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OS REIS TAUMATURGOS

o caráter sobrenatural do poder régio França e Inglaterra

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P re f á c i o :

JACQUES LE GOF F

T ra du çã o:

JúLI A M A INARDI

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MPAN HI A DAS LETRAS

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(. AS ORIGENS DO PODER CURATIVO DOS REIS

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A realeza sagrada nos primeiros séculos da Idade Média

A EVOLUÇÃO DA REALEZA SAGRADA: A SAGRAÇÃO

o problema que agora exige nossa atenção é duplo. O milagre régio

apresenta-se sobretudo

supremo. Dessê pônto de vista, explicá-I o será correlacioná-lo ao conjunto

como a expressão de certo conceito de poder político

de idéias e de crenças de que o milagre régio foi uma das manifestações mais características - pois não é exatamente o princípio de toda a "explicação"

científica fazer um caso particular encaixar-se num fenômeno mais geral? Mas, tendo conduzido nossa pesquisa até tal ponto, não teremos ainda terminado

nosso trabalho. Parando aí, deixaríamos

tará entender as razões pelas quais o rito curativo, derivado de um movimen- to de pensamentos e dI sentimentos comuns a toda uma parte da Europa,

surgiu em determinado momento

escapar justamente o particular; fal-

e não em outro, na França e na Inglaterra

e não em outro lugar. Em suma, temos, de um lado, as causas profundas e, de outro, a ocasião, o empurrãozinho que chama para a vida uma institui-

ção que, desde

Mas talvez alguém pergunte: é verdadeiramente necessária uma longa in-

vestigação para descobrir as representações coletivas que estão na origem do toque das escrófulas? Não é óbvio que esse rito, aparentemente tão singular,

não foi nas sociedades medievais e modernas senão o último eco dessas cren-

ças "primitivas"

conseguiu reconstituir? Para compreender o rito

percorrer os grandes compêndios levantados com tanto cuidado e talento por

sir J ames Frazer, folhear O ramo de ouro ou As origens mágicas da realeza?

"Que teria dito Luís X I V", escreve o sr. Salomon

longa data, estava latente nos espíritos.

que hoje, graças ao estudo dos povos selvagens,

a ciência

do toque, não é suficiente

Reinach,

"se alguém lhe

provasse que, tocando as escrófulas,

ele seguia o exemplo de um chefe

poli-

nésio?"! E Montesquieu (sob a máscara do persa Usbeck) já falava do

mes-

mo príncipe :

"Esse rei é um grande mágico; exerce seu domínio

sobre o pró-

prio espírito de seus súditos [

] Chega até a fazê-los acreditar

que os cura

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de todas as espécies de males tocan d o-os, tão

tem sobre os espíritos". 2 No pensamento de Montesquieu, a palavra

gr a nde é a força e o pode r que

mági-

co era apenas uma expressão irônica. Hoje, de bom grado damos a ela seu sentido pleno. Usei como epígrafe essa pequena frase de Montesquieu; com

mais justiça ainda, ela poderia ter sido inscrita no frontispício das belas obras de sir James Frazer, que nos ensinaram a perceber entre certas concepções antigas sobre a natureza das coisas e as primeiras instituições políticas da hu- manidade vínculos por longo tempo ignorados. Sim, o milagre das escrófu- Ias tem, incontestavelmente, parentesco com todo um sistema psicológico que, por uma dupla razão, se pode qualificar de "primitivo": porque traz a mar- ca de um pensamento ainda pouco evoluído e <todo mergulhado no irracio- nal; e porque o encontramos em estado especialmente puro nas sociedades que convencionamos chamar "primitivas". Mas, após havermos dito isso, que te- remos feito senão indicar aproximadamente o gênero de representações men- tais para as quais é conveniente dirigir nossa pesquisa? A realidade histórica é menos simples e mais rica que semelhantes fórmulas. Sir James Frazer escreve: "Nas ilhas do Pacífico e em outras partes, alega- se que certos reis vivam numa atmosfera carregada de uma espécie de eletri-

cidade

espiritual que, mesmo fulminando os indiscretos que penetram seu

círculo mágico, possui também, por uma feliz compensação, o privilégio de conceder a saúde por simples contato. Podemos conjeturar que os predeces- sores dos monarcas ingleses foram outrora o objeto de idéias análogas: a es-

crôfula provavelmente recebeu o nome mal do rei porque se acreditava que o toque de um rei fosse suscetível tanto de infligi-Ia quanto de curá-Ia". 3 En-

tendamos bem. Sir James Frazer não pretende que no século XI ou no século

XII os soberanos ingleses ou franceses tenham sido considerados capazes tanto de espalhar as escrófulas em torno de si quanto de curá-Ias; mas ele imagina que outrora, na noite dos tempos, os antepassados desses soberanos haviam manejado essa faca de dois gumes. Pouco a pouco, ter-se-ia esquecido o as-

pecto temível do dom real e conservado

já sabemos, os reis taumaturgos dos séculos XI e XII não precisaram rejeitar parte da herança ancestral porque nada de suas miraculosas virtudes vinha de um passado muito distante. Parece que esse argumento poderia ser sufi- ciente. Entretanto, vamos descartá-I o por um instante . Suponhamos que o poder curativo dos príncipes normandos ou capetíngios tenha origens muito longínquas . A hipótese de sir James Frazer adquiriria então mais força? Penso que não. Ela baseia-se no caso das ilhas Tonga, na Polinésia, onde certos che- fes, segundo se diz, exercem uma homeopatia dessa espécie. No entanto, de que vale esse raciocínio por analogia? O método comparativo é extremamen- te fecundo, mas desde que não saia do geral; não pode servir para reconsti- tuir os detalhes. Certas representações coletivas que afetam toda a vida so- cial são encontradas (sempre similares pelo menos em suas linh a s gerais) em grande número de povos; parecem sintomáticas de determinados estágios de

apenas o lado benéfico. Mas, como

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ci vili z a çã o, v ariam com eles . No seio d e ou t r as soc i eda de s, c o nh ecidas g r a- ças apenas a documento s r e l ati vamente r ece nt es ou incompleto s , t a i s re p re -

sentações coletiva s não sã o confirmadas hi s to r icamente. Seriam al i de f at o

ine xi stentes? É prov á v e l que n ã o ; a s oci olo gi a comp a rada permite re c on s ti t uí - Ias com muita verossimilhança . Mas essas g r andes idéias comuns a toda ou a quase toda humanidade evid e ntemente receberam aplicações diversas, de

acordo com os lugares e as

esclarece a noção da realeza sagrada, tal como ela floresceu sob outros céus,

na Europa antiga ou mesmo medieval; mas não poderíamos esperar encon-

trar na Europa todas as instituições da Oceania. Num arquipélago polinésio

- é o único exemplo invocado -, os chefes são tanto fautores de moléstias

quanto médicos:

Em outro lugar, a mesma força pode ter-se manifestado de forma diferente

- por e x emplo, trazendo apenas benesses, sem contrapartida

Entre os primeiros missionários, muitos acreditavam reencontrar nos "sel-

vagen s ", mais ou menos apagadas, todas as espé c ies de concepções cristãs. Evitemos cometer o erro inverso e não transportemos para Londres ou Paris os ant í podas por inteiro .

Po r tanto, procuremos retraçar em toda a sua complexidade o movimen- to de crenças e de sentimentos que, em dois países da Europa ocidental , tor-

nou possível a instauração

circunstâncias. O estudo das tribos da Oceania

assim se traduz a força sobrenatural de que são detentores.

desagradável.

do rito do toque.

Os reis da França e da Inglaterra puderam tornar-se médicos milagrosos

 

porque já eram, havia muito tempo, persona g ens

s agradas: "sanctus en i m

(

et christus Domini est" [ " o rei e santo; é o ungido do Senhor"],

di z ia Pierre

de Blois , a fim de justificar as virtudes tauma t úrgicas

de seu monarca, Hen -

rique n, Portanto, con v ém primeiro indicar de que modo o c a ráter sagrado

(,

da realeza veio a ser reconhecido, antes de explicar a associação de idéias que muito naturalmente depreendeu daí, como uma espécie de conclusão óbvia,

 

o

poder curativo dos que eram re v estidos

com esse caráter sagrado."

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Os capetíngio s s emp re s e arvoraram em a ut ê nticos herdeiro s da dinas t ia carolín g ia; e os carolín gi o s , em autênticos herd e iros de Clóvis e do s de s cen -

 

d

e nte s dest e . Os reis no r mandos da Inglat e rr a reivindicaram

a s uce ss ão

do s

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príncip es an g lo-sa x õe s, con si de r ando - a

um b e m p a trimonial.

D os ch efes da s

ant

igas t r ibo s de fran c o s, an g lo s ou saxõ es aos so beranos france ses ou i n g l e-

 

s

es d o s é c ulo XII, a fi li a ção é direta e contínua.

Portanto,

dev e - se p r ime i ro

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olh

a r p a ra a s velhas re a l ezas g ermânica s ; p or m ei o dela s , tocam os um fund o

 

d

e id éias e de i nstitui ç õ es ext r e mamente ar c ai c a s .

 

Inf e li z mente, e s sas idéia s e institui ç õ es s ã o mui t o mal c on he cid as . Por

falta d e uma literatur a

esc r i t a , toda a G er m â n ia

ant er io r ao cr i s tia n i s m o

p er -

(

man e c erá p a ra s empre i r r e med iav elment e ob s cu ra. N ão s e pod e e nt re v e r m a i s

qu

e al g un s cl a rõe s. Es t es são s uf icie ntes p a r a a sseg u r a r -nos que a c on ce p çã o

 

d

e r ea l eza e ntre os g e r m â ni c o s,

como entre t odo s o s povos no m es m o estág i o

d

e civ i l i za ç ã o, est a v a im p r egna d a

de car á t er re l igios o ." Tácito já o b servav a

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de

guerra, l iv reme n te es colh i do s em r azã o de s e u v a l or pessoal, os reis e ram en-

sem dú v i- vi rt ud e sa -

grada ." O s rei s e r a m con si derados s eres divinos ou, p e lo meno s , originado s

qu e, d e m o d o di ve r s o d o que acontecia no caso d os chefes temporários

tre os g erm â n ic os escolhido s ape n as e m ce r tas famíl ias nobr es - da , e m d e t er minadas famíli a s h ere ditari a ment e dot a da s d e uma

"atribuindo s uas vitórias à feliz

influência que emanava de seus príncipes, não quiseram ver neles simples

homens; deram-lhes o nome Ases , isto é, semideuses. "7 Reencontra-se a pa- lavra Ases nas antigas línguas escandinavas; ali , ela serv i a para designar os deuses ou certas categorias destes. Conservamos várias genealogias régia s anglo-saxãs : todas remontam a Wotan . " Dessa fé na origem sobrenatural dos reis decorria um sentimento lealista. Não era lealdade a este ou àquele indiví- duo: a primogenitura não e x istia ; o direito hereditário no interior da dinastia

dos deuses. "Os gados", diz-nos Jordanes,

. era mal fixado; podia-se mudar o soberano,

mas desde que seu sucessor f os-

se escolhido dentre os membro s da mesma dinastia . Atalarico escrevia ao Se-

nado romano: " Assim como aquele que

torial, assim também aqu e le qu e vem da familia dos descendentes de Amala

- diante da qual toda

mesmo príncipe, misturando conceitos germânicos com um vocabulário ro= ' " -

nasce de vós é di t o de origem sena-

é di g no de reinar " ;

e o

a nobreza perde o brilho -

Ess a s es-

tirpes predestinadas eram as únicas capazes de dar che f e s v erdadeirament e

eficazes , poi s apenas elas detinham e s sa ventura miste r iosa (quasi fortuna, como diz Jordanes) na qual as pessoas viam, mais que no talento milita r de s - te ou daquele comandante, a causa do sucesso dos chefes. A idéia da legiti -

muito forte . '? No sé-

midade pessoal era fraca; a da legitimidade

culo

gião do Danúbio; um ramo da linhag e m tradicional seguira - o e fornecia-lhe

seus

mano, falava do "sangue dessa família, consagrado à p ú rpura 't .?

dinástica ,

VI, um grupo que se separara da nação hérula estava estabelecido na re-

chefes. C h egou o dia em que esse ramo pereceu por inteiro. Seu último

descendent e , como tantos outro s prín c ipes naqu e les tempo s de violência, e s -

tava morto , assassinado

viam ma s sacrado seu rei , não s e r esi gnavam a fi c ar se m san g u e ré g io. Decidi - ram mandar buscar um represen t ante da família real n a longínqua p átria d e onde outrora p a rtira a migra çã o - "e m Thule", d iz Procóp i o , de c e r to se

referindo à pen í n s ula Esc a ndinav a.

a

viag e m; os e mb a i xa dores d e ram mei a - v olta e escolher a m outro. Enqu a nto

isso , o s hé r ulo s, can sa do s d e es p erar , colocaram n a ch ef i a um d o s s e u s , d e-

s i gnado por c a u s a apenas de seu v alor indi v idual; prova ve lm e nte por q ue n ã o ousavam el egê- Io eles mesmo s , ha via m p e dido que o i m per a dor o nom ea s s e .

Mas, quando o herdeiro

veio coloc a r - s e a seu lado , e mbor a ele f o s s e desconh e cido por t odos .'!

pelo s próprio s s úditos. Ma s e sses b á rbaros,

que h a -

O p r imeiro e s colhid o mor r eu durante

le g ítimo c h eg ou, numa só noi te qu as e toda a ge nt e

Julga va -se que e ss e s rei s v er d ade ir a m e nte di v ino s po ss u ía m c er to po d e r

sobre a n at ur e za. Conforme uma

vos (d ese nvol ve u -s e com um a f o rça es p ec i al no se i o d as s o cie d a d e s chin es a s ) ,

c o n ce p çã o que e n co n tra mos em outr o s p o -

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t a i s monar cas eram con s id er a do s r espo n sáve i s pe l a o rd em d as cois as. S egu n do a l e nda c ol ig ida no séc ulo XIII na He i ms krin g l a [ Es fe r a do mund o ], o sob e- rano noruegu ê s Halfdan, o N eg ro, f ora "de todos os reis o qu e tivera mai s

s orte nas c o lheitas". Quando ele morr e u, seu cad á ver,

do todo int e iro num só lugar, foi cortado em quatr o, e cada pedaço foi se- pultado sob um montículo de terra em cada um dos quatro principais distri- tos do país , pois "a posse do corpo" (ou de um de seus fragmentos) "pare- ciaaos que a obtinham uma esperança de boas colheitas" .12 No século XII, os dinamarqueses ainda acred i tavam que um príncipe virtuoso pode, tocan- do as crianças e os cereais, proporcionar aos homens uma boa progenitura e boas safras. 13 Às vezes, quando a colheita falhava, depunha-se o rei. Em casos semelhantes, esse era o destino dos reis burgúndios, segundo o teste- munho de Amiano Marcelino . Com sua inteligência habitual, o historiador romano convidou-nos a comparar esse costume às tradições do velho Egito, pátria cláss i ca da realeza sagrada. O mesmo uso parece ter vigorado na Sué- cia pagã.l"

em vez de s er enterra-

Mestres dos anos de abundância , estendiam os reis germânicos seu po- der também às doenças? A Heimskringla (que, como já men c ionei, foi redi- gida apenas no século XIII, na Islândia, pelo padre Snorri Sturluson) atribui algumas curas ao rei Olavo, filho de Haraldo, que reinou na Noruega nq co- meço do século XI. IS Mas Olavo, s. Olavo, era um santo do cris t ianismo; provavelmente, os milagres que a saga islandesa lhe atribui são apenas o eco de um tema hagiográfico . Sem dúvida , nossos tex tos são demasiado pobres para permitir - nos afirmar que nenhuma tribo germâni c a jamais considerou seu rei um médico; portanto, é preferível manter a dúvida que a sábia pru- dência nos impõe. Deve-se também observar que na sociologia comparada (à qual, na ausência de documentos, será sempre tentador recorrer) nada nos obriga a admitir que na antiga Germ â nia os reis, por ser dotados de uma vir- tude divina, fossem todos ou em sua maior parte curandeiros; pois os reis - curandeiros p a recem ter sido s e mpre e e m todo s o s lugare s bastante raros . Pelo menos, é a impressão que as obras de sir Jame s Frazer nos dão; os exem- plo s dessa forma da magia régia que encontramos registrado s nessa s grande s coletâneas s ã o bem pouco numero s os: a li, chefes ualos do Senegal, poliné-

sios das ilha s Tonga reaparecem sem c es sar, como e s s es fig urante s de teatro que , girando s empre em torno do s mesmos montan t es, repre s en t am a ima -

gem de um d e s f ile milit a r . 1 6 N a ve r dad e, n ã o há n a d a de muito su r pr ee nd e nt e em t al penúria. A força miraculo s a atribuída aos reis pelos "primitivos" é geralmente concebida para fin s c oletivo s desti n a do s a obt er o bem-est ar do

g r upo como um todo, e n ã o di rig ida para f ins p a rticular e s. M uito mais qu e

ali v i a r as mis é rias ind iv iduais, s eu papel é fa z er a chu va ca ir ou asse gurar a reg ularidade das colh e i t a s ; a li ás, ser ia fác i l e n c h e r pá g in as e p ágina s com

os casos de che f es " fa ze dores d e chuv a" qu e o s r ep e rtório s e tnográf ico s for- ne cem. I sso t a lvez e x pl i que o p o rqu ê de o rito d o to qu e, d o qual t ra tamo s

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aqui, ter - se de s envo l vi d o m ai s f ac ilmente na s soci e d a d es em que a r e ligião

p r o i bia a tribuir a os re i s uma in f l uê n cia so br e a qu e l e s g rand es fenô m enos c ó s - mico s que comanda m a vida d as naçõ es . Uma r ev olução re li g ios a aplica um g o l pe t errív e l n a a ntiga con ce pção de r e aleza sagrada , tal como e s ta flore s c e ra e ntr e o s germ â nico s . O ad ve nto do cri s tianismo privou-a de seu apoio natural: o pa g anismo nacional. Os reis subs i stiram na qualidade apenas de chefe s de Es t ado. Durante um momento após as invasões, seu poder político foi até mais forte que nunca; mas, pelo menos oficialmente, eles cessaram de ser tidos como personagens divinas. Sem dúvida, as velhas idéias não se esvaeceram de repente. É verossímil que con- tinuassem a viver, mais ou menos secretamente, na consciência popular. Nos- sos te x tos permitem resgatar alguns vestígios dessas idéias; provavelmente, encontraríamos muitos outros se nossos documentos não fossem todos de pro- veniência eclesiástica e, por conseguinte , hostis àquele passado. 17 A longa ca- beleira que era o atributo tradicional da dinastia franca (todo s os outros ho- . mens livres, tão logo atingiam a idade adulta , pas s avam a usar cabelos curtos) decerto fo r a na origem um símbolo de ordem sobrenatural; ou melhor, origi- nariamente e s s es cabelos jamais cortados deviam ser considerados o próprio centro do poder mara v ilhoso que se reconhecia nos filhos da estirpe eleita; os reges criniti [reis de cabelos lon g os] eram outros Sansões . Esse costume, que atestaram ser muito antigo, durou tanto quanto os p r óprios merovíngios

- mas sem que possamos saber se , pelo menos entre o povo, continuou-se

até o f im a atribuir-lhe valor m á gico." Muitas per s onagens pertencentes às casas reais anglo-sax ã s foram depois da morte veneradas como santos, e o mesmo aconteceu com os merov í ngios, embora em escala menor . Não que essas linhag e ns fossem particularmente f ecundas em v i rtudes religiosas ou pri- vadas, longe disso; mas de bom grado se rendia culto aos membros das famílias que se estava habituado a considerar sagradas.'? A partir d e Dagoberto, a dinastia merovíngia afundou na impotência; entretan to, esses reis continua- ram a reinar, simples fantoche s, por mais de um século e me i o. O primei ro golpe d e Estado ten t ado contra eles , o de Grimoaldo, frac a s s ou mi se ravel- men t e. O próprio Carlos Martelo a c r ed i tou-se forte o bastante p a ra suprimir

a r e a leza durant e algum t e mpo, ma s n ã o para u s urp a r o tí t ulo rea l . N ã o h á dúvida de que es se frac ass o e e ss a abstenç ã o prudente e x plicam-se e m p a rt e pela rivalidade dos grandes, ma s s ó em p ar te; é n e c e ssário acreditar que a

estirp e legítima c onser va va em s e u decIín i o um a e s p é cie de p re s t í gio . A l g u- mas v ezes, comparou-s e a situaç ão dos de s cendent es de Cló v is - redu z idos pelo s mordomo s do pal á cio a um a ex i s t ê ncia totalm e nte r e p res entativa - ao que f oi a vi da dos micado s jun t o ao s x ó g uns no J a p ã o a nt ig o . Gu ar d a d as

a s d ev idas proporções, é prováv e l que tan t o o s p r íncipe s f r a n c o s q u a n t o o s imp era dore s j a p o n eses ten ham si do p r o teg id os du ran t e lo ngo t empo , se n ã o

pr ecisa ment e por sua n at urez a sagr ada , ao meno s p e l as ob s cu ras l e mb ra nça s

que s eu ant igo p a p e l d e ix a r a n os e spír i t o s. Entr et a nto, se nos a tiv e r-

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mos às aparências oficiais, até o século VlII os reis francos ou ingleses eram

cristãos como os outros e, se assim se pode dizer, puros leigos. Ne-

nhuma cerimônia eclesiástica consagrava a elevação ao trono, cujas soleni-

variável. Ne-

nhuma impressão religiosa particular vinha marcar a fronte do soberano.ê"

Aos soberanos germânicos que, como os merovíngios, depois das invasões encontraram-se reinando num país profundamente romanizado a tradição do

povo conquistado oferecia todos os esplendores da religião imperial. Sem dú-

vida, o cristianismo também passara

apenas

dades, aliás, eram regradas apenas por um costume bastante

por ali; mas, embora

pouco a pouco

tivesse modificado algumas fórmulas, não tocara na essência das coisas. Em Bizâncio, a religião imperial iria perdurar quase tanto quanto o Império."

Conhecemos suas pompas oficiais, mas sabemos muito pouco da verdadeira influência que essa religião podia ter sobre as almas. Alguns imperadores fo- ram considerados taumaturgos: Vespasiano, proclamado imperador no Orien-

te, num meio carregado de esperanças messiânicas, efetuou algumas curas (isso, porém, foi em Alexandria, terra havia milênios habituada a venerar seus chefes como se estes fossem deuses; ademais, suspeitou-se de que os sa-

cerdotes do Serapeu, cuja habilidade é indubitável, tivessem maquinado es- sas manifestações milagrosas); dizia-se que Adriano curara um cego. 22 Es-

ses

dos imperadores era

exemplos são isolados. Jamais saberemos se a crença no caráter divino

forte o bastante para que a massa fosse levada a consi-

derar verdadeiramente atuante o poder miraculoso desses soberanos. Mas não

duvidar de que a religião imperial constituiu um maravilhoso ins-

trumento de governo. Os bárbaros deixaram-no desaparecer.P Do mesmo

modo, os merovíngios não se arvoraram em sucessores do Império. É verda-

de que Clóvis (segundo Gregório de Tours, cujo testemunho não me parece

que deva ser rejeitado), embora aceitando uma magistratura das mãos do so- berano de Bizâncio, fizera-se, por uma espécie de usurpação, chamar Augus- tO. 24 Seus descendentes não insistiram no título. Todavia, em relação ao Au-

margens do Bósforo, eles poderiam ter-se sentido mais livres que

Clóvis: as conquistas de Justiniano, reintroduzindo no Ocidente as armas "ro- manas", tinham induzido os reis francos a livrar-se definitivamente de qual-

quer dependência para com os antigos senhores do mundo; até então, haviam consentido em aceitar a supremacia imprecisa de um imperador distante; mas não queriam permanecer ligados por um vínculo de sujeição (por mais vago

que este fosse) a um vizinho muito próximo e muito ameaçador. No entanto, mesmo afirmando sua autonomia (sobretudo mediante a cunhagem de moe- das, que traziam seu nome), eles evitaram, ou por um resquício de respeito

ou por indiferença, reproduzir a intitulação antiga, tão rica em termos que evocavam o caráter sagrado do príncipe. O culto imperial desapareceu na Gália ao mesmo tempo que a dominação romana. No máximo, pode-se supor que

os hábitos de pensamento que tal culto mantivera, certa tendência a confun- dir as categorias do político e do divino, não pereceram inteiramente com ele.

podemos

gusto das

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!

Mais tarde, Carlos Magno renovou o elo com a tradição romana. O Im- pério ressuscitou.P Mas foi um império totalmente cristão. Não podia renas- cer com ele a religião imperial, pagã em sua essência e interrompida por lon- go desuso. Em Bizâncio, os imperadores não haviam cessado de qualificar-se de divinos; do alto de sua ortodoxia, Carlos Magno, ou aquele de seus conse- lheiros que redigiu em nome do soberano franco o prefácio dos Libri Carolini

[Livros carolíngios], não deixou de reprovar a esses imperadores a soberba.ê" Nessa época, porém, reapareceram algumas expressões mais inofensivas, co-

~ piadas da linguagem obsequiosa do Baixo Império; torna-se a falar dos sa- grados imperadores, do mui sagrado Augusto, do sagrado palàcío." O pró- prio Hincmar, tão preocupado em negar aos soberanos temporais todo caráter

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sacerdotal, um dia não se descuidou ao ponto de escrever: "os sagrados

olhos"

do ímperador+" Mas esse vocabulário (que aliás, pelo menos na França, não sobreviveu à era carolíngiaj-? não deve iludir-nos. Já em Roma ele fora sen- do progressivamente despojado de seu valor original: essas fórmulas de de- voção haviam-se transformado em pouco mais que simples fórmulas de cor- tesia. Nos escritores do século IX, elas indicam apenas uma familiaridade verbal com os textos latinos. Se às vezes os contemporâneos dos primeiros imperadores francos davam sentido pleno a essas palavras de aparência anti- ga, era porque pensavam não no velho e desusado culto que outrora se expri- mira com termos similares, mas num cerimonial jovem e autenticamente cris- tão. Os soberanos do Ocidente haviam-se tornado oficialmente sagrados graças a uma nova instituição: a consagração eclesiástica e, mais particularmente, seu rito fundamental, a unção. Como veremos, a unção surge nos reinos bár- baros nos séculos VII e VIII. Em Bizâncio, por outro lado, ela só muito mais tarde é introduzida, como evidente imitação dos costumes estrangeiros. No tempo de Carlos Magno, os bizantinos divertiam-se zombando desse gesto que não entendiam; provavelmente por brincadeira, contavam que o papa untara o imperador franco "da cabeça aos pés". 30 Algumas vezes, os histo- riadores indagaram a si próprios de onde veio essa diferença entre as pompas monárquicas do Ocidente e as do Oriente. A razão parece-me clara. A reli- gião imperial, ainda viva na Roma do Leste, tornava inútil o novo rito. Em suma, nos reinos surgidos das invasões um grande número de remi- niscências de origens diversas, fossem germânicas fossem romano-orientais, mantinha em torno da realeza uma atmosfera de veneração quase religiosa , mas nenhuma instituição regular corporificava esse sentimento vago. Foi a Bíblia o que enfim forneceu o meio de reintegrar na legalidade cristã a reale- za sagrada das idades antigas. Antes de tudo, a Bíblia ofereceu comparações úteis. No capítulo 14 do Gênesis, lê-se de que modo Abrão recebeu o pão e o vinho das mãos de Melquisedec, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssi- mo _31 episódio misterioso que os exegetas ainda têm dificuldade para ex- plicar. Os primeiros comentadores livraram-se do embaraço atribuindo-lhe

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sent i d o s i mb ó l i co : Melqu i s e d e c é uma re pr es e ntação

do C ri s t o ; é c omo o ve-

mo s f i g urad o em ta ntas

t a mb é m o s a polo g i s tas d a rea l e z a. E s se s a c e rd o te-r ei fazia r e mont a r a um p a s-

s a d o prestigio s o o ideal do s q u e r e conh ec i a m nos m o n a rc as um c ará t e r sobre-

humano.

os s éculos XI e XII , Melquised e c rio carolíngio de Saint- A m a ndêê

cat e d r ais. M a s ta l ap a ri ç ã o enig m á tica d ev i a in s tiga r

grand e Qu e rel a do S a cerdócio e do Império, durant e -

s. Melqu is edec,

como diz o s a cr a mentá-

- este v e na moda . Na época merovíngia,

No tempo da

já se invocava o exemplo do rei de Salém. Fortunato dizia sobre Childeberto:

"Nosso Melquisedec, [que se denomina] a justo título rei e sacerdote lei-

(

go, c oncluiu

a obra da religião". 33

(,

Mas o Antigo Testamento não era só uma fonte de s ímbolos; fornecia

 

o

modelo de um a instituição

muito concreta. No ve lho mundo oriental,

os

(

re

is decerto eram considerado s personag e ns s agradas . Seu caráter s obrenatu-

r;

(

(

(

(

(

í'

ral e ra por muito s povos

cl ar o : quando o s ob e rano

un gi da s com um óleo pre v iamente santifica do . As tabuinha s de TeU e l-Am a rna

con s erv a ram

ano 1500 a . C. ao faraó Amenóf is

o d i a em qu e "Ma-

marcado com uma cerimônia de sentido bastante

a sc endia ao trono, certas part es de seu corpo eram

a c arta que um dinasta da Síri a , Adu Ni r ari , endere ç ou

IV pa r a lembrar-lh e

lá pelo

n

a hbi r ia,

o rei do Egito, teu avô, fez de Ta k u, meu avô, rei em Nouha s sché

e

d er ramou-lhe o óleo sobr e a ca be ç a ". No di a em que fize r mos a c ompila-

ção dos docum e n t os

a t r an s criç ã o d e sse v ener áv el pedaço de ar g il a poderá figurar no frontispí c io

- da Bíbli a to r nou t ã o es tranhament e famili a re s aos cri s t ã os

pois foi dessas ant i gas civilizações da Síria e de Canaã

a leitura

da obra

que ainda nos faltam s obre a s agração

de no s so s reis,

(as quais dos sé cu-

los VII e VIII) que nos veio a unção régia. Os f ilhos de Is r a e l também a prati -

ca v am . Aliá s, e ntre eles (assim como prova v elment e

un ã o n ã o era e x clusiva do s reis. Tinha lu ga r de prim e i ra

ni

prof a no para a categoria do s a g r a do

o rdem no cerimo-

en t r e seus v izinhos) a

da cate g oria

a l hebraico;

c on s tituía o proc e s s o no r mal para transferir

do

um homem ou um objeto. " Ne ss a apli-

Os m e rovín gi o s j a m a is h a vi am s ido un g i d o s reis . M as v a l e a p e n a r ec or -

o r i t o

g a lic an o i m punh a aos c a tecúm e n o s . Ma i s t a rd e, c om o t ere m o s o ca s iã o d e ve r ,

a lend a fe z da c e r i m ô ni a gração r égia; n a v er d a d e,

s a-

da r q u e C l óv i s t a mpouco o for a : a ú n i c a un çã o qu e re cebe u foi a q ue

realiz a da e m Re i m s po r s. R emí g io a pr i m ei ra

foi ap en as um s impl es b a tismo .

E m 751 , por é m,

Pepino (a ss umindo o ri s co que seu pai, Carlos Martelo, n ã o ousara encarar) resolv e u mandar p a ra o convento os últimos d e scendent es de Clóvis e tomar para si tanto o pode r quanto as honras reais; então, ele sentiu a necessidade

s de disfarçar sua usurpação com uma espécie de prestígio religioso. Aos olhos

.,.,

dos súditos, os antigos reis jama i s haviam ce s sado de parecer personagens

a vaga auréola mística que

os envolvia devia - se unicament e ao domínio e x ercido sobre a consciência co- letiva por obscuras reminiscências vindas dos tempos p a gãos . A nova dinas- tia, ao contrário, era uma estirpe autenticamente santa e ir i a afirmar sua con- sagração com um ato formal, justificado pela Bíbl i a, plenamente cristão . To- dos os teólogos na G á lia estavam preparado s para aceit a r e ssa ressur r eição de uma prática judaica , pois entre e l es o Antigo Testamento estava em voga;

em parte como con s eq üê n c ia da s influências irlandesas, as l e is mosaicas pe -

netravam a disciplina eclesí á stica . "

meiro dos r eis da França a receber a unção da s mã os dos s acerdotes, à seme -

diz altiv a m e n t e num d e s eus

decretos , "que pela unção a Divin a Pro v idênci a elevou-no s ao t r ono. , , 38 Seus

lhança dos monarca s hebreus . " É manifesto ",

muito superiores ao resto do povo; no entanto,

Foi-ass i m

que Pepino se tornou o pri-

sucessores não deixaram de s eguir-lhe o exemplo. Aí pelo fim do século VI I I , a mesma prática foi implantada t a mbém na Ingla t erra, pro v avelmente emu- lando o que acaba v a de a c ont ec er no país f ranco. Pouco depois , o ri t o generalizou-se em qua s e toda a Europa ocidental.

Ao me s mo tempo , unia - s e a e le outro r i to / de

origem di v ersa. A 25 de

dezembro

de 800 , na b a sílica d e S ã o Pedro,

o papa Le ã o I I I colocara

um a

"coroa"

sobre a cab eça de C a rlo s Magno, ao proclamá-Ia imperador.

E ra

prova ve lm e nte

um cír c ulo de ouro , similar ao qu e havi a vár ios sé culos sub s -

c

ação geral, o s cri s tãos tomar a m - na

empre sta da

à A nti g a Lei . D es d e muito

tituía,

em to r no d a ca b e ç a do s s ober a nos

bi z an t ino s ,

o di a dema ,

a tir a de

c

e do, a unç ã o te ve importan te

p a pel no ritu a l do no v o culto, sob r e t udo

no

tecido adornada com p ér olas e p e dr as precio sas qu e fo r a u sa da po r Cons t an-

(

(

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O

c id e nt e , ma is p a rti c ularmen t e

no s paíse s d e rito g a licano:

E s panh a ,

Gália,

Gr ã - B re t a nha,

ç

to

d os c atec úm e no s

te a o s es pírito s ; o e x e mplo d e D avi e d e S a l o m ão permiti a re s tituir c r i s t ã mente

It á l ia se ten trio n a l, servind o pr i ncipalm e n t e para a con f i r ma-

ão do s ca te c úm e no s

e a o r d e n açã o

do s p a d res e dos b is po s.P A id é i a de re-

d e pa ssa r d a unção

m ar e m s ua tota lid a d e

os ve l h o s c ost u m e s is ra e l itas,

o u dos sac e rdote s à unç ão r ég ia, d e vi a oc o rr er na t uralmen-

ao

s re i s seu c a r áter sag r a d o.ê "

A no v a in s t i t u içã o

tomou form a p r im e i r o

no reino v isi g ó t i c o

d a E s pa-

nh

a , onde desd e o d es aparecim e n t o

do ar i a ni s mo

a I g r e j a e a din as t ia v i v iam

um a uni ã o espec i a lm e nt e

po i s , ve i o a v e z do Es t a d o fra n co ,

í n t i ma ; a li , a un ç ã o r ég ia s ur gi u no sé culo VI I . D e-

76

t ino e se u s s uce s sore s im e diatos . ma, a dota dos pelo s i mperador e s

orient a is (no

caso do di a d e ma, prova ve lmen te à m onarqu i a p e r sa ), h a vi a m em sua ori ge m

possuíd o um a v ir t ud e r eli gi o sa;

Ca r lo s Mag no, a coro a não tinh a mais nenhum ou t r o c a r áte r sa grado a lém

(em Bi z â n c i o de qu e e n t ã o

un g id o a o s er f e ito re i , C a rl o s M a g n o

o f o i a o to r n ar - se imperad or . Mas e m 816, e m R eims, se u f ilh o L uí s,

o P i o , rec e b e u do p a p a E s tevão I V t an to a b e nç ã o c o m óleo q u a nt o a coroa .

não

s e ce rcava o pr e l a d o. An teriorm ente

a s do p a t r iarca, em Rom a a s d o p a p a ) e do r i t u a l ec le s i ás t ico

daqu e l e q u e advinha das mão s qu e a e ntr egava m ao pr í n c i pe

N ã o pod e mo s d uv idar d e qu e co r oa e di a d e -

p

o r imit a ç ã o à s mon ar qui as

m a s ao s o lh os d e u m c ri s tão , na ép oc a d e

A p art i r d a í, o s doi s g es tos torn ar am - se

qu ase in se p a rá v e i s . P a r a co n sagra r um

77

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imp e r a dor, er a n ece s s á rio c umpri r a mb os ; e m br eve , t a mb é m pa r a co n sagra r um rei. Desde o t e mp o d e Car los, o C a lvo, na França, e desde o séc ulo IX na Inglaterra, vê-se o re i s e r ungido e c o roado. Em torno dos dois rito s fun-

dament a is, desenvolv e u - se r a pidamente em todos os países um amplo ce ri-

monial.

Muito depres s a, mult i plicaram-s e as insígnias régias que eram entre-

gues ao novo soberano. Sob CarIos, o Calvo, já aparece o cetro, ao lado da coroa; o mesmo se verifica nos mais velhos textos litúrgicos ingleses. Esses emblemas eram, em sua maior parte, antigos; a novidade foi dar-Ihes um pa-

pel nas pompas religiosas da elevação ao trono. Por isso, em parte a soleni- dade foi sempre dúplice: de um lado, a entrega das insígnias, entre as quais

a coroa permanecerá a essencial; do outro, a unção, que continuou até o fim

a ser o ato santificador por excelência. Assim nasceu a sagraç ã o .ê ?

Portanto, os reis haviam-se tornado, segundo a expressão bíblica, " un- gidos do Senhor", defendidos contra as violências dos maus pelo preceito divino, pois o próprio Deus disse "Nolite tangere Christum meum", "Não tocai em meu Cristo, em meu ungido". Já em 787, o Concílio de Chelsea (no decurso do qual, segundo toda a probabilidade, vinha de acontecer a pri- meira unção régia que a Inglaterra conheceu) relembrava tal prece í to.'? Por este, os inimigos da realeza pareciam transformados em sacrílegos; proteção decerto bastante ilusória, a julgar pela história daqueles tempos agit ados, re- pleta de violências." mas talvez os príncipes dessem ao mandamento bíbli -

co mais valor do que imaginaríamos hoje, e talvez o desejo de beneficiar-se dessas palavras do Livro Sagrado tenha levado mais de um entre eles a pro-

curar a consagração oferecida pela Igreja.

O óleo santo elevava os soberanos a muito acima da multidão; eles não

partilhavam com os sacerdotes e com os bispos esse privilégio? Entretanto,

havia o reverso da medalha. No decorrer da cerimônia, por um momento o

' oficiante que ministrava a unção parecia superior ao monarca que devota-

mente a recebia; dali em diante, podia - se pensar que seria necessário um sa - cerdote para fazer um rei - sinal evidente da preeminência do e s piritu a l so-

bre o secular. Muito pouco tempo depois d e CarIos Magno, idéia s similares já eram defendidas por algun s prelados. Vejam Hincmar de Reims . Nin g uém deu maior valor à sagração régia. Essa cerimônia tinha atrás de si um p as sa- do bem curto. Como teremos oportunidad e de mostrar mais adiant e , Hinc- mar soube encontrar para ela um precedente ilustre e miraculoso; para isso ,

o arcebispo de Reims, se n ã o inventou, então pelo menos adaptou en g enho-

samente uma lenda. Que moti v os levam e s s e homem, um dos mais capaze s de grandes projetos, a ter t a nto interess e por e s ses gestos litúrg icos? A fim

de entender - as ra z ões d e su a atitude, é su f iciente comparar duas p assag ens

de suas obras: " É à unção , ato episcop a l e es piritual" , escrevia e l e em 868 a C a rIos, o Calvo , "é a essa b e nção, muito m a i s que a vosso poder terres t re,

que deveis a dignidade r ég ia". Portanto, s e m consagração não h á v e rd a deiro

r ei , s ej a m quais forem seu s t í tul o s "terrestres " a o trono ; e s s a id é i a j á e s t a v a

78

'1

pre s ent e , e m ce rto s mei os ec l esiás t icos , m e no s d e cem a n os d e poi s d a primei - ra unção fr a nca. Além dis s o, os a to s d o Concíl i o d e S ainte-Macre, redi gi do s por Hincmar, que presidia a a ss embl é ia, dizem: "a dignidade do s pont í fi ces

é superior à dos reis porque os rei s s ã o sagrados pelo s pontífices, ao pa ss o

que os pontí f ices não podem s er consagrados pelos reis " . 42 Não se pod e ria

ser mais claro. Provavelmente, o medo de uma interpretação desse tipo foi

o que, no século seguinte, levou o rei Henrique I da Alemanha a ser o único, entre todos os monarcas de seu tempo e de sua estirpe, a recusar a unção e

a coroa que o arcebispo de Mainz lhe propunha e a reinar (como lhe reprova

pela boca do apóstolo s. Pedro o autor de uma vida de santo) "sem a benção ; dos pontífices" .43 O novo rito era uma faca de dois gumes . Não obstante, isso só ficaria visível algumas centenas de anos mais tar- de, quando se abriu o grande debate gregoriano. Durante os dois ou três pri- meiros séculos, parece que o rito contribuiu para, sobretudo, confirmar no

espírito das pessoas (exceção feita a alguns teórico s e c lesiásticos) a noção do caráter sagrado dos reis. M e lhor dizendo: de seu caráter mais que semi- sacerdotal. É claro que, logo de início, certos espíri t os penetrantes depreen- deram bastante bem os perigos com que semelhante confusão entre uma dig- nidade essencialmente temporal e o sacerdócio podia ameaçar a Igreja e até

o cristianismo. Também aqui reencontramos Hincmar. Este não se cansa de

repetir que nenhum homem, depois da vinda de Cristo, poderia ser a um só tempo sacerdote e rei . 44 Mas sua própria insistência prova o quanto a idé i a que o arcebispo combatia expandira-se em torno dele. Que essa idéia tinha tom de doutrina oficial é o que nos mostrará, melhor que qualquer outro do- cumento, a antiga liturgia da sa g ração. Folheemos por um momento esses v elhos textos. Sem dificuldade, veri- ficaremos que se tentou reunir ali tudo o que podia favorecer a confusão en- tre os dois ritos quase idêntico s que davam acesso , um, ao sacerdócio e , o outro, à realeza; em geral, foi a Antiga Lei o que fornec e u as fórmulas neces- sárias: " Que tuas mãos sejam un g idas com o óleo santificado, o qual un g iu os reis e os profetas", diz um ritual muito antigo, contemporâneo dos pri- meiros tempos da dinastia carolín g ia . Uma prece , provavelmente mais recente, desenvolve e fi x a o mesmo pen s amento; não s abemo s quando foi compo s t a ;

aparece pela primeira vez na h is tória quando Ca r los, o Calvo, foi coroado rei da Lorena; naquele dia, po r uma curiosa coincid ê ncia, é o próprio Hinc - mar quem faz o gesto consa g r a d o r; uma tradiç ã o já estabelecida impôs - lh e sem dúvida o emprego da s s eg uin t es palavras: " Que D e us te coroe com a co -

roa da glória [

to Santo , com este óleo com que E le ungiu os sac e rdote s , o s reis, os pro f e t a s

] , tu que p e la

e os mártire s". E o velho cerimon ia l anglo-saxão : "6 Deus [

unção com o ól e o consagr as t e sace rdote Aarão, t e u s ervo, e que m a i s tard e , pela aplicação desse mesmo un g ü e nto , c onstitui pa ra r ei nar sobre o povo i s-

raelita o s s ace r dote s, os r e i s e os prof e tas,

] e te faça rei pel a un çã o dada

com o ól e o d a graça do Espíri-

] nó s te p e dimos, Pai T od o -

79

"

(

 

pod e ro s o ,

qu e c ond e s ce nd as

e m san tif i ca r c om tu a b e n ç ã o , p o r m e i o d es t a

gordura tomad a de um a de tuas c r i at uras , te u es cr a vo aqui p rese n te e que

lhe p e rmitas imitar d i l ige ntem e nte os e x emplo s d e A a r ã o" . 45 V ê - s e que di a nte

 

dos soberanos

ingle s es ou francos,

no dia d e su a sa g ra ç ão,

e voc a va- se não

apenas a imagem do rei dos judeus mas também a do s sacerdotes e dos pro- fetas, a grande sombra de Aarão, fundador do sacerdócio hebrai c o. Como

(

surpreender-se de que um poeta da época celebrando a sagração de um impe- rador (aliás, um imperador bastante insignificante, Berengário do Friul, mas que importância tem isso?), houvesse ousado dizer de seu herói, no momen-

(

to em que o mostra avançar

em direção à igreja onde se desenvolverá a ceri-

mônia: "em breve ele seria sacerdote", "mox quipe sacerdos ipse futurus

 
 

era!" .4 6

Tanto mais que os dirigentes do c lero nem sempre haviam

falado a lin-

guagem de Hincmar.

Na época em que este definia com tanta

nitidez a in-

compatibilidade,

sob a Nova Lei, entre a dignidade

régia e a presbiteral,

a

crescente fraqueza

da dinastia convidava

os prelados

a assumir o pap e l de

mentores

dos reis; nos belos dias do Estado carolíngio,

esse tom não seria

( ,

sido admissível. Em 794, os bispos da Itália setentrional presentes ao Sínodo

 

(

de Frankfurt

publicaram

uma defesa

da doutrina

ortodoxa

contra

os

adotionistas" espanhóis; essa de c laração teológica terminava com um apelo

(I

ao soberano,

protetor

da fé . Ali, Carlos Magno era tratado

não apenas de

í

(

r

mas

tamb é m de "rei e sacerdote" Y Alguns anos antes, o próprio papa Estevão

III, querendo adular Carlos e Carlomano,

a buscar na Primeira Epístola de s. Pedro uma expressão que o apóstolo apli-

"senhor

e pai" e de "mui prudente

governador

de todos os cristãos"

dos quais precisava, n ã o se furtou

cava

aos eleitos e de alterar-lhe um pouco o sentido original para homena-

gear

a dinastia franca:

"sois a raça santa, régia e sacerdotal".

48 Malgrado

tudo o que depois pudessem dizer todos os Hincmar do mundo , semelhantes

expressões jama i s foram esquec i das.

As s im, a s monarqui as da E urop a o c ident a l, já herdeiras d e longo pas s a-

(

(

(

(

pelo sinal divino . I s so

iria perpe t uar-se. A França capetíngia e a Ingl a terra no r manda, a ssim como

a Alem a nha do s imperadores saxões ou

ca rolín g i a. Muito pelo c ontrá r io :

a comparar a dignidad e régia ao sacerdócio, m a i s expli c itamente

então s e fizer a . Esses e s forços, a r e speito dos qu a i s teremos uma palavra p a ra diz er mais tarde, não no s intere ss am agora. Ba s ta saber que, me s mo ind e pen-

den t em e nte de qualquer assimilação

o s mon a rcas - continuar a m a ser conside r ado s se res sa g r a dos, t a n to na França

qu a nto na Inglaterra.

Con s er va mos

É i ss o qu e os te xt o s nos mostram

do de veneração, ficaram definitivamente

mar c adas

sá lio s , não renegaram es sa tradi ç ão

dedicou - se do que a té

no sé culo X I, todo um partido

pr ec isa ent re a r e a leza e o sacerd ó cio ,

d e modo inequ ívoc o. o Pio , p e lo bi sp o d e

alguma s ca rt as end e r eça d as a R o berto,

( * ) S e i t a d o séc ul o VIII, a q ual tin h a J e s u s Cris to co m o f ilh o a p e n as a do t i vo d e De u s . ( N. T . )

(

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8

0

,

Ch a rtres,

F u l ber t , um d o s m a is r esp e it a d o s

p re l ados d e se u t e m po. O b i s p o

n ã o te me da r a o re i o s t ítulo s "s anto p a dre "

licos h o je reserv am p ar a o ch e fe sup re mo d e s ua I gre ja. " J á v im o s co m o

Pi e r re de Bl o i s fazia a " sa n t idade "

so, não se poderia du v idar d e que a m a ior parte de s e us contemporân eos pen -

sava como ele. Mas Pierre de Blois ia mais long e . Ele di z ia mais ou menos isto: meu monarca é uma personagem sagrada; portanto, meu monarca pode curar os doentes. À primeira vi s ta, trata-se de uma dedução singular. Mas veremos que nela uma mente de capacidade normal, no século XII, não podia encon- trar nada de muito surpreendente.

a i s -

e " s a n t id a de " ,

o s quai s o s ca t ó -

do s rei s d ec orr er d a un ç ã o; q uanto

o PODER CURATIVO DO SAGRADO

Os homens

da Id a de Média, ou pelo menos a i m ensa ma i oria dele s, ti-

nham das coisa s da religião uma imagem muito material e, se se pode dizer, extremamente terra - a-terra. Como poderia ser de outra forma? A seus olhos ,

não havia um abismo intransponível entre o mundo em que viviam e o mun-

do maravilho s o

para o qual os ritos cris t ãos abriam a porta ; os dois uni v er-

sos penetravam - se mutuamente; se um gesto agia no além, como imaginar

que sua ação não se estendia também a este mundo? Certam e nte, a idéia de intervenções dessa ordem não chocava ninguém, pois ninguém tinha noção

e x ata das l e is naturais. Portanto, os a tos , os objetos ou os indivíduos s agra- dos eram imaginados não apenas rese r vatórios de forças aptas a atuar no ou- tro mundo mas também fonte s de en e rgia suscetívei s de influência imediata

sobre a vida cá na terra.

Afinal , não se fazia dessa energia uma imagem tão

conc r eta que às vezes se che g ava até a repres e ntá-Ia pe sa da? Conforme nos diz Gregório de Tours , um te c ido colocado sobr e o altar de um g rande sa nto

(Pedra ou M a r t i nho) t ornava - se

s es s e manifestar- s e. 50 Os padres, carre ga dos de eflú v ios s agrado s , e ram por muita gent e con s i-

derados um a es pécie de m ág icos; ne ssa qualidade, eram às v eze s v ener a dos

e às vez es odiados. Em alguns lu g are s , a s pes soas

no caminho porqu e tal encont r o

da Din a m a r ca,

rado s re s pons á veis por intemp é rie s

s e ntav a , eram p e r s eguidos como promotores d es ses mal es , t ã o du r amen te que

Greg ó rio VII pr ec i s ou prot es t a r . P Aliá s , por que olhar p a ra tão l ong e n a di - reção norte? É na Fran ç a , pro va velm e nt e no s éculo XIII , qu e se s i tua e s t a in s -

tru t i va hi s t or i e ta (o s err n o n á rio Ja cqu es d e Vi t r y, qu e a c on t a , a l e g ava c on hec ê- Ia d e " f o nte seg ura " ) : numa a ldei a , gr a s sa va um a e pid e mia; p a r a f a z ê - I a c e s -

s ar, o s ca mp o n eses n ão im agi naram

mais p esa do , desde que, é c laro, o santo qui-

benziam- s e a o e ncont rá - I o s mau p r e ssá g io . 51 N o r ei no

er a tido como

no s éc ulo XI , o s p a dr es , t a l qual os feiti c eiro s , e ram co n s i de-

e po r c ont ág io s ; qu a ndo a oc as i ã o se a pr e -

nad a melh or qu e sa crifi car s e u cura ; u m

8 1

.

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di a, qu a n do ve stid o c om s uas ro up as s a c er d ot a is ele en t e r ra v a u m mort o, o s aldeões pre c ipit a r a m-n o n a cov a, ao l a d o do c a dá ve r. P E s s as loucu ras ( e m formas mais anódinas) nã o sobrevivem a ind a hoje? Assim, às ve z e s o pode r que a op i nião comum atribuía ao s a grado revestia-se de um caráter temível e deplorável; mas está c laro que o mais da s vezes esse poder era julgado benéfico. Ora, existe benefício maior e mai s per -

ceptível que a saúde? Fac i lmente se atribuía poder curativo a tudo o que, em qualquer grau, participasse de uma consagração. 54 A hóstia, o vinho da co -

munhão, a água do batismo, a água em que o oficiante molhara as mãos de- pois de ter tocado as santas espécies, os próprios dedos do padre foram tam- bém remédios; ainda em nossos dias, em certas províncias se supõe que o pó

e o musgo das igrejas possuam essas mesmas propriedades. 55 De quando em

quando, esse gênero de idéia levava os espíritos grosseiros a estranhas aber- rações. Gregório de Tours contou a história de um desses chefes bárbaros

que, sofrendo dos pés, banhava-os numa patena." O clero evidentemente condenava tais excessos; mas deixava prosseguir as práticas que não julgava ofensivas à majestade do culto; ademai s , em larga medida as crenças popula-

res escapavam ao controle eclesiástico. Entre todas as coisas de igreja, os santos

óleos, sendo o veículo normal das consagrações, pareciam particularmente fecundos em virtudes. Os prevenidos consumiam-no para obter um ordálio

(

favorável. Sobretudo para os males do corpo , esses óleos constituíam um re- curso maravilhoso. Era necessário proteger da indiscrição dos fiéis os vasos que continham os óleos.l? Na verdade, naqueles tempos quem dizia sagrado dizia capaz de curar. Ora, recordemos o que eram os r eis . Quase todo mundo acreditava na, para falar como Pierre de Blois, "santidade" dos monarcas. Há mais . De onde a derivavam? Aos olhos do povo, em grande parte ela tinha origem na- quela predestinação familiar à qual as massas, guardiãs das idéias arcaicas , não haviam deixado de dar crédito. Mas também, a partir dos tempos caro- língio s , ess a "santidade" passou a resultar, mais formalmente e mais cristã-

m e nte, de um rito religio so , a unç ã o; e m outros termo s , desse ól e o bento que

parecia a tantos enfermos o mais ef i caz dos remédio s. Portanto, os r e i s e s ta-

v am duplame nte d esi g nado s ao papel de benfeitore s taumaturgos : primeir o,

r. pelo c a ráter sagrado que lh es era in e rent e; depois, m a is particula rmente, por uma das fontes de onde emanava e s se ca rá t e r , a mai s visível e a mai s respei-

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tável. Como n ã o h ave riam e les, m a i s cedo ou mais tarde, d e po s ar d e curan - deiros ?

E ntret a nto, n ão se tornaram c ur a nd e iro s lo g o e m se guida (isto é , assi m

que a unç ã o ré g i a fo i impl a nt a d a nos E s t a do s da Euro pa ocid e ntal), n e m e m todo s o s paí ses . A s consid e raçõ es g e ra i s que acab a m de ser e x p os tas n ã o sã o

s u f i cie nt es p a r a e s c l a r ece r por qu e o r ito do toque ap ar eceu n a Fr a n ça e n a

Inglate r ra , E l as mo stra m-n os que o s e s p í rit os es t a vam p r eparado s , un s , par a

im ag in ar e , ou tr o s, pa ra a dmit i r semelh an t e prá t i ca . A fim de ex plica r p o r qu e

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82

,

es s e rit o na sceu num a data precisa e num m e i o de t erm ina do,

para fa tos d e outra o r d e m , f a to s qu e p o d e m o s c l a s si fi car d e mais f or tu i t o s ,

pois s upõem em maior grau o jo go d a s v o ntad es ind iv idu a i s .

é n ec essá rio ap e la r

A POLÍTICA DINÁSTICA DOS PRIMEIROS CAPETÍNG/OS E DE HENRIQUE I BEAUCLERC

O primeiro soberano francês tido como capaz de curar os doentes foi Roberto, o Pio. Ora , Roberto era o segundo representante de uma nova di- nastia. Recebeu o título régio e a unção ainda em vida de seu pai, Hugo, em 987 - ou seja, no próprio ano da usurpação. Porque os capetíngios tiveram

ê x ito, temos dificuldade em imaginar o quanto seu poder, naqueles primei-

ros anos, devia parecer frágil. Sabemos, no entanto, que ele era contestado.

O prestígio dos carolíngios era grande; a partir de 936, ninguém mais ousara

disputar-lhes a coroa; para tornar possível a sua queda, foi necessário um acidente de caça (aquele em que Luís v encontrou a mor t e) e uma intriga in- ternacional. Em 987, e mesmo mais tard e , quem poderia estar certo de que tal queda seria-defmitiva? Decerto havia muitos para os quais o pai e o filho associados no trono eram como escrevia Gerbert em 989 ou 990, apenas reis temporários, "inter-reis" (interreges).58 Durante muito tempo, houve focos de oposição, em Sens, em diversos lugares do Midi. Na verdade , um bem- sucedido ataque de surpresa desfechado no dia de Ramos de 991, pondo em poder de Hugo o pretendente que descendia de Carlos Magno, logo tornou completamente inúteis os esforços que pode r iam satisfazer os partidário s de uma linhagem cujo chefe estava agora preso e cujos últimos rebentos iriam cair no esquecimento. Mas esse sucesso inesperado não assegura v a o futuro. A fidelidade que alguns legitimistas votavam aos descendentes de seus anti- gos soberanos provavelment e jamais constituír a perigo muito grave para a

família c a petín g ia; a verdadeira ame aç a est a va em outra parte: no sério dano que e s se s mesmos aconte c imentos de 987 , aos quais os no v os reis de v iam o

t rono, causara à lealdad e dos súdito s e, sobretudo , à h e redit a riedade mon á r-

quica. A s deci s õe s d a a sse mbl é ia de S e nli s arri s ca v am-se a a ss inal a r o tr i unfo

do prin cí pio el e tivo. Por certo , es s e prin c ípio nã o e r a no v o. Conform e v i-

mos, ao menos na anti g a Ge r m â nia ele tiver a por co rretivo a ne ce ssidade d e

o rei se r es colhid o s empr e n a me s ma f a míli a . N ã o i ria agor a o dire i to de l iv re

e sc olh a ag ir s e m entr a ves? O hi st oriador R ic h e r colo c a na boca do arcebi s po

Adalbé r on,

t

ded i cad a aos pr ó prios r e is Hugo e Roberto , Abb o n e s cre v i a : "Conh e c e m os

três e s p é c ies d e e leiç ões g e rai s: a d o r ei ou d o i m pera do r , a d o b i spo e a d o

ab a d e " . 6 0 Essa úl ti m a e xpr e ss ã o d e v e s er tid a co m o a m ais sig n ific at iv a e n-

t r e tod as : o c l e r o , h a bitu a d o a co n s id e r a r a e l e i ção a ú ni ca f on te c a n ô ni ca d o

e m ív eis: " n ão s e obt ém a r e a le z a por dir e it o hereditãrio't.ê? e, numa ob r a

ar e ng a ndo a o s g r a nde s e m f av or d e Hu go Ca p et , e s t as p a la vras

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po de r ep i scopal ou aba c ia l , estava m u itíss i mo t e n t ado a nela ver tam b é m a

m a is lo u v ável or igem d o pod er po lít i co s upr emo. Ora , aqu ilo q u e um a e lei- ção fiz era, o utra podi a d esf azer , se necessário s e m espera r a mo r te do p ri-

meiro e l eit o o u, p e lo m e no s , sem l eva r em c ont a as rei vind icações de se u s fi lhos; com c e r te z a , n ã o se esquece ra o que a c ont ece ra dur a n te os c inqüe nt a

anos seguinte s à mort e d e Carl os, o Gordo. E para santificar o f eliz candid a -

t o, fosse qu a l fosse sua origem, a unçã o oferecia-se s empre. Em suma, a mai s urgente ta r efa que se impunha aos cape t íngios era restabelecer em proveito

próprio uma legitimidade. Por menos conscientes que estivessem dos perigos que os cercavam e dos que não poder i am deixar de abater-se sobre sua de s- cendênc i a , eles devem ter sentido a necessidade de realçar mediante alguma

manife s tação inédita o brilho de seu nome. Em condições quase idênticas , os carolíngios haviam recorrido a um rito bíblico: a unção régia. A aparição

do poder c urativo sob Roberto II não se e x plicaria por pr e ocupações da mes ma

ordem das que outrora haviam levado Pepino a imitar os príncipes hebreus?

A f irmar i sso s e ria presunçoso ; mas h á motivos para tentar s u p ô -lo .

É c l a r o, n e m tudo deve ter sido c á l c ulo. Roberto tinha reputação de ser

mu i to de v oto. Provavelmente por causa disso o milagre capetíngio come ç ou com ele e.n ã c com seu pai, Hugo. Sem dúvida, a característica de santidade

qu e s e conferia à pe s soa do rei , acrescida da santidade inerente à dignidade

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r ique Bea u clerc (que, s egundo s abemos , fo i o in i ciador do rito ingl ês ) , i s to

é, até o a no 1100 pelo me n os, os r e i s d escendente s d e Roberto 11 foram os ún ico s na E uro pa a t oc a r o s e n fermos ; o s o ut r o s " un g id os do S enhor" não

o t e n tava m. P o r tanto, a un ção não e r a s ufi c iente pa ra c o nfer ir es se m a r avi -

lho s o ta l e nto; a f im d e que um r e i se fiz esse ver dadei ra m e nt e s a nto, u m ve r- dade ir o re i , era nec e s sá rio ma i s que uma el e iç ã o seguida de sa g r a ç ão; a v i rtude

taumatú rg ica na linha g em

anc e s t ral ainda cont av a . A persist ên cia da pr e tensão

capetíngia certament e não criou sozinha e ss a f é n a legitimidade famil i ar que

de v ia ser um dos melhores apoios da realeza francesa . B e m ao contrário: só

se aceitou a idéia desse milagre patr i monial porque nos co r ações ainda sub- sistia alguma coisa das velhas no ç õ e s s obre as f amílias hereditariamente sacras. Mas não há como duvidar de que o espetácu l o das curas régias contribuiu para fortalecer es s e sentimento e pa r a, d e a l g um a mane i ra, dar-lhe no v a ju- ventude . O segundo dos capetí n gios encetara o prodígio. S e us descenden te s, para maior vantagem da monarquia, fize r am-no prerrogat i va não mai s de .

um rei, mas de um a dinastia. Passemos pa r a a Inglate r ra. Também lá encontramos reis-médicos. O

eterno problema que se afigura ao s hi s toriador e s quando e s te s e ncontram in s- titu i ções semelhantes em dois paí s e s vizinhos apresenta- s e, portanto, tamb é m

a nós: co i n c idên c ia ou intera ç ão? S e nos inclin a mos à se g unda hipótese,

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é gia , muito naturalmen t e levou os súditos a a t ribuir ao mon a rca v irtude s taumatúrgicas. Se se qui s er , pode-se supor que agia m espontaneamente o s

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que lado, e m qual d i na s tia se devem procurar os modelos ou imitadores? Qu es- tão outrora inflamada: durante muito tempo, o pa t riotismo i n te r essou-se por

primeiro s do e ntes a (numa data para sempre de s conhecida) solicitar que o

solucion á -Ia. O s p r im e iros eruditos que, no s éc ulo X VI ou X VII, preocup ar am -

s

oberano os tocasse. Quem sabe se, afinal de contas, outro s fato s análogo s

se

com ela rião d eix avam de concluir a favor da França s e eram fran c e ses ,

já não se ha v iam produz i do, em e s tado isolado, durante reinado s preceden- tes, como no tempo de Gontrão? Mas, quando v e mo s essas c r enças até a l i err áticas tomar cérpo num momento tão oportuno a uma dinas t i a ainda mal

ou da Ingla t err a se e ram ingl ese s. H oje, não no s se r á dif í cil m a nter a sereni- dade . Por certo, a s c re nças coletiv a s que e s t ã o na origem dos r itos cura t i v os

e expl i cam o suc e s s o de s tes eram f ruto de um e s t ado políti c o e religioso co-

a

ssente, é di f ícil acreditar que nenhuma intenção política d i ssimulada haja

mum a toda a Europa o ci dental e hav i am desab r ochado espontaneamente t a n-

d

esempenhado um papel - decerto n ã o na forma çã o original do milagre,

to na Inglaterra qu a n t o na Fran ç a . Mas ch eg ou o dia em qu e, na s duas mar-

ma s , se s e pode falar a ssim , na crista liza ç ão desse m i lag r e. D e r e sto, não h á

gens da Manch a , e ss a s c renças s e concretiz ara m n uma in s titu i ção pr ec i sa e

a

menor dúvida de qu e o próprio Rob e rto e seus con se lheiro s t i nham f é n a

regular: o " toque " rég io . Fo i no n a sc im en to d a in s t i tu içã o qu e a influ ê nc ia

efi c á cia da s f orças miraculosas que emanavam d e s ua pesso a . A h ist ória d as

de um p a í s s ob re o outro p ô d e faze r - se sen t ir.

re li g iões mo stra abund a nt e mente qu e p a ra e x plo r ar um mil ag r e n ã o há ne-

E xa minemo s as da t a s . H e n r i q ue Beau c l erc, o primeir o d e s u a e sti r pe do

cess idade d e ser cé tico. P r o vave lmen te , a c o r te e s forç ou- se por a tra i r os doentes

qual sabe mos t e r toca do os e n fermos , com eço u a rein ar em 1100. N aque l e

e

ex pandir a fa m a da s cur as r e alizadas ; no começ o , n ã o s e d evia estar muito

m om e n t o, Rob e r to n , que pare ce ter sido o inic i a dor do r i t o n a F r ança, es-

pre o c upado e m saber s e o pod er c urati v o era e xc lu sivo do m o narca do d ia

tava m orto hav i a 69 a n os . Po rta n t o, a a n teriorida d e f r a n cesa n ã o p o d e ser

o

u p r óprio do s angu e ca p e tíngio. De f a to, c omo v imo s, os su cessores de Ro -

c

oloca d a e m dú v i da . O s cap e t í n gi o s não for am p l a giad o r es. Fo ram pl ag i a -

b

er t o não d e i xa ram que t ã o b e lo dom fic a ss e se m he r d e iros ; cur ava m c om o

dos? Ca so o milag r e régio s e tivesse d ese n v ol v id o n a I ng l ate r ra i nd epende n-

l e e depr essa se e specia li za r a m num a d oe nça d eter mina da : as escróf ulas. Pod e m os p e r g untar se ca da u m d e l es, r eiv indicando p o r s u a vez u ma p arte do g lorios o p r i vil é gio, v ia a l go qu e n ã o se u in t er esse pessoal. M as , t a l v e z i n-

e

temente d e qualqu e r m od e lo estrang ei r o , s u a evo lu ç ã o, seg u nd o to da a pro- bab i lid ade , ter ia si d o a m es m a q u e na F r ança; no co m eço, a a p arição de u ma virtu de tauma tú rgica q u e s e ap l icaria i nd istintamen t e a todas as enfermi da-

seu s esfo r ç o s r e unid os aca bar a m po r f a vorecer co m u m ca-

ráter s obr e n at u ra l tod a a est i rpe desses m o nar c a s . A liás, até o r einado d e H en-

co n sci e nte m e n te,

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d es; depois ( p e l a ação de acasos que p ara sempre n os serão mi steri o so s ), a

pro gressiva es pecia l ização nu ma mo l ést ia determina d a; e n ã o e n te nd er í a mos

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mui t o b e m que t amb ém l á o a c aso h o uve s se d e sign ado as escróf ulas . É c e rto qu e a s escró f ul as são p a r t i c ul átme n te a d e qu a da s a o m ilagre , poi s ( c om o v i- mo s) e la s d ã o facil me n te a i lusão d a cur a. No entanto, h á outras a f e c ções que se enquadram no me smo c a s o , C onhe ce mos santos especializados em es- crófulas, mas para qu a nto s outro s males não se invoca especificamente este ou aquele santo? Ora, vemos que na Inglaterra os reis jamais reivindicaram, nem mesmo na origem, um poder curativo de natureza indeter minada , e a enfermidade que desde o início pretendem poder curar é precisamente a mes- ma da qual antes deles, como conseqüência de uma evolução natural, seus vizinhos da França haviam - se constituído os médicos . Henrique I , príncipe mais que meio francês, não podia desconhecer as curas realizadas pelo cape-

t í ngio , seususerano e rival. O monarca inglês devia invejar-lhe o prestígio . Pode - se duvidar de que tenha querido imitá-Io?61 Mas Henrique I não confessou a imitação. Num lance feliz, colocou seu poder miraculoso sob a proteção de uma grande figura nacional. O último

repres e nt a nte da dinastia anglo - sax ã à qual Henrique I p r ocurara liga r -se pelo casamento, o virtuoso soberano que brev e se tornaria o santo oficial da mo - narquia , Eduardo, o Confe s sor , foi seu patrono e seu fiador . Teve Henrique I dificuldades com a opinião rel i giosa de seu país? Na época em que Rober- to, o Pio, começara a tocar os doentes, ainda não na s cera a reforma grego- ríana , tão pouco simpáti c a ( v oltarei ao assunto mais tarde) às prerrogativ as régias e, s obretudo, tão ho st il a tudo o que cheirava a usurpação dos privilé - gio s sacerdotais. Quando o rito curati v o atr avessou a Mancha, a reforma al- cançava seu auge; são dela as idéias di re trize s que (como vimos na de s denho - sa frase de William of Malmesbury) pr otest am contra a "obra de fals idade"

que os cr e nte s na realeza haviam empr ee ndido.

Mas é p r ecis o não julgar pelo

estado de espírito de William o de todos os eclesiásticos ingleses. Por vol t a da é poca em que Henriqu e I pôs-se a e x ercer seu talento miraculoso, um clé - rigo a g regado à catedral de York es c revia seus 35 tratados, quin t essência de

todo o p e n samento anti greg oriano, no s quais se ostenta a mais absoluta e mais intran s i g ente fé na s virtudes da un çã o régia, na natureza sacerdotal e qua s e di v ina da reale z a ." O próprio Hen r ique I, pelo menos durante a p r i- meira par te de seu rein a do , fi cou em dific u ldade com o s r e formadores. Pro- vavelm e nt e, foram m e mb ros de sua r oda qu e m redig iu uma fals a bul a p a p a l que, de s pr e zando todo s os no v os prin cíp i os , reconhec ia ao s reis i ngles e s " o patro c ínio e a proteç ã o [ . ] d e toda s a s i g r e jas da In g l ate r ra" e uma es pécie de legaç ã o pontifical p e rp é tua . " Não de v e r ia surpreend e r-nos que, pro v a ve l- mente naquele mom ento, el e h aja impl a n tad o em t odo s o s s eus domínio s a

prática t a umat ú rgica qu e era uma supre m a ex altação da c ren ç a na f o rça sa -

grada dos r eis; tamb é m n ã o d ev eria s urp ree nd e r - nos qu e d a l i em d i ante essa prática ha j a prosperad o nu m so lo f a v oráv el.

N ascido na Fran ç a aí p e lo ano 10 0 0, n a Inglate rra ce rc a de um séc ulo

mais tar d e , o rito d o to qu e faz ass im s u a apar i ção em din as tias na s qu ais ,

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6

c ontrar i a m ente ao a n t i go u s o ge r m â ni co, o d i r e ito d e pr i m ogen itura c o m e -

ç a v a a d omi nar. Nos p aíses mu ç ulm a n os , d u rante o s pr i meiros t e mpos do

Isl ã, a cr editava-se qu e o sa n gu e ré g io c u r a v a a h i dr of obi a ; m as o san g u e d o mo n ar ca reinante, do c a li fa, n ã o er a a o s olh os do s c re n tes o único a po s su ir

e s sa virtude . T odos o s m e mbros da família rea l em qu e o cal i fa devia s e r es - colhido, todo corai x ita, via atribuir- s e ao l í quido que corria em suas ve i as

o mesmo poder milagroso .v ' Isso porque toda a fami l i a real era tida como .

santa : tanto que, em matéria política, os E s tados islâmicos jamais reconhe-

ceram os privilégios da primogenitura. Na França e na Inglaterra , porém,

a cura das escrófulas sempre foi considerada uma prerrogativa estritamente

reservada ao soberano: os descendentes de um rei não partic i pavam dela se não fossem eles mesmos reis. 65 Ao contrário do que acontecia na Germânia primitiva, o caráter sagrado não mais s e e s tendia a toda uma linhagem; ele concentrara-se definitivamente numa só p e ssoa , o chefe do ramo mais velho, único herdeiro da coroa; apenas esse tinha o d i rei t o d e faz e r milagres .

Para todo fenômeno religioso, há dois tipos de explicação tradicional.

Um, que podemos chamar voltairiano, prefere ver no fato estudado a obra consciente de um pensamento individual seguro de si mesmo. O out r of' à o " contrário, procura ali a expressão de força s sociais, profundas e obscuras;

eu de bom g r ado lhe daria a denominação romântico: um do s grandes serviços

prestados pelo romantismo não foi acen t uar vigorosamen t e nas coisas hu- manas a noção do espontâneo? Essas duas formas de int e rp re tação são con - traditória s apenas na apar ê n c ia. Para que uma insti t u i ção d es tinada a aten - der a fins pr e cisos indicados por uma vo n tade individual possa impor-se a todo um povo, é necessário ainda que ela s e ja sust e nt a da pelas tendências profunda s da consciência coletiva; e tal v e z , reciproc a m e nte, para que uma cren ç a um pouco vaga po s s a concretiz a r-se num rito regula r , não seja ind i fe- rente que algumas vontade s conscientes aj ud e m - na a to mar fo r ma. Se a s hi- pótese s q u e apresente i pod e m ser acei tas, a hist ória das o r i gen s do toqu e r ég io merecer á s er colocada n a f i l ei r a do s j á num e rosos e xe mpl os que o p ass ado forne c e a c e r ca de uma dúplice ação d e ss e tipo.

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