SALTO PARA O FUTURO

Construindo a Escola Cidadã
Projeto político-pedagógico

Brasília, 1998

Presidente da República Federativa do Brasil Fernando Henrique Cardoso Ministro da Educação e do Desporto Paulo Renato Souza Secretário de Educação a Distância Pedro Paulo Poppovic

SERIE DE ESTUDOS / EDUCAÇÃO A DISTANCIA
SALTO PARA O FUTURO / CONSTRUINDO A ESCOLA CIDADÃ PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO

Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto - Acerp Diretor-Presidente Mauro Garcia Gerente de Educação Yonne Polli Secretaria de Educação a Distância / MEC Coordenação editorial Cícero Silva Júnior

Ministério da Educação e do Desporto

SERIE DE ESTUDOS EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA SALTO PARA O FUTURO Construindo a Escola Cidadã Projeto político-pedagógico MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA .

Copyright © Ministério da Educação e do Desporto .gov.br Outros títulos da Série de Estudos /Educação a Distância publicados pela Secretaria de Educação a Distância / MEC: TV da Escola • América Latina .Acerp. DF fax: (061) 321. Série. Ministério da Educação e do Desporto. ISSN 1516-2079. .018.5) 1. II. projeto político-pedagógico/ Secretaria de Educação a Distância. I. Secretaria de Educação a Distância. 1998. Anexo 1.43 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Esplanada dos Ministérios. SEED. Ensino a distância. Brasil. Seminário de Brasília. volumes 1 e 2 . 1998 Edição ESTAÇÃO DAS MÍDIAS Edição de texto: Luci Ayala Edição de arte: Rabiscos Ilustração da capa: Sandra Kaffka Revisão: Márcio Guimarães de Araújo Impressão: Coronário Editora Gráfica Tiragem: 110 mil exemplares ISSN 1516-2079 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Salto para o Futuro: Construindo a escola cidadã.mec. v.Perspectivas da educação a distância. 1997 • TV e Informática na Educação Educação do olhar. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto.1178 / e-mail: seed@seed.(Série de Estudos.C E P 70001-970-Brasília. 96 p. CDU 37. Bloco L. Educação a Distância.MEC Direitos cedidos para esta edição pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto . Sala 314 Caixa Postal 9 6 5 9 .

Nos artigos 13 e 14.respeitadas as normas comuns e as de seu sistema de ensino . a LDB diz que a elaboração da proposta pedagógica contará com a participação dos profissionais da Educação. que deverão ainda definir e cumprir plano de trabalho para concretizá-la. Com tais dispositivos. prevê que os estabelecimentos de ensino .terão a incumbência de elaborar e executar sua proposta pedagógica (artigo 12). nº 9. Considerando o sucesso da iniciativa e a atualidade do tema. cada proposta ou projeto pedagógico retrata a identidade da escola. Atenta ao cenário educacional.A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. a Seed publica aqui uma versão resumida dos textos originalmente utilizados como literatura de apoio à série. no programa Salto para o Futuro. a Secretaria de Educação a Distância . que exige competência técnico-pedagógica e clareza quanto ao compromisso ético-profissional de educar o cidadão deste novo tempo. as diretrizes dos Estados e municípios e capazes. com isso.Acerp. promulgada em 20 de dezembro de 1996. de levar em consideração a realidade específica de cada instituição de ensino. Assim.394. a lei quis dar realce ao papel da escola e dos educadores na construção de projetos educacionais articulados com as políticas nacionais. o projeto pedagógico é a própria escola cidadã. com a parceria do Instituto Paulo Freire. Em outras palavras. realizada pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto . contribuir para a discussão acerca da construção democrática do projeto pedagógico da escola. É um amplo trabalho de construção. Pedro Paulo Poppovic Secretário de Educação a Distância . a série Construindo a escola cidadã: projeto políticopedagógico.Seed veiculou pela TV Escola. ao mesmo tempo. E espera.

MUITAS CULTURAS 79 BIBLIOGRAFIA COMENTADA 87 . 43 PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA 53 DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA 67 ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA...SUMÁRIO PROPOSTA PEDAGÓGICA 09 PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ 15 ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE 23 CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO 31 CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ .

Isso contribui para a democratização das relações de poder no âmbito escolar e. Objetiva-se também incentivá-los ao exercício de uma ação pedagógica condizente com as necessidades e exigências educacionais colocadas por seus contextos específicos. por conseguinte. de seus docentes. Justificativa Para que a escola possa construir o seu projeto políticopedagógico. futuras e futuros docentes. a quem se destina este projeto . E justamente a partir de estudos e pesquisas desenvolvidos em torno dessa temática que o Instituto Paulo Freire pretende contribuir para o aperfeiçoamento dos docentes da educação básica e dos alunos dos cursos de formação de professores. é condição essencial. ela tem condições de compreender melhor o funcionamento da escola e de se organizar para assegurar que os interesses da maioria sejam atendidos. e que o tempo e a história que construímos nos impõem diariamente. mas principalmente estimulá-los para a pesquisa e a reflexão interativa sobre suas práticas e as práticas de outros.tem acesso às informações e lhe é garantido o direito de participar das decisões. em especial. Objetiva-se levar até eles não só o resultado de experiências acumuladas por Estados e municípios brasileiros. a participação de todos e.PROPOSTA PEDAGÓGICA Quando a comunidade escolar . pode levar . E uma das maneiras de fazer funcionar a escola e de organizá-la com vistas à melhoria da qualidade do ensino é justamente a elaboração democrática e coletiva de seu projeto político-pedagógico.na qual se incluem professoras e professores.

a curto e médio prazos. fator imprescindível: o espaço em que os diferentes segmentos escolares decidirão sobre a organização do trabalho na escola. Todos os segmentos escolares adquirem papel fundamental no processo decisório. Com base em tais perspectivas educacionais e de acordo com o Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. por exemplo. Além dos aspectos já mencionados. não apenas o diretor de escola ou os órgãos superiores da Educação estarão definindo o que é prioritário para a unidade escolar. para que. da organização do trabalho na escola e da gestão democrática da escola pública. autonomia da escola e participação da comunidade na gestão escolar. que. Assim. Nossas desigualdades sociais não serão superadas apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias. nesse sentido. em novas metodologias de ensino e na formação daqueles que são e serão os educadores das atuais e futuras gerações. à luz. A educação é condição sine qua non para o desenvolvimento autosustentado do País. Hoje é necessário investirmos na formação continuada de professores e.os usuários à intervenção no próprio sistema de ensino. como ficou demonstrado por países como a Coréia do Sul. especialmente. Ela pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e para isso deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional. outros bastante polêmicos. Será preciso preparar os jovens para o trabalho. Sem apostarmos em novos processos educativos. A educação básica de qualidade para todos é uma das condições fundamentais para acabar com a miséria. que não podem ficar fora da agenda dos atuais e futuros professores: eleição de diretores. O Instituto Paulo Freire vem desenvolvendo estudos e pesquisas . fazem parte da série de temas ligados à questão do projeto político-pedagógico da escola. das concepções construtivista-interacionista e histórico-social. em algumas décadas. na formação consistente dos futuros profissionais da Educação. possam construir conhecimentos. consideramos que a escola deve formar para a cidadania ativa e para o desenvolvimento. deu um salto para o Primeiro Mundo graças a investimentos massivos na Educação. realizar pesquisas e desenvolver suas práticas pedagógicas a partir de um diálogo sempre aberto às novas metodologias e concepções educacionais. A organização do Conselho de Escola ou Colegiado Escolar torna-se. não teremos condições de reverter o processo de deterioração do ensino básico.

). Considera que o projeto político-pedagógico da escola é uma tarefa dela mesma. e prestar contas e divulgar informações referentes ao uso de recursos e à qualidade dos serviços prestados". um processo que se constrói constantemente e se orienta com intencionalidade explícita. A lei da Educação também estabelece que os sistemas de ensino "definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica. de valores e de desejos.).. de significações. Objetivos Este projeto surge como um instrumento de construção e de reconstrução permanentes de um projeto de sociedade que . que a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n° 9. de elaborar e executar sua proposta pedagógica (.). de formação de convicções. Dentre os parâmetros aos quais nos referimos.nessa direção. • agilização das informações e transparência nas negociações no âmbito da escola e fora dela. inserida no mundo da vida. determina que "os estabelecimentos de ensino. analisando experiências acumuladas nos diversos municípios e Estados brasileiros. de afetos. prevendo a participação dos profissionais da Educação na elaboração do projeto pedagógico da escola e das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes. constituir conselhos escolares com representação da comunidade (. o Instituto Paulo Freire oferece sua contribuição e busca opções para superar o desafio colocado. articular-se com as famílias e a comunidade. sancionada no dia 20 de dezembro de 1996.. Lembramos. • lisura nos processos de definição da gestão democrática e do projeto político-pedagógico da escola. de motivações.394/96). • consulta permanente à comunidade escolar. estão: • capacitação de todos os segmentos escolares.. Construílo significa ver e assumir a educação como processo de ensinoaprendizagem.. porque é prática educativa.. de acordo com as suas peculiaridades". • institucionalização da gestão democrática.. oportunamente. criando processos de integração da sociedade com a escola (. entre outras. a partir das quais definimos alguns parâmetros para a elaboração do Projeto Político-Pedagógico da Escola e para a Gestão Democrática da Escola Pública. A partir desses parâmetros. terão a incumbência. respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino.

• estudar e analisar a situação atual da educação brasileira a partir da aprovação da nova LDB. • identificar os princípios de implementação da gestão escolar democrática. 1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos. gestão e projecto educativo das escolas..pedagógico da escola. • desenvolver estudos integrados para conhecer e analisar os indicadores educacionais com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político pedagógico da escola. DEMO. Organização. "planejamento socializado ascendente". NASCIMENTO. Francisco João. . • identificar e analisar terminologias e conceitos específicos que são empregados em relação ao projeto político-pedagógico da escola. 1996. adaptando-a às exigências da elaboração do projeto político. Ângelo. Como organizar o Conselho de Escola. • identificar o papel dos professores na definição das propostas e das estratégias de intervenção adequadas ao diagnóstico escolar e à elaboração do projeto político-pedagógico da escola. 1995. esclarecimentos e troca de experiências dos atuais e dos futuros docentes sobre conselhos de escola. DALMÁS. Ângela Antunes. enfatizando a importância da gestão democrática e da organização do trabalho na escola. 5. Pedro. IPF. São Paulo.. Cortez. Porto. no que se refere à construção do projeto pedagógico da escola e à valorização dos profissionais da Educação. 3. São Paulo. Vozes. 2. ser possível a utopia educacional. • possibilitar o intercâmbio entre educadores e instituições escolares das diversas regiões do País para a construção de uma escola democrática e de qualidade técnico-política. FONSECA. Nesse sentido. ed. os objetivos gerais do presente projeto são: • desencadear um movimento para que as escolas construam ou avaliem os seus projetos político-pedagógicos. 1988. Edições ASA.) CISESKI. • estudar a metodologia de diagnóstico educacional e escolar denominada Carta Escolar. Participação e conquista. ed. BIBLIOGRAFIA ALVES. escolha democrática de dirigentes escolares. Planejamento participativo na escola. • realizar estudos. José Matias. Portugal. nos termos freireanos. Petrópolis. n. João Pedro da.acredita.

VALE.. PARO. VASCONCELLOS. Ana Maria do. Porto. Paz e Terra. Celso dos Santos. . Feusp. Mário Osório et ai. Paulo.Aula. 79-112. 1996. Cultura midiática no espaço escolar. O projeto pedagógico da escola. Educação popular na escola pública. Poder local e Educação. São Paulo. Planejamento: plano de ensino-aprendizagem e projeto educativo . v. Vozes. Planejamento educacional e organização do trabalho na escola: concepções do Plano Decenal de Educação para Todos. Petrópolis. & GADOTTI. São Paulo. 1994. Feusp. 2. Planejamento educacional participativo. pp. In: Revista da Faculdade de Educação. MENEGOLLA. UFSC. Petrópolis.elementos para elaboração e realização. Maximiliano & SANTANNA. 1992. Papirus. Portugal. Campinas. Libertad. Ilza Martins. Manuel Jacinto. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. Escola cidadã. Editora Autores Associados. José Eustáquio. 1993 (Coleção Questões da Nossa Época: v. n°. SCHAEFER Maria Isabel Orofino. 1996. 52 p. São Paulo. 1995. Moacir. GADOTTI. Brasília. Cortez. Projeto da escola cidadã: a hora da sociedade. 1). 21. Moacir. 1996. n° 1. Campinas.. São Paulo. Jair Militão da. Cortez. 24). 2. PADILHA. ed. Florianópolis. 1996 (Colecção Cadernos Pedagógicos. 1996.SILVA. ed. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. SILVA. Paulo Roberto.Área . SANDER. Jair Militão da. SANTOS. 1992. São Paulo. IPF. Gestão da Educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. São Paulo. Benno. jan/jun. ROMÃO. Vítor Henrique. São Paulo. Por que planejar? Como planejar? Currículo . As escolas e as autonomias. MEC-SEF. FREIRE. São Paulo. Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escolar. 1995 (Coleção Educação Contemporânea). 1989 (Tese de Doutorado). 9). MARQUES. Cortez. 1994. v. 1991. Edições ASA. Eleição de diretores: a escola pública experimenta a democracia.

mas não responde a todas as questões atuais da escola. Nunca nossas escolas discutiram tanto autonomia. (Tanto mar) Chico Buarque PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA CIDADÃ Moacir Gadotti Até muito recentemente. autonomia e contra toda forma de uniformização. Neste texto. pá mas certamente esqueceram uma semente nalgum canto de jardim. Essa tipologia não desapareceu. da educação e da cultura. pelo pluralismo político. caracterizada pela globalização da economia. cidadania e participação.USP e diretor do Instituto Paulo Freire . Essa preocupação tem-se traduzido sobretudo pela reivindicação de um projeto político-pedagógico próprio. Nessa sociedade cresce a reivindicação pela participação. A crise de paradigmas também atinge a escola e ela se pergunta sobre si mesma. a questão da escola limitava-se a uma escolha entre ser tradicional e ser moderna. pá fiquei contente E ainda guardo. A multiculturalidade é a marca mais significativa do nosso tempo. específico de cada escola. cresce também o desejo de afirmação da singularidade de cada região. Já murcharam tua festa. sobre seu papel como instituição numa sociedade pós-moderna e pós-industrial.Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício Carlos Drummond de Andrade Foi bonita a festa. É um dos temas mais originais e marcantes do debate educacional brasileiro de hoje. gostaríamos de tratar Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo . das comunicações. Muito menos à questão do seu projeto. pela emergência do poder local. de cada língua etc. renitente um velho cravo para mim.

a direção é escolhida a partir do reconhecimento da competência e da liderança de alguém capaz de executar um projeto coletivo. Um projeto necessita sempre rever o instituído para. ou melhor. uma etapa em direção a uma finalidade que permanece como horizonte da escola. metas e procedimentos não sejam necessários. o projeto pedagógico da escola está hoje inserido num cenário marcado pela diversidade. Por isso. Assim realizada. Não existem duas escolas iguais. desaparece aquela arrogante pretensão de saber de antemão quais serão os resultados do projeto para todas as escolas de um sistema educacional. ao se eleger um diretor de escola. o plano fica no campo do instituído. Não se constrói um projeto sem uma direção política. o conjunto de seus atores internos e externos e seu modo de vida. um rumo. como defende o discurso em torno da "qualidade".faz parte do seu projeto. Na escolha do diretor ou da diretora percebe-se já o quanto o seu projeto é político. assim. todo projeto pedagógico da escola é também político. O projeto pedagógico da escola é. Eles são insuficientes. Ao contrário. Como vimos. De quem é a responsabilidade da constituição do projeto da escola? O projeto da escola não é responsabilidade apenas de sua direção. Certamente o plano diretor da escola . nesse caso. obstáculos e elementos facilitadores para a elaboração do projeto político-pedagógico. Isso não significa que objetivos. Cada escola é resultado de um processo de desenvolvimento de suas próprias contradições. da "qualidade total". metas e procedimentos . mas não é todo o seu projeto. no cumprimento mais eficaz do instituído. a partir dele. pois. Um projeto sempre confronta esse instituído com o instituinte. um norte. a eleição de um diretor. Tornar-se instituinte. bem como as dificuldades. A escola. se dá a partir da escolha de um projeto político-pedagógico para a escola.como conjunto de objetivos. escolhe primeiro um projeto e depois a pessoa que possa executá-lo. Portanto. numa gestão democrática. A pluralidade de projetos pedagógicos faz parte da história da Educação da nossa época. . de uma diretora. que é a sua história. instituir outra coisa. Freqüentemente se confunde projeto com plano. o que se está elegendo é um projeto para a escola. Um projeto político-pedagógico não nega o instituído da escola. o conjunto dos seus currículos e dos seus métodos.deste assunto. sempre um processo inconcluso. A arrogância do dono da verdade dá lugar à criatividade e ao diálogo. em geral. em particular. sublinhando a sua importância e seu significado. Diante disso.

portanto. Propiciará um contato permanente entre professores e alunos. e não apenas seus fiscalizadores ou meros receptores dos serviços educacionais. Mudança que implica deixar de lado o velho preconceito de que a escola pública é apenas um aparelho burocrático do Estado. A gestão democrática da escola é. Não se entende. a gestão democrática da escola está prestando um serviço também à comunidade que a mantém.pressupostos do projeto políticopedagógico da escola . A autonomia e a participação . o seu ensino. A escola não tem um fim em si mesma. e não uma conquista da comunidade. Ela está a serviço da comunidade. em conseqüência. não deve existir um padrão único que oriente a escolha do projeto de nossas escolas. Ela exige. uma exigência de seu projeto político-pedagógico. isto é. uma escola sem autonomia . em primeiro lugar. alunos. A autonomia e a gestão democrática da escola fazem parte da própria natureza do ato pedagógico.autonomia para estabelecer o seu projeto e autonomia para executá-lo e avaliá-lo. para isso.não se limitam à mera declaração de princípios consignados em algum documento. Passamos muito tempo na escola para sermos meros clientes dela. pais. Há pelo menos duas razões que justificam a implantação de um processo de gestão democrática na escola pública: • a escola deve formar para a cidadania e. Sua presença precisa ser sentida no . sejam seus dirigentes e gestores.Por isso. A gestão democrática da escola implica que a comunidade. A gestão democrática da escola é um passo importante no aprendizado da democracia. E para ele se tornar sujeito da sua aprendizagem precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. ela deve dar o exemplo. que faz parte também do projeto de sua vida. professores e funcionários assumem sua parte de responsabilidade pelo projeto da escola. • a gestão democrática pode melhorar o que é específico da escola. Nisso. O aluno aprende apenas quando se torna sujeito da sua aprendizagem. portanto. A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico. uma mudança de mentalidade de todos os membros da comunidade escolar. os usuários da escola. A participação na gestão da escola proporcionará um melhor conhecimento do funcionamento da escola e de todos os seus atores. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. um conhecimento mútuo e. aproximará também as necessidades dos alunos dos conteúdos ensinados pelos professores. Na gestão democrática.

A atitude democrática é necessária. • o tipo de liderança que tradicionalmente domina nossa atividade política no campo educacional. • na participação e na cooperação das várias esferas de governo. Não basta apenas assistir a reuniões. na formação de grupos de trabalho. esportivas e recreativas. algumas limitações e obstáculos à instauração de um processo democrático como parte do projeto político-pedagógico da escola. Precisamos de métodos democráticos. isto é. Não basta trocar de teoria como se ela pudesse salvar a escola. um projeto político-pedagógico da escola apóia-se: • no desenvolvimento de uma consciência crítica. responsabilidade e criatividade como processo e como produto do projeto. na organização de eventos culturais. O projeto da escola depende da ousadia de seus agentes e de cada escola em se assumir como tal. • o autoritarismo que impregnou nossa prática educacional. na distribuição das aulas.conselho de escola ou colegiado e também na escolha do livro didático. • a mentalidade que atribui aos técnicos e apenas a eles a capacidade de planejar e governar e que considera o povo incapaz de exercer o governo ou de participar de um planejamento coletivo em todas as suas fases. certamente. portanto. podemos citar: • nossa pouca experiência democrática. na circulação das informações. o contexto histórico em que ela se insere. Pelo que foi dito até agora. A democracia também é um aprendizado. no estabelecimento do calendário escolar. na divisão do trabalho. • na autonomia. no planejamento do ensino. Um projeto político-pedagógico constrói-se de forma interdisciplinar. atitude e método. mas não é suficiente. • a própria estrutura vertical de nosso sistema educacional. de efetivo exercício da democracia. A escola que precisa ser salva não merece ser salva. Enfim. A gestão democrática deve estar impregnada por uma certa atmosfera que se respira na escola. Entre eles. seu cotidiano e seu tempo-espaço. atividades cívicas. Existem. o projeto pedagógico da escola pode ser considerado como um momento importante de renovação da . A gestão democrática é. atenção e trabalho. • no envolvimento das pessoas: a comunidade interna e externa à escola. demanda tempo. na capacitação dos recursos humanos etc. partindo da cara que tem. no processo de elaboração ou de criação de novos cursos ou de novas disciplinas.

pleno conhecimento de todos . explícito.escola. podemos destacar: • comunicação eficiente: um projeto deve ser factível e seu enunciado facilmente compreendido. • o momento da institucionalização e implementação do projeto. O projeto que pode ser inovador para uma escola pode não ser para outra. Um projeto educativo pode ser tomado como promessa ante determinadas rupturas. por isso. Todo projeto supõe rupturas com o presente e promessas para o futuro. Nesse processo podem-se distinguir dois momentos: • o momento da concepção do projeto. antever um faturo diferente do presente. é também decisivo para seu sucesso. • adesão voluntária e consciente ao projeto: todos precisam estar envolvidos. • tempo institucional: cada escola encontra-se num determinado tempo de sua história. A co-responsabilidade é um fator decisivo no êxito de um projeto. ambiente favorável: não se deve desprezar um certo componente mágico-simbólico para o êxito de um . Como elementos facilitadores do êxito de um projeto. comprometendo seus atores e autores. • atmosfera. revelam-se ineficientes a médio prazo. o período no qual o projeto é elaborado. Projetar significa "lançar-se para a frente". sobre o que se quer inovar. • tempo para amadurecer as idéias: só os projetos burocráticos são impostos e. • suporte institucional e financeiro. que significa: vontade política. A noção de projeto implica sobretudo tempo: • tempo político: define a oportunidade política de um determinado projeto. • controle.e recursos financeiros claramente definidos. atravessar um período de instabilidade e buscar uma nova estabilidade em função da promessa que cada projeto contém de estado melhor do que o do presente. acompanhamento e avaliação do projeto: um projeto que não pressupõe constante avaliação não consegue saber se seus objetivos estão sendo atingidos. Há um tempo para sedimentar idéias. Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscarse. As promessas tornam visíveis os campos de ação possíveis. • tempo escolar: o calendário da escola. Um projeto precisa ser discutido e isso leva tempo. Projeto pressupõe uma ação intencionada com um sentido definido.principalmente dos dirigentes .

a progressista ou socialista democrática (o socialismo autoritário e burocrático não admite a democracia como valor universal e despreza a cidadania como valor progressista). A falta desses elementos dificulta a elaboração e a implantação de um projeto novo para a escola. salário justo. como liberdade de expressão. educação. A implantação de um novo projeto político-pedagógico enfrentará sempre a descrença generalizada dos que pensam que de nada adianta projetar uma boa escola enquanto não houver vontade política dos "de cima". de participação em partidos políticos e sindicatos etc. comprovada competência e legitimidade. mas. a neoliberal. que é uma concepção plena de cidadania. Contudo. Deve ser um processo de recuperação da importância e da necessidade do planejamento na Educação. como segurança e locomoção. o pensamento e a prática dos "de cima" não se modificarão enquanto não existir pressão dos "de baixo". habitação etc. no entanto. A democracia fundamenta-se em três direitos: • direitos civis. Existem. Não há cidadania sem democracia. contudo. Tudo isso exige certamente uma educação para a cidadania. • direitos sociais. de voto. diversas concepções de cidadania: a liberal. Um projeto político-pedagógico da escola deve constituir-se num verdadeiro processo de conscientização e de formação cívica. como trabalho. o projeto pode ficar limitado. • direitos políticos. O conceito de cidadania. é um conceito ambíguo. Em 1789. se os que as defendem não têm prestígio. • credibilidade: as idéias podem ser boas. • referencial teórico que facilite encontrar os principais conceitos e a estrutura do projeto. que consiste na mobilização da sociedade para a conquista dos direitos anteriormente . saúde. O que é educar para a cidadania? A resposta a essa pergunta depende da resposta à outra pergunta: "o que é cidadania?" Pode-se dizer que cidadania é essencialmente consciência de direitos e deveres no exercício da democracia. a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão estabelecia as primeiras normas para assegurar a liberdade individual e a propriedade. Existe hoje uma concepção consumista de cidadania (não ser enganado na compra de um bem de consumo) e uma concepção oposta. uma certa mística que cimente a todos os que se envolvem no design de um projeto.projeto.

como uma alternativa nova e emergente.mencionados. nas últimas duas décadas. o enfrentamento da questão da repetência e da avaliação. Para mim. dessa experiência vivida pude tirar algumas lições. gostaria de mencionar pelo menos quatro: • a escola não é o único local de aquisição do saber elaborado. posso tirar algumas lições que me levam a acreditar nessa concepção/realização da educação. Concretamente. a democratização das relações de poder dentro da escola. tentando entender esse movimento. Para finalizar. indo. . cujos princípios venho defendendo. Do movimento histórico-cultural a que nos referimos estão surgindo alguns eixos norteadores da escola cidadã: a integração entre educação e cultura. foram a origem do importante movimento pelos direitos civis no País. e ainda tão longínqua em razão do arraigado individualismo tanto das nossas elites quanto das fortes corporações emergentes. baseado nessa crença. A cidadania implica instituições e regras justas. portanto. a visão interdisciplinar e transdisciplinar e a formação permanente dos educadores. Movimentos semelhantes já ocorreram em outros países. que surgiram nos Estados Unidos nos anos 50. colocando dentro das escolas americanas a educação para a cidadania e o respeito aos direitos sociais e humanos. escola e comunidade (educação multicultural e comunitária). As Citizenship Schools. a escola cidadã surge como uma realização concreta dos ideais da escola pública popular. que devem ser garantidos pelo Estado. como diz Emilia Ferreiro. Aprendemos também nos fins de semana. De minha experiência vivida nesses últimos anos. Cidadania e autonomia são hoje duas categorias estratégicas de construção de uma sociedade melhor em torno das quais há freqüentemente consenso. O movimento atual da chamada escola cidadã está inserido nesse novo contexto histórico de busca de identidade nacional. de 1992. tão desejada. Por isso. Ela vem surgindo em numerosos municípios e já se mostra nas preocupações dos dirigentes educacionais em diversos Estados brasileiros. a transdisciplinaridade refere-se à superação das fronteiras existentes entre as disciplinas. apresentei um decálogo no livro Escola cidadã. ao lado de Paulo Freire. Essas categorias se constituem na base da nossa identidade nacional. ambas dependentes do Estado paternalista. E é justamente nesse contexto histórico que vêm se desenhando o projeto e a realização prática da escola cidadã em diversas partes do país. A interdisciplinaridade refere-se à estreita relação que as disciplinas mantêm entre si. além da interação e da reciprocidade existentes entre as ciências.

com pequenas mudanças numa certa direção. • a educação não será acessível a todos enquanto todos trabalhadores e não-trabalhadores em Educação. exigência premente e concreta de uma mudança estrutural provocada pela inevitável globalização da economia e das comunicações. no meu entender. as pequenas mudanças deveriam ser evitadas e todo o investimento deveria ser feito numa mudança radical e ampla. acima de tudo. mas por uma transformação radical.não se interessarem por ela. no dia-a-dia. a qual poderá acontecer como resultado de um esforço contínuo. Não é preciso mais esperar para mudar. solidário e paciente. Cada escola é fruto de suas próprias contradições. Por isso. não devemos renunciar ao nosso sonho da "grande" mudança. pela revolução da informática a ela associada e pelos novos valores que estão refundando as instituições e a convivência social na emergente sociedade pós-moderna. E o mais importante: isso pode ser feito já. é preciso incentivar a experimentação pedagógica e. ter uma mentalidade aberta ao novo e não atirar pedras no caminho de ninguém que queira inovar em educação. • houve uma época em que eu pensava que as pequenas mudanças impediam a realização de uma grande mudança. que a educação deve passar não apenas por uma melhoria da qualidade do ensino que está aí. minha certeza é outra: penso que. Existem muitos caminhos. pode não o ser em outra conjuntura ou contexto. Por isso. Estou convencido. mudando passo a passo. E o caminho que pode ser válido numa determinada conjuntura. Hoje. Questões para debate • Que mudanças caracterizam a sociedade pós-moderna e pósindustrial? • Como essas mudanças se refletem na educação e na escola? • Como a escola pode formar para a cidadania? • Quais são os obstáculos e os elementos facilitadores para a implantação do projeto político-pedagógico da escola cidadã? . sobretudo. até para a aquisição do saber elaborado. Mesmo assim. A educação para todos supõe todos pela educação. podemos operar a grande mudança.• não existe um único modelo capaz de tornar exitosa a ação educativa da escola. num determinado local ou contexto. Estado e sociedade civil .

. Isso exige uma reorientação dos investimentos públicos em educação Moacir Gadotti é professor da Universidade de São Paulo . quero amor prazer Quero nossa cidade sempre ensolarada Os meninos e o povo no poder. A educação básica é o bem muito precioso e de maior valor para o desenvolvimento. mais do que as suas riquezas naturais. quero o vinho e o pão Quero a amizade. (Coração civil) Milton Nascimento ESCOLA CIDADÃ: A HORA DA SOCIEDADE Moacir Gadotti José Eustáquio Romão Em princípio.USP e diretor do Instituto Paulo Freire José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. quero tudo e mais Quero a felicidade dos olhos de um pai Quero a alegria muita gente feliz Quero que a justiça reine em meu país Quero a liberdade.. Só a educação básica de qualidade para todos pode acabar com a miséria. Mário Quintana Quero a utopia. • a educação para o desenvolvimento: entendemos que a educação é condição sine qua non para o desenvolvimento auto-sustentado do País. Nosso appartheid social não será superado apenas com uma melhor distribuição de renda e com a solidariedade das classes médias.O que mata um jardim não [é o abandono. toda escola pode ser cidadã enquanto realizar uma certa concepção de educação orientada para: • a formação para a cidadania ativa: acreditamos que a escola pode incorporar milhões de brasileiros à cidadania e deve aprofundar a participação da sociedade civil organizada nas instâncias de poder institucional. Será preciso preparar os jovens para o trabalho. MG . O que mata um jardim [é esse olhar vazio De quem por ele passa indiferente.

Estamos vivendo hoje um momento diferente. Snyders insiste que essa "autonomia relativa" tem de ser mantida pela luta e "só pode tornar-se realidade se participar no conjunto das lutas das classes exploradas" (idem). Na história das idéias pedagógicas. da ruptura com esquemas centralizadores e. que institui a "democracia participativa" e cria instrumentos que possibilitam ao povo exercer o poder "diretamente" (Art. o tema da autonomia da escola encontra suporte na própria Constituição promulgada em 1988. recentemente. que conseguiu expandir as oportunidades educacionais.e uma compreensão nova do público e do estatal. Por isso. a autonomia sempre foi associada aos temas da liberdade individual e social. não é suficiente para reverter o processo de deterioração do ensino básico. Esses princípios podem ser considerados como fundamentos constitucionais da autonomia da escola. diz Georges Snyders. Neill organizou uma escola (Summerhill) controlada autônomamente pelos alunos. por uma forte intervenção do Estado. mas para poucos.) é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar" (Escola. mas sem oferecer qualidade e eficiência. 1°).sem comprometer os outros níveis de ensino . A autonomia é "real". "mas a conquistar incessantemente (. O Brasil passou por um primeiro momento em que a educação estava entregue unicamente nas mãos da iniciativa confessional e privada. Pode-se dizer que a autonomia faz parte da própria natureza da educação. classe e luta de classes. Os educadores soviéticos Makarenko e Pistrak a entendiam como "autoorganização dos alunos". que ofereceu uma escola de qualidade. o seu conceito encontra-se na obra de diversos clássicos da educação. a Constituição de 1988 estabelece como princípios básicos o "pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas" e a "gestão democrática do ensino público" (Art. mas também para a inserção na comunidade e para a emancipação social. no sentido moral de "autodomínio individual". John Locke concebe-a como "autogoverno" (selfgovernment).básica .. um momento de busca de síntese entre qualidade e quantidade. A escola precisa preparar o indivíduo para a autonomia pessoal. É a vez da sociedade.. 1977). No que se refere à educação. da transformação social. sem rever o modelo de gestão da escola pública. Adolph Ferriere e Jean Piaget entendiam que ela exercia um papel importante no processo de "socialização" gradual das crianças. O educador inglês Alexander S. Investir mais em educação hoje no Brasil. . em seguida. No Brasil. 206). Passou.

que se reflete diretamente na administração do ensino: uns poucos. pois participar significa engajar-se numa atividade já existente com sua própria estrutura e finalidade. A cooperativa já é um caso mais próximo da autogestão. nos meios intelectuais da esquerda francesa. opõe autonomia à alienação. e não a participação. A autogestão visa a transformação. em que o inconsciente é o "discurso do outro". em particular o soviético. mais ou menos solidário. 1982).Cornelius Castoriadis. A palavra "autogestão" aparece no início dos anos 60. A teoria pedagógica não é nada sem a ética. pois os dirigentes de uma cooperativa são remunerados pelos próprios trabalhadores. pressupõe o fato de que uma das formas fundamentais de exercício da opressão é a divisão social do trabalho entre dirigentes e executantes. Autonomia e autogestão constituem-se em horizonte de construção de relações humanas e sociais civilizadas e justas. mantendose a mesma estrutura hierárquica. ambas estão fundadas na ética. Por isso. O sentido que aqui nos interessa. Autogestão não se confunde com participação. Para ele. para compreender melhor a organização do trabalho na escola cidadã. Autogestão também não se confunde com a co-gestão. Há uma visão progressista de autonomia e uma visão conservadora. A divisão social do trabalho na escola é agravada pelo fato de ela ser justificada pela "competência". sobrepujando parcialmente o antagonismo entre capital e trabalho. fala por mim" (idem). na linguagem política e. por isso. Evidentemente. Nas teorias da educação. separando "especialistas" de . "a autonomia seria o domínio do consciente sobre o inconsciente" (A instituição imaginária da sociedade. insatisfeita com as realizações concretas do socialismo burocrático. enquanto processo de conscientização (desalienação). Autonomia não pode ser confundida com autogestão. detêm o poder de decisão e o controle. filósofo grego contemporâneo. fora da escola. existem muitas instituições de trabalho cooperativo. podem confundir-se com muitas coisas. A alienação se dá quando "um discurso estranho que está em mim me domina. principalmente. pois esta significa direção conjunta de uma instituição. Autonomia e autogestão não são conceitos neutros. Podem significar muitas coisas e. tem tudo a ver com a autonomia. enquanto todos os demais simplesmente executam tarefas cujo sentido lhes escapa quase inteiramente. a educação. Portanto. a autogestão pedagógica sempre foi considerada como alavanca da autogestão social.

com maior ou menor intensidade. Existem ainda críticos da autonomia escolar que temem que iniciativas desse tipo levem à privatização e desobriguem o Estado de sua função de oferecer uma escola pública gratuita de qualidade para todos. e só pode . à dispersão e à preservação do localismo. Ele pode ser encontrado. Contudo. o que dificultaria ações reformistas ou revolucionárias mais profundas e globais. Cidadão é aquele que participa do governo. mas não tiveram um impacto maior sobre os sistemas de ensino. A heterogeneidade dificulta o controle. das habilitações técnico-administrativas do curso de Pedagogia. pelo regime militar. o problema está sendo sanado por meio da eleição para o cargo de diretor. Esse movimento encontra-se não apenas na educação brasileira. quando não o impossibilita. são experiências muito polêmicas. Os relatos dessas experiências nos dão conta de muitas dificuldades e resistências. É verdade que é mais fácil lidar com programas unificados de reformas. na história recente das transformações dos sistemas educacionais em diversas partes do mundo. experiências isoladas de gestão colegiada de escolas sempre existiram. Em alguns casos.são cada vez mais frágeis. não tiveram continuidade. tanto para os alunos quanto para os professores. Outra objeção que costuma ser feita aos "autonomistas" é a de que autonomia da escola leva à pulverização.sustentadas freqüentemente por uma concepção centralizadora da educação . podemos destacar nesses projetos e reformas alguns traços comuns: • ampliação da jornada escolar. O que chamamos de escola cidadã se constitui no resultado de um processo histórico de renovação na educação. Podemos encontrá-los também nas reformas empreendidas hoje por outros países. Muitas delas são fruto de iniciativa de alguns educadores e foram interrompidas quando estes deixaram a escola. essas objeções . • atendimento integral à criança e ao adolescente.professores. em uma mesma escola. Todavia. na medida em que o pluralismo é defendido como valor universal e fundamental para o exercício da cidadania. sobretudo depois da criação. Esses elementos estão sustentados por um pressuposto mais amplo: o da maior autonomia das escolas. O papel pedagógico do professor foi esvaziado. A idéia de autonomia é intrínseca à idéia de democracia e cidadania. • participação comunitária e gestão democrática. No caso da administração escolar. No Brasil.

Só a igualdade na diferença e a parceria são capazes de criar o novo. tentativas e confrontos políticos entre teses diferentes e até opostas. para isso. em um plano estratégico de participação que vise a democratização das decisões. Essa formação se adquire na participação do processo de tomada de decisões. Autonomia é o oposto da uniformização. A eficácia dessa luta depende muito da ousadia de cada escola em experimentar o novo.participar do governo (participar da tomada de decisões) quem tiver poder e tiver liberdade e autonomia para exercê-lo. A ampliação da autonomia da escola não pode opor-se à unidade do sistema. efetivamente. Portanto. com muitos encontros. transparência administrativa. Não se pode fazer uma mudança profunda no sistema de ensino sem um projeto social. Descentralização e autonomia caminham juntas. Deve-se pensar o sistema de ensino como uma unidade descentralizada. contra o instituído. A autonomia se refere à criação de novas relações sociais que se opõem às relações autoritárias existentes.e as leis que regem a administração pública e limitam a ação transformadora. A participação e a democratização num sistema público de ensino são um meio prático de formação para a cidadania. Eles só são eficazes em um conjunto de medidas políticas. base da democratização da gestão escolar. O conselho de escola é o órgão mais importante de uma escola autônoma. mas em constante intercâmbio com a sociedade. precisa compreender o funcionamento da administração particularmente do orçamento . escola autônoma não significa escola isolada. A criação dos conselhos de escola representa uma parte desse processo. Mas eles fracassam quando instituídos como uma medida isolada e burocrática. Mas para que . Por isso. Mas. isto é. A população precisa. democratização das informações. para instituir outra coisa. é uma luta dentro do instituído. supõe a parceria. e não apenas pensá-lo. A luta pela autonomia da escola insere-se numa luta maior pela autonomia no seio da própria sociedade. por isso. debates. A autonomia admite a diferença e. Esse plano supõe: autonomia dos movimentos sociais e de suas organizações em relação à administração pública.na capacidade de ela resolver seus problemas por si mesma e de autogovernar-se. abertura de canais de participação pela administração. é preciso percorrer um longo caminho de construção da (auto)confiança na escola . O que a Itália está experimentando é resultado de um longo caminho percorrido. apropriar-se das informações para poder participar.

Como vimos. Num sistema fechado. Para uma administração pública construir essa escola. o conflito e a autonomia. Existe uma visão sistêmica estreita que procura acentuar os aspectos estáticos . Nesse confronto de concepções e práticas.professores e funcionários . mas integrá-la no processo de desenvolvimento humano e social. os usuários .para todos. a mudança. uma outra cultura. o que temos chamado. no seu livro Filosofia mestiça.como o consenso. A escola cidadã é certamente um projeto de criação histórica. Portanto. além da sua cultura. Costumase convocar a população para participar em horários inadequados. o locus fundamental da educação é a escola e a sala de aula. mas que respeite as diferenças locais e regionais. Adquirir uma nova cultura não é negar a cultura primeira. o nosso desafio educacional continua sendo educar e ser educado.pais e alunos . Além disso. social e cultural.e os prestadores dos serviços . ao mesmo tempo. esses dois paradigmas contrários de sistema de ensino não se encontram em "estado puro". o sistema tende a uma síntese superadora. Esta é uma das principais razões da não-participação. se constitua numa estratégia explícita da administração. respeitar a diversidade local. A dialética entre as culturas faz parte da própria natureza da educação. Na prática. predomina o ecletismo. idéia tão cara à teoria da educação popular. O grande desafio da escola pública está em garantir um padrão de qualidade (para todos) e. trata-se de construir uma escola pública universal . precisa trabalhar com uma concepção aberta de sistema educacional.não se sentem responsáveis. de sistema único e descentralizado. Enfim. dinâmica. aquele que se torna um "mestiço".os conselhos de escola sejam implantados de maneira eficaz é necessário que a participação popular. a ordem. como diz o filósofo francês Michel Serres. a hierarquia e uma visão dinâmica que valoriza a contradição. étnica. sem nenhum cuidado prévio. Certamente. a multiculturalidade. A população precisa sentir-se respeitada e ter prazer de exercer os seus direitos e de participar. a adaptação. Num sistema aberto. Mas educado é só aquele que domina. em locais desconfortáveis ou de dificil acesso etc. unificada -. apesar da resistência . para facilitar a participação é preciso oferecer todas as condições. dentro e fora da escola. o confronto entre uma visão funcionalista e estática da educação e uma visão dialética. cada vez mais. a descentralização é a tendência atual mais forte dos sistemas de ensino e das últimas reformas.

mas para construir e elaborar a cultura. de Planejamento Socializado Ascendente . Escola não significa um prédio. para que tenha um sentido emancipatório. muitas vezes associados na luta contra a inovação educacional. • autonomia da escola: cada escola deveria poder escolher e construir seu próprio projeto político-pedagógico . precisa ser incluída como parte essencial do projeto da escola. • avaliação permanente do desempenho escolar: a avaliação.oferecida pelo corporativismo das organizações de educadores e pela burocracia instalada nos aparelhos de Estado. superando o temido problema da atomização do sistema de educação. pois existe uma só cultura como obra humana (unidade humana na pluralidade dos homens).por exemplo. no Instituto Paulo Freire. a questão essencial da nossa escola hoje refere-se à sua qualidade e a uma nova abordagem da qualidade. como no caso do modelo hierárquico e vertical de poder.de forma que as deliberações escolares tivessem influência e peso sobre as políticas públicas educacionais. iniciativas deslocadas para a administração dos sistemas durante o regime militar. seja a cultura geral. Deve envolver a comunidade interna. Escola significa projeto em torno do qual poderiam associar-se várias unidades escolares. A administração de um sistema único e descentralizado de ensino poderia apoiar-se em quatro grandes princípios: • gestão democrática: um sistema único e descentralizado supõe objetivos e metas educacionais claramente estabelecidos entre escolas e governo. Não pode ser um ato formal e executado por técnicos externos à escola apenas. • comunicação direta com as escolas: se a escola é o locus central da educação. Escola e governo elaborariam em parceria as políticas educacionais. visando à democratização do acesso e da gestão e à construção de uma nova qualidade de ensino. ela deve tornar-se o pólo irradiador da cultura. A escola precisa ser o local privilegiado da inovação e da experimentação político-pedagógica. por meio do que chamamos. seja a cultura popular. não apenas para reproduzi-la ou executar planos elaborados fora dela. sem que seja necessário passar por incontáveis instâncias de poder intermediário. Enfim. a comunida-de externa e o poder público. um único espaço ou local. Seu corolário é a comunicação entre as escolas e a população. E a qualidade está .

E a própria comunidade pode avaliar de perto os resultados. princípios e elementos que caracterizam a escola que chamamos de cidadã? • O que falta à sua escola para que ela seja cidadã? Como construí-la? . podem diminuir os gastos com a burocracia. sociais e culturais de cada região. podem respeitar as peculiaridades étnicas. que são muito mais eficazes na conquista dessa qualidade do que grandes projetos anônimos e distantes do dia-a-dia escolar. Isso porque só as escolas que conhecem de perto a comunidade e seus projetos podem dar respostas concretas a problemas concretos de cada uma delas. • Em que medida a Constituição Federal de 1988 e a política educacional do seu município ou Estado favorecem ou dificultam a construção da escola cidadã? • Quais são os fundamentos. Questões para debate • Identifícar na história das idéias pedagógicas os fundamentos da escola autônoma (cidadã).diretamente relacionada com os pequenos projetos das próprias escolas.

em que se fala. de metas a serem atingidas. para seguir em frente. podemos ter a sensação inicial de insegurança. se adivinha. e diretor do Instituto Paulo Freire. no caso específico da educação. em que se atua. realizamos espontaneamente uma sondagem inicial acerca de tudo o que nos cerca e naturalmente interpretamos as condições encontradas. com novas pessoas. por isso que recusa o imobilismo. Do que adiantam? Letras impressas das canções.. enfim. para nos relacionarmos e também para participar e interferir naquele ambiente ou naquela situação. A partir daí passamos a ter maior segurança para caminhar. em que se cria. A escola em que se pensa. Aí percebemos a necessidade do prévio estabelecimento de finalidades.. quando pretendemos desenvolver quaisquer atividades no âmbito do sistema ou da unidade escolar. De qualquer maneira. MG. deparamos com novos ambientes. com um novo trabalho. Paulo Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco. José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. Do que adiantam? Gestos educados. Esse processo se amplia se nos entregamos a ações intencionais e. constituições se o teto da escola caiu se a parede da escola sumiu (Mobral) Herbert Vianna Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura. a escola que apaixonadamente diz sim à vida. Do que adiantam? Emendas.. Paulo Freire CARTA ESCOLAR: INSTRUMENTO DE PLANEJAMENTO COLETIVO Custódio Gouvea L.instruções. de avaliações a serem Custódio Gouvea L. em nossa vida cotidiana. que marcha... SP.Do que adiantam? Placas. com qualquer nova atividade ou situação. de objetivos.. . convenções. bulas. da Motta é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. da Motta José Eustáquio Romão Paulo Padilha Quando. que não tem medo do risco. em que se ama. MG.

Nessas condições. apresentamos a metodologia denominada Carta Escolar. a metodologia da Carta Escolar foi aperfeiçoada e melhor aplicada . O que é a Carta Escolar? Desenvolvida no Brasil na década de 70. de resultados a serem quantificados e qualificados para que correções de rumos possam melhorar a nossa atuação e. . agir e buscar resultados positivos em nossas atividades. O Instituto Paulo Freire resgatou-a. econômicas. estudou seus resultados nesses países. fisiográficas. culturais. demográficas. no sentido do atendimento das demandas O Instituto Paulo Freire de Juiz de Fora elaborou em 1996 as Cartas Escolares das prefeituras municipais de Bicas. urbanísticas e arquitetônicas de comunidades que abrigam sistemas escolares. que nos permite desenvolver ações com vistas à construção coletiva e democrática do projeto político-pedagógico da escola. recuperou suas aplicações de sucesso no Brasil e a atualizou'. instrumento de sondagem.realizadas. Depois. Ela é um instrumento de planejamento do sistema ou subsistema educacional que permite o estudo das condições sociais. sondagem e interpretação de dados acabam se constituindo em etapas essenciais para que possamos. conscientemente. Inicialmente. Elas estão à disposição para consulta nas sedes do Instituto. a estaremos estudando em sua concepção original. A partir dessa analogia.com muito sucesso em outros países. o ensino e a aprendizagem. Mercês e Oliveira Fortes. Além disso. de interpretação e de análise de dados dos indicadores educacionais. destinada a subsidiar ações educacionais de âmbito municipal e de sistema de ensino. transformam-se em função obrigatória. ela indica as ações que permitirão a organicidade da rede física escolar. Diante de circunstâncias e de ações intencionais e deliberadas. abordaremos a Carta Escolar adaptada à unidade escolar. por conseguinte. de forma que professores e demais segmentos escolares e comunitários possam utilizá-la como referencial para seus diagnósticos no âmbito estrito de suas escolas e de suas comunidades. resultados de mecanismos inconscientes de captação de informações. de Minas Gerais. a sondagem e a interpretação dos dados observados por nossos sentidos.

Para tanto. na medida em que indica os locais a serem implantadas as novas unidades escolares com vistas ao atendimento de áreas já densamente povoadas ou de indução de adensamento. destacam-se a topografia. É realizado também um levantamento exaustivo da capacidade instalada da rede escolar do município. tanto em termos de recursos físicos (instalações. material didático). com escala que permite uma representação suficientemente precisa e detalhada da rede escolar. demografia. malha viária. a Carta Escolar é um instrumento operacional cujo suporte físico é um mapa topográfico. hidrografia. que utiliza uma metodologia criada pelo Instituto Paulo Freire. é aplicado um questionário em todas as residências (urbanas e rurais) e coletadas informações referentes à renda. assim. são coletadas informações sobre outros indicadores sociais que interferem no desempenho do sistema educativo. faz um levantamento real e efetivo de toda a população do município. com seu perfil profissional. infra-estrutura e atividades econômicas. caracterizadas em seus estratos sociais a partir de dados fornecidos por um Censo Escolar. segurança e conforto compatíveis com as faixas etárias dos usuários. quanto de recursos humanos (docentes e não-docentes). O Censo Escolar. Ademais. Essa Carta possibilita. para garantir facilidades de acesso. Para se ter uma visão da realidade de cada município. idade. é inserida uma descrição do seu cenário geográfico. Entre os elementos externos que interferem no processo de escolarização. que devem ser profundamente estudadas para verificar suas influências no planejamento educacional do município. barreiras urbanísticas. Os mesmos dados são lançados em mapas municipais para que se tenha uma visão mais clara das deficiências ou duplicações existentes em função dos adensamentos populacionais e das barreiras físicas ou urbanas que influenciam no dimensionamento da rede física escolar. com sua localização. e da demanda real e potencial. Todos os dados coletados são tabulados por meio de sistemas computacionais que fornecem uma série de indicadores para as projeções de expansão ou contração da rede. aspectos . com suas características específicas e com os elementos que influenciarão na escolarização. a partir da delimitação de setores censitários. sexo e escolaridade por setor censitário.específicas de cada nível. por amostragem. a racionalização da expansão da rede física escolar. equipamentos. bem como para a definição das áreas de jurisdição das escolas.

torna-se instrumento indispensável para a elaboração dos projetos político-pedagógicos em todos os níveis educacionais. já que a finalidade precípua da Carta Escolar é o arrolamento analíticocrítico dos principais componentes de seus serviços. situação legal e histórico de sua evolução ao longo dos anos. do município ou do Estado. prever o desenvolvimento do sistema escolar em função da demanda social por matrículas. enquanto diagnóstico da capacidade e demanda educacionais da escola. características sócioeconômicas predominantes de sua clientela. Sua análise constitui o cerne do trabalho. assessorar os municípios na elaboração e implementação de planos educacionais. otimizar a aplicação de recursos destinados à educação. sua capacidade instalada. quantitativa e qualitativamente. das lacunas a serem preenchidas e das prioridades educacionais a serem estabelecidas e implementadas. desde as origens. seus recursos humanos. considerando todos os elementos que possam influenciar o processo educativo. levantar os dados sobre os limites e potencialidades do setor educacional do município para o atendimento das demandas que sejam resultantes de levantamentos e de pesquisas cientificamente consolidados. até o contexto contemporâneo. dos avanços a serem continuados e estimulados. finalmente. com a participação dos próprios agentes escolares. para alimentar. a Carta levanta. o processo decisório da comunidade local. minuciosamente. hidrografia. jurisdição e manutenção. uma análise detalhada da sua evolução demográfica e econômica e uma reconstituição de seu quadro histórico-social. maximizar a utilização da capacidade física instalada. a Carta Escolar tem por finalidade promover um amplo diagnóstico da educação no município. Como vimos. é possível uma intervenção precisa no sistema educacional dos municípios. passando por sua evolução político-administrativa. . Observe-se que a Carta Escolar. e. área de abrangência. clima e vegetação -. No caso específico de uma escola. suas demandas e das respectivas projeções futuras. Todos esses elementos contribuem para a caracterização da educação no município. A Carta Escolar tem como objetivos fornecer vários subsídios para o conhecimento efetivo da real situação da educação municipal. indicar o estabelecimento de áreas de jurisdição de escolas.relevo. A partir da identificação dos problemas a serem atacados.físicos . partindo de uma série de "retratos" tirados ao longo dos anos e revelados coletivamente.

desde as origens. os lotados na Secretaria Municipal de Educação . formada por professores coordenadores.servidores municipais. • reconstituição da trama das relações histórico-sociais: procurase fazer a reconstituição dessa trama. além de inserir os problemas educacionais do município em um universo mais amplo. ainda. geógrafos. será o cerne do trabalho.relevo.Estrutura da Carta Escolar A Carta Escolar é um trabalho coletivo. com a colaboração da população em geral. também oferece aos professores subsídios para o desenvolvimento da integração social com seus alunos. com o envolvimento de toda comunidade municipal . Além dessa equipe. com informações sumárias sobre a flora e a fauna.e em especial com os professores e supervisores de ensino. De sua elaboração participa uma equipe responsável do Instituto Paulo Freire. • caracterização educacional do município: esta parte. • conclusões e recomendações: à luz dos dados analisados. técnicos em informática e recenseadores. de curto. apontamento de rumos e recomendações a serem submetidas ao . independentemente das facções políticas a que pertençam . com vistas à compatibilização entre as disponibilidades potenciais e às necessidades educacionais projetadas e decorrentes do direito de todos a uma educação básica de qualidade. relativamente independente. os vereadores do município -. Ao final do trabalho elabora-se um minucioso relatório com as seguintes informações: • cenário geográfico do município: descrição da localização. hidrografia e clima -. sua criação e evolução político-administrativa. a mesma conta. aspectos físicos . médio e longo prazos. e uma análise dos aspectos demográficos. que oferece os dados coletados aos pesquisadores.e. o Instituto Paulo Freire propõe algumas recomendações à administração municipal. já que sua principal finalidade é o arrolamento analítico-crítico dos principais componentes de seus serviços e demandas educacionais e de suas projeções para o futuro. Observamos que a Carta Escolar. O resultado da Carta Escolar deve servir como indicação. fundamentalmente. já que os componentes municipais constituem conteúdos curriculares importantes na escolarização dos discentes do ensino fundamental.

alfabetizando. aos administradores municipais mapas de localização dos setores censitários e das escolas. embora se dedique ao levantamento da realidade educacional. acompanhados das respectivas totalizações numéricas e estatísticas. assim. por meio de suas legítimas representações e lideranças. em conjunto com os órgãos de representação democrática dos diversos segmentos sociais. de forma a servir de subsídio para estudos e como instrumento técnico de atualização fatura da Carta Escolar ou de outras pesquisas que se fizerem necessárias no município. O relatório final da Carta Escolar apresenta. por faixa etária e série. Todas essas informações podem ser mantidas em arquivo: dados coletados. portanto. pode servir também para a obtenção de outras informações. e setor. aos seus professores e a todos os segmentos escolares uma "fotografia" das reais condições da escola. oferece ao diretor da escola. . A CARTA ESCOLAR ADAPTADA À UNIDADE ESCOLAR A Carta Escolar. A Carta Escolar. tabelas e gráficos com os dados relativos aos aspectos demográficos em geral. fora da escola. por idade. objetos de estudo mais profundo sobre cada aspecto específico e submetidas ao crivo das decisões políticas do município. ainda. aqui apresentada sinteticamente. sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por setor. a formulação e implementação de políticas de outros setores da administração pública. subsidiando. entre outras inúmeras combinações que podem ser realizadas. O relatório traz ainda informações sobre a escolaridade e a condição de escolaridade por faixa etária (analfabeto. Tais recomendações e conclusões devem ser. evadido. e relatórios com dados sobre os alunos que estão freqüentando a escola. além de outras informações que possibilitem a realização de projeções máximas de atendimento de alunos por faixa etária e por série para o ano seguinte à pesquisa.processo político decisório da comunidade local. com a distribuição da população por sexo. e sobre aqueles que não a freqüentam. à renda por estratos sociais e ao grau de escolarização de sua população. total e universo). e resumo com os totais daquelas projeções para o ano seguinte à pesquisa. como projeções e busca de indicadores de qualidade do município. tabulados e analisados. faixa etária. adaptada a cada estabelecimento de ensino.

Em outras unidades da Federação o mesmo organismo pode ser chamado de Conselho Escolar.termo usado no Estado de São Paulo. Caixa Escolar. Não temos a intenção de padronizar ações nem de oferecer receitas metodológicas prontas para o consumo. Os recursos necessários para a execução do trabalho e suas fontes precisam igualmente ser definidos. de interações e de forças que caminham juntas para a concretização das finalidades e objetivos educacionais estabelecidos democraticamente por toda a equipe escolar. Assim. todo o corpo docente. Ela pressupõe divisão de poder e de responsabilidades. . metodologias de ação e distribuição de tarefas. A avaliação de cada etapa do processo faz parte. do conjunto de itens desse plano de trabalho. todas as atividades. Nesse documento devem ser previstas. Conselho Educacional e Comunitário. Colegiado Escolar. a APM e representações dos segmentos extra-escolares . As presentes recomendações são uma possível base para a realização de um diagnóstico escolar. Deve ser elaborado um plano de trabalho para o Censo Escolar que estabeleça objetivos. As Associações de Pais e Mestres (APMs) também são chamadas de Associação de Apoio à Escola (AAE). Círculo de Pais. metas. Mestres e Comunidade (APMC) etc. as equipes responsáveis pelo recenseamento e suas respectivas coordenações. Com isso queremos dizer que. ela servirá inicialmente como pólo aglutinador de intenções. Fórum de Gestão Participativa. como também o serão os eventuais assessores que estarão subsidiando. Conselho Deliberativo Escolar. ao apresentarmos alguns parâmetros para a realização da Carta Escolar. o Grêmio Estudantil. o discente. o estabelecimento de Os Conselhos de Escola . as mães e os pais de alunas e alunos e os representantes da comunidade escolar e extra-escolar. Associação de Pais. como também muitos são os sujeitos que deles farão uso e a partir deles tomarão decisões. uma vez que os dados a serem coletados e levantados são muitos.que subsidiará a elaboração de seu projeto político-pedagógico e de seu planejamento participativo ascendente. O Censo Escolar tem início tão logo se realize a articulação de todos os segmentos escolares. ainda. por mais bem-vindas que possam ser algumas receitas em certas situações. incluindo necessariamente o Conselho de Escola. os mesmos não devem ser entendidos como "camisa-de-força". Assim. também. de sua elaboração participam organizadamente a equipe diretiva da escola. Como a Carta é um instrumento elaborado coletivamente. no aspecto técnico e científico.

área que a escola ocupa. conseqüentemente. situação institucional (mantenedor. de sanitários para alunos e professores. linhas telefônicas.ensino poderá dispor de informações e de estatísticas confiáveis para decidir seus futuros passos e elaborar seu projeto político-pedagógico. de cozinha. de horta escolar. da secretaria. de aulas etc). Além desses dados. por exemplo. são incluídas informações sobre: terreno. quantidade. com suas respectivas dimensões. suas dimensões. de refeitórios. propriedade do prédio. se sofreu alteração ao longo dos anos. do piso. de áreas esportivas. a análise ficam mais fáceis: EXEMPLO: INSTALAÇÕES ESCOLARES Dependências/Quantidade Dimensões (m2) Estado de conservação Adequada/Inadequada Observações • mobiliária. de laboratórios. contendo o tipo e a quantidade de dependências. situação da construção. Quando esses dados são colocados em quadros. endereço completo. Dessa forma. de salas de vídeo. do cercamento. de áreas de lazer. departamento em que está lotado. atos de autorização de reconhecimento. • estrutura física: discriminação minuciosa da estrutura física da escola. tais como água. do acabamento. que organizarão o levantamento das seguintes informações: • identificação da escola: nome. de depósitos. estado de conservação e adequação das instalações escolares. de ensino. tipo da escola. em treze itens. energia elétrica etc. de salas de professores.) e a reconstituição da história da escola: como nasceu a idéia de sua instalação. de salas-ambiente. a visibilidade e. CGC etc. esfera administrativa a que pertence. áreas livres. do forro. Podem ser incluídos também neste item os tipos de serviços disponíveis na escola. equipamentos e recursos materiais: especificação. hortas comunitárias. os questionários para a coleta de dados podem ser divididos. por que razões etc. localização/zona. de bibliotecas. rede de esgoto ou de tratamento de água. estado de . espaços para áreas esportivas. região. com acréscimos de séries ou graus. salas de aula . quando foi criada e quando começaram suas atividades. o que servirá também aos professores quando da elaboração coletiva e individual de seus planejamentos e de seus planos (de curso. existência e condições de salas da diretoria. distrito.

se sistemático ou não. especificando o número de vezes em que é servida por turno. lápis. identificando as fontes e sua destinação (despesas). antenas parabólicas. levantar balanços da APM.conservação relativo a carteiras e cadeiras escolares. dedicação exclusiva ou não. quais estão em garantia. Devese relacionar o nome completo do servidor. tempo de serviço na escola e no serviço público. de vídeo. as características sócio-econômicas predominantes entre os alunos. gravadores. a evolução da demanda. ano de admissão na escola e número de repetências. das transferências expedidas. Neste item cabem ser anotadas. as condições de manutenção dos equipamentos. de jardinagem. • recursos financeiros: relacionar as receitas da escola. textos. disciplina que ministra (no caso de docentes). filmadoras. os valores em caixa. a distribuição dos alunos segundo a distância a que residem da escola e o tempo que levam para chegar até ela. giz. separada por séries e graus (ou níveis) de ensino e com dados da matrícula inicial. cadernos. do número de alunos evadidos. os aprovados e os reprovados. mobiliários para os alunos. ainda. fitas de vídeo. da Caixa Escolar etc. . projetores de slides. máquina de xerox. Nesse sentido. por exemplo. A escola pode criar e levantar seus próprios quadros para relacionar as informações de que necessita. a distribuição de alunos por turnos e séries e em relação à merenda escolar. lousas. carga horária semanal. armários. das transferências recebidas. em contas bancárias. • recursos humanos: todos os recursos humanos de que a escola dispõe devem ser relacionados: docentes e não-docentes. cursos realizados etc. livros na biblioteca. grau de escolaridade. fax. função. Pode-se levantar. • matrícula e evolução da demanda: aqui se devem criar quadros ou utilizar os já existentes na escola para informar a distribuição da matrícula segundo sexo. quais precisam de consertos. série. as pendências administrativas ou das condições atuais dos serviços de secretaria. equipamentos de cozinha. aparelhos de televisão. retroprojetores. microcomputadores etc. além de informações sobre o tipo de organização dos arquivos da escola. considerando-se também as turmas e as séries. levantamento contábil completo e nível de autonomia financeira da escola. o número de alunos em cada turno e tipo de fornecimento . quais estão no seguro. de limpeza.

do Conselho de Escola e demais representações de segmentos escolares. profissão. • Conselho de Escola. anotar. escreve.. bairro. às condições administrativas. procedência. • características da comunidade: levantamento de dados sobre os moradores do bairro em que a escola está inserida: nome. seus membros e representantes e o tipo de atuação que desempenham na escola. grau de instrução. aos recursos materiais. administrativos ou financeiros desenvolvidos pela escola nos anos anteriores. incluindo-se aí os segmentos escolares envolvidos nos mesmos. • deficiências detectadas na escola: em relação a todos os itens pesquisados. toca.). às instalações e aos equipamentos.). ainda. dança. Caixa Escolar.. a atuação da equipe de direção.. os programas de formação dos quais participam ou já participaram os membros dos segmentos escolares. pinta. incluindo os espaços que utilizam. pedagógicas e financeiras da escola. APM e Grêmio Estudantil: síntese especificando as atividades desenvolvidas por essas instituições escolares. participação em associações (sindicato. à participação dos segmentos na instituição escolar e às diferentes instâncias administrativas. de docentes e de apoio técnico administrativo e operacional. habilidades artísticas (se canta. Os fatores que impactaram negativamente o desempenho escolar deverão ser usados como referência para a construção de estratégias para sua superação. se possível com todas as suas características e com os resultados efetivamente obtidos.. informações que revelem as deficiências da escola em relação à formação dos docentes. clubes. bem como informações sobre os projetos em andamento. distribuição do tempo de trabalho pedagógico da equipe docente etc. igreja. • características do bairro: levantamento de informações gerais sobre o bairro em que a escola está inserida: sua história transformações por que passou e como se deram. o nível de participação da comunidade escolar. ao prédio escolar. Anotar nesse item.• projetos desenvolvidos na escola: levantamento sobre os projetos pedagógicos. • características da gestão e das relações humanas na escola: definir tipo e características da gestão escolar. ao interesse dos alunos. se tem serviços . ao número de funcionários. escola. no ato mesmo do levantamento.

a construção coletiva tende a aumentar a probabilidade de se obterem resultados satisfatórios a curto prazo. Além disso. habilidades artísticas. ao contrário. número de repetências. qual é o seu lazer preferido. porque prevê o envolvimento. desde cedo. É importante ressaltar que esse levantamento pode e deve. de farmácias. de hospitais. participarão dessa outra etapa que. local de trabalho etc. exige a organização das tarefas. em uma aprendizagem para todos os que atuam direta ou indiretamente na escola. sexo. especialmente pelos docentes da escola. deixada à sua sorte. primeiro. o diagnóstico ficaria incompleto. a sua cidadania. se tem movimentos sociais organizados. segundo.como é absolutamente necessário à construção coletiva de um projeto político-pedagógico. pode parecer muito dificil e complexo realizar um diagnóstico escolar com tal amplitude. de áreas de lazer. coleta seletiva de lixo. desde o início.porque contará com a participação e o envolvimento de todos . • caracterização dos alunos: idade. a descentralização das funções. outros cursos. um trabalho pedagógico coerente com as características e com as necessidades dos discentes. Esta experiência possibilitará a todos os sujeitos que dela participarem. e. o que garantirá. de biblioteca. local de moradia. pois. incluir também os alunos que não são atendidos pela escola. Para tabular e interpretar qualitativa e quantitativamente os dados do Censo. em especial aos professores e aos alunos. deverá ser acompanhada e assessorada pelas instâncias superiores da administração escolar. como as demais. áreas de interesse. porque as ações a serem . pois a escola não pode ficar à deriva. certamente. na seqüência.como luz elétrica. de forma plena. de que tipo e com que freqüência etc. procedência. número de transferências. o mesmo não só é possível . a atribuição de responsabilidades e a elaboração do plano de trabalho. iniciando-se a fase propriamente de diagnóstico ou interpretativa. com quantas pessoas vive. de livrarias. Esse processo se constituirá. construindo e exercendo. rede de esgoto. asfalto. No entanto. contudo. equipes formadas por representantes de todos os segmentos escolares. se são realizados eventos culturais. o número de habitantes. uma ampla vivência da prática democrática no âmbito escolar. água encanada. de igrejas. condições de moradia. A primeira vista. Sua concretização. que estarão assim se formando enquanto sujeitos ativos.

implementadas na escola considerarão o diagnóstico feito a partir dos dados levantados e da análise crítica da realidade constatada. Questões para debate • O que é e em que medida a Carta Escolar contribui na construção do projeto político-pedagógico da escola? • Que informações essenciais a Carta Escolar pode oferecer para a construção do projeto político-pedagógico da escola? • Como organizar a escola para a realização do Censo Escolar? • Qual é o papel pedagógico que a elaboração da Carta Escolar pode ter? .

como qualquer sonho. mas com reflexão e prática. dificilmente aprenderá a pensar e decidir coletivamente. Ela chega à escola... fará o quê? Conseguirá inserir-se no mercado de trabalho? Será uma cidadã ativa} Conhecerá seus direitos? Saberá exigir e lutar por eles? A escola convive com as alunas e com os alunos diariamente e.. não se faz com palavras desencarnadas. mas também pelas relações que estabelece com eles no dia-a-dia. não aprenderá a avaliar.. (Roda viva) Chico Buarque CONSELHOS DE ESCOLA: COLETIVOS INSTITUINTES DA ESCOLA CIDADÃ Ângela Antunes Ciseki Observemos uma aluna. recolhe o material para voltar para casa.) A gente vai contra a corrente Até não poder resistir Na volta do barco é que sente O quanto deixou de cumprir Faz tempo que a gente cultiva A mais linda roseira que há Mas eis que chega a roda viva E carrega a roseira pra lá. dificilmente aprenderá a falar. Ângeh Antunes Ciseki é professora da rede de ensino municipal de São Paulo e diretora técnica do Instituto Paulo Freire . se só realizar tarefas individuais. de maneira consciente ou não. brinca afoitamente para aproveitar cada segundo do recreio.. se só é avaliada. apresentará dificuldade para ouvir o outro.É que a democracia. Se a aluna só ouve. se fala no momento que bem entende.. segue atentamente as explicações na sala de aula.? Quantas horas diárias ela passa na escola? Quando concluir o ensino fundamental. ensina não só por meio do conteúdo com o qual trabalha em sala de aula. três. dois anos. conversa no pátio com os amigos. estende a mão para pegar o prato de merenda. Paulo Freire (. Há quanto tempo ela está ali? Um ano.

Nesse sentido. Não há educação e aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. diretor. a formação de cidadãos ativos. que seja incorporada ao cotidiano e se torne . dos dias de prova. Os lírios não nascem das leis". ou seja.também ensinam algo às alunas e aos alunos.e a forma como a escola organiza seu espaço . A forma como a escola organiza seu tempo . a prática cotidiana contribui para reforçar ou superar determinadas formas de agir e pensar. se suas tarefas forem sempre dirigidas. a população poderá controlar a qualidade de um serviço prestado pelo Estado. ao recreio. professores. O Conselho de Escola já é realidade em muitas escolas de Estados e municípios de todas as regiões do país. E.salas de aula. A participação pertence à própria natureza do ato pedagógico.um colegiado formado por pais. Mas. salas de reunião." (Gadotti) Mas de que forma os alunos podem participar da definição do projeto da escola? Como os pais. pessoal administrativo e operacional para gerir coletivamente a escola . do tempo reservado a cada área do conhecimento. para ele se tornar sujeito de sua aprendizagem. distribuição das aulas. Querendo ou não.pode ser esse espaço de construção do projeto de escola voltado aos interesses da comunidade que dela se serve. não aprenderá a ser criativa etc. alunos. ao contato com os pais . como diz Carlos Drummond de Andrade: "As leis não bastam. o aprendizado de relações sociais mais democráticas. os professores e outros representantes da comunidade interna e externa à escola podem participar da construção da escola que desejam? O Conselho de Escola . distribuição das carteiras etc. proporcionando o exercício da cidadania. projeto esse inserido no projeto de vida do próprio aluno. a escola não educa só quando educadoras e educadores escrevem ou falam. Por meio do Conselho. não aprenderá a estabelecer seus limites. ele precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola. poderá definir e acompanhar a educação que lhe é oferecida. Por isso. é necessário que a gestão democrática seja vivenciada no dia-a-dia das escolas. .definição do calendário. O conteúdo com o qual a escola trabalha e a prática que adota estão contribuindo para formar que tipo de ser humano? Para viver em que sociedade? "O aluno aprende quando ele se torna sujeito de sua aprendizagem.se só cumprir ordens. É necessário que os educadores tenham consciência de sua prática e saibam a serviço de que projeto de sociedade ela está.

Além das práticas exitosas no campo da gestão democrática do ensino público que Estados e municípios vêm desenvolvendo. respeito aos direitos elementares dos profissionais da área de ensino (plano de carreira. C o m a instituição da "gestão democrática do ensino público" (Art. o debate se intensificou e alguns Estados já sancionaram suas leis que dispõem sobre o tema. transparência administrativa. de 20 de dezembro de 1996. inciso VI). que requer. Nos municípios e Estados que já acumularam experiência em relação à prática da democratização. condições legais de encaminhar e colocar em prática propostas inovadoras. por isso. a gestão democrática vem exercendo influência positiva sobre: • a estrutura e o funcionamento dos sistemas: . s u p e r e m o s suas falhas. mesmo antes de uma regulamentação nacional.394. num processo c o n t í n u o de p r á t i c a e r e f l e x ã o . A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). entre outras providências. • a qualidade do ensino: formação para a cidadania (cria possibilidades de participar da gestão pública). política salarial. na forma desta Lei e das legislações ."colaboração" entre os sistemas e comunicação direta da Secretaria da Educação com as escolas. 206. a redefinição de tempos e espaços escolares que sejam adequados à participação. •o órgão de gestão da Educação: plano estratégico de participação. tomemos conhecimento de seus limites e avanços e. canais de participação (ampliação do acesso à informação) e. a construção cotidiana e permanente de atores sociopolíticos capazes de atuar de acordo com as necessidades desse novo que fazer pedagógico-político. aperfeiçoando seus aspectos positivos e criando novas propostas para os problemas que persistem. há de se criar as condições concretas para o seu exercício. também estabelece como princípio a "gestão democrática do ensino público. se não tem extinguido. outro fato contribuiu para acelerar as mudanças nessa área: a promulgação da Constituição Federal de 1988.tão essencial à vida escolar quanto é a presença de professores e alunos para que a escola exista. • a definição e acompanhamento da política educacional: o aumento da ca-pacidade de fiscalização da sociedade civil sobre a execução da política educacional. É necessário ainda que conheçamos as experiências já vividas. n2 9. Para isso. capacitação profissional). pelo menos tem diminuído os lobbies corporativistas.

seja na vivência delas na prática cotidiana.) II . CONSULTAR A COMUNIDADE ESCOLAR Se desejamos que a população se incorpore à vida social.que é o nosso caso . inciso II. respondendo às exigências dessa prática. Para o efetivo exercício da gestão democrática da escola é necessário capacitar todos os seus segmentos. se considerados. 39).participação das comunidades escolar e local em Conselhos de Escola ou equivalentes".que historicamente tem sido alijada dos processos decisórios de seu País. E no Artigo 15. Pressupostos da gestão democrática As experiências já vivenciadas em relação à democratização da gestão escolar apontam alguns pressupostos que. encontros etc. da escola de melhor qualidade: CAPACITAR TODOS OS SEGMENTOS A participação exige aprendizado..dos sistemas de ensino" (Inciso VIII. define um dos princípios da gestão democrática: "Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica. comprometer-se com esta capacitação. devem ser promovidos para esclarecer a população e contar com sua participação. As secretarias da Educação devem. debates. INSTITUCIONALIZAR A GESTÃO DEMOCRÁTICA A consulta e a participação das comunidades escolares possibilitam aos governos estaduais e municipais respaldo democrático para . Art. tendem a garantir maior sucesso na conquista dessa democratização e. O processo de consulta e intervenção por parte dos usuários junto aos órgãos governamentais deve ser prática constante. não podemos conceber a definição da política educacional e a gestão escolar com caráter centralizador e autoritário. As experiências revelam que tanto a comunidade externa quanto a comunidade interna à escola apresentam limites à participação. assembléias. principalmente pais e alunos. Nesse sentido.. seja na definição das políticas educacionais. seminários. de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: (. portanto. conseqüentemente. com presença ativa e decisória. principalmente quando se trata de uma população .

• elaborar. DAR AGILIDADE ÀS INFORMAÇÕES E TRANSPARÊNCIA ÃS NEGOCIAÇÕES A descentralização implica o acesso de todos os cidadãos à informação. consultiva. mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos. Nesse sentido. que atendam às reais necessidades educacionais da população.escolha dos dirigentes escolares. aprovar. as instâncias administrativas não podem prescindir de canais que possibilitem agilidade e eficiência na comunicação entre elas e a população. a prática vivenciada pelos diferentes municípios e Estados que já contam com Conselhos de Escola em funcionamento aponta alguns parâmetros a serem considerados para a sua constituição: NATUREZA DO CONSELHO DE ESCOLA • deliberativa. acompanhar e avaliar o projeto políticoadministrativo-pedagógico.encaminhar ao Poder Legislativo projetos de lei mais consistentes. normativa e fiscalizadora. Informação necessária não apenas no início do processo administrativo. todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. ATRIBUIÇÕES FUNDAMENTAIS • elaborar seu regimento interno. Parâmetros para a constituição do Conselho de Escola Além dos pressupostos destacados para a institucionalização e implantação da gestão democrática. É preciso garantir a todos o acesso às informações. fixar democraticamente as normas e mecanismos de fiscalização etc. implantação dos Conselhos de Escola e gestão da instituição educativa -. GARANTIR LISURA NOS PROCESSOS DE DEFINIÇÃO DA GESTÃO Para que se garantam transparência e respeito aos princípios éticos nas ações relacionadas à gestão democrática . .

se realizará na unidade escolar. . municipal e estadual da estrutura educacional. COMPOSIÇÃO • todos os segmentos existentes na comunidade escolar deverão estar representados no Conselho de Escola. assegurada a paridade (número igual de representantes por segmento) e proporcionalidade de 50% para pais e alunos e 50% para membros do magistério e servidores. NORMAS DE FUNCIONAMENTO • o Conselho de Escola deverá reunir-se periodicamente (com encontros mensais ou bimestrais). • serão válidas as deliberações do Conselho de Escola tomadas por metade mais um dos votos dos presentes à reunião. desde que esteja em pleno gozo de sua capacidade civil. • definir e aprovar o plano de aplicação financeira da escola. pedagógicos e financeiros da escola. respectivamente. acompanhar e fiscalizar políticas educacionais. • participar de outras instâncias democráticas. bem como a dos respectivos suplentes. • membros do magistério e demais servidores que possuam filhos regularmente matriculados na escola poderão concorrer só como membros do magistério ou servidores. para definir. por votação direta. • constituir comissões especiais para estudos de assuntos relacionados aos aspectos administrativos. PROCESSO DE ESCOLHA DOS MEMBROS • a eleição dos representantes dos segmentos da comunidade escolar que integrarão o Conselho de Escola.• criar e garantir mecanismos de participação efetiva e democrática da comunidade escolar. • a função de membro do Conselho de Escola não será remunerada. secreta e facultativa. conforme necessidade da escola. para encaminhar e dar continuidade aos trabalhos a que se propôs. A PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE ESCOLA • qualquer membro efetivo do Conselho de Escola poderá ser eleito seu presidente. como conselhos regional. • ninguém poderá votar mais de uma vez no mesmo estabelecimento.

professores. a composição é sempre paritária. • poderão participar das reuniões do Conselho de Escola. por exemplo. O MANDATO • Um ano. direção e demais funcionários. quatro alunos e quatro representantes da equipe administrativa. por exemplo. membros da comunidade. ou seja. haverá também quatro pais. elegem por voto direto os professores que os representarão no Conselho. todas as pessoas ligadas à escola podem se fazer representar e decidir sobre aspectos administrativos. por força legal. Conselho de Escola: estrutura e funcionamento O Conselho de Escola é um colegiado formado por todos os segmentos da comunidade escolar: pais. também escolhem os alunos que os representarão e assim por diante. Por meio do Conselho. dependendo do número de classes que a escola possuir. No município de São Paulo. representantes de entidades conveniadas. por sua vez. é sempre garantido o mesmo número de representantes por segmento.os professores da escola. todos os outros membros do Conselho são eleitos por seus pares . que é membro nato. ele pode ter de 16 a 40 pessoas. Grêmio Estudantil. movimentos populares organizados e entidades sindicais. salvo nos assuntos que. no caso da cidade de São Paulo. sejam restritivos aos que estiverem no gozo da capacidade civil. com direito a voz e não a voto. Todos os alunos. mas também um instrumento de gestão da própria escola. Com exceção do diretor. quatro professores. Se houver. • poderão participar das reuniões do Conselho com direito a voz e voto todos os membros eleitos por seus pares. alunos. A sua configuração varia entre os municípios e os Estados que já o implantaram. Podem . com direito a recondução. por exemplo. tornando esse colegiado não só um canal de participação. financeiros e pedagógicos.CRITÉRIOS DE PARTICIPAÇÃO • os representantes dos alunos a partir da 4a série ou com mais de 10 anos terão sempre direito a voz e voto. os profissionais de outras secretarias que atendam às escolas. Mesmo variando o número de membros.

na prática. como o próprio nome diz. Mas. se achar necessário. se considerarmos algumas atribuições específicas dos Conselhos de Escola. ao tempo de duração das reuniões. A afirmação acima. à substituição de algum membro que deixe de comparecer às reuniões etc. como definir (diretrizes). eleger. se os membros formarão chapas ou apresentarão candidaturas individuais). não toma decisões. apreciar. elaborar um regimento interno. As atribuições dos Conselhos de Escola. elaborar. Já nos documentos sobre Conselhos de natureza deliberativa. normativa e fiscal. arbitrar. As mais freqüentes são as atribuições de natureza consultiva e deliberativa. apenas é consultado em relação aos problemas da escola. outros verbos. aprovar. a descrição de suas atribuições geralmente vem marcada por verbos como acompanhar. à eleição de seus membros (se será através de assembléia ou votação de urna. Sua função é sugerir soluções. Nos próprios documentos. Participam com direito a voz e voto somente os membros eleitos. O Conselho de natureza consultiva. discutir. o seu funcionamento e a sua composição. que a elaboração do regimento interno deve sempre estar em consonância com a legislação em vigor e observar as normas dos respectivos conselhos e secretarias municipais e estaduais da Educação. pode não ser suficientemente esclarecedora para mostrar o que significa. estudam. ainda. teremos um . trabalhar com um Conselho deliberativo ou com um Conselho consultivo. indicar. à tomada de decisões (por votação secreta ou aberta). todos os que trabalham. avaliar. ao horário em que elas serão realizadas. analisada isoladamente pelo prisma semântico. Cada Conselho de Escola pode. deliberativa. têm filhos na escola ou fazem parte de movimentos organizados da região em que a escola está inserida. estabelecendo normas em relação à convocação das reuniões ordinárias e extraordinárias. que poderão ou não ser encaminhadas pela direção.participar das reuniões do Conselho. com direito a voz. possuem maior força de atuação e de poder na escola. garantir. a título de ilustração e de elucidação de nossa preocupação. Outro aspecto a ser mencionado refere-se às funções que os Conselhos de Escola podem desempenhar: consultiva. são determinadas pelo regimento comum de cada rede de ensino. que mostram como esses Conselhos. a redação de suas atribuições apresenta. os deliberativos. opinar e propor. assessorar. analisar. deliberar etc. além daqueles. Observe-se. decidir. à dinâmica das reuniões. dentre outras coisas.

dependendo dos encaminhamentos e da votação em plenária -. No primeiro caso. garantir que. analisar e definir prioridades. funcionários e comunidade escolar como um todo poderá ser maior ou menor. uma diferença fundamental entre decidir ou simplesmente opinar sobre procedimentos relativos à priorização de aplicação de verbas. Suas funções são sempre revestidas de grande importância e relevância: definir o regimento interno. instância executiva ("poder executivo") que se encarregará de colocar em prática as decisões ou sugestões do Conselho de Escola. guardados o graus de autonomia e consideradas as diretrizes gerais da administração. os verbos citados podem significar. professores. A responsabilidade é ainda maior quando se delibera quanto à organização e ao funcionamento geral da escola. discutir suas diretrizes e metas de ação. no trabalho cotidiano do Conselho. os membros da . ele determina onde e como aplicar tais verbas. também. enfim. é possível afirmar que a participação de alunos. na prática. discutir e arbitrar critérios e procedimentos de avaliação relativos ao processo educativo e à atuação dos diferentes segmentos da comunidade escolar. se for o caso . também pode. É mais enfático. Não podemos considerar a natureza dos Conselhos como uma questão menor.quadro mais nítido acerca das diferenças que. que conta com a representatividade de atores educacionais e comunitários. Tentando esclarecer um pouco mais a importância do colegiado deliberativo. do que somente discutir sobre essa questão. O Conselho é a instância em que os problemas da gestão escolar serão discutidos e as reivindicações educativas serão analisadas para. ele decide. pais. mais efetiva ou mais formal. Há. "leis" que regerão o funcionamento da escola ("poder legislativo") e acompanhar a sua execução pela direção ("poder judiciário"). julgando e garantindo para que elas sejam cumpridas. o Conselho. serem aprovadas e remetidas para o corpo diretivo da escola. do que quando se opina ou se assessora a direção da escola no mesmo sentido. Assim como criam leis (Poder Legislativo) e acompanham sua execução (Poder Judiciário). tomar decisões em relação à vida escolar. discutir e deliberar sobre os critérios de avaliação da instituição escolar como um todo. criando normas. podemos fazer uma breve analogia entre ele e os poderes Legislativo e Judiciário. Dependendo da natureza do Conselho de Escola. o Conselho vai muito além de apresentar propostas. democraticamente.

ativa e efetivamente. opinem e proponham ações que contribuam para a solução dos problemas de natureza pedagógica. Fica claro que o Conselho de natureza deliberativa é aquele que melhor pode contribuir. administrativa ou financeira da escola. para que a democratização e a autonomia da escola sejam alcançadas. objetivos marcantes do Projeto da Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire. Questões para debate • Por que democracia na escola? • De que forma o Conselho de Escola pode ser um espaço de exercício da cidadania? • Como garantir a participação e o envolvimento de todos os segmentos escolares? • Qual a relação entre Conselho de Escola e melhoria da qualidade do ensino? .escola e da comunidade apreciem. que representa grande avanço na direção do exercício permanente da democracia e da cidadania na escola e na sociedade em geral.

SP. José Eustáquio Romão é diretor do Instituto Paulo Freire e secretário de Governo do município de Juiz de Fora. Dia de reencontros explosivos. de abraços meteóricos. O tema da reunião administrativa e pedagógica é planejamento e organização do trabalho na escola. alguma aproximação. Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco. antigos companheiros de trabalho. alguma retração. A diretora da escola exercita sua pontualidade. Educar é uma luta constante. cautelosos. Todos ocupam seus lugares e as boas-vindas são oferecidas pela diretora. todos concordam. Vai começar a primeira reunião de um novo trabalho educativo. O coordenador pedagógico convida os presentes. . olhares curiosos. recémingressantes. a se encaminharem para uma sala de aula onde a reunião se realizará.A autonomia é muito menos um dado a constatar do que uma conquista a realizar. é sempre um novo recomeçar. mas. de qualquer maneira. também participam da confraternização. Georges Snyders Uma semente atirada Num solo tão fértil Não pode morrer É sempre uma nova esperança Que a gen te alimenta De sobreviver (Amor à natureza) Paulinho da Viola PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE DA ESCOLA José Eustáquio Romão Paulo Roberto Padilha Início do ano letivo. Professoras e professores. Uma atmosfera cor-de-rosa entre docentes e equipe diretiva. um clima de alegria. Por todo lado. Uma professora chega atrasada na ponta dos pés. e diretor do Instituto Paulo Freire. com sua voz grave. observada carinhosamente por seus colegas. que logo em seguida declara abertos os trabalhos. MG.

pontualidade dos professores na entrada e na saída. por meio da qual orienta cada grupo para que se reúna por meia hora e em seguida apresente aos demais grupos alguns objetivos específicos de suas disciplinas para o ano letivo. cada representante de grupo lê os objetivos específicos aos quais chegara sua equipe. Em seguida. imediatamente. os professores . foram elaborados pelos especialistas da escola dentro dos padrões científicos e técnicos exigidos pela Secretaria da Educação e estão perfeitamente de acordo com os Planos Nacional e Estadual de Educação. novo código disciplinar para os alunos. elaboração do horário de aulas. Lembra que os mesmos deverão ser elaborados em fina consonância com o Plano Diretor da Escola e com os Planos de Cursos já definidos nos anos anteriores. Notase no recinto um amargo sentimento. Para tanto. por sua vez. como deveria ser. Terminada a dinâmica e estourado o tempo da reunião na parte da manhã. passa a palavra à senhora diretora. Informa que os planos de ensino deverão ser providenciados pela equipe docente e entregues ao final dos três dias de reuniões. como informa a diretora. lista de alunos das novas turmas.O coordenador pedagógico passa a falar. tal o silêncio que toma conta do ambiente. Acrescenta que estes. como se o encantamento inicial tivesse se evaporado subitamente e dado lugar a um ar de constrangimento. Distribui uma papeleta para cada uma delas. dedicando-se mais à "parte administrativa". o coordenador pedagógico dá início a uma dinâmica de grupo. transfere-se para o período da tarde o início da elaboração do planejamento. o que não consegue provocar reações nos companheiros. ela distribui uma pauta mimeografada. após o que. estão agora ilhados em suas definições. as aulas terão início. novos horários de intervalos. Solicita a formação de equipes. calmamente. novas regras para a utilização da cantina. Após quase uma hora. definido pela equipe diretiva durante as férias dos professores. o coordenador pedagógico anuncia o início das exposições orais. "normas" e "prazos". O tempo acaba não sendo suficiente. crachás para as primeiras séries. que fala um pouco sobre a organização da escola. de acordo com suas disciplinas. Agora. Sem escolha. "planejamentos". sobre as próximas tarefas. que já se mostravam confusos e aparentemente desanimados diante das palavras "planos". entre outros. com os itens que estarão sendo "discutidos": entrega de documentos. Professoras e professores.

não é mera coincidência. em si. Os temas em questão. Seria pois impossível tratar de planejar as atividades da escola e da educação sem considerar essa característica. E é nesse contexto que se realizam. que pretendemos aqui realizar. Trata-se. gerando resultados negativos no espaço escolar. as chamadas "semanas de planejamento" ou "reuniões administrativas e pedagógicas". Não questionamos aqui a necessidade dessas reuniões na escola. de fragmentos de experiências verificadas em muitas escolas há alguns anos e mesmo hoje em dia. efetivamente. A situação descrita.disporão de novos livros didáticos enviados pelas editoras. que cuidemos da prática atravessada pela teoria e pensemos na teoria enquanto reflexão sobre a prática. Elas estão muito distantes das que. mas pode ser um primeiro passo para uma reflexão mais profunda sobre o planejamento participativo ascendente e a organização do trabalho na escola. devemos estar refletindo sobre essa realidade. na verdade. Poderíamos iniciar a reflexão discutindo o significado de alguns termos relacionados ao tema em questão. Nesse sentido. mas os equívocos das atividades propostas e realizadas na reunião anteriormente relatada. ou seja. São exatamente estas questões que estaremos analisando no decorrer do estudo do tema planejamento socializado ascendente e organização do trabalho na escola. exigem-nos um tratamento praxiológico. Assim começava a tarefa de planejar naquela escola e naquele ano. Mas se há o risco de a ficção confundir-se com a realidade. Não que definir este ou aquele termo possa resolver o problema. muitas vezes. se alguma semelhança tiver com a realidade. Preocupa-nos a possibilidade da ocorrência de situações parecidas com a aqui ilustrada nas escolas atuais. a partir dos quais poderão adaptar seus planos de ensino dos anos anteriores. Planejamento educacional e organização do trabalho na perspectiva da escola cidadã Devemos esclarecer que quando pensamos no planejamento educacional e na organização do trabalho na escola em uma . teoria e prática estão sempre imbricadas. deveriam ocorrer nessas situações. que a todos lembrava experiências burocráticas de anos anteriores nada compensadoras.

de seus direitos e deveres. entendemos que a inexistência de um Conselho atuante e de um projeto político-pedagógico pode ser compensada. avaliando e ampliando a participação de diferentes atores em sua administração e em sua gestão. temporariamente. organizando a educação. visando atingir objetivos antes previstos. assumindo a escola como instância social de contradições que propiciam o debate construtivo e. portanto. para que esta atinja os fins que justificam sua existência. Isso exigirá. compreendendo as relações institucionais. Pensar em planejar a educação é parte essencial da reflexão sobre como realizar e organizar o trabalho escolar. por meio de uma prática democrática . científica. Dessa forma. Observe-se. levando-se em conta o contexto e os pressupostos filosóficos. O resultado desse processo será influenciar e provocar transformações nas instâncias educacionais que historicamente têm ditado o como. com quem e para quem se planeja. a implantação progressiva do Conselho de Escola e a elaboração de um projeto político-pedagógico. de caráter político e ideológico e isento de neutralidade. Realizar os diversos planos e planejamentos educacionais e escolares. culturais e políticos de quem. planejar. por meio do Conselho de Escola. Por outro lado. é responder a um problema. enquanto entidade que tem por principal missão propiciar aprendizagens e formar cidadãos. O nosso objetivo é inverter a relação vertical. pensando e prevendo necessariamente o futuro. o porquê. Isso significa que. entendida aqui como o exercício pleno e democrático. É estabelecer fins e meios que apontem para a sua superação. o quando e o onde planejar. que não é possível dissociar a idéia de planejamento educacional e escolar da necessidade de se desenvolver. sobretudo. Planejar a educação é tema de extrema relevância para contribuir na direção da melhor organização do trabalho na escola. interpessoais e profissionais neles presentes. intencional.perspectiva cidadã faz-se necessário explicar o significado da palavra cidadania. mas sem desconsiderar as condições do presente e as experiências do passado. um projeto político-pedagógico nos estabelecimentos de ensino. significa exercer uma atividade engajada. linear e hierarquizada que tem caracterizado a prática do planejamento no sistema educacional. no desenvolvimento do próprio ato dinâmico de planejar. pela prática do planejamento coletivo. em sentido amplo. por parte da sociedade. o para quê. Isso significa encarar de frente os problemas dessa instituição e do sistema educacional como um todo.

técnicas. apresenta uma metodologia. pedagógicos ou financeiros. Esse diagnóstico. equipamentos. o que facilita o trabalho de quem planeja. metas. essencial para a elaboração do Planejamento Socializado Ascendente.e de um planejamento interativo e participativo. ao definir objetivos.porque científica . precisamos inicialmente fazer um diagnóstico da escola e/ou do município no qual ela se insere. possui um padrão. material didático etc). humanos. e viabiliza a execução e a avaliação do que foi planejado. estaremos quebrando e desfazendo. A interpretação dos dados coletados indicará as prioridades a serem consideradas no ato do planejamento político-pedagógico da escola. quanto de recursos humanos (docentes e nãodocentes). bem como da demanda real e potencial. é um levantamento exaustivo da capacidade instalada. pois. identificando todas as suas características. Se pensarmos na formulação de um planejamento educacional conforme descrito acima. um verdadeiro exercício de cidadania. O Planejamento Socializado Ascendente Não é demais lembrar que estamos diante da possibilidade de utilização de um instrumento que contribui para a construção da . pela ação. a atividade de planejar é sistemática. metodologias de ação. a crença de que planejar é atividade muito complexa .e para a qual apenas os especialistas estão devidamente preparados. estamos atribuindo às nossas ações educativas caráter transformador ou conservador. tanto em termos de recursos físicos (instalações. como tem ocorrido no país nos últimos 25 anos. especialmente se isso é realizado coletivamente. o planejamento educacional e a organização do trabalho escolar pensados e acompanhados por todos e para todos não serão atividades meramente burocráticas. porque envolverá a participação e a tomada de decisões da população em relação a um serviço prestado pelo Estado. seus problemas e necessidades em relação à demanda de recursos físicos. Dessa forma. tem um objeto de estudo bem definido. Ao contrário: por ser científica. Com tal compreensão e prática estaremos desvelando o mito do planejamento e enxergando o seu caráter político e ideológico. estamos fazendo opções. pode-se utilizar a metodologia da Carta Escolar. Em se tratando do diagnóstico. tanto para o municipal quanto para a unidade escolar. formas de avaliação do trabalho na escola etc. sim. com seu perfil profissional. Será.

como a dos pais. para que a escola funcione bem. 21. Não se trata de adesão a um processo já iniciado. São Paulo. 1.não ocorra apenas quando o planejamento com outros segmentos (direção escolar. Outra característica de um planejamento socializado que podemos registrar é o fato de ele prever que a participação de certos segmentos escolares e comunitários . professoras. a visão de totalidade desse processo coletivo. Planejar socializadamente pressupõe a prestação de um serviço à comunidade. "dotado de tensões que precisam ser vividas e administradas". estadual e federal. comunidade escolar e extra-escolar. Quando nos referimos ao Planejamento Socializado Ascendente. sem exceção. p. professores. No entanto. dividindo com eles o poder de decisão. 4). desde o princípio do planejamento escolar. que apresenta duas características fundamentais explícitas na sua própria denominação. n. entendendo esse processo participativo em seu dinamismo. é mister a participação efetiva de todos: alunas e alunos. tem-se. professores. o planejamento socializado é extremamente relevante e. que envolve a reflexão. Assim sendo. funcionários da escola) já tenha sido iniciado. direção. 1995. funcionárias e funcionários da escola. que valoriza todos os níveis de participação da escola. jan/jun. a dos alunos. mães e pais de alunos e de alunas. a organização da ação e a avaliação de resultados. v. no momento do planejamento. segmentos ou grupos comunitários e sociais que direta ou indiretamente atuam e se relacionam com a escola e com os demais níveis educacionais . estamos também diante de um tipo de planejamento participativo. Ao contrário. fica garantida a participação de todos os segmentos. isso não significa dizer que todos os segmentos estarão participando o tempo todo de todas as tarefas e de todos os tipos de planejamento a serem realizados na escola ou na . Outro pressuposto fundamental do Planejamento Socializado é a não separação estanque dos diferentes momentos da atividade de planejar. a partir da integração das forças de todos os sujeitos. Dessa forma."educação para a cidadania". do qual ela participa diretamente.municipal. A primeira característica é o fato de ser um planejamento socializado. como diz João Pedro da Fonseca (Revista da Faculdade de Educação. a de associações escolares e comunitárias . ou seja. com suas representações nos diferentes momentos do processo educativo. Feusp. 79-112. ou depois de definidos alguns critérios básicos que deverão ser cumpridos. a tomada de decisão. pp.

Dessa maneira. que os temas que não forem objeto de consensos básicos retornarão a todo o grupo e serão rediscutidos. ainda. tais representantes estarão veiculando as experiências de suas escolas em outras instâncias e níveis educacionais. tudo o que estiver acontecendo na escola será também socializado com outras escolas. Apesar disso. a segunda característica desse tipo de planejamento que chamamos de estratégia ascendente. Representantes da escola deverão ser também definidos pelo grupo para que as consolidações do Planejamento Socializado Ascendente não fiquem restritas aos muros escolares. observando-se. Ordenar a participação é. interferindo assim na definição das políticas públicas municipais. viabilizando a consolidação de decisões e deliberações dos grupos participantes. interescolares. poderão estar trocando experiências a todo o momento e repassando-as aos grupos mais específicos. Ou seja. intermunicipais) para a troca de experiências e para a adoção de propostas educacionais mais amplas. Nesse sentido. definir a coordenação de grupos. Esse processo revela a importância do Conselho de Escola dos Conselhos Municipais e Estaduais de Educação de elevar aos níveis superiores da administração educacional as deliberações tiradas na base do sistema de ensino. operacionalizam-se a ação e todas as etapas do planejamento escolar. tudo o que ficar consolidado terá de ser aprovado pela maioria. Esta estratégia implica combinar. . poderá haver atividades que envolvam equipes multissegmentárias que. escolher representantes dos segmentos escolares e das equipes multissegmentárias para que se organizem consensos básicos. que poderão influenciar os demais níveis da administração e do planejamento educacional. a partir das bases (todos os segmentos envolvidos no processo de planejamento). outras instâncias representativas intermediárias podem ser criadas em nível local ou regional (conselhos regionais. Ao pensarmos no Planejamento Socializado Ascendente estamos viabilizando o projeto político-pedagógico da escola.educação. Além dessas. Além disso. todos os segmentos terão suas tarefas bem definidas. assim. em outros níveis. estaduais e federais de educação. Isso não só seria inviável em termos operacionais como excluiria diferenças inegáveis em termos de maior capacitação de determinados segmentos para a coordenação e a participação em certos componentes do planejamento. a divisão de tarefas. pois. Mas. deflagrado o processo. com outras experiências.

"a comunidade argumentativa dos interessados no projeto político-pedagógico da escola não se limita. 9. o planejamento deve começar pela inserção de toda a sociedade no debate democrático. que considera (com razão) o planejamento atualmente praticado uma atividade meramente burocrática. . de cima para baixo. 10-11). em especial. por conseguinte. e desde que os recursos públicos são gerados nos processos do trabalho" (O projeto pedagógico da Escola. a organização e a condução da escola de intenções políticas em interação dinâmica e conflitiva. MEC/SEF. sobre questões relativas não só ao processo de ensino e aprendizagem. a penetram. de caráter tecnicista e com objetivos apenas formais. embora articuladas fora da escola. Dependem a concepção. Lida ela com interesses relevantes para a sociedade toda. desde que se concebe a democracia como o efetivo poder dos cidadãos no mundo de suas vidas. envolvimento com as ações do cotidiano escolar e avaliação dos serviços prestados à população. das demais instituições da sociedade civil e. invertendo a relação de poder na educação e. Metodologia de elaboração do Planejamento Socializado Ascendente Consideramos que planejar a educação de forma socializada é exercitar a cidadania. de estados-membros e da Federação. Brasília. Sendo assim.Série Atualidades Pedagógicas. na própria sociedade. ao interior e ao entorno imediato dela. já que implica tomada de decisões. pp. modelam e controlam. sem sentido. que perpassam as demais instituições sociais e os grupamentos humanos em articulações múltiplas e complexas. que. "Dão-se as relações entre a escola e a sociedade pela mediação da família e dos grupos de iguais. dos movimentos sociais. pela ação do poder político organizado no Estado com seus níveis de município. das organizações locais. mas também em relação às questões administrativas e financeiras da escola e da própria sociedade em que ela se insere. Estará também contribuindo para superar a resistência à participação no âmbito escolar. seja em que nível for. O Planejamento Socializado Ascendente pretende quebrar a coluna dorsal do planejamento educacional autoritário.Como explica Mário Osório Marques. porém. em movimento ascendente. 1994 .

após verificar-se a disponibilidade de meios para a sua superação. Cuidados com o democratismo e com o risco do populismo devem ser tomados. por meio da metodologia da Carta Escolar. podem inviabilizar o . sobretudo. Como só é possível planejar a partir de um contexto bem específico e conhecido. devemos. É importante evitar. Portanto. A Carta. enquanto estudo inicial de dados da realidade escolar e de diagnóstico (ou interpretação daqueles dados). pois. co-responsabilizando-se com a busca de soluções e superação dos problemas. para tanto. Essas devem ser escolhidas por ordem de prioridade. devem ser escolhidos os representantes da escola que atuarão junto aos colegiados intermediários e conselhos municipais e/ou estaduais de Educação. desde o início do planejamento. as estratégias de ação. as tarefas e as equipes responsáveis pelas mesmas. o cronograma de atividades. num horizonte de tempo predeterminado. a ser realizado mediante a aplicação de metodologias inovadoras de pesquisa. a história e a cultura local dos cidadãos pesquisados.considerando sempre os condicionantes socioculturais e políticos que influenciam e afetam diretamente o cotidiano escolar. desenvolvida pelo Instituto Paulo Freire. a tentação de se querer resolver de uma só vez e de modo idealista todos os problemas detectados no diagnóstico realizado. partir de um diagnóstico detalhado da escola e da educação em nível local. a participação de todos os segmentos. A Carta Escolar. ao contar com as comunidades intra e extra-escolar e ao ouvi-las. o primeiro passo do Planejamento Socializado Ascendente na unidade escolar é a Carta Escolar. Concluída essa etapa. Definidas as ações. estará buscando as possíveis alternativas de solução aos problemas encontrados. Se confiará na capacidade reflexiva de todos os segmentos escolares e comunitários e em suas potencialidades de ação. elaboradas cientificamente e baseadas numa nova ética que considere e respeite. municipal e estadual. levando a eles as prioridades definidas pela unidade escolar. É necessário também que se contextualizem os objetivos. o tipo de avaliação que se fará do processo e que se estabeleçam as intervenções a serem realizadas na escola. já garante. por exemplo. as metas. Isso pode ser feito. a escola terá diante de si as informações que lhe permitirão definir prioridades. se presentes. nessa fase. pois o amplo levantamento de informações torna-se inviável sem que todos estejam envolvidos.

as consolidações. a gestão democrática. nos níveis seguintes. cabendo aos educadores. • elaboração do Plano de Trabalho para a efetivação da Carta Escolar. Caso não exista um colegiado. baseados numa suposta neutralidade política e científica. Associações comunitárias deverão t a m b é m estar r e p r e s e n t a d a s . a todos os segmentos escolares e à comunidade educacional em geral. explicar detalhadamente no que consiste esse tipo de planejamento. a tarefa de cumprir à risca o que fora por eles planejado. determinam os destinos da unidade escolar ou da educação como um todo.processo democrático necessário ao Planejamento Socializado ascendente em quaisquer de suas fases. • na reunião. A escola e cada um dos possíveis níveis intermediários de representação existentes deverão estar sendo permanentemente informados sobre as deliberações. Grêmio Estudantil). os e n c a m i n h a m e n t o s . o projeto político pedagógico da escola. a escola poderá organizar uma comissão responsável pelos e n c a m i n h a m e n t o s relacionados ao Planejamento Socializado Ascendente. Superar tal exclusão e tal limitação é característica inerente a esta proposta. que estarão envolvidos na elaboração do planejamento. • amplo movimento de sensibilização da comunidade para compreender a importância da Carta Escolar e de sua realização. as conquistas e os entraves verificados em todo o processo. Estes. . aos educandos. ETAPAS ESCOLARES: POSSÍVEIS PARÂMETROS O Planejamento Socializado Ascendente na escola pretende superar a prática de atribuir a competência de planejar apenas a uma minoria de especialistas. as possíveis etapas desse processo podem ser as seguintes: • o Conselho de Escola convocará uma Assembléia Geral para discussão do Planejamento Socializado Ascendente. definindo datas e espaços para que os segmentos escolares se reúnam em separado para eleger representantes. • T o d o s os segmentos escola res deverão estar representados paritariamente nessa reunião. Assim. na escola. b e m c o m o os representantes de todas as instituições escolares (APM. Caixa Escolar.

• definição de equipes e tarefas relativas à primeira atividade do p l a n e j a m e n t o e organização da Carta Escolar no estabelecimento de ensino. cotidianamente. política e social que certamente aparecerá no d i a g n ó s t i c o p r o p o s t o . definindo subcomissões para todas as tarefas necessárias à organização e funcionamento da escola nos seus aspectos administrativos. a definição de metodologias educacionais apropriadas . os projetos desenvolvidos. os problemas e as demandas educacionais verificados a cada momento. a c o m p a n h a r e avaliar p e r m a n e n t e m e n t e as ações implementadas na escola. O Planejamento Socializado Ascendente representa. Podemos concluir que o planejamento. metodologias e formas de avaliação das atividades educacionais que favoreçam a ação de todos para superarem. a superação do nível insatisfatório da qualidade de ensino. o fim das práticas inadequadas de avaliação do desempenho educacional do aluno. coletivamente. viabiliza-se o estabelecimento de metas. sem perder de vista a multiplicidade cultural. • ampla mobilização da comunidade para a realização da Carta Escolar do estabelecimento de ensino. • Após a Carta Escolar. toda a sociedade brasileira cobra. Hoje. A escola continuará contando com a devida orientação por parte das secretarias municipais e estaduais da Educação que. • reuniões para organização das equipes que participarão da Carta Escolar (ver Carta escolar: instrumento de planejamento coletivo). poderá propor ações com base no estabelecimento de finalidades e de objetivos educacionais claramente definidos. assim. • escolha de membros do Conselho para representar a escola nos demais níveis de planejamento educacional (local/ municipal/estadual). serão também influenciadas e fiscalizadas em sua própria atuação. nessa nova perspectiva. • o Conselho deverá se reunir periodicamente a fim de renovar. os obstáculos a serem enfrentados e o grau de realização das metas e objetivos estabelecidos no Planejamento PolíticoPedagógico da Escola. elaborar o Projeto Político-Pedagógico da Escola. pedagógicos e financeiros. Dessa m a n e i r a . por sua vez. um i n s t r u m e n t o eficaz para c o n t r i b u i r com a melhoria da qualidade do serviço educativo oferecido pela i n s t i t u i ç ã o escolar.

que entendia a organização do trabalho na escola como um rol de atividades burocráticas e puramente administrativas. a existência da gestão democrática na escola. que definia pautas. . apenas se referia ao aluno para discipliná-lo ainda mais e para lhe fechar os quase inexistentes espaços escolares de participação. que não garantia a participação dos segmentos escolares sequer no planejamento da escola e do ensino. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. e que. Garantida a voz e a capacidade de ação aos que sempre se viram alijados de participar do destino da educação no País. diminui consideravelmente a possibilidade de depararmos com experiências como a que apresentamos no início desta exposição. que não permitia aos docentes o uso da palavra. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. ao propor uma nova orientação participativa no âmbito escolar e educacional. os seus objetivos e o próprio papel da escola na sociedade atual. direito de todos e dever do Estado e da família. se não elimina de vez. O Planejamento Socializado Ascendente. a luta por uma educação de qualidade para todos estará. justa e solidária. além de tudo. contribuirá decisivamente para a redefinição das próprias políticas educacionais do País e influenciará em que se revejam as finalidades da educação. inclusive. Reclama da inexistência de uma política devidamente comprometida com as suas necessidades educativas e com os problemas enfrentados pelo magistério que favoreça. voltada para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. de fato. que aplicava dinâmicas sem critérios e sem explicar os objetivos de quaisquer atividades. a sociedade quer ser ouvida e quer colaborar. que entendia o planejamento como uma atividade meramente formal. normas e prazos autoritariamente. Além de reclamar. por isso tem lutado por maior participação para cumprir. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". principalmente. O Planejamento Socializado Ascendente. Encontramo-nos diante de desafios que podem ser melhor enfrentados a partir de ações efetivamente democráticas. que obedecia cegamente às ordens vindas "de cima". ética. de acordo com as necessidades do mundo moderno e as exigências das comunidades escolares locais. o que prevê a Constituição Federal de 1988 em seu Artigo 205: "A educação.e contextualizadas.

Questões para debate
• O que significa planejar de forma socializada e com estratégia ascendente? • Qual a relação que existe entre esse tipo de planejamento com a organização do trabalho na escola? • Em que sentido o Planejamento Socializado Ascendente inverte a relação de poder na definição da política pública em educação? • Que parâmetros você acrescentaria ao processo de Planejamento Socializado Ascendente?

É possível formar cidadãs e cidadãos autônomos numa escola onde a autonomia não seja discutida, mas intimamente vivenciada por seus diferentes segmentos. Sônia Couto, Instituto Paulo Freire, SP

Enquanto os homens exercem seus podres poderes Morrer e matar de fome de raiva e de sede São tantas vezes gestos naturais Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo Daqueles que velam pela alegria do mundo Indo mais fundo tins e bens e tais. (Podres poderes) Caetano Veloso

DIRETORES ESCOLARES E GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA
Paulo Roberto Padilha Como afirma o professor Moacir Gadotti em seu livro Pedagogia da praxis (São Paulo, Cortez/IPF, 1995), "se é verdade que a educação não pode fazer sozinha a transformação social, também é verdade que a transformação não se efetivará e não se consolidará sem a educação". No mesmo sentido, não podemos pensar que a gestão democrática da escola possa resolver todos os problemas de um estabelecimento de ensino ou da educação. No entanto, sua implementação é, hoje, uma exigência da própria sociedade, que a vê como um dos possíveis caminhos para a democratização do poder na escola e na própria sociedade, conforme pudemos verificar em pesquisa recentemente realizada pelo Instituto Paulo Freire, em nível nacional. Outro aspecto que merece destaque neste trabalho é o fato de que a atual prática gestionária nas escolas acaba exigindo dos diretores uma dedicação maior, e às vezes plena, às questões adrninistrativas. Isso os obriga a secundarizar o aspecto mais importante de sua atuação, ou seja, sua responsabilidade em relação às questões pedagógicas e propriamente educativas, que se reportam à sociedade como um todo e especificamente à sua comunidade escolar. Com essa análise geralmente concordam professores, diretores, "especialistas" e "teóricos" da administração escolar.
Paulo Roberto Padilha é professor da Universidade Camilo Castelo Branco (SP) e diretor do Instituto Paulo Freire

A afirmação freqüente de que "é dificil administrar sozinho a escola" denuncia o isolamento do dirigente escolar enquanto responsável único e último pela instituição educativa, o que muitas vezes independe de sua vontade, mas não de seu cargo. A administração autocrática, isto é, a que centraliza todas as decisões e todo o poder nas mãos da diretora ou do diretor, acaba gerando uma sobrecarga de trabalho e, por conseguinte, estabelecendo relações conflituosas no âmbito escolar, o que se reflete no insucesso dos alunos. Por outro lado, é importante observarmos que a atuação do diretor, suas atribuições e seu vínculo com a escola se alteram dependendo da forma com ele foi escolhido e de acordo com o tipo de gestão que é implementada na unidade escolar. Uma reflexão sobre a gestão democrática da escola, a partir da compreensão por parte dos professores e dos demais sujeitos com ela envolvidos e, neste caso, especificamente relacionada à escolha e à atuação do dirigente escolar, pode contribuir para a superação de conflitos com vistas à melhoria do trabalho, das relações estabelecidas na instituição educativa e, fundamentalmente, da qualidade do ensino. Deparamos, pois, com um problema que nos exige soluções. Para chegarmos a elas, estaremos analisando algumas formas de escolha do diretor de escola e definindo parâmetros para a escolha de dirigentes escolares e também para a gestão democrática da escola pública. Pretendemos com isso identificar alguns princípios da implementação de uma gestão escolar democrática e também localizar algumas atribuições fundamentais dos diretores na definição de propostas de implementação daquele tipo de gestão, que devem ser compreendidas também pelos docentes e demais sujeitos educacionais. A forma predominante de escolha e de designação de dirigentes escolares no sistema escolar público brasileiro tem sido aquela decorrente do arbítrio do chefe do Poder Executivo, tanto na esfera estadual quanto na municipal, por se tratar, em sua grande maioria, de cargos comissionados, normalmente denominados "cargos de confiança". O processo de escolha democrática de dirigentes escolares tem seu início na década de 60. Em 1966, os colégios estaduais do Rio Grande do Sul realizaram votação para diretores de escola com base em listas tríplices. A partir da década de 80 e principalmente nos dias atuais, tem havido grande preocupação em relação aos processos de escolha de diretores escolares nos municípios e

Por isso mesmo pode ser substituído a qualquer momento. como afirma o professor Vitor Henrique Paro no artigo Participação da comunidade na gestão democrática da escola pública (Série Idéias. dissertativas ou não. de caráter conteudista. Um argumento favorável à escolha por concurso é que ele defende a moralidade pública e evita o apadrinhamento político. Podemos estabelecer. Dessa maneira. NOMEAÇÃO O diretor é escolhido pela vontade do agente que o indica. assume um cargo de confiança e torna-se o representante do Poder Executivo na escola. mas é antidemocrático em relação à vontade da comunidade escolar. Isso significa que o concurso acaba sendo democrático para o candidato. nesse tipo de escolha. eleição e esquema misto. 1992). se aprovado. Nesse processo. quatro categorias de escolha de diretores escolares.Estados brasileiros. "o diretor escolhe a escola mas nem a escola nem a comunidade podem escolher o diretor". na seleção dos candidatos. o que mais pesa são critérios político-clientelistas. o que vem estimulando um permanente questionamento sobre o papel do dirigente escolar na construção de uma gestão democrática da escola pública. e a prova de títulos é a comprovação da formação específica que habilita o candidato ao cargo. de acordo com os interesses políticos e com as conveniências daqueles que o escolheram. 12. quais sejam: nomeação. pode escolher a escola onde irá atuar. ao se acentuar a adoção de critérios considerados objetivos e técnicos na definição dos concursos públicos e. A experiência nacional mostra que. FDE. que. CONCURSO Realizado por meio de provas ou de provas e títulos. No entanto. portanto. São Paulo. Se assim acontece. o diretor pode acabar não tendo grandes compromissos com os objetivos educacionais articulados com . ou seja. que é obrigada a aceitar a escolha daquele. pelo governador do Estado ou pelo prefeito do município. não se confere a liderança do diretor diante do pessoal escolar e dos usuários da escola pública e não se avalia o desempenho dele. n. uma vez que apenas as provas escritas e a titulação apresentada bastam para a aprovação ou a reprovação dos candidatos. As provas são geralmente escritas. para fins desta análise. concurso.

No esquema misto. iniciando o processo de implantação da gestão democrática no ensino antes mesmo de sua regulamentação e permitindo a eleição dos dirigentes escolares. incluindo. provas que avaliem a competência técnica e a formação acadêmica do candidato. Quando é esse o caso. colocado antes de ser resolvida a questão do provimento do cargo . representativo. como a história da eleição de diretores de escola no Brasil é marcada por avanços e retrocessos. Consideradas essas formas de escolha aqui analisadas. o diretor acaba tendo também maior vínculo e compromisso com aqueles que o escolheram ou indicaram. por escolha uninominal ou.este. se eleito. por escolha por meio de listas tríplices ou plurinominais. é oportuno observar que a partir da aprovação da Constituição de 1988 muitos administradores abriram mão da prerrogativa constitucional de nomear o diretor de escola. ainda que isso não possa ser considerado uma regra.os interesses dos usuários. tal escolha favorece a gestão democrática e colegiada na escola. geralmente com direito a uma reeleição. capacidade de liderança etc. ELEIÇÃO Baseada na manifestação da vontade da comunidade escolar.requisito indispensável para o diretoreducador. a comunidade escolar geralmente participa de uma ou mais fases do processo de seleção. além da sua experiência administrativa. ESQUEMA MISTO Combina diferentes formas de escolha do diretor. Por conseguinte. duas ou mais fases no processo de escolha. ainda. Prevê. a eleição se caracteriza pelo voto direto. o que gera muitas vezes a negligência em relação às formas democráticas de gestão. A partir do momento em que se exige do candidato à função de diretor de escola equilíbrio entre competência técnico-acadêmica e sensibilidade política . não podemos mais . deve assumir responsabilidade política junto à comunidade escolar que o elegeu para um mandato por tempo determinado. No entanto. por exemplo. na maioria das vezes. As experiências com esse tipo de escolha têm mostrado que tal critério favorece a discussão democrática na escola e acaba implicando maior distribuição do poder para as instâncias da base da pirâmide estatal.

(. 36 e 61. titular de direitos e deveres.de modo a assumir a responsabilidade consciente pela própria vida. estarão norteando a construção de uma futura Lei da gestão democrática. na comunidade e em toda a sociedade os parâmetros da gestão democrática da escola pública. "o termo sujeito. que. acrescido dos adjetivos corporativo ou cultural.. por sua vez. a capacitação para a participação efetiva dos representantes dos segmentos escolares e da comunidade nos destinos da escola pública.) Os adjetivos corporativo e cultural visam a apontar a ênfase maior ou menor que tenham os objetivos dominantes no grupo em relação à obtenção de benefícios para o próprio grupo ou para os demais . empenhando-se pela sua transformação . refere a um grupo de pessoas que agem na sociedade conforme um critério comum que as identifica. Para tanto. Ser sujeito é ser capaz de julgar a realidade. "Há uma percepção de um nós ético que constitui tais pessoas numa unidade. por sua vez.. A noção de sujeito é aqui tomada em sua forma substantiva e quer significar um ser ativo. previsto no Artigo 206. na forma da lei". II). Assim sendo. 1989). torna-se necessário aproveitar a experiência democrática acumulada no País e a partir daí procurar regulamentar o princípio da "gestão democrática do ensino público. cumpre-nos discutir na escola. Resta-nos observar que a eleição de dirigentes escolares aqui defendida é apenas um dos componentes da gestão democrática do ensino público e só terá efeito prático eficaz se associada a um conjunto de medidas que garantam. em sua tese de doutoramento na Feusp. responsável. numa projeção extensiva do que dispõe a Constituição Federal sobre as prerrogativas do presidente da República (Arts.depender da vontade política das constituições estaduais e das leis orgânicas municipais. que procuremos entender as características dos sujeitos aos quais estamos nos referindo.ou manutenção . intitulada Democracia e Educação: a alternativa da participação popular na administração escola (São Paulo. da Constituição Federal. por exemplo. Segundo o professor Jair Militão. Essa participação efetiva exige. que têm consignado aos governadores e prefeitos a competência privativa para a nomeação de agentes para o exercício de cargos públicos comissionados. de tal modo que se reconhecem como mutuamente pertencentes a uma mesma história e possuindo um mesmo destino como horizonte. O sentimento de pertencer cria e mantém a comum identidade. inciso VI.

mediante programas duradouros de capacitação custeados pelo Estado e pela articulação dos diferentes sujeitos escolares em torno dos problemas. dos interesses. A gestão democrática não é processo simples de curtíssimo prazo. estamos aqui particularmente interessados em que esses sujeitos. de prazo interminável. enquanto sujeitos culturais visam objetivos de caráter mais geral cuja consecução tende a favorecer a um número maior de pessoas e grupos. poderá. o que se realiza formalmente ou informalmente. Se esta estiver aberta à participação. O professor Militão observa. o sujeito cultural é necessariamente pluralista". ou seja.. Isso significa que o mesmo se constituirá numa ação. possam vivenciar um processo de capacitação para essa participação. estabelecer parcerias com outras instâncias da sociedade civil.. se quiser. pois o Estado deve repassar os recursos diretamente à escola para que o dirigente escolar possa executar o que o coletivo escolar deliberou e aprovou em seu projeto político-pedagógico. que é estatal quanto ao financiamento. pedagógica e financeira da escola. tais recursos devem ter caráter . Nesse sentido. sem eximir o Estado de suas obrigações com o ensino público. Observe-se ainda que a escola. Ela acontecerá. ainda. fazendo uso de sua autonomia financeira. passo inicial importante terá sido dado na direção da gestão democrática que ora estamos analisando.grupos existentes. numa prática a ser construída na escola. às ações do sujeito cultural poder-se-ia aplicar um princípio de universalidade: o que é de direito e dever para o grupo é defendido igualmente para qualquer outro grupo. No segundo caso.) sujeitos corporativos são aqueles cuja ênfase se dá na busca de benefícios limitados ao próprio grupo. das expectativas e das atividades cotidianas da escola. (. associada à elaboração do projeto político-pedagógico da escola e à implantação de Conselhos de Escola que efetivamente influenciem na gestão escolar como um todo e de medidas que garantam a autonomia administrativa. desde que as decisões relacionadas com a gestão dos recursos públicos e da verba originária de parcerias sejam administradas pelo coletivo democrático que vai gerir a unidade escolar. De qualquer maneira. para subsidiar projetos voltados para a melhoria da qualidade do ensino. A gestão democrática à qual nos referimos faz parte de uma desejada escola cidadã. que numa mesma comunidade podem existir vários sujeitos além dos que acima acentuou. por exemplo. mas também não é processo tão complexo ou irrealizável. A rigor. preferencialmente os culturais.

seguir-se-á a eleição por voto direto. apresentando e defendendo publicamente seus programas de trabalho.excepcional e complementar. pública quanto à sua destinação. Essa escola é. de forma a garantir a participação de todos os membros da comunidade escolar. sem exceções. • processo seletivo prévio ao processo eleitoral. . definir e deliberar de forma socializada sobre as suas diretrizes e prioridades. sem distinções. Após tal defesa. participar do Conselho de Escola. destina-se igualmente a toda a sociedade. pois todos os segmentos escolares e comunitários devem eleger o dirigente escolar. de arcar com o financiamento da educação. no ato da inscrição dos candidatos. ainda. Os candidatos aprovados na etapa anterior submeter-se-ão ao processo de verificação de liderança. sob a coordenação do órgão gestor do respectivo sistema educacional. respeitada a paridade de votos dos diversos segmentos que a compõem e a legislação em vigor. acompanhar. estabelecemos o primeiro parâmetro para a escolha democrática de dirigentes escolares. em chapa formada por candidatos a diretor e vice-diretor. Parâmetros para a escolha democrática A partir desses pressupostos. A forma de escolha do diretor deve prever a sua nomeação pela autoridade competente em chapas constituídas e formadas por candidatos a diretor e a vice-diretor de escola. A escola cidadã à qual nos referimos é também comunitária quanto à gestão. O processo de escolha pode obedecer às seguintes etapas: • verificação. secreto e facultativo. de acordo com as diretrizes definidas coletiva e democraticamente com a participação de todos os segmentos educacionais e das respectivas comissões eleitorais. em nenhuma hipótese. em que se verifique a competência profissional do candidato. isto é. avaliar e fiscalizar a execução de seu planejamento político-pedagógico. e não eximem o Estado. de acordo com as normas previstas democraticamente conforme acima especificado. se estes atendem às exigências quanto ao tempo mínimo de serviço público e à formação escolar mínima exigida para o cargo. Os candidatos serão escolhidos pelos membros da comunidade escolar mediante processo que verifique competência profissional e liderança.

dependendo das condições locais. em virtude das características locais onde se situam as unidades escolares e especificamente para as escolas de ensino fundamental. Elas devem ser criadas nas unidades de ensino para planejar. Contudo. que terão funções normativa e fiscalizadora no processo eletivo em pauta. Quando e onde for necessário. organizar. Nenhum professor ou especialista educacional poderá candidatar-se simultaneamente em dois estabelecimentos de ensino. Deverão ser constituídas. com licenciatura plena em Administração Escolar. Podem ser aceitas inscrições de chapas com candidatos a diretor e a vice-diretor. Nesse sentido. poderão ser admitidos como candidatos aos cargos em questão servidores concursados ou estáveis com licenciatura em qualquer área ligada à Educação. municipais e estaduais. serão admitidos candidatos com habilitação específica para o magistério (ensino médio). os candidatos deverão ter cursado Pedagogia.Um segundo parâmetro se refere às comissões eleitorais. Esta comissão deverá atuar em consonância com a legislação em vigor bem como com as normas fixadas para o pleito pelas secretarias estaduais ou municipais de Educação e respectivos Conselhos de Educação. concluída ou em andamento. municipais ou estaduais. A comissão de cada escola deve ser composta paritariamente por representantes de todos os segmentos escolares. a serem indicados em assembléias de seus pares. acompanhar o processo de votação e de apuração dos votos e zelar pela lisura do processo eleitoral. comissões eleitorais regionais. fiscalizar. de acordo com as normas e prazos fixados pela comissão eleitoral local ou através de instrumentos legais do poder executivo. O quarto parâmetro que apresentamos diz respeito aos eleitores. desde que completa. tais comissões deverão coibir qualquer processo eleitoral "viciado" ou ações que possam partidarizar as eleições na escola. Um terceiro parâmetro se refere aos candidatos e às inscrições. na data da convocação da eleição. defendemos . devidamente adaptados às condições reais da unidade escolar. dependendo da resolução de cada localidade. Poderão se candidatar os professores e especialistas em educação desde que. sejam servidores públicos concursados ou estáveis com efetivo exercício há pelo menos três anos na rede ou dois anos na escola onde se candidatam. Para garantir que o processo eletivo seja plenamente democrático e para que se constitua num exercício pleno de cidadania. Além do tempo de serviço mínimo acima especificado.

aos alunos regularmente matriculados na escola que estejam cursando a 4ª série do ensino fundamental em diante. Quanto ao parâmetro da divulgação durante o processo eleitoral. será eleita a chapa que obtiver maioria simples de votos válidos. realizar-se-á um segundo turno. Um sexto e último parâmetro que ora apresentamos diz respeito à duração do mandato do diretor e de seu vice. Se nenhuma chapa alcançar tal número de votos. as propostas de gestão das chapas. ao máximo. Em relação à reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período. Será considerada eleita a chapa que obtiver maioria absoluta dos votos válidos (cinqüenta por cento mais um). Para tanto. pelo voto direto. No segundo turno. a predominância do mandato de diretores com a duração de dois ou três anos. com o direito a uma reeleição consecutiva. Verificamos. na promoção de discussões e debates com a mesma e na divulgação de material que torne conhecidas. Esta deverá adequar-se às especificidades locais da comunidade escolar. os segmentos escolares credenciados escolherão. impugnando as candidaturas que promoverem a "partidarização" das eleições dos dirigentes escolares. Votam também os pais. os seus candidatos. as comissões eleitorais deverão fixar prazos e normas que garantam a manutenção dos princípios éticos durante a campanha. segundo critérios das comissões eleitorais. em recente pesquisa. que respeitem o pleno desenvolvimento das aulas durante o período em que a propaganda poderá acontecer e que garantam a discussão política inerente ao pleito eleitoral. Considerando que um projeto político-pedagógico deva contemplar propostas e avanços de curto. as mães de alunos ou os representantes legais dos alunos regularmente matriculados na escola que estejam abaixo dos limites de idade e série acima previstos. Tal divulgação consiste na defesa pública dos programas de trabalho junto à comunidade. entendemos que a opção da reeleição consecutiva por mais uma gestão de igual período garante a possibilidade da continuidade de um trabalho que tenha . envolvendo as duas chapas mais votadas. observamos aspectos positivos e negativos. ou que tenham completado 10 anos até a data da eleição. previstos e divulgados antes do período de inscrição das chapas. Encerrada a campanha. secreto e facultativo. ficaria garantida aos candidatos a realização de campanha e de propaganda eleitoral nas dependências da unidade escolar. médio e longo prazos.a garantia do voto a todos os servidores em exercício no estabelecimento de ensino.

bem como a possibilidade da destituição dos mandatos dos dirigentes escolares. Isso é bom quando impede que um diretor que não cumpriu o seu programa de trabalho em consonância com o projeto político-pedagógico da escola continue no cargo. a não reeleição consecutiva promove uma renovação constante dos dirigentes escolares. Outras situações ficam também em aberto. mesmo tendo realizado uma ótima gestão. à questão de como superar o veto governamental em relação à eleição direta de dirigentes escolares. da ação. Sugerimos que esta problemática. Entendemos que a discussão em torno desses parâmetros e de outras questões relativas ao tema aqui tratado já é. seja prevista em normas a serem definidas democraticamente em cada um dos sistemas de ensino em que for implantada a escolha democrática de dirigentes escolares. quando um dirigente escolar. • consulta à comunidade escolar para que esta se cientifique da legislação pertinente às diferentes instâncias da gestão democrática e possa debater. atribuindo-se responsabilidades às comunidades escolares. é obrigado a afastar-se do cargo. . portanto. Por outro lado. realizar seminários e assembléias e. se desenvolverá a cultura da participação. No geral. A definição dos parâmetros acima encontra uma série de limites que só poderão ser superados na ação concreta e no contexto em que o processo eleitoral acontece. mas que é ruim no caso inverso. aprofundar o mais possível a discussão dos anteprojetos de leis que institucionalizem as propostas de governo dos poderes executivos. mesmo no que se refere ao número de reeleições possíveis. à importância que deve ser atribuída à prova escrita como pré-requisito para a seleção dos candidatos ao cargo de diretor de escola. se for o caso. Dessa forma. um processo educativo que possibilita aprendizagens cidadãs e colabora para a determinação dos seguintes pressupostos da gestão democrática: • capacitação de todos os segmentos escolares para que se busquem respostas à prática educativa. por si mesma. alterando-os.sido aprovado pela comunidade escolar. Preferimos deixar a questão do tempo do mandato do diretor escolar em aberto. à proporcionalidade na apuração dos votos. entre outras. essas situações referem-se à definição da idade mínima do voto do aluno. pois dependem de uma ampla discussão e de consulta a ser realizada com a comunidade escolar. do envolvimento.

Nesse sentido. ainda. que atendam às reais necessidades educacionais da população. Isso é necessário não só no início do processo administrativo. A descentralização implica acesso de todos os cidadãos à informação. melhor poderão ser desempenhadas as suas próprias tarefas.• institucionalização da gestão democrática. para atingirmos os fins aos quais nos propusemos no início desta discussão. na implantação dos Conselhos de Escola e na gestão da instituição educativa rumo à autonomia escolar. faz-se necessária a criação desses canais: jornais-murais. seja em relação à responsabilidade social daquela com sua comunidade. O diretor de escola é e deve ser antes de tudo um educador. os governos estaduais e municipais tenham o respaldo democrático para encaminhar ao Poder Legislativo. possui uma função primordialmente pedagógica e social. Quanto maior for essa articulação. mas durante todo o movimento de interação entre Estado e cidadãos usuários dos serviços públicos. Enquanto tal. para que. mas uma liderança democrática que seja capaz de dividir o poder de decisão e de deliberação sobre os assuntos escolares com . seja no aspecto organizacional da escola. o diretor-articulador deve exercer sempre uma liderança na escola. boletins. projetos de lei mais consistentes. painéis. Todos os cuidados devem ser tomados pela comunidade escolar e pelas instituições e pessoas envolvidas nesse processo. a partir da garantia do processo de participação das comunidades escolares. encontros etc. é importante. Em sua gestão. • lisura nos processos de definição da gestão. deve ser um articulador dos diferentes segmentos escolares em torno do projeto políticopedagógico da escola. uma breve análise sobre a função do diretor enquanto articulador da gestão democrática na instituição escolar. Portanto. Definidos alguns parâmetros da escolha democrática de dirigentes escolares e alguns pressupostos da gestão democrática da escola. • agilização das informações e transparência nas negociações. Dessa forma. que lhe exige o desenvolvimento de competência técnica. a falta de canais de disseminação das informações por parte das administrações para todas as esferas da estrutura administrativa e para todos os segmentos da sociedade tem se manifestado como um sério entrave à participação. para que se garanta total transparência na escolha democrática dos dirigentes escolares. política e pedagógica.

alunos e comunidade escolar. exercendo direitos e praticando a cidadania ativa na escola. 1996. como os professores e demais segmentos da comunidade escolar podem alterar essa forma de escolha? • Aponte vantagens e possíveis desvantagens da eleição direta para a escolha de diretores escolares.professores. ao lado do diretor da escola. a função de mobilizador da equipe docente. conforme as palavras de Mariano Herrera (In: Colóquio: La dirección de Ia escuela. nas associações de alunos etc. o professor estará participando e. Isso não significa abrir mão de responsabilidades ou das funções inerentes ao seu cargo. pp. poderá automaticamente melhorar a qualidade do seu próprio trabalho docente. De todo esse processo. criando e estimulando a participação de todos nas instâncias próprias da escola como no Conselho de Escola. a função de liderança eficaz. escolhe-se também um projeto de escola. Questões para debate • A escolha democrática de dirigentes escolares garante maior envolvimento da comunidade com a escola? Quais as implicações dessa escolha na formulação do projeto político-pedagógico da escola? • Ao se eleger uma pessoa.175-176). uma vez que estará assumindo responsabilidades. a função da gestão administrativa. entre outras. pais de alunos. funcionários da escola. Como a escola pode tornar o processo de escolha do diretor um processo educativo? • No município em que o diretor é nomeado. poderá interferir e influenciar na gestão da unidade escolar em que atuam. . A partir dessa praxis. entre as quais podemos citar a função educativa.

Neste novo cenário da educação será preciso reconstruir o saber da escola e a formação do educador. Paulo Freire Quando eu te encarei frente a [frente não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi. MUITAS CULTURAS Moacir Gadotti Vivemos na era da globalização da economia e das comunicações. o professor deverá ser mais criativo e aprender com o aluno e com o mundo.O diferente de nós não é inferior. necessitam de uma ética da diversidade e de uma cultura da diversidade. de respeitá-lo. Numa época de violência. Não haverá um papel cristalizado tanto para a escola quanto para o educador. Moacir Gadotti é professor titular da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto Paulo Freire . um cenário que coloca novos desafios para nós. Em vez da arrogância de quem se julga dono do saber. época do ressurgimento do racismo e de certo triunfo do individualismo. É dentro desse cenário da pós-modernidade que a escola precisa atuar. Uma sociedade multicultural deve educar o ser humano multicultural. mau gosto É que Narciso acha feio o que não é espelho E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho Nada do que não era antes quando [não somos mutantes (Sampa) Caetano Veloso ESCOLA CIDADÃ: UMA ESCOLA. [de mau gosto. educadores: que tipo de educação necessitam os homens e as mulheres dos próximos vinte anos para viver este mundo tão diverso? Certamente eles e elas necessitam de uma educação para a diversidade. A intolerância é isso: é o gosto irresistível de se opor às diferenças. de prestar atenção no diferente. capaz de ouvir. mas também numa época de acirramento das contradições inter e intra povos e nações.

é compartimentada e fragmentada. mas tem de ser internacional e intercultural como ponto de chegada. parecem contemplar essas duas dimensões: • pela investigação temática aluno e professor buscam. Na prática. isto é. isto é. ambos buscam o seu significado social. no universo vocabular do aluno e da sociedade onde ele vive. conhecimento. ao rompimento com a estrutura disciplinar do conhecimento. o professor deverá promover o entendimento com os diferentes e a escola deverá ser um espaço de convivência. Diante do problema do desinteresse de muitos de nossos alunos pelos conteúdos curriculares do ensino.de agressividade. costuma-se responder com métodos mais apropriados ou aumentando o tempo de freqüência à escola. Nesse contexto global há duas dimensões que podem ser logo destacadas: • dimensão interdisciplinar: o objetivo fundamental da interdisciplinaridade é experimentar a vivência de uma realidade global que se inscreve nas experiências cotidianas do aluno. • dimensão internacional: para viver esse tempo presente. as palavras e temas centrais de sua biografia. redimensionandoa na relação com outras culturas. comunidade. e não camuflados. Este exercício leva à transdisciplinaridade. onde os conflitos são trabalhados. meio ambiente etc. escola. • pela tematização: codificando e decodificando esses temas. Articular saber. A escola deve ser local. por exemplo.a cultura primeira do aluno -. como ponto de partida. A escola precisa formar o cidadão para participar de uma sociedade planetária. na escola conservadora. deve valorizar a cultura local . partindo para a transformação do contexto vivido. vivência. problematizando-os e equacionando a relação entre a transmissão da cultura e o itinerário educativo dos . Mas há outra visão do problema. é o objetivo da interdisciplinaridade. ela se traduz por um trabalho escolar coletivo e solidário. do professor e do povo que. • pela problematização: buscam superar uma primeira visão mágica (ingênua). o professor precisa preparar as crianças para o mundo da diferença e da solidariedade entre diferentes. que é a de adequar o tratamento dos conteúdos. substituindo-a por uma visão crítica. tomando assim consciência do mundo vivido. Os três momentos do método de Paulo Freire.

Movimento de Alfabetização e de Pós-Alfabetização da Cidade de São Paulo (Mova-SP) -. Procura formar criticamente os professores para que mudem suas atitudes diante dos alunos mais pobres e elaborem estratégias próprias para a educação das camadas populares. Se a escola era isso.que levam em conta a cultura do aluno . a chama de cultura primeira. uma estratégia de alfabetização numa concepção multicultural deveria partir da biografia dos próprios educandos. como o educador francês Georges Snyders. Um desses jovens dizia que tinha "vergonha" de contar sua vida porque a considerava um "fracasso". durante a gestão de Paulo Freire (1989-1991) à frente da Secretaria da Educação do município. era tudo o que ele procurava. a escola precisa mostrar aos alunos que existem outras . nesse aspecto. os resultados obtidos com currículos multiculturais . do relato de experiências de trabalho e de suas relações com o mundo. compreendê-las na totalidade de sua cultura e de sua visão de mundo. ele pôde assumila com mais confiança. já que em tantos lugares de trabalho ele sempre era "envergonhado". pode representar a grande diferença na extensão ou não da educação para todos e de qualidade nos próximos anos. Atribuía a si mesmo esse fracasso e não a uma estrutura social e econômica iníqua.alunos. sobretudo para as camadas populares. Sentia-se feliz em estar na escola. por exemplo. no momento em que perceberam a importância que o professor dava à vida deles. Outros educadores que também estudaram esse tema. Equacionar adequadamente ou não a relação entre identidade cultural e itinerário educativo. Para cumprir sua tarefa humanista. um grande obstáculo a ser superado. A educação multicultural se propõe a analisar criticamente os "currículos" monoculturais atuais. A diversidade cultural é a riqueza da humanidade. Os jovens e adultos sentiram-se mais envolvidos no processo de alfabetização. Na educação de jovens e adultos trabalhadores. Ao contrário. O currículo monocultural oficial representa. daria tudo de si para continuar aprendendo. tentando. Ao "contar" o que "fez na vida". Só uma educação multicultural pode dar conta dessa tarefa. compreendê-la melhor. Essa estratégia foi aplicada com sucesso em um programa de alfabetização na cidade de São Paulo . Paulo Freire chama essa cultura do aluno de "cultura popular". antes de mais nada.são mais eficazes para despertar o interesse. buscar as razões para uma "vida melhor". Se aprender lhe possibilitava "viver melhor".

a partir de uma cultura que se abre às demais. pois só com autonomia a escola pode fazer as mudanças desejadas. enfim. Pluralismo não significa ecletismo. Partindo desse princípio antropológico.culturas além da sua. Mas isso já não é tão problemático hoje. muitas ações práticas podem ser desenvolvidas desde já para a construção de uma escola pluralista e competente. Tudo isso é factível desde já. numa visão em que o conhecer e o intervir no real se encontrem. A autonomia da escola não significa isolamento. ouvir. Basta abrir os olhos para a realidade. • pode-se incentivar as escolas para que façam mudanças nos seus currículos. um conjunto amorfo de retalhos culturais. é preciso saber trabalhar com as diferenças: é preciso reconhecê-las. incluindo temas como: direitos humanos. Mas. precisa reeducar o seu olhar para a interculturalidade. discriminação racial e cultura popular. não camuflá-las. O professor. • pode-se recuperar os códigos lingüísticos das próprias comunidades desde o processo de alfabetização. o professor de qualquer disciplina precisa ter conhecimentos antropológicos e culturais mínimos e ter um olhar educado para perceber as diferenças étnico-culturais. que articule a diversidade cultural dos alunos com seus próprios itinerários educativos: • pode-se fortalecer grupos que trabalham com currículos multiculturais. • pode-se. buscando dialogar com todas as culturas e concepções de mundo. ousada. precisa descobrir elementos culturais externos que revitalizem a sua própria cultura. Escola autônoma significa escola curiosa. Evidentemente. É possível e necessário. . preciso conhecer o outro. impulsionando o movimento emergente de valorização das diferentes culturas. Tratase de estabelecer metodologias que permitam converter as contribuições étnico-culturais em conteúdos educativos. fechamento numa cultura particular. educação ambiental. aceitando que. As conseqüências desse enfoque para o ensino são enormes. escutar. Pluralismo significa sobretudo diálogo com todas as culturas. portanto. portanto. para conhecer a mim mesmo. promover a autonomia da escola na elaboração de seus currículos. fazer parte da proposta educativa global de cada escola. como meio de fortalecer a auto-estima. educação para a paz. mas também preocupar-se com a formação global dos alunos. O mundo está se percebendo mestiço. A escola não deve apenas transmitir conhecimentos. para isso.

de brasileiros. O diálogo é uma relação de unidade de contrários não-antagônicos. nacionais etc .consciência do outro . Como podemos articular a diversidade cultural com itinerários educativos que se direcionem para a eqüidade? Suponho que não existe condição de reconhecer a diferença se não se parte da aceitação da alteridade . Entre antagônicos só pode haver o conflito. identidade é a resposta que damos à pergunta: quem somos nós? Em nosso caso. ao mesmo tempo. essa identidade estaria articulada a uma identidade nacional. somos uma mistura de afroamericanos (negros). diferente. deveríamos falar de identidade étnico-cultural. Hoje é quase impossível reconhecer uma cultura que não esteja em íntima interdependência com outras. índios e brancos. a identidade sociocultural seria um conceito inócuo se tendesse a fixar padrões culturais para apenas "preserválos". uma diferença. Só há diálogo e parceria quando a diferença não é antagônica. é preferível falar-se em "identidades culturais". Idêntico é aquele que é perfeitamente igual. Vivemos hoje uma explosão das diferenças .e da igualdade. A cultura é dinâmica e no contato com outras culturas ela se transforma. Afirmar uma identidade étnico-cultural é afirmar uma certa originalidade. a identidade se define em relação a algo que lhe é exterior. para evidenciar. desde logo. Por isso. o que é identidade sociocultural? Primeiramente.É no contexto deste mundo mestiço que devemos colocar a questão da identidade: o que é identidade e. Mas só isso? O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade dizia que "nenhum Brasil existe" e se perguntava: "e acaso existem os brasileiros?" O que é genuinamente nosso? O que pode constituir-se numa identidade nossa? Por outro lado. que pode ser antagônica ou não. Na identidade existe uma relação de igualdade que cimenta um grupo. para me conhecer. Na verdade. uma semelhança. e não em "identidade cultural". A identidade supõe uma relação de igualdade e diferença.que coloca a questão do resgate da identidade. sexuais. necessito conhecer o outro como parceiro. igualdade válida para todos os que a ele pertencem. determinada também historicamente. . porque. em particular. a pluralidade e o dinamismo da identidade cultural. Por sua vez.étnicas. culturais. pois ao falarmos de identidade de uma cultura temos que localizála em um determinado tempo e espaço e no interior de um grupo étnico. Porém. e.

ao contrário. O pensamento de Paulo Freire tem suas raízes mais profundas no debate político-cultural brasileiro do final dos anos 50. Daí Paulo Freire insistir na questão da "invasão cultural".as elites dominantes. passando pela formação da consciência crítica. segundo ele. cuja modalidade mais evidente é a cultura de massa. a violência e o arbítrio. mas mostra o quanto ela é insuficiente. Freire estava anunciando. Denunciando essa "realidade nacional". Enfim. de tomada de consciência da realidade nacional para transformála e criar novas formas de relações sociais e políticas. o seu fim e inaugurando. Significa consciência de direitos. possibilidade de criar novos direitos e capacidade de defendêlos contra o autoritarismo. Paulo Freire reintroduziu a reflexão sobre o social no pensamento educacional brasileiro. social e econômico que. como é conhecido . Um projeto de emancipação e construção de uma nova nação brasileira passava pela assunção de suas características de nação latino-americana e terceiromundista . Paulo Freire constrói a sua pedagogia . mas também o lugar da alegria. dialeticamente. passava pela tomada de consciência da realidade nacional. segundo ele. cultura popular significa cultura da cidadania. para Paulo Freire. Tratava-se do debate em torno da construção de uma identidade nacional baseada no desenvolvimento político.o seu "método". e a cultura elaborada. A cultura primeira promete . É interessante notar as semelhanças e diferenças na visão do mesmo problema por esses dois eminentes educadores. entendida como o lugar do sistemático e do progressivo. ou seja. da "dependência" e da "consciência alienada".O tema da relação entre a diversidade cultural e os itinerários educativos já foi tratado por educadores como Paulo Freire e. entre nós. pensavam que se devia criar no Brasil uma "nova Europa" ou uma "nova América". na França. Cada um a seu modo aponta para uma pedagogia com base no respeito à identidade cultural do educando. A pedagogia de Georges Snyders pretende operar uma ruptura e uma continuidade entre a cultura primeira. Esse processo não poderia dar-se sem uma transformação na estrutura do ensino e da extensão da educação para todos. por Georges Snyders. um vigoroso movimento em torno de um pensamento pedagógico autônomo. Cultura popular. é sinônimo de "conscientização". comprometendo-se com os ideais de uma democracia radical. articulando a primeira com a segunda. própria da escola.num itinerário que vai da cultura popular à cultura erudita e letrada. Snyders não desvaloriza a cultura de massa. Como Paulo Freire.

Apesar disso. de original. no livro A instituição imaginária da sociedade (1982). mas não mostra o processo. . o outro acaba falando por mim. nem ocidentais. embora de forma fugaz. os costumes. A sua grande força está no fato de ela nos unir instantaneamente a todo o mundo. Cornelius Castoriadis. O imediato. Por isso. se quiser respeitar a identidade cultural das crianças populares. na forma como é veiculada. como diz Georges Snyders no livro A alegria na escola (1988). atingir a satisfação prometida pela cultura primeira. Elas têm por objetivo preservar e fortalecer a organização social. naturalizado francês. A escola dos brancos pode destruir a identidade indígena. A cultura elaborada não necessariamente representa algo superior para as necessidades vitais de todos os indivíduos. Sendo o contato com o branco inevitável. as línguas. a cultura primeira. na expressão do filósofo grego. retira o que há de melhor. Hospedado dentro de mim. A escola que tira a criança desse ambiente de bombardeamento constante dos meios de comunicação de massa e a transporta para um local enfadonho . A escola precisa fazer a síntese entre continuidade e ruptura em relação à cultura de massa. Acabam não sendo nem índios nem brancos. a escola que negasse a cultura de massa estaria contribuindo para o fracasso escolar das crianças das camadas populares em face das crianças das elites. melhor que a cultura primeira. é uma cultura de consumo.como fizemos em São Paulo na única aldeia guarani existente na capital . deve ser um apelo em direção ao elaborado.é criar escolas bilíngües.que não utiliza a sua linguagem e não satisfaz os seus desejos .fracassa na sua tarefa primeira que é despertar o desejo de aprender e desenvolver a capacidade de continuar aprendendo. a cultura. a cultura de massa. Ela necessita de um prolongamento na cultura elaborada. o como se chegou a esse produto. Porém. Ela pode representar a alienação pura. É uma cultura que apresenta o produto. mas cumpre pouco. por exemplo. A cultura do nosso tempo é a cultura de massa. A cultura elaborada pode. o "discurso do outro". Depende do contexto histórico em que eles vivem. o que estamos fazendo hoje .muito. É o caso. nem brasileiros. na cultura popular e a devolve ao povo sob a forma de receitas e preceitos. do drama que hoje enfrentam algumas comunidades indígenas no Brasil. Já existem 600 dessas escolas no Brasil. Pode até destruir sua identidade por uma espécie de "esquecimento" ou rejeição da cultura primeira. as crenças e as tradições das comunidades indígenas.

mais preocupados com questões imediatas do que com uma utopia distante. Hoje percebemos com mais clareza que a diferença não deve ser apenas respeitada. a tematização e a problematização no seu trabalho pedagógico? • O que se quer dizer quando se afirma que o professor perdeu a sua identidade? • Como você vê a influência da cultura de massa na escola? . por exemplo. culturais. Nós dizíamos. Hoje temos mais clareza desse princípio quando as teorias da educação multicultural enfatizam ainda mais a necessidade de os educadores atentarem para as diferenças étnicas. aplicar a investigação temática. que se exprime pela oralidade e. no ato de produção. para nós. Ela é uma riqueza da humanidade e base de uma filosofia do diálogo. se reduz à esfera da pura execução do trabalho. Há uma outra fonte "mais qualificada": o saber do trabalhador se constrói e se desenvolve no trabalho. Por isso os trabalhadores não têm interesse em desenvolver o seu saber se ele não for reconhecido como poder. num ato pedagógico essencial na construção da educação do futuro. se o seu saber não puder interferir na concepção e na tomada de decisão. nas diversas disciplinas.Mas os meios de comunicação de massa não são a única fonte do saber dos "menos qualificados". • Qual a diferença entre pluralismo e ecletismo? • Como o professor pode. mas é também. É um saber primeiro. • Descubra na sua prática dificuldades para o exercício de uma ética da diversidade. extremamente elaborado. na maioria das vezes. Afirmá-la novamente se constitui. como pensávamos nos anos 60. como se costuma dizer na França. muitas vezes. de classe e de gênero. isto é. o questionamento das teses socialistas ortodoxas e burocráticas e a afirmação da subjetividade que se expressa por meio de movimentos sociais de índole distinta. que uma educação não autoritária deveria respeitar o aluno. Dizíamos que o respeito à diferença era uma idéia muito cara à educação popular. É sobretudo um saber "em ato". Os anos 90 caracterizam-se por um pensamento pós-marxista e pós-moderno. Questões para debate • Localize no texto as propostas práticas para a construção de uma escola cidadã. isto é.

1995 (Colecção Cadernos Pedagógicos).) A participação popular pressuporia e impulsionaria a quebra da divisão rígida entre quem é educador e quem aprende. estruturas. a quem transmite e a favor de quem será apropriado e aplicado. CENPEC. A democratização do ensino em quinze municípios brasileiros: documento síntese. às expectativas e mesmo à vida cotidiana da população à qual atende. O autor chama a atenção para a necessidade da construção crítica e pessoal de um saber que pensa a escola enquanto realidade organizacional socialmente construída. O livro apresenta a escola como uma organização específica de educação formal. tais como: participação. Aponta o isolamento como o principal impedimento do sistema público de ensino em relação aos movimentos organizados. José Matias. São José da Varginha (MG).(. funções. junto com seu isolamento.. finalmente. 3. São Paulo. da vida dos alunos e da história de lutas que precede a conquista da escola. os atores escolares e. Jaboatão (PE).. A ignorância a respeito do bairro. 55 p. projeto educativo. Edições Asam. MEC/Unicef/Cenpec. sinteticamente. Brasília.BIBLIOGRAFIA COMENTADA ALVES. algumas questões ligadas à gestão escolar. tecnologia e educação. relações da escola pública com os contextos com o Estado. clima escolar. São Raimundo Nonato (PI).. Belo Horizonte (MG). Dom Inocêncio (PI). Jaguaré (ES). caminharia em direção ao conflito aberto expresso em movimentos coletivos e em violência individual contra o prédio escolar e profissionais da escola. In: Cadernos de Pesquisa. 1993. Quanto ao projeto político da escola. e analisa. Vitória . 65-73. médio e grande porte localizados em nove Estados brasileiros: Icapuí (CE). n. Um invisível cordão de isolamento: escola e participação popular. estuda as suas finalidades. Registra experiências educacionais de 15 municípios de pequeno. pp. Iguatu (CE). os movimentos populares deveriam forçar o questionamento do conhecimento que a escola transmite. gestão e projecto educativo das escolas. CARVALHO. ed. Lisboa. ago 1989. liderança. Aborda as dificuldades e impedimentos à participação popular na escola. Marília Pinto de. 70. Organização.

estabelecem-se situações de aprendizagem de mão dupla: ora a escola estende sua função pedagógica para fora. Maria de Lourdes Manzini. Resende (RJ). o livro sistematiza algumas idéias em torno dele: canais de participação. estabelecer relações mais flexíveis e menos autoritárias entre educadores e clientela escolar. Cortez. Gestão. São Paulo. 1991 (Coleção Primeiros Passos. São Paulo. 32 p. v. que envolve a discussão sobre o papel do próprio homem no Universo. a cidadania significa. O Conselho garante decisões coletivas. São Paulo. que decide. Participação é conquista: noções de política social participante. . capacidade de organização escolar e gestão pedagógica voltadas para a melhoria da qualidade de ensino. o direito à vida no sentido pleno. Compromisso de todos. A maneira mais comum de assegurar a participação de todos os interessados é a instalação de um Conselho Escolar. 1988. Conclui que a construção de uma escola democrática e de uma sociedade democrática são processos que se desenrolariam ao mesmo tempo e que a gestão democrática possibilitaria desmontar relações de mando e submissão. moradia. Marechal Cândido Rondon (PR). A realização da gestão democrática significaria encontrar caminhos para atender às expectativas da sociedade a respeito da atuação da escola. 1994. Muitas administrações municipais e estaduais já implantaram conselhos ou órgãos colegiados de gestão e sua estrutura tem variado nos diferentes municípios e Estados. O que é cidadania. Porto Alegre (RS). porque os representantes escolhidos podem defender interesses parciais e posições autoritárias. em última instância. age e pode atuar na transformação social. educação) quanto num plano mais abrangente. Maringá (PR). tanto na luta pelo atendimento de necessidades básicas (alimentação. D E M O . . mas sua mera instalação não garante decisões democráticas. Além de abordar historicamente o tema da participação. Caderno elaborado pelo CENPEC. interação com o meio social. ora a comunidade influencia os destinos da escola. fazendo surgir o sujeito coletivo. Relacionada ao surgimento da vida em cidades. traz as principais conclusões a respeito da gestão democrática nas experiências analisadas nesta coletânea.(ES). saúde. Ao longo do processo de participação. Conchas (SP). 250). Pedro. Brasiliense. Este livro mostra como esse direito precisa ser construído coletivamente. dentro da coleção Qualidade para todos: o caminho de cada escola. Ijuí (RS). Esses municípios possuíam modelos diferenciados de gestão do sistema escolar. (Thereza Pegoraro) COVRE.

cultura participativa e seus principais objetivos (autopromoção, realização da cidadania, controle de poder, controle da burocracia, negociação e cultura democrática). Apresenta ainda seus principais riscos, obstáculos e desafios e questões relacionadas à representação, à identidade cultural e ao assistencialismo. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 1997. Utilizando uma linguagem acessível e didática, o autor reflete sobre os saberes necessários à prática educativo-crítica, fundamentados n u m a ética pedagógica e numa visão de m u n d o alicerçadas na rigorosidade, pesquisa, criticidade, risco, humildade, bom senso, t o l e r â n c i a , alegria, c u r i o s i d a d e , c o m p e t ê n c i a , g e n e r o s i d a d e , disponibilidade... "molhadas" pela esperança. A autonomia faz parte da própria natureza educativa. Sem ela não há educação, não há ensino, nem aprendizagem. G A D O T T I , Moacir. Diversidade cultural e educação para todos. Rio de Janeiro, Graal, 1992. Este livro aborda a relação entre identidade cultural e itinerário educativo, a concepção multicultural e monocultural do currículo e o papel da escola. Discute ainda a retomada da luta pela descentralização da educação e o papel crescente das Organizações Não-Governamentais (ONGs) no redirecionamento das políticas públicas em educação. Escola cidadã. São Paulo: C o r t e z , 1993. 78 p. Trata da questão da autonomia da escola pública. Nos três primeiros capítulos, faz uma análise conceituai geral de autonomia e relata uma experiência vivida pelo autor. Estabelece, então, um quadro da situação da educação brasileira relativo à problemática da autonomia da escola pública, fazendo um paralelo com as recentes reformas educacionais européias. Acredita que a transformação da escola pública em unidade de despesa, proporcionando-lhe recursos orçamentários, poderia melhorar sua situação desde que estivesse vinculada à participação e à democratização do sistema de ensino. G A R C I A , Walter. Administração educacional em crise. São Paulo, Cortez: Autores Associados, 1991 (Coleção Polêmicas do N o s s o T e m p o ; v. 46). A temática dos textos reunidos neste livro é a crise educacional que vem se agravando ao longo dos últimos anos. A crise está alicerçada em causas estruturais profundas, em que avultam a dívida externa e a insensibilidade histórica das elites nacionais, pouco preocupadas com o que se passa além de seus interesses meramente imediatistas.

MARÉS, Carlos. Eleição de diretores e democracia na escola. Revista ANDE, São Paulo, v. 3, n. 6, pp. 49-50, 1983.
Acreditando que a discussão da democracia na sociedade remete ao tema da democracia na escola, o autor afirma que, ao descer à prática, o tema perdeu a magnitude de sua essência, restando apenas os aspectos de sua forma. Para o autor, essa discussão deveria perceber o local social da escola na sociedade pluralista e heterogênea, sem buscar uma homogeneidade castradora e impositiva. A escola precisaria ser democrática, mas a implementação dessa política democrática deveria ser assumida pelo Estado com base na realidade escolar. Segundo o autor, atualmente diretores servem apenas como intermediários na implantação de uma política que não ajudaram a elaborar. A escolha da direção faz-se apenas com relação ao plano administrativo. Podem ser encontrados quatro tipos de escolha para a direção: a) diretor de carreira; b) concurso público; c) livre indicação; d) eleições. A defesa da eleição como forma de escolha dos diretores das escolas pressupõe a criação de uma regulamentação, além do que deve servir como meio para que o povo participe da gestão da coisa pública.

MIRANDA, Glaura Vasques de. A questão da autonomia da escola. Educação em Revista, Belo Horizonte, n. 9, pp. 59-61, jul. 1989.
Aponta, como uma das questões de importância para o desenvolvimento de um projeto pedagógico de melhor qualidade, a relação deste com a questão da autonomia da escola. Um maior grau de autonomia possibilitaria qualidade com gestão democrática. A esse projeto liga-se a idéia de recuperação da dignidade da escola pública, perdida em razão de práticas excessivamente centralizadoras do Estado. A autora enumera e analisa as condições básicas para que se garanta a realização de um projeto de gestão democrática na escola.

NOGUEIRA, Madza Julita. Todos pela educação no município: um desafio para cidadãos. Brasília, Unicef/Cecip, 1993. 133 p.
Aborda de maneira didática os direitos educacionais consagrados nas leis e destaca a participação popular como elemento fundamental para a expansão do ensino público ocorrida até os dias de hoje. Ressalta a importância dessa participação como instrumento de intervenção nas políticas educacionais dos municípios, na tomada de decisões. O livro conta com a colaboração de pessoas que estão envolvidas com esses mecanismos de gestão e participação popular, tornando mais acessíveis informações como a maneira de participar, quem pode fazê-lo, através de quais mecanismos. Mostra a possibilidade de participar da direção e gestão da unidade escolar, bem como do governo municipal, onde a população será

co-responsável pelas decisões sobre as políticas públicas para a educação, exigindo que estas se cumpram. Prossegue, dessa forma, esclarecendo como os cidadãos podem controlar e fiscalizar a aplicação de recursos públicos.

PARO, Vítor Henrique. Eleição de diretores - a escola básica experimenta a democracia. Campinas, Papirus, 1996.
Hoje, a eleição de diretor de escola é uma realidade em várias redes de ensino público no Brasil. Este livro analisa as características e os problemas da institucionalização e da implementação dessa experiência, bem como capta seus efeitos sobre a democratização da gestão escolar e sobre a qualidade e a quantidade da oferta de ensino.

. Gestão da escola pública: a participação da comunidade. In: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, n. 174, pp. 255-290, maio-ago. 1992.
Baseado em estudo de caso de cunho etnográfico realizado em escola estadual de ensino fundamental na cidade de São Paulo, com o objetivo de identificar os obstáculos e as potencialidades da participação do usuário na gestão da escola pública. Discute os determinantes imediatos dessa participação, presentes tanto no interior da escola quanto na comunidade por ela servida. Entre os primeiros destacam-se os condicionantes materiais, os institucionais, os político-sociais e os ideológicos. Entre os últimos encontram-se as condições objetivas de vida, bem como os condicionantes culturais e institucionais.

RIBEIRO, Vera Masagão (Org.). Participação popular e escola pública. São Paulo, Cedi, 1989. O novo conselho de escola, pp. 25-34 (Cadernos do Cedi, 19).
Avalia as contribuições que a implantação dos Conselhos de Escola deliberativos trouxe para uma efetiva participação popular na escola. O desconhecimento da maioria sobre as atribuições do Conselho é, segundo a autora, o principal índice de sua quase nenhuma efetividade. A autora apresenta uma síntese sobre as modificações das funções dos Conselhos de Escola e as respectivas leis que regulamentaram a passagem do caráter consultivo para deliberativo e da ampliação da representação dos segmentos escolares no decorrer do tempo. O artigo polemiza algumas questões como a natureza paritária do Conselho. Para a autora, normalmente o diretor aparece para a população como o grande obstáculo à sua participação na escola. R O M Ã O , J o s é E u s t á q u i o . Poder local e educação. São P a u l o , C o r t e z , 1992. Este livro aborda as diversas concepções de descentralização e a questão da municipalização do ensino no Brasil. Apresenta o poder político local,

Jair Militão da. n. gestão democrática e participação popular.subdividindo-o em poder popular e poder elitista. 1. No seu conjunto. SILVA. C a m p i n a s . A autonomia da escola pública. Já são bastante conhecidas as críticas dirigidas à escola pública: repetência. o leitor encontrará: como uma escola pode conquistar sua autonomia. Nele. Gestão da educação na América Latina: construção e reconstrução do conhecimento. 15. que condições deve apresentar um sistema escolar que busque a autonomia de suas escolas. A gestão democrática no âmbito escolar apresentaria incompatibilidade entre os modelos burocráticos existentes no sistema escolar e as práticas democráticas pretendidas. examinada no contexto internacional. Benno. os textos constituem uma referência da produção intelectual do autor e um registro seletivo do debate político-pedagógico dos anos 80 e 90 na América Latina. Autores Associados. Faz um balanço da participação dos municípios na educação brasileira. 52-56. E d u c a ç ã o e Realidade. o autor alerta para o que chama de esquecimento do sujeito e apresenta uma proposta de pedagogia do sujeito coletivo como fator de re-humanização da escola pública. jan. Este livro procura discuti-la. Papirus. é sugerida com insistência a autonomia da escola. única possibilidade real de autonomia da escola. Após examinar estudos preexistentes. relaciona gestão da educação com qualidade de vida e trata. que tipo de relações devem ser estabelecidas entre uma escola autônoma e o sistema escolar. v. movimentos populares e sindicais. da gestão democrática e qualidade de educação de acordo com os novos desafios da administração pública e da gestão da educação para todos. Campinas. Além de passar pelo curso da história do pensamento administrativo na educação latino-americana. A construção do conhecimento no campo da gestão da educação na América Latina é o tema central dos cinco ensaios deste livro. 1995 (Coleção E d u c a ç ã o C o n t e m p o r â n e a ) . ainda. não há gestão democrática ao lado de estruturas administrativas . p p . 1996. SANDER. SPOSITO. Porto Alegre. Analisa a democratização do ensino público. evasão. burocracia. 1990. mostra o papel dos conselhos municipais de educação e apresenta um estudo de caso de resistência comunitária à nucleação de escolas unidocentes no meio rural. Para superar tal situação. descompromisso com o aluno. moradores. Marília Pontes./jun. Educação. q u e s t i o n a n d o a democratização de sua gestão com a participação dos pais. Sander analisa quatro construções de administração da educação. Dessa forma.

Trata da questão da autonomia das escolas e das implicações dessa transferência . porém não isoladamente. pp. enfim. Trata da luta pela gestão democrática na escola como uma das maneiras de nortear procedimentos do sistema educativo. pelo caráter clientelista da burocracia escolar. . 12. é no sistema de ensino que encontramos com maior profundidade. pp. mai/jun. jan. São Paulo. Jean.burocratizadas. Redefinindo a participação popular na escola. pois não há canal democrático de gestão que possa ser viabilizado sem uma profunda alteração administrativa das estruturas de organismos ligados à educação. São Paulo. n. a obtenção do consenso pelo servilismo ou pela troca de favores. vol. A professora da Universidade de São Paulo Marília Sposito afirma neste artigo que "apesar de gerida e mantida pelo aparato estatal. 1993. dando subsídios para ajudá-lo a administrar bem em um ambiente democrático sem. determinada e articulada em grande parte a partir das orientações do diretor. 170 p. A estrutura administrativa da escola. contudo. Gestão da escola fundamental: subsídios para análise e sugestão de aperfeiçoamento. a escola brasileira não é necessariamente pública. In Tempo e Presença. esse conjunto de fatores acaba por transformar a educação mantida pelo Estado num grande terreno onde prevalecem interesses pessoais. formas tradicionais de dominação política e concepções privadas de uma atividade que deveria ser essencialmente pública". deixar de perceber os outros elementos constituintes e participar deste universo escolar. In: Cadernos do Cedi. Gestão democrática. Analisa o problema da gestão da escola fundamental centrado na figura do diretor. uma enraizada mentalidade privatista da coisa pública. A autora defende que não haveria possibilidade de democratização sem a transformação da prática profissional do educador. VALERIEN. sem a real participação dos pais. 64. a falta de autonomia para a elaboração e execução de projetos pedagógicos no âmbito da unidade escolar. 19. 251. que dela toma posse. a nomeação dos cargos de confiança nas instâncias intermediárias ou superiores apoiada em relações tacanhas de clientelismo político. . Pelo contrário. Unesco/MEC/ Cortez. n. Rio de Janeiro. famílias e moradores na gestão escolar e conclui que a gestão democrática poderia oferecer uma alternativa concreta de melhoria da educação brasileira. possibilitando aos setores tradicionalmente marginalizados acesso aos serviços educacionais e a melhoria da qualidade do ensino oferecido. centralizadas e verticalizadas. 1989. 18-20. 1990.

Cadernos de Pesquisa. Papirus. organização dos educadores e o debate fundamental sobre as questões referentes à qualidade de ensino para todos.). VIANNA. 1).. Planejamento: plano de ensinoaprendizagem e projeto educativo . Os autores desta coletânea buscam a organização do trabalho pedagógico por meio da constituição de um projeto político e pedagógico. 1996. Quanto à gestão da escola. Trata da relação entre o Movimento Estadual Pró-Educação (Mepe). princípios básicos de planejamento participativo. Cláudia Pereira. a construção de um processo democrático de decisões que vise eliminar as relações competitivas. antropológicos e epistemológicos da educação e os contextos em que é realizada. 1995 (Cadernos Pedagógicos do Libertad. 39-47. relações de poder. n. São Paulo. de um plano de ensino-aprendizagem e de um projeto educativo. VEIGA. Uma Passos (Org. (Thereza Pegoraro) VASCONCELLOS. mas não antagonismos: mães e professoras das escolas públicas. São Paulo. rompendo com a rotina burocrática no interior da escola. explica que o diretor não deve ser o único a decidir. 86.elementos metodológicos para elaboração e realização. ed. 1993. relações ensino-aprendizagem. ago. constituído de mães de alunos e professores das escolas estaduais de São .de responsabilidades no contexto da democratização da gestão escolar. dirigentes educacionais e demais profissionais da educação. Os textos estão organizados em torno de temas como: construção coletiva. v. São Paulo. cujo fio condutor é a defesa do fortalecimento das relações entre escola e sistema de ensino. pp. O autor escreve para professores. mas sim que deve propor e solicitar a colaboração dos outros envolvidos no projeto da escola. Libertad. oferecendo instrumentos e elementos metodológicos e processuais que poderão favorecer uma ação pedagógica que leve em conta os fundamentos históricos. gestão na escola. Através de um processo permanente de reflexão e de discussão dos problemas da escola. 2. contribuindo para a realização de diagnósticos escolares e para a compreensão do planejamento como instrumento da praxis pedagógica. Projeto Político da Escola: uma construção possível. Ao mesmo tempo em que apresenta pontos de reflexão importantes para a conceituação e análise da gestão democrática autônoma da escola. Este é um livro sobre o planejamento da educação. autonomia. Divergências. Apresenta e analisa os vários níveis de um planejamento. a saber. o texto traça paralelo com as "vantagens" da centralização das decisões. procuram alternativas viáveis à efetivação de seu objetivo. corporativas e autoritárias. Celso dos S.

figura a manipulação do trabalho pela assessoria especializada e a pseudoparticipação da comunidade. SOBRINHO. além do imediatismo que caracteriza o povo brasileiro. Ilca Oliveira Almeida. Rose Neubauer da. um ambiente de idéias inovadoras e veículo de dignificação do homem. a ingerência da hierarquia burocrática do sistema. A autora analisa o apoio das mães às reivindicações do professorado e mostra as tensões que ocorreram no processo. SILVA. estabelecendo entre professores. geralmente direcionada pelos poderes públicos. convivendo com as diferenças e conflitos que isso implica. Nesse sentido.). Gestão educacional . família e comunidade um verdadeiro trabalho integrado. a dificuldade de integração com os demais níveis e grupos da própria comunidade. Essa proposta é desafiadora.Paulo. envolvendo atividade conjunta da escola.experiências inovadoras. A condição de mulher foi um primeiro fator de aproximação de mães e professoras. Planejamento participativo na escola: um desafio ao educador. tem desenvolvido estudos e pesquisas com o objetivo de identificar as mudanças ocorridas nos últimos anos na concepção e gestão das unidades escolares. bem como as perspectivas que se abrem para a melhoria da qualidade do ensino. gerador de mudanças em todos os aspectos. n. EPU. em que a comunidade participe não só de execuções de ações. sintetiza e relata o trabalho pedagógico efetivado em uma escola de ensino fundamental do Estado de São Paulo que se propôs a desenvolver o trabalho pedagógico a partir de um planejamento participativo. acompanhamento e controle. Entre esses riscos. O volume nº 147 apresenta doze experiências de novas formas de organização e gestão educacional em diferentes regiões . Conclui que a luta pela melhoria da qualidade de ensino adquirirá força quando professoras e mães explicitarem os valores e critérios que as distinguem. 1995. família e comunidade. 1986. (Thereza Pegoraro) VIANNA. comunitário e político. Fundamenta. Brasília (Série Ipea. na medida em que tem de vencer entraves como a descrença das pessoas para sua efetivação. Tem a preocupação com um processo educativo centrado no aluno e sua realidade pessoal e contextual. Antônio Carlos da Ressurreição. José Amaral (Orgs. (Thereza Pegoraro) XAVIER. 147). pois algumas professoras eram também mães de alunos. que se efetive como uma tarefa contínua e política. mas de suas decisões. São Paulo. segundo a autora. Guiomar Namo de. MELLO. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) vem acompanhando as inovações na gestão do sistema educacional e escolar. Procurou transformar a escola em centro polivalente.

. Gestão escolar: desafios e tendências.). Fátima e SOBRINHO. 1994. em escolas públicas e privadas. bem como identifica o que qualifica a escola.do país. MARRA. por fim. analisa as experiências de avaliação do contexto da melhoria dos processos e da qualidade do ensino. Analisa as inovações que estão ocorrendo na gestão da Educação em Estados e municípios selecionados. José Amaral. Duas delas têm como objeto sistemas estaduais e dez se voltam para sistemas de ensino no nível municipal. as mudanças que a ampliação do processo de decisão da escola trouxe para seu perfil e funcionamento. . n. (Orgs. Brasília (Série Ipea. 145). as experiências que vêm sendo realizadas no País. Este volume discute os novos desafios impostos à gestão escolar num mundo caracterizado por rupturas contínuas e aceleradas de paradigmas. e. com a "gestão da qualidade total".

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