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A História da Equação de 2º grau

A História da Equação de 2º grau

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A História da Equação de 2º grau
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1

REVISITANDO UMA VELHA CONHECIDA

João Bosco Pitombeira
Departamento de Matemática
PUC-Rio
pitcar@usa.net

INTRODUÇÃO
A resolução de uma equação do 2º grau nos parece hoje bem simples. Ao ensiná-la, limitamo-
nos em geral a mostrar que a conhecida fórmula para as soluções de ax
2
+bx+c=0, chamada
em muitos livros didáticos de “fórmula de Báskara”
1
,
2
4
2 2
b b ac
a a
− −
+

pode ser obtida pelo processo bem conhecido de “completar os quadrados”. Por vezes, se
mostra também como justificar geometricamente isso, o que já era conhecido pelos
matemáticos árabes, como al- Khowarizmi
2
, em torno de 825 d.C. No entanto, a maioria de
nossos alunos fica surpresa quando lhes contamos que a equação do 2
0
grau tem uma longa
história e que muitos matemáticos importantes, de várias civilizações, se preocuparam em
achar suas soluções, contribuindo desta maneira para a história que resumiremos agora e que
se estende por mais de quatro mil anos!
Convém lembrar inicialmente que a notação algébrica simbólica manejada
automaticamente por nós, hoje, é criação recente dos matemáticos, começando com François
Viète (1540-1603) e colocada praticamente na forma atual por René Descartes (1596-1650).
Assim, os processos (algoritmos) para achar as raízes de equações dos babilônios, gregos,
hindus, árabes e mesmo dos algebristas italianos do século XV e do início do século XVI eram
formulados com palavras (às vezes, por exemplo na Índia, mesmo em versos!).
Neste trabalho, de finalidade didática, interpretamos os procedimentos usados no
passado para trabalhar com equações do 2º utilizando nosso simbolismo algébrico. Num
estudo mais profundo, a fim de tentar apreender a maneira de pensar que levou à criação
desses procedimentos, seria essencial apresentá-los e estudá-los exatamente como eram
descritos na época. É grave erro de metodologia da História da Matemática interpretar os
resultados de outras épocas sob nossa ótica moderna.

1
A denominação “fórmula de Báskara” para a fórmula de resolução da equação do 2º grau parece ser exclusiva do Brasil, como mostrado
convincentemente em [MACHADO, 2003].
2
Matemático árabe que viveu de 780 a 850 d.C. Trabalhou em Bagdá. A palavra algorismo vem de seu nome. Seu livro de álgebra teve papel
importante na difusão das idéias matemáticas árabes na Europa. A palavra álgebra vem do título de seu livro.

2
Um levantamento muito completo da história da equação do 2º grau encontra-se em
[TRÖPFKE, 1934, a] e [TRÖPFKE, 1934, b].
OS EGÍPCIOS
No Médio Império, os textos conhecidos só lidam com equações do segundo grau bem
simples. Por exemplo, no papiro de Moscou, que data de aproximadamente 1850 a.C
3
. é
pedido para calcular a base de um retângulo cuja altura é igual a
3
4
de sua base e cuja área é
igual a 12. Este problema, em linguagem moderna, se escreve
3
4

2
=12.
Em outro papiro, encontramos dois problemas em que são dadas a área S, a diagonal d
de um retângulo e se procuram seus lados x e y:
2 2 2
, . xy S x y d = + =
Como feito pelos babilônios, da maneira que veremos mais tarde neste trabalho, os
egípcios calculavam inicialmente x y + e , x y − para daí achar x e y.
OS BABILÔNIOS
É bem conhecido que os babilônios escreviam em tabletes de argila, com um estilete, usando a
chamada escrita cuneiforme, e tinham um sistema de numeração posicional bem desenvolvido,
com base 60.
No fim do século XIX e na primeira metade do século XX, as pesquisas dos arqueólogos
e dos historiadores da Matemática modificaram totalmente nossa avaliação da qualidade da
Matemática praticada na Mesopotâmia, mostrando que ela era claramente mais desenvolvida
do que a Matemática egípcia.
Entre os inúmeros tabletes que se encontram nos museus da Europa, Oriente Próximo,
Oriente Médio e Estados Unidos, existem alguns que tratam de equações do 2º grau. Um
tablete típico que nos chegou traz o seguinte problema, aqui formulado em nosso sistema de
numeração decimal, para simplificar os cálculos:
Achar o lado de um quadrado se sua área menos seu lado é igual a 870.

3
Os dois documentos mais importantes de que dispomos para o estudo da Matemática egípcia são o papiro Rhind e o papiro de
Moscou, este último de autoria desconhecida.

3
Designando o lado por x, este problema se traduz, hoje, utilizando a linguagem simbólica
algébrica, na equação
2
870 x x − = .
A equação
2
x px q
p
q
− =
, com p e q positivos, tem uma raiz positiva, dada por
2
(A)
2 2
p p
x q
| |
= + +
|
\ .

Os babilônios não dispunham desta fórmula algébrica, mas o processo que seguiam é
inteiramente equivalente a aplicá-la. Com efeito, a solução registrada no tablete é a seguinte:
Tome a unidade: 1
Divida a unidade em duas partes: ½
Cruze (multiplique) ½ por ½: ¼
Some ¼ a 870: 3481/4
[Isso] é o quadrado de 59/2
Some ½, que você multiplicou, com 59: o lado do quadrado é 30/2.
O leitor poderá facilmente observar que isso é exatamente aplicar a fórmula (A). Mais
uma vez, a formulação do problema pelos babilônios mostra a completa ausência de
simbolismo algébrico em sua matemática.
Outro problema é o seguinte:
Adicionei sete vezes o lado de meu quadrado a onze vezes a superfície: 25/4.
Chamando o lado do quadrado de x, este problema seria escrito hoje, em notação
algébrica moderna, como
2
11 7 25/ 4, (B) + = x x
Sabemos que a solução da equação
2
ax 0, + − = bx c
com c positivo, é dada por
2 2
4 1
(C)
2 4 2
b ac b b b
ac
a a
| |
+ −
= + − |
|
\ .


4
No nosso caso, b=7 e a=11
4
.
O procedimento indicado pelo escriba é:
Escreva 7 e 11. Multiplique 11 por 25/4: 275/4
Divida 7 em duas partes:7/2
Multiplique 7/2 por 7/2: 49/4
Some 49/4 a 275/4: 324/4
Isso é o quadrado de 9
Subtraia 7/2 de 9: escreva 11/2
O que devemos fazer com 11 que nos fornece 11/2 ? ½, seu quociente. O lado do
quadrado é ½.
Em outro tablete, uma equação do tipo
2
ax bx c + = é multiplicada por a, obtendo
( )
2
ax abx ac + = . Esta equação na incógnita y ax = é então resolvida. Este é seguramente um
dos primeiros casos registrado de uma mudança de variáveis!
Em muitos tabletes, uma equação da forma
2
x q px + = , com p e q positivos, é dada sob
a forma do sistema equivalente
x y p
xy q
+ = ¦
´
=
¹

Hoje passaríamos diretamente deste sistema para a equação
2
x q px + = , utilizando as
relações entre os coeficientes da equação e suas raízes. Os babilônios procediam
sistematicamente como segue:
Em primeiro lugar,
2 2
x y p +
= ,
de que obtemos imediatamente
2
2
2 4
x y p + | |
=
|
\ .
.
Assim

4
Estamos mais uma vez usando nosso sistema de numeração decimal, para simplicar os cálculos.

5
2
2
,
2 4
x y p
xy q
+ | |
− = −
|
\ .

2
2
2 4
x y p
xy q
+ | |
− = −
|
\ .
.
Como
( )
2
2
2 2
2 4
2 4 4

+ + + − | |
− = =
|
\ .
x y
x y x y xy xy
xy
segue-se que
( )
2
2
,
2 2 4

+ | |
− = = −
|
\ .
x y
x y p
xy q
e portanto
2
2 2
− | |
= −
|
\ .
x y p
q .
Assim, obtemos facilmente que
2
2
2 2 2 4
2 2 2 4
x y x y p p
x q
x y x y p p
y q
+ − | | | |
= + = + −
| |
\ . \ .
+ − | | | |
= − = − −
| |
\ . \ .

Repetimos que os babilônios não dispunham do simbolismo algébrico para escrever
estas equações. Mas os procedimentos indicados nos tabletes para resolver os modelos de
equações aqui apresentados correspondem à aplicação dessas fórmulas
Nos textos matemáticos babilônios que nos chegaram, a maioria dos problemas relativos
a equações do 2º grau são dados nas formas que seriam escritas atualmente como
, x y b x y a + = =
ou
, x y b x y a − = =
ou podem ser transformados para obtê-las. Elas são conhecidas como formas normais das
equações do 2º grau babilônias.
A relação básica usada para a solução de tais sistemas é

6
( )
2
2
2 4

+ | |
− =
|
\ .
x y
x y
xy
Vejamos outra maneira usada pelos babilônios para resolver o sistema , . + = = x y b xy a
Fazendo ,
2

=
x y
s obtemos imediatamente que
, .
2 2
= + = −
b b
x s y s
Para calcular s procederemos como segue.
É fácil ver que
2
2
2
| |
= − =
|
\ .
b
xy s a,
e podemos calcular facilmente s desta igualdade:
2
.
2
| |
= −
|
\ .
b
s a
Uma vez conhecido s, obtemos facilmente x y − e, como x y + é dado, é fácil calcular x
e y.
Como os babilônios chegaram a seus procedimentos para resolver equações do 2º
grau?
Segundo Katz [KATZ, 1990, p. 32] o fato de que muitos problemas que conduzem a
equações do 2º serem dados sob a forma do sistema
, x y a x y b + = =
sugere que os escribas babilônios investigavam a relação entre o perímetro e a área de uma
superfície retangular:
Parece que antigamente muitos acreditavam, por exemplo, que a área
de um terreno dependia somente de seu perímetro. Há várias histórias que
indicam que os que sabiam que isso não era verdade se aproveitavam dos
que nisso acreditavam. É assim plausível que os escribas babilônios, a fim de
demonstrarem que retângulos de perímetros iguais podiam ter áreas
diferentes, construíram tabelas de áreas b relacionando-as com o perímetro
constante 2a, usando valores diferentes para a base x e a altura y.
Como poderiam os babilônios ter procedido?
Fazendo
a
= ,
2 2
+ = −
a
x z y z , vemos que a área b é igual a

7
2
2
( )( )
2 2 2
a a a
b z z z
| |
= + − = −
|
\ .
,
e portanto
2
2
a
z b
| |
= −
|
\ .
.

Desse valor para z obtemos x e y:
2
2
2 2 2
2 2 2
a a a
x z b
a a a
y z b
| |
= + = + −
|
\ .
| |
= − = − −
|
\ .

Pesquisas recentes e minuciosas sobre a matemática babilônia sugerem que os
escribas babilônios chegaram a este resultado usando raciocínios geométricos, como no
exemplo a seguir.
Consideremos o sistema , x y a x y b + = = . Construa o quadrado de lado
2
a
.

FIGURA 1
Como
,
2 2
2 2
a x y
x
a x y
y

= −

= +

o quadrado de lado
2
a
excede o retângulo de lados x e y pelo quadrado de lado
2
x y −
.

8
O lado deste último quadrado mede
2
2
a
b
| |

|
\ .
. Somando este comprimento com
2
a
,
achamos x. Em seguida, é fácil achar y.
Interpretações geométricas semelhantes permitem reconstruir um caminho possível para
a solução babilônia do sistema
2 2
, x x y a y b − = + = .

FIGURA 2
A figura 2 mostra que
2 2
2 2
1
( )
2 2 2
x y x y
x y
+ − ¦ ¹ ¦ ¹
+ = +
´ ` ´ `
¹ ) ¹ )

Então,
2 2
2 2 2
b x y a + | | | |
= +
| |
\ . \ .

Assim,
2
2 2 2
x y b a + | |
= −
|
\ .

Designando
2
x y +
por z, temos então que
2 2 2
2 2 2
x y x y a
x z
x y x y a
y z
+ −
= + = +
+ −
= − = −

Uma outra equação resolvida pelos babilônios é apresentada pelo sistema
2 2
, . + = + = x y b x y a
O método usado para resolvê-la é o seguinte. Seja c definido por

9
2
2 2 2 2
2
.
2 2 2 4 2
+ + + − | | | |
= − = − =
| |
\ . \ .
b a x y x y xy x y
c
Então achamos x e y facilmente:
,
2 2
= + = −
a a
x c y c
Para resolver equações do tipo
2 2
, , + = = x y b xy S os babilônios usavam a identidade
fácil de verificar:
2 2
2 2
+ − | | | |
− =
| |
\ . \ .
x y x y
xy
Resumindo o que sabemos hoje, os babilônios podiam resolver qualquer uma das
equações dadas a seguir em linguagem moderna, com nosso simbolismo algébrico:
• Equações com uma incógnita:
2
2
2
3
2
( 1)
=
=
+ =
− =
=
+ =
ax b
x a
x ax b
x ax b
x a
x x a

• Sistemas de duas equações com com duas incógnitas (que dão origem a uma
equação do segundo grau):
2 2
2 2
2 2
,
,
,
,
,
x y a xy b
x y a xy b
x y a x y b
x y a x y b
xy s x y b
+ = =
− = =
+ = + =
− = + =
= + =


OS GREGOS E AS EQUAÇÕES DO 2º GRAU
O caráter da Matemática grega é completamente diferente daquele da Matemática babilônia.
Embora os próprios gregos reconhecessem que muito deviam à Matemática egípcia e
babilônia, eles transformaram os conhecimentos destas duas civilizações em um corpo de

10
resultados bem estruturado e no qual a argumentação é feita com um tipo bem específico de
discurso, a demonstração matemática.
Por razões que não discutiremos aqui, e que possivelmente estão associadas à
descoberta da existência de grandezas incomensuráveis, a maneira de os matemáticos gregos
apresentarem seus resultados é geométrica, como nos Elementos de Euclides, escritos um
pouco antes do ano 300 a. C. Assim, para entendermos como os gregos resolviam equações
do 2º grau, teremos que fazer uma digressão geométrica examinando alguns teoremas dos
Elementos de Euclides.
A ferramenta geométrica que permite resolver equações do 2º grau é a aplicação de
áreas, que ocupa um lugar importante na Geometria grega.
1- Uma aplicação de áreas parabólica consiste na construção de um retângulo de área
dada sobre um segmento de comprimento dado (que será um dos lados do retângulo).
A tradução algébrica moderna desta situação é a seguinte. Se a é o lado do retângulo e
2
b é a área dada, o problema se traduz na equação:
2
ax b = .
Para resolvê-la, seja ABCD um quadrado de lado b. Prolonguemos AB até E, de maneira
que o comprimento de BE seja a. Completemos a figura como indicado, para obtermos o
retângulo DGLF, no qual a diagonal FG passa por B. Seja x o comprimento de BH. É imediato
ver, comparando áreas, que a área do quadrado ABCD é igual à área do retângulo BELH, de
que BE é um dos lados, e assim
2
. ax b =

FIGURA 3
2- Uma aplicação de áreas elíptica consiste em dar a área do retângulo a ser construído
e um segmento AB cujo comprimento deve ser igual à soma do comprimento da base e da
altura do retângulo. A Figura 4 mostra a situação. Como CB é a altura do retângulo, vemos que
CDFB é um quadrado. Como ao aplicar o retângulo ACDE sobre AB obtemos o quadrado
CBFD, que é o que falta para completar o retângulo AEFB, temos uma aplicação com falta, ou
elíptica.

11
Seja
2
c a área dada, b=AB, a soma das duas dimensões, e x=CB uma delas. Então a
outra dimensão é igual a b-x e podemos escrever a equação
2 2
( ) b x x bx x c − = − =


FIGURA 4.
3- Em uma aplicação de áreas hiperbólica, é dada a área do retângulo a ser construído e
o segmento AB dado deve ser igual à diferença entre a base e a altura do retângulo. Se AC é a
base do retângulo a construir, sua altura CE deverá ser igual a BC. Como ao aplicar o
retângulo ACEF sobre AB obtemos o quadrado CBDE em excesso, temos uma aplicação com
excesso ou hiperbólica.

FIGURA 5
Mais uma vez, seja
2
c
a área dada, b a diferença das duas dimensões e x a dimensão
menor. Então a outra dimensão é igual a b+x e podemos escrever
2 2
( ) + = + = b x x bx x c .
Se x for a dimensão maior, então a outra dimensão é (x-b) e temos a equação
2 2
( ) − = − = x x b x bx c .
Vemos assim que obtemos três tipos de equações. Um deles, (D), para aplicações
elípticas e dois outros, (E) e (F), para aplicações hiperbólicas:
2 2
( ) (D) b x x bx x c − = − =
2 2
( ) (E) b x x bx x c + = + =
2 2
( ) (F) x x b x bx c − = − =
Mas como resolver essas equações?
Para isso, veremos inicialmente duas proposições do Livro II dos Elementos de Euclides.

12
Proposição II.5 -- Se uma reta for dividida em partes iguais e desiguais, o retângulo
contido pelos segmentos desiguais, juntamente com o quadrado sobre a reta entre os pontos
de divisão, é igual ao quadrado sobre metade da reta
5
.
O exame da figura 6 torna o enunciado do teorema mais claro.

FIGURA 6
Para compreendermos o que Euclides quer demonstrar, lembre-se, em primeiro lugar,
que os matemáticos gregos chamavam de reta o que nós hoje chamamos de segmento de
reta.
Seja C o ponto médio do segmento de reta AB e D um ponto qualquer sobre AB. O que
Euclides diz, em seu enunciado, é que a área do retângulo de base AD e altura DB somada à
área do quadrado de lado CD é igual à área do quadrado de lado CB.
Com efeito, construa o quadrado CEFB e considere a diagonal BE. Pelo ponto D, trace a
paralela DG a CE, a qual corta a diagonal BE no ponto H. Seja KM a paralela a AB e que passa
por H. Seja AK o segmento de reta perpendicular a AB e que liga A a K. Como as áreas dos
retângulos CDHL e HMFE são iguais, adicione a cada uma dessas áreas a área do quadrado
DBHM. Então, as áreas dos retângulos CLMB e DEFB são iguais.
Mas as áreas dos retângulos CLMB e AKMB são iguais. Como as áreas dos retângulos
AKLC e CLMB são iguais, por terem bases e alturas respectivamente iguais, segue-se que as
áreas dos retângulos AKLC e DGFB também são iguais.
Adicione a cada uma dessas áreas a área do retângulo CLHD.
Então, a área do retângulo AKHD é igual à soma das áreas dos retângulos CLHD,
DHMB e HGFM.
Mas os retângulos AKLG e CLMB têm áreas iguais.

5
Repetimos aqui o enunciado desta proposição na primeira edição de Euclides em Português [SIMSON, 1773]: Se uma reta
for dividida em duas partes iguais e em outras duas desiguais; será o retângulo compreendido pelas partes desiguais,
juntamente com o quadrado da parte entre as duas seções, igual ao quadrado da metade da linha proposta.

13
Como os retângulos ACLK e CBLM têm áreas iguais, segue-se que as áreas dos
retângulos AKLC e DGFB também são iguais.
Adicionemos a cada uma dessas áreas a área do retângulo CLHD. Com isso, a área do
retângulo AKHD é igual à soma das áreas dos retângulos CLHD, DHMB e HGFM.
Mas a área do retângulo AKHD é igual à área do retângulo de base AD e altura DB, pois
DH é igual a DB.
Assim, a área dos retângulos CLHD, DHMB e HGFM é também igual à área do
retângulo de base AD e altura DB.
Adicione a área do quadrado LEGH, que é igual à área do quadrado de lado CD, a
ambas as áreas.
Segue-se então que a soma das áreas dos retângulos CLHD, DHMB e HGFM com a
soma das áreas dos retângulos LEGH e DHMB é igual à soma das áreas do retângulo AKHD e
do quadrado LEGH.
Mas a soma das áreas dos retângulos CLHD, DHMB e HGFM com a soma das áreas de
LEGH e DHMB é igual à área do quadrado CEFB, construído sobre CB.
Assim, a soma das áreas do retângulo de base AD e altura DB e do quadrado LEGH
(que é igual ao quadrado de lado CD) é igual à área do quadrado de lado CB, o que queríamos
demonstrar.
Demonstramos esta proposição, em vez de simplesmente enunciá-la, porque
acreditamos que nossos alunos devem, pelo menos uma vez na vida, ver uma demonstração
dos Elementos de Euclides. Como estão muito habituados a reformulações das proposições de
Euclides em linguagem algébrica, talvez tenham dificuldades em seguir o raciocínio implacável
de Euclides, baseado totalmente em conceitos geométricos e talvez precisem de orientação
para compreenderem bem a demonstração acima.
Qual a relação deste teorema com a resolução de equações do 2º grau?
6

Em primeiro lugar, fazendo AD=x e DB=y, este teorema pode ser traduzido,
algebricamente, pela identidade:

6
Não entraremos aqui na discussão sobre a chamada “álgebra geométrica grega” Esse termo é exemplo da tentação de
reformular resultados antigos usando nossa linguagem algébrica moderna e de interpretar esses resultados sob nossos pontos de
vista e maneiras de pensar, algébricos e analíticos.

14
2 2
2 2
x y x y
xy
+ − | | | |
= +
| |
\ . \ .

ou seja, se conhecemos x y + (respectivamente x y − ) e xy podemos achar x y −
(respectivamente x y + ).
Suponha agora que, na figura 6, AB=a e DB=x. Então, ax-x
2
é igual à área do retângulo
AKHD, a qual é por sua vez igual à soma das áreas dos retângulos CLHD, DHMB e HGFM. Se
chamarmos a soma das áreas de CLHD, DHMB e HGFM de b
2
, então, o problema de resolver
a equação ax-x
2
=b
2
se transforma, em linguagem geométrica, em construir sobre um segmento
de reta de comprimento a um retângulo cuja área menos a área de um quadrado seja igual à
área de um quadrado dado (b
2
). Vemos assim que temos um problema de aplicação de áreas
elíptico.
Mas como achar x, a raiz da equação ax-x
2
=b ?
Apresentamos a seguir a solução proposta pelo matemático escocês Robert Simson
7
.
Seja
c b =
. A equação se escreve então como
2 2
ax x c − =
.
Assim, interpretado geometricamente, nosso problema é aplicar um retângulo, igual a
um quadrado (
2
c ) a um segmento (a) de tal maneira que haja falta de um quadrado,
2
x .
Para fazer isso procedemos da seguinte maneira.
Dado AB, seja C seu ponto médio. Por C, levante um segmento CO perpendicular a AB
e de comprimento c. Prolongue OC até o ponto N, tal que
1
2
ON CB a = = . Com centro em O e
raio ON descreva uma circunferência que corta AB em D. Afirmamos que DB=x.

FIGURA 7

7
Robert Simson viveu de 1687 a 1768. Publicou uma edição dos Elementos de Euclides muito conhecida, que teve mais de 70
edições em várias línguas, inclusive o português [SIMSON, 1773].


15
Com efeito, a soma das áreas do retângulo de lados AD e DH e do quadrado de lado CD
é igual à área do quadrado de lado CB, que é igual à área do quadrado de lado OD, a qual,
pelo teorema de Pitágoras, é igual à soma das áreas dos quadrados de lados OC e CD. Então,
o retângulo de base AD e altura DB é igual ao quadrado de lado OC, ou seja, se x=DB, ax-
x
2
=b
2
.
Assim, acabamos de resolver geometricamente um tipo de equação do 2º grau, mais
precisamente o tipo ax-x
2
=b
2
, que corresponde às aplicações de áreas elípticas.
Analogamente ao que foi feito na Proposição II.5, Euclides mostra que
Proposição II.6 -- Se uma linha reta é dividida em duas partes iguais e se uma outra
linha reta lhe é adicionada, prolongando-a, o retângulo determinado pela linha reta e pela reta
adicionada é igual, se lhe for adicionado o quadrado sobre a metade da reta, ao quadrado
sobre a reta formada pela metade e pela reta adicionada
8
.

FIGURA 8
Neste caso, o retângulo de lados AD e DB é um retângulo aplicado a um segmento dado
(AB) mas que o excede por um quadrado (cujo lado é igual a BD). O problema sugerido por
este teorema é o de achar um retângulo deste tipo que seja igual a uma área dada, que
suporemos ser um quadrado. Na linguagem geométrica das aplicações de áreas dos gregos,
trata-se de aplicar a um segmento um retângulo igual a um quadrado dado e que excede o
segmento por um quadrado dado
9
.
Fazendo AB=a, DB=x, e supondo que o quadrado dado tem área b
2
, obtemos, como é
fácil de ver, ax+x
2
=b
2
, um dos tipos associados às aplicações de áreas hiperbólicas.
Simson também apresenta uma solução para este problema em sua edição dos
Elementos de Euclides, publicada em 1756, a qual foi traduzida um pouco depois para o
português, por ordem do Marquês de Pombal [SIMSON, 1773].

8
Na tradução de [SIMSON, 1773]: Se uma reta for dividida em duas partes iguais e em direitura com ela se puser outra reta;
será o retângulo compreendido pela reta toda e mais a adjunta, e pela mesma adjunta juntamente com o quadrado da metade da
primeira reta, igual ao quadrado da reta que se compõe da mesma metade e da outra reta adjunta.
9
Compare com HEATH, volume 2, pp. 385-387.

16

FIGURA 9
Para acharmos as soluções da equação
2 2
ax bx b + = , seja AB=a e trace BQ
perpendicular a AB e de comprimento igual a b. Trace a reta CQ. Com centro C e raio CQ,
trace uma circunferência que corta o prolongamento de AB em D. Afirmamos que BD é igual a
x, o que procurávamos.
De fato, pela Proposição II, 6 dos Elementos, o retângulo de lados AD e DB mais o
quadrado de lado CB é igual ao quadrado de lado CD, ou seja, ao quadrado de lado CQ, ou
ainda aos quadrados de lados CB e BQ respectivamente. Assim, o retângulo de lados AD e DB
é igual ao quadrado de lado BQ, ou seja,
2 2
+ = ax x b
Observe que este procedimento de Simson também funciona para resolver a equação
2 2
− = x ax b
Para isso, é suficiente supor que AB=a e AD=x. Então, x
2
-ax= área do retângulo de
diagonal CQ + área do quadrado de diagonal QD + área do retângulo de lados QH e HM.
Para resolver esta equação, conhecemos b
2
, CB
2
ou [½(a)]
2
, que diferem da área
procurada por CD
2
. Assim podemos encontrar D, e portando AD ou x, pela construção já dada.
Agora, após termos visto como os gregos sabiam resolver geometricamente equações
do 2º grau, voltemo-nos para os resultados de Diofanto
10
sobre o assunto. Ele resolve o
problema, já atacado pelos babilônios, de achar dois números de maneira que seu produto e
sua soma sejam iguais, respectivamente, a dois números dados, ou seja, achar x e y tais que
, + = = x y b xy a . Sua solução é exatamente a dos babilônios.

10
Matemático grego que viveu, segundo alguns autores, em torno de 250 d.C. Foi “um estranho no ninho” na Matemática
grega. Dedicou-se ao estudo das equações e da teoria dos números. Enquanto os matemáticos gregos clássicos seguiam
modelos de argumentação rigorosos, geométricos, Diofanto foge a este padrão da matemática grega, mostrando procedimentos
para a resolução de sistemas de equações.

17
Diofanto faz
2

=
x y
s , donde
2
= +
b
x s e
2
= −
b
y s .
Para calcular s, temos que
2
2
2
| |
= − =
|
\ .
b
xy s a, uma equação do 2º grau bem simples.
Além disso, Diofanto mostra como resolver
2 2
2 2
, ,
, ,
3, 5.
− = + =
= − =
+
= = = =
+
x y a x y b
xy a x y b
x x y
p q
y x y

No último caso, ele faz s=y. A solução deste sistema é achada como segue:
2 2
, , .
+
= = =
+
x x y
p q x ps
y x y

Então
2 2
2 2 2
2 2
2
, , .
s (p +1)=qs(p+1).
q(p+1)
s=
p +1
+
= = =
+
+
= ¬
+
x x y
p q x ps
y x y
p s s
q
ps s

Então,
2 2 2 2 2
2 2
s (p +1)=qs(p+1).
+ +
= = ¬
+ +
x y p s s
q
x y ps s

E obtemos imediatamente que
2
q(p+1)
s=
p +1

o que nos permite calcular x e y.
Conhecendo x+y e x-y calculam-se facilmente, mais uma vez, x e y.

18
Outras civilizações também estudaram a equação do 2º grau. Assim, na China, no Nove
capítulos da arte matemática
11
, encontramos um exemplo que em linguagem moderna seria
escrito como
2 2 2
, . − = + = x y d x y s Não nos deteremos aqui nas contribuições chinesas para
a solução da equação do 2º grau.

11
Texto matemático chinês, de data incerta, escrito provavelmente em torno de 200 a.C. Nele se encontram resultados que
sabemos serem mais antigos, por se encontrarem em textos incompletos anteriores.

22
OS HINDUS E A EQUAÇÃO DO 2º GRAU
Vejamos agora as contribuições dos matemáticos hindus para o estudo da equação do 2º grau.
O período clássico da matemática hindu se dá entre 400 e 1200 depois de Cristo. Após
isso, até 1600, a Matemática declinou no norte do sub-continente indiano e temos trabalhos
sobre séries infinitas e sobre análise em Kerala, região situada na extremidade sul do sub-
continente indiano.
Os primeiros registros de matemática na Índia se encontram nos vários Sulvasutras
1
,
escritos provavelmente entre 800 a.C. e 500 a.C. e que se transmitiram oralmente durante
muito tempo. Eles registram conhecimentos matemáticos de idade desconhecida, mas
certamente bem anteriores. Devemos mencionar também o manuscrito Bakshali
2
, fonte
importante para o conhecimento da Matemática hindu.
As equações do 2º grau surgem pela primeira vez na matemática hindu nos sulvasutras,
sob as formas
2
= ax c e
2
+ = ax bx c , sem que sejam apresentadas soluções. Mais tarde, no
manuscrito Bakshali, é descrito um procedimento de solução que corresponde à fórmula
moderna
2
4
2
+ −
=
b ac b
x
a

para a equação
2
0 + − = ax bx c .
Ariabata I
3
, em torno de 500 d.C., chega a uma equação do 2º grau a partir de um
problema de progressões aritméticas.
Sejam a o primeiro termo e d a razão da progressão aritmética, respectivamente.
Consideremos os termos de (p+1) até (p+n). Se m é o termo médio, temos:
1
2
− | |
= + +
|
\ .
n
m a p d
Então a soma desses termos é
1
...
+ +
= + + =
p p n
S a a nm.
Se p=0, podemos obter n em função de a, d e S:

1
Os sulvasutras tratam dos conhecimentos teóricos necessários para a construção de altares. Eles são escritos em versos, e
parecem terem sido escritos em torno de 600 a.C.
2
Manuscrito matemático, encontrado em 1881, em péssimo estado, próximo a uma aldeia indiana chamada Bakshali. Supõe-se
que ele data do século VII d.C.
3
Matemático hindu que viveu em torno de 476 d.C. Escreveu o Ariabatia (490 d.C.). Não confundir com o matemático
conhecido com Ariabata II, que viveu entre 950 e 110, e do qual trataremos mais tarde.

23
2 2
2
2 2 2
1
2
2 (2 ) ( )
( ) 2 0
( 1) ( 1) 4
2
− | |
= × +
|
\ .
= + − = + −
+ − − =
− − + − +
=
n
S n a d
S an n n d n d n ad d
n d n ad d S
a d a S
n
d

Mais uma vez, frisamos que nosso simbolismo algébrico não estava disponível na
época. Mas os procedimentos de cálculo descritos por Ariabata correspondem exatamente a
esta fórmula.
Ariabata I mostra também como achar x e y conhecendo xy e x-y: A expressão
2
4 ( ) ( )
2
+ − ± − xy x y x y
nos dá x e y respectivamente.
Bramagupta, que nasceu em 598 e morreu após 665, também ensina como resolver a
equação ax
2
+bx=c, com a, b e c positivos. Seu procedimento corresponde exatamente à
fórmula
2
4
2
+ −
=
ac b b
x
a

ou
2
2 2
| |
+ −
|
\ .
=
b b
ac
x
a
.
O matemático hindu Báskara II também mostra como resolver a equação
2
+ = ax bx c .
Para isso, em um de seus trabalho ele multiplica ambos os membros da equação por a:
2
( ) ( ) + = ax ab x ac
Em seguida, “completa os quadrados” explicitamente:
2 2
2
( ) ( )
2 2
| | | |
+ + = +
| |
\ . \ .
b b
ax ab x ac
É interessante observar que, já nessa época, havia plena consciência de que números
negativos não são quadrados, e de que o número de raízes de uma equação do 2º grau pode
ser 0, 1 ou 2. Bramagupta afirma que “o quadrado de negativo e de positivo é positivo e de 0 é
0”.

24
Báskara II afirma que
O quadrado de uma grandeza positiva ou de uma grandeza
negativa é positivo: e a raiz [quadrada] de uma grandeza positiva é
dupla, positiva e negativa. Não há raiz quadrada de uma grandeza
negativa, pois ela não é uma grandeza.
Como exemplo de uma equação que tem duas raízes positivas, Báskara II propõe o seguinte
problema:
A oitava parte de um bando de macacos, elevada ao quadrado,
brinca em um bosque. Além disso, 12 macacos podem ser vistos sobre
uma colina. Qual o total de macacos?
Este problema pode ser traduzido, em linguagem algébrica, como
2
12
64
+ =
x
x ,
cujas soluções são x=48 e x=16.
Báskara II propõe também o seguinte problema
A quarta parte de um bando de macacos menos 3, elevada ao
quadrado se refugiou em uma caverna. Era possível ver ainda um
macaco.
A tradução algébrica desta problema é
2
3 1
5
| |
− + =
|
\ .
x
x
cujas soluções são 50 e 5. A solução x=5 é descartada porque 3
5
| |

|
\ .
x
seria então negativo.
Bramagupta e Báskara II mostram também como calcular os comprimentos p e q
determinados sobre a hipotenusa pela altura h do triângulo retângulo ABC:
2 2 2
2 2 2
.
+ =
+ =
p h a
q h b

Assim,
2 2 2 2
. − = − p q a b
Como p+q=c, temos

25
2 2
( )( )
1 ( )( )
2
1 ( )( )
2
− + −
− = =
+ −
= +


+ −
= −


a b a b a b
p q
c c
a b a b
p c
c
a b a b
q c
c

Se a=17, b=10 e c=9, temos p=15, q=-6 e Báskara afirma que “isso é negativo, ou seja,
na direção oposta”.
A primeira descrição da regra geral para achar as raízes da equação do 2º grau parece
ser encontrada em um trabalho de Sridhara
4
, que não foi preservado. Báskara II e outros o
citam, como segue:
Multiplique ambos os lados [da equação] por uma quantidade conhecida
igual a quatro vezes o coeficiente do quadrado da incógnita; adicione a ambos os
lados uma quantidade igual ao quadrado do coeficiente da incógnita; então
[extraia] a raiz quadrada.

OS ÁRABES E A EQUAÇÃO DO 2º GRAU
Já mostramos como os babilônios, gregos e hindus resolviam equações do 2º grau.
Continuaremos agora nossa viagem examinando métodos de resolução da equação do 2º grau
pelos árabes.
Os árabes assimilaram a Matemática dos gregos e fizeram progressos em várias áreas,
como, por exemplo, em trigonometria, nas equações algébricas e em pesquisas sobre o quinto
postulado de Euclides. Veremos inicialmente as contribuições de al-Khowarizmi para a solução
das equações do 2º grau.
Pouco se conhece da vida de Muhammad ben Musa al-Khowarizmi (780-850). Segundo
um de seus biógrafos árabes, al-Khowarizmi foi o primeiro matemático muçulmano a escrever
sobre a “solução de problemas usando al-jabr e al-muqabala”.
O significado usual de jabr é adicionar termos iguais a ambos os membros de uma
equação, a fim de eliminar termos negativos. Um outro significado menos freqüente é
multiplicar ambos os lados de uma equação pelo mesmo número a fim de eliminar frações.

4
Viveu entre 850 e 950 d. C. Não são conhecidas as datas exatas de seu nascimento e de sua morte.

26
Muqabala significa a redução de termos positivos por meio da subtração de quantidades
iguais de ambos os membros da equação. No entanto, o matemático al-Karaji usa esta palavra
no sentido de igualar. O significado literal da palavra significa comparar.
Em seu livro Al-jabr we’l muqabala, cujo título completo é O livro compendioso dos
cálculos com al-jabr e al-muqabala, al-Khowarizmi dá dadas regras para as resoluções de
equações do primeiro e do segundo graus. Sua álgebra é retórica, ao contrário dos progressos
iniciais anteriormente feitos por Diofanto no sentido de uma álgebra simbólica.
Inicialmente al-Khowarizmi ensina como resolver as equações x
2
=5x,
2
4
3
=
x
x e
2
5 10 = x x . Outros capítulos tratam, respectivamente, de equações de um dos seguintes tipos,
2 2
+ = ax bx c ,
2
+ = ax c bx e
2
+ = bx c ax , nas quais os coeficientes são todos positivos. Em sua
obra são consideradas apenas raízes positivas.
O primeiro dos três casos acima é exemplificado, no Capítulo IV, com as equações
2
10 39 x x + = ,
2
2 10 48 x x + = e
2
1
5 28
2
x x + = .
Al-Khowarizmi apresenta a equação
2
10 39 x x + = e sua solução como segue:
Por exemplo: um quadrado e dez raízes do mesmo equivalem a 39
denares; ou seja, qual deve ser o quadrado que, quando aumentado de dez
de suas próprias raízes, é equivalente a trinta e nove?
A solução é: tome a metade do número de raízes, o que neste
exemplo é igual a cinco. Isso você multiplica por ele próprio; o produto é vinte
e cinco. Adicione isso a trinta e nove; a soma é sessenta e quatro. Agora,
tome a raiz disso, que é oito e subtraia dela a metade do número de raízes,
que é quatro. O resultado é três. Isso é a raiz do quadrado que você
procurava; o quadrado é nove.
Isso é equivalente a usar a fórmula bem conhecida
2
2
4
2 2 2
+ − | |
+ − =
|
\ .
b b b ac b
c
Essa solução é justificada geometricamente da seguinte maneira: Seja AB=x o lado do
quadrado ABCD. Prolonguemos BA e AD para obtermos AE=DF=5 e construa o quadrado
EBGL. O polígono EHDFGB tem área igual a
2
10 + x x , ou seja, 39. Somando a esta área a

27
área do quadrado HDFL, que é igual a 25, obtem-se o quadrado EBGL, cuja área é igual a 64.
O lado deste quadrado é 8. Subtraindo disso 5, obtemos a raiz 3.

FIGURA 10
No Capítulo V é tratado somente um exemplo, o da equação
2
21 10 x x + = . As duas
raízes positivas, 7 e 3 são consideradas. Esta equação é do tipo
2
+ = x q px e al Khowarizmi
afirma que quando
2

2
| |
<
|
\ .
p
q , o “exercício é fútil” e que se
2
=
p
x , existe então somente uma
solução, que é
2
=
p
x . Isso é uma conseqüência imediata do fato de que esta equação tem
soluções (reais) se e somente se
2
4 0 p q − ≥ , ou seja, se
2
2
p
q
| |

|
\ .
.
As ilustrações abaixo (FIGURAS 11-A e 11-B) justificam a solução da equação
2
+ = x q px , exemplificada com
2
21 10 x x + = . A primeira figura ilustra geometricamente como
encontrar a solução
2
p
x < .

FIGURA 11-A

O quadrado EBCF tem lado x, e portanto no retângulo ABCD temos que AD=x.
Seja G o ponto médio de AB, cujo comprimento mede 10. Vemos assim que GE=5-x.
Coloquemos o retângulo GEFH sobre DC, como mostrado na figura, de maneira que
GE=DI=5-x e DK=x. Assim, AI=AD+DI=x+5-x=5.
De
2
21 10 x x + = vemos que 21
ADFE ADHG DKJI
A A A = + = . No retângulo KHLJ, KH=5-x, logo o
retângulo é um quadrado. Mas a área do quadrado AGLI é igual a 25, logo a área do quadrado

28
KHJL é 25-21=4, ou seja,
2
(5 ) 4, (5 ) 2, 3. x x x − = − = = Isso equivale a utilizar nossa fórmula
bem conhecida
2
2 2 2
p p p
x s q
| |
= − = − −
|
\ .

A FIGURA 11-B ilustra a solução no caso em que
2
>
p
x .
Na figura, AD=10, AB=BD=5 e AK=x. Seja AK=AC=x. Assim, BC=x-5 e CD=10-x.


FIGURA 11-B

Construa o quadrado BDEG, cujo lado será 5. Marque, sobre BG, o ponto M tal que
BM=10-x. Então, GM=BC=x-5 e MNFG é um quadrado.
Observe então que FE=BM e IF=MN.
Lembrando que
2
21 10 x x + = , vemos que
2
(10 )( ) 10 21
CDHI
A x x x x = − = − = .
Ora, como IFEH e BCMN são congruentes, vemos imediatamente que
2
10 21
ADHK ACIK CDHI
x A A A x = = + = +
Mas, além disso,
2
2
25 5
21 ( 5)
MNFG
BDEG BCNM MNFG CDEF
FEHI CDEF
A A A A
A A A x
= = = + + =
= + + = + −

Assim, temos enfim que
2
4 ( 5) x = − e portanto x=7.
O caso das equações do tipo
2
+ = px q x , exemplificado por
2
3 4 + = x x , é resolvido no
Capítulo VI e a solução é justificada pelas seguintes ilustrações

29

FIGURA 12-A

FIGURA 12-B
Divide-se o comprimento p ao meio e traçam-se os quadrados de lados
2
p
e
2
= −
p
s x
respectivamente. Devido à congruência dos retângulos designados por O, a figura hachurada
tem área q, e assim
2
2
2
| |
= +
|
\ .
p
s q
2
2 2 2
| |
= + = + +
|
\ .
p p p
x s q
Os tipos de equações discutidos por al-Khowarizmi serão tratados por matemáticos
árabes posteriores, até Baha al-Din (1547- 1622) exatamente desta maneira ou de maneiras
semelhantes. Por vezes os mesmos exemplos numéricos são usados. As demonstrações
geométricas apresentadas refletem a influência de Euclides.
Além das contribuições de al-Khowarizmi, citemos também os trabalhos de Tabit ben
Qurra, que viveu de 836 a 901 e foi um grande cientista árabe, com contribuições importantes
em vários campos. Ele escreveu um pequeno tratado sobre a verificação de problemas de
álgebra por demonstrações geométricas, em que mostra como resolver as equações
2
+ = x mx n ,
2
+ = x b ax e
2
= + x ax b .

30
O matemático Al-Karagi
5
fornece, além das provas geométricas, uma solução do tipo de
Diofanto para cada caso apresentado. Ele procura sempre completar os quadrados. No caso
de
2
10 39 + = x x isso não apresenta dificuldades. No entanto, ao tratar de
2
21 10 + = x x , como os
árabes não trabalhavam com números negativos, é necessário proceder como abaixo:
2
2
2
2
21 25 10 25
21 25 21 10 25 21
25 10 4
25 10 4
+ + = +
+ + − = + −
+ = +
+ − =
x x
x x
x x
x x

Assim, temos que
2
( 5) 4
5 2, 7
5 2, 3
− =
− = =
− = =
x
x x
x x


CONTRIBUIÇÕES POSTERIORES
No século XII, o livro de álgebra de al-Khowarizmi foi traduzido para o latim por Gerard de
Cremona (1114-1187) e por Robert de Chester (1145). Além disso, os conhecimentos árabes
sobre a equação do 2º grau foram também introduzidos na Europa pelo livro Líber embadorum
de Abraão bar Hija, conhecido no ocidente por Savasorda, matemático judeu falecido em 1136
e que trabalhou em Barcelona. Seu trabalho foi traduzido pelo matemático italiano Platão de
Tívoli, que viveu de 1134 a 1145 em Barcelona e traduziu para o latim obras do árabe e do
hebraico. Como feito por al-Khowarizmi, as fórmulas de solução são simplesmente dadas e
justificadas por ilustrações. Sua percepção de que algumas equações de graus superiores
podem ser transformadas em equações do 2º grau tornou-se conhecida, em particular por Luca
Paccioli.
Embora não tenha feito contribuições originais e importantes sobre nosso assunto,
Leonardo de Pisa, conhecido também como Fibonacci, que viveu aproximadamente de 1170 a
1240, destaca-se por ter dado pessoalmente contribuições importantes em Matemática e
difundido a Matemática árabe no ocidente.
Quando Fibonacci viveu, o nível da Matemática na Europa era muito baixo. Então, os
matemáticos árabes eram de longe melhores do que os matemáticos do Ocidente. É com ele
que a matemática ocidental começa a progredir, superando os árabes. Em seu livro Líber

5
Matemático árabe que viveu do fim do século X ao princípio do século XI em Bagdá.

31
Abbaci, escrito em 1202, citando “Maumeth”, ou seja, Maomé, querendo referir-se a al-
Khowarizmi, apresenta a resolução das seguintes equações:
2
2
2
2
2
ax bc
ax c
bx c
ax bx c
ax c bx
ax bx c
=
=
=
+ =
+ =
= +

Neste livro, ele resolve uma das equações que al-Khowarizmi já tinha tratado,
2
10 39 x x + = e justifica geometricamente sua solução, de maneira semelhante à de al-
Khowarizmi. Na época, a incógnita x era chamada de radix (raiz), seu quadrado quadratus ou
census, e o termo constante numerus. Assim, essa equação era escrita Census et decem
radicis equantur 39.
Um matemático do século 15 muito pouco conhecido, Benedetto de Florença, publicou
em 1463 sua obra mais importante, Trattato di praticha d’arismetica, no qual mostra como
resolver as equações





As resoluções apresentadas são exatamente as de al-Khowarizmi.
Benedetto de Florença não fez muitas contribuições originais para o estudo das
equações do 2º grau, mas ele é importante por divulgar no Ocidente as técnicas algébricas dos
árabes. No entanto, ele acrescentou os seguintes tipos de equações aos já estudados por al-
Khowarizmi
2
2
2
2
2
=
+ =
=
+ =
=
= +
x px
x px q
x q
x q px
px q
x px q

32
3 2
4
4 2
4 2
4 2
4 2
110
+ =
=
+ =
+ =
= +
+ =
x px qx
x px
x px q
x q px
x px q
x x
`
Em seu tratado, Benedetto apresenta uma lista de 140 problemas numéricos tirados de
um Trattato di praticha, hoje perdido, escrito pelo florentino Master Biaggio, que morreu em
torno de 1340. Vinte e oito destes problemas são de Matemática comercial. Os outros são
resolvidos por equações dos tipos estudados anteriormente por Benedetto no mesmo livro. Um
deles conduz à equação
1 1
(2 ) 12
12 12
+ + + = x x x . Outro dá origem à equação
4 2
110 + = x x .
Além dos matemáticos que citamos, vários outros italianos deram contribuições para o
estudo das equações algébricas, entre elas a equação do 2º grau.
No Ocidente, foi reconhecido que permitir que os coeficientes de uma equação do 2º
grau sejam negativos ou nulos tornava possível obter uma única forma padrão para todos os
tipos de equações do 2º grau discutidos separadamente até então. Michael Stifel (matemático
alemão que viveu de 1487 a 1567. Foi primeiramente monge Augustino e depois pároco
luterano) afirma isso explicitamente e reduz todas as equações do 2º grau à forma
2
x px q = ± ±
O fato que Stifel afirma que
2
x px q = + e
2
x px q = − + só têm uma raiz, e que
2
x px q = − −
não é tratado, mostra que, para ele, os números negativos não tinham existência própria, eram
somente termos a serem subtraídos de um dos membros da equação. No entanto, em outros
locais de suas obras ele realmente considerou números negativos. Stifel dá uma regra geral
para resolver uma equação do 2º grau, independentemente de os coeficientes serem positivos
ou negativos:
Comece com a quantidade das raízes [i.e., p], divida-o e substitua a
raiz por sua metade, guardando essa metade até que toda a operação tenha
sido completada (ou seja, substitua ( ) px ± por ( )
2
p
± .
Multiplique essa metade por ela mesma.
Some ou subtraía, como pedido pelo sinal do membro (ou seja, forme
2
2
p
q
| |
±
|
\ .
).

33
Da soma ou da diferença, extraia a raiz quadrada (ou seja, calcule
2
2
p
q
| |
±
|
\ .
).
Adicione ou subtraia o quadrado [ ( )
2
p
± ] como o sinal o exige
(
2
2 2
p p
q
| |
± ±
|
\ .
).
O matemático francês Viète (1540-1603) trata as equações do 2º grau aceitando os
números negativos como quantidades que devem ser subtraídas, como Stifel. Somente com
Stevin (matemático belga, 1548-1620) é que se aceitam coeficientes verdadeiramente
negativos em uma equação do 2º grau, ou seja, números negativos considerados como tais.
Durante muito tempo, no Ocidente, os números negativos foram considerados Numeri
ficti, números fictícios, como dizia Stifel. Cardano lhes deu o mesmo nome. Raízes negativas
de equações do 2º grau foram reconhecidas somente aos poucos. Stevin as chama de
soluções sonhadas (solutions songées) mas afirma que ela são úteis para achar soluções
verdadeiras de outras equações. Viète e Harriot (matemático inglês que viveu de 1560 a 1621)
não as aceitavam. Somente com o importante teorema de Girard
6
é que elas se impõem. Mas
mesmo assim Descartes
7
as chama de racines fausses (raízes falsas).
Passemos agora a estudar a contribuição do matemático francês François Viète (1540-
1603) para o estudo da resolução da equação do 2º grau.
Viète teve uma carreira bem sucedida como advogado e conselheiro real. Em 1591, ele
publicou seu In artem analyticem isagoge, livro extremamente importante para a história da
álgebra. Viète foi o primeiro matemático a usar letras não somente para representar incógnitas,
mas também constantes. Ao contrário do que fazemos hoje, ele representava as incógnitas por
vogais e as constantes por consoantes.
As equações + = − = =
2 2 2 2 2 2
, , - A AB D A AB D AB A D são tratadas por Viète
8
em
seu Effectionum geometricarum canônica recensio, que mostra como resolvê-las

6
Albert Girard viveu de 1595 a 1632 e passou a maior parte de sua vida na Holanda, embora tenha nascido na França.
Devemos a ele a primeira formulação do teorema fundamental da álgebra, sobre o número de raízes de uma equação
polinomial.
7
Filósofo e matemático francês (1596, 1650). Fez trabalhos fundamentais em filosofia e em matemática. Foi um dos criadores
do que hoje se conhece como geometria analítica. Seu livro, La Géométrie, um dos apêndices ao seu Discours de la Méthode,
revolucionou a matemática, mostrando como interrelacionar a álgebra e a geometria.
8
Matemático francês que viveu de 1540 a 1603. Desempenhou papel extremamente importante no desenvolvimento da
álgebra. Entre outras contribuições, introduziu o uso de letras para representar números, em seu In artem analyticem isagoge,
de 1591.

34
geometricamente Lembremos que, na notação de Viète, a incognita é A e que B e D são
dados. As soluções geométricas das três equações estão mostradas nas figuras a seguir

FIGURA 13
A fim de deduzir a fórmula de Báskara, Viète procedeu como segue.
Dada a equação
2
0 ax bx c + + = , façamos x y z = + . Substituindo esse valor de x na
equação, obtemos
2
( ) ( ) 0 a y z b y z c + + + = =

2 2
(2 ) 0 ay az b y az bz c + + + + + =
Achemos os valores de z para os quais esta equação em y não tenha o termo de
primeiro grau, (2 ) az b y + :
2 0 az b + =
2
b
z
a
= −
Substituindo este valor de z na equação, obtemos
2 2
( ) ( ) 0
2 2
b b
ay a b c
a a
+ − + − + =
2 2 2
4 4 a y b ac = −
2
2
2
4
4
b ac
y
a

=
2
2
4
4
b ac
y
a

= ±
2
4
2
b b ac
x
a
− ± −
=
Este resultado é exatamente a fórmula de Báskara.

35
Outra maneira, mais complicada, para resolver algebricamente a equação do 2º grau foi
proposta pelo matemático italiano G.C. Fagnano
9
em 1735.
Façamos
1 2
1
z uz
x
u

=


Substituindo este valor de x na equação, obtemos
2
1 2 1 2
0
1 1
z uz z uz
a b c
u u
− − | | | |
+ + =
| |
− −
\ . \ .

ou sej a,
2 2 2
2 2 1 2 1 2 1 1
1
( ) 2 ( ) ( ) 0
2
az bz c u az z b z z c u az bz c

+ + − + + + + + + =


.
Esta equação em u tem o termo de primeiro grau nulo quando
1 2 1 2
1
( ) 0
2
az z b z z c + + + = .
Fazendo
2
0 z = , temos
2 2
1 1
cu az bz c = − − −

Agora, util izando
1 2 1 2
1
( ) 0
2
az z b z z c + + + =

obtemos
1
2c
z
b
= − .
Substituindo este valor, vemos que

9
Giulio Cesare Fagnano (1682, 1766), conde de Fagnani, nasceu em família nobre. Deixou trabalhos importantes em
geometria, particularmente a geometria do triângulo. Em álgebra, mostrou maneiras de resolver as equações do 2º, 3º e 4º grau.

36
2
2
2
4 2 c bc
cu a c
b b
= − + −

2
2
2
4 b ac
u
b

=
2
2
4 b ac
u
b

± =

Como (lembre-se que fizemos
2
0 z = )
1 2 1
1 1
z uz z
x
u u

= =
− −

temos que
1
2 2
2
2
2
1
4 4
1
c
z c
b
x
u
b ac b b ac
b


= = =

− −

AS SOLUÇÕES GEOMÉTRICAS DE DESCARTES E DE STEINER
Apresentaremos, por fim, duas soluções geométricas para a equação do 2º grau, devidas
respectivamente a Descartes e a Steiner.
Podemos supor que a equação do 2º grau é da forma
2
0 x ax b + + = .
Usando a regra dos sinais de Descartes, as equações do 2º grau que podemos garantir
terem raízes reais positivas são:
2 2
2 2
2 2
0
0
0
x ax b
x ax b
x ax b
+ − =
− − =
− + =


A primeira e a segunda dessas equações têm sempre uma raiz real positiva. A terceira
tem ambas as raízes reais se
2
2
0
4
a
b − ≥ . Como estamos tentando construir geometricamente
as raízes dessas equações, suporemos que a, x e b representam comprimentos e escrevemos
b
2
para garantir a homogeneidade dos vários termos da equação, como fazia Descartes.

37
No livro I de sua obra revolucionária La Géométrie, Descartes apresenta a seguinte
solução para achar a raiz real positiva da primeira equação.

FIGURA 14
Em primeiro lugar, é necessário escolher um segmento unitário, ou seja, cuja medida
será considerada como igual a 1. Todos os outros segmentos terão suas medidas comparadas
com ele.
Considere um segmento AB de comprimento b e levante por B uma perpendicular a AB
e escolha sobre ela um ponto O tal que OB tenha comprimento a/2. Com centro em O,
descreva a circunferência com raio OB. Sejam P e Q os pontos em que a reta definida por A e
O intercepta a circunferência.
Pela propriedade da potência de um ponto relativamente a uma circunferência, temos
que
2
b AP AQ = . Fazendo AP x = , temos que AQ x a = + e assim
2 2
( ) b x x a x ax = + = + , ou
seja,
2 2
0 x ax b + − = e vemos que realmente construímos uma solução (real positiva) para a
primeira das equações que apresentamos acima.
Para achar a solução real positiva da segunda das equações, é suficiente fazer AQ=x.
Então, AP=x-a e vemos que
2 2
( ) b x x a x ax = − = − , ou seja, conseguimos achar a raiz
procurada.
A fim de resolver a equação
2 2
0 x ax b − + = , Descartes, na mesma obra, procedeu como
segue.

FIGURA 15
Trace um segmento AB de comprimento a e seja O seu ponto médio. Com centro em O
e raio AO descreva uma semi-circunferência. Pelo ponto B, levante uma perpendicular a AB e

38
escolha sobre ela o ponto P, tal que o segmento BP tenha comprimento igual a b. Por P, trace
uma paralela a AB. Como
2
a
b ≥ (Por quê?), vemos que esta paralela intercepta a
circunferência pelo menos em um ponto. Seja Q um dos pontos de intersecção e S o pé da
perpendicular baixada de Q sobre AB. Denote por x o comprimento de SB.
Pelas propriedades métricas em um triângulo retângulo, temos que
2
QS AS SB = . Assim,
2
( ) b x a x = − , ou seja,
2 2
0 x ax b − + = .
Jacob Steiner, matemático suiço que viveu de 1796 a 1863
10
e que nos deixou
importantes trabalhos sobre Geometria, construiu geometricamente as soluções reais, positivas
ou negativas, de uma equação do 2º grau da seguinte maneira.

FIGURA 16
Consideremos a equação
2
0, x px q + + = com 0 p ≠ . Essa é a única restrição que
impomos aos coeficientes p e q. Tome um sistema de eixos cartesianos ortogonais e sobre o
eixo vertical, OY, escolha U tal que o comprimento OU seja igual a 1 e trace a circunferência de
centro O, sobre OY e cujo diâmetro é OU. Por U, trace uma paralela ao eixo OX e tome sobre
ela o ponto P tal que o comprimento orientado UP seja igual
1
p
− e marque sobre OX o ponto Q
cuja abcissa é igual a
q
p
− .
Sejam M e N os pontos de intersecção da reta definida por P e Q com a circunferência.
A partir de U, projete M e N sobre OX, obtendo os pontos A e B respectivamente, cujas
abcissas são, respectivamente, α e β .
Os triângulos semelhantes UMP e AMQ permitem escrever
: : UP QA UM MA =

Além disso, o triângulo retângulo UAO nos permite escrever

10
Steiner fez contribuições importantes em geometria, particularmente geometria projetiva. Explorou muito bem a projeção
estereográfica do plano sobre a esfera.

39
2 2
: : UM MA OU OA =

Estas duas proporções nos permitem escrever
2
1
: ( ) 1:
q
p p
α α − + =

Ou seja,
2
0 p q α α + + = .
Analogamente, poderíamos obter
2
0. p q β β + + =

E assim achamos as raízes da equação.
É fácil ver que a reta PQ intercepta necessariamente a circunferência ou lhe é tangente.
Com efeito, a equação da reta, como se pode verificar facilmente, é 1 (1 )( 1) 0 px q y + + − − = .
Se denotarmos por µ a distância do centro C da circunferência à reta, temos
2 2
2
2 2 2 2
( 1) ( 1)
4[ ( 1) ] 4[ 4 ( 1) ]
q q
p q p q q
µ
+ +
= =
+ − − + +

Se
2
4 0 p ac − ≥ , segue-se que
2
1
4
µ ≤ , e assim a reta intercepta a circunferência em pelo
menos um ponto, ou seja, a equação admite pelo menos uma raiz real.
Outro método para achar as soluções da equação do 2º grau é o seguinte, apresentado
primeiramente por Bézout
11
e Euler
12
e depois por Sylvester
13
e Hesse
14
.
Consideremos a equação
2
0 x px q + + = e façamos x u z = + . Então
2
( ) x u z x = + ,
3 2
( ) x u z x = + .
Podemos então escrever

11
Étienne Bézout, francês, viveu de 1730 a 1783. Escreveu vários livros-texto muito difundidos e trabalhou, entre outros
assuntos, em álgebra. Seu teorema sobre o número de intersecções de duas curvas algébricas é fundamental.
12
Leonard Euler (1707-1783), suíço, foi um dos gigantes da Matemática no século XVIII, o qual é por alguns historiadores da
Matemática denominado o século de Euler. Fez contribuições fundamentais em geometria, análise e teoria dos números.
13
James Joseph Sylvester (1814-1897) foi um matemático inglês que deu importantes contribuições à álgebra. Devemos a ele a
introdução das matrizes.
14
Otto Hesse (1811-1874) nasceu em Königsberg, então Alemanha, e atualmente Kalingrad, na Rússia. Foi aluno de Jacobi e
publicou pesquisas sobre funções algébricas e teoria dos invariantes.

40
3 2
2
3 2
0
( ) 0
( ) 0
x px qx
x u z x
x u z x
+ + =
− + =
− + =

Para que este sistema tenha solução, o seguinte determinante tem que ser nulo:
1
0 1 -( ) 0
1 -( ) 0
p q
u z
u z
+ =
+

Desenvolvendo este determinante obtemos
2
( ) ( ) 0 p u z u z q − + − + − =
e portanto
2 2
(2 ) ( ) 0 u z p u z pz q + + + + + =
Fazendo 2 0 z p + = , obtemos
2 2
2 2
2
( )
2 2
p p
u z pz q q

= − + + = − − + +



e assim
2
1
4
2
u p q = ± −
do que decorre
2
1
4
2 2
p
x p q = − ± −
A história da equação do 2º grau nos mostra como um tema de Matemática é retomado
varias vezes. Vimos como, ao longo dos séculos, as maneiras de resolver esta equação
mudaram, até chegar à forma padrão que conhecemos hoje. Além disso, mesmo após ter
deixado de ser um desafio, muitos matemáticos se ocuparam com ela, pelo simples prazer de
procurar novas maneiras para chegar às suas soluções.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HEATH, Thomas L. – The thirteen books of Euclid’s elements, vols I, 2 3. New York, Dover,
1956.

41
JOSEPH, George Gheverghese- The crest of the peacock- non-european roots of mathematics.
Princeton, NJ: Princeton University Press, 2000.
KATZ, Victor J. – A History of mathematics – an introduction. New York: HarperCollins, 1993.
MACHADO, Fernanda e outros- “Por que Báskhara?”, in História e Educação Matemática, vol
2, no 2, jan/jun 2003, pp.119-166.
Roberto- Elementos de Euclides dos seis primeiros livros do undécimo e duodécimo da versão
latina de Frederico Comandino; adicionados e ilustrados por Roberto Simson, professor
de Mathematica na Academia de Glasgow. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1773.
SMITH, David Eugene – History of mathematics, vol II- Selected topics of elementary
mathematics. New York: Dover, 1958.
TRÖPFKE, Johannes – Zur Geschichte der quadratischen Gleichungen über dreeinhalb
Jahrtausend. Jahresbericht der deutschen Mathematiker-Vereinigung, vol 43, 1934, 98-107.
TRÖPFKE, Johannes – Zur Geschichte der quadratischen Gleichungen über dreeinhalb
Jahrtausend. Jahresbericht der deutschen Mathematiker-Vereinigung, vol 44, 1934, 26-47, 95-
119.
TRÖPFKE, Johannes- Geschichte der Elementarmathematik. Band 1- Arithmetik und Algebra.
Vollständig neu bearbeitet von Kurt Vogel, Karin Reich, Helmut Gericke. Berlin: Walter
de Gruyter: 1980, 4te Auflage.
van der Waerden, B. L. – Science awakening I. Gronigen, Holanda: Wolter Noordhoff, s/d.
van der Waerden, B. L. – Geometery and algebra in ancient civilizations. New York: Springer
Verlag, 1983.
van der Waerden, B. L. – A History of algebra, from al-Khowarizmi to Emmi Noether. New York:
Springer Verlag, 1985.

Um levantamento muito completo da história da equação do 2º grau encontra-se em [TRÖPFKE, 1934, a] e [TRÖPFKE, 1934, b]. OS EGÍPCIOS No Médio Império, os textos conhecidos só lidam com equações do segundo grau bem simples. Por exemplo, no papiro de Moscou, que data de aproximadamente 1850 a.C3. é pedido para calcular a base de um retângulo cuja altura é igual a igual a 12. Este problema, em linguagem moderna, se escreve

3 de sua base e cuja área é 4

3 2 =12. 4 Em outro papiro, encontramos dois problemas em que são dadas a área S, a diagonal d de um retângulo e se procuram seus lados x e y:
xy = S, x 2 + y 2 = d 2.

Como feito pelos babilônios, da maneira que veremos mais tarde neste trabalho, os egípcios calculavam inicialmente x + y e x − y , para daí achar x e y.
OS BABILÔNIOS

É bem conhecido que os babilônios escreviam em tabletes de argila, com um estilete, usando a chamada escrita cuneiforme, e tinham um sistema de numeração posicional bem desenvolvido, com base 60. No fim do século XIX e na primeira metade do século XX, as pesquisas dos arqueólogos e dos historiadores da Matemática modificaram totalmente nossa avaliação da qualidade da Matemática praticada na Mesopotâmia, mostrando que ela era claramente mais desenvolvida do que a Matemática egípcia. Entre os inúmeros tabletes que se encontram nos museus da Europa, Oriente Próximo, Oriente Médio e Estados Unidos, existem alguns que tratam de equações do 2º grau. Um tablete típico que nos chegou traz o seguinte problema, aqui formulado em nosso sistema de numeração decimal, para simplificar os cálculos: Achar o lado de um quadrado se sua área menos seu lado é igual a 870.

Os dois documentos mais importantes de que dispomos para o estudo da Matemática egípcia são o papiro Rhind e o papiro de Moscou, este último de autoria desconhecida.

3

2

Designando o lado por x, este problema se traduz, hoje, utilizando a linguagem simbólica algébrica, na equação x 2 − x = 870 .
x 2 − px = q

A equação
p q

, com p e q positivos, tem uma raiz positiva, dada por

x=

p 2

2

+q +

p 2

(A)

Os babilônios não dispunham desta fórmula algébrica, mas o processo que seguiam é inteiramente equivalente a aplicá-la. Com efeito, a solução registrada no tablete é a seguinte: Tome a unidade: 1 Divida a unidade em duas partes: ½ Cruze (multiplique) ½ por ½: ¼ Some ¼ a 870: 3481/4 [Isso] é o quadrado de 59/2 Some ½, que você multiplicou, com 59: o lado do quadrado é 30/2. O leitor poderá facilmente observar que isso é exatamente aplicar a fórmula (A). Mais uma vez, a formulação do problema pelos babilônios mostra a completa ausência de simbolismo algébrico em sua matemática. Outro problema é o seguinte: Adicionei sete vezes o lado de meu quadrado a onze vezes a superfície: 25/4. Chamando o lado do quadrado de x, este problema seria escrito hoje, em notação algébrica moderna, como
11x 2 + 7 x = 25 / 4, (B)

Sabemos que a solução da equação
ax 2 + bx − c = 0,

com c positivo, é dada por
b 2 + 4ac − b 1 = 2a a b2 b + ac − 4 2 (C) 3

O lado do quadrado é ½. Multiplique 11 por 25/4: 275/4 Divida 7 em duas partes:7/2 Multiplique 7/2 por 7/2: 49/4 Some 49/4 a 275/4: 324/4 Isso é o quadrado de 9 Subtraia 7/2 de 9: escreva 11/2 O que devemos fazer com 11 que nos fornece 11/2 ? ½. uma equação da forma x 2 + q = px . seu quociente. para simplicar os cálculos. Em outro tablete. Os babilônios procediam sistematicamente como segue: Em primeiro lugar. Este é seguramente um dos primeiros casos registrado de uma mudança de variáveis! Em muitos tabletes. com p e q positivos. 2 2 de que obtemos imediatamente x+ y 2 2 = p2 .No nosso caso. 4 Assim 4 Estamos mais uma vez usando nosso sistema de numeração decimal. obtendo ( ax ) 2 + abx = ac . é dada sob a forma do sistema equivalente x+ y = p xy = q Hoje passaríamos diretamente deste sistema para a equação x 2 + q = px . 4 . O procedimento indicado pelo escriba é: Escreva 7 e 11. x+ y p = . utilizando as relações entre os coeficientes da equação e suas raízes. uma equação do tipo ax 2 + bx = c é multiplicada por a. b=7 e a=114. Esta equação na incógnita y = ax é então resolvida.

obtemos facilmente que x= y= x+ y x− y p + = + 2 2 2 x+ y x− y p − = − 2 2 2 p2 −q 4 p2 −q 4 Repetimos que os babilônios não dispunham do simbolismo algébrico para escrever estas equações. Mas os procedimentos indicados nos tabletes para resolver os modelos de equações aqui apresentados correspondem à aplicação dessas fórmulas Nos textos matemáticos babilônios que nos chegaram. Elas são conhecidas como formas normais das equações do 2º grau babilônias. 4 − xy = Como x+ y 2 segue-se que 2 x 2 + y 2 + 2 xy − 4 xy ( x − y ) − xy = = 4 4 2 x+ y 2 2 − xy = ( x − y) 2 = p2 − q.x+ y 2 x+ y 2 2 − xy = 2 p2 − q. a maioria dos problemas relativos a equações do 2º grau são dados nas formas que seriam escritas atualmente como x + y = b. x y =a ou x − y = b. A relação básica usada para a solução de tais sistemas é 5 . 4 p2 −q . Assim. 4 e portanto x− y = 2 p 2 2 −q . x y =a ou podem ser transformados para obtê-las.

x y =b sugere que os escribas babilônios investigavam a relação entre o perímetro e a área de uma superfície retangular: Parece que antigamente muitos acreditavam. vemos que a área b é igual a 2 2 6 . p. Como poderiam os babilônios ter procedido? a a Fazendo x = + z. a fim de demonstrarem que retângulos de perímetros iguais podiam ter áreas diferentes. obtemos imediatamente que 2 x= b + s. Para calcular s procederemos como segue. Como os babilônios chegaram a seus procedimentos para resolver equações do 2º grau? Segundo Katz [KATZ. 2 y= b − s. Há várias histórias que indicam que os que sabiam que isso não era verdade se aproveitavam dos que nisso acreditavam. 1990. Fazendo x− y = s. É fácil ver que xy = b 2 2 − s2 = a . é fácil calcular x e y. obtemos facilmente x − y e.x+ y 2 2 ( x − y) − xy = 4 2 Vejamos outra maneira usada pelos babilônios para resolver o sistema x + y = b. 32] o fato de que muitos problemas que conduzem a equações do 2º serem dados sob a forma do sistema x + y = a. como x + y é dado. 2 e podemos calcular facilmente s desta igualdade: s 2 = Uma vez conhecido s. usando valores diferentes para a base x e a altura y. que a área de um terreno dependia somente de seu perímetro. 2 xy = a. b − a. construíram tabelas de áreas b relacionando-as com o perímetro constante 2a. por exemplo. É assim plausível que os escribas babilônios. y = − z .

como no exemplo a seguir. x y = b . 2 2 a x−y =y+ 2 2 o quadrado de lado a x−y excede o retângulo de lados x e y pelo quadrado de lado . 2 FIGURA 1 Como a x−y =x− .a a a b = ( + z )( − z ) = 2 2 2 2 − z2 . 2 2 7 . Construa o quadrado de lado a . Consideremos o sistema x + y = a. e portanto z= a 2 2 −b. Desse valor para z obtemos x e y: x= a a +z = + 2 2 a a −z = − 2 2 a 2 a 2 2 −b 2 y= −b Pesquisas recentes e minuciosas sobre a matemática babilônia sugerem que os escribas babilônios chegaram a este resultado usando raciocínios geométricos.

2 2 equação resolvida pelos babilônios é apresentada pelo sistema x + y = a. temos então que 2 x+y x−y a + =z+ 2 2 2 x+y x−y a y= − =z− 2 2 2 x= Uma outra x + y = b. Somando este comprimento com a . x+y = 2 b a − 2 2 2 2 2 + x−y 2 2 + a 2 2 Designando x+y por z. b x+y = 2 2 Assim. é fácil achar y. x 2 + y 2 = b . O método usado para resolvê-la é o seguinte.O lado deste último quadrado mede achamos x. 2 Interpretações geométricas semelhantes permitem reconstruir um caminho possível para a solução babilônia do sistema x − y = a. FIGURA 2 A figura 2 mostra que 1 2 x+y (x + y 2 ) = 2 2 Então. a 2 2 − b . Em seguida. Seja c definido por 8 .

c= b a − 2 2 2 = x 2 + y 2 x 2 + y 2 + 2 xy x − y − = . Embora os próprios gregos reconhecessem que muito deviam à Matemática egípcia e babilônia. x − y = a. os babilônios usavam a identidade x− y − xy = 2 2 Resumindo o que sabemos hoje. com nosso simbolismo algébrico: • Equações com uma incógnita: ax = b x2 = a x 2 + ax = b x 2 − ax = b x3 = a x 2 ( x + 1) = a • Sistemas de duas equações com com duas incógnitas (que dão origem a uma equação do segundo grau): x + y = a. x − y = a. x + y = a. fácil de verificar: x+ y 2 2 xy = S . xy = s. 2 4 2 Então achamos x e y facilmente: x= a + c. eles transformaram os conhecimentos destas duas civilizações em um corpo de 9 . os babilônios podiam resolver qualquer uma das equações dadas a seguir em linguagem moderna. 2 y= a −c 2 Para resolver equações do tipo x 2 + y 2 = b. xy = b xy = b x2 + y 2 = b x2 + y 2 = b x2 + y 2 = b OS GREGOS E AS EQUAÇÕES DO 2º GRAU O caráter da Matemática grega é completamente diferente daquele da Matemática babilônia.

A tradução algébrica moderna desta situação é a seguinte. e que possivelmente estão associadas à descoberta da existência de grandezas incomensuráveis. de que BE é um dos lados. É imediato ver. A Figura 4 mostra a situação. Se a é o lado do retângulo e b 2 é a área dada. teremos que fazer uma digressão geométrica examinando alguns teoremas dos Elementos de Euclides. C.Uma aplicação de áreas elíptica consiste em dar a área do retângulo a ser construído e um segmento AB cujo comprimento deve ser igual à soma do comprimento da base e da altura do retângulo. Como ao aplicar o retângulo ACDE sobre AB obtemos o quadrado CBFD. seja ABCD um quadrado de lado b. a demonstração matemática. Prolonguemos AB até E. para obtermos o retângulo DGLF. no qual a diagonal FG passa por B. Para resolvê-la. que é o que falta para completar o retângulo AEFB. como nos Elementos de Euclides. de maneira que o comprimento de BE seja a.Uma aplicação de áreas parabólica consiste na construção de um retângulo de área dada sobre um segmento de comprimento dado (que será um dos lados do retângulo). Por razões que não discutiremos aqui.resultados bem estruturado e no qual a argumentação é feita com um tipo bem específico de discurso. Completemos a figura como indicado. vemos que CDFB é um quadrado. 10 . que a área do quadrado ABCD é igual à área do retângulo BELH. Assim. comparando áreas. escritos um pouco antes do ano 300 a. FIGURA 3 2. ou elíptica. Como CB é a altura do retângulo. a maneira de os matemáticos gregos apresentarem seus resultados é geométrica. temos uma aplicação com falta. A ferramenta geométrica que permite resolver equações do 2º grau é a aplicação de áreas. e assim ax = b 2 . 1. que ocupa um lugar importante na Geometria grega. Seja x o comprimento de BH. para entendermos como os gregos resolviam equações do 2º grau. o problema se traduz na equação: ax = b 2 .

Então a 2 2 outra dimensão é igual a b-x e podemos escrever a equação (b − x) x = bx − x = c FIGURA 4. Um deles. (E) e (F). a soma das duas dimensões. seja c a área dada. 11 . Se AC é a base do retângulo a construir. Então a outra dimensão é igual a b+x e podemos escrever (b + x) x = bx + x 2 = c 2 . 3. veremos inicialmente duas proposições do Livro II dos Elementos de Euclides. para aplicações elípticas e dois outros. para aplicações hiperbólicas: (b − x) x = bx − x 2 = c 2 (b + x) x = bx + x 2 = c 2 (D) (E) (F) x( x − b) = x 2 − bx = c 2 Mas como resolver essas equações? Para isso. é dada a área do retângulo a ser construído e o segmento AB dado deve ser igual à diferença entre a base e a altura do retângulo. Se x for a dimensão maior.Em uma aplicação de áreas hiperbólica. FIGURA 5 2 Mais uma vez. b a diferença das duas dimensões e x a dimensão menor.Seja c 2 a área dada. e x=CB uma delas. Como ao aplicar o retângulo ACEF sobre AB obtemos o quadrado CBDE em excesso. Vemos assim que obtemos três tipos de equações. temos uma aplicação com excesso ou hiperbólica. b=AB. então a outra dimensão é (x-b) e temos a equação x( x − b) = x 2 − bx = c 2 . (D). sua altura CE deverá ser igual a BC.

O que Euclides diz. a qual corta a diagonal BE no ponto H. será o retângulo compreendido pelas partes desiguais. Como as áreas dos retângulos CDHL e HMFE são iguais. o retângulo contido pelos segmentos desiguais. trace a paralela DG a CE. as áreas dos retângulos CLMB e DEFB são iguais. Como as áreas dos retângulos AKLC e CLMB são iguais. FIGURA 6 Para compreendermos o que Euclides quer demonstrar. Seja C o ponto médio do segmento de reta AB e D um ponto qualquer sobre AB. Seja KM a paralela a AB e que passa por H. O exame da figura 6 torna o enunciado do teorema mais claro. em seu enunciado.Proposição II. é igual ao quadrado sobre metade da reta5. Pelo ponto D. juntamente com o quadrado sobre a reta entre os pontos de divisão. Então. 5 Repetimos aqui o enunciado desta proposição na primeira edição de Euclides em Português [SIMSON. adicione a cada uma dessas áreas a área do quadrado DBHM. Com efeito. construa o quadrado CEFB e considere a diagonal BE. igual ao quadrado da metade da linha proposta. 1773]: Se uma reta for dividida em duas partes iguais e em outras duas desiguais. é que a área do retângulo de base AD e altura DB somada à área do quadrado de lado CD é igual à área do quadrado de lado CB.5 -. Seja AK o segmento de reta perpendicular a AB e que liga A a K. que os matemáticos gregos chamavam de reta o que nós hoje chamamos de segmento de reta. juntamente com o quadrado da parte entre as duas seções. Então. segue-se que as áreas dos retângulos AKLC e DGFB também são iguais. 12 . lembre-se.Se uma reta for dividida em partes iguais e desiguais. a área do retângulo AKHD é igual à soma das áreas dos retângulos CLHD. DHMB e HGFM. Mas os retângulos AKLG e CLMB têm áreas iguais. Mas as áreas dos retângulos CLMB e AKMB são iguais. Adicione a cada uma dessas áreas a área do retângulo CLHD. por terem bases e alturas respectivamente iguais. em primeiro lugar.

algebricamente. este teorema pode ser traduzido. o que queríamos demonstrar. Mas a soma das áreas dos retângulos CLHD. pelo menos uma vez na vida.Como os retângulos ACLK e CBLM têm áreas iguais. 13 . ver uma demonstração dos Elementos de Euclides. algébricos e analíticos. Adicionemos a cada uma dessas áreas a área do retângulo CLHD. DHMB e HGFM. a área dos retângulos CLHD. Com isso. Demonstramos esta proposição. Segue-se então que a soma das áreas dos retângulos CLHD. DHMB e HGFM com a soma das áreas de LEGH e DHMB é igual à área do quadrado CEFB. DHMB e HGFM é também igual à área do retângulo de base AD e altura DB. pela identidade: 6 Não entraremos aqui na discussão sobre a chamada “álgebra geométrica grega” Esse termo é exemplo da tentação de reformular resultados antigos usando nossa linguagem algébrica moderna e de interpretar esses resultados sob nossos pontos de vista e maneiras de pensar. Mas a área do retângulo AKHD é igual à área do retângulo de base AD e altura DB. Qual a relação deste teorema com a resolução de equações do 2º grau?6 Em primeiro lugar. DHMB e HGFM com a soma das áreas dos retângulos LEGH e DHMB é igual à soma das áreas do retângulo AKHD e do quadrado LEGH. talvez tenham dificuldades em seguir o raciocínio implacável de Euclides. baseado totalmente em conceitos geométricos e talvez precisem de orientação para compreenderem bem a demonstração acima. a área do retângulo AKHD é igual à soma das áreas dos retângulos CLHD. Adicione a área do quadrado LEGH. em vez de simplesmente enunciá-la. construído sobre CB. Assim. que é igual à área do quadrado de lado CD. Como estão muito habituados a reformulações das proposições de Euclides em linguagem algébrica. Assim. porque acreditamos que nossos alunos devem. fazendo AD=x e DB=y. segue-se que as áreas dos retângulos AKLC e DGFB também são iguais. a soma das áreas do retângulo de base AD e altura DB e do quadrado LEGH (que é igual ao quadrado de lado CD) é igual à área do quadrado de lado CB. a ambas as áreas. pois DH é igual a DB.

Para fazer isso procedemos da seguinte maneira. 2 2 Seja c = b . FIGURA 7 7 Robert Simson viveu de 1687 a 1768. que teve mais de 70 edições em várias línguas. seja C seu ponto médio. Prolongue OC até o ponto N. 14 . DHMB e HGFM. Publicou uma edição dos Elementos de Euclides muito conhecida. se conhecemos x + y (respectivamente x + y ).x+y 2 2 x−y = xy + 2 2 ou seja. nosso problema é aplicar um retângulo. Assim. Com centro em O e 2 raio ON descreva uma circunferência que corta AB em D. igual a um quadrado ( c 2 ) a um segmento (a) de tal maneira que haja falta de um quadrado. o problema de resolver a equação ax-x2=b2 se transforma. Dado AB. x 2 . a qual é por sua vez igual à soma das áreas dos retângulos CLHD. em construir sobre um segmento de reta de comprimento a um retângulo cuja área menos a área de um quadrado seja igual à área de um quadrado dado (b2). então. tal que ON = CB = 1 a . na figura 6. em linguagem geométrica. DHMB e HGFM de b2. A equação se escreve então como ax − x = c . Vemos assim que temos um problema de aplicação de áreas elíptico. levante um segmento CO perpendicular a AB e de comprimento c. ax-x2 é igual à área do retângulo AKHD. Por C. Se chamarmos a soma das áreas de CLHD. AB=a e DB=x. Afirmamos que DB=x. a raiz da equação ax-x2=b ? Apresentamos a seguir a solução proposta pelo matemático escocês Robert Simson7. Mas como achar x. 1773]. inclusive o português [SIMSON. interpretado geometricamente. (respectivamente x − y ) e xy podemos achar x − y Suponha agora que. Então.

a qual foi traduzida um pouco depois para o português. Simson também apresenta uma solução para este problema em sua edição dos Elementos de Euclides. ao quadrado sobre a reta formada pela metade e pela reta adicionada8. 8 15 . a qual. o retângulo determinado pela linha reta e pela reta adicionada é igual. Assim.Se uma linha reta é dividida em duas partes iguais e se uma outra linha reta lhe é adicionada. 1773]: Se uma reta for dividida em duas partes iguais e em direitura com ela se puser outra reta. obtemos. que é igual à área do quadrado de lado OD. axx2=b2. 9 Compare com HEATH. o retângulo de lados AD e DB é um retângulo aplicado a um segmento dado (AB) mas que o excede por um quadrado (cujo lado é igual a BD).5. será o retângulo compreendido pela reta toda e mais a adjunta. por ordem do Marquês de Pombal [SIMSON. um dos tipos associados às aplicações de áreas hiperbólicas. Euclides mostra que Proposição II. como é fácil de ver. volume 2. Então. publicada em 1756. se x=DB. ax+x2=b2. Na linguagem geométrica das aplicações de áreas dos gregos.6 -. mais precisamente o tipo ax-x2=b2. a soma das áreas do retângulo de lados AD e DH e do quadrado de lado CD é igual à área do quadrado de lado CB. o retângulo de base AD e altura DB é igual ao quadrado de lado OC. 385-387. pelo teorema de Pitágoras. Na tradução de [SIMSON. O problema sugerido por este teorema é o de achar um retângulo deste tipo que seja igual a uma área dada. FIGURA 8 Neste caso. DB=x. trata-se de aplicar a um segmento um retângulo igual a um quadrado dado e que excede o segmento por um quadrado dado9. que corresponde às aplicações de áreas elípticas. pp. se lhe for adicionado o quadrado sobre a metade da reta. acabamos de resolver geometricamente um tipo de equação do 2º grau. igual ao quadrado da reta que se compõe da mesma metade e da outra reta adjunta. Analogamente ao que foi feito na Proposição II. prolongando-a.Com efeito. é igual à soma das áreas dos quadrados de lados OC e CD. ou seja. e pela mesma adjunta juntamente com o quadrado da metade da primeira reta. 1773]. Fazendo AB=a. e supondo que o quadrado dado tem área b2 . que suporemos ser um quadrado.

6 dos Elementos. a dois números dados. Agora. de achar dois números de maneira que seu produto e sua soma sejam iguais. pela Proposição II.C. ou seja. ao quadrado de lado CQ. o retângulo de lados AD e DB é igual ao quadrado de lado BQ. voltemo-nos para os resultados de Diofanto10 sobre o assunto. ou seja. após termos visto como os gregos sabiam resolver geometricamente equações do 2º grau. Foi “um estranho no ninho” na Matemática grega. CB2 ou [½(a)]2. 16 . segundo alguns autores. ou ainda aos quadrados de lados CB e BQ respectivamente. trace uma circunferência que corta o prolongamento de AB em D. mostrando procedimentos para a resolução de sistemas de equações. Trace a reta CQ. em torno de 250 d. já atacado pelos babilônios. x2-ax= área do retângulo de diagonal CQ + área do quadrado de diagonal QD + área do retângulo de lados QH e HM. achar x e y tais que x + y = b. é suficiente supor que AB=a e AD=x. 10 xy = a .FIGURA 9 Para acharmos as soluções da equação ax 2 + bx = b 2 . ax + x 2 = b 2 Observe que este procedimento de Simson também funciona para resolver a equação x 2 − ax = b 2 Para isso. seja AB=a e trace BQ perpendicular a AB e de comprimento igual a b. geométricos. Enquanto os matemáticos gregos clássicos seguiam modelos de argumentação rigorosos. Assim podemos encontrar D. que diferem da área procurada por CD2. ou seja. Com centro C e raio CQ. e portando AD ou x. Matemático grego que viveu. Assim. Então. Diofanto foge a este padrão da matemática grega. Para resolver esta equação. Ele resolve o problema. o retângulo de lados AD e DB mais o quadrado de lado CB é igual ao quadrado de lado CD. De fato. conhecemos b2. respectivamente. o que procurávamos. Dedicou-se ao estudo das equações e da teoria dos números. pela construção já dada. Sua solução é exatamente a dos babilônios. Afirmamos que BD é igual a x.

Conhecendo x+y e x-y calculam-se facilmente. s= q(p+1) p 2 +1 Então. 17 . x − y = b. x + y = b. Diofanto mostra como resolver x 2 − y 2 = a. y Então x = p. x+ y No último caso. temos que xy = 2 − s 2 = a . x2 + y2 p2s2 + s2 = =q x+ y ps + s s 2 (p 2 +1)=qs(p+1). mais uma vez. E obtemos imediatamente que s= q(p+1) p 2 +1 o que nos permite calcular x e y. uma equação do 2º grau bem simples. y x2 + y2 = q = 5. ele faz s=y. x2 + y 2 = q. Além disso. xy = a.Diofanto faz x− y b b = s . donde x = + s e y = − s . x = p = 3. x+ y x = ps. x+ y x = ps. x e y. 2 2 2 2 b Para calcular s. y x2 + y2 = q. A solução deste sistema é achada como segue: x = p. p2 s2 + s2 =q ps + s s 2 (p 2 +1)=qs(p+1).

Assim.Outras civilizações também estudaram a equação do 2º grau. encontramos um exemplo que em linguagem moderna seria escrito como x − y = d . x 2 + y 2 = s 2 . 11 18 . na China.C. de data incerta. no Nove capítulos da arte matemática11. Não nos deteremos aqui nas contribuições chinesas para a solução da equação do 2º grau. por se encontrarem em textos incompletos anteriores. Texto matemático chinês. Nele se encontram resultados que sabemos serem mais antigos. escrito provavelmente em torno de 200 a.

Eles registram conhecimentos matemáticos de idade desconhecida. e parecem terem sido escritos em torno de 600 a.). mas certamente bem anteriores. até 1600. 3 Matemático hindu que viveu em torno de 476 d. no manuscrito Bakshali. d e S: Os sulvasutras tratam dos conhecimentos teóricos necessários para a construção de altares. temos: m=a+ n −1 +p d 2 Então a soma desses termos é S = a p +1 + . a Matemática declinou no norte do sub-continente indiano e temos trabalhos sobre séries infinitas e sobre análise em Kerala. sem que sejam apresentadas soluções. e que se transmitiram oralmente durante muito tempo. que viveu entre 950 e 110.C. Após isso. + a p + n = nm . escritos provavelmente entre 800 a. Não confundir com o matemático conhecido com Ariabata II. região situada na extremidade sul do subcontinente indiano.C. em torno de 500 d..C. b 2 + 4ac − b 2a Ariabata I3. chega a uma equação do 2º grau a partir de um problema de progressões aritméticas. sob as formas ax 2 = c e ax 2 + bx = c . Eles são escritos em versos. Devemos mencionar também o manuscrito Bakshali2. é descrito um procedimento de solução que corresponde à fórmula moderna x= para a equação ax 2 + bx − c = 0 . Escreveu o Ariabatia (490 d. encontrado em 1881.C. próximo a uma aldeia indiana chamada Bakshali. 2 Manuscrito matemático.C.. e 500 a. Mais tarde. em péssimo estado. podemos obter n em função de a. Sejam a o primeiro termo e d a razão da progressão aritmética. Se m é o termo médio..OS HINDUS E A EQUAÇÃO DO 2º GRAU Vejamos agora as contribuições dos matemáticos hindus para o estudo da equação do 2º grau. Os primeiros registros de matemática na Índia se encontram nos vários Sulvasutras1.C. fonte importante para o conhecimento da Matemática hindu. 1 22 . e do qual trataremos mais tarde. O período clássico da matemática hindu se dá entre 400 e 1200 depois de Cristo. Consideremos os termos de (p+1) até (p+n). As equações do 2º grau surgem pela primeira vez na matemática hindu nos sulvasutras. Se p=0. Supõe-se que ele data do século VII d.C. respectivamente.

Para isso. Mas os procedimentos de cálculo descritos por Ariabata correspondem exatamente a esta fórmula. “completa os quadrados” explicitamente: (ax)2 + (ab) x + b 2 2 = ac + b 2 2 É interessante observar que. O matemático hindu Báskara II também mostra como resolver a equação ax 2 + bx = c . b e c positivos. 2 Bramagupta. frisamos que nosso simbolismo algébrico não estava disponível na época.S = n× a + n −1 d 2 2 S = (2an + n 2 − n)d = n 2 d + n(ad − d ) n 2 d + n(ad − d ) − 2 S = 0 n= −(a − 1) + d 2 (a − 1) 2 + 4 S 2 2d Mais uma vez. havia plena consciência de que números negativos não são quadrados. 1 ou 2. Ariabata I mostra também como achar x e y conhecendo xy e x-y: A expressão 4 xy + ( x − y ) 2 ± ( x − y ) nos dá x e y respectivamente. 23 . também ensina como resolver a equação ax2+bx=c. Seu procedimento corresponde exatamente à fórmula x= ou b ac + 2 x= a 2 4ac + b 2 − b 2a − b 2 . já nessa época. Bramagupta afirma que “o quadrado de negativo e de positivo é positivo e de 0 é 0”. com a. e de que o número de raízes de uma equação do 2º grau pode ser 0. que nasceu em 598 e morreu após 665. em um de seus trabalho ele multiplica ambos os membros da equação por a: (ax) 2 + (ab) x = ac Em seguida.

A solução x=5 é descartada porque Bramagupta e Báskara II mostram também como calcular os comprimentos p e q determinados sobre a hipotenusa pela altura h do triângulo retângulo ABC: p 2 + h2 = a 2 q 2 + h2 = b 2 . A tradução algébrica desta problema é x −3 5 2 +1 = x x − 3 seria então negativo. Qual o total de macacos? Este problema pode ser traduzido. brinca em um bosque. temos 24 . 64 cujas soluções são x=48 e x=16. Não há raiz quadrada de uma grandeza negativa. Além disso. elevada ao quadrado. pois ela não é uma grandeza. Assim.Báskara II afirma que O quadrado de uma grandeza positiva ou de uma grandeza negativa é positivo: e a raiz [quadrada] de uma grandeza positiva é dupla. 12 macacos podem ser vistos sobre uma colina. Era possível ver ainda um macaco. elevada ao quadrado se refugiou em uma caverna. Báskara II propõe o seguinte problema: A oitava parte de um bando de macacos. positiva e negativa. como x2 + 12 = x . em linguagem algébrica. 5 cujas soluções são 50 e 5. Báskara II propõe também o seguinte problema A quarta parte de um bando de macacos menos 3. Como exemplo de uma equação que tem duas raízes positivas. p 2 − q 2 = a 2 − b 2 . Como p+q=c.

q=-6 e Báskara afirma que “isso é negativo. como. Um outro significado menos freqüente é multiplicar ambos os lados de uma equação pelo mesmo número a fim de eliminar frações.a 2 − b 2 (a + b)(a − b) = c c 1 (a + b)(a − b) p = c+ 2 c p−q = q= 1 (a + b)(a − b) c− c 2 Se a=17. Segundo um de seus biógrafos árabes. Pouco se conhece da vida de Muhammad ben Musa al-Khowarizmi (780-850). Os árabes assimilaram a Matemática dos gregos e fizeram progressos em várias áreas. 25 . então [extraia] a raiz quadrada. gregos e hindus resolviam equações do 2º grau. al-Khowarizmi foi o primeiro matemático muçulmano a escrever sobre a “solução de problemas usando al-jabr e al-muqabala”. A primeira descrição da regra geral para achar as raízes da equação do 2º grau parece ser encontrada em um trabalho de Sridhara4. a fim de eliminar termos negativos. C. Báskara II e outros o citam. Veremos inicialmente as contribuições de al-Khowarizmi para a solução das equações do 2º grau. em trigonometria. b=10 e c=9. na direção oposta”. que não foi preservado. ou seja. 4 Viveu entre 850 e 950 d. O significado usual de jabr é adicionar termos iguais a ambos os membros de uma equação. adicione a ambos os lados uma quantidade igual ao quadrado do coeficiente da incógnita. como segue: Multiplique ambos os lados [da equação] por uma quantidade conhecida igual a quatro vezes o coeficiente do quadrado da incógnita. temos p=15. por exemplo. nas equações algébricas e em pesquisas sobre o quinto postulado de Euclides. Continuaremos agora nossa viagem examinando métodos de resolução da equação do 2º grau pelos árabes. Não são conhecidas as datas exatas de seu nascimento e de sua morte. OS ÁRABES E A EQUAÇÃO DO 2º GRAU Já mostramos como os babilônios.

é equivalente a trinta e nove? A solução é: tome a metade do número de raízes.Muqabala significa a redução de termos positivos por meio da subtração de quantidades iguais de ambos os membros da equação. ax 2 + c = bx e bx + c = ax 2 . a soma é sessenta e quatro. no Capítulo IV. O polígono EHDFGB tem área igual a x 2 + 10 x . Em seu livro Al-jabr we’l muqabala. al-Khowarizmi dá dadas regras para as resoluções de equações do primeiro e do segundo graus. Somando a esta área a 26 . Isso você multiplica por ele próprio. Isso é a raiz do quadrado que você procurava. Agora. Isso é equivalente a usar a fórmula bem conhecida b 2 2 +c − b b 2 + 4ac − b = 2 2 Essa solução é justificada geometricamente da seguinte maneira: Seja AB=x o lado do quadrado ABCD. o que neste exemplo é igual a cinco. o produto é vinte e cinco. ou seja. tome a raiz disso. O resultado é três. que é quatro. O significado literal da palavra significa comparar. ao contrário dos progressos iniciais anteriormente feitos por Diofanto no sentido de uma álgebra simbólica. ax 2 + bx = c 2 . Inicialmente al-Khowarizmi ensina como resolver as equações x2=5x. ou seja. Em sua obra são consideradas apenas raízes positivas. o quadrado é nove. que é oito e subtraia dela a metade do número de raízes. 2 x 2 + 10 x = 48 e 1 2 x + 5 x = 28 . de equações de um dos seguintes tipos. respectivamente. No entanto. 2 Al-Khowarizmi apresenta a equação x 2 + 10 x = 39 e sua solução como segue: Por exemplo: um quadrado e dez raízes do mesmo equivalem a 39 denares. nas quais os coeficientes são todos positivos. cujo título completo é O livro compendioso dos cálculos com al-jabr e al-muqabala. Adicione isso a trinta e nove. Sua álgebra é retórica. Outros capítulos tratam. 39. o matemático al-Karaji usa esta palavra no sentido de igualar. qual deve ser o quadrado que. quando aumentado de dez de suas próprias raízes. O primeiro dos três casos acima é exemplificado. x2 = 4x e 3 5 x 2 = 10 x . Prolonguemos BA e AD para obtermos AE=DF=5 e construa o quadrado EBGL. com as equações x 2 + 10 x = 39 .

FIGURA 10 No Capítulo V é tratado somente um exemplo. Coloquemos o retângulo GEFH sobre DC. Subtraindo disso 5. logo o retângulo é um quadrado. cuja área é igual a 64. No retângulo KHLJ. As duas raízes positivas. exemplificada com x 2 + 21 = 10 x . logo a área do quadrado 27 . Mas a área do quadrado AGLI é igual a 25.área do quadrado HDFL. As ilustrações abaixo (FIGURAS 11-A e 11-B) justificam a solução da equação x 2 + q = px . o “exercício é fútil” e que se x = p . cujo comprimento mede 10. e portanto no retângulo ABCD temos que AD=x. AI=AD+DI=x+5-x=5. KH=5-x. Assim. o da equação x 2 + 21 = 10 x . 7 e 3 são consideradas. 2 FIGURA 11-A O quadrado EBCF tem lado x. Esta equação é do tipo x 2 + q = px e al Khowarizmi afirma que quando solução. De x 2 + 21 = 10 x vemos que AADFE = AADHG + ADKJI = 21 . que é igual a 25. O lado deste quadrado é 8. Vemos assim que GE=5-x. existe então somente uma 2 p . A primeira figura ilustra geometricamente como encontrar a solução x < p . ou seja. que é x = p 2 2 < q . de maneira que GE=DI=5-x e DK=x. obtem-se o quadrado EBGL. Isso é uma conseqüência imediata do fato de que esta equação tem 2 p 2 2 soluções (reais) se e somente se p 2 − 4q ≥ 0 . como mostrado na figura. se q ≤ . obtemos a raiz 3. Seja G o ponto médio de AB.

exemplificado por 3 x + 4 = x 2 . BC=x-5 e CD=10-x. GM=BC=x-5 e MNFG é um quadrado. além disso. é resolvido no Capítulo VI e a solução é justificada pelas seguintes ilustrações 28 . vemos que ACDHI = (10 − x)( x ) = 10 x − x 2 = 21 . O caso das equações do tipo px + q = x 2 . temos enfim que 4 = ( x − 5) 2 e portanto x=7. x = 3. Isso equivale a utilizar nossa fórmula bem conhecida x= p p −s = − 2 2 p 2 2 −q p . AB=BD=5 e AK=x. Lembrando que x 2 + 21 = 10 x . FIGURA 11-B Construa o quadrado BDEG. AD=10. o ponto M tal que BM=10-x. Ora. sobre BG. Então. 2 A FIGURA 11-B ilustra a solução no caso em que x > Na figura.KHJL é 25-21=4. como IFEH e BCMN são congruentes. cujo lado será 5. 25 = 52 = ABDEG = ABCNM + AMNFG + ACDEF = = AFEHI + ACDEF + AMNFG = 21 + ( x − 5) 2 Assim. Marque. (5 − x)2 = 4. vemos imediatamente que 10 x = AADHK = AACIK + ACDHI = x 2 + 21 Mas. Observe então que FE=BM e IF=MN. (5 − x ) = 2. ou seja. Seja AK=AC=x. Assim.

e assim p s = 2 2 2 +q p 2 2 p p x=s+ = + 2 2 +q Os tipos de equações discutidos por al-Khowarizmi serão tratados por matemáticos árabes posteriores. Ele escreveu um pequeno tratado sobre a verificação de problemas de álgebra por demonstrações geométricas. com contribuições importantes em vários campos. que viveu de 836 a 901 e foi um grande cientista árabe. a figura hachurada tem área q. citemos também os trabalhos de Tabit ben Qurra. 29 . x 2 + b = ax e x 2 = ax + b . As demonstrações geométricas apresentadas refletem a influência de Euclides.1622) exatamente desta maneira ou de maneiras semelhantes. Por vezes os mesmos exemplos numéricos são usados. em que mostra como resolver as equações x 2 + mx = n . até Baha al-Din (1547.FIGURA 12-A FIGURA 12-B Divide-se o comprimento p ao meio e traçam-se os quadrados de lados p p e s = x− 2 2 respectivamente. Além das contribuições de al-Khowarizmi. Devido à congruência dos retângulos designados por O.

as fórmulas de solução são simplesmente dadas e justificadas por ilustrações. Embora não tenha feito contribuições originais e importantes sobre nosso assunto. Em seu livro Líber 5 Matemático árabe que viveu do fim do século X ao princípio do século XI em Bagdá. em particular por Luca Paccioli. ao tratar de x 2 + 21 = 10 x . uma solução do tipo de Diofanto para cada caso apresentado. o livro de álgebra de al-Khowarizmi foi traduzido para o latim por Gerard de Cremona (1114-1187) e por Robert de Chester (1145). x = 3 CONTRIBUIÇÕES POSTERIORES No século XII. Sua percepção de que algumas equações de graus superiores podem ser transformadas em equações do 2º grau tornou-se conhecida. temos que ( x − 5) 2 = 4 x − 5 = 2. é necessário proceder como abaixo: x 2 + 21 + 25 = 10 x + 25 x 2 + 21 + 25 − 21 = 10 x + 25 − 21 x 2 + 25 = 10 x + 4 x 2 + 25 − 10 x = 4 Assim. Como feito por al-Khowarizmi. como os árabes não trabalhavam com números negativos.O matemático Al-Karagi5 fornece. Além disso. além das provas geométricas. Seu trabalho foi traduzido pelo matemático italiano Platão de Tívoli. os conhecimentos árabes sobre a equação do 2º grau foram também introduzidos na Europa pelo livro Líber embadorum de Abraão bar Hija. que viveu de 1134 a 1145 em Barcelona e traduziu para o latim obras do árabe e do hebraico. conhecido no ocidente por Savasorda. conhecido também como Fibonacci. matemático judeu falecido em 1136 e que trabalhou em Barcelona. destaca-se por ter dado pessoalmente contribuições importantes em Matemática e difundido a Matemática árabe no ocidente. que viveu aproximadamente de 1170 a 1240. o nível da Matemática na Europa era muito baixo. Quando Fibonacci viveu. Leonardo de Pisa. x = 7 5 − x = 2. Ele procura sempre completar os quadrados. Então. No caso de x 2 + 10 x = 39 isso não apresenta dificuldades. os matemáticos árabes eram de longe melhores do que os matemáticos do Ocidente. É com ele que a matemática ocidental começa a progredir. 30 . superando os árabes. No entanto.

Benedetto de Florença. publicou em 1463 sua obra mais importante. Um matemático do século 15 muito pouco conhecido. essa equação era escrita Census et decem radicis equantur 39. Na época. ou seja. querendo referir-se a alKhowarizmi. a incógnita x era chamada de radix (raiz). de maneira semelhante à de al- Khowarizmi. Trattato di praticha d’arismetica. no qual mostra como resolver as equações x 2 = px x 2 + px = q x2 = q x 2 + q = px px = q x 2 = px + q As resoluções apresentadas são exatamente as de al-Khowarizmi. Assim. Maomé. mas ele é importante por divulgar no Ocidente as técnicas algébricas dos árabes. x 2 + 10 x = 39 e justifica geometricamente sua solução.Abbaci. ele resolve uma das equações que al-Khowarizmi já tinha tratado. seu quadrado quadratus ou census. No entanto. Benedetto de Florença não fez muitas contribuições originais para o estudo das equações do 2º grau. escrito em 1202. apresenta a resolução das seguintes equações: ax 2 = bc ax 2 = c bx = c ax 2 + bx = c ax 2 + c = bx ax 2 = bx + c Neste livro. citando “Maumeth”. e o termo constante numerus. ele acrescentou os seguintes tipos de equações aos já estudados por alKhowarizmi 31 .

e. Benedetto apresenta uma lista de 140 problemas numéricos tirados de um Trattato di praticha. em outros locais de suas obras ele realmente considerou números negativos. Some ou subtraía. os números negativos não tinham existência própria. 12 12 ` Além dos matemáticos que citamos. hoje perdido.. No entanto. foi reconhecido que permitir que os coeficientes de uma equação do 2º grau sejam negativos ou nulos tornava possível obter uma única forma padrão para todos os tipos de equações do 2º grau discutidos separadamente até então. substitua ( ± ) px por ( ± ) p . Michael Stifel (matemático alemão que viveu de 1487 a 1567. forme p 2 2 ± q ). Stifel dá uma regra geral para resolver uma equação do 2º grau. que morreu em torno de 1340. eram somente termos a serem subtraídos de um dos membros da equação. divida-o e substitua a raiz por sua metade. Foi primeiramente monge Augustino e depois pároco luterano) afirma isso explicitamente e reduz todas as equações do 2º grau à forma x 2 = ± px ± q O fato que Stifel afirma que x 2 = px + q e x 2 = − px + q só têm uma raiz. escrito pelo florentino Master Biaggio. p]. 32 . como pedido pelo sinal do membro (ou seja. entre elas a equação do 2º grau. Os outros são resolvidos por equações dos tipos estudados anteriormente por Benedetto no mesmo livro.x3 + px 2 = qx x 4 = px x 4 + px 2 = q x 4 + q = px 2 x 4 = px 2 + q x 4 + x 2 = 110 Em seu tratado. vários outros italianos deram contribuições para o estudo das equações algébricas. 2 Multiplique essa metade por ela mesma. Vinte e oito destes problemas são de Matemática comercial. e que x 2 = − px − q não é tratado. mostra que. guardando essa metade até que toda a operação tenha sido completada (ou seja. Um deles conduz à equação 1 1 x + (2 + ) x + 12 = x . Outro dá origem à equação x 4 + x 2 = 110 . para ele. independentemente de os coeficientes serem positivos ou negativos: Comece com a quantidade das raízes [i. No Ocidente.

33 . ou seja. como Stifel. AB . 1650). sobre o número de raízes de uma equação polinomial. extraia a raiz quadrada (ou seja. mas também constantes. 2 O matemático francês Viète (1540-1603) trata as equações do 2º grau aceitando os números negativos como quantidades que devem ser subtraídas. embora tenha nascido na França. Raízes negativas de equações do 2º grau foram reconhecidas somente aos poucos. Fez trabalhos fundamentais em filosofia e em matemática. ele representava as incógnitas por vogais e as constantes por consoantes. Albert Girard viveu de 1595 a 1632 e passou a maior parte de sua vida na Holanda.Da soma ou da diferença. ele publicou seu In artem analyticem isagoge. Entre outras contribuições. números negativos considerados como tais. em seu In artem analyticem isagoge.A2 = D 2 são tratadas por Viète8 em que mostra como resolvê-las seu 6 Effectionum geometricarum canônica recensio. números fictícios. revolucionou a matemática. Devemos a ele a primeira formulação do teorema fundamental da álgebra. livro extremamente importante para a história da álgebra. Ao contrário do que fazemos hoje. Viète foi o primeiro matemático a usar letras não somente para representar incógnitas. de 1591. Adicione ou subtraia o quadrado [ ( ± ) ( p 2 2 p ] como o sinal o exige 2 ±q ± p ). calcule p 2 2 ± q ). Somente com o importante teorema de Girard6 é que elas se impõem. Em 1591. As equações A2 + AB = D 2 . um dos apêndices ao seu Discours de la Méthode. Cardano lhes deu o mesmo nome. 1548-1620) é que se aceitam coeficientes verdadeiramente negativos em uma equação do 2º grau. mostrando como interrelacionar a álgebra e a geometria. Passemos agora a estudar a contribuição do matemático francês François Viète (15401603) para o estudo da resolução da equação do 2º grau. Somente com Stevin (matemático belga. como dizia Stifel. 8 Matemático francês que viveu de 1540 a 1603. Mas mesmo assim Descartes7 as chama de racines fausses (raízes falsas). 7 Filósofo e matemático francês (1596. os números negativos foram considerados Numeri ficti. Viète teve uma carreira bem sucedida como advogado e conselheiro real. Foi um dos criadores do que hoje se conhece como geometria analítica. Seu livro. Durante muito tempo. Stevin as chama de soluções sonhadas (solutions songées) mas afirma que ela são úteis para achar soluções verdadeiras de outras equações. La Géométrie. no Ocidente. A2 − AB = D 2 . introduziu o uso de letras para representar números. Viète e Harriot (matemático inglês que viveu de 1560 a 1621) não as aceitavam. Desempenhou papel extremamente importante no desenvolvimento da álgebra.

As soluções geométricas das três equações estão mostradas nas figuras a seguir FIGURA 13 A fim de deduzir a fórmula de Báskara. Viète procedeu como segue.geometricamente Lembremos que. obtemos ay 2 + a (− b 2 b ) + b(− ) + c = 0 2a 2a 4a 2 y 2 = b 2 − 4ac b 2 − 4ac y = 4a 2 2 y=± b 2 − 4ac 4a 2 x= −b ± b 2 − 4ac 2a Este resultado é exatamente a fórmula de Báskara. façamos x = y + z . Dada a equação ax 2 + bx + c = 0 . 34 . na notação de Viète. (2az + b) y : 2az + b = 0 z=− b 2a Substituindo este valor de z na equação. obtemos a ( y + z ) 2 + b( y + z ) = c = 0 ay 2 + (2az + b) y + az 2 + bz + c = 0 Achemos os valores de z para os quais esta equação em y não tenha o termo de primeiro grau. a incognita é A e que B e D são dados. Substituindo esse valor de x na equação.

1 2 ( az2 + bz2 + c)u 2 − 2 az1 z2 + b( z1 + z2 ) + c u + (az12 + bz1 + c ) = 0 . Em álgebra. utilizando 1 az1 z2 + b( z1 + z2 ) + c = 0 2 obtemos z1 = − Substituindo este valor. 3º e 4º grau. b Giulio Cesare Fagnano (1682. nasceu em família nobre. Deixou trabalhos importantes em geometria. vemos que 2c . mais complicada. 2 Fazendo z2 = 0 . Façamos x= z1 − uz2 1− u Substituindo este valor de x na equação. obtemos z − uz2 a 1 1− u 2 +b z1 − uz2 +c =0 1− u ou seja. 2 Esta equação em u tem o termo de primeiro grau nulo quando 1 az1 z2 + b( z1 + z2 ) + c = 0 . Fagnano9 em 1735. mostrou maneiras de resolver as equações do 2º. temos cu 2 = − az12 − bz1 − c Agora. 9 35 . particularmente a geometria do triângulo.C. 1766). para resolver algebricamente a equação do 2º grau foi proposta pelo matemático italiano G. conde de Fagnani.Outra maneira.

como fazia Descartes. devidas respectivamente a Descartes e a Steiner. 36 . Usando a regra dos sinais de Descartes. por fim. duas soluções geométricas para a equação do 2º grau. suporemos que a. as equações do 2º grau que podemos garantir terem raízes reais positivas são: x 2 + ax − b 2 = 0 x 2 − ax − b 2 = 0 x 2 − ax + b 2 = 0 A primeira e a segunda dessas equações têm sempre uma raiz real positiva. A terceira tem ambas as raízes reais se a2 − b 2 ≥ 0 . Podemos supor que a equação do 2º grau é da forma x 2 + ax + b = 0 . Como estamos tentando construir geometricamente 4 as raízes dessas equações. x e b representam comprimentos e escrevemos b2 para garantir a homogeneidade dos vários termos da equação.cu 2 = − a 4c 2 2bc + −c b2 b b 2 − 4ac b2 u2 = u± = b2 − 4ac b2 Como (lembre-se que fizemos z2 = 0 ) x= temos que z x= 1 = 1− u − 1 2c b = 2 b − 4ac b b2 − 2c b 2 − 4ac z1 − uz2 z = 1 1− u 1− u AS SOLUÇÕES GEOMÉTRICAS DE DESCARTES E DE STEINER Apresentaremos.

ou seja.No livro I de sua obra revolucionária La Géométrie. A fim de resolver a equação x 2 − ax + b 2 = 0 . FIGURA 15 Trace um segmento AB de comprimento a e seja O seu ponto médio. descreva a circunferência com raio OB. procedeu como segue. Considere um segmento AB de comprimento b e levante por B uma perpendicular a AB e escolha sobre ela um ponto O tal que OB tenha comprimento a/2. Fazendo AP = x . na mesma obra. Com centro em O. Então. Todos os outros segmentos terão suas medidas comparadas com ele. FIGURA 14 Em primeiro lugar. cuja medida será considerada como igual a 1. é necessário escolher um segmento unitário. AP=x-a e vemos que b 2 = x( x − a) = x 2 − ax . Pelo ponto B. Pela propriedade da potência de um ponto relativamente a uma circunferência. conseguimos achar a raiz procurada. x 2 + ax − b 2 = 0 e vemos que realmente construímos uma solução (real positiva) para a primeira das equações que apresentamos acima. Descartes apresenta a seguinte solução para achar a raiz real positiva da primeira equação. temos que AQ = x + a e assim b 2 = x( x + a) = x 2 + ax . Descartes. ou seja. Com centro em O e raio AO descreva uma semi-circunferência. levante uma perpendicular a AB e 37 . Para achar a solução real positiva da segunda das equações. temos que b 2 = AP AQ . é suficiente fazer AQ=x. ou seja. Sejam P e Q os pontos em que a reta definida por A e O intercepta a circunferência.

10 38 . Pelas propriedades métricas em um triângulo retângulo. cujas abcissas são. de uma equação do 2º grau da seguinte maneira. OY. Assim. Como a ≥ b (Por quê?). Essa é a única restrição que impomos aos coeficientes p e q. vemos que esta paralela intercepta a 2 circunferência pelo menos em um ponto. projete M e N sobre OX. x 2 − ax + b 2 = 0 . Por U. construiu geometricamente as soluções reais. FIGURA 16 Consideremos a equação x 2 + px + q = 0. Denote por x o comprimento de SB. Os triângulos semelhantes UMP e AMQ permitem escrever UP : QA = UM : MA Além disso. trace uma paralela a AB. escolha U tal que o comprimento OU seja igual a 1 e trace a circunferência de centro O. ou seja. positivas ou negativas. α e β . A partir de U. particularmente geometria projetiva. Tome um sistema de eixos cartesianos ortogonais e sobre o eixo vertical.escolha sobre ela o ponto P. respectivamente. b 2 = x(a − x ) . trace uma paralela ao eixo OX e tome sobre ela o ponto P tal que o comprimento orientado UP seja igual − cuja abcissa é igual a − q . p 1 e marque sobre OX o ponto Q p Sejam M e N os pontos de intersecção da reta definida por P e Q com a circunferência. Explorou muito bem a projeção estereográfica do plano sobre a esfera. tal que o segmento BP tenha comprimento igual a b. matemático suiço que viveu de 1796 a 186310 e que nos deixou importantes trabalhos sobre Geometria. temos que QS 2 = AS SB . com p ≠ 0 . Por P. sobre OY e cujo diâmetro é OU. o triângulo retângulo UAO nos permite escrever Steiner fez contribuições importantes em geometria. Seja Q um dos pontos de intersecção e S o pé da perpendicular baixada de Q sobre AB. Jacob Steiner. obtendo os pontos A e B respectivamente.

Podemos então escrever Étienne Bézout. Se denotarmos por µ a distância do centro C da circunferência à reta. E assim achamos as raízes da equação. 11 39 . Devemos a ele a introdução das matrizes. a equação admite pelo menos uma raiz real.UM : MA = OU 2 : OA2 Estas duas proporções nos permitem escrever − 1 q : ( + α ) = 1: α 2 p p Ou seja. Foi aluno de Jacobi e publicou pesquisas sobre funções algébricas e teoria dos invariantes. ou seja. e assim a reta intercepta a circunferência em pelo 4 Se p 2 − 4ac ≥ 0 . Com efeito. a equação da reta. como se pode verificar facilmente. entre outros assuntos. α 2 + pα + q = 0 . foi um dos gigantes da Matemática no século XVIII. e atualmente Kalingrad. é px + 1 + (1 − q )( y − 1) = 0 . apresentado primeiramente por Bézout11 e Euler12 e depois por Sylvester13 e Hesse14. Analogamente. análise e teoria dos números. temos µ2 = (q + 1) 2 (q + 1)2 = 4[ p 2 + (q − 1)2 ] 4[ p 2 − 4q + (q + 1) 2 ] 1 . viveu de 1730 a 1783. Consideremos a equação x 2 + px + q = 0 e façamos x = u + z . 12 Leonard Euler (1707-1783). francês. Outro método para achar as soluções da equação do 2º grau é o seguinte. x 3 = (u + z )x 2 . em álgebra. então Alemanha. suíço. o qual é por alguns historiadores da Matemática denominado o século de Euler. 13 James Joseph Sylvester (1814-1897) foi um matemático inglês que deu importantes contribuições à álgebra. 14 Otto Hesse (1811-1874) nasceu em Königsberg. Escreveu vários livros-texto muito difundidos e trabalhou. Fez contribuições fundamentais em geometria. segue-se que µ 2 ≤ menos um ponto. na Rússia. poderíamos obter β 2 + pβ + q = 0. É fácil ver que a reta PQ intercepta necessariamente a circunferência ou lhe é tangente. Então x 2 = (u + z )x . Seu teorema sobre o número de intersecções de duas curvas algébricas é fundamental.

vols I. o seguinte determinante tem que ser nulo: 1 0 1 p 1 -(u + z ) q -(u + z ) = 0 0 Desenvolvendo este determinante obtemos − p(u + z ) − (u + z )2 − q = 0 e portanto u 2 + (2z + p )u + ( z 2 + pz + q ) = 0 Fazendo 2z + p = 0 . obtemos u 2 = −( z 2 + pz + q ) = − − e assim u=± 1 2 p − 4q 2 p2 p2 + +q 22 2 do que decorre x=− p 1 2 ± p − 4q 2 2 A história da equação do 2º grau nos mostra como um tema de Matemática é retomado varias vezes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HEATH. Dover. – The thirteen books of Euclid’s elements. 2 3. ao longo dos séculos. 1956. Além disso. 40 . New York. Vimos como. as maneiras de resolver esta equação mudaram. muitos matemáticos se ocuparam com ela.x3 + 3 px 2 + 2 qx =0 =0 =0 x 2 − (u + z )x x − (u + z )x Para que este sistema tenha solução. até chegar à forma padrão que conhecemos hoje. Thomas L. mesmo após ter deixado de ser um desafio. pelo simples prazer de procurar novas maneiras para chegar às suas soluções.

Princeton. TRÖPFKE. Vollständig neu bearbeitet von Kurt Vogel. professor de Mathematica na Academia de Glasgow. no 2. 1985. – Geometery and algebra in ancient civilizations. New York: HarperCollins. adicionados e ilustrados por Roberto Simson. 4te Auflage. Jahresbericht der deutschen Mathematiker-Vereinigung. George Gheverghese. 1773. 1958. 26-47. – Science awakening I.non-european roots of mathematics.Elementos de Euclides dos seis primeiros livros do undécimo e duodécimo da versão latina de Frederico Comandino. Gronigen. 41 . – A History of algebra. Berlin: Walter de Gruyter: 1980. van der Waerden. 95119. – A History of mathematics – an introduction. 1934. 98-107. Holanda: Wolter Noordhoff. MACHADO. from al-Khowarizmi to Emmi Noether. in História e Educação Matemática. van der Waerden. Victor J. vol 43.JOSEPH.Selected topics of elementary mathematics. vol 2.The crest of the peacock. NJ: Princeton University Press. Johannes. New York: Dover. Jahresbericht der deutschen Mathematiker-Vereinigung. L. pp. Coimbra: Imprensa da Universidade. David Eugene – History of mathematics. TRÖPFKE. s/d. B. TRÖPFKE.119-166. 2000. van der Waerden. Helmut Gericke. L. 1934. 1983. Fernanda e outros. vol II. B.“Por que Báskhara?”.Geschichte der Elementarmathematik. vol 44. B. Johannes – Zur Geschichte der quadratischen Gleichungen über dreeinhalb Jahrtausend. New York: Springer Verlag. SMITH. Roberto. L. 1993. Karin Reich. KATZ. New York: Springer Verlag.Arithmetik und Algebra. Johannes – Zur Geschichte der quadratischen Gleichungen über dreeinhalb Jahrtausend. Band 1. jan/jun 2003.

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