SALTO PARA O FUTURO

Construindo a Escola Cidadã
Projeto político-pedagógico

Brasília, 1998

Presidente da República Federativa do Brasil Fernando Henrique Cardoso Ministro da Educação e do Desporto Paulo Renato Souza Secretário de Educação a Distância Pedro Paulo Poppovic

SERIE DE ESTUDOS / EDUCAÇÃO A DISTANCIA
SALTO PARA O FUTURO / CONSTRUINDO A ESCOLA CIDADÃ PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO

Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto - Acerp Diretor-Presidente Mauro Garcia Gerente de Educação Yonne Polli Secretaria de Educação a Distância / MEC Coordenação editorial Cícero Silva Júnior

Ministério da Educação e do Desporto

SERIE DE ESTUDOS EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA SALTO PARA O FUTURO Construindo a Escola Cidadã Projeto político-pedagógico MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA .

5) 1. ISSN 1516-2079.Perspectivas da educação a distância.43 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Esplanada dos Ministérios. 1998. CDU 37. I. Secretaria de Educação a Distância. Ensino a distância. Série.1178 / e-mail: seed@seed. Brasil. 1997 • TV e Informática na Educação Educação do olhar. Sala 314 Caixa Postal 9 6 5 9 . Bloco L. II. projeto político-pedagógico/ Secretaria de Educação a Distância.(Série de Estudos. Ministério da Educação e do Desporto. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto.018.Acerp. SEED.mec. . Anexo 1. v.MEC Direitos cedidos para esta edição pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto .br Outros títulos da Série de Estudos /Educação a Distância publicados pela Secretaria de Educação a Distância / MEC: TV da Escola • América Latina .gov. Seminário de Brasília. DF fax: (061) 321. volumes 1 e 2 . Educação a Distância. 96 p.C E P 70001-970-Brasília.Copyright © Ministério da Educação e do Desporto . 1998 Edição ESTAÇÃO DAS MÍDIAS Edição de texto: Luci Ayala Edição de arte: Rabiscos Ilustração da capa: Sandra Kaffka Revisão: Márcio Guimarães de Araújo Impressão: Coronário Editora Gráfica Tiragem: 110 mil exemplares ISSN 1516-2079 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Salto para o Futuro: Construindo a escola cidadã.

respeitadas as normas comuns e as de seu sistema de ensino . E espera. com a parceria do Instituto Paulo Freire. Nos artigos 13 e 14. ao mesmo tempo. contribuir para a discussão acerca da construção democrática do projeto pedagógico da escola. a Secretaria de Educação a Distância . que deverão ainda definir e cumprir plano de trabalho para concretizá-la. Atenta ao cenário educacional. Considerando o sucesso da iniciativa e a atualidade do tema. Pedro Paulo Poppovic Secretário de Educação a Distância . no programa Salto para o Futuro. a série Construindo a escola cidadã: projeto políticopedagógico. prevê que os estabelecimentos de ensino . a lei quis dar realce ao papel da escola e dos educadores na construção de projetos educacionais articulados com as políticas nacionais.394. Com tais dispositivos. o projeto pedagógico é a própria escola cidadã. Em outras palavras.A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. realizada pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto . promulgada em 20 de dezembro de 1996.Acerp. cada proposta ou projeto pedagógico retrata a identidade da escola.terão a incumbência de elaborar e executar sua proposta pedagógica (artigo 12). É um amplo trabalho de construção. as diretrizes dos Estados e municípios e capazes. que exige competência técnico-pedagógica e clareza quanto ao compromisso ético-profissional de educar o cidadão deste novo tempo. nº 9.Seed veiculou pela TV Escola. de levar em consideração a realidade específica de cada instituição de ensino. Assim. com isso. a Seed publica aqui uma versão resumida dos textos originalmente utilizados como literatura de apoio à série. a LDB diz que a elaboração da proposta pedagógica contará com a participação dos profissionais da Educação.

MUITAS CULTURAS 79 BIBLIOGRAFIA COMENTADA 87 .SUMÁRIO PROPOSTA PEDAGÓGICA 09 PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ 15 ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE 23 CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO 31 CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ . 43 PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA 53 DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA 67 ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA...

Objetiva-se também incentivá-los ao exercício de uma ação pedagógica condizente com as necessidades e exigências educacionais colocadas por seus contextos específicos. a quem se destina este projeto . pode levar . por conseguinte. futuras e futuros docentes. E uma das maneiras de fazer funcionar a escola e de organizá-la com vistas à melhoria da qualidade do ensino é justamente a elaboração democrática e coletiva de seu projeto político-pedagógico. e que o tempo e a história que construímos nos impõem diariamente. Isso contribui para a democratização das relações de poder no âmbito escolar e.na qual se incluem professoras e professores. é condição essencial. ela tem condições de compreender melhor o funcionamento da escola e de se organizar para assegurar que os interesses da maioria sejam atendidos. em especial. Justificativa Para que a escola possa construir o seu projeto políticopedagógico.tem acesso às informações e lhe é garantido o direito de participar das decisões. mas principalmente estimulá-los para a pesquisa e a reflexão interativa sobre suas práticas e as práticas de outros. Objetiva-se levar até eles não só o resultado de experiências acumuladas por Estados e municípios brasileiros. de seus docentes.PROPOSTA PEDAGÓGICA Quando a comunidade escolar . a participação de todos e. E justamente a partir de estudos e pesquisas desenvolvidos em torno dessa temática que o Instituto Paulo Freire pretende contribuir para o aperfeiçoamento dos docentes da educação básica e dos alunos dos cursos de formação de professores.

fator imprescindível: o espaço em que os diferentes segmentos escolares decidirão sobre a organização do trabalho na escola.os usuários à intervenção no próprio sistema de ensino. Com base em tais perspectivas educacionais e de acordo com o Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. A organização do Conselho de Escola ou Colegiado Escolar torna-se. Além dos aspectos já mencionados. Hoje é necessário investirmos na formação continuada de professores e. à luz. Sem apostarmos em novos processos educativos. Assim. Ela pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e para isso deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional. na formação consistente dos futuros profissionais da Educação. como ficou demonstrado por países como a Coréia do Sul. outros bastante polêmicos. das concepções construtivista-interacionista e histórico-social. deu um salto para o Primeiro Mundo graças a investimentos massivos na Educação. O Instituto Paulo Freire vem desenvolvendo estudos e pesquisas . fazem parte da série de temas ligados à questão do projeto político-pedagógico da escola. possam construir conhecimentos. Será preciso preparar os jovens para o trabalho. não teremos condições de reverter o processo de deterioração do ensino básico. da organização do trabalho na escola e da gestão democrática da escola pública. em algumas décadas. não apenas o diretor de escola ou os órgãos superiores da Educação estarão definindo o que é prioritário para a unidade escolar. que. A educação básica de qualidade para todos é uma das condições fundamentais para acabar com a miséria. Nossas desigualdades sociais não serão superadas apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias. por exemplo. autonomia da escola e participação da comunidade na gestão escolar. realizar pesquisas e desenvolver suas práticas pedagógicas a partir de um diálogo sempre aberto às novas metodologias e concepções educacionais. A educação é condição sine qua non para o desenvolvimento autosustentado do País. que não podem ficar fora da agenda dos atuais e futuros professores: eleição de diretores. nesse sentido. Todos os segmentos escolares adquirem papel fundamental no processo decisório. especialmente. a curto e médio prazos. em novas metodologias de ensino e na formação daqueles que são e serão os educadores das atuais e futuras gerações. para que. consideramos que a escola deve formar para a cidadania ativa e para o desenvolvimento.

de formação de convicções.). que a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n° 9. • lisura nos processos de definição da gestão democrática e do projeto político-pedagógico da escola. porque é prática educativa. a partir das quais definimos alguns parâmetros para a elaboração do Projeto Político-Pedagógico da Escola e para a Gestão Democrática da Escola Pública. Objetivos Este projeto surge como um instrumento de construção e de reconstrução permanentes de um projeto de sociedade que . o Instituto Paulo Freire oferece sua contribuição e busca opções para superar o desafio colocado. A partir desses parâmetros. constituir conselhos escolares com representação da comunidade (. sancionada no dia 20 de dezembro de 1996. criando processos de integração da sociedade com a escola (. Considera que o projeto político-pedagógico da escola é uma tarefa dela mesma. determina que "os estabelecimentos de ensino.. Construílo significa ver e assumir a educação como processo de ensinoaprendizagem.394/96). de afetos. de elaborar e executar sua proposta pedagógica (. de valores e de desejos.. respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino. inserida no mundo da vida. estão: • capacitação de todos os segmentos escolares. Dentre os parâmetros aos quais nos referimos. terão a incumbência. oportunamente.). entre outras. e prestar contas e divulgar informações referentes ao uso de recursos e à qualidade dos serviços prestados".). • institucionalização da gestão democrática.. articular-se com as famílias e a comunidade.. prevendo a participação dos profissionais da Educação na elaboração do projeto pedagógico da escola e das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. A lei da Educação também estabelece que os sistemas de ensino "definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica. de significações.. analisando experiências acumuladas nos diversos municípios e Estados brasileiros. • consulta permanente à comunidade escolar. • agilização das informações e transparência nas negociações no âmbito da escola e fora dela. um processo que se constrói constantemente e se orienta com intencionalidade explícita..nessa direção. de motivações. de acordo com as suas peculiaridades". Lembramos.

5. n. • identificar o papel dos professores na definição das propostas e das estratégias de intervenção adequadas ao diagnóstico escolar e à elaboração do projeto político-pedagógico da escola. Ângelo.) CISESKI. Nesse sentido. esclarecimentos e troca de experiências dos atuais e dos futuros docentes sobre conselhos de escola. 1996. "planejamento socializado ascendente". 1988. • identificar e analisar terminologias e conceitos específicos que são empregados em relação ao projeto político-pedagógico da escola. DALMÁS.pedagógico da escola. • possibilitar o intercâmbio entre educadores e instituições escolares das diversas regiões do País para a construção de uma escola democrática e de qualidade técnico-política. nos termos freireanos. ed. • desenvolver estudos integrados para conhecer e analisar os indicadores educacionais com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político pedagógico da escola. Petrópolis. 2. enfatizando a importância da gestão democrática e da organização do trabalho na escola. NASCIMENTO. Pedro. Porto.. • realizar estudos. • estudar e analisar a situação atual da educação brasileira a partir da aprovação da nova LDB.acredita. 3. DEMO. Participação e conquista. FONSECA. • identificar os princípios de implementação da gestão escolar democrática. Como organizar o Conselho de Escola. São Paulo. no que se refere à construção do projeto pedagógico da escola e à valorização dos profissionais da Educação. BIBLIOGRAFIA ALVES. ed. São Paulo. João Pedro da. . Organização.. ser possível a utopia educacional. os objetivos gerais do presente projeto são: • desencadear um movimento para que as escolas construam ou avaliem os seus projetos político-pedagógicos. Portugal. gestão e projecto educativo das escolas. 1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos. Planejamento participativo na escola. adaptando-a às exigências da elaboração do projeto político. escolha democrática de dirigentes escolares. • estudar a metodologia de diagnóstico educacional e escolar denominada Carta Escolar. IPF. Francisco João. Vozes. Edições ASA. 1995. Cortez. Ângela Antunes. José Matias.

Cortez. v. 1995 (Coleção Educação Contemporânea). 1994. Planejamento educacional e organização do trabalho na escola: concepções do Plano Decenal de Educação para Todos. IPF. Vítor Henrique. Maximiliano & SANTANNA. 1996. Vozes. SANDER. ed. Porto. José Eustáquio. MENEGOLLA. SCHAEFER Maria Isabel Orofino. Poder local e Educação. São Paulo. Brasília. Moacir. Por que planejar? Como planejar? Currículo . 1992. 1). 1989 (Tese de Doutorado). São Paulo. FREIRE. Cortez. 21. VASCONCELLOS. 79-112. Ana Maria do.. 1995. PADILHA. ed. São Paulo. O projeto pedagógico da escola. Escola cidadã. Moacir. Cortez. 9). São Paulo. . Campinas. Celso dos Santos. São Paulo. Florianópolis. 1996. n°. Jair Militão da. Jair Militão da. 1991. In: Revista da Faculdade de Educação. São Paulo. 52 p. 2. Feusp. Ilza Martins. UFSC. Feusp. 2. 24). ROMÃO. 1994. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. jan/jun.Aula. São Paulo. PARO. SANTOS.elementos para elaboração e realização. SILVA. Planejamento: plano de ensino-aprendizagem e projeto educativo . Eleição de diretores: a escola pública experimenta a democracia. Benno. 1996 (Colecção Cadernos Pedagógicos. & GADOTTI. Petrópolis. 1993 (Coleção Questões da Nossa Época: v. Libertad.Área . Planejamento educacional participativo. 1996.SILVA. Paulo. Papirus. 1996.. Paulo Roberto. Educação popular na escola pública. Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escolar. Edições ASA. Editora Autores Associados. Gestão da Educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. Paz e Terra. pp. v. 1992. MARQUES. Campinas. n° 1. Projeto da escola cidadã: a hora da sociedade. Manuel Jacinto. São Paulo. MEC-SEF. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. Petrópolis. Portugal. Cultura midiática no espaço escolar. Mário Osório et ai. As escolas e as autonomias. GADOTTI. VALE.

USP e diretor do Instituto Paulo Freire . pá fiquei contente E ainda guardo. (Tanto mar) Chico Buarque PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ Moacir Gadotti Até muito recentemente.Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício Carlos Drummond de Andrade Foi bonita a festa. cidadania e participação. A crise de paradigmas também atinge a escola e ela se pergunta sobre si mesma. específico de cada escola. É um dos temas mais originais e marcantes do debate educacional brasileiro de hoje. Nunca nossas escolas discutiram tanto autonomia. autonomia e contra toda forma de uniformização. Essa preocupação tem-se traduzido sobretudo pela reivindicação de um projeto político-pedagógico próprio. das comunicações. A multiculturalidade é a marca mais significativa do nosso tempo. pá mas certamente esqueceram uma semente nalgum canto de jardim. sobre seu papel como instituição numa sociedade pós-moderna e pós-industrial. Nessa sociedade cresce a reivindicação pela participação. Neste texto. renitente um velho cravo para mim. de cada língua etc. pelo pluralismo político. Essa tipologia não desapareceu. da educação e da cultura. a questão da escola limitava-se a uma escolha entre ser tradicional e ser moderna. mas não responde a todas as questões atuais da escola. pela emergência do poder local. gostaríamos de tratar Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo . Já murcharam tua festa. Muito menos à questão do seu projeto. cresce também o desejo de afirmação da singularidade de cada região. caracterizada pela globalização da economia.

sempre um processo inconcluso. um rumo. mas não é todo o seu projeto. Como vimos. desaparece aquela arrogante pretensão de saber de antemão quais serão os resultados do projeto para todas as escolas de um sistema educacional. o conjunto de seus atores internos e externos e seu modo de vida. Um projeto sempre confronta esse instituído com o instituinte. Tornar-se instituinte. ao se eleger um diretor de escola. o projeto pedagógico da escola está hoje inserido num cenário marcado pela diversidade. Não se constrói um projeto sem uma direção política. . ou melhor. a eleição de um diretor. como defende o discurso em torno da "qualidade".como conjunto de objetivos. Cada escola é resultado de um processo de desenvolvimento de suas próprias contradições. no cumprimento mais eficaz do instituído. Isso não significa que objetivos. em geral. Freqüentemente se confunde projeto com plano. Certamente o plano diretor da escola . da "qualidade total". que é a sua história. sublinhando a sua importância e seu significado. metas e procedimentos não sejam necessários. assim.deste assunto. O projeto pedagógico da escola é. obstáculos e elementos facilitadores para a elaboração do projeto político-pedagógico. Na escolha do diretor ou da diretora percebe-se já o quanto o seu projeto é político. o conjunto dos seus currículos e dos seus métodos. Por isso. Assim realizada. nesse caso. Ao contrário. A pluralidade de projetos pedagógicos faz parte da história da Educação da nossa época. se dá a partir da escolha de um projeto político-pedagógico para a escola. Diante disso. metas e procedimentos . em particular. uma etapa em direção a uma finalidade que permanece como horizonte da escola. Eles são insuficientes. a direção é escolhida a partir do reconhecimento da competência e da liderança de alguém capaz de executar um projeto coletivo. numa gestão democrática. De quem é a responsabilidade da constituição do projeto da escola? O projeto da escola não é responsabilidade apenas de sua direção. A escola. pois. A arrogância do dono da verdade dá lugar à criatividade e ao diálogo. escolhe primeiro um projeto e depois a pessoa que possa executá-lo. Portanto. a partir dele. Um projeto político-pedagógico não nega o instituído da escola. bem como as dificuldades. instituir outra coisa. Um projeto necessita sempre rever o instituído para. um norte. o plano fica no campo do instituído. todo projeto pedagógico da escola é também político. o que se está elegendo é um projeto para a escola.faz parte do seu projeto. Não existem duas escolas iguais. de uma diretora.

A gestão democrática da escola implica que a comunidade. uma exigência de seu projeto político-pedagógico. A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico.pressupostos do projeto políticopedagógico da escola . em conseqüência. ela deve dar o exemplo. A escola não tem um fim em si mesma. isto é. A gestão democrática da escola é. Passamos muito tempo na escola para sermos meros clientes dela. O aluno aprende apenas quando se torna sujeito da sua aprendizagem. pais. aproximará também as necessidades dos alunos dos conteúdos ensinados pelos professores. portanto. • a gestão democrática pode melhorar o que é específico da escola. sejam seus dirigentes e gestores. A autonomia e a participação .não se limitam à mera declaração de princípios consignados em algum documento. Ela exige. A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria natureza do ato pedagógico. Na gestão democrática. os usuários da escola. o seu ensino. Ela está a serviço da comunidade. Nisso. que faz parte também do projeto de sua vida.Por isso. professores e funcionários assumem sua parte de responsabilidade pelo projeto da escola. A participação na gestão da escola proporcionará um melhor conhecimento do funcionamento da escola e de todos os seus atores. uma mudança de mentalidade de todos os membros da comunidade escolar. Não se entende. em primeiro lugar. Há pelo menos duas razões que justificam a implantação de um processo de gestão democrática na escola pública: • a escola deve formar para a cidadania e. e não apenas seus fiscalizadores ou meros receptores dos serviços educacionais. alunos. Propiciará um contato permanente entre professores e alunos. E para ele se tornar sujeito da sua aprendizagem precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. um conhecimento mútuo e. a gestão democrática da escola está prestando um serviço também à comunidade que a mantém. uma escola sem autonomia . A gestão democrática da escola é um passo importante no aprendizado da democracia. para isso. Sua presença precisa ser sentida no . e não uma conquista da comunidade. portanto. não deve existir um padrão único que oriente a escolha do projeto de nossas escolas.autonomia para estabelecer o seu projeto e autonomia para executá-lo e avaliá-lo. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. Mudança que implica deixar de lado o velho preconceito de que a escola pública é apenas um aparelho burocrático do Estado.

Não basta apenas assistir a reuniões. na divisão do trabalho. • a mentalidade que atribui aos técnicos e apenas a eles a capacidade de planejar e governar e que considera o povo incapaz de exercer o governo ou de participar de um planejamento coletivo em todas as suas fases. partindo da cara que tem. • o autoritarismo que impregnou nossa prática educacional. • a própria estrutura vertical de nosso sistema educacional. no estabelecimento do calendário escolar. A gestão democrática é. O projeto da escola depende da ousadia de seus agentes e de cada escola em se assumir como tal.conselho de escola ou colegiado e também na escolha do livro didático. demanda tempo. • na autonomia. A atitude democrática é necessária. A gestão democrática deve estar impregnada por uma certa atmosfera que se respira na escola. algumas limitações e obstáculos à instauração de um processo democrático como parte do projeto político-pedagógico da escola. mas não é suficiente. • o tipo de liderança que tradicionalmente domina nossa atividade política no campo educacional. o projeto pedagógico da escola pode ser considerado como um momento importante de renovação da . podemos citar: • nossa pouca experiência democrática. Enfim. na circulação das informações. • no envolvimento das pessoas: a comunidade interna e externa à escola. • na participação e na cooperação das várias esferas de governo. na organização de eventos culturais. atitude e método. atividades cívicas. na distribuição das aulas. o contexto histórico em que ela se insere. Pelo que foi dito até agora. na capacitação dos recursos humanos etc. certamente. A escola que precisa ser salva não merece ser salva. na formação de grupos de trabalho. portanto. no processo de elaboração ou de criação de novos cursos ou de novas disciplinas. isto é. Precisamos de métodos democráticos. no planejamento do ensino. Existem. Não basta trocar de teoria como se ela pudesse salvar a escola. responsabilidade e criatividade como processo e como produto do projeto. um projeto político-pedagógico da escola apóia-se: • no desenvolvimento de uma consciência crítica. atenção e trabalho. de efetivo exercício da democracia. A democracia também é um aprendizado. esportivas e recreativas. Um projeto político-pedagógico constrói-se de forma interdisciplinar. seu cotidiano e seu tempo-espaço. Entre eles.

Projeto pressupõe uma ação intencionada com um sentido definido. comprometendo seus atores e autores. • adesão voluntária e consciente ao projeto: todos precisam estar envolvidos. • suporte institucional e financeiro. Projetar significa "lançar-se para a frente". por isso. antever um faturo diferente do presente. Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscarse. explícito. • tempo para amadurecer as idéias: só os projetos burocráticos são impostos e. • atmosfera. • tempo escolar: o calendário da escola.e recursos financeiros claramente definidos. • controle. que significa: vontade política. Um projeto educativo pode ser tomado como promessa ante determinadas rupturas. revelam-se ineficientes a médio prazo. • tempo institucional: cada escola encontra-se num determinado tempo de sua história. Um projeto precisa ser discutido e isso leva tempo. A noção de projeto implica sobretudo tempo: • tempo político: define a oportunidade política de um determinado projeto. As promessas tornam visíveis os campos de ação possíveis. atravessar um período de instabilidade e buscar uma nova estabilidade em função da promessa que cada projeto contém de estado melhor do que o do presente. acompanhamento e avaliação do projeto: um projeto que não pressupõe constante avaliação não consegue saber se seus objetivos estão sendo atingidos. sobre o que se quer inovar. A co-responsabilidade é um fator decisivo no êxito de um projeto.escola. Todo projeto supõe rupturas com o presente e promessas para o futuro. Nesse processo podem-se distinguir dois momentos: • o momento da concepção do projeto. o período no qual o projeto é elaborado. pleno conhecimento de todos . podemos destacar: • comunicação eficiente: um projeto deve ser factível e seu enunciado facilmente compreendido. é também decisivo para seu sucesso. Há um tempo para sedimentar idéias. O projeto que pode ser inovador para uma escola pode não ser para outra. • o momento da institucionalização e implementação do projeto. Como elementos facilitadores do êxito de um projeto. ambiente favorável: não se deve desprezar um certo componente mágico-simbólico para o êxito de um .principalmente dos dirigentes .

contudo. • direitos sociais. diversas concepções de cidadania: a liberal. o projeto pode ficar limitado. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão estabelecia as primeiras normas para assegurar a liberdade individual e a propriedade. saúde. comprovada competência e legitimidade. a progressista ou socialista democrática (o socialismo autoritário e burocrático não admite a democracia como valor universal e despreza a cidadania como valor progressista). que é uma concepção plena de cidadania. como liberdade de expressão.projeto. A democracia fundamenta-se em três direitos: • direitos civis. A falta desses elementos dificulta a elaboração e a implantação de um projeto novo para a escola. habitação etc. O conceito de cidadania. Tudo isso exige certamente uma educação para a cidadania. de participação em partidos políticos e sindicatos etc. • referencial teórico que facilite encontrar os principais conceitos e a estrutura do projeto. salário justo. Um projeto político-pedagógico da escola deve constituir-se num verdadeiro processo de conscientização e de formação cívica. como segurança e locomoção. a neoliberal. é um conceito ambíguo. Em 1789. como trabalho. se os que as defendem não têm prestígio. que consiste na mobilização da sociedade para a conquista dos direitos anteriormente . A implantação de um novo projeto político-pedagógico enfrentará sempre a descrença generalizada dos que pensam que de nada adianta projetar uma boa escola enquanto não houver vontade política dos "de cima". O que é educar para a cidadania? A resposta a essa pergunta depende da resposta à outra pergunta: "o que é cidadania?" Pode-se dizer que cidadania é essencialmente consciência de direitos e deveres no exercício da democracia. educação. Existe hoje uma concepção consumista de cidadania (não ser enganado na compra de um bem de consumo) e uma concepção oposta. • credibilidade: as idéias podem ser boas. Deve ser um processo de recuperação da importância e da necessidade do planejamento na Educação. Contudo. Não há cidadania sem democracia. Existem. mas. o pensamento e a prática dos "de cima" não se modificarão enquanto não existir pressão dos "de baixo". no entanto. • direitos políticos. de voto. uma certa mística que cimente a todos os que se envolvem no design de um projeto.

indo. cujos princípios venho defendendo. ao lado de Paulo Freire. Para mim. baseado nessa crença. além da interação e da reciprocidade existentes entre as ciências. tão desejada. Para finalizar. colocando dentro das escolas americanas a educação para a cidadania e o respeito aos direitos sociais e humanos. portanto. a escola cidadã surge como uma realização concreta dos ideais da escola pública popular. de 1992. escola e comunidade (educação multicultural e comunitária). Ela vem surgindo em numerosos municípios e já se mostra nas preocupações dos dirigentes educacionais em diversos Estados brasileiros. . De minha experiência vivida nesses últimos anos. que surgiram nos Estados Unidos nos anos 50. Por isso. a visão interdisciplinar e transdisciplinar e a formação permanente dos educadores. ambas dependentes do Estado paternalista. Aprendemos também nos fins de semana. Do movimento histórico-cultural a que nos referimos estão surgindo alguns eixos norteadores da escola cidadã: a integração entre educação e cultura. a democratização das relações de poder dentro da escola. apresentei um decálogo no livro Escola cidadã. Essas categorias se constituem na base da nossa identidade nacional. nas últimas duas décadas. E é justamente nesse contexto histórico que vêm se desenhando o projeto e a realização prática da escola cidadã em diversas partes do país. a transdisciplinaridade refere-se à superação das fronteiras existentes entre as disciplinas. Cidadania e autonomia são hoje duas categorias estratégicas de construção de uma sociedade melhor em torno das quais há freqüentemente consenso. A cidadania implica instituições e regras justas.mencionados. como uma alternativa nova e emergente. o enfrentamento da questão da repetência e da avaliação. gostaria de mencionar pelo menos quatro: • a escola não é o único local de aquisição do saber elaborado. O movimento atual da chamada escola cidadã está inserido nesse novo contexto histórico de busca de identidade nacional. como diz Emilia Ferreiro. posso tirar algumas lições que me levam a acreditar nessa concepção/realização da educação. que devem ser garantidos pelo Estado. tentando entender esse movimento. Movimentos semelhantes já ocorreram em outros países. e ainda tão longínqua em razão do arraigado individualismo tanto das nossas elites quanto das fortes corporações emergentes. A interdisciplinaridade refere-se à estreita relação que as disciplinas mantêm entre si. As Citizenship Schools. dessa experiência vivida pude tirar algumas lições. Concretamente. foram a origem do importante movimento pelos direitos civis no País.

pode não o ser em outra conjuntura ou contexto. até para a aquisição do saber elaborado. mas por uma transformação radical. • a educação não será acessível a todos enquanto todos trabalhadores e não-trabalhadores em Educação. Estou convencido. podemos operar a grande mudança. A educação para todos supõe todos pela educação. exigência premente e concreta de uma mudança estrutural provocada pela inevitável globalização da economia e das comunicações. solidário e paciente. Estado e sociedade civil . Não é preciso mais esperar para mudar. • houve uma época em que eu pensava que as pequenas mudanças impediam a realização de uma grande mudança. não devemos renunciar ao nosso sonho da "grande" mudança. Existem muitos caminhos. a qual poderá acontecer como resultado de um esforço contínuo. Por isso. num determinado local ou contexto. pela revolução da informática a ela associada e pelos novos valores que estão refundando as instituições e a convivência social na emergente sociedade pós-moderna. Mesmo assim. no meu entender. mudando passo a passo. as pequenas mudanças deveriam ser evitadas e todo o investimento deveria ser feito numa mudança radical e ampla. E o caminho que pode ser válido numa determinada conjuntura.não se interessarem por ela. com pequenas mudanças numa certa direção. minha certeza é outra: penso que. Questões para debate • Que mudanças caracterizam a sociedade pós-moderna e pósindustrial? • Como essas mudanças se refletem na educação e na escola? • Como a escola pode formar para a cidadania? • Quais são os obstáculos e os elementos facilitadores para a implantação do projeto político-pedagógico da escola cidadã? . acima de tudo. Por isso. E o mais importante: isso pode ser feito já. Hoje. é preciso incentivar a experimentação pedagógica e. Cada escola é fruto de suas próprias contradições. no dia-a-dia. que a educação deve passar não apenas por uma melhoria da qualidade do ensino que está aí. sobretudo.• não existe um único modelo capaz de tornar exitosa a ação educativa da escola. ter uma mentalidade aberta ao novo e não atirar pedras no caminho de ninguém que queira inovar em educação.

A educação básica é o bem muito precioso e de maior valor para o desenvolvimento. Isso exige uma reorientação dos investimentos públicos em educação Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo . Nosso appartheid social não será superado apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias.USP e diretor do Instituto Paulo Freire José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. Mário Quintana Quero a utopia. MG .. quero tudo e mais Quero a felicidade dos olhos de um pai Quero a alegria muita gente feliz Quero que a justiça reine em meu país Quero a liberdade. O que mata um jardim [é esse olhar vazio De quem por ele passa indiferente. toda escola pode ser cidadã enquanto realizar uma certa concepção de educação orientada para: • a formação para a cidadania ativa: acreditamos que a escola pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional. Será preciso preparar os jovens para o trabalho. quero o vinho e o pão Quero a amizade..O que mata um jardim não [é o abandono. Só a educação básica de qualidade para todos pode acabar com a miséria. • a educação para o desenvolvimento: entendemos que a educação é condição sine qua non para o desenvolvimento auto-sustentado do País. quero amor prazer Quero nossa cidade sempre ensolarada Os meninos e o povo no poder. mais do que as suas riquezas naturais. (Coração civil) Milton Nascimento ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE Moacir Gadotti José Eustáquio Romão Em princípio.

Adolph Ferriere e Jean Piaget entendiam que ela exercia um papel importante no processo de "socialização" gradual das crianças. por uma forte intervenção do Estado.básica . Pode-se dizer que a autonomia faz parte da própria natureza da educação. 1°). o seu conceito encontra-se na obra de diversos clássicos da educação. da transformação social.sem comprometer os outros níveis de ensino . Passou. diz Georges Snyders.. mas também para a inserção na comunidade e para a emancipação social. mas para poucos. Os educadores soviéticos Makarenko e Pistrak a entendiam como "autoorganização dos alunos". no sentido moral de "autodomínio individual".e uma compreensão nova do público e do estatal. A autonomia é "real". Esses princípios podem ser considerados como fundamentos constitucionais da autonomia da escola. O Brasil passou por um primeiro momento em que a educação estava entregue unicamente nas mãos da iniciativa confessional e privada. Na história das idéias pedagógicas. a autonomia sempre foi associada aos temas da liberdade individual e social. 1977). No que se refere à educação. sem rever o modelo de gestão da escola pública. 206). classe e luta de classes. o tema da autonomia da escola encontra suporte na própria Constituição promulgada em 1988. a Constituição de 1988 estabelece como princípios básicos o "pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas" e a "gestão democrática do ensino público" (Art. O educador inglês Alexander S. Snyders insiste que essa "autonomia relativa" tem de ser mantida pela luta e "só pode tornar-se realidade se participar no conjunto das lutas das classes exploradas" (idem). No Brasil. A escola precisa preparar o indivíduo para a autonomia pessoal. Neill organizou uma escola (Summerhill) controlada autônomamente pelos alunos. que conseguiu expandir as oportunidades educacionais. que ofereceu uma escola de qualidade. da ruptura com esquemas centralizadores e. Investir mais em educação hoje no Brasil. mas sem oferecer qualidade e eficiência.. não é suficiente para reverter o processo de deterioração do ensino básico.) é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar" (Escola. Estamos vivendo hoje um momento diferente. John Locke concebe-a como "autogoverno" (selfgovernment). . que institui a "democracia participativa" e cria instrumentos que possibilitam ao povo exercer o poder "diretamente" (Art. recentemente. É a vez da sociedade. em seguida. um momento de busca de síntese entre qualidade e quantidade. Por isso. "mas a conquistar incessantemente (.

mantendose a mesma estrutura hierárquica. principalmente. A palavra "autogestão" aparece no início dos anos 60. separando "especialistas" de . pressupõe o fato de que uma das formas fundamentais de exercício da opressão é a divisão social do trabalho entre dirigentes e executantes. Autonomia e autogestão constituem-se em horizonte de construção de relações humanas e sociais civilizadas e justas. na linguagem política e. enquanto processo de conscientização (desalienação). A teoria pedagógica não é nada sem a ética. "a autonomia seria o domínio do consciente sobre o inconsciente" (A instituição imaginária da sociedade. em particular o soviético. insatisfeita com as realizações concretas do socialismo burocrático. fora da escola. sobrepujando parcialmente o antagonismo entre capital e trabalho. Autonomia e autogestão não são conceitos neutros. mais ou menos solidário. Para ele. que se reflete diretamente na administração do ensino: uns poucos. Podem significar muitas coisas e. A autogestão visa a transformação. ambas estão fundadas na ética. A alienação se dá quando "um discurso estranho que está em mim me domina. para compreender melhor a organização do trabalho na escola cidadã. Por isso. opõe autonomia à alienação. 1982). enquanto todos os demais simplesmente executam tarefas cujo sentido lhes escapa quase inteiramente. A divisão social do trabalho na escola é agravada pelo fato de ela ser justificada pela "competência". fala por mim" (idem). filósofo grego contemporâneo. pois esta significa direção conjunta de uma instituição. pois os dirigentes de uma cooperativa são remunerados pelos próprios trabalhadores. detêm o poder de decisão e o controle. A cooperativa já é um caso mais próximo da autogestão. existem muitas instituições de trabalho cooperativo. Autogestão não se confunde com participação. Nas teorias da educação. O sentido que aqui nos interessa.Cornelius Castoriadis. Portanto. a educação. nos meios intelectuais da esquerda francesa. pois participar significa engajar-se numa atividade já existente com sua própria estrutura e finalidade. Evidentemente. e não a participação. por isso. tem tudo a ver com a autonomia. em que o inconsciente é o "discurso do outro". Há uma visão progressista de autonomia e uma visão conservadora. Autogestão também não se confunde com a co-gestão. Autonomia não pode ser confundida com autogestão. a autogestão pedagógica sempre foi considerada como alavanca da autogestão social. podem confundir-se com muitas coisas.

e só pode . em uma mesma escola. • participação comunitária e gestão democrática. são experiências muito polêmicas. quando não o impossibilita. Contudo. à dispersão e à preservação do localismo.professores. A idéia de autonomia é intrínseca à idéia de democracia e cidadania. sobretudo depois da criação. não tiveram continuidade. com maior ou menor intensidade.são cada vez mais frágeis. podemos destacar nesses projetos e reformas alguns traços comuns: • ampliação da jornada escolar. Cidadão é aquele que participa do governo. • atendimento integral à criança e ao adolescente. Outra objeção que costuma ser feita aos "autonomistas" é a de que autonomia da escola leva à pulverização. A heterogeneidade dificulta o controle. pelo regime militar. O papel pedagógico do professor foi esvaziado. No Brasil. Todavia. na medida em que o pluralismo é defendido como valor universal e fundamental para o exercício da cidadania. No caso da administração escolar. na história recente das transformações dos sistemas educacionais em diversas partes do mundo. Podemos encontrá-los também nas reformas empreendidas hoje por outros países.sustentadas freqüentemente por uma concepção centralizadora da educação . mas não tiveram um impacto maior sobre os sistemas de ensino. Existem ainda críticos da autonomia escolar que temem que iniciativas desse tipo levem à privatização e desobriguem o Estado de sua função de oferecer uma escola pública gratuita de qualidade para todos. Muitas delas são fruto de iniciativa de alguns educadores e foram interrompidas quando estes deixaram a escola. das habilitações técnico-administrativas do curso de Pedagogia. tanto para os alunos quanto para os professores. O que chamamos de escola cidadã se constitui no resultado de um processo histórico de renovação na educação. É verdade que é mais fácil lidar com programas unificados de reformas. Esses elementos estão sustentados por um pressuposto mais amplo: o da maior autonomia das escolas. o que dificultaria ações reformistas ou revolucionárias mais profundas e globais. Em alguns casos. essas objeções . Esse movimento encontra-se não apenas na educação brasileira. Os relatos dessas experiências nos dão conta de muitas dificuldades e resistências. o problema está sendo sanado por meio da eleição para o cargo de diretor. Ele pode ser encontrado. experiências isoladas de gestão colegiada de escolas sempre existiram.

é preciso percorrer um longo caminho de construção da (auto)confiança na escola . A participação e a democratização num sistema público de ensino são um meio prático de formação para a cidadania.participar do governo (participar da tomada de decisões) quem tiver poder e tiver liberdade e autonomia para exercê-lo. debates. Não se pode fazer uma mudança profunda no sistema de ensino sem um projeto social. Descentralização e autonomia caminham juntas. precisa compreender o funcionamento da administração particularmente do orçamento . abertura de canais de participação pela administração. Por isso. A ampliação da autonomia da escola não pode opor-se à unidade do sistema. isto é. transparência administrativa. para instituir outra coisa. A população precisa. contra o instituído. apropriar-se das informações para poder participar. A criação dos conselhos de escola representa uma parte desse processo. tentativas e confrontos políticos entre teses diferentes e até opostas. Eles só são eficazes em um conjunto de medidas políticas. em um plano estratégico de participação que vise a democratização das decisões. efetivamente. Portanto. base da democratização da gestão escolar. é uma luta dentro do instituído. Mas. Mas para que . por isso. A eficácia dessa luta depende muito da ousadia de cada escola em experimentar o novo. Essa formação se adquire na participação do processo de tomada de decisões. O que a Itália está experimentando é resultado de um longo caminho percorrido. Mas eles fracassam quando instituídos como uma medida isolada e burocrática. supõe a parceria. mas em constante intercâmbio com a sociedade. Esse plano supõe: autonomia dos movimentos sociais e de suas organizações em relação à administração pública. para isso. Autonomia é o oposto da uniformização. A autonomia admite a diferença e. O conselho de escola é o órgão mais importante de uma escola autônoma. escola autônoma não significa escola isolada. A autonomia se refere à criação de novas relações sociais que se opõem às relações autoritárias existentes. com muitos encontros. A luta pela autonomia da escola insere-se numa luta maior pela autonomia no seio da própria sociedade.na capacidade de ela resolver seus problemas por si mesma e de autogovernar-se.e as leis que regem a administração pública e limitam a ação transformadora. democratização das informações. Só a igualdade na diferença e a parceria são capazes de criar o novo. Deve-se pensar o sistema de ensino como uma unidade descentralizada. e não apenas pensá-lo.

Enfim. para facilitar a participação é preciso oferecer todas as condições.não se sentem responsáveis. o sistema tende a uma síntese superadora. Costumase convocar a população para participar em horários inadequados. mas integrá-la no processo de desenvolvimento humano e social. cada vez mais. a ordem. ao mesmo tempo. Num sistema fechado. no seu livro Filosofia mestiça.para todos.como o consenso. como diz o filósofo francês Michel Serres. Adquirir uma nova cultura não é negar a cultura primeira. idéia tão cara à teoria da educação popular. a descentralização é a tendência atual mais forte dos sistemas de ensino e das últimas reformas. os usuários . precisa trabalhar com uma concepção aberta de sistema educacional. a hierarquia e uma visão dinâmica que valoriza a contradição. respeitar a diversidade local. dinâmica. aquele que se torna um "mestiço".os conselhos de escola sejam implantados de maneira eficaz é necessário que a participação popular. étnica. Esta é uma das principais razões da não-participação. A escola cidadã é certamente um projeto de criação histórica. Para uma administração pública construir essa escola.e os prestadores dos serviços . trata-se de construir uma escola pública universal . sem nenhum cuidado prévio. a adaptação. se constitua numa estratégia explícita da administração. A dialética entre as culturas faz parte da própria natureza da educação. Portanto. mas que respeite as diferenças locais e regionais. o nosso desafio educacional continua sendo educar e ser educado. apesar da resistência . o locus fundamental da educação é a escola e a sala de aula. além da sua cultura. a multiculturalidade. o que temos chamado. Certamente.professores e funcionários . o confronto entre uma visão funcionalista e estática da educação e uma visão dialética. social e cultural. a mudança. esses dois paradigmas contrários de sistema de ensino não se encontram em "estado puro". em locais desconfortáveis ou de dificil acesso etc. Mas educado é só aquele que domina. predomina o ecletismo. dentro e fora da escola. Além disso. unificada -. Nesse confronto de concepções e práticas.pais e alunos . Existe uma visão sistêmica estreita que procura acentuar os aspectos estáticos . A população precisa sentir-se respeitada e ter prazer de exercer os seus direitos e de participar. Na prática. Num sistema aberto. uma outra cultura. Como vimos. O grande desafio da escola pública está em garantir um padrão de qualidade (para todos) e. o conflito e a autonomia. de sistema único e descentralizado.

Escola e governo elaborariam em parceria as políticas educacionais. de Planejamento Socializado Ascendente . Seu corolário é a comunicação entre as escolas e a população. iniciativas deslocadas para a administração dos sistemas durante o regime militar. não apenas para reproduzi-la ou executar planos elaborados fora dela.por exemplo. seja a cultura geral. mas para construir e elaborar a cultura. • autonomia da escola: cada escola deveria poder escolher e construir seu próprio projeto político-pedagógico . ela deve tornar-se o pólo irradiador da cultura. sem que seja necessário passar por incontáveis instâncias de poder intermediário. visando à democratização do acesso e da gestão e à construção de uma nova qualidade de ensino. precisa ser incluída como parte essencial do projeto da escola. Escola não significa um prédio. • avaliação permanente do desempenho escolar: a avaliação. um único espaço ou local. E a qualidade está . seja a cultura popular. por meio do que chamamos. Escola significa projeto em torno do qual poderiam associar-se várias unidades escolares. Enfim. A escola precisa ser o local privilegiado da inovação e da experimentação político-pedagógica. a questão essencial da nossa escola hoje refere-se à sua qualidade e a uma nova abordagem da qualidade. muitas vezes associados na luta contra a inovação educacional. a comunida-de externa e o poder público. como no caso do modelo hierárquico e vertical de poder. Deve envolver a comunidade interna. A administração de um sistema único e descentralizado de ensino poderia apoiar-se em quatro grandes princípios: • gestão democrática: um sistema único e descentralizado supõe objetivos e metas educacionais claramente estabelecidos entre escolas e governo. Não pode ser um ato formal e executado por técnicos externos à escola apenas.de forma que as deliberações escolares tivessem influência e peso sobre as políticas públicas educacionais. no Instituto Paulo Freire. superando o temido problema da atomização do sistema de educação. para que tenha um sentido emancipatório.oferecida pelo corporativismo das organizações de educadores e pela burocracia instalada nos aparelhos de Estado. • comunicação direta com as escolas: se a escola é o locus central da educação. pois existe uma só cultura como obra humana (unidade humana na pluralidade dos homens).

podem diminuir os gastos com a burocracia. princípios e elementos que caracterizam a escola que chamamos de cidadã? • O que falta à sua escola para que ela seja cidadã? Como construí-la? . Isso porque só as escolas que conhecem de perto a comunidade e seus projetos podem dar respostas concretas a problemas concretos de cada uma delas. E a própria comunidade pode avaliar de perto os resultados. Questões para debate • Identifícar na história das idéias pedagógicas os fundamentos da escola autônoma (cidadã). que são muito mais eficazes na conquista dessa qualidade do que grandes projetos anônimos e distantes do dia-a-dia escolar. podem respeitar as peculiaridades étnicas.diretamente relacionada com os pequenos projetos das próprias escolas. sociais e culturais de cada região. • Em que medida a Constituição Federal de 1988 e a política educacional do seu município ou Estado favorecem ou dificultam a construção da escola cidadã? • Quais são os fundamentos.

podemos ter a sensação inicial de insegurança. e diretor do Instituto Paulo Freire. quando pretendemos desenvolver quaisquer atividades no âmbito do sistema ou da unidade escolar. a escola que apaixonadamente diz sim à vida. de avaliações a serem Custódio Gouvea L... da Motta é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. MG. De qualquer maneira. Aí percebemos a necessidade do prévio estabelecimento de finalidades. que marcha. em que se atua.instruções. José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora.. de objetivos. com um novo trabalho. da Motta José Eustáquio Romão Paulo Padilha Quando. . Do que adiantam? Gestos educados. enfim. com novas pessoas. em que se cria. A escola em que se pensa. para seguir em frente. MG. com qualquer nova atividade ou situação. convenções. constituições se o teto da escola caiu se a parede da escola sumiu (Mobral) Herbert Vianna Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura. em nossa vida cotidiana.. realizamos espontaneamente uma sondagem inicial acerca de tudo o que nos cerca e naturalmente interpretamos as condições encontradas. no caso específico da educação. bulas. para nos relacionarmos e também para participar e interferir naquele ambiente ou naquela situação. A partir daí passamos a ter maior segurança para caminhar. Do que adiantam? Letras impressas das canções. se adivinha. em que se fala. deparamos com novos ambientes. de metas a serem atingidas. Do que adiantam? Emendas.Do que adiantam? Placas. Paulo Freire CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO Custódio Gouvea L. em que se ama.. por isso que recusa o imobilismo. SP. que não tem medo do risco. Esse processo se amplia se nos entregamos a ações intencionais e.. Paulo Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco.

de forma que professores e demais segmentos escolares e comunitários possam utilizá-la como referencial para seus diagnósticos no âmbito estrito de suas escolas e de suas comunidades. agir e buscar resultados positivos em nossas atividades. A partir dessa analogia. instrumento de sondagem. de interpretação e de análise de dados dos indicadores educacionais. transformam-se em função obrigatória. no sentido do atendimento das demandas O Instituto Paulo Freire de Juiz de Fora elaborou em 1996 as Cartas Escolares das prefeituras municipais de Bicas. recuperou suas aplicações de sucesso no Brasil e a atualizou'. abordaremos a Carta Escolar adaptada à unidade escolar. a metodologia da Carta Escolar foi aperfeiçoada e melhor aplicada .realizadas. Diante de circunstâncias e de ações intencionais e deliberadas. por conseguinte. o ensino e a aprendizagem. fisiográficas. de resultados a serem quantificados e qualificados para que correções de rumos possam melhorar a nossa atuação e. Além disso. Mercês e Oliveira Fortes. conscientemente. sondagem e interpretação de dados acabam se constituindo em etapas essenciais para que possamos.com muito sucesso em outros países. . econômicas. demográficas. apresentamos a metodologia denominada Carta Escolar. ela indica as ações que permitirão a organicidade da rede física escolar. culturais. a estaremos estudando em sua concepção original. estudou seus resultados nesses países. O que é a Carta Escolar? Desenvolvida no Brasil na década de 70. resultados de mecanismos inconscientes de captação de informações. O Instituto Paulo Freire resgatou-a. Ela é um instrumento de planejamento do sistema ou subsistema educacional que permite o estudo das condições sociais. que nos permite desenvolver ações com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político-pedagógico da escola. Elas estão à disposição para consulta nas sedes do Instituto. Inicialmente. Nessas condições. Depois. destinada a subsidiar ações educacionais de âmbito municipal e de sistema de ensino. de Minas Gerais. urbanísticas e arquitetônicas de comunidades que abrigam sistemas escolares. a sondagem e a interpretação dos dados observados por nossos sentidos.

e da demanda real e potencial. destacam-se a topografia. barreiras urbanísticas. que utiliza uma metodologia criada pelo Instituto Paulo Freire.específicas de cada nível. que devem ser profundamente estudadas para verificar suas influências no planejamento educacional do município. faz um levantamento real e efetivo de toda a população do município. Para tanto. Ademais. com suas características específicas e com os elementos que influenciarão na escolarização. Entre os elementos externos que interferem no processo de escolarização. é inserida uma descrição do seu cenário geográfico. bem como para a definição das áreas de jurisdição das escolas. quanto de recursos humanos (docentes e não-docentes). na medida em que indica os locais a serem implantadas as novas unidades escolares com vistas ao atendimento de áreas já densamente povoadas ou de indução de adensamento. O Censo Escolar. demografia. para garantir facilidades de acesso. hidrografia. Essa Carta possibilita. Os mesmos dados são lançados em mapas municipais para que se tenha uma visão mais clara das deficiências ou duplicações existentes em função dos adensamentos populacionais e das barreiras físicas ou urbanas que influenciam no dimensionamento da rede física escolar. tanto em termos de recursos físicos (instalações. com seu perfil profissional. com escala que permite uma representação suficientemente precisa e detalhada da rede escolar. a racionalização da expansão da rede física escolar. material didático). aspectos . assim. É realizado também um levantamento exaustivo da capacidade instalada da rede escolar do município. infra-estrutura e atividades econômicas. sexo e escolaridade por setor censitário. a partir da delimitação de setores censitários. é aplicado um questionário em todas as residências (urbanas e rurais) e coletadas informações referentes à renda. idade. caracterizadas em seus estratos sociais a partir de dados fornecidos por um Censo Escolar. equipamentos. malha viária. a Carta Escolar é um instrumento operacional cujo suporte físico é um mapa topográfico. são coletadas informações sobre outros indicadores sociais que interferem no desempenho do sistema educativo. por amostragem. com sua localização. segurança e conforto compatíveis com as faixas etárias dos usuários. Todos os dados coletados são tabulados por meio de sistemas computacionais que fornecem uma série de indicadores para as projeções de expansão ou contração da rede. Para se ter uma visão da realidade de cada município.

características sócioeconômicas predominantes de sua clientela.físicos . das lacunas a serem preenchidas e das prioridades educacionais a serem estabelecidas e implementadas. levantar os dados sobre os limites e potencialidades do setor educacional do município para o atendimento das demandas que sejam resultantes de levantamentos e de pesquisas cientificamente consolidados. seus recursos humanos. A partir da identificação dos problemas a serem atacados. maximizar a utilização da capacidade física instalada. indicar o estabelecimento de áreas de jurisdição de escolas. já que a finalidade precípua da Carta Escolar é o arrolamento analíticocrítico dos principais componentes de seus serviços. A Carta Escolar tem como objetivos fornecer vários subsídios para o conhecimento efetivo da real situação da educação municipal. uma análise detalhada da sua evolução demográfica e econômica e uma reconstituição de seu quadro histórico-social. do município ou do Estado. . e. partindo de uma série de "retratos" tirados ao longo dos anos e revelados coletivamente.relevo. é possível uma intervenção precisa no sistema educacional dos municípios. com a participação dos próprios agentes escolares. considerando todos os elementos que possam influenciar o processo educativo. quantitativa e qualitativamente. Como vimos. a Carta Escolar tem por finalidade promover um amplo diagnóstico da educação no município. prever o desenvolvimento do sistema escolar em função da demanda social por matrículas. para alimentar. otimizar a aplicação de recursos destinados à educação. assessorar os municípios na elaboração e implementação de planos educacionais. Observe-se que a Carta Escolar. sua capacidade instalada. No caso específico de uma escola. enquanto diagnóstico da capacidade e demanda educacionais da escola. dos avanços a serem continuados e estimulados. a Carta levanta. passando por sua evolução político-administrativa. clima e vegetação -. suas demandas e das respectivas projeções futuras. Todos esses elementos contribuem para a caracterização da educação no município. até o contexto contemporâneo. área de abrangência. hidrografia. torna-se instrumento indispensável para a elaboração dos projetos político-pedagógicos em todos os níveis educacionais. jurisdição e manutenção. minuciosamente. desde as origens. Sua análise constitui o cerne do trabalho. situação legal e histórico de sua evolução ao longo dos anos. finalmente. o processo decisório da comunidade local.

além de inserir os problemas educacionais do município em um universo mais amplo. O resultado da Carta Escolar deve servir como indicação. fundamentalmente. o Instituto Paulo Freire propõe algumas recomendações à administração municipal. Observamos que a Carta Escolar. De sua elaboração participa uma equipe responsável do Instituto Paulo Freire. será o cerne do trabalho. apontamento de rumos e recomendações a serem submetidas ao .e. com a colaboração da população em geral.Estrutura da Carta Escolar A Carta Escolar é um trabalho coletivo. sua criação e evolução político-administrativa. já que os componentes municipais constituem conteúdos curriculares importantes na escolarização dos discentes do ensino fundamental. hidrografia e clima -. com o envolvimento de toda comunidade municipal . os lotados na Secretaria Municipal de Educação . relativamente independente. os vereadores do município -. • reconstituição da trama das relações histórico-sociais: procurase fazer a reconstituição dessa trama. com vistas à compatibilização entre as disponibilidades potenciais e às necessidades educacionais projetadas e decorrentes do direito de todos a uma educação básica de qualidade. • conclusões e recomendações: à luz dos dados analisados. a mesma conta. que oferece os dados coletados aos pesquisadores. aspectos físicos . também oferece aos professores subsídios para o desenvolvimento da integração social com seus alunos. • caracterização educacional do município: esta parte. geógrafos. médio e longo prazos. ainda. de curto. desde as origens.servidores municipais. formada por professores coordenadores. Além dessa equipe. com informações sumárias sobre a flora e a fauna.relevo. e uma análise dos aspectos demográficos. técnicos em informática e recenseadores. já que sua principal finalidade é o arrolamento analítico-crítico dos principais componentes de seus serviços e demandas educacionais e de suas projeções para o futuro. Ao final do trabalho elabora-se um minucioso relatório com as seguintes informações: • cenário geográfico do município: descrição da localização.e em especial com os professores e supervisores de ensino. independentemente das facções políticas a que pertençam .

A CARTA ESCOLAR ADAPTADA À UNIDADE ESCOLAR A Carta Escolar. por meio de suas legítimas representações e lideranças. alfabetizando. por idade. acompanhados das respectivas totalizações numéricas e estatísticas. e resumo com os totais daquelas projeções para o ano seguinte à pesquisa. O relatório final da Carta Escolar apresenta. A Carta Escolar. adaptada a cada estabelecimento de ensino. e sobre aqueles que não a freqüentam. objetos de estudo mais profundo sobre cada aspecto específico e submetidas ao crivo das decisões políticas do município. portanto. Todas essas informações podem ser mantidas em arquivo: dados coletados. por faixa etária e série. como projeções e busca de indicadores de qualidade do município. O relatório traz ainda informações sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por faixa etária (analfabeto. a formulação e implementação de políticas de outros setores da administração pública. tabulados e analisados. tabelas e gráficos com os dados relativos aos aspectos demográficos em geral. sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por setor. à renda por estratos sociais e ao grau de escolarização de sua população. fora da escola. evadido. Tais recomendações e conclusões devem ser. aos seus professores e a todos os segmentos escolares uma "fotografia" das reais condições da escola. total e universo). em conjunto com os órgãos de representação democrática dos diversos segmentos sociais. de forma a servir de subsídio para estudos e como instrumento técnico de atualização fatura da Carta Escolar ou de outras pesquisas que se fizerem necessárias no município.processo político decisório da comunidade local. subsidiando. pode servir também para a obtenção de outras informações. e relatórios com dados sobre os alunos que estão freqüentando a escola. ainda. assim. embora se dedique ao levantamento da realidade educacional. entre outras inúmeras combinações que podem ser realizadas. e setor. . além de outras informações que possibilitem a realização de projeções máximas de atendimento de alunos por faixa etária e por série para o ano seguinte à pesquisa. com a distribuição da população por sexo. aos administradores municipais mapas de localização dos setores censitários e das escolas. aqui apresentada sinteticamente. faixa etária. oferece ao diretor da escola.

Com isso queremos dizer que. Mestres e Comunidade (APMC) etc. os mesmos não devem ser entendidos como "camisa-de-força". Associação de Pais. de sua elaboração participam organizadamente a equipe diretiva da escola. A avaliação de cada etapa do processo faz parte. Ela pressupõe divisão de poder e de responsabilidades. as equipes responsáveis pelo recenseamento e suas respectivas coordenações. ainda. a APM e representações dos segmentos extra-escolares . Círculo de Pais. metas. Assim. no aspecto técnico e científico. o Grêmio Estudantil. todas as atividades. Deve ser elaborado um plano de trabalho para o Censo Escolar que estabeleça objetivos. Conselho Educacional e Comunitário. Os recursos necessários para a execução do trabalho e suas fontes precisam igualmente ser definidos. ao apresentarmos alguns parâmetros para a realização da Carta Escolar. As presentes recomendações são uma possível base para a realização de um diagnóstico escolar. Não temos a intenção de padronizar ações nem de oferecer receitas metodológicas prontas para o consumo. como também o serão os eventuais assessores que estarão subsidiando. Caixa Escolar. Em outras unidades da Federação o mesmo organismo pode ser chamado de Conselho Escolar.termo usado no Estado de São Paulo. Como a Carta é um instrumento elaborado coletivamente. também. ela servirá inicialmente como pólo aglutinador de intenções. de interações e de forças que caminham juntas para a concretização das finalidades e objetivos educacionais estabelecidos democraticamente por toda a equipe escolar. o estabelecimento de Os Conselhos de Escola . Conselho Deliberativo Escolar. as mães e os pais de alunas e alunos e os representantes da comunidade escolar e extra-escolar.que subsidiará a elaboração de seu projeto político-pedagógico e de seu planejamento participativo ascendente. do conjunto de itens desse plano de trabalho. como também muitos são os sujeitos que deles farão uso e a partir deles tomarão decisões. O Censo Escolar tem início tão logo se realize a articulação de todos os segmentos escolares. Nesse documento devem ser previstas. incluindo necessariamente o Conselho de Escola. As Associações de Pais e Mestres (APMs) também são chamadas de Associação de Apoio à Escola (AAE). todo o corpo docente. por mais bem-vindas que possam ser algumas receitas em certas situações. Fórum de Gestão Participativa. uma vez que os dados a serem coletados e levantados são muitos. metodologias de ação e distribuição de tarefas. Colegiado Escolar. Assim. . o discente.

se sofreu alteração ao longo dos anos. áreas livres. rede de esgoto ou de tratamento de água. quantidade. existência e condições de salas da diretoria. energia elétrica etc. de ensino. de bibliotecas. de refeitórios. • estrutura física: discriminação minuciosa da estrutura física da escola. do cercamento. de laboratórios. a visibilidade e. departamento em que está lotado. do acabamento. Além desses dados.) e a reconstituição da história da escola: como nasceu a idéia de sua instalação. os questionários para a coleta de dados podem ser divididos. Quando esses dados são colocados em quadros. propriedade do prédio. CGC etc. atos de autorização de reconhecimento. de salas de professores. conseqüentemente. de horta escolar. do forro. de cozinha. suas dimensões. são incluídas informações sobre: terreno. endereço completo. hortas comunitárias. equipamentos e recursos materiais: especificação. de sanitários para alunos e professores. do piso. contendo o tipo e a quantidade de dependências. em treze itens. por que razões etc.ensino poderá dispor de informações e de estatísticas confiáveis para decidir seus futuros passos e elaborar seu projeto político-pedagógico. de salas de vídeo. localização/zona. distrito. tipo da escola. por exemplo. Dessa forma. estado de . de áreas de lazer. tais como água. de depósitos. Podem ser incluídos também neste item os tipos de serviços disponíveis na escola. quando foi criada e quando começaram suas atividades. situação institucional (mantenedor. esfera administrativa a que pertence. o que servirá também aos professores quando da elaboração coletiva e individual de seus planejamentos e de seus planos (de curso. que organizarão o levantamento das seguintes informações: • identificação da escola: nome. área que a escola ocupa. região. linhas telefônicas. a análise ficam mais fáceis: EXEMPLO: INSTALAÇÕES ESCOLARES Dependências/Quantidade Dimensões (m2) Estado de conservação Adequada/Inadequada Observações • mobiliária. de áreas esportivas. salas de aula . estado de conservação e adequação das instalações escolares. situação da construção. com acréscimos de séries ou graus. com suas respectivas dimensões. de salas-ambiente. da secretaria. de aulas etc). espaços para áreas esportivas.

identificando as fontes e sua destinação (despesas). lousas. separada por séries e graus (ou níveis) de ensino e com dados da matrícula inicial. tempo de serviço na escola e no serviço público. de jardinagem. o número de alunos em cada turno e tipo de fornecimento . as pendências administrativas ou das condições atuais dos serviços de secretaria. aparelhos de televisão.se sistemático ou não. de vídeo. cadernos. Devese relacionar o nome completo do servidor. antenas parabólicas. das transferências expedidas. das transferências recebidas. gravadores. quais estão no seguro. carga horária semanal. os aprovados e os reprovados. • recursos humanos: todos os recursos humanos de que a escola dispõe devem ser relacionados: docentes e não-docentes. a evolução da demanda. levantar balanços da APM. equipamentos de cozinha. • matrícula e evolução da demanda: aqui se devem criar quadros ou utilizar os já existentes na escola para informar a distribuição da matrícula segundo sexo. função. disciplina que ministra (no caso de docentes). mobiliários para os alunos. textos. giz. ainda. armários. quais estão em garantia. do número de alunos evadidos. as condições de manutenção dos equipamentos. as características sócio-econômicas predominantes entre os alunos. filmadoras. os valores em caixa. quais precisam de consertos. ano de admissão na escola e número de repetências. livros na biblioteca. retroprojetores.conservação relativo a carteiras e cadeiras escolares. Nesse sentido. • recursos financeiros: relacionar as receitas da escola. em contas bancárias. cursos realizados etc. . especificando o número de vezes em que é servida por turno. Neste item cabem ser anotadas. fitas de vídeo. A escola pode criar e levantar seus próprios quadros para relacionar as informações de que necessita. microcomputadores etc. grau de escolaridade. considerando-se também as turmas e as séries. série. a distribuição dos alunos segundo a distância a que residem da escola e o tempo que levam para chegar até ela. fax. lápis. dedicação exclusiva ou não. além de informações sobre o tipo de organização dos arquivos da escola. de limpeza. por exemplo. levantamento contábil completo e nível de autonomia financeira da escola. a distribuição de alunos por turnos e séries e em relação à merenda escolar. Pode-se levantar. da Caixa Escolar etc. máquina de xerox. projetores de slides.

se tem serviços . • deficiências detectadas na escola: em relação a todos os itens pesquisados. bem como informações sobre os projetos em andamento. anotar. • Conselho de Escola.. clubes. distribuição do tempo de trabalho pedagógico da equipe docente etc. às condições administrativas. Os fatores que impactaram negativamente o desempenho escolar deverão ser usados como referência para a construção de estratégias para sua superação. participação em associações (sindicato. aos recursos materiais. pinta. de docentes e de apoio técnico administrativo e operacional. escreve. o nível de participação da comunidade escolar. toca. ao prédio escolar. seus membros e representantes e o tipo de atuação que desempenham na escola. administrativos ou financeiros desenvolvidos pela escola nos anos anteriores. APM e Grêmio Estudantil: síntese especificando as atividades desenvolvidas por essas instituições escolares. profissão. ao interesse dos alunos. escola. Anotar nesse item.). a atuação da equipe de direção. bairro. igreja.. às instalações e aos equipamentos. grau de instrução. incluindo os espaços que utilizam.. dança. • características da comunidade: levantamento de dados sobre os moradores do bairro em que a escola está inserida: nome.• projetos desenvolvidos na escola: levantamento sobre os projetos pedagógicos. habilidades artísticas (se canta. incluindo-se aí os segmentos escolares envolvidos nos mesmos. à participação dos segmentos na instituição escolar e às diferentes instâncias administrativas. os programas de formação dos quais participam ou já participaram os membros dos segmentos escolares. informações que revelem as deficiências da escola em relação à formação dos docentes. se possível com todas as suas características e com os resultados efetivamente obtidos.). no ato mesmo do levantamento.. do Conselho de Escola e demais representações de segmentos escolares. Caixa Escolar. pedagógicas e financeiras da escola. ao número de funcionários. • características da gestão e das relações humanas na escola: definir tipo e características da gestão escolar. • características do bairro: levantamento de informações gerais sobre o bairro em que a escola está inserida: sua história transformações por que passou e como se deram. ainda. procedência.

de que tipo e com que freqüência etc. o diagnóstico ficaria incompleto. porque as ações a serem . Esse processo se constituirá. incluir também os alunos que não são atendidos pela escola. pois. rede de esgoto. e. local de moradia. áreas de interesse. certamente. condições de moradia. pois a escola não pode ficar à deriva. desde o início. em especial aos professores e aos alunos. É importante ressaltar que esse levantamento pode e deve. exige a organização das tarefas. de áreas de lazer. água encanada. se tem movimentos sociais organizados. segundo. um trabalho pedagógico coerente com as características e com as necessidades dos discentes. iniciando-se a fase propriamente de diagnóstico ou interpretativa. o mesmo não só é possível . como as demais. a construção coletiva tende a aumentar a probabilidade de se obterem resultados satisfatórios a curto prazo. porque prevê o envolvimento. participarão dessa outra etapa que. construindo e exercendo. ao contrário. deixada à sua sorte.como luz elétrica. primeiro. de biblioteca.como é absolutamente necessário à construção coletiva de um projeto político-pedagógico. A primeira vista. a sua cidadania. se são realizados eventos culturais. com quantas pessoas vive. local de trabalho etc. uma ampla vivência da prática democrática no âmbito escolar. em uma aprendizagem para todos os que atuam direta ou indiretamente na escola. de forma plena. especialmente pelos docentes da escola. que estarão assim se formando enquanto sujeitos ativos. a atribuição de responsabilidades e a elaboração do plano de trabalho. de farmácias. contudo. asfalto. Para tabular e interpretar qualitativa e quantitativamente os dados do Censo. qual é o seu lazer preferido. o número de habitantes. número de transferências. habilidades artísticas. coleta seletiva de lixo. número de repetências. outros cursos. procedência. de livrarias. Sua concretização. desde cedo. Além disso. na seqüência. sexo. deverá ser acompanhada e assessorada pelas instâncias superiores da administração escolar. pode parecer muito dificil e complexo realizar um diagnóstico escolar com tal amplitude. equipes formadas por representantes de todos os segmentos escolares. a descentralização das funções. de hospitais. o que garantirá. No entanto.porque contará com a participação e o envolvimento de todos . Esta experiência possibilitará a todos os sujeitos que dela participarem. de igrejas. • caracterização dos alunos: idade.

implementadas na escola considerarão o diagnóstico feito a partir dos dados levantados e da análise crítica da realidade constatada. Questões para debate • O que é e em que medida a Carta Escolar contribui na construção do projeto político-pedagógico da escola? • Que informações essenciais a Carta Escolar pode oferecer para a construção do projeto político-pedagógico da escola? • Como organizar a escola para a realização do Censo Escolar? • Qual é o papel pedagógico que a elaboração da Carta Escolar pode ter? .

. Ângeh Antunes Ciseki é professora da rede de ensino municipal de São Paulo e diretora técnica do Instituto Paulo Freire .. dificilmente aprenderá a pensar e decidir coletivamente. se só é avaliada..) A gente vai contra a corrente Até não poder resistir Na volta do barco é que sente O quanto deixou de cumprir Faz tempo que a gente cultiva A mais linda roseira que há Mas eis que chega a roda viva E carrega a roseira pra lá. (Roda viva) Chico Buarque CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ Ângela Antunes Ciseki Observemos uma aluna. Paulo Freire (. Há quanto tempo ela está ali? Um ano. como qualquer sonho. dificilmente aprenderá a falar. Se a aluna só ouve. apresentará dificuldade para ouvir o outro.É que a democracia.. não aprenderá a avaliar.. de maneira consciente ou não. se só realizar tarefas individuais. Ela chega à escola. fará o quê? Conseguirá inserir-se no mercado de trabalho? Será uma cidadã ativa} Conhecerá seus direitos? Saberá exigir e lutar por eles? A escola convive com as alunas e com os alunos diariamente e.. segue atentamente as explicações na sala de aula. brinca afoitamente para aproveitar cada segundo do recreio. dois anos. mas com reflexão e prática. estende a mão para pegar o prato de merenda. conversa no pátio com os amigos. mas também pelas relações que estabelece com eles no dia-a-dia. se fala no momento que bem entende. não se faz com palavras desencarnadas. ensina não só por meio do conteúdo com o qual trabalha em sala de aula. recolhe o material para voltar para casa.? Quantas horas diárias ela passa na escola? Quando concluir o ensino fundamental. três.

se só cumprir ordens. distribuição das aulas. Querendo ou não. salas de reunião. a prática cotidiana contribui para reforçar ou superar determinadas formas de agir e pensar.um colegiado formado por pais.também ensinam algo às alunas e aos alunos. É necessário que os educadores tenham consciência de sua prática e saibam a serviço de que projeto de sociedade ela está. ao recreio." (Gadotti) Mas de que forma os alunos podem participar da definição do projeto da escola? Como os pais. o aprendizado de relações sociais mais democráticas.e a forma como a escola organiza seu espaço . A forma como a escola organiza seu tempo . a população poderá controlar a qualidade de um serviço prestado pelo Estado. Mas. não aprenderá a estabelecer seus limites. distribuição das carteiras etc. Os lírios não nascem das leis". como diz Carlos Drummond de Andrade: "As leis não bastam. do tempo reservado a cada área do conhecimento. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. Por meio do Conselho. professores. alunos. ao contato com os pais . A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico.pode ser esse espaço de construção do projeto de escola voltado aos interesses da comunidade que dela se serve. os professores e outros representantes da comunidade interna e externa à escola podem participar da construção da escola que desejam? O Conselho de Escola . ele precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. . é necessário que a gestão democrática seja vivenciada no dia-a-dia das escolas. pessoal administrativo e operacional para gerir coletivamente a escola . O conteúdo com o qual a escola trabalha e a prática que adota estão contribuindo para formar que tipo de ser humano? Para viver em que sociedade? "O aluno aprende quando ele se torna sujeito de sua aprendizagem. projeto esse inserido no projeto de vida do próprio aluno. Nesse sentido. proporcionando o exercício da cidadania. a escola não educa só quando educadoras e educadores escrevem ou falam. ou seja.salas de aula. não aprenderá a ser criativa etc. que seja incorporada ao cotidiano e se torne . poderá definir e acompanhar a educação que lhe é oferecida. para ele se tornar sujeito de sua aprendizagem.definição do calendário. dos dias de prova. O Conselho de Escola já é realidade em muitas escolas de Estados e municípios de todas as regiões do país. a formação de cidadãos ativos. se suas tarefas forem sempre dirigidas. E. diretor. Por isso.

de 20 de dezembro de 1996. tomemos conhecimento de seus limites e avanços e.tão essencial à vida escolar quanto é a presença de professores e alunos para que a escola exista."colaboração" entre os sistemas e comunicação direta da Secretaria da Educação com as escolas. •o órgão de gestão da Educação: plano estratégico de participação. respeito aos direitos elementares dos profissionais da área de ensino (plano de carreira. se não tem extinguido. • a qualidade do ensino: formação para a cidadania (cria possibilidades de participar da gestão pública). condições legais de encaminhar e colocar em prática propostas inovadoras. que requer. Para isso. política salarial. • a definição e acompanhamento da política educacional: o aumento da ca-pacidade de fiscalização da sociedade civil sobre a execução da política educacional. a redefinição de tempos e espaços escolares que sejam adequados à participação. 206. canais de participação (ampliação do acesso à informação) e. outro fato contribuiu para acelerar as mudanças nessa área: a promulgação da Constituição Federal de 1988. o debate se intensificou e alguns Estados já sancionaram suas leis que dispõem sobre o tema. Nos municípios e Estados que já acumularam experiência em relação à prática da democratização. aperfeiçoando seus aspectos positivos e criando novas propostas para os problemas que persistem. n2 9. por isso. a gestão democrática vem exercendo influência positiva sobre: • a estrutura e o funcionamento dos sistemas: . na forma desta Lei e das legislações . s u p e r e m o s suas falhas. a construção cotidiana e permanente de atores sociopolíticos capazes de atuar de acordo com as necessidades desse novo que fazer pedagógico-político. pelo menos tem diminuído os lobbies corporativistas. mesmo antes de uma regulamentação nacional. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). É necessário ainda que conheçamos as experiências já vividas. C o m a instituição da "gestão democrática do ensino público" (Art. inciso VI). Além das práticas exitosas no campo da gestão democrática do ensino público que Estados e municípios vêm desenvolvendo. também estabelece como princípio a "gestão democrática do ensino público. num processo c o n t í n u o de p r á t i c a e r e f l e x ã o .394. entre outras providências. há de se criar as condições concretas para o seu exercício. transparência administrativa. capacitação profissional).

comprometer-se com esta capacitação. O processo de consulta e intervenção por parte dos usuários junto aos órgãos governamentais deve ser prática constante.dos sistemas de ensino" (Inciso VIII. CONSULTAR A COMUNIDADE ESCOLAR Se desejamos que a população se incorpore à vida social.. E no Artigo 15. portanto. 39). tendem a garantir maior sucesso na conquista dessa democratização e. de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: (. inciso II. encontros etc. define um dos princípios da gestão democrática: "Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica.que historicamente tem sido alijada dos processos decisórios de seu País. se considerados. debates. respondendo às exigências dessa prática. Nesse sentido. não podemos conceber a definição da política educacional e a gestão escolar com caráter centralizador e autoritário. seminários. devem ser promovidos para esclarecer a população e contar com sua participação. conseqüentemente. Para o efetivo exercício da gestão democrática da escola é necessário capacitar todos os seus segmentos.participação das comunidades escolar e local em Conselhos de Escola ou equivalentes". assembléias. seja na definição das políticas educacionais. INSTITUCIONALIZAR A GESTÃO DEMOCRÁTICA A consulta e a participação das comunidades escolares possibilitam aos governos estaduais e municipais respaldo democrático para . com presença ativa e decisória.) II .que é o nosso caso . principalmente pais e alunos. As secretarias da Educação devem. Pressupostos da gestão democrática As experiências já vivenciadas em relação à democratização da gestão escolar apontam alguns pressupostos que. seja na vivência delas na prática cotidiana. As experiências revelam que tanto a comunidade externa quanto a comunidade interna à escola apresentam limites à participação.. Art. da escola de melhor qualidade: CAPACITAR TODOS OS SEGMENTOS A participação exige aprendizado. principalmente quando se trata de uma população .

as instâncias administrativas não podem prescindir de canais que possibilitem agilidade e eficiência na comunicação entre elas e a população. mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos. fixar democraticamente as normas e mecanismos de fiscalização etc. DAR AGILIDADE ÀS INFORMAÇÕES E TRANSPARÊNCIA ÃS NEGOCIAÇÕES A descentralização implica o acesso de todos os cidadãos à informação. que atendam às reais necessidades educacionais da população. aprovar. acompanhar e avaliar o projeto políticoadministrativo-pedagógico.encaminhar ao Poder Legislativo projetos de lei mais consistentes. a prática vivenciada pelos diferentes municípios e Estados que já contam com Conselhos de Escola em funcionamento aponta alguns parâmetros a serem considerados para a sua constituição: NATUREZA DO CONSELHO DE ESCOLA • deliberativa. GARANTIR LISURA NOS PROCESSOS DE DEFINIÇÃO DA GESTÃO Para que se garantam transparência e respeito aos princípios éticos nas ações relacionadas à gestão democrática . É preciso garantir a todos o acesso às informações. Nesse sentido.escolha dos dirigentes escolares. • elaborar. Informação necessária não apenas no início do processo administrativo. implantação dos Conselhos de Escola e gestão da instituição educativa -. Parâmetros para a constituição do Conselho de Escola Além dos pressupostos destacados para a institucionalização e implantação da gestão democrática. . normativa e fiscalizadora. todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. consultiva. ATRIBUIÇÕES FUNDAMENTAIS • elaborar seu regimento interno.

PROCESSO DE ESCOLHA DOS MEMBROS • a eleição dos representantes dos segmentos da comunidade escolar que integrarão o Conselho de Escola. NORMAS DE FUNCIONAMENTO • o Conselho de Escola deverá reunir-se periodicamente (com encontros mensais ou bimestrais). municipal e estadual da estrutura educacional. • participar de outras instâncias democráticas. COMPOSIÇÃO • todos os segmentos existentes na comunidade escolar deverão estar representados no Conselho de Escola. para encaminhar e dar continuidade aos trabalhos a que se propôs. . desde que esteja em pleno gozo de sua capacidade civil. pedagógicos e financeiros da escola. conforme necessidade da escola. • a função de membro do Conselho de Escola não será remunerada. secreta e facultativa. por votação direta. • constituir comissões especiais para estudos de assuntos relacionados aos aspectos administrativos. respectivamente. • definir e aprovar o plano de aplicação financeira da escola. • membros do magistério e demais servidores que possuam filhos regularmente matriculados na escola poderão concorrer só como membros do magistério ou servidores. acompanhar e fiscalizar políticas educacionais. como conselhos regional. • ninguém poderá votar mais de uma vez no mesmo estabelecimento. A PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE ESCOLA • qualquer membro efetivo do Conselho de Escola poderá ser eleito seu presidente.• criar e garantir mecanismos de participação efetiva e democrática da comunidade escolar. se realizará na unidade escolar. • serão válidas as deliberações do Conselho de Escola tomadas por metade mais um dos votos dos presentes à reunião. assegurada a paridade (número igual de representantes por segmento) e proporcionalidade de 50% para pais e alunos e 50% para membros do magistério e servidores. para definir. bem como a dos respectivos suplentes.

Com exceção do diretor. elegem por voto direto os professores que os representarão no Conselho. mas também um instrumento de gestão da própria escola. O MANDATO • Um ano. ele pode ter de 16 a 40 pessoas. alunos. Conselho de Escola: estrutura e funcionamento O Conselho de Escola é um colegiado formado por todos os segmentos da comunidade escolar: pais. Mesmo variando o número de membros. Por meio do Conselho. quatro professores. Podem .CRITÉRIOS DE PARTICIPAÇÃO • os representantes dos alunos a partir da 4a série ou com mais de 10 anos terão sempre direito a voz e voto. por força legal. No município de São Paulo. com direito a voz e não a voto. também escolhem os alunos que os representarão e assim por diante. Todos os alunos. por sua vez. salvo nos assuntos que. Grêmio Estudantil. é sempre garantido o mesmo número de representantes por segmento. ou seja. os profissionais de outras secretarias que atendam às escolas. haverá também quatro pais. dependendo do número de classes que a escola possuir. todos os outros membros do Conselho são eleitos por seus pares . no caso da cidade de São Paulo. • poderão participar das reuniões do Conselho de Escola. direção e demais funcionários. Se houver. A sua configuração varia entre os municípios e os Estados que já o implantaram. com direito a recondução. representantes de entidades conveniadas. todas as pessoas ligadas à escola podem se fazer representar e decidir sobre aspectos administrativos. membros da comunidade. sejam restritivos aos que estiverem no gozo da capacidade civil. quatro alunos e quatro representantes da equipe administrativa. • poderão participar das reuniões do Conselho com direito a voz e voto todos os membros eleitos por seus pares.os professores da escola. por exemplo. por exemplo. que é membro nato. professores. movimentos populares organizados e entidades sindicais. financeiros e pedagógicos. a composição é sempre paritária. tornando esse colegiado não só um canal de participação. por exemplo.

eleger. elaborar. se os membros formarão chapas ou apresentarão candidaturas individuais). Sua função é sugerir soluções. deliberativa. apreciar. se achar necessário. com direito a voz. Observe-se. como o próprio nome diz. garantir. que poderão ou não ser encaminhadas pela direção. Outro aspecto a ser mencionado refere-se às funções que os Conselhos de Escola podem desempenhar: consultiva. indicar. opinar e propor. à eleição de seus membros (se será através de assembléia ou votação de urna. se considerarmos algumas atribuições específicas dos Conselhos de Escola. avaliar. a redação de suas atribuições apresenta. ao horário em que elas serão realizadas. estudam. que a elaboração do regimento interno deve sempre estar em consonância com a legislação em vigor e observar as normas dos respectivos conselhos e secretarias municipais e estaduais da Educação. aprovar. dentre outras coisas. As atribuições dos Conselhos de Escola. discutir. estabelecendo normas em relação à convocação das reuniões ordinárias e extraordinárias. além daqueles. Participam com direito a voz e voto somente os membros eleitos. à substituição de algum membro que deixe de comparecer às reuniões etc. Mas. à tomada de decisões (por votação secreta ou aberta). à dinâmica das reuniões. que mostram como esses Conselhos. analisar. possuem maior força de atuação e de poder na escola. analisada isoladamente pelo prisma semântico. normativa e fiscal. os deliberativos. o seu funcionamento e a sua composição. todos os que trabalham. Nos próprios documentos. ao tempo de duração das reuniões. outros verbos. não toma decisões. a descrição de suas atribuições geralmente vem marcada por verbos como acompanhar. são determinadas pelo regimento comum de cada rede de ensino. decidir. arbitrar. teremos um . deliberar etc. Cada Conselho de Escola pode.participar das reuniões do Conselho. apenas é consultado em relação aos problemas da escola. pode não ser suficientemente esclarecedora para mostrar o que significa. As mais freqüentes são as atribuições de natureza consultiva e deliberativa. na prática. ainda. O Conselho de natureza consultiva. a título de ilustração e de elucidação de nossa preocupação. elaborar um regimento interno. assessorar. A afirmação acima. Já nos documentos sobre Conselhos de natureza deliberativa. têm filhos na escola ou fazem parte de movimentos organizados da região em que a escola está inserida. trabalhar com um Conselho deliberativo ou com um Conselho consultivo. como definir (diretrizes).

tomar decisões em relação à vida escolar. enfim. Tentando esclarecer um pouco mais a importância do colegiado deliberativo. serem aprovadas e remetidas para o corpo diretivo da escola.dependendo dos encaminhamentos e da votação em plenária -. também pode. "leis" que regerão o funcionamento da escola ("poder legislativo") e acompanhar a sua execução pela direção ("poder judiciário"). do que quando se opina ou se assessora a direção da escola no mesmo sentido. uma diferença fundamental entre decidir ou simplesmente opinar sobre procedimentos relativos à priorização de aplicação de verbas. podemos fazer uma breve analogia entre ele e os poderes Legislativo e Judiciário. ele decide. funcionários e comunidade escolar como um todo poderá ser maior ou menor. é possível afirmar que a participação de alunos. Suas funções são sempre revestidas de grande importância e relevância: definir o regimento interno. que conta com a representatividade de atores educacionais e comunitários. analisar e definir prioridades. o Conselho. discutir suas diretrizes e metas de ação. guardados o graus de autonomia e consideradas as diretrizes gerais da administração. julgando e garantindo para que elas sejam cumpridas. O Conselho é a instância em que os problemas da gestão escolar serão discutidos e as reivindicações educativas serão analisadas para. se for o caso . discutir e arbitrar critérios e procedimentos de avaliação relativos ao processo educativo e à atuação dos diferentes segmentos da comunidade escolar. No primeiro caso. É mais enfático. discutir e deliberar sobre os critérios de avaliação da instituição escolar como um todo. os membros da . Há. criando normas. democraticamente. Dependendo da natureza do Conselho de Escola. os verbos citados podem significar. mais efetiva ou mais formal. na prática. ele determina onde e como aplicar tais verbas. Não podemos considerar a natureza dos Conselhos como uma questão menor. garantir que.quadro mais nítido acerca das diferenças que. no trabalho cotidiano do Conselho. o Conselho vai muito além de apresentar propostas. Assim como criam leis (Poder Legislativo) e acompanham sua execução (Poder Judiciário). do que somente discutir sobre essa questão. professores. A responsabilidade é ainda maior quando se delibera quanto à organização e ao funcionamento geral da escola. pais. instância executiva ("poder executivo") que se encarregará de colocar em prática as decisões ou sugestões do Conselho de Escola. também.

que representa grande avanço na direção do exercício permanente da democracia e da cidadania na escola e na sociedade em geral. objetivos marcantes do Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. Fica claro que o Conselho de natureza deliberativa é aquele que melhor pode contribuir. para que a democratização e a autonomia da escola sejam alcançadas. ativa e efetivamente.escola e da comunidade apreciem. opinem e proponham ações que contribuam para a solução dos problemas de natureza pedagógica. administrativa ou financeira da escola. Questões para debate • Por que democracia na escola? • De que forma o Conselho de Escola pode ser um espaço de exercício da cidadania? • Como garantir a participação e o envolvimento de todos os segmentos escolares? • Qual a relação entre Conselho de Escola e melhoria da qualidade do ensino? .

Georges Snyders Uma semente atirada Num solo tão fértil Não pode morrer É sempre uma nova esperança Que a gen te alimenta De sobreviver (Amor à natureza) Paulinho da Viola PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA José Eustáquio Romão Paulo Roberto Padilha Início do ano letivo. Todos ocupam seus lugares e as boas-vindas são oferecidas pela diretora. alguma retração. observada carinhosamente por seus colegas. Vai começar a primeira reunião de um novo trabalho educativo. . cautelosos. também participam da confraternização. MG. Professoras e professores. mas. recémingressantes. que logo em seguida declara abertos os trabalhos. José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. de abraços meteóricos. O coordenador pedagógico convida os presentes. olhares curiosos. A diretora da escola exercita sua pontualidade. O tema da reunião administrativa e pedagógica é planejamento e organização do trabalho na escola. é sempre um novo recomeçar. Dia de reencontros explosivos. Uma professora chega atrasada na ponta dos pés. alguma aproximação. um clima de alegria. Uma atmosfera cor-de-rosa entre docentes e equipe diretiva. e diretor do Instituto Paulo Freire. de qualquer maneira. todos concordam. Por todo lado. antigos companheiros de trabalho. Educar é uma luta constante. a se encaminharem para uma sala de aula onde a reunião se realizará. com sua voz grave.A autonomia é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar. SP. Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco.

elaboração do horário de aulas. novos horários de intervalos. Distribui uma papeleta para cada uma delas. Informa que os planos de ensino deverão ser providenciados pela equipe docente e entregues ao final dos três dias de reuniões. o coordenador pedagógico anuncia o início das exposições orais. Em seguida. por sua vez. Professoras e professores. sobre as próximas tarefas. como informa a diretora. após o que. calmamente. que já se mostravam confusos e aparentemente desanimados diante das palavras "planos". que fala um pouco sobre a organização da escola. o coordenador pedagógico dá início a uma dinâmica de grupo. Para tanto. Solicita a formação de equipes. com os itens que estarão sendo "discutidos": entrega de documentos. estão agora ilhados em suas definições. Sem escolha. foram elaborados pelos especialistas da escola dentro dos padrões científicos e técnicos exigidos pela Secretaria da Educação e estão perfeitamente de acordo com os Planos Nacional e Estadual de Educação. O tempo acaba não sendo suficiente. de acordo com suas disciplinas. "planejamentos". Acrescenta que estes. por meio da qual orienta cada grupo para que se reúna por meia hora e em seguida apresente aos demais grupos alguns objetivos específicos de suas disciplinas para o ano letivo. crachás para as primeiras séries. Após quase uma hora. lista de alunos das novas turmas. Lembra que os mesmos deverão ser elaborados em fina consonância com o Plano Diretor da Escola e com os Planos de Cursos já definidos nos anos anteriores. entre outros. pontualidade dos professores na entrada e na saída. novo código disciplinar para os alunos. transfere-se para o período da tarde o início da elaboração do planejamento. Notase no recinto um amargo sentimento. as aulas terão início. como deveria ser. cada representante de grupo lê os objetivos específicos aos quais chegara sua equipe. imediatamente. novas regras para a utilização da cantina. o que não consegue provocar reações nos companheiros.O coordenador pedagógico passa a falar. os professores . definido pela equipe diretiva durante as férias dos professores. tal o silêncio que toma conta do ambiente. passa a palavra à senhora diretora. dedicando-se mais à "parte administrativa". "normas" e "prazos". como se o encantamento inicial tivesse se evaporado subitamente e dado lugar a um ar de constrangimento. Terminada a dinâmica e estourado o tempo da reunião na parte da manhã. Agora. ela distribui uma pauta mimeografada.

de fragmentos de experiências verificadas em muitas escolas há alguns anos e mesmo hoje em dia. Mas se há o risco de a ficção confundir-se com a realidade. não é mera coincidência. na verdade. gerando resultados negativos no espaço escolar. as chamadas "semanas de planejamento" ou "reuniões administrativas e pedagógicas". Não questionamos aqui a necessidade dessas reuniões na escola. Poderíamos iniciar a reflexão discutindo o significado de alguns termos relacionados ao tema em questão. teoria e prática estão sempre imbricadas. efetivamente. Os temas em questão. a partir dos quais poderão adaptar seus planos de ensino dos anos anteriores. muitas vezes. Nesse sentido. Preocupa-nos a possibilidade da ocorrência de situações parecidas com a aqui ilustrada nas escolas atuais. E é nesse contexto que se realizam. se alguma semelhança tiver com a realidade. Elas estão muito distantes das que. A situação descrita. Planejamento educacional e organização do trabalho na perspectiva da escola cidadã Devemos esclarecer que quando pensamos no planejamento educacional e na organização do trabalho na escola em uma .disporão de novos livros didáticos enviados pelas editoras. Assim começava a tarefa de planejar naquela escola e naquele ano. que a todos lembrava experiências burocráticas de anos anteriores nada compensadoras. que cuidemos da prática atravessada pela teoria e pensemos na teoria enquanto reflexão sobre a prática. ou seja. devemos estar refletindo sobre essa realidade. mas os equívocos das atividades propostas e realizadas na reunião anteriormente relatada. São exatamente estas questões que estaremos analisando no decorrer do estudo do tema planejamento socializado ascendente e organização do trabalho na escola. deveriam ocorrer nessas situações. exigem-nos um tratamento praxiológico. Trata-se. Não que definir este ou aquele termo possa resolver o problema. Seria pois impossível tratar de planejar as atividades da escola e da educação sem considerar essa característica. em si. mas pode ser um primeiro passo para uma reflexão mais profunda sobre o planejamento participativo ascendente e a organização do trabalho na escola. que pretendemos aqui realizar.

um projeto político-pedagógico nos estabelecimentos de ensino. entendida aqui como o exercício pleno e democrático. culturais e políticos de quem. Observe-se. Planejar a educação é tema de extrema relevância para contribuir na direção da melhor organização do trabalho na escola. pela prática do planejamento coletivo. linear e hierarquizada que tem caracterizado a prática do planejamento no sistema educacional. enquanto entidade que tem por principal missão propiciar aprendizagens e formar cidadãos. O resultado desse processo será influenciar e provocar transformações nas instâncias educacionais que historicamente têm ditado o como. compreendendo as relações institucionais. por meio de uma prática democrática . Realizar os diversos planos e planejamentos educacionais e escolares. para que esta atinja os fins que justificam sua existência. mas sem desconsiderar as condições do presente e as experiências do passado. Por outro lado. a implantação progressiva do Conselho de Escola e a elaboração de um projeto político-pedagógico. É estabelecer fins e meios que apontem para a sua superação. de caráter político e ideológico e isento de neutralidade. planejar. visando atingir objetivos antes previstos. temporariamente. é responder a um problema. por meio do Conselho de Escola. com quem e para quem se planeja. o para quê. portanto. interpessoais e profissionais neles presentes. Pensar em planejar a educação é parte essencial da reflexão sobre como realizar e organizar o trabalho escolar. científica. Dessa forma. que não é possível dissociar a idéia de planejamento educacional e escolar da necessidade de se desenvolver. assumindo a escola como instância social de contradições que propiciam o debate construtivo e. de seus direitos e deveres. o porquê. intencional. pensando e prevendo necessariamente o futuro. significa exercer uma atividade engajada. organizando a educação.perspectiva cidadã faz-se necessário explicar o significado da palavra cidadania. Isso significa encarar de frente os problemas dessa instituição e do sistema educacional como um todo. o quando e o onde planejar. em sentido amplo. avaliando e ampliando a participação de diferentes atores em sua administração e em sua gestão. no desenvolvimento do próprio ato dinâmico de planejar. Isso exigirá. por parte da sociedade. O nosso objetivo é inverter a relação vertical. Isso significa que. levando-se em conta o contexto e os pressupostos filosóficos. entendemos que a inexistência de um Conselho atuante e de um projeto político-pedagógico pode ser compensada. sobretudo.

pedagógicos ou financeiros. metodologias de ação. a atividade de planejar é sistemática. possui um padrão. Com tal compreensão e prática estaremos desvelando o mito do planejamento e enxergando o seu caráter político e ideológico. apresenta uma metodologia. porque envolverá a participação e a tomada de decisões da população em relação a um serviço prestado pelo Estado. Em se tratando do diagnóstico. equipamentos. técnicas. Se pensarmos na formulação de um planejamento educacional conforme descrito acima. tanto para o municipal quanto para a unidade escolar. tem um objeto de estudo bem definido. com seu perfil profissional. tanto em termos de recursos físicos (instalações. estamos fazendo opções. ao definir objetivos.e de um planejamento interativo e participativo. formas de avaliação do trabalho na escola etc. O Planejamento Socializado Ascendente Não é demais lembrar que estamos diante da possibilidade de utilização de um instrumento que contribui para a construção da . especialmente se isso é realizado coletivamente. identificando todas as suas características. Esse diagnóstico. Será. é um levantamento exaustivo da capacidade instalada. quanto de recursos humanos (docentes e nãodocentes). material didático etc). Dessa forma. o planejamento educacional e a organização do trabalho escolar pensados e acompanhados por todos e para todos não serão atividades meramente burocráticas. sim.porque científica . Ao contrário: por ser científica. A interpretação dos dados coletados indicará as prioridades a serem consideradas no ato do planejamento político-pedagógico da escola. essencial para a elaboração do Planejamento Socializado Ascendente. como tem ocorrido no país nos últimos 25 anos. bem como da demanda real e potencial. um verdadeiro exercício de cidadania. pode-se utilizar a metodologia da Carta Escolar. precisamos inicialmente fazer um diagnóstico da escola e/ou do município no qual ela se insere. pois. seus problemas e necessidades em relação à demanda de recursos físicos. estaremos quebrando e desfazendo. humanos. e viabiliza a execução e a avaliação do que foi planejado. a crença de que planejar é atividade muito complexa . pela ação.e para a qual apenas os especialistas estão devidamente preparados. o que facilita o trabalho de quem planeja. estamos atribuindo às nossas ações educativas caráter transformador ou conservador. metas.

desde o princípio do planejamento escolar. Quando nos referimos ao Planejamento Socializado Ascendente."educação para a cidadania". ou depois de definidos alguns critérios básicos que deverão ser cumpridos. Assim sendo. ou seja. funcionários da escola) já tenha sido iniciado. São Paulo. A primeira característica é o fato de ser um planejamento socializado. professoras. Outra característica de um planejamento socializado que podemos registrar é o fato de ele prever que a participação de certos segmentos escolares e comunitários . que valoriza todos os níveis de participação da escola. comunidade escolar e extra-escolar. estamos também diante de um tipo de planejamento participativo. fica garantida a participação de todos os segmentos. com suas representações nos diferentes momentos do processo educativo. Dessa forma. professores. direção. v. Planejar socializadamente pressupõe a prestação de um serviço à comunidade. como diz João Pedro da Fonseca (Revista da Faculdade de Educação.não ocorra apenas quando o planejamento com outros segmentos (direção escolar. No entanto. estadual e federal. professores. funcionárias e funcionários da escola. tem-se. 1. entendendo esse processo participativo em seu dinamismo.municipal. a dos alunos. que envolve a reflexão.como a dos pais. a visão de totalidade desse processo coletivo. pp. para que a escola funcione bem. a partir da integração das forças de todos os sujeitos. isso não significa dizer que todos os segmentos estarão participando o tempo todo de todas as tarefas e de todos os tipos de planejamento a serem realizados na escola ou na . do qual ela participa diretamente. a de associações escolares e comunitárias . 1995. p. Feusp. mães e pais de alunos e de alunas. 4). Outro pressuposto fundamental do Planejamento Socializado é a não separação estanque dos diferentes momentos da atividade de planejar. a organização da ação e a avaliação de resultados. o planejamento socializado é extremamente relevante e. a tomada de decisão. segmentos ou grupos comunitários e sociais que direta ou indiretamente atuam e se relacionam com a escola e com os demais níveis educacionais . 79-112. dividindo com eles o poder de decisão. no momento do planejamento. Não se trata de adesão a um processo já iniciado. sem exceção. que apresenta duas características fundamentais explícitas na sua própria denominação. é mister a participação efetiva de todos: alunas e alunos. jan/jun. "dotado de tensões que precisam ser vividas e administradas". n. 21. Ao contrário.

operacionalizam-se a ação e todas as etapas do planejamento escolar. pois. deflagrado o processo. Ou seja.educação. viabilizando a consolidação de decisões e deliberações dos grupos participantes. Além disso. que os temas que não forem objeto de consensos básicos retornarão a todo o grupo e serão rediscutidos. a partir das bases (todos os segmentos envolvidos no processo de planejamento). em outros níveis. estaduais e federais de educação. Dessa maneira. definir a coordenação de grupos. todos os segmentos terão suas tarefas bem definidas. observando-se. Representantes da escola deverão ser também definidos pelo grupo para que as consolidações do Planejamento Socializado Ascendente não fiquem restritas aos muros escolares. tudo o que ficar consolidado terá de ser aprovado pela maioria. . Além dessas. Esse processo revela a importância do Conselho de Escola dos Conselhos Municipais e Estaduais de Educação de elevar aos níveis superiores da administração educacional as deliberações tiradas na base do sistema de ensino. poderão estar trocando experiências a todo o momento e repassando-as aos grupos mais específicos. poderá haver atividades que envolvam equipes multissegmentárias que. Isso não só seria inviável em termos operacionais como excluiria diferenças inegáveis em termos de maior capacitação de determinados segmentos para a coordenação e a participação em certos componentes do planejamento. Apesar disso. Nesse sentido. Ao pensarmos no Planejamento Socializado Ascendente estamos viabilizando o projeto político-pedagógico da escola. que poderão influenciar os demais níveis da administração e do planejamento educacional. a divisão de tarefas. tudo o que estiver acontecendo na escola será também socializado com outras escolas. interferindo assim na definição das políticas públicas municipais. Esta estratégia implica combinar. Ordenar a participação é. outras instâncias representativas intermediárias podem ser criadas em nível local ou regional (conselhos regionais. interescolares. escolher representantes dos segmentos escolares e das equipes multissegmentárias para que se organizem consensos básicos. Mas. a segunda característica desse tipo de planejamento que chamamos de estratégia ascendente. intermunicipais) para a troca de experiências e para a adoção de propostas educacionais mais amplas. com outras experiências. tais representantes estarão veiculando as experiências de suas escolas em outras instâncias e níveis educacionais. ainda. assim.

que perpassam as demais instituições sociais e os grupamentos humanos em articulações múltiplas e complexas. sobre questões relativas não só ao processo de ensino e aprendizagem. das organizações locais. "Dão-se as relações entre a escola e a sociedade pela mediação da família e dos grupos de iguais. embora articuladas fora da escola. O Planejamento Socializado Ascendente pretende quebrar a coluna dorsal do planejamento educacional autoritário. sem sentido. de caráter tecnicista e com objetivos apenas formais. de cima para baixo. que. a organização e a condução da escola de intenções políticas em interação dinâmica e conflitiva. mas também em relação às questões administrativas e financeiras da escola e da própria sociedade em que ela se insere. Sendo assim. em especial. ao interior e ao entorno imediato dela. Lida ela com interesses relevantes para a sociedade toda. e desde que os recursos públicos são gerados nos processos do trabalho" (O projeto pedagógico da Escola. na própria sociedade. Dependem a concepção. pp. por conseguinte. 9. MEC/SEF. seja em que nível for. envolvimento com as ações do cotidiano escolar e avaliação dos serviços prestados à população. invertendo a relação de poder na educação e. porém. 1994 . que considera (com razão) o planejamento atualmente praticado uma atividade meramente burocrática. dos movimentos sociais. desde que se concebe a democracia como o efetivo poder dos cidadãos no mundo de suas vidas. das demais instituições da sociedade civil e. Metodologia de elaboração do Planejamento Socializado Ascendente Consideramos que planejar a educação de forma socializada é exercitar a cidadania. pela ação do poder político organizado no Estado com seus níveis de município. em movimento ascendente. Estará também contribuindo para superar a resistência à participação no âmbito escolar. o planejamento deve começar pela inserção de toda a sociedade no debate democrático. já que implica tomada de decisões. de estados-membros e da Federação. . "a comunidade argumentativa dos interessados no projeto político-pedagógico da escola não se limita. a penetram.Série Atualidades Pedagógicas. modelam e controlam. Brasília. 10-11).Como explica Mário Osório Marques.

devemos. Concluída essa etapa. Portanto. a participação de todos os segmentos. já garante. num horizonte de tempo predeterminado. para tanto. as estratégias de ação.considerando sempre os condicionantes socioculturais e políticos que influenciam e afetam diretamente o cotidiano escolar. municipal e estadual. as metas. levando a eles as prioridades definidas pela unidade escolar. após verificar-se a disponibilidade de meios para a sua superação. Se confiará na capacidade reflexiva de todos os segmentos escolares e comunitários e em suas potencialidades de ação. A Carta Escolar. as tarefas e as equipes responsáveis pelas mesmas. a escola terá diante de si as informações que lhe permitirão definir prioridades. por meio da metodologia da Carta Escolar. Cuidados com o democratismo e com o risco do populismo devem ser tomados. nessa fase. É importante evitar. o tipo de avaliação que se fará do processo e que se estabeleçam as intervenções a serem realizadas na escola. enquanto estudo inicial de dados da realidade escolar e de diagnóstico (ou interpretação daqueles dados). se presentes. partir de um diagnóstico detalhado da escola e da educação em nível local. Como só é possível planejar a partir de um contexto bem específico e conhecido. desde o início do planejamento. pois o amplo levantamento de informações torna-se inviável sem que todos estejam envolvidos. a história e a cultura local dos cidadãos pesquisados. É necessário também que se contextualizem os objetivos. sobretudo. desenvolvida pelo Instituto Paulo Freire. co-responsabilizando-se com a busca de soluções e superação dos problemas. pois. elaboradas cientificamente e baseadas numa nova ética que considere e respeite. Isso pode ser feito. o primeiro passo do Planejamento Socializado Ascendente na unidade escolar é a Carta Escolar. por exemplo. ao contar com as comunidades intra e extra-escolar e ao ouvi-las. devem ser escolhidos os representantes da escola que atuarão junto aos colegiados intermediários e conselhos municipais e/ou estaduais de Educação. a ser realizado mediante a aplicação de metodologias inovadoras de pesquisa. estará buscando as possíveis alternativas de solução aos problemas encontrados. Essas devem ser escolhidas por ordem de prioridade. A Carta. o cronograma de atividades. podem inviabilizar o . a tentação de se querer resolver de uma só vez e de modo idealista todos os problemas detectados no diagnóstico realizado. Definidas as ações.

definindo datas e espaços para que os segmentos escolares se reúnam em separado para eleger representantes. Superar tal exclusão e tal limitação é característica inerente a esta proposta. Associações comunitárias deverão t a m b é m estar r e p r e s e n t a d a s . • T o d o s os segmentos escola res deverão estar representados paritariamente nessa reunião. a todos os segmentos escolares e à comunidade educacional em geral. o projeto político pedagógico da escola. ETAPAS ESCOLARES: POSSÍVEIS PARÂMETROS O Planejamento Socializado Ascendente na escola pretende superar a prática de atribuir a competência de planejar apenas a uma minoria de especialistas. Caso não exista um colegiado. nos níveis seguintes. os e n c a m i n h a m e n t o s . aos educandos. A escola e cada um dos possíveis níveis intermediários de representação existentes deverão estar sendo permanentemente informados sobre as deliberações. as conquistas e os entraves verificados em todo o processo. na escola. b e m c o m o os representantes de todas as instituições escolares (APM. Estes. • elaboração do Plano de Trabalho para a efetivação da Carta Escolar. • amplo movimento de sensibilização da comunidade para compreender a importância da Carta Escolar e de sua realização. Grêmio Estudantil). a gestão democrática. explicar detalhadamente no que consiste esse tipo de planejamento. Caixa Escolar. a escola poderá organizar uma comissão responsável pelos e n c a m i n h a m e n t o s relacionados ao Planejamento Socializado Ascendente. . que estarão envolvidos na elaboração do planejamento.processo democrático necessário ao Planejamento Socializado ascendente em quaisquer de suas fases. a tarefa de cumprir à risca o que fora por eles planejado. baseados numa suposta neutralidade política e científica. • na reunião. Assim. determinam os destinos da unidade escolar ou da educação como um todo. cabendo aos educadores. as possíveis etapas desse processo podem ser as seguintes: • o Conselho de Escola convocará uma Assembléia Geral para discussão do Planejamento Socializado Ascendente. as consolidações.

O Planejamento Socializado Ascendente representa. • reuniões para organização das equipes que participarão da Carta Escolar (ver Carta escolar: instrumento de planejamento coletivo). o fim das práticas inadequadas de avaliação do desempenho educacional do aluno. política e social que certamente aparecerá no d i a g n ó s t i c o p r o p o s t o . definindo subcomissões para todas as tarefas necessárias à organização e funcionamento da escola nos seus aspectos administrativos. • escolha de membros do Conselho para representar a escola nos demais níveis de planejamento educacional (local/ municipal/estadual). a superação do nível insatisfatório da qualidade de ensino. Dessa m a n e i r a . um i n s t r u m e n t o eficaz para c o n t r i b u i r com a melhoria da qualidade do serviço educativo oferecido pela i n s t i t u i ç ã o escolar. a c o m p a n h a r e avaliar p e r m a n e n t e m e n t e as ações implementadas na escola. metodologias e formas de avaliação das atividades educacionais que favoreçam a ação de todos para superarem. sem perder de vista a multiplicidade cultural. assim. coletivamente. • ampla mobilização da comunidade para a realização da Carta Escolar do estabelecimento de ensino. nessa nova perspectiva. cotidianamente. poderá propor ações com base no estabelecimento de finalidades e de objetivos educacionais claramente definidos. elaborar o Projeto Político-Pedagógico da Escola. os obstáculos a serem enfrentados e o grau de realização das metas e objetivos estabelecidos no Planejamento PolíticoPedagógico da Escola. Podemos concluir que o planejamento. Hoje. os problemas e as demandas educacionais verificados a cada momento. pedagógicos e financeiros. por sua vez. A escola continuará contando com a devida orientação por parte das secretarias municipais e estaduais da Educação que. • o Conselho deverá se reunir periodicamente a fim de renovar. os projetos desenvolvidos. a definição de metodologias educacionais apropriadas .• definição de equipes e tarefas relativas à primeira atividade do p l a n e j a m e n t o e organização da Carta Escolar no estabelecimento de ensino. serão também influenciadas e fiscalizadas em sua própria atuação. • Após a Carta Escolar. viabiliza-se o estabelecimento de metas. toda a sociedade brasileira cobra.

que não garantia a participação dos segmentos escolares sequer no planejamento da escola e do ensino. Encontramo-nos diante de desafios que podem ser melhor enfrentados a partir de ações efetivamente democráticas. . que definia pautas. que não permitia aos docentes o uso da palavra. O Planejamento Socializado Ascendente. ética.e contextualizadas. principalmente. Além de reclamar. além de tudo. a luta por uma educação de qualidade para todos estará. O Planejamento Socializado Ascendente. e que. Garantida a voz e a capacidade de ação aos que sempre se viram alijados de participar do destino da educação no País. que entendia a organização do trabalho na escola como um rol de atividades burocráticas e puramente administrativas. que obedecia cegamente às ordens vindas "de cima". de acordo com as necessidades do mundo moderno e as exigências das comunidades escolares locais. contribuirá decisivamente para a redefinição das próprias políticas educacionais do País e influenciará em que se revejam as finalidades da educação. normas e prazos autoritariamente. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. inclusive. a existência da gestão democrática na escola. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". justa e solidária. se não elimina de vez. voltada para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. a sociedade quer ser ouvida e quer colaborar. apenas se referia ao aluno para discipliná-lo ainda mais e para lhe fechar os quase inexistentes espaços escolares de participação. diminui consideravelmente a possibilidade de depararmos com experiências como a que apresentamos no início desta exposição. direito de todos e dever do Estado e da família. o que prevê a Constituição Federal de 1988 em seu Artigo 205: "A educação. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. que entendia o planejamento como uma atividade meramente formal. ao propor uma nova orientação participativa no âmbito escolar e educacional. por isso tem lutado por maior participação para cumprir. de fato. Reclama da inexistência de uma política devidamente comprometida com as suas necessidades educativas e com os problemas enfrentados pelo magistério que favoreça. os seus objetivos e o próprio papel da escola na sociedade atual. que aplicava dinâmicas sem critérios e sem explicar os objetivos de quaisquer atividades.

Questões para debate
• O que significa planejar de forma socializada e com estratégia ascendente? • Qual a relação que existe entre esse tipo de planejamento com a organização do trabalho na escola? • Em que sentido o Planejamento Socializado Ascendente inverte a relação de poder na definição da política pública em educação? • Que parâmetros você acrescentaria ao processo de Planejamento Socializado Ascendente?

É possível formar cidadãs e cidadãos autônomos numa escola onde a autonomia não seja discutida, mas intimamente vivenciada por seus diferentes segmentos. Sônia Couto, Instituto Paulo Freire, SP

Enquanto os homens exercem seus podres poderes Morrer e matar de fome de raiva e de sede São tantas vezes gestos naturais Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo Daqueles que velam pela alegria do mundo Indo mais fundo tins e bens e tais. (Podres poderes) Caetano Veloso

DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA
Paulo Roberto Padilha Como afirma o professor Moacir Gadotti em seu livro Pedagogia da praxis (São Paulo, Cortez/IPF, 1995), "se é verdade que a educação não pode fazer sozinha a transformação social, também é verdade que a transformação não se efetivará e não se consolidará sem a educação". No mesmo sentido, não podemos pensar que a gestão democrática da escola possa resolver todos os problemas de um estabelecimento de ensino ou da educação. No entanto, sua implementação é, hoje, uma exigência da própria sociedade, que a vê como um dos possíveis caminhos para a democratização do poder na escola e na própria sociedade, conforme pudemos verificar em pesquisa recentemente realizada pelo Instituto Paulo Freire, em nível nacional. Outro aspecto que merece destaque neste trabalho é o fato de que a atual prática gestionária nas escolas acaba exigindo dos diretores uma dedicação maior, e às vezes plena, às questões adrninistrativas. Isso os obriga a secundarizar o aspecto mais importante de sua atuação, ou seja, sua responsabilidade em relação às questões pedagógicas e propriamente educativas, que se reportam à sociedade como um todo e especificamente à sua comunidade escolar. Com essa análise geralmente concordam professores, diretores, "especialistas" e "teóricos" da administração escolar.
Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco (SP) e diretor do Instituto Paulo Freire

A afirmação freqüente de que "é dificil administrar sozinho a escola" denuncia o isolamento do dirigente escolar enquanto responsável único e último pela instituição educativa, o que muitas vezes independe de sua vontade, mas não de seu cargo. A administração autocrática, isto é, a que centraliza todas as decisões e todo o poder nas mãos da diretora ou do diretor, acaba gerando uma sobrecarga de trabalho e, por conseguinte, estabelecendo relações conflituosas no âmbito escolar, o que se reflete no insucesso dos alunos. Por outro lado, é importante observarmos que a atuação do diretor, suas atribuições e seu vínculo com a escola se alteram dependendo da forma com ele foi escolhido e de acordo com o tipo de gestão que é implementada na unidade escolar. Uma reflexão sobre a gestão democrática da escola, a partir da compreensão por parte dos professores e dos demais sujeitos com ela envolvidos e, neste caso, especificamente relacionada à escolha e à atuação do dirigente escolar, pode contribuir para a superação de conflitos com vistas à melhoria do trabalho, das relações estabelecidas na instituição educativa e, fundamentalmente, da qualidade do ensino. Deparamos, pois, com um problema que nos exige soluções. Para chegarmos a elas, estaremos analisando algumas formas de escolha do diretor de escola e definindo parâmetros para a escolha de dirigentes escolares e também para a gestão democrática da escola pública. Pretendemos com isso identificar alguns princípios da implementação de uma gestão escolar democrática e também localizar algumas atribuições fundamentais dos diretores na definição de propostas de implementação daquele tipo de gestão, que devem ser compreendidas também pelos docentes e demais sujeitos educacionais. A forma predominante de escolha e de designação de dirigentes escolares no sistema escolar público brasileiro tem sido aquela decorrente do arbítrio do chefe do Poder Executivo, tanto na esfera estadual quanto na municipal, por se tratar, em sua grande maioria, de cargos comissionados, normalmente denominados "cargos de confiança". O processo de escolha democrática de dirigentes escolares tem seu início na década de 60. Em 1966, os colégios estaduais do Rio Grande do Sul realizaram votação para diretores de escola com base em listas tríplices. A partir da década de 80 e principalmente nos dias atuais, tem havido grande preocupação em relação aos processos de escolha de diretores escolares nos municípios e

na seleção dos candidatos. pode escolher a escola onde irá atuar. 12. de caráter conteudista. que é obrigada a aceitar a escolha daquele.Estados brasileiros. portanto. ao se acentuar a adoção de critérios considerados objetivos e técnicos na definição dos concursos públicos e. uma vez que apenas as provas escritas e a titulação apresentada bastam para a aprovação ou a reprovação dos candidatos. As provas são geralmente escritas. concurso. Dessa maneira. o que mais pesa são critérios político-clientelistas. Nesse processo. e a prova de títulos é a comprovação da formação específica que habilita o candidato ao cargo. pelo governador do Estado ou pelo prefeito do município. nesse tipo de escolha. mas é antidemocrático em relação à vontade da comunidade escolar. Por isso mesmo pode ser substituído a qualquer momento. para fins desta análise. FDE. não se confere a liderança do diretor diante do pessoal escolar e dos usuários da escola pública e não se avalia o desempenho dele. "o diretor escolhe a escola mas nem a escola nem a comunidade podem escolher o diretor". dissertativas ou não. que. Se assim acontece. como afirma o professor Vitor Henrique Paro no artigo Participação da comunidade na gestão democrática da escola pública (Série Idéias. de acordo com os interesses políticos e com as conveniências daqueles que o escolheram. Isso significa que o concurso acaba sendo democrático para o candidato. eleição e esquema misto. NOMEAÇÃO O diretor é escolhido pela vontade do agente que o indica. CONCURSO Realizado por meio de provas ou de provas e títulos. Podemos estabelecer. o diretor pode acabar não tendo grandes compromissos com os objetivos educacionais articulados com . quais sejam: nomeação. A experiência nacional mostra que. n. No entanto. se aprovado. o que vem estimulando um permanente questionamento sobre o papel do dirigente escolar na construção de uma gestão democrática da escola pública. São Paulo. assume um cargo de confiança e torna-se o representante do Poder Executivo na escola. quatro categorias de escolha de diretores escolares. ou seja. 1992). Um argumento favorável à escolha por concurso é que ele defende a moralidade pública e evita o apadrinhamento político.

Prevê. iniciando o processo de implantação da gestão democrática no ensino antes mesmo de sua regulamentação e permitindo a eleição dos dirigentes escolares. por escolha uninominal ou. tal escolha favorece a gestão democrática e colegiada na escola. Por conseguinte. A partir do momento em que se exige do candidato à função de diretor de escola equilíbrio entre competência técnico-acadêmica e sensibilidade política . o diretor acaba tendo também maior vínculo e compromisso com aqueles que o escolheram ou indicaram. ELEIÇÃO Baseada na manifestação da vontade da comunidade escolar. As experiências com esse tipo de escolha têm mostrado que tal critério favorece a discussão democrática na escola e acaba implicando maior distribuição do poder para as instâncias da base da pirâmide estatal. a eleição se caracteriza pelo voto direto. capacidade de liderança etc. por escolha por meio de listas tríplices ou plurinominais. como a história da eleição de diretores de escola no Brasil é marcada por avanços e retrocessos. duas ou mais fases no processo de escolha. na maioria das vezes.este. a comunidade escolar geralmente participa de uma ou mais fases do processo de seleção.requisito indispensável para o diretoreducador. geralmente com direito a uma reeleição. colocado antes de ser resolvida a questão do provimento do cargo . o que gera muitas vezes a negligência em relação às formas democráticas de gestão. ainda. se eleito. Quando é esse o caso. Consideradas essas formas de escolha aqui analisadas. representativo. No esquema misto. além da sua experiência administrativa. é oportuno observar que a partir da aprovação da Constituição de 1988 muitos administradores abriram mão da prerrogativa constitucional de nomear o diretor de escola. No entanto. provas que avaliem a competência técnica e a formação acadêmica do candidato. deve assumir responsabilidade política junto à comunidade escolar que o elegeu para um mandato por tempo determinado.os interesses dos usuários. não podemos mais . ainda que isso não possa ser considerado uma regra. ESQUEMA MISTO Combina diferentes formas de escolha do diretor. incluindo. por exemplo.

titular de direitos e deveres.de modo a assumir a responsabilidade consciente pela própria vida. A noção de sujeito é aqui tomada em sua forma substantiva e quer significar um ser ativo. Resta-nos observar que a eleição de dirigentes escolares aqui defendida é apenas um dos componentes da gestão democrática do ensino público e só terá efeito prático eficaz se associada a um conjunto de medidas que garantam. II). "Há uma percepção de um nós ético que constitui tais pessoas numa unidade. Segundo o professor Jair Militão. "o termo sujeito. por exemplo. (. previsto no Artigo 206. Para tanto. acrescido dos adjetivos corporativo ou cultural. 36 e 61.. na comunidade e em toda a sociedade os parâmetros da gestão democrática da escola pública. por sua vez. refere a um grupo de pessoas que agem na sociedade conforme um critério comum que as identifica. por sua vez. que. torna-se necessário aproveitar a experiência democrática acumulada no País e a partir daí procurar regulamentar o princípio da "gestão democrática do ensino público. estarão norteando a construção de uma futura Lei da gestão democrática. responsável. numa projeção extensiva do que dispõe a Constituição Federal sobre as prerrogativas do presidente da República (Arts. Assim sendo. Essa participação efetiva exige. 1989). empenhando-se pela sua transformação .. em sua tese de doutoramento na Feusp. de tal modo que se reconhecem como mutuamente pertencentes a uma mesma história e possuindo um mesmo destino como horizonte. da Constituição Federal.) Os adjetivos corporativo e cultural visam a apontar a ênfase maior ou menor que tenham os objetivos dominantes no grupo em relação à obtenção de benefícios para o próprio grupo ou para os demais . na forma da lei". O sentimento de pertencer cria e mantém a comum identidade. intitulada Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escola (São Paulo. cumpre-nos discutir na escola.ou manutenção . que têm consignado aos governadores e prefeitos a competência privativa para a nomeação de agentes para o exercício de cargos públicos comissionados. a capacitação para a participação efetiva dos representantes dos segmentos escolares e da comunidade nos destinos da escola pública. Ser sujeito é ser capaz de julgar a realidade.depender da vontade política das constituições estaduais e das leis orgânicas municipais. inciso VI. que procuremos entender as características dos sujeitos aos quais estamos nos referindo.

pois o Estado deve repassar os recursos diretamente à escola para que o dirigente escolar possa executar o que o coletivo escolar deliberou e aprovou em seu projeto político-pedagógico. que é estatal quanto ao financiamento. por exemplo. ou seja.. se quiser. de prazo interminável. às ações do sujeito cultural poder-se-ia aplicar um princípio de universalidade: o que é de direito e dever para o grupo é defendido igualmente para qualquer outro grupo. A rigor. tais recursos devem ter caráter . estamos aqui particularmente interessados em que esses sujeitos. Ela acontecerá.. o que se realiza formalmente ou informalmente. passo inicial importante terá sido dado na direção da gestão democrática que ora estamos analisando. para subsidiar projetos voltados para a melhoria da qualidade do ensino. possam vivenciar um processo de capacitação para essa participação. A gestão democrática à qual nos referimos faz parte de uma desejada escola cidadã. A gestão democrática não é processo simples de curtíssimo prazo. Isso significa que o mesmo se constituirá numa ação. Se esta estiver aberta à participação. mediante programas duradouros de capacitação custeados pelo Estado e pela articulação dos diferentes sujeitos escolares em torno dos problemas. numa prática a ser construída na escola. No segundo caso.grupos existentes. estabelecer parcerias com outras instâncias da sociedade civil. fazendo uso de sua autonomia financeira. (. que numa mesma comunidade podem existir vários sujeitos além dos que acima acentuou. das expectativas e das atividades cotidianas da escola. sem eximir o Estado de suas obrigações com o ensino público. De qualquer maneira. preferencialmente os culturais.) sujeitos corporativos são aqueles cuja ênfase se dá na busca de benefícios limitados ao próprio grupo. enquanto sujeitos culturais visam objetivos de caráter mais geral cuja consecução tende a favorecer a um número maior de pessoas e grupos. mas também não é processo tão complexo ou irrealizável. pedagógica e financeira da escola. dos interesses. Observe-se ainda que a escola. o sujeito cultural é necessariamente pluralista". associada à elaboração do projeto político-pedagógico da escola e à implantação de Conselhos de Escola que efetivamente influenciem na gestão escolar como um todo e de medidas que garantam a autonomia administrativa. ainda. O professor Militão observa. desde que as decisões relacionadas com a gestão dos recursos públicos e da verba originária de parcerias sejam administradas pelo coletivo democrático que vai gerir a unidade escolar. poderá. Nesse sentido.

respeitada a paridade de votos dos diversos segmentos que a compõem e a legislação em vigor. sob a coordenação do órgão gestor do respectivo sistema educacional. no ato da inscrição dos candidatos. sem exceções.excepcional e complementar. isto é. em nenhuma hipótese. de acordo com as diretrizes definidas coletiva e democraticamente com a participação de todos os segmentos educacionais e das respectivas comissões eleitorais. Os candidatos serão escolhidos pelos membros da comunidade escolar mediante processo que verifique competência profissional e liderança. destina-se igualmente a toda a sociedade. pública quanto à sua destinação. ainda. de forma a garantir a participação de todos os membros da comunidade escolar. e não eximem o Estado. de acordo com as normas previstas democraticamente conforme acima especificado. apresentando e defendendo publicamente seus programas de trabalho. Essa escola é. Parâmetros para a escolha democrática A partir desses pressupostos. em que se verifique a competência profissional do candidato. . Os candidatos aprovados na etapa anterior submeter-se-ão ao processo de verificação de liderança. definir e deliberar de forma socializada sobre as suas diretrizes e prioridades. secreto e facultativo. Após tal defesa. • processo seletivo prévio ao processo eleitoral. A forma de escolha do diretor deve prever a sua nomeação pela autoridade competente em chapas constituídas e formadas por candidatos a diretor e a vice-diretor de escola. pois todos os segmentos escolares e comunitários devem eleger o dirigente escolar. avaliar e fiscalizar a execução de seu planejamento político-pedagógico. em chapa formada por candidatos a diretor e vice-diretor. acompanhar. estabelecemos o primeiro parâmetro para a escolha democrática de dirigentes escolares. sem distinções. participar do Conselho de Escola. O processo de escolha pode obedecer às seguintes etapas: • verificação. de arcar com o financiamento da educação. se estes atendem às exigências quanto ao tempo mínimo de serviço público e à formação escolar mínima exigida para o cargo. seguir-se-á a eleição por voto direto. A escola cidadã à qual nos referimos é também comunitária quanto à gestão.

comissões eleitorais regionais. Para garantir que o processo eletivo seja plenamente democrático e para que se constitua num exercício pleno de cidadania. Contudo. de acordo com as normas e prazos fixados pela comissão eleitoral local ou através de instrumentos legais do poder executivo. A comissão de cada escola deve ser composta paritariamente por representantes de todos os segmentos escolares. que terão funções normativa e fiscalizadora no processo eletivo em pauta. Deverão ser constituídas. dependendo das condições locais. desde que completa. poderão ser admitidos como candidatos aos cargos em questão servidores concursados ou estáveis com licenciatura em qualquer área ligada à Educação. a serem indicados em assembléias de seus pares. em virtude das características locais onde se situam as unidades escolares e especificamente para as escolas de ensino fundamental. defendemos . Esta comissão deverá atuar em consonância com a legislação em vigor bem como com as normas fixadas para o pleito pelas secretarias estaduais ou municipais de Educação e respectivos Conselhos de Educação. organizar. na data da convocação da eleição. Poderão se candidatar os professores e especialistas em educação desde que. os candidatos deverão ter cursado Pedagogia. tais comissões deverão coibir qualquer processo eleitoral "viciado" ou ações que possam partidarizar as eleições na escola. devidamente adaptados às condições reais da unidade escolar. Nesse sentido. Elas devem ser criadas nas unidades de ensino para planejar. Podem ser aceitas inscrições de chapas com candidatos a diretor e a vice-diretor. com licenciatura plena em Administração Escolar.Um segundo parâmetro se refere às comissões eleitorais. acompanhar o processo de votação e de apuração dos votos e zelar pela lisura do processo eleitoral. Nenhum professor ou especialista educacional poderá candidatar-se simultaneamente em dois estabelecimentos de ensino. sejam servidores públicos concursados ou estáveis com efetivo exercício há pelo menos três anos na rede ou dois anos na escola onde se candidatam. Além do tempo de serviço mínimo acima especificado. Um terceiro parâmetro se refere aos candidatos e às inscrições. O quarto parâmetro que apresentamos diz respeito aos eleitores. concluída ou em andamento. dependendo da resolução de cada localidade. municipais e estaduais. municipais ou estaduais. Quando e onde for necessário. serão admitidos candidatos com habilitação específica para o magistério (ensino médio). fiscalizar.

Tal divulgação consiste na defesa pública dos programas de trabalho junto à comunidade. ou que tenham completado 10 anos até a data da eleição. com o direito a uma reeleição consecutiva. Em relação à reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período. secreto e facultativo. as propostas de gestão das chapas. Votam também os pais. aos alunos regularmente matriculados na escola que estejam cursando a 4ª série do ensino fundamental em diante. Esta deverá adequar-se às especificidades locais da comunidade escolar. médio e longo prazos. realizar-se-á um segundo turno. Será considerada eleita a chapa que obtiver maioria absoluta dos votos válidos (cinqüenta por cento mais um). na promoção de discussões e debates com a mesma e na divulgação de material que torne conhecidas. observamos aspectos positivos e negativos. Se nenhuma chapa alcançar tal número de votos. Um sexto e último parâmetro que ora apresentamos diz respeito à duração do mandato do diretor e de seu vice. Considerando que um projeto político-pedagógico deva contemplar propostas e avanços de curto. será eleita a chapa que obtiver maioria simples de votos válidos. a predominância do mandato de diretores com a duração de dois ou três anos. Verificamos. Para tanto. entendemos que a opção da reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período garante a possibilidade da continuidade de um trabalho que tenha . os segmentos escolares credenciados escolherão. os seus candidatos. ao máximo. em recente pesquisa. No segundo turno. as mães de alunos ou os representantes legais dos alunos regularmente matriculados na escola que estejam abaixo dos limites de idade e série acima previstos.a garantia do voto a todos os servidores em exercício no estabelecimento de ensino. envolvendo as duas chapas mais votadas. segundo critérios das comissões eleitorais. Quanto ao parâmetro da divulgação durante o processo eleitoral. Encerrada a campanha. impugnando as candidaturas que promoverem a "partidarização" das eleições dos dirigentes escolares. que respeitem o pleno desenvolvimento das aulas durante o período em que a propaganda poderá acontecer e que garantam a discussão política inerente ao pleito eleitoral. previstos e divulgados antes do período de inscrição das chapas. ficaria garantida aos candidatos a realização de campanha e de propaganda eleitoral nas dependências da unidade escolar. as comissões eleitorais deverão fixar prazos e normas que garantam a manutenção dos princípios éticos durante a campanha. pelo voto direto.

do envolvimento. . mesmo no que se refere ao número de reeleições possíveis. mesmo tendo realizado uma ótima gestão. mas que é ruim no caso inverso. um processo educativo que possibilita aprendizagens cidadãs e colabora para a determinação dos seguintes pressupostos da gestão democrática: • capacitação de todos os segmentos escolares para que se busquem respostas à prática educativa. Dessa forma. à proporcionalidade na apuração dos votos. atribuindo-se responsabilidades às comunidades escolares. realizar seminários e assembléias e. Sugerimos que esta problemática. Entendemos que a discussão em torno desses parâmetros e de outras questões relativas ao tema aqui tratado já é. bem como a possibilidade da destituição dos mandatos dos dirigentes escolares. a não reeleição consecutiva promove uma renovação constante dos dirigentes escolares. quando um dirigente escolar.sido aprovado pela comunidade escolar. A definição dos parâmetros acima encontra uma série de limites que só poderão ser superados na ação concreta e no contexto em que o processo eleitoral acontece. Por outro lado. portanto. Outras situações ficam também em aberto. se desenvolverá a cultura da participação. Isso é bom quando impede que um diretor que não cumpriu o seu programa de trabalho em consonância com o projeto político-pedagógico da escola continue no cargo. essas situações referem-se à definição da idade mínima do voto do aluno. da ação. é obrigado a afastar-se do cargo. No geral. à importância que deve ser atribuída à prova escrita como pré-requisito para a seleção dos candidatos ao cargo de diretor de escola. seja prevista em normas a serem definidas democraticamente em cada um dos sistemas de ensino em que for implantada a escolha democrática de dirigentes escolares. por si mesma. pois dependem de uma ampla discussão e de consulta a ser realizada com a comunidade escolar. • consulta à comunidade escolar para que esta se cientifique da legislação pertinente às diferentes instâncias da gestão democrática e possa debater. aprofundar o mais possível a discussão dos anteprojetos de leis que institucionalizem as propostas de governo dos poderes executivos. se for o caso. alterando-os. à questão de como superar o veto governamental em relação à eleição direta de dirigentes escolares. Preferimos deixar a questão do tempo do mandato do diretor escolar em aberto. entre outras.

possui uma função primordialmente pedagógica e social. os governos estaduais e municipais tenham o respaldo democrático para encaminhar ao Poder Legislativo. painéis. política e pedagógica. • agilização das informações e transparência nas negociações. Todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. Dessa forma. é importante. para que se garanta total transparência na escolha democrática dos dirigentes escolares. Quanto maior for essa articulação. Isso é necessário não só no início do processo administrativo. para atingirmos os fins aos quais nos propusemos no início desta discussão. para que. a partir da garantia do processo de participação das comunidades escolares. A descentralização implica acesso de todos os cidadãos à informação.• institucionalização da gestão democrática. mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos. na implantação dos Conselhos de Escola e na gestão da instituição educativa rumo à autonomia escolar. encontros etc. seja no aspecto organizacional da escola. deve ser um articulador dos diferentes segmentos escolares em torno do projeto políticopedagógico da escola. ainda. melhor poderão ser desempenhadas as suas próprias tarefas. o diretor-articulador deve exercer sempre uma liderança na escola. uma breve análise sobre a função do diretor enquanto articulador da gestão democrática na instituição escolar. faz-se necessária a criação desses canais: jornais-murais. projetos de lei mais consistentes. Portanto. Definidos alguns parâmetros da escolha democrática de dirigentes escolares e alguns pressupostos da gestão democrática da escola. seja em relação à responsabilidade social daquela com sua comunidade. mas uma liderança democrática que seja capaz de dividir o poder de decisão e de deliberação sobre os assuntos escolares com . Enquanto tal. Em sua gestão. • lisura nos processos de definição da gestão. O diretor de escola é e deve ser antes de tudo um educador. a falta de canais de disseminação das informações por parte das administrações para todas as esferas da estrutura administrativa e para todos os segmentos da sociedade tem se manifestado como um sério entrave à participação. que atendam às reais necessidades educacionais da população. boletins. Nesse sentido. que lhe exige o desenvolvimento de competência técnica.

o professor estará participando e. poderá automaticamente melhorar a qualidade do seu próprio trabalho docente. A partir dessa praxis. Como a escola pode tornar o processo de escolha do diretor um processo educativo? • No município em que o diretor é nomeado. poderá interferir e influenciar na gestão da unidade escolar em que atuam. entre outras. uma vez que estará assumindo responsabilidades. Isso não significa abrir mão de responsabilidades ou das funções inerentes ao seu cargo. conforme as palavras de Mariano Herrera (In: Colóquio: La dirección de Ia escuela. funcionários da escola. ao lado do diretor da escola. De todo esse processo. a função de liderança eficaz. nas associações de alunos etc. 1996. a função da gestão administrativa. pp. escolhe-se também um projeto de escola.professores. a função de mobilizador da equipe docente. como os professores e demais segmentos da comunidade escolar podem alterar essa forma de escolha? • Aponte vantagens e possíveis desvantagens da eleição direta para a escolha de diretores escolares. alunos e comunidade escolar. pais de alunos. . criando e estimulando a participação de todos nas instâncias próprias da escola como no Conselho de Escola. Questões para debate • A escolha democrática de dirigentes escolares garante maior envolvimento da comunidade com a escola? Quais as implicações dessa escolha na formulação do projeto político-pedagógico da escola? • Ao se eleger uma pessoa. entre as quais podemos citar a função educativa. exercendo direitos e praticando a cidadania ativa na escola.175-176).

Uma sociedade multicultural deve educar o ser humano multicultural. É dentro desse cenário da pós-modernidade que a escola precisa atuar. época do ressurgimento do racismo e de certo triunfo do individualismo.O diferente de nós não é inferior. Numa época de violência. MUITAS CULTURAS Moacir Gadotti Vivemos na era da globalização da economia e das comunicações. mas também numa época de acirramento das contradições inter e intra povos e nações. o professor deverá ser mais criativo e aprender com o aluno e com o mundo. necessitam de uma ética da diversidade e de uma cultura da diversidade. mau gosto É que Narciso acha feio o que não é espelho E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho Nada do que não era antes quando [não somos mutantes (Sampa) Caetano Veloso ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA. Não haverá um papel cristalizado tanto para a escola quanto para o educador. capaz de ouvir. de prestar atenção no diferente. Em vez da arrogância de quem se julga dono do saber. Paulo Freire Quando eu te encarei frente a [frente não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi. um cenário que coloca novos desafios para nós. [de mau gosto. A intolerância é isso: é o gosto irresistível de se opor às diferenças. de respeitá-lo. educadores: que tipo de educação necessitam os homens e as mulheres dos próximos vinte anos para viver este mundo tão diverso? Certamente eles e elas necessitam de uma educação para a diversidade. Neste novo cenário da educação será preciso reconstruir o saber da escola e a formação do educador. Moacir Gadotti é professor titular da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto Paulo Freire .

é o objetivo da interdisciplinaridade. é compartimentada e fragmentada. substituindo-a por uma visão crítica. que é a de adequar o tratamento dos conteúdos. escola. conhecimento. mas tem de ser internacional e intercultural como ponto de chegada. Diante do problema do desinteresse de muitos de nossos alunos pelos conteúdos curriculares do ensino. Nesse contexto global há duas dimensões que podem ser logo destacadas: • dimensão interdisciplinar: o objetivo fundamental da interdisciplinaridade é experimentar a vivência de uma realidade global que se inscreve nas experiências cotidianas do aluno. problematizando-os e equacionando a relação entre a transmissão da cultura e o itinerário educativo dos . parecem contemplar essas duas dimensões: • pela investigação temática aluno e professor buscam. do professor e do povo que. como ponto de partida. meio ambiente etc. por exemplo. Articular saber. redimensionandoa na relação com outras culturas. Mas há outra visão do problema. e não camuflados. isto é. Este exercício leva à transdisciplinaridade. Os três momentos do método de Paulo Freire.de agressividade. o professor deverá promover o entendimento com os diferentes e a escola deverá ser um espaço de convivência. o professor precisa preparar as crianças para o mundo da diferença e da solidariedade entre diferentes. deve valorizar a cultura local . onde os conflitos são trabalhados. vivência. no universo vocabular do aluno e da sociedade onde ele vive. • pela problematização: buscam superar uma primeira visão mágica (ingênua). tomando assim consciência do mundo vivido. ela se traduz por um trabalho escolar coletivo e solidário. as palavras e temas centrais de sua biografia. A escola deve ser local. • pela tematização: codificando e decodificando esses temas. costuma-se responder com métodos mais apropriados ou aumentando o tempo de freqüência à escola.a cultura primeira do aluno -. ambos buscam o seu significado social. Na prática. na escola conservadora. isto é. ao rompimento com a estrutura disciplinar do conhecimento. A escola precisa formar o cidadão para participar de uma sociedade planetária. • dimensão internacional: para viver esse tempo presente. partindo para a transformação do contexto vivido. comunidade.

são mais eficazes para despertar o interesse. no momento em que perceberam a importância que o professor dava à vida deles. a escola precisa mostrar aos alunos que existem outras . nesse aspecto. tentando. Sentia-se feliz em estar na escola. sobretudo para as camadas populares. ele pôde assumila com mais confiança. A educação multicultural se propõe a analisar criticamente os "currículos" monoculturais atuais. compreendê-las na totalidade de sua cultura e de sua visão de mundo. um grande obstáculo a ser superado. Só uma educação multicultural pode dar conta dessa tarefa. do relato de experiências de trabalho e de suas relações com o mundo. Essa estratégia foi aplicada com sucesso em um programa de alfabetização na cidade de São Paulo . Atribuía a si mesmo esse fracasso e não a uma estrutura social e econômica iníqua.que levam em conta a cultura do aluno . como o educador francês Georges Snyders. compreendê-la melhor. Paulo Freire chama essa cultura do aluno de "cultura popular".alunos. já que em tantos lugares de trabalho ele sempre era "envergonhado". A diversidade cultural é a riqueza da humanidade. O currículo monocultural oficial representa. Ao contrário. Se aprender lhe possibilitava "viver melhor". Ao "contar" o que "fez na vida". antes de mais nada. os resultados obtidos com currículos multiculturais . uma estratégia de alfabetização numa concepção multicultural deveria partir da biografia dos próprios educandos. buscar as razões para uma "vida melhor". Um desses jovens dizia que tinha "vergonha" de contar sua vida porque a considerava um "fracasso". pode representar a grande diferença na extensão ou não da educação para todos e de qualidade nos próximos anos. Procura formar criticamente os professores para que mudem suas atitudes diante dos alunos mais pobres e elaborem estratégias próprias para a educação das camadas populares. Outros educadores que também estudaram esse tema. Se a escola era isso. era tudo o que ele procurava. daria tudo de si para continuar aprendendo. por exemplo. durante a gestão de Paulo Freire (1989-1991) à frente da Secretaria da Educação do município. Para cumprir sua tarefa humanista. a chama de cultura primeira. Equacionar adequadamente ou não a relação entre identidade cultural e itinerário educativo. Na educação de jovens e adultos trabalhadores. Os jovens e adultos sentiram-se mais envolvidos no processo de alfabetização.Movimento de Alfabetização e de Pós-Alfabetização da Cidade de São Paulo (Mova-SP) -.

promover a autonomia da escola na elaboração de seus currículos. para conhecer a mim mesmo. preciso conhecer o outro. um conjunto amorfo de retalhos culturais.culturas além da sua. . escutar. o professor de qualquer disciplina precisa ter conhecimentos antropológicos e culturais mínimos e ter um olhar educado para perceber as diferenças étnico-culturais. O mundo está se percebendo mestiço. incluindo temas como: direitos humanos. enfim. A autonomia da escola não significa isolamento. A escola não deve apenas transmitir conhecimentos. numa visão em que o conhecer e o intervir no real se encontrem. precisa descobrir elementos culturais externos que revitalizem a sua própria cultura. a partir de uma cultura que se abre às demais. Mas isso já não é tão problemático hoje. ouvir. As conseqüências desse enfoque para o ensino são enormes. educação para a paz. para isso. Pluralismo significa sobretudo diálogo com todas as culturas. portanto. Pluralismo não significa ecletismo. • pode-se recuperar os códigos lingüísticos das próprias comunidades desde o processo de alfabetização. Tudo isso é factível desde já. fechamento numa cultura particular. é preciso saber trabalhar com as diferenças: é preciso reconhecê-las. portanto. impulsionando o movimento emergente de valorização das diferentes culturas. discriminação racial e cultura popular. precisa reeducar o seu olhar para a interculturalidade. Escola autônoma significa escola curiosa. • pode-se. Mas. ousada. Basta abrir os olhos para a realidade. não camuflá-las. educação ambiental. mas também preocupar-se com a formação global dos alunos. como meio de fortalecer a auto-estima. • pode-se incentivar as escolas para que façam mudanças nos seus currículos. aceitando que. muitas ações práticas podem ser desenvolvidas desde já para a construção de uma escola pluralista e competente. Partindo desse princípio antropológico. Tratase de estabelecer metodologias que permitam converter as contribuições étnico-culturais em conteúdos educativos. buscando dialogar com todas as culturas e concepções de mundo. Evidentemente. pois só com autonomia a escola pode fazer as mudanças desejadas. O professor. fazer parte da proposta educativa global de cada escola. que articule a diversidade cultural dos alunos com seus próprios itinerários educativos: • pode-se fortalecer grupos que trabalham com currículos multiculturais. É possível e necessário.

Afirmar uma identidade étnico-cultural é afirmar uma certa originalidade. necessito conhecer o outro como parceiro. A cultura é dinâmica e no contato com outras culturas ela se transforma. a identidade sociocultural seria um conceito inócuo se tendesse a fixar padrões culturais para apenas "preserválos". e não em "identidade cultural". . Na identidade existe uma relação de igualdade que cimenta um grupo. a identidade se define em relação a algo que lhe é exterior. pois ao falarmos de identidade de uma cultura temos que localizála em um determinado tempo e espaço e no interior de um grupo étnico. nacionais etc . uma diferença. de brasileiros. para me conhecer. e. Porém. Só há diálogo e parceria quando a diferença não é antagônica. Idêntico é aquele que é perfeitamente igual. diferente. O diálogo é uma relação de unidade de contrários não-antagônicos.étnicas. Vivemos hoje uma explosão das diferenças . que pode ser antagônica ou não. porque. deveríamos falar de identidade étnico-cultural. somos uma mistura de afroamericanos (negros).É no contexto deste mundo mestiço que devemos colocar a questão da identidade: o que é identidade e.consciência do outro . Entre antagônicos só pode haver o conflito. Por sua vez. igualdade válida para todos os que a ele pertencem. sexuais. Hoje é quase impossível reconhecer uma cultura que não esteja em íntima interdependência com outras. para evidenciar. essa identidade estaria articulada a uma identidade nacional. a pluralidade e o dinamismo da identidade cultural.que coloca a questão do resgate da identidade. desde logo. é preferível falar-se em "identidades culturais".e da igualdade. ao mesmo tempo. o que é identidade sociocultural? Primeiramente. Como podemos articular a diversidade cultural com itinerários educativos que se direcionem para a eqüidade? Suponho que não existe condição de reconhecer a diferença se não se parte da aceitação da alteridade . em particular. identidade é a resposta que damos à pergunta: quem somos nós? Em nosso caso. uma semelhança. índios e brancos. culturais. Mas só isso? O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade dizia que "nenhum Brasil existe" e se perguntava: "e acaso existem os brasileiros?" O que é genuinamente nosso? O que pode constituir-se numa identidade nossa? Por outro lado. Por isso. A identidade supõe uma relação de igualdade e diferença. Na verdade. determinada também historicamente.

A pedagogia de Georges Snyders pretende operar uma ruptura e uma continuidade entre a cultura primeira. entendida como o lugar do sistemático e do progressivo. cultura popular significa cultura da cidadania. é sinônimo de "conscientização". Paulo Freire reintroduziu a reflexão sobre o social no pensamento educacional brasileiro. Cada um a seu modo aponta para uma pedagogia com base no respeito à identidade cultural do educando. Enfim.o seu "método". A cultura primeira promete . entre nós. O pensamento de Paulo Freire tem suas raízes mais profundas no debate político-cultural brasileiro do final dos anos 50. social e econômico que. Daí Paulo Freire insistir na questão da "invasão cultural". ao contrário. ou seja. o seu fim e inaugurando. por Georges Snyders. comprometendo-se com os ideais de uma democracia radical. passando pela formação da consciência crítica. mas mostra o quanto ela é insuficiente. segundo ele. possibilidade de criar novos direitos e capacidade de defendêlos contra o autoritarismo.num itinerário que vai da cultura popular à cultura erudita e letrada. para Paulo Freire. própria da escola. Esse processo não poderia dar-se sem uma transformação na estrutura do ensino e da extensão da educação para todos. dialeticamente. cuja modalidade mais evidente é a cultura de massa. de tomada de consciência da realidade nacional para transformála e criar novas formas de relações sociais e políticas. como é conhecido .O tema da relação entre a diversidade cultural e os itinerários educativos já foi tratado por educadores como Paulo Freire e. Snyders não desvaloriza a cultura de massa. passava pela tomada de consciência da realidade nacional. Tratava-se do debate em torno da construção de uma identidade nacional baseada no desenvolvimento político. Paulo Freire constrói a sua pedagogia . e a cultura elaborada. É interessante notar as semelhanças e diferenças na visão do mesmo problema por esses dois eminentes educadores.as elites dominantes. mas também o lugar da alegria. Significa consciência de direitos. um vigoroso movimento em torno de um pensamento pedagógico autônomo. Como Paulo Freire. Freire estava anunciando. a violência e o arbítrio. Denunciando essa "realidade nacional". Cultura popular. na França. segundo ele. articulando a primeira com a segunda. da "dependência" e da "consciência alienada". pensavam que se devia criar no Brasil uma "nova Europa" ou uma "nova América". Um projeto de emancipação e construção de uma nova nação brasileira passava pela assunção de suas características de nação latino-americana e terceiromundista .

do drama que hoje enfrentam algumas comunidades indígenas no Brasil. a cultura primeira.fracassa na sua tarefa primeira que é despertar o desejo de aprender e desenvolver a capacidade de continuar aprendendo. A escola que tira a criança desse ambiente de bombardeamento constante dos meios de comunicação de massa e a transporta para um local enfadonho . . a cultura. atingir a satisfação prometida pela cultura primeira. O imediato. as línguas. no livro A instituição imaginária da sociedade (1982). Cornelius Castoriadis. Acabam não sendo nem índios nem brancos. nem ocidentais. Porém. Ela pode representar a alienação pura. a cultura de massa. se quiser respeitar a identidade cultural das crianças populares. A cultura elaborada pode.que não utiliza a sua linguagem e não satisfaz os seus desejos . É o caso. A escola dos brancos pode destruir a identidade indígena. o que estamos fazendo hoje . Já existem 600 dessas escolas no Brasil. A escola precisa fazer a síntese entre continuidade e ruptura em relação à cultura de massa. mas não mostra o processo. nem brasileiros. como diz Georges Snyders no livro A alegria na escola (1988). por exemplo. Elas têm por objetivo preservar e fortalecer a organização social. a escola que negasse a cultura de massa estaria contribuindo para o fracasso escolar das crianças das camadas populares em face das crianças das elites. Hospedado dentro de mim. A cultura do nosso tempo é a cultura de massa. as crenças e as tradições das comunidades indígenas. deve ser um apelo em direção ao elaborado. o como se chegou a esse produto. na forma como é veiculada. Ela necessita de um prolongamento na cultura elaborada.é criar escolas bilíngües. na expressão do filósofo grego. A sua grande força está no fato de ela nos unir instantaneamente a todo o mundo. mas cumpre pouco. retira o que há de melhor. Por isso. é uma cultura de consumo. Sendo o contato com o branco inevitável. naturalizado francês.muito. Depende do contexto histórico em que eles vivem. o outro acaba falando por mim. embora de forma fugaz. melhor que a cultura primeira. o "discurso do outro". É uma cultura que apresenta o produto. Pode até destruir sua identidade por uma espécie de "esquecimento" ou rejeição da cultura primeira. de original. Apesar disso. A cultura elaborada não necessariamente representa algo superior para as necessidades vitais de todos os indivíduos.como fizemos em São Paulo na única aldeia guarani existente na capital . os costumes. na cultura popular e a devolve ao povo sob a forma de receitas e preceitos.

• Qual a diferença entre pluralismo e ecletismo? • Como o professor pode. a tematização e a problematização no seu trabalho pedagógico? • O que se quer dizer quando se afirma que o professor perdeu a sua identidade? • Como você vê a influência da cultura de massa na escola? . Ela é uma riqueza da humanidade e base de uma filosofia do diálogo. extremamente elaborado. Os anos 90 caracterizam-se por um pensamento pós-marxista e pós-moderno. para nós. isto é. como pensávamos nos anos 60. muitas vezes. culturais. É sobretudo um saber "em ato". • Descubra na sua prática dificuldades para o exercício de uma ética da diversidade. É um saber primeiro.Mas os meios de comunicação de massa não são a única fonte do saber dos "menos qualificados". como se costuma dizer na França. o questionamento das teses socialistas ortodoxas e burocráticas e a afirmação da subjetividade que se expressa por meio de movimentos sociais de índole distinta. mas é também. Nós dizíamos. por exemplo. de classe e de gênero. que se exprime pela oralidade e. isto é. na maioria das vezes. Há uma outra fonte "mais qualificada": o saber do trabalhador se constrói e se desenvolve no trabalho. Hoje percebemos com mais clareza que a diferença não deve ser apenas respeitada. que uma educação não autoritária deveria respeitar o aluno. nas diversas disciplinas. num ato pedagógico essencial na construção da educação do futuro. mais preocupados com questões imediatas do que com uma utopia distante. Por isso os trabalhadores não têm interesse em desenvolver o seu saber se ele não for reconhecido como poder. Afirmá-la novamente se constitui. se reduz à esfera da pura execução do trabalho. no ato de produção. aplicar a investigação temática. Questões para debate • Localize no texto as propostas práticas para a construção de uma escola cidadã. Dizíamos que o respeito à diferença era uma idéia muito cara à educação popular. se o seu saber não puder interferir na concepção e na tomada de decisão. Hoje temos mais clareza desse princípio quando as teorias da educação multicultural enfatizam ainda mais a necessidade de os educadores atentarem para as diferenças étnicas.

estuda as suas finalidades. sinteticamente. os movimentos populares deveriam forçar o questionamento do conhecimento que a escola transmite. da vida dos alunos e da história de lutas que precede a conquista da escola. 1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos). ago 1989.BIBLIOGRAFIA COMENTADA ALVES. 55 p. estruturas. MEC/Unicef/Cenpec. relações da escola pública com os contextos com o Estado. José Matias. às expectativas e mesmo à vida cotidiana da população à qual atende.. CENPEC. São José da Varginha (MG). caminharia em direção ao conflito aberto expresso em movimentos coletivos e em violência individual contra o prédio escolar e profissionais da escola. Um invisível cordão de isolamento: escola e participação popular. Registra experiências educacionais de 15 municípios de pequeno. ed. Lisboa. In: Cadernos de Pesquisa. Jaboatão (PE). liderança. 70. algumas questões ligadas à gestão escolar. n.(. tais como: participação. Belo Horizonte (MG). médio e grande porte localizados em nove Estados brasileiros: Icapuí (CE). funções. Quanto ao projeto político da escola. A democratização do ensino em quinze municípios brasileiros: documento síntese. Vitória . Brasília. Dom Inocêncio (PI). O livro apresenta a escola como uma organização específica de educação formal. A ignorância a respeito do bairro. gestão e projecto educativo das escolas.. projeto educativo.) A participação popular pressuporia e impulsionaria a quebra da divisão rígida entre quem é educador e quem aprende. O autor chama a atenção para a necessidade da construção crítica e pessoal de um saber que pensa a escola enquanto realidade organizacional socialmente construída. a quem transmite e a favor de quem será apropriado e aplicado. Iguatu (CE). 3. 1993. CARVALHO. Organização. pp. 65-73.. finalmente. Edições Asam. tecnologia e educação. clima escolar. São Raimundo Nonato (PI). junto com seu isolamento. os atores escolares e. Aponta o isolamento como o principal impedimento do sistema público de ensino em relação aos movimentos organizados. Marília Pinto de. e analisa. Jaguaré (ES). São Paulo. Aborda as dificuldades e impedimentos à participação popular na escola.

. moradia. mas sua mera instalação não garante decisões democráticas. traz as principais conclusões a respeito da gestão democrática nas experiências analisadas nesta coletânea. a cidadania significa. que decide. Maria de Lourdes Manzini.(ES). Caderno elaborado pelo CENPEC. educação) quanto num plano mais abrangente. estabelecem-se situações de aprendizagem de mão dupla: ora a escola estende sua função pedagógica para fora. Cortez. age e pode atuar na transformação social. estabelecer relações mais flexíveis e menos autoritárias entre educadores e clientela escolar. o livro sistematiza algumas idéias em torno dele: canais de participação. dentro da coleção Qualidade para todos: o caminho de cada escola. 1991 (Coleção Primeiros Passos. Porto Alegre (RS). 1988. Maringá (PR). interação com o meio social. . Este livro mostra como esse direito precisa ser construído coletivamente. Ao longo do processo de participação. Além de abordar historicamente o tema da participação. Ijuí (RS). São Paulo. Brasiliense. capacidade de organização escolar e gestão pedagógica voltadas para a melhoria da qualidade de ensino. fazendo surgir o sujeito coletivo. Compromisso de todos. Relacionada ao surgimento da vida em cidades. Esses municípios possuíam modelos diferenciados de gestão do sistema escolar. Marechal Cândido Rondon (PR). que envolve a discussão sobre o papel do próprio homem no Universo. porque os representantes escolhidos podem defender interesses parciais e posições autoritárias. tanto na luta pelo atendimento de necessidades básicas (alimentação. 1994. Gestão. Muitas administrações municipais e estaduais já implantaram conselhos ou órgãos colegiados de gestão e sua estrutura tem variado nos diferentes municípios e Estados. O que é cidadania. ora a comunidade influencia os destinos da escola. Resende (RJ). Pedro. São Paulo. Conchas (SP). 250). 32 p. Conclui que a construção de uma escola democrática e de uma sociedade democrática são processos que se desenrolariam ao mesmo tempo e que a gestão democrática possibilitaria desmontar relações de mando e submissão. (Thereza Pegoraro) COVRE. saúde. em última instância. O Conselho garante decisões coletivas. v. São Paulo. D E M O . A realização da gestão democrática significaria encontrar caminhos para atender às expectativas da sociedade a respeito da atuação da escola. A maneira mais comum de assegurar a participação de todos os interessados é a instalação de um Conselho Escolar. Participação é conquista: noções de política social participante. o direito à vida no sentido pleno.

cultura participativa e seus principais objetivos (autopromoção, realização da cidadania, controle de poder, controle da burocracia, negociação e cultura democrática). Apresenta ainda seus principais riscos, obstáculos e desafios e questões relacionadas à representação, à identidade cultural e ao assistencialismo. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 1997. Utilizando uma linguagem acessível e didática, o autor reflete sobre os saberes necessários à prática educativo-crítica, fundamentados n u m a ética pedagógica e numa visão de m u n d o alicerçadas na rigorosidade, pesquisa, criticidade, risco, humildade, bom senso, t o l e r â n c i a , alegria, c u r i o s i d a d e , c o m p e t ê n c i a , g e n e r o s i d a d e , disponibilidade... "molhadas" pela esperança. A autonomia faz parte da própria natureza educativa. Sem ela não há educação, não há ensino, nem aprendizagem. G A D O T T I , Moacir. Diversidade cultural e educação para todos. Rio de Janeiro, Graal, 1992. Este livro aborda a relação entre identidade cultural e itinerário educativo, a concepção multicultural e monocultural do currículo e o papel da escola. Discute ainda a retomada da luta pela descentralização da educação e o papel crescente das Organizações Não-Governamentais (ONGs) no redirecionamento das políticas públicas em educação. Escola cidadã. São Paulo: C o r t e z , 1993. 78 p. Trata da questão da autonomia da escola pública. Nos três primeiros capítulos, faz uma análise conceituai geral de autonomia e relata uma experiência vivida pelo autor. Estabelece, então, um quadro da situação da educação brasileira relativo à problemática da autonomia da escola pública, fazendo um paralelo com as recentes reformas educacionais européias. Acredita que a transformação da escola pública em unidade de despesa, proporcionando-lhe recursos orçamentários, poderia melhorar sua situação desde que estivesse vinculada à participação e à democratização do sistema de ensino. G A R C I A , Walter. Administração educacional em crise. São Paulo, Cortez: Autores Associados, 1991 (Coleção Polêmicas do N o s s o T e m p o ; v. 46). A temática dos textos reunidos neste livro é a crise educacional que vem se agravando ao longo dos últimos anos. A crise está alicerçada em causas estruturais profundas, em que avultam a dívida externa e a insensibilidade histórica das elites nacionais, pouco preocupadas com o que se passa além de seus interesses meramente imediatistas.

MARÉS, Carlos. Eleição de diretores e democracia na escola. Revista ANDE, São Paulo, v. 3, n. 6, pp. 49-50, 1983.
Acreditando que a discussão da democracia na sociedade remete ao tema da democracia na escola, o autor afirma que, ao descer à prática, o tema perdeu a magnitude de sua essência, restando apenas os aspectos de sua forma. Para o autor, essa discussão deveria perceber o local social da escola na sociedade pluralista e heterogênea, sem buscar uma homogeneidade castradora e impositiva. A escola precisaria ser democrática, mas a implementação dessa política democrática deveria ser assumida pelo Estado com base na realidade escolar. Segundo o autor, atualmente diretores servem apenas como intermediários na implantação de uma política que não ajudaram a elaborar. A escolha da direção faz-se apenas com relação ao plano administrativo. Podem ser encontrados quatro tipos de escolha para a direção: a) diretor de carreira; b) concurso público; c) livre indicação; d) eleições. A defesa da eleição como forma de escolha dos diretores das escolas pressupõe a criação de uma regulamentação, além do que deve servir como meio para que o povo participe da gestão da coisa pública.

MIRANDA, Glaura Vasques de. A questão da autonomia da escola. Educação em Revista, Belo Horizonte, n. 9, pp. 59-61, jul. 1989.
Aponta, como uma das questões de importância para o desenvolvimento de um projeto pedagógico de melhor qualidade, a relação deste com a questão da autonomia da escola. Um maior grau de autonomia possibilitaria qualidade com gestão democrática. A esse projeto liga-se a idéia de recuperação da dignidade da escola pública, perdida em razão de práticas excessivamente centralizadoras do Estado. A autora enumera e analisa as condições básicas para que se garanta a realização de um projeto de gestão democrática na escola.

NOGUEIRA, Madza Julita. Todos pela educação no município: um desafio para cidadãos. Brasília, Unicef/Cecip, 1993. 133 p.
Aborda de maneira didática os direitos educacionais consagrados nas leis e destaca a participação popular como elemento fundamental para a expansão do ensino público ocorrida até os dias de hoje. Ressalta a importância dessa participação como instrumento de intervenção nas políticas educacionais dos municípios, na tomada de decisões. O livro conta com a colaboração de pessoas que estão envolvidas com esses mecanismos de gestão e participação popular, tornando mais acessíveis informações como a maneira de participar, quem pode fazê-lo, através de quais mecanismos. Mostra a possibilidade de participar da direção e gestão da unidade escolar, bem como do governo municipal, onde a população será

co-responsável pelas decisões sobre as políticas públicas para a educação, exigindo que estas se cumpram. Prossegue, dessa forma, esclarecendo como os cidadãos podem controlar e fiscalizar a aplicação de recursos públicos.

PARO, Vítor Henrique. Eleição de diretores - a escola básica experimenta a democracia. Campinas, Papirus, 1996.
Hoje, a eleição de diretor de escola é uma realidade em várias redes de ensino público no Brasil. Este livro analisa as características e os problemas da institucionalização e da implementação dessa experiência, bem como capta seus efeitos sobre a democratização da gestão escolar e sobre a qualidade e a quantidade da oferta de ensino.

. Gestão da escola pública: a participação da comunidade. In: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, n. 174, pp. 255-290, maio-ago. 1992.
Baseado em estudo de caso de cunho etnográfico realizado em escola estadual de ensino fundamental na cidade de São Paulo, com o objetivo de identificar os obstáculos e as potencialidades da participação do usuário na gestão da escola pública. Discute os determinantes imediatos dessa participação, presentes tanto no interior da escola quanto na comunidade por ela servida. Entre os primeiros destacam-se os condicionantes materiais, os institucionais, os político-sociais e os ideológicos. Entre os últimos encontram-se as condições objetivas de vida, bem como os condicionantes culturais e institucionais.

RIBEIRO, Vera Masagão (Org.). Participação popular e escola pública. São Paulo, Cedi, 1989. O novo conselho de escola, pp. 25-34 (Cadernos do Cedi, 19).
Avalia as contribuições que a implantação dos Conselhos de Escola deliberativos trouxe para uma efetiva participação popular na escola. O desconhecimento da maioria sobre as atribuições do Conselho é, segundo a autora, o principal índice de sua quase nenhuma efetividade. A autora apresenta uma síntese sobre as modificações das funções dos Conselhos de Escola e as respectivas leis que regulamentaram a passagem do caráter consultivo para deliberativo e da ampliação da representação dos segmentos escolares no decorrer do tempo. O artigo polemiza algumas questões como a natureza paritária do Conselho. Para a autora, normalmente o diretor aparece para a população como o grande obstáculo à sua participação na escola. R O M Ã O , J o s é E u s t á q u i o . Poder local e educação. São P a u l o , C o r t e z , 1992. Este livro aborda as diversas concepções de descentralização e a questão da municipalização do ensino no Brasil. Apresenta o poder político local,

C a m p i n a s . Dessa forma. Nele. gestão democrática e participação popular. A gestão democrática no âmbito escolar apresentaria incompatibilidade entre os modelos burocráticos existentes no sistema escolar e as práticas democráticas pretendidas. 1. q u e s t i o n a n d o a democratização de sua gestão com a participação dos pais.subdividindo-o em poder popular e poder elitista. 52-56. SILVA. evasão. os textos constituem uma referência da produção intelectual do autor e um registro seletivo do debate político-pedagógico dos anos 80 e 90 na América Latina. Sander analisa quatro construções de administração da educação. o leitor encontrará: como uma escola pode conquistar sua autonomia. Educação. Campinas. Faz um balanço da participação dos municípios na educação brasileira. jan. Este livro procura discuti-la. examinada no contexto internacional. n. Porto Alegre. Além de passar pelo curso da história do pensamento administrativo na educação latino-americana. relaciona gestão da educação com qualidade de vida e trata. ainda. Autores Associados. Analisa a democratização do ensino público. Benno. descompromisso com o aluno. Para superar tal situação. da gestão democrática e qualidade de educação de acordo com os novos desafios da administração pública e da gestão da educação para todos. Jair Militão da. E d u c a ç ã o e Realidade. p p . moradores. o autor alerta para o que chama de esquecimento do sujeito e apresenta uma proposta de pedagogia do sujeito coletivo como fator de re-humanização da escola pública. é sugerida com insistência a autonomia da escola. única possibilidade real de autonomia da escola. que tipo de relações devem ser estabelecidas entre uma escola autônoma e o sistema escolar. burocracia. A construção do conhecimento no campo da gestão da educação na América Latina é o tema central dos cinco ensaios deste livro. mostra o papel dos conselhos municipais de educação e apresenta um estudo de caso de resistência comunitária à nucleação de escolas unidocentes no meio rural. movimentos populares e sindicais. No seu conjunto. SPOSITO. 1996. Após examinar estudos preexistentes. Já são bastante conhecidas as críticas dirigidas à escola pública: repetência. Gestão da educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. 1995 (Coleção E d u c a ç ã o C o n t e m p o r â n e a ) . A autonomia da escola pública. que condições deve apresentar um sistema escolar que busque a autonomia de suas escolas. Marília Pontes./jun. v. não há gestão democrática ao lado de estruturas administrativas . Papirus. SANDER. 15. 1990.

n. pp. In: Cadernos do Cedi. determinada e articulada em grande parte a partir das orientações do diretor. enfim. Trata da questão da autonomia das escolas e das implicações dessa transferência . a obtenção do consenso pelo servilismo ou pela troca de favores. esse conjunto de fatores acaba por transformar a educação mantida pelo Estado num grande terreno onde prevalecem interesses pessoais. dando subsídios para ajudá-lo a administrar bem em um ambiente democrático sem. vol. 1990. 170 p. Redefinindo a participação popular na escola. famílias e moradores na gestão escolar e conclui que a gestão democrática poderia oferecer uma alternativa concreta de melhoria da educação brasileira. a escola brasileira não é necessariamente pública. Unesco/MEC/ Cortez. A autora defende que não haveria possibilidade de democratização sem a transformação da prática profissional do educador. Pelo contrário. pois não há canal democrático de gestão que possa ser viabilizado sem uma profunda alteração administrativa das estruturas de organismos ligados à educação. . a nomeação dos cargos de confiança nas instâncias intermediárias ou superiores apoiada em relações tacanhas de clientelismo político. . 1993. 18-20. centralizadas e verticalizadas. é no sistema de ensino que encontramos com maior profundidade. In Tempo e Presença. A professora da Universidade de São Paulo Marília Sposito afirma neste artigo que "apesar de gerida e mantida pelo aparato estatal. 64. Gestão democrática. pp. uma enraizada mentalidade privatista da coisa pública. 251. Jean.burocratizadas. sem a real participação dos pais. deixar de perceber os outros elementos constituintes e participar deste universo escolar. mai/jun. jan. Trata da luta pela gestão democrática na escola como uma das maneiras de nortear procedimentos do sistema educativo. 19. pelo caráter clientelista da burocracia escolar. porém não isoladamente. A estrutura administrativa da escola. VALERIEN. n. possibilitando aos setores tradicionalmente marginalizados acesso aos serviços educacionais e a melhoria da qualidade do ensino oferecido. Rio de Janeiro. São Paulo. que dela toma posse. formas tradicionais de dominação política e concepções privadas de uma atividade que deveria ser essencialmente pública". Gestão da escola fundamental: subsídios para análise e sugestão de aperfeiçoamento. São Paulo. Analisa o problema da gestão da escola fundamental centrado na figura do diretor. 12. 1989. a falta de autonomia para a elaboração e execução de projetos pedagógicos no âmbito da unidade escolar. contudo.

ed. Os textos estão organizados em torno de temas como: construção coletiva. 1996. procuram alternativas viáveis à efetivação de seu objetivo. v. contribuindo para a realização de diagnósticos escolares e para a compreensão do planejamento como instrumento da praxis pedagógica. São Paulo. corporativas e autoritárias. oferecendo instrumentos e elementos metodológicos e processuais que poderão favorecer uma ação pedagógica que leve em conta os fundamentos históricos. a construção de um processo democrático de decisões que vise eliminar as relações competitivas. cujo fio condutor é a defesa do fortalecimento das relações entre escola e sistema de ensino. relações ensino-aprendizagem. n. Trata da relação entre o Movimento Estadual Pró-Educação (Mepe). ago. Uma Passos (Org. Cadernos de Pesquisa. O autor escreve para professores. Os autores desta coletânea buscam a organização do trabalho pedagógico por meio da constituição de um projeto político e pedagógico. rompendo com a rotina burocrática no interior da escola. constituído de mães de alunos e professores das escolas estaduais de São . o texto traça paralelo com as "vantagens" da centralização das decisões. 39-47. autonomia.de responsabilidades no contexto da democratização da gestão escolar. Ao mesmo tempo em que apresenta pontos de reflexão importantes para a conceituação e análise da gestão democrática autônoma da escola. gestão na escola. organização dos educadores e o debate fundamental sobre as questões referentes à qualidade de ensino para todos. Papirus. VEIGA. VIANNA. princípios básicos de planejamento participativo. São Paulo. 1993. antropológicos e epistemológicos da educação e os contextos em que é realizada. mas sim que deve propor e solicitar a colaboração dos outros envolvidos no projeto da escola. Através de um processo permanente de reflexão e de discussão dos problemas da escola. dirigentes educacionais e demais profissionais da educação. explica que o diretor não deve ser o único a decidir. Projeto Político da Escola: uma construção possível. Apresenta e analisa os vários níveis de um planejamento.). Celso dos S. de um plano de ensino-aprendizagem e de um projeto educativo. Quanto à gestão da escola. relações de poder. 1). Planejamento: plano de ensinoaprendizagem e projeto educativo . a saber. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. 2. Divergências. (Thereza Pegoraro) VASCONCELLOS. Cláudia Pereira. mas não antagonismos: mães e professoras das escolas públicas. Libertad. pp..elementos metodológicos para elaboração e realização. São Paulo. 86. Este é um livro sobre o planejamento da educação.

Guiomar Namo de. na medida em que tem de vencer entraves como a descrença das pessoas para sua efetivação. acompanhamento e controle. geralmente direcionada pelos poderes públicos. 1986. Rose Neubauer da. Entre esses riscos. São Paulo. comunitário e político. que se efetive como uma tarefa contínua e política. Nesse sentido. um ambiente de idéias inovadoras e veículo de dignificação do homem. Gestão educacional .Paulo. gerador de mudanças em todos os aspectos. a dificuldade de integração com os demais níveis e grupos da própria comunidade. Conclui que a luta pela melhoria da qualidade de ensino adquirirá força quando professoras e mães explicitarem os valores e critérios que as distinguem.experiências inovadoras. SILVA. mas de suas decisões. Tem a preocupação com um processo educativo centrado no aluno e sua realidade pessoal e contextual. bem como as perspectivas que se abrem para a melhoria da qualidade do ensino. estabelecendo entre professores. Brasília (Série Ipea. sintetiza e relata o trabalho pedagógico efetivado em uma escola de ensino fundamental do Estado de São Paulo que se propôs a desenvolver o trabalho pedagógico a partir de um planejamento participativo. Ilca Oliveira Almeida. A condição de mulher foi um primeiro fator de aproximação de mães e professoras. Essa proposta é desafiadora. a ingerência da hierarquia burocrática do sistema. (Thereza Pegoraro) XAVIER. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) vem acompanhando as inovações na gestão do sistema educacional e escolar.). convivendo com as diferenças e conflitos que isso implica. Planejamento participativo na escola: um desafio ao educador. José Amaral (Orgs. em que a comunidade participe não só de execuções de ações. A autora analisa o apoio das mães às reivindicações do professorado e mostra as tensões que ocorreram no processo. (Thereza Pegoraro) VIANNA. MELLO. EPU. n. SOBRINHO. Antônio Carlos da Ressurreição. Procurou transformar a escola em centro polivalente. 147). O volume nº 147 apresenta doze experiências de novas formas de organização e gestão educacional em diferentes regiões . pois algumas professoras eram também mães de alunos. família e comunidade. além do imediatismo que caracteriza o povo brasileiro. família e comunidade um verdadeiro trabalho integrado. Fundamenta. tem desenvolvido estudos e pesquisas com o objetivo de identificar as mudanças ocorridas nos últimos anos na concepção e gestão das unidades escolares. figura a manipulação do trabalho pela assessoria especializada e a pseudoparticipação da comunidade. envolvendo atividade conjunta da escola. segundo a autora. 1995.

Este volume discute os novos desafios impostos à gestão escolar num mundo caracterizado por rupturas contínuas e aceleradas de paradigmas. Duas delas têm como objeto sistemas estaduais e dez se voltam para sistemas de ensino no nível municipal. 1994. Analisa as inovações que estão ocorrendo na gestão da Educação em Estados e municípios selecionados. as mudanças que a ampliação do processo de decisão da escola trouxe para seu perfil e funcionamento. 145).do país. José Amaral. Brasília (Série Ipea. as experiências que vêm sendo realizadas no País. por fim. n. Fátima e SOBRINHO. . MARRA.). (Orgs. em escolas públicas e privadas. bem como identifica o que qualifica a escola. com a "gestão da qualidade total". e. analisa as experiências de avaliação do contexto da melhoria dos processos e da qualidade do ensino. . Gestão escolar: desafios e tendências.