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OS REIS TAUMATURGOS

o caráter

sobrenatural do poder régio França e Inglaterra
Prefácio: JACQUES LE GOFF

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Tradução: JúLIA MAINARDI

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I" reimpressão

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MPANHIA DAS LETRAS

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exerce seu domínio sobre o próprio espírito de seus súditos [. o empurrãozinho que chama para a vida uma instituição que. mas desde que não saia do geral. Hoje. na França e na Inglaterra e não em outro lugar. No entanto. alegase que certos reis vivam numa atmosfera carregada de uma espécie de eletricidade espiritual que. derivado de um movimento de pensamentos e dI sentimentos comuns a toda uma parte da Europa.pois não é exatamente o princípio de toda a "explicação" científica fazer um caso particular encaixar-se num fenômeno mais geral? Mas. 2 No pensamento de Montesquieu. mesmo fulminando os indiscretos que penetram seu círculo mágico. Em suma. na noite dos tempos. Parece que esse argumento poderia ser suficiente. de bom grado damos a ela seu sentido pleno. 3 Entendamos bem. exercem uma homeopatia dessa espécie. os antepassados desses soberanos haviam manejado essa faca de dois gumes. faltará entender as razões pelas quais o rito curativo.A hipótese de sir James Frazer adquiriria então mais força? Penso que não. com mais justiça ainda. incontestavelmente. "se alguém lhe provasse que. possui também. como já sabemos. tendo conduzido nossa pesquisa até tal ponto. não teremos ainda terminado nosso trabalho. o privilégio de conceder a saúde por simples contato. deixaríamos escapar justamente o particular. as causas profundas e. Pouco a pouco. os reis taumaturgos dos séculos XI e XII não precisaram rejeitar parte da herança ancestral porque nada de suas miraculosas virtudes vinha de um passado muito distante. folhear O ramo de ouro ou As origens mágicas da realeza? "Que teria dito Luís XIV". Salomon Reinach. ter-se-ia esquecido o aspecto temível do dom real e conservado apenas o lado benéfico. Entretanto. estava latente nos espíritos. aparentemente tão singular. ( ( A realeza sagrada nos primeiros séculos da Idade Média {' ( r:I ( ( A EVOLUÇÃO DA REALEZA SAGRADA: A SAGRAÇÃO r: ( ( r ( ( í ( ( ( ( ( ( problema que agora exige nossa atenção é duplo. mas ele imagina que outrora. tão grande é a força e o poder que tem sobre os espíritos". Sir James Frazer escreve: "Nas ilhas do Pacífico e em outras partes. Sim. por uma dupla razão. O milagre régio apresenta-se sobretudo como a expressão de certo conceito de poder político supremo. escreve o sr. Ela baseia-se no caso das ilhas Tonga. na Polinésia.. de outro. Suponhamos que o poder curativo dos príncipes normandos ou capetíngios tenha origens muito longínquas. ele seguia o exemplo de um chefe polinésio?"! E Montesquieu (sob a máscara do persa Usbeck) já falava do mesmo príncipe: "Esse rei é um grande mágico. Podemos conjeturar que os predecessores dos monarcas ingleses foram outrora o objeto de idéias análogas: a es- (' ( ( ( 2 AS ORIGENS DO PODER CURATIVO DOS REIS (. graças ao estudo dos povos selvagens. a ocasião. a palavra mágico era apenas uma expressão irônica. explicá-I o será correlacioná-lo ao conjunto de idéias e de crenças de que o milagre régio foi uma das manifestações mais características . que nos ensinaram a perceber entre certas concepções antigas sobre a natureza das coisas e as primeiras instituições políticas da humanidade vínculos por longo tempo ignorados. e porque o encontramos em estado especialmente puro nas sociedades que convencionamos chamar "primitivas". após havermos dito isso. de um lado. por uma feliz compensação. Mas talvez alguém pergunte: é verdadeiramente necessária uma longa investigação para descobrir as representações coletivas que estão na origem do toque das escrófulas? Não é óbvio que esse rito. parentesco com todo um sistema psicológico que. que teremos feito senão indicar aproximadamente o gênero de representações mentais para as quais é conveniente dirigir nossa pesquisa? A realidade histórica é menos simples e mais rica que semelhantes fórmulas. Dessê pônto de vista. não é suficiente percorrer os grandes compêndios levantados com tanto cuidado e talento por sir J ames Frazer. segundo se diz. onde certos chefes. ela poderia ter sido inscrita no frontispício das belas obras de sir James Frazer. temos. de que vale esse raciocínio por analogia? O método comparativo é extremamente fecundo. Usei como epígrafe essa pequena frase de Montesquieu. Sir James Frazer não pretende que no século XI ou no século XII os soberanos ingleses ou franceses tenham sido considerados capazes tanto de espalhar as escrófulas em torno de si quanto de curá-Ias. Parando aí. não pode servir para reconstituir os detalhes. Certas representações coletivas que afetam toda a vida social são encontradas (sempre similares pelo menos em suas linhas gerais) em grande número de povos. ] Chega até a fazê-los acreditar que os cura o crôfula provavelmente recebeu o nome mal do rei porque se acreditava que o toque de um reifosse suscetível tanto de infligi-Ia quanto de curá-Ia". tocando as escrófulas.\ ! ( f de todas as espécies de males tocando-os. Mas. o milagre das escrófuIas tem. parecem sintomáticas de determinados estágios de ( 68 69 ( ( . desde longa data. não foi nas sociedades medievais e modernas senão o último eco dessas crenças "primitivas" que hoje. surgiu em determinado momento e não em outro.. vamos descartá-I o por um instante. Mas. se pode qualificar de "primitivo": porque traz a marca de um pensamento ainda pouco evoluído e <todo mergulhado no irracional. a ciência conseguiu reconstituir? Para compreender o rito do toque.

dizia Pierre de Blois. Seriam ali de fato inexistentes? É provável que não. O estudo das tribos da Oceania esclarece a noção da realeza sagrada. Mas esses bárbaros. como diz Jordanes) na qual as pessoas viam. Em outro lugar. Dos chefes das antigas tribos de francos. mas desde que seu sucessor fosse escolhido dentre os membros da mesma dinastia. tornou possível a instauração do rito do toque. essas idéias e instituições são muito mal conhecidas. pelo menos. numa só noite quase toda a gente veio colocar-se a seu lado. um grupo que se separara da nação hérula estava estabelecido na região do Danúbio. antes de explicar a associação de idéias que muito naturalmente depreendeu daí. "Os gados". que haviam massacrado seu rei. mais que no talento militar deste ou daquele comandante. Estes são suficientes para assegurar-nos que a concepção de realeza entre os germânicos. não quiseram ver neles simples homens. o direito hereditário no interior da dinastia .sem dúvida. como tantos outros príncipes naqueles tempos de violência. estava impregnada de caráter religioso." Tácito já observava que. Portanto. tocamos um fundo de idéias e de instituições extremamente arcaicas. é o ungido do Senhor"]. os chefes são tanto fautores de moléstias quanto médicos: assim se traduz a força sobrenatural de que são detentores. o poder curativo dos que eram revestidos com esse caráter sagrado. na Europa antiga ou mesmo medieval. Evitemos cometer o erro inverso e não transportemos para Londres ou Paris os antípodas por inteiro. todas as espécies de concepções cristãs. a causa do sucesso dos chefes. Num arquipélago polinésio .por exemplo. Atalarico escrevia ao Senado romano: "Assim como aquele que nasce de vós é dito de origem senatorial. havia muito tempo. falava do "sangue dessa família. Por falta de uma literatura escrita. Decidiram mandar buscar um representante da família real na longínqua pátria de onde outrora partira a migração . ali. em autênticos herdeiros de Clóvis e dos descendentes deste. Enquanto isso. Os reis da França e da Inglaterra puderam tornar-se médicos milagrosos porque já eram. diz Procópio. Os reis normandos da Inglaterra reivindicaram a sucessão dos príncipes anglo-saxões. haviam pedido que o imperador o nomeasse. diz-nos Jordanes. procuremos retraçar em toda a sua complexidade o movimento de crenças e de sentimentos que. designado por causa apenas de seu valor individual." Os capetíngios sempre se arvoraram em autênticos herdeiros da dinastia carolíngia. tal como ela floresceu sob outros céus. muito forte.é o único exemplo invocado -. assassinado pelos próprios súditos. livremente escolhidos em razão de seu valor pessoal. Mas essas grandes idéias comuns a toda ou a quase toda humanidade evidentemente receberam aplicações diversas. ela servia para designar os deuses ou certas categorias destes. de acordo com os lugares e as circunstâncias. muitos acreditavam reencontrar nos "selvagens". "atribuindo suas vitórias à feliz influência que emanava de seus príncipes. misturando conceitos germânicos com um vocabulário ro=' mano. anglos ou saxões aos soberanos franceses ou ingleses do século XII. os embaixadores deram meia-volta e escolheram outro. embora ele fosse desconhecido por todos. semideuses. os hérulos. Não era lealdade a este ou àquele indivíduo: a primogenitura não existia. Entre os primeiros missionários. Conservamos várias genealogias régias anglo-saxãs: todas remontam a Wotan. Seu último descendente. e o mesmo príncipe. Chegou o dia em que esse ramo pereceu por inteiro. sem contrapartida desagradável. trazendo apenas benesses. pois apenas elas detinham essa ventura misteriosa (quasi fortuna. a da legitimidade dinástica. a filiação é direta e contínua.diante da qual toda a nobreza perde o brilho . deve-se primeiro olhar para as velhas realezas germânicas. a fim de justificar as virtudes taumatúrgicas de seu monarca. mais ou menos apagadas. como uma espécie de conclusão óbvia. cansados de esperar. tais representações coletivas não são confirmadas historicamente. Henrique n. variam com eles. colocaram na chefia um dos seus. provavelmente porque não ousavam elegê-Io eles mesmos. era mal fixado. No seio de outras sociedades. r ( r ( ( ( ( 70 71 J . "7 Reencontra-se a palavra Ases nas antigas línguas escandinavas. consagrado à púrpura't. O primeiro escolhido morreu durante a viagem. em determinadas famílias hereditariamente dotadas de uma virtude sagrada.'! Julgava-se que esses reis verdadeiramente divinos possuíam certo poder sobre a natureza." Os reis eram considerados seres divinos ou. de modo diverso do que acontecia no caso dos chefes temporários de guerra. assim também aquele que vem da familia dos descendentes de Amala . como entre todos os povos no mesmo estágio de civilização." Dessa fé na origem sobrenatural dos reis decorria um sentimento lealista. ( ( ( ( ( "- r ( (. quando o herdeiro legítimo chegou. os reis eram entre os germânicos escolhidos apenas em certas famílias nobres . deram-lhes o nome Ases.l \ ( civilização.? Essas estirpes predestinadas eram as únicas capazes de dar chefes verdadeiramente eficazes. decerto se referindo à península Escandinava. a mesma força pode ter-se manifestado de forma diferente . A idéia da legitimidade pessoal era fraca. a sociologia comparada permite reconstituíIas com muita verossimilhança. Infelizmente. conhecidas graças apenas a documentos relativamente recentes ou incompletos. Portanto. mas não poderíamos esperar encontrar na Europa todas as instituições da Oceania. e os carolíngios. Portanto. não se resignavam a ficar sem sangue régio. podia-se mudar o soberano. por meio delas. convém primeiro indicar de que modo o caráter sagrado da realeza veio a ser reconhecido. originados dos deuses. Conforme uma concepção que encontramos em outros povos (desenvolveu-se com uma força especial no seio das sociedades chinesas). toda a Germânia anterior ao cristianismo permanecerá para sempre irremediavelmente obscura. estava morto. um ramo da linhagem tradicional seguira-o e fornecia-lhe seus chefes. considerando-a um bem patrimonial. Não se pode entrever mais que alguns clarões. Mas."em Thule".é digno de reinar". personagens sagradas: "sanctus enim et christus Domini est" ["o rei e santo.'? No século VI. isto é. em dois países da Europa ocidental.

pelo menos entre o povo. não há nada de muito surpreendente em tal penúria. tão logo atingiam a idade adulta. Algumas vezes. a dinastia merovíngia afundou na impotência.. os exemplos dessa forma da magia régia que encontramos registrados nessas grandes coletâneas são bem pouco numerosos: ali. que atestaram ser muito antigo. Com sua inteligência habitual. ao menos pelas obscuras lembranças que seu antigo papel deixara nos espíritos. como esses figurantes de teatro que. Quando ele morreu. segundo o testemunho de Amiano Marcelino. continuou-se até o fim a atribuir-lhe valor mágico.mas sem que possamos saber se. filho de Haraldo. os reges criniti [reis de cabelos longos] eram outros Sansões. as velhas idéias não se esvaeceram de repente. como já mencionei. e o mesmo aconteceu com os merovíngios. por ser dotados de uma virtude divina. hostis àquele passado. O advento do cristianismo privou-a de seu apoio natural: o paganismo nacional. Segundo a lenda coligida no século XIII na Heimskringla [Esfera do mundo].l" Mestres dos anos de abundância. estendiam os reis germânicos seu poder também às doenças? A Heimskringla (que. fossem todos ou em sua maior parte curandeiros. mas de bom grado se rendia culto aos membros das famílias que se estava habituado a considerar sagradas. embora em escala menor. é necessário acreditar que a estirpe legítima conservava em seu decIínio uma espécie de prestígio. ou melhor. Durante um momento após as invasões. pois os reiscurandeiros parecem ter sido sempre e em todos os lugares bastante raros. encontraríamos muitos outros se nossos documentos não fossem todos de proveniência eclesiástica e. portanto. Uma revolução religiosa aplica um golpe terrível na antiga concepção de realeza sagrada. Entretanto. entretanto. na ausência de documentos. em vez de ser enterrado todo inteiro num só lugar.I\ ( tais monarcas eram considerados responsáveis pela ordem das coisas. fora "de todos os reis o que tivera mais sorte nas colheitas". O próprio Carlos Martelo acreditou-se forte o bastante para suprimir a realeza durante algum tempo. Guardadas as devidas proporções. ter-se desenvolvido mais facilmente nas sociedades em que a religião proibia atribuir aos reis uma influência sobre aqueles grandes fenômenos cósmicos que comandam a vida das nações. tocando as crianças e os cereais. é a impressão que as obras de sir James Frazer nos dão. na consciência popular. seu poder político foi até mais forte que nunca. 16 Na verdade. se não precisamente por sua natureza sagrada. pois "a posse do corpo" (ou de um de seus fragmentos) "pareciaaos que a obtinham uma esperança de boas colheitas" . Esse costume. chefes ualos do Senegal. pátria clássica da realeza sagrada. É verossímil que continuassem a viver. Muito mais que aliviar as misérias individuais. se nos ativer73 ( ( ( . o historiador romano convidou-nos a comparar esse costume às tradições do velho Egito. foi redigida apenas no século XIII. por conseguinte. nossos textos são demasiado pobres para permitir-nos afirmar que nenhuma tribo germânica jamais considerou seu rei um médico. tal como esta florescera entre os germânicos. e não dirigida para fins particulares.reduzidos pelos mordomos do palácio a uma existência totalmente representativa . os dinamarqueses ainda acreditavam que um príncipe virtuoso pode. mas não para usurpar o título real. fracassou miseravelmente. pelo menos oficialmente. e cada pedaço foi sepultado sob um montículo de terra em cada um dos quatro principais distritos do país. eles cessaram de ser tidos como personagens divinas. Isso talvez explique o porquê de o rito do toque. 13 Às vezes. Sem dúvida. longe disso. esses reis continuaram a reinar. passavam a usar cabelos curtos) decerto fora na origem um símbolo de ordem sobrenatural. O primeiro golpe de Estado tentado contra eles. girando sempre em torno dos mesmos montantes. mens livres. proporcionar aos homens uma boa progenitura e boas safras. Olavo. mas. O mesmo uso parece ter vigorado na Suécia pagã.12 No século XII. Em casos semelhantes. polinésios das ilhas Tonga reaparecem sem cessar. A força miraculosa atribuída aos reis pelos "primitivos" é geralmente concebida para fins coletivos destinados a obter o bem-estar do grupo como um todo. quando a colheita falhava. Sem dúvida. por mais de um século e meio. que reinou na Noruega nq começo do século XI. provavelmente. o Negro. durou tanto quanto os próprios merovíngios . será sempre tentador recorrer) nada nos obriga a admitir que na antiga Germânia os reis. o soberano norueguês Halfdan. na Islândia. é preferível manter a dúvida que a sábia prudência nos impõe. Não há dúvida de que esse fracasso e essa abstenção prudente explicam-se em parte pela rivalidade dos grandes. mais ou menos secretamente. era um santo do cristianismo.'? A partir de Dagoberto. Não que essas linhagens fossem particularmente fecundas em virtudes religiosas ou privadas. representam a imagem de um desfile militar. mas só em parte. comparou-se a situação dos descendentes de Clóvis . seu cadáver. os milagres que a saga islandesa lhe atribui são apenas o eco de um tema hagiográfico. foi cortado em quatro. Nossos textos permitem resgatar alguns vestígios dessas idéias. originariamente esses cabelos jamais cortados deviam ser considerados o próprio centro do poder maravilhoso que se reconhecia nos filhos da estirpe eleita. 17 A longa cabeleira que era o atributo tradicional da dinastia franca (todos os outros ho. simples fantoches. aliás. provavelmente. esse era o destino dos reis burgúndios. é provável que tanto os príncipes francos quanto os imperadores japoneses tenham sido protegidos durante longo tempo. Os reis subsistiram na qualidade apenas de chefes de Estado. seu papel é fazer a chuva cair ou assegurar a regularidade das colheitas. pelo padre Snorri Sturluson) atribui algumas curas ao rei Olavo. seria fácil encher páginas e páginas com os casos de chefes "fazedores de chuva" que os repertórios etnográficos fornecem. Pelo menos. o de Grimoaldo.ao que foi a vida dos micados junto aos xóguns no Japão antigo." Muitas personagens pertencentes às casas reais anglo-saxãs foram depois da morte veneradas como santos. do qual tratamos 72 ( ( ( ( ( ( ( aqui. depunha-se o rei. Deve-se também observar que na sociologia comparada (à qual.IS Mas Olavo. s.

Nos escritores do século IX.. A razão parece-me clara.-.. Jamais saberemos se a crença no caráter divino dos imperadores era forte o bastante para que a massa fosse levada a considerar verdadeiramente atuante o poder miraculoso desses soberanos. pagã em sua essência e interrompida por longo desuso. não pereceram inteiramente com ele. tornava inútil o novo rito. O culto imperial desapareceu na Gália ao mesmo tempo que a dominação romana. ! Jj: ~ . É verdade que Clóvis (segundo Gregório de Tours. mas num cerimonial jovem e autenticamente cristão. Alguns imperadores foram considerados taumaturgos: Vespasiano. rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo _31 episódio misterioso que os exegetas ainda têm dificuldade para explicar.. Já em Roma ele fora sendo progressivamente despojado de seu valor original: essas fórmulas de devoção haviam-se transformado em pouco mais que simples fórmulas de cortesia.. Foi a Bíblia o que enfim forneceu o meio de reintegrar na legalidade cristã a realeza sagrada das idades antigas. No tempo de Carlos Magno. cuja habilidade é indubitável. Antes de tudo. como evidente imitação dos costumes estrangeiros. era porque pensavam não no velho e desusado culto que outrora se exprimira com termos similares. provavelmente por brincadeira. proclamado imperador no Oriente. . nos reinos surgidos das invasões um grande número de reminiscências de origens diversas. Carlos Magno renovou o elo com a tradição romana. depois das invasões encontraram-se reinando num país profundamente romanizado a tradição do povo conquistado oferecia todos os esplendores da religião imperial. c ( r r ( r ( ( ( ( r ( c ( -. efetuou algumas curas (isso. tivessem maquinado essas manifestações milagrosas). um dia não se descuidou ao ponto de escrever: "os sagrados olhos" do ímperador+" Mas esse vocabulário (que aliás. os historiadores indagaram a si próprios de onde veio essa diferença entre as pompas monárquicas do Ocidente e as do Oriente. No entanto. Não podia renascer com ele a religião imperial. eles poderiam ter-se sentido mais livres que Clóvis: as conquistas de Justiniano. mas sabemos muito pouco da verdadeira influência que essa religião podia ter sobre as almas. Os bárbaros deixaram-no desaparecer.ê" Nessa época. lê-se de que modo Abrão recebeu o pão e o vinho das mãos de Melquisedec.24 Seus descendentes não insistiram no título. aliás. torna-se a falar dos sagrados imperadores. ainda viva na Roma do Leste. a religião imperial iria perdurar quase tanto quanto o Império. contavam que o papa untara o imperador franco "da cabeça aos pés".. elas indicam apenas uma familiaridade verbal com os textos latinos." O próprio Hincmar.P Do mesmo modo. reintroduzindo no Ocidente as armas "romanas". do sagrado palàcío. não deixou de reprovar a esses imperadores a soberba.. foi em Alexandria. os bizantinos divertiam-se zombando desse gesto que não entendiam. Sem dúvida. A religião imperial. do mui sagrado Augusto. ou por um resquício de respeito ou por indiferença. por outro lado. eles evitaram. Em Bizâncio. Os soberanos do Ocidente haviam-se tornado oficialmente sagrados graças a uma nova instituição: a consagração eclesiástica e. Se às vezes os contemporâneos dos primeiros imperadores francos davam sentido pleno a essas palavras de aparência antiga. Em suma. não tocara na essência das coisas. O Império ressuscitou. cujo testemunho não me parece que deva ser rejeitado). do alto de sua ortodoxia.ê" Aos soberanos germânicos que. ela só muito mais tarde é introduzida. tinham induzido os reis francos a livrar-se definitivamente de qualquer dependência para com os antigos senhores do mundo. 30 Algumas vezes. os imperadores não haviam cessado de qualificar-se de divinos. porém. eram regradas apenas por um costume bastante variável.22 Esses exemplos são isolados. a Bíblia ofereceu comparações úteis. dizia-se que Adriano curara um cego. porém. o cristianismo também passara por ali.. puros leigos. Carlos Magno. por uma espécie de usurpação. Em Bizâncio. tão preocupado em negar aos soberanos temporais todo caráter sacerdotal. num meio carregado de esperanças messiânicas. Em Bizâncio. Nenhuma impressão religiosa particular vinha marcar a fronte do soberano. em relação ao Augusto das margens do Bósforo. a unção surge nos reinos bárbaros nos séculos VII e VIII. reapareceram algumas expressões mais inofensivas. suspeitou-se de que os sacerdotes do Serapeu. No máximo. cujas solenidades. mas nenhuma instituição regular corporificava esse sentimento vago. copiadas da linguagem obsequiosa do Baixo Império. reproduzir a intitulação antiga. a unção. ou aquele de seus conselheiros que redigiu em nome do soberano franco o prefácio dos Libri Carolini [Livros carolíngios]." Conhecemos suas pompas oficiais. chamar AugustO. haviam consentido em aceitar a supremacia imprecisa de um imperador distante. embora aceitando uma magistratura das mãos do soberano de Bizâncio. mais particularmente. Mas não podemos duvidar de que a religião imperial constituiu um maravilhoso instrumento de governo. fossem germânicas fossem romano-orientais. até o século VlII os reis francos ou ingleses eram apenas cristãos como os outros e. Como veremos. mantinha em torno da realeza uma atmosfera de veneração quase religiosa. os merovíngios não se arvoraram em sucessores do Império. embora pouco a pouco tivesse modificado algumas fórmulas.l Mais tarde. se assim se pode dizer. seu rito fundamental. Os primeiros comentadores livraram-se do embaraço atribuindo-lhe 74 75 ( . como os merovíngios. pode-se supor que os hábitos de pensamento que tal culto mantivera. tão rica em termos que evocavam o caráter sagrado do príncipe.P Mas foi um império totalmente cristão. não sobreviveu à era carolíngiaj-? não deve iludir-nos. Nenhuma cerimônia eclesiástica consagrava a elevação ao trono. que traziam seu nome). ( ( ( ( ( \' r r c ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( mos às aparências oficiais.. No capítulo 14 do Gênesis. terra havia milênios habituada a venerar seus chefes como se estes fossem deuses. certa tendência a confundir as categorias do político e do divino. mas não queriam permanecer ligados por um vínculo de sujeição (por mais vago que este fosse) a um vizinho muito próximo e muito ameaçador. Todavia. pelo menos na França. mesmo afirmando sua autonomia (sobretudo mediante a cunhagem de moedas. fizera-se. até então. mas. ademais.

Mais tarde. Na época merovíngia. Pouco depois. o diadema. os dois gestos tornaram-se quase inseparáveis. endereçou lá pelo ano 1500 a. o rei do Egito. a tira de tecido adornada com pérolas e pedras preciosas que fora usada por Constantino e seus sucessores imediatos. Desde muito cedo. recebeu do papa Estevão IV tanto a benção com óleo quanto a coroa. Os filhos de Israel também a praticavam. Em 751. teu avô. Seu caráter sobrenatural era por muitos povos marcado com uma cerimônia de sentido bastante claro: quando o soberano ascendia ao trono. justificado pela Bíblia. Carlos Martelo. 76 Os merovíngios jamais haviam sido ungidos reis. já se invocava o exemplo do rei de Salém. ao contrário. concluiu a obra da religião". ( r. em Reims. No tempo da grande Querela do Sacerdócio e do Império. mais particularmente nos países de rito galicano: Espanha. ao faraó Amenófis IV para lembrar-lhe o dia em que "Manahbiria. ( ( ( ( ( í' ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( . o rito generalizou-se em quase toda a Europa ocidental. Depois. como diz o sacramentário carolíngio de Saint-Amandêê . a coroa não tinha mais nenhum outro caráter sagrado além daquele que advinha das mãos que a entregavam ao príncipe (em Bizâncio as do patriarca. como teremos ocasião de ver. devia ocorrer naturalmente aos espíritos. A nova dinastia. provavelmente à monarquia persa). em torno da cabeça dos soberanos bizantinos. rei em Nouhassché e derramou-lhe o óleo sobre a cabeça". Carlos Magno não o foi ao tornar-se imperador. os antigos reis jamais haviam cessado de parecer personagens muito superiores ao resto do povo.ê" A nova instituição tomou forma primeiro no reino visigótico da Espanha." Foi-assim que Pepino se tornou o primeiro dos reis da França a receber a unção das mãos dos sacerdotes. Tinha lugar de primeira ordem no cerimonial hebraico. Gália. plenamente cristão.P A idéia de retomar em sua totalidade os velhos costumes israelitas. Esse sacerdote-rei fazia remontar a um passado prestigioso o ideal dos que reconheciam nos monarcas um caráter sobrehumano. as leis mosaicas penetravam a disciplina eclesíástica." Nessa aplicação geral. mas aos olhos de um cristão.s .esteve na moda. Itália setentrional. fez de Taku. em Roma as do papa) e do ritual eclesiástico de que então se cercava o prelado. é como o vemos figurado em tantas catedrais.. ele sentiu a necessidade de disfarçar sua usurpação com uma espécie de prestígio religioso. Anteriormente ungido ao ser feito rei. Pepino (assumindo o risco que seu pai. a unção régia surgiu no século VII. Mas tal aparição enigmática devia instigar também os apologistas da realeza. sobretudo no Ocidente. servindo principalmente para a confirmação dos catecúmenos e a ordenação dos padres e dos bispos. No velho mundo oriental. Grã-Bretanha.. Era provavelmente um círculo de ouro.. a mesma prática foi implantada também na Inglaterra. 33 Mas o Antigo Testamento não era só uma fonte de símbolos. a unção teve importante papel no ritual do novo culto. Mas vale a pena recordar que Clóvis tampouco o fora: a única unção que recebeu foi a que o rito galicano impunha aos catecúmenos. pois entre eles o Antigo Testamento estava em voga. Aí pelo fim do século VIII.C. Aos olhos dos súditos. A 25 de dezembro de 800. Fortunato dizia sobre Childeberto: "Nosso Melquisedec. constituía o processo normal para transferir da categoria do profano para a categoria do sagrado um homem ou um objeto.pois foi dessas antigas civilizações da Síria e de Canaã (as quais a leitura da Bíblia tornou tão estranhamente familiares aos cristãos dos séculos VII e VIII) que nos veio a unção régia. "É manifesto". Ao mesmo tempo. As tabuinhas de TeU el-Amarna conservaram a carta que um dinasta da Síria. ao proclamá-Ia imperador. No dia em que fizermos a compilação dos documentos que ainda nos faltam sobre a sagração de nossos reis. durante os séculos XI e XII. entre eles (assim como provavelmente entre seus vizinhos) a unão não era exclusiva dos reis. Aliás. os reis decerto eram considerados personagens sagradas. onde desde o desaparecimento do arianismo a Igreja e a dinastia viviam uma união especialmente íntima. "que pela unção a Divina Providência elevou-nos ao trono. A partir daí.\ ( sentido simbólico: Melquisedec é uma representação do Cristo. porém. na época de Carlos Magno. fornecia o modelo de uma instituição muito concreta. seu filho Luís. os cristãos tomaram-na emprestada à Antiga Lei.s.. Melquisedec . certas partes de seu corpo eram ungidas com um óleo previamente santificado. haviam em sua origem possuído uma virtude religiosa. meu avô. Todos os teólogos na Gália estavam preparados para aceitar essa ressurreição de uma prática judaica. Para consagrar um 77 . a vaga auréola mística que os envolvia devia-se unicamente ao domínio exercido sobre a consciência coletiva por obscuras reminiscências vindas dos tempos pagãos. veio a vez do Estado franco. adota dos pelos imperadores por imitação às monarquias orientais (no caso do diadema. o Pio. a lenda fez da cerimônia realizada em Reims por s. era uma estirpe autenticamente santa e iria afirmar sua consagração com um ato formal. provavelmente emulando o que acabava de acontecer no país franco. não ousara encarar) resolveu mandar para o convento os últimos descendentes de Clóvis e tomar para si tanto o poder quanto as honras reais. similar ao que havia vários séculos substituía. no entanto. Não podemos duvidar de que coroa e diadema. Remígio a primeira sagração régia. à semelhança dos monarcas hebreus. em parte como conseqüência das influências irlandesas. ( (. na verdade. [que se denomina] a justo título rei e sacerdote leigo. diz altivamente num de seus decretos. Melquisedec. Mas em 816. o papa Leão III colocara uma "coroa" sobre a cabeça de Carlos Magno.38 Seus sucessores não deixaram de seguir-lhe o exemplo. ali. de passar da unção dos catecúmenos ou dos sacerdotes à unção régia. então. na basílica de São Pedro. unia-se a ele outro rito/de origem diversa. a transcrição desse venerável pedaço de argila poderá figurar no frontispício da obra . foi apenas um simples batismo. Adu Nirari. o exemplo de Davi e de Salomão permitia restituir cristãmente aos reis seu caráter sagrado.

ê? Portanto. Pedro o autor de uma vida de santo) "sem a benção . se não inventou. Por isso. menos de cem anos depois da primeira unção franca. que deveis a dignidade régia". escrevia ele em 868 a CarIos. Muito pouco tempo depois de CarIos Magno. os reis haviam-se tornado. então pelo menos adaptou engenhosamente uma lenda. isso só ficaria visível algumas centenas de anos mais tarde. em meu ungido". Vejam Hincmar de Reims. ] e te faça rei pela unção dada com o óleo da graça do Espírito Santo. entre todos os monarcas de seu tempo e de sua estirpe. por uma curiosa coincidência. o Concílio de Chelsea (no decurso do qual. antigos. Que motivos levam esse homem. Sem dificuldade. Como teremos oportunidade de mostrar mais adiante. Que essa idéia tinha tom de doutrina oficial é o que nos mostrará. dali em diante. ] nós te pedimos. e desde o século IX na Inglaterra. para isso. a novidade foi dar-Ihes um papel nas pompas religiosas da elevação ao trono. dos pontífices" . Essa cerimônia tinha atrás de si um passado bem curto. em geral.. parece que o rito contribuiu para. a unção. o Calvo.43 O novo rito era uma faca de dois gumes. a entrega das insígnias. teu servo. defendidos contra as violências dos maus pelo preceito divino.. verificaremos que se tentou reunir ali tudo o que podia favorecer a confusão entre os dois ritos quase idênticos que davam acesso. em certos meios eclesiásticos. era necessário cumprir ambos. muito mais que a vosso poder terrestre. \ ( c ( ( ( ( imperador. Pai Todo79 ( ( . Provavelmente. dizem: "a dignidade dos pontífices é superior à dos reis porque os reis são sagrados pelos pontífices. sobretudo.. e que mais tarde. Além disso. proteção decerto bastante ilusória. provavelmente mais recente. uma tradição já estabelecida impôs-lhe sem dúvida o emprego das seguintes palavras: "Que Deus te coroe com a coroa da glória [. melhor que qualquer outro documento. por um momento o 'oficiante que ministrava a unção parecia superior ao monarca que devotamente a recebia. eles não partilhavam com os sacerdotes e com os bispos esse privilégio? Entretanto. o mesmo se verifica nos mais velhos textos litúrgicos ingleses. No decorrer da cerimônia. a ter tanto interesse por esses gestos litúrgicos? A fim de entender-as razões de sua atitude. o arcebispo de Reims. ( ( ( ( { r r (. o medo de uma interpretação desse tipo foi o que.. diz um ritual muito antigo. na França. "ungidos do Senhor". poderia ser a um só tempo sacerdote e rei. Esses emblemas eram. Não obstante. logo de início. Sob CarIos."\ . em parte a solenidade foi sempre dúplice: de um lado. aparece pela primeira vez na história quando Carlos. "Não tocai em meu Cristo. tu que pela unção com o óleo consagraste sacerdote Aarão. Portanto. contemporâneo dos primeiros tempos da dinastia carolíngia. quando se abriu o grande debate gregoriano. a antiga liturgia da sagração. [. a recusar a unção e a coroa que o arcebispo de Mainz lhe propunha e a reinar (como lhe reprova pela boca do apóstolo s. segundo a expressão bíblica. os reis e os profetas. 42 Não se poderia ser mais claro. "é a essa benção. sejam quais forem seus títulos "terrestres" ao trono. os reis. Desde o tempo de Carlos. '1 ( ( ( (. já aparece o cetro. entre as quais a coroa permanecerá a essencial. O óleo santo elevava os soberanos a muito acima da multidão. Em torno dos dois ritos fundamentais. pela aplicação desse mesmo ungüento. Ninguém deu maior valor à sagração régia.. que continuou até o fim a ser o ato santificador por excelência. o qual ungiu os reis e os profetas". não sabemos quando foi composta. é o próprio Hincmar quem faz o gesto consagrador. a julgar pela história daqueles tempos agitados. ao sacerdócio e. É claro que. E o velho cerimonial anglo-saxão: "6 Deus [. os profetas e os mártires". Folheemos por um momento esses velhos textos. um dos mais capazes de grandes projetos. vê-se o rei ser ungido e coroado. que presidia a assembléia. Assim nasceu a sagração. também para consagrar um rei.44 Mas sua própria insistência prova o quanto a idéia que o arcebispo combatia expandira-se em torno dele. segundo toda a probabilidade. o outro. Já em 787. podia-se pensar que seria necessário um sacerdote para fazer um rei . ato episcopal e espiritual". o Calvo." mas talvez os príncipes dessem ao mandamento bíblico mais valor do que imaginaríamos hoje. o Calvo. confirmar no espírito das pessoas (exceção feita a alguns teóricos eclesiásticos) a noção do caráter sagrado dos reis. um. ao lado da coroa. repleta de violências. foi a Antiga Lei o que forneceu as fórmulas necessárias: "Que tuas mãos sejam ungidas com o óleo santificado.. pois o próprio Deus disse "Nolite tangere Christum meum". com este óleo com que Ele ungiu os sacerdotes. redigidos por Hincmar.'? Por este. Hincmar soube encontrar para ela um precedente ilustre e miraculoso. constitui para reinar sobre o povo israelita os sacerdotes. levou o rei Henrique I da Alemanha a ser o único. no século seguinte. Uma prece. à realeza. ao passo que os pontífices não podem ser consagrados pelos reis". o Calvo. Muito depressa. certos espíritos penetrantes depreenderam bastante bem os perigos com que semelhante confusão entre uma dignidade essencialmente temporal e o sacerdócio podia ameaçar a Igreja e até o cristianismo. ]. é suficiente comparar duas passagens de suas obras: "É à unção. foi coroado rei da Lorena. os atos do Concílio de Sainte-Macre. desenvolve e fixa o mesmo pensamento. havia o reverso da medalha. em breve. Também aqui reencontramos Hincmar. em sua maior parte. sem consagração não há verdadeiro rei. idéias similares já eram defendidas por alguns prelados. naquele dia. Durante os dois ou três primeiros séculos. desenvolveu-se rapidamente em todos os países um amplo cerimonial. depois da vinda de Cristo. vinha de acontecer a primeira unção régia que a Inglaterra conheceu) relembrava tal preceíto. do outro. Este não se cansa de repetir que nenhum homem. os inimigos da realeza pareciam transformados em sacrílegos. essa idéia já estava 78 presente.sinal evidente da preeminência do espiritual sobre o secular. Melhor dizendo: de seu caráter mais que semisacerdotal. e talvez o desejo de beneficiar-se dessas palavras do Livro Sagrado tenha levado mais de um entre eles a procurar a consagração oferecida pela Igreja. multiplicaram-se as insígnias régias que eram entregues ao novo soberano.

" Já vimos como Pierre de Blois fazia a "santidade" dos reis decorrer da unção. "mox quipe sacerdos ipse futurus Chartres. a qual tinha Jesus Cristo como filho apenas adotivo de Deus. eram perseguidos como promotores desses males. a respeito dos quais teremos uma palavra para dizer mais tarde. não renegaram essa tradição carolíngia. nos belos dias do Estado carolíngio. mais explicitamente do que até então se fizera. a grande sombra de Aarão. (N. evocava-se não apenas a imagem do rei dos judeus mas também a dos sacerdotes e dos profetas."( poderoso. que a conta. pois ninguém tinha noção exata das leis naturais. quanto a isso. 1 I I I ( I I ( I era!" . . Conservamos algumas cartas endereça das a Roberto. ficaram definitivamente marcadas pelo sinal divino. carregados de eflúvios sagrados. o Pio. Berengário do Friul. um 81 ( 80 ( ( ( . Fulbert. 48 Malgrado tudo o que depois pudessem dizer todos os Hincmar do mundo. que se situa esta instrutiva historieta (o serrnonário Jacques de Vitry. Basta saber que. tal qual os feiticeiros. À primeira vista. todo um partido dedicou-se a comparar a dignidade régia ao sacerdócio. as monarquias da Europa ocidental. eram às vezes venerados e às vezes odiados. no dia de sua sagração. por que olhar para tão longe na direção norte? É na França. não havia um abismo intransponível entre o mundo em que viviam e o mundo maravilhoso para o qual os ritos cristãos abriam a porta. um dos mais respeitados prelados de seu tempo. portanto. ( (I í ( r ( ( ( ( Tanto mais que os dirigentes do clero nem sempre haviam falado a linguagem de Hincmar. as pessoas benziam-se ao encontrá-I os no caminho porque tal encontro era tido como mau presságio. quando a ocasião se apresentava. essa declaração teológica terminava com um apelo ao soberano. protetor da fé. não podia encontrar nada de muito surpreendente.46 I (. se se pode dizer. não nos interessam agora. T. ou pelo menos a imensa maioria deles. Assim.P Aliás. desde que. É isso que os textos nos mostram de modo inequívoco. Ali. o santo quisesse manifestar-se. . O bispo não teme dar ao rei os títulos "santo padre" e "santidade". esse tom não seria sido admissível. entre a dignidade régia e a presbiteral. por meio desta gordura tomada de uma de tuas criaturas. Portanto. sob a Nova Lei. régia e sacerdotal". um tecido colocado sobre o altar de um grande santo (Pedra ou Martinho) tornava-se mais pesado. os atos. semelhantes expressões jamais foram esquecidas. os bispos da Itália setentrional presentes ao Sínodo de Frankfurt publicaram uma defesa da doutrina ortodoxa contra os adotionistas" espanhóis. eram considerados responsáveis por intempéries e por contágios. querendo adular Carlos e Carlomano. os monarcas-continuaram a ser considerados seres sagrados. A França capetíngia e a Inglaterra normanda. já herdeiras de longo passado de veneração. nessa qualidade. fundador do sacerdócio hebraico. Em 794. o próprio papa Estevão III. Mas Pierre de Blois ia mais longe. os quais os católicos hoje reservam para o chefe supremo de sua Igreja. não se fazia dessa energia uma imagem tão concreta que às vezes se chegava até a representá-Ia pesada? Conforme nos diz Gregório de Tours.45 Vê-se que diante dos soberanos ingleses ou francos. 50 Os padres. é claro. Isso iria perpetuar-se. ( .) o PODER I CURATIVO DO SAGRADO I I I Os homens da Idade Média. tão duramente que Gregório VII precisou protestar. a idéia de intervenções dessa ordem não chocava ninguém. Em alguns lugares. Carlos Magno era tratado não apenas de "senhor e pai" e de "mui prudente governador de todos os cristãos" mas também de "rei e sacerdote" Y Alguns anos antes. trata-se de uma dedução singular. no século XI. no século XII. meu monarca pode curar os doentes. eram por muita gente considerados uma espécie de mágicos. mas que importância tem isso?). os dois universos penetravam-se mutuamente. como imaginar que sua ação não se estendia também a este mundo? Certamente. mesmo independentemente de qualquer assimilação precisa entre a realeza e o sacerdócio. a crescente fraqueza da dinastia convidava os prelados a assumir o papel de mentores dos reis. extremamente terra-a-terra. Afinal. Ele dizia mais ou menos isto: meu monarca é uma personagem sagrada. teu escravo aqui presente e que lhe permitas imitar diligentemente os exemplos de Aarão" . Na época em que este definia com tanta nitidez a incompatibilidade. dos quais precisava. Como surpreender-se de que um poeta da época celebrando a sagração de um imperador (aliás. para fazê-Ia cessar. provavelmente no século XIII. um imperador bastante insignificante. que condescendas em santificar com tua benção. Pedro uma expressão que o apóstolo aplicava aos eleitos e de alterar-lhe um pouco o sentido original para homenagear a dinastia franca: "sois a raça santa. não se poderia duvidar de que a maior parte de seus contemporâneos pensava como ele. Mas veremos que nela uma mente de capacidade normal. pelo bispo de (*) Seita do século VIII. grassava uma epidemia. os camponeses não imaginaram nada melhor que sacrificar seu cura. tanto na França quanto na Inglaterra. alegava conhecêIa de "fonte segura"): numa aldeia. Muito pelo contrário: no século XI. assim como a Alemanha dos imperadores saxões ou sálios. não se furtou a buscar na Primeira Epístola de s. os objetos ou os indivíduos sagrados eram imaginados não apenas reservatórios de forças aptas a atuar no outro mundo mas também fontes de energia suscetíveis de influência imediata sobre a vida cá na terra. houvesse ousado dizer de seu herói. se um gesto agia no além. no momento em que o mostra avançar em direção à igreja onde se desenvolverá a cerimônia: "em breve ele seria sacerdote". Como poderia ser de outra forma? A seus olhos. os padres. 51 No reino da Dinamarca. Esses esforços. tinham das coisas da religião uma imagem muito material e.

As considerações gerais que acabam de ser expostas não são suficientes para esclarecer por que o rito do toque apareceu na França e na Inglaterra. para imaginar e. Sobretudo para os males do corpo. habituado a considerar a eleição a única fonte canônica do 83 ( ( ( ( ( . a do bispo e a do abade". a partir dos tempos carolíngios. mas deixava prosseguir as práticas que não julgava ofensivas à majestade do culto. (\ r: " (I ( (j ( () r: ( r. em diversos lugares do Midi. existe benefício maior e mais perceptível que a saúde? Facilmente se atribuía poder curativo a tudo o que. à hereditariedade monárquica. às vezes o poder que a opinião comum atribuía ao sagrado revestia-se de um caráter temível e deplorável. "santidade" dos monarcas. naqueles primeiros anos. Ora.60 Essa última expressão deve ser tida como a mais significativa entre todas: o clero. Entre todas as coisas de igreja. é necessário apelar para fatos de outra ordem. para falar como Pierre de Blois. mas está claro que o mais das vezes esse poder era julgado benéfico. Portanto. depois. Ora. Na verdade. Mas esse sucesso inesperado não assegurava o futuro. não se tornaram curandeiros logo em seguida (isto é. Abbon escrevia: "Conhecemos três espécies de eleições gerais: a do rei ou do imperador." O clero evidentemente condenava tais excessos. em larga medida as crenças populares escapavam ao controle eclesiástico. os próprios dedos do padre foram também remédios. . que ele era contestado. um bemsucedido ataque de surpresa desfechado no dia de Ramos de 991. De onde a derivavam? Aos olhos do povo. pondo em poder de Hugo o pretendente que descendia de Carlos Magno. mais particularmente. A fidelidade que alguns legitimistas votavam aos descendentes de seus antigos soberanos provavelmente jamais constituíra perigo muito grave para a família capetíngia. o Pio. Sabemos. naqueles tempos quem dizia sagrado dizia capaz de curar. em grande parte ela tinha origem naquela predestinação familiar à qual as massas. de um rito religioso. estas palavras temíveis: "não se obtém a realeza por direito hereditãrio't. os reis estavam duplamente designados ao papel de benfeitores taumaturgos: primeiro. a água do batismo. banhava-os numa patena. ademais. arengando aos grandes em favor de Hugo Capet. sofrendo dos pés. recordemos o que eram os reis. apenas reis temporários. ao menos na antiga Germânia ele tivera por corretivo a necessidade de o rei ser escolhido sempre na mesma família. Há mais. para tornar possível a sua queda. numa obra dedicada aos próprios reis Hugo e Roberto. ninguém mais ousara disputar-lhes a coroa. (i (. Conforme vimos. para admitir semelhante prática. A POLÍTICA DINÁSTICA DOS PRIMEIROS CAPETÍNG/OS E DE HENRIQUE I BEAUCLERC O primeiro soberano francês tido como capaz de curar os doentes foi Roberto. . em Sens. em 987 . por uma das fontes de onde emanava esse caráter. Mas também. no próprio ano da usurpação. ao lado do cadáver. esses óleos constituíam um recurso maravilhoso. outros.l? Na verdade. participasse de uma consagração. Não iria agora o direito de livre escolha agir sem entraves? O historiador Richer coloca na boca do arcebispo Adalbéron. desse óleo bento que parecia a tantos enfermos o mais eficaz dos remédios. quem poderia estar certo de que tal queda seria-defmitiva? Decerto havia muitos para os quais o pai e o filho associados no trono eram como escrevia Gerbert em 989 ou 990. a partir de 936. devia parecer frágil. os aldeões precipitaram-no na cova. mais formalmente e mais cristãmente. esse gênero de idéia levava os espíritos grosseiros a estranhas aberrações. logo tornou completamente inúteis os esforços que poderiam satisfazer os partidários de uma linhagem cujo chefe estava agora preso e cujos últimos rebentos iriam cair no esquecimento. a unção. essa "santidade" passou a resultar. Como não haveriam eles. foi necessário um acidente de caça (aquele em que Luís v encontrou a morte) e uma intriga internacional. assim que a unção régia foi implantada nos Estados da Europa ocidental). Quase todo mundo acreditava na. Hugo.P Essas loucuras (em formas mais anódinas) não sobrevivem ainda hoje? Assim.ou seja. aos quais os novos reis deviam o trono. 54 A hóstia. a verdadeira ameaça estava em outra parte: no sério dano que esses mesmos acontecimentos de 987. Por certo. esse princípio não era novo. e mesmo mais tarde. sobretudo. ainda em nossos dias. A fim de explicar por que 82 esserito nasceu numa data precisa e num meio determinado. não haviam deixado de dar crédito. pois supõem em maior grau o jogo das vontades individuais. Porque os capetíngios tiveram êxito. temos dificuldade em imaginar o quanto seu poder. Em 987. nem em todos os países. de posar de curandeiros? Entretanto. Elas mostram-nos que os espíritos estavam preparados. Recebeu o título régio e a unção ainda em vida de seu pai. pareciam particularmente fecundos em virtudes.ê? e. Os prevenidos consumiam-no para obter um ordálio favorável. Ora. As decisões da assembléia de Senlis arriscavam-se a assinalar o triunfo do princípio eletivo. a mais visível e a mais respeitável. pelo caráter sagrado que lhes era inerente. no entanto.\ 1\ (. em certas províncias se supõe que o pó e o musgo das igrejas possuam essas mesmas propriedades. guardiãs das idéias arcaicas. Gregório de Tours contou a história de um desses chefes bárbaros que. houve focos de oposição. . a água em que o oficiante molhara as mãos depois de ter tocado as santas espécies. causara à lealdade dos súditos e. quando vestido com suas roupas sacerdotais ele enterrava um morto. mais cedo ou mais tarde. fatos que podemos classificar de mais fortuitos.58 Durante muito tempo. os santos óleos. sendo o veículo normal das consagrações. Era necessário proteger da indiscrição dos fiéis os vasos que continham os óleos. O prestígio dos carolíngios era grande. "inter-reis" (interreges). o vinho da comunhão. I ( ( dia. em qualquer grau. 55 De quando em quando. em outros termos. uns. Roberto era o segundo representante de uma nova dinastia.

sua evolução.nãc com seu pai. De resto. Examinemos as datas. Roberto tinha reputação de ser muito devoto. isto é. mas há motivos para tentar supô-lo. até o reinado de Hen84 . Roberto n. não nos será difícil manter a serenidade. mas de uma dinastia. era necessário mais que uma eleição seguida de sagração. Bem ao contrário: só se aceitou a idéia desse milagre patrimonial porque nos corações ainda subsistia alguma coisa das velhas noções sobre as famílias hereditariamente sacras. Foi no nascimento da instituição que a influência de um país sobre o outro pôde fazer-se sentir. pode-se supor que agiam espontaneamente os primeiros doentes a (numa data para sempre desconhecida) solicitar que o soberano os tocasse. curavam como ele e depressa se especializaram numa doença determinada: as escrófulas. O segundo dos capetíngios encetara o prodígio. as crenças coletivas que estão na origem dos ritos curativos e explicam o sucesso destes eram fruto de um estado político e religioso comum a toda a Europa ocidental e haviam desabrochado espontaneamente tanto na Inglaterra quanto na França. fizeram-no prerrogativa não mais de . os carolíngios haviam recorrido a um rito bíblico: a unção régia. Sem dúvida. estava muitíssimo tentado a nela ver também a mais louvável origem do poder político supremo. outros fatos análogos já não se haviam produzido. eles devem ter sentido a necessidade de realçar mediante alguma manifestação inédita o brilho de seu nome. na cristalização desse milagre. a anterioridade francesa não pode ser colocada em dúvida. foi o iniciador do rito inglês). acrescida da santidade inerente à dignidade régia. Em suma. estava morto havia 69 anos. no começo. também a nós: coincidência ou interação? Se nos inclinamos à segunda hipótese. Mas não há como duvidar de que o espetáculo das curas régias contribuiu para fortalecer esse sentimento e para. -. segundo toda a probabilidade. pelo menos. Provavelmente. ( ( ( . E para santificar o feliz candidato.: {I rique Beauclerc (que. de que lado. fosse qual fosse sua origem. a unção oferecia-se sempre. não se esquecera o que acontecera durante os cinqüenta anos seguintes à morte de Carlos. se se pode falar assim. Naquele momento. no século XVI ou XVII.. portanto. Mas. se necessário sem esperar a morte do primeiro eleito ou. talvez inconscientemente. Mas chegou o dia em que. a virtude ancestral ainda contava. depois (pela ação de acasos que para sempre nos serão misteriosos). via algo que não seu interesse pessoal. A aparição do poder curativo sob Roberto II não se explicaria por preocupações da mesma ordem das que outrora haviam levado Pepino a imitar os príncipes hebreus? Afirmar isso seria presunçoso.! ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( poder episcopal ou abacial. e não entenderíamos 85 I I I I I I I I • 4 "---- . Aliás. a fim de que um rei se fizesse verdadeiramente santo. um verdadeiro rei. muito naturalmente levou os súditos a atribuir ao monarca virtudes taumatúrgicas. É claro.:\ ( ( ( ( (.decerto não na formação original do milagre. Se se quiser. Hugo. Também lá encontramos reis-médicos. não se devia estar muito preocupado em saber se o poder curativo era exclusivo do monarca do dia ou próprio do sangue capetíngio. O eterno problema que se afigura aos historiadores quando estes encontram instituições semelhantes em dois países vizinhos apresenta-se. outra podia desfazer. nas duas margens da Mancha. não há a menor dúvida de que o próprio Roberto e seus conselheiros tinham fé na eficácia das forças miraculosas que emanavam de sua pessoa. Por certo. o Gordo. mas. a característica de santidade que se conferia à pessoa do rei. reivindicando por sua vez uma parte do glorioso privilégio. Provavelmente por causa disso o milagre capetíngio começou com ele e. é difícil acreditar que nenhuma intenção política dissimulada haja desempenhado um papel . dar-lhe nova juventude. Passemos para a Inglaterra. a progressiva especialização numa moléstia determinada. durante reinados precedentes. essas crenças se concretizaram numa instituição precisa e regular: o "toque" régio. os sucessores de Roberto não deixaram que tão belo dom ficasse sem herdeiros. a aparição de uma virtude taumatúrgica que se aplicaria indistintamente a todas as enfermidades. em qual dinastia se devem procurar os modelos ou imitadores? Questão outrora inflamada: durante muito tempo. Os primeiros eruditos que. a unção não era suficiente para conferir esse maravilhoso talento. como no tempo de Gontrão? Mas. seus esforços reunidos acabaram por favorecer com um caráter sobrenatural toda a estirpe desses monarcas.:o. quando vemos essas crenças até ali erráticas tomar cérpo num momento tão oportuno a uma dinastia ainda mal assente. afinal de contas. Quem sabe se. sem levar em conta as reivindicações de seus filhos. aquilo que uma eleição fizera. para maior vantagem da monarquia. Ora. A persistência da pretensão taumatúrgica na linhagem capetíngia certamente não criou sozinha essa fé na legitimidade familiar que devia ser um dos melhores apoios da realeza francesa. preocuparamse com ela rião deixavam de concluir a favor da França se eram franceses. a mais urgente tarefa que se impunha aos capetíngios era restabelecer em proveito próprio uma legitimidade. Portanto. de alguma maneira.< jl. segundo sabemos. começou a reinar em 1100. Em condições quase idênticas. Henrique Beauclerc. em estado isolado. De fato. os outros "ungidos do Senhor" não o tentavam. Os capetíngios não foram plagiadores. Hoje. no começo. como vimos. Podemos perguntar se cada um deles. os reis descendentes de Roberto 11 foram os únicos na Europa a tocar os enfermos. ou da Inglaterra se eram ingleses. Portanto. Seus descendentes. a corte esforçou-se por atrair os doentes e expandir a fama das curas realizadas. o primeiro de sua estirpe do qual sabemos ter tocado os enfermos. teria sido a mesma que na França. A história das religiões mostra abundantemente que para explorar um milagre não há necessidade de ser cético. com certeza. o patriotismo interessou-se por solucioná-Ia. nem tudo deve ter sido cálculo. um rei. até o ano 1100 pelo menos. Por menos conscientes que estivessem dos perigos que os cercavam e dos que não poderiam deixar de abater-se sobre sua descendência. que parece ter sido o iniciador do rito na França. Foram plagiados? Caso o milagre régio se tivesse desenvolvido na Inglaterra independentemente de qualquer modelo estrangeiro.

não podia desconhecer as curas realizadas pelo capetíngio.. provavelmente naquele momento. durante os primeiros tempos do Islã. não seja indiferente que algumas vontades conscientes ajudem-na a tomar forma. rI i r r ri ( ( muito bem que também lá o acaso houvesse designado as escrófulas. na Inglaterra cerca de um século mais tarde. Nascido na França aí pelo ano 1000. Nos países muçulmanos. O último representante da dinastia anglo-saxã à qual Henrique I procurara ligar-se pelo casamento. a reforma alcançava seu auge. porém. e a enfermidade que desde o início pretendem poder curar é precisamente a mesma da qual antes deles. a cura das escrófulas sempre foi considerada uma prerrogativa estritamente reservada ao soberano: os descendentes de um rei não participavam dela se não fossem eles mesmos reis. único herdeiro da coroa." rI (\ ( ('. apenas esse tinha o direito de fazer milagres. colocou seu poder miraculoso sob a proteção de uma grande figura nacional.v' Isso porque toda a familia real era tida como. o Confessor. quintessência de todo o pensamento antigregoriano. é necessário ainda que ela seja sustentada pelas tendências profundas da consciência coletiva. O monarca inglês devia invejar-lhe o prestígio. pois (como vimos) elas dão facilmente a ilusão da cura. Eduardo. do califa.65 Ao contrário do que acontecia na Germânia primitiva. príncipe mais que meio francês. ( ( ( ( 87 . acreditava-se que o sangue régio curava a hidrofobia. Um.. 86 contrariamente ao antigo uso germânico. Quando o rito curativo atravessou a Mancha. sobretudo. o chefe do ramo mais velho. via atribuir-se ao líquido que corria em suas veias o mesmo poder milagroso. eu de bom grado lhe daria a denominação romântico: um dos grandes serviços prestados pelo romantismo não foi acentuar vigorosamente nas coisas humanas a noção do espontâneo? Essas duas formas de interpretação são contraditórias apenas na aparência.. Provavelmente." Não deveria surpreender-nos que. vemos que na Inglaterra os reis jamais reivindicaram. Por volta da época em que Henrique I pôs-se a exercer seu talento miraculoso. um poder curativo de natureza indeterminada. os Estados islâmicos jamais reconheceram os privilégios da primogenitura. há outras afecções que se enquadram no mesmo caso. ele concentrara-se definitivamente numa só pessoa. seususerano e rival. Para que uma instituição destinada a atender a fins precisos indicados por uma vontade individual possa impor-se a todo um povo. Todos os membros da família real em que o califa devia ser escolhido. foram membros de sua roda quem redigiu uma falsa bula papal que. Conhecemos santos especializados em escrófulas. o caráter sagrado não mais se estendia a toda uma linhagem. O outrof'ào" contrário. Para todo fenômeno religioso. Mas é preciso não julgar pelo estado de espírito de William o de todos os eclesiásticos ingleses. e talvez. pelo menos durante a primeira parte de seu reinado. No entanto. ('\ r(' ( r. em matéria política. há dois tipos de explicação tradicional. começara a tocar os doentes. a história das origens do toque régio merecerá ser colocada na fileira dos já numerosos exemplos que o passado fornece acerca de uma dúplice ação desse tipo. procura ali a expressão de forças sociais. Pode-se duvidar de que tenha querido imitá-Io?61 Mas Henrique I não confessou a imitação." O próprio Henrique I. o direito de primogenitura começava a dominar. mas o sangue do monarca reinante. reciprocamente. também não deveria surpreender-nos que dali em diante essa prática haja prosperado num solo favorável. mas para quantos outros males não se invoca especificamente este ou aquele santo? Ora. Se as hipóteses que apresentei podem ser aceitas. É certo que as escrófulas são particulátmente adequadas ao milagre. o Pio. que podemos chamar voltairiano. na natureza sacerdotal e quase divina da realeza. para que uma crença um pouco vaga possa concretizar-se num rito regular. reconhecia aos reis ingleses "o patrocínio e a proteção [. ainda não nascera a reforma gregoríana. tão hostil a tudo o que cheirava a usurpação dos privilégios sacerdotais. ele haja implantado em todos os seus domínios a prática taumatúrgica que era uma suprema exaltação da crença na força sagrada dos reis. tão pouco simpática (voltarei ao assunto mais tarde) às prerrogativas régias e. Na França e na Inglaterra. ] de todas as igrejas da Inglaterra" e uma espécie de legação pontifical perpétua. o virtuoso soberano que breve se tornaria o santo oficial da monarquia. não era aos olhos dos crentes o único a possuir essa virtude. desprezando todos os novos princípios. seus vizinhos da França haviam-se constituído os médicos. foi seu patrono e seu fiador. Num lance feliz. todo coraixita. santa: tanto que. ficou em dificuldade com os reformadores. o rito do toque faz assim sua aparição em dinastias nas quais. Teve Henrique I dificuldades com a opinião religiosa de seu país? Na época em que Roberto. um clérigo agregado à catedral de York escrevia seus 35 tratados. nos quais se ostenta a mais absoluta e mais intransigente fé nas virtudes da unção régia. I. prefere ver no fato estudado a obra consciente de um pensamento individual seguro de si mesmo. Henrique I. são dela as idéias diretrizes que (como vimos na desdenhosa frase de William of Malmesbury) protestam contra a "obra de falsidade" que os crentes na realeza haviam empreendido. profundas e obscuras. como conseqüência de uma evolução natural. nem mesmo na origem.

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