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MEC - Construindo a Escola Cidada - Plano Politico Pedagogico

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SALTO PARA O FUTURO

Construindo a Escola Cidadã
Projeto político-pedagógico

Brasília, 1998

Presidente da República Federativa do Brasil Fernando Henrique Cardoso Ministro da Educação e do Desporto Paulo Renato Souza Secretário de Educação a Distância Pedro Paulo Poppovic

SERIE DE ESTUDOS / EDUCAÇÃO A DISTANCIA
SALTO PARA O FUTURO / CONSTRUINDO A ESCOLA CIDADÃ PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO

Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto - Acerp Diretor-Presidente Mauro Garcia Gerente de Educação Yonne Polli Secretaria de Educação a Distância / MEC Coordenação editorial Cícero Silva Júnior

Ministério da Educação e do Desporto

SERIE DE ESTUDOS EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA SALTO PARA O FUTURO Construindo a Escola Cidadã Projeto político-pedagógico MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA .

C E P 70001-970-Brasília. . Ministério da Educação e do Desporto. 1998.gov. ISSN 1516-2079. SEED. 1998 Edição ESTAÇÃO DAS MÍDIAS Edição de texto: Luci Ayala Edição de arte: Rabiscos Ilustração da capa: Sandra Kaffka Revisão: Márcio Guimarães de Araújo Impressão: Coronário Editora Gráfica Tiragem: 110 mil exemplares ISSN 1516-2079 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Salto para o Futuro: Construindo a escola cidadã.Perspectivas da educação a distância. DF fax: (061) 321. 96 p.(Série de Estudos.018. Brasil. Série. Secretaria de Educação a Distância. Seminário de Brasília. volumes 1 e 2 . 1997 • TV e Informática na Educação Educação do olhar. II.5) 1. CDU 37. Bloco L. v. projeto político-pedagógico/ Secretaria de Educação a Distância.1178 / e-mail: seed@seed. Anexo 1.MEC Direitos cedidos para esta edição pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto .mec. I. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto.Acerp. Ensino a distância. Educação a Distância.Copyright © Ministério da Educação e do Desporto . Sala 314 Caixa Postal 9 6 5 9 .43 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Esplanada dos Ministérios.br Outros títulos da Série de Estudos /Educação a Distância publicados pela Secretaria de Educação a Distância / MEC: TV da Escola • América Latina .

Em outras palavras.394. as diretrizes dos Estados e municípios e capazes. prevê que os estabelecimentos de ensino . Atenta ao cenário educacional. Assim. a LDB diz que a elaboração da proposta pedagógica contará com a participação dos profissionais da Educação. a lei quis dar realce ao papel da escola e dos educadores na construção de projetos educacionais articulados com as políticas nacionais. É um amplo trabalho de construção. o projeto pedagógico é a própria escola cidadã.Seed veiculou pela TV Escola. E espera.Acerp. com isso. Com tais dispositivos. Pedro Paulo Poppovic Secretário de Educação a Distância . nº 9. no programa Salto para o Futuro. Nos artigos 13 e 14.respeitadas as normas comuns e as de seu sistema de ensino . de levar em consideração a realidade específica de cada instituição de ensino.terão a incumbência de elaborar e executar sua proposta pedagógica (artigo 12). realizada pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto . a série Construindo a escola cidadã: projeto políticopedagógico. Considerando o sucesso da iniciativa e a atualidade do tema.A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. cada proposta ou projeto pedagógico retrata a identidade da escola. a Seed publica aqui uma versão resumida dos textos originalmente utilizados como literatura de apoio à série. ao mesmo tempo. com a parceria do Instituto Paulo Freire. que exige competência técnico-pedagógica e clareza quanto ao compromisso ético-profissional de educar o cidadão deste novo tempo. promulgada em 20 de dezembro de 1996. que deverão ainda definir e cumprir plano de trabalho para concretizá-la. a Secretaria de Educação a Distância . contribuir para a discussão acerca da construção democrática do projeto pedagógico da escola.

SUMÁRIO PROPOSTA PEDAGÓGICA 09 PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ 15 ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE 23 CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO 31 CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ .. MUITAS CULTURAS 79 BIBLIOGRAFIA COMENTADA 87 . 43 PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA 53 DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA 67 ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA..

futuras e futuros docentes. por conseguinte.na qual se incluem professoras e professores. de seus docentes. Objetiva-se levar até eles não só o resultado de experiências acumuladas por Estados e municípios brasileiros. em especial. a participação de todos e. E justamente a partir de estudos e pesquisas desenvolvidos em torno dessa temática que o Instituto Paulo Freire pretende contribuir para o aperfeiçoamento dos docentes da educação básica e dos alunos dos cursos de formação de professores.tem acesso às informações e lhe é garantido o direito de participar das decisões. Objetiva-se também incentivá-los ao exercício de uma ação pedagógica condizente com as necessidades e exigências educacionais colocadas por seus contextos específicos. Isso contribui para a democratização das relações de poder no âmbito escolar e. E uma das maneiras de fazer funcionar a escola e de organizá-la com vistas à melhoria da qualidade do ensino é justamente a elaboração democrática e coletiva de seu projeto político-pedagógico. pode levar . a quem se destina este projeto . Justificativa Para que a escola possa construir o seu projeto políticopedagógico. mas principalmente estimulá-los para a pesquisa e a reflexão interativa sobre suas práticas e as práticas de outros. é condição essencial.PROPOSTA PEDAGÓGICA Quando a comunidade escolar . e que o tempo e a história que construímos nos impõem diariamente. ela tem condições de compreender melhor o funcionamento da escola e de se organizar para assegurar que os interesses da maioria sejam atendidos.

Todos os segmentos escolares adquirem papel fundamental no processo decisório. fator imprescindível: o espaço em que os diferentes segmentos escolares decidirão sobre a organização do trabalho na escola. Sem apostarmos em novos processos educativos. Com base em tais perspectivas educacionais e de acordo com o Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. Será preciso preparar os jovens para o trabalho. A educação é condição sine qua non para o desenvolvimento autosustentado do País. nesse sentido. da organização do trabalho na escola e da gestão democrática da escola pública. fazem parte da série de temas ligados à questão do projeto político-pedagógico da escola. outros bastante polêmicos. A organização do Conselho de Escola ou Colegiado Escolar torna-se. Nossas desigualdades sociais não serão superadas apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias. Hoje é necessário investirmos na formação continuada de professores e.os usuários à intervenção no próprio sistema de ensino. Ela pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e para isso deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional. como ficou demonstrado por países como a Coréia do Sul. em algumas décadas. realizar pesquisas e desenvolver suas práticas pedagógicas a partir de um diálogo sempre aberto às novas metodologias e concepções educacionais. autonomia da escola e participação da comunidade na gestão escolar. Além dos aspectos já mencionados. a curto e médio prazos. para que. não teremos condições de reverter o processo de deterioração do ensino básico. O Instituto Paulo Freire vem desenvolvendo estudos e pesquisas . possam construir conhecimentos. na formação consistente dos futuros profissionais da Educação. das concepções construtivista-interacionista e histórico-social. não apenas o diretor de escola ou os órgãos superiores da Educação estarão definindo o que é prioritário para a unidade escolar. que. em novas metodologias de ensino e na formação daqueles que são e serão os educadores das atuais e futuras gerações. especialmente. à luz. Assim. por exemplo. que não podem ficar fora da agenda dos atuais e futuros professores: eleição de diretores. deu um salto para o Primeiro Mundo graças a investimentos massivos na Educação. A educação básica de qualidade para todos é uma das condições fundamentais para acabar com a miséria. consideramos que a escola deve formar para a cidadania ativa e para o desenvolvimento.

394/96). constituir conselhos escolares com representação da comunidade (..). de acordo com as suas peculiaridades". estão: • capacitação de todos os segmentos escolares.). Considera que o projeto político-pedagógico da escola é uma tarefa dela mesma. sancionada no dia 20 de dezembro de 1996.. porque é prática educativa.. que a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n° 9.. entre outras. determina que "os estabelecimentos de ensino. a partir das quais definimos alguns parâmetros para a elaboração do Projeto Político-Pedagógico da Escola e para a Gestão Democrática da Escola Pública.nessa direção. inserida no mundo da vida. terão a incumbência. Lembramos. de significações. e prestar contas e divulgar informações referentes ao uso de recursos e à qualidade dos serviços prestados".. criando processos de integração da sociedade com a escola (. Dentre os parâmetros aos quais nos referimos. de valores e de desejos. de afetos. analisando experiências acumuladas nos diversos municípios e Estados brasileiros. • institucionalização da gestão democrática. • agilização das informações e transparência nas negociações no âmbito da escola e fora dela. de formação de convicções. Construílo significa ver e assumir a educação como processo de ensinoaprendizagem.). Objetivos Este projeto surge como um instrumento de construção e de reconstrução permanentes de um projeto de sociedade que . o Instituto Paulo Freire oferece sua contribuição e busca opções para superar o desafio colocado. oportunamente. prevendo a participação dos profissionais da Educação na elaboração do projeto pedagógico da escola e das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. • lisura nos processos de definição da gestão democrática e do projeto político-pedagógico da escola. • consulta permanente à comunidade escolar. A lei da Educação também estabelece que os sistemas de ensino "definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica. articular-se com as famílias e a comunidade. de motivações. A partir desses parâmetros.. um processo que se constrói constantemente e se orienta com intencionalidade explícita. de elaborar e executar sua proposta pedagógica (. respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino.

• estudar a metodologia de diagnóstico educacional e escolar denominada Carta Escolar. enfatizando a importância da gestão democrática e da organização do trabalho na escola. Porto. DEMO. IPF. 2. • desenvolver estudos integrados para conhecer e analisar os indicadores educacionais com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político pedagógico da escola. • estudar e analisar a situação atual da educação brasileira a partir da aprovação da nova LDB. Ângelo. • identificar e analisar terminologias e conceitos específicos que são empregados em relação ao projeto político-pedagógico da escola. São Paulo.) CISESKI. 5. Nesse sentido. Participação e conquista. "planejamento socializado ascendente". 1988. ed. DALMÁS. nos termos freireanos. Pedro. José Matias. Cortez. Organização. São Paulo. esclarecimentos e troca de experiências dos atuais e dos futuros docentes sobre conselhos de escola. NASCIMENTO. • possibilitar o intercâmbio entre educadores e instituições escolares das diversas regiões do País para a construção de uma escola democrática e de qualidade técnico-política. . • realizar estudos.. • identificar o papel dos professores na definição das propostas e das estratégias de intervenção adequadas ao diagnóstico escolar e à elaboração do projeto político-pedagógico da escola. Como organizar o Conselho de Escola. Ângela Antunes.pedagógico da escola. Planejamento participativo na escola. João Pedro da. no que se refere à construção do projeto pedagógico da escola e à valorização dos profissionais da Educação. gestão e projecto educativo das escolas. Portugal. Vozes. Petrópolis. • identificar os princípios de implementação da gestão escolar democrática.. ser possível a utopia educacional. 1995. BIBLIOGRAFIA ALVES.acredita. escolha democrática de dirigentes escolares. n. 3. os objetivos gerais do presente projeto são: • desencadear um movimento para que as escolas construam ou avaliem os seus projetos político-pedagógicos. adaptando-a às exigências da elaboração do projeto político. 1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos. ed. 1996. Edições ASA. Francisco João. FONSECA.

. Edições ASA. Cortez. 52 p. In: Revista da Faculdade de Educação. Planejamento: plano de ensino-aprendizagem e projeto educativo . Moacir. IPF. Feusp. Campinas. Papirus. Educação popular na escola pública. 1996. 2. Porto. PADILHA. SANTOS.Aula. São Paulo. 1995. Paz e Terra. Ana Maria do. Jair Militão da. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. v. MEC-SEF. Manuel Jacinto. 1993 (Coleção Questões da Nossa Época: v. Projeto da escola cidadã: a hora da sociedade. Vozes.Área . São Paulo. Campinas. ed. São Paulo. Mário Osório et ai.elementos para elaboração e realização. José Eustáquio. & GADOTTI. Gestão da Educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. Planejamento educacional e organização do trabalho na escola: concepções do Plano Decenal de Educação para Todos. As escolas e as autonomias. O projeto pedagógico da escola. SANDER. MENEGOLLA. Jair Militão da. Escola cidadã. Cultura midiática no espaço escolar. n°. Moacir. n° 1. 2. São Paulo. 1995 (Coleção Educação Contemporânea). 79-112. Por que planejar? Como planejar? Currículo . Vítor Henrique. . 21. Ilza Martins. 9). FREIRE. 1992. Benno. v. VASCONCELLOS. Planejamento educacional participativo. Cortez. SCHAEFER Maria Isabel Orofino. UFSC. Florianópolis. São Paulo. Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escolar. São Paulo. VALE. Paulo Roberto. Petrópolis. GADOTTI. 1991. São Paulo. Poder local e Educação. Portugal. Cortez. Feusp. 1992. 1989 (Tese de Doutorado). 1996 (Colecção Cadernos Pedagógicos. Maximiliano & SANTANNA. 1996.SILVA. 24). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. 1996.. Paulo. Brasília. MARQUES. Petrópolis. Eleição de diretores: a escola pública experimenta a democracia. 1994. Editora Autores Associados. PARO. jan/jun. 1). 1996. Libertad. ROMÃO. São Paulo. ed. Celso dos Santos. pp. 1994. SILVA.

Essa preocupação tem-se traduzido sobretudo pela reivindicação de um projeto político-pedagógico próprio. Nunca nossas escolas discutiram tanto autonomia. das comunicações. Muito menos à questão do seu projeto. renitente um velho cravo para mim. (Tanto mar) Chico Buarque PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ Moacir Gadotti Até muito recentemente. pelo pluralismo político. Neste texto. caracterizada pela globalização da economia. mas não responde a todas as questões atuais da escola. pela emergência do poder local. cidadania e participação. cresce também o desejo de afirmação da singularidade de cada região.USP e diretor do Instituto Paulo Freire . Já murcharam tua festa. gostaríamos de tratar Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo . da educação e da cultura. Nessa sociedade cresce a reivindicação pela participação. específico de cada escola. É um dos temas mais originais e marcantes do debate educacional brasileiro de hoje. pá fiquei contente E ainda guardo. A crise de paradigmas também atinge a escola e ela se pergunta sobre si mesma.Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício Carlos Drummond de Andrade Foi bonita a festa. sobre seu papel como instituição numa sociedade pós-moderna e pós-industrial. autonomia e contra toda forma de uniformização. de cada língua etc. a questão da escola limitava-se a uma escolha entre ser tradicional e ser moderna. pá mas certamente esqueceram uma semente nalgum canto de jardim. A multiculturalidade é a marca mais significativa do nosso tempo. Essa tipologia não desapareceu.

o plano fica no campo do instituído. um norte. metas e procedimentos . bem como as dificuldades. Na escolha do diretor ou da diretora percebe-se já o quanto o seu projeto é político. ou melhor. a partir dele.faz parte do seu projeto. Eles são insuficientes. A pluralidade de projetos pedagógicos faz parte da história da Educação da nossa época. desaparece aquela arrogante pretensão de saber de antemão quais serão os resultados do projeto para todas as escolas de um sistema educacional. obstáculos e elementos facilitadores para a elaboração do projeto político-pedagógico. Ao contrário. como defende o discurso em torno da "qualidade". sempre um processo inconcluso. Portanto. Por isso. que é a sua história. o conjunto dos seus currículos e dos seus métodos. sublinhando a sua importância e seu significado. assim. o que se está elegendo é um projeto para a escola. A escola.deste assunto. todo projeto pedagógico da escola é também político. Isso não significa que objetivos. pois. A arrogância do dono da verdade dá lugar à criatividade e ao diálogo. Não se constrói um projeto sem uma direção política. mas não é todo o seu projeto. instituir outra coisa. em particular. Não existem duas escolas iguais.como conjunto de objetivos. nesse caso. o projeto pedagógico da escola está hoje inserido num cenário marcado pela diversidade. Um projeto sempre confronta esse instituído com o instituinte. se dá a partir da escolha de um projeto político-pedagógico para a escola. Assim realizada. o conjunto de seus atores internos e externos e seu modo de vida. O projeto pedagógico da escola é. Um projeto necessita sempre rever o instituído para. Diante disso. Certamente o plano diretor da escola . Um projeto político-pedagógico não nega o instituído da escola. a direção é escolhida a partir do reconhecimento da competência e da liderança de alguém capaz de executar um projeto coletivo. a eleição de um diretor. escolhe primeiro um projeto e depois a pessoa que possa executá-lo. uma etapa em direção a uma finalidade que permanece como horizonte da escola. metas e procedimentos não sejam necessários. numa gestão democrática. De quem é a responsabilidade da constituição do projeto da escola? O projeto da escola não é responsabilidade apenas de sua direção. Tornar-se instituinte. em geral. . Como vimos. ao se eleger um diretor de escola. de uma diretora. Freqüentemente se confunde projeto com plano. Cada escola é resultado de um processo de desenvolvimento de suas próprias contradições. da "qualidade total". no cumprimento mais eficaz do instituído. um rumo.

Na gestão democrática. A gestão democrática da escola implica que a comunidade. Passamos muito tempo na escola para sermos meros clientes dela. • a gestão democrática pode melhorar o que é específico da escola. em primeiro lugar. Não se entende. Mudança que implica deixar de lado o velho preconceito de que a escola pública é apenas um aparelho burocrático do Estado. um conhecimento mútuo e. pais. A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico. para isso. Propiciará um contato permanente entre professores e alunos. E para ele se tornar sujeito da sua aprendizagem precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. isto é. em conseqüência. A gestão democrática da escola é um passo importante no aprendizado da democracia. professores e funcionários assumem sua parte de responsabilidade pelo projeto da escola. Ela está a serviço da comunidade. portanto. uma mudança de mentalidade de todos os membros da comunidade escolar. uma exigência de seu projeto político-pedagógico.não se limitam à mera declaração de princípios consignados em algum documento. os usuários da escola. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. Ela exige.Por isso. A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria natureza do ato pedagógico. não deve existir um padrão único que oriente a escolha do projeto de nossas escolas. o seu ensino. Há pelo menos duas razões que justificam a implantação de um processo de gestão democrática na escola pública: • a escola deve formar para a cidadania e. sejam seus dirigentes e gestores.pressupostos do projeto políticopedagógico da escola . A gestão democrática da escola é. que faz parte também do projeto de sua vida. A escola não tem um fim em si mesma. Nisso. A autonomia e a participação . portanto.autonomia para estabelecer o seu projeto e autonomia para executá-lo e avaliá-lo. aproximará também as necessidades dos alunos dos conteúdos ensinados pelos professores. e não apenas seus fiscalizadores ou meros receptores dos serviços educacionais. e não uma conquista da comunidade. O aluno aprende apenas quando se torna sujeito da sua aprendizagem. A participação na gestão da escola proporcionará um melhor conhecimento do funcionamento da escola e de todos os seus atores. Sua presença precisa ser sentida no . uma escola sem autonomia . alunos. a gestão democrática da escola está prestando um serviço também à comunidade que a mantém. ela deve dar o exemplo.

Existem. o projeto pedagógico da escola pode ser considerado como um momento importante de renovação da . • o tipo de liderança que tradicionalmente domina nossa atividade política no campo educacional. na circulação das informações. na formação de grupos de trabalho. A atitude democrática é necessária. • a mentalidade que atribui aos técnicos e apenas a eles a capacidade de planejar e governar e que considera o povo incapaz de exercer o governo ou de participar de um planejamento coletivo em todas as suas fases. demanda tempo. podemos citar: • nossa pouca experiência democrática. Um projeto político-pedagógico constrói-se de forma interdisciplinar. Enfim. seu cotidiano e seu tempo-espaço. atitude e método. na divisão do trabalho. isto é.conselho de escola ou colegiado e também na escolha do livro didático. O projeto da escola depende da ousadia de seus agentes e de cada escola em se assumir como tal. algumas limitações e obstáculos à instauração de um processo democrático como parte do projeto político-pedagógico da escola. na organização de eventos culturais. partindo da cara que tem. A gestão democrática é. na distribuição das aulas. na capacitação dos recursos humanos etc. no planejamento do ensino. Entre eles. um projeto político-pedagógico da escola apóia-se: • no desenvolvimento de uma consciência crítica. A escola que precisa ser salva não merece ser salva. o contexto histórico em que ela se insere. certamente. A democracia também é um aprendizado. • na participação e na cooperação das várias esferas de governo. Precisamos de métodos democráticos. portanto. no processo de elaboração ou de criação de novos cursos ou de novas disciplinas. • o autoritarismo que impregnou nossa prática educacional. Não basta trocar de teoria como se ela pudesse salvar a escola. atividades cívicas. responsabilidade e criatividade como processo e como produto do projeto. no estabelecimento do calendário escolar. mas não é suficiente. A gestão democrática deve estar impregnada por uma certa atmosfera que se respira na escola. esportivas e recreativas. • no envolvimento das pessoas: a comunidade interna e externa à escola. • na autonomia. atenção e trabalho. Não basta apenas assistir a reuniões. • a própria estrutura vertical de nosso sistema educacional. de efetivo exercício da democracia. Pelo que foi dito até agora.

• suporte institucional e financeiro.principalmente dos dirigentes . Um projeto precisa ser discutido e isso leva tempo. é também decisivo para seu sucesso. por isso. sobre o que se quer inovar. O projeto que pode ser inovador para uma escola pode não ser para outra. • controle. Projeto pressupõe uma ação intencionada com um sentido definido. Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscarse. • adesão voluntária e consciente ao projeto: todos precisam estar envolvidos.escola. comprometendo seus atores e autores. Há um tempo para sedimentar idéias. Projetar significa "lançar-se para a frente". A noção de projeto implica sobretudo tempo: • tempo político: define a oportunidade política de um determinado projeto. revelam-se ineficientes a médio prazo. acompanhamento e avaliação do projeto: um projeto que não pressupõe constante avaliação não consegue saber se seus objetivos estão sendo atingidos. explícito. As promessas tornam visíveis os campos de ação possíveis. • atmosfera. pleno conhecimento de todos . A co-responsabilidade é um fator decisivo no êxito de um projeto. Nesse processo podem-se distinguir dois momentos: • o momento da concepção do projeto. Todo projeto supõe rupturas com o presente e promessas para o futuro. Como elementos facilitadores do êxito de um projeto. podemos destacar: • comunicação eficiente: um projeto deve ser factível e seu enunciado facilmente compreendido. • tempo escolar: o calendário da escola.e recursos financeiros claramente definidos. atravessar um período de instabilidade e buscar uma nova estabilidade em função da promessa que cada projeto contém de estado melhor do que o do presente. ambiente favorável: não se deve desprezar um certo componente mágico-simbólico para o êxito de um . • o momento da institucionalização e implementação do projeto. que significa: vontade política. • tempo institucional: cada escola encontra-se num determinado tempo de sua história. Um projeto educativo pode ser tomado como promessa ante determinadas rupturas. antever um faturo diferente do presente. • tempo para amadurecer as idéias: só os projetos burocráticos são impostos e. o período no qual o projeto é elaborado.

Deve ser um processo de recuperação da importância e da necessidade do planejamento na Educação. comprovada competência e legitimidade. se os que as defendem não têm prestígio. • referencial teórico que facilite encontrar os principais conceitos e a estrutura do projeto. • direitos sociais. é um conceito ambíguo. o projeto pode ficar limitado. A falta desses elementos dificulta a elaboração e a implantação de um projeto novo para a escola. O conceito de cidadania. uma certa mística que cimente a todos os que se envolvem no design de um projeto. de participação em partidos políticos e sindicatos etc. A implantação de um novo projeto político-pedagógico enfrentará sempre a descrença generalizada dos que pensam que de nada adianta projetar uma boa escola enquanto não houver vontade política dos "de cima". Tudo isso exige certamente uma educação para a cidadania. educação.projeto. o pensamento e a prática dos "de cima" não se modificarão enquanto não existir pressão dos "de baixo". Existem. Não há cidadania sem democracia. diversas concepções de cidadania: a liberal. contudo. que é uma concepção plena de cidadania. mas. Um projeto político-pedagógico da escola deve constituir-se num verdadeiro processo de conscientização e de formação cívica. a neoliberal. como segurança e locomoção. que consiste na mobilização da sociedade para a conquista dos direitos anteriormente . de voto. Existe hoje uma concepção consumista de cidadania (não ser enganado na compra de um bem de consumo) e uma concepção oposta. como liberdade de expressão. A democracia fundamenta-se em três direitos: • direitos civis. Contudo. a progressista ou socialista democrática (o socialismo autoritário e burocrático não admite a democracia como valor universal e despreza a cidadania como valor progressista). salário justo. Em 1789. como trabalho. • credibilidade: as idéias podem ser boas. no entanto. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão estabelecia as primeiras normas para assegurar a liberdade individual e a propriedade. habitação etc. O que é educar para a cidadania? A resposta a essa pergunta depende da resposta à outra pergunta: "o que é cidadania?" Pode-se dizer que cidadania é essencialmente consciência de direitos e deveres no exercício da democracia. saúde. • direitos políticos.

tão desejada. Por isso. ambas dependentes do Estado paternalista. Essas categorias se constituem na base da nossa identidade nacional. Do movimento histórico-cultural a que nos referimos estão surgindo alguns eixos norteadores da escola cidadã: a integração entre educação e cultura. apresentei um decálogo no livro Escola cidadã. ao lado de Paulo Freire. que devem ser garantidos pelo Estado. baseado nessa crença. Aprendemos também nos fins de semana. colocando dentro das escolas americanas a educação para a cidadania e o respeito aos direitos sociais e humanos. além da interação e da reciprocidade existentes entre as ciências. foram a origem do importante movimento pelos direitos civis no País. portanto. como uma alternativa nova e emergente. A cidadania implica instituições e regras justas. a escola cidadã surge como uma realização concreta dos ideais da escola pública popular.mencionados. indo. As Citizenship Schools. como diz Emilia Ferreiro. a visão interdisciplinar e transdisciplinar e a formação permanente dos educadores. A interdisciplinaridade refere-se à estreita relação que as disciplinas mantêm entre si. nas últimas duas décadas. . que surgiram nos Estados Unidos nos anos 50. Concretamente. e ainda tão longínqua em razão do arraigado individualismo tanto das nossas elites quanto das fortes corporações emergentes. escola e comunidade (educação multicultural e comunitária). Para mim. De minha experiência vivida nesses últimos anos. cujos princípios venho defendendo. gostaria de mencionar pelo menos quatro: • a escola não é o único local de aquisição do saber elaborado. o enfrentamento da questão da repetência e da avaliação. O movimento atual da chamada escola cidadã está inserido nesse novo contexto histórico de busca de identidade nacional. tentando entender esse movimento. dessa experiência vivida pude tirar algumas lições. Cidadania e autonomia são hoje duas categorias estratégicas de construção de uma sociedade melhor em torno das quais há freqüentemente consenso. E é justamente nesse contexto histórico que vêm se desenhando o projeto e a realização prática da escola cidadã em diversas partes do país. Ela vem surgindo em numerosos municípios e já se mostra nas preocupações dos dirigentes educacionais em diversos Estados brasileiros. Para finalizar. a democratização das relações de poder dentro da escola. a transdisciplinaridade refere-se à superação das fronteiras existentes entre as disciplinas. de 1992. posso tirar algumas lições que me levam a acreditar nessa concepção/realização da educação. Movimentos semelhantes já ocorreram em outros países.

que a educação deve passar não apenas por uma melhoria da qualidade do ensino que está aí. Não é preciso mais esperar para mudar. ter uma mentalidade aberta ao novo e não atirar pedras no caminho de ninguém que queira inovar em educação. no meu entender. Por isso. Mesmo assim. Estou convencido. acima de tudo. exigência premente e concreta de uma mudança estrutural provocada pela inevitável globalização da economia e das comunicações.• não existe um único modelo capaz de tornar exitosa a ação educativa da escola. no dia-a-dia. minha certeza é outra: penso que. Hoje. mas por uma transformação radical. Existem muitos caminhos. Cada escola é fruto de suas próprias contradições. A educação para todos supõe todos pela educação. Por isso. sobretudo. E o caminho que pode ser válido numa determinada conjuntura. num determinado local ou contexto. Questões para debate • Que mudanças caracterizam a sociedade pós-moderna e pósindustrial? • Como essas mudanças se refletem na educação e na escola? • Como a escola pode formar para a cidadania? • Quais são os obstáculos e os elementos facilitadores para a implantação do projeto político-pedagógico da escola cidadã? . as pequenas mudanças deveriam ser evitadas e todo o investimento deveria ser feito numa mudança radical e ampla. pode não o ser em outra conjuntura ou contexto. • a educação não será acessível a todos enquanto todos trabalhadores e não-trabalhadores em Educação. E o mais importante: isso pode ser feito já. não devemos renunciar ao nosso sonho da "grande" mudança. até para a aquisição do saber elaborado. Estado e sociedade civil . a qual poderá acontecer como resultado de um esforço contínuo.não se interessarem por ela. com pequenas mudanças numa certa direção. é preciso incentivar a experimentação pedagógica e. pela revolução da informática a ela associada e pelos novos valores que estão refundando as instituições e a convivência social na emergente sociedade pós-moderna. mudando passo a passo. podemos operar a grande mudança. • houve uma época em que eu pensava que as pequenas mudanças impediam a realização de uma grande mudança. solidário e paciente.

quero o vinho e o pão Quero a amizade. MG . Mário Quintana Quero a utopia. mais do que as suas riquezas naturais. Só a educação básica de qualidade para todos pode acabar com a miséria. O que mata um jardim [é esse olhar vazio De quem por ele passa indiferente.. (Coração civil) Milton Nascimento ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE Moacir Gadotti José Eustáquio Romão Em princípio.O que mata um jardim não [é o abandono. • a educação para o desenvolvimento: entendemos que a educação é condição sine qua non para o desenvolvimento auto-sustentado do País. quero amor prazer Quero nossa cidade sempre ensolarada Os meninos e o povo no poder.. toda escola pode ser cidadã enquanto realizar uma certa concepção de educação orientada para: • a formação para a cidadania ativa: acreditamos que a escola pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional. Isso exige uma reorientação dos investimentos públicos em educação Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo .USP e diretor do Instituto Paulo Freire José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. Será preciso preparar os jovens para o trabalho. Nosso appartheid social não será superado apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias. A educação básica é o bem muito precioso e de maior valor para o desenvolvimento. quero tudo e mais Quero a felicidade dos olhos de um pai Quero a alegria muita gente feliz Quero que a justiça reine em meu país Quero a liberdade.

por uma forte intervenção do Estado. No Brasil. Esses princípios podem ser considerados como fundamentos constitucionais da autonomia da escola.sem comprometer os outros níveis de ensino . Estamos vivendo hoje um momento diferente. que ofereceu uma escola de qualidade. A autonomia é "real". "mas a conquistar incessantemente (. John Locke concebe-a como "autogoverno" (selfgovernment). um momento de busca de síntese entre qualidade e quantidade. No que se refere à educação. 1977). da ruptura com esquemas centralizadores e. o seu conceito encontra-se na obra de diversos clássicos da educação. . em seguida. Neill organizou uma escola (Summerhill) controlada autônomamente pelos alunos. mas para poucos. 1°). Por isso. o tema da autonomia da escola encontra suporte na própria Constituição promulgada em 1988. que institui a "democracia participativa" e cria instrumentos que possibilitam ao povo exercer o poder "diretamente" (Art.e uma compreensão nova do público e do estatal. mas sem oferecer qualidade e eficiência. O educador inglês Alexander S. a Constituição de 1988 estabelece como princípios básicos o "pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas" e a "gestão democrática do ensino público" (Art. diz Georges Snyders.) é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar" (Escola. Investir mais em educação hoje no Brasil. Pode-se dizer que a autonomia faz parte da própria natureza da educação. É a vez da sociedade. Passou. A escola precisa preparar o indivíduo para a autonomia pessoal. Adolph Ferriere e Jean Piaget entendiam que ela exercia um papel importante no processo de "socialização" gradual das crianças.. Snyders insiste que essa "autonomia relativa" tem de ser mantida pela luta e "só pode tornar-se realidade se participar no conjunto das lutas das classes exploradas" (idem). sem rever o modelo de gestão da escola pública. não é suficiente para reverter o processo de deterioração do ensino básico. O Brasil passou por um primeiro momento em que a educação estava entregue unicamente nas mãos da iniciativa confessional e privada. Na história das idéias pedagógicas. no sentido moral de "autodomínio individual". que conseguiu expandir as oportunidades educacionais. a autonomia sempre foi associada aos temas da liberdade individual e social.básica . Os educadores soviéticos Makarenko e Pistrak a entendiam como "autoorganização dos alunos". da transformação social.. 206). recentemente. classe e luta de classes. mas também para a inserção na comunidade e para a emancipação social.

a educação. insatisfeita com as realizações concretas do socialismo burocrático. Autonomia e autogestão constituem-se em horizonte de construção de relações humanas e sociais civilizadas e justas. a autogestão pedagógica sempre foi considerada como alavanca da autogestão social. Nas teorias da educação. Evidentemente. na linguagem política e.Cornelius Castoriadis. nos meios intelectuais da esquerda francesa. separando "especialistas" de . pois os dirigentes de uma cooperativa são remunerados pelos próprios trabalhadores. principalmente. para compreender melhor a organização do trabalho na escola cidadã. ambas estão fundadas na ética. Autonomia e autogestão não são conceitos neutros. fala por mim" (idem). Autogestão não se confunde com participação. Autogestão também não se confunde com a co-gestão. 1982). podem confundir-se com muitas coisas. e não a participação. Portanto. A cooperativa já é um caso mais próximo da autogestão. fora da escola. A autogestão visa a transformação. pois esta significa direção conjunta de uma instituição. tem tudo a ver com a autonomia. por isso. A palavra "autogestão" aparece no início dos anos 60. Por isso. existem muitas instituições de trabalho cooperativo. A divisão social do trabalho na escola é agravada pelo fato de ela ser justificada pela "competência". em que o inconsciente é o "discurso do outro". filósofo grego contemporâneo. enquanto todos os demais simplesmente executam tarefas cujo sentido lhes escapa quase inteiramente. Para ele. "a autonomia seria o domínio do consciente sobre o inconsciente" (A instituição imaginária da sociedade. pois participar significa engajar-se numa atividade já existente com sua própria estrutura e finalidade. mais ou menos solidário. que se reflete diretamente na administração do ensino: uns poucos. A teoria pedagógica não é nada sem a ética. Autonomia não pode ser confundida com autogestão. enquanto processo de conscientização (desalienação). pressupõe o fato de que uma das formas fundamentais de exercício da opressão é a divisão social do trabalho entre dirigentes e executantes. mantendose a mesma estrutura hierárquica. detêm o poder de decisão e o controle. sobrepujando parcialmente o antagonismo entre capital e trabalho. opõe autonomia à alienação. em particular o soviético. Há uma visão progressista de autonomia e uma visão conservadora. O sentido que aqui nos interessa. Podem significar muitas coisas e. A alienação se dá quando "um discurso estranho que está em mim me domina.

Contudo. • participação comunitária e gestão democrática. tanto para os alunos quanto para os professores. • atendimento integral à criança e ao adolescente.professores. Existem ainda críticos da autonomia escolar que temem que iniciativas desse tipo levem à privatização e desobriguem o Estado de sua função de oferecer uma escola pública gratuita de qualidade para todos. A idéia de autonomia é intrínseca à idéia de democracia e cidadania. e só pode . O papel pedagógico do professor foi esvaziado. A heterogeneidade dificulta o controle. quando não o impossibilita. o problema está sendo sanado por meio da eleição para o cargo de diretor. na medida em que o pluralismo é defendido como valor universal e fundamental para o exercício da cidadania.sustentadas freqüentemente por uma concepção centralizadora da educação . com maior ou menor intensidade. na história recente das transformações dos sistemas educacionais em diversas partes do mundo. No Brasil. Todavia. Os relatos dessas experiências nos dão conta de muitas dificuldades e resistências. em uma mesma escola. são experiências muito polêmicas. mas não tiveram um impacto maior sobre os sistemas de ensino. É verdade que é mais fácil lidar com programas unificados de reformas. Ele pode ser encontrado. das habilitações técnico-administrativas do curso de Pedagogia. não tiveram continuidade. à dispersão e à preservação do localismo. Esses elementos estão sustentados por um pressuposto mais amplo: o da maior autonomia das escolas. essas objeções . Podemos encontrá-los também nas reformas empreendidas hoje por outros países. Outra objeção que costuma ser feita aos "autonomistas" é a de que autonomia da escola leva à pulverização. o que dificultaria ações reformistas ou revolucionárias mais profundas e globais. Em alguns casos. O que chamamos de escola cidadã se constitui no resultado de um processo histórico de renovação na educação. pelo regime militar. Esse movimento encontra-se não apenas na educação brasileira. podemos destacar nesses projetos e reformas alguns traços comuns: • ampliação da jornada escolar. sobretudo depois da criação. experiências isoladas de gestão colegiada de escolas sempre existiram. Cidadão é aquele que participa do governo. No caso da administração escolar. Muitas delas são fruto de iniciativa de alguns educadores e foram interrompidas quando estes deixaram a escola.são cada vez mais frágeis.

Descentralização e autonomia caminham juntas. transparência administrativa. Portanto. A autonomia admite a diferença e. tentativas e confrontos políticos entre teses diferentes e até opostas. base da democratização da gestão escolar. O que a Itália está experimentando é resultado de um longo caminho percorrido. com muitos encontros. democratização das informações. Deve-se pensar o sistema de ensino como uma unidade descentralizada. contra o instituído. Autonomia é o oposto da uniformização. A autonomia se refere à criação de novas relações sociais que se opõem às relações autoritárias existentes. isto é. A participação e a democratização num sistema público de ensino são um meio prático de formação para a cidadania. A população precisa. para instituir outra coisa. supõe a parceria. Mas eles fracassam quando instituídos como uma medida isolada e burocrática. é preciso percorrer um longo caminho de construção da (auto)confiança na escola . efetivamente. Mas para que . A luta pela autonomia da escola insere-se numa luta maior pela autonomia no seio da própria sociedade. para isso. apropriar-se das informações para poder participar. Mas. e não apenas pensá-lo.participar do governo (participar da tomada de decisões) quem tiver poder e tiver liberdade e autonomia para exercê-lo. escola autônoma não significa escola isolada. O conselho de escola é o órgão mais importante de uma escola autônoma. A criação dos conselhos de escola representa uma parte desse processo. precisa compreender o funcionamento da administração particularmente do orçamento . abertura de canais de participação pela administração. debates. Eles só são eficazes em um conjunto de medidas políticas. Não se pode fazer uma mudança profunda no sistema de ensino sem um projeto social. Só a igualdade na diferença e a parceria são capazes de criar o novo. A eficácia dessa luta depende muito da ousadia de cada escola em experimentar o novo.e as leis que regem a administração pública e limitam a ação transformadora. mas em constante intercâmbio com a sociedade. Por isso. A ampliação da autonomia da escola não pode opor-se à unidade do sistema. por isso. Esse plano supõe: autonomia dos movimentos sociais e de suas organizações em relação à administração pública.na capacidade de ela resolver seus problemas por si mesma e de autogovernar-se. Essa formação se adquire na participação do processo de tomada de decisões. é uma luta dentro do instituído. em um plano estratégico de participação que vise a democratização das decisões.

Na prática. Num sistema aberto. apesar da resistência . Costumase convocar a população para participar em horários inadequados. A escola cidadã é certamente um projeto de criação histórica. idéia tão cara à teoria da educação popular. dinâmica. Certamente. Enfim. se constitua numa estratégia explícita da administração. unificada -. social e cultural. A dialética entre as culturas faz parte da própria natureza da educação. O grande desafio da escola pública está em garantir um padrão de qualidade (para todos) e. a mudança. Adquirir uma nova cultura não é negar a cultura primeira. para facilitar a participação é preciso oferecer todas as condições. a multiculturalidade. Além disso. Esta é uma das principais razões da não-participação. como diz o filósofo francês Michel Serres. aquele que se torna um "mestiço". mas que respeite as diferenças locais e regionais. esses dois paradigmas contrários de sistema de ensino não se encontram em "estado puro". os usuários . a hierarquia e uma visão dinâmica que valoriza a contradição. em locais desconfortáveis ou de dificil acesso etc. Nesse confronto de concepções e práticas. sem nenhum cuidado prévio. a adaptação. além da sua cultura. no seu livro Filosofia mestiça. respeitar a diversidade local. a descentralização é a tendência atual mais forte dos sistemas de ensino e das últimas reformas. trata-se de construir uma escola pública universal . Mas educado é só aquele que domina.não se sentem responsáveis. Para uma administração pública construir essa escola. ao mesmo tempo.e os prestadores dos serviços . Num sistema fechado. Existe uma visão sistêmica estreita que procura acentuar os aspectos estáticos . o que temos chamado. predomina o ecletismo.os conselhos de escola sejam implantados de maneira eficaz é necessário que a participação popular. A população precisa sentir-se respeitada e ter prazer de exercer os seus direitos e de participar. de sistema único e descentralizado. Portanto. precisa trabalhar com uma concepção aberta de sistema educacional.professores e funcionários .para todos. o conflito e a autonomia. étnica. cada vez mais. o locus fundamental da educação é a escola e a sala de aula. mas integrá-la no processo de desenvolvimento humano e social. dentro e fora da escola. o nosso desafio educacional continua sendo educar e ser educado.como o consenso. o confronto entre uma visão funcionalista e estática da educação e uma visão dialética. Como vimos. uma outra cultura. o sistema tende a uma síntese superadora.pais e alunos . a ordem.

Escola significa projeto em torno do qual poderiam associar-se várias unidades escolares. E a qualidade está . A administração de um sistema único e descentralizado de ensino poderia apoiar-se em quatro grandes princípios: • gestão democrática: um sistema único e descentralizado supõe objetivos e metas educacionais claramente estabelecidos entre escolas e governo. para que tenha um sentido emancipatório. no Instituto Paulo Freire. Deve envolver a comunidade interna. por meio do que chamamos. superando o temido problema da atomização do sistema de educação. um único espaço ou local. Escola e governo elaborariam em parceria as políticas educacionais. A escola precisa ser o local privilegiado da inovação e da experimentação político-pedagógica. mas para construir e elaborar a cultura. muitas vezes associados na luta contra a inovação educacional. não apenas para reproduzi-la ou executar planos elaborados fora dela. sem que seja necessário passar por incontáveis instâncias de poder intermediário. Enfim. pois existe uma só cultura como obra humana (unidade humana na pluralidade dos homens). • autonomia da escola: cada escola deveria poder escolher e construir seu próprio projeto político-pedagógico . Seu corolário é a comunicação entre as escolas e a população. visando à democratização do acesso e da gestão e à construção de uma nova qualidade de ensino. • avaliação permanente do desempenho escolar: a avaliação.por exemplo. seja a cultura geral. Não pode ser um ato formal e executado por técnicos externos à escola apenas. • comunicação direta com as escolas: se a escola é o locus central da educação. a comunida-de externa e o poder público. a questão essencial da nossa escola hoje refere-se à sua qualidade e a uma nova abordagem da qualidade. ela deve tornar-se o pólo irradiador da cultura. Escola não significa um prédio.oferecida pelo corporativismo das organizações de educadores e pela burocracia instalada nos aparelhos de Estado.de forma que as deliberações escolares tivessem influência e peso sobre as políticas públicas educacionais. de Planejamento Socializado Ascendente . precisa ser incluída como parte essencial do projeto da escola. iniciativas deslocadas para a administração dos sistemas durante o regime militar. seja a cultura popular. como no caso do modelo hierárquico e vertical de poder.

princípios e elementos que caracterizam a escola que chamamos de cidadã? • O que falta à sua escola para que ela seja cidadã? Como construí-la? . podem diminuir os gastos com a burocracia. que são muito mais eficazes na conquista dessa qualidade do que grandes projetos anônimos e distantes do dia-a-dia escolar. • Em que medida a Constituição Federal de 1988 e a política educacional do seu município ou Estado favorecem ou dificultam a construção da escola cidadã? • Quais são os fundamentos. Isso porque só as escolas que conhecem de perto a comunidade e seus projetos podem dar respostas concretas a problemas concretos de cada uma delas. Questões para debate • Identifícar na história das idéias pedagógicas os fundamentos da escola autônoma (cidadã).diretamente relacionada com os pequenos projetos das próprias escolas. podem respeitar as peculiaridades étnicas. sociais e culturais de cada região. E a própria comunidade pode avaliar de perto os resultados.

e diretor do Instituto Paulo Freire. constituições se o teto da escola caiu se a parede da escola sumiu (Mobral) Herbert Vianna Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura. de metas a serem atingidas.. MG. . bulas.. Do que adiantam? Letras impressas das canções. a escola que apaixonadamente diz sim à vida. De qualquer maneira. em que se fala. em que se ama. que marcha. Paulo Freire CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO Custódio Gouvea L. se adivinha. em nossa vida cotidiana... de avaliações a serem Custódio Gouvea L. Paulo Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco. no caso específico da educação. que não tem medo do risco. com novas pessoas. MG. em que se atua.instruções..Do que adiantam? Placas. A partir daí passamos a ter maior segurança para caminhar. com um novo trabalho. da Motta é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. deparamos com novos ambientes. SP. realizamos espontaneamente uma sondagem inicial acerca de tudo o que nos cerca e naturalmente interpretamos as condições encontradas. José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. podemos ter a sensação inicial de insegurança. Esse processo se amplia se nos entregamos a ações intencionais e. convenções. com qualquer nova atividade ou situação. Aí percebemos a necessidade do prévio estabelecimento de finalidades. da Motta José Eustáquio Romão Paulo Padilha Quando. A escola em que se pensa. em que se cria. para seguir em frente. por isso que recusa o imobilismo.. de objetivos. Do que adiantam? Emendas. Do que adiantam? Gestos educados. para nos relacionarmos e também para participar e interferir naquele ambiente ou naquela situação. enfim. quando pretendemos desenvolver quaisquer atividades no âmbito do sistema ou da unidade escolar.

o ensino e a aprendizagem. abordaremos a Carta Escolar adaptada à unidade escolar. fisiográficas. estudou seus resultados nesses países. Nessas condições. O que é a Carta Escolar? Desenvolvida no Brasil na década de 70. Diante de circunstâncias e de ações intencionais e deliberadas. a sondagem e a interpretação dos dados observados por nossos sentidos. econômicas. Inicialmente.com muito sucesso em outros países. sondagem e interpretação de dados acabam se constituindo em etapas essenciais para que possamos. transformam-se em função obrigatória. A partir dessa analogia. Ela é um instrumento de planejamento do sistema ou subsistema educacional que permite o estudo das condições sociais. demográficas. urbanísticas e arquitetônicas de comunidades que abrigam sistemas escolares. por conseguinte. recuperou suas aplicações de sucesso no Brasil e a atualizou'. a metodologia da Carta Escolar foi aperfeiçoada e melhor aplicada . Mercês e Oliveira Fortes. apresentamos a metodologia denominada Carta Escolar. de interpretação e de análise de dados dos indicadores educacionais. Depois. ela indica as ações que permitirão a organicidade da rede física escolar.realizadas. de resultados a serem quantificados e qualificados para que correções de rumos possam melhorar a nossa atuação e. agir e buscar resultados positivos em nossas atividades. Elas estão à disposição para consulta nas sedes do Instituto. de Minas Gerais. resultados de mecanismos inconscientes de captação de informações. conscientemente. instrumento de sondagem. no sentido do atendimento das demandas O Instituto Paulo Freire de Juiz de Fora elaborou em 1996 as Cartas Escolares das prefeituras municipais de Bicas. Além disso. culturais. destinada a subsidiar ações educacionais de âmbito municipal e de sistema de ensino. a estaremos estudando em sua concepção original. que nos permite desenvolver ações com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político-pedagógico da escola. . O Instituto Paulo Freire resgatou-a. de forma que professores e demais segmentos escolares e comunitários possam utilizá-la como referencial para seus diagnósticos no âmbito estrito de suas escolas e de suas comunidades.

que utiliza uma metodologia criada pelo Instituto Paulo Freire. sexo e escolaridade por setor censitário. para garantir facilidades de acesso. idade. e da demanda real e potencial. é inserida uma descrição do seu cenário geográfico. bem como para a definição das áreas de jurisdição das escolas.específicas de cada nível. aspectos . Os mesmos dados são lançados em mapas municipais para que se tenha uma visão mais clara das deficiências ou duplicações existentes em função dos adensamentos populacionais e das barreiras físicas ou urbanas que influenciam no dimensionamento da rede física escolar. material didático). são coletadas informações sobre outros indicadores sociais que interferem no desempenho do sistema educativo. faz um levantamento real e efetivo de toda a população do município. Entre os elementos externos que interferem no processo de escolarização. com sua localização. caracterizadas em seus estratos sociais a partir de dados fornecidos por um Censo Escolar. demografia. com seu perfil profissional. assim. Para se ter uma visão da realidade de cada município. malha viária. com suas características específicas e com os elementos que influenciarão na escolarização. É realizado também um levantamento exaustivo da capacidade instalada da rede escolar do município. que devem ser profundamente estudadas para verificar suas influências no planejamento educacional do município. Todos os dados coletados são tabulados por meio de sistemas computacionais que fornecem uma série de indicadores para as projeções de expansão ou contração da rede. tanto em termos de recursos físicos (instalações. infra-estrutura e atividades econômicas. destacam-se a topografia. a partir da delimitação de setores censitários. Ademais. com escala que permite uma representação suficientemente precisa e detalhada da rede escolar. é aplicado um questionário em todas as residências (urbanas e rurais) e coletadas informações referentes à renda. quanto de recursos humanos (docentes e não-docentes). barreiras urbanísticas. equipamentos. a racionalização da expansão da rede física escolar. na medida em que indica os locais a serem implantadas as novas unidades escolares com vistas ao atendimento de áreas já densamente povoadas ou de indução de adensamento. Para tanto. por amostragem. Essa Carta possibilita. O Censo Escolar. a Carta Escolar é um instrumento operacional cujo suporte físico é um mapa topográfico. hidrografia. segurança e conforto compatíveis com as faixas etárias dos usuários.

suas demandas e das respectivas projeções futuras. passando por sua evolução político-administrativa.relevo. a Carta levanta. indicar o estabelecimento de áreas de jurisdição de escolas. e. situação legal e histórico de sua evolução ao longo dos anos. assessorar os municípios na elaboração e implementação de planos educacionais. otimizar a aplicação de recursos destinados à educação. características sócioeconômicas predominantes de sua clientela. das lacunas a serem preenchidas e das prioridades educacionais a serem estabelecidas e implementadas. A partir da identificação dos problemas a serem atacados. sua capacidade instalada. para alimentar. jurisdição e manutenção. finalmente. partindo de uma série de "retratos" tirados ao longo dos anos e revelados coletivamente. Todos esses elementos contribuem para a caracterização da educação no município. maximizar a utilização da capacidade física instalada. do município ou do Estado. considerando todos os elementos que possam influenciar o processo educativo. área de abrangência. levantar os dados sobre os limites e potencialidades do setor educacional do município para o atendimento das demandas que sejam resultantes de levantamentos e de pesquisas cientificamente consolidados. a Carta Escolar tem por finalidade promover um amplo diagnóstico da educação no município. clima e vegetação -. o processo decisório da comunidade local. com a participação dos próprios agentes escolares. prever o desenvolvimento do sistema escolar em função da demanda social por matrículas. hidrografia. dos avanços a serem continuados e estimulados. A Carta Escolar tem como objetivos fornecer vários subsídios para o conhecimento efetivo da real situação da educação municipal. já que a finalidade precípua da Carta Escolar é o arrolamento analíticocrítico dos principais componentes de seus serviços.físicos . Como vimos. seus recursos humanos. Observe-se que a Carta Escolar. . desde as origens. No caso específico de uma escola. Sua análise constitui o cerne do trabalho. uma análise detalhada da sua evolução demográfica e econômica e uma reconstituição de seu quadro histórico-social. enquanto diagnóstico da capacidade e demanda educacionais da escola. é possível uma intervenção precisa no sistema educacional dos municípios. até o contexto contemporâneo. quantitativa e qualitativamente. torna-se instrumento indispensável para a elaboração dos projetos político-pedagógicos em todos os níveis educacionais. minuciosamente.

e em especial com os professores e supervisores de ensino.e. com vistas à compatibilização entre as disponibilidades potenciais e às necessidades educacionais projetadas e decorrentes do direito de todos a uma educação básica de qualidade.servidores municipais. aspectos físicos . o Instituto Paulo Freire propõe algumas recomendações à administração municipal. fundamentalmente. de curto. com o envolvimento de toda comunidade municipal . De sua elaboração participa uma equipe responsável do Instituto Paulo Freire. além de inserir os problemas educacionais do município em um universo mais amplo. • conclusões e recomendações: à luz dos dados analisados. e uma análise dos aspectos demográficos. • caracterização educacional do município: esta parte. os vereadores do município -. será o cerne do trabalho. os lotados na Secretaria Municipal de Educação . ainda. já que sua principal finalidade é o arrolamento analítico-crítico dos principais componentes de seus serviços e demandas educacionais e de suas projeções para o futuro. médio e longo prazos.Estrutura da Carta Escolar A Carta Escolar é um trabalho coletivo. já que os componentes municipais constituem conteúdos curriculares importantes na escolarização dos discentes do ensino fundamental. que oferece os dados coletados aos pesquisadores. formada por professores coordenadores. • reconstituição da trama das relações histórico-sociais: procurase fazer a reconstituição dessa trama.relevo. com informações sumárias sobre a flora e a fauna. desde as origens. relativamente independente. geógrafos. hidrografia e clima -. apontamento de rumos e recomendações a serem submetidas ao . também oferece aos professores subsídios para o desenvolvimento da integração social com seus alunos. independentemente das facções políticas a que pertençam . com a colaboração da população em geral. Além dessa equipe. sua criação e evolução político-administrativa. O resultado da Carta Escolar deve servir como indicação. técnicos em informática e recenseadores. Observamos que a Carta Escolar. Ao final do trabalho elabora-se um minucioso relatório com as seguintes informações: • cenário geográfico do município: descrição da localização. a mesma conta.

como projeções e busca de indicadores de qualidade do município. sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por setor. subsidiando. oferece ao diretor da escola. além de outras informações que possibilitem a realização de projeções máximas de atendimento de alunos por faixa etária e por série para o ano seguinte à pesquisa. adaptada a cada estabelecimento de ensino. aqui apresentada sinteticamente. objetos de estudo mais profundo sobre cada aspecto específico e submetidas ao crivo das decisões políticas do município. em conjunto com os órgãos de representação democrática dos diversos segmentos sociais. e relatórios com dados sobre os alunos que estão freqüentando a escola. tabulados e analisados. A CARTA ESCOLAR ADAPTADA À UNIDADE ESCOLAR A Carta Escolar. A Carta Escolar. O relatório traz ainda informações sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por faixa etária (analfabeto. acompanhados das respectivas totalizações numéricas e estatísticas. pode servir também para a obtenção de outras informações. por idade. total e universo). e setor. entre outras inúmeras combinações que podem ser realizadas. por faixa etária e série. por meio de suas legítimas representações e lideranças. portanto. e resumo com os totais daquelas projeções para o ano seguinte à pesquisa. assim. O relatório final da Carta Escolar apresenta. com a distribuição da população por sexo. de forma a servir de subsídio para estudos e como instrumento técnico de atualização fatura da Carta Escolar ou de outras pesquisas que se fizerem necessárias no município. Todas essas informações podem ser mantidas em arquivo: dados coletados. alfabetizando. e sobre aqueles que não a freqüentam. fora da escola. ainda. Tais recomendações e conclusões devem ser. aos administradores municipais mapas de localização dos setores censitários e das escolas. evadido.processo político decisório da comunidade local. à renda por estratos sociais e ao grau de escolarização de sua população. a formulação e implementação de políticas de outros setores da administração pública. embora se dedique ao levantamento da realidade educacional. . faixa etária. aos seus professores e a todos os segmentos escolares uma "fotografia" das reais condições da escola. tabelas e gráficos com os dados relativos aos aspectos demográficos em geral.

todas as atividades. Como a Carta é um instrumento elaborado coletivamente. de interações e de forças que caminham juntas para a concretização das finalidades e objetivos educacionais estabelecidos democraticamente por toda a equipe escolar. de sua elaboração participam organizadamente a equipe diretiva da escola. . o estabelecimento de Os Conselhos de Escola . Colegiado Escolar. Deve ser elaborado um plano de trabalho para o Censo Escolar que estabeleça objetivos. Caixa Escolar. Mestres e Comunidade (APMC) etc. do conjunto de itens desse plano de trabalho. o discente. Associação de Pais. Fórum de Gestão Participativa. o Grêmio Estudantil. como também muitos são os sujeitos que deles farão uso e a partir deles tomarão decisões. ela servirá inicialmente como pólo aglutinador de intenções.que subsidiará a elaboração de seu projeto político-pedagógico e de seu planejamento participativo ascendente. também. os mesmos não devem ser entendidos como "camisa-de-força". metas. a APM e representações dos segmentos extra-escolares . Em outras unidades da Federação o mesmo organismo pode ser chamado de Conselho Escolar. incluindo necessariamente o Conselho de Escola. O Censo Escolar tem início tão logo se realize a articulação de todos os segmentos escolares.termo usado no Estado de São Paulo. ao apresentarmos alguns parâmetros para a realização da Carta Escolar. todo o corpo docente. Com isso queremos dizer que. as equipes responsáveis pelo recenseamento e suas respectivas coordenações. Ela pressupõe divisão de poder e de responsabilidades. por mais bem-vindas que possam ser algumas receitas em certas situações. A avaliação de cada etapa do processo faz parte. Nesse documento devem ser previstas. as mães e os pais de alunas e alunos e os representantes da comunidade escolar e extra-escolar. Conselho Deliberativo Escolar. Não temos a intenção de padronizar ações nem de oferecer receitas metodológicas prontas para o consumo. Os recursos necessários para a execução do trabalho e suas fontes precisam igualmente ser definidos. ainda. metodologias de ação e distribuição de tarefas. Conselho Educacional e Comunitário. As Associações de Pais e Mestres (APMs) também são chamadas de Associação de Apoio à Escola (AAE). no aspecto técnico e científico. Assim. como também o serão os eventuais assessores que estarão subsidiando. Círculo de Pais. Assim. As presentes recomendações são uma possível base para a realização de um diagnóstico escolar. uma vez que os dados a serem coletados e levantados são muitos.

equipamentos e recursos materiais: especificação.ensino poderá dispor de informações e de estatísticas confiáveis para decidir seus futuros passos e elaborar seu projeto político-pedagógico. tipo da escola. estado de conservação e adequação das instalações escolares. Dessa forma. de bibliotecas. que organizarão o levantamento das seguintes informações: • identificação da escola: nome. de áreas esportivas. com acréscimos de séries ou graus. de horta escolar. distrito. propriedade do prédio. em treze itens. existência e condições de salas da diretoria. • estrutura física: discriminação minuciosa da estrutura física da escola. quantidade. CGC etc. do forro. endereço completo. de refeitórios. atos de autorização de reconhecimento. se sofreu alteração ao longo dos anos. com suas respectivas dimensões.) e a reconstituição da história da escola: como nasceu a idéia de sua instalação. suas dimensões. departamento em que está lotado. a visibilidade e. salas de aula . do piso. por exemplo. tais como água. situação institucional (mantenedor. de ensino. a análise ficam mais fáceis: EXEMPLO: INSTALAÇÕES ESCOLARES Dependências/Quantidade Dimensões (m2) Estado de conservação Adequada/Inadequada Observações • mobiliária. Podem ser incluídos também neste item os tipos de serviços disponíveis na escola. Quando esses dados são colocados em quadros. Além desses dados. situação da construção. hortas comunitárias. contendo o tipo e a quantidade de dependências. por que razões etc. estado de . esfera administrativa a que pertence. quando foi criada e quando começaram suas atividades. rede de esgoto ou de tratamento de água. de cozinha. de depósitos. energia elétrica etc. de aulas etc). os questionários para a coleta de dados podem ser divididos. de salas-ambiente. localização/zona. de sanitários para alunos e professores. conseqüentemente. de áreas de lazer. linhas telefônicas. área que a escola ocupa. do cercamento. de salas de vídeo. áreas livres. são incluídas informações sobre: terreno. o que servirá também aos professores quando da elaboração coletiva e individual de seus planejamentos e de seus planos (de curso. da secretaria. de laboratórios. região. do acabamento. espaços para áreas esportivas. de salas de professores.

o número de alunos em cada turno e tipo de fornecimento . ano de admissão na escola e número de repetências. carga horária semanal. em contas bancárias. da Caixa Escolar etc. de vídeo. os aprovados e os reprovados. equipamentos de cozinha. microcomputadores etc. as pendências administrativas ou das condições atuais dos serviços de secretaria. quais estão no seguro. do número de alunos evadidos. • recursos humanos: todos os recursos humanos de que a escola dispõe devem ser relacionados: docentes e não-docentes. por exemplo. das transferências recebidas. quais precisam de consertos. Devese relacionar o nome completo do servidor. A escola pode criar e levantar seus próprios quadros para relacionar as informações de que necessita. a distribuição dos alunos segundo a distância a que residem da escola e o tempo que levam para chegar até ela. das transferências expedidas. fax. fitas de vídeo. os valores em caixa. giz. considerando-se também as turmas e as séries. quais estão em garantia. levantamento contábil completo e nível de autonomia financeira da escola. gravadores. máquina de xerox. cursos realizados etc. especificando o número de vezes em que é servida por turno. projetores de slides. • recursos financeiros: relacionar as receitas da escola. filmadoras. separada por séries e graus (ou níveis) de ensino e com dados da matrícula inicial.conservação relativo a carteiras e cadeiras escolares. lousas. ainda. de jardinagem. a distribuição de alunos por turnos e séries e em relação à merenda escolar. • matrícula e evolução da demanda: aqui se devem criar quadros ou utilizar os já existentes na escola para informar a distribuição da matrícula segundo sexo. série. mobiliários para os alunos. função. textos. de limpeza. livros na biblioteca. cadernos. a evolução da demanda. retroprojetores. disciplina que ministra (no caso de docentes). além de informações sobre o tipo de organização dos arquivos da escola. . tempo de serviço na escola e no serviço público. grau de escolaridade. aparelhos de televisão. armários. lápis.se sistemático ou não. identificando as fontes e sua destinação (despesas). Neste item cabem ser anotadas. Pode-se levantar. as características sócio-econômicas predominantes entre os alunos. levantar balanços da APM. Nesse sentido. as condições de manutenção dos equipamentos. antenas parabólicas. dedicação exclusiva ou não.

ao número de funcionários. do Conselho de Escola e demais representações de segmentos escolares. APM e Grêmio Estudantil: síntese especificando as atividades desenvolvidas por essas instituições escolares. informações que revelem as deficiências da escola em relação à formação dos docentes..• projetos desenvolvidos na escola: levantamento sobre os projetos pedagógicos. • características da gestão e das relações humanas na escola: definir tipo e características da gestão escolar. administrativos ou financeiros desenvolvidos pela escola nos anos anteriores. incluindo-se aí os segmentos escolares envolvidos nos mesmos. pinta. igreja. Caixa Escolar.). Anotar nesse item. à participação dos segmentos na instituição escolar e às diferentes instâncias administrativas. clubes. grau de instrução. • características do bairro: levantamento de informações gerais sobre o bairro em que a escola está inserida: sua história transformações por que passou e como se deram. os programas de formação dos quais participam ou já participaram os membros dos segmentos escolares. anotar. se possível com todas as suas características e com os resultados efetivamente obtidos. a atuação da equipe de direção. habilidades artísticas (se canta. • deficiências detectadas na escola: em relação a todos os itens pesquisados. escreve.. profissão. seus membros e representantes e o tipo de atuação que desempenham na escola. dança. ao prédio escolar. ainda.). incluindo os espaços que utilizam.. o nível de participação da comunidade escolar. no ato mesmo do levantamento. às condições administrativas. • Conselho de Escola. pedagógicas e financeiras da escola. toca.. distribuição do tempo de trabalho pedagógico da equipe docente etc. escola. aos recursos materiais. bairro. • características da comunidade: levantamento de dados sobre os moradores do bairro em que a escola está inserida: nome. de docentes e de apoio técnico administrativo e operacional. procedência. se tem serviços . participação em associações (sindicato. Os fatores que impactaram negativamente o desempenho escolar deverão ser usados como referência para a construção de estratégias para sua superação. às instalações e aos equipamentos. ao interesse dos alunos. bem como informações sobre os projetos em andamento.

pois a escola não pode ficar à deriva. equipes formadas por representantes de todos os segmentos escolares. porque as ações a serem . construindo e exercendo. rede de esgoto. participarão dessa outra etapa que. iniciando-se a fase propriamente de diagnóstico ou interpretativa. qual é o seu lazer preferido. o mesmo não só é possível . Além disso. A primeira vista. de livrarias. primeiro. áreas de interesse. asfalto. em especial aos professores e aos alunos. de farmácias. contudo. exige a organização das tarefas. pode parecer muito dificil e complexo realizar um diagnóstico escolar com tal amplitude. de hospitais.como é absolutamente necessário à construção coletiva de um projeto político-pedagógico. coleta seletiva de lixo. de áreas de lazer. a sua cidadania. de igrejas. como as demais.como luz elétrica. se tem movimentos sociais organizados.porque contará com a participação e o envolvimento de todos . local de trabalho etc. o diagnóstico ficaria incompleto. número de repetências. incluir também os alunos que não são atendidos pela escola. número de transferências. e. água encanada. outros cursos. deixada à sua sorte. procedência. desde cedo. certamente. Para tabular e interpretar qualitativa e quantitativamente os dados do Censo. a atribuição de responsabilidades e a elaboração do plano de trabalho. com quantas pessoas vive. Sua concretização. uma ampla vivência da prática democrática no âmbito escolar. a descentralização das funções. habilidades artísticas. É importante ressaltar que esse levantamento pode e deve. que estarão assim se formando enquanto sujeitos ativos. se são realizados eventos culturais. de biblioteca. o número de habitantes. ao contrário. desde o início. condições de moradia. Esta experiência possibilitará a todos os sujeitos que dela participarem. local de moradia. especialmente pelos docentes da escola. deverá ser acompanhada e assessorada pelas instâncias superiores da administração escolar. na seqüência. de que tipo e com que freqüência etc. No entanto. sexo. pois. Esse processo se constituirá. em uma aprendizagem para todos os que atuam direta ou indiretamente na escola. segundo. porque prevê o envolvimento. um trabalho pedagógico coerente com as características e com as necessidades dos discentes. a construção coletiva tende a aumentar a probabilidade de se obterem resultados satisfatórios a curto prazo. de forma plena. o que garantirá. • caracterização dos alunos: idade.

Questões para debate • O que é e em que medida a Carta Escolar contribui na construção do projeto político-pedagógico da escola? • Que informações essenciais a Carta Escolar pode oferecer para a construção do projeto político-pedagógico da escola? • Como organizar a escola para a realização do Censo Escolar? • Qual é o papel pedagógico que a elaboração da Carta Escolar pode ter? .implementadas na escola considerarão o diagnóstico feito a partir dos dados levantados e da análise crítica da realidade constatada.

três. fará o quê? Conseguirá inserir-se no mercado de trabalho? Será uma cidadã ativa} Conhecerá seus direitos? Saberá exigir e lutar por eles? A escola convive com as alunas e com os alunos diariamente e.. brinca afoitamente para aproveitar cada segundo do recreio. não aprenderá a avaliar. dificilmente aprenderá a pensar e decidir coletivamente. Ela chega à escola. dois anos. recolhe o material para voltar para casa. apresentará dificuldade para ouvir o outro. se fala no momento que bem entende... não se faz com palavras desencarnadas.. Há quanto tempo ela está ali? Um ano.) A gente vai contra a corrente Até não poder resistir Na volta do barco é que sente O quanto deixou de cumprir Faz tempo que a gente cultiva A mais linda roseira que há Mas eis que chega a roda viva E carrega a roseira pra lá. conversa no pátio com os amigos.. Ângeh Antunes Ciseki é professora da rede de ensino municipal de São Paulo e diretora técnica do Instituto Paulo Freire . estende a mão para pegar o prato de merenda. mas com reflexão e prática. se só realizar tarefas individuais. mas também pelas relações que estabelece com eles no dia-a-dia. se só é avaliada.. segue atentamente as explicações na sala de aula. ensina não só por meio do conteúdo com o qual trabalha em sala de aula. Paulo Freire (. dificilmente aprenderá a falar. Se a aluna só ouve. de maneira consciente ou não. (Roda viva) Chico Buarque CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ Ângela Antunes Ciseki Observemos uma aluna.? Quantas horas diárias ela passa na escola? Quando concluir o ensino fundamental.É que a democracia. como qualquer sonho.

proporcionando o exercício da cidadania. Querendo ou não. .definição do calendário. como diz Carlos Drummond de Andrade: "As leis não bastam. Por isso. a escola não educa só quando educadoras e educadores escrevem ou falam.um colegiado formado por pais. Nesse sentido. alunos. E.também ensinam algo às alunas e aos alunos. professores. É necessário que os educadores tenham consciência de sua prática e saibam a serviço de que projeto de sociedade ela está.se só cumprir ordens. ele precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. distribuição das carteiras etc. distribuição das aulas. projeto esse inserido no projeto de vida do próprio aluno.pode ser esse espaço de construção do projeto de escola voltado aos interesses da comunidade que dela se serve. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. diretor. Os lírios não nascem das leis". Mas. Por meio do Conselho.salas de aula. salas de reunião. O conteúdo com o qual a escola trabalha e a prática que adota estão contribuindo para formar que tipo de ser humano? Para viver em que sociedade? "O aluno aprende quando ele se torna sujeito de sua aprendizagem. poderá definir e acompanhar a educação que lhe é oferecida. para ele se tornar sujeito de sua aprendizagem. a população poderá controlar a qualidade de um serviço prestado pelo Estado. o aprendizado de relações sociais mais democráticas. dos dias de prova. é necessário que a gestão democrática seja vivenciada no dia-a-dia das escolas. O Conselho de Escola já é realidade em muitas escolas de Estados e municípios de todas as regiões do país. a prática cotidiana contribui para reforçar ou superar determinadas formas de agir e pensar.e a forma como a escola organiza seu espaço . os professores e outros representantes da comunidade interna e externa à escola podem participar da construção da escola que desejam? O Conselho de Escola . A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico. que seja incorporada ao cotidiano e se torne . do tempo reservado a cada área do conhecimento. A forma como a escola organiza seu tempo . a formação de cidadãos ativos. ou seja. não aprenderá a ser criativa etc. se suas tarefas forem sempre dirigidas. não aprenderá a estabelecer seus limites. ao recreio. pessoal administrativo e operacional para gerir coletivamente a escola ." (Gadotti) Mas de que forma os alunos podem participar da definição do projeto da escola? Como os pais. ao contato com os pais .

o debate se intensificou e alguns Estados já sancionaram suas leis que dispõem sobre o tema. outro fato contribuiu para acelerar as mudanças nessa área: a promulgação da Constituição Federal de 1988. transparência administrativa. pelo menos tem diminuído os lobbies corporativistas. entre outras providências. há de se criar as condições concretas para o seu exercício. a redefinição de tempos e espaços escolares que sejam adequados à participação.394. na forma desta Lei e das legislações . Nos municípios e Estados que já acumularam experiência em relação à prática da democratização. a gestão democrática vem exercendo influência positiva sobre: • a estrutura e o funcionamento dos sistemas: . capacitação profissional). canais de participação (ampliação do acesso à informação) e. n2 9. condições legais de encaminhar e colocar em prática propostas inovadoras. • a definição e acompanhamento da política educacional: o aumento da ca-pacidade de fiscalização da sociedade civil sobre a execução da política educacional. • a qualidade do ensino: formação para a cidadania (cria possibilidades de participar da gestão pública). Além das práticas exitosas no campo da gestão democrática do ensino público que Estados e municípios vêm desenvolvendo."colaboração" entre os sistemas e comunicação direta da Secretaria da Educação com as escolas. •o órgão de gestão da Educação: plano estratégico de participação. política salarial. inciso VI). A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). de 20 de dezembro de 1996. respeito aos direitos elementares dos profissionais da área de ensino (plano de carreira.tão essencial à vida escolar quanto é a presença de professores e alunos para que a escola exista. também estabelece como princípio a "gestão democrática do ensino público. tomemos conhecimento de seus limites e avanços e. por isso. que requer. num processo c o n t í n u o de p r á t i c a e r e f l e x ã o . s u p e r e m o s suas falhas. mesmo antes de uma regulamentação nacional. É necessário ainda que conheçamos as experiências já vividas. Para isso. 206. aperfeiçoando seus aspectos positivos e criando novas propostas para os problemas que persistem. a construção cotidiana e permanente de atores sociopolíticos capazes de atuar de acordo com as necessidades desse novo que fazer pedagógico-político. se não tem extinguido. C o m a instituição da "gestão democrática do ensino público" (Art.

seminários. inciso II. Art. 39). de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: (. da escola de melhor qualidade: CAPACITAR TODOS OS SEGMENTOS A participação exige aprendizado. seja na definição das políticas educacionais..) II . As experiências revelam que tanto a comunidade externa quanto a comunidade interna à escola apresentam limites à participação.participação das comunidades escolar e local em Conselhos de Escola ou equivalentes". comprometer-se com esta capacitação. Para o efetivo exercício da gestão democrática da escola é necessário capacitar todos os seus segmentos. assembléias. conseqüentemente. E no Artigo 15. principalmente quando se trata de uma população .dos sistemas de ensino" (Inciso VIII. tendem a garantir maior sucesso na conquista dessa democratização e. CONSULTAR A COMUNIDADE ESCOLAR Se desejamos que a população se incorpore à vida social. não podemos conceber a definição da política educacional e a gestão escolar com caráter centralizador e autoritário. define um dos princípios da gestão democrática: "Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica. INSTITUCIONALIZAR A GESTÃO DEMOCRÁTICA A consulta e a participação das comunidades escolares possibilitam aos governos estaduais e municipais respaldo democrático para . encontros etc. com presença ativa e decisória. As secretarias da Educação devem. seja na vivência delas na prática cotidiana. se considerados.que historicamente tem sido alijada dos processos decisórios de seu País.. O processo de consulta e intervenção por parte dos usuários junto aos órgãos governamentais deve ser prática constante. devem ser promovidos para esclarecer a população e contar com sua participação. Pressupostos da gestão democrática As experiências já vivenciadas em relação à democratização da gestão escolar apontam alguns pressupostos que.que é o nosso caso . Nesse sentido. debates. portanto. principalmente pais e alunos. respondendo às exigências dessa prática.

mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos. GARANTIR LISURA NOS PROCESSOS DE DEFINIÇÃO DA GESTÃO Para que se garantam transparência e respeito aos princípios éticos nas ações relacionadas à gestão democrática . normativa e fiscalizadora. a prática vivenciada pelos diferentes municípios e Estados que já contam com Conselhos de Escola em funcionamento aponta alguns parâmetros a serem considerados para a sua constituição: NATUREZA DO CONSELHO DE ESCOLA • deliberativa. DAR AGILIDADE ÀS INFORMAÇÕES E TRANSPARÊNCIA ÃS NEGOCIAÇÕES A descentralização implica o acesso de todos os cidadãos à informação. que atendam às reais necessidades educacionais da população. Informação necessária não apenas no início do processo administrativo. as instâncias administrativas não podem prescindir de canais que possibilitem agilidade e eficiência na comunicação entre elas e a população.encaminhar ao Poder Legislativo projetos de lei mais consistentes. • elaborar. fixar democraticamente as normas e mecanismos de fiscalização etc. implantação dos Conselhos de Escola e gestão da instituição educativa -. ATRIBUIÇÕES FUNDAMENTAIS • elaborar seu regimento interno.escolha dos dirigentes escolares. . acompanhar e avaliar o projeto políticoadministrativo-pedagógico. É preciso garantir a todos o acesso às informações. consultiva. todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. Nesse sentido. aprovar. Parâmetros para a constituição do Conselho de Escola Além dos pressupostos destacados para a institucionalização e implantação da gestão democrática.

secreta e facultativa. • membros do magistério e demais servidores que possuam filhos regularmente matriculados na escola poderão concorrer só como membros do magistério ou servidores. PROCESSO DE ESCOLHA DOS MEMBROS • a eleição dos representantes dos segmentos da comunidade escolar que integrarão o Conselho de Escola. respectivamente. COMPOSIÇÃO • todos os segmentos existentes na comunidade escolar deverão estar representados no Conselho de Escola. • a função de membro do Conselho de Escola não será remunerada. • participar de outras instâncias democráticas. • constituir comissões especiais para estudos de assuntos relacionados aos aspectos administrativos. se realizará na unidade escolar. • ninguém poderá votar mais de uma vez no mesmo estabelecimento. acompanhar e fiscalizar políticas educacionais. A PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE ESCOLA • qualquer membro efetivo do Conselho de Escola poderá ser eleito seu presidente. • definir e aprovar o plano de aplicação financeira da escola. municipal e estadual da estrutura educacional. . para definir. como conselhos regional. assegurada a paridade (número igual de representantes por segmento) e proporcionalidade de 50% para pais e alunos e 50% para membros do magistério e servidores. bem como a dos respectivos suplentes. para encaminhar e dar continuidade aos trabalhos a que se propôs. por votação direta. conforme necessidade da escola. • serão válidas as deliberações do Conselho de Escola tomadas por metade mais um dos votos dos presentes à reunião.• criar e garantir mecanismos de participação efetiva e democrática da comunidade escolar. desde que esteja em pleno gozo de sua capacidade civil. pedagógicos e financeiros da escola. NORMAS DE FUNCIONAMENTO • o Conselho de Escola deverá reunir-se periodicamente (com encontros mensais ou bimestrais).

Mesmo variando o número de membros. elegem por voto direto os professores que os representarão no Conselho. salvo nos assuntos que. ele pode ter de 16 a 40 pessoas. quatro alunos e quatro representantes da equipe administrativa. com direito a recondução. Podem . • poderão participar das reuniões do Conselho com direito a voz e voto todos os membros eleitos por seus pares. professores. sejam restritivos aos que estiverem no gozo da capacidade civil. Se houver. direção e demais funcionários. os profissionais de outras secretarias que atendam às escolas. quatro professores. a composição é sempre paritária. • poderão participar das reuniões do Conselho de Escola. com direito a voz e não a voto. mas também um instrumento de gestão da própria escola. todos os outros membros do Conselho são eleitos por seus pares . haverá também quatro pais. no caso da cidade de São Paulo. dependendo do número de classes que a escola possuir. Com exceção do diretor.CRITÉRIOS DE PARTICIPAÇÃO • os representantes dos alunos a partir da 4a série ou com mais de 10 anos terão sempre direito a voz e voto. Por meio do Conselho. financeiros e pedagógicos.os professores da escola. é sempre garantido o mesmo número de representantes por segmento. Conselho de Escola: estrutura e funcionamento O Conselho de Escola é um colegiado formado por todos os segmentos da comunidade escolar: pais. todas as pessoas ligadas à escola podem se fazer representar e decidir sobre aspectos administrativos. Todos os alunos. por força legal. por exemplo. A sua configuração varia entre os municípios e os Estados que já o implantaram. por sua vez. também escolhem os alunos que os representarão e assim por diante. movimentos populares organizados e entidades sindicais. Grêmio Estudantil. por exemplo. representantes de entidades conveniadas. No município de São Paulo. tornando esse colegiado não só um canal de participação. membros da comunidade. que é membro nato. O MANDATO • Um ano. ou seja. por exemplo. alunos.

apreciar. decidir. As mais freqüentes são as atribuições de natureza consultiva e deliberativa. Sua função é sugerir soluções. indicar. deliberar etc. As atribuições dos Conselhos de Escola. como o próprio nome diz. à substituição de algum membro que deixe de comparecer às reuniões etc. na prática. opinar e propor. Mas. à tomada de decisões (por votação secreta ou aberta). pode não ser suficientemente esclarecedora para mostrar o que significa. elaborar. não toma decisões. Cada Conselho de Escola pode. Observe-se. que mostram como esses Conselhos. Participam com direito a voz e voto somente os membros eleitos. todos os que trabalham. elaborar um regimento interno. dentre outras coisas. como definir (diretrizes). têm filhos na escola ou fazem parte de movimentos organizados da região em que a escola está inserida. além daqueles. que poderão ou não ser encaminhadas pela direção. aprovar. O Conselho de natureza consultiva. com direito a voz. possuem maior força de atuação e de poder na escola. avaliar. ao horário em que elas serão realizadas. os deliberativos. se achar necessário. Já nos documentos sobre Conselhos de natureza deliberativa. a descrição de suas atribuições geralmente vem marcada por verbos como acompanhar. trabalhar com um Conselho deliberativo ou com um Conselho consultivo. apenas é consultado em relação aos problemas da escola. Nos próprios documentos. se considerarmos algumas atribuições específicas dos Conselhos de Escola. normativa e fiscal. A afirmação acima. assessorar. o seu funcionamento e a sua composição. a título de ilustração e de elucidação de nossa preocupação. Outro aspecto a ser mencionado refere-se às funções que os Conselhos de Escola podem desempenhar: consultiva. teremos um . outros verbos. estudam. que a elaboração do regimento interno deve sempre estar em consonância com a legislação em vigor e observar as normas dos respectivos conselhos e secretarias municipais e estaduais da Educação. analisar. ao tempo de duração das reuniões. arbitrar. analisada isoladamente pelo prisma semântico. se os membros formarão chapas ou apresentarão candidaturas individuais). estabelecendo normas em relação à convocação das reuniões ordinárias e extraordinárias. discutir. são determinadas pelo regimento comum de cada rede de ensino. a redação de suas atribuições apresenta. ainda. garantir. à eleição de seus membros (se será através de assembléia ou votação de urna. eleger. à dinâmica das reuniões.participar das reuniões do Conselho. deliberativa.

instância executiva ("poder executivo") que se encarregará de colocar em prática as decisões ou sugestões do Conselho de Escola. podemos fazer uma breve analogia entre ele e os poderes Legislativo e Judiciário.dependendo dos encaminhamentos e da votação em plenária -. no trabalho cotidiano do Conselho. É mais enfático. ele determina onde e como aplicar tais verbas. Há. mais efetiva ou mais formal. tomar decisões em relação à vida escolar. discutir e deliberar sobre os critérios de avaliação da instituição escolar como um todo. o Conselho. Dependendo da natureza do Conselho de Escola. discutir e arbitrar critérios e procedimentos de avaliação relativos ao processo educativo e à atuação dos diferentes segmentos da comunidade escolar. também pode. na prática. que conta com a representatividade de atores educacionais e comunitários. "leis" que regerão o funcionamento da escola ("poder legislativo") e acompanhar a sua execução pela direção ("poder judiciário"). serem aprovadas e remetidas para o corpo diretivo da escola. ele decide. funcionários e comunidade escolar como um todo poderá ser maior ou menor. o Conselho vai muito além de apresentar propostas. também. é possível afirmar que a participação de alunos. uma diferença fundamental entre decidir ou simplesmente opinar sobre procedimentos relativos à priorização de aplicação de verbas. pais. No primeiro caso. democraticamente. os membros da . analisar e definir prioridades. discutir suas diretrizes e metas de ação. criando normas. O Conselho é a instância em que os problemas da gestão escolar serão discutidos e as reivindicações educativas serão analisadas para. A responsabilidade é ainda maior quando se delibera quanto à organização e ao funcionamento geral da escola. guardados o graus de autonomia e consideradas as diretrizes gerais da administração. do que quando se opina ou se assessora a direção da escola no mesmo sentido. garantir que. Tentando esclarecer um pouco mais a importância do colegiado deliberativo. do que somente discutir sobre essa questão. os verbos citados podem significar. se for o caso . Não podemos considerar a natureza dos Conselhos como uma questão menor. Assim como criam leis (Poder Legislativo) e acompanham sua execução (Poder Judiciário). enfim. julgando e garantindo para que elas sejam cumpridas. Suas funções são sempre revestidas de grande importância e relevância: definir o regimento interno. professores.quadro mais nítido acerca das diferenças que.

objetivos marcantes do Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. administrativa ou financeira da escola. para que a democratização e a autonomia da escola sejam alcançadas. opinem e proponham ações que contribuam para a solução dos problemas de natureza pedagógica. Fica claro que o Conselho de natureza deliberativa é aquele que melhor pode contribuir.escola e da comunidade apreciem. que representa grande avanço na direção do exercício permanente da democracia e da cidadania na escola e na sociedade em geral. Questões para debate • Por que democracia na escola? • De que forma o Conselho de Escola pode ser um espaço de exercício da cidadania? • Como garantir a participação e o envolvimento de todos os segmentos escolares? • Qual a relação entre Conselho de Escola e melhoria da qualidade do ensino? . ativa e efetivamente.

é sempre um novo recomeçar. Uma atmosfera cor-de-rosa entre docentes e equipe diretiva. alguma retração. . Por todo lado. que logo em seguida declara abertos os trabalhos. cautelosos. um clima de alegria. Professoras e professores. mas. Vai começar a primeira reunião de um novo trabalho educativo. alguma aproximação. Todos ocupam seus lugares e as boas-vindas são oferecidas pela diretora. e diretor do Instituto Paulo Freire. antigos companheiros de trabalho. SP.A autonomia é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar. Georges Snyders Uma semente atirada Num solo tão fértil Não pode morrer É sempre uma nova esperança Que a gen te alimenta De sobreviver (Amor à natureza) Paulinho da Viola PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA José Eustáquio Romão Paulo Roberto Padilha Início do ano letivo. com sua voz grave. também participam da confraternização. Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco. recémingressantes. Educar é uma luta constante. A diretora da escola exercita sua pontualidade. Dia de reencontros explosivos. de abraços meteóricos. O coordenador pedagógico convida os presentes. observada carinhosamente por seus colegas. O tema da reunião administrativa e pedagógica é planejamento e organização do trabalho na escola. Uma professora chega atrasada na ponta dos pés. a se encaminharem para uma sala de aula onde a reunião se realizará. de qualquer maneira. olhares curiosos. MG. José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. todos concordam.

lista de alunos das novas turmas. crachás para as primeiras séries. as aulas terão início. definido pela equipe diretiva durante as férias dos professores. elaboração do horário de aulas. pontualidade dos professores na entrada e na saída. "planejamentos". sobre as próximas tarefas. Para tanto. que fala um pouco sobre a organização da escola. Terminada a dinâmica e estourado o tempo da reunião na parte da manhã. "normas" e "prazos". tal o silêncio que toma conta do ambiente. novos horários de intervalos. Informa que os planos de ensino deverão ser providenciados pela equipe docente e entregues ao final dos três dias de reuniões. Notase no recinto um amargo sentimento. Lembra que os mesmos deverão ser elaborados em fina consonância com o Plano Diretor da Escola e com os Planos de Cursos já definidos nos anos anteriores. como informa a diretora. Solicita a formação de equipes. novas regras para a utilização da cantina. calmamente. O tempo acaba não sendo suficiente. Em seguida. por meio da qual orienta cada grupo para que se reúna por meia hora e em seguida apresente aos demais grupos alguns objetivos específicos de suas disciplinas para o ano letivo. após o que. entre outros. de acordo com suas disciplinas. como deveria ser. o coordenador pedagógico dá início a uma dinâmica de grupo. como se o encantamento inicial tivesse se evaporado subitamente e dado lugar a um ar de constrangimento. novo código disciplinar para os alunos. Sem escolha. dedicando-se mais à "parte administrativa". Professoras e professores. imediatamente. por sua vez.O coordenador pedagógico passa a falar. foram elaborados pelos especialistas da escola dentro dos padrões científicos e técnicos exigidos pela Secretaria da Educação e estão perfeitamente de acordo com os Planos Nacional e Estadual de Educação. cada representante de grupo lê os objetivos específicos aos quais chegara sua equipe. que já se mostravam confusos e aparentemente desanimados diante das palavras "planos". ela distribui uma pauta mimeografada. transfere-se para o período da tarde o início da elaboração do planejamento. passa a palavra à senhora diretora. o coordenador pedagógico anuncia o início das exposições orais. o que não consegue provocar reações nos companheiros. com os itens que estarão sendo "discutidos": entrega de documentos. Após quase uma hora. estão agora ilhados em suas definições. Agora. Distribui uma papeleta para cada uma delas. Acrescenta que estes. os professores .

a partir dos quais poderão adaptar seus planos de ensino dos anos anteriores. que cuidemos da prática atravessada pela teoria e pensemos na teoria enquanto reflexão sobre a prática. teoria e prática estão sempre imbricadas. Assim começava a tarefa de planejar naquela escola e naquele ano. ou seja. se alguma semelhança tiver com a realidade. A situação descrita. efetivamente. que a todos lembrava experiências burocráticas de anos anteriores nada compensadoras. exigem-nos um tratamento praxiológico. que pretendemos aqui realizar.disporão de novos livros didáticos enviados pelas editoras. muitas vezes. na verdade. Planejamento educacional e organização do trabalho na perspectiva da escola cidadã Devemos esclarecer que quando pensamos no planejamento educacional e na organização do trabalho na escola em uma . Preocupa-nos a possibilidade da ocorrência de situações parecidas com a aqui ilustrada nas escolas atuais. as chamadas "semanas de planejamento" ou "reuniões administrativas e pedagógicas". Trata-se. Não questionamos aqui a necessidade dessas reuniões na escola. E é nesse contexto que se realizam. em si. gerando resultados negativos no espaço escolar. de fragmentos de experiências verificadas em muitas escolas há alguns anos e mesmo hoje em dia. Mas se há o risco de a ficção confundir-se com a realidade. mas pode ser um primeiro passo para uma reflexão mais profunda sobre o planejamento participativo ascendente e a organização do trabalho na escola. Elas estão muito distantes das que. devemos estar refletindo sobre essa realidade. mas os equívocos das atividades propostas e realizadas na reunião anteriormente relatada. não é mera coincidência. Poderíamos iniciar a reflexão discutindo o significado de alguns termos relacionados ao tema em questão. Nesse sentido. Não que definir este ou aquele termo possa resolver o problema. São exatamente estas questões que estaremos analisando no decorrer do estudo do tema planejamento socializado ascendente e organização do trabalho na escola. Seria pois impossível tratar de planejar as atividades da escola e da educação sem considerar essa característica. Os temas em questão. deveriam ocorrer nessas situações.

Planejar a educação é tema de extrema relevância para contribuir na direção da melhor organização do trabalho na escola. Dessa forma. Pensar em planejar a educação é parte essencial da reflexão sobre como realizar e organizar o trabalho escolar. sobretudo. com quem e para quem se planeja. organizando a educação. Realizar os diversos planos e planejamentos educacionais e escolares. interpessoais e profissionais neles presentes. levando-se em conta o contexto e os pressupostos filosóficos. Isso significa encarar de frente os problemas dessa instituição e do sistema educacional como um todo. entendemos que a inexistência de um Conselho atuante e de um projeto político-pedagógico pode ser compensada. o quando e o onde planejar. no desenvolvimento do próprio ato dinâmico de planejar. É estabelecer fins e meios que apontem para a sua superação. a implantação progressiva do Conselho de Escola e a elaboração de um projeto político-pedagógico. de caráter político e ideológico e isento de neutralidade. pela prática do planejamento coletivo.perspectiva cidadã faz-se necessário explicar o significado da palavra cidadania. um projeto político-pedagógico nos estabelecimentos de ensino. por meio de uma prática democrática . temporariamente. Isso exigirá. de seus direitos e deveres. é responder a um problema. entendida aqui como o exercício pleno e democrático. Observe-se. que não é possível dissociar a idéia de planejamento educacional e escolar da necessidade de se desenvolver. o porquê. avaliando e ampliando a participação de diferentes atores em sua administração e em sua gestão. Isso significa que. O nosso objetivo é inverter a relação vertical. o para quê. planejar. Por outro lado. mas sem desconsiderar as condições do presente e as experiências do passado. significa exercer uma atividade engajada. culturais e políticos de quem. compreendendo as relações institucionais. para que esta atinja os fins que justificam sua existência. em sentido amplo. O resultado desse processo será influenciar e provocar transformações nas instâncias educacionais que historicamente têm ditado o como. pensando e prevendo necessariamente o futuro. enquanto entidade que tem por principal missão propiciar aprendizagens e formar cidadãos. por parte da sociedade. intencional. por meio do Conselho de Escola. visando atingir objetivos antes previstos. científica. assumindo a escola como instância social de contradições que propiciam o debate construtivo e. portanto. linear e hierarquizada que tem caracterizado a prática do planejamento no sistema educacional.

formas de avaliação do trabalho na escola etc. Será. e viabiliza a execução e a avaliação do que foi planejado. o planejamento educacional e a organização do trabalho escolar pensados e acompanhados por todos e para todos não serão atividades meramente burocráticas. tanto para o municipal quanto para a unidade escolar. Em se tratando do diagnóstico. identificando todas as suas características. metodologias de ação. bem como da demanda real e potencial. Dessa forma. pedagógicos ou financeiros. técnicas.e de um planejamento interativo e participativo. ao definir objetivos. essencial para a elaboração do Planejamento Socializado Ascendente. tem um objeto de estudo bem definido. Se pensarmos na formulação de um planejamento educacional conforme descrito acima. estamos fazendo opções. a atividade de planejar é sistemática. porque envolverá a participação e a tomada de decisões da população em relação a um serviço prestado pelo Estado. pois. como tem ocorrido no país nos últimos 25 anos. o que facilita o trabalho de quem planeja. especialmente se isso é realizado coletivamente. possui um padrão. é um levantamento exaustivo da capacidade instalada.e para a qual apenas os especialistas estão devidamente preparados. pela ação. material didático etc). pode-se utilizar a metodologia da Carta Escolar.porque científica . tanto em termos de recursos físicos (instalações. precisamos inicialmente fazer um diagnóstico da escola e/ou do município no qual ela se insere. sim. seus problemas e necessidades em relação à demanda de recursos físicos. um verdadeiro exercício de cidadania. com seu perfil profissional. quanto de recursos humanos (docentes e nãodocentes). estamos atribuindo às nossas ações educativas caráter transformador ou conservador. Com tal compreensão e prática estaremos desvelando o mito do planejamento e enxergando o seu caráter político e ideológico. equipamentos. estaremos quebrando e desfazendo. O Planejamento Socializado Ascendente Não é demais lembrar que estamos diante da possibilidade de utilização de um instrumento que contribui para a construção da . metas. apresenta uma metodologia. Esse diagnóstico. A interpretação dos dados coletados indicará as prioridades a serem consideradas no ato do planejamento político-pedagógico da escola. humanos. a crença de que planejar é atividade muito complexa . Ao contrário: por ser científica.

Planejar socializadamente pressupõe a prestação de um serviço à comunidade. Outro pressuposto fundamental do Planejamento Socializado é a não separação estanque dos diferentes momentos da atividade de planejar. para que a escola funcione bem. Quando nos referimos ao Planejamento Socializado Ascendente. do qual ela participa diretamente. 4). n. Outra característica de um planejamento socializado que podemos registrar é o fato de ele prever que a participação de certos segmentos escolares e comunitários . p. São Paulo.como a dos pais. professoras. Não se trata de adesão a um processo já iniciado. que valoriza todos os níveis de participação da escola. estamos também diante de um tipo de planejamento participativo. No entanto. Dessa forma. funcionários da escola) já tenha sido iniciado. a de associações escolares e comunitárias . "dotado de tensões que precisam ser vividas e administradas". estadual e federal. 1. sem exceção. Feusp. entendendo esse processo participativo em seu dinamismo. desde o princípio do planejamento escolar. ou seja.municipal. A primeira característica é o fato de ser um planejamento socializado. 21. isso não significa dizer que todos os segmentos estarão participando o tempo todo de todas as tarefas e de todos os tipos de planejamento a serem realizados na escola ou na . fica garantida a participação de todos os segmentos. Assim sendo. jan/jun. com suas representações nos diferentes momentos do processo educativo. a visão de totalidade desse processo coletivo. é mister a participação efetiva de todos: alunas e alunos. pp. Ao contrário. a tomada de decisão. que envolve a reflexão. o planejamento socializado é extremamente relevante e. segmentos ou grupos comunitários e sociais que direta ou indiretamente atuam e se relacionam com a escola e com os demais níveis educacionais . comunidade escolar e extra-escolar.não ocorra apenas quando o planejamento com outros segmentos (direção escolar. a partir da integração das forças de todos os sujeitos. 79-112. mães e pais de alunos e de alunas. professores. a organização da ação e a avaliação de resultados. ou depois de definidos alguns critérios básicos que deverão ser cumpridos. que apresenta duas características fundamentais explícitas na sua própria denominação."educação para a cidadania". no momento do planejamento. dividindo com eles o poder de decisão. professores. 1995. a dos alunos. funcionárias e funcionários da escola. v. direção. como diz João Pedro da Fonseca (Revista da Faculdade de Educação. tem-se.

interferindo assim na definição das políticas públicas municipais. a partir das bases (todos os segmentos envolvidos no processo de planejamento). poderá haver atividades que envolvam equipes multissegmentárias que. a divisão de tarefas. Ao pensarmos no Planejamento Socializado Ascendente estamos viabilizando o projeto político-pedagógico da escola. Isso não só seria inviável em termos operacionais como excluiria diferenças inegáveis em termos de maior capacitação de determinados segmentos para a coordenação e a participação em certos componentes do planejamento. Ordenar a participação é. Nesse sentido. operacionalizam-se a ação e todas as etapas do planejamento escolar. em outros níveis. interescolares. definir a coordenação de grupos. outras instâncias representativas intermediárias podem ser criadas em nível local ou regional (conselhos regionais. intermunicipais) para a troca de experiências e para a adoção de propostas educacionais mais amplas. viabilizando a consolidação de decisões e deliberações dos grupos participantes. Representantes da escola deverão ser também definidos pelo grupo para que as consolidações do Planejamento Socializado Ascendente não fiquem restritas aos muros escolares. Ou seja. que os temas que não forem objeto de consensos básicos retornarão a todo o grupo e serão rediscutidos. estaduais e federais de educação. poderão estar trocando experiências a todo o momento e repassando-as aos grupos mais específicos. tudo o que estiver acontecendo na escola será também socializado com outras escolas.educação. Apesar disso. que poderão influenciar os demais níveis da administração e do planejamento educacional. . Esse processo revela a importância do Conselho de Escola dos Conselhos Municipais e Estaduais de Educação de elevar aos níveis superiores da administração educacional as deliberações tiradas na base do sistema de ensino. todos os segmentos terão suas tarefas bem definidas. a segunda característica desse tipo de planejamento que chamamos de estratégia ascendente. Além dessas. Esta estratégia implica combinar. deflagrado o processo. Mas. tais representantes estarão veiculando as experiências de suas escolas em outras instâncias e níveis educacionais. com outras experiências. pois. ainda. tudo o que ficar consolidado terá de ser aprovado pela maioria. Dessa maneira. assim. escolher representantes dos segmentos escolares e das equipes multissegmentárias para que se organizem consensos básicos. observando-se. Além disso.

Estará também contribuindo para superar a resistência à participação no âmbito escolar. MEC/SEF. Lida ela com interesses relevantes para a sociedade toda. 9. o planejamento deve começar pela inserção de toda a sociedade no debate democrático. a organização e a condução da escola de intenções políticas em interação dinâmica e conflitiva. pela ação do poder político organizado no Estado com seus níveis de município. dos movimentos sociais. que. sem sentido. invertendo a relação de poder na educação e.Como explica Mário Osório Marques. O Planejamento Socializado Ascendente pretende quebrar a coluna dorsal do planejamento educacional autoritário. embora articuladas fora da escola. em movimento ascendente. de caráter tecnicista e com objetivos apenas formais.Série Atualidades Pedagógicas. sobre questões relativas não só ao processo de ensino e aprendizagem. modelam e controlam. Metodologia de elaboração do Planejamento Socializado Ascendente Consideramos que planejar a educação de forma socializada é exercitar a cidadania. Dependem a concepção. a penetram. "a comunidade argumentativa dos interessados no projeto político-pedagógico da escola não se limita. das demais instituições da sociedade civil e. de estados-membros e da Federação. e desde que os recursos públicos são gerados nos processos do trabalho" (O projeto pedagógico da Escola. pp. das organizações locais. que perpassam as demais instituições sociais e os grupamentos humanos em articulações múltiplas e complexas. Sendo assim. já que implica tomada de decisões. seja em que nível for. em especial. desde que se concebe a democracia como o efetivo poder dos cidadãos no mundo de suas vidas. envolvimento com as ações do cotidiano escolar e avaliação dos serviços prestados à população. . 1994 . "Dão-se as relações entre a escola e a sociedade pela mediação da família e dos grupos de iguais. de cima para baixo. na própria sociedade. por conseguinte. que considera (com razão) o planejamento atualmente praticado uma atividade meramente burocrática. mas também em relação às questões administrativas e financeiras da escola e da própria sociedade em que ela se insere. 10-11). Brasília. porém. ao interior e ao entorno imediato dela.

para tanto. num horizonte de tempo predeterminado. elaboradas cientificamente e baseadas numa nova ética que considere e respeite. Cuidados com o democratismo e com o risco do populismo devem ser tomados. pois. Concluída essa etapa. após verificar-se a disponibilidade de meios para a sua superação. A Carta. Portanto. desenvolvida pelo Instituto Paulo Freire.considerando sempre os condicionantes socioculturais e políticos que influenciam e afetam diretamente o cotidiano escolar. o primeiro passo do Planejamento Socializado Ascendente na unidade escolar é a Carta Escolar. ao contar com as comunidades intra e extra-escolar e ao ouvi-las. estará buscando as possíveis alternativas de solução aos problemas encontrados. co-responsabilizando-se com a busca de soluções e superação dos problemas. municipal e estadual. por meio da metodologia da Carta Escolar. a ser realizado mediante a aplicação de metodologias inovadoras de pesquisa. a tentação de se querer resolver de uma só vez e de modo idealista todos os problemas detectados no diagnóstico realizado. a participação de todos os segmentos. podem inviabilizar o . o cronograma de atividades. as metas. levando a eles as prioridades definidas pela unidade escolar. devem ser escolhidos os representantes da escola que atuarão junto aos colegiados intermediários e conselhos municipais e/ou estaduais de Educação. já garante. Como só é possível planejar a partir de um contexto bem específico e conhecido. por exemplo. Definidas as ações. o tipo de avaliação que se fará do processo e que se estabeleçam as intervenções a serem realizadas na escola. nessa fase. É importante evitar. se presentes. É necessário também que se contextualizem os objetivos. a escola terá diante de si as informações que lhe permitirão definir prioridades. sobretudo. enquanto estudo inicial de dados da realidade escolar e de diagnóstico (ou interpretação daqueles dados). devemos. pois o amplo levantamento de informações torna-se inviável sem que todos estejam envolvidos. as estratégias de ação. partir de um diagnóstico detalhado da escola e da educação em nível local. A Carta Escolar. Isso pode ser feito. desde o início do planejamento. Se confiará na capacidade reflexiva de todos os segmentos escolares e comunitários e em suas potencialidades de ação. a história e a cultura local dos cidadãos pesquisados. as tarefas e as equipes responsáveis pelas mesmas. Essas devem ser escolhidas por ordem de prioridade.

a todos os segmentos escolares e à comunidade educacional em geral. aos educandos. cabendo aos educadores. as conquistas e os entraves verificados em todo o processo. as possíveis etapas desse processo podem ser as seguintes: • o Conselho de Escola convocará uma Assembléia Geral para discussão do Planejamento Socializado Ascendente. Superar tal exclusão e tal limitação é característica inerente a esta proposta. b e m c o m o os representantes de todas as instituições escolares (APM. determinam os destinos da unidade escolar ou da educação como um todo. as consolidações. definindo datas e espaços para que os segmentos escolares se reúnam em separado para eleger representantes. baseados numa suposta neutralidade política e científica. ETAPAS ESCOLARES: POSSÍVEIS PARÂMETROS O Planejamento Socializado Ascendente na escola pretende superar a prática de atribuir a competência de planejar apenas a uma minoria de especialistas. o projeto político pedagógico da escola. • elaboração do Plano de Trabalho para a efetivação da Carta Escolar. Estes. a escola poderá organizar uma comissão responsável pelos e n c a m i n h a m e n t o s relacionados ao Planejamento Socializado Ascendente. Caixa Escolar. A escola e cada um dos possíveis níveis intermediários de representação existentes deverão estar sendo permanentemente informados sobre as deliberações.processo democrático necessário ao Planejamento Socializado ascendente em quaisquer de suas fases. a tarefa de cumprir à risca o que fora por eles planejado. na escola. . Associações comunitárias deverão t a m b é m estar r e p r e s e n t a d a s . a gestão democrática. nos níveis seguintes. que estarão envolvidos na elaboração do planejamento. Grêmio Estudantil). • amplo movimento de sensibilização da comunidade para compreender a importância da Carta Escolar e de sua realização. Assim. os e n c a m i n h a m e n t o s . • T o d o s os segmentos escola res deverão estar representados paritariamente nessa reunião. • na reunião. Caso não exista um colegiado. explicar detalhadamente no que consiste esse tipo de planejamento.

• definição de equipes e tarefas relativas à primeira atividade do p l a n e j a m e n t o e organização da Carta Escolar no estabelecimento de ensino. • reuniões para organização das equipes que participarão da Carta Escolar (ver Carta escolar: instrumento de planejamento coletivo). os problemas e as demandas educacionais verificados a cada momento. sem perder de vista a multiplicidade cultural. A escola continuará contando com a devida orientação por parte das secretarias municipais e estaduais da Educação que. cotidianamente. assim. os projetos desenvolvidos. por sua vez. um i n s t r u m e n t o eficaz para c o n t r i b u i r com a melhoria da qualidade do serviço educativo oferecido pela i n s t i t u i ç ã o escolar. o fim das práticas inadequadas de avaliação do desempenho educacional do aluno. política e social que certamente aparecerá no d i a g n ó s t i c o p r o p o s t o . Dessa m a n e i r a . a definição de metodologias educacionais apropriadas . Hoje. • escolha de membros do Conselho para representar a escola nos demais níveis de planejamento educacional (local/ municipal/estadual). elaborar o Projeto Político-Pedagógico da Escola. O Planejamento Socializado Ascendente representa. definindo subcomissões para todas as tarefas necessárias à organização e funcionamento da escola nos seus aspectos administrativos. os obstáculos a serem enfrentados e o grau de realização das metas e objetivos estabelecidos no Planejamento PolíticoPedagógico da Escola. metodologias e formas de avaliação das atividades educacionais que favoreçam a ação de todos para superarem. a superação do nível insatisfatório da qualidade de ensino. Podemos concluir que o planejamento. coletivamente. a c o m p a n h a r e avaliar p e r m a n e n t e m e n t e as ações implementadas na escola. serão também influenciadas e fiscalizadas em sua própria atuação. toda a sociedade brasileira cobra. viabiliza-se o estabelecimento de metas. • Após a Carta Escolar. pedagógicos e financeiros. nessa nova perspectiva. poderá propor ações com base no estabelecimento de finalidades e de objetivos educacionais claramente definidos. • ampla mobilização da comunidade para a realização da Carta Escolar do estabelecimento de ensino. • o Conselho deverá se reunir periodicamente a fim de renovar.

de acordo com as necessidades do mundo moderno e as exigências das comunidades escolares locais. Além de reclamar. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. O Planejamento Socializado Ascendente. além de tudo. justa e solidária. direito de todos e dever do Estado e da família. Encontramo-nos diante de desafios que podem ser melhor enfrentados a partir de ações efetivamente democráticas. ética. que não garantia a participação dos segmentos escolares sequer no planejamento da escola e do ensino.e contextualizadas. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". Reclama da inexistência de uma política devidamente comprometida com as suas necessidades educativas e com os problemas enfrentados pelo magistério que favoreça. voltada para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. que não permitia aos docentes o uso da palavra. principalmente. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. ao propor uma nova orientação participativa no âmbito escolar e educacional. que entendia a organização do trabalho na escola como um rol de atividades burocráticas e puramente administrativas. que definia pautas. diminui consideravelmente a possibilidade de depararmos com experiências como a que apresentamos no início desta exposição. inclusive. contribuirá decisivamente para a redefinição das próprias políticas educacionais do País e influenciará em que se revejam as finalidades da educação. que obedecia cegamente às ordens vindas "de cima". . O Planejamento Socializado Ascendente. de fato. que aplicava dinâmicas sem critérios e sem explicar os objetivos de quaisquer atividades. apenas se referia ao aluno para discipliná-lo ainda mais e para lhe fechar os quase inexistentes espaços escolares de participação. a luta por uma educação de qualidade para todos estará. normas e prazos autoritariamente. que entendia o planejamento como uma atividade meramente formal. os seus objetivos e o próprio papel da escola na sociedade atual. a existência da gestão democrática na escola. Garantida a voz e a capacidade de ação aos que sempre se viram alijados de participar do destino da educação no País. e que. o que prevê a Constituição Federal de 1988 em seu Artigo 205: "A educação. por isso tem lutado por maior participação para cumprir. se não elimina de vez. a sociedade quer ser ouvida e quer colaborar.

Questões para debate
• O que significa planejar de forma socializada e com estratégia ascendente? • Qual a relação que existe entre esse tipo de planejamento com a organização do trabalho na escola? • Em que sentido o Planejamento Socializado Ascendente inverte a relação de poder na definição da política pública em educação? • Que parâmetros você acrescentaria ao processo de Planejamento Socializado Ascendente?

É possível formar cidadãs e cidadãos autônomos numa escola onde a autonomia não seja discutida, mas intimamente vivenciada por seus diferentes segmentos. Sônia Couto, Instituto Paulo Freire, SP

Enquanto os homens exercem seus podres poderes Morrer e matar de fome de raiva e de sede São tantas vezes gestos naturais Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo Daqueles que velam pela alegria do mundo Indo mais fundo tins e bens e tais. (Podres poderes) Caetano Veloso

DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA
Paulo Roberto Padilha Como afirma o professor Moacir Gadotti em seu livro Pedagogia da praxis (São Paulo, Cortez/IPF, 1995), "se é verdade que a educação não pode fazer sozinha a transformação social, também é verdade que a transformação não se efetivará e não se consolidará sem a educação". No mesmo sentido, não podemos pensar que a gestão democrática da escola possa resolver todos os problemas de um estabelecimento de ensino ou da educação. No entanto, sua implementação é, hoje, uma exigência da própria sociedade, que a vê como um dos possíveis caminhos para a democratização do poder na escola e na própria sociedade, conforme pudemos verificar em pesquisa recentemente realizada pelo Instituto Paulo Freire, em nível nacional. Outro aspecto que merece destaque neste trabalho é o fato de que a atual prática gestionária nas escolas acaba exigindo dos diretores uma dedicação maior, e às vezes plena, às questões adrninistrativas. Isso os obriga a secundarizar o aspecto mais importante de sua atuação, ou seja, sua responsabilidade em relação às questões pedagógicas e propriamente educativas, que se reportam à sociedade como um todo e especificamente à sua comunidade escolar. Com essa análise geralmente concordam professores, diretores, "especialistas" e "teóricos" da administração escolar.
Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco (SP) e diretor do Instituto Paulo Freire

A afirmação freqüente de que "é dificil administrar sozinho a escola" denuncia o isolamento do dirigente escolar enquanto responsável único e último pela instituição educativa, o que muitas vezes independe de sua vontade, mas não de seu cargo. A administração autocrática, isto é, a que centraliza todas as decisões e todo o poder nas mãos da diretora ou do diretor, acaba gerando uma sobrecarga de trabalho e, por conseguinte, estabelecendo relações conflituosas no âmbito escolar, o que se reflete no insucesso dos alunos. Por outro lado, é importante observarmos que a atuação do diretor, suas atribuições e seu vínculo com a escola se alteram dependendo da forma com ele foi escolhido e de acordo com o tipo de gestão que é implementada na unidade escolar. Uma reflexão sobre a gestão democrática da escola, a partir da compreensão por parte dos professores e dos demais sujeitos com ela envolvidos e, neste caso, especificamente relacionada à escolha e à atuação do dirigente escolar, pode contribuir para a superação de conflitos com vistas à melhoria do trabalho, das relações estabelecidas na instituição educativa e, fundamentalmente, da qualidade do ensino. Deparamos, pois, com um problema que nos exige soluções. Para chegarmos a elas, estaremos analisando algumas formas de escolha do diretor de escola e definindo parâmetros para a escolha de dirigentes escolares e também para a gestão democrática da escola pública. Pretendemos com isso identificar alguns princípios da implementação de uma gestão escolar democrática e também localizar algumas atribuições fundamentais dos diretores na definição de propostas de implementação daquele tipo de gestão, que devem ser compreendidas também pelos docentes e demais sujeitos educacionais. A forma predominante de escolha e de designação de dirigentes escolares no sistema escolar público brasileiro tem sido aquela decorrente do arbítrio do chefe do Poder Executivo, tanto na esfera estadual quanto na municipal, por se tratar, em sua grande maioria, de cargos comissionados, normalmente denominados "cargos de confiança". O processo de escolha democrática de dirigentes escolares tem seu início na década de 60. Em 1966, os colégios estaduais do Rio Grande do Sul realizaram votação para diretores de escola com base em listas tríplices. A partir da década de 80 e principalmente nos dias atuais, tem havido grande preocupação em relação aos processos de escolha de diretores escolares nos municípios e

se aprovado. "o diretor escolhe a escola mas nem a escola nem a comunidade podem escolher o diretor". Podemos estabelecer. n. que é obrigada a aceitar a escolha daquele. No entanto. quatro categorias de escolha de diretores escolares. 12. quais sejam: nomeação. o diretor pode acabar não tendo grandes compromissos com os objetivos educacionais articulados com . não se confere a liderança do diretor diante do pessoal escolar e dos usuários da escola pública e não se avalia o desempenho dele. portanto. de acordo com os interesses políticos e com as conveniências daqueles que o escolheram. NOMEAÇÃO O diretor é escolhido pela vontade do agente que o indica. nesse tipo de escolha. como afirma o professor Vitor Henrique Paro no artigo Participação da comunidade na gestão democrática da escola pública (Série Idéias. pelo governador do Estado ou pelo prefeito do município. ou seja. assume um cargo de confiança e torna-se o representante do Poder Executivo na escola. o que mais pesa são critérios político-clientelistas. A experiência nacional mostra que. concurso. para fins desta análise. de caráter conteudista. FDE. CONCURSO Realizado por meio de provas ou de provas e títulos. pode escolher a escola onde irá atuar. Por isso mesmo pode ser substituído a qualquer momento. As provas são geralmente escritas. Se assim acontece. Um argumento favorável à escolha por concurso é que ele defende a moralidade pública e evita o apadrinhamento político. uma vez que apenas as provas escritas e a titulação apresentada bastam para a aprovação ou a reprovação dos candidatos. Isso significa que o concurso acaba sendo democrático para o candidato.Estados brasileiros. o que vem estimulando um permanente questionamento sobre o papel do dirigente escolar na construção de uma gestão democrática da escola pública. São Paulo. Dessa maneira. mas é antidemocrático em relação à vontade da comunidade escolar. eleição e esquema misto. 1992). dissertativas ou não. Nesse processo. e a prova de títulos é a comprovação da formação específica que habilita o candidato ao cargo. ao se acentuar a adoção de critérios considerados objetivos e técnicos na definição dos concursos públicos e. que. na seleção dos candidatos.

geralmente com direito a uma reeleição. o diretor acaba tendo também maior vínculo e compromisso com aqueles que o escolheram ou indicaram. ESQUEMA MISTO Combina diferentes formas de escolha do diretor. Prevê. é oportuno observar que a partir da aprovação da Constituição de 1988 muitos administradores abriram mão da prerrogativa constitucional de nomear o diretor de escola. a comunidade escolar geralmente participa de uma ou mais fases do processo de seleção. No esquema misto. duas ou mais fases no processo de escolha. Quando é esse o caso. Por conseguinte. incluindo.este. representativo. A partir do momento em que se exige do candidato à função de diretor de escola equilíbrio entre competência técnico-acadêmica e sensibilidade política . se eleito. ainda. capacidade de liderança etc. No entanto. Consideradas essas formas de escolha aqui analisadas. iniciando o processo de implantação da gestão democrática no ensino antes mesmo de sua regulamentação e permitindo a eleição dos dirigentes escolares. não podemos mais . o que gera muitas vezes a negligência em relação às formas democráticas de gestão. a eleição se caracteriza pelo voto direto.requisito indispensável para o diretoreducador. As experiências com esse tipo de escolha têm mostrado que tal critério favorece a discussão democrática na escola e acaba implicando maior distribuição do poder para as instâncias da base da pirâmide estatal. provas que avaliem a competência técnica e a formação acadêmica do candidato. ELEIÇÃO Baseada na manifestação da vontade da comunidade escolar. por escolha uninominal ou. por escolha por meio de listas tríplices ou plurinominais. deve assumir responsabilidade política junto à comunidade escolar que o elegeu para um mandato por tempo determinado. ainda que isso não possa ser considerado uma regra. na maioria das vezes. além da sua experiência administrativa. como a história da eleição de diretores de escola no Brasil é marcada por avanços e retrocessos. colocado antes de ser resolvida a questão do provimento do cargo . tal escolha favorece a gestão democrática e colegiada na escola. por exemplo.os interesses dos usuários.

cumpre-nos discutir na escola. por sua vez.depender da vontade política das constituições estaduais e das leis orgânicas municipais. Para tanto.. torna-se necessário aproveitar a experiência democrática acumulada no País e a partir daí procurar regulamentar o princípio da "gestão democrática do ensino público. Essa participação efetiva exige. O sentimento de pertencer cria e mantém a comum identidade. 36 e 61. na comunidade e em toda a sociedade os parâmetros da gestão democrática da escola pública. (. da Constituição Federal. que. que têm consignado aos governadores e prefeitos a competência privativa para a nomeação de agentes para o exercício de cargos públicos comissionados.ou manutenção . titular de direitos e deveres. em sua tese de doutoramento na Feusp. "o termo sujeito. de tal modo que se reconhecem como mutuamente pertencentes a uma mesma história e possuindo um mesmo destino como horizonte. estarão norteando a construção de uma futura Lei da gestão democrática. intitulada Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escola (São Paulo. empenhando-se pela sua transformação . responsável. por sua vez. Segundo o professor Jair Militão..de modo a assumir a responsabilidade consciente pela própria vida. Ser sujeito é ser capaz de julgar a realidade. Assim sendo. previsto no Artigo 206. A noção de sujeito é aqui tomada em sua forma substantiva e quer significar um ser ativo. acrescido dos adjetivos corporativo ou cultural. Resta-nos observar que a eleição de dirigentes escolares aqui defendida é apenas um dos componentes da gestão democrática do ensino público e só terá efeito prático eficaz se associada a um conjunto de medidas que garantam.) Os adjetivos corporativo e cultural visam a apontar a ênfase maior ou menor que tenham os objetivos dominantes no grupo em relação à obtenção de benefícios para o próprio grupo ou para os demais . numa projeção extensiva do que dispõe a Constituição Federal sobre as prerrogativas do presidente da República (Arts. 1989). inciso VI. que procuremos entender as características dos sujeitos aos quais estamos nos referindo. a capacitação para a participação efetiva dos representantes dos segmentos escolares e da comunidade nos destinos da escola pública. por exemplo. "Há uma percepção de um nós ético que constitui tais pessoas numa unidade. refere a um grupo de pessoas que agem na sociedade conforme um critério comum que as identifica. na forma da lei". II).

. pedagógica e financeira da escola. que numa mesma comunidade podem existir vários sujeitos além dos que acima acentuou. preferencialmente os culturais. estamos aqui particularmente interessados em que esses sujeitos. A gestão democrática não é processo simples de curtíssimo prazo. numa prática a ser construída na escola. passo inicial importante terá sido dado na direção da gestão democrática que ora estamos analisando. enquanto sujeitos culturais visam objetivos de caráter mais geral cuja consecução tende a favorecer a um número maior de pessoas e grupos. que é estatal quanto ao financiamento.) sujeitos corporativos são aqueles cuja ênfase se dá na busca de benefícios limitados ao próprio grupo. tais recursos devem ter caráter . (. mas também não é processo tão complexo ou irrealizável. poderá. Nesse sentido. Ela acontecerá. o que se realiza formalmente ou informalmente. ainda. desde que as decisões relacionadas com a gestão dos recursos públicos e da verba originária de parcerias sejam administradas pelo coletivo democrático que vai gerir a unidade escolar.grupos existentes. De qualquer maneira. às ações do sujeito cultural poder-se-ia aplicar um princípio de universalidade: o que é de direito e dever para o grupo é defendido igualmente para qualquer outro grupo. A gestão democrática à qual nos referimos faz parte de uma desejada escola cidadã. por exemplo. dos interesses. A rigor. associada à elaboração do projeto político-pedagógico da escola e à implantação de Conselhos de Escola que efetivamente influenciem na gestão escolar como um todo e de medidas que garantam a autonomia administrativa. O professor Militão observa. estabelecer parcerias com outras instâncias da sociedade civil. fazendo uso de sua autonomia financeira. ou seja. se quiser. No segundo caso. para subsidiar projetos voltados para a melhoria da qualidade do ensino. de prazo interminável. o sujeito cultural é necessariamente pluralista". pois o Estado deve repassar os recursos diretamente à escola para que o dirigente escolar possa executar o que o coletivo escolar deliberou e aprovou em seu projeto político-pedagógico. mediante programas duradouros de capacitação custeados pelo Estado e pela articulação dos diferentes sujeitos escolares em torno dos problemas.. Isso significa que o mesmo se constituirá numa ação. possam vivenciar um processo de capacitação para essa participação. das expectativas e das atividades cotidianas da escola. Observe-se ainda que a escola. Se esta estiver aberta à participação. sem eximir o Estado de suas obrigações com o ensino público.

de acordo com as diretrizes definidas coletiva e democraticamente com a participação de todos os segmentos educacionais e das respectivas comissões eleitorais. Os candidatos aprovados na etapa anterior submeter-se-ão ao processo de verificação de liderança. destina-se igualmente a toda a sociedade. e não eximem o Estado. • processo seletivo prévio ao processo eleitoral. ainda. pública quanto à sua destinação. apresentando e defendendo publicamente seus programas de trabalho. definir e deliberar de forma socializada sobre as suas diretrizes e prioridades. pois todos os segmentos escolares e comunitários devem eleger o dirigente escolar. de acordo com as normas previstas democraticamente conforme acima especificado. se estes atendem às exigências quanto ao tempo mínimo de serviço público e à formação escolar mínima exigida para o cargo. isto é. seguir-se-á a eleição por voto direto. Os candidatos serão escolhidos pelos membros da comunidade escolar mediante processo que verifique competência profissional e liderança. secreto e facultativo. Essa escola é. . respeitada a paridade de votos dos diversos segmentos que a compõem e a legislação em vigor. no ato da inscrição dos candidatos. avaliar e fiscalizar a execução de seu planejamento político-pedagógico. estabelecemos o primeiro parâmetro para a escolha democrática de dirigentes escolares. Após tal defesa. Parâmetros para a escolha democrática A partir desses pressupostos. sem distinções. em que se verifique a competência profissional do candidato. em nenhuma hipótese. A forma de escolha do diretor deve prever a sua nomeação pela autoridade competente em chapas constituídas e formadas por candidatos a diretor e a vice-diretor de escola. O processo de escolha pode obedecer às seguintes etapas: • verificação. participar do Conselho de Escola. sem exceções. em chapa formada por candidatos a diretor e vice-diretor. de arcar com o financiamento da educação. acompanhar.excepcional e complementar. de forma a garantir a participação de todos os membros da comunidade escolar. A escola cidadã à qual nos referimos é também comunitária quanto à gestão. sob a coordenação do órgão gestor do respectivo sistema educacional.

tais comissões deverão coibir qualquer processo eleitoral "viciado" ou ações que possam partidarizar as eleições na escola. em virtude das características locais onde se situam as unidades escolares e especificamente para as escolas de ensino fundamental. dependendo das condições locais. Elas devem ser criadas nas unidades de ensino para planejar. poderão ser admitidos como candidatos aos cargos em questão servidores concursados ou estáveis com licenciatura em qualquer área ligada à Educação. Contudo. Um terceiro parâmetro se refere aos candidatos e às inscrições. a serem indicados em assembléias de seus pares. comissões eleitorais regionais. A comissão de cada escola deve ser composta paritariamente por representantes de todos os segmentos escolares. Quando e onde for necessário. acompanhar o processo de votação e de apuração dos votos e zelar pela lisura do processo eleitoral. municipais ou estaduais. que terão funções normativa e fiscalizadora no processo eletivo em pauta. Nenhum professor ou especialista educacional poderá candidatar-se simultaneamente em dois estabelecimentos de ensino. municipais e estaduais. Além do tempo de serviço mínimo acima especificado. os candidatos deverão ter cursado Pedagogia. dependendo da resolução de cada localidade. desde que completa. defendemos . de acordo com as normas e prazos fixados pela comissão eleitoral local ou através de instrumentos legais do poder executivo. devidamente adaptados às condições reais da unidade escolar. Poderão se candidatar os professores e especialistas em educação desde que. Deverão ser constituídas. Nesse sentido. serão admitidos candidatos com habilitação específica para o magistério (ensino médio). com licenciatura plena em Administração Escolar. Para garantir que o processo eletivo seja plenamente democrático e para que se constitua num exercício pleno de cidadania. fiscalizar. na data da convocação da eleição. Esta comissão deverá atuar em consonância com a legislação em vigor bem como com as normas fixadas para o pleito pelas secretarias estaduais ou municipais de Educação e respectivos Conselhos de Educação.Um segundo parâmetro se refere às comissões eleitorais. organizar. O quarto parâmetro que apresentamos diz respeito aos eleitores. Podem ser aceitas inscrições de chapas com candidatos a diretor e a vice-diretor. sejam servidores públicos concursados ou estáveis com efetivo exercício há pelo menos três anos na rede ou dois anos na escola onde se candidatam. concluída ou em andamento.

médio e longo prazos. com o direito a uma reeleição consecutiva. que respeitem o pleno desenvolvimento das aulas durante o período em que a propaganda poderá acontecer e que garantam a discussão política inerente ao pleito eleitoral. No segundo turno. Considerando que um projeto político-pedagógico deva contemplar propostas e avanços de curto. Verificamos. envolvendo as duas chapas mais votadas. secreto e facultativo. na promoção de discussões e debates com a mesma e na divulgação de material que torne conhecidas. pelo voto direto. Para tanto. os segmentos escolares credenciados escolherão. a predominância do mandato de diretores com a duração de dois ou três anos. em recente pesquisa. Em relação à reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período. aos alunos regularmente matriculados na escola que estejam cursando a 4ª série do ensino fundamental em diante. realizar-se-á um segundo turno. Quanto ao parâmetro da divulgação durante o processo eleitoral. previstos e divulgados antes do período de inscrição das chapas. ou que tenham completado 10 anos até a data da eleição. as mães de alunos ou os representantes legais dos alunos regularmente matriculados na escola que estejam abaixo dos limites de idade e série acima previstos. Encerrada a campanha. entendemos que a opção da reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período garante a possibilidade da continuidade de um trabalho que tenha .a garantia do voto a todos os servidores em exercício no estabelecimento de ensino. será eleita a chapa que obtiver maioria simples de votos válidos. Um sexto e último parâmetro que ora apresentamos diz respeito à duração do mandato do diretor e de seu vice. impugnando as candidaturas que promoverem a "partidarização" das eleições dos dirigentes escolares. ficaria garantida aos candidatos a realização de campanha e de propaganda eleitoral nas dependências da unidade escolar. Esta deverá adequar-se às especificidades locais da comunidade escolar. Será considerada eleita a chapa que obtiver maioria absoluta dos votos válidos (cinqüenta por cento mais um). Se nenhuma chapa alcançar tal número de votos. observamos aspectos positivos e negativos. os seus candidatos. Votam também os pais. ao máximo. as propostas de gestão das chapas. as comissões eleitorais deverão fixar prazos e normas que garantam a manutenção dos princípios éticos durante a campanha. Tal divulgação consiste na defesa pública dos programas de trabalho junto à comunidade. segundo critérios das comissões eleitorais.

portanto. à questão de como superar o veto governamental em relação à eleição direta de dirigentes escolares. por si mesma. um processo educativo que possibilita aprendizagens cidadãs e colabora para a determinação dos seguintes pressupostos da gestão democrática: • capacitação de todos os segmentos escolares para que se busquem respostas à prática educativa. . Entendemos que a discussão em torno desses parâmetros e de outras questões relativas ao tema aqui tratado já é. seja prevista em normas a serem definidas democraticamente em cada um dos sistemas de ensino em que for implantada a escolha democrática de dirigentes escolares. se desenvolverá a cultura da participação. Dessa forma. a não reeleição consecutiva promove uma renovação constante dos dirigentes escolares. A definição dos parâmetros acima encontra uma série de limites que só poderão ser superados na ação concreta e no contexto em que o processo eleitoral acontece. é obrigado a afastar-se do cargo. Por outro lado. entre outras. Outras situações ficam também em aberto. mesmo no que se refere ao número de reeleições possíveis. Isso é bom quando impede que um diretor que não cumpriu o seu programa de trabalho em consonância com o projeto político-pedagógico da escola continue no cargo. atribuindo-se responsabilidades às comunidades escolares. Sugerimos que esta problemática. quando um dirigente escolar. do envolvimento. à importância que deve ser atribuída à prova escrita como pré-requisito para a seleção dos candidatos ao cargo de diretor de escola. Preferimos deixar a questão do tempo do mandato do diretor escolar em aberto.sido aprovado pela comunidade escolar. No geral. pois dependem de uma ampla discussão e de consulta a ser realizada com a comunidade escolar. realizar seminários e assembléias e. alterando-os. aprofundar o mais possível a discussão dos anteprojetos de leis que institucionalizem as propostas de governo dos poderes executivos. à proporcionalidade na apuração dos votos. bem como a possibilidade da destituição dos mandatos dos dirigentes escolares. • consulta à comunidade escolar para que esta se cientifique da legislação pertinente às diferentes instâncias da gestão democrática e possa debater. da ação. mesmo tendo realizado uma ótima gestão. essas situações referem-se à definição da idade mínima do voto do aluno. mas que é ruim no caso inverso. se for o caso.

é importante. ainda. A descentralização implica acesso de todos os cidadãos à informação. seja em relação à responsabilidade social daquela com sua comunidade. a falta de canais de disseminação das informações por parte das administrações para todas as esferas da estrutura administrativa e para todos os segmentos da sociedade tem se manifestado como um sério entrave à participação. painéis. Todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. na implantação dos Conselhos de Escola e na gestão da instituição educativa rumo à autonomia escolar. faz-se necessária a criação desses canais: jornais-murais. • lisura nos processos de definição da gestão. que lhe exige o desenvolvimento de competência técnica. o diretor-articulador deve exercer sempre uma liderança na escola. Portanto. projetos de lei mais consistentes. encontros etc.• institucionalização da gestão democrática. Nesse sentido. Definidos alguns parâmetros da escolha democrática de dirigentes escolares e alguns pressupostos da gestão democrática da escola. possui uma função primordialmente pedagógica e social. melhor poderão ser desempenhadas as suas próprias tarefas. deve ser um articulador dos diferentes segmentos escolares em torno do projeto políticopedagógico da escola. a partir da garantia do processo de participação das comunidades escolares. Enquanto tal. mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos. Em sua gestão. para que. mas uma liderança democrática que seja capaz de dividir o poder de decisão e de deliberação sobre os assuntos escolares com . • agilização das informações e transparência nas negociações. O diretor de escola é e deve ser antes de tudo um educador. seja no aspecto organizacional da escola. que atendam às reais necessidades educacionais da população. uma breve análise sobre a função do diretor enquanto articulador da gestão democrática na instituição escolar. Quanto maior for essa articulação. para que se garanta total transparência na escolha democrática dos dirigentes escolares. os governos estaduais e municipais tenham o respaldo democrático para encaminhar ao Poder Legislativo. para atingirmos os fins aos quais nos propusemos no início desta discussão. Isso é necessário não só no início do processo administrativo. boletins. política e pedagógica. Dessa forma.

professores. poderá interferir e influenciar na gestão da unidade escolar em que atuam. a função de liderança eficaz. a função da gestão administrativa. Questões para debate • A escolha democrática de dirigentes escolares garante maior envolvimento da comunidade com a escola? Quais as implicações dessa escolha na formulação do projeto político-pedagógico da escola? • Ao se eleger uma pessoa. A partir dessa praxis. pp. Isso não significa abrir mão de responsabilidades ou das funções inerentes ao seu cargo. entre outras. entre as quais podemos citar a função educativa. conforme as palavras de Mariano Herrera (In: Colóquio: La dirección de Ia escuela. nas associações de alunos etc. a função de mobilizador da equipe docente. poderá automaticamente melhorar a qualidade do seu próprio trabalho docente. ao lado do diretor da escola. Como a escola pode tornar o processo de escolha do diretor um processo educativo? • No município em que o diretor é nomeado. pais de alunos.175-176). alunos e comunidade escolar. uma vez que estará assumindo responsabilidades. 1996. . como os professores e demais segmentos da comunidade escolar podem alterar essa forma de escolha? • Aponte vantagens e possíveis desvantagens da eleição direta para a escolha de diretores escolares. exercendo direitos e praticando a cidadania ativa na escola. criando e estimulando a participação de todos nas instâncias próprias da escola como no Conselho de Escola. escolhe-se também um projeto de escola. De todo esse processo. funcionários da escola. o professor estará participando e.

mau gosto É que Narciso acha feio o que não é espelho E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho Nada do que não era antes quando [não somos mutantes (Sampa) Caetano Veloso ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA. o professor deverá ser mais criativo e aprender com o aluno e com o mundo. época do ressurgimento do racismo e de certo triunfo do individualismo. de prestar atenção no diferente. educadores: que tipo de educação necessitam os homens e as mulheres dos próximos vinte anos para viver este mundo tão diverso? Certamente eles e elas necessitam de uma educação para a diversidade. Não haverá um papel cristalizado tanto para a escola quanto para o educador. um cenário que coloca novos desafios para nós. Uma sociedade multicultural deve educar o ser humano multicultural. Neste novo cenário da educação será preciso reconstruir o saber da escola e a formação do educador. Paulo Freire Quando eu te encarei frente a [frente não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi. mas também numa época de acirramento das contradições inter e intra povos e nações. Em vez da arrogância de quem se julga dono do saber. necessitam de uma ética da diversidade e de uma cultura da diversidade. Moacir Gadotti é professor titular da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto Paulo Freire . Numa época de violência. [de mau gosto.O diferente de nós não é inferior. A intolerância é isso: é o gosto irresistível de se opor às diferenças. de respeitá-lo. capaz de ouvir. É dentro desse cenário da pós-modernidade que a escola precisa atuar. MUITAS CULTURAS Moacir Gadotti Vivemos na era da globalização da economia e das comunicações.

por exemplo. as palavras e temas centrais de sua biografia. conhecimento. Nesse contexto global há duas dimensões que podem ser logo destacadas: • dimensão interdisciplinar: o objetivo fundamental da interdisciplinaridade é experimentar a vivência de uma realidade global que se inscreve nas experiências cotidianas do aluno. Mas há outra visão do problema. Este exercício leva à transdisciplinaridade. mas tem de ser internacional e intercultural como ponto de chegada. deve valorizar a cultura local . escola. Diante do problema do desinteresse de muitos de nossos alunos pelos conteúdos curriculares do ensino. isto é. no universo vocabular do aluno e da sociedade onde ele vive. do professor e do povo que. partindo para a transformação do contexto vivido. substituindo-a por uma visão crítica. ao rompimento com a estrutura disciplinar do conhecimento.a cultura primeira do aluno -. o professor deverá promover o entendimento com os diferentes e a escola deverá ser um espaço de convivência. meio ambiente etc. é compartimentada e fragmentada. redimensionandoa na relação com outras culturas. onde os conflitos são trabalhados. na escola conservadora. o professor precisa preparar as crianças para o mundo da diferença e da solidariedade entre diferentes. ambos buscam o seu significado social. • dimensão internacional: para viver esse tempo presente. • pela tematização: codificando e decodificando esses temas. ela se traduz por um trabalho escolar coletivo e solidário. • pela problematização: buscam superar uma primeira visão mágica (ingênua). e não camuflados. Articular saber. tomando assim consciência do mundo vivido. como ponto de partida.de agressividade. isto é. vivência. parecem contemplar essas duas dimensões: • pela investigação temática aluno e professor buscam. A escola precisa formar o cidadão para participar de uma sociedade planetária. costuma-se responder com métodos mais apropriados ou aumentando o tempo de freqüência à escola. comunidade. problematizando-os e equacionando a relação entre a transmissão da cultura e o itinerário educativo dos . Na prática. que é a de adequar o tratamento dos conteúdos. é o objetivo da interdisciplinaridade. Os três momentos do método de Paulo Freire. A escola deve ser local.

são mais eficazes para despertar o interesse. Para cumprir sua tarefa humanista. Paulo Freire chama essa cultura do aluno de "cultura popular". já que em tantos lugares de trabalho ele sempre era "envergonhado". buscar as razões para uma "vida melhor". durante a gestão de Paulo Freire (1989-1991) à frente da Secretaria da Educação do município. um grande obstáculo a ser superado. Se a escola era isso. Outros educadores que também estudaram esse tema. compreendê-la melhor. Só uma educação multicultural pode dar conta dessa tarefa. Procura formar criticamente os professores para que mudem suas atitudes diante dos alunos mais pobres e elaborem estratégias próprias para a educação das camadas populares. A educação multicultural se propõe a analisar criticamente os "currículos" monoculturais atuais.alunos. do relato de experiências de trabalho e de suas relações com o mundo. Os jovens e adultos sentiram-se mais envolvidos no processo de alfabetização. A diversidade cultural é a riqueza da humanidade. daria tudo de si para continuar aprendendo. tentando. uma estratégia de alfabetização numa concepção multicultural deveria partir da biografia dos próprios educandos. antes de mais nada. pode representar a grande diferença na extensão ou não da educação para todos e de qualidade nos próximos anos. como o educador francês Georges Snyders. Essa estratégia foi aplicada com sucesso em um programa de alfabetização na cidade de São Paulo . Atribuía a si mesmo esse fracasso e não a uma estrutura social e econômica iníqua. os resultados obtidos com currículos multiculturais . Ao contrário. sobretudo para as camadas populares. era tudo o que ele procurava. a escola precisa mostrar aos alunos que existem outras . no momento em que perceberam a importância que o professor dava à vida deles. a chama de cultura primeira. compreendê-las na totalidade de sua cultura e de sua visão de mundo. Se aprender lhe possibilitava "viver melhor". Equacionar adequadamente ou não a relação entre identidade cultural e itinerário educativo.que levam em conta a cultura do aluno . Ao "contar" o que "fez na vida". Sentia-se feliz em estar na escola. Um desses jovens dizia que tinha "vergonha" de contar sua vida porque a considerava um "fracasso". ele pôde assumila com mais confiança.Movimento de Alfabetização e de Pós-Alfabetização da Cidade de São Paulo (Mova-SP) -. por exemplo. Na educação de jovens e adultos trabalhadores. nesse aspecto. O currículo monocultural oficial representa.

educação para a paz. enfim. portanto. Pluralismo significa sobretudo diálogo com todas as culturas. não camuflá-las. educação ambiental. um conjunto amorfo de retalhos culturais. . Partindo desse princípio antropológico. como meio de fortalecer a auto-estima. para conhecer a mim mesmo. ouvir. Tudo isso é factível desde já. O mundo está se percebendo mestiço. precisa descobrir elementos culturais externos que revitalizem a sua própria cultura. escutar. Tratase de estabelecer metodologias que permitam converter as contribuições étnico-culturais em conteúdos educativos. pois só com autonomia a escola pode fazer as mudanças desejadas. • pode-se incentivar as escolas para que façam mudanças nos seus currículos. • pode-se. portanto. mas também preocupar-se com a formação global dos alunos. A autonomia da escola não significa isolamento. O professor. Escola autônoma significa escola curiosa. aceitando que. o professor de qualquer disciplina precisa ter conhecimentos antropológicos e culturais mínimos e ter um olhar educado para perceber as diferenças étnico-culturais. precisa reeducar o seu olhar para a interculturalidade. Mas. fechamento numa cultura particular. A escola não deve apenas transmitir conhecimentos. que articule a diversidade cultural dos alunos com seus próprios itinerários educativos: • pode-se fortalecer grupos que trabalham com currículos multiculturais. a partir de uma cultura que se abre às demais. numa visão em que o conhecer e o intervir no real se encontrem. impulsionando o movimento emergente de valorização das diferentes culturas. preciso conhecer o outro. ousada. muitas ações práticas podem ser desenvolvidas desde já para a construção de uma escola pluralista e competente. Mas isso já não é tão problemático hoje. As conseqüências desse enfoque para o ensino são enormes. incluindo temas como: direitos humanos. É possível e necessário. discriminação racial e cultura popular. promover a autonomia da escola na elaboração de seus currículos. é preciso saber trabalhar com as diferenças: é preciso reconhecê-las. Evidentemente. para isso. Basta abrir os olhos para a realidade.culturas além da sua. • pode-se recuperar os códigos lingüísticos das próprias comunidades desde o processo de alfabetização. buscando dialogar com todas as culturas e concepções de mundo. fazer parte da proposta educativa global de cada escola. Pluralismo não significa ecletismo.

culturais. Vivemos hoje uma explosão das diferenças . a identidade sociocultural seria um conceito inócuo se tendesse a fixar padrões culturais para apenas "preserválos".e da igualdade. Hoje é quase impossível reconhecer uma cultura que não esteja em íntima interdependência com outras. igualdade válida para todos os que a ele pertencem. identidade é a resposta que damos à pergunta: quem somos nós? Em nosso caso. uma semelhança. em particular. A cultura é dinâmica e no contato com outras culturas ela se transforma.É no contexto deste mundo mestiço que devemos colocar a questão da identidade: o que é identidade e.que coloca a questão do resgate da identidade. essa identidade estaria articulada a uma identidade nacional. de brasileiros. o que é identidade sociocultural? Primeiramente. ao mesmo tempo. para evidenciar. somos uma mistura de afroamericanos (negros). Entre antagônicos só pode haver o conflito.consciência do outro . Na identidade existe uma relação de igualdade que cimenta um grupo. O diálogo é uma relação de unidade de contrários não-antagônicos. determinada também historicamente. pois ao falarmos de identidade de uma cultura temos que localizála em um determinado tempo e espaço e no interior de um grupo étnico. . deveríamos falar de identidade étnico-cultural. que pode ser antagônica ou não. Só há diálogo e parceria quando a diferença não é antagônica. e não em "identidade cultural". Mas só isso? O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade dizia que "nenhum Brasil existe" e se perguntava: "e acaso existem os brasileiros?" O que é genuinamente nosso? O que pode constituir-se numa identidade nossa? Por outro lado. Porém. a pluralidade e o dinamismo da identidade cultural. a identidade se define em relação a algo que lhe é exterior. nacionais etc . sexuais. e. uma diferença. índios e brancos. é preferível falar-se em "identidades culturais". necessito conhecer o outro como parceiro.étnicas. para me conhecer. Por sua vez. A identidade supõe uma relação de igualdade e diferença. desde logo. diferente. Afirmar uma identidade étnico-cultural é afirmar uma certa originalidade. Idêntico é aquele que é perfeitamente igual. Como podemos articular a diversidade cultural com itinerários educativos que se direcionem para a eqüidade? Suponho que não existe condição de reconhecer a diferença se não se parte da aceitação da alteridade . Por isso. porque. Na verdade.

pensavam que se devia criar no Brasil uma "nova Europa" ou uma "nova América". a violência e o arbítrio. Um projeto de emancipação e construção de uma nova nação brasileira passava pela assunção de suas características de nação latino-americana e terceiromundista .num itinerário que vai da cultura popular à cultura erudita e letrada. mas mostra o quanto ela é insuficiente. Tratava-se do debate em torno da construção de uma identidade nacional baseada no desenvolvimento político. como é conhecido . Freire estava anunciando. A pedagogia de Georges Snyders pretende operar uma ruptura e uma continuidade entre a cultura primeira. mas também o lugar da alegria. ao contrário. Como Paulo Freire. articulando a primeira com a segunda. da "dependência" e da "consciência alienada". passando pela formação da consciência crítica. entendida como o lugar do sistemático e do progressivo. segundo ele.as elites dominantes. dialeticamente. Denunciando essa "realidade nacional".o seu "método". O pensamento de Paulo Freire tem suas raízes mais profundas no debate político-cultural brasileiro do final dos anos 50. social e econômico que. Cultura popular. Snyders não desvaloriza a cultura de massa. Paulo Freire constrói a sua pedagogia . Enfim. A cultura primeira promete . entre nós. de tomada de consciência da realidade nacional para transformála e criar novas formas de relações sociais e políticas. Paulo Freire reintroduziu a reflexão sobre o social no pensamento educacional brasileiro. própria da escola. é sinônimo de "conscientização". e a cultura elaborada. cultura popular significa cultura da cidadania. cuja modalidade mais evidente é a cultura de massa. para Paulo Freire. Significa consciência de direitos. É interessante notar as semelhanças e diferenças na visão do mesmo problema por esses dois eminentes educadores. Esse processo não poderia dar-se sem uma transformação na estrutura do ensino e da extensão da educação para todos.O tema da relação entre a diversidade cultural e os itinerários educativos já foi tratado por educadores como Paulo Freire e. segundo ele. Daí Paulo Freire insistir na questão da "invasão cultural". um vigoroso movimento em torno de um pensamento pedagógico autônomo. passava pela tomada de consciência da realidade nacional. Cada um a seu modo aponta para uma pedagogia com base no respeito à identidade cultural do educando. o seu fim e inaugurando. comprometendo-se com os ideais de uma democracia radical. por Georges Snyders. possibilidade de criar novos direitos e capacidade de defendêlos contra o autoritarismo. na França. ou seja.

Pode até destruir sua identidade por uma espécie de "esquecimento" ou rejeição da cultura primeira. a cultura.muito. A escola que tira a criança desse ambiente de bombardeamento constante dos meios de comunicação de massa e a transporta para um local enfadonho . a escola que negasse a cultura de massa estaria contribuindo para o fracasso escolar das crianças das camadas populares em face das crianças das elites. Porém. embora de forma fugaz. se quiser respeitar a identidade cultural das crianças populares. A cultura do nosso tempo é a cultura de massa. retira o que há de melhor. naturalizado francês. A cultura elaborada pode.como fizemos em São Paulo na única aldeia guarani existente na capital . É o caso. as línguas. Já existem 600 dessas escolas no Brasil. Acabam não sendo nem índios nem brancos. os costumes. por exemplo. a cultura de massa. na forma como é veiculada. Cornelius Castoriadis. deve ser um apelo em direção ao elaborado. como diz Georges Snyders no livro A alegria na escola (1988). na cultura popular e a devolve ao povo sob a forma de receitas e preceitos. é uma cultura de consumo. Ela pode representar a alienação pura. na expressão do filósofo grego. no livro A instituição imaginária da sociedade (1982). o "discurso do outro". as crenças e as tradições das comunidades indígenas. Hospedado dentro de mim. melhor que a cultura primeira. Elas têm por objetivo preservar e fortalecer a organização social.que não utiliza a sua linguagem e não satisfaz os seus desejos . A escola dos brancos pode destruir a identidade indígena. a cultura primeira. Sendo o contato com o branco inevitável. Depende do contexto histórico em que eles vivem. A sua grande força está no fato de ela nos unir instantaneamente a todo o mundo. O imediato. É uma cultura que apresenta o produto. mas cumpre pouco. nem brasileiros. do drama que hoje enfrentam algumas comunidades indígenas no Brasil. Apesar disso. o que estamos fazendo hoje . nem ocidentais.é criar escolas bilíngües. de original.fracassa na sua tarefa primeira que é despertar o desejo de aprender e desenvolver a capacidade de continuar aprendendo. A cultura elaborada não necessariamente representa algo superior para as necessidades vitais de todos os indivíduos. A escola precisa fazer a síntese entre continuidade e ruptura em relação à cultura de massa. Por isso. o outro acaba falando por mim. o como se chegou a esse produto. Ela necessita de um prolongamento na cultura elaborada. . mas não mostra o processo. atingir a satisfação prometida pela cultura primeira.

Mas os meios de comunicação de massa não são a única fonte do saber dos "menos qualificados". Dizíamos que o respeito à diferença era uma idéia muito cara à educação popular. mas é também. o questionamento das teses socialistas ortodoxas e burocráticas e a afirmação da subjetividade que se expressa por meio de movimentos sociais de índole distinta. Hoje temos mais clareza desse princípio quando as teorias da educação multicultural enfatizam ainda mais a necessidade de os educadores atentarem para as diferenças étnicas. isto é. se reduz à esfera da pura execução do trabalho. muitas vezes. culturais. a tematização e a problematização no seu trabalho pedagógico? • O que se quer dizer quando se afirma que o professor perdeu a sua identidade? • Como você vê a influência da cultura de massa na escola? . Nós dizíamos. Afirmá-la novamente se constitui. num ato pedagógico essencial na construção da educação do futuro. • Qual a diferença entre pluralismo e ecletismo? • Como o professor pode. isto é. no ato de produção. extremamente elaborado. • Descubra na sua prática dificuldades para o exercício de uma ética da diversidade. Por isso os trabalhadores não têm interesse em desenvolver o seu saber se ele não for reconhecido como poder. que se exprime pela oralidade e. se o seu saber não puder interferir na concepção e na tomada de decisão. Hoje percebemos com mais clareza que a diferença não deve ser apenas respeitada. Há uma outra fonte "mais qualificada": o saber do trabalhador se constrói e se desenvolve no trabalho. na maioria das vezes. Ela é uma riqueza da humanidade e base de uma filosofia do diálogo. aplicar a investigação temática. É um saber primeiro. como pensávamos nos anos 60. para nós. Questões para debate • Localize no texto as propostas práticas para a construção de uma escola cidadã. mais preocupados com questões imediatas do que com uma utopia distante. de classe e de gênero. É sobretudo um saber "em ato". por exemplo. como se costuma dizer na França. Os anos 90 caracterizam-se por um pensamento pós-marxista e pós-moderno. que uma educação não autoritária deveria respeitar o aluno. nas diversas disciplinas.

e analisa.(. 1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos). 65-73. Organização. sinteticamente. A ignorância a respeito do bairro. da vida dos alunos e da história de lutas que precede a conquista da escola. Um invisível cordão de isolamento: escola e participação popular. funções. tais como: participação. Aborda as dificuldades e impedimentos à participação popular na escola. Brasília.. José Matias. os atores escolares e. tecnologia e educação. Vitória . n. Jaboatão (PE). a quem transmite e a favor de quem será apropriado e aplicado. estuda as suas finalidades. caminharia em direção ao conflito aberto expresso em movimentos coletivos e em violência individual contra o prédio escolar e profissionais da escola. CARVALHO.BIBLIOGRAFIA COMENTADA ALVES. liderança. 1993. ed. Marília Pinto de. Belo Horizonte (MG). estruturas. 3. relações da escola pública com os contextos com o Estado. algumas questões ligadas à gestão escolar. São Raimundo Nonato (PI). Edições Asam. Registra experiências educacionais de 15 municípios de pequeno. Iguatu (CE). 55 p... Quanto ao projeto político da escola. às expectativas e mesmo à vida cotidiana da população à qual atende. Dom Inocêncio (PI). O livro apresenta a escola como uma organização específica de educação formal. CENPEC. São José da Varginha (MG). 70. pp. O autor chama a atenção para a necessidade da construção crítica e pessoal de um saber que pensa a escola enquanto realidade organizacional socialmente construída. ago 1989. Lisboa. São Paulo. médio e grande porte localizados em nove Estados brasileiros: Icapuí (CE). finalmente. MEC/Unicef/Cenpec. In: Cadernos de Pesquisa. Jaguaré (ES). gestão e projecto educativo das escolas. clima escolar. junto com seu isolamento. A democratização do ensino em quinze municípios brasileiros: documento síntese.) A participação popular pressuporia e impulsionaria a quebra da divisão rígida entre quem é educador e quem aprende. Aponta o isolamento como o principal impedimento do sistema público de ensino em relação aos movimentos organizados. os movimentos populares deveriam forçar o questionamento do conhecimento que a escola transmite. projeto educativo.

1988. 1994. mas sua mera instalação não garante decisões democráticas. saúde. dentro da coleção Qualidade para todos: o caminho de cada escola. Conchas (SP). Marechal Cândido Rondon (PR). Pedro. Conclui que a construção de uma escola democrática e de uma sociedade democrática são processos que se desenrolariam ao mesmo tempo e que a gestão democrática possibilitaria desmontar relações de mando e submissão. interação com o meio social.(ES). 250). São Paulo. capacidade de organização escolar e gestão pedagógica voltadas para a melhoria da qualidade de ensino. o livro sistematiza algumas idéias em torno dele: canais de participação. (Thereza Pegoraro) COVRE. moradia. 32 p. Resende (RJ). Ijuí (RS). educação) quanto num plano mais abrangente. Participação é conquista: noções de política social participante. age e pode atuar na transformação social. A maneira mais comum de assegurar a participação de todos os interessados é a instalação de um Conselho Escolar. Muitas administrações municipais e estaduais já implantaram conselhos ou órgãos colegiados de gestão e sua estrutura tem variado nos diferentes municípios e Estados. São Paulo. Gestão. o direito à vida no sentido pleno. São Paulo. Compromisso de todos. estabelecem-se situações de aprendizagem de mão dupla: ora a escola estende sua função pedagógica para fora. Cortez. Relacionada ao surgimento da vida em cidades. 1991 (Coleção Primeiros Passos. O Conselho garante decisões coletivas. tanto na luta pelo atendimento de necessidades básicas (alimentação. v. Esses municípios possuíam modelos diferenciados de gestão do sistema escolar. Caderno elaborado pelo CENPEC. que envolve a discussão sobre o papel do próprio homem no Universo. porque os representantes escolhidos podem defender interesses parciais e posições autoritárias. a cidadania significa. A realização da gestão democrática significaria encontrar caminhos para atender às expectativas da sociedade a respeito da atuação da escola. . que decide. . Além de abordar historicamente o tema da participação. ora a comunidade influencia os destinos da escola. O que é cidadania. traz as principais conclusões a respeito da gestão democrática nas experiências analisadas nesta coletânea. Maringá (PR). estabelecer relações mais flexíveis e menos autoritárias entre educadores e clientela escolar. Este livro mostra como esse direito precisa ser construído coletivamente. D E M O . fazendo surgir o sujeito coletivo. Brasiliense. Maria de Lourdes Manzini. em última instância. Porto Alegre (RS). Ao longo do processo de participação.

cultura participativa e seus principais objetivos (autopromoção, realização da cidadania, controle de poder, controle da burocracia, negociação e cultura democrática). Apresenta ainda seus principais riscos, obstáculos e desafios e questões relacionadas à representação, à identidade cultural e ao assistencialismo. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 1997. Utilizando uma linguagem acessível e didática, o autor reflete sobre os saberes necessários à prática educativo-crítica, fundamentados n u m a ética pedagógica e numa visão de m u n d o alicerçadas na rigorosidade, pesquisa, criticidade, risco, humildade, bom senso, t o l e r â n c i a , alegria, c u r i o s i d a d e , c o m p e t ê n c i a , g e n e r o s i d a d e , disponibilidade... "molhadas" pela esperança. A autonomia faz parte da própria natureza educativa. Sem ela não há educação, não há ensino, nem aprendizagem. G A D O T T I , Moacir. Diversidade cultural e educação para todos. Rio de Janeiro, Graal, 1992. Este livro aborda a relação entre identidade cultural e itinerário educativo, a concepção multicultural e monocultural do currículo e o papel da escola. Discute ainda a retomada da luta pela descentralização da educação e o papel crescente das Organizações Não-Governamentais (ONGs) no redirecionamento das políticas públicas em educação. Escola cidadã. São Paulo: C o r t e z , 1993. 78 p. Trata da questão da autonomia da escola pública. Nos três primeiros capítulos, faz uma análise conceituai geral de autonomia e relata uma experiência vivida pelo autor. Estabelece, então, um quadro da situação da educação brasileira relativo à problemática da autonomia da escola pública, fazendo um paralelo com as recentes reformas educacionais européias. Acredita que a transformação da escola pública em unidade de despesa, proporcionando-lhe recursos orçamentários, poderia melhorar sua situação desde que estivesse vinculada à participação e à democratização do sistema de ensino. G A R C I A , Walter. Administração educacional em crise. São Paulo, Cortez: Autores Associados, 1991 (Coleção Polêmicas do N o s s o T e m p o ; v. 46). A temática dos textos reunidos neste livro é a crise educacional que vem se agravando ao longo dos últimos anos. A crise está alicerçada em causas estruturais profundas, em que avultam a dívida externa e a insensibilidade histórica das elites nacionais, pouco preocupadas com o que se passa além de seus interesses meramente imediatistas.

MARÉS, Carlos. Eleição de diretores e democracia na escola. Revista ANDE, São Paulo, v. 3, n. 6, pp. 49-50, 1983.
Acreditando que a discussão da democracia na sociedade remete ao tema da democracia na escola, o autor afirma que, ao descer à prática, o tema perdeu a magnitude de sua essência, restando apenas os aspectos de sua forma. Para o autor, essa discussão deveria perceber o local social da escola na sociedade pluralista e heterogênea, sem buscar uma homogeneidade castradora e impositiva. A escola precisaria ser democrática, mas a implementação dessa política democrática deveria ser assumida pelo Estado com base na realidade escolar. Segundo o autor, atualmente diretores servem apenas como intermediários na implantação de uma política que não ajudaram a elaborar. A escolha da direção faz-se apenas com relação ao plano administrativo. Podem ser encontrados quatro tipos de escolha para a direção: a) diretor de carreira; b) concurso público; c) livre indicação; d) eleições. A defesa da eleição como forma de escolha dos diretores das escolas pressupõe a criação de uma regulamentação, além do que deve servir como meio para que o povo participe da gestão da coisa pública.

MIRANDA, Glaura Vasques de. A questão da autonomia da escola. Educação em Revista, Belo Horizonte, n. 9, pp. 59-61, jul. 1989.
Aponta, como uma das questões de importância para o desenvolvimento de um projeto pedagógico de melhor qualidade, a relação deste com a questão da autonomia da escola. Um maior grau de autonomia possibilitaria qualidade com gestão democrática. A esse projeto liga-se a idéia de recuperação da dignidade da escola pública, perdida em razão de práticas excessivamente centralizadoras do Estado. A autora enumera e analisa as condições básicas para que se garanta a realização de um projeto de gestão democrática na escola.

NOGUEIRA, Madza Julita. Todos pela educação no município: um desafio para cidadãos. Brasília, Unicef/Cecip, 1993. 133 p.
Aborda de maneira didática os direitos educacionais consagrados nas leis e destaca a participação popular como elemento fundamental para a expansão do ensino público ocorrida até os dias de hoje. Ressalta a importância dessa participação como instrumento de intervenção nas políticas educacionais dos municípios, na tomada de decisões. O livro conta com a colaboração de pessoas que estão envolvidas com esses mecanismos de gestão e participação popular, tornando mais acessíveis informações como a maneira de participar, quem pode fazê-lo, através de quais mecanismos. Mostra a possibilidade de participar da direção e gestão da unidade escolar, bem como do governo municipal, onde a população será

co-responsável pelas decisões sobre as políticas públicas para a educação, exigindo que estas se cumpram. Prossegue, dessa forma, esclarecendo como os cidadãos podem controlar e fiscalizar a aplicação de recursos públicos.

PARO, Vítor Henrique. Eleição de diretores - a escola básica experimenta a democracia. Campinas, Papirus, 1996.
Hoje, a eleição de diretor de escola é uma realidade em várias redes de ensino público no Brasil. Este livro analisa as características e os problemas da institucionalização e da implementação dessa experiência, bem como capta seus efeitos sobre a democratização da gestão escolar e sobre a qualidade e a quantidade da oferta de ensino.

. Gestão da escola pública: a participação da comunidade. In: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, n. 174, pp. 255-290, maio-ago. 1992.
Baseado em estudo de caso de cunho etnográfico realizado em escola estadual de ensino fundamental na cidade de São Paulo, com o objetivo de identificar os obstáculos e as potencialidades da participação do usuário na gestão da escola pública. Discute os determinantes imediatos dessa participação, presentes tanto no interior da escola quanto na comunidade por ela servida. Entre os primeiros destacam-se os condicionantes materiais, os institucionais, os político-sociais e os ideológicos. Entre os últimos encontram-se as condições objetivas de vida, bem como os condicionantes culturais e institucionais.

RIBEIRO, Vera Masagão (Org.). Participação popular e escola pública. São Paulo, Cedi, 1989. O novo conselho de escola, pp. 25-34 (Cadernos do Cedi, 19).
Avalia as contribuições que a implantação dos Conselhos de Escola deliberativos trouxe para uma efetiva participação popular na escola. O desconhecimento da maioria sobre as atribuições do Conselho é, segundo a autora, o principal índice de sua quase nenhuma efetividade. A autora apresenta uma síntese sobre as modificações das funções dos Conselhos de Escola e as respectivas leis que regulamentaram a passagem do caráter consultivo para deliberativo e da ampliação da representação dos segmentos escolares no decorrer do tempo. O artigo polemiza algumas questões como a natureza paritária do Conselho. Para a autora, normalmente o diretor aparece para a população como o grande obstáculo à sua participação na escola. R O M Ã O , J o s é E u s t á q u i o . Poder local e educação. São P a u l o , C o r t e z , 1992. Este livro aborda as diversas concepções de descentralização e a questão da municipalização do ensino no Brasil. Apresenta o poder político local,

Benno. A gestão democrática no âmbito escolar apresentaria incompatibilidade entre os modelos burocráticos existentes no sistema escolar e as práticas democráticas pretendidas. q u e s t i o n a n d o a democratização de sua gestão com a participação dos pais. Dessa forma. movimentos populares e sindicais. que condições deve apresentar um sistema escolar que busque a autonomia de suas escolas. da gestão democrática e qualidade de educação de acordo com os novos desafios da administração pública e da gestão da educação para todos. Faz um balanço da participação dos municípios na educação brasileira. burocracia. única possibilidade real de autonomia da escola. gestão democrática e participação popular. Porto Alegre. Este livro procura discuti-la. 1995 (Coleção E d u c a ç ã o C o n t e m p o r â n e a ) . A construção do conhecimento no campo da gestão da educação na América Latina é o tema central dos cinco ensaios deste livro. 52-56. v. Após examinar estudos preexistentes. Campinas. No seu conjunto. os textos constituem uma referência da produção intelectual do autor e um registro seletivo do debate político-pedagógico dos anos 80 e 90 na América Latina. Analisa a democratização do ensino público. Para superar tal situação. SANDER. jan. C a m p i n a s . que tipo de relações devem ser estabelecidas entre uma escola autônoma e o sistema escolar. Educação./jun. o leitor encontrará: como uma escola pode conquistar sua autonomia. mostra o papel dos conselhos municipais de educação e apresenta um estudo de caso de resistência comunitária à nucleação de escolas unidocentes no meio rural. Marília Pontes. relaciona gestão da educação com qualidade de vida e trata. 1. evasão. Gestão da educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. não há gestão democrática ao lado de estruturas administrativas . A autonomia da escola pública. SILVA. n. moradores. 1996.subdividindo-o em poder popular e poder elitista. o autor alerta para o que chama de esquecimento do sujeito e apresenta uma proposta de pedagogia do sujeito coletivo como fator de re-humanização da escola pública. SPOSITO. 15. E d u c a ç ã o e Realidade. Jair Militão da. Além de passar pelo curso da história do pensamento administrativo na educação latino-americana. 1990. Autores Associados. Sander analisa quatro construções de administração da educação. Papirus. Já são bastante conhecidas as críticas dirigidas à escola pública: repetência. examinada no contexto internacional. descompromisso com o aluno. é sugerida com insistência a autonomia da escola. Nele. p p . ainda.

Jean. 19. São Paulo. deixar de perceber os outros elementos constituintes e participar deste universo escolar. Gestão da escola fundamental: subsídios para análise e sugestão de aperfeiçoamento. 64. vol. 12. pp. determinada e articulada em grande parte a partir das orientações do diretor. A autora defende que não haveria possibilidade de democratização sem a transformação da prática profissional do educador. dando subsídios para ajudá-lo a administrar bem em um ambiente democrático sem. sem a real participação dos pais. Redefinindo a participação popular na escola. 251. porém não isoladamente. pois não há canal democrático de gestão que possa ser viabilizado sem uma profunda alteração administrativa das estruturas de organismos ligados à educação. Analisa o problema da gestão da escola fundamental centrado na figura do diretor. a nomeação dos cargos de confiança nas instâncias intermediárias ou superiores apoiada em relações tacanhas de clientelismo político. pelo caráter clientelista da burocracia escolar. Unesco/MEC/ Cortez. A professora da Universidade de São Paulo Marília Sposito afirma neste artigo que "apesar de gerida e mantida pelo aparato estatal. Gestão democrática. esse conjunto de fatores acaba por transformar a educação mantida pelo Estado num grande terreno onde prevalecem interesses pessoais. São Paulo. contudo. a obtenção do consenso pelo servilismo ou pela troca de favores. n. enfim. centralizadas e verticalizadas. Trata da luta pela gestão democrática na escola como uma das maneiras de nortear procedimentos do sistema educativo. uma enraizada mentalidade privatista da coisa pública. é no sistema de ensino que encontramos com maior profundidade. 170 p. A estrutura administrativa da escola. 1989. VALERIEN. n. . jan. a escola brasileira não é necessariamente pública. 18-20. Trata da questão da autonomia das escolas e das implicações dessa transferência . mai/jun. a falta de autonomia para a elaboração e execução de projetos pedagógicos no âmbito da unidade escolar. In Tempo e Presença. . que dela toma posse. possibilitando aos setores tradicionalmente marginalizados acesso aos serviços educacionais e a melhoria da qualidade do ensino oferecido. 1990. famílias e moradores na gestão escolar e conclui que a gestão democrática poderia oferecer uma alternativa concreta de melhoria da educação brasileira. In: Cadernos do Cedi. pp. formas tradicionais de dominação política e concepções privadas de uma atividade que deveria ser essencialmente pública". Rio de Janeiro. 1993. Pelo contrário.burocratizadas.

Uma Passos (Org. dirigentes educacionais e demais profissionais da educação. relações de poder. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. Apresenta e analisa os vários níveis de um planejamento. Trata da relação entre o Movimento Estadual Pró-Educação (Mepe). explica que o diretor não deve ser o único a decidir. Papirus. a construção de um processo democrático de decisões que vise eliminar as relações competitivas. ed. rompendo com a rotina burocrática no interior da escola.). Os textos estão organizados em torno de temas como: construção coletiva. Projeto Político da Escola: uma construção possível. Planejamento: plano de ensinoaprendizagem e projeto educativo . constituído de mães de alunos e professores das escolas estaduais de São . Quanto à gestão da escola. organização dos educadores e o debate fundamental sobre as questões referentes à qualidade de ensino para todos. 86. contribuindo para a realização de diagnósticos escolares e para a compreensão do planejamento como instrumento da praxis pedagógica. Celso dos S. São Paulo. mas sim que deve propor e solicitar a colaboração dos outros envolvidos no projeto da escola. 39-47. Cláudia Pereira. ago. Cadernos de Pesquisa. a saber. princípios básicos de planejamento participativo. São Paulo. oferecendo instrumentos e elementos metodológicos e processuais que poderão favorecer uma ação pedagógica que leve em conta os fundamentos históricos. O autor escreve para professores. VIANNA. relações ensino-aprendizagem. São Paulo. 1996. Este é um livro sobre o planejamento da educação. v.de responsabilidades no contexto da democratização da gestão escolar. 1).. Ao mesmo tempo em que apresenta pontos de reflexão importantes para a conceituação e análise da gestão democrática autônoma da escola. mas não antagonismos: mães e professoras das escolas públicas. 1993. procuram alternativas viáveis à efetivação de seu objetivo. antropológicos e epistemológicos da educação e os contextos em que é realizada. n. de um plano de ensino-aprendizagem e de um projeto educativo. o texto traça paralelo com as "vantagens" da centralização das decisões. autonomia. cujo fio condutor é a defesa do fortalecimento das relações entre escola e sistema de ensino. pp. (Thereza Pegoraro) VASCONCELLOS.elementos metodológicos para elaboração e realização. 2. corporativas e autoritárias. VEIGA. gestão na escola. Os autores desta coletânea buscam a organização do trabalho pedagógico por meio da constituição de um projeto político e pedagógico. Através de um processo permanente de reflexão e de discussão dos problemas da escola. Divergências. Libertad.

MELLO. Tem a preocupação com um processo educativo centrado no aluno e sua realidade pessoal e contextual. Conclui que a luta pela melhoria da qualidade de ensino adquirirá força quando professoras e mães explicitarem os valores e critérios que as distinguem. geralmente direcionada pelos poderes públicos. mas de suas decisões. comunitário e político. Fundamenta. 1995. a ingerência da hierarquia burocrática do sistema. acompanhamento e controle. José Amaral (Orgs. Ilca Oliveira Almeida. tem desenvolvido estudos e pesquisas com o objetivo de identificar as mudanças ocorridas nos últimos anos na concepção e gestão das unidades escolares. São Paulo. (Thereza Pegoraro) XAVIER. Antônio Carlos da Ressurreição. SOBRINHO. um ambiente de idéias inovadoras e veículo de dignificação do homem. na medida em que tem de vencer entraves como a descrença das pessoas para sua efetivação. gerador de mudanças em todos os aspectos. segundo a autora. Planejamento participativo na escola: um desafio ao educador. sintetiza e relata o trabalho pedagógico efetivado em uma escola de ensino fundamental do Estado de São Paulo que se propôs a desenvolver o trabalho pedagógico a partir de um planejamento participativo. Entre esses riscos. envolvendo atividade conjunta da escola. n. 147). Nesse sentido. Gestão educacional . (Thereza Pegoraro) VIANNA. família e comunidade. que se efetive como uma tarefa contínua e política. além do imediatismo que caracteriza o povo brasileiro. Procurou transformar a escola em centro polivalente. Essa proposta é desafiadora. convivendo com as diferenças e conflitos que isso implica.experiências inovadoras. A condição de mulher foi um primeiro fator de aproximação de mães e professoras. figura a manipulação do trabalho pela assessoria especializada e a pseudoparticipação da comunidade. estabelecendo entre professores. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) vem acompanhando as inovações na gestão do sistema educacional e escolar.Paulo. Rose Neubauer da. EPU. bem como as perspectivas que se abrem para a melhoria da qualidade do ensino. Guiomar Namo de. 1986. SILVA.). família e comunidade um verdadeiro trabalho integrado. A autora analisa o apoio das mães às reivindicações do professorado e mostra as tensões que ocorreram no processo. O volume nº 147 apresenta doze experiências de novas formas de organização e gestão educacional em diferentes regiões . a dificuldade de integração com os demais níveis e grupos da própria comunidade. em que a comunidade participe não só de execuções de ações. pois algumas professoras eram também mães de alunos. Brasília (Série Ipea.

. .do país. José Amaral. com a "gestão da qualidade total". Fátima e SOBRINHO. Este volume discute os novos desafios impostos à gestão escolar num mundo caracterizado por rupturas contínuas e aceleradas de paradigmas.). Duas delas têm como objeto sistemas estaduais e dez se voltam para sistemas de ensino no nível municipal. Brasília (Série Ipea. Gestão escolar: desafios e tendências. n. bem como identifica o que qualifica a escola. (Orgs. Analisa as inovações que estão ocorrendo na gestão da Educação em Estados e municípios selecionados. as experiências que vêm sendo realizadas no País. 145). 1994. MARRA. e. as mudanças que a ampliação do processo de decisão da escola trouxe para seu perfil e funcionamento. em escolas públicas e privadas. por fim. analisa as experiências de avaliação do contexto da melhoria dos processos e da qualidade do ensino.

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