2

Sumário

Evolução Histórica do Direito do Consumidor Autores: Flávio Barbosa Quinaud Pedron e Viviane Machado Caffarate..........4 Proteção constitucional do consumidor Autor: Cristian de Sales Von Rondow...............................................................15 Princípios nucleares do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor e sua extensão como princípio constitucional Autor: Henrique Alves Pinto..............................................................................26 O princípio da vulnerabilidade e a defesa do consumidor no direito brasileiro: origem e conseqüências nas regras regulamentadoras dos contratos e da publicidade Autores: Alírio Maciel Lima de Brito e Haroldo Augusto da Silva Teixeira Duarte..........................................................................................................................57 O princípio da boa-fé no Código de Defesa do Consumidor Autor: Francisco José Soller de Mattos..............................................................74 A relação jurídica de consumo: conceito e interpretação Autor: Marcelo Azevedo Chamone....................................................................76 Pessoa jurídica consumidora Autor: Alex Sandro Ribeiro..............................................................................105 Aspectos da responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor e excludentes Autoras: Michele Oliveira Teixeira e Simone Stabel Daudt............................109

Vícios no Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor: diferenças Autor: Ricardo Canguçu Barroso de Queiroz...................................................127

3

A responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos no Código de Defesa do Consumidor Autor: Fabrício Castagna Lunardi....................................................................129 A prescrição e a decadência no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner.....................................................................145 Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner.....................................................................157 Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção e Defesa do Consumidor Autor: João Bosco Pastor Gonçalves................................................................175 As cláusulas abusivas à luz da doutrina e da jurisprudência Autores: Carlos Cavalcante e Karla Karênina Andrade...................................184 Inversão do ônus da prova no CDC e no CPC Autor: Ranieri Eich...........................................................................................206 Alguns aspectos da dogmática processual para a defesa dos direitos do consumidor Autora: Viviane Mandato Teixeira Ribeiro da Silva........................................230 Litisconsórcio, assistência e intervenção de terceiros nas ações coletivas para tutela do consumidor Autora: Gláucia Kohlhase Marques..................................................................248 A competência nas ações coletivas do CDC Autor: Renato Franco de Almeida....................................................................274

4

A Evolução Histórica do Direito do Consumidor Autores: Flavio Barbosa Quinaud Pedron e Viviane Machado Caffarate

I. A Evolução do Direito do Consumidor

O Direito do Consumidor é obra relativamente recente na Doutrina e na Legislação. Tem seu surgimento como ramo do Direito, principalmente, na metade deste século. Porém, indiretamente encontramos contornos deste segmento do Direito presente, de forma esparsa, em normas das mais diversas, em várias jurisprudências e, acima de tudo, nos costumes dos mais variados países. Porém, não era concebido como uma categoria jurídica distinta e, também, não recebia a denominação que hoje apresenta. Altamiro José dos Santos destaca o Código de Hamurabi (2300 a.C.). Este já em seu tempo regulamentava o comércio, de modo que o controle e a supervisão se encontravam a cargo do palácio. O que demonstrava que se existia preocupação com o lucro abusivo é porque o consumidor já estava tendo seus interesses resguardados. Santos lembra que: "consoante a" lei "235 do Código de Hamurabi, o construtor de barcos estava obrigado a refazê-lo em caso de defeito estrutural, dentro do prazo de até um ano (...)" (Santos, 1987. p. 78-79). Desta norma podemos supor uma noção dos vícios redibitórios. Havia também regras contra o enriquecimento em detrimento de outrem ("lei" 48), bem assim a modificabilidade unilateral dos desajustes por desequilíbrio nas prestações, em razão de forças da natureza. Os interesses dos consumidores já estavam resguardados na Mesopotâmia, no Egito Antigo e na Índia do Século XVIII a.C., onde o Código de Massú previa pena de multa e punição, além de ressarcimento de danos, aos que adulterassem gêneros ("lei" 967) ou entregassem coisa de espécie inferior à acertada ou, ainda, vendessem bens de igual natureza por preços diferentes ("lei" 968). No Direito Romano Clássico, o vendedor era responsável pelos vícios da coisa, a não ser que estes fossem por ele ignorados. Porém, no Período Justinianeo, a responsabilidade era atribuída ao vendedor, mesmo que desconhecesse do defeito. As ações redibitórias e quanti minoris eram instrumentos, que amparadas à Boa-Fé do consumidor, ressarciam este em casos de vícios ocultos na coisa vendida. Se o

5

vendedor tivesse ciência do vício, deveria, então, devolver o que recebeu em dobro. "no período romano, de forma indireta, diversas leis também atingiam o consumidor, tais como: a Lei Sempcônia de 123 a.C., encarregando o Estado da distribuição de cereais abaixo do preço de mercado; a Lei Clódia do ano 58 a.C., reservando o benefício de tal distribuição aos indigentes e; a Lei Aureliana, do ano 270 da nossa era, determinando fosse feita a distribuição do pão diretamente pelo Estado. Eram leis ditadas pela intervenção do Estado no mercado ante as dificuldades de abastecimento havidas nessa época em Roma" (Prux, 1998. p. 79). De acordo com os estudos de Waldírio Bulgarelli, "pode-se encontrar antecedentes os mais antigos: Aristóteles já se referia a manobras de especuladores na Grécia Antiga, e em Roma atestam-no a Lex Julia de cemnoma, o Édito de Diocleciano e a Constituição de Zenon" (Bulgarelli, apud Prux, 1998. p. 79). Há estudos que apontam depoimentos de Cícero (Século I a.C.) assegurando a garantia sobre vícios ocultos na compra-venda no caso do vendedor prometer que a mercadoria era dotada de determinadas qualidades e estas serem inexistentes. "Pirenne, no comentário de sua obra cobrindo o século XIII, é bastante elucidativo no subtítulo - Proteção ao consumidor - ao escrever que a disciplina imposta ao artesão tinha naturalmente por objeto assegurar a qualidade dos produtos fabricados. Neste sentido – acrescenta textualmente o mestre gaulês - também favorecia o consumidor" (SIDOU, apud PRUX, 1998. p. 781). A França de Luiz XI (1481) punia com banho escaldante aquele que vendesse manteiga com pedra no interior para aumentar o peso, ou leite com água para aumentar o volume. O jurista português Carlos Ferreira Almeida afirma que no Direito Português: "os códigos penais de 1852 e o vigente de 1886 (...), reprimindo certas práticas comerciais desonestas, protegiam indiretamente interesses dos comerciantes: sob o título genérico de crimes contra a saúde pública, punem-se certos actos de venda de substâncias venenosas e abortivas (art. 248º) e fabrico e venda de gêneros alimentícios nocivos à saúde pública (art. 251º); consideram-se criminosas certas fraudes nas vendas (engano sobre a natureza e sobre a quantidade das coisas – art. 456); tipificava-se ainda como crime a prática do monopólio, consistente na recusa de venda de gêneros para uso público (art. 275º) e alteração dos preços que resultariam da natural e livre concorrência, designadamente através de coligações com outros indivíduos, disposições revogadas por legislação da época corporativista, que regrediu em relação ao liberalismo consagrado no código penal" (ALMEIDA,1982. p. 40).

e a Constituição Federal de 1988. um dos principais pensadores do liberalismo. em seu período de colônia. reforçou as seculares "assizes" (Leis do Pão). O Estado Liberal tem como características o poder limitado. Já nos EUA. a Constituição de 1967 com a emenda n. pode-se citar: a Lei n.6 Na Suécia. em 1773. que. 170) e no artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). 4/62. que expressamente determinou a criação do Código de Defesa do consumidor. No Brasil. que exercia o seu monopólio. o Direito do Consumidor surgiu entre as décadas de 40 e 60. Adam Smith. O interesse privado é o . que apresenta a defesa do consumidor como princípio da ordem econômica (art. proteção econômica e comunicações.. no qual os consumidores americanos eram obrigados a comprar produtos manufaturados na Inglaterra. já em 1785 na República. Também nos EUA. quando foram sancionados diversas leis e decretos federais legislando sobre saúde. os direitos individuais e políticos.) Samuel Adams. O Surgimento do Direito do Consumidor do Prisma da Evolução do Estado Liberal O Estado Liberal surgiu no século XVIII em contraposição ao Estado absoluto e veio assegurar o indivíduo em face do Estado. 51).. o episódio contra o imposto do chá no porto de Boston (Boston Tea Party) é um registro de uma manifestação de reação dos consumidores contra as exigências exorbitantes do produtor inglês. a Lei Delegada n. que consagrou a defesa do consumidor. pelos tipos e preços estabelecidos pela metrópole. a defesa da livre incitava e livre concorrência e a não intervenção do Estado na esfera privada. uma figura marcante no episódio do chá no porto de Boston. 1/69. denominada Lei de Economia Popular. Pois nas palavras de Miriam de Almeida Souza. Pode-se notar que esta lei representa um marco histórico na luta pelo respeito aos direitos do consumidor. afirmava: "É suficiente que deixemos o homem abandonado em sua iniciativa para que ao perseguir seu próprio interesse promova o dos demais. (. em 1914. criou-se a Federal Trade Commission. A Revolução americana de 1776 foi uma revolução do consumidor. da antiga metrópole. II. 1221/51. a primeira legislação protetora do consumidor foi em 1910. que tinha o objetivo de aplicar a lei antitruste e proteger os interesses do consumidor. p. Dentre todas. foi uma revolução "contra o sistema mercantilista de comércio britânico colonial da época. apontando sua assinatura na lei que proibia qualquer adulteração de alimentos no estado de Massachusetts" (SOUZA. 1996.

aliada a grande oferta de trabalho. as pessoas deixaram de trabalhar em casa e foram trabalhar nas fábricas e ao redor destas surgiram os centros urbanos. objeto de contratos comutativos e em bens e imóveis. As fábricas. acrescentando a estes os direitos sociais e econômicos. aqui. Por sua vez o Código de Proteção e Defesa do Consumidor . Com isso. Façamos. em muito inovou em comparação com o Código Civil. formulado segundo o pensamento liberal. trouxe o vício redibitório como meio de proteção do consumidor. No século XIX. para se manterem empregadas. no entanto. gerando uma concentração econômica. Isso porque. Estes foram regulados como normas pragmáticas. se submetessem à exploração. apud DERANI. de regulamentação. algumas empresas que se enriqueceram. materiais ou imateriais. pois a concorrência não se iniciava em condições iguais e as regras do jogo não eram respeitadas. a livre incitava e livre concorrência defendida pelos liberais não se concretizou. Assim acorreu com a Constituição brasileira de 1988 que dispõe que "o Estado promoverá na forma da lei. A grande procura por empregos gerou a desvalorização da mão-de-obra. Nas Constituições promulgadas adotando esse modelo de Estado. O Estado Social tem como características o poder limitado. editado segundo os Princípios de um Estado Democrático de Direito. os direitos individuais eram mais importantes que os direitos sociais. fazia com que as pessoas. p. duráveis e não duráveis e em serviços. que seriam quaisquer bens móveis ou imóveis. para adotar um modelo jurídico e uma política de consumo que efetivamente protegesse o consumidor.32). dependendo. Esse meio. não empregaram a grande parte da população. a Constituição Federal de 1988 exigiu que o Estado abandonasse a sua posição de mero espectador da sorte do consumidor. gerando o desemprego e a conseqüente a exclusão social daqueles que estavam desempregados. Logo. então. Outro ponto é que o Código Civil fala em defeitos ocultos que tornem a coisa imprópria para o uso ou diminuam o seu valor. Já o Código de Proteção e Defesa do Consumidor fala em produtos. mostrou-se ineficaz para a proteção do consumidor. houve uma substituição da maquinofatura pela máquina. O Direito regia-se pelos Princípios da Autonomia da Vontade. Assim. a defesa do consumidor". devido à automação incipiente das máquinas. a garantia os direitos individuais e políticos. o Código Civil. com o advento da Revolução Industrial. o Estado passou a intervir na Economia para promover justiça social. Portanto. O Código de Proteção e Defesa do Consumidor. do Consensualismo e da Obrigatoriedade Contratual. Concomitante a estes fatos. A liberdade contratual. uma comparação exemplificativa entre as regras deste e as do Código de Proteção e Defesa do Consumidor. instituída na Revolução Francesa.7 motor da vida econômica" (SMITH. neste período. O Estado Social surge no século XX como resposta à miséria e a exploração de grande parte da população. as leis eram feitas para dar sustentação ao liberalismo econômico. O Código Civil fala em coisas.

às vezes. que: . a produção aumentou e a responsabilidade se concentrou no fabricante. Devido a este movimento. desta forma. enganosos. que "o produtor. o que o professor Thierry Bourgoignie. devolver ou pedir abatimento do preço da coisa também foi ampliado no Código de Proteção e Defesa do Consumidor. Com o crescimento da população e o movimento do campo para as cidades. a produção perdeu seu toque "pessoal" e o intercâmbio do comércio ganhou proporções ainda mais despersonalizadas. via de regra. formam-se grupos maiores. Criou-se. já que passaram a haver outros intermediários entre a produção e o consumo. denomina de "norma social do consumo". 48). A justiça social. do rótulo. Além disso. "o produtor precisava dar escoamento à produção. para manter o processo produtivo em funcionamento. que passou a responder por todo o grupo" (SOUZA. ainda que artificial. da Faculdade de Direito da Universidade Católica de Louvain. O produtor estava sempre interessado em formas para escoar sua produção e manter o fluxo de produção-consumo. ou mesmo em satisfazer o consumidor" (SOUZA. O advento da Revolução Industrial foi responsável pelo crescimento da chamada produção em massa. O crescimento e contínuos avanços das tecnologias fizeram com que fossem inseridas na mente do consumidor as idéias de que ele estava precisando de mais objetos que até o momento nunca sentira necessidade de adquirir em sua vida cotidiana. na Bélgica. então. Acrescenta-se. praticando. 1996. Em conseqüência disto. sentiu necessidade de estimular o consumidor a uma necessidade. por isso mesmo. 48). da propaganda. o produtor-fabricante era simplesmente uma ou algumas pessoas que se juntavam para confeccionar peças e depois trocar os objetos (bartering). Logo. etc. atos fraudulentos. A Revolução Industrial e O Direito do Consumidor O período da Revolução Industrial é de grande importância para o desenvolvimento do Direito do Consumidor. o prazo decadencial para substituir. III. ainda. p. 1996. sempre se interessou mais pela parte monetária do que com o produto. 1996. entendeu ser necessária a promulgação de leis para controlar o produtor-fabricante e proteger o consumidor-comprador" (SOUZA. "Antes da era industrial.48).8 acrescenta que o defeito pode até mesmo ser de fácil constatação e que a coisa poderá ser enjeitada por não conferir com as especificações da embalagem. p. p. abusivos.

p. V. "a guerra intensificou a produção industrial em massa. 1996. O Direito do Consumidor na Segunda Guerra Mundial e no Cenário do Pós-Guerra Foi em plena Segunda Guerra Mundial. escreveu um romance chamado The Jungle (A Selva). "Os principais personagens eram de uma família de camponeses lituanos que vieram trabalhar pelos contos e fantasias de liberdade e pujança na América" (Souza. moídos juntamente com os enchimentos das lingüiças vendidas em Chicago. que fortaleceram a fiscalização da pureza da carne. e contribuiu para as . IV. O romance acabou. Um exemplo é o seguinte trecho de sua obra: "a carne misturada com pedaços de tecidos esfarrapados e sujos. ele retrata em cores ousadas e dramáticas o impacto social do capitalismo industrial no começo do século XX. p. em 1906. 1996. de 1906. O impacto da novela The Jungle foi de um modo tão avassalador. também. 1996. Sinclair era um jovem jornalista. no intuito de justificar e fundamentar suas reivindicações proletárias. p. a "consommariat". dotado de idéias socialistas. que se despontava na América Keynesiasna o movimento em prol dos direitos do consumidor. Em seu romance. Este serviu para despertar no povo do seu país o mais vivo interesse pela problemática do consumidor. Mas curiosamente. quando a produção estava a serviço e controle do Estado. que logo sofreu traduções para 17 idiomas. disfarçouse em operário para realizar suas observações na cidade de Chicago. 52). Sinclair demonstra os abusos cometidos pela industria da carne. embora proibidas no comércio exterior" (SINCLAIR. 48). 52). a Meat Inspection Act e a Pure Food and Drug Act. A Selva O norte-americano Upton Sinclair. apud SOUZA. que . por inspirar a elaboração de duas leis federais nos EUA.9 "faz com que o consumidor perca o controle individual das decisões de consumo e passe a ser parte de uma classe. consistentes de melhorias de salário e de condições de trabalho. foram o surgimento da mídia e as conquistas tecnológicas que deram causa ao ressurgimento da defesa do consumidor. conferindo claramente uma dimensão social ao consumidor e ao ato de consumir" (BOURGOIGNIE. pães mofados. apud SOUZA. ao descrever de forma bem realística os alimentos deteriorados.

Podemos perceber que esses problemas influenciaram sensivelmente a vida dos consumidores. p. na economia dos contratos. inevitavelmente. resultou da propaganda informativa o marketing (desenvolvido em forma de propaganda de guerra). Passou-se então a praticar uma concorrência desleal. fortalecendo a tendência da formação dos cartéis. Com isso. em um mercado antes restrito somente ao essencial. O know-how gerado para a guerra provocou. que se fundamentava a partir da responsabilidade civil objetiva e do reconhecimento dos interesses e direitos difusos. colaborou. Após o período do pós-guerra acontece o ressurgimento da cláusula rebus sic stantibus. p. quer seja pela alta dos preços. desse princípio da relatividade dos efeitos do contrato. Com o advento da televisão. 54). aumentaram os problemas relacionados à produção e ao consumo. Esta quebra possibilitou o surgimento do Direito do Consumidor. Mas as necessidades sociais impuseram a quebra. ditando medidas que. O contrato era res inter alios acta. está abalado. para o agravamento dos problemas sociais e conflitivos urbanos em decorrência da concentração de renda" (Souza. desde que os contratos são fonte de obrigações e estas importam limitação da liberdade individual. para a satisfação de certos interesses coletivos privados" (GOMES. Por fim. 1996. 105-106). O legislador intervém. em aumento substancial de produção no posterior tempo de paz. quaisquer que fossem as circunstâncias ou as conseqüências. dentre outros motivos. Orlando Gomes afirma que: "o princípio da força obrigatória das convenções. e do advento do marketing científico. A partir das iniciativas do presidente americano John Fitzgerald Kennedy. com o objetivo de escoar a produção no mercado. trustes e oligopólios. em . tendo aplicação imediata. se ocorrer imprevisão. Dirigindo-se por meio de uma mensagem especial ao Congresso Americano. então um crescimento em vários segmentos industriais. 1979. e vai se admitindo o poder do juiz de adaptar seus efeitos às novas circunstâncias (cláusula rebus sic stantibus). gerando um arsenal de produtos surpérfulos e diversificados. o que sem dúvida. houve a consolidação do Direito do Consumidor nos Estados Unidos. pelo qual o juiz estava obrigado a fazer cumprir os efeitos do contrato.10 grandes invenções e o aprofundamento da produção em série. ou de exonerar o devedor do seu cumprimento. na década de 60. Todo o esforço da guerra resultou. ainda que excepcional. entendia-se que os seus efeitos não deveriam atingir a terceiros. Esta restauração se deu sob o nome de "teoria da imprevisão" e visava a quebra do princípio do pacta sunt servanda. a cada instante. queda na qualidade de vida ou aumento da poluição. em face de uma competitividade altamente sofisticada por causa das novas mídias e das próprias complexidades dos mercados surgidos no pós-guerra. alteram os efeitos dos contratos anteriormente praticados. o que enfraquece o princípio da força obrigatória dos contratos.

Kennedy identificou os pontos mais importantes em torno da questão: "(1) os bens e serviços colocados no mercado devem ser sadios e seguros para os uso. promovidos e apresentados de uma maneira que permita ao consumidor fazer uma escolha satisfatória. as Nações Unidas. na sua 29ª Sessão em 1973. (b) fomentar e proteger os interesses econômicos dos consumidores. (3) tenha o consumidor o direito de ser informado sobre as condições e serviços. (d) educar o consumidor. p.11 1962. 56). a primeira vez que. em nível mundial. (3) reparação dos prejuízos. houve o reconhecimento e aceitação dos direitos básicos do consumidor. p. O Anexo 3 da Resolução mostra quais são os princípios gerais que serão tomados como padrões mínimos pelos governos: "(a) proteger o consumidor quanto a prejuízos à sua saúde e segurança. Seguindo o exemplo de Kennedy. princípios e normas para que os governos membros desenvolvam ou reforcem políticas firmes de proteção ao consumidor. a qualidade e o preço de bens e serviços colocados no mercado. Em 1985. a Comissão de Direitos Humanos das nações Unidas. em Genebra. também reconheceu os princípios e chamou-os de Direitos Fundamentais do Consumidor. 56).º 39/248. de acordo com as necessidades e desejos individuais. (5) representação (ou direito de ser ouvido)" (SOUZA. por meio da Resolução n. o programa Preliminar da Comunidade Européia para uma Política de Proteção e Informação dos Consumidores dividia os direitos fundamentais em cinco categorias: "(1) proteção da saúde e da segurança. (c) fornecer aos consumidores informações adequadas para capacita-los a fazer escolhas acertadas. (2) proteção dos interesses econômicos. Por sua vez. (4) e ainda o direito a preços justos" (SOUZA. Esta foi. (2) que a voz do consumidor seja ouvida no processo de tomada de decisão governamental que detenha o tipo. 1996. (4) informação e educação. estabelece objetivos. claramente. . 1996.

inclusive o brasileiro. 57). (2) informação – conhecimento dos dados necessários para fazer escolhas e decisões informadas. Miriam Souza lembra. 1996. que: "as Nações Unidas também entendem como medida para a proteção dos consumidores o Código de Conduta para as Firmas Transnacionais. que muitos dos ordenamentos jurídicos. VI. projeto de ONU desde meados dos anos 60. pela Constituição Federal de 1988. (3) escolha – acesso a uma variedade de produtos e serviços com qualidade e preços competitivos. p. com sede em Haia" (Souza.57). 1996.12 (e) criar possibilidade de real ressarcimento ao consumidor. processos e serviços nocivos à saúde ou à vida. E sobre os direitos do consumidor enumera: "(1) segurança – proteção contra produtos. p. p. O IOCU é amplamente respeitado entre as associações de consumidores no mundo. (7) ambiente saudável – ambiente físico apto a proporcionar melhor qualidade de vida agora e no futuro" (SOUZA. acolhendo a Resolução da ONU. A proteção do Direito do Consumidor é de tamanha relevância. 1996. já consagram. (6) educação – aquisição dos conhecimentos e das habilidades necessárias para ser um consumidor informado ao longo da vida. (5) indenização – solução justa de queixas justas. ainda. 58). (4) a ser ouvido – exposição e consideração das perspectivas dos consumidores na formação das políticas nacionais. ponto de vista compartilhado pela Organização Internacional das Associações de Consumidores (International Organization of Consumers Unions – IOCU). A Constituição Brasileira e O Direito do Consumidor A questão dos Direitos do Consumidor é tão importante que em três . (f) garantir a liberdade para formar grupos de consumidores e outros grupos e organizações de relevância e oportunidade para que estas organizações possam apresentar seus enfoques nos processos decisórios a elas referentes" (SOUZA.

de acordo com o que estiver estabelecido nas leis. o artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). e que acabou sendo devidamente protocolada e registrada sob n. p. XXXII que "o Estado promoverá. apud SOUZA. foi obtida por unanimidade na oportunidade do encerramento do VII Encontro Nacional das (.º 2.. por razões óbvias. 59). em 8-5-87. à escolha. no artigo 5º. José Geraldo Brito Filomeno lembra que a sensibilização dos "constituintes de 1887/88. trazendo sugestões de redação. V. em outras palavras. a ser ouvido. A primeira vez. 1991. que trata dos direitos e deveres individuais e coletivos estabelece a Carta magna.875. Carlos Ferreira. à indenização. 21-22). . que a defesa do consumidor é um dos princípios que devem ser observados no exercício de qualquer atividade econômica.) Entidades de Defesa Do Consumidor. Bibliografia ALMEIDA. no calor das discussões da Assembléia Nacional Constituinte. p. já em seu Capítulo I do Título II. 1996. 1982." (FILOMENO. desta feita realizado em Brasília. Finalmente. determina que o Congresso Nacional elabore o Código de Defesa do Consumidor. à segurança. a dialética produtor x consumidor é bem mais complexa e delicada do que a dialética capital x trabalho" (grifo nosso) (COMPARATO. Mas. A segunda vez que a Constituição menciona a defesa do consumidor é quando trata dos princípios gerais da atividade econômica no Brasil. É o que alerta o jurista Fábio Konder Comparato: "na verdade. com especial destaque para a contemplação dos direitos fundamentais do consumidor (ao próprio consumo.. que o Governo Federal tem a obrigação de defender o consumidor. o Código do Consumidor é só o início. inclusive aos então artigos 36 e 74 da Comissão "Afonso Arinos". à informação. Os direitos dos consumidores. na forma da lei. a defesa do consumidor" o que quer dizer. Estes três dispositivos constitucionais são mencionados no artigo 1º do Código de Defesa do Consumidor.13 oportunidades distintas é tratada na Constituição Federal vigente. citando em seu artigo 170. à educação para o consumo e a um meio ambiental saudável). Coimbra: Almeida.

Altamiro José dos. FILOMENO. SANTOS.14 DERANI. Orlando. 1998. Responsabilidade Civil do Profissional Liberal no Código de Defesa do Consumidor. 10. José Geraldo Brito. Direitos Do Consumidor. Revista de Direito do Consumidor. 1996. GOMES. Oscar Ivan. Instituto dos Advogados do Paraná. . Introdução ao direito civil. A Política legislativa do Consumidor no Direito Comparado. Belo Horizonte:Del Rey. 1979. Miriam de Almeida. 1987. São Paulo: Atlas. Belo Horizonte: Edições Ciência Jurídica. Revista do IAP. Manual de Direitos do Consumidor. Souza. Rio de Janeiro:Forense. Curitiba. n. PRUX. 1991. n. 29. Política Nacional das Relações de Consumo e o Código de Defesa do Consumidor. Cristiane. 6 ed.

necessário se faz explicitar como foi o caminho trilhado do "movimento consumerista" que teve nuanças . 6. 4. A evolução legislativa brasileira. 2. 3. Terminologia. O por quê da tutela? 5.15 Proteção constitucional do consumidor Autor: Cristian de Sales Von Rondow Sumário: 1. As relações de consumo e o surgimento da tutela do consumidor. A tutela do consumidor a nível constitucional As relações de consumo e o surgimento da tutela do consumidor Antes de adentrarmos ao tema propriamente dito. A proteção no direito alienígena (Direito Comparado e Internacional).

Os serviços se ampliaram em grande medida". sendo esta. Mas esta nova forma de vender e comprar trouxe em seu bojo o poderio econômico das macro-empresas de impor seus produtos e mercadorias àquele . causando profundas e inesperadas alterações sociais. político. a sociedade de consumo (mass consumption society) ou sociedade de massa. que vão desde a necessidade e da sobrevivência até o consumo por simples desejo. Os bens de consumo passaram a ser produzidos em série. Instaura-se um novo processo econômico. erigindo um novo modelo social. que envolvem milhões de reais ou de dólares.(3) Não há dúvidas de que as relações de consumo ao longo do tempo evoluíram drasticamente.(2) Para Maria Antonieta Zanardo Donato. econômico e jurídico que permeavam época pretérita transportando-se para o cenário atual. Não ficamos um só dia sem consumir algo. dado as alterações substanciais no panorama mundial. para dar lugar à "operações impessoais e indiretas. gerou a sociedade de consumo ou sociedade de massa. mas também que punisse aqueles que o desrespeitassem. nasce um capitalismo agressivo que impôs um ritmo elevado na produção. João Batista de Almeida(1) aduz que "independentemente da classe social e da faixa de renda. consumimos desde o nascimento e em todos os períodos de nossa existência. (4) E essa produção em massa aliada ao consumo em massa. de modo que o consumo faz parte do dia-a-dia do ser humano. para um número cada vez maior de consumidores. embates acirrados e por fim uma difusão mundial da consciência de que o consumidor. Do primitivo escambo e das minúsculas operações mercantis tem-se hoje complexas operações de compra e venda. por seu turno difícil de precisar seu início. em que não se dá importância ao fato de não se ver ou conhecer o fornecedor. Para trás ficou aquelas relações de consumo que estavam intimamente ligadas às pessoas que negociavam entre si. Hodiernamente as chamadas relações de consumo. Após a transformação do panorama econômico. E o fez. Por motivos variados. qual seja. que infiltrou-se no Direito operando sua transformação. estas alterações foram introduzidas pelo liberalismo emergente do século XIX. o consumo pelo consumo". diante do avanço tecnológico dos meios de produção passara a ser a parte fraca da relação de consumo necessitando de uma legislação que resguardasse não apenas os direitos básicos. Temos que a origem protecionista do consumidor se deu com as modificações nas relações de consumo.16 próprias. A afirmação de que todos nós somos consumidores é verdadeira. outrora campo exclusivo do estudo da ciência econômica passou a fazer parte do rol da linguagem jurídica.

despender. sobretudo a sua vulnerabilidade outorgando-lhes direitos específicos. por terem escapado do controle do homem. O caminho natural da evolução nas relações de consumo certamente acabaria por refletir nas relações sociais. que se precipitaram num espaço de tempo relativamente pequeno. corroer. Na linguagem dos economistas. econômicas e jurídicas do mundo. consumo. entre outras coisas. bem como estavam desprotegidos e vulneráveis às práticas abusivas das empresas e para tanto necessitavam de proteção legal. a hipertrofia da intervenção do Estado na esfera social e econômica. O vocábulo consumidor.17 (consumidor) que ao que parecia seria "monarca do mercado"(5) ou o "rei do sistema". seria o ato pelo qual se completa a última etapa do processo econômico. A partir dessa fundamental constatação. a revolução industrial. o desmesurado desenvolvimento das relações econômicas. significa acabar. repercutindo de forma negativa sobre a qualidade de vida e atingindo inevitavelmente os interesses difusos. com a produção e consumo de massa.(8) Tal linguagem não se verificava no Direito Privado Brasileiro. Esse entendimento é corroborado por João Batista de Almeida(7) que citando Camargo Ferraz. por sua vez oriundo do latim consumere. passando a fazer parte quando da promulgação do Código de Defesa do Consumidor. Todos esses fenômenos. vários ordenamentos jurídicos do mundo todo passaram a reconhecer a figura do consumidor e. absorver. gastar. o nascimento dos cartéis. Terminologia Ponto interessante se mostra a terminologia jurídica de "consumidor". o fenômeno da propaganda maciça. Milaré e Nelson Nery Júnior aduzem que a tutela dos interesses difusos em geral e do consumidor em particular deriva das modificações das relações de consumo e evidenciam que: ‘o surgimento dos grandes conglomerados urbanos. uma vez que vários autores advertem não ser tarefa fácil definir consumidor no sentido jurídico. com eles. e os debates em torno da matéria iniciaram-se face às novas situações decorrentes do desenvolvimento. do verbo consumir. A partir deste evento. das metrópoles. até então existentes de forma latente despercebidos’. multinacionais e das atividades monopolísticas. a explosão demográfica. a tutela do consumidor ganhou espaço no seio jurídico. e. os consumidores começaram a enxergar que estavam mais para súditos do que para monarcas. trouxeram a lume à própria realidade dos interesses coletivos. holdings. o aparecimento dos meios de comunicação de massa.(6) Dado a esta imposição. muitas vezes voltaram-se contra ele próprio. Como .

Fair Credit Reporting Act e Fair Debt Collection Act. Finlândia. 2º. a conceituação legal ou o conceito standart de consumidor é dado pelo Código de Defesa do Consumidor em seu Artigo 2º aduzindo que "consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final". Bélgica e Holanda). Portugal e Espanha.A comissão das Nações Unidas sobre Direitos do Homem. mas que passaram a fazer parte do universo jurídico e no Brasil. Dinamarca. no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE.Lei de caráter geral ou específica no seguintes países: Inglaterra. Uniform Consumer Credit Code. Direito Comparado . ainda que indetermináveis. no sentido de criar. incluindo-se. Truth in Lending Act.18 mencionado eram expressões voltadas à ciência econômica.Discurso do presidente Kennedy ao Congresso Americano (março/62). . "a coletividade de pessoas. França. § único). .A iniciativa de cinco países (Estados Unidos. México. a partir da década de 60. Alemanha. Longe disso. Safety Act. que haja intervindo nas relações de consumo" (art. . É de Newton De Lucca a apresentação de quadro sintético desta proteção: No Direito Comparado (antecedentes legislativos) e no Direito Internacional. Noruega. uma "Comissão para a política dos consumidores".Lei fundamental de proteção aos consumidores no Japão (1968). nos EUA: Consumer Credit Protection Act.Numerosos textos legais. Bélgica. .Lei sobre documentos contratuais uniformes de Israel (1964). Uniform Consumer Sales Act. também. em 1969. Suécia. Alemanha. por equiparação. A proteção do consumidor no direito alienígena (Comparado e Internacional) O resguardo jurídico do consumidor não é tema exclusivo de um único país. Direito Internacional . é tema supranacional abrangendo a totalidade dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento. considerou serem 4 os direitos de todo o consumidor: . . França.

alguns são os princípios orientadores desta tutela protetiva. que para alguns é um princípio(14) foi a pedra de mote para o surgimento da tutela do consumidor.o de ser adequadamente informado sobre os produtos e os serviços. de modo a influenciar grandemente diversos países com esta doutrina. 3. . vulnerável nas relações de consumo. esta tutela. Destaca-se.o direito de ser ouvido no processo de decisão governamental. 4. que o mesmo tema fora debatido em praticamente todos os países da Europa.4. reconhecidamente concreto. . bem como sobre as condições de venda. também. Luiz Antonio Rizzatto Nunes e Cláudio Bonatto/Paulo Valério Dal Pai Moraes. bem como a insuficiência dos esquemas tradicionais do direito substancial e processual.(13) Está assentado doutrinariamente que a vulnerabilidade do consumidor. (12) E termina o festejado autor: "a tutela surge e se justifica. apontada como a verdadeira origem dos direitos básicos do consumidor. O por quê da tutela? A justificativa que se tem para o surgimento da tutela do consumidor. originando a hipossuficiência deste. surgiu "de uma reação a um quadro social. em que se vislumbrou a posição de inferioridade do consumidor em face do poder econômico do fornecedor.No Âmbito da ONU – Resolução 39/248.(9) Conforme denota-se.(10) Para João Batista de Almeida. enfim. "não surgiu aleatória e espontaneamente". 2.o direito de escolher sobre bens alternativos de qualidade satisfatória a preços razoáveis.o direito à segurança.19 1. os EUA foram o grande propulsor da mensagem protecionista do consumidor. de 9. . que já não mais tutelavam novos interesses identificados como coletivos e difusos.85.7. vejamos: o da isonomia ou da vulnerabilidade. é que esta nasceu fruto dos mais variados problemas sociais "surgidos da complexidade da sociedade moderna e os reclamos de indivíduos e grupos". reconhecendo-se ser este a parte fraca. (11) Ao contrário.85. Para João Batista de Almeida. pela busca do equilíbrio entre as partes envolvidas". no tocante aos países membros do CEE. o da hipossuficiência.A aprovação de vários documentos pela Assembléia do Conselho da Europa – Diretiva 85/374. de 24.

João Batista de Almeida(16) aduz ser de 1971 a 1973 os discursos proferidos pelo então Deputado Nina Ribeiro. Na esfera federal. "Art. esta não fora a intenção.626. devendo constituir-se em sociedade brasileira as estrangeiras que actualmente operam no paiz. que passamos a transcrever. alertando para a gravidade do problema. 117 – A lei promoverá o fomento da economia popular. embora essa não fosse a intenção principal do legislador. densamente de natureza social. arts. o primeiro órgão de defesa do consumidor.903. o da revisão das cláusulas contrárias ou da repressão eficiente aos abusos. mas apenas trazê-los à colação com o fito de demonstrar ser esta tutela orientada por princípio basilares do direito constitucional que se espraiaram para o direito do consumidor. que será punida na fórma da lei. por meio do Decreto nº 91. E assim. o da conservação do contrato. e para a necessidade de uma atuação mais enérgica no setor. o do da equivalência. de modo que possibilite a todos exist~encia digna. A matéria ganhou status constitucional (Constituição de 1934. Somente em 1978 surgiu em nível estadual. Todavia. 115 e 117). o Procon de São Paulo. com a proteção à economia popular. Igualmente providenciará sobre a nacionalização das empresas de seguros em todas as sua modalidades. verbis: "Art. criado pela Lei nº 1." . é garantida a liberdade econômica". verifica-se a existência de referida defesa como tema "inespecífico"(17) em legislações esparsas que indiretamente protegia o consumidor. 115 – A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios da justiça e as necessidades da vida nacional. Foi o Decreto nº 22. do dever de informar. embora não fosse a defesa do consumidor tratada como tema específico como é hoje.469 que posteriormente foi extinto e substituído pela atual Secretaria Nacional de Direito Econômico (SNDE).20 o do equilíbrio e da boa-fé objetiva. o desenvolvimento do crédito e a nacionalização progressiva dos bancos de depósito. o da transparência e o da solidariedade.(15) Cumpre esclarecer que não trataremos dos princípios acima mencionados. só em 1985 foi criado o Conselho Nacional de Defesa do Consumidor. A evolução legislativa brasileira A defesa do consumidor como tema específico é entre nós algo recente. Dentro desses limites. de 7 de abril de 1933 (Lei da usura) a primeira norma nesta seara que visava reprimir a usura. pois. de 1978. o evoluir não parou. Parágrafo único: É proibida a usura.

está o de promover. Noutra passagem. na estrutura do Ministério da Justiça. de 11 de setembro de 1946. na inserção de quatro dispositivos específicos e objetivos sobre o tema. sobrevindo. O primeiro deles e o mais importante por refletir toda a concepção do movimento está grafado no artigo 5º. esta inserção não deixa de demonstrar ares de preocupação do constituinte com o tema. foi promulgada a Lei nº 7. quando em 24 de julho daquele ano. onde diz que dentre os deveres impostos ao Estado brasileiro. de 18 de novembro de 1938. mas não como elemento contundente para a prática do Estado. Todavia. além de haver criado o Conselho Administrativo de Defesa Econômica – CADE. 115 e 117). Mas sem dúvida ou medo de errar.244. com especial destaque para contemplação dos direitos fundamentais do consumidor. no capítulo relativo aos "direitos e deveres individuais e coletivos". e depois o de nº 9. mas apenas cuidou de forma indireta. na forma da lei.840. que cuidaram dos crimes contra a economia popular. é atribuída a competência concorrente para legislar sobre . denominado "crimes de colarinho branco". em 8-5-87. que de maneira reflexa beneficiava o consumidor. à tutela jurisdicional dos interesses difusos em nosso país.347 que disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao consumidor.099/95). no calor das discussões da Assembléia Nacional Constituinte. inciso XXXII. Em 1984 editou-se a Lei nº 7. por razões óbvias.875. posto que brotava na nação a consciência da necessidade de proteção ao consumidor. culminando assim. dando início desta forma. a constituinte de 1988 curvou-se ante aos anseios da sociedade e ao enorme trabalho dos órgãos e entidades de defesa do consumidor. Com a Lei nº 7. autorizando os Estados a instituírem os Juizados de Pequenas Causas.137 de 1962). com ênfase ao VII Encontro Nacional das referidas Entidades de Defesa do Consumidor. A tutela do consumidor a nível constitucional Como já mencionado. trazendo sugestões de redação. atualmente Juizados Especiais Cíveis (Lei 9.21 Posteriormente veio o Decreto-Lei nº 869. a tutela do consumidor a nível constitucional foi posta na Constituição de 1934 (arts. realizado em Brasília. num evoluir ascendente. inclusive aos então artigos 36 e 74 da "Comissão Afonso Arinos". passaram a ser punidos os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Mas os passos mais significativos neste campo foram dados a partir de 1985. ainda existente. em 1951 a chamada Lei de Economia Popular que vige até hoje. a defesa do consumidor. e que acabou sendo devidamente protocolada e registrada sob o nº 2. além de outros bens tutelados. Surge a Lei de Repressão ao Abuso do Poder Econômico (nº 4.492 de 16 de junho de 1986.

2.078.90 (Código de Defesa do Consumidor) terá representado o integral cumprimento da proteção constitucionalmente estabelecida em favor desse mesmo consumidor?(20) Como resposta à questão o conceituado autor traz a lume a opinião do Prof. 81. pp. Fábio Konder Comparato (RDM nº 80. estabeleceu. 66 a 75. aduz: "pelo que sei. VIII).22 danos ao consumidor (art.078. de 11 de setembro de 1990 o chamado Código de Defesa do Consumidor. V). E em nota. En el marco de lo dispuesto en los apartados anteriores.9. A expressão designa um programa de ação de interesse público. diz o artigo 48 do ato de suas disposições transitórias que "o Congresso Nacional. a defesa do consumidor é. mais amplamente. todos os princípios da proteção acham-se constitucionalmente assegurados". finalmente. indubitavelmente. a Constituição de 2 de abril de 1976. a saber: O advento da Lei nº 8. Já o art. caber prioritariamente ao Estado ‘proteger o consumidor especialmente mediante o apoio e a criação de cooperativas e associações de consumidores’. encerraremos com a "questão para debate" proposta pelo Doutor Newton De Lucca. mediante procedimientos eficaces. Como todo programa .(19) Finalizando o estudo em apreço. la ley regulará el comercio interior y el régimen de autorización de productos comerciales".(18) O citado autor faz observação interessante ao afirmar que ‘a consagração constitucional dos direitos dos consumidores não constitui a regra em termos de direito comparado’. Los poderes públicos garantizaran la defensa de los consumidores y usuarios protegiendo. tendo por objeto uma ampla política pública (public policy). la salud y los legítimos intereses económicos de los mismos. apenas Portugal e Espanha possuem em suas Constituições dispositivos em favor da proteção aos consumidores. 51 da Constituição espanhola de 1978 declara que: "1. Los poderes públicos promoverán la información y la educación de los consumidores y usuarios. 3. No primeiro deles. E. no art. elaborará código de defesa do consumidor". artigo intitulado "A Proteção ao Consumidor na Constituição Brasileira de 1988"): ‘Por outro lado. mas o comando constitucional foi respeitado com a promulgação da Lei 8. prazo não respeitado. dentro de cento e vinte dias da data da promulgação da Constituição. fomentaran sus organizaciones y oirán a éstas en las cuestiones que puedan afectar a aquéllos. de 11. 24. O mestre Newton De Lucca assevera que "não apenas o Código de Defesa do Consumidor tem base constitucional (art. um tipo de princípio-programa. No capítulo da Ordem Econômica. en los términos que la ley establezca. a defesa do consumidor é apresentada como um dos motivos justificadores da intervenção do Estado na economia (art. la seguridad. ainda no bojo da Constituição de 1988. 48 do ADCT) como. 170.

Vol. realizar nada. A Constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem efetivamente realizadas. o conteúdo da policy. portanto.Donato. que se assenta na natureza singular do presente (individuelle Beschaffenheit der Gegenwart). João Batista. É claro que a implementação desses meios exige a edição de normas – tanto leis. pode-se afirmar que a Constituição converter-se-á em força ativa se fizerem-se presentes. na consciência dos principais responsáveis pela ordem constitucional -. mas essa atividade normativa não exaure. 7. para a consecução de uma finalidade. se.Almeida. ela mesma. mas há que se ressaltar que diante das nações mais avançadas do mundo. Proteção ao Consumidor. Konrad Hesse. 7. Quer isso dizer que os Poderes Públicos detêm um certo grau de liberdade para montar os meios adequados à consecução desse objetivo obrigatório. em sua célebre obra "A Força Normativa da Constituição" aduz que "a força normativa da Constituição não reside. ambos previstos e dimensionados no orçamento-programa’. Ed.. Concluindo. porém. vezes por falta de vontade política e outras por falta de recursos técnicos e materiais.e. Embora a Constituição não possa. apenas a proteção efetiva. Proteção ao Consumidor. tão-somente. cujo conteúdo. uma série organizada de ações. Maria Antonieta Zanardo. P 15. Insta asseverar que o consumidor brasileiro está legislativamente equipado à altura. não só a vontade de poder (Wille zur Macht). não ficamos aquém nesta seara. quanto regulamentos de Administração Pública. cit. em força ativa. na consciência geral – particularmente. Saraiva-2000. ou programa de ação pública. ela pode impor tarefas. RT- . p. Ed. a despeito de todos os questionamentos e reservas provenientes dos juízos de conveniência. por meio das chamadas "normas-objetivo". RT1993. se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem nela estabelecida.23 de ação. i. como já se disse. em absoluto.(21) Notas 1. 01. A Constituição jurídica logra converter-se. 2ª Edição. Maria Antonieta Zanardo.Donato. É preciso não esquecer de que esta só se realiza mediante a organização de recursos materiais e humanos. por si só. A imposição constitucional ou legal de políticas é feita. 85 e ss). é um "Zweckprogramm" ou "Finalprogramm" (Cfr. se puder identificar a vontade de concretizar essa ordem. mas também a vontade de Constituição (Wille zur Verfassung)". Vol. na adaptação inteligente a uma dada realidade. faltando-lhe. a política pública desenvolve uma atividade. 2. Ed. A Proteção Jurídica do Consumidor. imposta na lei ou na Constituição. 3. São Paulo.

p. cit.Almeida. Apud. 2ª edição. 6. 2ª Edição. Ed. João Batista. 2ª Edição.. Ed. 5. 8. São Paulo. 7.Lucca. São Paulo. p. Porto Alegre. 13. 22. Saraiva-2000.Donato. Ed. conceitos. . Questões controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: principiologia. João Batista. p. A Proteção Jurídica do Consumidor. contratos. Saraiva-2000. Livraria do Advogado-1999. p. RT1993. Porto Alegre. cit. 2ª Edição. João Batista.24 1993. p. 22. cit. Ed. 25/30. 2ª Edição. Saraiva-2000. p. A Proteção Jurídica do Consumidor. P. A Proteção Jurídica do Consumidor.Almeida. Saraiva-2000. 30-56. p.54-5. São Paulo. 6. Direito do Consumidor. São Paulo-2000. p. Saraiva-2000. Livraria do Advogado-1999. 22. Antonio Augusto Camargo Ferraz. cit. Ed. p. 1984. Direito do Consumidor. Paria. 02. Edipro. São Paulo. 12. 18. 15. São Paulo. A Proteção Jurídica do Consumidor.Bonatto. 2ª ed. cit. cit. 19. p. 10. Ed. A Proteção Jurídica do Consumidor. Edipro. Cláudio. 45-6. Newton De. Saraiva. Ed. 4. Édiz Milaré e Nelson Nery Júnior. Apud. A Proteção Jurídica do Consumidor. 9. João Batista. Newton De. contratos. São Paulo.Almeida. Edipro. 20. Droit de la Consommation. 14.Almeida. Newton De. 03. 2ª edição. João Batista. cit. Ed. conceitos. Maria Antonieta Zanardo. cit. P. Questões controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: principiologia. p.Lucca. 17. João Batista.42. P. São Paulo. Ed. Ed. Bonatto. 11. Saraiva-2000. cit. 2ª Edição.Lucca.Almeida. 2ª Edição. São Paulo-2000. São Paulo. A ação civil pública e a tutela jurisdicional dos interesses difusos. Cláudio. Jean Calais-Auloy.Almeida. Ed. Ed. Proteção ao Consumidor. Direito do Consumidor. A Proteção Jurídica do Consumidor. p. Ed. Saraiva-2000. Dalloz. 21. 7.Almeida. 2ª Edição. Vol. 2ª Edição. São Paulo-2000. 1986. João Batista. 2ª Edição. p. 2ª Edição.

cit. cit. Edipro. cit. São Paulo-2000. p. 2ª Edição. p. p.Lucca.Hesse. 34. A Proteção Jurídica do Consumidor. João Batista. Ed. Edipro. 18. A Proteção Jurídica do Consumidor.Lucca. 2ª Edição. Porto Alegre-1991. Edipro. A Força Normativa da Constituição. p. Apud nota nº 20. p. 20. Ed. Direito do Consumidor. Konrad. Ed.Almeida. Direito do Consumidor. 2ª Edição. Newton De. Ed. Ed. 34. .Lucca. 19. 2ª Edição.Almeida. Apud nota nº 20 21. São Paulo-2000. 2ª Edição.25 16. São Paulo. p. 17. Newton De. Direito do Consumidor. 10. Saraiva-2000. 10. Newton De. São Paulo. 19. 34. João Batista. Editor Sergio Antonio Fabris. São Paulo-2000. Saraiva-2000.

III e VI. senão o mais importante dos princípios do sistema de proteção consumerista. Princípio da boa fé nas relações de consumo art. Legislação infraconstitucional: o momento da parturição do Código de proteção e defesa do consumidor. 2. o princípio da eqüidade e a cláusula geral de boa-fé. Princípio da Vulnerabilidade. o princípio da vulnerabilidade do consumidor.1. 4°.2. que é o da vulnerabilidade do consumidor. A análise com maior grau de aprofundamento recai sobre a principiologia criada com a elaboração da Lei 8. II. o Código de Defesa do Consumidor. Dentre estes. II. 2.3.previsão constitucional. Direitos do Consumidor .9. Dos Princípios Gerais de Direito. I.3. 2. 2. IV e VIII. Da constitucionalização dos princípios gerais. 1. Princípio da informação . Teoria Geral do Direito RESUMÉ . Boa-fé. Conclusão. desde a sua constitucionalização até a sua irradiação por entre outros ramos do Direito.art.4.078/90. 4°. 1. e em particular. As diretrizes gerais da política e do direito do consumidor. Princípios fundamentais da política nacional das relações de consumo. 2. A defesa do consumidor e sua extensão como princípio constitucional. 4°. o princípio da proibição do abuso do direito e a função social dos contratos. 4°.1. 1. 2. 2. PALAVRAS-CHAVE Consumidor. VI e VII. Abuso do Poder Econômico e Consumidor. O princípio da garantia da adequação art. RESUMO O presente trabalho retrata a enorme importância do estudo a cerca do tem.7. Princípio do acesso à justiça.5.6. 2. Consumo sustentável e o princípio da integração. "D" e V. 1. princípios gerais de direito. 2. A Política Nacional das Relações de Consumo e sua abrangência. 4°. Livre concorrência. Princípio da vulnerabilidade do consumidor art. chama-se a atenção do leitor para um dos mais importantes. contida de mandamentos nucleares tais como.26 Princípios nucleares do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor e sua extensão como princípio constitucional Autor: Henrique Alves Pinto Sumário: Resumo.2. 1. 2.4. Introdução. o sistema de proteção e defesa do consumidor brasileiro.8. 3. em que demonstra os caminhos por eles percorridos sob a ótica da Teoria Geral do Direito. Bibliografia. O princípio do dever governamental art.

Será essa necessidade. também não podem ser evidentes. além do estudo das ingressões destes princípios no Código de Defesa do Consumidor de 1990. le système de protection et de défense du consommateur brésilien. de se ter evidentes premissas para se erguer um concreto sistema à base de um forte princípio. MOT-CLÉ Consommateur. Bonne-foi. le code de defense du consommateur. DOS PRINCÍPIOS GERAIS DE DIREITO Sobre os princípios gerais de direito importa citarmos Miguel Reale (1999. Principe de la Vulnérabilité. sendo este. celui de da vulnérabilité. en particulier. inclusive nos sistemas mais bem aceitos e com as maiores pretensões de conter raciocínios mais elaborados. falta de coerência entre as partes. p. no ato de sua criação. Princípios acolhidos com base na confiança. não podem dar conhecimento certo de alguma coisa. . e de evidência no todo. où il y a des points fondamentaux tels que le principe de la vulnérabilité du consummateur. totalmente dotado de uma carga manifestamente principiológica em suas normas.27 Ce travail veut présenter l'' enorme importance de l'' etude concernant les principes généraux du droit dans le cadre des chemins parcouris par lui sous le sceau de la Théorie générale du Droit. depuis as constitution jusqu'' à sa penetration dans les autres branches du Droit et. 1. Théorie générale du Droit. c'' est-à-dire. uma das propostas de desenvolvimento deste trabalho. Daí que todos os raciocínios assentes sobre tais princípios. destituídos de um conteúdo científico. O homem equipado de sabedoria percebe facilmente a fragilidade dessa estrutura. INTRODUÇÃO Todas as conclusões advindas de um princípio que não é evidente. mesmo que tenham seguido o processo correto da dedução. Parmi ceux-là.078/90. on attire l'' attention du lecteur sur l'' un des plus importants ou peut-être le plus important des principes du système de protection du consomateur. L'' analyse plus approfondie retombe sur les principes créés par la loi 8.le principe de la prohibition de l'' abus de droit et la fonction sociale des contrats. celui de l'' égalité et la rubrique générale de bonne foi . danificam o sistema podendo até mesmo levá-lo a sua ruína.

impõem-se. como tais admitidas. como se dá com o princípio de causalidade. p. que a presente monografia irá demonstrar: a incidência deles no âmbito das relações consumeristas devido à alta carga principiológica contida no texto da lei de defesa do consumidor. aqui. Será essa categoria de princípios. A expressão princípios gerais de direito é por demais ampla e um autor de grande autoridade como Rubens Limongi França (apud RODRIGUES.28 305): deve começar pela observação fundamental de que toda forma de conhecimento filosófico ou científico implica a existência de princípios. 42). como é o caso dos princípios de identidade e de razão suficiente. 25) A esse respeito reportemo-nos a Washington de Barros Monteiro (1997. àqueles princípios que "baseados na observação sociológica e tendo como objetivo regular os interesses conflitantes. c) PRINCÍPIOS MONOVALENTES: quando só valem como âmbito de determinada ciência. 306)." (REALE. de acordo com Miguel Reale (1999. "Nada existe de mais tormentoso para o intérprete. essencial às ciências naturais. b) PRINCÍPIOS PLURIVALENTES: quando aplicáveis a vários campos de conhecimento." Com base nessa posição. inexoravelmente. 1999. p. os princípios se dividem em três categorias: a) PRINCÍPIOS OMNIVALENTES: quando são válidos para todas as formas de saber. ressaltemos. isto é. p. de certos enunciados lógicos admitidos como condição ou base de validade das demais asserções que compõem todo campo do saber. que a aplicação dos princípios gerais de direito. 2002). ou seja. Todavia. mas não extensivo a todos os campos do conhecimento. não especificados pelo legislador. p. a dos monovalentes. 2002. 305) Nesse sentido. a resolução para o eventual problema da aplicação dos aludidos princípios gerais. uma vez que o legislador quer referir-se àquelas normas que o orientam na elaboração da sistemática jurídica. há de se atribuir um sentido diferente a eles." (RODRIGUES. Dessa abordagem lógica da palavra "princípio". pode-se dizer que "os princípios são ''verdades fundantes'' de um sistema de conhecimento. encontrada pelo direito suíço . como uma necessidade na vida do homem em sociedade. entende que é aos princípios de direito natural que o legislador manda recorrer na lacuna da normatividade. por serem evidentes ou por terem sido comprovadas. como é o caso dos princípios gerais de direito.

que condicionam e orientam a compreensão do ordenamento jurídico. por mais complicadas que estas sejam no interior de um sistema de normas. sejam eles previstos ou imprevistos. p. 232): Todo discurso normativo tem que colocar. quando a norma jurídica for omissa. não merecendo acolhimento esse entendimento. p. isto significa que: O legislador. deve o juiz decidir ''segundo as regras que ele estabeleceria se tivesse de agir como legislador''. quer para a elaboração de novas normas". Concluamos este tópico. quer para a sua aplicação e integração. algo que era impossível ser vislumbrado sequer pelo legislador no momento da futura lei. deve estar . 306). p. 1° do Código Civil deste país que "no silêncio da lei e não havendo um costume a regular uma relação jurídica. ao se examinar o direito positivo pátrio. 4° da Lei de Introdução ao Código Civil a orientação a seguir. Diante desta exposição. o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia. uma vez que o ordenamento jurídico oferece ferramentas para regular todos os casos possíveis. Nas precisas palavras de Miguel Reale (1999. p. porém. portanto. Ora. Note-se. encontra-se. os costumes e os princípios gerais de direito. o certo é que tais elementos constituem uma breve resolução do problema. portanto em seu raio de abrangência os princípios aos quais as regras se vinculam. 2002." (RODRIGUES. é o primeiro a reconhecer que o sistema das leis não é suscetível de cobrir todo o campo da experiência humana. por conseguinte. Para essas lacunas há a possibilidade do recurso aos princípios gerais de direito. mas é necessário advertir que a estes não cabe apenas essa tarefa de preencher ou suprir as lacunas da legislação. Mas de maneira alguma se colocará em dúvida que as lacunas de fato existem no direito positivo. no art. por força do qual. presentes ou futuros. que para vários juristas essas lacunas não podem e nem verdadeiramente poderão existir. que tais princípios gerais são imprescindíveis ao direito. 25) Assim. mas não a solução definitiva e concreta dele. restando sempre grande número de situações imprevistas. citando as palavras do constitucionalista Paulo Bonavides (2002. Daí infere-se que todo sistema se quiser adquirir a qualidade de um sistema que se completa e se relaciona por toda a extensão de seu corpo normativo. temos a célebre noção atribuída por Miguel Reale (1999.29 que dispõe no art. é evidente. Os princípios espargem claridade sobre o entendimento das questões jurídicas. posto que na própria há elementos para suprir essas lacunas. acerca do entendimento deste autor sobre os princípios gerais de direito em que ele nos revela o seguinte: "princípios gerais de direito são enunciações normativas de valor genérico. 306).

" (BARROS CARVALHO. p. ou seja. Além disso. aquele que diz respeito ao modo de referência à realidade. ao realizar reiteradas incursões nos níveis sintático. 19). p. nos países com estabilidade política e que se encontram num verdadeiro Estado Democrático de Direito. 97) E para se chegar ao conteúdo intelectual dos textos do Direito através da exegese. nada mais justo que apresentarmos a proposta de interpretação do direito como um sistema de linguagem. Por plano pragmático. p. mas. nos seus três planos fundamentais: a sintaxe. formados de postulados que seguem os preceitos do princípio da identidade que é comum a todos os campos do saber. simplesmente.30 armado de princípios que emanam de um núcleo central. sempre foi muito comum. 2002. semântico e pragmático da linguagem jurídica. Neste sentido será a interpretação um ato de vontade e um ato de conhecimento e como ato de conhecimento não caberá à "Ciência do Direito dizer qual é o sentido mais justo ou mais correto. apontar as interpretações possíveis. deverá o intérprete adotar o critério sistemático de interpretação. 19) Isso acontece devido à falta de um forte regime democrático. possui . de estabilidade política que possam contribuir com o fortalecimento do Estado Democrático de Direito. Assim se fixarmos o pressuposto de que o direito positivo é uma camada lingüística de termos prescritivos dirigidos ao comportamento social das relações de intersubjetividade. pelo menos até pouco tempo atrás. Em vista disso percebe-se "porque não se vinha dando grande importância ao Direito Constitucional. todo e qualquer princípio que daí se irradiar por outros sistemas periféricos estará sendo amparado pela base. Por plano semântico. Por plano sintático entende-se aquele formado pelo relacionamento que os signos lingüísticos mantêm entre si. Daí a alegação de que a ofensa à Constituição. a qualificação dos fatos para alterar normativamente a conduta. 2002. aquele "tecido pelas formas segundo as quais os utentes da linguagem a empregam na comunidade do discurso e na comunidade social para motivar comportamento. 2002. p. tampouco aplicadas efetivamente"(NERY JÚNIOR." (NERY JÚNIOR. a interpretação e aplicação dos mais variados ramos do direito tomando-se por base "a lei ordinária principal que o regulamentava.1 Da Constitucionalização dos Princípios Gerais Em decorrência da alta instabilidade política percebida ao longo dos tempos na história do Brasil." (BARROS CARVALHO. 99) 1. percebe-se também que dado esse rigor necessário do corpo principiológico central. porque envolve os três planos fundamentais. sem qualquer menção ao mundo exterior do sistema. a semântica e a pragmática. já que nossas constituições não eram respeitadas. 2002.

p. Partindo desse pressuposto. p. apresentando-se "como mais uma defesa que o interessado opõe à contraparte."(NERY JÚNIOR. p. suscetível de imediata aplicação. a normatividade constitucional dos princípios é mínima. sempre tendo como pressuposto o exame da Constituição Federal. o da função interpretativa e da aplicabilidade da Constituição. Revela também. que demandam de operações integrativas em que se percebe a ausência de juridicidade. o que podemos perceber dos ensinamentos deste jurista é que será na Constituição de determinado país que se encontrarão os mais altos valores do Direito Positivo. ao declarar que o Direito Constitucional é a base fundamental do direito para o país. por ser concreta e completa. (2002. dotada de um alto teor de abstração e de perfeição." (apud." Na verdade. É da Constituição que se irradiam os princípios que irão se dispersar pelas mais variadas leis infraconstitucionais. 246). 246) o seguinte: Na primeira. Ressalta ainda Paulo Bonavides (2002. ao grau mais alto a que eles já subiram na própria esfera do Direito Positivo: o grau constitucional". que "a constitucionalização dos princípios compreende dessas fases distintas. na . a fase programática e a fase não programática". 1999. em virtude do aumento significativo de trabalhos e pesquisas jurídicas que abordam o tema da interpretação e aplicação da Constituição Federal. quando há ofensa à Constituição. No Brasil. 20): "O intérprete deve buscar a aplicação do direito ao caso concreto. deve ser consultada a legislação infraconstitucional a respeito do tema. quando este problema é declarado. (2002. De acordo com Nelson Nery Jr. é dotada de incontrastável juridicidade. Depois. e ao contrário do que se pode perceber na fase programática. posto serem preservados pelos cidadãos orientados por uma carga principiológica que reside na base deste sistema. através dos princípios contidos em seu corpo. essa situação vem apresentando uma grande mudança. p. 246) Por fase programática deve-se entender que é uma fase de concreção. REALE. 2002. sim. segundo Paulo Bonavides (2002. este constitucionalista. "numa escala de densidade normativa. Já a fase não programática é uma fase dotada de objetividade. 19) Entretanto.31 conseqüências catastróficas. 306) Deste ponto de partida. p. é que podemos chegar. ou seja. p. "a alegação não é levada a sério na medida e na extensão que deveria". Simonius tem razão quando afirma que "o Direito vigente está impregnado de princípios até suas últimas ramificações.

desapareceu com o nascimento do moderno Estado de direito. o respeito ao Direito Constitucional como lei basilar de todo o ordenamento jurídico dos Estados para a estabilização política e fortalecimento do Estado Democrático de Direito e. Ao se estudar a teoria dos princípios gerais de direito proposto por Del Vecchio nas lições de Vicente Ráo (1999. 275). 5°.078/90 . doutrina é esta que. isto é. p. pois. pairam ainda numa região abstrata e têm aplicabilidade diferida. chega-se à seguinte conclusão: O perigo do que se chama aequitas cerebrina. que se fará exeqüível "colocar no mesmo plano discursivo. E se. o que se pode perceber deste tópico é que.32 segunda máxima. Tanto é que. p. inc. o arbítrio do juiz em sentido contrário ao da lei. estabeleceu em "norma de notório conteúdo programático" (CARVALHO FILHO." (BONAVIDES. certa doutrina pretende restabelecer este arbítrio sob o pretexto especioso da liberdade do juiz ou da jurisprudência. a positividade de sua aplicação direta e imediata. aqui ocupam um espaço onde releva de imediato a sua dimensão objetiva e concretizadora. p. deve ser repelida por se opor ao mencionado princípio e às próprias bases racionais do sistema atualmente em vigor. em nossos dias. Apenas nesta última fase. tema que não é o propósito desse trabalho. a fase não programática. 1. salvo o empenho da Filosofia e da Teoria Geral do Direito ao construírem a doutrina da normatividade dos princípios em que se busca uma neutralidade na qual se possa superar antinomia Direito Natural/Direito Positivo. não é necessário entrarmos em maiores detalhes aqui. por fim. 246) Portanto. no art. 19): o Estado promoverá. na forma da lei.2 Direitos do Consumidor . em termos de identidade. Percebe-se. Ali. 2001. os princípios gerais e os princípios constitucionais. já que aqueles possuem maior ou menor incidência nos mais variados ramos do direito. nada mais imprescindível na história contemporânea do Direito Constitucional do que a solidificação dos princípios contidos em seus textos de leis. a defesa do consumidor. que não foi sem razão que o Constituinte inseriu o direito do consumidor no rol dos direitos fundamentais. a conversão dos princípios gerais em princípios constitucionais.Previsão Constitucional A Constituição Federal Brasileira de 1988 considerou como fundamental o direito do consumidor. Fala-se em conteúdo programático neste inciso porque antes da Lei 8. entre outras categorias de princípios. retrógada em sua substância e contrária à liberdade apesar de seu nome. Como já comentamos a respeito da fase programática das normas. XXXII. 2002. para possibilitar uma maior objetividade e aplicabilidade no escopo de suprir as diversas lacunas encontradas entre as leis. Assim.

destinado à tributação e ao orçamento. SOUZA. o § 5° do art. com respeito ao próprio objeto por se tratar de uma norma constitucional programática até então. A. E. p. Acrescenta ainda Paulo Bonavides (2002. Protege-se ainda.. em clara preocupação com o grau de informação que deve . inc. em sua Seção II. VIII da Constituição Federal. 75): As normas constitucionais programáticas. ALVIM. V. 150 dispõe que ''a lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços''. 14): No Título IV da Constituição Federal. em segundo grau. J. "ostentam por igual uma dupla eficácia na medida em que servem de regra vinculativa de uma legislação futura sobre o mesmo objeto. determinando que se ofereça o devido esclarecimento acerca dos tributos incidentes sobre bens objeto de relações de consumo. 24. No que diz respeito à competência normativa sobre a matéria. Constituição Federal).. 170. mas regulam propriamente a atividade estatal concernente a ditas matérias: têm por objeto imediato os comportamentos estatais e só imediatamente e por assim dizer. 24. sendo que os Estados e Distrito Federal possuirão competência suplementar (art. não regulam diretamente as matérias a que se referem. os Estados e o Distrito Federal para legislar concorrentemente sobre responsabilidade por dano ao consumidor. através da normatividade constitucional. inc. Sobre as normas constitucionais programáticas postula Crisafulli (1976. XXXII da Constituição Federal. p. o direito do consumidor (ALVIM. T. aquelas determinadas matérias.. como se viu. é da inteligência do art..33 de 11/09/1990. a defesa do consumidor "se qualifica também como um dos princípios da ordem econômica e financeira (art. 222). como é a brasileira. § 1° e 2° da Constituição Federal). preestabelecia em si mesmo apenas um programa de ação. O produto legislativo da União deverá ater-se à edição de normas gerais. nada mais oportuno e justo do que se considerar o direito do consumidor como um direito fundamental." Por se tratar de uma sociedade capitalista. 1995." Além de caracterizada como direito fundamental. que se refere às limitações ao poder de tributar. p. o art. que criou o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. serem competentes a União. ALVIM. 5°. fundada na livre iniciativa na qual se verificam inúmeras formas de abuso de poder econômico.

177-178) será: princípio político constitucionalmente conformador. que é o da carga principiológica contida na Lei 8. que possui grande parte de suas atividades baseadas nas relações de consumo. uma série de direitos ao cidadão. é mais do que uma mera necessidade. apontaremos ainda a extensão da defesa do consumidor como princípio constitucional. Além disso nota-se também que o dever de bem informar os consumidores. como veremos mais detalhadamente no tópico específico destinado à elucidação de sua aplicabilidade. p.078/90 (reitere-se o Código de Defesa do Consumidor). a partir do momento em que buscam introduzir uma nova forma de pensar nos postulados da consciência jurídica. Dada esta destacada posição de defesa do consumidor. que a necessidade da devida informação acerca do produto que o consumidor venha adquirir. que é o princípio da boa-fé. sobretudo ao legislador. entre fornecedor e consumidor que a partir do ano de 1990 devem estar. subordinadas aos ditames do Código de Proteção e Defesa do Consumidor no que chama a atenção pela necessidade de sua correta interpretação nos quadros normativos. disposições imediatas e emergentes. Como será discutido mais adiante o princípio da transparência. Todavia. visto que garante. difundido de seu estado de . aliás. 1.34 receber o consumidor. como se percebe pelo fragmento supra citado. na medida em que indica opção valorativa do constituinte. necessariamente. antes de abordarmos os princípios específicos desta lei. da sua constitucionalização e irradiação por entre outros ramos do Direito. ainda que indiretamente. e de acordo com os dizeres de José Joaquim Gomes Canotilho (1992.078/90.3 A Defesa do Consumidor e sua Extensão como Princípio Constitucional Após todo este levantamento da trajetória dos princípios gerais de direito. princípio garantia. nos declara a importância do tema na órbita da economia brasileira. Diante disso fica declarada a magnitude de sua garantia constitucional que possui no mínimo. chega-se ao assunto fundamental do presente trabalho. mas sim um dever que se impõe a todos os fornecedores que oferecem produtos ou serviços no mercado consumerista. o que. Daí percebe-se que os princípios que envolvem a defesa do consumidor são princípios jurídicos basilares. ou seja. nada mais é do que uma irradiação de um princípio basilar residente no corpo principiológico nuclear da Lei 8. a de estar no ápice do nosso ordenamento jurídico. é a tônica deste Código de Consumidor. vale adiantar brevemente. a realização de uma tarefa e um fim a ser atingido e. é princípio constitucional impositivo. pois que impõe aos órgãos do Estado.

mais uma vez. não pode. "Direitos que envolvem a obrigação positiva de atuar. de acordo com a determinação do art. Assim. pois. sobretudo ao legislador.4 Legislação Infraconstitucional . 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT)." (TEMER. ou a administração pública. ao revelar certa pressa para que fosse promulgada a lei de proteção do consumidor. que é o consumidor. que criou o código brasileiro das relações consumeristas. "a realização de uma tarefa e um fim a ser atingido" (ZAPATER. pela defesa do consumidor" (ZAPATER. legislar e decidir. será do núcleo sistêmico de onde emanará toda orientação no intuito de se atingir a devida interpretação normativa. mais do que declarado. editar norma conflitante com o objetivo do programa constitucional. Percebe-se portanto que. 69): De um lado. após quase dois anos da promulgação da Carta Magna é que foi instituída a Lei 8. Por fim. É preciso. na política. De outro. nota-se que ele atribui ser papel do legislador apontar quais normas este erigiu à categoria de princípios. na busca da solução das antinomias que são encontradas nos conflitos entre as normas do sistema. uma vez que irão servir "como vetores para soluções interpretativas. p. está comprovado que a defesa do consumidor é uma garantia constitucional que engloba uma vasta gama de direitos que estão envolvidos em toda a Carta Constitucional ou em outros regimes e princípios colhidos por ela. enquanto o que se . p. 37) Da posição do constitucionalista acima citado.O Momento da Parturição do Código de Proteção e Defesa do Consumidor Brasileiro Apesar do amplo otimismo do Constituinte. o Código de Defesa do Consumidor. p. 1. quando consignou que o Congresso Nacional deveria elaborar. 185). identificar tais princípios.078/90 de 11/09/1990. ao se tratar de interpretação constitucional dever-se-á identificar quais foram as normas que receberam do legislador constitucional a categoria de princípios orquestradores do sistema de valoração. a virtude de corromper de inconstitucionalidade qualquer norma que possa ser um obstáculo à defesa desta figura das relações intersubjetivas de consumo. Após todas essas exposições. 1990. Entretanto. erigido por nossa Lei Maior. 2001. por meio de uma ação coordenada. posto que são mais do que normas dado o seu caráter de fundamentalidade no sistema das fontes de direito. 187). ao buscar uma legislação mais eficiente e específica para tratar de tais situações jurídicas. o legislador.35 princípio geral da atividade econômica do país. lembra ainda Fábio Konder Comparato (1990. ou à sua importância estrutural dentro do sistema jurídico. na lei e na justiça. p. 2001. os Poderes Públicos têm o dever de desenvolver esse programa. Este impôs aos órgãos estatais. no prazo de cento e vinte dias da promulgação da Constituição.

no que quase sempre acabava numa decisão menos favorável aos consumidores. Com o decorrer dos anos. do executivo ou do judiciário. Daí percebe-se o equívoco em se considerar que os incisos do art. A POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO E SUA ABRANGÊNCIA Estabelece o caput do art. nos mais variados casos em que eram envolvidos os sujeitos do consumo.36 tinha antes era a adaptação interpretativa pelos juristas do Código Civil de 1916. traçam também os objetivos e princípios de toda a Política Nacional de Relações de Consumo. Apesar de se confundirem os objetivos expressos da Política Nacional de Relações de Consumo com a defesa do consumidor. a definição dos objetivos que norteiam a política das relações de consumo. apontaremos abaixo os aspectos mais comuns de interesse da política tradicional de proteção ao consumidor: a)Educação: uma importantíssima ferramenta de auxílio ao consumidor. seja na esfera do legislativo. 4° do Código de Defesa do Consumidor Brasileiro. uma vez que. 2002. 2. 34). 4°. todavia com objetivo mais restrito. uma nova abordagem é postulada "em que se exige a integração das considerações da política de consumo a outras políticas econômicas e sociais" (BOURGOIGNIE. e seus dados se tornam cada mais significativos à medida que ele vão se estendendo a outros ramos políticos. coerente e separada. deve-se perceber que uma e outra não são a mesma figura. 4° do Código de Defesa do Consumidor. direitos e obrigações. protegendo-o dos enganos e . sendo esta uma importante faceta daquela. correspondem apenas aos princípios da defesa do consumidor. buscando um alcance substancialmente mais longo. busca torná-lo mais consciente de suas responsabilidades. a política e o direito do consumidor desenvolveramse de forma cada vez mais autônoma. a partir do instante em que se trata das "relações consumeristas" que é uma expressão declaradamente mais ampla do que a "defesa do consumidor". 2. p. ao estabelecer parâmetros que nortearão todo e qualquer ato do governo. ajudando-o a exercer um papel atuante no mercado. À política de defesa do consumidor é dado um objetivo mais amplo de aplicação.1As Diretrizes Gerais da Política e do Direito do Consumidor Antes de dissertarmos sobre a principiologia inserta no art. Numa fase mais recente.

acesso a planos de compensação adequados e facilmente acessíveis. proibição de propaganda enganosa. rotulagem e empacotamento dos produtos. concessão de períodos de controle. lazer. através de medidas preventivas. regulamentação da especulação de preços. criminais e administrativas mais adequadas. instituição de padrões de qualidade. dos empréstimos e de outras transações financeiras do consumidor. obrigações de garantia pós-venda. além de desenvolverem sistemas alternativos para solução de conflitos que sejam eficientes e independentes. b)Informação e conselhos: detalhar cada vez mais as informações e formas de uso sobre produtos e serviços. atividades esportivas etc. riscos e acidentes relacionados a eles. planos de garantia de qualidade. cosméticos.37 fraudes. tais como exigências de informações. obrigações de controle sobre processos de produção e distribuição. telecomunicações. água. dentre eles. ao possibilitar o acesso efetivo à lei e aos mecanismos de reparação. personalidade jurídica ou o direito de ingressarem ações coletivas em cortes e tribunais quando se sentirem lesados. g)Satisfação de necessidades básicas: como possibilitar a todos. avisos e instruções de uso. a realização de recalls. impedimento de cláusulas abusivas em contratos de consumo. drogas. o efetivo acesso a mercadorias e serviços básicos. definindo reparações civis. saúde. promovendo informações de consumo por meio de fontes independentes. particularmente por meio de específicas regras de responsabilidade. brinquedos. comida. saúde etc. c)Proteção dos interesses econômicos dos consumidores: prevenção de comércio. cláusulas contratuais. propaganda e métodos de venda desleais. automóveis. e)Compensação ao consumidor: tem como objetivo armar o consumidor de meios rápidos e acessíveis de assegurar seus direitos. revelação das cláusulas contratuais. d)Segurança: proteção aos consumidores de produtos ou serviços. desenvolvimento de campanhas públicas de conscientização etc. retirada de produtos quando nocivos aos consumidores e a terceiros. preços e tarifas. que o objetivo de segurança sobre produto e serviços tais como. . ao criar para os grupos de consumidores. estabelecimento de uma rede de Centros de Conselhos para Consumidores. do crédito. leis e regulamentos entre outros. transporte. assim como corretivas que dão aos consumidores. que são perigosos ou sem segurança. aumentando a participação de representantes de consumidores no processo de tomada de decisões. intercâmbio de sistemas de informações e supervisão das reservas de mercado. entre outros. educação. Imprescindível que se destaque. f)Representação dos interesses coletivos dos consumidores: para promover e dar suporte aos grupos de consumidores. energia.

e para que a criação desta consciência de preservação ao meio ambiente possa vir a colher bons resultados. p. por governantes e empresários. entre os recursos naturais disponíveis e a atividade industrial.). tais como: . 67). no seu art. 42. sobretudo sustentável. através do documento "United Nations Guidelines for Consumer Protection"." (O consumo sustentável deverá satisfazer às necessidades das presentes e futuras gerações por meio de benefícios e empreendimentos que contribuam pela higidez do meio ambiente. Tradução nossa. Os preceitos desse artigo. como se pode perceber. Todavia.38 2. "enquanto as necessidades do homem são.Consumo Sustentável e o Princípio da Integração Conforme a resolução da ONU. consome determinada marca de papel de uma empresa que não pratica o reflorestamento. além das associações de proteção aos consumidores e ao meio ambiente que irão desempenhar importante papel na divulgação da mais adequada informação. em princípio. 2003. o chamado "consumo sustentável". esta tarefa não é nada fácil. desde a infância. in verbis: "Sustainable consumption includes meeting the needs of present and future generation for goods and services in ways that are economically. ilimitadas. a preocupação em proceder ao consumo responsável e. ele estará incentivando cada vez mais a atividade comercial dessa empresa que depreda o meio ambiente no que implicará um forte desequilíbrio. uma vez que da escolha dos consumidores por determinados produtos é que recairão os efeitos sobre os produtores. o que poderá trazer drásticas conseqüências. devem ser observadas.2. como bem observa José Geraldo Brito Filomeno (2003. socially. sobretudo se se tiver em conta a ciência de marketing e a publicidade. ampliado no ano de 1999. 68). de maneira que os recursos naturais não se esgotem de forma irreversível. Se o consumidor. foi eleito como um dos direitos do consumidor universalmente considerado e será um objetivo comum a todos os governos a sua promoção. por organizações do trabalho. A responsabilidade pelo consumo sustentável deve ser compartilhada por todos os membros e organizações da sociedade. são limitados os recursos naturais disponíveis". aponta a resolução acima citada. de produtos e serviços" (FILOMENO. quanto no aspecto social. and environmentally sustainable. por consumidores informados. por exemplo. nada mais é do que um grande cuidado que os homens devem ter no instante que exploram o meio ambiente através de suas atividades econômicas. É desse problema que surge "a necessidade de incutir no homem. no intuito de se buscar uma redução dos impactos causados por essas atividades. tanto no aspecto econômico. Assim percebe-se que o consumo sustentável. p. referem-se a uma variedade de políticas.

saúde e segurança. saúde. o respeito a sua dignidade.° 9. sociedade de informação. o qual se encontra consubstanciado no texto do art. a melhoria da sua qualidade de vida. Diante disso.008.° A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores. p. 37). atendidos os seguintes princípios: I . 2002. a proteção de seus interesses econômicos. 36). ao fazer com que todos tomem consciência da dimensão ecológica do processo consumerista em geral e de seu comportamento individual particular. 4. como bem observa Thierry Bourgoignie (2002. da diretriz geral de proteção ao consumidor editada pela ONU. 2.39 telecomunicações. . p. proteção ambiental e agrícolas. aos fornecedores. não recairá apenas aos produtores. bem como a transparência e harmonia das relações de consumo.3. in verbis: Art. 4° do Código de Defesa do Consumidor de acordo com a nova redação dada ao artigo pela Lei n. que devem procurar consumir produtos menos nocivos ao meio ambiente. deverá ser limitada em prol do meio ambiente e que os interesses da coletividade e benefícios individuais a curto prazo. "colocará sua marca na política e no direito do consumidor". 43. que devem ser desenvolvidas numa estratégia rumo à integração dos dados de consumo. É desta atividade que trabalha com a inter-relação que temos o princípio da integração. Tradução nossa. o que não é nada fácil já que implica numa mudança nos seus hábitos. mas também aos consumidores.). de 21 de março de 1995. A livre escolha dos consumidores." (Os governantes devem promover a implementação e o desenvolvimento de políticas que tenham como objetivo o consumo sustentável além da integração dessas políticas a outras políticas públicas. entre outros entes da cadeia empresarial. Portanto conclui-se que o consumo sustentável. A responsabilidade pela proteção ao meio ambiente. infere-se que "a qualidade de vida ou direito de viver num ambiente saudável tornou-se um dos direitos fundamentais dos consumidores" (BOURGOIGNIE.Princípios Fundamentais da Política Nacional de Relações de Consumo Para melhor se compreender o corpo principiológico do art. in verbis: "Governments should promote the development and implementation of policies for sustainable consumption and the integration of those policies with other public policies. nutrição. daí observa-se que o processo de integração é extremamente complexo.reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo.

Princípio da Garantia de Adequação IV. pode-se dizer serem seis os princípios fundamentais da Política Nacional das Relações de Consumo. II . De acordo com Arruda Alvim. c) pela presença do Estado no mercado de consumo. 170.racionalização e melhoria dos serviços públicos. b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas. III.harmonização dos interesses dos particulares dos participantes das relações de consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico. que possam causar prejuízos aos consumidores. p. VI.Princípio do Acesso à Justiça .educação e informação de fornecedores e consumidores. assim como de mecanismos alternativos de solução de conflitos de consumo. quanto aos seus direitos e deveres. Thereza Alvim.ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor: a) por iniciativa direta. citados abaixo: I-Princípio da Vulnerabilidade II.Princípio do Dever governamental III. da Constituição Federal).estudo constante das modificações do mercado de consumo. Eduardo Arruda Alvim e Jaime Marins (1995.40 II .incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços. I . IV .Princípio da Informação VI.coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo. com vistas à melhoria do mercado de consumo. V . d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade. inclusive a concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciais e signos distintivos.Princípio da Boa-fé nas relações de consumo V. 44). sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores. de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art.

Com precisão. 4°. 224225) demonstra a diferença entre a vulnerabilidade e hipossuficiência: A vulnerabilidade é um traço universal de todos os consumidores. 2° da Lei 8. a partir do momento em que se examina a cadeia consumerista. de acordo com o conceito legal preceituado pelo art. no que surge à necessidade da criação de uma política jurídica que busque a minimização dessa disparidade na dinâmica das relações de consumo. por estarem desprovidas de outros indispensáveis alimentos em sua dieta. atua como elemento informador da Política Nacional das Relações de Consumo. ricos ou pobres. os analfabetos quando se encontram diante de uma situação em que podem assinar um contrato de plano de saúde sem os devidos esclarecimentos a respeito de suas cláusulas contratuais contidas no corpo contratual.até mesmo a uma coletividade . A vulnerabilidade. limitada a alguns . educadores ou ignorantes. dado o propósito desse trabalho. p. I. 2. em sua situação individual carentes de condições culturais ou materiais. crédulos ou espertos.4 Princípio da Vulnerabilidade do Consumidor . crianças que são expostas diariamente aos diversos anúncios de chocolates. intrínseca) e indissociável do consumidor numa relação de consumo.41 Todos estes princípios supra citados. consequentemente acaba se submetendo ao poder dos detentores destes. e é tido como o núcleo base de onde se irradia todos os outros princípios informadores do sistema consubstanciado no Código de Defesa do Consumidor. como por exemplo. Diante disso temos que. a vulnerabilidade do consumidor não se confunde com a hipossuficiência. Isto acontece. Já a hipossuficiência é marca pessoal.Art. Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin (1991. seja ele consumidor-pessoa jurídica ou consumidorpessoa física. independentemente da sua condição social.mas nunca a todos os consumidores. cultural ou econômica. Deve-se notar também que. qualidade ontológica (essencial. numa hipotética situação. por não dispor do controle sobre a produção dos produtos. serão devidamente analisados nos subtópicos que se seguem. ao levar um automóvel seu numa . ao perceber que o consumidor é o elemento mais fraco dela. ou então. que além de presumivelmente vulneráveis são também. que é uma característica restrita a determinados consumidores. nuclear. determinado médico neurocirurgião de grandes títulos durante a carreira. entre outros alimentos supérfluos em que o exagero no consumo destes podem levá-las a ter vários problemas no seu desenvolvimento natural.078/90. Este princípio.

O primeiro é o da responsabilidade atribuída ao Estado. dos mecanismos suficientes que proporcionam a sua efetiva proteção. por exemplo. ao consumo tanto básico quanto exagerado. Sem fazer contestação ao teor do que nela se contém e reconhecendo. não significa que estes devam ser tratados de maneira idêntica nas normas e em particular nas leis expedidas com base na Constituição.5 O Princípio do Dever Governamental . "b") ou até mesmo de fornecedores. enquanto sujeito máximo organizador da sociedade. VI e VII Este princípio. ao prover o consumidor. se percebe que é mister da Lei 8. como. dispensando-se tratamento desigual aos desiguais". homens e mulheres. por não conhecer nada a respeito de mecânica de motores automotivos. elencado nos incisos II. II. mas também sob o aspecto econômico. seja ele pessoa jurídica ou pessoa física. sua validade como ponto de partida. 11): "deve-se negar-lhe o caráter de termo de chegada. p. dever ser compreendido sob dois principais aspectos. 2. 207) têm-se as seguintes condições: A igualdade dos sujeitos na ordenação jurídica. observa-se também que o princípio da vulnerabilidade de acordo com Nelson Nery Júnior (1991. além de deter o processo tecnológico da fabricação de seus produtos. Todavia. dos mais diversos setores e interesses nas relações consumeristas.Art. entre crianças e adultos. a oficina mecânica prestadora do serviço). 4°. ao colocá-lo sob um intenso bombardeamento de anúncios. segundo Celso Antônio Bandeira de Melo (2002. . 4° do Código de Defesa do Consumidor. indivíduos mentalmente sadios e alienados. Além destas constatações. p. Sob esta ótica. seja através da iniciativa direta do Estado (art. p. garantida pela Constituição. é insuficiente para desate do problema. esta expressão "tratamento desigual aos desiguais" de Aristóteles. 320) que "permeia as relações de consumo está em verdade a dar realce específico. VI e VII do art. ao princípio constitucional da isonomia. já que este é a parte detentora dos mecanismos que induzem aquele. pode ser considerado vulnerável frente ao fornecedor (neste caso. não apenas sobre o aspecto técnico.078/90 colocar em equilíbrio jurídico o consumidor e fornecedor. pois entre um e outro extremo serpeia um fosso de incertezas cavado sobre a intuitiva pergunta que aflora ao espírito: Quem são os iguais e quem são os desiguais?" E de acordo com Hans Kelsen (1998. II.42 oficina mecânica para a realização de reparos no veículo. Daí o porquê se parte do princípio da fraqueza manifesta do consumidor no mercado. 4°. A igualdade assim entendida não é concebível: seria absurdo impor a todos os indivíduos exatamente as mesmas obrigações ou lhes conferir exatamente os mesmos direito sem fazer distinção entre eles. para armá-lo de certos instrumentos para que ele possa melhor defender-se.

demarcando o Código que as empresas deverão ser incentivadas para a criação de mecanismos eficazes de controle de qualidade de produtos e serviços. II. a dar informações necessárias e adequadas a seu respeito. consistente no atendimento dos eventuais problemas dos consumidores. 4°.ao mesmo tempo que recebem reclamações de determinados produtos ou serviços. "d" e V do Código do Consumidor encontra-se amparado pela inteligência dos art. têm criado os conhecidos "departamentos de atendimento ao consumidor". que é uma outra atribuição do "princípio de dever governamental" o qual já se expôs. ao surgir aqui a figura do Estadofornecedor além de suas eventuais responsabilidades. "D" e V É o princípio que emana a necessidade da adequação dos produtos e serviços ao binômio. qualidade/segurança. não irá se discuti-lo aqui). exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição. em qualquer hipótese. aliada à inversão do ônus da prova (como este assunto não é a proposta de discussão do presente trabalho. a quem está incumbido o dever de fiscalização. A concretização desse princípio. fica a cargo do fornecedor que será oficialmente auxiliado pelo Estado. diz respeito ao binômio. 4°. instruindo-os em como melhor servi-los. II. várias empresas. elencado no caput do art. a proteção de seus interesses econômicos e a melhoria da sua qualidade de vida. uma vez que o Código do Consumidor é adepto do princípio da "responsabilidade objetiva". 2.43 O segundo aspecto é o enfoque sob o "princípio do dever governamental". no que diz respeito à sua dignidade. fala-se muito na chamada "qualidade total". saúde e segurança. Atualmente.6 Princípio da Garantia da Adequação . atendendo completamente aos objetivos da Polícia Nacional das Relações de Consumo. também recebem valiosas sugestões de consumidores. 4°. respectivamente: Art.10° §1°. 8° parágrafo único e art.Art. indica que a prevenção de danos é a política que deve ser prioritariamente buscada pelas empresas. Preocupadas com tais aspectos. o que contribui de maneira inteligente para o desenvolvimento das próprias atividades empresariais. 4°. in verbis. que demonstram uma dupla atribuição: . . obrigando-se os fornecedores. que é o fim perseguido pelo sistema de proteção e defesa do consumidor. §2° e § 3° do mesmo diploma. Por fim. vale ressaltar também que o princípio da garantia de adequação contido no art. qualidade/segurança. VIII). em que é dever do próprio Estado de promover continuadamente a "racionalização e melhoria dos serviços públicos" (art. 8° Os produtos e serviços no mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores.

nos dizeres de Silvio Rodrigues (2002. desde a instituição de seus direitos básicos (art. do art. III e VI Este princípio nas relações de consumo. deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades competentes e aos consumidores mediante anúncios publicitários. a União. que deve ser buscada pelos dois pólos componentes das relações de consumo: consumidor e fornecedor.7 Princípio da Boa-Fé nas Relações de Consumo . os Estados. que traz uma carga significativa de regra geral de comportamento.44 Parágrafo único. fazer circular produtos e serviços com objetivo da geração de riquezas e benefícios a todos os integrantes do mercado de consumo. percorrendo pelo capitulo referente à reparação por danos pelo fato do produto. e a proteção contratual. 6°). Art. § 2° Os anúncios publicitários a que se refere o parágrafo anterior serão veiculados na imprensa. através de impressos apropriados que devam acompanhar o produto. que considera nulas de pleno direito cláusulas contratuais que "sejam incompatíveis com a boa-fé e eqüidade". merecedora de especial destaque de acordo com o inciso IV do art. p. orientando basicamente os capítulos referentes às práticas comerciais. § 3° Sempre que tiverem conhecimento de periculosidade de produtos ou serviços à saúde ou segurança dos consumidores. de certa maneira. Em se tratando de produto industrial. posteriormente à sua introdução no mercado de consumo. Será a boa-fé. 2. está expressamente referido no inciso III. mesmo que ocupem posições antagônicas frente ao conflito de seus interesses. às expensas do fornecedor do produto ou serviço. e. rádio e televisão. 4°.Art. a publicidade. Nesse sentido. tiver conhecimento da periculosidade que apresentem. 4°. 10° O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança. serão o resultado da conduta geral da boa-fé. A harmonia das relações de consumo e a transparência. 4° como um dos escopos da Política Nacional das Relações de Consumo. 60): "um conceito . encontra-se difundido em grande parte dos dispositivos do Código do Consumidor. § 1° O fornecedor de produtos e serviços que. os componentes da relação consumerista devem buscar o objetivo comum de melhor e com mais eficiência. o Distrito Federal e os Municípios deverão informá-los a respeito. 51 do Código do Consumidor. e. indicadas no caput do art. ao fabricante cabe prestar as informações a que se refere este artigo.

divulgação. p. Desse modo será a informação. da boa intenção e no propósito de a ninguém prejudicar. constata-se a presença . 256). p. o primado básico da boa-fé será "o princípio máximo orientador do CDC" (MARQUES. e é através deste princípio nuclear que não apenas os pólos atuantes da relação de consumo.Art. e não através da realidade. 4°. 255). caput) que não deixa de ser um reflexo da boa-fé exigida aos agentes contratuais. que o direito de informação existirá expressamente no Código de Defesa do Consumidor Brasileiro. A história do homem é a história da luta entre idéias. moldado nas idéias de proceder com correção. como por exemplo. com várias normas dispostas a destacar a extrema cautela com que tais temas devam ser encarados. é o caminhar dos pensamentos. 671). pautando sua atitude pelos princípios da honestidade. o de saber melhor no ato da decisão. publicidade. devem se localizar no momento do ato de consumo. em que este revela um importante pensamento a respeito da informação: "Não há sociedade sem comunicação de informação. O pensar e o transmitir o pensamento são tão vitais para o homem como a liberdade física". Matérias que se referem a educação. com dignidade. são objetivos em parte do Código do Consumidor. com o objetivo de coibir que os cidadãos sejam levados a consumir pela ilusão. IV E VIII Antes de se iniciar este tópico. p. 4°. p.8 Princípio da Informação . informação dentre outros. o "princípio da veracidade". Por um dos princípios adotados pelo Código de caráter acessório. 2002. "o princípio da transparência (art." Como se pode perceber. 2002." (MARQUES. necessário é citar a importância da informação de acordo com o jurista Luis Gustavo Grandinetti Castanho de Carvalho (2002. 256). 2002. Será deste interesse jurídico.45 ético. 2002. 671) 2. mas até a própria legislação consumerista sofre reflexos dele. p. o elemento regente da Lei 8.078/90 ao ter como corolário a educação. em que o fornecedor deve sempre prestar informações sobre produtos ou serviços de quaisquer natureza que ele ofereça no mercado. Como se vive num mundo globalizado em que a tecnologia a cada dia que passa caminha a passos cada vez mais largos. "para que o homem não seja levado a assumir comportamentos que não correspondam a uma perfeita compreensão da realidade" (DE CARVALHO. percebe-se que a informação circula com maior velocidade por estar difundida nos mais variados meios de comunicação que a massificam com muito mais intensidade. fazendo com que a informação passe "a ter uma relevância jurídica antes não reconhecida" (DE CARVALHO.

46

deste princípio em inúmeros artigos do código, além do art. 4°, tais como; o art. 6° (dos direito básicos do consumidor); arts. 8° e 10° (citados no tópico referente ao princípio da garantia de adequação); arts. 18, 19 e 20 (vício do produto); arts. 30, 31 e 35 (oferta); arts. 36, 37 e 38 (publicidade e marketing); 43 e 44 (bancos de dados e cadastros); art. 56 (sanções administrativas); por fim, os arts. 60, 63, 64, 66, 67 e 72 (infrações penais). Todavia há de ressaltar-se que, independentemente da preocupação que os redatores da lei consumerista brasileira tiveram com a informação, esta só poderá ser estendida aos cidadãos de maneira mais eficiente, se as autoridades derem mais atenção a educação básica, que é uma condição indispensável para o completo exercício da cidadania. Uma proposta a esta problemática, seria a introdução, ou melhor dizendo, reintrodução da disciplina de educação moral e cívica nos currículos escolares de 1° e 2° graus, com o objetivo de fazer com que crianças e adolescentes comecem a criar uma cultura para melhor consumirem e orientarem seus pais, durante o ato de consumo, como por exemplo, saber avaliar a qualidade do produto além de suas condições de higiene, suas condições de exposição para venda, dos componentes artificiais, do valor calórico dos alimentos que devem estar dispostos numa tabela nutricional impressa no rótulo das embalagens, o prazo de validade para consumo dos produtos, dentre outros aspectos de cunho sócio-econômico. Todavia Hélio Jaguaribe (apud, ALVIM, A.; ALVIM, T.; ALVIM, E.; SOUZA, J. 1995, p. 48-49) chama atenção desta questão social da seguinte maneira: O Brasil tem demonstrado capacidade para mobilizar forças e enfrentar problemas sociais. Em tempos recentes, as comunicações, o programa do álcool, as hidrelétricas, a industrialização diversificada, a produção de grãos e a ampliação do comércio exterior, em diferentes setores, constituíram provas eloqüentes dessa afirmação. A educação do povo, entretanto, sendo questão da mais transcendente magnitude - pois dela também o equacionamento de todos os problemas, incluindo os políticos, sociais e econômicos - não tem acompanhado sequer as exigências mínimas do país, apesar de ser dever imperioso da nação para com seus filhos e garantia de seu próprio bem-estar. Concluindo, independentemente do instrumento jurídico que se tenha, por mais avançado que seja, acabará sempre se esbarrando nos problemas sociais, ou seja, na carência cultural que acompanha a população brasileira. Daí que várias empresas, sejam elas multinacionais ou nacionais acabam, na maioria das vezes, se aproveitando da ignorância alheia ao construir seus mega impérios econômicos centralizadores de preços e extintores de quaisquer modalidades de concorrência nos mercados. 2.9 Princípio do Acesso à Justiça

47

Primeiramente, far-se-á um breve relato deste princípio no campo constitucional do qual ele emana através do art. 5°, inc. XXXV da Constituição Federal de 1988 in verbis: "a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito", e segundo Nelson Nery Jr. (2002, p. 98) tem-se: "Embora o destinatário principal desta norma seja o legislador, o comando constitucional atinge a todos indistintamente, vale dizer, não pode o legislador e ninguém mais impedir que o jurisdicionado vá a juízo deduzir pretensão". Isto significa que todos têm direito do acesso à justiça para pleitear a tutela jurisdicional reparatória ou preventiva, no que diz respeito a um direito. Contemplando-se aqui tanto direitos individuais quanto coletivos. Todavia, este princípio não está expresso nos incisos do art. 4° do CDC, mas ele se reveste de suma importância, a partir do momento em que o legislador do diploma consumerista, teve como uma de suas grandes preocupações a busca pela criação de novos mecanismos, que pudessem facilitar ainda mais o acesso dos cidadãos à justiça, como um meio de defesa de seus direitos, daí se observarão consubstanciados em vários artigos do código alguns desses caminhos. E para que o consumidor se atenha desta efetividade, conforme Arruda Alvim (1990, p. 31) ensina em termos processuais: a palavra ''efetividade'' alcança uma conotação principalmente sociológica e não meramente jurídico-formal, mas no sentido de que o que conta, em última análise, não é tanto a existência de uma normatividade completa e lógica, em que todos os direito são protegidos pela letra da lei e pelo sistema, mas tão somente aparentemente funcional, pois na verdade, normatividade jurídica, ainda que exaustiva, não é suficiente para satisfazer às aspirações sociais dos segmentos numericamente predominantes e desprotegidos da sociedade. Antes de se prosseguir com o estudo deste princípio, vale a pena diferenciar o que são as concepções jurídico-formais, das concepções jurídico-materiais, apresentadas pelos autores, Antônio Carlos de Araújo Cintra; Ada Pellegrini Grinover e Cândido Rangel Dinamarco (1999, p. 40), em que a primeira é "o exercício conjugado da jurisdição pelo Estado-juiz, ou seja, o complexo de normas e princípios que regem tal método de trabalho", já a segunda, é "o corpo de normas que disciplinam as relações jurídicas referentes a bens e utilidades da vida (direito civil, penal, administrativo, comercial, tributário, etc.)". A necessidade de se dar efetividade ao processo, e facilitação ao acesso à justiça, demandou que se fortalecesse o consumidor, ao inseri-lo numa ordem mais ampla a partir do instante em que se construiu mecanismos processuais que davam tratamento coletivo de pretensões individuais, que se agissem isoladamente pouquíssimas condições teriam de obterem um resultado mais satisfatório.

48

E por mencionar o "tratamento coletivo", destaca-se brevemente as ações coletivas de modo geral, que visam a tutela dos interesses difusos (art. 81, parágrafo único, I do CDC), interesses coletivos (art. 81, parágrafo único, II do CDC) e os interesses individuais homogêneos de origem comum (art. 81, parágrafo único, III do CDC). Como dissertado um pouco atrás, em que o princípio do acesso à justiça não se encontra expresso na redação do art. 4° do Código do Consumidor, mas sim exposto por outras normas do mesmo diploma, exemplo deste caso é o que acontece com o art. 6° inc. VII, in verbis: "Art. 6°, inc. VII: o acesso aos órgãos judiciários e administrativo com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção jurídica, administrativa e técnica aos necessitados;" do Título III do CDC que cuida da defesa do consumidor em juízo, ao oferecer a oportunidade de fazer valer seus interesses, inclusive, como já se observou no inc. VII supra citado, de natureza coletiva, e "mediante a ação de órgãos e entidades com legitimidade processual para tanto, sem prejuízo dos pleitos de cunho nitidamente individuais" (FILOMENO, 2001, p. 127). Por fim, com a criação de instrumentos adequados para a proteção do consumidor, nascem dois planos distintos de incidência. O primeiro, se relaciona às possibilidades que se criam para a efetivação da proteção do consumo em juízo, ao contribuir para que se extraia resultados claros e objetivos pertinente ao direito de consumo. A segunda incidência não decorre do uso destes mecanismos em juízo, mas simplesmente de sua potencialidade de uso, ao clamar pela importância da mudança de mentalidade do consumidor, a partir do momento em que ele irá pressionar cada vez mais o Estado, no intuito de conseguir a tutela específica exigidas pelas relações de consumo, que demandam maior agilidade por parte dos órgãos públicos, armando o consumidor do seguinte slogan de que "quem reclama sempre alcança".

3. LIVRE CONCORRÊNCIA, ABUSO DO PODER ECONÔMICO E CONSUMIDOR Conforme a posição de José Geraldo Brito Filomeno (2003, p. 69), diante sua exposição acerca da defesa da ordem econômica, será esta a razão final proteção dos interesses e direito dos consumidores, eis que destinatários finais tudo o que é produzido no mercado, seja em matéria de produtos, seja na serviços". de "a de de

Assim, diante de toda essa principiologia apresentada pelo texto do art. 4° do Código de Consumidor, tema deste trabalho, percebe-se que o diploma consumerista nada mais fez do que colocar na prática, durante o relacionamento entre consumidor e fornecedor, os preceitos constitucionais do Título VII (Da Ordem Econômica e

49

Financeira), como um dos princípios que regem a atividade econômica (Capítulo I), ao destacar a importância da proteção ao consumidor, como sujeito mais fraco (vulnerável) da cadeia que compõe as relações de consumo. De acordo com o art. 170 da C.F/88, expressamente referido pelo art. 4° do CDC, diz ele que "a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa tem por fim assegurar a todos, existência digna, conforme ditames da justiça social", observados princípios bem delineados, dentre os quais figuram a livre concorrência e a defesa do consumidor (cf. incisos I e IV, respectivamente, ainda do citado art. 170 da CF/88.) Mais adiante, o art. 173 da Carta de 1988, nos seus § 4° e 5° declaram o seguinte, in verbis: Art. 173, § 4°. A lei presumirá o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados, à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros. § 5°. A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica, estabelecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular. Daí percebe-se, conforme foi observado pelos textos desses dispositivos constitucionais supra citados, a definição do que vem a ser abuso do poder econômico, ou seja, "qualquer forma de manobra, ação, acerto de vontades, que vise à eliminação da concorrência, à dominação de mercados e ao aumento arbitrário de lucros" (FILOMENO, 2003, p. 70). Não obstante, está claro que a proteção e o incentivo às práticas leias de mercado, não interessam apenas aos consumidores, assim como aos fornecedores, que necessitam de uma livre concorrência entre os setores empresariais para que se obtenha uma melhoria da qualidade de produtos e serviços com o aprimoramento da tecnologia, além de melhores opções aos consumidores. Assim observa-se que, se a livre concorrência não é garantida pelo Estado, o mercado será dominado por poucos, o que gera conseqüências drásticas aos cidadãos, tais como, o aumento de preços de produtos e serviços, a queda de sua qualidade, a falta de opções de compra e a obsolência tecnológica. E para que se evite tais abusos, vários mecanismos jurídicos foram instituídos para protegerem os cidadãos, dentre eles a Lei 8.884 de 11 de junho de 1994, que transformou o Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE - em autarquia, dispondo sobre prevenção e repressão às infrações contra a ordem econômica, através do que reza o seu parágrafo único do art. 21, incs. I, II, III, IV, in

50

verbis: Parágrafo único. Na caracterização da imposição de preços excessivos ou do aumento injustificado de preços, além de outras circunstâncias econômicas e mercadológicas relevantes, considerar-se-á: I - o preço do produto ou serviço, ou sua elevação, não justificados pelo comportamento do custo dos respectivos insumos, ou pela introdução de melhorias de qualidade; II - o preço do produto anteriormente produzido, quanto se tratar de sucedâneo resultante de alterações não substanciais; III - o preço de produtos e serviços similares, ou sua evolução, em mercados competitivos comparáveis; IV - a existência de ajuste ou acordo, sob qualquer forma, que resulte em majoração de bem ou serviço ou dos respectivos custos. Deve-se lembrar que para se caracterizar o aumento arbitrário dos lucros, há de se observar também o grau de concentração econômica do setor acusado de tal prática. Diante disso, examine-se o que preceitua o § 2° do art. 20 da Lei 8.884/94, in verbis: Art. 20 § 2°. Ocorre posição dominante quando uma empresa ou grupo de empresas controla parcela substancial de mercado relevante, como fornecedor, intermediário, adquirente ou financiador de um produto, serviço ou tecnologia a ele relativa. "E o § 3° arremata essa ordem de idéias acrescentando que ''a parcela de mercado requerida no parágrafo anterior é presumido como sendo da ordem de 20% (vinte por cento)''" (FILOMENO, 2003, p. 71). Ainda de acordo com José Geraldo Brito Filomeno (2003, p. 71), tem-se: A infração de que ora se cuida, portanto, é tipificada pelo inc. III do art. 20 da Lei n° 8.884/94, complementada pelos seus três parágrafos, sobretudo os ora colacionados e suplementada, em termos de metodologia, pelos incisos também ditados do art. 21, no tocante à sua apuração. Portanto, pode-se se conceituar o termo "aumento arbitrário de lucros" como aquele que exceder o limite razoável, levando em conta o teor da concentração de determinado setor da economia, diante o disposto da inteligência do art. 21 da Lei 8.884/94, além de outros dados socioeconômicos e a política das relações de

em investidas. as especulações no mercado. in verbis: "exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva". Um outro comportamento abusivo que merece destaque é o disposto no inc. em sua seção IV. que diz o seguinte.078/90. 72). em sua privacidade e em seu patrimônio. pois além dele.51 consumeristas. merecem rigoroso regime repressivo no Código. fica vedado ao fornecedor. V do referido art. 2003. Bittar prossegue nesse raciocínio.347/85 (Ação Civil Pública). avançam em correspondência com uma necessidade real. as ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados: . a Lei n° 8. 1° da Lei 7. sem mencionar os textos jurídicos que tipificaram os delitos contra a ordem econômica e as relações de consumo. 1° Regem-se pelas disposições desta Lei. p. Por fim. 71): ao turbarem a livre possibilidade de escolha do consumidor. ou em cobrança de valores excedentes ao ajustado. ensejam sanções pela Secretaria Nacional de Direito Econômico (SNDE) e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) quando declarado estiver o aumento abusivo dos lucros dos detentores da cadeia de produção. 39 do CDC. os acordos entre concorrentes dentre outros tipos de articulações os "exemplos típicos de abuso nesse campo de lesão aos consumidores" (FILOMENO. 2003. não apenas a Lei 8. quanto a caracterizarem os abusos do poder econômico "prática abusiva manifesta". 71). ou ao realizado. inc. Com relação ao Capítulo V do Título I. X ao dispor que. Assim serão destas leis. no seu inc. 2003. elevar sem justa causa o preço de produtos e serviços. FILOMENO. sem prejuízo da ação popular. p. de acordo com Carlos Alberto Bittar (apud. 39 do CDC. V. "Essas práticas". mas também a Lei 8. diversas prescrições previstas no art. 39 se relacionam intimamente com algumas outras disposições legais. em detrimento do consumidor de produtos e serviços ao revelar que: Residindo. acrescendo-lhe ônus injustificados que em uma negociação normal não estariam presentes. p. in verbis: Art. através de leque diversificado de medidas protetivas e sancionamento (preventivos ou repressivos).158/91 e a Lei 4.137/62. ou em recusas.884/94. que modificou o art. por Filomeno desenvolvido. no plano negocial. "Das Práticas Comerciais" do CDC. (FILOMENO. tais como. outro aspecto que merece ser destacado é o art. que excedem os limites normais da prática comercial e. no âmbito de serviços. em indefinição de preços ou condições.

não se pode deixar de levar em conta que eles também são princípios omnivalentes.]. esta lei teve. 88 da Lei 8.por infração da ordem econômica e da economia popular. e a dominação do mercado.Apesar dos princípios gerais de direito estarem enquadrados na categoria dos princípios monovalentes. o delito será de mera conduta ou formal. o inc. p. p. 21 da Lei 8. No que se refere à tutela penal a Lei 8. diz o art.. 73): [. sempre tendo-se em vista. que. o preço de bem ou serviço.. 5° modificado no que diz respeito às condições para a legitimação de entidades com vistas à propositura de ações coletivas... em que só valem no âmbito de determinada ciência. por força do art. ou ao patrimônio artistíco..884/94. estético. [. Além disso. dado ao fato desta categoria de princípios serem comuns a todas as formas de saber. . pois: "[.] é crime contra a ordem econômica aquela conduta. por exemplo". 2003.52 [. administrativos e judicial. previstos nesta Lei as disposições do Código de Processo Civil e das Leis 7. e em setor econômico no qual o infrator desfruta de posição dominante em virtude de monopólio ou oligopólios.] V. ao consumidor.078/90 de 11 de setembro de 1990". II do art.inclua. os preços de seus produtos ou serviços. e 8. Se o agente aumenta sem quaisquer fundamentos.884/94.. consequentemente aumentará sua margem de lucro.. valendo-se de posição dominante no mercado". à ordem econômica. Com relação aos aspectos processuais e procedimentais.884/94. constante do art.. 83 da Lei 8. in verbis: "Aplicam-se subsidiariamente aos processos. in verbis: II . por óbvio. turístico e paisagístico. a proteção ao meio ambiente. sem justa causa. entre suas finalidades institucionais. o que revela uma infração à ordem econômica. histórico.134/90 estatuiu que se considera consistente a conduta que "elevar. Por conseguinte. (FILOMENO. 73) CONCLUSÃO 1. exigindo-se do acusado que demonstre que houve justa causa para a elevação do preço.] se verifica com a simples constatação de que houve a elevação de preços sem justificativa plausível. e não uma mera elevação de preços de seus produtos e serviços. José Geraldo Brito Filomeno (2003.347. de 24 de julho de 1985. Assim conclui. à livre concorrência.

4. que buscam uma melhor forma de atender às necessidades básicas do homem aliada à proteção ao meio ambiente. antes do ano de 1990. ou melhor. a partir do momento em que alcançam a mais alta posição do Direito Positivo que é o grau constitucional.São aspectos mais comuns de interesse da política tradicional ao consumidor. no intuito de preservar o meio ambiente. na ação . 11. a filosofia de ação da defesa do consumidor está esculpida no texto do art. que foi o momento da criação do Código de Defesa do Consumidor através do art. 5°.078/90 foi uma extensão do princípio constitucional elencado pelo art.É tarefa do intérprete buscar o exame dos ditames constitucionais na busca de soluções aos fatos que se apresentam no seio da sociedade.Os princípios gerais de direito atingem o seu apogeu. 48 da ADCT (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias). na forma da lei. deve se buscar a compreensão de seu princípios. XXXII da Carta Magna do Brasil. 8. que preceitua que o Estado promoverá. 5. 7. 5°. 6. XXXII da Constituição Federal da República Federativa do Brasil. que busca a união de vários setores políticos quanto econômicos.Para melhor análise do corpo normativo de um sistema jurídico. a defesa do consumidor. para que este não se degrade de forma irreversível ao atender às suas necessidades básicas através do consumo exagerado. se encontrava na sua fase programática. para depois examinar as leis infraconstitucionais. 9. 12. ou durante o ato da criação de novas normas. 4° do Código de Defesa do Consumidor.Quanto maior a instabilidade política de um país.O princípio da integração é uma estratégia política. num primeiro momento. ao fundamentarse no reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado. mais fraco será o respeito aos valores postulados pelo sistema constitucional do mesmo. O consumo sustentável é a necessidade de que o homem deve se policiar cada vez mais no hábito de seus consumos.A criação da Lei 8. 10. proteção dos interesses econômicos dos consumidores. informação e conselhos. os seguintes tópicos: educação. de caráter interdisciplinar. 4° e seus incisos do CDC. inc. está prevista legalmente no caput do art.53 2. inc.O art. 3. segurança. representação dos interesses coletivos dos consumidores e satisfação das necessidades. para uma melhor aplicação e integração de seus textos.Os princípios basilares. compensação ao consumidor.A Política Nacional das Relações de Consumo.

Código de Defesa do Processual Civil. jan. Arruda. marketing.078/90 e a Lei 7.137/62. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. 12. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor. São Paulo: Ed. 1991. a Lei 8. Antônio Herman de Vasconcelos. ALVIM. ainda pelos fornecedores.- . BENJAMIN.. pelos quais os cidadãos podem se beneficiar contra os abusos do poder econômico. quanto aos seus direitos e deveres com vistas à melhoria do mercado. RT. São Paulo: Ed. o Brasil possui várias legislações esparsas que têm como objetivo a proteção contra tais atrocidades. 41. 1. _______. A política de Proteção do Consumidor: Desafios à frente. a Lei 4. a Lei 8.Apesar da grande falta de resultados mais concretos efetivos. São Paulo: Ed. do mercado fornecedor. 13. de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços. Curso de Direito Tributário. assim como de mecanismos alternativos de solução de conflitos de consumo. BOURGOIGNIE. incentivos à criação. RT.A informação é uma das maiores armas das quais os consumidores. na educação e informação de fornecedores e consumidores.54 governamental no sentido de protegê-lo efetivamente. Thereza. ed. Paulo de. 2002. São Paulo: Forense Universitária. Thierry.158/91. James Marins de. Vol. 15. Malheiros. Curso de Direito Constitucional. 1995. Tratado de Direito BARROS CARVALHO. a própria Lei 8. Consumidor Comentado. 2002. dentre outros meios de difusão da informação. ALVIM. BIBLIOGRAFIA ALVIM. Paulo. Vol. tais como. podem se utilizar no intuito de se proteger contra os potenciais abusos de anúncios. e SOUZA.347/85 que disciplina a Ação Civil Pública que viabiliza a proteção dos interesses difusos e coletivos. a concorrência desleal e dos crimes contra a ordem tributária. propagandas. Arruda. Eduardo Arruda.A boa-fé é um princípio basilar que está consubstanciado por todo corpo normativo do Código do Consumidor. 1990. contratos. BONAVIDES.884/94. São Paulo: Saraiva. 14.

5./2002. A informação como bem de consumo. 2002. Curso de Direito Civil. 66 . DINAMARCO. São Paulo: Ed. RT. Vicente. ed. São Paulo: Ed. CARVALHO. Coimbra: Almedina.38. 2003. 15. ______. 80. 253 . Contratos no Código de Defesa do Consumidor. Hans. . Revista de Direito Mercantil. 1998.263. José Geraldo Brito. Malheiros. out. Fábio Konder. São Paulo: Saraiva. 1992. RT. Direito Constitucional./1990.55 mar.-dez. GRINOVER. ed. Rio de Janeiro: Ed. Teoria Pura do Direito.]1976. ed. Malheiros. São Paulo: Ed. Antônio Carlos de Araújo. 2001. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor. 6. 5. São Paulo: Ed./2002. RT. ed. A proteção do consumidor na Constituição brasileira de 1988. NERY JÚNIOR. 7. 1999. São Paulo: Atlas. Padova. São Paulo: Ed. 3. 7. ed.75. MARQUES. Teoria Geral do Processo. São Paulo: Ed. 1997. Lezioni di Diritto Costituzionalle. COMPARATO. Lumen Juris. MELLO. 2001 FILOMENO. [s. Ação Civil Pública. Vol. CANOTILHO. José dos Santos Carvalho. Vol. Ada Pellegrini. 30 . p. Cândido Rangel. Cláudia Lima. O Direito e a Vida dos Direitos. jan. Vol. José Geraldo Brito. 2002. tradução João Baptista Machado. Princípios do Processo Civil na Constituição Federal. Manual de Direitos do Consumidor. 1. ed. Washington de Barros.-mar. p.e. CINTRA. CRISAFULLI. Nelson. p. ed. Celso Antônio Bandeira de. Joaquim José Gomes. Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade. 24. 2002. ed. Luis Gustavo Grandinetti Castanho de. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Vol. ed. Martins Fontes. RÁO. ed. 41. KELSEN. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. V. 1 FILHO. 6. 3. 1999. MONTEIRO.

1999.. Vol. Silvio. São Paulo. 28. ed. ed. 3 TEMER. A Interpretação Constitucional do Código de Defesa do Consumidor e a Pessoa Jurídica como Consumidor. out. 2002. 7. Revista Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor.56 REALE. Tiago Cardoso. . 40. Miguel. p.198. Michel. Vol./2001. Ed. 1990. 170 . Lições Preliminares de Direito. Direito Civil. RODRIGUES. ed. RT. São Paulo: Saraiva. São Paulo: Saraiva. 24. ZAPATER.-dez. Elementos de Direito Constitucional.

A tutela do consumidor como decorrência da sua vulnerabilidade nas relações de consumo. inciso I: "reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo").5.2. Vulnerabilidade nos contratos. 6. artigo 4º.4.591. Vulnerabilidade Técnica.2. b) é realizada uma . 2. 3. proporcionada à desigualdade natural.3. 6. é que se acha a verdadeira lei da igualdade" (Rui Barbosa). A Vulnerabilidade e suas espécies. Do contrato de adesão. Nesta desigualdade social. SUMÁRIO: 1. 5. 5. Vulnerabilidade X Hipossuficiência. 3. 3.2 Natureza Jurídica: seria a publicidade compatível com o clássico conceito de oferta?. 5. Efeitos da vulnerabilidade do consumidor na tutela legal da publicidade. 3.3. 5. 6. 6. pormenorizadamente. 1. Algumas formas de tornar o consumidor vulnerável nos contratos. 3. Vulnerabilidade Psíquica ou Biológica. Vulnerabilidade Econômica e Social.6. na medida em que se desigualam. Introdução.078/1990. o princípio da vulnerabilidade no ordenamento jurídico brasileiro (Lei 8. 6. tendo em vista a sua utilização como fundamento filosófico de todo o movimento de Defesa do Consumidor. 3. Introdução O presente trabalho visa analisar. Regras que vinculam a publicidade no CDC.1.1.4 Controvérsia acerca da aplicação do CDC nos contratos bancários: ADI 2. será disposta da seguinte maneira: a) faz-se um estudo dos fatos sociais que ocasionaram as disparidades nas relações entre fornecedor e consumidor. Regra da interpretação mais favorável ao pólo vulnerável da relação e integração contratual. 4. a abordagem. Vulnerabilidade Jurídica.57 O princípio da vulnerabilidade e a defesa do consumidor no direito brasileiro: origem e conseqüências nas regras regulamentadoras dos contratos e da publicidade Autores Alírio Maciel Lima de Brito Haroldo Augusto da Silva Teixeira Duarte "A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais.3. 3.Conclusão. Vulnerabilidade Política ou Legislativa. 7. Vulnerabilidade Ambiental.1 Conceito de Publicidade. Por imperativo de sistematização.

e por isso.58 abordagem sistemática do princípio da vulnerabilidade. requerendo. Segundo Antônio Herman V. níveis educacionais e poder aquisitivo’" (Almeida. principalmente. p. É lícito até dizer . 2. a produção caracterizada pela elaboração artesanal de produtos e restrita ao âmbito familiar. e práticas comerciais abusivas colocou o consumidor numa situação de extrema precariedade frente aos agentes econômicos. a defesa do consumidor"). 5º. 2002.ª Guerra Mundial) ocasionaram uma profunda alteração nas relações de consumo. p. fulminando com o relativo equilíbrio existente entre as partes. passou a ser uma exceção. Diante dessa conjuntura percebeu-se que o consumidor estava desassistido.. As relações de consumo deixaram de ser pessoais e diretas. No caso brasileiro a constituição de 1988 alçou a defesa do consumidor ao patamar de direito fundamental (art. tendo em vista que estes são uns dos principais focos de vulnerabilidade do consumidor. No ano de 1985 a ONU pela resolução 39/248 "baixou norma sobre a proteção do consumidor (. foi iniciado um movimento no âmbito internacional com o intuito de reequilibrar as relações entre consumidores e produtores. Essa nova configuração do mercado baseada na produção em massa. pelo domínio do crédito.. A partir de então. pois é utópica a possibilidade de autocomposição entre os integrantes das relações de consumo sem a intervenção estatal. A tutela do consumidor como decorrência da sua vulnerabilidade nas relações de consumo As transformações havidas no processo produtivo desde a revolução industrial (segunda metade do século XVIII) e. com a revolução tecnológica (fenômeno decorrente do grande desenvolvimento técnico alcançado no pós 2.) reconhecendo expressamente ‘ que os consumidores se deparam com desequilíbrios em termos econômicos.05). bem como a princípio da ordem econômica. além de prever no artigo 48 do ato das disposições constitucionais transitórias a elaboração de um Código de Defesa do Consumidor (CDC). XXXII: "o Estado promoverá. e Benjamin ao prefaciar o livro de Moraes (1999. Baseado nessa vulnerabilidade do consumidor.10): O princípio da vulnerabilidade representa a peça fundamental no mosaico jurídico que denominamos Direito do Consumidor. uma transformação ou amenização deste sistema predatório. na forma da lei. marketing. dessa maneira. necessitava de uma proteção legal. c) finaliza-se com um estudo sobre a publicidade e os contratos. Assim visualiza-se a importância do princípio da vulnerabilidade como fundamento dessa nova disciplina jurídica.

Para tanto. ficando sujeito aos imperativos do mercado. quer na esfera administrativa ou judicial. literalmente. assim. por sua natureza. isto é. No Direito. já que não consegue visualizar quando determinado produto ou serviço apresenta defeito ou vício. 3.1.2. conhecimentos de contabilidade ou de economia". a sofrer ataques. utilizaremos a divisão dada por Moraes (1999.. tendo como único aparato a confiança na boa-fé da outra parte. 3. de qualquer lei.59 que a vulnerabilidade é o ponto de partida de toda a Teoria Geral dessa nova disciplina jurídica (. p. Iniciaremos agora o estudo dos tipos de vulnerabilidade para torná-lo mais aprofundado. o consumidor encontra-se totalmente desprotegido. Em sentido contrário encontramos a posição de Marques (2002. independente da classe social a que pertença. colocando em perigo. daquele que está suscetível. 3. A Vulnerabilidade e suas espécies Vulnerabilidade. se manifesta: "é a falta de conhecimentos jurídicos específicos. assim. vulnerabilidade é o princípio segundo o qual o sistema jurídico brasileiro reconhece a qualidade do agente(s) mais fraco(s) na(s) relação (ões) de consumo. que é ilimitada. significa o estado daquele que é vulnerável. Vulnerabilidade jurídica Esta espécie de vulnerabilidade manifesta-se na avaliação das dificuldades que o consumidor enfrenta na luta para a defesa de seus direitos. impossibilitando o consumidor de possuir conhecimentos das propriedades. a sua incolumidade física e patrimonial [03].) A compreensão do princípio. que se ponha a salvaguardar o consumidor. ambiental. Esta vulnerabilidade concretiza-se pelo fenômeno da complexidade do mundo moderno. política ou legislativa. assim. Vulnerabilidade Técnica A vulnerabilidade técnica decorre do fato de o consumidor não possuir conhecimentos específicos sobre os produtos e/ou serviços que está adquirindo. econômica e social [01]. e benefícios dos produtos e/ou serviços adquiridos diuturnamente [02]. é pressuposto para o correto conhecimento do Direito do consumidor e para a aplicação da lei. malefícios. Logo podemos afirmar que a presunção da vulnerabilidade do consumidor é absoluta. biológica ou psíquica. 120) que. Dessa forma.115 e ss): técnica. p.. jurídica. .

prevendo sua derrota nos plenários das duas casas.151) "essa motivação pode ser produzida pelos mais variados e eficazes apelos de marketing possíveis à imaginação e à criatividade orientada pelos profissionais desta área" [04]. p. É que. auditivos. capaz de criar desejos. tratada anteriormente. na tramitação do Código. Aqueles detêm condições objetivas de impor sua vontade através de diversos mecanismos. químicos. o lobby dos empresários.132). pois da maneira por Ela exposta estamos diante da vulnerabilidade técnica. as associações de fornecedores possuem força no cenário político nacional. 3.. 3. possuindo. através de uma manobra procedimental.4. p.5. Vulnerabilidade Psíquica ou Biológica O consumidor é atingido por uma infinidade de estímulos (visuais.120) discordamos da conceituação oferecida pela ilustre jurista. p.. sob o argumento de que. Podemos destacar como uma dessas formas a introdução dos contratos de adesão e os submetidos às condições gerais (ou condições gerais dos contratos – CONDGs) [05]. buscou. notadamente o da construção civil. necessário era respeitar um iter legislativo extremamente formal. 2001. Vulnerabilidade política ou legislativa A vulnerabilidade política ou legislativa decorre da falta de organização do consumidor brasileiro.) que devido a sua própria constituição orgânica influenciam na tomada da decisão de comprar determinado produto. Ao contrário..3. Segundo Moraes (1999. etc. impedir a votação do texto naquela legislatura. . A dissimulação daquilo que era Código em lei foi meramente cosmética e circunstancial. (Pellegrini. Por isso nos dias atuais percebemos a importância desta motivação. p.60 Consoante os ensinamentos de Moraes (1999. 3. inexistem associações ou órgãos "capazes de influenciar decisivamente na contenção de mecanismos legais maléficos para as relações de consumo e que acabam gerando verdadeiros ‘monstrengos’ jurídicos" (Moraes. por se tratar de Código. um grande lobby junto ao Congresso Nacional. inclusive. Vulnerabilidade Econômica e Social A vulnerabilidade econômica e social é resultado das disparidades de força entre os agentes econômicos e os consumidores. olfativos. 1999.. dos consórcios e dos supermercados.09). necessidades e manipular manifestações de vontade como uma forma de influenciar o consumidor. Essa situação foi presenciada quando da tramitação do atual Código de Defesa do Consumidor: .

4º. bem como conseqüências jurídicas diversas.61 Assim. a seu favor. Ou seja. no processo civil. Já a hipossuficiência [07] é uma marca pessoal de cada consumidor que deve ser auferida pelo juiz no caso concreto. inciso I do CDC. todo consumidor teria direito à inversão do ônus da prova. 5. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. inclusive com a inversão do ônus da prova. o ‘consumerismo’ destrutivo do meio ambiente é inerente ao modelo vigente da indústria e agricultura. quando. já que os conceitos apresentam realidades jurídicas distintas. é errônea a utilização dos termos como sinônimos. Efeitos da vulnerabilidade do consumidor na tutela legal da . Conforme afirmado anteriormente o princípio da vulnerabilidade é um traço inerente a todo consumidor de acordo com o art. Segundo Mirian de Almeida Souza apud Moraes (1999. Embora haja essas diferenças é comum a utilização desses termos como sinônimos [06]. segundo as regras ordinárias de experiência (grifamos). em que todos têm participação em diversos graus através da sociedade de consumo. em que todos habitam o mesmo planeta. já que se assim o fosse. surge a cada dia a necessidade de uma maior presença do Estado no âmbito econômico para harmonizar essas relações de consumo. Vulnerabilidade Ambiental Esta espécie de vulnerabilidade é decorrência direta do consumo em massa da nossa sociedade. tendo em vista o art. 3.. e todos sofrem prejuízos biológicos em diversos graus por causa do abuso do meio ambiente.6. p. inciso VIII do CDC que assim dispõe: São direitos básicos do consumidor: VIII .162): . Como parte do meio ambiente o homem fica sujeito a uma gama de alterações havidas neste..a facilitação da defesa de seus direitos. Uma visão sistêmica do direito do consumidor. a critério do juiz. Vulnerabilidade X Hipossuficiência Para finalizar essa parte do trabalho iremos traçar os elementos distintivos entre a vulnerabilidade do consumidor e sua hipossuficiência no mercado de consumo. 6º. ocasionado pelo uso irracional dos recursos naturais de nosso planeta. Portanto. 4. faz deste direito o reverso da moeda do direito ambiental.

5. Lembraríamos ao leitor que não há no Código Brasileiro de Defesa do Consumidor um conceito para o objeto de nossa análise. Limitou-se. Morais (1999. ob. E de fato. existe uma seção dedicada à oferta e outra à publicidade. Tentadora é a hipótese de considerarmos como sendo proposta [11]. há uma distinção quanto ao uso desses termos: quando se objetiva a venda de um produto. não há de se falar na existência de publicidade se não se fizer notar o mínimo de informação a respeito do produto/serviço que se quer vender ou divulgação dessa informação. assinalando quais são as condutas ilícitas e os meios através dos quais o direito assegura a proteção dos consumidores. Existem conceitos dos mais diversos para a atividade que visamos descrever. Na realidade. destinada a informar. 5. nos lançaremos ao problema de sua natureza jurídica. À conclusão muito semelhante chegou o doutrinador mencionado [10]. Para a economista Raimar Richers publicidade é: A comunicação.2 Natureza Jurídica: seria a publicidade compatível com o clássico conceito de oferta? Conceituado o objeto de nosso estudo. se usa a expressão publicidade. vez que no seu capítulo V. e que acabam. a tratar das repercussões da incontroversa vulnerabilidade do consumidor no âmbito da publicidade e do contrato. distinção alguma. 1985. Ao passo que quando se tem por objeto a propagação de idéias políticas ou religiosas se utiliza do termo propaganda. uma vez que em ambos os casos o que há é a divulgação de determinada informação. bastaria uma rápida leitura do CDC para concluirmos que tal possibilidade é com ele incompatível. Deteremo-nos inicialmente com a publicidade. respectivamente a II e III.62 publicidade Passaremos. o legislador. Não vislumbramos quanto à sua essência. tendo por . p.) se põe a diferenciar o conceito de publicidade do de propaganda.66). No entanto. bens e/ou serviços por parte de um patrocinador identificado (Richers. a fazer referência a dois elementos que reputamos serem essenciais: a informação e a divulgação [09]. invariavelmente. que trata das práticas comerciais.1 Conceito de Publicidade Compete-nos conceituar publicidade. através de meios impessoais (impressos e eletrônicos). cit. agora. Eis qual a diferença principal entre os dois institutos: Com a proposta basta que se dê a aceitação do policitado para que se aperfeiçoe o contrato. apenas a esboçar conceituação de publicidade enganosa e abusiva [08]. Já a publicidade tem muitas vezes apenas o afã de mostrar que o anunciante está propenso a contratar. divulgar e promover a oferta de idéias. Mas não seria meramente o fato do CDC distinguir tais conceitos que nos daria base para não aceitar a classificação da publicidade como espécie de oferta.

estabelecendo normas que possuem por objeto regular a publicidade e proteger o consumidor. A) A identificação da publicidade: Em consonância com o artigo 36 do CDC a publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor. Em decorrência disso. posto que este se encontra em posição de vulnerabilidade psíquica frente àquela. por meio do CDC. ou 3. o problema que anunciamos o qual será elucidado por Lôbo com o qual concluímos esse tópico: "Assim. descartamos de antemão a possibilidade de um ser gênero do outro [12]. 5. apresentação ou publicidade. rádio. é dada ao consumidor faculdade de proceder de três diferentes formas: 1. Não infundadamente se diz até que se trata de um quarto poder. B) Vinculação contratual: por força dos artigos 30 e 35 do CDC não só a publicidade. a identifique como tal. revistas e jornais seja uma notícia. seja uma campanha publicitária. melhor se concebendo como modo de integração compulsória aos contratos de consumo" [13] (2000). acaba por entrar na esfera das convicções do indivíduo sem que haja uma valoração crítica e analítica dos fatos. no sentido tradicional do termo. não se pode considerar a publicidade como oferta. Aquilo que é veiculado na televisão. Tal é a razão pela qual o Estado interveio. Resolver o contrato em perdas e danos [15] obtendo o ressarcimento das parcelas então empenhadas. como também a oferta [14] integram compulsoriamente o contrato que venha a ser firmado. Aceitar outra prestação equivalente àquela difundida. que para se aperfeiçoar necessitaria apenas da adesão por parte do policitado. ainda. 2. os elementos essenciais do contrato a ser celebrado (de compra e venda) já estão determinados: a coisa e o preço. Exigir o cumprimento da oferta. mas não solucionamos.63 objetivo atrair o consumidor. A seguir. não de estabelecer todas as condições de um futuro contrato. a área de atuação e outras informações básicas tendo a intenção de atrair clientes e. fácil e imediatamente. Regras que vinculam a publicidade no CDC É do conhecimento de todos o tamanho poder que os meios de comunicação em massa (mass media) detêm. O que se objetiva aqui é evitar que informes publicitários passem por jornalísticos ou educativos. Nesse caso. É exemplo de oferta ad incertam persona a exposição em vitrine de produto com seu respectivo preço. nos casos em que exista incongruência entre as cláusulas ou condições gerais presentes na publicidade e no contrato. Exemplo de publicidade é o anúncio corrente em jornais e revistas nos quais apenas se veicula o logotipo do estabelecimento. Diferenciados os dois institutos. citaremos tais normas. .3.

mesmo que por omissão [16].64 C) Regra da veracidade: Na cabeça do artigo 37 do CDC existe a proibição de toda publicidade enganosa. Leva-se em conta que para corrigir os malefícios causados aos consumidores o único meio eficaz é fazendo uso da própria publicidade sob o nome de contrapropaganda: Trata-se de veiculação de outra publicidade para sanar os malefícios causados pela publicidade originária. Entende-se. a publicidade discriminatória. em última análise. da presunção legal de vulnerabilidade do consumidor [18]. VIII). possuidores de bons direitos. F) Transparência da fundamentação publicitária: O fornecedor deve ter consigo os dados fáticos que fundamentem a informação veiculada. É definida por enganosa qualquer modalidade de informação publicitária inteira ou parcialmente falsa. in casu. nos seguintes termos: É abusiva. que o abuso é o uso irregular de uma faculdade que a princípio se apresentava como regular e legítima [17]. tão bem quanto o fornecedor. E) Inversão obrigatória do onus probandi: Como é do conhecimento do leitor. explore o medo ou superstição. de caráter explicativo. da existência de verossimilhança daquilo que é alegado ou de hipossuficiência do autor. desfazendo os erros de anúncio . que se aproveite da deficiência de julgamento da criança. dessa forma. é o que impõe o artigo 36. Enquanto que esta se opera mediante uma valoração. De tal inversão decorre que a prova da veracidade daquilo que é anunciado cabe ao fornecedor. Acontece que se tal preceito fosse cruamente aplicado nas relações de consumo. parágrafo único da lei em tela. que incite à violência. um compromisso de veracidade daquilo que é divulgado em campanha publicitária. aqueloutra se dá independentemente de qualquer análise por parte do magistrado pelo fato de derivar. o fornecedor. etc. a parte que alega a ocorrência de determinado fato é que suporta a carga de prová-lo. também. Naquela. veriam seu pedido julgado improcedente por falta de provas graças a sua vulnerabilidade que o impede de produzi-las. na doutrina. 56. D) Regra da não-abusividade da publicidade: Por força. dentre outras. teríamos que consumidores. Ao tentar delimitar o que viria a ser abusividade o referido codex listou rol não taxativo. G) Correção do desvio publicitário: Por imperativo do art. Eis a segunda modalidade de publicidade ilícita. o desvio da publicidade possuirá não só efeitos civis e penais como também publicitários. Razão pela qual o CDC fez duas previsões de inversão do ônus da prova: uma ope legis (ao artigo 38) e outra ope judicis (ao artigo 6º. como a interpretação contra o mesmo. no processo. do caput do artigo 37 se tem por proibida toda publicidade abusiva. inciso XII do CDC. Saliente-se que a inobservância desse dever por parte do fornecedor enseja a caracterização da já referida propaganda enganosa por omissão. às suas expensas. impondo-se. assim. informa corretamente ao consumidor.

uma vez que com instrumentos pré-formulados se vencia. a respeito dos contratos de adesão (muito usados nas relações de consumo). via de regra. surge naturalmente a necessidade de uso de contratos-tipo. que envolve toda uma cadeia de ajustamentos. vindo a possibilitar uma dinâmica circulação de riquezas. Textos préconstituídos unilateralmente e 3. Formação dos contratos com a adesão (que só poderá se dá em bloco) do consumidor [19]. Podemos extrair do que foi exposto. toda a etapa pré-negócial. Uso em massa: no sentido em que regem as interações econômicas entre um fornecedor e seus distintos consumidores.65 original. de alguns meios utilizados pelo fornecedor que tornam vulnerável o consumidor. ocorrem em sede de contratos standart. com um único passo.ADI 2. 6. que usando de termos técnicos do meio econômico ou . a obrigatoriedade do pacto. 6. das regras interpretativas das cláusulas contratuais e da questão. 2. difusão do modo de vida ocidental e (conseqüência que mais nos interessa) uniformização dos vínculos jurídicos entre fornecedor e consumidor. Daí. Vulnerabilidade nos contratos Discorreremos. agora. que se trata de instrumento que confere ao fornecedor pujantes meios de abusar da boa-fé ou do estado de necessidade do consumidor. alguns dos quais passaremos a comentar infra [20]: A) Tecnismo dos termos contratuais: Os instrumentos contratuais em geral devem ser escritos de modo a possibilitar a compreensão de seu conteúdo sob pena de comprometer a validade da vontade que ali se expressa e. Algumas formas de tornar o consumidor vulnerável nos contratos Podemos notar. 6. da aplicação do CDC aos contratos bancários.2.591 -). então em voga (pelo advento da Ação Direta de Inconstitucionalidade .1. (Gonçalves. 2002. Tal processo trouxe-nos algumas conseqüências das quais destacaríamos: massificação das necessidades de consumo. conseqüentemente. Acontece que tal imperativo comumente é inobservado pelo elaborador do contrato. per si. estudando o instituto do contrato de adesão. É de se frisar que a simples adoção da espécie contratual em comento não constitui. os elementos essenciais dos contratos de adesão: 1. ao passo que é instrumento útil ao atual estágio de desenvolvimento capitalista. Do contrato de adesão Desde a revolução industrial o mundo vem assistindo a uma gradual massificação da produção dos bens da vida. razão pela qual merece (sim) uma especial fiscalização e especial tutela legal (inserida no nosso ordenamento com o CDC) que sejam capazes de compensar a vulnerabilidade do consumidor e refrear os abusos contratuais que. um ato abusivo que mereça ser coibido. tópico 10).

assim como entendimentos dos Ministérios Públicos e decisões administrativas dos Procon’s. novas disposições. no afã de buscar a solução mais favorável ao consumidor. Tal rol é na realidade. apesar dos esforços de integração. vir o juiz a acrescentar. ao contrato. uma consignação de entendimentos que foram consagrados em nossos tribunais ao longo das décadas que antecederam ao referido codex [21]. deixa o texto nebuloso aos olhos do consumidor. [22] 6. dentro de um contexto de disseminação do uso de contratos padronizados com texto nebuloso. 6.4 Controvérsia acerca da aplicação do CDC nos contratos bancários: ADI 2. Acreditamos que tal possibilidade (de integração contratual pelo Judiciário) é legítima e prevista no artigo 51 §2º do CDC. p. decorrer ônus excessivo a qualquer das partes" (destacamos). Estaria incompleto o presente estudo se não fizéssemos referência. por mais .3. na doutrina. é o da interpretação que lhe seja mais favorável (artigo 47 do CDC). 227) relata que de certa feita precisou de mais de cinco horas ininterruptas para analisar contrato que além de complexo era deveras extenso pelo fato de conjugar. Moraes (1999. E por essa razão. no qual sob a alegação de proteção ao princípio da autonomia da vontade se impedia que o Estado interferisse nas relações privadas a fim de promover os ajustamentos necessários a colocar em igualdade de condições os naturalmente desiguais. extenso e cláusulas abusivas. em seu art. Fazendo de sua leitura e interpretação uma tarefa árdua mesmo para profissionais do meio. são nulas de plenos direito. não muito distante.591. tornando-o ainda mais suscetível a sofrer lesões. C) Cláusulas abusivas: O CDC. o fato de decorrer dessa norma a possibilidade do magistrado declarar nulidade de cláusulas contratuais. verbis: "a nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato. com a possibilidade de. no entanto.66 jurídico. que pelo Decreto 2181 de 1997 recebeu essa atribuição. em um único texto vários contratos distintos. exceto quando de sua ausência. as quais serão consolidadas (através de portarias) pela Secretária de Direito Econômico. não exaustiva. Sendo que o entendimento em contrário nada mais é que o resquício de um tempo. B) Complexidade e extensão do contrato: Tanto o tecnismo como o uso constante de remissões a outras cláusulas do instrumento contribuem para torná-lo mais complexo. Regra da interpretação mais favorável ao pólo vulnerável da relação e integração contratual Preceito fundamental para uma eficaz proteção do consumidor. ele pode ser complementado pela jurisprudência. de cláusulas consideradas abusivas e que. como tais. O que não ocorre. na verdade. 51 traz lista. É inconteste.

e com a constatação de que tais contratos estão de tal forma disseminados que é difícil encontrar quem nunca os celebrou [24]. muito embora possua previsão constitucional (art. por força do dispositivo constitucional. §2o do CDC. depósitos bancários. com a devida ressalva do campo de atuação da lei 4. que parecia então pacificada. por exemplo. aquelas. Sobre o tema. A pretendida inconstitucionalidade formal residiria no fato de que. Deixando claro que o CDC se aplica aos contratos bancários. Justifica-se a assertiva anterior com a constatação de que são nos contratos bancários. Essa é . de crédito e securitária" em face do artigo 192 da CF. cartões de crédito. o STJ firmou sólido entendimento no sentido de que o CDC. 2. voltou à baila com o advento da ADI. O objeto dessa ação é o de declarar a inconstitucionalidade da expressão "inclusive as de natureza bancária. de Direito Financeiro. A controvérsia. à controvérsia muito recentemente suscitada (ou ressuscitada) a respeito da consideração (ou não) das cadernetas de poupança. financeira. incompatibilidade entre o referido dispositivo constitucional e a norma do artigo 3º. abertura de crédito e todas as operações bancárias ativas e passivas como relação de consumo. Não o sendo. etc) seria aplicável normalmente aos contratos bancários [25]. Nelson Jobim. 192. (imposição da boa fé. por deixar clara a clássica distinção entre "normas de conduta" e "normas de organização". e estas. na parte que se refere à limitação dos juros reais em 12% ao ano. pela douta jurista Cláudia Lima Marques existe farta e elaborada contra-argumentação que leva à conclusão da improcedência do pedido. no entanto. Inicia. que esses deixam mostrar de forma mais proeminente a sua vulnerabilidade. precisa de lei complementar que a regulamente. Em parecer elaborado.591 proposta pelo CONSIF – Confederação Nacional do Sistema Financeiro – cujo julgamento junto ao STF foi iniciado. contratos de mútuo. destinadas a regular a constituição e funcionamento de institutos publicamente relevantes como o sistema financeiro nacional. posto que o CDC traz em seu seio normas de conduta destinadas a reger relações de consumo. a jurista. posto que tal matéria. Razão pela qual não vê. qual seja: a de que o CDC é uma norma de organização que regulamenta o sistema financeiro nacional. é falsa. a doutrinadora. em 17 de abril de 2002 graças a pedido de vista do Min. regras sobre responsabilidade por fato e vício do produto e do serviço.67 pontual que seja. o sistema financeiro nacional só pode ser regulado por Lei Complementar e não por Lei Ordinária como o CDC. em sua parte propriamente consumerista. Segue afirmando que a premissa na qual se fundamentou o CONSIF para propor a ação. de seguros. mediante consulta do Instituo Brasileiro de Política e direito do Consumidor – BRASILCON. §3º). feitos em série e muitas vezes elaborados de modo a lesionar o consumidor [23]. destinadas de forma imediata a reger o comportamento dos indivíduos considerados isoladamente ou coletivamente. e logo interrompido. adoção do in dubio pro consumidor.595/64 que legitima a taxa de juros superior a 12% ao ano.

Tendo em vista que a vulnerabilidade é o alicerce (matriz) da defesa do consumidor. que deverá ser buscada. 3º do CDC. que violar um princípio. Assim. impende a necessidade da análise do referido princípio para uma conseqüente aplicação equânime da lei. que visem ludibriar o pólo vulnerável da relação de consumo. objetivando a observância da cláusula geral da boa-fé. que demonstram a importância dessa tutela legal. Bibliografia . filiamo-nos à corrente de que não há vedação alguma. Dessa maneira. No decorrer do trabalho. os princípios são a base da Ciência Jurídica. Carlos Velloso. ao vedar determinadas práticas comerciais. diferentemente do Min. Em logrando êxito a tese levantada na ADI 2. inclusive. do art. restará por fulminado todo o sistema de proteção ao consumidor. trilhou esse caminho (aberto pelo STJ) ao julga-lo procedente em parte para emprestar ao §2º. percebemos a importância do princípio da vulnerabilidade como base de toda a Ciência Consumerista. configurando esta como uma conquista histórica em favor do consumidor. interpretação conforme a Constituição para excluir da incidência a taxa dos juros reais nas operações bancárias ou sua fixação em 12% ao ano pelos argumentos já mencionados. de descumprimento. e hoje a afirmação ganha cada vez mais relevo. No Direito não poderia ser diferente. visualizamos as várias espécies de vulnerabilidade inerentes ao consumidor. para um perfeito entendimento do Sistema de Proteção do Consumidor.68 a posição que nos parece mais acertada até porque se coaduna com o entendimento ao longo do tempo construído pelo STJ. Néri da Silveira que julgou improcedente o pedido. 7. E de fato. Já se tem dito. Relator da ADI. de onde se inspiram. pois a sua violação é a tentativa de negação. 8. A assertiva é verdadeira em todos os sentidos. Quanto à aplicabilidade do CDC aos contratos bancários. dos pilares de onde brotam. no concernente às normas de conduta. Conclusão Os princípios em qualquer ramo do conhecimento são os pilares que alicerçam todas as vertentes do seu saber. as regras jurídicas. como decorrência dos tempos modernos. por meio de inserção de novas cláusulas pelo magistrado.591. é mais grave do que infringir um dispositivo legal. No âmbito da publicidade e da contração em massa. o Min. Estas implicam inúmeras situações fáticas de exploração. constatamos a relevância dessa proteção.

DINIZ. Paulo Luiz Netto. Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção do Consumidor. 15 a 19 de abril de 2002. 2001.com. 12.jus. LÔBO. [Internet] http://www1. GRINOVER. Capturado 15. Marques. Porto Alegre: Livraria do Advogado. 7ª ed. 2001. Ada Pellegrini. Paulo Valério Dal Pai. 5. Teoria Geral dos Contratos no novo Código Civil. rev. 2002. Rio de Janeiro: Forense. LOUREIRO. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 6. 7. n. G. Cláudia Lima. 4ª ed.2002.com. Orlando. A publicidade ilícita e a responsabilidade civil das celebridades que dela participam. IN: Jus Navigandi. 3. 2002. In: Jus Navigandi. São Paulo: RT. 3ª ed. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. ALMEIDA. 2002. MORAES. Maria Helena. 58 [Internet] http:// www1.. Curso de Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral das Obrigações. 1998. GOMES. e ampl.69 1. 1999. BONATTO. [et al].2002 ]. 13 MENESES. FILOMENO. na publicidade. n. Questões Controvertidas no Código de Defesa do Consumidor: Principiologia. 264. São Paulo: Editora Método. A influência do CDC nos contratos bancários. nas demais práticas .jus. IN Revista Jurídica Consulex. São Paulo: Atlas. 2001. A proteção jurídica do consumidor. Conceitos e Contratos atuais. São Paulo: RT. João Batista de. Paulo Jorge Scartezzini. n.set. São Paulo: Saraiva. INFORMATIVO DE JURISPRUDÊNCIA DO STF. São Paulo: Saraiva. João Bosco Pastos. Código de defesa do consumidor: o princípio da vulnerabilidade no contrato. GUIMARÃES. 2001. 11. 8. Contratos. Luiz Guilherme. 51.asp?id=2216 [ Capturado 15. A informação como direito fundamental do consumidor. Contratos no código de defesa do consumidor. Atualizador: Humberto Theodoro Júnior. 2. atual. Manual de Direitos do Consumidor. ano VI – n. José Geraldo. Brasília. 14.asp?id=3181. Daniel M. Cláudio [et al].br/doutrina/texto. GONÇALVES.Set. 4.br/doutrina/texto. 9. 34-38 de 15 de fevereiro de 2002. 10. 122 P.

a substituição da amamentação materna pela mamadeira. Belo Horizonte: Melhoramentos. por acreditar que todos devem ter e usar. ROCHA. 15. Vícios esses que. Responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro. Uma trintena de empresas multinacionais sugeriam.154) ". que substituiria o aleitamento materno. era mais caro e. p. pelo fato do consumidor comum não possuir conhecimento técnico. Notas Para Marques (2002. 1985.. ou seja. 02. no consumidor. 2002. A título exemplificativo Miriam de Almeida Souza apud Moraes (1999. passaram despercebidos dos mesmos. p. 17. RICHERS. 33) "a questão do leite infantil ficou como um marco na luta contra os desvios da publicidade.. O que é Marketing. Mexiam com a vaidade feminina e com o conforto da mãe. Exemplo esclarecedor sobre a vulnerabilidade técnica do consumidor nos é dado por Pasqualoto (1997. SOARES. São Paulo: Abril Cultural. Raimar. . Essa situação também pode ser constatada nos inúmeros recalls ocorridos nos últimos anos na indústria automobilística em decorrência do desgaste ou defeito de fabricação em peças que colocam em risco a vida de inúmeros consumidores. andar na moda. O princípio constitucional da igualdade e o direito do consumidor. A inversão do ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor in Revista Jurídica IN VERBIS n. NOVAES. a jurídica e a fática ou sócio-econômica. 1999. Porto Alegre: Síntese. Adriana Carvalho Pinto. as empresas. p. Princípios básicos de defesa do consumidor. 18-25.. e criam. 04 03 02 01 . sendo nutricionalmente menos valioso transformou-se em causa corrente de desnutrição. 16. caso não adquira tais produtos prestigiados. O leite em pó. Elaine Cardoso de Matos. e assim por diante.".70 comerciais. Sílvio Luís Ferreira da. a necessidade intolerável de manter-se em dia.. 19. São Paulo: RT. especialmente em países do Terceiro Mundo.. VIEIRA. 18. Paulo Brasil Dill. 270) existem apenas três tipos de vulnerabilidade: a técnica. 2001. investem conjuntamente em comercias. Leme: LED.. o efeito demonstração a toda prova". os apelos publicitários levam o indivíduo a considerar-se numa situação psicológica e social inferior. Agosto/setembro de 1995. 1992. p. dessa forma.. Dessa maneira percebe-se mais uma vez o subjugamento do consumidor no mercado de consumo.

tal norma decorre da presunção juris et de jure de vulnerabilidade. 11 10 09 Já que tanto a proposta (ou oferta) como a publicidade poderiam ser . que citamos infra. disponibilizamos ao estudioso do assunto o conceito de Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin. para as ações de indenização. não merece guarida referida alegação. que cláusulas pré-elaboradas pelo fornecedor. quando definem como competente o foro do lugar do dano ou do domicílio do consumidor.. dado que o objetivo da publicidade é vender. uma atividade econômica" (Gonçalves. direta ou indiretamente. n.325). que também faz referência às noções de informação e de divulgação. p. enquanto o objetivo da propaganda é a implantação de idéias. Exemplo de confusão entre os dois conceitos existe no trecho do agravo de instrumento. 3a Vara Cível – Mossoró/RN.002927-1. inciso I do CDC (que se refere à possibilidade do consumidor ajuizar ação de responsabilidade civil do fornecedor no seu próprio domicílio) deve ser aplicada in casu como conseqüência da presunção de hipossuficiência da consumidora. Já a hipossuficiência é uma marca pessoal. VIII do Código de Defesa do Consumidor que elenca dentre os direitos básicos do consumidor. Dúbel Cosme do TJRN. 101.71 Segundo Marques "entende-se como contratos submetidos a condições gerais aqueles contratos. tópico 2). no qual se argumenta que a norma do Art. limitada a alguns – até mesmo a uma coletividade – mas nunca a todos os consumidores" (2001. em que o comprador aceita. tácita ou expressamente. a hipossuficiência a que alude o Código de Defesa do Consumidor é afirmada pela sua qualidade de consumidora frente ao fornecedor de serviço (sic). ricos ou pobres. Cf. Relator: Des. Portanto. 2002. São pacíficas a doutrina e jurisprudência pátrias. 08 07 06 05 Preocupou-se. com o desvio (publicidade ilícita) e não com o padrão. educados ou ignorantes. citado por João Bosco Pastos Gonçalves: "Publicidade é toda informação dirigida a público com o objetivo de promover. A vulnerabilidade é um traço universal de todos os consumidores. o legislador. Nesse sentido a referida obra à página 250 na qual escreve o autor: "não fala o código em contra publicidade. Verbis: "Embora a Agravante insista em desconsiderar a condição de hipossuficiente da Agravada.. a facilitação da defesa de seus direitos".66). Quando. na verdade. diante do cargo de juíza de direito ocupado pela mesma. ante o disposto no artigo 6º. escritos ou não escritos. venham a disciplinar o seu conteúdo específico" (2002. 99. crédulos ou espertos. Para corroborar o supra afirmado. na forma já vista". p. De acordo com os ensinamentos de Antônio Benjamin ". unilateral e uniformemente para um número indeterminado de relações contratuais.

p. a necessidade de comprovação de culpa por parte do fornecedor para responsabilizá-lo (regra que possui como exceção o caso dos profissionais liberais) de modo que para que haja a condenação em perdas e danos basta que se apresentem os demais requisitos: 1. 17 18 16 15 Cf nesse sentido: (Moraes.080 do Código de 1916. Em sentido contrário. A nossa lei de proteção não vedou expressamente o uso de cláusula de retratabilidade na proposta. Um estudo desses requisitos pode ser encontrado em (Diniz. mas entendemos que tal vedação está subentendida. Saliente-se que pelo fato do direito consumerista ser um direito de proteção ao consumidor e não de repressão ao fornecedor negligente. op. e (Loureiro. tendo-se por não escritas as cláusulas contratuais em contrário". 2002). serviço ou direito consideram-se integradas no conteúdo dos contratos que se venham a celebrar após a sua emissão. 1998. Genovese apud Orlando Gomes ( 1999. 1. defendendo que a publicidade é espécie de oferta: (Filomeno. 251). 18 e ss). p. que se identificam com os mencionados supra. 2000). 1999). considerando a proposta como negócio jurídico unilateral: (Lôbo. Ocorrência de dano patrimonial positivo (dano emergente) ou negativo (lucros cessantes) e 2 – Nexo causal entre o dano e o inadimplemento daquilo que fora prometido em publicidade. in fine: "As informações concretas e objetivas contidas nas mensagens publicitárias de determinado bem. Ao contrário do que ocorre no seio das relações regidas pelo Código Civil (vide art. cit). norma repetida no Código ora em vacatio legis ao artigo 427). 379). Cf em sentido contrário. o que bem caracteriza o informe como obscuro" (TJDFT. constatar isso. p118 ) coloca os seguintes elementos. 5 da Lei Portuguesa de defesa dos consumidores. 2) A predeterminação e 3) A rigidez. em regra.72 aprioristicamente definidos como atos pré-negociais. sendo totalmente aplicável a regra do artigo 7o. inexiste. Apelação Cível e Remessa ex officio n º 8114/2000 e 7912/2000). p. 13 14 12 Compulsoriedade essa dada pela norma do artigo 30 do CDC. nas relações de consumo a proposta sempre obrigará o fornecedor promitente. Grifamos. 19 . 2001. 3ª Turma Cível. Já se considerou como enganosa por omissão publicidade que dizia: "Hoje promoção inédita de Santana e Parati" posto que "basta um simples raciocínio para. Maiores apontamentos sobre o tema poderão ser encontrados em: Elaine Cardoso de Matos Novaes (1995. Cf nesse sentido: (Gomes. a ausência de qualquer esclarecimento acerca do que o fornecedor pretendeu com a expressão ‘inédito’. como características do contrato de adesão: 1) A uniformidade. de pronto.

Meneses (2002. Não há de se falar. AG 420203 RS. p. 193 e ss. 23 24 22 21 20 Seja através do uso de tecnismo. complexidade ou cláusulas abusivas. STJ. ao nosso ver.. descarta a necessidade de realizar maiores divagações teóricas sobre o assunto. RESP 293778 RS e RESP 213825 RS. definindo serviço. Dentre tantos outros julgados. AG 430435 RS. G. faz expressa referência ao de natureza bancária. verbis: "Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. Corroborando a posição colocada a respeito da possibilidade de integração contratual por parte do Judiciário: Bonatto (2001. AG 438114 RS. diz Daniel M. 3º T: AG 448061 MG. variação de preço de maneira unilateral não era procedimento abusivo antes do advento da Lei de proteção ao consumidor. de crédito e securitária. uma vez que tal prática sempre foi considerada leonina vindo. RESP 325620 RS. AG 424767 RS. AG 425643 RS. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista" (grifamos). Sobre o assunto. etc. inclusive as de natureza bancária. p. nesse sentido. do art.). como: depósito bancário. 25 . o depósito em conta corrente. financeira.. 4º T: AG 444223 RS.) os contratos bancários alcançaram a tal nível de popularidade que mesmo o cidadão mais humilde não costuma escapar da ação (muitas vezes nefasta) dos tipos mais comuns. 3º §2º.". apenas a se formalizar tal entendimento.). mediante remuneração. p. que o uso de cláusula que permita ao fornecedor. AG 445664RS.73 Lista pormenorizada contendo esses e outros meios pode ser encontrada em Moraes (1999. Previsão legal que de tão explícita. 37): "(. 226 e ss. AG 445314 RS. com o CDC. Já que o CDC. AG 430458 RS.

Assim. . consignando que os contratos devem ter interpretação e também execução. Itália. o princípio da boa-fé. que positiva o princípio em comento. apresenta-se como pilar dos mais importantes na sustentação da teoria contratual moderna. Porém. Nesse sentido. aduzindo: "O devedor é obrigado a realizar a prestação do modo como o exige a boa-fé levando em conta os usos de tráfico". Pois bem. Espanha. estabelecendo um elo de cooperação. não foi contemplado. o princípio em tela mantém vigência imperativa. dando o norte ético para todos os partícipes do vínculo jurídico. no Código Civil. de artigo de teor próximo ao § 242 do BGB. ao contrário de sistemas legais alienígenas como os da França. este princípio. em face do objetivo comum avençado. muitos países. feixe de deveres que induzem a um mandamento bilateral de conduta. ante a importância do regramento de conduta nas relações obrigacionais. como princípio. com artigo expresso. ou seja. verifica-se o fenômeno de que. vale trazer à colação o BGB . mesmo em face da não existência. atrelados ao "comportement réflechi à l’égard d’autrui.74 O princípio da boa-fé no Código de Defesa do Consumidor Autor: Francisco José Soller de Mattos A boa-fé. contemplam. na legislação pátria não se traduz como regra geral. por seus sistemas de leis. Suíça. mais especificamente a letra do § 242. Portugal. no Código Civil Brasileiro. Estados Unidos e Alemanha.Bürgerliches Gesetzbuch (Código Civil Alemão). expressamente. para ilustrar.

078. deixa escapar o seu sentido para uma conceituação aberta. Ocorre que. instituído pela Lei nº 8. em sendo positivada no art. segundo Larentz. 4º. inciso III do indigitado sistema legal. a prevalência da boa-fé como seu princípio de orientação máxima. a sua importância de princípio supremo do direito civil. a boa-fé. na letra do art. deixou de coadjuvar no plano legislativo para. ou dela inferível" (Orlando Gomes). Atualmente. 85 do Código Civil.75 A inspiração legislativa brasileira para a consideração do princípio da boa-fé nas relações obrigacionais achava-se. de onde depreende-se a vontade Estatal que: " o literal da linguagem não deve prevalecer sobre a intenção manifestada na declaração de vontade. não há como se negar que este nada mais é do que uma das mil faces da boa-fé. . com o advento do Código de Defesa do Consumidor. de 11 de setembro de 1990. após plena consolidação do CDC como um instrumento positivo e que efetivamente mudou o panorama contratual moderno do Brasil. de tão abrangente. indutora de uma nova postura no ambiente contratual. 4º do CDC consagre a autonomia do "Princípio da Transparência". que. muito embora o próprio caput do art. dentro desse conjunto legislativo. verificamos. galgar. E. quase que isoladamente consignada.

e de 1963 (de Caio Mário da Silva Pereira). sobre o que seria relação de consumo e o que seguia sendo relação civil ou (até 2003) comercial. pretendendo valorizar a proteção às situações em que o consumidor "seja realmente" a parte mais fraca da relação. o que só foi acentuado com a expansão da competência da Justiça do Trabalho – talvez esteja aí o germe de uma futura reunificação. para abranger o maior número de relações no mercado. Em 1943 a repartição dicotômica se tornou tricotômica com a edição da Consolidação das Leis do Trabalho – às duas modalidades de relações obrigacionais acresceu-se a relação de emprego. Desde então se debate onde estaria a marca divisória entre as relações civis e as trabalhistas. enquanto outros querem restringir-la. surgiu uma nova modalidade de relação obrigacional. Uns buscam ampliar a área de incidência da legislação consumerista. Hahnemann Guimarães e Philadelpho Azevedo). O jurisconsulto baiano já visualizara a artificialidade dessa divisão – não havia qualquer diferença de essência entre as obrigações civis e as comerciais. Mais uma vez surgiram acalorados debates sobre os limites dessa nova categoria. em 1866. resultado de um projeto de 1975. Com a edição do Código Civil de 2002 tal discussão perdeu um pouco de sua relevância.76 A relação jurídica de consumo: conceito e interpretação Autor: Marcelo Azevedo Chamone 1. tal como os anteprojetos de Código das Obrigações de 1941 (redigido por Orozimbo Nonato. Já em 1990 essa divisão foi acentuada com a edição do Código de Defesa do Consumidor. Teixeira de Freitas propôs a sua unificação enquanto abandonava a elaboração do projeto de um Código Civil onde o Governo insistia em manter o cisma. sob o argumento de ampliar ao máximo a proteção às partes vulneráveis – seja sob o aspecto técnico ou econômico – nas relações obrigacionais. muito embora outros anteprojetos já tivessem trilhado a mesma linha. INTRODUÇÃO A dicotomia entre relações jurídico-obrigacionais civis e comerciais já era ancestral quando. a de consumo. Tal proposta unificadora somente veio finalmente a se tornar direito positivo com a aprovação do Código Civil de 2002. uma vez que a responsabilidade objetiva (carro-chefe da lei consumerista) .

ora tendendo para um lado. parágrafo único. o conceito de consumidor. no outro caso. deixando ainda mais embaçada a linha divisória entre elas. Na verdade. Do mesmo modo. em decorrência do art. como veremos abaixo. Assim. a hipótese é de produto. a lei coloca sob a mesma denominação relações contratuais (negócios jurídicos) e não-contratuais. Em geral há uma cumulação de prestação de serviço com fornecimento de produto." [01] Nem sempre a relação de consumo será um negócio jurídico. passaremos a definir o conceito de cada um dos elementos da chamada "relação de consumo". . ora para o outro. o momento jurisprudencial indica que o pêndulo tende para a restrição da aplicação do CDC. Assim. o objeto é um serviço. a regra da responsabilidade subjetiva ficou praticamente reduzida às relações entre particulares. tendo como objeto o fornecimento de um produto ou da prestação de um serviço. Esse breve panorama do tratamento legislativo dado às relações obrigacionais serve para mostrar a artificialidade e instabilidade de qualquer tentativa de compartimentalização. buscando identificar o estado-da-arte do tema. como veremos abaixo. a ampliação das hipóteses de revisão contratual trazidas pelo novo Código Civil aproximou muito as relações civis das de consumo. 2. atentando para as principais correntes doutrinárias. limitando.77 foi elevada a padrão juntamente com a responsabilidade subjetiva. Sempre que o tratamento não for unificado haverá debates doutrinários e jurisprudenciais sobre a delimitação de cada um. é preciso "averiguar qual é o elemento nuclear do vínculo obrigacional: uma obrigação de dar ou uma obrigação de fazer. A fragilidade dos conceitos se mostra aparente com a recente e ainda incipiente discussão surgida com a EC nº 45. 927. estariam sob a competência da Justiça do Trabalho. num sistema que vem sendo apelidado de "dúplice". inclusive os regidos pelo CDC. para se determinar qual o regime jurídico a ser aplicado ao caso. No que concerne às relações de consumo. onde vertentes da jurisprudência trabalhista defendem que todos os tipos de prestação de serviços. RELAÇÃO DE CONSUMO Por relação de consumo é de se entender toda relação jurídico-obrigacional que liga um consumidor a um fornecedor. Tratando-se daquela. decorrentes de atos e fatos jurídicos.

então. 6º. 29 a 45). 2º. a fim de identificar claramente os limites de cada uma dessas esferas de proteção. Temos. caput e parágrafo único) são aplicadas todas as disposições do Código. b) quanto à necessidade de vínculo contratual: só quando há contrato ou também nos casos de relações jurídicas extracontratuais. tanto no pré-contratual como no pós-contratual. o CDC trata sobre os seguintes temas: da responsabilidade civil (arts. V e X. Não obstante. o CDC traz quatro definições diferentes de consumidor: a duas delas (art. 3.78 Deste modo. 46-54). Àquela época e ainda hoje o tema é tormentoso: "Embora o vocábulo consumidor não esteja assentado com um conceito claro. 2º. pessoal. 6º. CONSUMIDOR Em 1988 foi publicado pelo então promotor de justiça de São Paulo. 6º. delimitaremos a seguir os elementos básicos das relações de consumo. Essa conclusão leva à interessante reflexão sobre a quantidade de folhas que já foram escritas sobre a definição do conceito standard de consumidor. parágrafo único) somente nas situações de responsabilidade civil contratual (vícios do produto ou serviço). e para a última categoria (art. 17) as regras sobre responsabilidade civil extracontratual. nos termos dos conceitos dados pelo próprio Código. Herman Benjamin. I a IV. não . familiar. quando uma parte tão pequena do Código é dedicada exclusivamente a ele. 29) as regras sobre proteção contratual e práticas abusivas. todas as demais disposições do CDC se aplicariam quase que irrestritamente à coletividade em geral face a redação genérica dos artigos que ampliam o conceito de consumidor. caput) e aos "intervenientes" nas relações de consumo (art. já se podem identificar algumas áreas de disputa conceitual: a) quanto à natureza do sujeito protegido: pessoal natural ou jurídica. Destarte. a princípio. com o auxílio de textos de legislação e doutrina estrangeira. das práticas comerciais (arts. 8º a 28). artigo já clássico onde o autor buscava. a outra (art. VI. No plano do direito privado material. delimitar o conceito de consumidor. Como veremos mais detalhadamente abaixo. 2º. que a proteção do CDC recairá exclusivamente ao consumidor standard (art. e da proteção contratual (art. c) quanto à finalidade da aquisição do bem ou produto: para uso privado. temos que o Código irá atuar de forma preventiva e repressiva nas relações de consumo tanto no âmbito contratual como no extracontratual.

possibilitando a proteção de terceiro estranho ao contrato – há uma prevalência da "relação de consumo" sobre o "contrato de consumo". pois não são somente aqueles participando efetivamente das relações de consumo que estão sujeitos a sofrer danos em decorrência dessas relações. James Marins [08] entende que também o ente despersonalizado pode ser tomado como consumidor. um aplicável para cada situação específica regulada por aquela lei. é consumidor "qualquer pessoa física ou jurídica que. Maria Antonieta Donato [09] o acompanha em parte. e) quanto ao tipo de bens: só bens móveis ou também imóveis. Onde não há uma legislação consumerista codificada chega a haver diversos conceitos de consumidor. palavras de Roberto Senise Lisboa. na delimitação do âmbito de proteção oferecido pela lei. resulta em "substancial modificação do princípio geral da relatividade dos efeitos" [07]. ao que. caput). discordando apenas da inclusão da . em outros termos. tende-se para uma conceituação mais restrita. não o tendo adquirido. citando como exemplo a entidade familiar. onde sujeitos a princípio não classificados como consumidores são colocados numa posição semelhante. em benefício próprio ou de outrem. A nossa legislação.1 O consumidor standard Inicialmente. A existência de diversos conceitos no direito positivo se mostra necessária. há uma série de situações extracontratuais. de modo geral." [05] Rizzatto Nunes acrescenta que "a norma define como consumidor tanto quem efetivamente adquire (obtém) o produto ou o serviço como aquele que. ao contrário do que ocorre em relação ao fornecedor. contrate para consumo final. a aquisição ou a locação de bens. 2º. de acordo com as suas peculiaridades sociais e econômicas. de modo que não seria justo nem eqüitativo dar-lhes tratamento legislativo diferenciado. f) quanto ao tipo de serviço: só serviços privados ou também serviços públicos. bem como pré e pós-contratuais. trás quatro definições diferentes de consumidor: uma chamada de ‘consumidor standard’. Apesar de não haver disposição expressa. A que se mostra mais espinhosa é sem dúvida a primeira. d) quanto à qualidade do objeto da relação de consumo: apenas bens ou também serviços. [04] nos demais. consumidor é "toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final" (art.79 profissional e comercial. mesmo codificada." [02] Na legislação estrangeira não é possível encontrar uma definição uniforme. bem como a prestação de um serviço. e outras três de ‘consumidor equiparado’. 3. isolada ou coletivamente. utiliza-o ou o consome" [06]. [03] Em alguns sistemas simplesmente não há definição legal de consumidor. ficando a cargo da doutrina e jurisprudência fazê-lo – nesses casos. cada país adota um conceito diferente.

ainda que empresários. e cita como exemplos o condomínio edilício e o espólio – para a autora. . isto é. buscando apoio na doutrina estrangeira. aquele que se submete ao poder de controle dos titulares de bens de produção. Apesar da disposição inequívoca da lei. cada um dos membros da família deveria pleitear seus interesses individualmente. com reflexos na jurisprudência. formaram-se: uma restringindo o conceito de consumidor. para exercer a sua atividade produtiva. sem que outra destinação seja objetivada pelo beneficiado (adquirente ou usuário)". dissenso sobre quem poderia ser classificado como destinatário final do produto ou serviço. é também consumidor. e antagônicas.80 família nessa situação." [10] Antes da edição do CDC era comum encontrar esse tipo de definição. a causa da formação da relação de consumo deverá estar relacionada "à transmissão definitiva ou provisória de produto ou de atividade humana remunerada. "tornando necessária a análise da causa da aquisição ou da utilização do produto ou do serviço". pois. buscando aproximá-lo o mais possível da doutrina européia. É claro que todo produtor. sem ligação com a sua atividade empresarial própria. Fábio Konder Comparato. em maior ou menor medida. Duas correntes principais. enquanto a outra trata de dar maior aplicabilidade à lei. principalmente porque a própria lei não as faz. depende por sua vez de outros empresários. buscando uma proteção mais ampla e generalizada. buscou delimitar o conceito de consumidor.1 O conceito objetivo de consumidor Para os juristas que vêem no CDC uma regulamentação para o mercado de consumo em geral. como fornecedores de insumos ou financiadores. e. com a lei veio a superação desses conceitos baseados nas lições européia e norte-americana. defendendo a sua incidência sobre o maior número de relações jurídico-obrigacionais. em proteção do consumidor quer-se referir ao indivíduo ou grupo de indivíduos. a legislação brasileira veio com uma proposta muito mais ousada. dando especial atenção à finalidade da aquisição do produto ou serviço: "O consumidor é. Porém. por exemplo. de modo geral.1. Quando se fala. surgiu na doutrina. no entanto. muito mais preocupada com a proteção do consumidor pessoa física. 3. nesse sentido. se apresentam no mercado como simples adquirentes ou usuários de serviços. os quais. os empresários. Muito antes da edição do CDC. Roberto Senise Lisboa [11] vê na expressão destinatário final a adoção pelo CDC da teoria da causa na relação jurídica de consumo. o conceito de destinatário final não pode sofrer restrições.

i. aquele que não o revende nem o incorpora na produção de um novo.2 O conceito subjetivo de consumidor Cláudia Lima Marques [18]. o destinatário fático e econômico do bem ou serviço. É certo que dessa conceituação estaremos trazendo para a relação de consumo situações que vão contra o senso comum. além do "destinatário final" que adquire o produto ou serviço para uso próprio (sem finalidade de produção). Rizzatto Nunes. Assim. não caberia ao intérprete/aplicador fazê-lo. . consumidor é todo aquele que retira o produto ou serviço do ciclo produtivo-distributivo.. Rizzatto Nunes [12] define como consumidor. ou simplesmente com o intuito de revendê-lo. portanto. Podem ser citados como defensores dessa interpretação.. sem o intuito de obter lucro com a sua futura negociação. 3. independentemente do uso e destino que o adquirente lhes vai dar". não pode estar adquirindo para revenda ou uso profissional. ele será o destinatário do produto ou serviço e.. é o que nos é dado pela lei. possam ser considerados consumidores – note-se que essa definição é intimamente ligada às qualidades econômicas do adquirente..1. Exclui as situações em que o produto ou serviço "é entregue com a finalidade específica de servir como ‘bem de produção’ para outro produto ou serviço e via de regra não está colocado no mercado de consumo como bem de consumo. que o profissional pessoa física ou pequena empresa que tenha adquirido um produto fora de seu campo de especialidade. com variações.e. e Roberto Senise Lisboa [16] excluem do conceito de consumidor apenas o adquirente de produto que será objeto de transformação ou implementação com reinserção na cadeia produtiva-distributiva. como a lei não faz qualquer restrição quando utiliza o termo pessoa jurídica. Nery Jr. o consumidor comum não o adquire".. não cabendo ao intérprete/aplicador impor suas opiniões sobre a norma.) sejam oferecidos regularmente no mercado de consumo. "pois o bem seria novamente um instrumento de produção cujo preço será incluído no preço final do profissional que o adquiriu" [19].e. Assim.. dá um conceito restritivo de destinatário final: ela o identifica com a pessoa física que retira o bem de mercado. adepta da dita "corrente finalista". João Batista de Almeida e James Marins. porém. Roberto Senise Lisboa. mas como de produção. Mais. se a implementação ou transformação é feita para o uso próprio do adquirente. não havendo qualquer necessidade de inquirir sobre aspectos subjetivos. Porém.81 Não obstante. Assim. Admite. i. também quando há a finalidade de produção.e. João Batista de Almeida [15]. bom ou mal. i. [13] James Marins [14]. para a definição do conceito de consumidor deve-se tão somente analisar os critérios objetivos dados pela própria lei. consumidor [17] – não se discute se o bem é de produção (utilizado para implementar a produção) ou não. "desde que o produto ou serviço (.

pois somente essas seriam "vulneráveis". [21] De acordo com Filomeno [22]. "É imperativo lembrar que a vulnerabilidade não se constitui. E.e. em benefício próprio ou de terceiro. no critério legal para a definição do consumidor e da relação de consumo. não sendo possível fazê-lo sobre o ato de consumo. "retirando-o da cadeia produtiva e. pois é ela um posterius. é dizer: o personagem que no mercado de consumo adquire bens ou contrata serviços. o que o citado autor identifica com as pessoas jurídicas que não tenham finalidade lucrativa. necessariamente. Assim. por decorrência. Roberto Senise Lisboa [23] tece as seguintes considerações. para que a pessoa jurídica. Quanto à "vulnerabilidade" utilizada como elemento do conceito de consumidor. em função da qualidade subjetiva daquele que pratica a relação de consumo e em função da destinação que ele dará ao produto". em face do fornecimento dos produtos e serviços e do domínio da tecnologia e da informação que o fornecedor possui sobre eles. de que a aquisição do produto ou do serviço foi realizada por um sujeito de direito que se enquadra na definição legal de consumidor. que surge como conseqüência do reconhecimento da existência da relação de consumo. deve haver comprovação de que a contratação se deu fora do seu campo de atuação usual. ou a pessoa física em atuação profissional (‘consumidor-profissional’). presunção de vulnerabilidade em seu favor. i. porém. em outras palavras "a finalidade prática do ato e não o ato em si". somente se justificaria a inclusão da pessoa jurídica como consumidora na medida em que houver efetiva vulnerabilidade econômica em face do fornecedor a ser protegida.. Não basta que retire o produto do mercado. possa ser considerada consumidora. como destinatário final. o Código teria adotado o conceito econômico de consumidor. Assim. Assim. haveria três fatores de discrímen: o primeiro estaria na aquisição de produto. "Aquele que vier a ser considerado consumidor é quem se beneficiará . mas sim. agindo com vistas ao atendimento de uma necessidade própria e não para o desenvolvimento de uma outra atividade negocial. e por fim. sua utilização para implementar o processo produtivo. "não se analisa o consumidor unicamente em relação à prática do ato. havendo. que subscrevemos integralmente: "A vulnerabilidade do consumidor é presunção absoluta no mercado de consumo. o segundo estaria na configuração no caso concreto da vulnerabilidade. deve-se mesclar a qualidade do adquirente do produto com a finalidade para que o adquiriu.82 Para Maria Antonieta Donato [20] o consumidor deve ser conceituado dentro do âmbito da relação de consumo. não se caracterizando a aquisição para o uso profissional".

aquele que coloca um fim na cadeia de produção". indivíduos e grupos de indivíduos. para que a pessoa jurídica possa ser considerada consumidora. passando muitas vezes ao largo do texto legal. de modo que. e a generalização da aplicação da legislação de proteção ao consumidor." É interessante notar que com base no mesmo "conceito econômico de consumidor". os bens adquiridos devem ser bens de consumo e não de capital (que integram a cadeia produtiva). Como já notado acima. Pelo contrário. como premissa para este estudo. os defensores desta corrente interpretativa usualmente fundamentam suas posições não tanto nas disposições do CDC. estendendo o rol dos beneficiados por essa proteção. não obstante essas considerações. 2º aqui objeto do nosso . Tipicamente. e de doutrina e legislação estrangeira. mas tão somente aquele que "retira o bem do mercado ao adquirir ou simplesmente utilizá-lo (Endverbraucher). Do reconhecimento da situação de consumidor do sujeito em dada relação jurídica é que se impõe o princípio geral da vulnerabilidade. Mas a vulnerabilidade não é pressuposto do reconhecimento de que um sujeito adquiriu determinado produto ou serviço como consumidor. o consumidor é entendido como um indivíduo. nosso entendimento de que havendo no direito positivo conceito preciso de consumidor – como em verdade ocorre com o art. fabricação ou prestação.83 da presunção de vulnerabilidade diante do fornecedor. Sobre esse ponto é relevante o pensamento de James Marins: "Esclareça-se. além dos requisitos acima. Herman Benjamin afirma que o conceito de consumo final e intermediário estão unidos. mas mais presos às definições elaboradas antes da publicação da lei. consumidores serão instituições. na prática. não admite prova em sentido contrário. na teoria econômica. consumidor "seria toda pessoa situada no término da cadeia de consumo e que encerra a circulação econômica de um produto ou serviço em vez de sobre ele atuar com vistas a sua transformação. distribuição. desvirtuando a finalidade do Direito do Consumidor de "proteger a parte mais fraca ou inexperiente na relação de consumo" [27]. iria terminar por dar tratamento igual para todos. apenas." [26] A justificativa dessa posição mais restritiva é feita com base no argumento de que o consumidor deve receber tratamento especial e diferenciado." [24] Destarte. "aquele que utiliza o bem para continuar a produzir ou na cadeia de serviço" não pode ser considerado consumidor. [25] Em outras palavras. consumidor é: "qualquer agente econômico responsável pelo ato de consumo de bens finais e serviços. E essa presunção é iure et de iure. ou seja. mas.

de outro. a utilização deve romper a atividade econômica para o atendimento de necessidade privada. Nancy Andrighi [32]. ainda que de forma indireta." [28] "Condicionar-se o conceito de consumidor à constatação de sua hipossuficiência seria.1. enfraquecer o sistema protetivo inaugurado pelo CDC. segundo entendiam os ministros. deve ser também o seu destinatário final econômico. evitando assim." Mais uma vez. deslocando para o movediço critério subjetivo conceito que. e que albergue conceito próprio induvidoso. outrora ardente defensora da corrente contrária: não basta que o consumidor (adquirente de produto ou serviço. para excluir a incidência do CDC em situações em que fosse verificado o expressivo porte financeiro ou econômico: da pessoa jurídica tida por consumidora. o bem ou serviço. Isso não impediu que de início houvesse uma interpretação objetiva do conceito de consumidor. com leves temperamentos. no nosso sistema." E mais adiante afirma que a relação de consumo "não se caracteriza pela presença de pessoa física ou jurídica em seus pólos. do contrato celebrado entre as partes.84 estudo –. houve uma virada de entendimento. não se pode pretender submetê-lo às teorias jurídicas informadoras de sistemas alienígenas. admitindo exceções: "Em relação a esse componente informador do subsistema das relações de consumo. Todos esses elementos podem estar presentes . [31] Porém. jurídica ou técnica. e de um fornecedor. não podendo ser reutilizado. mas pela presença de uma parte vulnerável de um lado (consumidor). é claramente e intencionalmente informado pela objetividade. ou utente do serviço público) seja "destinatário final fático do bem ou serviço. a jurisprudência tempera a posição doutrinária. teorias essas ora textualmente recebidas pelo legislador. nível de informação/cultura ou valor do contrato em exame. isto é. não se pode olvidar que a vulnerabilidade não se define tão-somente pela capacidade econômica. recentemente. um "desvirtuamento do sistema protetivo eleito pelo Código". inclusive. pessoal. de outra circunstância capaz de afastar a hipossuficiência [30] econômica. em verdade. pacificando-se o conceito subjetivo de consumidor. no processo produtivo. Neste sentido é o atual posicionamento da Min." [29] 3. praticamente excluindo as pessoas jurídicas consumidoras do âmbito de proteção do Código. ora textualmente afastadas em prol da elaboração de um sistema próprio.3 As posições do STJ e STF O STJ sempre buscou evitar a aplicação indiscriminada do CDC.

" [33] Se antes a demonstração da inexistência de vulnerabilidade fazia excluir a aplicação do CDC. pela extremada necessidade do bem ou serviço. Cuide apenas de pesquisar os significados dos vocábulos e expressões que compõem a definição e de apurar da sua coerência com o ordenamento constitucional. Assim temos que. toda pessoa física ou jurídica que utiliza. força é acatá-la. o STF incidentalmente manifestou-se sobre o conceito de consumidor. diante disso. todas elas. atividade bancária. pelo monopólio da produção do bem ou sua qualidade insuperável. Isso não apenas me parece. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista". de crédito e securitária. como "fornecedor". financeira. inquestionavelmente. economicamente. como efetivamente é. e aquela que vem sendo adotada pelo STJ. 2º do Código diz que "consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final". agora somente a demonstração da vulnerabilidade convencerá os julgadores de que a pessoa jurídica é consumidora. Não importa seja possível comprovar. Entende-se como "consumidor". como "produto" e como "serviço". pela natureza adesiva do contrato imposto. para os efeitos do Código do Consumidor. O jurista. E o § 2º do art. inquestionável. ficou claro o dissídio entre a posição sufragada pelo STF. qualquer esforço retórico desenvolvido com base no senso comum ou em disciplinas científicas para negar os enunciados desses preceitos normativos. o profissional do direito não perde tempo em cogitações como tais. financeira e de crédito. Por certo que as instituições financeiras estão. que tal ente ou entidade não pode ser entendido. por a + b. como destinatário final. Inútil. O art. sujeitas ao cumprimento das normas estatuídas pelo Código de Defesa do Consumidor. mais ligada à definição objetiva de consumidor. inclusive as de natureza bancária. o que descrito está no seu art. Eis o trecho do voto condutor do Min.85 e o comprador ainda ser vulnerável pela dependência do produto. 2º e no seu art. 3º e §§1º e 2º. para os efeitos do Código de Defesa do Consumidor. como consumidor ou fornecedor. Diante da definição legal. "fornecedor". pelas exigências da modernidade atinentes à atividade. mediante remuneração.2 O consumidor por equiparação . [35] Apesar de não haver um aprofundamento na definição de o que seria "destinatário final". 3º define como serviço "qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. 3. dentre outros fatores. é "consumidor". o Código define "consumidor". Chamado a decidir questão sobre o campo de incidência do CDC. Eros Grau sobre a questão: Como observei também em outra oportunidade [34]. "produto" e "serviço".

Rizzatto Nunes [38] afirma que "a hipótese dessa norma diz respeito apenas ao atingimento da coletividade. 6º. . Se a pessoa interveio na relação de consumo. parece-nos que essas pessoas estão mais bem colocadas nas demais definições trazidas pelo Código: quando forem consumidoras efetivas. que haja intervindo nas relações de consumo" (art. [37] 3. anda que não possam ser consideradas consumidores stricto sensu.86 Diversas pessoas. e os comentadores. mas sem sofrer danos. podem vir a ser atingidas ou prejudicadas pelas atividades dos fornecedores no mercado. ainda que indetermináveis. mas "as pessoas do relacionamento social do consumidor que podem sofrer eventuais efeitos indiretos da relação de consumo". o que não diz muito. a posição preponderante do fornecedor a posição de vulnerabilidade dessas pessoas justificam a equiparação feita pelo legislador. parágrafo único). não sobra ninguém! Seguindo raciocínio semelhante. ou quando forem vítimas de acidente de consumo. Eliminando aqueles definidos no caput do art. mas também com a sua potencial aquisição – assim. VI e 81. Porém.1 O interveniente nas relações de consumo "Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas. 3º (fornecedores) e no caput do art. ainda que não possam ser consideradas consumidoras no sentido estrito. Fábio Ulhoa [39] define as pessoas abrangidas por essa norma não como integrantes do grupo de consumidores em potencial. 2º. já que neste caso o art. do art. não se aprofundam no tema. atribuindo-lhe conteúdo e significado próprios. Esse parágrafo é de difícil interpretação. [36] A conceituação legal não se ocupa apenas da aquisição efetiva de produtos e serviços. A dificuldade está principalmente em construir uma interpretação desta norma de modo que não se confunda com as demais regras de abertura do Código. indeterminável ou não. também estão protegidos os potenciais consumidores. Mirella Caldeira [40] conclui que a função deste dispositivo é "reforçar a idéia da tutela dos interesses difusos e coletivos". que já têm previsão nos art. 2º (consumidores). 2º. 17 enquadra a questão". mais preocupados com o caput deste artigo. fica difícil enxergar um campo de incidência para o parágrafo único. vindo a intervir nas relações de consumo de outra forma a ocupar uma posição de vulnerabilidade.2. ou será fornecedor ou será consumidor. ou ainda estiverem expostas às práticas comerciais ou contratuais. Pela leitura dos demais artigos.

pequena ou grande empresa. pois a tutela nessas áreas "não se pode restringir ao momento posterior ao acordo entre o consumidor e o fornecedor".2.2 A vítima de acidente de consumo "Para os efeitos desta Seção [da responsabilidade pelo fato do produto e do serviço. 29. 2º. equiparam-se aos consumidores todas as pessoas determináveis ou não. para que tenha . mesmo que não possa ser assim considerado com base na definição do art. privada ou pública. devendo antecedê-lo. com base no art. [43] Tal argumentação permite concluir que até mesmo a pessoa jurídica de forma geral. enquanto o caput do art. equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento" (art. "sujeitos à mesma proteção que a lei reconhece aos consumidores no tocante às práticas comerciais e contratuais". pouco importando que seja pessoa física ou jurídica. não se exigindo que a vítima seja consumidor final. 29)..2.e. entretanto. está acobertado por esta disposição legal. estão protegidos todos os potenciais consumidores. expostas às práticas nele previstas" (art. inclusive aquele que adquiriu o produto para revenda. qualquer vítima de um produto ou serviço receberá a proteção do CDC como se consumidor fosse. 2º garante a proteção individual do consumidor. 3. "podendo. Nesse ponto o silêncio da doutrina confirma que distinção alguma há entre as vítimas do acidente de consumo.3 A pessoa exposta às práticas comerciais e contratuais "Para os fins deste capítulo [das práticas comerciais] e do seguinte [da proteção contratual]. 17). Outrossim. lançar mão das normas do Código do Consumidor referentes à proteção contratual e às práticas comerciais" [44] . de modo que o "intermediário que adquirir produto sem que o faça na condição de adquirente ou usuário final" deverá se valer das disposições do Código Civil. independente de haver qualquer relação prévia entre fornecedor e vítima.87 É dizer. tal equiparação somente é valida na responsabilidade civil decorrente de fato do produto ou serviço. 3. [42] Mesmo o adquirente intermediário poderá se valer das regras do CDC para buscar a recomposição de seus danos. "não há dispositivo que autorize o intermediário que não adquira ou utilize o produto ou serviço como destinatário final a agir com base no Código do Consumidor". com ou sem intuito de lucro. quando houver vício no produto ou serviço. Assim. i. aplicando-se integralmente as normas sobre responsabilidade objetiva pelo fato do produto [41]. responsabilidade extracontratual. o parágrafo único do mesmo artigo garante a sua proteção coletiva. Assim.

que desenvolvem atividades de produção. fundações públicas ou privadas.88 um caráter preventivo e mais amplo". nacional ou estrangeira. criação. Também o Estado. para os consumidores diante da prática comercial abusiva. [45] "Uma vez existindo qualquer prática comercial. com ou sem fins lucrativos. 14. "é toda pessoa física ou jurídica. mas isso não lhes afasta da incidência do CDC. Assim. 966. [50] A definição que nos é dada pela lei não exclui nenhum tipo de pessoa jurídica. do CDC).. construção. direto ou indireto. Esse entendimento se faz possível pela não inclusão de qualquer tipo de limitação na definição do art. bem como os entes despersonalizados. Assim. 4º. distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços". para combater as práticas comerciais abusivas". sua ética de responsabilidade social no mercado." [46] Herman Benjamin esclarece ser "indiferente estejam essas pessoas identificadas individualmente ou. seus princípios. caput. até. órgãos da Administração direta. mas não há dúvidas de que ele é tratado como fornecedor pelo CDC. façam parte de uma coletividade indeterminada composta só de pessoas físicas ou só de pessoas jurídicas. exportação. pública ou privada. não se exige que o fornecedor tenha personalidade jurídica. seja sociedade empresarial. [51] Atente-se que nem todo fornecedor é empresário. sendo-lhes facultado o manejo "[d]as normas especiais do CDC. transformação. de pessoas jurídicas e de pessoas físicas. ao contrário do que ocorre no art. o art. e nem mesmo capacidade civil. exclui o profissional liberal do conceito de empresário. ao revés. parágrafo único. apontando como único limite a idéia de prejuízo. 2º. sociedades de economia mista. empresas públicas. ostensivamente quando atua como agente econômico ou prestando serviços . toda a coletividade de pessoas já está exposta a ela. do CC. ou. montagem. Em suma. etc. fornecedor é todo e qualquer participante do ciclo produtivo-distributivo. FORNECEDOR Fornecedor." [47] Cláudia Lima Marques [48] inclui entre as pessoas expostas às práticas abusivas também os agentes econômicos. sua nova ordem pública. 29. [49] 4. As sociedades simples (CC 981 e 982) não são empresárias. onde há referência expressa ao ‘destinatário final’. importação. O único requisito é que estejam expostas às práticas comerciais e contratuais abrangidas pelo Código. ainda que mereça tratamento diferenciado (art. ainda que em nenhum momento se possa identificar um único consumidor real que pretenda insurgir-se contra tal prática. segundo a definição legal (CDC 3º).

[58] Ainda.. Já quanto ao prestador de serviços.1. basta que a atividade seja habitual ou reiterada. diz Filomeno . objetivo de satisfação de necessidade alheia. sejam representados ou não por intermédio de conselhos deliberativos.1 Atividade econômica Por atividade se entende o "conjunto de atos ordenados em função de um determinado objetivo (. em última análise. Já as entidades associativas e os condomínios em edificações. pois "seu fim ou objetivo social é deliberado pelos próprios interessados. são os órgãos deliberativos soberanos nas chamadas ‘sociedades contingentes’".e. de onde se concluí não bastar a prática de atos isolados para que se caracterize a figura do fornecedor. como se sabe. [53] Filomeno enquadra na definição de fornecedor todos que "propiciem a oferta de produtos e serviços no mercado de consumo. pela análise do dispositivo legal que define quem pode ser considerado fornecedor. mas sim de uma atividade econômica. se a entidade associativa tiver como fim precípuo a prestação de serviços. deve ser considerada fornecedora desses serviços. "Qualquer ato singular deve poder ser reconduzido a uma atividade para ser considerado ato de fornecimento e submeter-se às normas do CDC".1 Elementos característicos do fornecedor 4. temos que não bastará o exercício de qualquer atividade. o que caracteriza o fornecedor de produtos é o desenvolvimento de atividades tipicamente profissionais. 4.. tal atividade econômica deve ser desenvolvida com profissionalismo. não podem ser considerados fornecedores em face de seus associados e condôminos. de maneira a atender às necessidades dos consumidores. Porém. de modo que. ou então mediante participação direta em assembléias gerais que. está abrangido pelo conceito de fornecedor." [54] Para Cláudia Lima Marques [55].2 Profissionalismo Outrossim..). i. não se exigindo que o prestador seja "profissional" da área. com regularidade. devendo ser avaliada de forma autônoma em relação aos atos singulares de que é composta". [57] [56] 4. cobrando mensalidade ou algum outro tipo de contribuição. não são considerados profissionais . e o propósito de obter um ganho. [59] A regularidade consiste no exercício constante e estável da atividade.89 públicos mediante remuneração direta [52]. como ressalta Flávia Püschel [60]. sendo despiciendo indagar-se a que título.1.

3 Autonomia Por fim. a atividade que ocorra com certa regularidade.e. que seja ininterrupta – para que se configure uma relação de consumo. basta para que se configure a relação de consumo. não sendo possível a caracterização de profissionalismo na pessoa que produz exclusivamente para a satisfação de necessidade pessoal. embora não haja remuneração por tais amostras. tal distribuição gratuita faz parte do exercício da atividade econômica profissional do fornecedor. tendo que incluir no custo de sua operação o ônus de responder objetivamente aos danos que der causa. Porém. é preciso que exerça sua atividade econômica de forma autônoma. e ressalvada a aplicação dos arts. e não aos atos singulares. com o objetivo de auferir lucros.1. parágrafo único e 931. Porém. não há necessidade de que cada ato singular seja praticado com o objetivo de obter ganho. à princípio. é importante ressaltar que não se exige a habitualidade da atividade – i. [64] "Além disso. De acordo com Rizzatto Nunes. por produtos distribuídos gratuitamente como amostra.. 927. aquele que exerce . ainda que não de forma contínua. [61] É indispensável que o desenvolvimento da atividade econômica seja voltado para a satisfação de necessidade alheia." [63] Entender de outro modo poderia fomentar a concorrência desleal entre entidades sem fins lucrativos – sujeitas. [66] Assim. por exemplo.. A definição de atividade autônoma é obtida como contraposição de atividade subordinada: desenvolvida na dependência de outrem e cujos resultados se referem a bens alheios ou a serviços depois fornecidos por outrem. Para alguns – como Giuseppe Ferri e Tullio Ascarelli [62] – deverá haver finalidade de obtenção de lucro. do CC – e as com finalidade lucrativa. a atividade comercial sazonal ou eventual não obsta a incidência das regras do CDC. para que se caracterize determinado ente como fornecedor." [65] 4. não-subordinada. que. à responsabilidade subjetiva. i. ou seja. há divergência doutrinária. o objetivo de ganho deve referir-se à atividade em si. prevalece que basta ter "por objetivo buscar o reembolso dos fatores de produção empregados ou evitar perdas e gastos. Quanto ao último elemento. a obtenção de ganho.90 aqueles que exercem atividade econômica "acidentalmente e cuja organização exaure sua função no cumprimento do próprio ato para o qual foi criada". sem procurar o incremento patrimonial propriamente dito. O fornecedor é responsável. de incremento no patrimônio. pouco importando se para poucos ou para muitos. pois. de modo que as entidades que desenvolvem atividades sem fins lucrativos não seriam consideradas fornecedoras.e. não conseguiria competir com os preços da primeira.

de acordo com Flavia Püschel [69]. e. em razão da responsabilidade solidária imposta pela lei (CDC. presumido e aparente Produtor real é aquele que participa de maneira autônoma no processo de produção de um bem. porém: na seção que trata da ‘responsabilidade por fato do produto ou serviço’ (arts. cabe agora traçar eventuais diferenças entre os diversos participantes da cadeia produtiva-distributiva. Mas quando adentramos no tema da responsabilidade pelo fato do produto mostra-se de grande importância." [70] Produtor presumido é o importador.91 atividade na qualidade de empregado de outrem.2 Espécies de fornecedor Estabelecida a amplitude do conceito de fornecedor (art. art. Tal ficção legal existe como concretização do postulado que determinada a facilitação da defesa do consumidor em juízo. o comerciante. seja de um produto final. e referidos sob a denominação comum de fornecedor. A princípio. é possível identificar três espécies de produto: a matéria-prima (materiais e substâncias destinados à fabricação de produtos).2. bem como pelos defeitos da matériaprima empregada na produção da parte componente (. 12-14). evitando que ele tenha que buscar a reparação em face do produtor real estrangeiro. estar enquadrado em qualquer uma dessas categorias. mas está inserido na cadeia produtiva. 4.. a parte componente (que se destina à incorporação a um produto final). 18). contribuindo em qualquer medida "para a confecção de um produto apto para a distribuição. aquele que desenvolve suas atividades 4. Perante o consumidor tal distinção não apresenta relevância prática nas questões relativas ao vício do produto. de uma análise da função do produto e do modo como é oferecido no mercado. .1 Produtor final e produtor de matéria prima ou parte componente De acordo com as etapas da produção. Há uma exceção. [68] Um mesmo produto pode.2. todos são tratados de forma uniforme ao longo do Código. de modo que o "produtor final responde pelos defeitos da parte componente. assim como por aqueles resultantes diretamente de sua própria atividade. e o prestador de serviços. e o produto final (pronto para servir ao uso a que se destina)." 4.). portanto.2 Produtor real. uma vez que. é fornecedor. sobretudo. dependendo das circunstâncias.. 3º). seja de uma matéria-prima. "cada produtor responde pelos defeitos surgidos durante o seu próprio processo de produção ou em fases anteriores". não é fornecedor. seja de uma parte componente. a lei dá tratamento específico e diferenciado para o produtor [67]. dependendo.

deverá ser analisada qual a atividade preponderante para que se possa dar o tratamento legislativo adequado à relação de consumo. 4. ou ainda as concessionárias de serviços públicos" [75].e. o produtor aparente é tratado como se tivesse em razão da situação de aparência criada para o consumidor. [71] 4.3 O Poder Público como fornecedor O Código. 4. porém. de forma subsidiária. ou ainda. em seu art. inclui-se no conceito de fornecedor o próprio Poder Público. "por si ou então por suas empresas públicas que desenvolvam atividade de produção. sem exercer ele próprio atividade de produção. Assim. Enquanto a responsabilidade pelo vício do produto é solidária de todos os participantes da cadeia produtivo-distributiva. Para diferenciar a atividade produtiva da mera distribuição. Em face da redação explícita da lei.. apenas uma manipulação insignificante. quando o produtor final [74] do produto não for suficientemente identificado. de modo a ocultar a indicação do produtor real do produto. i. o comerciante somente é responsabilizado pelo fato do produto direta e isoladamente quando houver máconservação do produto. Quando houve fornecimento de produto juntamente com a prestação de serviços. é todo sujeito que distribui produtos no âmbito de sua atividade profissional. impedindo que o consumidor acione diretamente o produtor real. na definição de Flavia Püschel [72].92 Produtor aparente é aquele que simplesmente apõe ao produto o seu nome ou marca. trata-se de atividade de simples distribuição" [73]. 3º. O tratamento dado pelo CDC ao comerciante é diferente dos demais fornecedores. envolvendo ou não o concomitante fornecimento de produto. Ainda que não tenha efetivamente participado da produção. Atente-se. criando a aparência de ter ele mesmo produzido o bem. diz que o fornecedor pode ser ente público ou privado.2. não há como negar a sua incidência em .2. ao contrário. deve ser levada em conta "a influência da atividade em questão sobre a configuração e qualidades essenciais do produto". que não fica excluída a eventual responsabilidade do produtor real. trata-se de atividade de produção. Existindo.3 Comerciante Comerciante. se há "influência sobre a estrutura ou qualidades essenciais do bem.4 Prestador de serviços Prestador de serviços é aquele ator da cadeia produtiva-distributiva que presta qualquer tipo de atividade no mercado de consumo.

assim. que têm essência de duráveis. [78] O simples fato de o produto não se extinguir numa única utilização não lhe retira o status de não durável – "o que caracteriza essa qualificação é sua maneira de extinção ‘enquanto’ é utilizado" [79]. móvel ou imóvel. ou de produção. são coisas úteis aos homens. Surge a dúvida de onde classificar os produtos descartáveis. 3º. "é qualquer bem. material ou imaterial" (art. 5. §1º). bens econômicos são as coisas úteis e raras. Bens. como instrumento hábil para a consecução dos fins objetivados. mas vida útil de não-duráveis. o descartável deve receber o tratamento dispensado ao durável. por sua vez. que provocam a sua cupidez. bens não duráveis (bens tangíveis que normalmente são consumidos em um ou em alguns poucos usos). é aquele "utilizado para fins de transformação e posterior transmissão". enquanto bem de custeio. independente . e destinado a satisfazer uma necessidade do adquirente. sempre que configurados os elementos acima expostos. sendo objeto de apropriação privada. na econômica definição do CDC. [76] Filomeno resume. não havendo tratamento legislativo específico. e como o produto não-durável tem características diversas. Já quanto ao enquadramento ou não de todas as atividades exercidas pelo Poder Público veremos mais adiante quando for debatida delimitação legal do serviço. [81] Roberto Senise Lisboa [82] entende não ser razoável a exclusão pura e simples do bem de insumo da proteção do CDC. ou de consumo. [77] É de relevância a classificação dos bens com base em sua taxa de consumo (CDC 26): bens duráveis (bens tangíveis que normalmente sobrevivem a muitos usos). PRODUTO Produto. Uma outra classificação se mostra relevante para fins de se determinar a incidência ou não da legislação consumerista: bem de insumo. No mesmo sentido. a limitação deve ser feita somente com base na finalidade (motivo) da aquisição do produto (consumo como destinatário final). Rizzatto Nunes [83] defende que o CDC é aplicado nos casos em que os produtos e serviços são oferecidos no mercado de consumo para a aquisição por qualquer pessoa como destinatária final. sem qualquer transferência para a clientela". suscetíveis de apropriação.93 relação ao Poder Público. e bem de custeio. de modo que "o bem transformado para uso posterior próprio não retira do adquirente ou utente a situação jurídica de consumidor". como destinatário final". conceituando produto como "qualquer objeto de interesse em dada relação de consumo. Bem de insumo. é "a coisa adquirida para desenvolvimento da própria atividade. Rizzatto Nunes [80] defende que. uma vez que a lei não faz qualquer ressalva.

estando sujeito a todas as suas regras. pouco importando "que o serviço. aplicado CDC em relação à administradora de imóveis [88]. de crédito e securitária. parágrafo único). mesmo quando firmada entre pessoas jurídicas. [86] Outrossim.". sob pena de comprometer a sua substância. "amostra grátis". Produto compósito "é aquele resultante do justaposicionamento de peças e componentes que podem ser substituídos sem que se proporcione a sua inadequação". que tem. Tal posição se coaduna. enquanto produto essencial "é aquele que não pode ter qualquer de seus componentes retirados ou substituídos. 39. a utilização da expressão "mediante remuneração". neste caso. significaria abranger também os serviços remunerados de forma indireta – a lei se refere à remuneração do serviço e não à sua gratuidade. 6. e nenhum outro mais. a adoção das outras soluções propugnadas pelo legislador (redibição. §2º). Assim. apresentando vício em alguma peça. é relevante ressaltar que o produto (assim como o serviço) gratuito. para a produção ou não de outros produtos ou serviços. [84] Por fim. "os contratos unilaterais de prestação de serviços e os contratos . Outra classificação extremamente útil nos é trazida por Roberto Senise Lisboa quanto à substituição das peças: entre produto compósito e produto essencial (não compósito). ao invés de "oneroso". ao fornecedor será aberto o prazo legal para realizar os reparos necessários. outrossim. que contém ainda dispositivo contra prática abusiva (denúncia vazia na vigência de contrato por prazo determinado. art. estariam excluídos da aplicação do CDC. Este "não pode ser reparado no caso de existência de vício intrínseco. inclusive as de natureza bancária. segundo Filomeno . financeira. porém. com o posicionamento reiterado do STJ [87]." Por outro lado. estimação ou troca)". justifica tal posição na existência de legislação própria (Lei nº 8245/91). salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista" (CDC3º. enquanto o produto compósito. haverá relação de consumo sempre que preenchidos os requisitos legais. mediante remuneração. de modo que seus elementos são insuscetíveis de dissociação. [89] Assim. também está regulado pelo CDC (art. cabendo ao consumidor. 4º). como atividade remunerada. Roberto Senise Lisboa [85] ressalta que a lei somente excepciona os serviços prestados em relações trabalhistas. comercial ou administrativa. seja de natureza civil. SERVIÇO Serviço "é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. as relações locatícias de imóveis.94 do uso que o adquirente faça.

aqueles são os que têm continuidade no tempo em decorrência de estipulação contratual. [91] 6. mas tão somente a sua intervenção como regulador das relações privadas. sob um regime de Direito Público – portanto consagrador de prerrogativas de supremacia e de restrições especiais – instituído em favor dos interesses que houver definidos como próprios no sistema normativo" [92]. pois aí haveria relação jurídica de natureza tributária. estariam sujeitos à disciplina do CDC. Filomeno [93] entende que "serviços" são atividades. sempre que se tratar de serviço público. de modo que somente a "prestação de serviços públicos. Já para Regina Helena Costa [96]. e não de consumo – "contribuinte não se confunde com consumidor". as concessionárias e permissionárias ou qualquer outra forma de empreendimento" – i.1 Serviços públicos "Serviço público é toda atividade de oferecimento de utilidade ou comodidade material destinada à satisfação da coletividade em geral. estes são os que se esgotam uma vez prestados. enquanto que nas relações de consumo não haveria responsabilidade estatal. pois não haverá a necessária onerosidade da relação obrigacional. não há que se falar em aplicação do CDC. "é a exigência de remuneração específica pela prestação de determinado serviço público que vai determinar sua sujeição à disciplina legal das relações de consumo". específicos e divisíveis" (CTN. benefícios ou satisfações que são oferecidas à venda. Admite apenas a inclusão dos serviços remunerados por tarifas em sua definição. art. além da atividade privada. e os que deixam como resultado um produto. todos os serviços públicos. e que "mediante remuneração" não se refere a tributos. mesmo que prestados por sujeito que normalmente atua como fornecedor no mercado de consumo.e. Por outro lado.95 gratuitos puros" [90] não são regidos pelo CDC. que o Estado assume como pertinente a seus deveres e presta por si mesmo ou por quem lhe faça as vezes. mas fruível singularmente pelos administrados. 79. Já para Cintra do Amaral [94]. . Classificam-se os serviços em "duráveis" e "não-duráveis". Assim. "todas as atividades oferecidas pelos órgãos públicos diretamente ou por suas empresas públicas ou de economia mista. seja ele prestado diretamente pelo Estado ou por concessionária. sem ressalvas.. II e III). não seria possível confundir o consumidor com o contribuinte. nos serviços públicos o Estado sempre figura como responsável pelos eventuais danos decorrentes do serviço. remunerados por taxa ou tarifa. para Rizzatto Nunes [95] estão incluídas no conceito de serviço. com a exclusão de todos os demais. taxas ou contribuições de melhoria.

direta ou indireta. Ainda. os serviços públicos impróprios. mediante o pagamento diretamente efetuado pelo consumidor a título de prestação correspondente. de acordo com o orçamento previamente elaborado pela Administração". somente quando os serviços e produtos são oferecidos no "mercado de consumo" poderia haver relação de consumo. sem exceção. Mais. porque o destinatário final se utiliza da atividade estatal a ele fornecida em razão do pagamento da prestação diretamente vinculada a essa atividade" [99]. para fins da lei. "uma vez que o pagamento de impostos e taxas é dirigido para o cofre público. Isso exclui "praticamente todas as relações jurídicas tributárias" da regulação do CDC. o Estado está isento de responsabilidade. pois considera-se serviço. E resume: "a Administração Pública. Segundo esse entendimento. inclusive as de natureza administrativa. os impostos. incluiu todas as demais. seriam invariavelmente submetidos ao regime do CDC. sendo as verbas obtidas pelo Poder Público repassadas para cada setor da atividade pública. justiça. Para o autor. "toda a atividade remunerada lançada no mercado de consumo pelo órgão público". o referido autor passou a defender ser necessária a análise da forma de pagamento da remuneração e a natureza do serviço público desempenhado a fim de se aferir a incidência ou não da legislação de consumo. seguindo essa orientação. mesmo as taxas. Por outro lado. somente haverá relação de consumo com a administração pública (direta ou indireta) quando a aquisição ou utilização do serviço se der mediante pagamento direito. de modo que a prestação de serviço público típico. afirma ser indiscutível a aplicabilidade do CDC aos serviços remunerados por tarifa. e saúde pública). em ralação aos atos de império e pelo exercício do poder de polícia. que é "genuína remuneração pelo serviço prestado pelo órgão público ou pela entidade da Administração indireta. seja por que regime for." O entendimento do STJ [101].96 Num primeiro momento Roberto Senise Lisboa [97] defendeu que quando a lei excluiu expressamente as relações trabalhistas do rol das prestações de serviço por si reguladas. não estariam jamais sujeitos à regulação do CDC. não teriam a especificidade nem a divisibilidade necessárias para a caracterização de relação de consumo. Revendo sua posição [98]. Roberto Senise Lisboa [100] ainda defende que os serviços tipicamente estatais. é de que a prestação de serviço público não configura relação de consumo. . Destarte. Por outro lado. que podem ser prestados uti singuli. deve se submeter às normas do Código de Defesa do Consumidor sempre que fornecer um serviço público uti singuli. prestadas pela administração pública direta ou indireta. que por natureza são uti universi (tais como segurança.

de eventual abusividade. MARINS. nos termos do disposto no Código Civil. sem prejuízo do controle. sobre as quais se discutia a possibilidade de regulamentação através de lei ordinária. Semelhante é o entendimento do STF [102] sobre o tema. limitando-se a defini-lo. conforme se extrai de definição de fornecedor adotada neste trabalho. 2ª ed.br. porém. Curso de direito administrativo. pelo Banco Central do Brasil. financeiras e de crédito Quanto às atividades bancárias. ANDRIGHI. ALMEIDA. como sendo o destinatário final dos serviços. Afirmou-se ainda que somente é necessária a edição de lei complementar para a regulamentação da estrutura do sistema financeiro – CF. São Paulo: Saraiva.. 6.2 Atividades bancárias. afastando. Ademais. 2ª ed. João Batista.stj. . In: http://bdjur. Outrossim. Código do consumidor comentado. 192. 7. ficaria excluída da incidência do CDC. em cada caso. José Manoel de Arruda. Manual de direito do consumidor. O conceito de consumidor direto e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. Fátima Nancy.97 aquele remunerado por tributo (em oposição ao atípico. remunerado por tarifa). São Paulo: RT. tal decisão pouco contribuiu para a definição do conceito de consumidor. financeiras e de crédito.gov. James et alii. Acessado em 26/03/2007. do seu campo de aplicação "a definição do custo das operações ativas e da remuneração das operações passivas praticadas por instituições financeiras no desempenho da intermediação de dinheiro na economia. pelo Poder Judiciário. como a lei. negando de forma peremptória que não há relação de consumo entre o poder público e contribuinte. uma vez que não há como considerar que o serviço público típico esteja colocado no mercado de consumo.. e do controle e revisão. esta posição se encontra em perfeita harmonia com a legislação consumerista. 1995. onerosidade excessiva ou outras distorções na composição contratual da taxa de juros". BANDEIRA DE MELLO. Celso Antônio. art. BIBLIOGRAFIA ALVIM NETTO. 2006. o STF pacificou a questão – ADI 2591 – determinando a sujeição de tais atividades às regras do CDC.

BEJAMIN.br. Mai-Jul/2006. 80.gov. ___________. In: Revista dos tribunais.. LISBOA. 69-79. 628. n. Acessado em 04/06/2007. COMPARATO. 1994. Definição jurídica de consumidor – Evolução da .br. p. São Paulo: RT. O conceito de consumidor padrão. n. In: Revista de direito mercantil. Acessado em 26/03/2007. 42-41. Ada Pellegrini et alii. ___________. Rio de Janeiro: Forense Universitária. p. 15/16. Acessado em 11/06/2007. In: Repertório IOB de jurisprudência. ___________. In: Revista CEJ. n.com. A proteção ao consumidor na constituição brasileira de 1988. 2/91. Responsabilidade civil nas relações de consumo. 2º do Código de Defesa do Consumidor. O conceito de consumidor no parágrafo único do art. 2005. Disponível em: www. p. n. Eros Roberto. São Paulo: Juarez de Oliveira.br. O código brasileiro de proteção do consumidor. A proteção do consumidor: importante capítulo do direito econômico. Regina Helena. Acessado em 26/03/2007. 1974. COSTA.stj. Disponível em: http://www. Sérgio Pinheiro. MARÇAL. Disponível em: http://bdjur.. Relação de consumo e proteção jurídica do consumidor no direito brasileiro. GRAU. DONATO. Roberto Senise. 8ª ed. Mirella D’Angelo.. A tributação e o consumidor.saraivajur. 89-105. São Paulo: Malheiros.com. CALDEIRA. 66-75. Antônio Carlos. 2003. n. Fábio Konder. In: Revista eletrônica de Direito Administrativo Econômico. Fev/1988.98 16ª ed. p. 1999. Out-Dez/1990. São Paulo: RT. Proteção ao consumidor: conceito e extensão.br. GRINOVER. Código brasileiro de defesa do consumidor comentado pelos autores do anteprojeto. Maria Antonieta Zanardo. CINTRA DO AMARAL. Jan/1991. Distinção entre usuário de serviço público e consumidor.com. 2ª ed. In: www. 02.saraivajur.direitodoestado. Ago/1997. ___________. Definição legal de consumidor. O conceito jurídico de consumidor. n. 2006. 6. In: Revista de direito mercantil. Herman.

99 jurisprudência do STJ. 19-20 e notas. Herman Benjamin. in: Código comentado. p. Proteção ao consumidor. in: Código comentado. 87-98.). James Marins. ‘O conceito jurídico de consumidor’. p. Rizzatto Nunes. 71-78. Maria Antonieta Donato. Responsabilidade. p. São Paulo: Saraiva. 88. 189. 2006. Othon. São Paulo: Quartier Latin. Comentários ao código de defesa do consumidor. p. Notas 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 Roberto Senise Lisboa. p. In: Revista do advogado. Rizzatto Nunes. Há polêmica no Brasil acerca do tema. ‘O conceito jurídico de consumidor’. 2004. NUNES. 6 e 29-32. Em sentido semelhante: "A lei é clara ao classificar como consumidor a pessoa jurídica. OLIVEIRA. PÜSCHEL. 2ª ed. p. desde que possa subsumir-se no enquadramento normativo dos conceitos de consumidor que o CDC estabelece. 159. Comentários ao código de defesa do consumidor. Flavia Portella. p. MARQUES. in: Código comentado. James Marins. São Paulo: RT. 1977. p.. p. 71. Roberto Senise Lisboa. havendo quem queira distinguir onde a lei não o faz. 31. Luiz Antônio Rizzatto. Comentários. considerando consumidora . p. Fábio Konder Comparato. Cf. Dez/2006. Proteção ao consumidor. 78-80. São Paulo: Saraiva. Juarez de (coord. Comentários ao código de proteção ao consumidor. p. Filomeno. Roberto Senise Lisboa. 21. A responsabilidade por fato do produto no CDC. n. 2005. 107-113. 89. Responsabilidade civil. Rio de Janeiro: Forense. ‘A proteção do consumidor’. Comentários. 90-91. V. 1991. SIDOU. Cláudia Lima et alii. p. p. Relação de consumo. Herman Benjamin.

Pearce. pois os computadores melhoram a sua produtividade e. in: Código comentado. Manual. para os que a defendem. . são considerados insumos. isto é.. Roberto Senise Lisboa. 169-183). e Responsabilidade civil. The dictionary of modern economics. p. p. 71. Responsabilidade civil. 80 apud Herman Benjamin. p. 71. p.100 a pessoa jurídica apenas quando adquira produto ou se utilize de serviço que não seja considerado insumo para sua atividade empresarial. 35-40. Herman Benjamin. É o que Roberto Senise Lisboa chama de ‘teoria da causa final’. 14 15 16 James Marins. Para essa corrente restritiva. Comentários. 494. 165. p. p. e os bens ou serviço que são objeto de sua especialidade comercial ou profissional’. a tese restritiva nega vigência ao art. Cf. Proteção ao consumidor. do CDC. p. Comentários. p. não tendo nenhuma relação com o seu ‘porquê’ (Responsabilidade civil." (Thierry Bougoignie apud Maria Antonieta Donato. 166-167." Nery Jr. p. "[P]oderá ser conferida a tutela protecionista dos consumidores às pessoas jurídicas ou aos consumidores-profissionais desde que fundada ‘na ausência de similitude entre o bem e o serviço que são objeto do ato para o qual o profissional reclama a sua qualidade de consumidor. Proteção ao consumidor. p. caput. 27. in: Código comentado. 32. Roberto Senise Lisboa. p. Levada à sua última conseqüência. Relação de consumo. 68 e 108. p. Uma nota se faz imprescindível sobre esse argumento: todo e qualquer bem adquirido pela empresa está incluído no preço final ao adquirente de seus produtos. 25 26 Cf. nessa condução. p. João Batista de Almeida. 18 19 17 Cláudia Lima Marques. 29. 71-74. 31-37. 108). p. David W. pouco importando que faça ou não parte da cadeia produtiva. praticamente nunca a pessoa jurídica seria consumidora. ou alguém duvida sinceramente que o cafezinho do diretor da montadora de carros não esteja embutido no preço final dos veículos vendidos aos consumidores? 20 21 Maria Antonieta Donato. ‘O conceito jurídico de consumidor’. Cláudia Lima Marques. indústria de automóveis que adquire computadores para seu escritório não seria consumidora. 72. ‘O conceito jurídico de consumidor’. p. 2º. in: Código comentado. o ‘para que’ o fato ocorreu. 22 23 24 Filomeno. pois.

77. Herman Benjamin. uma vez que o CDC somente faz referência à hipossuficiência para fins processuais. p. 2º Cf. Fábio Ulhoa. p. 253. Comentários. in: Conflito de Competência nº 41. in: Comentários. in: Código comentado. Comentários. 195. 99. In: ‘Definição legal de consumidor’. Proteção ao consumidor. 43 44 45 46 47 V. por Juarez de Oliveira. p. ‘O conceito de consumidor no parágrafo único do art. 38. James Marins. in: Código comentado. Cláudia Lima Marques. p. 100. do CDC’. Comentários. in: Código comentado. Fábio Ulhoa. p. 42-41. p. 20. 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 Cf. Mirella Caldeira. p. p. p. Cláudia Lima Marques. 23. 41 42 Herman Benjamin. Nancy Andrighi. 74-75. ‘O conceito jurídico de consumidor’. Filomeno. Eros Grau. James Marins. por Juarez de Oliveira. James Marins. . Maria Antonieta Donato. in: Código comentado. por Juarez de Oliveira. p. Comentários.056-SP Nancy Andrighi. p.101 27 28 29 30 Herman Benjamin. coord. Loc. in: Código comentado. p. 140. cit. Rizzatto Nunes. voto in: ADI nº 2591. coord. 27. coord. p. 80-81. in: Comentários. o termo mais apropriado seria "vulnerabilidade". James Marins. p. in: REsp 476. 277. 148-149. in: Comentários. in: Código comentado. Note-se a utilização pouco técnica desse termo. p. 148. ainda que o Código tampouco o eleja como elemento definidor de consumidor – a vulnerabilidade é conseqüência de ser consumidor.428-SC. Rizzatto Nunes. p.

66. nota 47. 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 Cf. 59-61. Comentários. nota 102. Flávia Püschel. Responsabilidade. Responsabilidade. utilizando o termo produtor para referir a todos aqueles enumerados no art. Responsabilidade. Denari. in: Código comentado. Utilizamos aqui a terminologia sugerida por Flávia Püschel (Responsabilidade. Flávia Püschel. Flávia Püschel. Responsabilidade. p. Cf. Cláudia Lima Marques. p. p. Flávia Püschel. p. Comentários. p. Responsabilidade. in: Código comentado. p. 101-102. 65. Apud Flávia Püschel. 65. 397. p. Flávia Püschel. 57-58). 19. p. Tullio Ascarelli apud Flávia Püschel. de poder para influir sobre as características do produto. 46. ‘O código brasileiro de proteção ao consumidor’. 63. Responsabilidade. 12. Responsabilidade. 45. 62. Mas também quando há remuneração indireta: Rizzatto Nunes. p. Flávia Püschel. nota 77. p. 63. Comentários. Cf. Comentários. 93. 43. Rizzatto Nunes. p. 67. criação. . caput. p. 174. Responsabilidade.102 48 49 Cláudia Lima Marques. 50 51 52 Cf. in: Código comentado. 112-113. p. isto é. No mesmo sentido: Herman Benjamin. Filomeno. 71-72. além de "remeter à idéia de produção. Filomeno. p. 65. Responsabilidade. Rizzatto Nunes." 68 Flávia Püschel. p. uma vez que todos recebem indistintamente o mesmo tratamento legal. p. p. p. Flávia Püschel. p. Responsabilidade. Comentários. Filomeno. p. in: Código comentado. 101. p.

Direito civil. p. Flávia Püschel. p. in: Código comentado. Filomeno. p. p. 119 apud Filomeno. p. p. Rizzatto Nunes. p. p. Comentários.. in: Código comentado. 199. 107-108. in: Código comentado. Comentários. in: Código comentado. Cláudia Lima Marques. v. p. p. Comentários. 77. Relação de consumo. 111. REsp nº 614981. Responsabilidade. 48. p. ex. Cf. Rizzatto Nunes. 92. . p. 57. Flávia Püschel. 83.103 69 70 71 72 73 74 75 Flávia Püschel.: REsp nº 689266. 108. p. 86. p. Roberto Senise Lisboa. p. Comentários. Responsabilidade. Responsabilidade. 9-10. Roberto Senise Lisboa. in: Código comentado. in: Código comentado. p. Cf. 37-38. Responsabilidade civil. 73-74. 90 91 Roberto Senise Lisboa. 47. Comentários. Responsabilidade. p. p. 1. Relação de consumo. Comentários. e 575020. Roberto Senise Lisboa. Comentários. p. p. p. nota 20. p. Comentários. P. Flávia Püschel. 79 80 81 82 83 84 85 86 87 88 89 Cf. Rizzatto Nunes. Rizzatto Nunes. p. p. Responsabilidade. AgRg no Ag nº 363679. Flávia Püschel. Filomeno. 82. 107-108. 101. Sílvio Rodrigues. Roberto Senise Lisboa. 77 78 76 Cf. 82. p. 25. p. 43. Relação de consumo. Relação de consumo. 47. 94. Filomeno. 110-111. 198 e ss. Cf. No mesmo sentido: Rizzatto Nunes. Cf. Responsabilidade civil. Cf. Filomeno. Responsabilidade. Rizzatto Nunes. p. Rizzatto Nunes. James Marins. e 636897. Roberto Senise Lisboa. 196-197. Flávia Püschel. 25-26.

2ª T. ‘Distinção entre usuário de serviço público e consumidor’. Cintra do Amaral. p. Min. 102 . 214-217. Nancy Andrighi. Roberto Senise Lisboa. Nesse mesmo sentido: Maria Antonieta Donato. p. 100 101 STJ. p. p. Roberto Senise Lisboa.. REsp 625. 112-113. Responsabilidade civil. 97 98 99 Roberto Senise Lisboa.. entendendo que na prestação de serviço público típico há relação de consumo: Nancy Andrighi. Divergiram da fundamentação da maioria. Comentários. in: Código comentado. ainda. Rel. Proteção ao consumidor. p.298-2/RS. Curso. ‘A tributação e o consumidor’. 612. STF. Roberto Senise Lisboa. n. 122-123. 28. Relação de consumo. 213-214. Regina Helena Costa.104 92 93 94 Celso Antônio. 48-49. 3ª T. p. AgRegAI 282. Relação de consumo. Filomeno.144-SP.. e Castro Filho. Responsabilidade civil. p. 211-213. Min. os demais julgados lá referenciados. 6. V. Carlos Velloso. 95 96 Rizzatto Nunes. p. Rel.

Só haverá relação jurídica se o vínculo entre duas pessoas estiver normado. pois. 7ª ed. Verbera ele que toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final é considerada diretamente como consumidora. compõem-na de forma a demonstrar sua extensão e seu conteúdo. a dicção legal do Código de Defesa do Consumidor é de clareza mediana. Afigura-se não haver a menor dúvida. 2004). Mas a questão permanece suscitando controvérsia e nos aguçou a tecer considerações a respeito. São Paulo. de ordem objetiva. mesmo porque. consumidor será o não profissional que de algum modo encontra-se vinculado com o fornecedor de produtos ou serviços. de 1990. citando Del Vecchio. em nossa obra Ofensa à Honra da Pessoa Jurídica (Ed. de 1990. 459). em apertada e perigosa síntese. anota que "a relação jurídica consiste num vínculo entre pessoas. De efeito. somados. desta feita cingindo-nos à definição. Antes de qualquer coisa. . todas as relações jurídicas exigem a presença de alguns elementos. devemos definir a relação jurídica de consumo. Considerou consumidor toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final. esboçou a pretensão legislativa de fornecer os elementos necessários à definição das pessoas envolvidas na relação de consumo. regulado por norma jurídica" (Compêndio de Introdução à Ciência do Direito. faltante um único deles sequer. LEUD. forem relevantes no que atina ao caráter deôntico das normas aplicáveis à situação.. dada a incompatibilidade do preceito com a teleologia e a axiologia da norma. que constituem o âmbito pessoal de determinadas normas. O artigo 2º da Lei n. Vejamos. em razão do qual uma pode pretender um bem a que outra é obrigada. Mas não é bem assim. Quanto aos elementos da relação de consumo. Os atos ordinários da vida se orientam para caminho diametralmente oposto.078. Tal relação só existirá quando certas ações dos sujeitos.105 Pessoa jurídica consumidora Autor: Alex Sandro Ribeiro O enfrentamento da problemática envolvendo a pessoa jurídica qualificada com consumidora deu-se alhures. O texto legal choca-se com o cotidiano. vêm eles arrolados nos artigos 2º e 3º da Lei n. São Paulo: Saraiva. 8. Maria Helena Diniz. Evidentemente. p. 1995. atentar para o significado de relação jurídica. e elementos objetivos o produto e o serviço. Diversa não é a relação de consumo. 8. outros. Exige-se a presença de elementos de órbita subjetiva e. São elementos subjetivos o consumidor e o fornecedor. concluir-se-á pela inaplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor. amplamente. isto é. os elementos que constituem a relação jurídica subsumível ao Código de Defesa do Consumidor.078. Donde vê-se necessário. de início. Estes. Pois muito bem. Em regra.

Rio de Janeiro: Forense Universitária. haja intervindo na relação jurídica. há de sofrer um abrandamento. 4) destinação final. pois. o "elo final da cadeia produtiva". encontrando-se aqui um dos fundamentos principiológicos da figura do consumidor por equiparação. pois pertence à teoria geral do direito contratual. horas trabalhadas. lembra-o José Geraldo Brito Filomeno. e mais marcadamente no que tange às práticas e cláusulas contratuais abusivas. São Paulo: RT. 7ª ed. o conforto. p. "apegam-se às condições gerais dos contratos estabelecidos pelo Código de Defesa do Consumidor. Nesse passo. O item 3 refere-se à contratação ou usufruição de um serviço e à aquisição ou utilização de um produto. Algumas decisões. assim. para uma posição mais teleológica. porque a disjuntiva ou assim especifica e afasta a necessidade de aquisição para perpetuar a relação de consumo. e também das vítimas de eventos danosos por fato ou vício do produto ou do serviço. a rigor. que a vulnerabilidade. A pessoa jurídica pode ser considerada consumidora. a segurança e. o sistema do CDC 51 deve ser aplicado. ainda que as partes não sejam. consumidoras . 30. a manutenção ilesa da pessoa vinculada ao negócio e de todos aqueles que.. exige um desmembramento do artigo. Até a teoria finalista. reside o maior óbice à aplicabilidade irrestrita da do Código do Consumidor em favor da pessoa jurídica. enfim. p. 1841)". 33. simples se mostra o estudo e pouco significa para qualificar um ente abstrato como consumidor. Basta que sua posição na aquisição do produto ou do serviço não o seja para fins de insumo. Até aqui. observando-o por quatro ângulos: 1) pessoa natural ou fictícia. de algum modo. Exigiu a Lei que a pessoa fosse destinatária final do produto ou do serviço..106 A exata definição. tais como a comodidade. É o item 4 o essencial. pois.. aos contratos de direito privado (civil e comercial). também merece especial atenção quando se tenta localizar a pessoa do consumidor em eventual interpretação do artigo 2º da Lei Consumerista. 1999. sendo que tal posicionamento já vem esboçado por Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery. 3) produto ou serviço. será consumidor se obter ou usufruir real ou potencialmente o produto ou o serviço." (CDC Comentado pelos autores do anteprojeto. Anote-se. Quando houver aquisição para a soma de todas as despesas (matéria-prima.). econômica e institucional. enfim. 4ª ed. No item 2 vê-se que a utilização é quantum satis. 2001. O item 1 estampa a intenção de aceitar a pessoa jurídica como consumidora. (Código de processo civil comentado. em suas necessidades básicas empresariais. Aqui. protegendo o mais fraco na relação de consumo. amortização etc. quando observam que: "Dado que a ilicitude das cláusulas abusivas é matéria que não fica restrita às relações de consumo. já a partir do seu art. 2) aquisição ou utilização.) que . por extensão. ainda que a inferência destes na relação de consumo seja simplesmente de exposição às práticas comerciais e contratuais..

Todos. deve-se ater ao bem comum. porquanto a Constituição manda proteger o consumidor. favorabilia sunt restringenda (restrinja-se o odioso. Eis a aplicação dos métodos teleológicos. enfim. prioritários aos métodos lógico e literal. É para ele que se destina a publicidade. inegavelmente. Sem ambos. em maior ou menor prazo. ainda. não se pode olvidar que o Código de Proteção e Defesa do Consumidor sobreveio com o escopo de dar plena e irrestrita eficácia à norma ápice. ubi eaden legis dispositio (onde existe a mesma razão fundamental prevalece a mesma regra de direito). Consumidor. dos valores sociais do trabalho e da iniciativa privada. em se concluir que há muitas pessoas jurídicas técnica e institucionalmente inferiores ao fornecedor e. não há giro da economia. Afora isso. e. e afastar-se-ia a sapiência dos aforismos: odiosa sunt amplianda. ou de consumidor. Nessa senda. Não parece haver muita dificuldade. difícil se mostra a erradicação da pobreza e da marginalização. justa e solidária. coisa que não foi determinada pela Norma Maior. que de forma léxica caminha junto como texto constitucional. nos direitos sociais. via de conseqüência. será bem de insumo e não de consumo. da sociedade livre. ou serviços. acabam sendo destruídos pelo ato de consumo. A defesa do consumidor e a função social da pessoa jurídica espelham fundamentais princípios erigidos a dogma de calibre constitucional. Se não os houvesse no sistema jurídico posto. aos fins sociais que se destina a lei. liberar-se-iam os abusos e o comprometimento da legitimidade jurídica. semanticamente dissecando.107 ocorrem na obtenção de um produto industrializado ou semi-industrializado. na linguagem do Código de Proteção e Defesa do Consumidor). Mas também. psicológica ou social. uma das células mais importantes da economia nacional é a pessoa do consumidor. consumidor e economia. Uma interpretação de norma jurídica deve guardar correspondência mínima com o texto legal. É para ele que são destinados os produtos e os serviços. Ambos têm imediata aplicabilidade nas relações econômicas e. é quem adquire ou utiliza bens (produtos. Todos esses fundamentos do Estado Democrático de Direito e da República Federativa do Brasil esvair-se-iam céleres com o vento. impossível a manutenção incólume da dignidade da pessoa humana. à vontade . assim como a redução das desigualdades sociais e regionais. amplie-se o favorável) e ubi eaden ratio legis. mais ainda. sob pena de esvair a pretensão da lei e obstar que ela cumpra sua verdadeira finalidade. do desenvolvimento nacional. Esta a definição de consumo. que. para a satisfação de necessidades ligadas à sua sobrevivência – lógica. Sem o consumidor. axiológicos e sistemáticos. Mas também os métodos lógico e literal dão guarida à aplicação do Código de Defesa do Consumidor às pessoas jurídicas. não é difícil localizar um ente abstrato destinatário final de certo produto ou serviço. Aqui pode limitar o campo de proteção. e não o consumidor de produtos ou serviços.

g. Ao fim e ao cabo. . apenas a incompatibilidade manifesta afasta a incidência do Código de Proteção e Defesa do Consumidor às pessoas jurídicas. enfim. Ademais. a todo o sistema normativo e. relações trabalhistas). tem ela de ser feita de maneira restrita. de vez que apenas a exceção esteve expressamente mencionada (v.. outorgando-se elastério ao intérprete.108 da norma. todas as vezes que a interpretação for conduzida no sentido de excluir direitos. quando então deverão prevalecer as regras do Código Civil. Enfim. se em compasso com os preceitos virtuais consagrados na Constituição Federal de 1988. anote-se que são exemplificativas as hipóteses de aplicação do Código Consumerista. a questões históricas. máxime as garantias fundamentais.

2.2 Riscos do desenvolvimento.2 Responsabilidade pelo fato do produto e do serviço. baseada na doutrina subjetiva ou teoria da culpa. de outro lado o risco. ou seja.1 Caso Fortuito e Força Maior.Conclusões. 2.109 Aspectos da responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor e excludentes Autoras: Michele Oliveira Teixeira Simone Stabel Daudt Sumário:Introdução. 2. 1. 1 Responsabilidade subjetiva e objetiva Dois são os fundamentos da responsabilização do agente: de um lado. a culpa.3 Exercício regular de direito. ligados pelo vínculo denominado nexo de causalidade. adota como regra a responsabilidade subjetiva. Mário A essência da responsabilidade subjetiva como enuncia o insigne jurista Caio [01] assenta-se fundamentalmente na pesquisa ou indagação de como o . EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE. Introdução O presente artigo aborda a responsabilidade civil prevista no Código de Defesa do consumidor e analisa as excludentes previstas em referido diploma legal. e. bem como outras existentes no ordenamento jurídico brasileiro e aplicáveis às relações de consumo.2. Responsabilidade civil no código de defesa do consumidor. 2. 2. 186 e 187.2. 2.2.1 Previstas no CDC. RESPONSABILIDADE CIVIL NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR 1. 1 Responsabilidade subjetiva e objetiva. 1. em seus arts. O Código Civil.2 Outras Excludentes. Referências Bibliográficas. 1. fundamentado pela doutrina objetiva ou teoria do risco. além da ação ou omissão que causa um dano. 1. deve restar comprovada a culpa em sentido lato.3 Responsabilidade pelo vício do produto e do serviço.1.

a comprovação da culpa para atribuir ao fornecedor a responsabilidade pelo dano. injustamente suportando os respectivos ônus". referido diploma adota a responsabilidade objetiva imprópria. o principal pressuposto dessa responsabilidade é a culpa. como regra. criando óbices. para a ação da vítima. Para a teoria objetiva interessa somente o dano para que surja o dever de reparação. em alguns casos. imperícia ou negligência (culpa em sentido estrito). também chamada da culpa presumida. como por exemplo nas hipóteses previstas nos artigos 931 e 936. Tratando-se de responsabilidade subjetiva a culpa integra esses pressupostos e a vítima só obterá a reparação do dano se comprovar a culpa [05] do agente. Não é apto a gerar o efeito ressarcitório um fato humano qualquer. pois. O fato danoso é que engendra a responsabilidade. Carlos Alberto Bittar [06] entende que: "Na teoria da culpa (ou "teoria subjetiva"). segundo a qual aquele que explora atividade econômica deve arcar com os danos causados por essa exploração. a responsabilidade civil surge pela prática de um ato ilícito [03]. A prova é. a fim de demonstrar-se. ou se atuou com imprudência. Não se perquire se o fato é culposo ou doloso. Segundo a teoria objetiva quem cria um risco deve responder por suas conseqüências. . Porém. que acaba. se quis o resultado (dolo). bem como.110 comportamento contribui para o prejuízo sofrido pela vítima. Assim. ainda que não tenha concorrido voluntariamente para a produção dos danos [07]. É preciso que este fato seja jurídico [02] e que seja ilícito. a responsabilidade objetiva. Basta a demonstração da existência de nexo causal entre o dano experimentado pelo consumidor e o vício ou defeito no serviço ou produto. ao contrário do Código Civil. dispensando. A opção legislativa reflete a adoção feita pelo legislador da teoria do risco do negócio. assim. O Código de Defesa do Consumidor. muitas vezes. de difícil realização. que é o conjunto de pressupostos da responsabilidade civil [04]. a responsabilidade objetiva. A vítima deverá provar somente o dano e o fato que o gerou. Com isso. cabe perfazer-se a perquirição da subjetividade do causador. basta que seja danoso. em concreto.

É importante ressaltar que o tratamento diferenciado dado aos profissionais liberais se limita ao fundamento da responsabilidade. distribuir e comercializar produtos ou executar determinados serviços." Contudo. c) o nexo de causalidade entre o defeito do produto e a lesão. 3º. quer perante os destinatários dessas ofertas. quer perante os bens e serviços ofertados. Como restam especificados no caput do art. há uma exceção à responsabilidade objetiva. condição esta que. os remete à responsabilidade objetiva. Sérgio Cavalieri ressalta [11]: "Este dever é imanente ao dever de obediência às normas técnicas e de segurança. respondendo pela qualidade e segurança dos mesmos. b) o dano efetivo moral e/ou patrimonial. . Nesse sentido salienta Paulo Lobo [14] que caso o legislador pretendesse a exclusão da incidência do CDC aos profissionais liberais os mesmos não deveriam estar englobados no art. O autor do dano indenizaria pelo só fato do dano mesmo sem se indagar da sua culpabilidade. inclusive a de inversão do ônus da prova [13]. no caso. bem como aos critérios de lealdade. o fator culpa seria de nula relevância. § 4º [12] trata da responsabilidade dos profissionais liberais. como é denominada por muitos. ou não. inexistindo incompatibilidade entre a norma e as demais regras protecionistas. o artigo 14. O fornecedor passa a ser o garante dos produtos e serviços que oferece no mercado de consumo.111 Claudia Lima Marques [08] ensina que para ser caracterizada a responsabilidade prevista no art. A responsabilidade decore do simples fato de dispor-se alguém a realizar atividade de produzir. Wilson Melo da Silva responsabilidade objetiva: [10] esclarece com propriedade a definição da "Pela teoria da responsabilidade objetiva ou sem culpa. e não só entre o dano e o produto [09]. se verificada. Bastaria que se demonstrasse apenas a relação de causalidade entre o dano e seu autor para que daí decorresse para o agente a obrigação de reparar". estocar. em suas atuações não ligadas a "obrigação de resultado".12 é necessária a ocorrência comprovada e concorrente de três elementos: a) existência do defeito. 12 que os danos indenizáveis são somente aqueles causados aos consumidores por defeitos de seus produtos observa-se ser necessária a existência de um defeito no produto e um nexo causal entre este defeito e o dano sofrido pelo consumidor.

construção. fórmulas. O art. execução ou comercialização de produto.)" Sérgio Cavalieri [15] define fato do produto como: "(. tem o direito de ser indenizado por todos os danos decorrentes [16]. apresentação ou acondicionamento de seus produtos. Assim. independentemente da existência de culpa. Outrossim. e o importador respondem. por fim. que ocorre no mundo exterior. interessa verificar se há possibilidade de transmitir ao consumidor informações que capacitem o consumidor do fornecimento em questão ao seguro consumo do produto ou serviço [17]. mas que decorre de um defeito do produto. alegando que o produto ainda não foi colocado no mercado. nacional ou estrangeiro. O artigo 8º do CDC estabelece que os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos á saúde ou segurança dos consumidores. o construtor. que o art. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto. que causa dano material ou moral ao consumidor (ou ambos).. o produtor. conforme ensina Silvio Luíz Ferreira da Rocha [18]: "O fornecedor que entrega seus produtos para exame ou prova não poderá subtrair-se da responsabilidade civil prevista. sendo obrigado o fornecedor a dar informações necessárias e adequadas a seu respeito. Seu fato gerador será sempre um defeito do produto. exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição.112 1. manipulação. 12 trata dos defeitos dos produtos. inadequações no produto que ocasionam uma lesão no consumidor. Importante destacar que existe responsabilidade inclusive se o produto foi distribuído gratuitamente. isto é. aquele que sofrer acidente de consumo decorrente de defeito de concepção. daí termos enfatizado que a palavra-chave é defeito. montagem. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos(. uma vez colocados no mercado..) um acontecimento externo..2 Responsabilidade pelo fato do produto e do serviço Dispõe o artigo 12: " O fabricante." Ou seja.. fabricação. o fornecedor será responsável também por produtos . 10º impede a colocação no mercado produto ou serviço com alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança. Ressalte-se.

Para Rizzatto os vícios são aqueles problemas que: a) fazem com que o produto não funcione adequadamente. embalagem. c) diminuam o valor do produto. e) os serviços apresentem funcionamento insuficiente ou inadequado [23]. A falta de qualidade no fornecimento nem sempre é causa de danos à saúde.) [20]. 1. que o produto entre no mercado de consumo de forma voluntária e consciente. sem causar dano à saúde/integridade física do consumidor. para haver a responsabilidade do fornecedor é necessário. . como a entrega de bens a seus empregados. 12 a 14. além é claro.113 distribuídos a título gratuito. 18 e ss) e os vícios por insegurança (art. a título de donativo para instituições filantrópicas ou com objetivos publicitários. ainda. do defeito e do nexo de causalidade entre este e o dano sofrido pelo consumidor. Os "vícios" no CDC são os vícios por inadequação (art. O art.3 Responsabilidade pelo vício do produto e do serviço A responsabilidade por vício do produto ou serviço não está relacionada com aquela tratada pelos arts. Da mesma forma são considerados vícios os decorrentes da disparidade havida em relação às indicações constantes do recipiente. oferta ou mensagem publicitária. d) não estejam de acordo com informações." Portanto. Acentua Luiz Rizzatto Nunes: "São consideradas vícios as características de qualidade ou quantidade que tornem os produtos ou serviços impróprios [característica que impede seu uso ou consumo] ou inadequados [pode ser utilizado." [21] O CDC prevê três tipos de vícios por inadequação dos produtos: vícios de impropriedade. b) fazem com que o produto funcione mal. vícios de diminuição do valor e vícios de disparidade informativa [22]. integridade física e interesse patrimonial do consumidor. Apresentando um vício existe a responsabilidade do fornecedor. ou. mas com eficiência reduzida] ao consumo a que se destinam e também que lhes diminuam o valor. rotulagem.12 e ss. doação de bens destinados a vítimas de catástrofes". não elide a responsabilidade do fornecedor. 18 elenca as hipóteses em que há vício no produto. Coaduna de tal entendimento Zelmo Denari [19]: "A circunstância de o produto ter sido introduzido no mercado de consumo gratuitamente. promoçõe publicitárias.

marca ou signo distintivo. o nexo causal entre o prejuízo sofrido pelo consumidor e a atividade do fornecedor. por exemplo). Tais hipóteses estão elencadas no artigo 12. de forma que se não ostentar vício de qualidade ocorre a quebra da relação causal ficando elidida a responsabilidade do fornecedor. sem dúvida. Refere o autor: "Os exemplos mais nítidos da causa excludente prevista no inc. nesta última hipótese da falsificação do produto. à revelia do fornecedor. § 3° do artigo 14. as hipóteses que mitigam a responsabilidade do fornecedor pelo fato do produto e do serviço. pode ocorrer que. Zelmo Denari [27] afirma que o defeito do produto ou serviço é um dos pressupostos da responsabilidade. § 3° do artigo 12. causado pelo produto.1 Previstas no CDC O Código de Defesa do Consumidor estipula as causas excludentes. Da mesma sorte. para os produtos que. O dano foi. § 3° e no artigo 14. por ato ilícito (roubo ou furto.114 2." O inciso II do mencionado dispositivo legal. Nega-se aí. A primeira eximente. EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE 2. Ressalta-se que a inexistência de qualquer dos defeitos elencados no caput do . posteriormente. mas inexiste nexo de causalidade entre ele e quaisquer das atividades do agente. ou com a usurpação do nome. arrolada no inciso III. circunstância esta eximente da sua responsabilidade. tenha sido introduzido no mercado de consumo. I seriam aqueles relacionados com o furto ou roubo de produto defeituoso estocado no estabelecimento. segundo Zelmo Denari [25]. trazem como excludente da responsabilidade do fornecedor a inexistência de defeito. Nesse sentido manifesta-se Antonio Herman de Vasconcelos Benjamin [26]: "É até supérfulo dizer que inexiste responsabilidade quando os responsáveis legais não colocaram o produto no mercado. forma lanaçados no mercado. o produto defeituoso tenha sido apreendido pela administração e. ou seja. cuidando-se. em função do vício de qualidade. diz respeito à introdução do produto no ciclo produtivo-distributivo de forma voluntária e consciente. ainda. bem como o inciso I. § 3° do Código de Defesa do Consumidor [24]. Isso vale especialmente para os produtos falsificados que trazem a marca do responsável legal ou.

inciso III. aplicável. Apenas se provar que o acidente de consumo se deu por culpa exclusiva do consumidor é que ele não responde". disolvendo-se a própria relação de causalidade. Dessa forma. quando o juiz considera verossímeis as alegações do consumidor. Antônio Herman Vasconcelos Benjamin e Bruno Miragem: [28] "O sistema do CDC prevê a exoneração na hipótese do inciso III do § 3° do artigo 12. deverá ser demonstrada pelo fornecedor. as informações do produto são insuficientes e também o consumidor agiu com culpa). como o caput do artigo 12 dispõe que a responsabilidade é pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos. a responsabilidade se atenua em razão da concorrência de culpa e os aplicadores da norma costumam condenar o agente causador do dano a reparar pela metade do prejuízo. hipótese esta que no sistema da Directiva européia ficaria submetida ao ju´zio de valor do judiciário. haverá redução do montante indenizatório. desaparece a relação de causalidade entre o defeito do produto e o evento danoso. Esclarece Zelmo Denari [29] que culpa exclusiva não se confunde com culpa concorrente: "no primeiro caso. § 3° do artigo 12 e o inciso II. a redução do montante a ser pago a título de . nos termos do artigo 6º. inexistindo estes não há que se falar em dever de indenizar. não haveria nexo causal entre o defeito e o evento danoso (cupla da vítima)". por fim. em caso de culpa concorrente. o inciso III. no segundo. Alberto do Amaral Junior [31] salienta que "o concurso de culpa do consumidor lesado produz. de culpa exclusiva da vítima ou de terceiro. em caso de culpa concorrente. Entretanto. E.115 artigo 12. segundo as regras de experiência. No entender de Cláudia Lima Marques. tratam da culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. mas que no sistema do CDC exonera os fornecedores. ficando afastada tal responsabilidade no caso de culpa exclusiva do consumidor: "Se for caso de culpa concorrente do consumidor (por exemplo. como conseqüência. § 3° do artigo 14. em havendo a inversão do ônus da prova. ainda assim a responsabilidade do agente produtor permanece integral. cabendo à vítima arcar com a outra metade" Sustenta Luiz Antonio Rizzatto Nunes [30] que a responsabilidade do fornecedor permanece integral. embora permaneça integral a responsabilidade do fornecedor. pois mesmo existindo no caso um defeito no produto.

apesar do Código de Defesa do Consumidor não fazer menção à culpa concorrente do ofendido. 2. o rol ali indicado é taxativo. § 3° e 14. devendo se ater a sua forma declarativa ou estrita. tais como o caso fortuito ou força maior. riscos de desenvolvimento e exercício regular de direito. prevê a exclusão da responsabilidade do fornecedor nos artigos 12. capaz de afastar a responsabilidade do fornecedor. em havendo a inversão do ônus da prova. deve por este ser provada. seria o mesmo que permitir o beneficío da integralidade indenizatória aquele que veio a concorrer para o evento lesivo. Para Roberto Senise Lisboa [34] se na interpretação das normas restritivas de direito não pode o interprete querer alargar a aplicação da norma. 2. verifica-se que este diploma legala silencia quanto o caso fortuito e a força maior. descritas no artigo 393 do Código Civil. a doutrina aponta outras eventuais hipóteses de exclusão de responsabilidade. Ressalta-se que a conduta culposa do consumidor. Antonio Herman de Vasconcelos Benjamin [35] afirma que a questão deve ser tratada de forma diversa: "A regra no nosso direito é que o caso fortuito e a força maior excluem a responsabilidade civil. § 3° do Código de Defesa do Consumidor.116 ressarcimento". poderão forrar-se à reparação na proporção em que provarem a culpa do consumidor". Luiz Antônio Rizzatto Nunes [33] entende que por ter o § 3º do artigo 12 utilizado o advérbio "só". e não autoriza a inclusão dessas excludentes: "o risco do fornecedor é mesmo integral. O Código.1 Caso Fortuito e Força Maior Pela análise das eximentes expressamente previstas nos artigos 12. entende a doutrina que. Por essa razão discute-se na doutrina se o caso fortuito e a força maior podem ser considerados como excludentes para as relações jurídicas de consumo. § 3°. § 3° e 14.2. Não admiti-la. deve ser considerada como atenuante no momento da fixação do montante indenizatório. Assim. entre as causas excludentes de . conforme mencionado. tradicionais excludentes da responsabilidade. Contudo. tanto que a lei não prevê como excludentes do dever de indenizar o caso fortuito e a força maior". Nessa mesma linha Carlos Alberto Bittar [32]: "havendo culpas concorrentes.2 Outras Excludentes O Código de Defesa do Consumidor. apesar de não ser excludente de responsabilidade. não é possível aplicar as normas do Código Civil nas relações consumeiristas.

A força . No entender de Eduardo Gabriel Saad. por exemplo. Branco [37] muito embora o artigo 12 especifique que o fornecedor apenas não será responsabilizado quando provar que não colocou o produto no mercado. não os elenca. entre as causas do acidente de consumo. não foi afastado. Nesse sentido sustenta Fábio Ulhoa Coelho [39] que fica afastada a responsabilidade do fornecedor se demonstrar a presença de caso fortuito ou força maior. trata-se de uma impropriedade de redação: "O Código não pode obrigar o fornecedor a indenizar se sua inadimplência contratual ou responsabilidade aquiliana originaramse de caso fortuito ou de força maior". posteriores ao fornecimento: "O fornecedor também é liberado do dever de indenizar em demonstrando a presença. quer me parecer que o sistema tradicional. desde que posteriores ao fornecimento. ambas as hipóteses possuem força liberatória e excluem a responsabilidade. o fornecedor responderá pelos danos: "Isto porque até o momento em que o produto ingressa formalmente no mercado de consumo tem o fornecedor o dever de garantir que não sofre qualquer tipo de alteração que possa torná-lo defeituoso. José Eduardo Duarte Saad e Ana Maria Saad C. neste ponto." João Batista de Almeida [36] salienta que "Apesar de não prevista expressamente na Lei de proteção.117 responsabilidade. pois. Também não os nega. então. Contudo. James Marins [38]sustenta que o caso fortuito ou a força maior poderão afastar a responsabilidade do fornecedor ou não dependendo do momento em que ocorreram. ficando. afastada a responsabilidade do fornecedor. Exemplifica o autor: "Não teria sentido. da força maior ou do caso fortuito. há a ruptura do nexo de causalidade. Caso se manifestem antes da inserção do produto no mercado de trabalho. a capacidade do caso fortuito e da força maior para impedir o dever de indenizar. mantendo-se. Logo. oferecendo riscos à saúde e segurança do consumidor. que inexiste defeito ou que houve culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. responsabilizar-se o fornecedor de um eletrodoméstico. em conseqüência. porque quebram a relação de causalidade entre o defeito do produto e o dano causado ao consumidor". e. causa incêndio e danos aos moradores: inexistiria nexo de causalidade a ligar eventual defeito do aparelho ao evento danoso". se um raio faz explodir o aparelho. mesmo que o fato causador do defeito seja a força maior". se o caso fortuito ou a força maior ocorrerem após a introdução do produto no mercado de consumo.

(.2. a interpretação acerca do disposto no inciso III do §1º do art. 12 do Código de Defesa do Consumidor. parte dos autores entendem que estão pressupostos da responsabilidade do fornecedor. nem tinha como prever ou evitar. capaz de causar danos aos consumidores". ainda que exaustivamente testado. .) Com efeito a manifestação de tais fatores. nesse ponto. posteriormente. dano e nexo causal. por isso. ante o grau de conhecimento científico disponível à época de sua introdução. Contudo.118 maior ou o caso fortuito anteriores ao fornecimento não configuram excludente de responsabilização. decorrido determinado período do início de sua circulação no mercado de consumo.. afastada a responsabilidade. Dessa forma. quais sejam defeito. restando. divide-se entre defensores e oposicionistas. consistem: "(. que. 2. a maioria da doutrina parece consolidar o entendimento de que ocorrendo o caso fortuito ou a força maior. não se podendo responsabilizar o fornecedor por aquilo que não deu causa. enquanto outros afirmam inexistir um desses pressupostos.. não se responsabiliza o empresário pelos prejuízos do consumidor." Percebe-se que a doutrina. por acidente de consumo. ocorrendo todavia. o defeito. uma vez que o fundamento racional da responsabilidade objetiva do empresário. Antônio Herman de Vasconcellos Benjamim [41] conceitua os riscos do desenvolvimento como: "aquele risco que não podem ser cientificamente conhecidos ao momento do lançamento do produto no mercado. ou seja. haverá a quebra do nexo causal.. O centro dessa divergência é. Por exemplo. posteriormente ao fornecimento. somente identificável ante a evolução dos meios técnicos e científicos.. se o eletrodoméstico é inutilizado por um raio.) na possibilidade de que um determinado produto venha a ser introduzido no mercado sem que possua defeito cognoscível. se encontra exatamente na constatação da relativa inevitablidade dos defeitos no processo produtivo.2 Riscos do desenvolvimento Os riscos do desenvolvimento. pois. segundo James Marins [40]. venha a se detectar defeito. vindo a ser descoberto somente após um certo período de uso do produto e do serviço. desconstitui qualquer liame causal entre o ato de fornecer produtos ao mercado e os danos experimentados pelo consumidor. Há divergência doutrinária quanto a caracterização dos riscos do desenvolvimento como hipótese de defeito dos produtos.. se discute na doutrina a adoção pelo CDC dos riscos de desenvolvimento como eximentes da responsabilidade do fornecedor.

Diante disso não se pode dizer ser o risco de desenvolvimento defeito de criação. Ensina o mencionado autor que para compatibilizar a os riscos do desenvolvimento com a responsabilidade do fornecedor devem ser analisados dois aspectos. está muito distante de significar adoção da teoria dos riscos de desenvolvimento. em nível legislativo. com a responsabilidade objetiva imposta ao fornecedor. conforme sustenta João Calvão da Silva [45]. então. a necessidade de se compatibilizar a excludente. os quais chama de requisito temporal e requisito técnico. afirmando que o inciso III do § 1º do art. seria responsabilizado o fornecedor por um defeito que não tinha como perceber no momento em que colocou o produto em circulação: "teríamos uma aplicação retroativa do padrão ou de medida de . produção ou informação. como propôs a Comunidade Econômica Européia" Marcelo Junqueira Calixto [43] adota posicionamento contrário. por nós chamado de "requisito técnico". não era possível ser descoberto pelo estado dos conhecimentos técnicos e científicos contemporâneo à introdução do produto no mercado de consumo. que podemos chamar de "requisito temporal". III do artigo 12. 12 representa a adoção da teoria dos riscos de desenvolvimento. b) o segundo. sendo o momento a ser considerado para a verificação dos estado dos conhecimentos científicos e técnicos e o segundo o critério para avaliação do estado da ciência e da técnica: "De início deve ser lembrado que a Diretiva 85/374/CEE expressamente faz referência à existência de um defeito que.119 Zelmo Denari [42] coloca-se entre os que defendem a não adoção da eximente dos riscos de desenvolvimento sutentando que "a dicção normativa do inc. diz respeito ao critério para avaliação do estado da ciência e da técnica.." Nesse mesmo sentido. do Código de Defesa do Consumidor. Caso contrário. James Marins requisito temporal afirma: [44] .. é lícito ao fornecedor inserir no mercado de consumo produtos que não saiba nem deveria saber resultarem perigosos porque o grau de conhecimento científico à época da introdução do produto no mercado de consumo não permitia tal conhecimento. entretanto. enquadramento este que é indispensável para que se possa falar em responsabilidade do fornecedor". prevista como regra. Para essa compatibilização devemos considerar dois requisitos: a) o primeiro. diz respeito ao momento que deve ser tomado em consideração para a verificação do estado dos conhecimentos científicos e técnicos. §1º. ao manifestar-se sobre o referido ". Surge.

2.120 responsabilidade. Realizar cobrança. tais direitos devem ser exercidos pelo fornecedor atendendo aos ditames dos artigos 42 e 43 do Código de Defesa do Consumidor. nem na defeituosidade (porque cumpriu o dever de pesquisar)". afastando a responsabilidade civil. Muito embora o Código de Defesa do Consumidor silencie quanto ao exercício regular de direito. Tem a possibilidade até mesmo de ameaçar." Posiciona-se. à época da introdução do produto ou serviço no mercado de consumo. entende a doutrina que por ser ele ato lícito. apresenta riscos cuja potencialidade não pôde ser antevista pela ciência ou tecnologia. 2. mesmo que provoquem transtornos ao consumidor. ao referir: "ao fornecer no mercado consumidor produto ou serviço que. salienta Antônio Herman de Vasconcelos Benjamin [47] que a análise do grau de conhecimento científico não é feita tomando por base um fornecedor em particular. o momento da distribuição do produto.3 Exercício regular de direito O inciso I do artigo 188 do Código Civil prevê que o exercício regular de um direito reconhecido não constitui ato ilícito. Contudo. afastada estará a responsabilidade do fornecedor. portanto. pois à luz do novo conhecimento e tecnologia responsabilizar-se-ia o fabricante por um defeito existente mais indetectável no estado da ciência e da técnica em momento anterior. somente não podendo fazêlo de forma abusiva. o credor remete carta ao devedor dizendo (ameaçando) que irá ingressar com ação judicial para cobrar . o credor tem o direito de cobrar seu crédito do consumidor inadimplente. No tocante ao requisito técnico. nesse sentido Fábio Ulhoa Coelho [46]. Verifica-se que a doutrina entende ter o Código de Defesa do Consumidor adotado a teoria dos riscos de desenvolvimento e ressalta a necessidade de avaliação do grau de conhecimento científico. "desde que tal ameaça decorra daquele regular exercício de cobrar. vale ressaltar que. enviar um título vencido e não para cartório de protesto. posteriormente. aquilo que sabe a comunidade científica em determinado momento histórico. também. Conforme o entendimento de Luiz Antônio Rizzatto Nunes [48]. são exemplos de exercício regular de direito do fornecedor e. com a conseqüente inclusão do nome do devedor em banco de dados. por exemplo. o empresário não deve ser responsabilizado com fundamento nem na periculosidade (pois prestou informações sobre os riscos adequados e suficientes). de atos lícitos. de acordo com a comunidade científica.

Proteção do consumidor no contrato de compra e venda. São Paulo: Saraiva. vol. Forense Universitária. 2005. Curso de direito comercial. BENJAMIN. I. DENARI.} – 8ª ed. Rio de Janeiro. 9. A responsabilidade civil do fornecedor de produtos pelos riscos do desenvolvimento. Macelo Junqueira. São Paulo: Saraiva. 1994. Referências Bibliográficas ALMEIDA. também. 1993. Carlos Alberto. Responsabilidade Civil – Teoria e Prática. Fabio Ulhoa. por ser ato lícito. Conclusões A responsabilidade civil prevista no Código consumeirista é objetiva. Carlos Alberto. A proteção jurídica do consumidor. 1991. BITTAR. São Paulo: Saraiva. São Paulo: RT. CALIXTO. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. agindo de forma abusiva. Porém. não dará ensejo a responsabilização do fornecedor. {et. São Paulo: Saraiva. Alberto do. bastando ao lesado comprovar o dano e o nexo causal. 2004. Direitos do Consumidor. 1990. 2005 . Rio de Janeiro: Renovar. Antonio Herman de Vasconcelos. João Batista de. Tais excludentes são aquelas expressas no próprio CDC. Rio de Janeiro: Forense Universitária. AMARAL JUNIOR. nas relações de consumo. COELHO. a força maior e o exercício regular de direito. BITTAR. al. 1993.. Zelmo e outros. O dever indenizatório decorrente da responsabilidade comporta exceções. ________.ed. como o caso fortuito. 30. O Empresário e os direitos do consumidor. o exercício regular de um direito. Somente haverá responsabilização caso o fornecedor viole os dispositivos que disciplinam a ação regular de cobrança e o cadastro de consumidores em bancos de dados. . Comentários ao código de proteção do consumidor – coordenador: Juarez de Oliveira.121 o débito" Assim. p. entende a doutrina existirem outras aplicáveis.

Responsabilidade civil nas relações de consumo. Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. ver. Os fatos jurídicos são aqueles que têm relevância jurídica e dividem-se em: naturais (decorrem de acontecimentos da própria natureza) e voluntários (têm origem em condutas humanas capazes de produzir efeitos jurídicos). São Paulo: Revista dos Tribunais. 1990.. Claudia Lima. 29. 2005. ROCHA. Branco.34. abril-junho. MARQUES. N. ª NUNES. a responsabilidade civil surge pela prática de um ato ilícito. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. 2000. 1º a 54). João Clavão da. Antônio Herman V. Revista de direito do consumidor. MARINS. José Eduardo Saad e Ana Maria Saad C. São Paulo: RT. Responsabilidade civil do produtor. LISBOA. Responsabilidade Civil. Luiz Antonio Rizzatto. 29. A responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro. MARQUES. PEREIRA. Silvio Luís Ferreira da.078/90/ Eduardo Gabriel Saad. Responsabilidade sem culpa. Caio Mário da Silva. Programa de Responsabilidade Civil. 2003. Cláudia Lima. SILVA. . Coimbra: Livraria Almedina. Bruno Miragem. Wilson Melo da. Benjamin. SILVA. James. Sérgio Cavalieri. Responsabilidade Civil.122 FILHO. São Paulo: RT. 2 tiragem. São Paulo: Saraiva. São Paulo: LTr. 1993. 6ª ed. Os voluntários se dividem em: lícitos (fato praticado em harmonia com a lei) e ilícitos (fato que viola o dever imposto pela norma jurídica). Paulo Luiz Netto. 2000 SAAD. Contratos no Código de Defesa do Consumidor 3 ª ed. Roberto Senise. Notas 01 02 PEREIRA. E ampl. Assim. São Paulo: Malheiros. 2000. Caio Mário da Silva. 2001. p. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor:direito material (arts. Eduardo Gabriel. p. São Paulo: Revista dos Tribunais. 1999. 8. São Paulo: Saraiva. 2006. LOBO. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor e sua jurisprudência anotada: Lei n.

abriljunho. Revista de direito do consumidor. São Paulo: Saraiva. COELHO. vol. Carlos Alberto. Contratos no Código de Defesa do Consumidor 3 ed. dolosa e culposa. Fábio Ulhoa. 225. MARQUES. Luiz Antônio Rizzatto. Fabio Ulhoa. 19 . no presente trabalho. p.34. Responsabilidade Civil – Teoria e Prática. p. 10 11 12 09 SILVA. Wilson Melo da. Ob. 15 16 14 13 FILHO. " §4º A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante verificação da culpa.123 03 04 05 Ressalte-se que há casos em que o ato lícito gera o dever de indenizar." Nesse sentido: " Cirurgião – dentista – Direito do consumidor – Facilitação de defesa – ônus da prova – Inversão – Possibilidade – Profissional liberal – Responsabilidade Civil" (RSTJ 115/271). 9. Cit. NUNES. 498. São Paulo: RT. 2000.. 497. 150-51. p. p. Claudia Lima.. p. 279. {et. I. . 1999. Benjamin. 2005. Ob cit. 104. Comentários ao código de defesa do consumidor. isto é. Curso de direito comercial. 2000. al. FILHO. Responsabilidade sem culpa. Sérgio Cavalieri. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. deve ser entendida como latu sensu. LOBO. 2000. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. 2003. 06 07 BITTAR. Programa de Responsabilidade Civil. Bruno Miragem. 263. 30.ed..100.} – 8ª ed. N. 2005. 2ª ed.. 2005. p. 28. Sérgio Cavalieri. 2 tiragem. p. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. São Paulo: Saraiva. p. 17 18 COELHO. A responsabilidade civil do fornecedor pelo fato do produto no direito brasileiro. A culpa. Antônio Herman V. Sérgio Cavalieri. Programa de Responsabilidade Civil. Paulo Luiz Netto. São Paulo: Revista dos Tribunais. p..p. ª ª 08 Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. 188. FILHO. Rio de Janeiro: Forense Universitária. p.

São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar: I . 23 24 NUNES.a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. 213-4.p. O fornecedor de serviços responde. apresentação ou acondicionamento de seus produtos.. 2003.. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto. Ob. manipulação. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. fabricação.124 Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. p. 12. Benjamin. O fabricante. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. II . (. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor: arts. p. 25 .. p.. {et. construção. 286. Luiz Antônio Rizzatto. o produtor. ob.. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Bruno Miragem. Cit.) 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar: I . al. 278. . Antônio Herman V. montagem. Benjamin. 2005. Rio de Janeiro: Forense Universitária.. embora haja colocado o produto no mercado. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. Art. independentemente da existência de culpa. Bruno Miragem. tendo prestado o serviço.que não colocou o produto no mercado. III . Luiz Antônio Rizzatto. o defeito inexiste. II . 2003.. 188. nacional ou estrangeiro. p. e o importador respondem.que. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. independentemente da existência de culpa. Art. 286. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. 14.} – 8ª ed. o defeito inexiste. o construtor. 21 22 20 NUNES. (.) 3° O fabricante.que. o construtor. fórmulas. Antônio Herman V.a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. Cit.

Benjamin.} – 8ª ed. 281. Comentários ao Código de Defesa do Cosumidor: arts. São Paulo: Saraiva. ver. p. 288. p. 2000. 38 Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. 1990. p. vol I. Rio de Janeiro: Forense universitária. José Eduardo Saad e Ana Maria Saad C. Antônio Herman V. Branco. 6ª ed. p. Proteção do consumidor no contrato de compra e venda. – Coordenador Juarez 153. 169. 170. p. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor – Coordenador Juarez de Oliveira. São Paulo: Saraiva. 32 33 31 30 29 28 27 26 Direitos do consumidor. . 2005. 1991.078/90/ Eduardo Gabriel Saad.125 Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. 2003. al. São Paulo: Saraiva. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. 2005. Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. p. 1º a 74: aspectos materiais/ Cláudia Lima Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária. {et. 69. 1991. 1993. São Paulo: Saraiva. São Paulo: RT. 2006. São Paulo: RT. p. 41 . p.} – 8ª ed. al.. p. p. E ampl. p. 36 37 35 34 A proteção jurídica do consumidor. 2005. Curso de Direito Comercial. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor e sua jurisprudência anotada: Lei n. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. São Paulo: Saraiva. 2001. 35. 67. São Paulo: LTr. Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. 271. 1993. São Paulo: Revista dos Tribunais. 39 40 128. 65. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. {et. 1993. 8. Rio de Janeiro: Forense Universitária.. Bruno Miragem. p. São Paulo: Saraiva. 1993. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. Responsabilidade civil nas relações de consumo. p. 188. 2000. p. . p. 189. São Paulo: RT. 227. 278.

48 Vícios no Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor: diferenças Autor: Ricardo Canguçu Barroso de Queiroz Em consequência da revolução tecnológica. . 2005. p. São Paulo: Saraiva. a produção e a comercialização se . 1994. 2000.126 de Oliveira. p. Coimbra: Livraria Almedina. 1991. p. Rio de Janeiro: Forense Universitária. São Paulo: Saraiva. 1993. São Paulo: RT. 1991. 84. 2004. p.} – 8ª ed. p. 1990. 46 47 Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor – Coordenador Juarez de Oliveira. p. A responsabilidade civil do fornecedor de produtos pelos riscos do desenvolvimento. 45 509. 200. O empresário e os direitos do consumidor. al. 67 Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. 135. São Paulo: Saraiva. {et. 186-187. p. 67 Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pelegrini Grinover. Responsabilidade civil do produtor.. 44 43 42 Responsabilidade da empresa pelo fato do produto. Rio de Janeiro: Renovar. p. São Paulo: Saraiva. 506.

portanto aos fatos do produto ou serviço e "vício" está associado à deficiência de qualidade ou quantidade do produto ou serviço. em que o mais importante era a preservação do contrato. considera-se irrelevante que o consumidor tenha ou não conhecimento do vício e tenha ele surgido antes ou depois da tradição do produto. O sistema do Código Civil. aumentaram os riscos ao público consumidor. afinal como já falamos. seja o comerciante. o distribuidor. Já no CDC o consumidor poderá acionar quaisquer dos componentes da cadeia de produção e comercialização. como vigora a vulnerabilidade do consumidor. além da inversão do ônus da prova em favor do consumidor. com berço no individualismo negocial. baseada na culpa do fornecedor. com quem contratou diretamente. resultando na evolução da produção em pequena escala para a produção em série. c)O CC não prevê a solidariedade entre os fornecedores componentes da cadeia de produção e comercialização. passou. senão vejamos: a)Para o CC as expressões "vício" e "defeito" são equivalentes. e)O CC não prevê responsabilização pelos vícios aparentes ou de fácil constatação. no CDC a responsabilidade pelos vícios é subjetivo com presunção de culpa do fornecedor. não há necessidade de haver relação contratual entre o consumidor e o sujeito passivo demandado pelo vício do produto ou serviço. mas . sendo que tais problemas só foram suprimidos com o advento do Código de Defesa do Consumidor. Assim. a não mais corresponder às expectativas do mercado de consumo e do progresso tecnológico da produção em massa. abrangendo. estando associado. desde que dentro dos prazos decadenciais. o fabricante. e com o objetivo de estabelecer-se o equilíbrio contratual. por sua vez. assim. Além disso tais devem ser preexistentes ou contemporâneos à entrega da coisa. a responsabilização pelos vícios da coisa. b)Enquanto no CC vigora a responsabilidade subjetiva pura. o consumidor só pode acionar o fornecedor direito. Ante a necessidade de uma proteção mais ampla do consumidor na relação de consumo. assim. dada a grande diversidade de produtos no mercado. f)O CC não prevê proteção aos vícios ocorridos na prestação de serviços. só é permitida se esta tiver sido recebido em virtude de relação contratual (contratos comutativos ou doação com encargo). enquanto que no sistema do CDC "defeito" é vício mais dano à saúde ou segurança. os ocultos. há solidariedade entre os componentes da cadeia de fornecedores . ou todos eles conjuntamente. provenientes de erros técnicos e falhas no processo produtivo. No CDC. a noção de vício no CDC é bem mais eficiente do que a estabelecida pelo direito tradicional. apenas.127 dissociaram. d)Pelo CC. No CDC.

Rio de Janeiro: Forense Universitária.Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto . Já no CDC havendo relação de consumo. 1992. RT. a possibilidade da troca do produto por outro de espécie. g)No CC caso comprovada a boa-fé (ignorância) do alienante será obrigado a restituir apenas a coisa viciada. pouco importa o comprovação ou não de má-fé do fornecedor.Revista de Direito do Consumidor n. de maneira que somente quando comprovada a má-fé aquele será responsabilizados por perdas e danos. a restituição da quantia paga ou abatimento do preço.São Paulo: Editora RT. assim como. Por sua vez. para obter-se a reparação integral (danos materiais + danos pessoais). o CDC tais prazos se iniciam a partir do momento em que o consumidor toma conhecimento do vício ou do dano (a prescrição é de 5 anos). mediante complementação ou restituição de eventual diferença de preço.LISBOA. 1998 2 . marca ou modelo diverso.CARNEIRO. Ed.A responsabilidade pelos vícios dos Produtos no Código de Defesa do Consumidor . BIBLIOGRAFIA 1 . enquanto que o CDC contempla ao consumidor as possibilidades de exigir a reexecução do serviço. Zelmo . No CDC as possibilidades estão ampliadas.128 tão somente do produto. i)No CC os prazos de prescrição e decadência são contados à partir da entrega da coisa (a prescrição é de 15 dias para bem móvel e 6 meses para bem imóvel). 1993. .São Paulo: Ed. estabelecendo dentre as hipóteses a substituição do produto. ou seja. Roberto Senise . h)O CC só prevê duas possibilidades de reparação: a ação redibitória (o contrato é levado a termo e o comprador é restituído integralmente pelo pagamento) ou a ação estimatória (o comprador obtém a redução do valor pago). 03. Revista de Direito do Consumidor n. 1999. Odete Novais .JÚNIOR. Alberto do Amaral . a culpa não enseja a responsabilização pelos danos materiais (lucro cessante + dano emergente) ou pessoais (morais).Da Responsabilidade por Vício do Produto e do Serviço . 4 – DENARI.Vício do Produto e a exoneração da responsabilidade. 05 . RT: São Paulo. a restituição da quantia paga ou o abatimento do serviço caso encontre-se responsabilidade do fornecedor de serviços pelos vício de adequação (quantidade e qualidade). 3 .

proporcionando-lhe as informações necessárias para tal. [02] segundo o qual o produto deve proporcionar ao consumidor exatamente aquilo que ele esperava ou deveria esperar quando o adquiriu. de acordo com a finalidade para a qual foram desenvolvidos e que. No âmbito das relações de consumo. uma vez que impõe aos fornecedores o dever de colocar no mercado produtos indenes de vícios. observa-se claramente que o regramento que é dispensado à matéria tem reflexo imediato na segurança dos consumidores. um novo modelo de responsabilidade. com isso. a responsabilidade civil legal. hodiernamente. a responsabilidade civil do fornecedor pode emergir em decorrência de diversas espécies de vícios dos produtos. 1. Ao fim. O fornecedor deve assegurar ao consumidor a correta utilização do produto.129 A responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos no Código de Defesa do Consumidor Autor: Fabrício Castagna Lunardi Resumo O instituto da responsabilidade civil evoluiu rapidamente nas duas últimas décadas. a fim de evitar que eventuais danos venham a ocorrer pela imperícia natural dos consumidores. Consumidor. tendo-se. simultaneamente. a responsabilidade civil por vícios de inadequação ou por vícios de insegurança. assim. que recebem tratamento jurídico diferenciado pelo Código de Defesa do Consumidor. ofereçam segurança aos seus usuários.º 8. um novo conceito. sob pena de responsabilização. que é assentado na solidariedade social e na efetiva reparação dos danos aos consumidores. Haverá.078/90) adotou o Princípio da Confiança. [01] Para proteger a legítima expectativa que tem o consumidor na qualidade e utilidade do produto. [03] É o que a doutrina uruguaia chama de Principio de Autoresponsabilidad. Cria-se. Fornecedor. Introdução O produto adquirido pelo consumidor deve corresponder a exatamente aquilo que dele se espera. Palavras-chave: Responsabilidade. [04] que informa que o . o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor (Lei n. A justa expectativa dos consumidores e do público em geral frente aos produtos lançados no mercado é a de que eles funcionem regularmente.

à medida que não há um controle individual da adequação e segurança de cada unidade que é lançada no mercado. É o caso. [05] No entanto. quando o peso ou a medida informada não corresponder à prestada pelo fornecedor ou à indicada na embalagem. Outrossim. o que varia de acordo com a espécie de vício (ou defeito) que apresenta o produto. cresceu a incidência de vícios e defeitos nos produtos. de qualquer forma. Ocorrem. como adiantes se demonstrará. mantendo o produto sempre atualizado em matéria de segurança. que tem como característica principal a produção em série.130 fornecedor deve prestar informações de forma clara. pois é responsável por aquilo que informa na oferta. precisa e sem ambigüidades. quando afetem sua prestabilidade e utilização. Por isso. e não colocar no mercado produtos que ofereçam riscos. é utópico. Dessa sorte. surge para o produtor uma dupla obrigação: fornecer produtos adequados às suas próprias finalidades. quando a informação prestada não corresponde verdadeiramente ao produto. da televisão que não tem boa imagem. tem o fabricante o dever de controlar o processo de produção e de conhecer todas as inovações tecnológicas. Dos vícios de inadequação e dos vícios de insegurança Os vícios de inadequação são aqueles que afetam a prestabilidade do produto. . A inadequação. portanto. Com o surgimento e alargamento do processo de industrialização. Os produtos defeituosos acabam sendo um resultado marginal e inexorável da produção industrial. o modelo ideal de produção. a classificação dessa espécie de vícios em vícios de inadequação na qualidade e vícios de inadequação na quantidade. prejudicando seu uso e fruição ou diminuindo o seu valor. impróprio para o fim a que se destina e desatendendo a legítima expectativa do consumidor. baseado na inexistência de produtos com avarias. ou na sua quantidade. mostrando-se. pode ocorrer na qualidade do produto. de modo a não induzir o consumidor em erro. da lata de extrato de tomate que não contém a quantidade informada na embalagem etc. a fim de prevenir a ocorrência de danos. ainda. existem diferentes instrumentos jurídicos para reparar os danos e prejuízos causados aos consumidores. [06] A par disso. A constatação desses vícios se faz por um critério objetivo. além dos que lhe são ínsitos e de conhecimento geral. bastando a verificação de que a informação sobre a qualidade ou quantidade não corresponde verdadeiramente ao que o produto proporciona. por exemplo. do refrigerador que não mantém os produtos em baixa temperatura. 2.

Os vícios de insegurança são tratados nos arts.º 8. 12 a 17 da Lei n. [10] ou com supedâneo no inadimplemento contratual. com a ofensa a um bem jurídico. a noção de responsabilidade implica sempre a violação de um dever. levando-se em consideração a sua apresentação." [12] Esse conceito. Tem ínsito um perigo de dano patrimonial ou extrapatrimonial. são os vícios de inadequação tratados nos arts. segundo a doutrina brasileira. Em um conceito sintético e geral. deverá sempre haver o dano jurídico. [09] com fundamento na obrigação de indenizar. em face de defeitos de projeto (ou concepção). é verdadeira a premissa de que. pode-se definir a responsabilidade civil como "um dever jurídico sucessivo que surge para recompor o dano decorrente da violação de um dever jurídico originário. e não mais a punição do responsável. [08] exprimindo a idéia de obrigação. dizer-se que não existe um conceito unitário que abranja todas as modalidades de responsabilidade civil. no entanto. Obrigação é sempre um dever jurídico originário. defeitos de desenvolvimento e defeitos de informação. De outro lado. mas em decorrência de ato lícito. pois haverá casos em que surge a responsabilização sem a violação a um dever jurídico. não se pode mais dizer que a responsabilidade jurídica está "essencialmente ligada à retribuição. [07] 3. por sua vez. não abrange todas as modalidades de responsabilidade civil. contraprestação. A doutrina de direito civil costuma definir a responsabilidade civil com base numa conduta causadora de um dano. para haver responsabilidade civil. são aqueles defeitos que fazem com que o produto seja potencialmente danoso à integridade física ou ao patrimônio do consumidor. enquanto a . 18 e segs.078/90. a época em que foi colocado em circulação. Os vícios de insegurança. da Lei n. Com o passar do tempo. não se pode confundir as noções de obrigação e de responsabilidade civil. Ocorrem quando o produto não apresenta a segurança que dele legitimamente se espera. do qual exsurge o dever de reparação." [11] O elemento central passa a ser a reparação ou prevenção do dano ou prejuízo. o uso e os riscos normais. Na nova definição de responsabilidade.131 No Brasil.º 8.078/90. dentre outras circunstâncias. De qualquer sorte. Por razões como essa. Responsabilidade civil no âmbito das relações de consumo Na dogmática. encargo. Podem ocorrer. defeitos de construção (ou execução). entretanto. o elemento sanção ou retribuição foi mitigado.

cujo valor do prêmio se incorporará ao preço de venda. vale dizer. por exemplo. encontra-se que a responsabilidade civil pode ser classificada em contratual e extracontratual. causado ao consumidor pela existência de vícios de inadequação e de insegurança do produto. o fornecedor tem melhores condições de suportar o risco do produto. o que determinou um redirecionamento dos princípios que regiam a matéria. Em primeiro lugar. [17] Com efeito. resta superada. desafiando soluções jurídicas inéditas. patrimonial ou extrapatrimonial. à consciência da necessidade de proteção das vítimas e das partes mais fracas nas relações sociais. A responsabilidade civil é tema de permanente atualidade e vem ganhando importância e mutação à medida que a evolução industrial produz novas tecnologias. de um ato ilícito. [15] de modo que o prejuízo causado a um consumidor seja suportado por toda a sociedade. seguro de responsabilidade. ultrapassa as fronteiras da culpa. A responsabilidade extracontratual. na necessidade de reparação ou prevenção do dano. distribuindo-se o custo entre os próprios . [14] A responsabilidade civil. porque. de modo que será responsabilizado civilmente aquele que inadimplir essa obrigação. mediante. previdência e garantia. a quem cabe controlar a qualidade e a segurança dos produtos. por fim. a responsabilidade civil objetiva do fornecedor é o sistema de reparação de danos mais adequado aos tempos modernos. ainda que o consumidor seja diligente. senão no interesse em restabelecer o equilíbrio econômico-jurídico alternado pelo dano. de uma obrigação contratual originária. corolário da violação do primeiro. O verdadeiro escopo dessa evolução é a preocupação de assegurar melhor justiça distributiva. entretanto. paulatinamente. O fundamento social da reparação do dano está arraigado nas noções de assistência. encontrando supedâneo na solidariedade social. porque oferece maiores garantias de proteção às vítimas. e não do contrato. Responsabilidade contratual é aquela que decorre diretamente e em função de um contrato. além disso. deu-se entrada. [13] Na dogmática. base de uma responsabilidade sem culpa. Em face das transformações sociais ocorridas pela constante evolução industrial e dos riscos gerados aos consumidores.132 responsabilidade é um dever jurídico sucessivo. geralmente. [16] Esse novo modelo de responsabilidade não se centra mais em apenas punir o autor de uma conduta antijurídica. deriva. em vista de situações que demandam regulamentação jurídica específica. de uma obrigação jurídica que decorre de uma norma legal. em relação à matéria de proteção do consumidor. na sistemática do direito do consumidor. porque os custos de ressarcimento devem recair sobre o fabricante e o fornecedor. Essa distinção. ou seja. também chamada de aquiliana.

mas. A doutrina brasileira. [22] Com efeito. muitas vezes. por influência das grandes empresas. [21] Se o fornecedor introduz um risco para a sociedade. [20] A responsabilidade civil passa. a doutrina brasileira tem chamado esse novo modelo de responsabilidade civil de responsabilidade legal. Essa responsabilidade legal dos fornecedores tem como fundamento a Teoria da Qualidade. "al no exigirse la prueba diabólica de la culpa.133 consumidores. e que a responsabilidade civil não deriva do contrato ou de ato ilícito. sim. a responsabilidade civil não deriva do contrato ou de um dano que alguém gera a outrem fora do contrato. no Brasil. como a daquele fornecedor que tem vínculo contratual apenas com a cadeia de fornecedores. acabavam por dificultar a imputação do fato lesivo ao seu autor. prescindindo da existência de culpa. De acordo com a Teoria do Risco. as dificuldades que tinham os consumidores na busca da prova. se facilita a la víctima el acceso a la reparación. Alguns países. por motivos de política-econômica. [23] De outro lado. todo aquele que exerce atividade no mercado de consumo tem o dever de responder pelos eventuais vícios ou defeitos dos bens e serviços fornecidos. criando uma nova modalidade de responsabilidade civil. A responsabilidade decorre do simples fato de realizar a atividade de produzir. distribuir e comercializar produtos ou executar determinado serviço. a ser uma relação entre a atividade empresarial e um sujeito. de uma imputação que decorre estritamente da lei." [19] Efetivamente. foi além. segundo a qual a lei imporia a toda a cadeia de fornecedores um dever de qualidade dos produtos que são colocados no mercado e dos serviços que são prestados. todavia. [18] Acrescente-se que o fornecedor está em melhores condições de produzir a prova sobre o ocorrido. abrangendo nesse conceito tanto a responsabilidade do fornecedor que celebra o contrato com o consumidor. decorrentes principalmente do desconhecimento do processo industrial e da crescente automação. estocar. razão pela qual lhe é transferido o ônus de provar uma das causas excludentes de sua responsabilidade para que se exima de reparar o dano ou os prejuízos. a imputação de responsabilidade conjunta entre os fornecedores vinculados ou não por laços contratuais com o consumidor. mantém-se fiéis ao dogma da responsabilidade civil baseada na culpa. então. O acolhimento da teoria do risco e da responsabilidade objetiva é a tendência moderna nos países que possuem legislação específica sobre direito do consumidor. Assim. no entanto. na chamada responsabilidade por risco da empresa. e também. Tendo em vista que a imputação decorre estritamente da lei. deve responder pelos prejuízos que causar. o que . há. independentemente de culpa.

o consumidor somente precisa demonstrar a verossimilhança da existência desses três elementos. que cause um dano efetivo ao patrimônio. incumbindo ao fornecedor a prova de alguma das excludentes de sua responsabilidade.º do art. Destarte. ocorrendo o vício de inadequação na qualidade do produto. portanto. A responsabilidade civil por vícios de inadequação dos produtos Quando o produto não proporcionar a utilização que dele legitimamente se esperava. já que a relação contratual se estabelece somente entre o consumidor e o fornecedor direto. surgem para o consumidor as seguintes alternativas: a) a substituição do produto por outro da mesma espécie. Com isso. o vício (ou defeito) no produto.134 demonstra a tendência moderna de ir além da responsabilidade contratual e extracontratual. Com base nesses delineamentos. no art. pode-se conceituar a responsabilidade civil. caput. 18.1. surgirá a responsabilidade civil do fornecedor por vícios de inadequação. poderá o consumidor demandar qualquer um dos integrantes da cadeia de fornecedores. constata-se que a responsabilidade civil é extracontratual. centrando o dever de reparar na solidariedade social e na Teoria do Risco. em perfeitas condições de uso. a responsabilidade está in re ipsa. Os elementos identificadores e que geram a responsabilidade civil do fornecedor são. uma solidariedade [24] entre todos os fornecedores da cadeia de produção em relação à reparação dos prejuízos causados ao consumidor em razão da inadequação do produto ao fim que se destinava. Nos §§ 1. como o dever jurídico que surge para o fornecedor em conseqüência de um vício de inadequação ou de insegurança do produto ou serviço. à integridade física ou à vida do consumidor. dispõe sobre os vícios de inadequação na quantidade. 18 e seguintes. com os demais integrantes da cadeia de fornecedores. 19. De acordo com a lei consumerista brasileira. monetariamente atualizada. Nesse caso. Para obter a indenização. b) a restituição imediata da quantia paga. no art.º ao 6. 3. ao menos direta. o dano ou prejuízo ao consumidor e o nexo de causalidade. Prevê. 18. no direito consumerista brasileiro. geralmente ele será o demandado. sem prejuízo de . Por ser o comerciante com quem contratou o responsável mais próximo. pois não há relação contratual. e não sendo sanado esse vício num prazo máximo de 30 (trinta) dias. trata da responsabilidade civil por vícios de inadequação na qualidade. O Código Brasileiro de Defesa do Consumidor trata da responsabilidade civil por vícios de inadequação do produto em seus arts. enquanto. pois a reparação diz respeito ao produto.

essa cláusula deve ser convencionada em separado (§ 2. contudo. em face da extensão do vício. marca ou modelo diversos. e c) o abatimento proporcional do preço (art. I a IV). Se.º). Esse prazo para o conserto do produto pode ser ampliado ou reduzido pelas partes. é vedada a pactuação de cláusula que impossibilite. surge para a cadeia de fornecedores o dever de reparar. Do mesmo modo do que ocorre na responsabilidade civil por vício de inadequação na qualidade. no art. Cabe ressalvar que.2. monetariamente atualizada. O fornecedor imediato será responsabilizado quando fizer a pesagem ou medição e o instrumento utilizado não estiver regulado segundo os padrões oficiais (§ 2. quando optar pela substituição do produto por outro de mesma espécie e esta não for possível. em qualquer contrato de consumo. o consumidor poderá imediatamente se utilizar das alternativas referidas no § 1. Os efeitos da responsabilidade civil por vícios de inadequação na quantidade do produto. incs. b) complementação do peso ou medida. a substituição das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou as características do produto. requerer a troca do produto por outro de espécie. A responsabilidade civil por vícios de insegurança dos produtos A responsabilidade civil do fabricante por vícios de insegurança é efeito lógico de um acidente de consumo. estão previstos.º). Assim.135 eventuais perdas e danos. poderá o consumidor optar por uma das seguintes alternativas: a) abatimento proporcional do preço. diminuir-lhe o valor ou no caso de se tratar de produto essencial. antes mencionadas. não podendo. mediante eventual restituição de valores ou complementação da diferença de preços (§ 4. sem prejuízo de ressarcimento por eventuais perdas e danos (art. por sua vez. ou d) restituição imediata da quantia paga.º).º). marca ou modelo. como referido.º do art. ser inferior a 7 (sete) nem superior a 120 (cento e vinte) dias. Constatados os vícios de inadequação na quantidade do produto. 3. sem prejuízo da eventual complementação ou restituição de valores (§ 1. caput e § 1. Caso o consumidor tenha optado pela substituição do produto por outro de mesma espécie e isso não seja possível. pode o consumidor. atenue ou exonere o fornecedor da responsabilidade de indenizar em face da ocorrência de vícios de inadequação ou de insegurança.º). marca ou modelo diversos. sendo que a garantia legal do produto independe de termo expresso (arts. sem os aludidos vícios. c) substituição do produto por outro da mesma espécie. sem precisar obedecer a qualquer prazo. 18. 24 e 25). que ocorre quando o produto não apresenta a . poderá optar pela substituição por outro de espécie. 18. 19. 19 do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. sendo que. no caso de contrato de adesão.

por si só. respondendo subsidiariamente quando não puderem ser identificados os demais sujeitos da cadeia de produção ou quando o produto fornecido não apresentar identificação clara daqueles. menção expressa ao fabricante aparente. O dever de segurança tem natureza ambulatorial. a simples fabricação de um produto com um defeito não enseja. ou seja. b) a colocação do produto no mercado. pela sua utilização. Por produto inseguro. na forma do art. na verdade. construtor e importador (art. é introduzido no Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. o comerciante é excluído em via principal. 12). no rol de responsáveis estabelecido no art. a pedido da rede varejista. o que facilita ao consumidor a busca por uma justa indenização. regra geral. que. 12. acompanhando o produto por onde ele estiver durante a sua existência útil. [27] de modo que a garantia inerente ao produto obriga o fornecedor em relação ao último consumidor e a todos aqueles que tenham alguma . [25] Para melhor defender os interesses do consumidor. sendo necessária a sua colocação no mercado. capaz de causar lesões aos consumidores. Falta. e d) a relação de causalidade (ou nexo causal). Assim. Essa distinção em benefício do comerciante se faz necessária porque ele não tem. aquele que celebrou o contrato com o fornecedor. c) o dano. ou seja. produtor. a responsabilidade civil. [26] Levando em conta a sistemática moderna de proteção ao consumidor. àquelas redes de varejo que oferecem diversificada linha de produtos com sua própria marca. ou seja. quando não conservar adequadamente os produtos. De outro lado. o CBDC prevê uma solidariedade entre fabricante. contudo. um novo conceito de responsabilidade civil. essa responsabilidade não beneficia somente o consumidor imediato.136 segurança que dele legitimamente se espera e acaba por causar dano ao consumidor. como se fabricantes fossem. controle sobre a segurança e qualidade das mercadorias. terá o comerciante responsabilidade direta. 12 a 17 do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor da responsabilidade civil por fato do produto. A colocação do produto no mercado é ato humano de fazer ingressar em circulação um produto potencialmente danoso. quando. todavia. o produto é fabricado por um terceiro oculto. lesionar o consumidor. 12. nas relações de consumo em massa. que possui um defeito capaz de. "independe da existência de culpa". Como se observa. como fora referido. são pressupostos para a responsabilidade civil do fabricante por defeitos nos produto: a) falha na segurança do produto. Tratam os arts. Segundo a lei consumerista brasileira. a responsabilidade civil legal. deve-se entender aquele que é potencialmente danoso.

o caso fortuito e a força maior não devem funcionar como . na hipótese de ser o infrator quem colocou o produto em circulação. o furto e o roubo. [29] Embora surtam idênticos efeitos jurídicos. para a configuração de responsabilidade. [30] Para verificar se o caso fortuito e a força maior atuarão como excludentes de responsabilidade do fornecedor. É irrelevante. embora tenha colocado o produto no mercado. um incêndio criminoso provocado por terceiros. como uma greve.º do art. Nesses casos. Ao lesado. sendo que a própria lei admite excludentes de responsabilidade do fornecedor. cabe salientar que o CBDC não prevê como causas de exclusão de responsabilidade o caso fortuito e a força maior. nos casos em que o produto é posto no mercado por ato de preposto ou em decorrência da falta de diligência na guarda do produto. cujos efeitos não se pode evitar ou impedir. O que distingue basicamente os dois institutos é que a força maior resulta de situações independentes da vontade do homem. Assim. todavia. é imperioso fazer a distinção. À guisa de exemplo. uma tempestade. que as vítimas sejam parte da cadeia de circulação jurídica do produto. como um ciclone. permitindo um juízo de probabilidade ao julgador. ou c) a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. b) que. essa regra não é absoluta. que importam no rompimento do nexo de causalidade e acabam afastando a responsabilidade civil. caberá ao fornecedor a prova de tal fato. A prova de que o vício de insegurança inexiste incumbe ao fornecedor. um terremoto. a demonstração de que já ocorreu outro acidente de consumo em relação a idêntico produto. [28] De outro lado. Caso ocorram na concepção ou na produção. mas proveniente de fatos humanos. enquanto o caso fortuito é uma situação que decorre de fato alheio à vontade da parte. que mantenham com este mera relação de fato decorrente de uso ou consumo. por exemplo. dispõe o § 3. ou. ainda. São as causas de exoneração. A não colocação do produto no mercado pressupõe que o fornecedor-produtor prove que não é sua a autoria da fabricação do produto ou que o fornecedor não foi responsável pela sua circulação. cabe tão-somente demonstrar a verossimilhança do que alega. A excludente não beneficia o fornecedor. uma guerra. 12 do CBDC que o fornecedor não será responsabilizado se provar: a) que não colocou o produto no mercado. como. malgrado se trate de responsabilidade objetiva. quando o produto está sob a guarda do comerciante. o defeito inexiste. O caso fortuito e a força maior constituem-se em um fato necessário. ou que simplesmente tenham se exposto aos efeitos do seu campo de periculosidade. deve ser analisado o momento de sua ocorrência. o que gera indagações a respeito.137 relação de fato com o produto. De outro lado. excluirá a responsabilidade do fornecedor a sabotagem.

então. O modelo ideal de produção. Além disso. no direito brasileiro. que imponha a toda a classe de fornecedores normas imperativas no processo de produção e a obrigação de reparar eventuais danos decorrentes dos acidentes de consumo. a chamada responsabilidade legal. Surgiu. decorre da violação do dever de colocar no mercado produtos isentos de vícios de insegurança. 4. não haverá responsabilidade civil daquele. dentre os quais o da responsabilidade civil e o dos vícios dos produtos. Entretanto. portanto. pois. cresceu a incidência de vícios e defeitos nos produtos. assim. O Brasil codificou a matéria na Lei n. que a responsabilidade do fornecedor. na efetiva reparação do consumidor. à medida que não há um controle individual da adequação e segurança de cada unidade que é lançada no mercado. microssistemas protetivos ao consumidor. . dando tratamento jurídico bastante proguessista em relação à efetiva reparação dos danos ao consumidor. Esses dois elementos atuam como fatores de ruptura do nexo causal entre o defeito e o dano. que prescinde de elemento contratual ou da ocorrência de ilícito. Considerações finais Com o surgimento e alargamento do processo de industrialização. se o caso fortuito e a força maior sobrevierem depois da tradição (entrega) do produto ao consumidor. cria um novo conceito de responsabilidade civil. Impõe. mormente em relação à responsabilidade civil do fornecedor por vícios dos produtos. principalmente.078/90. se o defeito não está relacionado ao fornecedor. culminando em modificar o tratamento jurídico de vários institutos. que tem como característica principal a produção em série. assim.138 eximentes de responsabilidade do fornecedor. não terão os fornecedores qualquer responsabilidade. é utópico. calcados.º 8. o que pode é possível com uma legislação rigorosa. Dessume-se. Criou-se novos modelos de reparação de danos que sobrepujaram a clássica teoria da responsabilidade civil. um dever de qualidade dos produtos colocados no mercado. na solidariedade social e na responsabilidade civil objetiva. Os produtos defeituosos acabam sendo um resultado marginal e inexorável da produção industrial. houve uma preocupação mundial em reduzir ao máximo os acidentes de consumo e os vícios dos produtos. baseado na inexistência de produtos com avarias. sobretudo nos países mais desenvolvidos. A par disso. e que decorre estritamente da lei. tendo sido produzido após o consumidor ter adquirido o produto.

Porto Alegre. Código brasileiro de defesa do consumidor. 2. ed. 1. Rio de Janeiro : Forense. GARAY. 5. In: GRINOVER. da prevenção e reparação de danos. p. RS. São Paulo : Martins Fontes. Gustavo Ordoqui. out. 1998. p. 127-197. José de Aguiar. 1992. 12. São Paulo. A proteção do consumidor e o MERCOSUL. Hans. n. DIAS. 124-136. Carlos. 2. DE LUCCA. Revista Jurídica da Associação dos Defensores Públicos do Estado do Rio Grande do Sul. São Paulo : Saraiva. ed. da prevenção e da reparação dos danos. A responsabilidade do fabricante pelo fato do produto. . São Paulo : Saraiva. Derechos del consumidor em el marco de la legislación nacional y la integración regional. Luiz Gastão Paes de Barros. rev. 1999. 1987. Ada Pellegrini et. Carlos Alberto. Programa de responsabilidade civil. al. ed. 5. 2000. GHERSI. servindo de modelo e paradigma para vários outros países. (trad. SP. atual. rev. ed. DENARI. rev. 1997. 4. 1994. Referências Bibliográficas ARRIGHI. Revista de Direito do Consumidor. Jean Michel. e ampl. São Paulo : Malheiros. 2003. aum. Teoria pura do direito. In: Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. p. ampl. Revista de Direito do Consumidor. João Baptista Machado). SP.-dez. 5. KELSEN.). (coord. ano 1. 1998. n. e atual. Zelmo Da qualidade de produtos e serviços. O Direito do Consumidor no Mercosul. ed. v. 6. Teoría general de la reparación de daños. CAVALIERI FILHO. 19-24. BENJAMIN. São Paulo. Montevidéu : Ingranusi.139 Por essa principiologia inovadora e moderna. La protección de los consumidores y el MERCOSUR. Sergio. 29-36. o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor é considerado uma das legislações consumeristas mais protetivas do mundo. Da qualidade de produtos e serviços. aum. Newton. 1991. Da responsabilidade civil. LEÃES. atual. n. Rio de Janeiro : Forense Universitária. maio 1997. 1. p. CASTILHA. Buenos Aires : Astrea. Antônio Herman de Vasconcellos e.

Revista de Direito do Consumidor. São Paulo : Revista dos Tribunais. Cláudia Lima. ano 11. Curso de direito civil: direito das obrigações: 1. p. Buenos Aires : . SANSEVERINO. 4. QUEIROZ. Rio de Janeiro : Forense. 364-365. 2002. 1997. Direito das Obrigações. A proteção jurídica do consumidor contra vícios dos produtos no âmbito dos países do MERCOSUL. 2002. PEREIRA. PASQUALOTTO. Agostinho Oli Koppe. Paulo de Tarso. n. Responsabilidade civil no código do consumidor e a defesa do fornecedor. ed. SIMÃO.1990. SP. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. 1998. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. 21. 2003. abr. Estudos sobre a proteção do consumidor no Brasil e no MERCOSUL. Fabrício Castagna. In: MARQUES. p. São Paulo : Saraiva. 2004. Gabriel. ______. 42. São Paulo. de 11. 1994.). 2000. São Paulo. (Org. 49-85. RS. 09-31. São Paulo : Saraiva. Monografia (Graduação em Direito) – Curso de Direito. RIZZARDO. Odete Novais Carneiro. 2003. SP. São Paulo : Revista dos Tribunais. Cláudia Lima. Santa Maria. Vícios do Produto no Novo Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor. p. n. Revista de Direito do Consumidor. LUNARDI. Universidade Federal de Santa Maria. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos: a teoria da ação social e o direito do consumidor. STIGLITZ. La relación de consumo: conceptualización dogmática en base al Derecho del MERCOSUR. Ricardo.ª parte.140 LORENZETTI. e ampl. Da responsabilidade por vício do produto e do serviço: Código de Defesa do Consumidor Lei 8. MARQUES. 2004.-jun. atual. Rio de Janeiro : Forense. jan. Adalberto de Souza. Roberto. 7.078. MONTEIRO. ed. 2002. aum.09. Porto Alegre : Livraria do Advogado. Washington de Barros. rev. 1971. Arnaldo. p. rev. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. 1996. Protección jurídica del consumidor. José Fernando. São Paulo : Atlas. Responsabilidade civil do fabricante pelo fato do produto. 110 p. NORRIS. 73-94.-mar. Porto Alegre : Livraria do Advogado.

250. Op. São Paulo : Atlas. 1986. VENOSA. p. 49-85. 42. LOVECE. Dora. 135. Revista de Direito do Consumidor. Adalberto de Souza Pasqualotto. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. atual. que se encontra no Código Civil brasileiro. Cláudia Lima. Sílvio de Salvo. "O fabricante deve assegurar para o consumidor que o produto. Revista de Direito do Consumidor. 2002. SP. 73-94. 115-128. 2. 2. ed. jul." (Adalberto de Souza Pasqualotto. Dora Szafir. p. 75).250. In: MARQUES. Porto Alegre : Livraria do Advogado. 07 06 05 04 03 02 01 Paulo de Tarso Sanseverino. p. 3. 2002. conforme as instruções por ele mesmo expedidas e dando atenção às advertências cabíveis que também por ele devem ser feitas. SP. Montevidéu : Fundación de Cultura Universitaria.-set. Responsabilidade civil no código do . SZAFIR. São Paulo. 1994. Adalberto de Souza Pasqualotto. não será um instrumento maligno nas mãos dos usuários desprevenidos. ed. WEINGARTEN. 1999. 49. Consumidores: análisis exegético de la Ley 17. O princípio da confiança está intimamente ligado ao princípio da boa-fé subjetiva. p. (Org. Montevidéu : Fundación de Cultura Universitaria. circulacón. Célia. p.). Consumidores: análisis exegético de la Ley 17. 2003. p. adequadamente utilizado.-jun. cit. n. Exemplo disso é a proteção aos contratantes de boa-fé quando celebram negócio jurídico com mandatário aparente (art. 1. vulnerando sua integridade física ou de qualquer modo colocando em risco a sua segurança ou a dos circunstantes.141 Depalma.817). Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. ano 11. abr. Ley 27. 31. 74. Estudos sobre a proteção do consumidor no Brasil e no MERCOSUL. Direito Civil: responsabilidade civil. 689) ou com herdeiro excluído da sucessão (art. atual. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. p. distribuición y comercialización de bienes y servicios. São Paulo. 2002. n. Notas As normas do CDC brasileiro são imperativas no sentido de proteger a confiança que o consumidor depositou no produto que adquiriu. Graciela.999: responsabilidad de los sujetos y/o empresas que intervienen em la cadena de fabricación. ed.

com fundamentos e princípios novos. cit. 103. o Código do Consumidor engendrou um novo sistema de responsabilidade civil para as relações de consumo. Op. 1999. "Para enfrentar a nova realidade decorrente da Revolução Industrial e do desenvolvimento tecnológico e científico. Responsabilidade civil por danos ao consumidor causados por defeitos dos produtos: a teoria da ação social e o direito do consumidor. De acordo com o bem jurídico tutelado e a gravidade da lesão. cit. . 12. Buenos Aires : Astrea. 19 18 Carlos Alberto Ghersi. rev. de utilización de cosas. 4. riesgos derivados de actviades. 16. 2003. João Baptista Machado. p. A responsabilidade civil do fabricante e os riscos do desenvolvimento. 2. etc. e atual. ed. 5. Teoría general de la reparación de daños. de productos elaborados. aum. que exponen a la persona humana a mayores riesgos. 24. surgirá a responsabilidade civil ou penal. rev. aum. ha revelado la insuficiencia e injusticia del principio tradicional e atribuición subjetiva basado en la culpa del autor del daño. Sílvio de Salvo Venosa. p. 1997." (Carlos Alberto Ghersi. 24. 3. 158. Sergio. ed. 134." (CAVALIERI FILHO. 2002. 13 14 12 11 10 09 08 Ibidem. 6. São Paulo : Atlas. 77. p. Teoria pura do direito. Hans Kelsen. São Paulo : Saraiva. ed. São Paulo : Martins Fontes. v. p. São Paulo : Malheiros. p. "El aumento de las causas de dañosidad producidas por el industrialismo (accidentes de trabajo. Trad. 2003. 15. p. Op. cit. atual. porquanto a responsabilidade civil tradicional revelara-se insuficiente para proteger o consumidor. p. Direito Civil: responsabilidade civil.142 consumidor e a defesa do fornecedor. 1998. Da Responsabilidade Civil. 1. Agotinho Oli Koppe Pereira. Porto Alegre : Livraria do Advogado. 16 17 15 Ibidem. ampl. Op. Programa de Responsabilidade Civil. 2003. p. p. em determinados casos. 473) Adalberto de Souza Pasqualotto. Embora seja prevista a responsabilidade penal dos fornecedores. p. tal questão não será tratada no presente trabalho. Sergio Cavalieri Filho.). p. ed. 157) José de Aguiar Dias. p. ed. Rio de Janeiro : Forense. 242.

Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. São Paulo : Revista dos Tribunais. da expressão "responsabilidade pelos acidentes de consumo". cit. 2000. Op. rev. no caso dos vícios de insegurança. p. Proteção contra produtos defeituosos: das origens ao Mercosul. A responsabilidade do fabricante pelo . p. o intermediário e o comerciante (distribuidor) (. Rio de Janeiro : Forense. Luiz Gastão Paes de Barros Leães. não goza de um tecnicismo apurado. Op." (Arnaldo Rizzardo. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. 2002. tem-se um dano decorrente da atividade de produção ou de comercialização.143 Adalberto de Souza Pasqualotto. que causa o dano. Isso porque "fato" é acontecimento alheio à ação humana. 1998. cit. Também nesse sentido. 27 28 26 25 24 23 Sergio Cavalieri Filho. mesmo porque existe uma responsabilidade solidária entre o fabricante. portanto. 205) Tal expressão.. Odete Novais Carneiro Queiroz: "Não se faz necessária uma efetiva relação contratual. que o legislador tivesse se utilizado. atual. o CBDC impõe aos fornecedores a obrigação de colocar no mercado somente produtos isentos de vícios ou defeitos. sendo alvo de severas críticas pela doutrina. O novo regime de vícios no CDC caracteriza-se como um regime de responsabilidade legal do fornecedor. de 11. São Paulo : Saraiva. cit. como refere Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin (In: Da qualidade de produtos e serviços. p. 475. Melhor teria sido. da tradicional responsabilidade assente na culpa passa-se a presunção geral desta e conclui-se com a imposição de uma responsabilidade legal. In: Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. 80. ed. p. é sempre a atividade humana. p. Por solidariedade deve-se entender "um vínculo que conduz a impor o cumprimento de uma obrigação a várias pessoas. por exemplo. e ampl.) Adalberto de Souza Pasqualotto. quanto daquele cujo vínculo contratual é apenas com a cadeia de fornecedores. que é gerenciada pelo homem.09. 478. Direito das Obrigações. 984). "Assim. contudo. 21 22 20 Sergio Cavalieri Filho. p. 43-44. tanto daquele que possui um vínculo contratual com o consumidor. São Paulo : Revista dos Tribunais. o dever de qualidade é um dever anexo à atividade dos fornecedores.078. p.. 50. da prevenção e da reparação dos danos. cit. no sistema do CDC. e. 4.)" (In: Da responsabilidade por vício do produto e do serviço: Código de Defesa do Consumidor Lei 8. Assim. p. podendo a vítima reclamar face a quem com ela certamente não contratou." (Cláudia Lima Marques. Portanto. 111) Pragmaticamente. Op. 1991. Op. de forma direta ou indireta.1990.

30 29 . 393.. p. 393. (. 1987." Washington de Barros Monteiro.144 fato do produto. p. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário. 7. equipara o caso fortuito à força maior: "Art. Curso de direito civil: direito das obrigações: 1. 1971. parágrafo único. 3. São Paulo : Saraiva. O Código Civil brasileiro. em seu art. São Paulo : Saraiva.. cujos efeitos não era possível evitar ou impedir.ª parte.) Parágrafo único. aum. rev. ed. 364-365.

o presente trabalho. . o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. tendo por base a previsão normativa do art. a análise dos institutos jurídicos da prescrição e da decadência no que se refere ao Direito do Consumidor.145 A prescrição e a decadência no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner Visa.078/90. 26 e 27 da Lei 8.

tratando-se de fornecimento de serviço e de produto não duráveis.a instauração de inquérito civil.O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em: I . Art. §1º . 26 .30 (trinta) dias.Obstam a decadência: I . temos a disciplina dos mesmos no que tange à relação de consumo. Introdução As normas referentes à prescrição e decadência. Tais institutos. 27 . §3º . Assim ocorre que no Código de Proteção e Defesa do Consumidor. 161 a 179.Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do produto ou do término da execução dos serviços.(Vetado. iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria. tratando-se de fornecimento de serviço e de produto duráveis.146 1. a depender do campo específico do Direito em que se pretende sejam aplicadas.) III . §2º . II .Tratando-se de vício oculto. que deve ser transmitida de forma inequívoca. possuem sua disciplina geral disposta no Código Civil. Iniciemos com a transcrição dos artigos sob estudo. A Relevância Jurídica do Decurso do Tempo: . até seu encerramento. arts. II . o prazo decadencial inicia-se no momento em que ficar evidenciado o defeito.Prescreve em 5 (cinco) anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo. Parágrafo único .(Vetado. SEÇÃO DA DECADÊNCIA E DA PRESCRIÇÃO IV Art. no entanto.a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente.) 2. comportam regras específicas.90 (noventa) dias.

Rio de Janeiro. A decadência afeta o direito de reclamar. O Direito caduca. cujo implemento vem a constituir o fato jurídico. Editora Forense. de maior interesse no que adiante vamos discutir. extintivo de direito. a pretensão prescreve. a decadência atinge o direito de reclamar. Ed. No entanto. ante o fornecedor. No caso específico do CDC. 1996). Segundo Serpa Lopes (Curso de Direito Civil. fiquemos com algumas. vol. teremos a base da decadência e prescrição. 3. caduca. A decadência supõe um direito em potência. Prazos para Reclamar e Pretender a Reparação de Danos Prazo é o lapso de tempo. a prescrição requer um direito já exercido pelo titular. A prescrição não fere o direito em si mesmo. "o que se perde com a prescrição é o direito subjetivo de deduzir a pretensão em juízo.. período fixado na lei entre o termo inicial (dies a quo) e o termo final (dies ad quem). portanto. a pretensão") 4.. 27 ("Prescreve . ao passo que a prescrição atinge a pretensão de deduzir em juízo o direito de ressarcir-se dos prejuízos oriundos do fato do produto ou do serviço. 26 ("O direito . No aspecto extintivo... mas sim a pretensão à reparação. uma vez que a prescrição atinge a ação e não o direito. . mas que tenha sofrido algum obstáculo. a prescrição afeta a pretensão à reparação pelos danos causados pelo fato do produto ou do serviço. é abundante. O fluir do tempo. aliado a inatividade do seu titular constitui fato jurisformizado pelo direito com vistas à estabilidade e segurança das relações jurídicas. Freitas Bastos. os principais institutos dessa esta forma extintiva de operar o decurso temporal.. 1. constitui causa aquisitiva ou extintiva de direitos. rev. Rio de Janeiro. quanto ao defeito do produto ou serviço. já que a doutrina.. 7ª ed.. neste particular. Decadência e Prescrição Poderíamos citar um diverso número de características peculiares a cada instituto.147 O Fluir do tempo gera efeitos jurídicos relevantes para o direito. in casu. decadencial ou prescricional. Convém salientar que os prazos decadenciais e prescricionais do CDC são de ordem pública e. inalteráveis pela vontade das partes.") e da prescrição no art." O CDC separou as duas realidades. e atual. Tratou da decadência no art. Constitui fato jurídico ordinário. e também inúmeras distinções entre um e outro. dando origem à violação daquele direito. temos a "pretensão liberatória" no dizer de Orlando Gomes ("Introdução ao Direito Civil"12ª ed. Neste sentido.. 1989).

§ 2º. CC). cujo consumo não importa destruição.1. Produtos e Serviços Duráveis e Não Duráveis: O critério aqui utilizado para assinalar diferentes prazos decadenciais é mais consentâneo com o Direito do Consumidor do que o critério da mobilidade utilizado pelo CC (móvel. Entrega Efetiva A tradição efetiva se opera no momento em que o consumidor tenha recebido o produto e tenha condições de verificar a ocorrência do possível vício. 5. 211. como é o caso do CDC. § 2º.. (art.148 Há prazos gerais fixados no Código Civil e prazos especiais fixados nesse mesmo Código e na legislação extravagante em relação a ele. 5. veremos. Suas Especificidades O CDC nos apresenta alguns prazos. Analisaremos adiante o conceito de "entrega efetiva". 178. Prazos Decadenciais no CDC. 26. serviços que persistem após sua execução. como: •30 dias: para reclamar de vícios aparentes e de fácil constatação no fornecimento de serviços e produtos não duráveis. junto ao fornecedor ou ao Poder Judiciário. Não durável é aquele cujo uso ou consumo importa imediata destruição da sua própria substância. IV). Ao passo que duráveis são aqueles produtos. Aqui durável guarda certa analogia com consumível (art. (art. objetivando seja sanado o vício. I) •90 dias: na mesma hipótese para serviços e produtos duráveis. ao passo que no Código Civil e Comercial o prazo se inicia com a mera tradição. 5. bens (produto ou serviço) se exaurem no primeiro uso ou em pouco tempo. o qual estabelece o prazo de 15 dias no art. Serviço não durável é aquele que se extingue com sua própria execução (Ex.2. e pelo Código Comercial. serviço de limpeza). 178. § 5º. 26. II) Aqui. art. 51. 10 dias. Vejamos: O início da contagem do prazo decadencial se dá com a entrega efetiva do produto. ocorre uma sensível ampliação em relação ao prazo para reclamar dos vícios redibitórios na forma como disciplinado pelo CC. 15 dias art. como. . 178.. A Classificação difere da do CC. também adiante. O prazo decadencial que estudamos é o prazo para que o consumidor reclame. art. ou término da execução dos serviços. imóvel 6 meses. O tratamento também é diverso no que se refere ao dies a quo.

149

Pode ainda restar dubiedade neste termo, no caso, por exemplo, do preposto receber na residência do consumidor impossibilitado de fazê-lo pessoalmente e só posteriormente ao decurso do prazo decadencial venha efetivamente receber o produto. São entretanto, casos para que a doutrina e a jurisprudência no caso concreto, possa deslindar. Para nós importa compreender a mens legis, do dispositivo legal, ao utilizar a expressão "entrega efetiva", a qual parece-nos ser a de fornecer o contraponto entre a possibilidade do consumidor constatar o vício eventualmente existente versus a passividade do consumidor, sua inércia frente à constatação do vício. Uma ou outra hipótese só fica perfeitamente delineada, na prática, analisando-se o caso concreto. 5.3 Vício Vícios de qualidade são aquelas características que tornam o produto ou serviço impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam, ou lhes diminuem o valor. Também constitui vício a disparidade entre produto e as indicações do recipiente, embalagem, mensagem publicitária ou do que deles normalmente se espera. Não esqueçamos que o vício de quantidade, via de regra mais facilmente constatável, também enseja a reclamação. 5.4. Vício Aparente É o vício visível, perceptível sem maior dificuldade, assimilável pela percepção exterior do produto ou serviço, aquele em que o consumidor não encontra obstáculos em reconhecer. Não requer teste. Deve se ter em conta no caso concreto o grau de conhecimento do consumidor, ou da possibilidade de verificação de que o mesmo dispõe. 5.5. Vício Oculto É o vício que não oferece facilidade de constatação. Pode ser o defeito que está, quando da aquisição do produto ou execução do serviço, em germe, em potência, e vem a se manifestar posteriormente. Não basta ser de fácil evidenciação o efeito do vício, mas sim o vício em si, isto é, é necessário ser fácil a identificação do vício como a causa sensível de seus efeitos. Por exemplo, não basta que seja fácil a identificação de um odor estranho de dado produto, é necessário que seja facilmente assimilável a relação de causa e efeito, isto é, o odor, como o fato do produto encontrar-se estragado. O prazo decadencial se inicia quando da evidenciação do defeito. Defeito aparentemente sanado pelo fornecedor, equivale a ter o vício ficado novamente oculto, "sustando" o prazo decadencial até o momento em que venha novamente a se

150

manifestar. Para operacionalizar o acima exposto há a necessidade de se estabelecer uma presunção da anterioridade do vício nos produtos ou serviços novos. Nesse caso, a probalidade física favorece a presunção, um produto novo implica em menor oportunidade de que o defeito decorra de sua utilização anormal. Esta presunção funciona "a moda" de uma específica inversão do ônus da prova. Cabe ao fornecedor provar que o vício não estava presente ou ínsito ao produto ou serviço, quando do fornecimento ao consumidor. A reclamação efetuada quanto a um dos fornecedores é plenamente válida para os demais responsáveis. Este é um dos efeitos da solidariedade de acordo com o art. 176, § 1º, CC, solidariedade esta, legal, por decorrer do art. 25, § 1º, CDC. 5.6. Óbices à Decadência De acordo com o CDC, obstam a decadência: A reclamação comprovadamente formulada. (da qual se tenha prova), até resposta negativa correspondente, a ser transmitida de forma inequívoca. Instauração de Inquérito Civil até seu encerramento. Caso 1: A decadência é obstada, no primeiro caso, desde a data da entrega da reclamação, comprovada mediante recibo, cartório de títulos e documentos, ou mesmo judicialmente. Volta a seguir desde o dia seguinte ao da entrega da resposta negativa transmitida de forma inequívoca. Negado o vício, resta ao consumidor, no prazo decadencial, ir a juízo propor a ação condenatória para que o fornecedor satisfaça as obrigações decorrentes do vício (art. 18), podendo ser o pedido cumulado com o de indenização, se houve dano. "O prazo é de trinta dias para reclamar e não para ajuizar a ação. Isto é, não se exige que o consumidor, impreterivelmente, proponha a ação cabível em trinta dias ..." (Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin in Comentário ao Código de Proteção do Consumidor, coordenação de Juarez de Oliveira, Ed. Saraiva, 1991) No caso da reclamação judicial, passam a concorrer as regras processuais que disciplinam a matéria. Proposta a ação, o despacho que ordenar a citação impede que se consume a decadência, sendo a citação realizada no prazo estabelecido no art. 219 do CPC, que se refere à prescrição, mas é válido para a decadência à luz do art. 220. A decadência,

151

em regra, não se interrompe, nem se suspende, portanto, extinto o processo, sem julgamento de mérito e já tendo escoado o prazo legal de decadência, o consumidor não poderá se valer da reclamação ou de ação que lhe seja correspondente. Este é, ao menos, um dos entendimentos sobre o assunto. Note que, se a resposta do fornecedor não negou o vício, a decadência continua obstada, de forma que se não houver sanação, o consumidor continuará com direito de recorrer a outras instâncias, sem que haja perecimento do mesmo pela decadência. Caso 2: Instauração de Inquérito Civil até seu encerramento: A decadência fica obstada a contar do dia da instauração do inquérito e persiste assim até o dia do seu encerramento, inclusive, voltando a contar do dia seguinte ao mesmo. O objetivo do Inquérito Civil, como de qualquer inquérito, é o de servir como instrumento legal para obtenção de dados, clarear um fato, determinar se um direito foi ofendido e em que grau ou extensão, qual o ofensor, etc. Natural, portanto, que suspenda a decadência, pois que os resultados advindos do inquérito, poderão servir ao consumidor subsídios para deduzir sua pretensão específica, em juízo. 6. O Debate Doutrinário sobre a Interrupção ou Suspensão da Decadência O Brasil, de acordo com Serpa Lopes (Curso de Direito Civil, vol. 1, 7ª ed. rev. e atual., Ed. Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 1989), seguindo tradicionalmente a orientação francesa e italiana, só admitia a interrupção aos prazos prescricionais, negando-a aos prazos decadenciais. O que podemos entender, então, pela expressão "obsta a decadência" inserta no art. 26 § 2º ? Interrupção, suspensão, Impedimento ao fluir... ? Vejamos algumas posições na doutrina: Luiz Edson Fachin (Da prescrição e da decadência no Código do Consumidor, Revista da Procuradoria Geral do Estado- RPGE, Fortaleza, 10(12): 2940, 1993) apesar de admitir que a "obstação", possa constituir uma realidade apartada do Código Civil, e que, sendo especial, sui generis, não requer mais explicações, defende, no entanto, a tese de que se trata de causa interruptiva da decadência, ainda que em descompasso com a sistemática geralmente aceita. Assim postula observando que as hipótese dos incisos I e III sob análise não se fundam no status da pessoa nem na situação especial dos sujeitos envolvidos. "... a reclamação comprovadamente formulada e a instauração do inquérito civil paralisam temporariamente o curso da decadência. Superado o fato interruptivo, quer pela resposta negativa, quer pelo

152

encerramento do inquérito, o prazo flui novamente, mas é inutilizado por completo o lapso de tempo já iniciado. O prazo recomeça a contar." (grifo nosso) Zelmo Denari (Código de Defesa do Consumidor, comentado pelos autores do Anteprojeto, Forense Universitária, São Paulo, 1991), considerando as expressões "até a resposta negativa", "até seu encerramento", pondera: "Resta saber se esses dois eventos (reclamação e inquérito civil), que o Código qualifica como obstativos da decadência, têm efeitos suspensivos ou interruptivos do seu curso. ... parece intuitivo que o propósito do legislador não foi interromper, mas suspender o curso decadencial. Do contrário, não teria estabelecido um hiato, com previsão de um termo final (dies ad quem) mas, simplesmente, um ato interruptivo." Não obstante, e dada, máxima venia, não conseguimos atinar com a relação de causa e efeito entre o fato de haver previsão de um hiato e a conclusão de ser o prazo suspensivo. O dies ad quem, esta simplesmente a indicar o momento em que volta a correr a decadência anteriormente interrompida ou suspensa, não podendo-se desse fato apenas se concluir por um ou outro caso. A explicação, a nosso entender mais convincente é a de William Santos Ferreira (Prescrição e Decadência no Código de Defesa do Consumidor, Revista de Direito do Consumidor, n 10, p 77 a 96, abril/junho, 1994), para quem efetuada a reclamação, "não há mais que falar em transcurso de prazo (suspensão ou interrupção), não é necessário tratar-se do prazo, o direito foi exercido." Cita Câmara Leal "A decadência tem um curso fatal, não se suspendendo, nem se interrompendo, pelas causas suspensivas ou interruptivas da prescrição, só podendo ser obstada a sua consumação pelo efetivo exercício do direito ou da ação, quando esta constitui o meio pelo qual deve ser exercitado o direito." O que ocorre no CDC (e isso justifica o que Ferreira chama de "dies a quo", "até resposta negativa..." e "até seu encerramento" §2º, I e III), é que o CDC reconheceu duas formas de exercício: extrajudicial e judicial do direito de reclamar. Sendo que a segunda forma de exercê-lo, se não exercido antes, inicia-se nos termos supra-citados. Verificados tais termos, novo prazo decadencial se inicia, agora, através da exteriorização da pretensão por uma ação judicial. Releva a discussão acima exposta, inclusive pelas conseqüências práticas que decorrerão forçosamente de um e outro entendimento. Ao consideramos a suspensão ou interrupção ou ao admitirmos dois direitos sujeitos a distintos prazos decadenciais, resultará, obviamente, em lapso maior ou menor de tempo para que o consumidor exerça seu direito, resultará em maior ou menor oportunidade de fazer respeitar estes mesmos direitos. A última, a de William Santos Ferreira, parece-nos ser a explicação mais consentânea, ainda que não de todo convincente, face aos termos utilizados na redação do dispositivo legal. Além de mais consentânea, vem a ser a que melhor protege o consumidor, portanto, a que mais se afina com o princípio da

153

hipossuficiência do consumidor, princípio que norteia todo o código. 7. Prazos Prescricionais no CDC Os prazos prescricionais referem-se à pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista no mesmo CDC. Esclarece Arruda Alvim (Código Do Consumidor Comentado; 2. ED. rev. e ampl.; Revista dos Tribunais; 1995): "O objeto da reclamação é substancialmente diferente do pedido de reparação de danos." A reclamação é exclusiva do vício, a reparação se prende as perdas e danos, fato do produto ou do serviço. Fato do produto é todo e qualquer dano, podendo este ser oriundo de um vício, que, por sua vez traz em si, intrínseco, uma potencialidade para produzir dano. Assim, caso o vício não cause dano, correrá para o consumidor o prazo decadencial, para que proceda a reclamação, vindo a causar dano (hipóteses do art. 12), deve se ter em mente o prazo qüinqüenal, sempre que se quiser pleitear indenização. A posição de alguns doutrinadores estudados é no sentido de que se o consumidor tiver sido prejudicado, poderá haver perdas e danos (além da reclamação pelo vício) e estas, apesar de originadas no próprio vício do produto ou do serviço, não necessitam integrar a reclamação, ficando sujeitas o prazo prescricional fixado, em lei para estas, pois se constituem as perdas e os danos, em sentido lato, o fato do produto ou serviço, abrangendo o que o consumidor perdeu e o que deixou de ganhar em razão do vício Arruda Alvim (Código Do Consumidor Comentado; 2. ED. rev. e ampl.; Revista dos Tribunais; 1995) esclarece, no entanto, que: não há diferença entre os danos advindos de vício do produto e o fato do produto. A interpretação diversa, ainda segundo ele, levaria a entender que a indenização pelo vício, restaria à margem das leis de consumo, e que sua prescrição se regeria pelo direito comum (15 dias CC, 10 dias Ccom havendo rescisão, ou 20 por ação pessoal, no caso de não se dar a rescisão contratual). Continua: "O vício do produto ou do serviço e sua sanação recebe um tratamento jurídico que não é dispensado ao dano; este importa em fato do produto ou do serviço. Nada obsta a que um produto ou serviço seja viciado e que, este vício ocasione prejuízo, devendo este ser considerado como fato." Entendemos a propósito dessa discussão que fazer esta distinção entre fato do produto ou serviço e dano decorrente do vício é supérflua até mesmo para negá-la. Qualquer perda ou dano implica em fato do produto ou do serviço, que vem a ser precisamente o dano resultante do vício. William Santos Ferreira (Prescrição e Decadência no Código de Defesa do Consumidor, Revista de Direito do Consumidor, n 10, p 77 a 96, abril/junho, 1994), faz observação relevante ao observar que quando falamos do direito à incolumidade

Causas Impeditivas. será diretamente responsável nos casos previstos no art.3. necessário que o consumidor tenha consciência de que aquilo que observa é. o direito a vida. matéria disciplinada pelo Código no art. Conclusão Pudemos verificar que o Código De Proteção e Defesa do Consumidor. 172 e ss. esta interrupção aproveita ao consumidor individualmente no ajuizamento da ação singular. que correrá novamente apenas da intimação da sentença condenatória. este implica em direito resistido. um dano. fonte subsidiária do Direito do Consumidor. Liberação que só ocorre se houver o pagamento integral. Regerá portanto a matéria a disciplina do art. Inexistindo informação sobre fabricante. Isto é. segurança. Termo Inicial A partir do momento do conhecimento do dano ou de sua autoria. Suspensivas e Interruptivas O parágrafo único prevendo interrupção foi vetado. ao haver o dano. a partir do momento em que se conheça o dano e possa-se relacioná-lo com o defeito do produto ou do serviço. 8. Temos então que a prescrição tem início com o nascimento da pretensão. estabelece regras também especiais no que tange aos . Poderá o consumidor demandar um ou mais dentre os responsáveis (solidariedade legal).2. 7.154 física-psíquica do consumidor falamos de direito não sujeito à decadência. de fato. Da lesão ou violação de um direito faz nascer a ação. do Código Civil. saúde nunca deixaram de existir. 12 e ss. bem como quando o fato se deve exclusivamente ao comerciante. o comerciante é responsável subsidiário. Danos Reparáveis Os danos aos quais a pretensão se dirige a reparar atém-se a regulação jurídica da responsabilidade objetiva pelo fato do produto ou do serviço. 13. enseja ação e enseja também a prescrição decorrente. 7. já que tal ilação pode não ser imediata em todos os casos. No ajuizamento de ações coletivas: a citação válida interrompe a prescrição. produtor ou importador.1. construtor. constituindo diploma especial. A propositura de ação contra um não libera os demais. 7. Nada impede que o consumidor descobrindo demais fornecedores. Ora. não é conhecimento do dano. venha ajuizar ação já que só a contar deste conhecimento individualizado terá início o prazo prescricional. Quanto à identificação do autor. Conhecimento dos efeitos do dano.

Portanto. 27. 10(12): 2940. Luiz Edson. mais dilatados. sujeitando-se às regras do CDC. judicialmente. Fortaleza. comentado pelos autores do Anteprojeto. Revista da Procuradoria Geral do Estado. nos posicionamos. Tais regras são atinentes aos prazos. pelo menos em dois pontos principais. Forense Universitária..RPGE. Primeiro. sob este ângulo devem ser interpretadas. e conseqüente forma de aplicação. Cada um. e conforme exposto neste trabalho nos itens 6 e 7. sistematicamente mais lógica e teleologicamente mais adequada ao espírito que preside o Código Protetivo. Todas elas partindo do pressuposto fundamental da hipossuficiência do Consumidor nesta classe de relações. Revista dos Tribunais. Prescrição quando aplicados às relações de consumo. Da prescrição e da decadência no Código do Consumidor. quanto a natureza jurídica. Com base nos autores estudados. William Santos. da "obstação" da decadência. oriundo ou não do vício. 1995 DENARI. Um exercitável extrajudicialmente. No segundo caso. Código Do Consumidor Comentado. após exercitado. 1991. inserta no parágrafo segundo do artigo 26 do CDC. Pudemos verificar que existe alguma controvérsia doutrinária. Código de Defesa do Consumidor. ao termo inicial e ao termo final. 1993 FERREIRA. se o derivado do vício ou o derivado do fato do produto ou serviço. considerando todos abraçados em uma mesma hipótese. FACHIN. versa sobre como deve ser entendido o dano sujeito à disciplina do CDC e por via de conseqüência. outro. sujeito ao prazo prescricional do art. A cada direito corresponde um dies a quo para o prazo decadencial. São Paulo.155 institutos da Decadência. Arruda. impede se volte a falar em decadência. et al. Zelmo. A segunda polêmica.. Em assim fazendo. e também jurisprudencial. e ampl. a favor da identificação de dois direitos exercitáveis pelo consumidor. pelo tão só fato de ter sido exercitado. qual seja. resultará em fato do produto ou serviço. BIBLIOGRAFIA ALVIM. quando da ocorrência do vício. Prescrição e Decadência no Código de Defesa . nos posicionamos pela não distinção entre um e outro dano. hipóteses de interrupção e suspensão. no primeiro caso. ED. cremos que interpretamos a lei da forma. etc. 2. rev. todo e qualquer dano que decorra do produto ou serviço. inclusive no que concerne à responsabilidade objetiva.

1. Freitas Bastos. e atual. Saraiva. 1994. Rio de Janeiro. p 77 a 96. n 10. GOMES.156 do Consumidor. 1989. Comentário ao Código de Proteção do Consumidor. coordenação de Juarez de Oliveira.. Introdução ao Direito Civil. Revista de Direito do Consumidor. abril/junho. Miguel Maria de Serpa. vol. Ed. Editora Forense. 1991 . VASCONCELOS E BENJAMIN Antônio Herman de. 12ª ed.. 7ª ed. 1996. Ed. Curso de Direito Civil. Rio de Janeiro. rev. LOPES. Orlando.

INTRODUÇÃO Visa o presente trabalho a discussão do instituto da Desconsideração da .157 Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor Autor: Osmir Antonio Globekner 1 .

em hipóteses restritas. de modo que o patrimônio titulado pela pessoa jurídica responda pelas obrigações sociais. é o caso.A PESSOA JURÍDICA.. de transforma-la em ente totalmente alheio às pessoas dos sócios. além de geralmente impor a espécie societária. de seguros. há certas atividades que a lei só autoriza às pessoas jurídicas. poderíamos alinhar alguns desses fins colimados e aceitos pela ordem jurídica: Conveniência ou viabilização de empreendimento econômico. Consoante tal linha de raciocínio. a pessoa jurídica somente pode ser entendida sob o prisma de uma instrumentalidade jurídico – formal para a consecução de interesses e fins aceitos e valorizados pela ordem jurídica. o condão . expressão . No direito moderno. SEU CARÁTER INSTRUMENTAL Abstraindo-nos no. Senão vejamos: O patrimônio da pessoa jurídica é através da ação ou quota de capital. Situações há em que a constituição de pessoa jurídica é imperativo legal. Cooperação que a ordem jurídica jurisformiza através da personalização. 2 . de. Dado que o destaque patrimonial seja a principal característica nas sociedades comerciais. A limitação da responsabilidade dos sócios como instrumento de viabilização de empreendimentos. daí poderem se precaver. por exemplo da atividade financeira. entretanto. a exigirem conjugação de esforços. preliminarmente. gostaríamos. só se chamando à responsabilidade. Sob esse prisma. a personalização representa instrumento legítimo de destaque patrimonial para a exploração de certos fins econômicos. e se nos ativermos ao aspecto comercial. Lei 8078/90. Por outro lado. os sócios. o lado credor que contrata com tais sociedades. etc.. tendo por base a previsão legal insculpida no artigo 28 do Código de Proteção e Defesa do Consumidor. necessidade de elevados investimentos. A necessidade técnica dos grandes empreendimentos. fazermos menção ao elemento teleológico do instituto da personalização de entes abstratos. presente trabalho. a autonomia da pessoa jurídica não tem. Por razões de política econômica. no entanto. econômico ou ainda patrimonial do tema. por exemplo. exigindo garantias adicionais.158 Pessoa Jurídica no que tange à sua aplicação ao Direito do Consumidor. sabe que a responsabilidade dos sócios se limita ao capital subscrito. do aprofundamento sobre a questão da sua natureza jurídica.

fazê-lo. O problema que então se apresenta em relação à lei é o de integrá-la. sem que se destrua sua validade. ou deixar de aplicá-la. fortemente direcionada. isto é. Ocorrendo a incompatibilidade entre o comportamento da pessoa jurídica e os valores que informam a ordem jurídica. Há situações em que a utilização da pessoa jurídica é feita ao arrepio dos fins para o qual o direito albergou o instituto. Visa tal instituto à suplantação da barreira legal imposta pela instituição da pessoa jurídica. que a solução dada fere valores que o sistema jurídico tutela. porém. terceiros que com ela se relacionem ou que de qualquer forma sofram os efeitos de seu atuar. Na aplicação da desconsideração da pessoa jurídica. Podemos aqui invocar a construção de Tércio Sampaio Ferraz Junior e Maria Helena Diniz. Em síntese. 3 . pois indiretamente. temos então o desvio de função. e sua vontade é. se possa evitar seja a mesma utilizada para fins abusivos. não representando abuso. que adiante estudaremos. sua autonomia em relação as pessoas dos sócios é relativa. se visará tanto a proteção da própria pessoa jurídica da ação de seus sócios gerentes. de forma a que. o reflexo da vontade de seus sócios. contornando-a de forma a manter íntegro os valores que inspiraram sua criação. seu patrimônio a eles pertence. . é o instituto que se encaixa como uma luva a construção teórica acima mencionada. no aspecto axiológico. em grande medida. trata-se da "Lacuna Axiológica". não obstante o balizamento dos estatutos e dos órgãos de administração neles previstos. a limitação de responsabilidade que propicia. podemos afirmar: a pessoa jurídica exerce uma função legítima. Contudo. ao aplicá-la. pela vontade deles. pois o direito posto fornece a solução em seus estritos termos. p. Quando o reconhecimento da autonomia leva à negação de ideais de justiça ou à frustração de valores por ela albergados. A desconsideração da pessoa jurídica. ocorre. quanto a proteção dos demais sócios. citada por Marçal Justen Filho (in "Desconsideração da Personalidade Societária no Direito Brasileiro".159 também do patrimônio dos sócios. descrita como a situação em que não há propriamente lacuna da lei. A vontade da pessoa jurídica é. 96). defraudando-o. fique condicionada a que não se desvie a pessoa jurídica desse mesmo fim.RELATIVIDADE DA AUTONOMIA DA PESSOA JURÍDICA O caráter de instrumentalidade implica em que a validade do instituto fique condicionada ao pressuposto do cumprimento ou do atingimento do fim jurídico a que este se destina.

MECANISMOS LEGAIS DE CORREÇÃO DOS DESVIOS DE FUNÇÃO DA PESSOA JURÍDICA Assim como o direito reconhece a autonomia da pessoa jurídica e a conseqüente limitação da responsabilidade dos sócios. para evitar prejuízos aos sócios minoritários. como. responsabiliza civil e criminalmente diretores e gerentes de pessoas jurídicas pelos abusos caracterizados na supradita lei. art. Pode o direito limitá-la. sem deixar de reconhecer a autonomia. restringi-la. . veda determinadas operações com seus administradores e pessoas jurídicas de cujo capital estes participem.137/62). no entanto. o próprio direito pode cercear os possíveis abusos. em seu art. etc.. ao mercado imobiliário. e nisto protegendo o própria existência da pessoa jurídica. ainda em uma preliminar. pois determina a ineficácia episódica de seu ato constitutivo. mencionando alguns mecanismos legais. enfim. Também a Lei. temos a responsabilidade solidária das sociedades integrantes de um conglomerado econômico (art. 4 . 7. solidária ou subsidiária de terceiros.. (arts. A Lei do Sistema Financeiro (Lei 4. ora a responsabilidade pessoal de terceiros: Na CLT. analisar os instrumentos que o direito posto oferece para limitar. ou relativizar a autonomia da pessoa jurídica. a desconsideração destina-se ao aperfeiçoamento do próprio instituto da personalização. preservando a validade e existência de todos os demais atos que não se relacionam com o desvio de finalidade. dispõe de forma semelhante. como o direito posto trata do assunto. 17. pode regular seu exercício. 6º. 242).160 E mais do que o acima exposto. restringindo a autonomia de um lado e a limitação de outro. 233. contempla situações de responsabilidade pessoal. 2º. 34). Antes de adentrarmos no assunto específico da desconsideração.492/86 no art. excepcioná-la e condiciona-la. deixa expresso ora a responsabilidade solidária. 115 a 117. A Lei de Repressão ao Abuso do Poder Econômico (Lei 4.595/64. dos prejuízos decorrentes da utilização dervirtuadora de seus fins. devemos. ora a responsabilidade subsidiária. A teoria ou doutrina da desconsideração assegura a finalidade da pessoa jurídica ao tempo em que protege os demais. § 2º) A Lei das Sociedades Anônimas (Lei 6404/76). Vejamos.

A lei prevê as conseqüências jurídicas. São distintas umas das outras. O art. são teorias que tangenciam o instituto da desconsideração. no artigo 13. em se tratando de pessoa jurídica. Não há nenhuma forma jurídica que deva ser desprezada pelo juiz. de modo permanente ou eventual. que se estendam a pessoas físicas a ela relacionadas. 6º da Lei da Sonegação Fiscal (Lei 4. também trata da responsabilidade penal: "Serão responsáveis como coautores . em comum. justa. mesmo considerada.. 135) e a responsabilidade subsidiária (art.161 No Código Tributário Nacional o abuso do representante legal induz a responsabilidade pessoal (art. II. cumprindo-se o fim ou valor juridicamente tutelado. A Desconsideração independe do tipo de estrutura societária e de suas regras particulares de responsabilização patrimonial. nem lacuna axiológica. os que tiverem qualidade para representá-la" Além das restrições legais ao princípio da autonomia da pessoa jurídica. porque. 22.. isto é. vedações de não fazer às pessoas contratantes. A teoria do ultra vires. sem necessidade de desconsideração.626/33). direta ou indiretamente ligados à mesma. vedações à pessoa jurídica. passemos a conceituação do que podemos entender como Desconsideração da Pessoa Jurídica. tenham praticado ou concorrido para a prática da sonegação fiscal. Nas situações acima não se cogita da desconsideração da pessoa jurídica. a responsabilidade do sócio emerge por força do preceito legal. 133. fora dos limites impostos à sociedade pela cláusula do objeto social. Não há lacuna jurídica. Posto isto. diferentes fundamentos e . há também as limitações oriundas das obrigações convencionais. ou vice-versa. . Trata-se que a solução equânime. O Direito fornece o meio legal que previne o abuso ou a fraude. o objetivo de preservação da boa fé. Não é preciso desconsiderar a pessoa jurídica. Possuem tais teorias ou doutrinas. a teoria da aparência.729/65) trata da responsabilização penal de "todos os que. por exemplo.. parágrafo único. 134)." A Lei de usura (Decreto. nulos os atos praticados ultra vires. embora relacionadas no elemento teleológico. Não há que confundir hipóteses legais de responsabilidade dos sócios ou administradores com a desconsideração da personalidade jurídica. a doutrina dos atos próprios. axiologicamente adequada corresponde ao ditame do preceito legal ou à convenção das partes. quando estendidas também as pessoas jurídicas de que elas participem.

manobrado à consecução de fins fraudulentos ou ilegítimos. . sistematicamente considerado. a obtenção de um regime jurídico distinto do preconizado no direito posto. abre-se a oportunidade para a desconsideração. Desta forma quando o interesse ameaçado é valorado pelo ordenamento jurídico como mais desejável ou menos sacrificável do que o interesse colimado através da personificação societária. portanto.. p. Trata-se de aplicar em casos concretos. p. e a importância da pessoa do sócio sobressai em relação à da sociedade. Domingos Afonso Kriger Filho (in "Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor"..".. mas porque a subsunção do concreto ao abstrato." (Luciano Amaro in "Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor". Seria injusta. previsto em lei. para a pratica de certos atos. por sua especialidade. resultaria indesejável ou pernicioso aos olhos da sociedade.. de construção pretoriana) de solução de desvios de função da pessoa jurídica. Isto porque o problema da personificação. não encontra resposta satisfatória no sistema positivo do direito. Afasta a regra geral não por inexistir determinação legal. Estados Unidos e Inglaterra. a solução decorrente da aplicação do preceito legal expresso. seriam imputadas à sociedade ou ao sócio respectivamente. atribuindo-se ao sócio ou sociedade condutas que.162 5 . Há situações em que a pessoa jurídica deixou de ser sujeito e passou a ser mero objeto. atos societários são declarados ineficazes. sob pena de alteração da escala de valores. a personificação societária. sintetizando a doutrina dominante: "A desconsideração da pessoa jurídica significa tornar ineficaz. p. albergado pelo Direito. Resulta a aplicação de tal técnica da ocorrência de situações concretas em que prestigiar a autonomia e a limitação de responsabilidade implicaria sacrificar interesse legítimo. 21). "Sintomaticamente tal solução se desenvolveu nos países de Direito não escrito (common law).A DESCONSIDERAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA É. no dizer de Luciano Amaro (in "Desconsideração da pessoa jurídica no Código de Defesa do Consumidor". se não fosse a superação.. para o caso concreto. 75). um certo raciocínio que afasta a incidência das regras gerais aplicáveis a matéria. uma técnica casuística (e. ficando esta em segundo plano. em tais casos. 74) : ". Através da Desconsideração." De forma que podemos dizer que o instituto visa.

de vez que haverá sempre. a implantação da solução encontrou resistência nos países da tradição do direito escrito. tal fato deixa pouca margem para definições apriorísticas de casos. a solução jurisprudencial da desconsideração deve buscar apoio. por muito tempo. numa formulação abrangente. Levantamento. se não na letra expressa da lei. A grande dificuldade está em construir um modelo teórico que possa enfeixar. as várias situações em que essa técnica possa ou deva ser aplicada. na Inglaterra. onde cabível. responsabilizando-o como se a sociedade não existisse. para destacar ou alcançar diretamente a pessoa do sócio. certamente. não há lugar para a desconsideração. lifting the corporate veil. legalidade dos atos. na Alemanha. como: Desconsideração. Penetração. ao menos nos princípios que a informam. podemos sintetizar enumerando os elementos que compõem a figura da desconsideração da pessoa jurídica: Ignorância dos efeitos da personificação. penetração da pessoa jurídica . também. na Itália. Manutenção da validade dos demais atos jurídicos praticados. Superação. quando de sua aplicação. mas que não devem ser confundidos com a mesma. O instituto. em relação a um ato concreto e específico. Nos setores onde vige a reserva absoluta da lei. para estes. Dificuldade mais séria nos países de direito escrito. A desconsideração é um conceito ligado ao funcionamento da pessoa jurídica. se desenvolveu ao redor do mundo. entre eles o Brasil. desconsideração da entidade legal. superamento della personalitá giuridica. teoria da penetração. recebendo diferentes designações. associados a defeitos tais como simulação. no setor tributário. O cabimento da desconsideração envolve sempre algo de ideológico e. Intenção de evitar o perecimento do interesse legitimo. . Nada correspondendo aos assuntos da validade de constituição. na Argentina. Ignorância para o caso concreto e período determinado. no direito Norte Americano. disregard of legal entity. o direito oferece remédios análogos a desconsideração.163 Sintomaticamente. nulidade. por exemplo. Cabe falar da desconsideração quando não haja uma solução legislada específica para os eventuais desvios de função da pessoa jurídica. durghgriff der juristischen Person. teoría de la penatración. que ainda podemos conceituar em palavras diversas como: o afastamento momentâneo da personalidade jurídica da sociedade. estrutura. superação da personalidade jurídica. algo de axiológico. fraude. dentro de uma visão sistemática e fundamentalmente teleológica do Direito. Ainda nos demais setores. levantamento do véu corporativo. Desta forma.

"Art. não afasta do instituto a possibilidade. a Desconsideração surge pioneiramente no Código de Defesa do Consumidor (art. ao menos no que tange ao reconhecimento da possibilidade de sua aplicação. de resto diploma amplamente inovador. A pessoa jurídica não pode ser desviada dos fins estabelecidos no ato constitutivo. de previsão legal. então. prevendo. responderão. a dissolução da entidade. apenas outras medidas são tomadas para corrigir e compensar. 6 . as hipóteses que ensejem sua aplicação. ou. os bens pessoais do administrador ou representante que dela se houver utilizado de maneira fraudulenta ou abusiva. "dis-torcer" as conseqüências do ato praticado. desfazer o que de fraudulento houver sido praticado em nome da pessoa jurídica. para servir de instrumento ou cobertura à prática de atos ilícitos.DISPOSITIVOS LEGAIS O ser construção pretoriana. a título de melhor ilustrar a natureza do instituto. caso em que poderá o juiz." Em nosso ordenamento jurídico positivo. diante de outros valores ou outros interesses específicos. Neste caso. Desconsideração não se confunde nem acarreta a nulidade dos atos que propiciaram a atuação judicial.A DESCONSIDERAÇÃO NO CÓDIGO DE PROTEÇÃO E DEFESA DO CONSUMIDOR Vejamos o que diz a redação do art. decretar a exclusão do sócio responsável. genericamente. tais sejam as circunstâncias. ou abusivos. 50. sem prejuízo de outras sanções cabíveis. quanto do Direito Processual. a requerimento de qualquer dos sócios ou do Ministério Público. ou mesmo a necessidade. Passemos. ao Código. tanto do Direito Material. 28). salvo se norma especial determinar a responsabilidade solidária de todos os membros da administração. Devemos citar a previsão legal inserta no projeto de Código Civil em tramitação no Senado. Os atos praticados não são anulados. conjuntamente com os da pessoa jurídica. até e ainda. bem como a possibilidade de sua previsão normativo-positiva. à outorga aos Órgãos Judiciários da capacidade de praticá-lo. 28 do CDC: . ou. Parágrafo único. 7 .164 uma opção entre um valor ou um interesse específico.

Falência. Qualquer hipótese em que a personalidade da pessoa jurídica seja. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocadas por má administração. sendo desnecessária intervenção judicial no sentido de proclamar desconsideração. pois os §§ 2º a 4º. § 1º . de alguma forma. dividir em três grupos as hipóteses legais de incidência da desconsideração contidas no art. 28 do CDC. excesso de poder. Esta não se faz necessária par o fim de fazer atuar aquela responsabilidade. 1ª parte). de alguma forma." Podemos.165 "SEÇÃO JURÍDICA V- DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE Art. houver abuso de direito. a luz do quanto já acima discutido afirmar categoricamente: a Desconsideração da Pessoa Jurídica é objeto do caput e do § 5º do art. estado de insolvência. § 4º . (caput. Podemos. § 3º . fato ou ato ilícito. 28. estado de insolvência. (caput. Vejamos: Abuso de direito. 2ª parte).As sociedades coligadas só responderão por culpa. § 5º . encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. a despeito da rubrica aposta à Seção V. para fins de análise. 28 .As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas são subsidiariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código. infração da lei. violação de estatutos ou contrato social. versam sobre a matéria da responsabilidade subsidiária ou solidária. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social.O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando.(Vetado) § 2º . infração da lei. excesso de poder. em detrimento do consumidor. (§ 5º) Algumas considerações .As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. que a própria lei determina. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores.Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for.

Quando tratamos de empresa com capacidade financeira para ressarcir o consumidor. com o uso anormal das prerrogativas conferidas à pessoa pelo ordenamento jurídico. 12 a 14 do CDC). etc. não há razão para aplicar. e a da responsabilidade subjetiva fundada em culpa. auferir vantagem ilícita ou indevida". 23) ". nas palavras de Domingos Afonso Kriger Filho (in "Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor". só podem ocorrer se e quando tiver havido desrespeito ao sistema jurídico. como de resto toda a disciplina de defesa do consumidor abraça as duas fontes da responsabilidade a da responsabilidade objetiva. temos a prática de atos que implicam infração da lei. 181): "O dano indenizável.166 Primeira: o pressuposto de todas as hipóteses acima arroladas é o da lesão de interesses do consumidor. Conforme Arruda Alvim (in "Código do Consumidor Comentado". Analisemos separadamente cada um dos grupos acima nominados. por motivos óbvios na aplicação em defesa de interesses outros. quando por si não acarretem a responsabilidade pessoal do agente. que a pratica abusiva ou ilícita o seja em virtude da preterição do direito do consumidor." Caracteriza-se o abuso de direito. como os dos demais sócios. ou os da personalidade societária. p. prima facie o tratamento excepcional da desconsideração. para sua efetividade. a busca do responsável. por dolo ou má-fé. Deve haver inafastável nexo de causalidade entre a conduta inadequada e o prejuízo causado ao consumidor. Tais fatos. (fato que emerge claramente dos arts. tratamento excepcional e. Não caberia. fundada na teoria do risco. Segundo Pedro Batista Martins (apud Rubens Requião in "Abuso de Direito e Fraude através da Personalidade Jurídica"): . portanto. de uso parcimonioso.. a desconsideração. Grupo 1 No primeiro grupo de hipóteses. objetivando.. por responsável e. A desconsideração visa em tais casos a que os bens dos sócios infratores sejam também garantia do ressarcimento do prejuízo causado ao consumidor. Segunda: a desconsideração há de supor a incapacidade da pessoa jurídica para reparar o dano. Na realidade é o elemento integrante de todas as hipóteses que requerem. p. poderão servir de embasamento a desconsideração a fim de alcançar o patrimônio dos sócios. Terceira.. em razão disto. dos estatutos ou utilização de direitos além de sua órbita. prejuízo ao consumidor.

ou por força dos estatutos ou contrato social. Apenas há um ponto comum . Já há previsão legal: no caso da sociedade de responsabilidade limitada (art. p. dolosamente contra o estatuto ou contrato. Pag. 142) Sobre o assunto." (Coelho. fato. sócios. Qual. Esta situação decorrente da lei e as conseqüências. responde por ato próprio. embora relacionado com a pessoa jurídica. 182): "Ocorre abuso de direito quando o fornecedor. 10. p. e art. Fábio Ulhoa in "Comentários ao Código de Proteção do Consumidor". ato ilícito.. 16). 159... pois aquele que excede o que lhe é permitido por lei. embora não se referindo especificamente ao CDC: "Não podem ser entendidos como verdadeiros casos de desconsideração todos aqueles casos de mera imputação de ato. 3. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social dizem respeito a um tema societário diverso.. art. p. as hipóteses do parágrafo anterior. ou gerentes podem responder por dívidas da sociedade. o não cumprimento das obrigações impostas às pessoas pela lei. fato ou ato ilícito ou violação do contrato social. 610) "Em determinadas circunstâncias. Genacéia da Silva in "A desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor. não sendo mais útil para si ou adequado ao espírito da instituição. representam. ou pelo contrato social. sempre. comete um ato abusivo" Arruda Alvim (in "Código do Consumidor Comentado"." (Oliveira. a excepcionalidade. Infração de lei. a lesá-lo (consumidor)". Consideram a teoria inaplicável in casu. não há desconsideração.708. então a . diretores. 168 e 169) "Excesso de poder. infração da lei.167 "sempre que um titular de direito escolhe o que é mais danoso para outrem. no caso de desconsideração da pessoa jurídica são idênticas? Quer nos parecer que não. infração da lei. J. por lei ou embasado no sistema jurídico. . de desconsideração da pessoa jurídica. No excesso de poder a pessoa pratica ato ou contrai negócio fora do limite da outorga ou autoridade conferida. violação dos estatutos ou contrato social. Lei 6404). Decreto.. Vejamos: "No que se refere ao excesso de poder. mas o faça de molde a prejudicar terceiro. 115. demais casos. 117 e 158. Aspectos Processuais". age contra a lei ou. In " A Dupla crise da Pessoa Jurídica".." (Alberton. CC. puder praticar determinado ato. Lamartine Corrêa de. no caso da sociedade anônima (arts. que é a responsabilidade do sócio ou do representante legal da sociedade por ato ilícito próprio. Frise-se que determinados autores não consideram.

168

diferença ?.... Quando a lei brasileira ...impõe ao sócio, gerente ou administrador a responsabilidade por dívidas da sociedade, faz porque uma dessas pessoas agiu de maneira contrária à lei ou contrato, mas como pessoa integrante da pessoa jurídica. Não foi a pessoa jurídica que teve a sua finalidade desvirtuada, não foi a pessoa jurídica como ser que foi manipulada mas, sim, o diretor, o gerente ou o sócio que, na sua atividade ligada à empresa, andou mal. Quando se fala, por outro lado, em desconsideração da pessoa jurídica, é porque a própria entidade é que foi desviada da rota traçada pela lei e pelo contrato.... Assim, acreditamos que devemo separar bem estas duas hipóteses por não serem idênticas" (Casillo, João in "Desconsideração da Pessoa Jurídica") Acatando o ponto de vista dos autores citados, restaria apenas a hipótese do abuso de poder, como ensejador da aplicação da doutrina da Desconsideração, ficando as demais hipóteses ainda no campo da previsão legal, externa à doutrina. O abuso do poder, por sua própria natureza, conforme acima referido, se amolda a hipótese de utilização da Desconsideração, vez que constitui, não violação clara da lei, caracterizando um "fato típico", previsto legalmente, mas antes, um uso abusivo da lei. Não havendo tal "tipicidade", impossível prévia previsão legal, imperativa então a atuação criadora judicial, através do instituto sob análise. Parece-nos, entretanto, que há um certo excesso de rigor formal em tal posição. Nem sempre ao ilícito legal ou contratual corresponderá uma expressa cominacão de responsabilidade pessoal, civil ou penal. Ainda que ressalvadas as previsões genéricas da lei, como a do art. 159 do CC, citada por Genacéia, parece-me que o instituto da Desconsideração melhor cobriria esses casos de lacuna da lei no que tange a previsão expressa da responsabilidade, lacuna que poderia ao final acobertar o infrator. A ausência de tal expressa previsão legal, poderia ser agitada com o propósito de elidir a responsabilidade, em sendo o caso, o art. 28, sob comento, forneceria o respaldo legal para a atuação jurisdicional no sentido de alcançá-la. Separar o ato do responsável pela pessoa jurídica do ato da pessoa jurídica, operação mental a que podemos ser induzidos pelo raciocínio de Casillo, pode resultar ser tarefa árdua, considerando as sutilezas que quase sempre cercam a situação concreta. Mais uma vez, o afastamento da figura da Desconsideração, poderia ser utilizada no sentido do acobertamento do infrator. De forma que, a despeito do rigor formal que caracteriza o exposto pelos autores acima citados, considero mais prudente, estender o manto protetor do instituto que ora analisamos também aos fatos aos quais o autores negam sua incidência, como faz o diploma legal protetivo do consumidor. Grupo 2 No segundo grupo o texto legal introduz um elemento não especificamente

169

ligado ao interesse do consumidor: a má administração. É questionável esta inserção. Não há que se confundir a má administração com a prática abusiva citada na parte inicial do caput. A má administração poderia, isto sim, ensejar o uso do instituto para responsabilizar a gerência incompetente frente a própria pessoa jurídica ou frente aos demais sócios. É de se questionar, no entanto, a relevância deste fato frente ao direito do consumidor. É de se questionar se alguém administraria mal uma empresa com o fito exclusivo de fraudar os direitos do consumidor. E quanto à empresa bem administrada, que desativada, tenha lesionado consumidores. Ficariam imunes à regra? Concluindo, parece mal posta a hipótese legal no que se refere a má administração, quer pela falta de nexo entre qualidade da administração e eventuais prejuízos ao consumidor, quer pela falta de isonomia entre o tratamento dado ao consumidor da empresa encerrada por má administração e o dado ao cliente de uma empresa bem administrada que encerrou suas atividades. Certo é, em todos os casos, que o consumidor deve ser protegido na hipótese em a pessoa jurídica tenha cessado a atividade ou esteja extinta, e isto independentemente dos motivos que ensejaram tal encerramento de atividade. Grupo 3 Finalmente no terceiro grupo, a hipótese contemplada no §5º, parece inconciliável com o caput. Expressões demasiadamente genéricas ("sempre", "de qualquer forma"), parecem inutilizar as hipóteses do caput. Tão genérico, abrangente e ilimitado é o parágrafo, que aplicado literalmente, dispensaria o caput, tornaria inócua a própria construção teórica do instituto da desconsideração, implicando derrogar a limitação da responsabilidade de toda e qualquer empresa no que diz respeito às relações de consumo. Frente a tal, pelo menos aparente, incongruência, posicionam-se os doutrinadores: Zelmo Denari (in "Código de Defesa do Consumidor, Comentários pelos autores do Anteprojeto", p. 132), com a autoridade de ser um dos autores do anteprojeto da Lei 8.078/90, postula mesmo o "aberratio ictus da caneta presidencial". O parágrafo a ser vetado teria sido o 5º, e não o 1º, como apareceu no diário oficial, que segundo Denari é essencial para a aplicação do artigo. Para que se coteje com o texto do §5 e, à luz da razão do veto, aprecie-se assim a procedência da tese de Zelmo, transcrevemos abaixo o parágrafo vetado e as razões do veto: "§ 1º. A pedido da parte interessada, o juiz determinará que a efetivação da responsabilidade da pessoa jurídica recaia sobre o acionista controlador, o sócio majoritário, os sócios-gerentes, os administradores societários e, no caso de grupo societário, as sociedades que a integram."

170

Razão do veto: "O caput do art. 28 já contém todos os elementos necessários à aplicação da desconsideração da personalidade jurídica, que constitui, conforme doutrina amplamente dominante no direito pátrio e alienígena, técnica excepcional de repressão a práticas abusivas." Como claramente se vê, fortíssima pode parecer a evidência do equivocado fato pelo qual, propugna Zelmo Denari, se explicaria a aparente ininteligência do parágrafo que ora analisamos frente ao sistema em que se insere. Entretanto, é também óbvio que, para albergarmos tal tese, teríamos antes que admitir a ininteligência do legislador a exigir atuação da sancionadora caneta presidencial. Esta última parece-nos bem menos provável, dada a qualidade que pautou a produção legislativa do diploma que ora analisamos. Vejamos, entretanto, outros posicionamentos: Fábio Ulhoa Coelho (in "Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor", p. 143 e 144): censura o preceito no § 5º, concedendo apenas sua aplicação em matéria de sanções não pecuniárias (proibições de fabricação, suspensão temporária de atividade, etc...), apesar do contrário defluir do texto da lei: "ressarcimento de prejuízo do consumidor". Por fim salienta que no embate entre o caput e o § 5º, se um tiver que ceder será o parágrafo, não o caput. A interpretação meramente literal, no entanto não pode prevalecer e isto por três razões: Em primeiro lugar, porque contraria os fundamentos teóricos da desconsideração. ... Em segundo lugar, porque uma tal exegese tornaria letra morta o caput do art. 28. ... Em terceiro lugar, porque esta interpretação equivaleria à revogação do art. 20 do CC ("As pessoas jurídicas tem existência distinta da dos seus membros") em matéria de defesa do consumidor. E se esta fosse a intenção do legislador, a norma jurídica que a operacionalizasse poderia ser direta, sem apelo à teoria da desconsideração. Rachel Sztajn (in "Desconsideração da Personalidade Jurídica", p. 72): O parágrafo 5º deveria encimar o artigo: "Se o art. 28 tivesse por caput o § 5º, além dos §§ 2º e 3º, o consumidor estaria tutelado (apenas) em face da separação patrimonial utilizada de forma iníqua ou inadequada." A autora condiciona a aplicação do citado parágrafo aos pressupostos da teoria da desconsideração. Américo Führer (in "Resumo de Direito Comercial", p. 74): "A teoria pode ser aplicada diretamente pela lei,...,independentemente de qualquer abuso ou má fé", parece que nestas palavras o autor admite o utilização literal do § 5º. Genacéia da Silva (in "A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor): "No que ser refere ao § 5º do art. 28, é necessário interpretá-lo com cautela. A

171

mera existência de prejuízo patrimonial do consumidor não é suficiente para a desconsideração. O texto deixou o significado em aberto na medida em que assevera que a pessoa jurídica poderá também ser desconsiderada quando sua personalidade ‘De alguma forma’ for obstáculo ao ressarcimento, ..., leia-se, quando a personalidade jurídica for óbice ao ressarcimento justo do consumidor." (grifo nosso) A interpretação mais consentânea parece ser a de que o § 5º, constitui uma abertura ao rol de hipóteses do caput, sem prejuízo dos pressupostos teóricos da doutrina que o dispositivo visou consagrar. A aplicação do § 5º deve restringir-se às situações em que o fornecedor do produto ou serviço ao consumidor constitui a pessoa jurídica, ou a utiliza, especificamente para livrar-se da responsabilização de prejuízos causados ao consumidor. Aí justamente reside a carga axiológica do instituto, na análise judiciária da forma como a pessoa jurídica foi constituída ou utilizada relativamente à relação de consumo.

8 - A RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA E SUBSIDIÁRIA PREVISTA NO ARTIGO 28 DO CDC No presente trabalho pretendemos, no âmbito do Código de Defesa do consumidor, tratar apenas da Desconsideração da Pessoa Jurídica. Não obstante, por se encontrarem enfeixados sob tal rubrica no texto normativo, trataremos também do responsabilidade disciplinada pelos parágrafos 2º a 4º do art. 28 do CDC, que a nosso ver, como já exposto, não compõem o instituto da Desconsideração. Assim tratemos da: Responsabilidade de Grupos societários e sociedade controladas O § 2º, estatui responsabilidade subsidiária das sociedades integrantes de grupos societários e sociedades controladas. Aqui, como já dito, não se cuida de desconsideração, mas de hipótese legal de responsabilização de terceiro. A própria redação indica uma responsabilidade objetiva, não sujeita a análise de elementos outros, presentes no caso concreto. Basta o liame a unir as entidades societárias, para dele decorrer a responsabilização. Tal dispositivo previne que as obrigações sob estudo sejam concentradas na sociedade que tenha menor respaldo patrimonial. Para Genacéia da Silva Alberton (in "A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor), em seu trabalho já várias vezes citado, o Código foi tímido em estabelecer apenas responsabilidade subsidiária, concedendo o benefício de ordem e, consequentemente, impedindo que o consumidor ajuíze a ação desde logo contra as demais empresas. Para outros doutrinadores, no entanto, basta a prova da impossibilidade de ressarcimento pela empresa principal obrigada, para, já inicialmente, demandar a sociedade com responsabilidade subsidiária.

172

No que se refere a sociedades controladas, o preceito parece conter alguma impropriedade. Obviamente a responsabilização subentende-se seja por obrigações da controladora (o texto não é explícito) que incidiria em caráter subsidiário sob o patrimônio da controlada. Temos a considerar que seria lógico que as ações ou quotas representativas do capital da controladora respondessem pelas obrigações da mesma, não o sendo, entretanto, que o patrimônio da controlada, que envolve o de terceiros (que podem deter até cerca de 83% do capital social, totalidade das ações preferenciais + 49% das ordinárias) o fossem, já que nada tem a ver com a conduta da controladora. Só podemos entender o dispositivo legal em sua literalidade, se o considerarmos conseqüência de prevalência especial do interesse de ordem pública da relação de consumo sobre os interesses de ordem privada; ou por outro, que sua aplicação dependa do pressuposto da concorrência da controlada na lesão ao consumidor., ou por outra de sua utilização pela controladora nesse intento. Responsabilidade das Sociedades consorciadas O § 3º, constitui também, em favor do consumidor, uma exceção a regra geral, já que a lei das Sociedades Anônimas, que rege esta esfera da ordem jurídica, não preconiza a solidariedade das sociedades consorciadas (art. 278, § 1º, Lei 6.404/76). Sabemos que a solidariedade não se presume, mas decorre da lei ou do contrato, aqui temos a hipótese legal, a proteger o consumidor. Convém salientar, por ser lógica, a ressalva que faz Fabio Ulhoa: "... a solidariedade existe apenas no tocante as obrigações relativas ao objeto do consórcio. Quanto às demais não há qualquer vínculo dessa natureza..." (Coelho, Fábio Ulhoa, in "Comentários ao Código De Proteção do Consumidor", p. 145) Responsabilidade das Sociedades coligadas O § 4º, estabelece a responsabilidade das coligadas, apenas na hipótese de culpa. Não poderia ser diferente, já que a mera participação da empresa no capital de outra (10% ou mais), sem controlá-la, não induziria, em si mesma, tal responsabilidade. A sociedade coligada é simplesmente sócia de outra e, como sócia, não tem responsabilidade pelos atos dessa outra a não ser que tenha participado do ato, caso em que será solidariamente responsável. Para alguns, supérfluo tal dispositivo, já que a responsabilidade seria deduzida de qualquer forma, sendo suficiente o art. 159 do CC. - CONCLUSÃO O CDC é diploma largamente inovador tanto no que se refere ao Direito Material, quanto no que se refere ao Direito Processual. Insere-se no contexto da evolução do Direito Moderno ao voltar-se à proteção e tutela de direitos

Coordenação de Juarez de Oliveira. Forense Universitária.. no ordenamento jurídico pátrio. Saraiva. ED. N 58. individuais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBERTON. Desconsideração da Pessoa Jurídica. Vol 42. O art. A Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código do Consumidor. rev. para alcançar aqueles atos que. 2. do hipossuficiente. conforme discutido neste trabalho. KRIGER FILHO. ALVIM. P 17 A 27. RT 528/24. CASILLO. 1995 AMARO. Aspectos da Desconsideração da Personalidade Societária na Lei do Consumidor. COELHO.. P 69 A 84. Aspectos Processuais. apesar de conformarem-se ao figurino do estrito modelo legal. Rio de Janeiro. João. tem relevância a introdução pioneira. A despeito de alguma impropriedade da redação. Resumo de Direito Comercial.. Zelmo. São Paulo. 28 desse Estatuto representa o estendimento da longa manus do Estado. São Paulo. do convívio social harmonioso e da justiça. Genacéia da Silva. Ajuris. Revista dos Tribunais. Código Do Consumidor Comentado. Nesse contexto inovador. o art. Domingos Afonso. Vol 19. 1992. 1991. Porto Alegre. Arruda.1994. Ajuris. N 205. etc. Código de Defesa do Consumidor. Comentários pelos Autores do Anteprojeto. Novembro . 1987. P 146 A 180. JUSTEN FILHO. da boa fé. São Paulo. 1993. e ampl. Ed. Julho. Fábio Ulhoa. Ed. . FÜHRER. 28 do CDC representa um grande avanço não só no campo específico do Direito Tutelar do Consumidor como também de todo o Direito Posto Nacional. coletivos. Comentários ao Código de Proteção ao Consumidor. Malheiros Editores. Revista Jurídica. Vol 20. Marçal. da Doutrina da Desconsideração da Pessoa Jurídica. difusos. sob o aspecto dogmático ou doutrinário. Américo. Luciano. seus valores e seus princípios asseguradores da paz.173 personalísticos. N 54. 1996. Desconsideração da Personalidade Societária no Direito Brasileiro. representam violação do ordenamento jurídico naquilo que possui de mais caro. Ed. Revista dos Tribunais. DENARI. 1991.. Desconsideração da Pessoa Jurídica no Código de Defesa do Consumidor. Março. et al.

SZTAJN. Abuso de Direito e Fraude através da Personalidade Jurídica. Rachel. N 2. 1992. . Lamartine Corrêa.174 OLIVEIRA. A Dupla Crise da Pessoa Jurídica. 528:16. Revista de Direito do Consumidor. Desconsideração da Personalidade Jurídica. RT. Rubens. J. REQUIÃO. P 67 A 75. São Paulo. 1979. Junho. Editora Saraiva.

175

Princípios gerais da publicidade no Código de Proteção e Defesa do Consumidor

Autor: João Bosco Pastor Gonçalves

Sumário: 1 – Introdução; 2 – Publicidade: Conceito e elementos essenciais; 3 – Princípios Gerais da Publicidade no CDC; 4 – Princípio da Identificação da Publicidade; 5 – Princípio da Vinculação Contratual da Publicidade; 6 – Princípio da Veracidade da Publicidade; 7 – Princípio da Não Abusividade da Publicidade; 8 – Princípio da Inversão do Ônus da Prova; 9 – Princípio da Transparência da Fundamentação; 10 – Princípio da Correção do Desvio Publicitário; 11 – Conclusão

1. Introdução Com o objetivo de desenvolverem as suas atividades empresariais, o comércio e a industria necessitam divulgar os produtos e serviços por eles produzidos e prestados, a fim de que desperte interesse nos consumidores. Em geral, produtos de primeira necessidade, (feijão, arroz, carne, leite, etc.), dispensam maior divulgação, entretanto, produtos mais caros (de luxo), como automóveis, equipamentos de áudio e vídeo sofisticados, telefones celulares ou uma casa de veraneio, não dispensam uma boa estratégia de marketing, e aí inclui-se a publicidade. As pessoas compram coisas por dois motivos essenciais: necessidades e impulsos. As necessidades nem sempre são reais, elas são criadas pela publicidade, sem a qual não haveria como colocar no mercado cada vez mais produtos que, a rigor, ninguém precisa. 1 As mensagens publicitárias induzem as pessoas a comprarem por impulso. Quem resiste a um anuncio para comprar um presente em um shopping no dia das mães ou no dia dos namorados?. Nosso ordenamento jurídico não obriga a ninguém a anunciar os seus produtos ou serviços, porém, se o fizer, a sua publicidade está sujeita a uma série de deveres impostos pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor, Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, (CDC). O objetivo do presente trabalho é a análise do conceito de publicidade e dos princípios que a regem, á luz do referido diploma legal.

176

2. Publicidade: Conceito e elementos essenciais Antônio Herman de Vasconcelos e Benjamin2, citando o jurista português Carlos Ferreira Almeida, diz que publicidade ‘é toda informação dirigida ao público com o objectivo de promover, directa ou indirectamente, uma actividade económica’. Prossegue afirmando que tal como acontece com o conceito de marketing, não é tarefa fácil definir o que seja publicidade em virtude do caráter complexo de suas múltiplas funções e das relações mútuas entre elas, e fornece a noção do Comitê de Definições da American Association of Advertising Agencies ( AAAA): ‘ publicidade é qualquer forma paga de apresentação impessoal e promoção tanto de idéias, como de bens e serviços, por um patrocinador indentificado’. Trata-se sem dúvida, de uma forma de comunicação social, em toda publicidade há uma mensagem, um emissor que tem como objetivo alcançar um conjunto de receptores, transmitir-lhes uma idéia, incentiva-los a um determinado comportamento – comprar um bem ou, utilizar-se de certo serviço. Porém, nem toda forma de comunicação integra o conceito de publicidade: fora desse campo ficam a informação cientifica, política, didática, lúdica ou humanitária, porque alheia á atividade econômica, mesmo quando seja produzida com a intenção de gerar certa convicção nos seus destinatários 3. Dois elementos são essenciais em qualquer publicidade: a difusão e a informação. Um é o elemento material da publicidade, seu meio de expressão. O outro é o seu elemento finalistico4. Sem difusão não há publicidade, vez que a mesma precisa ser levada ao conhecimento de terceiros, da mesma forma sem um conteúdo mínimo de informação inexiste a publicidade. Convém ainda esclarecer, que embora sejam usados indistintamente no dia-adia, os termos publicidade e propaganda não se confundem. Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin 5 afirma que a publicidade tem objetivo comercial, enquanto que a propaganda visa a um fim ideológico, religioso, político, econômico ou social, e que além de ser paga, na publicidade sempre identifica-se o seu patrocinador, o que nem sempre ocorre com a propaganda. Na propaganda difunde-se uma idéia, ao passo que na publicidade divulga-se uma mercadoria ou serviço. Estabelecidos o conceito de publicidade e seus elementos essenciais, bem como a necessária distinção entre os termos propaganda e publicidade, passamos a análise dos princípios que norteiam a elaboração da mensagem publicitária, á luz do Código Brasileiro de Proteção e Defesa do Consumidor (CDC) e da Constituição

177

Federal.

3. Princípios Gerais da Publicidade no CDC Princípio, conforme o excelente ministério do Professor Celso Antônio Bandeira de Mello6 " [...] é por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico". [...] Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma qualquer. A desatenção ao principio implica ofensa não apenas a um especifico mandamento obrigatório, mas a todo sistema de comandos". Alguns princípios foram adotados pelo CDC para a elaboração da publicidade, com vistas á proteção do consumidor, parte mais fraca nas relações consumeristas. Em função da tutela fornecida aos consumidores eles encontram-se assim distribuídos no Código de Proteção e Defesa do Consumidor: princípio da identificação da publicidade ( art. 36); princípio da vinculação contratual da publicidade ( arts. 30 e 35); princípio da veracidade ( art. 37 § 1º ); princípio da nãoabusividade da publicidade ( art. 37 § 2º); princípio da inversão do ônus da prova ( art. 38); princípio da transparência da fundamentação publicitária ( art. 36, parágrafo único); princípio da correção do desvio publicitário ( art. 56, XII). Observa-se7 que o Código optou por definir publicidade enganosa e publicidade abusiva, sem conceituar o que seja publicidade, preocupando-se com a definição do desvio ( abusividade e enganosidade), mas não com a do padrão. Entretanto, o legislador preocupou-se com a tutela penal da publicidade, considerando crimes contra as relações de consumo a prática de publicidade enganosa ou abusiva, bem como a promoção de publicidade que induza o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa a sua saúde ou segurança, apenando ainda o fornecedor que não mantenha em seu poder os dados fáticos, técnicos e científicos que embasaram a sua mensagem publicitária, cominando pena de detenção e multa (arts. 67, 68 e 69).

4. Princípio da Identificação da Publicidade O artigo 36 do CDC está assim redigido: Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil

178

e imediatamente, a identifique como tal. Parágrafo Único. O fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, em seu poder, para informação dos legítimos interessados, os dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação á mensagem. Analisando a "cabeça" do artigo, vemos que o fornecedor ao veicular a publicidade de seus produtos e serviços, deve fazer de modo claro, inteligível, o consumidor deve compreender que está diante de um anúncio publicitário. Previne-se8 assim contra as chamadas "publicidades ocultas" e "subliminares", através da técnica do Merchandising, de freqüente utilização em espetáculos, novelas, teatros, ou seja, a aparição dos produtos no vídeo, no áudio ou nos artigos impressos, em sua situação normal de consumo, sem declaração ostensiva da marca. Um bom exemplo de comunicação subliminar é o uso constante de determinada marca de carros em uma novela, ou ainda, as aparições de produto, serviço ou marca, de forma aparentemente casual, em programas de televisão, filme cinematográfico, jogos de futebol televisionados, etc. Pasqualotto9 observa que quando a publicidade não é de fácil e imediata identificação, "não é só o consumidor que pode estar sendo enganado. Também pode haver fraude á lei, pois a falta de identificação possibilita a transgressão de regras como a advertência necessária de restrição ao uso de alguns produtos (cigarros), o horário ou o local de exposição do anúncio (bebidas alcoólicas) ou a proporção de publicidade em relação á programação (rádio e televisão) ou o noticiário e reportagens (jornais e revistas)".

5. Princípio da Vinculação Contratual da Publicidade Tal princípio decorre da inteligência dos arts. 30 e 35 do CDC : Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado. Portanto, no plano contratual, o Código consagra o princípio da vinculação da publicidade. O consumidor pode exigir do fornecedor o cumprimento do conteúdo da comunicação publicitária. A publicidade é um verdadeiro negócio jurídico unilateral, na medida em que obriga o fornecedor a cumprir com a promessa, desde a sua difusão. Confira-se a jurisprudência a seguir:

179

COMPRA E VENDA – Erro – Entrega recusada sob alegação de erro na especificação do preço, no orçamento – Não pode a teoria do erro escusável favorecer o fornecedor – Negócio perfeito e acabado – análise das disposições do Código Civil e do Código de Defesa do Consumidor – Exame da doutrina – Ação para entrega da coisa – Procedência – Decisão mantida. ( AC. Um. Da 5ª Cam. Esp. Do 1º TAC, Ap. 562.425-3, Rel. Juiz Sílvio Venosa, j.6-7-1994) ( O Código de Defesa do Consumidor e sua Interpretação Jurisprudencial, Luiz Antonio Rizzatto Nunes, Saraiva, 1997, p. 90).

6. Princípio da Veracidade da Publicidade Aqui, (art. 37 § 1º), o legislador preocupou-se em coibir a publicidade enganosa, que pode ser apresentada de duas formas: por comissão ou por omissão. Na publicidade enganosa por comissão, o fornecedor afirma alguma coisa capaz de induzir o consumidor a erro, dizendo alguma coisa que não é verdadeira. Na forma omissiva o patrocinador deixa de afirmar o que é relevante, também induzindo o consumidor a erro. Possível, também, que quanto á sua extensão a publicidade seja parcialmente enganosa, ou seja, contendo algumas informações falsas e outras verdadeiras, o que não a descaracteriza como publicidade enganosa. Quanto ao seu aspecto subjetivo10 não se exige por parte do anunciante a intenção (dolo ou culpa), sendo irrelevante a sua boa ou má-fé. Portanto, sempre que o anúncio for capaz de induzir o consumidor a erro, independentemente da vontade do fornecedor, está caracterizada a enganosidade da publicidade, o que justifica-se porque o objetivo é a proteção do consumidor, e não a repressão do comportamento enganoso do fornecedor.

7. Princípio da Não Abusividade da Publicidade Está consagrado no art. 37, § 2º, do CDC, que proíbe de qualquer forma, dentre outras, a publicidade discriminatória, que incite á violência, que desperte o medo ou a superstição, que se aproveite da deficiência de julgamento e inexperiência da criança, atinja valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa á sua saúde ou segurança. A locução "dentre outras", deixa transparecer que o elenco da publicidade abusiva é apenas exemplificativo, podendo existir outras formas de abusividade, cabendo aos aplicadores da lei – juízes e administradores adaptarem o texto da lei ás práticas do mercado.

Princípio da Inversão do Ônus da Prova Tal princípio. Trata-se de princípio básico para a facilitação da defesa do consumidor em juízo.38). da vulnerabilidade do consumidor. 38). decorre dos princípios da veracidade e da não abusividade da publicidade. pois a publicidade constitui-se em verdadeira oferta (princípio da vinculação . por serem muito jovens não possuem o necessário entendimento para a compreensão do que é ou não verdadeiro nas mensagens publicitárias. condicionando o seu comportamento para a respectiva aquisição ou fruição. considerando que qualquer publicidade dirigida a infantes não deixa de ter um grande potencial abusivo. ou. não se exige que a mensagem aterrorize. Quanto à responsabilidade pelo desvio publicitário. como direito fundamental dos seres humanos foi também motivo de proteção pelo legislador. o anunciante ou a quem o anúncio aproveita. Quanto ás crianças. daí por que se desloca para o patrocinador o ônus da prova da veracidade e da correção da informação ou da comunicação publicitária (art. de ação tendente a instruir. cabendo ao fornecedor demonstrar que sua publicidade foi veiculada dentro dos princípios que estamos expondo. anexo ao princípio da boa-fé como norma de conduta. (art. realmente os consumidores. bem como do reconhecimento opis legi. a responsabilidade da agência e do próprio veículo de comunicação. nacionalidade. ou até contra bens públicos ou privados. seja entre homens. profissão. responde em regra. etc. pois. seja entre homens e animais. a respeito de bens ou serviços oferecidos. não se excluindo. o consumidor. razão pela qual o legislador dedicou-lhes especial proteção. Não se admite a publicidade que mostre a violência. condição social. 8. porém. bastando que o anuncio faça uso desses recursos para que seja considerado ilegal. O meio ambiente. sexo. Quanto á publicidade exploradora do medo ou da superstição11. convicções políticas ou religiosas. Princípio da Transparência da Fundamentação Trata-se de verdadeiro dever. nas palavras de Carlos Alberto Bittar12: trata-se. ilegitimamente. 9. que não admitiu nenhuma veiculação publicitária que fosse contra a proteção e conservação do mesmo.180 A publicidade é discriminatória quando distingue entre raça.

( melhor seria contrapublicidade). acolhida pelo Código em seu art. O artigo estabelece os requisitos da oferta. Conclusão O legislador ao elaborar o Código de Proteção e Defesa do Consumidor. composição. ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características.078. espaço. local e horário. deve conter informações suficientes para esclarecer ao consumidor os elementos básicos que irão fundamentar a eventual formação segura e satisfatória de um contrato que atenda a seus interesses econômicos. não se limitou apenas ao regramento das . e repressão administrativa e penal. no que se refere à duração. Nada mais é que uma publicidade obrigatória e adequada que se segue a uma publicidade enganosa ou abusiva. Trata-se de veiculação de outra publicidade para sanar os malefícios causados pela publicidade originária. 11. tendo como objetivo apagar a informação inadequada da percepção do consumidor. 56. restaurando dessa forma. qualidades. sic. prazos de validade e origem.181 contratual da publicidade). além da sua reparação civil. Naquela. de maneira que o consumidor tenha uma idéia precisa do que lhe está sendo oferecido. É divulgada no mesmo veiculo de comunicação utilizado e com as mesmas características empregadas. pois é este que tem o dever legal de informar de modo preciso. A ausência de informação essencial será sempre interpretada contra o fornecedor. bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores. às suas expensas. o fornecedor. preço. quantidade. 31. de 11 de setembro de 1990. claro. do CDC: Art. Lei nº 8. o que se faz através da contrapropaganda. e vem expresso no art. 10. Princípio da Correção do Desvio Publicitário Ocorrido o desvio publicitário. garantia. A publicidade. A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas. entre outros dados. precisas. a realidade dos fatos14. XII. desfazendo os erros do anúncio original. de caráter explicativo. ostensivo e em língua portuguesa13. por esta óptica. informa corretamente ao consumidor. claras. necessário que sejam desfeitos o seu impacto sobre os consumidores. 31.

p. 12ª ed.67. Rio de Janeiro: Renovar.. 748. Reconheceu que a proteção do consumidor deve iniciar-se mesmo em momento anterior ao da celebração do contrato de consumo – na fase da oferta. Celso Antônio Bandeira de Mello. 264. p. Rio de Janeiro: Forense Universitária. para resguardar a boa-fé dos consumidores. 3. que surge através das técnicas de estimulação do consumo – a publicidade.182 relações contratuais de consumo. . 266. Sônia Maria Vieira de Mello. 2. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 265. pp.. p. 2000. 4. 6ª ed..). 2000. 6. exigiu a transparência da fundamentação da publicidade e determinou a correção do desvio publicitário através da imposição da contrapropaganda.[ et al ]. p. 6ª ed. Notas 1. O Direito do Consumidor na Era da Globalização: a descoberta da cidadania. novembro de 1999. p. coibindo todas as modalidades de anúncios enganosos ou abusivos. Revista Jurídica. 66. São Paulo: Malheiros Editores.. 1998. Princípios Gerais da Publicidade na Constituição Federal e no Código de Defesa do Consumidor. 82. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover.. Márcio Mello Casado. 747. Curso de Direito Administrativo. 8. Proibiu a propaganda clandestina e a subliminar. Cit. referendou o principio da vinculação contratual que permite ao consumidor exigir do fornecedor o cumprimento do conteúdo da mensagem publicitária.[ et al ]. uma serie de normas e princípios para o controle da publicidade. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover. 7. 5. Ibidem. nº 265. Instituiu para tal (proteção do consumidor). (op. pp. 274. Idem. p. acolhendo o princípio da identificação da publicidade. inverteu o ônus da prova em favor do consumidor facilitando o seu acesso à Justiça. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. 265.

303. Princípios Gerais da Publicidade na Constituição Federal e no Código de Defesa do Consumidor. SILVA. Cit. José Luiz Toro da Silva. Noções de Direito do Consumidor.. 1ª ed. O Direito do Consumidor na Era da Globalização: a descoberta da cidadania. Márcio Mello. p. Porto Alegre: Síntese.. 1998. 10. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Os Efeitos Obrigacionais da Publicidade. 1997. Direitos do Consumidor. Referências bibliográficas BITTAR.. 6ª ed. 14. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Direitos do Consumidor. 1999. 2000. 4ª ed. p. 1999. Adalberto. novembro de 1999. [ et al]. Revista Jurídica. José Luiz Toro da. p.. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. p. Os Efeitos Obrigacionais da Publicidade. São Paulo: Revista dos Tribunais.. op. 2000. Sônia Maria Vieira de. nº 265. 4ª ed. 46. PASQUALOTTO. São Paulo : Revista dos Tribunais. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 51. Rio de Janeiro: Renovar. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. Ada Pellegrini. 298. Cit. CASADO. São Paulo: Malheiros Editores..183 9. Celso Antonio Bandeira. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto/ Ada Pellegrini Grinover. 1997. GRINOVER..[ et al]. Forense Universitária. Noções de Direito do Consumidor. Adalberto Pasqualotto. MELLO.. 286. Carlos Alberto Bittar. MELLO. 12ª ed. Carlos Alberto. 12. pp.. Porto Alegre: Síntese. 82 e 83. 2000.. 6ª ed. 13. op.. . p. 1995. 11. Curso de Direito Administrativo.

admitindo-se apenas a adesão daqueles que desejarem aceitar a lei do contrato". que o Direito se incline diante das nuanças e divergências que as relações sociais fizeram surgir. sem dúvidas. Conclusão. Paris.A Competência da Secretaria de Direito Econômico.Introdução. 4.2.O Controle das Cláusulas abusivas. 3. para os quais em todo caso. são fortemente influenciadas pela economia de mercado.5. 1901 Sumário:1. 2. obrigando antecipada e unilateralmente.2. trecho de Raymond Saleilles em De la déclaration de volonté. de contratos de adesão. mormente as relações de consumo.Da Aplicação das Portarias da SDE aos Contratos Utilizados no Âmbito do Sistema Financeiro Nacional. há contratos e contratos e estamos longe da realidade desta unidade de tipo contratual que supõe o Direito. como o Direito não é subsistema normativo ético isolado dos demais.A recepção do princípio da predominância da ordem pública pelo CDC como meio de afastamento das cláusulas abusivas nos contratos de adesão.6.4. na ausência de termo melhor. as regras de interpretação judicial deveriam se submeter. 7. Anexo.Referências Bibliograficas. 2. nesse quadro.3.184 As cláusulas abusivas à luz da doutrina e da jurisprudência Autores: Andrade Carlos Cavalcante Karla Karênina "Sem dúvidas. A cobrança extrajudicial de honorários advocatícios como cláusula abusiva. cedo ou tarde. Há supostos contratos que tem do contrato apenas o nome.1. 6. que dita sua lei não mais a um indivíduo mas a uma coletividade indeterminada. nos quais a predominância exclusiva de uma única vontade. poderiam ser chamados. recebe essas influências que o tornam apto a regular as novas relações que emergem do desenvolvimento da sociedade. e cuja construção jurídica esta por fazer. vê-se que economia é uma das maiores influenciadoras no . Será necessário. 2. agindo como vontade individual.Efeitos nos contratos.Sentença proferida em sede de ação de rescisão contratual. 2. reflexo do processo de globalização no qual se insere toda a sociedade contemporânea. 2. a importantes modificações. Cláusulas abusivas.2. 5.Notas. 1.Introdução As relações contratuais em curso na atualidade.Contratos de Adesão.

que dispensa a prévia discussão das bases do negócio instrumento. é tão imperiosa que.º da Lei de Introdução ao Código Civil para suprir essa lacuna: decidindo de acordo com a analogia. de desequilíbrio entre as partes contratantes. tão forte e tão profunda. com o propósito de mudar o curso de seus efeitos. ao atrasar qualquer das prestações avençadas é o consumidor surpreendido com ação judicial promovida pelo estipulante no foro deste. O art."(Caio Mário da Silva Pereira) (1) "Essa força obrigatória atribuída pela lei aos contratos é a pedra angular da segurança do comércio jurídico. Outros diplomas . nem o Estado mesmo. o Poder Judiciário recorria às regras gerais contidas nos arts. largamente utilizados para a aquisição ou utilização de bens. em um contexto atual de nosso direito. surgiram os chamados contratos de adesão. de forma que. encerra uma centelha de criação. O aumento das relações entre fornecedores e consumidores advindo da nova economia de mercado tornou perceptível uma situação.nas declarações de vondade se atenderá mais à sua intenção que ao sentido literal da linguagem). que entendem não existir mais. e onde vem sendo a praxe a inserção de cláusula abusiva onde se elege o foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor.185 desenvolvimento jurídico. que não comporta retratação. a qual atualmente se admitem restrições. o que acabou por franquear o questionamento de institutos outrora inabaláveis. Trata-se de um contrato estandardizado. como Nelson Nery Junior. como o pacta sunt servanda.º e 5. Antes do Código de Defesa do Consumidor. o princípio da intangibilidade do conteúdo dos contratos significa a impossibilidade de revisão pelo juiz. Em se reconhecendo a vulnerabilidade do consumidor no mercado de massa. pode intervir. enunciada em conformidade com a lei. o que significa uma verdadeira negação de acesso à justiça. há juristas. não vislumbrada até então. o instituto da pacta sunt servanda "stricto sensu" não existe mais. a não ser excepcionalmente. fez-se indispensável a criação de aparatos jurídicos capazes de repor equilíbrio entre os pólos contratuais. 4."(Orlando Gomes) (2) Com a crescente evolução de uma sociedade que prima pelo consumismo. 85 . embora fosse para isso preciso afrontar o posicionamento tradicional dos mestres civilistas a respeito da força obrigatória dos contratos: "O princípio da força obrigatória no contrato contém ínsita uma idéia que reflete o máximo de subjetivismo que a ordem legal oferece: a palavra individual. valendo-se do direito comparado e atendendo aos fins sociais e às exigências do bem comum. popularmente difundido como leasing. depois de adquirir vida. destacando-se os de alienação fiduciária e o arrendamento mercantil. as cláusulas abusivas eram disciplinadas de maneira esparsa no direito positivo pátrio. 85 do mesmo diploma legal era também aplicado (Art. Praticamente.

autorizado a editar anualmente um rol exemplificativo do que são tidas por cláusulas abusivas É objetivo do estudo ora encetado a análise da posição doutrinária e jurisprudencial no que concerne às cláusulas abusivas. 115 e o art. não é exaustiva.51º "São nulas de pleno direito. e sua conseqüente declaração de nulidade. apresenta. 24. causam em detrimento do consumidor um desequilíbrio importante entre os direitos e obrigações das partes. o Decreto-Lei n. assim como as implicações decorrentes. uma lista exemplificativa das chamadas cláusulas abusivas. dentro do período de reflexão de sete dias. pode o aderente exercer o direito de arrependimento. 2. pelo art.186 legislativos também tratavam do assunto. 1. tendo direito à devolução imediata das quantias que eventualmente pagou.195/1966 e outros. como se pode depreender da observância dos fatos acima expostos. A previsão de cláusulas abusivas pelo CDC. em linguagem clara e acessível. as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: . portanto. tais como: os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores se não lhes foi dada a possibilidade de tomar conhecimento prévio de seu conteúdo ou se os respectivos instrumentos foram redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance. é possível a inversão do ônus da prova em favor do consumidor. entre outras.372. corrigidas monetariamente pelos índices oficiais. frente as exigências da boa-fé. e do tratamento dado pela doutrina e jurisprudência a este assunto. posto que.Cláusulas Abusivas Dispõe o artigo 51 do Código de Defesa do Consumidor: "Art. é inegável a importância da devida compreensão acerca do que sejam cláusulas abusivas. 59. sendo o Secretário Nacional de Direito Econômico autorizado. no caso de dúvida as cláusulas contratuais gerais devem ser interpretadas em favor do aderente. redigido em português.181/97 (regula o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor). em seu artigo 51. no caso de o contrato de consumo ter sido concluído fora do estabelecimento comercial. tais como o Decreto n. Há apenas dois artigos no Código Civil brasileiro que proíbem o uso das cláusulas leoninas (3): o art. 857/1969.038/1934. que são aquelas cláusulas contratuais não negociadas individualmente e que. o Decreto n. Com o advento do CDC (4) foram trazidos avanços ao tratamento da proteção contratual do consumidor. como regra básica. 58 do Decreto nº2. há penalização se o termo de garantia não for adequadamente preenchido e entregue ao consumidor. todo produto ou serviço deve ser obrigatoriamente acompanhado do manual de instalação e instrução sobre sua adequada utilização.

. se utilizadas.187 (. no conceito de Nelson Nery Junior: "são aquelas notoriamente desfavoráveis à parte mais fraca na relação contratual de consumo. ainda. "Assim. Competência Territorial. têm decidido em casos tais que. (5) Segundo Hélio Zagheto Gama: "As cláusulas abusivas são aquelas que. Código de Defesa do Consumidor. desde que se averigúe o justo equilíbrio entre as partes. acarretando desequilíbrio contratual entre as partes e ferindo os princípios da boa-fé e da eqüidade.". em contrato de adesão. abusivas. onerosas. Ruy Rosado de Aguiar. possam contaminar o necessário equilíbrio ou possam. Conforme disposto no artigo supramencionado. (STJ – AG Nº 170. DJ-24/08/1998) "Competência.. Prevalência da norma de ordem pública que define o consumidor como hipossuficiente e garante sua defesa em juízo".. exceto quando sua ausência acarretar ônus excessivo a qualquer das partes. tais cláusulas são nulas de pleno direito. Cláusula de eleição de foro.. cláusulas como essa do instrumento havido entre as partes ostentam-se indisfarçavelmente ineficazes e sequer possível o seu aproveitamento". há que se entender cláusulas abusivas como sendo aquelas que estabelecem obrigações iníquas. Tratando-se de ação derivada de relação de consumo. a mais abalizada doutrina e atual jurisprudência. e não operam efeitos. ou sejam incompatíveis com a boa fé ou a equidade. Cláusula de eleição de foro. assim. inseridas num contrato. vexatórias ou. que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada. Órgão: Segunda Seção.) IV – estabeleçam obrigações consideradas iníquas. Foro de Eleição. em que deve ser facilitada a defesa do direito do consumidor (Art. São sinônimas de cláusulas abusivas as expressões cláusulas opressivas. Processo N°: 21540.699 –MG (97/0088907-6) (Anexo II) "Conflito de Competência. causar uma lesão contratual à parte a quem desfavoreçam". (STJ. somente a cláusula abusiva é nula: as demais cláusulas permanecem válidas. sendo que a nulidade de qualquer cláusula considerada abusiva não invalida o contrato. (6) Assim. Relator: Min. Contrato de adesão.".. Cláusula Abusiva O juiz do foro escolhido em contrato de adesão pode declarar de ofício a nulidade da cláusula e declinar da sua competência para o juízo do foro do domicílio do réu. com os olhos postos no presente. . Cláusulas abusivas. VIII. e subsiste o contrato. 6º. excessivas. de que resulta dificuldade para a defesa do réu.

a SDE divulgará. compete ao Secretário Nacional de Direito Econômico editar anualmente um rol exemplificativo de cláusulas abusivas. em 13. a coordenação geral da política do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor.05. Assim. dentre outras atividades. mas servem de roteiro para os operadores do Direito (advogados. garantindo.181/97 estabelece que. pois. . aplicando-se o disposto no inciso IV do artigo 22 do Decreto 2. inserir. Conforme anteriormente exposto. elencando as cláusulas abusivas. impende considerar como absoluta a competência do foro do domicílio do réu. compreendido até a efetiva formação do vínculo contratual (fase pré-contratual).1998. uma proteção a posteriori do consumidor. através do DPDC. cabendo aplicação de multa ao fornecedor de produtos ou serviços que. Compete à SDE. cria novos direitos para o consumidor e deveres para o fornecedor.181/97. elenco complementar de cláusulas contratuais consideradas abusivas.j. qualquer que seja a modalidade do contrato de consumo. que não têm força de lei.J. as portarias publicadas pela Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça." ( S. fiscalizar e aplicar as sanções administrativas previstas no CDC e solicitar a instauração de inquérito para apuração de delito contra o consumidor. para os comerciantes. exceção de incompetência.181.A Competência da Secretaria de Direito Econômico A Secretaria de Direito Econômico (SDE) foi criada pelo Decreto nº 2. através de um efetivo controle judicial do conteúdo dos contratos. assim. a previsão de cláusulas abusivas pelo CDC não exaure as hipóteses com o elenco ali exposto.2ª Seção . em caráter exemplificativo. Juízes) e de advertência. conforme especificado no artigo 3o do Decreto 2. . O DPDC deverá.188 do Código de Defesa do Consumidor).11. fizer circular ou utilizar-se de cláusula abusiva.181/97. São atos de natureza administrativa. prestar aos consumidores orientação permanente sobre seus direitos. sendo órgão do Ministério da Justiça.1.181/97. no momento posterior. DJU de 16. são editadas em cumprimento ao disposto no citado artigo 56 do Decreto 2. de 20 de março de 1997 e atua por meio de seu Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC). Conflito conhecido. O artigo 56 do Decreto 2. direta ou indiretamente. que integra o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor.T. anualmente.98 ) O CDC apresenta dois momentos distintos de proteção contratual ao consumidor: no primeiro momento. 2. a fim de orientar o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. promotores. não se exigindo. são criadas normas proibindo expressamente as cláusulas abusivas nesses contratos.

Sendo caracterizada a relação como de consumo ou demonstrada. e/ou alegar que o CDC.3. 160. pré-excluindo-se a contrariedade (Pontes de Miranda). não há que se discutir a não aplicação do CDC aos contratos bancários. contemplado pelo direito brasileiro de forma genérica. e conseqüentemente as portarias da SDE.Destarte. a existência de cláusulas obscuras ou abusivas. na classe dos atos ilícitos. em complemento à listagem constante do artigo 51 do CDC. Não obstante as penalidades administrativas que a SDE ou qualquer outro órgão integrante do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor possam vir a aplicar. Do cotejo desta disposição. e. Nesta feição é que o princípio da boa . há instituições financeiras que pretendem questionar a validade/aplicação das portarias da SDE. ou vigorar como um princípio subjacente ao ordenamento jurídico. art. pois o cliente não é destinatário final dos serviços e/ou produtos oferecidos. I. ou ainda configurada a excessiva onerosidade das obrigações assumidas livremente pelos clientes. segunda parte). uma vez que a figura do cliente da instituição financeira não pode ser equiparada à figura do consumidor. As cláusulas abusivas seriam. uma especialização do fenômeno do abuso. se pode concluir que o fundamento do repúdio às cláusulas abusivas assenta no princípio da boa fé. Contudo. aflorando casuisticamente na construção do caso concreto. 2. alegando que determinadas cláusulas tidas como abusivas pela SDE. na realidade não o são.Da Aplicação das Portarias da SDE aos Contratos Utilizados no Âmbito do Sistema Financeiro Nacional Ante o exposto. não se aplicam a determinados tipos de contratos utilizados no Sistema Financeiro Nacional (caso em concreto). se pode concluir que a SDE tem competência e legitimidade para orientar o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor e uma das formas por que se realiza esta orientação é a divulgação anual de cláusulas contratuais consideradas abusivas. pelo uso anormal do direito. ainda que indiretamente. duas alegações possíveis de serem articuladas por tais instituições seriam: questionar o conteúdo das portarias editadas pela SDE. de forma inequívoca. se pode depreender que o abuso estaria incluído. as instituições financeiras não podem ser impedidas de recorrer ao Poder Judiciário para solucionar os conflitos gerados em razão da aplicação ou não de regras referentes às relações de consumo.189 2. portanto.Meios de Controle das Cláusulas abusivas O fundamento jurídico em que sedimenta a doutrina brasileira o posicionamento acerca das cláusulas abusivas é o abuso de direito.2. por conseguinte. quando não considerou como ilícito o uso regular de um direito (Código Civil. a anulação dos referidos contratos ou das cláusulas abusivas contidas no bojo destes. O princípio da boa fé pode encontrar amparo legal inserindo-se como conceito indeterminado numa cláusula geral.

162-RS. O fato de ter o CDC estabelecido a nulidade de pleno direito das cláusulas. enquanto esta depende sempre da manifestação judicial. 128. e a inovação trazida ao tratamento desta questão pelo CDC. 51. estabelecendo que o vício é meramente parcial. dizendo ainda que Código Civil versa a figura da nulidade e da anulabilidade. 4º.190 fé se faz largamente presente no sistema brasileiro. Sem o comando dessa nova diretriz. que veda ao juiz conhecer de questões a cujo respeito a lei exige (exigia) a iniciativa da parte". uma cláusula geral que autoriza o repúdio das disposições que ".) IV – a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva.. bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços. se de nulidade absoluta. É patente a diferença de tratamento por esta turma do STJ. sejam incompatíveis com a boa-fé e equidade". antes e depois da vigência do CDC. aquela é sempre ipso jure. Tanto que está presente no rol das cláusulas abusivas."(grifo que não consta do original) A lei fala em nulidade de pleno direito. a cujo respeito a lei exige a iniciativa da . Cumpre destacar por oportuno a questão da decretação judicial de nulidade da cláusula abusiva não suscitadas pelas partes.6º São direitos básicos do consumidor: (. e III. caput. a seguir transcritos: "Art.. sobre a inaplicabilidade das regras do Codecon às relações de consumo celebrados antes de sua vigência. A proteção contra cláusulas abusivas é direito básico. in verbis: "Esta Eg. não suscitadas.. sem necessidade de ação judicial. O juiz decidirá a lide nos limites em que foi proposta. com ressalva de meu posicionamento. gera discussões acerca da natureza deste vício. sendo-lhe defeso conhecer de questões.. art. métodos comerciais coercitivos ou desleais. como regra cardeal (arts.. ou relativa ou anulabilidade. Segundo Arruda Alvim. Pontes de Miranda discorda dessa terminologia. o sistema de invalidade no direito civil comum é dúplice: os autores tratam das nulidades absolutas e das relativas. Veja-se o RESP nº 90. à luz do disposto no art. o Código de Proteção e Defesa do Consumidor é explícito a respeito da boa fé.IV). para os contratos formulado anteriormente ao CDC. cujo voto é a seguir transcrito. que teve como relator o eminente Ministro Ruy Rosado de Aguiar. era aplicado a inteligência dos artigos 128 e 460 do CPC. 6º. 4ª Turma tem reiteradamente decidido. cuja diferença seria o grau de intensidade do defeito que macula o ato. IV do CDC: "Art. prevalece a norma geral do artigo do Código de Processo Civil.

adequando o contrato. a incompetência em razão do lugar. quando observado o vício. Proteção Contratual. ressalva da posição do relator. integrando e construindo as cláusulas no contrato de modo que se possa dar execução ao mesmo. Foro de eleição. chamada de "Sentença Determinativa". a sentença decide extra ou ultra petita". a favor do autor. criando uma nova relação. seção. Destinatário. 29/10/1996) Contudo. Órgão: Segunda Seção. Constatada a cláusula abusiva. mas é também sujeito ativo. deve ser suscitada pelo reu (sumula 033). bem como condenar o réu em quantidade superior ou em objeto diverso do que lhe foi demandado". Objetivando a desconstituição de cláusulas. Relator: Min. em homenagem ao princípio da congruência. a maior parte da doutrina diverge dessa orientação. O juiz constrói. sendo sujeito ativo. Competência territorial. posto que é decretável de ofício. Clausula abusiva. ensina Moacyr Amaral Santos: "A sentença deverá ser a resposta jurisdicional ao pedido do autor. Neste sentido: "Código de Defesa do Consumidor. não podendo a sentença extrapolar os limites da litiscontestatio.7ª Câm. . durante o Congresso Paranaense de Direito Processual Civil. Segundo a orientação predominante na 2a. realizado no hotel Bourbon em Curitiba. as cláusulas consideradas absolutamente nulas. Para ele. Assim também manifestou sua posição Nelson Nery Jr. conflito conhecido e declarada a competencia do juizo suscitado. por ser de natureza relativa. Ruy Rosado de Aguiar. ele revê as cláusulas. Ele sugere uma nova hipótese de classificação de sentença. dado o seu cunho de ordem pública. violando os dispostos nos arts. É defeso ao juiz proferir sentença. nos limites em que este o formulou. Cív. para não ocorrer julgamento extra petita. Sobre o princípio da congruência e o princípio da adstrição do juiz. impõe-se ao juiz a sua decretação. DJ. de natureza diversa da pedida. (7) Conforme esse entendimento. o juiz não pode declarar nulidade de cláusulas ex officio. onde o magistrado não somente muda um estado. independentemente de provocação das partes. Processo n°16253. criando uma nova realidade. ainda quando se trata de foro de eleição estabelecido em clausula de contrato de adesão.(STJ. 128 e 460 do CPC. participando. Cláusulas abusivas. deve a sentença ater-se ao pedido" (TARGS – APC Nº 193051216. "Art. – Relator Juiz Antonio Janyr Dall’Agnol Junior) "Conflito de competência. A causa deve ser julgada como proposta e contestada. 460.191 parte". independentemente de provocação das partes. admitindo assim a decretação ex officio. devem ser declaradas nulas. Afastando-se desses limites.

prevendo a norma geral a proibição de cláusulas contra a boa-fé. 2. a nulidade de qualquer cláusula considerada abusiva não invalida o contrato. permanecendo válidas as demais cláusulas contratuais. eficiência e dinamismo às relações de consumo. prevendo a ineficácia de uma cláusula abusiva e não simplesmente sua nulidade absoluta.192 assim que o vício é detectado. institui como um direito do consumidor a possibilidade de modificação de cláusulas contratuais no sentido de restabelecer o equilíbrio da relação com o fornecedor. o legislador baseou-se na chamada "redução de eficácia" da doutrina alemã. não sendo isto defeso ao juiz. acarretar ônus excessivo a qualquer das partes. sem que tenha havido oportunidade de discussão do mesmo. com os olhos postos no presente.4. 2. são aplicáveis tanto aos contratos de adesão quanto aos contratos paritários e são sempre consideradas nulas. cláusulas como essa do instrumento havido entre as partes ostentam-se indisfarçavelmente ineficazes e sequer possível o seu aproveitamento". o consumo depende do desenrolar da economia de mercado. apesar dos esforços de integração. tendo em vista que os contratos são instrumentos de circulação de riquezas.Efeitos nos contratos A definição de cláusulas abusivas.699 –MG (97/0088907-6) Resta inconteste que coaduna com a busca de equilíbrio na relação contratual a admissibilidade da intervenção judicial na base do contrato. Além do previsto no artigo 51. o CDC adotou o princípio da conservação dos contratos ao determinar que somente a cláusula abusiva é nula. e os efeitos dela decorrentes. Aqui. e vice versa. o consumidor poderá solicitar ao juiz de direito que altere o conteúdo negocial de uma cláusula considerada abusiva. (STJ – AG Nº 170. exceto quando sua ausência. . a mais abalizada doutrina e atual jurisprudência.5. que concorda com todos os termos do contrato que lhe é apresentado. Há inúmeros exemplos de jurisprudência que convergem com esta doutrina: "Assim. e que é na mais das vezes resultado direto da fragilidade econômica do consumidor. e sua importância em parte deriva da constatação que os contratos de consumo guardam intrínseca relação com a economia. rapidez. Destarte. desde que se averigúe o justo equilíbrio entre as partes. em seu artigo 6º.Contratos de Adesão Os contratos de adesão surgem como forma de proporcionar maior uniformidade. A teor do disposto no parágrafo 2º do multicitado artigo 51 do CDC. o CDC. com o fim maior de não se permitir a execução da onerosidade constatada em seu bojo. têm decidido em casos tais que. subsistindo o contrato.

esse tipo de contrato apresenta-se como a adesão alternativa de uma das partes ao esquema contratual traçado pela outra. via de regra. conforme exposto. próprias dos contratos paritários. (10) Os contratos de adesão são unilaterais. Entretanto. para constituir o conteúdo normativo e obrigacional de futuras relações concretas. Caracteriza-se por ser um negócio jurídico bilateral. como anteriormente salientado. traz. pela outra parte. aquele que está propondo a aderência a toda a proposta. (9) Em sua formação. sai beneficiado em relação ao aderente. os contratos de adesão podem ser tidos como uma necessidade do mundo globalizado. e segundo corrente dominante na doutrina. de modo geral e abstrato. Define-se o contrato de adesão como o negócio jurídico no qual a participação de um dos sujeitos da relação sucede pela aceitação em bloco de uma série de cláusulas formuladas antecipadamente. mormente na Itália. Segundo Ana Maria Zauhy Garms. (8) Segundo Orlando Gomes: "O contrato de adesão caracteriza-se por permitir que seu conteúdo seja preconstruído por uma das partes. 54 – Contrato de Adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor de produtos ou serviços. e devido à necessidade de adquirir o bem ou o serviço o indivíduo acaba por aceitar as condições que lhe são impostas. inexistindo as negociações preliminares e modificação de cláusulas. nas quais apenas uma das partes. eliminada a livre discussão que precede normalmente à formação dos contratos". não obstante existam antes do processo de globalização. isto é. uma das cláusulas mais comuns é a de eleição do foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor. Uma das mais comuns cláusulas abusivas em contratos de adesão é a de eleição do foro do estipulante em detrimento do foro do domicílio do consumidor. por suprimir a prévia discussão do conteúdo entre fornecedor e consumidor. sem que o consumidor possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo. cláusulas abusivas. o contrato de adesão. o que gera grande desigualdade nas relações de consumo entre as partes contratantes. deve o juiz reconhecer de ofício a . isto por que neste tipo de contrato não há oportunidade de negociações. formado pelo concurso de vontades (embora restrito).193 Assim. 54 definiu o contrato de adesão: "Art. "As grandes instituições utilizam-se dos contratos de adesão para praticarem abusos contra os consumidores." Nos contratos de adesão. O Código do Consumidor em seu art. e que na maioria das vezes não são esclarecidas ou informadas pelo funcionário da instituição responsável pela realização do contrato".

LIII. É a mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade.194 nulidade da cláusula abusiva. conforme o escalão do princípio violado. a ação será proposta em qualquer o foro". enquanto que a exigência de que a parte suscite a incompetência do foro está inviabilizada pelas mesmas circunstância que levaram ao reconhecimento da abusividade da eleição do foro.São . ou simplesmente decididas. Saraiva . porque representa insurgência contra todo o sistema. in casu. da Constituição Federal: "Ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente". citado por Maria Helena Diniz: "Violar um princípio é muito mais grave do que transgredir uma norma. pág. mas a todo o sistema de comando. visto que devem submeter-se aos mandamentos insertos no Código de Processo Civil e nas leis de organização judiciária dos Estados. § 3º "in fine" do CPC: "Quando o réu não tiver domicílio nem residência no Brasil. nos limites de sua competência. À luz desse dispositivo. 116. pelos órgãos jurisdicionais. assim como declinar da competência para o juízo do domicílio do réu. Essa decisão não conflita com a Súmula 33 do STJ. (In NORMA CONSTITUCIONAL E SEUS EFEITOS. a propositura da ação no foro do domicílio do estipulante ou em qualquer outro que não seja a do domicílio do consumidor. e conseqüente afastamento desta. ressalvadas às partes a faculdade de instituírem juízo arbitral". subversão de seus valores fundamentais. O Código de Processo Civil e as normas de organização judiciária dos Estados estipulam as diretrizes básicas para a definição dos limites da competência a serem observadas na prestação jurisdicional. contido no comando do artigo 5º. 86 do aludido diploma legal: "As causas cíveis serão processadas e decididas. contumácia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra". as partes não podem escolher livremente o foro onde querem propor a ação. a ação será proposta no foro do domicílio do autor. Se este também residir fora do Brasil. o consumidor. 1989. torna o juízo absolutamente incompetente ante à flagrante violação ao "princípio do juiz natural". como imperativo de ordem pública. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório. A única hipótese em que a ação pode ser proposta em qualquer foro do Brasil está estandardizada no artigo 94.(grifo que não consta do original) Isto posto. Dispõe o art. Cumpre salientar a lição do Professor Celso Antônio Bandeira de Mello. porque a nulidade da cláusula faz desaparecer a razão pela qual a ação foi proposta no juízo que se dá por incompetente.

CONTRATO DE ADESÃO. esteja sendo sobremaneira dificultada a defesa do réu. Inaplicabilidade da súmula 33/STJ.u. Ccomp 24495-0. dentro da cidade de São Paulo. v.Contrato de Adesão _ Prevalecimento do Código de Defesa do Consumidor para que o devedor tenha acesso aos órgãos judiciários e facilitação de sua defesa . Gonçalves. é nula de pleno direito por Ter sido editada por Juízo agora tido como absolutamente incompetente.Foro de Eleição . Abusividade da cláusula de eleição de foro. à luz do que fora exposto. Julgado em 23 de abril de 1998) "CONSUMIDOR. "EX OFFICIO". confere a cada um parcela de competência funcional dentro do foro de São Paulo.000181-3. mas sim de reconhecimento de normas de ordem pública a exigir a remessa dos autos à Comarca do domicílio do consumidor. Rel. a propositura da demanda perante foro diverso do domicílio do consorciado dificulta . Marcos Antônio Souto Maior. Assim. em determinada área da cidade.195 Paulo). rel. Esp. que se destaca pela superioridade da vontade do estipulante e reduzido âmbito de escolha do aderente. o que impõe sua revogação". em se tratando de ação que tenha por objeto contrato de adesão.Consórcio . Nigro Conceição. COMPETÊNCIA. DECLINAÇÃO.. Câm.Artigo 6º. não se pode afirmar tratar-se o caso de competência territorial relativa. A decisão objurgada.078/90 . Embargante: Suy Mey C. Embargado: Banco Fiat S/A. 113. Decisão unânime. para que não sirva de invencível acesso à justiça. A divisão da competência estabelecida por lei de organização judiciária. porquanto. sem sombra de qualquer dúvida tem cunho decisório. 122. 1ª Câmara Cível. determinou e ocasionou a apreensão do veículo pertencente a agravante e.10. Com o devido respeito àqueles que se filiam a outro entendimento. j. combinado com o art. prejudicial à defesa do consumidor. Nesse sentido: "Foro Regional e Declaração ex officio de incompetência. Ainda que se reconheça que na divisão do foro de São Paulo em diversos Juízos há forte componente territorial que marca a delimitação da competência de cada um entre si. Ao receber a petição inicial ao juiz cumpre examinar a validade e eficácia de tal cláusula e impedir que. a teor do estabelecido no art. Des.)" "COMPETÊNCIA . ambos do Código de Processo Civil vigente. declinável ex officio (TJSP.1995. nula de pleno direito a decisão objurgada. m vista todo o exposto. a validade da cláusula de foro de eleição deve ser de logo examinada. através de seu cumprimento. ADMISSIBILIDADE. especialmente quando há possibilidade de deferimento de medida liminar. por essa razão. 265.Hipótese que não se trata de declinação de ofício de incompetência relativa.M. ganhando por isso contornos de competência absoluta. incisos VII e VIII da Lei nº 8. emerge dos autos ser completamente incompetente o Juízo "a quo" e.(Embargos de declaração nº 98.

estabelecida em contrato de adesão.406-2. na medida em que a existência e o exercício da técnica processual têm por objetivo. colocando-o em desvantagem exagerada. e essa afronta. XXXV). caso a caso. Julg. não sendo lícita. precipuamente aos desígnos constitucionais e não. ainda quando está a decidir sobre a competência de foro. é justa e razoável a conclusão de que o reconhecimento e a proclamação afronta a preceitos constitucionais demandam exame. Também no mesmo sentido o voto do magistrado Antônio Carlos Marcato. art. 29240. da 79 Câmara do Segundo Tribunal de Alçada Civil de São Paulo: "A cláusula eletiva de foro. podem . pela parte economicamente mais forte. Linbs. de Inst. Ag. mormente quando não impõe ao réu maiores dificuldades para o pleno. exercício de seu direito de resposta. art. o que configura a abusividade da cláusula e a sua nulidade de pleno direito. Daí porque. decretável de ofício. VIII". 6º. Rel. impor ônus e gravames indevidos a um dos sujeitos processuais. Competência absoluta. atender. (TJSP. CONTRATO DE ADESÃO. da ampla defesa e da supremacia do interesse público hão de ser preservados e aplicados em todas as situações processuais. das circunstâncias que envolvem o contrato. "CONSÓRCIO. em se tratando de foro de eleição favorável ao estipulante de contrato de adesão." Os princípios constitucionais do juiz natural. sejam quais forem. à evidência. COMPETÊNCIA. nem estabelece obrigação que possa ser considerada iníqua ou abusiva. Direito do consumidor em ser demandado em seu domicílio. incumbe ao juiz impedir que ela tenha eficácia. assim afrontando as correspondentes garantias constitucionais. seria suficiente. declinando da sua competência para o foro de domicilio do réu.: Des. de acesso à justiça. em Agravo de Instrumento nº 477. quando não o impossibilita. para justificar a pronta remessa dos autos ao foro do domicílio da parte hipossuficiente. Júlio Vidal. Julg.078/90 (CDC). e assim caracterizada a abusividade da cláusula. à luz do CDC (Lei nº 8078/90). em 30/10/96). em 30/10/96). A eleição de foro é tão somente a mais comum dentre as cláusulas abusivas comumente contidas nos contratos de adesão. 32959-4. (TJSP. 5º. Itú. Juiz Cesar. quando desde logo evidenciado que o demandando terá extrema dificuldade para exercitar sua defesa. É essa a posição que vem prevalecendo na melhor jurisprudência. a pura e simples generalização de que toda e qualquer cláusula eletiva do foro seja. por si só. abstraídos outros aspectos processuais (de menor ou nenhuma importância em confronto com ditas garantias). ao contratante mais fraco sérios (e por vezes insuperáveis) óbices ao pleno acesso à jurisdição e à sua defesa no processo.. Ag de Inst. No entanto. revela-se abusiva se e quando impuser. Rel. Lei 8. nem jurídica. todas elas. É caso de nulidade de pleno direito. não obstante esse direito seja garantido constitucionalmente (CF/88.196 seu acesso à Justiça.

e ainda. (12) 2. enquanto a exigência de que a parte suscite a incompetência do foro está inviabilizada pelas mesmas circunstâncias que levaram ao reconhecimento da abusividade da eleição de foro. cumpre salientar que nem toda regulamentação contratual préformulada pode ser entendida como abusiva.6. conforme exposto no presente estudo.197 ser questionadas. que variam de 10 a 20% do valor devido. dificultará sobremaneira a defesa do réu em juízo. tal como a que elege. reintegração de posse decorrente de contrato de leasing. cabendo ao julgador verificar a abusividade ou não das cláusulas pré-elaboradas. não ofende a Súmula 33 do STJ. (11) Por fim. Assim. o foro do domicílio do estipulante. 3. da supremacia da ordem pública e da magnitude da defesa do consumidor. são amplamente aplicados aos contratos de adesão. derrogando as cláusulas abusivas. quando o seu cumprimento significar verdadeira negação de acesso à justiça. quando a propositura da ação no foro de eleição. As cláusulas negociadas destes contratos deverão subordinar-se à interpretação comum dos contratos. se o consumidor ou o fornecedor contratante. uma vez que se amoldem ao disposto no art. o juiz deve ainda de ofício reconhecer a nulidade de cláusula abusiva. sob o argumento de que o escritório que faz a cobrança só recebe o pagamento se houver o acréscimo dos encargos (juros de mora e multa) além de honorários advocatícios. O cerne da questão é a quem cabe arcar com o pagamento dos honorários devidos ao advogado. De início cumpre .A cobrança extrajudicial de honorários advocatícios como cláusula abusiva A questão ora analisada concerne à cobrança de honorários advocatícios por escritórios de advocacia do consumidor. em contrato de adesão.A recepção do princípio da predominância da ordem pública pelo CDC como meio de afastamento das cláusulas abusivas nos contratos de adesão Os princípios do juiz natural. que as cláusulas abusivas devem ser desconsideradas pelo consumidor". por força dos dispositivos pertinentes à espécie contidos no CDC. porque a nulidade da cláusula faz desaparecer a razão pela qual a ação foi proposta no juízo que se dá por incompetente. 51 do CDC. pelo que pode e deve o juiz declarar de ofício sua competência para processar as ações de busca e apreensão. "No que tange aos contratos de adesão o Código de Defesa do Consumidor é bem claro ao especificar que todos os contratos devem ser revistos quando tornarem-se excessivamente onerosos. na sede da empresa estipulante. ou outra qualquer. em razão de débitos em atraso com o fornecedor. A decisão judicial que reconhece a nulidade de cláusula abusiva e declara a incompetência de ofício.

Os serviços jurídicos contratados diretamente entre o advogado e o consumidor não se enquadram neste item".078/90 e do art. entretanto. arcar com o pagamento dos honorários advocatícios. expressou nota explicativa a respeito dos motivos da edição da Portaria nº 04 de 13. acima transcrito que "O consumidor não está obrigado ao pagamento de honorários ao advogado do fornecedor. realizada em Brasília. A Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça editou a Portaria nº4/98 que tipificou como abusiva a cláusula contratual que obriga o consumidor ao pagamento de honorários advocatícios. sem que igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor". prescrevendo como nula de pleno direito a cláusula contratual que obriguem o consumidor ao pagamento de honorários advocatícios sem que haja ajuizamento de ação correspondente. deverá ele. indubitavelmente. (item 9 da Portaria nº 4/98). ver-se-á que o caso em tela enseja a aplicação da Teoria da Abusividade na Relação de Consumo em prol do consumidor. o que corrobora a tese da abusividade da cobrança. em caso de inadimplemento. arbitramento judicial ou sucumbência" Vê-se que nenhuma destas hipóteses legitima a cobrança de honorários da parte que não contratou. Ora.906/94) dispõe que há três possibilidades de cobrança dos honorários advocatícios: "quando há convenção entre as partes. um ônus imputado ao consumidor em desvantagem exagerada. Arcar com os honorários de advogado para agir contrário aos seus próprios direitos/interesses é.181/97. O artigo 22 do Estatuto da Advocacia (lei 8. ao recorrer aos préstimos do advogado. que autoriza a emissão de título cambial por procurador. 51 da lei 8. que. sem ajuizamento de ação. O STJ já pronunciou a respeito da nulidade de cláusula contratual no caso da denominada cláusula mandato. como é o caso do consumidor.198 observar que o consumidor não celebrou nenhum contrato com o escritório de advocacia. esta Portaria adita ao elenco do art.03. pelo que resta óbvio que quem deve pagar os honorários é o fornecedor. objetivando declarar a nulidade absoluta da cláusula.98. XII do CDC que é nula a cláusula contratual que "obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua obrigação. E caso haja o consumidor assinado contrato que contenha cláusula prevendo que. outras cláusulas abusivas. prescrevendo a Súmula nº 60 do STJ: "É nula a obrigação cambial assumida por procurador do mutuário vinculado ao mutuante no exclusivo interesse deste". esclarecendo em relação ao item 9. estatui o art. cumpre perguntar se seria cabível aplicar-se o art. Além disso. . a qual deve então ser paga diretamente ao advogado contratado. 51. 22 do Decreto 2. 22 do Estatuto da advocacia (convenção entre as partes). se nos reportarmos à definição de cláusula abusiva. em conformidade com a decisão unânime extraída da 19ª Reunião do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. consumidor. deixa de aceitar receber a parcela vencida. O Despacho nº 132 do Secretário de Direito Econômico. de 12/05/98 (13).

12 Ed. cumpre ao Estado tutelar a parte hipossuficiente da relação contratual. Cláusulas Abusivas nos Contratos de Adesão à do Código de Defesa do Consumidor. as cláusulas abusivas merecem um tratamento metodológico como tentativa de conter tais procedimentos. ditando o tom do regime jurídico e legal das condições gerais dos contratos. independentemente da posição ou condição de cada parte envolvida".Conclusão Do presente estudo se pôde com propriedade depreender que atualmente é grande. Rio de Janeiro: Forense. Retirado de . Arruda. 3. 1997 GAMA. Curso de Direito Civil Brasileiro. como bem pontifica Ana Maria Zauhy Garms (14): "A proteção do consumidor surge pela determinação de se cumprir a igualdade contratual. por meio de leis específicas de proteção. Revista de Direito do Consumidor nº 20. ou seja. É o tratar de forma desigual as partes no momento em que elas se desigualam. assim como a compreensão e percepção desse instituo pelos juristas. Da preocupação do Estado com os problemas da defesa do consumidor advieram grandes mudanças na elaboração dos contratos. o que denota o reflexo no âmbito jurídico do processo de evolução por que passou a economia. por vezes maciça.V. legislativo. diante da configuração contratual. já não se aplica mais indistintamente o pacta sunt servanda. São Paulo: Saraiva. Curso de Direito do Consumidor. 2001 luz GARMS.Teoria das obrigações contratuais e extracontratuais. É objetivo do Código de Defesa do Consumidor assegurar ao consumidor igualdade em face do fornecedor. com a instituição de órgãos próprios estatais. e igualmente quando se igualam. dentro da proteção contratual estabelecida com o advento do Código de Defesa do Consumidor. Referências bibliográficas ALVIM. e judicial. Hélio Zaghetto. a crise do liberalismo refletiu no declínio do individualismo característico daquela realidade sócio-econômico.199 4. fls. a presença dos contratos de adesão nas relações de consumo. Cláusulas Abusivas e seu Controle no Direito Brasileiro. com a fixação de jurisprudência. pelo que passou o Direito do Consumidor a ser um dos principais elementos de afirmação da cidadania. Ana Maria Zauhy. Assim.. (24/70) DINIZ. Em virtude da importância conferida assim às relações de consumo. tratar de forma desigual os desiguais a fim de que se tornem iguais. tutela esta que é feita no plano administrativo. 5. Maria Helena.

2001 GOMES. Instituições de Direito Civil.jus. Retirado de www. Contratos.asp?id=708 em 24. pelo telefone. Direito Civil. Michelline Oliveira Klippert ingressaram com ação de rescisão contratual contra Goettert . participaram de um coquetel e tiveram conhecimento de um . Rio de Janeiro: Forense. Vol.htm em 20... n.2001 MARTINS. Código do Consumidor. Orlando. etc. Retirado de http://www1. 2a.2001 PEREIRA. n.infojus.com.nov.jus. III. 26a ed.nov.nov. 49. 47.com. às 21h.0795. V.asp?id=788 em 24. Moacyr Amaral.. Vistos.htm em 24. narrando que.2º Juizado Comarca de Porto Alegre Autores: Luís Fernando Klippert Ré: Goettert .. no dia 03. na Rua Luzitana nº597.1999 SANTOS.3 – Dos Contratos e das Declarações Unilaterais de Vontade. São Paulo: Saraiva.jus.br/area7/rosana2. Código de Processo Civil Comentado.2001 NERY JUNIOR. Plínio Lacerda.br/doutrina/texto. Lá comparecendo. Luís Fernando Klippert e S/M.br/doutrina/clabusi.br/doutrina/texto. Nelson. In: Jus Navigandi.São Paulo: Revista dos Tribunais. In: Jus Navigandi. 16.com. 1966 RODRIGUES. Caio Mário da Silva. IV 6. Comentários ao Código de Processo Civil.200 www. A questão das cláusulas abusivas nos planos de saúde. foram convidados. Anexo Sentença proferida em sede de ação de rescisão contratual Processo nº0119539789 8ª Vara Cível . Rio de Janeiro: Forense.v.Engenharia e Construções Ltda. Ed. GRINBERG. Rosana. Cobrança extrajudicial de honorários advocatícios: cláusula abusiva. Ed. para comparecerem no dia seguinte. Retirado de http://www1. 1995. tendo em vista um projeto turístico. Silvio.Engenharia e Construções Ltda. 1997 PEIXOTO. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão.com..nov. Marco Aurélio Ventura.

até porque seria muito difícil. deveriam pagar multa no valor de 35% do valor do imóvel. a possibilidade de ser feita a cumulação de semanas não aproveitadas em um ano para o ano seguinte. Sustenta ter agido corretamente. bem como as parcelas vencidas. uma vez paga a multa estipulada. Versam os presentes autos a respeito de uma forma totalmente abusiva. seduzidos pelo "marketing" da requerida. ou arapucas. para coibir tais práticas. as únicas pessoas presentes na ocasião eram os autores e funcionários da ré. impondo-se a firme atuação dos órgãos encarregados de defender o consumidor. Relatados. Preocuparam-se os autores em demonstrar que o contrato e o regulamento para uso do empreendimento turístico estava em desacordo com o que havia sido dito na exposição da ré. Foi informado que o preço estava em promoção e que o contrato deveria ser assinado naquela mesma noite. 49 do CDC não se aplica. ocasião em que foram informados de que. analisando melhor o negócio. a fim de atrair o consumidor e. verificaram divergências entre o que foi dito na ocasião e o que constava no contrato. Não havia. Ao retornarem para casa.201 projeto de construção com vendas de cotas para serem utilizadas em condomínio por diversos proprietários. Assim. . para tanto. decido. Realizada audiência. prestando todas as informações a respeito do empreendimento. firmaram o contrato. Os autores não concordaram e enviaram correspondência. que corresponde ao ressarcimento de despesas. eis que firmado de forma livre pelos autores. sendo que a requerente é advogada. invocando normas do Código de Defesa do Consumidor. para rescindir o contrato. Os autores responderam. pois o contrato não foi firmado fora do estabelecimento comercial. manifestando o interesse em desfazer a avença. proferindo-se os debates orais. Requer a condenação dos autores no pagamento das despesas relacionadas com o contrato. fechar um negócio que não era de interesse do comprador. Aduz que o contrato deve ser respeitado. Pretendem os requerentes a rescisão do contrato. Não ficou demonstrada esta alegação dos requerentes. aproveitando-se de menor reflexão. sendo condenada a ré no pagamento dos encargos de sucumbência. O art. Retornaram no dia seguinte. foram ouvidas as partes e testemunhas. na preparação de armadilhas. por exemplo. O comércio não pode estar baseado no aliciamento. É possível rescindir o contrato. Contesta a ré. desrespeitosa e inaceitável de comércio. o qual foi analisado pelos requerentes.

como absolutamente irrelevante eventual divergência entre o que foi tratado inicialmente e o contrato firmado. o cliente fica totalmente incapacitado de refletir sobre o que está comprando. existindo todo um cenário montado. Ao fim de duas horas de aranzel monocórdio sobre as maravilhas do prédio. É do conhecimento de todos que existem equipes de "recepcionistas" atacando as pessoas em lugares públicos. o aliciamento do consumidor começa com uma pretensa entrevista. O fundamental é que toda a atuação da ré é inaceitável.202 Tenho. acaba tendo várias funções. Conforme restou perfeitamente esclarecido pelos documentos e testemunhas ouvidas. com todos os sentidos ocupados em transmitir ao cérebro informações novas. nem é apresentado o regulamento. que nem existe. À exposição oral soma-se o cenário cuidadosamente montado. a ré faz os tais coquetéis todas as noites. para ler e refletir. Além disto. que. para ajudar a distrair e criar . em tais empreendimentos. de aliciar clientes sem que estes tenham pleno conhecimento da finalidade para a qual estão fornecendo os seus dados. primeiro. Não é difícil perceber que. portanto. As irregularidades são tantas que o contrato não tem como subsistir. avaliar criticamente o que está sendo dito. termina enredado em uma enfadonha reunião comercial. Conforme ficou claro pela prova colhida. antes de ser assinado o contrato. os clientes são encaminhados para as mesas dos vendedores. apresentando solução para todas as eventuais objeções. acreditando que vai para uma festa. com as mesmas "promoções". existe uma promoção "imperdível". a necessidade de processar todas essas informações acaba reduzindo a capacidade de raciocinar. vem o convite para o coquetel. no entanto. é de referir o procedimento já aludido. Por outro lado. Ao cliente não é permitido levar o contrato para casa. sabe-se que os vendedores ou recepcionistas. são cuidadosamente treinado para falar continuamente e não deixar qualquer dúvida no espírito do cliente. apartamento decorado. e também os salgadinhos e bebidas servidos aos participantes. O que parece um inocente coquetel. Identificado um cliente em potencial. no qual o consumidor será convencido a comprar tal empreendimento. restaurantes. o convite para um coquetel configura nova forma de seduzir o comprador por via indireta. Primeiro. sub-reptícia. ou qualquer outra forma de obter os dados pessoais e informações quanto ao patrimônio do comprador em potencial. maquete. Conforme relataram as pessoas ouvidas. etc. depois. para servir de atrativo para o cliente. naquela noite. com apresentação de filme. onde lhes é dito que. Do início ao fim da exposição o casal é acompanhado de pessoa encarregada de afogar os incautos em informações excelentes sobre o empreendimento. ou pesquisa.

portanto. quando é instado a fechar o negócio. independentemente das maravilhas de determinado produto ou serviço. o desrespeito de impedir o cliente de levar o contrato para ler na sua casa. a cláusula que estabelece a multa de 35% é . depois de duas horas de agradável explanação. Ora. o cliente é encaminhado ao vendedor.. o contrato está impresso em letras minúsculas. preparada por profissionais de marketing com aprofundados conhecimentos de psicologia. a coação"moderna".203 um vínculo. Ao final deste bombardeio arrasador. como a ré fez questão de lembrar. Por outro lado. sustentando a inexistência desta no presente caso. Ademais. a coação existiu. velada. tendo mais um vendedor à frente. Segundo. de ameaça. não há dúvida quanto à falta de capacidade. ao efetuar a compra. Discorreu eruditamente a ré a respeito dos contratos e da coação. Primeiro. não se admite a coação. O negócio teria sido livremente estabelecido. que causa dificuldade para qualquer pessoa de visão normal ler na totalidade. por parte do comprador. Mas de forma sutil. Fica evidenciado que todo o esquema está montado para induzir as pessoas a efetuarem o negócio sem a devida reflexão. tendo em vista tudo o que já foi referido. para decidir. devolvido assinado. Se o que foi referido não bastasse. Não se discute este aspecto. após algum tempo. se os autores tivessem levado o contrato para casa e. Não creio que algum comprador pare para ler uma por uma das cláusulas. Não na forma de violência. Muitas superproduções de Hollywood fracassam por não conseguirem manter a atenção do público por duas horas. um débito do convidado. que o preço está em promoção "só naquela noite". ao fim de toda a maratona. duvido firmemente que. pode até ser bom o empreendimento oferecido pela ré. todo um esquema montado para induzir o comprador a fazer um negócio que pode até não ser ruim. na obtenção da vontade do consumidor. No caso em tela. fazer uma avaliação crítica e decidir pela aceitação da mesma. utilizando a empresa ré de dois artifícios. etc. Mas isto a ré não aceita que seus clientes façam. ou a capacidade reduzida. Acontece que. mesmo lendo o contrato. teve gastos com o coquetel oferecido aos autores. por leve que seja. sociologia. a explanação de duas horas apresenta-se como um exagero com o visível intuito de cansar os clientes e vencer suas últimas resistências. daí ser "norma" da empresa que o contrato seja assinadona mesma noite. convencendo sobre o insuperável empreendimento. aliados às técnicas de vendas. Resulta em um aparato de procedimentos mercadológicos que impõe sérias dúvidas a respeito da vontade livre e espontânea do consumidor. Tem-se. o comprador consiga atentar para o sentido de cada cláusula. Na verdade. uma mentira. Agora imagina-se ao fim de um dia de trabalho.

considerar rescindido. de forma que estaria ela buscando enriquecimento sem causa. ainda. a começar ela aludida semana na Praia dos Ingleses. como determina o art. pois se trata de contrato abusivo. § 5º. permite à vendedora. . decretando a rescisão contratual. na medida em que o espírito que norteia o citado diploma legal deve ser preservado. de pleno direito. bem como outras despesas. De qualquer forma. pois os autores. tenho como razoável. Aliás. conforme previsão do CDC. não foram comprovadamente pagas pela ré. as taxas de associação ao tal de RCI. bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos ou serviços. por todas as circunstâncias que envolveram o negócio. do contrato. No entanto. Ademais. que esta mesma cláusula estabelece que o contrato é irrevogável e irretratável. pois nenhum comprovante trouxe de que tenha realmente pago os valores referidos. § 6º. Quem aproveitou esta semana. § 4º. para declarar nulas as cláusulas 4ª. além de o contrato ser abusivo. mesmo que eventualmente a situação concreta não se amolde perfeitamente à previsão legal. sem que igual direito seja conferido ao consumidor. caracteriza-se a necessidade de uma especial proteção. Alega a ré que a venda não ocorreu fora do estabelecimento comercial. pois tinha conhecimento da pretendida rescisão. que "elege" o foro de Florianópolis para conhecer o contrato. como nos casos referidos nos casos referidos no aludido dispositivo. de execução obrigatória. 49 do CDC. a desistência dos autores foi comunicada de imediato. mas a cláusula 4ª. facilitando a sua compreensão. § 6º. não permanecendo no empreendimento. logo. art." Quanto à aplicação do art. métodos comerciais coercitivos ou desleais. e também a cláusula 12ª." Por fim. 51. acrescentando-se. de foma que nenhuma despesa poderia ter efetuado a ré para prejudicar os autores. e o contrato aqui ter sido firmado. apesar de as partes serem domiciliadas nesta Capital. 54. "em qualquer tempo. Isto posto. obtido de forma coercitiva. a requerida beira a má-fé. e 12ª. o contrato é um amontoado de ilegalidades. quanto às despesas alegadas pela ré. que diz: "São direitos básicos do consumidor: IV) a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva. o presente compromisso". mesmo que fosse afastado o art. Trata-se de cláusula abusiva. Publique-se e intimem-se. XI: "autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente. julgo procedente a ação. teria aplicação o rt. 49. para 4 pessoas. 6º.204 totalmente nula. pois o consumidor teve reduzida a sua capacidade de decisão livre e conscientemente. a ré irá embolsar este valor. Arcará a vencida com as custas processuais e honorários advocatícios de cinco salários mínimos. já que os autores não foram até a referida praia? Além disto. nenhum direito tem ao ressarcimento. como a cláusula 4ª. que estabelece mandato cambial em favor da vendedora. do Código do Consumidor. pois não está redigida em destaque. não serão associados da RCI. De qualquer forma.

Ana Maria Zauhy Garms. 13. mesmo que moralmente condenável. Bayard de Freitas Barcellos Juiz de Direito 7. Diz-se que a Lei de Defesa do Consumidor (Lei n° 8. "São elas chamadas de leoninas porque são impostas nos contratos com o objetivo de prejudicar as partes mais fracas. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor 12. 5. p. 8. Curso de Direito do Consumidor. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão 9. 15 de abril de 1996. IV. deve provocar reflexão: é tão avançado talvez porque. Comentários ao Código de Processo Civil . Contratos. Orlando Gomes. idem. Nelson Nery Junior. p.205 Porto Alegre. p. passa a ser automaticamente permitido. Código de Processo Civil Comentado. Ana Maria Zauhy Garms. Hélio Zaghetto Gama.Vol. antes de servir à ufania dos legisladores.Hélio Zaghetto Gama. idem.078/90) é dos mais avançados sistemas legais dessa natureza. 11 2. 37/38 3.379 6. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor 11. III.Vol. p. p. Moacyr Amaral Santos. aqui.Notas 1. Instituições de Direito Civil . Orlando Gomes.108 4. Contratos. 1. Marco Aurélio Ventura Peixoto.109 10. Ana Maria Zauhy Garms. que ficam sujeitas ao bote do leão quando de suas aplicações". Publicado no Diário Oficial da União. em 18/0598 14. Cláusulas abusivas nos contratos de adesão à luz do Código do Consumidor. .108 7. 441. p. Ana Maria Zauhy Garms. Essa constatação. Caio Mário da Silva Pereira. p. o que não é vedado em lei.

a prova é. a partir desse momento. da prova. sem que influência nenhuma exerça sobre o seu valor o elemento lógico de que se extraiu.1 – Conceito de Prova O conceito tradicional de prova adotado. mas a prova no processo. com algumas variáveis. a prova seria o instrumento pelo qual o juiz se utilizaria para definir a verdade dos fatos que efetivamente ensejaram a lide. provar significa formar a convicção do juiz sobre a existência ou não de fatos relevantes no processo. por boa parte da doutrina jurídica. O texto legal determina que as provas têm a finalidade de obter a verdade dos fatos. Resta saber o que significa a palavra "verdade" sobretudo tendo em vista a finalidade e limitações do processo civil enquanto manifestação humana e cultural. transitado em julgado a sentença. Nesse sentido. não dependem. reconhecido como o meio de obtenção da verdade dos fatos no processo. pelo menos repetido. e sobre os quais concluirá sua atividade cognitiva. Por si mesma. e por isso. Os fatos aceitos. um meio de controle das proposições que os litigantes formulam em juízo (1). portanto.206 Inversão do ônus da prova no CDC e no CPC Autor: Ranieri Eich 1. a prova em geral da verdade dos fatos não pode ter limites. Observe-se que esses fatos somente dependem do procedimento probatório na exata medida em que sejam tidos como controversos. a investigação dos fatos da causa preclude-se definitivamente e. Conforme os ensinamentos de CHIOVENDA. sobre a limitação na necessidade social de que o processo tenha um termo. (2) O próprio Código de Processo Civil Brasileiro induz a essa conceituação à medida que coloca a prova como instrumento de obtenção da verdade dos fatos. Para COUTURE. a tem. ou. considerada em seu sentido processual. . pois. o direito não cogita mais da correspondência dos fatos apurados pelo juiz à realidade das coisas. em que se funda a ação ou a defesa. ativa ou passivamente pelas partes. estão aptos a receber a avaliação judicial como suportes de sua decisão. ao revés da prova puramente lógica e científica. e a sentença permanece como afirmação da vontade do Estado.NOÇÕES PRELIMINARES 1.

caso entender necessário. necessariamente. tendendo essa representação a equivalência limitada e não à perfeita identificação entre o objeto representado e o objeto representante. propostos pelos litigantes. 1. para introduzir o problema.2 – Princípios da Teoria da Prova Dentre os princípios que informam a Teoria da Prova. a veracidade de sua existência (3). assim. não se produziram com observância das regras legais (4). nem formar sua convicção com os meios que. OVÍDIO BAPTISTA DA SILVA ressalta que. conceituamos essencialmente a prova como a tentativa de demonstração objetiva dos fatos controvertidos com a intenção de facultar ao juiz a formação de uma hipótese razoável que possa ser adotada como suporte fático para a formulação de uma decisão. . parágrafo único. 1. o princípio da oralidade e o princípio da prova livre. o princípio dispositivo. A prova também pode ser conceituada como todos meio de confirmação ou não de uma hipótese ou de um juízo produzido no curso do processo. o juiz não pode levar em conta. um teste de coerência entre a formulação e o provável suporte fático da demanda. Conforme o art.2. 130 e art. na sua apreciação do feito. fatos que não foram alegados pelas partes. por isso. as provas já produzidas. Nesse sentido. observa-se que a prova não é apresentada como meio de obtenção da verdade (e veremos que não há como pensar diferente) e sim como instrumento de formação de um raciocínio jurídico dotado de força em decorrência de seu proferimento por uma autoridade judiciária. é preciso verificar a priori se a verdade pode ser obtida pelo processo em si e mais. nem sempre a prova de um fato demonstrará. é preciso tentar sistematizar uma resignificação que efetivamente reconheça a complexidade do instituto. foi atribuído ao juiz determinar as provas necessárias à instrução do processo e ao mandar repetir. Sendo. O princípio do ônus da prova será estudado posteriormente com maior ênfase. 132. ambos do Código de Processo Civil. Para além da definição legal que parte do pressuposto de ser possível o alcance da verdade fática no processo. a qualquer momento.1 – Princípio dispositivo Para PONTES DE MIRANDA. A prova pode ser conceituada como o meio de representação dos fatos que geraram a lide no processo. podemos destacar dentre eles.207 Exatamente. se é possível formular um conceito que explicite o que realmente contém o conceito da prova. no ramo da ciência jurídica. Em qualquer dos conceitos por nós antes apontados.

prevê que todos os meios legais. os incisos LVI (inadmissibilidade de provas obtidas por meios ilícitos). as provas devem ser produzidas em audiência. do domicílio. reflete que a justiça rápida e barata só pode ser conseguida pelos princípios da oralidade. pondo termo aos abusos e rodeios do processo escrito. (6) 1. uma vez que essas situações seriam incompatíveis com a seriedade e segurança da justiça. 1. (5) No sistema brasileiro.2. tratando da oralidade do processo civil austríaco. o meio tido como hábil para o encaminhamento da verdade real e processual. imediatidade e autoridade judicial. existindo legalidade e moralidade. e das comunicações telegráficas e telefônicas). porém sem excluir a escrita.3 – Destinatário da prova e motivação Pois bem. permanecendo em momentos culminantes do processo como em quando da produção da prova oral. mas lhe basta firmar um juízo de probabilidade que permita afastar as dúvidas razoáveis. quando necessário. salvo disposição em contrário. dizendo que o processo oral influi inclusive na moral processual. ainda que não especificados no Código. bem como os moralmente legítimos.2 – Princípio da oralidade Pela determinação do art. da imagem. X a XII (inviolabilidade da intimidade. são hábeis para provar a verdade dos fatos. concentração. as provas necessárias na audiência de instrução e julgamento. Complementam esta disposição legal e o referido princípio. O que se busca e dar celeridade ao processo e produzir. Em vista disso. O que se vê na transição dos estados intelectuais do Juiz no processo é que ele parte de uma ignorância completa acerca dos fatos e à medida que o trâmite vai se desenvolvendo ele passa a forma juízos provisórios. o princípio da oralidade conduz à predominância da palavra. 332 do Código de Processo Civil. da correspondência. em que se funda a ação ou defesa.208 1.3 – Princípio da prova livre O disposto no art. da vida privada. E complementa. principalmente por causa da disparidade entre as despesas do processo rápido e o proveito eventual oriundo da morosidade processual. vimos que o Juiz não precisa formular uma certeza acerca dos fatos controvertidos. não permitindo a utilização da ilicitude. da honra. Desses juízos provisórios será extraído o mais conforme com o que foi . SIEGMUND HEELMANN.2. pelo uso de meios moralmente ilegítimos. 336 do Código de Processo Civil.

Sem essa argumentação não se pode ter como cumprida a exigência constitucional e legal de motivação. de o juiz não ter condições objetivas de formular sequer uma hipótese que considere razoavelmente provável. ético. e principalmente. É a partir da motivação que se pode avaliar em termos extrajurídicos se a sociedade concorda com o conteúdo axiológico da decisão. o juiz deverá julgar conforme a desincumbência de cada parte de seu ônus. determinar porque selecionou racionalmente sua hipótese como a mais provável. Determinar o ônus probatório a cada uma das partes assegura ao juiz um modo de decidir quando enfrentando uma dúvida consistente. se posta como efetivo meio de controle jurisdicional e social. Como estamos no campo das probabilidades. após a instrução probatória. que. da decisão e formar o refluxo no senso comum do que é e o que não é justo. mas. assim. diante do que foi demonstrado pelas partes e pela própria ação instrutória autônoma do Juiz. econômico. Isto é. É de se observar que a exigência de motivação é outro dos conceitos cujo reducionismo tem levado a um grave efeito social. que aponte a coerência de suas conclusões com os dados que foram obtidos no processo. isto é. em dúvida. impõe-se ao juiz não somente que exponha suas razões para julgar do modo como julgou. . sempre. mas também. caberá a ele motivar racionalmente a sua decisão. Pode ocorrer. A atribuição do ônus da prova se constitui como instrumento de exteriorização de dois valores: o de facilitar a atividade jurisdicional e o da eqüidade. A motivação permite aos indivíduos avaliar o conteúdo moral. o raciocínio judicial está sob avaliação conforme o exposto na sua motivação. um meio de permitir o Juiz o cumprimento de seu dever legal de decidir a lide. entre outros aspectos. isto é.209 produzido em termos probatórios. caberá a este formar uma decisão que adote a hipótese mais provável como suporte fático. em se tratando de sistema processual regido pelo princípio do convencimento racional do juiz. e nesse caso surge a importância da atribuição do ônus da prova. É. em última instância deve seguir um procedimento de coerência racional. expor o seu raciocínio. isto é. É evidente que. Isso porque a motivação da decisão expõe o raciocínio judicial à validação social. Com isto. A motivação atende a necessidade das partes de entenderem os motivos pelos quais o Juiz foi levado a concluir desta ou daquela maneira. inclusive. Em todo o caso. o juiz deverá motivar sua escolha.

Como partes.4 – Ônus da Prova: Etimologia da Palavra Ônus deriva do latim ônus. ainda que seja em sociedade. o que não ocorre no que tange ao ônus". valorar a prova. O ônus da prova. "obrigação é o lado passivo a que corresponde do lado ativo um direito subjetivo. regula conseqüência de se não haver . mas aos efeitos que a passividade e a inércia resultarão. Uma vez que todos têm de provar não há discriminação subjetiva do ônus da prova. não sujeitando-se à coerção. E complementa "o ônus da prova é objetivo. ARRUDA ALVIM coloca outra distinção importante entre o ônus e obrigação. onde requer uma conduta de adimplemento ou cumprimento. no aspecto de necessidade de provar.210 Isso significa que a motivação judicial mais que tudo exige uma forma ordenada. não há relação entre sujeitos. não subjetivo. Ônus probandi tem como tradução o encargo de provar. todos os figurantes hão de prova. significando carga. que "é a circunstância de esta última ter um valor e poder. assim. a satisfação é do interesse do sujeito ativo. ou em outros termos. Ao decidir. para ele. Leia-se encargo no sentido de interesse de fornecer a prova destinada à formação da convicção do magistrado. 1. no que tange aos fatos alegados (7). inclusive quanto a negações. sujeitos da relação jurídica processual. um dos quais é o que deve. satisfazer é do interesse do próprio onerado". Pode dizer-se que o direito subjetivo é um interesse protegido mediante um poder de vontade ou um poder da vontade concedido para a tutela de um interesse. tema que passamos a melhor analisar no item seguinte. (9) Para PONTES DE MIRANDA. peso. Em regra a obrigação está ligada ao direito material. objetiva.5 – Distinção entre Ônus e Obrigação É imprescindível a distinção entre ônus e obrigação. Obtém-se a noção de obrigação invertendo simplesmente a de direito subjetivo. Já o ônus é uma faculdade que a parte tem. (8) Com precisão CARNELUTTI estabeleceu a distinção entre ônus e direito de provar. assim. onde. certo que a omissão do devedor poderá resultar na sua coerção para que cumpra a obrigação. 1. ao passo que (b) o ônus é em relação a si mesmo. coerente e justificável de raciocínio que adentra ao campo da argumentação jurídica. há relação entre dois sujeitos. o juiz constrói um raciocínio que deve se apresentar correto sob o ponto de vista dos meios de avaliação do pensamento jurídico. e. "a diferença entre dever e ônus está em que (a) o dever é em relação a alguém. um vínculo de vontade imposto pela subordinação de um interesse". ser convertida em pecúnia. É a obrigação um interesse subordinado mediante um vínculo.

078/90.) somente quando o autor trouxe provas idôneas para demonstrar a existência do fato constitutivo de seu direito. pode ocorrer em dois propósitos: a) ou o réu tende. a prova da exceção". e aí temos a verdadeira prova do réu. sem excluir o fato provado pelo autor. para seu convencimento. Mas. no dizer de ECHANDIA é o poder ou faculdade de executar livremente certos atos ou adotar certa conduta prevista na norma. a sua prova. o de determinar a quem vão as conseqüências de se não provado. (12) O princípio distributivo atinente ao ônus da prova tem base legal no Código de Processo Civil. as regras sobre conseqüência da falta dd prova exaurem a teoria do ônus da prova. da exceção. na demanda. sem sujeição nem coerção e sem que exista outro sujeito que tenha o direito de exigir seu cumprimento. atual Código de Defesa do . necessidade de esclarecimento para decidir a demanda. cada parte tem a faculdade de produzir prova favorável às suas alegações. o réu" (10). ao que afirmou a existência do fato jurídico (e foi. de seu lado.6 – Inversão do ônus da prova O ônus da prova. independentemente de quem vai produzi-lo. no caso concreto. Já GIUSEPPE CHIOVENDA ensina que "(. o autor). tem o réu de diligenciar. a seu turno.. incumbe ao Autor a prova da ação e ao réu. 1. algum fato ou prova que foi apresentado pelo autor ou pelo réu. somente como já foi dito. ficando o tema restrito à seara da prova negativa quanto ao fato constitutivo. na demanda. portanto.. Conclui-se que a inversão do ônus da prova deve ser deferido pelo juiz sempre que houver. De acordo com esse sistema. De modo mais simples. sempre se levando em consideração as possibilidades que as partes possuem para produzir tais provas. a estabelecer quais os fatos considerados existentes pelo juiz devem bastar para induzi-lo a acolher a demanda (constitutivos)" (11). Em verdade. portanto. para benefício e interesse próprios. a favor do demandante adverso. seja o outro interessado. afirma e prova a inexistência do fato que lhe elide os efeitos jurídicos. mas cuja inobservância acarreta conseqüências desfavoráveis. Se falta a prova é que se tem de pensar em determinar a quem se carrega a prova. a Lei 8. isto. de modo direto ou indireto (e dizem-se motivos) e temos daí a simples prova contrária ou contraprova. Em sede de responsabilidade civil. O problema da carga ou ônus da prova é. b) ou o réu.211 produzido prova. a provar fatos que provam a inexistência do fato provado pelo autor. Resulta óbvio que nenhuma das partes será obrigada a (ou terá interesse em) fazer prova contrária às suas alegações. o denominado ônus da afirmação. ou a quem contraafirmou (= negou ou afirmou algo que exclui a validade ou eficácia do ato jurídico afirmado). ou. A questão do ônus da prova reduz-se.

o momento próprio para decretar a inversão do ônus probatório. 515 e 516)". por então já ter conhecimento dos fatos alegados na inicial e na defesa. sempre atento." O emérito doutrinador complementa: "Tal deliberação se escora não só nos princípios que governam a prova prima facie como também nos que regem o sistema processual brasileiro. utilizar-se-á das regras de experiência a favor do consumidor. determinar as diligências necessárias à instrução do processo. há o despacho saneador. por provados prima facie. (1968. uma vez em dúvida. 112)". conforme segue: "Na sistemática do Código. logo depois da contestação à ação. por si só. A respeito. ANTONIO GIDI a respeito adverte que verossímel a alegação sempre tem que ser. art. os quais autorizam o juiz. essa modificação. art. de per se não respaldaria uma atitude tão drástica como a inversão do ônus da prova. cit. à regra que lhe impõe não sacrificar a defesa dos interessados (Cód. Conhecidos os fatos alegados e havendo-os como verossímeis.VIII). se e quanto o julgador estiver em dúvida.6. todavia. determinando providências de natureza probatória (Código Processo Civil. uma vez considere algum ou alguns fatos provados prima facie. no despacho saneador – escreve Pedro Batista Martins – para evitar o cerceamento da defesa daquele a quem os mesmos fatos se opõem. convém ressaltar que. a simples condição de hipossuficiência não autoriza. vale dizer. desde que verificadas a verossimilhança do direito e a condição de hipossuficiência do demandante. (14) A inversão do ônus da prova é direito de facilitação da defesa e não pode ser determinada senão após o oferecimento e valoração da prova. IV). de maneira a prosseguir isento de vícios ou de questões que possam obstar ao conhecimento do mérito da causa. Será neste despacho. págs. decretar a inversão do ônus probatório. ordena o processo. tendo-os dada a sua natureza. É dispensável caso forme sua convicção. pois a total ausência de evidências do indispensável nexo de causalidade redundaria em esdrúxulas situações. cumpre ao juiz.1 – Momento processual da inversão do ônus da prova O doutrinador Moacyr Amaral Santos assinala qual o momento processual que considera o mais adequado para a aplicação da inversão do ônus da prova. do Código de Processo Civil. A hipossuficiência do consumidor. na decisão saneadora que. no qual o juiz. Cada parte deverá nortear sua atividade . ao contrário da opinião de alguns doutrinadores. devendo atentar-se que o doutrinador refere-se ao velho Código de 1939. nada impedindo que o juiz alerte. (13) 1. ´anulando-lhe pela surpresa a possibilidade de produção de prova contrária’. se o fato afirmado é destituído de um mínimo de racionalidade. saneando o processo.212 Consumidor (artigo 6º. de ofício. 294. nos artigos 117 e 294. contém dispositivo que permite a inversão do ônus da prova.

este pode merecer incidência. parece mais justa e condizente com as garantias do devido processo legal a orientação segundo a qual o juiz deva. caso efetivada". prolatada no Acórdão n. obviamente deve o órgão jurisdicional assegurarlhe a efetiva oportunidade de dele se desimcumbir. LV). regras de comportamento dirigidas aos litigantes. estaria a seu cargo. Considerando que as partes não podem ser surpreendidas. expressamente conceituados pelo Código (artigos 2º e 3º da Lei 8. (15) CARLOS ROBERTO BARBOSA MOREIRA argumenta que as normas sobre a repartição do ônus probatório consubstanciam. não nos parece constituir ofensa aos cânones constitucionais a inversão no momento da decisão. ao final. não implicando surpresa ou afronta aos citados princípios. explicitar quais serão objeto de inversão. (17) A jurisprudência vem entendendo que o momento da inversão do ônus da prova deve ser antes de prolatada a sentença. citando inclusive KAZUO WATANABE é de que "a garantia do devido processo legal deve ser. mudando a regra até então vigente. Se lhe foi transferido um ônus – que. a inversão do ônus da prova igualmente pode ser prevista.213 probatória de acordo com o interesse em oferecer as provas que embasam seu direito. também. decidiram por unanimidade. conforme segue: INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . VIII. assumirá o risco de sofrer a desvantagem de sua própria inércia. tendo como relator o Juiz Alvimar de Ávila. Se a pretensão estiver fundada em relação de consumo. por força da inversão determinada na sentença. (16) A posição de LUIZ EDUARDO BOAVENTURA PACÍFICO. conforme jurisprudência a seguir: INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . (18) Também em julgamento da Quarta Câmara Cível do Tribunal de Alçada de Minas Gerais. Se não agir assim. com a incidência das regras de experiência a favor do consumidor. A partir do conteúdo da petição inicial – com a exposição de causa de pedir e do pedido – às partes envolvidas no processo é perfeitamente possível avaliar se há a possibilidade de aplicação das normas do Código do Consumidor ao caso concreto. a inversão no momento do julgamento. não existia antes da adoção da medida -.RELAÇÃO DE CONSUMO OPORTUNIDADE . protagonizada por consumidor e fornecedor. art. 5º. para ele. Contudo. Logicamente. do Código de Defesa do Consumidor.RESPEITO AOS PRINCÍPIOS DO CONTRADITÓRIO E DA .078/90). com um provimento desfavorável decorrente da inexistência ou da insuficiência da prova que. ao avaliar a necessidade de provas e deferir a produção daquelas que entenda pertinentes.º 0301800-0 Apelação Cível de 01/03/2000. assegurada a qualquer custo.Inteligência do artigo 6º. sem dúvida. atentaria contra os princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa (CF. Por isso.

Recurso a que se nega provimento. não há qualquer exceção às regras gerais estabelecidas no Código de Processo Civil. o magistrado escolherá a o momento para determinar a inversão do ônus da prova.214 AMPLA DEFESA .º 8. em regra. determinadas de ofício pelo juiz ou requeridas por ambas as partes? Nestas hipóteses.078/90.MATÉRIA VENTILADA NAS RAZÕES RECURSAIS IMPOSSIBILIDADE DE CONHECIMENTO PELO TRIBUNAL.2 – Inversão do ônus da prova e despesas processuais Conforme imposição legal do art. 333 do Código de Processo Civil. pois a sua finalidade é formar a convicção do julgador. podendo. 6º. que tratam do ônus financeiro da produção dos atos processuais. 333. a quem cabe o ônus de antecipação de despesas nos casos de atos probatórios requeridos pelo consumidor. Conforme ensinam doutrina e jurisprudência. devendo ser decidida. da Lei n. VIII. 1. A inversão do ônus da prova. 19 do Código de Processo Civil (19). resta impossibilitado examinarse em grau de recurso matéria sobre a qual não houve manifestação da primeira instância. Podemos classificar essa imposição legal como um verdadeiro ônus processual. cabe às partes. o que incorreria em cerceio de defesa. do CPC. na audiência de conciliação ou em qualquer momento que se fizer necessária. é que sua aplicação deve submeter-se ao poder discricionário do juiz. Surge daí a questão: invertido o ônus da prova nas lides de consumo. todavia. desde que assegurados os princípios do contraditório e ampla defesa. levando-se em conta a doutrina e a jurisprudência. constituem exceção ao art. As normas consumeristas. 19 e seguintes. depende de decisão fundamentada do magistrado antes do término da instrução processual. como exceção à regra geral do art. sob pena de supressão desta. . pois. sob pena de não poder ser adotada na sentença. podendo advir daí possíveis conseqüências desagradáveis para quem o requereu e não adiantou as despesas. no momento do saneador. após especificação das provas. Desta forma. suportar as despesas dos atos que realizem ou requerem dentro do processo. A aplicação do art. que trata do ônus subjetivo da prova. pelo simples fato de não se poder identificar o ônus de provar com o ônus financeiro de realização dos atos probatórios. antecipando os pagamentos durante o curso processual.6. de preferência. ser decretada no despacho inicial. e não das normas do art. cujo descumprimento implicará em não ser realizado o ato requerido.

nesse caso. como nos casos de conduta omissiva e de atos praticados sem caráter administrativo. §2o. na sua grande maioria. Resta todavia. (20) Também não se pode modificar o regime de apuração quando se discuta a responsabilidade do Estado com base em relação protegida pelo Código de Defesa do Consumidor. porque.060/50. que o Estado tem presunção de legitimidade. cabendo a quem alegar contra o Estado. Mas há julgado em sentido diferente como o que abaixo descreve-se: . a regra de inversão do ônus da prova a favor do consumidor não implica na revogação do sistema probatório do Código de Processo Civil.CPC) ou com as despesas de perícia requerida por si ou por ambos os litigantes (art. seja na de risco. sendo de todo irrelevante qualquer exigência de prova a respeito. com as despesas prévias de atos ordenados de ofício pelo juiz ou pelo Ministério Público (art. 33 CPC). ao Autor. a teoria do risco administrativo não submete o Estado a nenhum tipo de inversão apenas porque a vítima é dispensada da prova de culpa da Administração Pública. o ônus da prova quanto ao fato constitutivo de seu direito. especialmente o nexo de causalidade entre a atuação estatal e o resultado apontado. seja porque esse tenha sido o móvel da demanda. não se revela como pressuposto do reconhecimento da responsabilidade do Estado. como antes demonstrado. 19.3 – Responsabilidade do Estado e o ônus da prova Quanto ao ônus probatório. cabe ao consumidor arcar com os ônus financeiros de atos probatórios por ele requeridos. se for o autor da demanda. à parte incumbe o ônus da prova a respeito da ilicitude do ato.6. devendo arcar ainda. também como fatos constitutivos do direito reclamado. 1. bem como a anormalidade e especificidade da exigência pessoal decorrente da imposição administrativa.215 Assim. além do nexo de causalidade e do dano verificado. seja porque a natureza do ato não guarde equivalência com o risco da atividade pública. É que a culpa. Incumbe ainda ao demandante provar o dano e sua extensão. provar o que alegou. Caso seja o consumidor economicamente hipossuficiente. A jurisprudência vem entendendo. dispõe o mesmo da possibilidade de requerer a assistência judiciária prevista em nosso ordenamento pela já mencionada Lei 1. seja na hipótese de culpa. muito menos das regras atinentes ao Estado em juízo. Em se tratando de atos administrativos a respeito dos quais o reconhecimento da indenizabilidade tenha como pressuposto a culpa indireta da Administração. garantidoras do interesse público.

3ª T. quanto ao fato constitutivo de seu direito.AC 95. desprezou o fundamento do pedido de nulidade da execução. 459. . Precedentes deste Tribunal: ausência de notificação alegada pela embargante e não desmentida pela Fazenda. positiva ou negativamente.) Como fato extintivo temos a alegação de prescrição do direito . modificativo ou extintivo do direito do autor. p.Unânime . 1ª parte. através da prova . como segue: Art.NULIDADE DA SENTENÇA . temos a prova da culpa nas ações de ressarcimento dos danos contratuais e extracontratuais. . inverteu-se.ALEGAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DE NOTIFICAÇÃO DO CONTRIBUINTE POR OCASIÃO DA LAVRATURA DO AUTO DE INFRAÇÃO INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA .PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL . É nula a convenção que distribui de maneira diversa o ônus da prova quando: I – recair sobre direito indisponível da parte.I .INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA NO PROCESSO CIVIL O núcleo da regulamentação do ônus da prova está inserido no art. o pedido formulado pelo autor".1999. o ônus da prova.11165-2 . nos termos do art. Parágrafo único. a fim de que a prova da notificação.216 TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL .DJU 17. quanto à existência de fato impeditivo. no todo ou em parte. III . nesse ponto. estando sempre em estreita correlação com o que se alega.Tendo os embargos se fundamentado na inexistência de notificação do contribuinte por ocasião da lavratura do auto de infração. seja produzida e os embargos decididos como de direito. ao julgar improcedentes os embargos sem a produção dessa prova. 333 do Código de Processo Civil. A distribuição do ônus da prova é casuística. II – tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito. Como fato constitutivo da pretensão do autor. do Código de Processo Civil. (TRF 1ª R.. Juiz Jamil Rosa de Jesus . IV .09. II .Apelação provida..Anulação do processo. ficando a Fazenda Nacional com o encargo da prova de ter realizado a notificação. por exemplo.A sentença. 29)(Grifo nosso) 2. II – ao réu.01.afastamento da presunção juris tantum de certeza e liquidez do título executório'' (Apelação Cível 96. pois "o juiz proferirá a sentença. (. Relatora Juíza Eliana Calmon). acolhendo ou rejeitando. expondo-se conseqüentemente à nulidade.01.Rel.15745-0 /AP.PA . 333 – O ônus da prova incumbe: I – ao autor.

está desvinculado. que conseqüentemente deve ser provada pelo réu. da iniciativa e dos acordos entre elas (25). nem das conseqüências de seu descumprimento.. simplesmente por que ao juiz incumbiria a busca da verdade dos fatos e a cooperação das partes seria pelo menos dispensável e sequer haveria como sanciona-las pela omissão de provar. não se cogitaria em ônus probandi. impeditivo. (21) CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO nos ensina que "a teoria dos ônus processuais. b) ou o uso de um meio mecânico de prova. sua conceituação. o juiz mesmo tendo diante de si duas partes. modificativo ou extintivo do direito do autor. (. (24) No processo civil inquisitório. o emprego das regras da distribuição do ônus da prova. de prova complementar. de sua certeza definitiva.. (22) Para SÉRGIO SAHIONE FADEL. se o autor alega. constitui uma das mais lúcidas e preciosas contribuições que se aportaram à sua ciência no século XX. passível de discussão e de dúvidas. outro lhe opõem.) Desse modo. abre-se tecnicamente para o juiz o seguinte leque de alternativas: a) ou ele prescinde de resolver aquela questão de fato. não teria significação a repartição do ônus da prova. A segunda opção implica: a) o adiamento do problema através da prolação de uma decisão provisória (no estado do processo). se ele mesmo alega e o réu não contesta. para a busca da verdade. o réu admite. Quando uma questão de fato se apresenta como irredutivelmente incerta dentro do processo. se forem os atos constitutivos produzidos com prova insuficiente. Onde se tivesse um processo puramente inquisitivo. desde que especificamente contestados. enfim. se o autor alegar o fato e o réu contestar.217 do autor. e. b) ou insiste em resolve-la. o ônus da prova é do autor. dependerão. servindo para esclarecer muitos pontos de dúvida e ditar o correto direcionamento e justa medida das conseqüências dos possíveis comportamentos comissivos ou omissivos das partes". (26) A intensidade do ônus da prova é problema relacionado com o modo como o . necessariamente decisório (como o duelo e o juramento). (23) As regras sobre o ônus da prova e sua distribuição constituem uma inerência do princípio dispositivo. pronunciando o non liquet (que não é admissível no direito moderno). Num sistema que admitisse a pesquisa de ofício da veracidade dos fatos. A primeira opção importaria ao juiz de decidir a causa. ou em decidi-la de maneira tal que não exigisse a resolução daquela questão de fato (de que seriam exemplos o julgamento por sorteio e o julgamento salomônico). o fato se presume verídico. admitindo o fato. e prova. distinção de figuras afins. ou não o provando. c) ou. inserção no sistema do processo. o ônus probatório é do réu.

o ônus da prova incumbe ao autor. porque há duas negativas na primeira proposição". E continua: "Quanto à primeira conclusão. para possivelmente vencer a causa. por exemplo. Seja para a pacificação dos conflitos com justiça. da servidão. 710. é preciso dispor a técnica processual (em sede legislativa ou na prática da jurisdição) de modo a não figurar como impedimento à fruição ou defesa de direitos. prova de omissão culposa para a indenização por ato ilícito (art. para que se considere extinto esse direito real (art. 333 do Código de Processo Civil. Aqui. modificativo ou extintivo do direito do autor. 130 do CPC) ainda que as partes tenham pactuado de maneira diversa". uma vez produzida a prova. quanto ao fato constitutivo do seu direito. a racionalidade dos critérios de julgamentos pela aceitação da probabilidade suficiente em vez da certeza absoluta nem se coloca em termos da tensão entre os princípios que apontam para soluções diferentes. "O princípio dos poderes instrutórios do juiz prevalece obre a faculdade dispositiva dos contratantes. prova do não-uso.218 processo se insere na vida dos direitos e no modo de ser da vida em sociedade. 946). O ônus da prova consiste na necessidade de provar. que afirma que "Não é exato afirmar que a negativa não é prova. Quanto segunda absurda conseqüência. é importante ressaltar os ensinamentos de JONATAS MILHOMENS. (28) 2. basta lembrar que o Código Civil exige. é possível fazer prova dos chamados fatos negativos. prova de inexistência da dívida para a repetição de indébito (art. 159). (29) Na colisão de um fato negativo e de um fato positivo. O princípio da liberação do ônus da prova levaria (a) ou a uma direta oposição a textos legais ou (b) à conseqüência absurda de um julgamento sem prova". vale dizer. torna-se irrelevante indagar quem a produziu.1 – Da prova negativa Para analisarmos este aspecto. pois seria tolhida ao juiz a liberdade na avaliação da prova. quem afirma um fato positivo tem de o provar. por 10 anos. III). O ônus da prova recai sobre aquele a quem aproveita o reconhecimento do ato. seja para a fidelidade na declaração e atuação da lei. Para SANDRA APARECIDA SÁ DOS SANTOS. ao réu. que o ônus da prova é sempre de quem afirma. não pode ser aceito. com preferência a quem afirma um fato negativo. contudo. o juiz pode determinar a produção da prova (art. ver-se-á que não é impossível. sendo importante apenas verificar se os fatos relevantes foram cumpridamente provados (princípio da aquisição). (27) Quanto à distribuição do ônus da prova se admitir que as partes convencionem. segundo o disposto no art. quanto à existência de fato impeditivo. Objetivamente. Note-se: não é impossível equivale à é possível. O fato . vale dizer. em que se encontra cada uma das partes. Assim.

O emprego da conjunção alternativa e não da aditiva ‘e’. quando. indicará a ocorrência de um dentre essas duas situações: a) a alegação do consumidor é verossímil.) VIII – a facilitação da defesa de seus direitos. 6º é clara. a seu favor. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. o juiz deverá inverter o ônus da prova. O ÔNUS DA PROVA E O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR O Código de Proteção e Defesa do Consumidor tem norma expressa a respeito da inversão do ônus da prova. aceitar a convenção das partes. que afirma que "o ato judicial.. A facilitação de defesa não pode ser entendida como interpretação das regras . porém. É princípio basilar não é permitido ao intérprete ampliar". 6º . ou b) o consumidor é hipossuficiente. porque. à evidência. VIII. não sendo este obrigado." (30) 3. Art. na formação das bases da sentença. é necessária a presença de um dos requisitos ali encontrados e não a presença de ambos. se às partes se conferem certos poderes de disposição (indicar os meios de prova.). Esse mesmo posicionamento é corroborado por CARLOS ROBERTO BARBOSA MOREIRA. constante e seu art.. é requisitos. bastando que ocorra a primeira ou a segunda". que as partes possam orientar o processo a seu talante. se assim não o fosse. Para SANDRA APARECIDA SÁ inciso III do art. tal se compreende fora da atividade própria do juiz. segundo as regras ordinárias de experiência. fixar o objeto da demanda. significa que o juiz não haverá de exigir a configuração simultânea de ambas as situações. Fica clara e evidente a regra processual.219 negativo pode ser provado através de provas indiretas. a critério do juiz. devidamente motivado. no processo civil. 6º. JOÃO BATISTA LOPES afirma que "a admissão do princípio dispositivo não significa. etc. Para tanto. (32) A igualdade formal entre as partes é regra básica do processo civil. Constatando-se a presença de verossimilhança das alegações ou a hipossuficiência do consumidor. (31) DOS SANTOS "a norma estabelecida no necessária a presença de apenas um dos o legislador. teria utilizado a do direito que onde o legislador restringe. inclusive com a inversão do ônus da prova.São direitos básicos do consumidor: (. ou seja. conjunção aditiva ‘e’. Dono do processo (dominus processi) é o juiz e. inc.

o que de certa forma. desde o início até a sentença final". em virtude do reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor. é o da sentença. O hipossuficiente tem dificuldade ou impossibilidade na produção da prova. seja porque não é acessível à parte ou estas informações estão em mãos da outra parte. Contra . tem sentido de desconhecimento técnico e informativo do produto e do serviço. O Código de Processo Civil. Para LUIZ ANTONIO RIZZATTO NUNES ensina que a hipossuficiência. No entender de ARRUDA ALVIM. com isenção de custas. fundamentando para tal que os dispositivos sobre o ônus da prova constituem regras de julgamento. pois a parte poderia pedir assistência judiciária gratuita. reside na circunstância do consumidor ser hipossuficiente. despesas processuais. de suas propriedades. entendo que tal preceito "transferiu" a obrigação do Estado de assistir aos necessitados para as empresas. para fins da possibilidade da inversão do ônus da prova. atendendo critérios da existência da verossimilhança do alegado pelo consumidor. nestas incluídas as relativas às perícias e à obtenção de certidões. afastaria a hipossuficiência econômica como autorizadora da inversão do ônus da prova. Não pode haver "facilitação" por interpretação. Entenda-se por hipossuficiência os aspectos que abrangem o aspecto técnico e o aspecto econômico. (35) Quanto à insuficiência econômica. das características do vício. pois este princípio é de direito "material". Para FRANCISCO CAVALCANTI. somente de um ônus processual. (36) A inversão do ônus da prova poderá ser requerida pela parte. dos modos especiais de controle. no que pode ser atendida ou determinada ex officio pelo juiz. antecipando-lhe o pagamento. ao contrário. etc (34). Importante frisar que o simples fato da inversão não tem o condão de pré-julgamento de mérito desfavorável ao demandado. alega-se que esta não poderia servir de base para a alegação de inversão do ônus da prova. é outra norma de natureza processual civil com o fito de. procurar equilibrar a posição das partes. estabelece: "Salvo disposições concernentes à justiça gratuita cabe às partes prover as despesas dos atos que realizam ou requerem no processo. dos aspectos que podem ter gerado o acidente de consumo e o dano. juntamente com o jurista CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO. a critério do juiz. uma vez que o diploma afeto ao consumidor é composto de normas de ordem pública. de seu funcionamento vital ou intrínseco. O momento da inversão do ônus da prova. no tocante à inversão do ônus da prova em função de hipossuficiência do consumidor. cuida-se. em seu artigo 19.220 processuais em favor do consumidor. aquela só pode decorrer de expressa previsão legal. defendido pelos autores do anteprojeto do Código de Brasileiro de Defesa ao Consumidor. (33) Quanto à segunda hipótese onde é possível a inversão do ônus da prova.

(37) Para tanto. os princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa.. É forçoso reconhecer que alguns sistemas jurídicos não admitem essa inversão do ônus da prova. sendo bem mais fácil a comprovação de fatos referentes a esses bens e serviços pelo fornecedor que pelo consumidor. declara. quando. Assim. A facilitação de defesa não pode ser entendida como interpretação das regras processuais a favor do consumidor.221 este entendimento. fórmulas. pois este princípio é de direito material. são necessários os requisitos normativos da verossimilhança das alegações feitas pelo consumidor e a sua hipossuficiência. do qual se consegue formar opinião de ser provavelmente verdadeira a versão do consumidor. inclusive com a inversão do ônus da prova. E complementa: o fornecedor. usam-se dois motivos para caracterizar o equívoco: a) ofende. 6º: São direitos básicos do consumidor: (. Nos ensina FRANCISCO CAVALCANTI que a igualdade formal entre as partes é regra básica do processo civil. deve ter um tratamento diferenciado. VIII do Código de Defesa do Consumidor Como já vimos. o art. entre outros. 3. sobretudo quando se tratar de hipossuficiente. por força de obrigações impostas pelas normas protetoras do consumidor. deverá ele proceder no sentido de . Não pode haver facilitação por interpretação.) VIII – a facilitação da defesa de seus direitos.1 – Aplicação do art. a seu favor. 6º do Código de Defesa do Consumidor em seu inciso VIII. isto é. Tudo dependerá do procedimento adotado. no processo civil. a finalidade do instituto do ônus da prova é de facilitar a defesa dos direitos do consumidor. cálculos. acerca de seus produtos e serviços. de maneira absoluta. sendo necessário a presença de pelo menos uma delas. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. necessariamente. cada rito. informações. segundo as regras ordinárias de experiências. aquela só pode decorrer de expressa previsão legal. b) as regras. qual seria um direito básico do consumidor: Art. 6º do Código de Defesa do Consumidor. (38) Parecendo ao Magistrado presentes os requisitos constantes do inciso VIII do art. etc. 6º. Não é necessário para tanto que ambas atuem juntas. O consumidor não está obrigado a comprovar antecipadamente o seu direito.. em respeito às características estabelecidas pela lei. tem obrigação de manter em seu poder todos os dados. de distribuição do ônus da prova são de procedimento. Para HUMBERTO THEODORO JUNIOR a verossimilhança é juízo de probabilidade extraída de material probatório de feitio indiciário. a critério do juiz. planilhas.

2002)(Grifo nosso). para que se proceda no contexto da facilitação da defesa dos direitos do consumidor e subordinado ao critério de prudente arbitrio do juiz.03.AGRAVO DESPROVIDO. CONTRATO DE ABERTURA DE CRÉDITO .2ª T .AC 18947500 . o que justifica a improcedência da postulação inicial. conforme segue: Art. Seu silêncio remeterá à preclusão a matéria impedindo novo pronunciamento. 939 e seguintes do Código Civil. quando sua versão é por demais insubsistente. Neste sentido o aresto que segue: CIVIL. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA MANTIDA. Embora incidentes as regras do CDC. 3. Improvimento do Agravo de Instrumento (TJPR .Cível . 13.PRESSUPOSTOS PRESENTES .Rel.222 inverter o ônus da prova ao fornecedor. PROVA DO PAGAMENTO INEXISTENTE. sentença recorrida.(TJDF . A prova do pagamento se faz consoante previsto nos arts. e licita a inversão do ônus da prova.Des. Recurso conhecido.2ª C. 38 do Código de Proteção e Defesa do Consumidor trata da inversão do ônus da prova frente à publicidade enganosa. mantendo-se íntegra a r.2002)(Grifo nosso). Os estabelecimentos bancários como prestadores de serviços. 38 do Código de Defesa do Consumidor O art. AUSÊNCIA DE VEROSIMILHANÇA NA VERSÃO AUTORAL. CDC. que a aplicação da inversão do ônus da prova no despacho saneador poderá ser objeto de agravo de instrumento por parte do fornecedor. por força do contido na Súmula 424 do STF (39) e a jurisprudência a seguir: AGRAVO DE INSTRUMENTO. incrível e desprovida de qualquer prova a lhe dar algum suporte.08. É importante observar. bem como a verossímilhanca de suas alegações. Sidney Mora . com o seu improvimento. inaplica-se a inversão do ônus da prova em favor do consumidor. 1. 38: O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou . Benito Augusto Tiezzi DJU 14.2 – Aplicação do art.AC Nº 20020710013023 .Julg. entretanto. 3.Rel.AÇÃO REVISIONAL DE CONTRTO BANCÁRIO. Apenas alegações desprovidas de qualquer prova não são o suficiente para que seja concedido a inversão do ônus da prova em favor do consumidor. Des. inadmindo-se unicamente a mera assertiva verbal. assim evidênciada a hipossuficiência do agravado em virtude do poderio técnico-econômico do banco agravante. 2. para que possa ser invertido o ônus da prova a seu favor. REPETIÇÃO DE INDÉBITO.INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA . estão submetidos as disposições do código de defesa do consumidor. É importante e imprescindível que o Autor prove através de fatos e alegações subsistentes o seu direito.

a inversão do ônus da prova opera-se automaticamente. REVELIA. 333) quanto ao ônus da prova. VEROSSIMILHANÇA DAS ALEGAÇÕES.º 8. OFERTA EM ANÚNCIO DE JORNAL INTEGRA AS CONDIÇÕES DO CONTRATO. Como nos ensina STEPHAN KLAUS RADLOFF o ônus da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a quem as patrocina. atende pela teoria do risco onde deverá responder por ato ilícito independentemente da apuração de culpa. . pois havendo estabelecimento da lide processual. (41) O fornecedor de serviços. na hipótese contemplada no art. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. antes de tudo. por norma legal cogente. Portanto. SEM NADA COMPROVAR. segundo as regras de experiência. caberá ao fornecedor a obrigação de comprovar que a informação publicitária de seu produto chegou ao consumidor. sem que haja necessidade de uma fase pré-cognitiva de critério subjetivo por parte do juiz. sem qualquer vício de origem ou distorção nas características apresentadas. 38. detentor de fórmulas. aquele. referentes ao produto e serviço objeto da comunicação ou da informação publicitária o mais habilitado para comprovar. onde a facilitação da defesa do direito do consumidor com a inversão do ônus da prova depende do exclusivo critério do magistrado que. No aspecto processual propriamente dito. Nesse mister. 6º do CDC. deverá verificar a verossimilhança das alegações e/ou a hipossuficiência do mesmo. podendo para tanto distribuir tal responsabilidade. know-know. (42) Esse mesmo raciocínio utiliza-se STEPHAN KLAUS RADLOFF que nos ensina que seria desnecessária a declaração taxativa no despacho saneador de que caberá ao fornecedor o ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária. (40) Participa da mesma opinião FRANCISCO CAVALCANTI que afirma que a previsão resulta. 6º. O Tribunal de Justiça de São Paulo tem julgado no sentido de que ao contrário do previsto no inciso VII do art.078/90. dados.m está o fornecedor obrigado a provar a obrigação contida no art. PROCEDÊNCIA DO PEDIDO INICIAL. (43) o julgado do Tribunal de Justiça do Paraná abaixo transcrito: CIVIL PROCESSO CIVIL. 38 do CDC difere daquela ínsita no art. como no caso da propaganda enganosa. 38 da Lei n. em inversão do princípio previsto no Código de Processo Civil (art. tem intenção de auferir lucro. deve-se levar em conta que a forma de aplicação do art. e justifica-se como meio para alcançar a verdade real.223 comunicação publicitária cabe a quem as patrocina. do mesmo pergaminho legal. DEFEITO DE REPRESENTAÇÃO NÃO SANADO. 1. na prática. FORNECEDOR QUE APENAS ALEGA. CDC. pelo fato de ser. antecipadamente e independentemente de qualquer pronunciamento jurisdicional interlocutório ou definitivo.

(TJDF . São Paulo: Revista dos Tribunais. não produz qualquer efeito no campo jurídico. 1988.09. intimada a ré. 1991. Instituições de Direito Processual Civil CINTRA. VI do Código de Defesa do Consumidor. aplicando-se-lhe os seus efeitos para que sejam presumidos como verdadeiros os fatos alegados pelo autor em sua inicial. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR. I. no grau recursal. está obrigada a vender o bem nas condições do anúncio. FADEL.2002)(Grifo nosso). torna-se revel. que quem firmou a contestação foi outro advogado e não aquele constituído nos autos . para sanar este defeito de representação. 3. nos classificados de jornal. onde prevê que as condições da oferta integram o contrato a ser celebrado. Giuseppe Campinas/SP: Bookseller. VI do Código de Defesa do Consumidor A inversão do ônus da prova nos moldes estabelecidos no art. que anuncia. Vol. 1996. Pinto Código de Processo Civil Comentado – Volume 2 São . como se jamais tivesse existido. Sérgio Sahione Código de Processo Civil Comentado.DJU 06. FERREIRA. DINAMARCO. do ramo de compra e venda de automóveis. A. 1977. CHIOVENDA. Antônio C. declarável de ofício pelo magistrado. constatada a verossimilhança das alegações do consumidor. Ada Pellegrini. condições de venda de determinado automóvel. para reformar a sentença monocrática. sem nada comprovar.2ª T. Cândido Rangel Teoria Geral do Processo12ª Edição. 3.. 30. Art. novos e usados. empresa fornecedora de produtos e serviços. Benito Augusto Tiezzi . não o faz. 1º a 443 7ª Edição. recurso conhecido e provido. segundo impõe a lei consumerista. inverte-se o ônus da prova. tratar-se-á em hipótese de cláusula absolutamente nula. São Paulo: Revista dos Tribunais. .o que passou desapercebido ao juiz sentenciante .Rel.224 constatado. Francisco Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor Belo Horizonte: Del Rey. 1988. 51.e. João Carlos Pestana de Comentários ao Código de Processo Civil 2ª Edição. Sendo nula. Cândido Rangel A Instrumentalidade do Processo 4ª Edição. mormente quando a fornecedora não contesta articuladamente os fatos da inicial. limitando-se a alegar. São Paulo: Malheiros. julgando procedente o pedido inicial.3 – Aplicação do art. 51. em seu art. por sua própria natureza. DINAMARCO. GRINOVER. CAVALCANTI. Rio de Janeiro: Forense.ACJ nº 20010111219733 . 4. 1977. Des. 2.

Anelise Coelho. Rio de Janeiro: Forense. José Carlos Barbosa Temas de Direito Processual: Sétima Série São Paulo: Saraiva. pág. Anelise Coelho. Verbo Jurídico. FURASTÉ. Juarez de Código de Proteção e Defesa do Consumidor 9ª Edição. Anelise Coelho. Giuseppe. Jônatas A Prova no Processo Rio de Janeiro: Forense. 1996. Notas COUTURE apud NUNES. Ovídio Baptista apud NUNES. Sandra Aparecida Sá dos A Inversão do Ônus da Prova como Garantia do Devido Processo Legal São Paulo. 2001. 2002. DA SILVA. Apreciação Probatória no Processo Civil. Apreciação . pág. MILHOMENS. 2002. Ovídio Araújo Baptista da Curso de Processo Civil . Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. OLIVEIRA. 2001. s. CHIOVENDA. 1998. RADLOFF. 15.Vol.225 Paulo: Saraiva. 1996. Pedro Augusto Normas Técnicas para Trabalhos Científicos 11ª Edição. THEODORO JUNIOR. 1999. Porto Alegre: Fabris. 1996. Porto Alegre. Revista dos Tribunais. NUNES. SILVA. 2002. n. pág. Stephan Klaus A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor Rio de Janeiro: Forense. São Paulo: Saraiva. NEGRÃO. 109.Vol. SANTOS. Apreciação Probatória no Processo Civil. Theotônio Código de Processo Civil e Legislação Processual em Vigor 33ª Edição. Instituições de Direito Processual Civil. São Paulo: Saraiva. 4 3 2 1 PONTES DE MIRANDA apud NUNES. 2002. 14. Humberto Curso de Direito Processual Civil . Anelise Coelho Apreciação Probatória no Processo Civil Porto Alegre.. 2001. I 27ª Edição. I 3ª Edição. Campinas/SP: Bookseller. 2001. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. 1986. MOREIRA.

/jun. 476. apud FERRAZ. out. 2001. 2ª Ed. <http://www1. Luiz Carlos. a.jus. pág.br/doutrina/texto.asp?id=2160>. Jus Navigandi. II.jus. São Paulo: Revista dos Tribunais.com. 57 (170). Artigo in Justitia. Prova judiciária no civil e comercial. (REPETIR NOME DO AUTOR). 18. Pontes de. Hernando Devis apud CIANCI. Momento processual da inversão do ônus da prova. 2002. 449. Cecília. Vol. Instituições de Direito Processual Civil. Tratado de Direito Privado. 51. pág. 66. 5. 1929 Apud A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. Jus Navigandi. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. 2001.jus. A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo. Rio de Janeiro. Vol. Disponível em: <http://www1. Moacyr Amaral. Hernando Devis apud CIANCI. São Paulo: Max Limonad. 5.br/doutrina/texto. A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo.asp?id=2160>. 16. Págs. p. O ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor. n. Teresina. Padova. <http://www1. São Paulo: RT. Mirna. Sandra Aparecida Sá dos.br/doutrina/texto. 3ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. 1995. 2001. 2002. 2000. SANTOS. 501 a 521 apud FERRAZ. a. 51. Anelise Coelho.226 Probatória no Processo Civil. 2001. MIRANDA. 5. Anelise Coelho.com. Apreciação Probatória no Processo Civil. Luiz Carlos. n.asp?id=2159> SANTOS. Vol V. São Paulo. 51. 5. out. n. n. NUNES. Jus Navigandi. CARNELUTTI. pág. correta e atual. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. Manual de Direito Processual Civil. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. Apreciação Probatória no Processo Civil. Teresina. 65. p. Porto Alegre/RS: Verbo Jurídico. a. abr. ECHANDIA.br/doutrina/texto. Teresina. MATOS.asp?id=2159> ECHANDIA. Francesco. out. 1968. 8 7 6 5 ALVIM. Diritto e Processo. SIEGMUND HELLMANN apud NUNES. 1954. 2001.. Mirna. 15 14 13 12 11 10 9 . 17. Jus Navigandi. out. p. 2001. Momento processual da inversão do ônus da prova. 2001. III. Arruda.jus. Teresina. a. p.com. 51.com. <http://www1.

e atual. PACÍFICO. GRINOVER. A instrumentalidade do processo. (Tribunal de Justiça de São Paulo. 4ª edição rev. João Carlos Pestana de. Luiz Eduardo Boaventura. 86 e 87. Ada Pellegrini. São Paulo: Revista dos Tribunais. São Paulo: Malheiros. Código de Processo Civil Comentado. São Paulo: Revista dos Tribunais. São Paulo: Malheiros.br/doutrina/texto. § 2º Compete ao autor adiantar as despesas relativas a atos. e atual. p. Disponível em: <http://www1. § 1º O pagamento de que trata este artigo será feito por ocasião de cada ato processual. p. Forense. 201 FADEL.Relator: Antonio Carlos Marcato . 1977. A instrumentalidade do processo. Rio de Janeiro: Ed. p. rev. O ônus da prova no Direito Processual Civil. 19. 248. 2000. Cândido Rangel. BUZAID apud DINAMARCO. 5. cuja realização o juiz determinar de ofício ou a requerimento do Ministério Público. 7ª Edição. 248.jus. Antônio Carlos de Araújo.227 Apud PACÍFICO. n. 121. 354. 51. São Paulo: Malheiros. 2000. U.. 1994.99 . Cândido Rangel. São Paulo: Revista dos Tribunais. antecipando-lhe o pagamento desde o início até a sentença final. out. Jus Navigandi. 26 25 24 23 22 21 20 19 18 17 16 . CINTRA. A instrumentalidade do processo. Sergio Sahione. Mirna. Cândido Rangel. Luiz Eduardo Boaventura. Teresina. 2ª Edição. AGUIAR. e bem ainda. 1994. 562. p. Comentários ao Código de Processo Civil. O ônus da prova no Direito Processual Civil.. DINAMARCO. 1996.) Art.V. Teoria Geral do Processo. e atual.10.6ª Câmara de Direito Privado .979-4 Itápolis .07. CALAMANDREI apud DINAMARCO..asp?id=2159>. 1988. a. p. CPC: Salvo as disposições concernentes à justiça gratuita. 2001. A responsabilidade do Estado e o ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor sob o enfoque da teoria do risco administrativo. 1994. 12ª Edição. e atual. São Paulo: Malheiros. 4ª edição rev. até a plena satisfação do direito declarado pela sentença. p.com. DINAMARCO. cabe às partes prover as despesas dos atos que realizam ou requerem no processo. Cândido Rangel. CIANCI. Agravo de Instrumento n. na execução. 4ª edição rev.

" 39 38 37 36 35 34 33 32 31 30 29 28 27 . Belo Horizonte: 1991. Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. 2002. Teoria Geral do Processo. p. p. para a sentença. Direitos do Consumidor. 80. 2. Sandra Aparecida Sá dos. excluídas as questões deixadas. 71. CAVALCANTI. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. CAVALCANTI. p. Código do Consumidor Comentado. Jonatas. Belo Horizonte: Livraria Del Rey. Antônio Carlos de Araújo. SANTOS. 2002. 2002. São Paulo: Revista dos Tribunais. 42. 32 apud SANTOS. Sandra Aparecida Sá dos. p. Sandra Aparecida Sá dos. Ed. Súmula 424 do STF: "Transitada em julgado o despacho saneador de que não houve recurso. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2002. p. Comentário ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. 2ª Edição. Ada Pellegrini. 1986. 2002. p. A prova no direito processual civil. n. Cândido Rangel. 71.228 CINTRA. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. Carlos Roberto. 37. São Paulo: Revista dos Tribunais. SANTOS. A prova no processo. 123. CAVALCANTI. BARBOSA MOREIRA. p. p. 12ª Edição. Humberto. Del Rey. 1991.º 86. p. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. THEODORO JUNIOR.0". 355. apud SANTOS. GRINOVER. Francisco. Nova Fronteira. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. Liv. Comentário ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. São Paulo: RT. Sandra Aparecida Sá dos. p. 1996. MILHOMENS. junho: 1996. São Paulo: Malheiros. 75. explícitas ou implicitamente. Notas sobre a inversão do ônus da prova em benefício do consumidor. Francisco. p. A inversão do ônus da prova: como garantia constitucional do devido processo legal. RePro. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor apud SANTOS. Francisco. Sandra Aparecida Sá dos. 39. "Dicionário Aurélio Eletrônico – V. p. Belo Horizonte: Livraria Del Rey. 1991. DINAMARCO. 31-38. São Paulo: Revista dos Tribunais. Rio de Janeiro: Forense. 71.

Rio de Janeiro: Forense.1995 – Rel. 75. 2002. Francisco. 43 42 41 40 Alguns aspectos da dogmática processual para a defesa dos direitos do consumidor Autora: Viviane Mandato Teixeira Ribeiro da Silva . Stephan Klaus. p. Comentários ao Código de Proteção e Defesa do Consumidor. de 06. Aldo Magalhães. A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor.229 RADLOFF.º 255. Belo Horizonte: 1991. Rio de Janeiro: Forense.04. Del Rey. Liv. p. CAVALCANTI. RADLOFF.461-2. 70. Cível n. p. A Inversão do Ônus da Prova no Código de Defesa do Consumidor. 90 Tribunal de Justiça de São Paulo – Ap. Stephan Klaus. 2002.

por exemplo. no mais das vezes. O parceiro comercial transforma-se em um ente. por titulares não-identificáveis. como o da liberdade para fixar o conteúdo contratual. Nesse contexto. a reformulação de institutos de direito substancial não se mostrava suficiente. Impendia criar instrumentos apropriados. colocando o consumidor numa posição de franca vulnerabilidade e hipossuficiência. exsurgiu a necessidade de uma mudança drástica nos meios de produção e comercialização de produtos e serviços. Impunha-se um sistema mecanizado e seriado para fomentar o consumo em massa. 6 . partindo da necessidade de atender a um mercado cada mais pujante e abrangente em sua feição quantitativa. inferiu-se que seria mister criar um arcabouço legislativo a fim de preservar a esfera jurídica dos consumidores. traduzidos na impossibilidade de exercer algum controle sobre a qualidade. Com efeito. a difusão e a vulnerabilidade de seus titulares. com extrema clareza. As relações jurídicas de consumo. o rompimento com vários dogmas de direito substancial. 4 . revelou-se inviável o contato personalizado e individualizado entre os agentes da cadeia consumerista. segurança e quantidade dos produtos e serviços disponibilizados pelo fornecedor no mercado de consumo.A adoção do non liquet e do efeito secundum eventum litis. analisaremos a sistemática processual considerando-se tais relações. Essa nova forma de produção e comercialização gerou desequilíbrio nas relações jurídicas de consumo. 7 . só para citar alguns. Contudo. Não havia mais espaço para a produção artesanal.5 . Na comercialização. A perfeita intelecção da linha principiológica norteadora das normas processuais para a tutela de interesses categorizados como direitos metaindividuais demanda considerar alguns aspectos. 8 Bibliografia 1. pois os cristalizados no Código de Processo Civil evidenciavam-se inoperantes para a tutela eficaz de direitos designados. espécie dessa categoria de interesses.230 Sumário: 1 – Introdução. como é o de consumo.Do regime jurídico da coisa julgada para as ações coletivas.Da imposição de multa coercitiva ex officio. . 3 – Da inversão do onus probandi. ante o imenso contingente de utentes. são as que patenteiam.A sentença genérica como regra nas ações coletivas. como. o do regime da responsabilização civil.Introdução. um número. Adveio daí. tais peculiaridades. Por tal razão. 2 .Da legitimação ad causam.

A legitimação extraordinária [01]. solucionar-se-iam conflitos que envolvessem. de uma só vez e por intermédio de uma só lide. apenas o titular do direito material lesado ou ameaçado de lesão está autorizado a defendê-lo em juízo. é a da legitimação ordinária. defender o consumidor. regulamenta a tutela de todo e qualquer direito metaindividual. e o risco de soluções judiciais antagônicas para o mesmo conflito. de modo sucinto. A terceira. do artigo 5º. como salvaguarda para a produção sistemática de lesão a direito. exceção no Código de Processo. a presteza e a eficácia necessárias para a solução de conflitos em massa. a qual. que alguém defenda em juízo em nome próprio um interesse alheio. reside na feição do Estado social. dessarte. abordaremos. Não mais se prestigia a visão liberal. em conjunto com a Lei 7347/85. cujo desiderato é a busca do bem-estar social. por via transversa. ao mesmo tempo e do mesmo modo. em seu artigo 82. Na Lei 8078/90.não se adstringe apenas às relações jurídicas de consumo. A opção legislativa em não investir o indivíduo da legitimação ad causam pode ser analisada sob três vertentes. Situação essa que certamente induziria ao desestímulo na busca da tutela jurisdicional. Da legitimação ad causam A legitimação ad causam é a autorização legal para defender em juízo um direito material lesado ou ameaçado de lesão. segundo a qual. Encerra verdadeira fonte normativa processual geral que. por via oblíqua. todo o grupo do qual o indivíduo integra.Código de Defesa do Consumidor . como determina o inciso XXXII. Assim. é o de evitar a proliferação de ações individuais com pretensões idênticas. alguns aspectos da sistemática procedimental introduzida pela Lei 8078/90. A sistemática sufragada pelo Código de Processo Civil. idealizada sob a filosofia liberal. nos casos por ela enunciados. É a denominada legitimação extraordinária. alguns institutos processuais foram adaptados para imprimir à tutela jurisdicional a adequação. legitimou entes públicos e privados. a esfera jurídica do indivíduo. 2.231 Nessa esteira. é regra na Lei 8078/90. o regramento da legitimação para agir experimentou uma importante mudança. é a de que o fato de o resultado benéfico da lide coletiva atingir. A segunda. cujo substrato era o de . No presente trabalho. a lei processual civil admite. e. funcionando. subtraindo do indivíduo a possibilidade de defender em juízo interesses titularizados pela coletividade. a qual. Excepcionando essa regra. do texto constitucional. inobstante a denominação . A primeira. tornou despiciendo legitimá-lo.

mas não para os entes privados ou públicos ao defenderem todo o grupo. repise-se. ainda que incipiente sob o ponto de vista individual. [02] Se considerarmos as relações de consumo sob o aspecto pecuniário. Diga-se a propósito. Seja para reprimir condutas nocivas em nível difuso. segundo o entendimento doutrinário. evitando-se a perpetuação da lesão.) O problema básico que eles apresentam – a razão de sua natureza difusa – é que. que ao legitimar entes coletivos. E tal circunstância denota a relevância e a imperiosidade do sistema processual coletivo introduzido pela Lei 8078/90. é que o legislador introduziu tantas inovações no sistema processual. no mundo empírico. . E este. é melhor defendido em juízo por associações ou órgãos do próprio Estado. Sob a perspectiva do consumidor individualmente considerado. o legislador infraconstitucional concretizou dois princípios constitucionais: o acesso à justiça e a isonomia. pode litigar com causador do dano com igual força política.232 atender aos interesses individuais. como é o caso do Ministério Público. legitimar entes públicos e civis para a defesa judicial dos interesses transindividuais. notadamente para o Ministério Público que. ou o prêmio para qualquer indivíduo buscar essa correção é pequeno demais para induzilo a tentar uma ação. entretanto não o será numa perspectiva global. destarte. O Prof. no mais das vezes. De fato. Essa situação não se repete para os entes públicos. o dano pecuniário de inexpressiva monta funciona como elemento desestimulante para o indivíduo ajuizar qualquer demanda.. sufraga-se a ideologia da preservação do interesse coletivo. concluiremos. e aproveita. Sob a ótica do princípio constitucional da isonomia. Por meio da ação coletiva. resulta em franca desigualdade no campo processual. elucida que essa gama de direitos "(. Daí o entrelaçamento da efetividade com o princípio constitucional do acesso à justiça e deste com o da legitimação ad causam. a ideologia do Estado social protetor dos mais fracos.) são interesses fragmentados ou coletivos (. detentor de forte poder político e/ou econômico.. o indivíduo tem sua esfera jurídica tutelada contra a prepotência do poder econômico. o dano pode ser inexpressivo. ou ninguém tem direito a corrigir a lesão a um interesse coletivo. Pois. Cappelletti. e reprimindo-se a conduta lesiva do fornecedor. a tutela jurisdicional obtida por meio do processo coletivo.. com o Prof.. podemos considerar que o fato de o consumidor ser vulnerável e hipossuficiente frente ao fornecedor. dentre as quais. encetando estudo acerca da defesa efetiva dos direitos coletivos. Concretiza-se. Cappelletti. seja para cominar ao fornecedor a sanção cabível. (...) Essa situação cria barreiras ao acesso". pelo dever constitucional de defender os interesses da sociedade. que a possibilidade de a produção massificada gerar lesão em escala difusa é expressiva. A partir da Carta de 1988.

a inversão do ônus probatório revela-se prestante. do artigo 6º. não tem o condão de reparar a atividade nociva do fornecedor nem o de atender aos interesses econômicos do consumidor. qual seja. Se fosse mantida a sistemática preconizada pelo artigo 333. e como consectário lógico do reconhecimento da vulnerabilidade e da hipossuficiência do consumidor. como o da isonomia. No tema das obrigações. que a pecúnia. no mais das vezes. carreando-o ao fornecedor. Depreende-se. Isto porque é o fornecedor quem detém a mais completa informação acerca do produto. impõe ao inadimplente o dever de arcar com as perdas e danos. 4 . . o reconhecimento da hipossuficiência ou da verossimilhança da alegação do consumidor.233 3 . o consumidor dificilmente obteria qualquer ressarcimento em razão de sua hipossuficiência em obter os elementos necessários para provar o nexo de causalidade. logo só ele tem a possibilidade de produzir a prova necessária a fim de demonstrar se o produto é ou não defeituoso. por exemplo. do Código de Processo Civil. a Lei Civil em vigor. do acesso à justiça. não sufragou a tônica civilista. deve o julgador inverter os ônus da prova. a lei 8078/90 erigiu no inciso VIII. inciso VIII. corretamente.Da inversão do onus probandi Desdobramento dos princípios constitucionais da isonomia e da dignidade da pessoa humana. O legislador entendeu. em que é prescindível o exame da conduta do fornecedor para imputar-lhe o dever de reparar o dano. a inversão do onus probandi [03] como um direito básico. Malgrado a adoção do regime objetivo. que presente um dos requisitos elencados no artigo 6º. dentre outros. porquanto se o consumidor tivesse a desincumbência de fazer prova do nexo causal. por conseguinte. em seu artigo 389. Vislumbramos o aspecto pragmático dessa regra no campo da responsabilidade civil. aliás. A lei consumerista. ao tratar do direito material das relações de consumo. em que o ônus da prova do fato constitutivo do direito cabe ao autor da demanda.Da imposição de multa coercitiva ex officio Vários institutos materiais e processuais foram matizados na construção da nova sistemática a fim de conferir efetividade à tutela jurisdicional na defesa dos direitos transindividuais e dar concretude a vários princípios constitucionais. certamente sucumbiria.

se o Estado-juiz não pode conceder à parte além. Seu objetivo é o de constranger. segundo os quais os limites da atuação jurisdicional vêm traçados no pedido formulado pela parte. darse-ia à parte o direito in natura. do artigo 84. Para essa indagação. e a regra do parágrafo 4º. em que tal matéria era dispositiva. consubstanciada no artigo 460 combinado com os artigos 128 e 293. àquilo que fora determinado na sentença. quando da promulgação da lei consumerista. a Lei 8078/90. todos do Estatuto Procedimental. de seu artigo 84. Melhor explicitando. o de esmaecer a resistência devedor em cumprir espontaneamente o contrato ou o comando emergente da sentença. Para concretizar essa ideologia. ao incorporar a multa coercitiva no parágrafo 4º. forçando o fornecedor cumprir o pactuado. da Lei 8078/90. pois influindo no aspecto anímico do fornecedor. dependia de provocação do interessado. e. a Lei 8078/90 preconiza que se deva envidar todos os esforços para realizar concretamente o que fora contratado pelos litigantes. em que o julgador está autorizado a cominar de ofício a multa coercitiva e outras medidas que se fizerem necessárias à execução da obrigação. aquém ou diferente do que foi pedido. se o órgão julgador só pode conhecer ex officio matéria de ordem pública. consistente em cominar ao devedor recalcitrante uma penalidade pelo descumprimento da obrigação. uma inovação legislativa por romper com o sistema processual tradicional. a melhor doutrina sustenta inexistir conflito normativo e esclarece que a imposição da multa coercitiva em nada ofende o princípio da adstrição. tem natureza jurídica de medida de coerção e não de ressarcimento. o consumidor obtém o objeto da prestação e satisfaz a expectativa gerada por conta do negócio jurídico firmado.234 Nesse diapasão e partindo da premissa de que o processo desempenha um papel instrumental para conferir à tutela jurisdicional efetividade. consagrado no artigo 128 combinado com o 293. Sob o prisma da efetividade. ambos do Estatuto Procedimental. ensejou o questionamento em face do princípio da adstrição. A adoção da astreinte mostra-se consentânea com a realidade social e com o objetivo legal de prevenir a lesão à esfera jurídica do consumidor. outorgou ao Estado-juiz maior campo de discricionariedade. Desse modo. de sorte que não repugna às normas procedimentais outorgar ao Estado-juiz o poder de impor a multa sem provocação do interessado. indaga-se se haveria conflito entre a norma geral. ou. autorizando-o a cominação da multa ex oficio. as quais impõem ao juiz dar interpretação restritiva ao pedido. egressa do direito francês denominada astreinte. vale dizer. . a Lei 8078/90 incorporou a multa coercitiva. evitando-se remeter à parte inocente o recebimento de indenização. Tal prescrição representou. Isto porque a multa.

como o direito à educação. a participação do julgador na dinâmica processual. como o prefixo grego indica. à saúde. etc. São interesses incindíveis por pertencerem.235 Neste ponto cabe uma observação. Entretanto. fazendo valer a vontade popular. pois ao interpretar e dar corpo à vontade abstrata da lei estará. a tutela dos direitos metaindividuais. mas também para o desempenho da função política. também prevê a multa coercitiva. a função do juiz também resvala para o aspecto político. evidentemente. insta trazer à colação a definição dos direitos metaindividuais e de suas espécies para melhor intelecção do tema. a função jurisdicional de pôr termo à controvérsia não interessa apenas a pacificação dos litigantes. Direitos metaindividuais. a toda coletividade. do Código de Processo. fruto da democracia. não só para melhor análise dos fatos que formarão o convencimento do julgador acerca da verdade. embora seja eminentemente jurisdicional. do que resulta que a aplicação do Código só tem lugar em caráter subsidiário e naquilo que não contrariar a lei especial. classes ou categorias de pessoas. por titulares indetermináveis. se é a própria lei quem permite ao julgador abandonar o papel passivo de "boca da lei" para desempenhar um papel mais ativo. por grupos. do artigo 84. ao mesmo tempo. é normada pela lei especial . ou. Com efeito. São direitos titularizados. Essa nova categoria de direitos é classificada pela Lei 8078/90 em três . Representa também a manutenção da paz social e da própria ordem jurídica. 5. sem. meio ambiente saudável. são direitos que transcendem a esfera individual. da Lei 8078/90 e não a do artigo 461. por intermédio do método dialético. O exercício da função jurisdicional nos tempos modernos exige. em dadas circunstâncias. o legislador partiu de um enfoque publicista do processo. concomitantemente. envolvendo ou não relações jurídicas de consumo. forçoso é concluir que a imposição da multa coercitiva é simples reflexo da coadunação da atuação jurisdicional aos reclamos da sociedade moderna. em última análise. a aplicação da multa coercitiva deve observar o regramento instituído pelo parágrafo 4º.a 8078/90 -. Dessa forma.Adoção do non liquet e o do efeito secundum eventum litis Antes de adentramos à abordagem da possibilidade do non liquet e da extensão subjetiva dos efeitos da coisa julgada com o temperamento do secundum eventum litis albergados pela Lei 8078/90. matérias de primeira plana para a manutenção do próprio Estado. Conferindo ao juiz o poder de fixar a multa coercitiva de ofício. Nesse diapasão. Por derradeiro. cabe destacar que o Código de Processo Civil. em seu artigo 461. olvidar os princípios da imparcialidade e da preservação dos direitos fundamentais. Portanto.

os titulares são identificáveis por haver uma relação jurídica base preexistente à lesão. O inciso II. Visto o conceito e a classificação dos direitos metaindividuais. Com efeito. da Lei 8078/90. O inciso I. vale dizer. o inciso III. define os direitos individuais homogêneos como direitos individuais na essência. Ainda. ao mesmo tempo. podemos mencionar o meio ambiente.e do julgado secundum eventum litis . incisos I a III. o artigo 103. Para exemplificar. e é por isso que os titulares podem ser identificáveis. conceitua como coletivo o direito incindível por ser titularizado. unindo determinado grupo de pessoas entre si ou com a parte causadora do dano. Partindo da premissa de que os interesses e as dimensões dos danos derivativos do consumo não se restringem apenas a consumidores perfeitamente determinados e identificados. Cite-se à título de exemplo. nada obstante inexistir entre eles qualquer relação jurídica. Finalmente. Nesta espécie. adotou a possibilidade do non liquet . a titulares indetermináveis. do artigo 81. Quando estes interesses são afetados. ou seja. Pela dicção da lei. do direito litigioso e do resultado da lide coletiva. São direitos individuais. todas as pessoas que aderiram àquele contrato experimentarão idêntica lesão. porquanto tanto o meio ambiente como a saúde são direito de todos os integrantes da sociedade. coletivos e individuais homogêneos. nota-se que o traço distintivo entre os direitos difusos e os coletivos consiste no fato de que nos direitos coletivos a relação jurídica foi a deflagradora da lesão.é a possibilidade de estender subjetivamente os efeitos da sentença -. a saúde. do artigo 81. porque é possível identificar cada titular. Todos os adquirentes daquele produto sofrerão a mesma lesão. pelo grupo ou classe de pessoas determináveis. os efeitos são idênticos ao adotado pelo Código de . vejamos a mudança legislativa no que tange aos efeitos da sentença. toda coletividade sujeita-se aos efeitos prejudiciais. Exemplo notório é o contrato de adesão. conceitua como difuso o direito indivisível por pertencer.que é a possibilidade de o julgador rejeitar a pretensão ante a insuficiência probatória sem que tal sentença produza a coisa julgada material . Se houver alguma cláusula nula. quando o processo for extinto sem julgamento do mérito. ao mesmo tempo.236 espécies: difusos. ao tratar da matéria. mas tratados coletivamente. não há entre os prejudicados qualquer relação jurídica que os una. anotando-se que a incidência desses regramentos dependem da natureza da sentença. A vinculação com a parte contrária decorre do fato de todos terem sofrido a mesma lesão. do artigo 81. o legislador consumerista introduziu um sistema totalmente diferenciado do vigente no Código de Processo Civil no que tange aos efeitos da sentença. produtos defeituosos. Se a sentença ser meramente formal. são direitos titularizados por todos e por ninguém em particular.

em razão de terem integrado o pólo ativo da lide coletiva na qualidade de litisconsortes. ainda que não tenham participado do processo. alcançando todos os partícipes da ação. não existiu a lesão ao bem jurídico que se pretendia proteger". por corolário. Quer isto significar que os efeitos da coisa julgada material oriunda da sentença que julgou improcedente a ação em razão da ausência de lesão. Todavia. Neste caso. porquanto tal julgamento não beneficia os titulares individuais. Em vista do que prescreve a lei 8078/90. rejeitará o pedido. formar-se-á a coisa julgada material. apesar disso. se não houver prova bastante da lesão. infere-se que o tratamento . ou seja. ressalvando-se a possibilidade de ajuizarem suas ações individuais arrimados na mesma causa de pedir veiculada na coletiva que fora julgada improcedente. não haverá extensão dos limites subjetivos da coisa julgada. os efeitos da decisão interditam os legitimados coletivos de ajuizarem nova demanda coletiva. Incidirá. Idêntico efeito se produzirá se o julgador entender que não houve lesão ao direito individual homogêneo. os efeitos da sentença ficam submetidos ao tratamento estabelecido pela Lei 8078/90. Isto por serem direitos essencialmente individuais. Assim. aos olhos do juiz. o que faculta à parte interessada o ajuizamento de nova ação. a sentença que acolher a pretensão produzirá a coisa julgada material e seus efeitos benéficos alcançarão a todos os titulares individualmente considerados.237 Processo Civil. mas que pela gravidade e repercussão social da lesão foram inseridos na categoria de direitos transindividuais. o órgão julgador rejeitará a pretensão e a sentença produzirá coisa julgada material. ao revés do que ocorre nas lides difusas e coletivas stricto sensu. o juiz entender que não houve lesão. o regramento da extensão subjetiva dos limites da coisa julgada material secundum eventum litis. Elucida o prof. quando o processo for extinto com julgamento do mérito. Se a sentença for definitiva. Com efeito. se o conflito versar sobre direitos individuais homogêneos não será aplicado o non liquet e só incidirá o secundum eventum litis se a lide for acolhida. Forma-se a coisa julgada formal e seus efeitos ficam adstritos ao processo extinto. não alcançarão os titulares individualmente considerados. portanto. cujo objeto seja direito difuso ou coletivo. infere-se que o resultado negativo da ação individual homogênea só não prejudicará quem dela não houver participado. entretanto. porém. mas não impedem o ajuizamento de lides individuais. Nesta hipótese. permanecendo a controvérsia incólume à apreciação judicial. que toda a diligência probatória foi realizada e que. dependendo da natureza do direito litigioso e do resultado da lide coletiva. impedidos de ajuizarem ações individuais para renovar a mesma pretensão. Arruda Alvim [04] que "se ficar claro. se a natureza do objeto da lide for direito difuso ou coletivo. Destarte. Se. ficando. com o temperamento do chamado efeito secundum eventum litis do julgado.

Admite-se a repropositura da ação coletiva e nada interfere no ajuizamento da ação individual b) Ausência de lesão = Produz coisa julgada material apenas entre os legitimados coletivos. seja pela inexistência de lesão. Admite-se a repropositura da ação coletiva e o ajuizamento da ação individual b) Ausência de lesão = Opera coisa julgada material apenas entre os legitimados coletivos. seja pela insuficiência de prova. temos: DIREITO DIFUSO: Procedência: Faz coisa julgada material. Não há extensão subjetiva. Para melhor visualização do que dissemos. admitindo-se a propositura da ação individual Direito COLETIVO Procedência: Faz coisa julgada material e seus efeitos são extensíveis aos titulares determináveis do grupo ou classe (ultra partes) Improcedência: a) Por falta de provas = Incide o non liquet. nesse passo. Não há extensão subjetiva. não produzindo a coisa julgada material. vigorariam os mesmos efeitos produzidos para as hipóteses de formação litisconsorcial ativa facultativa unitária. Quer nos parecer que a razão de a Lei 8078/90 ter repetido o tratamento trazido pelo Código de Processo reside no fato de o direito controvertido ter natureza individual e. Seus efeitos são extensíveis a todos titulares individuais (erga omnes) Improcedência: a) Por falta de provas = Incide o non liquet. a sentença proferida produzirá coisa julgada material inter alios. Admite-se a propositura da ação individual Direito INDIVIDUAL HOMOGÊNEO Procedência: Faz coisa julgada material e seus efeitos são extensíveis a todos os titulares individuais (erga omnes) Improcedência: . sinopticamente.238 dispensado para as ações de direito individual homogêneo é idêntico ao constante do Código de 73. mas não produz a coisa julgada material. Vale dizer.

sobretudo. [05] O pedido de prestação da tutela jurisdicional.. Não há extensão subjetiva. a inversão do ônus da prova. vedando-se a repropositura da ação coletiva. na tutela de um bem jurídico (pedido mediato)". pelo fato de o legislador ter subtraído do titular individual a legitimação para agir. do art. Não apenas. Não há extensão subjetiva. os efeitos da sentença judicial à luz de seu resultado. Pedido "é a expressão da pretensão. que a possibilidade do non liquet impõe ao julgador a necessidade de explicitar que a improcedência se deu em razão da insuficiência probatória. sob pena de viciar a sentença de nulidade e dar azo à rescisória. da Lei de Rito. Só quem não participou da lide coletiva poderá ajuizar a ação individual. É o que se pede em juízo. a solução de um conflito de grave e expressiva repercussão social. deve receber interpretação restritiva à luz do princípio albergado no . mas.) No pedido se contém a suscitação de uma provisão jurisdicional (pedido imediato). para encerrarmos esse tópico. 6. neste tópico. Verificaremos. É oportuno destacar. Quem não participou da lide coletiva poderá ajuizar ação individual. Há que se ter presente que ao conferir tratamento coletivo às ações que tenham por objeto o direito individual homogêneo. b) Ausência de lesão = Produz coisa julgada material vedando-se a repropositura da lide coletiva. ante a determinação constitucional de proteger essa nova categoria de direitos. da lei procedimental.A sentença genérica como regra nas ações coletivas Destacamos que alguns princípios e regras processuais tradicionais foram moldados de modo a garantir a tutela eficaz dos direitos transindividuais. a mens legis foi o de obter. É a dedução da pretensão em juízo (. Faz coisa julgada material. Nesse sentido. por encerrar uma manifestação da vontade. se a sistemática do Código de Processo fosse repetida pela Lei 8078/90 redundaria em flagrante inconstitucionalidade ante a negativa de acesso à justiça. cujo traço característico é a difusão dos titulares.. a flexibilização da regra constante do artigo 286. o tratamento dispensado pela Lei 8078/90 para os efeitos do julgado tinha que diferir da sistemática sufragada pelo Código de Processo Civil. Em linhas gerais e pelas especificidades dos direitos metaindividuais. segundo a qual o pedido deve ser certo e determinado. Já analisamos a legitimação para agir. à lume do que preceitua o inciso V. economizando tempo e recursos financeiros.239 a) Por falta de provas = Não incide o non liquet. 485. mediante uma única relação processual.

é exigência legal que o pedido deva ser certo e determinado. do Código de Processo. Já no caso das lides metaindividuais. Vê-se a completa distinção entre a ação coletiva e a que envolve direitos individuais regidos pelo Código de Processo e o porquê de o legislador. em linha de princípio.e o consumidor lesado. Pensemos na relação jurídica de consumo. o direito em conflito pertence a titulares determinados (direito coletivo stricto sensu) ou indetermináveis (direito difuso). A regra constante do caput do artigo 286. da lei do Rito. Ada Pellegrini Grinover [06] assevera que o aspecto teleológico da sistemática processual traçada pela Lei 8078/90 para a tutela dos direitos transindividuais é obter. para a tutela dos direitos coletivos. a controvérsia fica adstrita entre o fornecedor . nem conferir ao autor citra. Desde o início da lide as partes são perfeitamente identificadas. para viabilizar aos lesados individuais a identificação e a apuração do quantum indenizativo. De fato. ultra ou extra petita. se pensarmos que os legitimados ativos estão defendendo os . por absoluta incompatibilidade com os objetivos da Lei 8078/90. entendendo-se por esta locução: delimitado quanto aos direitos e extensão quantitativa. é que a sentença deva ser certa quanto ao tipo de provimento jurisdicional pretendido. não podendo proferir sentença ilíquida quando o pedido for certo. ao enunciar hipóteses em que o pedido possa ser genericamente formulado.240 artigo 293. artigo 459. de acordo com a extensão do dano individualmente experimentado. ou seja. tendo o autor. da Lei 8078/90.causador do dano . vale dizer. o reconhecimento judicial do dever reparatório e da condenação do agente causador do dano ao ressarcimento pelos prejuízos produzidos. Não por outra razão. a sentença deve ser genérica. A regra consubstanciada no artigo 95. admite-se que o autor decline o que quer sem deduzir o quantum quer. E assim é. o juiz fica vinculado àquilo que foi pedido. Daí o porquê de a exceção no Código de 73 ser a regra na Lei 8078/90. A profa. por meio das ações coletivas. Nessa linha. Por essa regra. ter rompido com a tradição. da Lei Procedimental Civil. Nas ações coletivas. é excepcionada por seus incisos. máxime em razão de a decisão proferida nas ações coletivas tutelar um bem jurídico ainda indivisível. do CPC). Na lide individual. Por essa razão. mas genérica ou ilíquida quanto à extensão quantitativa da pretensão. não seria possível repetir a regra prescrita no artigo 286. no entanto. o ônus de demonstrar o dano e o nexo causal. sob pena de nulidade da sentença (parágrafo único. a condenação se dá pelo prejuízo provocado e não pelo dano experimentado pelos titulares individualmente considerados.

dentre outras medidas. as inovações foram substanciais. fácil é intuir que a sentença não poderia ser especificar o quantum debeatur. porque será na fase liquidatória que será aferida a extensão do dano causado por determinado produto ou serviço. mas ilíquido por não precisar o quantum. observa-se que todos os titulares individuais do interesse coletivo . Pelo teor do dispositivo legal supra colacionado combinado com o artigo 103. da Lei 7347/85 assim dispunha. sofreram tantas inovações. O artigo 16. da Lei 8078/90. 16 . e. porquanto as regras do Código de Processo se revelaram inaptas para equacionar satisfatoriamente as exigências da nova ordem social. ainda. recebeu tratamento especial. cumprindo o ditame constitucional de elaborar mecanismos instrumentais que garantissem a defesa efetiva dos direitos metaindividuais. O legislador infraconstitucional.Do regime jurídico da coisa julgada nas ações coletivas Fizemos remissão às alterações legislativas que influíram nos efeitos emanados da sentença. o que faria cair por terra todo o arcabouço da lei 8078/90. Não foi por outra razão que as regras da legitimação para agir. 7 . hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento. Como se nota. Em primeiro. em segundo. se fosse aplicada a regra do Código de 73. Há certeza quanto ao dever de reparar o dano. prescrevendo que a sentença deva ser certa e determinada. restaria impossível a indenização dos lesados. porque os lesados só serão identificados no momento da liquidação de sentença. valendo-se de nova prova". Esses dois diplomas cristalizam normas que destoam da processualística tradicional. tema que nos interessa neste tópico. exceto se a ação for julgada improcedente por deficiência de provas. concebeu a Lei 8078/90 e aperfeiçoou a Lei 7347/85. Colhemos. A extensão dos limites subjetivos da coisa julgada. Falar de efeitos da sentença remete à coisa julgada. in verbis: "Art.241 interesses daqueles que efetivamente experimentaram o dano e que não participam da relação processual. da lição trazida pela doutrina. neste tema. portanto o decisum é certo por definir o direito. que o fato de a condenação ser genérica não significa dizer que a sentença seja incerta.A sentença civil fará coisa julgada erga omnes.

podendo. diferentemente do que sucede perante o Código de Processo. ou. Disso resultou a implementação de uma série de inovações por meio das Leis 8078/90 e 7347/85. Isto porque as ações coletivas buscam tutelar direitos fundamentais expressamente reconhecidos em nosso ordenamento jurídico. 16 . a autoridade da coisa julgada não poderia cingir-se aos litigantes. Como se nota. nos limites da competência territorial do órgão prolator. encampamos a corrente que propugna pela inconstitucionalidade da alteração legislativa. da Lei 7347/85. daí ter sido criado um mecanismo que garantisse a todos os titulares do direito controvertido os benefícios decorrentes do acolhimento da pretensão. as Leis 7347/85 e 8078/90 prescrevem que o titular individual do direito. essa proteção. contudo. O fundamento jurídico para que o legislador tenha adotado o efeito secundum eventus litis reside no fato de ter conferido legitimação a quem não seja o titular exclusivo do direito lesado. Caso a sentença rejeite a pretensão por entender que não houve lesão. exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas. uma vez que a improcedência da demanda em face da inexistência da lesão a direito impedirá tão-somente o ajuizamento de outra lide coletiva. no âmbito dos direitos coletivos a sentença produz efeitos para além dos litigantes. in verbis: "Art. inclusive.242 (lato sensu) seriam alcançados pelo resultado benéfico do julgado. criando-se um sistema legislativo material e processual próprio e adaptado para concretizar a proteção constitucional. A Lei 9494/97. hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento. alterando a redação do artigo 16. é que a doutrina assevera que os efeitos erga omnes da autoridade da coisa julgada se opera somente em relação ao legitimados ativos para a ação coletiva. direta ou indiretamente. à natureza dessa categoria de direitos e à posição doutrinária. limitou os efeitos subjetivos da coisa julgada ao determinar que. a razão de ser das mudanças introduzidas no sistema . valendo-se de nova prova". Em última análise. porque do conjunto probatório existente nos autos não se demonstrou a lesão. Com efeito. Destarte. por não ter recebido legitimação para agir em juízo. Subsumindo o dispositivo legal supra às disposições constitucionais que determinam a efetiva proteção aos direitos transindividuais.A sentença civil fará coisa julgada ‘erga omnes’. E o fato de a Constituição ter tutelado os direitos metaindividuais quer significar que se tornou inadmissível ao legislador infraconstitucional restringir ou alterar. demandar individualmente o agente ofensor para obter a reparação da lesão. só sofrerá influência do julgado em sua esfera jurídica se a decisão for benéfica. o titular individual nenhum prejuízo jurídico experimentaria. Por tal razão. (grifo nosso).

de modo que as ações que versarem sobre tais direitos estariam fora do alcance da Lei 9494/97. A verificação da existência de litispendência enseja indagação antecedente e que diz respeito ao alcance da coisa julgada. ainda que não uniformemente. que restringir a eficácia da coisa julgada nos moldes traçados pela Lei 9494/97.as Leis 8078/90 e 7347/85 -. da Lei 7347/85. como o acesso à justiça. PÚBLICA – 1.g a ação popular. alterando-se a redação do artigo 16. logo não pode ficar adstrito à competência jurisdicional do órgão prolator da decisão. embasando seu entendimento no fato de que os efeitos da decisão estão vinculados aos limites ínsitos ao pedido. As ações que têm objeto idêntico devem ser reunidas. Nesse diapasão. de modo que seria mister alterar a ambos. A doutrina mais autorizada vem repudiando essa alteração legislativa sustentando sua inoperância. dentre outros. da Lei 7347/85. quer nos parecer. porque as ações coletivas são reguladas por dois subsistemas que atuam em conjunto . Não obstante o repúdio doutrinário à alteração do artigo 16. Hugo Nigro Mazzilli. relegando a um plano secundário não apenas a linha teleológica do sistema protetivo sufragado pela Lei 8078/90. a isonomia. destaca que pelo fato de a restrição ter sido imposta apenas na Lei 7347/85. Conforme os ditames da Lei 9. os tribunais. nos limites da competência territorial do órgão prolator". mas a reunião deve observar o limite da competência territorial da jurisdição do magistrado que proferiu a sentença. 3. Hipótese em que se nega a litispendência porque a primeira . por exemplo. qualquer outra ação. como também as prescrições constitucionais.243 jurídico prendeu-se à natureza dos direitos e da repercussão social dos conflitos em massa. que busque a tutela a direito coletivo estará fora do alcance restritivo trazido pela Lei 9494/97.LIMITES DA COISA JULGADA. têm conferido à lei interpretação literal. Ainda. v. "a sentença civil fará coisa julgada erga omnes. como se verifica das ementas infra colacionadas. " PROCESSO CIVIL – AÇÃO CIVIL LITISPENDÊNCIA . o direito coletivo stricto sensu tem eficácia ultra partes e não erga omnes. mormente porque é a Lei 8078/90 que cuida do regime da coisa julgada. acaba por desnaturar a tutela efetiva do direito coletivo e ferir outros mandamentos constitucionais. Ada Pellegrini Grinover segue a mesma linha quanto à ineficácia da restrição territorial dos efeitos da decisão. 2. inclusive quando houver uma demanda coletiva e diversas ações individuais.494/97.

2º-A da Lei nº 9. EXECUÇÃO DE SENTENÇA. ILEGITIMIDADE DAS PARTES EXEQÜENTES. EMPRÉSTIMO COMPULSÓRIO DE COMBUSTÍVEIS (DL 2. abrangerá apenas os substituídos que tenham. caso contrário geraria violação ao art. na defesa dos interesses e direitos dos seus associados. domicílio no âmbito da competência territorial do órgão prolator". 2ª TURMA. ARRUDA ALVIM. APADECO. 02. Curso de Direito Constitucional." (REsp n. 1. Revista de Processo n.12. na data da propositura da ação. desprovido. litteris : "A sentença civil prolatada em ação de caráter coletivo proposta por entidade associativa. São Paulo: RT. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. n." (REsp n.2004) BIBLIOGRAFIA Armelim. 2. VIOLAÇÃO DO ART.288/86). 3. em razão de que em seu dispositivo se encontra expressa a delimitação territorial adrede mencionada. Tutela Jurisdicional do Meio Ambiente. 665. BASTOS. Recurso especial parcialmente conhecido. Revista do Advogado da AASP. 2º-A DA LEI Nº 9. 88. Manual de Direito Processual Civil. Donaldo. Notas Sobre A Coisa Julgada Coletiva.244 ação está limitada ao Município de Londrina e a segunda ao Município de Cascavel. j. 642462/PR. j. A abrangência da ação de execução se restringe a pessoas domiciliadas no Estado do Paraná. 37. 08/03/2005) "PROCESSUAL CIVIL.0013933-9 pleiteando a restituição de valores recolhidos a título de empréstimo compulsório cobrado sobre a aquisição de álcool e gasolina no período de jul/87 a out/88. EFICÁCIA DA SENTENÇA DELIMITADA AO ESTADO DO PARANÁ.494/97. ____________. e nesse ponto.947-SC. Celso. José Manuel. 1ª TURMA.494/97. ambos no Estado do Paraná.. 22ª ed. Impossibilidade de ajuizamento de ação de execução em outros estados da Federação com base na sentença prolatada pelo Juízo Federal do Paraná nos autos da Ação Civil Pública nº 93. São Paulo: .

São Paulo: Saraiva. O problema da Justiça. ª . Vol II. São Paulo: Saraiva.. II. ____________. Nelson. Nigro Mazzilli. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor comentado pelo autores do anteprojeto. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. Editora Malheiros. 2001. Instituições de Direito Civil. Hugo. José Joaquim. 10ª ed. 2002. 13ª ed. Moacyr Amaral. I. ____________. Vol. Curso de Direito Constitucional Positivo. SANTOS. Gomes Canotilho. Instituições de Direito Civil. Grinover. III. São Paulo: Saraiva. 23ª ed. Forense. Nery Junior. Kelsen. Editora: Forense. Forense. 2003. Caio Mário... Instituições de Direito Civil. O Princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana. 2000. Acesso à Justiça. 3ª ed.. 6ª ed. Editora Forense... Silva. Do Processo Cautelar. SILVA. 3 ed. São Paulo: Saraiva. José Afonso. Vol. Coimbra: Almedina. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. 6ª ed. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelo autores do Anteprojeto. Vol. Curso de Direito Processual Civil. Editora: Forense. São Paulo: RT. Editora Forense. Editora Forense. 2º Vol. ____________.. Editora Forense. ____________. THEODORO JUNIOR. Ada Pellegrini. Hans.245 Saraiva.Forense.. 1991. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 5ª ed. Editora Martins Fontes. Mauro. Luiz Antonio. Princípios do Processo Civil na Constituição Federal. Rizzatto Nunes. Silva Pereira. 6ª ed. Sergio Antonio Fabris Editor. Cappelletti. 2001. A defesa dos interesses difusos em juízo. Ovídio Araújo Baptista da. Humberto..

Notas Há dissenso doutrinário acerca da natureza da legitimação para a defesa de interesses coletivos. à coletividade e ao autor da ação.784. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. portanto. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelo autores do Anteprojeto. Acesso à Justiça.. Entendemos que a terceira corrente é a mais compatível com o regramento constitucional do direito de defesa e as diretrizes protetivas da lei 8078/90. Passim. A Lei 8078/90 não estabelece o momento processual da inversão. 03 . a inversão dar-se-ia quando do sentenciamento. que a legitimação é extraordinária. o contraditório e ampla defesa desdobramentos do princípio do devido processo legal. porque não dizer. os interesses do consumidor. 02. sustenta que a inversão deve ocorrer na petição inicial. pensamos que o julgador deva prevenir as partes sobre a possibilidade da inversão na fase instrutória. Ada Pellegrini Grinover. 2º vol. p. 04 01 José Manuel de Arruda Alvim. O fundamento seria o de que as regras de distribuição do ônus da prova são regras de juízo. Há quem sustente. p. 6ª ed. e. A segunda. Isto porque..p. porquanto quem figura como autor da demanda. Moacyr Amaral dos Santos. A primeira. 06. E a terceira. . ao mesmo tempo. o que deu azo a três exegeses doutrinárias. de algum modo. op. perfilha o argumento de que o momento da inversão deve ocorrer no saneador ou durante a fase probatória.246 Watanabe. a fim de não cercear. mas autônoma para conduzir o processo. 31. Editora: Forense. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor (Comentado pelo autores do Anteprojeto). cit.150. 05. pois os interesses defendidos pertencem. propugna pela inversão no momento do julgamento da causa. Mauro Cappelletti e Bryan Garth. não é o titular do interesse. e que. Outra corrente perfilha a tese de que a legitimação não é extraordinária. Kazuo. a defesa do réu.

2. quando houver a cumulação de vários sujeitos . III – entre as causas houver conexão pelo objeto ou pela causa de pedir. É necessário que haja uma ligação que os una para sua formação válida. Gabriel de Rezende Filho define litisconsórcio como "o laço que prende no processo dois ou mais litigantes.Pressupostos para a formação do litisconsórcio O litisconsórcio não se forma livremente. 1.3 Espécies .247 Litisconsórcio. na posição de autores ou de réus" [01]. isto é. II – os direitos e obrigações derivarem do mesmo fundamento de fato ou de direito. Litisconsórcio 1.tanto no pólo ativo (autores). apenas com a vontade das partes.Definição Litisconsórcio é a pluralidade de partes litigando no processo. São pressupostos estabelecidos pelo artigo 46 do Código de Processo Civil: I – entre elas houver comunhão de direitos e obrigações relativamente à lide. assistência e intervenção de terceiros nas ações coletivas para tutela do consumidor Autora: Gláucia Kohlhase Marques 1.1. quanto no pólo passivo (réus). IV – ocorrer afinidade de questões por um ponto comum de fato ou de direito. 1.

942. Em todas as hipóteses relacionadas. em que serão citadas as partes do contrato. proposta pelo Ministério Público. será assistente litisconsorcial. 946. ação pauliana. Por outro lado. Se aquele que poderia ser litisconsórcio facultativo não integrar a relação jurídica inicialmente e deixa para ingressar no processo posteriormente. devendo ser formado no momento da propositura da ação. 10. sendo necessário que os demais condôminos sejam citados como litisconsortes (art. em que marido e mulher terão que se litisconsorciar como autores (art. figura que será examinada mais adiante. por fim. 10. ação de dissolução de sociedade. De acordo com o artigo 47 do Código de Processo Civil. ação de usucapião. neste caso. mas sua formação também é necessária sempre que a comunhão de direitos e obrigações for una e incindível. A lei. Quanto à obrigatoriedade de formação do litisconsórcio. em que serão citados ambos os cônjuges. II e 949. § 1º. ações em que marido e mulher deverão ser citados como réus (art. este pode ser necessário ou facultativo. passivo quando existirem vários réus ou misto quando no processo litigarem vários autores e vários réus. em que o autor deverá pedir a citação dos interessados certos ou incertos. impõe a formação de litisconsórcio. Alguns exemplos podem ser citados como ações que versem sobre direitos reais imobiliários. Alguns exemplos podem ser mencionados como nas ações de partilha. Para isso. Entretanto.248 Quanto à pluralidade de partes. pela natureza da relação jurídica. CPC). ação de demarcação promovida por um dos condôminos. o direito material deve ser analisado para que se possa identificar a necessidade da formação do litisconsórcio. ações de divisão de terras. a maioria dos casos não é expressamente prevista pela lei processual. CPC). ação de nulidade de casamento. Entretanto. em que serão citados todos os sócios e. será facultativo quando a existência do litisconsórcio ficar a critério das partes. CPC). em muitos casos. O litisconsórcio será necessário sempre que a lei assim exigir ou. CPC). O litisconsórcio facultativo pode ser limitado pelo juiz sempre que houver um número excessivo podendo acarretar o comprometimento da rápida solução do litígio . em que todos os quinhoeiros deverão ser citados. condicionando-se aos pressupostos elencados no artigo 46 do Código de Processo Civil já mencionados alhures. a vontade das partes não é arbitrária. em que todos os condôminos deverão ser citados (art. 952. a lei determina a formação do litisconsórcio tendo em vista a relação jurídica material existente. CPC). o litisconsórcio pode ser ativo quando existirem vários autores. sua formação é obrigatória. o juiz tiver que decidir a lide de modo uniforme para todas as partes. bem como a dos confinantes do imóvel (art.

Da mesma forma poderá ser feita a transação e a conciliação.O litisconsórcio unitário ocorre sempre que a lide. 1. a situação jurídica litigiosa deve receber tratamento uniforme. o litisconsórcio poderá ser unitário ou simples. Quanto ao momento de formação. Assim. recorrer e falar nos autos serão contados em dobro. depois de constituída a relação processual ou pela junção de duas ou mais distintas relações processuais. trata-se não só de citação para formação do pólo passivo como também do ativo. a autonomia dos litigantes não é absoluta. em consonância com a regra instada no artigo 191 do Código de Processo Civil. Neste caso. basta que um dos litisconsortes conteste para que a revelia não acarrete o efeito . não conteste a ação.4. Já o litisconsórcio simples se dá quando a lide puder ser decidida de forma diversa para cada litisconsorte. não sendo possível que a decisão da lide seja de forma diferenciada para cada um dos colitigantes. deve ser formado no início da relação processual. Embora a disposição legal não deixe claro. sendo considerado como parte distinta. não constitui caso de litisconsórcio ulterior e. comporta algumas exceções. os prazos para contestar. o juiz deverá ordenar ao autor que promova a citação de todos os litisconsórcios sob pena de extinção do processo. regra esta consubstanciada no parágrafo único do art. Autonomia dos colitigantes Conforme se depreende do artigo 48 do Código de Processo Civil. podendo praticar todos os atos processuais. sim.249 ou dificultar a defesa. isto é. os litisconsortes podem constituir procuradores diferentes. Neste caso. obrigatoriamente. A confissão e o reconhecimento são possíveis sem que prejudiquem os demais litisconsortes. sendo os fatos alegados pelo autor comuns a todos. tornando-se revel. o litisconsórcio pode ser inicial ou ulterior. Pode ocorrer que um dos litisconsortes. A única hipótese de litisconsórcio ulterior ocorre no caso de litisconsórcio necessário que não se formou no início da relação processual de forma que. assistência litisconsorcial que será examinada mais adiante. parágrafo único. do Código de Processo Civil. O litisconsórcio será ulterior quando surgir no curso do processo. tiver que ser decidida de maneira uniforme para todos os litisconsortes. o litisconsórcio deve sempre ser inicial. conforme determina o artigo 47. Os atos e omissões não prejudicam os demais litisconsortes. Como regra. Entretanto. na posição de réu. Quanto à eficácia da sentença. Nas demais hipóteses em que aquele que poderia formar litisconsórcio inicialmente não o fez e ingressa posteriormente. Neste caso. 46 do Código de Processo Civil. cada litisconsorte tem autonomia dentro do processo.

O artigo 5º. A prova produzida por um dos litisconsortes também poderá aproveitar ou prejudicar os demais. menos imperfeita foi a redação dada na Lei n.5 Litisconsórcio nas ações coletivas A legitimação nas ações coletivas. § 2º. a sanção do art. Neste sentido leciona Calmon de Passos : " O art. O recurso também poderá ser interposto pelo litisconsorte. É o que ocorre nos casos de litisconsórcio unitário. Nesse passo.250 previsto no artigo 319 do Código de Processo Civil. portanto. e sim de assistência. De acordo com o que disciplina o artigo 509 do Código de Processo Civil. Trata-se não de litisconsórcio. Mas. E ainda. independentemente dos demais. da LACP admite que "o Poder Público e outras associações legitimadas" se habilitem como litisconsortes em ação já proposta". bastaria que o segundo co-legitimado propusesse em separado outra ação civil pública ou coletiva. 7. mesmo esta redação não se livrou da incorreção de mencionar assistentes litisconsorciais em vez de litisconsortes" [02]. caso se entendesse que inexista possibilidade de litisconsórcio ulterior. da Lei da Ação Civil Pública traz a possibilidade de o Poder Público e outras associações legitimadas habilitarem-se como litisconsortes. o art. eliminada a possibilidade de prova contrária do réu quanto aos mesmos". 320. Em decorrência disso os legitimados podem propor a ação coletiva conjuntamente. Com relação à eficácia da sentença. conforme se depreende do artigo 82 do Código de Defesa do Consumidor. com pedido mais abrangente ou conexo. I. e isso provocaria a reunião de processos. tem que ser entendido como restrito à impugnação de fatos comum a todos os litisconsortes. e então ambos os co-legitimados acabariam sendo tratados como litisconsortes. ao tratar do mesmo problema: "Fica facultado aos demais legitimados ativos habilitarem-se como litisconsortes nas ações propostas por qualquer deles". é concorrente e disjuntiva. pois o nosso ordenamento não admite a constituição superveniente de litisconsórcio facultativo. 319 incide: eles serão reputados verdadeiros pelo juiz. "procurando disciplinar o chamado litisconsórcio ulterior. o recurso interposto por um dos litisconsortes aproveitará aos demais quando os interesses não forem distintos ou opostos. pois a . formando litisconsórcio inicial no pólo ativo. 1. Segundo ele. 5º. "por absurdo. Relativamente aos demais fatos. Hugo Nigro Mazzilli entende que a regra do artigo acima citado é caso de litisconsórcio ulterior.853/89. ou comum ao réu atuante e ao revel litisconsorte. o litisconsórcio será unitário. em decorrência do princípio da comunhão da prova e do artigo 131 do Código de Processo Civil. § 2º.

inciso LXXIII da Constituição Federal. tendo processo individual em andamento com pedido idêntico ou conexo.251 decisão deverá ser idêntica para todos os litisconsortes. poderá habilitar-se como assistente litisconsorcial na ação civil pública na defesa de interesses individuais homogêneos. Para que alguém figure como litisconsórcio é necessário que tenha a legitimidade para ser autor.5. assim. seja de forma isolada ou em litisconsórcio unitário facultativo. Assim.2 Litisconsórcio entre Ministérios Públicos Em decorrência de melhor defesa do meio ambiente. 1. o indivíduo não pode ser autor de ação que tutele interesses transindividuais. embora não possa ser autor. surgiu a discussão se teria ou não havido veto ao litisconsórcio inserido no CDC. tendo em vista que os legitimados para a propositura da ação estão expressamente determinados pela lei. em um único processo coletivo. beneficiando. 1. O entendimento majoritário da . Tanto o CDC quanto a LACP não trazem regras processuais específicas quanto ao assunto do litisconsórcio. Face o artigo 5º. De acordo com o parágrafo único do artigo 46 do referido diploma legal. é possível a limitação pelo juiz quando houver excessivo número de litisconsortes podendo acarretar o comprometimento da rápida solução do litígio ou dificultar a defesa. todo o grupo de pessoas lesadas. Entretanto. Isto ocorre para que a prestação jurisdicional seja prestada de uma só vez.1 O indivíduo na posição de litisconsorte A legitimação extraordinária tem como escopo possibilitar que os indivíduos lesados pela violação de seus direitos sejam substituídos no pólo ativo. de acordo com a previsão do artigo 94 do Código de Defesa do Consumidor. após requerer a suspensão.5. inclusive ao meio ambiente. somos pelo entendimento de que se deve fazer a aplicação subsidiária do Código de Processo Civil. Com o veto ao § 2º do artigo 82 do CDC. Pelo sistema vigente na legislação brasileira. O indivíduo lesado. a ação popular pode ser proposta pelo cidadão para anular ato ilegal ou ilegítimo lesivo ao patrimônio público. pelos legitimados ativos elencados no artigo 5º da Lei da Ação Civil Pública e do artigo 82 do Código de Defesa do Consumidor. Neste caso. há uma exceção que ocorre no caso de ação popular. surgiu a idéia do litisconsórcio entre Ministérios Públicos que acabou se concretizando no artigo 113 do CDC. conforme já exposto. questiona-se se existiria limites com relação à quantidade de indivíduos que queiram ingressar na ação coletiva como assistente litisconsorcial. O seu § 5º incluiu o § 5º ao artigo 5º da LACP.

as quais serão examinadas adiante. ASSISTÊNCIA A assistência é uma forma de intervenção espontânea que ocorre com o ingresso do terceiro na relação processual já existente. O Código de Processo Civil italiano conceitua a assistência simples como sendo a intervenção de terceiro no processo entre as partes visando sustentar as razões de uma delas contra a outra. indivisibilidade e independência funcional estabelecidos pelo § 1º do artigo 127 da Constituição Federal. O Ministério Público é uma instituição informada pelos princípios da unidade. certamente. Ocorre que a própria necessidade de divisão do trabalho que levou à criação de vários órgãos do Ministério Público. as argumentações invocadas para o veto não procedem já que o artigo 128 da Constituição Federal não impede que os Ministérios Públicos da União. do Distrito Federal e dos Estados atuem em conjunto.252 doutrina é que o veto foi ineficaz. ou adesiva e a litisconsorcial ou autônoma. mais apropriado seria. prevalecendo a possibilidade do litisconsórcio entre Ministérios Públicos por força do artigo 113 do CDC. Assim. . falar-se em representação da instituição. com atribuição específica de tarefas diferenciadas a cada um deles. assim. No que se refere à instituição. o órgão Ministerial é uno. seja por razão territorial. Esta autonomia é apenas administrativa. 2. Para Kazuo Watanabe " haveria. Suas regras estão disciplinadas nos artigos 50 a 55 do Código de Processo Civil. de âmbito nacional. certa improbidade técnica em se falar em litisconsórcio entre os vários órgão de uma mesma instituição. A doutrina insere a assistência nas modalidades de intervenção de terceiros apesar de o Código de Processo Civil vigente a tratar separadamente.1 Assistência simples ou adesiva A assistência simples tem origem no processo extraordinário romano. Assim. e assim por diante" [03]. seja por razão de matéria. fez com que. esses órgãos atuassem com a indicação do setor que lhe compete. o Ministério Público pode atuar em qualquer das justiças e até em conjunto com outro órgão do Ministério Público quando a defesa dos interesses e direitos difusos e coletivos esteja dentro das atribuições que a lei lhe confere. Tecnicamente. o Ministério Público do Estado de São Paulo tem agido com a indicação da unidade da federação a que pertence. o Ministério Público do Trabalho. Entretanto. tradicionalmente. 2. Outra polêmica diz respeito à constitucionalidade do dispositivo em questão. com a menção à área que lhe toca. A doutrina classifica a assistências em duas espécies: simples.

restringir ou ampliar o objeto da causa. alterar. e permanecendo nesse caráter. impugnar perito aceito pelo assistido ou testemunha por este apresentada etc. pois a lide discutida não lhe pertence. exercendo os mesmos poderes. recebendo o processo no estado em que se encontra. reconhecer pedido ou transigir. intervém no processo. com a conduta que esta assume no processo" [04]. Sendo o assistido revel. há interesse jurídico do terceiro "quando a relação jurídica da qual seja titular possa ser reflexamente atingida pela sentença que vier a ser proferida entre assistido e a parte contrária" [05]. não formula pedido em prol de direito próprio. O assistente age como auxiliar da parte. o artigo 55 do CPC traz algumas exceções. A assistência pode se dar a qualquer tempo e graus de jurisdição. lhe é vedado formular pedido próprio. ou reconvir. pelo estado em que recebera o . podendo produzir provas e praticar atos processuais desde que sejam benéficos ao assistido. se necessário. O assistente não estará vinculado à justiça da decisão se alegar e provar que. contudo. o assistente encontra-se subordinado ao assistido que poderá reconhecer a procedência do pedido. quando o assistido haja desistido do recurso ou a ele renunciado. Atua com a finalidade de auxiliar o assistido tendo em vista ter interesse em que a sentença seja favorável ao litigante a quem assiste. Também estará sujeito aos mesmos ônus processuais. conforme dispõe o artigo 50 do Código de Processo Civil.253 O assistente. ex vi artigo 53 do CPC. Entretanto. A última hipótese somente se aplica ao assistente litisconsorcial. Segundo Nelson Nery Júnior. atuando com maior liberdade no processo. o assistente aturará como gestor de negócios. reconvir. Segundo Liebman. Assim. sua relação jurídica não é deduzida em juízo e a sentença não pode decidi-la nem conter disposições que lhes sejam diretamente pertinentes (exceto quanto às custas da intervenção). de modo que se torna sujeito no processo e não parte. o terceiro "não se torna parte. sempre em benefício do assistido. o assistente não poderá discutir os fundamentos de fato e de direito em que se assentou aquela decisão em outro processo que venha a ser autor ou réu. mesmo em contradição. a coisa julgada não atinge o assistente simples. ele pode. podendo formular pedido. como terceiro. não se converte em litisconsorte. Mas não poderá praticar atos relativos à disposição de direitos. Vincula-se aos efeitos da imutabilidade da justiça da decisão. Entretanto. isto é. a assistência ocorre quando o terceiro. defender a posição da parte assistida. recorrer. como confessar. Por outro lado. com interesse jurídico em que a sentença seja favorável à parte por ele assistida. desistir da ação ou transigir sobre direitos controvertidos. ao intervir no processo. Como regra.

já que o indivíduo sempre conserva o direito de acionar . tendo sido deixado fora da relação processual. Seus poderes são de verdadeiro litisconsorte. compreendido no pedido coletivo. nos casos de danos a interesses transindividuais. pois o lesado. O particular lesado que tenha processo individual em andamento com pedido idêntico ou conexo. a intervenção do lesado a título de assistência processual não se parece adequar perfeitamente às figuras processuais conhecidas: a) não seria caso de assistência simples. não se valeu. Diversamente da assistência simples. em benefício do qual se move a ação coletiva. por dolo ou culpa. 2. após ter requerido a suspensão. isto é.2 Assistência litisconsorcial ou autônoma A assistência litisconsorcial ou autônoma ocorre sempre que o terceiro for titular de uma relação jurídica idêntica ou dependente da deduzida em juízo que será atingida diretamente pela sentença. na assistência litisconsorcial são extraídos do artigo 54 do CPC dois requisitos necessários para a sua formação: a) relação jurídica entre o interveniente e a parte contrária ao assistido. Os atos e omissões do assistido não prejudicarão nem beneficiarão o assistente bem como os atos e omissões deste não influirão naquele. podendo agir com total independência e autonomia relativamente à parte assistida. b) essa relação ser normada pela sentença. atuando como parte distinta deste em suas relações com a parte adversa. o assistente não se subordina aos atos do assistido. poderá ingressar como assistente litisconsorcial na ação coletiva. de que o assistido. se tem direito próprio a ser zelado. Para Hugo Nigro Mazzilli. Em consonância com o art. pois a sentença não influirá necessariamente na relação jurídica entre ele e o adversário do assistido.3 Assistência nas ações coletivas Caso os demais legitimados queiram participar do processo posteriormente à propositura da ação. 2. b) não seria a rigor nem mesmo caso de assistência litisconsorcial em sentido estrito. 48 do CPC. ou pelas declarações e atos do assistido. poderão ingressar na qualidade de assistente litisconsorcial tendo em vista que o litisconsórcio inicial é facultativo. não poderia ser terceiro. fora impedido de produzir provas suscetíveis de influir na sentença ou desconhecia a existência de alegações ou de provas. faz coisa julgada material. É o caso daquele que poderia ter sido litisconsórcio facultativo mas não o foi.254 processo.

Outra parte defende o ingresso do assistente até o saneamento para que não cause tumulto processual. São pessoas estranhas à relação processual de direito material deduzida em juízo e estranhas à relação processual já constituída. tornando-se imutável e fazendo lei entre as partes. do CPC. em ação individual. . É o que chamamos de "extensão subjetiva da sentença". face o art. nela intervenham em determinados casos. tendo em vista a complexidade da relação jurídica. 3. Embora o assistente atue como auxiliar da parte. Dessa forma. pois lhe falta legitimação autônoma. seria problemático admitir sua intervenção a título de assistência litisconsorcial qualificada. o assistente não poderá assumir a ação. assim. o assistente poderá ingressar a qualquer momento. são os que não são partes no processo pendente [07]. é possível que os efeitos da sentença recaia indiretamente sobre terceiros. Entretanto. Assim. em razão do interesse que tenham na lide. c) também. uma vez não disciplinada a questão no CDC nem na LACP. produz coisa julgada. São sujeitos de uma outra relação de direito material que se liga intimamente àquela já constituída.255 diretamente o causador do dano. Com o objetivo de reduzir os perigos da extensão dos efeitos da sentença a terceiros não participantes da relação processual. em caso de desistência ou abandono pelo assistido. Como regra. o direito admite que terceiras pessoas. em tese. ou seja. não restando prejudicado pela decisão da ação coletiva. a sentença atinge aos que foram partes na demanda e não terceiros. Com relação ao limite temporal para que o lesado habilite-se como assistente litisconsorcial nas ações coletivas. INTERVENÇÃO DE TERCEIROS Transitando em julgado a sentença. esta seria a melhor opção [06]. 50. É a chamada intervenção de terceiros. pois o indivíduo na poderia ter participado de um litisconsórcio ativo unitário facultativo para propor ação coletiva. deve-se aplicar as regras processuais contidas no CPC. Entendemos no sentido de que. parágrafo único. não pode assumir diretamente a promoção da ação. à sentença proferida. Parte dela entende que o lesado poderá ingressar na ação coletiva a qualquer tempo. exercendo os mesmos poderes e sujeitando-se aos mesmos ônus processuais. sujeitando-se. Entretanto. há divergência na doutrina. Os terceiros que intervêm não são partes na relação processual originária. recebendo o processo no estado em que se encontra. para que possam fazer a defesa de seus direitos.

economia processual e celeridade. O instituto acabou sendo incorporado pelo direito canônico e pelo direito italiano medieval com a denominação de intervenção no processo das partes. total ou parcialmente. ainda. das de ambas.099/95). ou ação. o juízo era universal. no todo ou em parte. que terceiro formula na demanda entre as partes. 3.1 Conceito A oposição tem origem germânica. Como conseqüência disto. nos Juizados Especiais (Lei n. o pedido de tutela jurisdicional. Em razão desse procedimento é que se dizia que a sentença produzia efeitos em relação a todos que dela participavam e conheciam. a oposição pode ser conceituada como sendo a intervenção de terceiro que pretende. . as sanções impostas pelo Código de Processo Civil para os casos em que a parte se omita no dever de provocar a intervenção de terceiro no processo não se aplicam nesta hipótese. a oposição acabou se tornando ação autônoma. a conciliação ou transação.256 São modalidades de intervenção de terceiros a oposição. pois o procedimento adotado orienta-se pelos critérios da oralidade. Diversamente do direito romano. a coisa ou o direito sobre que controvertem autor e réu. Com esta roupagem a oposição foi adotada pelo direito brasileiro. total ou parcialmente. a nomeação à autoria. senhor do direito ou da coisa disputada entre as partes numa demanda pendente. e não só entre as partes. Entretanto. total ou parcialmente.1 Oposição 3. face o disposto no art. no qual a intervenção se dá no processo principal. português e alemão. das dos demais litigante" [08]. salvo a assistência e o recurso de terceiro prejudicado por se tratar de um rito mais célere. Ou. 10. Moacyr Amaral Santos conceitua oposição "como a ação intentada por terceiro que se julgar. os litígios eram decididos pela assembléia do povo. no processo germano barbárico. A França e a Itália seguem o modelo germânico primitivo. não se admite a intervenção de terceiros e a assistência. formulando pretensão excludente. informalidade. Dessa forma. simplicidade. São disciplinadas pelo CPC nos artigos 56 a 80. Pela influência do direito canônico. em que a sentença produzia efeitos apenas entre as partes. 9. Da mesma forma o procedimento comum sumário não autoriza a intervenção de terceiro. deveria intervir no processo para exclui-las. Se terceira pessoa pretendesse a coisa ou o direito sobre a qual litigavam as partes. buscando sempre que possível. a denunciação da lide e o chamamento ao processo.1. em praça pública. deduzindo pretensão própria excludente.

Se a sentença já foi proferida não é mais cabível a oposição.1. este será citado por edital. Os opostos serão citados na pessoa dos seus respectivos advogados para oferecer contestação no prazo comum de quinze dias. O opoente apresentará a petição inicial observando sempre os requisitos exigidos pelos artigos 282 e 283 do CPC. Após a audiência de instrução e julgamento da lide pendente.257 3. pode ser proposta entre dois termos: desde já iniciada a audiência . correrá em apenso aos autos principais ou em apartado como demanda autônoma. Moacyr Amaral Santos entende que "a oposição. ou ambos. no mesmo juízo da causa principal. como demanda autônoma. Diversamente. poderá fazê-lo por prazo nunca superior a noventa dias para que não retarde demasiadamente a marcha do processo principal. o prazo será contado em dobro. De acordo com o momento em que ocorrer sua propositura. esta será apensada aos autos principais. O limite temporal para o oferecimento da oposição é até a prolação da sentença (juízo de 1º grau) por ser uma questão prejudicial à ação principal. o interessado no objeto da lide entre o autor e o réu. embora o Código de Processo Civil não faça referência à questão. A oposição em processo autônomo será julgada sem prejuízo da causa principal. 191 do referido diploma legal. seguindo o procedimento ordinário. sendo ambas julgadas pela mesma sentença. Entretanto. não se esquecendo que a oposição deve ser apreciada antes da principal. a oposição somente poderá ser proposta em ação autônoma. Neste caso. Mas se o juiz entender necessário o sobrestamento do processo principal a fim de julgá-los conjuntamente. contra o outro prosseguirá o opoente. Serão réus em litisconsórcio necessário autor e o réu da ação principal [09]. Trata-se de uma exceção à regra de que a citação deve ser pessoal [10] [11]. e correrá simultaneamente com a ação. Se a oposição for oferecida antes da audiência de instrução e julgamento. Sendo advogados diferentes. deverá ajuizar demanda que entender necessária contra o autor ou o réu. somos pelo entendimento de que a citação deve ser pessoal. nos termos do art. Nesta modalidade de intervenção de terceiros forma-se uma outra relação processual.2 Procedimento O procedimento da oposição encontra-se previsto nos artigos 56 a 61 do CPC. com prazo de quinze dias para contestar. Se um dos opostos reconhecer o pedido. na forma dos arts. se o processo principal correr à revelia do réu. 213 a 233 do CPC.

for demandado em nome próprio. 513 do CPC. em grau de recurso. A oposição não será cabível em processo de execução.2. a oposição deverá ser oferecida e processada em primeira instância.1 Conceito A nomeação à autoria consiste na correção da legitimação passiva. ou seja. até o momento em que a sentença nessa lide se torne irrecorrível. sujeita às normas que disciplinam o duplo grau de jurisdição" [12] . toda vez que o responsável pelos prejuízos alegar que praticou o ato por ordem. isto é. e será condenatória com relação ao réu que possui a coisa. não mais se admite a oposição. intentada pelo proprietário ou pelo titular de um direito sobre a coisa. b) na ação de indenização.258 de instrução e julgamento da lide pendente (termo a quo).2. até o momento em que essa lide tiver sido decidida definitivamente (termo ad quem).2 Procedimento O procedimento da nomeação à autoria encontra-se disciplinado nos arts. a oposição pode ser proposta mesmo quando a causa entre autor e réu estiver em segunda instância. e possa ser julgada "sem prejuízo da causa principal". ato exclusivo do réu. deverá proceder a nomeação à autoria o proprietário ou o possuidor. ou . portanto. nenhum óbice existe ao seu ajuizamento depois de proferida a sentença de primeiro grau de jurisdição. substitui-se o réu parte ilegítima para a causa por um réu parte legítima. o recurso oponível será o de apelação. A sentença que julgar procedente a oposição será declaratória com relação ao autor da ação principal. pois declara não ter ele direito ao objeto da causa. ainda nesse caso. como depois dela e da prolação da sentença. É. Pontes de Miranda entende que a oposição pode ser ajuizada tanto antes da audiência. nos termos do art. Mas. Transitada em julgado a sentença proferida na ação. 3. visando livrar-se de demanda que lhe foi intentada.2 Nomeação à autoria 3. 62 a 69 do Código de Processo Civil. No mesmo sentido. nos Juizados Especiais e nas demandas sob procedimento sumário [14]. Da sentença que julgar a oposição. mas antes do seu trânsito em julgado [13]. devendo entregá-la ao opoente ou responder perante ele. Assim. Duas são as situações em que deverá ocorrer a nomeação à autoria: a) quando aquele que detiver a coisa em nome alheio. Se o Código permite expressamente que a oposição tenha curso autônomo. 3.

acarretando dano ao autor e para a Justiça. o transmitente do direito (o causam dans. 185 do CPC. o autor terá duas opções: assumir o risco de continuar litigando com o nomeante. para. ficará sem efeito a nomeação. Deixando o autor de se manifestar no prazo que lhe foi conferido. a palavra auctor assume várias acepções. deverá aplicar o prazo de cinco dias.3 Denunciação da lide 3. § 4º. tendo em vista que o nomeado não compareceu. correndo a demanda contra ele.259 em cumprimento de instruções de terceiro. ou desistir da ação contra o nomeante. O nomeante poderá continuar na relação processual como assistente caso tenha interesse em que a sentença seja favorável ao nomeado. que se afirma parte ilegítima. pois estará dando prosseguimento a um processo inútil ao fim visado. 3. o causam habens). O reconhecimento tácito se dá por presunção. A nomeação à autoria não é uma mera faculdade do réu. em relação ao adquirente do direito. havendo recusa do autor com relação ao nomeado. o juiz suspenderá o processo e mandará ouvir o autor no prazo de cinco dias. a ele incumbirá a citação. . Assim. conforme preceitua o art. se o juiz não estipular o prazo. e uma vez deferido o pedido. O Código nada fala de qual será o prazo para o nomeado falar sobre a nomeação. observando a regra contida no art. este poderá reconhecer a qualidade que lhe é atribuída. Aceita a nomeação pelo autor. mas sim um dever. É tanto aquele que propõe ação quanto o antecessor na sucessão da coisa. 267. ou se este negar a qualidade que lhe é atribuída. Dessa forma. presumir-se-á aceita a nomeação [15]. Se o nomeado negar a condição. o processo continuará contra o nomeante. o nomeante terá novo prazo para contestar [16]. se nomear pessoa diversa daquela em cujo nome detém a coisa demandada.1 Conceito No direito romano. Neste caso. A nomeação deve ser requerida no prazo para a defesa. propor nova demanda contra o terceiro indicado pelo nomeante. se a recusar. É neste último sentido que foi usada a palavra autoria. no chamamento à autoria instituído pelo Código de Processo Civil de 1939.3. ou se compareceu. Da mesma forma. expressa ou tacitamente. Citado o nomeado. A sua inobservância resulta na responsabilidade por perdas e danos. posteriormente. nada alegou.

a fim de resguardá-lo no caso de ser vencido na demanda em que se encontram. São os seguintes: I – ao alienante. na ação em que terceiro reivindica a coisa. mas não perde a pretensão de direito material. Trata-se de ato obrigatório [20] [21] apenas nos casos de evicção e transmissão de direitos. II – ao proprietário ou ao possuidor indireto quando. 70 os casos em que tem cabimento a denunciação da lide. a denunciação da lide pode ser feita tanto pelo autor quanto pelo réu. pela lei ou pelo contrato.2 Procedimento Como já foi dito alhures. O CPC traz em seu art. passando. então. pois se não fizer a denunciação perderá o direito de regresso contra aquele que é o garante do seu direito discutido em juízo. em ação regressiva. acompanhando o direito tradicional português. Haverá duas lides que serão processadas simultaneamente. III – àquele que estiver obrigado. o prejuízo do que perder a demanda [19]. citado em nome próprio. em casos como o do usufrutuário. Denunciação da lide é o instituto pelo qual autor ou réu chamam a juízo terceira pessoa. a indenizar. exerça a posse direita da coisa demandada. art.3. É uma ação secundária. podendo ajuizar a ação regressiva em processo autônomo. Já na hipótese dos incisos II e III. este deve . o conceito de denunciação à autoria foi alargada. 3. adotou a denominação "chamamento à autoria". 70. chiamata in garantia. o réu. cujo domínio foi transferido à parte. julgadas pela mesma sentença [17] [18]. No direito alemão e austríaco tem como correspondente a litisdenunciação. Mais tarde. sendo citado como denunciado o terceiro contra quem o denunciante terá pretensão indenizatória caso seja sucumbente na ação principal. Já o direito francês e o italiano preferiram o vocábulo de origem germânica. utilizando-se do vocábulo latino. regressiva. Quando o titular da eventual pretensão regressiva for o autor. do locatário.260 O direito brasileiro. a ser chamado de denunciação da lide. por força de obrigação ou direito. a fim de que esta possa exercer o direito que da evicção lhe resulta. a parte que não promover a denunciação da lide perderá apenas as vantagens processuais dela decorrentes. do credor pignoratício. denominando o instituto de exception de garantie. que seja garante do seu direito. no mesmo processo.

sendo sua impugnação feita por meio do recurso de agravo. depois de reiniciado o andamento da ação principal ? Isso não nos parece correto. A revelia do denunciado não desobriga o réu de sua defesa sob pena de perder o direito de regresso. deixando de contestar o pedido do autor. Entretanto. não há dúvidas quanto a essa possibilidade já que a lei é expressa. Embora haja na doutrina divergência quanto ao aditamento da petição inicial pelo denunciado. sendo. Neste caso. como acima explicitado. e de trinta para o residente em outra Comarca. poderá o réu e denunciante apresentar contestação. Questão que surge é se o réu. 297). suspende-se o processo. ficando suspenso o processo. . este poderá aceitar e contestar o pedido. Se o denunciado confessar os fatos alegados pelo autor. Cabe ao denunciado coadjuvar o autor uma vez que tem interesse na procedência da ação. comparecer apenas para negar a qualidade que lhe foi atribuída. pedindo a citação do denunciado. Neste caso. O denunciado também poderá aceitar a denunciação e assumir a posição de litisconsorte. prosseguindo o processo contra o denunciante e denunciado em litisconsórcio. não pode argüir fato novo. poderá o denunciante prosseguir ou não na defesa.261 requerer a denunciação juntamente com a petição inicial. podendo o denunciante prosseguir na defesa. a ação prosseguirá unicamente em relação ao denunciante [22]. ou lugar incerto. apresenta apenas a denunciação. ou confessar os fatos alegados pelo autor. podendo aditar a petição inicial no prazo de quinze dias (art. Da mesma forma se dará se o denunciado for revel. contrariando a defesa do autor [23]. O prazo e as regras para a citação do denunciado serão as mesmas da denunciação feita pelo autor. considerado revel. e do réu. A diligência para a citação do denunciado deve ser feita no prazo de dez dias para o residente na Comarca. A denunciação da lide feita pelo réu deve ser oferecida no mesmo prazo para a contestação da ação principal. Uma vez citado o denunciado. a demanda prosseguirá entre autor e réu. sendo o denunciado citado dentro do prazo para a contestação. este poderá defender-se da denunciação negando a qualidade que lhe é atribuída. Citado o denunciado. a qual será feito primeiro. uma vez citado. cumprindo ao denunciante prosseguir na defesa até o final. Ordenada a citação. 241 c/c art. A decisão de rejeição liminar da denunciação é decisão interlocutória. Se a citação não ocorrer dentro do prazo estipulado pela lei. pois o denunciado precisa conhecer o posicionamento do réu com a inicial para poder apresentar sua defesa [24].

o procedimento servirá apenas como forma de cientificar os eventuais denunciados. o possuidor indireto. Isto ocorre quando o denunciado tem com relação a outrem a mesma posição jurídica do denunciante perante ele. em tese apresentada no Ciclo de Estudos de Processo Civil. esta será declaratória. É o que dispõe o art. Isto porque constam do próprio texto legal as expressões "obrigação de indenizar em ação regressiva" (art. 73 : " Para os fins do disposto no art. ou seja. Dessa forma. assim. o denunciado está obrigado a garantir o resultado da demanda. o proprietário. por força de lei ou contrato.I) [29] [30]. 72 e 73) e "responsabilidade por perdas e danos" (art. Outra parte posiciona-se no sentido de que a interpretação dos dispositivos deve ser restritiva. Mas o próprio Código. esta assertiva não coaduna com a parte final do artigo que diz "valendo como título executivo". somente após a última denunciação é que o processo retornará ao seu curso. requeridas ‘em conjunto’ pelo denunciante. realizado em Curitiba. 76 do CPC. . posiciona-se Athos Gusmão Carneiro. Parte da doutrina tem entendido que a denunciação da lide sucessiva é cabível em todos os casos de ação regressiva. pois. previstas no artigo 73 do CPC. quanto aos prazos. observando-se. por sua vez. 70). o disposto no artigo antecedente". 70. As hipóteses de intervenção são excepcionais face o princípio da singularidade da jurisdição e da ação. de modo que a denunciação somente será possível quando. No mesmo sentido. Todas essas discussões ocorrem principalmente no temor de que as denunciações sucessivas se eternizem no processo. se assim não fosse. conforme o art. não se tornando réus na ação. na mesma oportunidade [27]. No que tange aos efeitos da sentença que julga a denunciação da lide. "responsável pela indenização" (art. o denunciado. 70.262 O Código de Processo Civil também permite a chamada denunciação "sucessiva". não haveria possibilidade de considerá-la como título executivo (584. determina a "intimação" e não a "citação". sucessivamente. 75) [25]. intimará do litígio o alienante. no caso de insolvência ou ausência de algum dos anteriores proprietários na cadeia dominial" [28]. Entretanto. acarretando a perda da ação [26]. o efeito da sentença é condenatório. assim abreviando o processo e melhor se assegurando o êxito da demanda indenizatória de regresso. já prevendo tal situação. Assim. ou o responsável pela indenização e. Moniz de Aragão sustenta a possibilidade de denunciação da lide não somente ao alienante mas também de todos os antecessores na cadeia dominial. (em agosto de 1983) : "As denunciações sucessivas. pondo fim à suspensão preconizada pelo art. Na verdade. poderão ser feitas ‘coletivamente’.

em um só processo. pareceria que a segunda decisão do juiz seria meramente declaratória. chamar o responsável principal. Tem como finalidade alargar o campo de defesa dos fiadores e dos devedores solidários. A palavra declarar no texto foi usada em seu sentido estrito de definir. Aquele que chama terceiro ao processo não tem pretensão a fazer valer em . A sentença que julga a denunciação da lide pode ser atacada por meio da apelação [32] [33]. além de lhe fornecer. se a sentença fosse tão somente declaratória. pois o texto legal diz que "é admissível". tendo em vista ser um procedimento mais célere. porque amplia a demanda.099/95 respectivamente. sem uma maior análise. 3. Lei n. título executivo judicial para cobrar deles aquilo que pagar" [36]. resolverem-se. ou os co-responsáveis ou coobrigados. em definitivo. A possibilidade de execução é.4 Chamamento ao processo 3. 9. para permitir a condenação também dos demais devedores. diretamente no processo em que um ou alguns deles forem demandados. com as últimas palavras da própria norma em exame: valendo como título executivo. A denunciação da lide não é cabível no procedimento sumário bem como nos Juizados Especiais por força da vedação do art. Por outro lado. possibilitando duplo título executivo" [31]. a virem responder pelas suas respectivas obrigações de modo a "favorecer o devedor que está sendo acionado. o que não é coerente. dado que o art. com força de coisa julgada material. aliás. 280 do CPC e art. não ensejaria execução. reconhecer. Também não é cabível no processo de execução [35]. todavia. É uma faculdade do réu em fazer o chamamento ao processo do terceiro e não uma obrigação. Arruda Alvim leciona : "Outra observação que cabe fazer é a de que. e quer dizer condenar. a vantagem do instituto. duas lides conexas. possibilitando-lhes. 584.1 Conceito O chamamento ao processo é uma das modalidades de intervenção de terceiro no processo pelo qual o devedor demandado chama os demais coobrigados pela dívida para integrar o mesmo processo daquele que o autor poderia ter trazido como litisconsorte.4. 10. no mesmo processo. O chamamento ao processo foi trazido ao Código de Processo Civil por influência do Código de Processo Civil de Portugal que possui essa forma de intervenção de terceiros. coloca como título judicial apenas a sentença condenatória. denominada de chamamento à demanda.263 Da mesma forma. A denunciação acabaria introduzindo fundamentos novos na relação processual acabando por procrastinar o feito [34]. I.

o fiador também será principal devedor e. 77 a 80 do Código de Processo Civil. na ação em que o fiador for réu – visa garantir a possibilidade de o fiador utilizar-se do chamado benefício de ordem consubstanciado no art. Mesmo que o fiador não tenha benefício de ordem a seu favor. E.2 Procedimento O procedimento do chamamento ao processo encontra-se disciplinado nos arts. O fiador chamado ao processo. 3. Dessa forma. Isto porque. tendo sido demandado apenas um deles. . ocupam a posição de litisconsórcio facultativo no pólo passivo. uma vez citado. 595 do CPC.4. torna-se litisconsórcio. o afiançado chamado ao processo será abrangido pelos efeitos da decisão. a dívida comum – esta é a hipótese de solidariedade passiva em que o credor esteja exigindo apenas de um dos devedores solidários a dívida comum. O réu deverá requerer o chamamento ao processo na mesma oportunidade da contestação. Neste caso. instaurado o processo de execução. chamante e chamado. será condenado da mesma forma que o fiador. poderá valer-se do já referido benefício de ordem.264 relação ao chamado. nos termos do art.I do CPC. poderá exigi-la do afiançado. como responsável pela dívida. face o art. Apenas entende que este tem a mesma obrigação de responder perante o autor. III – de todos os devedores. Confere-se ao fiador o direito de não sofrer execução. isto é. até que exausto o patrimônio deste. Ambos. nos termos do art. tendo satisfeito o credor. 568. poderá chamar ao processo o afiançado. quando para a ação for citado apenas um deles – consiste na hipótese de haver vários fiadores garantes da dívida. O chamamento ao processo é admitido nos seguintes casos: I – do devedor. 80 do CPC [38]. somente poderá ser executado o devedor reconhecido como tal no título executivo. parcial ou totalmente. quando o credor exigir de um ou de alguns deles. Sendo a sentença procedente. decorrente de não pagamento de dívida pelo afiançado. solidários. 827 do Código Civil [37]. serão trazidos ao processo os demais devedores solidários passando a figurar como litisconsortes no pólo passivo. sendo o caso. facultando ao demandado trazer os demais fiadores ao processo. II – dos outros fiadores.

para exigi-la por inteiro.º 8. CPC) e nos Juizados Especiais (art. O chamamento ao processo é cabível tanto em processo de conhecimento quanto no cautelar. No procedimento sumário (art. 3.513/77 e com a Lei da Ação Civil Pública. 77.265 Deferido o pedido do devedor e ordenada a citação. O indeferimento do chamamento somente poderá ocorrer se o juiz verificar que o requerimento não se enquadra nas hipóteses elencadas pelo art. Dessa decisão cabe agravo. 280. 9. Com a alteração dada pela Lei n. 72 e 74. Assim. Os interesses metaindividuias têm sua origem em regras previstas como garantias do tecido social.5 Intervenção de terceiros nas ações coletivas As ações coletivas são aquelas destinadas a defesa dos interesses difusos. este terá prazo para resposta. Lei n. indeterminados.º 7. observando as regras contidas nos arts. ainda que . O perfil histórico do processo civil romano menciona as actiones populares como instrumento de proteção a esses interesses.078/90. 10. consumando-se com o advento do Código de Defesa do Consumidor. em geral. Já no processo de execução não é possível o réu lançar mão do chamamento ao processo já que inexiste sentença sobre a pretensão executiva. o processo será suspenso. Os direitos metaindividuais têm a primeira referência na Lei da Ação Popular. para que o fiador se utilize do benefício de ordem é necessário que tenha requerido o chamamento ao processo do afiançado no processo de conhecimento. quanto à citação e aos prazos [39]. Os sujeitos são. Após a citação do chamado. chamados de direitos fundamentais de terceira geração. ou de cada um dos co-devedores a sua cota. A construção doutrinária em torno da noção conceitual é recente em nossa legislação pátria. na proporção que lhes tocar. ocorreu com a promulgação da Constituição Federal de 1988. tornando-se litisconsorte do chamante. A positivação dos direitos difusos e coletivos. A sentença de procedência proferida no processo de conhecimento condenará os devedores e valerá como título executivo.º 6.099/95) não é cabível o chamamento do processo por se tratar de procedimentos mais céleres. Lei n.347/85 houve uma sistematização na defesa dos direitos difusos e coletivos ao meio ambiente e ao consumidor. em favor daquele que satisfizer a dívida. O termo difuso tem sua origem doutrinária romanística tendo como titular cada um dos integrantes da comunidade. coletivos e individuais homogêneos. do devedor principal. Lei n.

e o seu objeto e a forma de tutela possuem uma mutabilidade no tempo e espaço como característica. Daí se conclui que em lides de consumo as figuras de intervenção de terceiros serão possíveis desde que não traga dificuldades na defesa e procrastinação no feito. I do CDC. consubstanciado no art. de forma que. Assim. fossem garantidos. 81. buscando a facilitação e a rápida entrega da prestação jurisdicional. O Código de Defesa do Consumidor deixou de tratar muitas questões processuais. 103. Neste aspecto é que os institutos processuais devem ser analisados. São difusos os direitos cujos titulares são indetermináveis. São coletivos quando os titulares são indeterminados. A tutela jurisdicional dos interesses difusos deve ser feita em benefício de todos os consumidores atingidos. coletivos e individuais homogêneos. Os individuais homogêneos são aqueles direitos individuais cujo titular é identificável e o objeto é divisível. ou com a parte contrária. ampla defesa. que acabou por deixar o consumidor em situação de vulnerabilidade e hipossuficiência. entre outros. Foi a Lei n.º 8. o CPC e a LACP. Essa relação jurídica é diversa daquela que se origina da lesão. Dividem-se em interesses difusos. buscando o equilíbrio processual entre as partes. mas determináveis. há necessidade de se fazer uma interpretação sistemática entre o CDC. seja por meio de habilitação por ocasião da liquidação da sentença na demanda coletiva. o Código de Defesa do Consumidor trouxe uma sistemática peculiar. ligados entre si. A ligação entre os titulares se dá por circunstâncias de fato e o objeto é indivisível. É caracterizado pela sua origem comum podendo ser defendidos coletivamente. seja através de demanda individual. sempre à luz da vulnerabilidade do consumidor. Desse modo. A relação jurídica que nasce da lesão é individualizada na pessoa de cada prejudicado. sendo suficiente uma única demanda.266 determináveis. parágrafo único e seus incisos. por relação jurídica base preexistente à lesão ou ameaça de lesão. Não é necessário que exista entre as pessoas uma relação jurídica base anterior. acarretando ofensa diferente na esfera jurídica de cada um de modo a permitir a identificação das pessoas atingidas. em decorrência do desequilíbrio das forças econômicas e negocias nas relações de consumo. Com esses princípios em mente é que o legislador trouxe a vedação da .078/90 que trouxe o conceito. A efetiva identificação se dá no momento em que o prejudicado exerce o seu direito. Não há entre eles relação jurídica base. Seu objeto também é indivisível. cuja sentença fará coisa julgada erga omnes face o disposto no art. em noção tripartite dos interesses metaindividuais. o legislador se deparou com a necessidade de criar regras de proteção para que os princípios constitucionais de igualdade.

1. 2. cap. em caso de procedência da ação. Neste sentido. Outra questão polêmica é quanto ao cabimento do chamamento ao processo em sede de lide de consumo. v. GIOVANNI NENCIO NI (L´intervento voluntário litisconsorziale nel processo civile) refere que " única è la definizione di terzo. que poderá. Nota às Instituições de Chiovenda. O art. p. face o art. 101. por via de regra. entretanto. a dedução dessa lide incidental será feita com a invocação de uma causa de pedir distinta. tendo em vista que o segurador foi chamado como responsável em face do consumidor. Neste caso. para evitar que a tutela jurídica processual dos consumidores pudesse ser retardada e também porque. Notas 01 02 03 Rezende Filho. A defesa dos interesses difusos em juízo. Kazuo Watanabe. P. Hugo Nigro Mazzilli. face o disposto no art. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. Por se tratar de ação condenatória em que se discute dolo e culpa acaba por afrontar o direito do consumidor de ser indenizado em face da responsabilidade objetiva. Código de Processo Civil Comentado. o juiz poderá julgá-la não só contra o réu. 78 do CPC. P. Uma vez julgada procedente a demanda. 79 do CPC.267 denunciação da lide no art. 226. Hugo Nigro Mazzilli. 88 do CDC. ed è negativa: terzo di um . não há violação aos princípios básicos do microssistema do CDC já que o chamamento da segurado só amplia as garantias para o consumidor [41]. port. 328. XXIX. trad. p. Nelson Nery Júnior. 13. 80 do CPC. Nestes casos deve ser proposta ação autônoma para a discussão da questão. em seguida ao pagamento da indenização. do Código. 04 05 06 07 Libman. A defesa dos interesses difusos em juízo. não ficará prejudicado o comerciante. foi vedada para o direito de regresso de que trata o art. todavia. II do CDC traz expressamente a possibilidade do chamamento ao processo da seguradora quando existir relação de seguro. 256. Esse chamamento deverá ocorrer no prazo para contestação. como também contra o seu segurador. v. propor ação autônoma de regresso nos mesmos autos da ação originária" [40]. Com isso. Kzauo Watanabe entende que "a denunciação da lide. a sentença condenará o réu nos termos do art. Nesta hipótese. parágrafo único. Curso de Direito Processual. 763.

433-MS... mas é perfeitamente válida a citação feita na pessoa dos referidos interessados" (1ª Câm. 15:137).10. ac. "apud" Em. 57 do CPC manda citar os advogados dos opostos para apresentação de defesa.II. Rev. DJU 9. RT 486/160). 280. v. Belém.285). 49.268 giudizio è colui Che non è parte". Turim. p. Min. mas obedecerá ao disposto nos arts. "A oposição não pode ter objeto mais amplo que a coisa ou o direito controvertidos entre autor e réu. deram provimento. v. V. 2.u. 34:50). 27. Assim também SÉRGIO COSTA: " Il concetto di terzo può essei determinato solo per esclusione: è terzo chi non è parte" (L’ intervento in causa. além de impugnar a nomeação propriamente dita. GOMES DA CRUZ. Des.06. de 7. consubstancia uma ação incidental com pretensão de garantia e/ou indenização. 95 (nº 2) e 100 (nº 1). ed. 18. Revista dos Tribunais.u. "O art..96. mas no Código de Processo Civil vigente.12. podendo. 2. rel. AC. em 1.77. p. 08 09 Moacyr Amaral Santos. discutir sobre possível ilegitimidade passiva ‘ad causam’" (STJ – 4ª Turma. 107:247 e 115:168).75.08. isto é. neste caso. 549/75. embora na pessoa dos advogados. 1991.099/95. presume-se aceita aquela. 10 e CPC. " A citação. v. Do TJPA.85. art. RP. Lídia Dias Fernandes. "Ante o silêncio do autor sobre o pedido de nomeação à autoria feito pelo réu. 1974. v. do TRF n. não pode ser feita mediante simples publicação na imprensa oficial.295). art. 74. ". do denunciante em face do denunciado (Denunciação da lide. tem o réu 15 dias para responder à ação" (TRPR – Apel. para a eventualidade da sucumbência do denunciante" (BARBOSA 18 17 16 .2ª Turma. 1953).se converte na verdadeira propositura de uma ação de regresso antecipada. 14 15 13 12 11 10 Lei 9. rel. Primeiras linhas do direito processual civil. Min.206-SP. Pluralidade de partes e intervenção de terceiros. Do TJPA. devendo os nomeados serem citados para manifestar-se sobre o pedido. REsp 104.11. Pontes de Miranda. Sidney Sanches alude que a expressão "denunciação à lide" dá a idéia de simples notícia de existência do litígio.96. AC 83. v. Primeiras Linhas de Direito Processual Civil. 12. deve o interessado propor ação autônoma" (TRF . 3. Rel. 1997. j. 213 e 233" (RJTJSP.São Paulo: Saraiva. "O prazo começa a correr novamente. Sálvio de Figueiredo.. Costa Lima.598. Moacyr Amaral Santos. Comentários ao Código de Processo Civil. da Jur. p. 15. DJU 29.

somente nos casos de evicção e transmissão de direitos (garantia própria) é que a denunciação da lide se faz obrigatória" (STJ – 4ª Turma. em prejuízo das partes do processo principal.269 MOREIRA. poderá logo pedir a retomada do curso do processo. por exemplo. Ed. v.02. III. I. Da denunciação da lide.367-SP. 21. Rio de Janeiro.99. 22. Demócrito Reinaldo. em acrescentar o denunciado. Del Rey. Min. já agora como "litisconsorte" do autor. Rio de Janeiro: Editora Forense. Curso de Direito Processual Civil. mas ainda com o processo paralisado. insista-se. 1974. em outras palavras. Estudos sobre o novo Código de Processo Civil. "Segundo entendimento doutrinário predominante. ou quiçá em expungi-la de irregularidades que poderiam torná-la inepta.761). ou em trazer mais elementos e argumentos de fato ou de direito à petição inicial.Tornar facultativa a denunciação da lide importa no descumprimento explícito da lei (art. Mas não pode o denunciado. Líber Juris. não haja necessidade de dilação probatória pertinente exclusiva e especificamente à denunciação" (Max Guerra Kopper. alterar substancialmente o próprio pedido formulado pelo denunciante.06. Não poderá. somente deve ser admitida quando o denunciante logre comprovar de plano.321-PR – STJ – 1ª Turma. Humberto. o prejuízo do que perder a demanda. do art. DJU 26. e não do terceiro denunciado" (THEODORO JÚNIOR. Sálvio de Figueiredo. a denunciação da lide é obrigatória a todo aquele que estiver forçado pela lei ou por cláusula contratual a indenizar. os casos de denunciação obrigatória. uma nova causa petendi. Por isso sendo ultrapassado. rel. sem a consumação da diligência. DJU 24. Min. REsp 43. Se. 70. p. não haverá motivo para negarlhe efeito. serão de qualquer modo produzidas. cap. "Em face de preceito expresso de lei. ou cumular pedidos outros. quando. porque não é o dominus litis. a denunciação. por força da própria necessidade instrutória do feito principal. 87).04.99. 23. para evitar seu prejuízo de ficar com o processo suspenso indefinidamente. p. O § 2º. 87-8). rel. por via de regresso. V. 1997).96. nem teria interesse algum nisso. 72 deve ser interpretado em harmonia com o respectivo caput. porém. o denunciado argüir a intempestividade como motivo para exonerar-se da responsabilidade de garantia ou do direito regressivo do denunciante. documentalmente. o seu direito de regresso ou quando tal comprovação dependa unicamente da realização de provas que. a citação for realizada além do prazo. 61). "Esse prazo é estipulado em favor da parte contrária à que requereu. p. in casu. "Pode consistir. ressalvados. "A denunciação da lide. j. uma vez que o eventual direito regressivo do autor contra o denunciado exercer-se-á nos 23 22 21 20 19 . do CPC) e na afronta ao princípio da economia processual" (REsp 196. por exemplo. ed. p. onde se estipula a suspensão do processo.

1984. 1996. 1978. Min. 25:22. Moniz Aragão. ante o disposto no art. artigo cit. Athos Gusmão Carneiro. o aparelhamento deste independe do andamento da execução da sentença proferida na ação principal. Denunciação da Lide no Processo Civil Brasileiro. Ao limitar-se ao pedido de intervenção do terceiro. 8. para habilitar-se à sua própria defesa. 76). como também o pedido formulado. p. o réu implicitamente aceitou os fatos postos na inicial e permitiu a preclusão de seu direito de contestar. Arruda Alvim. Ajuris. Barbosa Moreira. 08/02/00). do Código de Processo Civil. 7. 2. se o denunciado vier a contestar não só a ação regressiva. 92. porque o processo continua" (RT574/150). do Código de Processo Civil" (Intervenção de Terceiros. ed. "A expressão "valendo como título executivo" evidencia o conteúdo condenatório da sentença que julga procedente a denunciação da lide" ( RSTJ 85/197). art. p. Manual de Direito Processual Civil.v. I. Ari Pargendler. necessita conhecer a posição de denunciante relativamente aos fatos e pretensões apresentados na petição inicial.. na ação principal (pois nesta torna-se litisconsorte passivo). Todavia. 320. 1979.270 limites da sucumbência. "O art. litisdenunciado é agravável de instrumento. 1. p. 2001. 85/86. "Pode ser rescindida a sentença que deixa de julgar a lide secundária objeto da denunciação" (RT 724/408). cit. p. São Paulo: Revista dos Tribunais. Justitia 94/13. n. Intervenção de Terceiros. antes que o réu o faça" (STJ – 3ª Turma. São Paulo: Saraiva. Athos Gusmão. 280. podendo o denunciado à lide ser obrigado a cumprir sua obrigação. rel. Vicente Greco Filho. Na opinião de Athos Gusmão Carneiro " O denunciado. 8. ed. Sobre chamamento à autoria.245/95. antes da sentença. 121. inciso I. 87). Ag 247. que não pode ultrapassar o pedido" (CARNEIRO. Sidney Sanches. "Decisão que exclui. Estudos sobre o novo Código de Processo Civil. 1996). I. com redação da Lei 9. Artigo publicado na Revista do Instituto dos Advogados do Paraná. São Paulo: Saraiva. certamente pautado em preocupação maior com a concentração de atos 34 33 32 31 30 29 28 27 26 25 24 . "A sentença que julga procedente a denunciação da lide vale como título executivo (CPC.. t. então não se produzirá o efeito da revelia. Intervenção de Terceiros.761-DF-AgRg. ed.

434. O sistema do CDC veda a utilização da denunciação da lide e do chamamento ao processo. Ordenada a citação. 7. Como no sistema do Código de Processo Civil. "Art. 1º A citação do alienante. com a economia processual. livres e desembargados. 262. reflexamente. 521/197 e 562/112. 41 40 . II. p. deve nomear bens do devedor.922 – Rel. n. o denunciado. comparecendo. cit. 38 39 37 36 35 "Não se admite chamamento ao processo em execução" (JTA 103/354). dentro de trinta (30) dias. Celso Barbi. pela literalidade de seu texto. Parágrafo único. nem a intervenção de terceiro. assumirá a posição de litisconsorte do denunciante e poderá aditar a petição inicial. Feita a denunciação pelo autor. do possuidor indireto ou do responsável pela indenização far-se-á: a) quando residir na mesma comarca. P. que sejam primeiro executados os bens do devedor. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado pelos Autores do Anteprojeto. " Art. ou em lugar incerto. quantos bastem para solver a dívida". v. a que se refere este artigo. certamente dará ensejo a profundas controvérsias" (Arruda Alvim. dispõe que "não será admissível ação declaratória incidental. do proprietário. 2º Não se procedendo à citação no prazo marcado.271 processuais e. 827 – O fiador demandado pelo pagamento da dívida tem o direito a exigir. ficará suspenso o processo. p. 782/783. 359. O tema. O fiador que alegar o benefício de ordem. a denunciação é forma de intervenção de terceiro (o Capítulo VI em que o instituto está inserido tem esta denunciação). b) quando residir em outra comarca. ed. até a contestação da lide. ambas ações condenatórias. 1.. dentro de dez (10) dias. I. RT 504/173. Art. sitos no mesmo município. 1º TACSP – 3ª Câm – Ap. 72. Arruda Alvim. com o advento deste dispositivo restou. procedendo-se em seguida à citação do réu". "Vedação da denunciação da lide. entretanto.. salvo assistência e recurso de terceiro prejudicado". a ação prosseguirá unicamente em relação ao denunciante. ed. Comentários ao Código de Processo Civil. t. 197). 74. vedada a denunciação da lide no procedimento sumário.

. que é elemento de responsabilidade subjetiva. . a conduta do fornecedor ou de terceiro (dolo ou culpa). 1402). isto é. sem que se discuta dolo ou culpa" (Código de Processo Civil Comentado. em detrimento do consumidor que tem o direito de ser ressarcido em face da responsabilidade objetiva do fornecedor. p. Seria injusto discutir-se. na verdade o sistema do CDC não admite a denunciação da lide na s ações versando lides de consumo. ún. Embora esteja mencionada como vedada apenas a denunciação da lide na hipótese do CDC 13 par.272 porque o direito de indenização do consumidor é fundado na responsabilidade objetiva. por denunciação da lide ou chamamento ao processo.

Introdução – 2.273 A competência nas ações coletivas do CDC Autores: Renato Franco de Almeida Paulo Calmon Nogueira da Gama Aline Bayerl Coelho SUMÁRIO: 1. Ação Civil Pública e Ação Coletiva – 3. .

II. . com a chegada – verdadeira necessidade – do Estado Democrático de Direito. Não obstante a inegável importância que esses diplomas legais possuem hoje no cenário jurídico nacional – como verdadeiras concretizações do Estado Democrático de Direito no aspecto processual – muita celeuma foi criada durante os anos das respectivas aplicações. foram editadas algumas leis. portanto.180.078/90 – que instituiu o Código de Defesa do Consumidor – que.347/85. fez-se mister o surgimento de novas formas de proteção. merece melhor reflexão. possui semelhanças com aquela tratada pela Lei nº 7. ganhou foros de cidadania. é fecunda a doutrina pátria. do Tít. INTRODUÇÃO A defesa dos interesses/direitos transindividuais ou metaindividuais (1). Porém. deu maior desenvolvimento à defesa dos interesses coletivos em sentido amplo. era impensável no Direito brasileiro. além dos aspectos materiais. a nosso sentir e apesar da dicção legal. como se tentará demonstrar na seqüência. Neste sentido. há bem pouco tempo. seja da jurisprudência. mormente no tocante ao redimensionamento de velhos institutos processuais que tiveram que ser readaptados à nova realidade das demandas coletivas. seja da doutrina. Com a aparição de novos interesses/direitos. Conclusão – 9. Atualmente. na maioria das vezes. da natureza dos novos interesses/direitos perseguidos no bojo da relação jurídica processual. em razão. ao longo dos anos. é de se colocar em evidência a aparição das Leis nº 7. acertada da jurisprudência na defesa de interesses que. de seu turno.347/85 – que instituiu a Ação Civil Pública – e 8. bem como a resposta firme e. obviamente.274 Competência na Ação Civil Pública – 4. a competência para apreciação e julgamento das demandas propostas pelo rito processual instituído no Cap. que previram a defesa de alguns direitos coletivos lato sensu. mormente após o advento da Medida Provisória nº 2. Competência na Ação Coletiva – 5. que. sendo incumbência da Ciência Processual adequar os institutos do Direito processual clássico – inspirado ainda em princípios e institutos surgidos no século XVIII – para a defesa desses direitos coletivos. entendemos. Bibliografia. o presente trabalho tem por escopo precípuo a análise da competência instituída para as chamadas ações coletivas para a defesa de interesses individuais homogêneos. 1. III do CDC. Dentre as muitas divergências que ainda causam os textos legislativos mencionados. Para tanto.

Consoante melhor doutrina. 3º – a ação coletiva prevista no CDC tem por objeto imediato do pedido tão-somente a condenação do Réu – única providência jurisdicional admitida nesta seara – ao pagamento de quantia – objeto mediato – que deverá ser apurada em seu quantum no respectivo processo de liquidação (arts. que o âmbito de abrangência da primeira (ACP) é maior que o da segunda. Mesmo que perfunctoriamente. ensejará diverso tratamento interpretativo. também. o que. coletivo ou individual homogêneo. 21 LACP. a denominação dada às ações é reminiscência do período imanentista da teoria do processo. 91 e 95 CDC). processo é meio de realização material da função jurisdicional do Estado.275 2. 117 do CDC). no momento em que aquela serve como instrumento à satisfação não só de condenação à determinada quantia. Por outro lado. à condenação referente a obrigações de fazer ou não fazer. posteriormente alterado pelo art. é cediço que os procedimentos são criados ante a necessidade de concretização dos direitos materiais. 91 usque 100) que prevê as ações coletivas para a defesa de interesses individuais homogêneos. Ao contrário do que ocorre na Lei de Ação Civil Pública (LACP) – art. as ações sob comento – civil pública e coletiva – possuem particularidades que as distinguem. à de qualquer interesse difuso. com o procedimento previsto no Cap. que dão ensejo a tratamento diverso. ao passo que a ACP. consistia clara impossibilidade jurídica da demanda (cf. Tem-se. É o que ocorre. II do Tít. somente por este ponto. por corolário. pois. antes do Código consumerista. no particular. o que. à defesa dos interesses individuais homogêneos. diferenças intrínsecas entre uma e outra. daí a aparição de diversos ritos processuais especiais que instrumentalizam a efetivação dos direitos de fundo. Ademais. (3) . AÇÃO CIVIL PÚBLICA E AÇÃO COLETIVA Sem embargo da ocorrência de semelhança no que toca à competência. parece ser entendimento sedimentado doutrinariamente o fato de que a Ação Coletiva somente poderá servir de instrumento à defesa de interesses consumeristas. vislumbram-se. segundo o qual para cada direito existe uma ação específica (legis actiones). (2) Não obstante o acerto da afirmação. art. cabalmente. porém e ainda. somente após o advento do Código de Defesa do Consumidor. III do CDC (arts. a Ação Civil Pública tornou-se instrumento eficaz. a nosso aviso. afinal.

a facilitação na colheita de provas. COMPETÊNCIA NA AÇÃO CIVIL PÚBLICA Consoante dispõe o art. ao determinar a competência do juízo do local do dano. ou sua substituição ou a respectiva indenização). visto que o Juiz estará mais perto – e por conseqüência terá maior facilidade na sua captação e entendimento – dos indícios oriundos da probabilidade da ocorrência do dano e dos vestígios deixados pelo dano efetivamente causado. ex. traduzir-se-á em ponto de aproximação. que os objetivos da norma jurídica. assim. portanto. a nosso ver.. cujos interesses – interesses sociais – em um Estado Democrático de Direito. Já em seu parágrafo único – introduzido pela MP 2.. como ser atomizado (6). nos processos coletivos. de indivíduo para indivíduo (p. a definição do local do dano como determinação da competência do juízo tem por fim. (7) . a facilidade na colheita de provas." (4) À guisa de ilustração. o fattispecie que ensejou o surgimento do objeto litigioso: o dano. danos emergentes e lucros cessantes). surgentes da conduta delitiva.180 – dispõe a lei que a propositura da ação prevenirá a jurisdição (rectius: competência) do juízo para as demais demandas que sejam idênticas. 2º da LACP. cujo juízo terá competência funcional. diferenças ontológicas entre as ações em cotejo. em regra. qual seja. Por outro lado. o que. desde que se dê interpretação consentânea aos seus objetivos. Ocorre o primeiro em razão de se cogitar. 3. de interesses que não dizem respeito ao indivíduo. as Ações Civis Públicas serão proposta no foro onde ocorrer ou deva ocorrer o dano. as diferenças sumariamente comentadas ensejam. sobrepujam os meramente individuais.276 "A condenação em ação civil pública ou coletiva por lesão ao consumidor só poderá ter como objeto o dano global e diretamente considerado (p. absoluta. (5) Da assertiva pode-se inferir que definir-se-á o juízo competente para o conhecimento e julgamento das Ações Civis Públicas não pelos elementos subjetivos da demanda – domicílio do autor ou do réu – todavia por seu elemento objetivo. o dano decorrente da aquisição em si do produto defeituoso ou impróprio para os fins a que se destina. no concernente à competência do juízo. são claros: a prevalência da importância da res iudicium deducta sobre as partes em lide. Temos. para o conhecimento e julgamento da demanda. sob o aspecto prático. ex. mas como membro de uma sociedade. A tutela coletiva não poderá alcançar danos individuais diferenciados e variáveis caso a caso.

em seu art. o inquérito civil deverá ser instaurado e a ação civil pública proposta seguindo os critérios da prevenção. ou nacional. ou até mesmo de um Estado-membro. na lei (LACP) não há norma jurídica que franqueie tal entendimento. Frise-se que. caso não esteja envolvida pelos efeitos do dano. Isto porque. mormente após a inserção do parágrafo único ao art. se os danos se estenderem ao território estadual. em hipótese alguma. é explícita a determinação da competência pela prevenção – que deverá subsidiar-se nas normas processuais gerais previstas no CPC sobre tal instituto – entre as comarcas envolvidas no evento danoso. acolhendo a assertiva do jurista paulistano. não pode ser interpretado. em se tratando de Ação Civil Pública. o que. 219). de forma estritamente literal. ao contrário do que ocorre com o CDC. dentre somente as comarcas envolvidas. o inquérito civil deverá ser instaurado e a ação civil pública proposta na respectiva Capital. ao revés. um dano ambiental que envolva os Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro – como recentemente de fato ocorreu – competente será o juízo da comarca que primeiro realizou a citação válida para o conhecimento e julgamento da Ação Civil Pública eventualmente proposta. como dito." (8) (g.180. 2º da Lei nº 7. 93. simplesmente por inexistir norma jurídica que de forma diversa o preveja. será competente o foro da Capital do Estado ou o Distrito Federal.n. segundo as regras insertas no Código de Processo Civil sobre prevenção (art.277 Daí que. competente será – nas Ações Civis Públicas. ao lançar escólios sobre a matéria. também. E mesmo neste caso – de ser a Comarca da Capital de um dos Estados ou de ambos atingida pelos efeitos danosos – esta somente será sede do juízo competente se .347/85. 2º pela MP 2. com a introdução do parágrafo único ao art. Ademais. repise-se – aquele juízo onde ocorrer a primeira citação válida. afirma Hugo Nigro Mazzilli que: "Se os danos se estenderem a mais de um foro mas não chegarem a ter caráter estadual ou nacional. De efeito. haver comando legal que assim o determine. e. onde resta clara a determinação legal da competência do foro da Capital do Estado ou do Distrito Federal em casos de dano cujo âmbito seja regional ou nacional. Desta forma. pensamos que tal raciocínio não possui supedâneo legal. se demonstrará. respectivamente. o juízo. não havendo que se falar em competência da Comarca da Capital de uma das entidades federadas.) Com a vênia devida ao ilustrado Mestre. que primeiro realizar citação válida. independentemente do Estado a que pertença tal comarca. não importando a dimensão que os efeitos do dano possam alcançar. Entretanto. não existe texto legal expresso que determine a competência de outro juízo – que não o prevento – em casos de dano cujo âmbito seja regional ou nacional (nem mesmo há previsão de dano de âmbito regional ou nacional). e sim. se os efeitos do dano (potencial ou efetivo) transbordarem dos limites de uma comarca.

a duas. inapropriada a utilização de Ação Civil Pública quando se tratar de violação a direito consumerista. ressalvado o que dissemos supra.278 citação válida foi realizada antes de qualquer outro. entretanto. forçoso admitir que. aplicável sempre o CDC. porquanto o disposto no art. Em suma. o que a tornará preventa. pensamos que aquela derrogou esta no que diz respeito à defesa dos interesses difusos. segundo os ditames do parágrafo 1º do art. em razão do princípio da especialidade. sendo o Código de Defesa do Consumidor lei posterior e especial no cotejo com a norma que instituiu a Ação Civil Pública. que a inaplicabilidade da LACP somente ocorrerá quando se pleitear a condenação do Réu ao pagamento de determinada quantia. como dissemos. quando o pedido imediato da demanda for a condenação em obrigação de fazer ou não fazer será perfeitamente viável a utilização da Ação Civil Pública. De qualquer forma. De efeito. devidamente subsidiado pela LACP e pelo CPC – nesta ordem – naquilo em que for omisso. pois. 93 no que concerne à competência. A contrario sensu. porque na LACP há norma. em se tratando de Ação Civil Pública. determinação daquela em razão do âmbito alcançado pelos efeitos do dano. tratando-se de relação jurídica material de consumo. de mesma ou superior hierarquia – derrogará anterior quando regule inteiramente a matéria de que tratava esta. a uma. o CDC. não havendo de se cogitar da amplitude dos efeitos do dano perpetrado. aplicável. ficando afastada a incidência da Lei de Ação Civil Pública. Isto porquanto. determinar-se-á aquela pela prevenção em quaisquer casos. 93 do Codex consumerista somente poderá ser aplicado em se tratando de relações jurídicas materiais de consumo. Desta forma. ao contrário do que ocorre no CDC. aí sim. lei posterior – acrescentamos. Insta frisar. coletivos e individuais homogêneos nas relações jurídicas de consumo. mais especificamente o seu art. com o artigo 21 da mesma LACP. . que trata expressamente da competência nestas ações. 2º da Lei de Introdução ao Código Civil (LICC). fazendo uma pequena digressão. não há na LACP. haja vista que a incidência deste somente ocorrerá no que for cabível. nos casos de competência concorrente entre dois ou mais juízos. consoante determina o artigo 83 do CDC. portanto. como visto. não sendo lícito argumentar. Não calha a argumentação segundo a qual a norma aplicável à espécie seria o CDC. como afirmado. Tal raciocínio ficará mais patente no que diz respeito à competência. em se tratando de relações jurídicas de consumo cujo objeto imediato do pedido seja a condenação ao pagamento de determinada quantia. Assim.

4. aplicando-se as regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concorrente Divergindo do entendimento amplamente majoritário. é competente para a causa a justiça local: I – no foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano. a interpretação literal do preceptivo insculpido no inciso I do art. mesmo nos casos de dano em âmbito local. ressalvada a competência da Justiça Federal. algumas observações buscaremos fazer sobre o preceito legal transcrito. transbordando os efeitos do dano dos limites de determinada comarca e alcançando outra. a competência territorial é do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano (inc. Não obstante. para os danos de âmbito nacional ou regional. nas Ações Coletivas previstas no CDC.1. competente será o foro da Capital do Estado. I do art. verbis: Art. COMPETÊNCIA NAS AÇÕES COLETIVAS Sem embargo. De efeito. 93). será competente para o conhecimento e julgamento da Ação Coletiva a Justiça local do foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano. como em jurisprudência.279 4. 93 do CDC poderá levar o intérprete à conclusão de que. Será o caso de danos mais restritos. repete o legislador ser o dano causado o critério legitimador da competência do juízo. algumas ressalvas se impõem. tanto em doutrina. COMPETÊNCIA EM CASO DE DANO EM ÂMBITO LOCAL Consoante o dispositivo transcrito. porém com algumas nuanças. 93 – Ressalvada a competência da Justiça Federal. tendo em vista que a eleição pela lei do local da ocorrência ou . II – no foro da Capital do Estado ou no do Distrito Federal. nos parece que. Ada Pellegrini Grinover: "Quando de âmbito local. o dispositivo exige. os quais atingirão pessoas residentes num determinado local. a nosso sentir. 93 do CDC." (9) Sem embargo. assevera a Profª. quando de âmbito local. com vistas ao melhor tratamento hermenêutico que. Tecendo comentários ao inciso I do art. em razão da circulação limitada de produtos ou da prestação de serviços circunscritos.

Assim. parágrafo único) combinada com Código de Processo Civil (art. em compêndio. competente será o juízo que primeiro realizar citação válida no processo (art. resolvendo-se. a prevenção será o critério de determinação da competência. COMPETÊNCIA EM CASO DE DANO EM ÂMBITO REGIONAL OU NACIONAL . não obstante. aqui. que. para o dano de âmbito local cujos efeitos atinjam mais de uma localidade (comarca)." (10) Com efeito. pensamos que será aplicável. alcançando outras. por subsidiariedade. duas ou três comarcas não caracterizará tal aspecto. 219 CPC). ocorrido o dano consumerista cujos efeitos ultrapassem as fronteiras de determinada comarca. mas sem que tenha o caráter estadual ou nacional. 219) a competência concorrente. transbordaram dos limites de uma única comarca. com acerto no tocante à Ação Coletiva. 4. na linha do raciocínio acima exposto. poderemos imaginar um dano consumerista cujos efeitos restrinjam-se a duas comarcas contíguas. 93 do CDC. Consequentemente. o fato de serem atingidas uma. 2º da LACP. neste caso. seguindo o disposto no inciso I do art. entretanto. Hugo Nigro Mazzilli asseverar que não será qualquer dano que ultrapasse os limites da comarca que ensejará a competência do juízo da Capital do Estado para conhecer e julgar ações coletivas. a determinação da competência será realizada pela prevenção. para que seja determinada a competência da Capital do Estado. 2º. com a subsidiariedade da LACP e do CPC. estamos tratando de dano de âmbito local cujos efeitos. quais sejam. hipóteses expressamente previstas no inciso II do artigo sob comento. alcançando outra ou outras. as regras que prevêem a prevenção. "Assim. pelas regras da Lei de Ação Civil Pública (art. que. sem que possuam dimensão de regionalidade. Em um caso concreto. Urge ressaltar. evidentemente. nas ações civis públicas ou coletivas. o dano deverá ganhar foro de regionalidade e. a norma insculpida no parágrafo único do art. dentre outros. ou seja. quando o dano ou a ameaça de dano ocorra ou deva ocorrer em mais de uma comarca.2. bem como a facilidade na colheita de sua prova. maior aproximação do Juiz aos vestígios do dano causado. Em outras palavras. Assim. competente será o juízo que primeiro realizou a citação válida para o processamento e julgamento da demanda. a determinação da competência restará condicionada à prevenção do juízo que primeiro realizou a citação válida no processo.280 da possibilidade de ocorrência do dano tem por escopo. pensamos. não estamos tratando de dano onde os respectivos efeitos ganharam foros de regionalidade ou nacionalidade. Daí. cuja localização diste quilômetros da Capital do Estado.

coletivos ou individuais homogêneos serão apurados perante a Justiça estadual. 93 do CDC – competência em caso de dano em âmbito local – a grande celeuma reside efetivamente no inciso II do mesmo preceptivo consumerista. competente será o foro da Capital do Estado ou do Distrito Federal." (12) Sem embargo. Mas. primeiramente. visto que. pela mera opção do autor coletivo. sendo de âmbito regional o dano. os danos de âmbito nacional ou regional em matéria de interesses difusos. no foro do Distrito Federal.281 Em verdade. nesta hipótese. deve ser dispensado tratamento diverso quanto ao dano de âmbito regional e o de âmbito nacional. 4. porém. a ilustre Professora paulistana ratifica seu posicionamento. não tendo sentido que seja ele obrigado a litigar na Capital de um Estado. Hugo Nigro Mazzilli adere à posição majoritária quando ensina que: "Nos termos dessa disciplina. COMPETÊNCIA EM REGIONAL CASO DE DANO EM ÂMBITO No particular. ousando divergir do entendimento majoritário. se os danos forem regionais. a competência territorial será sempre do Distrito Federal: isso para facilitar o acesso à Justiça e o próprio exercício do direito de defesa por parte do réu. De seu turno. somente será competente para conhecimento e julgamento da demanda coletiva a Capital do Estado quando os efeitos produzidos pelo dano consumerista ganharem foros de regionalidade. aqui. e ressalvada a competência da Justiça Federal. a despeito de sua mais alta autoridade. As regras de competência devem ser interpretadas de modo a não vulnerar a plenitude da defesa e o devido processo legal. daí tentarmos nos deter mais profundamente neste particular. sendo o dano de âmbito nacional. uma observação: o dispositivo tem que ser entendido no sentido de que. se nacionais. aplicando-se as regras do Código de Processo Civil nos casos de competência concorrente. portanto. assevera Ada Pellegrini Grinover na 4ª edição do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. a par das observações que fizemos quanto ao inciso I do art. ante o número . sobre o inciso ora estudado: "Cabe. longínquo talvez de sua sede. Com efeito.1.2. a existência de alguns arestos em divergência às suas lições doutrinárias. em ação proposta no foro do local do dano. estamos que. reconhecendo. no foro da Capital do Estado." (11) Na 7ª edição da referida obra. independentemente se a comarca da Capital do Estado sofreu ou não tais efeitos. aplicável o que foi dito quanto ao dano de âmbito local. tratando-se de dano cujos efeitos sejam de âmbito regional. Com efeito.

a solução para a concorrência de competências não será a mesma das hipóteses de dano de dimensão regional. em um segundo exemplo: b) os mesmos produtos ou serviços foram comercializados ou prestados em todo território nacional. não tenha sido atingido pelos efeitos do dano –. havendo juízos concorrentes. traduzir-se-á em interesse da sociedade do Estado a resolução do conflito. importando que a Capital seja sede da demanda face à relevância configurada pelo vulto do dano. não dará ensejo. o escopo legal de facilitação naquela colheita não restará prejudicado. independe o número de localidades atingidas – desde que o dano não ganhe interesse estadual – a competência será definida pela prevenção. lícito afirmar que a grandeza do dano fará a distinção entre a incidência do inciso I ou do II (âmbito regional) do art. sendo que. cujos efeitos ficaram restritos aos limites dos mesmos. é possível forjarmos exemplos para melhor elucidação: a) determinados produtos comercializados ou serviços prestados no chamado eixo RioSão Paulo que venham causar danos às populações destes Estados. (13) Com este raciocínio. 93 do CDC. com tal exegese. in casu. Nem mesmo quando os efeitos do dano tiverem amplitude tal que atinja todos ou quase todos os Estados da Federação – incluindo o Distrito Federal – a competência será deste. Assim. De efeito. 4. . COMPETÊNCIA EM NACIONAL CASO DE DANO EM ÂMBITO Em se tratando de dano cujos efeitos sejam de âmbito nacional. mister se faz que o dano (rectius: os seus efeitos) seja de tal grandeza que interesse à maioria significativa da população do Estado-membro. à competência do foro do Distrito Federal para o conhecimento e julgamento da demanda coletiva. para que ocorra a primeira hipótese (dano de âmbito local). consoante as lições doutrinárias acima transcritas. cremos que resta evidente que o Juiz da Capital – em caso de interesse regional – não terá dificuldades na colheita de provas – mesmo que o Município. Inexiste. Capital do Estado. explanada no tópico anterior.2. o fato de efeitos danosos ultrapassarem os limites territoriais de um Estado-membro alcançando outro ou outros. contíguos ou não.282 razoável de comarcas atingidas por aqueles efeitos. a simetria vislumbrada pela maioria dos autores. já para que ocorra a hipótese do inciso II (dano de âmbito regional). E mais. Dessa forma. a nosso sentir. como Capital da República.2. para o conhecimento e julgamento de eventual demanda coletiva. sendo que.

Explicamos. a própria lei determina a utilização das regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concorrente. qual seja. tem seu âmbito ordinário de incidência coincidente com os seus próprios limites territoriais. que poderá ser o da Capital estadual ou o do Distrito Federal. apta(o) a conhecer e julgar a causa. Distrito Federal e Municípios (art. em igualdade de condições. também neste caso. A competência nas Ações Coletivas será. foro. qualquer capital de Estado ou o Distrito Federal estará. a prevenção. não atingindo os efeitos do dano âmbito nacional (exemplo "a"). ou. e. e tão-somente um. cada qual. Na hipótese extraordinária de dano nacional. mesmo que tal amplitude seja alcançada por tais efeitos (exemplo "b"). Ora. deterá competência para as causas não previstas na Constituição Federal como de competência da Justiça federal. agora por todo país. 1º e 19. etc. caberá à Justiça local do foro da Capital de cada Estado ou do Distrito Federal que tenha sido atingido pelo evento danoso o processamento e julgamento da demanda coletiva. existindo diversas demandas já propostas. havendo dano de âmbito nacional.283 causando os mesmos danos antes mencionados. definir-se-á a competência . não sendo hipótese prevista dentro na competência da Justiça federal. Em ambas hipóteses. sendo que. Tal raciocínio tem por fundamento a inexistência de hierarquia entre as entidades federadas – Estados. cuja decisão proferida terá efeitos em todo território nacional. loci. da Justiça local. comum ou especializada (art. Para o desate da questão. personae. haja vista não ocorrer relação hierárquica entre as Justiças locais dos Estados e a do Distrito Federal. Em conseqüência. determina o CDC – havendo diversas demandas coletivas propostas – a concentração em um. III da CF/88). de competência da Justiça local. por exclusão.) dos Juízos Estaduais são de mesma equivalência aos do Juízo Distrital. 109 CF/88). ressalvada a da Justiça Federal. o primeiro a realizar citação válida no processo coletivo (art. para não dificultar a defesa do Réu. Por tal expressão entende-se a justiça estadual comum que. Daí que. Ou seja. qual seja. os critérios de determinação de competência (ratione materiae. 219 CPC). Pois bem. a solução para a concorrência entre juízos competentes será a mesma: definir-se-á o juízo competente pelo critério da prevenção. entendemos que.

Em comentário ao referido inciso. eis que a sua concordância com as cláusulas constitucionais deve ser presumida. sendo a federação uma associação de Estados. a lei federal (CDC). 219 CPC). Com efeito. o objetivo precípuo da lei quando determina ser competente para a demanda o foro do local do dano. v. seja de que espécie for. a tese majoritária pode nos levar a determinados absurdos como aquele em que haja demandas propostas em todos ou quase todos . malferindo-o. Raciocínio diverso – como o esposado pela doutrina majoritária – levará à uma hierarquia entre as entidades federadas inexistente no texto constitucional. mesmos naqueles em que a Capital da República não tenha sofrido os efeitos da conduta danosa? Em últimas conseqüências. assim. não poderá criar distinções entre as entidades federadas. impõe-se uma exegese da norma infraconstitucional que não implique violação do texto maior. Alexandre de Moraes assevera que: "Criar preferências entre si – como corolário desse princípio. não convence o argumento segundo o qual a competência será sempre do foro do Distrito Federal em casos de dano de âmbito nacional para facilitar a plenitude de defesa.284 da Justiça local no foro da Capital do Estado – ou no do Distrito Federal. de poder reciprocamente. fosse definida a competência do Distrito Federal em quaisquer casos. dispõe o inciso III do art. ao Distrito Federal e aos Municípios criar preferências entre si. pois que em regra acontece do Réu não ter representação jurídica na Capital da República. sendo dever do exegeta optar por uma interpretação que mais aproveite o texto da lei. eis que sua comarca – da Capital – estará sofrendo os efeitos da conduta danosa.." (14) Dessarte. sendo a concorrência de competências definida pela prevenção. ensejará maior facilidade na colheita de prova pelo Juiz. [. sob o aspecto prático. como produto da competência legislativa da União. 19 da Constituição Federal ser vedado à União... g. que se encontram no mesmo plano. ao Distrito Federal. dando preferência. não há que se falar em relação de súdito para soberano. sendo sua assessoria jurídica situada na sede da empresa. Como seria possível facilitar a colheita de prova pelo Magistrado se. Lado outro. Via de conseqüência. A outro giro. concretizando.]. pois. aos Estados. se este for atingido pelos efeitos do dano e houver demanda coletiva aí proposta – em que tenha havido a primeira citação válida (art. ademais.

pela primeira citação válida realizada. Com efeito. 5. onde a determinação da competência do foro da Capital do Estado e do Distrito Federal não ficará em divergência com a aplicabilidade de dispositivo constitucional (art. este – o foro do Distrito Federal – seria o competente para a apreciação e julgamento da demanda. na satisfação dos interesses sociais postos em litígios nas demandas coletivas. em tom de igualdade. viceja a necessidade de preenchimento axiológico da expressão Estado Democrático de Direito no sentido de que as normas legais produzidas deverão ter como limite os fatos que lhes ensejam a existência. para uma interpretação consentânea com os princípios da Nova Hermenêutica. a norma legal quis tão-somente discriminar. que necessita ser constante. ocorre no texto constitucional e em leis infraconstitucionais. muito mais que uma defesa plena – que na realidade em nada será prejudicada –. pois que somente assim poderemos almejar a realização efetiva de uma democracia material com o preenchimento. A nosso aviso. Destarte. à exceção do Distrito Federal. entendemos. a interpretação mais viável – seja sob o aspecto teórico da inconstitucionalidade. sobrepuja a importância dos interesses sociais em detrimento . direcionadas pelos valores predominantes à época de sua produção. não possuem Poder Judiciário – como. poder-se-á chegar ao equilíbrio exigido pelo texto legal. III CF/88). e não hierarquizar. as entidades federadas que possuem Justiça local – o que não ocorre com os Municípios que. Ademais. 19. 18 CF/88). bem como pela necessidade de se adequar os princípios e normas do processo civil liberal-burguês às demandas coletivas lato sensu – verdadeiras ações sociais dirimentes de desigualdades – devemos. ao se referir aos Estados e ao Distrito Federal. CONCLUSÃO À guisa de conclusão ousamos asseverar que. posto concorrerem. seja sob o prático da facilitação na colheita de prova – seria aquela segundo a qual. aquelas entidades federadas pela competência para conhecimento e julgamento das demandas coletivas. ademais. não obstante entidades federadas (art. a se seguir o raciocínio da maioria. portanto. (15) Somente assim. exsurgindo como critério técnico definidor a prevenção. bem como da parte final do inciso II do artigo 93 do CDC. o que lhes poderá cambiar o comando. amiúde. do princípio do acesso à Justiça. em todas as suas dimensões. porém.285 Estados. traduzir-se-á em concretização do Estado Democrático de Direito sob o aspecto processual a preocupação. sobrepor o interesse social como primeiro critério definidor da competência em litígios desse jaez. assim como de sua interpretação.

2003. 846 p. Michel.286 daqueles individuais ou públicos hodiernamente. 2002. As Ideologias e o Poder em Crise. Édis (org. NUNES. Norberto. Ana Prata]. Luiz Abezia e Sandra Drina Fernandez Barbiery]. 2000. Cláudia Lima. Para o presente estudo utilizar-se-á as expressões transindividuais e metaindividuais em sentidos distintos.) s/ed. Introdução Crítica ao Direito. seriam transindividuais os interesses individuais homogêneos. 1109p. 836p. 576p. Luiz Antonio Rizzatto.462p. São Paulo: Saraiva. São Paulo: Atlas. A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo. LEONEL. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Ricardo de Barros. São Paulo: Revista dos Tribunais. 4ª ed. s/ed. 240p. Direito Processual Civil. 330p. GRINOVER. 6. 2ª ed. [trad. 730p. e. s/ed. Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais. 1 v. MORAES. NOTAS 01. Alexandre de. Direito Constitucional. 1999. e esta a que representa interesses fora dos individualmente considerados. . BIBLIOGRAFIA Ação Civil Pública: lei 7. 1 v. Manual do Processo Coletivo. MIAILLE. 2002. significando aquela a que ultrapassa os interesses dos indivíduos. 1º a 54). Hugo Nigro. BOBBIO. 13ª ed. 1999. Assim. [trad. Ada Pellegrini et al. 1994. São Paulo: Revista dos Tribunais. 13ª ed. MAZZILI. Lisboa: Editorial Estampa. 2001. MARQUES. São Paulo: Revista dos Tribunais. 4ª ed. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. [trad. CALAMANDREI. João Ferreira] 4ª ed. MILARÉ. Brasília: Editora Universidade de Brasília. São Paulo: Saraiva. assim entendemos que as normas jurídicas devem ser interpretadas.347/85 – 15 anos. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor: direito material (arts. s/ed. 2001. 1995. Campinas: Bookseller. Piero.

entendemos que a MP 2. Manual do Processo Coletivo. A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo. os difusos e coletivos. quando haja manifesto interesse social evidenciado pela dimensão ou característica do dano. p. todos da CF/88. p. 221. do inciso IV do art. "As peculiaridades dos interesses metaindividuais dificultam a produção de provas no curso da demanda judicial. Ob." 08. No mesmo sentido: Ricardo de Barros LEONEL. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. 286. Cit. p. 551-2.: Ricardo de Barros LEONEL. cit. 03. 05. p. 82 do CDC: § 1º . nas ações previstas nos arts. p. In Ação Civil Pública: Lei 7. falaremos. Hugo Nigro MAZZILLI. 211-2. 129. 808. p. visto que não há de se falar em identidade de partes. p. 13. 06. 1º da Lei 7. Édis Milaré. é inconstitucional por malferir o art. 02. Direito Constitucional. coord. III. Cit. No particular. 150. op. Introdução Crítica ao Direito. Cf. Ada Pellegrini GRINOVER. 10. pois a proximidade do juízo com relação à prova milita em favor de sua elaboração. 400/416. Op. 04. passim 07. Hugo Nigro MAZZILLI. Cit. p. 211. Para a definição do que seja dano cujos efeitos possuam âmbito regional poderá ser aplicada a norma do § 1º do art.: José Marcelo Menezes VIGLIAR. em razão de sua indivisibilidade. 5º.. em outro estudo. 14. A identidade das ações coletivas lato sensu sofre mitigação nos seus elementos.347/85 – 15 anos. p.. 211 11.180. Ada Pellegrini GRINOVER. Hugo Nigro MAZZILLI. p. ou pela relevância do bem jurídico a ser protegido. diferentemente do que ocorre com as ações individuais. 220.287 enquanto metaindividuais.. 09. 12. Cit. Hugo Nigro MAZZILLI. . bem como o art. A fixação da competência no local do dano tem por escopo facilitar a instrução. 91 e seguintes. Trata-se de um redimensionamento da matéria para adaptação à Teoria Geral do Processo Coletivo que.347/85. Ob.O requisito da préconstituição pode ser dispensado pelo juiz. Michel MIAILLE. Cf. ob. que amputou a expressão "a qualquer outro interesse difuso ou coletivo". Alexandre de MORAES. XXXV.

não podemos esquecer o efeito contrário.288 15. que não foi retomada a referência que fiz à sociedade policrática. As Ideologias e o Poder em Crise. Cf. ou seja. entretanto. ao aspecto negativo do pluralismo que consiste não na impotência do Estado. 33: "Constato. mas na prepotência do grupo sobre o indivíduo. p.: Norberto BOBBIO. Entretanto." ************************************************************** ****************** .