SALTO PARA O FUTURO

Construindo a Escola Cidadã
Projeto político-pedagógico

Brasília, 1998

Presidente da República Federativa do Brasil Fernando Henrique Cardoso Ministro da Educação e do Desporto Paulo Renato Souza Secretário de Educação a Distância Pedro Paulo Poppovic

SERIE DE ESTUDOS / EDUCAÇÃO A DISTANCIA
SALTO PARA O FUTURO / CONSTRUINDO A ESCOLA CIDADÃ PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO

Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto - Acerp Diretor-Presidente Mauro Garcia Gerente de Educação Yonne Polli Secretaria de Educação a Distância / MEC Coordenação editorial Cícero Silva Júnior

Ministério da Educação e do Desporto

SERIE DE ESTUDOS EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA SALTO PARA O FUTURO Construindo a Escola Cidadã Projeto político-pedagógico MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA .

Secretaria de Educação a Distância. 96 p. II.mec. . v. Ministério da Educação e do Desporto.Perspectivas da educação a distância. Brasil. Anexo 1. Educação a Distância.1178 / e-mail: seed@seed.br Outros títulos da Série de Estudos /Educação a Distância publicados pela Secretaria de Educação a Distância / MEC: TV da Escola • América Latina . Sala 314 Caixa Postal 9 6 5 9 .Acerp.43 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Esplanada dos Ministérios. ISSN 1516-2079. Série. I. DF fax: (061) 321. CDU 37. volumes 1 e 2 .gov. 1998 Edição ESTAÇÃO DAS MÍDIAS Edição de texto: Luci Ayala Edição de arte: Rabiscos Ilustração da capa: Sandra Kaffka Revisão: Márcio Guimarães de Araújo Impressão: Coronário Editora Gráfica Tiragem: 110 mil exemplares ISSN 1516-2079 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Salto para o Futuro: Construindo a escola cidadã.Copyright © Ministério da Educação e do Desporto . Ensino a distância.(Série de Estudos.018. projeto político-pedagógico/ Secretaria de Educação a Distância. SEED. 1997 • TV e Informática na Educação Educação do olhar. 1998. Seminário de Brasília. Bloco L.C E P 70001-970-Brasília.5) 1. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto.MEC Direitos cedidos para esta edição pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto .

a Seed publica aqui uma versão resumida dos textos originalmente utilizados como literatura de apoio à série. É um amplo trabalho de construção. Com tais dispositivos. as diretrizes dos Estados e municípios e capazes. Pedro Paulo Poppovic Secretário de Educação a Distância . Assim. ao mesmo tempo. contribuir para a discussão acerca da construção democrática do projeto pedagógico da escola. que exige competência técnico-pedagógica e clareza quanto ao compromisso ético-profissional de educar o cidadão deste novo tempo.Acerp. a Secretaria de Educação a Distância . de levar em consideração a realidade específica de cada instituição de ensino. Atenta ao cenário educacional.394.Seed veiculou pela TV Escola. a LDB diz que a elaboração da proposta pedagógica contará com a participação dos profissionais da Educação. prevê que os estabelecimentos de ensino . Em outras palavras. com isso. Considerando o sucesso da iniciativa e a atualidade do tema. com a parceria do Instituto Paulo Freire. no programa Salto para o Futuro. promulgada em 20 de dezembro de 1996. que deverão ainda definir e cumprir plano de trabalho para concretizá-la. a série Construindo a escola cidadã: projeto políticopedagógico. E espera. a lei quis dar realce ao papel da escola e dos educadores na construção de projetos educacionais articulados com as políticas nacionais. Nos artigos 13 e 14. cada proposta ou projeto pedagógico retrata a identidade da escola.A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. realizada pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto .respeitadas as normas comuns e as de seu sistema de ensino .terão a incumbência de elaborar e executar sua proposta pedagógica (artigo 12). nº 9. o projeto pedagógico é a própria escola cidadã.

..SUMÁRIO PROPOSTA PEDAGÓGICA 09 PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ 15 ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE 23 CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO 31 CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ . MUITAS CULTURAS 79 BIBLIOGRAFIA COMENTADA 87 . 43 PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA 53 DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA 67 ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA.

é condição essencial.tem acesso às informações e lhe é garantido o direito de participar das decisões.na qual se incluem professoras e professores. a participação de todos e. por conseguinte. pode levar .PROPOSTA PEDAGÓGICA Quando a comunidade escolar . Justificativa Para que a escola possa construir o seu projeto políticopedagógico. Objetiva-se levar até eles não só o resultado de experiências acumuladas por Estados e municípios brasileiros. mas principalmente estimulá-los para a pesquisa e a reflexão interativa sobre suas práticas e as práticas de outros. Objetiva-se também incentivá-los ao exercício de uma ação pedagógica condizente com as necessidades e exigências educacionais colocadas por seus contextos específicos. E justamente a partir de estudos e pesquisas desenvolvidos em torno dessa temática que o Instituto Paulo Freire pretende contribuir para o aperfeiçoamento dos docentes da educação básica e dos alunos dos cursos de formação de professores. ela tem condições de compreender melhor o funcionamento da escola e de se organizar para assegurar que os interesses da maioria sejam atendidos. E uma das maneiras de fazer funcionar a escola e de organizá-la com vistas à melhoria da qualidade do ensino é justamente a elaboração democrática e coletiva de seu projeto político-pedagógico. futuras e futuros docentes. e que o tempo e a história que construímos nos impõem diariamente. de seus docentes. a quem se destina este projeto . em especial. Isso contribui para a democratização das relações de poder no âmbito escolar e.

que. Sem apostarmos em novos processos educativos. fator imprescindível: o espaço em que os diferentes segmentos escolares decidirão sobre a organização do trabalho na escola. nesse sentido. não apenas o diretor de escola ou os órgãos superiores da Educação estarão definindo o que é prioritário para a unidade escolar. A educação básica de qualidade para todos é uma das condições fundamentais para acabar com a miséria. O Instituto Paulo Freire vem desenvolvendo estudos e pesquisas . especialmente. em algumas décadas. Além dos aspectos já mencionados. outros bastante polêmicos. A organização do Conselho de Escola ou Colegiado Escolar torna-se. fazem parte da série de temas ligados à questão do projeto político-pedagógico da escola. Nossas desigualdades sociais não serão superadas apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias. possam construir conhecimentos. consideramos que a escola deve formar para a cidadania ativa e para o desenvolvimento. para que. deu um salto para o Primeiro Mundo graças a investimentos massivos na Educação. que não podem ficar fora da agenda dos atuais e futuros professores: eleição de diretores. por exemplo. em novas metodologias de ensino e na formação daqueles que são e serão os educadores das atuais e futuras gerações. das concepções construtivista-interacionista e histórico-social. Hoje é necessário investirmos na formação continuada de professores e. Assim. Será preciso preparar os jovens para o trabalho. na formação consistente dos futuros profissionais da Educação. A educação é condição sine qua non para o desenvolvimento autosustentado do País. como ficou demonstrado por países como a Coréia do Sul. autonomia da escola e participação da comunidade na gestão escolar. realizar pesquisas e desenvolver suas práticas pedagógicas a partir de um diálogo sempre aberto às novas metodologias e concepções educacionais. Com base em tais perspectivas educacionais e de acordo com o Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. à luz. a curto e médio prazos. Todos os segmentos escolares adquirem papel fundamental no processo decisório.os usuários à intervenção no próprio sistema de ensino. não teremos condições de reverter o processo de deterioração do ensino básico. Ela pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e para isso deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional. da organização do trabalho na escola e da gestão democrática da escola pública.

estão: • capacitação de todos os segmentos escolares.). terão a incumbência. e prestar contas e divulgar informações referentes ao uso de recursos e à qualidade dos serviços prestados". Considera que o projeto político-pedagógico da escola é uma tarefa dela mesma. A partir desses parâmetros. • consulta permanente à comunidade escolar. oportunamente. o Instituto Paulo Freire oferece sua contribuição e busca opções para superar o desafio colocado... criando processos de integração da sociedade com a escola (.nessa direção. de motivações..). um processo que se constrói constantemente e se orienta com intencionalidade explícita. Objetivos Este projeto surge como um instrumento de construção e de reconstrução permanentes de um projeto de sociedade que . prevendo a participação dos profissionais da Educação na elaboração do projeto pedagógico da escola e das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes.. de elaborar e executar sua proposta pedagógica (. respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino. de formação de convicções. porque é prática educativa. analisando experiências acumuladas nos diversos municípios e Estados brasileiros. constituir conselhos escolares com representação da comunidade (. • agilização das informações e transparência nas negociações no âmbito da escola e fora dela. determina que "os estabelecimentos de ensino. que a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n° 9. sancionada no dia 20 de dezembro de 1996.. • institucionalização da gestão democrática.. de valores e de desejos. A lei da Educação também estabelece que os sistemas de ensino "definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica. de acordo com as suas peculiaridades". Dentre os parâmetros aos quais nos referimos. Lembramos. inserida no mundo da vida. de afetos. Construílo significa ver e assumir a educação como processo de ensinoaprendizagem.394/96).). a partir das quais definimos alguns parâmetros para a elaboração do Projeto Político-Pedagógico da Escola e para a Gestão Democrática da Escola Pública. • lisura nos processos de definição da gestão democrática e do projeto político-pedagógico da escola. entre outras. articular-se com as famílias e a comunidade. de significações.

Ângela Antunes. • identificar o papel dos professores na definição das propostas e das estratégias de intervenção adequadas ao diagnóstico escolar e à elaboração do projeto político-pedagógico da escola. Vozes. 3. ed. 2. FONSECA. 1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos. Ângelo.acredita. Francisco João. no que se refere à construção do projeto pedagógico da escola e à valorização dos profissionais da Educação. DALMÁS.. • identificar e analisar terminologias e conceitos específicos que são empregados em relação ao projeto político-pedagógico da escola. Planejamento participativo na escola. João Pedro da. Participação e conquista. gestão e projecto educativo das escolas. IPF. • identificar os princípios de implementação da gestão escolar democrática.pedagógico da escola. 1988. 1996. BIBLIOGRAFIA ALVES. "planejamento socializado ascendente". • estudar e analisar a situação atual da educação brasileira a partir da aprovação da nova LDB. adaptando-a às exigências da elaboração do projeto político. escolha democrática de dirigentes escolares. . DEMO. São Paulo. Portugal. • desenvolver estudos integrados para conhecer e analisar os indicadores educacionais com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político pedagógico da escola. esclarecimentos e troca de experiências dos atuais e dos futuros docentes sobre conselhos de escola. Nesse sentido. 1995. Organização. ed. Petrópolis. Pedro. Edições ASA.) CISESKI. n. nos termos freireanos. ser possível a utopia educacional. • estudar a metodologia de diagnóstico educacional e escolar denominada Carta Escolar. Porto. NASCIMENTO. São Paulo. os objetivos gerais do presente projeto são: • desencadear um movimento para que as escolas construam ou avaliem os seus projetos político-pedagógicos.. • realizar estudos. José Matias. Cortez. Como organizar o Conselho de Escola. enfatizando a importância da gestão democrática e da organização do trabalho na escola. 5. • possibilitar o intercâmbio entre educadores e instituições escolares das diversas regiões do País para a construção de uma escola democrática e de qualidade técnico-política.

Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escolar. VASCONCELLOS. 79-112. São Paulo. MARQUES. Gestão da Educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. Jair Militão da. SANDER. ed. Educação popular na escola pública. 1996 (Colecção Cadernos Pedagógicos. 1989 (Tese de Doutorado). Paulo. ed. In: Revista da Faculdade de Educação. São Paulo. 1992. 1996. Libertad. 1996. Portugal. MEC-SEF. Cortez. Cortez. Planejamento educacional e organização do trabalho na escola: concepções do Plano Decenal de Educação para Todos. Petrópolis. n°. UFSC. 2. Feusp. 1994. São Paulo. 1991. IPF. Vozes. SANTOS. 21. Jair Militão da. Por que planejar? Como planejar? Currículo . FREIRE. Ilza Martins. São Paulo. 1993 (Coleção Questões da Nossa Época: v. VALE. PADILHA. Benno. Projeto da escola cidadã: a hora da sociedade. 1992. 1). Porto. PARO..elementos para elaboração e realização. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. . Planejamento: plano de ensino-aprendizagem e projeto educativo . Petrópolis. n° 1. v. 52 p. Mário Osório et ai. Edições ASA. 2. GADOTTI. Eleição de diretores: a escola pública experimenta a democracia. Escola cidadã. São Paulo. Cortez..Aula.SILVA. Campinas. José Eustáquio. Editora Autores Associados.Área . 9). Celso dos Santos. São Paulo. Cultura midiática no espaço escolar. SCHAEFER Maria Isabel Orofino. Poder local e Educação. Paz e Terra. São Paulo. 1996. Manuel Jacinto. pp. Maximiliano & SANTANNA. Vítor Henrique. 1994. O projeto pedagógico da escola. 24). 1996. Papirus. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. Feusp. Florianópolis. 1995 (Coleção Educação Contemporânea). Campinas. jan/jun. As escolas e as autonomias. 1995. MENEGOLLA. Moacir. & GADOTTI. ROMÃO. São Paulo. Ana Maria do. v. SILVA. Moacir. Planejamento educacional participativo. Brasília. Paulo Roberto.

de cada língua etc. cidadania e participação. autonomia e contra toda forma de uniformização.USP e diretor do Instituto Paulo Freire . Essa tipologia não desapareceu. Essa preocupação tem-se traduzido sobretudo pela reivindicação de um projeto político-pedagógico próprio. específico de cada escola. caracterizada pela globalização da economia. (Tanto mar) Chico Buarque PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ Moacir Gadotti Até muito recentemente. pá fiquei contente E ainda guardo. Nunca nossas escolas discutiram tanto autonomia. a questão da escola limitava-se a uma escolha entre ser tradicional e ser moderna. renitente um velho cravo para mim. Neste texto. mas não responde a todas as questões atuais da escola. cresce também o desejo de afirmação da singularidade de cada região. A multiculturalidade é a marca mais significativa do nosso tempo. pelo pluralismo político. Muito menos à questão do seu projeto.Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício Carlos Drummond de Andrade Foi bonita a festa. sobre seu papel como instituição numa sociedade pós-moderna e pós-industrial. pá mas certamente esqueceram uma semente nalgum canto de jardim. Nessa sociedade cresce a reivindicação pela participação. gostaríamos de tratar Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo . das comunicações. É um dos temas mais originais e marcantes do debate educacional brasileiro de hoje. pela emergência do poder local. da educação e da cultura. A crise de paradigmas também atinge a escola e ela se pergunta sobre si mesma. Já murcharam tua festa.

Ao contrário. da "qualidade total". Portanto. Diante disso. Por isso. Tornar-se instituinte. sempre um processo inconcluso. . Freqüentemente se confunde projeto com plano. Na escolha do diretor ou da diretora percebe-se já o quanto o seu projeto é político. que é a sua história. numa gestão democrática. o projeto pedagógico da escola está hoje inserido num cenário marcado pela diversidade. em particular. assim. em geral. um rumo. a partir dele.faz parte do seu projeto. A pluralidade de projetos pedagógicos faz parte da história da Educação da nossa época. Não se constrói um projeto sem uma direção política. o plano fica no campo do instituído. Um projeto necessita sempre rever o instituído para. Um projeto sempre confronta esse instituído com o instituinte. desaparece aquela arrogante pretensão de saber de antemão quais serão os resultados do projeto para todas as escolas de um sistema educacional. Não existem duas escolas iguais. O projeto pedagógico da escola é. o que se está elegendo é um projeto para a escola. nesse caso. A escola. Isso não significa que objetivos. todo projeto pedagógico da escola é também político. metas e procedimentos não sejam necessários. sublinhando a sua importância e seu significado. ao se eleger um diretor de escola. o conjunto de seus atores internos e externos e seu modo de vida. De quem é a responsabilidade da constituição do projeto da escola? O projeto da escola não é responsabilidade apenas de sua direção. Certamente o plano diretor da escola .como conjunto de objetivos. se dá a partir da escolha de um projeto político-pedagógico para a escola. escolhe primeiro um projeto e depois a pessoa que possa executá-lo. obstáculos e elementos facilitadores para a elaboração do projeto político-pedagógico. no cumprimento mais eficaz do instituído. de uma diretora. metas e procedimentos .deste assunto. ou melhor. Um projeto político-pedagógico não nega o instituído da escola. bem como as dificuldades. a direção é escolhida a partir do reconhecimento da competência e da liderança de alguém capaz de executar um projeto coletivo. pois. instituir outra coisa. a eleição de um diretor. Assim realizada. A arrogância do dono da verdade dá lugar à criatividade e ao diálogo. um norte. o conjunto dos seus currículos e dos seus métodos. Como vimos. Eles são insuficientes. Cada escola é resultado de um processo de desenvolvimento de suas próprias contradições. como defende o discurso em torno da "qualidade". mas não é todo o seu projeto. uma etapa em direção a uma finalidade que permanece como horizonte da escola.

os usuários da escola. A gestão democrática da escola é. E para ele se tornar sujeito da sua aprendizagem precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. e não apenas seus fiscalizadores ou meros receptores dos serviços educacionais. o seu ensino. O aluno aprende apenas quando se torna sujeito da sua aprendizagem. Ela exige. um conhecimento mútuo e. Sua presença precisa ser sentida no .não se limitam à mera declaração de princípios consignados em algum documento. em primeiro lugar. aproximará também as necessidades dos alunos dos conteúdos ensinados pelos professores. Mudança que implica deixar de lado o velho preconceito de que a escola pública é apenas um aparelho burocrático do Estado. que faz parte também do projeto de sua vida. pais. em conseqüência. uma escola sem autonomia .Por isso. isto é. A participação na gestão da escola proporcionará um melhor conhecimento do funcionamento da escola e de todos os seus atores. Propiciará um contato permanente entre professores e alunos. A gestão democrática da escola implica que a comunidade. não deve existir um padrão único que oriente a escolha do projeto de nossas escolas. uma mudança de mentalidade de todos os membros da comunidade escolar. professores e funcionários assumem sua parte de responsabilidade pelo projeto da escola. Na gestão democrática. portanto. A escola não tem um fim em si mesma. Passamos muito tempo na escola para sermos meros clientes dela.pressupostos do projeto políticopedagógico da escola .autonomia para estabelecer o seu projeto e autonomia para executá-lo e avaliá-lo. Ela está a serviço da comunidade. a gestão democrática da escola está prestando um serviço também à comunidade que a mantém. A autonomia e a participação . Há pelo menos duas razões que justificam a implantação de um processo de gestão democrática na escola pública: • a escola deve formar para a cidadania e. portanto. uma exigência de seu projeto político-pedagógico. e não uma conquista da comunidade. A gestão democrática da escola é um passo importante no aprendizado da democracia. alunos. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria natureza do ato pedagógico. • a gestão democrática pode melhorar o que é específico da escola. Não se entende. sejam seus dirigentes e gestores. A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico. Nisso. ela deve dar o exemplo. para isso.

A escola que precisa ser salva não merece ser salva. esportivas e recreativas. atitude e método. certamente. partindo da cara que tem. Pelo que foi dito até agora. no estabelecimento do calendário escolar. A atitude democrática é necessária. • no envolvimento das pessoas: a comunidade interna e externa à escola. A democracia também é um aprendizado. o projeto pedagógico da escola pode ser considerado como um momento importante de renovação da . atividades cívicas. Entre eles. isto é. na distribuição das aulas. no processo de elaboração ou de criação de novos cursos ou de novas disciplinas. atenção e trabalho. um projeto político-pedagógico da escola apóia-se: • no desenvolvimento de uma consciência crítica. • na autonomia.conselho de escola ou colegiado e também na escolha do livro didático. A gestão democrática é. na organização de eventos culturais. demanda tempo. A gestão democrática deve estar impregnada por uma certa atmosfera que se respira na escola. portanto. podemos citar: • nossa pouca experiência democrática. • a mentalidade que atribui aos técnicos e apenas a eles a capacidade de planejar e governar e que considera o povo incapaz de exercer o governo ou de participar de um planejamento coletivo em todas as suas fases. de efetivo exercício da democracia. Um projeto político-pedagógico constrói-se de forma interdisciplinar. • a própria estrutura vertical de nosso sistema educacional. responsabilidade e criatividade como processo e como produto do projeto. seu cotidiano e seu tempo-espaço. na circulação das informações. Existem. o contexto histórico em que ela se insere. na divisão do trabalho. na formação de grupos de trabalho. algumas limitações e obstáculos à instauração de um processo democrático como parte do projeto político-pedagógico da escola. • o tipo de liderança que tradicionalmente domina nossa atividade política no campo educacional. • o autoritarismo que impregnou nossa prática educacional. Precisamos de métodos democráticos. Não basta trocar de teoria como se ela pudesse salvar a escola. no planejamento do ensino. O projeto da escola depende da ousadia de seus agentes e de cada escola em se assumir como tal. • na participação e na cooperação das várias esferas de governo. na capacitação dos recursos humanos etc. mas não é suficiente. Não basta apenas assistir a reuniões. Enfim.

principalmente dos dirigentes . atravessar um período de instabilidade e buscar uma nova estabilidade em função da promessa que cada projeto contém de estado melhor do que o do presente. por isso. • controle. Nesse processo podem-se distinguir dois momentos: • o momento da concepção do projeto. que significa: vontade política. • adesão voluntária e consciente ao projeto: todos precisam estar envolvidos. • atmosfera. • tempo para amadurecer as idéias: só os projetos burocráticos são impostos e. acompanhamento e avaliação do projeto: um projeto que não pressupõe constante avaliação não consegue saber se seus objetivos estão sendo atingidos. • tempo escolar: o calendário da escola. pleno conhecimento de todos . Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscarse. o período no qual o projeto é elaborado. Projeto pressupõe uma ação intencionada com um sentido definido. Como elementos facilitadores do êxito de um projeto. • suporte institucional e financeiro. A noção de projeto implica sobretudo tempo: • tempo político: define a oportunidade política de um determinado projeto. explícito. sobre o que se quer inovar. Um projeto precisa ser discutido e isso leva tempo. Projetar significa "lançar-se para a frente". podemos destacar: • comunicação eficiente: um projeto deve ser factível e seu enunciado facilmente compreendido. comprometendo seus atores e autores. • tempo institucional: cada escola encontra-se num determinado tempo de sua história. Há um tempo para sedimentar idéias. revelam-se ineficientes a médio prazo. Todo projeto supõe rupturas com o presente e promessas para o futuro. O projeto que pode ser inovador para uma escola pode não ser para outra. A co-responsabilidade é um fator decisivo no êxito de um projeto. • o momento da institucionalização e implementação do projeto. ambiente favorável: não se deve desprezar um certo componente mágico-simbólico para o êxito de um . Um projeto educativo pode ser tomado como promessa ante determinadas rupturas.e recursos financeiros claramente definidos.escola. antever um faturo diferente do presente. é também decisivo para seu sucesso. As promessas tornam visíveis os campos de ação possíveis.

que é uma concepção plena de cidadania. como trabalho. como segurança e locomoção. • referencial teórico que facilite encontrar os principais conceitos e a estrutura do projeto. o pensamento e a prática dos "de cima" não se modificarão enquanto não existir pressão dos "de baixo". que consiste na mobilização da sociedade para a conquista dos direitos anteriormente . comprovada competência e legitimidade. Contudo. saúde. Deve ser um processo de recuperação da importância e da necessidade do planejamento na Educação. se os que as defendem não têm prestígio.projeto. • direitos políticos. Existem. educação. a progressista ou socialista democrática (o socialismo autoritário e burocrático não admite a democracia como valor universal e despreza a cidadania como valor progressista). diversas concepções de cidadania: a liberal. de participação em partidos políticos e sindicatos etc. como liberdade de expressão. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão estabelecia as primeiras normas para assegurar a liberdade individual e a propriedade. Em 1789. O conceito de cidadania. Não há cidadania sem democracia. A democracia fundamenta-se em três direitos: • direitos civis. o projeto pode ficar limitado. Existe hoje uma concepção consumista de cidadania (não ser enganado na compra de um bem de consumo) e uma concepção oposta. Tudo isso exige certamente uma educação para a cidadania. A implantação de um novo projeto político-pedagógico enfrentará sempre a descrença generalizada dos que pensam que de nada adianta projetar uma boa escola enquanto não houver vontade política dos "de cima". O que é educar para a cidadania? A resposta a essa pergunta depende da resposta à outra pergunta: "o que é cidadania?" Pode-se dizer que cidadania é essencialmente consciência de direitos e deveres no exercício da democracia. • credibilidade: as idéias podem ser boas. uma certa mística que cimente a todos os que se envolvem no design de um projeto. a neoliberal. salário justo. é um conceito ambíguo. • direitos sociais. habitação etc. de voto. Um projeto político-pedagógico da escola deve constituir-se num verdadeiro processo de conscientização e de formação cívica. no entanto. contudo. A falta desses elementos dificulta a elaboração e a implantação de um projeto novo para a escola. mas.

a escola cidadã surge como uma realização concreta dos ideais da escola pública popular. . a democratização das relações de poder dentro da escola. De minha experiência vivida nesses últimos anos. como uma alternativa nova e emergente. além da interação e da reciprocidade existentes entre as ciências. Aprendemos também nos fins de semana.mencionados. apresentei um decálogo no livro Escola cidadã. Concretamente. Essas categorias se constituem na base da nossa identidade nacional. ambas dependentes do Estado paternalista. ao lado de Paulo Freire. posso tirar algumas lições que me levam a acreditar nessa concepção/realização da educação. a visão interdisciplinar e transdisciplinar e a formação permanente dos educadores. A interdisciplinaridade refere-se à estreita relação que as disciplinas mantêm entre si. como diz Emilia Ferreiro. indo. Cidadania e autonomia são hoje duas categorias estratégicas de construção de uma sociedade melhor em torno das quais há freqüentemente consenso. Do movimento histórico-cultural a que nos referimos estão surgindo alguns eixos norteadores da escola cidadã: a integração entre educação e cultura. escola e comunidade (educação multicultural e comunitária). Movimentos semelhantes já ocorreram em outros países. tão desejada. foram a origem do importante movimento pelos direitos civis no País. As Citizenship Schools. de 1992. nas últimas duas décadas. o enfrentamento da questão da repetência e da avaliação. cujos princípios venho defendendo. colocando dentro das escolas americanas a educação para a cidadania e o respeito aos direitos sociais e humanos. que devem ser garantidos pelo Estado. O movimento atual da chamada escola cidadã está inserido nesse novo contexto histórico de busca de identidade nacional. Ela vem surgindo em numerosos municípios e já se mostra nas preocupações dos dirigentes educacionais em diversos Estados brasileiros. Por isso. Para finalizar. Para mim. portanto. dessa experiência vivida pude tirar algumas lições. e ainda tão longínqua em razão do arraigado individualismo tanto das nossas elites quanto das fortes corporações emergentes. E é justamente nesse contexto histórico que vêm se desenhando o projeto e a realização prática da escola cidadã em diversas partes do país. baseado nessa crença. que surgiram nos Estados Unidos nos anos 50. gostaria de mencionar pelo menos quatro: • a escola não é o único local de aquisição do saber elaborado. a transdisciplinaridade refere-se à superação das fronteiras existentes entre as disciplinas. A cidadania implica instituições e regras justas. tentando entender esse movimento.

Mesmo assim. no meu entender. minha certeza é outra: penso que. mas por uma transformação radical. até para a aquisição do saber elaborado. a qual poderá acontecer como resultado de um esforço contínuo. • houve uma época em que eu pensava que as pequenas mudanças impediam a realização de uma grande mudança. Estou convencido. as pequenas mudanças deveriam ser evitadas e todo o investimento deveria ser feito numa mudança radical e ampla. Cada escola é fruto de suas próprias contradições. • a educação não será acessível a todos enquanto todos trabalhadores e não-trabalhadores em Educação. E o mais importante: isso pode ser feito já. acima de tudo. Estado e sociedade civil . Existem muitos caminhos.não se interessarem por ela. Hoje. é preciso incentivar a experimentação pedagógica e. pode não o ser em outra conjuntura ou contexto.• não existe um único modelo capaz de tornar exitosa a ação educativa da escola. com pequenas mudanças numa certa direção. num determinado local ou contexto. solidário e paciente. Questões para debate • Que mudanças caracterizam a sociedade pós-moderna e pósindustrial? • Como essas mudanças se refletem na educação e na escola? • Como a escola pode formar para a cidadania? • Quais são os obstáculos e os elementos facilitadores para a implantação do projeto político-pedagógico da escola cidadã? . ter uma mentalidade aberta ao novo e não atirar pedras no caminho de ninguém que queira inovar em educação. Por isso. E o caminho que pode ser válido numa determinada conjuntura. podemos operar a grande mudança. exigência premente e concreta de uma mudança estrutural provocada pela inevitável globalização da economia e das comunicações. não devemos renunciar ao nosso sonho da "grande" mudança. Por isso. Não é preciso mais esperar para mudar. no dia-a-dia. pela revolução da informática a ela associada e pelos novos valores que estão refundando as instituições e a convivência social na emergente sociedade pós-moderna. mudando passo a passo. que a educação deve passar não apenas por uma melhoria da qualidade do ensino que está aí. A educação para todos supõe todos pela educação. sobretudo.

. mais do que as suas riquezas naturais. quero o vinho e o pão Quero a amizade. Só a educação básica de qualidade para todos pode acabar com a miséria. Será preciso preparar os jovens para o trabalho. MG . (Coração civil) Milton Nascimento ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE Moacir Gadotti José Eustáquio Romão Em princípio. toda escola pode ser cidadã enquanto realizar uma certa concepção de educação orientada para: • a formação para a cidadania ativa: acreditamos que a escola pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional.. Mário Quintana Quero a utopia. Nosso appartheid social não será superado apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias.USP e diretor do Instituto Paulo Freire José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. quero amor prazer Quero nossa cidade sempre ensolarada Os meninos e o povo no poder.O que mata um jardim não [é o abandono. • a educação para o desenvolvimento: entendemos que a educação é condição sine qua non para o desenvolvimento auto-sustentado do País. O que mata um jardim [é esse olhar vazio De quem por ele passa indiferente. quero tudo e mais Quero a felicidade dos olhos de um pai Quero a alegria muita gente feliz Quero que a justiça reine em meu país Quero a liberdade. A educação básica é o bem muito precioso e de maior valor para o desenvolvimento. Isso exige uma reorientação dos investimentos públicos em educação Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo .

. Passou.sem comprometer os outros níveis de ensino . 1°). o seu conceito encontra-se na obra de diversos clássicos da educação. da transformação social. É a vez da sociedade. que conseguiu expandir as oportunidades educacionais. "mas a conquistar incessantemente (. Na história das idéias pedagógicas. 1977). Esses princípios podem ser considerados como fundamentos constitucionais da autonomia da escola. mas também para a inserção na comunidade e para a emancipação social. recentemente. mas sem oferecer qualidade e eficiência. sem rever o modelo de gestão da escola pública. A autonomia é "real". a Constituição de 1988 estabelece como princípios básicos o "pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas" e a "gestão democrática do ensino público" (Art. mas para poucos. não é suficiente para reverter o processo de deterioração do ensino básico. Neill organizou uma escola (Summerhill) controlada autônomamente pelos alunos.) é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar" (Escola. No Brasil. diz Georges Snyders.básica . por uma forte intervenção do Estado. John Locke concebe-a como "autogoverno" (selfgovernment). que institui a "democracia participativa" e cria instrumentos que possibilitam ao povo exercer o poder "diretamente" (Art. Pode-se dizer que a autonomia faz parte da própria natureza da educação. da ruptura com esquemas centralizadores e. Adolph Ferriere e Jean Piaget entendiam que ela exercia um papel importante no processo de "socialização" gradual das crianças. o tema da autonomia da escola encontra suporte na própria Constituição promulgada em 1988.. Snyders insiste que essa "autonomia relativa" tem de ser mantida pela luta e "só pode tornar-se realidade se participar no conjunto das lutas das classes exploradas" (idem). Investir mais em educação hoje no Brasil. A escola precisa preparar o indivíduo para a autonomia pessoal.e uma compreensão nova do público e do estatal. um momento de busca de síntese entre qualidade e quantidade. Por isso. classe e luta de classes. O educador inglês Alexander S. 206). Os educadores soviéticos Makarenko e Pistrak a entendiam como "autoorganização dos alunos". em seguida. . No que se refere à educação. Estamos vivendo hoje um momento diferente. a autonomia sempre foi associada aos temas da liberdade individual e social. que ofereceu uma escola de qualidade. O Brasil passou por um primeiro momento em que a educação estava entregue unicamente nas mãos da iniciativa confessional e privada. no sentido moral de "autodomínio individual".

pois participar significa engajar-se numa atividade já existente com sua própria estrutura e finalidade. Por isso. A divisão social do trabalho na escola é agravada pelo fato de ela ser justificada pela "competência". O sentido que aqui nos interessa. nos meios intelectuais da esquerda francesa. em particular o soviético. A autogestão visa a transformação. a autogestão pedagógica sempre foi considerada como alavanca da autogestão social. pois esta significa direção conjunta de uma instituição. Podem significar muitas coisas e. Autonomia e autogestão constituem-se em horizonte de construção de relações humanas e sociais civilizadas e justas. A alienação se dá quando "um discurso estranho que está em mim me domina. separando "especialistas" de . por isso. mais ou menos solidário. A palavra "autogestão" aparece no início dos anos 60. filósofo grego contemporâneo. Portanto. Há uma visão progressista de autonomia e uma visão conservadora. opõe autonomia à alienação. tem tudo a ver com a autonomia. na linguagem política e. para compreender melhor a organização do trabalho na escola cidadã. insatisfeita com as realizações concretas do socialismo burocrático. em que o inconsciente é o "discurso do outro". Nas teorias da educação. existem muitas instituições de trabalho cooperativo. e não a participação. Para ele. Autonomia não pode ser confundida com autogestão. mantendose a mesma estrutura hierárquica. ambas estão fundadas na ética. detêm o poder de decisão e o controle. podem confundir-se com muitas coisas. Autogestão não se confunde com participação. enquanto todos os demais simplesmente executam tarefas cujo sentido lhes escapa quase inteiramente. 1982). a educação. pois os dirigentes de uma cooperativa são remunerados pelos próprios trabalhadores. "a autonomia seria o domínio do consciente sobre o inconsciente" (A instituição imaginária da sociedade. pressupõe o fato de que uma das formas fundamentais de exercício da opressão é a divisão social do trabalho entre dirigentes e executantes. fala por mim" (idem). A cooperativa já é um caso mais próximo da autogestão. sobrepujando parcialmente o antagonismo entre capital e trabalho.Cornelius Castoriadis. enquanto processo de conscientização (desalienação). Evidentemente. fora da escola. principalmente. que se reflete diretamente na administração do ensino: uns poucos. Autonomia e autogestão não são conceitos neutros. A teoria pedagógica não é nada sem a ética. Autogestão também não se confunde com a co-gestão.

Esses elementos estão sustentados por um pressuposto mais amplo: o da maior autonomia das escolas. No caso da administração escolar. à dispersão e à preservação do localismo. o problema está sendo sanado por meio da eleição para o cargo de diretor. Ele pode ser encontrado. O papel pedagógico do professor foi esvaziado. A heterogeneidade dificulta o controle. • atendimento integral à criança e ao adolescente. sobretudo depois da criação. tanto para os alunos quanto para os professores. na medida em que o pluralismo é defendido como valor universal e fundamental para o exercício da cidadania. na história recente das transformações dos sistemas educacionais em diversas partes do mundo. o que dificultaria ações reformistas ou revolucionárias mais profundas e globais. Muitas delas são fruto de iniciativa de alguns educadores e foram interrompidas quando estes deixaram a escola. e só pode . • participação comunitária e gestão democrática. das habilitações técnico-administrativas do curso de Pedagogia. pelo regime militar. experiências isoladas de gestão colegiada de escolas sempre existiram. com maior ou menor intensidade. O que chamamos de escola cidadã se constitui no resultado de um processo histórico de renovação na educação. mas não tiveram um impacto maior sobre os sistemas de ensino. Os relatos dessas experiências nos dão conta de muitas dificuldades e resistências. Todavia. quando não o impossibilita. podemos destacar nesses projetos e reformas alguns traços comuns: • ampliação da jornada escolar.professores. não tiveram continuidade. Outra objeção que costuma ser feita aos "autonomistas" é a de que autonomia da escola leva à pulverização. Existem ainda críticos da autonomia escolar que temem que iniciativas desse tipo levem à privatização e desobriguem o Estado de sua função de oferecer uma escola pública gratuita de qualidade para todos. É verdade que é mais fácil lidar com programas unificados de reformas. Esse movimento encontra-se não apenas na educação brasileira.são cada vez mais frágeis. Cidadão é aquele que participa do governo.sustentadas freqüentemente por uma concepção centralizadora da educação . No Brasil. Podemos encontrá-los também nas reformas empreendidas hoje por outros países. essas objeções . Em alguns casos. A idéia de autonomia é intrínseca à idéia de democracia e cidadania. Contudo. em uma mesma escola. são experiências muito polêmicas.

para isso. mas em constante intercâmbio com a sociedade. base da democratização da gestão escolar. Mas para que . Autonomia é o oposto da uniformização. Essa formação se adquire na participação do processo de tomada de decisões. Deve-se pensar o sistema de ensino como uma unidade descentralizada. Descentralização e autonomia caminham juntas. O conselho de escola é o órgão mais importante de uma escola autônoma. A população precisa. Esse plano supõe: autonomia dos movimentos sociais e de suas organizações em relação à administração pública. A autonomia se refere à criação de novas relações sociais que se opõem às relações autoritárias existentes. tentativas e confrontos políticos entre teses diferentes e até opostas. Mas. apropriar-se das informações para poder participar. A luta pela autonomia da escola insere-se numa luta maior pela autonomia no seio da própria sociedade. é uma luta dentro do instituído. isto é. é preciso percorrer um longo caminho de construção da (auto)confiança na escola . por isso. e não apenas pensá-lo. Portanto. A criação dos conselhos de escola representa uma parte desse processo. em um plano estratégico de participação que vise a democratização das decisões. Não se pode fazer uma mudança profunda no sistema de ensino sem um projeto social. O que a Itália está experimentando é resultado de um longo caminho percorrido. abertura de canais de participação pela administração. escola autônoma não significa escola isolada. com muitos encontros. Por isso. Eles só são eficazes em um conjunto de medidas políticas.participar do governo (participar da tomada de decisões) quem tiver poder e tiver liberdade e autonomia para exercê-lo.e as leis que regem a administração pública e limitam a ação transformadora. supõe a parceria. A autonomia admite a diferença e. A eficácia dessa luta depende muito da ousadia de cada escola em experimentar o novo. precisa compreender o funcionamento da administração particularmente do orçamento . democratização das informações. efetivamente. contra o instituído. transparência administrativa. Mas eles fracassam quando instituídos como uma medida isolada e burocrática. A participação e a democratização num sistema público de ensino são um meio prático de formação para a cidadania. debates. Só a igualdade na diferença e a parceria são capazes de criar o novo.na capacidade de ela resolver seus problemas por si mesma e de autogovernar-se. para instituir outra coisa. A ampliação da autonomia da escola não pode opor-se à unidade do sistema.

o nosso desafio educacional continua sendo educar e ser educado. como diz o filósofo francês Michel Serres. mas que respeite as diferenças locais e regionais. mas integrá-la no processo de desenvolvimento humano e social. Além disso.pais e alunos . aquele que se torna um "mestiço". no seu livro Filosofia mestiça.como o consenso. O grande desafio da escola pública está em garantir um padrão de qualidade (para todos) e. idéia tão cara à teoria da educação popular. o sistema tende a uma síntese superadora. A população precisa sentir-se respeitada e ter prazer de exercer os seus direitos e de participar. Esta é uma das principais razões da não-participação. sem nenhum cuidado prévio. Certamente. ao mesmo tempo. étnica. o locus fundamental da educação é a escola e a sala de aula. uma outra cultura. Nesse confronto de concepções e práticas. respeitar a diversidade local. para facilitar a participação é preciso oferecer todas as condições. trata-se de construir uma escola pública universal . se constitua numa estratégia explícita da administração. a adaptação.para todos. os usuários . Na prática. a hierarquia e uma visão dinâmica que valoriza a contradição. A escola cidadã é certamente um projeto de criação histórica. social e cultural. Para uma administração pública construir essa escola. de sistema único e descentralizado. Como vimos. dinâmica. esses dois paradigmas contrários de sistema de ensino não se encontram em "estado puro". dentro e fora da escola.os conselhos de escola sejam implantados de maneira eficaz é necessário que a participação popular. a ordem. a mudança. a descentralização é a tendência atual mais forte dos sistemas de ensino e das últimas reformas.e os prestadores dos serviços . Existe uma visão sistêmica estreita que procura acentuar os aspectos estáticos . apesar da resistência . Adquirir uma nova cultura não é negar a cultura primeira. unificada -. Mas educado é só aquele que domina. Num sistema aberto. o confronto entre uma visão funcionalista e estática da educação e uma visão dialética. o que temos chamado.não se sentem responsáveis. predomina o ecletismo. o conflito e a autonomia. Num sistema fechado. precisa trabalhar com uma concepção aberta de sistema educacional. Enfim. cada vez mais. a multiculturalidade. Portanto. em locais desconfortáveis ou de dificil acesso etc.professores e funcionários . Costumase convocar a população para participar em horários inadequados. A dialética entre as culturas faz parte da própria natureza da educação. além da sua cultura.

Enfim. • autonomia da escola: cada escola deveria poder escolher e construir seu próprio projeto político-pedagógico . no Instituto Paulo Freire. mas para construir e elaborar a cultura.por exemplo. a comunida-de externa e o poder público. Escola e governo elaborariam em parceria as políticas educacionais.de forma que as deliberações escolares tivessem influência e peso sobre as políticas públicas educacionais. Não pode ser um ato formal e executado por técnicos externos à escola apenas. não apenas para reproduzi-la ou executar planos elaborados fora dela. Escola não significa um prédio. • avaliação permanente do desempenho escolar: a avaliação. precisa ser incluída como parte essencial do projeto da escola. iniciativas deslocadas para a administração dos sistemas durante o regime militar. a questão essencial da nossa escola hoje refere-se à sua qualidade e a uma nova abordagem da qualidade. visando à democratização do acesso e da gestão e à construção de uma nova qualidade de ensino. seja a cultura popular. Deve envolver a comunidade interna. • comunicação direta com as escolas: se a escola é o locus central da educação. superando o temido problema da atomização do sistema de educação. como no caso do modelo hierárquico e vertical de poder. para que tenha um sentido emancipatório. ela deve tornar-se o pólo irradiador da cultura. de Planejamento Socializado Ascendente . Escola significa projeto em torno do qual poderiam associar-se várias unidades escolares.oferecida pelo corporativismo das organizações de educadores e pela burocracia instalada nos aparelhos de Estado. seja a cultura geral. muitas vezes associados na luta contra a inovação educacional. Seu corolário é a comunicação entre as escolas e a população. pois existe uma só cultura como obra humana (unidade humana na pluralidade dos homens). A escola precisa ser o local privilegiado da inovação e da experimentação político-pedagógica. por meio do que chamamos. E a qualidade está . A administração de um sistema único e descentralizado de ensino poderia apoiar-se em quatro grandes princípios: • gestão democrática: um sistema único e descentralizado supõe objetivos e metas educacionais claramente estabelecidos entre escolas e governo. sem que seja necessário passar por incontáveis instâncias de poder intermediário. um único espaço ou local.

• Em que medida a Constituição Federal de 1988 e a política educacional do seu município ou Estado favorecem ou dificultam a construção da escola cidadã? • Quais são os fundamentos. sociais e culturais de cada região. Questões para debate • Identifícar na história das idéias pedagógicas os fundamentos da escola autônoma (cidadã). podem respeitar as peculiaridades étnicas. princípios e elementos que caracterizam a escola que chamamos de cidadã? • O que falta à sua escola para que ela seja cidadã? Como construí-la? . que são muito mais eficazes na conquista dessa qualidade do que grandes projetos anônimos e distantes do dia-a-dia escolar. podem diminuir os gastos com a burocracia.diretamente relacionada com os pequenos projetos das próprias escolas. Isso porque só as escolas que conhecem de perto a comunidade e seus projetos podem dar respostas concretas a problemas concretos de cada uma delas. E a própria comunidade pode avaliar de perto os resultados.

em que se atua. constituições se o teto da escola caiu se a parede da escola sumiu (Mobral) Herbert Vianna Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura. da Motta é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. no caso específico da educação. deparamos com novos ambientes. José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. Do que adiantam? Letras impressas das canções. que não tem medo do risco. de metas a serem atingidas. de objetivos. MG. Do que adiantam? Emendas.. realizamos espontaneamente uma sondagem inicial acerca de tudo o que nos cerca e naturalmente interpretamos as condições encontradas. com novas pessoas.. por isso que recusa o imobilismo. com um novo trabalho.Do que adiantam? Placas. com qualquer nova atividade ou situação. podemos ter a sensação inicial de insegurança. se adivinha. que marcha. e diretor do Instituto Paulo Freire. A escola em que se pensa. em que se fala. Paulo Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco. Paulo Freire CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO Custódio Gouvea L. Aí percebemos a necessidade do prévio estabelecimento de finalidades. em que se ama. bulas. convenções. para nos relacionarmos e também para participar e interferir naquele ambiente ou naquela situação.. enfim. em que se cria. MG.. A partir daí passamos a ter maior segurança para caminhar. De qualquer maneira. .. da Motta José Eustáquio Romão Paulo Padilha Quando. em nossa vida cotidiana. SP. Esse processo se amplia se nos entregamos a ações intencionais e. de avaliações a serem Custódio Gouvea L.instruções. Do que adiantam? Gestos educados. a escola que apaixonadamente diz sim à vida. para seguir em frente. quando pretendemos desenvolver quaisquer atividades no âmbito do sistema ou da unidade escolar..

Inicialmente. estudou seus resultados nesses países. sondagem e interpretação de dados acabam se constituindo em etapas essenciais para que possamos.com muito sucesso em outros países. apresentamos a metodologia denominada Carta Escolar. de interpretação e de análise de dados dos indicadores educacionais. conscientemente. abordaremos a Carta Escolar adaptada à unidade escolar. de forma que professores e demais segmentos escolares e comunitários possam utilizá-la como referencial para seus diagnósticos no âmbito estrito de suas escolas e de suas comunidades. Ela é um instrumento de planejamento do sistema ou subsistema educacional que permite o estudo das condições sociais. que nos permite desenvolver ações com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político-pedagógico da escola. Nessas condições.realizadas. a sondagem e a interpretação dos dados observados por nossos sentidos. instrumento de sondagem. destinada a subsidiar ações educacionais de âmbito municipal e de sistema de ensino. fisiográficas. . a metodologia da Carta Escolar foi aperfeiçoada e melhor aplicada . A partir dessa analogia. a estaremos estudando em sua concepção original. Além disso. o ensino e a aprendizagem. O que é a Carta Escolar? Desenvolvida no Brasil na década de 70. Depois. agir e buscar resultados positivos em nossas atividades. no sentido do atendimento das demandas O Instituto Paulo Freire de Juiz de Fora elaborou em 1996 as Cartas Escolares das prefeituras municipais de Bicas. por conseguinte. demográficas. transformam-se em função obrigatória. econômicas. culturais. de Minas Gerais. Diante de circunstâncias e de ações intencionais e deliberadas. de resultados a serem quantificados e qualificados para que correções de rumos possam melhorar a nossa atuação e. recuperou suas aplicações de sucesso no Brasil e a atualizou'. resultados de mecanismos inconscientes de captação de informações. Mercês e Oliveira Fortes. Elas estão à disposição para consulta nas sedes do Instituto. urbanísticas e arquitetônicas de comunidades que abrigam sistemas escolares. ela indica as ações que permitirão a organicidade da rede física escolar. O Instituto Paulo Freire resgatou-a.

a partir da delimitação de setores censitários. é inserida uma descrição do seu cenário geográfico. com escala que permite uma representação suficientemente precisa e detalhada da rede escolar. a racionalização da expansão da rede física escolar. Ademais. com suas características específicas e com os elementos que influenciarão na escolarização. barreiras urbanísticas. É realizado também um levantamento exaustivo da capacidade instalada da rede escolar do município. com seu perfil profissional. segurança e conforto compatíveis com as faixas etárias dos usuários. é aplicado um questionário em todas as residências (urbanas e rurais) e coletadas informações referentes à renda. que devem ser profundamente estudadas para verificar suas influências no planejamento educacional do município. Os mesmos dados são lançados em mapas municipais para que se tenha uma visão mais clara das deficiências ou duplicações existentes em função dos adensamentos populacionais e das barreiras físicas ou urbanas que influenciam no dimensionamento da rede física escolar. Essa Carta possibilita. aspectos . sexo e escolaridade por setor censitário. assim. quanto de recursos humanos (docentes e não-docentes). Todos os dados coletados são tabulados por meio de sistemas computacionais que fornecem uma série de indicadores para as projeções de expansão ou contração da rede. malha viária. a Carta Escolar é um instrumento operacional cujo suporte físico é um mapa topográfico. tanto em termos de recursos físicos (instalações. O Censo Escolar. bem como para a definição das áreas de jurisdição das escolas. destacam-se a topografia. são coletadas informações sobre outros indicadores sociais que interferem no desempenho do sistema educativo. infra-estrutura e atividades econômicas. demografia. e da demanda real e potencial. material didático). para garantir facilidades de acesso. Entre os elementos externos que interferem no processo de escolarização. que utiliza uma metodologia criada pelo Instituto Paulo Freire. idade. Para se ter uma visão da realidade de cada município. equipamentos. com sua localização. hidrografia. na medida em que indica os locais a serem implantadas as novas unidades escolares com vistas ao atendimento de áreas já densamente povoadas ou de indução de adensamento. Para tanto.específicas de cada nível. caracterizadas em seus estratos sociais a partir de dados fornecidos por um Censo Escolar. faz um levantamento real e efetivo de toda a população do município. por amostragem.

quantitativa e qualitativamente. No caso específico de uma escola. até o contexto contemporâneo. . com a participação dos próprios agentes escolares. situação legal e histórico de sua evolução ao longo dos anos. Sua análise constitui o cerne do trabalho. e. jurisdição e manutenção. A partir da identificação dos problemas a serem atacados. assessorar os municípios na elaboração e implementação de planos educacionais. prever o desenvolvimento do sistema escolar em função da demanda social por matrículas. levantar os dados sobre os limites e potencialidades do setor educacional do município para o atendimento das demandas que sejam resultantes de levantamentos e de pesquisas cientificamente consolidados. das lacunas a serem preenchidas e das prioridades educacionais a serem estabelecidas e implementadas. otimizar a aplicação de recursos destinados à educação. características sócioeconômicas predominantes de sua clientela. já que a finalidade precípua da Carta Escolar é o arrolamento analíticocrítico dos principais componentes de seus serviços. partindo de uma série de "retratos" tirados ao longo dos anos e revelados coletivamente.físicos . minuciosamente. o processo decisório da comunidade local. considerando todos os elementos que possam influenciar o processo educativo. clima e vegetação -. Todos esses elementos contribuem para a caracterização da educação no município. uma análise detalhada da sua evolução demográfica e econômica e uma reconstituição de seu quadro histórico-social. para alimentar. Como vimos. maximizar a utilização da capacidade física instalada. passando por sua evolução político-administrativa. torna-se instrumento indispensável para a elaboração dos projetos político-pedagógicos em todos os níveis educacionais. hidrografia.relevo. desde as origens. sua capacidade instalada. A Carta Escolar tem como objetivos fornecer vários subsídios para o conhecimento efetivo da real situação da educação municipal. área de abrangência. indicar o estabelecimento de áreas de jurisdição de escolas. seus recursos humanos. a Carta levanta. finalmente. dos avanços a serem continuados e estimulados. suas demandas e das respectivas projeções futuras. Observe-se que a Carta Escolar. do município ou do Estado. é possível uma intervenção precisa no sistema educacional dos municípios. a Carta Escolar tem por finalidade promover um amplo diagnóstico da educação no município. enquanto diagnóstico da capacidade e demanda educacionais da escola.

também oferece aos professores subsídios para o desenvolvimento da integração social com seus alunos. aspectos físicos . com informações sumárias sobre a flora e a fauna. que oferece os dados coletados aos pesquisadores. sua criação e evolução político-administrativa. O resultado da Carta Escolar deve servir como indicação. a mesma conta. com a colaboração da população em geral. o Instituto Paulo Freire propõe algumas recomendações à administração municipal. geógrafos. os vereadores do município -. com o envolvimento de toda comunidade municipal . será o cerne do trabalho. apontamento de rumos e recomendações a serem submetidas ao . Ao final do trabalho elabora-se um minucioso relatório com as seguintes informações: • cenário geográfico do município: descrição da localização. fundamentalmente.e em especial com os professores e supervisores de ensino. de curto. formada por professores coordenadores. • caracterização educacional do município: esta parte. já que sua principal finalidade é o arrolamento analítico-crítico dos principais componentes de seus serviços e demandas educacionais e de suas projeções para o futuro. além de inserir os problemas educacionais do município em um universo mais amplo. desde as origens. ainda. hidrografia e clima -. relativamente independente. • conclusões e recomendações: à luz dos dados analisados. médio e longo prazos.e. Além dessa equipe. com vistas à compatibilização entre as disponibilidades potenciais e às necessidades educacionais projetadas e decorrentes do direito de todos a uma educação básica de qualidade.servidores municipais. Observamos que a Carta Escolar. os lotados na Secretaria Municipal de Educação . independentemente das facções políticas a que pertençam . e uma análise dos aspectos demográficos. • reconstituição da trama das relações histórico-sociais: procurase fazer a reconstituição dessa trama. já que os componentes municipais constituem conteúdos curriculares importantes na escolarização dos discentes do ensino fundamental.Estrutura da Carta Escolar A Carta Escolar é um trabalho coletivo. De sua elaboração participa uma equipe responsável do Instituto Paulo Freire.relevo. técnicos em informática e recenseadores.

total e universo). alfabetizando. pode servir também para a obtenção de outras informações. evadido. além de outras informações que possibilitem a realização de projeções máximas de atendimento de alunos por faixa etária e por série para o ano seguinte à pesquisa. O relatório traz ainda informações sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por faixa etária (analfabeto. entre outras inúmeras combinações que podem ser realizadas. e relatórios com dados sobre os alunos que estão freqüentando a escola. subsidiando. A Carta Escolar. de forma a servir de subsídio para estudos e como instrumento técnico de atualização fatura da Carta Escolar ou de outras pesquisas que se fizerem necessárias no município. com a distribuição da população por sexo. acompanhados das respectivas totalizações numéricas e estatísticas. objetos de estudo mais profundo sobre cada aspecto específico e submetidas ao crivo das decisões políticas do município. à renda por estratos sociais e ao grau de escolarização de sua população. por faixa etária e série. adaptada a cada estabelecimento de ensino. por meio de suas legítimas representações e lideranças. portanto. aqui apresentada sinteticamente. sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por setor. Tais recomendações e conclusões devem ser. A CARTA ESCOLAR ADAPTADA À UNIDADE ESCOLAR A Carta Escolar. oferece ao diretor da escola. tabulados e analisados. O relatório final da Carta Escolar apresenta. e setor. aos seus professores e a todos os segmentos escolares uma "fotografia" das reais condições da escola. como projeções e busca de indicadores de qualidade do município. e resumo com os totais daquelas projeções para o ano seguinte à pesquisa.processo político decisório da comunidade local. e sobre aqueles que não a freqüentam. aos administradores municipais mapas de localização dos setores censitários e das escolas. faixa etária. Todas essas informações podem ser mantidas em arquivo: dados coletados. embora se dedique ao levantamento da realidade educacional. por idade. fora da escola. assim. a formulação e implementação de políticas de outros setores da administração pública. em conjunto com os órgãos de representação democrática dos diversos segmentos sociais. tabelas e gráficos com os dados relativos aos aspectos demográficos em geral. ainda. .

metodologias de ação e distribuição de tarefas.que subsidiará a elaboração de seu projeto político-pedagógico e de seu planejamento participativo ascendente. do conjunto de itens desse plano de trabalho. Assim. Os recursos necessários para a execução do trabalho e suas fontes precisam igualmente ser definidos. Caixa Escolar. incluindo necessariamente o Conselho de Escola. o Grêmio Estudantil. as mães e os pais de alunas e alunos e os representantes da comunidade escolar e extra-escolar. O Censo Escolar tem início tão logo se realize a articulação de todos os segmentos escolares. Conselho Deliberativo Escolar. metas. Mestres e Comunidade (APMC) etc. todo o corpo docente. Deve ser elaborado um plano de trabalho para o Censo Escolar que estabeleça objetivos. As Associações de Pais e Mestres (APMs) também são chamadas de Associação de Apoio à Escola (AAE). Como a Carta é um instrumento elaborado coletivamente. Colegiado Escolar. de sua elaboração participam organizadamente a equipe diretiva da escola. Em outras unidades da Federação o mesmo organismo pode ser chamado de Conselho Escolar. os mesmos não devem ser entendidos como "camisa-de-força". . também. as equipes responsáveis pelo recenseamento e suas respectivas coordenações. Associação de Pais. ela servirá inicialmente como pólo aglutinador de intenções. Ela pressupõe divisão de poder e de responsabilidades. a APM e representações dos segmentos extra-escolares . o discente.termo usado no Estado de São Paulo. como também muitos são os sujeitos que deles farão uso e a partir deles tomarão decisões. Conselho Educacional e Comunitário. Assim. todas as atividades. uma vez que os dados a serem coletados e levantados são muitos. o estabelecimento de Os Conselhos de Escola . Com isso queremos dizer que. por mais bem-vindas que possam ser algumas receitas em certas situações. como também o serão os eventuais assessores que estarão subsidiando. As presentes recomendações são uma possível base para a realização de um diagnóstico escolar. ainda. ao apresentarmos alguns parâmetros para a realização da Carta Escolar. A avaliação de cada etapa do processo faz parte. Círculo de Pais. de interações e de forças que caminham juntas para a concretização das finalidades e objetivos educacionais estabelecidos democraticamente por toda a equipe escolar. Não temos a intenção de padronizar ações nem de oferecer receitas metodológicas prontas para o consumo. no aspecto técnico e científico. Nesse documento devem ser previstas. Fórum de Gestão Participativa.

hortas comunitárias. rede de esgoto ou de tratamento de água. área que a escola ocupa. endereço completo. com acréscimos de séries ou graus. de áreas esportivas. contendo o tipo e a quantidade de dependências. propriedade do prédio. do forro. região. a análise ficam mais fáceis: EXEMPLO: INSTALAÇÕES ESCOLARES Dependências/Quantidade Dimensões (m2) Estado de conservação Adequada/Inadequada Observações • mobiliária. em treze itens. departamento em que está lotado. situação institucional (mantenedor. de salas-ambiente. do acabamento. de aulas etc). se sofreu alteração ao longo dos anos.) e a reconstituição da história da escola: como nasceu a idéia de sua instalação. distrito. Quando esses dados são colocados em quadros. que organizarão o levantamento das seguintes informações: • identificação da escola: nome. os questionários para a coleta de dados podem ser divididos.ensino poderá dispor de informações e de estatísticas confiáveis para decidir seus futuros passos e elaborar seu projeto político-pedagógico. de horta escolar. com suas respectivas dimensões. conseqüentemente. quando foi criada e quando começaram suas atividades. equipamentos e recursos materiais: especificação. estado de . localização/zona. energia elétrica etc. por que razões etc. de depósitos. linhas telefônicas. áreas livres. situação da construção. do piso. existência e condições de salas da diretoria. da secretaria. atos de autorização de reconhecimento. por exemplo. esfera administrativa a que pertence. de sanitários para alunos e professores. de salas de professores. espaços para áreas esportivas. • estrutura física: discriminação minuciosa da estrutura física da escola. de laboratórios. suas dimensões. salas de aula . de cozinha. a visibilidade e. de ensino. Podem ser incluídos também neste item os tipos de serviços disponíveis na escola. tais como água. CGC etc. são incluídas informações sobre: terreno. de áreas de lazer. estado de conservação e adequação das instalações escolares. de salas de vídeo. Dessa forma. do cercamento. quantidade. tipo da escola. Além desses dados. de bibliotecas. o que servirá também aos professores quando da elaboração coletiva e individual de seus planejamentos e de seus planos (de curso. de refeitórios.

• recursos humanos: todos os recursos humanos de que a escola dispõe devem ser relacionados: docentes e não-docentes. máquina de xerox. separada por séries e graus (ou níveis) de ensino e com dados da matrícula inicial. aparelhos de televisão. equipamentos de cozinha. considerando-se também as turmas e as séries. giz. carga horária semanal. as características sócio-econômicas predominantes entre os alunos. as condições de manutenção dos equipamentos. Neste item cabem ser anotadas. tempo de serviço na escola e no serviço público.conservação relativo a carteiras e cadeiras escolares. textos. do número de alunos evadidos. a evolução da demanda. a distribuição de alunos por turnos e séries e em relação à merenda escolar. antenas parabólicas. Pode-se levantar. as pendências administrativas ou das condições atuais dos serviços de secretaria. de vídeo. lápis. A escola pode criar e levantar seus próprios quadros para relacionar as informações de que necessita. série. projetores de slides. especificando o número de vezes em que é servida por turno. disciplina que ministra (no caso de docentes).se sistemático ou não. Devese relacionar o nome completo do servidor. • recursos financeiros: relacionar as receitas da escola. cursos realizados etc. microcomputadores etc. levantar balanços da APM. fitas de vídeo. ainda. armários. da Caixa Escolar etc. fax. lousas. a distribuição dos alunos segundo a distância a que residem da escola e o tempo que levam para chegar até ela. mobiliários para os alunos. de limpeza. de jardinagem. ano de admissão na escola e número de repetências. dedicação exclusiva ou não. o número de alunos em cada turno e tipo de fornecimento . Nesse sentido. além de informações sobre o tipo de organização dos arquivos da escola. quais precisam de consertos. os aprovados e os reprovados. . quais estão em garantia. retroprojetores. identificando as fontes e sua destinação (despesas). função. das transferências expedidas. livros na biblioteca. das transferências recebidas. os valores em caixa. por exemplo. em contas bancárias. filmadoras. levantamento contábil completo e nível de autonomia financeira da escola. gravadores. grau de escolaridade. cadernos. • matrícula e evolução da demanda: aqui se devem criar quadros ou utilizar os já existentes na escola para informar a distribuição da matrícula segundo sexo. quais estão no seguro.

. às instalações e aos equipamentos. dança. informações que revelem as deficiências da escola em relação à formação dos docentes. clubes. • características da gestão e das relações humanas na escola: definir tipo e características da gestão escolar. às condições administrativas. escola. de docentes e de apoio técnico administrativo e operacional. à participação dos segmentos na instituição escolar e às diferentes instâncias administrativas. aos recursos materiais.. administrativos ou financeiros desenvolvidos pela escola nos anos anteriores. se possível com todas as suas características e com os resultados efetivamente obtidos. no ato mesmo do levantamento. a atuação da equipe de direção. ainda. pinta. habilidades artísticas (se canta. Caixa Escolar. ao interesse dos alunos. • características do bairro: levantamento de informações gerais sobre o bairro em que a escola está inserida: sua história transformações por que passou e como se deram. Anotar nesse item. o nível de participação da comunidade escolar. igreja. APM e Grêmio Estudantil: síntese especificando as atividades desenvolvidas por essas instituições escolares. os programas de formação dos quais participam ou já participaram os membros dos segmentos escolares. toca. • características da comunidade: levantamento de dados sobre os moradores do bairro em que a escola está inserida: nome. grau de instrução.. distribuição do tempo de trabalho pedagógico da equipe docente etc. procedência.). incluindo-se aí os segmentos escolares envolvidos nos mesmos. escreve. ao número de funcionários. incluindo os espaços que utilizam. seus membros e representantes e o tipo de atuação que desempenham na escola..). do Conselho de Escola e demais representações de segmentos escolares. bairro. • Conselho de Escola. pedagógicas e financeiras da escola. • deficiências detectadas na escola: em relação a todos os itens pesquisados.• projetos desenvolvidos na escola: levantamento sobre os projetos pedagógicos. se tem serviços . profissão. Os fatores que impactaram negativamente o desempenho escolar deverão ser usados como referência para a construção de estratégias para sua superação. ao prédio escolar. participação em associações (sindicato. bem como informações sobre os projetos em andamento. anotar.

coleta seletiva de lixo. o número de habitantes. primeiro. incluir também os alunos que não são atendidos pela escola. um trabalho pedagógico coerente com as características e com as necessidades dos discentes. Esta experiência possibilitará a todos os sujeitos que dela participarem. iniciando-se a fase propriamente de diagnóstico ou interpretativa. de que tipo e com que freqüência etc. Sua concretização. como as demais. número de transferências. construindo e exercendo. a construção coletiva tende a aumentar a probabilidade de se obterem resultados satisfatórios a curto prazo. exige a organização das tarefas. É importante ressaltar que esse levantamento pode e deve. que estarão assim se formando enquanto sujeitos ativos. a descentralização das funções. de livrarias. deixada à sua sorte. pois. local de moradia. segundo. de forma plena. de áreas de lazer. de biblioteca. sexo. de hospitais. com quantas pessoas vive. a atribuição de responsabilidades e a elaboração do plano de trabalho. condições de moradia. na seqüência. Esse processo se constituirá.como é absolutamente necessário à construção coletiva de um projeto político-pedagógico.porque contará com a participação e o envolvimento de todos . pode parecer muito dificil e complexo realizar um diagnóstico escolar com tal amplitude. ao contrário. em especial aos professores e aos alunos. asfalto. número de repetências. procedência. outros cursos. a sua cidadania. participarão dessa outra etapa que. especialmente pelos docentes da escola. em uma aprendizagem para todos os que atuam direta ou indiretamente na escola.como luz elétrica. desde o início. A primeira vista. deverá ser acompanhada e assessorada pelas instâncias superiores da administração escolar. áreas de interesse. pois a escola não pode ficar à deriva. se tem movimentos sociais organizados. certamente. rede de esgoto. de farmácias. uma ampla vivência da prática democrática no âmbito escolar. Para tabular e interpretar qualitativa e quantitativamente os dados do Censo. contudo. o que garantirá. equipes formadas por representantes de todos os segmentos escolares. o mesmo não só é possível . água encanada. Além disso. desde cedo. o diagnóstico ficaria incompleto. • caracterização dos alunos: idade. local de trabalho etc. porque as ações a serem . de igrejas. habilidades artísticas. se são realizados eventos culturais. No entanto. qual é o seu lazer preferido. e. porque prevê o envolvimento.

implementadas na escola considerarão o diagnóstico feito a partir dos dados levantados e da análise crítica da realidade constatada. Questões para debate • O que é e em que medida a Carta Escolar contribui na construção do projeto político-pedagógico da escola? • Que informações essenciais a Carta Escolar pode oferecer para a construção do projeto político-pedagógico da escola? • Como organizar a escola para a realização do Censo Escolar? • Qual é o papel pedagógico que a elaboração da Carta Escolar pode ter? .

fará o quê? Conseguirá inserir-se no mercado de trabalho? Será uma cidadã ativa} Conhecerá seus direitos? Saberá exigir e lutar por eles? A escola convive com as alunas e com os alunos diariamente e. ensina não só por meio do conteúdo com o qual trabalha em sala de aula. mas também pelas relações que estabelece com eles no dia-a-dia. dificilmente aprenderá a pensar e decidir coletivamente.É que a democracia. de maneira consciente ou não.... Paulo Freire (. dois anos. não se faz com palavras desencarnadas. se só realizar tarefas individuais.? Quantas horas diárias ela passa na escola? Quando concluir o ensino fundamental.) A gente vai contra a corrente Até não poder resistir Na volta do barco é que sente O quanto deixou de cumprir Faz tempo que a gente cultiva A mais linda roseira que há Mas eis que chega a roda viva E carrega a roseira pra lá. mas com reflexão e prática. segue atentamente as explicações na sala de aula. se fala no momento que bem entende. apresentará dificuldade para ouvir o outro. Ela chega à escola. como qualquer sonho. (Roda viva) Chico Buarque CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ Ângela Antunes Ciseki Observemos uma aluna. recolhe o material para voltar para casa.. não aprenderá a avaliar.. conversa no pátio com os amigos. três.. estende a mão para pegar o prato de merenda. brinca afoitamente para aproveitar cada segundo do recreio. Há quanto tempo ela está ali? Um ano. Ângeh Antunes Ciseki é professora da rede de ensino municipal de São Paulo e diretora técnica do Instituto Paulo Freire . Se a aluna só ouve. dificilmente aprenderá a falar. se só é avaliada.

se suas tarefas forem sempre dirigidas. a prática cotidiana contribui para reforçar ou superar determinadas formas de agir e pensar. professores. Por meio do Conselho. A forma como a escola organiza seu tempo . a população poderá controlar a qualidade de um serviço prestado pelo Estado. Nesse sentido. os professores e outros representantes da comunidade interna e externa à escola podem participar da construção da escola que desejam? O Conselho de Escola .se só cumprir ordens. não aprenderá a ser criativa etc.definição do calendário. poderá definir e acompanhar a educação que lhe é oferecida.um colegiado formado por pais. salas de reunião. Querendo ou não. É necessário que os educadores tenham consciência de sua prática e saibam a serviço de que projeto de sociedade ela está. ao contato com os pais . alunos. a escola não educa só quando educadoras e educadores escrevem ou falam. E. O Conselho de Escola já é realidade em muitas escolas de Estados e municípios de todas as regiões do país.pode ser esse espaço de construção do projeto de escola voltado aos interesses da comunidade que dela se serve. projeto esse inserido no projeto de vida do próprio aluno. o aprendizado de relações sociais mais democráticas. a formação de cidadãos ativos. para ele se tornar sujeito de sua aprendizagem. Os lírios não nascem das leis". dos dias de prova." (Gadotti) Mas de que forma os alunos podem participar da definição do projeto da escola? Como os pais. distribuição das carteiras etc. Por isso. diretor. é necessário que a gestão democrática seja vivenciada no dia-a-dia das escolas. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. como diz Carlos Drummond de Andrade: "As leis não bastam. que seja incorporada ao cotidiano e se torne . A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico. Mas. não aprenderá a estabelecer seus limites. ou seja.também ensinam algo às alunas e aos alunos. do tempo reservado a cada área do conhecimento.salas de aula. O conteúdo com o qual a escola trabalha e a prática que adota estão contribuindo para formar que tipo de ser humano? Para viver em que sociedade? "O aluno aprende quando ele se torna sujeito de sua aprendizagem. ele precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. . proporcionando o exercício da cidadania. ao recreio. pessoal administrativo e operacional para gerir coletivamente a escola .e a forma como a escola organiza seu espaço . distribuição das aulas.

s u p e r e m o s suas falhas. condições legais de encaminhar e colocar em prática propostas inovadoras. • a qualidade do ensino: formação para a cidadania (cria possibilidades de participar da gestão pública). também estabelece como princípio a "gestão democrática do ensino público. que requer. Para isso. a construção cotidiana e permanente de atores sociopolíticos capazes de atuar de acordo com as necessidades desse novo que fazer pedagógico-político. aperfeiçoando seus aspectos positivos e criando novas propostas para os problemas que persistem. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). mesmo antes de uma regulamentação nacional. capacitação profissional). na forma desta Lei e das legislações . política salarial."colaboração" entre os sistemas e comunicação direta da Secretaria da Educação com as escolas. •o órgão de gestão da Educação: plano estratégico de participação. 206. transparência administrativa. por isso. canais de participação (ampliação do acesso à informação) e. de 20 de dezembro de 1996. Além das práticas exitosas no campo da gestão democrática do ensino público que Estados e municípios vêm desenvolvendo. Nos municípios e Estados que já acumularam experiência em relação à prática da democratização. entre outras providências. É necessário ainda que conheçamos as experiências já vividas. a redefinição de tempos e espaços escolares que sejam adequados à participação. outro fato contribuiu para acelerar as mudanças nessa área: a promulgação da Constituição Federal de 1988. o debate se intensificou e alguns Estados já sancionaram suas leis que dispõem sobre o tema. inciso VI). tomemos conhecimento de seus limites e avanços e. há de se criar as condições concretas para o seu exercício. num processo c o n t í n u o de p r á t i c a e r e f l e x ã o . se não tem extinguido. n2 9. respeito aos direitos elementares dos profissionais da área de ensino (plano de carreira. • a definição e acompanhamento da política educacional: o aumento da ca-pacidade de fiscalização da sociedade civil sobre a execução da política educacional. a gestão democrática vem exercendo influência positiva sobre: • a estrutura e o funcionamento dos sistemas: .394.tão essencial à vida escolar quanto é a presença de professores e alunos para que a escola exista. pelo menos tem diminuído os lobbies corporativistas. C o m a instituição da "gestão democrática do ensino público" (Art.

que é o nosso caso .. tendem a garantir maior sucesso na conquista dessa democratização e. de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: (. E no Artigo 15. Para o efetivo exercício da gestão democrática da escola é necessário capacitar todos os seus segmentos. não podemos conceber a definição da política educacional e a gestão escolar com caráter centralizador e autoritário. O processo de consulta e intervenção por parte dos usuários junto aos órgãos governamentais deve ser prática constante. principalmente pais e alunos. devem ser promovidos para esclarecer a população e contar com sua participação. CONSULTAR A COMUNIDADE ESCOLAR Se desejamos que a população se incorpore à vida social.dos sistemas de ensino" (Inciso VIII. define um dos princípios da gestão democrática: "Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica. se considerados. seja na vivência delas na prática cotidiana. da escola de melhor qualidade: CAPACITAR TODOS OS SEGMENTOS A participação exige aprendizado.) II . com presença ativa e decisória. Pressupostos da gestão democrática As experiências já vivenciadas em relação à democratização da gestão escolar apontam alguns pressupostos que. INSTITUCIONALIZAR A GESTÃO DEMOCRÁTICA A consulta e a participação das comunidades escolares possibilitam aos governos estaduais e municipais respaldo democrático para . principalmente quando se trata de uma população . encontros etc. As experiências revelam que tanto a comunidade externa quanto a comunidade interna à escola apresentam limites à participação. As secretarias da Educação devem. seja na definição das políticas educacionais.. portanto. Nesse sentido. assembléias. respondendo às exigências dessa prática. comprometer-se com esta capacitação. inciso II. 39). conseqüentemente.que historicamente tem sido alijada dos processos decisórios de seu País.participação das comunidades escolar e local em Conselhos de Escola ou equivalentes". debates. seminários. Art.

normativa e fiscalizadora. GARANTIR LISURA NOS PROCESSOS DE DEFINIÇÃO DA GESTÃO Para que se garantam transparência e respeito aos princípios éticos nas ações relacionadas à gestão democrática . que atendam às reais necessidades educacionais da população. fixar democraticamente as normas e mecanismos de fiscalização etc. Parâmetros para a constituição do Conselho de Escola Além dos pressupostos destacados para a institucionalização e implantação da gestão democrática. mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos. todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. a prática vivenciada pelos diferentes municípios e Estados que já contam com Conselhos de Escola em funcionamento aponta alguns parâmetros a serem considerados para a sua constituição: NATUREZA DO CONSELHO DE ESCOLA • deliberativa.encaminhar ao Poder Legislativo projetos de lei mais consistentes. É preciso garantir a todos o acesso às informações. • elaborar. as instâncias administrativas não podem prescindir de canais que possibilitem agilidade e eficiência na comunicação entre elas e a população. aprovar. implantação dos Conselhos de Escola e gestão da instituição educativa -. consultiva. acompanhar e avaliar o projeto políticoadministrativo-pedagógico. Nesse sentido. DAR AGILIDADE ÀS INFORMAÇÕES E TRANSPARÊNCIA ÃS NEGOCIAÇÕES A descentralização implica o acesso de todos os cidadãos à informação. ATRIBUIÇÕES FUNDAMENTAIS • elaborar seu regimento interno. .escolha dos dirigentes escolares. Informação necessária não apenas no início do processo administrativo.

por votação direta. se realizará na unidade escolar. assegurada a paridade (número igual de representantes por segmento) e proporcionalidade de 50% para pais e alunos e 50% para membros do magistério e servidores. para encaminhar e dar continuidade aos trabalhos a que se propôs. acompanhar e fiscalizar políticas educacionais. • a função de membro do Conselho de Escola não será remunerada. PROCESSO DE ESCOLHA DOS MEMBROS • a eleição dos representantes dos segmentos da comunidade escolar que integrarão o Conselho de Escola. • membros do magistério e demais servidores que possuam filhos regularmente matriculados na escola poderão concorrer só como membros do magistério ou servidores. para definir. pedagógicos e financeiros da escola. • ninguém poderá votar mais de uma vez no mesmo estabelecimento. bem como a dos respectivos suplentes.• criar e garantir mecanismos de participação efetiva e democrática da comunidade escolar. conforme necessidade da escola. secreta e facultativa. NORMAS DE FUNCIONAMENTO • o Conselho de Escola deverá reunir-se periodicamente (com encontros mensais ou bimestrais). desde que esteja em pleno gozo de sua capacidade civil. • definir e aprovar o plano de aplicação financeira da escola. • participar de outras instâncias democráticas. . • serão válidas as deliberações do Conselho de Escola tomadas por metade mais um dos votos dos presentes à reunião. COMPOSIÇÃO • todos os segmentos existentes na comunidade escolar deverão estar representados no Conselho de Escola. • constituir comissões especiais para estudos de assuntos relacionados aos aspectos administrativos. como conselhos regional. A PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE ESCOLA • qualquer membro efetivo do Conselho de Escola poderá ser eleito seu presidente. respectivamente. municipal e estadual da estrutura educacional.

Conselho de Escola: estrutura e funcionamento O Conselho de Escola é um colegiado formado por todos os segmentos da comunidade escolar: pais. quatro professores. também escolhem os alunos que os representarão e assim por diante. O MANDATO • Um ano. por exemplo. elegem por voto direto os professores que os representarão no Conselho. Com exceção do diretor. por exemplo. todas as pessoas ligadas à escola podem se fazer representar e decidir sobre aspectos administrativos. com direito a recondução. movimentos populares organizados e entidades sindicais. membros da comunidade. No município de São Paulo. Podem . A sua configuração varia entre os municípios e os Estados que já o implantaram. professores. por exemplo. direção e demais funcionários. é sempre garantido o mesmo número de representantes por segmento. sejam restritivos aos que estiverem no gozo da capacidade civil. Grêmio Estudantil. • poderão participar das reuniões do Conselho com direito a voz e voto todos os membros eleitos por seus pares. ou seja. por força legal. Por meio do Conselho. quatro alunos e quatro representantes da equipe administrativa. dependendo do número de classes que a escola possuir. financeiros e pedagógicos. alunos.CRITÉRIOS DE PARTICIPAÇÃO • os representantes dos alunos a partir da 4a série ou com mais de 10 anos terão sempre direito a voz e voto. com direito a voz e não a voto. tornando esse colegiado não só um canal de participação.os professores da escola. mas também um instrumento de gestão da própria escola. Mesmo variando o número de membros. que é membro nato. haverá também quatro pais. por sua vez. • poderão participar das reuniões do Conselho de Escola. salvo nos assuntos que. todos os outros membros do Conselho são eleitos por seus pares . ele pode ter de 16 a 40 pessoas. representantes de entidades conveniadas. Todos os alunos. os profissionais de outras secretarias que atendam às escolas. a composição é sempre paritária. no caso da cidade de São Paulo. Se houver.

a descrição de suas atribuições geralmente vem marcada por verbos como acompanhar. que a elaboração do regimento interno deve sempre estar em consonância com a legislação em vigor e observar as normas dos respectivos conselhos e secretarias municipais e estaduais da Educação. A afirmação acima. avaliar. além daqueles. deliberar etc. são determinadas pelo regimento comum de cada rede de ensino. como definir (diretrizes). discutir. à substituição de algum membro que deixe de comparecer às reuniões etc. que poderão ou não ser encaminhadas pela direção. O Conselho de natureza consultiva. Observe-se. a redação de suas atribuições apresenta. indicar. a título de ilustração e de elucidação de nossa preocupação. analisar. Cada Conselho de Escola pode. à tomada de decisões (por votação secreta ou aberta). elaborar. ao tempo de duração das reuniões. os deliberativos. o seu funcionamento e a sua composição. decidir. estudam. Já nos documentos sobre Conselhos de natureza deliberativa. que mostram como esses Conselhos. apenas é consultado em relação aos problemas da escola. Mas. aprovar. teremos um . com direito a voz. todos os que trabalham. elaborar um regimento interno. Sua função é sugerir soluções. Nos próprios documentos.participar das reuniões do Conselho. pode não ser suficientemente esclarecedora para mostrar o que significa. As atribuições dos Conselhos de Escola. estabelecendo normas em relação à convocação das reuniões ordinárias e extraordinárias. deliberativa. analisada isoladamente pelo prisma semântico. arbitrar. outros verbos. dentre outras coisas. não toma decisões. apreciar. à dinâmica das reuniões. As mais freqüentes são as atribuições de natureza consultiva e deliberativa. se os membros formarão chapas ou apresentarão candidaturas individuais). Outro aspecto a ser mencionado refere-se às funções que os Conselhos de Escola podem desempenhar: consultiva. ao horário em que elas serão realizadas. possuem maior força de atuação e de poder na escola. se achar necessário. Participam com direito a voz e voto somente os membros eleitos. têm filhos na escola ou fazem parte de movimentos organizados da região em que a escola está inserida. trabalhar com um Conselho deliberativo ou com um Conselho consultivo. normativa e fiscal. opinar e propor. ainda. à eleição de seus membros (se será através de assembléia ou votação de urna. eleger. garantir. como o próprio nome diz. assessorar. se considerarmos algumas atribuições específicas dos Conselhos de Escola. na prática.

discutir suas diretrizes e metas de ação. Assim como criam leis (Poder Legislativo) e acompanham sua execução (Poder Judiciário). os verbos citados podem significar. é possível afirmar que a participação de alunos. também. Suas funções são sempre revestidas de grande importância e relevância: definir o regimento interno. o Conselho. pais. analisar e definir prioridades. É mais enfático. mais efetiva ou mais formal.dependendo dos encaminhamentos e da votação em plenária -. uma diferença fundamental entre decidir ou simplesmente opinar sobre procedimentos relativos à priorização de aplicação de verbas. no trabalho cotidiano do Conselho. funcionários e comunidade escolar como um todo poderá ser maior ou menor. guardados o graus de autonomia e consideradas as diretrizes gerais da administração. o Conselho vai muito além de apresentar propostas. "leis" que regerão o funcionamento da escola ("poder legislativo") e acompanhar a sua execução pela direção ("poder judiciário"). que conta com a representatividade de atores educacionais e comunitários. tomar decisões em relação à vida escolar. também pode. os membros da . discutir e deliberar sobre os critérios de avaliação da instituição escolar como um todo. Não podemos considerar a natureza dos Conselhos como uma questão menor. discutir e arbitrar critérios e procedimentos de avaliação relativos ao processo educativo e à atuação dos diferentes segmentos da comunidade escolar. se for o caso . ele determina onde e como aplicar tais verbas. Tentando esclarecer um pouco mais a importância do colegiado deliberativo. Há. do que somente discutir sobre essa questão. criando normas. Dependendo da natureza do Conselho de Escola. podemos fazer uma breve analogia entre ele e os poderes Legislativo e Judiciário. instância executiva ("poder executivo") que se encarregará de colocar em prática as decisões ou sugestões do Conselho de Escola. A responsabilidade é ainda maior quando se delibera quanto à organização e ao funcionamento geral da escola. enfim. garantir que. na prática. professores.quadro mais nítido acerca das diferenças que. julgando e garantindo para que elas sejam cumpridas. do que quando se opina ou se assessora a direção da escola no mesmo sentido. ele decide. O Conselho é a instância em que os problemas da gestão escolar serão discutidos e as reivindicações educativas serão analisadas para. No primeiro caso. serem aprovadas e remetidas para o corpo diretivo da escola. democraticamente.

para que a democratização e a autonomia da escola sejam alcançadas. que representa grande avanço na direção do exercício permanente da democracia e da cidadania na escola e na sociedade em geral. Questões para debate • Por que democracia na escola? • De que forma o Conselho de Escola pode ser um espaço de exercício da cidadania? • Como garantir a participação e o envolvimento de todos os segmentos escolares? • Qual a relação entre Conselho de Escola e melhoria da qualidade do ensino? . Fica claro que o Conselho de natureza deliberativa é aquele que melhor pode contribuir. ativa e efetivamente.escola e da comunidade apreciem. objetivos marcantes do Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. opinem e proponham ações que contribuam para a solução dos problemas de natureza pedagógica. administrativa ou financeira da escola.

é sempre um novo recomeçar.A autonomia é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar. observada carinhosamente por seus colegas. um clima de alegria. Dia de reencontros explosivos. todos concordam. que logo em seguida declara abertos os trabalhos. Vai começar a primeira reunião de um novo trabalho educativo. Todos ocupam seus lugares e as boas-vindas são oferecidas pela diretora. Uma atmosfera cor-de-rosa entre docentes e equipe diretiva. a se encaminharem para uma sala de aula onde a reunião se realizará. O coordenador pedagógico convida os presentes. SP. José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. . Professoras e professores. de qualquer maneira. Uma professora chega atrasada na ponta dos pés. cautelosos. alguma retração. com sua voz grave. A diretora da escola exercita sua pontualidade. O tema da reunião administrativa e pedagógica é planejamento e organização do trabalho na escola. de abraços meteóricos. recémingressantes. Educar é uma luta constante. mas. antigos companheiros de trabalho. MG. e diretor do Instituto Paulo Freire. olhares curiosos. Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco. também participam da confraternização. alguma aproximação. Georges Snyders Uma semente atirada Num solo tão fértil Não pode morrer É sempre uma nova esperança Que a gen te alimenta De sobreviver (Amor à natureza) Paulinho da Viola PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA José Eustáquio Romão Paulo Roberto Padilha Início do ano letivo. Por todo lado.

O coordenador pedagógico passa a falar. o que não consegue provocar reações nos companheiros. Para tanto. "planejamentos". Lembra que os mesmos deverão ser elaborados em fina consonância com o Plano Diretor da Escola e com os Planos de Cursos já definidos nos anos anteriores. com os itens que estarão sendo "discutidos": entrega de documentos. por sua vez. definido pela equipe diretiva durante as férias dos professores. por meio da qual orienta cada grupo para que se reúna por meia hora e em seguida apresente aos demais grupos alguns objetivos específicos de suas disciplinas para o ano letivo. o coordenador pedagógico anuncia o início das exposições orais. elaboração do horário de aulas. cada representante de grupo lê os objetivos específicos aos quais chegara sua equipe. o coordenador pedagógico dá início a uma dinâmica de grupo. como se o encantamento inicial tivesse se evaporado subitamente e dado lugar a um ar de constrangimento. ela distribui uma pauta mimeografada. crachás para as primeiras séries. tal o silêncio que toma conta do ambiente. como deveria ser. Notase no recinto um amargo sentimento. Acrescenta que estes. dedicando-se mais à "parte administrativa". os professores . as aulas terão início. Sem escolha. "normas" e "prazos". Informa que os planos de ensino deverão ser providenciados pela equipe docente e entregues ao final dos três dias de reuniões. foram elaborados pelos especialistas da escola dentro dos padrões científicos e técnicos exigidos pela Secretaria da Educação e estão perfeitamente de acordo com os Planos Nacional e Estadual de Educação. entre outros. pontualidade dos professores na entrada e na saída. lista de alunos das novas turmas. Professoras e professores. como informa a diretora. novo código disciplinar para os alunos. Agora. que já se mostravam confusos e aparentemente desanimados diante das palavras "planos". Distribui uma papeleta para cada uma delas. Solicita a formação de equipes. após o que. Após quase uma hora. O tempo acaba não sendo suficiente. sobre as próximas tarefas. de acordo com suas disciplinas. novos horários de intervalos. Terminada a dinâmica e estourado o tempo da reunião na parte da manhã. Em seguida. que fala um pouco sobre a organização da escola. passa a palavra à senhora diretora. novas regras para a utilização da cantina. estão agora ilhados em suas definições. imediatamente. calmamente. transfere-se para o período da tarde o início da elaboração do planejamento.

Assim começava a tarefa de planejar naquela escola e naquele ano. deveriam ocorrer nessas situações. Planejamento educacional e organização do trabalho na perspectiva da escola cidadã Devemos esclarecer que quando pensamos no planejamento educacional e na organização do trabalho na escola em uma . Nesse sentido. exigem-nos um tratamento praxiológico. mas os equívocos das atividades propostas e realizadas na reunião anteriormente relatada. Não questionamos aqui a necessidade dessas reuniões na escola. que pretendemos aqui realizar. Os temas em questão. em si. devemos estar refletindo sobre essa realidade. Elas estão muito distantes das que. que a todos lembrava experiências burocráticas de anos anteriores nada compensadoras. São exatamente estas questões que estaremos analisando no decorrer do estudo do tema planejamento socializado ascendente e organização do trabalho na escola. efetivamente. teoria e prática estão sempre imbricadas. não é mera coincidência. se alguma semelhança tiver com a realidade. E é nesse contexto que se realizam. mas pode ser um primeiro passo para uma reflexão mais profunda sobre o planejamento participativo ascendente e a organização do trabalho na escola.disporão de novos livros didáticos enviados pelas editoras. as chamadas "semanas de planejamento" ou "reuniões administrativas e pedagógicas". ou seja. A situação descrita. Mas se há o risco de a ficção confundir-se com a realidade. que cuidemos da prática atravessada pela teoria e pensemos na teoria enquanto reflexão sobre a prática. Trata-se. a partir dos quais poderão adaptar seus planos de ensino dos anos anteriores. muitas vezes. de fragmentos de experiências verificadas em muitas escolas há alguns anos e mesmo hoje em dia. gerando resultados negativos no espaço escolar. Seria pois impossível tratar de planejar as atividades da escola e da educação sem considerar essa característica. Poderíamos iniciar a reflexão discutindo o significado de alguns termos relacionados ao tema em questão. na verdade. Não que definir este ou aquele termo possa resolver o problema. Preocupa-nos a possibilidade da ocorrência de situações parecidas com a aqui ilustrada nas escolas atuais.

o para quê. assumindo a escola como instância social de contradições que propiciam o debate construtivo e. temporariamente. Planejar a educação é tema de extrema relevância para contribuir na direção da melhor organização do trabalho na escola. que não é possível dissociar a idéia de planejamento educacional e escolar da necessidade de se desenvolver. por meio do Conselho de Escola. organizando a educação. de seus direitos e deveres. o porquê. Dessa forma. intencional. enquanto entidade que tem por principal missão propiciar aprendizagens e formar cidadãos. entendemos que a inexistência de um Conselho atuante e de um projeto político-pedagógico pode ser compensada. interpessoais e profissionais neles presentes.perspectiva cidadã faz-se necessário explicar o significado da palavra cidadania. portanto. é responder a um problema. O nosso objetivo é inverter a relação vertical. levando-se em conta o contexto e os pressupostos filosóficos. Observe-se. É estabelecer fins e meios que apontem para a sua superação. para que esta atinja os fins que justificam sua existência. visando atingir objetivos antes previstos. sobretudo. avaliando e ampliando a participação de diferentes atores em sua administração e em sua gestão. pela prática do planejamento coletivo. a implantação progressiva do Conselho de Escola e a elaboração de um projeto político-pedagógico. um projeto político-pedagógico nos estabelecimentos de ensino. Realizar os diversos planos e planejamentos educacionais e escolares. compreendendo as relações institucionais. Por outro lado. linear e hierarquizada que tem caracterizado a prática do planejamento no sistema educacional. pensando e prevendo necessariamente o futuro. com quem e para quem se planeja. de caráter político e ideológico e isento de neutralidade. Isso significa que. Isso exigirá. por parte da sociedade. Pensar em planejar a educação é parte essencial da reflexão sobre como realizar e organizar o trabalho escolar. culturais e políticos de quem. científica. em sentido amplo. planejar. o quando e o onde planejar. significa exercer uma atividade engajada. por meio de uma prática democrática . no desenvolvimento do próprio ato dinâmico de planejar. entendida aqui como o exercício pleno e democrático. mas sem desconsiderar as condições do presente e as experiências do passado. O resultado desse processo será influenciar e provocar transformações nas instâncias educacionais que historicamente têm ditado o como. Isso significa encarar de frente os problemas dessa instituição e do sistema educacional como um todo.

a atividade de planejar é sistemática. O Planejamento Socializado Ascendente Não é demais lembrar que estamos diante da possibilidade de utilização de um instrumento que contribui para a construção da . e viabiliza a execução e a avaliação do que foi planejado. um verdadeiro exercício de cidadania. o planejamento educacional e a organização do trabalho escolar pensados e acompanhados por todos e para todos não serão atividades meramente burocráticas. técnicas. sim. Em se tratando do diagnóstico. a crença de que planejar é atividade muito complexa . apresenta uma metodologia. metodologias de ação. o que facilita o trabalho de quem planeja. identificando todas as suas características. tanto em termos de recursos físicos (instalações.e de um planejamento interativo e participativo. estaremos quebrando e desfazendo. seus problemas e necessidades em relação à demanda de recursos físicos. Será. humanos. pode-se utilizar a metodologia da Carta Escolar. quanto de recursos humanos (docentes e nãodocentes). Com tal compreensão e prática estaremos desvelando o mito do planejamento e enxergando o seu caráter político e ideológico. porque envolverá a participação e a tomada de decisões da população em relação a um serviço prestado pelo Estado. pela ação. Ao contrário: por ser científica. estamos atribuindo às nossas ações educativas caráter transformador ou conservador.porque científica . tanto para o municipal quanto para a unidade escolar. ao definir objetivos.e para a qual apenas os especialistas estão devidamente preparados. estamos fazendo opções. com seu perfil profissional. pedagógicos ou financeiros. tem um objeto de estudo bem definido. essencial para a elaboração do Planejamento Socializado Ascendente. material didático etc). é um levantamento exaustivo da capacidade instalada. pois. metas. possui um padrão. precisamos inicialmente fazer um diagnóstico da escola e/ou do município no qual ela se insere. A interpretação dos dados coletados indicará as prioridades a serem consideradas no ato do planejamento político-pedagógico da escola. bem como da demanda real e potencial. Esse diagnóstico. Dessa forma. especialmente se isso é realizado coletivamente. como tem ocorrido no país nos últimos 25 anos. formas de avaliação do trabalho na escola etc. Se pensarmos na formulação de um planejamento educacional conforme descrito acima. equipamentos.

No entanto. Ao contrário. como diz João Pedro da Fonseca (Revista da Faculdade de Educação. ou seja. a visão de totalidade desse processo coletivo. comunidade escolar e extra-escolar. que valoriza todos os níveis de participação da escola. é mister a participação efetiva de todos: alunas e alunos. 1. que envolve a reflexão. direção. professores. funcionários da escola) já tenha sido iniciado. n. professores. com suas representações nos diferentes momentos do processo educativo. São Paulo. que apresenta duas características fundamentais explícitas na sua própria denominação. Quando nos referimos ao Planejamento Socializado Ascendente.como a dos pais. Outro pressuposto fundamental do Planejamento Socializado é a não separação estanque dos diferentes momentos da atividade de planejar. a partir da integração das forças de todos os sujeitos. Outra característica de um planejamento socializado que podemos registrar é o fato de ele prever que a participação de certos segmentos escolares e comunitários . ou depois de definidos alguns critérios básicos que deverão ser cumpridos. desde o princípio do planejamento escolar."educação para a cidadania". mães e pais de alunos e de alunas. 1995. Dessa forma. 4). do qual ela participa diretamente. entendendo esse processo participativo em seu dinamismo. o planejamento socializado é extremamente relevante e.municipal. v. funcionárias e funcionários da escola. fica garantida a participação de todos os segmentos. 79-112. segmentos ou grupos comunitários e sociais que direta ou indiretamente atuam e se relacionam com a escola e com os demais níveis educacionais . no momento do planejamento. isso não significa dizer que todos os segmentos estarão participando o tempo todo de todas as tarefas e de todos os tipos de planejamento a serem realizados na escola ou na . Assim sendo. a dos alunos. "dotado de tensões que precisam ser vividas e administradas". estamos também diante de um tipo de planejamento participativo. Feusp. estadual e federal. sem exceção.não ocorra apenas quando o planejamento com outros segmentos (direção escolar. tem-se. 21. a organização da ação e a avaliação de resultados. A primeira característica é o fato de ser um planejamento socializado. Planejar socializadamente pressupõe a prestação de um serviço à comunidade. pp. p. para que a escola funcione bem. professoras. Não se trata de adesão a um processo já iniciado. jan/jun. dividindo com eles o poder de decisão. a tomada de decisão. a de associações escolares e comunitárias .

com outras experiências. Além dessas. Ao pensarmos no Planejamento Socializado Ascendente estamos viabilizando o projeto político-pedagógico da escola. . Esta estratégia implica combinar. todos os segmentos terão suas tarefas bem definidas. tais representantes estarão veiculando as experiências de suas escolas em outras instâncias e níveis educacionais. pois. poderá haver atividades que envolvam equipes multissegmentárias que. Esse processo revela a importância do Conselho de Escola dos Conselhos Municipais e Estaduais de Educação de elevar aos níveis superiores da administração educacional as deliberações tiradas na base do sistema de ensino. a divisão de tarefas. Nesse sentido. outras instâncias representativas intermediárias podem ser criadas em nível local ou regional (conselhos regionais. a partir das bases (todos os segmentos envolvidos no processo de planejamento).educação. estaduais e federais de educação. Apesar disso. Isso não só seria inviável em termos operacionais como excluiria diferenças inegáveis em termos de maior capacitação de determinados segmentos para a coordenação e a participação em certos componentes do planejamento. interescolares. assim. a segunda característica desse tipo de planejamento que chamamos de estratégia ascendente. poderão estar trocando experiências a todo o momento e repassando-as aos grupos mais específicos. observando-se. ainda. Mas. Dessa maneira. viabilizando a consolidação de decisões e deliberações dos grupos participantes. que poderão influenciar os demais níveis da administração e do planejamento educacional. interferindo assim na definição das políticas públicas municipais. tudo o que ficar consolidado terá de ser aprovado pela maioria. em outros níveis. Ordenar a participação é. definir a coordenação de grupos. intermunicipais) para a troca de experiências e para a adoção de propostas educacionais mais amplas. deflagrado o processo. escolher representantes dos segmentos escolares e das equipes multissegmentárias para que se organizem consensos básicos. que os temas que não forem objeto de consensos básicos retornarão a todo o grupo e serão rediscutidos. Representantes da escola deverão ser também definidos pelo grupo para que as consolidações do Planejamento Socializado Ascendente não fiquem restritas aos muros escolares. Ou seja. Além disso. tudo o que estiver acontecendo na escola será também socializado com outras escolas. operacionalizam-se a ação e todas as etapas do planejamento escolar.

a penetram. de caráter tecnicista e com objetivos apenas formais. Lida ela com interesses relevantes para a sociedade toda. modelam e controlam. Estará também contribuindo para superar a resistência à participação no âmbito escolar. desde que se concebe a democracia como o efetivo poder dos cidadãos no mundo de suas vidas. o planejamento deve começar pela inserção de toda a sociedade no debate democrático. já que implica tomada de decisões. e desde que os recursos públicos são gerados nos processos do trabalho" (O projeto pedagógico da Escola. das organizações locais. em movimento ascendente.Como explica Mário Osório Marques. "Dão-se as relações entre a escola e a sociedade pela mediação da família e dos grupos de iguais. por conseguinte. que perpassam as demais instituições sociais e os grupamentos humanos em articulações múltiplas e complexas. de estados-membros e da Federação. "a comunidade argumentativa dos interessados no projeto político-pedagógico da escola não se limita. dos movimentos sociais. na própria sociedade. em especial. pp. das demais instituições da sociedade civil e. sem sentido. 10-11).Série Atualidades Pedagógicas. pela ação do poder político organizado no Estado com seus níveis de município. a organização e a condução da escola de intenções políticas em interação dinâmica e conflitiva. de cima para baixo. sobre questões relativas não só ao processo de ensino e aprendizagem. que considera (com razão) o planejamento atualmente praticado uma atividade meramente burocrática. ao interior e ao entorno imediato dela. 9. MEC/SEF. invertendo a relação de poder na educação e. Metodologia de elaboração do Planejamento Socializado Ascendente Consideramos que planejar a educação de forma socializada é exercitar a cidadania. O Planejamento Socializado Ascendente pretende quebrar a coluna dorsal do planejamento educacional autoritário. seja em que nível for. envolvimento com as ações do cotidiano escolar e avaliação dos serviços prestados à população. que. mas também em relação às questões administrativas e financeiras da escola e da própria sociedade em que ela se insere. Brasília. 1994 . Sendo assim. porém. Dependem a concepção. . embora articuladas fora da escola.

É necessário também que se contextualizem os objetivos. a escola terá diante de si as informações que lhe permitirão definir prioridades. É importante evitar. as estratégias de ação. após verificar-se a disponibilidade de meios para a sua superação. Essas devem ser escolhidas por ordem de prioridade. levando a eles as prioridades definidas pela unidade escolar. co-responsabilizando-se com a busca de soluções e superação dos problemas. o tipo de avaliação que se fará do processo e que se estabeleçam as intervenções a serem realizadas na escola. estará buscando as possíveis alternativas de solução aos problemas encontrados. Isso pode ser feito. A Carta Escolar. A Carta. desde o início do planejamento. municipal e estadual. o primeiro passo do Planejamento Socializado Ascendente na unidade escolar é a Carta Escolar. se presentes. elaboradas cientificamente e baseadas numa nova ética que considere e respeite. para tanto. Definidas as ações. Cuidados com o democratismo e com o risco do populismo devem ser tomados. Como só é possível planejar a partir de um contexto bem específico e conhecido. nessa fase. as metas. por meio da metodologia da Carta Escolar. partir de um diagnóstico detalhado da escola e da educação em nível local. já garante. podem inviabilizar o . Concluída essa etapa.considerando sempre os condicionantes socioculturais e políticos que influenciam e afetam diretamente o cotidiano escolar. desenvolvida pelo Instituto Paulo Freire. pois o amplo levantamento de informações torna-se inviável sem que todos estejam envolvidos. a tentação de se querer resolver de uma só vez e de modo idealista todos os problemas detectados no diagnóstico realizado. Se confiará na capacidade reflexiva de todos os segmentos escolares e comunitários e em suas potencialidades de ação. pois. por exemplo. as tarefas e as equipes responsáveis pelas mesmas. a participação de todos os segmentos. a história e a cultura local dos cidadãos pesquisados. Portanto. o cronograma de atividades. enquanto estudo inicial de dados da realidade escolar e de diagnóstico (ou interpretação daqueles dados). devemos. devem ser escolhidos os representantes da escola que atuarão junto aos colegiados intermediários e conselhos municipais e/ou estaduais de Educação. a ser realizado mediante a aplicação de metodologias inovadoras de pesquisa. ao contar com as comunidades intra e extra-escolar e ao ouvi-las. num horizonte de tempo predeterminado. sobretudo.

na escola. Caso não exista um colegiado. • T o d o s os segmentos escola res deverão estar representados paritariamente nessa reunião. nos níveis seguintes. Caixa Escolar. Associações comunitárias deverão t a m b é m estar r e p r e s e n t a d a s . ETAPAS ESCOLARES: POSSÍVEIS PARÂMETROS O Planejamento Socializado Ascendente na escola pretende superar a prática de atribuir a competência de planejar apenas a uma minoria de especialistas. . as conquistas e os entraves verificados em todo o processo. determinam os destinos da unidade escolar ou da educação como um todo. as consolidações. as possíveis etapas desse processo podem ser as seguintes: • o Conselho de Escola convocará uma Assembléia Geral para discussão do Planejamento Socializado Ascendente. A escola e cada um dos possíveis níveis intermediários de representação existentes deverão estar sendo permanentemente informados sobre as deliberações. cabendo aos educadores. a gestão democrática. Superar tal exclusão e tal limitação é característica inerente a esta proposta. que estarão envolvidos na elaboração do planejamento. o projeto político pedagógico da escola.processo democrático necessário ao Planejamento Socializado ascendente em quaisquer de suas fases. • elaboração do Plano de Trabalho para a efetivação da Carta Escolar. a todos os segmentos escolares e à comunidade educacional em geral. explicar detalhadamente no que consiste esse tipo de planejamento. Estes. Grêmio Estudantil). a escola poderá organizar uma comissão responsável pelos e n c a m i n h a m e n t o s relacionados ao Planejamento Socializado Ascendente. definindo datas e espaços para que os segmentos escolares se reúnam em separado para eleger representantes. os e n c a m i n h a m e n t o s . baseados numa suposta neutralidade política e científica. • amplo movimento de sensibilização da comunidade para compreender a importância da Carta Escolar e de sua realização. • na reunião. aos educandos. b e m c o m o os representantes de todas as instituições escolares (APM. Assim. a tarefa de cumprir à risca o que fora por eles planejado.

• escolha de membros do Conselho para representar a escola nos demais níveis de planejamento educacional (local/ municipal/estadual). • reuniões para organização das equipes que participarão da Carta Escolar (ver Carta escolar: instrumento de planejamento coletivo). assim.• definição de equipes e tarefas relativas à primeira atividade do p l a n e j a m e n t o e organização da Carta Escolar no estabelecimento de ensino. Dessa m a n e i r a . • o Conselho deverá se reunir periodicamente a fim de renovar. • ampla mobilização da comunidade para a realização da Carta Escolar do estabelecimento de ensino. política e social que certamente aparecerá no d i a g n ó s t i c o p r o p o s t o . Hoje. serão também influenciadas e fiscalizadas em sua própria atuação. elaborar o Projeto Político-Pedagógico da Escola. definindo subcomissões para todas as tarefas necessárias à organização e funcionamento da escola nos seus aspectos administrativos. metodologias e formas de avaliação das atividades educacionais que favoreçam a ação de todos para superarem. os problemas e as demandas educacionais verificados a cada momento. • Após a Carta Escolar. por sua vez. O Planejamento Socializado Ascendente representa. os obstáculos a serem enfrentados e o grau de realização das metas e objetivos estabelecidos no Planejamento PolíticoPedagógico da Escola. viabiliza-se o estabelecimento de metas. Podemos concluir que o planejamento. coletivamente. sem perder de vista a multiplicidade cultural. a c o m p a n h a r e avaliar p e r m a n e n t e m e n t e as ações implementadas na escola. nessa nova perspectiva. um i n s t r u m e n t o eficaz para c o n t r i b u i r com a melhoria da qualidade do serviço educativo oferecido pela i n s t i t u i ç ã o escolar. A escola continuará contando com a devida orientação por parte das secretarias municipais e estaduais da Educação que. poderá propor ações com base no estabelecimento de finalidades e de objetivos educacionais claramente definidos. o fim das práticas inadequadas de avaliação do desempenho educacional do aluno. a superação do nível insatisfatório da qualidade de ensino. a definição de metodologias educacionais apropriadas . pedagógicos e financeiros. cotidianamente. toda a sociedade brasileira cobra. os projetos desenvolvidos.

que não permitia aos docentes o uso da palavra. Reclama da inexistência de uma política devidamente comprometida com as suas necessidades educativas e com os problemas enfrentados pelo magistério que favoreça. O Planejamento Socializado Ascendente. que definia pautas. normas e prazos autoritariamente. o que prevê a Constituição Federal de 1988 em seu Artigo 205: "A educação.e contextualizadas. se não elimina de vez. inclusive. que não garantia a participação dos segmentos escolares sequer no planejamento da escola e do ensino. de acordo com as necessidades do mundo moderno e as exigências das comunidades escolares locais. Encontramo-nos diante de desafios que podem ser melhor enfrentados a partir de ações efetivamente democráticas. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. justa e solidária. os seus objetivos e o próprio papel da escola na sociedade atual. de fato. Garantida a voz e a capacidade de ação aos que sempre se viram alijados de participar do destino da educação no País. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". . que entendia a organização do trabalho na escola como um rol de atividades burocráticas e puramente administrativas. diminui consideravelmente a possibilidade de depararmos com experiências como a que apresentamos no início desta exposição. O Planejamento Socializado Ascendente. direito de todos e dever do Estado e da família. que aplicava dinâmicas sem critérios e sem explicar os objetivos de quaisquer atividades. ao propor uma nova orientação participativa no âmbito escolar e educacional. Além de reclamar. que entendia o planejamento como uma atividade meramente formal. a sociedade quer ser ouvida e quer colaborar. voltada para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. contribuirá decisivamente para a redefinição das próprias políticas educacionais do País e influenciará em que se revejam as finalidades da educação. e que. ética. além de tudo. a existência da gestão democrática na escola. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. principalmente. que obedecia cegamente às ordens vindas "de cima". apenas se referia ao aluno para discipliná-lo ainda mais e para lhe fechar os quase inexistentes espaços escolares de participação. a luta por uma educação de qualidade para todos estará. por isso tem lutado por maior participação para cumprir.

Questões para debate
• O que significa planejar de forma socializada e com estratégia ascendente? • Qual a relação que existe entre esse tipo de planejamento com a organização do trabalho na escola? • Em que sentido o Planejamento Socializado Ascendente inverte a relação de poder na definição da política pública em educação? • Que parâmetros você acrescentaria ao processo de Planejamento Socializado Ascendente?

É possível formar cidadãs e cidadãos autônomos numa escola onde a autonomia não seja discutida, mas intimamente vivenciada por seus diferentes segmentos. Sônia Couto, Instituto Paulo Freire, SP

Enquanto os homens exercem seus podres poderes Morrer e matar de fome de raiva e de sede São tantas vezes gestos naturais Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo Daqueles que velam pela alegria do mundo Indo mais fundo tins e bens e tais. (Podres poderes) Caetano Veloso

DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA
Paulo Roberto Padilha Como afirma o professor Moacir Gadotti em seu livro Pedagogia da praxis (São Paulo, Cortez/IPF, 1995), "se é verdade que a educação não pode fazer sozinha a transformação social, também é verdade que a transformação não se efetivará e não se consolidará sem a educação". No mesmo sentido, não podemos pensar que a gestão democrática da escola possa resolver todos os problemas de um estabelecimento de ensino ou da educação. No entanto, sua implementação é, hoje, uma exigência da própria sociedade, que a vê como um dos possíveis caminhos para a democratização do poder na escola e na própria sociedade, conforme pudemos verificar em pesquisa recentemente realizada pelo Instituto Paulo Freire, em nível nacional. Outro aspecto que merece destaque neste trabalho é o fato de que a atual prática gestionária nas escolas acaba exigindo dos diretores uma dedicação maior, e às vezes plena, às questões adrninistrativas. Isso os obriga a secundarizar o aspecto mais importante de sua atuação, ou seja, sua responsabilidade em relação às questões pedagógicas e propriamente educativas, que se reportam à sociedade como um todo e especificamente à sua comunidade escolar. Com essa análise geralmente concordam professores, diretores, "especialistas" e "teóricos" da administração escolar.
Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco (SP) e diretor do Instituto Paulo Freire

A afirmação freqüente de que "é dificil administrar sozinho a escola" denuncia o isolamento do dirigente escolar enquanto responsável único e último pela instituição educativa, o que muitas vezes independe de sua vontade, mas não de seu cargo. A administração autocrática, isto é, a que centraliza todas as decisões e todo o poder nas mãos da diretora ou do diretor, acaba gerando uma sobrecarga de trabalho e, por conseguinte, estabelecendo relações conflituosas no âmbito escolar, o que se reflete no insucesso dos alunos. Por outro lado, é importante observarmos que a atuação do diretor, suas atribuições e seu vínculo com a escola se alteram dependendo da forma com ele foi escolhido e de acordo com o tipo de gestão que é implementada na unidade escolar. Uma reflexão sobre a gestão democrática da escola, a partir da compreensão por parte dos professores e dos demais sujeitos com ela envolvidos e, neste caso, especificamente relacionada à escolha e à atuação do dirigente escolar, pode contribuir para a superação de conflitos com vistas à melhoria do trabalho, das relações estabelecidas na instituição educativa e, fundamentalmente, da qualidade do ensino. Deparamos, pois, com um problema que nos exige soluções. Para chegarmos a elas, estaremos analisando algumas formas de escolha do diretor de escola e definindo parâmetros para a escolha de dirigentes escolares e também para a gestão democrática da escola pública. Pretendemos com isso identificar alguns princípios da implementação de uma gestão escolar democrática e também localizar algumas atribuições fundamentais dos diretores na definição de propostas de implementação daquele tipo de gestão, que devem ser compreendidas também pelos docentes e demais sujeitos educacionais. A forma predominante de escolha e de designação de dirigentes escolares no sistema escolar público brasileiro tem sido aquela decorrente do arbítrio do chefe do Poder Executivo, tanto na esfera estadual quanto na municipal, por se tratar, em sua grande maioria, de cargos comissionados, normalmente denominados "cargos de confiança". O processo de escolha democrática de dirigentes escolares tem seu início na década de 60. Em 1966, os colégios estaduais do Rio Grande do Sul realizaram votação para diretores de escola com base em listas tríplices. A partir da década de 80 e principalmente nos dias atuais, tem havido grande preocupação em relação aos processos de escolha de diretores escolares nos municípios e

nesse tipo de escolha. Se assim acontece. para fins desta análise. de caráter conteudista. ao se acentuar a adoção de critérios considerados objetivos e técnicos na definição dos concursos públicos e. eleição e esquema misto. Por isso mesmo pode ser substituído a qualquer momento. Isso significa que o concurso acaba sendo democrático para o candidato. Nesse processo. não se confere a liderança do diretor diante do pessoal escolar e dos usuários da escola pública e não se avalia o desempenho dele. 1992). As provas são geralmente escritas. o diretor pode acabar não tendo grandes compromissos com os objetivos educacionais articulados com . uma vez que apenas as provas escritas e a titulação apresentada bastam para a aprovação ou a reprovação dos candidatos. mas é antidemocrático em relação à vontade da comunidade escolar. o que mais pesa são critérios político-clientelistas. São Paulo. que. quais sejam: nomeação. No entanto. FDE. n. como afirma o professor Vitor Henrique Paro no artigo Participação da comunidade na gestão democrática da escola pública (Série Idéias. se aprovado. A experiência nacional mostra que. Um argumento favorável à escolha por concurso é que ele defende a moralidade pública e evita o apadrinhamento político. na seleção dos candidatos. Podemos estabelecer. "o diretor escolhe a escola mas nem a escola nem a comunidade podem escolher o diretor". 12. portanto. CONCURSO Realizado por meio de provas ou de provas e títulos. e a prova de títulos é a comprovação da formação específica que habilita o candidato ao cargo. pelo governador do Estado ou pelo prefeito do município. NOMEAÇÃO O diretor é escolhido pela vontade do agente que o indica. concurso. o que vem estimulando um permanente questionamento sobre o papel do dirigente escolar na construção de uma gestão democrática da escola pública. que é obrigada a aceitar a escolha daquele.Estados brasileiros. quatro categorias de escolha de diretores escolares. ou seja. de acordo com os interesses políticos e com as conveniências daqueles que o escolheram. pode escolher a escola onde irá atuar. assume um cargo de confiança e torna-se o representante do Poder Executivo na escola. Dessa maneira. dissertativas ou não.

além da sua experiência administrativa. As experiências com esse tipo de escolha têm mostrado que tal critério favorece a discussão democrática na escola e acaba implicando maior distribuição do poder para as instâncias da base da pirâmide estatal. Consideradas essas formas de escolha aqui analisadas. por escolha uninominal ou. por escolha por meio de listas tríplices ou plurinominais. deve assumir responsabilidade política junto à comunidade escolar que o elegeu para um mandato por tempo determinado. ELEIÇÃO Baseada na manifestação da vontade da comunidade escolar.este. o diretor acaba tendo também maior vínculo e compromisso com aqueles que o escolheram ou indicaram. se eleito. ainda que isso não possa ser considerado uma regra. capacidade de liderança etc. tal escolha favorece a gestão democrática e colegiada na escola. ainda. incluindo. representativo.os interesses dos usuários. geralmente com direito a uma reeleição. por exemplo. não podemos mais . A partir do momento em que se exige do candidato à função de diretor de escola equilíbrio entre competência técnico-acadêmica e sensibilidade política . No entanto. Quando é esse o caso. o que gera muitas vezes a negligência em relação às formas democráticas de gestão.requisito indispensável para o diretoreducador. provas que avaliem a competência técnica e a formação acadêmica do candidato. na maioria das vezes. a comunidade escolar geralmente participa de uma ou mais fases do processo de seleção. Por conseguinte. No esquema misto. iniciando o processo de implantação da gestão democrática no ensino antes mesmo de sua regulamentação e permitindo a eleição dos dirigentes escolares. Prevê. duas ou mais fases no processo de escolha. a eleição se caracteriza pelo voto direto. como a história da eleição de diretores de escola no Brasil é marcada por avanços e retrocessos. ESQUEMA MISTO Combina diferentes formas de escolha do diretor. é oportuno observar que a partir da aprovação da Constituição de 1988 muitos administradores abriram mão da prerrogativa constitucional de nomear o diretor de escola. colocado antes de ser resolvida a questão do provimento do cargo .

. a capacitação para a participação efetiva dos representantes dos segmentos escolares e da comunidade nos destinos da escola pública.ou manutenção . acrescido dos adjetivos corporativo ou cultural.) Os adjetivos corporativo e cultural visam a apontar a ênfase maior ou menor que tenham os objetivos dominantes no grupo em relação à obtenção de benefícios para o próprio grupo ou para os demais . II). estarão norteando a construção de uma futura Lei da gestão democrática.. refere a um grupo de pessoas que agem na sociedade conforme um critério comum que as identifica. na comunidade e em toda a sociedade os parâmetros da gestão democrática da escola pública. numa projeção extensiva do que dispõe a Constituição Federal sobre as prerrogativas do presidente da República (Arts. em sua tese de doutoramento na Feusp. torna-se necessário aproveitar a experiência democrática acumulada no País e a partir daí procurar regulamentar o princípio da "gestão democrática do ensino público. que. inciso VI. de tal modo que se reconhecem como mutuamente pertencentes a uma mesma história e possuindo um mesmo destino como horizonte.de modo a assumir a responsabilidade consciente pela própria vida.depender da vontade política das constituições estaduais e das leis orgânicas municipais. que procuremos entender as características dos sujeitos aos quais estamos nos referindo. previsto no Artigo 206. Ser sujeito é ser capaz de julgar a realidade. empenhando-se pela sua transformação . O sentimento de pertencer cria e mantém a comum identidade. Segundo o professor Jair Militão. "Há uma percepção de um nós ético que constitui tais pessoas numa unidade. que têm consignado aos governadores e prefeitos a competência privativa para a nomeação de agentes para o exercício de cargos públicos comissionados. intitulada Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escola (São Paulo. 1989). Essa participação efetiva exige. na forma da lei". 36 e 61. cumpre-nos discutir na escola. titular de direitos e deveres. responsável. por sua vez. Para tanto. A noção de sujeito é aqui tomada em sua forma substantiva e quer significar um ser ativo. por sua vez. "o termo sujeito. Assim sendo. (. por exemplo. Resta-nos observar que a eleição de dirigentes escolares aqui defendida é apenas um dos componentes da gestão democrática do ensino público e só terá efeito prático eficaz se associada a um conjunto de medidas que garantam. da Constituição Federal.

O professor Militão observa. ainda. poderá. pedagógica e financeira da escola. A rigor. associada à elaboração do projeto político-pedagógico da escola e à implantação de Conselhos de Escola que efetivamente influenciem na gestão escolar como um todo e de medidas que garantam a autonomia administrativa. preferencialmente os culturais. Ela acontecerá. estabelecer parcerias com outras instâncias da sociedade civil. sem eximir o Estado de suas obrigações com o ensino público. No segundo caso. por exemplo... De qualquer maneira. mas também não é processo tão complexo ou irrealizável. às ações do sujeito cultural poder-se-ia aplicar um princípio de universalidade: o que é de direito e dever para o grupo é defendido igualmente para qualquer outro grupo. possam vivenciar um processo de capacitação para essa participação. enquanto sujeitos culturais visam objetivos de caráter mais geral cuja consecução tende a favorecer a um número maior de pessoas e grupos. passo inicial importante terá sido dado na direção da gestão democrática que ora estamos analisando. o sujeito cultural é necessariamente pluralista". A gestão democrática não é processo simples de curtíssimo prazo. das expectativas e das atividades cotidianas da escola. de prazo interminável. se quiser. Nesse sentido.) sujeitos corporativos são aqueles cuja ênfase se dá na busca de benefícios limitados ao próprio grupo. tais recursos devem ter caráter . numa prática a ser construída na escola. desde que as decisões relacionadas com a gestão dos recursos públicos e da verba originária de parcerias sejam administradas pelo coletivo democrático que vai gerir a unidade escolar. o que se realiza formalmente ou informalmente. Observe-se ainda que a escola. ou seja. fazendo uso de sua autonomia financeira. mediante programas duradouros de capacitação custeados pelo Estado e pela articulação dos diferentes sujeitos escolares em torno dos problemas.grupos existentes. (. que é estatal quanto ao financiamento. A gestão democrática à qual nos referimos faz parte de uma desejada escola cidadã. dos interesses. Se esta estiver aberta à participação. para subsidiar projetos voltados para a melhoria da qualidade do ensino. pois o Estado deve repassar os recursos diretamente à escola para que o dirigente escolar possa executar o que o coletivo escolar deliberou e aprovou em seu projeto político-pedagógico. Isso significa que o mesmo se constituirá numa ação. estamos aqui particularmente interessados em que esses sujeitos. que numa mesma comunidade podem existir vários sujeitos além dos que acima acentuou.

respeitada a paridade de votos dos diversos segmentos que a compõem e a legislação em vigor. seguir-se-á a eleição por voto direto. • processo seletivo prévio ao processo eleitoral. apresentando e defendendo publicamente seus programas de trabalho. Após tal defesa. A escola cidadã à qual nos referimos é também comunitária quanto à gestão. . no ato da inscrição dos candidatos. Essa escola é. de acordo com as diretrizes definidas coletiva e democraticamente com a participação de todos os segmentos educacionais e das respectivas comissões eleitorais. destina-se igualmente a toda a sociedade. avaliar e fiscalizar a execução de seu planejamento político-pedagógico. se estes atendem às exigências quanto ao tempo mínimo de serviço público e à formação escolar mínima exigida para o cargo. definir e deliberar de forma socializada sobre as suas diretrizes e prioridades. Os candidatos aprovados na etapa anterior submeter-se-ão ao processo de verificação de liderança. sem distinções. acompanhar. pois todos os segmentos escolares e comunitários devem eleger o dirigente escolar. de forma a garantir a participação de todos os membros da comunidade escolar. em que se verifique a competência profissional do candidato.excepcional e complementar. de arcar com o financiamento da educação. sem exceções. A forma de escolha do diretor deve prever a sua nomeação pela autoridade competente em chapas constituídas e formadas por candidatos a diretor e a vice-diretor de escola. Parâmetros para a escolha democrática A partir desses pressupostos. Os candidatos serão escolhidos pelos membros da comunidade escolar mediante processo que verifique competência profissional e liderança. sob a coordenação do órgão gestor do respectivo sistema educacional. de acordo com as normas previstas democraticamente conforme acima especificado. estabelecemos o primeiro parâmetro para a escolha democrática de dirigentes escolares. secreto e facultativo. em nenhuma hipótese. ainda. isto é. em chapa formada por candidatos a diretor e vice-diretor. O processo de escolha pode obedecer às seguintes etapas: • verificação. participar do Conselho de Escola. pública quanto à sua destinação. e não eximem o Estado.

sejam servidores públicos concursados ou estáveis com efetivo exercício há pelo menos três anos na rede ou dois anos na escola onde se candidatam. Elas devem ser criadas nas unidades de ensino para planejar. Nesse sentido. serão admitidos candidatos com habilitação específica para o magistério (ensino médio). dependendo das condições locais. Poderão se candidatar os professores e especialistas em educação desde que. Esta comissão deverá atuar em consonância com a legislação em vigor bem como com as normas fixadas para o pleito pelas secretarias estaduais ou municipais de Educação e respectivos Conselhos de Educação. fiscalizar. O quarto parâmetro que apresentamos diz respeito aos eleitores. que terão funções normativa e fiscalizadora no processo eletivo em pauta. Um terceiro parâmetro se refere aos candidatos e às inscrições. dependendo da resolução de cada localidade. devidamente adaptados às condições reais da unidade escolar. A comissão de cada escola deve ser composta paritariamente por representantes de todos os segmentos escolares. Além do tempo de serviço mínimo acima especificado. municipais ou estaduais. em virtude das características locais onde se situam as unidades escolares e especificamente para as escolas de ensino fundamental. Contudo. com licenciatura plena em Administração Escolar. desde que completa. poderão ser admitidos como candidatos aos cargos em questão servidores concursados ou estáveis com licenciatura em qualquer área ligada à Educação. de acordo com as normas e prazos fixados pela comissão eleitoral local ou através de instrumentos legais do poder executivo. acompanhar o processo de votação e de apuração dos votos e zelar pela lisura do processo eleitoral. tais comissões deverão coibir qualquer processo eleitoral "viciado" ou ações que possam partidarizar as eleições na escola. defendemos .Um segundo parâmetro se refere às comissões eleitorais. Nenhum professor ou especialista educacional poderá candidatar-se simultaneamente em dois estabelecimentos de ensino. a serem indicados em assembléias de seus pares. Quando e onde for necessário. Para garantir que o processo eletivo seja plenamente democrático e para que se constitua num exercício pleno de cidadania. organizar. Deverão ser constituídas. concluída ou em andamento. na data da convocação da eleição. os candidatos deverão ter cursado Pedagogia. comissões eleitorais regionais. municipais e estaduais. Podem ser aceitas inscrições de chapas com candidatos a diretor e a vice-diretor.

secreto e facultativo. entendemos que a opção da reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período garante a possibilidade da continuidade de um trabalho que tenha . No segundo turno. em recente pesquisa. as mães de alunos ou os representantes legais dos alunos regularmente matriculados na escola que estejam abaixo dos limites de idade e série acima previstos. Votam também os pais. Quanto ao parâmetro da divulgação durante o processo eleitoral. Será considerada eleita a chapa que obtiver maioria absoluta dos votos válidos (cinqüenta por cento mais um). Tal divulgação consiste na defesa pública dos programas de trabalho junto à comunidade. com o direito a uma reeleição consecutiva. ao máximo. ficaria garantida aos candidatos a realização de campanha e de propaganda eleitoral nas dependências da unidade escolar. segundo critérios das comissões eleitorais. ou que tenham completado 10 anos até a data da eleição. previstos e divulgados antes do período de inscrição das chapas. Verificamos. realizar-se-á um segundo turno. a predominância do mandato de diretores com a duração de dois ou três anos. pelo voto direto.a garantia do voto a todos os servidores em exercício no estabelecimento de ensino. Considerando que um projeto político-pedagógico deva contemplar propostas e avanços de curto. observamos aspectos positivos e negativos. impugnando as candidaturas que promoverem a "partidarização" das eleições dos dirigentes escolares. as propostas de gestão das chapas. os seus candidatos. que respeitem o pleno desenvolvimento das aulas durante o período em que a propaganda poderá acontecer e que garantam a discussão política inerente ao pleito eleitoral. Encerrada a campanha. na promoção de discussões e debates com a mesma e na divulgação de material que torne conhecidas. Em relação à reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período. será eleita a chapa que obtiver maioria simples de votos válidos. envolvendo as duas chapas mais votadas. Se nenhuma chapa alcançar tal número de votos. aos alunos regularmente matriculados na escola que estejam cursando a 4ª série do ensino fundamental em diante. Para tanto. Um sexto e último parâmetro que ora apresentamos diz respeito à duração do mandato do diretor e de seu vice. os segmentos escolares credenciados escolherão. médio e longo prazos. Esta deverá adequar-se às especificidades locais da comunidade escolar. as comissões eleitorais deverão fixar prazos e normas que garantam a manutenção dos princípios éticos durante a campanha.

mas que é ruim no caso inverso. da ação. bem como a possibilidade da destituição dos mandatos dos dirigentes escolares.sido aprovado pela comunidade escolar. a não reeleição consecutiva promove uma renovação constante dos dirigentes escolares. pois dependem de uma ampla discussão e de consulta a ser realizada com a comunidade escolar. mesmo tendo realizado uma ótima gestão. portanto. Dessa forma. alterando-os. • consulta à comunidade escolar para que esta se cientifique da legislação pertinente às diferentes instâncias da gestão democrática e possa debater. um processo educativo que possibilita aprendizagens cidadãs e colabora para a determinação dos seguintes pressupostos da gestão democrática: • capacitação de todos os segmentos escolares para que se busquem respostas à prática educativa. Por outro lado. entre outras. Entendemos que a discussão em torno desses parâmetros e de outras questões relativas ao tema aqui tratado já é. quando um dirigente escolar. se for o caso. seja prevista em normas a serem definidas democraticamente em cada um dos sistemas de ensino em que for implantada a escolha democrática de dirigentes escolares. é obrigado a afastar-se do cargo. A definição dos parâmetros acima encontra uma série de limites que só poderão ser superados na ação concreta e no contexto em que o processo eleitoral acontece. essas situações referem-se à definição da idade mínima do voto do aluno. por si mesma. à proporcionalidade na apuração dos votos. mesmo no que se refere ao número de reeleições possíveis. No geral. Preferimos deixar a questão do tempo do mandato do diretor escolar em aberto. Isso é bom quando impede que um diretor que não cumpriu o seu programa de trabalho em consonância com o projeto político-pedagógico da escola continue no cargo. se desenvolverá a cultura da participação. Sugerimos que esta problemática. aprofundar o mais possível a discussão dos anteprojetos de leis que institucionalizem as propostas de governo dos poderes executivos. à questão de como superar o veto governamental em relação à eleição direta de dirigentes escolares. realizar seminários e assembléias e. . do envolvimento. à importância que deve ser atribuída à prova escrita como pré-requisito para a seleção dos candidatos ao cargo de diretor de escola. atribuindo-se responsabilidades às comunidades escolares. Outras situações ficam também em aberto.

projetos de lei mais consistentes. a falta de canais de disseminação das informações por parte das administrações para todas as esferas da estrutura administrativa e para todos os segmentos da sociedade tem se manifestado como um sério entrave à participação. possui uma função primordialmente pedagógica e social. melhor poderão ser desempenhadas as suas próprias tarefas. para atingirmos os fins aos quais nos propusemos no início desta discussão. Dessa forma. O diretor de escola é e deve ser antes de tudo um educador. Isso é necessário não só no início do processo administrativo. painéis. Em sua gestão. mas uma liderança democrática que seja capaz de dividir o poder de decisão e de deliberação sobre os assuntos escolares com . encontros etc. • lisura nos processos de definição da gestão. seja em relação à responsabilidade social daquela com sua comunidade. Todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. política e pedagógica. faz-se necessária a criação desses canais: jornais-murais. seja no aspecto organizacional da escola. • agilização das informações e transparência nas negociações. Quanto maior for essa articulação. Enquanto tal. mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos. que atendam às reais necessidades educacionais da população. é importante. Nesse sentido. para que se garanta total transparência na escolha democrática dos dirigentes escolares. o diretor-articulador deve exercer sempre uma liderança na escola. Portanto.• institucionalização da gestão democrática. que lhe exige o desenvolvimento de competência técnica. os governos estaduais e municipais tenham o respaldo democrático para encaminhar ao Poder Legislativo. uma breve análise sobre a função do diretor enquanto articulador da gestão democrática na instituição escolar. a partir da garantia do processo de participação das comunidades escolares. A descentralização implica acesso de todos os cidadãos à informação. boletins. deve ser um articulador dos diferentes segmentos escolares em torno do projeto políticopedagógico da escola. ainda. Definidos alguns parâmetros da escolha democrática de dirigentes escolares e alguns pressupostos da gestão democrática da escola. para que. na implantação dos Conselhos de Escola e na gestão da instituição educativa rumo à autonomia escolar.

1996. nas associações de alunos etc. a função de liderança eficaz. poderá automaticamente melhorar a qualidade do seu próprio trabalho docente. conforme as palavras de Mariano Herrera (In: Colóquio: La dirección de Ia escuela. De todo esse processo.professores. entre as quais podemos citar a função educativa. Como a escola pode tornar o processo de escolha do diretor um processo educativo? • No município em que o diretor é nomeado. ao lado do diretor da escola. Isso não significa abrir mão de responsabilidades ou das funções inerentes ao seu cargo. pais de alunos. a função de mobilizador da equipe docente. a função da gestão administrativa. .175-176). A partir dessa praxis. criando e estimulando a participação de todos nas instâncias próprias da escola como no Conselho de Escola. Questões para debate • A escolha democrática de dirigentes escolares garante maior envolvimento da comunidade com a escola? Quais as implicações dessa escolha na formulação do projeto político-pedagógico da escola? • Ao se eleger uma pessoa. entre outras. uma vez que estará assumindo responsabilidades. funcionários da escola. exercendo direitos e praticando a cidadania ativa na escola. escolhe-se também um projeto de escola. pp. alunos e comunidade escolar. como os professores e demais segmentos da comunidade escolar podem alterar essa forma de escolha? • Aponte vantagens e possíveis desvantagens da eleição direta para a escolha de diretores escolares. poderá interferir e influenciar na gestão da unidade escolar em que atuam. o professor estará participando e.

Não haverá um papel cristalizado tanto para a escola quanto para o educador. Em vez da arrogância de quem se julga dono do saber. Paulo Freire Quando eu te encarei frente a [frente não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi. [de mau gosto. A intolerância é isso: é o gosto irresistível de se opor às diferenças. Numa época de violência. É dentro desse cenário da pós-modernidade que a escola precisa atuar. o professor deverá ser mais criativo e aprender com o aluno e com o mundo. Moacir Gadotti é professor titular da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto Paulo Freire . necessitam de uma ética da diversidade e de uma cultura da diversidade. MUITAS CULTURAS Moacir Gadotti Vivemos na era da globalização da economia e das comunicações. um cenário que coloca novos desafios para nós. de respeitá-lo. Neste novo cenário da educação será preciso reconstruir o saber da escola e a formação do educador. mas também numa época de acirramento das contradições inter e intra povos e nações. época do ressurgimento do racismo e de certo triunfo do individualismo. educadores: que tipo de educação necessitam os homens e as mulheres dos próximos vinte anos para viver este mundo tão diverso? Certamente eles e elas necessitam de uma educação para a diversidade. mau gosto É que Narciso acha feio o que não é espelho E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho Nada do que não era antes quando [não somos mutantes (Sampa) Caetano Veloso ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA. capaz de ouvir. de prestar atenção no diferente. Uma sociedade multicultural deve educar o ser humano multicultural.O diferente de nós não é inferior.

A escola deve ser local. vivência. ao rompimento com a estrutura disciplinar do conhecimento. A escola precisa formar o cidadão para participar de uma sociedade planetária. conhecimento. onde os conflitos são trabalhados. escola. isto é. • pela problematização: buscam superar uma primeira visão mágica (ingênua). é compartimentada e fragmentada. na escola conservadora. o professor deverá promover o entendimento com os diferentes e a escola deverá ser um espaço de convivência. mas tem de ser internacional e intercultural como ponto de chegada. as palavras e temas centrais de sua biografia. e não camuflados. ela se traduz por um trabalho escolar coletivo e solidário. • dimensão internacional: para viver esse tempo presente. do professor e do povo que. • pela tematização: codificando e decodificando esses temas. parecem contemplar essas duas dimensões: • pela investigação temática aluno e professor buscam. é o objetivo da interdisciplinaridade. isto é. que é a de adequar o tratamento dos conteúdos. Nesse contexto global há duas dimensões que podem ser logo destacadas: • dimensão interdisciplinar: o objetivo fundamental da interdisciplinaridade é experimentar a vivência de uma realidade global que se inscreve nas experiências cotidianas do aluno. por exemplo. deve valorizar a cultura local . Os três momentos do método de Paulo Freire. substituindo-a por uma visão crítica.a cultura primeira do aluno -. o professor precisa preparar as crianças para o mundo da diferença e da solidariedade entre diferentes. costuma-se responder com métodos mais apropriados ou aumentando o tempo de freqüência à escola. Este exercício leva à transdisciplinaridade. como ponto de partida. Na prática. tomando assim consciência do mundo vivido. redimensionandoa na relação com outras culturas. problematizando-os e equacionando a relação entre a transmissão da cultura e o itinerário educativo dos .de agressividade. Articular saber. no universo vocabular do aluno e da sociedade onde ele vive. comunidade. partindo para a transformação do contexto vivido. ambos buscam o seu significado social. Diante do problema do desinteresse de muitos de nossos alunos pelos conteúdos curriculares do ensino. meio ambiente etc. Mas há outra visão do problema.

do relato de experiências de trabalho e de suas relações com o mundo. Equacionar adequadamente ou não a relação entre identidade cultural e itinerário educativo. Na educação de jovens e adultos trabalhadores. era tudo o que ele procurava. no momento em que perceberam a importância que o professor dava à vida deles. A educação multicultural se propõe a analisar criticamente os "currículos" monoculturais atuais. por exemplo. Se a escola era isso. a chama de cultura primeira. pode representar a grande diferença na extensão ou não da educação para todos e de qualidade nos próximos anos. uma estratégia de alfabetização numa concepção multicultural deveria partir da biografia dos próprios educandos. Sentia-se feliz em estar na escola. a escola precisa mostrar aos alunos que existem outras . compreendê-las na totalidade de sua cultura e de sua visão de mundo. Paulo Freire chama essa cultura do aluno de "cultura popular".alunos. os resultados obtidos com currículos multiculturais . Essa estratégia foi aplicada com sucesso em um programa de alfabetização na cidade de São Paulo .Movimento de Alfabetização e de Pós-Alfabetização da Cidade de São Paulo (Mova-SP) -. buscar as razões para uma "vida melhor". Ao contrário. um grande obstáculo a ser superado. A diversidade cultural é a riqueza da humanidade. durante a gestão de Paulo Freire (1989-1991) à frente da Secretaria da Educação do município. Um desses jovens dizia que tinha "vergonha" de contar sua vida porque a considerava um "fracasso". ele pôde assumila com mais confiança. Outros educadores que também estudaram esse tema. como o educador francês Georges Snyders. Procura formar criticamente os professores para que mudem suas atitudes diante dos alunos mais pobres e elaborem estratégias próprias para a educação das camadas populares. tentando. Só uma educação multicultural pode dar conta dessa tarefa. daria tudo de si para continuar aprendendo. nesse aspecto. Os jovens e adultos sentiram-se mais envolvidos no processo de alfabetização. compreendê-la melhor. Para cumprir sua tarefa humanista.são mais eficazes para despertar o interesse. sobretudo para as camadas populares. Se aprender lhe possibilitava "viver melhor". Atribuía a si mesmo esse fracasso e não a uma estrutura social e econômica iníqua. Ao "contar" o que "fez na vida". já que em tantos lugares de trabalho ele sempre era "envergonhado". O currículo monocultural oficial representa.que levam em conta a cultura do aluno . antes de mais nada.

portanto. preciso conhecer o outro. Tudo isso é factível desde já. É possível e necessário. Pluralismo não significa ecletismo. Evidentemente. • pode-se incentivar as escolas para que façam mudanças nos seus currículos. ouvir. Tratase de estabelecer metodologias que permitam converter as contribuições étnico-culturais em conteúdos educativos. incluindo temas como: direitos humanos. ousada. numa visão em que o conhecer e o intervir no real se encontrem. como meio de fortalecer a auto-estima. portanto. para conhecer a mim mesmo. buscando dialogar com todas as culturas e concepções de mundo. A escola não deve apenas transmitir conhecimentos. Mas isso já não é tão problemático hoje. a partir de uma cultura que se abre às demais. promover a autonomia da escola na elaboração de seus currículos. O mundo está se percebendo mestiço. um conjunto amorfo de retalhos culturais. precisa descobrir elementos culturais externos que revitalizem a sua própria cultura. Mas. As conseqüências desse enfoque para o ensino são enormes. Partindo desse princípio antropológico. não camuflá-las. é preciso saber trabalhar com as diferenças: é preciso reconhecê-las. fazer parte da proposta educativa global de cada escola. para isso. impulsionando o movimento emergente de valorização das diferentes culturas.culturas além da sua. fechamento numa cultura particular. O professor. que articule a diversidade cultural dos alunos com seus próprios itinerários educativos: • pode-se fortalecer grupos que trabalham com currículos multiculturais. educação para a paz. mas também preocupar-se com a formação global dos alunos. pois só com autonomia a escola pode fazer as mudanças desejadas. . discriminação racial e cultura popular. o professor de qualquer disciplina precisa ter conhecimentos antropológicos e culturais mínimos e ter um olhar educado para perceber as diferenças étnico-culturais. A autonomia da escola não significa isolamento. aceitando que. Pluralismo significa sobretudo diálogo com todas as culturas. Escola autônoma significa escola curiosa. enfim. • pode-se recuperar os códigos lingüísticos das próprias comunidades desde o processo de alfabetização. escutar. • pode-se. educação ambiental. Basta abrir os olhos para a realidade. muitas ações práticas podem ser desenvolvidas desde já para a construção de uma escola pluralista e competente. precisa reeducar o seu olhar para a interculturalidade.

consciência do outro . A identidade supõe uma relação de igualdade e diferença. nacionais etc . em particular. . diferente. porque. Como podemos articular a diversidade cultural com itinerários educativos que se direcionem para a eqüidade? Suponho que não existe condição de reconhecer a diferença se não se parte da aceitação da alteridade . é preferível falar-se em "identidades culturais". Entre antagônicos só pode haver o conflito.e da igualdade. deveríamos falar de identidade étnico-cultural. Por isso. Porém. que pode ser antagônica ou não.étnicas. a identidade se define em relação a algo que lhe é exterior.É no contexto deste mundo mestiço que devemos colocar a questão da identidade: o que é identidade e. Afirmar uma identidade étnico-cultural é afirmar uma certa originalidade. Na identidade existe uma relação de igualdade que cimenta um grupo. Idêntico é aquele que é perfeitamente igual. O diálogo é uma relação de unidade de contrários não-antagônicos. Hoje é quase impossível reconhecer uma cultura que não esteja em íntima interdependência com outras. determinada também historicamente. somos uma mistura de afroamericanos (negros). índios e brancos. a identidade sociocultural seria um conceito inócuo se tendesse a fixar padrões culturais para apenas "preserválos". para evidenciar. uma semelhança. Na verdade. ao mesmo tempo.que coloca a questão do resgate da identidade. Só há diálogo e parceria quando a diferença não é antagônica. desde logo. necessito conhecer o outro como parceiro. Vivemos hoje uma explosão das diferenças . pois ao falarmos de identidade de uma cultura temos que localizála em um determinado tempo e espaço e no interior de um grupo étnico. Mas só isso? O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade dizia que "nenhum Brasil existe" e se perguntava: "e acaso existem os brasileiros?" O que é genuinamente nosso? O que pode constituir-se numa identidade nossa? Por outro lado. Por sua vez. e. uma diferença. de brasileiros. A cultura é dinâmica e no contato com outras culturas ela se transforma. para me conhecer. culturais. igualdade válida para todos os que a ele pertencem. essa identidade estaria articulada a uma identidade nacional. identidade é a resposta que damos à pergunta: quem somos nós? Em nosso caso. sexuais. o que é identidade sociocultural? Primeiramente. a pluralidade e o dinamismo da identidade cultural. e não em "identidade cultural".

Paulo Freire constrói a sua pedagogia . articulando a primeira com a segunda. Freire estava anunciando. o seu fim e inaugurando. Significa consciência de direitos. da "dependência" e da "consciência alienada". entre nós. a violência e o arbítrio.num itinerário que vai da cultura popular à cultura erudita e letrada. um vigoroso movimento em torno de um pensamento pedagógico autônomo. é sinônimo de "conscientização". Enfim. própria da escola. mas mostra o quanto ela é insuficiente. passando pela formação da consciência crítica. entendida como o lugar do sistemático e do progressivo. comprometendo-se com os ideais de uma democracia radical. Como Paulo Freire. mas também o lugar da alegria. possibilidade de criar novos direitos e capacidade de defendêlos contra o autoritarismo. Esse processo não poderia dar-se sem uma transformação na estrutura do ensino e da extensão da educação para todos. como é conhecido . para Paulo Freire. Um projeto de emancipação e construção de uma nova nação brasileira passava pela assunção de suas características de nação latino-americana e terceiromundista . de tomada de consciência da realidade nacional para transformála e criar novas formas de relações sociais e políticas. Snyders não desvaloriza a cultura de massa. social e econômico que. dialeticamente. por Georges Snyders. ou seja.o seu "método". ao contrário.as elites dominantes. cultura popular significa cultura da cidadania. Cada um a seu modo aponta para uma pedagogia com base no respeito à identidade cultural do educando. cuja modalidade mais evidente é a cultura de massa. O pensamento de Paulo Freire tem suas raízes mais profundas no debate político-cultural brasileiro do final dos anos 50. Denunciando essa "realidade nacional". Tratava-se do debate em torno da construção de uma identidade nacional baseada no desenvolvimento político. na França. Daí Paulo Freire insistir na questão da "invasão cultural". Cultura popular. e a cultura elaborada. segundo ele. A cultura primeira promete . segundo ele. passava pela tomada de consciência da realidade nacional. pensavam que se devia criar no Brasil uma "nova Europa" ou uma "nova América". A pedagogia de Georges Snyders pretende operar uma ruptura e uma continuidade entre a cultura primeira. Paulo Freire reintroduziu a reflexão sobre o social no pensamento educacional brasileiro. É interessante notar as semelhanças e diferenças na visão do mesmo problema por esses dois eminentes educadores.O tema da relação entre a diversidade cultural e os itinerários educativos já foi tratado por educadores como Paulo Freire e.

do drama que hoje enfrentam algumas comunidades indígenas no Brasil. melhor que a cultura primeira. Depende do contexto histórico em que eles vivem. A sua grande força está no fato de ela nos unir instantaneamente a todo o mundo. o outro acaba falando por mim.que não utiliza a sua linguagem e não satisfaz os seus desejos . por exemplo. Apesar disso. atingir a satisfação prometida pela cultura primeira. a cultura. Cornelius Castoriadis. O imediato.é criar escolas bilíngües. deve ser um apelo em direção ao elaborado. A cultura elaborada pode. como diz Georges Snyders no livro A alegria na escola (1988). A escola precisa fazer a síntese entre continuidade e ruptura em relação à cultura de massa. Já existem 600 dessas escolas no Brasil. o que estamos fazendo hoje . Acabam não sendo nem índios nem brancos. embora de forma fugaz. Elas têm por objetivo preservar e fortalecer a organização social. no livro A instituição imaginária da sociedade (1982). Porém. na expressão do filósofo grego.fracassa na sua tarefa primeira que é despertar o desejo de aprender e desenvolver a capacidade de continuar aprendendo. Pode até destruir sua identidade por uma espécie de "esquecimento" ou rejeição da cultura primeira. a cultura de massa. as crenças e as tradições das comunidades indígenas. se quiser respeitar a identidade cultural das crianças populares. retira o que há de melhor. mas não mostra o processo. Por isso. na forma como é veiculada. é uma cultura de consumo.como fizemos em São Paulo na única aldeia guarani existente na capital . Hospedado dentro de mim. o como se chegou a esse produto. É uma cultura que apresenta o produto. na cultura popular e a devolve ao povo sob a forma de receitas e preceitos. a cultura primeira. . a escola que negasse a cultura de massa estaria contribuindo para o fracasso escolar das crianças das camadas populares em face das crianças das elites. A escola dos brancos pode destruir a identidade indígena. naturalizado francês. A escola que tira a criança desse ambiente de bombardeamento constante dos meios de comunicação de massa e a transporta para um local enfadonho .muito. Ela pode representar a alienação pura. É o caso. Sendo o contato com o branco inevitável. nem ocidentais. A cultura do nosso tempo é a cultura de massa. as línguas. os costumes. A cultura elaborada não necessariamente representa algo superior para as necessidades vitais de todos os indivíduos. nem brasileiros. Ela necessita de um prolongamento na cultura elaborada. o "discurso do outro". de original. mas cumpre pouco.

Questões para debate • Localize no texto as propostas práticas para a construção de uma escola cidadã. É um saber primeiro. o questionamento das teses socialistas ortodoxas e burocráticas e a afirmação da subjetividade que se expressa por meio de movimentos sociais de índole distinta. isto é. Há uma outra fonte "mais qualificada": o saber do trabalhador se constrói e se desenvolve no trabalho. nas diversas disciplinas. culturais. isto é. aplicar a investigação temática. Afirmá-la novamente se constitui.Mas os meios de comunicação de massa não são a única fonte do saber dos "menos qualificados". Dizíamos que o respeito à diferença era uma idéia muito cara à educação popular. • Qual a diferença entre pluralismo e ecletismo? • Como o professor pode. extremamente elaborado. mas é também. por exemplo. Por isso os trabalhadores não têm interesse em desenvolver o seu saber se ele não for reconhecido como poder. no ato de produção. a tematização e a problematização no seu trabalho pedagógico? • O que se quer dizer quando se afirma que o professor perdeu a sua identidade? • Como você vê a influência da cultura de massa na escola? . Hoje percebemos com mais clareza que a diferença não deve ser apenas respeitada. • Descubra na sua prática dificuldades para o exercício de uma ética da diversidade. se reduz à esfera da pura execução do trabalho. como pensávamos nos anos 60. para nós. de classe e de gênero. É sobretudo um saber "em ato". que se exprime pela oralidade e. que uma educação não autoritária deveria respeitar o aluno. Os anos 90 caracterizam-se por um pensamento pós-marxista e pós-moderno. Hoje temos mais clareza desse princípio quando as teorias da educação multicultural enfatizam ainda mais a necessidade de os educadores atentarem para as diferenças étnicas. na maioria das vezes. como se costuma dizer na França. Nós dizíamos. se o seu saber não puder interferir na concepção e na tomada de decisão. num ato pedagógico essencial na construção da educação do futuro. muitas vezes. Ela é uma riqueza da humanidade e base de uma filosofia do diálogo. mais preocupados com questões imediatas do que com uma utopia distante.

O livro apresenta a escola como uma organização específica de educação formal.(. clima escolar.BIBLIOGRAFIA COMENTADA ALVES. In: Cadernos de Pesquisa. relações da escola pública com os contextos com o Estado. pp. José Matias. os movimentos populares deveriam forçar o questionamento do conhecimento que a escola transmite. 1993. Dom Inocêncio (PI). junto com seu isolamento. A ignorância a respeito do bairro. algumas questões ligadas à gestão escolar. A democratização do ensino em quinze municípios brasileiros: documento síntese. tecnologia e educação. MEC/Unicef/Cenpec. Registra experiências educacionais de 15 municípios de pequeno. O autor chama a atenção para a necessidade da construção crítica e pessoal de um saber que pensa a escola enquanto realidade organizacional socialmente construída. estuda as suas finalidades. Jaboatão (PE). e analisa. Belo Horizonte (MG). Quanto ao projeto político da escola. projeto educativo. São Paulo. n. gestão e projecto educativo das escolas. Marília Pinto de. sinteticamente. 55 p. ago 1989. liderança.. Brasília. da vida dos alunos e da história de lutas que precede a conquista da escola. Aponta o isolamento como o principal impedimento do sistema público de ensino em relação aos movimentos organizados. estruturas. caminharia em direção ao conflito aberto expresso em movimentos coletivos e em violência individual contra o prédio escolar e profissionais da escola. 70. médio e grande porte localizados em nove Estados brasileiros: Icapuí (CE). funções. 65-73. Edições Asam. Aborda as dificuldades e impedimentos à participação popular na escola. 1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos).. finalmente.) A participação popular pressuporia e impulsionaria a quebra da divisão rígida entre quem é educador e quem aprende. CENPEC. os atores escolares e. ed. Iguatu (CE). Lisboa. Um invisível cordão de isolamento: escola e participação popular. São Raimundo Nonato (PI). a quem transmite e a favor de quem será apropriado e aplicado. São José da Varginha (MG). Jaguaré (ES). às expectativas e mesmo à vida cotidiana da população à qual atende. Organização. 3. Vitória .. CARVALHO. tais como: participação.

1991 (Coleção Primeiros Passos.(ES). Além de abordar historicamente o tema da participação. em última instância. que decide. Este livro mostra como esse direito precisa ser construído coletivamente. Marechal Cândido Rondon (PR). A realização da gestão democrática significaria encontrar caminhos para atender às expectativas da sociedade a respeito da atuação da escola. Relacionada ao surgimento da vida em cidades. Maria de Lourdes Manzini. 32 p. São Paulo. Compromisso de todos. Participação é conquista: noções de política social participante. São Paulo. dentro da coleção Qualidade para todos: o caminho de cada escola. 1994. . o livro sistematiza algumas idéias em torno dele: canais de participação. educação) quanto num plano mais abrangente. moradia. tanto na luta pelo atendimento de necessidades básicas (alimentação. porque os representantes escolhidos podem defender interesses parciais e posições autoritárias. interação com o meio social. O Conselho garante decisões coletivas. ora a comunidade influencia os destinos da escola. saúde. o direito à vida no sentido pleno. São Paulo. a cidadania significa. age e pode atuar na transformação social. Ao longo do processo de participação. 250). Cortez. Muitas administrações municipais e estaduais já implantaram conselhos ou órgãos colegiados de gestão e sua estrutura tem variado nos diferentes municípios e Estados. estabelecer relações mais flexíveis e menos autoritárias entre educadores e clientela escolar. 1988. Porto Alegre (RS). Esses municípios possuíam modelos diferenciados de gestão do sistema escolar. Gestão. Resende (RJ). traz as principais conclusões a respeito da gestão democrática nas experiências analisadas nesta coletânea. v. A maneira mais comum de assegurar a participação de todos os interessados é a instalação de um Conselho Escolar. Pedro. (Thereza Pegoraro) COVRE. que envolve a discussão sobre o papel do próprio homem no Universo. Brasiliense. Ijuí (RS). Caderno elaborado pelo CENPEC. Conchas (SP). capacidade de organização escolar e gestão pedagógica voltadas para a melhoria da qualidade de ensino. mas sua mera instalação não garante decisões democráticas. O que é cidadania. estabelecem-se situações de aprendizagem de mão dupla: ora a escola estende sua função pedagógica para fora. . D E M O . Maringá (PR). fazendo surgir o sujeito coletivo. Conclui que a construção de uma escola democrática e de uma sociedade democrática são processos que se desenrolariam ao mesmo tempo e que a gestão democrática possibilitaria desmontar relações de mando e submissão.

cultura participativa e seus principais objetivos (autopromoção, realização da cidadania, controle de poder, controle da burocracia, negociação e cultura democrática). Apresenta ainda seus principais riscos, obstáculos e desafios e questões relacionadas à representação, à identidade cultural e ao assistencialismo. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 1997. Utilizando uma linguagem acessível e didática, o autor reflete sobre os saberes necessários à prática educativo-crítica, fundamentados n u m a ética pedagógica e numa visão de m u n d o alicerçadas na rigorosidade, pesquisa, criticidade, risco, humildade, bom senso, t o l e r â n c i a , alegria, c u r i o s i d a d e , c o m p e t ê n c i a , g e n e r o s i d a d e , disponibilidade... "molhadas" pela esperança. A autonomia faz parte da própria natureza educativa. Sem ela não há educação, não há ensino, nem aprendizagem. G A D O T T I , Moacir. Diversidade cultural e educação para todos. Rio de Janeiro, Graal, 1992. Este livro aborda a relação entre identidade cultural e itinerário educativo, a concepção multicultural e monocultural do currículo e o papel da escola. Discute ainda a retomada da luta pela descentralização da educação e o papel crescente das Organizações Não-Governamentais (ONGs) no redirecionamento das políticas públicas em educação. Escola cidadã. São Paulo: C o r t e z , 1993. 78 p. Trata da questão da autonomia da escola pública. Nos três primeiros capítulos, faz uma análise conceituai geral de autonomia e relata uma experiência vivida pelo autor. Estabelece, então, um quadro da situação da educação brasileira relativo à problemática da autonomia da escola pública, fazendo um paralelo com as recentes reformas educacionais européias. Acredita que a transformação da escola pública em unidade de despesa, proporcionando-lhe recursos orçamentários, poderia melhorar sua situação desde que estivesse vinculada à participação e à democratização do sistema de ensino. G A R C I A , Walter. Administração educacional em crise. São Paulo, Cortez: Autores Associados, 1991 (Coleção Polêmicas do N o s s o T e m p o ; v. 46). A temática dos textos reunidos neste livro é a crise educacional que vem se agravando ao longo dos últimos anos. A crise está alicerçada em causas estruturais profundas, em que avultam a dívida externa e a insensibilidade histórica das elites nacionais, pouco preocupadas com o que se passa além de seus interesses meramente imediatistas.

MARÉS, Carlos. Eleição de diretores e democracia na escola. Revista ANDE, São Paulo, v. 3, n. 6, pp. 49-50, 1983.
Acreditando que a discussão da democracia na sociedade remete ao tema da democracia na escola, o autor afirma que, ao descer à prática, o tema perdeu a magnitude de sua essência, restando apenas os aspectos de sua forma. Para o autor, essa discussão deveria perceber o local social da escola na sociedade pluralista e heterogênea, sem buscar uma homogeneidade castradora e impositiva. A escola precisaria ser democrática, mas a implementação dessa política democrática deveria ser assumida pelo Estado com base na realidade escolar. Segundo o autor, atualmente diretores servem apenas como intermediários na implantação de uma política que não ajudaram a elaborar. A escolha da direção faz-se apenas com relação ao plano administrativo. Podem ser encontrados quatro tipos de escolha para a direção: a) diretor de carreira; b) concurso público; c) livre indicação; d) eleições. A defesa da eleição como forma de escolha dos diretores das escolas pressupõe a criação de uma regulamentação, além do que deve servir como meio para que o povo participe da gestão da coisa pública.

MIRANDA, Glaura Vasques de. A questão da autonomia da escola. Educação em Revista, Belo Horizonte, n. 9, pp. 59-61, jul. 1989.
Aponta, como uma das questões de importância para o desenvolvimento de um projeto pedagógico de melhor qualidade, a relação deste com a questão da autonomia da escola. Um maior grau de autonomia possibilitaria qualidade com gestão democrática. A esse projeto liga-se a idéia de recuperação da dignidade da escola pública, perdida em razão de práticas excessivamente centralizadoras do Estado. A autora enumera e analisa as condições básicas para que se garanta a realização de um projeto de gestão democrática na escola.

NOGUEIRA, Madza Julita. Todos pela educação no município: um desafio para cidadãos. Brasília, Unicef/Cecip, 1993. 133 p.
Aborda de maneira didática os direitos educacionais consagrados nas leis e destaca a participação popular como elemento fundamental para a expansão do ensino público ocorrida até os dias de hoje. Ressalta a importância dessa participação como instrumento de intervenção nas políticas educacionais dos municípios, na tomada de decisões. O livro conta com a colaboração de pessoas que estão envolvidas com esses mecanismos de gestão e participação popular, tornando mais acessíveis informações como a maneira de participar, quem pode fazê-lo, através de quais mecanismos. Mostra a possibilidade de participar da direção e gestão da unidade escolar, bem como do governo municipal, onde a população será

co-responsável pelas decisões sobre as políticas públicas para a educação, exigindo que estas se cumpram. Prossegue, dessa forma, esclarecendo como os cidadãos podem controlar e fiscalizar a aplicação de recursos públicos.

PARO, Vítor Henrique. Eleição de diretores - a escola básica experimenta a democracia. Campinas, Papirus, 1996.
Hoje, a eleição de diretor de escola é uma realidade em várias redes de ensino público no Brasil. Este livro analisa as características e os problemas da institucionalização e da implementação dessa experiência, bem como capta seus efeitos sobre a democratização da gestão escolar e sobre a qualidade e a quantidade da oferta de ensino.

. Gestão da escola pública: a participação da comunidade. In: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, n. 174, pp. 255-290, maio-ago. 1992.
Baseado em estudo de caso de cunho etnográfico realizado em escola estadual de ensino fundamental na cidade de São Paulo, com o objetivo de identificar os obstáculos e as potencialidades da participação do usuário na gestão da escola pública. Discute os determinantes imediatos dessa participação, presentes tanto no interior da escola quanto na comunidade por ela servida. Entre os primeiros destacam-se os condicionantes materiais, os institucionais, os político-sociais e os ideológicos. Entre os últimos encontram-se as condições objetivas de vida, bem como os condicionantes culturais e institucionais.

RIBEIRO, Vera Masagão (Org.). Participação popular e escola pública. São Paulo, Cedi, 1989. O novo conselho de escola, pp. 25-34 (Cadernos do Cedi, 19).
Avalia as contribuições que a implantação dos Conselhos de Escola deliberativos trouxe para uma efetiva participação popular na escola. O desconhecimento da maioria sobre as atribuições do Conselho é, segundo a autora, o principal índice de sua quase nenhuma efetividade. A autora apresenta uma síntese sobre as modificações das funções dos Conselhos de Escola e as respectivas leis que regulamentaram a passagem do caráter consultivo para deliberativo e da ampliação da representação dos segmentos escolares no decorrer do tempo. O artigo polemiza algumas questões como a natureza paritária do Conselho. Para a autora, normalmente o diretor aparece para a população como o grande obstáculo à sua participação na escola. R O M Ã O , J o s é E u s t á q u i o . Poder local e educação. São P a u l o , C o r t e z , 1992. Este livro aborda as diversas concepções de descentralização e a questão da municipalização do ensino no Brasil. Apresenta o poder político local,

p p . burocracia. 15. v. única possibilidade real de autonomia da escola. ainda. o leitor encontrará: como uma escola pode conquistar sua autonomia. evasão. SILVA. descompromisso com o aluno. Marília Pontes. 1990. os textos constituem uma referência da produção intelectual do autor e um registro seletivo do debate político-pedagógico dos anos 80 e 90 na América Latina. gestão democrática e participação popular. No seu conjunto. Além de passar pelo curso da história do pensamento administrativo na educação latino-americana. A construção do conhecimento no campo da gestão da educação na América Latina é o tema central dos cinco ensaios deste livro. Faz um balanço da participação dos municípios na educação brasileira. que tipo de relações devem ser estabelecidas entre uma escola autônoma e o sistema escolar. Analisa a democratização do ensino público. que condições deve apresentar um sistema escolar que busque a autonomia de suas escolas. 1995 (Coleção E d u c a ç ã o C o n t e m p o r â n e a ) . da gestão democrática e qualidade de educação de acordo com os novos desafios da administração pública e da gestão da educação para todos. SANDER. A gestão democrática no âmbito escolar apresentaria incompatibilidade entre os modelos burocráticos existentes no sistema escolar e as práticas democráticas pretendidas. mostra o papel dos conselhos municipais de educação e apresenta um estudo de caso de resistência comunitária à nucleação de escolas unidocentes no meio rural. Para superar tal situação. Porto Alegre. relaciona gestão da educação com qualidade de vida e trata. moradores. q u e s t i o n a n d o a democratização de sua gestão com a participação dos pais./jun. Jair Militão da. Já são bastante conhecidas as críticas dirigidas à escola pública: repetência. examinada no contexto internacional. E d u c a ç ã o e Realidade. Campinas. A autonomia da escola pública. movimentos populares e sindicais. Benno. Este livro procura discuti-la. Autores Associados. Dessa forma. Papirus. 52-56. 1. C a m p i n a s . é sugerida com insistência a autonomia da escola. jan. Nele. não há gestão democrática ao lado de estruturas administrativas . Educação. 1996.subdividindo-o em poder popular e poder elitista. n. Gestão da educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. o autor alerta para o que chama de esquecimento do sujeito e apresenta uma proposta de pedagogia do sujeito coletivo como fator de re-humanização da escola pública. Sander analisa quatro construções de administração da educação. SPOSITO. Após examinar estudos preexistentes.

pp. . Pelo contrário. a nomeação dos cargos de confiança nas instâncias intermediárias ou superiores apoiada em relações tacanhas de clientelismo político. 1990. Analisa o problema da gestão da escola fundamental centrado na figura do diretor. São Paulo. formas tradicionais de dominação política e concepções privadas de uma atividade que deveria ser essencialmente pública". famílias e moradores na gestão escolar e conclui que a gestão democrática poderia oferecer uma alternativa concreta de melhoria da educação brasileira. pois não há canal democrático de gestão que possa ser viabilizado sem uma profunda alteração administrativa das estruturas de organismos ligados à educação. Trata da luta pela gestão democrática na escola como uma das maneiras de nortear procedimentos do sistema educativo. Redefinindo a participação popular na escola. pelo caráter clientelista da burocracia escolar. 12. 170 p. pp. deixar de perceber os outros elementos constituintes e participar deste universo escolar. A estrutura administrativa da escola. que dela toma posse. a obtenção do consenso pelo servilismo ou pela troca de favores. dando subsídios para ajudá-lo a administrar bem em um ambiente democrático sem. possibilitando aos setores tradicionalmente marginalizados acesso aos serviços educacionais e a melhoria da qualidade do ensino oferecido. VALERIEN. n. In: Cadernos do Cedi. 64. 1989. n. mai/jun. Trata da questão da autonomia das escolas e das implicações dessa transferência . vol. centralizadas e verticalizadas. A autora defende que não haveria possibilidade de democratização sem a transformação da prática profissional do educador. a falta de autonomia para a elaboração e execução de projetos pedagógicos no âmbito da unidade escolar. jan. sem a real participação dos pais. esse conjunto de fatores acaba por transformar a educação mantida pelo Estado num grande terreno onde prevalecem interesses pessoais. é no sistema de ensino que encontramos com maior profundidade. 19. Rio de Janeiro. contudo. Gestão democrática. Gestão da escola fundamental: subsídios para análise e sugestão de aperfeiçoamento. uma enraizada mentalidade privatista da coisa pública. determinada e articulada em grande parte a partir das orientações do diretor. 1993. porém não isoladamente. In Tempo e Presença. 18-20. enfim. São Paulo. A professora da Universidade de São Paulo Marília Sposito afirma neste artigo que "apesar de gerida e mantida pelo aparato estatal. 251. . Unesco/MEC/ Cortez. a escola brasileira não é necessariamente pública.burocratizadas. Jean.

1). Cláudia Pereira. 86. Os textos estão organizados em torno de temas como: construção coletiva. ed. Divergências. dirigentes educacionais e demais profissionais da educação. a saber. 2. VEIGA. São Paulo. oferecendo instrumentos e elementos metodológicos e processuais que poderão favorecer uma ação pedagógica que leve em conta os fundamentos históricos. (Thereza Pegoraro) VASCONCELLOS. O autor escreve para professores.de responsabilidades no contexto da democratização da gestão escolar. mas sim que deve propor e solicitar a colaboração dos outros envolvidos no projeto da escola. relações ensino-aprendizagem. Os autores desta coletânea buscam a organização do trabalho pedagógico por meio da constituição de um projeto político e pedagógico. procuram alternativas viáveis à efetivação de seu objetivo. antropológicos e epistemológicos da educação e os contextos em que é realizada. princípios básicos de planejamento participativo. organização dos educadores e o debate fundamental sobre as questões referentes à qualidade de ensino para todos. rompendo com a rotina burocrática no interior da escola. pp. Apresenta e analisa os vários níveis de um planejamento. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. Cadernos de Pesquisa. explica que o diretor não deve ser o único a decidir. 39-47. a construção de um processo democrático de decisões que vise eliminar as relações competitivas. corporativas e autoritárias. Planejamento: plano de ensinoaprendizagem e projeto educativo . relações de poder. autonomia. Através de um processo permanente de reflexão e de discussão dos problemas da escola. v. 1996. Quanto à gestão da escola. contribuindo para a realização de diagnósticos escolares e para a compreensão do planejamento como instrumento da praxis pedagógica. Trata da relação entre o Movimento Estadual Pró-Educação (Mepe). Este é um livro sobre o planejamento da educação. Uma Passos (Org. cujo fio condutor é a defesa do fortalecimento das relações entre escola e sistema de ensino. Ao mesmo tempo em que apresenta pontos de reflexão importantes para a conceituação e análise da gestão democrática autônoma da escola. Papirus. São Paulo. o texto traça paralelo com as "vantagens" da centralização das decisões. 1993.. mas não antagonismos: mães e professoras das escolas públicas. São Paulo. Libertad. gestão na escola. ago.elementos metodológicos para elaboração e realização. n. VIANNA.). de um plano de ensino-aprendizagem e de um projeto educativo. Celso dos S. Projeto Político da Escola: uma construção possível. constituído de mães de alunos e professores das escolas estaduais de São .

família e comunidade. Planejamento participativo na escola: um desafio ao educador. A autora analisa o apoio das mães às reivindicações do professorado e mostra as tensões que ocorreram no processo. São Paulo. além do imediatismo que caracteriza o povo brasileiro. em que a comunidade participe não só de execuções de ações. que se efetive como uma tarefa contínua e política. Tem a preocupação com um processo educativo centrado no aluno e sua realidade pessoal e contextual. envolvendo atividade conjunta da escola. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) vem acompanhando as inovações na gestão do sistema educacional e escolar. 1995. EPU. mas de suas decisões. 147). José Amaral (Orgs. Fundamenta. SILVA. (Thereza Pegoraro) XAVIER. MELLO. n. 1986. Procurou transformar a escola em centro polivalente. bem como as perspectivas que se abrem para a melhoria da qualidade do ensino. SOBRINHO. pois algumas professoras eram também mães de alunos. Conclui que a luta pela melhoria da qualidade de ensino adquirirá força quando professoras e mães explicitarem os valores e critérios que as distinguem. um ambiente de idéias inovadoras e veículo de dignificação do homem. estabelecendo entre professores. A condição de mulher foi um primeiro fator de aproximação de mães e professoras. Essa proposta é desafiadora. comunitário e político. acompanhamento e controle. na medida em que tem de vencer entraves como a descrença das pessoas para sua efetivação.). (Thereza Pegoraro) VIANNA. a dificuldade de integração com os demais níveis e grupos da própria comunidade. Rose Neubauer da. a ingerência da hierarquia burocrática do sistema.Paulo. convivendo com as diferenças e conflitos que isso implica. Gestão educacional . sintetiza e relata o trabalho pedagógico efetivado em uma escola de ensino fundamental do Estado de São Paulo que se propôs a desenvolver o trabalho pedagógico a partir de um planejamento participativo. tem desenvolvido estudos e pesquisas com o objetivo de identificar as mudanças ocorridas nos últimos anos na concepção e gestão das unidades escolares. Entre esses riscos. gerador de mudanças em todos os aspectos. geralmente direcionada pelos poderes públicos. figura a manipulação do trabalho pela assessoria especializada e a pseudoparticipação da comunidade. Nesse sentido. segundo a autora. família e comunidade um verdadeiro trabalho integrado. Antônio Carlos da Ressurreição. Brasília (Série Ipea. Guiomar Namo de. Ilca Oliveira Almeida. O volume nº 147 apresenta doze experiências de novas formas de organização e gestão educacional em diferentes regiões .experiências inovadoras.

José Amaral. Analisa as inovações que estão ocorrendo na gestão da Educação em Estados e municípios selecionados. Duas delas têm como objeto sistemas estaduais e dez se voltam para sistemas de ensino no nível municipal. com a "gestão da qualidade total". e. em escolas públicas e privadas.). (Orgs. Gestão escolar: desafios e tendências. analisa as experiências de avaliação do contexto da melhoria dos processos e da qualidade do ensino. as mudanças que a ampliação do processo de decisão da escola trouxe para seu perfil e funcionamento. bem como identifica o que qualifica a escola. por fim. . Este volume discute os novos desafios impostos à gestão escolar num mundo caracterizado por rupturas contínuas e aceleradas de paradigmas. .do país. Fátima e SOBRINHO. MARRA. 1994. Brasília (Série Ipea. n. as experiências que vêm sendo realizadas no País. 145).

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