro modo poderia fomentar a concorrência desleal entre entidades sem fins lucrativos – sujeitas. não há necessidade de que cada ato singular seja praticado com o objetivo de obter ganho.3 Autonomia Por fim. de incremento no patrimônio. a atividade que ocorra com certa regularidade. é importante ressaltar que não se exige a habitualidade da atividade – i. do CC – e as com finalidade lucrativa." [65] 4. Quanto ao último elemento. tal distribuição gratuita faz parte do exercício da atividade econômica profissional do fornecedor. [64] "Além disso.

." [70] Produtor presumido é o importador. de modo que o "produtor final responde pelos defeitos da parte componente. seja de uma parte componente. evitando que ele tenha que buscar a reparação em face do produtor real estrangeiro. e o produto final (pronto para servir ao uso a que se destina).91 atividade na qualidade de empregado de outrem.2 Espécies de fornecedor Estabelecida a amplitude do conceito de fornecedor (art. bem como pelos defeitos da matériaprima empregada na produção da parte componente (. em razão da responsabilidade solidária imposta pela lei (CDC. aquele que desenvolve suas atividades 4. contribuindo em qualquer medida "para a confecção de um produto apto para a distribuição.1 Produtor final e produtor de matéria prima ou parte componente De acordo com as etapas da produção. Mas quando adentramos no tema da responsabilidade pelo fato do produto mostra-se de grande importância. Tal ficção legal existe como concretização do postulado que determinada a facilitação da defesa do consumidor em juízo. o comerciante. 3º). 4." 4. não é fornecedor.2. . porém: na seção que trata da ‘responsabilidade por fato do produto ou serviço’ (arts. Perante o consumidor tal distinção não apresenta relevância prática nas questões relativas ao vício do produto. e o prestador de serviços. assim como por aqueles resultantes diretamente de sua própria atividade. uma vez que.). é fornecedor. dependendo das circunstâncias. seja de um produto final. A princípio.2.2 Produtor real. sobretudo. presumido e aparente Produtor real é aquele que participa de maneira autônoma no processo de produção de um bem. e referidos sob a denominação comum de fornecedor. seja de uma matéria-prima. estar enquadrado em qualquer uma dessas categorias. é possível identificar três espécies de produto: a matéria-prima (materiais e substâncias destinados à fabricação de produtos). de uma análise da função do produto e do modo como é oferecido no mercado. mas está inserido na cadeia produtiva. [68] Um mesmo produto pode. Há uma exceção. a parte componente (que se destina à incorporação a um produto final). de acordo com Flavia Püschel [69]. 12-14). "cada produtor responde pelos defeitos surgidos durante o seu próprio processo de produção ou em fases anteriores". a lei dá tratamento específico e diferenciado para o produtor [67]. portanto. todos são tratados de forma uniforme ao longo do Código. art. cabe agora traçar eventuais diferenças entre os diversos participantes da cadeia produtiva-distributiva. 18).. e. dependendo.

Existindo. quando o produtor final [74] do produto não for suficientemente identificado. deve ser levada em conta "a influência da atividade em questão sobre a configuração e qualidades essenciais do produto".2. não há como negar a sua incidência em .4 Prestador de serviços Prestador de serviços é aquele ator da cadeia produtiva-distributiva que presta qualquer tipo de atividade no mercado de consumo. apenas uma manipulação insignificante.e. de forma subsidiária. Em face da redação explícita da lei. 4. é todo sujeito que distribui produtos no âmbito de sua atividade profissional. ou ainda. em seu art.. o comerciante somente é responsabilizado pelo fato do produto direta e isoladamente quando houver máconservação do produto. na definição de Flavia Püschel [72]. "por si ou então por suas empresas públicas que desenvolvam atividade de produção. 4.3 Comerciante Comerciante. impedindo que o consumidor acione diretamente o produtor real. diz que o fornecedor pode ser ente público ou privado. Atente-se. Assim. i. se há "influência sobre a estrutura ou qualidades essenciais do bem. deverá ser analisada qual a atividade preponderante para que se possa dar o tratamento legislativo adequado à relação de consumo. ao contrário. de modo a ocultar a indicação do produtor real do produto. ou ainda as concessionárias de serviços públicos" [75].2. Ainda que não tenha efetivamente participado da produção.3 O Poder Público como fornecedor O Código. envolvendo ou não o concomitante fornecimento de produto. porém. o produtor aparente é tratado como se tivesse em razão da situação de aparência criada para o consumidor. que não fica excluída a eventual responsabilidade do produtor real. trata-se de atividade de produção. [71] 4. sem exercer ele próprio atividade de produção. Quando houve fornecimento de produto juntamente com a prestação de serviços.92 Produtor aparente é aquele que simplesmente apõe ao produto o seu nome ou marca. Enquanto a responsabilidade pelo vício do produto é solidária de todos os participantes da cadeia produtivo-distributiva. 3º. trata-se de atividade de simples distribuição" [73]. O tratamento dado pelo CDC ao comerciante é diferente dos demais fornecedores. criando a aparência de ter ele mesmo produzido o bem. Para diferenciar a atividade produtiva da mera distribuição. inclui-se no conceito de fornecedor o próprio Poder Público.

Já quanto ao enquadramento ou não de todas as atividades exercidas pelo Poder Público veremos mais adiante quando for debatida delimitação legal do serviço. e destinado a satisfazer uma necessidade do adquirente. [81] Roberto Senise Lisboa [82] entende não ser razoável a exclusão pura e simples do bem de insumo da proteção do CDC. Bens. é "a coisa adquirida para desenvolvimento da própria atividade. Bem de insumo. 3º. sendo objeto de apropriação privada. material ou imaterial" (art. ou de consumo. e como o produto não-durável tem características diversas. bens não duráveis (bens tangíveis que normalmente são consumidos em um ou em alguns poucos usos). móvel ou imóvel. independente . assim. §1º). "é qualquer bem. a limitação deve ser feita somente com base na finalidade (motivo) da aquisição do produto (consumo como destinatário final). são coisas úteis aos homens. sem qualquer transferência para a clientela". de modo que "o bem transformado para uso posterior próprio não retira do adquirente ou utente a situação jurídica de consumidor". No mesmo sentido. bens econômicos são as coisas úteis e raras. que provocam a sua cupidez. sempre que configurados os elementos acima expostos. como instrumento hábil para a consecução dos fins objetivados. Uma outra classificação se mostra relevante para fins de se determinar a incidência ou não da legislação consumerista: bem de insumo. que têm essência de duráveis. Surge a dúvida de onde classificar os produtos descartáveis. ou de produção. e bem de custeio. [76] Filomeno resume. é aquele "utilizado para fins de transformação e posterior transmissão". não havendo tratamento legislativo específico. por sua vez. o descartável deve receber o tratamento dispensado ao durável. na econômica definição do CDC. mas vida útil de não-duráveis. conceituando produto como "qualquer objeto de interesse em dada relação de consumo. 5. PRODUTO Produto. Rizzatto Nunes [80] defende que. [78] O simples fato de o produto não se extinguir numa única utilização não lhe retira o status de não durável – "o que caracteriza essa qualificação é sua maneira de extinção ‘enquanto’ é utilizado" [79]. enquanto bem de custeio.93 relação ao Poder Público. uma vez que a lei não faz qualquer ressalva. como destinatário final". [77] É de relevância a classificação dos bens com base em sua taxa de consumo (CDC 26): bens duráveis (bens tangíveis que normalmente sobrevivem a muitos usos). Rizzatto Nunes [83] defende que o CDC é aplicado nos casos em que os produtos e serviços são oferecidos no mercado de consumo para a aquisição por qualquer pessoa como destinatária final. suscetíveis de apropriação.

com o posicionamento reiterado do STJ [87]. Roberto Senise Lisboa [85] ressalta que a lei somente excepciona os serviços prestados em relações trabalhistas. é relevante ressaltar que o produto (assim como o serviço) gratuito. apresentando vício em alguma peça. justifica tal posição na existência de legislação própria (Lei nº 8245/91). [89] Assim. 39. Tal posição se coaduna. a adoção das outras soluções propugnadas pelo legislador (redibição. Outra classificação extremamente útil nos é trazida por Roberto Senise Lisboa quanto à substituição das peças: entre produto compósito e produto essencial (não compósito). que contém ainda dispositivo contra prática abusiva (denúncia vazia na vigência de contrato por prazo determinado. SERVIÇO Serviço "é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. art. [86] Outrossim. comercial ou administrativa. "os contratos unilaterais de prestação de serviços e os contratos . sob pena de comprometer a sua substância. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista" (CDC3º. seja de natureza civil. ao fornecedor será aberto o prazo legal para realizar os reparos necessários. como atividade remunerada. para a produção ou não de outros produtos ou serviços. estimação ou troca)". Produto compósito "é aquele resultante do justaposicionamento de peças e componentes que podem ser substituídos sem que se proporcione a sua inadequação". [84] Por fim.94 do uso que o adquirente faça. 4º). pouco importando "que o serviço. enquanto produto essencial "é aquele que não pode ter qualquer de seus componentes retirados ou substituídos. haverá relação de consumo sempre que preenchidos os requisitos legais. de modo que seus elementos são insuscetíveis de dissociação. a utilização da expressão "mediante remuneração". também está regulado pelo CDC (art. porém. mediante remuneração. e nenhum outro mais. significaria abranger também os serviços remunerados de forma indireta – a lei se refere à remuneração do serviço e não à sua gratuidade. 6. §2º). enquanto o produto compósito. que tem. Assim. outrossim. aplicado CDC em relação à administradora de imóveis [88]. estariam excluídos da aplicação do CDC. Este "não pode ser reparado no caso de existência de vício intrínseco. estando sujeito a todas as suas regras. as relações locatícias de imóveis. financeira. parágrafo único). inclusive as de natureza bancária. ao invés de "oneroso". "amostra grátis". neste caso." Por outro lado. segundo Filomeno . de crédito e securitária. mesmo quando firmada entre pessoas jurídicas. cabendo ao consumidor.".

. e que "mediante remuneração" não se refere a tributos. não há que se falar em aplicação do CDC. para Rizzatto Nunes [95] estão incluídas no conceito de serviço. [91] 6. "todas as atividades oferecidas pelos órgãos públicos diretamente ou por suas empresas públicas ou de economia mista. e os que deixam como resultado um produto.1 Serviços públicos "Serviço público é toda atividade de oferecimento de utilidade ou comodidade material destinada à satisfação da coletividade em geral. com a exclusão de todos os demais. taxas ou contribuições de melhoria.95 gratuitos puros" [90] não são regidos pelo CDC. art. pois não haverá a necessária onerosidade da relação obrigacional. Classificam-se os serviços em "duráveis" e "não-duráveis". não seria possível confundir o consumidor com o contribuinte. Assim. estariam sujeitos à disciplina do CDC. sob um regime de Direito Público – portanto consagrador de prerrogativas de supremacia e de restrições especiais – instituído em favor dos interesses que houver definidos como próprios no sistema normativo" [92]. todos os serviços públicos. sempre que se tratar de serviço público. remunerados por taxa ou tarifa. Admite apenas a inclusão dos serviços remunerados por tarifas em sua definição. . aqueles são os que têm continuidade no tempo em decorrência de estipulação contratual. II e III). e não de consumo – "contribuinte não se confunde com consumidor". as concessionárias e permissionárias ou qualquer outra forma de empreendimento" – i. de modo que somente a "prestação de serviços públicos. Já para Cintra do Amaral [94]. pois aí haveria relação jurídica de natureza tributária. benefícios ou satisfações que são oferecidas à venda. mas fruível singularmente pelos administrados. 79. Já para Regina Helena Costa [96]. estes são os que se esgotam uma vez prestados.e. nos serviços públicos o Estado sempre figura como responsável pelos eventuais danos decorrentes do serviço. "é a exigência de remuneração específica pela prestação de determinado serviço público que vai determinar sua sujeição à disciplina legal das relações de consumo". mas tão somente a sua intervenção como regulador das relações privadas. Por outro lado. Filomeno [93] entende que "serviços" são atividades. seja ele prestado diretamente pelo Estado ou por concessionária. específicos e divisíveis" (CTN. que o Estado assume como pertinente a seus deveres e presta por si mesmo ou por quem lhe faça as vezes. sem ressalvas. enquanto que nas relações de consumo não haveria responsabilidade estatal. além da atividade privada. mesmo que prestados por sujeito que normalmente atua como fornecedor no mercado de consumo.

" O entendimento do STJ [101]. seguindo essa orientação. para fins da lei.96 Num primeiro momento Roberto Senise Lisboa [97] defendeu que quando a lei excluiu expressamente as relações trabalhistas do rol das prestações de serviço por si reguladas. deve se submeter às normas do Código de Defesa do Consumidor sempre que fornecer um serviço público uti singuli. afirma ser indiscutível a aplicabilidade do CDC aos serviços remunerados por tarifa. o Estado está isento de responsabilidade. não estariam jamais sujeitos à regulação do CDC. "toda a atividade remunerada lançada no mercado de consumo pelo órgão público". porque o destinatário final se utiliza da atividade estatal a ele fornecida em razão do pagamento da prestação diretamente vinculada a essa atividade" [99]. "uma vez que o pagamento de impostos e taxas é dirigido para o cofre público. Mais. que por natureza são uti universi (tais como segurança. pois considera-se serviço. E resume: "a Administração Pública. que podem ser prestados uti singuli. em ralação aos atos de império e pelo exercício do poder de polícia. Revendo sua posição [98]. Ainda. Por outro lado. Isso exclui "praticamente todas as relações jurídicas tributárias" da regulação do CDC. o referido autor passou a defender ser necessária a análise da forma de pagamento da remuneração e a natureza do serviço público desempenhado a fim de se aferir a incidência ou não da legislação de consumo. os impostos. justiça. sendo as verbas obtidas pelo Poder Público repassadas para cada setor da atividade pública. Por outro lado. incluiu todas as demais. Roberto Senise Lisboa [100] ainda defende que os serviços tipicamente estatais. é de que a prestação de serviço público não configura relação de consumo. seriam invariavelmente submetidos ao regime do CDC. somente haverá relação de consumo com a administração pública (direta ou indireta) quando a aquisição ou utilização do serviço se der mediante pagamento direito. não teriam a especificidade nem a divisibilidade necessárias para a caracterização de relação de consumo. sem exceção. seja por que regime for. inclusive as de natureza administrativa. de acordo com o orçamento previamente elaborado pela Administração". que é "genuína remuneração pelo serviço prestado pelo órgão público ou pela entidade da Administração indireta. prestadas pela administração pública direta ou indireta. mesmo as taxas. somente quando os serviços e produtos são oferecidos no "mercado de consumo" poderia haver relação de consumo. Para o autor. de modo que a prestação de serviço público típico. e saúde pública). direta ou indireta. os serviços públicos impróprios. Destarte. mediante o pagamento diretamente efetuado pelo consumidor a título de prestação correspondente. . Segundo esse entendimento.

Código do consumidor comentado. 1995. tal decisão pouco contribuiu para a definição do conceito de consumidor.. em cada caso. o STF pacificou a questão – ADI 2591 – determinando a sujeição de tais atividades às regras do CDC. financeiras e de crédito. como sendo o destinatário final dos serviços. negando de forma peremptória que não há relação de consumo entre o poder público e contribuinte. uma vez que não há como considerar que o serviço público típico esteja colocado no mercado de consumo.stj. ficaria excluída da incidência do CDC.br. Ademais. BANDEIRA DE MELLO. limitando-se a defini-lo. e do controle e revisão.97 aquele remunerado por tributo (em oposição ao atípico. Fátima Nancy. pelo Banco Central do Brasil. .gov. 2ª ed. Semelhante é o entendimento do STF [102] sobre o tema. 2006. de eventual abusividade. ALMEIDA. remunerado por tarifa). 2ª ed. Outrossim. onerosidade excessiva ou outras distorções na composição contratual da taxa de juros". In: http://bdjur.. Manual de direito do consumidor. 7. Acessado em 26/03/2007. como a lei. BIBLIOGRAFIA ALVIM NETTO. João Batista. esta posição se encontra em perfeita harmonia com a legislação consumerista. José Manoel de Arruda. nos termos do disposto no Código Civil. sobre as quais se discutia a possibilidade de regulamentação através de lei ordinária. 192. afastando. sem prejuízo do controle.2 Atividades bancárias. São Paulo: RT. financeiras e de crédito Quanto às atividades bancárias. São Paulo: Saraiva. Celso Antônio. pelo Poder Judiciário. 6. do seu campo de aplicação "a definição do custo das operações ativas e da remuneração das operações passivas praticadas por instituições financeiras no desempenho da intermediação de dinheiro na economia. James et alii. porém. MARINS. Afirmou-se ainda que somente é necessária a edição de lei complementar para a regulamentação da estrutura do sistema financeiro – CF. conforme se extrai de definição de fornecedor adotada neste trabalho. ANDRIGHI. O conceito de consumidor direto e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. art. Curso de direito administrativo.

Acessado em 26/03/2007. ___________. Roberto Senise. Ago/1997. 89-105. O conceito de consumidor padrão. Mai-Jul/2006. Relação de consumo e proteção jurídica do consumidor no direito brasileiro. 02. Jan/1991. Regina Helena. Disponível em: http://bdjur. Mirella D’Angelo. 80. COSTA.br. Código brasileiro de defesa do consumidor comentado pelos autores do anteprojeto.saraivajur.br. n. Acessado em 04/06/2007.com.com. Fábio Konder. O conceito de consumidor no parágrafo único do art. ___________. p.gov. n.stj. ___________. In: www. Out-Dez/1990. 1999. 69-79. 2ª ed. 8ª ed.direitodoestado.br. Sérgio Pinheiro.saraivajur. LISBOA. p. Disponível em: http://www. Definição legal de consumidor. 2003. In: Revista CEJ. GRINOVER. Proteção ao consumidor: conceito e extensão. In: Repertório IOB de jurisprudência. DONATO. Maria Antonieta Zanardo. 66-75. CINTRA DO AMARAL. 42-41. n. A proteção ao consumidor na constituição brasileira de 1988. 628. Ada Pellegrini et alii. Responsabilidade civil nas relações de consumo. São Paulo: RT. In: Revista eletrônica de Direito Administrativo Econômico. Acessado em 11/06/2007. MARÇAL. COMPARATO. 15/16. Herman. 6. Distinção entre usuário de serviço público e consumidor. ___________. Definição jurídica de consumidor – Evolução da . n. A tributação e o consumidor. 1974. BEJAMIN. São Paulo: Malheiros.br.98 16ª ed. 2/91. Fev/1988. CALDEIRA. In: Revista de direito mercantil. In: Revista dos tribunais. Acessado em 26/03/2007. 2005. n. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Eros Roberto. In: Revista de direito mercantil. 2º do Código de Defesa do Consumidor. 2006...com. n. GRAU.. A proteção do consumidor: importante capítulo do direito econômico. São Paulo: RT. O código brasileiro de proteção do consumidor. Antônio Carlos. São Paulo: Juarez de Oliveira. p. p. 1994. O conceito jurídico de consumidor. Disponível em: www.

in: Código comentado. 31. 2005. ‘O conceito jurídico de consumidor’. Fábio Konder Comparato. 2ª ed. Herman Benjamin. p. p. Comentários. PÜSCHEL. n.99 jurisprudência do STJ. p. Proteção ao consumidor. Comentários ao código de defesa do consumidor. p. desde que possa subsumir-se no enquadramento normativo dos conceitos de consumidor que o CDC estabelece. São Paulo: RT. 6 e 29-32. p. James Marins. 87-98. 159. V. Maria Antonieta Donato. A responsabilidade por fato do produto no CDC. São Paulo: Saraiva. 78-80. Filomeno. 2006. Flavia Portella. ‘O conceito jurídico de consumidor’. In: Revista do advogado. p. p. 21. Rizzatto Nunes. Notas 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 Roberto Senise Lisboa. ‘A proteção do consumidor’. Em sentido semelhante: "A lei é clara ao classificar como consumidor a pessoa jurídica. p. Roberto Senise Lisboa. Comentários ao código de proteção ao consumidor. 88. Rio de Janeiro: Forense. 71. São Paulo: Saraiva. 1977. p. Herman Benjamin. 71-78. OLIVEIRA. 90-91. Responsabilidade civil. James Marins. Há polêmica no Brasil acerca do tema. 107-113. Roberto Senise Lisboa. considerando consumidora . p. São Paulo: Quartier Latin. 2004. Responsabilidade.). 19-20 e notas. in: Código comentado. Proteção ao consumidor. Othon. Juarez de (coord. Relação de consumo. in: Código comentado. MARQUES. p. 1991. Comentários. 189. Dez/2006. Rizzatto Nunes. 89. Luiz Antônio Rizzatto. p. Comentários ao código de defesa do consumidor.. Cf. SIDOU. Cláudia Lima et alii. havendo quem queira distinguir onde a lei não o faz. p. NUNES.

não tendo nenhuma relação com o seu ‘porquê’ (Responsabilidade civil. p. p." (Thierry Bougoignie apud Maria Antonieta Donato. 25 26 Cf. 108). o ‘para que’ o fato ocorreu." Nery Jr. p. . É o que Roberto Senise Lisboa chama de ‘teoria da causa final’. 71. Responsabilidade civil. 165. Comentários. p. indústria de automóveis que adquire computadores para seu escritório não seria consumidora. 71-74. p. p. 68 e 108. in: Código comentado. ou alguém duvida sinceramente que o cafezinho do diretor da montadora de carros não esteja embutido no preço final dos veículos vendidos aos consumidores? 20 21 Maria Antonieta Donato. 22 23 24 Filomeno. para os que a defendem. p. 169-183). 32. p. 35-40.100 a pessoa jurídica apenas quando adquira produto ou se utilize de serviço que não seja considerado insumo para sua atividade empresarial. 29. p. isto é. ‘O conceito jurídico de consumidor’. 31-37. Cláudia Lima Marques. 72. pouco importando que faça ou não parte da cadeia produtiva. são considerados insumos. João Batista de Almeida. e os bens ou serviço que são objeto de sua especialidade comercial ou profissional’. caput. 2º. p. 14 15 16 James Marins. Manual. a tese restritiva nega vigência ao art. Cf. praticamente nunca a pessoa jurídica seria consumidora. do CDC. 494. p. nessa condução. Levada à sua última conseqüência. Roberto Senise Lisboa. p. David W. Herman Benjamin. p.. pois. 71. in: Código comentado. p. 80 apud Herman Benjamin. Para essa corrente restritiva. 18 19 17 Cláudia Lima Marques. ‘O conceito jurídico de consumidor’. Uma nota se faz imprescindível sobre esse argumento: todo e qualquer bem adquirido pela empresa está incluído no preço final ao adquirente de seus produtos. p. Proteção ao consumidor. in: Código comentado. Comentários. e Responsabilidade civil. "[P]oderá ser conferida a tutela protecionista dos consumidores às pessoas jurídicas ou aos consumidores-profissionais desde que fundada ‘na ausência de similitude entre o bem e o serviço que são objeto do ato para o qual o profissional reclama a sua qualidade de consumidor. Proteção ao consumidor. 27. Pearce. Roberto Senise Lisboa. 166-167. pois os computadores melhoram a sua produtividade e. The dictionary of modern economics. Relação de consumo.

voto in: ADI nº 2591. 77. Rizzatto Nunes. in: Código comentado. 99. ‘O conceito de consumidor no parágrafo único do art. . coord. p. Comentários. p. p. p. in: Código comentado. 43 44 45 46 47 V. p. Comentários. Note-se a utilização pouco técnica desse termo. in: Comentários. p. cit. in: Comentários. in: Código comentado. 80-81. p. por Juarez de Oliveira. 74-75. 148.056-SP Nancy Andrighi. 38. Filomeno.101 27 28 29 30 Herman Benjamin. Comentários. p. Proteção ao consumidor. 20. 23. James Marins. 100. Rizzatto Nunes. p. o termo mais apropriado seria "vulnerabilidade". in: Comentários. p. Mirella Caldeira. p. Fábio Ulhoa. in: Código comentado. por Juarez de Oliveira. 140. uma vez que o CDC somente faz referência à hipossuficiência para fins processuais. 148-149. in: Código comentado. James Marins. in: Conflito de Competência nº 41. 195. p.428-SC. 27. 253. p. Fábio Ulhoa. in: REsp 476. 277. Maria Antonieta Donato. Comentários. p. in: Código comentado. James Marins. James Marins. coord. Cláudia Lima Marques. 41 42 Herman Benjamin. In: ‘Definição legal de consumidor’. Loc. p. Nancy Andrighi. ‘O conceito jurídico de consumidor’. do CDC’. Herman Benjamin. coord. 42-41. Eros Grau. Cláudia Lima Marques. por Juarez de Oliveira. ainda que o Código tampouco o eleja como elemento definidor de consumidor – a vulnerabilidade é conseqüência de ser consumidor. 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 Cf. p. 2º Cf.

Filomeno. 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 Cf. caput. 93. Utilizamos aqui a terminologia sugerida por Flávia Püschel (Responsabilidade. p. p. 65. 57-58). p. Flávia Püschel. Denari. Responsabilidade. 46. Responsabilidade. 174. utilizando o termo produtor para referir a todos aqueles enumerados no art. Cláudia Lima Marques. 71-72. Flávia Püschel. p. nota 47. Responsabilidade. 65. 112-113. 63. p. Responsabilidade. p. Flávia Püschel. 43. criação. Flávia Püschel. p. Mas também quando há remuneração indireta: Rizzatto Nunes. 67. Cf. Comentários. uma vez que todos recebem indistintamente o mesmo tratamento legal. 19. p. Flávia Püschel. Responsabilidade. p. Comentários. Rizzatto Nunes. Filomeno. p.102 48 49 Cláudia Lima Marques. além de "remeter à idéia de produção. nota 102. de poder para influir sobre as características do produto. p. in: Código comentado. in: Código comentado. Rizzatto Nunes. 62. Filomeno. 59-61. nota 77. 101-102. p. Responsabilidade. Responsabilidade. . p. Responsabilidade. p. isto é. Responsabilidade. No mesmo sentido: Herman Benjamin. 65. p. p. Flávia Püschel. 12. p. 45. 397. p. Comentários. Tullio Ascarelli apud Flávia Püschel. Responsabilidade. Cf. in: Código comentado. p. Comentários. p. 63." 68 Flávia Püschel. Apud Flávia Püschel. p. Comentários. 66. 50 51 52 Cf. 101. Flávia Püschel. in: Código comentado. ‘O código brasileiro de proteção ao consumidor’.

p.: REsp nº 689266. 107-108. 111. Rizzatto Nunes. Cf. p. Cláudia Lima Marques. v. p. Filomeno. Cf. in: Código comentado. nota 20. p. 119 apud Filomeno. e 575020. ex. Responsabilidade. p. 48. Direito civil. Flávia Püschel. p. p. p. AgRg no Ag nº 363679. p. p. p. Comentários. in: Código comentado. p. Comentários. 83. Filomeno. 1. Rizzatto Nunes. Comentários. James Marins. Responsabilidade. p. 199. Comentários. 25-26. Rizzatto Nunes. Roberto Senise Lisboa. Responsabilidade. Responsabilidade. p.103 69 70 71 72 73 74 75 Flávia Püschel. p. Relação de consumo. Roberto Senise Lisboa. Rizzatto Nunes. Rizzatto Nunes. 47. Comentários. Responsabilidade civil. Flávia Püschel. p. REsp nº 614981. No mesmo sentido: Rizzatto Nunes. 101. Sílvio Rodrigues. 90 91 Roberto Senise Lisboa. Flávia Püschel. p. 25. in: Código comentado. in: Código comentado. P. Cf. 37-38. 77 78 76 Cf. Flávia Püschel. Cf. e 636897. Comentários. 196-197. 82. Rizzatto Nunes. p. p. 86. Responsabilidade civil. 47. in: Código comentado. p. p. 110-111. 73-74. Roberto Senise Lisboa. 198 e ss. Filomeno. p. p. p. p. Roberto Senise Lisboa. 94. Relação de consumo. Filomeno. 82. 79 80 81 82 83 84 85 86 87 88 89 Cf. p. Responsabilidade. Comentários. 57. Cf. p. 107-108. 43. Comentários. 108. Relação de consumo. 9-10.. Flávia Püschel. 77. . in: Código comentado. 92. Responsabilidade. Relação de consumo. Roberto Senise Lisboa.

Comentários. Roberto Senise Lisboa. in: Código comentado. p. AgRegAI 282. Filomeno. 213-214. 102 . 95 96 Rizzatto Nunes. Roberto Senise Lisboa.. Divergiram da fundamentação da maioria. REsp 625. STF. Relação de consumo.144-SP. Rel. p. 28. p. Rel. 3ª T. 211-213. 122-123. 2ª T. p. Relação de consumo. Carlos Velloso. Nancy Andrighi.. 97 98 99 Roberto Senise Lisboa.298-2/RS. 612. p. Cintra do Amaral. p. Nesse mesmo sentido: Maria Antonieta Donato. ‘A tributação e o consumidor’. Min. 6. ainda. 214-217. Responsabilidade civil. 112-113. ‘Distinção entre usuário de serviço público e consumidor’. Min. Curso.. 100 101 STJ. Roberto Senise Lisboa. entendendo que na prestação de serviço público típico há relação de consumo: Nancy Andrighi. Responsabilidade civil. 48-49. p. n. os demais julgados lá referenciados. Regina Helena Costa.104 92 93 94 Celso Antônio. Proteção ao consumidor. V. p. e Castro Filho.

Maria Helena Diniz. Donde vê-se necessário. consumidor será o não profissional que de algum modo encontra-se vinculado com o fornecedor de produtos ou serviços. Em regra. de início. Mas não é bem assim. em apertada e perigosa síntese. que constituem o âmbito pessoal de determinadas normas. De efeito.078. Vejamos. 459). forem relevantes no que atina ao caráter deôntico das normas aplicáveis à situação. faltante um único deles sequer. devemos definir a relação jurídica de consumo. 2004). São Paulo. concluir-se-á pela inaplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor.078. amplamente. desta feita cingindo-nos à definição. . todas as relações jurídicas exigem a presença de alguns elementos. os elementos que constituem a relação jurídica subsumível ao Código de Defesa do Consumidor. Considerou consumidor toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final. Tal relação só existirá quando certas ações dos sujeitos. Quanto aos elementos da relação de consumo. Exige-se a presença de elementos de órbita subjetiva e. isto é. São Paulo: Saraiva. Diversa não é a relação de consumo. Estes..105 Pessoa jurídica consumidora Autor: Alex Sandro Ribeiro O enfrentamento da problemática envolvendo a pessoa jurídica qualificada com consumidora deu-se alhures. Só haverá relação jurídica se o vínculo entre duas pessoas estiver normado. de 1990. de 1990. outros. somados. Verbera ele que toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final é considerada diretamente como consumidora. O texto legal choca-se com o cotidiano. compõem-na de forma a demonstrar sua extensão e seu conteúdo. 8. Antes de qualquer coisa. LEUD. regulado por norma jurídica" (Compêndio de Introdução à Ciência do Direito. e elementos objetivos o produto e o serviço. a dicção legal do Código de Defesa do Consumidor é de clareza mediana. O artigo 2º da Lei n. de ordem objetiva. Mas a questão permanece suscitando controvérsia e nos aguçou a tecer considerações a respeito. atentar para o significado de relação jurídica. em razão do qual uma pode pretender um bem a que outra é obrigada. em nossa obra Ofensa à Honra da Pessoa Jurídica (Ed. Os atos ordinários da vida se orientam para caminho diametralmente oposto. mesmo porque. vêm eles arrolados nos artigos 2º e 3º da Lei n. Pois muito bem. esboçou a pretensão legislativa de fornecer os elementos necessários à definição das pessoas envolvidas na relação de consumo. 7ª ed. dada a incompatibilidade do preceito com a teleologia e a axiologia da norma. citando Del Vecchio. anota que "a relação jurídica consiste num vínculo entre pessoas. Evidentemente. p. 1995. Afigura-se não haver a menor dúvida. 8. São elementos subjetivos o consumidor e o fornecedor. pois.

ainda que a inferência destes na relação de consumo seja simplesmente de exposição às práticas comerciais e contratuais. econômica e institucional. O item 1 estampa a intenção de aceitar a pessoa jurídica como consumidora. a manutenção ilesa da pessoa vinculada ao negócio e de todos aqueles que. Basta que sua posição na aquisição do produto ou do serviço não o seja para fins de insumo. a segurança e. (Código de processo civil comentado. Quando houver aquisição para a soma de todas as despesas (matéria-prima." (CDC Comentado pelos autores do anteprojeto. "apegam-se às condições gerais dos contratos estabelecidos pelo Código de Defesa do Consumidor. Nesse passo.106 A exata definição.. para uma posição mais teleológica. por extensão. o "elo final da cadeia produtiva". e mais marcadamente no que tange às práticas e cláusulas contratuais abusivas. há de sofrer um abrandamento.. exige um desmembramento do artigo. a rigor. 2) aquisição ou utilização. p. pois pertence à teoria geral do direito contratual. de algum modo. pois. o conforto.. 7ª ed. 33. aos contratos de direito privado (civil e comercial). É o item 4 o essencial. 30. que a vulnerabilidade. amortização etc. 4) destinação final. já a partir do seu art. em suas necessidades básicas empresariais. 4ª ed. 2001. horas trabalhadas. também merece especial atenção quando se tenta localizar a pessoa do consumidor em eventual interpretação do artigo 2º da Lei Consumerista. quando observam que: "Dado que a ilicitude das cláusulas abusivas é matéria que não fica restrita às relações de consumo. Aqui. tais como a comodidade. haja intervindo na relação jurídica. Até aqui. enfim. Até a teoria finalista. será consumidor se obter ou usufruir real ou potencialmente o produto ou o serviço. O item 3 refere-se à contratação ou usufruição de um serviço e à aquisição ou utilização de um produto.). sendo que tal posicionamento já vem esboçado por Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery. Rio de Janeiro: Forense Universitária.. Exigiu a Lei que a pessoa fosse destinatária final do produto ou do serviço. protegendo o mais fraco na relação de consumo. São Paulo: RT. pois. simples se mostra o estudo e pouco significa para qualificar um ente abstrato como consumidor. consumidoras . reside o maior óbice à aplicabilidade irrestrita da do Código do Consumidor em favor da pessoa jurídica. 3) produto ou serviço. observando-o por quatro ângulos: 1) pessoa natural ou fictícia. porque a disjuntiva ou assim especifica e afasta a necessidade de aquisição para perpetuar a relação de consumo. p. No item 2 vê-se que a utilização é quantum satis. encontrando-se aqui um dos fundamentos principiológicos da figura do consumidor por equiparação.) que . lembra-o José Geraldo Brito Filomeno. 1841)". Algumas decisões. ainda que as partes não sejam. A pessoa jurídica pode ser considerada consumidora. assim. 1999. Anote-se. o sistema do CDC 51 deve ser aplicado. e também das vítimas de eventos danosos por fato ou vício do produto ou do serviço. enfim.

Nessa senda. assim como a redução das desigualdades sociais e regionais. ainda. Sem o consumidor. Ambos têm imediata aplicabilidade nas relações econômicas e. inegavelmente. coisa que não foi determinada pela Norma Maior. impossível a manutenção incólume da dignidade da pessoa humana. favorabilia sunt restringenda (restrinja-se o odioso. Todos. Uma interpretação de norma jurídica deve guardar correspondência mínima com o texto legal. axiológicos e sistemáticos. Todos esses fundamentos do Estado Democrático de Direito e da República Federativa do Brasil esvair-se-iam céleres com o vento. Afora isso. psicológica ou social. Sem ambos. à vontade . ubi eaden legis dispositio (onde existe a mesma razão fundamental prevalece a mesma regra de direito). Consumidor. em se concluir que há muitas pessoas jurídicas técnica e institucionalmente inferiores ao fornecedor e. sob pena de esvair a pretensão da lei e obstar que ela cumpra sua verdadeira finalidade. acabam sendo destruídos pelo ato de consumo. consumidor e economia. mais ainda. porquanto a Constituição manda proteger o consumidor. dos valores sociais do trabalho e da iniciativa privada. para a satisfação de necessidades ligadas à sua sobrevivência – lógica. justa e solidária. Não parece haver muita dificuldade. difícil se mostra a erradicação da pobreza e da marginalização. não se pode olvidar que o Código de Proteção e Defesa do Consumidor sobreveio com o escopo de dar plena e irrestrita eficácia à norma ápice. Aqui pode limitar o campo de proteção. aos fins sociais que se destina a lei. não há giro da economia. Mas também. do desenvolvimento nacional. semanticamente dissecando. nos direitos sociais. e afastar-se-ia a sapiência dos aforismos: odiosa sunt amplianda. em maior ou menor prazo.107 ocorrem na obtenção de um produto industrializado ou semi-industrializado. e. ou serviços. Esta a definição de consumo. Mas também os métodos lógico e literal dão guarida à aplicação do Código de Defesa do Consumidor às pessoas jurídicas. na linguagem do Código de Proteção e Defesa do Consumidor). da sociedade livre. Eis a aplicação dos métodos teleológicos. amplie-se o favorável) e ubi eaden ratio legis. prioritários aos métodos lógico e literal. uma das células mais importantes da economia nacional é a pessoa do consumidor. enfim. é quem adquire ou utiliza bens (produtos. será bem de insumo e não de consumo. É para ele que são destinados os produtos e os serviços. e não o consumidor de produtos ou serviços. Se não os houvesse no sistema jurídico posto. deve-se ater ao bem comum. A defesa do consumidor e a função social da pessoa jurídica espelham fundamentais princípios erigidos a dogma de calibre constitucional. ou de consumidor. que. não é difícil localizar um ente abstrato destinatário final de certo produto ou serviço. via de conseqüência. que de forma léxica caminha junto como texto constitucional. liberar-se-iam os abusos e o comprometimento da legitimidade jurídica. É para ele que se destina a publicidade.

g. se em compasso com os preceitos virtuais consagrados na Constituição Federal de 1988. relações trabalhistas). a todo o sistema normativo e. a questões históricas. todas as vezes que a interpretação for conduzida no sentido de excluir direitos. quando então deverão prevalecer as regras do Código Civil. anote-se que são exemplificativas as hipóteses de aplicação do Código Consumerista. outorgando-se elastério ao intérprete. apenas a incompatibilidade manifesta afasta a incidência do Código de Proteção e Defesa do Consumidor às pessoas jurídicas. de vez que apenas a exceção esteve expressamente mencionada (v. enfim. .108 da norma. tem ela de ser feita de maneira restrita. máxime as garantias fundamentais. Enfim. Ademais.. Ao fim e ao cabo.

1. 1. além da ação ou omissão que causa um dano.2. EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE. 2. 1 Responsabilidade subjetiva e objetiva Dois são os fundamentos da responsabilização do agente: de um lado. 186 e 187.3 Responsabilidade pelo vício do produto e do serviço.2 Riscos do desenvolvimento. 1 Responsabilidade subjetiva e objetiva.1 Previstas no CDC. Mário A essência da responsabilidade subjetiva como enuncia o insigne jurista Caio [01] assenta-se fundamentalmente na pesquisa ou indagação de como o . deve restar comprovada a culpa em sentido lato. Introdução O presente artigo aborda a responsabilidade civil prevista no Código de Defesa do consumidor e analisa as excludentes previstas em referido diploma legal. 1.2 Responsabilidade pelo fato do produto e do serviço. em seus arts.1. baseada na doutrina subjetiva ou teoria da culpa. adota como regra a responsabilidade subjetiva.2 Outras Excludentes.2. bem como outras existentes no ordenamento jurídico brasileiro e aplicáveis às relações de consumo.2. ligados pelo vínculo denominado nexo de causalidade. ou seja. 2. RESPONSABILIDADE CIVIL NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR 1. 1. a culpa. e. O Código Civil.1 Caso Fortuito e Força Maior. Referências Bibliográficas. 2. 2.3 Exercício regular de direito. Responsabilidade civil no código de defesa do consumidor. 2. de outro lado o risco.Conclusões. fundamentado pela doutrina objetiva ou teoria do risco. 2.109 Aspectos da responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor e excludentes Autoras: Michele Oliveira Teixeira Simone Stabel Daudt Sumário:Introdução.

Basta a demonstração da existência de nexo causal entre o dano experimentado pelo consumidor e o vício ou defeito no serviço ou produto. O fato danoso é que engendra a responsabilidade. segundo a qual aquele que explora atividade econômica deve arcar com os danos causados por essa exploração. A opção legislativa reflete a adoção feita pelo legislador da teoria do risco do negócio. Tratando-se de responsabilidade subjetiva a culpa integra esses pressupostos e a vítima só obterá a reparação do dano se comprovar a culpa [05] do agente. assim. referido diploma adota a responsabilidade objetiva imprópria. Não é apto a gerar o efeito ressarcitório um fato humano qualquer. muitas vezes. Não se perquire se o fato é culposo ou doloso. Assim. Porém. Com isso. A prova é. ainda que não tenha concorrido voluntariamente para a produção dos danos [07]. Segundo a teoria objetiva quem cria um risco deve responder por suas conseqüências. A vítima deverá provar somente o dano e o fato que o gerou. injustamente suportando os respectivos ônus". a responsabilidade objetiva. dispensando. basta que seja danoso. criando óbices. Para a teoria objetiva interessa somente o dano para que surja o dever de reparação. que acaba. para a ação da vítima. também chamada da culpa presumida. a responsabilidade objetiva. ou se atuou com imprudência. como regra. . em alguns casos. que é o conjunto de pressupostos da responsabilidade civil [04]. a fim de demonstrar-se. imperícia ou negligência (culpa em sentido estrito). em concreto. o principal pressuposto dessa responsabilidade é a culpa. a comprovação da culpa para atribuir ao fornecedor a responsabilidade pelo dano. ao contrário do Código Civil.110 comportamento contribui para o prejuízo sofrido pela vítima. Carlos Alberto Bittar [06] entende que: "Na teoria da culpa (ou "teoria subjetiva"). a responsabilidade civil surge pela prática de um ato ilícito [03]. cabe perfazer-se a perquirição da subjetividade do causador. como por exemplo nas hipóteses previstas nos artigos 931 e 936. bem como. pois. se quis o resultado (dolo). É preciso que este fato seja jurídico [02] e que seja ilícito. de difícil realização. O Código de Defesa do Consumidor.

como é denominada por muitos. Nesse sentido salienta Paulo Lobo [14] que caso o legislador pretendesse a exclusão da incidência do CDC aos profissionais liberais os mesmos não deveriam estar englobados no art. distribuir e comercializar produtos ou executar determinados serviços. b) o dano efetivo moral e/ou patrimonial. respondendo pela qualidade e segurança dos mesmos. c) o nexo de causalidade entre o defeito do produto e a lesão. inclusive a de inversão do ônus da prova [13]. o fator culpa seria de nula relevância. os remete à responsabilidade objetiva. inexistindo incompatibilidade entre a norma e as demais regras protecionistas. bem como aos critérios de lealdade. O fornecedor passa a ser o garante dos produtos e serviços que oferece no mercado de consumo. É importante ressaltar que o tratamento diferenciado dado aos profissionais liberais se limita ao fundamento da responsabilidade. A responsabilidade decore do simples fato de dispor-se alguém a realizar atividade de produzir. há uma exceção à responsabilidade objetiva. Como restam especificados no caput do art. condição esta que. e não só entre o dano e o produto [09].12 é necessária a ocorrência comprovada e concorrente de três elementos: a) existência do defeito. Bastaria que se demonstrasse apenas a relação de causalidade entre o dano e seu autor para que daí decorresse para o agente a obrigação de reparar". Sérgio Cavalieri ressalta [11]: "Este dever é imanente ao dever de obediência às normas técnicas e de segurança. se verificada. estocar. § 4º [12] trata da responsabilidade dos profissionais liberais. 12 que os danos indenizáveis são somente aqueles causados aos consumidores por defeitos de seus produtos observa-se ser necessária a existência de um defeito no produto e um nexo causal entre este defeito e o dano sofrido pelo consumidor. Wilson Melo da Silva responsabilidade objetiva: [10] esclarece com propriedade a definição da "Pela teoria da responsabilidade objetiva ou sem culpa. ou não. quer perante os bens e serviços ofertados." Contudo. o artigo 14. no caso. O autor do dano indenizaria pelo só fato do dano mesmo sem se indagar da sua culpabilidade. 3º.111 Claudia Lima Marques [08] ensina que para ser caracterizada a responsabilidade prevista no art. em suas atuações não ligadas a "obrigação de resultado". . quer perante os destinatários dessas ofertas.

tem o direito de ser indenizado por todos os danos decorrentes [16]. uma vez colocados no mercado. construção. fabricação. o produtor." Ou seja. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos(. Outrossim. independentemente da existência de culpa. 10º impede a colocação no mercado produto ou serviço com alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança.112 1. alegando que o produto ainda não foi colocado no mercado. 12 trata dos defeitos dos produtos. conforme ensina Silvio Luíz Ferreira da Rocha [18]: "O fornecedor que entrega seus produtos para exame ou prova não poderá subtrair-se da responsabilidade civil prevista. que ocorre no mundo exterior. Seu fato gerador será sempre um defeito do produto. apresentação ou acondicionamento de seus produtos.) um acontecimento externo. interessa verificar se há possibilidade de transmitir ao consumidor informações que capacitem o consumidor do fornecimento em questão ao seguro consumo do produto ou serviço [17]. inadequações no produto que ocasionam uma lesão no consumidor. e o importador respondem. aquele que sofrer acidente de consumo decorrente de defeito de concepção.. exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição.2 Responsabilidade pelo fato do produto e do serviço Dispõe o artigo 12: " O fabricante. O artigo 8º do CDC estabelece que os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos á saúde ou segurança dos consumidores. o construtor. por fim. fórmulas. mas que decorre de um defeito do produto.)" Sérgio Cavalieri [15] define fato do produto como: "(.. isto é. Assim. que o art. Importante destacar que existe responsabilidade inclusive se o produto foi distribuído gratuitamente.. nacional ou estrangeiro.. que causa dano material ou moral ao consumidor (ou ambos). O art. execução ou comercialização de produto. montagem. daí termos enfatizado que a palavra-chave é defeito. Ressalte-se. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto. sendo obrigado o fornecedor a dar informações necessárias e adequadas a seu respeito. manipulação. o fornecedor será responsável também por produtos .

. não elide a responsabilidade do fornecedor. Da mesma forma são considerados vícios os decorrentes da disparidade havida em relação às indicações constantes do recipiente. 12 a 14. mas com eficiência reduzida] ao consumo a que se destinam e também que lhes diminuam o valor. 18 e ss) e os vícios por insegurança (art.3 Responsabilidade pelo vício do produto e do serviço A responsabilidade por vício do produto ou serviço não está relacionada com aquela tratada pelos arts. 18 elenca as hipóteses em que há vício no produto. embalagem. d) não estejam de acordo com informações. para haver a responsabilidade do fornecedor é necessário. Os "vícios" no CDC são os vícios por inadequação (art. além é claro. O art. doação de bens destinados a vítimas de catástrofes"." [21] O CDC prevê três tipos de vícios por inadequação dos produtos: vícios de impropriedade. como a entrega de bens a seus empregados. Para Rizzatto os vícios são aqueles problemas que: a) fazem com que o produto não funcione adequadamente.12 e ss.) [20].113 distribuídos a título gratuito. rotulagem. b) fazem com que o produto funcione mal. c) diminuam o valor do produto. a título de donativo para instituições filantrópicas ou com objetivos publicitários. sem causar dano à saúde/integridade física do consumidor. Acentua Luiz Rizzatto Nunes: "São consideradas vícios as características de qualidade ou quantidade que tornem os produtos ou serviços impróprios [característica que impede seu uso ou consumo] ou inadequados [pode ser utilizado." Portanto. oferta ou mensagem publicitária. promoçõe publicitárias. do defeito e do nexo de causalidade entre este e o dano sofrido pelo consumidor. que o produto entre no mercado de consumo de forma voluntária e consciente. e) os serviços apresentem funcionamento insuficiente ou inadequado [23]. vícios de diminuição do valor e vícios de disparidade informativa [22]. A falta de qualidade no fornecimento nem sempre é causa de danos à saúde. ou. 1. Coaduna de tal entendimento Zelmo Denari [19]: "A circunstância de o produto ter sido introduzido no mercado de consumo gratuitamente. Apresentando um vício existe a responsabilidade do fornecedor. integridade física e interesse patrimonial do consumidor. ainda.

forma lanaçados no mercado. ou com a usurpação do nome. para os produtos que. Zelmo Denari [27] afirma que o defeito do produto ou serviço é um dos pressupostos da responsabilidade. ou seja. § 3° do Código de Defesa do Consumidor [24]. trazem como excludente da responsabilidade do fornecedor a inexistência de defeito. diz respeito à introdução do produto no ciclo produtivo-distributivo de forma voluntária e consciente. A primeira eximente. o nexo causal entre o prejuízo sofrido pelo consumidor e a atividade do fornecedor. Refere o autor: "Os exemplos mais nítidos da causa excludente prevista no inc. I seriam aqueles relacionados com o furto ou roubo de produto defeituoso estocado no estabelecimento. causado pelo produto. Tais hipóteses estão elencadas no artigo 12. por exemplo). § 3° e no artigo 14. por ato ilícito (roubo ou furto. arrolada no inciso III. cuidando-se. Ressalta-se que a inexistência de qualquer dos defeitos elencados no caput do . tenha sido introduzido no mercado de consumo. O dano foi. à revelia do fornecedor. de forma que se não ostentar vício de qualidade ocorre a quebra da relação causal ficando elidida a responsabilidade do fornecedor. ainda. EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE 2. nesta última hipótese da falsificação do produto. Nesse sentido manifesta-se Antonio Herman de Vasconcelos Benjamin [26]: "É até supérfulo dizer que inexiste responsabilidade quando os responsáveis legais não colocaram o produto no mercado.1 Previstas no CDC O Código de Defesa do Consumidor estipula as causas excludentes. mas inexiste nexo de causalidade entre ele e quaisquer das atividades do agente. Isso vale especialmente para os produtos falsificados que trazem a marca do responsável legal ou. Nega-se aí. bem como o inciso I. § 3° do artigo 12.114 2. marca ou signo distintivo. circunstância esta eximente da sua responsabilidade. pode ocorrer que. o produto defeituoso tenha sido apreendido pela administração e." O inciso II do mencionado dispositivo legal. Da mesma sorte. em função do vício de qualidade. as hipóteses que mitigam a responsabilidade do fornecedor pelo fato do produto e do serviço. posteriormente. segundo Zelmo Denari [25]. sem dúvida. § 3° do artigo 14.

mas que no sistema do CDC exonera os fornecedores. Antônio Herman Vasconcelos Benjamin e Bruno Miragem: [28] "O sistema do CDC prevê a exoneração na hipótese do inciso III do § 3° do artigo 12. Alberto do Amaral Junior [31] salienta que "o concurso de culpa do consumidor lesado produz. Entretanto. em caso de culpa concorrente. Dessa forma. de culpa exclusiva da vítima ou de terceiro. aplicável. Apenas se provar que o acidente de consumo se deu por culpa exclusiva do consumidor é que ele não responde". não haveria nexo causal entre o defeito e o evento danoso (cupla da vítima)". haverá redução do montante indenizatório. a redução do montante a ser pago a título de . segundo as regras de experiência. no segundo. o inciso III. hipótese esta que no sistema da Directiva européia ficaria submetida ao ju´zio de valor do judiciário. as informações do produto são insuficientes e também o consumidor agiu com culpa). E. No entender de Cláudia Lima Marques. ficando afastada tal responsabilidade no caso de culpa exclusiva do consumidor: "Se for caso de culpa concorrente do consumidor (por exemplo. ainda assim a responsabilidade do agente produtor permanece integral. § 3° do artigo 14. deverá ser demonstrada pelo fornecedor. a responsabilidade se atenua em razão da concorrência de culpa e os aplicadores da norma costumam condenar o agente causador do dano a reparar pela metade do prejuízo. Esclarece Zelmo Denari [29] que culpa exclusiva não se confunde com culpa concorrente: "no primeiro caso. desaparece a relação de causalidade entre o defeito do produto e o evento danoso. como o caput do artigo 12 dispõe que a responsabilidade é pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos. tratam da culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. inexistindo estes não há que se falar em dever de indenizar.115 artigo 12. em havendo a inversão do ônus da prova. como conseqüência. inciso III. cabendo à vítima arcar com a outra metade" Sustenta Luiz Antonio Rizzatto Nunes [30] que a responsabilidade do fornecedor permanece integral. em caso de culpa concorrente. por fim. embora permaneça integral a responsabilidade do fornecedor. § 3° do artigo 12 e o inciso II. disolvendo-se a própria relação de causalidade. pois mesmo existindo no caso um defeito no produto. quando o juiz considera verossímeis as alegações do consumidor. nos termos do artigo 6º.

Luiz Antônio Rizzatto Nunes [33] entende que por ter o § 3º do artigo 12 utilizado o advérbio "só". devendo se ater a sua forma declarativa ou estrita. § 3° e 14. tanto que a lei não prevê como excludentes do dever de indenizar o caso fortuito e a força maior". o rol ali indicado é taxativo. não é possível aplicar as normas do Código Civil nas relações consumeiristas. O Código. Assim. Não admiti-la. entre as causas excludentes de . poderão forrar-se à reparação na proporção em que provarem a culpa do consumidor". descritas no artigo 393 do Código Civil. apesar do Código de Defesa do Consumidor não fazer menção à culpa concorrente do ofendido. riscos de desenvolvimento e exercício regular de direito.2 Outras Excludentes O Código de Defesa do Consumidor. deve ser considerada como atenuante no momento da fixação do montante indenizatório. § 3° do Código de Defesa do Consumidor. Contudo. conforme mencionado. § 3°. Por essa razão discute-se na doutrina se o caso fortuito e a força maior podem ser considerados como excludentes para as relações jurídicas de consumo. Nessa mesma linha Carlos Alberto Bittar [32]: "havendo culpas concorrentes. tais como o caso fortuito ou força maior. e não autoriza a inclusão dessas excludentes: "o risco do fornecedor é mesmo integral. seria o mesmo que permitir o beneficío da integralidade indenizatória aquele que veio a concorrer para o evento lesivo. tradicionais excludentes da responsabilidade. 2. Para Roberto Senise Lisboa [34] se na interpretação das normas restritivas de direito não pode o interprete querer alargar a aplicação da norma. prevê a exclusão da responsabilidade do fornecedor nos artigos 12. deve por este ser provada. verifica-se que este diploma legala silencia quanto o caso fortuito e a força maior. Antonio Herman de Vasconcelos Benjamin [35] afirma que a questão deve ser tratada de forma diversa: "A regra no nosso direito é que o caso fortuito e a força maior excluem a responsabilidade civil.2. 2. § 3° e 14.1 Caso Fortuito e Força Maior Pela análise das eximentes expressamente previstas nos artigos 12. a doutrina aponta outras eventuais hipóteses de exclusão de responsabilidade. capaz de afastar a responsabilidade do fornecedor. apesar de não ser excludente de responsabilidade.116 ressarcimento". Ressalta-se que a conduta culposa do consumidor. em havendo a inversão do ônus da prova. entende a doutrina que.

mantendo-se. o fornecedor responderá pelos danos: "Isto porque até o momento em que o produto ingressa formalmente no mercado de consumo tem o fornecedor o dever de garantir que não sofre qualquer tipo de alteração que possa torná-lo defeituoso." João Batista de Almeida [36] salienta que "Apesar de não prevista expressamente na Lei de proteção. ambas as hipóteses possuem força liberatória e excluem a responsabilidade. No entender de Eduardo Gabriel Saad.117 responsabilidade. em conseqüência. e. ficando. entre as causas do acidente de consumo. trata-se de uma impropriedade de redação: "O Código não pode obrigar o fornecedor a indenizar se sua inadimplência contratual ou responsabilidade aquiliana originaramse de caso fortuito ou de força maior". oferecendo riscos à saúde e segurança do consumidor. desde que posteriores ao fornecimento. Nesse sentido sustenta Fábio Ulhoa Coelho [39] que fica afastada a responsabilidade do fornecedor se demonstrar a presença de caso fortuito ou força maior. a capacidade do caso fortuito e da força maior para impedir o dever de indenizar. mesmo que o fato causador do defeito seja a força maior". responsabilizar-se o fornecedor de um eletrodoméstico. que inexiste defeito ou que houve culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. não os elenca. Logo. Exemplifica o autor: "Não teria sentido. da força maior ou do caso fortuito. não foi afastado. pois. neste ponto. então. causa incêndio e danos aos moradores: inexistiria nexo de causalidade a ligar eventual defeito do aparelho ao evento danoso". se um raio faz explodir o aparelho. A força . Contudo. por exemplo. James Marins [38]sustenta que o caso fortuito ou a força maior poderão afastar a responsabilidade do fornecedor ou não dependendo do momento em que ocorreram. porque quebram a relação de causalidade entre o defeito do produto e o dano causado ao consumidor". se o caso fortuito ou a força maior ocorrerem após a introdução do produto no mercado de consumo. posteriores ao fornecimento: "O fornecedor também é liberado do dever de indenizar em demonstrando a presença. há a ruptura do nexo de causalidade. Branco [37] muito embora o artigo 12 especifique que o fornecedor apenas não será responsabilizado quando provar que não colocou o produto no mercado. José Eduardo Duarte Saad e Ana Maria Saad C. Também não os nega. afastada a responsabilidade do fornecedor. Caso se manifestem antes da inserção do produto no mercado de trabalho. quer me parecer que o sistema tradicional.

Dessa forma. (." Percebe-se que a doutrina. somente identificável ante a evolução dos meios técnicos e científicos. O centro dessa divergência é. por isso. não se podendo responsabilizar o fornecedor por aquilo que não deu causa. ou seja. nem tinha como prever ou evitar.2. decorrido determinado período do início de sua circulação no mercado de consumo.118 maior ou o caso fortuito anteriores ao fornecimento não configuram excludente de responsabilização. segundo James Marins [40]. . afastada a responsabilidade. enquanto outros afirmam inexistir um desses pressupostos. consistem: "(. vindo a ser descoberto somente após um certo período de uso do produto e do serviço. posteriormente ao fornecimento. quais sejam defeito...) na possibilidade de que um determinado produto venha a ser introduzido no mercado sem que possua defeito cognoscível. por acidente de consumo. se o eletrodoméstico é inutilizado por um raio. 12 do Código de Defesa do Consumidor. desconstitui qualquer liame causal entre o ato de fornecer produtos ao mercado e os danos experimentados pelo consumidor. dano e nexo causal. haverá a quebra do nexo causal. ainda que exaustivamente testado. que. Antônio Herman de Vasconcellos Benjamim [41] conceitua os riscos do desenvolvimento como: "aquele risco que não podem ser cientificamente conhecidos ao momento do lançamento do produto no mercado. a interpretação acerca do disposto no inciso III do §1º do art. ocorrendo todavia. Contudo. venha a se detectar defeito. pois. se discute na doutrina a adoção pelo CDC dos riscos de desenvolvimento como eximentes da responsabilidade do fornecedor. ante o grau de conhecimento científico disponível à época de sua introdução. restando. uma vez que o fundamento racional da responsabilidade objetiva do empresário. 2.2 Riscos do desenvolvimento Os riscos do desenvolvimento. Há divergência doutrinária quanto a caracterização dos riscos do desenvolvimento como hipótese de defeito dos produtos.) Com efeito a manifestação de tais fatores. o defeito... Por exemplo. a maioria da doutrina parece consolidar o entendimento de que ocorrendo o caso fortuito ou a força maior.. se encontra exatamente na constatação da relativa inevitablidade dos defeitos no processo produtivo. nesse ponto. não se responsabiliza o empresário pelos prejuízos do consumidor. capaz de causar danos aos consumidores". posteriormente. divide-se entre defensores e oposicionistas. parte dos autores entendem que estão pressupostos da responsabilidade do fornecedor.

seria responsabilizado o fornecedor por um defeito que não tinha como perceber no momento em que colocou o produto em circulação: "teríamos uma aplicação retroativa do padrão ou de medida de . a necessidade de se compatibilizar a excludente. Ensina o mencionado autor que para compatibilizar a os riscos do desenvolvimento com a responsabilidade do fornecedor devem ser analisados dois aspectos. prevista como regra.119 Zelmo Denari [42] coloca-se entre os que defendem a não adoção da eximente dos riscos de desenvolvimento sutentando que "a dicção normativa do inc. está muito distante de significar adoção da teoria dos riscos de desenvolvimento. ao manifestar-se sobre o referido ". James Marins requisito temporal afirma: [44] . que podemos chamar de "requisito temporal". 12 representa a adoção da teoria dos riscos de desenvolvimento. como propôs a Comunidade Econômica Européia" Marcelo Junqueira Calixto [43] adota posicionamento contrário. os quais chama de requisito temporal e requisito técnico. então. é lícito ao fornecedor inserir no mercado de consumo produtos que não saiba nem deveria saber resultarem perigosos porque o grau de conhecimento científico à época da introdução do produto no mercado de consumo não permitia tal conhecimento. b) o segundo. Surge. sendo o momento a ser considerado para a verificação dos estado dos conhecimentos científicos e técnicos e o segundo o critério para avaliação do estado da ciência e da técnica: "De início deve ser lembrado que a Diretiva 85/374/CEE expressamente faz referência à existência de um defeito que. Caso contrário." Nesse mesmo sentido. não era possível ser descoberto pelo estado dos conhecimentos técnicos e científicos contemporâneo à introdução do produto no mercado de consumo. do Código de Defesa do Consumidor. enquadramento este que é indispensável para que se possa falar em responsabilidade do fornecedor". diz respeito ao momento que deve ser tomado em consideração para a verificação do estado dos conhecimentos científicos e técnicos. produção ou informação.. §1º. com a responsabilidade objetiva imposta ao fornecedor. Para essa compatibilização devemos considerar dois requisitos: a) o primeiro.. Diante disso não se pode dizer ser o risco de desenvolvimento defeito de criação. em nível legislativo. diz respeito ao critério para avaliação do estado da ciência e da técnica. entretanto. conforme sustenta João Calvão da Silva [45]. por nós chamado de "requisito técnico". III do artigo 12. afirmando que o inciso III do § 1º do art.

à época da introdução do produto ou serviço no mercado de consumo. Realizar cobrança. o empresário não deve ser responsabilizado com fundamento nem na periculosidade (pois prestou informações sobre os riscos adequados e suficientes). portanto.120 responsabilidade. pois à luz do novo conhecimento e tecnologia responsabilizar-se-ia o fabricante por um defeito existente mais indetectável no estado da ciência e da técnica em momento anterior. Muito embora o Código de Defesa do Consumidor silencie quanto ao exercício regular de direito. posteriormente. mesmo que provoquem transtornos ao consumidor." Posiciona-se.2. No tocante ao requisito técnico. também. nesse sentido Fábio Ulhoa Coelho [46]. Verifica-se que a doutrina entende ter o Código de Defesa do Consumidor adotado a teoria dos riscos de desenvolvimento e ressalta a necessidade de avaliação do grau de conhecimento científico. enviar um título vencido e não para cartório de protesto. somente não podendo fazêlo de forma abusiva. são exemplos de exercício regular de direito do fornecedor e. afastando a responsabilidade civil. Tem a possibilidade até mesmo de ameaçar. de acordo com a comunidade científica. tais direitos devem ser exercidos pelo fornecedor atendendo aos ditames dos artigos 42 e 43 do Código de Defesa do Consumidor. entende a doutrina que por ser ele ato lícito. "desde que tal ameaça decorra daquele regular exercício de cobrar. de atos lícitos. por exemplo. com a conseqüente inclusão do nome do devedor em banco de dados. salienta Antônio Herman de Vasconcelos Benjamin [47] que a análise do grau de conhecimento científico não é feita tomando por base um fornecedor em particular. Conforme o entendimento de Luiz Antônio Rizzatto Nunes [48]. vale ressaltar que. aquilo que sabe a comunidade científica em determinado momento histórico. nem na defeituosidade (porque cumpriu o dever de pesquisar)".3 Exercício regular de direito O inciso I do artigo 188 do Código Civil prevê que o exercício regular de um direito reconhecido não constitui ato ilícito. apresenta riscos cuja potencialidade não pôde ser antevista pela ciência ou tecnologia. ao referir: "ao fornecer no mercado consumidor produto ou serviço que. Contudo. o credor remete carta ao devedor dizendo (ameaçando) que irá ingressar com ação judicial para cobrar . o credor tem o direito de cobrar seu crédito do consumidor inadimplente. 2. o momento da distribuição do produto. afastada estará a responsabilidade do fornecedor.

Macelo Junqueira. Referências Bibliográficas ALMEIDA. também. São Paulo: Saraiva. Carlos Alberto. Direitos do Consumidor. vol. Curso de direito comercial. como o caso fortuito. p. 2004. al. São Paulo: Saraiva. Forense Universitária. não dará ensejo a responsabilização do fornecedor.ed.121 o débito" Assim. bastando ao lesado comprovar o dano e o nexo causal. Responsabilidade Civil – Teoria e Prática. Antonio Herman de Vasconcelos. 1993.} – 8ª ed. o exercício regular de um direito. . {et.. 30. BITTAR. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. 2005. nas relações de consumo. I. A responsabilidade civil do fornecedor de produtos pelos riscos do desenvolvimento. Tais excludentes são aquelas expressas no próprio CDC. O dever indenizatório decorrente da responsabilidade comporta exceções. Zelmo e outros. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Somente haverá responsabilização caso o fornecedor viole os dispositivos que disciplinam a ação regular de cobrança e o cadastro de consumidores em bancos de dados. DENARI. 1994. agindo de forma abusiva. ________. 2005 . BENJAMIN. CALIXTO. COELHO. Rio de Janeiro: Renovar. 9. 1991. Comentários ao código de proteção do consumidor – coordenador: Juarez de Oliveira. BITTAR. São Paulo: Saraiva. João Batista de. Carlos Alberto. Alberto do. Proteção do consumidor no contrato de compra e venda. São Paulo: Saraiva. entende a doutrina existirem outras aplicáveis. por ser ato lícito. O Empresário e os direitos do consumidor. Conclusões A responsabilidade civil prevista no Código consumeirista é objetiva. a força maior e o exercício regular de direito. São Paulo: RT. 1993. Porém. Fabio Ulhoa. A proteção jurídica do consumidor. Rio de Janeiro. 1990. AMARAL JUNIOR.

122 FILHO. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor:direito material (arts. ª NUNES. PEREIRA. Os fatos jurídicos são aqueles que têm relevância jurídica e dividem-se em: naturais (decorrem de acontecimentos da própria natureza) e voluntários (têm origem em condutas humanas capazes de produzir efeitos jurídicos). Revista de direito do consumidor. Os voluntários se dividem em: lícitos (fato praticado em harmonia com a lei) e ilícitos (fato que viola o dever imposto pela norma jurídica). Assim. São Paulo: RT. LOBO. 6ª ed. São Paulo: Saraiva. 2001. Caio Mário da Silva. Cláudia Lima. MARINS. 1999. E ampl. 1993. Luiz Antonio Rizzatto. São Paulo: Revista dos Tribunais. Benjamin. João Clavão da. Contratos no Código de Defesa do Consumidor 3 ª ed. Responsabilidade sem culpa.078/90/ Eduardo Gabriel Saad. Branco. 1990. Bruno Miragem. Programa de Responsabilidade Civil. 8. ROCHA. 2003. Caio Mário da Silva. Roberto Senise. São Paulo: Saraiva. 2000. . abril-junho. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor e sua jurisprudência anotada: Lei n. São Paulo: RT. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. Responsabilidade civil do produtor. São Paulo: Revista dos Tribunais. Paulo Luiz Netto. N.34. 29. SILVA. 2005. Responsabilidade civil nas relações de consumo. 2006. 29. Claudia Lima. São Paulo: Malheiros. Wilson Melo da. p. Silvio Luís Ferreira da. p. São Paulo: LTr. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. SILVA. A responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro. Notas 01 02 PEREIRA. MARQUES. Antônio Herman V.. José Eduardo Saad e Ana Maria Saad C. Responsabilidade Civil. Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. 1º a 54). James. Responsabilidade Civil. 2000. MARQUES. ver. LISBOA. Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. Coimbra: Livraria Almedina. Sérgio Cavalieri. 2000 SAAD. Eduardo Gabriel. 2 tiragem. a responsabilidade civil surge pela prática de um ato ilícito.

{et. 497. p. . A responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro. 2 tiragem. 1999. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2005. NUNES. 2005. 10 11 12 09 SILVA. 2005. 15 16 14 13 FILHO. Contratos no Código de Defesa do Consumidor 3 ed. Luiz Antônio Rizzatto. 2ª ed. isto é.. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques.34. p. Bruno Miragem. Ob cit. 28.100. FILHO. 19 . vol. Curso de direito comercial. Responsabilidade Civil – Teoria e Prática. Sérgio Cavalieri. dolosa e culposa.. Wilson Melo da. Responsabilidade sem culpa. FILHO. 104. " §4º A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante verificação da culpa. 150-51. ª ª 08 Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. p. 9. al. p. p. 225. Programa de Responsabilidade Civil. 188. p.} – 8ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. São Paulo: Saraiva. 2000. no presente trabalho. 279. Benjamin. 30. Antônio Herman V.ed. Fabio Ulhoa. Sérgio Cavalieri. Fábio Ulhoa. Claudia Lima.. deve ser entendida como latu sensu. Programa de Responsabilidade Civil. Carlos Alberto. 2003. p. Revista de direito do consumidor. p. Paulo Luiz Netto. 263. abriljunho. Cit. 2000. COELHO. 17 18 COELHO. São Paulo: RT. Sérgio Cavalieri. Ob.." Nesse sentido: " Cirurgião – dentista – Direito do consumidor – Facilitação de defesa – ônus da prova – Inversão – Possibilidade – Profissional liberal – Responsabilidade Civil" (RSTJ 115/271). LOBO. A culpa. São Paulo: Saraiva.. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. p. 498. N. Comentários ao código de defesa do consumidor. 2000. I. MARQUES.p.123 03 04 05 Ressalte-se que há casos em que o ato lícito gera o dever de indenizar. 06 07 BITTAR. p. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover.

1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. Benjamin. II . p. 188. o construtor. 12. . 23 24 NUNES. apresentação ou acondicionamento de seus produtos.a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.) 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar: I .a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. Art. independentemente da existência de culpa. Luiz Antônio Rizzatto. embora haja colocado o produto no mercado. Antônio Herman V. 286. O fabricante. Art. montagem. O fornecedor de serviços responde.que. fabricação. Bruno Miragem. o construtor.} – 8ª ed. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. p. 2005. Rio de Janeiro: Forense Universitária. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto. Cit.. ob. (. 14. III .p. Ob.que. independentemente da existência de culpa. al. o produtor. Benjamin. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques.. 2003. Bruno Miragem. construção. {et. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. (. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor: arts. p. 278. tendo prestado o serviço. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. 286. o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar: I . manipulação. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais.. II . 213-4. o defeito inexiste.) 3° O fabricante. p. 2003. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços.. Antônio Herman V.que não colocou o produto no mercado... nacional ou estrangeiro. Cit. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. e o importador respondem. o defeito inexiste.. Luiz Antônio Rizzatto. fórmulas. 25 .124 Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. 21 22 20 NUNES.

p. 2005. 271.. 6ª ed. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. 1993. 278. 67. Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. . São Paulo: Saraiva. Responsabilidade civil nas relações de consumo. p. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. 288. E ampl. 281. 1990. 36 37 35 34 A proteção jurídica do consumidor. Branco. p. 1991. p. São Paulo: RT. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor – Coordenador Juarez de Oliveira. São Paulo: Saraiva. 170.. Antônio Herman V. 65. 38 Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. São Paulo: RT. p. 2000. 2005. 1993. 32 33 31 30 29 28 27 26 Direitos do consumidor.125 Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. 227. 2001. Curso de Direito Comercial. Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. 69. p. 35. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. p. al. 1991. p. Bruno Miragem. p. José Eduardo Saad e Ana Maria Saad C. – Coordenador Juarez 153. São Paulo: Revista dos Tribunais. 41 . São Paulo: Saraiva. Proteção do consumidor no contrato de compra e venda. 2000.078/90/ Eduardo Gabriel Saad. Rio de Janeiro: Forense universitária. ver. Rio de Janeiro: Forense Universitária. {et. São Paulo: RT. p. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. 1993. 2005. 188. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. São Paulo: Saraiva. 1993. p. 39 40 128.} – 8ª ed. São Paulo: LTr. 169. 189. p. 8. p. p. p. Benjamin. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor e sua jurisprudência anotada: Lei n. vol I. São Paulo: Saraiva. 2006. São Paulo: Saraiva. 2003. {et. al. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor.} – 8ª ed. . Rio de Janeiro: Forense Universitária.

A responsabilidade civil do fornecedor de produtos pelos riscos do desenvolvimento. Coimbra: Livraria Almedina. Rio de Janeiro: Renovar. {et. 1990. São Paulo: Saraiva. a produção e a comercialização se . 84. 67 Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. 45 509. 67 Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. 1993. São Paulo: Saraiva. p. p. 48 Vícios no Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor: diferenças Autor: Ricardo Canguçu Barroso de Queiroz Em consequência da revolução tecnológica. São Paulo: RT. .. p. 135. p. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Responsabilidade civil do produtor. 1991.} – 8ª ed. al. 44 43 42 Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. São Paulo: Saraiva. p. 186-187. 200. p. p.126 de Oliveira. p. 506. 2005. 1991. O empresário e os direitos do consumidor. 2000. 46 47 Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor – Coordenador Juarez de Oliveira. 2004. São Paulo: Saraiva. 1994.

baseada na culpa do fornecedor. desde que dentro dos prazos decadenciais. estando associado. portanto aos fatos do produto ou serviço e "vício" está associado à deficiência de qualidade ou quantidade do produto ou serviço.127 dissociaram. o distribuidor. o consumidor só pode acionar o fornecedor direito. No CDC. dada a grande diversidade de produtos no mercado. e)O CC não prevê responsabilização pelos vícios aparentes ou de fácil constatação. Além disso tais devem ser preexistentes ou contemporâneos à entrega da coisa. sendo que tais problemas só foram suprimidos com o advento do Código de Defesa do Consumidor. apenas. assim. f)O CC não prevê proteção aos vícios ocorridos na prestação de serviços. assim. no CDC a responsabilidade pelos vícios é subjetivo com presunção de culpa do fornecedor. considera-se irrelevante que o consumidor tenha ou não conhecimento do vício e tenha ele surgido antes ou depois da tradição do produto. a não mais corresponder às expectativas do mercado de consumo e do progresso tecnológico da produção em massa. resultando na evolução da produção em pequena escala para a produção em série. com berço no individualismo negocial. Assim. provenientes de erros técnicos e falhas no processo produtivo. só é permitida se esta tiver sido recebido em virtude de relação contratual (contratos comutativos ou doação com encargo). a noção de vício no CDC é bem mais eficiente do que a estabelecida pelo direito tradicional. Já no CDC o consumidor poderá acionar quaisquer dos componentes da cadeia de produção e comercialização. o fabricante. como vigora a vulnerabilidade do consumidor. há solidariedade entre os componentes da cadeia de fornecedores . os ocultos. seja o comerciante. d)Pelo CC. passou. c)O CC não prevê a solidariedade entre os fornecedores componentes da cadeia de produção e comercialização. b)Enquanto no CC vigora a responsabilidade subjetiva pura. e com o objetivo de estabelecer-se o equilíbrio contratual. enquanto que no sistema do CDC "defeito" é vício mais dano à saúde ou segurança. O sistema do Código Civil. aumentaram os riscos ao público consumidor. a responsabilização pelos vícios da coisa. abrangendo. No CDC. senão vejamos: a)Para o CC as expressões "vício" e "defeito" são equivalentes. Ante a necessidade de uma proteção mais ampla do consumidor na relação de consumo. mas . por sua vez. além da inversão do ônus da prova em favor do consumidor. em que o mais importante era a preservação do contrato. afinal como já falamos. não há necessidade de haver relação contratual entre o consumidor e o sujeito passivo demandado pelo vício do produto ou serviço. ou todos eles conjuntamente. com quem contratou diretamente.

Odete Novais . . assim como. Alberto do Amaral . g)No CC caso comprovada a boa-fé (ignorância) do alienante será obrigado a restituir apenas a coisa viciada. mediante complementação ou restituição de eventual diferença de preço.São Paulo: Editora RT. 05 . a culpa não enseja a responsabilização pelos danos materiais (lucro cessante + dano emergente) ou pessoais (morais). Roberto Senise . 03. Zelmo . Por sua vez. 3 . Ed.A responsabilidade pelos vícios dos Produtos no Código de Defesa do Consumidor . estabelecendo dentre as hipóteses a substituição do produto. BIBLIOGRAFIA 1 . RT: São Paulo. ou seja.Da Responsabilidade por Vício do Produto e do Serviço . Revista de Direito do Consumidor n.Vício do Produto e a exoneração da responsabilidade. a possibilidade da troca do produto por outro de espécie.CARNEIRO. 4 – DENARI. o CDC tais prazos se iniciam a partir do momento em que o consumidor toma conhecimento do vício ou do dano (a prescrição é de 5 anos). enquanto que o CDC contempla ao consumidor as possibilidades de exigir a reexecução do serviço.São Paulo: Ed. a restituição da quantia paga ou abatimento do preço. Já no CDC havendo relação de consumo. 1993.Rio de Janeiro: Forense Universitária. i)No CC os prazos de prescrição e decadência são contados à partir da entrega da coisa (a prescrição é de 15 dias para bem móvel e 6 meses para bem imóvel). No CDC as possibilidades estão ampliadas.Revista de Direito do Consumidor n.LISBOA. h)O CC só prevê duas possibilidades de reparação: a ação redibitória (o contrato é levado a termo e o comprador é restituído integralmente pelo pagamento) ou a ação estimatória (o comprador obtém a redução do valor pago). 1999. pouco importa o comprovação ou não de má-fé do fornecedor. marca ou modelo diverso.128 tão somente do produto. de maneira que somente quando comprovada a má-fé aquele será responsabilizados por perdas e danos. 1998 2 . 1992. para obter-se a reparação integral (danos materiais + danos pessoais).JÚNIOR. RT. a restituição da quantia paga ou o abatimento do serviço caso encontre-se responsabilidade do fornecedor de serviços pelos vício de adequação (quantidade e qualidade).Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto .

proporcionando-lhe as informações necessárias para tal. a fim de evitar que eventuais danos venham a ocorrer pela imperícia natural dos consumidores. [04] que informa que o . [03] É o que a doutrina uruguaia chama de Principio de Autoresponsabilidad. a responsabilidade civil do fornecedor pode emergir em decorrência de diversas espécies de vícios dos produtos. observa-se claramente que o regramento que é dispensado à matéria tem reflexo imediato na segurança dos consumidores. A justa expectativa dos consumidores e do público em geral frente aos produtos lançados no mercado é a de que eles funcionem regularmente. Ao fim. No âmbito das relações de consumo.078/90) adotou o Princípio da Confiança. sob pena de responsabilização.129 A responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos no Código de Defesa do Consumidor Autor: Fabrício Castagna Lunardi Resumo O instituto da responsabilidade civil evoluiu rapidamente nas duas últimas décadas. Consumidor. O fornecedor deve assegurar ao consumidor a correta utilização do produto. que é assentado na solidariedade social e na efetiva reparação dos danos aos consumidores. hodiernamente. 1. Cria-se. assim. ofereçam segurança aos seus usuários. um novo modelo de responsabilidade. tendo-se. de acordo com a finalidade para a qual foram desenvolvidos e que. Palavras-chave: Responsabilidade. o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor (Lei n. a responsabilidade civil legal. a responsabilidade civil por vícios de inadequação ou por vícios de insegurança. [02] segundo o qual o produto deve proporcionar ao consumidor exatamente aquilo que ele esperava ou deveria esperar quando o adquiriu. Fornecedor. simultaneamente. um novo conceito. [01] Para proteger a legítima expectativa que tem o consumidor na qualidade e utilidade do produto. com isso. Introdução O produto adquirido pelo consumidor deve corresponder a exatamente aquilo que dele se espera.º 8. uma vez que impõe aos fornecedores o dever de colocar no mercado produtos indenes de vícios. Haverá. que recebem tratamento jurídico diferenciado pelo Código de Defesa do Consumidor.

como adiantes se demonstrará. A constatação desses vícios se faz por um critério objetivo. do refrigerador que não mantém os produtos em baixa temperatura. É o caso. a fim de prevenir a ocorrência de danos. cresceu a incidência de vícios e defeitos nos produtos.130 fornecedor deve prestar informações de forma clara. da televisão que não tem boa imagem. baseado na inexistência de produtos com avarias. o modelo ideal de produção. a classificação dessa espécie de vícios em vícios de inadequação na qualidade e vícios de inadequação na quantidade. bastando a verificação de que a informação sobre a qualidade ou quantidade não corresponde verdadeiramente ao que o produto proporciona. pode ocorrer na qualidade do produto. quando afetem sua prestabilidade e utilização. de qualquer forma. mantendo o produto sempre atualizado em matéria de segurança. portanto. à medida que não há um controle individual da adequação e segurança de cada unidade que é lançada no mercado. prejudicando seu uso e fruição ou diminuindo o seu valor. Dessa sorte. e não colocar no mercado produtos que ofereçam riscos. ainda. impróprio para o fim a que se destina e desatendendo a legítima expectativa do consumidor. Com o surgimento e alargamento do processo de industrialização. que tem como característica principal a produção em série. é utópico. A inadequação. além dos que lhe são ínsitos e de conhecimento geral. quando a informação prestada não corresponde verdadeiramente ao produto. da lata de extrato de tomate que não contém a quantidade informada na embalagem etc. Dos vícios de inadequação e dos vícios de insegurança Os vícios de inadequação são aqueles que afetam a prestabilidade do produto. 2. Outrossim. mostrando-se. pois é responsável por aquilo que informa na oferta. [05] No entanto. [06] A par disso. Ocorrem. o que varia de acordo com a espécie de vício (ou defeito) que apresenta o produto. de modo a não induzir o consumidor em erro. existem diferentes instrumentos jurídicos para reparar os danos e prejuízos causados aos consumidores. quando o peso ou a medida informada não corresponder à prestada pelo fornecedor ou à indicada na embalagem. Por isso. . tem o fabricante o dever de controlar o processo de produção e de conhecer todas as inovações tecnológicas. por exemplo. precisa e sem ambigüidades. Os produtos defeituosos acabam sendo um resultado marginal e inexorável da produção industrial. surge para o produtor uma dupla obrigação: fornecer produtos adequados às suas próprias finalidades. ou na sua quantidade.

[10] ou com supedâneo no inadimplemento contratual. Por razões como essa. a noção de responsabilidade implica sempre a violação de um dever. pois haverá casos em que surge a responsabilização sem a violação a um dever jurídico. 12 a 17 da Lei n. [08] exprimindo a idéia de obrigação. é verdadeira a premissa de que. encargo. a época em que foi colocado em circulação. defeitos de construção (ou execução). para haver responsabilidade civil." [12] Esse conceito. e não mais a punição do responsável. contraprestação. da Lei n. defeitos de desenvolvimento e defeitos de informação. Na nova definição de responsabilidade. Em um conceito sintético e geral. Obrigação é sempre um dever jurídico originário. mas em decorrência de ato lícito. deverá sempre haver o dano jurídico. Os vícios de insegurança. não se pode confundir as noções de obrigação e de responsabilidade civil.º 8. dentre outras circunstâncias.078/90. segundo a doutrina brasileira. dizer-se que não existe um conceito unitário que abranja todas as modalidades de responsabilidade civil. De outro lado. De qualquer sorte. Com o passar do tempo. o elemento sanção ou retribuição foi mitigado. não se pode mais dizer que a responsabilidade jurídica está "essencialmente ligada à retribuição. Responsabilidade civil no âmbito das relações de consumo Na dogmática. do qual exsurge o dever de reparação. [07] 3. em face de defeitos de projeto (ou concepção)." [11] O elemento central passa a ser a reparação ou prevenção do dano ou prejuízo. no entanto.131 No Brasil. entretanto. Podem ocorrer. por sua vez. com a ofensa a um bem jurídico.º 8. levando-se em consideração a sua apresentação. Tem ínsito um perigo de dano patrimonial ou extrapatrimonial. não abrange todas as modalidades de responsabilidade civil.078/90. Os vícios de insegurança são tratados nos arts. o uso e os riscos normais. Ocorrem quando o produto não apresenta a segurança que dele legitimamente se espera. são os vícios de inadequação tratados nos arts. A doutrina de direito civil costuma definir a responsabilidade civil com base numa conduta causadora de um dano. 18 e segs. [09] com fundamento na obrigação de indenizar. enquanto a . são aqueles defeitos que fazem com que o produto seja potencialmente danoso à integridade física ou ao patrimônio do consumidor. pode-se definir a responsabilidade civil como "um dever jurídico sucessivo que surge para recompor o dano decorrente da violação de um dever jurídico originário.

Em face das transformações sociais ocorridas pela constante evolução industrial e dos riscos gerados aos consumidores. mediante. Responsabilidade contratual é aquela que decorre diretamente e em função de um contrato. deriva. patrimonial ou extrapatrimonial. encontrando supedâneo na solidariedade social. O fundamento social da reparação do dano está arraigado nas noções de assistência. A responsabilidade extracontratual. também chamada de aquiliana. [17] Com efeito. por exemplo. [13] Na dogmática. deu-se entrada. senão no interesse em restabelecer o equilíbrio econômico-jurídico alternado pelo dano. geralmente. causado ao consumidor pela existência de vícios de inadequação e de insegurança do produto. distribuindo-se o custo entre os próprios . ainda que o consumidor seja diligente. desafiando soluções jurídicas inéditas. à consciência da necessidade de proteção das vítimas e das partes mais fracas nas relações sociais. Essa distinção. a quem cabe controlar a qualidade e a segurança dos produtos. paulatinamente. o que determinou um redirecionamento dos princípios que regiam a matéria. entretanto. em relação à matéria de proteção do consumidor.132 responsabilidade é um dever jurídico sucessivo. na sistemática do direito do consumidor. ou seja. [14] A responsabilidade civil. base de uma responsabilidade sem culpa. O verdadeiro escopo dessa evolução é a preocupação de assegurar melhor justiça distributiva. porque oferece maiores garantias de proteção às vítimas. porque os custos de ressarcimento devem recair sobre o fabricante e o fornecedor. seguro de responsabilidade. resta superada. encontra-se que a responsabilidade civil pode ser classificada em contratual e extracontratual. de um ato ilícito. porque. corolário da violação do primeiro. vale dizer. na necessidade de reparação ou prevenção do dano. em vista de situações que demandam regulamentação jurídica específica. de uma obrigação contratual originária. de uma obrigação jurídica que decorre de uma norma legal. e não do contrato. de modo que será responsabilizado civilmente aquele que inadimplir essa obrigação. o fornecedor tem melhores condições de suportar o risco do produto. além disso. [15] de modo que o prejuízo causado a um consumidor seja suportado por toda a sociedade. a responsabilidade civil objetiva do fornecedor é o sistema de reparação de danos mais adequado aos tempos modernos. A responsabilidade civil é tema de permanente atualidade e vem ganhando importância e mutação à medida que a evolução industrial produz novas tecnologias. cujo valor do prêmio se incorporará ao preço de venda. ultrapassa as fronteiras da culpa. por fim. previdência e garantia. Em primeiro lugar. [16] Esse novo modelo de responsabilidade não se centra mais em apenas punir o autor de uma conduta antijurídica.

como a daquele fornecedor que tem vínculo contratual apenas com a cadeia de fornecedores. muitas vezes. criando uma nova modalidade de responsabilidade civil. A doutrina brasileira. Tendo em vista que a imputação decorre estritamente da lei. decorrentes principalmente do desconhecimento do processo industrial e da crescente automação. mas. [21] Se o fornecedor introduz um risco para a sociedade. se facilita a la víctima el acceso a la reparación. "al no exigirse la prueba diabólica de la culpa. a imputação de responsabilidade conjunta entre os fornecedores vinculados ou não por laços contratuais com o consumidor. segundo a qual a lei imporia a toda a cadeia de fornecedores um dever de qualidade dos produtos que são colocados no mercado e dos serviços que são prestados." [19] Efetivamente. há. razão pela qual lhe é transferido o ônus de provar uma das causas excludentes de sua responsabilidade para que se exima de reparar o dano ou os prejuízos. O acolhimento da teoria do risco e da responsabilidade objetiva é a tendência moderna nos países que possuem legislação específica sobre direito do consumidor. as dificuldades que tinham os consumidores na busca da prova. foi além. todavia. estocar. o que . todo aquele que exerce atividade no mercado de consumo tem o dever de responder pelos eventuais vícios ou defeitos dos bens e serviços fornecidos. De acordo com a Teoria do Risco. [18] Acrescente-se que o fornecedor está em melhores condições de produzir a prova sobre o ocorrido. no entanto. sim. Alguns países. [23] De outro lado. prescindindo da existência de culpa. [22] Com efeito. e que a responsabilidade civil não deriva do contrato ou de ato ilícito. a ser uma relação entre a atividade empresarial e um sujeito. a doutrina brasileira tem chamado esse novo modelo de responsabilidade civil de responsabilidade legal. deve responder pelos prejuízos que causar. Essa responsabilidade legal dos fornecedores tem como fundamento a Teoria da Qualidade. [20] A responsabilidade civil passa. A responsabilidade decorre do simples fato de realizar a atividade de produzir. Assim. por influência das grandes empresas. de uma imputação que decorre estritamente da lei. abrangendo nesse conceito tanto a responsabilidade do fornecedor que celebra o contrato com o consumidor. na chamada responsabilidade por risco da empresa. no Brasil. por motivos de política-econômica. mantém-se fiéis ao dogma da responsabilidade civil baseada na culpa. e também. independentemente de culpa.133 consumidores. acabavam por dificultar a imputação do fato lesivo ao seu autor. então. distribuir e comercializar produtos ou executar determinado serviço. a responsabilidade civil não deriva do contrato ou de um dano que alguém gera a outrem fora do contrato.

A responsabilidade civil por vícios de inadequação dos produtos Quando o produto não proporcionar a utilização que dele legitimamente se esperava. Destarte. De acordo com a lei consumerista brasileira. o dano ou prejuízo ao consumidor e o nexo de causalidade. Nesse caso.134 demonstra a tendência moderna de ir além da responsabilidade contratual e extracontratual. Com base nesses delineamentos. Por ser o comerciante com quem contratou o responsável mais próximo. centrando o dever de reparar na solidariedade social e na Teoria do Risco.1. a responsabilidade está in re ipsa. que cause um dano efetivo ao patrimônio. 18. incumbindo ao fornecedor a prova de alguma das excludentes de sua responsabilidade. b) a restituição imediata da quantia paga. o vício (ou defeito) no produto. já que a relação contratual se estabelece somente entre o consumidor e o fornecedor direto. surgem para o consumidor as seguintes alternativas: a) a substituição do produto por outro da mesma espécie. como o dever jurídico que surge para o fornecedor em conseqüência de um vício de inadequação ou de insegurança do produto ou serviço. pode-se conceituar a responsabilidade civil. geralmente ele será o demandado. poderá o consumidor demandar qualquer um dos integrantes da cadeia de fornecedores. com os demais integrantes da cadeia de fornecedores. caput. 3. Com isso. trata da responsabilidade civil por vícios de inadequação na qualidade. à integridade física ou à vida do consumidor. surgirá a responsabilidade civil do fornecedor por vícios de inadequação. sem prejuízo de . enquanto. Prevê. uma solidariedade [24] entre todos os fornecedores da cadeia de produção em relação à reparação dos prejuízos causados ao consumidor em razão da inadequação do produto ao fim que se destinava. e não sendo sanado esse vício num prazo máximo de 30 (trinta) dias. O Código Brasileiro de Defesa do Consumidor trata da responsabilidade civil por vícios de inadequação do produto em seus arts. 18. monetariamente atualizada. ocorrendo o vício de inadequação na qualidade do produto. 18 e seguintes. 19. dispõe sobre os vícios de inadequação na quantidade. portanto. em perfeitas condições de uso.º do art. pois não há relação contratual. Os elementos identificadores e que geram a responsabilidade civil do fornecedor são. ao menos direta. no art. pois a reparação diz respeito ao produto. no art. no direito consumerista brasileiro.º ao 6. o consumidor somente precisa demonstrar a verossimilhança da existência desses três elementos. constata-se que a responsabilidade civil é extracontratual. Nos §§ 1. Para obter a indenização.

ser inferior a 7 (sete) nem superior a 120 (cento e vinte) dias. 24 e 25). essa cláusula deve ser convencionada em separado (§ 2. diminuir-lhe o valor ou no caso de se tratar de produto essencial. poderá o consumidor optar por uma das seguintes alternativas: a) abatimento proporcional do preço. Caso o consumidor tenha optado pela substituição do produto por outro de mesma espécie e isso não seja possível. em qualquer contrato de consumo. O fornecedor imediato será responsabilizado quando fizer a pesagem ou medição e o instrumento utilizado não estiver regulado segundo os padrões oficiais (§ 2. sem prejuízo de ressarcimento por eventuais perdas e danos (art. e c) o abatimento proporcional do preço (art.º). I a IV). marca ou modelo diversos. atenue ou exonere o fornecedor da responsabilidade de indenizar em face da ocorrência de vícios de inadequação ou de insegurança. pode o consumidor.2.º). a substituição das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou as características do produto. como referido. Constatados os vícios de inadequação na quantidade do produto. Assim.º).º). marca ou modelo. que ocorre quando o produto não apresenta a . sem prejuízo da eventual complementação ou restituição de valores (§ 1. ou d) restituição imediata da quantia paga. sendo que. monetariamente atualizada. requerer a troca do produto por outro de espécie. poderá optar pela substituição por outro de espécie. 18. Cabe ressalvar que. Se. antes mencionadas. c) substituição do produto por outro da mesma espécie.º). surge para a cadeia de fornecedores o dever de reparar. no caso de contrato de adesão.135 eventuais perdas e danos. sem precisar obedecer a qualquer prazo. Os efeitos da responsabilidade civil por vícios de inadequação na quantidade do produto. no art. estão previstos. Do mesmo modo do que ocorre na responsabilidade civil por vício de inadequação na qualidade. em face da extensão do vício. por sua vez.º do art. mediante eventual restituição de valores ou complementação da diferença de preços (§ 4. 19 do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. b) complementação do peso ou medida. 3. Esse prazo para o conserto do produto pode ser ampliado ou reduzido pelas partes. quando optar pela substituição do produto por outro de mesma espécie e esta não for possível. incs. A responsabilidade civil por vícios de insegurança dos produtos A responsabilidade civil do fabricante por vícios de insegurança é efeito lógico de um acidente de consumo. sem os aludidos vícios. não podendo. contudo. sendo que a garantia legal do produto independe de termo expresso (arts. caput e § 1. 19. marca ou modelo diversos. é vedada a pactuação de cláusula que impossibilite. o consumidor poderá imediatamente se utilizar das alternativas referidas no § 1. 18.

são pressupostos para a responsabilidade civil do fabricante por defeitos nos produto: a) falha na segurança do produto. quando não conservar adequadamente os produtos. ou seja. Por produto inseguro. um novo conceito de responsabilidade civil. o que facilita ao consumidor a busca por uma justa indenização. quando. [27] de modo que a garantia inerente ao produto obriga o fornecedor em relação ao último consumidor e a todos aqueles que tenham alguma . controle sobre a segurança e qualidade das mercadorias. o produto é fabricado por um terceiro oculto. é introduzido no Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. lesionar o consumidor. àquelas redes de varejo que oferecem diversificada linha de produtos com sua própria marca. [25] Para melhor defender os interesses do consumidor. "independe da existência de culpa". 12 a 17 do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor da responsabilidade civil por fato do produto. c) o dano. menção expressa ao fabricante aparente. a simples fabricação de um produto com um defeito não enseja. como fora referido. deve-se entender aquele que é potencialmente danoso. respondendo subsidiariamente quando não puderem ser identificados os demais sujeitos da cadeia de produção ou quando o produto fornecido não apresentar identificação clara daqueles. ou seja. a pedido da rede varejista. 12). b) a colocação do produto no mercado. essa responsabilidade não beneficia somente o consumidor imediato. aquele que celebrou o contrato com o fornecedor. que. Assim. na forma do art. De outro lado. na verdade. a responsabilidade civil legal. que possui um defeito capaz de. terá o comerciante responsabilidade direta. e d) a relação de causalidade (ou nexo causal). construtor e importador (art. como se fabricantes fossem. capaz de causar lesões aos consumidores. Essa distinção em benefício do comerciante se faz necessária porque ele não tem. Como se observa. Tratam os arts. a responsabilidade civil. ou seja. no rol de responsáveis estabelecido no art. o comerciante é excluído em via principal. o CBDC prevê uma solidariedade entre fabricante. O dever de segurança tem natureza ambulatorial. produtor. nas relações de consumo em massa. regra geral. por si só. sendo necessária a sua colocação no mercado. contudo. Falta. 12. todavia. pela sua utilização. 12.136 segurança que dele legitimamente se espera e acaba por causar dano ao consumidor. Segundo a lei consumerista brasileira. A colocação do produto no mercado é ato humano de fazer ingressar em circulação um produto potencialmente danoso. acompanhando o produto por onde ele estiver durante a sua existência útil. [26] Levando em conta a sistemática moderna de proteção ao consumidor.

dispõe o § 3. como uma greve. Caso ocorram na concepção ou na produção. ou.137 relação de fato com o produto. São as causas de exoneração. O que distingue basicamente os dois institutos é que a força maior resulta de situações independentes da vontade do homem. sendo que a própria lei admite excludentes de responsabilidade do fornecedor. Nesses casos. todavia. é imperioso fazer a distinção. O caso fortuito e a força maior constituem-se em um fato necessário. De outro lado. A prova de que o vício de insegurança inexiste incumbe ao fornecedor. na hipótese de ser o infrator quem colocou o produto em circulação. b) que. um terremoto. cujos efeitos não se pode evitar ou impedir. quando o produto está sob a guarda do comerciante. permitindo um juízo de probabilidade ao julgador. ou que simplesmente tenham se exposto aos efeitos do seu campo de periculosidade. mas proveniente de fatos humanos.º do art. para a configuração de responsabilidade. como. [28] De outro lado. essa regra não é absoluta. uma guerra. o que gera indagações a respeito. 12 do CBDC que o fornecedor não será responsabilizado se provar: a) que não colocou o produto no mercado. À guisa de exemplo. um incêndio criminoso provocado por terceiros. que as vítimas sejam parte da cadeia de circulação jurídica do produto. ou c) a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. a demonstração de que já ocorreu outro acidente de consumo em relação a idêntico produto. ainda. caberá ao fornecedor a prova de tal fato. o caso fortuito e a força maior não devem funcionar como . deve ser analisado o momento de sua ocorrência. embora tenha colocado o produto no mercado. enquanto o caso fortuito é uma situação que decorre de fato alheio à vontade da parte. nos casos em que o produto é posto no mercado por ato de preposto ou em decorrência da falta de diligência na guarda do produto. que mantenham com este mera relação de fato decorrente de uso ou consumo. cabe tão-somente demonstrar a verossimilhança do que alega. A excludente não beneficia o fornecedor. o furto e o roubo. É irrelevante. [29] Embora surtam idênticos efeitos jurídicos. Assim. excluirá a responsabilidade do fornecedor a sabotagem. que importam no rompimento do nexo de causalidade e acabam afastando a responsabilidade civil. cabe salientar que o CBDC não prevê como causas de exclusão de responsabilidade o caso fortuito e a força maior. Ao lesado. [30] Para verificar se o caso fortuito e a força maior atuarão como excludentes de responsabilidade do fornecedor. como um ciclone. o defeito inexiste. A não colocação do produto no mercado pressupõe que o fornecedor-produtor prove que não é sua a autoria da fabricação do produto ou que o fornecedor não foi responsável pela sua circulação. malgrado se trate de responsabilidade objetiva. por exemplo. uma tempestade.

culminando em modificar o tratamento jurídico de vários institutos. O Brasil codificou a matéria na Lei n. cria um novo conceito de responsabilidade civil. então. assim. Surgiu. Dessume-se. que imponha a toda a classe de fornecedores normas imperativas no processo de produção e a obrigação de reparar eventuais danos decorrentes dos acidentes de consumo. mormente em relação à responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos. não terão os fornecedores qualquer responsabilidade. houve uma preocupação mundial em reduzir ao máximo os acidentes de consumo e os vícios dos produtos. Criou-se novos modelos de reparação de danos que sobrepujaram a clássica teoria da responsabilidade civil. assim. Esses dois elementos atuam como fatores de ruptura do nexo causal entre o defeito e o dano. . calcados. cresceu a incidência de vícios e defeitos nos produtos. é utópico. Os produtos defeituosos acabam sendo um resultado marginal e inexorável da produção industrial. baseado na inexistência de produtos com avarias. e que decorre estritamente da lei. que prescinde de elemento contratual ou da ocorrência de ilícito. dentre os quais o da responsabilidade civil e o dos vícios dos produtos. dando tratamento jurídico bastante proguessista em relação à efetiva reparação dos danos ao consumidor. na efetiva reparação do consumidor. no direito brasileiro. na solidariedade social e na responsabilidade civil objetiva. Entretanto. pois. 4. Além disso. não haverá responsabilidade civil daquele. sobretudo nos países mais desenvolvidos. o que pode é possível com uma legislação rigorosa. que a responsabilidade do fornecedor. principalmente.078/90. à medida que não há um controle individual da adequação e segurança de cada unidade que é lançada no mercado. decorre da violação do dever de colocar no mercado produtos isentos de vícios de insegurança. a chamada responsabilidade legal. O modelo ideal de produção. Impõe. Considerações finais Com o surgimento e alargamento do processo de industrialização. microssistemas protetivos ao consumidor. tendo sido produzido após o consumidor ter adquirido o produto. A par disso. portanto. se o caso fortuito e a força maior sobrevierem depois da tradição (entrega) do produto ao consumidor. que tem como característica principal a produção em série.º 8. um dever de qualidade dos produtos colocados no mercado.138 eximentes de responsabilidade do fornecedor. se o defeito não está relacionado ao fornecedor.

São Paulo : Saraiva. 19-24. Jean Michel. 1997. 4. São Paulo. Revista Jurídica da Associação dos Defensores Públicos do Estado do Rio Grande do Sul. Código brasileiro de defesa do consumidor. João Baptista Machado). rev. ed. servindo de modelo e paradigma para vários outros países. La protección de los consumidores y el MERCOSUR. Referências Bibliográficas ARRIGHI. In: GRINOVER. Zelmo Da qualidade de produtos e serviços. KELSEN. atual. p. 1987. A responsabilidade do fabricante pelo fato do produto. 1. al. BENJAMIN. 1998. Luiz Gastão Paes de Barros. out. 2000. 2. 12. 2. GARAY. 1992. RS. rev. 5. SP. LEÃES. o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor é considerado uma das legislações consumeristas mais protetivas do mundo. Carlos Alberto. e ampl. 1. DE LUCCA. Rio de Janeiro : Forense. v. Newton. DIAS. p.139 Por essa principiologia inovadora e moderna. José de Aguiar. Derechos del consumidor em el marco de la legislación nacional y la integración regional. . GHERSI. da prevenção e da reparação dos danos. (trad. 2003. Carlos. In: Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. maio 1997. 6. São Paulo : Saraiva. ano 1. Montevidéu : Ingranusi. Gustavo Ordoqui. n. e atual. DENARI. da prevenção e reparação de danos. ampl. p. (coord. Rio de Janeiro : Forense Universitária. Programa de responsabilidade civil. 1998. Teoria pura do direito.-dez. Sergio. p. CAVALIERI FILHO. aum. 1991. aum. Revista de Direito do Consumidor. ed. Teoría general de la reparación de daños. Da qualidade de produtos e serviços. ed. SP. 127-197. 1999. 5.). Revista de Direito do Consumidor. CASTILHA. São Paulo. 1994. Porto Alegre. 29-36. Buenos Aires : Astrea. n. Hans. São Paulo : Martins Fontes. Ada Pellegrini et. O Direito do Consumidor no Mercosul. ed. atual. 5. 124-136. Da responsabilidade civil. n. São Paulo : Malheiros. ed. Antônio Herman de Vasconcellos e. rev. A proteção do consumidor e o MERCOSUL.

7. 1996. MARQUES. (Org. Cláudia Lima. Paulo de Tarso. rev. São Paulo.09.). 1971. 2003. RIZZARDO. 21. 1994. Vícios do Produto no Novo Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor. Curso de direito civil: direito das obrigações: 1.ª parte. atual. 42. p. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. Adalberto de Souza.078. Protección jurídica del consumidor. São Paulo : Revista dos Tribunais. 2002. de 11. 1998. 2003. São Paulo : Revista dos Tribunais. SANSEVERINO. José Fernando. A proteção jurídica do consumidor contra vícios dos produtos no âmbito dos países do MERCOSUL. Buenos Aires : . In: MARQUES. ed. PEREIRA.1990. rev. SIMÃO. 364-365. Porto Alegre : Livraria do Advogado. Odete Novais Carneiro. p. 49-85. MONTEIRO. ______. ed. aum. Revista de Direito do Consumidor. n. Responsabilidade civil do fabricante pelo fato do produto. 1997. LUNARDI. São Paulo. Washington de Barros. São Paulo : Saraiva. São Paulo : Atlas. Da responsabilidade por vício do produto e do serviço: Código de Defesa do Consumidor Lei 8. 2004. Estudos sobre a proteção do consumidor no Brasil e no MERCOSUL. jan. Roberto. 2004. 73-94. n.-jun. PASQUALOTTO. 09-31. Santa Maria. STIGLITZ. 2002. 2000. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos: a teoria da ação social e o direito do consumidor. p. QUEIROZ. Responsabilidade civil no código do consumidor e a defesa do fornecedor. SP. Rio de Janeiro : Forense. Fabrício Castagna. NORRIS. e ampl. Gabriel. Rio de Janeiro : Forense. Cláudia Lima. Monografia (Graduação em Direito) – Curso de Direito. Universidade Federal de Santa Maria. ano 11. Agostinho Oli Koppe. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. RS. SP. La relación de consumo: conceptualización dogmática en base al Derecho del MERCOSUR. p.-mar. 2002. Revista de Direito do Consumidor. Direito das Obrigações. 110 p. 4. São Paulo : Saraiva. Arnaldo. Porto Alegre : Livraria do Advogado. abr. Ricardo. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais.140 LORENZETTI.

" (Adalberto de Souza Pasqualotto. Graciela. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. "O fabricante deve assegurar para o consumidor que o produto. Sílvio de Salvo. ed. adequadamente utilizado. 2002. ano 11. 2. Notas As normas do CDC brasileiro são imperativas no sentido de proteger a confiança que o consumidor depositou no produto que adquiriu. Responsabilidade civil no código do . p. p. 689) ou com herdeiro excluído da sucessão (art. O princípio da confiança está intimamente ligado ao princípio da boa-fé subjetiva.250. 42. n. 31. Estudos sobre a proteção do consumidor no Brasil e no MERCOSUL. 115-128. SP. 74. 1994. 135. Adalberto de Souza Pasqualotto. Revista de Direito do Consumidor. ed. 49-85. São Paulo. In: MARQUES. não será um instrumento maligno nas mãos dos usuários desprevenidos. 1999. Consumidores: análisis exegético de la Ley 17. conforme as instruções por ele mesmo expedidas e dando atenção às advertências cabíveis que também por ele devem ser feitas. Montevidéu : Fundación de Cultura Universitaria. distribuición y comercialización de bienes y servicios. LOVECE. p. que se encontra no Código Civil brasileiro. São Paulo. atual.). Direito Civil: responsabilidade civil. Dora Szafir.999: responsabilidad de los sujetos y/o empresas que intervienen em la cadena de fabricación.817).250. abr. p. Célia. 2003. Porto Alegre : Livraria do Advogado. 49. 2002. cit. circulacón. Adalberto de Souza Pasqualotto. 75). A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. n. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. WEINGARTEN. jul. Revista de Direito do Consumidor. Montevidéu : Fundación de Cultura Universitaria. 07 06 05 04 03 02 01 Paulo de Tarso Sanseverino. ed. SZAFIR. VENOSA. Consumidores: análisis exegético de la Ley 17. Cláudia Lima. p. p. 2002.141 Depalma. vulnerando sua integridade física ou de qualquer modo colocando em risco a sua segurança ou a dos circunstantes. Op. 1986.-set.-jun. (Org. Dora. 73-94. Exemplo disso é a proteção aos contratantes de boa-fé quando celebram negócio jurídico com mandatário aparente (art. SP. 1. Ley 27. 3. p. São Paulo : Atlas. 2. atual.

. p. p. Embora seja prevista a responsabilidade penal dos fornecedores. cit. de utilización de cosas. ed. 77.). p. ha revelado la insuficiencia e injusticia del principio tradicional e atribuición subjetiva basado en la culpa del autor del daño. ed. Da Responsabilidade Civil. p. 5. 2003. Op. ampl. 134. 2002. 2003. aum. p. Hans Kelsen. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos: a teoria da ação social e o direito do consumidor. "Para enfrentar a nova realidade decorrente da Revolução Industrial e do desenvolvimento tecnológico e científico. surgirá a responsabilidade civil ou penal. rev. Rio de Janeiro : Forense. 13 14 12 11 10 09 08 Ibidem. em determinados casos. 12. porquanto a responsabilidade civil tradicional revelara-se insuficiente para proteger o consumidor. ed. cit. São Paulo : Martins Fontes. 1998. Porto Alegre : Livraria do Advogado. 2003. Op." (CAVALIERI FILHO. Direito Civil: responsabilidade civil. p. São Paulo : Atlas. Sergio. Teoría general de la reparación de daños. p. p. 19 18 Carlos Alberto Ghersi. Op. tal questão não será tratada no presente trabalho. 1. com fundamentos e princípios novos." (Carlos Alberto Ghersi. 473) Adalberto de Souza Pasqualotto. 24. p. p. 158. João Baptista Machado. 24. 6. 16 17 15 Ibidem. Sílvio de Salvo Venosa. de productos elaborados. ed. 1999. 16. que exponen a la persona humana a mayores riesgos. v. Sergio Cavalieri Filho. Agotinho Oli Koppe Pereira. etc. 4. cit. 103. Trad. atual. 3. 15. São Paulo : Saraiva. e atual. 2. o Código do Consumidor engendrou um novo sistema de responsabilidade civil para as relações de consumo. aum. De acordo com o bem jurídico tutelado e a gravidade da lesão. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. 157) José de Aguiar Dias. Buenos Aires : Astrea. 1997.142 consumidor e a defesa do fornecedor. ed. riesgos derivados de actviades. São Paulo : Malheiros. p. rev. Programa de Responsabilidade Civil. 242. "El aumento de las causas de dañosidad producidas por el industrialismo (accidentes de trabajo. p. Teoria pura do direito.

Rio de Janeiro : Forense.078. de 11. o CBDC impõe aos fornecedores a obrigação de colocar no mercado somente produtos isentos de vícios ou defeitos. p. Isso porque "fato" é acontecimento alheio à ação humana. Assim. da tradicional responsabilidade assente na culpa passa-se a presunção geral desta e conclui-se com a imposição de uma responsabilidade legal. mesmo porque existe uma responsabilidade solidária entre o fabricante. é sempre a atividade humana. ed. 111) Pragmaticamente. o intermediário e o comerciante (distribuidor) (.143 Adalberto de Souza Pasqualotto. podendo a vítima reclamar face a quem com ela certamente não contratou. atual." (Cláudia Lima Marques. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. Melhor teria sido. p. 1998.1990. quanto daquele cujo vínculo contratual é apenas com a cadeia de fornecedores. Op. rev. São Paulo : Saraiva.) Adalberto de Souza Pasqualotto." (Arnaldo Rizzardo. 984). que causa o dano. p. 2002.)" (In: Da responsabilidade por vício do produto e do serviço: Código de Defesa do Consumidor Lei 8. Direito das Obrigações. São Paulo : Revista dos Tribunais. 50. p. O novo regime de vícios no CDC caracteriza-se como um regime de responsabilidade legal do fornecedor. cit. como refere Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin (In: Da qualidade de produtos e serviços. 205) Tal expressão. da prevenção e da reparação dos danos. da expressão "responsabilidade pelos acidentes de consumo".. tanto daquele que possui um vínculo contratual com o consumidor. de forma direta ou indireta. 475. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. 21 22 20 Sergio Cavalieri Filho. portanto. cit. "Assim. 80. 2000. Odete Novais Carneiro Queiroz: "Não se faz necessária uma efetiva relação contratual. Portanto. tem-se um dano decorrente da atividade de produção ou de comercialização. Op. e ampl. no caso dos vícios de insegurança. que é gerenciada pelo homem. no sistema do CDC. p. Também nesse sentido. contudo. Op. Op. 27 28 26 25 24 23 Sergio Cavalieri Filho.09. o dever de qualidade é um dever anexo à atividade dos fornecedores. 478. Por solidariedade deve-se entender "um vínculo que conduz a impor o cumprimento de uma obrigação a várias pessoas. não goza de um tecnicismo apurado.. cit. In: Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. Luiz Gastão Paes de Barros Leães. que o legislador tivesse se utilizado. p. p. A responsabilidade do fabricante pelo . sendo alvo de severas críticas pela doutrina. São Paulo : Revista dos Tribunais. cit. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. 43-44. 1991. p. e. por exemplo. 4.

" Washington de Barros Monteiro. 7. 3. p. ed. O Código Civil brasileiro.. 30 29 . 393. Curso de direito civil: direito das obrigações: 1. 1987. rev. São Paulo : Saraiva. 364-365.ª parte. cujos efeitos não era possível evitar ou impedir. (. em seu art. 393.144 fato do produto. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário. parágrafo único. aum.. equipara o caso fortuito à força maior: "Art. 1971. p.) Parágrafo único. São Paulo : Saraiva.

o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. 26 e 27 da Lei 8.145 A prescrição e a decadência no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner Visa. . a análise dos institutos jurídicos da prescrição e da decadência no que se refere ao Direito do Consumidor.078/90. tendo por base a previsão normativa do art. o presente trabalho.

a instauração de inquérito civil.(Vetado.) 2.Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do produto ou do término da execução dos serviços.90 (noventa) dias. possuem sua disciplina geral disposta no Código Civil. §1º . que deve ser transmitida de forma inequívoca. Iniciemos com a transcrição dos artigos sob estudo.Tratando-se de vício oculto.(Vetado. Art. o prazo decadencial inicia-se no momento em que ficar evidenciado o defeito. §3º .Prescreve em 5 (cinco) anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo.Obstam a decadência: I . II . até seu encerramento. iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria. SEÇÃO DA DECADÊNCIA E DA PRESCRIÇÃO IV Art. Parágrafo único . 27 . 26 . arts.O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em: I .) III . Introdução As normas referentes à prescrição e decadência.146 1. 161 a 179. A Relevância Jurídica do Decurso do Tempo: . Assim ocorre que no Código de Proteção e Defesa do Consumidor. temos a disciplina dos mesmos no que tange à relação de consumo.30 (trinta) dias. a depender do campo específico do Direito em que se pretende sejam aplicadas. tratando-se de fornecimento de serviço e de produto não duráveis. II .a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente. §2º . tratando-se de fornecimento de serviço e de produto duráveis. Tais institutos. comportam regras específicas. no entanto.

. 27 ("Prescreve . . de maior interesse no que adiante vamos discutir. mas sim a pretensão à reparação. No entanto. constitui causa aquisitiva ou extintiva de direitos. uma vez que a prescrição atinge a ação e não o direito. portanto. mas que tenha sofrido algum obstáculo... Decadência e Prescrição Poderíamos citar um diverso número de características peculiares a cada instituto. A decadência supõe um direito em potência. A prescrição não fere o direito em si mesmo. in casu. 7ª ed. ante o fornecedor. a prescrição requer um direito já exercido pelo titular. 26 ("O direito . a pretensão prescreve. O Direito caduca...147 O Fluir do tempo gera efeitos jurídicos relevantes para o direito. já que a doutrina. "o que se perde com a prescrição é o direito subjetivo de deduzir a pretensão em juízo. Segundo Serpa Lopes (Curso de Direito Civil. Rio de Janeiro. dando origem à violação daquele direito. período fixado na lei entre o termo inicial (dies a quo) e o termo final (dies ad quem). a pretensão") 4. 1989). decadencial ou prescricional. vol. quanto ao defeito do produto ou serviço. inalteráveis pela vontade das partes. ao passo que a prescrição atinge a pretensão de deduzir em juízo o direito de ressarcir-se dos prejuízos oriundos do fato do produto ou do serviço. 1996). caduca. a decadência atinge o direito de reclamar. Neste sentido. a prescrição afeta a pretensão à reparação pelos danos causados pelo fato do produto ou do serviço. Editora Forense. e atual... No caso específico do CDC. aliado a inatividade do seu titular constitui fato jurisformizado pelo direito com vistas à estabilidade e segurança das relações jurídicas. 3. neste particular. Freitas Bastos. cujo implemento vem a constituir o fato jurídico. é abundante. Prazos para Reclamar e Pretender a Reparação de Danos Prazo é o lapso de tempo. O fluir do tempo. Tratou da decadência no art. Constitui fato jurídico ordinário. temos a "pretensão liberatória" no dizer de Orlando Gomes ("Introdução ao Direito Civil"12ª ed.. A decadência afeta o direito de reclamar. rev. Rio de Janeiro. fiquemos com algumas. 1.") e da prescrição no art. Convém salientar que os prazos decadenciais e prescricionais do CDC são de ordem pública e. No aspecto extintivo." O CDC separou as duas realidades. extintivo de direito. Ed. teremos a base da decadência e prescrição. e também inúmeras distinções entre um e outro. os principais institutos dessa esta forma extintiva de operar o decurso temporal.

Entrega Efetiva A tradição efetiva se opera no momento em que o consumidor tenha recebido o produto e tenha condições de verificar a ocorrência do possível vício. bens (produto ou serviço) se exaurem no primeiro uso ou em pouco tempo. Analisaremos adiante o conceito de "entrega efetiva". e pelo Código Comercial. 26. serviços que persistem após sua execução. Serviço não durável é aquele que se extingue com sua própria execução (Ex. também adiante. 211. ou término da execução dos serviços. objetivando seja sanado o vício. imóvel 6 meses. art. 51. O tratamento também é diverso no que se refere ao dies a quo. § 2º. art. O prazo decadencial que estudamos é o prazo para que o consumidor reclame. 5. § 5º. 5. (art. ao passo que no Código Civil e Comercial o prazo se inicia com a mera tradição. (art. 178. 5. cujo consumo não importa destruição. 26. ocorre uma sensível ampliação em relação ao prazo para reclamar dos vícios redibitórios na forma como disciplinado pelo CC. I) •90 dias: na mesma hipótese para serviços e produtos duráveis. Vejamos: O início da contagem do prazo decadencial se dá com a entrega efetiva do produto. como é o caso do CDC.1. 178. Aqui durável guarda certa analogia com consumível (art.2. § 2º. . 10 dias. como: •30 dias: para reclamar de vícios aparentes e de fácil constatação no fornecimento de serviços e produtos não duráveis. CC). o qual estabelece o prazo de 15 dias no art. Produtos e Serviços Duráveis e Não Duráveis: O critério aqui utilizado para assinalar diferentes prazos decadenciais é mais consentâneo com o Direito do Consumidor do que o critério da mobilidade utilizado pelo CC (móvel. A Classificação difere da do CC. 178.. IV).. junto ao fornecedor ou ao Poder Judiciário. como. Prazos Decadenciais no CDC. veremos. II) Aqui. serviço de limpeza). 15 dias art. Suas Especificidades O CDC nos apresenta alguns prazos. Não durável é aquele cujo uso ou consumo importa imediata destruição da sua própria substância. Ao passo que duráveis são aqueles produtos.148 Há prazos gerais fixados no Código Civil e prazos especiais fixados nesse mesmo Código e na legislação extravagante em relação a ele.

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Pode ainda restar dubiedade neste termo, no caso, por exemplo, do preposto receber na residência do consumidor impossibilitado de fazê-lo pessoalmente e só posteriormente ao decurso do prazo decadencial venha efetivamente receber o produto. São entretanto, casos para que a doutrina e a jurisprudência no caso concreto, possa deslindar. Para nós importa compreender a mens legis, do dispositivo legal, ao utilizar a expressão "entrega efetiva", a qual parece-nos ser a de fornecer o contraponto entre a possibilidade do consumidor constatar o vício eventualmente existente versus a passividade do consumidor, sua inércia frente à constatação do vício. Uma ou outra hipótese só fica perfeitamente delineada, na prática, analisando-se o caso concreto. 5.3 Vício Vícios de qualidade são aquelas características que tornam o produto ou serviço impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam, ou lhes diminuem o valor. Também constitui vício a disparidade entre produto e as indicações do recipiente, embalagem, mensagem publicitária ou do que deles normalmente se espera. Não esqueçamos que o vício de quantidade, via de regra mais facilmente constatável, também enseja a reclamação. 5.4. Vício Aparente É o vício visível, perceptível sem maior dificuldade, assimilável pela percepção exterior do produto ou serviço, aquele em que o consumidor não encontra obstáculos em reconhecer. Não requer teste. Deve se ter em conta no caso concreto o grau de conhecimento do consumidor, ou da possibilidade de verificação de que o mesmo dispõe. 5.5. Vício Oculto É o vício que não oferece facilidade de constatação. Pode ser o defeito que está, quando da aquisição do produto ou execução do serviço, em germe, em potência, e vem a se manifestar posteriormente. Não basta ser de fácil evidenciação o efeito do vício, mas sim o vício em si, isto é, é necessário ser fácil a identificação do vício como a causa sensível de seus efeitos. Por exemplo, não basta que seja fácil a identificação de um odor estranho de dado produto, é necessário que seja facilmente assimilável a relação de causa e efeito, isto é, o odor, como o fato do produto encontrar-se estragado. O prazo decadencial se inicia quando da evidenciação do defeito. Defeito aparentemente sanado pelo fornecedor, equivale a ter o vício ficado novamente oculto, "sustando" o prazo decadencial até o momento em que venha novamente a se

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manifestar. Para operacionalizar o acima exposto há a necessidade de se estabelecer uma presunção da anterioridade do vício nos produtos ou serviços novos. Nesse caso, a probalidade física favorece a presunção, um produto novo implica em menor oportunidade de que o defeito decorra de sua utilização anormal. Esta presunção funciona "a moda" de uma específica inversão do ônus da prova. Cabe ao fornecedor provar que o vício não estava presente ou ínsito ao produto ou serviço, quando do fornecimento ao consumidor. A reclamação efetuada quanto a um dos fornecedores é plenamente válida para os demais responsáveis. Este é um dos efeitos da solidariedade de acordo com o art. 176, § 1º, CC, solidariedade esta, legal, por decorrer do art. 25, § 1º, CDC. 5.6. Óbices à Decadência De acordo com o CDC, obstam a decadência: A reclamação comprovadamente formulada. (da qual se tenha prova), até resposta negativa correspondente, a ser transmitida de forma inequívoca. Instauração de Inquérito Civil até seu encerramento. Caso 1: A decadência é obstada, no primeiro caso, desde a data da entrega da reclamação, comprovada mediante recibo, cartório de títulos e documentos, ou mesmo judicialmente. Volta a seguir desde o dia seguinte ao da entrega da resposta negativa transmitida de forma inequívoca. Negado o vício, resta ao consumidor, no prazo decadencial, ir a juízo propor a ação condenatória para que o fornecedor satisfaça as obrigações decorrentes do vício (art. 18), podendo ser o pedido cumulado com o de indenização, se houve dano. "O prazo é de trinta dias para reclamar e não para ajuizar a ação. Isto é, não se exige que o consumidor, impreterivelmente, proponha a ação cabível em trinta dias ..." (Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin in Comentário ao Código de Proteção do Consumidor, coordenação de Juarez de Oliveira, Ed. Saraiva, 1991) No caso da reclamação judicial, passam a concorrer as regras processuais que disciplinam a matéria. Proposta a ação, o despacho que ordenar a citação impede que se consume a decadência, sendo a citação realizada no prazo estabelecido no art. 219 do CPC, que se refere à prescrição, mas é válido para a decadência à luz do art. 220. A decadência,

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em regra, não se interrompe, nem se suspende, portanto, extinto o processo, sem julgamento de mérito e já tendo escoado o prazo legal de decadência, o consumidor não poderá se valer da reclamação ou de ação que lhe seja correspondente. Este é, ao menos, um dos entendimentos sobre o assunto. Note que, se a resposta do fornecedor não negou o vício, a decadência continua obstada, de forma que se não houver sanação, o consumidor continuará com direito de recorrer a outras instâncias, sem que haja perecimento do mesmo pela decadência. Caso 2: Instauração de Inquérito Civil até seu encerramento: A decadência fica obstada a contar do dia da instauração do inquérito e persiste assim até o dia do seu encerramento, inclusive, voltando a contar do dia seguinte ao mesmo. O objetivo do Inquérito Civil, como de qualquer inquérito, é o de servir como instrumento legal para obtenção de dados, clarear um fato, determinar se um direito foi ofendido e em que grau ou extensão, qual o ofensor, etc. Natural, portanto, que suspenda a decadência, pois que os resultados advindos do inquérito, poderão servir ao consumidor subsídios para deduzir sua pretensão específica, em juízo. 6. O Debate Doutrinário sobre a Interrupção ou Suspensão da Decadência O Brasil, de acordo com Serpa Lopes (Curso de Direito Civil, vol. 1, 7ª ed. rev. e atual., Ed. Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 1989), seguindo tradicionalmente a orientação francesa e italiana, só admitia a interrupção aos prazos prescricionais, negando-a aos prazos decadenciais. O que podemos entender, então, pela expressão "obsta a decadência" inserta no art. 26 § 2º ? Interrupção, suspensão, Impedimento ao fluir... ? Vejamos algumas posições na doutrina: Luiz Edson Fachin (Da prescrição e da decadência no Código do Consumidor, Revista da Procuradoria Geral do Estado- RPGE, Fortaleza, 10(12): 2940, 1993) apesar de admitir que a "obstação", possa constituir uma realidade apartada do Código Civil, e que, sendo especial, sui generis, não requer mais explicações, defende, no entanto, a tese de que se trata de causa interruptiva da decadência, ainda que em descompasso com a sistemática geralmente aceita. Assim postula observando que as hipótese dos incisos I e III sob análise não se fundam no status da pessoa nem na situação especial dos sujeitos envolvidos. "... a reclamação comprovadamente formulada e a instauração do inquérito civil paralisam temporariamente o curso da decadência. Superado o fato interruptivo, quer pela resposta negativa, quer pelo

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encerramento do inquérito, o prazo flui novamente, mas é inutilizado por completo o lapso de tempo já iniciado. O prazo recomeça a contar." (grifo nosso) Zelmo Denari (Código de Defesa do Consumidor, comentado pelos autores do Anteprojeto, Forense Universitária, São Paulo, 1991), considerando as expressões "até a resposta negativa", "até seu encerramento", pondera: "Resta saber se esses dois eventos (reclamação e inquérito civil), que o Código qualifica como obstativos da decadência, têm efeitos suspensivos ou interruptivos do seu curso. ... parece intuitivo que o propósito do legislador não foi interromper, mas suspender o curso decadencial. Do contrário, não teria estabelecido um hiato, com previsão de um termo final (dies ad quem) mas, simplesmente, um ato interruptivo." Não obstante, e dada, máxima venia, não conseguimos atinar com a relação de causa e efeito entre o fato de haver previsão de um hiato e a conclusão de ser o prazo suspensivo. O dies ad quem, esta simplesmente a indicar o momento em que volta a correr a decadência anteriormente interrompida ou suspensa, não podendo-se desse fato apenas se concluir por um ou outro caso. A explicação, a nosso entender mais convincente é a de William Santos Ferreira (Prescrição e Decadência no Código de Defesa do Consumidor, Revista de Direito do Consumidor, n 10, p 77 a 96, abril/junho, 1994), para quem efetuada a reclamação, "não há mais que falar em transcurso de prazo (suspensão ou interrupção), não é necessário tratar-se do prazo, o direito foi exercido." Cita Câmara Leal "A decadência tem um curso fatal, não se suspendendo, nem se interrompendo, pelas causas suspensivas ou interruptivas da prescrição, só podendo ser obstada a sua consumação pelo efetivo exercício do direito ou da ação, quando esta constitui o meio pelo qual deve ser exercitado o direito." O que ocorre no CDC (e isso justifica o que Ferreira chama de "dies a quo", "até resposta negativa..." e "até seu encerramento" §2º, I e III), é que o CDC reconheceu duas formas de exercício: extrajudicial e judicial do direito de reclamar. Sendo que a segunda forma de exercê-lo, se não exercido antes, inicia-se nos termos supra-citados. Verificados tais termos, novo prazo decadencial se inicia, agora, através da exteriorização da pretensão por uma ação judicial. Releva a discussão acima exposta, inclusive pelas conseqüências práticas que decorrerão forçosamente de um e outro entendimento. Ao consideramos a suspensão ou interrupção ou ao admitirmos dois direitos sujeitos a distintos prazos decadenciais, resultará, obviamente, em lapso maior ou menor de tempo para que o consumidor exerça seu direito, resultará em maior ou menor oportunidade de fazer respeitar estes mesmos direitos. A última, a de William Santos Ferreira, parece-nos ser a explicação mais consentânea, ainda que não de todo convincente, face aos termos utilizados na redação do dispositivo legal. Além de mais consentânea, vem a ser a que melhor protege o consumidor, portanto, a que mais se afina com o princípio da

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hipossuficiência do consumidor, princípio que norteia todo o código. 7. Prazos Prescricionais no CDC Os prazos prescricionais referem-se à pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista no mesmo CDC. Esclarece Arruda Alvim (Código Do Consumidor Comentado; 2. ED. rev. e ampl.; Revista dos Tribunais; 1995): "O objeto da reclamação é substancialmente diferente do pedido de reparação de danos." A reclamação é exclusiva do vício, a reparação se prende as perdas e danos, fato do produto ou do serviço. Fato do produto é todo e qualquer dano, podendo este ser oriundo de um vício, que, por sua vez traz em si, intrínseco, uma potencialidade para produzir dano. Assim, caso o vício não cause dano, correrá para o consumidor o prazo decadencial, para que proceda a reclamação, vindo a causar dano (hipóteses do art. 12), deve se ter em mente o prazo qüinqüenal, sempre que se quiser pleitear indenização. A posição de alguns doutrinadores estudados é no sentido de que se o consumidor tiver sido prejudicado, poderá haver perdas e danos (além da reclamação pelo vício) e estas, apesar de originadas no próprio vício do produto ou do serviço, não necessitam integrar a reclamação, ficando sujeitas o prazo prescricional fixado, em lei para estas, pois se constituem as perdas e os danos, em sentido lato, o fato do produto ou serviço, abrangendo o que o consumidor perdeu e o que deixou de ganhar em razão do vício Arruda Alvim (Código Do Consumidor Comentado; 2. ED. rev. e ampl.; Revista dos Tribunais; 1995) esclarece, no entanto, que: não há diferença entre os danos advindos de vício do produto e o fato do produto. A interpretação diversa, ainda segundo ele, levaria a entender que a indenização pelo vício, restaria à margem das leis de consumo, e que sua prescrição se regeria pelo direito comum (15 dias CC, 10 dias Ccom havendo rescisão, ou 20 por ação pessoal, no caso de não se dar a rescisão contratual). Continua: "O vício do produto ou do serviço e sua sanação recebe um tratamento jurídico que não é dispensado ao dano; este importa em fato do produto ou do serviço. Nada obsta a que um produto ou serviço seja viciado e que, este vício ocasione prejuízo, devendo este ser considerado como fato." Entendemos a propósito dessa discussão que fazer esta distinção entre fato do produto ou serviço e dano decorrente do vício é supérflua até mesmo para negá-la. Qualquer perda ou dano implica em fato do produto ou do serviço, que vem a ser precisamente o dano resultante do vício. William Santos Ferreira (Prescrição e Decadência no Código de Defesa do Consumidor, Revista de Direito do Consumidor, n 10, p 77 a 96, abril/junho, 1994), faz observação relevante ao observar que quando falamos do direito à incolumidade

fonte subsidiária do Direito do Consumidor. necessário que o consumidor tenha consciência de que aquilo que observa é. segurança. Causas Impeditivas. estabelece regras também especiais no que tange aos . Conhecimento dos efeitos do dano. venha ajuizar ação já que só a contar deste conhecimento individualizado terá início o prazo prescricional. produtor ou importador. 7. Quanto à identificação do autor. Nada impede que o consumidor descobrindo demais fornecedores. um dano. o comerciante é responsável subsidiário. Da lesão ou violação de um direito faz nascer a ação. este implica em direito resistido. Isto é. a partir do momento em que se conheça o dano e possa-se relacioná-lo com o defeito do produto ou do serviço. saúde nunca deixaram de existir. Liberação que só ocorre se houver o pagamento integral. esta interrupção aproveita ao consumidor individualmente no ajuizamento da ação singular. Ora. 8.154 física-psíquica do consumidor falamos de direito não sujeito à decadência. 7. ao haver o dano. 7. No ajuizamento de ações coletivas: a citação válida interrompe a prescrição. Temos então que a prescrição tem início com o nascimento da pretensão. Suspensivas e Interruptivas O parágrafo único prevendo interrupção foi vetado. construtor.1. do Código Civil.2. A propositura de ação contra um não libera os demais. Conclusão Pudemos verificar que o Código De Proteção e Defesa do Consumidor. o direito a vida. será diretamente responsável nos casos previstos no art. enseja ação e enseja também a prescrição decorrente. não é conhecimento do dano. bem como quando o fato se deve exclusivamente ao comerciante. que correrá novamente apenas da intimação da sentença condenatória. já que tal ilação pode não ser imediata em todos os casos.3. Termo Inicial A partir do momento do conhecimento do dano ou de sua autoria. Poderá o consumidor demandar um ou mais dentre os responsáveis (solidariedade legal). Regerá portanto a matéria a disciplina do art. constituindo diploma especial. Inexistindo informação sobre fabricante. 172 e ss. 12 e ss. Danos Reparáveis Os danos aos quais a pretensão se dirige a reparar atém-se a regulação jurídica da responsabilidade objetiva pelo fato do produto ou do serviço. 13. matéria disciplinada pelo Código no art. de fato.

FACHIN. da "obstação" da decadência. no primeiro caso. Da prescrição e da decadência no Código do Consumidor. rev. e ampl. se o derivado do vício ou o derivado do fato do produto ou serviço. mais dilatados. após exercitado. oriundo ou não do vício. ao termo inicial e ao termo final. 1991. BIBLIOGRAFIA ALVIM. No segundo caso. Fortaleza. resultará em fato do produto ou serviço. A segunda polêmica. e conforme exposto neste trabalho nos itens 6 e 7. 2. a favor da identificação de dois direitos exercitáveis pelo consumidor.155 institutos da Decadência. Forense Universitária. Todas elas partindo do pressuposto fundamental da hipossuficiência do Consumidor nesta classe de relações. cremos que interpretamos a lei da forma. qual seja. judicialmente. sistematicamente mais lógica e teleologicamente mais adequada ao espírito que preside o Código Protetivo. sob este ângulo devem ser interpretadas. Em assim fazendo. 1995 DENARI. 27. quanto a natureza jurídica. Prescrição quando aplicados às relações de consumo.. A cada direito corresponde um dies a quo para o prazo decadencial. Revista da Procuradoria Geral do Estado. Tais regras são atinentes aos prazos. Código de Defesa do Consumidor. Cada um. 1993 FERREIRA. comentado pelos autores do Anteprojeto. Um exercitável extrajudicialmente. impede se volte a falar em decadência. 10(12): 2940. versa sobre como deve ser entendido o dano sujeito à disciplina do CDC e por via de conseqüência. pelo menos em dois pontos principais. nos posicionamos. hipóteses de interrupção e suspensão. William Santos. Pudemos verificar que existe alguma controvérsia doutrinária. considerando todos abraçados em uma mesma hipótese. Prescrição e Decadência no Código de Defesa . Com base nos autores estudados. Arruda.. quando da ocorrência do vício. todo e qualquer dano que decorra do produto ou serviço. outro. ED. pelo tão só fato de ter sido exercitado. inserta no parágrafo segundo do artigo 26 do CDC. inclusive no que concerne à responsabilidade objetiva. Primeiro. etc.RPGE. Revista dos Tribunais. Portanto. Luiz Edson. nos posicionamos pela não distinção entre um e outro dano. sujeito ao prazo prescricional do art. Código Do Consumidor Comentado. sujeitando-se às regras do CDC. e conseqüente forma de aplicação. et al. e também jurisprudencial. São Paulo. Zelmo.

Orlando. Freitas Bastos. 1989.156 do Consumidor. n 10. Rio de Janeiro. GOMES.. Comentário ao Código de Proteção do Consumidor. Ed. 7ª ed. Miguel Maria de Serpa. Introdução ao Direito Civil. e atual. 1. 1996. 12ª ed.. Curso de Direito Civil. Revista de Direito do Consumidor. 1994. Saraiva. vol. VASCONCELOS E BENJAMIN Antônio Herman de. rev. p 77 a 96. coordenação de Juarez de Oliveira. 1991 . Editora Forense. abril/junho. LOPES. Rio de Janeiro. Ed.

157 Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner 1 .INTRODUÇÃO Visa o presente trabalho a discussão do instituto da Desconsideração da .

Consoante tal linha de raciocínio. expressão . sabe que a responsabilidade dos sócios se limita ao capital subscrito. Por razões de política econômica. a exigirem conjugação de esforços. daí poderem se precaver. preliminarmente. Lei 8078/90. em hipóteses restritas. No direito moderno. presente trabalho. a personalização representa instrumento legítimo de destaque patrimonial para a exploração de certos fins econômicos. o lado credor que contrata com tais sociedades. fazermos menção ao elemento teleológico do instituto da personalização de entes abstratos. Por outro lado. do aprofundamento sobre a questão da sua natureza jurídica.. é o caso.. no entanto. tendo por base a previsão legal insculpida no artigo 28 do Código de Proteção e Defesa do Consumidor. de. entretanto. 2 . há certas atividades que a lei só autoriza às pessoas jurídicas.A PESSOA JURÍDICA. por exemplo da atividade financeira. de transforma-la em ente totalmente alheio às pessoas dos sócios. além de geralmente impor a espécie societária. SEU CARÁTER INSTRUMENTAL Abstraindo-nos no. Senão vejamos: O patrimônio da pessoa jurídica é através da ação ou quota de capital. os sócios. a autonomia da pessoa jurídica não tem.158 Pessoa Jurídica no que tange à sua aplicação ao Direito do Consumidor. A limitação da responsabilidade dos sócios como instrumento de viabilização de empreendimentos. o condão . Sob esse prisma. econômico ou ainda patrimonial do tema. A necessidade técnica dos grandes empreendimentos. Cooperação que a ordem jurídica jurisformiza através da personalização. só se chamando à responsabilidade. de seguros. e se nos ativermos ao aspecto comercial. poderíamos alinhar alguns desses fins colimados e aceitos pela ordem jurídica: Conveniência ou viabilização de empreendimento econômico. a pessoa jurídica somente pode ser entendida sob o prisma de uma instrumentalidade jurídico – formal para a consecução de interesses e fins aceitos e valorizados pela ordem jurídica. necessidade de elevados investimentos. por exemplo. exigindo garantias adicionais. etc. Situações há em que a constituição de pessoa jurídica é imperativo legal. gostaríamos. Dado que o destaque patrimonial seja a principal característica nas sociedades comerciais. de modo que o patrimônio titulado pela pessoa jurídica responda pelas obrigações sociais.

Contudo. contornando-a de forma a manter íntegro os valores que inspiraram sua criação. descrita como a situação em que não há propriamente lacuna da lei. não obstante o balizamento dos estatutos e dos órgãos de administração neles previstos. trata-se da "Lacuna Axiológica". que adiante estudaremos. Na aplicação da desconsideração da pessoa jurídica. é o instituto que se encaixa como uma luva a construção teórica acima mencionada. porém. A desconsideração da pessoa jurídica. em grande medida. e sua vontade é. quanto a proteção dos demais sócios. sem que se destrua sua validade. defraudando-o. A vontade da pessoa jurídica é. O problema que então se apresenta em relação à lei é o de integrá-la. ao aplicá-la. no aspecto axiológico. pois indiretamente.159 também do patrimônio dos sócios. Quando o reconhecimento da autonomia leva à negação de ideais de justiça ou à frustração de valores por ela albergados. fique condicionada a que não se desvie a pessoa jurídica desse mesmo fim. pela vontade deles. isto é. a limitação de responsabilidade que propicia. pois o direito posto fornece a solução em seus estritos termos. Há situações em que a utilização da pessoa jurídica é feita ao arrepio dos fins para o qual o direito albergou o instituto. podemos afirmar: a pessoa jurídica exerce uma função legítima. de forma a que. o reflexo da vontade de seus sócios. se visará tanto a proteção da própria pessoa jurídica da ação de seus sócios gerentes.RELATIVIDADE DA AUTONOMIA DA PESSOA JURÍDICA O caráter de instrumentalidade implica em que a validade do instituto fique condicionada ao pressuposto do cumprimento ou do atingimento do fim jurídico a que este se destina. se possa evitar seja a mesma utilizada para fins abusivos. fortemente direcionada. que a solução dada fere valores que o sistema jurídico tutela. terceiros que com ela se relacionem ou que de qualquer forma sofram os efeitos de seu atuar. Visa tal instituto à suplantação da barreira legal imposta pela instituição da pessoa jurídica. fazê-lo. p. Ocorrendo a incompatibilidade entre o comportamento da pessoa jurídica e os valores que informam a ordem jurídica. 3 . ocorre. ou deixar de aplicá-la. citada por Marçal Justen Filho (in "Desconsideração da Personalidade Societária no Direito Brasileiro". não representando abuso. temos então o desvio de função. sua autonomia em relação as pessoas dos sócios é relativa. Em síntese. . 96). seu patrimônio a eles pertence. Podemos aqui invocar a construção de Tércio Sampaio Ferraz Junior e Maria Helena Diniz.

dos prejuízos decorrentes da utilização dervirtuadora de seus fins.160 E mais do que o acima exposto. art. ora a responsabilidade pessoal de terceiros: Na CLT. 34). Antes de adentrarmos no assunto específico da desconsideração.137/62).MECANISMOS LEGAIS DE CORREÇÃO DOS DESVIOS DE FUNÇÃO DA PESSOA JURÍDICA Assim como o direito reconhece a autonomia da pessoa jurídica e a conseqüente limitação da responsabilidade dos sócios. ou relativizar a autonomia da pessoa jurídica. 242). enfim. o próprio direito pode cercear os possíveis abusos. excepcioná-la e condiciona-la. como o direito posto trata do assunto. devemos. para evitar prejuízos aos sócios minoritários. pode regular seu exercício. deixa expresso ora a responsabilidade solidária.. 7. 233. temos a responsabilidade solidária das sociedades integrantes de um conglomerado econômico (art. Pode o direito limitá-la. contempla situações de responsabilidade pessoal. como. ora a responsabilidade subsidiária. . preservando a validade e existência de todos os demais atos que não se relacionam com o desvio de finalidade. ainda em uma preliminar.. A Lei de Repressão ao Abuso do Poder Econômico (Lei 4. a desconsideração destina-se ao aperfeiçoamento do próprio instituto da personalização. § 2º) A Lei das Sociedades Anônimas (Lei 6404/76). veda determinadas operações com seus administradores e pessoas jurídicas de cujo capital estes participem. no entanto. mencionando alguns mecanismos legais. 2º. 6º. restringindo a autonomia de um lado e a limitação de outro. A teoria ou doutrina da desconsideração assegura a finalidade da pessoa jurídica ao tempo em que protege os demais. (arts.492/86 no art. analisar os instrumentos que o direito posto oferece para limitar. Também a Lei. dispõe de forma semelhante. A Lei do Sistema Financeiro (Lei 4. sem deixar de reconhecer a autonomia. Vejamos. restringi-la. 4 . 17.595/64. etc. 115 a 117. ao mercado imobiliário. pois determina a ineficácia episódica de seu ato constitutivo. solidária ou subsidiária de terceiros. em seu art. responsabiliza civil e criminalmente diretores e gerentes de pessoas jurídicas pelos abusos caracterizados na supradita lei. e nisto protegendo o própria existência da pessoa jurídica.

a doutrina dos atos próprios. axiologicamente adequada corresponde ao ditame do preceito legal ou à convenção das partes. . cumprindo-se o fim ou valor juridicamente tutelado. diferentes fundamentos e . no artigo 13. 133. são teorias que tangenciam o instituto da desconsideração. a teoria da aparência. fora dos limites impostos à sociedade pela cláusula do objeto social. em se tratando de pessoa jurídica. Não há lacuna jurídica. A lei prevê as conseqüências jurídicas. há também as limitações oriundas das obrigações convencionais. 6º da Lei da Sonegação Fiscal (Lei 4. parágrafo único. Não há nenhuma forma jurídica que deva ser desprezada pelo juiz. de modo permanente ou eventual. São distintas umas das outras. Posto isto. porque. Não é preciso desconsiderar a pessoa jurídica. Possuem tais teorias ou doutrinas.. direta ou indiretamente ligados à mesma." A Lei de usura (Decreto.. Trata-se que a solução equânime. a responsabilidade do sócio emerge por força do preceito legal. 22. tenham praticado ou concorrido para a prática da sonegação fiscal. nulos os atos praticados ultra vires. O art. Não há que confundir hipóteses legais de responsabilidade dos sócios ou administradores com a desconsideração da personalidade jurídica. justa. 135) e a responsabilidade subsidiária (art.. II. nem lacuna axiológica. por exemplo. Nas situações acima não se cogita da desconsideração da pessoa jurídica. embora relacionadas no elemento teleológico. que se estendam a pessoas físicas a ela relacionadas. A Desconsideração independe do tipo de estrutura societária e de suas regras particulares de responsabilização patrimonial.729/65) trata da responsabilização penal de "todos os que. O Direito fornece o meio legal que previne o abuso ou a fraude. vedações à pessoa jurídica. 134). ou vice-versa.161 No Código Tributário Nacional o abuso do representante legal induz a responsabilidade pessoal (art. sem necessidade de desconsideração. passemos a conceituação do que podemos entender como Desconsideração da Pessoa Jurídica. quando estendidas também as pessoas jurídicas de que elas participem. mesmo considerada. o objetivo de preservação da boa fé. os que tiverem qualidade para representá-la" Além das restrições legais ao princípio da autonomia da pessoa jurídica. em comum. isto é. A teoria do ultra vires. também trata da responsabilidade penal: "Serão responsáveis como coautores .626/33). vedações de não fazer às pessoas contratantes.

e a importância da pessoa do sócio sobressai em relação à da sociedade. ficando esta em segundo plano. Estados Unidos e Inglaterra. 74) : ". a solução decorrente da aplicação do preceito legal expresso. "Sintomaticamente tal solução se desenvolveu nos países de Direito não escrito (common law). uma técnica casuística (e. p. Isto porque o problema da personificação. 21).". atos societários são declarados ineficazes. Seria injusta.. sob pena de alteração da escala de valores. para a pratica de certos atos. se não fosse a superação. portanto. no dizer de Luciano Amaro (in "Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor". em tais casos. previsto em lei. a personificação societária. Trata-se de aplicar em casos concretos. 75).162 5 . abre-se a oportunidade para a desconsideração. Há situações em que a pessoa jurídica deixou de ser sujeito e passou a ser mero objeto." De forma que podemos dizer que o instituto visa.... sistematicamente considerado. mas porque a subsunção do concreto ao abstrato.A DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA É. Resulta a aplicação de tal técnica da ocorrência de situações concretas em que prestigiar a autonomia e a limitação de responsabilidade implicaria sacrificar interesse legítimo. albergado pelo Direito.. a obtenção de um regime jurídico distinto do preconizado no direito posto. por sua especialidade. para o caso concreto. Domingos Afonso Kriger Filho (in "Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor". atribuindo-se ao sócio ou sociedade condutas que. um certo raciocínio que afasta a incidência das regras gerais aplicáveis a matéria. manobrado à consecução de fins fraudulentos ou ilegítimos. resultaria indesejável ou pernicioso aos olhos da sociedade." (Luciano Amaro in "Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor". . p. de construção pretoriana) de solução de desvios de função da pessoa jurídica. Através da Desconsideração. seriam imputadas à sociedade ou ao sócio respectivamente. p. Afasta a regra geral não por inexistir determinação legal. Desta forma quando o interesse ameaçado é valorado pelo ordenamento jurídico como mais desejável ou menos sacrificável do que o interesse colimado através da personificação societária. sintetizando a doutrina dominante: "A desconsideração da pessoa jurídica significa tornar ineficaz. não encontra resposta satisfatória no sistema positivo do direito.

nulidade. por exemplo. a solução jurisprudencial da desconsideração deve buscar apoio. certamente. Desta forma. para destacar ou alcançar diretamente a pessoa do sócio. associados a defeitos tais como simulação. Penetração. por muito tempo. levantamento do véu corporativo. lifting the corporate veil. para estes. Cabe falar da desconsideração quando não haja uma solução legislada específica para os eventuais desvios de função da pessoa jurídica. podemos sintetizar enumerando os elementos que compõem a figura da desconsideração da pessoa jurídica: Ignorância dos efeitos da personificação. O cabimento da desconsideração envolve sempre algo de ideológico e. Superação. penetração da pessoa jurídica . na Itália. Manutenção da validade dos demais atos jurídicos praticados. as várias situações em que essa técnica possa ou deva ser aplicada. recebendo diferentes designações. na Inglaterra. A desconsideração é um conceito ligado ao funcionamento da pessoa jurídica. Nada correspondendo aos assuntos da validade de constituição. onde cabível.163 Sintomaticamente. legalidade dos atos. A grande dificuldade está em construir um modelo teórico que possa enfeixar. teoría de la penatración. numa formulação abrangente. O instituto. algo de axiológico. Ainda nos demais setores. fraude. quando de sua aplicação. como: Desconsideração. superação da personalidade jurídica. Ignorância para o caso concreto e período determinado. superamento della personalitá giuridica. responsabilizando-o como se a sociedade não existisse. o direito oferece remédios análogos a desconsideração. teoria da penetração. entre eles o Brasil. ao menos nos princípios que a informam. . na Argentina. que ainda podemos conceituar em palavras diversas como: o afastamento momentâneo da personalidade jurídica da sociedade. mas que não devem ser confundidos com a mesma. tal fato deixa pouca margem para definições apriorísticas de casos. dentro de uma visão sistemática e fundamentalmente teleológica do Direito. no direito Norte Americano. se desenvolveu ao redor do mundo. a implantação da solução encontrou resistência nos países da tradição do direito escrito. Nos setores onde vige a reserva absoluta da lei. não há lugar para a desconsideração. em relação a um ato concreto e específico. de vez que haverá sempre. Intenção de evitar o perecimento do interesse legitimo. estrutura. Dificuldade mais séria nos países de direito escrito. na Alemanha. durghgriff der juristischen Person. Levantamento. no setor tributário. desconsideração da entidade legal. disregard of legal entity. se não na letra expressa da lei. também.

"dis-torcer" as conseqüências do ato praticado. "Art. diante de outros valores ou outros interesses específicos. de previsão legal. conjuntamente com os da pessoa jurídica. de resto diploma amplamente inovador. 6 . ou mesmo a necessidade. ao Código. ou. Neste caso. A pessoa jurídica não pode ser desviada dos fins estabelecidos no ato constitutivo. ao menos no que tange ao reconhecimento da possibilidade de sua aplicação. quanto do Direito Processual. Parágrafo único. a dissolução da entidade. 50. até e ainda. Desconsideração não se confunde nem acarreta a nulidade dos atos que propiciaram a atuação judicial. Passemos.164 uma opção entre um valor ou um interesse específico. as hipóteses que ensejem sua aplicação. sem prejuízo de outras sanções cabíveis. não afasta do instituto a possibilidade. 7 . Os atos praticados não são anulados. ou abusivos. à outorga aos Órgãos Judiciários da capacidade de praticá-lo. apenas outras medidas são tomadas para corrigir e compensar. decretar a exclusão do sócio responsável. tanto do Direito Material. Devemos citar a previsão legal inserta no projeto de Código Civil em tramitação no Senado.DISPOSITIVOS LEGAIS O ser construção pretoriana. 28 do CDC: . caso em que poderá o juiz. 28)." Em nosso ordenamento jurídico positivo. desfazer o que de fraudulento houver sido praticado em nome da pessoa jurídica. a requerimento de qualquer dos sócios ou do Ministério Público. responderão. os bens pessoais do administrador ou representante que dela se houver utilizado de maneira fraudulenta ou abusiva. tais sejam as circunstâncias. genericamente. bem como a possibilidade de sua previsão normativo-positiva. para servir de instrumento ou cobertura à prática de atos ilícitos. então.A DESCONSIDERAÇÃO NO CÓDIGO DE PROTEÇÃO E DEFESA DO CONSUMIDOR Vejamos o que diz a redação do art. a Desconsideração surge pioneiramente no Código de Defesa do Consumidor (art. prevendo. ou. salvo se norma especial determinar a responsabilidade solidária de todos os membros da administração. a título de melhor ilustrar a natureza do instituto.

obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. houver abuso de direito.O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando. violação de estatutos ou contrato social. que a própria lei determina. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocadas por má administração. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração.As sociedades coligadas só responderão por culpa. § 3º . Esta não se faz necessária par o fim de fazer atuar aquela responsabilidade. (caput. de alguma forma. 1ª parte). 2ª parte). pois os §§ 2º a 4º." Podemos. fato ou ato ilícito. em detrimento do consumidor. infração da lei. § 4º . 28 . estado de insolvência.165 "SEÇÃO JURÍDICA V- DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE Art. Podemos. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. § 5º . fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. § 1º . de alguma forma. 28 do CDC. (§ 5º) Algumas considerações . versam sobre a matéria da responsabilidade subsidiária ou solidária.As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código. 28. dividir em três grupos as hipóteses legais de incidência da desconsideração contidas no art. estado de insolvência. para fins de análise. Qualquer hipótese em que a personalidade da pessoa jurídica seja. a despeito da rubrica aposta à Seção V. excesso de poder. excesso de poder. infração da lei.Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for. sendo desnecessária intervenção judicial no sentido de proclamar desconsideração.(Vetado) § 2º . Falência. a luz do quanto já acima discutido afirmar categoricamente: a Desconsideração da Pessoa Jurídica é objeto do caput e do § 5º do art. Vejamos: Abuso de direito. (caput.As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas são subsidiariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código.

Grupo 1 No primeiro grupo de hipóteses.166 Primeira: o pressuposto de todas as hipóteses acima arroladas é o da lesão de interesses do consumidor. etc. quando por si não acarretem a responsabilidade pessoal do agente. que a pratica abusiva ou ilícita o seja em virtude da preterição do direito do consumidor.. poderão servir de embasamento a desconsideração a fim de alcançar o patrimônio dos sócios. 181): "O dano indenizável. Analisemos separadamente cada um dos grupos acima nominados. Deve haver inafastável nexo de causalidade entre a conduta inadequada e o prejuízo causado ao consumidor. portanto. Na realidade é o elemento integrante de todas as hipóteses que requerem. prejuízo ao consumidor. Terceira. tratamento excepcional e. fundada na teoria do risco. em razão disto. para sua efetividade. p. dos estatutos ou utilização de direitos além de sua órbita. Tais fatos.. nas palavras de Domingos Afonso Kriger Filho (in "Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor". 23) ". não há razão para aplicar. a desconsideração. Segunda: a desconsideração há de supor a incapacidade da pessoa jurídica para reparar o dano. Segundo Pedro Batista Martins (apud Rubens Requião in "Abuso de Direito e Fraude através da Personalidade Jurídica"): . como de resto toda a disciplina de defesa do consumidor abraça as duas fontes da responsabilidade a da responsabilidade objetiva. por dolo ou má-fé." Caracteriza-se o abuso de direito. a busca do responsável. por responsável e. (fato que emerge claramente dos arts. objetivando. A desconsideração visa em tais casos a que os bens dos sócios infratores sejam também garantia do ressarcimento do prejuízo causado ao consumidor. como os dos demais sócios. p. Não caberia. temos a prática de atos que implicam infração da lei. ou os da personalidade societária. por motivos óbvios na aplicação em defesa de interesses outros. só podem ocorrer se e quando tiver havido desrespeito ao sistema jurídico. e a da responsabilidade subjetiva fundada em culpa. 12 a 14 do CDC). auferir vantagem ilícita ou indevida". de uso parcimonioso.. Quando tratamos de empresa com capacidade financeira para ressarcir o consumidor. Conforme Arruda Alvim (in "Código do Consumidor Comentado". com o uso anormal das prerrogativas conferidas à pessoa pelo ordenamento jurídico. prima facie o tratamento excepcional da desconsideração.

puder praticar determinado ato." (Oliveira. Lei 6404). Já há previsão legal: no caso da sociedade de responsabilidade limitada (art. fato ou ato ilícito ou violação do contrato social. 168 e 169) "Excesso de poder. 182): "Ocorre abuso de direito quando o fornecedor. J. sempre. Qual. . ato ilícito.708. ou gerentes podem responder por dívidas da sociedade.. a excepcionalidade. 115.. Genacéia da Silva in "A desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor. Infração de lei. Esta situação decorrente da lei e as conseqüências. Lamartine Corrêa de.. e art. então a . 142) Sobre o assunto. p." (Coelho.. Apenas há um ponto comum . 117 e 158. não sendo mais útil para si ou adequado ao espírito da instituição. que é a responsabilidade do sócio ou do representante legal da sociedade por ato ilícito próprio. demais casos. no caso de desconsideração da pessoa jurídica são idênticas? Quer nos parecer que não. comete um ato abusivo" Arruda Alvim (in "Código do Consumidor Comentado". age contra a lei ou. No excesso de poder a pessoa pratica ato ou contrai negócio fora do limite da outorga ou autoridade conferida. fato. Fábio Ulhoa in "Comentários ao Código de Proteção do Consumidor". ou por força dos estatutos ou contrato social. por lei ou embasado no sistema jurídico. 3. In " A Dupla crise da Pessoa Jurídica". 610) "Em determinadas circunstâncias. infração da lei.. p. responde por ato próprio. embora relacionado com a pessoa jurídica. não há desconsideração. representam.. no caso da sociedade anônima (arts. 10. mas o faça de molde a prejudicar terceiro. 16). de desconsideração da pessoa jurídica. Pag. Aspectos Processuais". ou pelo contrato social. p. art. Frise-se que determinados autores não consideram. o não cumprimento das obrigações impostas às pessoas pela lei. a lesá-lo (consumidor)". as hipóteses do parágrafo anterior. diretores.167 "sempre que um titular de direito escolhe o que é mais danoso para outrem. sócios. dolosamente contra o estatuto ou contrato. embora não se referindo especificamente ao CDC: "Não podem ser entendidos como verdadeiros casos de desconsideração todos aqueles casos de mera imputação de ato. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social dizem respeito a um tema societário diverso. CC. Vejamos: "No que se refere ao excesso de poder. violação dos estatutos ou contrato social. infração da lei. pois aquele que excede o que lhe é permitido por lei. Decreto. 159. Consideram a teoria inaplicável in casu." (Alberton.

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diferença ?.... Quando a lei brasileira ...impõe ao sócio, gerente ou administrador a responsabilidade por dívidas da sociedade, faz porque uma dessas pessoas agiu de maneira contrária à lei ou contrato, mas como pessoa integrante da pessoa jurídica. Não foi a pessoa jurídica que teve a sua finalidade desvirtuada, não foi a pessoa jurídica como ser que foi manipulada mas, sim, o diretor, o gerente ou o sócio que, na sua atividade ligada à empresa, andou mal. Quando se fala, por outro lado, em desconsideração da pessoa jurídica, é porque a própria entidade é que foi desviada da rota traçada pela lei e pelo contrato.... Assim, acreditamos que devemo separar bem estas duas hipóteses por não serem idênticas" (Casillo, João in "Desconsideração da Pessoa Jurídica") Acatando o ponto de vista dos autores citados, restaria apenas a hipótese do abuso de poder, como ensejador da aplicação da doutrina da Desconsideração, ficando as demais hipóteses ainda no campo da previsão legal, externa à doutrina. O abuso do poder, por sua própria natureza, conforme acima referido, se amolda a hipótese de utilização da Desconsideração, vez que constitui, não violação clara da lei, caracterizando um "fato típico", previsto legalmente, mas antes, um uso abusivo da lei. Não havendo tal "tipicidade", impossível prévia previsão legal, imperativa então a atuação criadora judicial, através do instituto sob análise. Parece-nos, entretanto, que há um certo excesso de rigor formal em tal posição. Nem sempre ao ilícito legal ou contratual corresponderá uma expressa cominacão de responsabilidade pessoal, civil ou penal. Ainda que ressalvadas as previsões genéricas da lei, como a do art. 159 do CC, citada por Genacéia, parece-me que o instituto da Desconsideração melhor cobriria esses casos de lacuna da lei no que tange a previsão expressa da responsabilidade, lacuna que poderia ao final acobertar o infrator. A ausência de tal expressa previsão legal, poderia ser agitada com o propósito de elidir a responsabilidade, em sendo o caso, o art. 28, sob comento, forneceria o respaldo legal para a atuação jurisdicional no sentido de alcançá-la. Separar o ato do responsável pela pessoa jurídica do ato da pessoa jurídica, operação mental a que podemos ser induzidos pelo raciocínio de Casillo, pode resultar ser tarefa árdua, considerando as sutilezas que quase sempre cercam a situação concreta. Mais uma vez, o afastamento da figura da Desconsideração, poderia ser utilizada no sentido do acobertamento do infrator. De forma que, a despeito do rigor formal que caracteriza o exposto pelos autores acima citados, considero mais prudente, estender o manto protetor do instituto que ora analisamos também aos fatos aos quais o autores negam sua incidência, como faz o diploma legal protetivo do consumidor. Grupo 2 No segundo grupo o texto legal introduz um elemento não especificamente

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ligado ao interesse do consumidor: a má administração. É questionável esta inserção. Não há que se confundir a má administração com a prática abusiva citada na parte inicial do caput. A má administração poderia, isto sim, ensejar o uso do instituto para responsabilizar a gerência incompetente frente a própria pessoa jurídica ou frente aos demais sócios. É de se questionar, no entanto, a relevância deste fato frente ao direito do consumidor. É de se questionar se alguém administraria mal uma empresa com o fito exclusivo de fraudar os direitos do consumidor. E quanto à empresa bem administrada, que desativada, tenha lesionado consumidores. Ficariam imunes à regra? Concluindo, parece mal posta a hipótese legal no que se refere a má administração, quer pela falta de nexo entre qualidade da administração e eventuais prejuízos ao consumidor, quer pela falta de isonomia entre o tratamento dado ao consumidor da empresa encerrada por má administração e o dado ao cliente de uma empresa bem administrada que encerrou suas atividades. Certo é, em todos os casos, que o consumidor deve ser protegido na hipótese em a pessoa jurídica tenha cessado a atividade ou esteja extinta, e isto independentemente dos motivos que ensejaram tal encerramento de atividade. Grupo 3 Finalmente no terceiro grupo, a hipótese contemplada no §5º, parece inconciliável com o caput. Expressões demasiadamente genéricas ("sempre", "de qualquer forma"), parecem inutilizar as hipóteses do caput. Tão genérico, abrangente e ilimitado é o parágrafo, que aplicado literalmente, dispensaria o caput, tornaria inócua a própria construção teórica do instituto da desconsideração, implicando derrogar a limitação da responsabilidade de toda e qualquer empresa no que diz respeito às relações de consumo. Frente a tal, pelo menos aparente, incongruência, posicionam-se os doutrinadores: Zelmo Denari (in "Código de Defesa do Consumidor, Comentários pelos autores do Anteprojeto", p. 132), com a autoridade de ser um dos autores do anteprojeto da Lei 8.078/90, postula mesmo o "aberratio ictus da caneta presidencial". O parágrafo a ser vetado teria sido o 5º, e não o 1º, como apareceu no diário oficial, que segundo Denari é essencial para a aplicação do artigo. Para que se coteje com o texto do §5 e, à luz da razão do veto, aprecie-se assim a procedência da tese de Zelmo, transcrevemos abaixo o parágrafo vetado e as razões do veto: "§ 1º. A pedido da parte interessada, o juiz determinará que a efetivação da responsabilidade da pessoa jurídica recaia sobre o acionista controlador, o sócio majoritário, os sócios-gerentes, os administradores societários e, no caso de grupo societário, as sociedades que a integram."

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Razão do veto: "O caput do art. 28 já contém todos os elementos necessários à aplicação da desconsideração da personalidade jurídica, que constitui, conforme doutrina amplamente dominante no direito pátrio e alienígena, técnica excepcional de repressão a práticas abusivas." Como claramente se vê, fortíssima pode parecer a evidência do equivocado fato pelo qual, propugna Zelmo Denari, se explicaria a aparente ininteligência do parágrafo que ora analisamos frente ao sistema em que se insere. Entretanto, é também óbvio que, para albergarmos tal tese, teríamos antes que admitir a ininteligência do legislador a exigir atuação da sancionadora caneta presidencial. Esta última parece-nos bem menos provável, dada a qualidade que pautou a produção legislativa do diploma que ora analisamos. Vejamos, entretanto, outros posicionamentos: Fábio Ulhoa Coelho (in "Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor", p. 143 e 144): censura o preceito no § 5º, concedendo apenas sua aplicação em matéria de sanções não pecuniárias (proibições de fabricação, suspensão temporária de atividade, etc...), apesar do contrário defluir do texto da lei: "ressarcimento de prejuízo do consumidor". Por fim salienta que no embate entre o caput e o § 5º, se um tiver que ceder será o parágrafo, não o caput. A interpretação meramente literal, no entanto não pode prevalecer e isto por três razões: Em primeiro lugar, porque contraria os fundamentos teóricos da desconsideração. ... Em segundo lugar, porque uma tal exegese tornaria letra morta o caput do art. 28. ... Em terceiro lugar, porque esta interpretação equivaleria à revogação do art. 20 do CC ("As pessoas jurídicas tem existência distinta da dos seus membros") em matéria de defesa do consumidor. E se esta fosse a intenção do legislador, a norma jurídica que a operacionalizasse poderia ser direta, sem apelo à teoria da desconsideração. Rachel Sztajn (in "Desconsideração da Personalidade Jurídica", p. 72): O parágrafo 5º deveria encimar o artigo: "Se o art. 28 tivesse por caput o § 5º, além dos §§ 2º e 3º, o consumidor estaria tutelado (apenas) em face da separação patrimonial utilizada de forma iníqua ou inadequada." A autora condiciona a aplicação do citado parágrafo aos pressupostos da teoria da desconsideração. Américo Führer (in "Resumo de Direito Comercial", p. 74): "A teoria pode ser aplicada diretamente pela lei,...,independentemente de qualquer abuso ou má fé", parece que nestas palavras o autor admite o utilização literal do § 5º. Genacéia da Silva (in "A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor): "No que ser refere ao § 5º do art. 28, é necessário interpretá-lo com cautela. A

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mera existência de prejuízo patrimonial do consumidor não é suficiente para a desconsideração. O texto deixou o significado em aberto na medida em que assevera que a pessoa jurídica poderá também ser desconsiderada quando sua personalidade ‘De alguma forma’ for obstáculo ao ressarcimento, ..., leia-se, quando a personalidade jurídica for óbice ao ressarcimento justo do consumidor." (grifo nosso) A interpretação mais consentânea parece ser a de que o § 5º, constitui uma abertura ao rol de hipóteses do caput, sem prejuízo dos pressupostos teóricos da doutrina que o dispositivo visou consagrar. A aplicação do § 5º deve restringir-se às situações em que o fornecedor do produto ou serviço ao consumidor constitui a pessoa jurídica, ou a utiliza, especificamente para livrar-se da responsabilização de prejuízos causados ao consumidor. Aí justamente reside a carga axiológica do instituto, na análise judiciária da forma como a pessoa jurídica foi constituída ou utilizada relativamente à relação de consumo.

8 - A RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA E SUBSIDIÁRIA PREVISTA NO ARTIGO 28 DO CDC No presente trabalho pretendemos, no âmbito do Código de Defesa do consumidor, tratar apenas da Desconsideração da Pessoa Jurídica. Não obstante, por se encontrarem enfeixados sob tal rubrica no texto normativo, trataremos também do responsabilidade disciplinada pelos parágrafos 2º a 4º do art. 28 do CDC, que a nosso ver, como já exposto, não compõem o instituto da Desconsideração. Assim tratemos da: Responsabilidade de Grupos societários e sociedade controladas O § 2º, estatui responsabilidade subsidiária das sociedades integrantes de grupos societários e sociedades controladas. Aqui, como já dito, não se cuida de desconsideração, mas de hipótese legal de responsabilização de terceiro. A própria redação indica uma responsabilidade objetiva, não sujeita a análise de elementos outros, presentes no caso concreto. Basta o liame a unir as entidades societárias, para dele decorrer a responsabilização. Tal dispositivo previne que as obrigações sob estudo sejam concentradas na sociedade que tenha menor respaldo patrimonial. Para Genacéia da Silva Alberton (in "A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor), em seu trabalho já várias vezes citado, o Código foi tímido em estabelecer apenas responsabilidade subsidiária, concedendo o benefício de ordem e, consequentemente, impedindo que o consumidor ajuíze a ação desde logo contra as demais empresas. Para outros doutrinadores, no entanto, basta a prova da impossibilidade de ressarcimento pela empresa principal obrigada, para, já inicialmente, demandar a sociedade com responsabilidade subsidiária.

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No que se refere a sociedades controladas, o preceito parece conter alguma impropriedade. Obviamente a responsabilização subentende-se seja por obrigações da controladora (o texto não é explícito) que incidiria em caráter subsidiário sob o patrimônio da controlada. Temos a considerar que seria lógico que as ações ou quotas representativas do capital da controladora respondessem pelas obrigações da mesma, não o sendo, entretanto, que o patrimônio da controlada, que envolve o de terceiros (que podem deter até cerca de 83% do capital social, totalidade das ações preferenciais + 49% das ordinárias) o fossem, já que nada tem a ver com a conduta da controladora. Só podemos entender o dispositivo legal em sua literalidade, se o considerarmos conseqüência de prevalência especial do interesse de ordem pública da relação de consumo sobre os interesses de ordem privada; ou por outro, que sua aplicação dependa do pressuposto da concorrência da controlada na lesão ao consumidor., ou por outra de sua utilização pela controladora nesse intento. Responsabilidade das Sociedades consorciadas O § 3º, constitui também, em favor do consumidor, uma exceção a regra geral, já que a lei das Sociedades Anônimas, que rege esta esfera da ordem jurídica, não preconiza a solidariedade das sociedades consorciadas (art. 278, § 1º, Lei 6.404/76). Sabemos que a solidariedade não se presume, mas decorre da lei ou do contrato, aqui temos a hipótese legal, a proteger o consumidor. Convém salientar, por ser lógica, a ressalva que faz Fabio Ulhoa: "... a solidariedade existe apenas no tocante as obrigações relativas ao objeto do consórcio. Quanto às demais não há qualquer vínculo dessa natureza..." (Coelho, Fábio Ulhoa, in "Comentários ao Código De Proteção do Consumidor", p. 145) Responsabilidade das Sociedades coligadas O § 4º, estabelece a responsabilidade das coligadas, apenas na hipótese de culpa. Não poderia ser diferente, já que a mera participação da empresa no capital de outra (10% ou mais), sem controlá-la, não induziria, em si mesma, tal responsabilidade. A sociedade coligada é simplesmente sócia de outra e, como sócia, não tem responsabilidade pelos atos dessa outra a não ser que tenha participado do ato, caso em que será solidariamente responsável. Para alguns, supérfluo tal dispositivo, já que a responsabilidade seria deduzida de qualquer forma, sendo suficiente o art. 159 do CC. - CONCLUSÃO O CDC é diploma largamente inovador tanto no que se refere ao Direito Material, quanto no que se refere ao Direito Processual. Insere-se no contexto da evolução do Direito Moderno ao voltar-se à proteção e tutela de direitos

Comentários pelos Autores do Anteprojeto. seus valores e seus princípios asseguradores da paz. 28 do CDC representa um grande avanço não só no campo específico do Direito Tutelar do Consumidor como também de todo o Direito Posto Nacional. DENARI. Ajuris. 1991. CASILLO. Novembro . N 58. para alcançar aqueles atos que. Vol 20. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor... A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código do Consumidor.173 personalísticos. Domingos Afonso. 1992. João. Rio de Janeiro. ALVIM. Ed. coletivos. o art. P 146 A 180. Desconsideração da Pessoa Jurídica. JUSTEN FILHO.1994. Revista dos Tribunais. Porto Alegre. Saraiva. 1991. FÜHRER. et al. Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor. 1995 AMARO. tem relevância a introdução pioneira. Revista dos Tribunais. O art. Malheiros Editores. 1987. Ed. N 54. da Doutrina da Desconsideração da Pessoa Jurídica. Ed. e ampl. COELHO. Luciano. Revista Jurídica. Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor. rev. Julho. Arruda. P 17 A 27. Resumo de Direito Comercial. Código Do Consumidor Comentado. A despeito de alguma impropriedade da redação. 1993.. Aspectos Processuais. 1996. Ajuris. 2. representam violação do ordenamento jurídico naquilo que possui de mais caro. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBERTON. São Paulo. Março. Genacéia da Silva. KRIGER FILHO. Código de Defesa do Consumidor. Desconsideração da Personalidade Societária no Direito Brasileiro. do convívio social harmonioso e da justiça. Vol 42. São Paulo. da boa fé. . Nesse contexto inovador. P 69 A 84. Américo. do hipossuficiente. apesar de conformarem-se ao figurino do estrito modelo legal. etc. Marçal. conforme discutido neste trabalho.. ED. Fábio Ulhoa. difusos. São Paulo. Coordenação de Juarez de Oliveira. sob o aspecto dogmático ou doutrinário. Zelmo. individuais. N 205. Vol 19. 28 desse Estatuto representa o estendimento da longa manus do Estado. Forense Universitária. RT 528/24. no ordenamento jurídico pátrio.

RT. J. A Dupla Crise da Pessoa Jurídica. Rachel. Rubens. N 2. São Paulo. Editora Saraiva. Desconsideração da Personalidade Jurídica. 1979. SZTAJN. Lamartine Corrêa. Revista de Direito do Consumidor.174 OLIVEIRA. P 67 A 75. . 528:16. Junho. REQUIÃO. 1992. Abuso de Direito e Fraude através da Personalidade Jurídica.

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Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção e Defesa do Consumidor

Autor: João Bosco Pastor Gonçalves

Sumário: 1 – Introdução; 2 – Publicidade: Conceito e elementos essenciais; 3 – Princípios Gerais da Publicidade no CDC; 4 – Princípio da Identificação da Publicidade; 5 – Princípio da Vinculação Contratual da Publicidade; 6 – Princípio da Veracidade da Publicidade; 7 – Princípio da Não Abusividade da Publicidade; 8 – Princípio da Inversão do Ônus da Prova; 9 – Princípio da Transparência da Fundamentação; 10 – Princípio da Correção do Desvio Publicitário; 11 – Conclusão

1. Introdução Com o objetivo de desenvolverem as suas atividades empresariais, o comércio e a industria necessitam divulgar os produtos e serviços por eles produzidos e prestados, a fim de que desperte interesse nos consumidores. Em geral, produtos de primeira necessidade, (feijão, arroz, carne, leite, etc.), dispensam maior divulgação, entretanto, produtos mais caros (de luxo), como automóveis, equipamentos de áudio e vídeo sofisticados, telefones celulares ou uma casa de veraneio, não dispensam uma boa estratégia de marketing, e aí inclui-se a publicidade. As pessoas compram coisas por dois motivos essenciais: necessidades e impulsos. As necessidades nem sempre são reais, elas são criadas pela publicidade, sem a qual não haveria como colocar no mercado cada vez mais produtos que, a rigor, ninguém precisa. 1 As mensagens publicitárias induzem as pessoas a comprarem por impulso. Quem resiste a um anuncio para comprar um presente em um shopping no dia das mães ou no dia dos namorados?. Nosso ordenamento jurídico não obriga a ninguém a anunciar os seus produtos ou serviços, porém, se o fizer, a sua publicidade está sujeita a uma série de deveres impostos pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor, Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, (CDC). O objetivo do presente trabalho é a análise do conceito de publicidade e dos princípios que a regem, á luz do referido diploma legal.

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2. Publicidade: Conceito e elementos essenciais Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin2, citando o jurista português Carlos Ferreira Almeida, diz que publicidade ‘é toda informação dirigida ao público com o objectivo de promover, directa ou indirectamente, uma actividade económica’. Prossegue afirmando que tal como acontece com o conceito de marketing, não é tarefa fácil definir o que seja publicidade em virtude do caráter complexo de suas múltiplas funções e das relações mútuas entre elas, e fornece a noção do Comitê de Definições da American Association of Advertising Agencies ( AAAA): ‘ publicidade é qualquer forma paga de apresentação impessoal e promoção tanto de idéias, como de bens e serviços, por um patrocinador indentificado’. Trata-se sem dúvida, de uma forma de comunicação social, em toda publicidade há uma mensagem, um emissor que tem como objetivo alcançar um conjunto de receptores, transmitir-lhes uma idéia, incentiva-los a um determinado comportamento – comprar um bem ou, utilizar-se de certo serviço. Porém, nem toda forma de comunicação integra o conceito de publicidade: fora desse campo ficam a informação cientifica, política, didática, lúdica ou humanitária, porque alheia á atividade econômica, mesmo quando seja produzida com a intenção de gerar certa convicção nos seus destinatários 3. Dois elementos são essenciais em qualquer publicidade: a difusão e a informação. Um é o elemento material da publicidade, seu meio de expressão. O outro é o seu elemento finalistico4. Sem difusão não há publicidade, vez que a mesma precisa ser levada ao conhecimento de terceiros, da mesma forma sem um conteúdo mínimo de informação inexiste a publicidade. Convém ainda esclarecer, que embora sejam usados indistintamente no dia-adia, os termos publicidade e propaganda não se confundem. Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin 5 afirma que a publicidade tem objetivo comercial, enquanto que a propaganda visa a um fim ideológico, religioso, político, econômico ou social, e que além de ser paga, na publicidade sempre identifica-se o seu patrocinador, o que nem sempre ocorre com a propaganda. Na propaganda difunde-se uma idéia, ao passo que na publicidade divulga-se uma mercadoria ou serviço. Estabelecidos o conceito de publicidade e seus elementos essenciais, bem como a necessária distinção entre os termos propaganda e publicidade, passamos a análise dos princípios que norteiam a elaboração da mensagem publicitária, á luz do Código Brasileiro de Proteção e Defesa do Consumidor (CDC) e da Constituição

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Federal.

3. Princípios Gerais da Publicidade no CDC Princípio, conforme o excelente ministério do Professor Celso Antônio Bandeira de Mello6 " [...] é por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico". [...] Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma qualquer. A desatenção ao principio implica ofensa não apenas a um especifico mandamento obrigatório, mas a todo sistema de comandos". Alguns princípios foram adotados pelo CDC para a elaboração da publicidade, com vistas á proteção do consumidor, parte mais fraca nas relações consumeristas. Em função da tutela fornecida aos consumidores eles encontram-se assim distribuídos no Código de Proteção e Defesa do Consumidor: princípio da identificação da publicidade ( art. 36); princípio da vinculação contratual da publicidade ( arts. 30 e 35); princípio da veracidade ( art. 37 § 1º ); princípio da nãoabusividade da publicidade ( art. 37 § 2º); princípio da inversão do ônus da prova ( art. 38); princípio da transparência da fundamentação publicitária ( art. 36, parágrafo único); princípio da correção do desvio publicitário ( art. 56, XII). Observa-se7 que o Código optou por definir publicidade enganosa e publicidade abusiva, sem conceituar o que seja publicidade, preocupando-se com a definição do desvio ( abusividade e enganosidade), mas não com a do padrão. Entretanto, o legislador preocupou-se com a tutela penal da publicidade, considerando crimes contra as relações de consumo a prática de publicidade enganosa ou abusiva, bem como a promoção de publicidade que induza o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa a sua saúde ou segurança, apenando ainda o fornecedor que não mantenha em seu poder os dados fáticos, técnicos e científicos que embasaram a sua mensagem publicitária, cominando pena de detenção e multa (arts. 67, 68 e 69).

4. Princípio da Identificação da Publicidade O artigo 36 do CDC está assim redigido: Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil

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e imediatamente, a identifique como tal. Parágrafo Único. O fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, em seu poder, para informação dos legítimos interessados, os dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação á mensagem. Analisando a "cabeça" do artigo, vemos que o fornecedor ao veicular a publicidade de seus produtos e serviços, deve fazer de modo claro, inteligível, o consumidor deve compreender que está diante de um anúncio publicitário. Previne-se8 assim contra as chamadas "publicidades ocultas" e "subliminares", através da técnica do Merchandising, de freqüente utilização em espetáculos, novelas, teatros, ou seja, a aparição dos produtos no vídeo, no áudio ou nos artigos impressos, em sua situação normal de consumo, sem declaração ostensiva da marca. Um bom exemplo de comunicação subliminar é o uso constante de determinada marca de carros em uma novela, ou ainda, as aparições de produto, serviço ou marca, de forma aparentemente casual, em programas de televisão, filme cinematográfico, jogos de futebol televisionados, etc. Pasqualotto9 observa que quando a publicidade não é de fácil e imediata identificação, "não é só o consumidor que pode estar sendo enganado. Também pode haver fraude á lei, pois a falta de identificação possibilita a transgressão de regras como a advertência necessária de restrição ao uso de alguns produtos (cigarros), o horário ou o local de exposição do anúncio (bebidas alcoólicas) ou a proporção de publicidade em relação á programação (rádio e televisão) ou o noticiário e reportagens (jornais e revistas)".

5. Princípio da Vinculação Contratual da Publicidade Tal princípio decorre da inteligência dos arts. 30 e 35 do CDC : Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado. Portanto, no plano contratual, o Código consagra o princípio da vinculação da publicidade. O consumidor pode exigir do fornecedor o cumprimento do conteúdo da comunicação publicitária. A publicidade é um verdadeiro negócio jurídico unilateral, na medida em que obriga o fornecedor a cumprir com a promessa, desde a sua difusão. Confira-se a jurisprudência a seguir:

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COMPRA E VENDA – Erro – Entrega recusada sob alegação de erro na especificação do preço, no orçamento – Não pode a teoria do erro escusável favorecer o fornecedor – Negócio perfeito e acabado – análise das disposições do Código Civil e do Código de Defesa do Consumidor – Exame da doutrina – Ação para entrega da coisa – Procedência – Decisão mantida. ( AC. Um. Da 5ª Cam. Esp. Do 1º TAC, Ap. 562.425-3, Rel. Juiz Sílvio Venosa, j.6-7-1994) ( O Código de Defesa do Consumidor e sua Interpretação Jurisprudencial, Luiz Antonio Rizzatto Nunes, Saraiva, 1997, p. 90).

6. Princípio da Veracidade da Publicidade Aqui, (art. 37 § 1º), o legislador preocupou-se em coibir a publicidade enganosa, que pode ser apresentada de duas formas: por comissão ou por omissão. Na publicidade enganosa por comissão, o fornecedor afirma alguma coisa capaz de induzir o consumidor a erro, dizendo alguma coisa que não é verdadeira. Na forma omissiva o patrocinador deixa de afirmar o que é relevante, também induzindo o consumidor a erro. Possível, também, que quanto á sua extensão a publicidade seja parcialmente enganosa, ou seja, contendo algumas informações falsas e outras verdadeiras, o que não a descaracteriza como publicidade enganosa. Quanto ao seu aspecto subjetivo10 não se exige por parte do anunciante a intenção (dolo ou culpa), sendo irrelevante a sua boa ou má-fé. Portanto, sempre que o anúncio for capaz de induzir o consumidor a erro, independentemente da vontade do fornecedor, está caracterizada a enganosidade da publicidade, o que justifica-se porque o objetivo é a proteção do consumidor, e não a repressão do comportamento enganoso do fornecedor.

7. Princípio da Não Abusividade da Publicidade Está consagrado no art. 37, § 2º, do CDC, que proíbe de qualquer forma, dentre outras, a publicidade discriminatória, que incite á violência, que desperte o medo ou a superstição, que se aproveite da deficiência de julgamento e inexperiência da criança, atinja valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa á sua saúde ou segurança. A locução "dentre outras", deixa transparecer que o elenco da publicidade abusiva é apenas exemplificativo, podendo existir outras formas de abusividade, cabendo aos aplicadores da lei – juízes e administradores adaptarem o texto da lei ás práticas do mercado.

sexo. seja entre homens. o anunciante ou a quem o anúncio aproveita. Não se admite a publicidade que mostre a violência. convicções políticas ou religiosas. Quanto ás crianças. etc. não se exige que a mensagem aterrorize. seja entre homens e animais. ou. da vulnerabilidade do consumidor. decorre dos princípios da veracidade e da não abusividade da publicidade. a respeito de bens ou serviços oferecidos.180 A publicidade é discriminatória quando distingue entre raça. 38). cabendo ao fornecedor demonstrar que sua publicidade foi veiculada dentro dos princípios que estamos expondo. realmente os consumidores. 8. Quanto á publicidade exploradora do medo ou da superstição11. nacionalidade. o consumidor. responde em regra. anexo ao princípio da boa-fé como norma de conduta. por serem muito jovens não possuem o necessário entendimento para a compreensão do que é ou não verdadeiro nas mensagens publicitárias. bem como do reconhecimento opis legi. porém. não se excluindo. O meio ambiente. nas palavras de Carlos Alberto Bittar12: trata-se. daí por que se desloca para o patrocinador o ônus da prova da veracidade e da correção da informação ou da comunicação publicitária (art. de ação tendente a instruir. condicionando o seu comportamento para a respectiva aquisição ou fruição. ilegitimamente. condição social. pois. Princípio da Transparência da Fundamentação Trata-se de verdadeiro dever. pois a publicidade constitui-se em verdadeira oferta (princípio da vinculação . Princípio da Inversão do Ônus da Prova Tal princípio. Trata-se de princípio básico para a facilitação da defesa do consumidor em juízo. a responsabilidade da agência e do próprio veículo de comunicação. que não admitiu nenhuma veiculação publicitária que fosse contra a proteção e conservação do mesmo. considerando que qualquer publicidade dirigida a infantes não deixa de ter um grande potencial abusivo. como direito fundamental dos seres humanos foi também motivo de proteção pelo legislador. Quanto à responsabilidade pelo desvio publicitário.38). ou até contra bens públicos ou privados. razão pela qual o legislador dedicou-lhes especial proteção. 9. (art. bastando que o anuncio faça uso desses recursos para que seja considerado ilegal. profissão.

A publicidade.181 contratual da publicidade). A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas. garantia. ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características. às suas expensas. Princípio da Correção do Desvio Publicitário Ocorrido o desvio publicitário. de 11 de setembro de 1990.078. claro. ostensivo e em língua portuguesa13. e repressão administrativa e penal. claras. acolhida pelo Código em seu art. tendo como objetivo apagar a informação inadequada da percepção do consumidor. o que se faz através da contrapropaganda. deve conter informações suficientes para esclarecer ao consumidor os elementos básicos que irão fundamentar a eventual formação segura e satisfatória de um contrato que atenda a seus interesses econômicos. qualidades. local e horário. precisas. O artigo estabelece os requisitos da oferta. a realidade dos fatos14. entre outros dados. não se limitou apenas ao regramento das . do CDC: Art. e vem expresso no art. Conclusão O legislador ao elaborar o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. de caráter explicativo. além da sua reparação civil. o fornecedor. 10. desfazendo os erros do anúncio original. de maneira que o consumidor tenha uma idéia precisa do que lhe está sendo oferecido. bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores. A ausência de informação essencial será sempre interpretada contra o fornecedor. quantidade. informa corretamente ao consumidor.( melhor seria contrapublicidade). XII. prazos de validade e origem. espaço. 11. Trata-se de veiculação de outra publicidade para sanar os malefícios causados pela publicidade originária. necessário que sejam desfeitos o seu impacto sobre os consumidores. 56. Nada mais é que uma publicidade obrigatória e adequada que se segue a uma publicidade enganosa ou abusiva. É divulgada no mesmo veiculo de comunicação utilizado e com as mesmas características empregadas. no que se refere à duração. restaurando dessa forma. 31. preço. composição. Naquela. sic. 31. por esta óptica. Lei nº 8. pois é este que tem o dever legal de informar de modo preciso.

exigiu a transparência da fundamentação da publicidade e determinou a correção do desvio publicitário através da imposição da contrapropaganda. Rio de Janeiro: Forense Universitária.[ et al ]. Proibiu a propaganda clandestina e a subliminar. Idem. novembro de 1999. ... 2. 12ª ed. pp. uma serie de normas e princípios para o controle da publicidade. 5. que surge através das técnicas de estimulação do consumo – a publicidade. 8. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2000. 266. 4. 6ª ed. p. Márcio Mello Casado. acolhendo o princípio da identificação da publicidade. 264. 265. para resguardar a boa-fé dos consumidores. Revista Jurídica. São Paulo: Malheiros Editores. 82. p. referendou o principio da vinculação contratual que permite ao consumidor exigir do fornecedor o cumprimento do conteúdo da mensagem publicitária. 6. Notas 1. 6ª ed.. Celso Antônio Bandeira de Mello. 66. p. 748. 7. 2000. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover.[ et al ].).. (op. p. Curso de Direito Administrativo. 3. Instituiu para tal (proteção do consumidor). 265. Rio de Janeiro: Renovar. Princípios Gerais da Publicidade na Constituição Federal e no Código de Defesa do Consumidor. p. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover.. inverteu o ônus da prova em favor do consumidor facilitando o seu acesso à Justiça. O Direito do Consumidor na Era da Globalização: a descoberta da cidadania. Cit.67. p. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. nº 265. Sônia Maria Vieira de Mello. pp. 274. 1998. 747. coibindo todas as modalidades de anúncios enganosos ou abusivos. Ibidem. Reconheceu que a proteção do consumidor deve iniciar-se mesmo em momento anterior ao da celebração do contrato de consumo – na fase da oferta.182 relações contratuais de consumo.

1ª ed. Princípios Gerais da Publicidade na Constituição Federal e no Código de Defesa do Consumidor. 1997. 12ª ed. São Paulo: Malheiros Editores. p. 82 e 83. p. Rio de Janeiro: Forense Universitária... 46.. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. p. Carlos Alberto. PASQUALOTTO.. Referências bibliográficas BITTAR. Ada Pellegrini. Rio de Janeiro: Renovar. Curso de Direito Administrativo. MELLO. Os Efeitos Obrigacionais da Publicidade. 13. 1995. nº 265. Noções de Direito do Consumidor. p. 286. 2000. Adalberto. 51.. GRINOVER. São Paulo : Revista dos Tribunais. pp. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Revista Jurídica. Carlos Alberto Bittar. 2000. 1998. O Direito do Consumidor na Era da Globalização: a descoberta da cidadania. . Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. José Luiz Toro da. 4ª ed. Porto Alegre: Síntese. Cit.. Direitos do Consumidor. Celso Antonio Bandeira.. 1997. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 6ª ed.. Forense Universitária. 303.[ et al]. 14.183 9. 11. op. CASADO. 298. Direitos do Consumidor. 4ª ed. 12. novembro de 1999. 1999. São Paulo: Revista dos Tribunais. p. SILVA. Márcio Mello. 1999. [ et al].. MELLO. Sônia Maria Vieira de... Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 10. op. Adalberto Pasqualotto. José Luiz Toro da Silva. Cit. Noções de Direito do Consumidor. Os Efeitos Obrigacionais da Publicidade. 2000. Porto Alegre: Síntese. 6ª ed.

poderiam ser chamados. Será necessário. são fortemente influenciadas pela economia de mercado.A recepção do princípio da predominância da ordem pública pelo CDC como meio de afastamento das cláusulas abusivas nos contratos de adesão. vê-se que economia é uma das maiores influenciadoras no . como o Direito não é subsistema normativo ético isolado dos demais. as regras de interpretação judicial deveriam se submeter. 4.Contratos de Adesão. 2.Sentença proferida em sede de ação de rescisão contratual. 2. 2.2. na ausência de termo melhor. 1901 Sumário:1. 2. há contratos e contratos e estamos longe da realidade desta unidade de tipo contratual que supõe o Direito.Notas.5. cedo ou tarde. nos quais a predominância exclusiva de uma única vontade.Introdução As relações contratuais em curso na atualidade.Efeitos nos contratos. 5. A cobrança extrajudicial de honorários advocatícios como cláusula abusiva. para os quais em todo caso. trecho de Raymond Saleilles em De la déclaration de volonté.Da Aplicação das Portarias da SDE aos Contratos Utilizados no Âmbito do Sistema Financeiro Nacional.Introdução. que dita sua lei não mais a um indivíduo mas a uma coletividade indeterminada. 6. e cuja construção jurídica esta por fazer. sem dúvidas. 3. admitindo-se apenas a adesão daqueles que desejarem aceitar a lei do contrato". Cláusulas abusivas. mormente as relações de consumo.4. 1.2. 7. obrigando antecipada e unilateralmente. Conclusão.O Controle das Cláusulas abusivas.Referências Bibliograficas. de contratos de adesão. reflexo do processo de globalização no qual se insere toda a sociedade contemporânea.1. nesse quadro.A Competência da Secretaria de Direito Econômico. que o Direito se incline diante das nuanças e divergências que as relações sociais fizeram surgir.2. Paris. Há supostos contratos que tem do contrato apenas o nome.6. recebe essas influências que o tornam apto a regular as novas relações que emergem do desenvolvimento da sociedade.184 As cláusulas abusivas à luz da doutrina e da jurisprudência Autores: Andrade Carlos Cavalcante Karla Karênina "Sem dúvidas. agindo como vontade individual. Anexo.3. 2. a importantes modificações.

fez-se indispensável a criação de aparatos jurídicos capazes de repor equilíbrio entre os pólos contratuais. de forma que. ao atrasar qualquer das prestações avençadas é o consumidor surpreendido com ação judicial promovida pelo estipulante no foro deste. que não comporta retratação. Antes do Código de Defesa do Consumidor. Em se reconhecendo a vulnerabilidade do consumidor no mercado de massa.º da Lei de Introdução ao Código Civil para suprir essa lacuna: decidindo de acordo com a analogia. como o pacta sunt servanda. encerra uma centelha de criação. enunciada em conformidade com a lei. que dispensa a prévia discussão das bases do negócio instrumento. Praticamente. o princípio da intangibilidade do conteúdo dos contratos significa a impossibilidade de revisão pelo juiz. o instituto da pacta sunt servanda "stricto sensu" não existe mais.º e 5. largamente utilizados para a aquisição ou utilização de bens. é tão imperiosa que. depois de adquirir vida. as cláusulas abusivas eram disciplinadas de maneira esparsa no direito positivo pátrio."(Orlando Gomes) (2) Com a crescente evolução de uma sociedade que prima pelo consumismo. de desequilíbrio entre as partes contratantes. 4. nem o Estado mesmo. destacando-se os de alienação fiduciária e o arrendamento mercantil. que entendem não existir mais.nas declarações de vondade se atenderá mais à sua intenção que ao sentido literal da linguagem). a qual atualmente se admitem restrições. há juristas. em um contexto atual de nosso direito. pode intervir. 85 . O aumento das relações entre fornecedores e consumidores advindo da nova economia de mercado tornou perceptível uma situação. o Poder Judiciário recorria às regras gerais contidas nos arts. o que acabou por franquear o questionamento de institutos outrora inabaláveis. 85 do mesmo diploma legal era também aplicado (Art. a não ser excepcionalmente. O art.185 desenvolvimento jurídico. Trata-se de um contrato estandardizado. e onde vem sendo a praxe a inserção de cláusula abusiva onde se elege o foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor. o que significa uma verdadeira negação de acesso à justiça. tão forte e tão profunda. Outros diplomas . com o propósito de mudar o curso de seus efeitos. como Nelson Nery Junior. popularmente difundido como leasing. embora fosse para isso preciso afrontar o posicionamento tradicional dos mestres civilistas a respeito da força obrigatória dos contratos: "O princípio da força obrigatória no contrato contém ínsita uma idéia que reflete o máximo de subjetivismo que a ordem legal oferece: a palavra individual. valendo-se do direito comparado e atendendo aos fins sociais e às exigências do bem comum. não vislumbrada até então."(Caio Mário da Silva Pereira) (1) "Essa força obrigatória atribuída pela lei aos contratos é a pedra angular da segurança do comércio jurídico. surgiram os chamados contratos de adesão.

em seu artigo 51. causam em detrimento do consumidor um desequilíbrio importante entre os direitos e obrigações das partes.51º "São nulas de pleno direito. entre outras. sendo o Secretário Nacional de Direito Econômico autorizado. como regra básica. é inegável a importância da devida compreensão acerca do que sejam cláusulas abusivas. que são aquelas cláusulas contratuais não negociadas individualmente e que. no caso de dúvida as cláusulas contratuais gerais devem ser interpretadas em favor do aderente. e sua conseqüente declaração de nulidade. 59.372. o Decreto-Lei n. há penalização se o termo de garantia não for adequadamente preenchido e entregue ao consumidor. o Decreto n. Com o advento do CDC (4) foram trazidos avanços ao tratamento da proteção contratual do consumidor. dentro do período de reflexão de sete dias. uma lista exemplificativa das chamadas cláusulas abusivas. portanto. em linguagem clara e acessível.195/1966 e outros. 115 e o art. como se pode depreender da observância dos fatos acima expostos. todo produto ou serviço deve ser obrigatoriamente acompanhado do manual de instalação e instrução sobre sua adequada utilização. assim como as implicações decorrentes. 58 do Decreto nº2. pelo art.186 legislativos também tratavam do assunto. pode o aderente exercer o direito de arrependimento. corrigidas monetariamente pelos índices oficiais. 2. Há apenas dois artigos no Código Civil brasileiro que proíbem o uso das cláusulas leoninas (3): o art. as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: . apresenta. 857/1969. redigido em português. frente as exigências da boa-fé.038/1934. não é exaustiva. 24.Cláusulas Abusivas Dispõe o artigo 51 do Código de Defesa do Consumidor: "Art. é possível a inversão do ônus da prova em favor do consumidor. tendo direito à devolução imediata das quantias que eventualmente pagou. autorizado a editar anualmente um rol exemplificativo do que são tidas por cláusulas abusivas É objetivo do estudo ora encetado a análise da posição doutrinária e jurisprudencial no que concerne às cláusulas abusivas. e do tratamento dado pela doutrina e jurisprudência a este assunto. A previsão de cláusulas abusivas pelo CDC.181/97 (regula o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor). no caso de o contrato de consumo ter sido concluído fora do estabelecimento comercial. tais como o Decreto n. tais como: os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores se não lhes foi dada a possibilidade de tomar conhecimento prévio de seu conteúdo ou se os respectivos instrumentos foram redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance. posto que. 1.

com os olhos postos no presente.. possam contaminar o necessário equilíbrio ou possam. têm decidido em casos tais que. Código de Defesa do Consumidor. em contrato de adesão. Cláusula de eleição de foro. Órgão: Segunda Seção.".. Conforme disposto no artigo supramencionado. VIII. assim. (6) Assim. São sinônimas de cláusulas abusivas as expressões cláusulas opressivas.187 (.. Cláusulas abusivas. 6º. causar uma lesão contratual à parte a quem desfavoreçam".. cláusulas como essa do instrumento havido entre as partes ostentam-se indisfarçavelmente ineficazes e sequer possível o seu aproveitamento".699 –MG (97/0088907-6) (Anexo II) "Conflito de Competência. vexatórias ou. acarretando desequilíbrio contratual entre as partes e ferindo os princípios da boa-fé e da eqüidade. Prevalência da norma de ordem pública que define o consumidor como hipossuficiente e garante sua defesa em juízo". Contrato de adesão. no conceito de Nelson Nery Junior: "são aquelas notoriamente desfavoráveis à parte mais fraca na relação contratual de consumo. abusivas. Cláusula Abusiva O juiz do foro escolhido em contrato de adesão pode declarar de ofício a nulidade da cláusula e declinar da sua competência para o juízo do foro do domicílio do réu. onerosas. de que resulta dificuldade para a defesa do réu. Cláusula de eleição de foro. Competência Territorial. há que se entender cláusulas abusivas como sendo aquelas que estabelecem obrigações iníquas. . Tratando-se de ação derivada de relação de consumo. exceto quando sua ausência acarretar ônus excessivo a qualquer das partes.". a mais abalizada doutrina e atual jurisprudência. (STJ – AG Nº 170. em que deve ser facilitada a defesa do direito do consumidor (Art. Relator: Min. DJ-24/08/1998) "Competência. tais cláusulas são nulas de pleno direito. (STJ. (5) Segundo Hélio Zagheto Gama: "As cláusulas abusivas são aquelas que. desde que se averigúe o justo equilíbrio entre as partes. excessivas. "Assim. se utilizadas. inseridas num contrato. sendo que a nulidade de qualquer cláusula considerada abusiva não invalida o contrato.. ou sejam incompatíveis com a boa fé ou a equidade. somente a cláusula abusiva é nula: as demais cláusulas permanecem válidas. Foro de Eleição. ainda. Processo N°: 21540. que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada.) IV – estabeleçam obrigações consideradas iníquas. Ruy Rosado de Aguiar. e subsiste o contrato. e não operam efeitos.

2ª Seção ." ( S. exceção de incompetência. para os comerciantes.1998. fizer circular ou utilizar-se de cláusula abusiva. garantindo. Juízes) e de advertência.98 ) O CDC apresenta dois momentos distintos de proteção contratual ao consumidor: no primeiro momento. são editadas em cumprimento ao disposto no citado artigo 56 do Decreto 2. DJU de 16. prestar aos consumidores orientação permanente sobre seus direitos. pois. através de um efetivo controle judicial do conteúdo dos contratos.181/97.181/97. Assim. através do DPDC. que integra o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. conforme especificado no artigo 3o do Decreto 2. de 20 de março de 1997 e atua por meio de seu Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC). promotores. a fim de orientar o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. São atos de natureza administrativa.188 do Código de Defesa do Consumidor). elenco complementar de cláusulas contratuais consideradas abusivas. inserir. são criadas normas proibindo expressamente as cláusulas abusivas nesses contratos. Conflito conhecido. em 13.181/97.11. fiscalizar e aplicar as sanções administrativas previstas no CDC e solicitar a instauração de inquérito para apuração de delito contra o consumidor. qualquer que seja a modalidade do contrato de consumo. O DPDC deverá. cabendo aplicação de multa ao fornecedor de produtos ou serviços que. O artigo 56 do Decreto 2.181/97 estabelece que. 2.1.05. Compete à SDE. compreendido até a efetiva formação do vínculo contratual (fase pré-contratual). no momento posterior. cria novos direitos para o consumidor e deveres para o fornecedor. . sendo órgão do Ministério da Justiça. elencando as cláusulas abusivas. dentre outras atividades. a SDE divulgará.T.A Competência da Secretaria de Direito Econômico A Secretaria de Direito Econômico (SDE) foi criada pelo Decreto nº 2. mas servem de roteiro para os operadores do Direito (advogados.J. assim. a previsão de cláusulas abusivas pelo CDC não exaure as hipóteses com o elenco ali exposto. que não têm força de lei. anualmente. impende considerar como absoluta a competência do foro do domicílio do réu. em caráter exemplificativo.j. direta ou indiretamente. as portarias publicadas pela Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça. não se exigindo. aplicando-se o disposto no inciso IV do artigo 22 do Decreto 2. uma proteção a posteriori do consumidor. Conforme anteriormente exposto. . compete ao Secretário Nacional de Direito Econômico editar anualmente um rol exemplificativo de cláusulas abusivas.181. a coordenação geral da política do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor.

aflorando casuisticamente na construção do caso concreto. se pode depreender que o abuso estaria incluído.Destarte. e. uma especialização do fenômeno do abuso. ou ainda configurada a excessiva onerosidade das obrigações assumidas livremente pelos clientes. Sendo caracterizada a relação como de consumo ou demonstrada. na classe dos atos ilícitos. se pode concluir que a SDE tem competência e legitimidade para orientar o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor e uma das formas por que se realiza esta orientação é a divulgação anual de cláusulas contratuais consideradas abusivas. O princípio da boa fé pode encontrar amparo legal inserindo-se como conceito indeterminado numa cláusula geral. as instituições financeiras não podem ser impedidas de recorrer ao Poder Judiciário para solucionar os conflitos gerados em razão da aplicação ou não de regras referentes às relações de consumo. alegando que determinadas cláusulas tidas como abusivas pela SDE.189 2.Da Aplicação das Portarias da SDE aos Contratos Utilizados no Âmbito do Sistema Financeiro Nacional Ante o exposto.3. e/ou alegar que o CDC.Meios de Controle das Cláusulas abusivas O fundamento jurídico em que sedimenta a doutrina brasileira o posicionamento acerca das cláusulas abusivas é o abuso de direito. 2. portanto. não há que se discutir a não aplicação do CDC aos contratos bancários. na realidade não o são. e conseqüentemente as portarias da SDE.2. I. Não obstante as penalidades administrativas que a SDE ou qualquer outro órgão integrante do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor possam vir a aplicar. por conseguinte. ou vigorar como um princípio subjacente ao ordenamento jurídico. pré-excluindo-se a contrariedade (Pontes de Miranda). a existência de cláusulas obscuras ou abusivas. há instituições financeiras que pretendem questionar a validade/aplicação das portarias da SDE. se pode concluir que o fundamento do repúdio às cláusulas abusivas assenta no princípio da boa fé. em complemento à listagem constante do artigo 51 do CDC. segunda parte). não se aplicam a determinados tipos de contratos utilizados no Sistema Financeiro Nacional (caso em concreto). de forma inequívoca. Nesta feição é que o princípio da boa . 160. art. Do cotejo desta disposição. Contudo. uma vez que a figura do cliente da instituição financeira não pode ser equiparada à figura do consumidor. As cláusulas abusivas seriam. duas alegações possíveis de serem articuladas por tais instituições seriam: questionar o conteúdo das portarias editadas pela SDE. pois o cliente não é destinatário final dos serviços e/ou produtos oferecidos. contemplado pelo direito brasileiro de forma genérica. pelo uso anormal do direito. ainda que indiretamente. quando não considerou como ilícito o uso regular de um direito (Código Civil. a anulação dos referidos contratos ou das cláusulas abusivas contidas no bojo destes.

) IV – a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva. 6º. Sem o comando dessa nova diretriz. 128. métodos comerciais coercitivos ou desleais. bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços.. in verbis: "Esta Eg. à luz do disposto no art. a cujo respeito a lei exige a iniciativa da . caput. A proteção contra cláusulas abusivas é direito básico. 51. 4º. o sistema de invalidade no direito civil comum é dúplice: os autores tratam das nulidades absolutas e das relativas. com ressalva de meu posicionamento. sem necessidade de ação judicial. aquela é sempre ipso jure.. É patente a diferença de tratamento por esta turma do STJ..6º São direitos básicos do consumidor: (. ou relativa ou anulabilidade. Segundo Arruda Alvim.162-RS. o Código de Proteção e Defesa do Consumidor é explícito a respeito da boa fé. Cumpre destacar por oportuno a questão da decretação judicial de nulidade da cláusula abusiva não suscitadas pelas partes. como regra cardeal (arts. Tanto que está presente no rol das cláusulas abusivas. e III. IV do CDC: "Art. e a inovação trazida ao tratamento desta questão pelo CDC. se de nulidade absoluta.. 4ª Turma tem reiteradamente decidido. Pontes de Miranda discorda dessa terminologia. O fato de ter o CDC estabelecido a nulidade de pleno direito das cláusulas. cuja diferença seria o grau de intensidade do defeito que macula o ato. era aplicado a inteligência dos artigos 128 e 460 do CPC.IV). para os contratos formulado anteriormente ao CDC. que teve como relator o eminente Ministro Ruy Rosado de Aguiar. sobre a inaplicabilidade das regras do Codecon às relações de consumo celebrados antes de sua vigência. estabelecendo que o vício é meramente parcial. que veda ao juiz conhecer de questões a cujo respeito a lei exige (exigia) a iniciativa da parte". a seguir transcritos: "Art. art. sejam incompatíveis com a boa-fé e equidade". não suscitadas. gera discussões acerca da natureza deste vício. prevalece a norma geral do artigo do Código de Processo Civil. antes e depois da vigência do CDC. cujo voto é a seguir transcrito."(grifo que não consta do original) A lei fala em nulidade de pleno direito. uma cláusula geral que autoriza o repúdio das disposições que ". dizendo ainda que Código Civil versa a figura da nulidade e da anulabilidade. O juiz decidirá a lide nos limites em que foi proposta. enquanto esta depende sempre da manifestação judicial.. Veja-se o RESP nº 90.190 fé se faz largamente presente no sistema brasileiro. sendo-lhe defeso conhecer de questões.

Ele sugere uma nova hipótese de classificação de sentença. de natureza diversa da pedida. chamada de "Sentença Determinativa". deve ser suscitada pelo reu (sumula 033). durante o Congresso Paranaense de Direito Processual Civil. quando observado o vício. violando os dispostos nos arts. (7) Conforme esse entendimento. Clausula abusiva. DJ. Para ele. Proteção Contratual. É defeso ao juiz proferir sentença. adequando o contrato. Segundo a orientação predominante na 2a. seção. integrando e construindo as cláusulas no contrato de modo que se possa dar execução ao mesmo. impõe-se ao juiz a sua decretação. 460.191 parte". Foro de eleição. ele revê as cláusulas. . conflito conhecido e declarada a competencia do juizo suscitado. a favor do autor. não podendo a sentença extrapolar os limites da litiscontestatio. devem ser declaradas nulas. criando uma nova realidade. Cláusulas abusivas. independentemente de provocação das partes. bem como condenar o réu em quantidade superior ou em objeto diverso do que lhe foi demandado". Sobre o princípio da congruência e o princípio da adstrição do juiz. participando. Afastando-se desses limites. ainda quando se trata de foro de eleição estabelecido em clausula de contrato de adesão. Constatada a cláusula abusiva. admitindo assim a decretação ex officio. a maior parte da doutrina diverge dessa orientação. Competência territorial. para não ocorrer julgamento extra petita. sendo sujeito ativo. Relator: Min. a incompetência em razão do lugar. 29/10/1996) Contudo. as cláusulas consideradas absolutamente nulas. Neste sentido: "Código de Defesa do Consumidor. a sentença decide extra ou ultra petita". realizado no hotel Bourbon em Curitiba. ressalva da posição do relator.(STJ. independentemente de provocação das partes. posto que é decretável de ofício. o juiz não pode declarar nulidade de cláusulas ex officio. onde o magistrado não somente muda um estado. dado o seu cunho de ordem pública. por ser de natureza relativa. mas é também sujeito ativo. Ruy Rosado de Aguiar. O juiz constrói. A causa deve ser julgada como proposta e contestada. ensina Moacyr Amaral Santos: "A sentença deverá ser a resposta jurisdicional ao pedido do autor. Destinatário. 128 e 460 do CPC. "Art. Cív. Processo n°16253. – Relator Juiz Antonio Janyr Dall’Agnol Junior) "Conflito de competência. nos limites em que este o formulou. Órgão: Segunda Seção. deve a sentença ater-se ao pedido" (TARGS – APC Nº 193051216. criando uma nova relação.7ª Câm. em homenagem ao princípio da congruência. Assim também manifestou sua posição Nelson Nery Jr. Objetivando a desconstituição de cláusulas.

não sendo isto defeso ao juiz. com os olhos postos no presente. o legislador baseou-se na chamada "redução de eficácia" da doutrina alemã. institui como um direito do consumidor a possibilidade de modificação de cláusulas contratuais no sentido de restabelecer o equilíbrio da relação com o fornecedor. o CDC adotou o princípio da conservação dos contratos ao determinar que somente a cláusula abusiva é nula.192 assim que o vício é detectado. o consumo depende do desenrolar da economia de mercado. Há inúmeros exemplos de jurisprudência que convergem com esta doutrina: "Assim.4. acarretar ônus excessivo a qualquer das partes. e que é na mais das vezes resultado direto da fragilidade econômica do consumidor. 2. tendo em vista que os contratos são instrumentos de circulação de riquezas. apesar dos esforços de integração. e os efeitos dela decorrentes. permanecendo válidas as demais cláusulas contratuais. o CDC. têm decidido em casos tais que. Além do previsto no artigo 51. com o fim maior de não se permitir a execução da onerosidade constatada em seu bojo.699 –MG (97/0088907-6) Resta inconteste que coaduna com a busca de equilíbrio na relação contratual a admissibilidade da intervenção judicial na base do contrato. cláusulas como essa do instrumento havido entre as partes ostentam-se indisfarçavelmente ineficazes e sequer possível o seu aproveitamento". prevendo a ineficácia de uma cláusula abusiva e não simplesmente sua nulidade absoluta. (STJ – AG Nº 170. a mais abalizada doutrina e atual jurisprudência. que concorda com todos os termos do contrato que lhe é apresentado. subsistindo o contrato.Contratos de Adesão Os contratos de adesão surgem como forma de proporcionar maior uniformidade. Destarte. prevendo a norma geral a proibição de cláusulas contra a boa-fé. e vice versa. e sua importância em parte deriva da constatação que os contratos de consumo guardam intrínseca relação com a economia. a nulidade de qualquer cláusula considerada abusiva não invalida o contrato. rapidez. Aqui. A teor do disposto no parágrafo 2º do multicitado artigo 51 do CDC. 2.5. eficiência e dinamismo às relações de consumo. . sem que tenha havido oportunidade de discussão do mesmo. exceto quando sua ausência. o consumidor poderá solicitar ao juiz de direito que altere o conteúdo negocial de uma cláusula considerada abusiva.Efeitos nos contratos A definição de cláusulas abusivas. são aplicáveis tanto aos contratos de adesão quanto aos contratos paritários e são sempre consideradas nulas. em seu artigo 6º. desde que se averigúe o justo equilíbrio entre as partes.

de modo geral e abstrato. (10) Os contratos de adesão são unilaterais. formado pelo concurso de vontades (embora restrito). Caracteriza-se por ser um negócio jurídico bilateral." Nos contratos de adesão. próprias dos contratos paritários. pela outra parte. inexistindo as negociações preliminares e modificação de cláusulas. nas quais apenas uma das partes. e que na maioria das vezes não são esclarecidas ou informadas pelo funcionário da instituição responsável pela realização do contrato". não obstante existam antes do processo de globalização. Segundo Ana Maria Zauhy Garms. o que gera grande desigualdade nas relações de consumo entre as partes contratantes. os contratos de adesão podem ser tidos como uma necessidade do mundo globalizado. via de regra. "As grandes instituições utilizam-se dos contratos de adesão para praticarem abusos contra os consumidores. traz. Define-se o contrato de adesão como o negócio jurídico no qual a participação de um dos sujeitos da relação sucede pela aceitação em bloco de uma série de cláusulas formuladas antecipadamente. conforme exposto. O Código do Consumidor em seu art.193 Assim. deve o juiz reconhecer de ofício a . 54 – Contrato de Adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor de produtos ou serviços. eliminada a livre discussão que precede normalmente à formação dos contratos". isto por que neste tipo de contrato não há oportunidade de negociações. esse tipo de contrato apresenta-se como a adesão alternativa de uma das partes ao esquema contratual traçado pela outra. e devido à necessidade de adquirir o bem ou o serviço o indivíduo acaba por aceitar as condições que lhe são impostas. sem que o consumidor possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo. cláusulas abusivas. aquele que está propondo a aderência a toda a proposta. (9) Em sua formação. Entretanto. como anteriormente salientado. mormente na Itália. e segundo corrente dominante na doutrina. por suprimir a prévia discussão do conteúdo entre fornecedor e consumidor. isto é. (8) Segundo Orlando Gomes: "O contrato de adesão caracteriza-se por permitir que seu conteúdo seja preconstruído por uma das partes. uma das cláusulas mais comuns é a de eleição do foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor. sai beneficiado em relação ao aderente. 54 definiu o contrato de adesão: "Art. para constituir o conteúdo normativo e obrigacional de futuras relações concretas. Uma das mais comuns cláusulas abusivas em contratos de adesão é a de eleição do foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor. o contrato de adesão.

86 do aludido diploma legal: "As causas cíveis serão processadas e decididas. mas a todo o sistema de comando. conforme o escalão do princípio violado.São .(grifo que não consta do original) Isto posto. ou simplesmente decididas. contumácia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra". nos limites de sua competência. Dispõe o art. citado por Maria Helena Diniz: "Violar um princípio é muito mais grave do que transgredir uma norma. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório. enquanto que a exigência de que a parte suscite a incompetência do foro está inviabilizada pelas mesmas circunstância que levaram ao reconhecimento da abusividade da eleição do foro. a ação será proposta no foro do domicílio do autor. assim como declinar da competência para o juízo do domicílio do réu. pelos órgãos jurisdicionais. a ação será proposta em qualquer o foro". como imperativo de ordem pública. Essa decisão não conflita com a Súmula 33 do STJ. A única hipótese em que a ação pode ser proposta em qualquer foro do Brasil está estandardizada no artigo 94. pág. (In NORMA CONSTITUCIONAL E SEUS EFEITOS. contido no comando do artigo 5º. 1989. a propositura da ação no foro do domicílio do estipulante ou em qualquer outro que não seja a do domicílio do consumidor.194 nulidade da cláusula abusiva. porque a nulidade da cláusula faz desaparecer a razão pela qual a ação foi proposta no juízo que se dá por incompetente. § 3º "in fine" do CPC: "Quando o réu não tiver domicílio nem residência no Brasil. torna o juízo absolutamente incompetente ante à flagrante violação ao "princípio do juiz natural". Cumpre salientar a lição do Professor Celso Antônio Bandeira de Mello. in casu. Se este também residir fora do Brasil. É a mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade. as partes não podem escolher livremente o foro onde querem propor a ação. O Código de Processo Civil e as normas de organização judiciária dos Estados estipulam as diretrizes básicas para a definição dos limites da competência a serem observadas na prestação jurisdicional. da Constituição Federal: "Ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente". 116. Saraiva . o consumidor. ressalvadas às partes a faculdade de instituírem juízo arbitral". subversão de seus valores fundamentais. visto que devem submeter-se aos mandamentos insertos no Código de Processo Civil e nas leis de organização judiciária dos Estados. À luz desse dispositivo. LIII. e conseqüente afastamento desta. porque representa insurgência contra todo o sistema.

Abusividade da cláusula de eleição de foro. incisos VII e VIII da Lei nº 8. através de seu cumprimento.Consórcio . "EX OFFICIO". Gonçalves. j.1995. especialmente quando há possibilidade de deferimento de medida liminar. ambos do Código de Processo Civil vigente. Embargado: Banco Fiat S/A.Contrato de Adesão _ Prevalecimento do Código de Defesa do Consumidor para que o devedor tenha acesso aos órgãos judiciários e facilitação de sua defesa . A divisão da competência estabelecida por lei de organização judiciária. 265. COMPETÊNCIA. Julgado em 23 de abril de 1998) "CONSUMIDOR. Marcos Antônio Souto Maior. Nigro Conceição. é nula de pleno direito por Ter sido editada por Juízo agora tido como absolutamente incompetente. Ao receber a petição inicial ao juiz cumpre examinar a validade e eficácia de tal cláusula e impedir que. CONTRATO DE ADESÃO. prejudicial à defesa do consumidor. que se destaca pela superioridade da vontade do estipulante e reduzido âmbito de escolha do aderente. determinou e ocasionou a apreensão do veículo pertencente a agravante e. a teor do estabelecido no art.Foro de Eleição .u. 122. Nesse sentido: "Foro Regional e Declaração ex officio de incompetência. mas sim de reconhecimento de normas de ordem pública a exigir a remessa dos autos à Comarca do domicílio do consumidor. emerge dos autos ser completamente incompetente o Juízo "a quo" e. porquanto. m vista todo o exposto. o que impõe sua revogação". por essa razão. a propositura da demanda perante foro diverso do domicílio do consorciado dificulta . rel.M.Artigo 6º. Esp. ADMISSIBILIDADE.)" "COMPETÊNCIA . nula de pleno direito a decisão objurgada. em se tratando de ação que tenha por objeto contrato de adesão. 1ª Câmara Cível.Hipótese que não se trata de declinação de ofício de incompetência relativa. para que não sirva de invencível acesso à justiça. Rel. Com o devido respeito àqueles que se filiam a outro entendimento. v. não se pode afirmar tratar-se o caso de competência territorial relativa. Inaplicabilidade da súmula 33/STJ.. Ainda que se reconheça que na divisão do foro de São Paulo em diversos Juízos há forte componente territorial que marca a delimitação da competência de cada um entre si. Câm. sem sombra de qualquer dúvida tem cunho decisório.195 Paulo).(Embargos de declaração nº 98. 113. em determinada área da cidade.10.078/90 . Decisão unânime. Assim. a validade da cláusula de foro de eleição deve ser de logo examinada. confere a cada um parcela de competência funcional dentro do foro de São Paulo. DECLINAÇÃO. combinado com o art. Des. dentro da cidade de São Paulo. à luz do que fora exposto. Embargante: Suy Mey C. ganhando por isso contornos de competência absoluta. A decisão objurgada. declinável ex officio (TJSP. Ccomp 24495-0.000181-3. esteja sendo sobremaneira dificultada a defesa do réu.

5º. quando desde logo evidenciado que o demandando terá extrema dificuldade para exercitar sua defesa. estabelecida em contrato de adesão. em Agravo de Instrumento nº 477. e assim caracterizada a abusividade da cláusula. Rel. VIII". 32959-4." Os princípios constitucionais do juiz natural. No entanto. na medida em que a existência e o exercício da técnica processual têm por objetivo. o que configura a abusividade da cláusula e a sua nulidade de pleno direito. Rel. seria suficiente. decretável de ofício.196 seu acesso à Justiça. de acesso à justiça. para justificar a pronta remessa dos autos ao foro do domicílio da parte hipossuficiente. Juiz Cesar. Julg. ainda quando está a decidir sobre a competência de foro. da ampla defesa e da supremacia do interesse público hão de ser preservados e aplicados em todas as situações processuais. não sendo lícita. todas elas. e essa afronta. assim afrontando as correspondentes garantias constitucionais. de Inst. Daí porque. impor ônus e gravames indevidos a um dos sujeitos processuais. precipuamente aos desígnos constitucionais e não. nem jurídica. (TJSP. Ag de Inst. abstraídos outros aspectos processuais (de menor ou nenhuma importância em confronto com ditas garantias). por si só. em 30/10/96). em se tratando de foro de eleição favorável ao estipulante de contrato de adesão.. É caso de nulidade de pleno direito. das circunstâncias que envolvem o contrato. da 79 Câmara do Segundo Tribunal de Alçada Civil de São Paulo: "A cláusula eletiva de foro. sejam quais forem.: Des. é justa e razoável a conclusão de que o reconhecimento e a proclamação afronta a preceitos constitucionais demandam exame. XXXV). pela parte economicamente mais forte. COMPETÊNCIA. CONTRATO DE ADESÃO. mormente quando não impõe ao réu maiores dificuldades para o pleno. (TJSP. Ag. à evidência. revela-se abusiva se e quando impuser. Também no mesmo sentido o voto do magistrado Antônio Carlos Marcato. podem . incumbe ao juiz impedir que ela tenha eficácia. à luz do CDC (Lei nº 8078/90). art. "CONSÓRCIO. Linbs. a pura e simples generalização de que toda e qualquer cláusula eletiva do foro seja. quando não o impossibilita. não obstante esse direito seja garantido constitucionalmente (CF/88. exercício de seu direito de resposta. colocando-o em desvantagem exagerada. art. 6º. A eleição de foro é tão somente a mais comum dentre as cláusulas abusivas comumente contidas nos contratos de adesão. ao contratante mais fraco sérios (e por vezes insuperáveis) óbices ao pleno acesso à jurisdição e à sua defesa no processo. É essa a posição que vem prevalecendo na melhor jurisprudência.406-2. Competência absoluta. Itú. declinando da sua competência para o foro de domicilio do réu. Lei 8. Julg. Júlio Vidal. 29240. em 30/10/96). atender.078/90 (CDC). Direito do consumidor em ser demandado em seu domicílio. nem estabelece obrigação que possa ser considerada iníqua ou abusiva. caso a caso.

porque a nulidade da cláusula faz desaparecer a razão pela qual a ação foi proposta no juízo que se dá por incompetente. que variam de 10 a 20% do valor devido. Assim. 3. se o consumidor ou o fornecedor contratante. "No que tange aos contratos de adesão o Código de Defesa do Consumidor é bem claro ao especificar que todos os contratos devem ser revistos quando tornarem-se excessivamente onerosos. que as cláusulas abusivas devem ser desconsideradas pelo consumidor".A recepção do princípio da predominância da ordem pública pelo CDC como meio de afastamento das cláusulas abusivas nos contratos de adesão Os princípios do juiz natural. As cláusulas negociadas destes contratos deverão subordinar-se à interpretação comum dos contratos. quando a propositura da ação no foro de eleição. ou outra qualquer. enquanto a exigência de que a parte suscite a incompetência do foro está inviabilizada pelas mesmas circunstâncias que levaram ao reconhecimento da abusividade da eleição de foro. não ofende a Súmula 33 do STJ. (12) 2.A cobrança extrajudicial de honorários advocatícios como cláusula abusiva A questão ora analisada concerne à cobrança de honorários advocatícios por escritórios de advocacia do consumidor. tal como a que elege. dificultará sobremaneira a defesa do réu em juízo. em razão de débitos em atraso com o fornecedor. sob o argumento de que o escritório que faz a cobrança só recebe o pagamento se houver o acréscimo dos encargos (juros de mora e multa) além de honorários advocatícios.197 ser questionadas. cabendo ao julgador verificar a abusividade ou não das cláusulas pré-elaboradas. uma vez que se amoldem ao disposto no art. De início cumpre . cumpre salientar que nem toda regulamentação contratual préformulada pode ser entendida como abusiva. em contrato de adesão. derrogando as cláusulas abusivas. 51 do CDC. são amplamente aplicados aos contratos de adesão. (11) Por fim. reintegração de posse decorrente de contrato de leasing. pelo que pode e deve o juiz declarar de ofício sua competência para processar as ações de busca e apreensão.6. A decisão judicial que reconhece a nulidade de cláusula abusiva e declara a incompetência de ofício. e ainda. conforme exposto no presente estudo. quando o seu cumprimento significar verdadeira negação de acesso à justiça. da supremacia da ordem pública e da magnitude da defesa do consumidor. na sede da empresa estipulante. O cerne da questão é a quem cabe arcar com o pagamento dos honorários devidos ao advogado. o foro do domicílio do estipulante. por força dos dispositivos pertinentes à espécie contidos no CDC. o juiz deve ainda de ofício reconhecer a nulidade de cláusula abusiva.

prescrevendo a Súmula nº 60 do STJ: "É nula a obrigação cambial assumida por procurador do mutuário vinculado ao mutuante no exclusivo interesse deste". como é o caso do consumidor. deixa de aceitar receber a parcela vencida. sem que igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor".98. 51 da lei 8. Ora. expressou nota explicativa a respeito dos motivos da edição da Portaria nº 04 de 13. realizada em Brasília.906/94) dispõe que há três possibilidades de cobrança dos honorários advocatícios: "quando há convenção entre as partes. cumpre perguntar se seria cabível aplicar-se o art. que. 22 do Decreto 2. O STJ já pronunciou a respeito da nulidade de cláusula contratual no caso da denominada cláusula mandato.198 observar que o consumidor não celebrou nenhum contrato com o escritório de advocacia. prescrevendo como nula de pleno direito a cláusula contratual que obriguem o consumidor ao pagamento de honorários advocatícios sem que haja ajuizamento de ação correspondente.03. que autoriza a emissão de título cambial por procurador. em caso de inadimplemento. objetivando declarar a nulidade absoluta da cláusula. 51. (item 9 da Portaria nº 4/98). deverá ele. acima transcrito que "O consumidor não está obrigado ao pagamento de honorários ao advogado do fornecedor. . Além disso. consumidor. pelo que resta óbvio que quem deve pagar os honorários é o fornecedor. entretanto. ao recorrer aos préstimos do advogado. se nos reportarmos à definição de cláusula abusiva. o que corrobora a tese da abusividade da cobrança. ver-se-á que o caso em tela enseja a aplicação da Teoria da Abusividade na Relação de Consumo em prol do consumidor. sem ajuizamento de ação. XII do CDC que é nula a cláusula contratual que "obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua obrigação. Arcar com os honorários de advogado para agir contrário aos seus próprios direitos/interesses é.181/97. esta Portaria adita ao elenco do art.078/90 e do art. a qual deve então ser paga diretamente ao advogado contratado. 22 do Estatuto da advocacia (convenção entre as partes). arcar com o pagamento dos honorários advocatícios. O Despacho nº 132 do Secretário de Direito Econômico. outras cláusulas abusivas. Os serviços jurídicos contratados diretamente entre o advogado e o consumidor não se enquadram neste item". E caso haja o consumidor assinado contrato que contenha cláusula prevendo que. O artigo 22 do Estatuto da Advocacia (lei 8. um ônus imputado ao consumidor em desvantagem exagerada. indubitavelmente. em conformidade com a decisão unânime extraída da 19ª Reunião do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. estatui o art. de 12/05/98 (13). esclarecendo em relação ao item 9. A Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça editou a Portaria nº4/98 que tipificou como abusiva a cláusula contratual que obriga o consumidor ao pagamento de honorários advocatícios. arbitramento judicial ou sucumbência" Vê-se que nenhuma destas hipóteses legitima a cobrança de honorários da parte que não contratou.

Retirado de .Conclusão Do presente estudo se pôde com propriedade depreender que atualmente é grande. Arruda. Assim. ditando o tom do regime jurídico e legal das condições gerais dos contratos. com a fixação de jurisprudência. É o tratar de forma desigual as partes no momento em que elas se desigualam. tratar de forma desigual os desiguais a fim de que se tornem iguais. com a instituição de órgãos próprios estatais. Rio de Janeiro: Forense. Curso de Direito Civil Brasileiro. Hélio Zaghetto. É objetivo do Código de Defesa do Consumidor assegurar ao consumidor igualdade em face do fornecedor. fls. independentemente da posição ou condição de cada parte envolvida". legislativo. pelo que passou o Direito do Consumidor a ser um dos principais elementos de afirmação da cidadania. já não se aplica mais indistintamente o pacta sunt servanda. e judicial. 5. como bem pontifica Ana Maria Zauhy Garms (14): "A proteção do consumidor surge pela determinação de se cumprir a igualdade contratual. por meio de leis específicas de proteção. dentro da proteção contratual estabelecida com o advento do Código de Defesa do Consumidor. ou seja. Da preocupação do Estado com os problemas da defesa do consumidor advieram grandes mudanças na elaboração dos contratos. 12 Ed. 3. Referências bibliográficas ALVIM.199 4. Ana Maria Zauhy. a presença dos contratos de adesão nas relações de consumo. por vezes maciça. a crise do liberalismo refletiu no declínio do individualismo característico daquela realidade sócio-econômico. 2001 luz GARMS.. Cláusulas Abusivas nos Contratos de Adesão à do Código de Defesa do Consumidor. o que denota o reflexo no âmbito jurídico do processo de evolução por que passou a economia.Teoria das obrigações contratuais e extracontratuais. Maria Helena. 1997 GAMA. cumpre ao Estado tutelar a parte hipossuficiente da relação contratual. Revista de Direito do Consumidor nº 20.V. tutela esta que é feita no plano administrativo. e igualmente quando se igualam. São Paulo: Saraiva. diante da configuração contratual. Em virtude da importância conferida assim às relações de consumo. assim como a compreensão e percepção desse instituo pelos juristas. Cláusulas Abusivas e seu Controle no Direito Brasileiro. (24/70) DINIZ. Curso de Direito do Consumidor. as cláusulas abusivas merecem um tratamento metodológico como tentativa de conter tais procedimentos.

Anexo Sentença proferida em sede de ação de rescisão contratual Processo nº0119539789 8ª Vara Cível .htm em 20. 49. Lá comparecendo. Caio Mário da Silva.com.3 – Dos Contratos e das Declarações Unilaterais de Vontade.200 www.0795.São Paulo: Revista dos Tribunais.v. 1966 RODRIGUES.asp?id=708 em 24. Orlando. Código de Processo Civil Comentado. n.br/area7/rosana2.nov.. Rio de Janeiro: Forense. Retirado de www..nov. A questão das cláusulas abusivas nos planos de saúde. Ed.2001 MARTINS. 47. 1997 PEIXOTO.1999 SANTOS. narrando que. na Rua Luzitana nº597.2001 GOMES. Vistos. Rosana. IV 6. Rio de Janeiro: Forense.Engenharia e Construções Ltda.br/doutrina/texto. In: Jus Navigandi. Retirado de http://www1.jus.. In: Jus Navigandi. GRINBERG. São Paulo: Saraiva. Instituições de Direito Civil. etc. III. 2a.. participaram de um coquetel e tiveram conhecimento de um .asp?id=788 em 24. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão.jus. Luís Fernando Klippert e S/M. Direito Civil. às 21h. Cobrança extrajudicial de honorários advocatícios: cláusula abusiva.2º Juizado Comarca de Porto Alegre Autores: Luís Fernando Klippert Ré: Goettert .infojus. tendo em vista um projeto turístico. Marco Aurélio Ventura.br/doutrina/clabusi.htm em 24.br/doutrina/texto.com. Contratos.jus. Plínio Lacerda.Engenharia e Construções Ltda. Vol.com. 26a ed.2001 PEREIRA. Ed.com. Nelson..2001 NERY JUNIOR. Moacyr Amaral. Silvio.nov. pelo telefone. para comparecerem no dia seguinte. n. 1995.nov. 16. V. Michelline Oliveira Klippert ingressaram com ação de rescisão contratual contra Goettert . Comentários ao Código de Processo Civil. foram convidados. no dia 03. Retirado de http://www1. Código do Consumidor.

a fim de atrair o consumidor e. na preparação de armadilhas. fechar um negócio que não era de interesse do comprador. bem como as parcelas vencidas. o qual foi analisado pelos requerentes. impondo-se a firme atuação dos órgãos encarregados de defender o consumidor. verificaram divergências entre o que foi dito na ocasião e o que constava no contrato. aproveitando-se de menor reflexão. 49 do CDC não se aplica. para rescindir o contrato. ocasião em que foram informados de que. para tanto. invocando normas do Código de Defesa do Consumidor. decido. desrespeitosa e inaceitável de comércio. Foi informado que o preço estava em promoção e que o contrato deveria ser assinado naquela mesma noite. firmaram o contrato. Preocuparam-se os autores em demonstrar que o contrato e o regulamento para uso do empreendimento turístico estava em desacordo com o que havia sido dito na exposição da ré. para coibir tais práticas. ou arapucas. prestando todas as informações a respeito do empreendimento. por exemplo. Não havia. Retornaram no dia seguinte.201 projeto de construção com vendas de cotas para serem utilizadas em condomínio por diversos proprietários. Realizada audiência. deveriam pagar multa no valor de 35% do valor do imóvel. proferindo-se os debates orais. as únicas pessoas presentes na ocasião eram os autores e funcionários da ré. sendo que a requerente é advogada. Os autores responderam. Aduz que o contrato deve ser respeitado. Versam os presentes autos a respeito de uma forma totalmente abusiva. seduzidos pelo "marketing" da requerida. Relatados. Ao retornarem para casa. Não ficou demonstrada esta alegação dos requerentes. pois o contrato não foi firmado fora do estabelecimento comercial. Assim. Os autores não concordaram e enviaram correspondência. O art. sendo condenada a ré no pagamento dos encargos de sucumbência. Contesta a ré. uma vez paga a multa estipulada. Sustenta ter agido corretamente. que corresponde ao ressarcimento de despesas. O comércio não pode estar baseado no aliciamento. Pretendem os requerentes a rescisão do contrato. eis que firmado de forma livre pelos autores. até porque seria muito difícil. manifestando o interesse em desfazer a avença. analisando melhor o negócio. foram ouvidas as partes e testemunhas. . Requer a condenação dos autores no pagamento das despesas relacionadas com o contrato. É possível rescindir o contrato. a possibilidade de ser feita a cumulação de semanas não aproveitadas em um ano para o ano seguinte.

existindo todo um cenário montado. ou pesquisa. para ler e refletir. etc. a necessidade de processar todas essas informações acaba reduzindo a capacidade de raciocinar. no qual o consumidor será convencido a comprar tal empreendimento. com as mesmas "promoções". termina enredado em uma enfadonha reunião comercial. À exposição oral soma-se o cenário cuidadosamente montado. Conforme ficou claro pela prova colhida. As irregularidades são tantas que o contrato não tem como subsistir. apresentando solução para todas as eventuais objeções. primeiro. Conforme restou perfeitamente esclarecido pelos documentos e testemunhas ouvidas. Ao cliente não é permitido levar o contrato para casa. Do início ao fim da exposição o casal é acompanhado de pessoa encarregada de afogar os incautos em informações excelentes sobre o empreendimento. naquela noite. ou qualquer outra forma de obter os dados pessoais e informações quanto ao patrimônio do comprador em potencial.202 Tenho. Ao fim de duas horas de aranzel monocórdio sobre as maravilhas do prédio. O fundamental é que toda a atuação da ré é inaceitável. Conforme relataram as pessoas ouvidas. maquete. e também os salgadinhos e bebidas servidos aos participantes. a ré faz os tais coquetéis todas as noites. para ajudar a distrair e criar . que nem existe. em tais empreendimentos. antes de ser assinado o contrato. sub-reptícia. de aliciar clientes sem que estes tenham pleno conhecimento da finalidade para a qual estão fornecendo os seus dados. para servir de atrativo para o cliente. vem o convite para o coquetel. o convite para um coquetel configura nova forma de seduzir o comprador por via indireta. O que parece um inocente coquetel. os clientes são encaminhados para as mesas dos vendedores. restaurantes. como absolutamente irrelevante eventual divergência entre o que foi tratado inicialmente e o contrato firmado. depois. avaliar criticamente o que está sendo dito. acreditando que vai para uma festa. onde lhes é dito que. Por outro lado. com todos os sentidos ocupados em transmitir ao cérebro informações novas. Primeiro. É do conhecimento de todos que existem equipes de "recepcionistas" atacando as pessoas em lugares públicos. no entanto. o cliente fica totalmente incapacitado de refletir sobre o que está comprando. é de referir o procedimento já aludido. portanto. sabe-se que os vendedores ou recepcionistas. o aliciamento do consumidor começa com uma pretensa entrevista. Identificado um cliente em potencial. Além disto. existe uma promoção "imperdível". que. acaba tendo várias funções. com apresentação de filme. Não é difícil perceber que. nem é apresentado o regulamento. são cuidadosamente treinado para falar continuamente e não deixar qualquer dúvida no espírito do cliente. apartamento decorado.

Tem-se. por parte do comprador. uma mentira. Agora imagina-se ao fim de um dia de trabalho. não há dúvida quanto à falta de capacidade. Mas isto a ré não aceita que seus clientes façam. devolvido assinado. Se o que foi referido não bastasse. Ademais. o comprador consiga atentar para o sentido de cada cláusula. de ameaça. Ao final deste bombardeio arrasador. etc. daí ser "norma" da empresa que o contrato seja assinadona mesma noite.. Muitas superproduções de Hollywood fracassam por não conseguirem manter a atenção do público por duas horas. depois de duas horas de agradável explanação. preparada por profissionais de marketing com aprofundados conhecimentos de psicologia. Fica evidenciado que todo o esquema está montado para induzir as pessoas a efetuarem o negócio sem a devida reflexão. o cliente é encaminhado ao vendedor. pode até ser bom o empreendimento oferecido pela ré. teve gastos com o coquetel oferecido aos autores. na obtenção da vontade do consumidor. Ora. mesmo lendo o contrato. tendo mais um vendedor à frente. o desrespeito de impedir o cliente de levar o contrato para ler na sua casa. Discorreu eruditamente a ré a respeito dos contratos e da coação. a explanação de duas horas apresenta-se como um exagero com o visível intuito de cansar os clientes e vencer suas últimas resistências. Resulta em um aparato de procedimentos mercadológicos que impõe sérias dúvidas a respeito da vontade livre e espontânea do consumidor. velada. Na verdade. Por outro lado. ao efetuar a compra. Não se discute este aspecto. fazer uma avaliação crítica e decidir pela aceitação da mesma. quando é instado a fechar o negócio. por leve que seja. aliados às técnicas de vendas. a cláusula que estabelece a multa de 35% é . se os autores tivessem levado o contrato para casa e. tendo em vista tudo o que já foi referido. ao fim de toda a maratona. após algum tempo. sociologia. um débito do convidado. portanto. Não creio que algum comprador pare para ler uma por uma das cláusulas. Primeiro. Não na forma de violência. que causa dificuldade para qualquer pessoa de visão normal ler na totalidade. que o preço está em promoção "só naquela noite". não se admite a coação. No caso em tela. Acontece que. independentemente das maravilhas de determinado produto ou serviço. utilizando a empresa ré de dois artifícios. todo um esquema montado para induzir o comprador a fazer um negócio que pode até não ser ruim. a coação"moderna". ou a capacidade reduzida. como a ré fez questão de lembrar. Segundo. O negócio teria sido livremente estabelecido. a coação existiu. duvido firmemente que. o contrato está impresso em letras minúsculas. convencendo sobre o insuperável empreendimento. para decidir. sustentando a inexistência desta no presente caso. Mas de forma sutil.203 um vínculo.

Publique-se e intimem-se. 49 do CDC. considerar rescindido. de foma que nenhuma despesa poderia ter efetuado a ré para prejudicar os autores. permite à vendedora. para 4 pessoas. pois não está redigida em destaque. 51. acrescentando-se. tenho como razoável. pois tinha conhecimento da pretendida rescisão. além de o contrato ser abusivo." Por fim. o presente compromisso". Trata-se de cláusula abusiva. § 6º. obtido de forma coercitiva. e 12ª. a começar ela aludida semana na Praia dos Ingleses. Isto posto. na medida em que o espírito que norteia o citado diploma legal deve ser preservado. por todas as circunstâncias que envolveram o negócio. § 6º. apesar de as partes serem domiciliadas nesta Capital. do contrato. decretando a rescisão contratual. como determina o art. a ré irá embolsar este valor. não permanecendo no empreendimento. quanto às despesas alegadas pela ré. Arcará a vencida com as custas processuais e honorários advocatícios de cinco salários mínimos. ainda. pois nenhum comprovante trouxe de que tenha realmente pago os valores referidos. § 5º. que "elege" o foro de Florianópolis para conhecer o contrato. de pleno direito. a desistência dos autores foi comunicada de imediato. art. como nos casos referidos nos casos referidos no aludido dispositivo. as taxas de associação ao tal de RCI. Alega a ré que a venda não ocorreu fora do estabelecimento comercial. métodos comerciais coercitivos ou desleais. mas a cláusula 4ª. bem como outras despesas. . teria aplicação o rt. logo. facilitando a sua compreensão. do Código do Consumidor. e o contrato aqui ter sido firmado. pois se trata de contrato abusivo. que esta mesma cláusula estabelece que o contrato é irrevogável e irretratável. o contrato é um amontoado de ilegalidades. como a cláusula 4ª. 54. conforme previsão do CDC.204 totalmente nula. bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos ou serviços. pois os autores. não foram comprovadamente pagas pela ré. 6º. § 4º. XI: "autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente. já que os autores não foram até a referida praia? Além disto. pois o consumidor teve reduzida a sua capacidade de decisão livre e conscientemente. No entanto. de execução obrigatória. Quem aproveitou esta semana. De qualquer forma." Quanto à aplicação do art. que diz: "São direitos básicos do consumidor: IV) a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva. 49. mesmo que fosse afastado o art. caracteriza-se a necessidade de uma especial proteção. sem que igual direito seja conferido ao consumidor. que estabelece mandato cambial em favor da vendedora. de forma que estaria ela buscando enriquecimento sem causa. nenhum direito tem ao ressarcimento. e também a cláusula 12ª. não serão associados da RCI. a requerida beira a má-fé. para declarar nulas as cláusulas 4ª. julgo procedente a ação. Aliás. De qualquer forma. Ademais. mesmo que eventualmente a situação concreta não se amolde perfeitamente à previsão legal. "em qualquer tempo.

passa a ser automaticamente permitido. Ana Maria Zauhy Garms. Orlando Gomes. Marco Aurélio Ventura Peixoto. 15 de abril de 1996. 37/38 3. p.379 6. Diz-se que a Lei de Defesa do Consumidor (Lei n° 8. 5. aqui. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor.078/90) é dos mais avançados sistemas legais dessa natureza.108 4. mesmo que moralmente condenável. Bayard de Freitas Barcellos Juiz de Direito 7. idem. deve provocar reflexão: é tão avançado talvez porque. Ana Maria Zauhy Garms. Moacyr Amaral Santos. Comentários ao Código de Processo Civil . Contratos.Hélio Zaghetto Gama. Curso de Direito do Consumidor. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor 11.108 7. Hélio Zaghetto Gama. III. em 18/0598 14. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão 9. Código de Processo Civil Comentado. 1. 11 2. p.Vol.Notas 1. p. 8. IV. p. 441. Instituições de Direito Civil .205 Porto Alegre. Ana Maria Zauhy Garms. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor 12. Publicado no Diário Oficial da União. Contratos. Ana Maria Zauhy Garms. 13. Orlando Gomes. . idem. Caio Mário da Silva Pereira. p. p.109 10. p. que ficam sujeitas ao bote do leão quando de suas aplicações".Vol. Essa constatação. o que não é vedado em lei. "São elas chamadas de leoninas porque são impostas nos contratos com o objetivo de prejudicar as partes mais fracas. antes de servir à ufania dos legisladores. Nelson Nery Junior.

. o direito não cogita mais da correspondência dos fatos apurados pelo juiz à realidade das coisas. da prova. a prova seria o instrumento pelo qual o juiz se utilizaria para definir a verdade dos fatos que efetivamente ensejaram a lide. reconhecido como o meio de obtenção da verdade dos fatos no processo. ao revés da prova puramente lógica e científica. a investigação dos fatos da causa preclude-se definitivamente e. portanto. a prova em geral da verdade dos fatos não pode ter limites. sem que influência nenhuma exerça sobre o seu valor o elemento lógico de que se extraiu. Resta saber o que significa a palavra "verdade" sobretudo tendo em vista a finalidade e limitações do processo civil enquanto manifestação humana e cultural. não dependem. (2) O próprio Código de Processo Civil Brasileiro induz a essa conceituação à medida que coloca a prova como instrumento de obtenção da verdade dos fatos. Conforme os ensinamentos de CHIOVENDA. a prova é. pelo menos repetido. provar significa formar a convicção do juiz sobre a existência ou não de fatos relevantes no processo. O texto legal determina que as provas têm a finalidade de obter a verdade dos fatos. sobre a limitação na necessidade social de que o processo tenha um termo. a partir desse momento. Nesse sentido. mas a prova no processo. transitado em julgado a sentença. e a sentença permanece como afirmação da vontade do Estado. em que se funda a ação ou a defesa. Observe-se que esses fatos somente dependem do procedimento probatório na exata medida em que sejam tidos como controversos. um meio de controle das proposições que os litigantes formulam em juízo (1).206 Inversão do ônus da prova no CDC e no CPC Autor: Ranieri Eich 1. e por isso. ou. a tem. considerada em seu sentido processual. com algumas variáveis. Os fatos aceitos.NOÇÕES PRELIMINARES 1. pois. Por si mesma. por boa parte da doutrina jurídica. Para COUTURE.1 – Conceito de Prova O conceito tradicional de prova adotado. estão aptos a receber a avaliação judicial como suportes de sua decisão. e sobre os quais concluirá sua atividade cognitiva. ativa ou passivamente pelas partes.

para introduzir o problema. as provas já produzidas. caso entender necessário. fatos que não foram alegados pelas partes. 130 e art. propostos pelos litigantes. um teste de coerência entre a formulação e o provável suporte fático da demanda. 1. a qualquer momento. não se produziram com observância das regras legais (4). assim. podemos destacar dentre eles. observa-se que a prova não é apresentada como meio de obtenção da verdade (e veremos que não há como pensar diferente) e sim como instrumento de formação de um raciocínio jurídico dotado de força em decorrência de seu proferimento por uma autoridade judiciária. conceituamos essencialmente a prova como a tentativa de demonstração objetiva dos fatos controvertidos com a intenção de facultar ao juiz a formação de uma hipótese razoável que possa ser adotada como suporte fático para a formulação de uma decisão. no ramo da ciência jurídica.2. foi atribuído ao juiz determinar as provas necessárias à instrução do processo e ao mandar repetir. se é possível formular um conceito que explicite o que realmente contém o conceito da prova. . Nesse sentido. A prova pode ser conceituada como o meio de representação dos fatos que geraram a lide no processo. na sua apreciação do feito. ambos do Código de Processo Civil.207 Exatamente. nem formar sua convicção com os meios que. parágrafo único. O princípio do ônus da prova será estudado posteriormente com maior ênfase. A prova também pode ser conceituada como todos meio de confirmação ou não de uma hipótese ou de um juízo produzido no curso do processo. Conforme o art. é preciso verificar a priori se a verdade pode ser obtida pelo processo em si e mais. Para além da definição legal que parte do pressuposto de ser possível o alcance da verdade fática no processo. a veracidade de sua existência (3). tendendo essa representação a equivalência limitada e não à perfeita identificação entre o objeto representado e o objeto representante.1 – Princípio dispositivo Para PONTES DE MIRANDA. necessariamente. 132. é preciso tentar sistematizar uma resignificação que efetivamente reconheça a complexidade do instituto. OVÍDIO BAPTISTA DA SILVA ressalta que. o juiz não pode levar em conta. nem sempre a prova de um fato demonstrará. Sendo. por isso.2 – Princípios da Teoria da Prova Dentre os princípios que informam a Teoria da Prova. 1. Em qualquer dos conceitos por nós antes apontados. o princípio dispositivo. o princípio da oralidade e o princípio da prova livre.

as provas devem ser produzidas em audiência. concentração.2. são hábeis para provar a verdade dos fatos. e das comunicações telegráficas e telefônicas). em que se funda a ação ou defesa. dizendo que o processo oral influi inclusive na moral processual.208 1.2.2 – Princípio da oralidade Pela determinação do art. imediatidade e autoridade judicial. (6) 1. O que se busca e dar celeridade ao processo e produzir. da correspondência. 1. existindo legalidade e moralidade. os incisos LVI (inadmissibilidade de provas obtidas por meios ilícitos). ainda que não especificados no Código. Complementam esta disposição legal e o referido princípio. o meio tido como hábil para o encaminhamento da verdade real e processual. vimos que o Juiz não precisa formular uma certeza acerca dos fatos controvertidos. tratando da oralidade do processo civil austríaco. pondo termo aos abusos e rodeios do processo escrito. porém sem excluir a escrita. mas lhe basta firmar um juízo de probabilidade que permita afastar as dúvidas razoáveis. E complementa. da imagem. Desses juízos provisórios será extraído o mais conforme com o que foi . quando necessário. o princípio da oralidade conduz à predominância da palavra. não permitindo a utilização da ilicitude. Em vista disso. do domicílio.3 – Destinatário da prova e motivação Pois bem. SIEGMUND HEELMANN.3 – Princípio da prova livre O disposto no art. salvo disposição em contrário. da vida privada. pelo uso de meios moralmente ilegítimos. uma vez que essas situações seriam incompatíveis com a seriedade e segurança da justiça. O que se vê na transição dos estados intelectuais do Juiz no processo é que ele parte de uma ignorância completa acerca dos fatos e à medida que o trâmite vai se desenvolvendo ele passa a forma juízos provisórios. (5) No sistema brasileiro. da honra. principalmente por causa da disparidade entre as despesas do processo rápido e o proveito eventual oriundo da morosidade processual. bem como os moralmente legítimos. 332 do Código de Processo Civil. X a XII (inviolabilidade da intimidade. as provas necessárias na audiência de instrução e julgamento. 336 do Código de Processo Civil. reflete que a justiça rápida e barata só pode ser conseguida pelos princípios da oralidade. prevê que todos os meios legais. permanecendo em momentos culminantes do processo como em quando da produção da prova oral.

se posta como efetivo meio de controle jurisdicional e social. Isto é. inclusive. o raciocínio judicial está sob avaliação conforme o exposto na sua motivação. após a instrução probatória.209 produzido em termos probatórios. Determinar o ônus probatório a cada uma das partes assegura ao juiz um modo de decidir quando enfrentando uma dúvida consistente. em última instância deve seguir um procedimento de coerência racional. o juiz deverá motivar sua escolha. assim. impõe-se ao juiz não somente que exponha suas razões para julgar do modo como julgou. caberá a este formar uma decisão que adote a hipótese mais provável como suporte fático. e nesse caso surge a importância da atribuição do ônus da prova. mas também. determinar porque selecionou racionalmente sua hipótese como a mais provável. em dúvida. expor o seu raciocínio. da decisão e formar o refluxo no senso comum do que é e o que não é justo. É a partir da motivação que se pode avaliar em termos extrajurídicos se a sociedade concorda com o conteúdo axiológico da decisão. ético. isto é. caberá a ele motivar racionalmente a sua decisão. É de se observar que a exigência de motivação é outro dos conceitos cujo reducionismo tem levado a um grave efeito social. um meio de permitir o Juiz o cumprimento de seu dever legal de decidir a lide. Sem essa argumentação não se pode ter como cumprida a exigência constitucional e legal de motivação. Em todo o caso. de o juiz não ter condições objetivas de formular sequer uma hipótese que considere razoavelmente provável. isto é. A atribuição do ônus da prova se constitui como instrumento de exteriorização de dois valores: o de facilitar a atividade jurisdicional e o da eqüidade. que aponte a coerência de suas conclusões com os dados que foram obtidos no processo. Como estamos no campo das probabilidades. A motivação permite aos indivíduos avaliar o conteúdo moral. isto é. Isso porque a motivação da decisão expõe o raciocínio judicial à validação social. Pode ocorrer. É. Com isto. o juiz deverá julgar conforme a desincumbência de cada parte de seu ônus. e principalmente. que. É evidente que. A motivação atende a necessidade das partes de entenderem os motivos pelos quais o Juiz foi levado a concluir desta ou daquela maneira. entre outros aspectos. econômico. diante do que foi demonstrado pelas partes e pela própria ação instrutória autônoma do Juiz. sempre. . em se tratando de sistema processual regido pelo princípio do convencimento racional do juiz. mas.

valorar a prova.5 – Distinção entre Ônus e Obrigação É imprescindível a distinção entre ônus e obrigação. tema que passamos a melhor analisar no item seguinte. certo que a omissão do devedor poderá resultar na sua coerção para que cumpra a obrigação. Obtém-se a noção de obrigação invertendo simplesmente a de direito subjetivo.210 Isso significa que a motivação judicial mais que tudo exige uma forma ordenada. "a diferença entre dever e ônus está em que (a) o dever é em relação a alguém. Uma vez que todos têm de provar não há discriminação subjetiva do ônus da prova. para ele. (9) Para PONTES DE MIRANDA. e. E complementa "o ônus da prova é objetivo. mas aos efeitos que a passividade e a inércia resultarão. no que tange aos fatos alegados (7). satisfazer é do interesse do próprio onerado". a satisfação é do interesse do sujeito ativo. um vínculo de vontade imposto pela subordinação de um interesse". ainda que seja em sociedade. o que não ocorre no que tange ao ônus". O ônus da prova. Como partes. que "é a circunstância de esta última ter um valor e poder. Ao decidir. não subjetivo. no aspecto de necessidade de provar. não sujeitando-se à coerção. todos os figurantes hão de prova. objetiva. há relação entre dois sujeitos. Já o ônus é uma faculdade que a parte tem. ser convertida em pecúnia. "obrigação é o lado passivo a que corresponde do lado ativo um direito subjetivo. o juiz constrói um raciocínio que deve se apresentar correto sob o ponto de vista dos meios de avaliação do pensamento jurídico. onde. 1. um dos quais é o que deve. significando carga. coerente e justificável de raciocínio que adentra ao campo da argumentação jurídica. Ônus probandi tem como tradução o encargo de provar. Pode dizer-se que o direito subjetivo é um interesse protegido mediante um poder de vontade ou um poder da vontade concedido para a tutela de um interesse. onde requer uma conduta de adimplemento ou cumprimento. peso. assim. assim. 1. sujeitos da relação jurídica processual. regula conseqüência de se não haver . Em regra a obrigação está ligada ao direito material. não há relação entre sujeitos.4 – Ônus da Prova: Etimologia da Palavra Ônus deriva do latim ônus. Leia-se encargo no sentido de interesse de fornecer a prova destinada à formação da convicção do magistrado. ou em outros termos. inclusive quanto a negações. ao passo que (b) o ônus é em relação a si mesmo. É a obrigação um interesse subordinado mediante um vínculo. ARRUDA ALVIM coloca outra distinção importante entre o ônus e obrigação. (8) Com precisão CARNELUTTI estabeleceu a distinção entre ônus e direito de provar.

algum fato ou prova que foi apresentado pelo autor ou pelo réu. a favor do demandante adverso. tem o réu de diligenciar. ou.. afirma e prova a inexistência do fato que lhe elide os efeitos jurídicos. necessidade de esclarecimento para decidir a demanda. incumbe ao Autor a prova da ação e ao réu. independentemente de quem vai produzi-lo. De modo mais simples. a provar fatos que provam a inexistência do fato provado pelo autor. o autor). para benefício e interesse próprios. (12) O princípio distributivo atinente ao ônus da prova tem base legal no Código de Processo Civil. na demanda. a estabelecer quais os fatos considerados existentes pelo juiz devem bastar para induzi-lo a acolher a demanda (constitutivos)" (11). pode ocorrer em dois propósitos: a) ou o réu tende. portanto. Mas. ou a quem contraafirmou (= negou ou afirmou algo que exclui a validade ou eficácia do ato jurídico afirmado). de modo direto ou indireto (e dizem-se motivos) e temos daí a simples prova contrária ou contraprova. a sua prova. Em sede de responsabilidade civil. somente como já foi dito.) somente quando o autor trouxe provas idôneas para demonstrar a existência do fato constitutivo de seu direito. De acordo com esse sistema. Conclui-se que a inversão do ônus da prova deve ser deferido pelo juiz sempre que houver.6 – Inversão do ônus da prova O ônus da prova. atual Código de Defesa do . Resulta óbvio que nenhuma das partes será obrigada a (ou terá interesse em) fazer prova contrária às suas alegações. o de determinar a quem vão as conseqüências de se não provado. a seu turno. Já GIUSEPPE CHIOVENDA ensina que "(. na demanda. da exceção. 1. a Lei 8.078/90. no caso concreto. de seu lado. b) ou o réu. a prova da exceção". no dizer de ECHANDIA é o poder ou faculdade de executar livremente certos atos ou adotar certa conduta prevista na norma. ao que afirmou a existência do fato jurídico (e foi. Em verdade. mas cuja inobservância acarreta conseqüências desfavoráveis. A questão do ônus da prova reduz-se. seja o outro interessado. ficando o tema restrito à seara da prova negativa quanto ao fato constitutivo. sem sujeição nem coerção e sem que exista outro sujeito que tenha o direito de exigir seu cumprimento. portanto. e aí temos a verdadeira prova do réu. o réu" (10). as regras sobre conseqüência da falta dd prova exaurem a teoria do ônus da prova. sempre se levando em consideração as possibilidades que as partes possuem para produzir tais provas..211 produzido prova. sem excluir o fato provado pelo autor. para seu convencimento. Se falta a prova é que se tem de pensar em determinar a quem se carrega a prova. O problema da carga ou ônus da prova é. cada parte tem a faculdade de produzir prova favorável às suas alegações. o denominado ônus da afirmação. isto.

" O emérito doutrinador complementa: "Tal deliberação se escora não só nos princípios que governam a prova prima facie como também nos que regem o sistema processual brasileiro. 294. de per se não respaldaria uma atitude tão drástica como a inversão do ônus da prova. uma vez em dúvida. do Código de Processo Civil. os quais autorizam o juiz. conforme segue: "Na sistemática do Código. por provados prima facie. art. Cada parte deverá nortear sua atividade . à regra que lhe impõe não sacrificar a defesa dos interessados (Cód. de ofício. cit. de maneira a prosseguir isento de vícios ou de questões que possam obstar ao conhecimento do mérito da causa. decretar a inversão do ônus probatório. por então já ter conhecimento dos fatos alegados na inicial e na defesa. utilizar-se-á das regras de experiência a favor do consumidor.6. sempre atento. nada impedindo que o juiz alerte. por si só. no qual o juiz. ordena o processo. nos artigos 117 e 294. IV). A respeito. (14) A inversão do ônus da prova é direito de facilitação da defesa e não pode ser determinada senão após o oferecimento e valoração da prova. É dispensável caso forme sua convicção. (1968. cumpre ao juiz. 112)". Será neste despacho. convém ressaltar que. pois a total ausência de evidências do indispensável nexo de causalidade redundaria em esdrúxulas situações. se o fato afirmado é destituído de um mínimo de racionalidade. art. determinando providências de natureza probatória (Código Processo Civil. se e quanto o julgador estiver em dúvida. contém dispositivo que permite a inversão do ônus da prova. há o despacho saneador. na decisão saneadora que. ao contrário da opinião de alguns doutrinadores.VIII). logo depois da contestação à ação.212 Consumidor (artigo 6º. determinar as diligências necessárias à instrução do processo. ANTONIO GIDI a respeito adverte que verossímel a alegação sempre tem que ser. 515 e 516)". devendo atentar-se que o doutrinador refere-se ao velho Código de 1939. desde que verificadas a verossimilhança do direito e a condição de hipossuficiência do demandante. Conhecidos os fatos alegados e havendo-os como verossímeis. págs. no despacho saneador – escreve Pedro Batista Martins – para evitar o cerceamento da defesa daquele a quem os mesmos fatos se opõem.1 – Momento processual da inversão do ônus da prova O doutrinador Moacyr Amaral Santos assinala qual o momento processual que considera o mais adequado para a aplicação da inversão do ônus da prova. todavia. uma vez considere algum ou alguns fatos provados prima facie. ´anulando-lhe pela surpresa a possibilidade de produção de prova contrária’. essa modificação. A hipossuficiência do consumidor. a simples condição de hipossuficiência não autoriza. o momento próprio para decretar a inversão do ônus probatório. tendo-os dada a sua natureza. vale dizer. saneando o processo. (13) 1.

Considerando que as partes não podem ser surpreendidas. parece mais justa e condizente com as garantias do devido processo legal a orientação segundo a qual o juiz deva. conforme segue: INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . a inversão do ônus da prova igualmente pode ser prevista. conforme jurisprudência a seguir: INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . atentaria contra os princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa (CF. estaria a seu cargo. caso efetivada". não existia antes da adoção da medida -. Por isso. regras de comportamento dirigidas aos litigantes. Contudo. também. ao avaliar a necessidade de provas e deferir a produção daquelas que entenda pertinentes. por força da inversão determinada na sentença. mudando a regra até então vigente. VIII. para ele. assumirá o risco de sofrer a desvantagem de sua própria inércia. prolatada no Acórdão n. sem dúvida. assegurada a qualquer custo.RESPEITO AOS PRINCÍPIOS DO CONTRADITÓRIO E DA . não nos parece constituir ofensa aos cânones constitucionais a inversão no momento da decisão. LV). ao final. (18) Também em julgamento da Quarta Câmara Cível do Tribunal de Alçada de Minas Gerais. (15) CARLOS ROBERTO BARBOSA MOREIRA argumenta que as normas sobre a repartição do ônus probatório consubstanciam. do Código de Defesa do Consumidor. (17) A jurisprudência vem entendendo que o momento da inversão do ônus da prova deve ser antes de prolatada a sentença. explicitar quais serão objeto de inversão.078/90). a inversão no momento do julgamento. com a incidência das regras de experiência a favor do consumidor. Se não agir assim. Logicamente. citando inclusive KAZUO WATANABE é de que "a garantia do devido processo legal deve ser. obviamente deve o órgão jurisdicional assegurarlhe a efetiva oportunidade de dele se desimcumbir. Se lhe foi transferido um ônus – que. decidiram por unanimidade.213 probatória de acordo com o interesse em oferecer as provas que embasam seu direito. 5º.º 0301800-0 Apelação Cível de 01/03/2000. tendo como relator o Juiz Alvimar de Ávila. art.Inteligência do artigo 6º. Se a pretensão estiver fundada em relação de consumo. este pode merecer incidência. (16) A posição de LUIZ EDUARDO BOAVENTURA PACÍFICO. não implicando surpresa ou afronta aos citados princípios. expressamente conceituados pelo Código (artigos 2º e 3º da Lei 8. protagonizada por consumidor e fornecedor. com um provimento desfavorável decorrente da inexistência ou da insuficiência da prova que. A partir do conteúdo da petição inicial – com a exposição de causa de pedir e do pedido – às partes envolvidas no processo é perfeitamente possível avaliar se há a possibilidade de aplicação das normas do Código do Consumidor ao caso concreto.RELAÇÃO DE CONSUMO OPORTUNIDADE .

078/90. que tratam do ônus financeiro da produção dos atos processuais. Surge daí a questão: invertido o ônus da prova nas lides de consumo.2 – Inversão do ônus da prova e despesas processuais Conforme imposição legal do art. 19 e seguintes. na audiência de conciliação ou em qualquer momento que se fizer necessária. é que sua aplicação deve submeter-se ao poder discricionário do juiz. podendo advir daí possíveis conseqüências desagradáveis para quem o requereu e não adiantou as despesas. 333.214 AMPLA DEFESA . . cabe às partes. devendo ser decidida. o magistrado escolherá a o momento para determinar a inversão do ônus da prova. As normas consumeristas. Podemos classificar essa imposição legal como um verdadeiro ônus processual. não há qualquer exceção às regras gerais estabelecidas no Código de Processo Civil. Desta forma. 333 do Código de Processo Civil. o que incorreria em cerceio de defesa.º 8. sob pena de supressão desta. todavia. sob pena de não poder ser adotada na sentença. levando-se em conta a doutrina e a jurisprudência. da Lei n. Recurso a que se nega provimento. após especificação das provas. a quem cabe o ônus de antecipação de despesas nos casos de atos probatórios requeridos pelo consumidor. e não das normas do art. pois a sua finalidade é formar a convicção do julgador. constituem exceção ao art. 1. ser decretada no despacho inicial. de preferência. Conforme ensinam doutrina e jurisprudência. depende de decisão fundamentada do magistrado antes do término da instrução processual. cujo descumprimento implicará em não ser realizado o ato requerido.6. pois. podendo.MATÉRIA VENTILADA NAS RAZÕES RECURSAIS IMPOSSIBILIDADE DE CONHECIMENTO PELO TRIBUNAL. desde que assegurados os princípios do contraditório e ampla defesa. resta impossibilitado examinarse em grau de recurso matéria sobre a qual não houve manifestação da primeira instância. VIII. antecipando os pagamentos durante o curso processual. A inversão do ônus da prova. 19 do Código de Processo Civil (19). determinadas de ofício pelo juiz ou requeridas por ambas as partes? Nestas hipóteses. em regra. do CPC. que trata do ônus subjetivo da prova. A aplicação do art. no momento do saneador. pelo simples fato de não se poder identificar o ônus de provar com o ônus financeiro de realização dos atos probatórios. suportar as despesas dos atos que realizem ou requerem dentro do processo. como exceção à regra geral do art. 6º.

Caso seja o consumidor economicamente hipossuficiente. §2o. além do nexo de causalidade e do dano verificado. sendo de todo irrelevante qualquer exigência de prova a respeito. cabendo a quem alegar contra o Estado. especialmente o nexo de causalidade entre a atuação estatal e o resultado apontado. que o Estado tem presunção de legitimidade. na sua grande maioria. garantidoras do interesse público. cabe ao consumidor arcar com os ônus financeiros de atos probatórios por ele requeridos. seja porque a natureza do ato não guarde equivalência com o risco da atividade pública. 19. porque. o ônus da prova quanto ao fato constitutivo de seu direito. Incumbe ainda ao demandante provar o dano e sua extensão. seja na de risco. muito menos das regras atinentes ao Estado em juízo. dispõe o mesmo da possibilidade de requerer a assistência judiciária prevista em nosso ordenamento pela já mencionada Lei 1. seja porque esse tenha sido o móvel da demanda. a teoria do risco administrativo não submete o Estado a nenhum tipo de inversão apenas porque a vítima é dispensada da prova de culpa da Administração Pública.CPC) ou com as despesas de perícia requerida por si ou por ambos os litigantes (art. nesse caso. à parte incumbe o ônus da prova a respeito da ilicitude do ato. ao Autor. provar o que alegou.060/50. não se revela como pressuposto do reconhecimento da responsabilidade do Estado.3 – Responsabilidade do Estado e o ônus da prova Quanto ao ônus probatório. (20) Também não se pode modificar o regime de apuração quando se discuta a responsabilidade do Estado com base em relação protegida pelo Código de Defesa do Consumidor. a regra de inversão do ônus da prova a favor do consumidor não implica na revogação do sistema probatório do Código de Processo Civil. 1. devendo arcar ainda.215 Assim. como nos casos de conduta omissiva e de atos praticados sem caráter administrativo. também como fatos constitutivos do direito reclamado. Em se tratando de atos administrativos a respeito dos quais o reconhecimento da indenizabilidade tenha como pressuposto a culpa indireta da Administração.6. com as despesas prévias de atos ordenados de ofício pelo juiz ou pelo Ministério Público (art. É que a culpa. bem como a anormalidade e especificidade da exigência pessoal decorrente da imposição administrativa. seja na hipótese de culpa. A jurisprudência vem entendendo. Mas há julgado em sentido diferente como o que abaixo descreve-se: . se for o autor da demanda. Resta todavia. como antes demonstrado. 33 CPC).

pois "o juiz proferirá a sentença. desprezou o fundamento do pedido de nulidade da execução. nesse ponto. através da prova .Rel.DJU 17. inverteu-se. estando sempre em estreita correlação com o que se alega.01. Como fato constitutivo da pretensão do autor. nos termos do art.1999. p.3ª T. Relatora Juíza Eliana Calmon).ALEGAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DE NOTIFICAÇÃO DO CONTRIBUINTE POR OCASIÃO DA LAVRATURA DO AUTO DE INFRAÇÃO INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA .09. o pedido formulado pelo autor". .INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA NO PROCESSO CIVIL O núcleo da regulamentação do ônus da prova está inserido no art.. III .I . o ônus da prova.01. A distribuição do ônus da prova é casuística. ficando a Fazenda Nacional com o encargo da prova de ter realizado a notificação. positiva ou negativamente. Juiz Jamil Rosa de Jesus .Apelação provida.11165-2 . 1ª parte.PA ..) Como fato extintivo temos a alegação de prescrição do direito . (TRF 1ª R. ao julgar improcedentes os embargos sem a produção dessa prova. 333 – O ônus da prova incumbe: I – ao autor. IV . modificativo ou extintivo do direito do autor. Parágrafo único.15745-0 /AP. por exemplo. .Tendo os embargos se fundamentado na inexistência de notificação do contribuinte por ocasião da lavratura do auto de infração. seja produzida e os embargos decididos como de direito. É nula a convenção que distribui de maneira diversa o ônus da prova quando: I – recair sobre direito indisponível da parte.PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL . acolhendo ou rejeitando. quanto ao fato constitutivo de seu direito.A sentença.216 TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL . do Código de Processo Civil. expondo-se conseqüentemente à nulidade. quanto à existência de fato impeditivo. 459.Unânime . no todo ou em parte. II . temos a prova da culpa nas ações de ressarcimento dos danos contratuais e extracontratuais.afastamento da presunção juris tantum de certeza e liquidez do título executório'' (Apelação Cível 96. 333 do Código de Processo Civil.NULIDADE DA SENTENÇA . Precedentes deste Tribunal: ausência de notificação alegada pela embargante e não desmentida pela Fazenda.AC 95. II – ao réu.Anulação do processo. II – tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito. (. a fim de que a prova da notificação. como segue: Art. 29)(Grifo nosso) 2.

enfim. para a busca da verdade. ou não o provando. está desvinculado. A segunda opção implica: a) o adiamento do problema através da prolação de uma decisão provisória (no estado do processo). Num sistema que admitisse a pesquisa de ofício da veracidade dos fatos. e. o emprego das regras da distribuição do ônus da prova. A primeira opção importaria ao juiz de decidir a causa. o réu admite. o juiz mesmo tendo diante de si duas partes. sua conceituação. necessariamente decisório (como o duelo e o juramento). b) ou o uso de um meio mecânico de prova. que conseqüentemente deve ser provada pelo réu.. inserção no sistema do processo. passível de discussão e de dúvidas. se forem os atos constitutivos produzidos com prova insuficiente. simplesmente por que ao juiz incumbiria a busca da verdade dos fatos e a cooperação das partes seria pelo menos dispensável e sequer haveria como sanciona-las pela omissão de provar. desde que especificamente contestados. e prova. dependerão. b) ou insiste em resolve-la. se o autor alega. c) ou. outro lhe opõem. distinção de figuras afins. de prova complementar. Onde se tivesse um processo puramente inquisitivo. ou em decidi-la de maneira tal que não exigisse a resolução daquela questão de fato (de que seriam exemplos o julgamento por sorteio e o julgamento salomônico). impeditivo. admitindo o fato. abre-se tecnicamente para o juiz o seguinte leque de alternativas: a) ou ele prescinde de resolver aquela questão de fato. pronunciando o non liquet (que não é admissível no direito moderno). não se cogitaria em ônus probandi. nem das conseqüências de seu descumprimento. (22) Para SÉRGIO SAHIONE FADEL. se o autor alegar o fato e o réu contestar. (23) As regras sobre o ônus da prova e sua distribuição constituem uma inerência do princípio dispositivo. da iniciativa e dos acordos entre elas (25). servindo para esclarecer muitos pontos de dúvida e ditar o correto direcionamento e justa medida das conseqüências dos possíveis comportamentos comissivos ou omissivos das partes". se ele mesmo alega e o réu não contesta. Quando uma questão de fato se apresenta como irredutivelmente incerta dentro do processo. (26) A intensidade do ônus da prova é problema relacionado com o modo como o . o ônus probatório é do réu. o ônus da prova é do autor. (21) CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO nos ensina que "a teoria dos ônus processuais. não teria significação a repartição do ônus da prova..) Desse modo. o fato se presume verídico. (24) No processo civil inquisitório. constitui uma das mais lúcidas e preciosas contribuições que se aportaram à sua ciência no século XX. modificativo ou extintivo do direito do autor.217 do autor. de sua certeza definitiva. (.

Para SANDRA APARECIDA SÁ DOS SANTOS. 159). torna-se irrelevante indagar quem a produziu. por exemplo. sendo importante apenas verificar se os fatos relevantes foram cumpridamente provados (princípio da aquisição). quanto ao fato constitutivo do seu direito. para que se considere extinto esse direito real (art. quem afirma um fato positivo tem de o provar. Seja para a pacificação dos conflitos com justiça. 946). pois seria tolhida ao juiz a liberdade na avaliação da prova. vale dizer. uma vez produzida a prova. (28) 2. 130 do CPC) ainda que as partes tenham pactuado de maneira diversa". Objetivamente. prova de inexistência da dívida para a repetição de indébito (art. em que se encontra cada uma das partes. (27) Quanto à distribuição do ônus da prova se admitir que as partes convencionem. O fato . ao réu. Assim. modificativo ou extintivo do direito do autor. por 10 anos. contudo. Aqui. porque há duas negativas na primeira proposição". o ônus da prova incumbe ao autor. (29) Na colisão de um fato negativo e de um fato positivo.1 – Da prova negativa Para analisarmos este aspecto. segundo o disposto no art. é preciso dispor a técnica processual (em sede legislativa ou na prática da jurisdição) de modo a não figurar como impedimento à fruição ou defesa de direitos. quanto à existência de fato impeditivo. é possível fazer prova dos chamados fatos negativos. "O princípio dos poderes instrutórios do juiz prevalece obre a faculdade dispositiva dos contratantes. E continua: "Quanto à primeira conclusão. da servidão. O ônus da prova consiste na necessidade de provar. não pode ser aceito. prova de omissão culposa para a indenização por ato ilícito (art. é importante ressaltar os ensinamentos de JONATAS MILHOMENS. O ônus da prova recai sobre aquele a quem aproveita o reconhecimento do ato. O princípio da liberação do ônus da prova levaria (a) ou a uma direta oposição a textos legais ou (b) à conseqüência absurda de um julgamento sem prova". para possivelmente vencer a causa. que o ônus da prova é sempre de quem afirma. basta lembrar que o Código Civil exige. prova do não-uso. seja para a fidelidade na declaração e atuação da lei. III). Note-se: não é impossível equivale à é possível. vale dizer. o juiz pode determinar a produção da prova (art. 710. a racionalidade dos critérios de julgamentos pela aceitação da probabilidade suficiente em vez da certeza absoluta nem se coloca em termos da tensão entre os princípios que apontam para soluções diferentes. ver-se-á que não é impossível. com preferência a quem afirma um fato negativo.218 processo se insere na vida dos direitos e no modo de ser da vida em sociedade. Quanto segunda absurda conseqüência. 333 do Código de Processo Civil. que afirma que "Não é exato afirmar que a negativa não é prova.

São direitos básicos do consumidor: (. VIII." (30) 3. tal se compreende fora da atividade própria do juiz. ou b) o consumidor é hipossuficiente.). 6º . no processo civil. é necessária a presença de um dos requisitos ali encontrados e não a presença de ambos. porque. Dono do processo (dominus processi) é o juiz e. Para SANDRA APARECIDA SÁ inciso III do art. conjunção aditiva ‘e’. O emprego da conjunção alternativa e não da aditiva ‘e’. 6º é clara. que afirma que "o ato judicial. bastando que ocorra a primeira ou a segunda". Para tanto. A facilitação de defesa não pode ser entendida como interpretação das regras .219 negativo pode ser provado através de provas indiretas. fixar o objeto da demanda. teria utilizado a do direito que onde o legislador restringe. que as partes possam orientar o processo a seu talante. a seu favor. porém. JOÃO BATISTA LOPES afirma que "a admissão do princípio dispositivo não significa. aceitar a convenção das partes. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. (32) A igualdade formal entre as partes é regra básica do processo civil. o juiz deverá inverter o ônus da prova. constante e seu art. Art. é requisitos. É princípio basilar não é permitido ao intérprete ampliar". Constatando-se a presença de verossimilhança das alegações ou a hipossuficiência do consumidor. Fica clara e evidente a regra processual. à evidência. a critério do juiz.. inclusive com a inversão do ônus da prova. quando. (31) DOS SANTOS "a norma estabelecida no necessária a presença de apenas um dos o legislador. indicará a ocorrência de um dentre essas duas situações: a) a alegação do consumidor é verossímil. segundo as regras ordinárias de experiência. Esse mesmo posicionamento é corroborado por CARLOS ROBERTO BARBOSA MOREIRA. significa que o juiz não haverá de exigir a configuração simultânea de ambas as situações. inc. na formação das bases da sentença.. O ÔNUS DA PROVA E O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR O Código de Proteção e Defesa do Consumidor tem norma expressa a respeito da inversão do ônus da prova.) VIII – a facilitação da defesa de seus direitos. etc. devidamente motivado. ou seja. se às partes se conferem certos poderes de disposição (indicar os meios de prova. não sendo este obrigado. 6º. se assim não o fosse.

alega-se que esta não poderia servir de base para a alegação de inversão do ônus da prova. O momento da inversão do ônus da prova. em seu artigo 19. de seu funcionamento vital ou intrínseco. despesas processuais. entendo que tal preceito "transferiu" a obrigação do Estado de assistir aos necessitados para as empresas. pois a parte poderia pedir assistência judiciária gratuita. dos modos especiais de controle. Contra . de suas propriedades. pois este princípio é de direito "material". nestas incluídas as relativas às perícias e à obtenção de certidões. (35) Quanto à insuficiência econômica. Para FRANCISCO CAVALCANTI. o que de certa forma. é o da sentença. Importante frisar que o simples fato da inversão não tem o condão de pré-julgamento de mérito desfavorável ao demandado. etc (34). dos aspectos que podem ter gerado o acidente de consumo e o dano. No entender de ARRUDA ALVIM. ao contrário. reside na circunstância do consumidor ser hipossuficiente. Para LUIZ ANTONIO RIZZATTO NUNES ensina que a hipossuficiência. antecipando-lhe o pagamento.220 processuais em favor do consumidor. defendido pelos autores do anteprojeto do Código de Brasileiro de Defesa ao Consumidor. tem sentido de desconhecimento técnico e informativo do produto e do serviço. no que pode ser atendida ou determinada ex officio pelo juiz. Entenda-se por hipossuficiência os aspectos que abrangem o aspecto técnico e o aspecto econômico. estabelece: "Salvo disposições concernentes à justiça gratuita cabe às partes prover as despesas dos atos que realizam ou requerem no processo. para fins da possibilidade da inversão do ônus da prova. (36) A inversão do ônus da prova poderá ser requerida pela parte. é outra norma de natureza processual civil com o fito de. afastaria a hipossuficiência econômica como autorizadora da inversão do ônus da prova. das características do vício. O hipossuficiente tem dificuldade ou impossibilidade na produção da prova. cuida-se. desde o início até a sentença final". em virtude do reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor. (33) Quanto à segunda hipótese onde é possível a inversão do ônus da prova. fundamentando para tal que os dispositivos sobre o ônus da prova constituem regras de julgamento. procurar equilibrar a posição das partes. Não pode haver "facilitação" por interpretação. a critério do juiz. com isenção de custas. juntamente com o jurista CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO. somente de um ônus processual. uma vez que o diploma afeto ao consumidor é composto de normas de ordem pública. atendendo critérios da existência da verossimilhança do alegado pelo consumidor. aquela só pode decorrer de expressa previsão legal. O Código de Processo Civil. seja porque não é acessível à parte ou estas informações estão em mãos da outra parte. no tocante à inversão do ônus da prova em função de hipossuficiência do consumidor.

aquela só pode decorrer de expressa previsão legal. E complementa: o fornecedor.. deverá ele proceder no sentido de . tem obrigação de manter em seu poder todos os dados. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. 3. informações. Para HUMBERTO THEODORO JUNIOR a verossimilhança é juízo de probabilidade extraída de material probatório de feitio indiciário. isto é. planilhas. 6º: São direitos básicos do consumidor: (. cálculos. (37) Para tanto.221 este entendimento. a critério do juiz.1 – Aplicação do art. em respeito às características estabelecidas pela lei. 6º do Código de Defesa do Consumidor. cada rito. pois este princípio é de direito material. declara. etc. sendo necessário a presença de pelo menos uma delas. acerca de seus produtos e serviços.) VIII – a facilitação da defesa de seus direitos. Não pode haver facilitação por interpretação. quando. qual seria um direito básico do consumidor: Art. O consumidor não está obrigado a comprovar antecipadamente o seu direito. A facilitação de defesa não pode ser entendida como interpretação das regras processuais a favor do consumidor. por força de obrigações impostas pelas normas protetoras do consumidor. usam-se dois motivos para caracterizar o equívoco: a) ofende. Nos ensina FRANCISCO CAVALCANTI que a igualdade formal entre as partes é regra básica do processo civil. sendo bem mais fácil a comprovação de fatos referentes a esses bens e serviços pelo fornecedor que pelo consumidor. de distribuição do ônus da prova são de procedimento. inclusive com a inversão do ônus da prova. sobretudo quando se tratar de hipossuficiente. no processo civil. do qual se consegue formar opinião de ser provavelmente verdadeira a versão do consumidor. segundo as regras ordinárias de experiências. são necessários os requisitos normativos da verossimilhança das alegações feitas pelo consumidor e a sua hipossuficiência. a finalidade do instituto do ônus da prova é de facilitar a defesa dos direitos do consumidor. os princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa. deve ter um tratamento diferenciado. necessariamente. o art.. de maneira absoluta. Não é necessário para tanto que ambas atuem juntas. b) as regras. (38) Parecendo ao Magistrado presentes os requisitos constantes do inciso VIII do art. 6º. Tudo dependerá do procedimento adotado. VIII do Código de Defesa do Consumidor Como já vimos. entre outros. É forçoso reconhecer que alguns sistemas jurídicos não admitem essa inversão do ônus da prova. 6º do Código de Defesa do Consumidor em seu inciso VIII. fórmulas. a seu favor. Assim.

A prova do pagamento se faz consoante previsto nos arts. para que se proceda no contexto da facilitação da defesa dos direitos do consumidor e subordinado ao critério de prudente arbitrio do juiz.PRESSUPOSTOS PRESENTES .INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . 38 do Código de Defesa do Consumidor O art.AC 18947500 .222 inverter o ônus da prova ao fornecedor.Des. estão submetidos as disposições do código de defesa do consumidor. assim evidênciada a hipossuficiência do agravado em virtude do poderio técnico-econômico do banco agravante. 3. conforme segue: Art. com o seu improvimento. Seu silêncio remeterá à preclusão a matéria impedindo novo pronunciamento.AGRAVO DESPROVIDO. incrível e desprovida de qualquer prova a lhe dar algum suporte.2002)(Grifo nosso). inaplica-se a inversão do ônus da prova em favor do consumidor. AUSÊNCIA DE VEROSIMILHANÇA NA VERSÃO AUTORAL. Recurso conhecido. PROVA DO PAGAMENTO INEXISTENTE. 3. Benito Augusto Tiezzi DJU 14. É importante e imprescindível que o Autor prove através de fatos e alegações subsistentes o seu direito.Julg.Rel.2ª C. 13.08. inadmindo-se unicamente a mera assertiva verbal.2002)(Grifo nosso). Neste sentido o aresto que segue: CIVIL. o que justifica a improcedência da postulação inicial.2 – Aplicação do art. que a aplicação da inversão do ônus da prova no despacho saneador poderá ser objeto de agravo de instrumento por parte do fornecedor.03. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. Sidney Mora .AÇÃO REVISIONAL DE CONTRTO BANCÁRIO. entretanto. e licita a inversão do ônus da prova. CDC. 939 e seguintes do Código Civil. Improvimento do Agravo de Instrumento (TJPR .(TJDF . para que possa ser invertido o ônus da prova a seu favor. mantendo-se íntegra a r. Embora incidentes as regras do CDC. por força do contido na Súmula 424 do STF (39) e a jurisprudência a seguir: AGRAVO DE INSTRUMENTO. 1. CONTRATO DE ABERTURA DE CRÉDITO . 38 do Código de Proteção e Defesa do Consumidor trata da inversão do ônus da prova frente à publicidade enganosa.Cível .AC Nº 20020710013023 .2ª T . 38: O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou . sentença recorrida.Rel. Os estabelecimentos bancários como prestadores de serviços. bem como a verossímilhanca de suas alegações. 2. É importante observar. Des. Apenas alegações desprovidas de qualquer prova não são o suficiente para que seja concedido a inversão do ônus da prova em favor do consumidor. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA MANTIDA. quando sua versão é por demais insubsistente.

Portanto. No aspecto processual propriamente dito. pois havendo estabelecimento da lide processual. (43) o julgado do Tribunal de Justiça do Paraná abaixo transcrito: CIVIL PROCESSO CIVIL.º 8. detentor de fórmulas. SEM NADA COMPROVAR. 6º. antecipadamente e independentemente de qualquer pronunciamento jurisdicional interlocutório ou definitivo. sem qualquer vício de origem ou distorção nas características apresentadas. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. 1. CDC. por norma legal cogente. onde a facilitação da defesa do direito do consumidor com a inversão do ônus da prova depende do exclusivo critério do magistrado que. dados. 333) quanto ao ônus da prova. em inversão do princípio previsto no Código de Processo Civil (art. deverá verificar a verossimilhança das alegações e/ou a hipossuficiência do mesmo. 38 do CDC difere daquela ínsita no art. know-know. e justifica-se como meio para alcançar a verdade real. caberá ao fornecedor a obrigação de comprovar que a informação publicitária de seu produto chegou ao consumidor. referentes ao produto e serviço objeto da comunicação ou da informação publicitária o mais habilitado para comprovar. O Tribunal de Justiça de São Paulo tem julgado no sentido de que ao contrário do previsto no inciso VII do art. sem que haja necessidade de uma fase pré-cognitiva de critério subjetivo por parte do juiz. VEROSSIMILHANÇA DAS ALEGAÇÕES. aquele. (41) O fornecedor de serviços. atende pela teoria do risco onde deverá responder por ato ilícito independentemente da apuração de culpa. (40) Participa da mesma opinião FRANCISCO CAVALCANTI que afirma que a previsão resulta. PROCEDÊNCIA DO PEDIDO INICIAL. 38 da Lei n. segundo as regras de experiência. podendo para tanto distribuir tal responsabilidade. antes de tudo. Como nos ensina STEPHAN KLAUS RADLOFF o ônus da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a quem as patrocina. do mesmo pergaminho legal. como no caso da propaganda enganosa. a inversão do ônus da prova opera-se automaticamente. 38. (42) Esse mesmo raciocínio utiliza-se STEPHAN KLAUS RADLOFF que nos ensina que seria desnecessária a declaração taxativa no despacho saneador de que caberá ao fornecedor o ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária. REVELIA. Nesse mister. na prática.m está o fornecedor obrigado a provar a obrigação contida no art. OFERTA EM ANÚNCIO DE JORNAL INTEGRA AS CONDIÇÕES DO CONTRATO.223 comunicação publicitária cabe a quem as patrocina.078/90. pelo fato de ser. . tem intenção de auferir lucro. 6º do CDC. na hipótese contemplada no art. FORNECEDOR QUE APENAS ALEGA. DEFEITO DE REPRESENTAÇÃO NÃO SANADO. deve-se levar em conta que a forma de aplicação do art.

do ramo de compra e venda de automóveis.. 1991. VI do Código de Defesa do Consumidor A inversão do ônus da prova nos moldes estabelecidos no art. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR. aplicando-se-lhe os seus efeitos para que sejam presumidos como verdadeiros os fatos alegados pelo autor em sua inicial. inverte-se o ônus da prova. para sanar este defeito de representação.o que passou desapercebido ao juiz sentenciante . 51. não produz qualquer efeito no campo jurídico. Francisco Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor Belo Horizonte: Del Rey. como se jamais tivesse existido. segundo impõe a lei consumerista. Benito Augusto Tiezzi . . Art. intimada a ré. limitando-se a alegar.(TJDF . Giuseppe Campinas/SP: Bookseller. VI do Código de Defesa do Consumidor. Cândido Rangel Teoria Geral do Processo12ª Edição.Rel. declarável de ofício pelo magistrado. Des.DJU 06. que quem firmou a contestação foi outro advogado e não aquele constituído nos autos . Pinto Código de Processo Civil Comentado – Volume 2 São . 30. DINAMARCO. São Paulo: Revista dos Tribunais. DINAMARCO. Sérgio Sahione Código de Processo Civil Comentado. 2. não o faz.09. CHIOVENDA. João Carlos Pestana de Comentários ao Código de Processo Civil 2ª Edição. Rio de Janeiro: Forense. FADEL. recurso conhecido e provido. I.2002)(Grifo nosso). Antônio C. por sua própria natureza. 1988. que anuncia. constatada a verossimilhança das alegações do consumidor.e. 1988. A. 51. Instituições de Direito Processual Civil CINTRA. 1º a 443 7ª Edição. está obrigada a vender o bem nas condições do anúncio. condições de venda de determinado automóvel. para reformar a sentença monocrática. 3. nos classificados de jornal. São Paulo: Revista dos Tribunais. mormente quando a fornecedora não contesta articuladamente os fatos da inicial. FERREIRA. sem nada comprovar. tratar-se-á em hipótese de cláusula absolutamente nula. São Paulo: Malheiros. 4. 1977. CAVALCANTI. Sendo nula. novos e usados. 1996. em seu art.ACJ nº 20010111219733 . GRINOVER. onde prevê que as condições da oferta integram o contrato a ser celebrado. empresa fornecedora de produtos e serviços.2ª T. Cândido Rangel A Instrumentalidade do Processo 4ª Edição.3 – Aplicação do art. Vol. Ada Pellegrini. 3. 1977. no grau recursal. torna-se revel. julgando procedente o pedido inicial.224 constatado.

225 Paulo: Saraiva. 1996. pág. Verbo Jurídico. Apreciação Probatória no Processo Civil. s. pág. Anelise Coelho. n. Anelise Coelho Apreciação Probatória no Processo Civil Porto Alegre. 1986. I 27ª Edição. 2001.Vol. Revista dos Tribunais. 2001. Sandra Aparecida Sá dos A Inversão do Ônus da Prova como Garantia do Devido Processo Legal São Paulo.. 1996. 14. Anelise Coelho. NEGRÃO. NUNES. FURASTÉ. I 3ª Edição. CHIOVENDA. 1998. SANTOS. 1996. 2002. 1999. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. São Paulo: Saraiva. RADLOFF. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. Anelise Coelho. Rio de Janeiro: Forense. MILHOMENS. 2001. Notas COUTURE apud NUNES. SILVA. 2001. Juarez de Código de Proteção e Defesa do Consumidor 9ª Edição. Apreciação . Apreciação Probatória no Processo Civil. Stephan Klaus A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor Rio de Janeiro: Forense.Vol. Porto Alegre. Jônatas A Prova no Processo Rio de Janeiro: Forense. Giuseppe. Ovídio Araújo Baptista da Curso de Processo Civil . 2002. 109. 2002. Porto Alegre: Fabris. DA SILVA. Humberto Curso de Direito Processual Civil . Pedro Augusto Normas Técnicas para Trabalhos Científicos 11ª Edição. OLIVEIRA. 15. São Paulo: Saraiva. MOREIRA. THEODORO JUNIOR. Instituições de Direito Processual Civil. Campinas/SP: Bookseller. Ovídio Baptista apud NUNES. 2002. José Carlos Barbosa Temas de Direito Processual: Sétima Série São Paulo: Saraiva. Theotônio Código de Processo Civil e Legislação Processual em Vigor 33ª Edição. 4 3 2 1 PONTES DE MIRANDA apud NUNES. pág.

Moacyr Amaral.226 Probatória no Processo Civil.br/doutrina/texto. pág. Apreciação Probatória no Processo Civil. 2000. O ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor. correta e atual. 16.jus. n. II./jun. Manual de Direito Processual Civil. Vol V. 51.com. 2001. Diritto e Processo.asp?id=2159> ECHANDIA. abr. Tratado de Direito Privado. p. 5. p. Momento processual da inversão do ônus da prova. Pontes de.asp?id=2160>. Padova. (REPETIR NOME DO AUTOR). 2001. 2002.asp?id=2160>. out. Artigo in Justitia. MIRANDA. <http://www1. A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo. Jus Navigandi. a. Disponível em: <http://www1. 476.br/doutrina/texto.jus. 501 a 521 apud FERRAZ. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. p. a. Jus Navigandi. Vol. Teresina. Vol. 2001. 66. out. Teresina. Págs. ECHANDIA. 2001. n. São Paulo: Max Limonad. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo. Teresina. n.. 5. 3ª ed. Instituições de Direito Processual Civil. 15 14 13 12 11 10 9 .jus. 5. 2001. Mirna.br/doutrina/texto.jus. 51. Luiz Carlos. 1929 Apud A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. pág. São Paulo: Revista dos Tribunais. <http://www1. SIEGMUND HELLMANN apud NUNES. Prova judiciária no civil e comercial. Rio de Janeiro. SANTOS.com. São Paulo: RT. apud FERRAZ. 1954. 2001. Apreciação Probatória no Processo Civil. Mirna. Cecília. 65. out. a. CARNELUTTI. Luiz Carlos. 1995. III.br/doutrina/texto. n. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. Jus Navigandi. a. Anelise Coelho. 1968. NUNES. 2ª Ed. 5.com. pág. 8 7 6 5 ALVIM. out.com. Jus Navigandi. Hernando Devis apud CIANCI. 18.asp?id=2159> SANTOS. 57 (170). 2001. São Paulo: Revista dos Tribunais. 51. Momento processual da inversão do ônus da prova. 2002. p. 51. MATOS. Sandra Aparecida Sá dos. 17. Anelise Coelho. Hernando Devis apud CIANCI. Arruda. São Paulo. Teresina. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. 449. Francesco. <http://www1.

p.asp?id=2159>. CIANCI. São Paulo: Malheiros. Teresina.6ª Câmara de Direito Privado . 562. A instrumentalidade do processo. 2000. p. 354. antecipando-lhe o pagamento desde o início até a sentença final. e atual. (Tribunal de Justiça de São Paulo. DINAMARCO. 1994.99 . § 1º O pagamento de que trata este artigo será feito por ocasião de cada ato processual. Cândido Rangel.227 Apud PACÍFICO. PACÍFICO. cabe às partes prover as despesas dos atos que realizam ou requerem no processo. GRINOVER. CINTRA. A instrumentalidade do processo. p. Antônio Carlos de Araújo. § 2º Compete ao autor adiantar as despesas relativas a atos. 1988.10. p. 2001. São Paulo: Revista dos Tribunais.V. CPC: Salvo as disposições concernentes à justiça gratuita. 1996. out. São Paulo: Malheiros. Luiz Eduardo Boaventura. Forense. Rio de Janeiro: Ed. Luiz Eduardo Boaventura. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2000. A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo. Cândido Rangel. João Carlos Pestana de. 1994. CALAMANDREI apud DINAMARCO.. 26 25 24 23 22 21 20 19 18 17 16 . e bem ainda. 4ª edição rev. 201 FADEL. Sergio Sahione. 248.jus. BUZAID apud DINAMARCO. Ada Pellegrini. O ônus da prova no Direito Processual Civil. cuja realização o juiz determinar de ofício ou a requerimento do Ministério Público. AGUIAR. 4ª edição rev.. São Paulo: Revista dos Tribunais. São Paulo: Malheiros.Relator: Antonio Carlos Marcato . 121. Jus Navigandi. Código de Processo Civil Comentado..979-4 Itápolis . 1977. e atual. e atual. 86 e 87.com. 7ª Edição. 248. Comentários ao Código de Processo Civil. a. 1994. DINAMARCO. Cândido Rangel. U. São Paulo: Malheiros. 51. 4ª edição rev. Disponível em: <http://www1. Agravo de Instrumento n.07. rev. O ônus da prova no Direito Processual Civil. e atual. p. 19.br/doutrina/texto. Mirna. 12ª Edição. 2ª Edição. n.) Art. A instrumentalidade do processo. 5. Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. p. até a plena satisfação do direito declarado pela sentença. na execução.

CAVALCANTI. 1991. Jonatas. p." 39 38 37 36 35 34 33 32 31 30 29 28 27 . junho: 1996. Súmula 424 do STF: "Transitada em julgado o despacho saneador de que não houve recurso. Ada Pellegrini. 2002. Humberto. 2002. Belo Horizonte: 1991. 2ª Edição. 123. DINAMARCO. p. 39. Rio de Janeiro: Forense. 355. THEODORO JUNIOR. explícitas ou implicitamente. A prova no direito processual civil.º 86. p. p. para a sentença. São Paulo: Revista dos Tribunais. Código do Consumidor Comentado. CAVALCANTI. São Paulo: Revista dos Tribunais. Francisco. p. p. p.228 CINTRA. A prova no processo. Francisco. "Dicionário Aurélio Eletrônico – V. apud SANTOS. Sandra Aparecida Sá dos. Belo Horizonte: Livraria Del Rey. p. 1996. Sandra Aparecida Sá dos. 71. 2002. 32 apud SANTOS. SANTOS. Cândido Rangel. BARBOSA MOREIRA. Belo Horizonte: Livraria Del Rey. Carlos Roberto. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. p. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. excluídas as questões deixadas. Sandra Aparecida Sá dos. 75. Liv. Francisco. 2. São Paulo: RT. Teoria Geral do Processo. 2002. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. 31-38. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor apud SANTOS. Notas sobre a inversão do ônus da prova em benefício do consumidor. p. Comentário ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. 80.0". Nova Fronteira. 42. 1986. 12ª Edição. Sandra Aparecida Sá dos. 71. Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. CAVALCANTI. GRINOVER. São Paulo: Revista dos Tribunais. Antônio Carlos de Araújo. Comentário ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. MILHOMENS. SANTOS. Del Rey. p. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. São Paulo: Malheiros. RePro. p. Sandra Aparecida Sá dos. n. 71. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. 1991. Direitos do Consumidor. 2002. 37.

p. 2002. p. Rio de Janeiro: Forense. CAVALCANTI. 43 42 41 40 Alguns aspectos da dogmática processual para a defesa dos direitos do consumidor Autora: Viviane Mandato Teixeira Ribeiro da Silva . Stephan Klaus. Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. Cível n. Stephan Klaus.1995 – Rel. Belo Horizonte: 1991.229 RADLOFF. 70. Liv. p. de 06. Aldo Magalhães. 75.º 255. A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor. 90 Tribunal de Justiça de São Paulo – Ap.461-2. A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor. Del Rey. Francisco. RADLOFF. 2002.04. Rio de Janeiro: Forense.

Impendia criar instrumentos apropriados. partindo da necessidade de atender a um mercado cada mais pujante e abrangente em sua feição quantitativa. Adveio daí. com extrema clareza. traduzidos na impossibilidade de exercer algum controle sobre a qualidade. Por tal razão. Nesse contexto. exsurgiu a necessidade de uma mudança drástica nos meios de produção e comercialização de produtos e serviços. o rompimento com vários dogmas de direito substancial. segurança e quantidade dos produtos e serviços disponibilizados pelo fornecedor no mercado de consumo. 8 Bibliografia 1. Impunha-se um sistema mecanizado e seriado para fomentar o consumo em massa. como é o de consumo.230 Sumário: 1 – Introdução. colocando o consumidor numa posição de franca vulnerabilidade e hipossuficiência. Contudo. 2 . por titulares não-identificáveis. um número. tais peculiaridades. são as que patenteiam.Da legitimação ad causam. pois os cristalizados no Código de Processo Civil evidenciavam-se inoperantes para a tutela eficaz de direitos designados. inferiu-se que seria mister criar um arcabouço legislativo a fim de preservar a esfera jurídica dos consumidores.5 . As relações jurídicas de consumo. Na comercialização. só para citar alguns.A sentença genérica como regra nas ações coletivas.Da imposição de multa coercitiva ex officio. O parceiro comercial transforma-se em um ente. Não havia mais espaço para a produção artesanal. espécie dessa categoria de interesses. 7 . como.Do regime jurídico da coisa julgada para as ações coletivas.Introdução. a reformulação de institutos de direito substancial não se mostrava suficiente. o do regime da responsabilização civil. analisaremos a sistemática processual considerando-se tais relações. ante o imenso contingente de utentes. como o da liberdade para fixar o conteúdo contratual.A adoção do non liquet e do efeito secundum eventum litis. 4 . A perfeita intelecção da linha principiológica norteadora das normas processuais para a tutela de interesses categorizados como direitos metaindividuais demanda considerar alguns aspectos. a difusão e a vulnerabilidade de seus titulares. 6 . revelou-se inviável o contato personalizado e individualizado entre os agentes da cadeia consumerista. Essa nova forma de produção e comercialização gerou desequilíbrio nas relações jurídicas de consumo. no mais das vezes. 3 – Da inversão do onus probandi. Com efeito. . por exemplo.

Assim. funcionando. do texto constitucional.231 Nessa esteira. é o de evitar a proliferação de ações individuais com pretensões idênticas. cujo substrato era o de . regulamenta a tutela de todo e qualquer direito metaindividual. e. reside na feição do Estado social. tornou despiciendo legitimá-lo. é a de que o fato de o resultado benéfico da lide coletiva atingir. Excepcionando essa regra. nos casos por ela enunciados. 2. por via oblíqua. subtraindo do indivíduo a possibilidade de defender em juízo interesses titularizados pela coletividade.não se adstringe apenas às relações jurídicas de consumo. é regra na Lei 8078/90. como salvaguarda para a produção sistemática de lesão a direito. Não mais se prestigia a visão liberal. solucionar-se-iam conflitos que envolvessem. É a denominada legitimação extraordinária. A primeira. a qual. por via transversa. A terceira. a qual. em seu artigo 82. que alguém defenda em juízo em nome próprio um interesse alheio. alguns institutos processuais foram adaptados para imprimir à tutela jurisdicional a adequação. A opção legislativa em não investir o indivíduo da legitimação ad causam pode ser analisada sob três vertentes. A legitimação extraordinária [01]. de uma só vez e por intermédio de uma só lide. e o risco de soluções judiciais antagônicas para o mesmo conflito. abordaremos.Código de Defesa do Consumidor . cujo desiderato é a busca do bem-estar social. o regramento da legitimação para agir experimentou uma importante mudança. em conjunto com a Lei 7347/85. A segunda. a presteza e a eficácia necessárias para a solução de conflitos em massa. Encerra verdadeira fonte normativa processual geral que. todo o grupo do qual o indivíduo integra. como determina o inciso XXXII. alguns aspectos da sistemática procedimental introduzida pela Lei 8078/90. do artigo 5º. a lei processual civil admite. Na Lei 8078/90. legitimou entes públicos e privados. A sistemática sufragada pelo Código de Processo Civil. ao mesmo tempo e do mesmo modo. a esfera jurídica do indivíduo. segundo a qual. Situação essa que certamente induziria ao desestímulo na busca da tutela jurisdicional. dessarte. é a da legitimação ordinária. inobstante a denominação . apenas o titular do direito material lesado ou ameaçado de lesão está autorizado a defendê-lo em juízo. idealizada sob a filosofia liberal. defender o consumidor. No presente trabalho. exceção no Código de Processo. Da legitimação ad causam A legitimação ad causam é a autorização legal para defender em juízo um direito material lesado ou ameaçado de lesão. de modo sucinto.

(. Essa situação não se repete para os entes públicos. Concretiza-se. que a possibilidade de a produção massificada gerar lesão em escala difusa é expressiva. a tutela jurisdicional obtida por meio do processo coletivo. mas não para os entes privados ou públicos ao defenderem todo o grupo. Por meio da ação coletiva. pelo dever constitucional de defender os interesses da sociedade. E tal circunstância denota a relevância e a imperiosidade do sistema processual coletivo introduzido pela Lei 8078/90. é que o legislador introduziu tantas inovações no sistema processual. Cappelletti. evitando-se a perpetuação da lesão. Pois.. o dano pode ser inexpressivo. Daí o entrelaçamento da efetividade com o princípio constitucional do acesso à justiça e deste com o da legitimação ad causam. dentre as quais. ainda que incipiente sob o ponto de vista individual. resulta em franca desigualdade no campo processual. o indivíduo tem sua esfera jurídica tutelada contra a prepotência do poder econômico. Sob a perspectiva do consumidor individualmente considerado. Cappelletti. a ideologia do Estado social protetor dos mais fracos. legitimar entes públicos e civis para a defesa judicial dos interesses transindividuais. elucida que essa gama de direitos "(. A partir da Carta de 1988..) são interesses fragmentados ou coletivos (. notadamente para o Ministério Público que. e aproveita. o dano pecuniário de inexpressiva monta funciona como elemento desestimulante para o indivíduo ajuizar qualquer demanda. Diga-se a propósito. ou o prêmio para qualquer indivíduo buscar essa correção é pequeno demais para induzilo a tentar uma ação. Seja para reprimir condutas nocivas em nível difuso. repise-se.) Essa situação cria barreiras ao acesso". encetando estudo acerca da defesa efetiva dos direitos coletivos.. o legislador infraconstitucional concretizou dois princípios constitucionais: o acesso à justiça e a isonomia. que ao legitimar entes coletivos. com o Prof. O Prof.. seja para cominar ao fornecedor a sanção cabível. detentor de forte poder político e/ou econômico. . segundo o entendimento doutrinário. [02] Se considerarmos as relações de consumo sob o aspecto pecuniário. entretanto não o será numa perspectiva global.. Sob a ótica do princípio constitucional da isonomia. é melhor defendido em juízo por associações ou órgãos do próprio Estado. no mundo empírico. e reprimindo-se a conduta lesiva do fornecedor. destarte. ou ninguém tem direito a corrigir a lesão a um interesse coletivo.) O problema básico que eles apresentam – a razão de sua natureza difusa – é que. como é o caso do Ministério Público.232 atender aos interesses individuais. E este. podemos considerar que o fato de o consumidor ser vulnerável e hipossuficiente frente ao fornecedor. concluiremos.. De fato. no mais das vezes. pode litigar com causador do dano com igual força política. sufraga-se a ideologia da preservação do interesse coletivo.

. deve o julgador inverter os ônus da prova. a inversão do ônus probatório revela-se prestante. que presente um dos requisitos elencados no artigo 6º. por conseguinte. inciso VIII.Da imposição de multa coercitiva ex officio Vários institutos materiais e processuais foram matizados na construção da nova sistemática a fim de conferir efetividade à tutela jurisdicional na defesa dos direitos transindividuais e dar concretude a vários princípios constitucionais. dentre outros. logo só ele tem a possibilidade de produzir a prova necessária a fim de demonstrar se o produto é ou não defeituoso. A lei consumerista. o reconhecimento da hipossuficiência ou da verossimilhança da alegação do consumidor. em seu artigo 389. Malgrado a adoção do regime objetivo. o consumidor dificilmente obteria qualquer ressarcimento em razão de sua hipossuficiência em obter os elementos necessários para provar o nexo de causalidade. do acesso à justiça. em que o ônus da prova do fato constitutivo do direito cabe ao autor da demanda. 4 . Se fosse mantida a sistemática preconizada pelo artigo 333. carreando-o ao fornecedor. a Lei Civil em vigor. Vislumbramos o aspecto pragmático dessa regra no campo da responsabilidade civil. no mais das vezes. impõe ao inadimplente o dever de arcar com as perdas e danos. porquanto se o consumidor tivesse a desincumbência de fazer prova do nexo causal. a lei 8078/90 erigiu no inciso VIII. corretamente. Isto porque é o fornecedor quem detém a mais completa informação acerca do produto. em que é prescindível o exame da conduta do fornecedor para imputar-lhe o dever de reparar o dano. do artigo 6º. O legislador entendeu. Depreende-se. do Código de Processo Civil. não sufragou a tônica civilista. como o da isonomia. No tema das obrigações.233 3 . que a pecúnia. ao tratar do direito material das relações de consumo. não tem o condão de reparar a atividade nociva do fornecedor nem o de atender aos interesses econômicos do consumidor. a inversão do onus probandi [03] como um direito básico.Da inversão do onus probandi Desdobramento dos princípios constitucionais da isonomia e da dignidade da pessoa humana. e como consectário lógico do reconhecimento da vulnerabilidade e da hipossuficiência do consumidor. qual seja. certamente sucumbiria. aliás. por exemplo.

autorizando-o a cominação da multa ex oficio. indaga-se se haveria conflito entre a norma geral. segundo os quais os limites da atuação jurisdicional vêm traçados no pedido formulado pela parte. a Lei 8078/90. de sorte que não repugna às normas procedimentais outorgar ao Estado-juiz o poder de impor a multa sem provocação do interessado. tem natureza jurídica de medida de coerção e não de ressarcimento. quando da promulgação da lei consumerista. se o órgão julgador só pode conhecer ex officio matéria de ordem pública. àquilo que fora determinado na sentença. egressa do direito francês denominada astreinte. todos do Estatuto Procedimental. Sob o prisma da efetividade. . ensejou o questionamento em face do princípio da adstrição. Desse modo. aquém ou diferente do que foi pedido. se o Estado-juiz não pode conceder à parte além. consistente em cominar ao devedor recalcitrante uma penalidade pelo descumprimento da obrigação. a melhor doutrina sustenta inexistir conflito normativo e esclarece que a imposição da multa coercitiva em nada ofende o princípio da adstrição. o de esmaecer a resistência devedor em cumprir espontaneamente o contrato ou o comando emergente da sentença. Para concretizar essa ideologia. Isto porque a multa. Seu objetivo é o de constranger. e. vale dizer. consubstanciada no artigo 460 combinado com os artigos 128 e 293. Tal prescrição representou. uma inovação legislativa por romper com o sistema processual tradicional. da Lei 8078/90. Para essa indagação. em que o julgador está autorizado a cominar de ofício a multa coercitiva e outras medidas que se fizerem necessárias à execução da obrigação. Melhor explicitando. em que tal matéria era dispositiva. outorgou ao Estado-juiz maior campo de discricionariedade. forçando o fornecedor cumprir o pactuado. dependia de provocação do interessado. e a regra do parágrafo 4º. as quais impõem ao juiz dar interpretação restritiva ao pedido. a Lei 8078/90 preconiza que se deva envidar todos os esforços para realizar concretamente o que fora contratado pelos litigantes. pois influindo no aspecto anímico do fornecedor. o consumidor obtém o objeto da prestação e satisfaz a expectativa gerada por conta do negócio jurídico firmado. evitando-se remeter à parte inocente o recebimento de indenização. ou. ambos do Estatuto Procedimental. ao incorporar a multa coercitiva no parágrafo 4º. a Lei 8078/90 incorporou a multa coercitiva. de seu artigo 84. consagrado no artigo 128 combinado com o 293. A adoção da astreinte mostra-se consentânea com a realidade social e com o objetivo legal de prevenir a lesão à esfera jurídica do consumidor. do artigo 84. darse-ia à parte o direito in natura.234 Nesse diapasão e partindo da premissa de que o processo desempenha um papel instrumental para conferir à tutela jurisdicional efetividade.

do que resulta que a aplicação do Código só tem lugar em caráter subsidiário e naquilo que não contrariar a lei especial. da Lei 8078/90 e não a do artigo 461. embora seja eminentemente jurisdicional. fazendo valer a vontade popular. em dadas circunstâncias. também prevê a multa coercitiva. a função do juiz também resvala para o aspecto político. Essa nova categoria de direitos é classificada pela Lei 8078/90 em três . mas também para o desempenho da função política. fruto da democracia.a 8078/90 -. matérias de primeira plana para a manutenção do próprio Estado.Adoção do non liquet e o do efeito secundum eventum litis Antes de adentramos à abordagem da possibilidade do non liquet e da extensão subjetiva dos efeitos da coisa julgada com o temperamento do secundum eventum litis albergados pela Lei 8078/90. Dessa forma. envolvendo ou não relações jurídicas de consumo. insta trazer à colação a definição dos direitos metaindividuais e de suas espécies para melhor intelecção do tema. a aplicação da multa coercitiva deve observar o regramento instituído pelo parágrafo 4º. do artigo 84. ao mesmo tempo. a tutela dos direitos metaindividuais. por grupos. Entretanto. não só para melhor análise dos fatos que formarão o convencimento do julgador acerca da verdade. evidentemente. o legislador partiu de um enfoque publicista do processo. concomitantemente. Por derradeiro. em última análise. sem. pois ao interpretar e dar corpo à vontade abstrata da lei estará. por intermédio do método dialético. São interesses incindíveis por pertencerem. O exercício da função jurisdicional nos tempos modernos exige. a participação do julgador na dinâmica processual. a toda coletividade. à saúde. do Código de Processo. 5. ou. Portanto. olvidar os princípios da imparcialidade e da preservação dos direitos fundamentais. se é a própria lei quem permite ao julgador abandonar o papel passivo de "boca da lei" para desempenhar um papel mais ativo. é normada pela lei especial . como o prefixo grego indica. Direitos metaindividuais. são direitos que transcendem a esfera individual. Representa também a manutenção da paz social e da própria ordem jurídica. cabe destacar que o Código de Processo Civil. meio ambiente saudável. em seu artigo 461. São direitos titularizados. a função jurisdicional de pôr termo à controvérsia não interessa apenas a pacificação dos litigantes. Nesse diapasão. etc. classes ou categorias de pessoas. como o direito à educação. Conferindo ao juiz o poder de fixar a multa coercitiva de ofício.235 Neste ponto cabe uma observação. por titulares indetermináveis. forçoso é concluir que a imposição da multa coercitiva é simples reflexo da coadunação da atuação jurisdicional aos reclamos da sociedade moderna. Com efeito.

do artigo 81. incisos I a III.é a possibilidade de estender subjetivamente os efeitos da sentença -. conceitua como difuso o direito indivisível por pertencer. ao mesmo tempo. da Lei 8078/90. os titulares são identificáveis por haver uma relação jurídica base preexistente à lesão. Finalmente. a saúde. nada obstante inexistir entre eles qualquer relação jurídica. conceitua como coletivo o direito incindível por ser titularizado.e do julgado secundum eventum litis . todas as pessoas que aderiram àquele contrato experimentarão idêntica lesão. podemos mencionar o meio ambiente. São direitos individuais. Ainda. ao tratar da matéria. Cite-se à título de exemplo. O inciso II. porque é possível identificar cada titular.236 espécies: difusos. Pela dicção da lei.que é a possibilidade de o julgador rejeitar a pretensão ante a insuficiência probatória sem que tal sentença produza a coisa julgada material . o artigo 103. do direito litigioso e do resultado da lide coletiva. O inciso I. quando o processo for extinto sem julgamento do mérito. A vinculação com a parte contrária decorre do fato de todos terem sofrido a mesma lesão. os efeitos são idênticos ao adotado pelo Código de . Visto o conceito e a classificação dos direitos metaindividuais. Se a sentença ser meramente formal. vale dizer. unindo determinado grupo de pessoas entre si ou com a parte causadora do dano. o legislador consumerista introduziu um sistema totalmente diferenciado do vigente no Código de Processo Civil no que tange aos efeitos da sentença. Nesta espécie. e é por isso que os titulares podem ser identificáveis. porquanto tanto o meio ambiente como a saúde são direito de todos os integrantes da sociedade. Quando estes interesses são afetados. vejamos a mudança legislativa no que tange aos efeitos da sentença. mas tratados coletivamente. do artigo 81. a titulares indetermináveis. são direitos titularizados por todos e por ninguém em particular. toda coletividade sujeita-se aos efeitos prejudiciais. Partindo da premissa de que os interesses e as dimensões dos danos derivativos do consumo não se restringem apenas a consumidores perfeitamente determinados e identificados. pelo grupo ou classe de pessoas determináveis. nota-se que o traço distintivo entre os direitos difusos e os coletivos consiste no fato de que nos direitos coletivos a relação jurídica foi a deflagradora da lesão. Exemplo notório é o contrato de adesão. não há entre os prejudicados qualquer relação jurídica que os una. Para exemplificar. Todos os adquirentes daquele produto sofrerão a mesma lesão. produtos defeituosos. Com efeito. anotando-se que a incidência desses regramentos dependem da natureza da sentença. Se houver alguma cláusula nula. coletivos e individuais homogêneos. ou seja. o inciso III. adotou a possibilidade do non liquet . ao mesmo tempo. do artigo 81. define os direitos individuais homogêneos como direitos individuais na essência.

formar-se-á a coisa julgada material. o regramento da extensão subjetiva dos limites da coisa julgada material secundum eventum litis. Quer isto significar que os efeitos da coisa julgada material oriunda da sentença que julgou improcedente a ação em razão da ausência de lesão. impedidos de ajuizarem ações individuais para renovar a mesma pretensão. Neste caso. mas não impedem o ajuizamento de lides individuais. não existiu a lesão ao bem jurídico que se pretendia proteger". Se a sentença for definitiva.237 Processo Civil. cujo objeto seja direito difuso ou coletivo. se não houver prova bastante da lesão. dependendo da natureza do direito litigioso e do resultado da lide coletiva. porém. Assim. o que faculta à parte interessada o ajuizamento de nova ação. o órgão julgador rejeitará a pretensão e a sentença produzirá coisa julgada material. por corolário. rejeitará o pedido. se a natureza do objeto da lide for direito difuso ou coletivo. a sentença que acolher a pretensão produzirá a coisa julgada material e seus efeitos benéficos alcançarão a todos os titulares individualmente considerados. Com efeito. ao revés do que ocorre nas lides difusas e coletivas stricto sensu. não alcançarão os titulares individualmente considerados. os efeitos da sentença ficam submetidos ao tratamento estabelecido pela Lei 8078/90. não haverá extensão dos limites subjetivos da coisa julgada. Todavia. ainda que não tenham participado do processo. com o temperamento do chamado efeito secundum eventum litis do julgado. em razão de terem integrado o pólo ativo da lide coletiva na qualidade de litisconsortes. o juiz entender que não houve lesão. que toda a diligência probatória foi realizada e que. ressalvando-se a possibilidade de ajuizarem suas ações individuais arrimados na mesma causa de pedir veiculada na coletiva que fora julgada improcedente. alcançando todos os partícipes da ação. Incidirá. infere-se que o resultado negativo da ação individual homogênea só não prejudicará quem dela não houver participado. Em vista do que prescreve a lei 8078/90. se o conflito versar sobre direitos individuais homogêneos não será aplicado o non liquet e só incidirá o secundum eventum litis se a lide for acolhida. quando o processo for extinto com julgamento do mérito. Isto por serem direitos essencialmente individuais. portanto. aos olhos do juiz. Destarte. ficando. Forma-se a coisa julgada formal e seus efeitos ficam adstritos ao processo extinto. entretanto. os efeitos da decisão interditam os legitimados coletivos de ajuizarem nova demanda coletiva. porquanto tal julgamento não beneficia os titulares individuais. Nesta hipótese. ou seja. infere-se que o tratamento . apesar disso. mas que pela gravidade e repercussão social da lesão foram inseridos na categoria de direitos transindividuais. permanecendo a controvérsia incólume à apreciação judicial. Idêntico efeito se produzirá se o julgador entender que não houve lesão ao direito individual homogêneo. Se. Elucida o prof. Arruda Alvim [04] que "se ficar claro.

238 dispensado para as ações de direito individual homogêneo é idêntico ao constante do Código de 73. Para melhor visualização do que dissemos. seja pela inexistência de lesão. temos: DIREITO DIFUSO: Procedência: Faz coisa julgada material. Vale dizer. a sentença proferida produzirá coisa julgada material inter alios. Admite-se a repropositura da ação coletiva e nada interfere no ajuizamento da ação individual b) Ausência de lesão = Produz coisa julgada material apenas entre os legitimados coletivos. sinopticamente. não produzindo a coisa julgada material. Quer nos parecer que a razão de a Lei 8078/90 ter repetido o tratamento trazido pelo Código de Processo reside no fato de o direito controvertido ter natureza individual e. mas não produz a coisa julgada material. Não há extensão subjetiva. Admite-se a propositura da ação individual Direito INDIVIDUAL HOMOGÊNEO Procedência: Faz coisa julgada material e seus efeitos são extensíveis a todos os titulares individuais (erga omnes) Improcedência: . seja pela insuficiência de prova. admitindo-se a propositura da ação individual Direito COLETIVO Procedência: Faz coisa julgada material e seus efeitos são extensíveis aos titulares determináveis do grupo ou classe (ultra partes) Improcedência: a) Por falta de provas = Incide o non liquet. Seus efeitos são extensíveis a todos titulares individuais (erga omnes) Improcedência: a) Por falta de provas = Incide o non liquet. Admite-se a repropositura da ação coletiva e o ajuizamento da ação individual b) Ausência de lesão = Opera coisa julgada material apenas entre os legitimados coletivos. nesse passo. vigorariam os mesmos efeitos produzidos para as hipóteses de formação litisconsorcial ativa facultativa unitária. Não há extensão subjetiva.

a solução de um conflito de grave e expressiva repercussão social. 6. o tratamento dispensado pela Lei 8078/90 para os efeitos do julgado tinha que diferir da sistemática sufragada pelo Código de Processo Civil. sob pena de viciar a sentença de nulidade e dar azo à rescisória. Não há extensão subjetiva. sobretudo. Em linhas gerais e pelas especificidades dos direitos metaindividuais. Verificaremos. se a sistemática do Código de Processo fosse repetida pela Lei 8078/90 redundaria em flagrante inconstitucionalidade ante a negativa de acesso à justiça. que a possibilidade do non liquet impõe ao julgador a necessidade de explicitar que a improcedência se deu em razão da insuficiência probatória. da lei procedimental. a inversão do ônus da prova. à lume do que preceitua o inciso V. por encerrar uma manifestação da vontade. da Lei de Rito. segundo a qual o pedido deve ser certo e determinado. Pedido "é a expressão da pretensão. Não apenas. 485.) No pedido se contém a suscitação de uma provisão jurisdicional (pedido imediato). a flexibilização da regra constante do artigo 286. Há que se ter presente que ao conferir tratamento coletivo às ações que tenham por objeto o direito individual homogêneo. economizando tempo e recursos financeiros. b) Ausência de lesão = Produz coisa julgada material vedando-se a repropositura da lide coletiva. os efeitos da sentença judicial à luz de seu resultado. É oportuno destacar. do art.A sentença genérica como regra nas ações coletivas Destacamos que alguns princípios e regras processuais tradicionais foram moldados de modo a garantir a tutela eficaz dos direitos transindividuais.. vedando-se a repropositura da ação coletiva. pelo fato de o legislador ter subtraído do titular individual a legitimação para agir. É o que se pede em juízo. na tutela de um bem jurídico (pedido mediato)". Quem não participou da lide coletiva poderá ajuizar ação individual. Faz coisa julgada material. mediante uma única relação processual. mas. ante a determinação constitucional de proteger essa nova categoria de direitos. É a dedução da pretensão em juízo (. neste tópico. cujo traço característico é a difusão dos titulares. a mens legis foi o de obter.. [05] O pedido de prestação da tutela jurisdicional. para encerrarmos esse tópico. Nesse sentido. Não há extensão subjetiva. Só quem não participou da lide coletiva poderá ajuizar a ação individual.239 a) Por falta de provas = Não incide o non liquet. deve receber interpretação restritiva à luz do princípio albergado no . Já analisamos a legitimação para agir.

artigo 459. ou seja. Daí o porquê de a exceção no Código de 73 ser a regra na Lei 8078/90. De fato. da Lei Procedimental Civil. máxime em razão de a decisão proferida nas ações coletivas tutelar um bem jurídico ainda indivisível. sob pena de nulidade da sentença (parágrafo único. a sentença deve ser genérica. ultra ou extra petita. A regra consubstanciada no artigo 95.causador do dano . por absoluta incompatibilidade com os objetivos da Lei 8078/90. Nas ações coletivas. se pensarmos que os legitimados ativos estão defendendo os .240 artigo 293. entendendo-se por esta locução: delimitado quanto aos direitos e extensão quantitativa. tendo o autor. vale dizer. é que a sentença deva ser certa quanto ao tipo de provimento jurisdicional pretendido. no entanto. mas genérica ou ilíquida quanto à extensão quantitativa da pretensão. Pensemos na relação jurídica de consumo. é excepcionada por seus incisos. nem conferir ao autor citra. ao enunciar hipóteses em que o pedido possa ser genericamente formulado. da Lei 8078/90. em linha de princípio. Desde o início da lide as partes são perfeitamente identificadas.e o consumidor lesado. por meio das ações coletivas. E assim é. o reconhecimento judicial do dever reparatório e da condenação do agente causador do dano ao ressarcimento pelos prejuízos produzidos. Já no caso das lides metaindividuais. A profa. Vê-se a completa distinção entre a ação coletiva e a que envolve direitos individuais regidos pelo Código de Processo e o porquê de o legislador. a controvérsia fica adstrita entre o fornecedor . para viabilizar aos lesados individuais a identificação e a apuração do quantum indenizativo. o juiz fica vinculado àquilo que foi pedido. Não por outra razão. Por essa regra. para a tutela dos direitos coletivos. Na lide individual. Nessa linha. ter rompido com a tradição. Ada Pellegrini Grinover [06] assevera que o aspecto teleológico da sistemática processual traçada pela Lei 8078/90 para a tutela dos direitos transindividuais é obter. o ônus de demonstrar o dano e o nexo causal. Por essa razão. A regra constante do caput do artigo 286. não podendo proferir sentença ilíquida quando o pedido for certo. admite-se que o autor decline o que quer sem deduzir o quantum quer. não seria possível repetir a regra prescrita no artigo 286. o direito em conflito pertence a titulares determinados (direito coletivo stricto sensu) ou indetermináveis (direito difuso). do Código de Processo. de acordo com a extensão do dano individualmente experimentado. é exigência legal que o pedido deva ser certo e determinado. a condenação se dá pelo prejuízo provocado e não pelo dano experimentado pelos titulares individualmente considerados. da lei do Rito. do CPC).

as inovações foram substanciais. exceto se a ação for julgada improcedente por deficiência de provas. hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento. se fosse aplicada a regra do Código de 73. observa-se que todos os titulares individuais do interesse coletivo . que o fato de a condenação ser genérica não significa dizer que a sentença seja incerta. porque os lesados só serão identificados no momento da liquidação de sentença. 7 . prescrevendo que a sentença deva ser certa e determinada.241 interesses daqueles que efetivamente experimentaram o dano e que não participam da relação processual. valendo-se de nova prova". Há certeza quanto ao dever de reparar o dano. Falar de efeitos da sentença remete à coisa julgada. o que faria cair por terra todo o arcabouço da lei 8078/90. ainda. A extensão dos limites subjetivos da coisa julgada. da lição trazida pela doutrina. Esses dois diplomas cristalizam normas que destoam da processualística tradicional. Em primeiro. porquanto as regras do Código de Processo se revelaram inaptas para equacionar satisfatoriamente as exigências da nova ordem social. em segundo. Não foi por outra razão que as regras da legitimação para agir.Do regime jurídico da coisa julgada nas ações coletivas Fizemos remissão às alterações legislativas que influíram nos efeitos emanados da sentença. porque será na fase liquidatória que será aferida a extensão do dano causado por determinado produto ou serviço.A sentença civil fará coisa julgada erga omnes. mas ilíquido por não precisar o quantum. 16 . dentre outras medidas. neste tema. portanto o decisum é certo por definir o direito. sofreram tantas inovações. Como se nota. tema que nos interessa neste tópico. e. concebeu a Lei 8078/90 e aperfeiçoou a Lei 7347/85. O legislador infraconstitucional. recebeu tratamento especial. fácil é intuir que a sentença não poderia ser especificar o quantum debeatur. in verbis: "Art. restaria impossível a indenização dos lesados. O artigo 16. da Lei 7347/85 assim dispunha. da Lei 8078/90. cumprindo o ditame constitucional de elaborar mecanismos instrumentais que garantissem a defesa efetiva dos direitos metaindividuais. Colhemos. Pelo teor do dispositivo legal supra colacionado combinado com o artigo 103.

Subsumindo o dispositivo legal supra às disposições constitucionais que determinam a efetiva proteção aos direitos transindividuais. direta ou indiretamente. as Leis 7347/85 e 8078/90 prescrevem que o titular individual do direito. Em última análise. essa proteção. A Lei 9494/97. ou. O fundamento jurídico para que o legislador tenha adotado o efeito secundum eventus litis reside no fato de ter conferido legitimação a quem não seja o titular exclusivo do direito lesado. criando-se um sistema legislativo material e processual próprio e adaptado para concretizar a proteção constitucional. hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento. Isto porque as ações coletivas buscam tutelar direitos fundamentais expressamente reconhecidos em nosso ordenamento jurídico. (grifo nosso). Por tal razão. contudo.A sentença civil fará coisa julgada ‘erga omnes’. inclusive. Destarte. exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas. 16 . Caso a sentença rejeite a pretensão por entender que não houve lesão. E o fato de a Constituição ter tutelado os direitos metaindividuais quer significar que se tornou inadmissível ao legislador infraconstitucional restringir ou alterar. a razão de ser das mudanças introduzidas no sistema . demandar individualmente o agente ofensor para obter a reparação da lesão. valendo-se de nova prova". Com efeito. podendo.242 (lato sensu) seriam alcançados pelo resultado benéfico do julgado. nos limites da competência territorial do órgão prolator. alterando a redação do artigo 16. diferentemente do que sucede perante o Código de Processo. por não ter recebido legitimação para agir em juízo. uma vez que a improcedência da demanda em face da inexistência da lesão a direito impedirá tão-somente o ajuizamento de outra lide coletiva. encampamos a corrente que propugna pela inconstitucionalidade da alteração legislativa. da Lei 7347/85. no âmbito dos direitos coletivos a sentença produz efeitos para além dos litigantes. só sofrerá influência do julgado em sua esfera jurídica se a decisão for benéfica. o titular individual nenhum prejuízo jurídico experimentaria. à natureza dessa categoria de direitos e à posição doutrinária. porque do conjunto probatório existente nos autos não se demonstrou a lesão. limitou os efeitos subjetivos da coisa julgada ao determinar que. é que a doutrina assevera que os efeitos erga omnes da autoridade da coisa julgada se opera somente em relação ao legitimados ativos para a ação coletiva. Como se nota. Disso resultou a implementação de uma série de inovações por meio das Leis 8078/90 e 7347/85. a autoridade da coisa julgada não poderia cingir-se aos litigantes. daí ter sido criado um mecanismo que garantisse a todos os titulares do direito controvertido os benefícios decorrentes do acolhimento da pretensão. in verbis: "Art.

3. que busque a tutela a direito coletivo estará fora do alcance restritivo trazido pela Lei 9494/97. como se verifica das ementas infra colacionadas. dentre outros. como também as prescrições constitucionais. Ainda. inclusive quando houver uma demanda coletiva e diversas ações individuais. v. As ações que têm objeto idêntico devem ser reunidas. os tribunais. Ada Pellegrini Grinover segue a mesma linha quanto à ineficácia da restrição territorial dos efeitos da decisão.494/97. embasando seu entendimento no fato de que os efeitos da decisão estão vinculados aos limites ínsitos ao pedido. da Lei 7347/85. mormente porque é a Lei 8078/90 que cuida do regime da coisa julgada. como o acesso à justiça. por exemplo. A doutrina mais autorizada vem repudiando essa alteração legislativa sustentando sua inoperância. o direito coletivo stricto sensu tem eficácia ultra partes e não erga omnes. que restringir a eficácia da coisa julgada nos moldes traçados pela Lei 9494/97. "a sentença civil fará coisa julgada erga omnes. logo não pode ficar adstrito à competência jurisdicional do órgão prolator da decisão.as Leis 8078/90 e 7347/85 -. Nesse diapasão. A verificação da existência de litispendência enseja indagação antecedente e que diz respeito ao alcance da coisa julgada. a isonomia. " PROCESSO CIVIL – AÇÃO CIVIL LITISPENDÊNCIA . da Lei 7347/85.g a ação popular. nos limites da competência territorial do órgão prolator". quer nos parecer. Hugo Nigro Mazzilli. Não obstante o repúdio doutrinário à alteração do artigo 16. têm conferido à lei interpretação literal. acaba por desnaturar a tutela efetiva do direito coletivo e ferir outros mandamentos constitucionais. de modo que seria mister alterar a ambos. qualquer outra ação. relegando a um plano secundário não apenas a linha teleológica do sistema protetivo sufragado pela Lei 8078/90. ainda que não uniformemente.LIMITES DA COISA JULGADA. PÚBLICA – 1. Hipótese em que se nega a litispendência porque a primeira . Conforme os ditames da Lei 9. alterando-se a redação do artigo 16. porque as ações coletivas são reguladas por dois subsistemas que atuam em conjunto . 2. mas a reunião deve observar o limite da competência territorial da jurisdição do magistrado que proferiu a sentença.243 jurídico prendeu-se à natureza dos direitos e da repercussão social dos conflitos em massa. destaca que pelo fato de a restrição ter sido imposta apenas na Lei 7347/85. de modo que as ações que versarem sobre tais direitos estariam fora do alcance da Lei 9494/97.

947-SC. j. ____________. 1. Impossibilidade de ajuizamento de ação de execução em outros estados da Federação com base na sentença prolatada pelo Juízo Federal do Paraná nos autos da Ação Civil Pública nº 93. caso contrário geraria violação ao art. 642462/PR. desprovido. EMPRÉSTIMO COMPULSÓRIO DE COMBUSTÍVEIS (DL 2.288/86).2004) BIBLIOGRAFIA Armelim. abrangerá apenas os substituídos que tenham. n. ILEGITIMIDADE DAS PARTES EXEQÜENTES. Recurso especial parcialmente conhecido. Donaldo. ARRUDA ALVIM. Revista do Advogado da AASP. Tutela Jurisdicional do Meio Ambiente. 3. EXECUÇÃO DE SENTENÇA. 2. e nesse ponto. em razão de que em seu dispositivo se encontra expressa a delimitação territorial adrede mencionada. Notas Sobre A Coisa Julgada Coletiva.12. 665. José Manuel. 2º-A DA LEI Nº 9." (REsp n. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. Manual de Direito Processual Civil. 02. na data da propositura da ação. EFICÁCIA DA SENTENÇA DELIMITADA AO ESTADO DO PARANÁ. VIOLAÇÃO DO ART. Celso. BASTOS. 08/03/2005) "PROCESSUAL CIVIL. 1ª TURMA. domicílio no âmbito da competência territorial do órgão prolator". na defesa dos interesses e direitos dos seus associados.0013933-9 pleiteando a restituição de valores recolhidos a título de empréstimo compulsório cobrado sobre a aquisição de álcool e gasolina no período de jul/87 a out/88. j. Revista de Processo n. 2ª TURMA. São Paulo: RT. 2º-A da Lei nº 9. São Paulo: .244 ação está limitada ao Município de Londrina e a segunda ao Município de Cascavel. 88. litteris : "A sentença civil prolatada em ação de caráter coletivo proposta por entidade associativa.494/97. 22ª ed..494/97. Curso de Direito Constitucional. APADECO. A abrangência da ação de execução se restringe a pessoas domiciliadas no Estado do Paraná. 37." (REsp n. ambos no Estado do Paraná.

Curso de Direito Processual Civil.. 6ª ed. Nelson. São Paulo: Saraiva.. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. Rizzatto Nunes. SANTOS. Silva.. Ada Pellegrini.245 Saraiva. ____________. Grinover. O Princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana. Editora Forense. Cappelletti. ____________. 2000. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. José Joaquim. 6ª ed. I. 2003. Luiz Antonio. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil.. Vol. Vol. ____________... Editora Forense. São Paulo: Saraiva. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor comentado pelo autores do anteprojeto. São Paulo: RT. ª . Caio Mário.. Moacyr Amaral. Vol II. Gomes Canotilho. 2001. Hans. 1991. José Afonso. Humberto. Ovídio Araújo Baptista da. Editora Forense. 5ª ed. Princípios do Processo Civil na Constituição Federal. Silva Pereira. Editora Forense. São Paulo: Saraiva. 10ª ed. São Paulo: Saraiva. Curso de Direito Constitucional Positivo. 2002. Forense. Nery Junior. SILVA. III. Editora Martins Fontes. 3 ed. Vol. Mauro. THEODORO JUNIOR. Editora: Forense.. Nigro Mazzilli. 23ª ed. 6ª ed. 13ª ed. Kelsen. Instituições de Direito Civil. 2001. Hugo. Forense.Forense. Instituições de Direito Civil. 3ª ed. 2º Vol. II. Editora Malheiros.. Do Processo Cautelar. Sergio Antonio Fabris Editor. A defesa dos interesses difusos em juízo. O problema da Justiça. Coimbra: Almedina. Editora: Forense. Instituições de Direito Civil. Acesso à Justiça. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelo autores do Anteprojeto. ____________.

de algum modo. Passim. que a legitimação é extraordinária. pensamos que o julgador deva prevenir as partes sobre a possibilidade da inversão na fase instrutória. Notas Há dissenso doutrinário acerca da natureza da legitimação para a defesa de interesses coletivos. o que deu azo a três exegeses doutrinárias. não é o titular do interesse. Kazuo.. os interesses do consumidor. pois os interesses defendidos pertencem. Moacyr Amaral dos Santos. A Lei 8078/90 não estabelece o momento processual da inversão.246 Watanabe. 6ª ed. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor (Comentado pelo autores do Anteprojeto). ao mesmo tempo. Outra corrente perfilha a tese de que a legitimação não é extraordinária. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelo autores do Anteprojeto. A segunda. Isto porque. . e. A primeira. Ada Pellegrini Grinover. perfilha o argumento de que o momento da inversão deve ocorrer no saneador ou durante a fase probatória. 04 01 José Manuel de Arruda Alvim. Editora: Forense. e que. a fim de não cercear. porque não dizer. p. 31. 03 .150. porquanto quem figura como autor da demanda. sustenta que a inversão deve ocorrer na petição inicial. a defesa do réu. 2º vol. Mauro Cappelletti e Bryan Garth. à coletividade e ao autor da ação. mas autônoma para conduzir o processo.784.p. Há quem sustente. p. 05. op. 02.. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. propugna pela inversão no momento do julgamento da causa. o contraditório e ampla defesa desdobramentos do princípio do devido processo legal. Entendemos que a terceira corrente é a mais compatível com o regramento constitucional do direito de defesa e as diretrizes protetivas da lei 8078/90. 06. E a terceira. O fundamento seria o de que as regras de distribuição do ônus da prova são regras de juízo. Acesso à Justiça. a inversão dar-se-ia quando do sentenciamento. portanto. cit.

apenas com a vontade das partes. na posição de autores ou de réus" [01]. quanto no pólo passivo (réus). assistência e intervenção de terceiros nas ações coletivas para tutela do consumidor Autora: Gláucia Kohlhase Marques 1. III – entre as causas houver conexão pelo objeto ou pela causa de pedir.1.tanto no pólo ativo (autores).2.Definição Litisconsórcio é a pluralidade de partes litigando no processo.3 Espécies . É necessário que haja uma ligação que os una para sua formação válida.Pressupostos para a formação do litisconsórcio O litisconsórcio não se forma livremente. São pressupostos estabelecidos pelo artigo 46 do Código de Processo Civil: I – entre elas houver comunhão de direitos e obrigações relativamente à lide.247 Litisconsórcio. Gabriel de Rezende Filho define litisconsórcio como "o laço que prende no processo dois ou mais litigantes. 1. IV – ocorrer afinidade de questões por um ponto comum de fato ou de direito. isto é. quando houver a cumulação de vários sujeitos . Litisconsórcio 1. II – os direitos e obrigações derivarem do mesmo fundamento de fato ou de direito. 1.

em muitos casos. em que serão citados todos os sócios e. devendo ser formado no momento da propositura da ação. figura que será examinada mais adiante. neste caso. sendo necessário que os demais condôminos sejam citados como litisconsortes (art. impõe a formação de litisconsórcio. CPC). mas sua formação também é necessária sempre que a comunhão de direitos e obrigações for una e incindível. será facultativo quando a existência do litisconsórcio ficar a critério das partes. ação de nulidade de casamento. ações de divisão de terras. sua formação é obrigatória. § 1º. II e 949. bem como a dos confinantes do imóvel (art. por fim. em que serão citadas as partes do contrato. ação de demarcação promovida por um dos condôminos. Entretanto. o litisconsórcio pode ser ativo quando existirem vários autores. 946. o juiz tiver que decidir a lide de modo uniforme para todas as partes. Se aquele que poderia ser litisconsórcio facultativo não integrar a relação jurídica inicialmente e deixa para ingressar no processo posteriormente. De acordo com o artigo 47 do Código de Processo Civil. este pode ser necessário ou facultativo. o direito material deve ser analisado para que se possa identificar a necessidade da formação do litisconsórcio. 942. ação de usucapião. Quanto à obrigatoriedade de formação do litisconsórcio. condicionando-se aos pressupostos elencados no artigo 46 do Código de Processo Civil já mencionados alhures. ação de dissolução de sociedade. 952. a maioria dos casos não é expressamente prevista pela lei processual. em que todos os condôminos deverão ser citados (art. passivo quando existirem vários réus ou misto quando no processo litigarem vários autores e vários réus. Em todas as hipóteses relacionadas. Para isso.248 Quanto à pluralidade de partes. CPC). O litisconsórcio facultativo pode ser limitado pelo juiz sempre que houver um número excessivo podendo acarretar o comprometimento da rápida solução do litígio . em que o autor deverá pedir a citação dos interessados certos ou incertos. pela natureza da relação jurídica. em que marido e mulher terão que se litisconsorciar como autores (art. a vontade das partes não é arbitrária. em que serão citados ambos os cônjuges. 10. CPC). Por outro lado. a lei determina a formação do litisconsórcio tendo em vista a relação jurídica material existente. em que todos os quinhoeiros deverão ser citados. ação pauliana. será assistente litisconsorcial. Alguns exemplos podem ser mencionados como nas ações de partilha. proposta pelo Ministério Público. Alguns exemplos podem ser citados como ações que versem sobre direitos reais imobiliários. O litisconsórcio será necessário sempre que a lei assim exigir ou. CPC). Entretanto. CPC). ações em que marido e mulher deverão ser citados como réus (art. A lei. 10.

cada litisconsorte tem autonomia dentro do processo. trata-se não só de citação para formação do pólo passivo como também do ativo. Neste caso. basta que um dos litisconsortes conteste para que a revelia não acarrete o efeito . o litisconsórcio deve sempre ser inicial. tornando-se revel. os litisconsortes podem constituir procuradores diferentes. Pode ocorrer que um dos litisconsortes. obrigatoriamente. deve ser formado no início da relação processual. A única hipótese de litisconsórcio ulterior ocorre no caso de litisconsórcio necessário que não se formou no início da relação processual de forma que. Neste caso. Nas demais hipóteses em que aquele que poderia formar litisconsórcio inicialmente não o fez e ingressa posteriormente. parágrafo único. Embora a disposição legal não deixe claro. A confissão e o reconhecimento são possíveis sem que prejudiquem os demais litisconsortes. assistência litisconsorcial que será examinada mais adiante. podendo praticar todos os atos processuais. não sendo possível que a decisão da lide seja de forma diferenciada para cada um dos colitigantes. isto é. do Código de Processo Civil. sim. conforme determina o artigo 47. a autonomia dos litigantes não é absoluta. Assim. 1. Quanto à eficácia da sentença. o litisconsórcio pode ser inicial ou ulterior. Autonomia dos colitigantes Conforme se depreende do artigo 48 do Código de Processo Civil. o juiz deverá ordenar ao autor que promova a citação de todos os litisconsórcios sob pena de extinção do processo. sendo considerado como parte distinta. O litisconsórcio será ulterior quando surgir no curso do processo.4. Como regra. tiver que ser decidida de maneira uniforme para todos os litisconsortes. na posição de réu. Já o litisconsórcio simples se dá quando a lide puder ser decidida de forma diversa para cada litisconsorte. os prazos para contestar. em consonância com a regra instada no artigo 191 do Código de Processo Civil. regra esta consubstanciada no parágrafo único do art. depois de constituída a relação processual ou pela junção de duas ou mais distintas relações processuais. Quanto ao momento de formação. Neste caso. Os atos e omissões não prejudicam os demais litisconsortes.249 ou dificultar a defesa. recorrer e falar nos autos serão contados em dobro. Entretanto. o litisconsórcio poderá ser unitário ou simples. sendo os fatos alegados pelo autor comuns a todos. comporta algumas exceções. Da mesma forma poderá ser feita a transação e a conciliação. não constitui caso de litisconsórcio ulterior e. não conteste a ação. a situação jurídica litigiosa deve receber tratamento uniforme.O litisconsórcio unitário ocorre sempre que a lide. 46 do Código de Processo Civil.

Neste sentido leciona Calmon de Passos : " O art. 5º. formando litisconsórcio inicial no pólo ativo. § 2º.853/89. o recurso interposto por um dos litisconsortes aproveitará aos demais quando os interesses não forem distintos ou opostos. da LACP admite que "o Poder Público e outras associações legitimadas" se habilitem como litisconsortes em ação já proposta". menos imperfeita foi a redação dada na Lei n. Hugo Nigro Mazzilli entende que a regra do artigo acima citado é caso de litisconsórcio ulterior. com pedido mais abrangente ou conexo. I. É o que ocorre nos casos de litisconsórcio unitário. Com relação à eficácia da sentença. portanto.5 Litisconsórcio nas ações coletivas A legitimação nas ações coletivas. Mas. "por absurdo. Em decorrência disso os legitimados podem propor a ação coletiva conjuntamente. pois a . 1. E ainda. Nesse passo. tem que ser entendido como restrito à impugnação de fatos comum a todos os litisconsortes. conforme se depreende do artigo 82 do Código de Defesa do Consumidor. Trata-se não de litisconsórcio. pois o nosso ordenamento não admite a constituição superveniente de litisconsórcio facultativo. Relativamente aos demais fatos. independentemente dos demais.250 previsto no artigo 319 do Código de Processo Civil. De acordo com o que disciplina o artigo 509 do Código de Processo Civil. 319 incide: eles serão reputados verdadeiros pelo juiz. ou comum ao réu atuante e ao revel litisconsorte. da Lei da Ação Civil Pública traz a possibilidade de o Poder Público e outras associações legitimadas habilitarem-se como litisconsortes. mesmo esta redação não se livrou da incorreção de mencionar assistentes litisconsorciais em vez de litisconsortes" [02]. o art. Segundo ele. e isso provocaria a reunião de processos. O recurso também poderá ser interposto pelo litisconsorte. 320. caso se entendesse que inexista possibilidade de litisconsórcio ulterior. o litisconsórcio será unitário. bastaria que o segundo co-legitimado propusesse em separado outra ação civil pública ou coletiva. "procurando disciplinar o chamado litisconsórcio ulterior. 7. em decorrência do princípio da comunhão da prova e do artigo 131 do Código de Processo Civil. e então ambos os co-legitimados acabariam sendo tratados como litisconsortes. O artigo 5º. ao tratar do mesmo problema: "Fica facultado aos demais legitimados ativos habilitarem-se como litisconsortes nas ações propostas por qualquer deles". A prova produzida por um dos litisconsortes também poderá aproveitar ou prejudicar os demais. é concorrente e disjuntiva. eliminada a possibilidade de prova contrária do réu quanto aos mesmos". a sanção do art. e sim de assistência. § 2º.

Face o artigo 5º. 1. Pelo sistema vigente na legislação brasileira. Isto ocorre para que a prestação jurisdicional seja prestada de uma só vez. De acordo com o parágrafo único do artigo 46 do referido diploma legal. em um único processo coletivo. Com o veto ao § 2º do artigo 82 do CDC.5. surgiu a discussão se teria ou não havido veto ao litisconsórcio inserido no CDC. após requerer a suspensão. o indivíduo não pode ser autor de ação que tutele interesses transindividuais. Assim. O entendimento majoritário da . embora não possa ser autor. beneficiando. há uma exceção que ocorre no caso de ação popular. tendo em vista que os legitimados para a propositura da ação estão expressamente determinados pela lei.5. Neste caso. poderá habilitar-se como assistente litisconsorcial na ação civil pública na defesa de interesses individuais homogêneos.1 O indivíduo na posição de litisconsorte A legitimação extraordinária tem como escopo possibilitar que os indivíduos lesados pela violação de seus direitos sejam substituídos no pólo ativo. pelos legitimados ativos elencados no artigo 5º da Lei da Ação Civil Pública e do artigo 82 do Código de Defesa do Consumidor. a ação popular pode ser proposta pelo cidadão para anular ato ilegal ou ilegítimo lesivo ao patrimônio público. todo o grupo de pessoas lesadas. O indivíduo lesado.251 decisão deverá ser idêntica para todos os litisconsortes. surgiu a idéia do litisconsórcio entre Ministérios Públicos que acabou se concretizando no artigo 113 do CDC. inclusive ao meio ambiente. Entretanto. Para que alguém figure como litisconsórcio é necessário que tenha a legitimidade para ser autor. de acordo com a previsão do artigo 94 do Código de Defesa do Consumidor. 1. tendo processo individual em andamento com pedido idêntico ou conexo. O seu § 5º incluiu o § 5º ao artigo 5º da LACP. seja de forma isolada ou em litisconsórcio unitário facultativo. somos pelo entendimento de que se deve fazer a aplicação subsidiária do Código de Processo Civil. é possível a limitação pelo juiz quando houver excessivo número de litisconsortes podendo acarretar o comprometimento da rápida solução do litígio ou dificultar a defesa.2 Litisconsórcio entre Ministérios Públicos Em decorrência de melhor defesa do meio ambiente. Tanto o CDC quanto a LACP não trazem regras processuais específicas quanto ao assunto do litisconsórcio. questiona-se se existiria limites com relação à quantidade de indivíduos que queiram ingressar na ação coletiva como assistente litisconsorcial. conforme já exposto. assim. inciso LXXIII da Constituição Federal.

o Ministério Público do Estado de São Paulo tem agido com a indicação da unidade da federação a que pertence. Suas regras estão disciplinadas nos artigos 50 a 55 do Código de Processo Civil. as quais serão examinadas adiante. e assim por diante" [03]. Para Kazuo Watanabe " haveria. 2. ou adesiva e a litisconsorcial ou autônoma. seja por razão de matéria. No que se refere à instituição. Tecnicamente. Assim. tradicionalmente. O Ministério Público é uma instituição informada pelos princípios da unidade. assim. o Ministério Público pode atuar em qualquer das justiças e até em conjunto com outro órgão do Ministério Público quando a defesa dos interesses e direitos difusos e coletivos esteja dentro das atribuições que a lei lhe confere. Entretanto. esses órgãos atuassem com a indicação do setor que lhe compete. A doutrina insere a assistência nas modalidades de intervenção de terceiros apesar de o Código de Processo Civil vigente a tratar separadamente. falar-se em representação da instituição. prevalecendo a possibilidade do litisconsórcio entre Ministérios Públicos por força do artigo 113 do CDC. certamente. as argumentações invocadas para o veto não procedem já que o artigo 128 da Constituição Federal não impede que os Ministérios Públicos da União. com atribuição específica de tarefas diferenciadas a cada um deles. com a menção à área que lhe toca. Esta autonomia é apenas administrativa. do Distrito Federal e dos Estados atuem em conjunto. seja por razão territorial. ASSISTÊNCIA A assistência é uma forma de intervenção espontânea que ocorre com o ingresso do terceiro na relação processual já existente. o Ministério Público do Trabalho. certa improbidade técnica em se falar em litisconsórcio entre os vários órgão de uma mesma instituição. 2. Outra polêmica diz respeito à constitucionalidade do dispositivo em questão.252 doutrina é que o veto foi ineficaz. . Assim. fez com que. o órgão Ministerial é uno. O Código de Processo Civil italiano conceitua a assistência simples como sendo a intervenção de terceiro no processo entre as partes visando sustentar as razões de uma delas contra a outra. A doutrina classifica a assistências em duas espécies: simples. mais apropriado seria. Ocorre que a própria necessidade de divisão do trabalho que levou à criação de vários órgãos do Ministério Público. indivisibilidade e independência funcional estabelecidos pelo § 1º do artigo 127 da Constituição Federal.1 Assistência simples ou adesiva A assistência simples tem origem no processo extraordinário romano. de âmbito nacional.

o terceiro "não se torna parte. a assistência ocorre quando o terceiro. restringir ou ampliar o objeto da causa. não formula pedido em prol de direito próprio. Segundo Liebman. não se converte em litisconsorte. o assistente não poderá discutir os fundamentos de fato e de direito em que se assentou aquela decisão em outro processo que venha a ser autor ou réu. A assistência pode se dar a qualquer tempo e graus de jurisdição. defender a posição da parte assistida. contudo. o assistente aturará como gestor de negócios. desistir da ação ou transigir sobre direitos controvertidos. pelo estado em que recebera o . pois a lide discutida não lhe pertence. Entretanto. reconhecer pedido ou transigir. ao intervir no processo. sempre em benefício do assistido. sua relação jurídica não é deduzida em juízo e a sentença não pode decidi-la nem conter disposições que lhes sejam diretamente pertinentes (exceto quanto às custas da intervenção). ele pode. A última hipótese somente se aplica ao assistente litisconsorcial. quando o assistido haja desistido do recurso ou a ele renunciado. atuando com maior liberdade no processo. de modo que se torna sujeito no processo e não parte. Vincula-se aos efeitos da imutabilidade da justiça da decisão. Segundo Nelson Nery Júnior. Mas não poderá praticar atos relativos à disposição de direitos. O assistente não estará vinculado à justiça da decisão se alegar e provar que. recorrer. o artigo 55 do CPC traz algumas exceções. Sendo o assistido revel. se necessário. podendo formular pedido. mesmo em contradição. Assim. o assistente encontra-se subordinado ao assistido que poderá reconhecer a procedência do pedido. Também estará sujeito aos mesmos ônus processuais. reconvir. e permanecendo nesse caráter. com a conduta que esta assume no processo" [04]. O assistente age como auxiliar da parte. com interesse jurídico em que a sentença seja favorável à parte por ele assistida. ex vi artigo 53 do CPC. lhe é vedado formular pedido próprio. como confessar. podendo produzir provas e praticar atos processuais desde que sejam benéficos ao assistido. Como regra. há interesse jurídico do terceiro "quando a relação jurídica da qual seja titular possa ser reflexamente atingida pela sentença que vier a ser proferida entre assistido e a parte contrária" [05]. Atua com a finalidade de auxiliar o assistido tendo em vista ter interesse em que a sentença seja favorável ao litigante a quem assiste. ou reconvir. Por outro lado. impugnar perito aceito pelo assistido ou testemunha por este apresentada etc. conforme dispõe o artigo 50 do Código de Processo Civil. exercendo os mesmos poderes. alterar. recebendo o processo no estado em que se encontra. como terceiro. a coisa julgada não atinge o assistente simples. intervém no processo. isto é. Entretanto.253 O assistente.

se tem direito próprio a ser zelado. após ter requerido a suspensão. por dolo ou culpa. na assistência litisconsorcial são extraídos do artigo 54 do CPC dois requisitos necessários para a sua formação: a) relação jurídica entre o interveniente e a parte contrária ao assistido. a intervenção do lesado a título de assistência processual não se parece adequar perfeitamente às figuras processuais conhecidas: a) não seria caso de assistência simples. Os atos e omissões do assistido não prejudicarão nem beneficiarão o assistente bem como os atos e omissões deste não influirão naquele. de que o assistido. É o caso daquele que poderia ter sido litisconsórcio facultativo mas não o foi.2 Assistência litisconsorcial ou autônoma A assistência litisconsorcial ou autônoma ocorre sempre que o terceiro for titular de uma relação jurídica idêntica ou dependente da deduzida em juízo que será atingida diretamente pela sentença. 2. b) não seria a rigor nem mesmo caso de assistência litisconsorcial em sentido estrito. Para Hugo Nigro Mazzilli. fora impedido de produzir provas suscetíveis de influir na sentença ou desconhecia a existência de alegações ou de provas. não poderia ser terceiro. pois a sentença não influirá necessariamente na relação jurídica entre ele e o adversário do assistido.3 Assistência nas ações coletivas Caso os demais legitimados queiram participar do processo posteriormente à propositura da ação. podendo agir com total independência e autonomia relativamente à parte assistida. 2. já que o indivíduo sempre conserva o direito de acionar . ou pelas declarações e atos do assistido. 48 do CPC. pois o lesado. Em consonância com o art. atuando como parte distinta deste em suas relações com a parte adversa. nos casos de danos a interesses transindividuais. faz coisa julgada material. Diversamente da assistência simples. compreendido no pedido coletivo. poderá ingressar como assistente litisconsorcial na ação coletiva. poderão ingressar na qualidade de assistente litisconsorcial tendo em vista que o litisconsórcio inicial é facultativo. Seus poderes são de verdadeiro litisconsorte. O particular lesado que tenha processo individual em andamento com pedido idêntico ou conexo. em benefício do qual se move a ação coletiva. não se valeu.254 processo. b) essa relação ser normada pela sentença. tendo sido deixado fora da relação processual. isto é. o assistente não se subordina aos atos do assistido.

exercendo os mesmos poderes e sujeitando-se aos mesmos ônus processuais. não restando prejudicado pela decisão da ação coletiva. ou seja. sujeitando-se. Entendemos no sentido de que. Outra parte defende o ingresso do assistente até o saneamento para que não cause tumulto processual. Com relação ao limite temporal para que o lesado habilite-se como assistente litisconsorcial nas ações coletivas. há divergência na doutrina. é possível que os efeitos da sentença recaia indiretamente sobre terceiros. 50. face o art. em caso de desistência ou abandono pelo assistido. o direito admite que terceiras pessoas. INTERVENÇÃO DE TERCEIROS Transitando em julgado a sentença. Os terceiros que intervêm não são partes na relação processual originária. Entretanto. É o que chamamos de "extensão subjetiva da sentença". em ação individual. Como regra. deve-se aplicar as regras processuais contidas no CPC. tendo em vista a complexidade da relação jurídica.255 diretamente o causador do dano. parágrafo único. nela intervenham em determinados casos. tornando-se imutável e fazendo lei entre as partes. c) também. Entretanto. São pessoas estranhas à relação processual de direito material deduzida em juízo e estranhas à relação processual já constituída. à sentença proferida. É a chamada intervenção de terceiros. 3. em tese. o assistente não poderá assumir a ação. uma vez não disciplinada a questão no CDC nem na LACP. a sentença atinge aos que foram partes na demanda e não terceiros. são os que não são partes no processo pendente [07]. Com o objetivo de reduzir os perigos da extensão dos efeitos da sentença a terceiros não participantes da relação processual. seria problemático admitir sua intervenção a título de assistência litisconsorcial qualificada. não pode assumir diretamente a promoção da ação. São sujeitos de uma outra relação de direito material que se liga intimamente àquela já constituída. em razão do interesse que tenham na lide. pois lhe falta legitimação autônoma. para que possam fazer a defesa de seus direitos. produz coisa julgada. Dessa forma. o assistente poderá ingressar a qualquer momento. do CPC. assim. Assim. pois o indivíduo na poderia ter participado de um litisconsórcio ativo unitário facultativo para propor ação coletiva. Embora o assistente atue como auxiliar da parte. . recebendo o processo no estado em que se encontra. esta seria a melhor opção [06]. Parte dela entende que o lesado poderá ingressar na ação coletiva a qualquer tempo.

em que a sentença produzia efeitos apenas entre as partes. Moacyr Amaral Santos conceitua oposição "como a ação intentada por terceiro que se julgar. a oposição acabou se tornando ação autônoma. 9. Diversamente do direito romano. São disciplinadas pelo CPC nos artigos 56 a 80. nos Juizados Especiais (Lei n. ainda.256 São modalidades de intervenção de terceiros a oposição. 3. face o disposto no art. salvo a assistência e o recurso de terceiro prejudicado por se tratar de um rito mais célere. o pedido de tutela jurisdicional. . Como conseqüência disto. total ou parcialmente. A França e a Itália seguem o modelo germânico primitivo. pois o procedimento adotado orienta-se pelos critérios da oralidade. Pela influência do direito canônico. a oposição pode ser conceituada como sendo a intervenção de terceiro que pretende. português e alemão. O instituto acabou sendo incorporado pelo direito canônico e pelo direito italiano medieval com a denominação de intervenção no processo das partes. no todo ou em parte. Ou. senhor do direito ou da coisa disputada entre as partes numa demanda pendente. o juízo era universal. os litígios eram decididos pela assembléia do povo.1 Oposição 3. Da mesma forma o procedimento comum sumário não autoriza a intervenção de terceiro. deveria intervir no processo para exclui-las. Dessa forma. 10. as sanções impostas pelo Código de Processo Civil para os casos em que a parte se omita no dever de provocar a intervenção de terceiro no processo não se aplicam nesta hipótese. formulando pretensão excludente. em praça pública.1. ou ação. total ou parcialmente. a coisa ou o direito sobre que controvertem autor e réu. das de ambas. buscando sempre que possível. não se admite a intervenção de terceiros e a assistência. Com esta roupagem a oposição foi adotada pelo direito brasileiro. a nomeação à autoria. deduzindo pretensão própria excludente. das dos demais litigante" [08].1 Conceito A oposição tem origem germânica. a conciliação ou transação.099/95). simplicidade. economia processual e celeridade. informalidade. Em razão desse procedimento é que se dizia que a sentença produzia efeitos em relação a todos que dela participavam e conheciam. a denunciação da lide e o chamamento ao processo. no qual a intervenção se dá no processo principal. e não só entre as partes. que terceiro formula na demanda entre as partes. no processo germano barbárico. Entretanto. Se terceira pessoa pretendesse a coisa ou o direito sobre a qual litigavam as partes. total ou parcialmente.

Serão réus em litisconsórcio necessário autor e o réu da ação principal [09]. nos termos do art. como demanda autônoma. contra o outro prosseguirá o opoente. Moacyr Amaral Santos entende que "a oposição. Neste caso. Diversamente. Se a sentença já foi proferida não é mais cabível a oposição. somos pelo entendimento de que a citação deve ser pessoal. Trata-se de uma exceção à regra de que a citação deve ser pessoal [10] [11]. seguindo o procedimento ordinário. 191 do referido diploma legal. O limite temporal para o oferecimento da oposição é até a prolação da sentença (juízo de 1º grau) por ser uma questão prejudicial à ação principal. embora o Código de Processo Civil não faça referência à questão. pode ser proposta entre dois termos: desde já iniciada a audiência . poderá fazê-lo por prazo nunca superior a noventa dias para que não retarde demasiadamente a marcha do processo principal.257 3. o prazo será contado em dobro. ou ambos. Mas se o juiz entender necessário o sobrestamento do processo principal a fim de julgá-los conjuntamente. e correrá simultaneamente com a ação. correrá em apenso aos autos principais ou em apartado como demanda autônoma. deverá ajuizar demanda que entender necessária contra o autor ou o réu. este será citado por edital. esta será apensada aos autos principais. 213 a 233 do CPC. Os opostos serão citados na pessoa dos seus respectivos advogados para oferecer contestação no prazo comum de quinze dias. Se a oposição for oferecida antes da audiência de instrução e julgamento. a oposição somente poderá ser proposta em ação autônoma. Após a audiência de instrução e julgamento da lide pendente. com prazo de quinze dias para contestar. De acordo com o momento em que ocorrer sua propositura. Nesta modalidade de intervenção de terceiros forma-se uma outra relação processual. O opoente apresentará a petição inicial observando sempre os requisitos exigidos pelos artigos 282 e 283 do CPC. na forma dos arts.1. Entretanto. sendo ambas julgadas pela mesma sentença. no mesmo juízo da causa principal. Se um dos opostos reconhecer o pedido. A oposição em processo autônomo será julgada sem prejuízo da causa principal. se o processo principal correr à revelia do réu. não se esquecendo que a oposição deve ser apreciada antes da principal. o interessado no objeto da lide entre o autor e o réu. Sendo advogados diferentes.2 Procedimento O procedimento da oposição encontra-se previsto nos artigos 56 a 61 do CPC.

o recurso oponível será o de apelação. a oposição deverá ser oferecida e processada em primeira instância. devendo entregá-la ao opoente ou responder perante ele. isto é. nos termos do art. nenhum óbice existe ao seu ajuizamento depois de proferida a sentença de primeiro grau de jurisdição. visando livrar-se de demanda que lhe foi intentada. como depois dela e da prolação da sentença. e será condenatória com relação ao réu que possui a coisa. portanto. 3. Transitada em julgado a sentença proferida na ação. deverá proceder a nomeação à autoria o proprietário ou o possuidor. e possa ser julgada "sem prejuízo da causa principal". Da sentença que julgar a oposição. É. Mas. não mais se admite a oposição. b) na ação de indenização. pois declara não ter ele direito ao objeto da causa. Pontes de Miranda entende que a oposição pode ser ajuizada tanto antes da audiência.2. Assim. ato exclusivo do réu. ainda nesse caso. ou seja. A oposição não será cabível em processo de execução. até o momento em que essa lide tiver sido decidida definitivamente (termo ad quem).258 de instrução e julgamento da lide pendente (termo a quo). a oposição pode ser proposta mesmo quando a causa entre autor e réu estiver em segunda instância.2 Nomeação à autoria 3. substitui-se o réu parte ilegítima para a causa por um réu parte legítima. em grau de recurso. 62 a 69 do Código de Processo Civil. No mesmo sentido. A sentença que julgar procedente a oposição será declaratória com relação ao autor da ação principal. Duas são as situações em que deverá ocorrer a nomeação à autoria: a) quando aquele que detiver a coisa em nome alheio. intentada pelo proprietário ou pelo titular de um direito sobre a coisa. sujeita às normas que disciplinam o duplo grau de jurisdição" [12] . for demandado em nome próprio.1 Conceito A nomeação à autoria consiste na correção da legitimação passiva. 3. Se o Código permite expressamente que a oposição tenha curso autônomo.2 Procedimento O procedimento da nomeação à autoria encontra-se disciplinado nos arts. até o momento em que a sentença nessa lide se torne irrecorrível. ou . mas antes do seu trânsito em julgado [13].2. 513 do CPC. nos Juizados Especiais e nas demandas sob procedimento sumário [14]. toda vez que o responsável pelos prejuízos alegar que praticou o ato por ordem.

acarretando dano ao autor e para a Justiça. o processo continuará contra o nomeante. tendo em vista que o nomeado não compareceu. o juiz suspenderá o processo e mandará ouvir o autor no prazo de cinco dias. se o juiz não estipular o prazo. a palavra auctor assume várias acepções. Citado o nomeado. O nomeante poderá continuar na relação processual como assistente caso tenha interesse em que a sentença seja favorável ao nomeado. conforme preceitua o art.3. Se o nomeado negar a condição. Assim. em relação ao adquirente do direito. presumir-se-á aceita a nomeação [15]. observando a regra contida no art. A nomeação à autoria não é uma mera faculdade do réu. É tanto aquele que propõe ação quanto o antecessor na sucessão da coisa. Da mesma forma. 267.3 Denunciação da lide 3. A nomeação deve ser requerida no prazo para a defesa. este poderá reconhecer a qualidade que lhe é atribuída. O reconhecimento tácito se dá por presunção. posteriormente. 185 do CPC. se a recusar. expressa ou tacitamente. mas sim um dever. ou se compareceu. no chamamento à autoria instituído pelo Código de Processo Civil de 1939.1 Conceito No direito romano. Dessa forma. ou se este negar a qualidade que lhe é atribuída. o nomeante terá novo prazo para contestar [16]. nada alegou. Neste caso. ou desistir da ação contra o nomeante. Deixando o autor de se manifestar no prazo que lhe foi conferido. havendo recusa do autor com relação ao nomeado. para. ficará sem efeito a nomeação. e uma vez deferido o pedido. 3. A sua inobservância resulta na responsabilidade por perdas e danos. o transmitente do direito (o causam dans. § 4º. propor nova demanda contra o terceiro indicado pelo nomeante. correndo a demanda contra ele. se nomear pessoa diversa daquela em cujo nome detém a coisa demandada. Aceita a nomeação pelo autor. O Código nada fala de qual será o prazo para o nomeado falar sobre a nomeação. . pois estará dando prosseguimento a um processo inútil ao fim visado. É neste último sentido que foi usada a palavra autoria. que se afirma parte ilegítima.259 em cumprimento de instruções de terceiro. o autor terá duas opções: assumir o risco de continuar litigando com o nomeante. o causam habens). a ele incumbirá a citação. deverá aplicar o prazo de cinco dias.

70. Mais tarde. Já na hipótese dos incisos II e III. podendo ajuizar a ação regressiva em processo autônomo. julgadas pela mesma sentença [17] [18]. chiamata in garantia. a fim de que esta possa exercer o direito que da evicção lhe resulta. art. do locatário. O CPC traz em seu art. Haverá duas lides que serão processadas simultaneamente. 3. exerça a posse direita da coisa demandada. por força de obrigação ou direito. Já o direito francês e o italiano preferiram o vocábulo de origem germânica. em ação regressiva. pela lei ou pelo contrato. denominando o instituto de exception de garantie. Trata-se de ato obrigatório [20] [21] apenas nos casos de evicção e transmissão de direitos. No direito alemão e austríaco tem como correspondente a litisdenunciação. na ação em que terceiro reivindica a coisa. acompanhando o direito tradicional português. Quando o titular da eventual pretensão regressiva for o autor. regressiva. citado em nome próprio.2 Procedimento Como já foi dito alhures. mas não perde a pretensão de direito material. passando. o réu.260 O direito brasileiro. a parte que não promover a denunciação da lide perderá apenas as vantagens processuais dela decorrentes. do credor pignoratício. no mesmo processo. Denunciação da lide é o instituto pelo qual autor ou réu chamam a juízo terceira pessoa. a fim de resguardá-lo no caso de ser vencido na demanda em que se encontram. São os seguintes: I – ao alienante. cujo domínio foi transferido à parte. a indenizar. em casos como o do usufrutuário. a ser chamado de denunciação da lide. II – ao proprietário ou ao possuidor indireto quando. então. É uma ação secundária. sendo citado como denunciado o terceiro contra quem o denunciante terá pretensão indenizatória caso seja sucumbente na ação principal. utilizando-se do vocábulo latino.3. pois se não fizer a denunciação perderá o direito de regresso contra aquele que é o garante do seu direito discutido em juízo. a denunciação da lide pode ser feita tanto pelo autor quanto pelo réu. que seja garante do seu direito. este deve . III – àquele que estiver obrigado. o conceito de denunciação à autoria foi alargada. 70 os casos em que tem cabimento a denunciação da lide. adotou a denominação "chamamento à autoria". o prejuízo do que perder a demanda [19].

suspende-se o processo. a qual será feito primeiro. ou confessar os fatos alegados pelo autor. Se a citação não ocorrer dentro do prazo estipulado pela lei. este poderá defender-se da denunciação negando a qualidade que lhe é atribuída. e de trinta para o residente em outra Comarca. cumprindo ao denunciante prosseguir na defesa até o final. pois o denunciado precisa conhecer o posicionamento do réu com a inicial para poder apresentar sua defesa [24]. não há dúvidas quanto a essa possibilidade já que a lei é expressa. Se o denunciado confessar os fatos alegados pelo autor. deixando de contestar o pedido do autor.261 requerer a denunciação juntamente com a petição inicial. A diligência para a citação do denunciado deve ser feita no prazo de dez dias para o residente na Comarca. sendo. Neste caso. podendo o denunciante prosseguir na defesa. a demanda prosseguirá entre autor e réu. podendo aditar a petição inicial no prazo de quinze dias (art. apresenta apenas a denunciação. O denunciado também poderá aceitar a denunciação e assumir a posição de litisconsorte. ficando suspenso o processo. Neste caso. A revelia do denunciado não desobriga o réu de sua defesa sob pena de perder o direito de regresso. Questão que surge é se o réu. ou lugar incerto. . poderá o réu e denunciante apresentar contestação. e do réu. não pode argüir fato novo. A decisão de rejeição liminar da denunciação é decisão interlocutória. O prazo e as regras para a citação do denunciado serão as mesmas da denunciação feita pelo autor. Uma vez citado o denunciado. uma vez citado. Citado o denunciado. considerado revel. Da mesma forma se dará se o denunciado for revel. prosseguindo o processo contra o denunciante e denunciado em litisconsórcio. Cabe ao denunciado coadjuvar o autor uma vez que tem interesse na procedência da ação. contrariando a defesa do autor [23]. poderá o denunciante prosseguir ou não na defesa. este poderá aceitar e contestar o pedido. sendo o denunciado citado dentro do prazo para a contestação. Ordenada a citação. depois de reiniciado o andamento da ação principal ? Isso não nos parece correto. a ação prosseguirá unicamente em relação ao denunciante [22]. Embora haja na doutrina divergência quanto ao aditamento da petição inicial pelo denunciado. 241 c/c art. A denunciação da lide feita pelo réu deve ser oferecida no mesmo prazo para a contestação da ação principal. como acima explicitado. sendo sua impugnação feita por meio do recurso de agravo. Entretanto. pedindo a citação do denunciado. 297). comparecer apenas para negar a qualidade que lhe foi atribuída.

76 do CPC. o procedimento servirá apenas como forma de cientificar os eventuais denunciados. intimará do litígio o alienante. ou o responsável pela indenização e. 70. o denunciado está obrigado a garantir o resultado da demanda. previstas no artigo 73 do CPC. No mesmo sentido. assim. É o que dispõe o art. realizado em Curitiba. No que tange aos efeitos da sentença que julga a denunciação da lide. Isto porque constam do próprio texto legal as expressões "obrigação de indenizar em ação regressiva" (art. acarretando a perda da ação [26]. não se tornando réus na ação. Moniz de Aragão sustenta a possibilidade de denunciação da lide não somente ao alienante mas também de todos os antecessores na cadeia dominial. Parte da doutrina tem entendido que a denunciação da lide sucessiva é cabível em todos os casos de ação regressiva. 73 : " Para os fins do disposto no art. pois. por sua vez. sucessivamente. o possuidor indireto.I) [29] [30]. esta será declaratória. requeridas ‘em conjunto’ pelo denunciante. observando-se. o efeito da sentença é condenatório. Dessa forma. não haveria possibilidade de considerá-la como título executivo (584. posiciona-se Athos Gusmão Carneiro. o proprietário. por força de lei ou contrato. Todas essas discussões ocorrem principalmente no temor de que as denunciações sucessivas se eternizem no processo. Entretanto. pondo fim à suspensão preconizada pelo art. As hipóteses de intervenção são excepcionais face o princípio da singularidade da jurisdição e da ação. no caso de insolvência ou ausência de algum dos anteriores proprietários na cadeia dominial" [28]. somente após a última denunciação é que o processo retornará ao seu curso. de modo que a denunciação somente será possível quando. Isto ocorre quando o denunciado tem com relação a outrem a mesma posição jurídica do denunciante perante ele. quanto aos prazos. ou seja. em tese apresentada no Ciclo de Estudos de Processo Civil. 70). 72 e 73) e "responsabilidade por perdas e danos" (art.262 O Código de Processo Civil também permite a chamada denunciação "sucessiva". Mas o próprio Código. determina a "intimação" e não a "citação". se assim não fosse. Assim. conforme o art. 70. . na mesma oportunidade [27]. poderão ser feitas ‘coletivamente’. "responsável pela indenização" (art. já prevendo tal situação. Outra parte posiciona-se no sentido de que a interpretação dos dispositivos deve ser restritiva. assim abreviando o processo e melhor se assegurando o êxito da demanda indenizatória de regresso. (em agosto de 1983) : "As denunciações sucessivas. esta assertiva não coaduna com a parte final do artigo que diz "valendo como título executivo". Na verdade. o disposto no artigo antecedente". 75) [25]. o denunciado.

com força de coisa julgada material.4.099/95 respectivamente. 10. A sentença que julga a denunciação da lide pode ser atacada por meio da apelação [32] [33]. Tem como finalidade alargar o campo de defesa dos fiadores e dos devedores solidários. pareceria que a segunda decisão do juiz seria meramente declaratória. Arruda Alvim leciona : "Outra observação que cabe fazer é a de que. chamar o responsável principal. 3. não ensejaria execução. diretamente no processo em que um ou alguns deles forem demandados. o que não é coerente. I. com as últimas palavras da própria norma em exame: valendo como título executivo. no mesmo processo. possibilitando-lhes. título executivo judicial para cobrar deles aquilo que pagar" [36]. porque amplia a demanda. se a sentença fosse tão somente declaratória. É uma faculdade do réu em fazer o chamamento ao processo do terceiro e não uma obrigação. e quer dizer condenar. 9. Aquele que chama terceiro ao processo não tem pretensão a fazer valer em . todavia. pois o texto legal diz que "é admissível". além de lhe fornecer. Também não é cabível no processo de execução [35]. coloca como título judicial apenas a sentença condenatória. ou os co-responsáveis ou coobrigados. tendo em vista ser um procedimento mais célere. a virem responder pelas suas respectivas obrigações de modo a "favorecer o devedor que está sendo acionado. A possibilidade de execução é. dado que o art. reconhecer. A denunciação acabaria introduzindo fundamentos novos na relação processual acabando por procrastinar o feito [34]. Lei n.263 Da mesma forma. Por outro lado. O chamamento ao processo foi trazido ao Código de Processo Civil por influência do Código de Processo Civil de Portugal que possui essa forma de intervenção de terceiros. A denunciação da lide não é cabível no procedimento sumário bem como nos Juizados Especiais por força da vedação do art. possibilitando duplo título executivo" [31]. sem uma maior análise. denominada de chamamento à demanda. em um só processo.4 Chamamento ao processo 3. A palavra declarar no texto foi usada em seu sentido estrito de definir. para permitir a condenação também dos demais devedores. resolverem-se. duas lides conexas. 584. a vantagem do instituto. em definitivo. aliás.1 Conceito O chamamento ao processo é uma das modalidades de intervenção de terceiro no processo pelo qual o devedor demandado chama os demais coobrigados pela dívida para integrar o mesmo processo daquele que o autor poderia ter trazido como litisconsorte. 280 do CPC e art.

4. III – de todos os devedores. Apenas entende que este tem a mesma obrigação de responder perante o autor. 3. O chamamento ao processo é admitido nos seguintes casos: I – do devedor. serão trazidos ao processo os demais devedores solidários passando a figurar como litisconsortes no pólo passivo. ocupam a posição de litisconsórcio facultativo no pólo passivo. a dívida comum – esta é a hipótese de solidariedade passiva em que o credor esteja exigindo apenas de um dos devedores solidários a dívida comum. O réu deverá requerer o chamamento ao processo na mesma oportunidade da contestação. o afiançado chamado ao processo será abrangido pelos efeitos da decisão. 80 do CPC [38]. quando o credor exigir de um ou de alguns deles. solidários. II – dos outros fiadores. até que exausto o patrimônio deste. poderá chamar ao processo o afiançado. Neste caso. Sendo a sentença procedente. E. 827 do Código Civil [37]. O fiador chamado ao processo.I do CPC. na ação em que o fiador for réu – visa garantir a possibilidade de o fiador utilizar-se do chamado benefício de ordem consubstanciado no art. 595 do CPC. parcial ou totalmente. Mesmo que o fiador não tenha benefício de ordem a seu favor.264 relação ao chamado. tendo sido demandado apenas um deles. nos termos do art. facultando ao demandado trazer os demais fiadores ao processo. Confere-se ao fiador o direito de não sofrer execução. Ambos. 77 a 80 do Código de Processo Civil. nos termos do art. isto é. instaurado o processo de execução. somente poderá ser executado o devedor reconhecido como tal no título executivo. o fiador também será principal devedor e. como responsável pela dívida. Isto porque. chamante e chamado. torna-se litisconsórcio. face o art. quando para a ação for citado apenas um deles – consiste na hipótese de haver vários fiadores garantes da dívida. uma vez citado. Dessa forma. 568. será condenado da mesma forma que o fiador. sendo o caso.2 Procedimento O procedimento do chamamento ao processo encontra-se disciplinado nos arts. . poderá valer-se do já referido benefício de ordem. poderá exigi-la do afiançado. decorrente de não pagamento de dívida pelo afiançado. tendo satisfeito o credor.

099/95) não é cabível o chamamento do processo por se tratar de procedimentos mais céleres. Assim. consumando-se com o advento do Código de Defesa do Consumidor. chamados de direitos fundamentais de terceira geração. Lei n. quanto à citação e aos prazos [39].265 Deferido o pedido do devedor e ordenada a citação. No procedimento sumário (art. na proporção que lhes tocar. A sentença de procedência proferida no processo de conhecimento condenará os devedores e valerá como título executivo.078/90. A construção doutrinária em torno da noção conceitual é recente em nossa legislação pátria. o processo será suspenso. 77. Os sujeitos são. O indeferimento do chamamento somente poderá ocorrer se o juiz verificar que o requerimento não se enquadra nas hipóteses elencadas pelo art. Dessa decisão cabe agravo. A positivação dos direitos difusos e coletivos. para exigi-la por inteiro.513/77 e com a Lei da Ação Civil Pública. em favor daquele que satisfizer a dívida. coletivos e individuais homogêneos. observando as regras contidas nos arts. Os direitos metaindividuais têm a primeira referência na Lei da Ação Popular. Os interesses metaindividuias têm sua origem em regras previstas como garantias do tecido social. Com a alteração dada pela Lei n. em geral. O termo difuso tem sua origem doutrinária romanística tendo como titular cada um dos integrantes da comunidade.347/85 houve uma sistematização na defesa dos direitos difusos e coletivos ao meio ambiente e ao consumidor. este terá prazo para resposta. 280.º 6. ocorreu com a promulgação da Constituição Federal de 1988. ainda que . 3. indeterminados. CPC) e nos Juizados Especiais (art. Já no processo de execução não é possível o réu lançar mão do chamamento ao processo já que inexiste sentença sobre a pretensão executiva. Lei n. 10. tornando-se litisconsorte do chamante. do devedor principal. Lei n. O perfil histórico do processo civil romano menciona as actiones populares como instrumento de proteção a esses interesses. 72 e 74. para que o fiador se utilize do benefício de ordem é necessário que tenha requerido o chamamento ao processo do afiançado no processo de conhecimento. O chamamento ao processo é cabível tanto em processo de conhecimento quanto no cautelar.º 7. 9.º 8.5 Intervenção de terceiros nas ações coletivas As ações coletivas são aquelas destinadas a defesa dos interesses difusos. ou de cada um dos co-devedores a sua cota. Após a citação do chamado.

consubstanciado no art. o legislador se deparou com a necessidade de criar regras de proteção para que os princípios constitucionais de igualdade. mas determináveis. Seu objeto também é indivisível. Não é necessário que exista entre as pessoas uma relação jurídica base anterior. É caracterizado pela sua origem comum podendo ser defendidos coletivamente. entre outros. o Código de Defesa do Consumidor trouxe uma sistemática peculiar. em decorrência do desequilíbrio das forças econômicas e negocias nas relações de consumo. sempre à luz da vulnerabilidade do consumidor. ligados entre si. I do CDC. Essa relação jurídica é diversa daquela que se origina da lesão. e o seu objeto e a forma de tutela possuem uma mutabilidade no tempo e espaço como característica. Dividem-se em interesses difusos. parágrafo único e seus incisos. Assim. ampla defesa. por relação jurídica base preexistente à lesão ou ameaça de lesão. que acabou por deixar o consumidor em situação de vulnerabilidade e hipossuficiência. ou com a parte contrária. 81.266 determináveis. buscando a facilitação e a rápida entrega da prestação jurisdicional. Daí se conclui que em lides de consumo as figuras de intervenção de terceiros serão possíveis desde que não traga dificuldades na defesa e procrastinação no feito. de forma que. em noção tripartite dos interesses metaindividuais. A efetiva identificação se dá no momento em que o prejudicado exerce o seu direito. Foi a Lei n. Não há entre eles relação jurídica base. Com esses princípios em mente é que o legislador trouxe a vedação da . São difusos os direitos cujos titulares são indetermináveis.078/90 que trouxe o conceito. Desse modo. O Código de Defesa do Consumidor deixou de tratar muitas questões processuais. fossem garantidos.º 8. seja através de demanda individual. 103. A relação jurídica que nasce da lesão é individualizada na pessoa de cada prejudicado. o CPC e a LACP. Os individuais homogêneos são aqueles direitos individuais cujo titular é identificável e o objeto é divisível. acarretando ofensa diferente na esfera jurídica de cada um de modo a permitir a identificação das pessoas atingidas. sendo suficiente uma única demanda. seja por meio de habilitação por ocasião da liquidação da sentença na demanda coletiva. A ligação entre os titulares se dá por circunstâncias de fato e o objeto é indivisível. Neste aspecto é que os institutos processuais devem ser analisados. A tutela jurisdicional dos interesses difusos deve ser feita em benefício de todos os consumidores atingidos. São coletivos quando os titulares são indeterminados. cuja sentença fará coisa julgada erga omnes face o disposto no art. coletivos e individuais homogêneos. há necessidade de se fazer uma interpretação sistemática entre o CDC. buscando o equilíbrio processual entre as partes.

não há violação aos princípios básicos do microssistema do CDC já que o chamamento da segurado só amplia as garantias para o consumidor [41]. Kazuo Watanabe. para evitar que a tutela jurídica processual dos consumidores pudesse ser retardada e também porque. que poderá. 88 do CDC. Hugo Nigro Mazzilli.267 denunciação da lide no art. GIOVANNI NENCIO NI (L´intervento voluntário litisconsorziale nel processo civile) refere que " única è la definizione di terzo. Outra questão polêmica é quanto ao cabimento do chamamento ao processo em sede de lide de consumo. em caso de procedência da ação. Neste caso. 2. 04 05 06 07 Libman. trad. Nesta hipótese. Código de Processo Civil Comentado. a sentença condenará o réu nos termos do art. 328. P. Esse chamamento deverá ocorrer no prazo para contestação. II do CDC traz expressamente a possibilidade do chamamento ao processo da seguradora quando existir relação de seguro. XXIX. todavia. foi vedada para o direito de regresso de que trata o art. a dedução dessa lide incidental será feita com a invocação de uma causa de pedir distinta. como também contra o seu segurador. Por se tratar de ação condenatória em que se discute dolo e culpa acaba por afrontar o direito do consumidor de ser indenizado em face da responsabilidade objetiva. A defesa dos interesses difusos em juízo. face o art. tendo em vista que o segurador foi chamado como responsável em face do consumidor. 101. do Código. 256. 78 do CPC. Nestes casos deve ser proposta ação autônoma para a discussão da questão. Nelson Nery Júnior. Kzauo Watanabe entende que "a denunciação da lide. 13. ed è negativa: terzo di um . Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. 763. entretanto. port. v. por via de regra. 79 do CPC. p. 80 do CPC. 1. face o disposto no art. v. Curso de Direito Processual. p. Hugo Nigro Mazzilli. 226. em seguida ao pagamento da indenização. Notas 01 02 03 Rezende Filho. Nota às Instituições de Chiovenda. Uma vez julgada procedente a demanda. propor ação autônoma de regresso nos mesmos autos da ação originária" [40]. parágrafo único. cap. não ficará prejudicado o comerciante. o juiz poderá julgá-la não só contra o réu. Com isso. A defesa dos interesses difusos em juízo. P. O art. Neste sentido.

j.06. mas é perfeitamente válida a citação feita na pessoa dos referidos interessados" (1ª Câm. 49.se converte na verdadeira propositura de uma ação de regresso antecipada.II. 107:247 e 115:168). 27. p. Do TJPA. deve o interessado propor ação autônoma" (TRF . Des. Pluralidade de partes e intervenção de terceiros. 34:50).08.10. "O art. DJU 9. Assim também SÉRGIO COSTA: " Il concetto di terzo può essei determinato solo per esclusione: è terzo chi non è parte" (L’ intervento in causa. discutir sobre possível ilegitimidade passiva ‘ad causam’" (STJ – 4ª Turma. Lídia Dias Fernandes. 15:137). rel. consubstancia uma ação incidental com pretensão de garantia e/ou indenização. 15. 57 do CPC manda citar os advogados dos opostos para apresentação de defesa.433-MS. Comentários ao Código de Processo Civil. v.São Paulo: Saraiva.77.285). p. 18. Revista dos Tribunais. Costa Lima. mas no Código de Processo Civil vigente. 12.099/95. mas obedecerá ao disposto nos arts. além de impugnar a nomeação propriamente dita. Sidney Sanches alude que a expressão "denunciação à lide" dá a idéia de simples notícia de existência do litígio. 95 (nº 2) e 100 (nº 1).12. "O prazo começa a correr novamente. ac.11. para a eventualidade da sucumbência do denunciante" (BARBOSA 18 17 16 . Moacyr Amaral Santos.268 giudizio è colui Che non è parte".206-SP. 280. "apud" Em.. AC.. ". p.96. v. embora na pessoa dos advogados.u. ed. neste caso. 3. não pode ser feita mediante simples publicação na imprensa oficial.75.96. deram provimento. Turim. Primeiras linhas do direito processual civil. "A oposição não pode ter objeto mais amplo que a coisa ou o direito controvertidos entre autor e réu. AC 83. art. Pontes de Miranda. devendo os nomeados serem citados para manifestar-se sobre o pedido.u. GOMES DA CRUZ. da Jur. isto é. v. 74. em 1. do TRF n. de 7. do denunciante em face do denunciado (Denunciação da lide. presume-se aceita aquela. Sálvio de Figueiredo. Rev. 14 15 13 12 11 10 Lei 9. 1997.598. 2. 2. V. tem o réu 15 dias para responder à ação" (TRPR – Apel. RT 486/160). 1953). RP.85. REsp 104. 10 e CPC. 08 09 Moacyr Amaral Santos. 549/75.2ª Turma. 1991. 1974. " A citação.295). rel.. Belém. 213 e 233" (RJTJSP. Do TJPA. podendo. v. DJU 29. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil.. Min. Rel. art. Min. "Ante o silêncio do autor sobre o pedido de nomeação à autoria feito pelo réu. v.

I. cap. p. a denunciação. não haja necessidade de dilação probatória pertinente exclusiva e especificamente à denunciação" (Max Guerra Kopper. p. ou cumular pedidos outros. Curso de Direito Processual Civil. j. Por isso sendo ultrapassado. uma vez que o eventual direito regressivo do autor contra o denunciado exercer-se-á nos 23 22 21 20 19 . 87). Sálvio de Figueiredo. Não poderá. REsp 43. o prejuízo do que perder a demanda. Rio de Janeiro: Editora Forense. DJU 26.99.367-SP.761).321-PR – STJ – 1ª Turma.02. insista-se. 1997). "Em face de preceito expresso de lei. Da denunciação da lide. os casos de denunciação obrigatória. mas ainda com o processo paralisado. Ed. 87-8). 23. para evitar seu prejuízo de ficar com o processo suspenso indefinidamente. Mas não pode o denunciado. ed. 1974. ou quiçá em expungi-la de irregularidades que poderiam torná-la inepta. p. poderá logo pedir a retomada do curso do processo. o seu direito de regresso ou quando tal comprovação dependa unicamente da realização de provas que. por via de regresso.04.96. Rio de Janeiro. ressalvados. "Pode consistir. a citação for realizada além do prazo. por força da própria necessidade instrutória do feito principal. 22. porém. rel. do CPC) e na afronta ao princípio da economia processual" (REsp 196.Tornar facultativa a denunciação da lide importa no descumprimento explícito da lei (art. somente nos casos de evicção e transmissão de direitos (garantia própria) é que a denunciação da lide se faz obrigatória" (STJ – 4ª Turma. Estudos sobre o novo Código de Processo Civil. Líber Juris. Min. porque não é o dominus litis. quando. 72 deve ser interpretado em harmonia com o respectivo caput. 21. uma nova causa petendi. 70. Demócrito Reinaldo. do art. documentalmente. V. somente deve ser admitida quando o denunciante logre comprovar de plano. Min. DJU 24. Del Rey. e não do terceiro denunciado" (THEODORO JÚNIOR. já agora como "litisconsorte" do autor.06. rel. em acrescentar o denunciado.269 MOREIRA. serão de qualquer modo produzidas. Se. "A denunciação da lide. por exemplo. v. p. O § 2º. a denunciação da lide é obrigatória a todo aquele que estiver forçado pela lei ou por cláusula contratual a indenizar. por exemplo. alterar substancialmente o próprio pedido formulado pelo denunciante. ou em trazer mais elementos e argumentos de fato ou de direito à petição inicial. sem a consumação da diligência. nem teria interesse algum nisso. em outras palavras. em prejuízo das partes do processo principal. III. "Esse prazo é estipulado em favor da parte contrária à que requereu. "Segundo entendimento doutrinário predominante. Humberto. onde se estipula a suspensão do processo. 61).99. o denunciado argüir a intempestividade como motivo para exonerar-se da responsabilidade de garantia ou do direito regressivo do denunciante. não haverá motivo para negarlhe efeito. in casu.

1984. 08/02/00). Manual de Direito Processual Civil. Intervenção de Terceiros. Ajuris. 25:22. p. se o denunciado vier a contestar não só a ação regressiva. 7. Min. 87). I. porque o processo continua" (RT574/150). como também o pedido formulado. antes que o réu o faça" (STJ – 3ª Turma. Ag 247. 1979. 8. São Paulo: Saraiva.245/95.761-DF-AgRg. 121. ante o disposto no art. litisdenunciado é agravável de instrumento. 76). "Pode ser rescindida a sentença que deixa de julgar a lide secundária objeto da denunciação" (RT 724/408). Sidney Sanches. necessita conhecer a posição de denunciante relativamente aos fatos e pretensões apresentados na petição inicial. São Paulo: Revista dos Tribunais. artigo cit. p. certamente pautado em preocupação maior com a concentração de atos 34 33 32 31 30 29 28 27 26 25 24 . 92. Sobre chamamento à autoria. antes da sentença. 1996). Ari Pargendler. São Paulo: Saraiva. podendo o denunciado à lide ser obrigado a cumprir sua obrigação. na ação principal (pois nesta torna-se litisconsorte passivo). art. do Código de Processo Civil. 2. Ao limitar-se ao pedido de intervenção do terceiro. 280. 2001.v. "A expressão "valendo como título executivo" evidencia o conteúdo condenatório da sentença que julga procedente a denunciação da lide" ( RSTJ 85/197). "A sentença que julga procedente a denunciação da lide vale como título executivo (CPC. ed. Athos Gusmão Carneiro. Artigo publicado na Revista do Instituto dos Advogados do Paraná. Intervenção de Terceiros. Estudos sobre o novo Código de Processo Civil. inciso I.. 1996. rel. "Decisão que exclui. Barbosa Moreira. 8. o aparelhamento deste independe do andamento da execução da sentença proferida na ação principal. para habilitar-se à sua própria defesa. p. então não se produzirá o efeito da revelia.. 320. p. ed. Athos Gusmão. com redação da Lei 9. Arruda Alvim. 1978. que não pode ultrapassar o pedido" (CARNEIRO. Na opinião de Athos Gusmão Carneiro " O denunciado. do Código de Processo Civil" (Intervenção de Terceiros. t. Moniz Aragão. 1.270 limites da sucumbência. n. Denunciação da Lide no Processo Civil Brasileiro. cit. Vicente Greco Filho. ed. "O art. 85/86. Justitia 94/13. I. Todavia. o réu implicitamente aceitou os fatos postos na inicial e permitiu a preclusão de seu direito de contestar.

7. do proprietário. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. II. vedada a denunciação da lide no procedimento sumário. O fiador que alegar o benefício de ordem. do possuidor indireto ou do responsável pela indenização far-se-á: a) quando residir na mesma comarca. Ordenada a citação. a ação prosseguirá unicamente em relação ao denunciante. t. ficará suspenso o processo.. 359. deve nomear bens do devedor. ambas ações condenatórias. assumirá a posição de litisconsorte do denunciante e poderá aditar a petição inicial. Comentários ao Código de Processo Civil. que sejam primeiro executados os bens do devedor. Como no sistema do Código de Processo Civil. p. a denunciação é forma de intervenção de terceiro (o Capítulo VI em que o instituto está inserido tem esta denunciação). nem a intervenção de terceiro. 41 40 . salvo assistência e recurso de terceiro prejudicado". 38 39 37 36 35 "Não se admite chamamento ao processo em execução" (JTA 103/354). 72. certamente dará ensejo a profundas controvérsias" (Arruda Alvim. 782/783. sitos no mesmo município. cit. quantos bastem para solver a dívida". Feita a denunciação pelo autor. dispõe que "não será admissível ação declaratória incidental. 74. 1º TACSP – 3ª Câm – Ap.. O sistema do CDC veda a utilização da denunciação da lide e do chamamento ao processo. ou em lugar incerto. com o advento deste dispositivo restou. 521/197 e 562/112. P. dentro de dez (10) dias. com a economia processual. Arruda Alvim.922 – Rel. livres e desembargados. o denunciado. O tema.271 processuais e. 197). Art. comparecendo. " Art. pela literalidade de seu texto. a que se refere este artigo. procedendo-se em seguida à citação do réu". Parágrafo único. 2º Não se procedendo à citação no prazo marcado. ed. 1º A citação do alienante. "Vedação da denunciação da lide. reflexamente. p. 1. entretanto. 262. 827 – O fiador demandado pelo pagamento da dívida tem o direito a exigir. 434. dentro de trinta (30) dias. n. "Art. I. RT 504/173. b) quando residir em outra comarca. até a contestação da lide. Celso Barbi. v. ed.

Embora esteja mencionada como vedada apenas a denunciação da lide na hipótese do CDC 13 par. Seria injusto discutir-se. p. . ún. na verdade o sistema do CDC não admite a denunciação da lide na s ações versando lides de consumo.272 porque o direito de indenização do consumidor é fundado na responsabilidade objetiva. por denunciação da lide ou chamamento ao processo.. a conduta do fornecedor ou de terceiro (dolo ou culpa). em detrimento do consumidor que tem o direito de ser ressarcido em face da responsabilidade objetiva do fornecedor. sem que se discuta dolo ou culpa" (Código de Processo Civil Comentado. que é elemento de responsabilidade subjetiva. isto é. 1402).

273 A competência nas ações coletivas do CDC Autores: Renato Franco de Almeida Paulo Calmon Nogueira da Gama Aline Bayerl Coelho SUMÁRIO: 1. . Introdução – 2. Ação Civil Pública e Ação Coletiva – 3.

Dentre as muitas divergências que ainda causam os textos legislativos mencionados. Com a aparição de novos interesses/direitos.078/90 – que instituiu o Código de Defesa do Consumidor – que. Neste sentido. ao longo dos anos.347/85 – que instituiu a Ação Civil Pública – e 8. 1. Atualmente. a nosso sentir e apesar da dicção legal. acertada da jurisprudência na defesa de interesses que. do Tít. Bibliografia. foram editadas algumas leis. que. com a chegada – verdadeira necessidade – do Estado Democrático de Direito.274 Competência na Ação Civil Pública – 4. há bem pouco tempo. Não obstante a inegável importância que esses diplomas legais possuem hoje no cenário jurídico nacional – como verdadeiras concretizações do Estado Democrático de Direito no aspecto processual – muita celeuma foi criada durante os anos das respectivas aplicações.347/85. de seu turno. ganhou foros de cidadania. INTRODUÇÃO A defesa dos interesses/direitos transindividuais ou metaindividuais (1). possui semelhanças com aquela tratada pela Lei nº 7. além dos aspectos materiais.180. na maioria das vezes. Competência na Ação Coletiva – 5. fez-se mister o surgimento de novas formas de proteção. . seja da jurisprudência. mormente após o advento da Medida Provisória nº 2. entendemos. bem como a resposta firme e. Para tanto. que previram a defesa de alguns direitos coletivos lato sensu. obviamente. é de se colocar em evidência a aparição das Leis nº 7. era impensável no Direito brasileiro. II. mormente no tocante ao redimensionamento de velhos institutos processuais que tiveram que ser readaptados à nova realidade das demandas coletivas. seja da doutrina. III do CDC. sendo incumbência da Ciência Processual adequar os institutos do Direito processual clássico – inspirado ainda em princípios e institutos surgidos no século XVIII – para a defesa desses direitos coletivos. em razão. deu maior desenvolvimento à defesa dos interesses coletivos em sentido amplo. como se tentará demonstrar na seqüência. Porém. a competência para apreciação e julgamento das demandas propostas pelo rito processual instituído no Cap. Conclusão – 9. portanto. merece melhor reflexão. é fecunda a doutrina pátria. o presente trabalho tem por escopo precípuo a análise da competência instituída para as chamadas ações coletivas para a defesa de interesses individuais homogêneos. da natureza dos novos interesses/direitos perseguidos no bojo da relação jurídica processual.

91 e 95 CDC). ao passo que a ACP. cabalmente. pois. com o procedimento previsto no Cap. Ao contrário do que ocorre na Lei de Ação Civil Pública (LACP) – art. vislumbram-se. o que. (3) . AÇÃO CIVIL PÚBLICA E AÇÃO COLETIVA Sem embargo da ocorrência de semelhança no que toca à competência. processo é meio de realização material da função jurisdicional do Estado. por corolário. à de qualquer interesse difuso. 91 usque 100) que prevê as ações coletivas para a defesa de interesses individuais homogêneos. no momento em que aquela serve como instrumento à satisfação não só de condenação à determinada quantia. parece ser entendimento sedimentado doutrinariamente o fato de que a Ação Coletiva somente poderá servir de instrumento à defesa de interesses consumeristas. 21 LACP. consistia clara impossibilidade jurídica da demanda (cf. também. o que. à defesa dos interesses individuais homogêneos. a Ação Civil Pública tornou-se instrumento eficaz. III do CDC (arts. no particular. (2) Não obstante o acerto da afirmação. Por outro lado. 117 do CDC). as ações sob comento – civil pública e coletiva – possuem particularidades que as distinguem. daí a aparição de diversos ritos processuais especiais que instrumentalizam a efetivação dos direitos de fundo. segundo o qual para cada direito existe uma ação específica (legis actiones). art. diferenças intrínsecas entre uma e outra. afinal. Consoante melhor doutrina. antes do Código consumerista. somente após o advento do Código de Defesa do Consumidor. à condenação referente a obrigações de fazer ou não fazer.275 2. a denominação dada às ações é reminiscência do período imanentista da teoria do processo. É o que ocorre. porém e ainda. 3º – a ação coletiva prevista no CDC tem por objeto imediato do pedido tão-somente a condenação do Réu – única providência jurisdicional admitida nesta seara – ao pagamento de quantia – objeto mediato – que deverá ser apurada em seu quantum no respectivo processo de liquidação (arts. II do Tít. somente por este ponto. que dão ensejo a tratamento diverso. Mesmo que perfunctoriamente. Tem-se. coletivo ou individual homogêneo. a nosso aviso. Ademais. ensejará diverso tratamento interpretativo. que o âmbito de abrangência da primeira (ACP) é maior que o da segunda. é cediço que os procedimentos são criados ante a necessidade de concretização dos direitos materiais. posteriormente alterado pelo art.

sob o aspecto prático. visto que o Juiz estará mais perto – e por conseqüência terá maior facilidade na sua captação e entendimento – dos indícios oriundos da probabilidade da ocorrência do dano e dos vestígios deixados pelo dano efetivamente causado. (5) Da assertiva pode-se inferir que definir-se-á o juízo competente para o conhecimento e julgamento das Ações Civis Públicas não pelos elementos subjetivos da demanda – domicílio do autor ou do réu – todavia por seu elemento objetivo. Já em seu parágrafo único – introduzido pela MP 2.. a nosso ver. A tutela coletiva não poderá alcançar danos individuais diferenciados e variáveis caso a caso. ex. cujo juízo terá competência funcional. diferenças ontológicas entre as ações em cotejo. sobrepujam os meramente individuais. qual seja. cujos interesses – interesses sociais – em um Estado Democrático de Direito. ou sua substituição ou a respectiva indenização). absoluta. desde que se dê interpretação consentânea aos seus objetivos. assim. 3. no concernente à competência do juízo. são claros: a prevalência da importância da res iudicium deducta sobre as partes em lide." (4) À guisa de ilustração. que os objetivos da norma jurídica. de indivíduo para indivíduo (p. de interesses que não dizem respeito ao indivíduo. COMPETÊNCIA NA AÇÃO CIVIL PÚBLICA Consoante dispõe o art. 2º da LACP.180 – dispõe a lei que a propositura da ação prevenirá a jurisdição (rectius: competência) do juízo para as demais demandas que sejam idênticas. danos emergentes e lucros cessantes). portanto. (7) . para o conhecimento e julgamento da demanda. Ocorre o primeiro em razão de se cogitar. em regra.. traduzir-se-á em ponto de aproximação. o que. Temos. a facilidade na colheita de provas. Por outro lado. o fattispecie que ensejou o surgimento do objeto litigioso: o dano. a definição do local do dano como determinação da competência do juízo tem por fim. surgentes da conduta delitiva. ao determinar a competência do juízo do local do dano. o dano decorrente da aquisição em si do produto defeituoso ou impróprio para os fins a que se destina.276 "A condenação em ação civil pública ou coletiva por lesão ao consumidor só poderá ter como objeto o dano global e diretamente considerado (p. nos processos coletivos. como ser atomizado (6). ex. as Ações Civis Públicas serão proposta no foro onde ocorrer ou deva ocorrer o dano. mas como membro de uma sociedade. a facilitação na colheita de provas. as diferenças sumariamente comentadas ensejam.

se os efeitos do dano (potencial ou efetivo) transbordarem dos limites de uma comarca. é explícita a determinação da competência pela prevenção – que deverá subsidiar-se nas normas processuais gerais previstas no CPC sobre tal instituto – entre as comarcas envolvidas no evento danoso.n. respectivamente. ao contrário do que ocorre com o CDC. ou até mesmo de um Estado-membro. o inquérito civil deverá ser instaurado e a ação civil pública proposta na respectiva Capital. não havendo que se falar em competência da Comarca da Capital de uma das entidades federadas. Frise-se que. o inquérito civil deverá ser instaurado e a ação civil pública proposta seguindo os critérios da prevenção. repise-se – aquele juízo onde ocorrer a primeira citação válida. não existe texto legal expresso que determine a competência de outro juízo – que não o prevento – em casos de dano cujo âmbito seja regional ou nacional (nem mesmo há previsão de dano de âmbito regional ou nacional). 93. onde resta clara a determinação legal da competência do foro da Capital do Estado ou do Distrito Federal em casos de dano cujo âmbito seja regional ou nacional.347/85.) Com a vênia devida ao ilustrado Mestre. não importando a dimensão que os efeitos do dano possam alcançar. ao lançar escólios sobre a matéria.277 Daí que. com a introdução do parágrafo único ao art. não pode ser interpretado. pensamos que tal raciocínio não possui supedâneo legal. Ademais.180. independentemente do Estado a que pertença tal comarca. como dito. simplesmente por inexistir norma jurídica que de forma diversa o preveja. e. também. Isto porque. De efeito." (8) (g. 2º pela MP 2. na lei (LACP) não há norma jurídica que franqueie tal entendimento. se demonstrará. em se tratando de Ação Civil Pública. haver comando legal que assim o determine. acolhendo a assertiva do jurista paulistano. será competente o foro da Capital do Estado ou o Distrito Federal. que primeiro realizar citação válida. mormente após a inserção do parágrafo único ao art. competente será – nas Ações Civis Públicas. em seu art. ou nacional. ao revés. se os danos se estenderem ao território estadual. o que. dentre somente as comarcas envolvidas. de forma estritamente literal. e sim. o juízo. 219). segundo as regras insertas no Código de Processo Civil sobre prevenção (art. caso não esteja envolvida pelos efeitos do dano. em hipótese alguma. afirma Hugo Nigro Mazzilli que: "Se os danos se estenderem a mais de um foro mas não chegarem a ter caráter estadual ou nacional. um dano ambiental que envolva os Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro – como recentemente de fato ocorreu – competente será o juízo da comarca que primeiro realizou a citação válida para o conhecimento e julgamento da Ação Civil Pública eventualmente proposta. Desta forma. Entretanto. E mesmo neste caso – de ser a Comarca da Capital de um dos Estados ou de ambos atingida pelos efeitos danosos – esta somente será sede do juízo competente se . 2º da Lei nº 7.

determinar-se-á aquela pela prevenção em quaisquer casos. em se tratando de Ação Civil Pública. tratando-se de relação jurídica material de consumo. haja vista que a incidência deste somente ocorrerá no que for cabível. aplicável.278 citação válida foi realizada antes de qualquer outro. que a inaplicabilidade da LACP somente ocorrerá quando se pleitear a condenação do Réu ao pagamento de determinada quantia. em se tratando de relações jurídicas de consumo cujo objeto imediato do pedido seja a condenação ao pagamento de determinada quantia. porquanto o disposto no art. sendo o Código de Defesa do Consumidor lei posterior e especial no cotejo com a norma que instituiu a Ação Civil Pública. quando o pedido imediato da demanda for a condenação em obrigação de fazer ou não fazer será perfeitamente viável a utilização da Ação Civil Pública. a uma. com o artigo 21 da mesma LACP. entretanto. De efeito. De qualquer forma. como visto. consoante determina o artigo 83 do CDC. de mesma ou superior hierarquia – derrogará anterior quando regule inteiramente a matéria de que tratava esta. lei posterior – acrescentamos. 93 do Codex consumerista somente poderá ser aplicado em se tratando de relações jurídicas materiais de consumo. . pois. Em suma. ao contrário do que ocorre no CDC. que trata expressamente da competência nestas ações. em razão do princípio da especialidade. A contrario sensu. o que a tornará preventa. Assim. Não calha a argumentação segundo a qual a norma aplicável à espécie seria o CDC. aplicável sempre o CDC. mais especificamente o seu art. fazendo uma pequena digressão. coletivos e individuais homogêneos nas relações jurídicas de consumo. segundo os ditames do parágrafo 1º do art. Desta forma. aí sim. nos casos de competência concorrente entre dois ou mais juízos. determinação daquela em razão do âmbito alcançado pelos efeitos do dano. porque na LACP há norma. não sendo lícito argumentar. forçoso admitir que. portanto. não havendo de se cogitar da amplitude dos efeitos do dano perpetrado. a duas. como dissemos. pensamos que aquela derrogou esta no que diz respeito à defesa dos interesses difusos. devidamente subsidiado pela LACP e pelo CPC – nesta ordem – naquilo em que for omisso. não há na LACP. Isto porquanto. o CDC. ficando afastada a incidência da Lei de Ação Civil Pública. ressalvado o que dissemos supra. 2º da Lei de Introdução ao Código Civil (LICC). 93 no que concerne à competência. Tal raciocínio ficará mais patente no que diz respeito à competência. Insta frisar. inapropriada a utilização de Ação Civil Pública quando se tratar de violação a direito consumerista. como afirmado.

4. 93 do CDC. ressalvada a competência da Justiça Federal. em razão da circulação limitada de produtos ou da prestação de serviços circunscritos. 93 – Ressalvada a competência da Justiça Federal." (9) Sem embargo. Ada Pellegrini Grinover: "Quando de âmbito local. mesmo nos casos de dano em âmbito local. COMPETÊNCIA EM CASO DE DANO EM ÂMBITO LOCAL Consoante o dispositivo transcrito. algumas observações buscaremos fazer sobre o preceito legal transcrito. como em jurisprudência. I do art. para os danos de âmbito nacional ou regional. 93 do CDC poderá levar o intérprete à conclusão de que. será competente para o conhecimento e julgamento da Ação Coletiva a Justiça local do foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano. transbordando os efeitos do dano dos limites de determinada comarca e alcançando outra. aplicando-se as regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concorrente Divergindo do entendimento amplamente majoritário. quando de âmbito local. porém com algumas nuanças. assevera a Profª. a nosso sentir.279 4. com vistas ao melhor tratamento hermenêutico que. Será o caso de danos mais restritos. nos parece que. nas Ações Coletivas previstas no CDC. tanto em doutrina. repete o legislador ser o dano causado o critério legitimador da competência do juízo. COMPETÊNCIA NAS AÇÕES COLETIVAS Sem embargo. De efeito. o dispositivo exige.1. algumas ressalvas se impõem. a interpretação literal do preceptivo insculpido no inciso I do art. II – no foro da Capital do Estado ou no do Distrito Federal. verbis: Art. é competente para a causa a justiça local: I – no foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano. 93). Não obstante. os quais atingirão pessoas residentes num determinado local. competente será o foro da Capital do Estado. tendo em vista que a eleição pela lei do local da ocorrência ou . Tecendo comentários ao inciso I do art. a competência territorial é do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano (inc.

bem como a facilidade na colheita de sua prova. a determinação da competência será realizada pela prevenção. 4. transbordaram dos limites de uma única comarca. 93 do CDC. alcançando outras. Em outras palavras. COMPETÊNCIA EM CASO DE DANO EM ÂMBITO REGIONAL OU NACIONAL . ou seja. "Assim. competente será o juízo que primeiro realizou a citação válida para o processamento e julgamento da demanda. alcançando outra ou outras. Daí. poderemos imaginar um dano consumerista cujos efeitos restrinjam-se a duas comarcas contíguas. não estamos tratando de dano onde os respectivos efeitos ganharam foros de regionalidade ou nacionalidade." (10) Com efeito. com a subsidiariedade da LACP e do CPC. a prevenção será o critério de determinação da competência. o fato de serem atingidas uma. mas sem que tenha o caráter estadual ou nacional. resolvendo-se. para que seja determinada a competência da Capital do Estado. ocorrido o dano consumerista cujos efeitos ultrapassem as fronteiras de determinada comarca. Urge ressaltar.280 da possibilidade de ocorrência do dano tem por escopo. competente será o juízo que primeiro realizar citação válida no processo (art. que. Assim. estamos tratando de dano de âmbito local cujos efeitos. o dano deverá ganhar foro de regionalidade e. neste caso. 219) a competência concorrente. evidentemente. duas ou três comarcas não caracterizará tal aspecto. 2º. seguindo o disposto no inciso I do art. que. pensamos. parágrafo único) combinada com Código de Processo Civil (art. por subsidiariedade. a norma insculpida no parágrafo único do art. as regras que prevêem a prevenção. em compêndio. 219 CPC). aqui. Em um caso concreto. 2º da LACP. quando o dano ou a ameaça de dano ocorra ou deva ocorrer em mais de uma comarca. pelas regras da Lei de Ação Civil Pública (art. nas ações civis públicas ou coletivas. para o dano de âmbito local cujos efeitos atinjam mais de uma localidade (comarca). a determinação da competência restará condicionada à prevenção do juízo que primeiro realizou a citação válida no processo. Hugo Nigro Mazzilli asseverar que não será qualquer dano que ultrapasse os limites da comarca que ensejará a competência do juízo da Capital do Estado para conhecer e julgar ações coletivas. com acerto no tocante à Ação Coletiva. hipóteses expressamente previstas no inciso II do artigo sob comento. na linha do raciocínio acima exposto. não obstante.2. entretanto. Consequentemente. sem que possuam dimensão de regionalidade. dentre outros. Assim. cuja localização diste quilômetros da Capital do Estado. maior aproximação do Juiz aos vestígios do dano causado. quais sejam. pensamos que será aplicável.

281 Em verdade. COMPETÊNCIA EM REGIONAL CASO DE DANO EM ÂMBITO No particular. não tendo sentido que seja ele obrigado a litigar na Capital de um Estado. aplicando-se as regras do Código de Processo Civil nos casos de competência concorrente. independentemente se a comarca da Capital do Estado sofreu ou não tais efeitos. ante o número . deve ser dispensado tratamento diverso quanto ao dano de âmbito regional e o de âmbito nacional. portanto. sendo o dano de âmbito nacional. visto que. aqui. nesta hipótese. a despeito de sua mais alta autoridade.1. coletivos ou individuais homogêneos serão apurados perante a Justiça estadual. a ilustre Professora paulistana ratifica seu posicionamento. De seu turno. e ressalvada a competência da Justiça Federal. porém. ousando divergir do entendimento majoritário. somente será competente para conhecimento e julgamento da demanda coletiva a Capital do Estado quando os efeitos produzidos pelo dano consumerista ganharem foros de regionalidade. competente será o foro da Capital do Estado ou do Distrito Federal. As regras de competência devem ser interpretadas de modo a não vulnerar a plenitude da defesa e o devido processo legal. sobre o inciso ora estudado: "Cabe." (11) Na 7ª edição da referida obra. tratando-se de dano cujos efeitos sejam de âmbito regional. primeiramente. pela mera opção do autor coletivo. a par das observações que fizemos quanto ao inciso I do art. reconhecendo. se os danos forem regionais. aplicável o que foi dito quanto ao dano de âmbito local. estamos que. os danos de âmbito nacional ou regional em matéria de interesses difusos. se nacionais. uma observação: o dispositivo tem que ser entendido no sentido de que. a competência territorial será sempre do Distrito Federal: isso para facilitar o acesso à Justiça e o próprio exercício do direito de defesa por parte do réu. assevera Ada Pellegrini Grinover na 4ª edição do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. Com efeito. no foro da Capital do Estado. Hugo Nigro Mazzilli adere à posição majoritária quando ensina que: "Nos termos dessa disciplina. em ação proposta no foro do local do dano. Mas. no foro do Distrito Federal.2. a existência de alguns arestos em divergência às suas lições doutrinárias. sendo de âmbito regional o dano. Com efeito. 4. daí tentarmos nos deter mais profundamente neste particular. longínquo talvez de sua sede. 93 do CDC – competência em caso de dano em âmbito local – a grande celeuma reside efetivamente no inciso II do mesmo preceptivo consumerista." (12) Sem embargo.

não tenha sido atingido pelos efeitos do dano –. havendo juízos concorrentes. sendo que. . Dessa forma. à competência do foro do Distrito Federal para o conhecimento e julgamento da demanda coletiva. traduzir-se-á em interesse da sociedade do Estado a resolução do conflito. o escopo legal de facilitação naquela colheita não restará prejudicado. Inexiste. consoante as lições doutrinárias acima transcritas. importando que a Capital seja sede da demanda face à relevância configurada pelo vulto do dano.2. 93 do CDC. sendo que. explanada no tópico anterior. para o conhecimento e julgamento de eventual demanda coletiva. in casu. o fato de efeitos danosos ultrapassarem os limites territoriais de um Estado-membro alcançando outro ou outros. E mais. já para que ocorra a hipótese do inciso II (dano de âmbito regional). COMPETÊNCIA EM NACIONAL CASO DE DANO EM ÂMBITO Em se tratando de dano cujos efeitos sejam de âmbito nacional. Nem mesmo quando os efeitos do dano tiverem amplitude tal que atinja todos ou quase todos os Estados da Federação – incluindo o Distrito Federal – a competência será deste. De efeito.2. como Capital da República. Assim. (13) Com este raciocínio. a simetria vislumbrada pela maioria dos autores. contíguos ou não. em um segundo exemplo: b) os mesmos produtos ou serviços foram comercializados ou prestados em todo território nacional. cremos que resta evidente que o Juiz da Capital – em caso de interesse regional – não terá dificuldades na colheita de provas – mesmo que o Município. não dará ensejo. a solução para a concorrência de competências não será a mesma das hipóteses de dano de dimensão regional. com tal exegese. para que ocorra a primeira hipótese (dano de âmbito local). a nosso sentir. mister se faz que o dano (rectius: os seus efeitos) seja de tal grandeza que interesse à maioria significativa da população do Estado-membro. cujos efeitos ficaram restritos aos limites dos mesmos.282 razoável de comarcas atingidas por aqueles efeitos. lícito afirmar que a grandeza do dano fará a distinção entre a incidência do inciso I ou do II (âmbito regional) do art. Capital do Estado. é possível forjarmos exemplos para melhor elucidação: a) determinados produtos comercializados ou serviços prestados no chamado eixo RioSão Paulo que venham causar danos às populações destes Estados. independe o número de localidades atingidas – desde que o dano não ganhe interesse estadual – a competência será definida pela prevenção. 4.

por exclusão. de competência da Justiça local. havendo dano de âmbito nacional. tem seu âmbito ordinário de incidência coincidente com os seus próprios limites territoriais.283 causando os mesmos danos antes mencionados. definir-se-á a competência . comum ou especializada (art. cada qual. qual seja. Explicamos. 1º e 19. Em ambas hipóteses. em igualdade de condições. que poderá ser o da Capital estadual ou o do Distrito Federal. agora por todo país. a própria lei determina a utilização das regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concorrente. ressalvada a da Justiça Federal. Distrito Federal e Municípios (art. existindo diversas demandas já propostas. Na hipótese extraordinária de dano nacional. III da CF/88). caberá à Justiça local do foro da Capital de cada Estado ou do Distrito Federal que tenha sido atingido pelo evento danoso o processamento e julgamento da demanda coletiva. haja vista não ocorrer relação hierárquica entre as Justiças locais dos Estados e a do Distrito Federal. foro. personae. não atingindo os efeitos do dano âmbito nacional (exemplo "a"). Tal raciocínio tem por fundamento a inexistência de hierarquia entre as entidades federadas – Estados. entendemos que. Por tal expressão entende-se a justiça estadual comum que. cuja decisão proferida terá efeitos em todo território nacional. os critérios de determinação de competência (ratione materiae. 219 CPC). a prevenção.) dos Juízos Estaduais são de mesma equivalência aos do Juízo Distrital. a solução para a concorrência entre juízos competentes será a mesma: definir-se-á o juízo competente pelo critério da prevenção. o primeiro a realizar citação válida no processo coletivo (art. apta(o) a conhecer e julgar a causa. Daí que. loci. ou. 109 CF/88). qualquer capital de Estado ou o Distrito Federal estará. mesmo que tal amplitude seja alcançada por tais efeitos (exemplo "b"). e. e tão-somente um. Ora. para não dificultar a defesa do Réu. também neste caso. Pois bem. sendo que. A competência nas Ações Coletivas será. deterá competência para as causas não previstas na Constituição Federal como de competência da Justiça federal. qual seja. Ou seja. etc. não sendo hipótese prevista dentro na competência da Justiça federal. Em conseqüência. da Justiça local. Para o desate da questão. determina o CDC – havendo diversas demandas coletivas propostas – a concentração em um.

ao Distrito Federal e aos Municípios criar preferências entre si. concretizando. sendo a federação uma associação de Estados. Lado outro.. não há que se falar em relação de súdito para soberano. mesmos naqueles em que a Capital da República não tenha sofrido os efeitos da conduta danosa? Em últimas conseqüências. dando preferência. ademais. Via de conseqüência. Com efeito. sob o aspecto prático. impõe-se uma exegese da norma infraconstitucional que não implique violação do texto maior. o objetivo precípuo da lei quando determina ser competente para a demanda o foro do local do dano. pois. a tese majoritária pode nos levar a determinados absurdos como aquele em que haja demandas propostas em todos ou quase todos . Alexandre de Moraes assevera que: "Criar preferências entre si – como corolário desse princípio. de poder reciprocamente. malferindo-o. g. ao Distrito Federal. v.].. dispõe o inciso III do art. sendo a concorrência de competências definida pela prevenção. fosse definida a competência do Distrito Federal em quaisquer casos. eis que sua comarca – da Capital – estará sofrendo os efeitos da conduta danosa. a lei federal (CDC). Raciocínio diverso – como o esposado pela doutrina majoritária – levará à uma hierarquia entre as entidades federadas inexistente no texto constitucional. [. A outro giro.. eis que a sua concordância com as cláusulas constitucionais deve ser presumida. não poderá criar distinções entre as entidades federadas. se este for atingido pelos efeitos do dano e houver demanda coletiva aí proposta – em que tenha havido a primeira citação válida (art. que se encontram no mesmo plano. Em comentário ao referido inciso. assim. sendo sua assessoria jurídica situada na sede da empresa. Como seria possível facilitar a colheita de prova pelo Magistrado se.284 da Justiça local no foro da Capital do Estado – ou no do Distrito Federal. aos Estados. seja de que espécie for. 19 da Constituição Federal ser vedado à União." (14) Dessarte. ensejará maior facilidade na colheita de prova pelo Juiz. 219 CPC). sendo dever do exegeta optar por uma interpretação que mais aproveite o texto da lei. como produto da competência legislativa da União. não convence o argumento segundo o qual a competência será sempre do foro do Distrito Federal em casos de dano de âmbito nacional para facilitar a plenitude de defesa. pois que em regra acontece do Réu não ter representação jurídica na Capital da República.

não possuem Poder Judiciário – como. assim como de sua interpretação. posto concorrerem. bem como da parte final do inciso II do artigo 93 do CDC. onde a determinação da competência do foro da Capital do Estado e do Distrito Federal não ficará em divergência com a aplicabilidade de dispositivo constitucional (art. CONCLUSÃO À guisa de conclusão ousamos asseverar que. ademais. III CF/88). sobrepuja a importância dos interesses sociais em detrimento . a interpretação mais viável – seja sob o aspecto teórico da inconstitucionalidade. o que lhes poderá cambiar o comando. traduzir-se-á em concretização do Estado Democrático de Direito sob o aspecto processual a preocupação. do princípio do acesso à Justiça. seja sob o prático da facilitação na colheita de prova – seria aquela segundo a qual. e não hierarquizar. bem como pela necessidade de se adequar os princípios e normas do processo civil liberal-burguês às demandas coletivas lato sensu – verdadeiras ações sociais dirimentes de desigualdades – devemos. viceja a necessidade de preenchimento axiológico da expressão Estado Democrático de Direito no sentido de que as normas legais produzidas deverão ter como limite os fatos que lhes ensejam a existência. que necessita ser constante. a norma legal quis tão-somente discriminar.285 Estados. pela primeira citação válida realizada. a se seguir o raciocínio da maioria. 19. Ademais. muito mais que uma defesa plena – que na realidade em nada será prejudicada –. não obstante entidades federadas (art. para uma interpretação consentânea com os princípios da Nova Hermenêutica. amiúde. aquelas entidades federadas pela competência para conhecimento e julgamento das demandas coletivas. na satisfação dos interesses sociais postos em litígios nas demandas coletivas. em todas as suas dimensões. este – o foro do Distrito Federal – seria o competente para a apreciação e julgamento da demanda. em tom de igualdade. as entidades federadas que possuem Justiça local – o que não ocorre com os Municípios que. ocorre no texto constitucional e em leis infraconstitucionais. ao se referir aos Estados e ao Distrito Federal. pois que somente assim poderemos almejar a realização efetiva de uma democracia material com o preenchimento. portanto. porém. entendemos. (15) Somente assim. 18 CF/88). Com efeito. 5. Destarte. exsurgindo como critério técnico definidor a prevenção. A nosso aviso. direcionadas pelos valores predominantes à época de sua produção. poder-se-á chegar ao equilíbrio exigido pelo texto legal. à exceção do Distrito Federal. sobrepor o interesse social como primeiro critério definidor da competência em litígios desse jaez.

Manual do Processo Coletivo. 1 v. Ricardo de Barros. 1999. Ana Prata]. Piero. Cláudia Lima. Direito Processual Civil. 1109p. A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo.286 daqueles individuais ou públicos hodiernamente. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 1995. 1999. significando aquela a que ultrapassa os interesses dos indivíduos. 576p. 1 v. Luiz Abezia e Sandra Drina Fernandez Barbiery]. . Comentários ao Código de Defesa do Consumidor: direito material (arts. 836p. CALAMANDREI. s/ed. MARQUES. s/ed. Luiz Antonio Rizzatto. 1º a 54). São Paulo: Revista dos Tribunais. 240p. Brasília: Editora Universidade de Brasília. 2003. 2001. BIBLIOGRAFIA Ação Civil Pública: lei 7. Introdução Crítica ao Direito. BOBBIO. 13ª ed. São Paulo: Saraiva. 13ª ed. 2ª ed. João Ferreira] 4ª ed. [trad. NOTAS 01. 846 p. Lisboa: Editorial Estampa. São Paulo: Atlas. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. Édis (org. 1994. 4ª ed. Alexandre de. [trad.462p. 2002. assim entendemos que as normas jurídicas devem ser interpretadas. Hugo Nigro. [trad. Para o presente estudo utilizar-se-á as expressões transindividuais e metaindividuais em sentidos distintos. 4ª ed. 2000. NUNES. 730p. e. Norberto. Rio de Janeiro: Forense Universitária. seriam transindividuais os interesses individuais homogêneos. São Paulo: Revista dos Tribunais. MAZZILI. MIAILLE. São Paulo: Saraiva.) s/ed. LEONEL. MORAES. e esta a que representa interesses fora dos individualmente considerados.347/85 – 15 anos. 2001. 6. Assim. Ada Pellegrini et al. Michel. Direito Constitucional. Campinas: Bookseller. GRINOVER. 2002. As Ideologias e o Poder em Crise. São Paulo: Revista dos Tribunais. 330p. MILARÉ. s/ed.

que amputou a expressão "a qualquer outro interesse difuso ou coletivo". 211-2. Édis Milaré. todos da CF/88. 286. pois a proximidade do juízo com relação à prova milita em favor de sua elaboração. 09. Cit. In Ação Civil Pública: Lei 7. 400/416.347/85 – 15 anos. Hugo Nigro MAZZILLI. No mesmo sentido: Ricardo de Barros LEONEL.. op. p. Ada Pellegrini GRINOVER. Ada Pellegrini GRINOVER. Introdução Crítica ao Direito. em outro estudo. No particular. 129. passim 07. Alexandre de MORAES. quando haja manifesto interesse social evidenciado pela dimensão ou característica do dano. 5º. . 91 e seguintes. 211 11. nas ações previstas nos arts. 02. 14. 82 do CDC: § 1º . "As peculiaridades dos interesses metaindividuais dificultam a produção de provas no curso da demanda judicial. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 150.287 enquanto metaindividuais. 221. p. Trata-se de um redimensionamento da matéria para adaptação à Teoria Geral do Processo Coletivo que. A fixação da competência no local do dano tem por escopo facilitar a instrução. bem como o art. em razão de sua indivisibilidade. p.: José Marcelo Menezes VIGLIAR. A identidade das ações coletivas lato sensu sofre mitigação nos seus elementos. p.. 220.180. Manual do Processo Coletivo. os difusos e coletivos. falaremos. Op. 551-2.: Ricardo de Barros LEONEL. 1º da Lei 7. do inciso IV do art. Ob. III. 13. Cit. entendemos que a MP 2. 808. 03. Cf. Cit.347/85. 12. p. XXXV. Cit. ou pela relevância do bem jurídico a ser protegido. p. Hugo Nigro MAZZILLI.. 04. é inconstitucional por malferir o art. ob. Michel MIAILLE. Cf. 06. Ob. cit. p. p. coord. Para a definição do que seja dano cujos efeitos possuam âmbito regional poderá ser aplicada a norma do § 1º do art. visto que não há de se falar em identidade de partes. 05." 08. A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo. p. Hugo Nigro MAZZILLI.O requisito da préconstituição pode ser dispensado pelo juiz. diferentemente do que ocorre com as ações individuais. Direito Constitucional. Hugo Nigro MAZZILLI. p. 10. 211.

Entretanto. entretanto. que não foi retomada a referência que fiz à sociedade policrática. ou seja." ************************************************************** ****************** . 33: "Constato. p. Cf.: Norberto BOBBIO. mas na prepotência do grupo sobre o indivíduo. As Ideologias e o Poder em Crise.288 15. não podemos esquecer o efeito contrário. ao aspecto negativo do pluralismo que consiste não na impotência do Estado.

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