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O Papel Do Cientista Na Sociedade

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A CIÊNCIA SEGUNDO JOSEPH BEN-DAVID: UMA LEITURA DE O PAPEL DO CIENTISTA NA SOCIEDADE

Rafael de Brito Dias

Joseph Ben-David é considerado por muitos um dos grandes estudiosos da ciência. Figura de destaque dentro da tradição institucionalista dos Estudos Sociais da Ciência, o autor contribuiu enormemente para a compreensão da ciência como um fenômeno acima de tudo social. Ben-David viveu e escreveu em um período em que a ciência deu um grande salto, no pós-Segunda Guerra Mundial. Esse fato influenciou enormemente o trabalho do autor, assim como ocorreu com muitos dos outros estudiosos da ciência nesse período. O livro O Papel do Cientista na Sociedade: um Estudo Comparativo, de Ben-David, é um dos principais marcos no estudo da ciência sob um ponto de vista sociológico. Escrito em 1971, o livro retrata a evolução da ciência (e, mais especificamente, do papel do cientista) através da história e em sociedades distintas. Dessa forma, o livro em questão é, sobretudo, uma análise histórica das relações entre cientistas e a sociedade. As sociedades estudadas pelo autor, cabe aqui dizer, não foram, obviamente, escolhidas ao acaso, mas representam sociedades relevantes do ponto de vista da geração de conhecimento científico em um dado momento da história. Dessa maneira, quando BenDavid seleciona as sociedades a serem analisadas está, na verdade, elegendo os “centros científicos” (termo do autor) de uma época específica. As sociedades analisadas pelo autor são: Grécia Antiga, Itália (séc. XV), Inglaterra (séc. XVII), França (séc. XVIII), Alemanha (séc. XIX) e EUA (séc. XX). 1

Apesar dessas sociedades terem sido eleitas como objetos do estudo, não se pode admitir que a ciência e o papel do cientista não tenham se desenvolvido também em outras sociedades. Talvez o exemplo mais interessante seja o das sociedades orientais,

notadamente a chinesa e a árabe. Assim, as escolhas de Ben-David não devem ser encaradas como perfeitamente representativas do desenvolvimento científico em um sentido global, mais amplo. Mas é, sem dúvida, uma análise bastante completa e acurada do desenvolvimento do papel do cientista nas sociedades ocidentais. O livro em questão apresenta uma estrutura bastante simples e didática: em um primeiro capítulo, o autor faz algumas breves considerações acerca da sociologia da

ciência, que lhe servirão como ponto de partida; no segundo capítulo, Ben-David traça um panorama geral das idéias que serão tratadas nos capítulos posteriores; em seguida, o autor dedica um capítulo ao estudo de cada um dos centros científicos, enfatizando as peculiaridades de cada sociedade e como estas modelaram o papel dos cientistas e, portanto, da própria ciência; por fim, o autor apresenta, em um último capítulo, suas principais conclusões. A preocupação central de Ben-David em seu livro é a construção de uma análise histórico-sociológica da evolução da ciência. Alguns aspectos da análise, tais quais a forma com que os cientistas interagem – entre eles e com a sociedade – e a importância da validação social para a descoberta científica parecem ser especialmente pertinentes à análise do autor. A idéia de que o desenvolvimento da ciência representa um processo completamente descasado de culturas, valores e variáveis de natureza social é claramente refutada por Ben-David. Esse ponto é o pilar central sobre o qual o autor constrói seu estudo. 2

Ao tratar da evolução da ciência, Ben-David nota um fato recorrente: com relativa freqüência, o centro científico mundial muda de um país para outro. Por trás desse fato, Ben-David percebe uma série de fatores explicativos. Apesar de identificar uma relação entre a emergência de um novo centro e seu dinamismo econômico, o autor afirma que essa ligação não é perfeitamente direta. Seriam os fatores de natureza social (por exemplo, o “valor” da ciência segundo a percepção da sociedade e a adequação das instituições à realidade social específica) que efetivamente determinariam a passagem de um centro científico para outro. Dessa maneira, para Ben-David, o “sucesso científico” de uma determinada sociedade seria uma conseqüência direta de um processo político de direcionamento de esforços para a construção de um ambiente favorável ao desenvolvimento da ciência. No entanto, essas variáveis são, em alguma medida, condicionadas pelo dinamismo econômico (sendo essa, portanto, a relação indireta indicada pelo autor). Em O Papel do Cientista na Sociedade, Ben-David descreve como se configuravam as primeiras bases da geração do conhecimento científico, na Grécia Antiga, como se deu a mudança de um centro científico para outro – da Itália (séc. XV), Inglaterra (séc. XVII), França (séc. XVIII), Alemanha (séc. XIX) aos EUA (séc. XX) e quais as características de cada um desses centros distintos. Ben-David identifica na Grécia Antiga o embrião da ciência moderna. Comecemos, portanto, analisando algumas características dessa sociedade. Dentre todas as sociedades tradicionais, somente na Grécia houve, ainda que não de forma suficientemente marcante, o surgimento de um papel social distinto – o dos homens da ciência – e algum esforço contínuo de atividade científica.

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O “cientista” grego, como nota Ben-David, não tinha um papel estritamente científico. Muitos reuniam habilidades distintas das mais diversas áreas do conhecimento, como medicina, arquitetura, filosofia, matemática e astronomia. A atividade científica arcaica, desenvolvida pelos gregos da Antigüidade, tinha ainda um caráter que tendia ao “esotérico” e ao místico. Não havia qualquer preocupação com o rigor científico. Além disso, a sociedade grega tendia a valorizar apenas os conhecimentos que apresentavam alguma aplicação prática direta, como a arquitetura, por exemplo, que permitia a construção de majestosas estruturas em honra aos deuses. Sem dúvida alguma, um fator essencial para o desenvolvimento do embrião da ciência na Grécia Antiga foi o surgimento das primeiras “escolas”. Comandadas por um único sábio (que seria substituído por um de seus discípulos após sua morte), cada escola procurava explicações distintas para os fenômenos da natureza. Como exemplo disso, existiam as explicações baseadas nos quatro elementos da natureza: algumas escolas viam no fogo o elemento fundamental para a existência da vida, enquanto outras afirmavam que era a água o elemento principal; outras ainda afirmavam que esse elemento era a terra, ou ainda o ar, etc. O diálogo entre as diferentes escolas ocorria com relativa freqüência, fator que contribuiu para o rápido avanço e difusão do conhecimento entre os primeiros praticantes da ciência. Passemos agora, como fez Ben-David em sua obra, da Antigüidade para o fim da Idade Média, quando o centro de geração do conhecimento passa a ser a Itália. É nesse período que se dá o surgimento das primeiras universidades do mundo ocidental. Dentre essas primeiras universidades, merecem destaque as de Bolonha, Oxford, Paris e Salamanca, todas as quatro ainda existentes. É nesse momento, afirma Ben-David, que

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surge o “papel científico” (como campo profissional) propriamente dito e a ciência apresenta consideráveis avanços. Os “homens das ciências” italianos, tais quais os antigos mestres gregos, também incorporavam conhecimentos de campos distintos. No entanto, se os gregos valorizavam os conhecimentos que ofereceriam potenciais aplicações práticas, os italianos estimavam uma formação voltada para as atividades artísticas. Assim sendo, não causa espanto o fato de que um dos grandes expoentes científicos da Itália dos séculos XV e XVI, Leonardo da Vinci, tenha sido também um brilhante artista. No final da Idade Média, ocorreu um fato que Ben-David identifica como de enorme relevância para a evolução da ciência: a separação entre a revolução intelectual e a revolução político-religiosa. Com isso, a ciência pôde se desenvolver como campo independente em relação à política e à religião, em um período em que a distinção entre essas duas últimas ainda não estava exatamente clara. Porém, na Itália, onde a tradição católica tinha uma força tremenda, houve uma grande resistência por parte da Igreja frente o avanço da ciência. Esse fator foi determinante para a derrocada da Itália como centro científico. Apesar dessas transformações importantes, o desenvolvimento científico ainda esbarrava em constantes obstáculos. Os movimentos para o avanço da ciência eram ainda bastante restritos e freqüentemente eram condenados por grupos diversos, sobretudo aqueles mais fortemente ligados à Igreja Católica. Se tais obstáculos continham o avanço da ciência na Itália, no norte da Europa ocorriam transformações importantes, que viriam a criar um ambiente favorável para o desenvolvimento científico na região. A revolução intelectual iniciada pelo pensamento renascentista nos países do norte da Europa, sobretudo na Inglaterra e nos Países Baixos, 5

introduzia uma concepção de progresso dentro da qual a ciência representava um elemento central. Por um lado, na Itália, o catolicismo representava uma força que se opunha ao progresso da ciência, pois nela identificava um desafio à vontade divina, já que, para os religiosos da época, a ciência nada mais era do que uma tentativa de controlar a natureza, algo que competiria exclusivamente a Deus. Por outro lado, nos países do norte da Europa, onde os protestantes eram maioria crescente, a religião não se colocava como um obstáculo ao avanço científico. Para o protestantismo, pelo contrário, a ciência representava a exaltação da vontade divina, através da glória do ser humano. Com o avanço científico estancado na Itália e a criação de um ambiente favorável à geração do conhecimento nos países do norte da Europa, o centro do desenvolvimento científico se desloca novamente, dessa vez para a Inglaterra. Essa mudança ocorre, segundo Ben-David, no século XVII. Segundo a interpretação do autor, o elemento mais importante ligado à transferência do centro científico da Itália para a Inglaterra é o maior grau de institucionalização pelo qual passou a ciência no novo centro. Por trás da ciência institucionalizada, Ben-David identifica três fatores centrais: a aceitação da ciência pela sociedade, ainda que não de forma completa; a criação de normas para a atividade científica (que se traduz no reconhecimento do valor do método científico); e a adaptação de normas sociais às normas científicas. Trata-se, portanto, de um momento em que o interesse pela ciência se difunde, e esta ganha imenso prestígio. A imagem do cientista como um elemento à margem da sociedade passa, aos poucos, a ser abandonada. Segundo afirma Ben-David, a institucionalização da ciência na Inglaterra levou a uma tendência à canalização dos esforços científicos para as ciências naturais. Levou, 6

também, ao distanciamento da ciência pura em relação aos debates de cunho político e econômico. Mais importante que isso, a institucionalização da ciência na Inglaterra, nesse período, levou a um arrefecimento do ritmo de expansão científica. Isso ocorreu, segundo a interpretação do autor, devido ao fato da comunidade científica ter se distanciado consideravelmente da sociedade, no que se refere aos seus interesses e às suas percepções em relação à ciência. Assim, o elevado grau de institucionalização da ciência na Inglaterra significou uma certa inflexibilidade do desenvolvimento de determinados parâmetros científicos servindo, portanto, como um obstáculo ao avanço do conhecimento dessa natureza. Por outro lado, na França, onde a ciência estava apenas parcialmente institucionalizada, as condições se mostraram mais favoráveis à geração de conhecimento. Assim, a França passa a ser, no século XVIII, o novo centro do desenvolvimento da ciência. Da mesma forma que no caso da Inglaterra, na França havia uma interação virtuosa entre os intelectuais ligados às ciências e a política. Porém, ao contrário do caso inglês, lá a ciência não estava totalmente institucionalizada, o que lhe conferiu um maior espaço para que se desenvolvesse. Ben-David observa que, na França, existia um arranjo político identificado pelo autor como um “regime de liberalismo centralizado”. O Estado francês era o principal responsável pela maior parte das decisões políticas, porém também a ciência era alvo da preocupação do Estado. Talvez o maior exemplo disso seja a fundação da Academie des Sciences, em 1666. Essa instituição apresentava um perfil diferente das demais, pois foi na Academie que, pela primeira vez, foram concentradas todas as áreas da ciência em um único centro.

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Outro exemplo da intervenção do Estado francês no desenvolvimento científico daquele país remete ao início do século XIX, e refere-se à Reforma Napoleônica. Essa Reforma foi marcada, fundamentalmente, pela multiplicação do número de grandes escolas na França. Esse fator representou um elemento de grande importância para o desenvolvimento da pesquisa científica (e, dessa forma, para a construção do papel do cientista) nessa época. O período de 1800 a 1830 representou uma fase de rápida expansão da ciência na França. Os principais fatores condicionantes desse desenvolvimento, aponta Ben-David, não estavam ligados a novas concepções relacionadas à instrução e à pesquisa, mas ao apoio contínuo à prática da ciência e ao crescente entusiasmo da sociedade frente ao avanço científico. Porém, em contraposição a esse período, a fase posterior a 1830 foi marcada pela estagnação da ciência na França. Como principal fator condicionante desse declínio da expansão científica, Ben-David aponta a crescente institucionalização da ciência francesa. Como resultado “colateral” da excessiva centralização institucional, os estabelecimentos franceses ligados à ciência gradualmente tornaram-se mais e mais inflexíveis e, portanto, mais ineficientes. Com isso, a França se viu impossibilitada de acompanhar o avanço científico de outros países que então despontavam como potências na área: os EUA e a Alemanha. Foi justamente essa última que se tornou o centro científico que viria a suplantar a França, em meados do século XIX. A grande mudança na lógica científica que se deu durante o período de hegemonia científica da Alemanha está relacionada à transformação do próprio trabalho científico. Mais especificamente, essa mudança está relacionada ao surgimento da pesquisa como elemento fundamental atrelado à carreira universitária. 8

Ben-David aponta um conjunto de fatores principais que explicariam o sucesso científico da Alemanha nesse período. Segundo o autor, a instrução sistemática e a divisão do trabalho dos cientistas, aliadas ao interesse espontâneo pela ciência e ao apoio popular à prática científica teriam sido os principais elementos condicionantes do desenvolvimento da ciência alemã durante o século XIX. Os dois primeiros fatores (instrução sistemática e divisão do trabalho) tornariam a prática científica mais “eficiente”, por assim dizer. Já os outros dois fatores (interesse espontâneo e apoio popular), teriam tido fundamental importância na colocação da ciência como uma prioridade para o Estado e também para a sociedade. Outra característica interessante desse novo centro do desenvolvimento científico, como coloca Ben-David, é uma maior interação, virtuosa, entre as ciências humanas e as ciências naturais. Apesar disso, o autor aponta para o fato de que, ao contrário do que ocorria na Inglaterra, por exemplo, as ciências humanas (em especial, as ciências sociais) eram mais valorizadas do que as ciências naturais. Também a atuação do Estado, assinala o autor, desempenhou um sólido papel no desenvolvimento da ciência na Alemanha. Segundo Ben-David, ficava a cargo desse ator a manutenção das universidades, instituições que estão no cerne do desenvolvimento científico. Ben-David destaca também o maior dinamismo do sistema científico alemão frente aos demais países desenvolvidos. Certamente o ambiente sócio-institucional na Alemanha do século XIX foi favorável ao avanço da ciência. O grande salto, porém, somente viria a ocorrer nas últimas décadas daquele século, momento em que profundas mudanças estavam ocorrendo nos países mais desenvolvidos. O capitalismo adentrava sua fase monopolista, o que trouxe significativas implicações ao padrão de acumulação. Também nesse período 9

ocorria a Segunda Revolução Industrial, apoiada no desenvolvimento da eletricidade, do aço e da indústria química (setor no qual a Alemanha tinha grande destaque em relação aos demais países). Nesse período, pela primeira vez, ciência e tecnologia passaram a se interrelacionar de maneira sistemática. O arranjo das universidades e o perfil da instrução dos pesquisadores alemães se colocaram como fatores positivos para que se estabelecesse uma relação virtuosa entre ciência e tecnologia, entre as universidades e a indústria. Assim, um forte elo entre a pesquisa científica e a ciência aplicada foi construído. Contudo, o desenvolvimento científico alemão durante o século XIX e início do século XX, a despeito de seu caráter dinâmico, não foi suficiente para acompanhar o desenvolvimento dos EUA, que emergiam como grande potência na época. As duas grandes Guerras Mundiais, nas quais a Alemanha teve participação direta, tiveram como efeito o arrefecimento do desenvolvimento científico alemão. No caso norte-americano, contudo, esse período representou um momento de rápido avanço da ciência, sobretudo a partir da década de 1930. Assim, emerge um novo centro científico: os EUA, que permanecem, ainda hoje, nessa condição. O sistema de instituições de ensino superior e pesquisa dos EUA se destaca pelo seu dinamismo, que tem como fatores condicionantes a descentralização, a atomização, o reconhecimento do papel social das universidades e a mobilidade dos cientistas. O arranjo institucional verificado nos EUA possibilitou o surgimento de laços entre o setor produtivo e as universidades e demais instituições de pesquisa, de modo que se estabeleceu, assim como na Alemanha (porém em maior intensidade), um canal de relações sistemáticas e espontâneas entre os atores desse processo.

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A principal inovação na forma de se fazer ciência, introduzida nos EUA, segundo Ben-David, está ligada à profissionalização da pesquisa. Essa mudança afetou tanto o meio acadêmico quanto o meio industrial. No meio acadêmico, a profissionalização da pesquisa ocorreu através do surgimento dos primeiros cursos de pós-graduação propriamente ditos. Esse movimento teria sido uma resposta ao aumento crescente da complexidade dos estudos científicos. A partir desse ponto, os cientistas passaram a se tornar cada vez mais qualificados e, portanto, o desenvolvimento de suas atividades pôde se dar de maneira muito mais eficiente. Os pesquisadores profissionais, formados pelos cursos de pós-graduação, passaram, então, a ser absorvidos pelas indústrias. Esse movimento ocorreu em decorrência do aumento do grau de complexidade dos processos industriais e culminou na criação dos primeiros departamentos das empresas dedicados unicamente à pesquisa e ao desenvolvimento de produtos. A forte ligação entre universidades e empresas nos EUA, aliás, é a principal explicação para o sucesso do modelo norte-americano. Ainda que bastante influenciado pelo modelo alemão, o modelo norte-americano é fortemente inclinado para a esfera econômica. Isso torna o sistema muito mais dinâmico, uma vez que a ciência é forçada a caminhar em um ritmo mais acelerado para acompanhar a dinâmica concorrencial das empresas. No entanto, a ciência também passa a assumir a função de recurso econômico, e cada vez menos é vista de outra forma. Dessa maneira, essas mudanças impostas à ciência acabam criando uma situação de frágil equilíbrio: de um lado, estão as estruturas e tradições ligadas a seu desenvolvimento histórico; de outro, estão as exigências políticas e econômicas ligadas a ela.

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Essa é, em linhas gerais, a trajetória da ciência e do papel científico, segundo a leitura de Ben-David. Desde a Grécia Antiga até os EUA dos dias atuais, o autor faz uma leitura muito interessante da forma com que ciência e sociedade se relacionam. O interesse das sociedades pela ciência, apontado por Ben-David como um fator condicionante fundamental do desenvolvimento científico, aos poucos vai conformando uma situação quase que paradoxal: a despeito do aumento da importância da ciência (e também da tecnologia) para a manutenção das bases sociais e do padrão econômico de acumulação, a participação da sociedade no processo decisório ligado à ciência e à tecnologia cresce a um ritmo muito menor. A ciência é geralmente vista como algo simples e estritamente técnico, quando é, na verdade, um processo de construção social (como foi brilhantemente demonstrado por Ben-David). A ciência é também percebida como algo distante, quando, na verdade, está presente em cada aspecto do cotidiano. É importante que essas considerações sejam levadas à sociedade em geral, de modo que essa possa efetivamente se conscientizar da real importância da ciência. Por fim, pode-se afirmar que é de grande valia que se conheça a fundo o papel do cientista na sociedade, mas a contribuição de Ben-David vai além disso: sua obra também permite que se faça uma apreciação da real importância da sociedade (e, sobretudo, de algumas variáveis sociais) para o desenvolvimento da ciência. Compreender a forma com que a ciência se desenvolve é fundamental para que se possa aprimorar a sociedade em que vivemos.

BEN-DAVID, J. (1974) O Papel do Cientista na Sociedade: um Estudo Comparativo. São Paulo: Pioneira, Ed. USP, 1974. 12

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