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OS REIS TAUMATURGOS

o caráter

sobrenatural do poder régio França e Inglaterra
Prefácio: JACQUES LE GOFF

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Tradução: JúLIA MAINARDI

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I" reimpressão

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MPANHIA DAS LETRAS

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surgiu em determinado momento e não em outro. Suponhamos que o poder curativo dos príncipes normandos ou capetíngios tenha origens muito longínquas. derivado de um movimento de pensamentos e dI sentimentos comuns a toda uma parte da Europa. não foi nas sociedades medievais e modernas senão o último eco dessas crenças "primitivas" que hoje. de bom grado damos a ela seu sentido pleno. No entanto. Entretanto. 2 No pensamento de Montesquieu. Pouco a pouco.\ ! ( f de todas as espécies de males tocando-os. o privilégio de conceder a saúde por simples contato. exercem uma homeopatia dessa espécie. segundo se diz. o empurrãozinho que chama para a vida uma instituição que. estava latente nos espíritos. Podemos conjeturar que os predecessores dos monarcas ingleses foram outrora o objeto de idéias análogas: a es- (' ( ( ( 2 AS ORIGENS DO PODER CURATIVO DOS REIS (. onde certos chefes. alegase que certos reis vivam numa atmosfera carregada de uma espécie de eletricidade espiritual que. Mas. Mas talvez alguém pergunte: é verdadeiramente necessária uma longa investigação para descobrir as representações coletivas que estão na origem do toque das escrófulas? Não é óbvio que esse rito. Ela baseia-se no caso das ilhas Tonga. se pode qualificar de "primitivo": porque traz a marca de um pensamento ainda pouco evoluído e <todo mergulhado no irracional. Salomon Reinach. Usei como epígrafe essa pequena frase de Montesquieu. Certas representações coletivas que afetam toda a vida social são encontradas (sempre similares pelo menos em suas linhas gerais) em grande número de povos. Hoje. não pode servir para reconstituir os detalhes. de outro. explicá-I o será correlacioná-lo ao conjunto de idéias e de crenças de que o milagre régio foi uma das manifestações mais características . de que vale esse raciocínio por analogia? O método comparativo é extremamente fecundo. ] Chega até a fazê-los acreditar que os cura o crôfula provavelmente recebeu o nome mal do rei porque se acreditava que o toque de um reifosse suscetível tanto de infligi-Ia quanto de curá-Ia". os reis taumaturgos dos séculos XI e XII não precisaram rejeitar parte da herança ancestral porque nada de suas miraculosas virtudes vinha de um passado muito distante. na noite dos tempos. as causas profundas e. escreve o sr. ela poderia ter sido inscrita no frontispício das belas obras de sir James Frazer. O milagre régio apresenta-se sobretudo como a expressão de certo conceito de poder político supremo. graças ao estudo dos povos selvagens.. mas ele imagina que outrora. que teremos feito senão indicar aproximadamente o gênero de representações mentais para as quais é conveniente dirigir nossa pesquisa? A realidade histórica é menos simples e mais rica que semelhantes fórmulas. Mas.A hipótese de sir James Frazer adquiriria então mais força? Penso que não. 3 Entendamos bem. Sir James Frazer escreve: "Nas ilhas do Pacífico e em outras partes. parecem sintomáticas de determinados estágios de ( 68 69 ( ( . como já sabemos. e porque o encontramos em estado especialmente puro nas sociedades que convencionamos chamar "primitivas". possui também. a ocasião. Dessê pônto de vista. os antepassados desses soberanos haviam manejado essa faca de dois gumes.. após havermos dito isso. com mais justiça ainda. não teremos ainda terminado nosso trabalho. faltará entender as razões pelas quais o rito curativo. aparentemente tão singular. exerce seu domínio sobre o próprio espírito de seus súditos [. parentesco com todo um sistema psicológico que. por uma dupla razão. não é suficiente percorrer os grandes compêndios levantados com tanto cuidado e talento por sir J ames Frazer. por uma feliz compensação. folhear O ramo de ouro ou As origens mágicas da realeza? "Que teria dito Luís XIV". Em suma. incontestavelmente. a ciência conseguiu reconstituir? Para compreender o rito do toque. o milagre das escrófuIas tem. tão grande é a força e o poder que tem sobre os espíritos". Parando aí. mesmo fulminando os indiscretos que penetram seu círculo mágico. ter-se-ia esquecido o aspecto temível do dom real e conservado apenas o lado benéfico. de um lado. Sim. a palavra mágico era apenas uma expressão irônica. ele seguia o exemplo de um chefe polinésio?"! E Montesquieu (sob a máscara do persa Usbeck) já falava do mesmo príncipe: "Esse rei é um grande mágico. Sir James Frazer não pretende que no século XI ou no século XII os soberanos ingleses ou franceses tenham sido considerados capazes tanto de espalhar as escrófulas em torno de si quanto de curá-Ias. ( ( A realeza sagrada nos primeiros séculos da Idade Média {' ( r:I ( ( A EVOLUÇÃO DA REALEZA SAGRADA: A SAGRAÇÃO r: ( ( r ( ( í ( ( ( ( ( ( problema que agora exige nossa atenção é duplo. na Polinésia. que nos ensinaram a perceber entre certas concepções antigas sobre a natureza das coisas e as primeiras instituições políticas da humanidade vínculos por longo tempo ignorados. deixaríamos escapar justamente o particular. vamos descartá-I o por um instante. "se alguém lhe provasse que. temos. tendo conduzido nossa pesquisa até tal ponto. mas desde que não saia do geral. Parece que esse argumento poderia ser suficiente. tocando as escrófulas. desde longa data. na França e na Inglaterra e não em outro lugar.pois não é exatamente o princípio de toda a "explicação" científica fazer um caso particular encaixar-se num fenômeno mais geral? Mas.

é digno de reinar". O estudo das tribos da Oceania esclarece a noção da realeza sagrada. ela servia para designar os deuses ou certas categorias destes. um grupo que se separara da nação hérula estava estabelecido na região do Danúbio." Os capetíngios sempre se arvoraram em autênticos herdeiros da dinastia carolíngia. originados dos deuses. Seriam ali de fato inexistentes? É provável que não. em determinadas famílias hereditariamente dotadas de uma virtude sagrada. e o mesmo príncipe. Decidiram mandar buscar um representante da família real na longínqua pátria de onde outrora partira a migração . A idéia da legitimidade pessoal era fraca. Mas esses bárbaros. mas não poderíamos esperar encontrar na Europa todas as instituições da Oceania. deram-lhes o nome Ases. mais ou menos apagadas. mais que no talento militar deste ou daquele comandante. Portanto. essas idéias e instituições são muito mal conhecidas. personagens sagradas: "sanctus enim et christus Domini est" ["o rei e santo. Mas. quando o herdeiro legítimo chegou. os hérulos. como entre todos os povos no mesmo estágio de civilização.é o único exemplo invocado -. a da legitimidade dinástica. Por falta de uma literatura escrita. havia muito tempo. como tantos outros príncipes naqueles tempos de violência. muito forte. Seu último descendente. dizia Pierre de Blois. ( ( ( ( ( "- r ( (. r ( r ( ( ( ( 70 71 J . assassinado pelos próprios súditos. procuremos retraçar em toda a sua complexidade o movimento de crenças e de sentimentos que.'! Julgava-se que esses reis verdadeiramente divinos possuíam certo poder sobre a natureza. Infelizmente. considerando-a um bem patrimonial. No seio de outras sociedades. Os reis normandos da Inglaterra reivindicaram a sucessão dos príncipes anglo-saxões. Entre os primeiros missionários. de acordo com os lugares e as circunstâncias. Não era lealdade a este ou àquele indivíduo: a primogenitura não existia. tornou possível a instauração do rito do toque. estava morto. muitos acreditavam reencontrar nos "selvagens". Conforme uma concepção que encontramos em outros povos (desenvolveu-se com uma força especial no seio das sociedades chinesas). Chegou o dia em que esse ramo pereceu por inteiro. era mal fixado. por meio delas. a mesma força pode ter-se manifestado de forma diferente . variam com eles.? Essas estirpes predestinadas eram as únicas capazes de dar chefes verdadeiramente eficazes. colocaram na chefia um dos seus. pois apenas elas detinham essa ventura misteriosa (quasi fortuna. convém primeiro indicar de que modo o caráter sagrado da realeza veio a ser reconhecido. conhecidas graças apenas a documentos relativamente recentes ou incompletos. podia-se mudar o soberano. pelo menos. embora ele fosse desconhecido por todos. designado por causa apenas de seu valor individual. como diz Jordanes) na qual as pessoas viam. decerto se referindo à península Escandinava. toda a Germânia anterior ao cristianismo permanecerá para sempre irremediavelmente obscura. um ramo da linhagem tradicional seguira-o e fornecia-lhe seus chefes. "7 Reencontra-se a palavra Ases nas antigas línguas escandinavas. falava do "sangue dessa família. isto é. "atribuindo suas vitórias à feliz influência que emanava de seus príncipes.diante da qual toda a nobreza perde o brilho . Num arquipélago polinésio . tocamos um fundo de idéias e de instituições extremamente arcaicas. Estes são suficientes para assegurar-nos que a concepção de realeza entre os germânicos. todas as espécies de concepções cristãs.por exemplo. Conservamos várias genealogias régias anglo-saxãs: todas remontam a Wotan. Os reis da França e da Inglaterra puderam tornar-se médicos milagrosos porque já eram. livremente escolhidos em razão de seu valor pessoal. em dois países da Europa ocidental." Dessa fé na origem sobrenatural dos reis decorria um sentimento lealista. o poder curativo dos que eram revestidos com esse caráter sagrado. deve-se primeiro olhar para as velhas realezas germânicas. estava impregnada de caráter religioso. não quiseram ver neles simples homens. trazendo apenas benesses. os chefes são tanto fautores de moléstias quanto médicos: assim se traduz a força sobrenatural de que são detentores. a fim de justificar as virtudes taumatúrgicas de seu monarca.l \ ( civilização. tal como ela floresceu sob outros céus. a causa do sucesso dos chefes. provavelmente porque não ousavam elegê-Io eles mesmos. haviam pedido que o imperador o nomeasse. Em outro lugar. diz-nos Jordanes. sem contrapartida desagradável. "Os gados". mas desde que seu sucessor fosse escolhido dentre os membros da mesma dinastia."em Thule". é o ungido do Senhor"]. Portanto. semideuses. Mas essas grandes idéias comuns a toda ou a quase toda humanidade evidentemente receberam aplicações diversas. a filiação é direta e contínua. anglos ou saxões aos soberanos franceses ou ingleses do século XII. Enquanto isso. em autênticos herdeiros de Clóvis e dos descendentes deste. Evitemos cometer o erro inverso e não transportemos para Londres ou Paris os antípodas por inteiro. os reis eram entre os germânicos escolhidos apenas em certas famílias nobres . não se resignavam a ficar sem sangue régio. a sociologia comparada permite reconstituíIas com muita verossimilhança. cansados de esperar. os embaixadores deram meia-volta e escolheram outro. como uma espécie de conclusão óbvia. antes de explicar a associação de idéias que muito naturalmente depreendeu daí.sem dúvida. diz Procópio. Não se pode entrever mais que alguns clarões. numa só noite quase toda a gente veio colocar-se a seu lado. Portanto. consagrado à púrpura't. de modo diverso do que acontecia no caso dos chefes temporários de guerra." Tácito já observava que. O primeiro escolhido morreu durante a viagem. Henrique n. Atalarico escrevia ao Senado romano: "Assim como aquele que nasce de vós é dito de origem senatorial." Os reis eram considerados seres divinos ou. assim também aquele que vem da familia dos descendentes de Amala .'? No século VI. misturando conceitos germânicos com um vocabulário ro=' mano. tais representações coletivas não são confirmadas historicamente. que haviam massacrado seu rei. e os carolíngios. na Europa antiga ou mesmo medieval. Dos chefes das antigas tribos de francos. o direito hereditário no interior da dinastia . ali.

provavelmente. mas. e o mesmo aconteceu com os merovíngios. como esses figurantes de teatro que. seu papel é fazer a chuva cair ou assegurar a regularidade das colheitas. foi redigida apenas no século XIII. aliás. É verossímil que continuassem a viver. é a impressão que as obras de sir James Frazer nos dão. do qual tratamos 72 ( ( ( ( ( ( ( aqui. mas só em parte. nossos textos são demasiado pobres para permitir-nos afirmar que nenhuma tribo germânica jamais considerou seu rei um médico. foi cortado em quatro. O advento do cristianismo privou-a de seu apoio natural: o paganismo nacional. segundo o testemunho de Amiano Marcelino. esse era o destino dos reis burgúndios. Olavo. entretanto. em vez de ser enterrado todo inteiro num só lugar. pelo menos entre o povo. 13 Às vezes. se nos ativer73 ( ( ( . era um santo do cristianismo.'? A partir de Dagoberto. Nossos textos permitem resgatar alguns vestígios dessas idéias. Esse costume. Pelo menos. filho de Haraldo.reduzidos pelos mordomos do palácio a uma existência totalmente representativa .. Sem dúvida. quando a colheita falhava. a dinastia merovíngia afundou na impotência. Com sua inteligência habitual. Segundo a lenda coligida no século XIII na Heimskringla [Esfera do mundo]. é preferível manter a dúvida que a sábia prudência nos impõe." Muitas personagens pertencentes às casas reais anglo-saxãs foram depois da morte veneradas como santos. ao menos pelas obscuras lembranças que seu antigo papel deixara nos espíritos. Guardadas as devidas proporções. ou melhor. O primeiro golpe de Estado tentado contra eles. o de Grimoaldo. O mesmo uso parece ter vigorado na Suécia pagã. pelo padre Snorri Sturluson) atribui algumas curas ao rei Olavo. Quando ele morreu. mais ou menos secretamente. os milagres que a saga islandesa lhe atribui são apenas o eco de um tema hagiográfico. não há nada de muito surpreendente em tal penúria. embora em escala menor. tocando as crianças e os cereais. 16 Na verdade. será sempre tentador recorrer) nada nos obriga a admitir que na antiga Germânia os reis. pelo menos oficialmente. como já mencionei. pátria clássica da realeza sagrada. continuou-se até o fim a atribuir-lhe valor mágico.IS Mas Olavo.I\ ( tais monarcas eram considerados responsáveis pela ordem das coisas. por ser dotados de uma virtude divina. encontraríamos muitos outros se nossos documentos não fossem todos de proveniência eclesiástica e. polinésios das ilhas Tonga reaparecem sem cessar. pois "a posse do corpo" (ou de um de seus fragmentos) "pareciaaos que a obtinham uma esperança de boas colheitas" . seu poder político foi até mais forte que nunca. Entretanto. O próprio Carlos Martelo acreditou-se forte o bastante para suprimir a realeza durante algum tempo. proporcionar aos homens uma boa progenitura e boas safras. comparou-se a situação dos descendentes de Clóvis . o soberano norueguês Halfdan. Em casos semelhantes. na ausência de documentos. é necessário acreditar que a estirpe legítima conservava em seu decIínio uma espécie de prestígio. portanto. mas não para usurpar o título real. os exemplos dessa forma da magia régia que encontramos registrados nessas grandes coletâneas são bem pouco numerosos: ali. Isso talvez explique o porquê de o rito do toque. na consciência popular. simples fantoches. passavam a usar cabelos curtos) decerto fora na origem um símbolo de ordem sobrenatural. provavelmente. na Islândia. Não há dúvida de que esse fracasso e essa abstenção prudente explicam-se em parte pela rivalidade dos grandes. esses reis continuaram a reinar. mas de bom grado se rendia culto aos membros das famílias que se estava habituado a considerar sagradas. as velhas idéias não se esvaeceram de repente. Muito mais que aliviar as misérias individuais. eles cessaram de ser tidos como personagens divinas. chefes ualos do Senegal. 17 A longa cabeleira que era o atributo tradicional da dinastia franca (todos os outros ho. Durante um momento após as invasões.ao que foi a vida dos micados junto aos xóguns no Japão antigo.12 No século XII. Deve-se também observar que na sociologia comparada (à qual.mas sem que possamos saber se. se não precisamente por sua natureza sagrada. é provável que tanto os príncipes francos quanto os imperadores japoneses tenham sido protegidos durante longo tempo. que atestaram ser muito antigo. A força miraculosa atribuída aos reis pelos "primitivos" é geralmente concebida para fins coletivos destinados a obter o bem-estar do grupo como um todo. por conseguinte. que reinou na Noruega nq começo do século XI. pois os reiscurandeiros parecem ter sido sempre e em todos os lugares bastante raros. depunha-se o rei. ter-se desenvolvido mais facilmente nas sociedades em que a religião proibia atribuir aos reis uma influência sobre aqueles grandes fenômenos cósmicos que comandam a vida das nações. s. fossem todos ou em sua maior parte curandeiros. representam a imagem de um desfile militar. e não dirigida para fins particulares. Os reis subsistiram na qualidade apenas de chefes de Estado. seu cadáver. tal como esta florescera entre os germânicos. por mais de um século e meio. fracassou miseravelmente. o historiador romano convidou-nos a comparar esse costume às tradições do velho Egito. durou tanto quanto os próprios merovíngios . mens livres. Algumas vezes. fora "de todos os reis o que tivera mais sorte nas colheitas". Não que essas linhagens fossem particularmente fecundas em virtudes religiosas ou privadas. os dinamarqueses ainda acreditavam que um príncipe virtuoso pode. estendiam os reis germânicos seu poder também às doenças? A Heimskringla (que. originariamente esses cabelos jamais cortados deviam ser considerados o próprio centro do poder maravilhoso que se reconhecia nos filhos da estirpe eleita. o Negro. tão logo atingiam a idade adulta. girando sempre em torno dos mesmos montantes. longe disso. e cada pedaço foi sepultado sob um montículo de terra em cada um dos quatro principais distritos do país. Sem dúvida. seria fácil encher páginas e páginas com os casos de chefes "fazedores de chuva" que os repertórios etnográficos fornecem. hostis àquele passado. os reges criniti [reis de cabelos longos] eram outros Sansões. Uma revolução religiosa aplica um golpe terrível na antiga concepção de realeza sagrada.l" Mestres dos anos de abundância.

um dia não se descuidou ao ponto de escrever: "os sagrados olhos" do ímperador+" Mas esse vocabulário (que aliás. . rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo _31 episódio misterioso que os exegetas ainda têm dificuldade para explicar. Carlos Magno. Nenhuma cerimônia eclesiástica consagrava a elevação ao trono. os bizantinos divertiam-se zombando desse gesto que não entendiam. É verdade que Clóvis (segundo Gregório de Tours. a unção. Os bárbaros deixaram-no desaparecer. os merovíngios não se arvoraram em sucessores do Império. eles poderiam ter-se sentido mais livres que Clóvis: as conquistas de Justiniano. ela só muito mais tarde é introduzida. reapareceram algumas expressões mais inofensivas.. Em Bizâncio. ou por um resquício de respeito ou por indiferença. ou aquele de seus conselheiros que redigiu em nome do soberano franco o prefácio dos Libri Carolini [Livros carolíngios]. porém. fizera-se.-. a Bíblia ofereceu comparações úteis.. ( ( ( ( ( \' r r c ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( mos às aparências oficiais. mas num cerimonial jovem e autenticamente cristão. Em suma. por uma espécie de usurpação. não pereceram inteiramente com ele. eram regradas apenas por um costume bastante variável. Carlos Magno renovou o elo com a tradição romana. Alguns imperadores foram considerados taumaturgos: Vespasiano. pagã em sua essência e interrompida por longo desuso. seu rito fundamental. c ( r r ( r ( ( ( ( r ( c ( -. mantinha em torno da realeza uma atmosfera de veneração quase religiosa. Nenhuma impressão religiosa particular vinha marcar a fronte do soberano. embora aceitando uma magistratura das mãos do soberano de Bizâncio. No tempo de Carlos Magno. provavelmente por brincadeira. tinham induzido os reis francos a livrar-se definitivamente de qualquer dependência para com os antigos senhores do mundo. haviam consentido em aceitar a supremacia imprecisa de um imperador distante.24 Seus descendentes não insistiram no título." Conhecemos suas pompas oficiais. No entanto. O Império ressuscitou. Foi a Bíblia o que enfim forneceu o meio de reintegrar na legalidade cristã a realeza sagrada das idades antigas. era porque pensavam não no velho e desusado culto que outrora se exprimira com termos similares. tão rica em termos que evocavam o caráter sagrado do príncipe. lê-se de que modo Abrão recebeu o pão e o vinho das mãos de Melquisedec. Antes de tudo. reproduzir a intitulação antiga. se assim se pode dizer. pode-se supor que os hábitos de pensamento que tal culto mantivera. elas indicam apenas uma familiaridade verbal com os textos latinos. cujo testemunho não me parece que deva ser rejeitado). proclamado imperador no Oriente. mas. mas não queriam permanecer ligados por um vínculo de sujeição (por mais vago que este fosse) a um vizinho muito próximo e muito ameaçador. do sagrado palàcío. como os merovíngios.. os imperadores não haviam cessado de qualificar-se de divinos. Sem dúvida. o cristianismo também passara por ali. 30 Algumas vezes.. num meio carregado de esperanças messiânicas. que traziam seu nome). tão preocupado em negar aos soberanos temporais todo caráter sacerdotal. depois das invasões encontraram-se reinando num país profundamente romanizado a tradição do povo conquistado oferecia todos os esplendores da religião imperial. como evidente imitação dos costumes estrangeiros. certa tendência a confundir as categorias do político e do divino. mas sabemos muito pouco da verdadeira influência que essa religião podia ter sobre as almas. Não podia renascer com ele a religião imperial. até o século VlII os reis francos ou ingleses eram apenas cristãos como os outros e. efetuou algumas curas (isso.P Mas foi um império totalmente cristão. foi em Alexandria. por outro lado. A razão parece-me clara. fossem germânicas fossem romano-orientais.l Mais tarde. do mui sagrado Augusto. ainda viva na Roma do Leste. aliás. pelo menos na França.. Jamais saberemos se a crença no caráter divino dos imperadores era forte o bastante para que a massa fosse levada a considerar verdadeiramente atuante o poder miraculoso desses soberanos. Já em Roma ele fora sendo progressivamente despojado de seu valor original: essas fórmulas de devoção haviam-se transformado em pouco mais que simples fórmulas de cortesia. eles evitaram. a religião imperial iria perdurar quase tanto quanto o Império. não deixou de reprovar a esses imperadores a soberba.ê" Nessa época. Em Bizâncio. O culto imperial desapareceu na Gália ao mesmo tempo que a dominação romana. cuja habilidade é indubitável. Todavia. ademais. nos reinos surgidos das invasões um grande número de reminiscências de origens diversas.ê" Aos soberanos germânicos que. Os soberanos do Ocidente haviam-se tornado oficialmente sagrados graças a uma nova instituição: a consagração eclesiástica e. Nos escritores do século IX. Em Bizâncio. Mas não podemos duvidar de que a religião imperial constituiu um maravilhoso instrumento de governo. suspeitou-se de que os sacerdotes do Serapeu. terra havia milênios habituada a venerar seus chefes como se estes fossem deuses." O próprio Hincmar. torna-se a falar dos sagrados imperadores. tivessem maquinado essas manifestações milagrosas). dizia-se que Adriano curara um cego. em relação ao Augusto das margens do Bósforo. do alto de sua ortodoxia. mas nenhuma instituição regular corporificava esse sentimento vago. os historiadores indagaram a si próprios de onde veio essa diferença entre as pompas monárquicas do Ocidente e as do Oriente.. cujas solenidades. tornava inútil o novo rito. ! Jj: ~ . não tocara na essência das coisas. porém. Os primeiros comentadores livraram-se do embaraço atribuindo-lhe 74 75 ( . No capítulo 14 do Gênesis. chamar AugustO.P Do mesmo modo. puros leigos. contavam que o papa untara o imperador franco "da cabeça aos pés". embora pouco a pouco tivesse modificado algumas fórmulas. No máximo. Se às vezes os contemporâneos dos primeiros imperadores francos davam sentido pleno a essas palavras de aparência antiga. Como veremos.22 Esses exemplos são isolados. A religião imperial.. mais particularmente. reintroduzindo no Ocidente as armas "romanas". copiadas da linguagem obsequiosa do Baixo Império. a unção surge nos reinos bárbaros nos séculos VII e VIII. mesmo afirmando sua autonomia (sobretudo mediante a cunhagem de moedas.. até então. não sobreviveu à era carolíngiaj-? não deve iludir-nos.

o rei do Egito. "É manifesto". os antigos reis jamais haviam cessado de parecer personagens muito superiores ao resto do povo. os reis decerto eram considerados personagens sagradas. recebeu do papa Estevão IV tanto a benção com óleo quanto a coroa. unia-se a ele outro rito/de origem diversa. em parte como conseqüência das influências irlandesas. durante os séculos XI e XII. a transcrição desse venerável pedaço de argila poderá figurar no frontispício da obra . rei em Nouhassché e derramou-lhe o óleo sobre a cabeça". Não podemos duvidar de que coroa e diadema. Tinha lugar de primeira ordem no cerimonial hebraico. na verdade. a lenda fez da cerimônia realizada em Reims por s.s . provavelmente emulando o que acabava de acontecer no país franco. na basílica de São Pedro. constituía o processo normal para transferir da categoria do profano para a categoria do sagrado um homem ou um objeto. sobretudo no Ocidente. Adu Nirari. onde desde o desaparecimento do arianismo a Igreja e a dinastia viviam uma união especialmente íntima.C. a unção régia surgiu no século VII.. Depois. Mas vale a pena recordar que Clóvis tampouco o fora: a única unção que recebeu foi a que o rito galicano impunha aos catecúmenos. Gália. No velho mundo oriental. os dois gestos tornaram-se quase inseparáveis.. Em 751. A 25 de dezembro de 800. já se invocava o exemplo do rei de Salém. os cristãos tomaram-na emprestada à Antiga Lei. teu avô. como teremos ocasião de ver. Pouco depois. ele sentiu a necessidade de disfarçar sua usurpação com uma espécie de prestígio religioso. em Roma as do papa) e do ritual eclesiástico de que então se cercava o prelado. a unção teve importante papel no ritual do novo culto. seu filho Luís. a tira de tecido adornada com pérolas e pedras preciosas que fora usada por Constantino e seus sucessores imediatos. Para consagrar um 77 . Mas tal aparição enigmática devia instigar também os apologistas da realeza." Nessa aplicação geral. "que pela unção a Divina Providência elevou-nos ao trono. era uma estirpe autenticamente santa e iria afirmar sua consagração com um ato formal. plenamente cristão. o Pio. foi apenas um simples batismo. [que se denomina] a justo título rei e sacerdote leigo. o rito generalizou-se em quase toda a Europa ocidental. a mesma prática foi implantada também na Inglaterra. A nova dinastia. Todos os teólogos na Gália estavam preparados para aceitar essa ressurreição de uma prática judaica. porém. Grã-Bretanha. No tempo da grande Querela do Sacerdócio e do Império. as leis mosaicas penetravam a disciplina eclesíástica. de passar da unção dos catecúmenos ou dos sacerdotes à unção régia.38 Seus sucessores não deixaram de seguir-lhe o exemplo.. ali.. fornecia o modelo de uma instituição muito concreta.ê" A nova instituição tomou forma primeiro no reino visigótico da Espanha. justificado pela Bíblia. haviam em sua origem possuído uma virtude religiosa. concluiu a obra da religião". A partir daí. à semelhança dos monarcas hebreus. Seu caráter sobrenatural era por muitos povos marcado com uma cerimônia de sentido bastante claro: quando o soberano ascendia ao trono.\ ( sentido simbólico: Melquisedec é uma representação do Cristo. então. Carlos Magno não o foi ao tornar-se imperador. ao contrário. 33 Mas o Antigo Testamento não era só uma fonte de símbolos. Melquisedec . ( ( ( ( ( í' ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( . não ousara encarar) resolveu mandar para o convento os últimos descendentes de Clóvis e tomar para si tanto o poder quanto as honras reais. As tabuinhas de TeU el-Amarna conservaram a carta que um dinasta da Síria. Os filhos de Israel também a praticavam. devia ocorrer naturalmente aos espíritos. Era provavelmente um círculo de ouro. Esse sacerdote-rei fazia remontar a um passado prestigioso o ideal dos que reconheciam nos monarcas um caráter sobrehumano. mas aos olhos de um cristão. ao proclamá-Ia imperador. endereçou lá pelo ano 1500 a. Na época merovíngia. Remígio a primeira sagração régia. adota dos pelos imperadores por imitação às monarquias orientais (no caso do diadema. Carlos Martelo. Pepino (assumindo o risco que seu pai. em torno da cabeça dos soberanos bizantinos. Desde muito cedo. ( (. 76 Os merovíngios jamais haviam sido ungidos reis. a vaga auréola mística que os envolvia devia-se unicamente ao domínio exercido sobre a consciência coletiva por obscuras reminiscências vindas dos tempos pagãos." Foi-assim que Pepino se tornou o primeiro dos reis da França a receber a unção das mãos dos sacerdotes. o exemplo de Davi e de Salomão permitia restituir cristãmente aos reis seu caráter sagrado. Fortunato dizia sobre Childeberto: "Nosso Melquisedec.esteve na moda. certas partes de seu corpo eram ungidas com um óleo previamente santificado. pois entre eles o Antigo Testamento estava em voga. Itália setentrional. o papa Leão III colocara uma "coroa" sobre a cabeça de Carlos Magno. mais particularmente nos países de rito galicano: Espanha.pois foi dessas antigas civilizações da Síria e de Canaã (as quais a leitura da Bíblia tornou tão estranhamente familiares aos cristãos dos séculos VII e VIII) que nos veio a unção régia. Aí pelo fim do século VIII. Anteriormente ungido ao ser feito rei. provavelmente à monarquia persa). veio a vez do Estado franco.P A idéia de retomar em sua totalidade os velhos costumes israelitas. Mas em 816. Mais tarde. o diadema. como diz o sacramentário carolíngio de Saint-Amandêê . a coroa não tinha mais nenhum outro caráter sagrado além daquele que advinha das mãos que a entregavam ao príncipe (em Bizâncio as do patriarca. meu avô. Aos olhos dos súditos.s. Aliás. similar ao que havia vários séculos substituía. fez de Taku. ( r. é como o vemos figurado em tantas catedrais. na época de Carlos Magno. Melquisedec. No dia em que fizermos a compilação dos documentos que ainda nos faltam sobre a sagração de nossos reis. entre eles (assim como provavelmente entre seus vizinhos) a unão não era exclusiva dos reis. Ao mesmo tempo. no entanto. servindo principalmente para a confirmação dos catecúmenos e a ordenação dos padres e dos bispos. em Reims. diz altivamente num de seus decretos. ao faraó Amenófis IV para lembrar-lhe o dia em que "Manahbiria.

sobretudo. um dos mais capazes de grandes projetos. isso só ficaria visível algumas centenas de anos mais tarde. a novidade foi dar-Ihes um papel nas pompas religiosas da elevação ao trono. [. para isso. os reis haviam-se tornado. é suficiente comparar duas passagens de suas obras: "É à unção. parece que o rito contribuiu para. É claro que. Pedro o autor de uma vida de santo) "sem a benção . contemporâneo dos primeiros tempos da dinastia carolíngia. os inimigos da realeza pareciam transformados em sacrílegos. Também aqui reencontramos Hincmar. ao passo que os pontífices não podem ser consagrados pelos reis". a unção. por um momento o 'oficiante que ministrava a unção parecia superior ao monarca que devotamente a recebia. se não inventou. certos espíritos penetrantes depreenderam bastante bem os perigos com que semelhante confusão entre uma dignidade essencialmente temporal e o sacerdócio podia ameaçar a Igreja e até o cristianismo. multiplicaram-se as insígnias régias que eram entregues ao novo soberano. Muito pouco tempo depois de CarIos Magno. Melhor dizendo: de seu caráter mais que semisacerdotal. No decorrer da cerimônia. menos de cem anos depois da primeira unção franca.. teu servo. dos pontífices" . E o velho cerimonial anglo-saxão: "6 Deus [. o Calvo. segundo toda a probabilidade. melhor que qualquer outro documento. foi a Antiga Lei o que forneceu as fórmulas necessárias: "Que tuas mãos sejam ungidas com o óleo santificado. Uma prece. que deveis a dignidade régia". essa idéia já estava 78 presente. Essa cerimônia tinha atrás de si um passado bem curto. tu que pela unção com o óleo consagraste sacerdote Aarão. sem consagração não há verdadeiro rei. pela aplicação desse mesmo ungüento. o qual ungiu os reis e os profetas". o Calvo. a recusar a unção e a coroa que o arcebispo de Mainz lhe propunha e a reinar (como lhe reprova pela boca do apóstolo s. Desde o tempo de Carlos. em breve. e talvez o desejo de beneficiar-se dessas palavras do Livro Sagrado tenha levado mais de um entre eles a procurar a consagração oferecida pela Igreja. redigidos por Hincmar. ato episcopal e espiritual". Assim nasceu a sagração. sejam quais forem seus títulos "terrestres" ao trono. diz um ritual muito antigo. Portanto. ]. o Calvo. '1 ( ( ( (. é o próprio Hincmar quem faz o gesto consagrador. Pai Todo79 ( ( . Este não se cansa de repetir que nenhum homem. os reis. Sem dificuldade. a antiga liturgia da sagração. em parte a solenidade foi sempre dúplice: de um lado. "ungidos do Senhor". na França. podia-se pensar que seria necessário um sacerdote para fazer um rei . Por isso. Não obstante. desenvolveu-se rapidamente em todos os países um amplo cerimonial. depois da vinda de Cristo. foi coroado rei da Lorena. o mesmo se verifica nos mais velhos textos litúrgicos ingleses. naquele dia. O óleo santo elevava os soberanos a muito acima da multidão. levou o rei Henrique I da Alemanha a ser o único. havia o reverso da medalha. idéias similares já eram defendidas por alguns prelados. à realeza. defendidos contra as violências dos maus pelo preceito divino. Durante os dois ou três primeiros séculos. Hincmar soube encontrar para ela um precedente ilustre e miraculoso. Já em 787. vê-se o rei ser ungido e coroado.ê? Portanto. ao sacerdócio e. proteção decerto bastante ilusória. os atos do Concílio de Sainte-Macre. Como teremos oportunidade de mostrar mais adiante. entre todos os monarcas de seu tempo e de sua estirpe. provavelmente mais recente.43 O novo rito era uma faca de dois gumes. escrevia ele em 868 a CarIos." mas talvez os príncipes dessem ao mandamento bíblico mais valor do que imaginaríamos hoje... em certos meios eclesiásticos. no século seguinte. em sua maior parte. o outro.. \ ( c ( ( ( ( imperador. poderia ser a um só tempo sacerdote e rei. pois o próprio Deus disse "Nolite tangere Christum meum". vinha de acontecer a primeira unção régia que a Inglaterra conheceu) relembrava tal preceíto. "Não tocai em meu Cristo. os profetas e os mártires". também para consagrar um rei. quando se abriu o grande debate gregoriano. não sabemos quando foi composta. em geral. a entrega das insígnias. em meu ungido". ao lado da coroa. com este óleo com que Ele ungiu os sacerdotes. Vejam Hincmar de Reims. muito mais que a vosso poder terrestre. Sob CarIos. constitui para reinar sobre o povo israelita os sacerdotes. Esses emblemas eram. dali em diante. o Calvo. Ninguém deu maior valor à sagração régia. a ter tanto interesse por esses gestos litúrgicos? A fim de entender-as razões de sua atitude.44 Mas sua própria insistência prova o quanto a idéia que o arcebispo combatia expandira-se em torno dele. ] nós te pedimos. aparece pela primeira vez na história quando Carlos. repleta de violências. o medo de uma interpretação desse tipo foi o que. a julgar pela história daqueles tempos agitados. ( ( ( ( { r r (. um. Folheemos por um momento esses velhos textos. logo de início. do outro. Que motivos levam esse homem. e desde o século IX na Inglaterra. Muito depressa. era necessário cumprir ambos. por uma curiosa coincidência. o Concílio de Chelsea (no decurso do qual. o arcebispo de Reims. uma tradição já estabelecida impôs-lhe sem dúvida o emprego das seguintes palavras: "Que Deus te coroe com a coroa da glória [. "é a essa benção. 42 Não se poderia ser mais claro.. os reis e os profetas. Em torno dos dois ritos fundamentais. dizem: "a dignidade dos pontífices é superior à dos reis porque os reis são sagrados pelos pontífices. entre as quais a coroa permanecerá a essencial.sinal evidente da preeminência do espiritual sobre o secular. Que essa idéia tinha tom de doutrina oficial é o que nos mostrará. já aparece o cetro. que continuou até o fim a ser o ato santificador por excelência. verificaremos que se tentou reunir ali tudo o que podia favorecer a confusão entre os dois ritos quase idênticos que davam acesso.. Além disso. segundo a expressão bíblica. desenvolve e fixa o mesmo pensamento.'? Por este. Provavelmente. antigos. então pelo menos adaptou engenhosamente uma lenda. confirmar no espírito das pessoas (exceção feita a alguns teóricos eclesiásticos) a noção do caráter sagrado dos reis. eles não partilhavam com os sacerdotes e com os bispos esse privilégio? Entretanto."\ . que presidia a assembléia. ] e te faça rei pela unção dada com o óleo da graça do Espírito Santo. e que mais tarde.

essa declaração teológica terminava com um apelo ao soberano. a qual tinha Jesus Cristo como filho apenas adotivo de Deus. os objetos ou os indivíduos sagrados eram imaginados não apenas reservatórios de forças aptas a atuar no outro mundo mas também fontes de energia suscetíveis de influência imediata sobre a vida cá na terra. os dois universos penetravam-se mutuamente. Como poderia ser de outra forma? A seus olhos. que condescendas em santificar com tua benção. Pedro uma expressão que o apóstolo aplicava aos eleitos e de alterar-lhe um pouco o sentido original para homenagear a dinastia franca: "sois a raça santa. À primeira vista. por meio desta gordura tomada de uma de tuas criaturas. assim como a Alemanha dos imperadores saxões ou sálios. pois ninguém tinha noção exata das leis naturais.P Aliás. Ele dizia mais ou menos isto: meu monarca é uma personagem sagrada. "mox quipe sacerdos ipse futurus Chartres. Fulbert. todo um partido dedicou-se a comparar a dignidade régia ao sacerdócio. não havia um abismo intransponível entre o mundo em que viviam e o mundo maravilhoso para o qual os ritos cristãos abriam a porta. no século XI. os padres. Na época em que este definia com tanta nitidez a incompatibilidade. Muito pelo contrário: no século XI. os atos. . mesmo independentemente de qualquer assimilação precisa entre a realeza e o sacerdócio. portanto. 48 Malgrado tudo o que depois pudessem dizer todos os Hincmar do mundo. tal qual os feiticeiros. dos quais precisava. provavelmente no século XIII.46 I (. as pessoas benziam-se ao encontrá-I os no caminho porque tal encontro era tido como mau presságio. fundador do sacerdócio hebraico. se um gesto agia no além. Ali. Portanto. Afinal. sob a Nova Lei. os camponeses não imaginaram nada melhor que sacrificar seu cura. mais explicitamente do que até então se fizera. que se situa esta instrutiva historieta (o serrnonário Jacques de Vitry. tanto na França quanto na Inglaterra. 50 Os padres. o santo quisesse manifestar-se. o próprio papa Estevão III. trata-se de uma dedução singular. T. a respeito dos quais teremos uma palavra para dizer mais tarde. um imperador bastante insignificante. um 81 ( 80 ( ( ( ." Já vimos como Pierre de Blois fazia a "santidade" dos reis decorrer da unção. houvesse ousado dizer de seu herói. esse tom não seria sido admissível. os bispos da Itália setentrional presentes ao Sínodo de Frankfurt publicaram uma defesa da doutrina ortodoxa contra os adotionistas" espanhóis. os monarcas-continuaram a ser considerados seres sagrados. alegava conhecêIa de "fonte segura"): numa aldeia. protetor da fé. ( (I í ( r ( ( ( ( Tanto mais que os dirigentes do clero nem sempre haviam falado a linguagem de Hincmar. para fazê-Ia cessar. tão duramente que Gregório VII precisou protestar. Esses esforços. Como surpreender-se de que um poeta da época celebrando a sagração de um imperador (aliás. ou pelo menos a imensa maioria deles.45 Vê-se que diante dos soberanos ingleses ou francos. mas que importância tem isso?). entre a dignidade régia e a presbiteral. não se fazia dessa energia uma imagem tão concreta que às vezes se chegava até a representá-Ia pesada? Conforme nos diz Gregório de Tours. eram às vezes venerados e às vezes odiados. quando a ocasião se apresentava. 1 I I I ( I I ( I era!" . por que olhar para tão longe na direção norte? É na França. Em alguns lugares.) o PODER I CURATIVO DO SAGRADO I I I Os homens da Idade Média. É isso que os textos nos mostram de modo inequívoco. Basta saber que. régia e sacerdotal". (N. não renegaram essa tradição carolíngia. no momento em que o mostra avançar em direção à igreja onde se desenvolverá a cerimônia: "em breve ele seria sacerdote"."( poderoso. extremamente terra-a-terra. um tecido colocado sobre o altar de um grande santo (Pedra ou Martinho) tornava-se mais pesado. não podia encontrar nada de muito surpreendente. um dos mais respeitados prelados de seu tempo. eram por muita gente considerados uma espécie de mágicos. a grande sombra de Aarão. Mas Pierre de Blois ia mais longe. a crescente fraqueza da dinastia convidava os prelados a assumir o papel de mentores dos reis. eram considerados responsáveis por intempéries e por contágios. quanto a isso. Berengário do Friul. nessa qualidade. como imaginar que sua ação não se estendia também a este mundo? Certamente. ficaram definitivamente marcadas pelo sinal divino. carregados de eflúvios sagrados. a idéia de intervenções dessa ordem não chocava ninguém. grassava uma epidemia. as monarquias da Europa ocidental. se se pode dizer. não se furtou a buscar na Primeira Epístola de s. A França capetíngia e a Inglaterra normanda. meu monarca pode curar os doentes. 51 No reino da Dinamarca. ( . desde que. Conservamos algumas cartas endereça das a Roberto. nos belos dias do Estado carolíngio. já herdeiras de longo passado de veneração. os quais os católicos hoje reservam para o chefe supremo de sua Igreja. o Pio. no século XII. Assim. Isso iria perpetuar-se. pelo bispo de (*) Seita do século VIII. O bispo não teme dar ao rei os títulos "santo padre" e "santidade". teu escravo aqui presente e que lhe permitas imitar diligentemente os exemplos de Aarão" . no dia de sua sagração. querendo adular Carlos e Carlomano. Mas veremos que nela uma mente de capacidade normal. Carlos Magno era tratado não apenas de "senhor e pai" e de "mui prudente governador de todos os cristãos" mas também de "rei e sacerdote" Y Alguns anos antes. Em 794. evocava-se não apenas a imagem do rei dos judeus mas também a dos sacerdotes e dos profetas. não se poderia duvidar de que a maior parte de seus contemporâneos pensava como ele. que a conta. é claro. semelhantes expressões jamais foram esquecidas. não nos interessam agora. eram perseguidos como promotores desses males. . tinham das coisas da religião uma imagem muito material e.

I ( ( dia. estas palavras temíveis: "não se obtém a realeza por direito hereditãrio't. aos quais os novos reis deviam o trono. Roberto era o segundo representante de uma nova dinastia. a partir de 936. sofrendo dos pés. 54 A hóstia. naqueles primeiros anos. guardiãs das idéias arcaicas. a do bispo e a do abade". é necessário apelar para fatos de outra ordem. para imaginar e.60 Essa última expressão deve ser tida como a mais significativa entre todas: o clero. outros. não se tornaram curandeiros logo em seguida (isto é. 55 De quando em quando. . não haviam deixado de dar crédito. quem poderia estar certo de que tal queda seria-defmitiva? Decerto havia muitos para os quais o pai e o filho associados no trono eram como escrevia Gerbert em 989 ou 990.l? Na verdade. pondo em poder de Hugo o pretendente que descendia de Carlos Magno. em diversos lugares do Midi. A POLÍTICA DINÁSTICA DOS PRIMEIROS CAPETÍNG/OS E DE HENRIQUE I BEAUCLERC O primeiro soberano francês tido como capaz de curar os doentes foi Roberto. os santos óleos. de um rito religioso. Não iria agora o direito de livre escolha agir sem entraves? O historiador Richer coloca na boca do arcebispo Adalbéron. Entre todas as coisas de igreja. que ele era contestado. às vezes o poder que a opinião comum atribuía ao sagrado revestia-se de um caráter temível e deplorável. Como não haveriam eles. no entanto. pelo caráter sagrado que lhes era inerente. ademais. logo tornou completamente inúteis os esforços que poderiam satisfazer os partidários de uma linhagem cujo chefe estava agora preso e cujos últimos rebentos iriam cair no esquecimento. os reis estavam duplamente designados ao papel de benfeitores taumaturgos: primeiro. um bemsucedido ataque de surpresa desfechado no dia de Ramos de 991. sobretudo. apenas reis temporários. Sobretudo para os males do corpo. foi necessário um acidente de caça (aquele em que Luís v encontrou a morte) e uma intriga internacional. Mas também. em outros termos. em 987 . Na verdade. Em 987. esse gênero de idéia levava os espíritos grosseiros a estranhas aberrações.ou seja. Quase todo mundo acreditava na. a água do batismo. Mas esse sucesso inesperado não assegurava o futuro. Por certo. Conforme vimos. devia parecer frágil. Ora. Elas mostram-nos que os espíritos estavam preparados. esse princípio não era novo. Hugo. o Pio. esses óleos constituíam um recurso maravilhoso. "inter-reis" (interreges). ao menos na antiga Germânia ele tivera por corretivo a necessidade de o rei ser escolhido sempre na mesma família. depois. (i (. existe benefício maior e mais perceptível que a saúde? Facilmente se atribuía poder curativo a tudo o que.P Essas loucuras (em formas mais anódinas) não sobrevivem ainda hoje? Assim. Há mais.58 Durante muito tempo. a água em que o oficiante molhara as mãos depois de ter tocado as santas espécies. Ora. Abbon escrevia: "Conhecemos três espécies de eleições gerais: a do rei ou do imperador.ê? e. no próprio ano da usurpação. Os prevenidos consumiam-no para obter um ordálio favorável. em grande parte ela tinha origem naquela predestinação familiar à qual as massas. assim que a unção régia foi implantada nos Estados da Europa ocidental). Gregório de Tours contou a história de um desses chefes bárbaros que. participasse de uma consagração. As decisões da assembléia de Senlis arriscavam-se a assinalar o triunfo do princípio eletivo. mas está claro que o mais das vezes esse poder era julgado benéfico. naqueles tempos quem dizia sagrado dizia capaz de curar. Recebeu o título régio e a unção ainda em vida de seu pai. O prestígio dos carolíngios era grande. em larga medida as crenças populares escapavam ao controle eclesiástico. houve focos de oposição. (\ r: " (I ( (j ( () r: ( r. sendo o veículo normal das consagrações. ainda em nossos dias. em certas províncias se supõe que o pó e o musgo das igrejas possuam essas mesmas propriedades. em Sens. uns. em qualquer grau. o vinho da comunhão. ao lado do cadáver. banhava-os numa patena. A fidelidade que alguns legitimistas votavam aos descendentes de seus antigos soberanos provavelmente jamais constituíra perigo muito grave para a família capetíngia. causara à lealdade dos súditos e. arengando aos grandes em favor de Hugo Capet. mais cedo ou mais tarde. os próprios dedos do padre foram também remédios. para falar como Pierre de Blois. mas deixava prosseguir as práticas que não julgava ofensivas à majestade do culto. De onde a derivavam? Aos olhos do povo." O clero evidentemente condenava tais excessos. mais formalmente e mais cristãmente. para tornar possível a sua queda. ninguém mais ousara disputar-lhes a coroa. numa obra dedicada aos próprios reis Hugo e Roberto. a verdadeira ameaça estava em outra parte: no sério dano que esses mesmos acontecimentos de 987. a mais visível e a mais respeitável. desse óleo bento que parecia a tantos enfermos o mais eficaz dos remédios. por uma das fontes de onde emanava esse caráter. pois supõem em maior grau o jogo das vontades individuais. à hereditariedade monárquica. nem em todos os países. para admitir semelhante prática. e mesmo mais tarde. quando vestido com suas roupas sacerdotais ele enterrava um morto. "santidade" dos monarcas. A fim de explicar por que 82 esserito nasceu numa data precisa e num meio determinado. Era necessário proteger da indiscrição dos fiéis os vasos que continham os óleos. habituado a considerar a eleição a única fonte canônica do 83 ( ( ( ( ( . os aldeões precipitaram-no na cova. de posar de curandeiros? Entretanto. . a unção. As considerações gerais que acabam de ser expostas não são suficientes para esclarecer por que o rito do toque apareceu na França e na Inglaterra. Sabemos. Porque os capetíngios tiveram êxito. temos dificuldade em imaginar o quanto seu poder. recordemos o que eram os reis. a partir dos tempos carolíngios. Ora. Portanto. fatos que podemos classificar de mais fortuitos. . essa "santidade" passou a resultar.\ 1\ (. mais particularmente. pareciam particularmente fecundos em virtudes.

a característica de santidade que se conferia à pessoa do rei. os carolíngios haviam recorrido a um rito bíblico: a unção régia. em qual dinastia se devem procurar os modelos ou imitadores? Questão outrora inflamada: durante muito tempo. Podemos perguntar se cada um deles. teria sido a mesma que na França. -. em estado isolado.! ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( poder episcopal ou abacial. segundo sabemos. estava muitíssimo tentado a nela ver também a mais louvável origem do poder político supremo. a corte esforçou-se por atrair os doentes e expandir a fama das curas realizadas. Foram plagiados? Caso o milagre régio se tivesse desenvolvido na Inglaterra independentemente de qualquer modelo estrangeiro. outros fatos análogos já não se haviam produzido. afinal de contas. Mas. como vimos. E para santificar o feliz candidato. curavam como ele e depressa se especializaram numa doença determinada: as escrófulas. e não entenderíamos 85 I I I I I I I I • 4 "---- . Henrique Beauclerc. Mas chegou o dia em que. A persistência da pretensão taumatúrgica na linhagem capetíngia certamente não criou sozinha essa fé na legitimidade familiar que devia ser um dos melhores apoios da realeza francesa. os reis descendentes de Roberto 11 foram os únicos na Europa a tocar os enfermos.decerto não na formação original do milagre. Roberto n. no século XVI ou XVII. depois (pela ação de acasos que para sempre nos serão misteriosos). nas duas margens da Mancha. fizeram-no prerrogativa não mais de . é difícil acreditar que nenhuma intenção política dissimulada haja desempenhado um papel . acrescida da santidade inerente à dignidade régia. Hoje. o patriotismo interessou-se por solucioná-Ia. fosse qual fosse sua origem. o primeiro de sua estirpe do qual sabemos ter tocado os enfermos. que parece ter sido o iniciador do rito na França. nem tudo deve ter sido cálculo. para maior vantagem da monarquia. não há a menor dúvida de que o próprio Roberto e seus conselheiros tinham fé na eficácia das forças miraculosas que emanavam de sua pessoa.nãc com seu pai. Também lá encontramos reis-médicos. portanto. Se se quiser. na cristalização desse milagre. talvez inconscientemente. Provavelmente. eles devem ter sentido a necessidade de realçar mediante alguma manifestação inédita o brilho de seu nome. O segundo dos capetíngios encetara o prodígio. essas crenças se concretizaram numa instituição precisa e regular: o "toque" régio. a mais urgente tarefa que se impunha aos capetíngios era restabelecer em proveito próprio uma legitimidade. Em condições quase idênticas. os sucessores de Roberto não deixaram que tão belo dom ficasse sem herdeiros.:o. Portanto.. a progressiva especialização numa moléstia determinada. no começo. Por certo. Os capetíngios não foram plagiadores. até o ano 1100 pelo menos. não se esquecera o que acontecera durante os cinqüenta anos seguintes à morte de Carlos. Naquele momento. estava morto havia 69 anos. foi o iniciador do rito inglês). Portanto. Provavelmente por causa disso o milagre capetíngio começou com ele e. se necessário sem esperar a morte do primeiro eleito ou. a aparição de uma virtude taumatúrgica que se aplicaria indistintamente a todas as enfermidades. Em suma. Roberto tinha reputação de ser muito devoto. Os primeiros eruditos que. Aliás. também a nós: coincidência ou interação? Se nos inclinamos à segunda hipótese. a unção oferecia-se sempre. sua evolução. muito naturalmente levou os súditos a atribuir ao monarca virtudes taumatúrgicas. De fato. Quem sabe se.:\ ( ( ( ( (.: {I rique Beauclerc (que. Foi no nascimento da instituição que a influência de um país sobre o outro pôde fazer-se sentir. isto é. A história das religiões mostra abundantemente que para explorar um milagre não há necessidade de ser cético. preocuparamse com ela rião deixavam de concluir a favor da França se eram franceses. sem levar em conta as reivindicações de seus filhos. Bem ao contrário: só se aceitou a idéia desse milagre patrimonial porque nos corações ainda subsistia alguma coisa das velhas noções sobre as famílias hereditariamente sacras. seus esforços reunidos acabaram por favorecer com um caráter sobrenatural toda a estirpe desses monarcas. pelo menos. a anterioridade francesa não pode ser colocada em dúvida. O eterno problema que se afigura aos historiadores quando estes encontram instituições semelhantes em dois países vizinhos apresenta-se. aquilo que uma eleição fizera. com certeza. as crenças coletivas que estão na origem dos ritos curativos e explicam o sucesso destes eram fruto de um estado político e religioso comum a toda a Europa ocidental e haviam desabrochado espontaneamente tanto na Inglaterra quanto na França. a fim de que um rei se fizesse verdadeiramente santo. A aparição do poder curativo sob Roberto II não se explicaria por preocupações da mesma ordem das que outrora haviam levado Pepino a imitar os príncipes hebreus? Afirmar isso seria presunçoso. reivindicando por sua vez uma parte do glorioso privilégio. Seus descendentes. via algo que não seu interesse pessoal. pode-se supor que agiam espontaneamente os primeiros doentes a (numa data para sempre desconhecida) solicitar que o soberano os tocasse. não se devia estar muito preocupado em saber se o poder curativo era exclusivo do monarca do dia ou próprio do sangue capetíngio. Mas não há como duvidar de que o espetáculo das curas régias contribuiu para fortalecer esse sentimento e para. ( ( ( . até o reinado de Hen84 . um verdadeiro rei. dar-lhe nova juventude. se se pode falar assim. durante reinados precedentes. de alguma maneira. a virtude ancestral ainda contava. Por menos conscientes que estivessem dos perigos que os cercavam e dos que não poderiam deixar de abater-se sobre sua descendência. Examinemos as datas. mas. De resto. a unção não era suficiente para conferir esse maravilhoso talento. o Gordo. no começo. ou da Inglaterra se eram ingleses. Passemos para a Inglaterra. um rei. Ora. É claro. outra podia desfazer. os outros "ungidos do Senhor" não o tentavam.< jl. Hugo. começou a reinar em 1100. era necessário mais que uma eleição seguida de sagração. como no tempo de Gontrão? Mas. mas há motivos para tentar supô-lo. de que lado. não nos será difícil manter a serenidade. Sem dúvida. quando vemos essas crenças até ali erráticas tomar cérpo num momento tão oportuno a uma dinastia ainda mal assente. mas de uma dinastia. segundo toda a probabilidade.

Henrique I. No entanto. não era aos olhos dos crentes o único a possuir essa virtude. foram membros de sua roda quem redigiu uma falsa bula papal que." O próprio Henrique I. desprezando todos os novos princípios. mas para quantos outros males não se invoca especificamente este ou aquele santo? Ora.v' Isso porque toda a familia real era tida como. em matéria política. eu de bom grado lhe daria a denominação romântico: um dos grandes serviços prestados pelo romantismo não foi acentuar vigorosamente nas coisas humanas a noção do espontâneo? Essas duas formas de interpretação são contraditórias apenas na aparência. Se as hipóteses que apresentei podem ser aceitas. um clérigo agregado à catedral de York escrevia seus 35 tratados. começara a tocar os doentes.. o caráter sagrado não mais se estendia a toda uma linhagem. quintessência de todo o pensamento antigregoriano. o rito do toque faz assim sua aparição em dinastias nas quais. Para todo fenômeno religioso. na Inglaterra cerca de um século mais tarde. único herdeiro da coroa. Nascido na França aí pelo ano 1000. há dois tipos de explicação tradicional. ] de todas as igrejas da Inglaterra" e uma espécie de legação pontifical perpétua. e talvez. colocou seu poder miraculoso sob a proteção de uma grande figura nacional. O último representante da dinastia anglo-saxã à qual Henrique I procurara ligar-se pelo casamento. Teve Henrique I dificuldades com a opinião religiosa de seu país? Na época em que Roberto. rI i r r ri ( ( muito bem que também lá o acaso houvesse designado as escrófulas. o direito de primogenitura começava a dominar. porém. Num lance feliz. ainda não nascera a reforma gregoríana. Para que uma instituição destinada a atender a fins precisos indicados por uma vontade individual possa impor-se a todo um povo. Todos os membros da família real em que o califa devia ser escolhido. e a enfermidade que desde o início pretendem poder curar é precisamente a mesma da qual antes deles. foi seu patrono e seu fiador. ele haja implantado em todos os seus domínios a prática taumatúrgica que era uma suprema exaltação da crença na força sagrada dos reis. os Estados islâmicos jamais reconheceram os privilégios da primogenitura. o Confessor. Mas é preciso não julgar pelo estado de espírito de William o de todos os eclesiásticos ingleses. pois (como vimos) elas dão facilmente a ilusão da cura. tão pouco simpática (voltarei ao assunto mais tarde) às prerrogativas régias e. há outras afecções que se enquadram no mesmo caso. Na França e na Inglaterra. como conseqüência de uma evolução natural. tão hostil a tudo o que cheirava a usurpação dos privilégios sacerdotais. Por volta da época em que Henrique I pôs-se a exercer seu talento miraculoso. o chefe do ramo mais velho. o virtuoso soberano que breve se tornaria o santo oficial da monarquia. o Pio. Conhecemos santos especializados em escrófulas. profundas e obscuras. a cura das escrófulas sempre foi considerada uma prerrogativa estritamente reservada ao soberano: os descendentes de um rei não participavam dela se não fossem eles mesmos reis. Pode-se duvidar de que tenha querido imitá-Io?61 Mas Henrique I não confessou a imitação. O outrof'ào" contrário. É certo que as escrófulas são particulátmente adequadas ao milagre. Quando o rito curativo atravessou a Mancha. santa: tanto que. Um. Provavelmente. do califa. ele concentrara-se definitivamente numa só pessoa. reciprocamente. não seja indiferente que algumas vontades conscientes ajudem-na a tomar forma. procura ali a expressão de forças sociais. vemos que na Inglaterra os reis jamais reivindicaram. é necessário ainda que ela seja sustentada pelas tendências profundas da consciência coletiva. também não deveria surpreender-nos que dali em diante essa prática haja prosperado num solo favorável. a reforma alcançava seu auge. príncipe mais que meio francês. para que uma crença um pouco vaga possa concretizar-se num rito regular. são dela as idéias diretrizes que (como vimos na desdenhosa frase de William of Malmesbury) protestam contra a "obra de falsidade" que os crentes na realeza haviam empreendido. na natureza sacerdotal e quase divina da realeza. não podia desconhecer as curas realizadas pelo capetíngio. acreditava-se que o sangue régio curava a hidrofobia. reconhecia aos reis ingleses "o patrocínio e a proteção [. a história das origens do toque régio merecerá ser colocada na fileira dos já numerosos exemplos que o passado fornece acerca de uma dúplice ação desse tipo.. um poder curativo de natureza indeterminada. todo coraixita. seus vizinhos da França haviam-se constituído os médicos. ('\ r(' ( r. 86 contrariamente ao antigo uso germânico. pelo menos durante a primeira parte de seu reinado.65 Ao contrário do que acontecia na Germânia primitiva. I. ( ( ( ( 87 . via atribuir-se ao líquido que corria em suas veias o mesmo poder milagroso. Eduardo. seususerano e rival. nos quais se ostenta a mais absoluta e mais intransigente fé nas virtudes da unção régia.. O monarca inglês devia invejar-lhe o prestígio. sobretudo. apenas esse tinha o direito de fazer milagres." Não deveria surpreender-nos que. que podemos chamar voltairiano. mas o sangue do monarca reinante. durante os primeiros tempos do Islã. ficou em dificuldade com os reformadores. prefere ver no fato estudado a obra consciente de um pensamento individual seguro de si mesmo. provavelmente naquele momento. Nos países muçulmanos. nem mesmo na origem." rI (\ ( ('.

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