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Moçambique - Radiodifusão Pública em África (AfriMAP 2010)

Moçambique - Radiodifusão Pública em África (AfriMAP 2010)

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Tomas Vieira Mario, a Mozambican media and freedom of expression lawyer and a long-time media activist, explores the country’s media landscape, where an array of laws regarding ‘national security’, introduced during the 16-year civil war, are still on the statute books. He argues that because the culture of secrecy in the public administration is still very strong, the tendencies for impunity, corruption, and lack of transparency could threaten rights of citizens as guaranteed by the constitution. Other aspects of media reform are explored in this publication as well as programming, funding, digital migration, and legislation of media. The report has put forward 43 recommendations aimed at improving public broadcasting and press freedom in Mozambique.
Tomas Vieira Mario, a Mozambican media and freedom of expression lawyer and a long-time media activist, explores the country’s media landscape, where an array of laws regarding ‘national security’, introduced during the 16-year civil war, are still on the statute books. He argues that because the culture of secrecy in the public administration is still very strong, the tendencies for impunity, corruption, and lack of transparency could threaten rights of citizens as guaranteed by the constitution. Other aspects of media reform are explored in this publication as well as programming, funding, digital migration, and legislation of media. The report has put forward 43 recommendations aimed at improving public broadcasting and press freedom in Mozambique.

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RADIODIFUSÃO PÚBLICA EM ÁFRICA

Moçambique
UMA PESQUISA Projecto de Monitoria e Advocacia em Africa (AfriMAP) Fundação da Open Society para Africa do Sul (OSF-SA) Fundação de Media do Open Society Institute (OSIMP)

UMA PUBLICAÇÃO DAS FUNDAÇÕES DA OPEN SOCIETY

Copyright © 2010, Open Society Initiative for Southern Africa. All rights reserved. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada num sistema de acesso ou de qualquer forma transmitida, ou por qualquer meio, sem autorização previa da editora. Escrito por: Tomás Vieira Mário (pesquisador), Jeanette Minnie (editora regional) e Hendrik Bussiek (editor-em-chefe) Publicada pelo: Fundações da Open Society ISBN: 978-1-920355-61-6 Para mais informação contacte: AfriMAP / Open Society Initiative for Southern Africa President Place 1 Hood Ave/148 Jan Smuts Ave Rosebank South Africa P.O. Box 678 Johannesburg South Africa www.afrimap.org www.osisa.org Layout and printing: COMPRESS.dsl, South Africa

Índice
Abreviaturas Prefácio Introdução v vii ix

1

Factos do País
1 2 3 4 5 Governo Condições sócio económicas Principais desafios O panorama dos media Breve história da radiodifusão

1
2 7 9 13 23

2

Legislação e Regulamentação dos Media
1 2 3 4 5 6 Padrões Internacionais, continentais e regionais A Constituição de Moçambique Leis gerais de imprensa e regulamentos Outras leis com impacto sobre a imprensa e a liberdade de expressão Jurisprudência Conclusões e recomendações

25
25 31 35 42 47 49

3

O Panorama da Radiodifusão
1 2 3 4 5 6 Operadores estatais/públicos Operadoras comerciais/privadas Radiodifusão comunitária e de outros formatos Concentração de órgãos de informação Acessibilidade de serviços e padrões técnicos Conclusões e recomendações

53
53 54 58 64 65 66

4

Digitalização e seu Impacto
1 2 3 Nível de prontidão para a mudança Convergência Conclusões e recomendações

69
70 72 73

5

Legislação e Regulação da Radiodifusão
1 2 3 4 Mecanismos de regulação Licenciamento da radiodifusão e fiscalização das condições de licenciamento Sistemas de reclamação Conclusões e recomendações

75
75 77 80 81

iv

R A D I O D I F U S Ã O P Ú B L I C A EM ÁFRICA: RELATÓRIO SOBRE MOÇAMBIQUE

6

A Radiodifusão Estatal/Pública
1 2 3 4 5 Quadro legal Perfil dos órgãos de radiodifusão do sector estatal/público Estruturas organizativas da radiodifusão estatal/pública Atitudes dentro do sector estatal/público da radiodifusão Conclusões e recomendações

83
83 87 89 93 96

7

Financiamento da Radiodifusão Estatal/Pública
1 2 3 Principal fonte de financiamento Despesas Conclusões e recomendações

99
99 103 103

8

Programação
1 2 3 4 5 6 Políticas e directrizes de programação/editorial Grelha de programas Notícias e informação sobre assuntos correntes Pesquisa de audiência Feedback e procedimentos sobre reclamações Conclusões e recomendações

105
105 109 118 122 123 124

9

Percepções e expectativas em relação `a radiodifusão estatal/pública
1 2 3 Sociedade civil Governo e outros actores políticos Conclusão

127
127 130 131

10

Esforços de reforma na radiodifusão
1 2 3 Esforços previos de reforma A proposta de projecto de Lei de Radio e Televisao Conclusões e recomendações

133
133 140 142

11

Conclusões e Recomendações Gerais

145

Abreviaturas
ACHPR AEJ AIM CIUEM CMC CNCS CNE CPRD CSCS CSMJ EDM FORCOM Frelimo GABINFO ICCPR ICS INCM INE MDM MISA MT OSC OSISA OUA PARPA Renamo RFI RM RTK RTP SADC SARDC SIRT SNASP SNJ African Commission on Human and Peoples’ Rights Associação de Empresas Jornalísticas Agência de Informação de Moçambique Centro de Informática da Universidade Eduardo Mondlane Centros Multimédia Comunitários Conselho Nacional de Combate ao SIDA Comissão Nacional de Eleições Centros Provinciais de Recursos Digitais Conselho Superior da Comunicação Social Conselho Superior da Magistratura Judicial Empresa Electricidade de Moçambique Fórum Nacional das Rádios Comunitárias Frente de Libertação de Moçambique Gabinete de Informação International Covenant on Civil and Political Rights Instituto de Comunicação Social Instituto Nacional das Comunicações de Moçambique Instituto Nacional de Estatísticas Movimento Democrático de Moçambique Media Institute of Southern Africa (Instituto de Comunicação da Africa Austral) Metical (moeda nacional) Organizações da Sociedade Civil Open Society Initiative for Southern Africa Organização da Unidade Africana Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta. Resistência Nacional Moçambicana Rádio França International Rádio Moçambique Rádio Televisão Klint Rádio Televisão Portuguesa Comunidade de Desenvolvimento da ÁfricaAfrica Austral Centro de Documentação e Pesquisa para ÁfricaAfrica Austral Sociedade de Informação de Tete Serviço Nacional de Segurança Popular Sindicato Nacional de Jornalistas

vi

R A D I O D I F U S Ã O P Ú B L I C A EM ÁFRICA: RELATÓRIO SOBRE MOÇAMBIQUE

SOICO STV TDM TIM TVM UA UIT

Sociedade Independente de Comunicação Televisão da SOICO Telecomunicações de Moçambique Televisão Independente de Moçambique Televisão de Moçambique União Africana União Internacional das Telecomunicações

Prefácio

O presente relatório é o resultado de uma pesquisa iniciada em 2008 com a finalidade de colectar, processar e produzir informação sobre a legislação, propriedade, acesso e desempenho, bem como avaliar as perspectivas de reforma da radiodifusão do sector público em África. O relatório de Moçambique faz parte de uma pesquisa cobrindo onze países sobre a radiodifusão em África. A razão principal para a realização da pesquisa é contribuir para a consolidação democrática de África. Muitos países africanos alcançaram ganhos significativos na edificação de sistemas democráticos de governação, baseados no controlo popular do processo de tomada de decisões e no qual os cidadãos são tratados como iguais. A disponibilidade de informação e o acesso a ela por um grande número de cidadãos é parte crítica de uma democracia que funcione e para o desenvolvimento de um pais. Nunca será demais enfatizar o papel da radiodifusão pública como um veículo através do qual se transmite informação objectiva e perspectivas diversas. Vários países estão presentemente a introduzir reformas na radiodifusão pública que visam melhorar a prestação de serviço e a prestação de contas aos cidadãos.Tais reformas são baseadas em padrões evolutivos Africanos e globais sobre os media e a radiodifusão em particular. O instrumento de pesquisa aqui utilizado foi desenvolvido em consultas com peritos Africanos de media e outros de outras partes do mundo; o mesmo instrumento é, largamente baseado em acordos, convenções, cartas e declarações sobre media que têm sido elaborados e adoptados aos níveis regional e continental em África. Destaque particular vai para a Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em Africa, aprovada em Outubro de 2002 pela Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, entidade investida de plenos poderes para interpretar a Carta da União Africana. A pesquisa sobre radiodifusão em África foi iniciada por dois projectos da Open Society Institute (OSI), do Projecto sobre Monitoria da Governação e Advocacia em África (AfriMAP) e o Programa de Media do Open Society Institute, trabalhando com os membros africanos da rede da Fundação Soros – tratando-se, na África Austral, da Open Society Initiative for Southern Africa (OSISA).

viii

R A D I O D I F U S Ã O P Ú B L I C A EM ÁFRICA: RELATÓRIO SOBRE MOÇAMBIQUE

A pesquisa foi realizada por Tomas Vieira Mário, um jurista moçambicano de comunicação social e liberdade de expressão e activista de media de longa data. O relatório foi co-editado por Jeanette Minnie, uma consultora internacional de liberdade de expressão e de media, como editora regional, e o editor-em-chefe do projecto, Hendrik Bussiek, um consultor de media com extensa experiência na radiodifusão em África e globalmente. É nossa esperança que a pesquisa contribua para clarificar alguns conceitos errados sobre a radiodifusão pública. Na sua definição mais simples, um “serviço público de radiodifusão” é aquele que serve o público como um todo e presta contas ao público como um todo. Porém, aquilo que em muitas ocasiões se designa por radiodifusão pública é, na verdade, radiodifusão estatal: esta pesquisa destina-se a ajudar nos processos de transformação da radiodifusão pública em África em serviços de radiodifusão dignos desse nome. Ozias Tungwarara Director, AfriMAP

Introdução

A pesquisa sobre a radiodifusão em África parte da premissa de que o desenvolvimento e a democracia não podem progredir sem um espaço aberto e livre onde todas as questões pertinentes `a vida das pessoas possam ser postas no “ar” e debatidas; espaço esse que ofereça a todos abertura e oportunidade para participarem na tomada de decisões. Amartya Sen, laureado com o Prémio Nobel da Paz, descreve a democracia como a “governação através do diálogo” e a radiodifusão está numa posição ideal para facilitar tal diálogo, oferecendo espaço para o mesmo – se o seu serviço for acessível, independente, credível e aberto a todo o espectro de pontos de vista diferentes. Partindo desta premissa, o objectivo-chave da pesquisa é avaliar se, e até que ponto, as várias formas de radiodifusão no nosso continente podem e estão a criar um tal espaço público livre, dando atenção especial `aqueles serviços que se auto-intitulam de “públicos”. Um total de onze relatórios nacionais olham atentamente para a situação presente da radiodifusão na África do Sul, Benine, Camarões, Kenya, Mali, Moçambique, Namíbia, Nigéria, Uganda, Zâmbia e Zimbabwe. Sendo pioneira no seu escopo e profundidade, esta pesquisa está, porém, em consonância com o debate ora em curso, entre operadores de radiodifusão, sociedade civil e políticos em África, sobre a natureza e o mandato da genuína radiodifusão pública. Estão em curso processos de reforma num certo número de países e, pelo menos no papel, existe consenso geral sobre a necessidade de abrir as ondas `a radiodifusão comercial e comunitária e para a transformação da radiodifusão estatal em verdadeiros serviços públicos de radiodifusão. A Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em Africa, adoptada pela Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos em 2002, diz, por exemplo, que “um monopólio do Estado sobre a radiodifusão não é compatível com o direito `a liberdade de expressão” e recomenda que “a radiodifusão sob controlo do governo e Estado deve ser transformada em serviço público de radiodifusão que preste contas ao público”. Este documento e outras declarações de políticas regionais servem como marcos importantes para esta pesquisa.

x

R A D I O D I F U S Ã O P Ú B L I C A EM ÁFRICA: RELATÓRIO SOBRE MOÇAMBIQUE

De forma particular, estes documentos africanos informam sobre a visão e o mandato da radiodifusão pública tal como entendida neste estudo.1 Esta visão pode ser resumida como se segue: • servir o interesse geral do público e prestar contas a todos os estratos da sociedade tal como representados por um Conselho de Administração (Board) independente; • garantir total respeito pela liberdade de expressão, promover a livre circulação de informação e ideias; propiciar condições para as pessoas tomarem decisões informadas; e facilitar e fortalecer a democracia. O mandato da radiodifusão pública é: • providenciar acesso a uma larga e diversificada gama de informação e ideias de vários sectores da sociedade; • reportar sobre notícias e assuntos correntes, de forma livre de influências de interesses políticos ou comerciais ou outros, e por conseguinte, abrangente e equilibrada (independência editorial); • contribuir para o desenvolvimento económico, social e cultural em Africa, através da provisão de um fórum credível para o debate democrático sobre como dar resposta a desafios comuns; • assegurar que os detentores do poder em todos os sectores prestem contas `a sociedade; • empoderar e inspirar os cidadãos, especialmente os pobres e os marginalizados, na sua luta pela melhoria das suas vidas; • providenciar uma programação credível e variada para todos os interesses: aqueles do público em geral, assim como os das audiências minoritárias, não importando as suas crenças, cultura, raça e género; • reflectir, de forma tão abrangente quanto possível, o espectro de opiniões existentes sobre assuntos de interesse público e de interesse ou pendor social, político, filosófico, religioso, científico e artístico; • promover os princípios da liberdade da palavra e expressão, bem como da liberdade de acesso `a comunicação, propiciando a todos os cidadãos,

1

Para além da Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em Africa, da Comissão Africana, existem ainda a Carta Africana da Radiodifusão de 2001 e o documento de política de 1995, intitulado “On the Move” e o esboço de política de 2007, “Está na Hora”, da Associação de Radiodifusão da Africa Austral (SABA), um documento no qual os operadores de radiodifusão estatal/pública da região se comprometem no sentido de alcançarem os marcos da radiodifusão pública.

INTRODUÇÃO

xi

independentemente do seu estatuto social, oportunidade de comunicar através das ondas radioeléctricas; • promover e desenvolver conteúdo local, por exemplo através da adesão ao princípio de quotas mínimas de conteúdos nacionais; • promover acesso universal aos seus serviços, com o seu sinal procurando atingir todos os cantos do país. Outros serviços de radiodifusão podem – de uma forma ou de outra – preencher alguns aspectos deste mandato, e por conseguinte, a pesquisa analisa-os igualmente, de modo a avaliar o seu contributo na criação de um espaço público. Espera-se que os factos, números e as avaliações fundamentais apresentadas nesta pesquisa venham a providenciar um retrato o mais aproximado possível de onde se encontra a radiodifusão em Africa neste momento, entre o His Master’s Voice de antigamente e o serviço público desejado do futuro. Esta informação deverá providenciar uma base segura de trabalho de advocacia, quer entre as decisores de políticas, quer entre a sociedade civil como um todo. No caso particular de Moçambique, as constatações e recomendações do relatório surgem numa altura oportuna, quando está em curso o debate sobre a revisão da Lei de Imprensa e a preparação de uma Lei da Radiodifusão. O relatório começa com uma auditoria extensa de todas as leis pertinentes ao sector da comunicação social e outra legislação com impacto sobre a liberdade de expressão e uma avaliação crítica de fundo, sobre o quadro legal e regulatório actualmente em vigor no sector da radiodifusão. A isto segue-se um estudo detalhado da situação da radiodifusão estatal/pública – a sua organização, financiamento, políticas, bem como os conteúdos que ele oferece. Uma versão preliminar do relatório foi apresentada num workshop de validação em Junho de 2010 com a participação de diferentes interessados, do governo, parlamento, media e profissionais de radiodifusão e a sociedade civil em geral. O relatório final toma em conta os comentários e recomendações feitas nesta reunião. Os pesquisadores e editores gostariam de expressar os seus agradecimentos a todos aqueles que contribuíram através da partilha da sua informação e olhar crítico e providenciaram comentários e críticas construtivas. Hendrik Bussiek

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Factos do País

Moçambique conquistou a sua independência de Portugal a 25 de Junho de 1975, depois de uma luta armada de libertação nacional de 10 anos, conduzida pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo),a única força política que tem estado no poder desde então. A seguir `a independência a Frelimo introduziu um sistema socialista de partido único e tornou-se num aliado muito próximo da União Soviética. A caminho do final dos anos 1970 e início dos anos 1980 uma guerra civil sangrenta eclodiu no pais, pondo `a prova a capacidade do governo de controlar vastas zonas rurais. Nestas zonas, nomeadamente na região centro do país, os governos da então Rodésia (Zimbabwe) e da Africa do Sul apoiaram a criação de uma resistência armada, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo). A seguir `a independência do Zimbabwe, em 1980, o regime de “apartheid” na Africa do Sul tornou-se o principal apoiante da Renamo e o conflito intensificou-se, tornando-se a Renamo uma grave ameaça ao governo. Em 1990, quando os regimes socialistas pelo mundo fora entraram em colapso, Moçambique adoptou uma nova constituição e introduziu um sistema de democracia multipartidária. As empresas estatais foram privatizadas e a liberdade de expressão e de constituir partidos políticos tornaram-se direitos protegidos pela constituição. Em 1992, negociações de paz entre o governo e a Renamo culminaram com um cessar-fogo e um acordo de paz foi assinado em Roma. Como parte do acordo de paz, o governo da Frelimo reconheceu a Renamo como partido político. Desde as suas primeiras eleições democráticas em 1994, Moçambique tem estado a consolidar a sua democracia multipartidária. A Constituição do pais garante a

2

R A D I O D I F U S Ã O P Ú B L I C A EM ÁFRICA: RELATÓRIO SOBRE MOÇAMBIQUE

liberdade de expressão e a liberdade de associação e um Conselho Constitucional entrou em funcionamento em Outubro de 2003.2 Em Novembro de 2004 foi adoptada uma nova constituição. Ela estabelece os princípios do pluralismo político e da separação e interdependência dos poderes, i.e. uma abordagem de cooperação entre os poderes legislativo, executivo e judiciário. Naquilo que tem sido frequentemente referido como uma “história de sucesso” de paz pós-guerra e de desenvolvimento da democracia em Africa, Moçambique tem vivido uma experiência de continuidade política e de estabilidade, incluindo a realização de quatro sucessivas eleições pacíficas (em 1994, 1999, 2004 e 2009), e que, gradualmente, foram consolidando o sistema multipartidário na política nacional. Três eleições municipais em 1998, 2003 e 2009 iniciaram o processo de descentralização no pais, nos domínios político, administrativo e financeiro. O processo conheceu alguma expansão em 2009, com a realização, pela primeira vez, de eleições para a constituição das primeiras assembleias provinciais.

1
1.1

Governação
Parlamento

O sistema eleitoral para o Parlamento (Assembleia da República) é baseado em representação proporcional de listas de partidos políticos, sistema considerado o mais apropriado para uma situação de pós-conflito. Neste sistema, os votos contam para os partidos políticos concorrentes, e não para indivíduos. Todos os partidos submetem listas de candidatos, indicando quem os vai representar no parlamento, no caso de vitória nas urnas. Uma das vantagens apontadas desde sistema é que ele permite a inclusão dos partidos mais pequenos, permitindo assim que todos possam ter voz e representação no parlamento. Existem 11 círculos eleitorais, correspondendo `as 10 Províncias do pais e ainda a cidade de Maputo. Estes círculos eleitorais propõem nomes para os representarem na Assembleia da República, em proporção com o número de votos validamente expressos que as respectivas listas recebam.3 Uma barreira de cinco por cento, que qualquer partido deveria atravessar para ter representação no parlamento, foi abolida em 2007. A barreira havia sido estabelecida desde as eleições de 1994, marcando o período do pós-guerra. A Assembleia da República consiste em 250 membros (deputados) eleitos por um período de cinco anos.
2 3 Lei nº9/2003, de 22 de Outubro de 2003. Lei nº7/2007, de 26 de Fevereiro de 2007.

FACTOS DO PAíS

3

1.2 O Presidente
O Presidente da República é eleito num único círculo eleitoral, que cobre todo o território nacional, e concorre concomitantemente com as eleições parlamentares. É proclamado vencedor o candidato que obtiver mais de metade de todos os votos validamente expressos. No caso em que nenhum dos candidatos alcance uma maioria absoluta ou de mais de 50 por cento dos votos, ocorre uma segunda volta entre os dois candidatos mais votados, saindo vencedor aquele que ganhar mais votos, ou seja, uma maioria simples. O mandato do Presidente da República é de cinco anos, sendo renovável uma única vez. O Presidente da República, que é simultaneamente Chefe de Estado e do Governo, 4 é investido de fortes poderes sobre a Assembleia Legislativa e o poder Judiciário. De acordo com a Constituição, o Presidente da República pode dissolver a Assembleia da República depois de debates, se esta reprovar o programa do governo. O Presidente da República nomeia o Presidente e o Vice-Presidente do Tribunal Supremo, o Presidente do Conselho Constitucional e o Presidente do Tribunal Administrativo. Ele tem igualmente poder para nomear, exonerar e demitir o Procurador Geral da República e o Vice Procurador Geral da República.5 O Presidente da República pode tomar tais decisões baseando-se em recomendações do Conselho Superior da Magistratura Judicial (CSMJ).6

1.3 Eleições presidenciais e parlamentares
As eleições são supervisadas pela Comissão Nacional de Eleições (CNE). Inicialmente a CNE era dominada pelas duas principais forças políticas do pais, de acordo com a respectiva representatividade na Assembleia da República. Este modelo mudou devido a um movimento muito visível da sociedade civil, inicialmente liderado por congregações religiosas e outras organizações da sociedade civil (OSC). Os seus esforços culminaram com a constituição da primeira CNE cuja maioria de membros provém de organizações da sociedade civil, em Julho de 2007. Assim, a CNE passou a ter treze membros, em que as OSC detêm a maioria – oito lugares, incluindo o Presidente do órgão. A Frelimo e a Renamo-União Eleitoral nomearam cada um, três e dois membros da CNE respectivamente (o grupo dos cinco), de acordo com a respectiva representatividade no Parlamento. As OSC submetem nomes para membros da CNE e o grupo dos cinco faz a selecção final, baseada em
4 5 6 Artigo 148 da Constituição da República. Artigo 159 da Constituicao da Republica. Antigo 222 da Constituição da República.

4

R A D I O D I F U S Ã O P Ú B L I C A EM ÁFRICA: RELATÓRIO SOBRE MOÇAMBIQUE

consenso. Na ausência deste, o a decisão é tomada através de votação. Na composição da presente CNE (constituída em Julho de 2007), quatro dos oito membros do órgão propostos pelas OSC foram escolhidos a voto, o significou que o voto maioritário da Frelimo teve a última palavra na composição da CNE. As últimas eleições gerais de Outubro de 2009 deram ao partido no poder, Frelimo, e ao presidente em exercício, Armando Guebuza, uma vitória esmagadora. O Presidente Guebuza obteve 2.9 milhões, dos 3.9 milhões de votos válidos – ligeiramente acima dos 74 por cento – para o seu segundo (e último) mandato de cinco anos. Armando Guebuza é uma figura bem conhecida desde a luta armada de libertação nacional, tendo sucedido o primeiro presidente democraticamente eleito do pais, Joaquim Chissano, em 2004. O Presidente da Renamo, o antigo movimento rebelde, foi o maior derrotado, tendo recebido perto de 651,000 votos, ou seja 16.6 por cento. O terceiro candidato, o Presidente do Município da Beira, Daviz Simango, e líder do Movimento Democrático de Moçambique (MDM) arrecadou 341,000 votos, ou 8.7 por cento. O MDM nasce em Março de 2009, como uma cisão dentro da Renamo. Nas eleições parlamentares, a Frelimo obteve 75 por cento dos votos, surgindo a Renamo num distante segundo lugar, com 17.8 por cento e o MDM em terceiro lugar com quatro por cento. Um número de pequenos partidos foram excluídos das eleições pela CNE na base de uma série de irregularidades, algumas processuais, outras materiais. O MDM foi autorizado a concorrer em apenas quatro províncias (MaputoCidade, Sofala, Niassa e Inhambane); por isso os seus resultados não exprimem todo o apoio de que eventualmente goze pelo pais. A exclusão do novo partido gerou muita controvérsia, tendo alguns comentadores políticos locais e diplomatas ocidentais considerado a decisão da CNE de ilegal e inconstitucional. O Conselho Constitucional, contudo, rejeitou o recurso submetido pelos partidos excluídos, que solicitavam uma revisão da decisão da CNE. Os resultados fortaleceram a maioria parlamentar da Frelimo, já antes muito expressiva. O partido ocupa agora 191 assentos, dos 250 do parlamento. A representação parlamentar da Renamo caiu de 90 para 51 lugares, enquanto um terceiro partido juntou-se `as fileiras: graças `a sua forte presença na Província de Sofala e na Cidade de Maputo, o MDM tem agora oito deputados na Assembleia da República. Pela primeira vez foram eleitas também assembleias provinciais em 2009, variando de tamanho, de 70 a 91 membros. A Frelimo ganhou a maioria absoluta em todas as assembleias. A única assembleia provincial com uma representação considerável da oposição é da Província de Sofala, onde o MDM obteve 20 lugares comparados com os 59 da Frelimo e com apenas um da Renamo. As assembleias provinciais não possuem quaisquer poderes legislativos, Elas

FACTOS DO PAíS

5

simplesmente aprovam (ou rejeitam) o orçamento apresentado pelo governo provincial, e têm poderes limitados de supervisão. Elas reunem-se apenas duas vezes por ano em sessões que não podem durar mais de 10 dias.

1.4 O Sistema Judiciário
O Conselho Constitucional tem estado activo desde 2004, e os seus poderes, estabelecidos pela Constituição, incluem, entre outros, os seguintes:7
a) apreciar e declarar a inconstitucionalidade das leis e a ilegalidade dos actos normativos dos órgãos do Estado; b) dirimir conflitos de competências entre os órgãos de soberania.

O Conselho Constitucional tem sido chamado a pronunciar-se sobre a constitucionalidade de um número de leis e a dirimir conflitos eleitorais entre as principais forças políticas do pais. O Conselho Constitucional já determinou a extinção de instituições governamentais ou a invalidade de leis aprovadas pela Assembleia da República, por violarem a Constituição da República.8 O Conselho Superior da Magistratura Judicial (CSMJ) , órgão responsável pela supervisão e regulação da conduta dos juízes,9 tem a incumbência de garantir a independência do judiciário e está investido de poderes inter alia para nomear, transferir, promover, demitir e exercer acção disciplinar sobre os juízes.10 Os membros do CSMJ são nomeados conjuntamente pelo Presidente da República, pelo Parlamento e pelo Judiciario, da seguinte maneira:
a) Dois membros apontados pelo Presidente da República; b) Cinco membros eleitos pela Assembleia da República, de acordo com o princípio da representação proporcional; c) Sete membros do judiciário nas diferentes categorias eleitos pelos seus pares, nos termos do Estatuto dos Juízes.

7 8

Artigo 244 da Constituição da República. Casos da declaração de inconstitucionalidade do Decreto Presidencial nº25/2005, de 27 de Abril, que cria o Conselho de Coordenação da Legalidade e Justiça por violar o princípio da separação de poderes entre os poderes judiciário, legislativo e executivo; da declaração de inconstitucionalidade da Lei aprovada pela Assembleia da República a 19 de Setembro, e que revogava as Leis nºs 5/82 de 9 de Julho (Lei de Defesa da Economia) e a Lei nº9/87, de 19 de Setembro (Lei que Adopta Medidas Punitivas dos Crimes Anti- Económicos), entre outras decisões. Por outro lado, em 2008 o Presidente da República revogou o Decreto que havia criado o Fórum Nacional Anti-Corrupção, em antecipação a uma declaração de inconstitucionalidade deste fórum por parte do Conselho Constitucional, igualmente por a sua composição violar o princípio da separação de poderes entre os três principais poderes do Estado. 9 Artigo 220 da Constituição da República. 10 Artigo 222 da Constituição da República.

6

R A D I O D I F U S Ã O P Ú B L I C A EM ÁFRICA: RELATÓRIO SOBRE MOÇAMBIQUE

O Presidente do Tribunal Supremo, que é o órgão superior da hierarquia dos tribunais judiciais do pais,11 preside, ex officio, isto é, por inerência de funções, o CSMJ.

1.5 O equilíbrio dos poderes
Tem sido alegado, não raras vezes, que o presente quadro constitucional tem tendência a desequilibrar a balança dos três poderes do estado, a favor do executivo, dados os poderes constitucionais do Presidente da República sobre o judiciário. “(...)Regra geral, o Chefe de Estado não vai nomear nessas funções estratégicas uma pessoa que não lhe agrade”, escreve o Prof. Gilles Cistac, da Universidade Eduardo Mondlane.12 Um estudo realizado pela Open Society Initiative for Southern Africa (OSISA) em 2006 afirma o seguinte:
Para contrabalançar o poder do executivo, é extremamente importante a supervisão do processo de nomeação dos membros do judiciário. Contudo, o facto do Presidente do Tribunal Supremo ser, ex offico, o Presidente do Conselho Superior da Magistratura (CSMJ),cria uma percepção de que o CSMJ está intimamente ligado ao executivo.13

Para além destes constrangimentos constitucionais, a independência do judiciário é ainda prejudicada pela fraca preparação do quadro de técnicos e pelos recursos limitados.14 Relativamente a legislatura, a Renamo sofreu um duro golpe na sequência do seu fraco desempenho nas eleições gerais de 2009, assim permitindo `a Frelimo livre reinado, com a sua confortável maioria absoluta. Na prática, a vasta maioria das questões a serem votadas seguirão a vontade da bancada maioritária. Por outro lado, devido ao sistema de eleição na base de listas partidárias, a lealdade ao partido prevalece sobre quaisquer outras considerações. Esta situação é exacerbada pelo facto de a Constituição de 2004 ter introduzido a figura do Decreto-Lei, através do qual o parlamento pode delegar poderes legislativos ao Conselho de Ministros para legislar, a pedido deste. Um Decreto-Lei entra imediatamente em vigor, se não receber oposição do parlamento. Este poder já foi usado para introduzir leis como o Código de Processo Civil e é susceptível de uso

11 Al.1, do Artigo 225 da Constituição da República. 12 G. Cistac, ‘Os Três Poderes do Estado’, in: Governação e Integridade em Moçambique , Centro de Integridade Pública, Maputo, Abril de2008, p.16. 13 Moçambique: O Sector da Justiça e o Estado de Direito. Open Society Foundation for Southern Africa, Johannesburg, 2006, p. 11. 14 Ibid., p. 12.

FACTOS DO PAíS

7

abusivo se o parlamento se mostrar incapaz de exercer de forma efectiva o seu poder de supervisão.15 Este facto desequilibra ainda mais a balança dos poderes, a favor do executivo, apoiado pelo partido Frelimo e chefiado pelo Presidente da República.

2

Condições sócio económicas
Dados da população 20.800 349,0 (US$, 2006) 48% 47.9 Português : Língua Oficial e língua materna – 6.5 Emakhwa-Lomwe – 34.2 Xichangana – 11.4 Cisena – 7.0 Echuwabo – 6.3 Outras Línguas Nacionais – 33 Desconhecida – 0.7 Anglicana – 1.3 Evangélica – 10.9 Zione – 17.9 Islâmica – 17.9 Católica – 28.4 Outra – 6.7 Sem religião – 18.8

Quadro 1:

População (milhões) PNB per capita Escolarização de adultos Esperança de vida Principais Línguas (% distribuição entre a população)

Religiões (%)

Fonte: Instituto Nacional de Estatísticas (INE)16

A estabilidade política pós-conflito e um assinalável progresso económico caminharam de mãos dadas, com o esforço dos moçambicanos e apoio entusiástico da comunidade internacional.

15 In: Mozambique Country Governance Analysis 2007, www.dfid.gov.uk/pubs/files/mozambique-country-gov.pdf. 16 www.ine.gov.mz and www.ine.gov.mz/censos_dir/recenseamento_geral/estudos_analise/lingua. Para os leitores dos Relatorios de Desenvolvimento Humano (RDH), por favor notar que os dados providenciados pelo RDH global de 2007 são ligeiramente mais baixos que aqueles providenciados pelo Relatório Nacional de Desenvolvimento Humano (PNUD Moçambique) através do Instituto Nacional de Estatísticas. As diferenças incluem a população do pais, calculada em 23,500.000 no relatório global, contra os 20 800 000 do mais recente recenseamento geral da população e habitação realizado em Agosto de 2007 (INE, 2007), assim como os dados relativos ` esperança de vida `a nascença e sobre a taxa de escolarização, ambos mais baixos no relatório global do Desenvolvimento Humano. Pesquisadores moçambicanos questionam a fiabilidade das fontes usadas pelo Escritório de Estatísticas do Relatório de Desenvolvimento do PNUD Nova Iorque ( UNDP, 1998, 2007).

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O grande potencial agrícola e industrial de Moçambique dá azo a algum grau de optimismo, relativamente a perspectivas de desenvolvimento económico do País a longo prazo. Isto inclui extensas áreas de terra arável ainda disponíveis, riquezas naturais que começam a ser exploradas – incluindo a restauração e criação de unidades industriais (a Barragem de Cahora Bassa, a fabrica de alumínio, Mozal, entre outras), e o gradual ressurgimento do comércio através dos “corredores” naturais de Maputo, Nacala e Beira, que ligam os países do hinterland – Malawi e Zimbawe – ao oceano Indico. (A presente crise no Zimbabwe está, contudo, a limitar o potencial do “corredor” da Beira.) Em Novembro de 2007, Moçambique tomou o controlo da segunda maior barragem hidroeléctrica de Africa, a Cahora Bassa (com uma capacidade de 2,075 megawatts), quando os governos de Moçambique e de Portugal acordaram na reversão da empresa que opera a infrastrutura – a Hidroeléctrica de Cahora Bassa – para Moçambique. Estão também em curso obras de melhoramento das infrastruturas de transportes. As facilidades integradas do porto de Nacala, por exemplo, têm vindo a atrair significativos investimentos, ligados em parte a investimentos numa refinaria de petróleo na zona. A empresa dos Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM), com algum financiamento do Banco Mundial, tornou-se rentável depois de vários anos de restruturacao. Um investimento de US$ 20 milhões foi cativado para os trabalhos em curso na linha de Ressano Garcia, que liga Moçambique `a Africa do Sul. A intenção é aumentar o tráfico para 9 milhões de toneladas anualmente, a partir de 2009. Outras linhas foram concessionadas a operadores privado.17 O País conheceu avanços significativos na redução dos níveis de pobreza; porém esta continua no centro das preocupações. Na base do custo da cesta básica de bens essenciais, o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) constatou uma diminuição significativa na incidência da pobreza, de 69 por cento em 1996/97, para 54 em 2002/3. Não existem dados mais actuais. A pobreza é oficialmente definida como a “impossibilidade por incapacidade, ou por falta de oportunidade de indivíduos, famílias e comunidades de terem acesso a condições mínimas, segundo as normas básicas da sociedade”.18 Progresso mais significativo vai implicar reformas estruturais e avultados investimentos, de forma a aumentar a produtividade Agrícola e facilitar novas e inovadores projectos micro-económicos.

17 http://web.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/COUNTRIES/AFRICAEXT/MOZAMBIQUEEXTN/0,,content. 18 Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta (PARPA II), 2004–2009, www.portaldogoverno.mz.

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Principais desafios

Apesar de um crescimento económico que se regista a uma taxa oficial de 8 por cento desde 1997 (INE, 2004), 54 por cento da população Moçambicana ainda vive na pobreza absoluta. A mais séria ameaça `a estabilidade de Moçambique presentemente reside não na perspectiva de um retorno `as armas por qualquer das principais forças politicas e um retorno `a guerra; mas sim no perigo do aumento do crime e da violência, `a medida que a economia não consegue expandir-se em ritmo suficiente para satisfazer as necessidades das populações. Constrangimentos económicos continuam a impedir o governo de adoptar políticas que possam consolidar a paz entre os cidadãos comuns, através de mudanças significativas das suas vidas, para melhor. Tem havido surtos esporádicos de violência pelo Pais fora, geralmente envolvendo pessoas comuns que sentem que as estruturas de administração da justice e de segurança do Estado perderam ou não têm desenvolvido capacidade de forma rápida para proteger os seus cidadãos.

3.1 Governação
Os mecanismos de prestação de contas em Moçambique são fracos e as fronteiras entre o partido no poder (Frelimo) e a máquina do Estado confundem-se. De acordo com o Relatório de Dados do Banco Mundial, que mostra o desempenho do pais em seis indicadores agregados de governação, entre 1996 e 2007, na base de uma escala de zero a 100 pontos, a pontuação de Moçambique situa-se nos 40 pontos, sobre a eficácia da governação, 31 sobre a qualidade da legislação; 30 para o estado de direito e 38 para o controlo da corrupção. O ranking para a rubrica estabilidade política e ausência de violência é comparativamente alto, situando-se nos 51 pontos.

3.2 Corrupção
Reduzir os níveis de corrupção tem sido um dos focos principais do programa de governação do Presidente Guebuza. Contudo, a forte comunidade de doadores do país tem expresso receios de que a estratégia anti-corrupção do governo tem trazido poucos resultados palpáveis. De um modo particular, existem reclamações em relação `a publicação de dados e falta de casos levados até `a barra dos tribunais em 2006 e 2007. No índice Global de Percepções de 2008, da Transparência Internacional, Moçambique ocupa a posição 126, num total de 180 países.19 Práticas corruptas são
19 Transparency International, Global Corruption Report 2009, accessed 23 October 2009, www.transparency.org/ publications/gcr/gcr_2009#6.1.

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mais evidentes nos processos de procurement e contratos para o sector público. Os doadores têm advogado a fixação de metas mensuráveis para planos anti-corrupção a fim de permitir acções de monitoria e avaliação adequada de impacto.

3.3 Dependência de ajuda
A dependência do pais de ajuda externa é muito alta. Os doadores contribuíram com 51 por cento do orçamento do estado em 2007.20 De acordo com o Comité de Assistência ao Desenvolvimento do OCDE, o valor líquido de assistência ao desenvolvimento a Moçambique em 2004 situou-se `a volta dos US$ 1.2 mil milhões, o correspondente a 23 por cento do rendimento nacional. Esta cifra coloca Moçambique como o oitavo pais do mundo mais dependente de ajuda.21 Os principais doadores são o Banco Mundial, a Comissão Europeia e os Estados Unidos da América, com uma contribuição de mais de US$ 100 milhões por ano, seguidos da Dinamarca, o Reino Unido, Suécia, Noruega, os Países Baixos e o Banco Africano de Desenvolvimento (que assegura entre US$ 50 e US$ 70 milhões por ano).22 Muito se tem debatido sobre o impacto desta dependência, não só sobre a governação, mas também sobre as estruturas democráticas no seu todo. Peritos nacionais e estrangeiros têm advertido sobre o perigo dos doadores exercerem pressão injustificada sobre as decisões do governo e desse modo ficarem “excluídos” actores nacionais fundamentais como a sociedade moçambicana no seu todo e a Assembleia da República do diálogo político.23 De acordo com esta percepção, a dependência de ajuda externa tem enfraquecido os sistemas de prestação de contas, pois ela mina as instituições democráticas-chave e os mecanismos institucionais, incluindo a esfera da sociedade civil.24 As organizações da sociedade civil, que têm o potencial de produzir impacto construtivo na vida política, ajudando a fortalecer uma governação mais justa, mais honesta, transparente, democrática e que preste contas `a sociedade, estão, elas mesmas, vulneráveis a seguir a agenda dos doadores. Assim, a sociedade civil é vista como sendo demasiado fraca para exigir mudanças e melhorias significativas na governação.

20 National Human Development Report 2007, UNDP Maputo Office. 21 J. Hanlon and P. De Renzio, “Contested Sovereignty in Mozambique: The Dilemmas of Aid Dependence”. Managing Aid Dependence Project. GEG Working Paper 2005/07. Oxford University College. UK. 22 Ibid. 23 See Ibid., among others. 24 N. Awortwi and A. Nuvunga (eds), Foreign Aid, Governance and Institutional Development in Mozambique, Shaker Publishing, Maastricht, 2007, pp. 44–45.

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3.4 Descentralização
O processo em curso de transformação social e económica em Moçambique inclui a implementação de uma política de descentralização destinada a estimular a democracia, equidade política e participação activa dos cidadãos a nível local através de governos autónomos, democraticamente eleitos. Com este processo espera-se não só o fortalecimento da prestação de contas, transparência e boa governação, mas também aumentar a eficiência da gestão, eficiência no desempenho financeiro através do aumento da geração de renda e decisões racionais sobre despesas, como ainda a criação de um melhor ambiente de parcerias público-privado. De acordo com a legislação adoptada em 1997, o país passou a possuir autoridades locais com seus próprios representantes (Assembleias Municipais) e órgãos executivos (Conselhos Municipais). Assim, ocorreram eleições municipais em 1998 e 2003, abrangendo 33 cidades e vilas, tendo este número aumentado para 43 municípios, nas eleições municipais de 2008. Contudo, de acordo com alguns estudos, a abordagem é menos de uma genuína descentralização de poderes, mas antes de apenas desconcentração. Esta percepção é fortalecida pela adopção da Lei nº8/2003, relativa `a organização e funcionamento dos órgãos locais do estado. Esta lei define o distrito como a unidade básica de planeamento e preconiza a transferência de fundos do governo central ao nível de distrito. Desse modo, os poderes que deveriam ser atribuídos aos municípios foram com efeito atribuídos `as administrações distritais, dirigidas por funcionários designados pelo governo central e não legitimados pelas comunidades locais.25 Como consequência, receia-se que o processo de descentralização acabe reproduzindo apenas uma linha centralizada de pensamento e leve ao surgimento de uma forma de um de facto estado democrático de partido único.

3.5 Carência de pessoal qualificado
De um modo geral, a força de trabalho Moçambicana tem fraca base de educação formal e carece de habilidades técnicas. Mais de 75 por cento da população possui cinco anos ou menos de escolarização e apenas 8.5 concluíram o ensino secundário ou terciário. Apenas 1 por cento do total de matrículas escolares, ou 15 por cento de todos os estudantes do ensino secundário participam em cursos de formação vocacional ou técnico-profissional em cada ano, dos quais cerca de 90 por cento se encontram nas 45 escolas técnicas geridas pelo Ministério da Educação. As taxas de reprovação (50 por cento) e as taxas de desistências (30 por cento) permanecem constantemente altas, em
25 G. Akesson & A. Nilsson, National Governance and Local Chieftaincy – A Multi-level Power Assessment in Mozambique from Niassa’s perspective. CIEDMA, SARL, Maputo, 2008, p. 67.

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parte reflectindo a fraca preparação dos professores, falta de material de aprendizagem e infrastruturas delapidadas.26

3.6 Sustentabilidade do Crescimento
A economia vai precisar de atrair mais investimento externo e doméstico e de mobilizar mais receitas fiscais para sustentar o desenvolvimento e reduzir a pobreza. A ajuda externa deverá cair a médio termo e, na sequência da abertura da Zona de Comércio Livre na região da Comunidade de Desenvolvimento da Africa Austral (SADC) a partir de 1 de Janeiro de 2008, poder-se-á registar, também, alguma perda significativa das receitas alfandegárias. Até agora, o grosso do investimento, apesar de substancial, tem estado essencialmente concentrado em megaprojectos. Por exemplo, havia US$ 7.3 mil milhões de investimento aprovado durante os primeiros três quartos de 2007; contudo a parte de leão deste montante estava ligada a um único projecto, a refinaria de petróleo em Nacala-a-Velha, na Província de Nampula. Moçambique necessita de aumentar e diversificar as suas exportações para outros países da SADC, especialmente para a Africa do Sul, como forma de evitar que o poderio económico do pais vizinho ocupe o próprio espaço económico de Moçambique.

3.7 Pandemia do HIV/SIDA
A taxa de infecção situa-se presentemente entre 16.2 e 27 por cento em várias regiões do pais e a doença já deixou pelo menos 1.640.000 crianças órfãs. As campanhas de prevenção têm sido difíceis, devido `a prevalência de altas taxas de analfabetismo, na ordem dos 48 por cento. A prestação de cuidados a pacientes de SIDA é deficitária devido `a fraca cobertura e capacidade do serviço público de saúde, o qual cobre apenas 44 por cento da população.27

3.8 Desastres naturais cíclicos e devastadores
Ciclones e secas prolongadas, que se alternam com chuvas torrenciais e cheias ao longo dos quarto principais rios do pais constituem alguns dos mais sérios desafios para os quais o país precisa de estar permanentemente preparado. A pouca infrastrutura é destruída e centenas de milhares de pessoas perdem regularmente as suas habitações e haveres, tornando-se presas fáceis de doenças causadas por águas paradas e necessitando de ajuda alimentar de emergência. Se bem que o Pais é incapaz de
26 Instituto Nacional de Estatística (INE), Inquérito Integrado à Forca de Trabalho (IFTRAB), 2004/2005. Relatório Final, 2006. 27 National Human Development Report, Mozambique. Response to HIV and AIDS : Challenges and Opportunities. UNDP, www.undp.org.mz.

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responder aos custos de tais desastres naturais com os seus próprios meios, o pedido de ajuda externa torna-se inevitável, piorando ainda mais a sua dependência externa de apoio de doadores. O planeamento para adaptação `as mudanças climáticas vai exigir muito esforço e recursos, sendo já notória uma atenção crescente sobre a gestão das bacias dos rios a nível regional.

3.9 Fraca infrastrutura
Moçambique enfrenta a grande necessidade de aumentar a sua produção de energia e de fornecer energia eléctrica `a maioria da população; de expandir a rede rodoviária, pontes, portos e linhas férreas, e assegurar a respectiva manutenção; expandir e melhorar o acesso a telecomunicações, especialmente nas zonas rurais remotas, e de construir mais sistemas de abastecimento de agua.

4 O panorama dos media
4.1 Imprensa escrita
De acordo com o Gabinete de Informação (GABINFO), sob tutela do Gabinete do Primeiro-Ministro, existem registados 119 jornais e revistas em Moçambique. Contudo, apenas cerca de 27 estão efectivamente activos, incluindo algumas publicações por fax ou via electrónica.28 Estes últimos são pequenos diários (de entre 6 a 8 páginas) e que foram instrumentais na emergência da era do pluralismo informativo no pais em 1992. Estas publicações desafiaram os media “oficiais”, publicando informação colectada de forma independente sobre assuntos que poderiam, de outro modo, serem considerados “tabus”. Exemplos típicos destas publicações de baixo custo ou alternativos, são o Mediafax e o Metical , ambos criados por Carlos Cardoso, o mais destacado jornalista investigativo do pais, que foi assassinado em 2001 (detalhes no Capitulo 2). Estes media, tipicamente moçambicanos, mais tarde evoluíram para publicações distribuídas electronicamente, cobrindo temas sensíveis como corrupção e outras formas de má conduta na administração pública bem como na política do pais. Mais de 72 por cento dos jornais e revistas agora em circulação foram lançados entre 1999 e 2006. O quadro abaixo oferece um panorama das publicações presentemente em circulação no pais, o seu perfil de propriedade e a sua orientação editorial.
28 Note-se que nos seus livros de registo, o GABINFO não faz qualquer distinção entre publicações internas institucionais e corporativas (do governo e entidades privadas) e órgãos de imprensa propriamente ditos.

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Quadro 2: Tipo Jornal Diário

Media nacional e regional293031 Nome Noticias Proprietário Sociedade do Noticias (accionistas estatais e privados) Propriedade privada Propriedade Privada Propriedade privada Sociedade do Noticias (accionistas estatais e privados) Propriedade Privada Propriedade Privada Propriedade Privada Propriedade Privada Propriedade privada Propriedade privada Propriedade privada Sociedade do Noticias (accionistas estatais e privados) Língua Português Circulação29 15 000 copias Orientação politica Oficiosa30

Diario de Mocambique O Pais Sete publicações por fax Jornais diários Vários títulos Domingo

Português Português Português Português

5 000 copias 30 000 copias 500 cada 7 000 cópias

Oficiosa Independente Independente Oficiosa

Savana Zambeze Magazine Independent Publico Jornais diários Escorpiao A Verdade31 Canal de Mocambique Desafio (Desportos)

Português Português Português /Inglês Português Português Português Português Português

7 000 copias 7 000 copias 7 000 copias 5 000 copias 5 000 cópias 50 000 cópias 7 000 cópias 3 000 cópias

Independente Pro-oposição Independente Independente Independente Independente Independente Oficiosa

29 Não existem fontes independentes sobre números de circulação de jornais. Os números inclusos no quadro são alegados pelas próprias publicações. Algumas fontes independentes consideram estes números inflacionados, destinados a atrair publicidade. 30 O maior accionista do jornal é a INTELECT, uma holding associada ao Presidente da República, Armando Guebuza. 31 A Verdade é o único jornal distribuído gratuitamente em Moçambique e segundo o respectivo gestor, a “Verdade” é o único jornal cujo número de exemplares é auditado de forma independente.

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Tempo Prestigio Tempografica Sojornal. Lda. Vários Português Português Português 10 000 cópias 15 000 cópias 200 a 300 cada Independente Independente Independente

Revistas

Publicações Regionais

Oito publicações diárias regionais AIM

Agência Noticiosa

Estado

Português /Inglês

Oficial

Fonte: Autor, a partir de dados colectados junto dos ficheiros do GABINFO

O nº2 do Artigo 6 da Lei de Imprensa permite que o estado adquira participações em órgãos de informação que não façam parte do sector público. O Estado, através de suas empresas, possui acções numa empresa de media, a Sociedade do Notícias, a qual é, por sua vez, proprietária de vários jornais publicados em Português, nomeadamente: • O Notícias, o principal jornal diário do pais; • O Domingo, único semanário dominical do país; • O Desafio, semanário desportivo. Os principais accionistas da Sociedade do Notícias são o banco central (Banco de Moçambique), a empresa pública de seguros (Emose) e empresa pública de petróleos (Petromoc). A Sociedade inclui ainda um quarto accionista privado, minoritário. O Banco de Moçambique detém a presidência da Sociedade do Notícias, o que coloca a empresa sob controlo estatal. Os documentos de registo da Sociedade, registada como sociedade anónima, não indicam as percentagens das acções de cada empresa. A Lei de Imprensa determina, contudo, que “tratando-se de sociedades anónimas, todas as acções deverão ser nominativas” (Art.6, nº7). Sete publicações independentes de âmbito provincial emergiram fora de Maputo: os semanários Amanhecer e Faísca (Província do Niassa); WhampulaFax e Lurio (Província de Nampula); semanário Horizonte (Província de Cabo Delgado); Diário da Zambézia (Província da Zambézia); O Autarca (Província de Sofala). A sua circulação é, porém, modesta, atingindo entre os 300 e os 500 exemplares por edição. A agência oficial de notícias – Agência de Informação de Moçambique (AIM) é tutelada pelo GABINFO. Nos termos do Decreto nº5/95, de Outubro de 1995, o GABINFO exerce funções de tutela sobre os órgãos de informação ou instituições pertencentes ao sector público, como a AIM. Isto inclui a proposição do Director Geral, o qual toma posse perante o Primeiro-Ministro, bem como a confirmação dos planos anuais de trabalho.

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O Português é a única língua de toda a imprensa escrita em Moçambique. Apesar de ser a língua oficial do pais, usada na administração pública e nos tribunais, ela não é, contudo, entendida pela maioria das pessoas fora dos grandes centros urbanos, quer na fala, quer na escrita. A imprensa privada encontra-se concentrada na cidade capital. Contudo, a emergência relativamente recente de publicações baseadas nas capitais provinciais, indica um crescimento em pluralismo e alguma saida para a velha frase segundo a qual “Maputo fala e o resto do País escuta”.32 Sendo verdade que os números modestos de circulação, aliados `a prevalecente alta taxa de analfabetismo, constituem impedimentos sérios de acesso aos media, o alcance e a relevância da imprensa escrita independente não devem ser, contudo, subestimadas. Ao expor actos de corrupção, acções do crime organizado e de má conduta na administração pública em geral, a imprensa escrita independente produz um importante impacto na sociedade, através da promoção de debate nacional e da exposição de abusos de poder por parte de sectores das elites políticas e económicas do pais.

4.2 Radiodifusão
Os dados fornecidos pela Pesquisa de Audiência de 200933 indicam que 92 por cento das famílias inquiridas possuem um receptor de rádio e 44 por cento um televisor. Rádio O sistema da radiodifusão sonora atinge até aproximadamente 60 a 70 por cento da população em todo o pais, sendo a estacão pública, Rádio Moçambique, aquela com a maior cobertura geográfica.34 Com efeito, a RM é o único serviço de radiodifusão a atingir todas as províncias do pais. A RM transmite em Português, Inglês e nas mais abrangentes línguas nacionais faladas em cada província. Um total de oito estacões comerciais de rádio estão presentemente no “ar” no território nacional. Com a excepção da Sociedade de Informação de Tete (Grupo SIRT), com uma estacão de rádio baseada na Província de Tete, e a Rádio Progresso, na Cidade da Maxixe, no Sul do Pais, as outras seis estacões comerciais em FM estão todas baseadas na capital, Maputo. São elas: Radio Sociedade de Independente de Comunicação (SFM); Rádio Miramar; Radio 99.3 FM; Rádio Capital; Radio Savana; Rádio KFM; (a sigla “K” vem do nome do fundador da estacão, Carlos Klint, um veterano de alta patente a Frelimo, falecido em 2003).
32 UNDP, Mozambique: Peace and economic growth: Opportunities for human development, National Human Development Report, Maputo, p.76. 33 The Steadman Group, Audience Research Survey Mozambique August 2009, Kampala 2009. 34 J. Miller and T. James, Preliminary Report: A Country ICT Survey for Mozambique, prepared for SIDA, September 2001.

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Existem ainda duas estacões em FM que pertencem aos dois principais partidos políticos do pais, nomeadamente a Rádio Indico (Frelimo) e a Rádio Terra Verde (Renamo). Por seu lado, as seguintes estacões de rádio estrangeiras transmitem as suas emissões a partir de Maputo: BBC Africa, Rádio Franca Internacional (RFI) e a Radiodifusão Portuguesa Africa (RDP Africa, rádio pública Portuguesa). A Voz da América e a Voz da Alemanha transmitem igualmente alguns programas a partir de estacões radiofónicos nacionais baseados em Maputo, nomeadamente a KFM e a Rádio Capital, respectivamente. Existe também um sector em crescimento de radiodifusão comunitária, composto de um total de 59 rádios e estacões de TV espalhadas por todo o pais. Vinte e quatro destas estacões são tuteladas pelo Instituto de Comunicação Social (ICS), uma instituição financiada pelo governo. A UNESCO e a IBIS (uma ONG Dinamarquesa) contribuíram para o estabelecimento de doze rádios comunitárias no pais. A Igreja Católica e algumas organizações comunitárias de base, tais como a União Geral das Cooperativas agro-pecuárias de Maputo, (UGC) nas chamas “zonas verdes” de Maputo, ajudaram a estabelecer e a apoiar as restantes 23 estacões. A UNESCO também apoiou no desenvolvimento de um movimento pioneiro de Centros Multimédia Comunitários (CMC) em Moçambique. Estes centros são instalados em rádios comunitárias já em funcionamento, de modo a criar sinergias entre a rádio e as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). A estacão de rádio tira proveito das conexões da Internet, através das quais pode enriquecer a sua informação e programação, e as comunidades circunvizinhas beneficiam de acesso directo `a Internet, computadores, email, o World Wide Web, impressoras, máquinas fotocopiadoras e televisores, instalados nestes centros. Combinadas, estas facilidades reforçam o acesso `a informação, ao conhecimento e `a educação, e asseguram ligações em rede entre comunidades. Existem presentemente 17 CMC activos em todo o pais. Televisão Seis estacões de TV oferecem serviço em sinal aberto, incluindo estacões estrangeiras, nomeadamente a Rádio Televisão Portuguesa para Africa (RTP Africa). Contudo, juntas, todas estas estacões atingem apenas entre 15 e 17 por cento da população.35 A Televisão de Moçambique (TVM) – empresa pública que recebe subsídios do governo – iniciou as suas emissões em 1981. Mais de 10 anos depois, entrou em funcionamento uma segunda estacão de televisão: a Rádio Televisão Klint (RTK), como operadora privada. Subsequentemente, três outras estacões abriram: a
35 Ibid.

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Televisão Miramar, propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus (Brasil), a STV, propriedade da Sociedade Independente de Comunicação, e a Televisão Independente de Moçambique (TIM). A TVM é o único serviço televisivo com presença em todas as dez províncias do pais e um “booklet” de diferentes programas. A STV, lançada em 2002, é a estacão comercial líder, cobrindo oito das onze províncias do pais, nomeadamente Maputo (cidade e província), Gaza e Inhambane, no Sul, Manica, Tete e Zambézia, no Centro, e Nampula, no Norte. A TIM, criada em 2006 por empresários moçambicanos, emite em Maputo, Tete, Beira, Cabo Delgado e Quelimane. A SIRT-TV, com sede em Tete (sendo portanto a única sedeada fora de Maputo) foi criada em 2002, por António Marcelino de Mello. As restantes estacões de TV estão mais ou menos limitadas `as cidades de Maputo e Beira. Adicionalmente, dois serviços de televisão por assinatura estão disponíveis: a TV Cabo, um serviço por assinatura baseado em Maputo e sem abrangência nacional, e a TVS, uma empresa privada, que é o “braço” local do serviço por satélite sul-africano, DSTV. A TV por cabo é apenas acessível nas cidades de Maputo e Matola, oferecendo um total de 52 canais de televisão e 5 estacões de rádio através de uma rede metropolitana da empresa TV Cabo, uma subsidiária da empresa pública, telecomunicações de Moçambique (TDM). A empresa usa a mesma infrastrutura para fornecer acesso `a Internet aos seus subscritores de televisão, através da sua subsidiária, a NetCabo. Não existe legislação ou regulamentos específicos ou políticas governamentais para ajudar o desenvolvimento dos Media ou promover a sua diversidade através de medidas tais como isenções fiscais ou direitos alfandegários sobre a importação de papel. Segundo um estudo encomendado pela UNESCO em 2006,36 o maior nó de estrangulamento para a imprensa escrita é o custo do papel, que equivale a 70 por cento do total dos custos de produção, isto associado a uma rede muito pobre de distribuição por todo o pais. Apenas o serviço público de rádio atinge todas as províncias do pais e a Rádio Moçambique domina o panorama nacional dos media. Com 70 por cento da população vivendo nas zonas rurais,37 e menos de metade das famílias possuindo um receptores de rádio, o acesso a uma imprensa pluralística é muito limitado, para a grande maioria dos cidadãos.

36 The Cost of Press Freedom in Mozambique, UNESCO Maputo, 2006, p. 23. 37 National Human Development Report, UNDP, Mozambique, 2007.

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Quadro 3: Nome Rádio Moçambique (RM) Televisão de Moçambique (TVM) STV

Lista de serviços de radiodifusão Propriedade Estado Línguas Português e Inglês e ainda 19 Línguas Nacionais. Português, Xindau e Emakwa (Cidades da Beira e Nampula) Português Cobertura 80% do território nacional37 Orientação política Tendencialmente Independente do governo do dia Tendencialmente oficial

Estado

80% do território nacional38

Grupo SOICO RTK G

70% do território nacional39 Cidade de Maputo Cidade de Maputo Cidade de Maputo Maputo, Beira, Quelimane, Nampula. 60% of national territory

Independente

Rádio KFM

Português

Independente

Rádio SFM

Grupo SOICO Mediacoop

Português

Independente

Rádio Savana

Português

Independente

TIM

TIM

Português

Independente

TV Miramar

Igreja Universal do Reino de Deus Estado/ Portugal Estado/ Portugal

Português

Independent/religious

RTP Africa Portugal (TV) RDP Africa Portugal (Rádio)

Português

60% do território nacional 45% do território nacional

Independente/religiosa

Português

Serviço estrangeiro (para Africa) da TV pública portuguesa

38 Relatorio Annual de Actividades, RM, 2006, Maputo. 39 Administrador Tecnico da TVM, Eng. Victor Mbeve. 40 Director-Geral da STV, Daniel David.

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Quadro 3: Nome Cont.

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Propriedade

Línguas

Cobertura

Orientação política

Rádios comunitárias e rádios e televisões rurais Rádio Comunitária 33 Associações Cívicas Português e Línguas Nacionais Português e Línguas Nacionais Português e Línguas Nacionais Português e Línguas Nacionais Português Independentes

Rádios Rurais

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Instituto de Comunicação Social Instituto de Comunicação Social Igreja Católica e Igreja Metodista Unida Indico (Frelimo) e Terra Verde (Renamo) Sector privado

Oficial

Estacões de TV Rurais Rádios Religiosas

3

Oficial

6

Religiosas/ Independente Pro-Frelimo, proRenamo Independente

Rádios de Orientação Política Rádios Comerciais

2

7

Português

Fonte: Autor, baseando-se em dados colectados junto do GABINFO

4.3 Internet e telefone
Moçambique possui presentemente uma teledensidade (número de linhas telefónicas por 100 pessoas) de 0.46, 41 uma das mais baixas da Africa Austral. Em 2007 a rede de telefone fixo estendia-se para cerca de 60 por cento do território ou 72 dos 128 distritos do pais. Relatórios Anuais42 da empresa nacional de telecomunicações – a TDM – indicam que a capacidade instalada de linhas telefónicas é de 127 902. Contudo o número de assinantes tem estado a cair desde 2000. Uma das principais razões deste declínio é a limitada capacidade de compra das pessoas, especialmente nas zonas rurais, associada `a rápida expansão da rede de telefonia móvel. Na sequência da introdução da telefonia móvel em Novembro de 1997, o pais experimentou um aumento dramático no acesso aos serviços de telecomunicações. Contudo, estes serviços estão ainda relativamente limitados aos grandes centros urbanos ou concentrados ao longo das auto-estradas para a Africa do Sul, Suazilândia e Zimbabwe, assim como aquelas ligando as províncias do pais.
41 Fonte: www.infopol.gov.mz /symposium/politica/politica.doc. 42 Fonte: www.tdm.mz (Relatorio Annual da Emoresa TDM, 2004).

FACTOS DO PAíS

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Com a adopção da Lei das Telecomunicações em 1999, o sector foi parcialmente liberalizado. Isto permitiu competição na telefonia móvel, a qual, até então, era monopólio das TDM. Existem presentemente duas empresas operadoras de telefonia móvel: a Moçambique Celular (mCel), de capitais públicos, e que é o nome de marca da empresa Telecomunicações Móveis de Moçambique (TMM), e a Vodacom Moçambique, propriedade da Vodacom Africa do Sul e da EMOTEL. A mCel foi criada em 1997, como resultado de uma “joint venture” entre as TDM e a Detecon GmbH (Deutsche Telepost Consulting GmbH), uma subsidiária da Deutsche Telekom. Em 2004 as TDM adquiriram as acções da Detecon, sendo presentemente a única accionista da mCel. A Vodacom ganhou a segunda licença de telefonia móvel em 2002 e começou a operar em Dezembro de 2003. Dados de Abril de 2007 indicavam que a Vodacom possuía mais de 1.000.000 (um milhao) de subscritores e a mCel `a volta de 2.000.000 (dois milhões), colocando o total de assinantes do serviço móvel no pais na ordem dos três milhões. De acordo com um relatório sobre inclusão digital em Moçambique, 21 por cento da população moçambicana era assinante da telefonia móvel em 2008, e 111 dos 128 distritos do pais eram cobertos, traduzindo-se em 86.7 por cento a nível nacional. 43 Nos finais de 2008, havia cerca de 20 Provedores de Serviço de Internet (PSI) operacionais em Moçambique, sendo as seguintes as mais significantes: Teledata, CIUEM, Tropicalweb, Virconn, Emil, TDM, CFMnet, TVCabo, Intra, Dataserv, SATCOM, e GSTelecom. Os PSI não são sujeitos a licenciamento, bastando o simples registo administrativo para efeitos estatísticos e existem alguns PSI registados junto do Instituto Nacional das Comunicação de Moçambique (INCM) que não têm estado operacionais. Com a excepção da Teledata, TDM e Virconn, nenhum dos outros PSI possuem Pontos de Presença (PoPs) fora da cidade de Maputo. Ouvintes de rádio e telespectadores podem sintonizar canais de rádio e de TV via Internet, uma tecnologia introduzida no pais em 2003. A rede da infrastrutura básica das telecomunicações do pais é gerida pelas TDM, empresa totalmente detida pelo Estado. Contudo, a propriedade da infrastrutura para serviços complementares ou de acréscimo de valor está aberta quer ao sector público quer ao sector privado. A infrastrutura física de apoio ao acesso `as telecomunicações, incluindo a Internet, é ainda subdesenvolvida, apesar de se encontrar em fase de expansão. A Estratégia da Implementação da Política Nacional de Informática inclui uma longa lista de projectos a serem considerados a curto, mediu e longo prazos no sector das telecomunicações,
43 Inclusão Digital em Moçambique: Um Desafio para Todos,. Maputo, Agosto de 2009, p. 37. Disponível em: http://www. ngopulse.org/article/digital-inclusion-mozambique-challenge-all.

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com um orçamento total de US$ 144.246.000. As redes da linha fixa de telefone e de electricidade cobrem presentemente todas as capitais provinciais, mas ainda deixando de fora largas franjas da população que vive nas zonas rurais. A expansão das telecomunicações está intimamente ligada `a expansão da rede eléctrica. Em 2007, a rede eléctrica cobria 70 das 128 capitais distritais. O plano de electrificação da empresa nacional de electricidade, a Electricidade de Moçambique (EDM) prevê que por volta de 2010 a rede eléctrica tenha-se estendido a 104 capitais distritais. A infrastrutura da rede nacional pública de telefone consiste numa espinha dorsal cobrindo cerca de 97.7 do território nacional, incluindo todas as províncias até ao nível de distrito. Esta rede é baseada numa combinação de diferentes tecnologias tais como VSAT e cabo de fibra óptica ao longo da costa, ligado Maputo a Beira, numa extensão de 1.000 km, com pontos de conexão intermediaria em Xai-Xai, Inhambane e Vilanculos. É muito difícil calcular ao certo o número de pessoas que efectivamente fazem uso da Internet. Contudo, tem havido um crescimento dramático, desde a altura em que uma pequena base pioneira foi instalada pelo Centro de Informática da Universidade Eduardo Mondlane (CIEUM) em 1993. Dados actuais (Quadro 4) reflectem primeiramente acesso nas zonas urbanas, enquanto que o acesso nas zonas rurais permanece largamente limitado. Na procura de resposta a estas assimetrias, o governo embarcou num programa de Acesso Universal para apoiar um acesso crescente do público a telefonia básica e serviços de Internet ao nível do distrito. Os Centros Provinciais de Recursos Digitais (CPRD), sob tutela do Ministério da Ciência e Tecnologia, associados aos Centros Multimédia Comunitários (CMC), são encarados como as primeiras agências a implementarem este programa. Os Internet Cafés foram pela primeira vez lançados em Maputo alguns anos atrás e aparecem agora em certo número nas capitais provinciais, apesar do alto preço de acesso. Muitos PSI cobram, em média, uma taxa mensal de entre 750 a 1.000 Meticais (o equivalente a US$ 30 e US$ 40 ao câmbio de 2008). Este custo é duas vezes mais alto que o custo de uma assinatura mensal do principal diário do pais, o jornal Noticias. Vários hotéis de 4 a 5 estrelas em Maputo, Beira e Nampula e instâncias turísticas de luxo ao longo das ilhas moçambicanas do Oceano Indico oferecem acesso gratuito `a Internet aos seus hóspedes. Outras tecnologias tais como linhas alugadas (analógicas), linhas de Rede de Serviços Digitais Integrados (ISDN) TV a cabo e sem fio estão igualmente disponíveis, porem ainda mais caros.

FACTOS DO PAíS

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Quadro 4: Indicadores

Disponibilidade de TICs Números 78.324 4.223.911 116 de 128 Distritos (91%) 111 de 128 Distritos (86,7%) 21% 20 Ano 2008 2008 2008 2008 2008 2008

Número de assinantes da rede fixa Número de assinantes de telefonia móvel Cobertura Geográfica da rede fixa Cobertura Geográfica da telefonia móvel (capitais distritais) Penetração da telefonia móvel PSI/empresas de inter conectividade usando a infrastruturada TDM, VSA, redes sem fio, fibra óptica (estimativa) Número de assinantes da Internet Número de utentes de computador Número de usuários de Internet (por 1 000 pessoas)
Fonte: Inclusão Digital em Moçambique: Um Desafio para Todos, Maputo, Agosto de 2009

24.000 100.000 7

2008 2007 2004

Relativamente `a conectividade, o grande desafio que Moçambique enfrenta é o investimento em comunicações de baixo custo e soluções de conectividade nas zonas rurais. Várias iniciativas tendentes a estabelecer pontos de acesso público e comunitário estão presentemente em curso, com particular ênfase sobre comunidades. Tais pontos de acesso comunitários podem ser na forma de rádios comunitárias, telecentros, escolas (SchoolNet), Centros Provincais de Recursos Digitais (CPRDs) e Centros Multimédia Comunitários (CMCs). Registaram-se progressos no estabelecimento destes pontos de acesso comunitário; porém sem a rapidez desejada, sendo a conectividade um dos principais constrangimentos.

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Breve história da radiodifusão

A primeira transmissão radiofónica em Moçambique ocorreu no dia 18 de Março de 1933, tendo como pioneiro o Grémio de Radiófilos da Colónia de Moçambique, um clube privado de colonos portugueses baseados na cidade de Lourenço Marques (Maputo). A estacão levou o nome de Rádio Clube de Moçambique. Nessa altura havia apenas 1.400

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aparelhos de rádio em Moçambique. 44 Duas outras estacões privadas foram lançadas nos anos seguintes na Beira, a segunda maior cidade da colónia, incluindo a Rádio Pax, uma estacão da Igreja Católica emitido em AM (ondas curtas). Com o advento da independência, o governo da Frelimo aboliu a radiodifusão privada e nacionalizou as três estacões privadas existentes, para constituir a nova Rádio Moçambique (RM), controlada pelo Estado. Oficialmente, a RM foi criada no dia 2 de Outubro de 1975, 45 cerca de três meses após a independência, proclamada a 25 de Junho. A sua rede nacional de emissores inclui presentemente 11 estacões provinciais e regionais, bem como várias repetidoras em FM, que retransmitem a emissão nacional em Português. Em 1977, o governo criou o Instituto de Comunicação Social (ICS), entidade financiada pelo Estado para promover desenvolvimento rural. 46 O ICS criou a sua primeira “rádio comunitária” em 1984, quando abriu uma estacão local na Província de Gaza, a cerca de 200 km a norte de Maputo, transmitindo em onda média. Após os Acordos de Paz de 1992, o ICS expandiu a sua rede nacional de “rádios comunitárias” para 24 estacões em 2007, com apoio financeiro e técnico do UNICEF e o Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP). Já a Televisão é bem mais recente em Moçambique. A Televisão de Moçambique (TVM) foi inaugurada oficialmente no dia 3 de Fevereiro de 1981, inicialmente com a denominação de Televisão Experimental (TVE). O sinal da TVM alcança todas as dez províncias do pais. Desde a independência em 1975 até 1990 a radiodifusao constituía monopólio estatal. O governo, através do Ministério da Informação, geria os meios de difusão massiva e a política editorial era formulada pelo partido Frelimo através do seu Departamento do Trabalho Ideológico (DTIP). A nova constituição democrática de 1990 abriu o caminho para a adopção da Lei de Imprensa, em Agosto de 1991. Dois decretos relativos `a radiodifusão foram subsequentemente adoptados, nomeadamente: o Decreto nº22/92 de 31 de Dezembro de 1992, que estabelece as condições legais e técnicas de acesso `as frequências; e o Decreto nº9/93 de 22 de Junho de 1993, que estabelece as vários formatos de propriedade no domínio da radiodifusão.

44 L. Loforte, Rádio Moçambique: Memórias de um Doce Calvário, CEDIMA, 2007, p. 72. 45 Lei nº16/75, de 2 de Outubro de 1975. 46 Decreto nº34/97 de 31 de Janeiro de 1997.

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Legislação e Regulamentação dos Media

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Padrões internacionais, continentais e regionais

O Artigo 18 da Constituição da República de Moçambique (Direito Internacional) estabelece o seguinte:
1. Os tratados e acordos internacionais, validamente aprovados e ratificados, vigoram na ordem jurídica moçambicana após a sua publicação oficial e enquanto vincularem internacionalmente o Estado de Moçambique. 2. As normas de direito internacional têm na ordem jurídica interna o mesmo valor que assumem os actos normativos infra constitucionais emanados da Assembleia da República e do Governo, consoante a sua respectiva forma de recepção.

Moçambique é signatário de vários instrumentos internacionais e regionais relativos `a liberdade de expressão.

1.1

Nações Unidas

Os seguintes instrumentos da ONU são relevantes para a liberdade de expressão: Declaração Universal dos Direitos Humanos (adoptada em 1948) A Declaração Universal não é um tratado que seja ratificado pelos estados e dai criando uma obrigação. Contudo, académicos consideram que a Declaração Universal

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tornou-se lei costumeira internacional ou reflecte-se como tal. 47 Seja como for, a inclusão da liberdade de expressão na declaração implica que mesmo aqueles estados que não ratificaram qualquer dos tratados relevantes, estão obrigados a respeitar a liberdade de:
Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

A Convenção Internacional dos Direitos Civis e Políticos (adoptada pelas Nações Unidas em 1976) A Convenção Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos é um tratado que elabora sobre muitos dos direitos consagrados na Declaração. O Artigo 19 da Convenção declara:
1. Todo o indivíduo tem o direito de exprimir opiniões sem interferência. 2. Todo o indivíduo tem o direito `a liberdade de expressão; este direito deve incluir a liberdade de procurar, receber e disseminar informação e ideias de toda a natureza, independentemente das fronteiras, quer oralmente, por escrito ou impresso, na forma de arte, ou através de outro meio da sua escolha.

A Declaração de Windhoek sobre a Promoção de uma Imprensa Africana Independente e Pluralística de 1991 (adoptada pela conferencia geral da UNESCO) A Declaração da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) de Windhoek, tal como outros instrumentos que não são tratados, é revestida de autoridade moral por representar um largo consenso da comunidade internacional sobre a interpretação detalhada da Declaração Universal e outros padrões relevantes que se relacionem com a imprensa em Africa. Diz a dado passo a Declaração de Windhoek:
[Nós] declaramos que: 1. Em conformidade com o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o estabelecimento, manutenção e progresso de uma imprensa independente, pluralística e livre, é essencial para o desenvolvimento
47 Veja, por exemplo, H. Hannum, “The Status and Future of the Customary International Law of Human Rights: The Status of the Universal Declaration of Human Rights in National and International Law”, Georgia Journal of International and Comparative Law, 287; H. J. Steiner, P. Alston and R. Goodman, International Human Rights in Context: Law, Politics, Morals – Texts and Materials, Oxford: Oxford University Press (third edition), 2007.

LEGISLAÇÃO E REGULAMENTAÇÃO DOS MEDIA

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e manutenção da democracia numa nação, e para o desenvolvimento económico. 2. Por imprensa independente, queremos dizer uma imprensa independente do controlo governamental ou económico ou do controlo de materiais e infraestruturas para a produção e disseminação de jornais, revistas e periódicos. 3. Por imprensa pluralística, queremos dizer o fim de monopólios de qualquer natureza e a existência do maior número possível de jornais, revistas e periódicos reflectindo a mais larga franja de opinião dentro da comunidade.

1.2 União Africana
Moçambique é membro da União Africana (UA), cujo Acto Constitutivo estabelece que os objectivos da organização incluem a promoção de “princípios democráticos e instituições, participação popular e boa governação” (Artigo 3, al. 3). O mais importante padrão de direitos humanos adoptado pela UA, ou pela sua predecessora, a Organização da Unidade Africana (OUA) é: A Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (adoptada a 27 de Junho de 1981)48 Moçambique aderiu `a Carta e está por isso vinculado `as suas dispositivos. O seu Artigo 9 afirma o seguinte, sobre a liberdade de expressão:
• • Todo o indivíduo tem direito a receber informação. Todo o indivíduo tem o direito de se expressar e disseminar a sua opinião dentro da lei.

A Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (CADHP) é a entidade estabelecida nos termos da Carta para monitorar e promover a observância dos termos daquela. Declaração de Princípios sobre Liberdade de Expressão em Africa Em 2002, a Comissão Africana adoptou esta Declaração, realizando uma interpretação detalhada para os estados membros da UA, sobre os direitos `a liberdade de expressão consagrados na Carta Africana. A Declaração diz no seu Artigo 1:
A liberdade de expressão e informação, incluindo o direito de procurar, receber e
48 Organização da Unidade Africana, Carta dos Direitos Humanos e dos Povos, adoptada em 27 de Junho de 1991, Doc. CAB/LEG/67/3 rev. 5, 21 I.L.M. 58 (1982), em vigor desde 21 Outubro de 1986.

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disseminar informação e ideias, quer seja oralmente, por escrito ou impresso, na forma de arte, ou através de outra forma de comunicação, incluindo para além fronteiras, é um direito humano fundamental e inalienável e uma componente indispensável da democracia. Todo o indivíduo tem oportunidade igual de exercer o direito `a liberdade de expressão e de ter acesso `a informação sem descriminação.

A Declaração prossegue, dizendo, no seu Artigo II:
Ninguém deve ser sujeito a ingerências com a sua liberdade de expressão; e Quaisquer restrições `a liberdade de expressão devem ser definidas por lei, servirem um interesse legítimo e serem necessários numa sociedade democrática.

A Declaração descreve de forma detalhada como é que tal liberdade de expressão deve ser implementada. De particular relevância para esta pesquisa é a declaração relativa à radiodifusão do sector público (Artigo IV):
Estacões de rádio controladas pelo Estado e pelo governo devem ser transformadas em serviços públicos de radiodifusão, que prestem contas ao público através do poder legislativo e não através do governo, de acordo com os seguintes princípios: • radiodifusão pública deve ser administrada por um órgão que é protegido a contra a interferência, particularmente de natureza política e económica; • independência editorial do serviço público de radiodifusão deve ser a garantida; • radiodifusão pública deve ser adequadamente financiada de tal maneira que a fique protegida de interferências no seu orçamento; • radiodifusão pública deve esforcar -se por que os seus sistemas de a transmissão cubram todo o território nacional; • âmbito do serviço público de radiodifusão deve ser claramente definido e o inclui uma obrigação de garantir que o público receba informação adequada, politicamente equilibrada, particularmente durante os períodos eleitorais.

O documento declara igualmente que a liberdade de expressão “coloca uma obrigação sobre as autoridades para tomar medidas positivas para promover diversidade” (Artigo II); que a radiodifusão comunitária e comercial deve ser encorajada (Artigo V) e que as autoridades de regulação da radiodifusão e das telecomunicações devem ser independentes e “adequadamente protegidas contra interferências, particularmente de natureza politica ou económica” (Artigo VII).

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A Declaração estabelece ainda disposições sobre o acesso `a informação e estabelece que “o direito `a informação deve ser garantido por lei” (Artigo IV). Carta Africana sobre Democracia, Eleições e Governação (2007) Esta Carta salienta a importância de acesso `a informação em democracia, e declara:
[O Estado deve] promover o estabelecimento das condições necessárias para reforçar a participação dos cidadãos, transparência, acesso `a informação, liberdade de imprensa e prestação de contas na gestão de assuntos públicos. (Artigo 2, al. 10) Os Estados devem…garantir acesso justo e equitativo pelas partes em disputa aos media controlados pelo Estado durante eleições. (Artigo 17, al. 3)49

Por enquanto, num grande número de países africanos, estes princípios não passam de objectivos nobres. No início de 2009 alguns países tinham assinado a Carta mas apenas um (Mauritânia) tinha-a ratificado. Por isso a Carta não tinha ainda entrado em vigor, visto ser necessário um mínimo de 15 ratificações para esse efeito.

1.3 Comunidade de Desenvolvimento da África Austral
Moçambique é membro da Comunidade de Desenvolvimento da Africa Austral (SADC). O tratado que cria a SADC estabelece que os estados membros devem operar de acordo com princípios que incluam o respeito pelos direitos humanos, democracia e o estado de direito (Artigo4; al.c). Adicionalmente, esta organização regional adoptou vários protocolos relacionados com a comunicação social e/ou comunicações. Protocolo da SADC sobre Cultura, Informação e Desportos (adoptada em 2000) Este Protocolo focaliza sobre a harmonização de políticas sobre cultura, informação e desportos por parte dos estados membros da SADC. O Artigo 17 destaca os seguintes objectivos-chave, entre outros:
• • C ooperação e colaboração na promoção, estabelecimento e crescimento de media independente, assim como livre circulação de informação; D esenvolvimento e promoção da cultura local através do incentivo ao conteúdo local nos media;

49 http://www.africa-union.org/root/au/Documents/Treaties/text/Charter%20on%20Democracy.pdf.

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• • •

T omada de medidas para diminuir o fosso de informação entre as áreas rurais e urbanas através do aumento da cobertura pelos media; E ncorajamento ao uso de línguas nacionais nos media como veículos de promoção da inter-comunicação local, nacional e regional; G arantir que os media são adequadamente sensibilizados sobre assuntos de género de modo a promover a equidade de género e a equidade na disseminação de informação.

Moçambique ratificou este protocolo e por conseguinte vinculou formalmente `as suas disposições. O Artigo 18 focaliza sobre políticas de informação, e compromete os estados membros a “criarem ambiente político e económico conducente ao crescimento do pluralismo dos media”. O Artigo 20 apela aos estados membros a tomarem as “medidas necessárias para garantir a liberdade e independência dos media”, onde a independência dos media é definida como “independência editorial, em que a Política editorial e decisões são tomadas pelos meia sem interferência”.

Declaração da SADC sobre Informação e Tecnologias de Informação (2001) Esta Declaração focaliza sobre estruturas de telecomunicações e promove a criação de um sistema tridimensional em cada pais, com:
Governo responsável por um quadro político favorável; reguladores independentes responsáveis pelo licenciamento; e uma multiplicidade de provedores, responsável pela provisão de serviços, num ambiente competitivo. (Al. a); i) do Artigo 2)50

Apesar da Declaração não possuir a mesma força de um Protocolo, todos os países que são parte dela (incluindo Moçambique) assumiram o compromisso de seguirem as suas disposições, assim que a adoptaram.

1.4 Outros documentos
Carta Africa sobre a Radiodifusão (2001) Esta Carta foi adoptada por profissionais de media e organizações internacionais de media e de direitos humanos, numa conferência da UNESCO para celebrar 10 anos da
50 http://www.sadc.int/key_documents/declarations/ict.php.

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Declaração de Windhoek. Apesar de não ter sido endossada por qualquer estrutura dos países membros, ela representa um consenso que orienta peritos Africanos e outros sobre liberdade de expressão e media. A Carta específica, entre outras coisas, que deve haver um sistema tridimensional de radiodifusão (público, comercial e comunitário); exige que “toda a radiodifusão controlada pelo estado e pelo governo seja transformada em serviço público de radiodifusão”, e estabelece que quadros regulatórios devem ser baseados no “respeito pela liberdade de expressão, diversidade e a livre circulação de informação e ideias”.

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A Constituição de Moçambique

A Constituição da República de Moçambique garante o direito individual `a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e o direito `a informação. Estes direitos humanos fundamentais foram primeiro consagrados na Constituição de 1990 e alargados na Constituição de 2004. A Constituição também deixa claros os direitos dos profissionais de media, incluindo (o que é pouco comum) o direito de proteger as suas fontes de informação. Eis, na integra, o conteúdo do Artigo 48 da Constituição:
1. 2. Todos os cidadãos têm direito à liberdade de expressão, à liberdade de imprensa, bem como o direito à informação. O exercício da liberdade de expressão, que compreende nomeadamente, a faculdade de divulgar o próprio pensamento por todos os meios legais, e o exercício do direito à informação não podem ser limitados por censura. A liberdade de imprensa compreende, nomeadamente, a liberdade de expressão e de criação dos jornalistas, o acesso às fontes de informação, a protecção da independência e do sigilo profissional e o direito de criar jornais, publicações e outros meios de difusão. Nos meios de comunicação social do sector público são assegurados a expressão e o confronto de ideias das diversas correntes de opinião. O Estado garante a isenção dos meios de comunicação social do sector público, bem como a independência dos jornalistas perante o Governo, a Administração e os demais poderes políticos. O exercício dos direitos e liberdades referidos neste artigo é regulado por lei com base nos imperativos do respeito pela Constituição e pela dignidade da pessoa humana.

3.

4. 5.

6.

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A nova Constituição também removeu uma série de limitações `a liberdade de imprensa contidas na versão de 1990, incluindo a disposição segundo a qual o exercício dos direitos acima enumerados podiam ser limitados “pelos imperativos da política externa e da defesa nacional”.51 Outros desenvolvimentos notáveis são as referências específicas nos nºs 4 e 5 do Artigo 48 (acima) ao direito “a expressão e o confronto de ideias das diversas correntes de opinião” nos meios do sector público da comunicação social; a independência dos jornalistas neste sector em relação ao governo e outras forças políticas, bem como a obrigação imposta ao Estado, de garantir a imparcialidade dos media do sector público. De acordo com alguns analistas, estas cláusulas foram introduzidas em resposta a fortes críticas por parte da oposição e de algumas organizações da sociedade civil, sobre interferências do governo no sector público da comunicação social, em particular durante períodos eleitorais. Contudo, a Constituição não determina claramente como é que o estado vai garantir a imparcialidade dos media do sector público, nomeadamente a Rádio Moçambique e a Televisão de Moçambique, bem como as rádios comunitárias sob a tutela do Instituto de Comunicação Social, financiado pelo Estado. A Constituição de 2004 introduz igualmente importantes disposições relativamente aos direitos dos partidos políticos `a cobertura das suas actividades políticas pelos dois órgãos públicos de radiodifusão, a RM e a TVM. O Artigo pertinente também garante os direitos das organizações da sociedade civil e sindicatos a serem ouvidos através dos serviços públicos de rádio e televisão. As formas de acesso a tempo de antena destes órgãos públicos de comunicação social deve, contudo, ser definido em lei específica, entretanto ainda inexistente. O Artigo 49 da Constituição estabelece o seguinte, a esse respeito:
1. Os partidos políticos têm o direito a tempos de antena nos serviços públicos de radiodifusão e televisão, de acordo com a sua representatividade e segundo critérios fixados na lei. 2. Os partidos políticos com assento na Assembleia da República, que não façam parte do Governo, nos termos da lei, têm o direito a tempos de antena nos serviços públicos de radiodifusão e televisão, de acordo com a sua representatividade para o exercício do direito de resposta e réplica política às declarações políticas do Governo. 3. O direito de antena é também garantido a organizações sindicais, profissionais
51 O Artigo 74, nº4, da Constituição da República de 1990 estabelece que “o exercício dos direitos e liberdades referidos neste artigo será regulado por lei com base nos imperativos do respeito pela Constituicao, pela dignidade da pessoa humana, pelos imperativos da política externa e da defesa nacional”.

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e representativas das actividades económicas e sociais, segundo critérios fixados na lei. 4. Nos períodos eleitorais, os concorrentes têm direitos a tempos de antena, regulares e equitativos nas estações da rádio e televisão públicas, de âmbito nacional ou local, nos termos da lei.

Contudo, estes importantes comandos constitucionais ainda não foram implementados desde a promulgação da Constituição em Janeiro de 2005, dependendo da sua regulamentação, a ser estabelecida em lei específica, como acima mencionado. Espera-se que a futura lei da Rádio e Televisão, ora em preparação, seja elaborada tendo em conta estes princípios políticos fundamentais. O pacote da legislação eleitoral aprovado em Julho de 2007 para o ciclo eleitoral de 2008–2009 (eleições municipais, das assembleias provinciais e eleições gerais) inclui uma cláusula específica sobre a cobertura de eleições pelos media do sector publico, e que estabelece o seguinte:
Sempre que os órgãos de informação escrita (do sector publico) incluam informações relativas ao processo eleitoral, devem reger-se por critérios de absoluta isenção e rigor, evitando a deturpação dos assuntos a publicar e quaisquer discriminação entre as diferentes candidaturas.52

A Constituição também cria o Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS). O CSCS é um órgão estatutário independente que regula a conduta profissional dos media e lida com reclamações do público sobre o trabalho do sector. O CSCS igualmente emite parecer prévio `a decisão de licenciamento pelo governo de canais privados de televisão e rádio, bem como “intervém” na nomeação e exoneração dos gestores dos órgãos de comunicação social do sector público. Com efeito, a nova Constituição protege a liberdade de expressão e de imprensa e está, por conseguinte, em consonância com os dispositivos da Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em Africa. Isto mesmo é reconhecido pelo índice da Liberdade de Imprensa da organização “Repórteres Sem Fronteiras” que, em 2007, coloca Moçambique na posição favorável de 73, numa lista de 166 países de todo o mundo. Ao mesmo tempo, este ranking mostra que permanecem ainda consideráveis défices quando se trata da concretização destes direitos constitucionais.
52 Artigos 32 da Lei n˚7/2007, de 26 de Fevereiro de 2007, sobre a eleicao do Presidente da Republica e dos Deputados da Assembleia da Republica; e artigo 35 da Lei nº18/2007, de 18 de Julho, sobre as eleicoes dos Orgaos das Autarquias Locais.

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O relatório do Instituto de Comunicação Social da Africa Austral (MISA) sobre o estado da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão na região em 200753 denuncia “uma nova táctica como tentativa de silenciar a imprensa – nomeadamente a exigência de somas exorbitantes de indemnizações em casos judiciais, muito acima do que a imprensa podia pagar”, exigidas por figuras públicas, alegando ofensas `a sua reputação, quando a imprensa pública notícias expondo práticas corruptas e outras formas de má conduta, especialmente na administração pública. Ilustrando isto, o relatório anual do MISA cita um oficial de alta patente do Ministério do Interior que exigiu uma compensação de 500.000 Meticais (cerca de US$ 20.000, ao cambio de 2008) junto do editor do jornal electrónico TribunaFax em Fevereiro de 2008, por alegada calunia e difamação, uma ofensa criminal na Lei de Imprensa moçambicana (ver secção 4.3 deste capítulo). Contudo, o tribunal apenas sentenciou o editor a uma multa de 45.000 Meticais. De igual modo, o Procurador Geral a República, intentou uma acção judicial contra o semanário independente Zambeze em Abril de 2008, na qual reivindicava uma indemnização de cerca de US$ 10.000 do jornal, por ofensa `a sua reputação. Contudo, o Conselho Superior da Magistratura Judicial decidiu anular este caso, em Fevereiro de 2009, depois de intensos protestos na imprensa. O assassinado do gestor de media e jornalista investigador Carlos Cardoso, em Novembro de 2000, bem como casos reportados de intimidação a profissionais de imprensa por figuras políticas ou forças de segurança54 demonstram que sectores poderosos da sociedade moçambicana podem recorrer a medidas extremas para desafiar os princípios democráticos da liberdade de imprensa e de expressão. Tem sido a imprensa escrita independente aquela que geralmente se acha na linha de fogo. Além dos processos judiciais, um caso de violência ocorreu a 22 de Julho de 2007, quando seis homens armados assaltaram o semanário Magazine Independente, ferindo um dos guardas do jornal e roubando 12 computadores. Os assaltantes fecharam os jornalistas dentro da casa de banho; porém não lhes fizeram qualquer mal. O director do jornal, Salomão Moyana, bem como analistas de imprensa em Maputo, acreditam que este estranho ataque visava silenciar ou intimidar a publicação. Todos estes incidentes têm um efeito de “esfriamento” sobre a imprensa e minam a liberdade de expressão e da imprensa em Moçambique. O público no pais compreende, obviamente, a importância de uma imprensa livre. A fim de consubstanciar os seus relatórios anuais, o MISA-Moçambique realiza pesquisas sobre as percepções do público sobre a imprensa.55 Os resultados da pesquisa
53 So This is Democracy? Report on the state of media freedom, and freedom of expression in Southern Africa in 2007. 54 See MISA, So This is Democracy? State of media freedom in Southern Africa 2006, pp. 47–48. 55 MISA-Mocambique (2005, 2006, 2007), Relatório Anual sobre o Estado da Liberdade de Imprensa 2004, 2005, 2006, Maputo.

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de 2007 indicam o seguinte: 72,8 por cento das pessoas entrevistadas pensam que toda a imprensa, independentemente das suas opiniões, tem o direito de existir; 52,7 por cento são da opinião que a imprensa deve poder publicar todos os assuntos sem enfrentar quaisquer ameaças; e 80,7 por cento pensam que os cidadãos devem ser activos em questionar e debater o papel e as actividades da própria imprensa. Contudo, as organizações da sociedade civil (OSC) em Moçambique encontram-se ainda na sua infância, e o impacto das suas intervenções em áreas cruciais da governação e democracia é “universalmente fraco”, de acordo com um relatório sobre o estado das OSC no pais, intitulado “índice da Sociedade Civil em Moçambique”, lançado em Julho de 2008 em Maputo.56 Organizações de media, como o Sindicato Nacional de Jornalistas (SNJ) e o MISAMoçambique, por outro lado, têm estado activas na promoção dos direitos `a liberdade de expressão e na exposição de quaisquer violações. Outras OSC, como o Centro de Integridade Pública (CIP) e a Liga dos Direitos Humanos57 têm também tido voz na denúncia a violações destes direitos e na provisão de apoio legal a vítimas. Os exemplos acima indicados – e existem muitos mais – mostram claramente que, apesar dos princípios constitucionais e garantias de liberdade de expressão, o ambiente político, económico e cultural no qual a sociedade como um todo está embebida ainda coloca sérios obstáculos ao pleno exercício destes direitos fundamentais.

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Leis gerais de imprensa e regulamentos

Desde 1991, quando foi aprovada a Lei de Imprensa, o governo introduziu uma série de outros instrumentos legais na área dos media, adicionalmente a outros, adoptados antes da constituição democrática de 1990 ou herdados dos Códigos civil e penal Portugueses. Algumas destas leis são presentemente alvos de revisão. O Governo lançou um processo para a preparação da Lei da Rádio e Televisão destinada a estabelecer um quadro legal específico para regulamentar a cada vez crescente indústria da radiodifusão no pais. O governo está igualmente a conduzir um processo de revisão da Lei de Imprensa de 1991, de forma a conforma-la com a nova Constituição de Novembro de 2004 (incluindo a remoção da limitação `a liberdade de imprensa devida a considerações de defesa nacional e de politica externa, como estabelece a Constituição de 1990). Duas organizações da sociedade civil, o MISAMoçambique e o SNJ, foram convidadas a fazer parte de um grupo técnico de trabalho
56 In: Índice da Sociedade Civil em Moçambique, 2007. FDC, July 2008. Available at: http://www.undp.org.mz/en/what_ we_do/poverty_and_hiv_aids/publications/indice_da_sociedade_civil_em_mocambique_2007. 57 http://www.ldh.org.mz.

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que deve realizar o trabalho. O grupo foi estabelecido em 2008, sem representação de partidos políticos.

3.1 A Lei de Imprensa Moçambicana
Apesar de se designer por Lei de Imprensa, este dispositivo legal é, na realidade, uma lei geral da comunicação social, que cobre todo o sector, quer público quer privado, impresso ou da radiotelevisão, bem como o cinema e quaisquer formas de comunicação audiovisual disseminado para o público em geral.58 A lei define os princípios que regem a actividade da imprensa e estabelece os direitos e deveres dos jornalistas. Contudo, a Lei de Imprensa não menciona a rádio comunitária ou quaisquer outras formas de media comunitária. O Artigo 2 da Lei de Imprensa assegura a liberdade de expressão e informação bem como a independência dos jornalistas e a protecção `as fontes, nos mesmos termos da Constituição. O Artigo 3 consagra o direito `a informação, que ela define como “a faculdade de cada cidadão se informar e ser informado de factos e opiniões relevantes (...) bem como o direito de cada individuo divulgar informação, opiniões e ideias através da imprensa”. O Artigo 11 clarifica as funções da imprensa do sector público, e orienta-o no sentido de “garantir uma cobertura noticiosa imparcial, objectiva e equilibrada”. A lei consagra as seguintes funções do sector público da imprensa:
a) b) c) d) Promover o acesso dos cidadãos `a informação em todo o pais; Garantir uma cobertura noticiosa imparcial, objectiva e equilibrada; Reflectir a diversidade de ideias e correntes de opinião de modo equilibrado; Desenvolver a utilização das línguas nacionais.

Aqui uma vez mais, a Constituição de 2004 reforça o princípio da independência da imprensa do sector público, dizendo explicitamente que esta independência é em relação ao “Governo, a Administração e os demais poderes políticos”. De acordo com o Artigo 11, a imprensa do sector público íntegra “a radiodifusão nacional, a televisão nacional, a agência noticiosa nacional e as demais empresas e instituições criadas para servir o interesse público nesse domínio”. Os jornais de capitais maioritariamente públicos – Notícias e Domingo – ou qualquer outra imprensa escrita do sector público não estão inclusos na definição legal de imprensa do sector estatal/público.
58 Nota: Na proposta da Revisão da Lei de Imprensa (Dezembro de 2007) as matérias pertinentes `a regulamentação da radiodifusão, cinema e do CSCS foram retiradas, sugerindo-se ao governo o seu tratamento em legislação especifica para cada uma destas áreas.

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O nº3 do Artigo 6 afirma que o Estado pode adquirir participações em órgãos de informação que não façam parte do sector público, ou determinar outras formas de subsídio, se tal justificar-se com base em critérios de interesse público. Contudo, a lei não define, em momento algum, o que pode constituir tal “interesse público”. Esta disposição dá azo a que o governo possa intervir para “salvar” imprensa em estado de falência ou a intervir de outra forma para reforçar a diversidade dos media no pais.59 Esta disposição atraiu muita crítica por parte das organizações de media envolvidas na revisão da lei de imprensa. De acordo com o seu ponto de vista, uma tal intervenção governamental poderia distorcer as leis do mercado e colocar em perigo a independência da imprensa privada. Assim, o grupo técnico acordou na remoção desta disposição – apesar da mesma nunca ter sido usada até agora.

3.2 Registo de imprensa escrita
Em Moçambique, a imprensa escrita e audiovisual estão estritamente regulamentadas. O nº1 do Artigo 19 da Lei de Imprensa estabelece que “antes da sua publicação todos os órgãos de informação estão sujeitos a registo”. Contudo, as publicações e material audiovisual produzido por entidades estatais, empresas, organizações, estabelecimentos de educação e de pesquisa podem ser isentos do registo obrigatório a pedido das partes interessadas. O registo de toda a imprensa – escrita e audiovisual, pública e privada – é administrado pelo Gabinete de Informação (GABINFO) do governo. O Gabinete substitui parcialmente o antigo Ministério da Informação, o qual foi abolido a seguir `as primeiras eleições multipartidárias de Moçambique, ocorridas em 1994. O GABINFO foi criado através de Decreto Presidencial em Outubro de 1995, sendo directamente subordinado ao Primeiro-Ministro. O Primeiro-Ministro nomeia o Director do GABINFO apoiado pelo Conselho de Ministros. Por seu lado, o GABINFO exerce funções de supervisão sobre as instituições do sector público da imprensa. O processo do registo da imprensa inclui requisitos indicados com detalhe, quer na Lei de Imprensa quer em decretos específicos, que estabelecem condições para a operação de todos os tipos de media, com a excepção da Internet. Apesar de todas as exigências burocráticas a serem observadas, o registo de imprensa é um simples processo administrativo, com o único propósito de compilação e arquivo de dados, sendo que o requerente recebe a carta do registo num período de cinco dias e sem quaisquer custos. Os nºs 1 e 2 do Artigo 22 da Lei de Imprensa tratam das situações de recurso de
59 SADC Media Law. A Handbook for Media Practitioners. The Republic of Mozambique. An overview of media law and practice in Mozambique, Konrad Adenauer Stiftung, Johannesburg, 2006, p. 37.

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registo, estabelecendo o seguinte: “O registo só será recusado quando não se mostrem preenchidos os requisitos previstos na declaração ou os pressupostos legais para o exercício da actividade”, e “ a recusa de registo será objecto de despacho fundamentado indicando claramente os motivos da recusa”. Não ocorreu, até agora, qualquer recusa de registo de imprensa.

3.3 Limitações a propriedade estrangeira e cruzada
O nº5 do Artigo 6 da Lei de Imprensa estabelece que “só podem ser proprietários dos órgãos de informação e das empresas jornalísticas as instituições e associações moçambicanas e cidadãos moçambicanos residentes no pais que se encontrem no pleno gozo dos seus direitos civis e políticos”. O investimento estrangeiro ou posse de acções estão limitados a 20 por cento do capital social, no máximo. Os Directores e Editores devem ser de nacionalidade moçambicana e residentes no pais. Não tem havido muito debate em torno da limitação do investimento estrangeiro nas empresas de media e esta cláusula foi mantida na proposta de revisão da Lei de Imprensa, apesar de que mais investimento estrangeiro poderia possibilitar maior desenvolvimento e expansão do sector, designadamente da radiotelevisão, incluindo a introdução das mais recentes tecnologias. Relativamente `a propriedade cruzada, o nº8 do Artigo 6 afirma: “Com o fim de garantir o direito dos cidadãos `a informação, o Estado observará uma política antimonopolista, evitando a concentração dos órgãos de informação”. Não foram tomadas quaisquer medidas práticas de regulamentação desta disposição e a concentração de media em Moçambique ainda não constitui assunto relevante. Todas as empresas jornalísticas são economicamente fracas e apenas o Grupo SOICO (Sociedade Independente de Comunicação) detêm um número de diferentes órgãos de informação (televisão STV, Rádio SFM e o diário O Pais).

3.4 O Conselho Superior da Comunicação Social
O Conselho Superior da Comunicação Social, (CSCS) é um órgão que se supõe independente, estabelecido para garantir “a independência dos meios de comunicação social no exercício dos direitos `a informação, `a liberdade de imprensa, bem como dos direitos de antena e de resposta”.60 Os nºs 3, 4 e 5 do Artigo 50 da Constituição da República estabelece as funções do CSCS como se segue:
60 Nº1 do Artigo 50.

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3. O Conselho Superior da Comunicação Social emite parecer prévio à decisão de licenciamento pelo Governo de canais privados de televisão e rádio. 4. O Conselho Superior de Comunicação Social intervém na nomeação e exoneração dos directores gerais dos órgãos de Comunicação Social do sector público, nos termos da lei. 5. A lei regula a organização, a composição, o funcionamento e as demais competências do Conselho Superior da Comunicação Social.

Nos termos do Artigo 36 da Lei de Imprensa, o CSCS regula a conduta ética e profissional dos media, procurando “velar pelo rigor e objectividade no exercício da actividade profissional na área da imprensa”. A Constituição e a Lei de Imprensa de forma repetida preconizam que o CSCS aja ou emita pareceres “nos termos da lei”, a qual deve descrever em pormenor os poderes e funcionamento do órgão. Contudo, tal lei jamais existiu, desde a entrada em funções do CSCS em 1992, e assim as deliberações e decisões do conselho não são baseadas em princípios e regulamentos claros e do domínio público. O Diploma Inter-Ministerial nº86/98 de 15 Julho de 199861 alista as seguintes funções gerais do CSCS:62
• • • • Assegurar o exercício do direito `a informação e a liberdade de imprensa; G arantir a independência e imparcialidade dos órgãos de informação do sector público, bem como a autonomia das profissões do sector; A ssegurar o direito de antena e de resposta referidos nos artigos 12 e 33 da presente lei; Velar pela respeito da ética social comum.

Estas “normas éticas” não são especificadas e o CSCS não estabeleceu quaisquer mecanismos de consulta com jornalistas ou aproximou-se deles para discutir um código de conduta no qual tais normas éticas pudessem ser definidas e acordadas. O Artigo 3 do Diploma acima mencionado elabora sobre os poderes do CSCS relativamente a reclamações do público, como se segue:
• I nvestigar reclamações feitas pelo público em relação ao desempenho de

61 Diploma Ministerial n˚86/98 de 15 Julho 1998. Era um diploma ministerial conjunto dos Ministérios da Administração Estatal, Justiça, Trabalho e do Plano e Finanças, destinado principalmente a estabelecer as funções e os custos administrativos do CSCS. 62 A substância deste Diploma Ministerial acha-se contudo esvaziado pela Constituição da República de 2004, a qual, no seu Artigo 50, “reduz” o CSCS a mero orgao de “disciplina e consulta”.

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• • •

qualquer órgão de informação; D ecidir sobre reclamações que lhe sejam dirigidas respeitantes `as condições de acesso aos direitos de antena e de resposta política; Zelar pelo cumprimento dos princípios deontológicos dos jornalistas; Zelar pelo respeito das normas no dominio de publicade comercial.

O CSCS é integrado por 11 membros, dos quais dois nomeados pelo Presidente da República – incluindo o Presidente do órgão – e cinco eleitos pela Assembleia da República, de acordo com o princípio da representação proporcional dos partidos políticos com assento no órgão legislativo: presentemente são três indicados pela Frelimo e dois pela Renamo. Três membros da classe jornalística são indicados pelo Sindicato Nacional de Jornalistas (SNJ) através do respectivo Secretariado Executivo, e as empresas jornalísticas são representadas por um membro, indicado pela Associação de Empresas Jornalísticas (AEJ). Nos termos da Constituição de 2004, o CSCS denota sujeição a um maior controlo político, através de uma maior representação do Parlamento, o que torna o órgão fortemente dependente do Presidente da República e do partido maioritário no parlamento. Assim, dos 11 membros do órgão, sete são indicados por confiança política e apenas três são provenientes da imprensa. Por outro lado o CSCS não inclui qualquer representação da sociedade civil. O modus operandi do CSCS tem sido consistentemente contestado, quer pelos jornalistas, quer pelas empresas de media, e a maioria das deliberações do CSCS em resposta a reclamações dirigidas ao órgão, por figuras alegando difamação, têm sido contra a imprensa. Não foi possível ter acesso a qualquer documento público relatando as actividades mais recentes do CSCS, para esta pesquisa: devido a divergências internas, os membros do CSCS não aprovaram o relatório cobrindo o segundo período do mandato do órgão (2004-2007). De acordo com o Vice-Presidente do órgão, Leandro Paul, o desacordo entre os membros emergiu em torno de “uma série de assuntos, incluindo os relatórios financeiros”.63 O fraco desempenho e falta de visibilidade pública do CSCS pode também reflector a sua pouca credibilidade, capacidade analítica e capacidade de relações públicas.

3.5 Regulamentação da publicidade
Através do Decreto nº65/2004, de 31 de Dezembro de 2004, o governo aprovou
63 Leandro Paul, Vice-Presidente do CSCS entrevistado pelo autor em Maputo no dia 21 de Julho de 2008.

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o Código de Publicidade, instrumento legal que rege a publicidade e a actividade publicitária. Isto resultou de um debate público encabeçado pela. Associação das Empresas de Publicidade (AEP). O Artigo 5 do Código proíbe a publicidade que, pela sua forma, objecto ou fim, ofenda os valores, princípios e instituições fundamentais constitucionalmente consagrados. Em particular, é proibida a publicidade que “se socorra, depreciativa e ofensivamente, de instituições públicas ou privadas, símbolos nacionais ou religiosos ou personagens históricas”. As raízes destas disposições específicas remontam a práticas da era do regime socialista, quando alguma publicidade produzida pela (entretanto defunta) empresa estatal de marketing e publicidade, Intermarket, servia-se de heróis nacionais e ícones nacionais para campanhas de marketing social sobre temas como saúde pública, educação, etc. Na sequência deste exemplo, a recentemente criada empresa nacional de telefonia móvel, Moçambique Celular (Mcel) levou a cabo extensas campanhas de marketing usando ícones nacionais tais como o primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel, para publicitar a sua marca. A ideia era associar a Mcel a valores nacionalistas, em oposição a sua rival recentemente estabelecida, a Vodacom, propriedade da Vodacom Africa do Sul e pela empresa moçambicana EMOTEL. Esta campanha originou um debate público que terá produzido algum consenso no sentido da proibição de recurso a símbolos nacionais e/ou personalidades históricas para anúncios publicitários. O Código também proíbe a publicidade que estimule ou faça apelo `a violência, bem como a qualquer actividade ilegal ou criminosa; atente contra a dignidade da pessoa humana ou quaisquer outros direitos fundamentais; utilize linguagem, imagem ou a voz, palavras ou ideias de uma pessoa sem a sua autorização; utilize linguagem, imagem ou gestos obscenos. Estes princípios foram estabelecidos em resposta a várias reclamações do público contra a proliferação de anúncios publicitários transportando conteúdo considerado ofensivo para a ética social comum e/ou por violar direitos autorais de terceiros através do uso não autorizado da sua imagem, voz, palavras ou ideias.

3.6 Auto-regulação dos media
Tem havido esforços por parte dos jornalistas no sentido de adopção de mecanismos de auto-regulação. Nas vésperas das eleições municipais de 1998, a rede nacional de rádios comunitárias, através da sua Unidade de Coordenação,64 elaborou um Código
64 Em Abril de 2004, esta “Unidade de Coordenação” liderou o processo da criação do Fórum Nacional das Rádios Comunitárias (FORCOM).

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de Conduta das Dez Regras para a Cobertura de Eleições. O Código foi adoptado depois de debates em seminários organizados a partir do nível de distrito até ao nível provincial e posteriormente assinado por todas as partes interessadas – incluindo as rádios “comunitárias” tuteladas pelo Instituto de Comunicação Social (ICS). O Código apela `as rádios comunitárias para contribuírem activamente para a educação dos eleitores e a absterem-se de vender tempo de antena a partidos políticos e candidatos, para efeitos de propaganda eleitoral. Um processo visando monitorar o seguimento do Código foi implementado, tendo mostrado que o mesmo ajudou as pequenas rádios comunitárias nas zonas rurais a protegerem-se do perigo de serem envolvidas em disputas políticas entre as partes em competição.65 Em preparação das eleições municipais de 2003 e das eleições gerais de 2004, 17 editores representando os principais órgãos de informação convencionais do pais, assinaram um Código de Conduta de Cobertura de Eleições. O Código apelava para uma cobertura “imparcial e equilibrada” do processo eleitoral e para que os jornalistas não aceitassem subornos e se abstivessem de desempenhar funções assessores de comunicação de partidos políticos ou de candidatos. O capítulo moçambicano do Instituto de Comunicação Social da Africa Austral (MISA-Moçambique), liderou, a partir dai, um processo para a elaboração de um novo Código de Conduta para as eleições municipais de Novembro de 2008 e as eleições gerais de Outubro de 2009, em parceria com o Sindicato Nacional de Jornalistas (SNJ). Perto de 20 editores representando diferentes órgãos de informação, quer do sector público, quer do sector privado, rubricaram o Código e comprometeram-se a aderir a ele. Pela primeira vez um Grupo Técnico de Monitoria foi criado para seguir e documentar a conduta dos media de forma profissional, sistemática e objectiva, em cumprimento dos princípios éticos acordados. No final, o Grupo Técnico produziu um relatório, que foi discutido e aprovado pelos editores. O mesmo processo de monitoria foi realizado em realizado em relação `a cobertura das eleições legislativas, presidenciais e das assembleias provinciais, ocorridas em Outubro de 2009.

4 Outras leis com impacto sobre a imprensa e a liberdade de expressão
4.1 A luta pelo direito `a informação
Moçambique herdou de Portugal uma filosofia de Estado baseada em sistemas burocráticos opacos e secretismo em torno de assuntos de interesse público.
65 A. Sales, UNESCO/UNDP, Projecto de Desenvolvimento dos Media. Relatório de Novembro de 2003: Participação das Rádios Comunitárias na Educação Vivida e Cobertura Eleitoral. Ver em particular, p.29: “As Dez Regras de Conduta”.

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Adicionalmente, durante os 16 anos de guerra, foi introduzida uma mão cheia de leis e de práticas na administração pública, em nome da “segurança nacional”, que se encontram ainda em vigor, não tendo sido substituídos por leis susceptíveis de garantir o gozo do direito dos cidadãos `a informação consagrado na constituição. Esta cultura de secretismo oficial vai-se agudizando `a medida que mais nos afastamos das principais cidades do pais, nomeadamente Maputo, Beira e Nampula, em direcção `as capitais provinciais e aos distritos, onde um grande “défice na cultura de informação” nas instituições públicas dá azo a notícias baseadas no rumor em alguns órgãos de informação locais.66 Com vista a contribuir para o estabelecimento de uma legislação de acesso `a informação, o MISA-Moçambique, em colaboração com outras ONGs e entidades governamentais, encabeçou um processo de debate nacional de dois anos, durante o qual uma proposta de projecto de Lei de Acesso `a Informação Oficial foi preparada. Várias ONGs, tais como o Grupo Moçambicano da Divida (GMD), a Liga Moçambicana dos Direitos Humanos e o Sindicato Nacional de Jornalistas, bem como figuras académicas, jogaram papel importante durante o processo. A campanha culminou com a entrega oficial da proposta de projecto de Lei `a Assembleia da República, em Novembro de 2005, para possível debate e aprovação pelo mais alto órgão legislativo do pais. Até `a altura da elaboração do presente relatório, o Parlamento não tinha, contudo, agendado qualquer debate em torno desta proposta. Dada a aparente apatia do Parlamento, o MISA está agora a considerar mudar de estratégia, fazendo “lobbies” junto do Governo e do Presidente da República, Armando Guebuza, visando agilizar a aprovação de tal lei, que vai responder a um comando constitucional (cfr. Art.48 da CRM). A persistência de uma forte cultura de secretismo na administração pública e o facto de que dispositivos constitucionais, por si sós, não garantem os direitos dos cidadãos foi ilustrada, de forma eloquente, durante uma controvérsia muito mediatizada em Dezembro de 2006, sobre uma suspeita de má gestão das reservas de água da Barragem de Cahora Bassa durante as cheias que devastaram o Vale do Zambeze nesse ano. Algumas ONGs solicitaram `a empresa Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), gestora da barragem informação detalhada sobre o volume de águas libertadas pela barragem para o Rio Zambeze durante a estacão chuvosa. Elas basearam o seu pedido no direito dos cidadãos `a informação, tal como consagrado na alínea 1, do Artigo 48 da Constituição da Republica. Perante a relutância da empresa em responder ao pedido, uma ONG, a Justiça Ambiental, recorreu `a Procuradora da
66 T. Mário, “Mocambique: 15 anos de Liberdade de Imprensa”, Domingo, Maputo, 6 de Agosto de 2006.

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República da Cidade de Maputo, a qual decidiu enviar uma carta `a HCB, exortando esta empresa pública a providenciar a informação solicitada. A HCB ignorou a ordem, pura e simplesmente. Falando numa Conferência Nacional sobre “Direito `a Informação e Boa Governação” realizada em Maputo em Abril de 2006, o Secretário Geral do Sindicato Nacional de Jornalistas, Eduardo Constantino, disse que “o acesso a fontes oficiais de informação é a principal barreira `a liberdade de imprensa em Moçambique”. A falta de legislação específica sobre o acesso `a informação oficial encoraja entidades públicas a fecharem as suas portas aos jornalistas e outros pesquisadores, sob o pretexto de honrar “confidencialidade” e manter “segredos de estado”.

4.2 Leis sobre segredo de estado
A Lei nº12/79 de 12 de Dezembro de 1979, define o regime jurídico da protecção do segredo de estado. Ela foi introduzida em ambiente revolucionário, ao qual se seguiu um conflito armado de 16 anos (1976–1992), mantendo-se em vigor até presentemente. A lei foi concebida para a protecção de um estado de partido único. Por conseguinte a sua definição de “segredo de estado” é algo aberta, “ambígua e susceptível a interpretações subjectivas por entidades públicas”.67 Nos termos do seu Artigo 1, a lei destina-se a proteger o segredo do estado em relação a todos os documentos contendo factos classificados e informação. O Art.4 da referida lei define “documentos classificados” nos seguintes termos. Documentos classificados:
são aqueles que contêm dados ou informações militares, políticas, económicas, comerciais, científicas, técnicas, ou quaisquer outras [nosso sublinhado] cuja divulgação ponha em causa, prejudique, contrarie, ou perturbe Segurança do Estado e do Povo, ou a economia nacional.

Nos termos do Artigo 2, o Director do Director do Serviço Nacional de Segurança Popular (SNASP),68 é a pessoa com competência para providenciar “as necessárias instruções” destinadas a assegurar a protecção do segredo de estado tal como estipulado nesta lei. A Lei não se destina especificamente `a imprensa; porém as suas disposições têm impacto directo sobre sobre o desempenho do sector. Elas impõem fortes restrições sobre a liberdade de informação por bloquear o acesso a documentos oficiais e dados
67 MISA, Proposta de Projecto de Lei de Acesso `a Informação, Maputo 2005. 68 Como parte dos Acordos de Paz de Roma, que restabeleceram a paz em 1992, o Serviço Nacional de Segurança Popular (SNASP), considerado como uma polícia política, foi extinto e, em sua substituição, foi criado o Serviço de Informação do Estado (SISE), apartidário, em 1993.

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contendo informação de interesse púbico. O problema mais premente é a ausência de quaisquer excepções ou de disposições específicas que expliquem de forma clara as razões que podem justificar tal retenção de informação, o nível de perigo ou prejuízo que justificaria tal retenção e como diferentes interesses se poderiam harmonizar antes que qualquer informação seja bloqueada. Nos termos do Artigo 10, a não observância desta lei, que se traduz em crimes contra a segurança nacional e a segurança do estado, deve ser decidida e punida nos termos do Artigo 23 da Lei dos Crimes Contra a Segurança do Estado (Lei nº19/91, de 18 de Agosto). A revelação de qualquer informação não autorizada e que seja objecto de protecção legal é punível com penas de prisão que vão de três meses a dois anos – se a informação revelada for classificada como “confidencial”; por dois a oito anos – se a informação revelada for classificada como “secreta”, e por oito a 12 anos – se a informação revelada for classificada como “Segredo de Estado”. Entretanto, o Artigo 29 da Lei de Imprensa estabelece o seguinte:
O acesso `as fontes de informação não será consentido em relação aos processos em segredo de justiça, aos factos e documentos considerados pelas entidades competentes segredos militares ou segredo de Estado, aos que sejam secretos ou confidenciais por imposição legal e, ainda, aos que digam respeito `a vida privada dos cidadãos.

Alguns juristas consideram que este artigo cria uma séria confusão de interpretação legal, por colocar a figura do segredo de estado ao lado do bloqueio de informação com a finalidade de assegurar a presunção de inocência de pessoas sujeitas de processos judiciais.69

4.3 Difamação através da imprensa como ofensa criminal
A difamação a determinadas figuras de alto nível é considerada um crime contra a segurança do estado, nos termos do Artigo 22 da Lei dos Crimes contra a Segurança do Estado. Nos termos deste artigo, a publicação de informação susceptível de ser considerada como ofensa `a reputação do Presidente da República, do Presidente da Assembleia da República, dos membros do Conselho de Ministros, dos juízes do Tribunal Supremo e dos juízes do Conselho Constitucional, bem como dos
69 T. Hunguana, “Que precauções garantir numa eventual revisão da Lei de Imprensa?”, texto publicado no jornal Demos, de 21 de Agosto de 2001. A difamação na Lei de Imprensa, obedecendo `a lei penal comum, encontra-se, por conseguinte, nos termos do Código Penal Português de 1886, nunca revisto desde a independencia de Moçambique em 1975.

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Secretários-Gerais de partidos políticos, é considerada um crime contra a segurança do estado, sujeito a entre um a dois anos de prisão. Os Artigos 41 e 49 da Lei de Imprensa abordam as ofensas descritas como “abuso da liberdade de imprensa”, em que se inclui a figura da difamação. Diz o seguinte o Artigo 42:
1. São considerados crimes de abuso da liberdade de imprensa os factos ou actos voluntários lesivos de interesses jurídicos penalmente protegidos que se consumam pela publicação de textos ou difusão de programas radiofónicos ou televisivos ou imagem através da imprensa. 2. Aos crimes de imprensa é aplicável a legislação penal comum, com as especificidades previstas no presente capitulo.

Note-se que a “a lei criminal normal” aqui referida é o Código Penal, um velho tomo de 122 anos, que foi promulgado em Setembro de 1886 pelo governo (colonial) português, baseado nas leis imperiais Napoleónicas, destinadas a proteger a reputação de figuras públicas. Apesar de ter sido revisto inúmeras vezes em Portugal, desde o estabelecimento da democracia naquele pais em 1974, este Código Penal tem permanecido sem revisão em Moçambique desde a independência em 1975. Em 2005, o governo iniciou o processo para a revisão quer do Código Penal quer do Código do Processo Penal através de uma instituição governamental especializada, a Unidade Técnica de Reforma Legal, UTREL.70 “É um processo complexo, que requer tempo e dedicação”, disse a Ministra da Justiça, Esperança Machavela, durante um debate público sobre o “estado da justiça em Moçambique”, na Universidade Politécnica, em Maputo, em Junho de 2007. O processo não tinha ainda sido concluído na altura da elaboração desde relatório. No seu Artigo 47, a Lei de Imprensa consagra tutela penal `a publicação de factos ofensivos sobre a vida privada ou da família. Tal protecção alarga-se ao Presidente da República, um membro do governo, um membro do parlamento e outras autoridades públicas ou a um chefe de estado estrangeiro ou seu representante em Moçambique. O artigo diz expressamente “não é admitida a prova da verdade dos factos se o ofendido for o Presidente da República ou, havendo reciprocidade, Chefe do Estado estrangeiro ou seu representante em Moçambique”. O Grupo de Trabalho da revisão da lei de imprensa propôs a eliminação deste artigo. O crime de difamação nos termos da presente Lei de Imprensa é punido com pena de prisão de até dois anos, incluindo indemnizações. Outras penalidades prescritas
70 Documentos sobre a UTREL e processos de revisão da legislação Moçambicana podem ser consultados na seguinte endereço electronico: http://www.utrel.gov.mz.

LEGISLAÇÃO E REGULAMENTAÇÃO DOS MEDIA

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podem incluir a suspensão da publicação em causa (Artigo 48). Os jornalistas que sejam alvos de processos judiciais por crime de “abuso da liberdade de imprensa” podem usar o material das suas gravações ou material impresso para provarem a sua inocência. Recaindo sobre eles uma sentença condenatória, eles podem cumprir até dois anos de prisão e pagar indemnizações como compensação financeira `a pessoa ofendida. Por outras palavras: um mesmo crime de “abuso da liberdade de imprensa” pode ser punidos três vezes (não alternativamente) – com penas de prisão, indemnização e suspensão do órgão de informação.

4.4 Outros dispositivos
Por seu lado, o Artigo 483 do Código Penal também contém uma disposição contra o incitamento público ao crime. Nos termos da alínea e) do Artigo 28 da Lei de Imprensa, os jornalistas devem abster-se de fazer “apologia directa ou indirecta do ódio, racismo, intolerância, crime e violência. A violação destes princípios pode levar `a suspensão do órgão de informação (Artigo 51). Nunca, contudo, tal medida foi aplicada contra um órgão de informação no pais.

5

Jurisprudência

O MISA-Moçambique fez notar no seu Relatório sobre o Estado da Liberdade de Imprensa em 200671 “a tendência crescente para levar jornalistas e órgãos de informação ao tribunal quando eles promovem debate público sobre assuntos de interesse público” e alertou que isto “pode, muito facilmente, transformar os juízes em agentes de censura encapotados”. A organização deplorou igualmente a “tendência de instituições ou indivíduos mencionados pela imprensa pela sua conduta, de recorrer aos tribunais, em vez de fazer uso do seu direito de resposta, previsto na Lei de Imprensa (Artigo 33). De acordo com o relatório, sete jornalistas de diferentes publicações independentes e rádios comerciais locais foram alvos de procedimento judicial intentado por funcionários públicos, pela publicação de informação alegadamente difamatória de acordo com o relatório, em muitos destes casos, os jornalistas envolvidos haviam escrito artigos denunciando condutas corruptas no estado e em outras entidades públicas. Todos os sete acusados foram inicialmente condenados a penas de prisão, variando de três a seis meses; contudo nenhum deles foi de facto conduzido para a
71 Relatório do Estado da Liberdade de Imprensa em Moçambique 2006, MISA-Moçambique, Maputo, Agosto de 2007.

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R A D I O D I F U S Ã O P Ú B L I C A EM ÁFRICA: RELATÓRIO SOBRE MOÇAMBIQUE

cadeia, uma vez que os juízes suspenderam as penas ou as comutaram em multas. Em Setembro de 2003, foi criado um precedente para a transmissão radiofónica e televisiva ao vivo de sessões de julgamentos em Moçambique, quando foi do julgamento dos seis homens acusados do assassinato do proeminente jornalista, Carlos Cardoso, em Novembro de 2000. Nessa altura, Cardoso estava a investigar o maior escândalo financeiro alguma vez registado no pais envolvendo uma fraude bancária de US$ 14 milhões. Sob uma forte pressão da sociedade em geral e da imprensa em particular, o Juiz Augusto Raul Paulino, do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo, decidiu permitir a transmissão directa das sessões de audiência. A sua decisão provocou muitas críticas por parte dos membros mais conservadores do sistema judiciário, bem como por parte dos acusados e dos seus advogados de defesa. Ao rever a decisão do Juiz Paulino e a sentença, em resposta a um recurso interposto pelos réus condenados, o Tribunal Supremo não só confirmou a penas pesadas, de quase 30 anos de cadeia, impostas pelo tribunal inferior sobre o grupo dos seis assassinos comprovados, como também defendeu firmemente a legalidade das transmissões ao vivo das sessões de julgamento. No seu acórdão, o Tribunal Supremo declarou que “a cobertura jornalística de julgamentos respeitantes a crimes de natureza pública e a transmissão em directo de sessões de julgamento não são proibidas por lei e, nos casos de evidente interesse público, justifica-se pelo direito dos cidadãos `a informação”. Contudo, em Agosto de 2007 o Parlamento decidiu pela interdição de transmissões em directo de sessões de julgamento no futuro. Para esse fim, o mais alto órgão legislativo do pais aprovou uma nova lei que proíbe expressamente a transmissão directa de imagem e som de sessões de julgamento, quer ao vivo, quer editadas. O Artigo 13 afirma que “para a salvaguarda da verdade material e dos interesses e direito legalmente protegidos dos intervenientes processuais é proibida a produção e transmissão pública de imagem e som das audiências de julgamento”. A imprensa em Moçambique expressou imediatamente a sua profunda desilusão com a decisão de impedi-la de fazer cobertura aberta de audiências de julgamento e, através das suas organizações socio-profissionais, tomou uma acção urgente: o MISA e o SNJ enviaram uma carta ao Presidente da República, Armando Guebuza, pedindolhe para não promulgar a lei, e pedindo a revisão do artigo sobre a cobertura jornalística de sessões de julgamento. O Presidente acolheu o pedido dos jornalistas, enviando a lei ao Conselho Constitucional para a verificação da sua constitucionalidade. O Conselho Constitucional entendeu que a lei não era inconstitucional, já que ela não viola o princípio constitucional da publicidade das audiências de julgamento, simplesmente por proibir a captação de imagem e som das sessões de julgamento

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para divulgação pública. Adicionalmente, o Conselho Constitucional adianta no seu acórdão dizendo que “a opção por uma proibição absoluta, por uma proibição mitigada ou ainda pela simples permissividade, é fundamentalmente política (...)”. O nº2 do Artigo 65 da Constituição da República estabelece que “as audiências de julgamento em processo criminal são públicas, salvo quando a salvaguarda da intimidade pessoal, familiar, social ou da moral, ou ponderosas razões de segurança da audiência ou de ordem pública aconselharem a exclusão ou restrição de publicidade”. Este caso mostra que a aplicação de comandos constitucionais em consonância com padrões internacionais e Africanos sobre a liberdade de expressão ainda enfrenta sérios obstáculos políticos: o impacto de uma constituição perfeita pode ser mínimo, se os seus comandos não forem traduzidos em legislação ordinária, para orientar juízes e as instituições públicas nas suas decisões do dia-a-dia.

6 Conclusões e recomendações
Moçambique é uma democracia multipartidária emergente, com a Constituição de 2004 garantindo a liberdade de expressão e de imprensa. Isto está em consonância com a Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em Africa e outros instrumentos internacionais. Contudo, na prática o ambiente político, económico e cultural prevalecente ainda coloca sérios obstáculos ao pleno exercício destes direitos fundamentais. A Lei de Imprensa de Moçambique restringe, e em alguns casos, penaliza a disseminação de informação pela imprensa. Ela contém, igualmente, dispositivos que contradizem a Declaração Africana sobre a Liberdade Expressão, onde se pode mencionar a criação do Conselho Superior da Comunicação Social, o qual goza agora de dignidade constitucional, depois de ter sido incluso na Constituição de 2004. A imprensa deverá assumir a sua quota parte de responsabilidade neste caso, pois os seus profissionais jamais tomaram decisões sérias no sentido de adoptar a auto-regulação em Moçambique, tal como sucedeu em outros países africanos – `a excepção de duas experiências de curta duração, relativas `a cobertura de processos eleitorais. Moçambique ainda se ressente de uma herança colonial de uma cultura secretismo em torno de assuntos de interesse público, o qual constitui a principal barreira para uma efectiva liberdade de informação e de imprensa. A falta de uma lei de acesso `a informação sob custódia do estado claramente contradiz as intenções e os dispositivos constantes da Declaração dos Princípios sobre a Liberdade de Expressão em Africa. A maior ameaça `a liberdade de imprensa presentemente é o recurso excessivo aos chamados “crimes de abuso da liberdade de imprensa”, com reacções criminais e civis.

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Recomendações
• A Lei de Imprensa deve ser revista, `a luz da nova Constituição. • Não deve haver ofensas agravadas na forma de difamação e de injúria na Lei de Imprensa. • Casos de difamação devem ser abordados `a luz da lei civil comum que é aplicável a todos os cidadãos, sem agravamentos quando se tratando da imprensa. • Disposições legais consagrando protecção especial a figuras públicas não são adequadas a sociedade democrática – elas devem ser eliminadas. • A Assembleia da República deve dar consideração renovada `a proposta de projecto de Lei de Acesso `a Informação que o MISA-Moçambique preparou e submeteu ao órgão legislativo em Novembro de 2005. • A Assembleia da República deve rever as leis sobre a segurança do estado, de modo a limitar o seu escopo `as medidas estritamente indispensáveis para garantir a segurança pública numa sociedade democrática. • A Assembleia da República deve rever as leis sobre a segurança do estado, de modo a limitar o seu escopo `as medidas estritamente indispensáveis para garantir a segurança pública numa sociedade democrática. • Os propósitos e o papel do Conselho Superior da Comunicação Social devem ser revistos, apesar de se tratar, agora, de um órgão constitucional. Se a revisão chegar `a conclusão de que o Conselho não serve qualquer interesse efectivamente relevante, a sua continuidade deverá ser repensada cuidadosamente, considerando-se a sua substituição por uma entidade de auto-regulação que receba reclamações do público e que seja constituída pelos próprios profissionais de imprensa. • A fraternidade no seio da imprensa deve ser seriamente considerada, incluindo para o estabelecimento de um órgão de auto-regulação e para a adopção de um código de padrões profissionais – tudo em consulta entre os jornalistas e empresas jornalísticas e que seja aceitável para todos – na base do qual deverão ser analisadas as reclamações a serem recebidas junto do público. • Deve ser repensado o papel do Gabinfo como instituição de supervisão do sector público da comunicação social. • A adopção de leis ordinárias, em cumprimento do comando inserido no Artigo 49 da Constituição, o qual determina que aos partidos políticos com assento na Assembleia da República, que não façam parte do Governo, exerçam direito a tempos de antena e de réplica política, deve ser considerada

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como matéria urgente, assegurando-se ao mesmo tempo que outros sectores da sociedade não sejam discriminados. • A limitação ao investimento estrangeiro nas empresas de media deve ser revista.

3
O Panorama da Radiodifusão

1

Operadores estatais/públicos

Integram o sector estatal/público de radiodifusão duas empresas: a Rádio Moçambique (RM) e a Televisão de Moçambique (TVM). Incluso no subsector está igualmente o Instituto de Comunicação Social (ICS), o qual opera uma rede de 24 rádios locais para a promoção do desenvolvimento rural. Muito antes do advento das chamadas rádios comunitárias em outros países africanos, o estado moçambicano estabeleceu, através do ICS, estacões locais para apoiar os camponeses com informação e dar alguma resposta a outros assuntos de desenvolvimento local em áreas situadas longe da capital. A Rádio Moçambique é o principal órgão de comunicação social do pais. Os seus serviços compreendem um canal nacional que transmite 24 horas por dia na Língua Portuguesa a partir da sede, em Maputo e transmite notícias nacionais e internacionais; programas e outra informação de interesse geral. A RM opera ainda com 10 emissores provinciais, que funcionam de forma autónoma e emitem em diferentes línguas nacionais a partir das capitais provinciais. Adicionalmente, a RM opera a Rádio Cidade de Maputo e a Rádio Cidade da Beira bem como um canal de Língua Inglesa, o Maputo Corridor Radio. Apesar de que apenas 47 por cento da população do pais pode compreender, falar e escrever na Língua Portuguesa, esta é, contudo, a “língua oficial” do país, de acordo com a Constituição (Artigo 10). É, por conseguinte, a língua usada na administração pública, na Assembleia da República e nas sessões de julgamento dos tribunais. Contudo, o Artigo 9 da Constituição também declara que “O Estado valoriza as línguas nacionais como património cultural e educacional e promove o seu desenvolvimento

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R A D I O D I F U S Ã O P Ú B L I C A EM ÁFRICA: RELATÓRIO SOBRE MOÇAMBIQUE

e utilização crescente como línguas veiculares da nossa identidade”. De igual modo, a Lei de Imprensa apela ao sector público da radiodifusão no sentido de “desenvolver a utilização de línguas nacionais” (Alínea d) do Artigo 11). Em consonância com este desiderato, a RM tem vindo, progressivamente, a introduzir línguas nacionais nas suas emissoras provinciais desde o início da década de 1980. Presentemente a RM transmite em 21 línguas diferentes, das quais 19 nacionais. Cada emissor provincial usa pelo menos duas línguas – além do Português – e possui a sua própria grelha de programas, descentralizada, focalizando sobre a cobertura de assuntos correntes na respectiva da região e sobre tópicos específicos como prevenção e terapia do HIV/SIDA; agricultura e desenvolvimento rural, actividades enquadradas no processo da reforma do sector público e outros. Os emissores provinciais são igualmente importantes veículos de anúncios públicos sobre grandes eventos locais ou nacionais, tais como o recenseamento eleitoral, alertas sobre ameaças de inundações ou de outros desastres naturais. Não tem havido pesquisa sistemática e credível sobre o mercado publicitário em Moçambique nos últimos 15 anos,; contudo dados próprios da Rádio Moçambique dizem que a estacão recebe 60 por cento da partilha de todo o mercado publicitário nacional e de anúncios públicos.72 A TVM iniciou as suas transmissões em 1981 e é acessível em todo o pais. Ela opera um canal nacional que transmite em Português durante 18 horas por dia. A TVM estabeleceu também “janelas provinciais”, as quais transmitem durante cinco horas por dia, na cidade central da Beira, a segunda maior do pais, em Nampula e na Zambézia, as duas províncias mais populosas do pais. Estas “janelas” oferecem entre 15 minutos de notícias locais, todos os dias, incluindo nas Línguas Nacionais. A deficitária cobertura da rede eléctrica nacional bem como os preços dos televisores, limitam, em parte, a expansão da TVM em profundidade no pais., especialmente nas zonas rurais. O Segundo maior canal televisivo público é a portuguesa RTP Africa, que transmite em sinal aberto, possuindo escritórios em Moçambique. Para mais detalhes veja o capítulo 6.

2

Operadoras comerciais/privadas

Um total de cinco estacões de TV e oito rádios comerciais estão em funcionamento presentemente em Moçambique.
72 RM Annual Report 2006, p. 23.

O PANORAMA DA RADIODIFUSÃO

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Quadro 5: Nome STV TV-Miramar SIRT-TV TIM KTV SFM

Operadores comerciais/privados Proprietário/s Grupo SOICO Igreja Universal do Reino de Deus SIRT TIM RTK Grupo SOICO Igreja Universal do Reino de Deus Communications Group KFM SIRT Progresso Rede Transmundial (Igreja Metodista Unida) Mediacoop Localização Maputo Maputo Província deTete Maputo Maputo Maputo Maputo Maputo Maputo Província deTete Cidade da Haxixe Maputo Ano de começo 2002 1998 2002 2006 1991 2002 1998 2007 1991 2002 2002 2000 Política editorial Independente Independente/ Religiosa Independente independente Independente Independente Independente Independente/ Religiosa Independente Independente Independente Independente

Rádio Miramar 99.3 FM KFM SIRT Radio Rádio Progresso Rádio Capital

Radio Savana

Maputo

2009

Independente

Fonte: Autor, na base de dados de registo do GABINFO

A STV, propriedade da SOICO (Sociedade Independente de Comunicação), e estabelecida em 2002, é a mais dominante estacão televisiva comercial, cobrindo oito, das onze provincias do pais. De acordo com a informação da empresa, a STV cobre até 40 por cento da população do pais.73 A TVM é a principal estacão rival da STV em termos de audiência e partilha do mercado publicitário. A TV-Miramar, propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus, transmite principalmente programas recreativos brasileiros e música pop. De acordo com pesquisa da própria estacão, ela cobre até 20 por cento da população do pais,74 mas a sua cobertura caminha para atingir os 40 por cento proximamente, com a instalação
73 Pesquisa própria da SOICO, indicada ao autor pelo Director Geral a SOICO, Daniel David, em entrevista concedida no dia 11 de Fevereiro de 2008. 74 Pesquisa própria da TV-Miramar, indicada ao autor pelo Director Geral a estacão, Wanderson Mattos, em entrevista concedida no dia 19 de Fevereiro de 2008.

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de emissoras repetidoras em quatro províncias do Norte e Centro do pais. A TIM é a mais recente estacão televisiva do pais, e rapidamente passou de transmissões parciais durante o dia, para transmissões ao longo de 24 horas. Segundo algumas notícias,75 o proprietário da TIM, Bruno Morgado, tenciona vender 60 por cento do capital da empresa a um empresário Português, Pais do Amaral, fundador e antigo proprietário da televisão portuguesa, Televisão Independente (TVI) baseada em Lisboa. Tal transacção seria ilegal, `a luz do Artigo 7 da Lei da Imprensa, o qual limita ao máximo de 20 por cento a participação de capital estrangeiro em empresas de comunicação social do pais. A SIRT TV (Sociedade Independente de Rádio e Televisão) é um canal que transmite na província de Tete, a Nordeste do Pais. A KTV, do grupo RTK (Rádio e Televisão Klint), foi a primeira estação televisiva comercial a operar no pais, tendo sido aberta em 1991. Contudo ela tem estado fechada, por razões atribuídas a frequentes avarias derivadas de fraca manutenção, particularmente após a morte do seu fundador, em 2005. Carlos Klint era um veterano de alta patente da Frelimo. A Rádio Savana iniciou as suas emissões em 2009, sendo propriedade do Grupo Mediacoop, SA, a empresa que também publica o semanário Savana e o diário electrónico, Mediafax. Os proprietários das maiores televisões comerciais/privadas nacionais são pessoas do mundo empresarial, incluindo alguns “dissidentes” do sector público da rádio e televisão, que procuram gerir negócios lucrativos neste domínio. Assim, o Director Geral da STV, Daniel David, é um antigo Administrador da TVM para a área financeira, enquanto que o Director Comercial da TIM, António Barros, é um antigo Director Comercial da RM. Outros ainda possuem laços fortes com o partido no poder, como é o caso do proprietário do Grupo SIRT, membro sénior do Partido Frelimo, e antigo governador de Tete, e o Presidente do Conselho de Administração da TIM, Bruno Morgado, é filho de um antigo Ministro da Indústria e Comércio (entretanto falecido). Por seu lado, o fundador e primeiro Director Geral a RTK era um veterano da Frelimo, especializado em comunicações durante a luta armada de libertação nacional, tendo vindo a tornar-se num dos primeiros empreendedores de sucesso do Pais, ainda na era do regime mono partidário, ao criar a empresa Indústria Nacional de Ciência Aplicada (INCA), que fabricava televisores da mesma marca. Sem qualquer regulamento estabelecendo quotas obrigatórias de conteúdos locais, e sofrendo pressões dos accionistas para maximizar o lucro, os operadores comerciais em Moçambique tendem a ser conduzidos pela demanda dos anunciantes e a optar
75 F. Mbanze, Mediafax, edição de 24 de Janeiro de 2008 e Moçambique para Todos, jornal electrónico no seguinte endereço: http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2008/01/empresrio-portu.html.

O PANORAMA DA RADIODIFUSÃO

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por uma programação barata com apelo de massas. Por exemplo, todos os canais privados sem excepção transmitem os seus próprios concursos de canto e dança, pelo menos três vezes por ano. A mancha de programas de entretenimento oferecida pelas TV privadas é marcada pelas telenovelas brasileiras e seriados populares em torno da temática do crime e do seu combate-espectáculo pela polícia, de marca USA, bem como outros programas recreativos como as competições das Ligas Europeias de Futebol. A percentagem e a qualidade do conteúdo local, na forma de programas sobre assuntos correntes, é geralmente baixa. Na altura da elaboração do presente relatório, duas estacões, a KTV (entretanto encerrada) e a TIM, transmitiam “chats”, que são programas interactivos de mensagens e de comunicação entre telespectadores, usando as virtualidades das novas tecnologias de informação e comunicação, bem como programas musicais, até um terço do tempo total das respectivas emissões diárias. Muitos destes programas baratos são produzidos e apresentados por jovens geralmente sem a necessária preparação técnica – um factor adicional de limitação de uma programação diversificada e de alta qualidade. O impacto das rádios comerciais/privadas é ainda muito limitado. A maioria das estacões FM tem como alvo o mercado da cidade de Maputo. A sua programação e políticas editoriais são geralmente orientados para a juventude, com debates em directo sobre assuntos diversos, como a problemática do HIV/SIDA, concursos de música e breves serviços noticiosos ( flashes noticiosos) cobrindo predominantemente o mundo da cultura, do espectáculo, curiosidades e factos insólitos pelo mundo fora, ou lendo os principais títulos dos dois jornais diários de Maputo, nomeadamente o Notícias e O Pais. Entre as produtoras estrangeiras que maior influência exercem sobre os conteúdos programáticos dos operadores comerciais moçambicanos destacam-se duas Brasileiras, nomeadamente a Igreja Universal do Reino de Deus (Rede Record) e a Rede Globo. Enquanto a primeira dedica até um terço do tempo de emissão das suas próprias estacões, integradas na Rede Miramar (rede de rádios e Televisão), com programas de natureza religiosa e comerciais, a segunda domina a programação dos tempos nobres (nocturnos), quer do sector comercial quer do sector público, com as populares Telenovelas. As duas empresas de telefonia móvel, a mCel e a Vodacom, são as principais anunciantes e patrocinadoras de eventos culturais e desportivos, com transmissões directas, quer dos canais comerciais, quer dos públicos. Este facto levou, em parte, `a proliferação de uma nova tecnologia com impacto sobre os formatos e contextos da programação – o uso dos populares Sms para atrair ouvintes e telespectadores a votarem em “reality shows”, concursos de música e de cultura geral, em torno de temas que vão desde feitos de heróis nacionais até historias pessoais de artistas

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populares, como uma nova fonte de rendimento. Uma consequência imediata é a crescente uniformização e nivelamento por baixo dos formatos de programas, na sua maioria recreativos e centrados na juventude. A legislação em vigor não estabelece quaisquer mecanismos visando promover um sector de radiodifusão independente e diversificado no Pais. Sobre o sector comercial não impende qualquer obrigação de prestação de serviço público mínimo, na base do que iriam providenciar conteúdos mínimos que abordassem assuntos de desenvolvimento social, económico e político e temas de governação, como obrigado legal. Podendo o número de estacões de TV considerar-se relativamente alto para um pais pobre como Moçambique, a diversidade na programação é ainda uma meta por atingir. De acordo com Eduardo Sitoe, cientista político da Universidade Eduardo Mondlane, o surgimento de “mais estacões radiofónicas e televisivas que apareceram `a ribalta (...)” não se tem traduzido em mais valor, relativamente a “profundidade das matérias abordadas e a criatividade na procura e tratamento de assuntos de interesse público”76 Na sua opinião, com muito poucos recursos financeiros e técnicos, a imprensa escrita privada tem contribuído grandemente para a diversidade no sector”, ao contrario do sector da radiodifusão. Segundo aponta o académico, uma das razões para este quadro deve ser encontrado no facto de que a imprensa escrita privada foi basicamente criada por editores experientes que saíram da imprensa do Estado, enquanto que os “pioneiros” na indústria nacional da radiodifusão são homens de negócios com projectos essencialmente virados para o lucro. Torna-se por conseguinte evidente que, relativamente a todos os operadores privados de radiodifusão, deverão ser envidados esforços para que sejam tomados em linha de conta as linhas de orientação da Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em Africa, a qual exorta aos estados membros no sentido de “encorajar um sector privado de radiodifusão, que seja diversificado e independente”.

3

Radiodifusão comunitária e de outras formas

Apesar de que a Lei de Imprensa não “reconhece” a radiodifusão comunitária como um sector privado para efeitos de licenciamento, uma mancha dinâmica de rádios locais, sem fins lucrativos e baseadas na comunidade emergiu em Moçambique desde, sobretudo, 1993. Existem três tipos distintos de “radiodifusão comunitária” em Moçambique – um
76 E. Sitoe, “Os Media Moçambicanos e o Debate da Lei Eleitoral em 2006”, in: Relatório do Estado da Liberdade de Imprensa em Moçambique em 2006, MISA, Maputo, 2007.

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grupo sob os auspícios do Estado; um segundo integrando estacões sob tutela da Igreja Católica; e o terceiro iniciado com o apoio directo de várias agências internacionais, incluindo a UNESCO e o PNUD, em associação com ONGs nacionais.

3.1 Rádios “comunitárias” do Estado
O grupo detido pelo Estado consiste em 24 rádios locais e 4 estacões de TV rural, administrados pelo Instituto de Comunicação Social (ICS), uma instituição de comunicação de massas criada pelo Governo em 1977 para promover o desenvolvimento rural. O ICS é uma instituição subordinada ao Gabinete de Informação (GABINFO), o qual nomeia o Director Geral da instituição. O Decreto governamental nº1/89 de 27 de Marco de 1989, que cria o ICS e aprova o respectivo estatuto orgânico, estabelece, no Artigo 2, como objectivos da instituição, os seguintes:
a) A concepção, produção, difusão e avaliação de materiais informativos e educativos em apoio aos projectos e programas de desenvolvimento político, económico, social e cultural em especial das comunidades rurais; b) Participação na execução de projectos e programas de desenvolvimento sectorial e integrado, orientados para a melhoria das condições de vida da população em geral e das comunidades rurais, em especial, com prioridade para as áreas de saude, educação, agricultura, águas, construção, tecnologias básicas e outras actividades que visam a elevação do nivel cultural e social do povo.

Contrariamente ao conceito de rádio comunitária tal como estabelecido pela Carta Africa sobre a Radiodifusão e pela Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em Africa, a rede de estacões de rádio e televisão sob a jurisdição do ICS é propriedade do Estado e gerida centralmente, na pessoa da Directora Geral da instituição, a qual é, por sua vez, apoiada por Delegados Provinciais. Estes, por sua vez, são funcionários públicos, com assento nos Governo Provinciais. No seu estudo de Abril de 2008, realizado para a UNESCO, o Prof. Helge Ronning afirma que “é claro que estas (estações) organizadas pelo ICS, devem ser, até cero ponto, consideradas como uma forma de radiodifusão estatal As rádios do ICS usam material que recebem da sede do ICS em Maputo”77 – o que indicia a sua natureza altamente centralizada, em oposição `a natureza eminentemente local de rádio comunitária, na definição padronizada internacionalmente.
77 H. Rønning, The Media Development Situation in Mozambique: A study undertaken for UNESCO, April 2008, Maputo, p. 49.

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Estas estacões transmitem sobretudo informação sobre assuntos correntes e programas de desenvolvimento. No início de cada ano, o escritório -sede em Maputo, emite um modelo-tipo de programação, no qual vêm alistados das principais componentes de conteúdo e o tempo de antena a ser alocado a cada uma: assuntos correntes, desenvolvimento agrário, cuidados primários de saúde (incluindo HIV/ SIDA, malária) e por ai em diante. Tendo o programa-tipo `a sua frente, os Delegados Provinciais devem conceber grelhas de programas especificas para as estacões sob a sua jurisdição.

3.2 Estacões da Igreja Católica
Foi a Igreja Católica a estabelecer as primeiras rádios de orientação comunitária a partir de 1993. A Rádio Encontro, propriedade da Diocese de Nampula, foi a primeira a ir para o “ar”, seguida pela Rádio Nova Paz, Rádio Pax e Rádio Maria, propriedades das Dioceses de Quelimane, Beira e Maputo, respectivamente. Seguiu-se mais tarde a Rádio S.Francisco de Cabo Delgado. Apesar de se encontrarem sob a jurisdição de dioceses locais, a gestão e a produção de conteúdos destas estacões contam com membros das comunidades locais, incluindo mulheres e jovens. Todas as radios comunitárias sob tutela da Igreja Católica são membros activos do Fórum Nacional das Rádios Comunitárias (FORCOM). Ainda que vinculadas `a fé cristã, estas estacões oferecem um largo espectro de assuntos e programas, dando voz aos pobres e `as comunidades rurais, sendo igualmente “claramente independente no essencial da sua programação”.78

3.3 Rádios Comunitárias pertencentes a organizações cívicas
A seguir `as primeiras eleições multipartidárias em 1994, um movimento não estatal de rádios comunitárias emergiu, dominado por organizações da sociedade civil, incluindo de nível comunitário. Este movimento foi inspirado, patrocinado ou financeiramente apoiado por diversas entidades. Sob os auspícios do Projecto UNESCO/PNUD, financiado por alguns dos doadores bilaterais de Moçambique, neste caso os países Nórdicos e a Irlanda, foram estabelecidas oito rádios comunitárias entre 1988 e 2006. É suposto que todas se pautem pelos princípios internacionais sobre a liberdade e independência da imprensa, incluindo os os respectivos sistemas de governação, através de representantes eleitos das comunidades e a produção de programas por voluntários comunitários, com o apoio de pequenos números de pessoal assalariado a tempo inteiro.
78 Ibid.

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A instalação destas rádios foi precedida de pesquisa e consulta detalhada com as comunidades locais, de modo a estabelecer as suas necessidades. A primeira intenção foi dar voz `as comunidades locais e criar meios alternativos de informação nas zonas rurais, onde não existisse outro meio, além da Rádio Moçambique e por conseguinte, falta de diversidade de informação. Estas estacões continuaram a operar sob controlo directo das respectivas comunidades, representadas legalmente por associações cívicas dotadas de personalidade jurídica, mesmo depois de terminado o projecto Media UNESCO/ PNUD em 2006. Houve generalizados receios de que estas rádios não iriam sobreviver financeiramente, no fim do projecto, correndo o risco de “caírem” no controlo do Estado, através do ICS ou simplesmente fecharem. Contudo, nenhum destes cenários se verificou, até agora. Pelo contrário, algumas estacões ainda conseguiram expandir a sua capacidade de cobertura e potencial de sustentabilidade a longo termo, através da mobilização de fontes diversificadas de fundos, incluindo UNICEF, ASDI, e a Iniciativa de Elevação de Centros Comunitários Multimédia (CMC) com fundos79 Suíços, lançada em 2006. Esta iniciativa cobre três países africanos, nomeadamente o Mali, Moçambique e Senegal, como seguimento `a Cimeira Mundial sobre a Sociedade de Informação e Comunicação, realizada em Genebra em Dezembro de 2004. Em Moçambique a Iniciativa é implementada pelo Centro de Informática da Universidade Eduardo Mondlane (ICIUEM). Contudo, a maioria destas estacões, instaladas em zonas mal servidas por infrastruturas adequadas e sofrendo de falta de pessoal preparado, enfrentam problemas técnicos que vão desde fraca manutenção preventiva até capacidade de reparação de pequenas avarias. Adicionalmente, problemas estruturais fora do controlo das comunidades locais, tais como a baixa qualidade da energia eléctrica, colocam a sua sustentabilidade sob risco permanente. Em resultado disso, algumas estacões têm estado “silenciosas” por períodos de uma a duas semanas, até que seja conseguido um “socorro” técnico.80 Outras iniciativas substanciais de radiodifusão comunitária na segunda metade dos anos 1990 foram encabeçadas pelo projecto MIRAC (Media in Rural Community and Civil Society Empowerment), implementado pela ONG dinamarquesa, Ibis, com fundos da União Europeia. Este projecto apoiou o estabelecimento de quatro rádios comunitárias na Província nortenha do Niassa, nomeadamente a Rádio Comunitária Ngauma, Rádio Comunitária Miramar-Mecanhelas; Rádio Comunitária Muembe e Rádio Comunitária Massangulo. Por seu lado, a o Instituto Austríaco de Cooperação
79 Ibid., p. 51. 80 Para mais detalhes sobre os desafios que se colocam `as Rádios Comunitárias em Moçambique, consulte-se, entre outros, o documento “Creating Sustainable Community Radio Stations – a major challenge”, no seguinte endereço electrónico: http://www.mediamoz.com/CR/CR_sustainable.htm.

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Norte-Sul, ajudou o estabelecimento da Rádio Comunitária Buzi, na província central de Sofala, e a Oxfam-America ajudou a estabelecer a Rádio N’tyana, propriedade da Associação das Mulheres na Comunicação Social (AMCS). A programação de todas estas estacões inclui a transmissão de serviços noticiosos, programas sobre assuntos correntes, na forma de debates ao vivo e participação pública através de chamadas telefónicas. Levantaram-se receios de que a forte dependência destas rádios comunitárias, dos seus apoiantes financeiros, poderia perigar a sua independência – um critério essencial para serem classificadas como tais. Se esta preocupação era válida quando estas rádios foram criadas, já parece não ser mais o caso, uma vez que, ao longo dos anos, conseguiram diversificar as suas fontes de financiamento, tal como sucede com qualquer outra rádio comunitária na Africa Austral.

3.4 Impacto da rádio comunitária
A dinâmica nacional da radiodifusão local culminou com a criação do Fórum Nacional de Rádios Comunitárias (FORCOM), em Abril de 2004. Os estatutos do Fórum são baseados em princípios democráticos, particularmente no concernente `a eleição livre dos órgãos de governação da organização. Em Abril de 2008 faziam parte do FORCOM um total de 43 estacões de rádios comunitárias, de acordo com os dados de registo de membros da organização. Constitui objectivo da rede coordenar actividades de interesse comum, em particular para garantir a sustentabilidade da radiodifusão comunitária. Todas juntas, as rádios locais não estatais e não comerciais atingem uma audiência superior a um milhão de pessoas nas zonas rurais, muitas vezes em zonas onde não existe qualquer outro órgão de informação, de acordo com dados da UNESCO (2006).81 A sua relevância sustenta-se no seu uso de línguas locais e no facto de as suas mensagens e programas se referirem a problemas locais do dia-a-dia, na forma como são apreendidos e resolvidos localmente. As rádios e estacões de TV sob a gestão do ICS estiveram entre as fundadoras do FORCOM; porém em Novembro de 2006 o ICS decidiu retirar todas as suas estacões do FORCOM, alegando “falta de transparência” nos sistemas de gestão do Fórum. Para outros observadores, contudo, parece que as estacões do ICS, com gestão centralizada, tiveram dificuldades em harmonizar-se com os princípios estabelecidos nos estatutos do Fórum, nomeadamente sobre a independência.82 Durante as eleições gerais de
81 Strengthening Democracy and Governance through the Development of Media in Mozambique. Final Report, UNDP, Maputo, September 2006, p. 13. 82 Relatório do FORCOM `a sua Segunda Assembleia Geral em Chimoio (Manica), Novembro de 2005, p. 9.

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2004, por exemplo, todas as estacões geridas pelo ICS retiraram-se do Código de Conduta para a Cobertura de Eleições pelas Rádios Comunitárias. O código havia sido adoptado por consenso por todas as rádios comunitárias, estabelecendo que elas se devem abster de apoiar qualquer partido político e de vender tempos de antena para a transmissão de propaganda política de partidos políticos, coligações ou candidatos. Em vez disso, a rádios comunitárias concentrar-se-iam na a educação cívica do eleitor, nas respectivas comunidades. O relatório final do Projecto de Desenvolvimento dos Media da UNESCO/PNUD sobre o impacto das rádios comunitárias nas zonas rurais de Moçambique sublinha, entre outras, o seguinte:83
• De um modo geral, todos os entrevistados, incluindo líderes comunitários locais, membros dos comités de gestão, representantes locais de instituições da administração pública, assim como jovens voluntários, sublinharam o papel da rádio comunitária na facilitação da comunicação sobre eventos locais e questões do dia-a-dia das populações. Eles disseram igualmente que a rádio tem ajudado as pessoas a pouparem dinheiro de transporte para se comunicarem com seus familiares em aldeias remotas. Por outro lado, as rádios têm contribuído para uma melhoria da qualidade dos serviços prestados ao público pelos funcionários de instituições locais, que receiam críticas a partir da rádio comunitária. A rádio tem criado grandes oportunidades para jovens que queiram aprender jornalismo e usar o seu tempo livre com actividades úteis `a comunidade. Líderes tradicionais disseram que as rádios comunitárias têm contribuído para elevar a auto-estima das populações, na medida em que podem ouvir as suas vozes e as suas músicas e histórias do dia-a-dia.

• •

Um grande obstáculo para um maior desenvolvimento das rádios comunitárias em Moçambique é a ausência de um quadro jurídico específico para promover o desenvolvimento do sector. A Lei de Imprensa é omissa sobre a possibilidade de comunidades locais ou pequenos grupos organizados de pessoas poderem submeter pedidos de licença de radiodifusão. Comunidades locais pretendendo estabelecer uma rádio comunitária necessitariam, primeiro, de constituir-se em associações, nos termos da lei das associações.84 Este é um processo legal complexo, fora do alcance e capacidade de implementação das comunidades rurais.
83 Ibid, p. 17. 84 Le n˚18/91 de 10 Agosto 1991.

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Uma proposta de anteprojecto de lei de Rádio e Televisão publicada pelo GABINFO em Maio de 2010 estabelece no seu artigo 8 sobre “classificação segundo a propriedade e modo de funcionamento”, menciona “Serviços de Radiodifusão Comunitária” como sendo “aqueles cujas estações estão localizadas nas comunidades”, cuja programação “está destinada principalmente a fomentar o fortalecimento da integração nacional e regional”. Veja mais informação no capítulo 10. Esta proposta de anteprojecto tambem não define “comunidade” como entidade legal dotada de capacidade jurídica e, portanto, susceptíveis de possuir propriedade e poderes de autoridade em seu próprio nome. De qualquer modo, um precedente útil pode ser considerado, para os fins de definição de comunidade local, tal como consta do Artigo 1 da Lei nº19/97, de 10 de Outubro (Lei de Terras). Esta lei define comunidade local como “agrupamento de famílias e indivíduos, vivendo numa circunscrição territorial de nível de localidade ou inferior, que visa a salvaguarda de interesses comuns (...)”. Partindo-se deste conceito geral, poder-se-ia facilmente chegar a uma definição de comunidade para efeitos de posse e exploração de serviços locais de rádio, de modo a viabilizar-se o sistema tridimensional de radiodifusão (serviço público, rádio comercial e rádio comunitária), tal como estabelecido quer pela Declaração Africana sobre a Radiodifusão, quer pela Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em Africa.

4 Concentração de órgãos de informação
A Lei de Imprensa estabelece, no nº8 do Artigo 6, que “com o fim de garantir o direito `a informação, o Estado observará uma política anti monopolista, evitando a concentração dos órgãos de informação”. Contudo, não existe no pais qualquer política ou legislação específica, definindo em que consistiria a concentração de propriedade de imprensa e as formas da sua prevenção. A Sociedade Independente de Comunicação (SOICO), por exemplo, possui quatro órgãos de informação, a saber: a STV (televisão) Rádio SFM, Fama Magazine e o diário O Pais, com uma versão on-line. As duas estacões de rádio e televisão (SFM e STV) partilham os principais serviços noticiosos e algumas entrevistas nela transmitidas são igualmente reproduzidas pelo O Pais. Isto significa que a multiplicidade dos órgãos de informação detidos pelo Grupo SOICO não resulta necessariamente numa oferta diversificada de conteúdos ao público, mas na reprodução, por aqueles, de parte substancial dos mesmos conteúdos. A proibição legal de propriedade cruzada de órgãos de informação destina-se, sobretudo, mas não só, a evitar este tipo de situações.

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Acessibilidade de serviços e padrões técnicos

Entre todas as operadoras nacionais de rádio e televisão, apenas a Rádio Moçambique (RM) transmite em onda média (AM) e frequência modelada. A RM desmantelou todas as suas 21 emissoras de onda curta (SW), substituindo-as por emissoras de FM. Pelo contrário, todas as operadoras comerciais e comunitárias transmitem apenas em FM. Por outro lado, a maioria dos operadores comerciais, quer de rádio quer de televisão, encontram-se baseados em Maputo, e cobrem apenas a cidade capital. A RM detém a maior cobertura do pais através dos seus 14 canais (nacional e provinciais, com 9 repetidoras em FM instaladas em algumas capitais provinciais e distritos para ajudar o alcance da emissão nacional, onde o terreno seja particularmente acidentado. De acordo com os seus próprios dados85 a RM cobre 70 por cento do território nacional durante o dia, atingindo os 100 por cento `a noite. Contudo, a RM ainda não atinge um certo número de zonas de penumbra, particularmente nas províncias centrais de Manica e Sofala. Contudo, o quadro é diferente, relativamente `a cobertura populacional: uma vez que largas franjas da população concentram-se nas zonas próximas de vilas e sedes distritais, aonde o sinal de rádio é mais acessível, pode-se concluir que a cobertura populacional da RM é maior que a cobertura territorial. A qualidade de sinal dos emissores da RM não é consistente. Isto é consequência da fraca capacidade e de recursos financeiros, para a sua modernização. “Ou se tem recursos para investir para a mesma tecnologia para todos os canais ao mesmo tempo, ou em nenhum”, sublinha o Eng. Custodio Langane, Administrador Técnico da RM.86 Por seu lado, o provedor do serviço público de televisão (TVM) cobre apenas a capital Maputo e as principais capitais principais. No resto do pais a recepção do sinal da TVM implica pratos de captação do sinal de satélite, o que limita o acesso a pequenas elites locais. A TVM enfrenta graves carências de equipamento de transmissão, quer seja em quantidade quer seja em qualidade para expandir a sua cobertura nacional. Se bem que a disponibilidade de electricidade nas zonas rurais tenha estado a melhorar de forma significativa nos últimos dez anos, com a rede nacional cobrindo agora 70 das 128 sedes de distrito, as populações de vastas áreas do pais ainda vivem na “escuridão”. A qualidade e fiabilidade do fornecimento de energia são ainda muito fracas, com frequentes oscilações e cortes, particularmente nos distritos. Esta situação representa um risco permanente `a segurança do equipamento de radiodifusão, em particular nas zonas rurais, onde é difícil encontrar técnicos para reparações rápidas.
85 Relatório Anual da RM de 2006. 86 Eng. Custódio Languane entrevistado pelo autor no dia 30 de Agosto de 2008 em Maputo.

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A RM usa simultaneamente equipamento digital e analógico nos seus estúdios, e o mesmo tem estado geralmente operacional e tem sido suficiente para responder `as necessidades presentes da empresa, de acordo com o Eng. Langane. A maioria dos seis estúdios de produção da sede em Maputo são totalmente digitais, enquanto que o equipamento nos emissores provinciais é geralmente velho, ainda que operacional. Os microfones em uso são de boa qualidade e resolução. No futuro, a RM planeia estabelecer uma rede de computadores para o processamento de áudio e transmissão, que seja independente daquele usado pelos diferentes departamentos dentro da empresa para o processamento geral de texto. A RM planeia igualmente a integração de todos os seus emissores provinciais dentro da rede e o estabelecimento de linhas de transmissão de áudio digitais. A TVM enfrenta sérios problemas de equipamento, o qual é manifestamente insuficiente e geralmente velho. Existe equipamento digital de produção na sede em Maputo. De acordo com o Presidente do Conselho de Administração da empresa, Simão Anguilaze, a prioridade de investimento da TVM neste momento recai sobre o equipamento de produção. “Não temos, sequer, microfones suficientes e os diferentes departamentos lutam, disputando estúdios de gravação e de edição, mesmo na sede em Maputo, para já não mencionar as Províncias, onde a situação é muito pior”,87 sublinha Anguilaze. Relativamente aos sectores comercial e comunitário, constata-se um quadro relativamente melhor, quanto `a qualidade do equipamento de produção. Se bem que dotados de pessoal técnico mais novo, e por isso com menos experiência, as operadoras comerciais e comunitárias possuem, contudo, melhor equipamento, em qualidade e quantidade, comparativamente ao sector público e operam, na sua grande maioria, com equipamento digital.

6 Conclusões e recomendações
O Artigo 5, nº1, da Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em Africa determina que “(os) Estados devem encorajar um sector privado de radiodifusão diverso e independente”. Uma medida imediata preconizada por este artigo é a introdução de mecanismos de regulação susceptíveis de promover tal diversidade e assegurar uma indústria da radiodifusão robusta e sustentável, incluindo do sector privado. Um tal mecanismo ainda não foi estabelecido em Moçambique e a diversidade está apenas a suceder – ou
87 PCA do Conselho de Administração da TVM entrevistado pelo autor no dia 19 de Fevereiro de 2008 em Maputo.

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não, dependendo da situação – por “acaso” . Adicionalmente, não existe regulação que estabeleça quotas de conteúdos nacionais/ locais e que promovam o uso de línguas nacionais/locais, para garantir a provisão de “um leque de informação e ideias ao público, e acesso pluralístico `a imprensa e outros meios de comunicação, incluindo por grupos vulneráveis ou marginalizados”, como exorta a Declaração adoptada em 2002 pela Comissão Africana dos Direitos do Homem e dos Povos. A provedora de sorvido público de rádio – RM – é de longe a operadora dominante e oferece uma variedade de programação através da emissão nacional e de dez emissores provinciais, transmitindo em 21 línguas diariamente. As operadoras comerciais, concentradas em torno da capital, Maputo, não oferecem uma diversidade de conteúdos de qualidade, mas antes tendem `a uniformização, através sobretudo da transmissão de programas recreativos onde predominam os musicais, salpicados por pobres “reality shows” apresentados por jovens inexperientes e sem preparação técnica e ética adequadas. A regulação existente sobre o sector é mínima, não recaindo sobre elas qualquer obrigação de prestação de algum serviço público, como parte dos deveres contidos na sua licença de transmissão. Sobre a radiodifusão comunitária, a Declaração Africana dos Princípios sobre a Liberdade de Expressão em Africa estabelece que esta “deve ser promovida, dado o seu potencial de alargar o acesso `as frequências aos pobres e `as comunidades rurais”. Apesar de que o sector da radiodifusão comunitária tem vindo a jogar um importante papel na expansão do acesso `a informação a segmentos da população em zonas rurais remotas, tal ocorre na ausência de qualquer legislação específica, susceptível de responder a assuntos críticos como o empoderamento das comunidades para se tornarem pessoas jurídicas, ou para assegurar políticas fiscais favoráveis ao subsector. No seu conjunto, o subsector da radiodifusão comunitária carece ainda de mecanismos eficientes para assegurar a produção e distribuição de conteúdos que sejam gerados localmente e reflictam as necessidades e aspirações das respectivas comunidades. Uma proposta de anteprojecto de Lei de Radiodifusão foi lançada pelo governo em Janeiro de 2008 com o envolvimento de todas as associações nacional de media: a Associação das Empresas Jornalísticas (AEJ), o Fórum Nacional das Rádios Comunitárias (FORCOM), MISA-Moçambique e o Sindicato Nacional de Jornalistas. Este processo constitui ao mesmo tempo uma oportunidade histórica e um desafio, para uma abordagem abrangente e completa do sector, e um desafio requerendo o pleno empenho de todos, incluindo da sociedade civil em geral.

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Recomendações
• Expandir os sistemas de transmissão da TVM e da RM de modo a assegurar o acesso `a informação a toda a população do pais; • Promover diversidade e pluralismo no sector da radiodifusão, através do estabelecimento do sistema tridimensional de radiodifusão (público, comercial e comunitário); • Estabelecer legislação específica para proteger e promover o desenvolvimento de um genuíno subsector de radiodifusão comunitária; • Estabelecer um Regulador Independente da Radiodifusão que vai garantir uma programação diversificada do sector, incluindo através da imposição de quotas mínimas de conteúdos nacionais e da prestação de serviço público mínimo por parte do sector comercial, como condição de atribuição de licença; • Transformar o Instituto de Comunicação Social num serviço público de radiodifusão dotado de um conselho de governação autónomo representando o seu principal grupo-alvo: as comunidades rurais. Tal como todos os operadores de radiodifusão, o ICS deverá seguir as decisões da Reguladora Independente de Radiodifusão.

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Digitalização e seu Impacto

A União Internacional de Telecomunicações (UIT), uma agência das Nações Unidas responsável pela coordenação dos serviços de telecomunicações ao nível internacional, estabeleceu 17 de Junho de 2015 como o prazo para que operadores de radiodifusão na Europa, África, Médio Oriente e República Islâmica do Irão façam a migração para a tecnologia de televisão digital, quer na transmissão quer na recepção. O prazo da UIT refere-se apenas à digitalização dos serviços de televisão. Os prazos para a digitalização dos serviços de rádio ainda não foram definidos. A UIT encara a digitalização da radiodifusão como meio para o estabelecimento de uma sociedade de informação mais equitativa, justa e centrada no ser humano, descartando “as actuais tecnologias para ligar comunidades isoladas em zonas remotas e assim reduzir o fosso digital”.88 A passagem do sistema de radiodifusão analógico para o digital irá alargar o potencial para uma maior convergência de serviços, com a transmissão terrestre digital a apoiar sistemas de recepção móvel de dados de vídeo, Internet e multimédia. A digitalização da televisão é vista como um meio de melhorar a experiência do telespectador com o melhoramento da qualidade da imagem através de ecrãs gigantes, imagens de alta definição e som em circuito fechado, e serviços interactivos. Também permite inovações tais como aparelhos de televisão portáteis (Transmissão de Vídeo Digital – portátil, ou DVB-H), e significará um maior espectro de banda para os serviços de telecomunicações.89

88 “Digital broadcasting set to transform the communication landscape by 2015”, June 2006, http://www. Itu.int/ newsroom/press_releases/2006/11.html. 89 Ibid.

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De importância particular, é que irá também permitir a criação de muito mais canais de televisão e rádio através de uma maior eficiência do espectro.

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Nível de prontidão para a mudança

Até Janeiro de 2010, o governo não havia ainda anunciado publicamente qualquer plano para a migração do sector da radiodifusão do antigo sistema análogo para o novo sistema digital. O regulador nacional, o Instituto Nacional de Comunicações de Moçambique (INCM), iniciou um programa de mudança muito tímido em Novembro de 2007, com a elaboração de uma proposta de “Regulamento da Radiodifusão Terrestre Digital” e uma “Proposta para a Implementação da Radiodifusão Digital”. Ambos os documentos foram submetidos aos dois operadores de radiodifusão pública (RM e TVM), aos operadores privados e ao Gabinete de Informação (GABINFO). Basicamente, a proposta procura delinear estratégias visando o uso partilhado das infra-estruturas de transmissão digital, e portanto abandona o modelo com base no qual cada operador estabelece a sua própria rede de transmissão. Recomenda que sejam estabelecidas empresas que venham a servir de distribuidoras de rede (os chamados multiplexers). Os actuais operadores de rádio e de televisão só seriam responsáveis pela produção de conteúdos, enviando-os depois para os multiplexers, que por sua vez se encarregariam da distribuição deste material ao nível local, regional ou nacional. Em Julho de 2008, o Ministério dos Transportes e Comunicações, através do Instituto Nacional de Comunicações, publicou um Documento de Referência sobre o processo de migração para a radiodifusão digital. O documento explica que a transição do sistema analógico para o digital constitui actualmente o mais importante desafio para a indústria de radiodifusão, e estabelece as principais directrizes e passos que o governo e outras partes interessadas deverão tomar em conta no processo de desenvolvimento da estratégia de transição. O Documento de Referência visualiza a criação de Comissão de Implementação da Radiodifusão Digital (uma comissão multidisciplinar), responsável pela supervisão do processo, definição dos passos a tomar e envolvimento de todos os sectores da sociedade que sejam partes interessadas. Sugere-se que a Comissão seja composta de representantes dos Ministérios dos Transportes e Comunicações, das Finanças, da Ciência e Tecnologia, do Comércio e Indústria, bem como do Instituto Nacional de Comunicações, do Gabinete de Informação (GABINFO), do sector da radiodifusão e dos consumidores. A estratégia de migração digital deve tomar em conta os seguintes objectivos:

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• Analisar o potencial impacto económico do processo de migração para os vários intervenientes que serão abrangidos, incluindo os consumidores; • Analisar as formas da migração, transição e coexistência entre as várias modalidades de serviço existentes, de modo a garantir a viabilidade dos projectos; • Estimular a produção de conteúdos locais; • Promover a produção no país de equipamento e/ou de acessórios de transmissão e de recepção, incluindo unidades de conversão; • Estabelecer um plano temporal para a implementação do processo de migração; • Identificar os benefícios específicos a surgirem do processo de migração. Actualmente nenhum operador de radiodifusão em Moçambique está preparado a migrar do sistema analógico para o digital. O primeiro e principal obstáculo é a escassez de recursos financeiros. Outros factores são uma apatia generalizada perante a mudança, receio do impacto económico da migração, e resistência quanto à ideia de separação da produção de conteúdos e da distribuição de sinal. Contudo, Moçambique deve urgentemente reflectir sobre toda a sua estratégia para a digitalização e tomar as decisões apropriadas sobre a programação para a introdução da radiodifusão digital, a organização dos operadores de multiplexers e de transmissão, e encontrar meios de reduzir tanto para os operadores como para os utilizadores, os custos resultantes da introdução do sistema digital. A ausência de uma política clara do governo sobre a migração tecnológica poderá traduzir-se na inacessibilidade dos serviços para muitos consumidores. Embora eles possam manter os seus antigos aparelhos de televisão, será necessário adquirir um equipamento de conversão (STB) do sinal digital para o análogo. Os STBs disponíveis no mercado em 2008 custavam cerca de 75 dólares, valor que está acima do salário mínimo mensal – um preço muito alto para a maioria dos moçambicanos. Será necessário encontrar meios de minimizar o encargo financeiro. Alguns países optaram por subsidiar o custo do referido equipamento de conversão, quer directamente, quer reduzindo os direitos aduaneiros na sua importação. Acordos poderão também ser alcançados com os produtores locais de STBs, de modo a reduzir o preço. “Uma política nacional de transição é urgentemente necessária agora, mas o governo não parece estar a tomar o assunto como um sério desafio”, adverte Daniel David, Director-Geral do Grupo SOICO.90

90 Daniel David, Director-Geral do Grupo SOICO, entrevistado pelo autor em Maputo, no dia 18 de Fevereiro de 2008.

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Convergência

A convergência já está em curso em Moçambique, já que é possível escutar a Rádio Moçambique no computador, ter acesso à Internet através da televisão ou telefone celular, fazer uma chamada telefónica para uma linha fixa através de computador ou ver os destaques do noticiário da TVM no seu website. Tanto os operadores comerciais como públicos de TV introduziram métodos como texto (Sms) para interacção com o público. Actualmente, tais serviços não estão regulados. O governo contratou uma empresa de consultoria em Abril de 2007 para a elaboração de uma legislação sobre os TIC em Moçambique. O processo está a ser coordenado pela unidade técnica da Comissão de Política de TIC, pela Unidade Técnica para a Implementação da Ciência e Tecnologia (UTICT). Contudo, o parlamento não conseguiu aprovar esta legislação em 2009. Estas tecnologias interactivas introduziram um novo elemento de concorrência na indústria de radiodifusão, com um impacto potencialmente negativo sobre os pequenos operadores de radiodifusão do estado, privados e comunitários. Programas tais como de interacção via Sms e chats (através dos quais os telespectadores enviam mensagens entre eles e/ou ao apresentador e votam sobre as suas músicas favoritas) nos programas em directo da televisão são muito atractivos para telespectadores jovens. Como tal eles representam uma nova fonte de receitas com o potencial de deturpar o perfil das audiências e de partilha do mercado em detrimento dos pequenos operadores que ainda não tem a possibilidade de acesso a esta tecnologia. A convergência tecnológica também se verifica ao nível comunitário, em particular os Centros Multimédia Comunitários (CMC) baseados em muitas estações de rádio comunitárias. O conceito básico é que eles sejam utilizados para o estabelecimento de uma cadeia que ligue o ouvinte de rádio na zona mais remota num ponto, às capacidades da Internet, no outro. O ouvinte pode receber informação na sua própria língua e contribuir para os programas locais de rádio, enquanto a informação produzida pela rádio comunitária pode ser disseminada ao nível nacional e internacional através da Internet, e o material disponibilizado na Internet e outras fontes externas pode enriquecer a programação da estação. Um centro de produção, formação e assistência, visando promover a convergência técnica ao nível comunitário, o Centro de Apoio `a Informação e Comunicação (CAICC) foi criado em 2006 no Centro Informático da Universidade Eduardo Mondlane (CIUEM).

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Conclusões e recomendações

Moçambique não está preparado para a migração digital e o ritmo da convergência é lento. Por isso, uma política para a migração digital deve ser desenvolvida urgentemente. Passos devem ser tomados para: • Envolver no processo organizações da sociedade civil bem como entidades governamentais, o Conselho Superior de Comunicação Social (CSCS), a indústria da radiodifusão e o sector privado para a elaboração de uma política de consenso nacional; • Depois da finalização desta política, mandatar o regulador no sentido de desenvolver umaplataforma reguladora digital que dê garantias sobre o processo de licenciamento; • Subsidiar os STBs para a maioria dos consumidores sem posses, de modo a que largos segmentos da população moçambicana não fiquem privados de informação; • Tendo em linha de conta a convergência das tecnologias da comunicação, recomenda-se que o governo comece seriamente a definir estratégias rumo ao estabelecimento de um regulador integrado independente de radiodifusão e comunicações.

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Legislação e Regulação da Radiodifusão

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Mecanismos de regulação

Nos termos do Decreto nº9/93, de 22 de Junho de 1993, que regulamenta a liberalização do sector da radiodifusão, podem operar em Moçambique quatro níveis de radiodifusão, que incluem os sectores de radiodifusão pública, privada, mista bem como cooperativa. Por seu lado, os Decretos nº18 e nº19, ambos de 16 de Junho de 1994, estabelecem a Rádio Moçambique e a Televisão de Moçambique como entidades de serviço público. O governo nomeia os conselhos de administração de ambas as instituições, bem como os respectivos presidentes. Os operadores só podem funcionar se estiverem estabelecidos como entidades legais, ou seja se eles estiverem registados como empresas ao abrigo do código comercial ou como organizações não lucrativas ao abrigo da lei das associações cívicas. O Artigo 3 daquele Decreto define operadores de radiodifusão do sector cooperativo como sendo organizações colectivas e não lucrativas. Não há uma definição específica sobre a radiodifusão comunitária. Os operadores comunitários da radiodifusão são, portanto, entendidos como estando na categoria do sector cooperativo (e na prática são tratados como tal). O Decreto nº11/94, de 8 de Setembro de 1994, emitido pelo Ministério dos Transportes e Comunicações, regula o processo através do qual o Instituto Nacional de Comunicações (INCM) disponibiliza licenças de radiodifusão. Assim, o sistema regulador em Moçambique encontra-se fragmentado, com o envolvimento de quatro instituições, nomeadamente: o Gabinete de Informação (GABINFO), o Instituto

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Nacional de Comunicações (INCM), o Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS) e o Conselho de Ministros. Duas entidades desempenham um papel central na regulação do sector da radiodifusão no geral: GABINFO, que tramita o registo legal de todo o sector da comunicação social, tanto de imprensa escrita como electrónica; e o INCM, que é responsável pela inspecção do equipamento técnico nas estações, bem como as suas respectivas transmissões e protecção contra a interferência no espectro de frequência. O INCM é também o regulador do sector dos Correios e Telecomunicações, e responsável pela regulação das TICs. Nenhuma destas instituições é independente do governo. O GABINFO é um departamento subordinado ao gabinete do Primeiro Ministro e o INCM responde perante o Ministério dos Transportes e Comunicações. O seu presidente é nomeado pelo Conselho de Ministros, tal como é o caso com todas as empresas públicas em Moçambique. O GABINFO e o INCM prestam contas directamente `as respectivas instituições governamentais de tutela. Não há políticas nacionais públicas de comunicações ou de radiodifusão em Moçambique. Portanto o INCM funciona numa base ad-hoc, como uma unidade técnica que assessora o GABINFO na inspecção técnica para a atribuição de frequências, à medida das necessidades. O INCM não funciona numa base transparente, por exemplo, em consulta com as partes interessadas antes de tomar decisões importantes. O GABINFO e o INCM encaminham recomendações ao Conselho de Ministros, que tem a última palavra sobre a atribuição de licenças. Contudo, não foi reportado, até agora, qualquer caso de recusa ao pedido de qualquer organização no sector privado, misto ou cooperativo. O quarto actor envolvido na regulação da radiodifusão é o Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS). Uma vez que o Conselho é um órgão constitucional, ele goza de independência garantida pela Constituição e, teoricamente, tem uma posição hierárquica superior, perante o GABINFO e o INCM. Os nºs 3 e 4 do Artigo 50 da Constituição conferem ao CSCS as seguintes funções no que respeita à regulação sobre a radiodifusão:
a) O Conselho Superior da Comunicação Social emite parecer prévio à decisão de licenciamento pelo Governo de canais privados de rádio e televisão; b) O Conselho Superior da Comunicação Social intervém na nomeação e exoneração dos directores dos órgãos de comunicação social do sector público, nos termos da lei.

Apesar de que, tanto a Constituição como o Diploma Ministerial nº86/98, de 15 de

LEGISLAÇÃO E REGULAÇÃO DA RADIODIFUSÃO

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Julho de 1998 conferem ao CSCS algumas funções características de uma autoridade reguladora com poderes de supervisão sobre a radiodifusão e a imprensa escrita em geral, o órgão, porém não tem desempenhado qualquer papel de relevo no domínio da radiodifusão desde a sua criação em 1992. Isto inclui dar opinião sobre decisões pendentes de licenciamento bem como participação na nomeação dos directores gerais da radiodifusão do sector público. Em nenhuma ocasião o CSCS esteve na prática envolvido ou sido consultado sobre a atribuição de uma licença de radiodifusão.91 De acordo com o Director do GABINFO, Felisberto Tinga, isto se deveu ao facto de que os poderes e funções do CSCS ainda devem ser regulamentados através de uma lei específica, como reza a Constituição. No seu estudo de 2007, Berger diz que o CSCS “está limitado uma vez que os seus poderes limitam-se a aconselhar o governo e à mera ‘participação’ na nomeação e exoneração dos dirigentes dos media estatais. Não é por isso um órgão regulador, mas apenas uma força moral (de influência incerta)”.92

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Licenciamento da radiodifusão e fiscalização das condições de licenciamento

O processo que deve ser seguido pela radiodifusão ao submeter o pedido para o registo administrativo, licenciamento e atribuição de frequência é tecnicamente simples, mas ao mesmo tempo convulso, dada a multiplicidade de leis e instituições envolvidas. Existem seis instrumentos legais diferentes que regulam o licenciamento e a atribuição de frequências: • A Lei nº18/91, que estabelece o quadro legal para o licenciamento da imprensa escrita e de radiodifusão e outras questões associadas. • O Decreto Presidencial nº4/95 de 16 de Outubro de 1995, que cria o Gabinete de Informação, uma unidade de assessoria técnica sob tutela do Gabinete do Primeiro Ministro. • O Diploma Ministerial nº86/98 de 15 de Julho de 1998, que cria o estatuto orgânico do Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS). • O Decreto nº22/92 de 31 de Dezembro de 1992, que estabelece as condições legais e técnicas de acesso a frequências.
91 Desde 1998 até 2006 que o autor, na sua qualidade de Coordenador Nacional do projecto da UNESCO/PNUD sobre o “Reforço da Democracia e Governo através do Desenvolvimento dos Media” esteve directamente envolvido no processo de criação de oito rádios comunitárias em Moçambique. O CSCS não desempenhou nenhum papel no registo e licenciamento destas estações de rádio. Estas decisões importantes estiveram somente nas mãos do GABINFO, do INCM e finalmente do Conselho de Ministros. 92 G. Berger, Media Legislation in África, Grahamstown, 2007, p. 64.

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• O Diploma Ministerial nº11/94 de 8 de Setembro de 1994, que regula o processo através do qual o Instituto Nacional de Comunicações (INCM) atribui licenças de radiodifusão e de serviços de rádio. • O Decreto nº9/93 de 22 de Junho de 1993, que estabelece mecanismos de participação dos sectores privado e cooperativo na actividade da radiodifusão. Numa interpretação combinada destes seis instrumentos legais, qualquer indivíduo, pessoa ou grupo que pretenda iniciar actividades de radiodifusão em Moçambique deve preencher os seguintes oito requisitos: 1. Registar-se como uma entidade legal ao abrigo do Código Comercial ou da Lei das Associações Cívicas; 2. Apresentar o estatuto editorial do respectivo órgão de informação, nos termos estabelecidos pela Lei de Imprensa; 3. Apresentar um estudo (técnico) de radiação, demonstrando a respectiva área de cobertura, de acordo com os termos do Decreto nº22/92 de 31 de Dezembro; 4. Obter um registo administrativo junto do GABINFO; 5. Obter uma frequência junto do Ministério dos Transportes e Comunicações, através do INCM, a instituição responsável pela aprovação das condições técnicas necessárias para garantir um sinal de radiodifusão de qualidade adequada; 6. Prestar uma informação sobre a fonte dos recursos financeiros necessários para a sua gestão, e informação sobre a origem e natureza de subsídios directos e indirectos; 7. Obter uma “opinião” positiva do Conselho Superior da Comunicação Social; e 8. Com todos os requisitos acima já preenchidos, obter uma licença de radiodifusão, conhecida como Alvará, junto do Conselho de Ministros, com base numa recomendação conjunta favorável do GABINFO e do Ministério dos Transportes e Comunicações. Nos termos do artigo 16 do Decreto nº9/93 de 22 de Junho de 1993, o Conselho de Ministros atribui uma licença por um período de 10 anos. Estas licenças são renováveis. De acordo com artigo 18 do mesmo decreto, as entidades de radiodifusão devem iniciar as suas transmissões dentro de um período de um ano a partir da data de atribuição da licença.

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O artigo 4 da Lei de Imprensa estabelece obrigações de interesse público para todos os sectores de radiodifusão:
a) b) c) d) e) f) g) h) Consolidação da unidade nacional e defesa dos interesses nacionais. Promoção da democracia e da justiça social. Desenvolvimento científico, económico, social e cultural. Elevação do nível de consciência social, educacional e cultural dos cidadãos. Acesso atempado dos cidadãos a factos, informação e opiniões. A educação dos cidadãos sobre os seus direitos e deveres. A promoção do diálogo entre os poderes públicos e os cidadãos. A promoção do diálogo entre culturas do mundo.

Não há quotas de conteúdos locais impostos quer para o sector privado quer para o sector cooperativo. Contudo, os decretos nºs 18/94 e 19/94, que criam a RMN e a TVM como entidades públicas, incluem uma cláusula sobre a promoção das “línguas moçambicanas”. Nos termos do artigo 22 do Decreto nº9/93, uma licença pode ser suspensa (pelo Ministério dos Transportes e Comunicações, via INCM e pelo GABINFO) se: • O operador não respeitar nenhum dos objectivos, limites ou condições a que a licença de radiodifusão estiver sujeita; • O operador recusa-se a adoptar as medidas necessárias para eliminar distúrbios técnicos originados por uma transmissão, depois de ter sido notificado sobre tal; • O operador obstruir a acção dos agentes de inspecção. O artigo 23 prevê que uma licença de radiodifusão pode ser cancelada por uma “entidade competente” (presumivelmente a mesma entidade que a atribui, nomeadamente o Conselho de Ministros) sempre que ocorram as seguintes situações: • Não cumprimento das medidas de suspensão, e • Suspensão da entidade três vezes dentro de um período de três anos. Não existem quaisquer procedimentos de controlo efectivo que garantam o cumprimento das condições de licenciamento. O GABINFO é responsável pelo controlo de tal cumprimento mas aparentemente não está dotado da necessária capacidade institucional para o fazer. Depois do acordo de paz de 1992, um conjunto de empresas e indivíduos receberam licenças de radiodifusão mas não fizeram uso delas

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durante mais de dez anos. Em 2005, o GABINFO publicou um anúncio na imprensa apelando aos portadores de licença que não as estivessem a usar para se apresentarem à instituição a fim de proceder à actualização dos seus dados. Isto quer dizer que o GABINFO foi incapaz de manter uma base de dados, para não falar do facto de não ter conseguido avaliar o nível de acatamento das condições de licenciamento por parte das entidades licenciadas. Contudo, a instituição demonstrara “eficiência” num caso isolado, quando ordenou a suspensão de uma rádio “comunitária” na província de Nampula, em 2003, sob alegação de que de que não dispunha de uma licença de radiodifusão. A estação havia estado a transmitir durante anos com base numa licença oficial provisória emitida por um “período experimental” não definido. O Conselho Municipal era o principal promotor da estação, em parceria com o Instituto de Comunicação Social, uma entidade estatal. Nas eleições municipais de 2003, a Frelimo perdeu a sua maioria no município de Nacala a favor da Renamo, que imediatamente assumiu controlo da estação de rádio. Foi neste momento em que o GABINFO “despertou” para o facto de que a estação havia estado a operar durante anos sem a devida licença, tendo ordenado o seu encerramento até à conclusão do processo de registo e de licenciamento. Eventualmente, a estação reabriu cerca de cinco meses depois. A ausência de mecanismos claros de regulação do acesso e uso do espectro de radiodifusão, implementado por um regulador independente, obviamente que dá espaço a decisões reguladoras que podem ser politicamente motivadas.

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Sistema de reclamações

Desde a sua criação em 1992, o Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS) tem recebido poucas queixas contra operadores de radiodifusão da parte do público, partidos políticos ou qualquer outra organização. A maior parte das reclamações são sobre alegada difamação na imprensa escrita. Os poucos casos contra a imprensa electrónica relacionam-se com a cobertura eleitoral por parte dos dois órgãos de radiodifusão públicos, nomeadamente a RM e a TVM. A oposição, nomeadamente a Renamo e a coligação União Eleitoral, queixaram-se ao CSCS em 1999, acusando ambas as estações de “favoritismo” em relação à Frelimo na sua cobertura da campanha para as eleições presidenciais e parlamentares desse ano. Uma reclamação pouco usual, também durante as eleições gerais de 1999, veio da própria RM: numa carta dirigida ao presidente do CSCS, a estação alegou que dirigentes da Renamo haviam tentado “corromper” algum pessoal editorial da estação oferecendo subornos.

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4 Conclusões e recomendações
Na cláusula 7, a Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África diz:
Qualquer autoridade pública que exerça poderes de regulação nas áreas da radiodifusão ou telecomunicações deve ser independente e devidamente protegida contra a interferência, particularmente de natureza política ou económica.

Em Moçambique não há uma autoridade independente que regule as áreas da radiodifusão ou das telecomunicações. Os mecanismos para o registo legal dos media e atribuição de licenças de radiodifusão estão na alçada do Conselho de Ministros, sendo aconselhado por três entidades diferentes – GABINFO, o Instituto Nacional de Comunicações (INCM) e o Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS). Tanto o GABINFO como o INCM são instituições do governo e respondem directamente perante o Primeiro Ministro e o Ministro dos Transportes e Comunicações respectivamente. O artigo 2 da mesma cláusula da Declaração estipula:
O processo de nomeação para os membros de uma entidade reguladora deve ser aberto e transparente, envolver a participação da sociedade civil, e não deve ser controlado por qualquer partido político em particular.

Nos termos da constituição, o processo de nomeação dos membros do CSCS não é aberto nem transparente, e abre espaço para que a instituição seja firmemente controlada pelo partido que estiver no poder (veja capítulo 2). A mesma cláusula diz ainda:
Qualquer entidade pública que exerça poderes nas áreas da radiodifusão ou telecomunicações deve ser formalmente sujeito à prestação de contas ao público através de um órgão multifacetado.

Nem o CSCS nem o INCM são de alguma forma sujeitos à prestação de contas ao público. Quando o seu segundo mandato expirou em 2007, o CSCS não foi capaz de produzir o seu relatório de fim de mandato, uma vez que os seus membros não estavam de acordo com o conteúdo do documento, incluindo o relatório financeiro do órgão. A cláusula 5 da Declaração dos Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África estabelece que:

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Um órgão regulador independente deve ser responsável pela atribuição de licenças de radiodifusão e em garantir a observância das condições de licenciamento; O processo de licenciamento deve ser justo e transparente, e deve procurar promover a diversidade na radiodifusão.

Em Moçambique três instituições, nenhuma delas independente do governo, estão envolvidas na atribuição de licenças de radiodifusão. As decisões finais são tomadas pelo Conselho de Ministros, com base em critérios estabelecidos pelos ministros e sem o conhecimento do público.

Recomendações
• Na nova legislação sobre a radiodifusão, o papel do Instituto Nacional de Comunicações de Moçambique (INCM), do Gabinete de Informação (GABINFO), do Conselho Superior de Comunicação Social (CSCS) e do Conselho de Ministros no que diz respeito à regulação da radiodifusão deve ser minuciosamente revisto. Estas funções devem ser assumidas por um órgão regulador estatutariamente independente, com base nos padrões estabelecidos pela Declaração dos Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África. • Para esse fim, a Constituição de 2004 deverá ser parcialmente emendada, para permitir a extinção do CSCS e consagrar o princípio da regulação independente da radiodifusão, sob os auspícios de uma autoridade independente. • O regulador independente da radiodifusão irá emitir licenças para os operadores de radiodifusão públicos, comerciais e comunitários. • A nova legislação da radiodifusão deverá também incluir sistemas e mecanismos de prestação de contas ao público e para o processamento das reclamações do público. • Dada a convergência das telecomunicações, recomenda-se que o governo comece a definir estratégias visando o estabelecimento de um regulador independente integrado da radiodifusão e telecomunicações.

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A Radiodifusão Estatal/Pública

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Quadro legal

Duas entidades constituem o sector público da radiodifusão em Moçambique: a Rádio Moçambique (RM) e a Televisão de Moçambique (TVM). Em 1994, o governo aprovou os Decretos 18/94 e 19/94, através dos quais as duas instituições foram transformadas de entidades estatais para empresas públicas. Nos termos destes decretos, a RM e a TVM são empresas públicas dotadas de autonomia administrativa, financeira e patrimonial; ou seja com poderes legais para administrar o seu património e propriedade. Como empresas públicas elas são constituídas e geridas nos mesmos termos que quaisquer empresas de serviço público, tais como as empresas de fornecimento de água ou de electricidade. O seu papel, funções e estatutos dentro do aparelho de administração pública subordinam-se à mesma lei: a Lei nº 17/91 de 3 de Agosto de 1991, que institucionaliza e define a composição das empresas públicas em Moçambique. O nº2 do Artigo 10 desta lei diz:
Cabe ao Conselho de Ministros nomear e exonerar o presidente do Conselho de Administração, cabendo ao ministro da respectiva área de subordinação nomear e exonerar os restantes membros.93

93 Desde a abolição do Ministério da Informação, em 1994, o GABINFO, sob tutela do Gabinete do Primeiro Ministro, nomeia três membros dos Conselhos de Administração da RM e da TVM, e o Ministério das Finanças nomeia um.

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O nº3 do mesmo artigo determina a inclusão de um representante do Ministério das Finanças no conselho de administração como “obrigatório”. A lei não estabelece claramente os critérios para a nomeação dos membros do conselho de direcção, dizendo apenas que a sua selecção deve basear-se no “critério de reconhecida capacidade técnica e profissional”. Assim, o Conselho de Ministros nomeia os presidentes dos conselhos de administração das duas instituições de radiodifusão, que também funcionam como chefes executivos; o Ministério das Finanças e o GABINFO entre eles nomeiam três membros para o conselho, e um quinto membro é eleito entre os trabalhadores. Por isso, nem a RM nem a TVM são estruturalmente entidades independentes, capazes de garantir a prestação de um serviço público de radiodifusão que seja independente de interferência governamental e/ou de interesses económicos. A dependência dos conselhos de administração e seus presidentes em relação ao governo do dia é mais que óbvia e forte. O efeito desta dependência sobre os operadores de radiodifusão pública é tão imediato quanto inevitável, na medida em que o Conselho de Administração não é apenas um órgão supervisor, mas também está envolvido na gestão executiva. Os membros do conselho exercem os seus mandatos a tempo inteiro e a cada um é atribuída uma função específica de supervisão. São todos nomeados por um mandato de três anos. O Conselho de Administração é apoiado por Directores de Departamentos, que compõem a Direcção Executiva. Estes departamentos são: Informação (Editor), Programação, Produção, Administração e Direcção Técnica. O Presidente do Conselho de Administração também preside a Direcção Executiva nas suas actividades do dia-adia, reuniões e processos de implementação. Um Conselho Fiscal verifica se as contas do Conselho de Administração são geridas de forma adequada e em conformidade com a lei. Também presta assistência em questões tais como a realização das metas da empresa e a eficiência financeira da direcção. O Conselho Fiscal não tem poderes para aprovar ou rejeitar a realização de despesas, para além de aconselhar e garantir que não há desvios em relação aos objectivos estabelecidos e os respectivos recursos financeiros. É composto de três membros, todos nomeados pelo Ministro das Finanças. Os membros dos Conselhos de Administração da RM e da TVM entrevistados no decurso desta pesquisa defendem o ponto de vista de que as actuais estruturas de direcção dos órgãos de radiodifusão do sector público são “inadequadas”. O Presidente do Conselho de Administração da TVM, Simão Anguilaze, sugere que haja uma separação e distinção das funções atribuídas ao Conselho de Administração e à Direcção Executiva. Ele defende um modelo em que a Direcção Executiva é o órgão de gestão diária da empresa, sob supervisão de um Conselho de Administração

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independente, que por sua vez presta contas ao público, “tal como o sistema de gestão prevalecente na Corporação de Radiodifusão da África do Sul”.94 No seu artigo 48, a Constituição protege a liberdade de expressão e de opinião, a independência editorial dos jornalistas e a imparcialidade dos órgãos de informação do sector público. As cláusulas relevantes (nºs 4 e 5) dizem o seguinte:
4. Nos meios de comunicação social do sector público são assegurados a expressão e o confronto de ideias das diversas correntes de opinião. 5. O Estado garante a isenção dos meios de comunicação social do sector público, bem como a independência dos jornalistas perante o Governo, a Administração e os demais poderes políticos.

Como partes do sector público da comunicação social previsto no artigo 11 da Lei de Imprensa, a RM e a TVM têm as mesmas responsabilidades como todos os outros órgãos de informação do sector público. O parágrafo 2 deste artigo enumera as suas principais funções:
a) b) c) d) Promover o acesso dos cidadãos à informação em todo o país; Garantir uma cobertura noticiosa imparcial, objectiva e equilibrada; Reflectir a diversidade de ideias e correntes de opinião de modo equilibrado; Desenvolver a utilização das línguas nacionais.

Para além disso, o nº3 do mesmo Artigo 11 estabelece que “nos domínios da radiodifusão e televisão” o sector público deve ainda:
a) conceber e realizar uma programação equilibrada, tendo em conta a diversidade de interesses e de preferências da sua audiência; b) promover a comunicação para o desenvolvimento; c) através da produção e da difusão de realizações nacionais, promover a cultura e a criatividade, de modo a que estas ocupem um espaço de antena crescente.

O nº4 do mesmo Artigo 11 estabelece – em termos muito vagos – o princípio da independência editorial, afirmando que “os órgãos de informação do sector público cumprem as suas obrigações livres de ingerência de qualquer interesse ou influência externa que possa comprometer a sua independencia e guiam-se na sua actividade por padrões de alta qualidade técnica e profissional”.
94 Presidente do Conselho de Administração da TVM, Simão Anguilaze, entrevistado pelo autor em Maputo, no dia 19 de Fevereiro de 2008.

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A Constituição de 2004 introduz novas e importantes disposições em relação aos direitos de cobertura por parte dos dois órgãos públicos de radiodifusão para os partidos políticos da oposição e a sociedade civil. O artigo 49 da Constituição diz:
1. Os partidos políticos têm o direito a tempos de antena nos serviços públicos de radiodifusão e televisão, de acordo com a sua representatividade e segundo critérios fixados na lei. 2. Os partidos políticos com assento na Assembleia da República, que não façamparte do Governo, nos termos da lei, têm o direito a tempos de antena nos serviços públicos de radiodifusão e televisão, de acordo com a sua representatividade para o exercício do direito de resposta e réplica política às declarações políticas do Governo. 3. O direito de antena é também garantido a organizações sindicais, profissionais e representativas das actividades económicas e sociais, segundo critérios fixados na lei. 4. Nos períodos eleitorais, os concorrentes têm direitos a tempos de antena, regulares e equitativos nas estações da rádio e televisão públicas, de âmbito nacional ou local, nos termos da lei

Contudo, estas importantes disposições constitucionais ainda não foram implementadas desde que a nova foi constituição foi promulgada em Janeiro de 2005, estando à espera da aprovação de uma lei regulamentar específica, como acima referido. Espera-se a lei de radiodifusão, actualmente em elaboração, dará efeito a estas exigências constitucionais. O pacote legislativo eleitoral, aprovado em Julho de 2007 para o ciclo eleitoral 2008–2009 (eleições municipais, provinciais e gerais) inclui uma cláusula específica sobre a cobertura eleitoral pelos órgãos de informação do sector público:
Sempre que os órgãos de informação escrita (do sector publico) incluam informações relativas ao processo eleitoral, devem reger-se por critérios de absoluta isenção e rigor; evitando a deturpação dos assuntos a publicar e qualquer discriminação entre as diferentes candidaturas.95

95 Artigos 32, 38 e 42 das leis nºs 7/2007, de 26 de Fevereiro e 18/2007, de 18 de Julho de 2007, atinentes `a eleição do Presidente da República e da Assembleia da República e sobre as Eleições Municipais.

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Perfil dos órgãos de radiodifusão do sector estatal/público

2.1 Rádio Moçambique
Actualmente, a Rádio Moçambique (RM) transmite diariamente em 21 diferentes línguas: Português, como a língua oficial do pais, 19 línguas nacionais e inglês (para os seus serviços externos dirigidos principalmente à diáspora nos países vizinhos). A RM transmite em 14 canais: • • • • • • Nove canais provinciais/regionais O Canal Nacional Rádio Cidade – Maputo Rádio Cidade – Beira Maputo Corridor Rádio RM Desporto

Os seus perfis e audiência alvo são os seguintes: Emissores provinciais: A Rádio Moçambique é o meio mais influente para a promoção do uso de diversas línguas nacionais do pais. Cada uma das nove estações provinciais usa pelo menos duas línguas locais para além do português e possui a sua própria programação descentralizada focalizando na cobertura de informação regional e programas sobre questões específicas tais como a prevenção e tratamento do HIV/SIDA ou agricultura e desenvolvimento rural, bem como debates abertos sobre tópicos tais como a reforma da administração pública, corrupção na administração pública, etc. As estações provinciais também servem como canais importantes para a transmissão de anúncios públicos sobre importantes eventos nacionais, tais como educação cívica eleitoral ou prevenção contra cheias e outras calamidades naturais. Canal Nacional: Este canal em língua portuguesa é definido como aquele que cobre assuntos de interesse geral para todos os cidadãos ao nível nacional, e procura a excelência na disponibilização de um serviço público de rádio. Tem o seu enfoque no serviço noticioso e apresenta um boletim noticioso em cada hora. O canal promove a cidadania activa, através de debates em directo com a possibilidade de chamadas do exterior, durante as quais vozes da sociedade civil podem ser ouvidas e os cidadãos podem interagir com as autoridades públicas a vários níveis. Também transmite programas educativos e culturais. O canal nacional procura promover a história, a identidade cultural e os valores morais dos moçambicanos. Para além disso, procura manter os moçambicanos vivendo no estrangeiro ligados ao pais através do seu website. Rádio Cidade – Maputo: Este é um canal de FM em língua portuguesa, dedicado a

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uma audiência mais jovem e cobrindo os centros urbanos de Maputo e Matola. A sua programação centra-se nos problemas comuns da juventude e com frequência levanta questões relacionadas com jovens e estudantes, tais como a formação profissional e acesso a oportunidades de emprego, prevenção e tratamento do HIV/SIDA, bem como desporto e valores morais. Nas horas mortas da noite, também dedica a sua programação à música clássica para os entusiastas. Rádio Cidade – Beira: Este é um canal em FM também dedicado à camada jovem, cobrindo as áreas urbanas da cidade da Beira. Também só transmite em português. Maputo Corridor Rádio: Este é o serviço em Inglês da RM. Transmite do meio-dia à meia-noite em FM, cobrindo a cidade de Maputo, seus arredores e o segmento do Corredor de Desenvolvimento de Maputo que liga Moçambique e a África do Sul. Este canal promove particularmente música moçambicana e africana. Os seus boletins noticiosos de hora-a-hora focam principalmente sobre acontecimentos nacionais e da região da África Austral. Estudantes que pretendam aprender ou melhorar os seus conhecimentos da língua inglesa são parte do grupo alvo da estação. RM Desporto: Este é o único canal no pais exclusivamente dedicado à informação nacional e internacional sobre o desporto, transmitindo em português. Foi criado em 2003 como forma de alargar o espaço radiofónico para a promoção do desporto, incluindo transmissões em directo de importantes acontecimentos desportivos nacionais e internacionais. O RM Desporto está no ar 20 horas por dia, das 05h00 às 24h00, e tem como audiência alvo praticantes do desporto, treinadores e entusiastas desportivos no geral.

2.2 Televisão de Moçambique
De acordo com o documento da sua política de programação, a TVM transmite programas informativos, recreativos e culturais, em resposta às necessidades e aspirações da população.96 Não está claro, contudo, como é que a TVM estabelece quais são “as necessidades e aspirações da população”: nas palavras do Presidente do Conselho de Administração da empresa, Simão Anguilaze, “há muitos anos” que pesquisas de audiência não são realizadas. A TVM opera um único canal durante 24 horas por dia. Possui também “janelas” provinciais que transmitem até 5 horas por dia na Beira, Nampula e Zambézia. Estas “janelas” oferecem diariamente serviços noticiosos de 15 minutos sobre acontecimentos locais. O canal nacional disponibiliza uma programação geral e três serviços noticiosos de 30 minutos cada por dia, ao meio-dia, ao princípio da noite e
96 Disponível no sítio www.tvm.co.mz.

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ao fim da noite e um serviço de uma hora e meia, de manhã cedo. Há um conjunto de debates semanais em directo, durante, em media, uma hora e cobrindo tópicos nacionais e internacionais sobre questões políticas, económicas e culturais. A TVM também transmite programas educativos,, incluindo uma série de ensino à distância. Telenovelas brasileiras e jogos de futebol das várias ligas europeias dominam a componente recreativa da programação da estação. `A excepção de curtos serviços nas línguas Xi-ndau (Beira) e Emakwa (Nampula) a TVM transmite principalmente em português, e por isso ainda não promove a diversidade linguística, como estipulado no Artigo 2(4) da Lei de Imprensa. Os planos da TVM de lançar um canal comercial em 2009 não chegaram a materializar-se.

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Estruturas organizativas da radiodifusão estatal/pública

A existência de duas entidades separadas, Rádio Moçambique e Televisão de Moçambique, deve-se a razões históricas: a RM foi criada em primeiro lugar depois da independência em 1975, quando todas as estações de rádio então activas no pais foram nacionalizadas. A TVM iniciou as suas operações apenas em 1981. Em 1995, o governo criou um grupo de trabalho com o objectivo de analisar a possibilidade de juntar as duas empresas num órgão nacional de radiodifusão. Contudo, as constatações do grupo sobre as vantagens e desvantagens das várias opções não foram conclusivas, e o governo decidiu manter a RM e a TVM como entidades separadas. Tanto a RM com a TVM têm estruturas de direcção idênticas uma da outra, com três níveis organizacionais: O Conselho de Administração, a Direcção Executiva e as Delegações Provinciais (estações). O Conselho de Administração é a estrutura do topo, dirigida por um Presidente que também é a máxima figura executiva. O Conselho de Administração é composto de cinco membros, cada um responsável por uma área específica: (i) Administração e Finanças; (ii) Produção (Desenvolvimento Institucional e Questões Editoriais); (iii) Comercial e Publicidade; (iv) Departamento Técnico e (v) e Relações Públicas e Marketing. Ocasionalmente, algumas linhas de comando não parecem bem distintas: de 2005 a 2007, por exemplo, o mesmo membro do Conselho de Administração da RM era responsável pelas áreas editorial e de publicidade. Os cinco membros da Direcção Executiva são nomeados pelo Presidente do Conselho de Administração perante quem eles são directamente responsáveis. A Direcção Executiva é responsável pela gestão corrente e implementação prática das

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decisões do Conselho de Administração. Os Delegados Provinciais (gestores das estações provinciais) também prestam contas directamente ao Presidente do Conselho de Administração, através de um funcionário de ligação no Gabinete deste. Junto com os dois decretos de 1994, que transformam a radiodifusão estatal em empresas públicas, encontram-se estatutos editoriais. O Artigo 4 (alínea b) destes estatutos preconiza que as estações devem “contribuir para a elevação da consciência cívica da população, através da garantia da possibilidade da livre expressão e confrontação de diferentes correntes de opinião, do estimulo `a criação e livre expressão do pensamento e dos valores culturais que exprimem a identidade nacional”. Sendo que os estatutos reafirmam os princípios da independência dos jornalistas, estabelecida pela Lei de Imprensa, na realidade esta independência fica diluída e altamente vulnerável a interferência externa, dadas as estruturas organizacionais dos dois órgãos. O governo desempenha um papel activo visando garantir que os órgãos estatais de radiodifusão estejam alinhados com as políticas e prioridades oficiais e que dêem grande visibilidade às actividades do governo, de entre outras formas através de uma extensiva cobertura das actividades do Presidente da República. Tal inclui até mesmo actividades puramente protocolares tais como a apresentação de cartas credenciais de novos diplomatas acreditados em Moçambique. Instruções governamentais sobre acontecimentos prioritários a merecerem cobertura são dadas à TVM e à RM através do GABINFO. Geralmente, isto é feito através de “notas oficiais” que o GABINFO envia à rádio e televisão nacionais. Nos termos do nº1 do Artigo 13 da Lei de Imprensa, “a radiodifusão e a televisão nacionais faraó a divulgação imediata das notas oficiosas”. Apesar desta influência directa do governo, pesquisas independentes conduzidas por organizações internacionais tais como o Instituto de Comunicação da África Austral (MISA), através do seu Barómetro Africano da Media97 o Carter Center e outros98 concluíram que a RM em particular tem demonstrado uma maior independência editorial do que, por exemplo, os dois jornais geridos por uma empresa de capitais maioritariamente públicos, nomeadamente o Notícias e o Domingo. O relatório do Carter Center sobre as eleições gerais de 2004, por exemplo, diz que a cobertura sobre os partidos políticos e candidatos feita pela RM foi equilibrada.99 De acordo com o relatório de cobertura eleitoral da União Europeia (UE), os boletins noticiosos da TVM favoreceram de certo modo o Presidente, o governo e a Frelimo em contraposição à

97 Relatório da Segunda Ronda do African Media Barometer, Ilha da Inhaca, 21 a 22 de Julho de 2007, MISAMoçambique, Maputo, Julho de 2007. 98 Departamento de Estado dos Estados Unidos, Relatório de 2007 sobre a prática dos Direitos Humanos – Moçambique, 11 de Março de 2008. online. UHNCR Refworld, disponível no site http:www.unhcr.org/cgi-bin/texis/vtx/refworld/ rwmain?docid=47d92c1fc. 99 Observing the 2004 Mozambique Elections. Special Report Series, www.cartercenter.org, October 2005.

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oposição, com um total de 53 por cento do tempo de antena.100 No seu estudo de Abril de 2008, Helge Rønning corrobora com estas conclusões:
Até certo ponto se deve observar que o governo tem influência particularmente sobre a TVM, num menor grau sobre a RM, que opera mais ou menos com base em percepções internacionalmente aceites sobre padrões de serviço público.101

A Rádio Moçambique é de longe o maior órgão de comunicação social em Moçambique. Ela emprega 433 trabalhadores, dos quais 164 são jornalistas, incluindo aqueles que trabalham nas línguas nacionais nas estações provinciais. Contudo, de acordo com Benedito Djedje, Administrador para Administração e Finanças, a RM está “claramente com défice de pessoal”.102 Por seu lado, a TVM é uma instituição mais pequena, e ainda no processo de expansão da sua presença nas províncias. Quatro delegados provinciais são responsáveis pela gestão das suas delegações provinciais na Beira, Nampula, Pemba e Quelimane. Tal como a RM, a TVM enfrenta problemas “sérios de falta de pessoal”, de acordo com o seu Presidente do Conselho de Administração, Simão Anguilaze. Ela emprega 316 trabalhadores, 57 dos quais na área editorial. A contratação de mais pessoal está condicionada à aprovação do Ministério das Finanças, ao abrigo dos contratos-programa de três a cinco anos, entre o governo e os dois órgãos de radiodifusão. Se o financiamento do Estado for insuficiente, as empresas têm que mobilizar recursos adicionais para cobrir salários, principalmente através de receitas da publicidade. Candidatos a preencher vagas no sector editorial devem um certificado do nível médio – o equivalente a 12 anos de escolaridade. Este é o requisito mínimo na maioria das instituições públicas em Moçambique. Na RM, uma série de actividades de formação sobre a recolha de informação e produção de reportagem, bem como sobre questões específicas tais como cobertura de eleições, HIV/SIDA e sobre a mulher e criança foram levadas a cabo durante 2007/2008, com o apoio de organizações externas, entre elas O Centro de Pesquisa e Documentação da África Austral (SARDC), com o financiamento disponibilizado pela Agência Sueca para o Desenvolvimento Internacional (ASDI) e a embaixada da Irlanda em Maputo. Alguns cursos internos foram também realizados nos últimos anos, centrando-se sobre jovens jornalistas, particularmente ao nível provincial. Estas actividades de
100 Ibid. 101 H. Rønning, op. cit., p. 27. 102 Benedito Djedje, Administrador para a Administração e Finanças, entrevistado pelo autor em Maputo, no dia 12 de Fevereiro de 2008.

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formação de curta duração foram realizadas por formadores da própria RM. De acordo com os relatórios de avaliação final, os participantes e os dirigentes da RM consideraram que os cursos eram “muito úteis” e que haviam tido muito mais impacto do que seminários de formação formal que se realizam num modelo de sala de aulas em locais fora da RM. Contrariamente ao que acontece na RM, a TVM não tem sido capaz de atrair apoios externos substanciais para a formação do seu pessoal editorial , aparentemente devido à sua imagem de uma entidade controlada pelo estado. Desde a sua criação em 1981, a TVM recebeu apenas apoio técnico básico, incluindo a formação de pessoal, disponibilizado pela Televisão Pública de Portugal, RTP. A UNESCO apoiou a TVM na formação de um primeiro grupo de mulheres editoras de vídeo e gestoras de estúdio em 2006.103 A estrutura salarial dos dois órgãos de radiodifusão estatal/pública (dados recolhidos em Maio de 2008) podem ser divididos em quatro áreas principais: editorial, técnica, administrativa e direcção. A tabela abaixo indica a grelha salarial mensal da RM e da TVM para jornalistas a meio da carreira e da direcção – em comparação com os salários praticados pelos outros órgãos de radiodifusão.
Quadro 6: Estrutura salarial na radiodifusão Radiodifusão estatal/pública Pessoal editorial Pessoal técnico Pessoal administrativo Direcção MT 30 000 (US$ 1 200) MT 20 000 (US$ 800) MT 20 000 (US$ 800) MT 80 000 (US$ 3 200) Outros órgãos de radiodifusão (privados) MT 25 000 a MT 35 000 (US$ 1 000 a US$ 1 400) US$ 600 a US$ 1 000 US$ 800 MT 100 000 (US$ 4 000)

Fonte: Departamento de Administração e Finanças da RM, informação fornecida ao autor no dia 22 de Maio de 2008

A tabela demonstra claramente que os níveis salariais, exceptuando os da direcção, estão abaixo do salário médio de US$ 2.000. Isto torna o pessoal editorial vulnerável a práticas incompatíveis com a ética jornalística: de modo a conseguirem rendimentos adicionais, muitas vezes os jornalistas assumem funções de assessores de imprensa de departamentos do governo ou outras instituições do estado e partidos políticos, particularmente durante os períodos eleitorais.104

103 Relatórios de formação no processo de trabalho. Escola da Rádio Moçambique/UNESCO, Maputo, 2006. 104 Tendo em conta esta prática, o Código de Conduta para a Cobertura Eleitoral aprovado conjuntamente pelo MISAMoçambique e o Sindicato Nacional de Jornalistas em 2003, implora os jornalistas a não aceitarem ser oficiais de imprensa ou conselheiros de imprensa de gabinetes eleitorais de partidos políticos.

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Não há muita competição para pessoal qualificado ao nível dos vários órgãos de radiodifusão porque as condições salariais nos sectores público e privado são semelhantes. Uma vantagem para os jornalistas no sector público é a estabilidade de emprego, em comparação com mais volátil situação no emergente sector privado da radiodifusão.105

4 Atitudes dentro do sector estatal/público da radiodifusão
No decurso desta pesquisa o autor entrevistou seis elementos da direcção da RM e da TVM, nomeadamente o Presidente do Conselho de Administração da TVM, Simão Anguilaze; o Administrador para a área da Administração e Finanças da RM, Benedito Djedje (que também substituía o Presidente do Conselho de Administração quando foi entrevistado pelo autor em Fevereiro de 2008); os Directores de Informação da RM e da TVM, bem como os Administradores da RM para a Produção e para a área técnica. Cinco jornalistas a meio da carreira foram também entrevistados nos dois órgão de radiodifusão estatal/pública. A resposta dos responsáveis de direcção a questões sobre a natureza da radiodifusão pública e o seu papel na sociedade demonstrou geralmente uma compreensão sólida sobre os conceitos de radiodifusão pública e independência editorial dos jornalistas, os quais eles disseram que respeitavam. Quando se trata de comparar a sua compreensão sobre questões da natureza da radiodifusão pública com a realidade organizacional, tanto os membros da direcção como os jornalistas são críticos em relação ao status quo e são peremptórios em clamar por mudanças substanciais no que diz respeito à política e atitude do governo. O Administrador para Administração e Finanças da RM, Benedito Djedje, definiu a “radiodifusão pública” como sendo um serviço que “serve os interesses de todos os cidadãos sem discriminação de qualquer espécie”. Ele descreveu o “público” como “a população inteira do país”. Contudo, Djedje não estava claro sobre como o “público” estaria em posição de pedir contas sobre o desempenho da radiodifusão pública. Ele também manifestou a sua desilusão com o que descreveu de “imposição do governo sobre os nossos planos de desenvolvimento, através de cortes substanciais nas nossas propostas orçamentais”. Em geral, editores e jornalistas nos dois órgãos de radiodifusão estatal/pública
105 Um relatório do Ministério do Trabalho, que avaliou o nível de cumprimento por parte das empresas de comunicação social em relação à nova Lei do Trabalho (aprovada pelo Parlamento em Maio de 2007) revela “difíceis condições de trabalho em várias instituições dos media” em Moçambique. De acordo com o relatório, um número não especificado de jornalistas trabalham com base em “contratos precários de curta duração ou não têm praticamente contratos de trabalho”. Ver Notícias, 15 de Maio de 2008.

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disseram que gozam de um nível satisfatório de independência nas suas actividades editoriais.106 Quando solicitado a pronunciar-se sobre como é que os seus trabalhos eram seleccionados para o principal boletim noticioso da noite, um jornalista de meia carreira na TVM, Bento Neves, disse que resultava de decisões tomadas em reuniões de planificação realizadas todas as manhãs, e em que todos os jornalistas são solicitados a propor assuntos de cobertura, para além de receberem outros trabalhos de agenda. “O principal critério de selecção é a relevância do assunto”, disse. Contudo, jornalistas tanto da RM como da TVM disseram que as únicas estruturas estatutariamente democráticas que poderiam permitir um debate aberto sobre questões editoriais na redacçã0 – os conselhos editoriais – não têm estado activos “há muitos anos”. Estes conselhos editoriais são impostos pela Lei de Imprensa (Artigo 10) como fóruns de debate aberto sobre questões editoriais entre editores e jornalistas nas redacções. Cada redacção deve definir a composição e competências específicas do seu conselho editorial e eleger os seus membros. O objectivo principal do conselho editorial é o de discutir prioridades e abordagens editoriais e resolver conflitos sobre matéria editorial entre os editores e os jornalistas no processo do seu trabalho do diaa-dia. Embora os dois órgãos de radiodifusão estatal/pública têm gozado de um relativa independência editorial desde 1994, tem havido receios de que tal poderá vir a enfrentar cada vez maiores restrições, e de que o governo poderá estar a exercer certo controlo político indirecto. Repórteres de ambas estações afirmam que têm havido tentativas para restringir a sua independência editorial, quer através da selecção rigorosa de comentaristas menos inclinados a criticar o governo, quer através da selecção de questões para debate menos susceptíveis de pôr em causa a imagem do governo. O Director de Informação da TVM, Armindo Chavana, desmente esta alegação. Do seu ponto de vista, alguns jornalistas esperam que os seus trabalhos não sejam editados, e consideram qualquer forma de edição dos seus trabalhos como censura. No dia 5 de Fevereiro de 2008, registaram-se motins em Maputo, em protesto contra o aumento na tarifa do sistema de transporte público disponibilizado por privados. Um editor da RM, que pediu para que não fosse identificado, disse ao MISA-Moçambique que havia recebido instruções dos seus “superiores” para cancelar um debate em directo que já havia sido programado sobre as manifestações, e substitui-lo por um debate sobre a pandemia do HIV/SIDA. Bayano Valy, um investigador com o Centro de Pesquisa e Documentação da África Austral (SARDC) em Maputo, comentou sobre
106 O autor entrevistou os seguintes jornalistas em Maputo de 12 a 19 de Fevereiro de 2008: Ricardo Dimande, Leonel Matias (RM) e Armindo Chavana, Elio Jonasse e Bento Neves (TVM).

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o assunto nos seguintes termos: “O que parece ter acontecido foi que mais uma vez a imprensa pública evitou cumprir com uma das suas obrigações: que é de informar o público sobre questões de interesse público. E penso que estes acontecimentos eram de interesse público”.107 O Director de Informação da Rádio Moçambique, Ricardo Dimande, desmentiu fortemente as acusações de censura quanto ao debate público sobre os levantamentos populares em Maputo. Durante uma Conferência Nacional sobre a Radiodifusão, realizada em Maputo no dia 28 de Abril de 2008, ele disse: “Às vezes os repórteres impõem censura sobre si mesmos, com base em riscos políticos imaginários”. Sobre a questão de se a RM aceitaria um pedido para a transmissão de um programa especial de mais de uma hora, apresentado pelo Presidente da República ou pelo Primeiro Ministro, o Presidente do Conselho de Administração da RM disse que a Direcção (da RM) iria simplesmente cumprir com uma tal ordem. “Está nos estatutos da empresa que a rádio pública deve, sempre que lhe for solicitado, transmitir os comunicados do governo ou qualquer outra informação oficial como uma questão de prioridade”. O Artigo 13 da Lei de Imprensa impõe uma responsabilidade aos órgãos de informação do sector público para publicar na íntegra e com a devida proeminência todas as informações do governo. Para além disso, a radiodifusão pública tem a obrigação de transmitir, sem custos, na íntegra e com a máxima urgência, declarações oficiais públicas do Presidente da República. O Presidente do Conselho de Administração da TVM disse que a sociedade civil nunca demonstrou qualquer interesse em desempenhar um papel específico sobre a estação, para além do estabelecimento do “Fórum Público da TVM”. O Fórum Público da TVM é uma mesa redonda anual durante a qual o Conselho de Administração apresenta um breve sumário das actividades da estação no ano anterior e áreas chave do presente ano. Depois desta apresentação, os telespectadores podem fazer chamadas e colocar sugestões e/ou apresentar reclamações. Membros de organizações da sociedade civil, incluindo académicos, também são convidados a participar no programa e colocar questões aos membros do Conselho de Administração. Não há um sistema formal de avaliação do nível de implementação das recomendações feitas pelo público. A Rádio Moçambique também interage formalmente com as organizações da sociedade civil uma vez por ano, para recolher sensibilidades do público na preparação da sua grelha de programas. Um programa de 90 minutos em directo é transmitido durante dois Sábados em Janeiro, permitindo que os ouvintes possam chamar e interagirem com a Direcção Executiva da RM. “O sistema é informal, dado que não é
107 http://nuliusinverba-bv.blogspot.com/2008/02/cobertura-das-violentas-manifestações.html.

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estatutário, e as recomendações feitas não são de cumprimento obrigatório”, de acordo com Djedje.

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Conclusões e recomendações

A RM e a TVM, embora descritas pela lei como sendo órgãos de “radiodifusão pública”, são essencialmente empresas de radiodifusão estatal. Ambos são dirigidos por um conselho e uma direcção nomeados pelo governo. Isto contraria os parâmetros estabelecidos pela Declaração de Princípios da Liberdade de Expressão em África, que apela para que a radiodifusão pública seja “dirigida por um conselho de direcção que esteja protegido contra a interferência, particularmente de natureza política ou económica”. Apesar destas fragilidades em termos das suas estruturas de governação e procedimentos de nomeação dos seus dirigentes, os conteúdos da programação das duas organizações reflectem algumas características importantes de uma radiodifusão pública: uma cobertura equilibrada de partidos políticos no geral, o direito de resposta dos partidos políticos, a inclusão da sociedade civil e do público nos programas de debate, e a protecção e o exercício de um relativamente elevado nível de independência editorial. De modo a reforçar e consolidar estas características positivas, as estruturas organizacionais da RM e da TVM devem ser alteradas de modo a garantir a sua independência no futuro. O papel (de supervisão) do Conselho de Administração e da Direcção Executiva, bem como dos Delegados provinciais deve ser definido claramente e distinto um do outro de modo a evitar a sobreposição de responsabilidades e confusão na cadeia de comando. O Conselho de Administração deve funcionar como uma estrutura de supervisão representando o público como forma de proteger a radiodifusão pública contra influências indesejadas, emitir linhas gerais de orientação e nomear a direcção executiva. Políticas internas claras devem ser postas em prática tendo em vista garantir a independência editorial dos editores e dos produtores. Os Conselhos Editoriais, como fóruns de debate aberto sobre questões editoriais na redacção, precisam de ser reactivados como parte de sistemas criados para salvaguardar uma prática consistente de independência editorial. Figuras de topo da direcção da RM e da TVM poderão ser impulsionadores destes processos de reforma, uma vez que eles são críticos em relação ao status quo e peremptórios nos seus apelos para mudanças substanciais de política e de atitude por parte do governo. Eles estão claramente a favor de um conceito de radiodifusão pública responsável perante o público.

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Recomendações
• A nova legislação sobre a radiodifusão deve transformar a Rádio Moçambique e a Televisão de Moçambique em verdadeiros e genuínos órgãos de radiodifusão pública com base em padrões estabelecidos pela Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África. • A legislação deve assegurar que a constituição e composição dos órgãos de governação da radiodifusão pública sejam definidas de tal modo a protegêlos contra a interferência externa, particularmente de natureza política e económica, e torná-los responsáveis perante o público e não perante o governo do dia. • Indivíduos titulares de cargos de estado ou ocupando posições de liderança em partidos políticos ou que tenham interesses financeiros na radiodifusão não podem ser elegíveis para membros dos Conselhos de Administração. • Um Conselho de Administração (não executivo) deverá substituir o actual Conselho de Administração e os seus membros devem ser nomeados pelo público através do Parlamento, que deve formalizar as nomeações depois de entrevistas públicas a uma lista final e restrita de candidatos. • O Director Executivo não deve fazer parte do Conselho de Administração. Ele/a deve dirigir e fazer parte da Direcção Executiva, e assim prestar contas ao conselho de direcção. • O Conselho de Administração será responsável pelas políticas gerais e orientações estratégicas, e pela nomeação e supervisão da acção da Direcção Executiva. A Direcção Executiva estará a cargo da gestão corrente, e responsável perante o Conselho de Direcção.

7
Financiamento da Radiodifusão Estatal/Pública

1

Principal fonte de financiamento

Nos termos do disposto na legislação que as criou (decretos nºs 18 e 19 de Junho de 1994), tanto a RM como a TVM derivam a maior parte do seu financiamento a partir de dotações orçamentais do Estado. Em 2009 o subsídio do Estado representou 60 por cento dos seus orçamentos totais, de acordo com informação disponibilizada pelos responsáveis das duas empresas. Assim, impunha-se que ambas as empresas fechassem o défice de 40 por cento através de receitas próprias. Para além dos fundos do Estado, as fontes de receitas da Rádio Moçambique incluem uma taxa mensal de 12.00 MT (o equivalente a US$ 5,76 por ano), cobrada através das facturas de energia e uma taxa de rádio anual sobre viaturas. As receitas combinadas destas taxas cobriram até 30 por cento das despesas orçamentadas da RM em 2007, com os restantes 10 por cento a serem cobertos por receitas da publicidade e patrocínios. A empresa nacional de distribuição de energia, a Electricidade de Moçambique (EDM) canaliza as receitas colectadas através do seu sistema de facturação ao Ministério das Finanças. O Ministério das Finanças é que estabelece o montante para esta taxa, bem como a que é recolhida através das viaturas, que colecta através do seu sistema normal de colecta de impostos. A RM não tem nenhum controlo ou informação sobre os valores totais colectados pela EDM. A televisão pública não beneficia destas taxas, e a TVM é por isso totalmente

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dependente das receitas da publicidade, para além dos subsídios que recebe do Estado. Em 2003 o governo abandonou um processo que visava estabelecer uma taxa diferente de televisão ou uma maior taxa conjunta de rádio e TV devido a “razões eleitorais”. De acordo com uma fonte do GABINFO que pediu para não ser citada,108 o governo receou que o eleitorado poderia puni-lo nas urnas pelo facto de introduzir uma nova obrigação fiscal. De acordo com a mesma fonte, uma empresa de consultoria que havia sido contratada para a realização de um estudo sobre a introdução de uma taxa de TV propusera uma taxa conjunta TVM/RM a ser colectada através do sistema já existente, nomeadamente através das facturas da EDM. Escasseiam dados recentes e credíveis sobre as receitas totais da publicidade em Moçambique, mas quando a Televisão Independente de Moçambique (TIM) foi criada em 2006, ela produziu um estudo de viabilidade109 que estimou o potencial do mercado como estando na região dos US$ 7,5 milhões. Nesse ano, a TVM disse que tinha colectado cerca de US$ 2 milhões e a RM cerca de US$ 1,2 milhões em receitas de publicidade.110 Isto daria às duas entidades de radiodifusão estatal/pública uma receita combinada de quase metade do potencial do mercado nacional de publicidade. Contudo, estes dados sobre a publicidade nunca foram confirmados por uma entidade especializada e independente. Numa conferência do MISA-Moçambique sobre a radiodifusão, realizada em Abril de 2008, o Presidente do Conselho de Administração de uma estação comercial, a STV, Daniel David, levantou a questão da radiodifusão pública entrar em concorrência no mercado da publicidade com o sector comercial: “Quando empresas de radiodifusão financiadas pelo Estado concorrem na partilha do mercado de publicidade, tal significa que a sustentabilidade do sector comercial está em risco”. O Presidente do Conselho de Administração da TVM, Simão Anguilaze, respondeu que o subsídio que a sua estação recebe do governo estava longe de satisfazer as suas necessidade e permitir que ela responda satisfatoriamente `as suas responsabilidades sociais. Eduardo Namburete, um académico especializado em questões dos media e Membro do Parlamento pela Renamo (oposição), disse que o governo precisa de clarificar a sua visão sobre o sector da radiodifusão pública e “aceitar a sua responsabilidade” quanto ao financiamento dos serviços públicos de rádio e televisão. A concorrência para patrocínios entre a radiodifusão pública e comercial é particularmente bastante aguerrida em relação às novelas brasileiras e à transmissão dos jogos de futebol das ligas europeias, bem como para concertos e concursos de música patrocinados pelas duas operadoras de telefonia móvel, nomeadamente a mCel e a Vodacom.
108 Fonte do GABINFO entrevistada pelo autor em Fevereiro de 2008. 109 Projecto da Televisão Independente de Moçambique. Projecto de Estudo de Viabilidade, Maputo, 2006, p. 23. 110 Benedito Djedje pela RM e Simão Anguilaze pela TVM, entrevistas op. cit.

FINANCIAMENTO DA RADIODIFUSÃO ESTATAL/PÚBLICA

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Duas agências das Nações Unidas, a UNICEF e o PNUD, patrocinam programas de crianças bem como sobre o HIV/SIDA e desenvolvimento rural tanto na RM como na TVM. Outros grandes patrocinadores incluem a empresa dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM), e o Conselho Nacional de Combate ao Sida (CNCS). Jornalistas da RM e da TVM produzem estes programas com total independência editorial, em relação aos patrocinadores, de acordo com os Directores de Informação Ricardo Dimande e Armindo Chavana.111 A lei prevê que o Estado disponibilize fundos para os dois órgãos de radiodifusão estatal/Pública na base de contratos-programas, onde estejam inscritos específicos programas de acção cobrindo uma série de áreas por um período de três a cinco anos. No caso da RM, por exemplo, o contrato para o período 2006-2010 baseia-se nas seguintes seis áreas: (a) plano temático;112 (b) plano para o desenvolvimento técnico; (c) plano de investimentos; (d) plano de manutenção (técnica) e aproviosionamento; (e) plano de desenvolvimento e gestão de recursos humanos; e (f) plano financeiro. Cada um dos dois órgãos de radiodifusão submete em cada três anos ao Ministério das Finanças, através do GABINFO, a sua respectiva proposta de programa com planos de área e orçamento. O Ministério das Finanças toma a decisão final sobre a importância a ser atribuída aos diferentes planos de área e os respectivos orçamentos a serem disponibilizados, depois de discussões com os Conselhos de Administração e o GABINFO. A decisão final do Ministério das Finanças baseia-se essencialmente nos seus “poderes discricionários” de determinar a prioridades orçamentais, de acordo com os fundos disponíveis, diz Benedito Djedje. Os fundos são disponibilizados anualmente. De acordo com Djedje, várias vezes o governo não esteve à altura de ir de encontro com as suas obrigações. Houve um intervalo de oito anos, de 1998 a 2006, durante o qual o governo não assinou nenhum contra-programa com qualquer um dos dois órgãos de radiodifusão estatal/pública, e só garantia o pagamento de salários e outras despesas correntes (comunicações, electricidade, transporte, consumíveis e outros). “Não houve nenhuma explicação quanto às razões que levaram o governo a não atribuir os subsídios necessários como a lei exige”, acrescentou Djedje. Dada a falta de fundos durante este período, não foi possível realizar investimentos, incluindo a substituição e modernização do equipamento de produção e de transmissão. Como alternativa, o governo instou as duas instituições a aumentar as suas receitas através de uma abordagem comercial “mais agressiva”. O Presidente do Conselho de Administração da TVM, Simão Anguilaze, diz: “Na realidade não existe um sistema de financiamento para a radiodifusão pública em
111 Ricardo Dimande da RM e Armindo Chavana da TVM, entrevistados pelo autor em Fevereiro de 2008. 112 Veja o capítulo oito.

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Moçambique”. No seu ponto de vista, o sistema entrou em colapso, porque é “de certo modo imprevisível” e não se pode confiar nele. De forma unilateral, e sem qualquer preocupação em relação ao programa de prioridade e orçamento das duas entidades, o governo assinou um contrato extraordinário de cinco anos com a Rádio Moçambique e de três anos com a TVM em 2006. “O Ministério das Finanças simplesmente decidiu cortar o nosso orçamento em 20 por cento e disse que deveríamos aumentar as nossas receitas comerciais para fechar o défice”, diz Djedje. Ele deplora o facto de que o actual modelo das suas estruturas de governação deixar a empresa “muito vulnerável”, especialmente em relação ao Ministério das Finanças. “Quando o Ministério das Finanças decide reduzir os nossos orçamentos não temos onde recorrer”, diz. Anguilaze, da TVM acrescentou que o Ministério das Finanças havia determinado no orçamento prioridades que eram diferentes daquelas que haviam sido identificadas pela propria empresa. “O Ministério simplesmente decidiu que deveríamos dar prioridade à infra-estrutura, quando na verdade estávamos a enfrentar uma verdadeira crise em relação ao equipamento de produção”. Por causa desta decisão do Ministro, a TVM passará agora, até ao fim do período do contrato em 2010, a investir em infraestruturas e não na necessária substituição do equipamento velho, como a empresa tinha planeado. A dependência em relação a subsídios do Estado altamente imprevisíveis, especialmente no caso da TVM, deixa os órgão de radiodifusão estatal/pública muito vulneráveis aos interesses comerciais e à preferência dos anunciantes em relação a programas de recreação do que em relação aos programas informativos e educativos. Uma das consequências imediatas é que o tempo nobre (18h00–20h00 e 21h00– 23h00) consiste quase que exclusivamente de uma programação de entretenimento e desporto. Quaisquer programas de fundo ou de debate em directo só podem ser transmitidos pela TVM entre as 22h00 e 00h00. “O nosso canal perdeu a sua identidade como uma televisão de serviço público”, disse Anguilaze. No momento de elaboração desta pesquisa, a empresa estava a considerar planos para o lançamento de um segundo canal comercial para subsidiar o canal público da TVM e assim conferir-lhe uma maior liberdade nas suas decisões editoriais. O Parlamento não desempenha nenhum papel específico no que diz respeito à gestão da radiodifusão estatal/pública, com a excepção do debate sobre os seus orçamentos como se fossem de quaisquer outras empresas públicas.

FINANCIAMENTO DA RADIODIFUSÃO ESTATAL/PÚBLICA

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2

Despesas

Dada a imprevisibilidade de uma grande parte dos seus orçamentos, a capacidade de controlo dos dois órgãos sobre as suas despesas não pode ser sistemática, como também não é fácil lançar sobre a matéria qualquer investigação. “Quase que fazemos o controlo dos nossos gastos numa base diária”, diz Benedito Djedje da RM. Nenhum dos dois órgãos aceitou divulgar as suas despesas e receitas durante o período de realização desta pesquisa. Os únicos números disponíveis demonstram que quase metade das despesas da Rádio Moçambique em salários destinam-se ao sector editorial e um pouco mais de um terço para a administração.
Tabela 7: Rádio Moçambique – salários líquidos 2008 Departamento editorial Departamento administrativo Departamento técnico Total
Fonte: Rádio Moçambique

MT 28.872.073,79 MT 24.372.562,76 MT 13.375.415,68 MT 66.620.052,23

US$ 1.154.882,95 US$ 974.902,51 US$ 535.016,63 US$ 2.664.802,09

44% 36% 20% 100%

3

Conclusões e recomendações

O Artigo VI da Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África diz: “A radiodifusão pública deve ser adequadamente financiada de modo que esteja protegida contra a interferência arbitrária com os seus orçamentos”. Quanto aos dois órgãos de radiodifusão estatal/pública em Moçambique não existem mecanismos de financiamento fiáveis, previsíveis e sustentáveis. Tais mecanismos são essenciais para a protecção da radiodifusão pública contra a interferência arbitrária por parte de interesses políticos e comerciais. Para além disso, decisões sobre prioridades de investimento e orçamento no que respeita à RM e à TVM são tomadas pelo Ministério das Finanças – que decide quais devem ser as principais prioridades, independentemente dos pontos de vista das duas entidades.

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Recomendações
• É necessário considerar e pôr em prática mecanismos sustentáveis e fiáveis de financiamento ao serviço público de rádio e televisão. • O governo deve impor uma taxa anual mais alta sobre proprietários de aparelhos de televisão e usar as receitas daí provenientes para financiar os dois órgãos de radiodifusão estatal/pública, em vez de impor taxas sobre os receptores de rádio, pois assim atinge a maioria dos pobres, deixando de fora os consumidores de TV, em princípio com mais recursos. • Uma vez que os órgãos de radiodifusão pública continuarão a depender dos subsídios do Estado, pelo menos parcialmente, é necessário desenvolver mecanismos eficazes que garantam que estes subsídios são disponibilizados de uma forma fiável e independente. • Para determinar os valores da taxa de televisão e os subsídios estatais, deveria se considerar a criação de um painel independente de peritos. Este painel irá estabelecer, e de vez em quando ajustar os montantes necessários e recomendar a sua adopção pelo Parlamento. Os órgãos de radiodifusão irão submeter ao painel uma lista das suas necessidades, o painel procederá à sua própria avaliação antes de fazer as suas recomendações. Os montantes da taxa de radiodifusao e os subsidios do estado devem ser decididos pelo parlamento, em vez do governo.

8
Programação

1
1.1

Políticas e directrizes de programação/editorial
Rádio Moçambique e Televisão de Moçambique

Os estatutos legais que criam a Rádio Moçambique e a Televisão de Moçambique como entidades de prestação de serviço público de som e imagem (Decretos nº18 e nº19, ambos de 16 de Junho de 1994) incluem questões relacionadas com a política editorial. De acordo com as directrizes editoriais gerais, as principais funções das duas entidades são:
a) Promover o acesso dos cidadãos à informação em todo o pais; b) Garantir uma cobertura noticiosa imparcial, objectiva e equilibrada; c) Reflectir, numa base equilibrada, a diversidade de ideias e correntes de opinião; d) Desenvolver a utilização das línguas moçambicanas.

Para além disso, o guia da programação estipula que os órgãos de radiodifusão devem:
– – – Conceber e levar a cabo uma programação equilibrada, tomando em consideração a diversidade de interesses e de preferências entre a audiência; Promover a comunicação para o desenvolvimento; Através da produção e transmissão de realizações nacionais, promover a cultura e a criatividade para que estas ocupem cada vez mais tempo de transmissão.

106

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Os estatutos, seguindo de perto o estabelecido pela Lei de Imprensa, também garantem a independência editorial: A comunicação social do sector público deve levar a cabo as suas tarefas livre da interferência de interesses externo que possam por em causa a sua independência, e devem ser guiados nas suas actividades pelos padrões de alta qualidade técnica e profissional e de criatividade. Para além destas políticas editoriais gerais, prescritas por lei, os dois órgãos de radiodifusão estatal/público têm direito, com base num conjunto de “planos temáticos” como parte dos contratos-programa que assinam com o governo em cada três anos, a receber fundos do Orçamento do Estado (veja o capítulo 7 para mais detalhes). Estes “planos temáticos” geralmente reflectem as áreas de prioridade do governo para o período em causa. Por exemplo, o plano temático da RM, assinado para o período 2006–2010113 estabelece os seguintes objectivos:
a) Contribuir (...) para a consciencialização da população moçambicana no combate ao HIV/SIDA, malária e cólera, tuberculose e outras doenças endémicas, com o objectivo de melhorar a qualidade de vida nacional; b) A educação cívica dos cidadãos com vista ao reforço da sua consciência de cidadania; c) educação formal e informal, em particular do Ensino `a Distância, através A da transmissão de conhecimentos que visem o desenvolvimento intelectual, formação da personalidade e aquisição de habilidades e capacidades dos cidadãos; d) A divulgação do programa nacional de combate `a pobreza; e) Reforma do Sector Público; f) Divulgação pública de Legislação pertinente para a vida dos cidadãos e do funcionamento do Estado; g) Combate contra a corrupção; h) Reforma do Sistema Legal e Judicial; i) Cobertura das principais actividades dos órgãos de soberania do pais.114

Na sua maioria estes objectivos reflectem as áreas prioritárias identificadas na estratégia nacional de redução da pobreza, conhecida pelo seu título oficial de Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta (PARPA).115 O plano temático, então, é a
113 Os períodos de duração dos contratos-programa podem variar entre 3 e 4 anos. 114 Ver Contrato-Programa entre o governo e a Rádio Moçambique (RM-EP), Maputo, Dezembro de n2006, p.5. 115 Ver PARPA II no site: www.portaldogoverno.gov.mz/docs_gov/programa/fo_parpa_2 - 55k.

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descrição geral dos principais tópicos que se espera que o órgão de radiodifusão venha a transmitir através dos seus diversos programas durante um determinado período de tempo. A Código de Conduta (ou Estatuto Editorial) articula os seguintes princípios profissionais e éticos para os jornalistas da Rádio Moçambique:
a) Credibilidade e rigor: os factos contidos nas notícias e programas devem ser rigorosamente verificados, baseados em fontes credíveis e diversificadas; b) Independência: Nenhum jornalista deve exercer funções de liderança em partidos políticos, governo, empresas privadas ou qualquer outra instituição, de tal modo que tal possa pôr em causa a sua independência e criar conflitos de interesse; c) Participação política: Nenhum jornalista ou produtor de programa deverá tomar parte em campanhas políticas de qualquer partido político ou candidato político; d) Antes de se envolverem em actividades de partidos políticos, jornalistas e produtores de programas devem suspender as suas actividades profissionais até que as suas actividades políticas tenham cessado; e) Privacidade e reputação: os nomes ou outras referências de identidade de pessoas ou instituições alegadamente envolvidas em crimes ou quaisquer outras actividades ilegais não devem ser divulgados sem prova irrefutável; f) Erros e correcções: Qualquer imprecisão ou informação errada dever ser corrigida imediatamente.

Existe uma razão histórica por que este código dá especial ênfase quanto à estrita separação de actividades como jornalista e como activista de partido político: durante muito tempo, os Delegados Provinciais da RM também funcionavam como membros ou conselheiros dos governos provinciais. Como resultado, alguns eram vistos a fazer campanha do partido Frelimo durante os períodos eleitorais. Depois de críticas por parte de colegas de outras instituições dos media, e devido a crescente tomada de consciência sobre questões relacionadas com a ética profissional dos media, a direcção da RM baniu oficialmente esta prática em 1999, nas vésperas das eleições parlamentares e presidenciais desse mesmo ano. Tomados como um todo, estes programas, directrizes e políticas editoriais quer estatutárias quer voluntárias conformam-se com os princípios da radiodifusão pública, tal como estabelecido na Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África. Isto particularmente em relação à Rádio Moçambique. A TVM, por seu lado, enfrenta ainda sérios desafios em várias áreas, particularmente quando se trata de:

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a) acesso a um vasto leque de informação e ideias a partir de vários sectores da sociedade (especialmente devido ao seu uso limitado das línguas nacionais); b) contribuir para o desenvolvimento económico, social e cultural através da disponibilização de um fórum credível para o debate democrático: tal como sublinha o Presidente do Conselho de Administração da TVM, Simão Anguilaze, (ver capítulo 6), a TVM, não sendo adequadamente financiada, tende a sacrificar a sua política de programação como órgão de radiodifusão pública como forma de se permitir que vá ao encontro das exigências dos anunciantes, cujos interesses comerciais poderão estar em conflito com uma programação de interesse público; c) disponibilização de conteúdos locais.

1.2 Radiodifusão comercial
Estações de radiodifusão comercial, tais como as que pertencem ao Grupo Sociedade Independente de Comunicação (SOICO), nomeadamente a STV e a Rádio SFM e ao Grupo TV Miramar, não dispõem de políticas/directrizes editoriais bem detalhadas e que permitam desenhar um perfil de programação sistemático e coerente. O Grupo SOICO possui um código editorial para todos os seus órgãos de informação, incluindo as duas estações de radiodifusão e o jornal O Pais. O documento tenta captar os princípios mais importantes da liberdade de expressão e de imprensa, bem como o direito à informação, tal como se encontra consagrado na Constituição da República e na Lei de Imprensa, descrevendo que a SOICO:
1. A SOICO é uma sociedade independente de comunicação, integrando órgãos de informação de referência, pluralistas, e que têm como objectivo fundamental assegurar ao público o direito à Informação. A SOICO respeita os direitos e deveres constitucionais da Liberdade de Expressão e de Informação. A SOICO distingue, criteriosamente, as notícias do conteúdo opinativo, reservando-se o direito de ordenar, interpretar e relacionar os factos e acontecimentos. A SOICO rege-se por critérios jornalísticos de Rigor e Isenção, respeitando todas as opiniões ou crenças. A SOICO compromete-se a respeitar o sigilo das suas fontes de informação, não admitindo, em nenhuma circunstância, a quebra desse princípio. A SOICO assume o direito de emitir, nos seus órgãos de informação, diariamente opinião própria, sobre todas as notícias, em editorial, sempre no

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PROGRAMAÇÃO

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respeito integral pela Lei em vigor. A SOICO cumpre a Lei de Imprensa e as orientações definidas neste Estatuto Editorial e pela sua Direcção.116

A TV Miramar opera principalmente como uma sucursal da companhia brasileira TV Record, e a maior parte da sua programação provém da sede da empresa em São Paulo. A política editorial da estação resume-se a dois parágrafos que dizem:
A TV Miramar é um canal completo, que transmite um pouco da cultura, dos costumes e do jeito de fazer televisão no Brasil. Nossa programação reproduz as atrações exibidas em rede nacional pela TV Record brasileira e programas locais produzidos pela TV Miramar.117

Para além de verem programas que são populares no Brasil, os telespectadores da TV Miramar também podem ver programas exclusivos dirigidos aos que vivem em Moçambique.

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Grelha de programas

2.1 Rádio Moçambique
A Rádio Moçambique (RM) transmite diariamente em 21 línguas: em Português, a língua oficial, em 19 línguas nacionais e em Inglês. O Canal Nacional é a principal estação da RM. Transmite boletins noticiosos de cinco minutos a cada hora, e oferece um conjunto de programas informativos, totalizando três horas e meia por dia: • Jornal da Manhã, 06h00–08h00: Este programa inclui 30 minutos de debate em directo, chamado “café da manhã”, com um convidado e participação do público via sms, e-mail e telefone. O “café da manhã” é um dos espaços mais populares de rádio que promovem uma participação mais aberta dos cidadãos sobre questões de governação. • RM Jornal, primeira edição, 12h30–13h00: Este é um serviço noticioso e de reportagem que actualiza os ouvintes sobre os mais recentes acontecimentos nacionais e internacionais do dia. Também inclui informações importantes provenientes dos emissores provinciais. Há mais duas actualizações
116 Estatuto Editorial da STV. 117 http://www.redemiramar.co.mz/empresa.htm.

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informativas ao longo do dia: – RM Jornal, 2ª edição, 19h30–20h00 – Último Jornal, 23h00–23h30. Para além disso, o Canal Nacional da RM transmite mais do que 6 horas de programas de informação geral em vários formatos por semana, desde programas com a participação do público através de chamadas telefónicas até reportagens de fundo: • Panorama Político: um programa de 60 minutos sobre questões nacionais da actualidade. • Questão de Fundo/Cartas da Mesa: estes dois programas alternam-se quinzenalmente. São programas de 60 minutos sobre um assunto premente da actualidade. Este programa inclui entrevistas mais pormenorizadas com importantes figuras públicas e analistas independentes. • Linha Directa, todos os Sábados de manhã: um debate em directo de 120 minutos sobre uma questão específica de impacto nacional ou internacional. Inclui chamadas telefónicas de ouvintes de todo o pais. • Parlamento: um programa de 60 minutos centrado nas principais questões debatidas no parlamento durante a semana. Ele oferece excertos dos debates e transmissões em directo. • Esta Semana Aconteceu: um programa de meia hora, transmitido aos Sábados e repetido aos Domingos, no qual analistas nacionais independentes comentam sobre os principais factos noticiosos da semana. • Economia e Desenvolvimento: um programa de 60 minutos sobre questões de desenvolvimento ao nível nacional, regional e internacional. Este programa também abrange ouvintes envolvidos em pequenas empresas e no sector informal. • Raízes Moçambicanas: um programa de 60 minutos abarcando a área cultural. É uma combinação de notícias e reportagens sobre todo o tipo de expressões culturais moçambicanas, incluindo a literatura, artes visuais, canção, dança e diversas práticas e crenças tradicionais. • RM Desporto: um programa diário de 20 minutos acontecimentos desportivos nacionais e internacionais. Em relação à cobertura de questões nacionais e locais tem havido reclamações de que o serviço nacional da RM tende a concentrar-se mais em Maputo, e que por exemplo, províncias mais populosas do norte, tais como Zambézia e Nampula recebem pouca atenção.118
118 Ver Luís Loforte, “TV e Rádio: uma análise comparativa”, in: MISA-Moçambique (2006), Relatório anual sobre o estado da liberdade de imprensa, 2005.

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2.2 Televisão de Moçambique
A TVM opera um único canal durante 24 horas por dia. Também tem “janelas” provinciais que transmitem até cinco horas por dia na Beira, Nampula e Zambézia. Estas “janelas” oferecem serviços noticiosos diários de 15 minutos sobre questões locais. O canal nacional transmite uma programação geral e uma quantidade considerável de notícias diárias e reportagens: • Bom dia Moçambique, um programa diário de 120 minutos contendo notícias e reportagens, das 6h00 às 8h00. O programa procura informar os telespectadores sobre os principais acontecimentos do dia e ainda oferece um boletim meteorológico. • Jornal da Tarde, um serviço noticioso de 15 minutos que vai para o ar às 13h00. • Jornal Nacional, um jornal de notícias diário de 30 minutos que vai ao ar das 20h00 às 20h30. • Último Jornal, um resumo noticioso de 15 minutos por volta das 23h00. A programação da TVM contém uma vasta gama de programas onde vários assuntos – desde reportagens sobre questões políticas internacionais, educação sobre legalidade e justiça, educação `a distância, saúde pública, entretenimento, e assuntos de interesse humano – são abordados em diferentes formatos, muitos dos quais com a participação dos telespectadores. • Espaço Público: um programa diário de 45 minutos em directo sobre informação geral da actualidade. Este é um dos programas mais populares, um fórum “aberto” para que a audiência expresse as suas opiniões sobre uma variedade de questões de interesse nacional. • Ver Moçambique: um programa de 30 minutos de reportagens de fundo, 5 dias por semana. O programa reflecte um vasto panorama da vida diária da população, os seus problemas, desafios e sucessos, produzidos com contribuições das estações provinciais da TVM. • Pólos de Desenvolvimento: um programa semanal de 30 minutos com o objectivo principal de acompanhar a implementação do plano do Governo sobre a Redução da Pobreza (PARPA). O programa centra-se sobre as iniciativas de desenvolvimento ao nível distrital e reflecte os pontos de vista e preocupações das comunidades rurais no que diz respeito a estas actividades.

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• Em Defesa da Vida: um programa semanal de 55 minutos sobre questões de saúde tais como HIV/SIDA, tuberculose e malária, com o objectivo de disseminar informação sobre a prevenção e tratamento e mitigação do impacto do HIV/SIDA. O programa também dá espaço para pessoas vivendo com o HIV/SIDA partilharem as suas experiências. • Justiça e Ordem: um programa semanal de 55 minutos, em que uma figura importante da Ordem dos Advogados oferece informação especializada sobre questões legais em resposta a problemas concretos que afectam o cidadão comum. O programa também lida com questões gerais de interesse público levantados pela imprensa, tais como acusações de corrupção na administração pública ou má utilização de fundos do Estado. Assume uma abordagem pedagógica, procurando destacar o sentido de cidadania por parte dos telespectadores. • Quinta à Noite: um programa semanal de 55 minutos onde vários indivíduos compõem um painel de debate com diferentes pontos de vista sobre um tópico específico da agenda nacional, tais como eleições, avaliação da governação, actividades da sociedade civil e afins. O público é convidado a participar através de chamadas telefónicas ou mensagens sms. • África Magazine: um programa semanal de 30 minutos que visa abordar o assunto mais importante da agenda continental, desde eleições a guerras civis e a luta contra a pobreza e a pandemia do HIV/SIDA. O programa baseia-se em excertos de outras estações de televisão africanas, e convida especialistas a comentar e interpretar sobre tais assuntos. • A Semana: um programa de 30 minutos em que convidados com diferentes pontos de vista analisam um conjunto de questões que tenham dominado a agenda nacional durante a semana. A TVM também transmite vários programas educacionais, culturais e sobre a criança: • Telescola: um programa de 15 minutos que tem como objectivo oferecer apoio adicional a estudantes do ensino secundário em disciplinas científicas tais como matemática e física. O apresentador interage com os estudantes por telefone e mensagens sms. • Mais Jovem: um programa de 90 minutos com um misto de música, conversa e informação sobre diversos acontecimentos nacionais de natureza cultural. • Prilim-Pim-Pim: um programa de 90 minutos aos Domingos. O programa é um misto de exibições musicais de crianças, debate, jogos e informação. • Mãozinhas Talento: um programa de 55 minutos dedicado à criança e que visa

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estimular o talento artístico da criança nas áreas da pintura e escultura. O programa é transmitido duas vezes por semana. Moçambique em Concerto: um programa cultural de 90 minutos, que combina exibições musicais ao vivo e elementos de conversa e telefonemas dos telespectadores. Danças e Instrumentos Tradicionais: um programa bi-semanal de 30 minutos que visa investigar e disseminar conhecimento sobre a diversidade musical do pais, focalizando nas danças da base e instrumentos musicais. Ressonâncias: um programa religiosos de 30 minutos em que grupos representando diferentes igrejas cristãs apresentam música gospel. O programa é transmitido todos os Domingos de manhã. Moz Jazz: um programa bi-semanal de 90 minutos em que são apresentadas exibições de música jazz de todo o mundo, incluindo pequenos segmentos de conversa com músicos e peritos em música.

A programação inclui durante a semana três programas desportivos: • Moçambola: um programa de 90 minutos sobre jogos da liga nacional de futebol. Combina a transmissão em directo de jogos de futebol e comentários de repórteres e especialistas. • Agenda Desportiva: um programa de 30 minutos à Segunda Feira à noite, com reportagens sobre os jogos de Domingo, e segmentos de conversa sobre os próximos jogos durante a semana. • Bola ao Ar : um programa semanal de 55 minutos, cobrindo notícias e comentários de jogos envolvendo códigos de desporto para além do futebol em todo o pais. Para além disso, a TVM oferece séries de recreação e telenovelas brasileiras tais como Malhação, uma comédia diária juvenil de 90 minutos que a TVM tem estado a transmitir há vários anos. A novela inspira-se no ambiente do dia-a-dia de jovens do ensino secundário brasileiro, e inclui alguns temas educacionais sobre a sexualidade juvenil, prevenção de doenças de transmissão sexual e outras. Embora a programação contenha uma diversidade de géneros e formatos, a popularidade de algumas destas ofertas é de certo modo questionável. Como regra, os tópicos informativos estão relacionados com iniciativas governamentais, incluindo conferências e campanhas nacionais. Por exemplo, durante o ano de 2009, a TVM organizou uma série de “programas especiais” envolvendo a participação do Presidente da República, que inaugurou vários eventos em Maputo e nas províncias, relacionados

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com as celebrações do 40º aniversário da morte de Eduardo Mondlane, fundador da Frelimo. Estes eventos incluíram uma cobertura extensiva de comícios populares e simpósios no Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano, onde foram enaltecidos feitos da Frelimo – tudo isto claramente em antecipação da campanha para as eleições presidenciais e parlamentares de Outubro de 2009. Durante todo o mês de Julho de 2009, a TVM também transmitiu todas as semanas uma série de entrevistas de 55 minutos com membros do governo, alegadamente para questioná-los sobre o grau de cumprimento do programa quinquenal do governo. Nem a oposição nem a sociedade civil foram convidadas a ocupar espaço e questionar os 24 ministros que apareceram nestes “programas especiais”. Um outro problema é que todos os programas com a participação do público através de chamadas telefónicas são transmitidos a partir de Maputo, e como tal monopólio de uma elite política e económica urbana ou jovens, desse modo deixando de lado os interesses e preocupações da maioria da população nas zonas rurais. Também por causa da limitada capacidade de produção da TVM, a maior parte dos programas são repetidos pelo menos uma vez durante a semana, o que torna o perfil de programação da estação monótono e de certo modo pouco atractivo.

2.3 Rádio SFM
A Rádio SFM foi lançada em 2001 como uma estação dirigida, sobretudo à camada jovem da zona metropolitana de Maputo. A sua principal programação é música. A toda a hora, a estação transmite serviços noticiosos de dois a três minutos na forma de destaques extraídos de jornais, particularmente o Notícias e alguns jornais distribuídos via fax ou electronicamente. Não oferece nenhum serviço noticioso ou de reportagem original produzido pelos seus próprios meios. Duas vezes por dia (às 11h00 e às 19h00) a Rádio SFM transmite 15 minutos de reportagens de rua focando questões do dia-a-dia na cidade de Maputo e cobrindo principalmente assuntos culturais e de entretenimento tais como o lançamento de livros ou álbuns musicais ou ainda espectáculos musicais.

2.4 STV
A partir da introdução de uma nova programação em Abril de 2009, aparentemente em preparação das eleições gerais em Outubro do mesmo ano, a STV passou da sua predominantemente programação comercial, dominada por concursos de música, telenovelas brasileiras e jogos de Internet para uma orientação mais virada para o interesse público. A estação oferece agora cerca de 11 horas de uma programação

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semanal de interesse público, incluindo serviços de notícias e de reportagem em português. A estação oferece dois boletins diários: 30 minutos às 13h00 e 35 minutos às 19h55 – cinco minutos antes do início do principal jornal da noite da TVM, exactamente como estratégia de antecipação `a estacão pública. Programas de interesse público transmitidos pela estação incluem os seguintes: Estado da Nação: este programa de 90 minutos é talvez o mais popular da STV. Foi formatado no modelo de um debate agressivo virado para a avaliação da governação, em que o apresentador confronta os membros do painel composto por representantes de instituições públicas, “peritos” ou especialistas com autoridade e diferentes abordagens sobre tópicos específicos com o público. O “painel” público é composto por qualquer pessoa que esteja interessada em participar e expressar os seus pontos de vista sobre o assunto em debate. Mais de 30 pessoas participam normalmente no programa, gravado numa sala de cinema. Os tópicos de debate vão desde questões relacionadas com a cobertura eleitoral a políticas culturais, segurança pública e crime organizado. O Estado da Nação deu uma significativa contribuição para a educação cívica durante as eleições presidenciais e parlamentares de 2009, servindo de um fórum de debate aberto em que os vários partidos políticos poderiam confrontar-se com o público sobre os seus manifestos eleitorais. Alguns dos debates realizados pela STV foram retomados por jornais e estações de rádio, onde as opiniões expressas eram rebatidas. Pulsar da Nação: uma reportagem semanal de fundo, cobrindo 55 minutos, centrado na iniciativa governamental de sete milhões de Meticais (aproximadamente US$ 300.000). Através deste programa, o governo atribui um orçamento anual neste valor a cada distrito como forma de promover o investimento em pequenos empreendimentos de geração de rendimento e criação de emprego nas zonas rurais. O Pulsar da Nação procura avaliar a implementação e o impacto desta iniciativa. Palavra de Mulher: um programa semanal de 55 minutos que procura promover a mulher, destacando os seus sucessos nas diferentes áreas sociais e na esfera empresarial. Ao oferecer às mulheres activas uma plataforma e voz para contarem os seus sucessos, a STV faz uma importante mudança, abandonando as habituais abordagens sobre a mulher, onde ela é frequentemente tratada como vítima passiva da violência doméstica ou de assédio sexual no local de trabalho. Opinião Pública: um programa de debate ao vivo com a duração de 55 minutos diários, e que lida com uma vasta gama de assuntos que afectam a vida das populações, principalmente questões de interesse social e cultural ou questões práticas tais como o processo de matrículas escolares no início do ano lectivo, prevenção e tratamento da cólera durante a época chuvosa, prevenção e combate às queimadas na época seca ou

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respostas a calamidades naturais que atingem o pais com frequência. Especialistas de várias áreas são convidados para prestarem informação e aconselhamento sobre as suas respectivas áreas, podendo também interagir com o público telespectador através de chamadas telefónicas. Moçambique em Acção: este é um programa contínuo de comunicação para o desenvolvimento, que faz parte das iniciativas de responsabilidade social da empresa. Através deste projecto, a estação promove acções de mobilização social em torno de um conjunto de actividades tais como o plantio de árvores de fruta na escolas, campanhas de promoção para o registo e vacinação de crianças, educação ambiental, limpeza e pintura voluntária de edifícios em estado de degradação, etc. As actividades recebem uma cobertura extensiva através de programas pré-gravados com uma duração de entre 15 e 30 minutos. Fest Coros: concursos de música religiosa, envolvendo milhares de pessoas pertencentes a várias congregações cristãs, e transmitido em directo durante 55 minutos a partir de um centro cultural em Maputo. Estes concursos têm uma duração de até três meses por ano.

2.5 TV Miramar
Mais de 70 por cento da programação da TV Miramar consiste em conteúdos de entretenimento brasileiros, incluindo concursos de dança, comédias e concertos musicais ao vivo. A estação oferece diariamente um total de cerca de duas horas de serviço noticioso e de reportagem: • Bom Dia Moçambique às 08h00: um programa de 55 minutos que procura informar os telespectadores sobre as principais notícias nacionais e internacionais do dia, bem informação meteorológica. Inclui uma revista de imprensa matinal que basicamente transmite as mais relevantes notícias dos jornais diários, especialmente o Notícias, e ainda da agência estatal de informação, a AIM. A componente internacional é essencialmente feita de histórias provenientes da TV Rede Record do Brasil, a estação mãe da Miramar, com sede em São Paulo. • Miramar Notícias às 09h00: um serviço de destaque das principais notícias da manhã em Maputo, com a duração de 15 minutos. • Jornal da Miramar às 18h00: um serviço vespertino de 30 minutos, cobrindo notícias nacionais e internacionais. As notícias e reportagens nacionais são essencialmente compostas de histórias de interesse social, como oposto a

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uma informação que reflecte cobertura da agenda do governo ou informações extraídas de funcionários governamentais. Estas histórias incluem tipicamente questões relacionadas com a flutuação dos preços dos produtos básicos no mercado informal, reuniões de organizações da sociedade civil ou sobre a escassez de transporte público quando os estudantes regressam da escola ao princípio da noite. • Madzungula ya Miramar às 19h45: este programa vespertino de 30 minutos incorpora um serviço noticioso e de reportagem, sendo o primeiro do seu género a ser transmitido numa televisão na língua Xi-Rhonga, falada na Cidade e Província de Maputo, sendo por isso um grande desafio à estatal/ pública TVM, que ainda não introduziu nenhum serviço em línguas nacionais no seu canal nacional. O programa é uma versão traduzida do Jornal Miramar, com subtítulos das captações de som originais. Para além disso, a TV-Miramar transmite cerca de três horas de uma programação de interesse público por semana: • Conversando com Matusse: é um programa de 55 minutos, em directo, todas as manhãs da Segunda à Sexta Feira, centrando-se sobre questões de saúde, incluindo o HIV/SIDA, malária e outras doenças. O apresentador interage com a audiência via telefone. Mais uma vez, a TV Miramar marca a diferença, uma vez que é a única estação que transmite um programa em directo com chamadas telefónicas em Xi-Rhonga. O programa atrai principalmente mães residentes nos subúrbios de Maputo, as quais apresentam questões e expressam os seus pontos de vista sobre como a pandemia e outras doenças afectam as suas próprias vidas e das suas respectivas famílias, bem como sobre uma variedade de outros assuntos de interesse social ou geral, reclamações sobre o mau serviço prestado pelas instituições públicas de saúde, especialmente hospitais e outros estabelecimentos similares. • Voz do Povo: é um programa de debate em directo com a duração de 55 minutos, e que é transmitido duas vezes por semana ao princípio da noite, versando questões políticas, sociais e económicas que estejam no topo da agenda nacional. O programa também inclui chamadas telefónicas por parte dos telespectadores. • Perguntas e Respostas: é um programa diário de 55 minutos, em directo, em que especialistas oferecem aconselhamento jurídico ou médico em resposta a questões previamente enviadas pelo público. • Passando a Limpo: é um programa de 30 minutos de duração com debates em

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directo e que vai ao ar aos Domingos ao princípio da noite, com a participação de analistas e comentadores independentes, os quais apresentam pontos de vista opostos sobre alguns dos mais destacados acontecimentos da semana finda. Este programa, no seu formato e intervenientes, foi inicialmente transmitido na TVM sob o título A Semana, tendo sido lançado durante a campanha eleitoral de 2009. Mas em Setembro de 2009, o grupo de comentadores decidiu oferecer os seus préstimos à TV Miramar, em protesto contra a decisão da TVM de reduzir o programa em 15 minutos, alegadamente para dar espaço aos jogos de futebol do Campeonato Europeu.

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Notícias e informação sobre assuntos correntes

Para os propósitos desta pesquisa, nos meses de Abril e Maio de 2009, foram monitorados e analisados, durante períodos de uma semana, os principais serviços noticiosos e de informação geral da Rádio Moçambique e da Televisão de Moçambique, bem como das estações comerciais da STV e da TV Miramar. Tomando em linha de conta os tópicos cobertos, o tipo de fontes a que se recorreu e a sequência ou alinhamento dos assuntos, foi feita uma avaliação informada sobre a natureza destes programas e a importância que representam do ponto de vista dos critérios profissionais de actualidade/relevância noticiosa, diversidade e independência.

3.1 Rádio Moçambique
RM-Jornal, edição da noite (diariamente das 19h30 às 20h00) é o segundo segmento noticioso e informativo mais importante da RM (depois do Jornal da Manhã, com uma duração de duas horas) e foi escolhido para esta avaliação dado que o seu formato é mais facilmente comparável ao das outras estações. O programa aborda notícias e informações nacionais e internacionais – políticas, económicas, sociais e culturais. Começa com um boletim noticioso nacional e internacional de cinco minutos, seguido de 25 minutos de reportagem com complementos sonoros e contribuições dos emissores provinciais, e termina com informação desportiva. Os assuntos sobre ou relacionados com instituições oficiais tais como o governo, o parlamento, o partido no poder, partidos da oposição, forças de defesa e segurança, e o poder judicial figuram de firma proeminente. Durante a semana em que foi feita a observação para efeitos desta pesquisa, histórias relacionadas com a actividade do governo representaram 15 por cento e as que se relacionam com a actividade do parlamento pouco menos de 10 por cento. Cerca de 8 por cento abordavam questões

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relacionadas com organizações da sociedade civil. A cobertura dos partidos da oposição constituiu apenas 2 por cento.119 Histórias individuais sobre cidadãos comuns constituem uma significativa percentagem – até 25 por cento – da cobertura noticiosa da RM, especialmente sobres questões sociais de relevância para as comunidades locais, transmitidos ao canal nacional através dos emissores provinciais. Geralmente, os serviços noticiosos e de reportagem da RM seguem um modelo padronizado, com uma sequência previsível: (i) Notícias sobre actividades do governo central ou a ele relacionados. Isto inclui a agenda oficial do Presidente da República e actividades dos membros do Conselho de Ministros. (ii) Actividades dos governos provinciais ou a eles relacionados. (iii) Tópicos de impacto nacional, relacionados com a pobreza/desenvolvimento, saúde pública, produção agrícola, educação e outros. (iv) Acontecimentos de interesse cultura, tais como festivais, concertos, lançamento de livros e outros. E finalmente: (v) informação desportiva. As duas últimas categorias normalmente perfazem menos de 10 por cento de toda a programação. O jornal vespertino contém sete a oito peças de dois a três minutos de duração cada, com uma introdução apresentada pelo editor/apresentador. Os repórteres apresentam as suas próprias peças, que são geralmente pré-gravadas e que incluem captações de voz provenientes de várias fontes ou das pessoas entrevistadas. Os emissores provinciais são mantidos em linha durante o programa, e isto permite que colaboradores locais possam interagir com o editor e sejam capazes de transmitir as suas peças em directo. Em alguns caso, o jornal inclui breves entrevistas em directo com peritos presentes no estúdio ou no emissor provincial ou no local de realização de uma conferência. Comentadores poderão também serem convidados para darem os seus pontos de vista sobre um assunto controverso. Os repórteres da RM procuram apresentar peças contextualizadas, quer através do fornecimento de informação básica e antecedente sobre o assunto em questão, quer através da transmissão, com complementos sonoros, de pontos de vista opostos. Repórteres e editores também apresentam comentários analíticos sobre questões controversas, especialmente onde estejam em presença preconceitos, a ignorância ou crenças perigosas. Por exemplo, um repórter do emissor provincial da Zambézia produziu uma reportagem de fundo sobre a morte de três pessoas acusadas pelos seus vizinhos de “impedirem a queda da chuva”.120 Tais pontos de vista estão enraizados em
119 É preciso notar que em Moçambique “partidos políticos da oposição” é o equivalente a dizer Renamo, uma vez que os restantes partidos da oposição só se tornam activos menos de dois meses durante os períodos eleitorais. 120 Como resultado de uma fome severa causada pela seca prolongada, a população local no distrito de Nicoadala, na província da Zambézia, acusou o estado de impedir a queda da chuva e apenas permitir que ela caia junto dos agricultores mais prósperos. Em meados de Fevereiro, três pessoas foram mortas e seis ficaram feridas depois de serem acusadas de desviarem a chuva. Um dos camponeses foi citado pelo jornal Domingo como tendo dito: “Naquela machamba ali, há culturas que estão a crescer, mas na minha não. Como é que o meu vizinho pode ter qualquer coisa para comer e eu não?”

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algumas crenças tradicionais africanas. Na sua entrevista com as pessoas envolvidas, o repórter, de forma pedagógica levou-as a compreender que a queda da chuva não depende do desejo de alguém, e de que o seus comportamento tinha sido criminoso.

3.2 TVM
O principal boletim noticioso da TVM, o Jornal Nacional (20h00 a 20h30) tem uma estrutura idêntica: sete ou oito notícias de cerca de três minutos cada, incluindo complementos audiovisuais, com o apresentador a apresentar os destaques e cada repórter ler a sua própria peça. O programa é dominado pela cobertura das actividades do Presidente da República, dos ministros, dos governadores provinciais e outros funcionários. Estas histórias são tratadas de forma separada e são invariavelmente colocadas no topo do alinhamento, numa sequência estritamente hierarquizada: o Presidente da República, os ministros, os governadores provinciais e outros funcionários. Elas representam aproximadamente 35 por cento de todo o Jornal Nacional. Durante a semana em que o programa esteve sob observação para efeitos desta pesquisa, por exemplo, a cobertura sobre o Presidente da República teve lugar todos os dias como também houve 12 ministros, directores provinciais e administradores distritais, todos eles em peças separadas, ou a discursar ou a lançar uma campanha de serviço público. O partido no poder, a Frelimo, esteve em segundo lugar quer em termos de quantidade quer em termos de ordem de colocação das peças no programa, ocupando cinco por cento do tempo do jornal, seguido pelo Parlamento, com um por cento. Organizações da sociedade civil também representaram um por cento do tempo. Não houve uma única notícia ou voz da oposição no decorrer de toda a semana monitorada. O jornal também inclui informação sobre acontecimentos desportivos e culturais, que normalmente ocupam entre cinco e sete por cento do tempo. Raramente há informação sobre o cidadão comum, excepto quando alguém esteja relacionado com algum acontecimento cultural ou desportivo. Em média, 15 a 25 por cento do tempo de antena é ocupado pela publicidade (cinco a sete spots). A maioria das peças são pobremente editadas, especialmente discursos de funcionários governamentais. Os repórteres da TVM raramente contextualizam ou prestam informação de background sobre as notícias que transmitem. Raramente também dão espaço a pontos de vista opostos, o que permitiria dar ao público uma visão e compreensão mais ampla sobre os assuntos a serem tratados.

PROGRAMAÇÃO

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3.3 STV e TV Miramar
Os principais serviços noticiosos vespertinos da STV e da TV Miramar estão ambos direccionados para “histórias de interesse humano” tais como crime, transgressões sexuais ou qualquer outro tipo de má conduta social. Ambas estações iniciam os seus boletins noticiosos com uma chamada de atenção aos telespectadores sobre uma história de atracção popular, a ser desenvolvida mais tarde durante o programa. A seguir vem um sumário sobre as notícias do dia como “destaques noticiosos nacionais e internacionais”. Durante uma semana, em Abril de 2009, foi monitoriada a programação das duas estacões televisor comerciais. No caso particular da TV Miramar, era a seguinte a distribuição de notícias e reportagens, em função da natureza do objecto de cobertura: 48 por cento dos temas centravam-se no cidadão comum como fonte primária de informação. Estas incluem ocorrências diárias nos arredores da cidade de Maputo, tais como crimes de rua, acidentes de viação e engarrafamentos do trânsito. Histórias originárias do ou sobre o governo e Parlamento representaram 16 por cento do período noticioso e as originárias de ou sobre organizações da sociedade civil representaram 24 por cento. Dois por cento do total do tempo noticioso foram dedicados a histórias sobre partidos da oposição. Embora com algumas variações, a STV seguiu, basicamente, o mesmo padrão: 43 por cento da informação era proveniente de ou sobre o cidadão comum, 25 por cento de ou sobre o governo e o Parlamento, 19 por cento de ou sobre organizações da sociedade civil. Histórias de ou sobre partidos da oposição representaram 13 por cento do total do tempo noticioso. Uma história tipicamente de destaque quer para a STV quer para a TV Miramar é a de um homem que terá alegadamente sodomizado três jovens num dos subúrbios mais populosos de Maputo – mal investigada, sem quaisquer provas. Durante vários dias, por exemplo, a STV seguiu o caso de uma disputa entre uma igreja e dois dos seus pastores que haviam sido expulsos da congregação e deixados sem abrigo depois de 15 anos de serviço. Todos os dias, a história era seguida como um drama humano nacional, com detalhes sobre as várias tentativas “sem sucesso” do repórter de ouvir a explicação dos dirigentes da igreja sobre a sua decisão, bem como a opinião de juristas. Geralmente, as histórias em ambos os canais não são equilibradas. A justificação de que “tentativas para ouvir o outro lado da história redundaram em fracasso” é uma prática comum, em que um indivíduo ou instituição é acusado de más práticas, mas não lhe é dada oportunidade de se defender. Por exemplo, num caso de disputa judicial sobre um imóvel, a STV reportou de forma extensiva as opiniões de uma família que havia recebido ordens de abandonar o imóvel. O porta voz da família acusou o juiz que

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presidiu o caso de corrupção, alegando que ele havia recebido dinheiro para influenciar a sua decisão. A história terminou com o repórter a ser filmado defronte da casa do juiz, afirmando que os seus esforços para ouvi-lo não tinham sido bem sucedidos.

4 Pesquisas de audiência
Em Fevereiro de 2009, o Grupo Steadman levou a cabo um vasto estudo sobre o comportamento e atitudes da audiência em relação à rádio e televisão em Moçambique, com uma amostra de 1 200 inquiridos.121 De acordo com a pesquisa, 92 por cento dos agregados familiares possuem um aparelho de rádio e 44 por cento um televisor a cores. Cerca de 49 por cento dos inquiridos possuem um telemóvel, com a maioria nos centros urbanos (76 por cento) comparado com 27 por cento nas zonas rurais. Por outro lado, 12 por cento dos agregados familiares inquiridos têm acesso a um computador (25 por cento nos centros urbanos e 7 por cento nas zonas rurais). O equivalente a 92 por cento dos inquiridos haviam escutado rádio no dia anterior ou “durante os últimos sete dias”, comparado com 55 por cento para a categoria de televisão. O número para leitores de jornais é de apenas 27 por cento. Quando solicitados a pronunciarem-se sobre as suas principais fontes de informação, 70 por cento dos inquiridos citaram a rádio, 45 por cento a televisão, 8 por cento jornais e 2 por cento a Internet.

4.1 Rádio
Dos inquiridos, 89 por cento mencionaram “notícias locais” como sendo o tipo de programas que escutam na rádio, seguido de “música local” (58 por cento). “Programas de saúde” e “notícias africanas” possuem também uma audiência significativa de 50 e 52 por cento respectivamente. Solicitados a pronunciarem-se sobre o tipo de programas que gostariam de escutar mais, 59 por cento mencionou “notícias locais”, 30 por cento “música local” e 31 por cento programas de saúde. Quando solicitados a pronunciarem-se sobre que tipo de assuntos gostariam que fossem mais abordados na rádio, 75 por cento dos ouvintes mencionaram a “educação”, 64 por cento “saúde e bem estar”, 52 por cento “meio ambiente”, 44 por cento “assuntos da criança” e 43 por cento “questões relacionadas com a mulher”. Cerca de 43 por cento dos inquiridos “concordam fortemente” ou “de certo modo”
121 The Steadman Group, Audience Research Survey, Mozambique, Kampala, August 2009 (The Steadman Group, Pesquisas de Audiência, Moçambique, Kampala, Agosto de 2009).

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com o ponto de vista de que as estações de rádio estatais “são independentes do governo, ou seja, que a programação dos conteúdos não é influenciada pelo governo do dia”, comparado com 51 por cento, em relação `a independencia da radiodifusão comercial. Quando questionados sobre se concordam “fortemente” ou “de certo modo” com a afirmação de que as estações de rádio “prestam informação fiável em que eu confio e acredito”, 57 por cento dos inquiridos responderam na afirmativa no que diz respeito à rádio estatal, em comparação com 62 por cento para as rádios comerciais.

4.2 Televisão
Os inquiridos foram solicitados a pronunciarem-se sobre a sua estação favorita, independentemente de se tal era pública ou comercial/privada. A estatal Televisão de Moçambique foi apontada pela maioria, 36 por cento, seguida das mais conhecidas estações de televisão comercial STV (14 por cento) e TV Miramar (3 por cento). Cerca de 42 por cento ou não responderam à questão (devido à falta de sinal de TV) ou porque não tinham nenhum canal favorito. “Notícias locais” é a categoria do topo na televisão com mais de 60 por cento dos inquiridos listando-as como tal, seguido de “música local” (40 por cento) e “notícias internacionais” 38 por cento.

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Feedback e procedimentos sobre reclamações

Quer a RM, quer a TVM não possuem mecanismos formais que encorajem ou facilitem sistemas de retorno (feedback) de informação e de lidar com reclamações ou sugestões do público. Contudo, nos últimos anos, quer a RM quer TVM organizaram “consultas de opinião pública” esporádicas e informais de uma ou de outra forma. A RM, por exemplo, criou um fórum anual de consulta de opinião pública, os Seminários de Linguística e Radiodifusão, onde profissionais e académicos convidados discutem o estado e tendências no sector nacional da radiodifusão. Em algumas ocasiões, estações de radiodifusão “irmãs” dos países africanos de língua portuguesa são convidadas, em particular de Angola e Cabo Verde, com a finalidade de partilharem as suas próprias experiências com os colegas moçambicanos. Contudo, estes seminários tendem a ser meros exercícios de relações públicas, uma vez que as suas conclusões e recomendações não são vinculativas quanto às políticas de programação da estação. Como parte do processo de preparação de uma nova grelha anual de programas,

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a RM também organiza painéis de debate constituídos por “ouvintes activos”, suplementados com contribuições do público via telefone, onde os ouvintes expressam os seus pontos de vista e sugerem tópicos a serem tomados em conta na programação do ano seguinte. O grupo dos “ouvintes activos” é composto de uma lista dos ouvintes mais frequentes nos programas interactivos e por membros de algumas organizações da sociedade civil, e por isso mais inclinado a favor de ouvintes residentes em Maputo. No caso da televisão, um “Fórum TVM” é realizado em preparação da nova programação anual da estação, normalmente em Fevereiro. Este fórum é, porem, esporádico e irregular. Não há critérios objectivos para a selecção dos convidados que são chamados a representar os pontos de vista do público, e mais uma vez as suas sugestões e recomendações não são vinculativas.

6 Conclusões e recomendações
No geral, os programas da Rádio Moçambique vão de encontro com os principais objectivos da radiodifusão pública, através da disponibilização de um vasto leque de informação e ideias representando vários sectores da sociedade e um credível fórum para o debate democrático. Abrindo os seus canais para que os ouvintes tomem parte em discussões por sms e e-mail (via telefones celulares) permite que ouvintes em zonas remotas, ainda não cobertas pela rede de telefonia fixa também possam expressar os seus pontos de vista. Os programas de debate em directo da RM, tais como o Café da Manhã, que vai ao ar diariamente pela manhã, e o Linha Directa, transmitido aos Sábados, nos quais o público é encorajado a interagir com membros do governo e outras figuras nacionais e líderes de opinião, contribuem para a livre circulação de informação e ideias, ajudando desse modo na criação de um sentido de cidadania. Os programas noticiosos e de reportagem da Televisão de Moçambique, por seu lado, são dominados pela cobertura das actividades e pontos de vista do governo, criando, por isso, a percepção de que a TVM não é um órgão de radiodifusão do sector público, mas sim um órgão ainda estatal. As principais estações de televisão comerciais de Moçambique são eminentemente canais de entretenimento. A lei não impõe à radiodifusão comercial quaisquer obrigações relacionadas com uma programação que vá de encontro com o interesse público, ou que exija dela uma percentagem mínima de conteúdo local. Como resultado, as estações de radiodifusão comercial preferem adquirir programas estrangeiros a baixo custo do que produzir os seus próprios materiais ou encomendá-

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los junto de produtores locais independentes. Embora elas ofereçam uma quantidade significativa de notícias e reportagens e outros programas de interesse público, os seus serviços noticiosos e de reportagem tendem a ser tendenciosos e superficiais. Em muitos casos, as histórias são mal investigadas, com uma ênfase exagerada sobre o drama humano e destinadas a atrair audiências.

Recomendações
• Tal como se recomenda no capítulo 6, uma nova lei sobre a radiodifusão pública deve ser aprovada de modo a transformar a Rádio e a Televisão de Moçambique em verdadeiros instrumentos de radiodifusão pública. • Uma ampla consulta deve ser iniciada de modo a desenvolver as políticas ou regulamentos visando a promoção de um vasto leque de conteúdos que sirvam as necessidades e os interesses de diferentes audiências. Os conteúdos informativos, em particular os da televisão e rádio comerciais, devem corresponder aos interesses não só das elites urbanas, mas também dos pobres nas zonas urbanas e rurais, minorias e outros grupos marginalizados. • De um modo geral, os provedores de serviço público de radiodifusão devem introduzir mais programas informativos, baseados em reportagens de fundo, mais do que em debates de estúdios com “especialistas” convidados. Tais programas devem abordar matérias como desafios da pobreza/ desenvolvimento, governação e cidadania. Programas de entretenimento educativos na forma de concursos sobre cultura geral podiam ser também introduzidos, tendo como grupos-alvo sobretudo estudantes do ensino secundário e adolescentes em geral. • A Televisão de Moçambique, em particular, deve reflectir os interesses e as necessidades de todos os segmentos da sociedade. Deve também urgentemente introduzir mais línguas nacionais na sua programação, nomeadamente no canal nacional, e alargar ainda mais a sua presença nas províncias. • A Rádio Moçambique deve expandir a sua cobertura das questões nacionais e locais, para o resto do país, por exemplo as mais populosas províncias da Zambézia e Nampula. • Os estatutos editoriais contidos na legislação original da Rádio e Televisão de Moçambique, bem como a garantia da independência editorial determinada na Lei de Imprensa devem ser postos em prática. • A TVM deve elaborar um código de padrões profissionais e de ética.

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• A sociedade civil deve estabelecer mecanismos de acompanhamento quanto ao nível de adesão da RM e da TVM aos seus próprios estatutos e princípios de radiodifusão pública. • Tanto a RM como a TVM devem estabelecer um sistema que permita ao público apresentar reclamações sobre a violação desses códigos. • Políticas claras devem ser postas em prática para incentivar as estações comerciais de televisão a produzirem mais programas de interesse público. Para este fim, a nova legislação sobre a radiodifusão deve impor à radiodifusão comercial obrigações sobre uma programação de interesse público e estabelecer mecanismos para a disponibilização de fundos e subsídios para promover uma maior diversidade de serviços e encorajar uma programação de interesse público. Tais fundos devem ser atribuídos em conformidade com critérios claramente definidos, seguindo um processo justo e transparente, supervisionado por um órgão independente.

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Percepções e expectativas em relação `a radiodifusão estatal/pública

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Sociedade civil

No decurso desta pesquisa foram entrevistados representantes das seguintes organizações da sociedade civil: Observatório Eleitoral, uma coligação de sete organizações da sociedade civil que desde 2003 têm vindo a monitorar processos eleitorais nacionais e regionais; o Conselho Cristão de Moçambique, uma rede de 18 igrejas evangélicas que, conjuntamente com a Igreja Católica assumiram um papel de relevo no processo de paz e têm estado envolvidas no processo de reconciliação pósconflito no pais; o Grupo-20, uma plataforma das mais representativas organizações da sociedade civil do país; assim como as duas organizações dos media mais activos no pais: O Sindicato Nacional dos Jornalistas (SNJ) e o MISA-Moçambique. Foram também, entrevistados analistas independentes e peritos em matéria de comunicação social. No geral, as organizações da sociedade civil fazem uma clara distinção entre a Rádio Moçambique (RM) e a Televisão de Moçambique (TVM). Elas consideram a rádio Moçambique como sendo relativamente mais equilibrada e geralmente independente de influências políticas e comerciais, enquanto que no seu ponto de vista, a Televisão de Moçambique está sob um controlo “visível” do governo.

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Por exemplo, o Sheik Abdul Carimo,122 vice presidente do Conselho Islâmico de Moçambique e porta voz do Observatório Eleitoral, considera a política editorial da RM “equilibrada e inclusiva”, uma vez que a estação muitas vezes apresenta debates em directo sobre diversos tópicos de interesse público com a participação dos partidos da oposição, o partido no poder a Frelimo e representantes de diferentes organizações da sociedade civil. Em contraste com a RM, “há um forte controlo político e censura sobre a TVM”. Isto, diz ele, reflecte-se tanto nos tópicos seleccionados para debate e o tipo de personalidades convidadas para participar nos mesmos. Ele considera igualmente que a programação da TVM está virada para as “elites” urbanas, com pouco conteúdo de interesse para o cidadão comum. O Seik Carimo também manifestou a sua preocupação em relação à política de programação da TVM sobre questões religiosas. Ele mencionou os programas religiosos da TVM tais como Ressonâncias (em que igrejas cristãs apresentam cânticos religiosos), bem como a transmissão em directo de serviços religiosos cristãos durante o Natal: “Como um órgão público, a TVM não deve favorecer uma religião e ignorar as outras”. O Reverendo Dinis Matsolo,123 Secretário Geral do Conselho Cristão de Moçambique, disse que a radiodifusão estatal/pública “ainda reflecte muito do passado mais recente de um país de partido único”. Também fez uma clara distinção entre a RM e a TVM, e considerou a RM um “motivo de orgulho para Moçambique” devido à qualidade dos seus serviços e pela sua capacidade de atingir “aquelas comunidades que vivem nas zonas mais remotas” do pais. Com a sua cobertura da vida diária das comunidades rurais, a RM contraria a tendência da maior parte dos órgãos de comunicação social de cobrir predominantemente as “actividades de figuras públicas”. No seu ponto de vista, a RM é uma “verdadeira estação de rádio moçambicana”, que também se esforça em valorizar a cultura e tradições nacionais. Acrescentou que a TVM, por seu lado, ainda precisa de melhorar a sua programação como um órgão de radiodifusão do sector público, porque ainda continua dominada por materiais ou acontecimentos produzidos no exterior. “Somos muito críticos nesta matéria, uma vez que não vemos muito conteúdo local na TVM”. Uma questão de preocupação é a preponderância das telenovelas brasileiras: “Estamos preocupados que estas telenovelas não garantem a protecção das crianças, dos jovens e dos valores familiares”. O director executivo do G20 e membro da Comissão nacional de Eleições, Paulo Cuinica,124 também disse que os órgãos de radiodifusão estatal/pública em Moçambique continuam ainda “a concentrar-se muito na cobertura das actividades de figuras públicas”. Do seu ponto de vista, “há uma cobertura excessiva de discursos
122 Entrevistado pelo autor em Abril de 2009 em Maputo. 123 Ibid. 124 Ibid.

PERCEPÇõES E EXPECTATIVAS EM RELAÇÃO `A RADIODIFUSÃO ESTATAL/PÚBLICA

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políticos” no lugar de reportagens sobre assuntos de interesse geral. Contudo, ele elogiou a RM, pela promoção de debates em directo, onde organizações da sociedade civil e cidadãos individuais podem expressar os seus pontos de vista sobre uma diversidade de assuntos. Estes programas, disse ele, contribuem significativamente para a criação do sentido de cidadania, dando às pessoas espaço para uma discussão aberta entre elas e com o governo ou representantes do parlamento sobre questões nacionais quentes: “Quando as pessoas podem participar em debates em directo através de chamadas telefónicas, significa que não há censura ... ”. Faruco Sadique,125 um especialista em assuntos dos meda e com uma longa experiência no campo das rádios comunitárias e centros multimédia comunitários em Moçambique, disse que uma importante limitação que a TVM deve ultrapassar urgentemente é o seu muito limitado uso de línguas nacionais. Apenas três línguas nacionais (Xindau, Xisena e Emakwa) aparecem por apenas 10 a 15 minutos por dia nos programas noticiosos e de reportagem dos emissores provinciais da TVM na Beira e em Nampula. No seu ponto de vista, “a nação” não se revê nos serviços noticiosos e reportagens da TVM, bem como na sua programação, uma vez que estes serviços restringem-se essencialmente a Maputo: “Só as crianças de Maputo é que podem ser vistas nos programas da criança da TVM. Crianças das províncias do Niassa ou de Sofala também são crianças moçambicanas”. A TVM também precisa urgentemente de expandir o seu sinal e alargar a sua capacidade de produção nas delegações provinciais. Sadique também criticou a política editorial da TVM, especialmente no que diz respeito aos seus serviços noticiosos e de reportagem, que considerou que cobrem mais acontecimentos oficiais e figuras públicas: “Qualquer actividade em que o Presidente da República participa é notícia de destaque no Jornal da TVM seminários, conferências e outros eventos burocráticos é tudo o que se vê nos jornais da TVM e muito pouco sobre a vida do cidadão comum”. Carlos Jeque,126 um analista político independente, disse que o serviço público de radiodifusão em Moçambique é geralmente fraco, apesar das leis e políticas que regem o sector, as quais ele considerou de “positivas”. Em particular ele foi muito crítico em relação à TVM, a qual ele disse que havia “baixado dramaticamente (de qualidade) nos últimos cinco a sete anos” para além de ter perdido credibilidade e audiências a favor de estações comerciais de TV recentemente criadas. Nas suas palavras, a TVM está demasiado preocupada em “agradar o governo”, e a sua actual imagem é a de “uma empresa desorganizada, sem uma estratégia e liderança claras, e sem espírito de equipa”.
125 Entrevistado pelo autor em Maputo em Julho de 2009. 126 Entrevistado pelo autor na Beira em Julho de 2009.

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Governo e outros actores políticos

Do ponto de vista do governo, os órgãos de radiodifusão estatal/pública têm estado a desempenhar o seu papel como provedores de serviço público de uma forma positiva e equilibrada. De acordo com Jordão Domingos, Chefe do Departamento de Informação do GABINFO,127 tanto a RM como a TVM estão “na direcção certa”. Em particular, disse, a programação da Rádio Moçambique oferece variedade e procura servir os interesses de um público diversificado, seja do ponto de vista político, religioso ou social. Ele admitiu que a programação da TVM era “menos variada” e disse que tal se devia aos seus altos custos operacionais. O único canal nacional da TVM não é suficiente para garantir uma programação mais ampla de interesse público. “Sempre que a TVM decide realizar uma das sessões do parlamento em directo, deixa os telespectadores sem qualquer outra alternativa, às vezes por mais do que duas horas”. Domingo é também crítico quanto à qualidade dos serviços noticiosos e de reportagem na TVM. Do seu ponto de vista, a qualidade da linguagem é má, e na maioria dos casos, as notícias são transmitidas quase com as matérias em bruto: “Os repórteres não conseguem interpretar ou explicar claramente o contexto da informação que estiverem a transmitir para uma melhor percepção por parte de um público diversificado. Por assim agirem eles tornam-se incapazes de atingir o seu objectivo, que é o de partilhar conhecimentos, especialmente quando usam expressões técnicas tais como inflação e crise financeira”. Eduardo Namburete,128 porta-voz da bancada da Renamo no Parlamento, é do ponto de vista de que não existe um “sistema de radiodifusão pública” em Moçambique, apenas dois órgãos estatais/públicos de radiodifusão diferentes, a RM e a TVM. Embora a RM estava “a tornar-se progressivamente num órgão de radiodifusão pública credível”, ele receia que a recente mudança na sua estrutura de direcção poderá ser o prelúdio de um “controlo político mais rigoroso”. Em relação à TVM, Namburete sublinha que tal “controlo rigoroso” já estava a acontecer, “exercido pelo partido (Frelimo)”. De acordo ainda com Namburete, a noção de “interesse público” ainda não foi incorporada na programação dos dois órgãos nacionais de radiodifusão pública. Uma razão estrutural para esta situação, disse, é a forma como as estruturas de direcção dos dois órgãos foram criadas: através de uma “decisão discricional do Primeiro Ministro. “Essa é a razão porque a voz da oposição não é ouvida nestas duas estações”. Ele considera ser necessária mais programação de interesse público, para que “as opiniões das mulheres, de gente que vive com o HIV e SIDA, membros dos partidos da oposição
127 Entrevistado pelo autor em Maputo em Maio de 2009. 128 Entrevistado pelo autor em Maputo em Abril 2009.

PERCEPÇõES E EXPECTATIVAS EM RELAÇÃO `A RADIODIFUSÃO ESTATAL/PÚBLICA

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sem assentos parlamentares e outros grupos sociais possam também ser ouvidos”. Ele propõe que as modalidades escolhidas para a constituição de uma Comissão Nacional de Eleições dominada pela sociedade civil (ver detalhes no capítulo 1) deveriam também ser aplicadas para a nomeação das estruturas de direcção dos órgãos de radiodifusão do sector público.

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Conclusões

A maioria dos grupos da sociedade civil e da oposição consideram a TVM uma instituição controlada pelo governo e que concentra as suas atenções sobre eventos oficiais e actividades de figuras públicas e não reflecte de forma equilibrada as diferentes ideias, crenças e interesses sociais, políticos e culturais dos diversos estratos da sociedade. Em particular, a TVM é criticada por não ser capaz de oferecer uma programação que seja tanto do mais vasto interesse público como direccionada às necessidades das comunidades rurais do país. Em contraste, a RM é vista como sendo geralmente um fórum mais fiável para um debate público mais amplo, com uma programação mais pluralista e variada, e que procura responder os interesses de uma audiência diversificada, disponibilizando úteis programas educacionais, culturais, de informação e de recreação em todo o país.

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Esforços de reforma na radiodifusão

A plataforma legal, política e reguladora de Moçambique – desde a constituição até à lei de imprensa e decretos específicos do governo no sector da radiodifusão – é geralmente favorável ao desenvolvimento de uma indústria de radiodifusão pluralista. Contudo, a actual lei de imprensa é direccionada essencialmente à imprensa escrita, e não responde a áreas específicas e cruciais da radiodifusão. Estas incluem a necessidade de um reconhecimento claro e formal do sistema de três níveis de radiodifusão (pública, comercial e comunitária), e para a criação de um órgão regulador independente, tal como vem estipulado na Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África, aprovada em 2002 pela Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos e na Declaração Africana sobre a Radiodifusão. Por outro lado, tendo a indústria da radiodifusão do país se expandido de forma significativa nos últimos 15 anos, tal criou novas realidades e desafios que são substancialmente diferentes da situação em 1991, quando a lei de imprensa foi aprovada.

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Esforços previos de reforma

Em resposta a estes novos desafios, o governo iniciou um processo de elaboração de uma lei de radiodifusão em 2007, a primeira do seu género deste a independência do país em 1975. O Presidente da República anunciou o lançamento do processo num discurso em Novembro de 2007, e apelou a todas as organizações da comunicação social do país – o Sindicato Nacional dos Jornalistas (SNJ), o Fórum Nacional das Rádios Comunitárias (FORCOM), o MISA-Moçambique e a Associação das Empresas

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Jornalísticas (AEJ) – a assumirem um papel activo na elaboração da nova legislação. O GABINFO liderará o processo de consulta com o envolvimento destas organizações, o Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS) e o Instituto Nacional de Comunicações (INCM). O primeiro passo foi a criação de uma pequena comissão técnica de trabalho com a finalidade de definir os termos de referência que serviriam de guia no processo de elaboração da proposta, incluindo uma clara indicação do trabalho a ser realizado e do prazo para a sua realização. Desde o princípio, os representantes do MISA na comissão de trabalho apresentaram os seus pontos de vista junto da comissão técnica, contendo as principais questões que deveriam ser objecto de discussão e que deveriam ser inclusas. nos termos de referência. Elas incluem:
i) elaboração de uma lista de todas os órgãos e instituições de radiodifusão no pais, para permitir uma compreensão clara e comum sobre o actual estado do panorama da radiodifusão em Moçambique; desenvolver uma compreensão comum sobre os princípios da legislação sobre a radiodifusão, tal como estipulados nos instrumentos e pelos organismos regionais e internacionais relevantes, incluindo a SADC e a União Africana (UA); em particular, esta compreensão comum deveria incluir o reconhecimento do sistema dos três níveis de radiodifusão, tal como isso é defendido pela Declaração de Princípios sobre a liberdade de Expressão em África, nomeadamente os sectores da radiodifusão pública, privada/comercial e comunitária; definir os princípios políticos sobre mecanismos ou entidades independentes de regulação e sobre os órgãos de gestão e modalidades de financiamento do subsector da radiodifusão pública. Consagrar o princípio de quotas mínimas de transmissão de conteúdos programáticos locais ou nacionais.

ii)

iii)

iv)

v)

Não houve mais propostas por parte das outras organizações que fazem parte da comissão técnica de trabalho. Depois de um longo período de espera, o GABINFO surgiu com uma nova proposta dos termos de referência em Abril de 2009, que incluía maior parte dos princípios e políticas preconizados pelas instituições africanas acima referidas. Contudo, esta proposta nunca foi aprovada pela comissão de trabalho.

ESFORÇOS DE REFORMA NA RADIODIFUSÃO

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Mesmo assim, com base nesta mesma proposta, o GABINFO decidiu elaborar um documento mais circunstanciado de discussão, intitulado “Documento Preliminar do Grupo Restrito Sobre a Elaboração dos Termos de Referência da Lei de Rádio e de Televisão”. O documento descreve a regulação sobre a radiodifusão nas sociedades democráticas como visando essencialmente os seguintes objectivos:
(i) o reforço e aprofundamento do processo democrático; (ii) a protecção e promoção da cultura nacional, em resposta à globalização cultural; (iii) a defesa dos consumidores; (iv) o desenvolvimento económico nacional e a protecção do sector da radiodifusão.

O documento defende que espectro de frequência “é um recurso escasso por isso valioso”, e diz que “mesmo na era digital, em que mais canais de rádio e televisão podem estar disponíveis, não existe uma disponilidade infinita. Por isso se torna razoável que o Estado, como proprietário das frequências, coloque obrigações aos operadores que pretendam usa-las”. O documento enumera os objectivos para o licenciamento da radiodifusão como sendo os seguintes:
• • • • • Uniformizar os procedimentos de elegibilidade para operar no sector; Permitir a celeridade e a transparência do processo; Simplificar os procedimentos burocráticos; Regular os conteúdos programáticos; Usar critérios justos e transparentes na eleição dos operadores do sector, promovendo o pluralismo e diversidade dos media.129

O documento acrescenta que o actual processo de licenciamento permite a diversificação dos operadores de rádio e de televisão, abrangendo os sectores público, comercial e comunitário. Mas acrescenta que, “Contudo, a sua qualidade, salvo raras excepções, é medíocre, com uma programação deficiente e inviável do ponto de vista económico e financeiro, se quisermos ser rigorosos na aplicação da legislação em vigor”.130

129 In Documento Preliminar do Grupo Restrito sobre a Elaboracao dos Termos de Referencia da Lei de Radio e de Televisao, GABINFO, Fev. 2008, Maputo, p. 8. 130 Documento Preliminar, p. 9.

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Porque o mercado da publicidade no pais é pequeno e não podendo sustentar uma grande indústria de radiodifusão, o colapso de algumas estações é previsível, acrescenta o documento. Assim, o documento propõe duas formas através das quais os operadores de radiodifusão poderiam ter acesso a licenças:
a) através de um pedido de licenciamento, com as licenças a serem atribuídas através de um sistema de concurso público, depois de pedidos por parte dos interessados. O licenciamento deve aplicar-se na utilização do espectro terrestre hertziano. Os operadores do sector público estariam excluídos deste procedimento. b) Através da autorização a ser dada aos operadores que não usam o espectro terrestre hertziano ou a um operador já autorizado a exercer o papel de operador de radiodifusão.

O documento propõe que a legislação deva observar os seguintes princípios:
• • • • Transparência no processo de atribuição de frequências; Equidade e pluralismo dos os diferentes operadores; Resposta `as necessidades reais de serviço de Rádio e Televisão, bem como a sua sustentabilidade económico-financeira; Disponibilidade de frequências para a radiodifusão.

Quanto aos “formatos de propriedade”, o documento reconhece a necessidade de introduzir definições claras de vários sectores de radiodifusão e diz que “a maioria dos países adoptaram os seguintes tipos de serviços de rádio e de televisão”:
a) Um serviço público de radiodifusão – normalmente financiado no todo em parte pelo Estado, ao abrigo de um contrato de concessão e que visa assegurar uma programação de qualidade, equilibrada e diversificada, que contribua para a formação cultural e cívica dos cidadãos, promovendo o pluralismo político, religioso, social e cultural e o acesso de todos `a informação, `a cultura, `a educação e ao entretenimento; b) Serviço comercial – essencialmente visando a obtenção do lucro; c) O serviço comunitário, que tem as seguintes características: – É totalmente controlado por uma entidade não lucrativa com objectivos não lucrativos; – Serve uma determinada comunidade;

ESFORÇOS DE REFORMA NA RADIODIFUSÃO

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– –

Encoraja membros da comunidade a quem serve em promoverem os seus interesses através dos programas difundidos; Pode ser financiado por donativos, subsídios governamentais, patrocínios, publicidade ou por quotas dos membros.

Sobre a questão da propriedade dos serviços de radiodifusão por parte de partidos políticos e organizações religiosas, o documento tem a dizer o seguinte:
– Organizações políticas: como forma de procurar proteger a imparcialidade e equilíbrio político na comunicação, muitos países proíbem partidos políticos ou sociedades comerciais em que tenham participações de ter licenças para radiodifusão. Quanto `as organizações religiosas: em muitos países não existem restrições, mas são consideradas geralmente como serviços comunitários, portanto sem fins lucrativos.

O documento critica o facto de a actual regulação não exigir a apresentação de um estudo indicando como é que a estação vai garantir a sua viabilidade económica e financeira, e defende que, desta lacuna, tem resultado uma proliferação de estações de rádio e de televisão, que apenas têm podido sobreviver porque a lei não tem sido aplicada com rigor. De modo a garantir que apenas se atribua licença a operadores com potencial para a sustentabilidade económica e financeira, o documento preliminar defende os seguintes “mecanismos de limitação”:
i. A definição de um capital mínimo para os diferentes tipos de propriedade e de cobertura para obter licença; ii. Ou a apresentação de um estudo de viabilidade.

Adicionalmente, defende o “documento preliminar”, “a lei deve prever ... incentivos por parte do governo”, para a viabilização do sector.131 Num capítulo sobre “Regulação e controlo”, o documento exige que “alguns princípios aos quais os serviços de radiodifusão em todos os sectores devem aderir” terão que estar claramente definidos. Tais incluem a protecção da criança, o direito `a protecção da privacidade, que “numa sociedade democrática” deve “ser equilibrado com o direito do público à informação”, tomar uma posição contra “o crime e a desordem”
131 Documento Preliminar, p. 13.

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(“prevenir as estações de rádio e de televisão sejam apologistas da prática de crimes ou do desencadeamento da desordem ”) e contra o racismo e a discriminação étnica. Sob o título “Defesa dos princípios democráticos”, o documento diz:
a) As notícias devem ser correctas, exactas, sem erros e politicamente imparciais, onde a imparcialidade não deve ser confundida com ausência de opinião ou debate aberto. Uma democracia sã necessita de uma comunicação social credível que pode apresentar os factos com equilíbrio e com objectividade, para que os cidadãos possam tirar as suas próprias conclusões. A informação requer equilíbrio que deriva da pluralidade das opiniões a serem transmitidas. b) Tendo em conta que a maioria da população se informa em primeira mão informação das campanhas eleitorais através da rádio e da televisão, é imperativo que os operadores destes meios se comportem com objectividade neste período. O regulador definirá regras para garantir estes aspectos e monitorará a performance dos operadores. c) O direito de resposta e de recurso no caso em que tenham sido violados os direitos dos indivíduos e das organizações deve ser respeitado.

O documento recomenda que “quotas de conteúdos nacionais” sejam introduzidos “para proteger os valores culturais e locais”, abrangendo as línguas a serem usadas nas emissões/programação, muito particularmente em relação aos serviços de radiodifusão e Televisão públicas e comunitárias”. O documento enfatiza que “nenhuma forma de censura deve ser permitida”. Mecanismos de controlo devem apenas se preocupar com o nível de resposta às condições de licenciamento e introduzir “sistemas justos para facilitar reclamações do público”, com base em mecanismos de “auto-regulação dos órgãos fornecedores de conteúdos, consistindo na obrigação de definir regulamentos internos (estatuto editorial, sistema de gravação e manutenção do que for para o ar por um determinado período de tempo, e códigos de conduta) e controlar o seu performance. “O mecanismo de regulação da comunicação social”, diz o documento, “requer um acto balanceado para determinar que aspectos da comunicação podem ser regulamentados de modo a proteger os direitos dos cidadãos, mas simultaneamente, não permitindo uma oportunidade para os poderosos barrarem a liberdade. É necessário balancear a independencia do regulador e os propósitos do governo de modo a seguir os objectivos da política pública e determinar para onde a balança tende, entre potenciais conflitos de direitos do difusor, sociedade e individuais”, enfatiza o documento. “A regulação deve ser como uma tocha e o mais minimalista possível, mas robusta o suficiente para suportar o conceito básico de liberdade de expressão, que por sua vez

ESFORÇOS DE REFORMA NA RADIODIFUSÃO

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é uma pré – condição para a operação efectiva para a democracia”. Como forma de apoiar os seus argumentos a favor de um regulador independente da radiodifusão, o documento cita o Capítulo VII da Declaração dos Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África, a qual estabelece que:
1. Qualquer autoridade pública que exerça poderes na área da regulação sobre radiodifusão ou telecomunicações deve ser independente e adequadamente protegida contra a interferência, particularmente de natureza política ou económica. 2. O processo de nomeação dos membros de um órgão de regulação deve ser aberto e transparente, envolver a participação da sociedade civil, e não deve ser controlado por qualquer partido político em particular. 3. Qualquer autoridade pública que exerça poderes nas áreas da radiodifusão ou telecomunicações deve formalmente prestar contas ao público através de um órgão multi-facetado.

“A delegação apropriada de responsabilidades a uma entidade reguladora independente dá uma credibilidade ao processo de licenciamento bem como distância dos governos de potencial agitação política que pode ser associada `a concessão de licenças”.132 Inspirando-se no exemplo da África do Sul, Botswana, Zâmbia e Portugal, “o documento preliminar” conclui que “a administração pública fica com a responsabilidade para a alocacao e planificação de frequências, e o governo com a responsabilidade de regulamentar as leis” e garantir um financiamento adequado `a entidade reguladora. A actual entidade reguladora, o Conselho Superior da Comunicação Social (ver capítulo 5), é um órgão constitucional. Portanto, a criação de uma entidade reguladora independente irá exigir uma emenda constitucional, que, diz o documento, “não poderá ser feita a curto e médio prazo”. Tendo em linha de conta este quadro jurídicoconstitucional, o documento sugere que:
1. Ao Conselho Superior da Comunicação Social sejam atribuídas competências adicionais para: a) Fiscalização e monitoramento dos termos das licenças atribuídas [retirar estas competências do Gabinfo]; b) A aplicação de sanções e penalizações pelas violações [retirar estas competências do Gabinfo, INCM];

132 Documento Preliminar, p. 31.

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c) d)

Ser ouvido em relação ao lançamento de concursos públicos para a atribuição de licenças; A organização do processo de nomeação de directores-gerais das empresas públicas [retirar estas competências ao Gabinfo].

Para que estas novas tarefas sejam realizadas de forma adequada pelo conselho, o documento recomenda que o processo através do qual os membros do CSCS são nomeados seja alterado, “por forma a torna-lo num órgão mais operativo, menos partidário e isento de conflitos de interesse”. O GABINFO deve “lançar concursos públicos e atribuir licenças” (retirando esta responsabilidade do Conselho de Ministros). O INCM (que é a entidade que verifica a informação técnica submetida pelos operadores que requerem licenças, tais como estudos de radiação) deve reter as suas competências. No seguimento da adopção do “documento preliminar”, o GABINFO lançou um concurso público restrito, convidando instituições de pesquisa a submeterem propostas técnicas para a preparação de uma proposta de lei da radiodifusão. Organizações profissionais tais como o MISA-Moçambique e o Sindicato Nacional dos Jornalistas não estiveram envolvidas no processo. A Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane “ganhou” o concurso em Maio de 2009 e começou a trabalhar na proposta de lei da radiodifusão. A Comissão Técnica de Trabalho deverá basear-se nesta proposta para as suas futuras discussões. Espera-se que as deliberações ganhassem ímpeto logo depois das eleições parlamentares e presidenciais em Outubro de 2009.

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A proposta de projecto de Lei de Radio e Televisao

Em Maio de 2010 o Gabinfo publicou um projecto de lei de radio e televisao, a qual deixa de fora largos aspectos preconizados no documento preliminary de principios. No seu artigo 90, a proposta atribui ao Conselho de Ministros autoridade exclusiva de outorgar concessão e atribuir licença de canais públicos e privados de televisão e rádio bem como a sua prorrogação e renovação, atribuindo, por outro lado, ao Gabinfo, poder de “decidir sobre pedidos de licenciamento da actividade de radiodifusão comunitária”. Estas provisoes nao estao em consonancia com a Clausula VII da Declaracao de Principios sobre a Liberdade de Expressao em Africa, a qual defende a independencia das autoridades reguladoras e é citado no Documento Preliminar como um padrao orientador.

ESFORÇOS DE REFORMA NA RADIODIFUSÃO

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O Artigo 92 atribui poderes ao Conselho Superior da Comunicacao Social para “emitir instruções genéricas obrigatórias dirigidas aos operadores titulados para a prestação de serviços de radiodifusão com a finalidade de garantir o respeito e cumprimento da legislação vigente em matéria de rádio e televisão” e “decidir sobre reclamações que lhe sejam dirigidas pelo público ou pelos operadores do sector da rádio e televisão respeitantes ao desempenho de qualquer órgão do referido sector”. Este articulado confere assim poderes a um orgao estatutario para interferer na independencia editorial dos operadores de radiodifusao. A mesma proposta classifica, no seu Artigo 8, a radiodifusao segundo o regime de propriedade: Públicos; Privados; Comunitários; Religiosos; Nacionais; e Estrangeiros, sem contudo defini-los de forma detalhada. Por outro lado, estas definicoes parecem contradizerem-se a si proprias: sera que a RM recai sob a designacao de publica e de nacional, por exemplo? Adicionalmente, no seu Artigo 9, a proposta introduz o conceito da classificacao dos services de radiodifusao segundo a sua “finalidade”:
a. Serviços de Radiodifusão Comercial: são aqueles cuja programação está destinada ao divertimento e recreação do público, bem como à abordagem de temas informativos, noticiosos e de orientação pela comunidade, dentro do quadro das finalidades e princípios que orientam o serviço, tendo como principal objectivo a obtencao de lucro; b. Serviços de Radiodifusão Educativa: são aqueles cuja programação está destinada predominantemente ao fomento da educação, cultura e desporto, bem como à formação integral das pessoas;133 c. Serviços de Radiodifusão Comunitária: são aqueles cujas estações estão localizadas nas comunidades. A sua programação está destinada principalmente a fomentar o fortalecimento da integração nacional e regional.

Estas definicoes levantam uma serie de questoes, entre as quais as seguintes: • Por que se caracteriza o sector commercial como destinando-se primeiro sa diversao do publico e so depois para “abordagem de temas informativos”? Por que nao podem tambem transmitir servicos noticiosos, programas educativos, servico cultural, etc? Quem determina os “fins que perseguem e o conteúdo da sua programação”?

133 A classificação serviço de radiodifusão educativa não pretende substituir aos termos serviços de radiodifusão público porquanto os canais privados podem também difundir programas de carácter educativo.

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• O Artigo 6 da proposta estabelece que “o Estado promove o desenvolvimento dos serviços de radiodifusão, especialmente nas zonas rurais, priorizando os serviços de radiodifusão educativos”: qual dos servicos existentes podera qualificar-se como “edicativo”? Qual é o fundamento para se introduzir tal categoria? • Servicos de radiodifusao comunitaria servem os interesses das comunidades em que se encontram baseados: por que deverao entao ter “principalmente” “fomentar o fortalecimento da integração nacional e regional”? O Artigo 15(2) limita a participacao de capital estrangeiro aos 20 por cento no maximo. Esta questao nao tem sido debatida de forma exaustiva, sabendo-se que mais investimento estrangeiro vai ser necessario para permitir um maior desenvolvimento e expansao da industria da radiodifusao, incluindo a introducao das tecnologias mais avancadas. Por outro lado, o Artigo 66 estabelece um sistema de financiamento da radiodifusao que é similar ao actual.

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Conclusões e recomendações

A forma inclusiva com que o processo de reforma foi lançado, com o Presidente da República a lançar um apelo para o envolvimento activo da sociedade civil e das organizações da comunicação social bem com das relevantes entidades governamentais, mostra que o clima político/social em relação a oportunidades de reforma no sector da radiodifusão em geral e da radiodifusão pública em particular é de uma maneira geral positivo e encorajador. Nos primeiros estágios das discussões na Comissão Técnica de Trabalho, o GABINFO parecia carecer de uma orientação política do governo sobre a reforma do sector da radiodifusão e da radiodifusão pública em particular. Isto, infelizmente, conduziu à marginalização temporária da sociedade civil e das organizações da comunicação social, enquanto o governo estava a elaborar a sua posição. Contudo, os princípios enunciados neste “documento preliminar”, que deve servir de base para que a Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane prepare a proposta de lei, representa um ponto de partida positivo para futuros debates. Eles apresentam claras indicações sobre um significativo conjunto de questões cruciais, desde o próprio processo de licenciamento à produção de conteúdos e sistemas de controlo, bem como órgãos independentes de regulação, tudo em conformidade com a Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África.

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Contudo, permanecem ainda algumas questões criticas. Embora haja clareza quanto à necessidade de um órgão regulador independente, o “documento preliminar” abstém-se de recomendar uma emenda constitucional que tornaria tal regulador possível e garantisse a sua independência. Emendas constitucionais devem sempre ser uma ocorrência rara mas neste caso tal procedimento parece inevitável. O documento não consegue ainda oferecer princípios políticos claros sobre a necessidade dos órgãos de radiodifusão do Estado serem “transformados em serviços públicos de radiodifusão, prestando contas ao público através da legislatura e não do governo”, em conformidade com os princípios enunciados no Artigo VI da Declaração dos Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África. Infelizmente, contudo, a proposta de anteprojecto apresentada em Maio para debate público deixa de fora grande parte das orientações estabelecidas pelo governo no documento inicial de princípios. Um debate aberto sobre a necessidade de transferência do controlo da radiodifusão pública da alçada do governo para o poder legislativo parece continuar a ser ainda um tabu em Moçambique. Por isso recomenda-se que as organizações da comunicação social tais como o MISA-Moçambique, o Sindicato Nacional dos Jornalistas (SNJ), e o Fórum Nacional das Rádios Comunitárias (FORCOM) juntamente com outras organizações da sociedade civil tais como o Centro da Integridade Pública e a Liga Moçambicana dos Direitos Humanos devem: • Analisar cuidadosamente a nova proposta e adoptar uma posição comum a ser apresentada e discutida com o governo, em particular, mas não exclusivamente sobre: – o processo de licenciamento; – a classificação dos serviços de radiodifusão; – o licenciamento da radiodifusão pública; – o financiamento da radiodifusão pública. • Fazer lobbies para a criação de uma autoridade de radiodifusão verdadeiramente independente, mesmo que signifique alterar a constituição; • Fazer lobbies para a inclusão de claras disposições sobre a radiodifusão pública na nova lei de radiodifusão, garantindo que os órgãos de radiodifusão pública sejam dirigidos por um conselho de direcção que esteja protegido contra a interferência, particularmente de natureza política ou económica, e que sejam adequadamente financiados de tal modo que estejam protegidos da interferência arbitrária nos seus orçamentos;

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• Envolver o Observatório do Desenvolvimento nestas discussões, um órgão independente criado em 2003 como um fórum de consulta em que o governo e os seus parceiros internacionais, juntamente com a sociedade civil, fazem um acompanhamento sobre a implementação dos programas de redução da pobreza (PARPA); • Organizar campanhas de divulgação e de debate aberto sobre a necessidade de reforma no sector da radiodifusão, em particular em relação à Rádio Moçambique e Televisão de Moçambique, bem como sobre as rádios comunitárias.

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Conclusões e Recomendações Gerais

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Conclusões

Moçambique é uma democracia multipartidária emergente, com a constituição de 2004 garantindo a liberdade de expressão e de imprensa. Isto está em consonância com a Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África e outros instrumentos internacionais. Contudo, na realidade, o ambiente político, económico e cultural ainda impõe sérios obstáculos ao pleno exercício destes direitos fundamentais. A liberdade de expressão está consagrada através do Artigo 48 da Constituição, nos termos da qual todos os cidadãos gozam da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa, bem como o direito à informação. Este dispositivo define a liberdade de expressão como incluindo o direito do indivíduo de expressar o seu próprio pensamento por todos os meios legais. A liberdade de expressão e o direito à informação também estão garantidos na Lei nº18/91 de 10 de Agosto de 1991 (Lei de Imprensa). Nesta, a liberdade de expressão é definida como sendo parte integrante e um pré-requisito da liberdade de imprensa. A Lei de Imprensa define o direito à informação como sendo o direito de cada cidadão de se informar e de ser informado sobre factos e opiniões relevantes ao nível nacional e internacional, bem como o direito de todos os cidadãos de expressar e disseminar informação, opiniões e ideias através dos órgãos de comunicação social. Apesar destas definições, a Lei de Imprensa de Moçambique impõe restrições e em

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certos casos penaliza a disseminação da informação através dos órgãos de comunicação social. Também contém disposições que contradizem a Declaração de Princípios da União Africana sobre a auto-regulação dos media, de entre várias formas através da criação do Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS), que agora até goza do estatuto de um órgão constitucional, nos termos da nova Lei Fundamental de 2004. Moçambique ainda sofre dos vestígios da herança colonial, de um clima de extremo secretismo, e que constitui o principal obstáculo para o gozo de uma efectiva liberdade de expressão e liberdade de imprensa. A falta de acesso à informação na posse do estado claramente viola a Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão de Africa. A principal ameaça à liberdade de imprensa actualmente é o uso excessivo de disposições relativas ao chamado “abuso da liberdade de imprensa”, nomeadamente a difamação – civil e criminal. O panorama diversificado da imprensa em Moçambique é caracterizado pela existência de mais de cem órgãos de informação com diferentes tipos de modelos de propriedade e políticas editoriais, cobrindo os sectores da rádio, televisão e imprensa escrita. Este panorama pluralista é resultado de um regime de registo e licenciamento da imprensa que é aberto e não restritivo. Jornais precisam apenas de um registo administrativo para iniciarem as suas actividades. Os operadores de radiodifusão, por outro lado, requerem uma licença que só lhes é atribuída por um órgão do governo, o Conselho de Ministros. A Lei de Imprensa também estabelece princípios que visam promover uma imprensa pluralista através da proibição de monopólios no sector. Os media em Moçambique têm na generalidade sido capazes de afirmar a sua posição como plataformas para o discurso democrático. Tomada como um todo, a comunicação social goza de credibilidade de uma significativa posição moral dentro da sociedade. A radiodifusão tem contribuído para a criação de um sentimento de cidadania comum, particularmente durante os períodos eleitorais, através da promoção de programas de educação cívica e debates abertos em que diferentes pontos de vista podem ser discutidos. A Rádio Moçambique e algumas das estações comerciais de televisão tem desempenhado um papel positivo nesta importante área. Este ambiente dos media é em grande parte resultado da determinação dos próprios profissionais da comunicação social em proteger os princípios da independência editorial e da livre expressão de opiniões divergentes em todas as diferentes fases da história de Moçambique. Um clima politico de abertura e de tolerância abre espaço ao contexto social para este processo. A expansão do sector da comunicação social comunitária acrescenta valor ao

CONCLUSõES E RECOMENDAÇõES GERAIS

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clima de liberdade, permitindo às comunidades rurais e marginalizadas acesso a um meio através do qual elas podem articular os seus pontos de vista. Para além disso, a comunicação social comunitária pode desempenhar um papel importante no complemento dos esforços visando promover a literacia e a educação de adultos. Os jornalistas moçambicanos estabeleceram, por iniciativa própria, códigos de conduta para a profissão, particularmente no que diz respeito a cobertura de eleições, voluntariamente reconhecendo a sua responsabilidade de cobrir estes processos sensíveis com independência e sem a distorção ou manipulação. Apesar disso, há casos conhecidos de jornalistas que simultaneamente desempenham o papel de adidos de imprensa nas instituições do governo e nos partidos políticos, numa clara violação dos princípios destes códigos de conduta. O jornalismo tem sido exercido em condições de segurança para os jornalistas. O assassinato violento de Carlos Cardoso, em 2000, foi uma trágica excepção dentro de um ambiente profissional geralmente seguro. O sector da radiodifusão estatal/pública, composto pela Rádio Moçambique e pela Televisão de Moçambique, é a instituição mais relevante em todo o panorama dos media em Moçambique. Juntos, os dois canais constituem os media mais influentes do país, cobrindo entre 70 e 80 por cento da população e do território nacional. Os diferentes canais da Rádio Moçambique transmitem diariamente em mais de 20 diferentes línguas, e por isso atingem a maioria da população do país, incluindo nas zonas rurais. Quer a constituição quer a Lei de Imprensa estabelecem o quadro político e legal que impõe um sector de radiodifusão pública que seja independente do controlo do governo e que se espera que leve a cabo a missão social, cultural e de desenvolvimento que lhe é atribuído por lei, que disponibilize programas para toda a população e que seja financiado por subsídios do governo, taxas de radiodifusão e receitas da publicidade. Contudo, transformar a radiodifusão de um sector controlado pelo estado para uma instituição de serviço público não é meramente uma questão de implementação de leis, pois exige uma mudança fundamental do ponto de vista do pensamento e percepção do governo sobre a radiodifusão. Uma regulação independente e responsável perante o público é uma pré-condição crucial para garantir o pluralismo e a diversidade no sector da radiodifusão. A ausência de um regime regulador independente e transparente para a radiodifusão, os actuais modelos de gestão e de financiamento e a falta de uma sistema de prestação de contas são importantes lacunas legislativas e institucionais que devem ser abordadas. Para além de uma adequada plataforma legal, métodos adequados de financiamento, formação e capacitação são também importantes factores para o desenvolvimento de

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um sector de radiodifusão pública forte, independente e credível. Os últimos anos da década de noventa testemunharam o surgimento de um sector comercial da radiodifusão composto por 12 estações de rádio FM e de televisão, inicialmente limitando-se à capital, Maputo, mas gradualmente expandindo-se para as províncias. Sem um regime regulador que imponha quotas de conteúdos locais, e enfrentando pressões dos accionistas para a maximização do lucro, os operadores de radiodifusão comercial em Moçambique tendem a ser guiados pelas exigências e preferências dos anunciantes e optam por uma programação de massas, barata, e frequentemente repetitiva — umas pequenas produções locais de baixo custo e predominantemente telenovelas estrangeiras e séries de entretenimento.

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Recomendações

De modo a corresponder com as disposições contidas na Declaração de Princípios sobre a Liberdade de expressão em África e outros instrumentos regionais e internacionais relevantes, bem como da constituição, recomenda-se a tomada de uma série de medidas políticas e legislativas, a saber.

Legislação sobre os media em geral
• A Lei de Imprensa deve ser cuidadosamente revista para estar em linha com a nova constituição. • Não deve haver crimes especiais de difamação e de injúria ao abrigo da Lei de Imprensa. Casos de difamação devem ser tratados ao abrigo do código civil que é aplicável a todos os cidadãos e não só aos media. A protecção especial de personalidades públicas (através de leis de injúria) é desajustada numa sociedade democrática – tais leis devem ser abolidas. • A Assembleia da República deve dar uma nova consideração à Proposta de Lei sobre o Acesso às Fontes de Informação elaborada e submetida pelo MISAMoçambique em 2005. • A Assembleia da República deve rever a Lei sobre os Segredos do Estado, de modo a limitá-la a medidas estritamente necessárias e indispensáveis para a manutenção da segurança pública numa sociedade democrática. • O objectivo e papel do Conselho Superior da Comunicação Social devem ser revisitados, muito embora ele seja actualmente um órgão constitucional. Se da análise se chegar à conclusão de que o Conselho não serve nenhum propósito útil, ele deve ser dissolvido e substituído por um órgão de auto-

CONCLUSõES E RECOMENDAÇõES GERAIS

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regulação representando a própria indústria da comunicação social. • O sector dos media deve considerar seriamente a possibilidade de estabelecimento de um órgão voluntário de auto-regulação e desenvolver um código de padrões profissionais – em consulta entre jornalistas e órgãos da comunicação social, e que seja aceitável para todos – através do qual reclamações do público possa, ser adjudicadas. • O GABINFO deve ser destituído do seu papel de exercer tutela estatal sobre a comunicação social do sector público. • O processo de desenvolvimento de leis em relação ao artigo 49 da constituição, que dá aos partidos políticos e organizações direitos especiais de radiotransmissão, deve ser acompanhado com muita atenção tendo em vista garantir a independência da radiodifusão e assegurar que outros sectores da sociedade não sejam discriminados. • A limitação do nível de investimento estrangeiro na comunicação social deve ser revista.

Panorama da radiodifusão
• Estabelecer um regulador independente que irá assegurar que a radiodifusão em Moçambique ofereça uma programação diversificada; • Promover a diversidade e o pluralismo através da criação de um sistema de três níveis de radiodifusão (pública, comercial e comunitária); • Proteger e promover o desenvolvimento de uma verdadeira comunicação social comunitária, quer para a rádio quer para a televisão; • O Instituto da Comunicação Social (ICS) deve ser transformado numa entidade de radiodifusão pública com um conselho de direcção representando as comunidades rurais de quem está ao serviço. Tal como todos os outros órgãos de radiodifusão, deve estar sob a alçada do futuro órgão regulador independente; • A Televisão de Moçambique e a Rádio Moçambique devem expandir os seus sistemas de transmissão de modo a efectivar o direito à informação para toda a população .

Digitalização
Uma política para a migração digital deve ser introduzida urgentemente. Passos devem ser tomados para:

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• Envolver no processo organizações da sociedade civil bem como entidades governamentais, o Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS), a indústria da radiodifusão e o sector privado para que uma política aceite ao nível nacional seja elaborado; • Depois da finalização da política, mandatar o regulador a desenvolver uma plataforma reguladora digital para criar um ambiente de certeza sobre o processo de licenciamento; • Subsidiar os conversores para a maioria dos consumidores que não tenham posses para os adquirir de modo a que vastos segmentos da população moçambicana não sejam impedidos de acesso à informação.

Legislação e regulação da radiodifusão
• Na nova legislação sobre a radiodifusão, o papel do Instituto Nacional de Comunicações (INCM), do GABINFO, do Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS) e do Conselho de Ministros em relação à regulação da radiodifusão deve ser cuidadosamente revisto. Estas funções devem ser assumidas por uma autoridade estatutária independente de regulação, baseada nos padrões estabelecidos pela Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África. • Para este fim, a Constituição de 2004 terá que ser parcialmente emendada, no que se refere `a composição e atribuições do CSCS e `a consagração do princípio de um regulador independente de radiodifusão sob alçada de uma nova autoridade independente de licenciamento. • O regulador independente da radiodifusão irá emitir licenças para operadores de radiodifusão comercial e comunitária. • A nova legislação sobre a radiodifusão deve também incluir sistemas e mecanismos de prestação de contas ao público, e para lidar com reclamações do público.

Estrutura da radiodifusão pública
• A nova legislação sobre a radiodifusão deve transformar a Rádio Moçambique e a Televisão de Moçambique em verdadeiras instituições de radiodifusão de serviço público, baseadas nos padrões estabelecidos pela Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão em África. • A legislação deve garantir que a constituição e composição dos órgãos de direcção dos órgãos públicos de radiodifusão sejam definidas de tal modo

CONCLUSõES E RECOMENDAÇõES GERAIS

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a protegê-los contra interferências externas, particularmente de natureza política ou económica, e torná-los responsáveis perante o público, mais do que perante o governo do dia. • Um conselho de supervisão irá substituir-se ao actual Conselho de Administração e os seus membros devem ser nomeados pelo público, com o Parlamento a efectivar as nomeações depois de entrevistar os candidatos de uma lista de finalistas em audiências públicas. • O director executivo não deve ser membro do conselho de supervisão. Ele deve dirigir e fazer parte da Direcção Executiva. A Direcção Executiva estará a cargo da gestão corrente, prestando contas ao conselho de supervisão.

Financiamento da radiodifusão pública
• Mecanismos sustentáveis e fiáveis de financiamento devem ser considerados e postos em prática. • O governo deve introduzir uma taxa anual mais alta sobre proprietários de aparelhos de televisão e aplicar a receita para financiar os dois órgãos de radiodifusão pública, em vez de impor taxas sobre o meio de comunicação social dos mais pobres, a rádio, deixando de fora o meio dos mais ricos, que é a televisão. • Uma vez que os órgãos de radiodifusão pública continuarão a depender dos subsídios do estado, pelo menos parcialmente, mecanismos efectivos devem ser desenvolvidos para garantir que estes subsídios sejam disponibilizados de uma forma previsível, fiável e independente. • Para determinar o montante da taxa de televisão e dos subsídios do estado, deve considerar-se a criação de um painel independente de peritos. Este painel irá estabelecer a taxa, e de vez em quando ajustá-la e recomendá-la para a aprovação pelo Parlamento. Os órgãos de radiodifusão pública irão elaborar uma lista das suas necessidades e submete-la ao painel, os peritos farão a sua própria avaliação, produto, finalmente, as suas recomendações.

Programação
• Um amplo processo de consulta deve ser iniciado de modo a desenvolver-se um conjunto de directrizes e regulamentos para a promoção de uma vasta gama de conteúdos que sirvam as necessidades e interesses de diferentes audiências. • Os conteúdos dos media, particularmente das estações de televisão e das

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estações comerciais de rádio, devem ir de encontro com os interesses não só das elites urbanas, mas também dos pobres nas zonas urbanas e rurais, minorias e outros grupos marginalizados. A Televisão de Moçambique, em particular, deve reflectir os interesses e necessidades de todos os segmentos da sociedade. Ela deve também introduzir mais línguas nacionais na sua programação e expandir a sua presença nas províncias. A Rádio Moçambique deve alargar a sua cobertura de questões nacionais e locais para o resto do pais, por exemplo as populosas províncias da Zambézia e Nampula. Os estatutos editoriais contidos na legislação que funda a Rádio e Televisão de Moçambique bem como a garantia da independência editorial emanada da Lei de Imprensa devem ser postos em prática e sistematicamente monitorados pela autoridade reguladora independente. A TVM deve desenvolver um código de padrões profissionais e de ética. A sociedade civil deve estabelecer mecanismos para o acompanhamento do nível de cumprimento, pela RM e TVM, aos seus próprios estatutos e aos princípios de radiodifusão pública. Tanto a RM como a TVM devem estabelecer um sistema que permita ao público apresentar queixas sobre a violação dos respectivos códigos. Devem ser desenvolvidas políticas de incentivos para as estações comerciais produzirem mais programas de interesse público. Para este fim, a nova legislação sobre a radiodifusão deve estabelecer requisitos de programas de interesse público para a radiodifusão comercial e abrir espaço para subsídios e outros incentivos que promovam uma maior diversidade de serviços e encorajar uma programação de interesse público. Tais valores devem ser atribuídos de acordo com critérios bem definidos, seguindo um processo justo e transparente, supervisionado por um órgão independente.

Campanhas para reformas na radiodifusão
Organizações da comunicação social tais como o MISA-Moçambique, o Sindicato Nacional de Jornalistas (SNJ), e o Fórum Nacional das Rádios Comunitárias (FORCOM) juntamente com outras organizações da sociedade civil tais como o Centro de Integridade Pública e a Liga Moçambicana dos Direitos Humanos devem: • Cuidadosamente analisar a nova proposta de lei e desenvolverem uma posição comum a ser apresentada e discutida com o governo;

CONCLUSõES E RECOMENDAÇõES GERAIS

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• Fazer lobbies para o estabelecimento de uma autoridade de radiodifusão verdadeiramente independente, mesmo que tal signifique a necessidade de uma emenda constitucional; • Fazer lobbies para a inclusão de disposições claras sobre a radiodifusão pública na nova lei de radiodifusão, garantindo que os órgãos de radiodifusão pública sejam governados por um conselho de supervisão que esteja protegido contra a interferência, particularmente de natureza politica ou económica, e que seja financiado de forma adequada de tal modo que esteja protegido contra a interferência arbitrária nos seus orçamentos; • Envolver nestas discussões o Observatório do Desenvolvimento, um órgão independente criado em 2003 como um fórum de consulta em que o governo e os seus parceiros internacionais, juntamente com a sociedade civil, fazem o acompanhamento sobre a implementação dos programas de redução da pobreza (PARPA); • Organizar campanhas de mobilização pública e de debate aberto sobre a necessidade de reformas no sector da radiodifusão, em particular no que diz respeito à Rádio Moçambique e à Televisão de Moçambique, bem como em relação às estações de rádio comunitárias.

AfriMAP, Projecto de Monitoria e Governação em Africa, é uma iniciativa da rede das quatro fundações Africanas da Soros, e trabalha com organizações nacionais da sociedade civil para conduzir auditorias sistemáticas do desempenho do governo em três áreas: o sector da justiça e do estado de direito, participação política e democracia; e provisão efectiva de serviços públicos.
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As Fundações da Open Society trabalham visando a construção de democracias vibrantes e tolerantes cujos governos prestam contas aos seus cidadãos. Trabalhando com comunidades em mais de 70 países, as Fundações da Open Society apoiam a justiça e os direitos humanos, liberdade de expressão e acesso à saúde pública e à educação.

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