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OS REIS TAUMATURGOS

o caráter

sobrenatural do poder régio França e Inglaterra
Prefácio: JACQUES LE GOFF

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Tradução: JúLIA MAINARDI

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MPANHIA DAS LETRAS

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exerce seu domínio sobre o próprio espírito de seus súditos [. surgiu em determinado momento e não em outro. temos. onde certos chefes. ela poderia ter sido inscrita no frontispício das belas obras de sir James Frazer. após havermos dito isso.pois não é exatamente o princípio de toda a "explicação" científica fazer um caso particular encaixar-se num fenômeno mais geral? Mas. de bom grado damos a ela seu sentido pleno. Parece que esse argumento poderia ser suficiente. Podemos conjeturar que os predecessores dos monarcas ingleses foram outrora o objeto de idéias análogas: a es- (' ( ( ( 2 AS ORIGENS DO PODER CURATIVO DOS REIS (. não teremos ainda terminado nosso trabalho. parecem sintomáticas de determinados estágios de ( 68 69 ( ( . a palavra mágico era apenas uma expressão irônica. por uma dupla razão.. o milagre das escrófuIas tem.\ ! ( f de todas as espécies de males tocando-os. tocando as escrófulas. ] Chega até a fazê-los acreditar que os cura o crôfula provavelmente recebeu o nome mal do rei porque se acreditava que o toque de um reifosse suscetível tanto de infligi-Ia quanto de curá-Ia". possui também. Em suma. Sir James Frazer não pretende que no século XI ou no século XII os soberanos ingleses ou franceses tenham sido considerados capazes tanto de espalhar as escrófulas em torno de si quanto de curá-Ias. se pode qualificar de "primitivo": porque traz a marca de um pensamento ainda pouco evoluído e <todo mergulhado no irracional. segundo se diz. que teremos feito senão indicar aproximadamente o gênero de representações mentais para as quais é conveniente dirigir nossa pesquisa? A realidade histórica é menos simples e mais rica que semelhantes fórmulas. Sim.. não pode servir para reconstituir os detalhes. com mais justiça ainda. os reis taumaturgos dos séculos XI e XII não precisaram rejeitar parte da herança ancestral porque nada de suas miraculosas virtudes vinha de um passado muito distante. parentesco com todo um sistema psicológico que. de que vale esse raciocínio por analogia? O método comparativo é extremamente fecundo. Parando aí. exercem uma homeopatia dessa espécie. No entanto.A hipótese de sir James Frazer adquiriria então mais força? Penso que não. vamos descartá-I o por um instante. alegase que certos reis vivam numa atmosfera carregada de uma espécie de eletricidade espiritual que. a ocasião. não foi nas sociedades medievais e modernas senão o último eco dessas crenças "primitivas" que hoje. faltará entender as razões pelas quais o rito curativo. folhear O ramo de ouro ou As origens mágicas da realeza? "Que teria dito Luís XIV". os antepassados desses soberanos haviam manejado essa faca de dois gumes. aparentemente tão singular. mas desde que não saia do geral. a ciência conseguiu reconstituir? Para compreender o rito do toque. o privilégio de conceder a saúde por simples contato. escreve o sr. graças ao estudo dos povos selvagens. Certas representações coletivas que afetam toda a vida social são encontradas (sempre similares pelo menos em suas linhas gerais) em grande número de povos. na Polinésia. Mas. e porque o encontramos em estado especialmente puro nas sociedades que convencionamos chamar "primitivas". na noite dos tempos. Mas. mesmo fulminando os indiscretos que penetram seu círculo mágico. por uma feliz compensação. deixaríamos escapar justamente o particular. Salomon Reinach. mas ele imagina que outrora. Usei como epígrafe essa pequena frase de Montesquieu. Entretanto. Suponhamos que o poder curativo dos príncipes normandos ou capetíngios tenha origens muito longínquas. de um lado. 2 No pensamento de Montesquieu. ter-se-ia esquecido o aspecto temível do dom real e conservado apenas o lado benéfico. Sir James Frazer escreve: "Nas ilhas do Pacífico e em outras partes. de outro. não é suficiente percorrer os grandes compêndios levantados com tanto cuidado e talento por sir J ames Frazer. Pouco a pouco. "se alguém lhe provasse que. como já sabemos. que nos ensinaram a perceber entre certas concepções antigas sobre a natureza das coisas e as primeiras instituições políticas da humanidade vínculos por longo tempo ignorados. ele seguia o exemplo de um chefe polinésio?"! E Montesquieu (sob a máscara do persa Usbeck) já falava do mesmo príncipe: "Esse rei é um grande mágico. incontestavelmente. tão grande é a força e o poder que tem sobre os espíritos". Mas talvez alguém pergunte: é verdadeiramente necessária uma longa investigação para descobrir as representações coletivas que estão na origem do toque das escrófulas? Não é óbvio que esse rito. as causas profundas e. o empurrãozinho que chama para a vida uma instituição que. estava latente nos espíritos. Dessê pônto de vista. Ela baseia-se no caso das ilhas Tonga. explicá-I o será correlacioná-lo ao conjunto de idéias e de crenças de que o milagre régio foi uma das manifestações mais características . tendo conduzido nossa pesquisa até tal ponto. ( ( A realeza sagrada nos primeiros séculos da Idade Média {' ( r:I ( ( A EVOLUÇÃO DA REALEZA SAGRADA: A SAGRAÇÃO r: ( ( r ( ( í ( ( ( ( ( ( problema que agora exige nossa atenção é duplo. desde longa data. na França e na Inglaterra e não em outro lugar. 3 Entendamos bem. O milagre régio apresenta-se sobretudo como a expressão de certo conceito de poder político supremo. Hoje. derivado de um movimento de pensamentos e dI sentimentos comuns a toda uma parte da Europa.

embora ele fosse desconhecido por todos. pelo menos. a filiação é direta e contínua. mais que no talento militar deste ou daquele comandante. mas desde que seu sucessor fosse escolhido dentre os membros da mesma dinastia.é o único exemplo invocado -. Mas." Os capetíngios sempre se arvoraram em autênticos herdeiros da dinastia carolíngia. tal como ela floresceu sob outros céus. anglos ou saxões aos soberanos franceses ou ingleses do século XII.sem dúvida. havia muito tempo.'? No século VI. convém primeiro indicar de que modo o caráter sagrado da realeza veio a ser reconhecido. em determinadas famílias hereditariamente dotadas de uma virtude sagrada. Chegou o dia em que esse ramo pereceu por inteiro."em Thule". Infelizmente. misturando conceitos germânicos com um vocabulário ro=' mano. como uma espécie de conclusão óbvia. por meio delas. Mas esses bárbaros. podia-se mudar o soberano. a da legitimidade dinástica. estava impregnada de caráter religioso. Henrique n. mas não poderíamos esperar encontrar na Europa todas as instituições da Oceania. pois apenas elas detinham essa ventura misteriosa (quasi fortuna. conhecidas graças apenas a documentos relativamente recentes ou incompletos. tais representações coletivas não são confirmadas historicamente. um grupo que se separara da nação hérula estava estabelecido na região do Danúbio. Decidiram mandar buscar um representante da família real na longínqua pátria de onde outrora partira a migração . quando o herdeiro legítimo chegou." Tácito já observava que. procuremos retraçar em toda a sua complexidade o movimento de crenças e de sentimentos que. numa só noite quase toda a gente veio colocar-se a seu lado. assassinado pelos próprios súditos. isto é. ( ( ( ( ( "- r ( (. Portanto. todas as espécies de concepções cristãs. e os carolíngios. de acordo com os lugares e as circunstâncias. Num arquipélago polinésio ." Os reis eram considerados seres divinos ou. essas idéias e instituições são muito mal conhecidas. e o mesmo príncipe. antes de explicar a associação de idéias que muito naturalmente depreendeu daí. a causa do sucesso dos chefes. os reis eram entre os germânicos escolhidos apenas em certas famílias nobres . provavelmente porque não ousavam elegê-Io eles mesmos. considerando-a um bem patrimonial. decerto se referindo à península Escandinava.diante da qual toda a nobreza perde o brilho . na Europa antiga ou mesmo medieval. diz-nos Jordanes. deram-lhes o nome Ases. um ramo da linhagem tradicional seguira-o e fornecia-lhe seus chefes. Seriam ali de fato inexistentes? É provável que não. colocaram na chefia um dos seus. O primeiro escolhido morreu durante a viagem. falava do "sangue dessa família. os embaixadores deram meia-volta e escolheram outro. "atribuindo suas vitórias à feliz influência que emanava de seus príncipes. cansados de esperar. Conservamos várias genealogias régias anglo-saxãs: todas remontam a Wotan. consagrado à púrpura't. trazendo apenas benesses. ela servia para designar os deuses ou certas categorias destes. como tantos outros príncipes naqueles tempos de violência.l \ ( civilização. o direito hereditário no interior da dinastia . Em outro lugar. Portanto. O estudo das tribos da Oceania esclarece a noção da realeza sagrada. o poder curativo dos que eram revestidos com esse caráter sagrado. não quiseram ver neles simples homens. Por falta de uma literatura escrita. não se resignavam a ficar sem sangue régio. mais ou menos apagadas. estava morto. personagens sagradas: "sanctus enim et christus Domini est" ["o rei e santo. Entre os primeiros missionários. Conforme uma concepção que encontramos em outros povos (desenvolveu-se com uma força especial no seio das sociedades chinesas). Não era lealdade a este ou àquele indivíduo: a primogenitura não existia. Dos chefes das antigas tribos de francos. Portanto. como entre todos os povos no mesmo estágio de civilização. tornou possível a instauração do rito do toque. dizia Pierre de Blois.'! Julgava-se que esses reis verdadeiramente divinos possuíam certo poder sobre a natureza. era mal fixado. muitos acreditavam reencontrar nos "selvagens". semideuses.é digno de reinar". ali. Evitemos cometer o erro inverso e não transportemos para Londres ou Paris os antípodas por inteiro. a sociologia comparada permite reconstituíIas com muita verossimilhança. os chefes são tanto fautores de moléstias quanto médicos: assim se traduz a força sobrenatural de que são detentores. haviam pedido que o imperador o nomeasse. Seu último descendente. de modo diverso do que acontecia no caso dos chefes temporários de guerra. "Os gados". em autênticos herdeiros de Clóvis e dos descendentes deste. Enquanto isso. A idéia da legitimidade pessoal era fraca. a mesma força pode ter-se manifestado de forma diferente . a fim de justificar as virtudes taumatúrgicas de seu monarca. toda a Germânia anterior ao cristianismo permanecerá para sempre irremediavelmente obscura. Os reis normandos da Inglaterra reivindicaram a sucessão dos príncipes anglo-saxões. "7 Reencontra-se a palavra Ases nas antigas línguas escandinavas. diz Procópio. Os reis da França e da Inglaterra puderam tornar-se médicos milagrosos porque já eram. r ( r ( ( ( ( 70 71 J . Estes são suficientes para assegurar-nos que a concepção de realeza entre os germânicos. originados dos deuses.? Essas estirpes predestinadas eram as únicas capazes de dar chefes verdadeiramente eficazes. tocamos um fundo de idéias e de instituições extremamente arcaicas. em dois países da Europa ocidental. como diz Jordanes) na qual as pessoas viam. é o ungido do Senhor"]. designado por causa apenas de seu valor individual. Mas essas grandes idéias comuns a toda ou a quase toda humanidade evidentemente receberam aplicações diversas. deve-se primeiro olhar para as velhas realezas germânicas. Atalarico escrevia ao Senado romano: "Assim como aquele que nasce de vós é dito de origem senatorial. livremente escolhidos em razão de seu valor pessoal. assim também aquele que vem da familia dos descendentes de Amala . que haviam massacrado seu rei." Dessa fé na origem sobrenatural dos reis decorria um sentimento lealista. os hérulos. Não se pode entrever mais que alguns clarões. variam com eles. sem contrapartida desagradável. No seio de outras sociedades.por exemplo. muito forte.

pois "a posse do corpo" (ou de um de seus fragmentos) "pareciaaos que a obtinham uma esperança de boas colheitas" . fora "de todos os reis o que tivera mais sorte nas colheitas". esses reis continuaram a reinar. fracassou miseravelmente. representam a imagem de um desfile militar. Não há dúvida de que esse fracasso e essa abstenção prudente explicam-se em parte pela rivalidade dos grandes.IS Mas Olavo. e cada pedaço foi sepultado sob um montículo de terra em cada um dos quatro principais distritos do país. seria fácil encher páginas e páginas com os casos de chefes "fazedores de chuva" que os repertórios etnográficos fornecem. mas só em parte. e o mesmo aconteceu com os merovíngios. proporcionar aos homens uma boa progenitura e boas safras. segundo o testemunho de Amiano Marcelino. Os reis subsistiram na qualidade apenas de chefes de Estado. é a impressão que as obras de sir James Frazer nos dão. na Islândia. continuou-se até o fim a atribuir-lhe valor mágico.ao que foi a vida dos micados junto aos xóguns no Japão antigo. filho de Haraldo. Muito mais que aliviar as misérias individuais. 13 Às vezes. Entretanto. Não que essas linhagens fossem particularmente fecundas em virtudes religiosas ou privadas.I\ ( tais monarcas eram considerados responsáveis pela ordem das coisas. Olavo.reduzidos pelos mordomos do palácio a uma existência totalmente representativa . Isso talvez explique o porquê de o rito do toque. era um santo do cristianismo. em vez de ser enterrado todo inteiro num só lugar. s. Segundo a lenda coligida no século XIII na Heimskringla [Esfera do mundo]. quando a colheita falhava. do qual tratamos 72 ( ( ( ( ( ( ( aqui. polinésios das ilhas Tonga reaparecem sem cessar. Durante um momento após as invasões. na consciência popular. mais ou menos secretamente. Uma revolução religiosa aplica um golpe terrível na antiga concepção de realeza sagrada. pátria clássica da realeza sagrada. é provável que tanto os príncipes francos quanto os imperadores japoneses tenham sido protegidos durante longo tempo. passavam a usar cabelos curtos) decerto fora na origem um símbolo de ordem sobrenatural. Quando ele morreu. mens livres. O mesmo uso parece ter vigorado na Suécia pagã." Muitas personagens pertencentes às casas reais anglo-saxãs foram depois da morte veneradas como santos. depunha-se o rei. como esses figurantes de teatro que. foi redigida apenas no século XIII. o de Grimoaldo. Sem dúvida. Nossos textos permitem resgatar alguns vestígios dessas idéias. foi cortado em quatro. tal como esta florescera entre os germânicos. O próprio Carlos Martelo acreditou-se forte o bastante para suprimir a realeza durante algum tempo. chefes ualos do Senegal. por ser dotados de uma virtude divina. é preferível manter a dúvida que a sábia prudência nos impõe. ter-se desenvolvido mais facilmente nas sociedades em que a religião proibia atribuir aos reis uma influência sobre aqueles grandes fenômenos cósmicos que comandam a vida das nações. girando sempre em torno dos mesmos montantes. os milagres que a saga islandesa lhe atribui são apenas o eco de um tema hagiográfico. tocando as crianças e os cereais. mas não para usurpar o título real. hostis àquele passado. ou melhor.. é necessário acreditar que a estirpe legítima conservava em seu decIínio uma espécie de prestígio. mas. pelo padre Snorri Sturluson) atribui algumas curas ao rei Olavo. estendiam os reis germânicos seu poder também às doenças? A Heimskringla (que. o soberano norueguês Halfdan. Pelo menos. seu papel é fazer a chuva cair ou assegurar a regularidade das colheitas. Guardadas as devidas proporções. fossem todos ou em sua maior parte curandeiros.mas sem que possamos saber se. Sem dúvida. simples fantoches. que atestaram ser muito antigo. provavelmente. 17 A longa cabeleira que era o atributo tradicional da dinastia franca (todos os outros ho. O advento do cristianismo privou-a de seu apoio natural: o paganismo nacional. tão logo atingiam a idade adulta. por mais de um século e meio. a dinastia merovíngia afundou na impotência.'? A partir de Dagoberto. ao menos pelas obscuras lembranças que seu antigo papel deixara nos espíritos. esse era o destino dos reis burgúndios. eles cessaram de ser tidos como personagens divinas. longe disso. os reges criniti [reis de cabelos longos] eram outros Sansões. seu poder político foi até mais forte que nunca. nossos textos são demasiado pobres para permitir-nos afirmar que nenhuma tribo germânica jamais considerou seu rei um médico. os exemplos dessa forma da magia régia que encontramos registrados nessas grandes coletâneas são bem pouco numerosos: ali. na ausência de documentos. se não precisamente por sua natureza sagrada. durou tanto quanto os próprios merovíngios . se nos ativer73 ( ( ( . encontraríamos muitos outros se nossos documentos não fossem todos de proveniência eclesiástica e. aliás. provavelmente.12 No século XII. entretanto. 16 Na verdade. e não dirigida para fins particulares. mas de bom grado se rendia culto aos membros das famílias que se estava habituado a considerar sagradas. o historiador romano convidou-nos a comparar esse costume às tradições do velho Egito. o Negro. Algumas vezes. pelo menos oficialmente. será sempre tentador recorrer) nada nos obriga a admitir que na antiga Germânia os reis. O primeiro golpe de Estado tentado contra eles. Em casos semelhantes.l" Mestres dos anos de abundância. Com sua inteligência habitual. não há nada de muito surpreendente em tal penúria. comparou-se a situação dos descendentes de Clóvis . embora em escala menor. pelo menos entre o povo. pois os reiscurandeiros parecem ter sido sempre e em todos os lugares bastante raros. originariamente esses cabelos jamais cortados deviam ser considerados o próprio centro do poder maravilhoso que se reconhecia nos filhos da estirpe eleita. seu cadáver. Deve-se também observar que na sociologia comparada (à qual. A força miraculosa atribuída aos reis pelos "primitivos" é geralmente concebida para fins coletivos destinados a obter o bem-estar do grupo como um todo. portanto. que reinou na Noruega nq começo do século XI. como já mencionei. as velhas idéias não se esvaeceram de repente. Esse costume. os dinamarqueses ainda acreditavam que um príncipe virtuoso pode. por conseguinte. É verossímil que continuassem a viver.

aliás.. que traziam seu nome). lê-se de que modo Abrão recebeu o pão e o vinho das mãos de Melquisedec. eles poderiam ter-se sentido mais livres que Clóvis: as conquistas de Justiniano. porém. do sagrado palàcío. tão preocupado em negar aos soberanos temporais todo caráter sacerdotal. Nos escritores do século IX. até então. Em Bizâncio. a unção. Os soberanos do Ocidente haviam-se tornado oficialmente sagrados graças a uma nova instituição: a consagração eclesiástica e. Alguns imperadores foram considerados taumaturgos: Vespasiano.P Mas foi um império totalmente cristão. ela só muito mais tarde é introduzida. mas num cerimonial jovem e autenticamente cristão. fizera-se. A religião imperial. Carlos Magno renovou o elo com a tradição romana. se assim se pode dizer. foi em Alexandria. Em suma. ainda viva na Roma do Leste. Antes de tudo. pode-se supor que os hábitos de pensamento que tal culto mantivera. proclamado imperador no Oriente. reintroduzindo no Ocidente as armas "romanas". mas nenhuma instituição regular corporificava esse sentimento vago.P Do mesmo modo. embora pouco a pouco tivesse modificado algumas fórmulas. Carlos Magno. depois das invasões encontraram-se reinando num país profundamente romanizado a tradição do povo conquistado oferecia todos os esplendores da religião imperial.-. torna-se a falar dos sagrados imperadores. era porque pensavam não no velho e desusado culto que outrora se exprimira com termos similares. a unção surge nos reinos bárbaros nos séculos VII e VIII." O próprio Hincmar.ê" Aos soberanos germânicos que.. um dia não se descuidou ao ponto de escrever: "os sagrados olhos" do ímperador+" Mas esse vocabulário (que aliás. tivessem maquinado essas manifestações milagrosas). os historiadores indagaram a si próprios de onde veio essa diferença entre as pompas monárquicas do Ocidente e as do Oriente. como evidente imitação dos costumes estrangeiros.ê" Nessa época. certa tendência a confundir as categorias do político e do divino. porém. O culto imperial desapareceu na Gália ao mesmo tempo que a dominação romana.. seu rito fundamental. Os primeiros comentadores livraram-se do embaraço atribuindo-lhe 74 75 ( . Todavia. cuja habilidade é indubitável. suspeitou-se de que os sacerdotes do Serapeu. provavelmente por brincadeira." Conhecemos suas pompas oficiais. os merovíngios não se arvoraram em sucessores do Império. Em Bizâncio. Como veremos. em relação ao Augusto das margens do Bósforo. Mas não podemos duvidar de que a religião imperial constituiu um maravilhoso instrumento de governo.. mantinha em torno da realeza uma atmosfera de veneração quase religiosa. É verdade que Clóvis (segundo Gregório de Tours. pelo menos na França. do mui sagrado Augusto. ademais. A razão parece-me clara. tornava inútil o novo rito. Em Bizâncio.. não deixou de reprovar a esses imperadores a soberba. c ( r r ( r ( ( ( ( r ( c ( -. reproduzir a intitulação antiga. 30 Algumas vezes. dizia-se que Adriano curara um cego. chamar AugustO. num meio carregado de esperanças messiânicas.. pagã em sua essência e interrompida por longo desuso. No entanto. os bizantinos divertiam-se zombando desse gesto que não entendiam. Os bárbaros deixaram-no desaparecer. mas não queriam permanecer ligados por um vínculo de sujeição (por mais vago que este fosse) a um vizinho muito próximo e muito ameaçador. embora aceitando uma magistratura das mãos do soberano de Bizâncio. No tempo de Carlos Magno. a Bíblia ofereceu comparações úteis. do alto de sua ortodoxia. mais particularmente. a religião imperial iria perdurar quase tanto quanto o Império. como os merovíngios. puros leigos. No capítulo 14 do Gênesis. até o século VlII os reis francos ou ingleses eram apenas cristãos como os outros e. efetuou algumas curas (isso. terra havia milênios habituada a venerar seus chefes como se estes fossem deuses. Não podia renascer com ele a religião imperial. ! Jj: ~ . tinham induzido os reis francos a livrar-se definitivamente de qualquer dependência para com os antigos senhores do mundo. . reapareceram algumas expressões mais inofensivas.22 Esses exemplos são isolados.. ou por um resquício de respeito ou por indiferença. O Império ressuscitou.l Mais tarde. elas indicam apenas uma familiaridade verbal com os textos latinos. os imperadores não haviam cessado de qualificar-se de divinos. rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo _31 episódio misterioso que os exegetas ainda têm dificuldade para explicar. mesmo afirmando sua autonomia (sobretudo mediante a cunhagem de moedas.. o cristianismo também passara por ali. eram regradas apenas por um costume bastante variável. Já em Roma ele fora sendo progressivamente despojado de seu valor original: essas fórmulas de devoção haviam-se transformado em pouco mais que simples fórmulas de cortesia. cujo testemunho não me parece que deva ser rejeitado). não tocara na essência das coisas. Foi a Bíblia o que enfim forneceu o meio de reintegrar na legalidade cristã a realeza sagrada das idades antigas. Sem dúvida. mas sabemos muito pouco da verdadeira influência que essa religião podia ter sobre as almas. copiadas da linguagem obsequiosa do Baixo Império. Se às vezes os contemporâneos dos primeiros imperadores francos davam sentido pleno a essas palavras de aparência antiga. Nenhuma cerimônia eclesiástica consagrava a elevação ao trono. haviam consentido em aceitar a supremacia imprecisa de um imperador distante. não sobreviveu à era carolíngiaj-? não deve iludir-nos. por uma espécie de usurpação. ( ( ( ( ( \' r r c ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( mos às aparências oficiais. nos reinos surgidos das invasões um grande número de reminiscências de origens diversas. mas. não pereceram inteiramente com ele. tão rica em termos que evocavam o caráter sagrado do príncipe.24 Seus descendentes não insistiram no título. No máximo. fossem germânicas fossem romano-orientais. Jamais saberemos se a crença no caráter divino dos imperadores era forte o bastante para que a massa fosse levada a considerar verdadeiramente atuante o poder miraculoso desses soberanos. ou aquele de seus conselheiros que redigiu em nome do soberano franco o prefácio dos Libri Carolini [Livros carolíngios]. cujas solenidades. por outro lado. contavam que o papa untara o imperador franco "da cabeça aos pés". Nenhuma impressão religiosa particular vinha marcar a fronte do soberano. eles evitaram.

o exemplo de Davi e de Salomão permitia restituir cristãmente aos reis seu caráter sagrado.s .esteve na moda. ele sentiu a necessidade de disfarçar sua usurpação com uma espécie de prestígio religioso. rei em Nouhassché e derramou-lhe o óleo sobre a cabeça". a unção teve importante papel no ritual do novo culto. ao faraó Amenófis IV para lembrar-lhe o dia em que "Manahbiria. Carlos Martelo. Itália setentrional. não ousara encarar) resolveu mandar para o convento os últimos descendentes de Clóvis e tomar para si tanto o poder quanto as honras reais. Os filhos de Israel também a praticavam. justificado pela Bíblia. endereçou lá pelo ano 1500 a. Seu caráter sobrenatural era por muitos povos marcado com uma cerimônia de sentido bastante claro: quando o soberano ascendia ao trono. os dois gestos tornaram-se quase inseparáveis. ( (.ê" A nova instituição tomou forma primeiro no reino visigótico da Espanha. certas partes de seu corpo eram ungidas com um óleo previamente santificado. porém.. recebeu do papa Estevão IV tanto a benção com óleo quanto a coroa. o diadema. a vaga auréola mística que os envolvia devia-se unicamente ao domínio exercido sobre a consciência coletiva por obscuras reminiscências vindas dos tempos pagãos. as leis mosaicas penetravam a disciplina eclesíástica.. o rei do Egito. Não podemos duvidar de que coroa e diadema. em torno da cabeça dos soberanos bizantinos. Aí pelo fim do século VIII. a coroa não tinha mais nenhum outro caráter sagrado além daquele que advinha das mãos que a entregavam ao príncipe (em Bizâncio as do patriarca. haviam em sua origem possuído uma virtude religiosa. Anteriormente ungido ao ser feito rei.\ ( sentido simbólico: Melquisedec é uma representação do Cristo. Melquisedec . os antigos reis jamais haviam cessado de parecer personagens muito superiores ao resto do povo. 76 Os merovíngios jamais haviam sido ungidos reis. a transcrição desse venerável pedaço de argila poderá figurar no frontispício da obra . Aos olhos dos súditos. fez de Taku. na verdade. "É manifesto". Para consagrar um 77 . Em 751. era uma estirpe autenticamente santa e iria afirmar sua consagração com um ato formal. provavelmente emulando o que acabava de acontecer no país franco. ( r. à semelhança dos monarcas hebreus. Gália. ali. Todos os teólogos na Gália estavam preparados para aceitar essa ressurreição de uma prática judaica. em parte como conseqüência das influências irlandesas. meu avô. unia-se a ele outro rito/de origem diversa. pois entre eles o Antigo Testamento estava em voga. já se invocava o exemplo do rei de Salém. Grã-Bretanha. concluiu a obra da religião". plenamente cristão. na basílica de São Pedro. em Reims. ( ( ( ( ( í' ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( . o rito generalizou-se em quase toda a Europa ocidental. 33 Mas o Antigo Testamento não era só uma fonte de símbolos.pois foi dessas antigas civilizações da Síria e de Canaã (as quais a leitura da Bíblia tornou tão estranhamente familiares aos cristãos dos séculos VII e VIII) que nos veio a unção régia. Melquisedec. Pepino (assumindo o risco que seu pai. onde desde o desaparecimento do arianismo a Igreja e a dinastia viviam uma união especialmente íntima. o Pio. Adu Nirari. Na época merovíngia." Foi-assim que Pepino se tornou o primeiro dos reis da França a receber a unção das mãos dos sacerdotes. No dia em que fizermos a compilação dos documentos que ainda nos faltam sobre a sagração de nossos reis. o papa Leão III colocara uma "coroa" sobre a cabeça de Carlos Magno. durante os séculos XI e XII. Aliás. é como o vemos figurado em tantas catedrais. Pouco depois. No velho mundo oriental. então. mas aos olhos de um cristão. servindo principalmente para a confirmação dos catecúmenos e a ordenação dos padres e dos bispos.C. Tinha lugar de primeira ordem no cerimonial hebraico. a lenda fez da cerimônia realizada em Reims por s. provavelmente à monarquia persa). como diz o sacramentário carolíngio de Saint-Amandêê . constituía o processo normal para transferir da categoria do profano para a categoria do sagrado um homem ou um objeto. Mais tarde. fornecia o modelo de uma instituição muito concreta. "que pela unção a Divina Providência elevou-nos ao trono. Mas em 816. adota dos pelos imperadores por imitação às monarquias orientais (no caso do diadema. similar ao que havia vários séculos substituía. Fortunato dizia sobre Childeberto: "Nosso Melquisedec. ao proclamá-Ia imperador. na época de Carlos Magno. diz altivamente num de seus decretos. em Roma as do papa) e do ritual eclesiástico de que então se cercava o prelado.38 Seus sucessores não deixaram de seguir-lhe o exemplo. sobretudo no Ocidente.. seu filho Luís. Ao mesmo tempo. A nova dinastia. como teremos ocasião de ver. Desde muito cedo. a tira de tecido adornada com pérolas e pedras preciosas que fora usada por Constantino e seus sucessores imediatos. Remígio a primeira sagração régia. Depois. ao contrário. Carlos Magno não o foi ao tornar-se imperador. A 25 de dezembro de 800. Mas tal aparição enigmática devia instigar também os apologistas da realeza. As tabuinhas de TeU el-Amarna conservaram a carta que um dinasta da Síria. A partir daí. No tempo da grande Querela do Sacerdócio e do Império. [que se denomina] a justo título rei e sacerdote leigo. a mesma prática foi implantada também na Inglaterra. mais particularmente nos países de rito galicano: Espanha. foi apenas um simples batismo. Mas vale a pena recordar que Clóvis tampouco o fora: a única unção que recebeu foi a que o rito galicano impunha aos catecúmenos. a unção régia surgiu no século VII.P A idéia de retomar em sua totalidade os velhos costumes israelitas. veio a vez do Estado franco. entre eles (assim como provavelmente entre seus vizinhos) a unão não era exclusiva dos reis. os cristãos tomaram-na emprestada à Antiga Lei.. devia ocorrer naturalmente aos espíritos. Era provavelmente um círculo de ouro.s." Nessa aplicação geral. de passar da unção dos catecúmenos ou dos sacerdotes à unção régia. teu avô. Esse sacerdote-rei fazia remontar a um passado prestigioso o ideal dos que reconheciam nos monarcas um caráter sobrehumano. os reis decerto eram considerados personagens sagradas. no entanto.

Pai Todo79 ( ( . Provavelmente. ]. o mesmo se verifica nos mais velhos textos litúrgicos ingleses. o Calvo. logo de início. antigos. essa idéia já estava 78 presente. entre todos os monarcas de seu tempo e de sua estirpe. foi a Antiga Lei o que forneceu as fórmulas necessárias: "Que tuas mãos sejam ungidas com o óleo santificado. e talvez o desejo de beneficiar-se dessas palavras do Livro Sagrado tenha levado mais de um entre eles a procurar a consagração oferecida pela Igreja. É claro que. ao passo que os pontífices não podem ser consagrados pelos reis". proteção decerto bastante ilusória.sinal evidente da preeminência do espiritual sobre o secular.43 O novo rito era uma faca de dois gumes. pela aplicação desse mesmo ungüento. dos pontífices" . vinha de acontecer a primeira unção régia que a Inglaterra conheceu) relembrava tal preceíto.'? Por este. a recusar a unção e a coroa que o arcebispo de Mainz lhe propunha e a reinar (como lhe reprova pela boca do apóstolo s. idéias similares já eram defendidas por alguns prelados. com este óleo com que Ele ungiu os sacerdotes. Que motivos levam esse homem. dali em diante. escrevia ele em 868 a CarIos. [. verificaremos que se tentou reunir ali tudo o que podia favorecer a confusão entre os dois ritos quase idênticos que davam acesso. contemporâneo dos primeiros tempos da dinastia carolíngia. em certos meios eclesiásticos. Ninguém deu maior valor à sagração régia. em sua maior parte. dizem: "a dignidade dos pontífices é superior à dos reis porque os reis são sagrados pelos pontífices. Que essa idéia tinha tom de doutrina oficial é o que nos mostrará. em breve. também para consagrar um rei. Hincmar soube encontrar para ela um precedente ilustre e miraculoso. a novidade foi dar-Ihes um papel nas pompas religiosas da elevação ao trono. quando se abriu o grande debate gregoriano. Essa cerimônia tinha atrás de si um passado bem curto. eles não partilhavam com os sacerdotes e com os bispos esse privilégio? Entretanto. por um momento o 'oficiante que ministrava a unção parecia superior ao monarca que devotamente a recebia. o Calvo. que presidia a assembléia. o Calvo. havia o reverso da medalha. Uma prece. certos espíritos penetrantes depreenderam bastante bem os perigos com que semelhante confusão entre uma dignidade essencialmente temporal e o sacerdócio podia ameaçar a Igreja e até o cristianismo. segundo a expressão bíblica. para isso. se não inventou. a entrega das insígnias. Em torno dos dois ritos fundamentais. parece que o rito contribuiu para. Este não se cansa de repetir que nenhum homem.. Muito depressa. Esses emblemas eram. podia-se pensar que seria necessário um sacerdote para fazer um rei . por uma curiosa coincidência." mas talvez os príncipes dessem ao mandamento bíblico mais valor do que imaginaríamos hoje. "é a essa benção. segundo toda a probabilidade. O óleo santo elevava os soberanos a muito acima da multidão. uma tradição já estabelecida impôs-lhe sem dúvida o emprego das seguintes palavras: "Que Deus te coroe com a coroa da glória [. o Concílio de Chelsea (no decurso do qual. melhor que qualquer outro documento. \ ( c ( ( ( ( imperador. Desde o tempo de Carlos. do outro. redigidos por Hincmar. é suficiente comparar duas passagens de suas obras: "É à unção. teu servo. Assim nasceu a sagração.. Durante os dois ou três primeiros séculos. depois da vinda de Cristo. desenvolve e fixa o mesmo pensamento. a antiga liturgia da sagração. tu que pela unção com o óleo consagraste sacerdote Aarão. poderia ser a um só tempo sacerdote e rei. em meu ungido". Sob CarIos. repleta de violências. a julgar pela história daqueles tempos agitados. no século seguinte. o Calvo. os reis haviam-se tornado. Além disso. sejam quais forem seus títulos "terrestres" ao trono. levou o rei Henrique I da Alemanha a ser o único. sobretudo. ao lado da coroa. que continuou até o fim a ser o ato santificador por excelência.. vê-se o rei ser ungido e coroado. os profetas e os mártires". os reis e os profetas. à realeza. 42 Não se poderia ser mais claro. ato episcopal e espiritual". na França. ] nós te pedimos. os atos do Concílio de Sainte-Macre. é o próprio Hincmar quem faz o gesto consagrador. desenvolveu-se rapidamente em todos os países um amplo cerimonial. diz um ritual muito antigo. '1 ( ( ( (. e desde o século IX na Inglaterra. Não obstante. provavelmente mais recente. o qual ungiu os reis e os profetas". Sem dificuldade. isso só ficaria visível algumas centenas de anos mais tarde. constitui para reinar sobre o povo israelita os sacerdotes. a unção. não sabemos quando foi composta. o arcebispo de Reims. ( ( ( ( { r r (. Portanto. muito mais que a vosso poder terrestre. No decorrer da cerimônia. aparece pela primeira vez na história quando Carlos. que deveis a dignidade régia".ê? Portanto. Folheemos por um momento esses velhos textos. os inimigos da realeza pareciam transformados em sacrílegos. o medo de uma interpretação desse tipo foi o que. Por isso. em parte a solenidade foi sempre dúplice: de um lado. E o velho cerimonial anglo-saxão: "6 Deus [. então pelo menos adaptou engenhosamente uma lenda.44 Mas sua própria insistência prova o quanto a idéia que o arcebispo combatia expandira-se em torno dele. a ter tanto interesse por esses gestos litúrgicos? A fim de entender-as razões de sua atitude. já aparece o cetro.. naquele dia.. Vejam Hincmar de Reims. pois o próprio Deus disse "Nolite tangere Christum meum". Já em 787. Muito pouco tempo depois de CarIos Magno. um dos mais capazes de grandes projetos. defendidos contra as violências dos maus pelo preceito divino. confirmar no espírito das pessoas (exceção feita a alguns teóricos eclesiásticos) a noção do caráter sagrado dos reis. multiplicaram-se as insígnias régias que eram entregues ao novo soberano. menos de cem anos depois da primeira unção franca. o outro. entre as quais a coroa permanecerá a essencial. Pedro o autor de uma vida de santo) "sem a benção .. e que mais tarde. era necessário cumprir ambos. "ungidos do Senhor"."\ . os reis. "Não tocai em meu Cristo. um. Melhor dizendo: de seu caráter mais que semisacerdotal. foi coroado rei da Lorena. em geral. ] e te faça rei pela unção dada com o óleo da graça do Espírito Santo. Como teremos oportunidade de mostrar mais adiante. Também aqui reencontramos Hincmar. ao sacerdócio e. sem consagração não há verdadeiro rei.

48 Malgrado tudo o que depois pudessem dizer todos os Hincmar do mundo. Portanto. alegava conhecêIa de "fonte segura"): numa aldeia. carregados de eflúvios sagrados. essa declaração teológica terminava com um apelo ao soberano. ( (I í ( r ( ( ( ( Tanto mais que os dirigentes do clero nem sempre haviam falado a linguagem de Hincmar. Muito pelo contrário: no século XI. Pedro uma expressão que o apóstolo aplicava aos eleitos e de alterar-lhe um pouco o sentido original para homenagear a dinastia franca: "sois a raça santa.45 Vê-se que diante dos soberanos ingleses ou francos.) o PODER I CURATIVO DO SAGRADO I I I Os homens da Idade Média. não se fazia dessa energia uma imagem tão concreta que às vezes se chegava até a representá-Ia pesada? Conforme nos diz Gregório de Tours. Como surpreender-se de que um poeta da época celebrando a sagração de um imperador (aliás. provavelmente no século XIII. os monarcas-continuaram a ser considerados seres sagrados. eram perseguidos como promotores desses males. querendo adular Carlos e Carlomano. semelhantes expressões jamais foram esquecidas. que a conta. mas que importância tem isso?). entre a dignidade régia e a presbiteral. o próprio papa Estevão III. extremamente terra-a-terra. Mas veremos que nela uma mente de capacidade normal. "mox quipe sacerdos ipse futurus Chartres. houvesse ousado dizer de seu herói. Esses esforços. . desde que. ficaram definitivamente marcadas pelo sinal divino. ou pelo menos a imensa maioria deles. 1 I I I ( I I ( I era!" . por que olhar para tão longe na direção norte? É na França. não nos interessam agora. eram por muita gente considerados uma espécie de mágicos. um dos mais respeitados prelados de seu tempo. eram considerados responsáveis por intempéries e por contágios. nos belos dias do Estado carolíngio. as monarquias da Europa ocidental. tão duramente que Gregório VII precisou protestar. já herdeiras de longo passado de veneração. os padres. 51 No reino da Dinamarca. trata-se de uma dedução singular. a idéia de intervenções dessa ordem não chocava ninguém. Em alguns lugares. evocava-se não apenas a imagem do rei dos judeus mas também a dos sacerdotes e dos profetas. a qual tinha Jesus Cristo como filho apenas adotivo de Deus. um imperador bastante insignificante. pelo bispo de (*) Seita do século VIII. que condescendas em santificar com tua benção. quando a ocasião se apresentava. portanto. Isso iria perpetuar-se. ( . sob a Nova Lei. Fulbert. tinham das coisas da religião uma imagem muito material e. a crescente fraqueza da dinastia convidava os prelados a assumir o papel de mentores dos reis. meu monarca pode curar os doentes. assim como a Alemanha dos imperadores saxões ou sálios. (N. É isso que os textos nos mostram de modo inequívoco. que se situa esta instrutiva historieta (o serrnonário Jacques de Vitry. os quais os católicos hoje reservam para o chefe supremo de sua Igreja. tal qual os feiticeiros. a respeito dos quais teremos uma palavra para dizer mais tarde. Berengário do Friul. grassava uma epidemia. não se poderia duvidar de que a maior parte de seus contemporâneos pensava como ele. como imaginar que sua ação não se estendia também a este mundo? Certamente. no século XII. dos quais precisava. o santo quisesse manifestar-se. A França capetíngia e a Inglaterra normanda. quanto a isso. Na época em que este definia com tanta nitidez a incompatibilidade. Conservamos algumas cartas endereça das a Roberto. não havia um abismo intransponível entre o mundo em que viviam e o mundo maravilhoso para o qual os ritos cristãos abriam a porta. régia e sacerdotal". À primeira vista. por meio desta gordura tomada de uma de tuas criaturas. . fundador do sacerdócio hebraico. todo um partido dedicou-se a comparar a dignidade régia ao sacerdócio. no dia de sua sagração. os dois universos penetravam-se mutuamente. não se furtou a buscar na Primeira Epístola de s. Carlos Magno era tratado não apenas de "senhor e pai" e de "mui prudente governador de todos os cristãos" mas também de "rei e sacerdote" Y Alguns anos antes. protetor da fé.46 I (. nessa qualidade. se se pode dizer. os bispos da Itália setentrional presentes ao Sínodo de Frankfurt publicaram uma defesa da doutrina ortodoxa contra os adotionistas" espanhóis. teu escravo aqui presente e que lhe permitas imitar diligentemente os exemplos de Aarão" . mesmo independentemente de qualquer assimilação precisa entre a realeza e o sacerdócio. não podia encontrar nada de muito surpreendente. um 81 ( 80 ( ( ( . os objetos ou os indivíduos sagrados eram imaginados não apenas reservatórios de forças aptas a atuar no outro mundo mas também fontes de energia suscetíveis de influência imediata sobre a vida cá na terra. Em 794. para fazê-Ia cessar. os atos. O bispo não teme dar ao rei os títulos "santo padre" e "santidade". Ali. não renegaram essa tradição carolíngia. Ele dizia mais ou menos isto: meu monarca é uma personagem sagrada. Mas Pierre de Blois ia mais longe. T. é claro. as pessoas benziam-se ao encontrá-I os no caminho porque tal encontro era tido como mau presságio. Como poderia ser de outra forma? A seus olhos. eram às vezes venerados e às vezes odiados. o Pio.P Aliás. no momento em que o mostra avançar em direção à igreja onde se desenvolverá a cerimônia: "em breve ele seria sacerdote". tanto na França quanto na Inglaterra." Já vimos como Pierre de Blois fazia a "santidade" dos reis decorrer da unção. mais explicitamente do que até então se fizera. Basta saber que. Assim. no século XI. a grande sombra de Aarão. se um gesto agia no além. esse tom não seria sido admissível."( poderoso. 50 Os padres. Afinal. um tecido colocado sobre o altar de um grande santo (Pedra ou Martinho) tornava-se mais pesado. os camponeses não imaginaram nada melhor que sacrificar seu cura. pois ninguém tinha noção exata das leis naturais.

"inter-reis" (interreges). Não iria agora o direito de livre escolha agir sem entraves? O historiador Richer coloca na boca do arcebispo Adalbéron. De onde a derivavam? Aos olhos do povo. a água em que o oficiante molhara as mãos depois de ter tocado as santas espécies. pondo em poder de Hugo o pretendente que descendia de Carlos Magno. As considerações gerais que acabam de ser expostas não são suficientes para esclarecer por que o rito do toque apareceu na França e na Inglaterra. existe benefício maior e mais perceptível que a saúde? Facilmente se atribuía poder curativo a tudo o que. Como não haveriam eles. a verdadeira ameaça estava em outra parte: no sério dano que esses mesmos acontecimentos de 987. Recebeu o título régio e a unção ainda em vida de seu pai. em grande parte ela tinha origem naquela predestinação familiar à qual as massas. I ( ( dia. mais cedo ou mais tarde. causara à lealdade dos súditos e. foi necessário um acidente de caça (aquele em que Luís v encontrou a morte) e uma intriga internacional. 54 A hóstia. Porque os capetíngios tiveram êxito. às vezes o poder que a opinião comum atribuía ao sagrado revestia-se de um caráter temível e deplorável. pois supõem em maior grau o jogo das vontades individuais. os aldeões precipitaram-no na cova. no entanto. ninguém mais ousara disputar-lhes a coroa. em larga medida as crenças populares escapavam ao controle eclesiástico. aos quais os novos reis deviam o trono. em Sens. numa obra dedicada aos próprios reis Hugo e Roberto. em qualquer grau. quando vestido com suas roupas sacerdotais ele enterrava um morto. Conforme vimos.ê? e. ." O clero evidentemente condenava tais excessos. para imaginar e. esse princípio não era novo. a do bispo e a do abade". Sobretudo para os males do corpo. Mas também. Era necessário proteger da indiscrição dos fiéis os vasos que continham os óleos. Entre todas as coisas de igreja. ademais. Mas esse sucesso inesperado não assegurava o futuro. Abbon escrevia: "Conhecemos três espécies de eleições gerais: a do rei ou do imperador. esse gênero de idéia levava os espíritos grosseiros a estranhas aberrações. nem em todos os países. os próprios dedos do padre foram também remédios. assim que a unção régia foi implantada nos Estados da Europa ocidental). uns. habituado a considerar a eleição a única fonte canônica do 83 ( ( ( ( ( . Sabemos. banhava-os numa patena. Ora. Elas mostram-nos que os espíritos estavam preparados. ao menos na antiga Germânia ele tivera por corretivo a necessidade de o rei ser escolhido sempre na mesma família. é necessário apelar para fatos de outra ordem. Hugo. à hereditariedade monárquica. o Pio. participasse de uma consagração. pareciam particularmente fecundos em virtudes. a partir dos tempos carolíngios. Em 987. por uma das fontes de onde emanava esse caráter. As decisões da assembléia de Senlis arriscavam-se a assinalar o triunfo do princípio eletivo. esses óleos constituíam um recurso maravilhoso. quem poderia estar certo de que tal queda seria-defmitiva? Decerto havia muitos para os quais o pai e o filho associados no trono eram como escrevia Gerbert em 989 ou 990. não se tornaram curandeiros logo em seguida (isto é. em certas províncias se supõe que o pó e o musgo das igrejas possuam essas mesmas propriedades. em 987 .l? Na verdade. devia parecer frágil. os reis estavam duplamente designados ao papel de benfeitores taumaturgos: primeiro.ou seja. um bemsucedido ataque de surpresa desfechado no dia de Ramos de 991. para admitir semelhante prática. Ora. depois. mais formalmente e mais cristãmente. Portanto. (\ r: " (I ( (j ( () r: ( r. Quase todo mundo acreditava na. sobretudo. Há mais. estas palavras temíveis: "não se obtém a realeza por direito hereditãrio't. Por certo. essa "santidade" passou a resultar.58 Durante muito tempo.60 Essa última expressão deve ser tida como a mais significativa entre todas: o clero. 55 De quando em quando. outros. temos dificuldade em imaginar o quanto seu poder. para falar como Pierre de Blois. Ora. em outros termos. sofrendo dos pés. naqueles tempos quem dizia sagrado dizia capaz de curar. a partir de 936. o vinho da comunhão. para tornar possível a sua queda.P Essas loucuras (em formas mais anódinas) não sobrevivem ainda hoje? Assim. O prestígio dos carolíngios era grande. ao lado do cadáver. de um rito religioso. naqueles primeiros anos. guardiãs das idéias arcaicas. mais particularmente. Na verdade. e mesmo mais tarde. arengando aos grandes em favor de Hugo Capet. a unção. a mais visível e a mais respeitável. a água do batismo. mas está claro que o mais das vezes esse poder era julgado benéfico. "santidade" dos monarcas. A fim de explicar por que 82 esserito nasceu numa data precisa e num meio determinado. que ele era contestado. desse óleo bento que parecia a tantos enfermos o mais eficaz dos remédios. apenas reis temporários. A fidelidade que alguns legitimistas votavam aos descendentes de seus antigos soberanos provavelmente jamais constituíra perigo muito grave para a família capetíngia. mas deixava prosseguir as práticas que não julgava ofensivas à majestade do culto. Gregório de Tours contou a história de um desses chefes bárbaros que. sendo o veículo normal das consagrações. de posar de curandeiros? Entretanto. pelo caráter sagrado que lhes era inerente. . em diversos lugares do Midi. . A POLÍTICA DINÁSTICA DOS PRIMEIROS CAPETÍNG/OS E DE HENRIQUE I BEAUCLERC O primeiro soberano francês tido como capaz de curar os doentes foi Roberto. não haviam deixado de dar crédito. (i (. logo tornou completamente inúteis os esforços que poderiam satisfazer os partidários de uma linhagem cujo chefe estava agora preso e cujos últimos rebentos iriam cair no esquecimento. Os prevenidos consumiam-no para obter um ordálio favorável. os santos óleos. no próprio ano da usurpação. Roberto era o segundo representante de uma nova dinastia. fatos que podemos classificar de mais fortuitos. recordemos o que eram os reis. ainda em nossos dias.\ 1\ (. houve focos de oposição.

pelo menos. É claro. teria sido a mesma que na França. durante reinados precedentes. Os capetíngios não foram plagiadores. como vimos.: {I rique Beauclerc (que. a corte esforçou-se por atrair os doentes e expandir a fama das curas realizadas. mas há motivos para tentar supô-lo. aquilo que uma eleição fizera. De resto. pode-se supor que agiam espontaneamente os primeiros doentes a (numa data para sempre desconhecida) solicitar que o soberano os tocasse. reivindicando por sua vez uma parte do glorioso privilégio.:o. -. acrescida da santidade inerente à dignidade régia. os sucessores de Roberto não deixaram que tão belo dom ficasse sem herdeiros. seus esforços reunidos acabaram por favorecer com um caráter sobrenatural toda a estirpe desses monarcas. Portanto. sem levar em conta as reivindicações de seus filhos. Por certo. Podemos perguntar se cada um deles. Provavelmente por causa disso o milagre capetíngio começou com ele e. nas duas margens da Mancha. não nos será difícil manter a serenidade. Sem dúvida. mas. em estado isolado. Ora. Examinemos as datas. Hugo. dar-lhe nova juventude. a unção não era suficiente para conferir esse maravilhoso talento. em qual dinastia se devem procurar os modelos ou imitadores? Questão outrora inflamada: durante muito tempo.. um verdadeiro rei. ( ( ( . era necessário mais que uma eleição seguida de sagração. afinal de contas. O eterno problema que se afigura aos historiadores quando estes encontram instituições semelhantes em dois países vizinhos apresenta-se. Mas chegou o dia em que. não se devia estar muito preocupado em saber se o poder curativo era exclusivo do monarca do dia ou próprio do sangue capetíngio. Seus descendentes. de alguma maneira.! ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( poder episcopal ou abacial.decerto não na formação original do milagre. curavam como ele e depressa se especializaram numa doença determinada: as escrófulas. a mais urgente tarefa que se impunha aos capetíngios era restabelecer em proveito próprio uma legitimidade. Foi no nascimento da instituição que a influência de um país sobre o outro pôde fazer-se sentir. os reis descendentes de Roberto 11 foram os únicos na Europa a tocar os enfermos. se se pode falar assim. começou a reinar em 1100. Quem sabe se. Mas. isto é. a unção oferecia-se sempre. Hoje. o Gordo. E para santificar o feliz candidato. outros fatos análogos já não se haviam produzido. segundo sabemos. no começo. fizeram-no prerrogativa não mais de . a virtude ancestral ainda contava. não se esquecera o que acontecera durante os cinqüenta anos seguintes à morte de Carlos. sua evolução. Portanto. essas crenças se concretizaram numa instituição precisa e regular: o "toque" régio. também a nós: coincidência ou interação? Se nos inclinamos à segunda hipótese. outra podia desfazer. quando vemos essas crenças até ali erráticas tomar cérpo num momento tão oportuno a uma dinastia ainda mal assente. Naquele momento. Em condições quase idênticas. é difícil acreditar que nenhuma intenção política dissimulada haja desempenhado um papel . via algo que não seu interesse pessoal. muito naturalmente levou os súditos a atribuir ao monarca virtudes taumatúrgicas. os outros "ungidos do Senhor" não o tentavam. De fato. no século XVI ou XVII. estava muitíssimo tentado a nela ver também a mais louvável origem do poder político supremo. talvez inconscientemente. fosse qual fosse sua origem. a progressiva especialização numa moléstia determinada. depois (pela ação de acasos que para sempre nos serão misteriosos). eles devem ter sentido a necessidade de realçar mediante alguma manifestação inédita o brilho de seu nome. para maior vantagem da monarquia. até o ano 1100 pelo menos. que parece ter sido o iniciador do rito na França. Roberto n. Em suma. foi o iniciador do rito inglês). como no tempo de Gontrão? Mas. Aliás.:\ ( ( ( ( (. a fim de que um rei se fizesse verdadeiramente santo. preocuparamse com ela rião deixavam de concluir a favor da França se eram franceses. na cristalização desse milagre. Passemos para a Inglaterra. O segundo dos capetíngios encetara o prodígio. Foram plagiados? Caso o milagre régio se tivesse desenvolvido na Inglaterra independentemente de qualquer modelo estrangeiro. um rei. ou da Inglaterra se eram ingleses. nem tudo deve ter sido cálculo. A persistência da pretensão taumatúrgica na linhagem capetíngia certamente não criou sozinha essa fé na legitimidade familiar que devia ser um dos melhores apoios da realeza francesa. mas de uma dinastia. A aparição do poder curativo sob Roberto II não se explicaria por preocupações da mesma ordem das que outrora haviam levado Pepino a imitar os príncipes hebreus? Afirmar isso seria presunçoso. até o reinado de Hen84 . no começo. o primeiro de sua estirpe do qual sabemos ter tocado os enfermos. com certeza. Também lá encontramos reis-médicos. Os primeiros eruditos que. de que lado. Por menos conscientes que estivessem dos perigos que os cercavam e dos que não poderiam deixar de abater-se sobre sua descendência. a característica de santidade que se conferia à pessoa do rei. a anterioridade francesa não pode ser colocada em dúvida. Roberto tinha reputação de ser muito devoto. A história das religiões mostra abundantemente que para explorar um milagre não há necessidade de ser cético.nãc com seu pai. segundo toda a probabilidade. se necessário sem esperar a morte do primeiro eleito ou. Se se quiser. não há a menor dúvida de que o próprio Roberto e seus conselheiros tinham fé na eficácia das forças miraculosas que emanavam de sua pessoa. a aparição de uma virtude taumatúrgica que se aplicaria indistintamente a todas as enfermidades. portanto. estava morto havia 69 anos. o patriotismo interessou-se por solucioná-Ia. Bem ao contrário: só se aceitou a idéia desse milagre patrimonial porque nos corações ainda subsistia alguma coisa das velhas noções sobre as famílias hereditariamente sacras. Mas não há como duvidar de que o espetáculo das curas régias contribuiu para fortalecer esse sentimento e para. e não entenderíamos 85 I I I I I I I I • 4 "---- . Provavelmente. Henrique Beauclerc. os carolíngios haviam recorrido a um rito bíblico: a unção régia.< jl. as crenças coletivas que estão na origem dos ritos curativos e explicam o sucesso destes eram fruto de um estado político e religioso comum a toda a Europa ocidental e haviam desabrochado espontaneamente tanto na Inglaterra quanto na França.

seususerano e rival. na Inglaterra cerca de um século mais tarde. príncipe mais que meio francês. desprezando todos os novos princípios. Para todo fenômeno religioso. Para que uma instituição destinada a atender a fins precisos indicados por uma vontade individual possa impor-se a todo um povo. pelo menos durante a primeira parte de seu reinado. na natureza sacerdotal e quase divina da realeza. No entanto. é necessário ainda que ela seja sustentada pelas tendências profundas da consciência coletiva. a cura das escrófulas sempre foi considerada uma prerrogativa estritamente reservada ao soberano: os descendentes de um rei não participavam dela se não fossem eles mesmos reis. o caráter sagrado não mais se estendia a toda uma linhagem. porém. que podemos chamar voltairiano. ( ( ( ( 87 . santa: tanto que. acreditava-se que o sangue régio curava a hidrofobia. foi seu patrono e seu fiador. Se as hipóteses que apresentei podem ser aceitas.. reconhecia aos reis ingleses "o patrocínio e a proteção [. há dois tipos de explicação tradicional. todo coraixita. mas para quantos outros males não se invoca especificamente este ou aquele santo? Ora. I. o Pio. colocou seu poder miraculoso sob a proteção de uma grande figura nacional. Nascido na França aí pelo ano 1000. 86 contrariamente ao antigo uso germânico. provavelmente naquele momento. não seja indiferente que algumas vontades conscientes ajudem-na a tomar forma. tão pouco simpática (voltarei ao assunto mais tarde) às prerrogativas régias e. seus vizinhos da França haviam-se constituído os médicos. ('\ r(' ( r. Num lance feliz. eu de bom grado lhe daria a denominação romântico: um dos grandes serviços prestados pelo romantismo não foi acentuar vigorosamente nas coisas humanas a noção do espontâneo? Essas duas formas de interpretação são contraditórias apenas na aparência. a história das origens do toque régio merecerá ser colocada na fileira dos já numerosos exemplos que o passado fornece acerca de uma dúplice ação desse tipo. Mas é preciso não julgar pelo estado de espírito de William o de todos os eclesiásticos ingleses. Quando o rito curativo atravessou a Mancha. sobretudo. ficou em dificuldade com os reformadores. profundas e obscuras. Eduardo. o direito de primogenitura começava a dominar." Não deveria surpreender-nos que. são dela as idéias diretrizes que (como vimos na desdenhosa frase de William of Malmesbury) protestam contra a "obra de falsidade" que os crentes na realeza haviam empreendido. foram membros de sua roda quem redigiu uma falsa bula papal que. não podia desconhecer as curas realizadas pelo capetíngio. durante os primeiros tempos do Islã. reciprocamente. É certo que as escrófulas são particulátmente adequadas ao milagre. Pode-se duvidar de que tenha querido imitá-Io?61 Mas Henrique I não confessou a imitação. e talvez. nos quais se ostenta a mais absoluta e mais intransigente fé nas virtudes da unção régia. Teve Henrique I dificuldades com a opinião religiosa de seu país? Na época em que Roberto. nem mesmo na origem. o Confessor. ele concentrara-se definitivamente numa só pessoa. apenas esse tinha o direito de fazer milagres. único herdeiro da coroa. ainda não nascera a reforma gregoríana. e a enfermidade que desde o início pretendem poder curar é precisamente a mesma da qual antes deles. quintessência de todo o pensamento antigregoriano. começara a tocar os doentes. Henrique I.v' Isso porque toda a familia real era tida como. O outrof'ào" contrário. tão hostil a tudo o que cheirava a usurpação dos privilégios sacerdotais. Nos países muçulmanos. em matéria política. ele haja implantado em todos os seus domínios a prática taumatúrgica que era uma suprema exaltação da crença na força sagrada dos reis. um clérigo agregado à catedral de York escrevia seus 35 tratados. Todos os membros da família real em que o califa devia ser escolhido. como conseqüência de uma evolução natural. do califa. procura ali a expressão de forças sociais. o rito do toque faz assim sua aparição em dinastias nas quais. O último representante da dinastia anglo-saxã à qual Henrique I procurara ligar-se pelo casamento. o virtuoso soberano que breve se tornaria o santo oficial da monarquia. um poder curativo de natureza indeterminada." rI (\ ( ('. não era aos olhos dos crentes o único a possuir essa virtude. também não deveria surpreender-nos que dali em diante essa prática haja prosperado num solo favorável. a reforma alcançava seu auge. o chefe do ramo mais velho.65 Ao contrário do que acontecia na Germânia primitiva. pois (como vimos) elas dão facilmente a ilusão da cura. mas o sangue do monarca reinante. Um. há outras afecções que se enquadram no mesmo caso. vemos que na Inglaterra os reis jamais reivindicaram. ] de todas as igrejas da Inglaterra" e uma espécie de legação pontifical perpétua. via atribuir-se ao líquido que corria em suas veias o mesmo poder milagroso. Por volta da época em que Henrique I pôs-se a exercer seu talento miraculoso.. rI i r r ri ( ( muito bem que também lá o acaso houvesse designado as escrófulas." O próprio Henrique I. os Estados islâmicos jamais reconheceram os privilégios da primogenitura. para que uma crença um pouco vaga possa concretizar-se num rito regular. O monarca inglês devia invejar-lhe o prestígio. Na França e na Inglaterra. Conhecemos santos especializados em escrófulas. prefere ver no fato estudado a obra consciente de um pensamento individual seguro de si mesmo. Provavelmente..