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Expressão e Representação V Prof.

º: Paulo Ricardo Bregatto

ARQUITETURA DE TRANSIÇÃO

ARQUITETURA DE TRANSIÇÃO

afinal.© do autor 1ª edição: 2012 Direitos reservados: Vinícius Brandalise Paim vinibpaim@gmail. Novembro de 2012 ‘‘A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode. estar deitado de sapatos.’’ (Mario Quintana) .com Capa: Foto de Kristen Elsby Edição do editor Skogskyrkogården Cemetery Revisão: Vinícius Brandalise Paim Projeto Gráfico: Vinícius Brandalise Paim Porto Alegre.

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Situação Brasileira 34 .ÍNDICE 10 .Bibliografia .Soluções Contemporâneas 40 .Cemitério do Caniçal 32 .Cemitério de Vila Franca de Xira 46 .Cemitérios Contemporâneos.Crematório Medellin 52 . Entre a Vida e a Morte 18 .Contexto Histórico 3 .

longo seis pés e largo três.’’ (Adolf Loos) .8|9 pág. ‘‘Se em um bosque encontramos um túmulo. ajeitado com a pá na forma de uma pirâmide. nós tomamos um aspecto de seriedade e alguma coisa dentro nos diz: aqui está sepultado alguém. Esta é uma arquitetura.

.CEMITÉRIOS CONTEMPORÂNEOS ENTRE A VIDA E A MORTE 10|11 pág.

convertendo estes lugares em locais assépticos. A arquitetura esfumaça a morte. de afastar o impacto que implica se defrontar com ela. se constroem lugares denunciadores do A esforço de alienação da consciência frente à morte. Percursos míticos. o aspecto de grande parte da arquitetura funerária atual.intimidade da agonia e da morte. rquitetura para os mortos. A arquitetura funerária é expressão de nossa relação com a morte. Como se com esse procedimento a própria morte desaparecesse. distrai os vivos da realidade do passamento e amortece a dificuldade de acompanhar o translado do corpo inerte pelos rituais prévios à exumação. mágicos. expressão da dessacralização de nossa cultura. simbólicos. poderia ser também manifestação da recusa pueril ao memento mori na sociedade ocidental. Pontos de encontro e de memória. que tenta minimizar muitas vezes esse choque. contemplação. Lugares de d e s p e d i d a . recolhimento. neutralizados. É difícil pensar que essa neutralidade seja vontade de evitar a obscenidade que é se intrometer na . Entretanto. Espaços transcendentes e íntimos. .12|13 pág. escondendo a dor.

que lá pode intuir ou reconhecer a reflexão e o sentimento profundos acerca da morte em nosso tempo. cemitérios. neutralizados. o Cemitério San Cataldo de Rossi. Mas é no dramatismo e complexidade de obras como o Cemitério de Igualada de Miralles e Pinós.14|15 pág. o Crematório Treptow de Axel Schultes. assépticos. o Crematório Woodland de Asplund. mausoléus aspiram a ser símbolos de recordação e respeito. velórios. capelas. crematórios. uma vez que falam dos significados da morte para o homem contemporâneo – muito além de ser uma construção ou recinto protocolar aonde se abrigam os pranteadores ou se reúnem pessoas em datas específicas –. . que se adentra na busca de uma arquitetura imbuída de uma emoção capaz de cobiçar a sinceridade da dor profunda ante a morte de um ser querido. Panteões.

» MASSAD. Espaços e estruturas pensados nã o s ó c om o m em ori a l . GUERRERO YESTE. A inconclusa arquitetura do sentimento". Arquitetura que faça sentir. morada final ou ante-sala desta. Fredy.01. 048. Portal Vitruvius. maio 2004 . a vida ante a morte. nos quais se pode reconhecer que o essencialmente sagrado é a matéria e a consciência de uma vida humana no espaço e no tempo terrestre. Alicia. Arquitextos n.16|17 pág. São Paulo. mas como lugares de encontro para os vivos e a Morte. na carne e no espírito. "Enric Miralles.

CONTEXTO HISTÓRICO 18|19 pág. .

É constituída por seis imensos andares. Imhotep. e as pequenas pirâmides circundantes destinadas a suas famílias. espaçosos e confortáveis. Os Faraós do Egito pareciam desejar ter grande quantidade de espaço para as necessidades cotidianas e o conforto das almas de seus mortos. portanto pediu a seu sábio arquiteto. que construísse algo seis vezes mais alto do que um mastaba (o túmulo comum dos nobres). que um rei devia possuir um túmulo maior que o de um nobre. tem quase 152 metros de altura. Os túmulos eram providos de todo o necessário e de todo o luxo das casas dos vivos. a escultura serve apenas a uma finalidade de beleza. a arquitetura serve ao objetivo da beleza e da utilidade.000 anos e permanece até hoje intacta. a cerca de dez milhas de Gizeh. enquanto a arquitetura é ao mesmo tempo estética e funcional. que deveriam ser sólidas e permanentes. A primeira foi construída há cerca de 5. Em Gizeh estão as famosas pirâmides de Cheops. Por outras palavras. porque os egípcios acreditavam que as almas dos mortos viviam e mantinham casas naqueles quartos subterrâneos. O costume de construir túmulos começou no Egito há uns 5. Esses túmulos eram grandes.á grande diferença entre escultura e arquitetura: a escultura é primacialmente estética. Sua base cobre uma área de 5 Ha. . a maior das três. A pirâmide de Cheops. Chefren e Mykerinos. pois seus habitantes iriam ‘‘habitá-las’’ para sempre.000 anos. O Faraó que construiu essa pirâmide acreditava. E eram construídos com imensas e pesadas pedras. H 20|21 pág. evidentemente.

Sendo uma espécie de morada dos deuses. o acesso ao prédio era restrito a algumas poucas autoridades e nenhum ritual público era permitido em suas dependências. o lugar se tornou a última morada dos pintores Rafael Sanzio (1483 – 1520) e Annibale Carraci (1560 .» . que transformou o lugar em uma igreja cristã dedicada à Santa Maria e a Todos os Santos. Dessa forma. Entre outras figuras. algumas dessas estátuas eram utilizadas para representar os vários nomes que uma mesma divindade ganhava em outras culturas. o Panteão foi transformado em túmulo de várias personalidades ligadas à história italiana. o Panteão era administrado por um grupo de sacerdotes que zelavam pelas estátuas e tochas acesas em homenagem às divindades. o templo se livrou dos atos de vandalismo que marcaram o início da Idade Média. o rei bizantino Flávio Focas entregou a construção para as mãos do papa Bonifácio IV. Durante o período de cristianização e esfacelamento do Império Romano. Mesmo sendo ponto de adoração a deuses romanos e estrangeiros.1878) e Humberto I (1844 1900). com o mundo romano dominado por outros povos. do arquiteto Baldassare Peruzzi (1481 .1609). Desde o século XVI até os dias de hoje. No ano de 608. 22|23 pág. Além disso. o Panteão de Agripa só foi mantido graças ao empenho de sacerdotes da própria Igreja.1537) e dos monarcas Vitor Emanuel II (1820 .

24|25 pág. .

SITUAÇÃO BRASILEIRA 26|27 pág. .

similar ao gerado pelos resíduos sólidos em aterros sanitários. explica. explica que não havia a preocupação de observar os critérios geológicos para construção de cemitérios. O necrochorume é um líquido formado durante a decomposição de cadáveres enterrados. cadaverina e alguns metais pesados”. depois de 5 anos a 7 anos. explica o geólogo. ele pode entrar em contato com o lençol freático. o que sobra são terrenos do ponto de vista geológico inadequados. concluído em 2011. Muitos estão em áreas nobres. Segundo o professor da Unesp. diferentemente dos aterros. explica que os problemas começam na superfície com a proliferação de animais vetores de doenças e continuam no subsolo com a contaminação do lençol freático. do Departamento de Geologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Pode ocorrer de alguns terem sido implantados em locais inadequados. “Ele é rico em substâncias tóxicas como putrecina. para construção de cemitérios. área de várzea e morro”. como lençol freático raso. P freático ocorre em quase a totalidade dos cemitérios públicos com problemas ambientais e sanitários.ouco mais de sete em cada dez cemitérios públicos brasileiros têm problemas de ordem ambiental e sanitária. eles são removidos e colocados outro corpo no local”. rocha impermeável e distância dos centros urbanos. pois. que é professor da Universidade São Judas. criando uma mancha de poluição que atinge quilômetros de distância a ponto de contaminar poços e rios”. eles não costumam ser desativados.” Ele avalia que o ideal seria considerar os mesmos critérios dos aterros sanitários. como lençol freático mais profundo possível. O professor Walter Malagutti. Lezíro Marques informou ainda Walter Malagutti explica ainda que a contaminação do lençol . como as regiões centrais. O levantamento. critica. quando ficam só ossos. “Com o esgotamento da capacidade de sepultamento. Ele destaca que a saturação desses equipamentos públicos agravam ainda mais os prejuízos provocados por essas condições. um diagnóstico ambiental dos locais de enterro já existentes e a observação de critérios geológicos para a implantação de novos cemitérios são algumas medidas para amenizar a situação. de acordo com estudo do geólogo e mestre em engenharia sanitária Lezíro Marques Silva. 28|29 pág. “Pela legislação brasileira. a ponto de contaminar poços e rios”. reuniu dados de mais de mil cemitérios do país. relata. entre públicos e privados. “Se o necrochorume escapa do túmulo. que também desenvolve pesquisa na área. que os cemitérios são fonte renovável de contaminação. O pesquisador.

Os pesquisadores concordam que a cremação seria a solução mais adequada para a preservação do meio físico. foi criada uma espécie de colchão a ser colocado na sepultura.» . avalia Lezíro. o qual possui um líquido que elimina os efeitos dos poluentes.30|31 pág. Para tanto. Enquanto se paga entre R$ 350 e R$ 400 para cremar um corpo. “A grande meta é não permitir que o líquido extravase”. Eles avaliam. “A cremação é muito incipiente no Brasil. destacou. mas pouco é feito”. reduzindo o nível de contaminação. Uma ação semelhante é conseguida por uma substância que lava o subsolo retirando o necrochorume. que a questão cultural é o principal empecilho para o uso da técnica. avalia. E isso não tem a ver diretamente com o custo. Já a pesquisa desenvolvida por Lezíro Marques resultou no desenvolvimento de substâncias capazes de neutralizar o necrochorume. É uma questão cultural”. “Tem solução. que oriente a construção de lajes de contenção e obrigue uso de substâncias neutralizadoras do necrochorume. o enterro mais simples custo no mínimo R$ 2 mil. O geólogo destaca ainda a necessidade de uma legislação mais específica. no entanto.

.SOLUÇÕES CONTEMPORÂNEAS 32|33 pág.

Carlos Fazenda 34|35 pág. PORTUGAL Arq. .CEMITÉRIO DO CANIÇAL.

Espaço para a missa campal (ou ultima missa) .Nichos para ossários (cerca de 180) .Espaços reservados à manutenção.Espaço para campas temporárias (cerca de 10) .Capela . com inclusão de uma instalação sanitária para deficientes . onde se inclui um pequeno vestiário e instalação sanitária .Nichos de inumação (cerca de 312) . .Incinerador e espaço para lixos .36|37 pág.Instalações sanitárias de apoio.

» . ficando os restantes 84 previstos para a segunda fase de construção). os armazéns e espaços reservados à manutenção. Numa segunda fase ( definida no desenho. prevê-se a construção doedificio da Capela.38|39 pág. os edificios de inumação com nichos dedecomposição aeróbia (num total de 228 unidades. foi requerido pelos serviços camarários que a construção dos elementos subsequentes não viessem a interfir com os elementos antes construídos. os nichos para ossários (num total de 60 unidades). o espaço para campas temporárias. a primeira fase (definida no desenho acima. foi construido um espaço para a missa campal. pela cor Laranja). os restantes 84 nichos. pela cor Creme). E ainda os acessos que não foram executados conforme o projecto. 120 ossários e por fim o edifício do N Como condicionante programática. as instalações sanitárias de apoio.

. PORTUGAL Arq. Carlos Fazenda 40|41 pág.CEMITÉRIO DE VILA FRANCA DE XIRA.

responde à maximização desejada e geometricamente. solução arquitectónica apresentada responde a todas as premissas sem sacrificar a escala do lugar e melhorando a qualidade espacial e apresenta-se como ponto de partida para a beneficiação dos talhões contínuos A solução nasce de uma evolução projectual. na continuidade da existente. A implantação da solução.42|43 pág. à possível. A composição arquitectónica vira-se assim para o interior formando alamedas horizontais em parterres desnivelados. ligados entre si por um corredor de escadas. na condição de respeitar a cota de chegada da escadaria existente e de ligação com a escadarias para os talhão vizinhos. em que a ideia principal se traduziu no mimetismo arquitectónico deixando apenas o silêncio dos muros brancos escadeados como elementos visíveis do Largo existente junto à Estrada Nacional nº 1. A .

44|45 pág. A plataforma mais elevada é definida como uma praça e abriga no alinhamento da escadaria uma instalação técnica dos serviços do cemitério. A iluminação e a ventilação desse espaço far-se-á através de uma clarabóia na cobertura.» . O espaço central dessa praça terá uma zona de drenagem arborizada.

. Hector Mejía e Felipe Uribe 46|47 pág. COLÔMBIA Mauricio Gaviria.CREMATÓRIO. MEDELLIN.

segundo o texto de Roberto Segre.o cinerário e o crematório -. Itália. Um eixo diagonal que se inicia na escada do acesso principal culmina na igreja “brutalista” dos anos 1980. . num tema pouco usual na América Latina. que se caracteriza por dois sistemas volumétricos diferenciados . em Medellín. resgata-se a monumentalidade clássica de Boullée através das formas geométricas simples .m programa pouco comum . U 48|49 pág. O conjunto. um ponto intermediário em relação às diversas perspectivas com que a arquitetura sempre encarou as propostas de abrigo para os mortos : estabelece um relacionamento preciso com a paisagem do local e resgata a monumentalidade clássica de Étienne-Louis Boullée por meio de formas geométricas simples. fica no limite externo do cemitério. O Templo das Cinzas e Crematório . por outro. O projeto define-se por um relacionamento preciso com a paisagem do sítio. reelaboradas em chave contemporânea. num ponto alto que domina o vale e a vista da cidade de Medellín. Hector Mejía e Felipe Uribe em Medellín ocupa. “reelaboradas em chave contemporânea”. E recebeu reconhecimento nacional e internacional: o primeiro prêmio na Bienal Colombiana de Arquitetura e o Prêmio Arquitetura com Mármore. constitui uma obra original. desenhada pelo arquiteto Laureano Forero. o crematório projetado por Mauricio Gaviria. no Parque Cemitério Campos de Paz. em Carrara.

Mas a leveza. O efeito obtido é surpreendente por contrariar a associação da morte a um mundo subterrâneo sombrio. Ela cria uma área de luz que se contrapõe à penumbra necessária ao posterior cerimonial de cremação e ao momento solene da entregue das cinzas. aparecem as chaminés das salas de cremação. é uma grande fissura no muro que dá acesso a um espaço em penumbra. Essa rigidez é totalmente negada pelas variações lumínicas que o sol produz . ao silêncio eterno. A “nova” monumentalidade se manifesta no paradoxo expresso pela simultaneidade de peso e leveza.perde a materialidade com o longo vazio no embasamento. distribuídas ao longo de uma estrita ordem cartesiana. desenhado para abrigar 23 mil restos mortais. cuja diferenciada inclinação as transforma em um conjunto quase escultórico. estabelece uma virtualidade espacial onde o resplendor luzente submete a obscuridade dos cinzeiros. aparece no tratamento do interior. Constitui uma metáfora expressiva de que. acompanhando a declividade do terreno. no lado menor do volume. em particular.o retangular e o triangular -. à ausência da luz do sol . A entrada de feixes luminosos. ante-sala dos dois andares que contêm as caixas de madeira das cinzas. O volume puro de pedra cor creme tonalidade semelhante à do crematório de Asplund . neste templo. que contém os ossários. tem-se acesso a um pátio iluminado por uma abertura zenital cilíndrica . Mas o elemento dominante da composição é o paralelepípedo trapezoidal que contém o templo das cinzas. e a variação de altura. os mortos estão mais pertos do Paraíso que do Inferno. A sutil diferenciação lumínica entre os espaços públicos e privados identifica cada um dos momentos do ritual. Ao lado da escadaria. no seu percurso diário. semelhante aos edifícios residenciais urbanos. principal gerador da nossa existência sobre a Terra. que descem pelos muros de pedra e definem linhas de luz ao longo dos corredores de circulação. . ao desaparecimento de toda expressão da vida e. como expressão da contemporaneidade. ao penetrar pelas faixas zenitais que separam as vigas em V de aço corten com seção variável.» 50|51 pág.Ao lado da articulação entre os dois volumes principais . acompanhando as diferenças de altura existentes entre os dois extremos do paralelepípedo. A entrada principal .

br . La Última Casa / The Last House.GILI. . .arquitecturadecemiterios. ed.blogspot. Mônica. Phaidon. 1996. GG.com. Barcelona. 52|53 pág.br. . Zabalbeascoa.br. Barcelone. 1969. . ed.com.com. .arcoweb.com.ebc.BIBLIOGRAFIA .ANATXU.vitruvius. Igualada Cemitery: Enric Mirales and Carme Pinós.

tem como objetivo atuar na área de manutenção e preservação do patrimônio histórico e cultural. estudante de arquitetura e urbanismo desde 2007. 54| pág.AUTOR Vinícius Brandalise Paim. 23 anos. Desde criança fascinado por edificações históricas. Pesquisador na área de acervos arquitetônicos e estagiário em obras de restauro. contribuindo para a valorização da cultura e das cidades como agentes diretamente responsáveis para o desenvolvimento da educação e da sociedade. .