SALTO PARA O FUTURO

Construindo a Escola Cidadã
Projeto político-pedagógico

Brasília, 1998

Presidente da República Federativa do Brasil Fernando Henrique Cardoso Ministro da Educação e do Desporto Paulo Renato Souza Secretário de Educação a Distância Pedro Paulo Poppovic

SERIE DE ESTUDOS / EDUCAÇÃO A DISTANCIA
SALTO PARA O FUTURO / CONSTRUINDO A ESCOLA CIDADÃ PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO

Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto - Acerp Diretor-Presidente Mauro Garcia Gerente de Educação Yonne Polli Secretaria de Educação a Distância / MEC Coordenação editorial Cícero Silva Júnior

Ministério da Educação e do Desporto

SERIE DE ESTUDOS EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA SALTO PARA O FUTURO Construindo a Escola Cidadã Projeto político-pedagógico MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA .

Copyright © Ministério da Educação e do Desporto . 1998. DF fax: (061) 321. II. I. 96 p.018. Ministério da Educação e do Desporto. Sala 314 Caixa Postal 9 6 5 9 . Bloco L. Educação a Distância.1178 / e-mail: seed@seed.5) 1.mec.43 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Esplanada dos Ministérios.br Outros títulos da Série de Estudos /Educação a Distância publicados pela Secretaria de Educação a Distância / MEC: TV da Escola • América Latina . 1998 Edição ESTAÇÃO DAS MÍDIAS Edição de texto: Luci Ayala Edição de arte: Rabiscos Ilustração da capa: Sandra Kaffka Revisão: Márcio Guimarães de Araújo Impressão: Coronário Editora Gráfica Tiragem: 110 mil exemplares ISSN 1516-2079 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Salto para o Futuro: Construindo a escola cidadã. SEED. Anexo 1.gov. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto. 1997 • TV e Informática na Educação Educação do olhar.Acerp.(Série de Estudos. Seminário de Brasília. Brasil. . Ensino a distância. volumes 1 e 2 . ISSN 1516-2079.C E P 70001-970-Brasília.MEC Direitos cedidos para esta edição pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto . Secretaria de Educação a Distância. projeto político-pedagógico/ Secretaria de Educação a Distância.Perspectivas da educação a distância. Série. CDU 37. v.

contribuir para a discussão acerca da construção democrática do projeto pedagógico da escola. promulgada em 20 de dezembro de 1996.respeitadas as normas comuns e as de seu sistema de ensino . a lei quis dar realce ao papel da escola e dos educadores na construção de projetos educacionais articulados com as políticas nacionais. no programa Salto para o Futuro. Assim. a Seed publica aqui uma versão resumida dos textos originalmente utilizados como literatura de apoio à série. realizada pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto .Acerp. cada proposta ou projeto pedagógico retrata a identidade da escola. que deverão ainda definir e cumprir plano de trabalho para concretizá-la. ao mesmo tempo.394. Considerando o sucesso da iniciativa e a atualidade do tema. Pedro Paulo Poppovic Secretário de Educação a Distância .Seed veiculou pela TV Escola. nº 9. com isso. Atenta ao cenário educacional. a série Construindo a escola cidadã: projeto políticopedagógico.A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. a LDB diz que a elaboração da proposta pedagógica contará com a participação dos profissionais da Educação. prevê que os estabelecimentos de ensino .terão a incumbência de elaborar e executar sua proposta pedagógica (artigo 12). de levar em consideração a realidade específica de cada instituição de ensino. E espera. com a parceria do Instituto Paulo Freire. as diretrizes dos Estados e municípios e capazes. a Secretaria de Educação a Distância . Com tais dispositivos. Nos artigos 13 e 14. Em outras palavras. É um amplo trabalho de construção. que exige competência técnico-pedagógica e clareza quanto ao compromisso ético-profissional de educar o cidadão deste novo tempo. o projeto pedagógico é a própria escola cidadã.

SUMÁRIO PROPOSTA PEDAGÓGICA 09 PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ 15 ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE 23 CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO 31 CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ . 43 PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA 53 DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA 67 ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA... MUITAS CULTURAS 79 BIBLIOGRAFIA COMENTADA 87 .

e que o tempo e a história que construímos nos impõem diariamente. mas principalmente estimulá-los para a pesquisa e a reflexão interativa sobre suas práticas e as práticas de outros. pode levar . de seus docentes. futuras e futuros docentes. ela tem condições de compreender melhor o funcionamento da escola e de se organizar para assegurar que os interesses da maioria sejam atendidos. a quem se destina este projeto . é condição essencial. por conseguinte. Objetiva-se também incentivá-los ao exercício de uma ação pedagógica condizente com as necessidades e exigências educacionais colocadas por seus contextos específicos. Justificativa Para que a escola possa construir o seu projeto políticopedagógico.tem acesso às informações e lhe é garantido o direito de participar das decisões.na qual se incluem professoras e professores. a participação de todos e. em especial. Objetiva-se levar até eles não só o resultado de experiências acumuladas por Estados e municípios brasileiros. Isso contribui para a democratização das relações de poder no âmbito escolar e. E uma das maneiras de fazer funcionar a escola e de organizá-la com vistas à melhoria da qualidade do ensino é justamente a elaboração democrática e coletiva de seu projeto político-pedagógico.PROPOSTA PEDAGÓGICA Quando a comunidade escolar . E justamente a partir de estudos e pesquisas desenvolvidos em torno dessa temática que o Instituto Paulo Freire pretende contribuir para o aperfeiçoamento dos docentes da educação básica e dos alunos dos cursos de formação de professores.

consideramos que a escola deve formar para a cidadania ativa e para o desenvolvimento. como ficou demonstrado por países como a Coréia do Sul. A organização do Conselho de Escola ou Colegiado Escolar torna-se. deu um salto para o Primeiro Mundo graças a investimentos massivos na Educação. realizar pesquisas e desenvolver suas práticas pedagógicas a partir de um diálogo sempre aberto às novas metodologias e concepções educacionais. Assim. nesse sentido. não teremos condições de reverter o processo de deterioração do ensino básico. em algumas décadas. das concepções construtivista-interacionista e histórico-social. autonomia da escola e participação da comunidade na gestão escolar. Além dos aspectos já mencionados. Hoje é necessário investirmos na formação continuada de professores e. Todos os segmentos escolares adquirem papel fundamental no processo decisório. à luz. na formação consistente dos futuros profissionais da Educação. da organização do trabalho na escola e da gestão democrática da escola pública. que não podem ficar fora da agenda dos atuais e futuros professores: eleição de diretores. que. O Instituto Paulo Freire vem desenvolvendo estudos e pesquisas . a curto e médio prazos. Com base em tais perspectivas educacionais e de acordo com o Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. fator imprescindível: o espaço em que os diferentes segmentos escolares decidirão sobre a organização do trabalho na escola. fazem parte da série de temas ligados à questão do projeto político-pedagógico da escola. Será preciso preparar os jovens para o trabalho. outros bastante polêmicos. para que.os usuários à intervenção no próprio sistema de ensino. A educação é condição sine qua non para o desenvolvimento autosustentado do País. não apenas o diretor de escola ou os órgãos superiores da Educação estarão definindo o que é prioritário para a unidade escolar. em novas metodologias de ensino e na formação daqueles que são e serão os educadores das atuais e futuras gerações. possam construir conhecimentos. Ela pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e para isso deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional. por exemplo. A educação básica de qualidade para todos é uma das condições fundamentais para acabar com a miséria. Nossas desigualdades sociais não serão superadas apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias. especialmente. Sem apostarmos em novos processos educativos.

de elaborar e executar sua proposta pedagógica (. de afetos. Objetivos Este projeto surge como um instrumento de construção e de reconstrução permanentes de um projeto de sociedade que . que a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n° 9. A partir desses parâmetros. Considera que o projeto político-pedagógico da escola é uma tarefa dela mesma. constituir conselhos escolares com representação da comunidade (. inserida no mundo da vida. Construílo significa ver e assumir a educação como processo de ensinoaprendizagem. de significações. de motivações. Lembramos.).). o Instituto Paulo Freire oferece sua contribuição e busca opções para superar o desafio colocado. e prestar contas e divulgar informações referentes ao uso de recursos e à qualidade dos serviços prestados". Dentre os parâmetros aos quais nos referimos. • agilização das informações e transparência nas negociações no âmbito da escola e fora dela.. terão a incumbência.. de valores e de desejos. A lei da Educação também estabelece que os sistemas de ensino "definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica.... de acordo com as suas peculiaridades". porque é prática educativa. analisando experiências acumuladas nos diversos municípios e Estados brasileiros.nessa direção. • consulta permanente à comunidade escolar. um processo que se constrói constantemente e se orienta com intencionalidade explícita. oportunamente.. sancionada no dia 20 de dezembro de 1996.394/96). respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino. determina que "os estabelecimentos de ensino. de formação de convicções. prevendo a participação dos profissionais da Educação na elaboração do projeto pedagógico da escola e das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. criando processos de integração da sociedade com a escola (.). entre outras. estão: • capacitação de todos os segmentos escolares. • institucionalização da gestão democrática. articular-se com as famílias e a comunidade. a partir das quais definimos alguns parâmetros para a elaboração do Projeto Político-Pedagógico da Escola e para a Gestão Democrática da Escola Pública. • lisura nos processos de definição da gestão democrática e do projeto político-pedagógico da escola.

Como organizar o Conselho de Escola. Pedro. • identificar os princípios de implementação da gestão escolar democrática. "planejamento socializado ascendente". no que se refere à construção do projeto pedagógico da escola e à valorização dos profissionais da Educação. adaptando-a às exigências da elaboração do projeto político. NASCIMENTO. Portugal.) CISESKI. 1988. enfatizando a importância da gestão democrática e da organização do trabalho na escola. DALMÁS. • realizar estudos. gestão e projecto educativo das escolas. Edições ASA. esclarecimentos e troca de experiências dos atuais e dos futuros docentes sobre conselhos de escola. Organização. Petrópolis.acredita. • estudar a metodologia de diagnóstico educacional e escolar denominada Carta Escolar. 2. • identificar e analisar terminologias e conceitos específicos que são empregados em relação ao projeto político-pedagógico da escola. João Pedro da. • possibilitar o intercâmbio entre educadores e instituições escolares das diversas regiões do País para a construção de uma escola democrática e de qualidade técnico-política. . São Paulo. Francisco João. • identificar o papel dos professores na definição das propostas e das estratégias de intervenção adequadas ao diagnóstico escolar e à elaboração do projeto político-pedagógico da escola. Nesse sentido. São Paulo. os objetivos gerais do presente projeto são: • desencadear um movimento para que as escolas construam ou avaliem os seus projetos político-pedagógicos. IPF. 1996. Ângela Antunes.pedagógico da escola. Cortez. 3. Planejamento participativo na escola. 1995. Ângelo. Porto. 1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos. DEMO. ed. BIBLIOGRAFIA ALVES. escolha democrática de dirigentes escolares.. 5. Participação e conquista. FONSECA. n. ed. ser possível a utopia educacional. nos termos freireanos. José Matias. • desenvolver estudos integrados para conhecer e analisar os indicadores educacionais com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político pedagógico da escola.. • estudar e analisar a situação atual da educação brasileira a partir da aprovação da nova LDB. Vozes.

VALE. 1989 (Tese de Doutorado). São Paulo. PADILHA.Área . Planejamento: plano de ensino-aprendizagem e projeto educativo . Manuel Jacinto. Vozes. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. Ana Maria do. 2. 1996. Poder local e Educação. v. Editora Autores Associados. Feusp. SANTOS. Planejamento educacional e organização do trabalho na escola: concepções do Plano Decenal de Educação para Todos. MEC-SEF. Maximiliano & SANTANNA. Jair Militão da. Papirus. Libertad. Escola cidadã. GADOTTI. 79-112. FREIRE. Cortez. Celso dos Santos. 21. São Paulo. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. UFSC. MARQUES. 1996. Brasília. 9). 1993 (Coleção Questões da Nossa Época: v. Campinas. 1996. Planejamento educacional participativo. 24). Por que planejar? Como planejar? Currículo . PARO. 1994. 1996. São Paulo. Mário Osório et ai. Portugal. 1995 (Coleção Educação Contemporânea). v. pp.SILVA. Petrópolis. Moacir. São Paulo. In: Revista da Faculdade de Educação. 52 p. n°. Campinas. São Paulo. Jair Militão da. Paulo Roberto... SILVA. VASCONCELLOS. Projeto da escola cidadã: a hora da sociedade. SANDER. SCHAEFER Maria Isabel Orofino. & GADOTTI. Cultura midiática no espaço escolar. Benno. São Paulo. 1991. Cortez. José Eustáquio. Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escolar. Vítor Henrique. 1992. Eleição de diretores: a escola pública experimenta a democracia. MENEGOLLA. Edições ASA. 1992. ed. Porto. n° 1. Florianópolis. ed. Paulo. 1996 (Colecção Cadernos Pedagógicos. Cortez. jan/jun. São Paulo. O projeto pedagógico da escola. Gestão da Educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. As escolas e as autonomias. ROMÃO. 2. Moacir. 1994. Paz e Terra.Aula. Educação popular na escola pública. São Paulo. IPF.elementos para elaboração e realização. Ilza Martins. 1). Feusp. 1995. . Petrópolis.

pelo pluralismo político. pá fiquei contente E ainda guardo. (Tanto mar) Chico Buarque PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ Moacir Gadotti Até muito recentemente. Já murcharam tua festa. Nunca nossas escolas discutiram tanto autonomia. caracterizada pela globalização da economia. específico de cada escola. A multiculturalidade é a marca mais significativa do nosso tempo. a questão da escola limitava-se a uma escolha entre ser tradicional e ser moderna. Essa tipologia não desapareceu. É um dos temas mais originais e marcantes do debate educacional brasileiro de hoje. Nessa sociedade cresce a reivindicação pela participação. renitente um velho cravo para mim.USP e diretor do Instituto Paulo Freire . Essa preocupação tem-se traduzido sobretudo pela reivindicação de um projeto político-pedagógico próprio. cresce também o desejo de afirmação da singularidade de cada região. de cada língua etc. A crise de paradigmas também atinge a escola e ela se pergunta sobre si mesma. das comunicações. cidadania e participação. pela emergência do poder local. Neste texto. gostaríamos de tratar Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo . sobre seu papel como instituição numa sociedade pós-moderna e pós-industrial. da educação e da cultura. pá mas certamente esqueceram uma semente nalgum canto de jardim.Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício Carlos Drummond de Andrade Foi bonita a festa. mas não responde a todas as questões atuais da escola. Muito menos à questão do seu projeto. autonomia e contra toda forma de uniformização.

A escola. Ao contrário. ao se eleger um diretor de escola. o conjunto dos seus currículos e dos seus métodos. um norte. Portanto. . uma etapa em direção a uma finalidade que permanece como horizonte da escola. se dá a partir da escolha de um projeto político-pedagógico para a escola. metas e procedimentos . todo projeto pedagógico da escola é também político. Cada escola é resultado de um processo de desenvolvimento de suas próprias contradições. Assim realizada. O projeto pedagógico da escola é. mas não é todo o seu projeto. Por isso. A arrogância do dono da verdade dá lugar à criatividade e ao diálogo. de uma diretora. instituir outra coisa. Tornar-se instituinte. bem como as dificuldades. A pluralidade de projetos pedagógicos faz parte da história da Educação da nossa época. assim. pois. a direção é escolhida a partir do reconhecimento da competência e da liderança de alguém capaz de executar um projeto coletivo. numa gestão democrática. Certamente o plano diretor da escola . o projeto pedagógico da escola está hoje inserido num cenário marcado pela diversidade. Isso não significa que objetivos. que é a sua história. Um projeto político-pedagógico não nega o instituído da escola. sublinhando a sua importância e seu significado. ou melhor. da "qualidade total". em geral.como conjunto de objetivos. Um projeto sempre confronta esse instituído com o instituinte. Não se constrói um projeto sem uma direção política. De quem é a responsabilidade da constituição do projeto da escola? O projeto da escola não é responsabilidade apenas de sua direção. Eles são insuficientes. metas e procedimentos não sejam necessários. escolhe primeiro um projeto e depois a pessoa que possa executá-lo. Um projeto necessita sempre rever o instituído para. Na escolha do diretor ou da diretora percebe-se já o quanto o seu projeto é político. a eleição de um diretor. o conjunto de seus atores internos e externos e seu modo de vida. nesse caso. o que se está elegendo é um projeto para a escola. um rumo.faz parte do seu projeto. Não existem duas escolas iguais. Diante disso. Como vimos. o plano fica no campo do instituído. a partir dele. em particular. Freqüentemente se confunde projeto com plano. no cumprimento mais eficaz do instituído. como defende o discurso em torno da "qualidade". obstáculos e elementos facilitadores para a elaboração do projeto político-pedagógico. sempre um processo inconcluso.deste assunto. desaparece aquela arrogante pretensão de saber de antemão quais serão os resultados do projeto para todas as escolas de um sistema educacional.

autonomia para estabelecer o seu projeto e autonomia para executá-lo e avaliá-lo.Por isso. a gestão democrática da escola está prestando um serviço também à comunidade que a mantém. A gestão democrática da escola implica que a comunidade. Ela exige. Mudança que implica deixar de lado o velho preconceito de que a escola pública é apenas um aparelho burocrático do Estado. portanto. A autonomia e a participação . em primeiro lugar. • a gestão democrática pode melhorar o que é específico da escola. E para ele se tornar sujeito da sua aprendizagem precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. isto é. uma escola sem autonomia . A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico. Há pelo menos duas razões que justificam a implantação de um processo de gestão democrática na escola pública: • a escola deve formar para a cidadania e.não se limitam à mera declaração de princípios consignados em algum documento. A gestão democrática da escola é. A escola não tem um fim em si mesma. Nisso. o seu ensino. portanto. os usuários da escola. professores e funcionários assumem sua parte de responsabilidade pelo projeto da escola. não deve existir um padrão único que oriente a escolha do projeto de nossas escolas. uma exigência de seu projeto político-pedagógico. e não uma conquista da comunidade. ela deve dar o exemplo. A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria natureza do ato pedagógico. que faz parte também do projeto de sua vida. A participação na gestão da escola proporcionará um melhor conhecimento do funcionamento da escola e de todos os seus atores. para isso. A gestão democrática da escola é um passo importante no aprendizado da democracia. e não apenas seus fiscalizadores ou meros receptores dos serviços educacionais. Na gestão democrática. aproximará também as necessidades dos alunos dos conteúdos ensinados pelos professores. alunos.pressupostos do projeto políticopedagógico da escola . O aluno aprende apenas quando se torna sujeito da sua aprendizagem. Ela está a serviço da comunidade. Sua presença precisa ser sentida no . Não se entende. Passamos muito tempo na escola para sermos meros clientes dela. pais. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. um conhecimento mútuo e. sejam seus dirigentes e gestores. em conseqüência. Propiciará um contato permanente entre professores e alunos. uma mudança de mentalidade de todos os membros da comunidade escolar.

atenção e trabalho. Precisamos de métodos democráticos. o projeto pedagógico da escola pode ser considerado como um momento importante de renovação da . • na autonomia. demanda tempo. na distribuição das aulas. • o autoritarismo que impregnou nossa prática educacional. na circulação das informações. esportivas e recreativas. A democracia também é um aprendizado. de efetivo exercício da democracia. • no envolvimento das pessoas: a comunidade interna e externa à escola. O projeto da escola depende da ousadia de seus agentes e de cada escola em se assumir como tal. na organização de eventos culturais.conselho de escola ou colegiado e também na escolha do livro didático. • o tipo de liderança que tradicionalmente domina nossa atividade política no campo educacional. A gestão democrática é. Enfim. atitude e método. podemos citar: • nossa pouca experiência democrática. no planejamento do ensino. um projeto político-pedagógico da escola apóia-se: • no desenvolvimento de uma consciência crítica. portanto. Não basta trocar de teoria como se ela pudesse salvar a escola. A gestão democrática deve estar impregnada por uma certa atmosfera que se respira na escola. • a própria estrutura vertical de nosso sistema educacional. Não basta apenas assistir a reuniões. o contexto histórico em que ela se insere. responsabilidade e criatividade como processo e como produto do projeto. • a mentalidade que atribui aos técnicos e apenas a eles a capacidade de planejar e governar e que considera o povo incapaz de exercer o governo ou de participar de um planejamento coletivo em todas as suas fases. no processo de elaboração ou de criação de novos cursos ou de novas disciplinas. na divisão do trabalho. Um projeto político-pedagógico constrói-se de forma interdisciplinar. Entre eles. seu cotidiano e seu tempo-espaço. • na participação e na cooperação das várias esferas de governo. algumas limitações e obstáculos à instauração de um processo democrático como parte do projeto político-pedagógico da escola. A escola que precisa ser salva não merece ser salva. certamente. na formação de grupos de trabalho. na capacitação dos recursos humanos etc. partindo da cara que tem. mas não é suficiente. A atitude democrática é necessária. isto é. atividades cívicas. Existem. no estabelecimento do calendário escolar. Pelo que foi dito até agora.

• suporte institucional e financeiro. Um projeto educativo pode ser tomado como promessa ante determinadas rupturas. comprometendo seus atores e autores. acompanhamento e avaliação do projeto: um projeto que não pressupõe constante avaliação não consegue saber se seus objetivos estão sendo atingidos. o período no qual o projeto é elaborado. • o momento da institucionalização e implementação do projeto. • controle. explícito. • tempo escolar: o calendário da escola. Nesse processo podem-se distinguir dois momentos: • o momento da concepção do projeto. Como elementos facilitadores do êxito de um projeto. Todo projeto supõe rupturas com o presente e promessas para o futuro. A noção de projeto implica sobretudo tempo: • tempo político: define a oportunidade política de um determinado projeto. O projeto que pode ser inovador para uma escola pode não ser para outra. pleno conhecimento de todos . Projeto pressupõe uma ação intencionada com um sentido definido. sobre o que se quer inovar. antever um faturo diferente do presente.escola. Projetar significa "lançar-se para a frente". ambiente favorável: não se deve desprezar um certo componente mágico-simbólico para o êxito de um . • tempo para amadurecer as idéias: só os projetos burocráticos são impostos e. • atmosfera. As promessas tornam visíveis os campos de ação possíveis. Há um tempo para sedimentar idéias. atravessar um período de instabilidade e buscar uma nova estabilidade em função da promessa que cada projeto contém de estado melhor do que o do presente. Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscarse. revelam-se ineficientes a médio prazo. A co-responsabilidade é um fator decisivo no êxito de um projeto. • tempo institucional: cada escola encontra-se num determinado tempo de sua história. é também decisivo para seu sucesso. que significa: vontade política. por isso. • adesão voluntária e consciente ao projeto: todos precisam estar envolvidos. Um projeto precisa ser discutido e isso leva tempo.e recursos financeiros claramente definidos. podemos destacar: • comunicação eficiente: um projeto deve ser factível e seu enunciado facilmente compreendido.principalmente dos dirigentes .

O que é educar para a cidadania? A resposta a essa pergunta depende da resposta à outra pergunta: "o que é cidadania?" Pode-se dizer que cidadania é essencialmente consciência de direitos e deveres no exercício da democracia. que consiste na mobilização da sociedade para a conquista dos direitos anteriormente . de voto. Tudo isso exige certamente uma educação para a cidadania. o projeto pode ficar limitado. a progressista ou socialista democrática (o socialismo autoritário e burocrático não admite a democracia como valor universal e despreza a cidadania como valor progressista). Contudo. como trabalho. • referencial teórico que facilite encontrar os principais conceitos e a estrutura do projeto. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão estabelecia as primeiras normas para assegurar a liberdade individual e a propriedade. uma certa mística que cimente a todos os que se envolvem no design de um projeto. A falta desses elementos dificulta a elaboração e a implantação de um projeto novo para a escola. a neoliberal. habitação etc. Em 1789. A democracia fundamenta-se em três direitos: • direitos civis. que é uma concepção plena de cidadania. contudo. diversas concepções de cidadania: a liberal. se os que as defendem não têm prestígio. Não há cidadania sem democracia. como liberdade de expressão. A implantação de um novo projeto político-pedagógico enfrentará sempre a descrença generalizada dos que pensam que de nada adianta projetar uma boa escola enquanto não houver vontade política dos "de cima". • credibilidade: as idéias podem ser boas. no entanto. de participação em partidos políticos e sindicatos etc.projeto. comprovada competência e legitimidade. saúde. salário justo. Deve ser um processo de recuperação da importância e da necessidade do planejamento na Educação. como segurança e locomoção. mas. o pensamento e a prática dos "de cima" não se modificarão enquanto não existir pressão dos "de baixo". Existem. Existe hoje uma concepção consumista de cidadania (não ser enganado na compra de um bem de consumo) e uma concepção oposta. educação. é um conceito ambíguo. • direitos sociais. • direitos políticos. O conceito de cidadania. Um projeto político-pedagógico da escola deve constituir-se num verdadeiro processo de conscientização e de formação cívica.

posso tirar algumas lições que me levam a acreditar nessa concepção/realização da educação. a visão interdisciplinar e transdisciplinar e a formação permanente dos educadores. portanto. baseado nessa crença. como uma alternativa nova e emergente. Por isso. Cidadania e autonomia são hoje duas categorias estratégicas de construção de uma sociedade melhor em torno das quais há freqüentemente consenso. ao lado de Paulo Freire. gostaria de mencionar pelo menos quatro: • a escola não é o único local de aquisição do saber elaborado. foram a origem do importante movimento pelos direitos civis no País. e ainda tão longínqua em razão do arraigado individualismo tanto das nossas elites quanto das fortes corporações emergentes. que devem ser garantidos pelo Estado. . a transdisciplinaridade refere-se à superação das fronteiras existentes entre as disciplinas. a democratização das relações de poder dentro da escola. Aprendemos também nos fins de semana. Essas categorias se constituem na base da nossa identidade nacional. apresentei um decálogo no livro Escola cidadã. Para finalizar. Concretamente. que surgiram nos Estados Unidos nos anos 50. Do movimento histórico-cultural a que nos referimos estão surgindo alguns eixos norteadores da escola cidadã: a integração entre educação e cultura. a escola cidadã surge como uma realização concreta dos ideais da escola pública popular. tão desejada. cujos princípios venho defendendo. dessa experiência vivida pude tirar algumas lições. E é justamente nesse contexto histórico que vêm se desenhando o projeto e a realização prática da escola cidadã em diversas partes do país. A interdisciplinaridade refere-se à estreita relação que as disciplinas mantêm entre si. ambas dependentes do Estado paternalista. As Citizenship Schools. indo. escola e comunidade (educação multicultural e comunitária). Ela vem surgindo em numerosos municípios e já se mostra nas preocupações dos dirigentes educacionais em diversos Estados brasileiros. colocando dentro das escolas americanas a educação para a cidadania e o respeito aos direitos sociais e humanos. como diz Emilia Ferreiro. nas últimas duas décadas. Para mim.mencionados. Movimentos semelhantes já ocorreram em outros países. o enfrentamento da questão da repetência e da avaliação. A cidadania implica instituições e regras justas. além da interação e da reciprocidade existentes entre as ciências. de 1992. De minha experiência vivida nesses últimos anos. O movimento atual da chamada escola cidadã está inserido nesse novo contexto histórico de busca de identidade nacional. tentando entender esse movimento.

Por isso. podemos operar a grande mudança. mas por uma transformação radical. num determinado local ou contexto. E o mais importante: isso pode ser feito já. Estado e sociedade civil . pela revolução da informática a ela associada e pelos novos valores que estão refundando as instituições e a convivência social na emergente sociedade pós-moderna. as pequenas mudanças deveriam ser evitadas e todo o investimento deveria ser feito numa mudança radical e ampla. Existem muitos caminhos. pode não o ser em outra conjuntura ou contexto. não devemos renunciar ao nosso sonho da "grande" mudança. • a educação não será acessível a todos enquanto todos trabalhadores e não-trabalhadores em Educação.• não existe um único modelo capaz de tornar exitosa a ação educativa da escola. Por isso.não se interessarem por ela. Estou convencido. Cada escola é fruto de suas próprias contradições. acima de tudo. no dia-a-dia. Mesmo assim. Não é preciso mais esperar para mudar. exigência premente e concreta de uma mudança estrutural provocada pela inevitável globalização da economia e das comunicações. Hoje. até para a aquisição do saber elaborado. Questões para debate • Que mudanças caracterizam a sociedade pós-moderna e pósindustrial? • Como essas mudanças se refletem na educação e na escola? • Como a escola pode formar para a cidadania? • Quais são os obstáculos e os elementos facilitadores para a implantação do projeto político-pedagógico da escola cidadã? . • houve uma época em que eu pensava que as pequenas mudanças impediam a realização de uma grande mudança. ter uma mentalidade aberta ao novo e não atirar pedras no caminho de ninguém que queira inovar em educação. mudando passo a passo. no meu entender. que a educação deve passar não apenas por uma melhoria da qualidade do ensino que está aí. é preciso incentivar a experimentação pedagógica e. a qual poderá acontecer como resultado de um esforço contínuo. A educação para todos supõe todos pela educação. minha certeza é outra: penso que. sobretudo. E o caminho que pode ser válido numa determinada conjuntura. com pequenas mudanças numa certa direção. solidário e paciente.

quero amor prazer Quero nossa cidade sempre ensolarada Os meninos e o povo no poder. Isso exige uma reorientação dos investimentos públicos em educação Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo .USP e diretor do Instituto Paulo Freire José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora... A educação básica é o bem muito precioso e de maior valor para o desenvolvimento. O que mata um jardim [é esse olhar vazio De quem por ele passa indiferente. (Coração civil) Milton Nascimento ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE Moacir Gadotti José Eustáquio Romão Em princípio. Nosso appartheid social não será superado apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias. mais do que as suas riquezas naturais. Só a educação básica de qualidade para todos pode acabar com a miséria. Será preciso preparar os jovens para o trabalho. quero tudo e mais Quero a felicidade dos olhos de um pai Quero a alegria muita gente feliz Quero que a justiça reine em meu país Quero a liberdade. Mário Quintana Quero a utopia. • a educação para o desenvolvimento: entendemos que a educação é condição sine qua non para o desenvolvimento auto-sustentado do País. toda escola pode ser cidadã enquanto realizar uma certa concepção de educação orientada para: • a formação para a cidadania ativa: acreditamos que a escola pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional. MG . quero o vinho e o pão Quero a amizade.O que mata um jardim não [é o abandono.

Pode-se dizer que a autonomia faz parte da própria natureza da educação.sem comprometer os outros níveis de ensino . Estamos vivendo hoje um momento diferente. John Locke concebe-a como "autogoverno" (selfgovernment). que conseguiu expandir as oportunidades educacionais. Adolph Ferriere e Jean Piaget entendiam que ela exercia um papel importante no processo de "socialização" gradual das crianças.. diz Georges Snyders. mas também para a inserção na comunidade e para a emancipação social. Snyders insiste que essa "autonomia relativa" tem de ser mantida pela luta e "só pode tornar-se realidade se participar no conjunto das lutas das classes exploradas" (idem). No Brasil. sem rever o modelo de gestão da escola pública. Por isso. Investir mais em educação hoje no Brasil. o seu conceito encontra-se na obra de diversos clássicos da educação. Na história das idéias pedagógicas. em seguida. mas sem oferecer qualidade e eficiência. Os educadores soviéticos Makarenko e Pistrak a entendiam como "autoorganização dos alunos". classe e luta de classes. o tema da autonomia da escola encontra suporte na própria Constituição promulgada em 1988. Passou. a Constituição de 1988 estabelece como princípios básicos o "pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas" e a "gestão democrática do ensino público" (Art. No que se refere à educação. da transformação social. 206). Neill organizou uma escola (Summerhill) controlada autônomamente pelos alunos. a autonomia sempre foi associada aos temas da liberdade individual e social.. É a vez da sociedade. A autonomia é "real". recentemente. O educador inglês Alexander S.básica . um momento de busca de síntese entre qualidade e quantidade. da ruptura com esquemas centralizadores e. que institui a "democracia participativa" e cria instrumentos que possibilitam ao povo exercer o poder "diretamente" (Art. 1977). "mas a conquistar incessantemente (.) é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar" (Escola.e uma compreensão nova do público e do estatal. não é suficiente para reverter o processo de deterioração do ensino básico. no sentido moral de "autodomínio individual". A escola precisa preparar o indivíduo para a autonomia pessoal. mas para poucos. 1°). por uma forte intervenção do Estado. . Esses princípios podem ser considerados como fundamentos constitucionais da autonomia da escola. que ofereceu uma escola de qualidade. O Brasil passou por um primeiro momento em que a educação estava entregue unicamente nas mãos da iniciativa confessional e privada.

A alienação se dá quando "um discurso estranho que está em mim me domina. a autogestão pedagógica sempre foi considerada como alavanca da autogestão social. Nas teorias da educação. pois os dirigentes de uma cooperativa são remunerados pelos próprios trabalhadores. Autogestão também não se confunde com a co-gestão. Podem significar muitas coisas e. 1982). A cooperativa já é um caso mais próximo da autogestão. Autogestão não se confunde com participação. Autonomia e autogestão constituem-se em horizonte de construção de relações humanas e sociais civilizadas e justas. na linguagem política e. nos meios intelectuais da esquerda francesa. insatisfeita com as realizações concretas do socialismo burocrático. filósofo grego contemporâneo. Evidentemente. para compreender melhor a organização do trabalho na escola cidadã. A palavra "autogestão" aparece no início dos anos 60. O sentido que aqui nos interessa. opõe autonomia à alienação. a educação. Há uma visão progressista de autonomia e uma visão conservadora. A autogestão visa a transformação. fala por mim" (idem). enquanto todos os demais simplesmente executam tarefas cujo sentido lhes escapa quase inteiramente. em particular o soviético. "a autonomia seria o domínio do consciente sobre o inconsciente" (A instituição imaginária da sociedade. mais ou menos solidário. detêm o poder de decisão e o controle. podem confundir-se com muitas coisas. Autonomia não pode ser confundida com autogestão. tem tudo a ver com a autonomia. pressupõe o fato de que uma das formas fundamentais de exercício da opressão é a divisão social do trabalho entre dirigentes e executantes. pois participar significa engajar-se numa atividade já existente com sua própria estrutura e finalidade. pois esta significa direção conjunta de uma instituição. ambas estão fundadas na ética.Cornelius Castoriadis. existem muitas instituições de trabalho cooperativo. separando "especialistas" de . Portanto. sobrepujando parcialmente o antagonismo entre capital e trabalho. fora da escola. por isso. em que o inconsciente é o "discurso do outro". que se reflete diretamente na administração do ensino: uns poucos. enquanto processo de conscientização (desalienação). mantendose a mesma estrutura hierárquica. Por isso. principalmente. A teoria pedagógica não é nada sem a ética. e não a participação. Para ele. Autonomia e autogestão não são conceitos neutros. A divisão social do trabalho na escola é agravada pelo fato de ela ser justificada pela "competência".

Esses elementos estão sustentados por um pressuposto mais amplo: o da maior autonomia das escolas. Em alguns casos. Contudo. o que dificultaria ações reformistas ou revolucionárias mais profundas e globais. É verdade que é mais fácil lidar com programas unificados de reformas.sustentadas freqüentemente por uma concepção centralizadora da educação . No Brasil. O que chamamos de escola cidadã se constitui no resultado de um processo histórico de renovação na educação. podemos destacar nesses projetos e reformas alguns traços comuns: • ampliação da jornada escolar. e só pode . No caso da administração escolar. das habilitações técnico-administrativas do curso de Pedagogia. Podemos encontrá-los também nas reformas empreendidas hoje por outros países. • participação comunitária e gestão democrática. Os relatos dessas experiências nos dão conta de muitas dificuldades e resistências. com maior ou menor intensidade. essas objeções . O papel pedagógico do professor foi esvaziado. mas não tiveram um impacto maior sobre os sistemas de ensino. não tiveram continuidade. tanto para os alunos quanto para os professores. Existem ainda críticos da autonomia escolar que temem que iniciativas desse tipo levem à privatização e desobriguem o Estado de sua função de oferecer uma escola pública gratuita de qualidade para todos. Outra objeção que costuma ser feita aos "autonomistas" é a de que autonomia da escola leva à pulverização. na história recente das transformações dos sistemas educacionais em diversas partes do mundo. à dispersão e à preservação do localismo. são experiências muito polêmicas. Cidadão é aquele que participa do governo.são cada vez mais frágeis. A heterogeneidade dificulta o controle. na medida em que o pluralismo é defendido como valor universal e fundamental para o exercício da cidadania. sobretudo depois da criação. Todavia. pelo regime militar. experiências isoladas de gestão colegiada de escolas sempre existiram. Esse movimento encontra-se não apenas na educação brasileira. em uma mesma escola. A idéia de autonomia é intrínseca à idéia de democracia e cidadania. o problema está sendo sanado por meio da eleição para o cargo de diretor. Ele pode ser encontrado. • atendimento integral à criança e ao adolescente. quando não o impossibilita. Muitas delas são fruto de iniciativa de alguns educadores e foram interrompidas quando estes deixaram a escola.professores.

tentativas e confrontos políticos entre teses diferentes e até opostas. debates. A população precisa. Não se pode fazer uma mudança profunda no sistema de ensino sem um projeto social. Autonomia é o oposto da uniformização. Só a igualdade na diferença e a parceria são capazes de criar o novo.na capacidade de ela resolver seus problemas por si mesma e de autogovernar-se. A luta pela autonomia da escola insere-se numa luta maior pela autonomia no seio da própria sociedade. escola autônoma não significa escola isolada. Esse plano supõe: autonomia dos movimentos sociais e de suas organizações em relação à administração pública. O que a Itália está experimentando é resultado de um longo caminho percorrido. por isso. Por isso. democratização das informações. Mas. mas em constante intercâmbio com a sociedade. Deve-se pensar o sistema de ensino como uma unidade descentralizada. com muitos encontros. precisa compreender o funcionamento da administração particularmente do orçamento . efetivamente. O conselho de escola é o órgão mais importante de uma escola autônoma. isto é. A autonomia se refere à criação de novas relações sociais que se opõem às relações autoritárias existentes. para instituir outra coisa. A criação dos conselhos de escola representa uma parte desse processo. contra o instituído. transparência administrativa. Eles só são eficazes em um conjunto de medidas políticas. A autonomia admite a diferença e. é preciso percorrer um longo caminho de construção da (auto)confiança na escola .e as leis que regem a administração pública e limitam a ação transformadora. A eficácia dessa luta depende muito da ousadia de cada escola em experimentar o novo.participar do governo (participar da tomada de decisões) quem tiver poder e tiver liberdade e autonomia para exercê-lo. Essa formação se adquire na participação do processo de tomada de decisões. A participação e a democratização num sistema público de ensino são um meio prático de formação para a cidadania. e não apenas pensá-lo. é uma luta dentro do instituído. A ampliação da autonomia da escola não pode opor-se à unidade do sistema. Portanto. apropriar-se das informações para poder participar. base da democratização da gestão escolar. supõe a parceria. para isso. em um plano estratégico de participação que vise a democratização das decisões. abertura de canais de participação pela administração. Descentralização e autonomia caminham juntas. Mas para que . Mas eles fracassam quando instituídos como uma medida isolada e burocrática.

cada vez mais. no seu livro Filosofia mestiça. Para uma administração pública construir essa escola. apesar da resistência . Nesse confronto de concepções e práticas. o sistema tende a uma síntese superadora. o nosso desafio educacional continua sendo educar e ser educado.não se sentem responsáveis. O grande desafio da escola pública está em garantir um padrão de qualidade (para todos) e. mas integrá-la no processo de desenvolvimento humano e social. os usuários . além da sua cultura. Existe uma visão sistêmica estreita que procura acentuar os aspectos estáticos . Enfim. idéia tão cara à teoria da educação popular. Mas educado é só aquele que domina. Costumase convocar a população para participar em horários inadequados. Esta é uma das principais razões da não-participação. A escola cidadã é certamente um projeto de criação histórica. Como vimos. dentro e fora da escola.como o consenso. a mudança. a ordem. unificada -. a descentralização é a tendência atual mais forte dos sistemas de ensino e das últimas reformas. em locais desconfortáveis ou de dificil acesso etc. Certamente.professores e funcionários . o locus fundamental da educação é a escola e a sala de aula. Num sistema fechado. predomina o ecletismo. ao mesmo tempo. trata-se de construir uma escola pública universal . Adquirir uma nova cultura não é negar a cultura primeira. sem nenhum cuidado prévio. social e cultural.os conselhos de escola sejam implantados de maneira eficaz é necessário que a participação popular.pais e alunos . Além disso. aquele que se torna um "mestiço". o confronto entre uma visão funcionalista e estática da educação e uma visão dialética. A população precisa sentir-se respeitada e ter prazer de exercer os seus direitos e de participar. precisa trabalhar com uma concepção aberta de sistema educacional. uma outra cultura. a adaptação. o conflito e a autonomia. Portanto. A dialética entre as culturas faz parte da própria natureza da educação. dinâmica. se constitua numa estratégia explícita da administração. mas que respeite as diferenças locais e regionais. respeitar a diversidade local. Na prática. a multiculturalidade. o que temos chamado. de sistema único e descentralizado.e os prestadores dos serviços . como diz o filósofo francês Michel Serres. étnica. para facilitar a participação é preciso oferecer todas as condições. Num sistema aberto. esses dois paradigmas contrários de sistema de ensino não se encontram em "estado puro". a hierarquia e uma visão dinâmica que valoriza a contradição.para todos.

Enfim. seja a cultura popular. • avaliação permanente do desempenho escolar: a avaliação. Seu corolário é a comunicação entre as escolas e a população. • autonomia da escola: cada escola deveria poder escolher e construir seu próprio projeto político-pedagógico .por exemplo. visando à democratização do acesso e da gestão e à construção de uma nova qualidade de ensino. sem que seja necessário passar por incontáveis instâncias de poder intermediário. a comunida-de externa e o poder público.oferecida pelo corporativismo das organizações de educadores e pela burocracia instalada nos aparelhos de Estado. Escola e governo elaborariam em parceria as políticas educacionais. seja a cultura geral. pois existe uma só cultura como obra humana (unidade humana na pluralidade dos homens). ela deve tornar-se o pólo irradiador da cultura. como no caso do modelo hierárquico e vertical de poder. no Instituto Paulo Freire. de Planejamento Socializado Ascendente . A escola precisa ser o local privilegiado da inovação e da experimentação político-pedagógica. superando o temido problema da atomização do sistema de educação. precisa ser incluída como parte essencial do projeto da escola. mas para construir e elaborar a cultura.de forma que as deliberações escolares tivessem influência e peso sobre as políticas públicas educacionais. um único espaço ou local. iniciativas deslocadas para a administração dos sistemas durante o regime militar. para que tenha um sentido emancipatório. não apenas para reproduzi-la ou executar planos elaborados fora dela. muitas vezes associados na luta contra a inovação educacional. • comunicação direta com as escolas: se a escola é o locus central da educação. Escola não significa um prédio. por meio do que chamamos. A administração de um sistema único e descentralizado de ensino poderia apoiar-se em quatro grandes princípios: • gestão democrática: um sistema único e descentralizado supõe objetivos e metas educacionais claramente estabelecidos entre escolas e governo. Escola significa projeto em torno do qual poderiam associar-se várias unidades escolares. Deve envolver a comunidade interna. Não pode ser um ato formal e executado por técnicos externos à escola apenas. E a qualidade está . a questão essencial da nossa escola hoje refere-se à sua qualidade e a uma nova abordagem da qualidade.

podem respeitar as peculiaridades étnicas. E a própria comunidade pode avaliar de perto os resultados. que são muito mais eficazes na conquista dessa qualidade do que grandes projetos anônimos e distantes do dia-a-dia escolar. podem diminuir os gastos com a burocracia.diretamente relacionada com os pequenos projetos das próprias escolas. Questões para debate • Identifícar na história das idéias pedagógicas os fundamentos da escola autônoma (cidadã). princípios e elementos que caracterizam a escola que chamamos de cidadã? • O que falta à sua escola para que ela seja cidadã? Como construí-la? . • Em que medida a Constituição Federal de 1988 e a política educacional do seu município ou Estado favorecem ou dificultam a construção da escola cidadã? • Quais são os fundamentos. sociais e culturais de cada região. Isso porque só as escolas que conhecem de perto a comunidade e seus projetos podem dar respostas concretas a problemas concretos de cada uma delas.

em nossa vida cotidiana. em que se cria. Do que adiantam? Letras impressas das canções. Paulo Freire CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO Custódio Gouvea L. a escola que apaixonadamente diz sim à vida.. Aí percebemos a necessidade do prévio estabelecimento de finalidades. com qualquer nova atividade ou situação. da Motta é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. de objetivos. MG. que marcha.. José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. no caso específico da educação. em que se ama. deparamos com novos ambientes. se adivinha. SP. Esse processo se amplia se nos entregamos a ações intencionais e. De qualquer maneira. para seguir em frente. por isso que recusa o imobilismo. realizamos espontaneamente uma sondagem inicial acerca de tudo o que nos cerca e naturalmente interpretamos as condições encontradas. de avaliações a serem Custódio Gouvea L. para nos relacionarmos e também para participar e interferir naquele ambiente ou naquela situação.instruções.. com novas pessoas. que não tem medo do risco. A partir daí passamos a ter maior segurança para caminhar. de metas a serem atingidas. enfim.. MG. . e diretor do Instituto Paulo Freire. convenções. Do que adiantam? Gestos educados. podemos ter a sensação inicial de insegurança.Do que adiantam? Placas.. Do que adiantam? Emendas. Paulo Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco. quando pretendemos desenvolver quaisquer atividades no âmbito do sistema ou da unidade escolar. com um novo trabalho. bulas. A escola em que se pensa. em que se fala. constituições se o teto da escola caiu se a parede da escola sumiu (Mobral) Herbert Vianna Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura.. em que se atua. da Motta José Eustáquio Romão Paulo Padilha Quando.

O que é a Carta Escolar? Desenvolvida no Brasil na década de 70. abordaremos a Carta Escolar adaptada à unidade escolar. de Minas Gerais. recuperou suas aplicações de sucesso no Brasil e a atualizou'. de resultados a serem quantificados e qualificados para que correções de rumos possam melhorar a nossa atuação e. por conseguinte. agir e buscar resultados positivos em nossas atividades. apresentamos a metodologia denominada Carta Escolar. ela indica as ações que permitirão a organicidade da rede física escolar. . Diante de circunstâncias e de ações intencionais e deliberadas. sondagem e interpretação de dados acabam se constituindo em etapas essenciais para que possamos. Elas estão à disposição para consulta nas sedes do Instituto. Ela é um instrumento de planejamento do sistema ou subsistema educacional que permite o estudo das condições sociais. conscientemente. resultados de mecanismos inconscientes de captação de informações. fisiográficas. no sentido do atendimento das demandas O Instituto Paulo Freire de Juiz de Fora elaborou em 1996 as Cartas Escolares das prefeituras municipais de Bicas. a metodologia da Carta Escolar foi aperfeiçoada e melhor aplicada . destinada a subsidiar ações educacionais de âmbito municipal e de sistema de ensino. culturais. a estaremos estudando em sua concepção original. Mercês e Oliveira Fortes. urbanísticas e arquitetônicas de comunidades que abrigam sistemas escolares. que nos permite desenvolver ações com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político-pedagógico da escola. A partir dessa analogia. a sondagem e a interpretação dos dados observados por nossos sentidos.com muito sucesso em outros países. demográficas. instrumento de sondagem. Inicialmente. o ensino e a aprendizagem. O Instituto Paulo Freire resgatou-a. Nessas condições. de forma que professores e demais segmentos escolares e comunitários possam utilizá-la como referencial para seus diagnósticos no âmbito estrito de suas escolas e de suas comunidades. Depois. de interpretação e de análise de dados dos indicadores educacionais. econômicas. transformam-se em função obrigatória. estudou seus resultados nesses países.realizadas. Além disso.

com suas características específicas e com os elementos que influenciarão na escolarização. bem como para a definição das áreas de jurisdição das escolas. Para se ter uma visão da realidade de cada município. Os mesmos dados são lançados em mapas municipais para que se tenha uma visão mais clara das deficiências ou duplicações existentes em função dos adensamentos populacionais e das barreiras físicas ou urbanas que influenciam no dimensionamento da rede física escolar. a partir da delimitação de setores censitários. aspectos . por amostragem. sexo e escolaridade por setor censitário. com sua localização. equipamentos. Todos os dados coletados são tabulados por meio de sistemas computacionais que fornecem uma série de indicadores para as projeções de expansão ou contração da rede. na medida em que indica os locais a serem implantadas as novas unidades escolares com vistas ao atendimento de áreas já densamente povoadas ou de indução de adensamento. assim. caracterizadas em seus estratos sociais a partir de dados fornecidos por um Censo Escolar. Para tanto. segurança e conforto compatíveis com as faixas etárias dos usuários. são coletadas informações sobre outros indicadores sociais que interferem no desempenho do sistema educativo. que utiliza uma metodologia criada pelo Instituto Paulo Freire. malha viária. É realizado também um levantamento exaustivo da capacidade instalada da rede escolar do município. Essa Carta possibilita. tanto em termos de recursos físicos (instalações. demografia. infra-estrutura e atividades econômicas. O Censo Escolar. destacam-se a topografia. a racionalização da expansão da rede física escolar. que devem ser profundamente estudadas para verificar suas influências no planejamento educacional do município. faz um levantamento real e efetivo de toda a população do município. com seu perfil profissional. com escala que permite uma representação suficientemente precisa e detalhada da rede escolar.específicas de cada nível. hidrografia. material didático). barreiras urbanísticas. é inserida uma descrição do seu cenário geográfico. Entre os elementos externos que interferem no processo de escolarização. idade. quanto de recursos humanos (docentes e não-docentes). a Carta Escolar é um instrumento operacional cujo suporte físico é um mapa topográfico. Ademais. para garantir facilidades de acesso. e da demanda real e potencial. é aplicado um questionário em todas as residências (urbanas e rurais) e coletadas informações referentes à renda.

sua capacidade instalada. torna-se instrumento indispensável para a elaboração dos projetos político-pedagógicos em todos os níveis educacionais. considerando todos os elementos que possam influenciar o processo educativo. maximizar a utilização da capacidade física instalada. minuciosamente. finalmente. A Carta Escolar tem como objetivos fornecer vários subsídios para o conhecimento efetivo da real situação da educação municipal.relevo. . indicar o estabelecimento de áreas de jurisdição de escolas. características sócioeconômicas predominantes de sua clientela. do município ou do Estado. Sua análise constitui o cerne do trabalho. para alimentar. clima e vegetação -. dos avanços a serem continuados e estimulados. passando por sua evolução político-administrativa. é possível uma intervenção precisa no sistema educacional dos municípios. quantitativa e qualitativamente. jurisdição e manutenção. a Carta Escolar tem por finalidade promover um amplo diagnóstico da educação no município. com a participação dos próprios agentes escolares. o processo decisório da comunidade local. assessorar os municípios na elaboração e implementação de planos educacionais. já que a finalidade precípua da Carta Escolar é o arrolamento analíticocrítico dos principais componentes de seus serviços. Todos esses elementos contribuem para a caracterização da educação no município.físicos . e. seus recursos humanos. Observe-se que a Carta Escolar. No caso específico de uma escola. prever o desenvolvimento do sistema escolar em função da demanda social por matrículas. levantar os dados sobre os limites e potencialidades do setor educacional do município para o atendimento das demandas que sejam resultantes de levantamentos e de pesquisas cientificamente consolidados. A partir da identificação dos problemas a serem atacados. hidrografia. a Carta levanta. uma análise detalhada da sua evolução demográfica e econômica e uma reconstituição de seu quadro histórico-social. das lacunas a serem preenchidas e das prioridades educacionais a serem estabelecidas e implementadas. otimizar a aplicação de recursos destinados à educação. suas demandas e das respectivas projeções futuras. enquanto diagnóstico da capacidade e demanda educacionais da escola. Como vimos. área de abrangência. situação legal e histórico de sua evolução ao longo dos anos. partindo de uma série de "retratos" tirados ao longo dos anos e revelados coletivamente. até o contexto contemporâneo. desde as origens.

servidores municipais. formada por professores coordenadores. Além dessa equipe. será o cerne do trabalho. hidrografia e clima -.relevo. a mesma conta. os vereadores do município -. também oferece aos professores subsídios para o desenvolvimento da integração social com seus alunos.e. já que sua principal finalidade é o arrolamento analítico-crítico dos principais componentes de seus serviços e demandas educacionais e de suas projeções para o futuro. apontamento de rumos e recomendações a serem submetidas ao . técnicos em informática e recenseadores. já que os componentes municipais constituem conteúdos curriculares importantes na escolarização dos discentes do ensino fundamental. • reconstituição da trama das relações histórico-sociais: procurase fazer a reconstituição dessa trama. e uma análise dos aspectos demográficos. fundamentalmente.Estrutura da Carta Escolar A Carta Escolar é um trabalho coletivo. • caracterização educacional do município: esta parte. que oferece os dados coletados aos pesquisadores. aspectos físicos . • conclusões e recomendações: à luz dos dados analisados. relativamente independente. os lotados na Secretaria Municipal de Educação . ainda. além de inserir os problemas educacionais do município em um universo mais amplo. o Instituto Paulo Freire propõe algumas recomendações à administração municipal. independentemente das facções políticas a que pertençam . com informações sumárias sobre a flora e a fauna. com vistas à compatibilização entre as disponibilidades potenciais e às necessidades educacionais projetadas e decorrentes do direito de todos a uma educação básica de qualidade. médio e longo prazos. De sua elaboração participa uma equipe responsável do Instituto Paulo Freire. com a colaboração da população em geral. Ao final do trabalho elabora-se um minucioso relatório com as seguintes informações: • cenário geográfico do município: descrição da localização. geógrafos. sua criação e evolução político-administrativa. Observamos que a Carta Escolar. de curto. desde as origens.e em especial com os professores e supervisores de ensino. O resultado da Carta Escolar deve servir como indicação. com o envolvimento de toda comunidade municipal .

ainda. com a distribuição da população por sexo. além de outras informações que possibilitem a realização de projeções máximas de atendimento de alunos por faixa etária e por série para o ano seguinte à pesquisa. A CARTA ESCOLAR ADAPTADA À UNIDADE ESCOLAR A Carta Escolar. e relatórios com dados sobre os alunos que estão freqüentando a escola. entre outras inúmeras combinações que podem ser realizadas. alfabetizando. tabulados e analisados. por idade. e resumo com os totais daquelas projeções para o ano seguinte à pesquisa. tabelas e gráficos com os dados relativos aos aspectos demográficos em geral. de forma a servir de subsídio para estudos e como instrumento técnico de atualização fatura da Carta Escolar ou de outras pesquisas que se fizerem necessárias no município. Tais recomendações e conclusões devem ser. faixa etária. a formulação e implementação de políticas de outros setores da administração pública. sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por setor. Todas essas informações podem ser mantidas em arquivo: dados coletados. aos administradores municipais mapas de localização dos setores censitários e das escolas. e sobre aqueles que não a freqüentam. por faixa etária e série. portanto. oferece ao diretor da escola.processo político decisório da comunidade local. em conjunto com os órgãos de representação democrática dos diversos segmentos sociais. O relatório final da Carta Escolar apresenta. objetos de estudo mais profundo sobre cada aspecto específico e submetidas ao crivo das decisões políticas do município. A Carta Escolar. subsidiando. e setor. pode servir também para a obtenção de outras informações. por meio de suas legítimas representações e lideranças. à renda por estratos sociais e ao grau de escolarização de sua população. adaptada a cada estabelecimento de ensino. total e universo). aos seus professores e a todos os segmentos escolares uma "fotografia" das reais condições da escola. acompanhados das respectivas totalizações numéricas e estatísticas. embora se dedique ao levantamento da realidade educacional. evadido. . O relatório traz ainda informações sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por faixa etária (analfabeto. fora da escola. assim. aqui apresentada sinteticamente. como projeções e busca de indicadores de qualidade do município.

também. todo o corpo docente. ao apresentarmos alguns parâmetros para a realização da Carta Escolar. Assim. Os recursos necessários para a execução do trabalho e suas fontes precisam igualmente ser definidos. Como a Carta é um instrumento elaborado coletivamente. os mesmos não devem ser entendidos como "camisa-de-força". Ela pressupõe divisão de poder e de responsabilidades.que subsidiará a elaboração de seu projeto político-pedagógico e de seu planejamento participativo ascendente. As presentes recomendações são uma possível base para a realização de um diagnóstico escolar. Não temos a intenção de padronizar ações nem de oferecer receitas metodológicas prontas para o consumo. ela servirá inicialmente como pólo aglutinador de intenções. as mães e os pais de alunas e alunos e os representantes da comunidade escolar e extra-escolar. a APM e representações dos segmentos extra-escolares . Com isso queremos dizer que. por mais bem-vindas que possam ser algumas receitas em certas situações. no aspecto técnico e científico. O Censo Escolar tem início tão logo se realize a articulação de todos os segmentos escolares. Em outras unidades da Federação o mesmo organismo pode ser chamado de Conselho Escolar. Conselho Deliberativo Escolar. Nesse documento devem ser previstas. de sua elaboração participam organizadamente a equipe diretiva da escola. o estabelecimento de Os Conselhos de Escola . como também muitos são os sujeitos que deles farão uso e a partir deles tomarão decisões. Caixa Escolar. A avaliação de cada etapa do processo faz parte. As Associações de Pais e Mestres (APMs) também são chamadas de Associação de Apoio à Escola (AAE). Associação de Pais. as equipes responsáveis pelo recenseamento e suas respectivas coordenações. o discente. do conjunto de itens desse plano de trabalho. metas. Deve ser elaborado um plano de trabalho para o Censo Escolar que estabeleça objetivos. incluindo necessariamente o Conselho de Escola. ainda. metodologias de ação e distribuição de tarefas. Conselho Educacional e Comunitário. o Grêmio Estudantil. de interações e de forças que caminham juntas para a concretização das finalidades e objetivos educacionais estabelecidos democraticamente por toda a equipe escolar. . Assim. como também o serão os eventuais assessores que estarão subsidiando. uma vez que os dados a serem coletados e levantados são muitos. Mestres e Comunidade (APMC) etc. Colegiado Escolar. Círculo de Pais.termo usado no Estado de São Paulo. Fórum de Gestão Participativa. todas as atividades.

salas de aula . de salas de professores. energia elétrica etc. por exemplo. de ensino. de sanitários para alunos e professores. endereço completo. quantidade. tais como água. de cozinha. estado de .) e a reconstituição da história da escola: como nasceu a idéia de sua instalação. Podem ser incluídos também neste item os tipos de serviços disponíveis na escola. espaços para áreas esportivas. por que razões etc. de laboratórios. conseqüentemente. equipamentos e recursos materiais: especificação. existência e condições de salas da diretoria. o que servirá também aos professores quando da elaboração coletiva e individual de seus planejamentos e de seus planos (de curso. CGC etc. situação da construção. distrito. do forro. estado de conservação e adequação das instalações escolares. departamento em que está lotado. da secretaria.ensino poderá dispor de informações e de estatísticas confiáveis para decidir seus futuros passos e elaborar seu projeto político-pedagógico. Além desses dados. a visibilidade e. suas dimensões. área que a escola ocupa. do piso. localização/zona. hortas comunitárias. tipo da escola. se sofreu alteração ao longo dos anos. atos de autorização de reconhecimento. Dessa forma. contendo o tipo e a quantidade de dependências. são incluídas informações sobre: terreno. que organizarão o levantamento das seguintes informações: • identificação da escola: nome. do cercamento. em treze itens. rede de esgoto ou de tratamento de água. de depósitos. região. quando foi criada e quando começaram suas atividades. de bibliotecas. com suas respectivas dimensões. do acabamento. situação institucional (mantenedor. de refeitórios. os questionários para a coleta de dados podem ser divididos. esfera administrativa a que pertence. de áreas de lazer. propriedade do prédio. a análise ficam mais fáceis: EXEMPLO: INSTALAÇÕES ESCOLARES Dependências/Quantidade Dimensões (m2) Estado de conservação Adequada/Inadequada Observações • mobiliária. de horta escolar. linhas telefônicas. • estrutura física: discriminação minuciosa da estrutura física da escola. Quando esses dados são colocados em quadros. de salas-ambiente. com acréscimos de séries ou graus. áreas livres. de áreas esportivas. de aulas etc). de salas de vídeo.

tempo de serviço na escola e no serviço público. ainda. o número de alunos em cada turno e tipo de fornecimento . especificando o número de vezes em que é servida por turno. mobiliários para os alunos. das transferências recebidas.conservação relativo a carteiras e cadeiras escolares. os aprovados e os reprovados. projetores de slides. quais estão no seguro. carga horária semanal. microcomputadores etc. além de informações sobre o tipo de organização dos arquivos da escola. Neste item cabem ser anotadas. . filmadoras. fitas de vídeo. as características sócio-econômicas predominantes entre os alunos. função. levantamento contábil completo e nível de autonomia financeira da escola. em contas bancárias. textos. a evolução da demanda. giz. ano de admissão na escola e número de repetências. da Caixa Escolar etc. máquina de xerox. considerando-se também as turmas e as séries.se sistemático ou não. • matrícula e evolução da demanda: aqui se devem criar quadros ou utilizar os já existentes na escola para informar a distribuição da matrícula segundo sexo. de limpeza. livros na biblioteca. as condições de manutenção dos equipamentos. equipamentos de cozinha. • recursos humanos: todos os recursos humanos de que a escola dispõe devem ser relacionados: docentes e não-docentes. gravadores. quais precisam de consertos. quais estão em garantia. Nesse sentido. Devese relacionar o nome completo do servidor. fax. separada por séries e graus (ou níveis) de ensino e com dados da matrícula inicial. • recursos financeiros: relacionar as receitas da escola. a distribuição dos alunos segundo a distância a que residem da escola e o tempo que levam para chegar até ela. a distribuição de alunos por turnos e séries e em relação à merenda escolar. A escola pode criar e levantar seus próprios quadros para relacionar as informações de que necessita. por exemplo. retroprojetores. armários. das transferências expedidas. lousas. cursos realizados etc. cadernos. identificando as fontes e sua destinação (despesas). disciplina que ministra (no caso de docentes). lápis. antenas parabólicas. levantar balanços da APM. do número de alunos evadidos. os valores em caixa. Pode-se levantar. aparelhos de televisão. série. de jardinagem. as pendências administrativas ou das condições atuais dos serviços de secretaria. dedicação exclusiva ou não. grau de escolaridade. de vídeo.

anotar. do Conselho de Escola e demais representações de segmentos escolares. dança. Anotar nesse item. • deficiências detectadas na escola: em relação a todos os itens pesquisados. escola. pedagógicas e financeiras da escola. às condições administrativas. Os fatores que impactaram negativamente o desempenho escolar deverão ser usados como referência para a construção de estratégias para sua superação. clubes. às instalações e aos equipamentos. ao prédio escolar. administrativos ou financeiros desenvolvidos pela escola nos anos anteriores. • características da comunidade: levantamento de dados sobre os moradores do bairro em que a escola está inserida: nome. ao número de funcionários. ao interesse dos alunos. escreve... habilidades artísticas (se canta. • Conselho de Escola. grau de instrução. profissão. se tem serviços . pinta.. toca. bem como informações sobre os projetos em andamento. à participação dos segmentos na instituição escolar e às diferentes instâncias administrativas. incluindo-se aí os segmentos escolares envolvidos nos mesmos. os programas de formação dos quais participam ou já participaram os membros dos segmentos escolares. aos recursos materiais. distribuição do tempo de trabalho pedagógico da equipe docente etc. se possível com todas as suas características e com os resultados efetivamente obtidos. APM e Grêmio Estudantil: síntese especificando as atividades desenvolvidas por essas instituições escolares..). informações que revelem as deficiências da escola em relação à formação dos docentes.). incluindo os espaços que utilizam. a atuação da equipe de direção. participação em associações (sindicato. • características da gestão e das relações humanas na escola: definir tipo e características da gestão escolar. de docentes e de apoio técnico administrativo e operacional. Caixa Escolar. igreja.• projetos desenvolvidos na escola: levantamento sobre os projetos pedagógicos. • características do bairro: levantamento de informações gerais sobre o bairro em que a escola está inserida: sua história transformações por que passou e como se deram. ainda. o nível de participação da comunidade escolar. procedência. seus membros e representantes e o tipo de atuação que desempenham na escola. no ato mesmo do levantamento. bairro.

• caracterização dos alunos: idade. pois a escola não pode ficar à deriva. pode parecer muito dificil e complexo realizar um diagnóstico escolar com tal amplitude. especialmente pelos docentes da escola. número de repetências. deixada à sua sorte. Sua concretização. que estarão assim se formando enquanto sujeitos ativos. porque as ações a serem . exige a organização das tarefas. incluir também os alunos que não são atendidos pela escola. de forma plena.como luz elétrica. se tem movimentos sociais organizados. em uma aprendizagem para todos os que atuam direta ou indiretamente na escola. um trabalho pedagógico coerente com as características e com as necessidades dos discentes. desde o início. condições de moradia. o que garantirá. equipes formadas por representantes de todos os segmentos escolares. de farmácias. o número de habitantes. como as demais. qual é o seu lazer preferido. É importante ressaltar que esse levantamento pode e deve. a construção coletiva tende a aumentar a probabilidade de se obterem resultados satisfatórios a curto prazo. o diagnóstico ficaria incompleto. coleta seletiva de lixo. local de moradia. A primeira vista. a sua cidadania. de biblioteca. contudo. desde cedo. a descentralização das funções.como é absolutamente necessário à construção coletiva de um projeto político-pedagógico. certamente. habilidades artísticas. ao contrário. Esta experiência possibilitará a todos os sujeitos que dela participarem. pois. asfalto. Além disso.porque contará com a participação e o envolvimento de todos . na seqüência. de igrejas. segundo. porque prevê o envolvimento. sexo. Para tabular e interpretar qualitativa e quantitativamente os dados do Censo. procedência. de hospitais. se são realizados eventos culturais. e. com quantas pessoas vive. deverá ser acompanhada e assessorada pelas instâncias superiores da administração escolar. local de trabalho etc. construindo e exercendo. rede de esgoto. áreas de interesse. No entanto. participarão dessa outra etapa que. o mesmo não só é possível . iniciando-se a fase propriamente de diagnóstico ou interpretativa. água encanada. a atribuição de responsabilidades e a elaboração do plano de trabalho. número de transferências. uma ampla vivência da prática democrática no âmbito escolar. de livrarias. em especial aos professores e aos alunos. outros cursos. primeiro. Esse processo se constituirá. de que tipo e com que freqüência etc. de áreas de lazer.

implementadas na escola considerarão o diagnóstico feito a partir dos dados levantados e da análise crítica da realidade constatada. Questões para debate • O que é e em que medida a Carta Escolar contribui na construção do projeto político-pedagógico da escola? • Que informações essenciais a Carta Escolar pode oferecer para a construção do projeto político-pedagógico da escola? • Como organizar a escola para a realização do Censo Escolar? • Qual é o papel pedagógico que a elaboração da Carta Escolar pode ter? .

recolhe o material para voltar para casa. (Roda viva) Chico Buarque CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ Ângela Antunes Ciseki Observemos uma aluna.. brinca afoitamente para aproveitar cada segundo do recreio.. três. fará o quê? Conseguirá inserir-se no mercado de trabalho? Será uma cidadã ativa} Conhecerá seus direitos? Saberá exigir e lutar por eles? A escola convive com as alunas e com os alunos diariamente e.. se fala no momento que bem entende. não aprenderá a avaliar. estende a mão para pegar o prato de merenda. Ângeh Antunes Ciseki é professora da rede de ensino municipal de São Paulo e diretora técnica do Instituto Paulo Freire .) A gente vai contra a corrente Até não poder resistir Na volta do barco é que sente O quanto deixou de cumprir Faz tempo que a gente cultiva A mais linda roseira que há Mas eis que chega a roda viva E carrega a roseira pra lá.É que a democracia... dificilmente aprenderá a falar. segue atentamente as explicações na sala de aula.. apresentará dificuldade para ouvir o outro. se só realizar tarefas individuais. não se faz com palavras desencarnadas. Se a aluna só ouve. conversa no pátio com os amigos. de maneira consciente ou não.? Quantas horas diárias ela passa na escola? Quando concluir o ensino fundamental. dois anos. Paulo Freire (. ensina não só por meio do conteúdo com o qual trabalha em sala de aula. mas também pelas relações que estabelece com eles no dia-a-dia. dificilmente aprenderá a pensar e decidir coletivamente. mas com reflexão e prática. Ela chega à escola. se só é avaliada. como qualquer sonho. Há quanto tempo ela está ali? Um ano.

alunos. ao recreio. do tempo reservado a cada área do conhecimento. poderá definir e acompanhar a educação que lhe é oferecida. projeto esse inserido no projeto de vida do próprio aluno.um colegiado formado por pais. ele precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. ao contato com os pais . distribuição das aulas. os professores e outros representantes da comunidade interna e externa à escola podem participar da construção da escola que desejam? O Conselho de Escola . O conteúdo com o qual a escola trabalha e a prática que adota estão contribuindo para formar que tipo de ser humano? Para viver em que sociedade? "O aluno aprende quando ele se torna sujeito de sua aprendizagem." (Gadotti) Mas de que forma os alunos podem participar da definição do projeto da escola? Como os pais. a população poderá controlar a qualidade de um serviço prestado pelo Estado. O Conselho de Escola já é realidade em muitas escolas de Estados e municípios de todas as regiões do país. não aprenderá a ser criativa etc. o aprendizado de relações sociais mais democráticas. é necessário que a gestão democrática seja vivenciada no dia-a-dia das escolas. distribuição das carteiras etc. Os lírios não nascem das leis". É necessário que os educadores tenham consciência de sua prática e saibam a serviço de que projeto de sociedade ela está. diretor. .pode ser esse espaço de construção do projeto de escola voltado aos interesses da comunidade que dela se serve.definição do calendário. E. professores. Mas.e a forma como a escola organiza seu espaço . para ele se tornar sujeito de sua aprendizagem. a escola não educa só quando educadoras e educadores escrevem ou falam.salas de aula. A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico. que seja incorporada ao cotidiano e se torne . a prática cotidiana contribui para reforçar ou superar determinadas formas de agir e pensar.se só cumprir ordens. Querendo ou não. Por meio do Conselho.também ensinam algo às alunas e aos alunos. dos dias de prova. proporcionando o exercício da cidadania. Nesse sentido. A forma como a escola organiza seu tempo . ou seja. salas de reunião. como diz Carlos Drummond de Andrade: "As leis não bastam. pessoal administrativo e operacional para gerir coletivamente a escola . a formação de cidadãos ativos. se suas tarefas forem sempre dirigidas. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. Por isso. não aprenderá a estabelecer seus limites.

tomemos conhecimento de seus limites e avanços e. Para isso. capacitação profissional). por isso. C o m a instituição da "gestão democrática do ensino público" (Art. outro fato contribuiu para acelerar as mudanças nessa área: a promulgação da Constituição Federal de 1988. É necessário ainda que conheçamos as experiências já vividas. aperfeiçoando seus aspectos positivos e criando novas propostas para os problemas que persistem. também estabelece como princípio a "gestão democrática do ensino público. n2 9. 206. pelo menos tem diminuído os lobbies corporativistas. canais de participação (ampliação do acesso à informação) e.394. na forma desta Lei e das legislações . política salarial.tão essencial à vida escolar quanto é a presença de professores e alunos para que a escola exista. o debate se intensificou e alguns Estados já sancionaram suas leis que dispõem sobre o tema. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). • a qualidade do ensino: formação para a cidadania (cria possibilidades de participar da gestão pública). condições legais de encaminhar e colocar em prática propostas inovadoras. há de se criar as condições concretas para o seu exercício. inciso VI). respeito aos direitos elementares dos profissionais da área de ensino (plano de carreira. entre outras providências. mesmo antes de uma regulamentação nacional. se não tem extinguido. a gestão democrática vem exercendo influência positiva sobre: • a estrutura e o funcionamento dos sistemas: . a redefinição de tempos e espaços escolares que sejam adequados à participação. Além das práticas exitosas no campo da gestão democrática do ensino público que Estados e municípios vêm desenvolvendo. • a definição e acompanhamento da política educacional: o aumento da ca-pacidade de fiscalização da sociedade civil sobre a execução da política educacional. •o órgão de gestão da Educação: plano estratégico de participação. de 20 de dezembro de 1996. transparência administrativa."colaboração" entre os sistemas e comunicação direta da Secretaria da Educação com as escolas. Nos municípios e Estados que já acumularam experiência em relação à prática da democratização. s u p e r e m o s suas falhas. num processo c o n t í n u o de p r á t i c a e r e f l e x ã o . que requer. a construção cotidiana e permanente de atores sociopolíticos capazes de atuar de acordo com as necessidades desse novo que fazer pedagógico-político.

encontros etc. seminários. tendem a garantir maior sucesso na conquista dessa democratização e. Art.. principalmente pais e alunos. INSTITUCIONALIZAR A GESTÃO DEMOCRÁTICA A consulta e a participação das comunidades escolares possibilitam aos governos estaduais e municipais respaldo democrático para . se considerados. não podemos conceber a definição da política educacional e a gestão escolar com caráter centralizador e autoritário. O processo de consulta e intervenção por parte dos usuários junto aos órgãos governamentais deve ser prática constante. assembléias.dos sistemas de ensino" (Inciso VIII.. comprometer-se com esta capacitação. portanto. conseqüentemente. Pressupostos da gestão democrática As experiências já vivenciadas em relação à democratização da gestão escolar apontam alguns pressupostos que. E no Artigo 15. Nesse sentido. devem ser promovidos para esclarecer a população e contar com sua participação.que é o nosso caso . principalmente quando se trata de uma população . seja na definição das políticas educacionais. As secretarias da Educação devem. seja na vivência delas na prática cotidiana. debates.que historicamente tem sido alijada dos processos decisórios de seu País. define um dos princípios da gestão democrática: "Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica. Para o efetivo exercício da gestão democrática da escola é necessário capacitar todos os seus segmentos. CONSULTAR A COMUNIDADE ESCOLAR Se desejamos que a população se incorpore à vida social.) II . com presença ativa e decisória. de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: (.participação das comunidades escolar e local em Conselhos de Escola ou equivalentes". 39). da escola de melhor qualidade: CAPACITAR TODOS OS SEGMENTOS A participação exige aprendizado. inciso II. As experiências revelam que tanto a comunidade externa quanto a comunidade interna à escola apresentam limites à participação. respondendo às exigências dessa prática.

mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos. DAR AGILIDADE ÀS INFORMAÇÕES E TRANSPARÊNCIA ÃS NEGOCIAÇÕES A descentralização implica o acesso de todos os cidadãos à informação. normativa e fiscalizadora. Parâmetros para a constituição do Conselho de Escola Além dos pressupostos destacados para a institucionalização e implantação da gestão democrática. Nesse sentido.encaminhar ao Poder Legislativo projetos de lei mais consistentes. GARANTIR LISURA NOS PROCESSOS DE DEFINIÇÃO DA GESTÃO Para que se garantam transparência e respeito aos princípios éticos nas ações relacionadas à gestão democrática . que atendam às reais necessidades educacionais da população. fixar democraticamente as normas e mecanismos de fiscalização etc. todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. ATRIBUIÇÕES FUNDAMENTAIS • elaborar seu regimento interno. • elaborar. . a prática vivenciada pelos diferentes municípios e Estados que já contam com Conselhos de Escola em funcionamento aponta alguns parâmetros a serem considerados para a sua constituição: NATUREZA DO CONSELHO DE ESCOLA • deliberativa. É preciso garantir a todos o acesso às informações. aprovar.escolha dos dirigentes escolares. consultiva. Informação necessária não apenas no início do processo administrativo. acompanhar e avaliar o projeto políticoadministrativo-pedagógico. as instâncias administrativas não podem prescindir de canais que possibilitem agilidade e eficiência na comunicação entre elas e a população. implantação dos Conselhos de Escola e gestão da instituição educativa -.

bem como a dos respectivos suplentes. PROCESSO DE ESCOLHA DOS MEMBROS • a eleição dos representantes dos segmentos da comunidade escolar que integrarão o Conselho de Escola. desde que esteja em pleno gozo de sua capacidade civil. NORMAS DE FUNCIONAMENTO • o Conselho de Escola deverá reunir-se periodicamente (com encontros mensais ou bimestrais). • participar de outras instâncias democráticas. COMPOSIÇÃO • todos os segmentos existentes na comunidade escolar deverão estar representados no Conselho de Escola. • ninguém poderá votar mais de uma vez no mesmo estabelecimento.• criar e garantir mecanismos de participação efetiva e democrática da comunidade escolar. acompanhar e fiscalizar políticas educacionais. por votação direta. respectivamente. para definir. como conselhos regional. • definir e aprovar o plano de aplicação financeira da escola. • membros do magistério e demais servidores que possuam filhos regularmente matriculados na escola poderão concorrer só como membros do magistério ou servidores. pedagógicos e financeiros da escola. • a função de membro do Conselho de Escola não será remunerada. para encaminhar e dar continuidade aos trabalhos a que se propôs. A PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE ESCOLA • qualquer membro efetivo do Conselho de Escola poderá ser eleito seu presidente. secreta e facultativa. assegurada a paridade (número igual de representantes por segmento) e proporcionalidade de 50% para pais e alunos e 50% para membros do magistério e servidores. • serão válidas as deliberações do Conselho de Escola tomadas por metade mais um dos votos dos presentes à reunião. • constituir comissões especiais para estudos de assuntos relacionados aos aspectos administrativos. se realizará na unidade escolar. conforme necessidade da escola. . municipal e estadual da estrutura educacional.

movimentos populares organizados e entidades sindicais. tornando esse colegiado não só um canal de participação. Podem .CRITÉRIOS DE PARTICIPAÇÃO • os representantes dos alunos a partir da 4a série ou com mais de 10 anos terão sempre direito a voz e voto. salvo nos assuntos que. Todos os alunos. sejam restritivos aos que estiverem no gozo da capacidade civil. Por meio do Conselho. ou seja. • poderão participar das reuniões do Conselho de Escola. Mesmo variando o número de membros. Grêmio Estudantil. por exemplo. por sua vez.os professores da escola. todos os outros membros do Conselho são eleitos por seus pares . No município de São Paulo. quatro professores. os profissionais de outras secretarias que atendam às escolas. elegem por voto direto os professores que os representarão no Conselho. todas as pessoas ligadas à escola podem se fazer representar e decidir sobre aspectos administrativos. por exemplo. representantes de entidades conveniadas. quatro alunos e quatro representantes da equipe administrativa. por força legal. Com exceção do diretor. mas também um instrumento de gestão da própria escola. ele pode ter de 16 a 40 pessoas. também escolhem os alunos que os representarão e assim por diante. com direito a recondução. alunos. financeiros e pedagógicos. • poderão participar das reuniões do Conselho com direito a voz e voto todos os membros eleitos por seus pares. com direito a voz e não a voto. Se houver. professores. é sempre garantido o mesmo número de representantes por segmento. que é membro nato. direção e demais funcionários. haverá também quatro pais. dependendo do número de classes que a escola possuir. a composição é sempre paritária. no caso da cidade de São Paulo. O MANDATO • Um ano. A sua configuração varia entre os municípios e os Estados que já o implantaram. Conselho de Escola: estrutura e funcionamento O Conselho de Escola é um colegiado formado por todos os segmentos da comunidade escolar: pais. por exemplo. membros da comunidade.

são determinadas pelo regimento comum de cada rede de ensino. à dinâmica das reuniões. na prática.participar das reuniões do Conselho. analisar. se os membros formarão chapas ou apresentarão candidaturas individuais). opinar e propor. estabelecendo normas em relação à convocação das reuniões ordinárias e extraordinárias. Já nos documentos sobre Conselhos de natureza deliberativa. têm filhos na escola ou fazem parte de movimentos organizados da região em que a escola está inserida. Participam com direito a voz e voto somente os membros eleitos. trabalhar com um Conselho deliberativo ou com um Conselho consultivo. apenas é consultado em relação aos problemas da escola. como definir (diretrizes). eleger. a redação de suas atribuições apresenta. à eleição de seus membros (se será através de assembléia ou votação de urna. avaliar. deliberativa. pode não ser suficientemente esclarecedora para mostrar o que significa. ainda. Nos próprios documentos. discutir. deliberar etc. As atribuições dos Conselhos de Escola. Mas. elaborar um regimento interno. estudam. além daqueles. O Conselho de natureza consultiva. dentre outras coisas. ao horário em que elas serão realizadas. A afirmação acima. não toma decisões. que mostram como esses Conselhos. analisada isoladamente pelo prisma semântico. Outro aspecto a ser mencionado refere-se às funções que os Conselhos de Escola podem desempenhar: consultiva. apreciar. os deliberativos. à tomada de decisões (por votação secreta ou aberta). se considerarmos algumas atribuições específicas dos Conselhos de Escola. possuem maior força de atuação e de poder na escola. teremos um . ao tempo de duração das reuniões. à substituição de algum membro que deixe de comparecer às reuniões etc. todos os que trabalham. normativa e fiscal. assessorar. se achar necessário. Sua função é sugerir soluções. o seu funcionamento e a sua composição. garantir. como o próprio nome diz. outros verbos. arbitrar. que a elaboração do regimento interno deve sempre estar em consonância com a legislação em vigor e observar as normas dos respectivos conselhos e secretarias municipais e estaduais da Educação. a título de ilustração e de elucidação de nossa preocupação. elaborar. aprovar. indicar. decidir. que poderão ou não ser encaminhadas pela direção. Observe-se. a descrição de suas atribuições geralmente vem marcada por verbos como acompanhar. Cada Conselho de Escola pode. As mais freqüentes são as atribuições de natureza consultiva e deliberativa. com direito a voz.

dependendo dos encaminhamentos e da votação em plenária -. Não podemos considerar a natureza dos Conselhos como uma questão menor. enfim. os membros da . Assim como criam leis (Poder Legislativo) e acompanham sua execução (Poder Judiciário). instância executiva ("poder executivo") que se encarregará de colocar em prática as decisões ou sugestões do Conselho de Escola. também pode. tomar decisões em relação à vida escolar. o Conselho. na prática. ele decide. mais efetiva ou mais formal. professores. é possível afirmar que a participação de alunos. que conta com a representatividade de atores educacionais e comunitários. serem aprovadas e remetidas para o corpo diretivo da escola. do que somente discutir sobre essa questão. no trabalho cotidiano do Conselho. É mais enfático. discutir e arbitrar critérios e procedimentos de avaliação relativos ao processo educativo e à atuação dos diferentes segmentos da comunidade escolar. podemos fazer uma breve analogia entre ele e os poderes Legislativo e Judiciário. julgando e garantindo para que elas sejam cumpridas. uma diferença fundamental entre decidir ou simplesmente opinar sobre procedimentos relativos à priorização de aplicação de verbas. "leis" que regerão o funcionamento da escola ("poder legislativo") e acompanhar a sua execução pela direção ("poder judiciário"). discutir e deliberar sobre os critérios de avaliação da instituição escolar como um todo. do que quando se opina ou se assessora a direção da escola no mesmo sentido. se for o caso . os verbos citados podem significar. funcionários e comunidade escolar como um todo poderá ser maior ou menor. analisar e definir prioridades. Suas funções são sempre revestidas de grande importância e relevância: definir o regimento interno. o Conselho vai muito além de apresentar propostas. garantir que. ele determina onde e como aplicar tais verbas. O Conselho é a instância em que os problemas da gestão escolar serão discutidos e as reivindicações educativas serão analisadas para.quadro mais nítido acerca das diferenças que. guardados o graus de autonomia e consideradas as diretrizes gerais da administração. Dependendo da natureza do Conselho de Escola. criando normas. Tentando esclarecer um pouco mais a importância do colegiado deliberativo. pais. também. No primeiro caso. Há. democraticamente. discutir suas diretrizes e metas de ação. A responsabilidade é ainda maior quando se delibera quanto à organização e ao funcionamento geral da escola.

ativa e efetivamente. Questões para debate • Por que democracia na escola? • De que forma o Conselho de Escola pode ser um espaço de exercício da cidadania? • Como garantir a participação e o envolvimento de todos os segmentos escolares? • Qual a relação entre Conselho de Escola e melhoria da qualidade do ensino? . objetivos marcantes do Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. para que a democratização e a autonomia da escola sejam alcançadas. administrativa ou financeira da escola.escola e da comunidade apreciem. Fica claro que o Conselho de natureza deliberativa é aquele que melhor pode contribuir. que representa grande avanço na direção do exercício permanente da democracia e da cidadania na escola e na sociedade em geral. opinem e proponham ações que contribuam para a solução dos problemas de natureza pedagógica.

mas. Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco. e diretor do Instituto Paulo Freire. Georges Snyders Uma semente atirada Num solo tão fértil Não pode morrer É sempre uma nova esperança Que a gen te alimenta De sobreviver (Amor à natureza) Paulinho da Viola PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA José Eustáquio Romão Paulo Roberto Padilha Início do ano letivo. A diretora da escola exercita sua pontualidade. José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. alguma retração. de abraços meteóricos. Por todo lado. observada carinhosamente por seus colegas. com sua voz grave. um clima de alegria. O coordenador pedagógico convida os presentes. Professoras e professores. alguma aproximação. também participam da confraternização.A autonomia é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar. que logo em seguida declara abertos os trabalhos. de qualquer maneira. a se encaminharem para uma sala de aula onde a reunião se realizará. olhares curiosos. O tema da reunião administrativa e pedagógica é planejamento e organização do trabalho na escola. todos concordam. Uma professora chega atrasada na ponta dos pés. antigos companheiros de trabalho. Todos ocupam seus lugares e as boas-vindas são oferecidas pela diretora. é sempre um novo recomeçar. Vai começar a primeira reunião de um novo trabalho educativo. MG. Educar é uma luta constante. . Dia de reencontros explosivos. SP. Uma atmosfera cor-de-rosa entre docentes e equipe diretiva. recémingressantes. cautelosos.

como deveria ser. os professores . dedicando-se mais à "parte administrativa". o que não consegue provocar reações nos companheiros. por sua vez. novo código disciplinar para os alunos. imediatamente. Agora. Notase no recinto um amargo sentimento. "planejamentos". O tempo acaba não sendo suficiente. transfere-se para o período da tarde o início da elaboração do planejamento. de acordo com suas disciplinas. Terminada a dinâmica e estourado o tempo da reunião na parte da manhã. Lembra que os mesmos deverão ser elaborados em fina consonância com o Plano Diretor da Escola e com os Planos de Cursos já definidos nos anos anteriores. como informa a diretora. que já se mostravam confusos e aparentemente desanimados diante das palavras "planos". cada representante de grupo lê os objetivos específicos aos quais chegara sua equipe. Para tanto. definido pela equipe diretiva durante as férias dos professores. sobre as próximas tarefas. Acrescenta que estes. como se o encantamento inicial tivesse se evaporado subitamente e dado lugar a um ar de constrangimento. tal o silêncio que toma conta do ambiente. após o que.O coordenador pedagógico passa a falar. foram elaborados pelos especialistas da escola dentro dos padrões científicos e técnicos exigidos pela Secretaria da Educação e estão perfeitamente de acordo com os Planos Nacional e Estadual de Educação. calmamente. Após quase uma hora. que fala um pouco sobre a organização da escola. com os itens que estarão sendo "discutidos": entrega de documentos. lista de alunos das novas turmas. estão agora ilhados em suas definições. por meio da qual orienta cada grupo para que se reúna por meia hora e em seguida apresente aos demais grupos alguns objetivos específicos de suas disciplinas para o ano letivo. crachás para as primeiras séries. Professoras e professores. as aulas terão início. Informa que os planos de ensino deverão ser providenciados pela equipe docente e entregues ao final dos três dias de reuniões. elaboração do horário de aulas. novas regras para a utilização da cantina. ela distribui uma pauta mimeografada. Distribui uma papeleta para cada uma delas. "normas" e "prazos". o coordenador pedagógico dá início a uma dinâmica de grupo. Em seguida. pontualidade dos professores na entrada e na saída. Sem escolha. novos horários de intervalos. Solicita a formação de equipes. passa a palavra à senhora diretora. o coordenador pedagógico anuncia o início das exposições orais. entre outros.

deveriam ocorrer nessas situações. Poderíamos iniciar a reflexão discutindo o significado de alguns termos relacionados ao tema em questão. Preocupa-nos a possibilidade da ocorrência de situações parecidas com a aqui ilustrada nas escolas atuais. na verdade. Não questionamos aqui a necessidade dessas reuniões na escola. São exatamente estas questões que estaremos analisando no decorrer do estudo do tema planejamento socializado ascendente e organização do trabalho na escola. A situação descrita. se alguma semelhança tiver com a realidade. Mas se há o risco de a ficção confundir-se com a realidade. muitas vezes. Elas estão muito distantes das que. em si. as chamadas "semanas de planejamento" ou "reuniões administrativas e pedagógicas". Assim começava a tarefa de planejar naquela escola e naquele ano. exigem-nos um tratamento praxiológico. de fragmentos de experiências verificadas em muitas escolas há alguns anos e mesmo hoje em dia. devemos estar refletindo sobre essa realidade. ou seja. teoria e prática estão sempre imbricadas. a partir dos quais poderão adaptar seus planos de ensino dos anos anteriores. Não que definir este ou aquele termo possa resolver o problema. Nesse sentido. Seria pois impossível tratar de planejar as atividades da escola e da educação sem considerar essa característica. mas os equívocos das atividades propostas e realizadas na reunião anteriormente relatada. Os temas em questão. que cuidemos da prática atravessada pela teoria e pensemos na teoria enquanto reflexão sobre a prática. gerando resultados negativos no espaço escolar. mas pode ser um primeiro passo para uma reflexão mais profunda sobre o planejamento participativo ascendente e a organização do trabalho na escola. Planejamento educacional e organização do trabalho na perspectiva da escola cidadã Devemos esclarecer que quando pensamos no planejamento educacional e na organização do trabalho na escola em uma . Trata-se. não é mera coincidência. E é nesse contexto que se realizam. que a todos lembrava experiências burocráticas de anos anteriores nada compensadoras. que pretendemos aqui realizar.disporão de novos livros didáticos enviados pelas editoras. efetivamente.

portanto. por meio do Conselho de Escola. sobretudo. Isso exigirá. compreendendo as relações institucionais. linear e hierarquizada que tem caracterizado a prática do planejamento no sistema educacional. organizando a educação. pensando e prevendo necessariamente o futuro. de seus direitos e deveres. Dessa forma. o quando e o onde planejar. culturais e políticos de quem. a implantação progressiva do Conselho de Escola e a elaboração de um projeto político-pedagógico. entendemos que a inexistência de um Conselho atuante e de um projeto político-pedagógico pode ser compensada. É estabelecer fins e meios que apontem para a sua superação. enquanto entidade que tem por principal missão propiciar aprendizagens e formar cidadãos. Pensar em planejar a educação é parte essencial da reflexão sobre como realizar e organizar o trabalho escolar. mas sem desconsiderar as condições do presente e as experiências do passado. um projeto político-pedagógico nos estabelecimentos de ensino. Planejar a educação é tema de extrema relevância para contribuir na direção da melhor organização do trabalho na escola. de caráter político e ideológico e isento de neutralidade. Observe-se. avaliando e ampliando a participação de diferentes atores em sua administração e em sua gestão. intencional. que não é possível dissociar a idéia de planejamento educacional e escolar da necessidade de se desenvolver. planejar. temporariamente. em sentido amplo. por meio de uma prática democrática . entendida aqui como o exercício pleno e democrático. significa exercer uma atividade engajada. O resultado desse processo será influenciar e provocar transformações nas instâncias educacionais que historicamente têm ditado o como. Isso significa encarar de frente os problemas dessa instituição e do sistema educacional como um todo. no desenvolvimento do próprio ato dinâmico de planejar. pela prática do planejamento coletivo. visando atingir objetivos antes previstos. Isso significa que. interpessoais e profissionais neles presentes. o porquê. Por outro lado. levando-se em conta o contexto e os pressupostos filosóficos. Realizar os diversos planos e planejamentos educacionais e escolares. científica. O nosso objetivo é inverter a relação vertical. é responder a um problema. por parte da sociedade. para que esta atinja os fins que justificam sua existência. com quem e para quem se planeja.perspectiva cidadã faz-se necessário explicar o significado da palavra cidadania. o para quê. assumindo a escola como instância social de contradições que propiciam o debate construtivo e.

é um levantamento exaustivo da capacidade instalada.porque científica .e para a qual apenas os especialistas estão devidamente preparados. possui um padrão. Ao contrário: por ser científica. Em se tratando do diagnóstico. pedagógicos ou financeiros. precisamos inicialmente fazer um diagnóstico da escola e/ou do município no qual ela se insere. pois.e de um planejamento interativo e participativo. estaremos quebrando e desfazendo. identificando todas as suas características. especialmente se isso é realizado coletivamente. como tem ocorrido no país nos últimos 25 anos. Esse diagnóstico. tanto em termos de recursos físicos (instalações. porque envolverá a participação e a tomada de decisões da população em relação a um serviço prestado pelo Estado. metas. estamos fazendo opções. material didático etc). tem um objeto de estudo bem definido. pela ação. seus problemas e necessidades em relação à demanda de recursos físicos. tanto para o municipal quanto para a unidade escolar. o planejamento educacional e a organização do trabalho escolar pensados e acompanhados por todos e para todos não serão atividades meramente burocráticas. técnicas. a crença de que planejar é atividade muito complexa . pode-se utilizar a metodologia da Carta Escolar. O Planejamento Socializado Ascendente Não é demais lembrar que estamos diante da possibilidade de utilização de um instrumento que contribui para a construção da . Dessa forma. formas de avaliação do trabalho na escola etc. metodologias de ação. e viabiliza a execução e a avaliação do que foi planejado. equipamentos. Com tal compreensão e prática estaremos desvelando o mito do planejamento e enxergando o seu caráter político e ideológico. A interpretação dos dados coletados indicará as prioridades a serem consideradas no ato do planejamento político-pedagógico da escola. apresenta uma metodologia. quanto de recursos humanos (docentes e nãodocentes). bem como da demanda real e potencial. ao definir objetivos. Será. um verdadeiro exercício de cidadania. com seu perfil profissional. essencial para a elaboração do Planejamento Socializado Ascendente. a atividade de planejar é sistemática. Se pensarmos na formulação de um planejamento educacional conforme descrito acima. estamos atribuindo às nossas ações educativas caráter transformador ou conservador. humanos. o que facilita o trabalho de quem planeja. sim.

que valoriza todos os níveis de participação da escola.como a dos pais. isso não significa dizer que todos os segmentos estarão participando o tempo todo de todas as tarefas e de todos os tipos de planejamento a serem realizados na escola ou na . jan/jun. Não se trata de adesão a um processo já iniciado. é mister a participação efetiva de todos: alunas e alunos. fica garantida a participação de todos os segmentos. funcionários da escola) já tenha sido iniciado. 4). Assim sendo. no momento do planejamento. com suas representações nos diferentes momentos do processo educativo. a de associações escolares e comunitárias . que apresenta duas características fundamentais explícitas na sua própria denominação. professoras. sem exceção. A primeira característica é o fato de ser um planejamento socializado. segmentos ou grupos comunitários e sociais que direta ou indiretamente atuam e se relacionam com a escola e com os demais níveis educacionais . ou depois de definidos alguns critérios básicos que deverão ser cumpridos. a organização da ação e a avaliação de resultados. professores. 21. funcionárias e funcionários da escola. Outra característica de um planejamento socializado que podemos registrar é o fato de ele prever que a participação de certos segmentos escolares e comunitários . Dessa forma. São Paulo. para que a escola funcione bem. entendendo esse processo participativo em seu dinamismo. 1995. desde o princípio do planejamento escolar. pp. Planejar socializadamente pressupõe a prestação de um serviço à comunidade."educação para a cidadania". v. direção. tem-se. estamos também diante de um tipo de planejamento participativo. que envolve a reflexão.não ocorra apenas quando o planejamento com outros segmentos (direção escolar. Ao contrário. 79-112. n. ou seja.municipal. a partir da integração das forças de todos os sujeitos. Quando nos referimos ao Planejamento Socializado Ascendente. Outro pressuposto fundamental do Planejamento Socializado é a não separação estanque dos diferentes momentos da atividade de planejar. o planejamento socializado é extremamente relevante e. a dos alunos. do qual ela participa diretamente. como diz João Pedro da Fonseca (Revista da Faculdade de Educação. Feusp. a tomada de decisão. professores. No entanto. p. estadual e federal. dividindo com eles o poder de decisão. a visão de totalidade desse processo coletivo. 1. mães e pais de alunos e de alunas. "dotado de tensões que precisam ser vividas e administradas". comunidade escolar e extra-escolar.

pois. poderão estar trocando experiências a todo o momento e repassando-as aos grupos mais específicos. Apesar disso. Ao pensarmos no Planejamento Socializado Ascendente estamos viabilizando o projeto político-pedagógico da escola. a divisão de tarefas.educação. interferindo assim na definição das políticas públicas municipais. poderá haver atividades que envolvam equipes multissegmentárias que. deflagrado o processo. Ordenar a participação é. que os temas que não forem objeto de consensos básicos retornarão a todo o grupo e serão rediscutidos. escolher representantes dos segmentos escolares e das equipes multissegmentárias para que se organizem consensos básicos. a partir das bases (todos os segmentos envolvidos no processo de planejamento). tudo o que ficar consolidado terá de ser aprovado pela maioria. todos os segmentos terão suas tarefas bem definidas. assim. Além disso. Nesse sentido. observando-se. interescolares. tais representantes estarão veiculando as experiências de suas escolas em outras instâncias e níveis educacionais. Mas. Além dessas. Dessa maneira. Representantes da escola deverão ser também definidos pelo grupo para que as consolidações do Planejamento Socializado Ascendente não fiquem restritas aos muros escolares. Isso não só seria inviável em termos operacionais como excluiria diferenças inegáveis em termos de maior capacitação de determinados segmentos para a coordenação e a participação em certos componentes do planejamento. que poderão influenciar os demais níveis da administração e do planejamento educacional. Esta estratégia implica combinar. a segunda característica desse tipo de planejamento que chamamos de estratégia ascendente. intermunicipais) para a troca de experiências e para a adoção de propostas educacionais mais amplas. ainda. operacionalizam-se a ação e todas as etapas do planejamento escolar. outras instâncias representativas intermediárias podem ser criadas em nível local ou regional (conselhos regionais. viabilizando a consolidação de decisões e deliberações dos grupos participantes. . Ou seja. Esse processo revela a importância do Conselho de Escola dos Conselhos Municipais e Estaduais de Educação de elevar aos níveis superiores da administração educacional as deliberações tiradas na base do sistema de ensino. estaduais e federais de educação. com outras experiências. tudo o que estiver acontecendo na escola será também socializado com outras escolas. definir a coordenação de grupos. em outros níveis.

a penetram. embora articuladas fora da escola. de estados-membros e da Federação. seja em que nível for. já que implica tomada de decisões. e desde que os recursos públicos são gerados nos processos do trabalho" (O projeto pedagógico da Escola. de caráter tecnicista e com objetivos apenas formais. "Dão-se as relações entre a escola e a sociedade pela mediação da família e dos grupos de iguais. envolvimento com as ações do cotidiano escolar e avaliação dos serviços prestados à população. por conseguinte. sobre questões relativas não só ao processo de ensino e aprendizagem. na própria sociedade. modelam e controlam. dos movimentos sociais. MEC/SEF. o planejamento deve começar pela inserção de toda a sociedade no debate democrático. Metodologia de elaboração do Planejamento Socializado Ascendente Consideramos que planejar a educação de forma socializada é exercitar a cidadania. ao interior e ao entorno imediato dela. que perpassam as demais instituições sociais e os grupamentos humanos em articulações múltiplas e complexas. mas também em relação às questões administrativas e financeiras da escola e da própria sociedade em que ela se insere. Sendo assim. das demais instituições da sociedade civil e. das organizações locais. pp. O Planejamento Socializado Ascendente pretende quebrar a coluna dorsal do planejamento educacional autoritário. sem sentido. desde que se concebe a democracia como o efetivo poder dos cidadãos no mundo de suas vidas. a organização e a condução da escola de intenções políticas em interação dinâmica e conflitiva. Dependem a concepção. em movimento ascendente. porém. que considera (com razão) o planejamento atualmente praticado uma atividade meramente burocrática. que. "a comunidade argumentativa dos interessados no projeto político-pedagógico da escola não se limita. Brasília. Estará também contribuindo para superar a resistência à participação no âmbito escolar. de cima para baixo.Como explica Mário Osório Marques. . Lida ela com interesses relevantes para a sociedade toda. em especial.Série Atualidades Pedagógicas. 9. pela ação do poder político organizado no Estado com seus níveis de município. 10-11). 1994 . invertendo a relação de poder na educação e.

Cuidados com o democratismo e com o risco do populismo devem ser tomados. Concluída essa etapa. É necessário também que se contextualizem os objetivos. desenvolvida pelo Instituto Paulo Freire. devem ser escolhidos os representantes da escola que atuarão junto aos colegiados intermediários e conselhos municipais e/ou estaduais de Educação. a participação de todos os segmentos. co-responsabilizando-se com a busca de soluções e superação dos problemas. a tentação de se querer resolver de uma só vez e de modo idealista todos os problemas detectados no diagnóstico realizado. Definidas as ações. após verificar-se a disponibilidade de meios para a sua superação. já garante. pois o amplo levantamento de informações torna-se inviável sem que todos estejam envolvidos. municipal e estadual. num horizonte de tempo predeterminado. o cronograma de atividades. pois. a história e a cultura local dos cidadãos pesquisados. devemos. sobretudo. para tanto. a ser realizado mediante a aplicação de metodologias inovadoras de pesquisa. as tarefas e as equipes responsáveis pelas mesmas. enquanto estudo inicial de dados da realidade escolar e de diagnóstico (ou interpretação daqueles dados). A Carta. A Carta Escolar. nessa fase. Isso pode ser feito. se presentes. podem inviabilizar o . Como só é possível planejar a partir de um contexto bem específico e conhecido. É importante evitar. estará buscando as possíveis alternativas de solução aos problemas encontrados. as estratégias de ação. o tipo de avaliação que se fará do processo e que se estabeleçam as intervenções a serem realizadas na escola. Essas devem ser escolhidas por ordem de prioridade. a escola terá diante de si as informações que lhe permitirão definir prioridades. elaboradas cientificamente e baseadas numa nova ética que considere e respeite. o primeiro passo do Planejamento Socializado Ascendente na unidade escolar é a Carta Escolar. levando a eles as prioridades definidas pela unidade escolar. partir de um diagnóstico detalhado da escola e da educação em nível local. as metas. Portanto.considerando sempre os condicionantes socioculturais e políticos que influenciam e afetam diretamente o cotidiano escolar. desde o início do planejamento. Se confiará na capacidade reflexiva de todos os segmentos escolares e comunitários e em suas potencialidades de ação. por exemplo. ao contar com as comunidades intra e extra-escolar e ao ouvi-las. por meio da metodologia da Carta Escolar.

Caso não exista um colegiado. • na reunião. . determinam os destinos da unidade escolar ou da educação como um todo. • amplo movimento de sensibilização da comunidade para compreender a importância da Carta Escolar e de sua realização. Associações comunitárias deverão t a m b é m estar r e p r e s e n t a d a s . a gestão democrática. Caixa Escolar. Grêmio Estudantil). as possíveis etapas desse processo podem ser as seguintes: • o Conselho de Escola convocará uma Assembléia Geral para discussão do Planejamento Socializado Ascendente. o projeto político pedagógico da escola. nos níveis seguintes. os e n c a m i n h a m e n t o s . Assim. A escola e cada um dos possíveis níveis intermediários de representação existentes deverão estar sendo permanentemente informados sobre as deliberações. Superar tal exclusão e tal limitação é característica inerente a esta proposta. cabendo aos educadores. as conquistas e os entraves verificados em todo o processo. baseados numa suposta neutralidade política e científica. ETAPAS ESCOLARES: POSSÍVEIS PARÂMETROS O Planejamento Socializado Ascendente na escola pretende superar a prática de atribuir a competência de planejar apenas a uma minoria de especialistas. a todos os segmentos escolares e à comunidade educacional em geral. b e m c o m o os representantes de todas as instituições escolares (APM. que estarão envolvidos na elaboração do planejamento. definindo datas e espaços para que os segmentos escolares se reúnam em separado para eleger representantes. a tarefa de cumprir à risca o que fora por eles planejado.processo democrático necessário ao Planejamento Socializado ascendente em quaisquer de suas fases. Estes. na escola. explicar detalhadamente no que consiste esse tipo de planejamento. a escola poderá organizar uma comissão responsável pelos e n c a m i n h a m e n t o s relacionados ao Planejamento Socializado Ascendente. aos educandos. • T o d o s os segmentos escola res deverão estar representados paritariamente nessa reunião. as consolidações. • elaboração do Plano de Trabalho para a efetivação da Carta Escolar.

Podemos concluir que o planejamento. política e social que certamente aparecerá no d i a g n ó s t i c o p r o p o s t o . a c o m p a n h a r e avaliar p e r m a n e n t e m e n t e as ações implementadas na escola. viabiliza-se o estabelecimento de metas. toda a sociedade brasileira cobra. • reuniões para organização das equipes que participarão da Carta Escolar (ver Carta escolar: instrumento de planejamento coletivo). por sua vez. • o Conselho deverá se reunir periodicamente a fim de renovar. a definição de metodologias educacionais apropriadas . um i n s t r u m e n t o eficaz para c o n t r i b u i r com a melhoria da qualidade do serviço educativo oferecido pela i n s t i t u i ç ã o escolar. O Planejamento Socializado Ascendente representa. poderá propor ações com base no estabelecimento de finalidades e de objetivos educacionais claramente definidos. Hoje. • Após a Carta Escolar. Dessa m a n e i r a . • escolha de membros do Conselho para representar a escola nos demais níveis de planejamento educacional (local/ municipal/estadual). assim. os obstáculos a serem enfrentados e o grau de realização das metas e objetivos estabelecidos no Planejamento PolíticoPedagógico da Escola. • ampla mobilização da comunidade para a realização da Carta Escolar do estabelecimento de ensino. A escola continuará contando com a devida orientação por parte das secretarias municipais e estaduais da Educação que. cotidianamente. serão também influenciadas e fiscalizadas em sua própria atuação. a superação do nível insatisfatório da qualidade de ensino. pedagógicos e financeiros. o fim das práticas inadequadas de avaliação do desempenho educacional do aluno. sem perder de vista a multiplicidade cultural. nessa nova perspectiva. os problemas e as demandas educacionais verificados a cada momento. metodologias e formas de avaliação das atividades educacionais que favoreçam a ação de todos para superarem.• definição de equipes e tarefas relativas à primeira atividade do p l a n e j a m e n t o e organização da Carta Escolar no estabelecimento de ensino. elaborar o Projeto Político-Pedagógico da Escola. os projetos desenvolvidos. coletivamente. definindo subcomissões para todas as tarefas necessárias à organização e funcionamento da escola nos seus aspectos administrativos.

principalmente. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. O Planejamento Socializado Ascendente. de acordo com as necessidades do mundo moderno e as exigências das comunidades escolares locais. Garantida a voz e a capacidade de ação aos que sempre se viram alijados de participar do destino da educação no País. que entendia o planejamento como uma atividade meramente formal. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. se não elimina de vez. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". o que prevê a Constituição Federal de 1988 em seu Artigo 205: "A educação. inclusive. de fato. por isso tem lutado por maior participação para cumprir. normas e prazos autoritariamente. além de tudo. contribuirá decisivamente para a redefinição das próprias políticas educacionais do País e influenciará em que se revejam as finalidades da educação. que obedecia cegamente às ordens vindas "de cima". e que. que não garantia a participação dos segmentos escolares sequer no planejamento da escola e do ensino. O Planejamento Socializado Ascendente.e contextualizadas. ao propor uma nova orientação participativa no âmbito escolar e educacional. direito de todos e dever do Estado e da família. a sociedade quer ser ouvida e quer colaborar. . os seus objetivos e o próprio papel da escola na sociedade atual. que definia pautas. justa e solidária. Reclama da inexistência de uma política devidamente comprometida com as suas necessidades educativas e com os problemas enfrentados pelo magistério que favoreça. que não permitia aos docentes o uso da palavra. Além de reclamar. que entendia a organização do trabalho na escola como um rol de atividades burocráticas e puramente administrativas. a existência da gestão democrática na escola. diminui consideravelmente a possibilidade de depararmos com experiências como a que apresentamos no início desta exposição. apenas se referia ao aluno para discipliná-lo ainda mais e para lhe fechar os quase inexistentes espaços escolares de participação. ética. voltada para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. que aplicava dinâmicas sem critérios e sem explicar os objetivos de quaisquer atividades. a luta por uma educação de qualidade para todos estará. Encontramo-nos diante de desafios que podem ser melhor enfrentados a partir de ações efetivamente democráticas.

Questões para debate
• O que significa planejar de forma socializada e com estratégia ascendente? • Qual a relação que existe entre esse tipo de planejamento com a organização do trabalho na escola? • Em que sentido o Planejamento Socializado Ascendente inverte a relação de poder na definição da política pública em educação? • Que parâmetros você acrescentaria ao processo de Planejamento Socializado Ascendente?

É possível formar cidadãs e cidadãos autônomos numa escola onde a autonomia não seja discutida, mas intimamente vivenciada por seus diferentes segmentos. Sônia Couto, Instituto Paulo Freire, SP

Enquanto os homens exercem seus podres poderes Morrer e matar de fome de raiva e de sede São tantas vezes gestos naturais Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo Daqueles que velam pela alegria do mundo Indo mais fundo tins e bens e tais. (Podres poderes) Caetano Veloso

DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA
Paulo Roberto Padilha Como afirma o professor Moacir Gadotti em seu livro Pedagogia da praxis (São Paulo, Cortez/IPF, 1995), "se é verdade que a educação não pode fazer sozinha a transformação social, também é verdade que a transformação não se efetivará e não se consolidará sem a educação". No mesmo sentido, não podemos pensar que a gestão democrática da escola possa resolver todos os problemas de um estabelecimento de ensino ou da educação. No entanto, sua implementação é, hoje, uma exigência da própria sociedade, que a vê como um dos possíveis caminhos para a democratização do poder na escola e na própria sociedade, conforme pudemos verificar em pesquisa recentemente realizada pelo Instituto Paulo Freire, em nível nacional. Outro aspecto que merece destaque neste trabalho é o fato de que a atual prática gestionária nas escolas acaba exigindo dos diretores uma dedicação maior, e às vezes plena, às questões adrninistrativas. Isso os obriga a secundarizar o aspecto mais importante de sua atuação, ou seja, sua responsabilidade em relação às questões pedagógicas e propriamente educativas, que se reportam à sociedade como um todo e especificamente à sua comunidade escolar. Com essa análise geralmente concordam professores, diretores, "especialistas" e "teóricos" da administração escolar.
Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco (SP) e diretor do Instituto Paulo Freire

A afirmação freqüente de que "é dificil administrar sozinho a escola" denuncia o isolamento do dirigente escolar enquanto responsável único e último pela instituição educativa, o que muitas vezes independe de sua vontade, mas não de seu cargo. A administração autocrática, isto é, a que centraliza todas as decisões e todo o poder nas mãos da diretora ou do diretor, acaba gerando uma sobrecarga de trabalho e, por conseguinte, estabelecendo relações conflituosas no âmbito escolar, o que se reflete no insucesso dos alunos. Por outro lado, é importante observarmos que a atuação do diretor, suas atribuições e seu vínculo com a escola se alteram dependendo da forma com ele foi escolhido e de acordo com o tipo de gestão que é implementada na unidade escolar. Uma reflexão sobre a gestão democrática da escola, a partir da compreensão por parte dos professores e dos demais sujeitos com ela envolvidos e, neste caso, especificamente relacionada à escolha e à atuação do dirigente escolar, pode contribuir para a superação de conflitos com vistas à melhoria do trabalho, das relações estabelecidas na instituição educativa e, fundamentalmente, da qualidade do ensino. Deparamos, pois, com um problema que nos exige soluções. Para chegarmos a elas, estaremos analisando algumas formas de escolha do diretor de escola e definindo parâmetros para a escolha de dirigentes escolares e também para a gestão democrática da escola pública. Pretendemos com isso identificar alguns princípios da implementação de uma gestão escolar democrática e também localizar algumas atribuições fundamentais dos diretores na definição de propostas de implementação daquele tipo de gestão, que devem ser compreendidas também pelos docentes e demais sujeitos educacionais. A forma predominante de escolha e de designação de dirigentes escolares no sistema escolar público brasileiro tem sido aquela decorrente do arbítrio do chefe do Poder Executivo, tanto na esfera estadual quanto na municipal, por se tratar, em sua grande maioria, de cargos comissionados, normalmente denominados "cargos de confiança". O processo de escolha democrática de dirigentes escolares tem seu início na década de 60. Em 1966, os colégios estaduais do Rio Grande do Sul realizaram votação para diretores de escola com base em listas tríplices. A partir da década de 80 e principalmente nos dias atuais, tem havido grande preocupação em relação aos processos de escolha de diretores escolares nos municípios e

n. uma vez que apenas as provas escritas e a titulação apresentada bastam para a aprovação ou a reprovação dos candidatos. o diretor pode acabar não tendo grandes compromissos com os objetivos educacionais articulados com . quatro categorias de escolha de diretores escolares. que é obrigada a aceitar a escolha daquele. CONCURSO Realizado por meio de provas ou de provas e títulos. concurso. dissertativas ou não. na seleção dos candidatos. de caráter conteudista. e a prova de títulos é a comprovação da formação específica que habilita o candidato ao cargo. Se assim acontece. de acordo com os interesses políticos e com as conveniências daqueles que o escolheram. mas é antidemocrático em relação à vontade da comunidade escolar. São Paulo. Por isso mesmo pode ser substituído a qualquer momento. o que mais pesa são critérios político-clientelistas.Estados brasileiros. o que vem estimulando um permanente questionamento sobre o papel do dirigente escolar na construção de uma gestão democrática da escola pública. Isso significa que o concurso acaba sendo democrático para o candidato. FDE. pode escolher a escola onde irá atuar. portanto. ou seja. No entanto. Nesse processo. quais sejam: nomeação. Dessa maneira. NOMEAÇÃO O diretor é escolhido pela vontade do agente que o indica. se aprovado. ao se acentuar a adoção de critérios considerados objetivos e técnicos na definição dos concursos públicos e. A experiência nacional mostra que. As provas são geralmente escritas. eleição e esquema misto. não se confere a liderança do diretor diante do pessoal escolar e dos usuários da escola pública e não se avalia o desempenho dele. "o diretor escolhe a escola mas nem a escola nem a comunidade podem escolher o diretor". Podemos estabelecer. nesse tipo de escolha. 1992). 12. assume um cargo de confiança e torna-se o representante do Poder Executivo na escola. Um argumento favorável à escolha por concurso é que ele defende a moralidade pública e evita o apadrinhamento político. para fins desta análise. que. pelo governador do Estado ou pelo prefeito do município. como afirma o professor Vitor Henrique Paro no artigo Participação da comunidade na gestão democrática da escola pública (Série Idéias.

a comunidade escolar geralmente participa de uma ou mais fases do processo de seleção. representativo. iniciando o processo de implantação da gestão democrática no ensino antes mesmo de sua regulamentação e permitindo a eleição dos dirigentes escolares.os interesses dos usuários. o que gera muitas vezes a negligência em relação às formas democráticas de gestão. geralmente com direito a uma reeleição. se eleito. ainda. como a história da eleição de diretores de escola no Brasil é marcada por avanços e retrocessos. incluindo. A partir do momento em que se exige do candidato à função de diretor de escola equilíbrio entre competência técnico-acadêmica e sensibilidade política . colocado antes de ser resolvida a questão do provimento do cargo . tal escolha favorece a gestão democrática e colegiada na escola. por exemplo. duas ou mais fases no processo de escolha.este. Prevê. No entanto. ESQUEMA MISTO Combina diferentes formas de escolha do diretor. deve assumir responsabilidade política junto à comunidade escolar que o elegeu para um mandato por tempo determinado. o diretor acaba tendo também maior vínculo e compromisso com aqueles que o escolheram ou indicaram. Por conseguinte. No esquema misto. ELEIÇÃO Baseada na manifestação da vontade da comunidade escolar.requisito indispensável para o diretoreducador. além da sua experiência administrativa. ainda que isso não possa ser considerado uma regra. é oportuno observar que a partir da aprovação da Constituição de 1988 muitos administradores abriram mão da prerrogativa constitucional de nomear o diretor de escola. por escolha por meio de listas tríplices ou plurinominais. por escolha uninominal ou. Consideradas essas formas de escolha aqui analisadas. Quando é esse o caso. capacidade de liderança etc. a eleição se caracteriza pelo voto direto. não podemos mais . As experiências com esse tipo de escolha têm mostrado que tal critério favorece a discussão democrática na escola e acaba implicando maior distribuição do poder para as instâncias da base da pirâmide estatal. na maioria das vezes. provas que avaliem a competência técnica e a formação acadêmica do candidato.

na forma da lei". O sentimento de pertencer cria e mantém a comum identidade. 36 e 61. intitulada Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escola (São Paulo. responsável. que têm consignado aos governadores e prefeitos a competência privativa para a nomeação de agentes para o exercício de cargos públicos comissionados. acrescido dos adjetivos corporativo ou cultural. numa projeção extensiva do que dispõe a Constituição Federal sobre as prerrogativas do presidente da República (Arts.. II). torna-se necessário aproveitar a experiência democrática acumulada no País e a partir daí procurar regulamentar o princípio da "gestão democrática do ensino público. que. Resta-nos observar que a eleição de dirigentes escolares aqui defendida é apenas um dos componentes da gestão democrática do ensino público e só terá efeito prático eficaz se associada a um conjunto de medidas que garantam.) Os adjetivos corporativo e cultural visam a apontar a ênfase maior ou menor que tenham os objetivos dominantes no grupo em relação à obtenção de benefícios para o próprio grupo ou para os demais . empenhando-se pela sua transformação . Segundo o professor Jair Militão. que procuremos entender as características dos sujeitos aos quais estamos nos referindo. de tal modo que se reconhecem como mutuamente pertencentes a uma mesma história e possuindo um mesmo destino como horizonte. 1989). (. refere a um grupo de pessoas que agem na sociedade conforme um critério comum que as identifica.depender da vontade política das constituições estaduais e das leis orgânicas municipais. da Constituição Federal. titular de direitos e deveres. previsto no Artigo 206. em sua tese de doutoramento na Feusp. por exemplo. Ser sujeito é ser capaz de julgar a realidade. "Há uma percepção de um nós ético que constitui tais pessoas numa unidade. A noção de sujeito é aqui tomada em sua forma substantiva e quer significar um ser ativo. inciso VI. cumpre-nos discutir na escola. Essa participação efetiva exige. por sua vez.. Para tanto. na comunidade e em toda a sociedade os parâmetros da gestão democrática da escola pública.ou manutenção . Assim sendo. "o termo sujeito. por sua vez.de modo a assumir a responsabilidade consciente pela própria vida. estarão norteando a construção de uma futura Lei da gestão democrática. a capacitação para a participação efetiva dos representantes dos segmentos escolares e da comunidade nos destinos da escola pública.

Ela acontecerá. enquanto sujeitos culturais visam objetivos de caráter mais geral cuja consecução tende a favorecer a um número maior de pessoas e grupos. o sujeito cultural é necessariamente pluralista". se quiser. estamos aqui particularmente interessados em que esses sujeitos. possam vivenciar um processo de capacitação para essa participação.. O professor Militão observa. mas também não é processo tão complexo ou irrealizável.. dos interesses. por exemplo. Observe-se ainda que a escola. A rigor. que é estatal quanto ao financiamento. (. A gestão democrática não é processo simples de curtíssimo prazo. pedagógica e financeira da escola. às ações do sujeito cultural poder-se-ia aplicar um princípio de universalidade: o que é de direito e dever para o grupo é defendido igualmente para qualquer outro grupo. associada à elaboração do projeto político-pedagógico da escola e à implantação de Conselhos de Escola que efetivamente influenciem na gestão escolar como um todo e de medidas que garantam a autonomia administrativa. De qualquer maneira. das expectativas e das atividades cotidianas da escola. de prazo interminável. estabelecer parcerias com outras instâncias da sociedade civil. numa prática a ser construída na escola. mediante programas duradouros de capacitação custeados pelo Estado e pela articulação dos diferentes sujeitos escolares em torno dos problemas. fazendo uso de sua autonomia financeira. o que se realiza formalmente ou informalmente. A gestão democrática à qual nos referimos faz parte de uma desejada escola cidadã. ainda. Isso significa que o mesmo se constituirá numa ação. tais recursos devem ter caráter . pois o Estado deve repassar os recursos diretamente à escola para que o dirigente escolar possa executar o que o coletivo escolar deliberou e aprovou em seu projeto político-pedagógico. desde que as decisões relacionadas com a gestão dos recursos públicos e da verba originária de parcerias sejam administradas pelo coletivo democrático que vai gerir a unidade escolar. poderá. preferencialmente os culturais. Nesse sentido.grupos existentes. No segundo caso. sem eximir o Estado de suas obrigações com o ensino público. ou seja.) sujeitos corporativos são aqueles cuja ênfase se dá na busca de benefícios limitados ao próprio grupo. passo inicial importante terá sido dado na direção da gestão democrática que ora estamos analisando. Se esta estiver aberta à participação. para subsidiar projetos voltados para a melhoria da qualidade do ensino. que numa mesma comunidade podem existir vários sujeitos além dos que acima acentuou.

ainda. secreto e facultativo.excepcional e complementar. em que se verifique a competência profissional do candidato. pública quanto à sua destinação. pois todos os segmentos escolares e comunitários devem eleger o dirigente escolar. apresentando e defendendo publicamente seus programas de trabalho. de acordo com as normas previstas democraticamente conforme acima especificado. sem distinções. de forma a garantir a participação de todos os membros da comunidade escolar. de acordo com as diretrizes definidas coletiva e democraticamente com a participação de todos os segmentos educacionais e das respectivas comissões eleitorais. sem exceções. de arcar com o financiamento da educação. acompanhar. definir e deliberar de forma socializada sobre as suas diretrizes e prioridades. e não eximem o Estado. em nenhuma hipótese. A escola cidadã à qual nos referimos é também comunitária quanto à gestão. isto é. no ato da inscrição dos candidatos. Parâmetros para a escolha democrática A partir desses pressupostos. estabelecemos o primeiro parâmetro para a escolha democrática de dirigentes escolares. • processo seletivo prévio ao processo eleitoral. Após tal defesa. . em chapa formada por candidatos a diretor e vice-diretor. seguir-se-á a eleição por voto direto. respeitada a paridade de votos dos diversos segmentos que a compõem e a legislação em vigor. Os candidatos serão escolhidos pelos membros da comunidade escolar mediante processo que verifique competência profissional e liderança. O processo de escolha pode obedecer às seguintes etapas: • verificação. A forma de escolha do diretor deve prever a sua nomeação pela autoridade competente em chapas constituídas e formadas por candidatos a diretor e a vice-diretor de escola. Os candidatos aprovados na etapa anterior submeter-se-ão ao processo de verificação de liderança. destina-se igualmente a toda a sociedade. participar do Conselho de Escola. avaliar e fiscalizar a execução de seu planejamento político-pedagógico. se estes atendem às exigências quanto ao tempo mínimo de serviço público e à formação escolar mínima exigida para o cargo. Essa escola é. sob a coordenação do órgão gestor do respectivo sistema educacional.

dependendo das condições locais. Além do tempo de serviço mínimo acima especificado. organizar. acompanhar o processo de votação e de apuração dos votos e zelar pela lisura do processo eleitoral. de acordo com as normas e prazos fixados pela comissão eleitoral local ou através de instrumentos legais do poder executivo. dependendo da resolução de cada localidade. Esta comissão deverá atuar em consonância com a legislação em vigor bem como com as normas fixadas para o pleito pelas secretarias estaduais ou municipais de Educação e respectivos Conselhos de Educação. devidamente adaptados às condições reais da unidade escolar. Nenhum professor ou especialista educacional poderá candidatar-se simultaneamente em dois estabelecimentos de ensino. Poderão se candidatar os professores e especialistas em educação desde que. A comissão de cada escola deve ser composta paritariamente por representantes de todos os segmentos escolares. comissões eleitorais regionais. sejam servidores públicos concursados ou estáveis com efetivo exercício há pelo menos três anos na rede ou dois anos na escola onde se candidatam. que terão funções normativa e fiscalizadora no processo eletivo em pauta. O quarto parâmetro que apresentamos diz respeito aos eleitores. com licenciatura plena em Administração Escolar. concluída ou em andamento. Para garantir que o processo eletivo seja plenamente democrático e para que se constitua num exercício pleno de cidadania. municipais ou estaduais. poderão ser admitidos como candidatos aos cargos em questão servidores concursados ou estáveis com licenciatura em qualquer área ligada à Educação. Deverão ser constituídas. na data da convocação da eleição. Elas devem ser criadas nas unidades de ensino para planejar. Podem ser aceitas inscrições de chapas com candidatos a diretor e a vice-diretor. a serem indicados em assembléias de seus pares. municipais e estaduais. fiscalizar. tais comissões deverão coibir qualquer processo eleitoral "viciado" ou ações que possam partidarizar as eleições na escola. desde que completa. Nesse sentido. Contudo.Um segundo parâmetro se refere às comissões eleitorais. defendemos . serão admitidos candidatos com habilitação específica para o magistério (ensino médio). em virtude das características locais onde se situam as unidades escolares e especificamente para as escolas de ensino fundamental. Um terceiro parâmetro se refere aos candidatos e às inscrições. os candidatos deverão ter cursado Pedagogia. Quando e onde for necessário.

na promoção de discussões e debates com a mesma e na divulgação de material que torne conhecidas. Considerando que um projeto político-pedagógico deva contemplar propostas e avanços de curto. Se nenhuma chapa alcançar tal número de votos. Votam também os pais. os seus candidatos. com o direito a uma reeleição consecutiva. Quanto ao parâmetro da divulgação durante o processo eleitoral. ficaria garantida aos candidatos a realização de campanha e de propaganda eleitoral nas dependências da unidade escolar. observamos aspectos positivos e negativos. Será considerada eleita a chapa que obtiver maioria absoluta dos votos válidos (cinqüenta por cento mais um). Para tanto. Verificamos. Esta deverá adequar-se às especificidades locais da comunidade escolar. aos alunos regularmente matriculados na escola que estejam cursando a 4ª série do ensino fundamental em diante. em recente pesquisa. entendemos que a opção da reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período garante a possibilidade da continuidade de um trabalho que tenha . Um sexto e último parâmetro que ora apresentamos diz respeito à duração do mandato do diretor e de seu vice. ao máximo. envolvendo as duas chapas mais votadas. Encerrada a campanha. Tal divulgação consiste na defesa pública dos programas de trabalho junto à comunidade. as mães de alunos ou os representantes legais dos alunos regularmente matriculados na escola que estejam abaixo dos limites de idade e série acima previstos. Em relação à reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período. segundo critérios das comissões eleitorais. No segundo turno. as comissões eleitorais deverão fixar prazos e normas que garantam a manutenção dos princípios éticos durante a campanha. pelo voto direto. impugnando as candidaturas que promoverem a "partidarização" das eleições dos dirigentes escolares. a predominância do mandato de diretores com a duração de dois ou três anos. os segmentos escolares credenciados escolherão. realizar-se-á um segundo turno. médio e longo prazos. previstos e divulgados antes do período de inscrição das chapas. as propostas de gestão das chapas. que respeitem o pleno desenvolvimento das aulas durante o período em que a propaganda poderá acontecer e que garantam a discussão política inerente ao pleito eleitoral.a garantia do voto a todos os servidores em exercício no estabelecimento de ensino. secreto e facultativo. ou que tenham completado 10 anos até a data da eleição. será eleita a chapa que obtiver maioria simples de votos válidos.

é obrigado a afastar-se do cargo. da ação. essas situações referem-se à definição da idade mínima do voto do aluno. se desenvolverá a cultura da participação. a não reeleição consecutiva promove uma renovação constante dos dirigentes escolares. mesmo tendo realizado uma ótima gestão. Preferimos deixar a questão do tempo do mandato do diretor escolar em aberto. bem como a possibilidade da destituição dos mandatos dos dirigentes escolares. Isso é bom quando impede que um diretor que não cumpriu o seu programa de trabalho em consonância com o projeto político-pedagógico da escola continue no cargo. Sugerimos que esta problemática. à importância que deve ser atribuída à prova escrita como pré-requisito para a seleção dos candidatos ao cargo de diretor de escola. alterando-os. Por outro lado. atribuindo-se responsabilidades às comunidades escolares. entre outras. Entendemos que a discussão em torno desses parâmetros e de outras questões relativas ao tema aqui tratado já é. Outras situações ficam também em aberto. um processo educativo que possibilita aprendizagens cidadãs e colabora para a determinação dos seguintes pressupostos da gestão democrática: • capacitação de todos os segmentos escolares para que se busquem respostas à prática educativa. mas que é ruim no caso inverso. quando um dirigente escolar. do envolvimento. se for o caso. mesmo no que se refere ao número de reeleições possíveis. aprofundar o mais possível a discussão dos anteprojetos de leis que institucionalizem as propostas de governo dos poderes executivos. A definição dos parâmetros acima encontra uma série de limites que só poderão ser superados na ação concreta e no contexto em que o processo eleitoral acontece. realizar seminários e assembléias e. pois dependem de uma ampla discussão e de consulta a ser realizada com a comunidade escolar.sido aprovado pela comunidade escolar. portanto. Dessa forma. • consulta à comunidade escolar para que esta se cientifique da legislação pertinente às diferentes instâncias da gestão democrática e possa debater. seja prevista em normas a serem definidas democraticamente em cada um dos sistemas de ensino em que for implantada a escolha democrática de dirigentes escolares. por si mesma. à questão de como superar o veto governamental em relação à eleição direta de dirigentes escolares. à proporcionalidade na apuração dos votos. . No geral.

• institucionalização da gestão democrática. para atingirmos os fins aos quais nos propusemos no início desta discussão. Dessa forma. painéis. seja em relação à responsabilidade social daquela com sua comunidade. que lhe exige o desenvolvimento de competência técnica. O diretor de escola é e deve ser antes de tudo um educador. Em sua gestão. que atendam às reais necessidades educacionais da população. o diretor-articulador deve exercer sempre uma liderança na escola. • agilização das informações e transparência nas negociações. Enquanto tal. para que. Todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. a partir da garantia do processo de participação das comunidades escolares. mas uma liderança democrática que seja capaz de dividir o poder de decisão e de deliberação sobre os assuntos escolares com . possui uma função primordialmente pedagógica e social. faz-se necessária a criação desses canais: jornais-murais. a falta de canais de disseminação das informações por parte das administrações para todas as esferas da estrutura administrativa e para todos os segmentos da sociedade tem se manifestado como um sério entrave à participação. política e pedagógica. Portanto. boletins. ainda. A descentralização implica acesso de todos os cidadãos à informação. seja no aspecto organizacional da escola. na implantação dos Conselhos de Escola e na gestão da instituição educativa rumo à autonomia escolar. Quanto maior for essa articulação. mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos. Nesse sentido. Isso é necessário não só no início do processo administrativo. projetos de lei mais consistentes. é importante. os governos estaduais e municipais tenham o respaldo democrático para encaminhar ao Poder Legislativo. Definidos alguns parâmetros da escolha democrática de dirigentes escolares e alguns pressupostos da gestão democrática da escola. deve ser um articulador dos diferentes segmentos escolares em torno do projeto políticopedagógico da escola. para que se garanta total transparência na escolha democrática dos dirigentes escolares. encontros etc. melhor poderão ser desempenhadas as suas próprias tarefas. uma breve análise sobre a função do diretor enquanto articulador da gestão democrática na instituição escolar. • lisura nos processos de definição da gestão.

alunos e comunidade escolar.professores. entre as quais podemos citar a função educativa. 1996. Questões para debate • A escolha democrática de dirigentes escolares garante maior envolvimento da comunidade com a escola? Quais as implicações dessa escolha na formulação do projeto político-pedagógico da escola? • Ao se eleger uma pessoa. a função de liderança eficaz. escolhe-se também um projeto de escola. funcionários da escola. como os professores e demais segmentos da comunidade escolar podem alterar essa forma de escolha? • Aponte vantagens e possíveis desvantagens da eleição direta para a escolha de diretores escolares. entre outras. exercendo direitos e praticando a cidadania ativa na escola. poderá automaticamente melhorar a qualidade do seu próprio trabalho docente. A partir dessa praxis. a função de mobilizador da equipe docente. De todo esse processo. ao lado do diretor da escola. . uma vez que estará assumindo responsabilidades. poderá interferir e influenciar na gestão da unidade escolar em que atuam. pp. conforme as palavras de Mariano Herrera (In: Colóquio: La dirección de Ia escuela. nas associações de alunos etc. Isso não significa abrir mão de responsabilidades ou das funções inerentes ao seu cargo.175-176). pais de alunos. criando e estimulando a participação de todos nas instâncias próprias da escola como no Conselho de Escola. Como a escola pode tornar o processo de escolha do diretor um processo educativo? • No município em que o diretor é nomeado. a função da gestão administrativa. o professor estará participando e.

de prestar atenção no diferente. capaz de ouvir. Moacir Gadotti é professor titular da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto Paulo Freire . É dentro desse cenário da pós-modernidade que a escola precisa atuar. de respeitá-lo. Em vez da arrogância de quem se julga dono do saber. o professor deverá ser mais criativo e aprender com o aluno e com o mundo. Paulo Freire Quando eu te encarei frente a [frente não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi. Neste novo cenário da educação será preciso reconstruir o saber da escola e a formação do educador. mas também numa época de acirramento das contradições inter e intra povos e nações. mau gosto É que Narciso acha feio o que não é espelho E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho Nada do que não era antes quando [não somos mutantes (Sampa) Caetano Veloso ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA. MUITAS CULTURAS Moacir Gadotti Vivemos na era da globalização da economia e das comunicações. necessitam de uma ética da diversidade e de uma cultura da diversidade. um cenário que coloca novos desafios para nós. Numa época de violência. Não haverá um papel cristalizado tanto para a escola quanto para o educador. época do ressurgimento do racismo e de certo triunfo do individualismo. educadores: que tipo de educação necessitam os homens e as mulheres dos próximos vinte anos para viver este mundo tão diverso? Certamente eles e elas necessitam de uma educação para a diversidade. Uma sociedade multicultural deve educar o ser humano multicultural.O diferente de nós não é inferior. A intolerância é isso: é o gosto irresistível de se opor às diferenças. [de mau gosto.

Este exercício leva à transdisciplinaridade. é compartimentada e fragmentada. e não camuflados. onde os conflitos são trabalhados. Mas há outra visão do problema. substituindo-a por uma visão crítica. vivência. na escola conservadora. Diante do problema do desinteresse de muitos de nossos alunos pelos conteúdos curriculares do ensino. ao rompimento com a estrutura disciplinar do conhecimento. A escola deve ser local. problematizando-os e equacionando a relação entre a transmissão da cultura e o itinerário educativo dos . comunidade. Nesse contexto global há duas dimensões que podem ser logo destacadas: • dimensão interdisciplinar: o objetivo fundamental da interdisciplinaridade é experimentar a vivência de uma realidade global que se inscreve nas experiências cotidianas do aluno. Articular saber. o professor precisa preparar as crianças para o mundo da diferença e da solidariedade entre diferentes. no universo vocabular do aluno e da sociedade onde ele vive. o professor deverá promover o entendimento com os diferentes e a escola deverá ser um espaço de convivência. • pela tematização: codificando e decodificando esses temas. redimensionandoa na relação com outras culturas. • pela problematização: buscam superar uma primeira visão mágica (ingênua). Os três momentos do método de Paulo Freire. • dimensão internacional: para viver esse tempo presente. escola.de agressividade. parecem contemplar essas duas dimensões: • pela investigação temática aluno e professor buscam. ela se traduz por um trabalho escolar coletivo e solidário. costuma-se responder com métodos mais apropriados ou aumentando o tempo de freqüência à escola. isto é. do professor e do povo que. as palavras e temas centrais de sua biografia. como ponto de partida. ambos buscam o seu significado social.a cultura primeira do aluno -. A escola precisa formar o cidadão para participar de uma sociedade planetária. Na prática. que é a de adequar o tratamento dos conteúdos. meio ambiente etc. mas tem de ser internacional e intercultural como ponto de chegada. isto é. deve valorizar a cultura local . partindo para a transformação do contexto vivido. por exemplo. conhecimento. tomando assim consciência do mundo vivido. é o objetivo da interdisciplinaridade.

que levam em conta a cultura do aluno . daria tudo de si para continuar aprendendo. uma estratégia de alfabetização numa concepção multicultural deveria partir da biografia dos próprios educandos. um grande obstáculo a ser superado. como o educador francês Georges Snyders.Movimento de Alfabetização e de Pós-Alfabetização da Cidade de São Paulo (Mova-SP) -. do relato de experiências de trabalho e de suas relações com o mundo. os resultados obtidos com currículos multiculturais . no momento em que perceberam a importância que o professor dava à vida deles. A diversidade cultural é a riqueza da humanidade. durante a gestão de Paulo Freire (1989-1991) à frente da Secretaria da Educação do município. Se aprender lhe possibilitava "viver melhor".são mais eficazes para despertar o interesse. Essa estratégia foi aplicada com sucesso em um programa de alfabetização na cidade de São Paulo . O currículo monocultural oficial representa. A educação multicultural se propõe a analisar criticamente os "currículos" monoculturais atuais. a chama de cultura primeira. Para cumprir sua tarefa humanista. compreendê-la melhor. Na educação de jovens e adultos trabalhadores. Atribuía a si mesmo esse fracasso e não a uma estrutura social e econômica iníqua. Ao "contar" o que "fez na vida". Procura formar criticamente os professores para que mudem suas atitudes diante dos alunos mais pobres e elaborem estratégias próprias para a educação das camadas populares. antes de mais nada. por exemplo. sobretudo para as camadas populares. compreendê-las na totalidade de sua cultura e de sua visão de mundo. nesse aspecto. a escola precisa mostrar aos alunos que existem outras . buscar as razões para uma "vida melhor". Se a escola era isso. Paulo Freire chama essa cultura do aluno de "cultura popular".alunos. Ao contrário. Outros educadores que também estudaram esse tema. Um desses jovens dizia que tinha "vergonha" de contar sua vida porque a considerava um "fracasso". Equacionar adequadamente ou não a relação entre identidade cultural e itinerário educativo. ele pôde assumila com mais confiança. Só uma educação multicultural pode dar conta dessa tarefa. pode representar a grande diferença na extensão ou não da educação para todos e de qualidade nos próximos anos. tentando. já que em tantos lugares de trabalho ele sempre era "envergonhado". Os jovens e adultos sentiram-se mais envolvidos no processo de alfabetização. Sentia-se feliz em estar na escola. era tudo o que ele procurava.

O mundo está se percebendo mestiço. precisa descobrir elementos culturais externos que revitalizem a sua própria cultura. precisa reeducar o seu olhar para a interculturalidade. • pode-se recuperar os códigos lingüísticos das próprias comunidades desde o processo de alfabetização. A autonomia da escola não significa isolamento. um conjunto amorfo de retalhos culturais. ouvir. Partindo desse princípio antropológico. enfim. pois só com autonomia a escola pode fazer as mudanças desejadas. portanto. O professor. promover a autonomia da escola na elaboração de seus currículos. A escola não deve apenas transmitir conhecimentos. Escola autônoma significa escola curiosa. buscando dialogar com todas as culturas e concepções de mundo. Evidentemente. discriminação racial e cultura popular. impulsionando o movimento emergente de valorização das diferentes culturas. fechamento numa cultura particular. muitas ações práticas podem ser desenvolvidas desde já para a construção de uma escola pluralista e competente. o professor de qualquer disciplina precisa ter conhecimentos antropológicos e culturais mínimos e ter um olhar educado para perceber as diferenças étnico-culturais. educação para a paz. Pluralismo não significa ecletismo. • pode-se incentivar as escolas para que façam mudanças nos seus currículos. para isso. As conseqüências desse enfoque para o ensino são enormes. aceitando que. É possível e necessário. Tudo isso é factível desde já. escutar. é preciso saber trabalhar com as diferenças: é preciso reconhecê-las. portanto. a partir de uma cultura que se abre às demais. numa visão em que o conhecer e o intervir no real se encontrem. que articule a diversidade cultural dos alunos com seus próprios itinerários educativos: • pode-se fortalecer grupos que trabalham com currículos multiculturais. Basta abrir os olhos para a realidade. . ousada. Mas isso já não é tão problemático hoje. fazer parte da proposta educativa global de cada escola. Tratase de estabelecer metodologias que permitam converter as contribuições étnico-culturais em conteúdos educativos. Mas. para conhecer a mim mesmo. preciso conhecer o outro.culturas além da sua. Pluralismo significa sobretudo diálogo com todas as culturas. incluindo temas como: direitos humanos. mas também preocupar-se com a formação global dos alunos. • pode-se. educação ambiental. como meio de fortalecer a auto-estima. não camuflá-las.

Na verdade. pois ao falarmos de identidade de uma cultura temos que localizála em um determinado tempo e espaço e no interior de um grupo étnico. Por isso. identidade é a resposta que damos à pergunta: quem somos nós? Em nosso caso. de brasileiros. é preferível falar-se em "identidades culturais". A identidade supõe uma relação de igualdade e diferença. que pode ser antagônica ou não. Entre antagônicos só pode haver o conflito. o que é identidade sociocultural? Primeiramente. a identidade sociocultural seria um conceito inócuo se tendesse a fixar padrões culturais para apenas "preserválos".étnicas. Afirmar uma identidade étnico-cultural é afirmar uma certa originalidade. Mas só isso? O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade dizia que "nenhum Brasil existe" e se perguntava: "e acaso existem os brasileiros?" O que é genuinamente nosso? O que pode constituir-se numa identidade nossa? Por outro lado. Como podemos articular a diversidade cultural com itinerários educativos que se direcionem para a eqüidade? Suponho que não existe condição de reconhecer a diferença se não se parte da aceitação da alteridade .e da igualdade. e não em "identidade cultural". e. O diálogo é uma relação de unidade de contrários não-antagônicos. Idêntico é aquele que é perfeitamente igual. Vivemos hoje uma explosão das diferenças . desde logo.É no contexto deste mundo mestiço que devemos colocar a questão da identidade: o que é identidade e. uma diferença. culturais. determinada também historicamente. somos uma mistura de afroamericanos (negros). sexuais. A cultura é dinâmica e no contato com outras culturas ela se transforma. para evidenciar. nacionais etc . . essa identidade estaria articulada a uma identidade nacional. para me conhecer. diferente. Só há diálogo e parceria quando a diferença não é antagônica. igualdade válida para todos os que a ele pertencem. ao mesmo tempo.que coloca a questão do resgate da identidade. porque. índios e brancos. a identidade se define em relação a algo que lhe é exterior. Hoje é quase impossível reconhecer uma cultura que não esteja em íntima interdependência com outras. a pluralidade e o dinamismo da identidade cultural. Porém. Por sua vez. necessito conhecer o outro como parceiro. Na identidade existe uma relação de igualdade que cimenta um grupo. uma semelhança.consciência do outro . deveríamos falar de identidade étnico-cultural. em particular.

Cultura popular. Significa consciência de direitos.o seu "método". por Georges Snyders. na França. o seu fim e inaugurando. Esse processo não poderia dar-se sem uma transformação na estrutura do ensino e da extensão da educação para todos. segundo ele. segundo ele. cuja modalidade mais evidente é a cultura de massa. de tomada de consciência da realidade nacional para transformála e criar novas formas de relações sociais e políticas. mas também o lugar da alegria. Daí Paulo Freire insistir na questão da "invasão cultural". Denunciando essa "realidade nacional". Um projeto de emancipação e construção de uma nova nação brasileira passava pela assunção de suas características de nação latino-americana e terceiromundista . possibilidade de criar novos direitos e capacidade de defendêlos contra o autoritarismo. Paulo Freire reintroduziu a reflexão sobre o social no pensamento educacional brasileiro. para Paulo Freire. passando pela formação da consciência crítica. Tratava-se do debate em torno da construção de uma identidade nacional baseada no desenvolvimento político. entre nós. pensavam que se devia criar no Brasil uma "nova Europa" ou uma "nova América". Snyders não desvaloriza a cultura de massa. cultura popular significa cultura da cidadania. como é conhecido . da "dependência" e da "consciência alienada". dialeticamente. O pensamento de Paulo Freire tem suas raízes mais profundas no debate político-cultural brasileiro do final dos anos 50. A cultura primeira promete . É interessante notar as semelhanças e diferenças na visão do mesmo problema por esses dois eminentes educadores. ao contrário. Cada um a seu modo aponta para uma pedagogia com base no respeito à identidade cultural do educando. A pedagogia de Georges Snyders pretende operar uma ruptura e uma continuidade entre a cultura primeira.num itinerário que vai da cultura popular à cultura erudita e letrada. um vigoroso movimento em torno de um pensamento pedagógico autônomo. a violência e o arbítrio. entendida como o lugar do sistemático e do progressivo. Paulo Freire constrói a sua pedagogia . e a cultura elaborada. Enfim. própria da escola. mas mostra o quanto ela é insuficiente. ou seja. social e econômico que. articulando a primeira com a segunda. Freire estava anunciando. Como Paulo Freire. é sinônimo de "conscientização". passava pela tomada de consciência da realidade nacional.as elites dominantes. comprometendo-se com os ideais de uma democracia radical.O tema da relação entre a diversidade cultural e os itinerários educativos já foi tratado por educadores como Paulo Freire e.

como fizemos em São Paulo na única aldeia guarani existente na capital . é uma cultura de consumo. Hospedado dentro de mim. como diz Georges Snyders no livro A alegria na escola (1988). as línguas. melhor que a cultura primeira. nem ocidentais. É o caso. as crenças e as tradições das comunidades indígenas. do drama que hoje enfrentam algumas comunidades indígenas no Brasil. a cultura de massa. no livro A instituição imaginária da sociedade (1982). Depende do contexto histórico em que eles vivem. Cornelius Castoriadis. a cultura. Porém. mas cumpre pouco. na cultura popular e a devolve ao povo sob a forma de receitas e preceitos. retira o que há de melhor. A escola dos brancos pode destruir a identidade indígena. Elas têm por objetivo preservar e fortalecer a organização social. Ela pode representar a alienação pura. atingir a satisfação prometida pela cultura primeira. Pode até destruir sua identidade por uma espécie de "esquecimento" ou rejeição da cultura primeira. Já existem 600 dessas escolas no Brasil.é criar escolas bilíngües. A escola precisa fazer a síntese entre continuidade e ruptura em relação à cultura de massa.que não utiliza a sua linguagem e não satisfaz os seus desejos . Por isso.muito. na expressão do filósofo grego. Ela necessita de um prolongamento na cultura elaborada. de original. Sendo o contato com o branco inevitável.fracassa na sua tarefa primeira que é despertar o desejo de aprender e desenvolver a capacidade de continuar aprendendo. se quiser respeitar a identidade cultural das crianças populares. nem brasileiros. a cultura primeira. o como se chegou a esse produto. naturalizado francês. A escola que tira a criança desse ambiente de bombardeamento constante dos meios de comunicação de massa e a transporta para um local enfadonho . A cultura elaborada não necessariamente representa algo superior para as necessidades vitais de todos os indivíduos. A sua grande força está no fato de ela nos unir instantaneamente a todo o mundo. . Apesar disso. o que estamos fazendo hoje . o outro acaba falando por mim. o "discurso do outro". deve ser um apelo em direção ao elaborado. O imediato. A cultura elaborada pode. A cultura do nosso tempo é a cultura de massa. embora de forma fugaz. por exemplo. na forma como é veiculada. os costumes. É uma cultura que apresenta o produto. a escola que negasse a cultura de massa estaria contribuindo para o fracasso escolar das crianças das camadas populares em face das crianças das elites. mas não mostra o processo. Acabam não sendo nem índios nem brancos.

Os anos 90 caracterizam-se por um pensamento pós-marxista e pós-moderno. nas diversas disciplinas. na maioria das vezes. de classe e de gênero. isto é. É sobretudo um saber "em ato". muitas vezes. num ato pedagógico essencial na construção da educação do futuro. por exemplo. no ato de produção. Nós dizíamos. a tematização e a problematização no seu trabalho pedagógico? • O que se quer dizer quando se afirma que o professor perdeu a sua identidade? • Como você vê a influência da cultura de massa na escola? . mas é também. como se costuma dizer na França. que uma educação não autoritária deveria respeitar o aluno. isto é. para nós. Afirmá-la novamente se constitui.Mas os meios de comunicação de massa não são a única fonte do saber dos "menos qualificados". que se exprime pela oralidade e. Hoje temos mais clareza desse princípio quando as teorias da educação multicultural enfatizam ainda mais a necessidade de os educadores atentarem para as diferenças étnicas. extremamente elaborado. Questões para debate • Localize no texto as propostas práticas para a construção de uma escola cidadã. mais preocupados com questões imediatas do que com uma utopia distante. se reduz à esfera da pura execução do trabalho. É um saber primeiro. se o seu saber não puder interferir na concepção e na tomada de decisão. o questionamento das teses socialistas ortodoxas e burocráticas e a afirmação da subjetividade que se expressa por meio de movimentos sociais de índole distinta. Por isso os trabalhadores não têm interesse em desenvolver o seu saber se ele não for reconhecido como poder. como pensávamos nos anos 60. • Qual a diferença entre pluralismo e ecletismo? • Como o professor pode. Dizíamos que o respeito à diferença era uma idéia muito cara à educação popular. Hoje percebemos com mais clareza que a diferença não deve ser apenas respeitada. • Descubra na sua prática dificuldades para o exercício de uma ética da diversidade. aplicar a investigação temática. Há uma outra fonte "mais qualificada": o saber do trabalhador se constrói e se desenvolve no trabalho. culturais. Ela é uma riqueza da humanidade e base de uma filosofia do diálogo.

Organização. ed. 55 p. ago 1989.BIBLIOGRAFIA COMENTADA ALVES. Iguatu (CE). Quanto ao projeto político da escola.(. Um invisível cordão de isolamento: escola e participação popular. funções. junto com seu isolamento. Brasília. n. José Matias.) A participação popular pressuporia e impulsionaria a quebra da divisão rígida entre quem é educador e quem aprende. liderança. tais como: participação.. Edições Asam. CENPEC. os movimentos populares deveriam forçar o questionamento do conhecimento que a escola transmite. 1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos). os atores escolares e. 70. tecnologia e educação. A ignorância a respeito do bairro. caminharia em direção ao conflito aberto expresso em movimentos coletivos e em violência individual contra o prédio escolar e profissionais da escola. O livro apresenta a escola como uma organização específica de educação formal. a quem transmite e a favor de quem será apropriado e aplicado. às expectativas e mesmo à vida cotidiana da população à qual atende. estuda as suas finalidades. clima escolar.. estruturas. O autor chama a atenção para a necessidade da construção crítica e pessoal de um saber que pensa a escola enquanto realidade organizacional socialmente construída. Registra experiências educacionais de 15 municípios de pequeno. Marília Pinto de. Aborda as dificuldades e impedimentos à participação popular na escola. finalmente. MEC/Unicef/Cenpec. sinteticamente. 3.. e analisa. Vitória . Belo Horizonte (MG). Jaguaré (ES). Aponta o isolamento como o principal impedimento do sistema público de ensino em relação aos movimentos organizados. relações da escola pública com os contextos com o Estado. São Paulo. In: Cadernos de Pesquisa. A democratização do ensino em quinze municípios brasileiros: documento síntese. pp. São Raimundo Nonato (PI). algumas questões ligadas à gestão escolar. da vida dos alunos e da história de lutas que precede a conquista da escola. projeto educativo. médio e grande porte localizados em nove Estados brasileiros: Icapuí (CE). 1993. Lisboa. São José da Varginha (MG). Jaboatão (PE). gestão e projecto educativo das escolas. CARVALHO. Dom Inocêncio (PI). 65-73.

São Paulo. porque os representantes escolhidos podem defender interesses parciais e posições autoritárias. dentro da coleção Qualidade para todos: o caminho de cada escola. . capacidade de organização escolar e gestão pedagógica voltadas para a melhoria da qualidade de ensino. São Paulo. Marechal Cândido Rondon (PR). Brasiliense. interação com o meio social. 250). Este livro mostra como esse direito precisa ser construído coletivamente. Ijuí (RS). estabelecem-se situações de aprendizagem de mão dupla: ora a escola estende sua função pedagógica para fora. traz as principais conclusões a respeito da gestão democrática nas experiências analisadas nesta coletânea. Gestão. Esses municípios possuíam modelos diferenciados de gestão do sistema escolar. tanto na luta pelo atendimento de necessidades básicas (alimentação. Participação é conquista: noções de política social participante. 1988. o direito à vida no sentido pleno. Ao longo do processo de participação. Pedro. D E M O . Além de abordar historicamente o tema da participação. Compromisso de todos. São Paulo. v. Maria de Lourdes Manzini. saúde. mas sua mera instalação não garante decisões democráticas. age e pode atuar na transformação social. moradia. . fazendo surgir o sujeito coletivo. Conclui que a construção de uma escola democrática e de uma sociedade democrática são processos que se desenrolariam ao mesmo tempo e que a gestão democrática possibilitaria desmontar relações de mando e submissão. Porto Alegre (RS). Cortez. em última instância. Resende (RJ). O Conselho garante decisões coletivas. Maringá (PR). que decide. o livro sistematiza algumas idéias em torno dele: canais de participação. que envolve a discussão sobre o papel do próprio homem no Universo. estabelecer relações mais flexíveis e menos autoritárias entre educadores e clientela escolar. Caderno elaborado pelo CENPEC. Relacionada ao surgimento da vida em cidades. A realização da gestão democrática significaria encontrar caminhos para atender às expectativas da sociedade a respeito da atuação da escola. Conchas (SP). O que é cidadania. Muitas administrações municipais e estaduais já implantaram conselhos ou órgãos colegiados de gestão e sua estrutura tem variado nos diferentes municípios e Estados. ora a comunidade influencia os destinos da escola. 1991 (Coleção Primeiros Passos. 1994. educação) quanto num plano mais abrangente. 32 p. a cidadania significa.(ES). A maneira mais comum de assegurar a participação de todos os interessados é a instalação de um Conselho Escolar. (Thereza Pegoraro) COVRE.

cultura participativa e seus principais objetivos (autopromoção, realização da cidadania, controle de poder, controle da burocracia, negociação e cultura democrática). Apresenta ainda seus principais riscos, obstáculos e desafios e questões relacionadas à representação, à identidade cultural e ao assistencialismo. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 1997. Utilizando uma linguagem acessível e didática, o autor reflete sobre os saberes necessários à prática educativo-crítica, fundamentados n u m a ética pedagógica e numa visão de m u n d o alicerçadas na rigorosidade, pesquisa, criticidade, risco, humildade, bom senso, t o l e r â n c i a , alegria, c u r i o s i d a d e , c o m p e t ê n c i a , g e n e r o s i d a d e , disponibilidade... "molhadas" pela esperança. A autonomia faz parte da própria natureza educativa. Sem ela não há educação, não há ensino, nem aprendizagem. G A D O T T I , Moacir. Diversidade cultural e educação para todos. Rio de Janeiro, Graal, 1992. Este livro aborda a relação entre identidade cultural e itinerário educativo, a concepção multicultural e monocultural do currículo e o papel da escola. Discute ainda a retomada da luta pela descentralização da educação e o papel crescente das Organizações Não-Governamentais (ONGs) no redirecionamento das políticas públicas em educação. Escola cidadã. São Paulo: C o r t e z , 1993. 78 p. Trata da questão da autonomia da escola pública. Nos três primeiros capítulos, faz uma análise conceituai geral de autonomia e relata uma experiência vivida pelo autor. Estabelece, então, um quadro da situação da educação brasileira relativo à problemática da autonomia da escola pública, fazendo um paralelo com as recentes reformas educacionais européias. Acredita que a transformação da escola pública em unidade de despesa, proporcionando-lhe recursos orçamentários, poderia melhorar sua situação desde que estivesse vinculada à participação e à democratização do sistema de ensino. G A R C I A , Walter. Administração educacional em crise. São Paulo, Cortez: Autores Associados, 1991 (Coleção Polêmicas do N o s s o T e m p o ; v. 46). A temática dos textos reunidos neste livro é a crise educacional que vem se agravando ao longo dos últimos anos. A crise está alicerçada em causas estruturais profundas, em que avultam a dívida externa e a insensibilidade histórica das elites nacionais, pouco preocupadas com o que se passa além de seus interesses meramente imediatistas.

MARÉS, Carlos. Eleição de diretores e democracia na escola. Revista ANDE, São Paulo, v. 3, n. 6, pp. 49-50, 1983.
Acreditando que a discussão da democracia na sociedade remete ao tema da democracia na escola, o autor afirma que, ao descer à prática, o tema perdeu a magnitude de sua essência, restando apenas os aspectos de sua forma. Para o autor, essa discussão deveria perceber o local social da escola na sociedade pluralista e heterogênea, sem buscar uma homogeneidade castradora e impositiva. A escola precisaria ser democrática, mas a implementação dessa política democrática deveria ser assumida pelo Estado com base na realidade escolar. Segundo o autor, atualmente diretores servem apenas como intermediários na implantação de uma política que não ajudaram a elaborar. A escolha da direção faz-se apenas com relação ao plano administrativo. Podem ser encontrados quatro tipos de escolha para a direção: a) diretor de carreira; b) concurso público; c) livre indicação; d) eleições. A defesa da eleição como forma de escolha dos diretores das escolas pressupõe a criação de uma regulamentação, além do que deve servir como meio para que o povo participe da gestão da coisa pública.

MIRANDA, Glaura Vasques de. A questão da autonomia da escola. Educação em Revista, Belo Horizonte, n. 9, pp. 59-61, jul. 1989.
Aponta, como uma das questões de importância para o desenvolvimento de um projeto pedagógico de melhor qualidade, a relação deste com a questão da autonomia da escola. Um maior grau de autonomia possibilitaria qualidade com gestão democrática. A esse projeto liga-se a idéia de recuperação da dignidade da escola pública, perdida em razão de práticas excessivamente centralizadoras do Estado. A autora enumera e analisa as condições básicas para que se garanta a realização de um projeto de gestão democrática na escola.

NOGUEIRA, Madza Julita. Todos pela educação no município: um desafio para cidadãos. Brasília, Unicef/Cecip, 1993. 133 p.
Aborda de maneira didática os direitos educacionais consagrados nas leis e destaca a participação popular como elemento fundamental para a expansão do ensino público ocorrida até os dias de hoje. Ressalta a importância dessa participação como instrumento de intervenção nas políticas educacionais dos municípios, na tomada de decisões. O livro conta com a colaboração de pessoas que estão envolvidas com esses mecanismos de gestão e participação popular, tornando mais acessíveis informações como a maneira de participar, quem pode fazê-lo, através de quais mecanismos. Mostra a possibilidade de participar da direção e gestão da unidade escolar, bem como do governo municipal, onde a população será

co-responsável pelas decisões sobre as políticas públicas para a educação, exigindo que estas se cumpram. Prossegue, dessa forma, esclarecendo como os cidadãos podem controlar e fiscalizar a aplicação de recursos públicos.

PARO, Vítor Henrique. Eleição de diretores - a escola básica experimenta a democracia. Campinas, Papirus, 1996.
Hoje, a eleição de diretor de escola é uma realidade em várias redes de ensino público no Brasil. Este livro analisa as características e os problemas da institucionalização e da implementação dessa experiência, bem como capta seus efeitos sobre a democratização da gestão escolar e sobre a qualidade e a quantidade da oferta de ensino.

. Gestão da escola pública: a participação da comunidade. In: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, n. 174, pp. 255-290, maio-ago. 1992.
Baseado em estudo de caso de cunho etnográfico realizado em escola estadual de ensino fundamental na cidade de São Paulo, com o objetivo de identificar os obstáculos e as potencialidades da participação do usuário na gestão da escola pública. Discute os determinantes imediatos dessa participação, presentes tanto no interior da escola quanto na comunidade por ela servida. Entre os primeiros destacam-se os condicionantes materiais, os institucionais, os político-sociais e os ideológicos. Entre os últimos encontram-se as condições objetivas de vida, bem como os condicionantes culturais e institucionais.

RIBEIRO, Vera Masagão (Org.). Participação popular e escola pública. São Paulo, Cedi, 1989. O novo conselho de escola, pp. 25-34 (Cadernos do Cedi, 19).
Avalia as contribuições que a implantação dos Conselhos de Escola deliberativos trouxe para uma efetiva participação popular na escola. O desconhecimento da maioria sobre as atribuições do Conselho é, segundo a autora, o principal índice de sua quase nenhuma efetividade. A autora apresenta uma síntese sobre as modificações das funções dos Conselhos de Escola e as respectivas leis que regulamentaram a passagem do caráter consultivo para deliberativo e da ampliação da representação dos segmentos escolares no decorrer do tempo. O artigo polemiza algumas questões como a natureza paritária do Conselho. Para a autora, normalmente o diretor aparece para a população como o grande obstáculo à sua participação na escola. R O M Ã O , J o s é E u s t á q u i o . Poder local e educação. São P a u l o , C o r t e z , 1992. Este livro aborda as diversas concepções de descentralização e a questão da municipalização do ensino no Brasil. Apresenta o poder político local,

é sugerida com insistência a autonomia da escola. Autores Associados. o autor alerta para o que chama de esquecimento do sujeito e apresenta uma proposta de pedagogia do sujeito coletivo como fator de re-humanização da escola pública. v. 1. mostra o papel dos conselhos municipais de educação e apresenta um estudo de caso de resistência comunitária à nucleação de escolas unidocentes no meio rural. 1996. 15. SILVA. p p . Dessa forma. não há gestão democrática ao lado de estruturas administrativas . No seu conjunto. SANDER. Sander analisa quatro construções de administração da educação. Educação. 1995 (Coleção E d u c a ç ã o C o n t e m p o r â n e a ) . movimentos populares e sindicais. n. que tipo de relações devem ser estabelecidas entre uma escola autônoma e o sistema escolar. SPOSITO. evasão. jan. Este livro procura discuti-la. Já são bastante conhecidas as críticas dirigidas à escola pública: repetência. que condições deve apresentar um sistema escolar que busque a autonomia de suas escolas. burocracia. Após examinar estudos preexistentes. ainda. gestão democrática e participação popular./jun. A construção do conhecimento no campo da gestão da educação na América Latina é o tema central dos cinco ensaios deste livro.subdividindo-o em poder popular e poder elitista. relaciona gestão da educação com qualidade de vida e trata. Marília Pontes. os textos constituem uma referência da produção intelectual do autor e um registro seletivo do debate político-pedagógico dos anos 80 e 90 na América Latina. Jair Militão da. descompromisso com o aluno. o leitor encontrará: como uma escola pode conquistar sua autonomia. C a m p i n a s . Faz um balanço da participação dos municípios na educação brasileira. da gestão democrática e qualidade de educação de acordo com os novos desafios da administração pública e da gestão da educação para todos. Porto Alegre. q u e s t i o n a n d o a democratização de sua gestão com a participação dos pais. examinada no contexto internacional. moradores. Papirus. Além de passar pelo curso da história do pensamento administrativo na educação latino-americana. A autonomia da escola pública. Gestão da educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. Para superar tal situação. A gestão democrática no âmbito escolar apresentaria incompatibilidade entre os modelos burocráticos existentes no sistema escolar e as práticas democráticas pretendidas. Campinas. E d u c a ç ã o e Realidade. Analisa a democratização do ensino público. 52-56. Benno. única possibilidade real de autonomia da escola. Nele. 1990.

contudo. . In Tempo e Presença. a nomeação dos cargos de confiança nas instâncias intermediárias ou superiores apoiada em relações tacanhas de clientelismo político. 19. VALERIEN. é no sistema de ensino que encontramos com maior profundidade. 64. jan. Trata da luta pela gestão democrática na escola como uma das maneiras de nortear procedimentos do sistema educativo. 12. que dela toma posse. porém não isoladamente. 251. pp. A estrutura administrativa da escola. Rio de Janeiro.burocratizadas. Gestão da escola fundamental: subsídios para análise e sugestão de aperfeiçoamento. formas tradicionais de dominação política e concepções privadas de uma atividade que deveria ser essencialmente pública". Unesco/MEC/ Cortez. 1989. possibilitando aos setores tradicionalmente marginalizados acesso aos serviços educacionais e a melhoria da qualidade do ensino oferecido. vol. dando subsídios para ajudá-lo a administrar bem em um ambiente democrático sem. n. Pelo contrário. 1990. esse conjunto de fatores acaba por transformar a educação mantida pelo Estado num grande terreno onde prevalecem interesses pessoais. a obtenção do consenso pelo servilismo ou pela troca de favores. São Paulo. determinada e articulada em grande parte a partir das orientações do diretor. pp. famílias e moradores na gestão escolar e conclui que a gestão democrática poderia oferecer uma alternativa concreta de melhoria da educação brasileira. 170 p. n. Gestão democrática. 18-20. centralizadas e verticalizadas. Trata da questão da autonomia das escolas e das implicações dessa transferência . a falta de autonomia para a elaboração e execução de projetos pedagógicos no âmbito da unidade escolar. pois não há canal democrático de gestão que possa ser viabilizado sem uma profunda alteração administrativa das estruturas de organismos ligados à educação. In: Cadernos do Cedi. São Paulo. sem a real participação dos pais. Redefinindo a participação popular na escola. pelo caráter clientelista da burocracia escolar. A professora da Universidade de São Paulo Marília Sposito afirma neste artigo que "apesar de gerida e mantida pelo aparato estatal. enfim. 1993. Analisa o problema da gestão da escola fundamental centrado na figura do diretor. uma enraizada mentalidade privatista da coisa pública. a escola brasileira não é necessariamente pública. Jean. A autora defende que não haveria possibilidade de democratização sem a transformação da prática profissional do educador. . mai/jun. deixar de perceber os outros elementos constituintes e participar deste universo escolar.

Através de um processo permanente de reflexão e de discussão dos problemas da escola. VIANNA. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. contribuindo para a realização de diagnósticos escolares e para a compreensão do planejamento como instrumento da praxis pedagógica. São Paulo. Projeto Político da Escola: uma construção possível. O autor escreve para professores. Este é um livro sobre o planejamento da educação. Uma Passos (Org. 86. n. Trata da relação entre o Movimento Estadual Pró-Educação (Mepe). Planejamento: plano de ensinoaprendizagem e projeto educativo . Libertad. Quanto à gestão da escola. ed.de responsabilidades no contexto da democratização da gestão escolar. ago. rompendo com a rotina burocrática no interior da escola. de um plano de ensino-aprendizagem e de um projeto educativo. Celso dos S. Apresenta e analisa os vários níveis de um planejamento. 1993. 2. explica que o diretor não deve ser o único a decidir. VEIGA. corporativas e autoritárias.). 1). pp.elementos metodológicos para elaboração e realização. mas não antagonismos: mães e professoras das escolas públicas. autonomia. 39-47. o texto traça paralelo com as "vantagens" da centralização das decisões. dirigentes educacionais e demais profissionais da educação. gestão na escola. Os textos estão organizados em torno de temas como: construção coletiva. São Paulo. São Paulo. v. Cadernos de Pesquisa. relações ensino-aprendizagem. Cláudia Pereira. oferecendo instrumentos e elementos metodológicos e processuais que poderão favorecer uma ação pedagógica que leve em conta os fundamentos históricos. mas sim que deve propor e solicitar a colaboração dos outros envolvidos no projeto da escola. 1996. a saber. procuram alternativas viáveis à efetivação de seu objetivo. a construção de um processo democrático de decisões que vise eliminar as relações competitivas.. Divergências. constituído de mães de alunos e professores das escolas estaduais de São . antropológicos e epistemológicos da educação e os contextos em que é realizada. cujo fio condutor é a defesa do fortalecimento das relações entre escola e sistema de ensino. relações de poder. Ao mesmo tempo em que apresenta pontos de reflexão importantes para a conceituação e análise da gestão democrática autônoma da escola. Papirus. organização dos educadores e o debate fundamental sobre as questões referentes à qualidade de ensino para todos. (Thereza Pegoraro) VASCONCELLOS. princípios básicos de planejamento participativo. Os autores desta coletânea buscam a organização do trabalho pedagógico por meio da constituição de um projeto político e pedagógico.

José Amaral (Orgs. geralmente direcionada pelos poderes públicos. estabelecendo entre professores. Nesse sentido. Brasília (Série Ipea. Entre esses riscos. EPU. acompanhamento e controle. Planejamento participativo na escola: um desafio ao educador. Fundamenta. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) vem acompanhando as inovações na gestão do sistema educacional e escolar. que se efetive como uma tarefa contínua e política. A autora analisa o apoio das mães às reivindicações do professorado e mostra as tensões que ocorreram no processo. (Thereza Pegoraro) VIANNA. Conclui que a luta pela melhoria da qualidade de ensino adquirirá força quando professoras e mães explicitarem os valores e critérios que as distinguem. Rose Neubauer da. família e comunidade. 1995. 147). pois algumas professoras eram também mães de alunos. tem desenvolvido estudos e pesquisas com o objetivo de identificar as mudanças ocorridas nos últimos anos na concepção e gestão das unidades escolares. a ingerência da hierarquia burocrática do sistema. Procurou transformar a escola em centro polivalente. figura a manipulação do trabalho pela assessoria especializada e a pseudoparticipação da comunidade. na medida em que tem de vencer entraves como a descrença das pessoas para sua efetivação. comunitário e político.Paulo. sintetiza e relata o trabalho pedagógico efetivado em uma escola de ensino fundamental do Estado de São Paulo que se propôs a desenvolver o trabalho pedagógico a partir de um planejamento participativo. além do imediatismo que caracteriza o povo brasileiro.). Gestão educacional . segundo a autora.experiências inovadoras. Essa proposta é desafiadora. gerador de mudanças em todos os aspectos. envolvendo atividade conjunta da escola. O volume nº 147 apresenta doze experiências de novas formas de organização e gestão educacional em diferentes regiões . SILVA. convivendo com as diferenças e conflitos que isso implica. Guiomar Namo de. Antônio Carlos da Ressurreição. família e comunidade um verdadeiro trabalho integrado. A condição de mulher foi um primeiro fator de aproximação de mães e professoras. São Paulo. Tem a preocupação com um processo educativo centrado no aluno e sua realidade pessoal e contextual. (Thereza Pegoraro) XAVIER. mas de suas decisões. Ilca Oliveira Almeida. bem como as perspectivas que se abrem para a melhoria da qualidade do ensino. um ambiente de idéias inovadoras e veículo de dignificação do homem. SOBRINHO. 1986. em que a comunidade participe não só de execuções de ações. a dificuldade de integração com os demais níveis e grupos da própria comunidade. n. MELLO.

e. Fátima e SOBRINHO. com a "gestão da qualidade total". 1994. em escolas públicas e privadas.).do país. Gestão escolar: desafios e tendências. as mudanças que a ampliação do processo de decisão da escola trouxe para seu perfil e funcionamento. Este volume discute os novos desafios impostos à gestão escolar num mundo caracterizado por rupturas contínuas e aceleradas de paradigmas. . Brasília (Série Ipea. bem como identifica o que qualifica a escola. por fim. n. Duas delas têm como objeto sistemas estaduais e dez se voltam para sistemas de ensino no nível municipal. José Amaral. . as experiências que vêm sendo realizadas no País. analisa as experiências de avaliação do contexto da melhoria dos processos e da qualidade do ensino. (Orgs. Analisa as inovações que estão ocorrendo na gestão da Educação em Estados e municípios selecionados. 145). MARRA.

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