MARC BLOCH

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OS REIS TAUMATURGOS

o caráter

sobrenatural do poder régio França e Inglaterra
Prefácio: JACQUES LE GOFF

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Tradução: JúLIA MAINARDI

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I" reimpressão

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MPANHIA DAS LETRAS

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ele seguia o exemplo de um chefe polinésio?"! E Montesquieu (sob a máscara do persa Usbeck) já falava do mesmo príncipe: "Esse rei é um grande mágico. após havermos dito isso. 2 No pensamento de Montesquieu. que nos ensinaram a perceber entre certas concepções antigas sobre a natureza das coisas e as primeiras instituições políticas da humanidade vínculos por longo tempo ignorados. Entretanto. a palavra mágico era apenas uma expressão irônica. ter-se-ia esquecido o aspecto temível do dom real e conservado apenas o lado benéfico. incontestavelmente. 3 Entendamos bem. exercem uma homeopatia dessa espécie. mesmo fulminando os indiscretos que penetram seu círculo mágico. "se alguém lhe provasse que. possui também. ] Chega até a fazê-los acreditar que os cura o crôfula provavelmente recebeu o nome mal do rei porque se acreditava que o toque de um reifosse suscetível tanto de infligi-Ia quanto de curá-Ia". vamos descartá-I o por um instante. Mas. com mais justiça ainda. por uma feliz compensação. Sim. de que vale esse raciocínio por analogia? O método comparativo é extremamente fecundo. Certas representações coletivas que afetam toda a vida social são encontradas (sempre similares pelo menos em suas linhas gerais) em grande número de povos. parecem sintomáticas de determinados estágios de ( 68 69 ( ( . surgiu em determinado momento e não em outro. que teremos feito senão indicar aproximadamente o gênero de representações mentais para as quais é conveniente dirigir nossa pesquisa? A realidade histórica é menos simples e mais rica que semelhantes fórmulas. não teremos ainda terminado nosso trabalho. não foi nas sociedades medievais e modernas senão o último eco dessas crenças "primitivas" que hoje. o privilégio de conceder a saúde por simples contato. Em suma. tocando as escrófulas. faltará entender as razões pelas quais o rito curativo. Usei como epígrafe essa pequena frase de Montesquieu. Pouco a pouco. deixaríamos escapar justamente o particular. o milagre das escrófuIas tem. parentesco com todo um sistema psicológico que. desde longa data. Salomon Reinach. explicá-I o será correlacioná-lo ao conjunto de idéias e de crenças de que o milagre régio foi uma das manifestações mais características . Ela baseia-se no caso das ilhas Tonga. tão grande é a força e o poder que tem sobre os espíritos".A hipótese de sir James Frazer adquiriria então mais força? Penso que não. graças ao estudo dos povos selvagens. as causas profundas e. mas ele imagina que outrora. o empurrãozinho que chama para a vida uma instituição que. os antepassados desses soberanos haviam manejado essa faca de dois gumes. não é suficiente percorrer os grandes compêndios levantados com tanto cuidado e talento por sir J ames Frazer. derivado de um movimento de pensamentos e dI sentimentos comuns a toda uma parte da Europa. exerce seu domínio sobre o próprio espírito de seus súditos [.\ ! ( f de todas as espécies de males tocando-os. Parece que esse argumento poderia ser suficiente. Dessê pônto de vista. O milagre régio apresenta-se sobretudo como a expressão de certo conceito de poder político supremo. onde certos chefes. não pode servir para reconstituir os detalhes. de outro. a ocasião. Suponhamos que o poder curativo dos príncipes normandos ou capetíngios tenha origens muito longínquas.. a ciência conseguiu reconstituir? Para compreender o rito do toque. por uma dupla razão. Mas talvez alguém pergunte: é verdadeiramente necessária uma longa investigação para descobrir as representações coletivas que estão na origem do toque das escrófulas? Não é óbvio que esse rito. Parando aí. de bom grado damos a ela seu sentido pleno. aparentemente tão singular. como já sabemos.. mas desde que não saia do geral. ( ( A realeza sagrada nos primeiros séculos da Idade Média {' ( r:I ( ( A EVOLUÇÃO DA REALEZA SAGRADA: A SAGRAÇÃO r: ( ( r ( ( í ( ( ( ( ( ( problema que agora exige nossa atenção é duplo.pois não é exatamente o princípio de toda a "explicação" científica fazer um caso particular encaixar-se num fenômeno mais geral? Mas. na noite dos tempos. se pode qualificar de "primitivo": porque traz a marca de um pensamento ainda pouco evoluído e <todo mergulhado no irracional. ela poderia ter sido inscrita no frontispício das belas obras de sir James Frazer. segundo se diz. Sir James Frazer não pretende que no século XI ou no século XII os soberanos ingleses ou franceses tenham sido considerados capazes tanto de espalhar as escrófulas em torno de si quanto de curá-Ias. Hoje. e porque o encontramos em estado especialmente puro nas sociedades que convencionamos chamar "primitivas". na França e na Inglaterra e não em outro lugar. estava latente nos espíritos. tendo conduzido nossa pesquisa até tal ponto. Podemos conjeturar que os predecessores dos monarcas ingleses foram outrora o objeto de idéias análogas: a es- (' ( ( ( 2 AS ORIGENS DO PODER CURATIVO DOS REIS (. Mas. folhear O ramo de ouro ou As origens mágicas da realeza? "Que teria dito Luís XIV". alegase que certos reis vivam numa atmosfera carregada de uma espécie de eletricidade espiritual que. na Polinésia. Sir James Frazer escreve: "Nas ilhas do Pacífico e em outras partes. No entanto. de um lado. temos. os reis taumaturgos dos séculos XI e XII não precisaram rejeitar parte da herança ancestral porque nada de suas miraculosas virtudes vinha de um passado muito distante. escreve o sr.

é o ungido do Senhor"].por exemplo.l \ ( civilização. essas idéias e instituições são muito mal conhecidas. Mas.diante da qual toda a nobreza perde o brilho . Evitemos cometer o erro inverso e não transportemos para Londres ou Paris os antípodas por inteiro. e o mesmo príncipe. considerando-a um bem patrimonial.'! Julgava-se que esses reis verdadeiramente divinos possuíam certo poder sobre a natureza. A idéia da legitimidade pessoal era fraca. consagrado à púrpura't. como uma espécie de conclusão óbvia. Seu último descendente." Os capetíngios sempre se arvoraram em autênticos herdeiros da dinastia carolíngia. como entre todos os povos no mesmo estágio de civilização. tal como ela floresceu sob outros céus.é o único exemplo invocado -. procuremos retraçar em toda a sua complexidade o movimento de crenças e de sentimentos que. como tantos outros príncipes naqueles tempos de violência. deram-lhes o nome Ases. a da legitimidade dinástica. quando o herdeiro legítimo chegou. tocamos um fundo de idéias e de instituições extremamente arcaicas. isto é. a sociologia comparada permite reconstituíIas com muita verossimilhança. Entre os primeiros missionários. Conforme uma concepção que encontramos em outros povos (desenvolveu-se com uma força especial no seio das sociedades chinesas). Portanto. na Europa antiga ou mesmo medieval. Atalarico escrevia ao Senado romano: "Assim como aquele que nasce de vós é dito de origem senatorial. em dois países da Europa ocidental. a causa do sucesso dos chefes. assim também aquele que vem da familia dos descendentes de Amala . Mas essas grandes idéias comuns a toda ou a quase toda humanidade evidentemente receberam aplicações diversas. diz Procópio. antes de explicar a associação de idéias que muito naturalmente depreendeu daí. como diz Jordanes) na qual as pessoas viam. haviam pedido que o imperador o nomeasse. "7 Reencontra-se a palavra Ases nas antigas línguas escandinavas. falava do "sangue dessa família. pelo menos. ela servia para designar os deuses ou certas categorias destes. variam com eles. originados dos deuses. pois apenas elas detinham essa ventura misteriosa (quasi fortuna. toda a Germânia anterior ao cristianismo permanecerá para sempre irremediavelmente obscura. embora ele fosse desconhecido por todos." Dessa fé na origem sobrenatural dos reis decorria um sentimento lealista.é digno de reinar". muito forte. Henrique n. O primeiro escolhido morreu durante a viagem. assassinado pelos próprios súditos. semideuses. os hérulos. Não era lealdade a este ou àquele indivíduo: a primogenitura não existia. mais que no talento militar deste ou daquele comandante. colocaram na chefia um dos seus. "atribuindo suas vitórias à feliz influência que emanava de seus príncipes. por meio delas. a filiação é direta e contínua. tais representações coletivas não são confirmadas historicamente. O estudo das tribos da Oceania esclarece a noção da realeza sagrada. os reis eram entre os germânicos escolhidos apenas em certas famílias nobres . estava impregnada de caráter religioso. Conservamos várias genealogias régias anglo-saxãs: todas remontam a Wotan. Os reis da França e da Inglaterra puderam tornar-se médicos milagrosos porque já eram. que haviam massacrado seu rei. Portanto. o poder curativo dos que eram revestidos com esse caráter sagrado. designado por causa apenas de seu valor individual. a mesma força pode ter-se manifestado de forma diferente . um grupo que se separara da nação hérula estava estabelecido na região do Danúbio. personagens sagradas: "sanctus enim et christus Domini est" ["o rei e santo. anglos ou saxões aos soberanos franceses ou ingleses do século XII. Estes são suficientes para assegurar-nos que a concepção de realeza entre os germânicos. Mas esses bárbaros. ali. o direito hereditário no interior da dinastia . não quiseram ver neles simples homens. Chegou o dia em que esse ramo pereceu por inteiro. podia-se mudar o soberano.? Essas estirpes predestinadas eram as únicas capazes de dar chefes verdadeiramente eficazes. Por falta de uma literatura escrita. Num arquipélago polinésio . havia muito tempo. "Os gados". decerto se referindo à península Escandinava. r ( r ( ( ( ( 70 71 J . estava morto. era mal fixado. numa só noite quase toda a gente veio colocar-se a seu lado. mas desde que seu sucessor fosse escolhido dentre os membros da mesma dinastia. Em outro lugar. Não se pode entrever mais que alguns clarões. deve-se primeiro olhar para as velhas realezas germânicas. muitos acreditavam reencontrar nos "selvagens". e os carolíngios. mas não poderíamos esperar encontrar na Europa todas as instituições da Oceania. Infelizmente. os chefes são tanto fautores de moléstias quanto médicos: assim se traduz a força sobrenatural de que são detentores. sem contrapartida desagradável. os embaixadores deram meia-volta e escolheram outro." Os reis eram considerados seres divinos ou. Enquanto isso. de acordo com os lugares e as circunstâncias. Dos chefes das antigas tribos de francos." Tácito já observava que.'? No século VI. diz-nos Jordanes. de modo diverso do que acontecia no caso dos chefes temporários de guerra. ( ( ( ( ( "- r ( (. a fim de justificar as virtudes taumatúrgicas de seu monarca."em Thule". Os reis normandos da Inglaterra reivindicaram a sucessão dos príncipes anglo-saxões. em determinadas famílias hereditariamente dotadas de uma virtude sagrada. em autênticos herdeiros de Clóvis e dos descendentes deste. Portanto. provavelmente porque não ousavam elegê-Io eles mesmos. livremente escolhidos em razão de seu valor pessoal. No seio de outras sociedades. cansados de esperar. não se resignavam a ficar sem sangue régio. tornou possível a instauração do rito do toque. um ramo da linhagem tradicional seguira-o e fornecia-lhe seus chefes.sem dúvida. conhecidas graças apenas a documentos relativamente recentes ou incompletos. misturando conceitos germânicos com um vocabulário ro=' mano. dizia Pierre de Blois. todas as espécies de concepções cristãs. mais ou menos apagadas. Seriam ali de fato inexistentes? É provável que não. convém primeiro indicar de que modo o caráter sagrado da realeza veio a ser reconhecido. Decidiram mandar buscar um representante da família real na longínqua pátria de onde outrora partira a migração . trazendo apenas benesses.

Em casos semelhantes. Segundo a lenda coligida no século XIII na Heimskringla [Esfera do mundo]. representam a imagem de um desfile militar. O próprio Carlos Martelo acreditou-se forte o bastante para suprimir a realeza durante algum tempo. foi redigida apenas no século XIII. o Negro. fora "de todos os reis o que tivera mais sorte nas colheitas". segundo o testemunho de Amiano Marcelino. nossos textos são demasiado pobres para permitir-nos afirmar que nenhuma tribo germânica jamais considerou seu rei um médico. o de Grimoaldo. seu cadáver. Algumas vezes. é a impressão que as obras de sir James Frazer nos dão. por conseguinte. e não dirigida para fins particulares. entretanto. Deve-se também observar que na sociologia comparada (à qual. e cada pedaço foi sepultado sob um montículo de terra em cada um dos quatro principais distritos do país. provavelmente. O primeiro golpe de Estado tentado contra eles.reduzidos pelos mordomos do palácio a uma existência totalmente representativa .'? A partir de Dagoberto. era um santo do cristianismo.IS Mas Olavo. a dinastia merovíngia afundou na impotência. as velhas idéias não se esvaeceram de repente. filho de Haraldo. esse era o destino dos reis burgúndios. não há nada de muito surpreendente em tal penúria. Muito mais que aliviar as misérias individuais. polinésios das ilhas Tonga reaparecem sem cessar. como já mencionei. que atestaram ser muito antigo. hostis àquele passado. mas só em parte. simples fantoches.I\ ( tais monarcas eram considerados responsáveis pela ordem das coisas. do qual tratamos 72 ( ( ( ( ( ( ( aqui. Não há dúvida de que esse fracasso e essa abstenção prudente explicam-se em parte pela rivalidade dos grandes. longe disso. tocando as crianças e os cereais. proporcionar aos homens uma boa progenitura e boas safras. os exemplos dessa forma da magia régia que encontramos registrados nessas grandes coletâneas são bem pouco numerosos: ali.ao que foi a vida dos micados junto aos xóguns no Japão antigo. na Islândia. por ser dotados de uma virtude divina. os dinamarqueses ainda acreditavam que um príncipe virtuoso pode. Uma revolução religiosa aplica um golpe terrível na antiga concepção de realeza sagrada. comparou-se a situação dos descendentes de Clóvis . Sem dúvida. embora em escala menor. Esse costume. será sempre tentador recorrer) nada nos obriga a admitir que na antiga Germânia os reis. e o mesmo aconteceu com os merovíngios. esses reis continuaram a reinar. girando sempre em torno dos mesmos montantes.l" Mestres dos anos de abundância. Sem dúvida. é provável que tanto os príncipes francos quanto os imperadores japoneses tenham sido protegidos durante longo tempo. mas. na consciência popular.. Durante um momento após as invasões. A força miraculosa atribuída aos reis pelos "primitivos" é geralmente concebida para fins coletivos destinados a obter o bem-estar do grupo como um todo. é preferível manter a dúvida que a sábia prudência nos impõe. 17 A longa cabeleira que era o atributo tradicional da dinastia franca (todos os outros ho. durou tanto quanto os próprios merovíngios . o historiador romano convidou-nos a comparar esse costume às tradições do velho Egito. provavelmente. tão logo atingiam a idade adulta. originariamente esses cabelos jamais cortados deviam ser considerados o próprio centro do poder maravilhoso que se reconhecia nos filhos da estirpe eleita. mas de bom grado se rendia culto aos membros das famílias que se estava habituado a considerar sagradas. s. É verossímil que continuassem a viver. Não que essas linhagens fossem particularmente fecundas em virtudes religiosas ou privadas. ter-se desenvolvido mais facilmente nas sociedades em que a religião proibia atribuir aos reis uma influência sobre aqueles grandes fenômenos cósmicos que comandam a vida das nações. se nos ativer73 ( ( ( .12 No século XII. Pelo menos. o soberano norueguês Halfdan. ou melhor. quando a colheita falhava. os milagres que a saga islandesa lhe atribui são apenas o eco de um tema hagiográfico. 13 Às vezes. se não precisamente por sua natureza sagrada. O mesmo uso parece ter vigorado na Suécia pagã. foi cortado em quatro. mas não para usurpar o título real. passavam a usar cabelos curtos) decerto fora na origem um símbolo de ordem sobrenatural. seria fácil encher páginas e páginas com os casos de chefes "fazedores de chuva" que os repertórios etnográficos fornecem. Nossos textos permitem resgatar alguns vestígios dessas idéias. é necessário acreditar que a estirpe legítima conservava em seu decIínio uma espécie de prestígio. os reges criniti [reis de cabelos longos] eram outros Sansões. estendiam os reis germânicos seu poder também às doenças? A Heimskringla (que. Entretanto. mais ou menos secretamente. Quando ele morreu. mens livres. encontraríamos muitos outros se nossos documentos não fossem todos de proveniência eclesiástica e. Os reis subsistiram na qualidade apenas de chefes de Estado. 16 Na verdade. chefes ualos do Senegal. por mais de um século e meio. pelo menos oficialmente. O advento do cristianismo privou-a de seu apoio natural: o paganismo nacional. pátria clássica da realeza sagrada. pois os reiscurandeiros parecem ter sido sempre e em todos os lugares bastante raros. ao menos pelas obscuras lembranças que seu antigo papel deixara nos espíritos. como esses figurantes de teatro que. Isso talvez explique o porquê de o rito do toque. fossem todos ou em sua maior parte curandeiros.mas sem que possamos saber se. Olavo. tal como esta florescera entre os germânicos. fracassou miseravelmente. em vez de ser enterrado todo inteiro num só lugar. aliás. seu poder político foi até mais forte que nunca. seu papel é fazer a chuva cair ou assegurar a regularidade das colheitas. portanto. continuou-se até o fim a atribuir-lhe valor mágico. depunha-se o rei. que reinou na Noruega nq começo do século XI. Guardadas as devidas proporções. Com sua inteligência habitual. pelo padre Snorri Sturluson) atribui algumas curas ao rei Olavo. eles cessaram de ser tidos como personagens divinas." Muitas personagens pertencentes às casas reais anglo-saxãs foram depois da morte veneradas como santos. pelo menos entre o povo. na ausência de documentos. pois "a posse do corpo" (ou de um de seus fragmentos) "pareciaaos que a obtinham uma esperança de boas colheitas" .

O culto imperial desapareceu na Gália ao mesmo tempo que a dominação romana. Jamais saberemos se a crença no caráter divino dos imperadores era forte o bastante para que a massa fosse levada a considerar verdadeiramente atuante o poder miraculoso desses soberanos. Não podia renascer com ele a religião imperial. proclamado imperador no Oriente. a Bíblia ofereceu comparações úteis. Carlos Magno. os historiadores indagaram a si próprios de onde veio essa diferença entre as pompas monárquicas do Ocidente e as do Oriente. chamar AugustO. foi em Alexandria.l Mais tarde. Os soberanos do Ocidente haviam-se tornado oficialmente sagrados graças a uma nova instituição: a consagração eclesiástica e. eles poderiam ter-se sentido mais livres que Clóvis: as conquistas de Justiniano. A religião imperial. cujas solenidades. não tocara na essência das coisas. Carlos Magno renovou o elo com a tradição romana. mas sabemos muito pouco da verdadeira influência que essa religião podia ter sobre as almas. Os primeiros comentadores livraram-se do embaraço atribuindo-lhe 74 75 ( . não deixou de reprovar a esses imperadores a soberba. aliás. efetuou algumas curas (isso. Em Bizâncio. 30 Algumas vezes. mas. Sem dúvida.ê" Aos soberanos germânicos que. ademais. dizia-se que Adriano curara um cego. Mas não podemos duvidar de que a religião imperial constituiu um maravilhoso instrumento de governo. reintroduzindo no Ocidente as armas "romanas". reapareceram algumas expressões mais inofensivas.. ou por um resquício de respeito ou por indiferença. mais particularmente. lê-se de que modo Abrão recebeu o pão e o vinho das mãos de Melquisedec. mantinha em torno da realeza uma atmosfera de veneração quase religiosa. reproduzir a intitulação antiga. mas nenhuma instituição regular corporificava esse sentimento vago. eles evitaram. terra havia milênios habituada a venerar seus chefes como se estes fossem deuses. Em Bizâncio. nos reinos surgidos das invasões um grande número de reminiscências de origens diversas. tinham induzido os reis francos a livrar-se definitivamente de qualquer dependência para com os antigos senhores do mundo. haviam consentido em aceitar a supremacia imprecisa de um imperador distante. depois das invasões encontraram-se reinando num país profundamente romanizado a tradição do povo conquistado oferecia todos os esplendores da religião imperial. tão rica em termos que evocavam o caráter sagrado do príncipe. No tempo de Carlos Magno. puros leigos.P Do mesmo modo. os imperadores não haviam cessado de qualificar-se de divinos. O Império ressuscitou. Nenhuma cerimônia eclesiástica consagrava a elevação ao trono. mas num cerimonial jovem e autenticamente cristão. pelo menos na França. Em suma. pagã em sua essência e interrompida por longo desuso. Em Bizâncio. A razão parece-me clara. Foi a Bíblia o que enfim forneceu o meio de reintegrar na legalidade cristã a realeza sagrada das idades antigas. No máximo. não pereceram inteiramente com ele. não sobreviveu à era carolíngiaj-? não deve iludir-nos. num meio carregado de esperanças messiânicas. elas indicam apenas uma familiaridade verbal com os textos latinos.22 Esses exemplos são isolados. do sagrado palàcío. Alguns imperadores foram considerados taumaturgos: Vespasiano.. c ( r r ( r ( ( ( ( r ( c ( -. cujo testemunho não me parece que deva ser rejeitado). rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo _31 episódio misterioso que os exegetas ainda têm dificuldade para explicar. Nenhuma impressão religiosa particular vinha marcar a fronte do soberano. o cristianismo também passara por ali. ela só muito mais tarde é introduzida..-. do alto de sua ortodoxia.. embora aceitando uma magistratura das mãos do soberano de Bizâncio. ( ( ( ( ( \' r r c ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( mos às aparências oficiais. que traziam seu nome).P Mas foi um império totalmente cristão." Conhecemos suas pompas oficiais. eram regradas apenas por um costume bastante variável. Antes de tudo. provavelmente por brincadeira. como os merovíngios. Como veremos. por outro lado." O próprio Hincmar. por uma espécie de usurpação. fossem germânicas fossem romano-orientais. Todavia. copiadas da linguagem obsequiosa do Baixo Império.ê" Nessa época. um dia não se descuidou ao ponto de escrever: "os sagrados olhos" do ímperador+" Mas esse vocabulário (que aliás. até o século VlII os reis francos ou ingleses eram apenas cristãos como os outros e. tivessem maquinado essas manifestações milagrosas). ! Jj: ~ . É verdade que Clóvis (segundo Gregório de Tours. ainda viva na Roma do Leste. No entanto. se assim se pode dizer. fizera-se. suspeitou-se de que os sacerdotes do Serapeu. a unção. Se às vezes os contemporâneos dos primeiros imperadores francos davam sentido pleno a essas palavras de aparência antiga. mesmo afirmando sua autonomia (sobretudo mediante a cunhagem de moedas. tornava inútil o novo rito. como evidente imitação dos costumes estrangeiros.. torna-se a falar dos sagrados imperadores. os merovíngios não se arvoraram em sucessores do Império. em relação ao Augusto das margens do Bósforo.. a unção surge nos reinos bárbaros nos séculos VII e VIII. era porque pensavam não no velho e desusado culto que outrora se exprimira com termos similares. embora pouco a pouco tivesse modificado algumas fórmulas. porém..24 Seus descendentes não insistiram no título. os bizantinos divertiam-se zombando desse gesto que não entendiam. mas não queriam permanecer ligados por um vínculo de sujeição (por mais vago que este fosse) a um vizinho muito próximo e muito ameaçador.. certa tendência a confundir as categorias do político e do divino. até então. porém. contavam que o papa untara o imperador franco "da cabeça aos pés". No capítulo 14 do Gênesis. a religião imperial iria perdurar quase tanto quanto o Império. tão preocupado em negar aos soberanos temporais todo caráter sacerdotal. cuja habilidade é indubitável. do mui sagrado Augusto. pode-se supor que os hábitos de pensamento que tal culto mantivera. Os bárbaros deixaram-no desaparecer. Nos escritores do século IX. . seu rito fundamental. ou aquele de seus conselheiros que redigiu em nome do soberano franco o prefácio dos Libri Carolini [Livros carolíngios]. Já em Roma ele fora sendo progressivamente despojado de seu valor original: essas fórmulas de devoção haviam-se transformado em pouco mais que simples fórmulas de cortesia.

em Roma as do papa) e do ritual eclesiástico de que então se cercava o prelado. Depois. devia ocorrer naturalmente aos espíritos. plenamente cristão. ao proclamá-Ia imperador. Melquisedec . justificado pela Bíblia. teu avô. os cristãos tomaram-na emprestada à Antiga Lei. as leis mosaicas penetravam a disciplina eclesíástica. veio a vez do Estado franco. a lenda fez da cerimônia realizada em Reims por s. A partir daí. No dia em que fizermos a compilação dos documentos que ainda nos faltam sobre a sagração de nossos reis. mas aos olhos de um cristão. em torno da cabeça dos soberanos bizantinos. ( (. Todos os teólogos na Gália estavam preparados para aceitar essa ressurreição de uma prática judaica. como diz o sacramentário carolíngio de Saint-Amandêê .. No tempo da grande Querela do Sacerdócio e do Império. recebeu do papa Estevão IV tanto a benção com óleo quanto a coroa. em Reims. pois entre eles o Antigo Testamento estava em voga. Mas vale a pena recordar que Clóvis tampouco o fora: a única unção que recebeu foi a que o rito galicano impunha aos catecúmenos. o exemplo de Davi e de Salomão permitia restituir cristãmente aos reis seu caráter sagrado. o diadema. certas partes de seu corpo eram ungidas com um óleo previamente santificado. ali. já se invocava o exemplo do rei de Salém. rei em Nouhassché e derramou-lhe o óleo sobre a cabeça". Os filhos de Israel também a praticavam. Era provavelmente um círculo de ouro. à semelhança dos monarcas hebreus. os reis decerto eram considerados personagens sagradas. Em 751. seu filho Luís. Seu caráter sobrenatural era por muitos povos marcado com uma cerimônia de sentido bastante claro: quando o soberano ascendia ao trono. 76 Os merovíngios jamais haviam sido ungidos reis.s. de passar da unção dos catecúmenos ou dos sacerdotes à unção régia. na basílica de São Pedro.P A idéia de retomar em sua totalidade os velhos costumes israelitas. provavelmente emulando o que acabava de acontecer no país franco.ê" A nova instituição tomou forma primeiro no reino visigótico da Espanha. "que pela unção a Divina Providência elevou-nos ao trono. ao contrário. porém." Foi-assim que Pepino se tornou o primeiro dos reis da França a receber a unção das mãos dos sacerdotes.38 Seus sucessores não deixaram de seguir-lhe o exemplo. A 25 de dezembro de 800. Mais tarde. ( ( ( ( ( í' ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( . A nova dinastia. Para consagrar um 77 .C. onde desde o desaparecimento do arianismo a Igreja e a dinastia viviam uma união especialmente íntima. servindo principalmente para a confirmação dos catecúmenos e a ordenação dos padres e dos bispos. em parte como conseqüência das influências irlandesas. os dois gestos tornaram-se quase inseparáveis. Desde muito cedo. diz altivamente num de seus decretos. haviam em sua origem possuído uma virtude religiosa. o Pio. na época de Carlos Magno. Pepino (assumindo o risco que seu pai. Anteriormente ungido ao ser feito rei. Mas tal aparição enigmática devia instigar também os apologistas da realeza. foi apenas um simples batismo. Na época merovíngia. Não podemos duvidar de que coroa e diadema. ao faraó Amenófis IV para lembrar-lhe o dia em que "Manahbiria. Grã-Bretanha. No velho mundo oriental. Fortunato dizia sobre Childeberto: "Nosso Melquisedec. constituía o processo normal para transferir da categoria do profano para a categoria do sagrado um homem ou um objeto.\ ( sentido simbólico: Melquisedec é uma representação do Cristo. 33 Mas o Antigo Testamento não era só uma fonte de símbolos. unia-se a ele outro rito/de origem diversa." Nessa aplicação geral. Adu Nirari. [que se denomina] a justo título rei e sacerdote leigo. o papa Leão III colocara uma "coroa" sobre a cabeça de Carlos Magno. a mesma prática foi implantada também na Inglaterra. Aí pelo fim do século VIII.. mais particularmente nos países de rito galicano: Espanha. ele sentiu a necessidade de disfarçar sua usurpação com uma espécie de prestígio religioso. endereçou lá pelo ano 1500 a. concluiu a obra da religião". a tira de tecido adornada com pérolas e pedras preciosas que fora usada por Constantino e seus sucessores imediatos. Gália.. Mas em 816. adota dos pelos imperadores por imitação às monarquias orientais (no caso do diadema. provavelmente à monarquia persa). meu avô. "É manifesto".pois foi dessas antigas civilizações da Síria e de Canaã (as quais a leitura da Bíblia tornou tão estranhamente familiares aos cristãos dos séculos VII e VIII) que nos veio a unção régia. Ao mesmo tempo. Pouco depois.. não ousara encarar) resolveu mandar para o convento os últimos descendentes de Clóvis e tomar para si tanto o poder quanto as honras reais. a coroa não tinha mais nenhum outro caráter sagrado além daquele que advinha das mãos que a entregavam ao príncipe (em Bizâncio as do patriarca. Esse sacerdote-rei fazia remontar a um passado prestigioso o ideal dos que reconheciam nos monarcas um caráter sobrehumano. similar ao que havia vários séculos substituía.s . então. a unção régia surgiu no século VII. Aos olhos dos súditos. Tinha lugar de primeira ordem no cerimonial hebraico. durante os séculos XI e XII. os antigos reis jamais haviam cessado de parecer personagens muito superiores ao resto do povo. como teremos ocasião de ver. a vaga auréola mística que os envolvia devia-se unicamente ao domínio exercido sobre a consciência coletiva por obscuras reminiscências vindas dos tempos pagãos. no entanto. Itália setentrional. fez de Taku. era uma estirpe autenticamente santa e iria afirmar sua consagração com um ato formal. Melquisedec. fornecia o modelo de uma instituição muito concreta.esteve na moda. Remígio a primeira sagração régia. Aliás. ( r. Carlos Magno não o foi ao tornar-se imperador. Carlos Martelo. na verdade. o rito generalizou-se em quase toda a Europa ocidental. a unção teve importante papel no ritual do novo culto. sobretudo no Ocidente. As tabuinhas de TeU el-Amarna conservaram a carta que um dinasta da Síria. entre eles (assim como provavelmente entre seus vizinhos) a unão não era exclusiva dos reis. a transcrição desse venerável pedaço de argila poderá figurar no frontispício da obra . é como o vemos figurado em tantas catedrais. o rei do Egito.

depois da vinda de Cristo. Esses emblemas eram. para isso.. a unção. em certos meios eclesiásticos. ao lado da coroa. logo de início. confirmar no espírito das pessoas (exceção feita a alguns teóricos eclesiásticos) a noção do caráter sagrado dos reis. um. o Calvo. os inimigos da realeza pareciam transformados em sacrílegos. escrevia ele em 868 a CarIos. proteção decerto bastante ilusória. podia-se pensar que seria necessário um sacerdote para fazer um rei . Pai Todo79 ( ( . os reis haviam-se tornado. em parte a solenidade foi sempre dúplice: de um lado. se não inventou. já aparece o cetro. constitui para reinar sobre o povo israelita os sacerdotes. o arcebispo de Reims. multiplicaram-se as insígnias régias que eram entregues ao novo soberano. pois o próprio Deus disse "Nolite tangere Christum meum".. muito mais que a vosso poder terrestre. os atos do Concílio de Sainte-Macre. pela aplicação desse mesmo ungüento.44 Mas sua própria insistência prova o quanto a idéia que o arcebispo combatia expandira-se em torno dele. essa idéia já estava 78 presente. em breve. em sua maior parte.. desenvolve e fixa o mesmo pensamento. repleta de violências. o Calvo. "é a essa benção. na França. melhor que qualquer outro documento. Além disso. dali em diante. a recusar a unção e a coroa que o arcebispo de Mainz lhe propunha e a reinar (como lhe reprova pela boca do apóstolo s. quando se abriu o grande debate gregoriano. do outro. [. o Concílio de Chelsea (no decurso do qual. é suficiente comparar duas passagens de suas obras: "É à unção. idéias similares já eram defendidas por alguns prelados. com este óleo com que Ele ungiu os sacerdotes. por um momento o 'oficiante que ministrava a unção parecia superior ao monarca que devotamente a recebia. provavelmente mais recente. os reis. também para consagrar um rei. certos espíritos penetrantes depreenderam bastante bem os perigos com que semelhante confusão entre uma dignidade essencialmente temporal e o sacerdócio podia ameaçar a Igreja e até o cristianismo. a ter tanto interesse por esses gestos litúrgicos? A fim de entender-as razões de sua atitude. Vejam Hincmar de Reims. a julgar pela história daqueles tempos agitados. É claro que. sejam quais forem seus títulos "terrestres" ao trono. foi coroado rei da Lorena. dos pontífices" . contemporâneo dos primeiros tempos da dinastia carolíngia. Folheemos por um momento esses velhos textos. defendidos contra as violências dos maus pelo preceito divino. e talvez o desejo de beneficiar-se dessas palavras do Livro Sagrado tenha levado mais de um entre eles a procurar a consagração oferecida pela Igreja. em geral. a antiga liturgia da sagração. isso só ficaria visível algumas centenas de anos mais tarde. Ninguém deu maior valor à sagração régia. Uma prece. "Não tocai em meu Cristo. '1 ( ( ( (. dizem: "a dignidade dos pontífices é superior à dos reis porque os reis são sagrados pelos pontífices. diz um ritual muito antigo.. Como teremos oportunidade de mostrar mais adiante. no século seguinte. havia o reverso da medalha. segundo toda a probabilidade. ao sacerdócio e. a entrega das insígnias. Assim nasceu a sagração. vinha de acontecer a primeira unção régia que a Inglaterra conheceu) relembrava tal preceíto. Também aqui reencontramos Hincmar. Portanto. entre as quais a coroa permanecerá a essencial. O óleo santo elevava os soberanos a muito acima da multidão. desenvolveu-se rapidamente em todos os países um amplo cerimonial. era necessário cumprir ambos. Não obstante. o outro. tu que pela unção com o óleo consagraste sacerdote Aarão."\ . ato episcopal e espiritual". antigos. teu servo. menos de cem anos depois da primeira unção franca. os profetas e os mártires". E o velho cerimonial anglo-saxão: "6 Deus [. por uma curiosa coincidência. e que mais tarde. segundo a expressão bíblica. o Calvo. um dos mais capazes de grandes projetos. ao passo que os pontífices não podem ser consagrados pelos reis". No decorrer da cerimônia. Provavelmente. Muito depressa. eles não partilhavam com os sacerdotes e com os bispos esse privilégio? Entretanto. aparece pela primeira vez na história quando Carlos. Sob CarIos. o medo de uma interpretação desse tipo foi o que. que presidia a assembléia. Este não se cansa de repetir que nenhum homem. o qual ungiu os reis e os profetas". Essa cerimônia tinha atrás de si um passado bem curto. Sem dificuldade. 42 Não se poderia ser mais claro. à realeza." mas talvez os príncipes dessem ao mandamento bíblico mais valor do que imaginaríamos hoje. Durante os dois ou três primeiros séculos. Em torno dos dois ritos fundamentais. \ ( c ( ( ( ( imperador.43 O novo rito era uma faca de dois gumes. sobretudo. foi a Antiga Lei o que forneceu as fórmulas necessárias: "Que tuas mãos sejam ungidas com o óleo santificado. Por isso. não sabemos quando foi composta. em meu ungido". sem consagração não há verdadeiro rei.. Muito pouco tempo depois de CarIos Magno. é o próprio Hincmar quem faz o gesto consagrador.sinal evidente da preeminência do espiritual sobre o secular. Que motivos levam esse homem. os reis e os profetas. Desde o tempo de Carlos. verificaremos que se tentou reunir ali tudo o que podia favorecer a confusão entre os dois ritos quase idênticos que davam acesso. Hincmar soube encontrar para ela um precedente ilustre e miraculoso. então pelo menos adaptou engenhosamente uma lenda. levou o rei Henrique I da Alemanha a ser o único. que deveis a dignidade régia". a novidade foi dar-Ihes um papel nas pompas religiosas da elevação ao trono. Melhor dizendo: de seu caráter mais que semisacerdotal. vê-se o rei ser ungido e coroado. e desde o século IX na Inglaterra. ] e te faça rei pela unção dada com o óleo da graça do Espírito Santo. Que essa idéia tinha tom de doutrina oficial é o que nos mostrará. ] nós te pedimos.. o Calvo.ê? Portanto.'? Por este. entre todos os monarcas de seu tempo e de sua estirpe. "ungidos do Senhor". o mesmo se verifica nos mais velhos textos litúrgicos ingleses. poderia ser a um só tempo sacerdote e rei. uma tradição já estabelecida impôs-lhe sem dúvida o emprego das seguintes palavras: "Que Deus te coroe com a coroa da glória [. ]. Pedro o autor de uma vida de santo) "sem a benção . que continuou até o fim a ser o ato santificador por excelência. Já em 787. redigidos por Hincmar. naquele dia. ( ( ( ( { r r (. parece que o rito contribuiu para.

desde que. quando a ocasião se apresentava." Já vimos como Pierre de Blois fazia a "santidade" dos reis decorrer da unção. Isso iria perpetuar-se. por que olhar para tão longe na direção norte? É na França. 50 Os padres. carregados de eflúvios sagrados. A França capetíngia e a Inglaterra normanda. eram perseguidos como promotores desses males. que se situa esta instrutiva historieta (o serrnonário Jacques de Vitry. dos quais precisava. Ali. . tanto na França quanto na Inglaterra. que a conta. Como poderia ser de outra forma? A seus olhos. 1 I I I ( I I ( I era!" . Afinal. um 81 ( 80 ( ( ( . É isso que os textos nos mostram de modo inequívoco. Pedro uma expressão que o apóstolo aplicava aos eleitos e de alterar-lhe um pouco o sentido original para homenagear a dinastia franca: "sois a raça santa. evocava-se não apenas a imagem do rei dos judeus mas também a dos sacerdotes e dos profetas. provavelmente no século XIII. alegava conhecêIa de "fonte segura"): numa aldeia. Na época em que este definia com tanta nitidez a incompatibilidade. não se furtou a buscar na Primeira Epístola de s. ( (I í ( r ( ( ( ( Tanto mais que os dirigentes do clero nem sempre haviam falado a linguagem de Hincmar. ou pelo menos a imensa maioria deles. no dia de sua sagração. grassava uma epidemia. portanto. eram às vezes venerados e às vezes odiados. a qual tinha Jesus Cristo como filho apenas adotivo de Deus. Berengário do Friul. (N. nessa qualidade. O bispo não teme dar ao rei os títulos "santo padre" e "santidade". os objetos ou os indivíduos sagrados eram imaginados não apenas reservatórios de forças aptas a atuar no outro mundo mas também fontes de energia suscetíveis de influência imediata sobre a vida cá na terra. não nos interessam agora. não podia encontrar nada de muito surpreendente. mesmo independentemente de qualquer assimilação precisa entre a realeza e o sacerdócio. as monarquias da Europa ocidental. eram por muita gente considerados uma espécie de mágicos. Conservamos algumas cartas endereça das a Roberto. um dos mais respeitados prelados de seu tempo. Assim. os padres. Mas Pierre de Blois ia mais longe. Como surpreender-se de que um poeta da época celebrando a sagração de um imperador (aliás. teu escravo aqui presente e que lhe permitas imitar diligentemente os exemplos de Aarão" . . os dois universos penetravam-se mutuamente.) o PODER I CURATIVO DO SAGRADO I I I Os homens da Idade Média. os bispos da Itália setentrional presentes ao Sínodo de Frankfurt publicaram uma defesa da doutrina ortodoxa contra os adotionistas" espanhóis. Muito pelo contrário: no século XI. querendo adular Carlos e Carlomano. é claro. essa declaração teológica terminava com um apelo ao soberano. fundador do sacerdócio hebraico. houvesse ousado dizer de seu herói. a grande sombra de Aarão. mais explicitamente do que até então se fizera. 51 No reino da Dinamarca. ( . Em 794. extremamente terra-a-terra. "mox quipe sacerdos ipse futurus Chartres. os atos. Fulbert. que condescendas em santificar com tua benção. a crescente fraqueza da dinastia convidava os prelados a assumir o papel de mentores dos reis. como imaginar que sua ação não se estendia também a este mundo? Certamente. entre a dignidade régia e a presbiteral. Em alguns lugares. o próprio papa Estevão III. semelhantes expressões jamais foram esquecidas. não havia um abismo intransponível entre o mundo em que viviam e o mundo maravilhoso para o qual os ritos cristãos abriam a porta. Portanto. À primeira vista. os camponeses não imaginaram nada melhor que sacrificar seu cura. por meio desta gordura tomada de uma de tuas criaturas. eram considerados responsáveis por intempéries e por contágios. ficaram definitivamente marcadas pelo sinal divino. já herdeiras de longo passado de veneração. os monarcas-continuaram a ser considerados seres sagrados. não se fazia dessa energia uma imagem tão concreta que às vezes se chegava até a representá-Ia pesada? Conforme nos diz Gregório de Tours. sob a Nova Lei. tão duramente que Gregório VII precisou protestar. Basta saber que. pelo bispo de (*) Seita do século VIII. 48 Malgrado tudo o que depois pudessem dizer todos os Hincmar do mundo. tinham das coisas da religião uma imagem muito material e. se um gesto agia no além. esse tom não seria sido admissível. protetor da fé. assim como a Alemanha dos imperadores saxões ou sálios. os quais os católicos hoje reservam para o chefe supremo de sua Igreja. no momento em que o mostra avançar em direção à igreja onde se desenvolverá a cerimônia: "em breve ele seria sacerdote". um imperador bastante insignificante. todo um partido dedicou-se a comparar a dignidade régia ao sacerdócio. o Pio. se se pode dizer. Ele dizia mais ou menos isto: meu monarca é uma personagem sagrada. as pessoas benziam-se ao encontrá-I os no caminho porque tal encontro era tido como mau presságio. Carlos Magno era tratado não apenas de "senhor e pai" e de "mui prudente governador de todos os cristãos" mas também de "rei e sacerdote" Y Alguns anos antes. nos belos dias do Estado carolíngio. Esses esforços.46 I (. no século XI. meu monarca pode curar os doentes.45 Vê-se que diante dos soberanos ingleses ou francos. quanto a isso. mas que importância tem isso?). T. o santo quisesse manifestar-se. a respeito dos quais teremos uma palavra para dizer mais tarde. trata-se de uma dedução singular. no século XII.P Aliás."( poderoso. a idéia de intervenções dessa ordem não chocava ninguém. Mas veremos que nela uma mente de capacidade normal. régia e sacerdotal". para fazê-Ia cessar. pois ninguém tinha noção exata das leis naturais. não renegaram essa tradição carolíngia. tal qual os feiticeiros. um tecido colocado sobre o altar de um grande santo (Pedra ou Martinho) tornava-se mais pesado. não se poderia duvidar de que a maior parte de seus contemporâneos pensava como ele.

esses óleos constituíam um recurso maravilhoso. "inter-reis" (interreges). a do bispo e a do abade". o vinho da comunhão. é necessário apelar para fatos de outra ordem. Em 987. Conforme vimos. Portanto. I ( ( dia. e mesmo mais tarde. um bemsucedido ataque de surpresa desfechado no dia de Ramos de 991. a partir de 936. estas palavras temíveis: "não se obtém a realeza por direito hereditãrio't.l? Na verdade. para tornar possível a sua queda. arengando aos grandes em favor de Hugo Capet. naqueles tempos quem dizia sagrado dizia capaz de curar. ainda em nossos dias. Mas esse sucesso inesperado não assegurava o futuro. não se tornaram curandeiros logo em seguida (isto é. recordemos o que eram os reis. os aldeões precipitaram-no na cova. os santos óleos. quando vestido com suas roupas sacerdotais ele enterrava um morto." O clero evidentemente condenava tais excessos. Abbon escrevia: "Conhecemos três espécies de eleições gerais: a do rei ou do imperador. nem em todos os países. . esse gênero de idéia levava os espíritos grosseiros a estranhas aberrações. ademais. 55 De quando em quando. As decisões da assembléia de Senlis arriscavam-se a assinalar o triunfo do princípio eletivo. sofrendo dos pés. depois. sobretudo. pelo caráter sagrado que lhes era inerente. Os prevenidos consumiam-no para obter um ordálio favorável. temos dificuldade em imaginar o quanto seu poder. As considerações gerais que acabam de ser expostas não são suficientes para esclarecer por que o rito do toque apareceu na França e na Inglaterra. mais particularmente. no entanto. numa obra dedicada aos próprios reis Hugo e Roberto. os próprios dedos do padre foram também remédios. Não iria agora o direito de livre escolha agir sem entraves? O historiador Richer coloca na boca do arcebispo Adalbéron. houve focos de oposição. (i (.58 Durante muito tempo. devia parecer frágil. habituado a considerar a eleição a única fonte canônica do 83 ( ( ( ( ( . Sabemos. banhava-os numa patena. em larga medida as crenças populares escapavam ao controle eclesiástico. por uma das fontes de onde emanava esse caráter. A fim de explicar por que 82 esserito nasceu numa data precisa e num meio determinado. 54 A hóstia. Gregório de Tours contou a história de um desses chefes bárbaros que. Ora. De onde a derivavam? Aos olhos do povo. logo tornou completamente inúteis os esforços que poderiam satisfazer os partidários de uma linhagem cujo chefe estava agora preso e cujos últimos rebentos iriam cair no esquecimento. para imaginar e. para falar como Pierre de Blois. Roberto era o segundo representante de uma nova dinastia. essa "santidade" passou a resultar. outros. Recebeu o título régio e a unção ainda em vida de seu pai. em Sens. a verdadeira ameaça estava em outra parte: no sério dano que esses mesmos acontecimentos de 987. Por certo.ê? e. Na verdade. de um rito religioso. (\ r: " (I ( (j ( () r: ( r. uns. Hugo. causara à lealdade dos súditos e. a água do batismo. apenas reis temporários.\ 1\ (. "santidade" dos monarcas. pareciam particularmente fecundos em virtudes. em certas províncias se supõe que o pó e o musgo das igrejas possuam essas mesmas propriedades. Era necessário proteger da indiscrição dos fiéis os vasos que continham os óleos. mas está claro que o mais das vezes esse poder era julgado benéfico. que ele era contestado. Como não haveriam eles. pondo em poder de Hugo o pretendente que descendia de Carlos Magno. ao menos na antiga Germânia ele tivera por corretivo a necessidade de o rei ser escolhido sempre na mesma família. a mais visível e a mais respeitável. o Pio. Mas também. no próprio ano da usurpação. guardiãs das idéias arcaicas. em qualquer grau. quem poderia estar certo de que tal queda seria-defmitiva? Decerto havia muitos para os quais o pai e o filho associados no trono eram como escrevia Gerbert em 989 ou 990. à hereditariedade monárquica. naqueles primeiros anos. mais cedo ou mais tarde. assim que a unção régia foi implantada nos Estados da Europa ocidental). . não haviam deixado de dar crédito. A fidelidade que alguns legitimistas votavam aos descendentes de seus antigos soberanos provavelmente jamais constituíra perigo muito grave para a família capetíngia. em grande parte ela tinha origem naquela predestinação familiar à qual as massas. . ao lado do cadáver. a água em que o oficiante molhara as mãos depois de ter tocado as santas espécies. Elas mostram-nos que os espíritos estavam preparados.ou seja. Ora. fatos que podemos classificar de mais fortuitos. os reis estavam duplamente designados ao papel de benfeitores taumaturgos: primeiro. desse óleo bento que parecia a tantos enfermos o mais eficaz dos remédios. esse princípio não era novo. em outros termos. Entre todas as coisas de igreja. Há mais. foi necessário um acidente de caça (aquele em que Luís v encontrou a morte) e uma intriga internacional. a unção. em diversos lugares do Midi. Ora. mais formalmente e mais cristãmente. Sobretudo para os males do corpo. ninguém mais ousara disputar-lhes a coroa. existe benefício maior e mais perceptível que a saúde? Facilmente se atribuía poder curativo a tudo o que. às vezes o poder que a opinião comum atribuía ao sagrado revestia-se de um caráter temível e deplorável. Quase todo mundo acreditava na.60 Essa última expressão deve ser tida como a mais significativa entre todas: o clero. a partir dos tempos carolíngios.P Essas loucuras (em formas mais anódinas) não sobrevivem ainda hoje? Assim. O prestígio dos carolíngios era grande. Porque os capetíngios tiveram êxito. para admitir semelhante prática. sendo o veículo normal das consagrações. A POLÍTICA DINÁSTICA DOS PRIMEIROS CAPETÍNG/OS E DE HENRIQUE I BEAUCLERC O primeiro soberano francês tido como capaz de curar os doentes foi Roberto. em 987 . participasse de uma consagração. de posar de curandeiros? Entretanto. pois supõem em maior grau o jogo das vontades individuais. aos quais os novos reis deviam o trono. mas deixava prosseguir as práticas que não julgava ofensivas à majestade do culto.

segundo toda a probabilidade. A aparição do poder curativo sob Roberto II não se explicaria por preocupações da mesma ordem das que outrora haviam levado Pepino a imitar os príncipes hebreus? Afirmar isso seria presunçoso. as crenças coletivas que estão na origem dos ritos curativos e explicam o sucesso destes eram fruto de um estado político e religioso comum a toda a Europa ocidental e haviam desabrochado espontaneamente tanto na Inglaterra quanto na França. eles devem ter sentido a necessidade de realçar mediante alguma manifestação inédita o brilho de seu nome. depois (pela ação de acasos que para sempre nos serão misteriosos). os outros "ungidos do Senhor" não o tentavam. fosse qual fosse sua origem. Mas não há como duvidar de que o espetáculo das curas régias contribuiu para fortalecer esse sentimento e para. de que lado. Roberto n. a progressiva especialização numa moléstia determinada. Os capetíngios não foram plagiadores. não se devia estar muito preocupado em saber se o poder curativo era exclusivo do monarca do dia ou próprio do sangue capetíngio. no século XVI ou XVII. Aliás. Bem ao contrário: só se aceitou a idéia desse milagre patrimonial porque nos corações ainda subsistia alguma coisa das velhas noções sobre as famílias hereditariamente sacras. -. a fim de que um rei se fizesse verdadeiramente santo. nem tudo deve ter sido cálculo.nãc com seu pai. é difícil acreditar que nenhuma intenção política dissimulada haja desempenhado um papel . mas. pode-se supor que agiam espontaneamente os primeiros doentes a (numa data para sempre desconhecida) solicitar que o soberano os tocasse. Quem sabe se. A história das religiões mostra abundantemente que para explorar um milagre não há necessidade de ser cético. isto é.:\ ( ( ( ( (. com certeza. aquilo que uma eleição fizera. E para santificar o feliz candidato. curavam como ele e depressa se especializaram numa doença determinada: as escrófulas. o Gordo. a anterioridade francesa não pode ser colocada em dúvida. De resto. os carolíngios haviam recorrido a um rito bíblico: a unção régia. Foi no nascimento da instituição que a influência de um país sobre o outro pôde fazer-se sentir. Mas chegou o dia em que. mas há motivos para tentar supô-lo. dar-lhe nova juventude. também a nós: coincidência ou interação? Se nos inclinamos à segunda hipótese. seus esforços reunidos acabaram por favorecer com um caráter sobrenatural toda a estirpe desses monarcas.< jl.:o.: {I rique Beauclerc (que. Henrique Beauclerc. outros fatos análogos já não se haviam produzido.! ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( ( poder episcopal ou abacial. Seus descendentes. o patriotismo interessou-se por solucioná-Ia. reivindicando por sua vez uma parte do glorioso privilégio. muito naturalmente levou os súditos a atribuir ao monarca virtudes taumatúrgicas. Se se quiser. a característica de santidade que se conferia à pessoa do rei. talvez inconscientemente. Os primeiros eruditos que. estava muitíssimo tentado a nela ver também a mais louvável origem do poder político supremo. a aparição de uma virtude taumatúrgica que se aplicaria indistintamente a todas as enfermidades. em estado isolado. na cristalização desse milagre. teria sido a mesma que na França. preocuparamse com ela rião deixavam de concluir a favor da França se eram franceses. acrescida da santidade inerente à dignidade régia. Provavelmente por causa disso o milagre capetíngio começou com ele e. Passemos para a Inglaterra. Foram plagiados? Caso o milagre régio se tivesse desenvolvido na Inglaterra independentemente de qualquer modelo estrangeiro. a corte esforçou-se por atrair os doentes e expandir a fama das curas realizadas. não há a menor dúvida de que o próprio Roberto e seus conselheiros tinham fé na eficácia das forças miraculosas que emanavam de sua pessoa. estava morto havia 69 anos. que parece ter sido o iniciador do rito na França. ou da Inglaterra se eram ingleses. era necessário mais que uma eleição seguida de sagração. Por certo. não se esquecera o que acontecera durante os cinqüenta anos seguintes à morte de Carlos. Ora. segundo sabemos. até o ano 1100 pelo menos. se necessário sem esperar a morte do primeiro eleito ou. no começo. como vimos. essas crenças se concretizaram numa instituição precisa e regular: o "toque" régio. Portanto. Por menos conscientes que estivessem dos perigos que os cercavam e dos que não poderiam deixar de abater-se sobre sua descendência. como no tempo de Gontrão? Mas. Roberto tinha reputação de ser muito devoto. É claro. um verdadeiro rei. os sucessores de Roberto não deixaram que tão belo dom ficasse sem herdeiros. Em suma. Hoje. nas duas margens da Mancha. Mas. começou a reinar em 1100. os reis descendentes de Roberto 11 foram os únicos na Europa a tocar os enfermos. durante reinados precedentes. sua evolução. afinal de contas. a mais urgente tarefa que se impunha aos capetíngios era restabelecer em proveito próprio uma legitimidade. a virtude ancestral ainda contava. Portanto. e não entenderíamos 85 I I I I I I I I • 4 "---- . Em condições quase idênticas. Examinemos as datas.decerto não na formação original do milagre. Provavelmente. A persistência da pretensão taumatúrgica na linhagem capetíngia certamente não criou sozinha essa fé na legitimidade familiar que devia ser um dos melhores apoios da realeza francesa. ( ( ( . via algo que não seu interesse pessoal. para maior vantagem da monarquia. portanto. Também lá encontramos reis-médicos. quando vemos essas crenças até ali erráticas tomar cérpo num momento tão oportuno a uma dinastia ainda mal assente.. a unção oferecia-se sempre. mas de uma dinastia. De fato. Sem dúvida. o primeiro de sua estirpe do qual sabemos ter tocado os enfermos. O eterno problema que se afigura aos historiadores quando estes encontram instituições semelhantes em dois países vizinhos apresenta-se. O segundo dos capetíngios encetara o prodígio. não nos será difícil manter a serenidade. outra podia desfazer. no começo. de alguma maneira. sem levar em conta as reivindicações de seus filhos. Naquele momento. pelo menos. foi o iniciador do rito inglês). Podemos perguntar se cada um deles. fizeram-no prerrogativa não mais de . a unção não era suficiente para conferir esse maravilhoso talento. Hugo. em qual dinastia se devem procurar os modelos ou imitadores? Questão outrora inflamada: durante muito tempo. até o reinado de Hen84 . se se pode falar assim. um rei.

também não deveria surpreender-nos que dali em diante essa prática haja prosperado num solo favorável. Num lance feliz. foram membros de sua roda quem redigiu uma falsa bula papal que. santa: tanto que. o Pio. O último representante da dinastia anglo-saxã à qual Henrique I procurara ligar-se pelo casamento. o caráter sagrado não mais se estendia a toda uma linhagem. que podemos chamar voltairiano. No entanto. não era aos olhos dos crentes o único a possuir essa virtude. prefere ver no fato estudado a obra consciente de um pensamento individual seguro de si mesmo. o virtuoso soberano que breve se tornaria o santo oficial da monarquia. é necessário ainda que ela seja sustentada pelas tendências profundas da consciência coletiva.. pelo menos durante a primeira parte de seu reinado. como conseqüência de uma evolução natural. único herdeiro da coroa. o chefe do ramo mais velho. Se as hipóteses que apresentei podem ser aceitas. não seja indiferente que algumas vontades conscientes ajudem-na a tomar forma.. via atribuir-se ao líquido que corria em suas veias o mesmo poder milagroso. rI i r r ri ( ( muito bem que também lá o acaso houvesse designado as escrófulas. Para todo fenômeno religioso." O próprio Henrique I. tão pouco simpática (voltarei ao assunto mais tarde) às prerrogativas régias e. nos quais se ostenta a mais absoluta e mais intransigente fé nas virtudes da unção régia. Provavelmente. a história das origens do toque régio merecerá ser colocada na fileira dos já numerosos exemplos que o passado fornece acerca de uma dúplice ação desse tipo. Mas é preciso não julgar pelo estado de espírito de William o de todos os eclesiásticos ingleses. reciprocamente. Um. ('\ r(' ( r. Henrique I. e a enfermidade que desde o início pretendem poder curar é precisamente a mesma da qual antes deles. O monarca inglês devia invejar-lhe o prestígio. quintessência de todo o pensamento antigregoriano. Nos países muçulmanos. Eduardo. ( ( ( ( 87 . O outrof'ào" contrário. um poder curativo de natureza indeterminada. porém. eu de bom grado lhe daria a denominação romântico: um dos grandes serviços prestados pelo romantismo não foi acentuar vigorosamente nas coisas humanas a noção do espontâneo? Essas duas formas de interpretação são contraditórias apenas na aparência. pois (como vimos) elas dão facilmente a ilusão da cura. I. vemos que na Inglaterra os reis jamais reivindicaram. mas o sangue do monarca reinante. seus vizinhos da França haviam-se constituído os médicos. e talvez. Para que uma instituição destinada a atender a fins precisos indicados por uma vontade individual possa impor-se a todo um povo. É certo que as escrófulas são particulátmente adequadas ao milagre. para que uma crença um pouco vaga possa concretizar-se num rito regular. sobretudo. na Inglaterra cerca de um século mais tarde. reconhecia aos reis ingleses "o patrocínio e a proteção [. desprezando todos os novos princípios. príncipe mais que meio francês. foi seu patrono e seu fiador." Não deveria surpreender-nos que. ele haja implantado em todos os seus domínios a prática taumatúrgica que era uma suprema exaltação da crença na força sagrada dos reis. há outras afecções que se enquadram no mesmo caso. o rito do toque faz assim sua aparição em dinastias nas quais. ] de todas as igrejas da Inglaterra" e uma espécie de legação pontifical perpétua. na natureza sacerdotal e quase divina da realeza." rI (\ ( ('.65 Ao contrário do que acontecia na Germânia primitiva. do califa. começara a tocar os doentes. Na França e na Inglaterra. Por volta da época em que Henrique I pôs-se a exercer seu talento miraculoso. seususerano e rival. provavelmente naquele momento. há dois tipos de explicação tradicional. tão hostil a tudo o que cheirava a usurpação dos privilégios sacerdotais. profundas e obscuras. nem mesmo na origem. apenas esse tinha o direito de fazer milagres. Teve Henrique I dificuldades com a opinião religiosa de seu país? Na época em que Roberto. acreditava-se que o sangue régio curava a hidrofobia. o Confessor. durante os primeiros tempos do Islã. a cura das escrófulas sempre foi considerada uma prerrogativa estritamente reservada ao soberano: os descendentes de um rei não participavam dela se não fossem eles mesmos reis. Todos os membros da família real em que o califa devia ser escolhido. a reforma alcançava seu auge. colocou seu poder miraculoso sob a proteção de uma grande figura nacional. todo coraixita. não podia desconhecer as curas realizadas pelo capetíngio. Nascido na França aí pelo ano 1000. ficou em dificuldade com os reformadores. ainda não nascera a reforma gregoríana. Conhecemos santos especializados em escrófulas.v' Isso porque toda a familia real era tida como. um clérigo agregado à catedral de York escrevia seus 35 tratados. 86 contrariamente ao antigo uso germânico. em matéria política. o direito de primogenitura começava a dominar. são dela as idéias diretrizes que (como vimos na desdenhosa frase de William of Malmesbury) protestam contra a "obra de falsidade" que os crentes na realeza haviam empreendido. os Estados islâmicos jamais reconheceram os privilégios da primogenitura. procura ali a expressão de forças sociais. Quando o rito curativo atravessou a Mancha.. ele concentrara-se definitivamente numa só pessoa. Pode-se duvidar de que tenha querido imitá-Io?61 Mas Henrique I não confessou a imitação. mas para quantos outros males não se invoca especificamente este ou aquele santo? Ora.

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