Crónicas de Henrique Almeida Cayolla

Nº 70 – «ORGULHO PORTUGUÊS (7) – Pedro Nunes e o Nónio».
Nasceu em Alcácer do Sal, 1502 – Faleceu em Coimbra, em 1578. Foi um notável matemático português e um dos maiores vultos científicos do seu tempo. Contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da navegação teórica, tendo-se dedicado, entre outros, aos problemas matemáticos da cartografia. Foi ainda inventor de vários instrumentos de medida, incluindo o nónio (Nonius, o seu sobrenome em latim).

Biografia
A infância é pouco conhecida. Estudou na Universidade de Salamanca talvez de 1521 a 1522, e na Universidade de Lisboa, onde obteve a graduação em Medicina em 1525. No século XVI a Medicina recorria à Astrologia, vindo assim a dominar as disciplinas de Astronomia e Matemática. Posteriormente prosseguiu os seus estudos de Medicina, mas também leccionou várias disciplinas na Universidade de Lisboa, incluindo Moral, Filosofia, Lógica e Metafísica. Quando, em 1537, a universidade retornou para Coimbra, transferiu-se para lá, para leccionar Matemática, cargo que manteve até 1562. À época, esta era uma disciplina nova naquela instituição, tendo sido criada para fornecer as instruções técnicas necessárias para a navegação, que se tornara um tópico vital no país. A Matemática tornou-se uma disciplina independente em 1544,ano em que lhe foi confiada a cátedra dessa disciplina, a maior distinção que se podia conferir em Portugal, a um matemático. Em 1531, D. João III de Portugal encarregou-o da educação dos seus irmãos mais novos, Luís e Henrique. Foi também responsável pela educação do neto do rei (e futuro rei), Sebastião. Pedro Nunes viveu num período de transição, onde a ciência mudou de uma índole teórica (e onde o principal papel dos cientistas era comentar os trabalhos dos autores precedentes), para a provisão de dados experimentais, ambos como forma de informação e método de confirmar as teorias existentes. Nunes foi, acima de tudo, um dos últimos grandes comentadores, como mostra o seu primeiro trabalho publicado, mas também reconhecia a importância da experimentação. Nunes acreditava que o conhecimento científico devia ser partilhado. Assim, o seu trabalho original foi impresso em três línguas diferentes: Português, Latim – para atingir a comunidade académica Europeia –, e ainda um (Livro de algebra en arithmetica y

geometria) em Espanhol, surpreendente por alguns historiadores, dado que Espanha era então o principal adversário de Portugal no domínio dos mares. Muito do seu trabalho está relacionado com a navegação. Foi ele o primeiro a perceber porque é que um navio que mantivesse uma rota fixa não conseguiria navegar através de uma circunferência, o caminho mais curto entre dois pontos na terra, mas deveria antes seguir uma rota em espiral chamada loxodrómica. A posterior invenção dos logaritmos permitiram a Gottfried Leibniz estabelecer a equação algébrica para a loxodrómica. No seu Tratado em defensão da carta de marear , argumenta que uma carta náutica deveria ter circunferências paralelas e meridianos desenhados como linhas rectas. Ele também mostrava-se capaz de resolver todos os problemas que isto causava, uma situação que durou até Gerardo Mercator desenvolver a chamada "projecção de Mercator", sistema que é usado até hoje. É no mesmo "Tratado de Defensão da Carta de Marear" que Pedro Nunes exalta as navegações portuguesas: "E fizeram o Mar tão chão, que não há hoje quem ouse dizer que achasse novamente alguma pequena Ilha, alguns Baixos ou sequer algum Penedo, que por nossas navegações não seja já descoberto" Nunes debruçou-se sobre vários problemas práticos de navegação respeitantes à correcção da rota, ao mesmo tempo que tentava desenvolver métodos mais precisos para determinar a posição de um navio. Os seus métodos para determinar as latitudes e corrigir os desvios das agulhas magnéticas foram empregados com sucesso por D. João de Castro nas suas viagens a Goa e ao mar Vermelho. Ele criou o nónio para melhorar a precisão dos instrumentos. Pedro Nunes também trabalhou em diversos problemas mecânicos, de um ponto de vista matemático. Ele foi provavelmente o último grande matemático a fazer aperfeiçoamentos significativos ao sistema de Ptolomeu (um modelo geocêntrico), contudo isso perdeu importância devido ao novo modelo de Nicolau Copérnico, o heliocêntrico, que o substituiu. Nunes conheceu o trabalho de Copérnico, mas só lhe fez uma pequena referência nos seus trabalhos publicados, afirmando que era um matematicamente correcto. Ao fazer isto, aparentemente estaria a evitar opinar sobre a questão se seria a Terra ou o Sol o centro do sistema. Também resolveu o problema de encontrar o dia com o menor crepúsculo, para qualquer posição, bem como a sua duração. Este problema, per se, não teria grande importância, mas serve para demonstrar o génio de Nunes, usado mais de um século depois por Johann e Jakob Bernoulli com menos sucesso. Eles conseguiram encontrar a solução para o menor dia, mas não conseguiram determinar a sua duração, possivelmente porque perderam-se em detalhes de Cálculo Diferencial, que era um campo recente da matemática naquele tempo. Isto também mostra que Pedro Nunes

era um pioneiro na resolução de problemas de máximos e

mínimos, que só se popularizaram no século seguinte, com o uso do cálculo diferencial.

NÓNIO
O primeiro nónio foi um processo de medição inventado por Pedro Nunes. Quando aplicado num instrumento, possibilitava as medições com rigor de alguns minutos de grau, permitindo planear a navegação com uma margem de erro da ordem da dezena de quilómetros. Na França, o conceito foi modificado, por Pierre Vernier. Por causa disto, o nónio também é conhecido como Vernier. O nónio pode ser descrito como um par de escalas graduadas, geralmente em milímetros ou graus, que deslizam uma sobre a outra. Na segunda escala (que é o nónio propriamente dito) é possível ler uma fracção da medida da primeira escala. O nónio é usado em paquímetros e micrómetros para medidas precisas. Em um paquímetro típico, a escala principal é calibrada em milímetros, e o nónio permite realizar medidas com uma precisão máxima de 0,02mm.Nesse paquímetro, o nónio é a escala inferior, que desliza sobre a escala superior (principal). O traço do nónio que se alinhar perfeitamente com um dos traços da escala principal, dá a medida da fracção de unidade, que deve ser somada à medida inteira da escala principal.

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