Já faz uma semana e oito maços de cigarro que Anne é meu reality show particular, viciante.

Toda noite acendo o último Lucky Strike da minha vida e busco a brasa daquela garota no meio dos dez miligramas de alcatrão da fumaça. Por que não conheço Anne, nunca a vi amarrando os cabelos curtos e negros, nem curti seu piercing balançando entre as narinas quando respira mais forte no hardcore comportado do Drapz, uma de suas compulsões musicais. Anne apareceu na minha vida por acaso, mais um caso profissional, uma pauta onde se lia: “passo 01: encontrar alguém que use redes sociais / passo 02: seguir seus rastros virtuais / passo 03: escrever um perfil desta pessoa pautado exclusivamente nas informações colhidas na internet”. Um bom trabalho, sem dúvidas, labuta de investigador moderninho, coisa de voyeur profissional, perfeito pras noites de insônia e o entusiasmo certo acendendo como chama os cigarros da madrugada. E precisei de apenas três deles, queimando um na ponta do outro ainda na primeira hora de caça até encontrar o perfil de Anne. Pois Anne é um ebook aberto escrevendo-se e escrevendo, pedindo pra ser lido, comentado, implorando atenção e deixando suas pistas virtuais tiritando entre nossos amigos em comum até finalmente meu Facebook encontrar o dela, minha

pauta a sua personagem, meu Lucky Strike alguém para queimar ligeiro e sem culpa. Confesso que quando li as primeiras respostas de Anne no Formspring pensei em parar de fumar por duas semanas, economizar aquela grana sacrificante e comprar um imenso buquê de rosas vermelhas, bregas, lindas e surpreendentes. Por que Anne nunca ganhou flores, não quer ganhar flores, Anne não gosta disso, diz que é inútil, coisa de gente sem criatividade. Ainda assim, garanto que se o John Mayer chegasse com uma rosa roubada num jardim de outono, o tom cinzento de São Paulo e a planície de Santiago nas pétalas, e entregasse a ela cantando Vultures seria outra história. Anne adora São Paulo e Santiago e anda balançada por esse Mayer. Se ela pudesse escutar apenas uma música nos próximos trinta dias, essa música seria Vultures. Mas há seis meses ninguém toca tanto seus tímpanos e coração quanto Outono em Marte, e parece que de alguma forma as notas melancólicas destes caras compõem a partitura escura da alma de Anne. Acontece que, apesar de não conhecer Anne, nunca ter visto Anne, Anne ser algumas fotos, frases curtas e gorjeios, apesar de ser apenas perfis nas redes sociais, minha pauta é Anne, esse verbo e esse adjetivo são Anne e Anne ainda não sabe disso, toda essa história é

mistério para Anne e Anne não é mistério para mim. Mas os olhos de Anne sim, esses são mistérios. Dois buracos negros cheios de gravidade e inocência, e se reparar no sorriso, pouco delicado, ainda com aquela sinceridade adolescente dos 23 anos, talvez nem acredite na delicadeza de seus poemas. É sério, acendi o quarto cigarro e enchi o copo com os últimos dois dedos de conhaque que restava, os mililitros sombrios e etílicos desta última madrugada, só para abrir seu blog e curtir como ela rima assim: “já tenho quem amar”, meu bem, “em quem confiar e me entregar”, entender toda essa falta de rebuscamento e a poética singela, “sem razão, nesse medo que rouba a emoção”, que me toca pouco fundo, louco e raso, Anne, por essa inexistência de cobiça rabiscando-se em seus parágrafos. Anne é também arquivista diplomada, professora de história e “tatuada por pura petulância e curiosidade”. Sem brincadeira, essa é minha derradeira madrugada com Anne, mas adoraria ver as tatuagens que ela esconde, assoprar um pouco de fumaça naquelas cores todas, na flor verde, azul e amarela de seu ombro esquerdo e até no tons brunos que ela guarda em algum crepúsculo longe do sol e das retinas raiadas, assanhadas. Talvez estejam onde

apenas os raros podem se atrever, mas se em algum momento desse voyeurismo eu lembrar que ser platônico é apenas falta de colhões, talvez ela me dê uma chance, por que Anne acredita em destino e em todas essas coisas escritas nas estrelas e, de alguma forma, somos raros e atrevidos, baby, pois a encontrei sassaricando pelo cosmos destes 500 milhões de astros que, como nós, habitam o Facebook e suas 48 bilhões de fotos balançando nas tranças dessas redes sociais. E depois de todos estes dias e madrugadas que chegam ao fim, estou pensando em seguir Anne, pagar uma dose de sua bebida favorita, uma dose de tequila com morango ou a marguerita que ela adora, e dizer que também sou apaixonado pela Vivienne Westwood, que elas têm aquele velho punk em comum em tempos completamente bipolares e que eu acho tudo isso um saco. Anne não é bonita, não é sensual e não se acha atraente em nenhum sentido, não como Vivienne, mas parece ter emprestado dela aquela mesma metralhadora dos 60, carregada e faiscando, com a mira rebelde desfocada apontando para a têmpora do planeta apenas esperando sua raiva ter sentido para puxar o gatilho. Não sei, uma obstinação infantil contorna seu blog, e as postagens carregam um tom agressivo, parece que

os dilemas adolescentes encontraram um bunker em seu peito e ainda envelhecem por lá. Por que de lá do peito ela gostaria mesmo era de arrancar o coração, mas nunca arrancará, Fernanda Young nunca arrancaria e Anne queria ser como Fernanda Young e não louca, psicótica e irritante, como acredita ser. O negócio é que ninguém que curte Clarisse Lispector de verdade pode ser louca, psicótica e irritante, mas Anne tem todo o direito de achar uma coisa dessas e estar certa. Apesar que essa simbiose de ser louco, psicótico e irritante faz bem o tipo do Menocchio, o personagem principal de “O queijo e os vermes”, e se há um livro que Anne gostaria ter escrito, certamente é “O queijo e os vermes”. A parte o carcamano do Carlo Ginzburg ter pensado nisso antes e ficado com todos os créditos, Anne tem suas similaridades, ainda que breves e tangentes, com Menocchio. Os dois carregam nos ombros a petulância de buscar algo original: o homem, moleiro de burras bem servidas e chegado no melhor guia literário da época, o Index Librorum Prohibitorum, contrariou a Igreja formulando uma teologia particular e acabou nas estatísticas da Inquisição; Anne é mais uma jovem nativa da nova aldeia global, postada com orgulho no flanco direito

da direita delirante que delirando vai nas reações esquizofrênicas da tribo da globalização. E no final das contas, padres, pajés e magnatas disparam desde a mesma barricada bíblica do establishment, mirando bem no coração insurrecto dessa gente louca, psicótica e irritante, ainda que algum dos alvos seja o raro miocárdio dos seus ardendo no fogo amigo. Acredito que este talvez seja um dos por quês para Anne traduzir em frases e postagens tristes uma desesperança flagrante, pulsante. É minha última madrugada solitária com Anne, e ainda não descobri o verdadeiro motivo pelo qual ela riscaria sua existência do planeta caso pudesse, ou tivesse coragem ou arranjasse qualquer ensejo para escolher The Killing Moon para seu funeral, o que ela chama de libertação e eu chamo de bater as botas, curtir a escuridão, se embebedar no inferno. O que seria também um enorme desperdício, pois ninguém é assim, sensível e rebelde, simplesmente a toa, levando numa boa todas essas dores, que as vezes não são mais que redundantes e bobas, bobagens, e ainda que prendendo suas emoções como lambaris na grande rede, ela se deixa exibir e exibe-se, uma Anne em outra Anne que conheci sem conhecê-la.

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