SALTO PARA O FUTURO

Construindo a Escola Cidadã
Projeto político-pedagógico

Brasília, 1998

Presidente da República Federativa do Brasil Fernando Henrique Cardoso Ministro da Educação e do Desporto Paulo Renato Souza Secretário de Educação a Distância Pedro Paulo Poppovic

SERIE DE ESTUDOS / EDUCAÇÃO A DISTANCIA
SALTO PARA O FUTURO / CONSTRUINDO A ESCOLA CIDADÃ PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO

Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto - Acerp Diretor-Presidente Mauro Garcia Gerente de Educação Yonne Polli Secretaria de Educação a Distância / MEC Coordenação editorial Cícero Silva Júnior

Ministério da Educação e do Desporto

SERIE DE ESTUDOS EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA SALTO PARA O FUTURO Construindo a Escola Cidadã Projeto político-pedagógico MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA .

96 p. DF fax: (061) 321.Perspectivas da educação a distância. I. SEED.Acerp. Secretaria de Educação a Distância. II. v. Brasil.5) 1. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto. Bloco L.(Série de Estudos. .1178 / e-mail: seed@seed. 1997 • TV e Informática na Educação Educação do olhar. Seminário de Brasília.018. Anexo 1. Educação a Distância. 1998. volumes 1 e 2 .mec. ISSN 1516-2079. CDU 37.MEC Direitos cedidos para esta edição pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto . projeto político-pedagógico/ Secretaria de Educação a Distância.43 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Esplanada dos Ministérios. 1998 Edição ESTAÇÃO DAS MÍDIAS Edição de texto: Luci Ayala Edição de arte: Rabiscos Ilustração da capa: Sandra Kaffka Revisão: Márcio Guimarães de Araújo Impressão: Coronário Editora Gráfica Tiragem: 110 mil exemplares ISSN 1516-2079 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Salto para o Futuro: Construindo a escola cidadã. Ensino a distância.br Outros títulos da Série de Estudos /Educação a Distância publicados pela Secretaria de Educação a Distância / MEC: TV da Escola • América Latina . Ministério da Educação e do Desporto. Sala 314 Caixa Postal 9 6 5 9 . Série.C E P 70001-970-Brasília.Copyright © Ministério da Educação e do Desporto .gov.

Nos artigos 13 e 14. com a parceria do Instituto Paulo Freire. as diretrizes dos Estados e municípios e capazes. cada proposta ou projeto pedagógico retrata a identidade da escola. a série Construindo a escola cidadã: projeto políticopedagógico.Acerp. Considerando o sucesso da iniciativa e a atualidade do tema. Em outras palavras. o projeto pedagógico é a própria escola cidadã.Seed veiculou pela TV Escola. a LDB diz que a elaboração da proposta pedagógica contará com a participação dos profissionais da Educação. Assim. ao mesmo tempo. É um amplo trabalho de construção. a lei quis dar realce ao papel da escola e dos educadores na construção de projetos educacionais articulados com as políticas nacionais. promulgada em 20 de dezembro de 1996.terão a incumbência de elaborar e executar sua proposta pedagógica (artigo 12). E espera. Atenta ao cenário educacional. realizada pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto . que exige competência técnico-pedagógica e clareza quanto ao compromisso ético-profissional de educar o cidadão deste novo tempo.respeitadas as normas comuns e as de seu sistema de ensino . contribuir para a discussão acerca da construção democrática do projeto pedagógico da escola. prevê que os estabelecimentos de ensino .A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. nº 9. com isso. que deverão ainda definir e cumprir plano de trabalho para concretizá-la. no programa Salto para o Futuro. de levar em consideração a realidade específica de cada instituição de ensino. Pedro Paulo Poppovic Secretário de Educação a Distância .394. Com tais dispositivos. a Secretaria de Educação a Distância . a Seed publica aqui uma versão resumida dos textos originalmente utilizados como literatura de apoio à série.

. 43 PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA 53 DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA 67 ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA.. MUITAS CULTURAS 79 BIBLIOGRAFIA COMENTADA 87 .SUMÁRIO PROPOSTA PEDAGÓGICA 09 PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ 15 ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE 23 CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO 31 CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ .

E justamente a partir de estudos e pesquisas desenvolvidos em torno dessa temática que o Instituto Paulo Freire pretende contribuir para o aperfeiçoamento dos docentes da educação básica e dos alunos dos cursos de formação de professores. Justificativa Para que a escola possa construir o seu projeto políticopedagógico. é condição essencial.na qual se incluem professoras e professores. Objetiva-se também incentivá-los ao exercício de uma ação pedagógica condizente com as necessidades e exigências educacionais colocadas por seus contextos específicos. de seus docentes. Isso contribui para a democratização das relações de poder no âmbito escolar e. E uma das maneiras de fazer funcionar a escola e de organizá-la com vistas à melhoria da qualidade do ensino é justamente a elaboração democrática e coletiva de seu projeto político-pedagógico. a quem se destina este projeto . mas principalmente estimulá-los para a pesquisa e a reflexão interativa sobre suas práticas e as práticas de outros. futuras e futuros docentes. a participação de todos e.tem acesso às informações e lhe é garantido o direito de participar das decisões. ela tem condições de compreender melhor o funcionamento da escola e de se organizar para assegurar que os interesses da maioria sejam atendidos. por conseguinte. em especial. Objetiva-se levar até eles não só o resultado de experiências acumuladas por Estados e municípios brasileiros. pode levar .PROPOSTA PEDAGÓGICA Quando a comunidade escolar . e que o tempo e a história que construímos nos impõem diariamente.

Além dos aspectos já mencionados. Será preciso preparar os jovens para o trabalho. outros bastante polêmicos. da organização do trabalho na escola e da gestão democrática da escola pública. especialmente. Sem apostarmos em novos processos educativos. autonomia da escola e participação da comunidade na gestão escolar. para que. O Instituto Paulo Freire vem desenvolvendo estudos e pesquisas . Nossas desigualdades sociais não serão superadas apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias. fazem parte da série de temas ligados à questão do projeto político-pedagógico da escola. Ela pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e para isso deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional. por exemplo. realizar pesquisas e desenvolver suas práticas pedagógicas a partir de um diálogo sempre aberto às novas metodologias e concepções educacionais. que não podem ficar fora da agenda dos atuais e futuros professores: eleição de diretores. consideramos que a escola deve formar para a cidadania ativa e para o desenvolvimento. que. A educação é condição sine qua non para o desenvolvimento autosustentado do País. possam construir conhecimentos. nesse sentido. como ficou demonstrado por países como a Coréia do Sul. na formação consistente dos futuros profissionais da Educação. Com base em tais perspectivas educacionais e de acordo com o Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. não teremos condições de reverter o processo de deterioração do ensino básico.os usuários à intervenção no próprio sistema de ensino. Assim. Hoje é necessário investirmos na formação continuada de professores e. das concepções construtivista-interacionista e histórico-social. deu um salto para o Primeiro Mundo graças a investimentos massivos na Educação. A organização do Conselho de Escola ou Colegiado Escolar torna-se. em novas metodologias de ensino e na formação daqueles que são e serão os educadores das atuais e futuras gerações. A educação básica de qualidade para todos é uma das condições fundamentais para acabar com a miséria. Todos os segmentos escolares adquirem papel fundamental no processo decisório. fator imprescindível: o espaço em que os diferentes segmentos escolares decidirão sobre a organização do trabalho na escola. a curto e médio prazos. em algumas décadas. à luz. não apenas o diretor de escola ou os órgãos superiores da Educação estarão definindo o que é prioritário para a unidade escolar.

e prestar contas e divulgar informações referentes ao uso de recursos e à qualidade dos serviços prestados". de motivações. Objetivos Este projeto surge como um instrumento de construção e de reconstrução permanentes de um projeto de sociedade que . analisando experiências acumuladas nos diversos municípios e Estados brasileiros..). respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino.. constituir conselhos escolares com representação da comunidade (. porque é prática educativa. de significações. prevendo a participação dos profissionais da Educação na elaboração do projeto pedagógico da escola e das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes.).394/96). Considera que o projeto político-pedagógico da escola é uma tarefa dela mesma. entre outras. • institucionalização da gestão democrática.nessa direção. estão: • capacitação de todos os segmentos escolares. terão a incumbência. • agilização das informações e transparência nas negociações no âmbito da escola e fora dela. a partir das quais definimos alguns parâmetros para a elaboração do Projeto Político-Pedagógico da Escola e para a Gestão Democrática da Escola Pública. Lembramos. articular-se com as famílias e a comunidade. sancionada no dia 20 de dezembro de 1996. de acordo com as suas peculiaridades".. de valores e de desejos. Dentre os parâmetros aos quais nos referimos. o Instituto Paulo Freire oferece sua contribuição e busca opções para superar o desafio colocado. A partir desses parâmetros. de afetos.. • consulta permanente à comunidade escolar. de formação de convicções. de elaborar e executar sua proposta pedagógica (. criando processos de integração da sociedade com a escola (.. Construílo significa ver e assumir a educação como processo de ensinoaprendizagem. oportunamente. • lisura nos processos de definição da gestão democrática e do projeto político-pedagógico da escola. A lei da Educação também estabelece que os sistemas de ensino "definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica.). determina que "os estabelecimentos de ensino.. um processo que se constrói constantemente e se orienta com intencionalidade explícita. inserida no mundo da vida. que a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n° 9.

• identificar o papel dos professores na definição das propostas e das estratégias de intervenção adequadas ao diagnóstico escolar e à elaboração do projeto político-pedagógico da escola. Planejamento participativo na escola. 5.pedagógico da escola. DEMO. • possibilitar o intercâmbio entre educadores e instituições escolares das diversas regiões do País para a construção de uma escola democrática e de qualidade técnico-política. São Paulo. Como organizar o Conselho de Escola.) CISESKI. • identificar os princípios de implementação da gestão escolar democrática. Pedro. ser possível a utopia educacional. Ângelo. 2. Petrópolis. n.. • realizar estudos. 1995. DALMÁS. 1996. esclarecimentos e troca de experiências dos atuais e dos futuros docentes sobre conselhos de escola. Edições ASA. FONSECA. nos termos freireanos. Vozes. ed. • identificar e analisar terminologias e conceitos específicos que são empregados em relação ao projeto político-pedagógico da escola. enfatizando a importância da gestão democrática e da organização do trabalho na escola. NASCIMENTO. IPF.. BIBLIOGRAFIA ALVES. Nesse sentido. José Matias. no que se refere à construção do projeto pedagógico da escola e à valorização dos profissionais da Educação. 1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos. • estudar e analisar a situação atual da educação brasileira a partir da aprovação da nova LDB. Portugal. Cortez. Organização. • desenvolver estudos integrados para conhecer e analisar os indicadores educacionais com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político pedagógico da escola. 3. adaptando-a às exigências da elaboração do projeto político. Porto. os objetivos gerais do presente projeto são: • desencadear um movimento para que as escolas construam ou avaliem os seus projetos político-pedagógicos. escolha democrática de dirigentes escolares. gestão e projecto educativo das escolas. 1988. Ângela Antunes.acredita. "planejamento socializado ascendente". São Paulo. . ed. Participação e conquista. • estudar a metodologia de diagnóstico educacional e escolar denominada Carta Escolar. João Pedro da. Francisco João.

1994. UFSC. Mário Osório et ai. Edições ASA. Jair Militão da. José Eustáquio. Campinas. ROMÃO. MENEGOLLA. 1993 (Coleção Questões da Nossa Época: v. 1995 (Coleção Educação Contemporânea). n° 1. 1996. Libertad. . ed.Aula. Cortez. Paulo. São Paulo. 1992. MARQUES. São Paulo. Manuel Jacinto. VASCONCELLOS.. Editora Autores Associados. Eleição de diretores: a escola pública experimenta a democracia. As escolas e as autonomias. 2. MEC-SEF. Brasília. Cortez.elementos para elaboração e realização. 9). Educação popular na escola pública. São Paulo. 1996. Escola cidadã. Benno. SCHAEFER Maria Isabel Orofino. São Paulo. In: Revista da Faculdade de Educação. 21. VALE.SILVA. PADILHA. pp. Feusp. GADOTTI. São Paulo. 1992. & GADOTTI. Moacir. 1). SANTOS. São Paulo. Petrópolis. Ana Maria do. PARO. Paz e Terra. Poder local e Educação. Planejamento educacional participativo. Porto.. Celso dos Santos. 2. 1994. 24). Petrópolis. Planejamento educacional e organização do trabalho na escola: concepções do Plano Decenal de Educação para Todos. SANDER. 1996. Papirus. Vítor Henrique. SILVA. 1996. 1989 (Tese de Doutorado). O projeto pedagógico da escola.Área . Por que planejar? Como planejar? Currículo . Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escolar. Maximiliano & SANTANNA. Cortez. 1996 (Colecção Cadernos Pedagógicos. 52 p. v. jan/jun. IPF. 1995. 1991. São Paulo. Florianópolis. São Paulo. Gestão da Educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. Cultura midiática no espaço escolar. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. FREIRE. n°. Vozes. ed. Planejamento: plano de ensino-aprendizagem e projeto educativo . Paulo Roberto. Ilza Martins. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. Feusp. 79-112. Jair Militão da. v. Moacir. Portugal. Campinas. Projeto da escola cidadã: a hora da sociedade.

Neste texto.Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício Carlos Drummond de Andrade Foi bonita a festa. específico de cada escola. Já murcharam tua festa. cresce também o desejo de afirmação da singularidade de cada região. pá mas certamente esqueceram uma semente nalgum canto de jardim. pelo pluralismo político. Muito menos à questão do seu projeto. Nunca nossas escolas discutiram tanto autonomia. pá fiquei contente E ainda guardo. Essa preocupação tem-se traduzido sobretudo pela reivindicação de um projeto político-pedagógico próprio. das comunicações. cidadania e participação. sobre seu papel como instituição numa sociedade pós-moderna e pós-industrial. A multiculturalidade é a marca mais significativa do nosso tempo. A crise de paradigmas também atinge a escola e ela se pergunta sobre si mesma. caracterizada pela globalização da economia. da educação e da cultura. pela emergência do poder local. gostaríamos de tratar Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo . autonomia e contra toda forma de uniformização. mas não responde a todas as questões atuais da escola. É um dos temas mais originais e marcantes do debate educacional brasileiro de hoje. a questão da escola limitava-se a uma escolha entre ser tradicional e ser moderna. renitente um velho cravo para mim.USP e diretor do Instituto Paulo Freire . Nessa sociedade cresce a reivindicação pela participação. (Tanto mar) Chico Buarque PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ Moacir Gadotti Até muito recentemente. de cada língua etc. Essa tipologia não desapareceu.

que é a sua história. metas e procedimentos .deste assunto. Cada escola é resultado de um processo de desenvolvimento de suas próprias contradições. ou melhor. no cumprimento mais eficaz do instituído. como defende o discurso em torno da "qualidade". uma etapa em direção a uma finalidade que permanece como horizonte da escola. Um projeto político-pedagógico não nega o instituído da escola. Certamente o plano diretor da escola . de uma diretora. da "qualidade total". Não se constrói um projeto sem uma direção política. O projeto pedagógico da escola é. o que se está elegendo é um projeto para a escola. desaparece aquela arrogante pretensão de saber de antemão quais serão os resultados do projeto para todas as escolas de um sistema educacional.como conjunto de objetivos. Ao contrário. ao se eleger um diretor de escola. Na escolha do diretor ou da diretora percebe-se já o quanto o seu projeto é político. A arrogância do dono da verdade dá lugar à criatividade e ao diálogo. bem como as dificuldades. Isso não significa que objetivos. o conjunto dos seus currículos e dos seus métodos. Não existem duas escolas iguais. o plano fica no campo do instituído. obstáculos e elementos facilitadores para a elaboração do projeto político-pedagógico. mas não é todo o seu projeto. Assim realizada. um rumo. escolhe primeiro um projeto e depois a pessoa que possa executá-lo. sempre um processo inconcluso. A escola. Um projeto necessita sempre rever o instituído para. Um projeto sempre confronta esse instituído com o instituinte. Como vimos. a eleição de um diretor. De quem é a responsabilidade da constituição do projeto da escola? O projeto da escola não é responsabilidade apenas de sua direção. a direção é escolhida a partir do reconhecimento da competência e da liderança de alguém capaz de executar um projeto coletivo. sublinhando a sua importância e seu significado. o conjunto de seus atores internos e externos e seu modo de vida. instituir outra coisa. um norte. Portanto. em geral. Eles são insuficientes. nesse caso. numa gestão democrática. Diante disso.faz parte do seu projeto. A pluralidade de projetos pedagógicos faz parte da história da Educação da nossa época. todo projeto pedagógico da escola é também político. Freqüentemente se confunde projeto com plano. . se dá a partir da escolha de um projeto político-pedagógico para a escola. pois. assim. a partir dele. Por isso. em particular. o projeto pedagógico da escola está hoje inserido num cenário marcado pela diversidade. metas e procedimentos não sejam necessários. Tornar-se instituinte.

Por isso. para isso. os usuários da escola. Propiciará um contato permanente entre professores e alunos. pais. Há pelo menos duas razões que justificam a implantação de um processo de gestão democrática na escola pública: • a escola deve formar para a cidadania e. A gestão democrática da escola implica que a comunidade. A gestão democrática da escola é. portanto. A autonomia e a participação .autonomia para estabelecer o seu projeto e autonomia para executá-lo e avaliá-lo. Não se entende. uma exigência de seu projeto político-pedagógico. aproximará também as necessidades dos alunos dos conteúdos ensinados pelos professores. • a gestão democrática pode melhorar o que é específico da escola. isto é. Ela está a serviço da comunidade. Na gestão democrática. que faz parte também do projeto de sua vida. A escola não tem um fim em si mesma. o seu ensino. um conhecimento mútuo e. Nisso. uma escola sem autonomia . a gestão democrática da escola está prestando um serviço também à comunidade que a mantém. e não uma conquista da comunidade. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. ela deve dar o exemplo. sejam seus dirigentes e gestores. E para ele se tornar sujeito da sua aprendizagem precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. portanto.pressupostos do projeto políticopedagógico da escola . em conseqüência. Ela exige. Mudança que implica deixar de lado o velho preconceito de que a escola pública é apenas um aparelho burocrático do Estado. O aluno aprende apenas quando se torna sujeito da sua aprendizagem. alunos. A gestão democrática da escola é um passo importante no aprendizado da democracia. A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria natureza do ato pedagógico.não se limitam à mera declaração de princípios consignados em algum documento. A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico. não deve existir um padrão único que oriente a escolha do projeto de nossas escolas. e não apenas seus fiscalizadores ou meros receptores dos serviços educacionais. A participação na gestão da escola proporcionará um melhor conhecimento do funcionamento da escola e de todos os seus atores. professores e funcionários assumem sua parte de responsabilidade pelo projeto da escola. em primeiro lugar. uma mudança de mentalidade de todos os membros da comunidade escolar. Sua presença precisa ser sentida no . Passamos muito tempo na escola para sermos meros clientes dela.

esportivas e recreativas. Não basta apenas assistir a reuniões. responsabilidade e criatividade como processo e como produto do projeto. • o autoritarismo que impregnou nossa prática educacional. Entre eles. A escola que precisa ser salva não merece ser salva. • a mentalidade que atribui aos técnicos e apenas a eles a capacidade de planejar e governar e que considera o povo incapaz de exercer o governo ou de participar de um planejamento coletivo em todas as suas fases. atitude e método. podemos citar: • nossa pouca experiência democrática. • na participação e na cooperação das várias esferas de governo. certamente. o contexto histórico em que ela se insere. A democracia também é um aprendizado. • a própria estrutura vertical de nosso sistema educacional. Não basta trocar de teoria como se ela pudesse salvar a escola. algumas limitações e obstáculos à instauração de um processo democrático como parte do projeto político-pedagógico da escola. isto é. na divisão do trabalho. mas não é suficiente. no planejamento do ensino. de efetivo exercício da democracia. na organização de eventos culturais. no processo de elaboração ou de criação de novos cursos ou de novas disciplinas. • o tipo de liderança que tradicionalmente domina nossa atividade política no campo educacional. na formação de grupos de trabalho. na distribuição das aulas. portanto. partindo da cara que tem. o projeto pedagógico da escola pode ser considerado como um momento importante de renovação da . A gestão democrática é. Enfim. O projeto da escola depende da ousadia de seus agentes e de cada escola em se assumir como tal. Um projeto político-pedagógico constrói-se de forma interdisciplinar. demanda tempo. atenção e trabalho. seu cotidiano e seu tempo-espaço. Pelo que foi dito até agora. um projeto político-pedagógico da escola apóia-se: • no desenvolvimento de uma consciência crítica.conselho de escola ou colegiado e também na escolha do livro didático. na capacitação dos recursos humanos etc. na circulação das informações. A gestão democrática deve estar impregnada por uma certa atmosfera que se respira na escola. atividades cívicas. • na autonomia. no estabelecimento do calendário escolar. Precisamos de métodos democráticos. Existem. A atitude democrática é necessária. • no envolvimento das pessoas: a comunidade interna e externa à escola.

Um projeto precisa ser discutido e isso leva tempo. O projeto que pode ser inovador para uma escola pode não ser para outra. • atmosfera. revelam-se ineficientes a médio prazo. • tempo para amadurecer as idéias: só os projetos burocráticos são impostos e. antever um faturo diferente do presente. • controle. é também decisivo para seu sucesso. As promessas tornam visíveis os campos de ação possíveis. acompanhamento e avaliação do projeto: um projeto que não pressupõe constante avaliação não consegue saber se seus objetivos estão sendo atingidos. sobre o que se quer inovar. explícito.principalmente dos dirigentes . o período no qual o projeto é elaborado. comprometendo seus atores e autores. • tempo escolar: o calendário da escola. podemos destacar: • comunicação eficiente: um projeto deve ser factível e seu enunciado facilmente compreendido. A co-responsabilidade é um fator decisivo no êxito de um projeto. por isso. • suporte institucional e financeiro. Um projeto educativo pode ser tomado como promessa ante determinadas rupturas. Há um tempo para sedimentar idéias. Projetar significa "lançar-se para a frente". Como elementos facilitadores do êxito de um projeto.escola. Projeto pressupõe uma ação intencionada com um sentido definido. pleno conhecimento de todos .e recursos financeiros claramente definidos. Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscarse. ambiente favorável: não se deve desprezar um certo componente mágico-simbólico para o êxito de um . que significa: vontade política. A noção de projeto implica sobretudo tempo: • tempo político: define a oportunidade política de um determinado projeto. • tempo institucional: cada escola encontra-se num determinado tempo de sua história. • adesão voluntária e consciente ao projeto: todos precisam estar envolvidos. atravessar um período de instabilidade e buscar uma nova estabilidade em função da promessa que cada projeto contém de estado melhor do que o do presente. • o momento da institucionalização e implementação do projeto. Todo projeto supõe rupturas com o presente e promessas para o futuro. Nesse processo podem-se distinguir dois momentos: • o momento da concepção do projeto.

A falta desses elementos dificulta a elaboração e a implantação de um projeto novo para a escola. como liberdade de expressão.projeto. Um projeto político-pedagógico da escola deve constituir-se num verdadeiro processo de conscientização e de formação cívica. é um conceito ambíguo. comprovada competência e legitimidade. se os que as defendem não têm prestígio. • direitos sociais. no entanto. contudo. • referencial teórico que facilite encontrar os principais conceitos e a estrutura do projeto. uma certa mística que cimente a todos os que se envolvem no design de um projeto. diversas concepções de cidadania: a liberal. A implantação de um novo projeto político-pedagógico enfrentará sempre a descrença generalizada dos que pensam que de nada adianta projetar uma boa escola enquanto não houver vontade política dos "de cima". educação. Existe hoje uma concepção consumista de cidadania (não ser enganado na compra de um bem de consumo) e uma concepção oposta. A democracia fundamenta-se em três direitos: • direitos civis. mas. habitação etc. Não há cidadania sem democracia. Existem. • direitos políticos. que consiste na mobilização da sociedade para a conquista dos direitos anteriormente . a neoliberal. Tudo isso exige certamente uma educação para a cidadania. Deve ser um processo de recuperação da importância e da necessidade do planejamento na Educação. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão estabelecia as primeiras normas para assegurar a liberdade individual e a propriedade. Em 1789. o projeto pode ficar limitado. de voto. a progressista ou socialista democrática (o socialismo autoritário e burocrático não admite a democracia como valor universal e despreza a cidadania como valor progressista). O conceito de cidadania. o pensamento e a prática dos "de cima" não se modificarão enquanto não existir pressão dos "de baixo". como segurança e locomoção. Contudo. de participação em partidos políticos e sindicatos etc. salário justo. que é uma concepção plena de cidadania. O que é educar para a cidadania? A resposta a essa pergunta depende da resposta à outra pergunta: "o que é cidadania?" Pode-se dizer que cidadania é essencialmente consciência de direitos e deveres no exercício da democracia. • credibilidade: as idéias podem ser boas. como trabalho. saúde.

. como uma alternativa nova e emergente. que surgiram nos Estados Unidos nos anos 50. tentando entender esse movimento. Por isso. gostaria de mencionar pelo menos quatro: • a escola não é o único local de aquisição do saber elaborado. e ainda tão longínqua em razão do arraigado individualismo tanto das nossas elites quanto das fortes corporações emergentes. além da interação e da reciprocidade existentes entre as ciências. que devem ser garantidos pelo Estado. Essas categorias se constituem na base da nossa identidade nacional. cujos princípios venho defendendo. A interdisciplinaridade refere-se à estreita relação que as disciplinas mantêm entre si. posso tirar algumas lições que me levam a acreditar nessa concepção/realização da educação. Ela vem surgindo em numerosos municípios e já se mostra nas preocupações dos dirigentes educacionais em diversos Estados brasileiros. ao lado de Paulo Freire. a democratização das relações de poder dentro da escola. indo. apresentei um decálogo no livro Escola cidadã. As Citizenship Schools. Do movimento histórico-cultural a que nos referimos estão surgindo alguns eixos norteadores da escola cidadã: a integração entre educação e cultura. Concretamente. escola e comunidade (educação multicultural e comunitária). De minha experiência vivida nesses últimos anos. como diz Emilia Ferreiro. dessa experiência vivida pude tirar algumas lições. Aprendemos também nos fins de semana. a escola cidadã surge como uma realização concreta dos ideais da escola pública popular. ambas dependentes do Estado paternalista. colocando dentro das escolas americanas a educação para a cidadania e o respeito aos direitos sociais e humanos. E é justamente nesse contexto histórico que vêm se desenhando o projeto e a realização prática da escola cidadã em diversas partes do país. a transdisciplinaridade refere-se à superação das fronteiras existentes entre as disciplinas. Para finalizar. a visão interdisciplinar e transdisciplinar e a formação permanente dos educadores.mencionados. foram a origem do importante movimento pelos direitos civis no País. A cidadania implica instituições e regras justas. tão desejada. O movimento atual da chamada escola cidadã está inserido nesse novo contexto histórico de busca de identidade nacional. Cidadania e autonomia são hoje duas categorias estratégicas de construção de uma sociedade melhor em torno das quais há freqüentemente consenso. baseado nessa crença. portanto. Para mim. o enfrentamento da questão da repetência e da avaliação. Movimentos semelhantes já ocorreram em outros países. de 1992. nas últimas duas décadas.

Mesmo assim. ter uma mentalidade aberta ao novo e não atirar pedras no caminho de ninguém que queira inovar em educação. exigência premente e concreta de uma mudança estrutural provocada pela inevitável globalização da economia e das comunicações. minha certeza é outra: penso que. A educação para todos supõe todos pela educação. mudando passo a passo. Cada escola é fruto de suas próprias contradições.• não existe um único modelo capaz de tornar exitosa a ação educativa da escola. acima de tudo. no meu entender. que a educação deve passar não apenas por uma melhoria da qualidade do ensino que está aí. a qual poderá acontecer como resultado de um esforço contínuo. com pequenas mudanças numa certa direção. mas por uma transformação radical. sobretudo. Estado e sociedade civil . Estou convencido.não se interessarem por ela. até para a aquisição do saber elaborado. no dia-a-dia. pode não o ser em outra conjuntura ou contexto. Não é preciso mais esperar para mudar. solidário e paciente. pela revolução da informática a ela associada e pelos novos valores que estão refundando as instituições e a convivência social na emergente sociedade pós-moderna. Existem muitos caminhos. podemos operar a grande mudança. Por isso. não devemos renunciar ao nosso sonho da "grande" mudança. Por isso. Questões para debate • Que mudanças caracterizam a sociedade pós-moderna e pósindustrial? • Como essas mudanças se refletem na educação e na escola? • Como a escola pode formar para a cidadania? • Quais são os obstáculos e os elementos facilitadores para a implantação do projeto político-pedagógico da escola cidadã? . E o caminho que pode ser válido numa determinada conjuntura. • a educação não será acessível a todos enquanto todos trabalhadores e não-trabalhadores em Educação. as pequenas mudanças deveriam ser evitadas e todo o investimento deveria ser feito numa mudança radical e ampla. Hoje. E o mais importante: isso pode ser feito já. é preciso incentivar a experimentação pedagógica e. • houve uma época em que eu pensava que as pequenas mudanças impediam a realização de uma grande mudança. num determinado local ou contexto.

mais do que as suas riquezas naturais.USP e diretor do Instituto Paulo Freire José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. quero o vinho e o pão Quero a amizade. O que mata um jardim [é esse olhar vazio De quem por ele passa indiferente. Será preciso preparar os jovens para o trabalho.. (Coração civil) Milton Nascimento ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE Moacir Gadotti José Eustáquio Romão Em princípio. toda escola pode ser cidadã enquanto realizar uma certa concepção de educação orientada para: • a formação para a cidadania ativa: acreditamos que a escola pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional. quero amor prazer Quero nossa cidade sempre ensolarada Os meninos e o povo no poder. Só a educação básica de qualidade para todos pode acabar com a miséria. MG .. Mário Quintana Quero a utopia. Isso exige uma reorientação dos investimentos públicos em educação Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo . quero tudo e mais Quero a felicidade dos olhos de um pai Quero a alegria muita gente feliz Quero que a justiça reine em meu país Quero a liberdade. A educação básica é o bem muito precioso e de maior valor para o desenvolvimento.O que mata um jardim não [é o abandono. Nosso appartheid social não será superado apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias. • a educação para o desenvolvimento: entendemos que a educação é condição sine qua non para o desenvolvimento auto-sustentado do País.

1°).sem comprometer os outros níveis de ensino . O Brasil passou por um primeiro momento em que a educação estava entregue unicamente nas mãos da iniciativa confessional e privada. Investir mais em educação hoje no Brasil. Na história das idéias pedagógicas. John Locke concebe-a como "autogoverno" (selfgovernment). não é suficiente para reverter o processo de deterioração do ensino básico. 206). . mas para poucos. Adolph Ferriere e Jean Piaget entendiam que ela exercia um papel importante no processo de "socialização" gradual das crianças. diz Georges Snyders. o seu conceito encontra-se na obra de diversos clássicos da educação. O educador inglês Alexander S. o tema da autonomia da escola encontra suporte na própria Constituição promulgada em 1988. um momento de busca de síntese entre qualidade e quantidade. Os educadores soviéticos Makarenko e Pistrak a entendiam como "autoorganização dos alunos". mas sem oferecer qualidade e eficiência. A autonomia é "real".. que institui a "democracia participativa" e cria instrumentos que possibilitam ao povo exercer o poder "diretamente" (Art. No que se refere à educação. Passou. a autonomia sempre foi associada aos temas da liberdade individual e social. Esses princípios podem ser considerados como fundamentos constitucionais da autonomia da escola. recentemente. 1977). por uma forte intervenção do Estado. que ofereceu uma escola de qualidade. mas também para a inserção na comunidade e para a emancipação social. da transformação social.. Snyders insiste que essa "autonomia relativa" tem de ser mantida pela luta e "só pode tornar-se realidade se participar no conjunto das lutas das classes exploradas" (idem). que conseguiu expandir as oportunidades educacionais. No Brasil. É a vez da sociedade. classe e luta de classes. no sentido moral de "autodomínio individual". da ruptura com esquemas centralizadores e.e uma compreensão nova do público e do estatal. Neill organizou uma escola (Summerhill) controlada autônomamente pelos alunos. a Constituição de 1988 estabelece como princípios básicos o "pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas" e a "gestão democrática do ensino público" (Art. "mas a conquistar incessantemente (.básica . sem rever o modelo de gestão da escola pública. Por isso. Pode-se dizer que a autonomia faz parte da própria natureza da educação. Estamos vivendo hoje um momento diferente. em seguida.) é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar" (Escola. A escola precisa preparar o indivíduo para a autonomia pessoal.

Podem significar muitas coisas e. filósofo grego contemporâneo. Para ele. separando "especialistas" de . A alienação se dá quando "um discurso estranho que está em mim me domina. principalmente. pois participar significa engajar-se numa atividade já existente com sua própria estrutura e finalidade. O sentido que aqui nos interessa. Autogestão não se confunde com participação. enquanto processo de conscientização (desalienação). existem muitas instituições de trabalho cooperativo. a autogestão pedagógica sempre foi considerada como alavanca da autogestão social. mais ou menos solidário. A autogestão visa a transformação. Autonomia e autogestão não são conceitos neutros. fora da escola. detêm o poder de decisão e o controle. Autonomia não pode ser confundida com autogestão. em particular o soviético. A palavra "autogestão" aparece no início dos anos 60. podem confundir-se com muitas coisas. opõe autonomia à alienação. por isso. Há uma visão progressista de autonomia e uma visão conservadora. A cooperativa já é um caso mais próximo da autogestão.Cornelius Castoriadis. enquanto todos os demais simplesmente executam tarefas cujo sentido lhes escapa quase inteiramente. pois os dirigentes de uma cooperativa são remunerados pelos próprios trabalhadores. ambas estão fundadas na ética. mantendose a mesma estrutura hierárquica. "a autonomia seria o domínio do consciente sobre o inconsciente" (A instituição imaginária da sociedade. que se reflete diretamente na administração do ensino: uns poucos. insatisfeita com as realizações concretas do socialismo burocrático. A divisão social do trabalho na escola é agravada pelo fato de ela ser justificada pela "competência". a educação. na linguagem política e. 1982). pressupõe o fato de que uma das formas fundamentais de exercício da opressão é a divisão social do trabalho entre dirigentes e executantes. nos meios intelectuais da esquerda francesa. fala por mim" (idem). sobrepujando parcialmente o antagonismo entre capital e trabalho. pois esta significa direção conjunta de uma instituição. Autogestão também não se confunde com a co-gestão. Por isso. Nas teorias da educação. Autonomia e autogestão constituem-se em horizonte de construção de relações humanas e sociais civilizadas e justas. e não a participação. em que o inconsciente é o "discurso do outro". tem tudo a ver com a autonomia. Evidentemente. para compreender melhor a organização do trabalho na escola cidadã. Portanto. A teoria pedagógica não é nada sem a ética.

das habilitações técnico-administrativas do curso de Pedagogia. • atendimento integral à criança e ao adolescente. em uma mesma escola. Muitas delas são fruto de iniciativa de alguns educadores e foram interrompidas quando estes deixaram a escola.são cada vez mais frágeis.professores. com maior ou menor intensidade. quando não o impossibilita. Os relatos dessas experiências nos dão conta de muitas dificuldades e resistências. • participação comunitária e gestão democrática.sustentadas freqüentemente por uma concepção centralizadora da educação . Outra objeção que costuma ser feita aos "autonomistas" é a de que autonomia da escola leva à pulverização. o problema está sendo sanado por meio da eleição para o cargo de diretor. A heterogeneidade dificulta o controle. pelo regime militar. No caso da administração escolar. É verdade que é mais fácil lidar com programas unificados de reformas. tanto para os alunos quanto para os professores. Existem ainda críticos da autonomia escolar que temem que iniciativas desse tipo levem à privatização e desobriguem o Estado de sua função de oferecer uma escola pública gratuita de qualidade para todos. Ele pode ser encontrado. Esses elementos estão sustentados por um pressuposto mais amplo: o da maior autonomia das escolas. mas não tiveram um impacto maior sobre os sistemas de ensino. No Brasil. na medida em que o pluralismo é defendido como valor universal e fundamental para o exercício da cidadania. experiências isoladas de gestão colegiada de escolas sempre existiram. sobretudo depois da criação. O que chamamos de escola cidadã se constitui no resultado de um processo histórico de renovação na educação. O papel pedagógico do professor foi esvaziado. à dispersão e à preservação do localismo. podemos destacar nesses projetos e reformas alguns traços comuns: • ampliação da jornada escolar. o que dificultaria ações reformistas ou revolucionárias mais profundas e globais. Podemos encontrá-los também nas reformas empreendidas hoje por outros países. e só pode . Esse movimento encontra-se não apenas na educação brasileira. na história recente das transformações dos sistemas educacionais em diversas partes do mundo. não tiveram continuidade. essas objeções . A idéia de autonomia é intrínseca à idéia de democracia e cidadania. são experiências muito polêmicas. Contudo. Em alguns casos. Cidadão é aquele que participa do governo. Todavia.

A autonomia se refere à criação de novas relações sociais que se opõem às relações autoritárias existentes. Mas. A eficácia dessa luta depende muito da ousadia de cada escola em experimentar o novo. A ampliação da autonomia da escola não pode opor-se à unidade do sistema. contra o instituído. Não se pode fazer uma mudança profunda no sistema de ensino sem um projeto social. Essa formação se adquire na participação do processo de tomada de decisões.participar do governo (participar da tomada de decisões) quem tiver poder e tiver liberdade e autonomia para exercê-lo. escola autônoma não significa escola isolada. apropriar-se das informações para poder participar. precisa compreender o funcionamento da administração particularmente do orçamento . é uma luta dentro do instituído. supõe a parceria. Autonomia é o oposto da uniformização. abertura de canais de participação pela administração. Mas para que . por isso. A luta pela autonomia da escola insere-se numa luta maior pela autonomia no seio da própria sociedade. A participação e a democratização num sistema público de ensino são um meio prático de formação para a cidadania. Descentralização e autonomia caminham juntas. base da democratização da gestão escolar. Mas eles fracassam quando instituídos como uma medida isolada e burocrática. Deve-se pensar o sistema de ensino como uma unidade descentralizada. em um plano estratégico de participação que vise a democratização das decisões. isto é. tentativas e confrontos políticos entre teses diferentes e até opostas.e as leis que regem a administração pública e limitam a ação transformadora.na capacidade de ela resolver seus problemas por si mesma e de autogovernar-se. debates. mas em constante intercâmbio com a sociedade. A criação dos conselhos de escola representa uma parte desse processo. com muitos encontros. para instituir outra coisa. A autonomia admite a diferença e. Por isso. para isso. democratização das informações. é preciso percorrer um longo caminho de construção da (auto)confiança na escola . efetivamente. transparência administrativa. A população precisa. e não apenas pensá-lo. Eles só são eficazes em um conjunto de medidas políticas. Portanto. O que a Itália está experimentando é resultado de um longo caminho percorrido. Esse plano supõe: autonomia dos movimentos sociais e de suas organizações em relação à administração pública. Só a igualdade na diferença e a parceria são capazes de criar o novo. O conselho de escola é o órgão mais importante de uma escola autônoma.

para todos. Mas educado é só aquele que domina. Existe uma visão sistêmica estreita que procura acentuar os aspectos estáticos . Portanto. Além disso. idéia tão cara à teoria da educação popular. Certamente. Costumase convocar a população para participar em horários inadequados. Adquirir uma nova cultura não é negar a cultura primeira. sem nenhum cuidado prévio. os usuários . como diz o filósofo francês Michel Serres. unificada -. o conflito e a autonomia. o nosso desafio educacional continua sendo educar e ser educado. precisa trabalhar com uma concepção aberta de sistema educacional. O grande desafio da escola pública está em garantir um padrão de qualidade (para todos) e.não se sentem responsáveis. de sistema único e descentralizado. a hierarquia e uma visão dinâmica que valoriza a contradição. a ordem. respeitar a diversidade local. aquele que se torna um "mestiço". Como vimos. Para uma administração pública construir essa escola. Na prática. além da sua cultura. A dialética entre as culturas faz parte da própria natureza da educação. no seu livro Filosofia mestiça. mas integrá-la no processo de desenvolvimento humano e social. Num sistema fechado.e os prestadores dos serviços .os conselhos de escola sejam implantados de maneira eficaz é necessário que a participação popular. Num sistema aberto. cada vez mais.como o consenso. predomina o ecletismo. o sistema tende a uma síntese superadora. a adaptação. social e cultural. a mudança. dinâmica. Enfim. ao mesmo tempo. esses dois paradigmas contrários de sistema de ensino não se encontram em "estado puro". étnica. Esta é uma das principais razões da não-participação. mas que respeite as diferenças locais e regionais. Nesse confronto de concepções e práticas. a multiculturalidade. se constitua numa estratégia explícita da administração. a descentralização é a tendência atual mais forte dos sistemas de ensino e das últimas reformas. o que temos chamado. apesar da resistência . trata-se de construir uma escola pública universal . dentro e fora da escola. A escola cidadã é certamente um projeto de criação histórica. em locais desconfortáveis ou de dificil acesso etc. uma outra cultura.pais e alunos . A população precisa sentir-se respeitada e ter prazer de exercer os seus direitos e de participar. o confronto entre uma visão funcionalista e estática da educação e uma visão dialética. o locus fundamental da educação é a escola e a sala de aula. para facilitar a participação é preciso oferecer todas as condições.professores e funcionários .

Deve envolver a comunidade interna. pois existe uma só cultura como obra humana (unidade humana na pluralidade dos homens). E a qualidade está . sem que seja necessário passar por incontáveis instâncias de poder intermediário. A escola precisa ser o local privilegiado da inovação e da experimentação político-pedagógica. como no caso do modelo hierárquico e vertical de poder. de Planejamento Socializado Ascendente . visando à democratização do acesso e da gestão e à construção de uma nova qualidade de ensino.oferecida pelo corporativismo das organizações de educadores e pela burocracia instalada nos aparelhos de Estado. seja a cultura popular. Escola e governo elaborariam em parceria as políticas educacionais. não apenas para reproduzi-la ou executar planos elaborados fora dela. um único espaço ou local.de forma que as deliberações escolares tivessem influência e peso sobre as políticas públicas educacionais. a comunida-de externa e o poder público. Seu corolário é a comunicação entre as escolas e a população. precisa ser incluída como parte essencial do projeto da escola. muitas vezes associados na luta contra a inovação educacional. • avaliação permanente do desempenho escolar: a avaliação. por meio do que chamamos. iniciativas deslocadas para a administração dos sistemas durante o regime militar. Não pode ser um ato formal e executado por técnicos externos à escola apenas. para que tenha um sentido emancipatório.por exemplo. A administração de um sistema único e descentralizado de ensino poderia apoiar-se em quatro grandes princípios: • gestão democrática: um sistema único e descentralizado supõe objetivos e metas educacionais claramente estabelecidos entre escolas e governo. seja a cultura geral. mas para construir e elaborar a cultura. Enfim. • comunicação direta com as escolas: se a escola é o locus central da educação. Escola não significa um prédio. no Instituto Paulo Freire. • autonomia da escola: cada escola deveria poder escolher e construir seu próprio projeto político-pedagógico . superando o temido problema da atomização do sistema de educação. Escola significa projeto em torno do qual poderiam associar-se várias unidades escolares. ela deve tornar-se o pólo irradiador da cultura. a questão essencial da nossa escola hoje refere-se à sua qualidade e a uma nova abordagem da qualidade.

Isso porque só as escolas que conhecem de perto a comunidade e seus projetos podem dar respostas concretas a problemas concretos de cada uma delas. que são muito mais eficazes na conquista dessa qualidade do que grandes projetos anônimos e distantes do dia-a-dia escolar. • Em que medida a Constituição Federal de 1988 e a política educacional do seu município ou Estado favorecem ou dificultam a construção da escola cidadã? • Quais são os fundamentos. E a própria comunidade pode avaliar de perto os resultados.diretamente relacionada com os pequenos projetos das próprias escolas. podem respeitar as peculiaridades étnicas. sociais e culturais de cada região. Questões para debate • Identifícar na história das idéias pedagógicas os fundamentos da escola autônoma (cidadã). podem diminuir os gastos com a burocracia. princípios e elementos que caracterizam a escola que chamamos de cidadã? • O que falta à sua escola para que ela seja cidadã? Como construí-la? .

Paulo Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco. convenções. A partir daí passamos a ter maior segurança para caminhar.. em que se atua. para seguir em frente. no caso específico da educação. De qualquer maneira. de metas a serem atingidas.. Do que adiantam? Gestos educados. para nos relacionarmos e também para participar e interferir naquele ambiente ou naquela situação. da Motta é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. com um novo trabalho. bulas. que marcha. de objetivos. por isso que recusa o imobilismo.. da Motta José Eustáquio Romão Paulo Padilha Quando. enfim. Paulo Freire CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO Custódio Gouvea L. e diretor do Instituto Paulo Freire. quando pretendemos desenvolver quaisquer atividades no âmbito do sistema ou da unidade escolar. em nossa vida cotidiana. MG. podemos ter a sensação inicial de insegurança. realizamos espontaneamente uma sondagem inicial acerca de tudo o que nos cerca e naturalmente interpretamos as condições encontradas. com qualquer nova atividade ou situação... SP.. . em que se fala. que não tem medo do risco. constituições se o teto da escola caiu se a parede da escola sumiu (Mobral) Herbert Vianna Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura. deparamos com novos ambientes. a escola que apaixonadamente diz sim à vida. Esse processo se amplia se nos entregamos a ações intencionais e. José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. Do que adiantam? Emendas. Aí percebemos a necessidade do prévio estabelecimento de finalidades. com novas pessoas.instruções. em que se cria. em que se ama. Do que adiantam? Letras impressas das canções. se adivinha. A escola em que se pensa.Do que adiantam? Placas. MG. de avaliações a serem Custódio Gouvea L.

apresentamos a metodologia denominada Carta Escolar. a estaremos estudando em sua concepção original. a sondagem e a interpretação dos dados observados por nossos sentidos. . O Instituto Paulo Freire resgatou-a. agir e buscar resultados positivos em nossas atividades. demográficas. ela indica as ações que permitirão a organicidade da rede física escolar. estudou seus resultados nesses países. conscientemente. de Minas Gerais. transformam-se em função obrigatória. Depois. no sentido do atendimento das demandas O Instituto Paulo Freire de Juiz de Fora elaborou em 1996 as Cartas Escolares das prefeituras municipais de Bicas. o ensino e a aprendizagem. por conseguinte. de forma que professores e demais segmentos escolares e comunitários possam utilizá-la como referencial para seus diagnósticos no âmbito estrito de suas escolas e de suas comunidades. urbanísticas e arquitetônicas de comunidades que abrigam sistemas escolares. Elas estão à disposição para consulta nas sedes do Instituto. O que é a Carta Escolar? Desenvolvida no Brasil na década de 70. Inicialmente. culturais. fisiográficas. destinada a subsidiar ações educacionais de âmbito municipal e de sistema de ensino. Mercês e Oliveira Fortes. que nos permite desenvolver ações com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político-pedagógico da escola. Diante de circunstâncias e de ações intencionais e deliberadas. recuperou suas aplicações de sucesso no Brasil e a atualizou'. resultados de mecanismos inconscientes de captação de informações. de resultados a serem quantificados e qualificados para que correções de rumos possam melhorar a nossa atuação e. abordaremos a Carta Escolar adaptada à unidade escolar. A partir dessa analogia. a metodologia da Carta Escolar foi aperfeiçoada e melhor aplicada . de interpretação e de análise de dados dos indicadores educacionais. Nessas condições. instrumento de sondagem. sondagem e interpretação de dados acabam se constituindo em etapas essenciais para que possamos. Ela é um instrumento de planejamento do sistema ou subsistema educacional que permite o estudo das condições sociais. Além disso.com muito sucesso em outros países.realizadas. econômicas.

malha viária. que devem ser profundamente estudadas para verificar suas influências no planejamento educacional do município. a racionalização da expansão da rede física escolar. Os mesmos dados são lançados em mapas municipais para que se tenha uma visão mais clara das deficiências ou duplicações existentes em função dos adensamentos populacionais e das barreiras físicas ou urbanas que influenciam no dimensionamento da rede física escolar. hidrografia. são coletadas informações sobre outros indicadores sociais que interferem no desempenho do sistema educativo. quanto de recursos humanos (docentes e não-docentes). com seu perfil profissional. caracterizadas em seus estratos sociais a partir de dados fornecidos por um Censo Escolar. assim. por amostragem. que utiliza uma metodologia criada pelo Instituto Paulo Freire. Para tanto. equipamentos. a Carta Escolar é um instrumento operacional cujo suporte físico é um mapa topográfico. sexo e escolaridade por setor censitário. Todos os dados coletados são tabulados por meio de sistemas computacionais que fornecem uma série de indicadores para as projeções de expansão ou contração da rede. com suas características específicas e com os elementos que influenciarão na escolarização. a partir da delimitação de setores censitários. Essa Carta possibilita. para garantir facilidades de acesso. demografia. aspectos .específicas de cada nível. material didático). e da demanda real e potencial. é aplicado um questionário em todas as residências (urbanas e rurais) e coletadas informações referentes à renda. bem como para a definição das áreas de jurisdição das escolas. Para se ter uma visão da realidade de cada município. destacam-se a topografia. O Censo Escolar. segurança e conforto compatíveis com as faixas etárias dos usuários. com sua localização. tanto em termos de recursos físicos (instalações. com escala que permite uma representação suficientemente precisa e detalhada da rede escolar. Ademais. É realizado também um levantamento exaustivo da capacidade instalada da rede escolar do município. idade. é inserida uma descrição do seu cenário geográfico. barreiras urbanísticas. Entre os elementos externos que interferem no processo de escolarização. infra-estrutura e atividades econômicas. na medida em que indica os locais a serem implantadas as novas unidades escolares com vistas ao atendimento de áreas já densamente povoadas ou de indução de adensamento. faz um levantamento real e efetivo de toda a população do município.

situação legal e histórico de sua evolução ao longo dos anos. até o contexto contemporâneo.físicos . e. . com a participação dos próprios agentes escolares. indicar o estabelecimento de áreas de jurisdição de escolas.relevo. sua capacidade instalada. levantar os dados sobre os limites e potencialidades do setor educacional do município para o atendimento das demandas que sejam resultantes de levantamentos e de pesquisas cientificamente consolidados. do município ou do Estado. a Carta levanta. assessorar os municípios na elaboração e implementação de planos educacionais. otimizar a aplicação de recursos destinados à educação. Sua análise constitui o cerne do trabalho. desde as origens. hidrografia. seus recursos humanos. jurisdição e manutenção. Como vimos. partindo de uma série de "retratos" tirados ao longo dos anos e revelados coletivamente. Observe-se que a Carta Escolar. a Carta Escolar tem por finalidade promover um amplo diagnóstico da educação no município. já que a finalidade precípua da Carta Escolar é o arrolamento analíticocrítico dos principais componentes de seus serviços. das lacunas a serem preenchidas e das prioridades educacionais a serem estabelecidas e implementadas. A Carta Escolar tem como objetivos fornecer vários subsídios para o conhecimento efetivo da real situação da educação municipal. considerando todos os elementos que possam influenciar o processo educativo. finalmente. prever o desenvolvimento do sistema escolar em função da demanda social por matrículas. maximizar a utilização da capacidade física instalada. No caso específico de uma escola. o processo decisório da comunidade local. uma análise detalhada da sua evolução demográfica e econômica e uma reconstituição de seu quadro histórico-social. para alimentar. é possível uma intervenção precisa no sistema educacional dos municípios. quantitativa e qualitativamente. dos avanços a serem continuados e estimulados. torna-se instrumento indispensável para a elaboração dos projetos político-pedagógicos em todos os níveis educacionais. minuciosamente. A partir da identificação dos problemas a serem atacados. características sócioeconômicas predominantes de sua clientela. enquanto diagnóstico da capacidade e demanda educacionais da escola. passando por sua evolução político-administrativa. clima e vegetação -. Todos esses elementos contribuem para a caracterização da educação no município. área de abrangência. suas demandas e das respectivas projeções futuras.

aspectos físicos .servidores municipais. o Instituto Paulo Freire propõe algumas recomendações à administração municipal. também oferece aos professores subsídios para o desenvolvimento da integração social com seus alunos.relevo. e uma análise dos aspectos demográficos. os vereadores do município -. os lotados na Secretaria Municipal de Educação . com a colaboração da população em geral. De sua elaboração participa uma equipe responsável do Instituto Paulo Freire. O resultado da Carta Escolar deve servir como indicação. fundamentalmente. com vistas à compatibilização entre as disponibilidades potenciais e às necessidades educacionais projetadas e decorrentes do direito de todos a uma educação básica de qualidade. com o envolvimento de toda comunidade municipal . de curto. técnicos em informática e recenseadores. Ao final do trabalho elabora-se um minucioso relatório com as seguintes informações: • cenário geográfico do município: descrição da localização. • conclusões e recomendações: à luz dos dados analisados. já que sua principal finalidade é o arrolamento analítico-crítico dos principais componentes de seus serviços e demandas educacionais e de suas projeções para o futuro. geógrafos. desde as origens.Estrutura da Carta Escolar A Carta Escolar é um trabalho coletivo. com informações sumárias sobre a flora e a fauna. relativamente independente.e em especial com os professores e supervisores de ensino. Observamos que a Carta Escolar. será o cerne do trabalho. • caracterização educacional do município: esta parte. Além dessa equipe. apontamento de rumos e recomendações a serem submetidas ao . já que os componentes municipais constituem conteúdos curriculares importantes na escolarização dos discentes do ensino fundamental. hidrografia e clima -. a mesma conta. independentemente das facções políticas a que pertençam . formada por professores coordenadores. médio e longo prazos. • reconstituição da trama das relações histórico-sociais: procurase fazer a reconstituição dessa trama.e. que oferece os dados coletados aos pesquisadores. além de inserir os problemas educacionais do município em um universo mais amplo. ainda. sua criação e evolução político-administrativa.

tabulados e analisados. Todas essas informações podem ser mantidas em arquivo: dados coletados. A CARTA ESCOLAR ADAPTADA À UNIDADE ESCOLAR A Carta Escolar. . por faixa etária e série. à renda por estratos sociais e ao grau de escolarização de sua população. fora da escola. portanto. ainda. e resumo com os totais daquelas projeções para o ano seguinte à pesquisa. alfabetizando. aqui apresentada sinteticamente. além de outras informações que possibilitem a realização de projeções máximas de atendimento de alunos por faixa etária e por série para o ano seguinte à pesquisa. a formulação e implementação de políticas de outros setores da administração pública. em conjunto com os órgãos de representação democrática dos diversos segmentos sociais. oferece ao diretor da escola. como projeções e busca de indicadores de qualidade do município. entre outras inúmeras combinações que podem ser realizadas. aos administradores municipais mapas de localização dos setores censitários e das escolas. embora se dedique ao levantamento da realidade educacional. tabelas e gráficos com os dados relativos aos aspectos demográficos em geral. objetos de estudo mais profundo sobre cada aspecto específico e submetidas ao crivo das decisões políticas do município. adaptada a cada estabelecimento de ensino. Tais recomendações e conclusões devem ser. pode servir também para a obtenção de outras informações. e relatórios com dados sobre os alunos que estão freqüentando a escola. subsidiando. e setor. aos seus professores e a todos os segmentos escolares uma "fotografia" das reais condições da escola. faixa etária. por idade. evadido. assim. A Carta Escolar. total e universo). com a distribuição da população por sexo. O relatório traz ainda informações sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por faixa etária (analfabeto. por meio de suas legítimas representações e lideranças.processo político decisório da comunidade local. de forma a servir de subsídio para estudos e como instrumento técnico de atualização fatura da Carta Escolar ou de outras pesquisas que se fizerem necessárias no município. sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por setor. acompanhados das respectivas totalizações numéricas e estatísticas. O relatório final da Carta Escolar apresenta. e sobre aqueles que não a freqüentam.

todas as atividades. por mais bem-vindas que possam ser algumas receitas em certas situações. o estabelecimento de Os Conselhos de Escola . Caixa Escolar. Colegiado Escolar. Não temos a intenção de padronizar ações nem de oferecer receitas metodológicas prontas para o consumo. Deve ser elaborado um plano de trabalho para o Censo Escolar que estabeleça objetivos. o Grêmio Estudantil. os mesmos não devem ser entendidos como "camisa-de-força". Ela pressupõe divisão de poder e de responsabilidades. Os recursos necessários para a execução do trabalho e suas fontes precisam igualmente ser definidos. Mestres e Comunidade (APMC) etc. ela servirá inicialmente como pólo aglutinador de intenções. Fórum de Gestão Participativa. como também o serão os eventuais assessores que estarão subsidiando. Conselho Deliberativo Escolar. as mães e os pais de alunas e alunos e os representantes da comunidade escolar e extra-escolar. de interações e de forças que caminham juntas para a concretização das finalidades e objetivos educacionais estabelecidos democraticamente por toda a equipe escolar. Nesse documento devem ser previstas. ainda. uma vez que os dados a serem coletados e levantados são muitos. Círculo de Pais. metodologias de ação e distribuição de tarefas. no aspecto técnico e científico. Como a Carta é um instrumento elaborado coletivamente. o discente. de sua elaboração participam organizadamente a equipe diretiva da escola. a APM e representações dos segmentos extra-escolares . O Censo Escolar tem início tão logo se realize a articulação de todos os segmentos escolares. Com isso queremos dizer que. ao apresentarmos alguns parâmetros para a realização da Carta Escolar. as equipes responsáveis pelo recenseamento e suas respectivas coordenações.que subsidiará a elaboração de seu projeto político-pedagógico e de seu planejamento participativo ascendente.termo usado no Estado de São Paulo. Associação de Pais. do conjunto de itens desse plano de trabalho. A avaliação de cada etapa do processo faz parte. Assim. como também muitos são os sujeitos que deles farão uso e a partir deles tomarão decisões. todo o corpo docente. também. As Associações de Pais e Mestres (APMs) também são chamadas de Associação de Apoio à Escola (AAE). Em outras unidades da Federação o mesmo organismo pode ser chamado de Conselho Escolar. . Assim. As presentes recomendações são uma possível base para a realização de um diagnóstico escolar. Conselho Educacional e Comunitário. metas. incluindo necessariamente o Conselho de Escola.

Dessa forma. situação institucional (mantenedor. do piso. quando foi criada e quando começaram suas atividades. de áreas esportivas. área que a escola ocupa. • estrutura física: discriminação minuciosa da estrutura física da escola. endereço completo. da secretaria. os questionários para a coleta de dados podem ser divididos. por exemplo. do cercamento. Podem ser incluídos também neste item os tipos de serviços disponíveis na escola. situação da construção. de cozinha. esfera administrativa a que pertence. espaços para áreas esportivas. do forro. de laboratórios. a visibilidade e. de bibliotecas. de depósitos. de salas-ambiente. do acabamento. que organizarão o levantamento das seguintes informações: • identificação da escola: nome. hortas comunitárias. Além desses dados. departamento em que está lotado. região. estado de conservação e adequação das instalações escolares. de sanitários para alunos e professores. em treze itens. a análise ficam mais fáceis: EXEMPLO: INSTALAÇÕES ESCOLARES Dependências/Quantidade Dimensões (m2) Estado de conservação Adequada/Inadequada Observações • mobiliária. de horta escolar. o que servirá também aos professores quando da elaboração coletiva e individual de seus planejamentos e de seus planos (de curso. de salas de professores. atos de autorização de reconhecimento. tipo da escola. áreas livres. conseqüentemente. com acréscimos de séries ou graus. CGC etc. de áreas de lazer. salas de aula . contendo o tipo e a quantidade de dependências. linhas telefônicas. de salas de vídeo. quantidade. Quando esses dados são colocados em quadros. localização/zona. suas dimensões. tais como água. equipamentos e recursos materiais: especificação. de refeitórios. energia elétrica etc. rede de esgoto ou de tratamento de água. de aulas etc). com suas respectivas dimensões. por que razões etc.ensino poderá dispor de informações e de estatísticas confiáveis para decidir seus futuros passos e elaborar seu projeto político-pedagógico. propriedade do prédio. de ensino. são incluídas informações sobre: terreno. existência e condições de salas da diretoria. se sofreu alteração ao longo dos anos. estado de . distrito.) e a reconstituição da história da escola: como nasceu a idéia de sua instalação.

as pendências administrativas ou das condições atuais dos serviços de secretaria. grau de escolaridade. ainda. de vídeo. disciplina que ministra (no caso de docentes). quais estão no seguro. levantamento contábil completo e nível de autonomia financeira da escola. as características sócio-econômicas predominantes entre os alunos. mobiliários para os alunos. a distribuição dos alunos segundo a distância a que residem da escola e o tempo que levam para chegar até ela. em contas bancárias. das transferências expedidas.se sistemático ou não. de limpeza. cursos realizados etc.conservação relativo a carteiras e cadeiras escolares. filmadoras. aparelhos de televisão. da Caixa Escolar etc. equipamentos de cozinha. máquina de xerox. Nesse sentido. • recursos financeiros: relacionar as receitas da escola. especificando o número de vezes em que é servida por turno. a evolução da demanda. • recursos humanos: todos os recursos humanos de que a escola dispõe devem ser relacionados: docentes e não-docentes. quais estão em garantia. carga horária semanal. de jardinagem. por exemplo. o número de alunos em cada turno e tipo de fornecimento . as condições de manutenção dos equipamentos. Neste item cabem ser anotadas. microcomputadores etc. fitas de vídeo. série. dedicação exclusiva ou não. retroprojetores. A escola pode criar e levantar seus próprios quadros para relacionar as informações de que necessita. cadernos. Devese relacionar o nome completo do servidor. identificando as fontes e sua destinação (despesas). separada por séries e graus (ou níveis) de ensino e com dados da matrícula inicial. antenas parabólicas. função. os aprovados e os reprovados. fax. • matrícula e evolução da demanda: aqui se devem criar quadros ou utilizar os já existentes na escola para informar a distribuição da matrícula segundo sexo. . considerando-se também as turmas e as séries. Pode-se levantar. armários. lápis. do número de alunos evadidos. levantar balanços da APM. das transferências recebidas. gravadores. quais precisam de consertos. ano de admissão na escola e número de repetências. textos. projetores de slides. a distribuição de alunos por turnos e séries e em relação à merenda escolar. lousas. além de informações sobre o tipo de organização dos arquivos da escola. tempo de serviço na escola e no serviço público. livros na biblioteca. giz. os valores em caixa.

incluindo-se aí os segmentos escolares envolvidos nos mesmos. clubes. se possível com todas as suas características e com os resultados efetivamente obtidos. ao número de funcionários. ao interesse dos alunos. à participação dos segmentos na instituição escolar e às diferentes instâncias administrativas. • características da comunidade: levantamento de dados sobre os moradores do bairro em que a escola está inserida: nome. às condições administrativas. incluindo os espaços que utilizam. grau de instrução. do Conselho de Escola e demais representações de segmentos escolares. administrativos ou financeiros desenvolvidos pela escola nos anos anteriores. escola. igreja. pinta. se tem serviços . distribuição do tempo de trabalho pedagógico da equipe docente etc. participação em associações (sindicato. de docentes e de apoio técnico administrativo e operacional. a atuação da equipe de direção. procedência.). Os fatores que impactaram negativamente o desempenho escolar deverão ser usados como referência para a construção de estratégias para sua superação. • características do bairro: levantamento de informações gerais sobre o bairro em que a escola está inserida: sua história transformações por que passou e como se deram. anotar. informações que revelem as deficiências da escola em relação à formação dos docentes. • características da gestão e das relações humanas na escola: definir tipo e características da gestão escolar. escreve. Anotar nesse item. • Conselho de Escola. bairro. toca.. os programas de formação dos quais participam ou já participaram os membros dos segmentos escolares. • deficiências detectadas na escola: em relação a todos os itens pesquisados.. Caixa Escolar. ainda... no ato mesmo do levantamento. pedagógicas e financeiras da escola. habilidades artísticas (se canta. dança. ao prédio escolar. às instalações e aos equipamentos. o nível de participação da comunidade escolar.• projetos desenvolvidos na escola: levantamento sobre os projetos pedagógicos. profissão. seus membros e representantes e o tipo de atuação que desempenham na escola. APM e Grêmio Estudantil: síntese especificando as atividades desenvolvidas por essas instituições escolares. bem como informações sobre os projetos em andamento.). aos recursos materiais.

primeiro. e. A primeira vista. exige a organização das tarefas. a sua cidadania. de livrarias. outros cursos. o que garantirá. em especial aos professores e aos alunos. o diagnóstico ficaria incompleto. de hospitais. o mesmo não só é possível . local de moradia. especialmente pelos docentes da escola. equipes formadas por representantes de todos os segmentos escolares. se são realizados eventos culturais. como as demais. porque as ações a serem . água encanada. na seqüência. qual é o seu lazer preferido. Além disso. um trabalho pedagógico coerente com as características e com as necessidades dos discentes. No entanto. local de trabalho etc. condições de moradia. procedência. habilidades artísticas.como é absolutamente necessário à construção coletiva de um projeto político-pedagógico. uma ampla vivência da prática democrática no âmbito escolar. se tem movimentos sociais organizados. de igrejas. construindo e exercendo. a descentralização das funções. deverá ser acompanhada e assessorada pelas instâncias superiores da administração escolar.como luz elétrica. contudo. em uma aprendizagem para todos os que atuam direta ou indiretamente na escola. segundo. de que tipo e com que freqüência etc. a construção coletiva tende a aumentar a probabilidade de se obterem resultados satisfatórios a curto prazo. participarão dessa outra etapa que. pode parecer muito dificil e complexo realizar um diagnóstico escolar com tal amplitude. • caracterização dos alunos: idade. número de transferências. de biblioteca. ao contrário. de áreas de lazer. número de repetências. desde o início. rede de esgoto. porque prevê o envolvimento. coleta seletiva de lixo. a atribuição de responsabilidades e a elaboração do plano de trabalho. sexo. certamente. de farmácias. que estarão assim se formando enquanto sujeitos ativos. Esta experiência possibilitará a todos os sujeitos que dela participarem. Sua concretização. de forma plena. desde cedo. Para tabular e interpretar qualitativa e quantitativamente os dados do Censo. pois. incluir também os alunos que não são atendidos pela escola. deixada à sua sorte. pois a escola não pode ficar à deriva. iniciando-se a fase propriamente de diagnóstico ou interpretativa.porque contará com a participação e o envolvimento de todos . com quantas pessoas vive. asfalto. o número de habitantes. É importante ressaltar que esse levantamento pode e deve. Esse processo se constituirá. áreas de interesse.

Questões para debate • O que é e em que medida a Carta Escolar contribui na construção do projeto político-pedagógico da escola? • Que informações essenciais a Carta Escolar pode oferecer para a construção do projeto político-pedagógico da escola? • Como organizar a escola para a realização do Censo Escolar? • Qual é o papel pedagógico que a elaboração da Carta Escolar pode ter? .implementadas na escola considerarão o diagnóstico feito a partir dos dados levantados e da análise crítica da realidade constatada.

se só realizar tarefas individuais.. ensina não só por meio do conteúdo com o qual trabalha em sala de aula. mas com reflexão e prática. recolhe o material para voltar para casa. três. brinca afoitamente para aproveitar cada segundo do recreio. Paulo Freire (. fará o quê? Conseguirá inserir-se no mercado de trabalho? Será uma cidadã ativa} Conhecerá seus direitos? Saberá exigir e lutar por eles? A escola convive com as alunas e com os alunos diariamente e. apresentará dificuldade para ouvir o outro. Há quanto tempo ela está ali? Um ano. de maneira consciente ou não. se só é avaliada. dificilmente aprenderá a falar. se fala no momento que bem entende. dificilmente aprenderá a pensar e decidir coletivamente... Ângeh Antunes Ciseki é professora da rede de ensino municipal de São Paulo e diretora técnica do Instituto Paulo Freire . mas também pelas relações que estabelece com eles no dia-a-dia.É que a democracia. não se faz com palavras desencarnadas.. estende a mão para pegar o prato de merenda. Se a aluna só ouve. segue atentamente as explicações na sala de aula.. como qualquer sonho. Ela chega à escola. conversa no pátio com os amigos..? Quantas horas diárias ela passa na escola? Quando concluir o ensino fundamental.) A gente vai contra a corrente Até não poder resistir Na volta do barco é que sente O quanto deixou de cumprir Faz tempo que a gente cultiva A mais linda roseira que há Mas eis que chega a roda viva E carrega a roseira pra lá. (Roda viva) Chico Buarque CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ Ângela Antunes Ciseki Observemos uma aluna. dois anos. não aprenderá a avaliar.

dos dias de prova. poderá definir e acompanhar a educação que lhe é oferecida. Por isso.e a forma como a escola organiza seu espaço . . distribuição das aulas. os professores e outros representantes da comunidade interna e externa à escola podem participar da construção da escola que desejam? O Conselho de Escola . não aprenderá a ser criativa etc. não aprenderá a estabelecer seus limites. distribuição das carteiras etc. do tempo reservado a cada área do conhecimento.definição do calendário. ele precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem.salas de aula. como diz Carlos Drummond de Andrade: "As leis não bastam. O Conselho de Escola já é realidade em muitas escolas de Estados e municípios de todas as regiões do país. O conteúdo com o qual a escola trabalha e a prática que adota estão contribuindo para formar que tipo de ser humano? Para viver em que sociedade? "O aluno aprende quando ele se torna sujeito de sua aprendizagem. se suas tarefas forem sempre dirigidas. ao contato com os pais . Os lírios não nascem das leis". a formação de cidadãos ativos. a escola não educa só quando educadoras e educadores escrevem ou falam. pessoal administrativo e operacional para gerir coletivamente a escola . para ele se tornar sujeito de sua aprendizagem. A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico. proporcionando o exercício da cidadania. E. Querendo ou não. a população poderá controlar a qualidade de um serviço prestado pelo Estado.se só cumprir ordens.pode ser esse espaço de construção do projeto de escola voltado aos interesses da comunidade que dela se serve. o aprendizado de relações sociais mais democráticas." (Gadotti) Mas de que forma os alunos podem participar da definição do projeto da escola? Como os pais. Por meio do Conselho. ou seja. A forma como a escola organiza seu tempo . É necessário que os educadores tenham consciência de sua prática e saibam a serviço de que projeto de sociedade ela está. a prática cotidiana contribui para reforçar ou superar determinadas formas de agir e pensar. salas de reunião.um colegiado formado por pais. é necessário que a gestão democrática seja vivenciada no dia-a-dia das escolas. alunos. que seja incorporada ao cotidiano e se torne . projeto esse inserido no projeto de vida do próprio aluno. professores. Mas. diretor. Nesse sentido. ao recreio.também ensinam algo às alunas e aos alunos.

na forma desta Lei e das legislações . capacitação profissional). s u p e r e m o s suas falhas. tomemos conhecimento de seus limites e avanços e. • a definição e acompanhamento da política educacional: o aumento da ca-pacidade de fiscalização da sociedade civil sobre a execução da política educacional. pelo menos tem diminuído os lobbies corporativistas. outro fato contribuiu para acelerar as mudanças nessa área: a promulgação da Constituição Federal de 1988. que requer. respeito aos direitos elementares dos profissionais da área de ensino (plano de carreira. transparência administrativa. •o órgão de gestão da Educação: plano estratégico de participação. Além das práticas exitosas no campo da gestão democrática do ensino público que Estados e municípios vêm desenvolvendo. Nos municípios e Estados que já acumularam experiência em relação à prática da democratização. condições legais de encaminhar e colocar em prática propostas inovadoras. também estabelece como princípio a "gestão democrática do ensino público. num processo c o n t í n u o de p r á t i c a e r e f l e x ã o . há de se criar as condições concretas para o seu exercício. por isso. a gestão democrática vem exercendo influência positiva sobre: • a estrutura e o funcionamento dos sistemas: ."colaboração" entre os sistemas e comunicação direta da Secretaria da Educação com as escolas. de 20 de dezembro de 1996. 206. política salarial. aperfeiçoando seus aspectos positivos e criando novas propostas para os problemas que persistem. Para isso. entre outras providências. se não tem extinguido. C o m a instituição da "gestão democrática do ensino público" (Art. • a qualidade do ensino: formação para a cidadania (cria possibilidades de participar da gestão pública). n2 9. a construção cotidiana e permanente de atores sociopolíticos capazes de atuar de acordo com as necessidades desse novo que fazer pedagógico-político. É necessário ainda que conheçamos as experiências já vividas. canais de participação (ampliação do acesso à informação) e. inciso VI).tão essencial à vida escolar quanto é a presença de professores e alunos para que a escola exista. a redefinição de tempos e espaços escolares que sejam adequados à participação. o debate se intensificou e alguns Estados já sancionaram suas leis que dispõem sobre o tema.394. mesmo antes de uma regulamentação nacional. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).

seja na vivência delas na prática cotidiana.. assembléias. Art.) II . não podemos conceber a definição da política educacional e a gestão escolar com caráter centralizador e autoritário. principalmente quando se trata de uma população . 39). portanto. com presença ativa e decisória. inciso II. define um dos princípios da gestão democrática: "Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica. Para o efetivo exercício da gestão democrática da escola é necessário capacitar todos os seus segmentos. respondendo às exigências dessa prática. INSTITUCIONALIZAR A GESTÃO DEMOCRÁTICA A consulta e a participação das comunidades escolares possibilitam aos governos estaduais e municipais respaldo democrático para . As experiências revelam que tanto a comunidade externa quanto a comunidade interna à escola apresentam limites à participação. CONSULTAR A COMUNIDADE ESCOLAR Se desejamos que a população se incorpore à vida social. Pressupostos da gestão democrática As experiências já vivenciadas em relação à democratização da gestão escolar apontam alguns pressupostos que. comprometer-se com esta capacitação. da escola de melhor qualidade: CAPACITAR TODOS OS SEGMENTOS A participação exige aprendizado. de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: (. O processo de consulta e intervenção por parte dos usuários junto aos órgãos governamentais deve ser prática constante.que é o nosso caso . encontros etc. seja na definição das políticas educacionais. debates. devem ser promovidos para esclarecer a população e contar com sua participação.. As secretarias da Educação devem. conseqüentemente.dos sistemas de ensino" (Inciso VIII. E no Artigo 15.participação das comunidades escolar e local em Conselhos de Escola ou equivalentes". seminários. tendem a garantir maior sucesso na conquista dessa democratização e. principalmente pais e alunos. se considerados.que historicamente tem sido alijada dos processos decisórios de seu País. Nesse sentido.

consultiva. a prática vivenciada pelos diferentes municípios e Estados que já contam com Conselhos de Escola em funcionamento aponta alguns parâmetros a serem considerados para a sua constituição: NATUREZA DO CONSELHO DE ESCOLA • deliberativa. • elaborar.encaminhar ao Poder Legislativo projetos de lei mais consistentes. Nesse sentido. DAR AGILIDADE ÀS INFORMAÇÕES E TRANSPARÊNCIA ÃS NEGOCIAÇÕES A descentralização implica o acesso de todos os cidadãos à informação. as instâncias administrativas não podem prescindir de canais que possibilitem agilidade e eficiência na comunicação entre elas e a população. implantação dos Conselhos de Escola e gestão da instituição educativa -. que atendam às reais necessidades educacionais da população. É preciso garantir a todos o acesso às informações. normativa e fiscalizadora. . fixar democraticamente as normas e mecanismos de fiscalização etc. Parâmetros para a constituição do Conselho de Escola Além dos pressupostos destacados para a institucionalização e implantação da gestão democrática. acompanhar e avaliar o projeto políticoadministrativo-pedagógico. todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. ATRIBUIÇÕES FUNDAMENTAIS • elaborar seu regimento interno. Informação necessária não apenas no início do processo administrativo.escolha dos dirigentes escolares. GARANTIR LISURA NOS PROCESSOS DE DEFINIÇÃO DA GESTÃO Para que se garantam transparência e respeito aos princípios éticos nas ações relacionadas à gestão democrática . aprovar. mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos.

• criar e garantir mecanismos de participação efetiva e democrática da comunidade escolar. se realizará na unidade escolar. secreta e facultativa. • a função de membro do Conselho de Escola não será remunerada. conforme necessidade da escola. . • membros do magistério e demais servidores que possuam filhos regularmente matriculados na escola poderão concorrer só como membros do magistério ou servidores. PROCESSO DE ESCOLHA DOS MEMBROS • a eleição dos representantes dos segmentos da comunidade escolar que integrarão o Conselho de Escola. por votação direta. COMPOSIÇÃO • todos os segmentos existentes na comunidade escolar deverão estar representados no Conselho de Escola. como conselhos regional. NORMAS DE FUNCIONAMENTO • o Conselho de Escola deverá reunir-se periodicamente (com encontros mensais ou bimestrais). A PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE ESCOLA • qualquer membro efetivo do Conselho de Escola poderá ser eleito seu presidente. • ninguém poderá votar mais de uma vez no mesmo estabelecimento. • serão válidas as deliberações do Conselho de Escola tomadas por metade mais um dos votos dos presentes à reunião. • constituir comissões especiais para estudos de assuntos relacionados aos aspectos administrativos. pedagógicos e financeiros da escola. bem como a dos respectivos suplentes. assegurada a paridade (número igual de representantes por segmento) e proporcionalidade de 50% para pais e alunos e 50% para membros do magistério e servidores. desde que esteja em pleno gozo de sua capacidade civil. para encaminhar e dar continuidade aos trabalhos a que se propôs. acompanhar e fiscalizar políticas educacionais. para definir. municipal e estadual da estrutura educacional. respectivamente. • definir e aprovar o plano de aplicação financeira da escola. • participar de outras instâncias democráticas.

Mesmo variando o número de membros. sejam restritivos aos que estiverem no gozo da capacidade civil. Se houver. membros da comunidade. é sempre garantido o mesmo número de representantes por segmento. quatro alunos e quatro representantes da equipe administrativa. haverá também quatro pais. ele pode ter de 16 a 40 pessoas. dependendo do número de classes que a escola possuir. Por meio do Conselho. por exemplo. O MANDATO • Um ano. por força legal. A sua configuração varia entre os municípios e os Estados que já o implantaram. Todos os alunos. por sua vez. • poderão participar das reuniões do Conselho de Escola. professores. com direito a recondução. os profissionais de outras secretarias que atendam às escolas. direção e demais funcionários. a composição é sempre paritária. • poderão participar das reuniões do Conselho com direito a voz e voto todos os membros eleitos por seus pares. Com exceção do diretor. financeiros e pedagógicos. com direito a voz e não a voto. ou seja. todas as pessoas ligadas à escola podem se fazer representar e decidir sobre aspectos administrativos. salvo nos assuntos que. tornando esse colegiado não só um canal de participação. Conselho de Escola: estrutura e funcionamento O Conselho de Escola é um colegiado formado por todos os segmentos da comunidade escolar: pais. por exemplo. mas também um instrumento de gestão da própria escola. No município de São Paulo. quatro professores.os professores da escola. Grêmio Estudantil. que é membro nato. representantes de entidades conveniadas. também escolhem os alunos que os representarão e assim por diante. no caso da cidade de São Paulo. elegem por voto direto os professores que os representarão no Conselho. Podem . todos os outros membros do Conselho são eleitos por seus pares . alunos.CRITÉRIOS DE PARTICIPAÇÃO • os representantes dos alunos a partir da 4a série ou com mais de 10 anos terão sempre direito a voz e voto. movimentos populares organizados e entidades sindicais. por exemplo.

O Conselho de natureza consultiva. avaliar. A afirmação acima. como definir (diretrizes). os deliberativos. à dinâmica das reuniões. apreciar. apenas é consultado em relação aos problemas da escola. discutir. As mais freqüentes são as atribuições de natureza consultiva e deliberativa. elaborar um regimento interno. ao tempo de duração das reuniões. eleger. decidir. ao horário em que elas serão realizadas. Sua função é sugerir soluções. trabalhar com um Conselho deliberativo ou com um Conselho consultivo. garantir. que mostram como esses Conselhos. outros verbos. deliberativa. analisar. deliberar etc. Cada Conselho de Escola pode. Observe-se. todos os que trabalham. à tomada de decisões (por votação secreta ou aberta). têm filhos na escola ou fazem parte de movimentos organizados da região em que a escola está inserida. As atribuições dos Conselhos de Escola. à eleição de seus membros (se será através de assembléia ou votação de urna. analisada isoladamente pelo prisma semântico. normativa e fiscal. Mas. na prática. a descrição de suas atribuições geralmente vem marcada por verbos como acompanhar. Já nos documentos sobre Conselhos de natureza deliberativa. se os membros formarão chapas ou apresentarão candidaturas individuais). elaborar. que poderão ou não ser encaminhadas pela direção. Nos próprios documentos. são determinadas pelo regimento comum de cada rede de ensino. Outro aspecto a ser mencionado refere-se às funções que os Conselhos de Escola podem desempenhar: consultiva. estabelecendo normas em relação à convocação das reuniões ordinárias e extraordinárias. arbitrar. como o próprio nome diz. teremos um . não toma decisões. se considerarmos algumas atribuições específicas dos Conselhos de Escola. a redação de suas atribuições apresenta. indicar. possuem maior força de atuação e de poder na escola. aprovar. com direito a voz. a título de ilustração e de elucidação de nossa preocupação. Participam com direito a voz e voto somente os membros eleitos. que a elaboração do regimento interno deve sempre estar em consonância com a legislação em vigor e observar as normas dos respectivos conselhos e secretarias municipais e estaduais da Educação. opinar e propor. ainda. o seu funcionamento e a sua composição. além daqueles. estudam. se achar necessário. pode não ser suficientemente esclarecedora para mostrar o que significa. assessorar. dentre outras coisas. à substituição de algum membro que deixe de comparecer às reuniões etc.participar das reuniões do Conselho.

os verbos citados podem significar. Dependendo da natureza do Conselho de Escola. No primeiro caso. discutir e arbitrar critérios e procedimentos de avaliação relativos ao processo educativo e à atuação dos diferentes segmentos da comunidade escolar. Suas funções são sempre revestidas de grande importância e relevância: definir o regimento interno. discutir suas diretrizes e metas de ação. o Conselho. analisar e definir prioridades. que conta com a representatividade de atores educacionais e comunitários. os membros da . o Conselho vai muito além de apresentar propostas. na prática. "leis" que regerão o funcionamento da escola ("poder legislativo") e acompanhar a sua execução pela direção ("poder judiciário"). funcionários e comunidade escolar como um todo poderá ser maior ou menor. A responsabilidade é ainda maior quando se delibera quanto à organização e ao funcionamento geral da escola.dependendo dos encaminhamentos e da votação em plenária -. Tentando esclarecer um pouco mais a importância do colegiado deliberativo. pais. instância executiva ("poder executivo") que se encarregará de colocar em prática as decisões ou sugestões do Conselho de Escola. criando normas. uma diferença fundamental entre decidir ou simplesmente opinar sobre procedimentos relativos à priorização de aplicação de verbas. julgando e garantindo para que elas sejam cumpridas. mais efetiva ou mais formal. É mais enfático. também pode. discutir e deliberar sobre os critérios de avaliação da instituição escolar como um todo. do que quando se opina ou se assessora a direção da escola no mesmo sentido.quadro mais nítido acerca das diferenças que. Há. no trabalho cotidiano do Conselho. também. tomar decisões em relação à vida escolar. enfim. Não podemos considerar a natureza dos Conselhos como uma questão menor. podemos fazer uma breve analogia entre ele e os poderes Legislativo e Judiciário. guardados o graus de autonomia e consideradas as diretrizes gerais da administração. serem aprovadas e remetidas para o corpo diretivo da escola. professores. garantir que. Assim como criam leis (Poder Legislativo) e acompanham sua execução (Poder Judiciário). ele decide. é possível afirmar que a participação de alunos. se for o caso . do que somente discutir sobre essa questão. O Conselho é a instância em que os problemas da gestão escolar serão discutidos e as reivindicações educativas serão analisadas para. democraticamente. ele determina onde e como aplicar tais verbas.

para que a democratização e a autonomia da escola sejam alcançadas. Fica claro que o Conselho de natureza deliberativa é aquele que melhor pode contribuir. que representa grande avanço na direção do exercício permanente da democracia e da cidadania na escola e na sociedade em geral. objetivos marcantes do Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. administrativa ou financeira da escola. Questões para debate • Por que democracia na escola? • De que forma o Conselho de Escola pode ser um espaço de exercício da cidadania? • Como garantir a participação e o envolvimento de todos os segmentos escolares? • Qual a relação entre Conselho de Escola e melhoria da qualidade do ensino? . ativa e efetivamente.escola e da comunidade apreciem. opinem e proponham ações que contribuam para a solução dos problemas de natureza pedagógica.

José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. é sempre um novo recomeçar. Dia de reencontros explosivos. Uma atmosfera cor-de-rosa entre docentes e equipe diretiva. . Vai começar a primeira reunião de um novo trabalho educativo. também participam da confraternização. todos concordam. mas. observada carinhosamente por seus colegas. a se encaminharem para uma sala de aula onde a reunião se realizará. Educar é uma luta constante. A diretora da escola exercita sua pontualidade. Por todo lado. Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco. Professoras e professores. cautelosos. O coordenador pedagógico convida os presentes. e diretor do Instituto Paulo Freire. Georges Snyders Uma semente atirada Num solo tão fértil Não pode morrer É sempre uma nova esperança Que a gen te alimenta De sobreviver (Amor à natureza) Paulinho da Viola PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA José Eustáquio Romão Paulo Roberto Padilha Início do ano letivo. MG. Todos ocupam seus lugares e as boas-vindas são oferecidas pela diretora. O tema da reunião administrativa e pedagógica é planejamento e organização do trabalho na escola. que logo em seguida declara abertos os trabalhos. SP. antigos companheiros de trabalho. com sua voz grave. olhares curiosos. de abraços meteóricos. um clima de alegria. alguma retração.A autonomia é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar. de qualquer maneira. alguma aproximação. Uma professora chega atrasada na ponta dos pés. recémingressantes.

como deveria ser. ela distribui uma pauta mimeografada. tal o silêncio que toma conta do ambiente.O coordenador pedagógico passa a falar. novas regras para a utilização da cantina. pontualidade dos professores na entrada e na saída. com os itens que estarão sendo "discutidos": entrega de documentos. Informa que os planos de ensino deverão ser providenciados pela equipe docente e entregues ao final dos três dias de reuniões. como informa a diretora. de acordo com suas disciplinas. O tempo acaba não sendo suficiente. que fala um pouco sobre a organização da escola. "planejamentos". estão agora ilhados em suas definições. elaboração do horário de aulas. Após quase uma hora. Acrescenta que estes. Para tanto. lista de alunos das novas turmas. transfere-se para o período da tarde o início da elaboração do planejamento. cada representante de grupo lê os objetivos específicos aos quais chegara sua equipe. novo código disciplinar para os alunos. definido pela equipe diretiva durante as férias dos professores. Distribui uma papeleta para cada uma delas. sobre as próximas tarefas. Lembra que os mesmos deverão ser elaborados em fina consonância com o Plano Diretor da Escola e com os Planos de Cursos já definidos nos anos anteriores. Em seguida. passa a palavra à senhora diretora. foram elaborados pelos especialistas da escola dentro dos padrões científicos e técnicos exigidos pela Secretaria da Educação e estão perfeitamente de acordo com os Planos Nacional e Estadual de Educação. que já se mostravam confusos e aparentemente desanimados diante das palavras "planos". o coordenador pedagógico dá início a uma dinâmica de grupo. Solicita a formação de equipes. crachás para as primeiras séries. Agora. por sua vez. o que não consegue provocar reações nos companheiros. Terminada a dinâmica e estourado o tempo da reunião na parte da manhã. após o que. o coordenador pedagógico anuncia o início das exposições orais. Notase no recinto um amargo sentimento. como se o encantamento inicial tivesse se evaporado subitamente e dado lugar a um ar de constrangimento. os professores . Sem escolha. novos horários de intervalos. Professoras e professores. as aulas terão início. "normas" e "prazos". dedicando-se mais à "parte administrativa". entre outros. calmamente. por meio da qual orienta cada grupo para que se reúna por meia hora e em seguida apresente aos demais grupos alguns objetivos específicos de suas disciplinas para o ano letivo. imediatamente.

Não questionamos aqui a necessidade dessas reuniões na escola. Não que definir este ou aquele termo possa resolver o problema. Poderíamos iniciar a reflexão discutindo o significado de alguns termos relacionados ao tema em questão. de fragmentos de experiências verificadas em muitas escolas há alguns anos e mesmo hoje em dia. Assim começava a tarefa de planejar naquela escola e naquele ano. gerando resultados negativos no espaço escolar. exigem-nos um tratamento praxiológico. São exatamente estas questões que estaremos analisando no decorrer do estudo do tema planejamento socializado ascendente e organização do trabalho na escola. a partir dos quais poderão adaptar seus planos de ensino dos anos anteriores. mas os equívocos das atividades propostas e realizadas na reunião anteriormente relatada. Os temas em questão. Preocupa-nos a possibilidade da ocorrência de situações parecidas com a aqui ilustrada nas escolas atuais.disporão de novos livros didáticos enviados pelas editoras. deveriam ocorrer nessas situações. teoria e prática estão sempre imbricadas. Planejamento educacional e organização do trabalho na perspectiva da escola cidadã Devemos esclarecer que quando pensamos no planejamento educacional e na organização do trabalho na escola em uma . E é nesse contexto que se realizam. na verdade. que pretendemos aqui realizar. muitas vezes. Elas estão muito distantes das que. efetivamente. as chamadas "semanas de planejamento" ou "reuniões administrativas e pedagógicas". que cuidemos da prática atravessada pela teoria e pensemos na teoria enquanto reflexão sobre a prática. devemos estar refletindo sobre essa realidade. não é mera coincidência. que a todos lembrava experiências burocráticas de anos anteriores nada compensadoras. em si. Nesse sentido. A situação descrita. mas pode ser um primeiro passo para uma reflexão mais profunda sobre o planejamento participativo ascendente e a organização do trabalho na escola. Trata-se. Mas se há o risco de a ficção confundir-se com a realidade. se alguma semelhança tiver com a realidade. Seria pois impossível tratar de planejar as atividades da escola e da educação sem considerar essa característica. ou seja.

entendemos que a inexistência de um Conselho atuante e de um projeto político-pedagógico pode ser compensada. organizando a educação. interpessoais e profissionais neles presentes. Isso significa encarar de frente os problemas dessa instituição e do sistema educacional como um todo. levando-se em conta o contexto e os pressupostos filosóficos. Por outro lado. Isso significa que. portanto. de seus direitos e deveres. pela prática do planejamento coletivo. Dessa forma. por meio de uma prática democrática . para que esta atinja os fins que justificam sua existência. entendida aqui como o exercício pleno e democrático. compreendendo as relações institucionais. linear e hierarquizada que tem caracterizado a prática do planejamento no sistema educacional. Pensar em planejar a educação é parte essencial da reflexão sobre como realizar e organizar o trabalho escolar. O resultado desse processo será influenciar e provocar transformações nas instâncias educacionais que historicamente têm ditado o como. científica. com quem e para quem se planeja. por parte da sociedade. sobretudo. Planejar a educação é tema de extrema relevância para contribuir na direção da melhor organização do trabalho na escola. assumindo a escola como instância social de contradições que propiciam o debate construtivo e. Realizar os diversos planos e planejamentos educacionais e escolares. culturais e políticos de quem. Isso exigirá. visando atingir objetivos antes previstos. no desenvolvimento do próprio ato dinâmico de planejar. enquanto entidade que tem por principal missão propiciar aprendizagens e formar cidadãos. significa exercer uma atividade engajada. um projeto político-pedagógico nos estabelecimentos de ensino. pensando e prevendo necessariamente o futuro. o porquê. É estabelecer fins e meios que apontem para a sua superação. O nosso objetivo é inverter a relação vertical. a implantação progressiva do Conselho de Escola e a elaboração de um projeto político-pedagógico. planejar. avaliando e ampliando a participação de diferentes atores em sua administração e em sua gestão. intencional. por meio do Conselho de Escola. é responder a um problema. o para quê. temporariamente. o quando e o onde planejar. que não é possível dissociar a idéia de planejamento educacional e escolar da necessidade de se desenvolver. em sentido amplo.perspectiva cidadã faz-se necessário explicar o significado da palavra cidadania. mas sem desconsiderar as condições do presente e as experiências do passado. Observe-se. de caráter político e ideológico e isento de neutralidade.

o que facilita o trabalho de quem planeja. bem como da demanda real e potencial. porque envolverá a participação e a tomada de decisões da população em relação a um serviço prestado pelo Estado. Dessa forma. especialmente se isso é realizado coletivamente.e para a qual apenas os especialistas estão devidamente preparados. pedagógicos ou financeiros. estamos fazendo opções. um verdadeiro exercício de cidadania. tem um objeto de estudo bem definido. Com tal compreensão e prática estaremos desvelando o mito do planejamento e enxergando o seu caráter político e ideológico. humanos. tanto em termos de recursos físicos (instalações. Em se tratando do diagnóstico. identificando todas as suas características. metodologias de ação. e viabiliza a execução e a avaliação do que foi planejado. técnicas. equipamentos. a atividade de planejar é sistemática. tanto para o municipal quanto para a unidade escolar.e de um planejamento interativo e participativo. com seu perfil profissional. essencial para a elaboração do Planejamento Socializado Ascendente. como tem ocorrido no país nos últimos 25 anos. Se pensarmos na formulação de um planejamento educacional conforme descrito acima. Será. estaremos quebrando e desfazendo. sim. material didático etc). é um levantamento exaustivo da capacidade instalada. O Planejamento Socializado Ascendente Não é demais lembrar que estamos diante da possibilidade de utilização de um instrumento que contribui para a construção da . precisamos inicialmente fazer um diagnóstico da escola e/ou do município no qual ela se insere. possui um padrão. ao definir objetivos. Ao contrário: por ser científica. apresenta uma metodologia. quanto de recursos humanos (docentes e nãodocentes). a crença de que planejar é atividade muito complexa . estamos atribuindo às nossas ações educativas caráter transformador ou conservador. pode-se utilizar a metodologia da Carta Escolar. metas. formas de avaliação do trabalho na escola etc. Esse diagnóstico. pois. seus problemas e necessidades em relação à demanda de recursos físicos.porque científica . o planejamento educacional e a organização do trabalho escolar pensados e acompanhados por todos e para todos não serão atividades meramente burocráticas. A interpretação dos dados coletados indicará as prioridades a serem consideradas no ato do planejamento político-pedagógico da escola. pela ação.

fica garantida a participação de todos os segmentos. desde o princípio do planejamento escolar. comunidade escolar e extra-escolar. "dotado de tensões que precisam ser vividas e administradas".como a dos pais. isso não significa dizer que todos os segmentos estarão participando o tempo todo de todas as tarefas e de todos os tipos de planejamento a serem realizados na escola ou na . para que a escola funcione bem. no momento do planejamento. No entanto. p. v.não ocorra apenas quando o planejamento com outros segmentos (direção escolar. 1. n. Outro pressuposto fundamental do Planejamento Socializado é a não separação estanque dos diferentes momentos da atividade de planejar. que envolve a reflexão. professoras. a organização da ação e a avaliação de resultados. ou seja. São Paulo. é mister a participação efetiva de todos: alunas e alunos. 79-112. professores."educação para a cidadania". ou depois de definidos alguns critérios básicos que deverão ser cumpridos. funcionários da escola) já tenha sido iniciado. Quando nos referimos ao Planejamento Socializado Ascendente.municipal. funcionárias e funcionários da escola. a de associações escolares e comunitárias . 21. Assim sendo. a visão de totalidade desse processo coletivo. com suas representações nos diferentes momentos do processo educativo. Ao contrário. estamos também diante de um tipo de planejamento participativo. do qual ela participa diretamente. pp. a tomada de decisão. Planejar socializadamente pressupõe a prestação de um serviço à comunidade. estadual e federal. A primeira característica é o fato de ser um planejamento socializado. Dessa forma. direção. segmentos ou grupos comunitários e sociais que direta ou indiretamente atuam e se relacionam com a escola e com os demais níveis educacionais . professores. a dos alunos. a partir da integração das forças de todos os sujeitos. 1995. mães e pais de alunos e de alunas. entendendo esse processo participativo em seu dinamismo. Outra característica de um planejamento socializado que podemos registrar é o fato de ele prever que a participação de certos segmentos escolares e comunitários . o planejamento socializado é extremamente relevante e. Não se trata de adesão a um processo já iniciado. que apresenta duas características fundamentais explícitas na sua própria denominação. como diz João Pedro da Fonseca (Revista da Faculdade de Educação. 4). jan/jun. que valoriza todos os níveis de participação da escola. dividindo com eles o poder de decisão. Feusp. tem-se. sem exceção.

intermunicipais) para a troca de experiências e para a adoção de propostas educacionais mais amplas. tais representantes estarão veiculando as experiências de suas escolas em outras instâncias e níveis educacionais. deflagrado o processo. definir a coordenação de grupos. Ao pensarmos no Planejamento Socializado Ascendente estamos viabilizando o projeto político-pedagógico da escola. Representantes da escola deverão ser também definidos pelo grupo para que as consolidações do Planejamento Socializado Ascendente não fiquem restritas aos muros escolares. operacionalizam-se a ação e todas as etapas do planejamento escolar. tudo o que ficar consolidado terá de ser aprovado pela maioria. a partir das bases (todos os segmentos envolvidos no processo de planejamento). estaduais e federais de educação. poderão estar trocando experiências a todo o momento e repassando-as aos grupos mais específicos. Esta estratégia implica combinar. Ou seja. Isso não só seria inviável em termos operacionais como excluiria diferenças inegáveis em termos de maior capacitação de determinados segmentos para a coordenação e a participação em certos componentes do planejamento. tudo o que estiver acontecendo na escola será também socializado com outras escolas. ainda. todos os segmentos terão suas tarefas bem definidas. Além disso. Além dessas. Mas.educação. viabilizando a consolidação de decisões e deliberações dos grupos participantes. observando-se. Dessa maneira. com outras experiências. a divisão de tarefas. que poderão influenciar os demais níveis da administração e do planejamento educacional. escolher representantes dos segmentos escolares e das equipes multissegmentárias para que se organizem consensos básicos. Nesse sentido. assim. interescolares. . Ordenar a participação é. poderá haver atividades que envolvam equipes multissegmentárias que. outras instâncias representativas intermediárias podem ser criadas em nível local ou regional (conselhos regionais. pois. que os temas que não forem objeto de consensos básicos retornarão a todo o grupo e serão rediscutidos. Apesar disso. Esse processo revela a importância do Conselho de Escola dos Conselhos Municipais e Estaduais de Educação de elevar aos níveis superiores da administração educacional as deliberações tiradas na base do sistema de ensino. interferindo assim na definição das políticas públicas municipais. em outros níveis. a segunda característica desse tipo de planejamento que chamamos de estratégia ascendente.

por conseguinte. pela ação do poder político organizado no Estado com seus níveis de município. Sendo assim. em especial. que considera (com razão) o planejamento atualmente praticado uma atividade meramente burocrática. 1994 . MEC/SEF. sobre questões relativas não só ao processo de ensino e aprendizagem. desde que se concebe a democracia como o efetivo poder dos cidadãos no mundo de suas vidas. a organização e a condução da escola de intenções políticas em interação dinâmica e conflitiva. embora articuladas fora da escola. na própria sociedade. 10-11). sem sentido. "Dão-se as relações entre a escola e a sociedade pela mediação da família e dos grupos de iguais.Como explica Mário Osório Marques. Brasília. já que implica tomada de decisões. pp. modelam e controlam. de caráter tecnicista e com objetivos apenas formais. das demais instituições da sociedade civil e. O Planejamento Socializado Ascendente pretende quebrar a coluna dorsal do planejamento educacional autoritário. 9. de cima para baixo. que. Estará também contribuindo para superar a resistência à participação no âmbito escolar. mas também em relação às questões administrativas e financeiras da escola e da própria sociedade em que ela se insere. Metodologia de elaboração do Planejamento Socializado Ascendente Consideramos que planejar a educação de forma socializada é exercitar a cidadania. . e desde que os recursos públicos são gerados nos processos do trabalho" (O projeto pedagógico da Escola. de estados-membros e da Federação. em movimento ascendente. a penetram. "a comunidade argumentativa dos interessados no projeto político-pedagógico da escola não se limita. envolvimento com as ações do cotidiano escolar e avaliação dos serviços prestados à população. o planejamento deve começar pela inserção de toda a sociedade no debate democrático. ao interior e ao entorno imediato dela. seja em que nível for. invertendo a relação de poder na educação e. que perpassam as demais instituições sociais e os grupamentos humanos em articulações múltiplas e complexas. Dependem a concepção.Série Atualidades Pedagógicas. Lida ela com interesses relevantes para a sociedade toda. das organizações locais. porém. dos movimentos sociais.

ao contar com as comunidades intra e extra-escolar e ao ouvi-las. pois. devem ser escolhidos os representantes da escola que atuarão junto aos colegiados intermediários e conselhos municipais e/ou estaduais de Educação. Cuidados com o democratismo e com o risco do populismo devem ser tomados. É necessário também que se contextualizem os objetivos. a história e a cultura local dos cidadãos pesquisados. A Carta Escolar. as estratégias de ação. desde o início do planejamento. Se confiará na capacidade reflexiva de todos os segmentos escolares e comunitários e em suas potencialidades de ação. Como só é possível planejar a partir de um contexto bem específico e conhecido. levando a eles as prioridades definidas pela unidade escolar. sobretudo. a participação de todos os segmentos. A Carta. por meio da metodologia da Carta Escolar. após verificar-se a disponibilidade de meios para a sua superação. a tentação de se querer resolver de uma só vez e de modo idealista todos os problemas detectados no diagnóstico realizado. Definidas as ações. o tipo de avaliação que se fará do processo e que se estabeleçam as intervenções a serem realizadas na escola. desenvolvida pelo Instituto Paulo Freire. co-responsabilizando-se com a busca de soluções e superação dos problemas.considerando sempre os condicionantes socioculturais e políticos que influenciam e afetam diretamente o cotidiano escolar. as tarefas e as equipes responsáveis pelas mesmas. devemos. partir de um diagnóstico detalhado da escola e da educação em nível local. Isso pode ser feito. já garante. Essas devem ser escolhidas por ordem de prioridade. Concluída essa etapa. nessa fase. por exemplo. elaboradas cientificamente e baseadas numa nova ética que considere e respeite. a ser realizado mediante a aplicação de metodologias inovadoras de pesquisa. Portanto. podem inviabilizar o . se presentes. enquanto estudo inicial de dados da realidade escolar e de diagnóstico (ou interpretação daqueles dados). estará buscando as possíveis alternativas de solução aos problemas encontrados. pois o amplo levantamento de informações torna-se inviável sem que todos estejam envolvidos. a escola terá diante de si as informações que lhe permitirão definir prioridades. É importante evitar. as metas. num horizonte de tempo predeterminado. para tanto. o cronograma de atividades. o primeiro passo do Planejamento Socializado Ascendente na unidade escolar é a Carta Escolar. municipal e estadual.

cabendo aos educadores. . Estes. Superar tal exclusão e tal limitação é característica inerente a esta proposta. na escola. A escola e cada um dos possíveis níveis intermediários de representação existentes deverão estar sendo permanentemente informados sobre as deliberações. as possíveis etapas desse processo podem ser as seguintes: • o Conselho de Escola convocará uma Assembléia Geral para discussão do Planejamento Socializado Ascendente. • elaboração do Plano de Trabalho para a efetivação da Carta Escolar. as conquistas e os entraves verificados em todo o processo. explicar detalhadamente no que consiste esse tipo de planejamento. os e n c a m i n h a m e n t o s . Grêmio Estudantil). nos níveis seguintes. a tarefa de cumprir à risca o que fora por eles planejado. a todos os segmentos escolares e à comunidade educacional em geral. Associações comunitárias deverão t a m b é m estar r e p r e s e n t a d a s . Caixa Escolar. a gestão democrática. a escola poderá organizar uma comissão responsável pelos e n c a m i n h a m e n t o s relacionados ao Planejamento Socializado Ascendente. • amplo movimento de sensibilização da comunidade para compreender a importância da Carta Escolar e de sua realização. ETAPAS ESCOLARES: POSSÍVEIS PARÂMETROS O Planejamento Socializado Ascendente na escola pretende superar a prática de atribuir a competência de planejar apenas a uma minoria de especialistas. que estarão envolvidos na elaboração do planejamento. baseados numa suposta neutralidade política e científica. • T o d o s os segmentos escola res deverão estar representados paritariamente nessa reunião. aos educandos. Assim. Caso não exista um colegiado. definindo datas e espaços para que os segmentos escolares se reúnam em separado para eleger representantes. o projeto político pedagógico da escola. as consolidações. b e m c o m o os representantes de todas as instituições escolares (APM. determinam os destinos da unidade escolar ou da educação como um todo.processo democrático necessário ao Planejamento Socializado ascendente em quaisquer de suas fases. • na reunião.

por sua vez. • reuniões para organização das equipes que participarão da Carta Escolar (ver Carta escolar: instrumento de planejamento coletivo). toda a sociedade brasileira cobra. a superação do nível insatisfatório da qualidade de ensino. os projetos desenvolvidos. Podemos concluir que o planejamento. nessa nova perspectiva. os obstáculos a serem enfrentados e o grau de realização das metas e objetivos estabelecidos no Planejamento PolíticoPedagógico da Escola. cotidianamente. • o Conselho deverá se reunir periodicamente a fim de renovar. • Após a Carta Escolar. A escola continuará contando com a devida orientação por parte das secretarias municipais e estaduais da Educação que. a definição de metodologias educacionais apropriadas . • ampla mobilização da comunidade para a realização da Carta Escolar do estabelecimento de ensino. Dessa m a n e i r a . assim. Hoje. um i n s t r u m e n t o eficaz para c o n t r i b u i r com a melhoria da qualidade do serviço educativo oferecido pela i n s t i t u i ç ã o escolar. O Planejamento Socializado Ascendente representa. coletivamente. a c o m p a n h a r e avaliar p e r m a n e n t e m e n t e as ações implementadas na escola. os problemas e as demandas educacionais verificados a cada momento. definindo subcomissões para todas as tarefas necessárias à organização e funcionamento da escola nos seus aspectos administrativos. • escolha de membros do Conselho para representar a escola nos demais níveis de planejamento educacional (local/ municipal/estadual). serão também influenciadas e fiscalizadas em sua própria atuação. política e social que certamente aparecerá no d i a g n ó s t i c o p r o p o s t o . sem perder de vista a multiplicidade cultural. metodologias e formas de avaliação das atividades educacionais que favoreçam a ação de todos para superarem.• definição de equipes e tarefas relativas à primeira atividade do p l a n e j a m e n t o e organização da Carta Escolar no estabelecimento de ensino. viabiliza-se o estabelecimento de metas. poderá propor ações com base no estabelecimento de finalidades e de objetivos educacionais claramente definidos. pedagógicos e financeiros. o fim das práticas inadequadas de avaliação do desempenho educacional do aluno. elaborar o Projeto Político-Pedagógico da Escola.

justa e solidária. Reclama da inexistência de uma política devidamente comprometida com as suas necessidades educativas e com os problemas enfrentados pelo magistério que favoreça. a sociedade quer ser ouvida e quer colaborar. a luta por uma educação de qualidade para todos estará. normas e prazos autoritariamente. além de tudo. que não garantia a participação dos segmentos escolares sequer no planejamento da escola e do ensino. inclusive. se não elimina de vez. voltada para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. que obedecia cegamente às ordens vindas "de cima". apenas se referia ao aluno para discipliná-lo ainda mais e para lhe fechar os quase inexistentes espaços escolares de participação. que entendia o planejamento como uma atividade meramente formal. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. que não permitia aos docentes o uso da palavra. a existência da gestão democrática na escola. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. . Garantida a voz e a capacidade de ação aos que sempre se viram alijados de participar do destino da educação no País.e contextualizadas. por isso tem lutado por maior participação para cumprir. contribuirá decisivamente para a redefinição das próprias políticas educacionais do País e influenciará em que se revejam as finalidades da educação. diminui consideravelmente a possibilidade de depararmos com experiências como a que apresentamos no início desta exposição. o que prevê a Constituição Federal de 1988 em seu Artigo 205: "A educação. O Planejamento Socializado Ascendente. que entendia a organização do trabalho na escola como um rol de atividades burocráticas e puramente administrativas. ética. Encontramo-nos diante de desafios que podem ser melhor enfrentados a partir de ações efetivamente democráticas. ao propor uma nova orientação participativa no âmbito escolar e educacional. que definia pautas. e que. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". O Planejamento Socializado Ascendente. que aplicava dinâmicas sem critérios e sem explicar os objetivos de quaisquer atividades. Além de reclamar. de fato. os seus objetivos e o próprio papel da escola na sociedade atual. direito de todos e dever do Estado e da família. principalmente. de acordo com as necessidades do mundo moderno e as exigências das comunidades escolares locais.

Questões para debate
• O que significa planejar de forma socializada e com estratégia ascendente? • Qual a relação que existe entre esse tipo de planejamento com a organização do trabalho na escola? • Em que sentido o Planejamento Socializado Ascendente inverte a relação de poder na definição da política pública em educação? • Que parâmetros você acrescentaria ao processo de Planejamento Socializado Ascendente?

É possível formar cidadãs e cidadãos autônomos numa escola onde a autonomia não seja discutida, mas intimamente vivenciada por seus diferentes segmentos. Sônia Couto, Instituto Paulo Freire, SP

Enquanto os homens exercem seus podres poderes Morrer e matar de fome de raiva e de sede São tantas vezes gestos naturais Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo Daqueles que velam pela alegria do mundo Indo mais fundo tins e bens e tais. (Podres poderes) Caetano Veloso

DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA
Paulo Roberto Padilha Como afirma o professor Moacir Gadotti em seu livro Pedagogia da praxis (São Paulo, Cortez/IPF, 1995), "se é verdade que a educação não pode fazer sozinha a transformação social, também é verdade que a transformação não se efetivará e não se consolidará sem a educação". No mesmo sentido, não podemos pensar que a gestão democrática da escola possa resolver todos os problemas de um estabelecimento de ensino ou da educação. No entanto, sua implementação é, hoje, uma exigência da própria sociedade, que a vê como um dos possíveis caminhos para a democratização do poder na escola e na própria sociedade, conforme pudemos verificar em pesquisa recentemente realizada pelo Instituto Paulo Freire, em nível nacional. Outro aspecto que merece destaque neste trabalho é o fato de que a atual prática gestionária nas escolas acaba exigindo dos diretores uma dedicação maior, e às vezes plena, às questões adrninistrativas. Isso os obriga a secundarizar o aspecto mais importante de sua atuação, ou seja, sua responsabilidade em relação às questões pedagógicas e propriamente educativas, que se reportam à sociedade como um todo e especificamente à sua comunidade escolar. Com essa análise geralmente concordam professores, diretores, "especialistas" e "teóricos" da administração escolar.
Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco (SP) e diretor do Instituto Paulo Freire

A afirmação freqüente de que "é dificil administrar sozinho a escola" denuncia o isolamento do dirigente escolar enquanto responsável único e último pela instituição educativa, o que muitas vezes independe de sua vontade, mas não de seu cargo. A administração autocrática, isto é, a que centraliza todas as decisões e todo o poder nas mãos da diretora ou do diretor, acaba gerando uma sobrecarga de trabalho e, por conseguinte, estabelecendo relações conflituosas no âmbito escolar, o que se reflete no insucesso dos alunos. Por outro lado, é importante observarmos que a atuação do diretor, suas atribuições e seu vínculo com a escola se alteram dependendo da forma com ele foi escolhido e de acordo com o tipo de gestão que é implementada na unidade escolar. Uma reflexão sobre a gestão democrática da escola, a partir da compreensão por parte dos professores e dos demais sujeitos com ela envolvidos e, neste caso, especificamente relacionada à escolha e à atuação do dirigente escolar, pode contribuir para a superação de conflitos com vistas à melhoria do trabalho, das relações estabelecidas na instituição educativa e, fundamentalmente, da qualidade do ensino. Deparamos, pois, com um problema que nos exige soluções. Para chegarmos a elas, estaremos analisando algumas formas de escolha do diretor de escola e definindo parâmetros para a escolha de dirigentes escolares e também para a gestão democrática da escola pública. Pretendemos com isso identificar alguns princípios da implementação de uma gestão escolar democrática e também localizar algumas atribuições fundamentais dos diretores na definição de propostas de implementação daquele tipo de gestão, que devem ser compreendidas também pelos docentes e demais sujeitos educacionais. A forma predominante de escolha e de designação de dirigentes escolares no sistema escolar público brasileiro tem sido aquela decorrente do arbítrio do chefe do Poder Executivo, tanto na esfera estadual quanto na municipal, por se tratar, em sua grande maioria, de cargos comissionados, normalmente denominados "cargos de confiança". O processo de escolha democrática de dirigentes escolares tem seu início na década de 60. Em 1966, os colégios estaduais do Rio Grande do Sul realizaram votação para diretores de escola com base em listas tríplices. A partir da década de 80 e principalmente nos dias atuais, tem havido grande preocupação em relação aos processos de escolha de diretores escolares nos municípios e

eleição e esquema misto. As provas são geralmente escritas. CONCURSO Realizado por meio de provas ou de provas e títulos. para fins desta análise. A experiência nacional mostra que. quais sejam: nomeação. que. concurso. 1992). 12. São Paulo. portanto. FDE. nesse tipo de escolha. na seleção dos candidatos. dissertativas ou não. Nesse processo. e a prova de títulos é a comprovação da formação específica que habilita o candidato ao cargo. No entanto. Isso significa que o concurso acaba sendo democrático para o candidato. ou seja. de caráter conteudista. assume um cargo de confiança e torna-se o representante do Poder Executivo na escola. Se assim acontece. como afirma o professor Vitor Henrique Paro no artigo Participação da comunidade na gestão democrática da escola pública (Série Idéias. pode escolher a escola onde irá atuar. ao se acentuar a adoção de critérios considerados objetivos e técnicos na definição dos concursos públicos e. quatro categorias de escolha de diretores escolares. que é obrigada a aceitar a escolha daquele. Um argumento favorável à escolha por concurso é que ele defende a moralidade pública e evita o apadrinhamento político. uma vez que apenas as provas escritas e a titulação apresentada bastam para a aprovação ou a reprovação dos candidatos. "o diretor escolhe a escola mas nem a escola nem a comunidade podem escolher o diretor". Por isso mesmo pode ser substituído a qualquer momento.Estados brasileiros. Dessa maneira. n. de acordo com os interesses políticos e com as conveniências daqueles que o escolheram. NOMEAÇÃO O diretor é escolhido pela vontade do agente que o indica. o que mais pesa são critérios político-clientelistas. Podemos estabelecer. se aprovado. o diretor pode acabar não tendo grandes compromissos com os objetivos educacionais articulados com . o que vem estimulando um permanente questionamento sobre o papel do dirigente escolar na construção de uma gestão democrática da escola pública. mas é antidemocrático em relação à vontade da comunidade escolar. pelo governador do Estado ou pelo prefeito do município. não se confere a liderança do diretor diante do pessoal escolar e dos usuários da escola pública e não se avalia o desempenho dele.

por escolha por meio de listas tríplices ou plurinominais. No entanto. iniciando o processo de implantação da gestão democrática no ensino antes mesmo de sua regulamentação e permitindo a eleição dos dirigentes escolares. por exemplo. por escolha uninominal ou. o que gera muitas vezes a negligência em relação às formas democráticas de gestão. não podemos mais . As experiências com esse tipo de escolha têm mostrado que tal critério favorece a discussão democrática na escola e acaba implicando maior distribuição do poder para as instâncias da base da pirâmide estatal. ELEIÇÃO Baseada na manifestação da vontade da comunidade escolar. Quando é esse o caso. duas ou mais fases no processo de escolha. Por conseguinte. tal escolha favorece a gestão democrática e colegiada na escola. além da sua experiência administrativa. ainda. representativo. incluindo. provas que avaliem a competência técnica e a formação acadêmica do candidato. a comunidade escolar geralmente participa de uma ou mais fases do processo de seleção. colocado antes de ser resolvida a questão do provimento do cargo . geralmente com direito a uma reeleição. deve assumir responsabilidade política junto à comunidade escolar que o elegeu para um mandato por tempo determinado. capacidade de liderança etc. se eleito. é oportuno observar que a partir da aprovação da Constituição de 1988 muitos administradores abriram mão da prerrogativa constitucional de nomear o diretor de escola.este.os interesses dos usuários. A partir do momento em que se exige do candidato à função de diretor de escola equilíbrio entre competência técnico-acadêmica e sensibilidade política . ESQUEMA MISTO Combina diferentes formas de escolha do diretor. na maioria das vezes. o diretor acaba tendo também maior vínculo e compromisso com aqueles que o escolheram ou indicaram.requisito indispensável para o diretoreducador. No esquema misto. ainda que isso não possa ser considerado uma regra. como a história da eleição de diretores de escola no Brasil é marcada por avanços e retrocessos. Consideradas essas formas de escolha aqui analisadas. Prevê. a eleição se caracteriza pelo voto direto.

(. responsável..ou manutenção . estarão norteando a construção de uma futura Lei da gestão democrática. por sua vez. em sua tese de doutoramento na Feusp. por exemplo. Essa participação efetiva exige. na forma da lei". cumpre-nos discutir na escola. que procuremos entender as características dos sujeitos aos quais estamos nos referindo. da Constituição Federal. Segundo o professor Jair Militão.) Os adjetivos corporativo e cultural visam a apontar a ênfase maior ou menor que tenham os objetivos dominantes no grupo em relação à obtenção de benefícios para o próprio grupo ou para os demais . a capacitação para a participação efetiva dos representantes dos segmentos escolares e da comunidade nos destinos da escola pública. "Há uma percepção de um nós ético que constitui tais pessoas numa unidade. titular de direitos e deveres. numa projeção extensiva do que dispõe a Constituição Federal sobre as prerrogativas do presidente da República (Arts. torna-se necessário aproveitar a experiência democrática acumulada no País e a partir daí procurar regulamentar o princípio da "gestão democrática do ensino público.de modo a assumir a responsabilidade consciente pela própria vida.. refere a um grupo de pessoas que agem na sociedade conforme um critério comum que as identifica. que têm consignado aos governadores e prefeitos a competência privativa para a nomeação de agentes para o exercício de cargos públicos comissionados. Resta-nos observar que a eleição de dirigentes escolares aqui defendida é apenas um dos componentes da gestão democrática do ensino público e só terá efeito prático eficaz se associada a um conjunto de medidas que garantam. de tal modo que se reconhecem como mutuamente pertencentes a uma mesma história e possuindo um mesmo destino como horizonte. A noção de sujeito é aqui tomada em sua forma substantiva e quer significar um ser ativo. Ser sujeito é ser capaz de julgar a realidade.depender da vontade política das constituições estaduais e das leis orgânicas municipais. inciso VI. intitulada Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escola (São Paulo. Para tanto. empenhando-se pela sua transformação . por sua vez. na comunidade e em toda a sociedade os parâmetros da gestão democrática da escola pública. II). 1989). acrescido dos adjetivos corporativo ou cultural. 36 e 61. "o termo sujeito. Assim sendo. previsto no Artigo 206. O sentimento de pertencer cria e mantém a comum identidade. que.

mas também não é processo tão complexo ou irrealizável. sem eximir o Estado de suas obrigações com o ensino público. associada à elaboração do projeto político-pedagógico da escola e à implantação de Conselhos de Escola que efetivamente influenciem na gestão escolar como um todo e de medidas que garantam a autonomia administrativa. (. tais recursos devem ter caráter . que é estatal quanto ao financiamento. Nesse sentido. De qualquer maneira. das expectativas e das atividades cotidianas da escola. A gestão democrática à qual nos referimos faz parte de uma desejada escola cidadã. pedagógica e financeira da escola. A rigor. se quiser.grupos existentes. por exemplo. Isso significa que o mesmo se constituirá numa ação. que numa mesma comunidade podem existir vários sujeitos além dos que acima acentuou. possam vivenciar um processo de capacitação para essa participação. No segundo caso. numa prática a ser construída na escola. pois o Estado deve repassar os recursos diretamente à escola para que o dirigente escolar possa executar o que o coletivo escolar deliberou e aprovou em seu projeto político-pedagógico. Ela acontecerá. Observe-se ainda que a escola. Se esta estiver aberta à participação. o sujeito cultural é necessariamente pluralista". de prazo interminável. desde que as decisões relacionadas com a gestão dos recursos públicos e da verba originária de parcerias sejam administradas pelo coletivo democrático que vai gerir a unidade escolar.) sujeitos corporativos são aqueles cuja ênfase se dá na busca de benefícios limitados ao próprio grupo. ainda. passo inicial importante terá sido dado na direção da gestão democrática que ora estamos analisando. ou seja.. enquanto sujeitos culturais visam objetivos de caráter mais geral cuja consecução tende a favorecer a um número maior de pessoas e grupos. O professor Militão observa. estamos aqui particularmente interessados em que esses sujeitos. preferencialmente os culturais. mediante programas duradouros de capacitação custeados pelo Estado e pela articulação dos diferentes sujeitos escolares em torno dos problemas. poderá. para subsidiar projetos voltados para a melhoria da qualidade do ensino. A gestão democrática não é processo simples de curtíssimo prazo.. o que se realiza formalmente ou informalmente. às ações do sujeito cultural poder-se-ia aplicar um princípio de universalidade: o que é de direito e dever para o grupo é defendido igualmente para qualquer outro grupo. fazendo uso de sua autonomia financeira. estabelecer parcerias com outras instâncias da sociedade civil. dos interesses.

avaliar e fiscalizar a execução de seu planejamento político-pedagógico. Os candidatos serão escolhidos pelos membros da comunidade escolar mediante processo que verifique competência profissional e liderança. ainda. Essa escola é. em chapa formada por candidatos a diretor e vice-diretor. participar do Conselho de Escola. A escola cidadã à qual nos referimos é também comunitária quanto à gestão. de arcar com o financiamento da educação. pública quanto à sua destinação.excepcional e complementar. respeitada a paridade de votos dos diversos segmentos que a compõem e a legislação em vigor. apresentando e defendendo publicamente seus programas de trabalho. • processo seletivo prévio ao processo eleitoral. seguir-se-á a eleição por voto direto. sem distinções. no ato da inscrição dos candidatos. Após tal defesa. secreto e facultativo. de acordo com as diretrizes definidas coletiva e democraticamente com a participação de todos os segmentos educacionais e das respectivas comissões eleitorais. sob a coordenação do órgão gestor do respectivo sistema educacional. em que se verifique a competência profissional do candidato. destina-se igualmente a toda a sociedade. acompanhar. definir e deliberar de forma socializada sobre as suas diretrizes e prioridades. Os candidatos aprovados na etapa anterior submeter-se-ão ao processo de verificação de liderança. e não eximem o Estado. . Parâmetros para a escolha democrática A partir desses pressupostos. em nenhuma hipótese. isto é. A forma de escolha do diretor deve prever a sua nomeação pela autoridade competente em chapas constituídas e formadas por candidatos a diretor e a vice-diretor de escola. estabelecemos o primeiro parâmetro para a escolha democrática de dirigentes escolares. sem exceções. de acordo com as normas previstas democraticamente conforme acima especificado. se estes atendem às exigências quanto ao tempo mínimo de serviço público e à formação escolar mínima exigida para o cargo. de forma a garantir a participação de todos os membros da comunidade escolar. O processo de escolha pode obedecer às seguintes etapas: • verificação. pois todos os segmentos escolares e comunitários devem eleger o dirigente escolar.

dependendo das condições locais. Um terceiro parâmetro se refere aos candidatos e às inscrições. os candidatos deverão ter cursado Pedagogia. Além do tempo de serviço mínimo acima especificado. acompanhar o processo de votação e de apuração dos votos e zelar pela lisura do processo eleitoral. comissões eleitorais regionais. de acordo com as normas e prazos fixados pela comissão eleitoral local ou através de instrumentos legais do poder executivo. a serem indicados em assembléias de seus pares. devidamente adaptados às condições reais da unidade escolar. defendemos . na data da convocação da eleição. concluída ou em andamento. serão admitidos candidatos com habilitação específica para o magistério (ensino médio). A comissão de cada escola deve ser composta paritariamente por representantes de todos os segmentos escolares. Quando e onde for necessário. Poderão se candidatar os professores e especialistas em educação desde que. Nenhum professor ou especialista educacional poderá candidatar-se simultaneamente em dois estabelecimentos de ensino. Para garantir que o processo eletivo seja plenamente democrático e para que se constitua num exercício pleno de cidadania. Esta comissão deverá atuar em consonância com a legislação em vigor bem como com as normas fixadas para o pleito pelas secretarias estaduais ou municipais de Educação e respectivos Conselhos de Educação. municipais e estaduais. poderão ser admitidos como candidatos aos cargos em questão servidores concursados ou estáveis com licenciatura em qualquer área ligada à Educação. O quarto parâmetro que apresentamos diz respeito aos eleitores. Nesse sentido. Podem ser aceitas inscrições de chapas com candidatos a diretor e a vice-diretor. Contudo. sejam servidores públicos concursados ou estáveis com efetivo exercício há pelo menos três anos na rede ou dois anos na escola onde se candidatam. Deverão ser constituídas. fiscalizar. tais comissões deverão coibir qualquer processo eleitoral "viciado" ou ações que possam partidarizar as eleições na escola. municipais ou estaduais. dependendo da resolução de cada localidade. em virtude das características locais onde se situam as unidades escolares e especificamente para as escolas de ensino fundamental. desde que completa. com licenciatura plena em Administração Escolar. que terão funções normativa e fiscalizadora no processo eletivo em pauta. organizar. Elas devem ser criadas nas unidades de ensino para planejar.Um segundo parâmetro se refere às comissões eleitorais.

envolvendo as duas chapas mais votadas. na promoção de discussões e debates com a mesma e na divulgação de material que torne conhecidas. com o direito a uma reeleição consecutiva. as mães de alunos ou os representantes legais dos alunos regularmente matriculados na escola que estejam abaixo dos limites de idade e série acima previstos. os segmentos escolares credenciados escolherão. Para tanto. previstos e divulgados antes do período de inscrição das chapas. No segundo turno. Um sexto e último parâmetro que ora apresentamos diz respeito à duração do mandato do diretor e de seu vice. ficaria garantida aos candidatos a realização de campanha e de propaganda eleitoral nas dependências da unidade escolar. Votam também os pais. Esta deverá adequar-se às especificidades locais da comunidade escolar. Encerrada a campanha. aos alunos regularmente matriculados na escola que estejam cursando a 4ª série do ensino fundamental em diante. segundo critérios das comissões eleitorais. que respeitem o pleno desenvolvimento das aulas durante o período em que a propaganda poderá acontecer e que garantam a discussão política inerente ao pleito eleitoral. entendemos que a opção da reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período garante a possibilidade da continuidade de um trabalho que tenha .a garantia do voto a todos os servidores em exercício no estabelecimento de ensino. Considerando que um projeto político-pedagógico deva contemplar propostas e avanços de curto. a predominância do mandato de diretores com a duração de dois ou três anos. os seus candidatos. médio e longo prazos. Verificamos. observamos aspectos positivos e negativos. impugnando as candidaturas que promoverem a "partidarização" das eleições dos dirigentes escolares. as comissões eleitorais deverão fixar prazos e normas que garantam a manutenção dos princípios éticos durante a campanha. as propostas de gestão das chapas. Em relação à reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período. ou que tenham completado 10 anos até a data da eleição. pelo voto direto. Se nenhuma chapa alcançar tal número de votos. realizar-se-á um segundo turno. será eleita a chapa que obtiver maioria simples de votos válidos. ao máximo. Será considerada eleita a chapa que obtiver maioria absoluta dos votos válidos (cinqüenta por cento mais um). em recente pesquisa. secreto e facultativo. Tal divulgação consiste na defesa pública dos programas de trabalho junto à comunidade. Quanto ao parâmetro da divulgação durante o processo eleitoral.

à questão de como superar o veto governamental em relação à eleição direta de dirigentes escolares. a não reeleição consecutiva promove uma renovação constante dos dirigentes escolares. aprofundar o mais possível a discussão dos anteprojetos de leis que institucionalizem as propostas de governo dos poderes executivos. por si mesma. à proporcionalidade na apuração dos votos. atribuindo-se responsabilidades às comunidades escolares. se for o caso. entre outras. um processo educativo que possibilita aprendizagens cidadãs e colabora para a determinação dos seguintes pressupostos da gestão democrática: • capacitação de todos os segmentos escolares para que se busquem respostas à prática educativa. Dessa forma. essas situações referem-se à definição da idade mínima do voto do aluno. • consulta à comunidade escolar para que esta se cientifique da legislação pertinente às diferentes instâncias da gestão democrática e possa debater. Outras situações ficam também em aberto. A definição dos parâmetros acima encontra uma série de limites que só poderão ser superados na ação concreta e no contexto em que o processo eleitoral acontece. mas que é ruim no caso inverso. No geral. é obrigado a afastar-se do cargo. à importância que deve ser atribuída à prova escrita como pré-requisito para a seleção dos candidatos ao cargo de diretor de escola. mesmo no que se refere ao número de reeleições possíveis. Isso é bom quando impede que um diretor que não cumpriu o seu programa de trabalho em consonância com o projeto político-pedagógico da escola continue no cargo. do envolvimento. . se desenvolverá a cultura da participação. seja prevista em normas a serem definidas democraticamente em cada um dos sistemas de ensino em que for implantada a escolha democrática de dirigentes escolares. Por outro lado. Sugerimos que esta problemática. da ação. Entendemos que a discussão em torno desses parâmetros e de outras questões relativas ao tema aqui tratado já é. Preferimos deixar a questão do tempo do mandato do diretor escolar em aberto. realizar seminários e assembléias e. mesmo tendo realizado uma ótima gestão. portanto. quando um dirigente escolar. bem como a possibilidade da destituição dos mandatos dos dirigentes escolares. pois dependem de uma ampla discussão e de consulta a ser realizada com a comunidade escolar.sido aprovado pela comunidade escolar. alterando-os.

Definidos alguns parâmetros da escolha democrática de dirigentes escolares e alguns pressupostos da gestão democrática da escola. na implantação dos Conselhos de Escola e na gestão da instituição educativa rumo à autonomia escolar. o diretor-articulador deve exercer sempre uma liderança na escola. que atendam às reais necessidades educacionais da população. Quanto maior for essa articulação. ainda. seja em relação à responsabilidade social daquela com sua comunidade. para que. deve ser um articulador dos diferentes segmentos escolares em torno do projeto políticopedagógico da escola. projetos de lei mais consistentes. Todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. melhor poderão ser desempenhadas as suas próprias tarefas. Dessa forma. faz-se necessária a criação desses canais: jornais-murais. Enquanto tal. Nesse sentido. Em sua gestão. Isso é necessário não só no início do processo administrativo. seja no aspecto organizacional da escola. mas uma liderança democrática que seja capaz de dividir o poder de decisão e de deliberação sobre os assuntos escolares com . possui uma função primordialmente pedagógica e social. mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos. para que se garanta total transparência na escolha democrática dos dirigentes escolares. a falta de canais de disseminação das informações por parte das administrações para todas as esferas da estrutura administrativa e para todos os segmentos da sociedade tem se manifestado como um sério entrave à participação. uma breve análise sobre a função do diretor enquanto articulador da gestão democrática na instituição escolar. a partir da garantia do processo de participação das comunidades escolares. boletins. painéis. para atingirmos os fins aos quais nos propusemos no início desta discussão. A descentralização implica acesso de todos os cidadãos à informação. • lisura nos processos de definição da gestão. • agilização das informações e transparência nas negociações.• institucionalização da gestão democrática. encontros etc. os governos estaduais e municipais tenham o respaldo democrático para encaminhar ao Poder Legislativo. que lhe exige o desenvolvimento de competência técnica. política e pedagógica. Portanto. é importante. O diretor de escola é e deve ser antes de tudo um educador.

funcionários da escola. pp. a função de liderança eficaz. escolhe-se também um projeto de escola. Isso não significa abrir mão de responsabilidades ou das funções inerentes ao seu cargo. nas associações de alunos etc.175-176). entre as quais podemos citar a função educativa. Questões para debate • A escolha democrática de dirigentes escolares garante maior envolvimento da comunidade com a escola? Quais as implicações dessa escolha na formulação do projeto político-pedagógico da escola? • Ao se eleger uma pessoa.professores. 1996. uma vez que estará assumindo responsabilidades. Como a escola pode tornar o processo de escolha do diretor um processo educativo? • No município em que o diretor é nomeado. ao lado do diretor da escola. De todo esse processo. pais de alunos. poderá interferir e influenciar na gestão da unidade escolar em que atuam. . a função da gestão administrativa. A partir dessa praxis. conforme as palavras de Mariano Herrera (In: Colóquio: La dirección de Ia escuela. criando e estimulando a participação de todos nas instâncias próprias da escola como no Conselho de Escola. alunos e comunidade escolar. o professor estará participando e. poderá automaticamente melhorar a qualidade do seu próprio trabalho docente. como os professores e demais segmentos da comunidade escolar podem alterar essa forma de escolha? • Aponte vantagens e possíveis desvantagens da eleição direta para a escolha de diretores escolares. a função de mobilizador da equipe docente. exercendo direitos e praticando a cidadania ativa na escola. entre outras.

mau gosto É que Narciso acha feio o que não é espelho E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho Nada do que não era antes quando [não somos mutantes (Sampa) Caetano Veloso ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA. Paulo Freire Quando eu te encarei frente a [frente não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi. Numa época de violência. Em vez da arrogância de quem se julga dono do saber. Uma sociedade multicultural deve educar o ser humano multicultural. MUITAS CULTURAS Moacir Gadotti Vivemos na era da globalização da economia e das comunicações. de prestar atenção no diferente. A intolerância é isso: é o gosto irresistível de se opor às diferenças. Neste novo cenário da educação será preciso reconstruir o saber da escola e a formação do educador. o professor deverá ser mais criativo e aprender com o aluno e com o mundo. Não haverá um papel cristalizado tanto para a escola quanto para o educador. mas também numa época de acirramento das contradições inter e intra povos e nações. necessitam de uma ética da diversidade e de uma cultura da diversidade. [de mau gosto.O diferente de nós não é inferior. um cenário que coloca novos desafios para nós. É dentro desse cenário da pós-modernidade que a escola precisa atuar. educadores: que tipo de educação necessitam os homens e as mulheres dos próximos vinte anos para viver este mundo tão diverso? Certamente eles e elas necessitam de uma educação para a diversidade. de respeitá-lo. capaz de ouvir. Moacir Gadotti é professor titular da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto Paulo Freire . época do ressurgimento do racismo e de certo triunfo do individualismo.

no universo vocabular do aluno e da sociedade onde ele vive. ao rompimento com a estrutura disciplinar do conhecimento. por exemplo. mas tem de ser internacional e intercultural como ponto de chegada. comunidade. ambos buscam o seu significado social. meio ambiente etc. Diante do problema do desinteresse de muitos de nossos alunos pelos conteúdos curriculares do ensino. parecem contemplar essas duas dimensões: • pela investigação temática aluno e professor buscam. Nesse contexto global há duas dimensões que podem ser logo destacadas: • dimensão interdisciplinar: o objetivo fundamental da interdisciplinaridade é experimentar a vivência de uma realidade global que se inscreve nas experiências cotidianas do aluno. onde os conflitos são trabalhados. vivência. isto é. escola. partindo para a transformação do contexto vivido. é compartimentada e fragmentada. isto é. costuma-se responder com métodos mais apropriados ou aumentando o tempo de freqüência à escola. Este exercício leva à transdisciplinaridade. problematizando-os e equacionando a relação entre a transmissão da cultura e o itinerário educativo dos . o professor deverá promover o entendimento com os diferentes e a escola deverá ser um espaço de convivência. conhecimento. é o objetivo da interdisciplinaridade. A escola deve ser local.de agressividade. • dimensão internacional: para viver esse tempo presente. o professor precisa preparar as crianças para o mundo da diferença e da solidariedade entre diferentes. do professor e do povo que. Articular saber.a cultura primeira do aluno -. as palavras e temas centrais de sua biografia. e não camuflados. na escola conservadora. • pela tematização: codificando e decodificando esses temas. • pela problematização: buscam superar uma primeira visão mágica (ingênua). como ponto de partida. tomando assim consciência do mundo vivido. redimensionandoa na relação com outras culturas. Mas há outra visão do problema. A escola precisa formar o cidadão para participar de uma sociedade planetária. Os três momentos do método de Paulo Freire. deve valorizar a cultura local . ela se traduz por um trabalho escolar coletivo e solidário. Na prática. que é a de adequar o tratamento dos conteúdos. substituindo-a por uma visão crítica.

Outros educadores que também estudaram esse tema. compreendê-las na totalidade de sua cultura e de sua visão de mundo. durante a gestão de Paulo Freire (1989-1991) à frente da Secretaria da Educação do município. a escola precisa mostrar aos alunos que existem outras .que levam em conta a cultura do aluno . A educação multicultural se propõe a analisar criticamente os "currículos" monoculturais atuais. Paulo Freire chama essa cultura do aluno de "cultura popular". Se a escola era isso. Para cumprir sua tarefa humanista. Ao "contar" o que "fez na vida". daria tudo de si para continuar aprendendo.alunos. como o educador francês Georges Snyders. Atribuía a si mesmo esse fracasso e não a uma estrutura social e econômica iníqua. Um desses jovens dizia que tinha "vergonha" de contar sua vida porque a considerava um "fracasso". já que em tantos lugares de trabalho ele sempre era "envergonhado". compreendê-la melhor. Na educação de jovens e adultos trabalhadores. A diversidade cultural é a riqueza da humanidade. do relato de experiências de trabalho e de suas relações com o mundo. Se aprender lhe possibilitava "viver melhor".são mais eficazes para despertar o interesse. nesse aspecto. Sentia-se feliz em estar na escola. O currículo monocultural oficial representa. sobretudo para as camadas populares. uma estratégia de alfabetização numa concepção multicultural deveria partir da biografia dos próprios educandos. ele pôde assumila com mais confiança. pode representar a grande diferença na extensão ou não da educação para todos e de qualidade nos próximos anos. era tudo o que ele procurava. Procura formar criticamente os professores para que mudem suas atitudes diante dos alunos mais pobres e elaborem estratégias próprias para a educação das camadas populares. antes de mais nada. por exemplo. Essa estratégia foi aplicada com sucesso em um programa de alfabetização na cidade de São Paulo .Movimento de Alfabetização e de Pós-Alfabetização da Cidade de São Paulo (Mova-SP) -. no momento em que perceberam a importância que o professor dava à vida deles. um grande obstáculo a ser superado. os resultados obtidos com currículos multiculturais . a chama de cultura primeira. Equacionar adequadamente ou não a relação entre identidade cultural e itinerário educativo. Ao contrário. tentando. Os jovens e adultos sentiram-se mais envolvidos no processo de alfabetização. Só uma educação multicultural pode dar conta dessa tarefa. buscar as razões para uma "vida melhor".

educação para a paz. buscando dialogar com todas as culturas e concepções de mundo. que articule a diversidade cultural dos alunos com seus próprios itinerários educativos: • pode-se fortalecer grupos que trabalham com currículos multiculturais. ouvir. promover a autonomia da escola na elaboração de seus currículos. enfim. incluindo temas como: direitos humanos. precisa descobrir elementos culturais externos que revitalizem a sua própria cultura. precisa reeducar o seu olhar para a interculturalidade. ousada. numa visão em que o conhecer e o intervir no real se encontrem. muitas ações práticas podem ser desenvolvidas desde já para a construção de uma escola pluralista e competente. Mas isso já não é tão problemático hoje. para conhecer a mim mesmo. É possível e necessário. pois só com autonomia a escola pode fazer as mudanças desejadas. . mas também preocupar-se com a formação global dos alunos. um conjunto amorfo de retalhos culturais. O mundo está se percebendo mestiço. portanto. Pluralismo significa sobretudo diálogo com todas as culturas. a partir de uma cultura que se abre às demais.culturas além da sua. • pode-se incentivar as escolas para que façam mudanças nos seus currículos. A escola não deve apenas transmitir conhecimentos. fechamento numa cultura particular. portanto. Tratase de estabelecer metodologias que permitam converter as contribuições étnico-culturais em conteúdos educativos. discriminação racial e cultura popular. Basta abrir os olhos para a realidade. educação ambiental. preciso conhecer o outro. • pode-se. é preciso saber trabalhar com as diferenças: é preciso reconhecê-las. escutar. como meio de fortalecer a auto-estima. fazer parte da proposta educativa global de cada escola. As conseqüências desse enfoque para o ensino são enormes. para isso. O professor. não camuflá-las. Escola autônoma significa escola curiosa. Pluralismo não significa ecletismo. Evidentemente. o professor de qualquer disciplina precisa ter conhecimentos antropológicos e culturais mínimos e ter um olhar educado para perceber as diferenças étnico-culturais. Mas. impulsionando o movimento emergente de valorização das diferentes culturas. • pode-se recuperar os códigos lingüísticos das próprias comunidades desde o processo de alfabetização. A autonomia da escola não significa isolamento. aceitando que. Partindo desse princípio antropológico. Tudo isso é factível desde já.

igualdade válida para todos os que a ele pertencem. A identidade supõe uma relação de igualdade e diferença. é preferível falar-se em "identidades culturais".que coloca a questão do resgate da identidade. a identidade se define em relação a algo que lhe é exterior. porque. Mas só isso? O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade dizia que "nenhum Brasil existe" e se perguntava: "e acaso existem os brasileiros?" O que é genuinamente nosso? O que pode constituir-se numa identidade nossa? Por outro lado. uma diferença. para me conhecer. uma semelhança. Por isso. Por sua vez. a identidade sociocultural seria um conceito inócuo se tendesse a fixar padrões culturais para apenas "preserválos". Entre antagônicos só pode haver o conflito. pois ao falarmos de identidade de uma cultura temos que localizála em um determinado tempo e espaço e no interior de um grupo étnico. Vivemos hoje uma explosão das diferenças . Afirmar uma identidade étnico-cultural é afirmar uma certa originalidade. deveríamos falar de identidade étnico-cultural.étnicas. . para evidenciar.É no contexto deste mundo mestiço que devemos colocar a questão da identidade: o que é identidade e. nacionais etc . desde logo. o que é identidade sociocultural? Primeiramente. sexuais. a pluralidade e o dinamismo da identidade cultural. e. de brasileiros. Na identidade existe uma relação de igualdade que cimenta um grupo. essa identidade estaria articulada a uma identidade nacional. Como podemos articular a diversidade cultural com itinerários educativos que se direcionem para a eqüidade? Suponho que não existe condição de reconhecer a diferença se não se parte da aceitação da alteridade . que pode ser antagônica ou não. A cultura é dinâmica e no contato com outras culturas ela se transforma. determinada também historicamente. culturais. e não em "identidade cultural". índios e brancos. somos uma mistura de afroamericanos (negros). Na verdade. O diálogo é uma relação de unidade de contrários não-antagônicos. ao mesmo tempo. diferente. Porém. identidade é a resposta que damos à pergunta: quem somos nós? Em nosso caso. Hoje é quase impossível reconhecer uma cultura que não esteja em íntima interdependência com outras.e da igualdade. Só há diálogo e parceria quando a diferença não é antagônica. Idêntico é aquele que é perfeitamente igual. necessito conhecer o outro como parceiro.consciência do outro . em particular.

segundo ele. própria da escola. passando pela formação da consciência crítica. possibilidade de criar novos direitos e capacidade de defendêlos contra o autoritarismo.as elites dominantes. um vigoroso movimento em torno de um pensamento pedagógico autônomo. o seu fim e inaugurando. de tomada de consciência da realidade nacional para transformála e criar novas formas de relações sociais e políticas. Tratava-se do debate em torno da construção de uma identidade nacional baseada no desenvolvimento político. Daí Paulo Freire insistir na questão da "invasão cultural". mas mostra o quanto ela é insuficiente. é sinônimo de "conscientização". por Georges Snyders. comprometendo-se com os ideais de uma democracia radical. Significa consciência de direitos. cultura popular significa cultura da cidadania. Paulo Freire reintroduziu a reflexão sobre o social no pensamento educacional brasileiro. Freire estava anunciando. para Paulo Freire. dialeticamente. A cultura primeira promete . passava pela tomada de consciência da realidade nacional. articulando a primeira com a segunda. O pensamento de Paulo Freire tem suas raízes mais profundas no debate político-cultural brasileiro do final dos anos 50. Snyders não desvaloriza a cultura de massa. Denunciando essa "realidade nacional". ou seja.O tema da relação entre a diversidade cultural e os itinerários educativos já foi tratado por educadores como Paulo Freire e. A pedagogia de Georges Snyders pretende operar uma ruptura e uma continuidade entre a cultura primeira. mas também o lugar da alegria. entendida como o lugar do sistemático e do progressivo. Paulo Freire constrói a sua pedagogia . Enfim. Cultura popular. na França. entre nós.num itinerário que vai da cultura popular à cultura erudita e letrada. como é conhecido . segundo ele. Como Paulo Freire. da "dependência" e da "consciência alienada". ao contrário.o seu "método". a violência e o arbítrio. e a cultura elaborada. pensavam que se devia criar no Brasil uma "nova Europa" ou uma "nova América". Um projeto de emancipação e construção de uma nova nação brasileira passava pela assunção de suas características de nação latino-americana e terceiromundista . cuja modalidade mais evidente é a cultura de massa. Esse processo não poderia dar-se sem uma transformação na estrutura do ensino e da extensão da educação para todos. É interessante notar as semelhanças e diferenças na visão do mesmo problema por esses dois eminentes educadores. social e econômico que. Cada um a seu modo aponta para uma pedagogia com base no respeito à identidade cultural do educando.

fracassa na sua tarefa primeira que é despertar o desejo de aprender e desenvolver a capacidade de continuar aprendendo. a escola que negasse a cultura de massa estaria contribuindo para o fracasso escolar das crianças das camadas populares em face das crianças das elites. A sua grande força está no fato de ela nos unir instantaneamente a todo o mundo. o outro acaba falando por mim. embora de forma fugaz. É o caso. Pode até destruir sua identidade por uma espécie de "esquecimento" ou rejeição da cultura primeira. no livro A instituição imaginária da sociedade (1982). nem brasileiros. A cultura elaborada não necessariamente representa algo superior para as necessidades vitais de todos os indivíduos. Acabam não sendo nem índios nem brancos. Ela necessita de um prolongamento na cultura elaborada.é criar escolas bilíngües. A cultura elaborada pode. Já existem 600 dessas escolas no Brasil. os costumes. Por isso. Ela pode representar a alienação pura. O imediato. do drama que hoje enfrentam algumas comunidades indígenas no Brasil. o como se chegou a esse produto. na forma como é veiculada. na expressão do filósofo grego. a cultura de massa. as crenças e as tradições das comunidades indígenas. a cultura primeira. se quiser respeitar a identidade cultural das crianças populares. o que estamos fazendo hoje . atingir a satisfação prometida pela cultura primeira. . deve ser um apelo em direção ao elaborado. Cornelius Castoriadis. como diz Georges Snyders no livro A alegria na escola (1988). mas cumpre pouco. as línguas. retira o que há de melhor. A escola dos brancos pode destruir a identidade indígena. A escola precisa fazer a síntese entre continuidade e ruptura em relação à cultura de massa. na cultura popular e a devolve ao povo sob a forma de receitas e preceitos. A cultura do nosso tempo é a cultura de massa. É uma cultura que apresenta o produto. nem ocidentais. Hospedado dentro de mim. mas não mostra o processo. A escola que tira a criança desse ambiente de bombardeamento constante dos meios de comunicação de massa e a transporta para um local enfadonho .muito.que não utiliza a sua linguagem e não satisfaz os seus desejos . a cultura. o "discurso do outro". Sendo o contato com o branco inevitável. Apesar disso. Porém. é uma cultura de consumo. Depende do contexto histórico em que eles vivem. de original. naturalizado francês. por exemplo. Elas têm por objetivo preservar e fortalecer a organização social.como fizemos em São Paulo na única aldeia guarani existente na capital . melhor que a cultura primeira.

aplicar a investigação temática. Dizíamos que o respeito à diferença era uma idéia muito cara à educação popular. na maioria das vezes. como pensávamos nos anos 60. Ela é uma riqueza da humanidade e base de uma filosofia do diálogo. Há uma outra fonte "mais qualificada": o saber do trabalhador se constrói e se desenvolve no trabalho. Hoje temos mais clareza desse princípio quando as teorias da educação multicultural enfatizam ainda mais a necessidade de os educadores atentarem para as diferenças étnicas. mas é também. É um saber primeiro. num ato pedagógico essencial na construção da educação do futuro. É sobretudo um saber "em ato". isto é. como se costuma dizer na França. de classe e de gênero.Mas os meios de comunicação de massa não são a única fonte do saber dos "menos qualificados". a tematização e a problematização no seu trabalho pedagógico? • O que se quer dizer quando se afirma que o professor perdeu a sua identidade? • Como você vê a influência da cultura de massa na escola? . para nós. • Descubra na sua prática dificuldades para o exercício de uma ética da diversidade. que uma educação não autoritária deveria respeitar o aluno. muitas vezes. extremamente elaborado. isto é. se o seu saber não puder interferir na concepção e na tomada de decisão. Por isso os trabalhadores não têm interesse em desenvolver o seu saber se ele não for reconhecido como poder. se reduz à esfera da pura execução do trabalho. culturais. Questões para debate • Localize no texto as propostas práticas para a construção de uma escola cidadã. Os anos 90 caracterizam-se por um pensamento pós-marxista e pós-moderno. no ato de produção. • Qual a diferença entre pluralismo e ecletismo? • Como o professor pode. que se exprime pela oralidade e. nas diversas disciplinas. o questionamento das teses socialistas ortodoxas e burocráticas e a afirmação da subjetividade que se expressa por meio de movimentos sociais de índole distinta. Afirmá-la novamente se constitui. mais preocupados com questões imediatas do que com uma utopia distante. por exemplo. Hoje percebemos com mais clareza que a diferença não deve ser apenas respeitada. Nós dizíamos.

. clima escolar. 3. CARVALHO. MEC/Unicef/Cenpec. São Paulo. Belo Horizonte (MG). ago 1989. Quanto ao projeto político da escola. junto com seu isolamento. Aponta o isolamento como o principal impedimento do sistema público de ensino em relação aos movimentos organizados. da vida dos alunos e da história de lutas que precede a conquista da escola. CENPEC. tecnologia e educação. ed. Dom Inocêncio (PI).BIBLIOGRAFIA COMENTADA ALVES. os atores escolares e.. A ignorância a respeito do bairro. a quem transmite e a favor de quem será apropriado e aplicado. Jaguaré (ES). Iguatu (CE). 65-73. n. 1993. O autor chama a atenção para a necessidade da construção crítica e pessoal de um saber que pensa a escola enquanto realidade organizacional socialmente construída. caminharia em direção ao conflito aberto expresso em movimentos coletivos e em violência individual contra o prédio escolar e profissionais da escola. 55 p. gestão e projecto educativo das escolas. liderança. relações da escola pública com os contextos com o Estado. e analisa. São José da Varginha (MG). projeto educativo. funções. Lisboa. estruturas. 1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos). In: Cadernos de Pesquisa. algumas questões ligadas à gestão escolar. estuda as suas finalidades. Aborda as dificuldades e impedimentos à participação popular na escola.) A participação popular pressuporia e impulsionaria a quebra da divisão rígida entre quem é educador e quem aprende. sinteticamente. Marília Pinto de. Registra experiências educacionais de 15 municípios de pequeno. Edições Asam.(. médio e grande porte localizados em nove Estados brasileiros: Icapuí (CE). Vitória . Jaboatão (PE). finalmente. José Matias. Organização. Brasília. 70.. O livro apresenta a escola como uma organização específica de educação formal. os movimentos populares deveriam forçar o questionamento do conhecimento que a escola transmite. São Raimundo Nonato (PI). Um invisível cordão de isolamento: escola e participação popular. tais como: participação. às expectativas e mesmo à vida cotidiana da população à qual atende. A democratização do ensino em quinze municípios brasileiros: documento síntese. pp.

250). ora a comunidade influencia os destinos da escola. fazendo surgir o sujeito coletivo. Gestão. Porto Alegre (RS). Conclui que a construção de uma escola democrática e de uma sociedade democrática são processos que se desenrolariam ao mesmo tempo e que a gestão democrática possibilitaria desmontar relações de mando e submissão. Relacionada ao surgimento da vida em cidades. capacidade de organização escolar e gestão pedagógica voltadas para a melhoria da qualidade de ensino. moradia. São Paulo. 1991 (Coleção Primeiros Passos. que decide. porque os representantes escolhidos podem defender interesses parciais e posições autoritárias. Este livro mostra como esse direito precisa ser construído coletivamente. Ijuí (RS). Maria de Lourdes Manzini. A maneira mais comum de assegurar a participação de todos os interessados é a instalação de um Conselho Escolar. tanto na luta pelo atendimento de necessidades básicas (alimentação. Cortez. a cidadania significa. Brasiliense. São Paulo. O que é cidadania. . v. Maringá (PR). Ao longo do processo de participação.(ES). Pedro. Compromisso de todos. dentro da coleção Qualidade para todos: o caminho de cada escola. saúde. estabelecem-se situações de aprendizagem de mão dupla: ora a escola estende sua função pedagógica para fora. Participação é conquista: noções de política social participante. O Conselho garante decisões coletivas. Esses municípios possuíam modelos diferenciados de gestão do sistema escolar. Marechal Cândido Rondon (PR). A realização da gestão democrática significaria encontrar caminhos para atender às expectativas da sociedade a respeito da atuação da escola. o livro sistematiza algumas idéias em torno dele: canais de participação. traz as principais conclusões a respeito da gestão democrática nas experiências analisadas nesta coletânea. 1994. Muitas administrações municipais e estaduais já implantaram conselhos ou órgãos colegiados de gestão e sua estrutura tem variado nos diferentes municípios e Estados. São Paulo. (Thereza Pegoraro) COVRE. Conchas (SP). em última instância. Resende (RJ). estabelecer relações mais flexíveis e menos autoritárias entre educadores e clientela escolar. interação com o meio social. . 32 p. mas sua mera instalação não garante decisões democráticas. o direito à vida no sentido pleno. educação) quanto num plano mais abrangente. Além de abordar historicamente o tema da participação. 1988. D E M O . Caderno elaborado pelo CENPEC. que envolve a discussão sobre o papel do próprio homem no Universo. age e pode atuar na transformação social.

cultura participativa e seus principais objetivos (autopromoção, realização da cidadania, controle de poder, controle da burocracia, negociação e cultura democrática). Apresenta ainda seus principais riscos, obstáculos e desafios e questões relacionadas à representação, à identidade cultural e ao assistencialismo. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 1997. Utilizando uma linguagem acessível e didática, o autor reflete sobre os saberes necessários à prática educativo-crítica, fundamentados n u m a ética pedagógica e numa visão de m u n d o alicerçadas na rigorosidade, pesquisa, criticidade, risco, humildade, bom senso, t o l e r â n c i a , alegria, c u r i o s i d a d e , c o m p e t ê n c i a , g e n e r o s i d a d e , disponibilidade... "molhadas" pela esperança. A autonomia faz parte da própria natureza educativa. Sem ela não há educação, não há ensino, nem aprendizagem. G A D O T T I , Moacir. Diversidade cultural e educação para todos. Rio de Janeiro, Graal, 1992. Este livro aborda a relação entre identidade cultural e itinerário educativo, a concepção multicultural e monocultural do currículo e o papel da escola. Discute ainda a retomada da luta pela descentralização da educação e o papel crescente das Organizações Não-Governamentais (ONGs) no redirecionamento das políticas públicas em educação. Escola cidadã. São Paulo: C o r t e z , 1993. 78 p. Trata da questão da autonomia da escola pública. Nos três primeiros capítulos, faz uma análise conceituai geral de autonomia e relata uma experiência vivida pelo autor. Estabelece, então, um quadro da situação da educação brasileira relativo à problemática da autonomia da escola pública, fazendo um paralelo com as recentes reformas educacionais européias. Acredita que a transformação da escola pública em unidade de despesa, proporcionando-lhe recursos orçamentários, poderia melhorar sua situação desde que estivesse vinculada à participação e à democratização do sistema de ensino. G A R C I A , Walter. Administração educacional em crise. São Paulo, Cortez: Autores Associados, 1991 (Coleção Polêmicas do N o s s o T e m p o ; v. 46). A temática dos textos reunidos neste livro é a crise educacional que vem se agravando ao longo dos últimos anos. A crise está alicerçada em causas estruturais profundas, em que avultam a dívida externa e a insensibilidade histórica das elites nacionais, pouco preocupadas com o que se passa além de seus interesses meramente imediatistas.

MARÉS, Carlos. Eleição de diretores e democracia na escola. Revista ANDE, São Paulo, v. 3, n. 6, pp. 49-50, 1983.
Acreditando que a discussão da democracia na sociedade remete ao tema da democracia na escola, o autor afirma que, ao descer à prática, o tema perdeu a magnitude de sua essência, restando apenas os aspectos de sua forma. Para o autor, essa discussão deveria perceber o local social da escola na sociedade pluralista e heterogênea, sem buscar uma homogeneidade castradora e impositiva. A escola precisaria ser democrática, mas a implementação dessa política democrática deveria ser assumida pelo Estado com base na realidade escolar. Segundo o autor, atualmente diretores servem apenas como intermediários na implantação de uma política que não ajudaram a elaborar. A escolha da direção faz-se apenas com relação ao plano administrativo. Podem ser encontrados quatro tipos de escolha para a direção: a) diretor de carreira; b) concurso público; c) livre indicação; d) eleições. A defesa da eleição como forma de escolha dos diretores das escolas pressupõe a criação de uma regulamentação, além do que deve servir como meio para que o povo participe da gestão da coisa pública.

MIRANDA, Glaura Vasques de. A questão da autonomia da escola. Educação em Revista, Belo Horizonte, n. 9, pp. 59-61, jul. 1989.
Aponta, como uma das questões de importância para o desenvolvimento de um projeto pedagógico de melhor qualidade, a relação deste com a questão da autonomia da escola. Um maior grau de autonomia possibilitaria qualidade com gestão democrática. A esse projeto liga-se a idéia de recuperação da dignidade da escola pública, perdida em razão de práticas excessivamente centralizadoras do Estado. A autora enumera e analisa as condições básicas para que se garanta a realização de um projeto de gestão democrática na escola.

NOGUEIRA, Madza Julita. Todos pela educação no município: um desafio para cidadãos. Brasília, Unicef/Cecip, 1993. 133 p.
Aborda de maneira didática os direitos educacionais consagrados nas leis e destaca a participação popular como elemento fundamental para a expansão do ensino público ocorrida até os dias de hoje. Ressalta a importância dessa participação como instrumento de intervenção nas políticas educacionais dos municípios, na tomada de decisões. O livro conta com a colaboração de pessoas que estão envolvidas com esses mecanismos de gestão e participação popular, tornando mais acessíveis informações como a maneira de participar, quem pode fazê-lo, através de quais mecanismos. Mostra a possibilidade de participar da direção e gestão da unidade escolar, bem como do governo municipal, onde a população será

co-responsável pelas decisões sobre as políticas públicas para a educação, exigindo que estas se cumpram. Prossegue, dessa forma, esclarecendo como os cidadãos podem controlar e fiscalizar a aplicação de recursos públicos.

PARO, Vítor Henrique. Eleição de diretores - a escola básica experimenta a democracia. Campinas, Papirus, 1996.
Hoje, a eleição de diretor de escola é uma realidade em várias redes de ensino público no Brasil. Este livro analisa as características e os problemas da institucionalização e da implementação dessa experiência, bem como capta seus efeitos sobre a democratização da gestão escolar e sobre a qualidade e a quantidade da oferta de ensino.

. Gestão da escola pública: a participação da comunidade. In: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, n. 174, pp. 255-290, maio-ago. 1992.
Baseado em estudo de caso de cunho etnográfico realizado em escola estadual de ensino fundamental na cidade de São Paulo, com o objetivo de identificar os obstáculos e as potencialidades da participação do usuário na gestão da escola pública. Discute os determinantes imediatos dessa participação, presentes tanto no interior da escola quanto na comunidade por ela servida. Entre os primeiros destacam-se os condicionantes materiais, os institucionais, os político-sociais e os ideológicos. Entre os últimos encontram-se as condições objetivas de vida, bem como os condicionantes culturais e institucionais.

RIBEIRO, Vera Masagão (Org.). Participação popular e escola pública. São Paulo, Cedi, 1989. O novo conselho de escola, pp. 25-34 (Cadernos do Cedi, 19).
Avalia as contribuições que a implantação dos Conselhos de Escola deliberativos trouxe para uma efetiva participação popular na escola. O desconhecimento da maioria sobre as atribuições do Conselho é, segundo a autora, o principal índice de sua quase nenhuma efetividade. A autora apresenta uma síntese sobre as modificações das funções dos Conselhos de Escola e as respectivas leis que regulamentaram a passagem do caráter consultivo para deliberativo e da ampliação da representação dos segmentos escolares no decorrer do tempo. O artigo polemiza algumas questões como a natureza paritária do Conselho. Para a autora, normalmente o diretor aparece para a população como o grande obstáculo à sua participação na escola. R O M Ã O , J o s é E u s t á q u i o . Poder local e educação. São P a u l o , C o r t e z , 1992. Este livro aborda as diversas concepções de descentralização e a questão da municipalização do ensino no Brasil. Apresenta o poder político local,

não há gestão democrática ao lado de estruturas administrativas . SPOSITO. A construção do conhecimento no campo da gestão da educação na América Latina é o tema central dos cinco ensaios deste livro. o leitor encontrará: como uma escola pode conquistar sua autonomia. Autores Associados. Campinas. Jair Militão da. 1995 (Coleção E d u c a ç ã o C o n t e m p o r â n e a ) . ainda. é sugerida com insistência a autonomia da escola. A gestão democrática no âmbito escolar apresentaria incompatibilidade entre os modelos burocráticos existentes no sistema escolar e as práticas democráticas pretendidas. q u e s t i o n a n d o a democratização de sua gestão com a participação dos pais. Porto Alegre. Este livro procura discuti-la. moradores. Nele. Analisa a democratização do ensino público. 52-56. única possibilidade real de autonomia da escola. Marília Pontes. Educação. descompromisso com o aluno. jan. relaciona gestão da educação com qualidade de vida e trata. movimentos populares e sindicais. Benno. v. p p . Além de passar pelo curso da história do pensamento administrativo na educação latino-americana. Papirus. n. burocracia. os textos constituem uma referência da produção intelectual do autor e um registro seletivo do debate político-pedagógico dos anos 80 e 90 na América Latina.subdividindo-o em poder popular e poder elitista. E d u c a ç ã o e Realidade. Após examinar estudos preexistentes. que condições deve apresentar um sistema escolar que busque a autonomia de suas escolas. mostra o papel dos conselhos municipais de educação e apresenta um estudo de caso de resistência comunitária à nucleação de escolas unidocentes no meio rural. SANDER. examinada no contexto internacional. o autor alerta para o que chama de esquecimento do sujeito e apresenta uma proposta de pedagogia do sujeito coletivo como fator de re-humanização da escola pública./jun. evasão. 1990. 1996. Gestão da educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. Dessa forma. gestão democrática e participação popular. No seu conjunto. Já são bastante conhecidas as críticas dirigidas à escola pública: repetência. da gestão democrática e qualidade de educação de acordo com os novos desafios da administração pública e da gestão da educação para todos. SILVA. Sander analisa quatro construções de administração da educação. A autonomia da escola pública. 15. que tipo de relações devem ser estabelecidas entre uma escola autônoma e o sistema escolar. C a m p i n a s . 1. Faz um balanço da participação dos municípios na educação brasileira. Para superar tal situação.

. pois não há canal democrático de gestão que possa ser viabilizado sem uma profunda alteração administrativa das estruturas de organismos ligados à educação. Analisa o problema da gestão da escola fundamental centrado na figura do diretor. A estrutura administrativa da escola. 1990. esse conjunto de fatores acaba por transformar a educação mantida pelo Estado num grande terreno onde prevalecem interesses pessoais. 170 p. pp. Rio de Janeiro. Redefinindo a participação popular na escola. vol. São Paulo. famílias e moradores na gestão escolar e conclui que a gestão democrática poderia oferecer uma alternativa concreta de melhoria da educação brasileira. Gestão da escola fundamental: subsídios para análise e sugestão de aperfeiçoamento. formas tradicionais de dominação política e concepções privadas de uma atividade que deveria ser essencialmente pública". A autora defende que não haveria possibilidade de democratização sem a transformação da prática profissional do educador. In: Cadernos do Cedi.burocratizadas. Unesco/MEC/ Cortez. uma enraizada mentalidade privatista da coisa pública. Gestão democrática. a nomeação dos cargos de confiança nas instâncias intermediárias ou superiores apoiada em relações tacanhas de clientelismo político. que dela toma posse. sem a real participação dos pais. centralizadas e verticalizadas. é no sistema de ensino que encontramos com maior profundidade. a falta de autonomia para a elaboração e execução de projetos pedagógicos no âmbito da unidade escolar. dando subsídios para ajudá-lo a administrar bem em um ambiente democrático sem. determinada e articulada em grande parte a partir das orientações do diretor. pp. a obtenção do consenso pelo servilismo ou pela troca de favores. a escola brasileira não é necessariamente pública. 19. A professora da Universidade de São Paulo Marília Sposito afirma neste artigo que "apesar de gerida e mantida pelo aparato estatal. Trata da questão da autonomia das escolas e das implicações dessa transferência . 251. VALERIEN. deixar de perceber os outros elementos constituintes e participar deste universo escolar. 12. 64. . In Tempo e Presença. possibilitando aos setores tradicionalmente marginalizados acesso aos serviços educacionais e a melhoria da qualidade do ensino oferecido. 1993. 18-20. São Paulo. n. Trata da luta pela gestão democrática na escola como uma das maneiras de nortear procedimentos do sistema educativo. pelo caráter clientelista da burocracia escolar. contudo. enfim. mai/jun. jan. Pelo contrário. porém não isoladamente. n. 1989. Jean.

autonomia. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. Apresenta e analisa os vários níveis de um planejamento. São Paulo. VEIGA. Ao mesmo tempo em que apresenta pontos de reflexão importantes para a conceituação e análise da gestão democrática autônoma da escola. Os textos estão organizados em torno de temas como: construção coletiva. de um plano de ensino-aprendizagem e de um projeto educativo. Cadernos de Pesquisa. 1). Divergências. o texto traça paralelo com as "vantagens" da centralização das decisões. Através de um processo permanente de reflexão e de discussão dos problemas da escola. relações ensino-aprendizagem. Trata da relação entre o Movimento Estadual Pró-Educação (Mepe). 39-47. constituído de mães de alunos e professores das escolas estaduais de São . a construção de um processo democrático de decisões que vise eliminar as relações competitivas. procuram alternativas viáveis à efetivação de seu objetivo. Quanto à gestão da escola.elementos metodológicos para elaboração e realização. dirigentes educacionais e demais profissionais da educação. 86. Cláudia Pereira. contribuindo para a realização de diagnósticos escolares e para a compreensão do planejamento como instrumento da praxis pedagógica. gestão na escola. Libertad. Os autores desta coletânea buscam a organização do trabalho pedagógico por meio da constituição de um projeto político e pedagógico. n. a saber. relações de poder. 1996.. rompendo com a rotina burocrática no interior da escola. Celso dos S. 1993. mas sim que deve propor e solicitar a colaboração dos outros envolvidos no projeto da escola. princípios básicos de planejamento participativo. São Paulo. O autor escreve para professores. ed. Este é um livro sobre o planejamento da educação. corporativas e autoritárias. explica que o diretor não deve ser o único a decidir. Papirus. Uma Passos (Org. mas não antagonismos: mães e professoras das escolas públicas. São Paulo. VIANNA.de responsabilidades no contexto da democratização da gestão escolar. (Thereza Pegoraro) VASCONCELLOS. ago. v. Projeto Político da Escola: uma construção possível. 2. cujo fio condutor é a defesa do fortalecimento das relações entre escola e sistema de ensino. Planejamento: plano de ensinoaprendizagem e projeto educativo . antropológicos e epistemológicos da educação e os contextos em que é realizada.). oferecendo instrumentos e elementos metodológicos e processuais que poderão favorecer uma ação pedagógica que leve em conta os fundamentos históricos. organização dos educadores e o debate fundamental sobre as questões referentes à qualidade de ensino para todos. pp.

envolvendo atividade conjunta da escola. (Thereza Pegoraro) VIANNA. sintetiza e relata o trabalho pedagógico efetivado em uma escola de ensino fundamental do Estado de São Paulo que se propôs a desenvolver o trabalho pedagógico a partir de um planejamento participativo. bem como as perspectivas que se abrem para a melhoria da qualidade do ensino. Procurou transformar a escola em centro polivalente. O volume nº 147 apresenta doze experiências de novas formas de organização e gestão educacional em diferentes regiões . Essa proposta é desafiadora. n. a ingerência da hierarquia burocrática do sistema. SOBRINHO. Guiomar Namo de. 1986. gerador de mudanças em todos os aspectos. SILVA. além do imediatismo que caracteriza o povo brasileiro. Tem a preocupação com um processo educativo centrado no aluno e sua realidade pessoal e contextual. Planejamento participativo na escola: um desafio ao educador.). 1995. Nesse sentido. A autora analisa o apoio das mães às reivindicações do professorado e mostra as tensões que ocorreram no processo. um ambiente de idéias inovadoras e veículo de dignificação do homem. Rose Neubauer da. MELLO. 147). na medida em que tem de vencer entraves como a descrença das pessoas para sua efetivação.experiências inovadoras. a dificuldade de integração com os demais níveis e grupos da própria comunidade. família e comunidade um verdadeiro trabalho integrado. Brasília (Série Ipea. comunitário e político. família e comunidade. Conclui que a luta pela melhoria da qualidade de ensino adquirirá força quando professoras e mães explicitarem os valores e critérios que as distinguem. Antônio Carlos da Ressurreição.Paulo. pois algumas professoras eram também mães de alunos. geralmente direcionada pelos poderes públicos. (Thereza Pegoraro) XAVIER. Entre esses riscos. tem desenvolvido estudos e pesquisas com o objetivo de identificar as mudanças ocorridas nos últimos anos na concepção e gestão das unidades escolares. figura a manipulação do trabalho pela assessoria especializada e a pseudoparticipação da comunidade. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) vem acompanhando as inovações na gestão do sistema educacional e escolar. estabelecendo entre professores. Ilca Oliveira Almeida. convivendo com as diferenças e conflitos que isso implica. EPU. São Paulo. mas de suas decisões. que se efetive como uma tarefa contínua e política. A condição de mulher foi um primeiro fator de aproximação de mães e professoras. acompanhamento e controle. Gestão educacional . José Amaral (Orgs. segundo a autora. em que a comunidade participe não só de execuções de ações. Fundamenta.

. Analisa as inovações que estão ocorrendo na gestão da Educação em Estados e municípios selecionados. José Amaral. MARRA. 145). . analisa as experiências de avaliação do contexto da melhoria dos processos e da qualidade do ensino. Gestão escolar: desafios e tendências. e.do país. bem como identifica o que qualifica a escola. Duas delas têm como objeto sistemas estaduais e dez se voltam para sistemas de ensino no nível municipal. as mudanças que a ampliação do processo de decisão da escola trouxe para seu perfil e funcionamento. 1994. por fim. em escolas públicas e privadas. Fátima e SOBRINHO. com a "gestão da qualidade total". as experiências que vêm sendo realizadas no País.). Brasília (Série Ipea. (Orgs. Este volume discute os novos desafios impostos à gestão escolar num mundo caracterizado por rupturas contínuas e aceleradas de paradigmas. n.